domingo, 14 de abril de 2013 By: Fred

{clube-do-e-livro} Livro: Virando o Jogo -Mônica de Castro - em anexo!

Virando o jogo
Monica de Castro

@@@ informações sobre a digitalização @@@
Descrição da capa: Apresenta em destaque a fotografia de um homem de cabelos loiros, mostrando somente o busto, ele usa um terno preto e uma camisa cor de rosa.
Ele está fazendo um movimento de beijar uma rosa que segura em uma das mãos. Ao fundo destaca-se um por de sol com o céu alaranjado e uma espécie de campo com uma
relva escura. No topo da capa o nome da autora na cor preta e no rodapé o título do livro na cor bege.
Numeração das páginas:
Detalhes de diagramação:
Fonte do arquivo:
Observações: A paginação do Word corresponde a do original impresso desde que respeitada a fonte estipulada acima.
Versão do Office: MS Office 2003
Direitos Autorais: Este livro foi digitalizado pela Speedebooks para uso de pessoas com deficiência visual, isto é, pessoas que em virtude dessa deficiência e
pela
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Contato: contato@speedebooks.com.br
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Coordenação de arte: Mareio Lipari
Capa e Projeto gráfico: Vitor Belícia
Diagramação: Priscilla Andrade
Preparação: Maria Glória Nolia Pires
Revisão: Sandra Garcia Custódio
1(r) edição -- 29 impressão
10.000 exemplares - outubro 2012
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
(c) 2012 por Mônica de Castro
Leonel (Espírito).
Virando o jogo / pelo espírito Leonel [psicografado porj
Mônica de Castro. - São Paulo :
Centro de Estudos Vida & Consciência Editora, 2012.

Capítulo
1
Parecia que muitos anos haviam-se passado desde a primeira
vez em que trafegara por aquelas ruas. Passagens obscuras, vielas
malcheirosas, becos assustadores projetavam sombras indistinguíveis
nas paredes nuas. O lugar era horrível. Já nem se lembrava
mais de como fora parar naquele submundo. Ali era seu lar.
Mizael caminhava de cabeça baixa, pensando na vida que
levara até então. Tudo o que fizera fora cometer crimes: roubar,
mátar, estuprar. Não sabia fazer outra coisa. Por mais que compreendesse
que era errado, todo o seu corpo vibrava quando
sentia escorrer nas mãos o sangue dos inocentes. Era algo que
o enchia de prazer, era o alento que lhe dava ânimo. Pena que,
algumas vezes, reconhecia, na intimidade do ser, uma insinuação
de cansaço.
Ouviu um ruído estrondoso e olhou para o céu, sem conseguir
vê-lo. Havia tantas nuvens pesadas que só o que pôde distinguir
foi uma massa disforme de vapor gris. Em algum lugar por
detrás daquele teto de chumbo, provavelmente, o sol devia brilhar.
Apressou o passo. Queria chegar logo à casa de Atílio. A
reunião fora marcada às pressas, ele não sabia do que se tratava.
Intuía que era algo importante, do contrário, Atílio não teria mandado
o maltrapilho do Damien à sua casa com tanta pressa.


Quando lá chegou, logo notou uma movimentação nervosa.
Todos entravam e saíam atarantados, vestindo uniformes negros,
carregando armas pesadas. Era comum, em grandes operações,
aquele alvoroço no bando. A quadrilha de Atílio era muito
competente no que fazia. Bandidos e assassinos, todos tinham
uma missão a cumprir. Poucos eram os que falhavam, e Mizael nem
gostava de pensar no que acontecia aos que não cumpriam
bem suas tarefas.
- Até que enfim! - exclamou Damien, logo que o viu
entrar. - Mais um pouco e Atílio mandaria buscá-lo pelos cabelos.
- Não enche, feioso - rebateu Mizael, irritado.
Damien apertou os punhos, doido de vontade de acertar um
murro na cara de Mizael. Mas não podia. Ele era intocável, o preferido
do chefe. Pessoa da mais alta confiança, tinha praticamente
todos os poderes que Atílio atribuíra a si mesmo.
- Você pensa que tem o rei na barriga, não é? - disse
Damien com raiva. - Só porque é o queridinho do chefão acha
que é melhor do que todo mundo?
- Por que não dá o fora, palhaço? Ou prefere que eu lhe dê
uma lição?
- Um dia, isso vai mudar. Atílio ainda há de ver quem você é.
- Quem eu sou não lhe diz respeito. Você tem apenas que
obedecer. A Atílio e a mim.
- Você pode enganar Atílio e os outros, mas a mim não
engana. Conheço tipos como você.
- Devo sentir medo de você? - desdenhou. - Ponha-se no
seu lugar, verme, ou sou capaz de esmagá-lo com meus punhos.
Saia da minha frente, asqueroso. Ande! Chispe!
Engolindo a raiva, Damien se afastou. Até a chegada de
Mizael, ele e Atílio eram como irmãos. Realizaram muitas ações
juntos, envolvendo-se em roubos, assassinatos e muito mais. Não
havia quem não os temesse. Foram anos dedicados ao crime,
sempre escapando da polícia, ludibriando a justiça. Mas o cerco
foi apertando, até o dia em que não lhes restou alternativa a não


ser fugir e refugiar-se ali. O local não era dos mais agradáveis. Era
sujo, feio, fedorento, mas pelo menos ficava fora do alcance de
vigilantes e soldados.
De repente, Mizael apareceu. Ele não fazia parte do bando
original, mas conquistou a confiança de Atílio tão logo chegou.
Tinha um jeito arrogante, frio, audacioso. Muito diferente dele, que,
apesar de corajoso, era também servil. Mizael, não. Obedecia sem
se mostrar subserviente.
Mizael não se juntou ao bando de imediato. Atílio já o conhecia,
seus feitos no mundo do crime eram famosos. Mandou chamá-lo à
sua presença, ofereceu-lhe um lugar na quadrilha. Mizael não só
recusou, como também o desafiou. Queria tomar seu posto de poder.
Atílio deu ordens para que ninguém os interrompesse e trancou-
-se com ele em seu gabinete. Horas depois, quando saíram, já não
havia mais animosidade entre eles. Pareciam velhos conhecidos.
Aos poucos, Mizael foi subindo na hierarquia do bando,
impressionando o chefe com suas façanhas inteligentes, audazes,
intrépidas. Mizael não tinha medo de nada. Nunca tivera nem
medo de morrer.
• Com a projeção de Mizael, Damien começou a decair. Era
bom para executar planos, contudo, não sabia planejá-los. Mizael,
por sua vez, era excelente estrategista. Seus planos sempre surtiam
efeito. Tanto que Atílio passou a confiar mais nele do que em qualquer
outro. Dizia que Mizael o havia conquistado pela inteligência.
Havia algo mais naquela amizade. Damien sabia, sentia
uma energia diferente fluindo entre eles. Uma camaradagem
além do normal, uma simpatia tão forte que levava Atílio a defender
Mizael em qualquer situação, justificando cada um dos raros
erros que cometia.
Essas lembranças só faziam aumentar o ódio de Damien
por Mizael. Relegado a segundo plano, Damien foi obrigado a
aceitar se transformar no capacho de Atílio e do próprio Mizael.
Por tudo isso, tinha motivos mais do que suficientes para odiá-lo
e não acreditar nele.
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De longe, Damien observava cada passo de Mizael, mordendo
os lábios para conter a fúria. Mizael entrou calmamente na
sala de Atílio, passando no meio dos comparsas que bajulavam o
chefe. Muitos o olharam com antipatia, outros com medo.
- Mandou me chamar? - indagou ele, aproximando-se
de Atílio.
Atílio estudava um documento e levantou os olhos quando
ouviu sua voz. O sorriso que lhe deu poderia parecer gutural a
quem não o conhecesse, mas Mizael sabia que aquele era um
gesto cortês.
- Sente-se - ordenou Atílio. - Tenho algo muito importante
a lhe dizer.
Sem nem desconfiar do que se tratava, Mizael sentou-se defronte
dele. A um olhar de Atílio, todos foram embora. Quando o último
comparsa fechou a porta, Atílio encarou Mizael e começou a falar:
- Temos estado juntos por muitos anos, não é mesmo?
- Sim.
- Durante todo esse tempo, sei o quanto você me foi leal.
- É verdade.
- Tão leal que é o único em quem confio para executar a
missão que tenho em mente.
- Missão? - interessou-se. - Do que se trata?
- É uma missão especial e muito perigosa. Não sei se você
vai gostar.
- Por que não?
- Você terá que nos deixar por uns tempos.
- Deixar vocês? - surpreendeu-se. - Não compreendo.
- Você já deve ter notado que o mundo está mudando. E
creio que, daqui para a frente, as mudanças serão ainda maiores. A
situação no Oriente Médio1 anda complicada. A coisa lá está preta.
- E daí? O que temos com isso? Não vá me dizer que quer
se juntar ao Saddam Hussein!
1 Refere-se à guerra Irã-lraque, entre 1980 e 1988.
12


- Deixe de besteiras, Mizael! Não é nada disso, por óbvio.
Mas você tem que convir que ele é uma inspiração.
- Inspiração para quê? Por acaso vamos virar terroristas?
- É claro que não. Quero apenas que você perceba que,
em todas as partes do mundo, há gente interessada na solidificação
do poder. Como nós. Temos que conquistar nosso lugar no
mundo através da força.
- Tudo bem. Mas como?
- Aí é que você vai entrar. O momento é propício a novas e
ousadas ações.
- Que tipo de ações?
- Ações inesperadas, que surpreendam o inimigo em sua
mais pura inocência.
- Por acaso você está planejando alguma guerra? - espantou-
se. - Ficou maluco? Há muitos soldados por aí, bem armados
e dispostos a tudo para nos deter.
- E daí, Mizael? Desde quando isso foi problema para
nós? Mas não se preocupe. Não é a uma luta armada que estou
me referindo.
• - Continuo sem entender.
- Você, que é tão inteligente, não conseguiu ainda descobrir?
- Sou inteligente, mas não sou adivinho. Não vejo o que
mais podemos fazer além do que já fazemos. Como disse, só nos
falta uma associação com o terrorismo.
- Terrorismo é coisa lá para os Estados Unidos. Não
funciona no Brasil. E depois, não seguimos ideologia alguma.
Não, Mizael, não quero nada com esses fanáticos. Refiro-me a
uma infiltração.
- Mas nós já fazemos isso! Quantos de nós temos influência
até sobre políticos e juizes?
- Não é desse tipo de infiltração que estou falando. Já
foi o tempo em que só uma ação silenciosa surtia resultados.
Precisamos de uma investida mais efetiva. Uma guerra está sendo
preparada para o futuro e não podemos ficar de fora.


- Essa guerra a que você se refere não é uma luta armada,
certo? - Atílio assentiu e Mizael continuou: - Se não vamos
vencer o inimigo pela força, então, só pode ser pela inteligência.
É isso?
- Mais ou menos. Precisamos nos expandir para além
desses horizontes, ter uma atuação mais efetiva.
- Muito bem. O que quer que eu faça?
- Vai me obedecer sem questionar?
Uma imperceptível hesitação trespassou o coração de Mizael,
mas ele manteve a postura firme e afirmou categoricamente:
- Você sabe que sim. Seja qual for a missão que eu tenha
que desempenhar, estarei pronto para ela.
- Excelente! Não esperava outra coisa de você.
- E então? Vai ou não me dizer do que se trata?
Atílio fixou nele os olhos naturalmente ofuscados pela ira e
disparou sem rodeios:
- Você vai reencarnar.
14

Capítulo
2
A estrada era de iama, mas perfeitamente visível naquele
mundo de sombras. Por onde passavam, Josué e Uriel iam
derramando uma luz branca, bastante suave, sobre o caminho,
de forma a iluminá-lo sem espantar nem intimidar os habitantes
daquela parte do submundo astral.
- Tem certeza de que é por aqui? - indagou Uriel, um
pouco assustado.
- Certeza absoluta - confirmou Josué. - E você não precisa
ter medo. Nada vai nos acontecer.
- Devíamos ter trazido a polícia astral, você não acha?
- Para quê? Para assustá-los ainda mais? Ninguém aqui
está sendo perseguido.
- Esse lugar é horrível - lamentou o outro, reparando nos
seres aparentemente dementados que vagavam por ali. - O que
leva esses espíritos a viverem assim?
- Culpa, orgulho, medo, ódio, inveja... muitas coisas.
- Pensei que o umbral fosse reservado aos maus, corruptos,
assassinos e coisas do gênero.
- O umbral não é reservado para ninguém. Cada um desses
espíritos escreveu a própria sorte.
- Como?


- Pela semelhança de vibração mental e emocional, o que
dá forma ao pensamento. O ambiente plasmado é o resultado do
somatório dos muitos pensamentos e sentimentos desprendidos
pelos espíritos. A matéria resultante dos pensamentos de ódio, por
exemplo, pode se agrupar para formar uma ravina árida, assim
como pensamentos de amor plasmariam um jardim.
- Não há punição em ser enviado para cá?
- A punição, quem impõe é o próprio espírito, na medida
em que é ele quem cria os pontos de magnetismo que o atraem
para cá. Isso é só mais uma ilusão gerada pela mente doentia,
porque todo mal, seja ele qual for, é uma doença instalada na
alma. Criada a ilusão, o espírito se aprisiona a ela, ou porque não
acredita merecer coisa diferente, ou porque é tão empedernido
que ignora a existência de um mundo melhor.
- Até quando ele permanece nessa ilusão?
- Até ganhar compreensão e perceber que não precisa
estar aqui. Veja, chegamos.
Do ponto onde estavam, avistaram uma espécie de ilha em
meio ao lamaçal, onde uma luzinha muito fraca tornava visível o
corpo de um homem todo vestido de negro. Sem passagem para
alcançar a ilhota, Josué não viu outro jeito senão levitar.
- Vamos bem devagar, quase tocando a água - avisou. -
Não queremos incomodar os outros.
- Não podemos levar mais alguns? - sugeriu Uriel, penalizado
com um grupo de mulheres maltrapilhas, cheias de feridas,
que os olhavam com olhar de súplica.
- Elas não querem realmente ir- esclareceu ele. - Pensam
em sair, mas a vontade não é verdadeira. Tanto que, se você lhes
estender a mão, ao invés de virem com você, tentarão puxá-lo para
elas. Sua crença interior fará explodir sentimentos como a inveja,
o ódio, a violência. Mas não se preocupe. No momento certo, elas
pedirão ajuda.
Em silêncio, Uriel endereçou-lhes uma pequena oração,
que fez surgir sobre suas cabeças uma luminosidade calmante.


Elas não viram a luz se acender, mas conseguiram se aquietar
e adormeceram.
- Muito bem - elogiou Josué. - Quando nada podemos
fazer, sempre resta a oração, que, ao contrário do que muitos
imaginam, é muita coisa.
De mãos dadas com Uriel, Josué ergueu o corpo sutilmente,
apenas alguns centímetros acima do lamaceiro. Atravessaram-no
rapidamente, sem chamar a atenção de ninguém. Em poucos segundos
alcançaram a pequena ilha, onde um homem jazia adormecido,
envolto em claridade bruxuleante. Quando os dois pousaram junto
a ele, o espírito abriu os olhos, levantando-se de um salto.
- Não é possível! - exclamou impressionado. - Não é que
vocês vieram mesmo?
- Viemos atendendo ao seu chamado - respondeu Josué,
fixando nele os olhos penetrantes. - Em que podemos ajudá-lo?
O outro desviou o olhar, temendo que os olhos de Josué lessem
o interior de sua alma. Estava confuso, sem saber como agir. Pela
primeira vez em muitos séculos, via-se diante de espíritos de luz.
- Eu... - balbuciou, tentando encontrar as palavras
certas. - Pensei se não poderiam me ajudar a sair daqui.
- É o que você quer? - continuou Josué, perfurando a
mente do espírito, que assentiu incomodado. - Tem certeza?
Por pouco ele não desistiu, com medo de ser desmascarado.
Mas não podia, tinha ordens a cumprir. Atílio ficaria muito decepcionado
se ele desse para trás. Haviam ensaiado aquele momento
muitas vezes, treinando a mente para ocultar a verdade. Mas agora,
frente a frente com aquele espírito de uma simplicidade tocante,
sentia-se inseguro, impressionado com seu imenso poder.
- Como se chama? - era a voz de Uriel.
- O quê? - tornou espantado.
- Seu nome.
- É Mizael.
- Muito bem, Mizael - falou Josué, ainda como se estivesse
lendo em sua mente. - Por que quer sair daqui?


Uriel olhou-o espantado. Parecia-lhe óbvio o motivo pelo qual um
espírito gostaria de sair daquela treva assustadora. Contudo, conhecia
Josué havia bastante tempo para não questionar suas atitudes.
- Eu... - gaguejou Mizael. - Estou cansado daqui. Só o
que vejo é miséria, sofrimento, maldade. Não quero mais viver
assim.
- E o que pretende quando sair?
- Gostaria de reencarnar - afirmou ele, agora com uma
segurança que julgara perdida. - Quero uma nova chance,
uma oportunidade para me modificar e corrigir os meus erros.
- Pode ser que você consiga essa oportunidade, mas os
erros a que você se refere somente serão reformulados mediante
sua vontade de agir conforme o bem.
- É... é isso que quero.
- Tem certeza?
- Absoluta. O tempo em que vivi aqui me levou ao arrependimento
de meus atos. Se reencarnar, talvez consiga uma melhora.
- Quais foram esses atos, exatamente?
- Eu matei, roubei, estuprei, entre delitos menores. Quando
desencarnei, continuei a serviço do mal. Ingressei numa horda de
espíritos malignos, que atuam na esfera terrena inspirando bandidos,
traficantes, policiais, juizes, agentes do governo, funcionários
públicos e políticos corruptos. Estamos em toda parte onde o
crime tenha condições de se desenvolver.
- Sei. E agora quer mudar?
- Isso mesmo. Cheguei à conclusão de que isso é errado.
- O que o levou a pensar assim?
- Reflexão e arrependimento. De que valem anos de poder
nas sombras se não posso ser feliz?
- Você não se julga feliz?
Com aquelas perguntas, Josué levava Mizael a refletir sobre
suas atitudes, mesmo que ele não quisesse. Ao falar sobre seus
crimes, ia deles tomando consciência.


- Estou preso a minha própria imagem - desabafou ele,
com cautela, mas sinceridade. - O que fui em vida determinou
meu destino aqui. Quando morri, apenas troquei de lugar, mas
continuei agindo conforme sempre agia, só que agora com mais
liberdade, sem medo de ser capturado pela polícia da matéria. É
claro que os soldados do astral, por vezes, também me perseguiam.
Mas fui esperto, sempre fugi deles.
- Desculpe-me dizer isso, Mizael, mas você não me parece
muito arrependido. Sinto até um certo orgulho nas suas palavras.
- Você tem razão, em parte. Eu fui orgulhoso, mas não quero
mais ser assim. Será que não tenho direito a uma nova chance?
- Todos têm direito a uma nova chance, mas você deve ficar
sabendo que esta será sua última.
- Como assim? Quer dizer que, se eu não obtiver sucesso,
estarei condenado para sempre? Não poderei mais reencarnar?
- Não neste planeta. Há alguns anos que os seres da Terra
estão recebendo essa última chance. Todos, sem exceção, terão
direito à derradeira tentativa. O planeta se prepara para uma grande
transformação, que será sentida com mais intensidade logo nos
primeiros anos do próximo milênio. A humanidade está alcançando
um grau de maturidade espiritual que favorece a modificação
planetária, elevando a Terra a um lugar de renovação interior e
exterior. Os que não acompanharem essas mudanças, por seu
magnetismo próprio, serão atraídos para um mundo primitivo,
onde, através do trabalho árduo, terão que aprender a construir as
civilizações, dando início às primeiras raças de outro planeta.
Mizael assustou-se. Atílio não havia lhe falado nada sobre
outros planetas.
- Que mundo é esse? - questionou preocupado.
- Existem mundos distantes, em outras galáxias, em situação
ainda menos avançada do que o nosso. Assim como nos
primórdios da vida na Terra, necessitam de seres que patrocinem
o seu desenvolvimento, já que os nativos estão em estágio
ainda muito rudimentar de inteligência. Um desses mundos, cuja


atmosfera espessa formará um campo magnético capaz de atrair
espíritos em igual densidade fluídica, foi reservado para receber
os imigrantes da Terra. Esses espíritos, ao desencarnar, perderão
a sintonia com o campo energético do planeta, sentirão um
rompimento em seus corpos, que não mais tolerarão a proximidade
do envoltório atmosférico da Terra. De forma natural e
gradativa, permanecerão adormecidos até que esse novo mundo
esteja em condições de recebê-los, dando-lhes a oportunidade
de desenvolver suas faculdades intelectuais e morais nas primeiras
eras de outro planeta.
- Primeiras eras? Na idade da pedra, você quer dizer?
- Isso, eu não sei. Cada mundo tem sua própria história, seu
ritmo próprio de crescimento. O progresso vai depender dos que
lá encarnarem, assim como aconteceu com a Terra, que já reqebeu
os habitantes de outros planetas em condições de evoluir2.
- Você está me assustando.
- Por quê? Não pense que você terá como fugir desse fato.
Todos os que você conhece passarão por isso, a não ser que
prefiram saltar a reencarnação e seguir diretamente para esse
outro mundo.
- Não tenho a menor intenção de virar homem de
Neanderthal3 - afirmou acabrunhado.
- Nem deve. Pelo que pude perceber, você é um ser bastante
inteligente. Não gostaria de contribuir com a sua inteligência
para a melhora deste mundo?
- Não sei. Acho que você está indo longe demais. Não
pensei em nada disso. Só o que quero é sair daqui e uma oportunidade
de me modificar. É um assunto meu comigo mesmo.
- Parece que você não me entendeu. Todos que reencarnarem
estarão usufruindo essa última chance, quer queiram, quer
não. Não é uma escolha pessoal, é uma necessidade mundial.
2 Para maior compreensão, ler Os Exilados da Capela, de Edgard Armond.
3 Habitante da Europa e do oeste da Ásia, entre 300.000 e 29.000 anos atrás, aproximadamente.
20


Você pode viver a sua vida como bem quiser, mas eu tenho o
dever de alertá-lo sobre isso.
Mizael estava realmente preocupado. Aquela novidade
o deixara com medo. Não queria virar homem das cavernas.
Contudo, tinha um dever a cumprir. E quem garantia que aquele
espírito estava falando a verdade? Ele podia estar tentando enganá-
lo para que fizesse o que ele queria.
- Tudo bem, chefe - falou, com uma certa ironia. - Vou
arriscar.
Sem dizer nada, Josué estendeu a mão para ele. Com a
outra, segurou a mão de Uriel, espantado demais para falar. Em
uma fração de segundos, esvaneceram no ar, mas Mizael ainda
teve tempo de registrar o olhar indecifrável de Josué, cujo sorriso
enigmático não permitia desvendar o futuro.
21

Capítulo
3
No caminho de volta do trabalho, Geórgia pensava nos
problemas da escola pública em que lecionava. Sem verbas para
a reforma, as aulas eram ministradas em salas sem reboco nem
pintura, cheirando a mofo, as carteiras quebradas, os banheiros
danificados. Em meio a tudo isso, as crianças compareciam à
escola de olho, principalmente, na merenda, muitas vezes a única
refeição que faziam o dia inteiro.
Geórgia amava seu trabalho. Desde pequena, indagada
sobre a profissão que gostaria de seguir, não hesitava em dizer
que queria ser professora. Como gostava de crianças, escolheu
a classe de alfabetização, na qual poderia ensinar logo as
primeiras letras. Amava o jeito como os pequenos encaravam
as novidades, suas ideias ingênuas, sua curiosidade natural pela
descoberta da leitura. Geórgia procurava incentivá-los como
podia. Comprava livrinhos baratos, em feiras, para mostrar às
crianças, mantinha sempre cheia a caixa de lápis de cor e não
descuidava da arrumação da sala, tentando mantê-la asseada,
com desenhos pregados em murais espalhados pelas paredes,
para esconder os buracos e descascados.
Aproximava-se da esquina de sua rua quando foi abordada
por Júlio, amigo de infância e namorado de muitos anos.


- Olá, minha linda - cumprimentou ele, dando-lhe um leve
beijo nos lábios. - Como foi o seu dia?
- Mais ou menos. A escola está ruindo, e fica cada vez mais
difícil manter as crianças em sala. Quando chove, alaga tudo.
- A diretora ainda não conseguiu a verba?
- Está uma dificuldade. Estamos fazendo o possível para
manter a escola funcionando. Tenho medo de que, se não conseguirmos
o dinheiro, tenhamos que fechar.
- Não fique assim, minha linda. Sei que tudo irá se resolver.
- Você é um amor, Júlio. Sempre me apoiando. Também
acredito que as coisas irão melhorar, de uma maneira ou de outra.
Acho que a vida sempre atua para nos favorecer.
- Eu não iria tão longe - gracejou ele. - Você e suas filosofias
espirituais. Vai entender...
- Adoro ler sobre as coisas do espírito. Você devia ler
também, ia lhe fazer bem e o ajudaria a compreender melhor a vida.
- Não tenho tempo - ele a estreitou com amorosidade e
concluiu: - Mas ainda tenho um tempo antes de voltar ao trabalho.
Quer almoçar comigo?
* - Vamos almoçar lá em casa. Mamãe não vai se incomodar.
Abraçadinhos, caminharam juntos até a casa de Geórgia,
onde Cléia acabara de colocar a mesa. A mãe de Geórgia ficara
viúva fazia quase dois anos e, desde então, vivia exclusivamente
para a filha. O marido, aposentado da Rede Ferroviária Federal,
deixara-lhe uma pensão razoável, com a qual, somada aos vencimentos
de Geórgia, iam vivendo.
Júlio, por sua vez, estudante de economia e caixa num banco
privado, não via a hora de ser promovido a tesoureiro. Seu nome
era um dos mais cotados para o cargo, ao qual concorria com
mais outros dois colegas. Tinha certeza, contudo, de que os anos
de esforço no banco seriam recompensados, pois o gerente já lhe
adiantara que suas chances eram grandes.
- Depois que for promovido, podemos nos casar - afirmou
ele, segurando a mão de Geórgia e olhando de soslaio para Cléia.


Cléia serviu o almoço e sentou-se com eles. Como de
costume, fizeram uma oração de agradecimento, para só então
começarem a comer.
- Acho muito justo - disse por fim, ante o olhar ansioso
dos jovens. - Geórgia já vai fazer vinte e um anos. Está mais do
que na hora.
- Quer dizer então que você concorda? - exultou a filha.
- Por que não haveria de concordar? Você e Júlio estão
namorando há bastante tempo. Não esperaria outra coisa de vocês.
- Oh! Mãe!
- Minha promoção deve sair até o final desta semana -
afirmou Júlio. - Seu Anselmo praticamente me garantiu que
será minha.
- Muito merecido, meu filho - concordou Cléia. - Você é
um rapaz trabalhador e honesto. Sempre deu o sangue por aquele
banco. E vocês pretendem marcar a data para quando?
- Depois da minha formatura. Talvez lá para março. Isso
nos dará tempo de alugar uma casa e preparar o enxoval.
Cléia fitou a filha com uma certa decepção.
- Pensei que vocês fossem morar aqui. A casa é grande e
posso ceder o meu quarto para vocês. Eu me ajeitaria muito bem
no de Geórgia.
- Sei que a senhora gostaria que ficássemos juntos - disse
Júlio. - Mas queremos ter o nosso cantinho.
- E vamos morar por aqui, mãe - prometeu Geórgia. -
Você não vai ficar sozinha.
- Está certo, desculpem-me. Que tolice a minha. Não levem
em conta o que eu disse. Sei que vocês querem e merecem ter a
casa de vocês. Podem contar comigo para o que for preciso.
- Eu sabia, dona Cléia. A senhora é maravilhosa!
- Sei, sei. Agora comam. Daqui a pouco acaba a hora do seu
almoço e você não deve se atrasar, para não prejudicar a promoção.
- Ainda bem que a agência fica aqui perto-disse Geórgia. -
Assim podemos passar mais tempo juntos.


Terminado o almoço, Júlio voltou ao banco, deixando Geórgia
ocupada com suas aulas. Lá chegando, foi recebido por Anselmo,
que o chamou à sua mesa.
- Meus parabéns, rapaz - foi logo dizendo, estendendo-
-lhe a mão. - Sabia que o cargo seria seu.
- A resposta já veio? - surpreendeu-se. - Fui promovido?
- A partir de agora, você é o mais novo tesoureiro da
agência.
- Tão rápido! Pensei que a diretoria ainda fosse estudar um
pouco mais as nossas fichas.
- Sabe o que é, Júlio? Você era o mais cotado mesmo. Está
terminando a faculdade, e um diploma de economia é sempre bem-
-vindo. O João não tem experiência, e o Tácio está se divorciando.
- E daí? O que isso tem a ver?
- Nada, a princípio. Só que a cabeça dele ficou muito tumultuada,
e não queremos pessoas desorientadas nem desatentas no
trabalho, não é mesmo?
- Ele foi mandado embora?
- Ainda não. Estou tentando lhe dar uma chance. Mas ele
faltou ontem e hoje chegou atrasado. Se continuar assim, não terei
saída a não ser dispensá-lo.
Júlio silenciou. Não lhe parecia correto dispensar o colega só
porque estava enfrentando problemas pessoais, contudo, achou
melhor não se envolver. Ainda bem que sua vida pessoal melhorava
a cada dia, ainda mais agora, com a perspectiva do casamento.
- Geórgia e eu vamos nos casar - afirmou de repente, para
agradar o chefe.
- Não me diga! Você faz muito bem. Ganha a promoção e
logo ajeita a vida. Muito bem, meu rapaz. O casamento é a melhor
maneira de manter a cabeça de um homem centrada no trabalho.
Desde que ele não se envolva em aventuras, é claro.
Embora Júlio não concordasse com aquela posição, não
disse nada. Não era boa ideia contrariar Anselmo. Ao contrário,
queria estar de bem com ele.


- Também penso assim - mentiu. - Geórgia e eu somos
pessoas conservadoras, muito ligadas à família. Dificilmente o
senhor irá me ver de cabeça virada por causa de problemas pessoais.
E o meu casamento, se Deus quiser, há de ser para sempre.
- Assim é que se fala, Júlio. Mostra que você é digno, tem
caráter. Depois, com os filhos, sua felicidade estará completa.
- Realmente. Geórgia é louca por crianças.
- Ainda bem. Evitará de acontecer com você o que aconteceu
com o Tácio.
- Como assim?
- Ele está se divorciando porque descobriu que a mulher
o traiu - confidenciou. - Um absurdo. Coisa de gente à toa. Por
causa disso, ficou desnorteado. É no que dá deixar a mulher solta,
sem filhos para ocupá-la.
- O senhor acha que a mulher deve cuidar só da casa e
dos filhos?
- É o desejável, porém, nos dias de hoje, concordo que
nem sempre é possível. Mas acho que as mulheres não deviam
escolher profissões que as afastem muito tempo do lar. Criança
precisa da mãe.
- Geórgia é professora.
- Profissão ideal para uma mulher, você não acha?
- Acho - falou sem convicção.
- Bem, hora de trabalhar. Por enquanto, até que um novo
caixa seja designado para o seu lugar, você exercerá as duas
funções. Tudo bem?
- Tudo bem.
- Acha que dá conta?
- É claro. Eu já vinha, informalmente, fazendo o serviço de
tesoureiro desde que o Roberto se demitiu.
- Muito bem. Confio em você para essa nova tarefa. Quanto
ao casamento, faço questão de lhe dar um presente à altura.
- Não precisa, seu Anselmo. A promoção era tudo o que eu
mais desejava.


- Nada disso. Você merece. Geórgia é a moça ideal para se
casar. Você fez boa escolha.
Disso Júlio não tinha dúvidas. Geórgia era sossegada, prestativa,
amiga, meiga, leal... Podia passar o dia enumerando as
qualidades dela. Teriam uma vida perfeita.
Apesar de tudo, sentiu pena de Tácio. Júlio não achava que
ele merecesse ser despedido justo no momento em que talvez
mais precisasse do trabalho. Mas não ousou contrariar Anselmo.
Era lamentável que Tácio perdesse a promoção e o emprego, no
entanto, mais lamentável ainda seria se ele se visse na mesma
situação. Pelo menos Geórgia era uma moça direita, recatada,
jamais lhe daria o desgosto de envolver-se com outro homem.
Aquela humilhação, tinha certeza de que nunca iria passar.
27

Capítulo
4
Com a proximidade das festas de fim de ano, um churrasco de
confraternização foi marcado num clube próximo, contando oom
a participação de todos da agência. Na hora do amigo-oculto, a
troca de presentes seguiu tranquila e engraçada, com as pessoas
fazendo mímica para adivinhar quem era o sorteado.
Depois das brincadeiras, Júlio foi sentar-se à sombra de uma
mangueira, com seu pratinho de plástico recheado de carne e
farofa. Procurou Geórgia com os olhos, mas ela conversava com
Bianca sobre as melhores lojas onde comprar seu enxoval. A irmã
de Bianca se casara recentemente, e ela fora uma das responsáveis
pela organização do chá de panela e da festa.
Distraía-se admirando a namorada quando Tácio se aproximou
sem fazer barulho, segurando na mão trêmula uma latinha de
cerveja. Júlio só percebeu sua chegada quando ele se sentou a
seu lado à mesa de madeira.
- Tudo bem, Júlio? - indagou, visivelmente embriagado.
-Tudo-foi a resposta lacônica, carregada de constrangimento.
- Não tive ainda tempo de parabenizá-lo pela promoção.
- Hã... obrigado.
- Com certeza, foi merecida-Tácio o encarava, embaraçando-o
cada vez mais. - Acho que você a mereceu muito mais do que eu.


- Não se trata disso, Tácio.
- Você mereceu essa promoção, sim. Ao passo que eu, só
o que consegui foi um aviso prévio.
- O quê?! - surpreendeu-se.
- Você não sabia?
- Não.
- Pois é. Seu Anselmo me botou na rua porque disse que
eu estava sendo relapso. Relapso, eu, imagine... Depois de quase
vinte anos de trabalho, pela primeira vez cheguei atrasado uns
dias e faltei a outros. E isso porque estou atravessando problemas
pessoais.
- Sinto muito, Tácio. Foi uma injustiça.
- E ele ainda queria me aplicar uma justa causa. Desídia,
disse ele. Mostrou-me os atrasos e faltas injustificadas, ameaçando-
me. Fiquei nervoso. Imagine um homem como eu, com quase
quarenta anos, ser despedido por justa causa. Já vai ser difícil
arranjar outro emprego com a minha idade. Com essa mancha no
meu currículo, então, seria impossível.
- Sei que é lamentável, mas pelo menos ele lhe deu o aviso
prévio. Não o deixou na pior.
- Ele me deu o aviso prévio?! Não, meu caro, creio que
você não compreendeu. Ele me forçou a dar o aviso prévio para
a empresa.
- Mentira!
- Não é mentira. Fui forçado a pedir demissão para não
levar a justa causa. Ele fez tudo certinho, o desgraçado. Me deu
um monte de advertências e uma suspensão, lembra? - Júlio
assentiu. - Depois, afirmou que já estava bem armado para a
justa causa. Minha única saída foi pedir demissão. E, para me
humilhar ainda mais, está me fazendo cumprir o aviso prévio.
- Sinto muito.
- Sente? Por que sentiria? Você ganhou a promoção, vai
se casar com uma moça linda. Eu, por outro lado, estou na pior.
Minha mulher me deixou por um garotão de vinte e três anos,


surfista, o cabelo dourado de parafina. Sem contar as dívidas.
Ela quis comprar roupas novas, sapatos, um aparelho de som e
uma televisão, e o idiota aqui abriu um crediário na Mesbla4 para
ela. Em meu nome, apesar de ela trabalhar. E não é só. O maior
sonho dela era ter um anel de diamantes. Lá fui eu para o centro
da cidade comprar o tal anel na joalheria que ela escolheu, parcelado
em doze vezes, um caminhão de juros! E tudo isso para quê?
Para ela aproveitar com o playboyzinho, que nem ao menos trabalha.
E agora, Júlio, me diga: sem emprego, como vou fazer para
pagar tudo isso?
- Por que não conversa com seu Anselmo e pede para ele
voltar atrás?
- Pensa que já não fiz isso? Por que acha que vim a esse
churrasco idiota? Para me confraternizar com meus futqros
ex-colegas de trabalho? Não. Vim para ver se conseguia convencer
seu Anselmo a rasgar o tal aviso prévio. Sabe o que ele me
disse? - Júlio meneou a cabeça. - Que já está consumado. Não
depende dele. Foi uma decisão da diretoria. Sei que é mentira. Se
ele quisesse, poderia voltar atrás.
Tácio entornou a cerveja de um só gole e começou a chorar,
causando mais constrangimento ainda em Júlio, misturado com
piedade. Imaginava o que faria sem emprego naqueles tempos
difíceis, em que arranjar trabalho era quase impossível, principalmente
num mercado fechado para os mais velhos.
- Eu lamento, Tácio. Se tiver alguma coisa que eu possa
fazer para ajudar...
- Tem.
- O quê?
- Você pode falar com seu Anselmo. Sei que ele o admira,
tem você na mais alta conta. Talvez, vindo de um empregado
exemplar feito você, ele mude de ideia.
- Eu?! Ele não vai me ouvir.
4 Loja de departamentos, hoje extinta.
30


- Vai, sim.
- Não posso fazer isso, Tácio. Seu Anselmo é uma pessoa
de difícil trato.
- Está certo - falou desanimado. - Eu devia saber que
é assim que funciona. Cada um que cuide de si, não é mesmo?
Quando estamos bem, os outros que se danem.
- Não é isso. É que acabei de ser promovido. Não sei se
cairia bem um pedido desses com tão pouco tempo de promoção.
- Não sabe se cairia bem? Que diabo de covardia é essa?
- Por favor, Tácio, não me peça isso. Olhe, se está precisando,
posso lhe emprestar uma quantia...
- Não quero o seu dinheiro! - bradou, levantando-se, agora
bastante alterado. - Nem sua piedade, nem suas migalhas. Estou
lhe pedindo um favor. Será que você não pode me fazer um favor?
Tácio falava alto, gesticulando freneticamente, logo chamando
a atenção dos outros. Pensando que eles brigavam, muitos se
aproximaram, tentando contornar a situação.
- Vamos lá, gente, parem com isso - pediu um.
- Deixem disso - falou outro.
* - Calem a boca! - esbravejou Tácio, completamente alterado
pela bebida. - Seus hipócritas! Todos vocês são uns falsos,
mentirosos! Estão com peninha do velho desempregado aqui, é?
- Ninguém está com peninha - afirmou um colega.
- Não estão? Pensam que não sei o que falam pelas minhas
costas? Coitado do corno, chifrado pela mulher e ainda por cima
desempregado!
O silêncio foi geral. Muitos nem sabiam que Tácio fora traído
pela mulher. Apesar de Anselmo ser partidário da fofoca, não era
com todos que tinha intimidade para tocar no assunto. Até então,
o gerente permanecera neutro, observando de longe os acontecimentos.
Mas, quando Tácio tentou esmurrar um dos colegas,
achou que já era hora de intervir:
- Chega, Tácio! Acabou! A partir de hoje, você não precisa
mais voltar à agência. Está dispensado do cumprimento do resto


do aviso prévio. Aguarde em casa o telegrama, marcando dia e
hora para homologar sua rescisão.
Era a humilhação final. Tácio teve vontade de esganar
Anselmo e os colegas. Ninguém lhe deu apoio, muito menos Júlio,
que chegou a virar o rosto para o outro lado. Tácio encarou-o com
ódio, direcionando seu olhar febril para Geórgia que, assustada,
grudara-se ao braço do namorado.
- O que está acontecendo? - sussurrou ela ao ouvido dele.
Júlio não respondeu. Apertou a mão dela, instintivamente
tentando protegê-la da chuva de ódio do outro.
- Vá embora, Tácio, já falei! - continuou Anselmo. - Ou
quer que mande colocá-lo para fora?
Dois homens parrudos, que trabalhavam como seguranças
no banco, já se haviam postado ao lado de Tácio, apenas aguardando
um sinal de Anselmo para agir.
- O quê? - esganiçou-se ele.- Vai mandar estes brutamontes
me expulsarem? Vai usar de violência para não ouvir a verdade?
Os seguranças saíram arrastando Tácio em direção ao
portão do clube. Foi um horror. Ele gritava, esperneava, chutava a
esmo, tentando se desvencilhar de seus captores. Não conseguiu.
Enquanto era levado para fora, todos permaneceram estáticos,
mudos de assombro, assistindo à cena inusitada que jamais imaginariam
presenciar naquele dia de confraternização.
- Você vai ver, Júlio! - ainda o ouviram praguejar. - Espere
até sua linda noivinha começar a lhe botar chifres! Corja de bandidos!
Safados! Canalhas...!
A voz de Tácio foi sumindo, à medida que era levado pelos
seguranças para fora do clube. Atravessado o portão, os dois
o empurraram com brutalidade, e ele caiu de rosto no chão. Ao
começar a erguer-se, um filete de sangue escorria de seu nariz
que, com o baque, parecia ter-se quebrado. Ao ver o resultado
inesperado, os homens hesitaram, fazendo menção de ir em sua
direção, mas Tácio não lhes deu tempo. Levantou-se, cambaleando
em razão da bebida, e disparou, trôpego, pela calçada.

Capítulo
5
Fazia um lindo dia de sol na cidade astral, onde as flores,
mais perfumadas e coloridas do que as cultivadas no mundo físico,
enchiam o ar de um aroma e uma luminosidade sem igual.
Da janela de sua sala, coberta por uma forração branca e suave,
Josué fitava alguns recém-chegados, imaginando o destino que
caberia a cada um. Ao ouvir batidas na porta, disse sem se virar:
- Entre.
" Sem tempo para cumprimentos ou explicações, Uriel entrou
apressado, falando aos borbotões:
- Mizael está dando trabalho de novo. Agora cismou que
quer uma pinga. Como dissemos que aqui não temos essas
coisas, ficou incontrolável. Empurrou os enfermeiros e saiu batendo
a porta. Está perambulando por aí, sabe-se lá para onde foi.
- Não se preocupe - confortou Josué. - Ele não vai longe.
Tem uma missão a cumprir.
- Missão? Como assim?
Voltando-se para ele, Josué convidou-o a sentar.
- Mizael pensa que é esperto e que não sei o que lhe vai
no coração.
- E o que seria?
- O espírito a quem ele deve obediência o incumbiu de
reencarnar para auxiliar na propagação das forças contrárias à


luz do bem. Pensa que, fazendo retornar à Terra um ser maligno,
conseguirá disseminar ainda mais a violência e o terror, com os
quais pretende solidificar seu poder.
- Meu Deus, Josué! - horrorizou-se. - Isso é terrível.
Precisamos impedir.
- Impedir? Não. Se pudéssemos impedir toda criatura
ignorante e seduzida pela ilusão do mal de reencarnar, como
permitiríamos que ela crescesse?
- Mas Josué, o que ele pretende é daninho.
- É claro que é. Quantos seres daninhos você conhece que
habitam hoje o orbe? E a nenhum deles foi negada essa chance.
- Mas é diferente. Eles vão iludidos, pensando que vão se
modificar. Quando chegam lá, os prazeres os envolvem a tal ponto
que se esquecem do compromisso.
- Alguns, sim. Outros partem daqui certos de que darão
continuidade à vida desregrada e sem limites que levavam antes.
Desses, alguns reincidem na ilusão. Outros são surpreendidos por
fatores inimagináveis e realmente se modificam.
- Que fatores?
- O amor, a bondade, a fé. Sem saber que estão preparados,
são tocados por eles.
- Você está dizendo que há espíritos que reencarnam deliberadamente
pensando em fazer o mal?
- Exatamente. É instintivo, eles não aprenderam a revelar
sua verdadeira natureza, que é sempre boa.
- Mas e as pessoas que cruzarem seus caminhos? Não
serão prejudicadas por eles?
- Cada um determina seu destino, que a todo instante pode
ser modificado. Mas, para aqueles que ainda acreditam que sofrer é
a única forma de purificação, faz-se necessário que algo ou alguém
provoque uma situação que leve ao sofrimento. Para cada obra,
uma ferramenta adequada, ou então, nada se realiza. Assim é tanto
para as boas obras como para as desagradáveis. Quando duas ou
mais pessoas se envolvem em situações de adversidade que levam


à violência ou ao desgaste emocional, nem sempre estão ligadas
por liames pretéritos de inimizade. Às vezes, só o que se quer é dar
vazão aos instintos perniciosos, o que leva muitas pessoas a aceitar
infligir o mal a outrem, tornando-se ferramentas na construção
da dor. Embora não haja laços anteriores unindo o suposto agressor
à suposta vítima, corre-se o risco de esses laços surgirem, caso
falte ao ofendido a compreensão de suas próprias escolhas.
- E você acha que Mizael será um desses?
- Vejo nele uma grande possibilidade de enveredar pela
senda dolorosa do crime, já que é esse o seu objetivo. Mas também
reconheço uma chance para o amor.
- Como?
- Se você reparou bem, houve momentos, quando o resgatamos
daquele submundo, em que ele se impressionou com a
nossa conversa e titubeou em seus propósitos. Isso demonstra
que, lá no fundo, em algum lugar de sua essência, ele está pronto
para fazer cintilar a centelha que recebeu de Deus. Ou, em outras
palavras, para fazer brotar em si mesmo a semente da regeneração.
- É. Ele disse mesmo que queria se modificar.
- Embora o fizesse pensando que nos enganava, na verdade,
estava enganando a si próprio, pois foram de sua boca que
saíram as palavras de reflexão.
- Mizael vai reencarnar provavelmente num meio que facilitará
o ingresso no crime. Quem terá forças para dissuadi-lo
desse intento?
- Ninguém. Só ele mesmo poderá modificar suas tendências.
Todavia, como lhe falei, há uma chance para o amor.
- Não estou entendendo muito bem. Quem o amará tanto a
ponto de levá-lo a querer mudar de vida?
- Primeiramente, sua mãe. Mais tarde, a mulher por quem
se apaixonar.
Uriel já ia retrucar com outra pergunta quando a porta se
abriu num rompante. Mizael entrou carrancudo, chutando uma
poltrona à sua passagem.


- Mas que droga! - bufou. - Que lugar é esse que não
tem nada de bom para a gente beber?
- Tem água fresca e límpida - esclareceu Josué. - É tudo
de que você precisa, já que, de verdade, não precisamos de nada.
- Não fale por meio de charadas, por favor - rebateu mal-
-humorado. - Não compreendo essa baboseira.
A um olhar de Josué, Uriel saiu sem ser notado, fechando a
porta em silêncio.
- Você sabe que é livre para fazer o que quiser - disse
Josué. - Mas lembre-se de que a sua liberdade está limitada pelo
direito do próximo. Chutar e xingar lhe é permitido, se é de seu
agrado. Contudo, aqui é minha casa, e é meu direito ser respeitado
em meus limites.
Mizael abaixou os olhos, envergonhado. Havia tanto poder no
olhar e nas palavras daquele homem que era difícil confrontá-lo.
- Desculpe - falou acabrunhado.
- Não precisa se desculpar. Basta agir com educação e
respeito, ao menos na presença daqueles para quem tais formas
de comportamento têm valor.
- Ou seja, que eu guarde a minha rispidez para os boçais
da treva de onde saí.
- É você quem está dizendo - fez uma pausa e prosseguiu:
- Soube que você fugiu. Quer falar sobre isso?
- Não.
- Tudo bem. Então, o que o traz aqui?
Era quase impossível mentir para Josué, o que levava Mizael
a um esforço supremo para ocultar-lhe suas reais intenções.
Segundo parecia, Josué não as captara.
- Quando é que vou reencarnar? - perguntou de supetão,
irritado por depender de Josué para voltar ao mundo.
Lendo-lhe os pensamentos, Josué logo esclareceu:
- Você deve se perguntar por que os seres das trevas não
conseguem fazer reencarnar seus discípulos. - Mizael sentiu um
estremecimento, enquanto ouvia, paralisado, as elucidações do


outro: - Porque esse conhecimento é nosso. A divindade suprema,
que detém a sabedoria e o poder sobre todas as coisas, não
permite que espíritos das sombras, por mais inteligentes que
sejam, descubram esse mistério.
- Por quê? - interessou-se Mizael, mesmo sem querer.
- O verdadeiro poder pertence a Deus. O resto é ilusão.
Espíritos menos esclarecidos, encarnados ou não, julgam-
-se poderosos porque aprenderam a dar forma às criações do
próprio orgulho. Esse poder é efêmero, uma enganação dos
sentidos. Todo aquele que se aproveita da força e do medo para
alcançar objetivos torpes e egoístas se distancia do verdadeiro
poder. Mas o que age conforme a sabedoria divina, mesmo sem
saber, alimenta dentro de si uma parcela do poder de Deus, com
a qual pode se impor no mundo, porque essa imposição será
sempre na direção do bem.
Mizael estava abismado. Parecia que Josué, em alguns
momentos, conhecia o mais profundo de seu íntimo. Como então
não descobrira o que ele pretendia? Ou será que já sabia e fingia
não saber?
* - Você não pode negar o poder das trevas - defendeu
inseguro.
- O poder das trevas é tão grande, que mesmo os mais
empedernidos, com o tempo, fatalmente migrarão para a luz. O
contrário não se dá.
Era verdade, ele sabia. Contudo, não queria admitir e prosseguiu
com suas indagações:
- Você ainda não me esclareceu por que o conhecimento
da reencarnação não pode ser descoberto pela treva, já que o
mundo inteiro parece um grande inferno.
- Não é verdade. O mundo é um lugar bonito, cheio de cor
e luz. O que falta é a humanidade reconhecê-las em si mesma,
mas isso é o que está prestes a acontecer. Quando o ser humano
realmente descobrir o seu poder, alimentado por ideias e sentimentos
nobres, fará brotar de dentro de si a verdadeira iluminação.


- Muito bonito o que você diz, mas nada esclarecedor.
- Você quer porque quer saber o segredo da vida, não é
mesmo? Depois de tudo o que falei, ainda não compreendeu?
- O quê?
- A inabalável força do mundo é o amor, e este não é
facilmente encontrado na treva. Somente seres que vibram essa
energia poderosa é que são capazes de elaborar os mecanismos
da vida. Apenas o amor incondicional por todas as criaturas coloca
o espírito em posição de criar novos corpos para uma nova
existência. E, como lhe falei, tal sentimento é praticamente desconhecido
no lugar de onde você veio.
- Então é isso? - desdenhou. - O segredo é o amor?
- Existe todo um laboratório genético voltado para a formação
da vida, seja ela mineral, vegetal, animal ou hominal. Esse
laboratório é operado por espíritos que têm domínio da ciência da
matéria, tanto densa quanto sutil.
- Mas então existe um laboratório. Foi o que pensei.
- Não é um laboratório comum, e as práticas ali realizadas não
podem ser ensinadas. Só os que já alcançaram, por mérito próprio, o
amor puro e incondicional é que conseguem manipular máquinas e
engrenagens. Para todos os outros, serão instrumentos inertes.
- Você consegue, se quiser?
- Não. Ainda não alcancei a elevação moral necessária.
Falta-me o amor, indistintamente, por toda a humanidade.
Cada vez mais abismado, Mizael silenciou. Se um espírito
da envergadura de Josué ainda não dispunha de poder e conhecimento
suficientes para operar o maquinário da reencarnação,
então, seria mesmo impossível para ele ou Atílio empreender tal
operação. Tudo o que ele dissera levara Mizael à mais profunda
reflexão sobre suas intenções. Atílio se julgava tão poderoso,
mas jamais conseguira o domínio da vida. Por mais que tentasse,
em seus subterrâneos, reproduzir essa tática, faltava-lhe o
elemento principal, que era o amor. Questionava-se onde estaria,
realmente, o poder.


- Voltando à minha pergunta - tornou Mizael, temendo a
reação de Atílio caso ele fracassasse. - Quando vou reencarnar?
- Muito bem. Queria mesmo falar sobre isso com você.
Infelizmente, não consegui ainda encontrar alguém que se disponha
a recebê-lo como filho.
- Como é que é?
- Você sabe que precisa de pais para nascer, um homem e
uma mulher.
- Engraçadinho. É lógico que sei.
- Pois é. Acontece que ninguém quer ser seu pai ou sua mãe.
- Como isso é possível?
- Parece que você colecionou muitos inimigos.
- E daí? A reencarnação não serve de reajuste? Então não seria
uma ótima oportunidade para me reconciliar com meus desafetos?
- Desde que eles queiram. Mas, no momento, todos já
estão vivendo as próprias vidas, têm outros planos.
- Não é possível! Alguém tem que sobrar.
- Não sobrou ninguém. Também, há quanto tempo você
desencarnou?
- Eu? Sei lá. Acho que há bastante tempo.
- Você não sabe, mas eu sei. Faz exatamente cento e vinte
e sete anos que você deixou a Terra.
- Tanto assim?
- É. E nesse tempo, como era de se esperar, seus antigos
conhecidos refizeram suas vidas, com novos propósitos de existência.
No momento, não sobrou ninguém para repartir planos
com você.
- Ora essa, mas que coisa! Como faço então?
- Tem um jeito, mas não sei se será de seu agrado.
- Que jeito?
- Você pode ser gerado num estupro.
- Estupro?! - horrorizou-se. - Eu, hein!
- Não sei por que o espanto. Quantas mulheres você já
estuprou em vida? Quantas pensa que deixou grávidas e quantas


dessas fizeram aborto? E os filhos que, porventura, você deixou
órfãos no mundo?
- Nunca havia pensado nisso.
- Pois pense. Para você, seria uma ótima oportunidade,
inclusive, de sentir o que eles sentiram.
- Não quero sentir nada. Não me interessa.
- Será que não? Não será válida essa experiência, para que
você nunca mais pense em estuprar?
- O que você está me propondo é uma espécie de punição.
- Se você pensa assim, então é melhor não ir. Eu apenas
sugeri porque acho que, no seu caso específico, é o jeito mais fácil
de aprender.
- Por que no meu caso específico?
- Não me leve a mal, mas você é um espírito empedernido,
que ainda não compreende a liberdade de escolha. E esse pôde
ser um bom momento para começar a exercitá-la.
- Ótimo. Se tenho liberdade de escolha, prefiro outra pessoa.
- Não tem ninguém. Mas você pode esperar mais alguns
anos, até que alguém desencarne e entre em acerto com você.
- Não quero esperar. Já esperei muito.
- Então, Mizael, lamento, mas a única opção é essa.
- Conheço a mulher que será estuprada?
- Não.
- E o estuprador?
- Também não.
- Ainda por cima me arruma uma família de estranhos.
- Do que está reclamando? Na sua posição, devia dar-se
por satisfeito de ainda encontrar alguém disposto a recebê-lo,
mesmo nessas condições.
- O homem, o estuprador, o que acontecerá com ele?
- Não vai ficar com ela, se é o que quer saber.
- E a mulher concorda com isso?
- Concorda. E você tem sorte. Ela é uma moça amorosa,
muito digna e carinhosa. Você estará em boas mãos.


- Se é assim, por que ela escolheu essa experiência tão ruim?
- Por razões que, no momento, não lhe dizem respeito. Então,
Mizael? Qual a sua resposta? Você é livre para aceitar ou não, mas
seja breve, porque há outros na fila. Assim como você, muitos espíritos
desejam reencarnar e ficariam gratos por essa oportunidade.
- Tem mais gente querendo voltar?- Ele assentiu.-Assim?
- O que você acha? Muitos estão ansiosos para viver a última
chance da qual lhe falei.
A proposta não era das melhores. As circunstâncias, desastrosas.
Contudo, não tinha jeito. Ou ele aceitava, ou seria obrigado
a retornar para junto de Atílio, porque ali é que não iria ficar. E Atílio
ficaria furioso. Talvez até o expulsasse do bando.
- Está bem, então. Se essa é a única maneira, concordo.
- Ótimo. Vou agora mesmo cuidar dos preparativos. Precisaremos
marcar um encontro entre você e seus pais, para
acertarmos tudo, inclusive a data do estupro.
- Você vai acertar tudo? - indignou-se. - A mulher vai ser
estuprada com hora marcada?
- Exatamente. Do contrário, como poderíamos preparar
você para se ligar ao óvulo fecundado?
- Estou achando essa história um absurdo, mas enfim...
- Só uma coisa. Eles podem desistir no último minuto.
- Desistir? Como assim?
- O ser humano tem liberdade de escolha, e a todo momento
pode optar por melhores caminhos. Se eles desistirem dessa
experiência, a sua também perecerá.
- Devo então torcer para que eles se ferrem?
- Deve torcer para que o melhor aconteça. Seja o que for.
41

Capítulo
6
Ao contrário da cidade em que Mizael se encontrava, o
astral habitado por Atílio quase nunca tinha luz. O clima -era
sempre sombrio, cinzento, fúnebre. Mesmo assim, ele estava
acostumado ao ambiente, que considerava adequado ao seu
temperamento forte.
Logo que Damien entrou, ele soltou os papéis que segurava
e fitou-o com olhos vermelhos.
- Mandou me chamar, chefe? - indagou Damien.
- Recebi uma mensagem de Mizael - falou ele, um tanto
ou quanto desatinado. - Não sei como, mas ele conseguiu direcionar
suas ondas mentais para cá e eu as captei.
- E aí?
- Ele vai reencarnar em breve. Pelo que compreendi, será
fruto de um estupro. Melhor assim. Vai deixá-lo com mais raiva.
Damien soltou uma gargalhada sem vontade e retrucou:
- O que quer que eu faça, chefe?
- Precisamos descobrir quem serão os pais dele. Mizael
contou que eles têm a opção de desistir, o que não posso permitir.
- Quer que eu os influencie?
- Isso mesmo. De agora em diante, esta será sua incumbência.
Descobrir quem são essas pessoas e garantir que a mulher


seja estuprada. Depois, quando ela engravidar, quero que cuide
para que nada de mau lhe aconteça. Mizael tem que nascer.
- Por que é tão importante que ele reencarne? Já tem tanta
gente no mundo fazendo maldade! E nós estamos infiltrados em
toda parte. Isso não basta?
- Dei a Mizael uma missão especial. Ele vai chefiar uma
rede de narcotráfico, para enfraquecer cada vez mais a vontade
humana de resistir ao mal. Com isso, vamos dominando o mundo
aos poucos.
- Será que ele vai conseguir? Acho que tem muita gente
brigando pelo poder lá na Terra, principalmente as quadrilhas
de traficantes.
- É por isso que você não vai sair do lado dele. Não somos
os únicos a enviar soldados. Muitos outros chefões da treva conseguem
mandar subordinados. Mas Mizael é especial. Com a sua
inteligência e audácia, poderá conquistar muito poder. Por isso, a
sua função também é importante, Damien. Temos que garantir que
o nosso bando seja o mais temido no nosso mundo. Do lado de cá,
a luta pelo poder também é grande. Quem tiver mais comandados,
encarnados ou desencarnados, será o grande poderoso, senhor
da treva, rei dos subterrâneos astrais. É esse título que almejo para
mim, como muitos outros também o ambicionam. Ser temido e
respeitado por todos os comandantes, das diversas hordas das
sombras. Ser rei. Quem não quer?
- É isso mesmo, chefe. O senhor, que é o mais poderoso de
todos, vai conseguir. Tenho certeza.
- Isso vai depender do sucesso do nosso plano. Prepare-se,
pois em breve Mizael se comunicará comigo novamente, informando-
me dos nomes e do paradeiro dos pais. Agora vá. Deixe-me a
sós para pensar em meu futuro de glórias.
Com um aceno de cabeça, Damien se despediu. Atílio nem
percebeu o seu gesto, por isso não respondeu. Damien se ressentia
de tudo o que acontecia entre Mizael e o chefe. Era para ele que
Mizael mandava as mensagens. Tudo bem que ele não dominava


completamente a arte da telepatia, mas isso porque Atílio desistira
de ensinar-lhe, desde que Mizael aparecera. Conseguia ler pensamentos,
mas só. Se tivesse domínio daquela técnica, poderia
livrar o chefe da desagradável tarefa de ser surpreendido com as
mensagens de Mizael. Seria ele o mensageiro das boas notícias,
crescendo em importância e respeito.
Mas aquilo tudo era um sonho. Mizael se gabava de sua inteligência
tanto quanto Atílio a reconhecia. Ninguém, talvez nem
mesmo o chefe, tinha um intelecto tão aguçado. Como detestava
Mizael, por isso e por muitas outras coisas! A ele cabiam todas as
glórias. Enquanto Damien tinha de se contentar com as migalhas
que o chefe deixava, Mizael se refestelava com o resultado das
pilhagens astrais e os presentes que recebia de encarnados que o
contratavam para trabalhos de magia.
Mizael era o encarregado da elaboração dos planos. Damien
os executava. E os executava bem, só que ninguém reparava
nem reconhecia. Apenas Mizael aparecia. Como isso o irritava!
Se pudesse, faria algo a fim de que Mizael fracassasse em sua
missão, só para que o chefe reconhecesse seu valor. Quem sabe
assim não seria ele o eleito para, numa oportunidade futura, retornar
ao planeta na posição de rei do narcotráfico?
Depois que Damien saiu, Atílio se entregou às próprias reflexões.
Quando Mizael chegou ao bando, num primeiro momento,
tentou provocá-lo. Depois, ao se recordar de que haviam sido
irmãos em outra encarnação, aceitou-o com facilidade. Atílio ainda
se recordava daquela vida... havia quanto tempo?
Pelo que lembrava, sua última encarnação se encerrara
por volta de 1730, época em que vivera com Mizael. Atílio era
um homem arrogante, sempre fora. Irascível, orgulhoso, implacável.
Nunca amara ninguém, a não ser um irmão mais moço,
que criara como se fosse seu filho. Por isso, ao descobrir que
Mizael se apaixonara pela mulher que ele desejava, Atílio abriu
mão dela. Fora o único gesto de renúncia que tivera em toda
a sua vida.
44


Mizael desencarnou e voltou ao mundo, mas ele permaneceu
na treva, onde aos poucos iniciava seu processo de ascendência
dentro da hierarquia astral. Mais tarde, quando Mizael retornou de
sua última encarnação, Atílio acolheu-o novamente como o irmão
que sempre fora. Auxiliara-o a se lembrar dos fatos e tudo ficara
bem. Nunca mais pensaram ou falaram na mulher que fora amada
por ambos e que nenhum deles jamais pôde ter.
Agora, estranhamente, Atílio pegava-se pensando em Nora
Há muito não tinha notícias dela, mas imaginava que ela devia
estar bem longe daquele lugar. Nora sempre fora uma boa moça,
tão boa que não conseguira suportar as crueldades de Mizael
Por mais que o amasse, ao descobrir que sua fortuna provinha do
sangue de inocentes, rejeitou sua proposta de casamento e sumiu
no mundo,
Aquelas eram lembranças estranhas, perdidas na passagem
dos muitos séculos. Pelos cálculos de Atílio, deviam estar em
algum momento entre 1983 e 1985. Era tempo demais para permanecer
em um mesmo lugar. Mas o poder das trevas é inebriante
Quem o conquista reluta em largá-lo.
, Do outro lado do astral, Mizael também pensava em Nora.
Tal qual Atílio, imaginava que havia muito a esquecera. Na verdade,
não a tinha esquecido. Deixara sua lembrança adormecida
em algum lugar de sua mente. De uma hora para outra, porém, a
imagem de Nora surgiu em seus pensamentos, causando-lhe uma
inquietação desconcertante, uma saudade incontrolável. A todo
momento, pegava-se pensando nela, imaginando o que teria sido
feito de sua vida.
Em alguns dias, tudo estava programado. Mizael surpreendeu-
se com a aura de tranquilidade e amor de sua futura mãe,
tentando reconhecer nela possíveis traços de Nora. Não conseguiu.
Se ela e Nora fossem a mesma pessoa, nada mais havia que


ele pudesse identificar. Quanto ao pai, não simpatizou com ele,
embora procurasse não dizer nada que lhe desagradasse, com
medo de que ele mudasse de ideia.
Pouco havia se passado desde a reunião em que Mizael
conhecera seus futuros pais. Em breve, Josué o levaria às portas
do laboratório, onde ele seria entregue aos espíritos responsáveis
por moldar seus futuros corpos físico, astral e mental. Dali, partiria
para uma espécie de adormecimento, no qual, aos poucos, os
átomos de seu atual corpo fluídico seriam remodelados para se
adaptar ao novo físico do bebê. Nesse processo, a memória seria
elevada ao corpo causal, que contém o registro de todas as experiências
vividas pelo espírito.
Tudo isso fora explicado a Mizael, para que ele não se assustasse
no momento da preparação nem se deixasse perturbar por
apreensões ou medo do fracasso. Por mais que soubesse que já
havia passado por aquele momento outras vezes, parecia a primeira
vez. Pensando nessas coisas, caminhava de um lado para outro
pelos jardins que circundavam o alojamento que lhe fora destinado.
Tudo ali era tão limpo, claro, refrescante. Tão diferente do
submundo invisível em que vivera desde sua última encarnação.
Mas não era para ele. Não podia se deixar seduzir por aquele bem-
-estar ilusório. Seu mundo era outro. Ele não fora feito para a paz
Era um homem de ação e guerra.
- Mesmo um homem de guerra pode lutar pelo bem.
A voz soou atrás dele. Uma voz feminina, suave, envolvente
Mizael virou-se apressado, embasbacado com a linda jovem vestida
de amarelo parada diante dele.
- Perdão, mocinha - balbuciou ele, estudando seu rosto
desconhecido, mas, de alguma forma, familiar. - O que foi que disse?
- Disse que mesmo um homem de guerra pode lutar pelo
bem.
- Por que diz isso?
- Não era em que estava pensando? Que era um homem
de ação e guerra?


- É feio ler o pensamento dos outros - aborreceu-se. -
Não lhe ensinaram isso aqui?
- Tem razão, perdoe-me. Mas é que você pensava tão alto
que ficou difícil não ouvir,
Mizael estava encantado. Tão encantado que não queria dizer
nada que a afastasse dele. Sentiu uma espécie de formigamento,
algo comum em momentos de grande emoção.
- Conheço-a de algum lugar? - perguntou ele, olhando-a
com desconfiança e ansiedade.
- Quem sabe?
- Acho que a conheço - afirmou hesitante. - Mas não é
possível que você seja quem estou pensando. Está tão diferente...
- Quem não muda através dos anos? Você também não me
parece o mesmo, embora eu saiba que é.
- Você me conhece? Quem é você?
Aproximando os lábios do ouvido dele, num sopro delicado e
morno, ela sussurrou com doçura:
- Nora.
Virou-lhe as costas lentamente, deixando-o aturdido, sem
ação, uma infinidade de pensamentos contraditórios atravessando
seu cérebro.
47

Capítulo
7
Geórgia ainda tentava compreender o ocorrido no churrasco
de confraternização do banco. Não conhecia Tácio nem sabia
de sua história. Impressionara-a o episódio, sentira uma piedade
natural por aquele homem que, aparentemente, sofria.
- Deixe isso para lá, minha linda - pediu Júlio. - Tácio
estava desequilibrado.
- Isso eu percebi. Mas por quê?
- Ele descobriu que a mulher o traía e perdeu o emprego
- Coitado!
- Também tenho pena, mas não posso fazer nada. Quis
emprestar-lhe dinheiro, porém ele recusou.
- Será que não podemos convidá-lo para sair? Talvez,
conversando, consigamos levar-lhe um pouco de conforto
- Você tem cada ideia, Geórgia! Tenho pena do Tácio, mas
não sou babá de marmanjo.
- Não é uma questão de ser babá. É de ser solidário.
- Não dá. O Tácio é muito orgulhoso, não vai aceitar. Nem
eu tenho jeito para isso.
- Às vezes, só o que as pessoas precisam é de um pouco
de atenção.

- Que ele já teve demais com o escândalo que aprontou.
Não houve quem não comentasse. E agora, todo mundo no banco
já sabe que ele é corno.
- Não fale assim.
- Mas é verdade - ele aproximou-se e pousou-lhe um beijo
suave nos lábios, acrescentando com ardor: - Não vejo a hora de
nos casarmos e termos o nosso cantinho.
- Também eu. Amo-o demais.
- Você não faria isso comigo, não é?
- Isso o quê?
- Trair-me.
- É claro que não.
- Mesmo se você se apaixonasse por outra pessoa?
- Se eu me apaixonasse por outra pessoa, o que não
creio ser possível, você seria o primeiro a saber. E você? Faria o
mesmo por mim?
- Eu nunca vou me apaixonar por outra. Nunca vou deixar
você.
- Mesmo que eu fique velha e gorda?
- Mesmo assim. Nada neste mundo me faria deixar você.
Nada. Você é a mulher que eu amo. Jamais faria como a mulher
do Tácio, que o trocou por um garotão. Eu nunca a trocaria por
garotinha alguma. Nós vamos envelhecer juntos.
Beijaram-se apaixonadamente, certos de seu amor recíproco.
- Agora vou voltar para o trabalho - anunciou ele. - Minha
hora de almoço terminou.
- Está certo. Não se esqueça de que hoje começo aquele
curso de educação infantil.
- Não vou me esquecer. Irei buscá-la à saída. Não quero
você andando sozinha à noite, principalmente porque tem que
passar por aquela praça de maconheiros.
Júlio deixou-a a contragosto. Amava-a tanto que não queria
se separar dela. Pensava em Tácio, em como estaria se virando
para levar avante a vida.
49


Nesse mesmo instante, Tácio experimentava, pela primeira
vez, uma carreirinha de cocaína. Nunca fora ligado em drogas,
contudo, diante das circunstâncias, talvez o ajudassem. Inalada a
substância, atirou-se na cama, à espera de que algo acontecesse
Menos de dois minutos depois, foi acometido por uma sensação
de euforia que o deixou aceso. Levantou-se rapidamente, sentindo-
se bem-disposto, revigorado em suas energias.
Assim estimulado, saiu para a rua, caminhando de peito
estufado, seguro de si. Ao cruzar com pessoas do sexo oposto,
sentiu o desejo aflorar, chegando mesmo a soltar piadinhas sem
graça para as mulheres. A cada resposta indignada, o desejo
aumentava, levando Tácio a ansiar, desesperadamente, por uma
noite de sexo.
O pouco dinheiro que lhe restara gastou quase todo comprando
cocaína. Remexendo nos bolsos, conseguiu juntar alguns trocados.
Não sabia se seria suficiente para bancar uma garota de
programa, mas precisava desesperadamente de sexo. O jeito era
se virar na Vila Mimosa5.
Tomou um ônibus lotado, enrolando para ficar parado perto
da porta traseira, por onde entravam os passageiros. Ao chegar
à Praça da Bandeira, preparou-se para saltar. Quando o motorista
abriu a porta, desceu correndo as escadas, empurrando uma
senhora que vinha subindo, quase derrubando-a ao chão.
A carreira foi tão inopinada que o trocador não teve reação
Mesmo que desejasse, não conseguiria alcançar o homem, ainda
mais com o ônibus cheio daquele jeito. Deixou para lá. Aquela
não era uma prática incomum, e ele não era pago para correr
atrás de malandro.
Tácio atravessou correndo a avenida de alto movimento, até
chegar à Vila. Lá, escolheu a esmo uma boate, onde logo uma
mulher começou a provocá-lo. Sem maiores rodeios, subiu com
5 Famosa zona de meretrício do Rio de Janeiro, iniciou suas atividades na área do Mangue, estando agora
situada na Praça da Bandeira.
50


ela para o quarto, surpreendendo-se quando ela lhe ofereceu
outra carreirinha de coca.
Pensou em recusar, mas o efeito da dose anterior começava
a se dissipar, fazendo retornar a depressão, ainda mais intensa
do que antes. Com medo de cair novamente naquele estado de
melancolia incontornável, não teve dúvidas. Aceitou a oferta da
moça e com ela se drogou novamente. Logo a euforia se fez sentir,
o vigor reacendeu com mais intensidade, induzindo-o ao sexo
animal e sádico. Tácio fez coisas com as quais jamais havia sonhado,
batendo na menina com uma certa violência, que o deixava
ainda mais excitado.
Ao terminar, sentia-se satisfeito, completo, ainda eufórico
sob o efeito da droga. A moça não reclamou, acostumada a clientes
brutos. Ele pagou e foi embora, sem haver trocado uma única
palavra com ela durante todo aquele tempo.
A caminho de casa, o efeito da cocaína foi aos poucos desaparecendo,
fazendo ressurgirem os problemas. Tácio não tinha
agora nem mais um tostão. Precisava desesperadamente de
dinheiro para pagar as contas, o crediário, o aluguel, o condomínio.
Pensar em sua miséria deixou-o ainda mais nervoso, e
logo veio a ideia. E se experimentasse só mais um pouquinho da
droga? Melhor não. Embora tivesse certeza de que não se viciaria,
preferiu não arriscar.
Anselmo já devia ter ligado para marcarem a data da homologação
de sua rescisão contratual. Será que ele ia aguardar até o
término do prazo do aviso prévio para fazer isso? Se fosse assim,
ele ainda teria que aguardar mais umas duas semanas. Como faria
para sobreviver, se nem o salário do mês Anselmo lhe pagara?
Pensando em Anselmo, a raiva o consumiu. Agora livre do
efeito da droga, viu a irritação aumentar, misturando-se a momentos
de depressão em que só o que sentia era vontade de morrer.
Sem se dar conta, caminhando a esmo, alcançou a agência
bancária onde trabalhara. Como era fim de expediente, logo seus
ex-colegas começaram a sair.


Tácio nem sabia o que o mantinha ali, mas o fato é que uma
curiosidade mórbida de ver os inimigos, como agora chamava
Júlio e Anselmo, o fez ficar. Parado na porta do banco, olhava fixamente
para dentro, preocupando, inclusive, os seguranças que
o haviam posto para fora do clube. Viu Bianca passar, com seu
corpo benfeito e provocativo, arrependendo-se de não ter dado
em cima dela, acreditando em fidelidade. Para quê? Bianca bem
que lhe lançava uns olhares significativos, mas o idiota, por causa
da esposa, fingia não perceber.
Um pouco mais tarde, Júlio surgiu em companhia de Anselmo,
cochichando e gargalhando alto. Na certa, falavam dele, riam pelas
suas costas, achincalhando seu nome, chamando-o de corno.
Júlio foi o primeiro a vê-lo e hesitou. Anselmo, por sua vez, não
estava com disposição para aturar fracassados. Deu um tapinha
nas costas de Júlio, entrou em seu carro e foi embora.
A Júlio não restou opção senão falar com Tácio. Como o
caminho de sua casa ficava na direção em que o outro estava, não
teve como evitar passar perto dele. Júlio fez um cumprimento com
a cabeça, seguindo adiante na esperança de não ser seguido. Foi
exatamente o que Tácio fez.
- Não fala mais com os amigos? - indagou.
- Eu falei, Tácio. É que estou com pressa. Geórgia está me
esperando.
- Vocês vão se casar? - Júlio assentiu. - Quando?
- Em maio. Mas ficaremos noivos mês que vem.
- Que bonito - ironizou. - Vou ser convidado?
Já arrependido de ter comentado sobre o casamento e o
noivado, Júlio tentou desconversar:
- Perdoe-me, Tácio, mas estou realmente com pressa.
Outra hora a gente se fala.
Tácio rilhou os dentes de ódio, sentindo uma ãnsia quase
incontrolável de cocaína. Estranhou aquela necessidade premente
em tão pouco tempo de uso, mas não era possível que estivesse
viciado. Não tão depressa. Contudo, a vontade foi aumentando,


levando-o a desejar apenas mais uma carreirinha. Só mais uma.
Podia parar quando quisesse. Sem que percebesse, começava a
se encaminhar para o vício.
- Você pode me emprestar uns trocados? - pegou-se
perguntando a Júlio, que já se afastava.
O outro estacou e abriu a carteira, dela retirando algumas
notas. Estendeu-as para Tácio, que as pegou sem contar.
- É tudo que tenho - informou Júlio.
- Valeu, cara. Você me salvou.
Embora não tivesse culpa de nada, Júlio se sentia culpado
por ter conseguido a promoção, enquanto Tácio fora despedido.
Ele realmente estava numa pior. Tinha dívidas para saldar e
nenhum salário. Se Anselmo ao menos fizesse aquela homologação...
Mas o gerente, com raiva, tornara-se irredutível. Só faria a
homologação ao final do aviso prévio.
De posse do dinheiro, Tácio correu até a boca de fumo, lá
conseguindo uma dose razoável de coca. O entorpecente deixou-
-o aparentemente mais firme em suas convicções, levando-o a
crer que seus problemas financeiros seriam facilmente resolvidos.
Era cima da mesa, as contas do mês se amontoavam, o carnê do
crediário escondia-se embaixo da papelada. Nada foi pago. Nada
importava. Tácio sentia-se forte e poderoso, como se coisa alguma
no mundo pudesse atingi-lo.
Não demorou muito para Tácio procurar Júlio novamente.
Esperou-o na hora da saída, como já se tornava seu costume.
Anselmo, para variar, despediu-se com seu usual tapinha nas costas
de Júlio e entrou em seu carro, como se Tácio fosse um desconhecido.
Aos poucos, Tácio foi-se desligando de Anselmo, centrando-
-se mais em Júlio, de quem sempre obtinha alguns trocados para
o consumo da droga. Júlio procurava não negar, pensando que o
dinheiro servia para Tácio sobreviver até que saísse a homologação.


Finalmente, o dia tão aguardado chegou. Com o dinheiro
da rescisão nas mãos, Tácio sentiu-se o todo-poderoso. Era bem
menos do que ele esperava, mas daria para saldar algumas dívidas.
Em casa, apanhou as contas de luz, gás e telefone, além do
condomínio. Estavam todas atrasadas, tinha de pagá-las antes
que começassem os cortes.
Com as contas na mão, desceu no elevador. Precisava de um
banco para pagar tudo, mas não queria utilizar-se daquele em que
trabalhara. Uma raiva surda o atingiu. Tinha ódio de bancos. Se
pudesse, não pisaria mais numa agência bancária enquanto vivesse.
Pensando bem, por que tinha de gastar tudo no banco? Quem
o obrigava a pagar as contas? Ninguém. Aquele dinheiro poderia
ter melhor uso se ele o gastasse em coisas que lhe dessem prazer.
E, naqueles tempos, o único prazer que encontrava estava nas
carreiras de cocaína. Sim, era isso. Deixaria as contas para depois
de satisfeita a vontade, que, sem que Tácio reconhecesse, ia se
transformando em vício.
O dinheiro que ganhara durou pouco tempo, assim como não
demorou muito para Tácio novamente procurar Júlio. Esperou-o
na saída do banco, sem ligar para a evasão de Anselmo.
- Oi, Júlio.
- Oi, Tácio. Como estão as coisas?
- Vão indo.
- Espero que você tenha conseguido se reequilibrar com o
dinheiro da rescisão.
- Você está brincando, não é? Aquele dinheiro não deu
para nada.
- Como assim?
- Esqueceu-se de que Anselmo me fez pedir demissão?
Isso reduziu o valor da minha indenização e me impossibilitou de
levantar o Fundo6.
6 Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS). O pedido de demissão não está entre as causas autorizadas
pela Lei 8.036/90 para levantamento dos valores depositados.
54


- Ao menos você não ganhou a justa causa - arriscou
Júlio.
- Eu não merecia a justa causa - rebateu com ira. - Mas
deixe isso para lá. Não foi para discutir questões trabalhistas que
vim aqui. O que gostaria é de saber se você me pode emprestar
mais algum.
- De novo?
- Estou duro, cara. As contas engoliram aquela miséria
que recebi.
- Olhe, Tácio, está ficando difícil. Não ganho tanto assim
para ficar emprestando. Compreendo a sua situação, mas preciso
juntar dinheiro para o casamento.
- Ora, vamos, Júlio, só dessa vez. Prometo que será a última
e que lhe pagarei assim que puder, com juros e correção.
Mesmo contrariado, Júlio assentiu. Sacou de novo a carteira
e esvaziou-a nas mãos de Tácio.
- Lembre-se bem, é a última vez - alertou.
- Obrigado.
Dali, Tácio correu novamente à boca de fumo e de lá seguiu
para a Vila Mimosa. Precisava desesperadamente de sexo.
Depois de buscar Geórgia no curso, Júlio seguiu para a casa
dela, ainda preocupado com a atitude de Tácio.
- Boa-noite, dona Cléia - cumprimentou, sentando-se à
mesa da cozinha.
- Boa-noite, meu filho. Aconteceu alguma coisa?
- É o Tácio. Já lhe falei dele.
- Ele lhe pediu dinheiro de novo?
- Isso mesmo.
- E você deu?
- O que poderia fazer? O homem está na pior.


- Dar dinheiro a ele não vai ajudar. O que ele precisa é
procurar outro emprego.
- Também acho, mas ele já passou um pouco da idade.
- E daí? Isso não é justificativa para ficar pedindo.
- Não seja tão intransigente, mãe - censurou Geórgia, com
serenidade. - Não sabemos o que vai no coração dos outros.
- Isso é. Mas não me parece certo um homem da idade
desse Tácio pedir dinheiro ao Júlio. Se fosse seu pai, estaria engraxando
sapatos na cidade, em vez de ficar reclamando da vida e
explorando os outros.
- Nem todo mundo é como papai. As pessoas têm suas
fraquezas. Não devemos julgar ninguém.
- Está certo, estou julgando e não devia. Mas você acha
correto o Júlio ficar sustentando vagabundo?
Geórgia suspirou e não disse mais nada. Não adiantava
discutir com a mãe quando ela já tinha uma ideia formada. No
fundo, ela não deixava de ter uma certa razão. Tácio devia mesmo
procurar outro emprego, e o papel de Júlio seria o de incentivá-lo,
não de prover seu sustento. Emprestar dinheiro era até compreensível,
mas o que Tácio estava fazendo virara exploração.
- Eu nem me lembro direito desse Tácio - divagou
Geórgia. - Vi-o apenas uma vez no churrasco.
- Ele está horrível, você nem queira saber. Emagreceu, vive
com os olhos fundos e vermelhos.
Deve ser o sofrimento,
- Sofrimento, sei - rebateu Cléia. - Ele deve andar é
bebendo para afogar as mágoas. E isso não resolve
- Sua mãe tem razão, Geórgia. Não vou mais emprestar
dinheiro a Tácio. Precisamos juntar tudo o que temos para montar
nossa casa.
- Isso mesmo - elogiou Cléia. - Cuidem da vida de vocês,
que é o mais importante. Vou rezar por Tácio, para que ele consiga
se acertar na vida.


Decidido a não mais dar dinheiro a Tácio, Júlio sentiu um certo
alívio. Nos dias que se seguiram, Tácio não o procurou, levando-o
a pensar que cumpriria sua promessa. Todavia, na semana seguinte,
ao sair do trabalho, lá estava ele de novo, ainda mais magro do
que antes, uma hostilidade irreconhecível no olhar.
- Você está bem? - preocupou-se Júlio, assim que ele o
abordou.
- Estou - rilhou os dentes.
Na verdade, Tácio não estava nada bem. A companhia de luz
cortara sua energia. O gás havia muito se fora, mas não o incomodara
tanto, já que ele quase não comia, satisfazendo-se com
biscoitos e refrigerantes. O proprietário do apartamento ameaçava
mover uma ação de despejo, cobrando os aluguéis e o condomínio
em atraso. Por isso, nada podia estar bem. Mas ele não queria
dividir aqueles problemas com Júlio. Precisava desesperadamente
da coca, e Júlio era o único que poderia ajudá-lo.
- Que bom - falou Júlio. - Olhe, estou com um pouco de
pressa e não posso conversar agora.
- Preciso de dinheiro - rosnou, apertando o braço do
outro.
- Não posso mais emprestar - afirmou Júlio, evitando
seu olhar.
- Por quê? Você tem.
- Não tenho, não. O que possuo é pouco e estou juntando
para meu casamento.
- Não seja idiota! Para que quer se casar com uma vagabundinha
que daqui a pouco irá lhe botar um belo par de chifres
na testa?
- Não chame Geórgia de vagabunda! - irritou-se, puxando
o braço com violência. - E não é só porque a sua mulher o traiu
que todas as outras vão fazer a mesma coisa.
Tácio soltou uma gargalhada nervosa, acrescentando com
uma ferocidade até então desconhecida:


- Você pensa que sua Geórgia lhe é fiel? Pois duvido muito
que seja. Aposto como se deita com outros homens sem você saber.
Tácio descontava em Júlio sua frustração pelo casamento
brutalmente rompido. Sob o efeito da droga, extravasava a fúria, o
desespero o consumia. Precisava de mais.
- Vá embora, Tácio - disse Júlio, contendo-se para não lhe
acertar um soco. - Não temos mais nada a conversar.
- Não! Preciso de dinheiro.
- O dinheiro acabou. Vá arranjar um emprego, que é a
melhor coisa que você pode fazer.
- Você me deve isso! - exasperou-se. - Tomou o meu
lugar no emprego.
- Não lhe devo nada. A promoção foi minha por merecimento.
Ninguém mandou você fazer besteira.
- Que besteira eu fiz? Minha mulher me traiu. Tive culpa?
- Não me interessa. E fim de papo. Tenho mais o que fazer.
- Você não vai me deixar assim. Exijo que me empreste
mais dinheiro.
- Emprestar? Que empréstimo o quê, se você nunca me
pagou?
- Só dessa vez - suplicou ele, mudando o tom de voz. - É
a última, prometo.
- Você já me prometeu isso antes. E olhe você aqui de novo.
Irritado, Júlio virou-lhe as costas. Não tinha mais por que
continuar com aquela conversa. Afastava-se quando sentiu as
mãos de Tácio sobre seus ombros, puxando-o violentamente
de volta.
- Você não pode ir embora assim - falou. - Preciso de
dinheiro.
- Solte-me, Tácio. Acabou!
Como Tácio não soltava, ao contrário, apertava seus ombros
com mais e mais força, Júlio não viu outra saída a não ser desferir-
-lhe um murro na face. Nada de muito violento, mas devido ao
estado lastimável em que o outro se encontrava, foi o suficiente
para jogá-lo ao chão.


- Isso não vai ficar assim - Tácio ameaçou. - Você ainda
há de me pagar por essa humilhação.
Sem dar resposta, Júlio rodou nos calcanhares, desatando
pela rua quase a correr. Pensou que Tácio o seguiria novamente,
mas ele nada fez. Júlio nem olhou para trás, seguindo às pressas
para casa.
Tácio queria muito ir atrás dele para dar-lhe uma lição, mas
todo seu corpo se ressentia com a falta da droga. Uma fissura
cada vez mais premente o afligia, levava-o quase à loucura. Em
desespero, viu afastar-se sua última esperança de obter dinheiro
para satisfazer uma necessidade que ele não assumia como vício.
Cada vez mais aturdido, Tácio voltou para casa, pensando
em como arranjar dinheiro. Entrou às cegas, tateando em busca do
interruptor. Em vão, pois estava sem luz. Abriu a persiana, permitindo
que a luminosidade do fim de tarde penetrasse no ambiente.
Olhando ao redor, deu de cara com o antigo aparelho de som, já
que o novo, a mulher levara. Para que precisava daquilo se já nem
tinha mais energia para ligá-lo?
Sem nem pensar, passou a mão nele e saiu, direto para a
boca de fumo. Não conseguiu muito num aparelho velho, mas o
suficiente para saciá-lo por algumas horas. Ao menos até decidir
sua próxima ação.
Na saída do curso, Geórgia aguardava a chegada de Júlio.
Estava adorando as aulas. Era um curso de educação infantil à luz
da teoria de Piaget7. Tinha esperanças de, mais tarde, ingressar na
faculdade de pedagogia e, futuramente, conciliar a escola pública
com um emprego no Centro Educacional Jean Piaget8.
7 Jean Piaget (1896/1980) - especialista em psicologia evolutiva e epistemologia genética, filósofo e biólogo,
considerado a maior autoridade no estudo do comportamento cognitivo.
8 http://www.jeanpiaget.com.br.
59


Júlio não se demorou. Apanhou-a pela mão, seguindo com ela
para casa, Não era longe. O problema é que tinham de passar por
uma praça muito perigosa, transformada em boca de fumo e ponto
de encontro de maconheiros. A praça era malcuidada, escura, o
mato crescia no lugar do jardim. Para passar por ela, havia duas
possibilidades: um caminho maior, contornando-a, ou o caminho
mais curto, atravessando-a e cruzando com viciados e traficantes.
No momento em que contornavam a praça, Tácio ergueu os
olhos para o traficante que acabara de lhe vender a droga, vendo,
por cima de seu ombro, duas figuras passando pela calçada do
outro lado. Imediatamente reconheceu Júlio e Geórgia.
Tácio apanhou o pacotinho com a coca e esgueirou-se para
o ponto mais escuro da praça, onde a lâmpada do poste fora
quebrada para encobrir ações ilícitas. De lá, observou os dois,
*
centrando a atenção na moça. Ela era linda, o corpo esbelto
bem ajustado ao jeans, os seios despontando sob a camiseta de
malha simples.
Na mesma hora, o desejo o consumiu. Precisava urgentemente
acalmar o apelo do sexo. Ainda sob o efeito da carreirinha que
cheirara antes de sair de casa, sentiu a ejaculação espontânea.
Não havia ninguém por ali para saciar sua fúria sexual, apenas a
noiva de Júlio, cuja visão, por si só, levava-o ao auge da excitação.
Na calçada, alheios à presença de Tácio, o casal de enamorados
seguia seu rumo tranquilamente
- Estou amando o curso, Júlio - ela comentou.
- Que bom, minha linda! Você é muito inteligente, vai longe.
- Estou pensando em fazer faculdade de pedagogia depois
de nos casarmos. O que você acha?
- Acho ótimo - afirmou ele, lembrando-se dos conselhos
de Anselmo, que o valorizaria ainda mais ao saber que sua esposa
pensava em crescer na carreira do magistério.
- Podemos ter filhos mais tarde?
- Mais tarde quando?
- Depois que eu terminar a faculdade.


- Ah, Geórgia, não sei. E se demorar muito?
- Não vai demorar. Quatro anos, no máximo. É o tempo
de nos firmarmos profissionalmente e podermos dar aos nossos
filhos uma condição melhor de vida. O que você acha?
- Por esse lado, você tem razão.
- Então, tudo bem?
- Tudo bem.
Ele a abraçou fortemente, causando inveja em Tácio.
- Vá aproveitando - rugiu ele para si mesmo. - Mais dia,
menos dia, essa felicidade vai acabar.
Com o peito transbordando de despeito, inveja e outros tantos
sentimentos daninhos, Tácio saiu de seu esconderijo, ofegante do
prazer que sentira só de olhar para Geórgia. Ainda era tempo de
buscar alívio na Vila Mimosa. De nada adiantaria voltar para casa
se nem tinha luz e o senhorio vivia batendo à sua porta. Até um
oficial de justiça o procurara, levando uma citação para responder
à ação de despejo, que ele ignorou.
Que a ação corresse à revelia, assim como à sua revelia
corriam as desgraças de sua vida.
61

capítulo
8
Damien abriu a porta da sala de Atílio e entrou com cuidado,
para não o irritar. Fechou a porta, sentou-se à sua frente e
esperou. Atílio vivia analisando relatórios que seus sequazes lhe
enviavam regularmente, atento aos movimentos do mundo. Não
podia descuidar um minuto, ou perderia o poder com que tanto
sonhava. Quando terminou de ler o último relatório, soltou a papelada
e encarou Damien.
- Você nem imagina como estamos progredindo. Nossos
companheiros têm feito um excelente trabalho junto aos encarnados.
- Não poderia ser diferente, chefe, contando com a sua astúcia.
Atílio reconhecia os indícios da bajulação, mas não rebateu
Tinha em mente outros interesses.
- Muito bem. E o seu relatório?
- Estamos avançando. Já contatamos o casal, e tudo parece
perfeito. Nenhum dos dois dá mostras de que pretende desistir.
- Ótimo. Mas nem por isso descuidem deles. Mantenham
guarda dia e noite.
- Bom, isso é um pouco mais complicado do que parece, O
homem é fácil, mas a moça...
O que tem ela?
- Nunca vi uma aura tão radiante.


- Desde quando você vê aura? Sua visão estreita só consegue
enxergar coisas sujas.
- Para o senhor ver - rebateu ele, engolindo a raiva pela
humilhação. - Se eu, que nunca vejo nada, consegui perceber a
aura da moça, imagine o quanto ela é especial.
- Conversa! Não acredito nisso. Todo mundo pode ser
corrompido. Ela tem milhares de defeitos, só que ocultos. Trate
logo de descobrir.
- O senhor não entendeu. Não posso. A sua aura nos cega,
nos afasta. Nenhum de nós conseguiu se aproximar.
- Que coisa! - irritou-se. - Será que tem algum espírito de
luz colado nela e vocês não veem?
- Pode ser.
- Ou será que é incompetência mesmo?
- Se não acredita em mim, por que não vai pessoalmente
verificar?
- Está me desafiando? - rugiu Atílio, nesse momento parecendo
mais alto e intimidador do que de costume.
- Em absoluto - Damien se encolheu. - Estou apenas
tentando chamar sua atenção para o fato de que essa menina está
fora do nosso alcance.
- Isso não é bom - ruminou ele após alguns minutos. -
Uma pessoa assim pode comprometer nossos planos.
- Como?
- Luz é sinal de uma coisa: elevação moral e espiritual, o
que dificulta a propagação do poder. Tenho medo dessa influência
sobre Mizael.
- O senhor acha que a luz dela pode comprometer a
missão de Mizael? - ele quase exultou, no fundo torcendo pelo
fracasso do rival.
- Não sei. É possível que ela nos crie algum tipo de embaraço.
Mas Mizael é forte, saberá resistir.
- Será, senhor?


- Você vai estar lá para garantir isso. Não permita que ele
fraqueje, que se deixe envolver pela energia que mais tememos,
porque é a que mais atrapalha os nossos planos.
- Que energia é essa?
- O amor, idiota! Podemos não gostar, reclamar e até menosprezá-
lo. Mas eu não sou tolo nem ingênuo. Conheço o poder do
amor genuíno. Agora vá Tenho coisas importantes para fazer.
- Sim, senhor.
Quando Damien se preparava para sair, Atílio lançou sobre
ele um olhar glacial que o paralisou.
- Tenha cuidado, Damien. Escolha bem de que lado quer
estar. Quem é contra Mizael é também contra mim,
Um temor fez arrepiar seus pelos astrais. Seria possível que
Atílio houvesse descoberto o que ele sentia?
- Eu... não compreendo, senhor... Não sou contra Mizael.
Muito menos contra o senhor.
- Ótimo! Que continue assim.
Dessa vez, Damien saiu sem titubear, morrendo de medo
de deixar visíveis seus pensamentos. É claro que Atílio sabia que
ele detestava Mizael. Só não acreditava que ele tivesse coragem
suficiente para traí-los. E não tinha. Se pudesse, Damien destruiria
Mizael, mas jamais Atílio. Ele andava estranho, escabreado.
Damien daria tudo para saber o que passava pela cabeça dele.
Não era algo que Atílio quisesse admitir. Nem gostava de
pensar em suas desconfianças. Mas aiguma coisa naquele plano
parecia fora de lugar. A confiança que depositava em Mizael era
total, contudo sentia-se inquieto. Era uma espécie de medo, uma
sensação de perda irrevogável, definitiva. Seria possível que Mizael
estivesse se deixando seduzir pelo lado da luz?
Sem contar que agora dera para cismar com Nora. Há tanto
tempo não a via que, por vezes, esquecia-se de seu rosto. Ela
agora devia ter outra aparência, pois uma pessoa como Nora não
ficaria anos a fio em um lugar só. Tinha certeza de que ela já devia
ter reencarnado ao menos umas duas vezes.


Atílio conhecia os mecanismos do destino, que tratava de
aproximar pessoas com antigos elos de afeto. E se algo semelhante
acontecesse com Mizael? Ele já ia ser filho de uma mulher
iluminada. O que seria dele se, além da mãe, tivesse também
uma mulher com o coração repleto de luz? Não. Aquilo não podia
acontecer. Nora desaparecera, não se prestaria a sofrer ao lado de
Mizael novamente. Ele possuía o maior poder. Ele iria vencer.
O pensamento insistente de Atílio alcançou a mente confusa
de Mizael, dando-lhe uma vaga impressão dos acontecimentos.
Se ele pudesse veria, do lado de fora das muralhas da cidade, uma
pequena aglomeração de formas-pensamento tentando penetrar
a barreira energética que a guarnecia. Como não era possível,
permaneciam vagando a esmo, até se dissolverem.
Nada disso passava despercebido a Josué, que conhecia
bem o significado daquelas formas. E, se Atílio mandava ondas
mentais para serem captadas por Mizael, era óbvio que Mizael
também as sentia. Os espíritos de luz, contudo, não permitiam
que elas chegassem ao seu destino, de modo que apenas eles
tinham acesso aos pensamentos de Atílio. E mesmo as poucas
mensagens que Mizael enviava só passavam pelo filtro energético
quando assim era permitido. Dali, nenhum pensamento entrava ou
saía sem autorização ou controle.
Mesmo assim, a onda emocional que acompanhava os
pensamentos de Atílio alcançava, embora com menor intensidade,
o corpo fluídico de Mizael. Ele andava inquieto, arredio, assustado.
Parecia temer uma ameaça invisível que nunca chegava.
Josué encontrou-o vagando sozinho pelas proximidades
da muralha, atraído para lá pelas formas-pensamento que se
chocavam contra ela e desapareciam. Embora não as visse nem
soubesse de sua existência, pressentia uma presença no ar.
- Tudo bem com você? - perguntou Josué, acercando-se
com cuidado.
- Sinto-me estranho, irrequieto. Será que é porque vou
reencarnar?
65


- É possível. Muitos espíritos se sentem assim, com medo
do que os aguarda na matéria.
- Você acha que é isso? Medo do fracasso?
Ele deu de ombros e retrucou:
- Pode ser.
- Não tenho medo de fracassar. Sei que vou conseguir o
que desejo
- E o que, exatamente, você deseja? - questionou Josué,
encarando-o de forma penetrante.
O olhar de Josué, como sempre, o incomodou. Sentia-se
desvendado por ele. Mesmo assim, abaixou os olhos e respondeu
com uma naturalidade que não sentia:
- Você sabe. Quero levar uma vida normal, trabalhar, ser
um bom chefe de família.
- Você ainda não me contou que profissão escolheu.
- Hum... Deixe ver... Gostaria de ser um bom administrador.
Não era exatamente mentira, já que, segundo ele, liderar o tráfico
de drogas requeria uma boa dose de conhecimentos em administração.
Josué compreendia os seus motivos, apiedando-se da ilusão
do poder que ele, como muitos outros, alimentava cegamente.
- Você tem um intelecto muito aguçado - afirmou Josué. -
Vou orar para que saiba utilizá-lo em benefício do seu aprimoramento.
Mizael não respondeu. O que poderia dizer àquele espírito
que, embora nada falasse, parecia tudo saber?
- Tem algo que gostaria de perguntar - Mizael mudou de
assunto. - Onde está Nora?
O olhar de compreensão do outro deu-lhe a certeza de que
Josué sabia de quem ele estava falando. Com um sorriso enigmático,
as mãos juntas sob a manga da túnica, arrematou:
- No momento oportuno.
Não ficou para esperar resposta. Simplesmente esvaneceu
no ar, deixando Mizael embasbacado com sua falta de atenção.
Irritado, deu as costas à muralha e caminhou de volta a seu alojamento,
procurando Nora em todos os jardins por onde passava.


Aquele era o dia que ele há tanto aguardava. Finalmente, seria
levado ao tão misterioso laboratório para reagrupamento de seus
átomos astrais e modelação do novo corpo fluídico, que acompanharia
a forma física tão cuidadosamente planejada e selecionada
entre as possibilidades genéticas de seus pais.
Estava ansioso, com medo de sofrer ou sentir dor. Josué lhe
assegurou que não sentiria nenhum desconforto, apenas uma leve
perturbação decorrente da transição de planos e dos novos rumos
de vida decididos.
- Posso desistir? - indagou ele, em sua última conversa.
- Pode, e sua mãe irá abortar.
- E se ela me abortar voluntariamente?
- O aborto, muitas vezes, é um risco que o espírito deve
assumir para reencarnar. Mas sua mãe nos garantiu que não o fará
e acredito nela.
- Está certo. Estou um pouco nervoso, mas estou pronto.
* - O nervosismo é natural. A hora do estupro está próxima,
assim como o momento em que se formará o tênue liame que o
ligará à sua mãe.
- Meu corpo vai se colar ao dela?
- Não. Você permanecerá aqui, no leito do laboratório, até
que se complete a gestação. Esse liame, que é um cordão fluídico,
vai diminuindo à medida que a gravidez avança. No momento do
nascimento, ele se romperá parcialmente, dando a você uma nova
individualidade, distinta da de sua mãe, mas que só se completará
por volta de seus sete anos de vida.
- É como um cordão umbilical?
- Exatamente. Assim como o cordão físico leva alimento da
mãe para o bebê, o cordão fluídico leva o alimento que empreenderá
a troca de energias entre vocês.


- Não tem uma história de cordão prateado? Onde é que
ele entra?
- O cordão prateado é outro liame, também finíssimo, mas que
serve para ligar seu corpo astral ao físico, enquanto perdurar a vida
na matéria. Ele surgirá no momento em que seus corpos se unirem.
- Muito bem. Tudo combinado. Estou pronto.
- Só mais uma coisa antes de partirmos. Tenho uma surpresa
para você.
- Uma surpresa?
Josué chegou para o lado, dando passagem à linda jovem
que Mizael encontrara poucos dias antes.
- Nora! - exclamou ele, completamente aturdido. - Por
onde esteve? Procurei você feito um louco.
- Em minha própria cidade astral.
- Você não mora aqui?
- Não.
- Nora vive em uma esfera um pouco acima da nossa -
esclareceu Josué.
- Não me diga! Mas conte-me. Por onde andou, o que tem
feito? Faz muito tempo que desencarnou?
- Não muito. Tive outras vidas depois daquela em que
quase nos casamos. Mas nunca me esqueci de você.
- Nem eu. Eu a amava de verdade. Pena que você não
conseguiu entender a minha... - ele ia dizer profissão, mas calou-
-se envergonhado, fitando Josué com espanto.
- Isso tudo ficou no passado - cortou ela. - Podemos
planejar outro futuro.
- Como assim?
- Embora eu não precise, escolhi reencarnar para vivermos
o que não conseguimos viver naquela época.
- Jura? Você faria isso por mim?
- Faria por nós, pois também o amo e quero ter a oportunidade
de desenvolvermos juntos esse amor
- Ma! posso acreditar. Nada me deixaria mais feliz!


- Só tem uma coisa - ela mudou de tom, falando com seriedade
acima do normal. - Como da outra vez, não vou tolerar que
você enverede pelo caminho do crime. Você continua livre para fazer
suas escolhas, mas eu também tenho liberdade para fazer as minhas.
- Como assim, Nora?
-Sabemos de tudo o que acontece aqui - intercedeu Josué. -
Você é esperto, Mizael, mas ainda está muito distante da sabedoria
divina. Seus planos de crime na Terra são conhecidos por nós.
Ele abriu a boca, estupefato, e retrucou embaraçado:
- Vocês sabem? Durante esse tempo todo, sempre souberam?
- Josué assentiu. - Se é assim, por que permitiram? Por
que estão me dando essa chance se sabem o que pretendo?
- Como você poderá crescer se nós não lhe dermos um crédito?
- Não é possível. Acha mesmo que eu mereço esse crédito?
Que vou me transformar?
- Não sei. Mas tem uma chance, como todos os que voltam
com ideias iguais ou piores do que a sua.
- Não posso acreditar que isso esteja acontecendo. Passei
esse tempo todo aqui fazendo papel de idiota.
- Por que diz isso? Não conseguiu o que queria?
- Mas vocês sabem! - afirmou ele, incrédulo. - De tudo?
- Tudo. Seus planos para ingressar no crime e no tráfico de
drogas, com a cooperação de Atílio.
- Conhecem Atílio?
- Por certo.
- Fui ludibriado! Deixem-me ir embora. Não quero mais
participar dessa farsa.
- Farsa? Quem de nós finge ser algo que não é?
- Vocês estão me mandando de volta à Terra porque acham
que vão me manipular para que eu vire bonzinho. Querem que eu
sirva de cobaia para seus estudos de regeneração?
- Você não é mais especial do que ninguém para se tornar
objeto de estudos. É como todos os outros que por aqui passaram
com a mesma ilusão que você. A todos, demos o mesmo tratamento,


a mesma atenção, as mesmas esperanças. Muitos retornaram bem-
-sucedidos, modificados em sua essência. Outros continuaram na
mesma. E você não pode ser tão ingênuo a ponto de imaginar
que ninguém descobriria seus propósitos torpes. Você desconfiava
que eu sabia e aceitou minha ajuda mesmo assim, porque, no
fundo, o que realmente quer é uma chance de se modificar.
- Você está errado. Só o que pretendo é viver a minha vida
do jeito que eu quiser.
- Mizael - era a voz doce de Nora. - Ouça o que Josué
está dizendo. Ninguém vai tentar demovê-lo de seus projetos.
Suas atitudes dependem só da sua consciência.
- Vocês não vão tentar me impedir?
- Não - afirmou Josué categoricamente. - Você tem liberdade
de escolha, mas se aprisionará às consequências das que
forem malfeitas.
- Isso é problema meu!
- Por certo.
- Quero estar com você de novo, Mizael - declarou Nora.
- Para vivermos a vida que não tivemos oportunidade de viver.
Não sabe que eu o amo? O destino nos separou porque fizemos
escolhas incompatíveis, mas nada impede que agora façamos
coincidir nossos propósitos.
Ele olhou para ela, sentindo retornar a força do sentimento que
uma vez os unira, esquecendo-se de Josué por alguns momentos.
- Você estaria disposta a me seguir?
- Você estaria disposto a mudar em nome do nosso amor?
- Você está jogando com as palavras, Nora. Sempre desejei
estar com você.
- Pois essa é a nossa chance. O que lhe peço é uma mudança
de atitude que só trará benefícios a você.
- O que me pede é quase impossível. Não é da minha natureza
ser bonzinho.
- Você fala tanto em ser bonzinho. Mas o que é ser bonzinho
para você?


- Sei lá! Ser puxa-saco, amiguinho, solícito, subserviente,
fazer tudo o que os outros querem.
- Ser bonzinho é agir com amor. Apenas isso. Será que
você não é capaz de amar?
- Amo você. Só.
- Já é um começo.
- Não faça isso comigo, Nora, pelo amor de Deus. Perdê-la
novamente me traria uma dor insuportável.
- Não tem que ser assim. Podemos ser felizes juntos.
- Está se esquecendo de Atílio. Tenho um compromisso
com ele.
- Atílio não descansará até que você cumpra o que lhe
prometeu - alertou Josué. - Mas o poder que ele pensa ter não
é nada comparado ao poder do amor.
- Amor, amor - desdenhou. - É só nisso que sabe falar?
- Isso não é o mais importante? - replicou Nora. - Não é
o que todos querem?
- O que eu quero é poder.
- Já conversamos sobre isso - tornou Josué. - Mas, pelo
que.percebo, você não acreditou em mim.
Mizael não disse nada, impacientando-se com aquela conversa.
Tinha vontade de desistir e fugir dali, de volta ao seu submundo
de sombras, mas a presença de Nora o paralisava, deixando-o
cada vez mais confuso, inseguro.
- Vou reconquistá-la - avisou ele, segurando a mão
dela. - Volte comigo e tudo farei para ficarmos juntos.
- Você sabe o que tem que fazer - disse ela.
- Você vai?
- Vou. Daqui a alguns anos, estarei de volta.
- Seremos felizes então. Vai ser fácil, você vai ver.
- Não tão fácil, mas, se assim fosse, não valeria a pena.
Mizael não entendeu o último comentário dela, mas não
teve tempo de perguntar, porque Uriel entrou apressado, dizendo
com euforia:


- Está na hora!
- Do estupro? - surpreendeu-se Mizael.
- Ainda não. Mas já está tudo pronto no laboratório para
recebê-lo. Se você não for agora, não terá tempo de se preparar, e
há outros pretendentes aguardando.
- E então? - perguntou Josué. - Você vai ou não?
Ele hesitou pouquíssimos minutos antes de responder:
- Eu vou. Mas vai ser do meu jeito. E você vai ser minha.
Você sabe o que tem que fazer, Mizael - disse Nora. -
Se reincidir no crime, me perderá de novo.
- Não vou perdê-la.
A última frase dele tinha duplo sentido. Mizael queria que
Nora achasse que ele não a perderia porque se esforçaria para
mudar, quando o que ele pensava era que ela seria dele a qualquer
custo. Os dois, contudo, sabiam a verdade.
Ao lado de Josué e Uriel, ele seguiu a caminho do laboratório.
Parados na porta, Uriel foi o primeiro a dar-lhe um abraço fraterno.
- Boa sorte! - desejou de coração.
- Obrigado.
- Estaremos orando por você - falou Josué. - Sabe que
pode contar conosco sempre que precisar, mesmo quando as
hordas de Atílio o estiverem envolvendo.
- Obrigado - disse ele, mais para ver-se livre de Josué do
que pensando em procurá-lo. - E adeus.
- Até breve - acrescentou Josué, abraçando-o também.
Ao se virar para a rampa de acesso ao laboratório, Mizael sentiu
o que realmente era medo. Havia tantas programações para sua
vida que temeu não dar conta de tudo. As incumbências de Atílio
eram as que mais o estimulavam, mas as ponderações de Josué o
haviam balançado. E, para completar, Nora surgira para dividir seu
coração entre o amor e o poder. Não era uma disputa justa.
72

capítulo
9
Júlio e Geórgia acabavam de sair do cinema, comentando
sobre o filme enquanto caminhavam.
- Achei a história engraçada - disse ele. - Uma bobeira,
mas divertida.
- Já pensou se houvesse fantasmas9 assim? - gracejou
ela. - Seria um horror!
Chegaram à porta da casa de Geórgia e pararam. Júlio levou
a mão da namorada aos lábios e disse com uma certa tristeza:
- Bom, minha linda, tenho que ir. Viajo cedo amanhã.
- A que horas sai o seu voo?
- Às sete e meia. Terei que madrugar no aeroporto.
- É melhor você ir dormir.
- Estou preocupado com você, Geórgia. Não quero que
volte sozinha à noite por aquela praça.
- Deixe de bobagens, Júlio. Sei me cuidar.
- Ali fica cheio de marginais. Acho melhor você dar a volta
pelo outro lado da calçada.
- Tudo bem, se vai fazer você se sentir mais tranquilo.
Apesar de ter que dar uma volta maior, não me custa nada.
9 Referência ao filme Os caça-fantasmas, de 1984-


- Obrigado. Não me perdoaria se algo lhe acontecesse.
- Nada vai me acontecer. Vá sossegado para o seu congresso
e volte correndo. Estarei aguardando você.
A despedida foi demorada, mas não teve jeito. A contragosto,
Júlio separou-se de Geórgia. Passaria a semana toda em São
Paulo, num congresso de gestão financeira para o qual Anselmo o
indicara, alertando-o de sua importância se desejasse, no futuro,
concorrer a uma promoção para a área financeira do banco, onde
trabalharia com empréstimos e financiamentos. Uma oportunidade
que não poderia perder, principalmente agora que iria casar-se
e constituir uma família.
Fazia algumas semanas que Tácio acompanhava a rotina de
Geórgia, vendo-a passar pela calçada da praça sempre acompanhada
de Júlio. Postado debaixo do poste sem luz, punha-se a cobiçá-la,
a cocaína lhe subindo à cabeça, provocando a imediata ereção. Era
um desejo tão intenso que não podia controlar. Dali, corria à Vila
Mimosa, descarregando nas meninas o ardor de sua fúria.
A vida de Tácio estava um caos. Não tinha mais luz nem
gás no apartamento e havia duas ações contra ele: da financeira
e do proprietário. Não respondera a nenhuma delas. Com tudo
o que estava acontecendo, onde arranjaria dinheiro para pagar
um advogado? Não possuía nada de valor que pudesse penhorar
para saldar suas dívidas. Os poucos móveis e utensílios que tinha
haviam sido quase todos vendidos para comprar cocaína.
Enquanto não era condenado, ia vivendo, até que o pusessem
na rua. Aí então pensaria no que fazer. Talvez virasse mendigo,
talvez assaltante. Não, nem isso poderia ser, já que não tinha
condições nem de comprar uma arma. Podia puxar carros. Sim,
era isso. Os toca-fitas estavam em alta, davam sempre um bom
dinheiro. Não lhe importava onde iria dormir. O que não podia era
ficar sem a droga.


Estava pensando assim quando avistou, do outro lado da rua,
Geórgia, que caminhava sozinha. No princípio, pensou que se tratasse
de uma ilusão causada pela droga, mas depois se certificou de que
não era. Realmente, o que via era a noivinha de Júlio, toda gostosa
em seu jeans apertado. O desejo de sempre retornou com toda fúria.
Passou a língua nos lábios, imaginando que era o corpo de Geórgia.
Estranhou vê-la passar sozinha, imaginando se não teria
brigado com o namorado. Queria desesperadamente tocá-la,
contudo ela estava longe, inacessível. Consultou os bolsos, à
procura de alguma migalha, mas eles estavam vazios. Naquele
dia, teria de se virar sozinho, o que fez ali mesmo, já que não tinha
nem dinheiro para correr à Vila Mimosa.
Na outra noite, o mesmo aconteceu, como na seguinte e na
próxima. Ela vinha sozinha, do outro lado, fora de seu alcance.
Junto a ele, Damien quase desesperava, vendo perder-se a oportunidade
de induzir o outro ao ato criminoso. Até que, na sexta-feira,
a sorte pareceu obrar a seu favor. Pouco antes da hora de Geórgia
passar, um vendaval atingiu a cidade, fazendo escurecer o céu
com a ameaça de chuva.
A ventania levantava areia, arrastava folhas, sacudia as árvores
com fúria. Os olhos de Tácio ardiam com a poeira, quase
levando-o a desistir. Todos os outros haviam ido embora, deixando
a praça praticamente deserta. Apenas ele permanecia, como
presa de um desejo insano.
Geórgia despontou na rua em frente, paralisando todos os
seus músculos. Inesperadamente, em vez de dar a volta na praça,
ela atravessou a rua correndo, preparando-se para cruzá-la, provavelmente
para encurtar o caminho e escapar da tempestade que
se aproximava. Olhou de um lado a outro, para ver se havia algum
suspeito por perto. Não viu ninguém. Nem Tácio, que se ocultara
nas sombras.
Sentindo-se segura, Geórgia avançou. Prometera a Júlio que
não andaria por ali, mas não tinha tempo de dar a volta se quisesse
chegar em casa antes da chuva. Geórgia tentou passar o mais


longe possível dos arbustos descuidados, procurando traçar uma
linha reta até o outro lado.
De longe, Tácio a acompanhava, sedento, ávido. Em seus
pensamentos, um torvelinho de ideias infames o assaltava. Tão
infames que ele não se reconheceu. Queria muito transar com ela,
contudo nunca usara de força para dormir com ninguém.
A seu lado, impaciente, Damien não dava trégua. Sabia
que aquela era a oportunidade que esperava. Tácio não devia
deixar passar a única chance de ter sob seu corpo o corpo jovem
de Geórgia.
- Veja como ela é gostosa, apetitosa - estimulava Damien.
- Imagine-se transando com ela, beijando sua boca, tocando
seus seios, seu sexo.
Tácio passava a língua nos lábios, imaginando as cenas que
Damien descrevia, seguindo-a, imperceptível. Ele ouvia a voz do
espírito, contudo não sabia de onde vinha. Chegava a vê-lo em
alguns momentos, mas sua mente confusa não o distinguia. Ele
queria e não queria colocar as mãos em Geórgia. Seria bem feito
para Júlio, um castigo pela humilhação, uma prova da infidelidade
dela, mas também uma covardia.
Temendo perder a presa, a um sinal de Damien, o espírito
de uma mulher se aproximou. Parecia meio demente, maltrapilha,
drogada feito Tácio, mas executou bem suas ordens. Colado a
Tácio, o espírito pôs-se a acariciá-lo, excitando-o ainda mais. A
respiração ofegante, o corpo ardendo de um desejo descomunal,
doentio, Tácio não conseguiu mais se conter. De um salto, cortou
a frente de Geórgia, que soltou um grito de pavor.
- Aonde vai, gatinha? - perguntou ele, os olhos caídos, a
boca constantemente umedecida pela língua ávida de prazer.
- Com licença, moço - pediu ela, sentindo o pânico se
avizinhar, maldizendo-se por ter mudado de caminho.
- Por que a pressa? Alguém a espera?
Apesar de aquele rosto lhe parecer familiar, Geórgia não o
reconheceu. Estava escuro, não conseguia enxergar direito, mas


teve a sensação de que já o havia visto antes. Devia ser um dos
muitos desocupados que vagabundeavam por ali. Pensando nisso,
sentiu medo. Encolheu-se toda, apertou a bolsa e retrucou, tentando
aparentar naturalidade:
- Eu... sim, meu noivo me espera. Olhe, ele vai vir me procurar
se eu me atrasar.
- Faz uma semana que a vejo passar por aqui sozinha. Tem
certeza de que tem um noivo?
- Por favor, moço, deixe-me ir.
- Vou deixar. Depois de conversarmos.
- Não posso conversar. Logo, logo, vai chover.
Geórgia preferiu não falar mais nada. Deu um passo à frente
e tentou passar por ele, mas não teve tempo. Com extrema força,
Tácio agarrou-a pelos punhos, virando-a rapidamente e enlaçando-
a por trás.
- Solte-me! - gritou ela. - Socorro! Socorro!
O uivo do vento impedia a propagação do som, de forma
que ninguém a ouviu gritar. A fragilidade dela, a certeza de que
executava um ato de covardia contra uma menina que nada
tinha a ver com seus problemas o fizeram hesitar. Sabia que
não era certo o que estava fazendo. Por pouco não a soltou.
Mas as investidas de Damien e do espírito da mulher, aliadas
aos efeitos da droga, transformavam seu desejo em uma espécie
de loucura insaciável.
Tácio não pensou em nada, não viu mais nada. Deitou
Geórgia no chão com violência e arrancou-lhe o jeans com uma
habilidade extrema. Ela se debatia, tentando se soltar, gritando
feito louca. Para silenciá-la, Tácio desferiu-lhe vários murros
no rosto, sem pensar que a estava machucando. Geórgia não
desmaiou, mas sentiu o corpo esmorecer, os sentidos afrouxarem,
levando-a a uma semi-inconsciência, forte o bastante para
paralisá-la, mas insuficiente para que ela não percebesse o que
estava acontecendo.


Jogada ao chão, sem se mover, Geórgia deixou-se subjugar
pela criatura que se deitara sobre ela. Não parecia um homem. Por
vezes, era como se um monstro a possuísse, com suas garras de
fogo a ferir-lhe a carne. O vaivém do corpo dele sobre o dela não
lhe causou apenas dor, mas uma humilhação sem precedentes,
uma espécie de mutilação do ser, cindido pela figura grotesca de
um torturador sem alma.
Por diversas vezes, ele a possuiu, insaciável, brutal. Quando
por fim a largou, ela já não distinguia nada ao redor. Dolorida,
machucada, aviltada, cerrou os olhos, sentindo-se desfalecer.
78

capítulo
10
Tácio nem se recordava de como chegou em casa. Lembrava-se
de ter violentado a noiva de Júlio, mas o horror que se seguiu apagara
sua memória. Como fora capaz de um ato daqueles? Desesperado,
corroído pelo remorso, atirou-se no soalho, chorando angustiado.
Jamais poderia perdoar-se pelo que fizera. Como se deixara levar
pelos instintos, a tal ponto que perdera o controle sobre si mesmo?
Aturdido, atirou-se sob o chuveiro, pensando que a água
fria pudesse lavar sua consciência. Em vez disso, trouxe-lhe uma
clareza estupenda. A todo instante, Tácio via e revia o corpo ferido
e ultrajado de Geórgia, sentia na boca o sal de suas lágrimas,
ouvia seu pranto desesperado. Em outros tempos, Tácio teria criticado,
com horror, um crime como aquele. Agora, via-se autor da
mesma infâmia que teria condenado.
Quando saiu do chuveiro, a mente estava límpida, livre dos
efeitos deletérios da droga. Desacostumado da liberdade, fruto da
ausência da coca, Tácio buscou-a novamente. Abriu a gaveta, segurou
a trouxinha, preparou a carreira. Com o canudo improvisado,
abaixou-se para cheirá-la, quando uma onda de arrependimento
atingiu-o em cheio.
Atormentado pela culpa, virou a mesinha, espalhando o pó pelo
chão. Sentou-se, abraçando os joelhos, chorando desconsolado.


Por que fizera aquilo, por quê? E se Geórgia o tivesse reconhecido?
Se contasse a Júlio o que ele fizera, o que lhe aconteceria? Seria
preso, viraria mulherzinha dos outros presidiários na cadeia. Ou
pior, Tácio poderia matá-lo,
O medo da punição só fez aumentar seu remorso. De uma
forma ou de outra, acreditava que ela viria, em qualquer caso,
causando-lhe dor. Mas a dor não seria tão intensa quanto a que
ele, momentos antes, infligira naquela moça inocente.
A solução seria fugir, mas fugir para onde? Não tinha família
nem amigos, nem ninguém. Não tinha para onde ir. Tinha
de ficar e enfrentar. Mas enfrentar como? Tácio delirava, a
confusão mental o consumia. O jeito era aliviar a tensão com a
coca. Engatinhando, foi ao encontro da gaveta virada, à procura
do pó. Não havia nenhum. Esparramara a última trouxinha que
lhe restava.
Em pânico, esfregou a palma da mão pelo chão, lambendo-a
na esperança de ter arrastado um pouco da coca. Mas o pó que
veio era, em sua maioria, de sujeira, e a pouca droga ali misturada
não foi suficiente para transmitir-lhe o efeito desejado. O que
fazer? Precisava, desesperadamente, de uma cheirada.
Nada mais lhe restava para vender. De seu, só o que tinha
era o corpo. A ideia lhe trouxe desgosto, Tácio não gostava de
homens. A fissura, no entanto, era maior. Depois de alguns minutos
de hesitação, enxugou as lágrimas, vestiu-se e saiu.
Não conhecia muito os redutos gays, contudo ouvira histórias
de lugares onde tudo acontecia. O banheiro da Central10 era um
deles. Não tinha dinheiro nem para o ônibus, mas acabou conseguindo
uns trocados depois de amedrontar um casal de velhinhos
com a sua figura assustadora.
Foi mais fácil do que ele imaginara. Logo de cara, um
sujeito fortão o abordou, confundindo-o com um michê. Em
troca de uma boa quantia, fez tudo o que o homem lhe pediu.
10 Estação de trem Central do Brasil.
80


Estava tão desesperado pela coca que nem conseguiu esperar
até chegar em casa. O próprio sujeito lhe indicou um traficante
por ali, perto da Central.
A muito custo, Tácio conseguiu se controlar para não cheirar
no meio da rua. Com a droga no bolso, partiu desabalado para
casa. Assim que entrou, preparou a carreira avidamente. Como o
dinheiro fora bastante, comprou cerca de meio grama, disposto a
cheirar tudo de uma só vez.
Ao aspirar a droga pura11, sentiu-a diretamente em seu cérebro.
Pensou que uma euforia fortificante o retiraria da depressão,
mas, para sua surpresa, não foi o que aconteceu. Primeiro veio
uma agitação desconhecida, voraz, inquietante.
Um suor frio umedeceu rapidamente toda a sua pele,
enquanto visões estranhas desfilavam diante de seus olhos. Um
homem encostado na parede, braços cruzados, olhava para ele
sem qualquer expressão. Junto a ele, uma mulher rota, maltrapilha,
presenteou-o com um sorriso desdentado.
Tácio estremeceu. Julgava-se vítima de um delírio, sem
saber que entrara em contato direto com o astral a seu redor.
Ali,*deu de cara com Damien e sua criada. Não o conhecia,
contudo, ele não lhe parecia estranho12. Damien o seguira
desde o momento do estupro, curioso para saber o que aconteceria
com ele.
De repente, a respiração de Tácio pareceu descompassar.
Batidas aceleradas davam a impressão de que o coração estava
prestes a disparar peito afora. Em poucos segundos, Tácio perdeu
o controle e desabou no chão, a boca espumando, repetidos
espasmos sacolejando seu corpo. Uma dor aguda, inenarrável,
11 Quanto mais pura a cocaína, maior a possibilidade de overdose. Nesse caso, a quantidade necessária varia
entre as pessoas, situando a dose fatal entre 0,2 e 1,5 grama.
12 Muitos dos delírios causados pelo uso da cocaína e outras drogas provêm do contato com o mundo astral,
já que a substância, tóxica para o organismo, rompe as camadas energéticas protetoras, aguçando a sensibilidade
e, consequentemente, propiciando a percepção do universo sutil. Infelizmente, o uso contumaz das
drogas, associado a processos de desequilíbrio do ser humano, magnetiza espíritos menos esclarecidos,
com os quais o viciado passa a conviver regularmente.
81


trespassou o seu peito, levando o coração a desistir de bater e,
com ele, Tácio a desistir de viver.
Ao contrário de Tácio, Geórgia não desistia da vida. Recobrados
os sentidos, não conseguiu se levantar, permanecendo quieta, com
medo de se mover e sentir mais dor. Esperou a chuva, que não
veio, até que o vento se acalmou e, com essa quietude, caiu num
torpor reconfortante.
Enquanto isso, Cléia se preocupava. As horas se passavam,
e nada de Geórgia aparecer. A todo instante consultando o relógio,
pôs-se a rezar, presa de inexplicável apreensão. Em dado
momento, não conseguindo mais se conter, foi para o portão, na
esperança de vê-la chegar. Em vez dela, Júlio apareceu de táxi,
ainda carregando a mala de viagem.
- Júlio, por Deus, Geórgia não chegou ainda em casa - ela
se apressou em dizer. - Estou morta de preocupação.
- O quê?
- Ajude-me, por favor. Vamos à polícia.
- Que polícia, que nada - disse ele, largando a mala do
lado de dentro do portão. - Vou procurá-la eu mesmo.
- Vou com você.
Cléia fechou a porta e correu com Júlio para a rua. No caminho,
pediu auxílio a uns rapazes da vizinhança, que se dispuseram a ajudar.
- Vamos refazer o caminho daqui até o curso - orientou ele.
Dadas as instruções, cada um partiu em uma direção. Júlio,
aflito, seguiu com Cléia pelo meio da praça. Embora fosse sexta-
-feira, a ventania espantara os frequentadores da boca de fumo,
que aos poucos começariam a retornar. Júlio tinha de ser rápido,
se quisesse encontrar Geórgia antes que o lugar enxameasse de
marginais e viciados.
Caminhando pela praça feito louco, Júlio gritava o nome de
Geórgia. A seu lado, Cléia não fazia nada além de rezar. Estava tão


aflita que a voz embargava toda vez que pensava em pronunciar
o nome da filha. De qualquer forma, suas orações iluminaram o
local onde Geórgia jazia, semi-inconsciente, e os olhos maternos
de Cléia foram instintivamente direcionados para lá.
Foi um choque ver o corpo nu da filha todo machucado.
Ela soltou um grito agudo, atraindo a atenção dos demais. Júlio,
mais próximo, foi o primeiro a chegar, quase desmaiando ante
a visão lastimável de sua Geórgia. Pensando rapidamente, tirou a
camisa e cobriu o seu corpo da melhor forma possível. Os outros
rapazes vieram correndo, mas se afastaram ao perceber que ela
estava desnuda.
Em meio à choradeira, Júlio ergueu-a delicadamente no colo,
levando-a em direção a sua casa.
- Ela tem que ir ao hospital - ouviu alguém dizer.
Júlio não sabia como, mas, de uma hora para outra, estava
dentro de um táxi, ao lado de Cléia, levando Geórgia para o
hospital. Ela foi atendida na emergência, onde Cléia e Júlio não
puderam acompanhá-la.
- O que foi que houve com a minha filha? - choramingou
Cléia.
- Eu bem que avisei para ela não passar por aquela praça.
Tiveram de aguardar muito tempo até que uma médica
aparecesse para lhes dar notícias. A revelação de que Geórgia fora
estuprada causou angústia em Cléia e revolta em Júlio.
- Não foi só o estupro. Ela foi brutalmente espancada, teve
duas costelas quebradas e levou quatro pontos no rosto.
- Minha Nossa Senhora! - evocou Cléia.
Júlio lutava para manter a calma. Mesmo porque precisava
ser forte para confortar sua futura sogra.
- Ela está consciente?
- Está, sim.
- Podemos vê-la?
- Podem. Avisei que vocês estão aqui, e ela pede para
primeiro falar com a mãe. Depois, você pode entrar.


A contragosto, Júlio foi obrigado a conter a impaciência e
aguardar. Esperava que Geórgia não pensasse que aquele estupro
mudaria algo entre eles. O amor que sentia por ela estava acima
daquelas coisas.
Mesmo assim, por uma ínfima fração de segundos, imaginou
o que diria Anselmo se soubesse do ocorrido. Com seu moralismo
exacerbado, na certa, colocaria em dúvida a isenção de Geórgia.
E para ele seria um desconforto ouvir os comentários maldosos
de Anselmo ou de qualquer outro. Pensando nisso, achou melhor
ocultar a verdade. Ninguém na agência precisava saber.
Um telefonema foi suficiente para Anselmo permitir que Júlio
faltasse naquele dia. Ele informara o chefe de que Geórgia havia
sofrido um acidente e estava no hospital. Anselmo lamentou o
ocorrido, perguntou se estava tudo bem e ofereceu-se para ajudar.
- Não é preciso - dissera Júlio. - Ela agora está passando
bem. Precisa de repouso, mas vai se recuperar.
- Em que hospital ela está? Quero mandar-lhe flores.
Júlio deu o nome do hospital, acreditando que Anselmo lá
não compareceria. E não compareceu. Em seu lugar, mandou
Bianca, com quem Geórgia se dava bem. Bianca chegou abraçada
a um ramalhete de rosas brancas. Deu o nome de Geórgia,
subindo direto a seu quarto. Bateu na porta, e Cléia atendeu.
- Pois não? - indagou, solícita.
- Aqui é o quarto da Geórgia?
- É, sim. Você é amiga dela?
- Mais ou menos. Sou colega de trabalho do Júlio. Vim
prestar solidariedade em nome de todos da agência.
- Muita gentileza de vocês - emocionou-se Cléia, dando
passagem a Bianca. - Pode entrar, mas em silêncio, porque ela
está dormindo.
- A senhora é a mãe dela?
84


- Sou.
Ao olhar para Geórgia, Bianca levou um tremendo susto com
sua aparência. Ela estava muito machucada, cheia de hematomas,
respirando com dificuldade.
- Jesus! - exclamou. - Que tipo de acidente ela sofreu?
- Você não sabe? - Bianca meneou a cabeça. - Então
vou deixar que ela mesma lhe conte. Agora, com licença. Vou
pedir à enfermeira um jarro para colocar essas flores.
Logo que Cléia saiu, Júlio entrou, levando imenso susto ao
ver Bianca sentada no sofazinho embaixo da janela.
- Bianca... - balbuciou. - O que faz aqui? Disse que não
era para ninguém vir.
- Anselmo me mandou trazer umas flores. A mãe de Geórgia
foi buscar um jarro para colocá-las.
- Olhe, agradeço muito a preocupação de vocês, mas não
precisava - protestou ele, com ar ansioso. - E agora, acho que
você já pode ir.
- Por que a pressa? Gostaria de falar com Geórgia.
- Não se preocupe, direi que você esteve aqui.
- O que é que há, Júlio? Por que não quer que ninguém a veja?
- Quem foi que disse isso?
- Não precisa dizer. Basta ver como você está agindo.
Ele olhou para ela como quem não vê saída. Puxando-a pelo
braço, levou-a para fora.
- Posso confiar em você?
- Pode.
Cléia passou de volta com as flores e sorriu para eles,
entrando no quarto rapidamente. Assim que a porta se fechou,
Júlio esclareceu:
- Geórgia foi estuprada.
- Meu Deus! - horrorizou-se ela, cobrindo a boca com a
mão. - Como foi isso?
- Na sexta-feira, quando voltei de viagem, dona Cléia me
chamou preocupada.


Em breves palavras, Júlio narrou tudo o que havia acontecido.
- E você quer manter isso em segredo?
- É o que eu gostaria, porque pode ser embaraçoso para
Geórgia-afirmou ele, ocultando que também se sentia constrangido.
- Tem razão.
- Mas o caso é que esteve aqui um detetive. A direção do
hospital teve que informar à polícia, e fomos avisados de que haverá
um inquérito.
- Então, sua ideia de manter o acontecido em segredo não
vai adiantar.
- Vai, se você não disser nada. Quem, lá na agência,
frequenta a polícia?
- Ninguém. Mas não saiu no jornal?
- Sair, saiu. No jornal de ontem, na página policial. Só que nós
não permitimos que divulgassem nem o nome, nem a foto de Geórgia.
- Ainda assim, essas coisas acabam sendo descobertas.
- Vou fazer de tudo para que isso não aconteça. Por isso é
que peço sua ajuda. Não conte a ninguém.
- Não vou contar. Pode confiar em mim. Se fosse comigo,
também não gostaria que ninguém soubesse.
- Obrigado, Bianca. Você é uma boa amiga. E agora, gostaria
de falar com ela?
- Se possível.
Geórgia já estava acordada, tomando a sopa que a enfermeira
acabara de trazer. Sorriu quando Bianca entrou, agradeceu
as flores.
- Você não precisava ter-se dado todo esse trabalho -
falou pausadamente, para não provocar dor.
-Trabalho nenhum. Ficamos preocupados com o seu acidente.
- Júlio lhe contou o que aconteceu? - Ela assentiu. - Mas
estou bem agora.
- Ainda bem que está num bom hospital.
- Geórgia tem plano de saúde - comentou Cléia. - É
fundamental nos dias de hoje.


- Você me parece bem melhor - observou Júlio, alisando-
-lhe os cabelos.
- E estou. Quando será que poderei ir embora?
- O médico falou hoje à noitinha. Estamos só esperando
que ele apareça para lhe dar alta.
- Sério? Até que enfim! Nada como a minha casa.
À medida que Geórgia ia falando, Bianca a observava. Esperava
encontrar uma moça deprimida, acabrunhada, sem vontade
de conversar. Em vez disso, Geórgia parecia até bem falante, dado
o estado em que se encontrava.
- Aquele policial esteve aqui de novo - informou ela a
Júlio. - Na hora em que você foi telefonar.
- E aí?
- Queria saber se eu me lembrava dafisionomia do agressor.
- O que você disse?
- Que não. Mas a verdade é que ele não me era estranho.
Sei que já o vi em algum lugar, só não me lembro onde.
- Será?
- Estava escuro, posso ter-me confundido. Mas que ele me
pareceu familiar, isso pareceu.
- Não pense nisso, querida - aconselhou Júlio, que não
tinha interesse em que ela identificasse o sujeito, para evitar que o
caso chegasse até a Justiça. - O que importa agora é que passou.
Não vale a pena alimentar desejos de vingança.
- Não acho que seja vingança Geórgia ajudar a prender
o criminoso - objetou Cléia seriamente. - Quem escolhe o
caminho do crime tem que assumir as consequências. O que
ele fez não é certo. E depois, vai evitar que ele faça isso com
outras moças.
- Embora concorde com a minha mãe, não sei se tenho
forças para lidar com isso. Não quero ter que ir à delegacia fazer
nenhum reconhecimento. Não desejo mal a ele. Na verdade, até
o perdoo, porque acho que ele agiu por instinto e ignorância. Mas
não conseguiria ficar diante dele novamente.


- Você o perdoa? - indignou-se Bianca. - Geórgia, como
pode? O homem violentou você, espancou-a, quase a matou, e você
diz que o perdoa? Eu jamais perdoaria quem fizesse isso comigo.
Torceria para que o atirassem na cadeia e jogassem a chave no mar.
- Pois somos diferentes, então. Não acredito que alguém que
conhece as verdades de Deus aja dessa forma. O homem que me
fez isso é um iludido, um fraco, um ignorante das coisas do espírito.
- E daí? Isso não justifica.
- Não, mas atenua. No fundo, é um pobre coitado, uma
alma perdida, atormentada. Mamãe e eu temos rezado por ele.
- Vocês o quê? - até Júlio se espantou.
- Temos rezado por ele, sim - reforçou Cléia. - Veja minha
filha. Está bem cuidada, junto da família, cercada de amigos. E aquele
infeliz? Aposto como está sozinho, carente de pessoas que verdadeiramente
lhe queiram bem. O que ele fez foi um atentado contra as
leis da natureza. Caberá a ele, no futuro, restabelecer a desarmonia
que provocou. Para Geórgia, contudo, é diferente. Ela, depois disso,
com certeza será uma pessoa melhor do que já era antes.
- Não compreendo - indignou-se Bianca. - Eu jamais
seria a mesma depois de uma coisa dessas, de tanto ódio que
ficaria. E, se rezasse por alguma coisa, seria para que um caminhão
passasse por cima dele quando menos esperasse.
Uma troca de olhares entre Cléia e Geórgia foi suficiente para
estabelecer o silêncio. O rumo da conversa estava lhes fazendo
mal. Bianca percebeu que havia se excedido, mas não se desculpou.
Seguindo a trilha do orgulho, manteve-se calada.
- Bom, acho que já está na hora de Bianca voltar ao
trabalho - anunciou Júlio. - Diga a Anselmo e a todos que agradecemos
muito a visita e as flores. Amanhã estarei lá.
- Ótimo. Estimo as melhoras, Geórgia. E foi um prazer
conhecê-la, dona Cléia.
-- O prazer foi todo meu. Obrigada.
Bianca deu dois beijinhos no rosto de Geórgia, sorrindo
sem jeito.


- Cuide-se. E trate logo de sair dessa cama.
- Obrigada.
Júlio acompanhou-a até a porta, doido para livrar-se dela.
Bianca também não via a hora de ir embora, levando consigo seus
pensamentos críticos. Nada a surpreendera tanto quanto a reação
de Geórgia. O estupro fora inevitável, imprevisível, mas justificar o
que o delinquente fizera não era nada lógico.
Só se o estupro não fora bem como Geórgia contara. Júlio
dissera que a haviam encontrado desfalecida perto de uma boca
de fumo. Será que ela era viciada? Ou, quem sabe, não gostava de
fumar um baseado de vez em quando?
Na certa, fora isso mesmo. Júlio estava fora, viajando a semana
toda. Sozinha, sentindo falta de sexo, resolveu se consolar na
maconha. Foi à boca de fumo, encontrou o malandro dando sopa,
levou uma cantada. Mas, na hora do vamos ver, deve ter batido um
remorso, e ela desistiu. Só que o sujeito, excitado com a perspectiva
do sexo fácil, não aceitou, forçou a barra e acabou se excedendo.
Sim, devia ser isso. Geórgia, com aquela cara de santinha, devia
ser da pá virada. Ela fazia questão de sempre parecer a boazinha,
mas o que Bianca sabia dela afinal? Nada. O conhecimento que tinha
da outra era supérfluo, só se encontravam em festinhas do banco.
Coitado do Júlio. Agora compreendia por que ele se esforçava
tanto para manter o estupro em segredo. No fundo, devia ter a
mesma desconfiança, mas, por amor, preferia acreditar na versão de
Geórgia. Logo ele, um homem tão correto, respeitador dos valores
morais, fora se apaixonar justo por uma irresponsável feito Geórgia.
A história fora montada na cabeça de Bianca, dando a
Geórgia julgamento e condenação. No fundo, Bianca criara uma
situação fictícia bem de acordo com sua própria personalidade.
Fizera uso da maconha algumas vezes e se deitara com muitos
homens. Inconscientemente se recriminando pelo que fizera,
apontava o dedo para Geórgia e transferia para ela a censura que
gostaria que alguém lhe endereçasse.
89


Capítulo
11
Damien não compreendia como alguém podia ser tão burro.
Então Tácio não via que se tornara escravo do vício? Só os espíritos
altamente ignorantes se deixavam levar por aquela ilusão.
Assim como os chefões do tráfico não costumavam se drogar,
os espíritos mais maliciosos também não o faziam. Incentivavam os
otários encarnados a aderir ao uso das várias substâncias entorpecentes
e facilitavam o acesso de espíritos de viciados, para que
extraíssem a essência volatizada e, assim, experimentassem a
sensação de que se drogavam também. Com isso, mantinham-
-nos aprisionados, usando-os como joguetes para a realização de
suas tarefas infames.
Quando Tácio abriu os olhos, não se encontrava mais em sua
casa. Não reconheceu o lugar em que estava. Era um catre sujo,
numa espécie de enxovia. Sentiu um formigamento pelo corpo,
uma agitação fremente o assaltou. Era falta da droga, só podia ser.
Angustiado, pôs-se a caminhar de um lado para outro, buscando
uma saída, quando a porta se abriu e Damien apareceu.
- Que idiotice, hein? - zombou ele. - Como é que você foi
fazer uma coisa dessas?
- Perdão, mas eu o conheço?
- Não se lembra de mim?


Tácio puxou pela memória, até que confirmou:
- Você é o cara que me acompanha e às vezes some, não é?
- Engraçado - riu ele. - Mas é isso mesmo. Me chamo
Damien.
- Por que faz isso? E onde estou?
- Calma, uma coisa de cada vez.
Damien desembrulhou um pacotinho que trazia oculto nas
mãos, dele retirando um punhado de pó branco.
- O que é isso? - indagou Tácio, sentindo a garganta áspera
e passando a língua pelos lábios.
- O que você acha que é?
- Coca?
- Exatamente. Mas venha logo, antes que ela se evapore.
Mesmo sem entender, Tácio obedeceu. Estava ávido para
cheirar. Depois da inalação, seu corpo relaxou, trazendo a já tão
conhecida sensação de euforia.
- Sente-se melhor? - perguntou Damien.
- Muito melhor, obrigado. E agora, se não se importa, pode
me dizer onde estou?
,- Você é mesmo um idiota, não é? Não se lembra do que fez?
A lembrança ressurgiu com violência, levando-o a desabar
sobre o catre.
- Geórgia... o estupro... Estou preso?
- Mais ou menos.
- Que tipo de cadeia é essa?
- Seguinte: você morreu. Tomou uma overdose de coca e
desencarnou.
- Eu o quê?
- Morreu, e eu o trouxe para cá, para minha cabana. Não
adianta chorar, porque sabe que é verdade.
- Mas há pouco você me deu uma carreirinha para cheirar.
Como isso é possível?
- A carreirinha, como você chama, tive que apanhar de uns
trouxas que se drogavam lá na Terra. Não é física, é só a essência


da droga. Quando percebi que você estava acordando, corri lá e
apanhei esse fluido, voltando às pressas antes que ele se dissipasse.
- Meu Deus!
- Se você sentisse essas palavras com a força com que as
pronunciou, não estaria aqui.
- Minha vida toda se foi - lamentou-se. - E agora? O que
vou fazer?
- Você há de convir que uma vida do jeito daquela que você
levava não serve para nada. Acho que está muito melhor agora.
- Eu não queria morrer.
- Se não quisesse, não teria feito o que fez.
- Eu não fiz nada. Se tomei uma overdose, foi sem querer.
- Conversa! Ninguém morre sem querer. A alma escolhe,
meu amigo, mesmo que à nossa revelia. E você escolheu ir embora
daquele jeito. Quem mandou se sentir culpado?
- Pobre Geórgia - arrependeu-se verdadeiramente. - O
que foi que eu fiz?
- Não se lamente. Na hora, não foi bom?
- Nem consigo me lembrar.
- Foi bom. Eu sei porque também estava lá e aproveitei.
- Aproveitou como?
- Vou ensinar tudo a você. Você vai trabalhar comigo. Atílio
me mandou escolher alguém para me ajudar, e escolhi você.
- Ajudar em quê?
- Você não estuprou a moça? - Tácio assentiu, apalermado.
- Pois agora vai me ajudar a cuidar dela.
- Cuidar dela, como?
- Ela vai ter um filho, imbecil.
- Um filho? Eu vou ser pai?
- Dá para parar de repetir tudo o que eu falo? Você deu o
sêmen, só isso. Quem vai criar o menino é ela.
- Vou ter um menino?
- Não, idiota, não vai. Ela vai ter. Você já morreu, não pode
mais ser o pai da criança.


- Você disse que quer que eu o ajude a cuidar dela. Como?
- Vou explicar. Isso aqui é como um quartel. Tem general,
capitão e tudo mais. Você é como um soldado raso, e eu sou seu
superior. O general é o Atílio, que você, provavelmente, nunca vai
ver, porque ele não lida com a ralé. Atílio é quem dita as ordens
por aqui. Ele as transmite a mim e a outros na minha posição, e
nós tratamos de executar o que ele manda. No momento, o que
ele quer é que eu tome conta para que nada de mau aconteça a
Geórgia e ao bebê. Para isso, deu-me liberdade de escolher uns
criados. E eu escolhi você.
- Se ele quer que cuidemos de Geórgia e da criança, então,
ele deve ser uma boa pessoa.
- Boa pessoa? - ironizou, às gargalhadas. - Deixe só
Atílio saber disso. Escute bem, otário, e aprenda. Ele não é boa
pessoa. Ninguém aqui é. Nem você.
- Não sou mesmo...
- É claro que não - reafirmou Damien, cujo interesse era
manter o sentimento de culpa de Tácio, para que ele não pensasse
em sair dali.
- Foi isso que mereci por ter estuprado Geórgia?
- E por ter se viciado e tomado uma overdose. Agora chega
de conversa! Precisamos trabalhar. Se você me servir direitinho,
vou protegê-lo e ensiná-lo a sugar, pessoalmente, a coca dos
encarnados. Senão, vou entregá-lo para servir de escravo.
- Como isso é possível?
- Sabe os trabalhos de magia?
- Magia? Tipo macumba?
- É. Tem uns que são barra pesada, e quem os executa,
realmente, é a escória feito você. O chefão, que é quem faz o trato,
fica com o pagamento. A gente, a quem são passadas as ordens,
recebe uma parte, e você, que faz todo o trabalho sujo, fica com
os restos. Entendeu?
- Mais ou menos.


- Tudo bem, com o tempo você aprende. Agora venha, vou
tirá-lo daqui. Atílio me deu permissão para levá-lo comigo.
- Esse Atílio... Ele sabe quem sou eu?
- É impossível esconder alguma coisa de Atílio. Ele sabe
quem você é, o que fez e tudo o mais. Por isso me deixou ficar com
você, confiando em que eu o transformarei em um bom soldado.
Não vá me decepcionar, ou vai virar sugador de bosta.
- O que é isso?
- É como chamamos a escória que suga os restos dos
restos dos restos dos trabalhos de que lhe falei. É quem fica com a
parte podre do lixo. Mas não se preocupe. Se fizer direitinho o que
eu mandar, você terá até chances de crescer aqui. E o pagamento
é bom: coca fresquinha todo dia.
Depois de acomodar Tácio em sua cabana, Damien foi prestar
contas a Atílio. Era fundamental que, todos os dias, ele fizesse
um relatório. Atílio ficou satisfeito em saber que ele conseguira
capturar o estuprador. A ligação energética do pai da criança
ajudaria a romper a aura brilhante que circundava a mãe, já que
Mizael encontraria mais afinidade com as vibrações de Tácio.
- Só não quero que o deixem se viciar - alertou. - Não
quero a mente de Mizael comprometida com os efeitos deletérios
da cocaína ou de qualquer outra droga.
- Não se preocupe, Atílio, isso não vai acontecer.
- Cuidado! O pai dele é viciado e continua sendo aqui. Não o
deixe extrair essência do pó perto de Mizael nem permita que ele lhe
transmita nem sequer um mínimo desejo de experimentar qualquer
droga. Queremos que muitos se viciem, mas não Mizael.
- Já entendi, chefe.
- Só mais uma coisa. A garota está noiva, não está?
- Sim. De um moço chamado Júlio.
- E vai se casar?
- É o que parece.
- Que tal o rapaz?


- Não é uma pessoa ruim, mas é bajulador, ambicioso e
preocupado com as aparências.
- Quero que você trabalhe junto a ele. Faça o que for possível
para que ele não impregne Mizael de lições de moral.
- Acho que isso não será difícil. O cara é moralista, mas só
da boca para fora. Por dentro, o que quer é subir na vida.
- Ótimo! Já chega a mãe que arranjaram. Quanto mais
conseguirmos aproximar o pai do nosso lado, mais próximos estaremos
do sucesso.
- Entendi, chefe. Deixe tudo comigo. Garanto que ficará
satisfeito com o meu trabalho.
Atílio não deu resposta. Não tinha muita paciência para
Damien, que era tão bajulador quanto o tal de Júlio. Mas ele o
servia bem. Morria de medo de ser reduzido a nada, da tão temida
segunda morte13. Era com essa ameaça que o mantinha preso e
fiel a ele.
13 A segunda morte ocorre pela desintegração do corpo astral ou perispírito, quando o ser se eleva a dimensões
tão sutis que dele já não mais necessita, ou quando o perde nas esferas inferiores, transformando-se
numa massa condensada de energia na qual permanecem, em estado latente e de semi-inconsciência,
todos os atributos do ser que antes foi.

Capítulo
12
Depois de acomodar Geórgia em casa e se certificar de que
ela ficaria bem, Júlio partiu para o trabalho, temendo o que poderia
encontrar. Pedira a Bianca que não dissesse nada, mas reconhecia
que aquilo tudo era uma fofoca e tanto.
Chegou acabrunhado, sem muito alvoroço, indo direto ocupar
seu lugar na tesouraria. Alguns colegas sorriram para ele, outros
perguntaram se estava tudo bem.
- E aí, Júlio? - indagou alguém. - Como vai a Geórgia?
- Está melhor agora, obrigado. Teve alta do hospital e está
em casa, com a mãe.
- Que coisa isso, não? Mas o que foi que houve, realmente?
- Foi... um assalto.
- Assalto? - Júlio assentiu. - Que coisa horrível! E prenderam
o bandido?
- É claro que não. Ele fugiu.
- Que pena...
Depois disso, não se tocou mais no assunto. Havia muito
trabalho a fazer. Anselmo esperava que ele encerrasse aquela
história e se concentrasse em seus afazeres. Júlio trabalhava com
afinco, tentando não pensar no que faria se a polícia descobrisse
o estuprador. O normal seria que ele desejasse que prendessem o


homem que estuprara sua noiva, mas havia muitas coisas em jogo,
e prender o sujeito não restabeleceria a dignidade de Geórgia.
Nos dias subsequentes, o assunto já havia morrido, ninguém
mais se interessava pelo incidente. Ele chegou cedo, como sempre,
logo se envolvendo nos problemas que tinha a resolver. No dia
anterior, um cliente o informara de que, ao conferir o dinheiro do
saque, recebera uma nota a menos. O saque havia sido efetuado
no caixa de Bianca, deixando-o transtornado.
Não havia ainda levado o caso a Anselmo. Queria primeiro
se certificar da veracidade da informação. Podia ser que o cliente
houvesse se confundido ou, então, que tivesse contado errado.
Era um senhor de uma idade já avançada, muito passível de cometer
erros daquela espécie. Pensava nisso quando a própria Bianca
se aproximou.
- Você viu isso? - perguntou ela, atirando um jornal em
cima da mesa.
Na mesma hora, Júlio reconheceu a foto de Tácio, deitado
no chão, de costas, olhos vidrados, sem expressão. Ergueu as
sobrancelhas, fitou Bianca sem entender e leu a notícia:
, - Encontrado ontem o corpo de um homem em seu apartamento,
já em avançado estado de putrefação. O mau cheiro atraiu
a atenção dos vizinhos, que chamaram a polícia e os bombeiros. O
homem foi identificado como Tácio Batista Ramos, 42 anos, desempregado.
A polícia suspeita de overdose de cocaína...
- Meu Deus! - exclamou Júlio. - Coitado do Tácio!
- É realmente uma pena- concordou Bianca. - Mas, enfim,
foi ele quem buscou isso.
- O que foi que houve? - era Anselmo que chegava, notando
o jornal nas mãos de Júlio.
- Foi o Tácio - esclareceu ele. - Encontraram-no morto.
Parece que tomou uma overdose de cocaína.
- Bem feito! - disse Anselmo, com desprezo. - - É no
que dá se meter com o que não deve. Ainda bem que o mandei
embora a tempo.


- Você não tem pena? contrapôs Júlio.
- Nenhuma. Ele teve o que mereceu. Onde já se viu, um
drogado? E eu nunca desconfiei.
- Acho que ele não se drogava quando trabalhava aqui.
Deve ter começado depois. Eu bem que notei algo estranho nele,
mas não sabia o que era. Provavelmente, o efeito da droga.
- Deixe para lá. Um viciado a menos no mundo. E agora,
voltem ao trabalho
Apesar de não concordar com o comentário de Anselmo, Júlio
não o contradisse. Não queria que ele soubesse o quanto lamentava
o ocorrido com Tácio. Por mais que ele próprio houvesse buscado
seu fim, ninguém merecia passar por aquilo. Sentiu uma pontada de
remorso, achando que poderia tê-lo ajudado, mas a única ajuda que
Tácio queria era dinheiro, na certa, para se drogar.
- Quer ir almoçar? - indagou Bianca, mais tarde,
Até que seria uma boa ideia almoçar com ela, para averiguar
a história do sumiço do dinheiro. Júlio ligou para Geórgia, avisando
que não almoçaria em sua casa naquele dia. Foi com Bianca a um
restaurante de comida caseira, onde seus colegas costumavam
comer. Não queria que ninguém imaginasse o que não deveria.
- Como está a Geórgia? - interessou-se ela,
- Melhorando - ele fitou Bianca, em dúvida sobre o que
deveria falar. - Gostaria de lhe agradecer por não ter contado
nada a ninguém. Seria muito embaraçoso para mim.
- Ora, não foi nada. É para isso que servem os amigos.
Prometi guardar segredo e não sou de quebrar promessas.
Ele agradeceu com um sorriso, sentindo a encruzilhada em
que se metera. Em dívida com Bianca, como poderia formalizar
uma acusação de furto contra ela? Talvez o homem estivesse enganado,
só podia ser isso. Na certa, não sumira dinheiro nenhum.
Ele esperaria mais alguns dias para ver o que ia acontecer. Se
ninguém falasse mais nada, daria o episódio por encerrado.
- Vamos torcer para que ela não esteja grávida - prosseguiu
Bianca.

- Como é que é? - indignou-se ele. - Grávida?
- É possível, não acha? Ou o cara usou camisinha?
- Bianca! - horrorizou-se. - Como pode dizer essas coisas?
- Não quero chocá-lo, mas é uma possibilidade que você
deve admitir e para a qual deve estar preparado.
- Isso não pode acontecer. Não vai acontecer.
- Como é que você sabe? Por acaso Geórgia tem algum
problema que a impeça de engravidar?
- Não... que eu saiba, não.
- Então, meu amigo, sinto lhe dizer, mas vocês correm esse
risco.
- Não! Jamais! Isso é impossível!
-- Não é impossível. Acho que vocês já deviam começar a
pensar no que fazer, caso isso aconteça.
Júlio não respondeu. Não podia sequer conceber aquela
ideia. Tornar-se pai do filho de um estuprador era inimaginável.
Nessa hora, Damien entrou com Tácio. Foi fácil encontrar Júlio
no restaurante, bastando seguir suas ondas mentais, algo que ele
aprendera a fazer. Só o que não conseguia era a telepatia à distância.
como a que Atílio mantinha com Mizael.
- Lá está ele - apontou Damien, puxando Tácio para lá.
- E quem é a gostosa que o está acompanhando?
- É a Bianca. Trabalha na agência.
- Vamos ver que tipo de pessoa ela é.
Não foi difícil para Damien perscrutar a mente de Bianca, mesmo
porquesuaauracordechumbo indicava, possivelmente, mentira
e egoísmo. Logo descobriu o uso esporádico da maconha, os muitos
homens com quem se deitara, os pequenos e imperceptíveis furtos
que cometia quando ninguém estava olhando.
- Essa é das nossas - felicitou-se Damien. - Pode ser
que nos seja útil.
- Como você sabe disso?
- Venha cá, que lhe mostro. - Tácio aproximou-se.
- Agora olhe bem entre os olhos dela. Concentre-se. Feche seus
99


olhos por uns instantes. Agora abra-os. Qual a cor que você vê
ao redor dela?
Tácio esforçou-se, mas não viu nada. Por insistência de
Damien, continuou o exercício, até que, da terceira vez, conseguiu
- Vejo um cinza escuro! - animou-se. - Consegui?
- Viu só? É apenas uma questão de treino. Agora venha,
não podemos perder a conversa deles.
- Não posso permitir que Geórgia dê à luz uma criança
nessas circunstâncias - Júlio ia dizendo. - E acho que nem ela
vai querer.
Tácio lançou a Damien um olhar de interrogação. O que será
que ele queria dizer com aquilo?
- Vamos ouvir - ordenou Damien, lendo a pergunta em
seu pensamento.
- Como você pensa em impedir? - prosseguiu Bianca. -
Vai obrigá-la a tirar? Isso é crime.
- Ouvi dizer que, em casos de estupro, o aborto é autorizado
por lei.
Ao lado deles, Damien quase deu um soco em Júlio. Aborto,
nem pensar! Atílio ficaria furioso se algo assim acontecesse. Mizael
garantira que a determinação da mulher era forte, que ela aceitaria
o filho, sem pensar em abortá-lo. Era só o que faltava, agora, aquele
paspalho do noivo atrapalhar tudo.
Embora fosse esse o desejo secreto de Damien, ele não
ousava sequer pensar, temendo que Atílio descobrisse. Tinha de
fazer o que o chefe lhe pedira, a qualquer custo.
- Será que ela vai abortar o meu filho? - imaginou Tácio,
penalizado.
- Ouça bem, idiota - irritou-se Damien. - Ele não é seu
filho. No momento, tem que ser filho daquele palhaço ali. E se
isso não acontecer, não apenas eu, como você também irá pagar
muito caro.
- Eu?! Não tenho nada com isso!
100


- Você estuprou a menina sob o meu comando e agora
depende de mim. Lembre-se de que fui eu que o salvei. Você me
deve isso. Se eu falhar, você irá comigo.
Tácio chorou de mansinho. Arrependia-se de tudo o que
fizera em vida. Da fraqueza na separação, do vício, do estupro.
Arrependia-se até de ter se deixado envolver por aquele espírito
odiento que se julgava seu dono. Queria impedi-lo, mas faltavam-
-lhe forças para resistir.
- Não quero que ela aborte - murmurou. - Bem ou mal,
é o meu filho que ela carrega. Por mais que você diga que não,
eu sou o pai dele. Posso não estar mais vivo para acompanhar o seu
crescimento, mas quero o melhor para ele.
- O melhor para ele? - desdenhou Damien. - E o que
seria isso?
- Quero que ele estude, trabalhe, se case com uma moça
decente. E, principalmente, que nunca se envolva com drogas.
A gargalhada que Damien soltou foi tão grande que o assustou.
Tácio se encolheu, enquanto o outro revidava com azedume:
- Você é mesmo muito estúpido. Já reparou no lugar em
que vivemos? Por acaso é algum paraíso, nós parecemos defensores
da moral e dos bons costumes? Por que pensa que Atílio
quer tanto proteger o menino?
- Não sei. Não havia pensado nisso.
- É claro que não. Se tivesse colocado a cabeça para funcionar,
veria que os planos de Atílio para ele não podem ser nobres
como você pensa. Estudo? Trabalho? Casamento? Drogas? Você
acertou numa coisa: nas drogas, mas não como está pensando.
Atílio não quer que Mizael se transforme num viciado. Ele vai
chefiar o tráfico. É esse o plano grandioso de Atílio.
- Mizael?
- Seu filho. Você deve ter conversado com ele lá em cima.
Damien se referia ao astral onde fora marcado o encontro entre
ele, Geórgia, Júlio e Mizael. Havia se esquecido completamente.


- É mesmo - lembrou-se, por fim. - Conheci o rapaz, mas
não lhe prestei muita atenção. Disseram-me que eu não precisaria
cuidar dele, por isso, concordei.
- Viu no que deu? - ironizou. - Vai ter que cuidar dele,
mesmo assim.
Júlio e Bianca se levantaram para voltar ao trabalho, fazendo
cessar a conversa entre os espíritos. Saíram, mas não foram seguidos.
Satisfeito com o que descobrira, Damien retornou com Tácio.
102


Capitulo
13
Logo após o trabalho, Júlio correu à casa de Geórgia, louco
para estreitá-la em seus braços. A conversa com Bianca o deixara
perturbado, temeroso do futuro. Achou melhor não pensar mais no
assunto. Geórgia não estava grávida. Não podia estar.
- Boa-noite, dona Cléia - cumprimentou ele, sentando-se
na cozinha para um café. - Onde está Geórgia?
- No banho. Ela já vem.
- Júlio colocou o jornal que Bianca lhe dera sobre a mesa, apanhando
uma das deliciosas rosquinhas que Cléia acabara de assar.
- Dona Cléia, ninguém faz rosquinhas como a senhora -
elogiou, saboreando-a.
- Deixe disso, meu filho. Você é suspeito para falar.
Geórgia entrou na cozinha, de camisola e penhoar, caminhando
vagarosamente por causa da dor nas costelas. Ele se levantou,
solícito, beijou-a nos lábios e ajudou-a a sentar-se.
- Como está, minha linda?
- Estou bem. Um pouco cansada, mas melhorando. Acho
que, na próxima semana, poderei voltar ao trabalho e ao curso.
- Não acredito que você vai continuar com o curso.
- É claro que vou. O curso não tem nada a ver com o que houve.
- Mas, Geórgia, é perigoso!


- Vai deixar de me acompanhar?
- É claro que não!
- Então, não tem perigo algum. Não vou prejudicar o futuro
de minha carreira por causa desse incidente.
- Não foi um incidente. Foi um ato criminoso.
- Por falar nisso, aquele detetive esteve aqui outra vez -
comentou Cléia. - Queria saber se Geórgia se lembrava de mais
alguma coisa.
- Disse a ele que não... - informou ela, parando de falar
subitamente, ao dar de cara com a foto de Tácio estampada no
jornal. - Espere um pouco. Quem é esse?
Com o periódico nas mãos, ela lia avidamente a notícia.
- É o Tácio - declarou ele. - Não se lembra dele? Foi
quem fez aquele escândalo no churrasco. Morreu de overdose,
coitado.
Geórgia estava lívida. Deixou cair o jornal sobre a mesa, olhou
de Júlio para a mãe, com um assombro mudo. Seus olhos marejaram,
ela pensou que fosse desmaiar, agora se dando conta da
sensação de familiaridade que sentira ao vê-lo.
- O que foi, minha filha? - estranhou Cléia. - Está sentindo
alguma coisa?
Júlio! - exclamou ela. - Foi esse o homem que me estuprou!
- O quê? Tem certeza?
- Estava escuro, mas lembro que achei o seu rosto familiar,
embora não conseguisse me lembrar de onde o conhecia. Pensei
que talvez já o tivesse visto por ali. Mas agora, vendo sua foto no
jornal, não tenho dúvidas. Foi ele mesmo
- E agora? - indagou Cléia, apanhando o jornal de cima
da mesa para olhar a foto de Tácio. - O que faremos?
- Vamos à polícia - decidiu Júlio, rapidamente. - Geórgia
precisa contar isso ao delegado.
Toda a compaixão que Júlio sentira ao ver a foto de Tácio
no jornal transformara-se em ódio e depois em euforia. Em
outras circunstâncias, poderia apenas odiá-lo. Se vivo estivesse,
104


o próprio Júlio se encarregaria de uma vingança. Morto, porém,
Tácio lhe facilitaria as coisas. Júlio estava certo de que a morte
dele poria um fim às investigações da polícia. Sem contar que
tivera o merecido fim.
Fora um ato de vingança, só podia ser. A intenção de Tácio
era atingi-lo por intermédio de Geórgia. E conseguira. O ódio que
Júlio sentiu do ex-colega naquele momento foi imenso. Depois
de pensar rapidamente na solução para aquele problema, veio a
revolta. Ele fora amigo de Tácio, chegara a se arrepender de não
tê-lo ajudado mais. E era essa a paga que recebia.
- Maldito! - rosnou, ainda experimentando vários tipos de
sentimento ao mesmo tempo. - Ainda bem que está morto, pois
do contrário, eu mesmo o mataria.
- Não diga isso - objetou Geórgia. - Acha que eu ia
querer que meu noivo se transformasse em assassino? Tácio é um
pobre coitado, perdeu a vida por causa da droga. O que precisamos
é rezar por ele.
- Nunca mais repita uma barbaridade dessas! - vociferou.
- Proíbo-a até de pensar nele. Aquele canalha merece o
inferno, não suas orações.
- Você não sabe o que está falando - ponderou Cléia.
- Está com raiva, o que é compreensível, porque Geórgia é sua
noiva e você conhecia o sujeito. Mas não faz bem alimentar o ódio
no coração. Envenena a alma, ao passo que o perdão purifica e
liberta.
- Perdão? - protestou Júlio. - Isso é alguma piada?
Perdoar o cafajeste que fez isso a Geórgia? Nunca!
- Júlio está nervoso, mãe. Quando a raiva passar, verá que
temos razão.
- Não vai passar - corrigiu ele. - E muito me admira você,
Geórgia, não estar com ódio dele. Fico até feliz que ele tenha
morrido, e você devia sentir o mesmo.
- Não é da minha natureza odiar - contestou ela.
105


- Nem da minha! Mas o que ele fez não tem perdão. Foi
abominável, uma covardia! Ele mereceu aquela overdose, e espero
que o diabo o tenha carregado para o inferno!
- Cruz-credo! - benzeu-se Cléia. - Pare com essas heresias.
- Tudo bem, dona Cléia, perdoe-me. Acho que me excedi.
Mas é que não compreendo como vocês podem perdoar e rezar
por esse monstro.
- O perdão faz bem à alma, como disse minha mãe - esclareceu
Geórgia. - E a compaixão que sentimos pela ignorância
dele é algo natural, está em nossa forma de pensar e sentir. Não
podemos evitar.
- Vocês são muito boas - reconheceu ele, abraçando
Geórgia com cuidado, para não a machucar. - Tanta bondade
não tem lugar nesse mundo.
- A bondade tem lugar em qualquer mundo - corrigiu
Cléia. - Se todos se esforçassem para disseminar o bem, não
haveria tanta gente desequilibrada por aí.
Acho que a senhora tem razão, mas a realidade que vivemos
não é essa. O mundo é um lugar de gente má, interesseira,
egoísta. Temos que aprender a nos defender.
- Temos que aprender a compreender e modificar isso.
Todo mundo tem uma centelha boa dentro de si. Só precisa de um
incentivo para deixá-la brilhar.
- Suas palavras me emocionam, e Deus sabe o quanto eu
gostaria de acreditar nelas, mas não é assim que sinto. O que vejo
são pessoas querendo comer umas às outras, num mundo onde
o que importa é o poder.
Veio a palavra mágica, com a qual Júlio magnetizava as
forças das sombras. Assim como Atílio e muitos outros, o que ele
almejava era o poder. Em escalas diferentes, mas, ainda assim, o
poder. Júlio queria subir na vida, tinha ambição, o que era saudável
dentro dos limites competitivos da vida. Todavia, suas aspirações
iam além do desejo da conquista pessoal. Ele queria impor-se, ser
respeitado, temido.
106


- Não é assim que eu penso - discordou Geórgia. - O
que importa é o amor, e o poder sem ele exercido nada mais é que
ilusão dos vaidosos e ignorantes.
Júlio sentiu um choque percorrer o seu corpo. O pensamento
de Geórgia contradizia seus ideais, ia de encontro a todos os seus
planos para o futuro. Mas ele a amava tanto!
- Não vamos brigar, minha linda - pediu emocionado. -
Estamos todos abalados com os acontecimentos.
- Tem razão - concordou ela. - Tudo isso irá passar com
o tempo.
- Sente-se bem para ir à delegacia?
- Acho que sim, se você me acompanhar.
- É claro. Vou ligar para o delegado e informar que iremos
lá. Tenho certeza de que você será logo atendida.
Como era de se esperar, o inquérito foi arquivado após os
esclarecimentos de Geórgia. Algumas investigações ainda se
seguiram, apurando que Tácio era frequentador assíduo da praça
onde tudo acontecera. Inclusive, naquele dia, fora visto por algumas
pessoas circulando pelo local, lá permanecendo mesmo após
o início da ventania. O inquérito estava encerrado, Tácio, sepultado
e, com ele, a verdade sobre o que havia acontecido a Geórgia.
Depois de tudo resolvido, Júlio sentiu um alívio sem igual.
Parecia que várias toneladas de chumbo haviam sido retiradas
de seus ombros. Estranhamente, pegou-se ansioso para contar a
novidade a Bianca. Foi com esforço que, no dia seguinte, teve de
aguardar a hora do almoço para conversar com ela.
- Você parece muito animadinho hoje - observou ela. -
Aconteceu alguma coisa?
- Não sei se animadinho é a palavra certa. Mas aconteceu
algo muito importante.
- Quer me contar?
- Não via a hora.
Entre o alívio e a revolta, Júlio contou a Bianca o que acontecera.
Foi uma surpresa.


- O Tácio, hein! - espantou-se. - Quem diria?
- Sei que é errado, mas fiquei aliviado em ver essa história
acabar.
- Não ficou com raiva dele?
- Muita. Mas ele está morto, tudo se acabou.
- E como Geórgia reagiu?
- Com aquelas besteiras de sempre. Que ele era um coitado
e tinha que rezar por ele. Falou que o perdoava e coisa e tal.
- Não compreendo a Geórgia. Francamente, Júlio, essa reação
dela foi inesperada. Que mulher perdoa o homem que a estuprou?
- Provavelmente, nenhuma. Mas Geórgia não é uma mulher
qualquer.
- Mesmo assim, é muito esquisito. E ela nem quis acusá-lo.
Será mesmo que não o reconheceu?
- Foi o que ela disse.
- E você não acha estranho ela ter sido estuprada logo
pelo Tácio?
- Como assim?
- Quero dizer, o cara solta uma piadinha para ela no dia do
churrasco. E depois a ataca. Não é estranho?
- Que piadinha? Não me lembro.
- Ah! Ele falou alguma coisa sobre ela lhe colocar chifres.
- Ele estava com raiva.
- É claro. Mas talvez a piada não tenha sido à toa.
- O que a faz pensar assim?
- Bem... - hesitou, de forma estudada. - Tácio até que era
um cara bem-apessoado, pintoso, cheio de charme. De repente
ele pensou que poderia conquistar Geórgia, entende? Chamá-la
para sair, essas coisas.
- Não acredito! Geórgia jamais aceitaria.
- É claro que não. Mas ele era muito insistente. Você sabia
que ele me cantou diversas vezes?
- Sério?
108


- Não transei com ele porque não quis - mentiu, já que o
oposto é que havia sucedido. Fora Tácio quem nunca se deixara
seduzir pelas insinuações de Bianca. - Não achei certo, pois
ele era casado.
- Não sabia que Tácio tinha dado em cima de você.
- Pois é. Quem garante que ele não deu em cima de Geórgia
também?
- Não. Ela me teria falado.
- Pode ser que ela não quisesse preocupá-lo. Ou indispô-lo
com Tácio. Ou então... - calou-se propositalmente.
- O quê?
- Nada.
- Nada, não. Você ia dizer alguma coisa.
- Não era nada.
- Pode falar, Bianca, o que foi?
- Não quero envenenar o relacionamento de ninguém.
- Como assim?
- Geórgia é sua noiva e ama você. Logo, não tem sentido o
que pensei.
- O que você pensou? Que Geórgia gostou das cantadas
de Tácio?
- Percebi uma troca de olhares estranha no churrasco. Na
hora, não fiz mau juízo, achei que era bobagem. Mas agora...
- O quê?
Ela deu de ombros e insinuou, maldosa:
- Você mesmo disse a Geórgia que não passasse pelo
meio da praça. Por que será que ela resolveu tomar aquele caminho
justo no dia em que você não estava com ela, e logo pelo
lugar em que Tácio a esperava?
- Você acha que eles marcaram um encontro lá? - Bianca
deu de ombros e Júlio continuou: - Isso é impossível! Ela foi
estuprada!
Durante alguns segundos, ela o encarou com ar de dúvida,
até que retrucou falsamente:
109


- Tem razão, Júlio. E quer saber? Geórgia jamais faria isso
com você. Não marcaria nenhum encontro com aquele marginal.
- Por certo que não. E ela só o reconheceu ao ver a foto
dele no jornal.
- É isso mesmo. Que besteira a minha. Não ligue, Júlio, por
favor. Foi só uma desconfiança idiota. Geórgia o ama, não o trairia
com o Tácio nem com ninguém.
Bianca mudou de assunto, levando Júlio a uma desconfiança
atroz. Não era possível que Geórgia tivesse marcado um encontro
com Tácio enquanto ele estava fora. Realmente, pensando bem,
tudo era muito esquisito. Geórgia afirmara que estava muito escuro
para reconhecer o homem. Mesmo assim, ao ver a foto no jornal,
tinha certeza de que era Tácio. Como ter essa certeza se estava
tão escuro? Pior. Por que não queria colaborar com a polícia na
identificação do agressor?
A partir daquele dia, Júlio ficou inquieto, desconfiado. Era
muita coincidência ela ser estuprada justo pelo Tácio. Não, devia
ser um ato de vingança dele. Provavelmente, fora isso. Mas Geórgia
o conhecia, não teria se esquecido de sua fisionomia tão facilmente
depois do escândalo que ele aprontara. E por que ela resolvera
passar pelo meio da praça, mesmo sabendo que era perigoso,
justo nos dias em quem ele não a acompanhara?
Não era possível. Geórgia jamais o trairia. Bianca estava
enganada, não a conhecia. Mesmo assim, deixou-o suficientemente
preocupado a ponto de esquecer que, na véspera, outro
cliente o havia procurado para dizer que havia recebido dinheiro a
menos no caixa de Bianca.
110


Capítulo
14
Sentada na sala de espera do consultório da ginecologista,
em companhia da mãe, Geórgia aguardava a vez de ser atendida.
Tinha ainda muitas dores nas costelas, embora o rosto não
apresentasse marcas dos pontos. Fora isso, sintomas bastante
reveladores lhe trouxeram uma preocupação extra, ameaçando-a
com o fantasma de uma gravidez indesejável e dolorosa.
A médica entregou-lhe a requisição do exame, que ela fez
logo na manhã seguinte. À tarde, já tinha o resultado nas mãos.
Sua reação imediata foi o pranto. Não podia acreditar que aquilo
era verdade.
- E agora, mãe? - desesperou-se. - O que vou fazer?
- Não sei, minha filha - Cléia abraçou-se a ela, em lágrimas.
- Vamos orar e pedir a Deus que nos oriente.
- Júlio jamais irá aceitar uma coisa dessas.
- Você não teve culpa. Ele vai entender.
- Ah! mãe...
- Deus há de nos dar forças. Vocês vão criar essa criança
com amor. Ela não vai nem saber que foi fruto de um ato de violência.
Após o trabalho, Júlio foi à casa de Geórgia, como sempre
fazia. Ao chegar, encontrou-a na sala com a mãe, chorando, segurando
nas mãos uma folha dobrada.


- O que foi que houve? - quis saber ele.
- Vocês precisam conversar - anunciou Cléia, deixando-
-os a sós.
Ele se aproximou de Geórgia, que enxugava os olhos em um
lencinho de papel. Tomou-lhe a mão úmida, levou-a aos lábios.
- O que está acontecendo, minha linda? - perguntou ele,
estranhando o abatimento em seu rosto.
- Aconteceu uma coisa...
- O que é?
- Tome - ela estendeu-lhe o papel. - Leia.
Mesmo antes de ler, Júlio já sabia do que se tratava. Temendo
o conteúdo do papel, desdobrou-o com lentidão, como se desejasse
retardar ao máximo aquele momento de angústia. Enchendo-se
de coragem, leu em silêncio. As lágrimas afluíram em abundântia,
provocando uma dor tão pungente que ele pensou que não fosse
resistir.
- Você está grávida - constatou com pesar. - É meu?
Ela meneou a cabeça e contestou com angústia:
- Não.
- Tem certeza? - Ela assentiu. - Como pode ter certeza?
- Pelo tempo de gestação. Coincide com a data do estupro.
Você estava viajando, e fazia uns dias que não transávamos.
Júlio jogou a cabeça para trás, suspirando dolorosamente.
- Tudo bem - disse. - Ouvi dizer que, nos casos de estupro,
o aborto é permitido.
- Aborto? - repetiu atônita.
- Não se preocupe, vai dar tudo certo. Soube que nem
precisa de autorização do juiz. A gente pega o inquérito, leva ao
médico e informa que foi estupro. Ele não vai questionar, e em
pouco tempo você estará livre desse feto indesejável.
- Você não está entendendo - falou ela, andando nervosamente
pela sala. - Não quero fazer um aborto.
- Não quer? - surpreendeu-se ele. - Como assim?


- Não quero. É uma criança que tenho aqui. Um ser vivo
inocente que precisa nascer.
- Ficou louca? - berrou ele, reparando que ela repousava a
mão na barriga como se quisesse protegê-la. - Pelo amor de Deus,
Geórgia, perdeu o juízo? Isso não é uma criança. É uma aberração!
- Não fale assim - choramingou ela, sentindo o desespero
se aproximar. - A criança não tem culpa.
- E eu tenho? Por acaso fui eu que estuprei você?
- Podia ser seu filho.
- Mas não é! Você mesma disse, com todas as letras, que
não é meu.
- Mas pode ser. Podemos criá-lo com amor.
- Eu jamais criaria o filho de outro homem com amor.
Ainda mais do jeito que foi. Filho de Tácio, drogado e estuprador.
De jeito nenhum!
- Júlio, por favor, pense bem. Nós nos amamos, e a criança
não tem culpa do que me aconteceu. Ela nem precisa saber que
nasceu de um estupro.
- Mas acontece que eu sei. E por mais que quisesse, jamais
poderia amá-la.
- Não seja intransigente.
- Intransigente? Pode ser que para você seja natural criar
o filho de outro, como muitas coisas absurdas parecem naturais
para você. Mas para mim não é.
- Não quero fazer o aborto, não quero.
- Você tem que escolher. Ou tira esse feto, ou me perde
para sempre.
- Você não pode estar falando sério.
- Estou. Esse filho não é meu, não tenho nada com isso.
Não o quero em nossas vidas.
- Isso é impossível, pois ele já é parte da minha. Está dentro
de mim, é parte do que sou...
- Cale essa boca! - esbravejou ele, assustando-a pela
primeira vez na vida. - Não repita uma indignidade dessas!


- Mas é verdade. Não posso negar o que a própria ciência
afirma.
- Não me venha com essa de ciência. Assuma, pelo menos,
que você quer ficar com essa criança.
- Eu quero. Estou lhe dizendo isso desde o início.
- Por quê? Porque é filho de Tácio?
- Como assim?
- É isso, Geórgia? Você e Tácio se envolveram?
- O que está dizendo, Júlio? Não acredito. Você pensa que
Tácio e eu...
- Não sei o que pensar.
- Se essa infâmia passou pela sua cabeça, então acho
melhor você ir embora. Não temos mais o que conversar.
Na mesma hora, ele se arrependeu do que dissera. Correndo
para ela, abraçou-a, enchendo seus cabelos de lágrimas.
- Perdoe-me, Geórgia, por Deus. Não sei o que me deu
para falar isso. É que é tão difícil... E eu a amo tanto!
- Também o amo e, acredite-me, não era isso o que eu
queria. Se é difícil para você aceitar o filho de outro homem, imagine
para mim, que fui vilipendiada e ultrajada. Mas não posso fazer
o aborto. Acredito que, por um motivo que desconhecemos, esse
ser escolheu nascer assim. E nós, de alguma forma, aceitamos
recebê-lo. Temos que lhe dar essa chance.
- Você e suas fantasias. Ninguém, em sã consciência,
escolheria um destino desses. Não acredito nessas bobagens de
espíritos e reencarnação. Para mim, tudo não passa de um acaso
do destino, como um atirar de dados cujo resultado é imprevisível.
- Está enganado, Júlio. Mesmo nos dados, o resultado é o
previsto pelo universo. Não há coincidências nem acasos. Tudo é
obra do Criador.
- O Criador não nos pediria uma coisa dessas. Compreenderia
nossos motivos e nos perdoaria pelo aborto.
- Nisso eu acredito, pois Deus é amor em essência, e o
amor tudo entende e perdoa. Mas também acredito em escolhas.
114


E, se Ele nos deu essa oportunidade, por que não podemos escolher
o caminho do amor?
- Esse não é o caminho do amor. É o do sofrimento. Amor
seria se esse filho fosse meu.
- Ele pode ser seu. Basta você querer.
- Não posso.
- Se nós adotássemos uma criança, você não a amaria?
- É diferente. A adoção é voluntária. Essa criança, não. Foi
imposta a você, está sendo imposta a mim.
- Por favor, Júlio, pense bem. Nós nos amamos.
- Ponha-se no meu lugar, Geórgia. O que está me pedindo
vai além das minhas forças. Você me pede que eu aceite e compreenda.
No entanto, não quer compreender nem aceitar meus
motivos. Por que a sua vontade há de prevalecer sobre a minha?
- É do meu corpo que estamos falando.
- E do nosso futuro. Não posso mandar em você ou no seu
corpo, mas posso decidir o que é melhor para mim.
- É sua última palavra?
- Sim, é.
, - Não acredito.
- Pois pode acreditar.
- Por favor, Júlio, amo você. Não quero perdê-lo.
- Se não quer, já sabe o que fazer.
Ele fez menção de sair, mas Geórgia tentou impedi-lo:
- Não se vá ainda. Não saia daqui assim.
- Lamento, Geórgia, mas não temos mais o que conversar.
Você já conhece a minha opinião. Nosso futuro agora está em
suas mãos.
Ele nem se despediu adequadamente. Sem beijos nem abraços,
nem carícias. Simplesmente abriu a porta e saiu. Estava confuso,
transtornado, sem saber em que pensar ou acreditar, ao contrário
de Geórgia, firme em sua crença no valor da vida. Ela sabia que, por
mais que o amasse, não conseguiria fazer o aborto. Podia não ser o
seu sonho, mas era seu filho que crescia dentro dela.


Assim que Júlio saiu da casa de Geórgia, Damien e Tácio se
juntaram a ele, lendo em seus pensamentos o desejo de interromper
a gravidez. O aborto não fazia parte dos planos. Ao contrário, os
espíritos desejavam incentivar Júlio a permanecer junto a Geórgia
para dar apoio ao menino, sem estragá-lo com baboseiras de
moral nem doutrinas espiritualistas que só pregam o bem.
- Ele quer que ela tire o meu filho! - indignou-se Tácio,
- Isso não vai dar certo - divagou Damien. - Atílio vai ficar
uma fera se isso acontecer.
- Você disse que ela estava disposta a não abortar!
- É, mas ele a está pressionando. Não contávamos com isso.
- E agora? E se ele a convencer?
- Não sei. Não quero nem pensar na reação de Atílio.
- Por que não vamos lá tentar impedi-la?
- Será que você é tão estúpido que ainda não percebeu?
- Tácio fez cara de bobo. - Olhe para lá, idiota! Olhe para
a casa dela. Vê aquela luminosidade toda? Pois é. Aquela é uma
casa protegida da luz, logo nós não podemos entrar.
- Não podemos nem tentar?
- Quer tentar? Muito bem, vá em frente.
Após uma rápida olhada no ambiente ao redor, Tácio experimentou
avançar. Deu alguns passos em direção à casa até alcançar
a barreira energética que a circundava, erguida ali pelas orações
e as boas vibrações derramadas por Geórgia e Cléia. Tácio tentou
ultrapassar a barreira, contudo não conseguiu. Parecia mesmo se
tratar de um muro de tijolos.
- O que está tentando fazer? - Tácio ouviu uma voz suave,
vinda do lado de dentro.
- Quem está aí? - retrucou assustado. - Apareça!
- Está falando com quem? - indagou Damien, que não
ouvira nada.
116


- Não sei. Parece que tem um cara lá dentro.
- Fuja! - gritou Damien instantaneamente, certo de que só
podia ser um espírito de luz. - É uma armadilha! Corra! Desapareça?
Tácio, contudo, permaneceu imóvel, vendo surgir da luminosidade
um ser radiante, vestido em uma túnica tão alva e esvoaçante
que lhe pareceu um pedaço de nuvem.
- Quem... quem é você? - perguntou atônito, paralisado
de admiração.
- Eu me chamo Josué.
Antes mesmo que Josué pudesse terminar, Tácio foi puxado
para trás. Enchendo-se de coragem, Damien correra em direção a
ele e o arrastara dali.
- Ficou louco? - perguntou, assim que alcançaram os limites
de sua cidade.
- Por quê?
- Nunca mais fale com aquela gente, se quiser sobreviver.
- Como assim? Não estou entendendo. Que gente, e sobreviver
como, se já estou morto?
- Você é muito burro, mas vou lhe explicar mesmo assim.
Aquele pessoal de branco não está com nada. Leva a gente daqui,
com promessas de sossego, paz e amor. Depois, sabe o que fazem
conosco? - Tácio meneou a cabeça. - Levam-nos de volta à
Terra em encarnações de dor e miséria. É por isso que nasce tanta
gente aleijada, cega e miserável. Porque fizeram muitas coisas
erradas e estão sendo punidas. Agora imagine você, um estuprador,
viciado, suicida. Já pensou no tamanho do seu castigo?
- Eu... não sabia disso.
- Pois agora já sabe. Os antigos viciados são levados a
encarnações de loucura, retardo mental, esquizofrenia e coisas do
gênero. É horrível. Você quer isso? Quer?
- Não.
- Então, tome cuidado. Esses espíritos têm uma lábia fenomenal.
Prometem mil coisas. Lá em cima, até somos bem tratados.
Mas na volta... é como lhe falei.


Damien deliberadamente o apavorava, para que ele não pensasse
em ir embora. Ele mesmo tinha medo de sair dali e ser obrigado
a enfrentar suas atitudes. Achava realmente que seria compelido a
uma reencarnação dolorosa por conta de seus crimes passados.
Não sabia que as encarnações atendem às necessidades de evolução,
sim, mas que podem ser programadas sem dor, bastando, para
tanto, o despertar da consciência e o perdão verdadeiro.
- Se é assim, por que Mizael aceitou ir para lá?
- Mizael é diferente. Tem um plano a seguir.
- Mas, pelo visto, ninguém o obrigou a ser aleijado nem
nada. Por quê?
Damien não sabia o que dizer. Realmente, não havia pensado
nisso. Repetia para Tácio o que Atílio e o próprio Mizael sempre
diziam. Pensando bem, não via sentido no que acontecera a
Mizael, que enganara todo mundo e ia reencarnar cheio de projetos
criminosos. Como ele conseguira, não sabia, mas então, nem
sempre os espíritos das trevas eram punidos com o sofrimento.
Não compreendia e, por não compreender, resolveu deixar para lá.
Se perguntasse a Atílio, ele se enfureceria, acusando-o de traição.
- Acho melhor você não tocar mais nesse assunto - aconselhou
a Tácio. - Se não quiser que o próprio Atílio mande puni-lo.
Tácio estranhou. O que Damien dizia não fazia sentido. Ele
falava em punições e castigos, no entanto não era o que percebera
até então. Ao contrário, o astral lá de cima parecia compreensivo e
amoroso, ao contrário do tal Atílio, que mantinha a obediência de
todos através do medo.
- Quero voltar - afirmou Tácio. - Quero ver o que Júlio
está fazendo.
- Tudo bem - concordou Damien. - Desde que não seja
para a casa de Geórgia, podemos ir. Nunca mais quero chegar
perto daquele lugar.
Encontraram Júlio em companhia de Bianca, a quem ele
havia telefonado após deixar Geórgia. Os dois estavam num barzinho,
bebendo chope e comendo batatas fritas.


- Parece até que você adivinhou - comentou ele. -
Geórgia está mesmo grávida.
- Eu não adivinhei. Sou mulher, já passei por isso.
- Você já engravidou? - Bianca assentiu. - E tirou?
- Tirei. Sou muito jovem para estragar a vida.
- Eu nunca fui a favor do aborto, mas no caso de Geórgia é
diferente. O filho é daquele crápula do Tácio.
Tácio olhou para Damien com raiva e tristeza ao mesmo
tempo. Não gostava de ser xingado, mas reconhecia que fora ele
o responsável pela revolta de Júlio.
- Qual a justificativa que ela deu para não abortar? - prosseguiu
Bianca.
- Sei lá. Ela quer ficar com o bebê, que é um ser inocente.
Eu até concordo que ele não tem culpa de nada, mas não consigo
aceitá-lo.
- Não se culpe, Júlio. Você está coberto de razão. Eu, no
lugar de Geórgia, não pensaria duas vezes. Já teria tirado aquilo
logo nos primeiros sintomas da gravidez.
- Ainda tem isso. Daqui a pouco, vai ser tarde para o aborto.
• - E aí? Você vai criar a criança?
- De jeito nenhum!
- Então, o que vai fazer, já que vai se casar com Geórgia?
- Não sei - respondeu com voz rouca.
Saindo dali, Júlio foi caminhando a esmo pelas ruas, imaginando
o que faria para convencer Geórgia a abortar. Sentiu-se
encurralado, sem apoio de ninguém. Não podia contar nem com
Cléia, que também era contra o aborto.
- Vá lá e faça as pazes com ela - sugeriu Damien, o mais
insistentemente que conseguia. - Você não gosta dela? Olhe que
aborto é crime, hein? E se não acreditarem no estupro?
Júlio não recebia as palavras de Damien. Estava tão convencido
de que a única saída era o aborto que não escutava sugestões
diferentes. Preocupava-se agora com o tempo. Temia que, ao finalmente
conseguir convencer Geórgia, fosse tarde demais.


- Deixe de ser besta, homem! Você a ama. O que é que tem
de mais criar o filho de outro? A criança não tem culpa
Parcialmente, Júlio captou o que ele dizia, mas apenas a
parte de que a criança não tinha culpa. Não tinha, mas ele também
não. Júlio estava irredutível, e Damien não sabia mais o que fazer
para tentar convencê-lo. Era irônico. Muitas vezes intuíra mulheres
e homens a interromper a gestação de inimigos que eles não
desejavam que nascessem. Via-se agora na posição oposta, falando
coisas que talvez um ser de luz dissesse.
Foi quando Tácio resolveu intervir. Passou à frente de Damien
e soprou ao ouvido de Júlio:
- Esqueça Geórgia. Você não precisa se casar com ela. Se
ela quer tanto o bebê, que fique com ele. Você é livre e pode partir
para outra.
A sugestão foi mais bem-aceita, ganhando força na mente de
Júlio. Notando que a ideia de Tácio fora mais eficaz do que a sua,
Damien tornou a investir:
- É isso mesmo. Onde já se viu criar o filho de outro homem?
Deixe-a. Ela e a mãe podem cuidar sozinhas da criança. Ou então,
ela pode encontrar um outro otário que o faça. Não precisa ser
você, que não tem nada com isso.
Na cabeça de Júlio, aquela era a solução. Ele iria sofrer, é
claro, mas sofrimento maior seria conviver diariamente com aquele
ser infame.
- Muito bem - elogiou Damien, depois que Júlio foi se
deitar. - Você foi esperto. Continue assim.
- Obrigado - respondeu Tácio, timidamente.
Daii, Damien foi prestar contas a Atílio. Sem revelar a ideia de
Tácio, inflamou o peito e informou:
- Não precisamos mais nos preocupar com Júlio. Consegui
impedir que ele pressionasse Geórgia para o aborto, levei-o...
- Ótimo - interrompeu Atílio, desinteressado dos métodos
de Damien. - Ele não vai mais dar trabalho?
120


- Não - balbuciou o outro, decepcionado por não poder contar
a estratégia que ele atribuía a si mesmo. - Consegui afastá-lo...
- Volte para o lado deles - cortou de novo, rispidamente.
- Não descuide de Mizael um minuto sequer.
Naquele momento, Damien pensou que odiava Atílio quase
tanto quanto detestava Mizael. Fora procurar o chefe com a certeza
de que ele aprovaria seu plano, elogiando sua astúcia. Mas
Atílio nem sequer o deixara falar.
Damien saiu da sala de Atílio com a mente mais pesada do
que de costume. Precisou de muito esforço para engolir a desonra.
Pena que deixara Tácio na Terra, ou poderia descontar nele
sua revolta.
121


Capítulo
15
Para Geórgia, a decepção maior foi a reação de Júlio.
Imaginava que ele não receberia bem a notícia da gravidez, contudo
não pensou que ameaçasse deixá-la. Após uns instantes de
discussão, de revolta, de recusa, achava que ele acabaria aceitando.
Não era assim que as pessoas agiam quando se amavam?
- Júlio não me ama - disse ela à mãe. - Se me amasse,
teria aceitado. A gravidez não foi culpa minha.
- Procure compreendê-lo, minha filha. Ele está confuso. De
uma hora para outra, tem que ser pai de uma criança que não é
sua, fruto de um estupro. Não deve ser fácil.
- Pensei que o amor superasse essas coisas.
- Supera. Você vai ver. Daqui a pouco ele vai mudar de ideia
e procurá-la.
- Tenho minhas dúvidas. Ele parecia irredutível.
- Ele vai mudar de opinião. Sei que Júlio é contra o aborto
e vai acabar sendo razoável. Estou orando por vocês.
- Você entende por que não posso interromper a gravidez,
não entende?
- Entendo-a melhor do que ninguém.
- Engraçado, mãe, sei que essa criança foi gerada num ato
de violência. A notícia da gravidez deixou-me revoltada, a princípio


cheguei a odiá-la. Mas a mudança foi muito rápida. Agora, começo
mesmo a amá-la. Acha isso possível?
- Só quem divide a vida com uma criança é que sabe o que
é isso.-
Não poderia tirá-la. Mesmo que perca Júlio para sempre,
não farei o aborto.
- Assim é que se fala, minha filha. Júlio não vai deixar você,
mas, ainda que isso aconteça, estarei sempre ao seu lado. E essa
criança só lhe trará alegrias, você vai ver.
Apesar de todo apoio da mãe, Geórgia chorou abraçada a
ela. Temia pelo futuro, seu e de seu filho. Ao mesmo tempo em
que já o amava, sentia um certo perigo rondando-o, uma ameaça
invisível, intocável. O que seria?
- Geórgia pressente o caráter de Mizael e o plano maquiavélico
de propagação do mal para conquista do poder - esclareceu
Josué, que a visitava constantemente, acompanhando a gestação.
- Coitada! - apiedou-se Uriel. - Pensa que o filho será do
bem, mas tem uma grande chance de não ser.
- Como tem de ser. Tudo vai depender dos exemplos que
ele,escolher seguir.
- Ainda bem que ela se manteve firme no propósito de não
abortar - comentou ele. - Tudo teria sido em vão.
- Realmente.
- Josué, me responda uma coisa.
- O que é?
- Por que as consequências do aborto são tão terríveis?
Será ele um crime tão hediondo que provoca anos de sofrimento
até que chegue o perdão?
- Essa é uma ideia equivocada do ser humano. É claro que
o aborto não é um ato de amor. Ao contrário, é egoísta. Mesmo em
casos de estupro, como os de Geórgia, ou para livrar a criança de
uma vida de misérias, ou quando se sabe que terá uma má-formação
qualquer. Tudo isso são desculpas para justificar a fraqueza e
o egoísmo dos pais.
123


- Mas então, se é assim, a ideia não é tão equivocada.
- Quando um ser decide reencarnar, ele conta com a autorização
dos pais. Quando há o risco de aborto, ele sabe disso, mas
aceita mesmo assim, com a esperança de que o instinto materno
mude a ideia da mãe, principalmente, ou do pai.
- E se não mudar?
- Por qualquer motivo, há um rompimento do compromisso.
Mas compromisso não é sinônimo de amor. Quando existe amor,
todas as dificuldades são enfrentadas, assim como faz Geórgia.
Se não há amor, o aborto acontece por várias razões, como aquelas
de que lhe falei antes. Mas aprenda uma coisa, Uriel: ninguém
é culpado por não ter ainda aprendido a amar.
- Então, ninguém é culpado por abortar?
- Culpado, culpado, não. A falta de amor leva a esse gesto.
Isso traz culpa, que atrai a dor, provocando a falta de perdão recíproco.
Nem o filho perdoa a mãe, nem a mãe perdoa a si mesma.
Se o perdão não começa pela própria pessoa, então nenhum
desafeto irá perdoá-la.
- Você quer dizer que ninguém é punido por abortar? Não
estarão essas mulheres no umbral?
- Algumas, mas não por punição, e sim por falta de perdão.
Atormentadas pelo desequilíbrio, muitas mulheres entregam-se à
culpa, gerando forte sintonia com o astral inferior, para onde são
atraídas, lá permanecendo por acharem que é o que merecem. A
qualquer momento, contudo, podem sair.
- O que fazer então, Josué? Como essas mulheres podem
evitar esse magnetismo?
- Exercitando o autoperdão, acima de tudo. Reconhecendo
que são falíveis, que não são perfeitas e, por isso mesmo, alvos fáceis
para a ilusão. E redefinindo suas atitudes, ou seja, não praticando
mais o aborto ou, para aquelas que não estão mais em condições de
engravidar, reconhecendo, verdadeiramente, que não mais o fariam.
- Você fala em autoperdão. Mas e se o espírito abortado
não perdoar a mãe?


- Ele só não perdoará a mãe se ela não perdoar a si
mesma. Culpa atrai culpa, como violência atrai violência e perdão
atrai perdão. A partir do momento em que a mãe compreender e
aceitar os motivos de seu gesto, seu campo energético se transformará,
sem abrir espaço para cobranças. A primeira cobrança que
o ser humano faz é dele mesmo. Quando isso deixa de acontecer,
ninguém mais tem motivos para cobrar. Do que adianta cobrar
um níquel do homem se ele sabe que nada deve? Agora, se ele se
sentir devedor, ou vai pagar, ou fugir, ou permitir que o acusem.
- Por que será que as pessoas agem assim?
- Por obscuridade espiritual. Muitos anos de reafirmação
de certas crenças que acabaram impregnadas na mente humana,
inclusive como coletividade. E orgulho, principalmente. O ser
humano acha que sabe tudo, não aceita que é falível. Isso é o mais
difícil: reconhecer que errou.
- Você mencionou o erro. Pensei que estivéssemos trabalhando
para abolir essa ideia.
- Não se pode abolir o que existe. O que pretendemos é
mudar a concepção que se faz do erro. O erro serve para nos
mostrar onde está a nossa imaturidade. Ele não é fatal, não traz
punições nem deve ser entendido como justificativa para a dor.
É apenas uma característica simples do homem. Um sinalizador,
que se revela através da culpa. Depois que a culpa nos mostra
onde está o erro, ela não tem mais valia. Devemos então trabalhar
pela nossa transformação, para fazer da amorosidade o leme de
nossas vidas. Só assim o ser humano será feliz.
O diálogo no invisível foi interrompido pelo soar da campainha,
atraindo a atenção dos espíritos. Já sabendo de quem se
tratava, Josué silenciou. A chegada dele era esperada, de forma
que os espíritos permaneceram na casa de Geórgia para transmitir-
lhe vibrações de coragem.
- Como vai, Júlio? - indagou Cléia, dando-lhe passagem.
- Vou bem, dona Cléia.


Ele entrou e sentou-se no sofá ao lado de Geórgia, que abriu
largo sorriso quando o viu.
- Que bom que você veio - disse ela, beijando-o nos
lábios. - Tive medo de que não me procurasse mais.
Cléia já havia sumido pelo corredor, deixando os dois sozinhos.
- Refleti muito sobre nossa conversa do outro dia - começou
ele. - E vim aqui lhe dizer que minha decisão quanto ao
aborto permanece a mesma. No entanto, penso que encontrei
uma outra solução. Não é a que mais me agrada, mas pode ser
uma saída.
- Como assim? - interessou-se ela, curiosa.-Que solução?
- Estou disposto a cuidar de você durante toda sua gravidez
- ela se animou, mas ele a conteve com um gesto. - Desde
que, ao final, você dê a criança para adoção.
- O quê?! - indignou-se ela, presa de inenarrável decepção.
- Perdeu o juízo, Júlio? Acha mesmo que eu enfrentaria nove
meses de gravidez para depois entregar a criança a estranhos?
- Pense bem, Geórgia. Sei que você não quer tirar o bebê
porque é contra o aborto. Eu também sou. Mas a adoção me parece
adequada. Daremos à criança a chance de nascer e ser criada
por uma família que realmente a ame.
- Não acredito no que estou ouvindo - contestou ela,
vertendo lágrimas de frustração e revolta. - Não pode ser, Júlio,
você não entende. Eu amo essa criança. Não posso me livrar dela,
seja de que jeito for.
- Geórgia, por favor, seja razoável.
- Você me pede para abrir mão do meu filho e quer que
eu seja razoável? Pelo amor de Deus, Júlio! Não faça isso comigo!
Não vê que não posso me livrar dele? Que já o amo mesmo
antes de nascer? E amo você também. Quero que você seja o
pai dele ou dela. Sei que você pode. Por favor, compreenda.
Você não me ama?
- Você sabe que a amo, mas é assim que tem de ser.
- E se eu não concordar?
126


Júlio titubeou, em dúvida sobre o que dizer. A presença de
Josué, de certa forma, tolhia sua determinação. Mesmo assim,
prosseguiu, hesitante:
- Você sabe.
- Vai me deixar?
- Não tem outro jeito. Você fez a sua escolha, eu fiz a minha.
Enquanto você estiver com a ideia fixa de ficar com essa aberração
aí - apontou para a barriga dela -, não me considere mais seu
noivo. Mas, se me ama de verdade, livre-se dela, antes ou depois
do parto, e poderemos nos casar como havíamos planejado.
- Não posso - desabafou ela, inaudível.
- Não se precipite, Geórgia. Pense com cuidado.
- Não posso. Estou dizendo que não posso. Não me peça mais
isso, por favor. Está me fazendo sofrer muito mais do que o estupro.
Ele engoliu em seco, angustiado, louco para estreitá-la e, ao
mesmo tempo, fugir correndo dali. Se pudesse, arrancaria a criança
de seu ventre ou de seus braços, mas sabia o quanto Geórgia
era determinada.
- É sua última palavra? - ele quase suplicou.
,- Sim.
- Então, não temos mais nada a conversar. Você tomou a
decisão por nós dois.
- Júlio, não... - implorou ela, a voz engolida pelos soluços.
- Eu o amo.
- Sinto muito - afirmou ele, lutando para sustentar a decisão.
- Não temos mais nada para conversar.
Saiu, deixando-a onde estava no sofá, braços estendidos,
o pranto a consumir suas forças. Aquele era o adeus que ela
tanto temia. Sabia que Júlio não voltaria atrás, ela também não.
Assim que a mãe chegou, atraída pelos soluços altos de Geórgia,
teve certeza de que se enganara a respeito de Júlio. Cléia estreitou-
a com amor, amparando seu corpo para transmitir-lhe forças,
juntamente com Josué e Uriel, encarregados de espalhar energias
fortificantes.


- Ele quer que eu dê o meu filho, mãe - desabafou ela. -
Que o entregue para adoção.
- Não chore, minha filha. Tudo vai acabar bem. Deus não há
de nos desamparar.
Disso, ela não duvidava. Junto com o amor da mãe, era o que
a fortalecia. A dor da separação era imensa. Júlio fora seu primeiro
e único namorado. Desde crianças, falavam em se casar. Era uma
decepção que ela teria de enfrentar e superar. Confiava também
no amor da criança que estava gerando. Ela seria seu bálsamo,
uma luz em sua vida sombria. Por ela, sentia que tudo valia a pena.
128


Capítulo
16
Logo que chegou à agência na manhã seguinte, Júlio procurou
Bianca com os olhos. Já ia se encaminhando em sua direção
quando Anselmo o deteve.
- Preciso falar com você - disse aborrecido.
Júlio seguiu-o até sua mesa, louco para encerrar o assunto
e contar a Bianca que rompera o noivado com Geórgia. Anselmo
mandou-o sentar-se, encarando-o com olhar de zanga.
- Alguma coisa errada? - estranhou Júlio.
- Não sei. Você é quem irá me dizer.
- Dizer o quê?
- Posso saber por que você não me contou que está sumindo
dinheiro do caixa de Bianca?
- Gomo é que é?
- É isso mesmo. Ontem, depois que você saiu, fui procurado
por um cliente que me trouxe uma reclamação bastante
desagradável.
- Que reclamação? - ele gelou.
- O cliente disse que recebeu o dinheiro de Bianca, mas
que só percebeu que estava errado quando foi fazer o pagamento
a uma pessoa, que o contou e deu pela falta de uma nota. - Júlio
permaneceu em silêncio, o corpo todo trêmulo, vendo seu futuro


no banco ruir, enquanto Anselmo prosseguia irritado: - Mas essa
não foi a primeira vez. Houve outras, em que ele pensou ter se
enganado. Colocou o dinheiro na gaveta, foi tirando as notas,
anotando as retiradas mentalmente, até que ficou faltando uma.
Ele pensou que se havia enganado, mas agora teve certeza de que
não, já que a pessoa a quem ele pagou ficou furiosa. E tem mais.
Ele disse que contou a você. Por que não tomou providências? Por
que não me disse nada? Sou o gerente desta agência, você é meu
subordinado, é seu dever me colocar a par de tudo o que acontece
aqui dentro. Ainda mais de um fato sério como esse. Ou será que
pretende destruir a reputação do banco?
- Posso falar um instante? - pediu Júlio, pensando rápido.
- Tem algo a dizer? - duvidou Anselmo.
- É claro que eu sabia o que estava acontecendo. Fui procurado
não apenas por um, mas por vários clientes.
- E não fez nada?
- Calma, Anselmo, por favor. O que você queria que eu
fizesse? Que acusasse Bianca sem provas? E se ela fosse à polícia
dar queixa de mim? Lá ia eu preso por calúnia. Isso é muito sério.
- Hum... sei. E o que foi que você fez?
- Não sei se tem notado que tenho saído com ela para almoçar.
- Todo mundo tem notado.
- Faço isso para ver se descubro alguma coisa.
- E descobriu?
- Ainda não. Ela é esperta, evasiva. Não deixa escapar
nada.
- Você devia ter me contado.
- Tive medo de que você a despedisse e depois descobríssemos
que estávamos errados. Não é interesse nosso que ela vá
à Justiça, é?
- Pouco me importa. Todo mundo vai mesmo.
- Mas eu achei que era importante evitar isso. Daí porque
tive uma ideia que pensei em colocar em prática antes.
- Que ideia?
130


- Ia falar com você, pois preciso do seu consentimento, só
que você foi mais rápido e me chamou.
- Que ideia? - repetiu zangado.
- É a seguinte.
Júlio contou o plano improvisado na hora para surpreender
Bianca. Não lhe agradava fazer aquilo com ela, contudo seu
emprego estava em jogo. E depois, ela devia ter pensado primeiro
antes de desviar o dinheiro.
- Gostei - disse Anselmo, para alívio de Júlio. - Vá fazer
isso agora mesmo.
Esquecendo-se momentaneamente de Geórgia, Júlio
entrou na tesouraria, apanhando um maço de dinheiro que
acabara de receber da central, ainda envolto na cinta de papel.
Cuidadosamente, soltou a cinta, apanhou uma nota de outro maço
e colocou-a ali, tornando a colar a cinta. Na hora da distribuição do
dinheiro pelos caixas, entregou aquele maço a Bianca.
Todos os caixas eram obrigados a contar o dinheiro assim
que o recebiam. Foi o que Bianca fez. Rompeu a faixa e pôs-
-se a contá-lo com dedos ágeis, acostumados ao manuseio das
cédulas. Sua surpresa ao constatar que havia uma nota a mais foi
imensa. Era muita sorte. Um erro da agência centralizadora que
ninguém nunca iria perceber.
Bianca olhou para os lados, certificando-se de que ninguém
a observava. Sentindo-se segura, rapidamente amassou a nota
extra e atirou-a na lata do lixo, sem que seus colegas vissem.
Guardou o dinheiro na gaveta, abriu o caixa e começou a atender
os clientes.
Júlio viu quando ela deixou escapulir a nota para dentro da
lixeira. Sem que ela notasse, estava parado atrás dela, fora de
suas vistas. Esperou até que ela terminasse de atender o primeiro
cliente e deu ordens para que fechasse o caixa e o seguisse.
- Aconteceu alguma coisa? - ela perguntou.


Júlio fitou-a penalizado. Queria dizer-lhe que estava sendo
obrigado a tomar aquela atitude, contudo não era possível. Anselmo
já os aguardava na tesouraria, para uma reunião a portas fechadas.
- Muito bem, Bianca, onde está o dinheiro? - Anselmo foi
logo interrogando.
- Que dinheiro? - ela se fez de desentendida.
- O que você tirou do maço de cédulas que acabou de
receber para abrir o caixa.
- Não tirei dinheiro algum.
- Tirou, sim,
- Não tirei. Pode verificar o caixa, que não vai dar diferença
nenhuma.
- Não vai porque Júlio colocou uma nota a mais no seu lote.
Nota essa que você, deliberadamente, ocultou, em vez de entregá-
-la ao tesoureiro.
- Eu não fiz isso! - esbravejou ela.
- Fez, sim.
- Podem me revistar. Não tem nada comigo.
- Você atirou a nota no lixo - informou Júlio, a contragosto.
- Eu vi.
- Você o quê?
- Vi tudo, Bianca, não adianta tentar nos enganar. Vi você
contar o dinheiro e deixar cair uma nota amassada na lixeira. A
nota que eu pus lá.
Bianca abaixou os olhos para que ninguém visse a carga
de ódio que os turvava. Empalideceu, fez que ia desmaiar.
Depois, vendo que não tinha jeito, escondeu o rosto nas mãos
e desabafou:
- Eu sinto muito. Estava desesperada, não sabia o que
fazer. Minha mãe tem câncer, precisa de tratamento urgente. Foi o
desespero que me levou a agir assim.
- Sei que é mentira - falou Anselmo. - Sua mãe vai muito
bem. Você roubou dinheiro do banco de propósito, e não foi a
primeira vez. Sei que tem desviado dinheiro dos clientes.


- Foram muitas reclamações contra você - confirmou
Júlio. - Isso nos levou a investigá-la
- Você me armou uma armadilha! - Bianca rosnou entre
os dentes. - Mesmo depois de eu haver prometido guardar o
seu segredo.
- Isso não tem nada a ver - Júlio cortou rapidamente.
- Minha vida pessoal não está em jogo aqui.
- Não me interessa o segredo de Júlio - mentiu Anselmo,
para não fortalecer a chantagem de Bianca. - O que importa é
o seu furto. Posso dar-lhe uma justa causa, sabia? E é o que vou
fazer se você não pedir demissão.
- Está me ameaçando como fez com o Tácio, não é? Foi
desse jeito que o mandou embora.
- Isso não vem ao caso. Tácio pisou na bola, assim como
você. Não sei o que acontece com esta agência, onde todo mundo
me dá problemas.
- Todo mundo, não - objetou Júlio. - Não é por causa de
dois maus funcionários que você vai generalizar.
- É isso mesmo. Tenho que valorizar os bons, que não é o seu
caso, Bianca. Então, vai pedir demissão ou encarar a justa causa?
- Eu tenho escolha?
- Você pode recorrer à Justiça, se quiser. Mas tenho testemunhas,
inclusive os clientes lesados.
- Aceite a oferta - aconselhou Júlio. - Vai ser melhor para
você sair com o nome limpo.
- Quanta bondade! - ironizou.
- Não sei por que essa ironia - contrapôs Anselmo. - Foi
você quem furtou. Assuma o seu ato.
- Está certo - concordou com raiva. - Não tenho opção.
Mas fique sabendo, Júlio, que isso não vai ficar assim. O que sei
de sua noivinha...
- Não me ameace, Bianca - objetou ele. - Você não tem
nada contra mim. E, infelizmente, Geórgia nem é mais minha noiva.


Os olhares de surpresa dela e de Anselmo foram genuínos.
Rompido o noivado, o segredo já não tinha mais importância. Seria
verdade? Bianca não teve como ficar para descobrir. Anselmo já lhe
empurrava um pedido de demissão para ela assinar, tal como fizera
com Tácio. Mesmo contrariada, Bianca engoliu o orgulho e assinou.
- Pode ir para casa. Não precisa cumprir o aviso prévio.
Amanhã você será informada da data da homologação. Passar bem!
Ela saiu furiosa. Anselmo não permitiu nem que fosse apanhar
sua bolsa, mandando Júlio buscá-la. De posse da bolsa, acompanhou-
a até a saída.
- Você me paga, Júlio! Ainda vai se ver comigo.
- Psiu! Fique quieta! - ordenou ele. - Não vê que fui obrigado?
Vá para casa e aguarde, que irei procurá-la. Vamos resolver
isso juntos.
- Como?
- Espere por mim.
Ele a empurrou para fora, voltando para a agência com
rapidez. Anselmo agora vistoriava a lata de lixo, de lá retirando
a cédula amassada. Levantou-a para que todo mundo visse,
sumindo depois com Júlio atrás. O rapaz oscilava entre o alívio, o
remorso e o medo. Não estava ainda seguro. Rompera o noivado
com Geórgia ainda confiante de que ela acabaria fazendo o aborto
e o procuraria. Não podia permitir que Bianca estragasse tudo,
contando a verdade a Anselmo. A qualquer custo, iria impedir.
Júlio não podia esperar muito para procurar Bianca e tentar
silenciá-la. Por isso, assim que saiu da agência, passou em sua casa.
Interfonou-lhe, pedindo que fosse encontrá-lo embaixo do prédio.
- Vamos sair daqui - pediu ele. - Precisamos de um lugar
mais calmo para conversar.
Tomaram um ônibus para o Leblon, onde se sentaram à mesa
de um barzinho defronte ao mar.
134


- Muito bem - falou Bianca, mal contendo a ansiedade e a
raiva. - Aqui estou. Qual vai ser a desculpa esfarrapada que você
vai me dar?
- Não quero que pense que fiz aquilo por vontade própria.
Anselmo me obrigou.
- Como?
- Ele descobriu sobre você e sobre o meu silêncio.
- Como assim, o seu silêncio? Você já sabia?
- Desconfiava. E se não disse nada antes, foi porque me
importo com você.
Ele afagou a mão dela por cima da mesa, deixando-a mais
à vontade.
- Como foi que Anselmo descobriu?
- Da mesma forma que eu. Um cliente o procurou e fez
queixa de você.
- Que droga! A culpa é sua, Júlio. Você devia ter me avisado
que já sabia. Eu teria tomado mais cuidado.
- Eu sei, desculpe-me.
- E acho que você podia ter desanuviado as desconfianças,
de Anselmo. Sem provas, ele não poderia me despedir por
justa causa.
- Ele não me deixou opção. Meu emprego estava ameaçado.
- Ah, é? Você não pode ser mandado embora, mas
eu posso?
- Não é bem assim. Eu apenas queria assegurar-me de que
teria como cuidar de você.
- Cuidar de mim como?
- Você não percebe? - tornou com voz melíflua, os olhos
lúbricos vidrados nela. - Como dois desempregados poderiam
ficar juntos? Iam sobreviver de quê?
- Isso é uma cantada?
- Garota esperta - finalizou ele, puxando-a pelo queixo
para um beijo, que ela correspondeu sem titubear. - Vamos sair
daqui. Há tempos estou louco por você.


Júlio pagou a conta e chamou um táxi, que os levou ao
motel mais próximo. Amaram-se feito loucos, alheios à presença
de Damien e Tácio, que não perdiam nada daquele encontro,
inebriados com a energia do sexo, alternando-se para sentir o
que Júlio sentia.
Quando terminaram, Bianca estava satisfeita, mas Júlio experimentava
a dor do remorso. Tentou afastar o sentimento ruim com
a justificativa de que fazia aquilo por Geórgia, para preservar seu
emprego, esperando que ela realizasse o aborto.
- Há quanto tempo você sente isso por mim? - perguntou
Bianca, a cabeça pousada no peito dele.
- Há algum tempo. Tanto que terminei tudo com Geórgia.
- Você terminou com ela por mim? - espantou-se.
- De uma certa forma, sim. Pressionei-a para que ela abortasse
aquele filho indesejável que não é meu, mas ela se recusou.
Insisti, fiz de tudo, e nada. Geórgia está irredutível, acho mesmo
que se pegou de amores pela criança. Então pensei: por que ficar
aqui perdendo meu tempo com uma mulher que não me ama se
posso começar de novo com outra pessoa?
- Mentira!
- Não é mentira, é sério. Quando cheguei ao trabalho hoje,
fui procurá-la para contar tudo. Mas Anselmo foi mais rápido e me
forçou àquele teatro. Foi só por isso que concordei. Já que escolhi
romper com Geórgia e arriscar com você, não podia ficar desempregado.
Tive que fazer uma escolha. Não me agradaria perder o
emprego e depender de você para pagar a conta do motel. Prefiro
ser eu a fazer isso.
Ele mentiu de forma tão convincente que Bianca não hesitou
em acreditar, mesmo porque fazia algum tempo que andava interessada
nele.
Se é assim, perdoo você pela armadilha que me aprontou.
- Não foi porque quis, eu juro.
Agora entendo. Só tem uma coisa.
- O quê?
136


- E se Geórgia fizer o aborto e pedir para voltar? O que
você vai fazer?
- Nada - mentiu ele novamente. - Geórgia me decepcionou
muito. Hoje penso se ela realmente não gostou do que lhe aconteceu.
- Eu bem que tentei alertá-lo, mas você não quis me ouvir.
- Deixe isso para lá. O que importa agora somos nós dois.
E não se lamente pela perda do emprego. Enquanto estivermos
juntos, você não precisará se preocupar com nada.
-Até parece que o que você ganha vai dar para me sustentar.
- Não digo sustentar, mas podemos sair tranquilamente,
sem você ter que se preocupar em pagar a conta.
Bianca beijou-o com ardor, convidando-o novamente para o
sexo. Em seu íntimo, Júlio recriminava-se a si mesmo pela mentira,
mas era por uma boa causa. E depois, surpreendera-se com
Bianca. Ela era ousada, divertida, inteligente. Tinha senso de
humor, era extrovertida. Bem diferente de Geórgia. Se não amasse
tanto Geórgia, bem que podia apaixonar-se por Bianca.
A pergunta de Bianca lhe voltou à mente. Se Geórgia fizesse
o aborto, talvez desse um jeito de ficar com as duas. Ao menos até
que encontrasse um meio de terminar com Bianca sem que ela
levasse a público seu segredo.
O que ele mais desejava era receber um telefonema de
Geórgia, convidando-o para ir a sua casa. Saberia assim que ela
escolhera o aborto. O telefonema, contudo, não vinha, deixando-o
cada vez mais desanimado e mais próximo de Bianca.
Tudo no trabalho retomara a normalidade. Um novo caixa fora
contratado para o lugar de Bianca, que deixara de ser assunto entre
os colegas. Alguns dias depois, Anselmo chamou Júlio à sua mesa.
- O que foi, Anselmo?
- Nada de mais. Queria apenas lhe fazer uma pergunta.
- Diga lá.
- Que segredo é esse que Bianca ameaçou revelar naquele dia?


Ele gelou. Pensava que Anselmo houvesse esquecido o
comentário, contudo devia saber que aquilo jamais aconteceria.
Anselmo adorava uma fofoca.
- Não foi nada - disfarçou.
- Não quero me meter na sua vida particular, mas olhe o que
aconteceu com o Tácio. Por causa da mulher, perdeu o emprego,
a dignidade e a vida.
- Isso não tem nada a ver comigo e Geórgia
- Tem certeza?
- Tenho.
- Fico mais aliviado assim.
Anselmo foi obrigado a conter a curiosidade, já que não
podia obrigar Júlio a falar nem tinha o direito de se intrometer em
sua vida. Júlio sabia disso, mas sentiu a pressão sobre si. Quanto
mais mantivesse Bianca perto dele, mais longe Anselmo estaria de
descobrir seu segredo.
Companheiros invisíveis eram agora presença constante
ao lado de Júlio. Aonde ele ia, lá iam juntos Damien e Tácio.
Principalmente quando se encontrava com Bianca, os dois não
desgrudavam dele, saciando o desejo de sexo através das sensações
de Júlio.
- Você tem me servido bem, Tácio - elogiou Damien. -
Por isso, vou deixá-lo mais livre. A partir de hoje, você poderá
sozinho se virar junto aos viciados. Não precisa mais de mim para
acompanhá-lo nem para apanhar a droga para você.
- Sério?
- Sério. As coisas estão correndo bem agora. Parece que
Geórgia não vai mais voltar com Júlio, que, por sua vez, não terá
acesso nenhum à criança. Só uma coisa, nem pense em fugir. Se
você não voltar, virei atrás de você, e nem queira imaginar o que
vou fazer. E não fale com ninguém.


- Não sou criança, Damien. Não preciso de conselhos para
não falar com estranhos.
- Você é feito uma criança, sim. Não fosse por mim, estaria
agora lá em cima, penando nas mãos dos bonzinhos. Lembre-se:
não fale com eles. Se vir algum ser iluminado, fuja.
- Pode deixar.
Para Tácio, foi uma alegria ver-se livre de Damien, ao menos
nos momentos em que buscava a essência da cocaína. Damien
o deixou na praça onde costumava obter a droga, partindo em
seguida para seu reduto astral.
Na hora do usual relatório, Damien deixou Atílio a par dos
acontecimentos:
- Nossa empreitada foi um sucesso. Tiramos Júlio do caminho
de Geórgia de uma vez por todas.
- O que quer dizer com isso?
- Que Júlio rompeu o noivado. Chegamos até a aproximá-
-lo de outra garota, muito mais afinada com a gente.
- Idiota! - rosnou Atílio. - Não percebe o que fez?
*- Não... - balbuciou ele. - Pensei que, com Júlio fora do
caminho, Mizael não teria problemas para nascer.
- Para nascer, talvez. Mas agora me diga: quem é que vai
segurar aquelas duas na hora das rezas e das lições de moral?
Júlio não gosta de rezar nem tem a moral elevada para afastar
nossas investidas. Agora, Geórgia e Cléia, sozinhas, sem freio,
farão do menino um poço de virtudes, mantendo aquela aura clarinha
ao redor da casa. E nós, sem uma quebra na vibração do
astral superior, teremos dificuldade de nos aproximar, deixando
Mizael muito mais vulnerável às influências moralistas das duas
Como pensa que iremos penetrar na casa dela sem um rombo na
proteção energética, rombo esse que Júlio ajudaria a criar?
- Atílio, perdoe-me... - gaguejou, aturdido. - Não pensei
nisso. A ideia foi de Tácio, e eu pensei que fosse boa


- Não pense. Você não serve para pensar. Mandei você
impedir o aborto. Só isso. Será que é tão difícil para você cumprir
uma ordem?
- Fui atrás da cabeça de Tácio e...
- E deu tudo errado. Quero que você encontre Tácio e que
tratem de reaproximar aqueles dois.
- Temo que isso seja impossível.,
- Saia daqui! - rosnou Atílio, apertando o cabo do chicote
com fúria.
Damien saiu arrasado, contendo a fúria com dificuldade. Da
outra vez, tentara contar a Atílio que haviam estimulado Júlio a
romper o noivado, mas ele não lhe dera oportunidade de falar.
Agora sentia-se no direito de ficar irritado, e ele é que tinha de
consertar as coisas. Pensando que fizera um grande negócio,
Damien quase estragara o plano todo. Tudo porque se deixara
levar pelas ideias idiotas de Tácio.
140


Capítulo
17
A decepção de Geórgia só não foi maior do que o amor
que sentia pela criança. Era estranho afeiçoar-se assim a um ser
com que jamais sonhara, fruto da violência. No entanto, era o que
sentia, não podia negar.
À medida que os dias iam se passando, o avanço da gravidez
tornava impossível o aborto. Geórgia esperava, com isso, fazer
Júlio mudar de ideia. Vendo que não tinha jeito, que tirar a criança
coiocaria sua vida em risco, ele se conformaria, aceitando-a e ao
bebê. Precisava apenas ter paciência e aguardar.
- Está sendo tão difícil, mãe! - confessou ela a Cléia.
- Mas o pior não é a gravidez, é a incompreensão de Júlio. Pensei
que ele me amasse mais.
- Tenha calma, minha filha - Cléia procurava confortar.
- Estou calma, porque sei que ele vai voltar. Quando se
convencer de que não tem jeito, vai nos aceitar, a mim e ao bebê.
- Acho que você não devia ficar se iludindo. Se Júlio fosse
voltar, já o teria feito.
- E se eu telefonar para ele? Não gosto de ficar insistindo
nem sou mulher de correr atrás de ninguém, mas talvez ele esteja
esperando que eu o procure.
- Se isso vai fazê-la sentir-se melhor, então telefone. Mas
cuidado. Não vá se decepcionar ainda mais.


Geórgia apanhou o telefone e discou o número da casa de
Júlio, mas a mãe dele a informou que ele ainda não havia retornado
do trabalho.
- Pode avisar que eu liguei? - pediu ela.
Desligou. Eram quase dez e meia da noite, hora em que Júlio
costumava estar em casa. Talvez estivesse em alguma reunião
até mais tarde no banco. Sim, devia ser isso. Nos outros dias, ela
aguardou um retorno dele, que não veio.
Quando saía para a escola, ficava à espera de vê-lo passar,
como às vezes ele fazia de manhã cedo, antes de ir para o trabalho.
Nunca o via, porém. Ou ele mudara de horário, ou a estava
evitando de propósito. Mesmo na saída do curso, que, com esforço,
conseguira recuperar, ela não o via. Era a mãe que sempre
estava lá, com a desculpa de que saíra para comprar pão, hábito
pouco comum às dez da noite.
Júlio recebeu o recado, contudo não telefonou. A mãe dele
morria de pena de Geórgia. Gostava da moça, não compreendia o
que dera no filho para repudiá-la tão drasticamente, de uma hora
para outra. Ele estava louco para ligar, mas o fato é que passara a
noite com Bianca, só retornando no dia seguinte. Depois, perdeu
a vontade. Queria e não queria falar com ela. Aos poucos, Bianca
ia tomando o lugar de Geórgia em sua vida. Não que a amasse,
mas Bianca era como ele, ao contrário de Geórgia, cheia de escrúpulos
e ideias estranhas. Mesmo assim, se Geórgia tirasse aquela
criança, voltaria correndo para ela.
Na segunda vez que Geórgia ligou, conseguiu encontrá-lo
em casa. Foi ele mesmo quem atendeu, sentindo o coração disparar
quando ouviu a voz dela:
- Alô, Júlio, tudo bem?
No começo ficou mudo, mas logo recuperou o controle:
- Tudo bem, Geórgia, e você?
Seguiu-se um silêncio breve, até que ela respondeu:
- Sinto sua falta - ele não disse nada, e ela repetiu: - Sinto
sua falta, Júlio. Preciso de você.
142


- Fez o que lhe pedi? - rebateu ele, com uma frieza controlada.
- Júlio, por favor, pare com isso. Você sabe que eu não posso.
- Então, não temos mais nada a conversar.
- Não seja tão intransigente. Você me ama, sei que me ama,
assim como eu também amo você.
- Amor não tem nada a ver com isso. É uma questão de
dignidade.
- É orgulho, Júlio. Você pensa que estará violentando seu
amor-próprio se aceitar o filho de outro homem. Mas não é nada disso.
O comentário dela irritou-o sobremaneira. Se era orgulho, era
porque ele era um homem de princípios.
- Não quero mais falar sobre isso, Geórgia. E por favor, só
me procure depois que fizer o aborto.
- Isso não é mais possível. A gestação já ultrapassou o
sexto mês.
Júlio ficou mudo, imaginando-a com uma barriga imensa, recheada
com o fruto de outro homem. O pensamento lhe causou
repulsa, tanta que não conseguiu mais continuar a conversa.
- Lamento, Geórgia, tenho que desligar - desculpou-se.
- Tjchau.
Geórgia ouviu o clique do telefone, sentindo os olhos arderem
com as lágrimas. Colocou o fone no gancho e chorou
- Ele não quis vir, não foi? - constatou Cléia.
- Ele nem falou comigo direito. Como pode, mãe? Uma
pessoa que eu amei toda a minha vida. Pensei que o conhecesse,
mas agora vejo que me enganei com ele. Júlio não me ama de
verdade. Podia gostar de mim ou estar acostumado com nossa
relação de infância, mas isso não é amor
- Se é assim, minha filha, não é melhor que ele se afaste
de vez? Já pensou que ele pode se ver compelido a aceitar essa
criança e depois rejeitá-la? Deus sempre faz acontecer o melhor.
Acredite nisso.
Ela acreditava. Contudo, não tinha como frear o impulso do
coração, que sempre acelerava na direção de Júlio. Mas a mãe


tinha razão. Se Júlio rejeitasse a criança depois do casamento,
seria muito pior.
Júlio enxugou as lágrimas, oscilando entre a compaixão e
a repugnância. Uma curiosidade mórbida o assaltou, levando-o a
desejar ver a barriga estufada de Geórgia. Mal conseguiu trabalhar
no dia seguinte, preso à ideia fixa de vê-la, nem que fosse de
longe. Em casa, chegou a levantar o fone do gancho, mas desistiu
de telefonar. Tinha de vê-la pessoalmente.
- Isso mesmo - incentivou Tácio a seu lado, sob a vigilância
furiosa de Damien, - Vá lá e veja com seus próprios olhos
como ela está bonita.
- E dê um jeito de voltar para ela - gritou Damien, irritado.
- Vai ser melhor para você e para todo mundo.
Quando Júlio ia saindo, o interfone tocou. Era Bianca, com
quem havia marcado de ir ao cinema. Tinha até se esquecido.
- Já estou descendo - avisou.
Ao sair do elevador, ela o esperava de braços cruzados,
batendo o pé no piso de mármore.
- Isso não se faz, Júlio? - queixou-se, aborrecida. - Estou
esperando você há mais de uma hora. Perdemos o filme.
- Não deu para sair - desculpou-se, tentando evitá-la. -
Minha mãe não está se sentindo muito bem.
- Conversa fiada. Conheço muito bem essa história de mãe.
Eu mesma já matei a minha uma porção de vezes.
Júlio estava impaciente, seguindo o desejo súbito, quase
incontrolável, de dar uma espiada em Geórgia.
- Agora não posso conversar - cortou rispidamente. - Vá
para casa. Depois eu ligo para você.
Deu-lhe um beijo frio nos lábios, empurrou-a para o lado e
saiu. A casa de Geórgia não ficava longe, de forma que ele foi a
pé. Mas não foi sozinho. Desconfiada, Bianca saiu atrás dele. Ele
dobrou a esquina, parando em frente à casa da ex-noiva. Ali, Tácio
e Damien se juntaram a ele. Júlio tentou ver através das cortinas,
mas não conseguiu. Não havia movimento algum na sala. Talvez


ela estivesse no quarto, cuja janela dava para a lateral. Mas nada.
À exceção do quarto de Cléia, todas as luzes estavam apagadas.
Estimulado pelos espíritos, Júlio atravessou a rua, andando
de um lado para outro, tentando imaginar onde ela estaria. Na
esquina, oculta atrás de um carro estacionado, Bianca não tirava
os olhos dele, morta de ciúme. Nunca estivera na casa de Geórgia,
mas não precisava ser nenhum adivinho para saber que era ela
quem morava ali.
Júlio olhou o relógio, constatando que faltavam quinze minutos
para as dez. De repente, a porta da frente se abriu, e Cléia
apareceu. Trancou a porta, ganhando a rua em direção à maldita
praça. Júlio não a seguiu. Não precisava. Pelo horário e o trajeto,
Cléia só podia estar indo ao curso buscar Geórgia. Cerca de meia
hora depois, as duas apareceram.
Foi um choque para ele. Geórgia carregava uma barriga
imensa e parecia feliz. Vinha conversando com a mãe, sorrindo
e alisando o ventre a todo instante. A visão encheu-o de ódio. Ela
estava muito bem, alegre, bonita. Nem parecia ter sido vítima de
um estupro. Muito menos dava a impressão de sofrer por carregar
na barriga o fruto de seu algoz.
Por mais que quisesse, Júlio não conseguiu se conter. Assim
que elas chegaram ao portão, ele se aproximou.
- Boa-noite, dona Cléia - cumprimentou, esforçando-se
ao máximo para manter a calma. - Será que posso conversar
com Geórgia?
- Boa-noite, meu filho. Fiquem à vontade. Vou me preparar
para dormir.
- Não quer entrar? - indagou Geórgia, ansiosa, logo que
a mãe fechou a porta.
- Não. Prefiro ficar aqui fora.
Era a primeira vez em anos que Júlio se recusava a entrar
na casa dela, o que lhe pareceu um mau sinal. Geórgia permaneceu
onde estava, sem dizer nada, sentindo explodir o peito que a
presença dele enchia de esperanças.
145


- Parece que você está mesmo decidida a não abortar -
disse ele friamente.
- Você não acha que agora é tarde demais?
- Mesmo que não fosse, você não o faria. Nunca pensou
em fazê-lo.
- Foi o que lhe disse desde o começo.
- Pensei que você mudaria de ideia.
- Você devia me conhecer melhor para saber que isso não
aconteceria. Devia saber que o meu respeito pela vida me impede
de matar.
- Não me parece que você sinta apenas respeito pelo que
está aí.
- O que está aqui é o meu filho. Quer você goste ou não,
sou a mãe dele. Ele carrega os meus genes...
- E os de Tácio! - berrou ele, assustando-a e fazendo-a
proteger o ventre. - Não precisa segurar a barriga. Não vou fazer
nada contra você ou o seu precioso filhinho.
- Por favor, não grite. Estamos na rua.
- Por que você foi fazer isso comigo, Geórgia, por quê? Eu
a amava tanto!
- Amava? Quer dizer que não me ama mais?
- Não é isso. Mas é que essa... coisa que você carrega aí
colocou uma barreira entre nós dois.
- Quer saber, Júlio? Acho que você nunca me amou. E a
barreira quem colocou foi você, com o seu orgulho, o seu preconceito,
a sua intolerância.
- Não é verdade. Dei-lhe todo o meu apoio depois do estupro.
Mas isso - apontou para a barriga dela - é demais para
qualquer homem.
- Se pensa assim, o que veio fazer aqui?
- Não sei. Queria vê-la. Mas a mulher que tenho diante de
mim é uma estranha. Não é minha Geórgia.
- Não sou sua, e é você o estranho. O homem que conheci
a vida toda conseguiu me surpreender com tanta intransigência.


- Não se trata disso. Tudo bem, você não pode mais abortar,
mas ainda temos uma chance. Você pensou a respeito da
adoção? Você pode até ganhar uma grana, se quiser...
Júlio nem percebeu quando ela lhe voltou as costas. Só notou
que ela o havia deixado falando sozinho quando ouviu o estrondo
da porta batendo.
- E agora? - questionou Tácio, que não perdia nada da
conversa. - O que vamos fazer?
- Não sei, imbecil, não me pergunte - rebateu Damien,
aborrecido. - Se você não tivesse tido aquela ideia brilhante de
afastá-los, não estaríamos passando por isso.
- Você está tentando colocar a culpa em mim, mas tinha
gostado da ideia.
- Acontece que Atílio não gostou. E a culpa é toda sua.
Quem manda ser tão estúpido?
Tácio e Damien seguiam atrás de Júlio, que já se aproximava
do local onde Bianca se escondera, irritados com o fracasso do
encontro entre ele e Geórgia.
- O que vocês estão fazendo é inútil - soou uma voz
conhecida atrás deles.
Junto com a voz, um clarão os inundou, alcançando até Júlio
e Bianca, ainda atrás do carro.
- Você de novo? - espantou-se Damien.
- Não precisam ter medo de mim - esclareceu Josué. -
Não vim lhes fazer mal.
- O que você quer? - sondou Damien, estranhamente
sentindo as pernas paralisadas.
- Primeiramente, oferecer-lhes ajuda.
- Que tipo de ajuda? - arriscou Tácio, fitando Damien
de soslaio.


- Não fale com ele! - berrou Damien, irado. - Você é
fraco, não sabe resistir!
- E você é tão forte que não consegue nem se mover, muito
embora não esteja preso em coisa alguma - falou Josué.
- Eu... É diferente... Não sei que tipo de mágica é essa que
vocês usam e que nós não conhecemos.
- Não é mágica. Esse é o verdadeiro poder. Você está preso
pela minha vontade e pela sua fraqueza.
- Eu não disse? - desdenhou ele. - Não disse a você,
Tácio, que eles não são nada do que dizem ser? Que tipo de espírito
prende os outros com cordas invisíveis?
- Não há cordas invisíveis. Assim como a minha vontade o
prendeu, a sua pode soltá-lo.
Com os olhos chispando, Damien fez força para soltar-se,
mas não tinha fibra moral suficiente para se sobrepujar ao poder
de Josué.
- Solte-me - rugiu. - Eu exijo.
- Só depois de ouvir o que vou lhe dizer.
Ao lado deles, Tácio estava louco para perguntar da ajuda,
mas não tinha coragem de enfrentar Damien, muito embora achasse
que aquele espírito era muito mais poderoso do que ele. Tão
poderoso que lhe deu medo. Ele bem seria capaz de forçá-lo às
terríveis punições de que Damien tanto falava.
- O que você quer? - rilhou Damien, entre os dentes. -
Diga logo e vá embora.
- Primeiramente, como eu ia dizendo, venho oferecer-lhes ajuda.
A transposição de níveis energéticos é simples e depende exclusivamente
da vontade. Aquele que quiser me seguir será bem-vindo.
- Não estamos interessados - adiantou-se Damien, fuzilando
Tácio com os olhos.
- Muito bem. A outra coisa é que vocês não estão em condições
de intervir no futuro de Mizael e Geórgia. Ela e Júlio não vão
se casar.
- Quem decidiu isso? Você?
148


- Não. Eles mesmos. É o melhor para todos é que isso não
aconteça. Por isso, não adianta vocês insistirem. Seus esforços
cairão no vazio. Contra o poder de Deus, tudo não passa de ilusão.
Diga isso a seu chefe.
Na mesma hora em que ele esvaneceu, as pernas de Damien
se soltaram. Estranho que apenas ele fora preso. Tácio permanecera
solto, embora sem se mover.
- Estou de saco cheio desse cara! - desabafou Damien,
com raiva. - Já é a segunda vez que ele aparece para nos atrapalhar.
Vamos embora.
Sumiram também. Só então Josué se foi, já que não havia
partido de verdade. Apenas tornara-se invisível para observar o
que eles iriam fazer. De volta à sua cidade astral, foi ao encontro
de Nora. Ela já o aguardava, junto a Uriel.
- E então, Josué, como foi lá na Terra? - indagou ele.
Muito bom. Nosso Mizael está próximo de nascer.
- O corpo fluídico dele já está praticamente colado ao da
mãe - informou Nora. - Em breve, estará definitivamente ligado
ao seu próprio físico.
- Isso mesmo. E você, Nora? Como está se sentindo?
- Um pouco ansiosa. Aguardar dois anos me parece um
pouco demorado, mas o que fazer? Não tem jeito.
- A paciência é uma virtude. Cultive-a.
- Sim, Josué, constantemente.
- Você não terá problemas em voltar ao mundo. Está preparada,
é segura de si, muito determinada e boa. Será outra luz na
vida de Mizael.
- O que ele fez para merecer essas bênçãos? A mãe é uma
criatura muito iluminada. A avó, também. E eu o amo imensamente
- Ele mereceu porque existe, lá no mais fundo de sua alma,
a vontade de fazer brotar o amor que existe dentro dele. Vocês o
estimularão a extravasar o amor em vez da rebeldia que ele pensa
que deve ter.
- Não será uma tarefa das mais fáceis - observou Uriel.
149


- Mas perfeitamente possível e viável. A divindade não
conhece o impossível. Para Deus, todas as coisas são realizáveis.
- Mesmo que o indivíduo não esteja pronto?
- Quando ele não está pronto, não recebe a incumbência.
De uma maneira ou de outra, em mais ou menos tempo, ele estará
preparado. Mas não é apenas ele que me preocupa.
- Quem mais?
- Atílio. Ele, mais do que todos, vive cercado de ilusões.
Sua fome de poder é tão grande que ele não consegue enxergar
mais nada no mundo. Fará de tudo para conseguir o que quer.
- Por que será que ele é assim? - quis saber Uriel.
- Acho que a culpa é minha - informou Nora.
- Não é verdade - contestou Josué. - Atílio é desse jeito
porque pensa que é da natureza dele. Mas ninguém é naturalmente
mau. Os desvios de conduta são adquiridos pela ilusão do poder,
do dinheiro, do orgulho, do prazer. Deus, contudo, não criou seres
imperfeitos, porque a natureza divina é a perfeição. E nós, feitos
da mesma centelha, não podemos ser imperfeitos. A imperfeição
humana é somente um estágio, uma forma de conquistar excelência
por méritos próprios. Ninguém chega ao plano divino sem luta,
sem esforço, sem trabalho, sem a transformação que decorre da
conjugação de todos esses fatores.
- Atílio, contudo, não pensa assim.
- Ele ainda acredita no poder para a conquista de valor. É
uma ilusão, uma das muitas que destroem o ser humano.
- E o que você pensa em fazer para mudar isso?
- Mostrar a ele que as forças do bem estão acima de todo
e qualquer exército de trevas.
- Tudo bem - falou Nora. - Mas onde é que eu entro nisso?
- Embora ele pressinta sua proximidade, pensando em
você constantemente, ainda não sabe que você está aqui e que
pretende reencarnar junto de Mizael. Você é nosso trunfo. Contra
você, ele não terá coragem de agir,
- Será?
150


- Conheço o amor. Atílio a ama tanto quanto ama Mizael. Não
foi por outro motivo que renunciou a você. Esse talvez tenha sido seu
único gesto de amor. E é a esse gesto que temos que nos apegar.
- Uma pergunta - pediu Uriel. - Você disse que o gesto
de Atílio mostra que há uma chance para o amor.
- Exatamente.
- Isso acontece com todo mundo? Quero dizer, todo ser
humano possui um germezinho, por menor que seja, capaz de
fazer brotar o amor?
- Todos, sem exceção, possuem em si essa semente, já que
fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, e Ele é amor em
essência. Qualquer pessoa, por mais cruel, violenta ou empedernida
que possa parecer, carrega consigo o germe do amor. Fazer
brotá-lo é uma tarefa que pode levar tempo, mas sempre acontece.
Todos nós já passamos por estágios de maior ignorância,
em que nossas atitudes beiravam ou se afundavam na selvageria
Hoje, mediante méritos pessoais, conseguimos sair do universo
das sombras e passar para o lado onde a vida é feita de luz
- Mas nem todos terão essa chance neste planeta, não é?
, - Infelizmente, não. Caberá aos mais embrutecidos a
construção de um novo mundo, a partir de estágios primitivos
semelhantes aos dos primórdios da Terra, para desenvolvimento
das primeiras raças que lá habitarão. Por isso é que repito: essa é
a última chance da humanidade. De uns anos para cá, todos têm
recebido esse alerta ao reencarnar.
- E quem está há muito tempo sem reencarnar?
- Para os que, como Atílio, persistem na treva e ainda não
se dispuseram a voltar, a questão é mais delicada, já que podem
decidir quando o planeta não estiver mais em condições de os
receber. Terão então que partir diretamente para outro mundo.
Fora uma conversa elucidativa, apesar da preocupação de
Nora com os seres que amava. Faria de tudo para ajudar Mizael,
mas, quanto a Atílio, tinha suas dúvidas. Achava mesmo que ele
jamais se modificaria.


Capitulo
18
Ao passar pelo local onde Bianca se escondera, Júlio viu-a
em pé, braços cruzados, olhando-o de cara feia. Ele deu uma
parada breve, fitou-a com desdém e indagou irritado:
- Está me seguindo?
- Eu... não pude resistir. Quis saber aonde você ia.
- Agora que já descobriu, está satisfeita?
- Por que veio aqui, Júlio? Pensei que você tivesse dito que
haviam terminado.
- E terminamos.
- Então, por que veio?
Ele não respondeu. Subitamente, a irritação transformou-se
em desejo. Ainda amava Geórgia, mas aquele ventre avolumado
não lhe despertava atração. Bianca, contudo, vestia uma saia mínima
e uma blusa decotada. Sem dizer nada, ele a puxou para si,
beijando-a avidamente, explorando seu corpo com mãos ligeiras.
- Vamos lá para casa. Estou sozinho.
Bianca tinha o poder de fazê-lo esquecer-se de Geórgia
quando estavam se amando. A partir daquele dia, Júlio resolveu
não mais pensar na ex-namorada. Estava consumado, não tinha
mais jeito. Seria impossível que ela abortasse a criança, assim
como não lhe parecia provável que ela o desse para adoção


O melhor que tinha a fazer agora era esquecer. Geórgia que fosse
feliz com seu filho bastardo.
Ao mesmo tempo em que Júlio se deliciava na cama com
Bianca, Geórgia chorava no ombro da mãe. Tinha imaginado que,
vendo o estágio avançado da gravidez, ele mudaria de ideia e ficaria
com ela. Mas Júlio ainda insistia na adoção.
- Ele não disse nenhum absurdo - contestou Cléia. -
Muitas mães fazem isso. Ainda é melhor do que abortar ou jogar
o bebê no lixo.
- Mãe! - horrorizou-se.
- É verdade. Muitas mães ainda não sabem que podem
dar seus filhos para adoção sem serem punidas por isso. Não é o
ideal, mas é preferível ao aborto e ao abandono.
- Você tem razão, mas eu já havia dito a Júlio que não
faria isso.
- Não pense mais nisso, minha querida. Júlio preferiu seguir
o caminho dele. Você não está só. Estou ao seu lado e irei ajudá-la
sempre.
- Ah! Mãe, não sei o que seria de mim sem você.
, Abraçaram-se, transmitindo a Mizael, dentro da barriga da
mãe, aquelas ondas energéticas de amor. O início da gestação
fora confuso, levando ao feto vibrações de medo e insegurança.
Apesar de toda a programação, Mizael não sabia bem o que o
aguardava, já que não possuía nenhuma relação pretérita com sua
futura mãe. Aos poucos, porém, sentindo intensificar-se a transfusão
de energia de amor, ele foi-se aquietando, até que seu espírito
alcançou serenidade suficiente para um nascimento tranquilo.
Mizael veio ao mundo três meses depois, cercado de carinhos
e atenção. Josué, Uriel e Nora estavam presentes, mas
Damien e Tácio, por mais que quisessem, não conseguiram penetrar
no quarto da maternidade nem espiar o berçário, guarnecido


por espíritos encarregados de proteger os recém-nascidos. Até
Atílio quis ver o menino, porém não se atreveu a sair do astral inferior,
com medo de perder a moral, caso sua entrada fosse barrada
e ele não conseguisse vencer os guardiões.
Assim que a enfermeira trouxe o bebê, Geórgia ajeitou-o no
colo, os olhos abarrotados de lágrimas de emoção. A seu lado,
junto aos espíritos amigos, Cléia admirava o netinho.
- Como ele é lindo! - emocionou-se Geórgia, alisando-lhe
a cabeça e os dedinhos. - Olhe só, mãe, que gracinha o meu filho.
- Lindo mesmo. Parece-se com você.
- Ah, mãe, não invente. Ele ainda não se parece com ninguém.
- Você já pensou no nome que vai lhe dar? - indagou a
enfermeira, encantada com o bebezinho.
- Régis. Meu rei.
- Ele parece mesmo um príncipe. Parabéns!
- Obrigada.
Naquela noite, Josué aguardava Geórgia e Cléia para uma
conversa. Quando elas adormeceram, retirou-as do físico e
levou-as até a praia, onde poderiam conversar e aproveitar para
reabastecer-se de energia.
- Lembra-se de mim? - indagou ele.
- É claro - afirmou Geórgia. - Esse é o Josué, mamãe.
Foi ele quem nos apresentou ao Régis.
- Isso mesmo - concordou Josué. - Até aqui, tudo correu
bem, graças, principalmente, ao esforço de vocês duas.
- Como assim? - perguntou Cléia.
- Vocês são pessoas boas, cultivam bons pensamentos e
não fortalecem os sentimentos daninhos.
- Não sei bem se isso é verdade - contrapôs Geórgia. -
Passei por coisas que me trouxeram revolta, tristeza, raiva,
indignação e sei lá mais o quê.
- Você seria uma santa se não sentisse nada disso, o que
não é o caso. Mas o importante não é não sentir, pois isso é impossível.
Todo mundo possui um corpo emocional, logo as emoções


são parte inseparável do ser humano. E ter apenas sentimentos
nobres, que é o objetivo final das reencarnações, não é coisa que
se alcance tão rapidamente. É preciso aperfeiçoamento constante.
Os sentimentos perniciosos estão aí para serem sentidos e
vivenciados. Sem eles, não se aprende, não se cresce. Mas tais
sentimentos não devem ser fortalecidos. Devemos reconhecê-
-los, aceitá-los e transformá-los. Quando não os alimentamos,
eles se enfraquecem e se modificam. Se, ao contrário, os ficarmos
remoendo, falando sobre eles, insistindo em relembrá-los,
revivendo cenas e situações ruins, vamos lhes dando forças, até
que eles nos dominem, transformando-nos em pessoas amargas,
ranzinzas, irascíveis, desanimadas, depressivas.
- Nós não somos assim - afirmou Cléia. - Não somos
mesmo. Sempre ensinei Geórgia a cultivar bons sentimentos e orar
quando coisas ruins acontecem. É assim que vamos nos fortalecendo.
- E é assim que pretendo criar o meu filho - acrescentou
Geórgia. - Com amor.
- É só do que ele precisa - concordou Josué. - Vocês
sabem que os ataques do invisível serão muitos. Estejam preparadas.
, - Não se preocupe, Josué. Vamos nos manter sempre em
oração.
- Enquanto Régis for pequeno, estaremos junto a vocês.
Mas, depois dos sete anos, isso será mais difícil, pois ele estará
pronto para assumir sozinho sua própria identidade. Dessa idade
em diante é que sua atenção será mais necessária. Ele terá uma
tendência natural para tudo que for inadequado.
- Estaremos atentas - falou Cléia.
- Sei que estarão, mas não poderão viver a vida dele. Repressão
também não adianta. O que funciona é compreensão e amor.
- Não nos esqueceremos.
- E mais uma coisa. Não permitam que a proteção energética
ao redor de sua casa seja abalada. O comportamento rebelde
de Régis poderá abrir uma brecha para os espíritos das sombras,
que tentarão, a todo custo, manter a influência sobre ele.


- Não se preocupe conosco - disse Geórgia. - Há muito
estamos preparadas.
- Você foi muito corajosa em aceitar um filho que não faz
parte da sua história.
- Não fazia. Ele agora iniciou uma história nova para mim.
Sei que seremos felizes e que ele aprenderá a nos amar.
- Tenho certeza. Bem, está na hora de ir. Cuidem-se bem e,
sempre que precisarem, não hesitem em chamar por mim.
- Não hesitaremos. Adeus.
No dia seguinte, apenas Geórgia guardava uma leve impressão
do sonho. Lembrava-se de que estivera numa praia em
companhia da mãe e de um desconhecido. Não se recordava do
que haviam conversado, mas teve uma sensação de confiança no
futuro. Cléia, por sua vez, nada retivera daquele encontro. Nem
sequer se lembrava de que havia sonhado.
Somente quando Geórgia teve alta do hospital foi que
Damien viu o menino. Tácio, principalmente, morria de curiosidade
de conhecer seu filho, o que foi possível graças à momentânea
e imperceptível abertura no véu energético que os circundava,
empreendida por Josué. Queria, com isso, provocar uma reação
positiva em Tácio.
Os dois se aproximaram com desconfiança. Enquanto Tácio
corria para espiar a criança, Damien olhava de um lado para outro,
temendo dar de cara com Josué a qualquer momento. Dada a
enorme diferença vibracional entre os dois espíritos, Josué não era
visível, ao passo que tudo podia ver de Damien e Tácio. Somente
quando ele retraía um pouco o seu padrão energético é que os
espíritos mais ignorantes conseguiam vê-lo.
- O que será que aquele velhaco está aprontando? -
perguntou-se Damien, sem perceber Josué junto a ele.
156


Tácio, contudo, não lhe deu atenção, embevecido com o
bebezinho adormecido no colo de Geórgia. Ela e Cléia entraram
no táxi, mas os dois não as seguiram.
- Ele não é uma gracinha? - gabou-se Tácio. - Parece
comigo.
- Deixe de ser besta! Venha, vamos embora. Já vimos o
suficiente.
Como sempre fazia, Damien correu a dar as notícias a Atílio,
ansioso pelas novidades.
- E então? - questionou, assim que o outro entrou.
- Como está indo Mizael?
- Soube que ele agora se chama Régis.
- Régis? - repetiu com ironia. - Nada mais apropriado14.
Mas o rei aqui sou eu. Ele apenas me serve.
- Devemos chamá-lo de Régis a partir de hoje?
- Não. Régis foi o nome que a mãe escolheu e irá aproximá-
-lo dela, afastando-o de nós. Quero que o chamem sempre de
Mizael, para que ele não se esqueça de quem realmente é.
- Como o senhor quiser.
•- E como anda a questão com Júlio?
Damien tremeu.
- Nós fizemos o possível, chefe... - balbuciou, aterrado.
- Mas os espíritos lá de cima estão interferindo. Fui informado de
que Júlio não vai se casar com Geórgia.
O olhar de ódio que Atílio lançou a Damien foi como uma
pedrada. O espírito sentiu-se tonto, desnorteado. Subitamente,
uma dor lancinante trespassou seu corpo, como se chibatas invisíveis
o açoitassem com brutalidade. Cambaleou para um lado,
entortando até o chão, e ouviu um grito agonizante, assustando-se
ao perceber que fora ele mesmo quem gritara. Deitado de bruços,
sentia as vergastadas sobre suas costas, levando-o a encolher-se
14 Régis (latim): real, do rei, conforme Dicionário de nomes de bebês, Edições PBQ. Em outra vertente, tem
origem germânica, significando "que aconselha o rei".
157


e a gemer, sem coragem de reagir. Percebeu, então, a ponta tríplice
do chicote de Atílio caindo sobre ele.
- Não aguento mais a sua incompetência! - rugiu Atílio,
desferindo um golpe atrás do outro. - Devia acabar com você!
- Por favor, chefe, perdoe-me - choramingou Damien,
cada vez mais aterrorizado. - Não foi culpa minha. A ideia foi do
Tácio, e daquele Josué...
- Cale essa boca! - vociferou, levando Damien ao auge do
terror. - Ser inútil, imbecil!
As vergastadas continuaram por muito tempo, até que, exausto,
Atílio deixou cair a chibata. A seus pés, o corpo fluídico de Damien
transformara-se em uma massa irreconhecível, quase disforme.
- Levante-se! - ordenou ele, voz tonitruante. - Não é hora
de ser aniquilado ainda.
A um toque de Atílio, um vigor bruxuleante percorreu as células
imateriais de Damien, que conseguiu reunir forças suficientes
para manter unidos os átomos astrais de seu corpo.
- Saia daqui! - Atílio tornou a rugir. - Já falhou em uma
missão. Se acontecer novamente, não terei tanta piedade de você.
- Não irei falhar - afirmou Damien, trêmulo de pavor.
- Saia, já disse. Não aguento mais olhar para a sua cara
nojenta.
Engolindo a raiva e o medo, Damien saiu todo trôpego. O
corpo não doía tanto, já que a dor nem era física. A humilhação,
contudo, jamais seria esquecida.
158

Capitulo
19
Desde a última noite na porta de casa, Geórgia não tivera
mais notícias de Júlio. Concluíra o curso, estava agora de licença,
quase não saía. Queria muito falar com ele, informar que o bebê
havia nascido.
- Para quê, minha filha? - objetou Cléia. - Se ele não aceitava
antes, não vai ter mudado agora, que é irreversível. Melhor
deixar Júlio para lá.
- Será que eu já não tenho nenhuma chance? - insistia
ela. - Pode ser que, vendo essa coisinha linda, ele mude de ideia.
- Duvido muito. Júlio não é bem aquilo que pensávamos
que fosse. Criamos uma imagem que não lhe pertencia realmente.
A você, resta agora aceitar e respeitar a escolha dele. Ninguém
pode obrigá-lo a ser pai, se ele não quiser. E ele não quer.
- Tem razão - concordou ela, em lágrimas. - Preciso
esquecê-lo.
O problema era exatamente esse. Esquecer Júlio não seria
tão fácil.
A notícia do nascimento do menino deixou Júlio abalado.
Tinha ainda esperanças de que ela o desse para adoção. Com
o passar dos dias, porém, começou a desanimar. Como Geórgia
não o procurava, era óbvio que não considerava a hipótese. Aos


poucos, Júlio foi deixando de pensar nela. Lamentava o destino
que tiveram, desejava que ela fosse feliz com o filho, mas longe
dele. Tinha Bianca para consolá-lo.
Poucos meses após o nascimento de Régis, Júlio surpreendeu-
se ao ver Bianca na porta do banco. Ele a olhou contrariado,
com medo de que Anselmo o repreendesse. Apressou o passo,
puxou-a pelo braço e dobrou a esquina rapidamente.
Já disse para não aparecer mais aqui. Anselmo pode ficar
aborrecido.
- Anselmo não manda em mim, e a rua é pública. E você
devia assumir que estamos juntos. Ainda mais agora que teremos
que nos casar.
Casar?! Que história é essa? Ficou louca?
- Louca, não. Grávida.
- O quê?
- Isso mesmo. Estou grávida de quatro semanas. Anime-
-se, Júlio, nós vamos ter um filho! E esse será todinho seu.
- Não é possível. Como isso foi acontecer?
- Você não sabe?
- Você disse que estava tomando pílulas.
- As pílulas também falham - mentiu ela, que há tempos
deixara de tomar anticoncepcional, na esperança de engravidar e
forçá-lo ao casamento.
- Não posso me casar agora - tornou desnorteado. -
Muito menos ter um filho.
Foi um banho gelado. Uma decepção indescritível. Depois
do incidente com Geórgia, Bianca tinha certeza de que Júlio ficaria
feliz em saber que seria pai de verdade.
- O que está dizendo, Júlio? - indignou-se, - Que vai
fazer comigo o que fez com Geórgia? - Abandonar-me e ao meu
filho? Só que esse é seu, não de um estuprador, É seu. Seu filho!
Ele a olhou com desgosto. Não sabia o que soaria pior: assumir
que estava namorando uma ladra ou abandonar a namorada
grávida. As duas hipóteses lhe pareciam absurdas.
160


- Pensei que você me amasse - continuou Bianca, toda
chorosa. - Que fosse ficar feliz com nosso filho.
- Não se trata disso - ele tentou contornar. - É que a notícia
me pegou desprevenido. Não sei o que fazer.
- Temos que nos casar. Meus pais não vão aceitar a filha
grávida e sem marido.
- Tem razão - concordou ele, temendo um escândalo da
parte dela.
- Você tem que ir lá em casa falar com eles, explicar a situação.
- Eles já sabem?
- Ainda não. Queria que você estivesse junto.
- Está certo, mas dê-me um tempo. Não faça nada ainda.
Espere até o fim da semana, quando então lhes contaremos.
- Quer dizer então que você aceita? - exultou. - Vai
mesmo se casar comigo?
- É uma solução. Agora, vá para casa. Você não deve ficar
andando por aí nesse estado.
- Que estado? Não estou doente, estou grávida. E no comecinho
ainda. Veja, nem dá para notar a barriga.
- Certo, não dá. Vamos, vou levá-la.
Ele a acompanhou até em casa, despedindo-se na portaria.
Por essa ele não esperava. Nunca lhe passou pela cabeça que
Bianca pudesse engravidar, mesmo porque confiava que ela estivesse
tomando os cuidados necessários. Ela dissera que a pílula
falhara. Seria verdade?
Verdade ou não, era um fato, estava acontecendo. Sua maior
preocupação era Anselmo. Com aquela mania de falso moralista,
iria recriminá-lo, chamando-o de irresponsável. Poderia até colocá-
lo de lado, ignorando seu nome para futuras promoções. E se
Bianca fizesse algum escândalo na porta do banco, aí sim, poderia
dizer adeus à sua carreira. Pior: ao seu emprego.
De repente, Geórgia já não parecia mais um segredo que
devesse ocultar. Bianca é que o preocupava agora. Ele precisava
cuidar de Anselmo antes de tomar uma decisão a respeito. No dia


seguinte, chegou acabrunhado à agência e foi procurá-lo. Como ele
ainda não havia chegado, sentou-se para esperar. Anselmo chegou
pouco depois, espantando-se com a presença de Júlio.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou preocupado.
- Aconteceu. Na verdade, preciso de um conselho.
- Do que se trata? É algo relacionado ao trabalho?
- Não. Diz respeito à minha vida pessoal.
Era do que Anselmo mais gostava. Conhecer a intimidade
de cada um. Dava-lhe um prazer mórbido estar por dentro dos
problemas pessoais dos empregados, principalmente das questões
conjugais e amorosas.
- Muito bem. Se eu puder ajudar... O que foi que houve?
- É o seguinte. Sabe a Bianca?
- O que tem ela?
- Bem, você sabe como ela é gostosa, não sabe?
- E daí?
- Diria mesmo que é irresistível. E tem um charme...
- Está querendo me dizer que transou com ela? - ele
gargalhou. - Se é isso, fez muito bem. Bianca é o tipo de mulher
que só serve para a cama. Desde que você não pense em se casar
com ela, está tudo bem.
Júlio empalideceu. Não contava que Anselmo se adiantaria e
emitiria um julgamento tão rápido.
- Aí é que está - prosseguiu ele, sentindo uma vergonha
fenomenal. - Bianca engravidou.
- Engravidou? - espantou-se, chegando a cadeira para a
frente. - E é seu?
- Ela diz que é.
- Meu amigo, isso é um golpe. Bianca sai com todo mundo.
O filho pode ser de qualquer um.
- Duvido muito. Faz tempo que ela só transa comigo.
- Como é que você sabe? Ela pode estar enganando você
e agora quer fazê-lo de trouxa, para assumir o filho de outro. Não
caia nessa.
162


- Não acredito que Bianca esteja saindo com outro. Sou homem,
conheço essas coisas. Ela está caidinha por mim, fica em casa
me esperando. Sempre que a procuro, ela está à minha disposição.
- Essa não, Júlio. Não acredito! Como é que você, um rapaz
inteligente, foi cair nessa?
- Ela dizia que tomava pílulas.
- E você acreditou. Ora, ora, quanta ingenuidade! Foi terminar
com Geórgia para cair na lábia de Bianca. Onde já se viu?
- Na verdade, Anselmo, acabei me envolvendo com Bianca
justamente porque estava passando por um momento difícil com
Geórgia. Bianca me deu apoio, aproveitou-se de minha fragilidade
para me seduzir.
- O que houve entre você e Geórgia realmente? Você nunca
chegou a me contar.
Não era hora de mentir, mas de buscar apoio. Confessar a
Anselmo seus problemas devia conferir-lhe algum crédito, pois
o gerente se sentia importante e valorizado quando alguém lhe
fazia confidências.
- O que vou lhe contar agora é muito pessoal - disse ele
à meia voz, levando Anselmo a aproximar ainda mais a cadeira.
- Gostaria de poder contar com a sua discrição e, mais ainda,
com a sua compreensão.
- Mas é claro, meu amigo! O que foi que houve?
- Lembra-se de quando Geórgia foi assaltada?
- Lembro.
- Bem, a verdade é que não foi um assalto. Foi um estupro.
- Ele ergueu as sobrancelhas, impressionado, enquanto
Júlio prosseguia: - E quem a estuprou foi o Tácio.
- O quê?! O Tácio, que trabalhou aqui?
- Esse mesmo. Mas isso não é o pior. Desse estupro resultou
uma gravidez.
- Não me diga!
- Espero que você não me julgue um fraco, Anselmo, mas,
por amor a Geórgia, acobertei o estupro.
163


- Fez bem. Eu teria feito o mesmo. Sem contar a vergonha.
Estimulado pela surpreendente atitude compreensiva de
Anselmo, Júlio continuou:
- Só não pude aceitar a gravidez. Descobri que o estupro
dá direito ao aborto e insisti para que Geórgia o fizesse. Diante de
sua recusa, sugeri a adoção, que ela também rejeitou. Em vista
disso, não tive escolha senão romper o noivado. Pode parecer
cruel, mas não dava para criar o filho de outro homem, ainda
mais nessas circunstâncias.
- Por que não me contou isso antes, meu rapaz? - retrucou
Anselmo, aparentemente penalizado. - Eu teria lhe dado apoio e
você não precisaria buscar consolo na cama de uma rameira.
- Tive medo da sua reação, de que você não me considerasse
digno do cargo que me confiou.
- Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Sua vida pessoal
não interessa ao banco, desde que não interfira no trabalho.
- Você não teria me colocado na geladeira?
- Por causa disso, não. Não é problema meu.
Anselmo não dizia a verdade. Só por causa do estupro, nada
faria. Mas, se Júlio aceitasse aquela gravidez espúria, teria uma
decepção tão grande que jamais tornaria a indicá-lo para qualquer
outra promoção.
- Não pensei que você fosse compreender - prosseguiu
Júlio.
- Pois me julgou muito mal. Sou seu amigo, acima de tudo.
Se você tivesse aceitado a gravidez de Geórgia, eu me teria decepcionado
- deixou escapar. - Mas você agiu como um verdadeiro
homem de moral.
- Puxa vida, Anselmo, como estou aliviado!
- Só que agora se meteu em outra encrenca com Bianca,
não foi?
Ele assentiu.
- E não me atrevo a sugerir o aborto.
164


- Aborto é crime. Também sou contra. O jeito é assumir o
que você fez.
- Como?
- Casando-se com ela, é claro.
- Mas você disse há pouco que Bianca não era mulher para
se casar.
- Isso foi antes de saber que ela está grávida. Sua reputação
está em jogo. Se você não se casar e a história da gravidez
de Geórgia vier à tona, como vai vir, já que a criança tem que
nascer um dia...
- Já nasceu.
- Pois é. Imagine só o que vão dizer de você. Que é um
covarde, um cafajeste que se aproveita das mulheres e as abandona
quando ficam grávidas.
- Não quero que pensem isso de mim.
- É claro que não. Por isso, tome a decisão mais acertada.
Case-se com Bianca, tenha o filho e sossegue. Vai manter sua
reputação em alta.
- Você acha?
*
- Tenho certeza. Assim, os falsos moralistas não terão o
que falar de você.
- Mas e o fato de Bianca não ser lá muito certinha? Todo
mundo sabe que ela é da pá virada.
- Controle sua mulher. Ponha-lhe rédeas curtas. Se os
outros virem que é você quem manda, irão respeitá-lo e a ela.
- Obrigado, Anselmo - disse Júlio com sinceridade. - Sabia
que não estava enganado ao pensar que podia contar com você.
- É claro que pode. Sempre que precisar. Tome cuidado
apenas para ela não roubar de seus vizinhos.
Anselmo riu de si mesmo, e Júlio o acompanhou. Anselmo
gostava de aconselhar os outros, principalmente em enrascadas
como aquela em que Júlio se metera. Fazia-o sentir-se importante,
dava-lhe a impressão de que podia mandar na vida das pessoas.
165


Sobretudo quando a moral estava em jogo, apreciava as soluções
criativas que arranjava para manter as aparências.
Era isso o que importava. Não tanto agir dentro da moralidade,
mas jamais ser descoberto.
Alheia a esses fatos, Geórgia continuava pensando em Júlio,
desejando que ele a procurasse. Mas, com o passar do tempo,
vendo que ele não aparecia, não aguentou mais. Tinha de procurá-
lo. Ligou para a casa dele, sendo informada de que ele havia
se mudado. A mãe dele, com pena de dar a notícia a Geórgia,
mandou a empregada omitir o casamento.
- Mudou-se? - surpreendeu-se. - A senhora não pode
me dar o novo endereço?
- Sinto muito, minha filha. Sou apenas a empregada. Não
tenho autorização para isso.
Desligou, deixando Geórgia ainda mais aflita, pensando
que Júlio havia se mudado para não ser obrigado a encontrá-la
novamente. Alimentando ainda uma última esperança, resolveu
encontrá-lo na saída do banco. Chegou cedo e aguardou.
- Júlio - chamou, assim que ele passou.
Ouvindo aquela voz, há anos sua conhecida, Júlio estacou.
Virou-se para ela, encarando-a com um misto de surpresa e euforia.
Ela estava um pouco diferente, o rosto mais amadurecido, o
corpo mais voluptuoso do que o normal.
- Geórgia! O que faz aqui?
- Queria falar-lhe, mas me disseram que você se mudou.
- É verdade.
- Foi para não me ver mais?
- Não - contestou ele, escondendo o dedo da aliança.
- Então, por que foi? Está morando sozinho?
Ele não respondeu. Não queria contar a ela que se havia
casado com Bianca e que, em breve, teriam uma menina.
166


- Olhe, Geórgia, gostaria de conversar, mas estou com
pressa, Tenho um compromisso daqui a pouco.
- Quando poderemos nos encontrar de novo?
- Não podemos. Não temos mais nada a dizer um ao outro.
Ela engoliu o choro, lutando para não implorar a ele que voltasse
- Ainda está com raiva de mim? - tornou ela, quase sem
poder articular as palavras.
- Não. Não sinto mais nada por você.
- Você não me ama mais?
- Não - falou hesitante, embora em tom gélido.
- Não pode ser. Diga que não é verdade.
- Por favor, Geórgia, não torne as coisas mais difíceis do que
já são. Foi complicado para nós dois, ambos dissemos coisas que
não gostaríamos de ter dito. Temos muito de que nos arrepender.
- Você se arrepende de ter terminado comigo?
- Não.
- De que se arrepende, então?
- Isso não importa. Gostaria que você não me procurasse
mais-.
Nesse momento, Anselmo saiu da agência. Logo que viu
Júlio conversando com uma muiher, todos os seu sentidos se
aguçaram. Sem ser percebido, fingindo que abria a porta do carro,
olhou-os de soslaio, custando a reconhecer Geórgia. Quando viu
que era ela, se surpreendeu. Uma ideia maldosa surgiu em seu
pensamento. Gostava de provocar as pessoas, fazê-las sentirem-
-se humilhadas, constrangidas. Tomando cuidado para que ela
não o visse, aproximou-se.
- Bianca! Não podia deixar de cumprimentá-la... - calou-
-se, fazendo cara de espanto, como quem acaba de cometer
uma gafe. - Geórgia! Sinto muito. Confundi-a com outra pessoa.
Pensei que fosse a esposa de Júlio. Como está passando? Bem?
E o bebê? Bem, prazer em revê-la. Até logo.
167


Anselmo nem lhe deu tempo de responder a nenhuma de
suas perguntas. Geórgia estava atônita, tentando entender as
palavras dele.
- Bianca? - sondou ela, depois que ele ligou o carro e
partiu. - Sua esposa? O que isso quer dizer? Você se casou?
- Lamento que você tenha que saber assim - falou ele,
nada satisfeito com a atitude de Anselmo. - Mas sim, casei-me
com Bianca. Acho que você se lembra dela.
Não era possível. Geórgia recusava-se a acreditar. Júlio não
perdera tempo. Casara-se com outra tão logo rompera com ela.
- Jamais poderia imaginar uma coisa dessas - retrucou
ela, magoada. - Não conheço você, Júlio. Não é o homem que
namorei por sete anos. Agora vejo que você nunca me amou.
- Não é bem assim, Geórgia. Nós já havíamos terminado.
- E você correu para outra, não foi? Eu já não interessava
mais, usada por um drogado, grávida de um estuprador. Era
demais para você, não era? Mas Bianca, não. Linda, maravilhosa,
perfeita. E a burra aqui acreditando que você podia mudar de
ideia. Como fui estúpida! Alimentei a ilusão de que você voltaria
quando você há muito já estava na cama de outra!
- Eu não lhe prometi nada. Lamento que você tenha alimentado
essa ilusão, mas não foi culpa minha. Fui sincero no que disse.
- E se eu tivesse tirado meu filho? Você voltaria para mim,
mesmo já estando com ela?
- Voltaria. Mas você deixou passar muito tempo. Perdi as
esperanças. E depois, fui forçado a casar-me com Bianca.
- Forçado?
- Ela engravidou... não podia abandoná-la.
- Não podia abandoná-la como me abandonou?
- É diferente. Bianca espera um filho meu.
- E o meu filho não é seu, não é, Júlio? Já entendi. Não
precisa dizer mais nada. Não quero que diga mais nada. De hoje
em diante, não precisa mais ter medo de cruzar comigo na rua.
Nunca mais pretendo falar com você. Vou criar o meu filho sozinha,
168


ele nem vai saber que você existiu. Quanto a você e Bianca, espero,
sinceramente, que sejam felizes e que o filho de vocês seja tão
amado quanto o meu é por mim. Adeus!
Ela passou por ele feito uma bala, antes que os soluços delatassem
seu desespero. Correu para casa o mais rápido que pôde,
para atirar-se nos braços da mãe. Daquele dia em diante, procurou
não mais pensar em Júlio, concentrando-se na criação do filho.
O crescimento de Régis era acompanhado de perto por
Josué. Mais distantes, Damien e Tácio também observavam o
menino. Sempre que alguém o levava para tomar sol ou brincar na
pracinha, vendo que nem Josué nem Uriel estavam por perto, lá
iam os dois dar uma espiada nele.
- Ele é muito lindo - dizia Tácio, embevecido.
- Não sei se será tão lindo por dentro - rebatia Damien,
com inveja. - Espere só até ele crescer.
- Será que devemos mesmo estimulá-lo ao mal? Talvez seja
melhor deixarmos que ele viva por conta própria.
- Nem pense em dizer uma coisa dessas perto de Atílio. Ele
vai mandar esquartejar você.
Damien tremia só de pensar no que faria Atílio se eles
falhassem. Ainda tinha vívida na memória a sensação da ponta
de seu chicote.
Entocado em seu covil nas trevas, Atílio estava preocupado.
Damien se mostrava um incompetente, mas não era essa sua
maior preocupação. Nos últimos tempos, andava inquieto, com
vontade de sair. Pensava em Nora com insistência, não sabia o
que fora feito dela. Mandou chamar Damien.
- Quero que você faça outra coisa para mim.
- O que é, chefe?
- Quero que descubra o paradeiro de Nora.
- Nora? Não sei quem é.
169


- Vou lhe mostrar um retrato dela. Aqui, veja15.
Damien olhou bem a fotografia. Uma moça bonita, rosto
regular, olhos expressivos, sorria com delicadeza.
- Muito bonita - elogiou ele. - Mas onde encontrá-la? Ela
está desencarnada?
- Isso é o que você vai descobrir.
- Mas chefe, como? Não a conheço, nem sei por onde
começar.
- Vou lhe passar algumas informações sobre sua última
vida, ao menos aquela em que estive com ela. Tente se conectar
com a energia dela.
Damien achou aquilo praticamente impossível, mas não o
contradisse. Nunca nem ouvira falar de Nora, como agora poderia
se conectar com uma energia desconhecida? Atílio não pensava
nisso. Sentia sua presença em algum lugar, sabia que ela estava
por perto. Só não a imaginava novamente ao lado de Mizael, filha
de Bianca e Júlio.
15 O retrato nada mais é do que uma figura plasmada pelo pensamento do espírito.
170

Capítulo
20
Natália era um lírio em meio ao lodaçal da desordem. Após
seu nascimento, um abismo de gelo se abriu no relacionamento
entre Júlio e Bianca. Nas poucas vezes em que se falavam, desgastavam-
se com cobranças e reclamações. Nunca uma palavra de
carinho nem um gesto de amor. Só brigas constantes. Depois veio
a indiferença, a perda recíproca de interesse.
Promovido a gerente geral, Júlio foi transferido para uma
nová agência. Com a família, mudou-se para outro bairro, distante
dos problemas e dos pais, que não aceitaram muito bem o seu
casamento. Queriam que ele se casasse com Geórgia, a despeito
da gravidez derivada do estupro. A mudança não deixou de ser
um alívio, principalmente porque Júlio não corria mais o risco de
encontrar-se com a ex-noiva.
Reunida na sala de jantar, a família aguardava a sobremesa.
Mal se falavam. Natália não via a hora de ser dispensada para
poder assistir um pouco de televisão antes de dormir. Júlio, por sua
vez, pensava em Anselmo, à beira da aposentadoria, ainda dotado
de uma língua ferina, impiedosa. Júlio soubera, por amigos, que
a mulher de Anselmo o deixara, não se sabia se por outro homem
ou se cansada de suas maledicências.
Bianca parecia impaciente, além do normal. Agitava as
pernas, num nervosismo frenético, sem motivo. Olhava para Júlio


e Natália, como se esperasse alguma coisa. Depois de servida a
sobremesa, Bianca sentou a filha no sofá, ligando a televisão, e
voltou para conversar com Júlio.
- O que foi? - indagou ele, rispidamente.
- Tenho algo a lhe dizer- sussurrou ela, evitando encará-lo.
- Pois fale logo. Estou cansado, quero dormir.
- Estou grávida, Júlio. Vamos ter outro filho.
- Como é que é? - revidou indignado, elevando a voz.
- Grávida?
- Isso mesmo. Qual o problema? Não sabe o que é isso?
- De quanto tempo?
- Seis semanas.
Ele fez as contas mentalmente. Quando tornou a falar, havia
raiva em sua voz.
- Você não pode estar grávida! Nós quase não temos transado...
Esse filho não é meu!
- É claro que é seu - objetou ela com veemência. - E
você me ofende falando desse jeito. Está insinuando que eu dormi
com outro homem?
- Não precisa fingir um pudor que você não tem - falou
ele, cada vez mais irado. - Diga-me a verdade, Bianca. De quem
é esse filho?
- É seu, já disse.
- Você pensa que eu sou trouxa? Que não sei contar?
- Você contou errado. O filho é seu, com certeza.
- Quero um exame de DNA! Esse filho não pode ser meu.
- Pense bem, Júlio. Para que um escândalo desses sem
necessidade? Você, que sempre se preocupou com as aparências,
vai correr o risco de virar alvo de fofocas por causa de uma
desconfiança infundada. Asseguro-lhe de que esse filho é seu. E
depois, não tenho nem nunca tive outro homem. Você devia se
envergonhar de acusar assim a sua mulher. Jamais lhe dei motivos
para desconfiança.


Ele ficou em duvida. Realmente, até então, jamais havia
desconfiado dela. Bianca era desligada, fútil, contudo nunca agira
como se tivesse um amante. Nesse momento, Natália aproximou-
-se, os lábios comprimidos, ameaçando chorar.
- É briga? - indagou ela, com seu linguajar incompleto de
criança pequena.
- Não, meu bem - disse Bianca, apanhando-a no colo.
- Eu só estava contando ao papai a novidade.
- O quê?
- Você vai ganhar um irmãozinho ou irmãzinha.
Ela pensou por uns minutos e retrucou em dúvida:
- Mamãe vai ter bebê?
- Vou. E a nossa família agora vai ter quatro pessoas. Eu,
você, o papai e o irmãozinho.
- Oba! - exclamou ela, enlaçando o pescoço da mãe.
Bianca olhou para Júlio com ar de vitória.
- O papai só ficou um pouquinho preocupado - continuou
ela, maliciosamente. - Ele acha que não poderia ser pai
desse bebê.
- Não é nada disso - cortou Júlio rapidamente, sem dar
tempo a Natália de responder com outro por quê. - Para a mamãe
ter um bebê, o papai tem que querer também.
Ela os olhou em dúvida, sem entender muito bem o que estava
se passando.
- O bebê já está na barriga da mamãe - contou Bianca.
- Não é legal?
- É...
- Pena que seu pai não pensa assim. Ele não quer esse
bebê.
- Não diga besteiras! - objetou Júlio ferozmente. - Isso
não é coisa que se fale para uma criança.
- Papai tem razão, querida - concordou Bianca, em tom
mordaz. - Estou apenas brincando.
- Por quê? - tornou Natália, ainda sem entender muito bem.


- Sua mãe é uma boba - disse Júlio, olhando com ódio
para a mulher.
- Papai é que é o bobo, meu bem. Mas agora é hora de
dormir. Dê um beijo de boa-noite no papai e vamos para a cama.
Depois de fazê-la dormir, Bianca voltou para junto de Júlio,
um sorriso de triunfo envenenando seus lábios.
- Ficou louca? - censurou Júlio, logo que ela entrou. -
Como é que você diz uma coisa dessas para a menina?
- Temos que lhe dizer a verdade: você não quer esse filho.
Ou prefere criar sua filha na mentira?
- Não seja cínica! A única mentirosa aqui é você. Eu não
quero esse filho porque ele não é meu!
- O filho é seu. Se não quer acreditar em mim, problema
seu. Mas pense bem. Um escândalo não seria aconselhável. Ainda
mais com a influência de Anselmo. Sabe como ele é todo cheio
de moralismos. Imagine se essa história chegar aos ouvidos dele.
Adeus promoção!
Júlio silenciou. Não sabia mais o que dizer. Tinha certeza
de que ele não podia ser o pai da criança. Fazia tempo que ele
e Bianca não mantinham relações sexuais. Ela estava mentindo,
usando a filha para fazê-lo aceitar a gravidez.
Igualzinho ao que acontecera com Geórgia. Não, não era
igual. Geórgia não tivera escolha. Fora forçada por um bruto.
Bianca, por outro lado, deliberadamente se atirara na cama de
outro homem. E agora, ele se via passando pela mesma situação
outra vez. A história se repetia, forçando-o, novamente, a
aceitar um filho que não era seu.
Embora não lhe agradasse, Júlio resolveu esperar. Gravidez e
divórcio não pareciam uma boa combinação. Despertariam a desconfiança
de Anselmo, que acabaria pressionando-o até descobrir a
verdade. Justo agora que ele estava para se aposentar, Júlio esperava
uma nomeação importante. Tinha de ser paciente e aguardar.
Quando o bebê nasceu, Júlio pensou que fosse matar
Bianca. Ele não precisava de nenhum especialista para ver que


aquela criança não era sua filha. Se ele e Bianca possuíam a pele
alva, como explicar a tez excessivamente morena da menina?
- Você só pode estar brincando! - revoltou-se. - Ainda
quer me fazer acreditar que essa menina é minha filha?
- O que é que tem? Ela é tão bonitinha!
- Ela é mulata, pelo amor de Deus!
- Ela é moreninha. E daí se fosse mulata? Isso é preconceito,
por acaso?
- Preconceito, não. Talvez uma impossibilidade das leis da
genética.
- Você não entende nada de genética. Ela puxou à minha
bisavó, que tinha sangue de escravos.
- Não brinque comigo, Bianca - ameaçou. - Já aguentei
demais suas humilhações. Qualquer juiz no mundo me daria o
divórcio só olhando para ela.
- Vai descontar suas frustrações na criança agora, vai? Ela
é sua filha e ponto final.
Júlio pensava em se divorciar, mas Natália chorou tanto que
ele desistiu. O jeito era fingir que a menina era sua. Com o passar
do tempo, as coisas foram se acomodando e, para sua surpresa,
Júlio percebeu que se afeiçoava mais e mais a Patrícia. Ela o cativou
aos poucos, logo tornando-se sua preferida. Sem coragem de
separar-se dela, desistiu do divórcio.
175


Capítulo
21
Após a conclusão da faculdade, Geórgia conseguiu o tão
sonhado emprego no Centro Educacional Jean Piaget, onde adquiriu
experiência suficiente para dividi-la com as crianças da escola
pública. Posteriormente, recebeu um cargo de chefia na Secretaria
de Educação, ficando encarregada do acompanhamento do ensino
em várias escolas. Utilizando técnicas de vanguarda, quando
não era tolhida por superiores de mente ainda conservadora,
conseguia resultados excelentes com crianças e adolescentes.
Tinha agora condições de pagar uma boa escola para Régis.
Não ganhava nenhuma fortuna, mas o suficiente para viver com
uma certa tranquilidade. A mãe também tinha a pensão do pai
e juntas iam levando a vida. Continuavam a morar na mesma
casa, pois Cléia insistira em não a vender, um pouco apegada às
lembranças ali deixadas pelo marido.
Régis crescia saudável e inteligente, lindo como um príncipe.
Era bom aluno, tirava boas notas na escola sem nenhum esforço.
Mas fazia coisas que iam além do padrão normal de travessuras
infantis. Era estouvado, agressivo, brigão. Tinha uma tendência à
dissimulação e à ironia, que Geórgia e Cléia, aos poucos, conseguiam
contornar.


A luta das duas contra suas más inclinações surtia bons resultados.
Preservado no ambiente familiar, as investidas dos seres
das trevas ali não o alcançavam, de forma que os bons conselhos
acabavam sendo uma influência de peso. Mas o que mais o
conduzia pelo caminho da modificação interior era o amor, sobretudo
da mãe. Régis e Geórgia estavam tão intimamente ligados
por laços afetivos que era praticamente impossível destruí-los. Ao
perceber que suas más atitudes a faziam triste, Régis procurava
evitá-las. Pela mãe, era capaz dos maiores sacrifícios, só para não
a ver chorar.
Até os sete anos, como é comum acontecer, Régis permaneceu
livre das investidas de Damien e Tácio, que secretamente
via crescer o amor pelo menino. Reconhecia nele muitos traços
de sua fisionomia, imaginando que ele teria a chance de possuir
tudo o que ele próprio não havia podido ter. A começar pela mãe,
muito diferente da sua, sempre fria e distante. Seria uma pena
vê-lo perdido, desorientado, seduzido pelas facilidades do crime
para depois acabar morto, atirado numa vala qualquer.
- Você e eu sabemos que bandido não dura muito - dizia
ele a Damien. - Não vai ser um desperdício ele acabar assassinado
tão jovem?
- Nós não sabemos qual foi a programação dele lá em cima
e não tem importância. Quanto mais cedo ele retornar, melhor.
Abrirá vaga para outro que quiser reencarnar e talvez desempenhe
essa tarefa melhor do que ele.
Tácio reconheceu, pela primeira vez, os traços da inveja e
do ciúme. Seria possível que Damien não gostasse de seu filho?
Resolveu comentar:
- Parece-me que você não simpatiza muito com Régis.
- O nome dele é Mizael. Atílio já nos proibiu de chamá-lo
por outro nome.
- Que seja. Mas não é verdade?


- Eu não tenho que simpatizar com ele. Tenho apenas que
obedecer às ordens de Atílio e mantê-lo na linha. É você que, pelo
visto, está se apegando muito a ele.
- Ele é meu filho.
Damien estava cansado. Não aguentava mais o sentimentalismo
de Tácio. Irritado, deu de ombros e esvaneceu, espantando-se
ao perceber que Tácio o havia seguido até sua cidade astral.
- Resolveu vir embora? - perguntou Damien, desconfiado.
- Não tenho mais o que fazer por lá. A avó o levou para
casa, onde não posso acompanhá-los.
- Ué! E você não foi se drogar?
Ele sacudiu a cabeça vigorosamente e respondeu:
- Estou tentando largar. Cheguei à conclusão de que não
preciso mais disso.
- Como assim?
- Bom, se eu não tenho mais um corpo físico, então não
posso estar viciado.
- O vício não se instaura só no físico, mas no corpo fluídico
também. E o seu está impregnado de droga.
- Acho que isso é só uma coisa da minha mente, como tudo
por aqui. Pelo menos, foi assim que você me ensinou. Talvez, se
eu conseguir resistir, meu corpo fluídico vá se limpando.
- Por que está preocupado com isso? Sem a matéria densa,
você não pode morrer de overdose. Pode se drogar à vontade.
- Não quero mais. E você mesmo disse que Atílio proibiu de
transmitir a Régis...
- Mizael! - cortou, aborrecido.
-... a Mizael os efeitos da coca. Como é que você acha que
eu posso impedir o menino de sentir essa vibração se chego perto
dele carregado dela? Então, achei melhor me livrar da cocaína.
Não é de verdade mesmo.
- É de verdade, sim. Só não é física.
- Pois é. É mais uma ilusão, uma matéria volatizada que
logo se dissipa. Não tem a mesma densidade do pó físico.
178


- O que você faz para conseguir isso?
- Uso a força de vontade. Penso que o prazer que sinto
com a droga não é real, já que meus órgãos internos não são de
carne. Assim, a química não os contamina. Na verdade, não há
mais química. O que há é a sensação, à qual já me acostumei, de
que estou realmente me drogando. Minha mente criou essa ilusão,
logo, pode destruí-la.
- Você aprendeu tudo isso sozinho? - surpreendeu-se.
- Pela experiência. Anos de observação e experimentação.
E depois, Ré... Mizael tem sido um incentivo.
- Por quê?
- Porque é meu filho, ora! Quero o melhor para ele.
Aquilo não ia dar certo. Damien notou uma coloração rósea
na altura do coração de Tácio quando ele disse a última frase.
Foi muito rápida, logo se dissipou. Contudo, era claro que Tácio
começava a alimentar um sentimento perigoso e quase impronunciável
por ali: amor.
Ele devia ter imaginado que usar Tácio como seu ajudante
seria um desastre. Querendo ou não, ele era pai de Mizael. Podia
estar desencarnado, ter gerado aquele filho num momento de delírio
provocado pela droga, mas, ainda assim, Mizael carregava o
DNA dele. E agora, o que faria se Tácio os traísse e mudasse de
lado? Ele sabia muitas coisas para ser capturado pelos seres
de luz. Se acontecesse aquela tragédia, quem iria pagar caro seria
ele. Dessa vez, Atílio não o perdoaria. Depois de pensar por alguns
instantes, Damien concluiu que o melhor seria prendê-lo.
- Venha comigo - ordenou.
Sem de nada desconfiar, Tácio o seguiu por um caminho que
ele nunca antes percorrera. Era uma estradinha sinuosa, ladeando
uma ravina fétida, escura. Desceram por uma escada talhada no
barro até uma construção sombria, erguida, aparentemente, com
lama e pedras. Sem dizer nada, Damien cumprimentou o porteiro,
que lhes franqueou a passagem.
- Que lugar é esse? - indagou Tácio, assustado.


Dentro havia várias celas, onde espíritos atormentados encontravam-
se enclausurados, alguns com argolas que os prendiam à
parede. O guardião soltou uma gargalhada sinistra por debaixo do
capuz de carrasco e abriu a porta de uma das enxovias.
- Entre - foi a ordem incisiva.
Tácio titubeou. Não entendia o que estava acontecendo.
- Você vai me prender aqui?-tornou horrorizado. - Por quê?
- Seguinte: você está se tornando perigoso. Quem foi que
o mandou se encantar pelo menino?
- Vai me prender só porque gosto de Mizael? Mas ele é
meu filho!
- Ele não é seu filho - rugiu, aproximando a boca espumada
do rosto assustado de Tácio. - É protegido de Atílio, pertepce
a Atílio. Atílio é quem decide o que fazer com ele. E você caiu na
besteira de se permitir sentir amor pelo menino. Agora já era. Você
se tornou um perigo. Atílio não gosta de gente que ama. Muito
menos eu. Agora entre.
A um sinal de Damien, o guarda empurrou Tácio para dentro
com brutalidade, revelando o prazer que sentia ao executar ordens
daquela espécie.
- Não! - objetou Tácio, fazendo força para não entrar.
- Não vou permitir que você me aprisione. Não fiz nada de errado.
O carrasco empurrava, mas, estranhamente, Tácio não saía
do lugar. Nem ele se deu conta de que não se movia. O espírito
o espetou com a ponta espinhenta de sua clava, contudo Tácio
nada sentiu.
- O que está acontecendo? - esbravejou Damien, mais
surpreso do que o carrasco. - Empurre-o lá para dentro, ande!
- Senhor, não consigo - informou, surpreso, o outro.
- Ele está resistindo.
- Como isso é possível?
180


Vendo que o guardião não conseguia empurrar Tácio para
dentro da masmorra, Damien arrancou a clava da mão dele.
Ergueu-a acima da cabeça, pronto para golpear Tácio com força,
doido para rachar-lhe o crânio etéreo em dois. Com um pouco de
sorte, veriam sangue fluídico se esparramando no chão16.
Quando ele desferiu o golpe, veio a surpresa. Inesperadamente,
Tácio desapareceu diante de seus olhos. A clava desceu
com violência, puxando o corpo de Damien para a frente, e tocou
as pedras do chão.
- O que foi que houve? - espantou-se o carrasco, correndo
para todos os lados em busca de Tácio. - Nunca vi uma
coisa dessas.
Damien também não. Contudo, sabia o que se passara.
Devia imaginar que aquele pontinho luminoso no coração de Tácio
era indício de que uma força poderosa nascia ali. A surpresa foi
tremenda. Assustou-o o fato de que um pouquinho só de amor
fosse capaz de romper a barreira de treva que guarnecia a prisão.
O mais espantoso, porém, é que Tácio o vencera. Superara-o em
força, passara por ele com a rapidez de um raio, sem que ele tivesse
a chance de pensar em impedir.
- Nem uma palavra sobre isso, ou vai se ver comigo
- ameaçou.
A clava ficou no chão, pois o carrasco sentiu medo de tocá-la,
imaginando se não estaria enfeitiçada ou coisa parecida. Damien
fez o caminho de volta acabrunhado, temendo a reação de Atílio
quando soubesse. Por sorte, Atílio andava ocupado demais com
seus planos de conquista para prestar atenção a Tácio.
Enquanto subia as escadas sombrias, imaginava onde
Tácio fora parar. Era bem possível que tivesse ido pedir abrigo ao
pessoal da luz. Esse pensamento o fez estremecer, já que todo
o plano de Atílio corria o risco de ruir. Sua arrogância era tanta,
que Damien nem desconfiava de que os projetos de Atílio e de
16 A existência ou não de sangue fluídico depende do grau de desapego do espírito à matéria densa.
181


outros líderes das sombras eram conhecidos pelos espíritos de
luz. Julgava que Atílio era esperto, e era, mas seu intelecto não
se igualava ao dos seres superiores, que, tendo acesso a planos
mais sutis da humanidade, tudo sabiam do que se passava na
Terra, em todas as suas vibrações.
Desconhecendo essas verdades, Damien julgava que o
poder de Atílio era único e agora estava ameaçado. Precisava
reunir coragem para contar-lhe que Tácio fugira, provavelmente
em busca de Josué, que vivia tentando seduzi-lo. E quem seria o
culpado? Ele, que escolhera mal seu subordinado. Para salvar-se,
precisava realizar algum feito muito importante, algo que deixasse
Atílio tão satisfeito, que a recompensa superaria a punição.
O ódio consumiu suas entranhas vazias. Depois de tudo o
que fizera por Tácio, como tivera coragem de o deixar? Foi uma
perfídia, verdadeira deslealdade. Fugir, deixando para trás o amigo
que lhe estendera a mão, para ser atirado aos lobos, era uma traição.
Se pudesse, ainda o faria pagar. Mas como, se nem sabia
onde ele estava?
182

capítulo
22
Fazia dois dias que Tácio andava sumido, e Damien ainda
não havia reunido coragem para contar a Atílio. Estranhava o fato
de que ele não soubesse ainda, mas Atílio agora só se preocupava
com Mizael, para sorte de Damien, que fazia seu usual relatório,
evitando tocar no nome de Tácio.
- Soube que Mizael tem resistido bem à influência da mãe
e da avó - comentou Atílio. - Não é verdade?
* - Mais ou menos. Quero dizer, resistido, ele tem, mas até
agora não fez nada de extraordinário.
- Como o que, por exemplo? - retrucou Atílio com sarcasmo.
- Assaltar um banco? Sequestrar o filho de algum ricaço ou
estuprar uma colega de escola? Mizael ainda é criança, seu idiota.
O que você esperava que ele fizesse além de travessuras incorrigíveis
e agressivas? E isso, ele faz, não faz?
- Realmente. Ele é arteiro além do normal, ameaça e bate
nos colegas. Queríamos que ele fosse um marginalzinho, mas não
deu. A mãe sempre atrapalha, com aquela mania de orações. Além
disso, ela e Cléia não dão folga ao menino. Não são repressoras,
mas não deixam passar nada.
- E isso não o deixa com raiva nem revoltado?
- Deixa, mas a raiva passa logo. Infelizmente, ele é muito
apegado à mãe e faz tudo para agradá-la.


- Que droga! - esbravejou ele. - Com tanta mulher no
mundo, Mizael tinha que ser filho justo da Virgem Maria?
- Ele escolheu mal - envenenou Damien, aproveitando-se
do momento propício. - Então não imaginou que ia acabar nisso?
- Ele não teve escolha - rebateu Atílio, em dúvida. - Era
ela ou ninguém.
- Foi a pressa. Acho que ele poderia ter esperado mais um
pouco. Mas estava doido para voltar. Tanto que aceitou qualquer
mãe, sem nem se dar o trabalho de investigá-la. Se tivesse sido
mais atento, veria que ela se banha no caldeirão da virtude.
- Nada disso é culpa de Mizael. Do lado de lá, fica difícil
agir sem ser notado. Vigiado dia e noite, o que você pensa que ele
poderia fazer para investigar a vida de Geórgia?
Damien deu de ombros e respondeu com mal disfarçado
desdém:
- Não sei.
- É claro que não sabe - concordou Atílio, fixando nele
seus olhos avermelhados. - Você e Tácio são dois incompetentes.
- Lamento, chefe, mas estamos fazendo o possível...
- O possível? Como promover o casamento de Geórgia e
Júlio?
Damien hesitou, balbuciando assustado, com medo de
nova surra:
- Eu tentei, mas não deu. Fui seguir a ideia de Tácio e...
- Isso agora não importa mais - cortou, com frieza. -
Quero falar com Tácio.
- Falar com Tácio? - repetiu, sentindo um gelo se irradiando
em suas entranhas invisíveis. - Por quê?
- Ele a estuprou, não foi? Então, deve conhecê-la de algum
lugar. Essas coisas não são aleatórias, ninguém sai estuprando
por aí se não tem um motivo que todo mundo desconhece. Essa
Geórgia deve ter aprontado alguma coisa com ele no passado.
Preciso descobrir.
- Para quê?


- Você é mesmo muito estúpido. Para usar essa fraqueza
em nosso favor. Se explorarmos alguma culpa de Geórgia, talvez
possamos abrir um furo na barreira ao redor da casa dela.
- E como, exatamente, faríamos isso, se nem podemos
chegar perto dela?
- Mesmo à distância, ela pode receber os pensamentos
de Tácio. Se ele pensar no motivo da culpa, ela vai cedendo aos
pouquinhos, enfraquecendo seu campo energético. Mas eu preciso
de Tácio agora.
- Sim, senhor.
- O que está esperando? Vá buscá-lo!
- É pra já, chefe.
- Só mais uma coisa. Teve notícias de Nora?
- Ainda não. Estou trabalhando nisso. Contudo, como lhe
falei, fica difícil sem tê-la conhecido.
- Incompetente! - rosnou. - Agora vá. Tenho pressa em
resolver esse assunto.
Damien saiu arrasado. Por mais que se esforçasse para executar
bem as ordens de Atílio, ele nunca ficava satisfeito. Só sabia
recriminá-lo e humilhá-lo, tratando-o como um serviçal comum. Um
medo atroz trespassou todo o corpo fluídico de Damien, apavorado
com a perspectiva da segunda morte. Acreditava que Atílio tinha
aquele poder, sem saber que era sua fraqueza que facilitava a capacidade
de indução à perda momentânea de sua forma astral.
Pensando insistentemente em Tácio, Damien percorreu os
lugares que ele costumava frequentar. Na boca de fumo, perguntou
por ele aos espíritos de viciados que perambulavam por ali.
- Faz tempo que não o vemos - informou um espírito.
- Achamos até que ele havia ido embora para a luz -
comentou outro.
- Ele foi? - quis saber um terceiro.
- É o que quero descobrir - avisou Damien.
Tácio parecia ter evaporado. Não estava na praça nem junto a
Mizael. Era hora da escola, mas o menino estava sozinho, fazendo
185


besteiras, como sempre. Não se via nenhum desencarnado junto
a ele. E agora?
Desanimado, Damien voltou a sua cidade, procurando ocultar-
se em seu esconderijo de treva antes que o vissem. Era uma
cabana escura, protegida por árvores gigantes, numa floresta
sombria. Damien abriu a porta, alquebrado, pensando em arranjar
uma maneira de fugir.
Assim que entrou, seus olhos foram atraídos para um ponto
mais obscuro da cabana. Das sombras, um vulto se adiantou.
Damien quase não conseguiu engolir o grito de surpresa e alegria:
- Tácio! Onde você esteve? Procurei-o por toda parte.
- Estive por aí, em lugares onde você não poderia me
encontrar.
- Por que fez isso comigo? Por que desapareceu assim?
- Você não sabe? Depois de mandar me prender, não sabe
por que sumi?
- Aquilo não foi nada - tentou convencê-lo. - Era para
sua proteção.
- Minha proteção? Você queria me prender numa masmorra!
Para me proteger de quê? De você?
- De você mesmo - ele se aproximou, puxando o outro
pelo braço. - Olhe, Tácio, eu me assustei. Você nem percebeu,
mas uma luzinha rosada cintilou no seu coração.
O quê? - surpreendeu-se, silenciando por instantes.
- Uma luzinha? Então é isso. Agora compreendo.
- Compreende?
- Sim, é claro. Antes de você me levar para aquele lugar de
torturas, senti uma coisa diferente, um bem-estar esquisito que, na
hora, não soube definir.
- E como foi que isso o ajudou a fugir?
- Não sei. Diga-me você. Você não sabe tudo?
- Se eu soubesse tudo, não teria ficado feito doido atrás
de você.
186


- Seja como for, deve ter sido graças a essa luzinha que eu
consegui fugir. Na hora que aquele carrasco tentou me prender,
surpreendi-me ao ver que conseguia resistir. E quando você tentou
me acertar com aquela clava, desejei não estar ali. Puf! Na mesma
hora, fui parar em outro lugar.
- Que lugar?
- Na praia. Um ponto que eu costumava frequentar quando
encarnado.
- E depois?
Depois, fiquei por aí. Fui ver minha ex-mulher.
- Não me diga!
- Ela estava lá, com outro garotão. E sabe o que é engraçado?
- Damien meneou a cabeça. - Não senti nada por ela.
Nadinha. Só um vazio muito grande, uma certa indiferença. Foi
estranho. Não tive vontade de continuar ali e fui embora.
Damien se mostrava extremamente interessado na experiência
de Tácio. Devia estar com raiva porque ele fugira, mas o fato é
que sentia uma certa admiração por ele.
- Por que você voltou? - ele continuou a questionar. - Já
estava livre, podia ter ido embora.
- Para onde eu iria? Para o lado da luz? - ele deu de
ombros. - Não posso. Não sou digno de passar para o lado de lá.
Tive medo.
- Medo?
- Sim, medo de todas aquelas coisas que você me contou
sobre punições, renascer esquizofrênico e coisas do gênero.
- Sabe de uma coisa, Tácio? - confessou ele. - Acho
que as coisas não são bem assim. Nós temos liberdade de escolha.
Talvez não precisemos sofrer nem tenhamos que pagar pelos
nossos pecados.
- Não? Mas você disse...
- Sei o que disse. Foi uma forma de mantê-lo aqui.
- Por quê?


- Acho que senti inveja de você. No fundo, sabia que você
seria capaz de sair deste lugar.
- Está enganado. Damien. Não posso sair daqui.
- Você não ouviu o que eu disse? É mentira essa história de
castigo. Você não precisa passar por coisas ruins, se não quiser
Talvez consiga reequilibrar a vida com o trabalho no bem.
A última frase foi dita por Damien com um receio acima do
normal, como se falar no bem lhe causasse dor ou flagelo.
- Se Atílio o ouvisse falando desse jeito... - gracejou
Tácio. - Logo você, um ser das sombras, convicto morador do
submundo astral. Como pode acreditar no bem?
- Saiu sem querer. Talvez porque, no fundo, eu já esteja
cansado de tudo por aqui. E você me fez refletir. Como conseguiu
escapar de mim e do carcereiro, um espírito adestrado para
não deixar ninguém fugir? Que estranho poder foi esse que você
adquiriu e não me contou?
- Eu não contei? Meu caro, nem sei do que você está
falando.
- Sabe, sim.
- Não sei. Mas você sabe, não é?
- E você também. Nós estávamos falando de Mizael. O que
você sente por ele?
Ele pensou por uns momentos, com medo de admitir.
Contudo, era visível que Damien já sabia do que se tratava.
Encarando-o, olhos úmidos, Tácio confessou:
- Amor. Sinto amor pelo meu filho.
- Mais essa agora - lamentou Damien, vendo confirmadas
suas suspeitas. - Eu sabia. Atílio vai ficar furioso.
- Será que Atílio tem tanto poder assim? Ou será que o
poder que ele tem é apenas aquele que vocês lhe dão?
- Não diga asneiras, Tácio. Atílio é muito poderoso. E quer
falar com você.
- Comigo? - estremeceu. - Por quê? Será que ele sabe
o que eu fiz?
188


- Está com medo? Mas não foi você quem disse que Atílio
não tem poder algum?
- Eu não disse isso. Apenas acho que o poder dele é
alimentado por todos aqui.
- Inclusive por você.
- Inclusive por mim, que não me perdoo pelo que fiz a Geórgia
- Pois é justamente para falar de Geórgia que ele mandou
chamá-lo. Quer saber qual a relação de vocês no passado.
- Engraçado. Eu nunca havia pensado nisso.
- Você não se lembra?
- Não
- Atílio quer forçá-lo a recordar. Pretende, com isso, descobrir
a fraqueza de Geórgia para tentar furar o bloqueio energético
ao redor da casa dela.
Ele não pode fazer isso! - objetou com veemência.
- Ele pode e vai fazer. E, se você não quiser, aconselho-o a
se mandar daqui de vez. Vá para o lado da luz. Em qualquer outro
lugar, ele irá encontrá-lo.
- Não posso.
- Você não entendeu nada, não? O lado de lá deve ser bom.
Ninguém que vai volta.
- Isso, eu entendi. Mas existe um outro fator que me impede
de ir.
- Que fator? Que papo é esse?
- Você ainda não sabe por que voltei.
- É - divagou ele. - Você enrolou, enrolou e não me disse.
- Voltei por sua causa, porque ouvi você me chamar.
- Como é que é?
- É isso mesmo. Voltei porque ouvi o seu chamado aflito.
Pensei que você devia estar metido em alguma encrenca com
Atílio por causa da minha fuga.
- Não acredito! Você voltou por mim? Mesmo depois do
que lhe fiz, de ter tentado prender você?
189


- Você me ajudou quando eu mais precisei. Acolheu-me
em sua casa, apresentou-me a meu filho, cuidou para que eu não
fosse levado como escravo. Devo-lhe isso.
- Você não me deve nada - exasperou-se. - Pensa que
fiz o que fiz por amizade? Eu precisava de um serviçal. Você me
serviu, só isso.
- Mesmo assim, aprendi a gostar de você.
- Gostar de mim? - repetiu atônito.
- É, gostar. Não vá me dizer que não sabe o que é isso.
Damien estava confuso. Nunca imaginara aquela situação
inusitada. Gostar não era algo comum por ali. Atílio gostava de
Mizael, e só. Ninguém mais gostava de ninguém. O que havia eram
interesses, alianças, nada de amor.
- Acho melhor você ir embora - pediu Damien, com
desgosto. - Você não pertence mais a este lugar.
- Nem você.
- Está enganado. Não tenho como sair daqui. Atílio não
permitiria.
- Juntos, podemos resistir a Atílio.
- Como? Ficou maluco?
Batidas na porta deixaram-nos em sobressalto. Olhando para
Tácio com temor, Damien foi abrir. Era um dos muitos mensageiros
de Atílio.
- Atílio quer falar com vocês - anunciou ele, sem delongas.
- Agora.
- Nós já vamos - avisou Damien, fechando a porta na cara
dele. E, virando-se para Tácio, perguntou: - Será que ele já sabe?
- Vamos descobrir.
Poucos segundos depois, estavam sentados diante de Atílio,
a quem Tácio via pela primeira vez.
- Então, é você que é o Tácio? - indagou ele, perscrutando
o outro com o olhar.
- Sou - respondeu ele, tentando não demonstrar o temor
na voz.
190


- Você e Damien estão atrasados na deseducação de
Mizael - ironizou ele, fulminando Tácio com o olhar. - Mas
não foi para isso que mandei chamá-lo. O assunto agora é
outro, mais urgente. Preciso que você me diga qual a sua relação
com Geórgia.
- Não me lembro - respondeu Tácio, o menos tremulamente
que conseguiu.
- Tem certeza?
O olhar de Atílio era penetrante, intimidador. Por sorte, Tácio
não se lembrava mesmo.
- Tenho, sim, senhor - afirmou ele. - Na verdade, foi só
quando Damien me contou o que pretendia que pensei nisso.
Nunca antes me havia ocorrido que Geórgia e eu pudéssemos ter
tido uma relação pretérita.
- Muito provavelmente, tiveram. E é o que quero descobrir.
- Como?
- Vou passar você na máquina - alertou, referindo-se ao
equipamento coadjuvante na recuperação da memória.
- O que ela faz?
- Libera as ondas de pensamento represadas no corpo
causal17, trazendo-as à tona de forma organizada e coerente.
Era mentira. O tal equipamento não passava de um engodo,
uma forma de fazer com que espíritos crédulos, em estado de transe
induzido, revivessem passagens de vidas anteriores. Espíritos
das trevas não possuem a elevação moral necessária para ter
acesso aos registros do corpo causal.
Atílio praticamente fez com que Tácio adormecesse.
Então, ligando eletrodos em sua mente, tentou hipnotizá-lo. Não
surtiu efeito. Tácio não queria recordar, logo não foi possível
para Atílio forçar sua memória. Os registros permaneceram
onde estavam, intocáveis.
17 O corpo causal, ou mental superior, atua como veículo do pensamento abstrato e receptáculo das memórias
de vidas passadas. É assim chamado porque nele residem as causas das experiências vividas no presente.
191


- Diabos! - praguejou ele, chutando a máquina. - Esse
cara é um banana, um frouxo! Não serve para nada. Leve-o daqui!
Damien saiu apressado, levando Tácio com ele. Não era
sempre que Atílio conseguia sucesso naquelas sessões, portanto,
o fracasso com Tácio não era nenhuma surpresa. Mas ele sabia
por que não conseguira. Sentira a resistência de Tácio. E, se Tácio
conseguira resistir, era sinal de que ele, Atílio, estava enfraquecendo.
192

capítulo
23
Aos treze anos de idade, Régis era terrivelmente arteiro, cruel,
dissimulado. Ninguém conseguia controlá-lo, à exceção da mãe e,
às vezes, da avó. Seu temperamento ficava mais difícil a cada dia,
deixando Geórgia angustiada, temendo falhar em sua educação.
Do lado invisível, Josué fazia o que podia. Transmitia vibrações
de serenidade e amor, que ele ora assimilava, ora não
percebia. No ambiente doméstico, era mais fácil atingi-lo, mas,
quando saía porta afora, parecia que se transformava. Era incorrigível.
Assustava senhoras idosas, chutava cachorros, atirava
pedras em gatos. Por mais que Geórgia se esforçasse, havia vezes
em que sentia estar perdendo o controle.
- Você não está - disse-lhe Josué certa vez, em sonho.
- Aceitou uma tarefa deveras difícil.
- Sinto que não consigo controlá-lo. Parece que ele agora
simplesmente não me ouve mais.
- Ele está entrando na adolescência, época em que as vidas
passadas e a presente se fundem para formação do novo caráter.
- Então, essa é a época em que eu deveria obter sucesso.
Daqui em diante, nada mais surtirá efeito.
- Não é bem assim. Régis é um menino rebelde, contudo
possui algo de bom dentro dele.


- O quê? Sinceramente, por mais que o ame, tenho que
admitir que ele só pensa em si e não se incomoda com ninguém.
- O seu exemplo e o de Cléia têm sido fundamentais para
levá-lo a reflexão de suas atitudes. Por enquanto, ele não precisou
ainda enfrentar, conscientemente, o resultado de suas ações. Mas
quando isso acontecer, a culpa o levará a se transformar.
- Como assim?
- Por mais que a culpa tenha a capacidade de obstruir o
crescimento espontâneo, serve como sinalizador da consciência.
É através da culpa que percebemos que fizemos o que não deveríamos
ter feito. Depois dela, vem a transformação.
As palavras de Josué deixaram Geórgia mais esperançosa.
Não sabia que evento seria capaz de despertar tal sentimento em
Régis, mas confiava em Josué. No dia seguinte, acordou "mais
animada. À hora do café, beijou o rosto do filho, acariciou seus
cabelos. Régis não recusava aquelas carícias. Ao contrário, gostava
delas, sentindo-se verdadeiramente amado.
- Não se atrase para a escola - pediu ela. - E venha para
casa depois da aula. Hoje é dia do curso de inglês.
- Está bem, mãe.
Geórgia saiu primeiro, Régis, logo em seguida. Despediu-se
da avó com um beijo e ganhou a rua. Aquelas eram as únicas
pessoas que realmente importavam na vida dele. A nenhuma outra
dedicava seu amor.
Na esquina, Alex o esperava. Caminharam juntos, indo pela
praça onde ainda funcionava a boca de fumo. Mesmo sabendo
que a mãe não gostava que ele passasse por ali, Régis cruzou
a praça.
- Quero que você conheça um amigo meu - avisou Alex.
Logo chegaram ao grupo de maconheiros, no qual o amigo
de Alex se encontrava.
- E aí, gente boa? - cumprimentou o sujeito. - Vai um
baseado?
194


Alex apanhou o cigarro que o outro lhe estendeu e deu uma
tragada longa, retendo a fumaça nos pulmões por alguns instantes,
para depois soltá-la lentamente. Régis ficou fascinado. Os
olhos do amigo se tornaram vermelhos, ele jogou a cabeça para
trás, rindo sem motivo aparente. Quando voltou a cabeça para a
frente, parecia sereno, mais lento do que o usual.
- Quer provar? - ofereceu ele.
Régis estava em dúvida. Sabia dos efeitos daninhos da droga,
contudo estava curioso, doido de vontade de experimentar. A seu
lado, Tácio e Damien faziam de tudo para que ele não aceitasse.
- Atílio vai nos mandar para o inferno de vez - falou Damien,
apavorado. - Ele foi bem claro quando afirmou que não queria
que Mizael usasse drogas.
- Deixe disso, menino - Tácio soprou ao ouvido dele. - É
uma porcaria. Vai lhe fazer mal.
A curiosidade, contudo, foi mais forte. Régis tomou o baseado
da mão de Alex, sem perceber o tapa invisível que Tácio desferiu
sobre ela e que a atravessou. Desajeitadamente, deu uma tragada.
No começo, nada aconteceu, mas, em poucos minutos, sentiu a
boca seca e uma vontade louca de rir.
Desesperado, sem saber o que fazer, Tácio colou-se a ele,
quase incorporando. Na mesma hora, os sintomas que sentira
quando tomara a overdose se transferiram para o menino.
Régis ficou inquieto, o coração acelerou, a testa logo se umedeceu
com o suor frio. Por momentos, a visão mediúnica foi liberada,
permitindo que Régis entrevisse o mundo astral a seu redor, com
seus espíritos maltrapilhos, alucinados, sugadores da droga volatizada.
Seu cérebro se embaralhou, tudo parecia rodar, inclusive
os espíritos, que apontavam para ele seus dedos esqueléticos,
gargalhando diabolicamente.
Régis saiu cambaleando, com os espíritos atrás, rindo sem
parar, alguns revoltados porque Damien não permitia que se
aproximassem. Para Régis, os espíritos o perseguiam, pois, para
onde quer que se virasse, lá estavam eles a encará-lo com olhar
195


demoníaco. A passos trôpegos, procurou um banco para se sentar.
Atrás dele, Alex ria também, debochando de sua fraqueza.
- Deixe de besteiras, Régis - desdenhou ele. - Parece até
uma mulherzinha.
Régis mal o escutava. Com Tácio grudado nele, alcançou o
banco, tentando conter a respiração descompassada, o coração
turbulento que parecia esmurrar-lhe o peito.
- O que é isso? - murmurou. - O que está acontecendo?
Isso é o que vai acontecer todas as vezes em que você
pensar em experimentar qualquer droga - avisou Damien, parado
diante dele em atitude ameaçadora.
A uma pressão de Tácio, Régis vomitou. Não era um sintoma
comum, contudo a invasão causada pelo espírito fez com que
ele colocasse para fora um pouco dos resquícios energéticos da
maconha.
- Nunca mais quero experimentar isso - anunciou ele,
tentando umedecer os lábios secos. - Nunca mais.
- Deixe de ser trouxa - continuou Alex. - Você é um
homem ou um rato?
Você é o rato - falou Damien, tornando-se visível aos
olhos desfocados de Alex. - Buuuuüü
Com o susto, Alex caiu para trás, errando o banco e desabando
no chão de terra.
- O que foi isso? - apavorou-se. - Quem é esse cara?
Damien ria sem parar. Aos poucos, Régis conseguiu dominar-
se. Ainda sob o efeito da droga, levantou-se tonto, sonolento.
- Que horas são? - indagou, sentindo as pernas bambas. -
Tenho que ir embora. A escola...
- A escola já era, cara - disse Alex, mal se recuperando
do susto.
- Vá para casa - aconselhou Tácio. - Diga que não está
se sentindo bem e durma até o efeito passar por completo.
- Acho que vou para casa - repetiu ele, atônito. - Não me
sinto muito bem.
196


Régis deixou Alex debochando dele, seguindo o exemplo
de outros rapazes que se drogavam por ali. Pela primeira vez em
todos aqueles anos, Damien agradeceu por ele ir para casa, onde
estaria protegido da influência maligna dos espíritos que sugavam
as drogas.
- Viu como os viciados desencarnados ficaram de olho
nele? - questionou Tácio, tão logo Régis entrou.
- É assim que eles fazem - esclareceu Damien. - Ficam
à espreita, aguardando um novo otário. Quando a pessoa vai e
experimenta a droga pela primeira vez, eles tentam influenciá-la
para que ela volte a usá-la. Com a vontade enfraquecida, o discernimento
embotado e o estímulo do invisível, muitos acreditam que
a solução para os seus problemas está ali. Quando se dão conta,
já estão viciados.
- Como eu fiz.
- Como você fez. Por sorte estávamos por perto para evitar
que Mizael se perdesse. Atílio ficaria furioso.
- Estou pouco me importando com Atílio - objetou Tácio,
mal escondendo a irritação. - Preocupo-me é com o meu filho.
Não quero que ele tenha o mesmo destino do pai. Droga é uma
droga, não faz bem a ninguém. Seus males, além de físicos, são
também espirituais, e esses são ainda mais difíceis de se controlar.
Livres da matéria densa, podemos nos locomover à vontade,
sugando a essência do que os viciados usam. Tornamo-nos escravos
dos nossos desejos muito mais do que eles, que podem buscar
ajuda e contenção. Nós, não. Vamos aonde queremos, sugamos à
vontade, e, como você me disse uma vez, sem risco de uma overdose.
Não quero esse destino para ele nem na vida encarnada,
nem na espiritual. Quero que ele seja livre.
Damien não disse nada. Não adiantava mais recriminá-lo por
querer ajudar Mizael. E lembrar que ele não era seu filho também
era inútil. Era assim que Tácio sentia, algo em seu coração se sensibilizara
ao descobrir-se fornecedor de vida. Pegara-se de amores
pelo menino, tinha interesse em levá-lo por caminhos de retidão.


Não compreendia por que Atílio não o havia dispensado. Era
estranha a atitude de seu chefe. Atílio não era de sentir piedade,
não costumava dar mais uma chance a ninguém. E não era possível
que não tivesse ainda conhecimento do real sentimento de
Tácio por Mizael. Por que então não se livrava dele?
Porque Atílio tinha medo de Tácio, do que ele era capaz de
fazer. Enquanto Tácio não conhecesse seu poder, tudo estaria sob
controle. Mas a partir do momento em que ele percebesse que
o amor era capaz de superar qualquer obstáculo emocional ou
mental, Atílio não poderia mais fingir que o dominava. Tácio se
libertaria, arriscando levar Mizael com ele. Só por isso Atílio permitia
que ele continuasse. Era melhor manter o inimigo próximo,
onde podia controlá-lo, do que libertá-lo para a traição.
Damien olhou para Tácio e deu de ombros. Mesmo conhecendo
os temores de Atílio, não tinha do que se queixar. Se Mizael
falhasse em seus propósitos por culpa de Tácio, até que não seria
nada mau. Embora ele mesmo não tivesse coragem de levar Mizael
por outros caminhos, satisfazia-o a insistência de Tácio. Através
dele, Mizael poderia fracassar e ele, vencer.
Régis entrou em casa feito uma bala, correndo para o quarto
e trancando a porta, antes que a avó conseguisse impedi-lo.
Régis! - gritava ela do lado de fora. - O que foi que
houve, meu filho? Está sentindo alguma coisa?
- Não foi nada, vó. Só uma dor de estômago.
- Abra a porta, deixe-me preparar-lhe um chá.
Ele abriu. Não tinha coragem de desobedecer à avó, ao
menos na frente dela. Ao vê-lo, Cléia levou um susto. Ele estava
excessivamente pálido, os olhos vermelhos, exalando um forte
odor de erva.
- O que você fez? - indignou-se ela, recuando dois passos.
Nada - foi a resposta insegura.
198


Você está mentindo. Está drogado, posso ver
- Que drogado o quê? - rebateu ele, tentando desvencilhar-
se dela, já arrependido de ter aberto a porta. - Deixe de
besteira, vó. Só estou com dor de estômago.
Você fumou maconha, Régis?
- Não.
Fumou, sim. Sinto o cheiro. Está impregnado em você, no
seu cabelo, em suas roupas.
- Eu não fumei nada.
- Não tente me enganar. Conheço esse cheiro.
- Conhece como? Por acaso já fumou também?
Por pouco ela não lhe deu um bofetão. Em vez disso, centrou
a mente em Deus, fez uma oração pedindo discernimento e rebateu
com pesar:
- Eu nunca fumei isso em toda a minha vida. Conheço o
cheiro de tanto senti-lo naquela praça maldita. Posso ser velha,
mas não sou tola. Já vi na televisão pessoas com sintomas dessa
droga. E você, decididamente, está com cara de quem fumou.
Reconhecendo-se descoberto, a primeira reação de Régis foi
pensar em fugir. Depois, quis gritar com a avó, mandá-la não se
intrometer em sua vida. Mas a superioridade moral dela o tolheu,
obrigando-o a silenciar
- Vou me deitar - balbuciou ele. - Não estou me sentindo
bem.
Entrou de volta no quarto, atirando-se na cama pesadamente.
Em instantes, adormeceu. Cléia o observava com olhos úmidos,
sentindo uma vontade louca de chorar. Pensou em telefonar para
Geórgia, mas não valia a pena preocupá-la no trabalho. Esperaria
que ela chegasse.
Quando Régis acordou horas mais tarde, a casa estava
em completo silêncio. Devia ser perto da hora do jantar, porque
as luzes da cozinha estavam acesas e um cheirinho gostoso de
comida se espalhava no ar. Agora, realmente, o estômago doeu,
revelando uma fome acima do normal.
199


A passos cuidadosos, Régis entrou na cozinha, Cléia mexia
uma panela no fogão, enquanto Geórgia, sentada à mesa, tinha os
olhos e o nariz vermelhos. Ela andara chorando,
- Mãe - chamou ele. - Está tudo bem?
Assim que ela o fitou, Régis sentiu o coração se contrair. Vê-la
triste por sua causa trouxe-lhe uma dor quase insuportável. Ela não
disse nada. Estendeu os braços para ele, que se ajoelhou diante
dela, e apertou-o o mais que pôde, umedecendo-lhe os cabelos
com suas lágrimas, permitindo que ele ouvisse as batidas de seu
amor. Ele sabia por que ela estava chorando. Uma vergonha sem
precedentes o assaltou, levando-o a maldizer a hora em que resolvera
seguir Alex naquela praça maldita, como bem definira a avó,
Régis permaneceu aninhado nos braços da mãe, envolvido
pela onda de amor que partia dela, à espera de que ela dissesse
alguma coisa. Geórgia, porém, não dizia nada. Não sentia
vontade de fazer-lhe acusações nem cobranças, nem recriminações,
apenas uma dor latejante, persistente, cruel, Era seu
filho que ela tinha nos braços, o menino por quem ela trocara a
felicidade ao lado do homem que amara para que ele nascesse
Não podia perdê-lo.
Como Geórgia não dizia nada, apenas chorava agarrada a
ele, Régis decidiu falar. O silêncio dela era uma agonia. Ela não lhe
cobrava nada. Régis sentia partir dela tristeza e amor, misturados
no mesmo abraço.
- Não chore, mãe, por favor - pediu ele, a voz embargada
de vergonha, quase inaudível.
- Não quero perder você - ela revelou, após alguns segundos.
- Posso suportar qualquer coisa na vida, menos perder você.
- Você não vai me perder,
- Tenho medo.
- Não precisa ter medo. Olhe, mãe, não vou mais fazer isso.
Prometo.
Ele olhou para a avó, temendo haver se precipitado na revelação,
mas o olhar de assentimento dela o fez ver que não.
200

- Como posso impedi-lo de seguir o seu destino? - Geórgia
desabafou. - O que fazer para evitar o seu sofrimento? Se você
não fizer o melhor pela sua vida, ninguém vai conseguir fazer. Não
adianta eu pedir, implorar. A escolha é sua, sempre será sua.
- Não foi nada de mais. Foi só curiosidade, uma aventura.
- Régis, Régis... A quem quer enganar? A curiosidade é a
redescoberta de algo que a alma já conhece, seja de bom ou ruim.
Mesmo sem entender, Régis não lhe deu razão. Desconhecia
as experiências de outras vidas, mas sabia que nunca mais usaria
qualquer tipo de droga outra vez. O resultado fora terrível, angustiante,
levara-o a ter ilusões ou ver fantasmas, não sabia bem.
- Sei que não adianta eu prometer que nunca mais vou
fumar um cigarro de maconha. Vocês não vão acreditar, mas
vou lhes provar isso.
- Eu acredito - afirmou Geórgia. - Se você diz, eu acredito.
Régis abraçou-a com amor, sentindo o amor que fluía dela
também. Em seguida, deu um abraço na avó e pediu-lhe desculpas
pelo que fizera.
- Você não precisa se desculpar comigo - disse Cléia.
- Não precisa se desculpar com ninguém, a não ser com você
mesmo. É uma sabotagem ao seu bem-estar.
Era estranha a reação de Régis. Em casa, era uma pessoa
totalmente diferente do que era lá fora. Muitas das coisas que
prometia à mãe eram esquecidas tão logo ele cruzava a porta da
rua. Dessa vez, contudo, era diferente. Não tinha mais vontade de
fumar maconha nem nada do gênero, não apenas porque lhe fizera
mal, mas porque faria a mãe sofrer.
No dia seguinte, ao encontrar Alex na esquina, Régis pensou
em não falar com ele. O outro postou-se a seu lado, caminhando
com ele em direção à escola.
- Puxa, Régis, o que deu em você? - falou. - Você
desapareceu.
- Eu passei mal, está bem? Nunca mais quero fumar maconha
enquanto viver.


- Dá um tempo, Régis! Sem exageros.
- Estou falando sério. Passei muito mal, pensei até que
fosse morrer.
Ele não queria dizer que sua decisão tinha a ver com a
mãe, temendo que Alex debochasse dele, chamando-o de filhinho
da mamãe.
- Você é quem sabe - Alex deu de ombros. - Mas não vai
me caguetar, vai?
Está pensando que eu sou igual a você? Não sou delator.
Durante o resto da semana, impressionado com a atitude da
mãe, Régis não se meteu em nenhuma encrenca. Continuava a
amizade com Alex, no entanto nunca mais o seguira para cruzar
a praça. Como a mãe lhe orientara, passava pela calçada, do outro
lado, se possível.
- Sua mãe é um pé no saco - comentou Alex, irritado
porque Régis não o acompanhava mais.
Não fale assim da minha mãe! - rosnou Régis, agarrando
o outro pela gola da camisa.
- Tudo bem, não fique bravo. Desculpe-me, pode me soltar.
Mas é que você deixa de se divertir por causa dela.
- Não se trata disso. Eu é que não quero ir.
- Ainda se fosse seu pai - continuou ele, ignorando a
desculpa de Régis. - A palavra do pai é mais forte, impõe respeito.
Mas da mãe... Sinceramente, Régis, não dá para ter medo de mãe.
- Não tenho medo da minha mãe.
- Nem do seu pai?
- Meu pai morreu.
- Morreu? Quando?
- Antes de eu nascer. Não o conheci.
- Você acreditou nisso? Essa é boa. É a desculpa de toda
mulher quando não quer assumir que se deitou com o marido
de alguém.
- Minha mãe não fez isso! - irritou-se, fechando os punhos
em sinal de ameaça. - Retire o que disse!
202


- Solte-me, Régis! - enfureceu-se, empurrando-o para trás.
- Quer saber? Já estou cheio de você.
Alex entrou na praça, enquanto Régis seguiu pelo outro lado,
a caminho de casa. Alex o deixara furioso, dizendo coisas das
quais nada sabia. A mãe nunca mentira para ele. Se dissera que o
pai havia morrido, então era verdade.
Curiosamente, porém, ele não tinha o nome do pai em sua
certidão de nascimento. A mãe lhe dissera que era porque ele morrera
antes de ele nascer, o que impedira o registro. Até então, ele havia
aceitado aquela justificativa sem maiores questionamentos. Mas,
agora que Alex levantara a questão, as dúvidas o assaltaram.
- Isso mesmo - incentivou Damien, ao lado dele. -
Interrogue sua mãe, coloque-a contra a parede. Vai ver a boa bisca
que foi o seu pai.
- Por que está fazendo isso? - indagou Tácio, em tom de
censura. - Ele não precisa saber nada de mim.
- Não seja besta. Saber que é filho de um estupro vai lhe trazer
revolta. Quem sabe assim ele não desgruda um pouco de Geórgia?
- Ah! É! E quem sabe também ele não vai se consolar nas
drogas? Perdeu o juízo, Damien? Não sabe que Régis tem tudo
para se viciar?
- O nome dele é Mizael. Quanto às drogas, não creio que
ele vá buscá-las novamente. Agora, Geórgia é um empecilho, você
tem que reconhecer. Se enfraquecermos a imagem de deusa que
ele criou da mãe, talvez ele nos dê mais ouvidos.
- Ele já nos ouve bastante. Não precisamos colocá-lo
contra Geórgia.
Cansado dos embates com Tácio, Damien não respondeu.
Não aguentava mais aquela missão. Fizera o que achara melhor,
intuindo o menino para perguntar de seu passado. Se ele faria isso
ou não, se Tácio tentaria impedi-lo, não era problema dele.
Tácio não conseguiu mais alcançá-lo. Depois de deixar Alex
na praça, Régis seguiu para casa, pensando no pai, no tipo de
homem que fora em vida. E por que ele não o registrara? Mesmo
203


que tivesse morrido, a mãe poderia tê-lo feito. Afinal, não era
casada com ele?
Pensando bem, a mãe jamais dissera que fora casada. E não
havia sequer uma foto deles dois em casa. Ele nunca nem vira
um retrato do pai. Mentalmente foi desdobrando os acontecimentos
relacionados a seu nascimento. Ele pouco perguntara do pai,
naturalmente aceitando a palavra da mãe de que ele havia morrido.
Pequeno, não tinha por que questioná-la. Agora, porém, aos
treze anos, não era mais tão ingênuo. Havia alguma coisa errada,
ele intuía. Precisava descobrir, e ninguém melhor do que a mãe
para lhe contar.
Esperou até que ela chegasse do trabalho para interrogá-la.
Logo nas primeiras perguntas, os olhos de Geórgia encheram-se
de lágrimas. Vendo que o assunto lhe fazia mal, Régis retrocedeu,
devolvendo aos pensamentos as desconfianças que o assaltavam.
Sua curiosidade não era maior do que o medo de machucar
a mãe, por isso, durante um tempo, ocultou a frustração e não
tocou mais no assunto.
204

capitulo
24
Com uma diferença de quatro anos, Natália e Patrícia tinham
interesses distintos em épocas iguais. Enquanto Natália ganhava
corpo e formas de mulher, perdendo a inocência que Júlio tanto
admirava, Patrícia mantinha a aparência pueril da infância, coisa
que mais o atraía nas filhas. Tinha medo de que, crescendo, as
meninas se tornassem mulheres iguais à mãe.
Ele gostava das duas, contudo não podia negar que Patrícia
era sua preferida. O temperamento de ambas era muito diferente.
Natália, apesar de mais doce, era muito sincera, demonstrando
claramente o que sentia. Já Patrícia era dissimulada, fingindo
gostar das mesmas coisas que Júlio só para agradá-lo e, com
isso, permanecer na liderança do afeto.
Apesar de amar as filhas, Bianca não fazia o estilo maternal.
Desde o nascimento de Patrícia, com a rejeição de Júlio, levava
uma vida fútil, gastando tudo que podia, dormindo com todo tipo
de homens. Como Júlio também tinha seus casos, o casamento
era apenas de aparências, uma espécie de satisfação à sociedade
e uma forma de se manterem perto das meninas.
Júlio jamais abriria mão de ficar com elas e sabia que Bianca
insistiria na guarda para não perder a pensão. E ainda havia a
divisão de bens, um patrimônio que ele conseguira reunir durante


aqueles anos todos de casamento: um apartamento na zona sul da
cidade, um carro do ano e alguns poucos milhares na poupança.
Quando Natália completou quinze anos, Júlio e Bianca fizeram
questão de presenteá-la com uma bonita festa de debutante,
embora ela preferisse uma viagem ao Nordeste. Tratava-se de
manter a imagem de família bem estruturada, conservadora, abastada.
Coisas para as quais Natália, efetivamente, não ligava, mas
que enchiam os olhos de Patrícia.
Logo que viu a irmã vestida em seu lindo vestido branco de
festa, Patrícia experimentou um sentimento que a acompanharia
por toda a vida e com o qual não sabia lidar. A inveja deu uma
espetada em seu coração, levando-a, instantaneamente, a desejar
o que Natália possuía.
- Quando você fizer quinze anos, vai ganhar uma festa
ainda mais bonita - prometeu Júlio.
- Vai demorar muito - queixou-se ela. - Quero uma festa
agora
- Agora não vai dar, meu bem. Mas vou lhe comprar um
vestido lindo. O que você acha?
- Mais bonito do que o de Natália?
- Natália já é uma moça e usa coisas diferentes. Vou lhe
comprar o mais bonito para a sua idade.
- Quero ficar mais bonita do que ela.
- Você não precisa - confidenciou ele, apertando seu
queixinho. - Você já é naturalmente a mais bonita.
Patrícia sentiu o peito inflar. Tudo o que mais queria era ser
melhor do que Natália. As duas meninas eram lindas, alegres,
extrovertidas. Só que Natália possuía o coração puro, ao passo
que Patrícia nascera com tendências daninhas que era preciso
controlar.
No dia da festa, ambas pareciam duas princesas. Natália,
com seu vestido branco cintilante, os cabelos soltos sobre os
ombros, maquiagem leve, porém iluminadora. Tudo para realçar
ainda mais seu brilho natural.
206


Patrícia, por sua vez, brigava com a mãe para deixá-la parecida
com a irmã. Seus longos e belos cabelos encaracolados foram
cuidadosamente ajeitados para esparramar-se sobre as espáduas,
qual finíssima cascata ondulante. O vestido era verde-água, fazendo
um contraste impressionante com sua pele morena e sedosa.
Ela queria usar uma maquiagem extravagante, chamativa, mas a
mãe não deixou.
- Você não quer parecer uma boneca de pano, quer?
Patrícia meneou a cabeça, com raiva. Tinha certeza de que
Natália estava mais bonita do que ela. Ao entrarem no salão de
festas, todos os olhos se voltaram para Natália. Patrícia vinha logo
atrás, recebeu muitos elogios, mas não se contentou. Queria ser o
centro das atenções.
- Ninguém me dá bola - reclamou com o pai. - Não é
justo. Estou mais bonita do que ela.
- É claro que está - confortou Júlio. - Só que hoje é o
aniversário da sua irmã. Por isso, todo mundo está olhando para
ela, e não para você. Quando for a sua vez, vai ser o contrário.
Mesmo emburrada, Patrícia teve de se conformar. Acabou
distraindo-se com os primos e os amigos, correndo pelo salão,
dançando, esbarrando nas mesas. Esqueceu-se um pouco de
Natália, até que a Valsa do Imperador18 começou a tocar. Patrícia
procurou o pai com o olhar. Lá estava ele, no centro do salão,
pronto para dançar a valsa com Natália.
Imediatamente, seu coração transbordou de inveja. Queria
ela estar nos braços dele. A irmã, naquele momento, era a usurpadora
da sua felicidade. Rapidamente, o despeito a dominou.
Patrícia largou as brincadeiras, circulando o salão, olhos fixos no
pai e na irmã. Aos poucos, outros casais se juntaram a eles, acompanhando-
os na valsa. Patrícia não tinha par. Só os mais velhos
podiam dançar. Não era justo.
18 Valsa de Johann Strauss.
207


Parada em uma das extremidades do salão, viu o rapaz que
Natália estava namorando, à espera de que Júlio a passasse para
os braços dele. Como quem não quer nada, aproximou-se, a ideia
montada na mente.
- Oi, Bruno - cumprimentou, parando ao lado dele.
- Oi - respondeu ele, sem muito interesse.
- Natália está linda, não está?
- Ela é maravilhosa - embeveceu-se, sem desviar os
olhos dela.
- Pena que só goste de meninas.
- Como assim?
- Ela não lhe contou? - ele meneou a cabeça. - Natália
é lésbica.
- O quê?!
- Não é assim que se chamam meninas que gostam de
meninas?
- O que está dizendo, Patrícia? Ficou maluca?
- Você não sabia? - ela fingiu surpresa. - Ai, meu Deus,
por que fui contar? Jurava que você era amigo dela e estava só prestando
um favor, para que nossos pais não desconfiassem de nada.
- Não é possível. Como você sabe disso?
- Eu descobri. Peguei-a aos beijos e abraços com uma
amiga da escola. E nem sabia que meninas podiam beijar meninas.
- Não é verdade - balbuciou ele, atônito. - Ela me beijou
e tudo, disse que gosta de mim.
- Eu e minha língua comprida - choramingou Patrícia,
fingindo arrependimento e pânico. - Ela me fez jurar segredo e
agora vai querer me matar. Como pude ser tão boba? Jurava que
você sabia de tudo. E, se meus pais descobrirem, vai ser pior. Ela
nunca mais vai falar comigo. E eu adoro a Natália. Vai ser horrível
ficar sem falar com ela.
- Não se preocupe, não direi nada.
O jovem estava no auge da confusão. Podia jurar que Natália
gostava dele. Será que ela fingia tão bem assim? Talvez fosse
208


melhor esclarecer as coisas, mas prometera a Patrícia que não a
colocaria em uma situação difícil.
Nesse momento, Júlio entregou-lhe a filha, para que ele
dançasse com ela. Bruno tomou-a nos braços, observando-lhe a
fisionomia doce, sentindo sua feminilidade contagiante. Em meio
à valsa, ele tentou beijá-la, mas ela se esquivou, olhando para ele
com ar de recriminação. Não ficava bem beijarem-se no meio do
salão, diante dos olhares atentos dos pais. Na cabeça dele, ela o
rejeitava simplesmente porque ele não lhe agradava.
Durante o resto da noite, Bruno permaneceu arredio, vendo
segundas intenções em todos os gestos de Natália com as meninas.
Ela nem desconfiou. Continuava rindo e conversando com
as colegas, animada demais com a festa para perceber a perturbação
do garoto.
Só no dia seguinte, quando ela ligou para ele, foi que notou
que havia algo errado. Encontrou-o na escola, tentou falar com
ele, mas Bruno sempre se esquivava. Por fim, no final da semana,
conseguiu abordá-lo:
- O que foi que houve, Bruno? Fiz alguma coisa de que
você não gostou?
Ele a olhou com uma certa impaciência. Não gostava de ser
enganado.
- Deixe para lá, Natália - desconversou ele. - Não estou
com raiva nem nada. Só não quero mais sair com você.
- Por quê? O que foi que eu fiz?
- Você sabe.
Sem esperar resposta, Bruno rodou nos calcanhares e foi
embora, deixando-a abismada, sem entender. Ela ainda tentou
telefonar algumas vezes, mas ele mandava dizer que não estava.
Na escola, continuava evitando-a, até que ela desistiu. Também
tinha o seu orgulho.
Em casa, ela andava acabrunhada, triste, sem muito ânimo
para conversar. Tanto Bianca quanto Júlio perceberam e foi este o
primeiro a se interessar:
209


- O que foi que houve, minha filha? Por que anda tão triste?
- Nada.
- Nada, não. Alguma coisa aconteceu.
- Brigou com o namorado? - disse Bianca.
- Não é bem isso - disse ela, as lágrimas já se insinuando.
- Foi o Bruno. Está estranho, me evitando. Não sei o que fiz.
- Você não fez nada - rebateu Bianca. - Os homens são
todos iguais. Não prestam desde meninos.
Júlio olhou-a com irritação, tentando ignorar suas provocações.
- Deixe Bruno para lá. Você é uma menina linda; aposto como
há muitos rapazes atrás de você. Bruno é um bobão, não a merece.
- É isso mesmo - incentivou Bianca. - Não ligue para ele.
Se arranjar outro, logo você o esquece.
Natália não estava bem certa. Podia esquecê-lo, mas doía-
-lhe não saber o motivo de sua indiferença. Considerava injustas
as evasivas dele. Se ela fizera algo que o desgostara, ele devia lhe
falar, dar-lhe uma chance de se explicar.
Era com uma satisfação mórbida que Patrícia acompanhava
esses fatos. Ver a irmã triste dava-lhe indescritível prazer.
- Por que Bruno brigou com você? - perguntou ela, com
aparente inocência.
- Ele não brigou.
- Mas então, por que ele não vem mais aqui?
- Não sei. Deixe isso para lá. Você ainda é muito pequena
para entender.
Não era. Patrícia não só compreendia tudo, como era capaz
de arquitetar planos eficientes para atrapalhar a felicidade de
Natália e, com isso, promover a sua. Ao menos era essa a ilusão
que ela alimentava. Achava que, roubando a alegria da irmã, ela
seria mais feliz. Não sabia que, quando alguém perde a alegria,
ela não se transfere para mais ninguém.
210


Os namorados seguintes de Natália tiveram fim parecido. A
moça não compreendia por que seus relacionamentos não davam
certo. Sempre que se interessava muito por alguém, ele desaparecia.
Só ficavam aqueles por quem não tinha muito interesse.
Julgava não ter sorte com os homens, sem saber que Patrícia
cuidava de envenenar todas as suas relações. Na maioria das
vezes, deixava escapar, sem querer, que a irmã estava interessada
em alguma menina ou que havia saído com um amigo mais íntimo.
Instaurados o ciúme e a dúvida, eles terminavam o namoro.
Como Natália era ainda muito jovem, não tivera tempo de ter muitos
namorados, de forma que não deu para desconfiar das fofocas de
Patrícia. Ingênua, também não percebia as artimanhas da irmã,
que sempre arranjava um jeito de deixá-la mal ou afastá-la do pai.
No domingo, dia de sol, Júlio acordou mais tarde do que de
costume. As filhas haviam ido à praia com Bianca, mas ele preferiu
não ir. Gostava de ficar em casa e aproveitar a manhã para dormir,
luxo que não podia se dar nos dias de semana. Sentou-se à mesa
da cozinha para tomar café e ler o jornal.
Não conseguiu. A cabeça cheia de novidades não se centrava
nas notícias. Bianca ainda não sabia, mas ele recebera uma
proposta irresistível. Uma promoção para a diretoria executiva do
banco, só que em São Paulo, onde ficava a sede. Sabia que seria
difícil convencer a mulher a se mudar do Rio de Janeiro, mas ele
não podia recusar aquela oferta. Era a realização de toda uma
vida, tudo por que sempre trabalhara.
O cargo deveria ter sido oferecido a Anselmo, um homem
mais velho, mais experiente. Mas Anselmo metera os pés pelas
mãos. Defensor da moral e dos bons costumes, acabou se envolvendo
com uma estagiária do banco, flagrado no almoxarifado em
pleno ato sexual. Foi uma vergonha. Só não ganhou ajusta causa,
com que ele antes ameaçara tantos empregados, porque a diretoria
do banco quis evitar o escândalo.
O fato, contudo, chegou aos ouvidos da mulher, que acabou se
divorciando. Anselmo ficou arrasado, sofrendo as consequências


de tudo aquilo que recriminara a vida inteira. Agora, perto da
aposentadoria, com dificuldades para encontrar novo emprego,
vendia sanduíche natural na praia para conseguir pagar as cotas
faltantes da previdência, até se aposentar.
Apesar da pena que sentia de Anselmo, Júlio não deixava
de agradecer-lhe a oportunidade que lhe dera. Não fosse a sua
imprudência, ele teria de esperar ainda alguns anos para galgar
àquela posição ou, quem sabe, nunca chegaria até ela. Por isso
é que sabia que não poderia recusar a promoção. Mesmo que
Bianca não o acompanhasse, teria de aceitar.
A mulher já não lhe fazia mesmo falta. Viviam um casamento
de aparências. Sentiria saudade apenas das filhas. Natália e Patrícia
eram seu maior tesouro, principalmente a caçula. Até já se esquecera
de que ela não era sua filha de verdade. Por mais estranho que
pudesse parecer, a afinidade que tinha com a menina tornava sem
importância o fato de ela não ser sangue do seu sangue.
A partir do momento em que aceitou Patrícia em seu coração,
Júlio se desligou definitivamente de Bianca. Ela que tivesse
os homens que quisesse, desde que não arranjasse outros filhos.
Por sorte, Bianca fizera a ligadura de trompas logo após o nascimento
de Patrícia, evitando, assim, surpresas desagradáveis. E ele
não aceitaria criar outra criança que não fosse sua. Com Patrícia
fora diferente. Ele se afeiçoara à menina, que nada tinha a ver com
as sandices da mãe.
Assim como o filho de Geórgia nada tinha a ver com a violência
do pai. Patrícia lhe mostrara que era possível aceitar o filho de outro
homem, gostar dele como se fosse seu próprio. O que dizer do filho
de Geórgia? Ele não sabia, talvez nunca descobrisse. Com Bianca,
não fizera a mesma pressão para que abortasse. Pensou que fosse
detestar a criança, contudo amava-a muito mais do que qualquer outra
pessoa. Teria ele sido capaz de amar também o filho de Geórgia?
Quando elas chegaram da praia, Júlio já havia preparado o
almoço. Não era de seu feitio cozinhar, mas se saía bem com a macarronada.
Famintas, sentaram-se à mesa para comer, ainda de biquíni.


- Está uma delícia, pai - elogiou Natália.
- Você é muito boazinha - gracejou ele. - Está mais ou
menos.
- Você não faz nada mais ou menos - objetou Patrícia. -
Tudo que faz é maravilhoso.
Aquele era o momento. Ele soltou o garfo no prato, olhou de
uma para outra e começou a falar:
- Muito bem, se tudo o que faço é maravilhoso, então tenho
uma notícia maravilhosa para dar.
As três o encararam ao mesmo tempo, à espera da notícia.
Vendo seus olhares ansiosos, sentiu a coragem se esvair, até que
Bianca o cutucou e falou com irritação:
- Não vai contar o que é, não? Para que o suspense?
- Fui promovido - falou de chofre.
- Que maravilha! - exclamou Bianca, já pensando nas
joias que poderia comprar. - A quê?
- Diretor executivo.
- E paga bem?
- Muito bem.
*- Legal, pai - disse Natália. - Parabéns!
- É, pai, parabéns! - repetiu Patrícia.
- Só tem um probleminha - comentou ele.
- Que probleminha? - perguntou Bianca.
- Vamos ter que nos mudar para São Paulo.
Foi um silêncio geral. Todas pararam de mastigar ao mesmo
tempo, encarando-o com espanto.
- Eu não vou - afirmou Bianca. - Não vou mesmo.
- Ora, vamos, Bianca, não é tão ruim assim. Vou ganhar
mais do que o dobro do que estou ganhando hoje.
- Eu vou, papai - disse Patrícia. - Vou para qualquer lugar
com você.
- Gostaria que fôssemos todos juntos - retrucou, esperançoso.
213


- Nada disso - insistiu Bianca. - Não saio daqui de jeito
nenhum.
- Quer que eu recuse a promoção?
- Não. Só acho que não precisamos nos mudar. Você pode
pegar a ponte aérea.
- Todo dia?
- Você vai na segunda de manhã e volta sexta à noite. Muita
gente faz isso.
- É muito cansativo e dispendioso.
- Então, pode vir de quinze em quinze dias. Ou uma vez
por mês. Não me mudo do Rio por nada. Não vou trocar a praia por
um monte de fumaça.
- Não é bem assim, mãe - contrapôs Natália, - Existem
coisas boas em São Paulo, assim como o Rio também tem poluição.
- Pois, quando aparecerem as coisas boas, pode me chamar.
De resto, fico por aqui.
- Lamento que você pense assim, Bianca - ponderou
Júlio. - Há anos sonho com essa promoção. Não posso simplesmente
recusá-la só porque minha mulher não quer se mudar.
- Eu não disse para você recusar. Acho apenas que tenho
o direito de não querer sair da minha casa.
- Você é quem sabe. A escolha é sua, mas eu vou.
- E nós? - tornou Patrícia, agarrada ao pai. - Quero ir
aonde você for.
- Se sua mãe deixar... - divagou ele, fitando Bianca
discretamente.
- Tem graça você querer tirar minhas filhas de mim - retrucou
Bianca, com medo de perder a boa vida caso as meninas se
mudassem dali.
- Ah, pai - choramingou ela, encarando Bianca com raiva.
- Você vai vir nos fins de semana? - quis saber Natália.
- Vai ficar muito puxado. Talvez venha de quinze em quinze
dias ou uma vez por mês, como sugeriu sua mãe.
- Por mim, tudo bem - concordou Bianca.


- E vocês, meninas? - ele dirigiu-se às filhas. - O que
dizem?
Natália concordou, mas Patrícia não queria se separar do pai.
- Não quero - disse ela, aos prantos. - Vou morrer de
saudades.
- Também vou ficar com saudades de vocês. Mas olhe, papai
vai lhe trazer um presente toda vez que voltar.
- Que tipo de presente?
- O que você quiser.
- Quero um vídeo game.
- Muito bem. Que seja. Um vídeo game.
- E um notebook.
- Vá devagar, querida. Uma coisa de cada vez.
Ela se agarrou a ele, realmente triste com a sua partida.
- Vai me ligar todo dia? - pediu ela, queixosa.
- Com certeza.
- Pode me comprar um celular? Para poder falar com você
quando eu quiser?
- Está bem.
- Não tem graça gastar dinheiro com celular para uma
criança - opôs-se Bianca.
- Deixe, mãe - intercedeu Natália. - Vai fazer bem a Patrícia.
- Só posso comprar um - anunciou Júlio, olhando para a
outra filha.
- Não faz mal, pai, o meu ainda está bom - falou Natália.
- Dê um para ela.
Júlio sentiu um certo remorso. Um celular não custava tão
caro assim. Podia comprar dois, se quisesse, mas aí teria de dar a
Patrícia um aparelho mais barato.
Finalmente, Júlio conseguiu ajeitar as coisas. Como o divórcio
estava em seus planos, trataria de não aumentar o patrimônio
enquanto estivesse casado. Bianca podia ficar com o apartamento
do Rio, que agora lhe parecia pequeno, simples demais para suas
ambições. Separar-se das filhas é que seria o mais doloroso, mas
215


era por uma boa causa. Com o tempo, esperava que elas fossem
morar com ele, diminuindo o custo de uma possível pensão.
Daí a dois meses, Júlio embarcou para São Paulo. Lá, abriu
uma caderneta de poupança em nome de Patrícia, com o seu CPF,
sem o conhecimento de Bianca, só por precaução, para que ela
não ficasse de olho grande no seu dinheiro. Nela efetuava depósitos
vultosos, para sacar antes de a filha completar dezoito anos,
mas depois do divórcio.
Vinha ao Rio de quinze em quinze dias, como programado,
trazendo presentes cada vez mais caros para Patrícia e Natália.
Para Bianca, uma coisinha ou outra, nada de especial, já amadurecendo
a ideia do divórcio.
216

capitulo
25
O maior desejo de Régis passou a ser descobrir tudo sobre
sua origem. Durante a infância, pouco se incomodara com aquilo,
mas depois que Alex o alertara, vivia pensando em como seria
seu pai. As tentativas de descobrir tudo com a mãe nunca surtiam
efeito. Seus olhos marejados faziam-no sentir-se culpado pela
curiosidade, e ele sempre retrocedia. Agora, porém, estava decidido.
Já não era mais criança, tinha o direito de saber.
Passava das dez horas quando ele saiu do quarto. A mãe e a
avó estavam na sala, assistindo a um DVD. Ele se sentou ao lado
delas, fingindo prestar atenção ao filme. Agora seria mais direto,
sem lhe dar tempo de se desmanchar em lágrimas.
- Mãe - chamou. - Posso lhe fazer uma pergunta?
- É claro, meu filho. O que é?
- O que foi que houve com o meu pai?
A pergunta deixou-a desconcertada. Era a primeira vez que
ele a abordava daquela maneira. Geórgia olhou para Cléia, que evitou
encará-la.
- Seu pai morreu, já disse.
- Morreu de quê? Quando? Ele era jovem? E por que vocês
não se casaram?
Geórgia deu pausa no DVD e olhou para ele.


- Por que quer saber isso agora? - indagou, preocupada.
- Por que não? Estou crescido, acho que é meu direito.
Fitando Cléia de soslaio, Geórgia disse com cautela, esforçando-
se para conter as lágrimas:
- Seu pai era um homem muito doente.
- Que doença ele tinha? Era algo contagioso?
- Não.
- Era o quê? Algum tipo de câncer?
Geórgia olhou novamente para a mãe, em busca de ajuda.
Um olhar imperceptível de Cléia a estimulava a falar sobre o passado.
Ela nunca pensara em mentir para Régis, mas era-lhe difícil
falar sobre coisas que haviam lhe causado tanta dor.
- Talvez você não goste de saber.
- Por quê? É algo tão terrível assim?
- Mais ou menos - disse ela, escolhendo as palavras com
cautela. - Na verdade, seu pai... seu pai era viciado em drogas.
Morreu de overdose.
A revelação escapou subitamente, um desabafo que havia
muito oprimia o peito de Geórgia.
O quê?! - indignou-se Régis, - Como é que você foi se
meter com alguém assim?
- Eu não sabia - foi a desculpa que ela logo arranjou.
- Como vocês se conheceram?
- Num churrasco.
- Ele era casado?
- Não. Estava se divorciando. A mulher dele o largou por outro.
Nesse ponto, ela estava chorando, mas Régis fingiu não notar.
Não daquela vez.
- Não entendo você, mãe - tornou com uma certa revolta
- Vive se fazendo de certinha e foi se envolver justo com um viciado.
Ela não disse nada, as lágrimas não permitiam. Cléia, contudo,
se adiantou:
- Não se apresse em julgar sua mãe, Régis. Você não faz
ideia do que ela passou para ter você.
218


- Pois então me contem. O que foi que houve?
Geórgia não conseguia falar. Um medo atroz de que ele a
acusasse quase paralisou seu coração. Cléia queria contar-lhe sobre
o estupro, mas Geórgia a fizera prometer que não diria nada. Não
queria que Régis se tornasse ainda mais revoltado do que já era.
- Régis, por favor - suplicou ela. - Deixe o passado onde
está.
- O passado é meu também. Você não tem o direito de
me esconder nada. E não é você que vive se gabando de nunca
mentir para mim?
- Não estou mentindo.
- Está me ocultando algo. As duas estão. O que é? Tenho
o direito de saber.
- Não há mais nada para saber, Régis - esclareceu
Cléia. - Essa é a vida da sua mãe, não sua. Há coisas no passado
que somente a ela dizem respeito.
- Você não entende, mãe - ele ajoelhou-se ao lado dela,
segurando-lhe as mãos. - É horrível não conhecer sua própria
história. As pessoas fazem comentários maldosos, Alex até insinuou
que meu pai era casado e que não me registrou por causa disso.
- Não foi por isso
- Eu sei, acredito em você. Mas existe algo que você não
quer me contar, e é isso que me deixa louco. Só posso pensar que
tem a ver com o meu nascimento.
- Deixe sua mãe em paz, Régis - disse Cléia. - Ela já
sofreu demais.
- Por quê? O que houve que a fez sofrer tanto? Fui eu?
- É claro que não - contestou Geórgia. - Você é meu
maior tesouro.
- Então, o que foi? Do que teve que abrir mão para ficar
comigo?
Com um suspiro doloroso, Geórgia fitou Cléia por uns momentos.
- Pare com isso, Régis - censurou Cléia. - Está fazendo
sua mãe sofrer.
219


- Não tem importância - falou Geórgia, visivelmente
abalada. - Ele tem razão, mãe. Se quer saber a verdade, é o
que lhe direi.
Geórgia estreitou-o com amor, deixando que ele se envolvesse
mais uma vez naquela onda energética e poderosa. Ante o
olhar ansioso de Cléia, Geórgia revelou:
- Eu era noiva quando conheci seu pai. Envolvi-me com ele,
engravidei. Depois que ele morreu, meu ex-noivo quis aceitar-me
de volta, mas com a condição de que eu abortasse você.
Régis não sabia o que realmente sentia: se revolta porque ela
traíra o noivo ou se alegria porque ela abrira mão do casamento
para que ele pudesse nascer. Descobriu que o fato de estar vivo
era muito mais importante. Além do mais, ainda que quisesse, não
poderia revoltar-se contra a mãe.
- O cara foi um otário - desdenhou ele. - Perdeu uma
mulher maravilhosa feito você.
- Ele teve seus motivos.
- Imagino. Não queria ser chamado de chifrudo.
- Isso agora não importa mais - afirmou Cléia. - Sua mãe
não aceitou e você nasceu.
- E não me arrependo, nunca me arrependi, nem por uma
fração de segundos, por ter escolhido você. Não há homem no
mundo que pague a felicidade de ter um filho. Você é o que existe
de mais importante na minha vida.
Essas palavras o emocionaram. Régis abraçou-a com ternura,
beijou-a nas faces.
- Eu a amo, mãe-disse com sinceridade. - E você também,
vovó. São as únicas pessoas no mundo que merecem o meu amor.
- Não diga isso - objetou Geórgia. - Há muitas pessoas
no mundo que merecem ser amadas
- Não conheci nenhuma
- Isso é porque você é ainda muito jovem. Espere só até
conhecer uma garota.
220


Desde esse dia, Régis deixou a mãe em paz. Com o tempo,
vendo que ele não reagia, Alex também deixou de provocá-lo,
voltando seus interesses para outras coisas. Sem que Geórgia ou
Cléia soubessem, Régis prosseguia envolvendo-se em tudo que
não devia. Estimulado por Damien, matava aulas e gostava de se
dar bem. Saía de lanchonetes sem pagar, pulava o muro de estádios
para assistir a shows, passava a mão nas garotas.
Contudo, por mais que Alex insistisse, não se interessava
por drogas. O efeito da maconha que fumara fora suficiente para
que ele nunca mais experimentasse nada. Acompanhava o amigo
à boca de fumo, tinha contato com viciados, mas não se envolvia
com eles. E, depois de saber que o pai morrera de overdose,
tomou horror às drogas.
Tão logo concluiu o ensino médio, Régis deixou a escola.
Por mais que a mãe insistisse, não conseguiu convencê-lo a
prestar vestibular. Seu objetivo era ganhar dinheiro. Gostava de
frequentar a boca de fumo, atraído que era pela malandragem.
Costumava acompanhar Alex só pelo fato de que se sentia bem
entre malandros e bandidos.
Você não devia cheirar isso - disse ele a Alex, vendo-o
preparar uma carreira de cocaína. - Depois, quando quiser largar,
não vai conseguir.
Virou meu pai agora, é? Deixe de ser trouxa. Você é que é
um frouxo, com medo de se viciar.
- Tenho medo mesmo, e daí? Não quer dizer que seja frouxo,
Só não quero ficar dependente de um pó.
- Tudo bem, então não se meta. Vá cheirar uma florzinha.
Dando de ombros, Régis se afastou. No momento em que ia
iniciar o primeiro passo, uma figura imponente chamou sua atenção.
Caminhando pelo meio da praça, vinha uma figura singular.
Um homenzarrão com cara de mau, porte atlético, no pescoço
um cordão grosso, de ouro maciço, em que se destacava pesado
medalhão. Anéis extravagantes, igualmente de ouro, guarneciam
dois de seus dedos da mão direita, na qual também havia uma
221


pulseira de ouro ilustrando-lhe o pulso. Do outro lado, um relógio
caríssimo, tudo de ouro.
Era a primeira vez que o chefão do tráfico da região passava
por ali. Sua aparência majestosa impressionou Régis, que, de algum
lugar de sua mente, extraiu a lembrança de Atílio. Foram apresentados.
Bira, o traficante, não lhe prestou muita atenção. Estava mais
interessado na mulher que conhecera e que morava por ali. Por isso
fora até lá, para impressioná-la com seu galanteio de machão.
Tudo isso era acompanhado de perto por Damien e Tácio.
Durante anos a fio, os dois espíritos não desgrudaram de Régis,
mas, enquanto Damien o incentivava ao crime, Tácio o fazia lembrar-
-se da mãe, desestimulando-o na surdina, sem saber que seus
conselhos eram ouvidos por Damien. Não podendo desobedecer
às ordens de Atílio, Damien permitia que Tácio levasse Régis pelo
caminho do fracasso nos seus planos anteriores.
Quando notou a proximidade de Bira, Damien exultou. Cutucou
Tácio a seu lado e apontou para ele com o queixo, olhando rapidamente
para o outro lado, como se aguardasse a chegada de alguém.
A mulher, de nome Gislene, apareceu pouco depois, rebolando as
ancas para atrair a atenção dos homens. Bira se desfez num sorriso
malicioso. Saiu de perto dos garotos e foi ao encontro dela. De onde
estava, Régis o observava, fascinado com seu porte altivo.
- Vai ser mais fácil do que imaginei - comentou Damien.
- Como assim?
- Você não reparou? - Tácio meneou a cabeça. - O traficante
é a cara do Atílio.
- É ?
- A cara é exagero. Mas lembra muito. E Mizael, é claro,
inconscientemente percebeu isso também. Não vai ser difícil aproximá-
lo de Bira.
- O que você pensa em fazer?
- Sei dessa mutreteira - ele apontou para a moça. - E
não vai ser nada mau se Mizael descobrir.
- Não estou entendendo nada.
222


- Não precisa. Basta me acompanhar.
Damien fazia o possível e o impossível para bem cumprir as
ordens de Atílio. Nem por um momento sequer pensou em desobedecer-
lhe ou sabotá-lo. Esmerava-se para fazer o melhor, preocupado
com o sucesso de sua missão. O fracasso, deixava a cargo de Tácio.
Depois que Bira saiu com ela, Damien sumiu, levando Tácio
com ele. Por ora, nada podia fazer. Mais tarde, seria hora de agir.
Ele tudo faria para que seu plano saísse certinho. Teve o cuidado de
sincronizar os acontecimentos, tomando conta de Bira e de Régis.
Em sua ânsia de começar a ganhar dinheiro, Régis escolheu
a carreira de modelo. Aproveitaria o que possuía de melhor: a fisionomia
e o corpo. Para iniciar-se na profissão, tinha de divulgar sua
aparência e seu potencial. Precisava, com urgência, de um book
de estilo, mas conseguir isso não era nada fácil. Confeccionar algo
que valesse a pena custava caro, e ele não tinha um tostão sequer.
O jeito era apelar para a mãe.
- Isso não vai dar certo, meu filho - objetou ela. - Você
escolheu uma profissão ingrata. Sabe como é esse meio.
- Deixe de preconceito, mãe. O cara lá da agência de modelos
disse que eu tenho tudo para me dar bem. Só preciso de um
book legal.
- Mas é muito caro.
- Por favor, mãe, é para o meu futuro. E eles aceitam pagamento
parcelado. Você pode dar dez cheques pré-datados.
- Está bem, Régis. Vou ver o que posso fazer.
Pagar por aquele book seria um desequilíbrio no orçamento
doméstico. Sem contar que aquela não era uma profissão do agrado
de Geórgia, que pensava em ver o filho formado. Régis, porém,
estava decidido. Acreditava em seu futuro como modelo. Faltava-
-lhe apenas arranjar dinheiro para o book.
223


- É a nossa chance - comentou Damien, assim que Régis
deixou a mãe e ganhou a rua.
- Como assim? - questionou Tácio.
- Você vai ver.
Damien se colou a Régis, que ia ao encontro de Alex. Quando
os dois se encontraram, veio a sugestão imediata:
- Alex pode lhe arranjar um financiamento. Ele conhece
gente importante.
A princípio, Régis rejeitou a ideia, ainda focado em Geórgia.
Acompanhou o amigo até a boca de fumo, onde ele foi comprar
cocaína. Lá estava Bira novamente, gargalhando com os garotos,
exibindo seu jeito de malandro. Não era comum que Bira parasse
por ali. Só quando Gislene demorava é que ele saltava para
cumprimentar a rapaziada.
Quando Gislene apareceu, Bira foi-se com ela, deixando Régis
cada vez mais fascinado. Nada sabia do traficante, mas o admirava
em silêncio. Tinha até medo de pensar naquela admiração, tentava
resistir-lhe, voltando os pensamentos para outras coisas. Mas a
interferência de Damien mantinha em alta aquela simpatia.
Certa noite, Régis havia acabado de sair de um baile funk
em companhia de Alex e duas garotas, para onde haviam ido por
sugestão de Damien. Pensavam em ir a um motel, mas ele estava
desanimado, um pouco alto da bebida.
- Vamos pegar um táxi - sugeriu Alex, completamente
chapado.
As duas garotas também estavam drogadas, para desagrado
de Régis. Não gostava de dormir com viciadas, não tinha paciência
para suas crises nem seus acessos de riso.
- A essa hora vai ser difícil achar um táxi - comentou Régis.
- Vamos pegar um ônibus - sugeriu a acompanhante de
Alex.
- É isso aí - concordou Alex. - Estamos longe à beça de
casa. Não dá para ir a pé.
224


- Não vamos para o motel? - queixou-se a outra, fazendo
beicinho.
- Não vai dar. Mas podemos ir à praça lá perto de casa.
Tem uns cantinhos maneiros para namorar.
- Na praça? - decepcionou-se a menina.
- Por mim, está tudo bem - falou a outra, tentando abraçar
Régis, que a repeliu com irritação. - O que há? Não gosta
de mim?
- Dê o fora - falou ele, cada vez mais irritado. - Não gosto
de mulher chapada.
- Qual é, cara? - revidou ela, mal se sustendo em pé. -
Você é careta, é?
Régis não respondeu. Empurrou-a para o lado, atravessando
a rua em direção ao bar da esquina, para onde Damien desviara
sua atenção.
- Aonde você vai, Régis? - perguntou Alex, puxando-o
pelo braço.
- Vou embora.
- E a menina?
- Fique com ela.
Sem paciência, Régis entrou no bar e puxou uma cadeira.
Estalou os dedos, chamando o garçom. Pediu uma cerveja e relaxou.
O dinheiro que tinha era pouco, ainda proveniente da mesada
que a mãe lhe dava. Era um absurdo um homem feito ele depender
da mãe para tudo. Tinha de arranjar dinheiro. Precisava de um
emprego, mas não gostava de nada. Detestava a prisão dos escritórios,
a arrogância dos chefes. Devia haver um jeito mais fácil de
conseguir dinheiro sem correr o risco de se envolver com a polícia.
Não podia dar esse desgosto à mãe.
O book seria a solução. Régis estava certo de que teria futuro
na carreira de modelo. O problema era que a mãe não só não tinha
dinheiro, como não concordava com a sua escolha. Queria que ele
se formasse, que trabalhasse engravatado como os idiotas sem
personalidade que circulavam pelo centro da cidade.
225


Eram esses seus pensamentos quando uma voz de mulher os
interrompeu. Vinha de uma mesa mais atrás, onde um casal conversava
à meia-voz. Régis não queria se voltar para encará-los, mas o nome
que a ouviu pronunciar fez arrepiar sua pele, aguçando seus sentidos.
- Estou com medo - dizia ela. - E se o Bira descobrir que
fui eu?
- Ele não vai - contrapôs o homem, visivelmente irritado.
- Não vá dar para trás agora.
- Não se esqueça do que me prometeu, Joel. Quero a
minha liberdade.
- Não é bem assim, Gislene. Liberdade é com o juiz. Mas o
promotor concordou em aliviar a sua barra e processá-la apenas
por furto simples, para dar uma satisfação aos donos da loja que
você roubou, entende?

- Vou ser presa?
- Provavelmente, não. Uma restrição de direitos, talvez, mas
vai ficar na rua, para continuar vadiando, como sempre. Agora,
para isso, você tem que nos ajudar a prender o cara. E aí? Como
vai ser? Descobriu ou não?
Seguiu-se um minuto de silêncio, no qual Régis mal respirava.
Não acreditava que estivesse ouvindo a confissão daquela traidora.
Ela e o homem, provavelmente um policial, estavam planejando
dar um flagrante em Bira, e ele era o único que podia impedir.
Fingindo desinteresse, tomou um gole da cerveja, ouvidos colados
na outra mesa.
- Descobri - revelou ela, de forma quase inaudível.
- E quando vai ser?-questionou Joel, quase eufórico.-Onde?
- Num armazém abandonado lá em Vila Kennedy, no sábado,
à meia-noite.
- Sábado para domingo? - Ela assentiu. - Tem certeza?
- Absoluta. Ouvi quando Bira combinou tudo ao celular.
- Ótimo! E onde, exatamente, fica esse armazém?
- Sabe a quadra da escola de samba? - Ele assentiu.
Então, à esquerda, três ruas abaixo...
226


Ela deu a informação díreitinho. Só não deu o endereço por
escrito porque não sabia, mas o que dissera era suficiente para
levar a polícia até lá e dar o flagrante em Bira. Assim como o policial,
Régis sentia a excitação da descoberta.
Pouco depois, levantaram-se para ir embora. Joel se despediu
do garçom com um aceno de cabeça, demonstrando que
ambos já eram conhecidos ali. Régis pensou em perguntar algo
ao garçom, mas teve medo de que ele alertasse o policial.
Alguns minutos após a saída deles, Régis pagou a conta
e se foi, levando na mente a preciosa informação. Não sabia se
contava ou não ao Bira, mas achava que devia. Não podia assistir
passivamente a uma emboscada como aquela. Por outro lado, se
contasse o que sabia, corria o risco de envolver-se com a quadrilha
de Bira e matar a mãe de desgosto.
Precisava tomar uma decisão rapidamente. Não havia ninguém
em quem pudesse confiar. Alex ainda era capaz de correr
na sua frente e revelar tudo, só para cair nas boas graças de Bira.
Régis não podia contar com ele.
- Isso não vai dar certo - arriscou Tácio, andando ao lado
*
de Régis junto com Damien. - Ele pode até ser morto.
- Não seja tonto! - bradou Damien. - Acha que eu colocaria
Mizael em risco? O tal do Bira é que está com os dias contados,
e Mizael vai ser o seu sucessor.
- Como foi que você armou tudo isso? Você sabia?
- Mais ou menos. Atílio me deu a dica de Bira. Tão logo
ele soube onde Mizael iria reencarnar, começou a procurar
alguém que pudesse introduzi-lo no tráfico. Bira era criança
na época, mas Atílio vislumbrou seu futuro. Inteligente como é,
programou o encontro, deixando o resto por minha conta. Mas
fui eu que descobri Gislene e fui eu que levei Mizael até aquele
baile ridículo, porque sabia que era ali que o policial iria se
encontrar com ela.
- Vocês são diabólicos - comentou Tácio, assustado.
227


- No sentido exato da palavra - Damien gargalhou, -
Atílio vai ficar muito satisfeito comigo. Vou agora mesmo contar-lhe
o que consegui.
Esquecendo-se do outro, Damien desapareceu. Tácio ficou
silencioso, pensativo, seguindo Régis pelas ruas escuras. Era uma
longa caminhada até sua casa, tempo suficiente para que Tácio,
às escondidas de Damien, tentasse alguma intervenção.
- Não faça isso, meu filho - aconselhou timidamente, -
Você vai se encrencar. Quer ser preso? Pior, quer ser morto?
Bandido tem vida curta. Mais dia, menos dia, acorda com a boca
cheia de formiga.
A advertência de Tácio foi parcialmente percebida por Régis,
vindo na forma de um temor indizível. O medo passou a acompanhá-
lo, entornando em sua mente as cenas de horror que Tácio
ia lhe transmitindo, desde Geórgia visitando-o na prisão até seu
corpo perfurado de balas, jogado na sarjeta.
- Se você não disser nada, vai fazer a coisa certa - prosseguiu
Tácio. - Sua mãe vai ficar satisfeita.
As imagens foram fortes, apavorantes. Será que o que sabia
compensava todos os riscos? Ou seria melhor contar tudo à mãe e
impressioná-la para que ela, julgando-o muito correto, finalmente
se decidisse a pagar o seu book? Enfim, com um sorriso enigmático,
entrou em casa, já sabendo o que deveria fazer.
228

capitulo
26
A vida de Júlio em São Paulo corria melhor do que no Rio.
Tinha liberdade, não precisava fingir um casamento perfeito. Com
o ótimo salário que passou a ganhar, alugou um apartamento na
Vila Nova Conceição, de onde tinha uma vista parcial e deslumbrante
do Parque do Ibirapuera. Sua intenção era comprar um
imóvel de luxo ali mesmo, com o dinheiro que vinha juntando em
nome de Patrícia, mas ainda não podia. Não antes do divórcio.
* O sábado amanheceu cinzento e frio, mas Júlio não se incomodou,
feliz por não ter de sair da cama logo cedo. A seu lado,
a bela morena que conhecera num bar na noite anterior dormia
preguiçosamente, completamente nua. De leve, tocou sua pele
lisa, pronto para despertá-la com beijos e carícias. Não teve tempo.
No mesmo instante, a campainha estridente do interfone fez esvanecerem
suas intenções.
Pensou em atender rapidamente e voltar para a cama antes
que a mulher abrisse os olhos, para ele mesmo ter o prazer de
acordá-la. De um salto, vestiu o roupão e correu à cozinha, segurando
o interfone com irritação:
- O que é?
- Doutor Júlio - era a voz do porteiro -, desculpe incomodar,
mas achei que o senhor gostaria de saber que suas filhas
acabaram de subir...


Mal ele terminou de falar, foi a vez de a campainha da frente
se esganiçar. Júlio quase fez o aparelho se soltar da parede,
tamanha a violência com que desligou. E agora? Não dava tempo
de acordar a mulher, de cujo nome nem se lembrava, e mandá-la
embora. Não podia deixar as filhas esperando. Talvez conseguisse
se arrumar e sair com elas para um café da manhã caprichado,
antes que a moça despertasse. Pensando nisso, bateu a porta do
quarto e correu para a da frente. Olhou pelo olho mágico e, fingindo
surpresa, abriu esbaforido.
- Minhas filhas! - exclamou de forma artificial. - Que
surpresa! Por que não me disseram que vinham?
- A ideia era essa - anunciou Patrícia. - Por que está
ofegante?
- Eu estava no banheiro. Vim correndo.
- Está sozinho? - tornou ela, reparando nas duas taças e
na garrafa de vinho sobre a mesinha.
- Ah! Estou, claro. Foi um amigo que veio me visitar ontem.
- Espero que não estejamos incomodando - observou
Natália.
- Desde quando meus dois tesouros me incomodam?
Sabem do que mais? Vamos sair e tomar café da manhã. Tem uma
confeitaria nova aqui perto que dizem que é maravilhosa. Por que
vocês não largam as malas no quarto e damos um pulo lá?
- Boa ideia - concordou Natália. - Estou mesmo faminta.
- Eu também - acrescentou Patrícia.
- Ótimo! - exclamou, entrando no corredor com as duas
atrás. - Vou mudar de roupa e já volto.
Como os dois quartos ficavam frente a frente, Júlio parou na
porta do seu, esperando que as meninas entrassem no que ele
montara especialmente para elas. Inútil. Na mesma hora, a bela
morena apareceu sonolenta, atraída pelo barulho no corredor.
Praticamente despida, envolta em uma toalha de banho que mal
lhe encobria as pernas, fixou em Júlio um olhar interrogador.
230


- O que significa isso? - exaltou-se Patrícia, encarando a
outra com fúria, - Quem é essa vagabunda? O que ela está fazendo
nua no seu quarto, pai?
Desconhecendo os detalhes da vida de Júlio, a mulher
também se assustou.
- Eu... - embaraçou-se. - Já estava de saída. Com licença
Voltou rapidamente para o quarto, enquanto Patrícia continuava
a extravasar sua indignação:
- Era só o que me faltava, papai! Francamente! Então vem
para São Paulo sozinho para ficar livre e dormir com outras mulheres?
- Não se trata disso, minha filha.
- Ah! Não? Trata-se de que, então? Não vai querer nos
convencer de que ela é sua empregada, vai?
- Calma, Patrícia - intercedeu Natália. - Papai tem a vida
dele e não temos o direito de interferir.
- Interferir? Como pensa que mamãe se sentiria se descobrisse
uma coisa dessas?
- Sua mãe não liga a mínima para mim - defendeu-se
ele. - Vocês sabem disso tão bem quanto eu.
, A porta do quarto tornou a se abrir, e a mulher passou por eles
sem dizer nada. Saiu sem nem se despedir, para alívio de Júlio.
- Dormindo com vagabundas - censurou Patrícia. - Isso
não se faz.
- Deixe papai em paz, Patrícia - ponderou Natália. - Ele e
mamãe são adultos, podem cuidar da vida deles.
- Sua irmã tem razão - concordou Júlio. - Sua mãe e eu
não devemos satisfação de nossos atos. Importante é o que sentimos
por vocês.
- Você quer se divorciar dela?
- Tenho pensado nisso, na verdade.
- Mamãe também - esclareceu Natália. - Na verdade, foi
por isso que viemos. Ela quer o divórcio.
Foi uma agradável surpresa para Júlio. Nunca imaginou que
Bianca quisesse, um dia, se divorciar.
231


- Você acha que ela arranjou alguém? - questionou
Patrícia, interrompendo seu espanto.
- Não sei. É possível. Mas fico aliviado que ela tenha decidido
assim. Podemos fazer as coisas amigavelmente. Sua mãe e
eu, há muito, nos distanciamos.
- Você vai ter que pagar pensão a ela?
- Provavelmente - respondeu contrariado. - Sua mãe não
trabalha, muito embora eu pense que não há nada que a impeça
de fazê-lo.
- Posso vir morar com você? - pediu Patrícia.
- Sua mãe não vai permitir.
- Vai, sim - contestou Natália. - Ela nos disse que éramos
livres para escolher.
- Sério? O que a fez mudar de ideia?
O silêncio de Natália deu a entender que ela sabia que a mãe
tinha outro homem. Júlio sentiu uma certa raiva pela traição, mas foi
muito rápida. No fundo, era melhor assim, pois de que outra maneira
ele conseguiria que ela abrisse mão da pensão de Patrícia?
- Quero vir morar com você, papai - reafirmou Patrícia. -
Por mim, já está decidido.
- Tem certeza? - indagou ele.
- Absoluta.
- E você, Natália?
- Não sei. Tenho a faculdade...
- Aqui tem ótimas universidades.
- Eu sei. Mas é que gosto de morar no Rio.
- Muito bem. Vou começar a procurar um bom colégio para
Patrícia. Se tudo correr bem, no início do ano você já pode se mudar.
- Isso!
Patrícia atirou-se ao pescoço do pai, beijando seu rosto várias
vezes. Ele a afagou com carinho, feliz por poder, finalmente, tê-la a
seu lado. Agora, sim, compraria o tão sonhado apartamento, sem
ter de dividi-lo com Bianca. Teria a filha, o divórcio e o dinheiro.
232


Terminado o fim de semana, as meninas retornaram ao Rio.
Natália conversava com a mãe na sala, pondo-a a par das decisões e
propostas de Júlio para o divórcio, quando o telefone tocou. Depois
que Natália desligou, Bianca notou a palidez em sua fisionomia.
- O que foi? Que cara de espanto é essa?
- Ligaram do hospital. Vovó teve um AVC19.
- Mais essa agora. Ligue para seu pai. Ele vai ter que vir
para cuidar da mãe dele.
- Papai vai demorar a chegar. Vamos lá, mãe, ela está sozinha.
Você sabe que papai não tem irmãos e vovô já faleceu.
- Ah, não, Natália! Odeio hospitais. E depois, sua avó me
detesta.
- Isso não importa. Ela está internada, precisa de nós.
- Eu não vou. Vá você, que é neta.
- Será que Patrícia gostaria de me acompanhar?
- Patrícia não está. Saiu com as amigas. E duvido muito
que ela queira perder o fim de semana no hospital.

- Está bem, então. Eu vou. Não posso deixar minha avó
sozinha.
Infelizmente, quando Natália chegou ao hospital, a avó havia
acabado de desencarnar. Segundo informaram, morreu tranquila,
sem dor nem agonia. Foi um certo alívio para ela, que agora tinha
de providenciar o funeral. Ligou para o pai, que já estava a caminho
do aeroporto.
No hospital, Natália cuidava de tudo, já que Patrícia, com
a desculpa de que precisava confortar a mãe, não apareceu.
Ela escolheu a urna, coroa de flores, tudo o que foi necessário.
Faltava o pagamento, única coisa que Júlio realmente precisou
fazer quando chegou.
19 Acidente vascular cerebral.
233


- Vejo que a minha menina cuidou de tudo - elogiou,
embora com pesar.
- Fiz o que pude.
- Pobre mamãe. Devia ter-lhe dado mais atenção quando
era viva.
- Agora não adianta lamentar, pai. Ela se foi, mas você pode
rezar por ela.
- Sim. Não vou esquecer a missa de sétimo dia nem a de
mês, nem a de ano.
- Você não está triste?
- Um pouco. Meu relacionamento com seus avós esfriou
muito quando conheci sua mãe. Eles não se davam lá muito bem.
Após o funeral, Júlio precisou ficar um tempo no Rio para
cuidar do inventário. Não havia muito que fazer. Ela possuía apenas
o apartamento de três quartos em que morava, do qual ele herdara
metade após a morte do pai. Agora, ficara com tudo.
- O que vai fazer com aquele apartamento? - indagou Bianca.
- Vender, é claro. Mas nem adianta ficar de olho grande.
Bens de herança não entram na partilha do divórcio.
- Como você é mesquinho! - fingiu-se ofendida.
- E as coisas dela? - indagou Natália, para romper o clima
de animosidade. - Quando vai começar a mexer?
- Ainda não pensei nisso - declarou Júlio. - Preciso voltar
a São Paulo com urgência. Já me demorei demais por aqui.
- Se você quiser, posso fazer isso para você - ofereceu-se
Natália.
- Sério? - Ela assentiu. - Olhe que não é um trabalho dos
mais agradáveis. Sabe como é mania de velho, vai juntando tudo.
- Deixe comigo. Diga-me apenas o que fazer com cada coisa.
- Se tiver alguma joia, é minha - adiantou-se Patrícia.
- É para dividir - contrapôs Bianca. - Por que você tem
que ficar com tudo? Natália e eu também queremos.
- Não quero nada - contestou Natália, aborrecida.
- Não quer mesmo? - surpreendeu-se Patrícia. - Melhor!
234


- Vocês parecem urubus em cima da carniça - observou
Natália, com uma certa irritação. - Vovó ainda nem esfriou no
caixão e já estão discutindo sobre a herança dela.
- Onde ela está, não vai precisar de nada - comentou
Bianca.
- Natália tem razão - concordou Júlio. - Não acho adequado
minha mulher e minha filha ficarem brigando pelas joias de
mamãe. É falta de respeito.
As duas se calaram, envergonhadas. Ficou acertado que
Natália daria início à limpeza na casa da avó na semana seguinte.
- Olhe lá, hein, Natália! - alertou Patrícia. - Não vá nos
enganar e esconder as joias para você.
- Não me julgue por você - aborreceu-se Natália. - Não
tenho olho grande em nada que é dos outros. E se está desconfiada,
vá você desfazer os armários.
- Eu, não! Detesto cheiro de velho e de defunto.
- Deixe disso, Patrícia - falou Júlio, escondendo a vontade
de rir. - Aqui está, minha filha, o endereço do antiquário que
consegui. Dizem que é muito bom, pega as coisas em consignação.
É só você ligar para ele, que ele irá fazer uma avaliação das
coisas. O que for vendável e ninguém quiser ele manda apanhar.
- Você vai vender tudo que era da vovó? - surpreendeu-se
Patrícia, e ele assentiu. - E quem vai ficar com o dinheiro?
- Não havia pensado nisso - respondeu Júlio. - Mas já
que é Natália quem vai ter todo o trabalho, nada mais justo que
fique com ela.
- Ah! Não, pai, isso é que não! Natália está de olho grande,
quer tudo para ela.
- Eu?! - defendeu-se a outra. - Pois até agora fui a única
que não pediu nada.
- Chega, meninas! - intercedeu Júlio, sem saber como
fazer para ser justo e, ao mesmo tempo, não desagradar Patrícia. -
Vamos primeiro vender as coisas. Depois, pensaremos a respeito
do destino do dinheiro.
235


Depois da aula, Natália partiu para a casa da avó. Tinha poucas
lembranças dali, já que não costumavam muito visitá-la. O apartamento
lhe agradou imensamente. Era amplo, arejado, tinha um
astral excelente. Ao contrário do que o pai pensava, a avó não colecionava
bugigangas. Suas coisas, muito bem arrumadinhas, eram,
na maioria, úteis. É claro que havia lembranças: fotos antigas, suvenires
de viagens, cartas de amor trocadas entre ela e o avô, uma
cristaleira repleta de coisas bonitas, móveis aparentemente novos.
Além dos cristais e da louça, Natália não encontrou antiguidades.
As joias nem eram tantas assim, de forma que colocou
tudo numa caixa e levou para casa. A mãe e a irmã ficaram fascinadas,
dividindo entre elas as peças de ouro.
- Já terminou tudo? - questionou Bianca.
- Ainda não. Comecei pelo quarto. Juntei algumas sacolas
de roupa e sapatos.
- Isso tudo é lixo. Pensei que ela tivesse mais joias.
- O que tem está aí.
- Você não pegou nada escondido, pegou?-sondou Patrícia.
- Eu, hein! Desde quando você passou a desconfiar de
mim? Já disse que não quero nada.
A ideia já se havia formado na cabeça de Natália. Ela não
queria nada daquilo, a mãe e a irmã podiam se matar para ficar
com tudo. Mas havia uma coisa que a interessara: o próprio apartamento.
As duas teriam um ataque quando soubessem o que ela
estava planejando.
No dia seguinte, telefonou para o pai da casa da avó. Não
queria que Bianca e Patrícia ouvissem a conversa.
- Oi, pai, sou eu.
- Tudo bem, minha filha? Algum problema com as coisas
da sua avó?
- Não, está tudo ótimo. Mas, pai, gostaria de lhe pedir uma
coisa.
- O que é?
- Será que você podia não vender o apartamento?
236


- Por quê? Quer morar nele?
- Você acertou, é isso mesmo.
- Não acredito! É um apartamento grande e velho, nem
suíte tem. E fica no subúrbio.
- Não me importo com isso. Gostei daqui, a rua é calma e o
apartamento está todo reformado. Pelo visto, vovó havia comprado
móveis novos.
- Pense bem, Natália. Você não está acostumada. E depois,
como irá se sustentar?
- Pensei se você não poderia me ajudar no começo. O
condomínio é barato e posso trabalhar.
- Mas, filha, você nunca morou sozinha.
- Sou maior de idade, muito responsável. Ah, vamos, papai,
deixe! Ele é perfeito para mim.
Não agradava muito a Júlio permitir que a filha morasse perto
de Geórgia. Fazia anos que não a via nem sabia se ela ainda morava
por lá. No entanto, não tinha motivos para não permitir. E talvez
fosse até bom manter o apartamento, que ficava em uma área
bastante valorizada.
, - Está bem - concordou por fim. - Se é o que você quer,
podemos ficar com ele.
- Oh! Papai, obrigada! Vai dar tudo certo, você vai ver.
Era grande a euforia de Natália. Adorara o apartamento e a
rua arborizada. A vizinhança era tranquila, tinha um comércio local
sortido, condução para todos os lados. Perfeito para uma universitária
sozinha. E permitiria que ela saísse de casa. Patrícia estava
praticamente de malas prontas para se mudar para São Paulo no
fim do ano, e a mãe não se incomodava com nada que não fossem
seus próprios prazeres. Seria o melhor para todos.
237

capitulo
27
O armazém abandonado em Vila Kennedy estava às escuras.
Desde cedo, a polícia montou guarda nas cercanias, vigiando
a movimentação no local. Algumas pessoas entraram, outras
saíram, mas Bira ainda não havia sido identificado.
- Ele só vai chegar na hora - advertiu Joel. - Temos que
esperar.
- Você tem certeza de que ela deu a dica certa? - questionou
o capitão.
- Absoluta. Gislene tem medo de mim, não ia arriscar a vida
por uma mentira.
De binóculos, alguns homens tomavam conta do armazém,
que tinha todas as entradas vigiadas. Alguns minutos antes
da meia-noite, um carro preto parou em frente ao portão e três
homens saltaram. Carregavam uma mochila, aparentemente pesada.
Abriram o portão, em seguida, a porta do armazém. Algumas
luzes se acenderam lá dentro, colocando os policiais em alerta.
- É ele - afirmou Joel. - Veja só.
Pelo porte, só podia ser o Bira. Pouco depois, outro carro
parou. Mais três homens saltaram, levando o que parecia ser uma
bolsa de viagem.
- Acha que a droga está ali? - sondou um soldado.


- Só pode.
A porta do armazém foi fechada, iniciando-se uma movimentação
suspeita no interior. Os homens da polícia se colocaram a
postos, fazendo silêncio geral. A um sinal do capitão, avançaram.
Em poucos segundos, estouraram o armazém. A porta foi ao chão
com estrondo, soldados entraram por todos os lados, correndo
entre corredores formados por velhas estantes de ferro.
Em pouco tempo, alcançaram uma sala central. Com um
pontapé, escancararam a porta, surpreendendo-se com o que
viram. Bem no meio da sala, uma mesa fora montada. Sobre ela,
várias velas acesas circundavam um bolo de padaria. Ao redor,
alguns homens corriam atarantados, soltando gritinhos de pavor.
Vassouras voaram, velas se esparramaram pelo chão. Um dos
sujeitos, rendido pela polícia, dava chiliques de pânico:
- Ai, meu Deus, o que é isso? Por favor, seu guarda, não
nos mate! Não fizemos nada.
- O que significa isso? balbuciou o capitão, irado.
- Não sei de nada - choramingou outro rapaz. - Só nos
deram uma grana para fazer a limpeza e acender as velas para
uma festa.
- Quem pagou? - rugiu Joel, agarrando um moço pela
gola da camisa.
- Não sabemos - respondeu um outro. - Um cara, não o
conhecemos. Ele simplesmente chegou, nos deu o dinheiro e nos
mandou para cá.
- Quem trouxe vocês?
- Um sujeito, sei lá. Não o conheço, já disse.
- Vimos dois carros pretos parando aqui na frente. Quem
estava dirigindo?
- Não sei, não sei! - desesperou-se o primeiro garoto. -
Eles só nos deram dinheiro, nos apanharam de três em três.
Fizemos o que mandaram.
- E os traficantes? - rugiu o capitão. - Onde estão o Bira
e o outro malandro?
239


- Não sei nada de traficantes. Pelo amor de Deus, seu
guarda, não somos bandidos. Os caras chegaram até a gente,
pensamos que queriam uma transa. Um deles pegou o dinheiro,
esfregou na nossa cara. Perguntou se estávamos interessados
num serviço fácil. "É claro que estamos", dissemos. Aí ele falou
que era para limpar esse armazém, colocar as velas ao redor
do bolo e aguardar, que uns caras viriam para uma festa com
a gente.
- E você? - Joel indagou ao de porte atlético, que ele havia
confundido com Bira.
- Foi a mesma coisa. Não sei de nada. Estava curtindo a
noite e uns caras apareceram. Fizeram a mesma coisa comigo. Me
ofereceram dinheiro, e eu topei. Disseram que era para primeiro
fazer a limpeza em um lugar onde haveria uma festa. Achei estranho,
mas concordei. A gente não discute quando o dinheiro é muito.
Pensei que fosse algum tipo de festa surpresa, sabe? Marcaram de
me buscar onde eu fazia ponto. Fui lá e esperei. Quando entrei no
carro, havia mais dois caras lá dentro - ele apontou para outros
dois do grupo. - É só o que sei.
- Quantos caras eram?
- Dois.
- Como eles eram?
- Sei lá. Eram uns tipos comuns.
- Como estavam vestidos?
- De calça jeans e camisa preta.
- Os dois?
- Sim.
- Usavam alguma coisa especial? - Ele meneou a cabeça.
- Um cordão, relógio?
- Nada.
Joel e outros policiais se afastaram do bando trêmulo.
- Acha que eles estão dizendo a verdade? - indagou.
- Acho que sim - respondeu o capitão. - Eles estão se
borrando de medo.
240


- Se a gente apertar, talvez eles nos deem uma boa descrição
dos sujeitos.
- De que isso iria adiantar? Pelo visto, os caras fizeram
tudo direitinho. São tipos comuns, sem nada especial que os
pudesse identificar. E depois, não é crime pregar uma peça em
seis bichas afetadas.
- Maldição! - esbravejou Joel. - Gislene estava certa de
que a transação iria ocorrer hoje.
- E ia. Isso me parece coisa de delator. Alguém descobriu o
plano e deu com a língua nos dentes.
- Mas quem? Gislene? Será que ela deu para trás?
- Não sei. Tudo é possível.
- E agora, capitão? O que faremos?
- Nada. Voltamos à estaca zero. Vamos liberar os caras e
começar tudo de novo. Ligue para Gislene e marque um encontro
para o mais breve possível.
- Se ela ainda estiver por aí, capitão. Temo pelo que possa
acontecer a ela. Se Gislene nos traiu, o Bira vai dar um jeito de
sumir com ela. Se não, alguém contou ao Bira, e ela vai sumir
de*qualquer maneira.
Os seis rapazes foram liberados, deixando enorme sensação
de frustração em Joel e nos outros policiais. Realmente,
eles não sabiam de nada. Tudo se passara exatamente como eles
narraram.
Na véspera, Bira mandara dois comparsas escolher seis
homossexuais para o serviço, tomando o cuidado de apanhar
alguém que fosse fisicamente parecido com ele, ao menos no
porte. Assim fizeram. Em diferentes partes da cidade, elegeram as
vítimas. Por cem reais, tinham de fazer um serviço simples: limpar
um armazém, colocar o bolo, as velas ao redor e esperar a chegada
de vários homens para uma festa.
No dia marcado, cada um recebeu um casaco preto com
capuz, com a orientação de puxá-lo sobre o rosto o máximo que
pudesse. Dois carros participaram da operação, cada qual levando
241


três pessoas, como se fossem três do bando de Bira e três do
vendedor da droga.
Deixados no armazém, os rapazes não desconfiavam de
nada. Foram ao local designado, encontraram a mesa. Enquanto
uns varriam o chão e tiravam pó, outros ajeitavam as velas e o
bolo. Estavam assim entretidos quando ouviram um barulhão se
aproximando pelo corredor. Pensaram que fossem as pessoas
chegando adiantadas para a festa, espantando-se terrivelmente
quando os policiais surgiram, derrubando tudo.
Da laje de uma casa vizinha, um dos comparsas de Bira assistia
à cena. Reconheceu os carros, viu quando a polícia chegou.
Ouviu a barulheira da falsa prisão, rindo da esperteza do chefe.
Na verdade, a ideia partira do sujeito que ninguém conhecia e que
levara a notícia a Bira.
Assim como acontecera com Atílio, Bira se impressionara
sobremaneira com a inteligência de Régis. Todo aquele plano fora
ideia dele.
Na véspera, quando Bira estacionou o automóvel para esperar
Gislene, foi Régis que encontrou. Antes que a moça aparecesse,
ele entrou no carro do traficante, implorando para que ele ouvisse
o que tinha a dizer.
- Você é muito atrevido, rapaz - protestara ele, visivelmente
aborrecido. - Saia, vamos! Tenho mais o que fazer.
- Por favor, Bira, é importante. Mande o motorista dar a
volta no quarteirão. É tempo mais do que suficiente para lhe contar
tudo. Ouça-me e não vai se arrepender.
Curioso, Bira fez como Régis pediu. Ao final da primeira volta,
Bira mandou o motorista dar outra, até ouvir toda a história.
- Isso é impossível - divagou ele. - Gislene não seria
louca de me trair.
- Louca ou não, o fato é que traiu. Segundo entendi, o
promotor prometeu aliviar a barra dela na Justiça, de acusá-la de
um crime mais leve em troca dessa informação.
- Se isso for verdade...
242


- É verdade, pode crer.
- Desgraçada! Vou cuidar dela depois. Agora, preciso avisar
o Tutu para sumir do pedaço.
Tutu era o fornecedor da droga, a quem Bira mandou uma
mensagem para que não aparecesse. Verdade ou não, iria tirar a
limpo aquela história. E, fosse quem fosse que o estivesse enganando,
iria pagar muito caro.
- Por que você não aproveita e manda um recado para a
polícia? - sugeriu Régis.
- Um recado? - interessou-se Bira.
- Sim, um recado. Para que eles vejam como você é esperto
e não se deixa intimidar.
- Como assim?
- Tenho uma ideia que talvez lhe interesse.
Em pouco tempo, Régis narrou a Bira sua ideia. O traficante
achou-a genial. Curtir com a cara da polícia até que não era nada
mau. Rapidamente, o plano foi posto em execução, com o sucesso
esperado.
A presença da polícia no armazém deixou Bira dividido.
Sentia ódio de Gislene e admiração por Régis. Um homem feito
ele em seu bando seria um excelente negócio, um lucro que não
poderia perder. Mas Régis não estava interessado. Tinha medo de
desgostar a mãe.
- Não tem nada que você queira em troca? - perquiriu
Bira, querendo dar-lhe uma bonificação. - Não é possível. Todo
mundo quer alguma coisa.
- Não fiz nada por dinheiro. Só não achei justa a traição.
- Fico-lhe muito grato, mas, ainda assim, gostaria de presenteá-
lo com alguma coisa. O que você quer? Um relógio? Um cordão
de ouro?
Aqueles eram presentes que Bira tinha em estoque, fruto
dos roubos e furtos que encomendava. Régis, contudo, hesitava
em aceitar. Temia comprometer-se com uma pessoa feito Bira. Ao
243


mesmo tempo, não queria perder a oportunidade de receber uma
gratificação. Foi pensando nisso que confessou:
- Bom, na verdade, tem só uma coisa que eu quero.
- Muito bem, diga lá. O que é?
- Estou tentando fazer um book para apresentar nas agências
de modelo.
- Um book? O que é isso?
- Um álbum de fotografias especialmente preparado para
fazer a minha apresentação como modelo.
- Você quer ser modelo?
- Quero, sim. Acho que levo jeito.
- É. Até que você é um cara pintoso. Muito bem, é justo.
Diga quanto é que lhe darei o dinheiro para o tal book.
- Vou ver o preço direitinho e depois lhe falo.
- Ótimo. Seja quanto for, pode contar comigo.
- Obrigado, Bira. Você é muito generoso.
- Sou generoso com aqueles que me servem bem e implacável
com os que me traem.
No dia seguinte, Régis compreendeu bem o significado
daquelas palavras. O corpo de uma mulher fora encontrado crivado
de balas, a língua cortada, atirado dentro de uma vala fétida
algumas ruas abaixo. Mesmo sem vê-la, Régis sabia que se tratava
de Gislene.
A morte de Gislene permaneceu insolúvel. Embora a polícia
estivesse certa de que fora obra de Bira, não tinha como
provar. Nenhuma testemunha, ninguém que se atrevesse a falar.
Perdida a informante, diminuíam as chances de colocar o traficante
na cadeia.
A reação de Bira foi inesperada para Régis, ainda ingênuo no
que se referia ao mundo do crime. Não passou pela sua cabeça
que Bira mandasse matar Gislene. Nem mesmo pensou no que
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poderia lhe acontecer. Tentava eximir-se, dizendo a si mesmo que
não tinha nada a ver com aquilo. Não desejava sua morte, e não
fora ele quem dera os tiros. Também, ninguém mandou que ela
assumisse o papel de dedo-duro.
É claro que Régis não era responsável pela morte de Gislene.
O que lhe aconteceu foi obra de sua própria imprevidência, fruto
de desequilíbrios pessoais. Todavia, nenhuma engrenagem se
opera sozinha. Para que o destino se movimente, é necessária a
união de forças. Cada um é responsável pela sua porção individual
de ações que, somadas, alimentam as relações humanas. As
situações assim geradas vão sucessivamente atraindo outras, de
acordo com seu ponto de magnetismo, modificando-se quando
esse ponto é alterado ou suprimido. Onde está esse ponto é tarefa
que cabe a cada um, individualmente, descobrir.
Para encontrar o elemento magnetizador, basta olhar para
dentro de si mesmo. Ninguém atrai nada que não esteja em conformidade
com os meandros de sua alma. Magnetizar experiências
favoráveis ao bem traz a recompensa da paz e da iluminação.
No entanto, a magnetização de acontecimentos daninhos causa
perturbação, gerando ressentimento, culpa e ódio. Tudo porque o
ser humano não aprendeu ainda a ser livre, já que a liberdade é
o estado da alma isenta dos grilhões mentais e emocionais que
aprisionam o indivíduo nesse mundo de matéria.
Alheio às verdades da vida, Régis tentava não pensar na
morte de Gislene. Já aprendera que aquele era o fim destinado
aos traidores, delatores e inimigos de Bira. Viver no crime não é
fácil. É preciso ser corajoso e não temer a morte. Régis não temia
a morte, não temia nada. Tinha medo apenas de se tornar escravo
do traficante. Isso, ele não queria. Não desejava obedecer a
ninguém além de si mesmo.
Talvez o melhor fosse afastar-se de Bira. Aliando-se a ele,
comprometeria sua liberdade. Prestara-lhe um favor, salvara-lhe a
vida. Nesse ponto, Bira é quem lhe devia. Em gratidão, o pagamento
seria o tão sonhado book. Régis estava indeciso, confuso.
245


Se, por um lado, queria desvencilhar-se de qualquer compromisso
com o traficante, por outro, sonhava com a carreira de modelo. E
Bira era sua chance mais próxima de realizar esse sonho.
- Se ele aceitar o dinheiro de Bira, podemos nos considerar
vitoriosos - comentou Damien, que caminhava ao lado dele,
lendo todos os seus pensamentos.
Tácio não respondeu. Por mais que tivesse de fazer o que
Damien pedia, não era aquilo que desejava. Queria que Régis se
afastasse de Bira o máximo possível. Também ele lia os pensamentos
do filho, conhecia suas dúvidas. Ele não estava decidido
a aceitar. Hesitava. Se havia hesitação, havia uma chance de fazer
com que ele mudasse de ideia.
Embora Tácio não revelasse o que pensava, Damien não era
tolo. Mais experiente, conhecia os pensamentos do outro. Só não
interferia porque Tácio fazia exatamente o que ele queria. Enquanto
Damien se esforçava para levar Mizael pelo caminho do mal, Tácio,
silenciosamente, tentava impedi-lo. Através dele, conseguiria seu
objetivo sem precisar se revelar.
Sem saber que era usado, Tácio pensava no que fazer para
evitar que o filho caísse nas mãos de Bira, temendo, mais do que
tudo, ser descoberto por Damien.
- Bem, acho que por hoje já chega - anunciou Damien.
- Tenho um relatório a apresentar. Você vem?
- Não - respondeu Tácio, sem pensar. - Vou ficar mais
um pouco.
- Está bem. Mas cuidado, hein? Não vá fazer besteiras.
- Pode deixar.
A saída de Damien era proposital, uma oportunidade de deixar
Tácio influenciar Régis sem o seu conhecimento. Depois que ele se
foi, Tácio continuou ao lado do rapaz, que já se aproximava de casa,
onde ele não conseguiria entrar. Tinha de ser rápido.
- Não faça essa besteira de cair nas mãos de Bira - aconselhou.
- Se você aceitar o dinheiro dele, vai ficar comprometido
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para sempre. E, depois que entrar, não vai mais conseguir sair. Ele
vai usar a sua inteligência para ações criminosas.
Régis recebeu o pensamento como se fosse seu. Não queria
se comprometer com o traficante, mas a promessa do book era
por demais poderosa.
- Esse book não vale a sua vida. Pense em sua mãe.
A mãe ficaria decepcionada, arrasada, na verdade. Régis
sabia o quanto Geórgia o amava, logo sabia o quanto ela sofreria
se ele fosse preso ou morto. Com essa dúvida, entrou em casa,
aonde Tácio não pôde acompanhá-lo.
Do lado de fora, pensava numa maneira de intervir. Tentou
atravessar a barreira, contudo uma força invisível o impelia para
trás. E se pedisse a ajuda de alguém? Muitos anos atrás, parado
diante daquela mesma muralha, vira um espírito sair e falar com
ele. Como era mesmo o nome dele? Tácio puxou pela memória,
até que, subitamente, se lembrou.
- Josué? - invocou baixinho.
Na mesma hora, o espírito apareceu ao lado dele. Tácio levou
um susto. Não imaginava que a resposta fosse instantânea.
* - Você me chamou? - perguntou Josué, sorrindo bondosamente.
- Eu? Não, não... Quero dizer, só pensei no seu nome. Aí,
você apareceu.
- Você me chamou - afirmou Josué, encarando-o serenamente.
- Sabe o que é? - tornou desconcertado. - É que você
me parece um cara legal. E acho que gosta de Régis. Pensei se
não poderia me ajudar.
- O que você deseja?
Embora Josué soubesse do que se tratava, queria ouvir de
Tácio. Pedir ajuda era um ótimo início de transformação.
- Estava pensando. Será que não dá para você dar uma
ajudinha ao Régis?
- Que tipo de ajudinha?


- É que tem um traficante oferecendo dinheiro a ele para
fazer o tal book que ele tanto deseja, para ser modelo fotográfico.
Agora, imagine se ele aceita. Vai se encrencar para o resto da vida.
Você não acha que o traficante vai deixar barato, acha?
- Não. No entanto, a escolha é de Régis.
- Eu sei. Mas isso não vai dar certo. Tentei impedir, mas Régis
não me ouve. Ou melhor, acho até que ouve, mas está em dúvida.
Será que você, que sabe das coisas muito mais do que eu, não
conhece um meio de desviar a atenção dele para outros assuntos?
- Não posso interferir com Régis, porque ele é muito mais
propenso a ouvir as suas sugestões do que as minhas. Mas posso
tentar com a mãe dele.
- Como?
- Deixe comigo.
Em instantes, Josué desapareceu dentro da barreira energética,
deixando Tácio nervoso do lado de fora. Como demorava
a voltar, Tácio teve de ir embora. Se ficasse mais tempo, Damien
poderia desconfiar e aparecer para tentar puni-lo.
Régis estava sozinho com a avó. Josué deu um passe em
Cléia e no rapaz, transmitindo-lhe uma sensação de sono. Queria
que ele adormecesse para não se precipitar antes da chegada de
Geórgia. Depois que ele dormiu, Josué energizou também o seu
corpo fluídico, para que ele não saísse de perto do físico. Depois,
partiu em busca de Geórgia.
Encontrou-a no trabalho, cercada por uma aura brilhante que
o emocionou. Geórgia era uma criatura fantástica, muito sensível
e acessível às sugestões do invisível. Aproximou-se. Na mesma
hora, ela levantou as mãos do computador, deixando os pensamentos
vagarem até o filho.
"Não sei o que fazer com Régis", pensou subitamente. "Ele
quer o tal do book, mas é caro, e eu não sei se esse seria um bom
caminho para ele."
- Não é tão caro assim - falou Josué, mentalmente. -
Você tem condições de pagar. E depois, é melhor ser modelo
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fotográfico, que é uma profissão honesta, do que se envolver
com bandidos.
"Será que Régis se envolveria com bandidos?", repetiu para
si. "Não, acho que não. Ele pode ser meio sem juízo, mas é uma
pessoa direita."
- Mais ou menos. Ele é muito melhor do que foi em outras
vidas, mas a tendência para o crime ainda está lá. Você não pode
ser responsabilizada pelo caminho que ele escolher, mas não
seria bom mostrar a ele uma possibilidade diferente? Que tal o
book com que ele tanto sonha? Pode ser que isso o estimule a
resistir ao crime.
"Pensando bem, vou pagar pelo book", admitiu ela, temendo
vê-lo perdido na marginalidade. "O aniversário dele está se aproximando
e posso pagar parcelado."
- Excelente ideia! - exclamou Josué. - Você não vai se
arrepender.
No momento em que Geórgia saía do trabalho, Régis acordava
em casa, surpreso com a sonolência repentina. Foi para a sala,
onde a revista do jornal de domingo ainda jazia sobre a mesinha
de centro. Apanhou-a displicentemente, folheando-a ao acaso.
Numa das páginas, a foto de um rapaz vistoso exibia a marca de
um desodorante masculino.
A decisão foi imediata. Régis atirou a revista para o lado e
saiu, decidido a procurar Bira. No portão, quase esbarrou com a
mãe, que entrava apressada.
- Aonde você vai, meu filho? - indagou ela, notando sua
ansiedade.
- Dar uma volta - disfarçou.
- Agora, não. Venha comigo, tenho algo importante a lhe
falar.
Um pouco contrariado, Régis acedeu, entrando em casa
atrás dela.
- O que foi? - indagou ele, contendo a impaciência.
249


Geórgia abriu a bolsa e tirou o talão de cheques, destacando
os que estavam preenchidos. Estendeu-os a Régis, que os pegou,
avaliando um a um com assombro.
- Mãe! - espantou-se. - O que é isso?
- É o pagamento do seu book. Dez cheques. Seu presente
de aniversário adiantado.
- Não acredito! Puxa, mãe, obrigado! Obrigado mesmo!
Ele a ergueu no colo, beijando suas faces. Mal acreditava
no que via. Não sabia o que levara a mãe a mudar de ideia nem
lhe interessava. Estava feliz por conseguir o book sem precisar se
envolver com Bira.
- Só uma coisa - alertou ela. - Procure uma agência de
renome. Não vá confiando em qualquer uma.
- Não precisa se preocupar. A agência que tenho em vista
é de confiança. Já me informei.
- Não quero lhe cobrar nada, mas é com muito sacrifício
que vou pagar esse book. Não trate isso como uma aventura sem
consequências. Pense que é um investimento para o seu futuro.
- Garanto que você não vai se arrepender. Assim que
conseguir o meu primeiro trabalho, vou lhe pagar tudo e ainda vou
ajudar nas despesas de casa.
- Não precisa me pagar. É um presente. Se quiser me dar
um presente em troca, seja feliz, exerça a profissão que escolheu
honestamente. Não se envolva com drogas nem mentiras. Essa é
a maior recompensa que um filho pode dar a sua mãe.
- Eu sei. Confie em mim, mãe. Vai dar tudo certo.
Geórgia abraçou-o com carinho, ainda insegura sobre o que
estava fazendo. Em seu íntimo, as palavras de Josué ecoavam,
indistinguíveis, enchendo-a de esperança.
250

capitulo
28
Fazia algum tempo que Régis não se encontrava com Bira.
Sabia que a polícia estava de olho nele e não pretendia ser confundido
com alguém do bando. Para seu desagrado, avistou na
esquina a figura esquálida de Alex, de quem também procurava
se afastar.
- E aí, cara? - cumprimentou Alex. - Está sumido.
- Tenho andado ocupado.
- Ocupado com o quê, se você nem trabalha?
- Estou trabalhando no meu book.
- Sério? Conseguiu o dinheiro? - Régis assentiu. - Quem
foi que deu? O Bira?
- Não, minha mãe.
- Sua mãe? - espantou-se. - Mas você não disse que ela
era contra?
- Ela mudou de ideia. Ainda bem, porque não queria dever
favores ao Bira.
- Não entendo você, Régis. O Bira é um cara legal, dá a
maior força para a rapaziada. Queria recompensá-lo por tê-lo livrado
da polícia. Por que está fugindo dele?
- Não estou fugindo. Só que fiquei chateado com a morte
da Gislene. Ele não precisava ter apagado a mulher.


- A Gislene era uma traidora. O que você queria que ele
fizesse? Que lhe desse uma gratificação e a mandasse embora?
Régis não respondeu. A morte de Gislene ainda era um
problema para ele.
- Olhe, Alex, não me leve a mal, mas estou com pressa.
Depois a gente se fala.
Régis virou-lhe as costas, caminhando pela rua. Estava tão
aborrecido que desistiu até de tomar o ônibus ali. A agência era
longe, mas seguiria a pé até um ponto mais abaixo. Precisava
arejar a cabeça.
la cabisbaixo, as mãos no bolso, chutando pedras e latinhas.
Estava quase chegando ao ponto quando o ônibus que
passava pela agência surgiu. Régis fez sinal, correndo para não o
perder. Já ia subindo as escadas quando uma moça veio correndo
pelo outro lado. Com a mão na alça da porta, ele aguardou
até que ela chegasse.
- Obrigada - disse ela ofegante, subindo apressada.
Régis subiu atrás dela. Pagou a passagem, acompanhando-
-a com o olhar. Ela sentou-se em um lugar perto da janela, e ele
ficou de pé, um pouco mais atrás, esperando para poder sentar-se
ao lado dela.
Estava fascinado pela sua beleza, seus gestos delicados, sua
voz suave. A todo instante, fitava-a de soslaio, mas ela nem parecia
se dar conta de sua presença. Queria puxar assunto, contudo não
sabia o que dizer. Ela olhava pela janela, os cabelos esvoaçando
ao vento. Ele prestava atenção a todos os detalhes, logo percebendo
o relógio de pedrinhas que ela usava. Olhando para seu
próprio relógio, teve uma ideia.
- Por favor, moça, pode me dizer as horas? - indagou. -
Meu relógio parou.
- São dez para as duas - anunciou ela.
- Tudo isso? Meu Deus, estou atrasado!
- A que horas era o seu compromisso? - tornou ela, por
educação, reparando no quanto ele era bonito.
252


- Às duas. Estou perdido. É nisso que dá confiar em relógio
digital. A bateria acaba, e a gente nem percebe que a hora passou.
Ela sorriu graciosamente, deixando-o ainda mais encantado.
- Não se desespere - retrucou ela. - A vida sempre dá um
jeito de nos favorecer, quando a gente realmente quer uma coisa.
- É verdade? - tornou embevecido. - Sim, acho que tem
razão, porque eu queria muito conhecer você.
Ela corou violentamente, abaixando os olhos, envergonhada.
Um sorriso tímido emoldurou o seu rosto.
- Por que você queria me conhecer? - perguntou ela, já
cativada pela aura dele.
- Porque você é linda.
- Acha mesmo?
- A moça mais linda que já vi.
- Que exagero.
- Não é exagero. É a mais pura verdade.
- Sei...
- Como você se chama?
- Natália. E você?
•- Régis.
- Muito prazer, Régis.
- Se eu disser que o prazer é todo meu, vai parecer clichê?
Ela riu gostosamente e respondeu:
- Não sei. Talvez.
- Pois é verdade, acredite.
- Se você diz...
- Sem querer ser indiscreto, para onde está indo?
- Tenho uma entrevista de emprego na cidade às três horas.
- Emprego de quê?
- Para a área de informática de um banco.
- Informática, é? Interessante.
- Faço faculdade de informática também. Vai ser uma boa
experiência. E você, o que faz?
- Sou modelo.
253


- É mesmo? - impressionou-se ela.
- Quero dizer, vou ser modelo. Na verdade, estou fazendo
um book, mas já tenho algumas propostas.
- Legal. Bom, Régis, espero que tenha sucesso na carreira
- finalizou ela, fazendo menção de se levantar.
- Você já vai saltar?
- É o meu ponto.
- Espere. Será que não podemos nos encontrar novamente?
Queria muito conhecê-la melhor.
Régis estava tão encantado com Natália quanto ela por ele.
Por isso, foi sem hesitação que ela lhe deu o número do seu celular,
esperando, sinceramente, que ele telefonasse.
- Quando posso ligar?
- Estarei em casa à noite.
- Aguarde meu telefonema, Natália.
Ela sorriu, deu o sinal e desceu. Régis seguiu para a agência,
tendo Natália em seus pensamentos. Fez as fotos, louco de vontade
de conseguir logo um trabalho. Queria estar à altura dela, para
impressioná-la, caso conseguisse levá-la para sair.
Quando Natália saltou, Tácio seguiu com ela, deixando Régis
aos cuidados de Damien. Havia alguma coisa naquela moça que
o confundiu. Damien nem de longe percebeu que se tratava de
Nora, a mesma Nora que Atílio o mandara procurar. Notou a luminosidade
de sua aura, mas não lhe deu maior importância. Não
imaginava que ela fosse envolver-se com Régis, acreditando que
ela não passava de um flerte sem importância.
Apenas Tácio viu além das aparências. Havia nela uma
familiaridade que ele não sabia explicar. Era como se identificasse
parte daquela energia. Acompanhou-a por todo o percurso,
até a sala onde se desenrolaria a entrevista. Havia uma espécie
de bloqueio natural em sua mente, impedindo que ele a lesse
com facilidade.
Chamada para a entrevista, Natália entrou. Logo no início,
Tácio identificou a razão de sua familiaridade.
254

- Você é filha do doutor Júlio Macedo, não é? - foi a primeira
pergunta.
- Sim, senhor - respondeu ela, com naturalidade.
Tácio não precisava ouvir mais nada. Um leve torpor o abalou,
levando-o a pensar que desmaiaria, se vivo estivesse. Angustiado,
saiu do edifício, reaparecendo no estúdio fotográfico, onde Damien
se divertia com as poses de Régis.
- Isso não é coisa de homem - gracejou, tão logo Tácio surgiu.
- Temos um problema - Tácio anunciou, ignorando os
comentários irônicos dele.
- Que problema?
- Sabe a moça que eu segui? - Damien assentiu. - Eu
sabia que havia alguma coisa errada. Ela é filha de Júlio.
- De Júlio? - surpreendeu-se Damien. - O mesmo Júlio
que não quis se casar com Geórgia?
- Esse mesmo.
Damien ainda não sabia se a notícia era boa ou ruim.
- E daí? Em que você acha que isso pode atrapalhar nossos
planos?
*- Você não percebe? - Ele balançou a cabeça. - Se Júlio
não aceitou Régis...
- Mizael.
- Se Júlio não aceitou Mizael quando ele ainda estava na
barriga da mãe, como acha que vai reagir ao saber que ele está
namorando a filha dele?
- Vamos com calma, Tácio. Ninguém está namorando
ninguém.
- Você sabe que os encontros não são casuais. Deve haver
algum motivo para esses dois se encontrarem.
- Tudo bem. Mas em que isso pode nos atrapalhar? Acho
até que vai ser bom. Um homem infernizando a vida de Mizael só
pode contribuir para despertar ainda mais a agressividade dele.
Tácio fazia o raciocínio inverso. Achava que Júlio podia,
sim, infernizar a vida de Régis, mas causando-lhe algum tipo de
255


prejuízo. E ele não queria ver seu filho prejudicado pelo homem
que o odiava desde antes de ele nascer.
Quanto a Damien, nem de longe imaginava estar diante de
Nora. Por vezes até se esquecia de que Atílio o mandara encontrá-
-la. Não a conhecia, nunca tivera contato com ela. Se contasse
a Atílio sobre Natália, o chefe imediatamente identificaria sua
energia. Contudo, Natália não lhe parecia um problema, e Nora,
segundo ele, jamais seria encontrada.
256

capitulo
29
Assim que Damien entrou no gabinete de Atílio, percebeu
alguma coisa errada. O ar hostil do chefe não deixava dúvidas de
que ele não estava satisfeito. Os outros espíritos que estavam ali
não ousavam levantar os olhos para ele.
- Mandou me chamar, chefe? - indagou Damien, aproximando-
se vagarosamente.
Atílio fuzilou-o com o olhar. A um gesto seu, os demais espíritos
se retiraram, deixando-os a sós. Damien sentiu-se desconcertado
com aqueles olhos intimidadores, temendo novo castigo. Não
sabia o que acontecera, mas só podia ser grave.
- Por que acha que mandei chamá-lo? - retrucou Atílio, em
tom ameaçador.
- Sinceramente, não sei. Ontem mesmo lhe fiz um relatório e...
- E você está mentindo sobre Mizael! - esbravejou ele,
dando um soco na mesa.
- Mentindo? Como assim? Não estou mentindo
- Não está? Desde quando Mizael é trabalhador? Quer me
explicar?
- Que eu saiba, ele não tem trabalho algum.
- Ele não está tirando fotos para revistas?
- E isso lá é trabalho?


- Idiota! - vociferou, - Se não é trabalho, é o quê?
- Uma brincadeira de adolescente.
- Essa brincadeira está lhe rendendo dinheiro. E, se ele
ganha dinheiro honestamente, o que ele faz? - Damien não
respondeu. - Eu lhe fiz uma pergunta, Damien!
Ele se afasta do crime.
- Exatamente. E é isso que nós queremos?
- Não.
- Pelo menos você não é burro. É só incompetente.
Damien engoliu a ofensa, sentindo uma raiva que Atílio percebeu,
mas para a qual não deu importância. Não tinha medo dele
nem o julgava uma ameaça.
- Sinto muito, Atílio - falou Damien com voz sumida. -
Não pensei por esse lado.
- É óbvio que não pensou.
- Vou dar um jeito de acabar com essas fotos.
- Ótimo,
- É só isso?
- Não, tem mais uma coisa. E Tácio?
- Está me ajudando
- Não o quero mais a meus serviços. Ele é uma ameaça.
Livre-se dele.
- Mas estamos juntos há muitos anos!
- Não me interessa. Sinto um perigo no ar, vindo da direção
dele.
- Com todo respeito, Atílio, Tácio não é um problema. Ele é
meu amigo.
- Amigo? - desdenhou. - Ninguém é amigo de ninguém,
muito menos de você. Tácio só não vai embora porque se sente
culpado pelo que fez a Geórgia e por se julgar um suicida. Mas
ele não está exatamente na mesma vibração que nós, está? Do
contrário, não teria fugido das masmorras.
- Você sabe disso?
258

- Sei disso e de muitas coisas - afirmou, fixando nele os
olhos penetrantes, dos quais Damien desviou temeroso. - Não
confio nele. Tem vezes em que não consigo sondá-lo. Ele é
estranho, diferente. Poucos aqui conseguem bloquear a mente
para impedir que eu leia seus pensamentos. Tácio consegue.
Isso me preocupa.
Ao ouvir isso, Damien gelou. Se Atílio sondasse seus pensamentos,
leria neles traição. Atílio, contudo, parecia não perceber
o que lhe passava pela cabeça. Talvez o julgasse tão submisso,
tão incompetente, que nem se preocupava com o que ele pensava
ou sentia. Ou então, havia uma possibilidade remota de Damien
também estar lhe ocultando seus pensamentos.
- O mal foi eu confiar em você - prosseguiu Atílio. - Deixei
Mizael aos seus cuidados quando devia ter me encarregado dele
pessoalmente. Agora as coisas parecem estar saindo do controle.
- Não tem nada saindo do controle, chefe. Essa questão
das fotos, eu posso resolver. Quanto a Tácio, também percebi que
uma luzinha se acendeu dentro dele... bem fraquinha. Por isso o
mantenho junto a mim. Para vigiá-lo e impedir que ele atravesse
para o lado da luz, aí sim, comprometendo o sucesso da nossa
obra de tantos anos.
Atílio pensou por uns minutos, surpreso que Damien houvesse
tido uma ideia daquelas.
- É, faz sentido - concordou ele. - Manter a ameaça nas
proximidades a coloca sob controle, impedindo-a de se concretizar.
Mas tome cuidado. Ele é mais esperto do que você.
- Deixe comigo. Pode confiar em mim. Não vou decepcionar
você.
- Se você fosse Mizael, eu confiaria plenamente. Mas acontece
que você não é. É só mais um idiota que me serve.
- Com todo respeito, chefe - rebateu Damien, um tanto ou
quanto irritado. - Se pensa mesmo isso de mim, por que não põe
outro no meu lugar?
259


Foi uma ousadia, mas agora estava feito. Damien assustou-
-se com sua coragem, coisa que, até então, não pensou que
tivesse. Ficou à espera da reação violenta de Atílio, que não veio.
De onde estava, Atílio apenas olhava-o, tentando esconder uma
pontada de medo.
- Saia daqui! - rosnou ele.-Antes que eu o açoite novamente.
Damien não esperou uma segunda ordem. Rodou nos
calcanhares e saiu quase correndo. Pensou que Atílio fosse usar
aquele chicote de pontas triplas para despedaçar seu corpo fluídico,
espantando-se porque não o fizera.
Atílio estava confuso. Durante todos aqueles anos, Damien
nunca esboçara qualquer reação. Obedecia-lhe em silêncio,
embora ele percebesse seus momentos de revolta, principalmente
depois que Mizael apareceu. Sabia de sua inveja, contudo não
a julgava uma ameaça. Até agora.
Não que tivesse observado algum sinal de luz em Damien.
Seu corpo continuava tão denso como antes, mas havia algo
diferente. Uma sombra pálida, um esboço malfeito, um ensaio
desencontrado de algo que podia ser bem maior. Alguma coisa
que não se havia ainda instalado, mas que estava ali, com todas as
suas possibilidades. Atílio era bem experiente para saber do que
se tratava. Era um cansaço, um desânimo, uma incerteza sobre a
inevitabilidade de estar preso às sombras.
Aquele era o primeiro passo para a fuga. Em breve, Damien
ganharia forças para pensar em sair. Mais um pouco, algo brilharia
dentro dele, como começava a brilhar em Tácio. A tendência dessa
luzinha era ir se acendendo cada vez mais, até se tornar uma aura de
proteção para mantê-los intactos, aguardando a chegada dos enviados
da luz. Ali, naquele momento, Atílio soube que iria perdê-los.
Precisava fazer alguma coisa. Ficar sentado, à espera de ser
traído, não era de seu feitio. Podia mandar alguém vigiá-los, mas
não conhecia ninguém que pudesse enfrentá-los. O único, além
dele, capaz de conter Damien ou qualquer outro, estava encarnado,
pelo visto, correndo o risco de perder-se também.
260


Atílio devia ter previsto aquilo. Em sua ilusão de poder, não
imaginou que as influências materiais seriam muitas. Se, por um
lado, há a tentação dos prazeres, que pode levar ao crime se
mal controlada, por outro, existe a interferência palpável do amor.
Só agora percebia que a mãe que arranjaram para Mizael fora
uma armadilha. Ele deixava de fazer muitas coisas só para não
desgostá-la. Era tudo o que ele não esperava: um filho preocupado
com a mãe.
Fazia anos que Atílio não se lembrava de sua própria mãe.
Das muitas que tivera, em sucessivas encarnações, não se afeiçoara
particularmente a nenhuma. Mal se recordava de suas
feições. A única mulher que marcara sua vida fora Nora, e ele se
vira obrigado a abrir mão dela por causa de Mizael. Este, sim, era
o único a quem podia, verdadeiramente, dizer que amava.
Não sabia por onde ela andava. Damien se demonstrara inútil
para localizá-la. Nunca a vira, não a conhecia, nada sentia da energia
dela. Ela não estava entre seus antigos conhecidos, conforme
Damien lhe informara. Mas então, por onde andaria?
Nora não era seu maior problema. No momento certo, a
encontraria. Precisava agora concentrar-se em Mizael. Não podia
perdê-lo, não daquela forma. Logo Mizael, que sempre lhe fora
fiel, um espírito empedernido, como ele, seduzido pelo poder.
Recebera um posto importante na hierarquia do crime, que ele
conquistaria através de Bira. Agora, Mizael parecia dar para trás.
Tudo porque resolvera virar boneco de revistas. Se ele tivesse ao
menos aceitado a oferta de Bira, teria se colocado nas mãos dele.
Era meio caminho andado. Mas não. Tinha que receber o dinheiro
honesto da mãe. E agora, o que iria fazer?
Longe dali, Damien preocupava-se com seu futuro. Embora
percebesse a hesitação de Atílio em puni-lo por sua impertinência,
ainda assim tinha medo dele. Atílio podia ter sido apenas indulgente,
coisa que não era comum, mas ele não queria abusar.
Entrou em sua cabana, onde Tácio o aguardava, e foi logo
falando:
261


- Temos que nos movimentar. Atílio não está nada satisfeito
com a gente.
- Porquê?
- Ele descobriu tudo sobre nós. Sabe até que você fugiu da
masmorra.
- E daí?
- E daí que é perigoso. Se ele quiser, pode acabar com a gente
- Se ele quisesse, já o teria feito.
- Como assim? Você acha que Atílio está nos dando mais
uma chance?
- Não. Acho que Atílio não tem tanto poder como você pensa,
- Você é doido mesmo, não é? Ainda não aprendeu? Quer
morrer novamente?
- Francamente, Damien, esse poder que você tanto teme,
na minha opinião, não vem de Atílio. Vem do que vocês dão a ele.
- Dá no mesmo, Tácio. O que importa é o que ele pode
fazer conosco.
- Nada. Ele não pode fazer nada.
- Está enganado. Ainda me lembro da última surra que
levei. Atílio me açoitou pessoalmente. Foi uma humilhação terrível.
- Isso foi antes, porque você acreditava que ele podia. Se
você resistir, aposto que ele não conseguirá. Damien deu de
ombros, em dúvida, pensando no episódio de momentos atrás. -
Pense bem, Damien. Há anos estamos cuidando de Mizael
praticamente sozinhos. Atílio nem chega perto dele. Por que será?
- Porque confia em nós.
- Porque tem medo. Ele morre de medo de sair daqui, do
seu refúgio. Lá fora, os perigos são muitos. Nada nos impede de
topar com um espírito de luz, como já aconteceu.
- Atílio não tem medo de espíritos de luz. Só não gosta da
companhia deles.
- Não gosta porque sabe que eles podem vencê-lo.
- Isso que você está dizendo é uma tremenda besteira.
Espíritos de luz não fazem guerra, portanto não vencem ninguém.
262


- Engano seu. Eles não fazem o tipo de guerra a que estamos
acostumados. Suas armas são outras. Eles lutam com o
amor, a compreensão, a serenidade. Quem é que pode resistir a
essas coisas?
- Eu, no seu lugar, pararia de falar essas barbaridades. Se
Atílio ouvir...
- Não tenho medo de Atílio. Se ele quiser, que venha me
enfrentar.
- Cale a boca! - censurou baixinho. - Quer que ele o escute?
- Ele não me escuta. Se escutasse, já teria vindo pessoalmente
dar cabo de mim.
- Por quê? Em que você pensa?
- Quando ele o chamou, pus-me aqui a refletir. Pensei muitas
coisas que não são do agrado dele, que ele consideraria verdadeira
traição. Duvido que, se me ouvisse, deixaria passar. Mas ele não
apareceu por aqui nem mandou nenhum de seus algozes. E, se
não fez isso, é porque não pode. Ele desconhece o que eu penso.
- Você não sabe o que está dizendo. Atílio não é de brincadeiras.
- Estou de saco cheio desse cara. Ele fica lá, no seu gabinete
particular, mandando e desmandando em todo mundo. Quem
é ele para fazer isso?
- Pare com isso, já falei! - apavorou-se Damien, tentando
colocar uma das mãos sobre a boca de Tácio. - Você não faz ideia
do que é virar uma massa disforme de energia, sem consciência.
- Que se dane! Ninguém vai fazer isso comigo. Atílio não
tem esse poder.
- Está enganado. Já vi muitos decaírem da forma astral por
causa de Atílio.
- Por causa das sugestões que ele lhes dá e que eles acatam
por puro medo. Só por isso. Mas Atílio mesmo nunca arrancou o
corpo astral de ninguém, arrancou?
- Não.
- Porque não pode. Só a própria pessoa tem essa faculdade,
consciente ou não. Por medo, culpa, sei lá, mas esse não é o
263


meu caso. Não vou mais aceitar ser prisioneiro de Atílio. Aguardava
você para dizer isso.
- Ficou louco, Tácio? Para onde você vai?
- Qualquer lugar. Estou desencarnado, posso atravessar
paredes, me locomovo com a velocidade do pensamento. Não
preciso de um lugar para morar. Posso montar guarda na casa de
Mizael, morar no quintal, em qualquer lugar. Não me importo.
- Aposto como você vai parar lá naquela boca de fumo,
drogando-se com os viciados.
- Não vou. Estou resistindo a isso. Eu mesmo transmito a mim
a sugestão mental de que o vício é só uma impressão. Não tenho
mais corpo físico para intoxicar nem para me deixar dependente.
- Não vá, Tácio, por favor. Não me deixe aqui sozinho.
Aquele era o dia de falar coisas sem pensar. Primeiro ele
enfrentara Atílio. Agora suplicava a Tácio. Em ambos os momentos,
estava sendo sincero.
- Você não precisa de mim - observou Tácio. - Eu nem o
estava ajudando mesmo...
- Eu sei.
- Sabe? Como?
- Li em seus pensamentos, muitas vezes. Sei que você tem
procurado desfazer tudo o que faço pelas minhas costas.
- Damien, eu... sinto muito. Não queria traí-lo. Queria apenas
proteger o meu filho.
- Sei disso. Não precisa se desculpar. Tenho vergonha de
dizer, mas eu também não tenho sido muito honesto com você.
Mesmo sabendo o que você estava fazendo, não o impedi. E sabe
por quê? - Ele meneou a cabeça. - Porque quero que Mizael
falhe. Se você o levar à derrota, eu poderei acusá-lo depois, livrando-
me da ira de Atílio.
Não era comum Damien fazer confissões, mas aquela serviu
de alívio a sua alma.
264


- Olhe, Damien, nós dois somos espíritos das sombras.
Somos iguais. Não precisamos nos acusar de nada. Em vez disso,
por que não nos aliamos?
- Como?
- Juntos, podemos afastar Mizael do crime.
- Não! Isso é loucura. Atílio não vai me perdoar.
- Atílio não pode fazer nada contra você. Será que não
entende? Atílio não tem o poder que vocês pensam que ele tem. É
você quem o está fortalecendo. Fortaleça-se, em vez disso.
- Não posso. Tenho medo.
- Se tem medo, então, fique aqui com ele. Estou indo embora.
- Você não pode fazer isso. E Mizael?
- Estaremos em lados opostos.
- Não. Por favor, Tácio, não faça isso. A verdade é que...
acostumei-me com você. Gosto da sua companhia.
- Também gosto da sua. Somos amigos, coisa rara por aqui.
- Foi mais ou menos o que Atílio disse.
- Está vendo só? No fundo, ele sabe o poder que tem a
amizade verdadeira. É muito maior do que o poder dele.
- Será?
* - Não sei como você pode duvidar.
- E se a gente se esconder em outro lugar? - aventou
Damien, agora vendo uma perspectiva de sair dali.
- Como?
- Aprendi a manipular matéria astral para construir coisas.
Fui eu quem plasmou essa cabana aqui, só com o poder da
minha mente.
- Por isso está horrível - Tácio gracejou, para aliviar a
tensão. - Mas se você pode construir outra, em outro lugar, então,
vamos para lá.
- Ainda não estou certo. Foi só uma sugestão.
- Vamos, Damien. Isso aqui não tem mais nada a ver com
você.
- O que faremos lá fora sozinhos?
- Não sei. Pensaremos nisso depois.
265


- Você sabe que, se sairmos, não poderemos voltar.
Nunca mais.
- Quem foi que disse que pretendo voltar? Quero me livrar
desse buraco.
- Você não está pensando em atravessar para a luz, está?
- Não sei. Quem sabe?
- Ficou doido de vez.
- Ou, então, podemos nos aliar a outro bando. Há muitos por aí.
- Em outro bando nos farão de escravos.
- Se é assim, seremos autônomos. Não precisamos de
ninguém.
- Atílio vai ficar furioso.
- Desvincule-se de Atílio. Você não lhe deve nada. Só o que
ele faz é humilhá-lo.
- É verdade. Atílio nunca deu valor ao meu trabalho. Só se
importa com Mizael.
- Vamos, homem, decida-se. Você vem ou não vem?
Damien deu uma olhada breve ao redor da cabana que ele
mesmo construíra. Não era nada bonita nem luxuosa. Era tosca,
pequena, lúgubre, uma espécie de prisão domiciliar vigiada por Atílio.
Embora temeroso, chegou à conclusão de que não precisava
mais de Atílio. Durante todos aqueles anos, fora humilhado e diminuído
por ele. Tácio tinha razão. Era ele quem conferia a Atílio todo
o seu poder. Por isso os seres da luz eram livres, porque não eram
submissos a ninguém. Deviam ter lá as suas ordens, mas não havia
repressão nem medo, nem opressão, coisas com as quais Atílio
dominava a todos. Cansara-se disso. Se Tácio tinha forças para
sair dali, ele, que já estava desencarnado havia muito mais tempo,
também haveria de ter.
Damien desviou os olhos dos objetos que guarneciam a
cabana. Encarou Tácio com uma firmeza que nem ele sabia que
possuía. Empertigou o corpo e, com a voz convicta, afirmou:
- Eu vou.
Na mesma hora, os dois desapareceram no ar.
266

capitulo
30
Desde cedo pronto para o encontro com Natália, Régis dava
voltas na sala, olhando o relógio de pulso a cada cinco minutos.
Sentadas à mesa, Cléia e Geórgia jogavam uma partida de buraco,
para passar as horas do sábado à noite.
- Está tudo bem, meu filho? - indagou Geórgia, notando o
nervosismo dele.
- Está.
- Arranjou uma namorada? - perguntou Cléia. - Está tão
elegante!
- Na verdade, conheci uma garota, sim.
- Sério? - animou-se Geórgia. - Ela mora por aqui?
- Dois quarteirões abaixo.
- E o que ela faz? - tornou Cléia, tentando não demonstrar
preocupação.
- Trabalha no departamento de informática de um banco e
está na faculdade de informática também.
- Que maravilha! - Geórgia estava realmente feliz e impressionada.
- Quando poderemos conhecê-la?
- Calma, mãe. Nada de precipitação. Nem sei se vai dar
certo.
- Tomara que dê. Vai lhe fazer bem.


- Tomara mesmo. Bom, está na hora. Fiquei de encontrá-la
às oito na portaria do prédio dela. Torçam por mim.
- Torceremos.
Assim que ele saiu, Alex foi ao seu encontro. Parecia mesmo
que o estava esperando.
- E aí, cara, tudo bem? - indagou, com seu jeito malandro
de sempre.
- Tudo.
- Está sumido.
- Nem tanto. Tenho andado ocupado com as fotos. Sabia
que consegui um trabalho?
- Eu vi na revista. Foi rápido, não?
- A revista estava precisando, e a agência logo me encaminhou.
O book ficou uma beleza, eles aprovaram, e lá fui eu para a
sessão de fotos.
- Maravilha. Bira também viu. Gostaria de falar com você
sobre isso.
- Falar comigo? O quê?
- Não sei. Pediu-me apenas para dar o recado. Ele ainda
não esqueceu o que você fez por ele.
- Aquilo não foi nada, já disse. Ele pode esquecer.
- Bira jamais esquece os que lhe são leais.
- Olhe, Alex, a verdade é que fiquei meio chateado. Ele não
precisava ter matado a garota. Fez-me sentir culpado.
- De novo com essa besteira? Você não foi culpado, foi um
herói.
- Não sei. Não gostei do que ele fez.
- Se você for falar com ele, aposto que ele vai lhe explicar tudo.
- Outra hora eu vou.
- Bira não gosta de ficar esperando.
- Lamento, mas agora tenho um encontro.
- Uma garota?
- Sim.
- Eu a conheço?
268


- Não.
- Bom, se é esse o motivo, então é justo. Bira respeita um
homem que é gentil com as mulheres.
- Isso é alguma piada?
- Não, é sério.
- Está bem, Alex, seu recado está dado. Vá tomando seu
rumo, que vou seguir o meu.
Agora sozinho, sem a presença constante de Damien e Tácio,
Régis não sentia mais tanto pendor para o crime. O desejo de
ganhar dinheiro fácil fora substituído pelo entusiasmo com a nova
profissão. Régis ia muito bem. Lindo de morrer, elegante, vistoso,
esbanjando charme e simpatia, não havia quem não o disputasse.
Para completar, conhecera uma garota maravilhosa e conseguira
marcar um encontro com ela. Régis tocou o interfone de
seu apartamento. Natália atendeu, informando que já ia descer.
Quando ela chegou, ele quase engasgou, tamanha a emoção. Ela
lhe pareceu muito mais bonita do que da primeira vez que a vira.
- Oi, Régis - cumprimentou ela, dando-lhe dois beijinhos
no rosto. - Tudo bem?
* - Melhor agora, que a vi. Você está linda!
- Obrigada - respondeu, corando.
- E aí? Vamos pegar um táxi?
- Você é quem sabe.
Régis dava graças a Deus por ter conseguido o trabalho.
Recebera um bom dinheiro. Nada que desse para extravagâncias,
mas pelo menos podia pagar um táxi e a conta do barzinho. Queria
impressioná-la.
No barzinho à meia-luz, escolheram uma mesa mais afastada,
em um cantinho bem aconchegante. Do outro lado, uma
banda tocava músicas românticas, deixando o ambiente calmo e
propício ao namoro.
- Não via a hora de encontrar você - confessou ele, completamente
embevecido.
269


- Sério?
- Não sei explicar, mas desde que a vi naquele ônibus, não
consigo parar de pensar em você.
- Exagerado.
- Não é exagero, é sério.
Sem graça, ela mudou de assunto:
- Vi você na revista. Você fotografa muito bem.
- Você achou?
- Achei. Você vai longe na carreira. E, quando ficar famoso,
nem vai mais se lembrar de mim.
- Que bobagem, Natália. Primeiro, nem sei se vou ficar
famoso. E, depois, estou completamente apaixonado por você.
- Ah! Régis, não invente. Apaixonado?
- É, apaixonado.
- Mas é a primeira vez que saímos, e você mal me conhece!
- E daí? Parece que você saiu dos meus sonhos.
- Além de modelo, você é poeta?
- Para você ver o que faz comigo.
- Deixe de brincadeiras, Régis.
- Não estou brincando. Por que você não acredita?
Ela acreditava. No fundo, sentia o mesmo. Só tinha medo de
expressar ou de estar se iludindo.
- Conte-me um pouco de você - desconversou. - Mora
com seus pais?
- Com minha mãe e minha avó. Meu pai já morreu. E você?
- Na verdade, moro sozinha.
- O quê? Uma menina tão nova, sozinha num apartamento?
O que houve?
- É complicado. Minha família é complicada. Meu pai mora
em São Paulo com a minha irmã, e minha mãe anda ocupada com
seu novo caso. Quando minha avó morreu, pedi a papai para me
deixar morar no apartamento dela. E cá estou eu.
Ele estava fascinado. Ela era linda, inteligente e independente.
Trabalhava, fazia faculdade, morava sozinha. Uma mulher,
270


dona de seu nariz, enquanto ele era ainda um menino ensaiando
os primeiros passos.
- Estou impressionado - confessou.
- Pare com isso. Você está me deixando sem graça.
- Perdoe-me. Mas é que me apaixono mais por você a
cada minuto.
- Sei.
- Gostaria que acreditasse em mim.
Ele apanhou a mão dela, levando-a aos lábios. Em seguida,
puxou-a para a frente, dando-lhe um beijo repleto de paixão. Ela
correspondeu mansamente, sentindo-se cada vez mais atraída
por ele.
Por que não saímos daqui? sugeriu ele, completamente
envolvido por ela,
- Vá com calma - pediu ela. - Acabamos de nos conhecer.
- Eu sei. Mas estou louco de desejo por você. Podemos ir
para o seu apartamento - arrematou ele, acariciando seu corpo.
- Por favor, não - ela o afastou, aborrecida. - Não é
porque moro sozinha que deixo qualquer um subir.
* - É claro - tornou ele aturdido. - Eu entendo. Por favor,
Natália, desculpe-me. Não quero que pense que estou tentando
abusar de você.
- Você foi rápido demais. Foi só eu falar que morava sozinha,
que você logo se animou.
- Não é nada disso. Por favor, não me interprete mal. Eu
só queria ficar a sós com você porque estou apaixonado. Há dias
não penso em outra coisa que não seja você, mas não quero me
aproveitar. Tanto faz o que façamos, desde que estejamos juntos.
Se você quiser ficar aqui e só conversar, tudo bem. Para mim está
perfeito. Fico aqui só olhando para você, nem lhe encosto a mão.
Eu juro. Não foi para isso que a chamei para sair. Por favor, Natália,
acredite. Só quero estar perto de você.
Apesar do medo de acreditar, suas palavras pareciam sinceras.
Mais do que isso, seu olhar transmitia exatamente o que ele dizia.
271


- Está bem, Régis, acredito em você. Mas por favor, não
insista mais. Deixe as coisas acontecerem normalmente.
- Farei tudo como você quiser. Só não me mande embora.
- Se você se comportar, eu não mandarei.
- Posso beijá-la? Se não puder, não faz mal. Como disse,
contento-me em ficar ao seu lado.
Ela sorriu, entreabrindo os lábios, convidando-o para o beijo.
Régis tomou-a nos braços, controlando-se para não avançar além
do que ela permitia. Era óbvio que Natália não era igual às outras
moças, o que lhe agradou ainda mais. Passaram a noite juntos.
Dançaram, beijaram-se, conversaram. Régis contou a ela muito de
sua vida. Evitou, contudo, falar do pai e omitiu que conhecia um
traficante.
Assim como Régis, Natália também se sentia atraída por ele.
Cada vez mais, o amor que experienciaram no passado retornava
a seus corações.
Um ano após a morte da avó, Natália já estava bem instalada
no apartamento. Tinha um emprego, tirava boas notas na faculdade.
Para completar, conhecera um rapaz incrível. O que mais
poderia desejar?
Apesar de pouco ver a mãe, Natália estava em contato permanente
com o pai e a irmã. Ao telefone, contara a Patrícia que
conhecera um homem maravilhoso chamado Régis.
- É mesmo? - enciumou-se ela. - O que ele faz?
- É modelo fotográfico, imagine!
- Modelo? Deve ser muito bonito, então.
- Se é. Um gato, cheio de pose, lindo de morrer. E carinhoso
toda vida.
- Tem certeza de que ele existe? Não é virtual?
- Bobinha. Ele é real até demais. Saiu numa revista de modas.
- Você já dormiu com ele?
272


- Patrícia! Isso é pergunta que se faça? Você ainda é uma
criança, não devia falar essas coisas.
- Tenho quinze anos, não sou mais criança. Sei de muito
mais coisas do que você imagina.
- O que quer dizer com isso? - Ela não respondeu. -
Patrícia, não vá me dizer que você já...
- Não estamos falando de mim, Natália. O assunto é você.
Então? Quando vamos conhecer esse fenômeno?
- Não sei. Quando estão pretendendo vir ao Rio?
- No carnaval. Papai prometeu que me deixaria sair na
Portela este ano.
- Não acredito! Papai ficou doido. Ele sempre morreu de
ciúme da princesinha dele.
- Mamãe o convenceu. Ela vai sair, e vou com ela. Tenho
fantasia e tudo.
- Mas você nem me disse nada!
- Queria fazer surpresa. Mamãe e eu vamos sair na
mesma ala, com fantasias iguais - ela abaixou a voz e revelou:
- Quase peladas.
- Vocês duas são terríveis.
- Papai ainda não viu a fantasia. Está com ela, aí no Rio.
- Imagino só o ataque que ele vai ter quando a vir praticamente
nua.
- Aí já vai ser tarde demais. Mas me fale, Natália, quando
poderei ver o seu namorado?
- Vou mandar uma foto por e-mail. Você vai se apaixonar
por ele.
Natália nem sabia o quanto tinha razão. Ao abrir a foto de
Régis em seu e-mail, o coração de Patrícia disparou. Nunca vira
homem mais lindo. Correu à banca mais próxima e comprou a
revista, procurando-o avidamente. Ele aparecia em várias fotos de
jeans, camiseta e bermuda. Ao vê-lo, Patrícia tinha certeza de que
aquele homem tinha que ser dela.
273


Quando o pai chegou do trabalho, veio a novidade. Ela estava
com saudades da irmã e queria passar o resto das férias no Rio.
Voltaria com ele após o carnaval.
- Não sei se é boa ideia, Patrícia - contrapôs ele. - Sua
irmã trabalha de dia e estuda à noite. Quem vai cuidar de você?
- As aulas de Natália ainda não começaram. E, depois, não
preciso de ninguém que cuide de mim. Não fico aqui sozinha?
- É diferente. Temos empregada.
- Deixe de bobagens, papai. Já está resolvido.
- Por que não fica na casa de sua mãe?
- Com a mamãe não dá. Ela não para em casa. E, depois,
Natália é mais da minha idade.
- Está bem. Mas acho melhor avisar sua irmã.
- Não precisa. Vou lhe fazer uma surpresa. Já comprei a
passagem pela internet, com o seu cartão de crédito.
- O quê? Quem lhe deu ordens para isso?
- Ora, papai, não vá criar caso agora. Foi só dessa vez,
quero muito ir.
Embora aborrecido, Júlio não conseguia contrariar Patrícia.
Cedo ou tarde, acabava fazendo tudo o que ela queria.
- Está bem, minha filha, pode ir. Mas vou ligar para sua irmã.
- E a surpresa?
- Sem surpresas. Acho bom Natália estar preparada para
quando você chegar.
Na mesma hora, Júlio ligou para a filha, avisando-a de que
Patrícia estaria a caminho do Rio no dia seguinte. Natália ficou surpresa.
Acabara de falar com a irmã ao telefone, e ela não dissera nada.
- Você sabe como é sua irmã - falou ele. - Tem algum
problema ela ficar com você?
- Problema nenhum. Só não vou poder lhe dar muita atenção.
- Ela sabe. Aproveite e coloque-a para fazer alguma coisa,
como varrer a casa, por exemplo.
- Está certo, pai. Deixe comigo.
Desligaram.


- Varrer a casa, pois sim - ironizou Patrícia. - Até parece
que vou gastar minhas férias com uma vassoura na mão.
Quero ir à praia.
Júlio riu e a abraçou.
- Você é terrível. Mas tudo bem. Não vá dar trabalho à sua
irmã, viu?
- Pode deixar. Vou cuidar dela direitinho.
No dia seguinte, bem cedo, Júlio colocou-a no avião. Patrícia
não conseguia esconder a ansiedade. Mesmo antes de conhecer
Régis, julgava-se apaixonada por ele. Do aeroporto, seguiu de táxi
até a casa de Natália, que a recebeu com alegria. Ajudou-a com a
mala, levou-a ao quarto.
- Estou feliz de você estar aqui - falou apressada. - Já
arrumei o seu quarto. Tem comida na geladeira e TV a cabo na sala.
Não posso ficar aqui com você ou vou me atrasar para o trabalho.
Qualquer coisa, ligue para o meu celular. Lá pelas sete, estarei de
volta, e então poderemos conversar melhor. Agora, tenho que correr.
Com um beijo, despediu-se da irmã. Patrícia arrumou suas
roupas no armário, foi para a cozinha e preparou um sanduíche.
Não tinha interesse algum em conversar com Natália. O que queria
era conhecer Régis.
Natália chegou pouco depois das sete horas. Encontrou
Patrícia confortavelmente instalada no sofá da sala, comendo
pipoca e vendo televisão.
- E aí? - perguntou ela, largando a bolsa em cima do
aparador da entrada. - Como foi o seu dia?
- Chato, sem você.
- Você saiu?
- Para onde eu iria? Não conheço ninguém por aqui.
- Lamento estar trabalhando, mas no fim de semana, podemos
ir à praia.
- De ônibus?
- Tem outro jeito? Não tenho carro.
- Papai quis dar-lhe um. Por que não aceitou?
275


- Porque não tenho como mantê-lo com o meu salário. E
não é justo depender da mesada do papai para sempre. Espero
poder abrir mão desse dinheiro em breve.
- Só você mesmo, Natália. Vir se enfiar nesse fim de mundo
só para morar sozinha. Por que não pediu a papai para lhe comprar
um apartamento mais perto da praia?
- Gosto daqui. E depois, se eu morasse em outro lugar, não
teria conhecido Régis.
- É mesmo. Quando poderei conhecê-lo?
- Em breve. Vamos matar as saudades primeiro, depois o
chamo aqui.
- Deve ser muito bom ter um apartamento só para você. Imagino
como vocês devem ficar à vontade, sem ninguém para perturbar.
- Régis nunca veio aqui.
- Não? Não acredito, Natália. Vocês ainda não transaram?
- Isso não é da sua conta, mas não. Não gosto de apressar
as coisas.
- Como você é boba! Fique se fazendo de difícil, que ele
logo arranja outra.
- Se arranjar, então é porque não gosta de mim. Se gosta
realmente, como ele mesmo diz, vai esperar.
- Esperar o quê? O casamento?
- Não seja tola. Quem falou em casamento? Só acho que
devemos nos conhecer melhor.
- Ah! se fosse comigo...
- Se fosse com você, deveria fazer a mesma coisa. E não
achei nada bom saber que você já tem experiência sexual. Você
ainda é uma menina.
- E daí? Todas as minhas amigas já transaram. Por que
acha que eu seria diferente?
- Tudo bem, Patrícia. Só tenha cuidado, está bem? Não
esqueça o preservativo.
- Não esqueço. Sou doida, mas não sou burra. Não quero
pegar doença nem gravidez. Papai iria me matar.
276


- E como ele está?
- Bem. Trabalhando feito um condenado, cheio de mulheres.
- Como você sabe disso?
- Não sou trouxa. Ouço os telefonemas, ele sai e volta tarde.
Só pode ser mulher.
- Você não fica com ciúme?
- No princípio, sim, mas agora me acostumei. Desde que
ele não as leve para casa, por mim, está tudo bem.
Continuaram conversando até altas horas da noite. Natália
preparou o jantar, depois assistiram a um filme. Estava feliz com a
presença da irmã. Sentia-se segura, inclusive, para convidar Régis
para ir à sua casa.
Ele adorou a ideia. Não estava muito interessado em conhecer
Patrícia nem pretendia abusar da confiança de Natália para
dormir com ela. O que queria era se aproximar, participar de sua
intimidade, de sua vida. Queria um compromisso, namorá-la de
verdade. E ir à sua casa era essencial para estabelecer uma relação
de seriedade.
277

Capítulo
31

Mais uma sessão de fotografias, para outra revista de moda. A
carreira de Régis parecia decolar. Com isso, ele ia afastando, cada
vez mais, a possibilidade de se envolver com o crime. Para Geórgia,
foi um alívio. Temia que suas tendências o levassem por caminhos
tortuosos. Vendo agora o resultado de seu trabalho, sentia-se gratificada
por haver cedido à intuição e pago pelo tão sonhado book.
As perspectivas para Régis eram muito boas. Além da revista,
recebera proposta para fazer um catálogo de roupas de inverno e
tinha em vista até um comercial de televisão, sem contar o outdoor
para uma campanha de praia limpa. Se ele emplacasse esses
trabalhos, estaria feito na carreira.
Régis despediu-se da mãe e da avó, seguindo para o local
onde seriam realizadas as fotos. Assim que pisou na rua, Alex se
aproximou.
- E aí, meu camarada? - cumprimentou. - Cada vez mais
famoso, hein?
- É. Estou com sorte.
- Bira quer falar com você. Insiste em lhe dar os parabéns
pessoalmente.
- O que o Bira quer tanto comigo? Já não lhe fiz um favor?
Agora, não tenho mais o que conversar com ele.


- Não fale assim, cara. O Bira é gente boa e só quer ajudá-lo.
- Ajudar-me em quê? Não preciso de nada. Minha carreira
está decolando.
- Você sabe que tem muita gente nesse negócio que adora
uma carreirinha20, não sabe?
- E daí? Nem todo mundo gosta. Eu não gosto.
- Mas você podia fazer um outro favor a ele. Que tal apresentar
aos seus colegas o produto do Bira?
- Ficou louco? Agora que estou me acertando, você quer
me ferrar?
- Os negócios não estão indo lá muito bem. A polícia está
apertando o cerco, e a concorrência é grande. Bira precisa de
mais campo. Não seria nada mau para ele infiltrar-se no meio da
moda. Em troca, ele promete muito dinheiro.
- Não preciso de dinheiro. Estou ganhando bem agora.
- Não tão bem quanto gostaria. Sua namoradinha não
merece o melhor?
- Escute aqui, Alex, não se meta com ela, está bem? Deixe-a
fora disso. Ela nada sabe sobre a boca de fumo, Bira ou você.
- Imagine só se soubesse. Coitada, ia ficar decepcionada.
- Está me chantageando, Alex? É isso?
- Não. Só estou tentando fazer você perceber o que é melhor.
- Isso quem decide sou eu.
- Pense bem, Régis. O Bira não está pedindo nada de mais.
- Não sei de onde ele tirou essa ideia. Não tenho tantos
conhecimentos assim e não acredito que meia dúzia de modelos
vão fazer diferença nos negócios dele.
- Não é meia dúzia de modelos. É a influência que esses
caras têm.
- Então, Bira está atrás de poder. Quer a proteção dos
poderosos. É isso?
20 Referência à carreirinha de cocaína.
279


- Mais ou menos. Com meia dúzia de pessoas importantes
nas mãos, quem se atreverá a combatê-lo?
- Sinto muito, Alex, mas não posso ajudar. Como disse, não
conheço quase ninguém. Estou nesse negócio há pouco tempo,
ainda não fiz contatos importantes.
- Mas vai fazer. E, quando fizer, Bira quer se assegurar de
que estará por perto. Sem contar a grana, Régis. Ele está lhe oferecendo
uma nota por esse trabalho.
- Quanto?
- Vá conversar com ele.
- Não, sinto muito. Não vai dar.
Régis apressou o passo, deixando Alex para trás. A proposta
até que era tentadora, mas ele não queria se envolver com Bira.
Sabia de gente viciada em seu meio de trabalho, podia aproximá-
los, se quisesse. Contudo, não pretendia ficar nas mãos de
nenhum bandido. E estava apaixonado por Natália. Além da mãe
e da avó, era outra pessoa que ele não gostaria de decepcionar.
As fotos ficaram perfeitas, deixando muito satisfeitos os
donos da revista. Régis aparecia trajando roupas de inverno distintas,
além de ternos e casacos de grife. Tudo muito clássico, muito
elegante, já para a próxima estação. Ele era versátil, ficava bem em
qualquer modelo, desde sungas até smokings.
No final, alguns colegas o convidaram para uma festa, onde
rolaria de tudo. Haveria muitas mulheres bonitas, bebida à vontade.
Mesmo louco de vontade de ir, Régis recusou. Estava mais
interessado no encontro que teria com Natália mais tarde. Mal
conseguia conter a ansiedade. Conhecer o apartamento dela era
seu sonho no momento.
Comprou um vinho e flores para Natália e a irmã dela. Chegou
na hora marcada, estendeu-lhe o buquê de rosas vermelhas, que
Natália apanhou e cheirou. Deu-lhe um beijo leve nos lábios, convidando-
o a entrar. Atrás dela, veio Patrícia.
- Régis, esta é Patrícia, minha irmã.
280


- Muito prazer - cumprimentou ele, dando-lhe dois beijinhos
nas faces e oferecendo-lhe rosas amarelas. - Para você.
- Obrigada.
Ela apanhou as rosas, lutando para não deixar transparecer
a euforia. Aquele era o homem mais lindo que ela já vira em toda
a sua vida. Com certeza, merecia uma mulher menos insossa do
que Natália.
- Trouxe um vinho para o jantar - anunciou ele. - Mas é
claro que Patrícia não poderá beber.
- Por que não? - questionou ela.
- Porque você é menor de idade - informou Natália. - E
menores não podem beber.
- Papai deixa.
- Ele deixa? - surpreendeu-se a irmã.
- Deixa. Em casa, é claro.
- Pois não devia. É perigoso.
- Que nada, Natália. Deixe de ser careta. Uma cervejinha,
de vez em quando, não mata ninguém.
Natália olhou para Régis em busca de apoio, mas ele deu de
ombros. Aquele era um assunto em que não deveria se meter.
- O jantar está quase pronto- disse ela, para mudar de assunto.
- Faça companhia a Régis, Patrícia. Vou tirar o assado do forno.
Era o que Patrícia queria. Esperou até Natália sumir na cozinha
para sentar-se junto a Régis no sofá.
- Minha irmã disse que você é modelo - começou ela,
fazendo-se de inocente. - Deve ser emocionante.
- É legal.
- E dá um bom dinheiro?
- Não muito, no começo. Mas espero progredir.
- Não duvido. Com a sua aparência, qualquer revista vai
querer contratá-lo.
- Não é bem assim. Há outras coisas envolvidas, como
postura, disciplina, boas maneiras. Não é só chegar lá e fotografar.
- Você também vai para as passarelas?
281


- Por enquanto ainda não fui, mas estou aberto a isso também.
- E eu? Você acha que eu tenho chance de ser modelo?
Meio constrangido, Régis avaliou-a. Ela era uma menina
muito bonita, esguia, extrovertida. Com um pouco de treino e
sorte, poderia chegar lá.
- Chance, você tem.
- Você me acha bonita?
- Acho.
- Eu nunca havia pensado nessa possibilidade, mas agora
estou começando a considerá-la. Será que você poderia me ajudar?
- Posso falar de você lá na minha agência. Se houver interesse,
eu a aviso.
- Posso ir com você para ver as fotos, posso? Natália sai
para trabalhar e eu fico aqui sozinha.
- Pare de aborrecer o Régis - censurou Natália, que vinha
chegando com a travessa do assado nas mãos. - Ele anda muito
ocupado para cuidar de crianças.
- Não sou criança - irritou-se Patrícia. - E ele não precisa
cuidar de mim. Só queria ver como é uma agência de modelos.
- Não tem problema, Natália - falou Régis, para não desagradar
Patrícia. - Se ela quiser, posso levá-la comigo um dia.
- Quando podemos ir? Amanhã?
- Por que a pressa? - objetou Natália. - O mundo não vai
acabar amanhã.
- Ah! Natália, eu só quero me divertir. Por favor, Régis, me
leve amanhã.
- Amanhã não tem fotos, mas prometo levá-la comigo na
próxima oportunidade.
Patrícia não estava nem um pouco interessada em seguir
a carreira de modelo ou qualquer outra. Buscava apenas uma
desculpa para aproximar-se de Régis. Estava encantada com ele.
Durante o resto da noite, permaneceu observando-o. Cada detalhe
dele, de sua roupa, seus gestos, sua voz, tudo lhe agradou.
282


Seu sorriso era inebriante, os olhos expressivos quase a hipnotizavam.
Não conseguia desviar-se deles.
Quando o jantar terminou, Patrícia não queria acreditar que
seria obrigada a despedir-se dele. Sua vontade era puxá-lo para
o quarto e fazer o que Natália não fazia. Ardia de desejo por ele.
Tinha medo até de se aproximar, tamanho o fogo que a consumia.
- Até logo, Patrícia - despediu-se ele, beijando-a levemente
nas faces. - Foi um prazer conhecê-la.
- O prazer foi todo meu - respondeu ela. - E não se
esqueça da promessa que me fez. Vou com você em sua próxima
sessão de fotos.
- Não vou esquecer. Pode deixar.
Embora Régis houvesse notado a quentura no rosto de
Patrícia, não a associou à febre de desejo que a consumia por
dentro. Mais preocupado com Natália, só para ela tinha olhos.
- Vou levá-lo lá embaixo - anunciou ela. - A essa hora, a
portaria deve estar trancada.
Desceram de mãos dadas, Régis sentindo uma felicidade
que não pensava existir. Na portaria, relutava em despedir-se.
* - Adorei a noite - comentou ele. - Estar com você é o que
mais me deixa feliz.
- Gostou de Patrícia?
- Ela é muito bonita e simpática, mas é pela irmã dela que
estou apaixonado.
O coração de Natália estava descompassado. A cada dia,
gostava mais e mais de Régis.
- Acho que também estou apaixonada por você - confessou
ela, olhando fundo em seus olhos.
- Está? - ele mal acreditava. - Meu Deus, isso é um
sonho? Será que eu ouvi mesmo o que penso ter ouvido?
Em vez de responder, ela o beijou, permitindo que ele avançasse
nas carícias.
- Vamos subir - disse ela. - Quero que fique comigo
esta noite.
283


Não foi preciso repetir o convite. Régis estreitou-a com amor,
puxando-a de volta para dentro do edifício. No apartamento,
Patrícia ainda estava acordada, sentada no sofá diante da televisão.
Não via nem ouvia nada. Apenas pensava no prazer que
gostaria de dar a Régis.
Quando a porta se abriu, ela levou um susto. A última coisa
que esperava era ver Régis de volta com Natália. Eles entraram de
mãos dadas, agindo feito dois idiotas. Régis nem olhou para ela.
Natália apenas piscou o olho e sorriu, indo com ele para o quarto.
Patrícia permaneceu muda em seu assombro. Não acreditava
que Natália fosse dormir com ele justo naquela noite. Pensou em
algo para impedir, mas nada lhe veio à cabeça. Tudo que dissesse
soaria infantil, e ela não pretendia parecer uma criança aos olhos
de Régis. Queria que ele a visse como mulher.
Ao ouvir o barulho da chave rodando na fechadura, Patrícia
não aguentou. Pé ante pé, seguiu em silêncio até a porta do quarto
de Natália. Pelo buraco da fechadura, tinha uma visão parcial
de um lado da cama. A posição da chave impedia que ela visse
melhor. Não conseguia divisar-lhes os rostos, mas acompanhava
o movimento das pernas e do corpo.
A visão encheu-a de desejo e raiva. Devia ser ela deitada
ali, não Natália. Não era justo que a irmã, que sempre fora sem
graça, conquistasse o coração de um homem feito Régis. Furiosa,
Patrícia voltou as costas à porta, mas os sussurros e gemidos a
paralisaram. De onde estava, sentia o prazer deles, um prazer que
deveria ser seu.
Sem conseguir mais se conter, disparou pelo corredor, de
volta à sala. Na passagem, derrubou o jarro no qual a irmã havia
colocado as rosas vermelhas que Régis lhe dera. Como era de se
esperar, o barulho atraiu a atenção de Natália.
- O que foi isso? - espantou-se ela.
- Nada - falou Régis, pondo um dedo sobre seus lábios. -
Nada que Patrícia não possa resolver.
284


Alheios ao que estava acontecendo, continuaram se amando,
para desespero de Patrícia, que não conseguiu separá-los.
Vendo que a irmã não aparecia, engoliu a fúria e foi para o quarto.
Trancou a porta e atirou-se na cama, molhando o travesseiro com
lágrimas de ódio.
Era tarde da noite quando Régis saiu do estúdio fotográfico,
cansado após uma longa sessão de fotos para a campanha de uma
marca de perfumes. Além disso, fora convidado para participar de
um comercial de televisão. Estava eufórico, vendo deslanchar a
carreira com que tanto sonhara. E com que facilidade!
Ao pisar na rua, notou que um carro preto o seguia. Pelo canto
do olho, observou o veículo, rodando praticamente ao seu lado.
Através dos vidros negros, não viu ninguém, embora desconfiasse
de quem se tratava. O carro podia ser novo, mas seu ocupante era
seu velho conhecido.
Acostumado a não sentir medo, Régis parou, voltando-se na
direção do automóvel. Na mesma hora, uma janela se abriu no
banco de trás. Bira botou a cara para fora e, com um sorriso debochado,
cumprimentou:
- Olá, garoto. Como está passando?
- Bem - foi a resposta seca.
- Será que nós poderíamos conversar?
- Agora não dá, Bira. Estou cansado.
- É só um minuto.
- Outra hora.
- Que outra hora? Você não atende o meu chamado. Está
me ignorando.
Régis achou melhor entrar no carro, para evitar a polícia. Bira
abriu a porta, permitindo que ele se sentasse ao seu lado.
- Olhe, Bira, não estou ignorando você. É que agora arranjei
um emprego.
285


- Depois de tudo, vai me abandonar?
- Que tudo? Não temos nenhum compromisso.
- Você me prestou um grande favor. Eu podia estar preso a
essa hora. Quero retribuir.
- Não precisa.
- Faço questão. Ninguém nunca me serviu tão bem quanto
você. - Régis o encarou, sem dizer nada, e Bira continuou:
- Soube que você ficou chateado por eu ter mandado apagar
a Gislene.
- Você não precisava ter feito isso.
- Não é assim que as coisas funcionam, Régis. Meu negócio
não é brincadeira e não lido bem com traidores. Gislene teve
o que mereceu. Mas você é diferente. É meu parceiro, meu irmão.
- Não sou seu parceiro. Muito menos seu irmão.
Com uma gargalhada estrondosa, Bira retrucou:
- Você é corajoso, cara. Admiro isso em você. Sabe quantos
falariam comigo assim? - Régis deu de ombros. - Só você.
E isso porque lhe devo a vida. Não é pouca coisa, não.
- Se você pensa mesmo assim, se quer realmente me
devolver o favor, então deixe-me em paz.
- Vou deixar. Mas, antes, gostaria que você fizesse uma
coisa por mim.
- Assim você não vai me retribuir o favor. Vai ficar me devendo
mais um.
- Que seja. Mas eu preciso de você. Tem gente graúda no
seu meio. Quero estar em contato com eles.
- Não vai dar. Não conheço bem essa gente. Vou lá, faço
as fotos e volto para casa. Não saio com ninguém nem do estúdio,
nem da agência.
Bira voltou o rosto para a frente, para que Régis não visse a
raiva infiltrada em seus olhos.
- E a sua namorada? - indagou ele. - Como é mesmo o
nome dela?
286


- Ouça aqui, Bira, já tive essa conversa com Alex. Minha
namorada não tem nada a ver com isso. E, se quiser contar a
ela, vá em frente, conte. Não trabalho para você, não tenho nada
a esconder.
- Nem a morte de Gislene?
- Não fui eu que a matei.
- Não. Foi a sua língua. E não se trata apenas da morte de
Gislene. Trata-se de ajudar um traficante a se livrar da polícia.
- Você está me ameaçando - retrucou com raiva. - Não
acredito! Onde está o seu senso de gratidão?
- Não estou ameaçando você. Quero apenas abrir-lhe os
olhos. Natália é uma boa menina, você não ia querer vê-la envolvida
nisso, ia?
Ao ouvir o nome dela, Régis sentiu o perigo que a envolvia. É
claro que Bira mandara investigá-la e, a essa altura, já sabia tudo
sobre ela. Não podia, contudo, demonstrar o seu receio ou Bira o
teria nas mãos.
- Já disse que você pode contar-lhe o que quiser - repetiu
com irritação. - Não sou homem de ceder a chantagens.
"- Pensando bem, é isso mesmo que vou fazer. Vou convidá-
la para dar uma voltinha comigo, conhecer a minha casa, levar
um papo com a rapaziada. Acha que ela gosta de churrasco?
Régis não aguentou. Agarrou Bira pela gola da camisa, encarou-
o com fúria e disparou, ameaçador:
- Não se atreva a tocar nela. Se eu souber que você encostou
um dedo nela...
- O que vai fazer? - interrompeu ele, afastando os dedos
de Régis de sua camisa. - Vai me matar? Não seja ridículo, Régis.
Você é só um garoto, um menino metido a homem, mas, ainda
assim, um garoto.
- Garoto ou não, não tenho medo de você. Estou falando
sério. Atreva-se a mexer com ela, e não responderei por mim.
- Natália é uma garota de sorte - ironizou ele, regozijando-
-se com o ar de dissimulado pavor de Régis. - Como já deu para
287


perceber, sei o nome dela, como sei onde mora, onde trabalha e
também sei da irmãzinha que está passando férias em sua casa.
Foi preciso muito esforço para Régis se controlar. Por pouco
não esmurrou Bira até tirar-lhe sangue, mas o capanga no banco
da frente não desgrudava os olhos deles. Furioso, Régis abriu a
porta e saltou apressado, mal acreditando no que estava acontecendo.
Como fora se envolver com um tipo daqueles?
Bira não o chamou de volta. Deu ordens ao motorista para
seguir em frente.
- Quer que dê um jeito nele? - indagou o capanga, alisando
a arma.
- Ainda não. Vamos esperar um pouco mais. Ele vai acabar
cedendo. Sei como são essas paixonites de garoto.
Régis chegou em casa transtornado. Agora, sim, tinha motivos
para temer Bira. Não podia proteger Natália nem Patrícia, ainda
mais sem lhe contar do traficante. Duvidava muito que Natália
mantivesse o namoro se soubesse de seu envolvimento com ele.
Maldizia agora o dia em que conhecera Bira e, mais ainda, sua
estupidez em contar-lhe sobre as investigações da polícia. Se não
tivesse interferido, Bira agora estaria preso ou morto, de qualquer
forma, fora de sua vida.
Sozinho em seu quarto, andava de um lado para outro no
escuro, pensando no que fazer. Se cedesse à chantagem, ficaria
nas mãos de Bira para sempre, tornando-se um joguete, manipulado
para atender seus desejos. Sem contar que estaria se arriscando
a ser preso também. O que Bira queria era que ele fosse intermediário
na distribuição da droga entre seus colegas de trabalho.
Em outros tempos, poderia até considerar a oferta. Agora,
porém, tinha Natália. Além do mais, não precisava de dinheiro. E
havia ainda a mãe. Sempre houve a mãe. De tão agoniado, não
percebeu alguém à porta, até que ela se abriu.
- Régis? - chamou Geórgia.
- Oi, mãe.
- Posso acender a luz?
288


- Pode.
A luz inundou o ambiente, revelando a figura preocupada de
Geórgia. Ela entrou em silêncio, aproximando-se dele. Sem dizer
nada, abraçou-o com ternura.
- Não sei o que está havendo com você - disse ela. -
Mas, seja o que for, pode me contar. E, mesmo que não queira me
dizer, não faz mal. Estou aqui para acolher você.
- Ah, mãe...
Ele chorou. Agarrado a ela, deixou o pranto desafogar.
Geórgia permaneceu com ele nos braços, embalando-o como se
fosse um bebê. Régis não dizia nada. Nem precisava. O sentimento
dela era suficientemente grande para lhe dar forças.
- Tudo na vida são escolhas - disse ela. - Até morrermos,
e mesmo depois da morte, estaremos diante de várias encruzilhadas.
Seguir pela direita ou pela esquerda é opção da alma.
- Mas e quando a alma não sabe que caminho tomar?
- A alma sabe e sempre acerta. Quem envereda por
caminhos difíceis é o corpo dos desejos. Se você não se deixar
escravizar pelos seus desejos, vai sempre encontrar as respostas
certas no seu coração.
- Não é desejo, mãe. É mais um medo, uma ameaça.
- Garanto que esse medo e essa ameaça tiveram origem
quando você desejou alguma coisa. Não foi?
Pensando que tudo acontecera porque ele queria cair nas
boas graças de Bira, por quem chegou a nutrir forte admiração,
ele assentiu:
- Tem razão. E agora, mãe, o que faço?
- Não quer me contar o que está acontecendo?
Ele queria, contudo, não tinha coragem, ia matá-la de desgosto.
- Deixe isso para lá. Não quero preocupá-la. Entrei nisso
sozinho, posso sair sozinho também.
- Sozinho ou não, eu nunca vou deixar de me preocupar com
você. Sou sua mãe, quero o seu bem, amo você acima de qualquer
289


coisa. E dizer para uma mãe que ela não deve se preocupar com
seu filho é o mesmo que dizer a uma nuvem para não chover.
Ele riu da comparação, sentindo o quanto a amava. Ela era a
pessoa mais importante da sua vida, alguém que, um dia, talvez só
fosse igualada por Natália.
- Você não entenderia - objetou ele.
- Por que não experimenta me contar? Se eu entender, vou
procurar lhe dar um bom conselho. Se não, vou orar para que você
ache o melhor caminho.
Não foi mais possível resistir. Régis tornou a chorar, abraçado
a ela. Contou tudo. Desde o dia em que conhecera Bira até as
ameaças a Natália, passando pelo favor que lhe fizera e que culminara
com a morte de Gislene.
Você não sabe como me sinto culpado pela morte dela
- confessou.
- Imagino. Mas a culpa não foi sua. Você não é responsável
pela reação do Bira, mas pela sua própria atitude. Ainda que ele
não a tivesse matado, o que você fez não foi correto.
- Mas foi a minha atitude que levou à morte dela. Como não
sou culpado?
- Ninguém atrai o que não precisa. Isso é uma coisa. Agora,
você foi a ferramenta que facilitou a obra. É bom quando somos
instrumentos de causas nobres, quando nos predispomos a salvar
vidas, a ajudar. Mas, quando nos colocamos disponíveis para as
forças do mal, temos que refletir e nos modificar.
- Como?
- Refazendo as atitudes. Desmanchando padrões de
comportamento para dar início a outros. Em vez de se tornar delator
e traficante, esforce-se para ser um homem íntegro. Você agora tem
um emprego, conheceu uma boa moça. Falta amadurecer o caráter.
- Ah! Mãe, como fui ingrato com você - choramingou ele.
- Você, sempre tão boa, tão compreensiva, não merecia um filho
como eu.
290


- Ninguém tem o que não merece. E eu não ia querer outro
filho além de você. Nós nos escolhemos por algum motivo, e o
principal é sempre o amor. Se precisávamos aprender a nos amar,
creio que conseguimos.
- Ao menos isso é verdade. Você sabe que eu a amo,
não sabe?
- Sei.
- Foi por causa do seu amor que não me envolvi em coisas
piores. Porque não queria desgostá-la.
- Não. Foi por causa do seu amadurecimento. Eu fui apenas
o estímulo, a mola, o mecanismo. Mas a força que acionou tudo
isso foi a sua.
- E agora, mãe? O que é que eu faço com o Bira? E se ele
fizer algum mal à Natália?
- A situação é mesmo complicada - concordou ela. -
Mas sempre há uma saída.
Depois de conversar com Geórgia, Régis se sentiu renovado.
Tinha de haver uma solução. Ele precisava pensar muito bem no
que deveria fazer, principalmente para não colocar Natália em perigo.
Se fizesse o que Bira queria, estaria para sempre em suas mãos.
Se não fizesse, correria o risco de ser morto junto com Natália.
Sem falar na mãe e na avó. Bira não as havia ainda ameaçado,
mas quanto tempo levaria até metê-las no meio daquele rolo?
Eram pessoas importantes para ele, cujas vidas ele não queria
arriscar. Pensando na segurança delas, comprometer-se com Bira
não parecia assim tão terrível. Afinal, não era tanta coisa que ele
tinha de fazer. Apenas levar umas trouxinhas de maconha e coca
para vender entre os colegas. Só isso. Nada de mais.
Depois de toda a conversa que tivera com a mãe, não era
possível pensar naquilo, mas fora justamente a conversa com a
mãe que o fizera resolver-se. Ela era boa demais, pura, inocente.
E o amava tanto! Não podia permitir que nada lhe acontecesse.
Preferia antes sacrificar-se, arriscando-se a ser preso. Pelo amor
que tinha a elas, sabia o que devia fazer.
291

capitulo
32
A poucos dias do desfile das escolas de samba, Patrícia
vibrava de excitação. Pela primeira vez iria desfilar, trajando uma
fantasia minúscula, cheia de brilhos. Era um sonho. Pensava nisso
quando o interfone tocou. Ela deu um salto da cama e correu para
a cozinha, mas a irmã já havia atendido.
- Quem é?
- O Régis. Quem mais poderia ser?
Os olhos de Patrícia cintilaram. Assim que ele surgiu na
porta, sua vontade foi de abraçá-lo. Ela se esforçou para chamar-
-lhe a atenção, mas a única pessoa que ele conseguia enxergar
era Natália. Por enquanto.
Régis beijou Natália longamente, causando um ciúme desmesurado
em Patrícia. Propositalmente, ela empurrou um copo de
cima de mesa, fingindo espanto quando ele se espatifou no chão.
- Meu Deus! - exclamou. - Desde que cheguei, não paro
de quebrar coisas.
- Não faz mal - falou Natália. - Isso acontece. Mas limpe,
Patrícia, por favor. Eu já ia entrar no banho.
- Pode deixar que eu ajudo você, Patrícia - falou Régis.
Parecia mentira que Natália os deixaria a sós por uns minutos.
Ela apanhou uma pá de lixo e um jornal para colocar os cacos.


Abaixou-se para catar os maiores, tocando os dedos de Régis a
todo instante, fazendo parecer casual, tão casual que ele nem
percebeu, deixando-a deveras irritada.
- Você e Natália estão se dando bem, não estão? - perguntou,
displicente.
- Muito bem. Adoro sua irmã.
- Que bom. E ela parece gostar de você também.
- Quero crer que sim.
- Pelo visto, ela agora se acertou.
- Como assim? Ela sofreu alguma decepção amorosa?
- Ela não lhe contou? - Patrícia fingiu surpresa.
- Não.
- Ai, meu Deus, falei demais. Deixe para lá, Régis. Se ela
não lhe contou, não vou ser eu a contar.
- Não, pode falar. Ficará aqui entre nós.
- Jura?
- Juro.
Ela terminou de embrulhar os cacos no jornal e olhou na direção
da porta da cozinha, para ver se Natália não vinha.
* - Lembre-se de que me prometeu não contar.
- Tudo bem.
- Na verdade, Régis, Natália não gosta muito de homens.
- O quê?!
- Ela é sapatão.
Régis olhou para ela e desatou a rir.
- Dê um tempo, Patrícia. Invente outra.
- É verdade. Por que acha que ela demorou tanto a dormir
com você?
- Ela me pareceu bem feminina quando transamos.
- Acho que ela gosta de você - disse, tentando ocultar a
raiva. - Ou então não quer que nossos pais descubram, o que é
mais provável. Não é nada de mais. Ela já fez isso antes, várias vezes.
- Não acredito.


- Pois pode acreditar. Caso ela não tenha lhe contado,
papai está para chegar de São Paulo essa semana, e aposto como
ela vai planejar um encontro entre vocês, para deixá-lo satisfeito.
Uma raiva surda alcançou o coração de Régis. Ele não era
nenhum idiota. Era visível o que Patrícia pretendia fazer. Uma menina
invejosa, tentando destruir a felicidade da irmã.
- Sabe de uma coisa, Patrícia?- tornou ele. - Não acredito
em você. E depois, isso não me interessa. Não sou preconceituoso.
O que importa é o que nós sentimos um pelo outro no momento.
- Acho que você não entendeu. Natália gosta de transar
com mulheres. Ela está usando você.
- Quem não entendeu foi você. Falei que não acredito em
uma só palavra do que disse. E, se Natália dormiu ou não com
mulheres no passado, é problema dela. Eu não me importo. Repito:
não sou preconceituoso. O que me interessa é o que ela sente por
mim agora. E isso nem você nem ninguém vai poder destruir. Sei
que Natália me ama, assim como eu a amo.
- Tudo bem - revidou ela entre os dentes. - Se quiser se
enganar, é problema seu. Mas depois não diga que eu não avisei.
Quando ela largar você por causa de uma garota qualquer, não
venha chorar no meu ombro.
- Invejosa - rosnou baixinho. - Você não passa de uma
garota fútil e invejosa. Devia ter vergonha de tentar envenenar a
vida da sua irmã, que é tão boa com você.
A vontade de Patrícia foi de agredi-lo, arranhar o seu rosto
para enchê-lo de cicatrizes e acabar com sua carreira de modelo.
Era a primeira vez que suas intrigas não surtiam resultado. Régis
não era tolo como os demais. Pensava com a própria cabeça,
tinha intuição aguçada, logo percebendo que ela morria de inveja
da irmã. Ia externar seu ódio quando Natália entrou na cozinha.
- Vocês ainda não tiraram esses cacos? - surpreendeu-se.
- Estamos acabando - concluiu Patrícia, atirando o jornal
com os cacos no lixo.
294


Régis deu as costas a ela, aproximando-se de Natália. Estreitou-
a junto ao peito, como se quisesse protegê-la da influência
perniciosa da irmã.
- Está tudo bem? - estranhou ela.
- Eu a amo, sabia? - murmurou ele. - Não se esqueça.
Por você, sou capaz de tudo.
Um tufão parecia ter passado por eles, tamanha a fúria com
que Patrícia saiu da cozinha.
- Acho que ela está com ciúme - observou Natália. -
Todo meu tempo livre, passo com você. Talvez seja melhor dar um
pouco de atenção a ela.
- Patrícia não precisa da sua atenção. Precisa de um namorado.
- Você acha?
- Alguém que a deixe ocupada.
- Mas ela é tão novinha.
- Não se iluda, Natália. Ela pode ser novinha, mas é bem
esperta.
- Por que diz isso? Você notou alguma coisa?
- Nada. Só que ela está na idade disso mesmo.
, - Nós também - gracejou ela, apertando-se a ele. - Não
sou assim tão mais velha do que Patrícia.
- Você é mais madura, mais consciente, mais mulher.
Beijaram-se longamente, acompanhados do olhar perscrutador
de Patrícia, que fingia ver televisão. Em seguida, Natália
se afastou, a fim de preparar sanduíches para o lanche. Régis a
ajudou, contrariado por ter de aceitar a presença de Patrícia. Agora
que a conhecia, gostaria que ela fosse embora.
- Venha comer, Patrícia! - chamou Natália, assim que
aprontou tudo.
O tempo em que passou sozinha em frente à TV foi suficiente
para Patrícia se recompor. Em vez da atração que sentira por Régis
quando o vira pela primeira vez, o que experimentava agora era
raiva. Ele descobrira quem ela era, desvendara seu segredo, e
ela precisava impedir que ele contasse à Natália.
295


- Quando é que você vai cumprir sua promessa? - sondou
ela, dirigindo-se a Régis.
- Que promessa? - tornou ele.
- Já se esqueceu? Você prometeu me levar para conhecer
o estúdio e a agência onde você trabalha.
- Ah! Isso... Qualquer dia desses.
- Não pode ser amanhã?
- Acho que não vai dar.
- Está vendo só, Natália? Régis está querendo me enrolar.
Prometeu e não quer cumprir.
Ele a fuzilou com o olhar. Já ia revidar quando Natália interveio:
- Será que não dá mesmo, Régis? Ia ser bom para ela sair
um pouco.
- É, Régis, ia ser bom para mim. E que companhia çeria
melhor do que o namorado da minha irmã?
Se pudesse esganá-la, Régis o faria. Patrícia estava manipulando
os sentimentos da irmã para alcançar seu objetivo.
- Por favor, querido, faça isso por mim - pediu Natália,
com voz doce. - Eu ia ficar mais feliz sabendo que Patrícia está
se divertindo, em segurança, ao seu lado.
- E então, Régis? - insistiu Patrícia. - Qual a sua resposta?
- Está bem. Mas a sessão de fotos começa cedo. Tenho
que estar no estúdio às oito horas.
- Tudo bem. Às seis, estarei de pé.
Ficou acertado daquela forma. Às sete da manhã, Régis passaria
por lá para apanhar Patrícia. Depois do lanche, assistiram um
pouco de televisão, até que Régis foi para casa. Natália acompanhou-
-o da janela, esperando vê-lo sumir no fim da rua. Atrás dela, Patrícia
também seguia os passos dele, remoendo a raiva por ter sido descoberta,
sentindo uma inveja tão grande que se afastou, com medo de
que Natália percebesse o que passava em seu coração.
296


Eram sete da manhã quando Régis tocou o interfone na casa
de Natália. Falou com a namorada, mas não subiu. Não podia se
atrasar. Patrícia desceu as escadas correndo, tão eufórica que
nem quis esperar o elevador.
- Bom-dia, cunhado - cumprimentou, em tom de deboche.
- Bom-dia. Vamos logo.
Saiu andando sem esperar por ela, que precisou apertar
o passo para acompanhá-lo. Tomaram o ônibus, Régis pagou a
passagem dos dois, sentando-se com ela num banco à frente.
- Por que o mau humor? - provocou ela.
- Escute aqui, Patrícia, só estou fazendo isso pela sua irmã.
Então, por favor, fique em silêncio e aproveite o passeio.
- Não acredito. Acho que você me trouxe porque gosta de
mim. Do contrário, teria contado tudo a Natália.
- Não contei porque ela não acreditaria e porque não quero
lhe dar esse desgosto. Mas não se iluda. Farei de tudo para que
ela perceba quem você é.
- É mesmo? Cuidado para que eu não faça isso primeiro.
Parecia uma ameaça velada. Régis encarou-a com desprezo.
Ela não sabia nada da vida dele, não podia prejudicá-lo. Patrícia
o encarava de volta, com olhar divertido, os lábios entreabertos,
tentando ser sedutora. De forma ousada, ela colocou a mão no
joelho dele, subindo-a lentamente pela sua coxa.
- Ponha-se no seu lugar, menina - irritou-se, apertando-
-lhe os dedos. - Não gosto de crianças, muito menos de vadias.
A reação dele encheu-a de ódio. Patrícia recolheu a mão,
fitando-o com uma fúria quase palpável. Estava com tanta raiva
que seu rosto chegou a se avermelhar.
- Não pense que isso vai ficar assim - revidou colérica. -
Ainda vou fazer você vir correndo para mim feito um cachorrinho.
- Vá sonhando.
- Quando Natália o deixar, é de mim que você vai se lembrar.
- Nem que você fosse a última mulher no mundo.
297


Chegaram ao ponto, onde Régis deu o sinal, cutucando-a
para se levantar. Patrícia saltou na frente, seguida por ele, que
vinha de cara emburrada. No estúdio, foi difícil se concentrar nas
fotos. A presença de Patrícia o incomodava e ameaçava. Ele a
apresentou a todo mundo, sentindo que iria se arrepender. Patrícia
conversou com todos, tentou demonstrar uma simpatia forçada,
interesseira. Ninguém simpatizou muito com ela. Trataram-na bem
por educação, mas não lhe deram muita importância.
Régis deu graças a Deus quando terminou a sessão de fotos,
Estava irritado, louco para se livrar de Patrícia. Após mudar de
roupa, chamou-a para irem embora.
- Adorei conhecer seu local de trabalho - comentou ela,
como se inexistisse hostilidade entre eles.
Régis não respondeu. Estava assustado, atônito. Ao alcançar a
rua, viu um carro seu conhecido encostado ao meio-fio. Estremeceu.
Não podia ser Bira. Não com Patrícia ali. Como da outra vez, o vidro
traseiro se abriu e o rosto endurecido do traficante surgiu na janela
- E aí, garoto? - cumprimentou ele. - Como vai?
- Não posso falar agora revidou entre os dentes.
Por mais que ele quisesse, não conseguiu ocultar Patrícia de
Bira, porque ela estava parada bem atrás dele.
- Quem é a gatinha? - tornou Bira, encantando Patrícia.
- Uma amiga. Agora, com licença. Estamos com pressa.
- Sou Patrícia - adiantou-se ela, ignorando a clara preocupação
dele. - E você, quem é?
- Bira. Muito prazer.
A mútua simpatia quase fez Régis desmaiar. Queria arrancar
Patrícia dali às pressas, nem que fosse aos tapas. Ela podia ser
uma sem-vergonha atrevida, mas era uma menina, irmã de sua
namorada. A última coisa que ele queria era que ela se envolvesse
com um tipo feito Bira.
- Vamos embora - ordenou, puxando-a pelo braço.
- Calma aí! - objetou Bira. - Por que a pressa? Deixe a
menina conversar.
298


Para aumentar ainda mais o desespero de Régis, Bira saltou
do carro. Assim como acontecera com ele, Patrícia se deixou
empolgar pela imponência de seu porte.
- Olhe, Bira, outra hora conversaremos. Agora tenho que
levar a menina para casa.
- Não tem, não - objetou ela, passando na frente dele. -
Na verdade, estou de férias, sem compromisso.
- Sério? Que tal então se nós três déssemos uma volta?
- Não vai dar...
Régis não conseguiu concluir a objeção, porque Patrícia já
havia se antecipado e entrado no carro. Bira sorriu maliciosamente,
entrando atrás dela.
- Você não vem? - perguntou a Régis.
Não lhe restou escolha. Régis não deixaria Patrícia sozinha
com ele por nada. Encurralado, sentou-se ao lado de Bira, tentando
olhar para Patrícia do outro lado. Ela, porém, parecia ter perdido
completamente o interesse por ele, embevecida com as atenções
do traficante.
- Aonde vamos? - perguntou ela, usando de uma inocência
forçada.
- Aonde quer ir?
- Hum... Podíamos ir almoçar. Estou morrendo de fome.
- Ainda não almoçaram, até essa hora?- Bira fingiu indignação.
- Régis não quis me levar - queixou-se ela, fazendo beicinho.
- Então, vou levá-laaum lugar especial. A comida é maravilhosa.
Régis estava enojado. Patrícia fingia uma infantilidade que
não era dela, só porque percebera que era o que agradava Bira.
Este, por sua vez, forçava uma gentileza que não fazia parte de seu
temperamento, obviamente, para conquistar a menina.
Foram a um restaurante de frutos do mar, mas Régis quase
não conseguiu comer. Patrícia, por outro lado, comia com vontade,
divertindo-se com os galanteios de Bira.
- De onde vocês se conhecem? - ela quis saber.
- Da rua - esclareceu Bira. - Somos praticamente vizinhos.
299


- É mesmo? E o que você faz?
- Sou um homem de negócios. Mercadoria importada, da
mais alta qualidade.
- Que tipo de mercadoria?
- Produtos químicos, em geral.
- Tipo produtos de laboratório?
Ele riu gostosamente, causando calafrios em Régis.
- Pode-se dizer que sim - afirmou ele, fixando um olhar frio
em Régis.
Patrícia podia ser tudo, menos tola. Fingia inocência para agradar
Bira, mas imaginava o que ele fazia. Não tinha certeza se ele
era traficante. Podia ser, como podia traficar armas, ser bicheiro ou
coisa parecida. A única coisa que ela sabia era que o negócio dele
era ilícito e devia dar muito dinheiro, a supor pelo seu carrão e as
roupas de grife que usava. Sem contar o monte de ouro pendurado
em seu pescoço.
- Está na hora de irmos embora - anunciou Régis, doido
para sair dali.
- Régis tem razão - concordou Bira, consultando o relógio.
- Está ficando tarde.
- Podemos nos encontrar de novo?
- Acho que não - objetou Régis. - Bira é um homem
ocupado, não tem tempo para perder com crianças.
- Na verdade, Patrícia, eu adoraria - contrapôs Bira, divertindo-
se imensamente com a contrariedade de Régis.
- Sério? Quando pode ser isso?
- Por que não me dá seu telefone? Podemos nos falar.
- Está certo. Quer anotar meu celular?
Aumentando a contrariedade de Régis, Bira e Patrícia trocaram
telefones. Ele não podia acreditar que aquilo estivesse acontecendo.
Natália jamais o perdoaria por envolver a irmã com um traficante,
mas ele nada podia fazer. Bira era perigoso, e Patrícia, inconsequente.
Na porta da casa de Natália, os dois saltaram. Bira abraçou
Patrícia, beijou-a nas faces. Régis assistia a tudo sem dizer nada,
paralisado pela sua impotência.
300


- Mande um abraço a sua mãe e sua avó por mim - finalizou
Bira, piscando um olho para ele. - Outra hora, voltaremos a
nos falar.
Ele se foi, deixando Régis apavorado, trêmulo, temendo,
mais do que nunca pela vida das pessoas de quem mais gostava.
Não sabia mais o que fazer. Era uma pressão quase irresistível, um
medo atroz de perder quem amava.
- Você ficou louca? - ele quase gritou, apertando o braço
de Patrícia.
- Solte-me. Está me machucando.
- Tem ideia do que você fez? Sabe quem é esse cara?
- Não é amigo seu?
- Não se faça de cínica, idiota! Ele é um traficante de drogas.
É com esse tipo de gente que quer se envolver?
- E daí? Não tenho nada a ver com o que ele faz.
- Não seja estúpida, Patrícia. Quando alguém se envolve
com um traficante, tem tudo a ver com o que ele faz.
- É assim com você, Régis? Está envolvido com ele?
- De uma certa forma, sim, mas estou lutando para que ele
me deixe em paz.
- O que ele quer de você?
- Nada que lhe interesse.
- Você usa drogas? É viciado?
- Não uso drogas. Detesto qualquer tipo de droga. E aconselho
você a ficar longe disso também.
- Já experimentei maconha na escola. Até que foi legal.
- Você não sabe o que está dizendo. Quer estragar sua vida?
- Não exagere, Régis. Achei Bira muito simpático. Não creio
que me fizesse algum mal.
- Idiota. Bira a usará até não precisar mais. Depois, vai
mandar alguém dar sumiço em você.
- Não acredito. Bira é simpático, gentil, um verdadeiro cavalheiro.
- Pelo amor de Deus, menina, escute o que estou dizendo.
Afaste-se de Bira. Ele é perigoso, do tipo que manda matar.
301


- Só tem um jeito de você fazer eu me afastar dele.
- Qual?
- Transando comigo.
- O quê?!
- É isso mesmo que você ouviu. Transe comigo, e ficarei
longe dele. Se recusar, não apenas dormirei com ele, como contarei
tudo a Natália. E não estou falando de mim. Estou falando de
você. Não sei se ela gostaria de saber que o namoradinho perfeito
dela está comprometido com um traficante.
- Você não seria capaz.
- Acha mesmo que não? Experimente não fazer o que eu
quero.-
Cachorra! - rugiu ele, empregando considerável esforço
para não a esbofetear.
Ela sorriu de um jeito diabólico. Deu as costas a ele e entrou
no prédio. Faltava pouco para Natália chegar, o suficiente para
uma transa rápida.
- Você vem ou não vem? - indagou ela, parada na portaria.
- Nosso tempo está acabando.
Por um momento, Régis quase cedeu. Encurralado, achava
que não tinha outro jeito. Deu dois passos em direção a ela, resignado
ante a inevitabilidade do destino. Ao se aproximar, mudou de
ideia. O sorriso de vitória dela o encheu de raiva.
- Faça o que quiser - sussurrou com revolta. - Não vou
me vender a você.
Nem teve tempo de assistir à mudança na fisionomia dela,
que passou do triunfo ao ódio em questão de segundos. Régis
rodou nos calcanhares e quase correu pela rua. Queria afastar-
-se dela o mais rápido possível. Sabia que estava colocando sua
felicidade em jogo, mas ao menos naquele momento não podia
ceder. Não queria. Em nome do amor que sentia por Natália, não
se deixaria chantagear por ninguém.
302

capitulo
33
Atílio parecia desesperado. Mandara vários soldados atrás
de Damien e Tácio, mas ninguém conseguira encontrá-los. Não
fazia a menor ideia de onde eles estavam, o que o deixava atônito,
preocupado. Como fora imprudente! Tão logo percebera uma
certa dificuldade em ler alguns dos pensamentos de Damien, devia
ter detectado seus planos de traição.
- Não é possível - disse ele a um de seus comandados.
- Damien tem que estar em algum lugar.
- Já procuramos em tudo. A cabana dele está abandonada.
Parece que ele e Tácio fugiram.
- E largaram Mizael à própria sorte. É por isso que meu
plano está ruindo. Sem a influência deles, Mizael está se deixando
tomar pela influência da mãe. Isso não pode acontecer. Foram
anos de um projeto muito bem calculado. Mas agora tudo parece
perdido.
- Quer que mande alguém ocupar o lugar de Damien?
Temos bons soldados aqui que ficariam honrados em assumir
essa tarefa.
- Não. Não confio em mais ninguém. Eu mesmo vou cuidar
desse assunto.
- O senhor?


- Não me agrada muito me afastar daqui, mas é preciso.
Não posso abandonar Mizael depois de haver-lhe prometido apoio.
Sem mim, ele vai se perder. E depois, vai me acusar.
Atílio falava como se sua proteção fosse a única coisa que
manteria Mizael longe do caminho da luz. Não compreendia
que essa escolha pertence ao próprio espírito, não é um fracasso
provocado por ninguém. É, sim, uma vitória sobre as tendências
malignas, uma conquista da alma, incapaz, portanto, de gerar
arrependimentos ou cobranças. Uma vez superada a índole daninha,
o espírito não retorna mais ao mal.
Preparou-se para partir. Fazia tempos que não ia à superfície,
de modo que estava inseguro. Habituado a transitar no submundo
das sombras, tinha medo de se deparar com coisas com as quais
não soubesse mais lidar. Ainda assim, foi-se. Mizael merecia aquele
sacrifício. Depois de colocar Mizael de volta no eixo, cuidaria de
Damien e Tácio.
Chegou à porta da casa de Régis, o máximo aonde poderia
ir. Logo na entrada, percebeu o cinturão energético que havia anos
protegia a residência. Olhou para os lados, mas nem sinal de seus
dois comandados. Régis também não estava por ali. Andando de
um lado para outro, aguardou.
Quando, finalmente, Régis apareceu, Atílio partiu atrás dele,
impressionado com a sua aparência física. Ele se tornara um
homem realmente atraente.
"Como sempre" pensou. "Mizael nunca aceitaria um corpo
feio."
Caminhando a seu lado, auscultou-lhe os pensamentos,
surpreendendo-se com o avanço da situação. As coisas estavam
muito piores do que ele imaginava. Além de ter dispensado
a amizade do traficante, trabalhava honestamente e tinha até uma
namorada. Não era possível.
- Mizael - chamou. - Pode me ouvir?
Régis não lhe registrava a presença. Fazia muitos anos que Atílio
não assediava ninguém. Não estava mais acostumado ao contato
304


com os vivos, sentia-se incomodado com a energia vital que circulava
ao redor do mundo. O que subtraía dessa energia era proveniente de
feitiços e sacrifícios, nunca do contato direto com a vida física.
Ele parou na portaria de um prédio, Atílio parou com ele.
Régis tocou o interfone, receoso, à espera de uma reação adversa
de Natália. Podia ter telefonado, mas sabia que tinha de enfrentar
pessoalmente a situação.
Assim que a porta do apartamento se abriu, Atílio sentiu um
torpor indefinível, uma angústia inenarrável. Ficou parado na entrada,
sem conseguir se mover. Régis passou para o lado de dentro,
mas ele recebeu na cara a porta que se fechou. Estava paralisado,
atônito, incrédulo. Seria aquilo mais uma ironia do destino, que
tentava desmanchar seus planos usurpando seus entes queridos?
Recuperado do susto, Atílio atravessou a porta para uma sala
de visitas lindamente decorada. O ambiente suave o perturbou,
quase causando sua expulsão. Não percebia a presença de dois
espíritos de luz, que, advertidos do encontro, tinham partido para
a casa de Natália. Josué e Uriel assistiam ao desenrolar dos acontecimentos
com serenidade e confiança.
- Não é possível - comoveu-se ele, perscrutando a mente
de Natália. - Procurei-a por todo lugar. Como não imaginei que
você estaria aqui? Nora...
Ao pronunciar o nome dela, desabou em prantos. Sentia-se
mais perdido do que nunca. Não conhecia direito Geórgia, embora
tivesse ouvido falar de sua grandeza espiritual. Nora, contudo,
ele conhecia bem. Reconhecia a nobreza de sua alma só de olhar
para ela.
E agora, o que iria fazer? Se o apelo de Geórgia já era difícil
para Mizael resistir, que diria de Nora? Que armadilha era aquela que
o mundo lhe armava, colocando em lados opostos as pessoas
que mais amava? Pretendia afastar qualquer obstáculo do caminho
de Mizael, mas não podia lutar contra Nora. Tudo estava perdido.
- Por que não desiste de vez desse projeto insano? - ouviu
alguém dizer.
305


Aterrorizado, Atílio pensou em fugir, mas suas pernas grudaram
ao chão, tal qual acontecera com Damien alguns anos antes.
Na mesma hora, a figura diáfana de Josué se fez visível diante dele.
- Quem é você? - esbravejou. - O que faz aqui?
- Sou amigo de Geórgia. Por meu intermédio, ela conheceu
Régis, ou Mizael, como preferir chamá-lo.
- É você o responsável por tudo isso?
- O responsável pela vida é Deus. E cada um, pela parcela
que recebeu.
- Não me venha com joguinhos de palavras. Não estou
interessado na sua filosofia barata. Solte-me agora, eu exijo!
- Não posso soltá-lo, porque não o estou prendendo. Na
verdade, foi o seu medo que o paralisou.
- Mentira! Não tenho medo de nada. Muito menos de um
fantasminha feito você.
- Fantasminha? - Josué sorriu. - Já me chamaram de
muitas coisas, mas essa foi boa.
Dê o fora, velhote. Esses dois não são problema seu.
E são problema de quem? Seu?
- Vocês são todos uns covardes! Fingem-se de bonzinhos
para nos fazer cair em suas esparrelas. Quem lhe deu autorização
para interferir nos meus planos?
- Você não acha que essa sua arrogância não combina
com o seu estado? Para alguém se impor com tanta veemência,
deveria ao menos ser senhor da sua vontade.
- O que está dizendo? Que besteira é essa?
- Você não consegue nem se mover. Como pensa que
pode me dar ordens?
- Canalha! - vociferou. - Está se aproveitando de mim
porque me prendeu com cordas invisíveis. Solte-me e lhe mostrarei
com quem está lidando!
Josué fez como ele pediu. Com a força do pensamento,
desfez o elo mental que o prendia ao chão. Sentindo-se
livre, Atílio avançou para ele. Ao tentar acertá-lo, porém, uma
306


surpresa. Seus braços formigaram intensamente, caindo inertes
ao longo do corpo.
- O que é isso? - esbravejou. - Mais uma de suas mágicas
covardes?
- Não fiz nada - esclareceu Josué bondosamente. - Isso é
só o resultado do contato da sua energia densa com nosso campo
de luz, que a faz desmanchar devido ao desfazimento da crosta de
sujeira astral grudada em seu corpo fluídico.
- Bruxo! - gritou. - Deixe-me em paz! Liberte-me, vamos!
- Não o estou prendendo, já disse. E não se desespere. O
que você sentiu foi o resultado ínfimo de uma limpeza energética.
Imagine essa sensação em seu corpo inteiro.
Atílio estava mais aturdido do que nunca. Julgava-se tão poderoso,
mas perdia para um velho fraco e aparentemente inofensivo.
Subitamente, Natália o atravessou, carregando uma bandeja de
suco e biscoitos. À passagem dela, ele sentiu um arrepio frenético,
quase uma dor.
- O que está acontecendo?- gritou ele. - Não compreendo.
- Tenha calma. Você apenas experimentou um pouco da
energia dela. Não se sente bem?
- Quero ir embora daqui. Não devia ter vindo. Sabia que
isso não ia acabar bem.
- Pense na oportunidade que está recebendo. Você pode
partir comigo daqui, ir para um lugar melhor, mais tranquilo, onde
terá a oportunidade de refazer sua vida.
- Foi isso que fez a Damien e Tácio?
- Damien e Tácio não estão comigo, mas espero vê-los
em breve.
- Mentiroso! Você só quer nos enganar. É uma cilada para
nos escravizar, fazer-nos retornar ao mundo como aleijados ou
dementes, tudo para satisfazer seus prazeres mórbidos.
- Você não acredita, realmente, nisso. Está se comportando
como criança porque sabe que, daqui para a frente, não poderá
mais se iludir com o poder. Você não tem poder algum.
307


- Tenho muito mais do que você imagina. Pode ser que
você saiba de truques que eu desconheço, mas sou o rei na minha
cidade.
- Será? O que dirão seus súditos quando souberem que
você está preso aqui pela fraqueza da sua vontade?
- Não tenho medo das suas ameaças.
- Sei que não. E, se não quer mesmo ir embora comigo,
então sugiro que volte para o seu reino. Aqui não é mais o seu lugar.
Josué se tornou invisível, dando a Atílio a oportunidade de
fugir. Não adiantava insistir para salvá-lo, se ele não queria ser salvo.
- E agora? - indagou Uriel.
- Penso que Atílio já percebeu que está perdendo.
- Você acha que Régis vai finalmente se acertar?
- Vamos orar para isso. Mesmo livre da influência dos espíritos
das sombras, existe a tendência que ele tem que vencer. *
- Natália é uma boa influência. Mas Patrícia...
- Patrícia é mais uma iludida. Oremos por ela também.
De mãos dadas, os dois espíritos rezaram pelo sucesso
daquelas almas. Renovaram a energia do ambiente, um pouco
perturbada pela presença de Atílio, e partiram.
308

capitulo
34
Natália desligou o telefone e voltou para junto de Régis,
apanhando um biscoito da bandeja em cima da mesinha.
- Era o meu pai - anunciou ela. - Vai chegar de São Paulo
amanhã.
- Ele vai ficar aqui, na sua casa?
- Vai. Os hotéis estão todos lotados, e a casa da minha mãe
não é lá uma opção muito boa. Eles estão se divorciando.
- Entendo.
- Você vai gostar de conhecê-lo.
Ele fez cara de dúvida e mudou de assunto:
- E Patrícia, onde está?
- Foi à praia com mamãe.
- Você não quis ir?
- Só se você fosse comigo.
- Não gosto de praia. Detesto ficar torrado e todo ardido.
Natália riu, acariciando seu rosto.
- Para isso é que inventaram o protetor solar.
Ele riu também, beijando-a com amor.
- Tive uma ideia - falou ele. - Já que vou conhecer o seu
pai amanhã, vou levá-la hoje para conhecer minha mãe e minha
avó. O que acha?


Sério, Régis? Eu adoraria!
- Então vamos.
- Agora? Você não vai nem avisá-las?
- Não precisa. Elas vão adorar a surpresa.
Saíram às pressas. Fora uma ideia repentina, uma vontade
louca de inserir Natália em sua família. Tinha certeza de que a mãe
e a avó gostariam muito dela. Como sua casa não era longe, logo
a alcançaram.
- Oi, vó - cumprimentou ele. - Trouxe alguém para conhecer
você,
Cléia levantou os olhos da tábua de passar roupas para encarar
Natália, parada atrás de Régis.
- Quem é essa mocinha linda? - perguntou ela, estudando
bem as faces de Natália.
- Minha namorada - respondeu Régis, satisfeito. - O nome
dela é Natália.
- Finalmente! Ouvimos muito falar de você,
- Régis também fala muito bem da senhora - disse Natália.
- E de dona Geórgia.
- Minha mãe não está? - quis saber Régis.
- Foi ao mercado, mas não se demora.
Efetivamente, dez minutos depois, Geórgia entrou. Achou
Natália muito bonita e simpática. Deram-se muito bem, conversaram,
contaram histórias e conheceram-se. Natália passou a tarde
com eles. Régis mostrou a Natália seu book e várias fotos, Alugou
um DVD, ouviram música, passearam de mãos dadas.
- Vou fazer um jantar para apresentá-lo ao meu pai - anunciou
Natália. - Quero que você sinta pela minha família o que
estou sentindo pela sua.
- Tomara que ele goste do futuro genro dele,
Natália abraçou-o emocionada. Era a primeira vez que ele
falava em casamento, e ela sentia que era sincero. Quando Régis a
deixou em casa, passava da meia-noite. O dia fora perfeito, maravilhoso.
Ele achava que nada podia estragar sua felicidade, a não

ser o Bira. Logo que Natália subiu, percebeu que o carro dele os
seguia. Estacou, olhando para os lados, com medo de que Natália
os visse. Como não havia ninguém por perto, ele mesmo abriu a
porta do carro e entrou.
- Será que dá para parar de me seguir? - irritou-se.
- Você ainda não me deu a resposta.
- Já, sim. Só que não foi a resposta que você queria.
- Então, por que não me diz o que eu quero ouvir?
- Não entendo, Bira. Você diz que é grato por eu ter lhe
salvado a vida, no entanto não para de me pressionar. Que gratidão
é essa?
- Se eu não fosse grato, você já estaria morto. Ninguém
fala comigo do jeito que você fala. E só permito isso porque você
salvou a minha vida.
- Quer dizer então que agora sou eu que devo ser grato a
você por me permitir viver?
- Não entendo você, Régis. Poucos dias atrás, você daria
tudo para ingressar no meu bando. Sei disso porque Alex me
contou. Mas agora você mudou, me evita, finge que não me vê.
Por quê? - Ele não respondeu. - É por causa da Gislene?
- Você está se tornando repetitivo. Já disse que não gostei
de você ter matado Gislene.
- Faz parte do negócio. E, se você quiser me substituir um
dia, vai ter que se acostumar com isso.
- Como é que é? - indignou-se. - Substituir você?
- Ninguém vive para sempre. Quero alguém ao meu lado
para me representar quando for preciso e para me ajudar com
os negócios. Alguém de confiança. E ninguém pode ser de mais
confiança do que o cara que salvou a minha vida.
- Você está me oferecendo um emprego?
- Exatamente.
- Agradeço muito, mas, caso não tenha percebido, eu já
tenho um emprego. E não estou me saindo assim tão mal.
311


- Você não está entendendo. O emprego que estou lhe
oferecendo é uma continuação do que você hoje exerce.
Régis balançou a cabeça, indignado. O que Bira lhe propunha
era um disparate.
- Você quer que eu use dos meus conhecimentos como
modelo para infiltrar você no meio. Já disse que não dá. Não
conheço tanta gente assim.
- Conhece, sim - afirmou ele, dando um tapinha no
joelho de Régis. - E eu já estou ficando impaciente. Lembre-se
de que você tem muito a perder, a começar pela futura cunhadinha.
Que garota gostosa!
- Você não se atreveria. Patrícia é só uma criança!
- Posso lhe assegurar que ela é tudo, menos criança.
- Está me dizendo que já transou com ela? Como? Quando?
- Isso não vem ao caso nem eu estou falando que sim. Meu
negócio com você é outro. Como ia dizendo, além da sua futura
cunhadinha, tem a namorada, a mamãe, a vovó... Olhe só quanta
gente frágil disponível para uma bala perdida.
- Você não pode estar falando sério. Depois do que fiz por
você, ainda se atreve a me ameaçar?
- Você continua não entendendo. O que você fez por mim
está mantendo sua gente viva. Quando quero uma coisa, costumo
ir lá e pegar. Não sou de ficar esperando nem de dar chances.
Só faço isso porque é você. E a quem quer enganar, Régis? Você
não é o cara bonzinho que quer parecer. Sei muito bem que
você andou metido em besteiras, junto com aquele viciado do Alex.
- Isso foi no passado. Agora tomei jeito. Estou apaixonado...
Ele deixou escapar sem querer, mas Bira não perdeu a
oportunidade:
- Apaixonado, não é? Por que as mulheres sempre estragam
tudo? Você devia ser como eu. Devia usá-las e depois descartá-las
quando não interessassem mais.
- Não sou assassino! - rugiu com raiva.


- Nem eu. Nunca matei ninguém. Tenho pessoas que fazem
isso por mim. E depois, não são todas que mando matar. Ao
contrário, sou até generoso. Costumo dar um carro a cada uma das
minhas ex-namoradas, desde que não saibam muito da minha vida
nem me traiam, como fez a Gislene.
- Chega, Bira, não quero mais saber da sua vida. Só o que
quero é que você me esqueça.
- Então, o que está esperando? Faça o que estou pedindo
e não o aborrecerei mais.
- Você não quer só uma vez. Quer que eu trabalhe para
você. Nunca vai me deixar em paz.
- No começo, pode ser que você estranhe, mas depois vai
gostar, eu prometo. Quando vir a grana entrar, vai mudar de ideia.
Olhe só para mim. Pendurado de ouro até o pescoço, carrão do
ano, uma mansão lá na comunidade, com segurança particular e
tudo. Mulheres à vontade, roupas de grife, festas de arromba, com
uísque importado. Dá para recusar um vidão desses?
Realmente, a proposta não deixava de ser tentadora. Uma
vida como aquela era tudo com que Régis sempre sonhara, contudo
não estava mais interessado. Natália jamais aceitaria casar-se
com um bandido. Sem contar o desgosto que causaria à mãe e à
avó. Tudo isso pesava na hora de fazer uma escolha, mas o principal
mesmo era que ele já não sentia mais afinidade com o crime.
Não pretendia passar o resto da vida fugindo nem se escondendo.
Queria gozar sua liberdade com a tranquilidade dos que nada
deviam, mas Bira parecia disposto a não permitir.
- Muito bem, Bira - falou por fim. - Farei como me pede.
Dê-me apenas um tempo para escolher as pessoas certas. Não
quero correr o risco de oferecer a droga a alguém careta.
- Tenho uma lista de nomes para você - ele afirmou,
apanhando uma folha de papel da pasta que o capanga do banco
da frente lhe estendeu. - Tenho o maior interesse nessas pessoas,
gente cheia da grana e influente. São elas que garantirão o
meu próximo passo.
313


- Que próximo passo?
- Eu não lhe contei? - Ele meneou a cabeça. - Quero me
eleger vereador.
Se não estivesse sentado, Régis teria caído para trás. Podia
esperar qualquer coisa, menos aquilo. Agora compreendia tudo.
Bira não estava propriamente interessado em mais uma área de
expansão da droga. Queria ter nas mãos pessoas influentes para
apoiá-lo em sua futura campanha política, e ele se tornara marionete
naquele jogo de poder.
- Tudo bem, Bira, dê-me a lista. A agência fecha na sexta e
só reabre na segunda-feira depois do carnaval. Dê-me o número
do seu celular. Ligarei para você assim que tiver uma posição.
- Sábia decisão, Régis. E parabéns. Você acabou de salvar
a vida da sua avó.
Régis saltou do carro arrasado. Então a avó seria a primeira
vítima de Bira. Depois, se não conseguisse o que queria, talvez
escolhesse a mãe e, por último, Natália. Ele não podia permitir.
Vendo-se sem saída, Régis apertou a lista na mão e chorou,
temendo pelo seu destino.
314

capitulo
35
Desde que se casara, poucas foram as vezes em que Júlio
visitara a mãe. Falava com ela ao telefone, ia buscá-la para o
aniversário das netas, para passar o Natal com eles, e só. Ela e
Bianca nunca se deram bem, desculpa que ele usava para não ter
de retornar aos lugares de sua juventude.
Seu antigo bairro estava cheio de lembranças dolorosas. A
agência bancária em que iniciara sua carreira ainda funcionava
no mesmo lugar, com pessoas agora estranhas. Ninguém mais
dos velhos tempos continuava ali. Soubera por conhecidos que
Anselmo conseguira pagar o tempo que faltava para a aposentadoria
vendendo sanduíches na praia e agora morava de favor na
casa de um parente. Ele tivera melhor sorte.
Mais forte que tudo era a lembrança de Geórgia. Não sabia
o que fora feito dela. Perdera contato com a vizinhança, e, sempre
que a mãe falava nela, ele desviava o assunto ou saía de perto.
Não sabia nem se ela ainda morava por ali ou se havia se casado.
Sentiu um ímpeto irresistível de passar diante da casa dela
e deu ordens ao motorista do táxi para parar do outro lado da
rua. A casa parecia a mesma, pintadinha de branco com as janelas
azuis, como sempre fora. O jardim continuava bem cuidado,
bem típico de Cléia. Mas não havia ninguém à vista. Antes que


alguém aparecesse, Júlio mandou o taxista seguir adiante, virando
a esquina para a casa da filha.
- Papai! - exclamou Natália, abraçando-o efusivamente.
- Que saudade!
- Também senti muita saudade sua - respondeu ele,
beijando-a no rosto. - Como estão as coisas?
- Ótimas! Estou cuidando direitinho da casa da vovó.
- Pelo visto, você é muito caprichosa, como sua avó era.
- Adoro morar aqui. E ainda bem que o apartamento é grande.
Tem um quarto para você e outro para Patrícia.
- Onde está sua irmã, por falar nisso?
- Saiu. Vai à praia todos os dias com mamãe.
- Sua mãe não muda, não é mesmo?
- Deixe-a, pai. Ela é feliz assim.
- Ela está me enrolando com o divórcio. Não entendo por
que não resolvemos logo isso.
- Acho que ela está com medo.
- O único medo que ela tem é de ficar sem nada.
- Você não vai deixar o apartamento para ela?
- Vou. Mas não quero lhe pagar pensão. Estou lutando por
isso. Sua mãe é jovem, pode trabalhar.
- Acho que você deveria pensar bem a respeito. Mamãe já
passou dos quarenta anos. Não é fácil arranjar emprego nessa idade.
- Por que ela não vai viver com um de seus casinhos? Para
que um homem, se ele não pode nem sustentá-la?
- Você está ganhando bem, pai. Não acha que valeria mais
a pena pagar a pensão e ficarem amigos?
Ele não respondeu. Por ele, Bianca não veria um tostão do
seu dinheiro e ele não fazia questão de ser amigo dela.
- Sua irmã me disse que você está namorando-desconversou.
- É verdade.
- Disse-me que o rapaz é modelo.
- Pelo visto, Patrícia lhe deu o serviço completo.
- Mais ou menos. Ela está preocupada com você.


- Comigo? Por quê?
- Cá entre nós, minha filha, esse negócio de modelo não é
trabalho para ninguém,
- Que preconceito bobo, pai. É uma profissão como outra
qualquer.
- Essa gente vive metida com drogas, farras e bebidas. Não
quero a minha filhinha envolvida nesse meio.
- Isso é uma injustiça. Há pessoas desequilibradas em qualquer
meio social ou profissão. E Régis não é assim. Ele não se
droga e só bebe socialmente. Também não é de farras. Passamos
os fins de semana juntos, vamos ao cinema, ao barzinho, à boate,
ao teatro. Coisas altamente inofensivas e normais.
- Tem certeza?
- Absoluta. Você poderá constatar pessoalmente. Marquei
um jantar aqui em casa hoje, para você conhecê-lo. Depois, reuniremos
as famílias.
- Nossa! Já está assim? Como estou atrasado!
- A mãe e a avó dele são pessoas maravilhosas. Você vai
gostar delas, tenho certeza. Dona Geórgia ainda é jovem e está
solteira - finalizou ela, piscando o olho maliciosamente.
- Dona Geórgia? - surpreendeu-se.
- É o nome da mãe dele. Tem que ver, pai, que mulher bonita!
Nem parece mãe de um rapaz de vinte e um anos. Criou Régis
só com a ajuda da mãe, sabia? Dona Cléia também é fantástica.
Você e dona Geórgia podiam se conhecer melhor. O que você
acha? Não, estou brincando. Dona Geórgia é muito séria, não ia
gostar de um mulherengo feito você.
Júlio não ouvia mais nada. Era como se um zunido agudo
bloqueasse sua audição, torturando sua mente. Como podia
ser? Que brincadeira era aquela? Uma peça de mau gosto do
destino? A última pessoa que Júlio pensaria encontrar namorando
sua filha era o filho de Geórgia. Era muita coincidência. Um
acaso macabro, pérfido, daninho. Horrível demais para ser verdade.
Sim, talvez fosse isso. Talvez aqueles nomes fossem apenas
317


coincidências. Devia haver muitas Geórgias no mundo, filhas de
pessoas chamadas Cléia...
A emoção foi demais para Júlio. Não era um sonho nem brincadeira.
Era real. Naquele lugar, um rapaz de vinte e um anos, filho
de Geórgia e neto de Cléia só podia ser quem ele pensava que era.
Só não entendia como aquilo fora acontecer justo com a sua filha.
- Pai! Pai! - ele ouviu, ao longe, uma voz o chamar. - O
que foi que houve? Você está chorando?
As lágrimas desciam e ele nem percebeu. Não ouvia, não
via, não sentia nada. De repente, era como se as emoções fossem
roubadas de seu coração. Só um vazio muito grande contaminando
seu peito.
- Vou me deitar - anunciou ele. - Não estou me sentindo
muito bem.
- Quer ir ao médico? - tornou ela, preocupada. - Tem
uma emergência pertinho daqui.
- Não, minha filha, estou bem. Deve ser o calor. Você mandou
instalar o ar-condicionado?
- Nos três quartos - confirmou ela. - Como você pediu.
- Ótimo. Então, vou descansar um pouco. Mais tarde,
conversaremos.
Natália ajudou-o a se acomodar. Ele estava pálido, trêmulo,
suando frio. Devia ser o calor, realmente. Ela ajeitou a cama para
ele e ligou o ar refrigerado.
- Está bom? - perguntou ela, testando a temperatura.
- Perfeito. Não se preocupe comigo, Natália. Mais tarde estarei
melhor.
- Está bem. Descanse. Desfarei sua mala depois.
- Não se preocupe com isso, Faça o que tiver que fazer,
não se prenda por minha causa.
- Certo. Se eu precisar sair, deixarei alguma coisa pronta
para você comer. É só esquentar no micro-ondas.
Ela o beijou na testa e saiu, fechando a porta com cuidado.
Não compreendia aquela reação do pai, que nunca fora dado a
318


mal-estares. Enfim, podia ser que a vida em São Paulo o estivesse
deixando desacostumado com o calor.
Júlio não conseguiu dormir. Queria afastar-se de Natália para
poder pensar melhor. Alguma coisa tinha de ser feita para impedir
aquele namoro. Não queria que sua filha se casasse com o fruto de
um estupro. Perguntava-se se Régis sabia. Talvez Geórgia houvesse
lhe contado, talvez não. De qualquer forma, ele não servia para
Natália.
Por meio de Régis, feridas não cicatrizadas seriam remexidas,
trazendo de volta toda a dor do passado. O destino lhe pregava
uma peça de muito mau gosto e algo precisava ser feito. Falar com
Natália não surtiria efeito. A experiência lhe dizia que, quanto mais
se tentava afastar duas pessoas, mais elas se tornavam próximas.
O jeito era apelar para o bom senso de Geórgia.
Geórgia não devia saber que Natália era filha dele. Imaginava
qual seria sua reação ao descobrir. Assim como ele, ela teria mil
motivos para desejar impedir aquele namoro. Sim, a solução
seria procurá-la.
Em sua ilusão de menina fútil, Patrícia sentia-se uma princesa,
a quem nenhum desejo podia ser negado. E Régis era o que
ela mais desejava naquele momento. Depois do desprezo com
que a tratara, Patrícia precisava conquistá-lo para depois rejeitá-lo.
Só assim se sentiria satisfeita e vingada. Não tinha a menor ideia
de como faria para conseguir seu intento, mas precisava de uma
solução rápida. Foi quando Bira apareceu.
O traficante era atraente, másculo, respeitado por todos na
região. Um homem de verdade. Patrícia não precisava de dinheiro,
mas adorava a vida de emoção que ele levava. Queria participar
daquela vida, ter um lugar em seu coração. Por isso, mentira à
irmã na véspera, dizendo que ia à praia com a mãe, quando, na
verdade, fora ao encontro de Bira.
319


Patrícia não pensou duas vezes quando ele a seduziu, Achava
que o tinha nas mãos só pelo tom de sua voz ao telefone. Bira estava
louco por ela, esmerou-se para agradá-la. Isso deixaria Régis
louco. Vira como ele ficara no outro dia, quando Bira a cobrira de
atenção. Agora, sabendo que ela praticamente se tornara amante
dele, Régis não mais a ignoraria.
Naquele domingo, mesmo sabendo que o pai viria de São Paulo,
Patrícia saiu cedo para a casa da mãe. Iriam à praia e, na volta, Bianca
a levaria para casa, junto com sua fantasia de carnaval. Faltavam dez
minutos para as sete da noite quando ela abriu a porta da cozinha.
- Você demorou - observou Natália, contrariada.
- A praia estava uma delícia. Você devia ter ido.
- Domingo tem muito trânsito. E Régis detesta praia.
- Não sabe o que perderam.
- Mamãe trouxe você?
- Trouxe.
- Por que ela não subiu?
- Estava com pressa, sei lá. E cadê o papai?
- Está se arrumando - informou Natália, cuidando do
jantar, - Vá tomar o seu banho e venha me ajudar.
- Ah! Natália, detesto cozinhar. Não sei fazer nada,
- Não precisa cozinhar. Basta me ajudar a arrumar a mesa.
Régis vem jantar aqui em casa para conhecer o pai.
- É? - ela mal conseguiu conter a euforia. - Está certo.
- O que é isso nessa bolsa?
- Minha fantasia. Ficou linda!
- Posso ver?
- Vou experimentar depois do banho.
- Então, vá logo.
- Vou falar com papai primeiro.
Ela bateu à porta do quarto, atirando-se no pescoço dele
quando ela se abriu.
- Que saudade, pai! Pensei que você não viria.
- Imagine se eu perderia o desfile da minha filhinha.
320


- Você vai ao desfile?
- Vou. Consegui um lugar no camarote da diretoria do banco
Vou vê-la pessoalmente.
- Vai levar Natália e Régis com você?
- Não, vou sozinho. Infelizmente, o convite que arrumei foi
só para um.
- Que pena. Mas pelo menos, você vai.
- Depois do carnaval, acho bom você voltar para casa
comigo. Já perdeu uma semana de aula.
- Ah, pai, a vida só começa depois do carnaval. E estou
pensando em me mudar para cá.
- O quê?
- É isso mesmo que você ouviu. Acho que vou voltar para o
Rio. Quero morar com a Natália.
- Você está falando besteira. Sua irmã trabalha e estuda.
- E daí? Sei me virar sozinha,
- Mas só tem um ano que você se mudou para São Paulo! E
o colégio? Como pensa que vou arranjar uma transferência assim,
de uma hora para outra?
- Se não arranjar, não faz mal. Volto a estudar ano que vem.
- E se atrasar um ano? Nem pensar!
Tudo bem, pai, sei que você vai dar um jeito. É isso que eu
quero. Já está decidido.
Júlio suspirou profundamente. Não conseguia negar nada a
Patrícia. Depois de todo o trabalho que tivera para levá-la para São
Paulo, não compreendia por que ela queria voltar às pressas para
o Rio.
Mal sabia ele que seus interesses eram outros. Patrícia só
queria ficar por causa de Régis e Bira. Não era possível ir para São
Paulo, onde não tinha nada, e deixar a irmã com aquele namorado
divino. Régis tinha de ser dela, e Bira a ajudaria a conquistá-lo.
- Já falou com Natália? - tornou Júlio.
- Ainda não. Mas tenho certeza de que ela vai concordar. E
depois, alguém precisa ficar por aqui para pôr um freio nela. Você
acha certo ela ficar trazendo o namorado para dormir aqui?
321


- Sua irmã faz isso?
- Faz.
Por mais que Júlio soubesse que Natália se transformara em
mulher, era-lhe difícil aceitar que sua filha já dormia com homens.
Ainda mais se o homem era o filho de Geórgia.
- Pensando bem, talvez seja uma boa ideia. Mas precisamos
falar com ela antes.
- Deixo isso com você, está bem? Afinal, esse apartamento
é seu. Tenho tanto direito a ele quanto Natália.
Com um beijo, saiu. Deixou a sacola com a fantasia no quarto
e foi para o banho. Demorou-se o mais que pôde, para não ter de
ajudar Natália com a mesa. Detestava qualquer serviço doméstico.
Para isso, o pai tinha empregada.
Do banheiro, ouviu o interfone tocar, sinal de que Régis havia
chegado. Fechou a torneira, antegozando o momento em que
faria sua entrada triunfal.
Natália recebeu Régis na porta da sala. Ele a beijou suavemente
nos lábios, com medo de desgostar seu futuro sogro.
Quando Natália o apresentou a ele, Régis estendeu-lhe a mão com
cortesia, recebendo dele um cumprimento frio.
Sentaram-se no sofá, onde Natália havia servido uns canapés
que ela mesma preparara. Régis elogiou seu dom para a culinária,
esperando que o pai dela fizesse o mesmo. Júlio, porém, não se
mostrava nada simpático.
- Então, você é modelo - disse em tom glacial,
- Sou, sim, senhor.
- E isso é uma profissão?
- É.
Quantos anos você precisou estudar para ser modelo?
- Pai! - censurou Natália, espantada com a atitude dele.
- Na verdade, não é preciso muito estudo para ser modelo
- esclareceu Régis. - Mas quanto mais inteligentes formos,
mais respeito obteremos na carreira e mais chance de sucesso
teremos.
322


"Boa resposta", pensou Natália, olhando para ele com orgulho.
Régis podia não fazer faculdade, mas era muito inteligente.
- Para que, exatamente, serve a inteligência nessa profissão?
- insistiu Júlio, para desespero de Natália, que o fuzilava
com os olhos.
- Temos que ter carisma, ser simpáticos, bem falantes. Não
adianta nada ser bonito e falar errado com os publicitários, por
exemplo. Nosso dom para o diálogo deve ser natural, precisamos
nos relacionar bem com todo mundo, e, se você não é uma pessoa
inteligente, pode ter problemas nessa hora. Clareza de raciocínio e
facilidade de comunicação são fundamentais. Sem contar a disciplina.
Não somos vagabundos fazendo figura bonita. Temos que
respeitar os horários, as regras, os contratos. É uma disciplina
meio rígida, porém, compensadora.
Júlio não sabia como rebater. Limitou-se a balançar a cabeça,
pensando em algo para dizer. Como não encontrou, resolveu
mudar de assunto:
- E seus pais? O que acham disso?
- Meu pai morreu. Moro com minha mãe e minha avó, e
elas são totalmente a favor.
- Seu pai morreu? De quê?
- Ele era doente - respondeu acabrunhado.
- Que tipo de doença ele tinha?
Sentindo-se encurralado, Régis evitou encará-lo. Mordeu o
canapé, para pensar no que fazer. Por fim, resolveu ser sincero:
- Desculpe-me, senhor, mas não gosto de falar sobre isso.
- É, pai, deixe de ser indiscreto - censurou Natália. - Você
nunca foi assim.
- Desde que não esteja em jogo a vida da minha filha. Mas,
se você traz um sujeito para dormir em minha casa com você,
tenho todo o direito de interrogá-lo.
Régis quase engasgou com o canapé, ia responder alguma
coisa, mas Natália interveio:
323


- Isso não se faz, pai. Está deixando Régis sem graça. Sou
maior de idade e você me deu o apartamento para morar. Posso
fazer o que quiser da minha vida.
- Por certo - concordou Júlio, meio aborrecido. - Mas
isso não me impede de querer o melhor para minha filha. Ou será
que não devo me preocupar com você?
- Deixe, Natália, eu compreendo - intercedeu Régis. - Seu
pai está preocupado, o que é plenamente compreensível. Mas posso
assegurar-lhe, seu Júlio, que tenho pela sua filha o maior respeito.
- Estou vendo.
- Amo-a de verdade. Futuramente, pretendo casar-me
com ela.
"Mas nem que os oceanos sequem!", ele pensou, porém disse
outra coisa: - Casamento é coisa séria. Vocês são duas crianças.
- Por isso falei: futuramente. Estou no início da carreira, e
Natália ainda está na faculdade. Contudo, nada nos impede de
fazermos planos para o futuro.
- Sei. E sua mãe concorda com isso?
- Ela pensa mais ou menos como o senhor. Acha que
somos muito jovens e podemos esperar.
- Pelo menos ela tem juízo. Falando em mãe, o que a sua faz?
- Ela é pedagoga. Trabalha na Secretaria de Educação.
- Ela fez faculdade? - admirou-se.
- Fez - respondeu Régis, estranhando a pergunta.
- Sua mãe fez faculdade. Quem diria?
- O que tem de mais, pai? - replicou Natália. - Você fala
como se fosse algo do outro mundo uma mulher fazer faculdade.
Mesmo naquela época, já era uma coisa normal.
- É claro, minha filha. Que bobagem a minha. Mas conte-
-me mais sobre sua mãe, rapaz. Ela é feliz?
- Feliz? - espantou-se. - Acho que sim.
- Não se casou? Quero dizer, depois que seu pai morreu?
- Não.
- Vocês ainda moram na mesma casa?
324


- Como assim? O senhor conhece a nossa casa?
Por muito pouco, Júlio não se delatou. A conversa levava
sua mente ao passado, fazendo-a divagar nas reminiscências
da juventude.
- Conhecer a sua casa? - repetiu ele, atônito. - É claro
que não. De onde tirou essa ideia? Só perguntei isso porque
minha mãe morou anos nesse apartamento. Queria saber se vocês
também moram aqui há muito tempo.
- Desde sempre. Nasci neste bairro.
- Compreendo...
A palavra morreu nos lábios de Júlio, tornada muda pelo
espanto do que ele agora via. Seguindo seu olhar, Natália e Régis
tiveram a mesma visão surpreendente. Patrícia havia acabado de
entrar na sala, vestindo a fantasia com que desfilaria na escola
de samba, de salto alto, toda maquiada. Era uma roupa sumária,
transparente, cheia de paetês. Uma pequena tanga e um bustiê,
encimados por um manto diáfano.
Ela entrou na sala como se pisasse na passarela. Estendeu
os braços, mostrando a transparência cintilante da capa, e deu
várias voltas pela sala, exibindo as formas perfeitas, o corpo quase
despido por debaixo do traje minúsculo.
Mesmo sem querer, Régis sentiu o efeito daquela visão.
Patrícia estava deslumbrante, sensual, revelando a mulher sedutora
por cima da imagem de menina. Ele prendeu o fôlego, temendo
desviar os olhos da estonteante figura. Todos estavam atônitos,
embasbacados, paralisados de espanto. Até que, de repente, o
grito enérgico de Júlio quebrou o feitiço do momento:
- Patrícia! O que significa isso?
- Minha fantasia - anunciou ela, de forma displicente e
atrevida. - É assim que vou desfilar na Portela.
- Isso lá são trajes de menina? Pensei que você fosse desfilar
com uma fantasia decente.
- Não sou menina - queixou-se. - E minha mãe deixou.
325


- Isso só podia ser coisa de Bianca. Vá já trocar essa roupa!
Não vê que nem fica bem você aparecer assim na frente do namorado
da sua irmã?
- O que é que tem? Régis só tem olhos para Natália. Não
é, Régis?
Régis não respondeu. Estava com Patrícia em seu limite.
Simplesmente apertou a mão de Natália, olhando-a com ar de
paixão, como a dizer-lhe que nada daquilo o impressionava. O
impacto que Patrícia lhe causara fora só físico, momentâneo. Cada
vez mais a desprezava pela sua falta de senso e de respeito.
Nem viu quando Patrícia se foi. Altamente aborrecido, Júlio
levantou-se do sofá e arrastou-a de volta ao quarto pelo braço.
Régis e Natália ficaram a sós, tentando entender por que a noite
dera errado.
- Acho melhor eu ir embora - comentou Régis. - Seu pai
não gostou de mim e sua irmã quer chamar a atenção.
- Por favor, Régis, não vá. Fiz tudo com o maior carinho,
para você e meu pai se conhecerem.
- Eu sei, querida, mas está na cara que seu pai não simpatizou
comigo. Acho que é preconceito, por eu ser modelo.
- Ele vai se acostumar. E Patrícia é só uma criança. Você
mesmo disse que ela quer chamar a atenção.
Júlio reapareceu em seguida, envergonhado. Deixou Patrícia
no quarto, proibindo-a de voltar à sala, com medo de despertar a
cobiça de Régis. Ele já dormia com Natália. Júlio não suportaria se
seduzisse também Patrícia.
- Perdoe-me pela minha filha - balbuciou ele. - Não sei
o que deu nela.
- Patrícia é muito mimada, isso sim - disse Natália, com
uma certa irritação. - Você a deixa fazer tudo o que quer.
- Eu não sabia que ela ia vestir essa fantasia.
- Não estou falando disso. Você é permissivo demais, não lhe
dá nenhum corretivo. Sempre foi assim, desde que éramos pequenas.
326


- Acho melhor eu ir andando - anunciou Régis, sentindo-
-se mal em presenciar aquela discussão em família.
- Também acho - concordou Júlio. - Não foi uma boa ideia
esse jantar, minha filha. Bem se vê que vivemos em mundos totalmente
diferentes. Você não devia ter vindo se enfiar aqui, nesse subúrbio.
- Essa foi a casa da sua mãe! O lugar onde você foi criado.
- Nossa realidade agora é outra. Régis pertence a este
lugar. Você, não.
- Não acredito! - esbravejou ela. - Não é meu pai que
está falando.
- Por favor, Natália, não briguem por minha causa - pediu
Régis, cada vez mais constrangido.
- Não tenha essa pretensão, rapaz - rebateu Júlio, com
desdém. - Você não tem essa importância toda. Não passa de
um namorico de estação.
- Pai! - objetou Natália, com veemência.
- Estou de saída - anunciou Régis, cerrando os punhos
para não acertar um murro na face de Júlio.
- Régis, espere! - chamou Natália, seguindo atrás dele.
- Não se incomode, minha querida. Ligue-me quando seu
pai voltar para São Paulo. Não quero ser motivo de desavenças
em família.
Saiu, deixando Natália aos prantos no corredor. Sua vontade
era voltar e estreitá-la nos braços, mas não queria ficar perto de Júlio.
Por pouco não o esmurrara. E Patrícia também merecia uma lição.
- Estou mudado mesmo - disse para si. - Em outros
tempos, teria partido a cara daquele otário.
Alcançou a rua, dando graças a Deus por ter saído dali.
Amava Natália, não permitiria que o pai ou a irmã dela os separasse.
Contudo, dividir com eles o mesmo ambiente era demais. Não
entendia bem por que Júlio não simpatizara com ele. A única explicação
que encontrou foi sua carreira de modelo. Mas ele estava
errado em seu julgamento. Régis agora era uma pessoa decente,
não tinha nada de que se envergonhar.
327

capitulo
36
Finalmente, Tácio e Damien reuniram coragem para aparecer.
Desde que haviam fugido do covil de Atílio, haviam permanecido
escondidos em uma ravina árida no submundo astral. Por ali havia
poucos espíritos, fugitivos como eles, seres atormentados que
oscilavam entre a culpa e o desejo de se modificar. Todos tinham
algo em comum: o medo.
- Quero ver o meu filho - anunciou Tácio, cansado de ficar
sentado sem fazer nada.
- Você acha que é prudente? - contrapôs Damien.
- Nós já fugimos. O que pode nos acontecer?
- Atílio deve estar louco à nossa procura.
- Será que você ainda não se convenceu de que Atílio
se impõe pelo medo? O poder dele é só uma ilusão criada para
atemorizar os trouxas.
- Pode ser. Mas ele tem um exército. E se mandar nos prender
novamente?
- Não entendo você. Está aqui há bem mais tempo do que
eu e parece que não aprendeu nada.
- E desde quando você é o sabichão?
- Desde que fugi daquela masmorra e percebi que somos
nós que criamos a nossa prisão. Ninguém pode contra nós, a não


ser que permitamos. E não estou mais disposto a permitir que
me escravizem. Sozinho, estou me libertando dos meus grilhões.
Aconselho você a fazer o mesmo.
- Muito esperto. Mas ainda estamos aqui, escondendo-nos
de Atílio. Cadê a sua coragem?
O olhar de Tácio para Damien foi de vitória. Vencera o medo
acreditando em seu poder. Sabia que, se não permitisse, Atílio não
poderia mais ameaçá-lo.
- Você tem razão, sabia? - retrucou confiante. - Não sou
um covarde. Quero ver o meu filho e é o que vou fazer.
- Deixe isso para lá. Atílio deve ter mandado alguém nos
espionar. Assim que dermos as caras, vai mandar nos prender.
- Será possível? - irritou-se. - Não adianta eu falar, que
você não se convence. Pois fique aí você, atolado no medo. Eu vou
ver o meu filho. E quero ver se Atílio ou alguém vai me impedir.
Ante o olhar atônito e apavorado de Damien, Tácio esvaneceu
no ar. Não aguentava mais se esconder. Tinha lá os seus
arrependimentos, mas não podia permitir que a culpa o paralisasse
a ponto de não fazer nada para impedir a queda de Régis. Ele
era,seu filho, sentia que lhe devia isso como forma de compensar
a violência que lhe impusera antes mesmo de nascer.
Chegou à Terra pouco depois do anoitecer. A rua em que
Régis morava fervilhava com pessoas voltando do trabalho e de
seus afazeres diários. Parado em frente à casa do filho, esperou.
Logo Geórgia surgiu, causando-lhe uma comoção diferente. Havia
muito não se detinha em Geórgia, sentindo-se tão culpado pelo
que lhe fizera que nem se atrevia a aproximar-se.
Ela passou por ele sem notar sua presença. Entrou em casa
como se ninguém estivesse ali. Além de Tácio, um outro espírito
espreitava. A mando de Atílio, não desgrudava os olhos da casa de
Régis. Assim que Tácio apareceu, ele logo partiu rumo ao seu covil.
- Tácio voltou - anunciou, satisfeito por ter sido ele a levar
a notícia. - Está parado à porta da casa de Mizael.
- Sozinho? - indagou Atílio.
329


- Sim, senhor.
- E Damien?
- Nem sinal dele.
- Covarde. Está se escondendo. Tácio, pelo visto, tem mais
coragem.
- Quer que junte um pessoal para prendê-lo?
- Não. Farei isso pessoalmente.
Atílio precisava vencer o medo. Afinal, era poderoso, não
podia deixar-se dominar por um espírito inferior. Se não enfrentasse
Tácio, perderia o respeito de seus comandados, que logo
tratariam de enfrentá-lo. Se percebessem que ele estava fraquejando,
alguém se atreveria a tentar derrubá-lo e assumir a posição
de líder. Trazer Tácio e Damien de volta funcionaria como a reafirmação
de seu poder.
Atílio apareceu bem ao lado de Tácio, que levou um sustò ao
vê-lo. A imponência de Atílio provocou um certo temor em Tácio,
que quase correu. Mas ele sabia que, se não o enfrentasse, ficaria
para sempre em suas mãos. Tinha de dar um basta naquela situação.
Mesmo assim, não disse nada, permanecendo na defensiva.
- Onde está Damien? - indagou Atílio, com voz assustadora,
à qual Tácio não respondeu. - Você ouviu o que eu disse?
- Ouvi - tornou ele, após alguns segundos. - Mas não sei
onde ele está.
- É mentira. Os dois fugiram juntos. Covardes! - Tácio
permaneceu em silêncio. - Não diz nada, covarde?
- Não tenho o que lhe dizer.
- Volte comigo agora mesmo e seu castigo será leve. Se
resistir, acabarei com sua forma astral, devolvendo-o a um limbo
de tormentos.
- Sabe de uma coisa, Atílio? - revidou Tácio, encarando-o
firmemente agora. - Não creio que você tenha esse poder.
- Atreve-se a me desafiar? - retorquiu irado.
- Não o estou desafiando. Apenas não acredito mais no poder
que você se atribui. Você não é nenhum mago das trevas para
330


operar magias mirabolantes. Não passa de um espírito fútil, enganado
pela ilusão do poder.
- Você tem coragem ou é muito burro. Ainda não decidi
qual dos dois.
- E você fala demais e pouco age. Até agora, não o vi
cumprir nenhuma de suas ameaças.
Atílio fervia de ódio. Não imaginava que um viciado insignificante
feito Tácio fosse capaz de desafiá-lo. Precisava fazer alguma
coisa. Seus soldados o observavam, à espera de uma reação eficaz.
Pensando nisso, avançou para ele, braços estendidos para esganá-
-lo. Tentou passar as mãos ao redor de seu pescoço, mas Tácio
segurou-as com força, impedindo-as de tocá-lo. Atílio ficou apavorado.
Nunca ninguém o superara em força física. O medo paralisa
os tolos, e era isso que permitia que Tácio fizesse o que queria.
Percebendo que não conseguiria sozinho dominá-lo, Atílio
lançou mão de seu poder de mando. A um olhar seu, os espíritos
que o acompanhavam avançaram na direção de Tácio. Cegos
ainda pelo dever de obediência que o medo lhes impunha, nem
sequer questionaram o porquê do fracasso da investida do chefe.
Para eles, Tácio era uma ameaça que devia ser contida, e eles
estavam ali para proteger Atílio.
Muitos avançaram sobre ele. Eram em maior número, causando
espanto em Tácio. Ainda segurando os punhos de Atílio,
encarou-o. O outro o olhava com chispas de fogo no olhar, um
sorriso mordaz desenhando a ameaça em seus lábios. O medo
derivou da prudência. Reconhecendo estar em desvantagem,
Tácio empurrou Atílio para trás e correu na direção da casa, com
os soldados em seu encalço.
Foi uma cena inusitada. Sem perceber, Tácio atravessou o
cinturão energético ao redor da casa de Geórgia, saltando para a
varanda. Nem se deu conta de que estava lá dentro, surpreendendo-
se ao ver os soldados recuarem. Alguns tentaram atravessar a
muralha, sendo arremessados para trás com a mesma força com
que investiam contra ela.


- Não é possível! - esbravejou Atílio. - Não pode ser!
Como ele conseguiu isso?
Os soldados estacaram atônitos, olhando para Atílio em busca
de orientação. O líder não sabia o que fazer. Sentia-se impotente,
vencido, humilhado. Jamais poderia imaginar que Tácio passaria
para o outro lado, atravessando um caminho por onde não poderiam
segui-lo.
- Saia daí, covarde! - Atílio gritou. - Enfrente-me como
homem!
Tácio não respondeu. Vendo que os soldados haviam sido
detidos pela barreira energética, percebeu que a havia atravessado.
Olhando ao redor, viu que estava praticamente dentro da casa
de seu filho. Bastava atravessar uma parede. Foi o que fez. Deu
uma última olhada para Atílio, não de provocação, mas de vitória,
e passou para o outro lado.
Dentro de casa, surpreendeu-se ainda mais. Após tantos
anos, jamais imaginou penetrar naquele ambiente. Pensou que
se sentiria mal ali, mas não. A atmosfera límpida revigorou suas
forças, causando-lhe um bem-estar que nunca julgou existir,
- Seja bem-vindo - falou alguém mais adiante.
Tácio olhou na direção da voz. Quem ali estava era Josué,
em companhia de Uriel. Sem medo, aproximou-se, embora meio
acanhado.
- O que foi que houve? - sondou timidamente.
- Você não sabe? - Ele deu de ombros. - Não percebeu que
atravessou a proteção energética que, por anos, o manteve afastado?
- Isso eu percebi. O que não compreendo é como consegui
fazê-lo.
- Só você não vê o quanto se modificou.
- Sou um condenado - falou ele, ajoelhando-se diante de
Josué. Tudo isso é culpa minha. Geórgia perdeu o noivo, nunca
foi feliz. E meu filho é quase um marginal.
- Geórgia não perdeu o noivo, porque ele nunca lhe pertenceu.
Ninguém pertence a ninguém, essa é mais uma ilusão do ser
332


humano, ainda preso aos desejos do mundo. E quem foi que disse
que ela nunca foi feliz? À sua maneira, é feliz, sim. Seu filho, por
outro lado, não é quase um marginal. Quase foi, é verdade. Agora,
porém, está se endireitando.
- Do jeito que você fala, parece que eu não tive nada a ver
com isso.
- Você foi a ferramenta. Colocou-se à disposição da vida
para realizar a obra divina, manifestada nos projetos de cada um.
- Por que eu?
- Porque era o que você queria. Em sua ignorância, julgando
satisfazer os desejos, aceitou participar desses eventos.
- Por quê?
- Digamos que foi uma forma de vingança pela rejeição.
- Vingança? Rejeição? Não compreendo.
- Mais uma ilusão, meu amigo. Rejeitado por Geórgia em
outra vida, você acreditou que merecia tê-la, ainda que à força.
- Eu fiz isso? - Josué assentiu. - Mas por que Geórgia foi
aceitar uma coisa dessas?
- Porque ela, por sua vez, sentia-se culpada por tê-lo acusado
de um crime que você não cometeu. Achou que lhe devia isso.
Naquele momento, a lembrança desabou sobre a mente de
Tácio. Viu-se um rapaz pobre em outra vida, em meados do século
XIX, cortejando Geórgia, que o desprezava. Secretamente, Geórgia
amava outro rapaz e dormiu com ele, numa época em que virgindade
era sinônimo de virtude. Depois de conseguir o que desejava,
o rapaz sumiu de sua vida, casando-se com outra. Desesperada,
com medo de ser mal vista pela sociedade, Geórgia resolveu usar
Tácio para limpar seu nome.
Fingindo-se apaixonada, Geórgia convidou-o para um passeio
nos jardins de sua casa. Parados sob uma amoreira, beijavam-
-se sofregamente. Estimulado pela atitude dela, Tácio começou
a despi-la, surpreso com o fato de que ela rasgava as próprias
roupas. Deitado sobre ela, não pensava em nada. Desejava apenas
poder extravasar a paixão e o desejo.
333


Subitamente, ela o empurrou para o lado. Tácio caiu, atônito,
enquanto Geórgia se cobria com os trapos de roupa. Aos gritos,
desatou a correr feito louca, toda desgrenhada, a pele avermelhada
do contato com ele.
Logo atraiu a atenção de seus pais. Vendo-a naquele estado,
os pais chamaram a criadagem, que não custou a encontrar Tácio,
tentando vestir-se às pressas para fugir. Indagada sobre o ocorrido,
Geórgia inventou que estava passeando pelo jardim quando foi
assaltada por aquele homem, que rasgou suas roupas e a violentou.
Por mais que Tácio negasse o ocorrido, as evidências eram
por demais comprometedoras. Até sangue havia, já que Geórgia
se encontrava nos últimos dias de seu período menstrual. Tácio
foi preso e condenado a doze anos de prisão. Ao sair, levava no
coração imenso rancor contra Geórgia. Durante anos, esteve à
sua procura, sem encontrá-la. Os pais haviam conseguido casá-la
com um viúvo de posses, penalizado com seu infortúnio. Desde
então, nunca mais se viram.
- Agora me lembro - anunciou Tácio, após a rememoração
espontânea. - Guardei tanto ódio por tanto tempo! E para
quê? De que adiantou?
- Você guardou rancor, e Geórgia, culpa. Nenhum dos dois
precisava passar por isso, mas enfim... A alma escolhe caminhos
tortuosos na ignorância do amor.
- É verdade. Mas e Régis? Onde entra nessa história?
- Não entra. Geórgia aceitou recebê-lo porque queria ajudá-
-lo. E você não se importou em ser o pai, já que não pretendia criá-lo.
- Veja só. E agora me preocupo tanto com ele.
- Ainda bem. Ele o ajudou a despertar o amor que você
escondia aí dentro. Viu como a vida é perfeita? Ao ajudar alguém,
todos acabam se ajudando.
Tácio olhou ao redor, procurando por Geórgia e Régis. Tinha
lágrimas nos olhos e o coração cheio de amor.
Não quero mais continuar nas sombras - confessou ele.
- Estou cansado. Sei que não devia ter me drogado, mas acho
334


que consegui me livrar do vício. Desejo uma nova chance para
corrigir os meus erros.
- Não fale assim. Você terá uma nova chance para reequilibrar
sua vida.
- Não terei que vir aleijado ou demente?
- Não. Que ideia! De onde tirou isso?
- Foi o que me disseram lá naquele submundo onde eu estava.
- Não é bem assim que as coisas funcionam. Se o seu grau
de culpa e falta de perdão for grande a ponto de você desejar se
punir, ninguém poderá impedi-lo. Basta você saber que não precisa.
Existem outras formas de harmonização com a vida.
- Quero encontrar essa outra forma. Você me ajuda?
- É claro.
- E o meu filho?
- Ele está indo muito bem. Ainda não está totalmente livre
das tentações daninhas, mas o sucesso só depende dele.
- Não posso fazer nada?
- Pode acompanhar e aconselhar sem interferir.
- Já tenho feito isso.
, - Muito bem. Quer vir conosco, então?
De mãos dadas com Josué e Uriel, Tácio preparou-se para
partir. Em seu coração, o amor pelo filho reluzia, inatingível. Mas
seus pensamentos permaneciam ligados a Damien. O que seria
do amigo depois que ele se fosse?
335

capitulo
37
Júlio não estava nem um pouco em clima de carnaval. Irritado
com afantasia indecente de Patrícia e aborrecido com o namoro indesejável
de Natália, achava que sua família havia se desestruturado.
- Mamãe chegou! - exclamou Patrícia, ansiosa pela chegada
da mãe, que a levaria ao desfile.
Júlio olhou para ela com impaciência. Não queria que ela
fosse, contudo não tinha como evitar. Antes que ele repetisse os
protestos que vinha fazendo havia dias, Patrícia correu a abrir a
porta para Bianca. A mulher estava mais vulgar do que nunca,
causando um certo desconforto em Júlio.
- Como vai, queridinha? - indagou ela, beijando as faces
da filha.
- Posso ir pronta, mamãe, posso? - retrucou ela, ansiosa.
- Como assim?
Papai não deixa eu sair de casa com a fantasia. Quer que
eu me vista lá.
- Você vai sair vestida lá de casa. Na concentração, não dá.
Tem gente que se troca na frente de todo mundo.
- Vocês vão para lá de ônibus? - intercedeu Júlio, que
remoía a raiva.
- Vamos pegar um táxi.


- Viu, papai? Não tem problema nenhum.
- Vá logo apanhar suas coisas - pediu Bianca.
Depois que Patrícia saiu, Júlio censurou-a com irritação:
- Onde você está com a cabeça para permitir que Patrícia
desfile daquele jeito? Ela vai ficar quase nua!
- Deixe de besteiras, Júlio. A menina é linda.
- Por isso mesmo. Todo mundo vai querer passar a mão nela.
- Bobagem. Eu estarei por perto. Vou vigiá-la.
- Isso é o que mais me preocupa. Ainda acho mais fácil ela
vigiar você.
- Engraçadinho. Mudando de assunto, a audiência do divórcio
foi marcada. Você vai?
- O que você acha?
- Está doido para se livrar de mim, não é mesmo?
- Tanto quanto você para se livrar de mim.
- O apartamento vai ficar comigo, você sabe.
- Foi o combinado.
- E a pensão?
- Não creio que você precise.
- Eu preciso e você vai continuar a me dar. Não tem jeito.
Júlio suspirou profundamente, tentando não se aborrecer. Por
sorte, Natália voltou do mercado, desviando a atenção de Bianca.
- Filhinha! - falou ela, abraçando a moça.
- Oi, mãe. Chegou há muito tempo?
- Não. Estava aqui conversando com seu pai enquanto sua
irmã se veste. E o namorado? Quando é que vamos conhecê-lo?
Natália olhou para Júlio discretamente. Desde o fracasso do
jantar da outra noite, não conseguira ainda conversar com o pai,
que mudava de assunto sempre que ela tocava no nome de Régis.
- Outro dia - respondeu ela, vagamente.
Enquanto Bianca tagarelava sem parar, Júlio desligou-se da
conversa. Seus pensamentos se voltaram para Régis e, por extensão,
para Geórgia. Sentiu uma vontade louca de vê-la, de falar com
337


ela. Geórgia era tão diferente de Bianca! Uma moça tão bonita e
correta. Meiga, honesta, digna. Por que não se casara com ela?
Porque ela estava grávida daquela aberração. Não fosse o
filho bastardo, estariam hoje casados, Natália seria filha deles, e
Patrícia... não existiria. Não, de Patrícia não poderia abrir mão. Ela
era seu maior consolo naquele mar de insatisfação.
Novamente, a ideia de falar com Geórgia sobre o namoro
dos filhos assomou em seus pensamentos. Era a melhor saída,
senão a única, para evitar que uma desgraça acontecesse. Sim,
faria isso. Conversar com Geórgia era uma excelente opção. Ela
sempre fora ponderada. Com certeza, teria pronta a solução para
aquele problema.
Agora certo de que deveria procurá-la, Júlio não quis mais
adiar o encontro. Naquela noite, quando Natália saísse com Régis,
ele iria à sua casa para uma conversa definitiva.
- Vamos? - ele ouviu a voz mimada de Patrícia, que vinha
com a fantasia pendurada num cabide.
- Isso é um absurdo! - disparou Júlio, completamente transtornado.
- Uma menina de quinze anos vestida como uma vadia!
- Não amole a garota, Júlio - objetou Bianca. - Ela vai
ficar linda. Será um sucesso na avenida.
- Ela não vai. Não vou permitir que minha filha seja confundida
com uma piranha qualquer. Patrícia não passa de uma criança.
- Não sou criança! - protestou ela, veemente. - E você
não pode me impedir.
- Pare com isso, Júlio - falou Bianca, secamente. - Está
parecendo um velho bobo. É carnaval, todo mundo se veste desse
jeito. E depois, você já tinha concordado. Mandei até fazer fantasia
para a menina. Não vá agora estragar tudo. Vamos embora, Patrícia.
Patrícia deu um passo, aproximando-se de Júlio.
- Não se preocupe, papai - disse, beijando-o no rosto. -
Vai dar tudo certo. Sei me cuidar.
- Tenho medo de que algo lhe aconteça.
338


- Não vai acontecer nada. É só um desfile. Depois, volto
para casa.
- Você não falou que ia? - lembrou Bianca. - Patrícia
disse que tinha até comprado o ingresso.
- Desisti - confessou ele, que não queria deixar o apartamento
livre para Natália e Régis.
- Por quê?
- Como você disse, sou um velho bobo. Prefiro ficar em
casa e assistir pela televisão.
- Vai perder o dinheiro do ingresso?
- Não me importo. Pode levar e dar para alguém, se quiser.
- Então me dê - pediu Bianca. - Tenho uma amiga lá do
salão que está doida para ir. Vou ligar para ela agora mesmo.
- Vamos, mãe - impacientou-se Patrícia. - Está quase
na hora.
- Calma, meu bem. Ainda é cedo. Temos muito tempo.
Bianca falou com a tal amiga pelo telefone, desligando em
seguida. Júlio apanhou o convite e entregou-o a ela, louco para
ficar sozinho. Não suportava nem olhar para a fantasia de Patrícia.
- Até logo, papai - Júlio não respondeu. - Tchau, Natália.
- Tchau.
Elas saíram. Natália foi para a janela observá-las, Patrícia
rebolando em cima do salto alto como se já estivesse desfilando.
Ainda não havia esquecido seu exibicionismo. Patrícia achava que
não havia feito nada de mais, embora Natália não concordasse
com isso. Sabia que fora proposital, só para chamar a atenção de
Régis. Por sorte, ele não lhe dera a menor atenção.
- Sua mãe não devia ter permitido essa indecência -
comentou Júlio, ainda irritado. - Mas sua mãe é outra indecente.
- Deixe, pai. É carnaval, muita gente vai estar igual a ela.
- E você? Vai sair com o Régis hoje de novo?
- Vamos jantar e depois ao cinema. Não gostaria de vir
conosco?
- Não, obrigado. Prefiro ficar por aqui e assistir um filme na TV.
339


- Por que está evitando o Régis, pai? O que foi que ele lhe fez?
- Nada. Acho que vou descansar um pouco.
Era assim que Júlio vinha procedendo desde a noite do jantar.
Natália não sabia mais o que fazer. Régis, por sua vez, não insistia,
aumentando, cada vez mais, a distância entre eles.
À noite, Natália se aprontou para esperar Régis. Ele gostava
de carnaval, mas decidiu não pular para ficar com ela. Natália,
por sua vez, nunca fora muito de folia, preferindo viajar. Naquele
ano, porém, como o pai e a irmã estavam com ela, não tinha
podido se ausentar.
Quando o interfone tocou, Júlio sabia que era ele. Depois
que Natália desceu, acompanhou-os da janela. Assim que se afastaram
o suficiente, saiu também. Caminhou lentamente em direção
à casa de Geórgia, atrasando o passo, com medo do encontro.
Parado em frente ao portão, hesitou em tocar a campairíha.
Tinha vergonha de encará-la, mais ainda, de enfrentar Cléia, que
sempre o tratara como um filho. Achou melhor atravessar a rua
para vigiar a casa do outro lado. Permaneceu imóvel, olhos grudados
na janela, à espera de um movimento. Após muitos minutos,
Geórgia apareceu para fechar as cortinas.
De longe, encoberto pela escuridão, Júlio não conseguiu
distinguir o seu rosto. Sabia, porém, que era ela. A janela gradeada
não lhe permitia uma visão mais nítida, mas ele não tinha dúvidas.
Geórgia continuava a mulher linda que sempre fora. No peito,
o coração deu mostras de uma excitação acima do normal. Um
palpitar descompassado tornava irregular sua respiração, enquanto
um suor frio escorria pelo seu rosto. Estava com medo, mas
tinha de falar com ela.
Demorou um pouco a decidir-se. Por fim, saiu do esconderijo
na penumbra e atravessou a rua. A passos vacilantes, abriu
o portãozinho que levava à varanda. Subiu os degraus que havia
mais de vinte anos não pisava. Tocou a campainha e aguardou.
Ouviu passos do lado de dentro. Por instantes, eles se detiveram
à porta, provavelmente porque alguém olhava pelo olho
340


mágico. Segundos depois, a porta se abriu, revelando a presença
de Geórgia, lívida, assustada, incrédula.
- Júlio! - espantou-se. - O que está fazendo aqui?
Num primeiro momento, ele não conseguiu falar. Entre a
vergonha e a ansiedade, permaneceu encarando-a, sentindo
que as palavras se atropelavam, na tentativa de saírem todas ao
mesmo tempo. Em vez de falar, foram seus olhos que se manifestaram.
Brilhantes de lágrimas, em seu silêncio, exprimiram toda
sua angústia
341

capitulo
38
Durante o jantar, Régis mal conversava com Natália. Pensava
em seu último encontro com Bira. O traficante se mostrava irredutí-
vel, pressionando-o cada vez mais. Seu prazo até o fim do carnaval
estava se esgotando, de forma que ele não tinha saída. Quanto mais
pensava, mais se angustiava. Agora não tinha como voltar atrás.
- O que você tem? - questionou Natália, notando seu
distanciamento.
- O quê? Nada. Estava apenas pensando no meu trabalho.
- Por quê? Alguma coisa errada?
- Pelo contrário. Além do comercial, recebi uma proposta
de desfile.
- Que maravilha!
- Só que é fora do Brasil.
- Onde?
- Na Espanha.
- Você vai aceitar?
- Não sei. Não gostaria de ficar longe de você.
- Você pode ir e voltar. Vou continuar aqui, esperando você.
- Não gostaria de ir comigo?
- Não posso. Tenho faculdade e trabalho. Mas não me
importo que você vá.


- Se eu for, e não estou dizendo que vou, vai ser pelo tempo
suficiente para cumprir o contrato e voltar.
- Não se apresse, querido. Se eu escolhi namorar um modelo,
tenho que ir me acostumando a essas coisas.
Ele a beijou com carinho. Amava-a cada vez mais, sentia-se
grato a ela por ajudá-lo a reavaliar suas atitudes, acreditando que
podia ser um homem íntegro. Um pensamento odioso para Atílio,
que agora resolvera, ele mesmo, tomar a dianteira na condução
de Mizael.
- Demorei tempo demais - disse para si mesmo. - Mizael
foi contaminado por essas bobagens de integridade. Isso não existe!
- gritou ele, tentando fazer com que o pensamento do rapaz
captasse suas sugestões. - Você não nasceu para ser íntegro.
Nasceu para conquistar poder! Onde está seu pendor para o tráfico?
Atílio presenciou novo beijo do casal, sentindo-se incomodado
pela onda de amor que emanava deles.
- Perdi-a outra vez - ele prosseguiu em seu monólogo,
referindo-se a Natália. De novo, tenho que abrir mão para que
você seja dele. Isso não seria difícil, se vocês não resolvessem me
trair. Você está me traindo, Mizael, ouviu bem? Isso é traição!
À medida que Atílio se enfurecia, Régis parcialmente captava
suas vibrações. Uma curiosidade súbita e violenta de saber o que
aconteceria caso ele fizesse a vontade de Bira despontou em seu
coração. Não seria divertido ter nas mãos aquelas pessoas que se
julgavam tão importantes?
- Olhe só! - continuou Atílio. - Agora sim, estamos falando
a mesma língua. O que está esperando para fazer a vontade de
Bira? Você vai ser o maioral, não ele.
Como a influência não era suficientemente forte para deixar
Régis confuso, a ideia de aliar-se a Bira desanuviou-se de sua
mente, agora centrada em Natália. Não. Decididamente, não queria
ter nada a ver com o traficante. Queria ser um homem decente.
Uma luz rósea envolvia o casal, empurrando Atílio para longe,
bloqueando seu acesso aos pensamentos de Régis. A luz foi se
343


intensificando a tal ponto que ele não aguentou mais. Incomodado,
deu as costas aos dois e sumiu praguejando.
Sem de nada saber, Natália continuava a conversa:
- Por que não vamos lá para casa depois do cinema?
Podemos assistir o resto do desfile na televisão. Talvez consigamos
ver Patrícia.
- Tem certeza de que você faz mesmo questão de ver sua
irmã na televisão?
- Não. Mas ela faz.
- Não tenho nada com a vida de vocês, mas você não acha
que Patrícia exagera? Ela ainda é uma criança.
- Também penso assim, mas papai é um frouxo. Ele a deixa
fazer o que quer. Agora está lá, aborrecido porque ela vai sair
quase pelada na escola de samba.
Régis não queria contar-lhe sobre as coisas que Patrícia fazia,
para não preocupá-la. Todavia, precisava fazer alguma coisa para
que ela não se perdesse nas mãos de Bira.
- Você não acha que seria melhor ela voltar para São Paulo?
- Pois é. Só que agora ela não quer mais. Inventou que quer
morar comigo.
- O quê? Essa não!
- Papai não quer deixar. Ela está matriculada num colégio
em São Paulo e está perdendo aula. Mas papai não tem força com
ela. Aposto como Patrícia vai conseguir o que quer.
- Não tenho nada contra sua irmã, mas ela morar com você
não é uma boa ideia. Vai lhe dar muito trabalho. Ela é menor de
idade e você não é a mãe dela.
- Eu sei. Não quero isso, mas papai é que tem que impedir.
- E sua mãe?
- Ela mesma é que não fará nada. Mamãe acha graça em
tudo que Patrícia faz. Na verdade, não quer esquentar a cabeça.
Sei que gosta de nós, mas quer viver a vida dela. Deu graças a
Deus quando saímos de casa.
344


- Você pode vir morar comigo - sugeriu ele, de forma
apaixonada
- É claro que não posso. Você mora com sua mãe e sua avó.
Imagine se eu teria o desplante de aparecer de mudança na sua casa.
Podemos nos casar.
- Ainda é muito cedo.
- Somos maiores, trabalhamos, somos independentes.
- Mais ou menos. O que eu ganho não dá para me sustentar.
Papai me manda dinheiro todo mês para complementar as despesas.
- Posso fazer isso no lugar dele. Estou ganhando bem agora.
Tenho até pensado em me mudar para a Barra. Você poderia ir comigo.
- Vai deixar sua mãe e sua avó?
- O problema é esse. Não quero deixá-las e elas não querem
ir. Mas são a favor de que eu viva a minha vida.
- Pense um pouco mais, Régis. Quando me casar, quero
que seja para sempre.
- Será para sempre comigo. Eu a amo. Só se você não
me amar.
- Você sabe que o amo. Contudo, há outras coisas envolvidas.
Maturidade é uma delas.
- Tudo bem, Natália, não quero pressioná-la. Basta você
saber que eu quero me casar com você. Hoje, ano que vem, não
importa. Só o que quero é que estejamos juntos.
- Ficaremos juntos, eu prometo. Mas, por enquanto, não
Quero que tenhamos certeza do que estamos fazendo.
- Você é quem manda.
Régis não podia deixar de dar-lhe razão. Não tinha dúvidas
de que a amava, contudo precisava antes resolver aquela pendência
com Bira. A última coisa que queria era Natália envolvida com
o traficante. E ainda havia Patrícia. Temia pela vida dela, mas
também tinha medo do que ela poderia fazer contra ele.
345


No momento, Patrícia não estava nem um pouco preocupada
com Régis. O que agora sentia por ele estava mais próximo do orgulho
ferido do que da paixão. Bira, sim, era um homem de verdade,
não um garotinho. Tudo bem que Régis era lindo de morrer, mas
Bira tinha presença.
- Aonde você vai? - indagou Bianca, vendo que Patrícia se
preparava para sair.
- Falar com um amigo.
- Agora? Está quase na hora de sairmos.
- É só um minuto.
Vestida em sua fantasia azul e branca, Patrícia foi ao encontro
de Bira. Entrou no carro dele, satisfeita com o efeito que provocou
no traficante. Ele a alisou, excitado, beijou-a com ardor, soltando-a
a contragosto.
- Você está muito gostosa - elogiou. - A mina mais linda
da avenida
Ela riu gostosamente, perguntando com euforia:
- Você vai estar lá, não vai?
- Não perderia isso por nada.
- E aí? Trouxe o que me prometeu?
- É claro. Não achou que eu ia deixar você de fora desse
barato, achou?
Olhando para os lados com cuidado, por detrás do vidro
fumê, Bira sacou uma trouxinha do bolso. O comparsa do banco
da frente entregou-lhe um espelho, um cartão de crédito e um
canudinho de papel. Rapidamente, preparou uma carreirinha de
cocaína, entregando a Patrícia o canudo,
- Experimente - incentivou. - Não tenha medo.
- Vou ficar doidona?
- É para isso que serve, não é?
Um pouco insegura, Patrícia experimentou. A sensação de
euforia foi imediata. Sob o efeito da droga, julgou-se capaz de qualquer
coisa. Nos braços de Bira, sentia-se poderosa, uma rainha.
346


Amaram-se rapidamente, no banco do carro, sem se importar com
a presença dos capangas,
- Chefe, acho melhor acabar com isso - disse um deles,
vendo pelo retrovisor uma patrulha se aproximar.
- Vá - ordenou ele, abrindo a porta para ela. - Mais tarde
nos encontraremos.
Patrícia saiu meio zonza, desacostumada com os efeitos da
coca. Até então, a única droga de que fizera uso fora a maconha,
e, assim mesmo, esporadicamente. Pisou no chão, hesitante, ajeitando
a fantasia meio amassada. O carro da polícia passou ao
lado, mas nenhum dos policiais prestou atenção ao automóvel de
Bira. Só tinham olhos para o corpo exuberante de Patrícia.
Foi uma bela jogada mandá-la sair quando a polícia se aproximou.
O resultado foi o esperado. Diante de um muiheraço feito
Patrícia, quem é que ia prestar atenção a três barbados?
Ela agora estava em suas mãos. Iniciá-la no vício era um
truque que ele utilizava para manter as garotas presas a ele.
Fissuradas pela droga, faziam tudo o que ele queria. E Patrícia,
ainda por cima, serviria de escudo contra a resistência de Régis.
Só esperava que ela não seguisse os passos de Gislene. Sentiria
muito se tivesse de mandar matá-la.
347

capitulo
39
Parado na porta da casa de Geórgia, Júlio não sabia o que
dizer. Ensaiara as palavras, contudo elas se atropelavam. Vê-la
deixou-o desconcertado. Ela estava ainda mais bonita do que ele
se lembrava ou imaginara. Vendo que ele não se decidia, ela repetiu
a pergunta:
- O que faz aqui, Júlio?
Antes de responder, ele ouviu a voz de Cléia:
- Quem é, minha filha?
- Um amigo - respondeu ela, passando para o lado de
fora e fechando a porta atrás de si. - Muito bem, Júlio, vai me
dizer ou não por que veio aqui?
- Eu... - balbuciou ele. - Precisava lhe falar.
- Depois de tantos anos, não imaginava que você ainda
tivesse algo a me dizer.
Ele não respondeu. Seus pensamentos rodavam em torvelinho.
Queria falar de Régis, no entanto sentia aflorar a velha paixão
- E então? - prosseguiu ela. - Estou esperando. A que
devo sua visita?
- Geórgia, por favor, não me leve a mal. Eu tinha que vê-la.
- Por quê? Não vá me dizer que está arrependido, depois
de tantos anos.


- Não se trata disso. Quero dizer, não sei se estou arrependido.
Antes de ver você, pensava uma coisa. Agora, estou confuso.
- Não estou entendendo, Júlio. Você está casado, tem uma
família. Por que veio me procurar?
- E você? Também se casou?
- Não interessa.
- Sei que você não se casou. Por quê?
- O que você está pretendendo, afinal? Aparece aqui,
depois de vinte anos, com perguntas infantis. O que deu em você?
- Precisava vê-la, já disse.
- Por quê? Vai me dizer que se divorciou e quer me compensar
por tudo o que fez?
- Não foi isso que vim lhe dizer, mas essa é uma verdade.
- Era só o que me faltava, Júlio.
- Você está linda - comentou ele embevecido, alheio ao
espanto dela. - Mais do que nunca.
- Pare com isso. Não quero mais ouvir essa baboseira. E
não me leve a mal, mas é muito atrevimento seu aparecer aqui
assim, de repente, falando coisas sem sentido.
- Você me odeia, não?
- Não. Mas também não quero me aproximar de você. Seja
o que for que veio me dizer, não me interessa.
- Eu a fiz sofrer tanto assim?
Geórgia olhou-o abismada. Não compreendia o que ele estava
fazendo. Só podia pensar que Bianca houvesse lhe dado o fora
e ele agora corria para ela, na tentativa de reaproximar-se para não
ficar sozinho.
- Olhe, Júlio, não sinto raiva de você. Na verdade, não sinto
nada. O que se passou entre nós está acabado. Ficou enterrado
no passado. Quer saber se custei a me refazer? Custei. Mas o meu
filho me deu forças. E, agora que estou refeita, não preciso de
você para bagunçar a minha vida.
- Você ainda se importa comigo. Se não se importasse, não
teria medo de que eu bagunçasse a sua vida.
349


- Você está confundindo as coisas. Disse que você poderia
bagunçar a minha vida, não os meus sentimentos. Tenho um
filho que nada sabe sobre o passado. Por enquanto, gostaria de
deixar que as coisas permanecessem assim.
Ela lhe deu as costas, colocando a mão na maçaneta para
abri-la. Júlio, porém, percebendo que ia perdê-la, segurou-a pela
outra mão e falou emocionado:
- Conheci o seu filho. Na verdade, foi para falar dele que
vim até aqui.
Ela estacou assustada. Voltou-se para ele lentamente, tentando
imaginar o que ele queria dizer.
- O que isso significa?
- Conheci Régis. É um bonito rapaz.
- Como ousa se aproximar do meu filho? Depois de tudo o
que fez, que direito tem de tocar no nome dele?
- O direito de pai.
- Pai? - indignou-se. - Que absurdo é esse agora? Régis
nunca foi seu filho.
- Talvez você não saiba, mas Régis está namorando a
minha filha.
Foi como se uma montanha inteira desabasse sobre ela.
Geórgia sentiu uma tonteira absurda, que a obrigou a sentar-se no
degrau para não cair.
- Sua filha? - repetiu atônita. - Natália é sua filha?
- Vejo que a conhece.
- Não é possível. Isso é alguma brincadeira?
- Não é brincadeira. É fato. Assim como você, fiquei surpreso
e contrariado.
- Contrariado?
- Acho que esse namoro não é do interesse de nenhum de
nós dois. Por isso, vim procurá-la. Talvez você me ajude a separá-
-los sem que precisemos lhes contar sobre nossa relação.
- Não acredito! Pensa mesmo que eu faria isso? Caso você
não saiba, Régis e Natália estão apaixonados. Eles se amam!
350


- Eles não podem ficar juntos.
- Por que não?
- Você ainda pergunta? Depois de tudo, seria um desastre.
- Por quê? Porque o pai dele era um estuprador que morreu
de overdose? Porque você foi preconceituoso o bastante para não
aceitar criar o filho desse homem? Porque não me amou o suficiente
para respeitar minha decisão? Ou porque não quer admitir
que é fraco, covarde e fútil?
- Geórgia, por favor, precisamos ser racionais.
- Quem não está sendo racional é você. Quer interferir no
destino de dois jovens para acobertar sua covardia.
- Não posso acreditar que você concorda com esse namoro.
- Não tenho que concordar nem discordar. Eles se escolheram.
Não é problema meu.
- Seja razoável, Geórgia. Esse namoro não pode dar certo.
- Você ainda não me apresentou um bom motivo para que
não dê certo, além do seu preconceito, da vergonha, do medo.
Você me abandonou, Júlio. Foi a sua escolha, e eu aceitei. Agora
assuma o que fez. Não me peça para interferir na relação deles só
para proteger a sua imagem. Não farei isso.
- Só você não vê que eles vão ser infelizes.
- Você está sendo egoísta. Está pensando em si mesmo,
nos seus valores distorcidos. O que aconteceu entre nós não tem
nada a ver com eles.
- Minha filha não vai se casar com um rapaz de origem
obscura - falou entre os dentes, tentando conter a raiva. - Ela
merece alguém à altura, um homem formado, de boa família.
- Você está querendo dizer que minha mãe e eu não somos
uma boa família?
- Não é isso. Você entendeu errado. O que quis dizer foi
uma família completa, bem constituída.
- Como a sua? Você e Bianca são felizes? Vivem bem? Dão
bons exemplos a suas filhas?
- Isso não vem ao caso.
351


- Por quê? Porque se trata de você? Você é diferente de
mim, das outras pessoas? Pois fique sabendo que a minha família
é completa e bem constituída sobre valores morais sólidos. E a
sua? Se sua moral continua como antes, então sou eu quem deve
temer que meu filho entre para a sua família.
- Calma, Geórgia. Não vim aqui para brigar.
- Não estou brigando. Estou sendo sincera. Considero-o
um homem fútil, sem valor moral algum, preocupado com as
aparências, cheio de preconceitos e ilusões.
- Você está me julgando.
- Pode ser. Mas tenho motivos para isso. E, mesmo assim,
não me oponho a que meu filho namore a sua filha.
- Pois eu me oponho. Não o quero perto de Natália nem na
minha casa. Diga isso a ele, ou eu mesmo o porei para fora.
Geórgia nunca sentira tanta raiva em sua vida, sentimento
com o qual nem estava acostumada. Ouvir Júlio falar de Régis
como se ele fosse um marginal era um absurdo tão grande que ela
não conseguiu se conter. Mas não era de seu feitio irritar-se. No
momento em que percebeu que corria o risco de desequilibrar-se,
retrocedeu, fazendo breve oração.
- Não temos o poder de decidir a vida deles - ponderou,
um pouco mais calma. - Eles são adultos, têm o direito de escolher
o rumo de suas vidas. E colocar Régis para fora de sua casa
não me parece coisa de um homem civilizado como você.
Tocado pela vibração energética da oração, Júlio também
se recompôs. Respirou fundo, sentindo-se presa de sentimentos
contraditórios. Ao mesmo tempo em que gostaria de aproximar-se
de Geórgia, sentia imensa repulsa pelo filho dela.
- Desculpe-me, Geórgia, eu me excedi. Não devia ter dito
o que disse, muito menos para você, que sempre foi boa e não
merece ser desrespeitada.
- Júlio, pense bem. Régis pode não ser o rapaz que você
sonhou para sua filha, mas é honesto e trabalhador. E nunca lhe
fez nada. Ele não tem culpa do que me aconteceu.
352


- Você não entende - choramingou ele. - Ele representa
tudo o que eu não pude ser.
- Não. Não compreendo o que diz.
- Olhando para ele, tenho que aceitar minha covardia,
meu medo, minha vergonha. Todas as coisas de que você falou e
estão certas. Se Natália descobrir o que houve entre nós, nunca
irá me perdoar.
- Você pretende esconder o seu passado fazendo-a sofrer?
- Não quero fazê-la sofrer. Quero poupá-la.
- Você quer poupar a si mesmo, segundo suas próprias
palavras. Não faça isso, Júlio. Você não pode desfazer o que fez,
mas ainda é tempo de assumir suas atitudes. Foi a sua escolha,
aprenda a conviver com ela. Eu mesma nunca lhe cobrei nada. A
cobrança que você faz está aí, dentro de você.
- Você ainda está magoada comigo. E com razão.
- Peço que me perdoe se pareci assim. Por momentos,
pode ser que eu tenha fraquejado. Mas reconheço que você não
teve culpa de nada. Cada um de nós agiu conforme seu amadurecimento.
Não tenho o direito de lhe cobrar uma atitude que você
não podia ter, assim como sei que, de alguma forma, atraí o que
me aconteceu. O magnetismo que exerci sobre os acontecimentos
tem uma razão de ser, embora não a compreenda nesse momento.
- Ah! Geórgia, por que as coisas não puderam ser diferentes?
Por que tivemos que passar por tudo isso?
- Nossas opções diante da vida nem sempre estão muito
claras. Acredito que, um dia, todas as verdades se revelarão. Por
isso, precisamos confiar na sabedoria e no amor de Deus.
- Não sei se conseguiria conviver com isso - confessou
ele, com desgosto. - Toda vez que olhar para Régis, me lembrarei
de nós dois.
Calou-se, engolindo um soluço. Geórgia sentiu uma certa
piedade por aquele homem transtornado pela culpa e pelo remorso,
certa de que, no final das contas, fora ela quem menos sofrera.
353


Ao menos, tinha o coração limpo, acreditava na vida, tinha fé em
Deus. E Júlio, o que possuía além de um punhado de ilusão?
- Deixe de lado o orgulho - aconselhou ela. - É por causa
dele que você não consegue aceitar. E a culpa não vai fazer diminuir
a dor. Arrepender-se sempre é bom, mas deixar-se paralisar
pelo remorso não é produtivo.
- Você fala com sabedoria, mas eu não estou à sua altura.
Por isso, recolho-me à minha condição de homem mundano e
aceito minha imperfeição. Eu ainda dou valor às aparências, sim,
porque considero importante ter uma posição de respeito dentro
da sociedade.
- O respeito se conquista pelas boas atitudes, pela dignidade,
não pelas aparências, que são ilusórias, falsas. E quando
reveladas, produzem resultados avassaladores.
- Gostaria de pensar como você, mas não consigo. Klão
quero perder o respeito da minha filha, por isso Régis deve se
manter longe dela.
- Sinto muito. Se você insiste nisso, não posso ajudá-lo. Adeus
Dessa vez, Júlio não a impediu. Não tinha mais o que dizer
Sofria imensamente. Vê-la causou-lhe uma comoção inesperada
Não fosse aquele filho, arriscaria reconquistá-la. Por um momento,
perguntou-se o porquê de tudo aquilo. Régis nunca lhe fizera
nada, por que tanta repulsa? Não sabia. Simplesmente, se acostumara
a odiá-lo.
354

capitulo
40
Logo após o carnaval, o clima na casa de Natália era dos
mais tensos.
- Você vai voltar comigo para São Paulo! - esbravejava
Júlio. - As aulas já começaram, você não tem mais o que
fazer aqui.
Você não pode me obrigar a ir - rebateu Patrícia. - Meu
lugar é aqui.
- Não era o que você pensava até há bem pouco tempo.
Por que mudou de ideia?
- Gosto de morar com Natália. E ela não se importa, não é,
Natália?
Natália ergueu as sobrancelhas, contrariada por ter sido
envolvida na conversa.
- Acho que papai tem razão - ponderou. - Você está
perdendo aula. E, a essa altura, é tarde para encontrar um novo
colégio.
- Que nada! - objetou, irritada. - Pagando, papai arranja
vaga em qualquer escola. E vou escolher uma aqui perto.
O que não entendo é esse seu súbito interesse. Logo
você, que sempre gostou de coisas finas. Não seria mais lógico ir
morar com mamãe na zona sul?


- Não tem nada de bom lá. Aqui é muito mais divertido.
- Não importa onde é mais divertido - contrapôs Júlio,
com veemência. - Você vai embora comigo e pronto. E se Natália
não estivesse com emprego e faculdade, iria também.
- Eu? - espantou-se. - Que novidade é essa agora?
- Em São Paulo você poderia arranjar coisa melhor.
- Está se referindo ao Régis? O que foi que ele lhe fez para
você não gostar dele?
- Nada. Só que você merecia um rapaz à sua altura.
- Também acho - concordou Patrícia, irônica. - Régis é
bonito demais para você.
O olhar de reprovação de Natália a fez calar-se. Júlio, porém,
continuou a falar:
- Não sei onde errei com vocês duas. Minha filha mais
velha se apaixonou por um joão-ninguém, e a mais nova está
querendo se perder. O que está acontecendo?
- Deixe de dramas, papai - protestou Patrícia. - Natália e
eu estamos apenas querendo viver as nossas vidas. Você é muito
careta, acha que tudo está errado.
- Chega dessa discussão! Em Natália, não posso mandar,
mas em você, Patrícia, mando, sim. Você vai voltar comigo para
São Paulo e pronto!
Encerrada a discussão, Patrícia foi para o quarto, batendo a
porta. Na mesma hora, veio a vontade da droga. Será que estava
se viciando? Tinha medo de se viciar, contudo Bira lhe garantira
que aquilo não aconteceria. Dera-lhe a coca para cheirar algumas
vezes, mas ele mesmo não a usava.
"Acho melhor resistir", pensou. "Se usar toda hora, vou acabar
me viciando".
Pelas paredes, ainda ouvia partes da discussão entre Natália
e o pai. Aproveitando que eles não prestavam mais atenção a
ela, saiu de mansinho. Ninguém a viu passar pelo corredor em
direção à cozinha. Abriu e fechou a porta com cuidado, para não
atrair a atenção dos dois. Assim que saiu do elevador, viu Régis
356


pela vidraça da portaria. Antes que ele apertasse o botão do interfone,
ela abriu a porta para ele,
- Olá, Régis - cumprimentou com um sorriso sedutor. -
Veio ver a Natália?
- O que você acha?
- Ela está discutindo com papai por sua causa.
- Por minha causa?
- Não sabe que papai não gosta de você?
- E você conhece o motivo?
- Nem desconfio. Mas, se você quiser, posso descobrir.
Ela disse isso com um olhar malicioso, aproximando dele os
lábios em chamas. Régis a repeliu com impaciência, porém sem
agressividade.
- Aonde você vai? - questionou sério.
- Dar uma volta,
- Sozinha?
- Eu nunca ando sozinha. Mas, se você quiser vir comigo,
posso trocar a companhia.
- Vou lhe dar um conselho, Patrícia. Afaste-se de Bira. Ele
é perigoso.
- Bira é um amor. Me trata feito uma rainha.
- Já vi rainhas mais bonitas do que você acabarem mortas,
largadas na sarjeta. É o que quer?
- Quanto drama! Bira jamais faria isso comigo. Ele gosta
de mim.
- Bira não gosta de ninguém a não ser de si mesmo. Ele
usa as pessoas, está usando você. Quando enjoar, vai descartá-
-la. E, se ele achar que você sabe muito dos negócios dele, vai
mandar apagar você. Quer correr esse risco?
- Não acredito. Está falando isso porque está com ciúme.
- De você? Não seja ridícula.
- Posso ser ridícula, mas é de mim que Bira gosta. E você?
O que tem a ver com ele?
- Nada que lhe interesse.
357


- Imagino que sejam negócios bem mais escusos do que o
meu. Bira me disse que você trabalha para ele,
- Ele está mentindo.
- Será? Minha irmã sabe de sua amizade com ele?
- Não tenho amizade com Bira, portanto não há nada que
Natália deva saber.
- Nossas vidas são cheias de mistério - ironizou. - Vamos
fazer o seguinte: você não conta o meu segredo, e eu não conto o
seu. Ficamos quites
- Não me importo com segredos, mas me importo com
você. Não quero que nada de mau lhe aconteça.
- Por quê? Gosta de mim?
- Você é irmã da mulher que eu amo. Natália gosta de você,
e isso é suficiente para eu me preocupar.
- Quanta gentileza. Mas não precisa. Dispenso a sua preocupação.
E agora, se me der licença, preciso ir. Bira está me
esperando.
Com seu jeito provocativo, Patrícia passou, roçando de leve
o corpo no dele. Régis queria impedi-la, contudo não tinha mais o
que fazer. De onde estava, ficou olhando-a se afastar. Em seguida,
entrou no elevador para subir. Tocou a campainha e esperou até
que a própria Natália veio abrir.
- Régis! - surpreendeu-se. - O que faz aqui?
- Não posso mais visitar minha namorada?
- É claro que pode - tornou ela, confusa.
- Não vai me deixar entrar?
Natália chegou para o lado, dando-lhe passagem. Júlio ainda
permanecia na sala, agora em conversa mais amena com a filha.
Ao ver Régis, seus ânimos se atiçaram. Tentou não deixar transparecer
a raiva e falou com o máximo de educação que conseguiu:
- O que faz aqui?
- Bom-dia para o senhor também, seu Júlio - disse Régis,
com uma pontada de arrogância. - Vim ver Natália.
358


- A portaria estava aberta? - indagou ela, para esfriar um
pouco os ânimos, - Essa gente não tem cuidado. Na hora em que
entrar um ladrão...
- Patrícia abriu para mim - interrompeu ele.
- Patrícia? - espantou-se Júlio. - Ela saiu?
- É o que parece.
- Onde será que essa menina foi? Ela estava aqui agorinha
mesmo!
- Deixe-a, pai - aconselhou Natália. - Ela está aborrecida.
Daqui a pouco passa, e ela volta.
- Vou atrás dela.
O que Júlio queria era evitar um confronto com Régis, temendo
que ele estivesse ali por causa de seu encontro com Geórgia.
- Seu pai não gosta mesmo de mim - comentou Régis,
que nada sabia da conversa dele com sua mãe.
- Ele está com ciúme. Sabe como os pais são ciumentos
com as filhas.
- Não sei, não, Acho esse ciúme um pouco exagerado.
- Você ainda não me respondeu por que veio aqui.
- Estava morrendo de saudade de você. Não a vi o dia inteiro
e queria ver se conseguia me entender com seu pai, mas já
percebi que não dá.
- Papai está preocupado com Patrícia. Ela agora cismou
que não vai voltar para São Paulo. Essa menina é um problema.
- Você sabe quem são as amizades dela?
O tom de voz dele lhe causou estranheza. Régis falava como
se conhecesse fatos que ela desconhecia.
- Não - respondeu ela, desconfiada. - Por quê? Você
sabe de alguma coisa?
- Não. Perguntei por perguntar.
- Pelo amor de Deus, Régis, se você sabe de alguma coisa
errada que Patrícia esteja fazendo, por favor, me conte! Papai
precisa saber.
359


Contar sobre a amizade dela com Bira era muito perigoso.
Provocaria sérios questionamentos para os quais ele não teria
respostas satisfatórias. E colocaria tudo a perder.
- Não sei de nada - respondeu, tentando parecerfirme. - Eu
só falei porque Patrícia me parece uma menina ingênua e deslumbrada,
que poderia facilmente ser enganada por qualquer malandro.
- Você está me enganando - afirmou ela, categoricamente.
- Sabe de alguma coisa e não quer me contar.
- Não é nada disso. E seu pai não foi atrás dela? - Natália
assentiu. - Então, você não tem com o que se preocupar.
- Acho que tem razão. Estou me preocupando à toa. Patrícia
é desmiolada, mas é boa menina. Não se meteria em encrencas.
Régis não disse nada. Abraçou-a com força, temendo que
ela sofresse ao descobrir a verdade.
- Minha querida, você nada conhece de mim - afirmou
ele, alisando seus cabelos. - Tenho medo de lhe causar alguma
decepção.
Por que está me dizendo isso? - estranhou ela, fitando-o
com ar de assombro. - O que está acontecendo?
- Nada. Mas a vida é cheia de surpresas, algumas ruins. Se
algo me acontecer, quero que saiba que a amo muito.
- O que poderia lhe acontecer? - Ele não respondeu.
- Por Deus, Régis, está me assustando!
- Não quero assustá-la. Quero apenas que você esteja
preparada para o futuro
Que futuro? Não entendo o que você está falando.
- Deixe para lá.
- Não. Quero saber. Que conversa é essa?
- Nada... É que eu não sou tão bonzinho como você pensa.
- Como assim? Você é algum marginal, por acaso? É bandido
e está me enganando?
- Não. Só que fiz algumas coisas no passado das quais
hoje me arrependo.
360


- Seu passado não pode estar tão longe assim. Você é
muito jovem, portanto, seja lá o que for que tenha feito, foi praticamente
no presente. O que foi? O que você fez?
- Nada. Esqueça.
- Não dá para esquecer. Você começou a falar, agora termine.
Ele a olhava com desespero, arrependido por ter tocado
naquele assunto. Mas andava agoniado com a pressão de Bira,
vendo aproximar-se o momento em que teria de fazer o que ele
queria. Temia que algo saísse errado, que Natália descobrisse seu
envolvimento com o traficante, que ele levasse um tiro da polícia.
Era uma atividade arriscada, contudo Bira não lhe deixava escolha.
- Não pense mais nisso - pediu ele, beijando-a levemente
nos lábios. - Eu a amo. Haja o que houver, sempre irei amá-la.
- Agora estou realmente assustada. Se você me ama de
verdade, vai confiar em mim e me contar tudo.
Ele hesitou. Por mais que a amasse, tinha medo da reação dela.
- Não posso lhe contar - gaguejou ele. - Peço apenas
que confie em mim. Eu jamais faria qualquer coisa que pudesse
magoar você.
, - Não estou gostando nada disso, Régis...
- Tenho que ir. Perdoe-me, Natália, mas preciso ir embora.
Eu a amo. Sempre a amarei.
Com um abraço apertado, despediu-se, deixando-a parada no
meio da sala, totalmente atônita. Saindo do apartamento dela, voou
para casa com os olhos rasos d'água. Bira o procurara de novo
na véspera, insistindo na intermediação da venda da droga ainda
naquela semana. Ele estava desesperado, sem saída. Pressionado,
temia por sua vida e pela vida das pessoas que ele amava.
Régis entrou em casa como se estivesse retornando de um
enterro. Logo que o viu, Cléia se assustou:
- O que foi que houve, Régis? Por que essa cara?
361


- Nada, não, vó. Está tudo bem. E mamãe, onde está?
- Foi farmácia e ao mercado. Não quer me contar o que
aconteceu?
- Não foi nada, já disse. Está tudo bem - ele a beijou na
testa. - Não se preocupe.
Sem saber o que fazer, tornou a sair. Ainda era sábado, mas
Bira o pressionava desde a quarta-feira de cinzas. Precisava dar
uma volta para esfriar a cabeça. Enquanto caminhava, viu Alex no
centro da praça, gargalhando com sua turminha de viciados. Para
seu desagrado, Alex o avistou, vindo em sua direção.
- E aí, sumido? - cumprimentou. - Tudo bem?
- Tudo.
- Bira está meio chateado com você.
- Problema dele.
- Eu não falaria assim, se fosse você. Bira é um cara legal,
está lhe dando um monte de chances. No seu lugar, eu não as
desperdiçaria.
- Ótimo. Peça a ele para tomar o meu lugar.
- O que deu em você, Régis? Ficou mal-humorado de repente.
É aquela garota? - Ele não respondeu. - Mulher é um problema.
É por isso que não me amarro em nenhuma. Elas só servem
para transar. Você devia fazer a mesma coisa. Livre-se dela. Bira
agora está com uma guria gostosinha. Aposto como arranjaria
uma igual para você.
- Escute aqui, otário - revidou com fúria, agarrando-o
pela gola da camisa. - Nunca mais pense em falar da minha
garota outra vez. E a menina de Bira é só uma criança. Não quero
nada com crianças.
- Tudo bem - tornou Alex, tentando soltar os dedos dele
de sua camisa. - Não precisa ficar irritado. Eu só não compreendo
o que deu em você para mudar tanto.
- Mudei, sim, e daí? Sou outro homem agora. Não quero
mais saber de traficantes.
362


- Está perdendo uma grande oportunidade. Não sei por
que, mas Bira se amarra em você.
- Ele não se amarra em ninguém. Ele usa todo mundo,
assim como está me usando, como usa você. Já estou farto disso.
- Devia ter mais cuidado com o que diz. Bira pode ficar
sabendo e não gostar.
- Só se você for correndo contar para ele. Vamos, pode ir.
Não é isso que quer? Cair nas boas graças do chefão?
- Você pensa que é melhor do que nós, não é mesmo? -
retrucou com raiva. - Só porque é modelo, se julga importante.
Pois fique sabendo que você não tem nada de especial. É só um
garotinho arrogante e cheio de pretensões. Pensa que é muito
bom, mas é um marginalzinho disfarçado. E, no dia em que sua
namorada descobrir, adeus paixão.
Por pouco, Régis não acertou um murro na cara de Alex. Teria
mesmo feito isso se não avistasse a mãe passando pelo outro lado
da rua, carregando duas sacolas de compras. Não queria que ela
percebesse o que estava acontecendo.
- Suma da minha vista! - disse irritado. - Você não é
ninguém para falar assim comigo.
Régis afastou-se de Alex, atravessando a rua em direção à
mãe. Do outro lado, Alex o fitava com um sorriso irônico nos lábios.
Se continuasse daquele jeito, Régis poderia dar adeus à família.
Depois que perdesse tudo, se despediria também da vida. Era
assim que Bira trabalhava, e era bem feito.
Régis alcançou a mãe em instantes, tomando as sacolas de
suas mãos.
- Com quem estava falando, meu filho? - indagou ela.
- Com Alex.
- Sei que você conhece Alex a vida inteira, mas ele não é
companhia para você. Acho lamentável que ele tenha se entregado
ao vício.
- Não se preocupe com isso, mãe. Alex e eu não somos
mais amigos.
363


- Sinto pena dele, mas não acho que você deva se envolver.
Tenho orado bastante para que ele encontre o caminho certo.
A bondade da mãe encheu Régis de vergonha. O que ela diria
se soubesse? Mas Régis não era o único que tinha coisas a esconder.
Geórgia também amargava a dúvida se devia ou não contar
a ele a verdade sobre seu passado. Desde que Júlio a procurara,
alguns dias antes, vivia imenso conflito. Cléia a aconselhara a se
abrir, contudo não tinha coragem.
- Como está indo seu namoro com Natália? - perguntou.
- Bem - respondeu ele, inseguro.
- Não senti firmeza na sua voz. Aconteceu alguma coisa?
- Não. É só que o pai dela não gosta de mim.
- Por quê?
- Não sei ao certo. Parece que tem preconceito contra modelos.
Queria que ela namorasse um doutor.
- Você gosta mesmo dessa moça, não é?
- Eu a amo.
- Você ainda é muito jovem para saber o que é o amor.
- Está enganada. Meu amor por Natália é verdadeiro.
Parece que a amo há muito tempo.
- Pode ser. Mas, se o pai dela não gosta de você, será que
é boa ideia vocês continuarem namorando?
- Não acredito que você vai dar razão a ele!
- Não vou. Só não quero que você sofra.
- Vou sofrer muito mais se me afastar de Natália.
- Está bem, meu filho. Não precisa se aborrecer.
- Eu nunca me aborreço com você, mãe. Amo-a demais.
- Sei disso. Também o amo muito. É por isso que fico
preocupada.
- Se você arranjasse alguém, talvez não se preocupasse
tanto.
- Que história é essa agora?
- Sério, mãe! Você é uma mulher bonita. E jovem ainda.
Nem parece que tem quarenta e cinco anos.
364

- Não precisa espalhar - gracejou ela.
- Você passou a vida inteira cuidando de mim. Está na hora
de pensar um pouco em si mesma.
- Não posso, Régis. Desiludi-me com a vida, ao menos no
que diz respeito à paixão.
- Você amava meu pai?
- Não - disse ela, após alguns minutos.
- Então, por que se envolveu com ele?
Ela não respondeu. Não conseguiu. Falar de Tácio ainda doía
muito. Queria dizer alguma coisa para satisfazer a curiosidade
dele, mas só o que conseguiu extravasar foram lágrimas.
- Não chore, mãe - arrependeu-se ele. - Não queria
trazer-lhe lembranças dolorosas.
- Ah! Régis! Se você soubesse o que eu passei...
- Eu sei, compreendo. Olhe, mãe, desculpe-me. Que droga,
não queria fazê-la chorar!
- Deixe para lá.
- Esqueça o que eu disse, está bem? Não tem importância.
- Eu o amo, meu filho. A gente se arrepende de muitas
coisas na vida, menos do amor que dá e recebe. E não me arrependo,
nem por um minuto, de ter tido você.
- Eu sei. Você foi muito corajosa. Criou-me sozinha, só com
a ajuda da vovó. Admiro-a e respeito-a por isso.
Silenciaram, cada qual imerso em seus próprios segredos.
365


Capítulo
41
Logo na segunda-feira seguinte, Júlio voltou sozinho para
São Paulo. Seus esforços para levar Patrícia foram todos em vão.
A menina se mostrava irredutível, ele não tinha força com ela. Por
mais que esbravejasse, Patrícia sempre conseguia o que queria. E
ainda contava com o apoio da mãe, que não via nada de mais no
fato de a filha estar perdendo dias preciosos de aula.
- Deixe de frescuras, Júlio - dissera Bianca. - Patrícia é
inteligente, logo recupera o tempo perdido.
- É, pai, quero ficar no Rio. Mamãe está vendo escola para
mim aqui perto.
Quem não ficou nada satisfeita foi Natália. A última coisa que
desejava era a irmã em sua casa. Não tinha, contudo, motivos para
expulsá-la. O apartamento era do pai, que acabou cedendo, como
sempre fazia.
- Está bem - resignou-se ele. - Já que não tem jeito,
pode ficar. Mas quero-a de volta à escola o mais rápido possível.
- Pode deixar - afirmou Bianca. - Ainda essa semana ela
já estará matriculada.
- Acho uma loucura o que vocês dois estão fazendo -
protestou Natália. - Trabalho o dia todo, tenho faculdade à noite.
Quem vai ficar de olho em Patrícia?


- Ninguém - ela apressou-se em responder, levemente
irritada, - Sei cuidar de mim mesma.
- Sua irmã já não é mais criança - ponderou Bianca, - E
depois, eu moro aqui. Qualquer problema, é só me ligar.
- Por que não vai morar com mamãe, então? - insistiu
Natália. - Ela não trabalha, pode cuidar de você.
- Porque não quero - objetou Patrícia, com veemência. -
Quero ser independente como você. E depois, pensei que você
gostasse de mim.
- Eu gosto. Mas é que você ainda é menor de idade. É muita
responsabilidade.
- Vai dar tudo certo, querida - intercedeu Bianca. - E você
pode me telefonar a qualquer hora. Ainda sou mãe de vocês duas.
Ficou acertado. Júlio retornou a São Paulo, e na segunda-
-feira, embora houvesse perdido vários dias de aula, Patrícia já
frequentava uma nova escola. Finalmente, estava livre para fazer o
que quisesse.
Régis também não recebeu bem a notícia. Vivia um momento
de angustiante pressão e a última coisa que desejava era ver
Patrícia nas mãos de Bira, manipulada para convencê-lo a agir.
Sentia-se, cada vez mais, premido pelas circunstâncias. Assim
que saiu do estúdio, viu o carro de Bira estacionado no meio-fio.
A contragosto, encamirihou-se para lá. Para seu alívio, o traficante
estava sozinho.
- Cadê a Patrícia? - questionou Régis.
- Não se preocupe com ela - foi a resposta fria. - Aliás,
quero que você pare de importuná-la. Não gosto que interfiram
nas minhas relações amorosas.
- Por favor, Bira, ela é só uma criança. Já não vou fazer
o que você quer? Por que não a deixa de lado e arranja outra?
Qualquer mulher ficaria louca por você.
- Acontece que eu gosto da menina. Agora pare com isso.
Patrícia não precisa de babá, nem eu, de conselheiro amoroso.
Meu negócio com você é outro. E então? Tudo pronto?
367


- Acho que sim.
- Quantos você conseguiu?
- Quase todo mundo. Fiquei de olho, joguei umas indiretas
e conquistei muita gente. O pessoal ficou doido para receber a
droga sem sair de casa.
- Você falou que é coisa boa?
- Falei.
- Ótimo. Você foi muito eficiente. Quando poderemos fazer
a primeira entrega?
- Isso depende de você.
- Quero que seja para logo. Acho que amanhã está bom.
- Você vai trazer a coca para mim, aqui?
- Não seja idiota. Não vou dar bandeira desse jeito. Se aparecer
a polícia, estamos fritos. Vamos marcar em um lugar seguro.
- Na sua casa?
- Está ficando bobo, Régis? Na minha casa é que não. Ou
você acha que eu vou arriscar expor meu esconderijo?
- Onde, então?
Bira olhou para o capanga da frente, que assentiu. Apanhou um
papel no porta-luvas, escreveu um endereço e estendeu-o a Régis.
- A que horas?
- Hum... Deixe ver - Bira consultou o relógio. - São dez
para as seis. Acho que à meia-noite está bom.
- Combinado. Meia-noite, em ponto, estarei lá.
- Até lá então. E, Régis, não tente me enganar. Tenho sua
avozinha na mira.
Régis desceu do carro, trêmulo de medo. Não temia por si,
mas pela vida de seus familiares.
- E então, chefe? - questionou o capanga. - Acha que
ele fez o troço direito?
- Não confio nele, mas vai fazer, com certeza. Ainda tenho
um trunfo nas mãos.
Os capangas riram debochadamente. Bira podia não confiar
em Régis, mas estava certo de que o prendia pelo medo. Em pouco
368


tempo, todos os idiotas com quem ele trabalhava estariam em suas
mãos também. Poderia, então, começar seus planos de campanha.
Esperava lançar sua candidatura já nas próximas eleições.
A caminho do ponto de encontro, Régis refazia toda a sua
vida, maldizendo o dia em que conhecera Bira. Mais ainda, a hora
em que resolvera ajudá-lo a se livrar da polícia. Agora, estava preso
a ele pelo resto da vida. Imaginava como faria para que sua família
e Natália jamais descobrissem em que ele andava metido.
Chegou ao local cinco minutos antes da hora aprazada.
Mal se percebia movimento na casa abandonada que serviria de
encontro. Era um casarão antigo, numa rua praticamente deserta.
No andar de cima, luzes de vela eram o único sinal de vida.
Régis sentiu um arrepio. Em uma situação como aquela,
alguns meses antes, Bira podia ter sido preso. Não fosse sua
intervenção, a polícia teria concluído seu trabalho, prendendo o
traficante e evitando que ele agora tivesse de passar pelo que
estava passando.
A passos hesitantes, Régis bateu na porta. Um dos capangas
abriu-a parcialmente, mandando-o entrar.
- Onde está o Bira? - questionou, desconfiado.
- Lá em cima. Estávamos esperando você.
Iluminando o chão com uma lanterna, o capanga conduziu-o
por um corredor comprido. Régis não estava gostando nada daquilo.
O lugar era ermo, sem vizinhança por perto. A casa imensa, cheia
de salas escuras. Régis seguiu o outro por uma escadaria sinistra,
chegando até o segundo andar, onde novo corredor se estendia.
O capanga conduziu Régis até um quarto amplo, cheirando
a mofo e poeira. Havia muitos anos que ninguém morava ali. O
cômodo estava praticamente desguarnecido de móveis, fazendo
ecoar suas vozes no vazio. Uma mesa de madeira fora colocada
bem no centro. Ao redor, cadeiras de praia haviam sido armadas
para dar lugar aos homens do traficante.
- E o Bira? - insistiu Régis, constatando que ele não estava
ali.
369


- Ele já vem. Está resolvendo um probleminha.
Os homens riram ao mesmo tempo, deixando Régis ainda
mais desconfiado. Temia uma armadilha. Mas por que Bira se
daria o trabalho de armar uma arapuca para ele se podia matá-lo
em qualquer lugar e a qualquer momento?
Na angústia da espera, mil situações passaram pela sua
cabeça. Os capangas o olhavam com ar enigmático, sem deixar
transparecer nenhuma emoção. Régis começou a impacientar-se.
Um nervoso atroz fez sua testa suar frio. As mãos também transpiravam,
revelando o temor que a situação lhe infligia. Não sabia o
porquê da demora nem o que estava acontecendo.
De repente, uma porta lateral se abriu. Era um quarto com
ligação, de onde surgiu Bira, apertando o cinto das calças. Atrás
dele, veio Patrícia, rindo maliciosamente, a blusa torta deixando à
mostra parte de seus seios rígidos.
- O que significa isso? - indagou Régis, atônito. - O que
ela está fazendo aqui?
- Calma - pediu Bira. - Ela está me fazendo companhia.
- Você devia estar em casa - censurou, dirigindo-se à menina.
- Como veio parar aqui?
- Bira me trouxe, ora - esclareceu ela, divertindo-se com o
desespero dele. - Natália estava dormindo, nem me viu sair.
- Vá embora - rosnou ele, segurando-a firmemente pelo
braço. - Saia daqui imediatamente.
- Me solta! - gritou ela. - Está me machucando.
- O que deu em você, Régis? - enfureceu-se Bira. - Solte
a menina.
Um dos capangas se aproximou, forçando Régis a largar o
braço de Patrícia. O homem puxou-a gentilmente, conduzindo-a
para fora.
- Aonde a está levando? - questionou Régis, apavorado.
- Preciso falar-lhe em particular - avisou Bira. - Daqui a
pouco, ela volta.
370


- O que está pretendendo? Não fiz o que você queria? Por
que a trouxe aqui?
- Você é um idiota, sabia? Acha mesmo que eu precisava
disso tudo só para lhe passar umas trouxinhas de coca? Marquei
esse encontro aqui só para lhe mostrar que eu estou no comando.
A menina está nas minhas mãos. Tenho todas as mulheres da sua
vida sob o meu domínio. Mãe, avó, namorada... e amante.
- Patrícia não é minha amante.
- Não é o que ela diz.
- Ela está mentindo.
- Pode ser. Patrícia é uma menina tola, mas muito experiente
quando se trata de dar prazer a um homem. Acho que você
sabe disso, não?
- Não sei de nada. Já disse que ela não é minha amante.
- Deixe de bobagens. Pensa que não sei que você já dormiu
com ela?
- Você está sendo irracional. Se eu houvesse dormido com
ela, não precisaria de Natália.
- Natália é boazinha, mulher para se casar. Mas Patrícia,
não. É mulher só de cama, não de mesa.
Ele riu de si mesmo, saboreando o pânico que nublava os
olhos de Régis. Bira fez um sinal para outro de seus capangas, que
se levantou e voltou momentos depois, com Patrícia e o outro sujeito.
- Muito bem. Agora vamos aos negócios. Já que está aqui,
não precisamos perder a oportunidade de você levar a encomenda,
não é? - ele estalou os dedos, e a droga logo apareceu em
suas mãos. - Coisa boa. Seus amigos não vão se arrepender.
No momento em que Bira entregava o pacote a Régis, ele
lançou um olhar de desespero a Patrícia, ia gritar para que ela
fugisse, mas não teve tempo. A porta do quarto se escancarou
com o pontapé da polícia, parecendo que um batalhão inteiro
entrava de armas em punho.
- Polícia! Todo mundo no chão!
Mãos na cabeça! Mãos na cabeça!
371


A reação da quadrilha foi inesperada. Sentindo que nada mais
tinham a perder, os homens de Bira responderam com fogo. Balas
espocaram, ricocheteando por todos os lados. Vidros estilhaçados,
cheiro de pólvora queimada, gritos de morte se misturando
no caos da guerrilha. No cômodo, apertado demais para servir de
campo de batalha, corpos começaram a tombar, ora da polícia,
ora dos traficantes.
Régis só teve tempo de se atirar no chão, protegendo a cabeça
com as mãos. Sentiu que um policial o segurava pelas pernas,
tentando puxá-lo para longe do fogo cruzado.
- Não! - esperneava. - Não! Patrícia! Onde está ela? Patrícia!
Não ouviu mais nada. Só o que sentiu foi uma ardência nas
costas, bem no momento em que erguia o corpo para escapar
das mãos do homem que o segurava. A vista nublou de repente,
a respiração tornou-se difícil. Em poucos segundos, tudo pareceu
parte de um sonho.
372

capitulo
42
Era um longo percurso até a ravina seca em que Damien se
escondera. Se quisesse, Tácio poderia ultrapassá-la com facilidade,
só usando a força do pensamento. Uriel havia passado horas ensinando-
lhe afazer isso. Não queria, porém, intimidar o companheiro.
O lugar estava praticamente deserto. Os espíritos que ali
se refugiavam eram arredios, assustados. Sempre que alguém
aparecia, eles fugiam apavorados. Demorou um pouco até Tácio
aldançar o esconderijo de Damien: uma caverna pequena, quase
imperceptível, perfurada na rocha úmida. Tão logo entrou, percebeu
que Damien não estava por ali.
Resolveu esperar. Algum tempo depois, Damien apareceu,
carregando nas mãos um punhado de coisas sujas e aparentemente
apodrecidas. Reparando melhor, Tácio descobriu que se
tratava de restos de trabalhos de magia que ele, provavelmente,
recolhera pelas esquinas.
Assim que entrou, Damien deu de cara com ele. Estacou rapidamente,
mas não se deteve no olhar. Passou por ele, depositou as
coisas em cima de uma mesa tosca e sentou-se de costas para ele.
- Por que voltou? - indagou, organizando suas novas posses.
- Vim ver como você está.
- Como achou que eu estaria?


- Na mesma. Por isso estou aqui. Quero levá-lo comigo.
- Só porque você se bandeou para o lado de lá não quer
dizer que tenho que fazer o mesmo - revidou com raiva, agora
encarando-o com uma certa fúria.
- Não, claro que não. Mas eu não me bandeei para o lado
de lá. Fui atacado por Atílio e seu bando. Tive que fugir.
- Viu só? Não lhe falei que era perigoso sair por aí sozinho?
- Aconteceu algo inusitado, Damien. Você nem imagina.
- O quê?
- Entrei na casa de Geórgia.
- Como é que é?
- Entrei na casa dela. Para fugir de Atílio, conseguiu atravessar
aquela barreira energética.
- Não me diga! - tornou, agora interessado. - Como isso
foi possível?
- Até agora não compreendi muito bem, mas acho que
minha energia se modificou, entrando em sintonia com a da casa.
- Eu devia imaginar uma coisa dessas. Sabia que você era
diferente.
- Somos todos diferentes. E podemos mudar. Por que você
não muda?
- Eu?! Era só o que me faltava. Há muitos séculos estou
condenado. Você sabe disso.
- Ninguém está condenado. Tenho aprendido tantas coisas
com Josué. Ele é um espírito de muita bondade e sabedoria. E sabe
aquela coisa de ter que reencarnar aleijado ou louco? - Ele assentiu.
- É tudo mentira. A gente é que escolhe como quer renascer.
- Se fosse assim, ninguém escolheria ser deficiente nem
pobre.
- Não é bem assim. Existe todo um aparato espiritual para
nos ajudar a escolher a melhor forma de aprender a lidar com as nossas
dificuldades. Opções nos são apresentadas, e nós escolhemos
a que mais convém a nossa consciência. Aprendi que os que vivem
situações difíceis na Terra ainda não conseguiram se perdoar.


- E você acha que eu vou conseguir me perdoar? Depois
de tudo o que fiz em vida e mesmo depois de morto?
- Nós podemos tentar alguma coisa juntos. Podemos
ser irmãos. Não precisamos reencarnar com nenhuma doença
Podemos escolher um caminho de mais esforço, com mais luta
pela sobrevivência, mas não de sofrimentos físicos ou mentais.
- Você seria meu irmão? - Damien surpreendeu-se.
- Seria, sem problemas.
A descoberta emocionou Damien, que olhou para ele com
olhos úmidos. Tácio sempre o surpreendia.
- Até que não seria má ideia - devaneou. - Voltar à Terra
como seu irmão pode ser bom.
- Mas eu quero ser o mais velho. Senão, você vai querer me
dar ordens.
Damien jogou a cabeça para trás e soltou uma gargalhada.
Era a primeira vez em muito tempo que ria com vontade.
- Imagine se alguém ia querer ter nós dois como filhos
- duvidou.
- Isso a gente arranja. Podemos voltar junto de Régis. O
que você acha?
- Eu, hein! Atílio vai perturbar todo mundo, inclusive nós dois.
- Acho que não. Atílio está perdendo poder. E, se você se
aliar a nós, acho que conseguiremos vencê-lo.
- A nós? repetiu surpreso
- A Josué e a mim.
- Você agora virou amigo de Josué?
- Virei. Ele é muito legal, como já lhe falei.
- Legal, sei.
Por que não acredita? Acha que eu mentiria para você?
Depois de todos esses anos juntos, ainda não confia em mim?
- Confio - respondeu sem titubear. - Se há alguém nessa
vida em quem confio é em você.
- Então? Vamos tentar. Tenho certeza de que nossos projetos
para uma nova vida serão aprovados.
375


- Você ainda não me respondeu quem serão nossos pais.
Mizael e Natália é que não.
- Você sabia que Natália é a mesma Nora que Atílio o
mandou procurar?
- O quê? Ela estava ali o tempo todo, perto de nós? - Tácio
assentiu. - E eu nem desconfiei.
- Pois é. Nora e Mizael se amam há muitas vidas. Mas é
cedo para retornarmos junto a eles. Podemos marcar para a geração
seguinte. Que tal sermos seus netos?
- Estranho, Tácio. Qual é a sua relação com Mizael?
- Sou o pai dele.
- Não. Quero dizer, de outra vida. Que ligação tem com ele?
- Nenhuma. Conheci-o quando ele nasceu. Por quê? Isso
é importante?
- Acho que não. Também não conhecia você antes e nos
demos muito bem.
- Podemos construir uma vida para o futuro. O que você acha?
- Pode ser uma boa ideia. Só não sei o que Atílio pensa disso.
- Deixe Atílio para lá. Ele já era.
- Como assim, já era? Quando ele souber que vamos ser
irmãos, vai fazer de tudo para nos prejudicar.
- Só se permitirmos. Mas, se nos ligarmos às forças do
bem, ele nada poderá contra nós.
- Parece que você já está convencido disso. A mim, ainda
me falta coragem.
- Seu problema é que você se acostumou a temer Atílio. Se
ele fosse tão poderoso assim como você pensa, teria me prendido
lá na Terra e já teria mandado buscar você. No entanto, nada tem
feito contra nós.
- E se ele estiver planejando alguma coisa? Você não acha
que ele vai aceitar passivamente a derrota, acha? Pensa mesmo
que ele vai entregar o queridinho dele de mão beijada para o
pessoal da luz?
376


- Ele não tem que entregar ninguém. Caso ele ainda não
tenha percebido, Régis não lhe pertence mais. Na verdade, nunca
pertenceu.
- Por que será que ele mudou tanto? Atílio o preparou tão bem!
- Atílio não contava com uma coisa fundamental. Mandou-o
para a luz, onde ele teve contato com a sabedoria que vem de
Deus. Já meio balançado pelas culpas, intimamente desejando
se modificar, Mizael retornou à Terra com a semente dos novos
valores prestes a brotar em seu coração. Envolvido, primeiramente,
pelo amor da mãe e da avó e, agora, pelo de Natália, foi aos
poucos se distanciando de Atílio e de seus planos malignos. Régis
não se harmoniza mais com ele.
Damien estava chorando, surpreso não apenas com a transformação
de Mizael, mas com sua própria mudança. Se antes desejava
levar o outro ao fracasso, agora só pensava em ajudar a si mesmo.
- Quero ir com você - afirmou, ainda meio indeciso. - A
seu lado, sinto-me fortalecido para enfrentar Atílio e sua horda de
assassinos.
- Não se esqueça de que já pertenceu a essa horda. E
lembre-se: não subestime o inimigo. Respeite-o, mas não o tema.
- Você está ficando sábio, Tácio. É Josué quem anda lhe
ensinando essas coisas?
- Pode-se dizer que sim. De resto, a vida aos poucos se
encarrega de clarear as verdades.
- E está ficando engraçado também. São as drogas?
- Não tenho mais sentido necessidade de me drogar. Faz
algum tempo que deixei de lado esse vício. Você sabe.
- Isso é muito bom. Você tem força de vontade.
- Temos que ter. Do contrário, o desânimo nos domina. E
você não quer ser dominado por ele, quer?
- Não.
- Então vamos. Já perdemos muito tempo aqui.
Tácio puxou-o pela mão, mas Damien não se levantou, olhando
discretamente para os elementos que havia recolhido.
377


- O que faço com tudo isso? - indagou.
- Sinceramente, Damien, para que você quer isso? Não
passa de lixo astral, nada que lhe faça bem.
- Tem energia aí. Pouca, mas tem.
- Você quer continuar mendigando? Isso são migalhas.
Podemos conseguir energia pura, limpa, reparadora, sem termos
que nos humilhar. Lá onde estou, todo o ar rescende à pureza.
Naturalmente, vamos alimentando nosso corpo de energia límpida.
Vamos, deixe isso aí. Logo tudo vai se desmanchar mesmo. - Ele
hesitou, e Tácio prosseguiu: - Você fala do meu vício, mas está
agindo igualzinho a um viciado.
- Não sou viciado - protestou irritado.
- Então vamos embora. Largue essa porcaria aí. É só energia,
vai se dissipar.
- Tem razão. Não serve para nada.
Damien deu um esbarrão na mesa, que virou, derramando
as coisas no chão. Aos poucos, a energia condensada dos
elementos foi se desprendendo, retornando ao cosmo em forma
de átomos astrais.
- Venha - chamou Tácio. - Chegou a minha vez de acolher
você.
Com a mão sobre o ombro dele, Tácio conduziu Damien
para fora. Depois de alguns passos, seu pensamento os levou para
junto de Josué, que os aguardava num posto de auxílio próximo,
certo do sucesso da missão de Tácio. Antes de esvanecerem no
ar, Damien ainda conseguiu ouvir as últimas palavras de Tácio
naquele submundo de sombras:
- Vamos embora, irmão.
Foi a última e melhor lembrança que Damien guardou daquela
vida.
378


Seria preciso passar por um processo de recuperação para
reequilibrar o corpo fluídico de Damien, cuja vibração de sutileza
permanecia no campo mais denso da matéria astral. Mas Tácio
tinha razão. O ar ali em cima era mais benéfico, límpido. Quase um
banho de energia pura. E Josué se mostrava disposto a ajudá-lo a
restabelecer a autoestima e a compreender suas ilusões.
Mais do que tudo, o que estimulava Damien era a esperança
de reencarnar como irmão de Tácio. Só agora se dava conta do
quanto aprendera a amá-lo. Ser irmão dele seria uma experiência
gratificante, muito além do que julgava merecer.
No momento, ele e Tácio dividiam o mesmo quarto numa
espécie de alojamento. Tudo era muito claro, limpo, fresco.
Damien estava gostando imensamente daquela nova vida, evitando
pensar em Atílio para não cair em depressão,
Ele abriu os olhos em seu leito macio, de lençóis alvos e
perfumados. A cama ao lado estava vazia, sinal de que Tácio havia
saído. Damien espreguiçou-se e olhou pela janela, surpreso com o
sol brilhante e morno que se derramava sobre as flores do jardim.
Tudo ali era tão bonito, tão claro, tão diferente do submundo
governado por Atílio. Não se arrependia de ter partido. Um lugar
abençoado como aquele não se comparava às trevas amaldiçoadas
em que se permitira aprisionar.
Em poucos instantes, Tácio apareceu. Sorriu para ele, afagou
seus cabelos.
- Como se sente hoje? - indagou.
- Otimamente. Nunca vou deixar de lhe agradecer pelo
bem que está me fazendo.
- Não pense nisso. Você também me ajudou quando
desencarnei.
- Não fiz nada - tornou de olhos baixos, ruborizado. -
Acolhi-o por interesse.
- Ainda assim, me acolheu. Pode não parecer, mas foi a melhor
coisa que você podia ter feito por mim. Você não faz ideia do quanto
me ajudou. Isso nos tornou amigos. Somos amigos, não somos?
379


- Por toda vida.
- Viu só? Conquistei o seu amor. Não é melhor se aliar a
pessoas pelo amor do que pelo medo?
- Sem dúvida.
- Muito bem. Mas agora preciso sair. Vim lhe avisar que
tenho que retornar à Terra.
- Porquê?
- Régis foi baleado.
- O quê? Como?
- Num confronto entre a polícia e os traficantes.
- Ele vai sobreviver?
- É o que veremos agora. Estou indo com Josué e Uriel ao
hospital onde ele está internado.
- Quer que eu vá junto?
- Não precisa. Fique e descanse. Atílio deve estar por perto
também, e não queremos provocar uma guerra.
- Está bem. Mas tome cuidado.
A primeira coisa que Tácio viu quando chegou ao hospital foi
Atílio parado ao lado de Régis. O espírito não se deu conta da sua
presença. Agora vibrando numa frequência superior à do ser das
sombras, não era por ele percebido.
Do outro lado do leito, Geórgia e Cléia oravam em silêncio.
Estranhamente, a oração não incomodou Atílio, parecendo mesmo
que o confortava.
- O que está acontecendo? - Uriel indagou a Josué. -
Atílio parece estar gostando da prece.
- E está - esclareceu Josué. - Mesmo que disso não se
dê conta, a sensação de paz que está sentindo vai penetrando
todas as suas células astrais, injetando-lhe novas energias.
- Mas ele sempre detestou qualquer coisa que venha do
lado divino.
- Atílio pode se julgar perverso e durão, mas é uma
entidade humana, tem sentimentos e desejos. Seu amor por
Régis é verdadeiro. Nesse momento, não está interessado em
380


conduzi-lo pela estrada do crime. Está mais preocupado em
salvar-lhe a vida.
- Não seria melhor para ele que Régis desencarnasse? -
questionou Tácio. - A missão que lhe confiou está fracassada
Tê-lo de volta talvez seja de seu interesse.
- É e não é. Primeiro, porque Atílio não acredita no fracasso.
Segundo, e mais importante, é que o sofrimento de Régis o faz sofrer.
E tem a Natália. Ele a viu ainda há pouco, tão abalada que tocou seu
coração. Agora venha, Uriel, vamos ajudar como pudermos.
Enquanto Tácio se acomodava a um canto, Josué e Uriel
passaram a energizar o ambiente, espargindo no ar folículos de um
tom suave de verde, quase translúcido. Imediatamente, os presentes
foram atingidos por uma chuva de esmeralda, que fez dissipar
parte do esgotamento nervoso a que vinham sendo submetidos
nas últimas horas.
Tocado pelo efeito calmante da luz verde, Atílio começou a
chorar. Um pouco de longe, Josué fez chegar até ele formas energéticas
de revitalização. Percebendo a mudança no astral do
ambiente, Atílio levantou a cabeça, certo da presença invisível de
espíritos iluminados. A inquietação o fez recuar em direção à parede,
numa atitude claramente defensiva. No entanto, não se sentia
com ânimo para enfrentar nenhum espírito de luz. Por isso, de forma
inesperada, pousou um beijo delicado na testa de Régis e saiu.
Do lado de fora, os policiais se revezavam na vigília de Régis.
Embora não acreditassem em represálias, o mínimo que podiam
fazer era dar àquela mãe a certeza de que o filho não seria atacado
por nenhum marginal remanescente da quadrilha de Bira.
Joel entreabriu a porta lentamente, fazendo sinal para que
Geórgia saísse. Ela deixou Régis em companhia da mãe para
atendê-lo.
- Como ele está? - indagou, realmente preocupado
381


- Ele foi operado, mas os médicos ainda não sabem se vai
se recuperar. Se ele conseguir passar dessa noite, tem boas chances
de sobreviver.
- Dona Geórgia, estou aqui em nome da corporação para
lhe prestar nossa solidariedade. Todos reclamam da polícia, mas
há no nosso meio bons policiais que dão a vida no cumprimento do
dever. É em nome destes últimos que venho lhe falar e demonstrar
nossa eterna gratidão. Seu filho foi um verdadeiro herói. Arriscou
a vida para colocar na prisão um perigoso traficante, atrás do qual
estamos há muito tempo.
Enxugando as lágrimas em um lencinho de papel, Geórgia
encarou-o com a dor estampada no olhar. Quase sem voz, conseguiu
retrucar:
- Será que eu devia mesmo me sentir orgulhosa por isso?
Não quero um filho herói. Quero um filho vivo.
Compreendo a sua dor. Mas ele nos ajudou a desbaratar
uma quadrilha perigosíssima de traficantes de drogas.
- Se isso servir para que outras mães não passem pelo
que estou passando, então talvez eu sinta algum conforto. Do
contrário, não.
- Seu filho é um rapaz muito corajoso. E não digo isso
apenas pelo risco que correu ao delatar o traficante, mas pela
coragem que teve de assumir que foi o responsável pelo fracasso
de outra ação da polícia, que levou à morte, inclusive, uma mulher
inocente, nossa informante.
Foi por isso que Régis fez o que fez? Porque se sentia
culpado pela morte da moça?
- Exatamente. A senhora devia considerar isso como um
ato duplo de bravura.
Ela balançou a cabeça. Conhecia toda a história.
- Ele vai ser preso por isso?
- Não. Apenas eu ouvi essa parte da história e não vou contar a
ninguém. O que Régis fez compensou a inconsequência do passado.
382


Geórgia silenciou. Não sabia ao certo o que pensar. Por mais
que a quadrilha de Bira houvesse sido desfeita, havia consequências
que não poderiam ser apagadas. Nada jamais seria como antes.
- Obrigada pelo seu apoio - finalizou Geórgia. - Mas
agora preciso voltar para junto do meu filho.
- Está certo. Estarei por perto, se precisar. Aqui tem o
meu telefone.
Geórgia apanhou o cartão que ele lhe ofereceu. Com um
aceno de cabeça, rodou nos calcanhares e voltou para o quarto.
- Vá para casa, mãe - disse ela a Cléia. - Deixe que eu
ficarei aqui com ele.
- Não vou deixá-la sozinha.
- Nosso plano de saúde só dá direito a um acompanhante.
- Bom, se é assim, eu vou, mas só quando terminar o horário
de visitas.
- Isso vai ser daqui a menos de cinco minutos. Não se preocupe
comigo, vou ficar bem. Mas vou me preocupar com você se
não souber que está no conforto da sua cama. Você não tem mais
idade para esses sacrifícios.
- Não é sacrifício nenhum. E não sou tão velha assim.
Uma enfermeira apareceu na porta, anunciando o fim do
horário de visitas.
- Viu? - prosseguiu Geórgia. - Eu não falei?
Embora contrariada, Cléia foi para casa, não sem antes fazer
milhares de recomendações para que Geórgia lhe telefonasse em
caso de qualquer alteração. Acomodada num pequeno sofá embaixo
da janela, Geórgia custou a adormecer. Não parava de pensar
na tragédia que havia acontecido. Pensou em Natália, em Júlio, em
Bianca. Não gostava de Bianca, mas, como mãe, podia imaginar o
seu sofrimento.
Varou a noite pensando essas coisas, atormentada pelo
medo de que o filho morresse. Depois de tudo o que ela sofrera
para que ele nascesse, não poderia perdê-lo. A toda hora, rezava
para que Deus se apiedasse dela e de Régis, permitindo que ele
383


continuasse na vida. O dia já estava quase amanhecendo quando
ela, finalmente, pegou no sono. Mal havia cerrado os olhos quando
uma voz fraca e quase inaudível ecoou ao longe. Praticamente
imperceptível, teria passado despercebida, não fossem os ouvidos
treinados de toda mãe para reconhecer a voz de seus filhos:
- Mãe...
Geórgia abriu os olhos, logo se dando conta de que Régis a
chamava baixinho. Ela deu um salto do sofá e aproximou-se dele,
segurando-lhe a mão estendida para fora da cama.
- Graças a Deus, Régis! Você voltou.
- Que lugar é esse, mãe? - prosseguiu ele. - É um
hospital?
- Sim.
- Fui ferido? - Geórgia assentiu - E Bira? Foi preso?
- Ele foi morto. Junto com todos do seu bando.
- Morto... Como aconteceu?
- Foi uma troca de tiros. Não se lembra?
- Lembro... mais ou menos...
- Não importa, querido. Procure descansar. Acho que não
é bom você falar muito. Melhor chamar o médico.
- Espere um instante. Cadê a Natália?
- Esteve aqui mais cedo, mas precisou ir para casa. Disse
que vai voltar amanhã.
- E Patrícia? Ela também estava lá.
Geórgia não respondeu.
- Vou chamar o médico - falou laconicamente e saiu.
384

capitulo
43
Dentro do avião, Júlio não parava de chorar. Devia imaginar
que algo assim acabaria acontecendo. Não devia ter deixado
Patrícia sozinha no Rio de Janeiro. E logo com quem! Embora não
soubesse o que havia acontecido, tinha certeza de que a culpa era
toda de Régis. Corria sangue de viciado em suas veias. Duvidava
muito que ele não fosse viciado também.
, Quando finalmente conseguiu chegar à casa de Natália, ela e
Bianca choravam abraçadas na sala. Em sua profunda dor, juntou-
-se a elas.
- Onde está minha menina? - indagou com voz pungente.
- Quero vê-la.
- Ela está no IML21, pai - esclareceu Natália. - O corpo
ainda não foi liberado.
Ouvir Natália falar de sua filha como um simples corpo morto
lhe causou um desespero insuportável.
- Isso não pode ser verdade. É um pesadelo. Como uma
coisa dessas foi acontecer justo com a minha filha? Minha pequena
Patrícia, tão jovem, tão pura!
21 Instituto Médico Legal.


- Por favor, pai, procure se acalmar. Por enquanto, ainda
não sabemos de nada. Um policial ficou de vir aqui conversar
conosco. Estamos aguardando-o.
- Que policial, que nada! Quero ver a minha filha!
- Não adianta se desesperar - intercedeu Bianca. - Pensa
que já não fiz isso? Pedi, implorei, ameacei. Ainda devem estar
fazendo a autópsia.
- Como é que você consegue falar uma coisa dessas assim,
tão friamente? Será possível que nem a morte da sua filha faz você
se emocionar?
- Eu me emociono à minha maneira. Por que pensa que você
é o único que está sofrendo? Ela era mais minha filha do que sua.
- Isso é que não! - rugiu ele. - Você nunca a amou como
eu. A nenhuma das duas. Nem a Natália, que é nossa.
Na mesma hora em que falou, Júlio se arrependeu. Olhou de
Bianca para Natália, torcendo, desesperadamente, para que ela
não o tivesse ouvido. Tarde demais.
- O que isso quer dizer? - sondou ela, desconfiada. - Por
acaso Patrícia não era filha de vocês?
- Que bobagem, filhinha - intercedeu Bianca, chorosa. -
É claro que Patrícia era nossa.
- Por que então papai falou que eu sou de vocês. Dá a
entender que Patrícia, não. Por acaso ela era adotada?
- Não.
- Vocês estão me escondendo alguma coisa. Patrícia não
era sua filha, pai? É isso? Ela era filha de outro homem?
Com o desespero descendo em forma de lágrimas, Júlio
encarou a filha e rebateu amargurado:
- Não quero falar sobre isso agora. Eu não suportaria... -
calou-se, engolindo o pranto.
- Deixe estar, Natália. Estamos todos abalados, sofrendo.
Natália não disse mais nada. Em respeito aos pais, achou
melhor se calar. Permaneceu com eles num silêncio torturante,
interrompido, de vez em quando, por soluços dolorosos.
388


- Vou tomar um comprimido e me deitar - informou Júlio,
pesaroso. - Não suporto mais essa agonia.
Bianca aguardou até que Júlio se retirasse para conversar a
sós com Natália. Esperou até que o pranto silenciasse, apanhou
a mão dela e começou a dizer com tristeza:
- Quero que você saiba, Natália, que sempre amei você e
Patrícia.
- Por que está dizendo isso?
- Posso ter sido uma mãe negligente, mas não foi falta de
amor. Depois que Patrícia nasceu, eu simplesmente não consegui
mais conviver bem com seu pai e fui me afastando.
- Por quê? O que provocou isso?
- Acho que você já sabe - ela encarou Natália com tristeza
e confessou; - Patrícia não era filha de seu pai.
- Você dormiu com outro homem? - Bianca assentiu, em
lágrimas. - Quem é ele?
- Você não o conhece. Nunca mais nos vimos depois que
eu engravidei.
- Papai sempre soube?
- Desde que Patrícia nasceu.
- E ainda assim, ele a amou. Talvez até mais do que a mim.
- Por favor, filhinha, não fique triste. Seu pai amava vocês
duas.
- Não estou triste, não por isso. Minha tristeza é pela morte
da minha irmã. Sinceramente, mãe, eu até já desconfiava, dadas
as diferenças físicas entre nós duas. Cheguei a considerar a hipótese
de adoção, mas, como vocês nunca falaram nada, fiquei na
minha. Não era meu direito questioná-los,
- E agora? Como se sente? Vai me condenar?
- Quem sou eu para condenar alguém? A vida é de vocês,
não tenho nada com isso. Se alguém tinha do que reclamar era
papai. Mas, se ele nunca disse nada, não sou eu que vou dizer.
Sempre amei Patrícia como minha irmã. Isso não vai mudar agora.
387


Emocionada com a reação de Natália, Bianca abraçou-se a
ela e disse comovida:
- Ah! minha filha, você é uma alma tão nobre! Por que Patrícia
não era como você? Por que teve que ser sempre tão desajuizada?
- Ela não merecia isso, mãe. Ninguém merece.
- O que será que aconteceu? Por que Patrícia estava no
meio de traficantes com o seu namorado?
- Régis tentou me alertar sobre as companhias dela, mas o
que eu poderia fazer?
Natália atirou-se nos braços da mãe, chorando junto com ela
Acabaram adormecendo ali mesmo, no sofá.
O policial chegou bem cedo na manhã seguinte. Despertos,
todos o aguardavam ansiosos. Joel sentou-se defronte a eles,
constrangido por ter de tocar em assunto tão delicado como drogas,
o envolvimento dos filhos com o mundo do crime. Ele pigarreou,
ajeitou-se entre as almofadas e começou:
- Primeiramente, quero que saibam o quanto lamento tudo
isso.
- Nós sabemos - cortou Júlio. - Mas queremos que nos
diga o que aconteceu e por que minha filha estava no meio daquela
gente. Foi o Régis, não foi?
Antes que Natália pudesse contestar, Joel pigarreou novamente
e esclareceu:
- Na verdade, não era para a menina estar lá. Era uma
operação da polícia para prender um traficante perigoso. O único
civil que pensávamos estar envolvido era Régis.
- Por que Régis? - questionou Natália. - Por acaso ele é
algum agente disfarçado?
- Na verdade, Régis era nosso informante.
- O quê?! - surpreendeu-se Júlio.
Foi graças a ele que chegamos até Bira e seu bando.
Infelizmente, as coisas não saíram como gostaríamos. Houve troca
de tiros e muitas baixas de ambos os lados. Sua filha foi uma delas.
388


- É isso que minha filha representa para vocês? - esbravejou
Júlio. - Uma baixa? Uma estatística nos seus arquivos corrompidos?
- Por favor, senhor, procure se acalmar. Não era para sua
filha estar lá.
- E por que ela estava? - perguntou Bianca, quase sem
conseguir falar. - O que Patrícia fazia com esse traficante?
- Sei que é difícil aceitar certas coisas - disse ele, com
cuidado. - Mas sua filha se encontrava com Bira regularmente.
- Mentira! - rugiu Júlio, quase agarrando o outro pelo colarinho.
- Patrícia não passava de uma criança. Não ia se envolver
com gente daquela espécie.
- Infelizmente, foi isso que aconteceu. Nossos agentes a
viram várias vezes em companhia dele.
- Se isso aconteceu, ela não chegou até ele sozinha.
Alguém a apresentou a ele. Quem? - Joel deu de ombros. -
Foi o Régis, não foi?
- Não temos essa informação. Pode ser que sim, pode ser
que não. O fato é que Patrícia se envolveu com Bira, contrariando
o próprio Régis. Ele fez questão de frisar que ela não tinha
nada com as atividades do traficante e nos fez jurar que nada faríamos
contra ela.
- Quanta nobreza! - desdenhou Júlio. - Um viciado, caguete
da polícia. E, ainda por cima, corruptor de menores.
- Régis não é nada disso! - defendeu Natália, exaltada. -
Correu grande perigo ao trabalhar para a polícia. Não é todo
mundo que se arriscaria assim.
- Por que ele fez isso? - tornou Júlio. - Que interesse ele
tinha em desmantelar aquela quadrilha? Por acaso esse tal de Bira era
inimigo dele? Os dois estavam disputando algum ponto de drogas?
- O senhor não sabe o que diz - irritou-se Joel. - Não
posso contar detalhes sigilosos de nossas operações. Basta saber
que Régis foi muito corajoso, procurou-nos oferecendo ajuda,
sem que tivéssemos nada contra ele.
- Ninguém faz uma coisa dessas de graça.
389


Já lhe passou pela cabeça que ele talvez quisesse proteger
sua filha? Prender Bira seria uma boa maneira de afastá-la dele.
- O senhor ainda não respondeu a minha pergunta - insistiu
Júlio. - Como Patrícia chegou até Bira?
- Já disse que não sabemos. Mas, se eu fosse o senhor,
experimentaria conversar com Régis. Talvez se surpreenda com a
sua filha e perceba que realmente não a conhecia.
- Nossa filha era só uma menina - choramingou Bianca. -
Não estaria lá se alguém não a tivesse levado.
- Bom, senhora, essa e outras perguntas devem ser feitas
ao Régis. Talvez ele seja o único que conheça as respostas. Eu, de
minha parte, cumpri minha missão. Aguardem agora novo telefonema,
informando da liberação do corpo.
Júlio mal conseguiu se despedir do policial, tamanha sua
revolta. Quanto mais o ouvia falar, mais se convencia de que fora
Régis o responsável por tudo aquilo.
- Aonde você vai? - perguntou Bianca, vendo que ele se
preparava para sair.
- Tenho uns assuntos para resolver.
De cara fechada, Júlio bateu a porta e saiu. Ninguém iria impedi-
lo de descobrir o responsável pela morte de sua filha. Ninguém.
390

capitulo
44
A recuperação de Régis era excelente. A cirurgia fora um
sucesso, ele reagia muito bem aos medicamentos e os passes
de Josué contribuíam para que se sentisse cada vez mais fortalecido.
Acordou bem-disposto, embora dolorido e cansado. A mãe
não saía do lado dele. Precisava ir a casa tomar um banho, mas
só sairia quando Cléia chegasse.
- E Natália? - indagou ele. - Ela não veio me ver?
- Ela ainda não sabe que você acordou. Vou telefonar para
ela daqui a pouco.
- Você não me respondeu sobre Patrícia. Ela está bem?
O médico havia lhe dito que ela poderia dar-lhe a notícia, pois
ele era jovem e forte o bastante para aceitá-la.
- Meu filho, as notícias não são muito boas. Patrícia não
sobreviveu.
- Não sobreviveu? Como assim? Ela foi atingida no tiroteio?
- Infelizmente.
Ele cerrou os olhos por uns segundos, remoendo a dor da
tragédia.
- É por isso que Natália não veio me ver? Ela pensa que o
culpado sou eu?
- Não. Mas o pai dela estava para chegar de São Paulo, e
parece que o policial ia à sua casa hoje de manhã. Vamos aguardar.


- Natália não vai me perdoar.
- Ela não sabe de nada, não é? - Régis assentiu. - Pois
acho que o melhor que você tem a fazer é contar-lhe a verdade.
Desde o princípio, desde antes de Gislene. A sinceridade é o
melhor caminho para a aceitação. Se você mentir, ela vai se sentir
traída e nunca vai confiar em você. Seja franco, conte-lhe tudo.
- Farei isso, mãe. Não poderia mesmo viver carregando
esse peso. Natália merece saber a verdade. Sei que não agi
corretamente no caso de Gislene, mas tentei me redimir fazendo
exatamente o que ela ia fazer. Só que deu tudo errado.
- Não pense assim. Todo mundo faz escolhas na vida. Você
escolheu se acertar com a polícia, Patrícia escolheu se envolver
com o traficante. Os riscos para cada um são previsíveis.
Ele não disse nada. No fundo, ela tinha razão, mas ele também
não era nenhum santo. Tudo começara no dia em que acompanhara
Alex àquela boca de fumo. Mas, se não tivesse passado por
aquilo, como teria amadurecido e se modificado? Agora, o que
mais lamentava era a morte de Patrícia.
Batidas na porta atraíram a atenção de ambos. Geórgia se
levantou para abri-la, assustando-se imensamente ao ver que
era Júlio.
- O que faz aqui? - balbuciou ela, aturdida.
- Quero falar com Régis. Preciso saber o que aconteceu.
- Esse não é o melhor momento. Lamentamos o que houve
com sua filha, mas Régis não teve nada a ver com isso.
- Quero que ele me diga, olhando nos meus olhos, que não
foi ele quem a levou para a droga.
- Não posso permitir. Régis está convalescendo.
- Por favor, Geórgia, deixe-me passar.
- Não, Júlio. Em nome de tudo o que vivemos, se você
ainda tem um mínimo de respeito por mim, vá embora.
- Mãe? - Régis chamou. - O que está acontecendo? Você
e seu Júlio se conhecem?
392


Geórgia virou-se para ele com os olhos úmidos, os lábios
tremendo ante a iminência da revelação.
- Júlio era o meu noivo na época em que engravidei de
você.
Um pedregulho na cabeça teria causado menos estrago. A
surpresa foi tão grande que Régis quase caiu da cama, literalmente,
ao tentar se levantar. A tonteira causada pela forte medicação o fez
tombar de volta sobre o leito. Agora compreendia tudo. Sabia por
que Júlio não gostava dele, por que não o queria perto de Natália.
- Pelo amor de Deus! - suplicou Júlio, aproveitando-se da
distração de Geórgia para passar. - Eu preciso saber. O que foi
que você fez com a minha filha?
Régis não sabia se o odiava ou sentia pena dele. Por que
precisava ter consideração pelo homem que abandonara sua mãe
no momento mais difícil de sua vida?
- Saia, Júlio! - exigiu Geórgia, retornando de seu torpor. -
Você não tem o direito de vir aqui perturbar o meu filho.
- Não fiz nada com a sua filha, seu Júlio - falou Régis,
fazendo sinal para que a mãe se acalmasse. - Ao contrário, tentei,
de,todas as formas, afastá-la de Bira. Mas ela não quis me ouvir.
Júlio estacou abismado, enquanto Geórgia corria para o lado
de Régis, como se quisesse protegê-lo.
- Ela não conheceu o traficante sozinha. Alguém teve que
apresentá-los. Foi você, não foi?
- Tem certeza de que quer descobrir a verdade? Existem
coisas que é melhor não saber.
- O que está insinuando? Que minha filha era cúmplice de
um traficante?
- Cúmplice, não diria. Mas ela e Bira estavam... namorando.
- Mentira! Minha Patrícia era inocente. Jamais namoraria
um criminoso.
- O senhor não conhecia sua filha. Patrícia podia ser tudo,
menos inocente. E, se quer mesmo saber a verdade, posso lhe contar.
- Conte-me o que sabe. Vamos, eu exijo!
393


- O senhor não está em condições de exigir nada. Sua filha
não era quem o senhor pensa. Ela se envolveu com Bira porque
quis. Atirou-se para cima dele, assim como havia se atirado para
cima de mim. No começo, foi para me fazer ciúme. Mas, depois,
ela se interessou por ele. Viviam juntos, para lá e para cá.
- Você ainda não me disse como ela o conheceu. Foi você,
não foi?
- Bira andava atrás de mim. Queria que eu fizesse um serviço
para ele. Um dia, quando ele parou para falar comigo, sem que
eu percebesse, Patrícia entrou no carro dele. Dali em diante, não se
largaram mais. Ele a iniciou no uso da cocaína...
- Minha filha não era viciada! - esbravejou. - Isso é uma
infâmia! Você está querendo denegrir a imagem dela.
- Estou lhe contando a verdade porque o senhor pediu.
Patrícia estava iludida. No dia em que fui pegar a droga, a polícia
pronta para dar o flagrante, qual não foi a minha surpresa ao
encontrar Patrícia com Bira. Quis dizer-lhe para fugir, mas não tive
tempo. Os policiais entraram gritando, os traficantes responderam
com fogo. Foi uma gritaria, tiros para todo lado. Lutei desesperadamente
para encontrá-la e afastá-la dali, mas, de repente, fui
atingido por uma bala e não vi mais nada.
- Minha filha morreu, desgraçado! - rugiu, tentando puxar
Régis pela gola da camisola do hospital. - Por sua causa, ela morreu.
- Sua filha era uma perdida, para não dizer coisa pior.
- Desgraçado!
Subitamente, Júlio sentiu que mãos o agarravam por trás.
Assustada com o rumo da discussão, Geórgia saiu do quarto sem
ser percebida, correndo a pedir ajuda ao policial de plantão. O
guarda puxou Júlio, forçando-o a soltar a roupa de Régis. Saiu
arrastando-o do quarto, enquanto Júlio esbravejava, fora de si:
- Você a matou, canalha! Por sua culpa, ela morreu! Isso
não vai ficar assim. Você me paga!
As enfermeiras entraram correndo, preocupadas com o estado
de exaltação de Régis. Por pouco o policial não prendeu Júlio.
394


Só não o fez em respeito a sua dor de pai. Levou-o para fora do
hospital, dando-lhe ordens para não retornar.
Júlio voltou para casa arrasado. Ouvir aquelas mentiras sobre
sua filha querida era quase tão terrível quanto o fato de ela estar
morta. Abriu a porta do apartamento e entrou alquebrado.
- Pai! - exclamou Natália, preocupadíssima com ele. -
Onde esteve? Tentei ligar para o seu celular, mas você não atendeu.
- Fui ver o seu namoradinho - comentou com raiva. - O
homem que foi o responsável pela morte da sua irmã.
- Você foi ao hospital? Régis acordou da cirurgia?
- Está vivo. Que direito ele tem de viver enquanto minha filha
está morta? E foram tantas mentiras... Quantas infâmias ele inventou
de Patrícia! Por isso, você não deve mais vê-lo. Aquele sujeito
é um canalha, aproveitador de criancinhas. Sabia que ele tentou
seduzir a sua irmã?
- Quem lhe disse isso?
- Ninguém precisou me dizer. Ele acusou o traficante para
tentar se safar. Mas eu sei que era ele quem estava se aproveitando
dela.
- Isso é um absurdo! - protestou Natália. - Régis não
faria uma coisa dessas.
- O que você sabe sobre Régis? Nada. Pois eu sei muito a
seu respeito. Conheci a mãe dele, fui noivo dela antes de me casar
com sua mãe.
- O quê?! - disseram Natália e Bianca ao mesmo tempo.
- Que história é essa agora, Júlio?
- É isso mesmo, Bianca. Geórgia é a mãe de Régis.
- Pai! Não vá me dizer que Régis e eu somos irmãos!
- Não - disse Bianca. - Na verdade, seu pai deixou Geórgia
porque ela estava grávida de Régis, que é filho de outro homem.
395


Natália olhou-o, surpresa. Aquela história parecia repetição
de uma outra, bem próxima.
- Geórgia foi estuprada - contou Júlio, rememorando
momentos difíceis. - Por um antigo colega de trabalho.
Falar do passado aliviou um pouco sua dor. Quando terminou
a narrativa, Natália chorava de mansinho. Era uma história
muito triste, comovente.
- Por que não se casou com ela? - questionou, quase
acusando-o. - Se a amava tanto, por que a abandonou?
- Como eu poderia criar o filho de outro homem?
- Você não fez isso? - rebateu, fazendo Júlio ver que ela
já conhecia a história. - Não criou Patrícia, que era filha de outro
homem? E dona Geórgia nem teve culpa do que lhe aconteceu.
Calou-se, olhando a mãe de soslaio. Não queria fazer-lhe
acusações. Pretendia apenas compreender onde estava a diferença.
- Nada disso importa agora - tornou Júlio. - Mas você
está proibida de tornar a ver Régis. Ele é um marginal, não serve
para você.
- Sinto muito, pai, mas você não tem autoridade para me
proibir de ver Régis. Sou adulta, tomo minhas próprias decisões.
- Não acredito que você ainda pretende se encontrar com
ele. Não depois de tudo o que ele fez à nossa família.
- Seu pai tem razão, filhinha - concordou Bianca. -
Não conheço Régis, mas não acho direito ele ter envolvido sua
irmã com traficantes.
- Vocês é que estão dizendo isso - objetou ela. - A polícia
diz o contrário.
- Ele é informante da polícia - considerou Júlio. - É claro
que vão fazer de tudo para preservá-lo.
- Mesmo assim. Não vou condenar Régis sem antes ouvi-
-lo. Não acredito que ele seja o que vocês estão falando. Ele é um
bom rapaz.
Para Natália, estava encerrada a discussão. Ela não queria
mais ouvir o pai dizer que Régis não prestava, até porque, não
396


era aquilo em que acreditava. Mesmo que não o conhecesse
havia muito tempo, sentia em seu coração que ele era sincero. Foi
para o quarto, contrariada. De lá, ligou para o celular de Geórgia.
Ela mesma atendeu, sem saber ao certo o que dizer. Depois da
visita de Júlio, não sabia o que esperar de Natália.
- Estou indo para aí - informou Natália, saindo em seguida.
Natália chegou ao hospital envolta em uma aura de tristeza,
embora se esforçasse para não deixar transparecer nada a
Geórgia. Aproveitando a presença da moça, Geórgia resolveu dar
um pulo até sua casa, prometendo retornar em breve.
- Seu pai esteve aqui - comentou Régis.
- Eu sei.
- Fez-me acusações infundadas sobre a morte de Patrícia.
- Régis, por favor, tenha um pouco de paciência. Meu pai
está confuso, sofrendo. Ele não sabe o que diz.
- Ele sabe, sim. Seu pai me odeia, e agora descobri por quê.
- Por quê?
- Você sabia que ele e mamãe foram noivos? E que ele a
deixou quando ela engravidou de mim?
Todas as verdades se desvendavam ao mesmo tempo. Era
como a linha de um bordado desfiando-se rapidamente, sem
poder ser contida. Natália percebia, contudo, que Régis não sabia
sobre o estupro e não disse nada. Não lhe cabia fazer revelações
a respeito do passado de Geórgia.
- Todas essas coisas pertencem ao passado - ponderou
ela. - Nada disso tem importância agora.
- Seu pai me acusa de ser o responsável pela morte de
Patrícia. Acredite-me, Natália, fiz de tudo para afastá-la de Bira.
Mas Patrícia era teimosa.
- Não precisa se justificar. Acredito em você. Papai está
sofrendo e quer encontrar alguém para culpar.
397


- Não me importo com seu pai. Você acredita em mim?
- Acredito.
- Para mim, é o que basta. Só não quero que seu pai a faça
mudar de ideia.
- Isso não vai acontecer. Amo você, sabia?
- Também a amo. E gostava de Patrícia. Queria salvá-la,
mas não pude... - ele enxugou as lágrimas, reunindo coragem
para prosseguir: - E isso não é tudo.
- Como assim?
- Não quer saber como me tornei informante da polícia?
- Confesso que tive essa curiosidade.
- Vou lhe contar, mas, por favor, não se apresse em me
julgar. As pessoas mudam. Eu mudei.
Calma e pausadamente, Régis contou tudo a Natália, sem
omitir nenhuma passagem ou detalhe, desde o dia em que experimentara
um cigarro de maconha até o derradeiro momento em
que Patrícia perdera a vida. Natália ouviu tudo em silêncio, chorando
em alguns momentos, surpreendendo-se em outros. Era uma
história terrível.
- Por que não me disse isso antes? - indagou ela, sem
conseguir ocultar uma pontada de mágoa.
- Você teria me aceitado se eu lhe contasse? - Ela não
respondeu. - Não teria.
- É complicado, Régis. Você se envolveu com gente da
pesada.
- Foi imaturidade. Mas a morte de Gislene me fez refletir.
E, quando conheci você, vi que não era essa a vida que eu queria
para mim.
- Não sei o que pensar. Não imaginava que houvesse uma
outra história por detrás dessa. Estou confusa, surpresa.
- Não quero pressioná-la, mas pense bem. O que eu
poderia fazer?
- Para começar, nunca deveria ter se envolvido com Bira.
398


- Nunca mesmo. Mas me envolvi. Foi uma estupidez que
quis remediar. Uma pessoa não tem o direito de errar e tentar corrigir
o seu erro?
- Tem. Só que o seu erro levou à morte de uma garota. E
agora Patrícia...
- Você está me acusando pela morte de duas mulheres. É
isso, Natália? Já não pensa mais que não sou responsável pela
morte da sua irmã?
- Não é isso. É complicado.
Você já disse isso. Perdoar é complicado?
- Não tenho que perdoar você.
- Se você me acusa, então acredita que eu errei. Se errei,
tenho que lhe pedir perdão.
Por uns momentos, Natália chegou a acusá-lo mentalmente.
No entanto, refletindo melhor, chegou à conclusão de que ele não
tinha saída. Tomara a decisão certa.
- Tem razão, meu amor - disse ela, para alívio de Régis.
- Você não teve outra alternativa. Estou orgulhosa por você ter
feito a coisa certa.
- Fui um tolo, iludi-me com coisas fúteis. Graças a Deus e a
minha mãe, consegui retornar ao caminho do bem.
Sua mãe sabe de toda essa história?
- Não há nada sobre mim que minha mãe não saiba. Foi
ela quem primeiro me incentivou a mudar. Depois, veio você.
Quero ser um homem de bem, Natália. Quero viver ao seu lado
para sempre.
- Você é um homem de bem, Régis. E muito corajoso.
Admiro-o pelo que fez. Muitos, no seu lugar, teriam cedido às facilidades
e ao vício, mergulhando de cabeça no crime,
Só há duas coisas que lamento: as mortes de Patrícia e
de Gislene. Não queria que terminasse assim.
- Você não foi responsável por nenhuma das duas. Não
sabia que Bira ia matar Gislene nem que Patrícia estaria lá na hora
399


em que a polícia chegou. Foram fatalidades cujo motivo é apenas
do conhecimento de Deus.
- Minha querida! - emocionou-se ele, estendendo os
braços para ela. - Amo você cada vez mais.
- Também o amo. Agora descanse. Senão, quando sua
mãe chegar, vai brigar comigo.
- Não vai, não. Minha mãe gosta de você.
- Mesmo sabendo de quem sou filha?
- Minha mãe não liga para essas coisas. Avalia as pessoas
pelo que elas têm no coração, não pela sua procedência, muito
menos pelas aparências.
- Sua mãe é especial. E você, tão especial quanto ela.
Agora vamos, chega de falar. Daqui a pouco o médico vai entrar
aqui e me colocar para fora.
Régis estava realmente cansado. Sentia o peito dolorido,
cansava-o falar em demasia. E ele falara demais. Não custou
muito a pegar no sono. Olhos fixos em Natália, deixou as pálpebras
caírem e adormeceu agarrado à mão dela.
400

capitulo
45
Auxiliada por Cléia, Geórgia terminava os últimos retoques na
faxina do quarto de Régis. No dia seguinte ele teria alta, e era importante
que voltasse para um ambiente limpo e arrumado. Natália estava
com ele no hospital, dando-lhes tempo de aprontar tudo. Na véspera,
Geórgia comprara uma televisão para colocar no quarto dele e aguardava
a entrega para qualquer momento. Fora um sacrifício, teria de
pagar doze parcelas no cartão de crédito, mas ele merecia.
Quando a campainha da frente tocou, Geórgia anunciou:
- Deve ser a TV chegando. Vou atender.
Cléia assentiu e continuou a arrumação, enquanto Geórgia se
dirigia para a porta. Ao olhar pela janelinha, uma surpresa a abalou.
Não era o entregador, mas Júlio, que a encarou com ar de desespero.
- O que faz aqui? - indagou ela, mal contendo a irritação.
- Quero falar com você.
- Não tenho mais nada a lhe dizer.
- Por favor, Geórgia, é só um minuto.
- Muito bem. O que você quer?
Demorou alguns instantes até que ele tivesse coragem de
falar. Quando conseguiu, sua voz saiu estrangulada, súplice, quase
um sussurro:
- Vim aqui lhe pedir perdão. E a sua ajuda...


- Você não precisa me pedir perdão por nada. Quanto a
minha ajuda, nada tenho a lhe oferecer além de piedade.
- Você me odeia.
- Não. Tenho pena de você, do que se transformou, das
ilusões que alimentou por toda a vida e que não o levaram a nada.
- É compreensível que você pense assim. Fui egoísta, insensível,
só pensei em mim. Mas isso passou. Você teve seu filho, sei
bem o que você teve que enfrentar para ficar com ele. Mas não é
possível que você concorde com o que está acontecendo.
- O que está acontecendo não é culpa de Régis. O que ele
fez foi tentar ajudar a polícia.
- Minha filha morreu. Isso não conta nada?
- Conta. É lamentável, uma tragédia. Imagino o que você
está sentindo, mas nada posso fazer. Tenho rezado por todos
vocês, para que encontrem paz e força para superar este momento.
Mais do que isso, não posso lhe dar.
- Patrícia não era minha filha - confessou subitamente.
- Era filha de Bianca, mas não minha. Será que Deus está
me punindo por tê-la amado tanto e não ter conseguido sentir
o mesmo por Régis?
Foi uma surpresa e tanto ouvir aquela revelação. Em outros
tempos, Geórgia podia até se sentir traída, mas agora nada disso
tinha importância.
- Deus não pune ninguém. Muito menos sacrificaria uma
menina inocente só para castigar você. A razão do que aconteceu
a Patrícia está no domínio da consciência dela. Nós não temos
como avaliar isso.
- É fácil para você falar, pois seu filho continua vivo, ao
passo que minha filha morreu - revidou com raiva. - E agora,
todo mundo quer transformá-lo em herói.
- Por que não esquece isso, Júlio? Você ainda tem uma
filha, concentre-se nela.
- Foi justamente pensando nela que resolvi procurá-la.
Você tem que afastar Régis de Natália.
402


- Não vou ficar aqui ouvindo isso. Você sabe que não vou
interferir, e aconselho-o a fazer a mesma coisa. Deixe-os em paz.
- Não posso! Quero Régis longe de nossas vidas. Você
precisa convencê-lo a deixá-la.
Notando que ele começava a se exaltar, Geórgia recuou.
- Não temos mais o que conversar, Júlio. Sinto muito.
Ela rodou nos calcanhares e já ia bater a porta quando ouviu
novamente a voz dele:
- Régis sabe do estupro? Sabe que foi gerado num ato de
violência?
Na mesma hora, Geórgia estacou. Ao se virar para ele, tinha
nos olhos lágrimas de revolta e medo.
- Você não desceria tão baixo. Não se atreva a lhe falar
nada. Você não tem o direito!
- Manterei seu segredo se você me ajudar. Régis não precisa
saber quem foi o pai dele. Basta você convencê-lo a terminar
com Natália. No começo, ela vai sofrer, mas depois me dará razão.
- Você é desprezível, Júlio! Faça como bem entender, da
forma como mandar a sua consciência. Se quiser contar a Régis,
vá correndo. Conte!
Geórgia não ficou para ouvir a resposta. Estava tão indignada
que mal podia suportar a presença de Júlio. Entrou correndo
em casa, indo direto ao encontro da mãe. Cléia já havia terminado
a arrumação quando Geórgia a encontrou na cozinha. Ela arriou
numa cadeira, apoiou a cabeça nos braços cruzados sobre a mesa
e chorou.
- O que foi que houve, minha filha? - indagou Cléia, aproximando-
se. - Quem tocou a campainha? Foi o Júlio, não foi?
- Ah, mãe... Foi horrível!
Ela contou tudo o que se passara. Ao final, Cléia foi categórica:
- Você tem que contar tudo ao Régis. Não permita que Júlio
faça isso na sua frente. Régis vai se sentir traído se souber do estupro
por intermédio do homem que o odeia.
403


- Tem razão. Não dá mais para adiar essa conversa. Vou
agora mesmo ao hospital.
- Quer que eu vá com você?
- Não precisa. Fique aqui e termine tudo.
Rapidamente, Geórgia se arrumou e saiu. No hospital, qual
não foi a sua surpresa ao se deparar com Júlio no corredor, contido
pela atitude decidida de Natália.
- O que está acontecendo aqui? - exigiu saber.
Os dois se assustaram, mas foi Natália quem falou:
- Nada, não. Meu pai já estava de saída. Não é, pai?
Júlio não ouvia. Tinha os olhos presos em Geórgia
- Geórgia, por favor - choramingou ele. - Estou implorando.
Ela não respondeu. Passou por ele a passos firmes, entrando
no quarto do filho.
- O que você fez? - questionou Natália.
- Nada - foi a resposta seca.
Júlio deu-lhe as costas, sumindo no fim do corredor. Ela esperou
alguns minutos antes de entrar no quarto. Queria falar com
Geórgia, mas tinha medo de se intrometer onde não era chamada.
Depois de refletir, foi ao encontro dela.
- Tudo bem? - perguntou Natália baixinho.
- Tudo - ela se afastou um pouco e indagou ressentida: -
Seu pai lhe contou?
- Contou.
- Foi o que imaginei. O que você acha?
- Acho que a senhora foi muito corajosa.
- Obrigada, mas não é a isso que me refiro. Você acha que
devo contar ao Régis?
- Sinceramente, dona Geórgia, acho que sim. Essas coisas
nunca ficam ocultas a vida inteira, e, se Régis souber por outra
pessoa, vai ficar profundamente decepcionado.
- Acha que ele vai entender?
404


- Régis é inteligente e a ama muito. E depois, que culpa a
senhora teve?
- Passei a vida toda omitindo-lhe isso.
- O que é justificável, mas agora é o momento de falar a
verdade. Acho que a senhora irá se surpreender.
Geórgia abraçou Natália emocionada. Ela tinha razão. A
verdade permanecera oculta por tempo demais. Era chegada
a hora da temida revelação. Estranhamente, Geórgia se sentiu
confiante. Em seu íntimo, não duvidava do amor de Régis.
O enterro de Patrícia foi doloroso para todos. Parentes e
amigos choravam e lamentavam o destino de uma menina linda,
jovem e mal orientada. Muitos se recusavam a acreditar que ela se
envolvera com um traficante, outros a julgavam uma perdida. Os
olhares se revezavam entre a crítica e a compaixão, levando Júlio
e Bianca a se aproximar para enfrentar aquele momento tão difícil.
Após o funeral, Júlio seguiu para a casa de Bianca com
Natália. As lágrimas da mulher eram tão pungentes que ele sentiu
que devia se fazer forte para confortá-la. Se para ele não era fácil,
para a mãe, então, parecia quase insuportável. Ao ver o corpo baixar
à sepultura, Bianca refez todos os passos de sua vida, acusando-
-se por não ter tido uma atitude mais severa com Patrícia. Sabia
o quanto ela era volúvel e fútil, mas, em vez de impor-lhe limites,
achava graça em seus modos precoces de mulher.
Júlio também se sentia culpado. Fora permissivo demais.
Amava-a tanto que não sabia dizer-lhe não. Para não a contrariar,
deixava que ela fizesse o que bem entendesse, preferindo acreditar
na inocência dela a admitir o quanto era dissimulada.
Já era fim de tarde quando chegaram. No trajeto entre o
cemitério e a casa de Bianca, ninguém disse nada. Sentaram-
-se na sala, ligaram a televisão, fingindo assistir ao programa que
ninguém via.
405


- Vou preparar algo para a gente comer - anunciou Natália,
agoniada com a tristeza que reinava no ambiente.
Como nenhum dos dois respondeu, ela partiu para a cozinha.
Após alguns minutos, sem tirar os olhos da TV, Bianca desabafou:
- Não sei se vou suportar viver aqui. Todos os cantos me
lembram Patrícia. A fantasia dela ainda está pendurada na porta
do armário...
Calou-se, sufocada pelo pranto que a consumiu vorazmente.
Aturdido, Júlio aproximou-se, enlaçando-a com um abraço em que
procurava transmitir-lhe apoio e segurança.
- Nós vamos passar por isso. Sei que é difícil, mas ainda
temos uma filha.
- Que está apaixonada pelo homem que desgraçou a vida
da nossa Patrícia. Como poderei suportar isso também?
- Temos que esquecer. Pelo bem de nós dois, deixemos
Natália resolver a vida dela. Já me desgastei demais com esse
assunto, não tenho mais forças.
- Ah! Júlio! O que farei da vida sozinha?
- Você é uma mulher jovem e bonita. Em pouco tempo terá
refeito sua vida.
- Não quero mais homem nenhum, se é a isso que está se
referindo. Talvez, se eu tivesse me dedicado mais a minhas filhas,
isso não tivesse acontecido.
Embora Júlio concordasse, não queria lhe dizer. Ao menos, não
naquele instante. O momento era de apoio mútuo, não de acusações.
- Você diz isso agora. Mais tarde, você esquece e vai ver
como tudo volta ao normal.
- Você conseguirá esquecer? - Ele não respondeu. - Pois
eu, não. E sei que você também não. Ninguém esquece uma coisa
dessas. Por toda minha vida, essa lembrança vai doer.
- Eu sei... - concordou ele, a voz embargada, extravasando
as lágrimas que tentava, a todo custo, conter.
Do abraço que se seguiu, surgiu o beijo. Não um beijo apaixonado,
mas amigo, acolhedor, sincero.
406


- Não me deixe, Júlio - suplicou ela. - Você é meu marido,
é o único com quem posso contar.
- Vá para São Paulo comigo - propôs ele. - Podemos
recomeçar.
- E Natália?
- Ela já é adulta, não depende mais de nós. Estaremos
juntos e não precisaremos nos envolver no relacionamento dela
com Régis.
- Tem razão. Jamais poderei aceitar que ela se case com
aquele homem.
- E então? O que você decide? Sim ou não?
- Sim - falou sem titubear. - Vou com você para São
Paulo. Não há mais nada para mim aqui.
Quando Natália reapareceu na sala, informando que o jantar
estava pronto, todas as decisões haviam sido tomadas.
- Você pode se mudar para cá, se quiser - sugeriu Bianca.
- Agradeço, mas não quero - protestou Natália. - Gosto
do lugar onde moro.
- Você é quem sabe - disse Júlio, aliviado. - Vamos
alugar a casa, então.
- Por mim, tudo bem. Façam como acharem melhor.
- Não vai ficar chateada, filhinha? - indagou Bianca.
- Não. Somos todos adultos e acho importante cada um
seguir a sua vida do jeito que achar melhor.
- Não vai se amigar com aquele sujeito, vai?
- No momento, não. Mais tarde, tudo é possível.
- Pense bem no que vai fazer - alertou Júlio, com raiva. -
Você vai se juntar ao homem que desgraçou a vida da sua irmã.
- Por favor, não vamos recomeçar com isso. Patrícia mal foi
enterrada, será que dá para não discutirmos?
- Acho que não tem mais sentido eu continuar mandando-
-lhe mesada - anunciou ele.
- Tudo bem. Não pago aluguel, e o condomínio é barato.
Posso economizar.
407


- Tem certeza? Olhe que seu padrão de vida vai cair.
- Tenho certeza. Não preciso de luxo para viver. O apartamento
de vovó é confortável, tem tudo. Vou ficar bem.
- Está certo. Você é quem sabe.
Jantaram em silêncio, evitando tocar no nome de Patrícia ou
de Régis. Nos dias que se seguiram, Bianca preparou tudo para a
viagem. Chamaram uma imobiliária, colocaram a casa para alugar.
Quando partiram de volta para São Paulo, Natália sentiu imenso
alívio. Amava os pais, mas a perseguição deles a Régis a estava
deixando cansada.
Torcia e rezava para que eles se acertassem dessa vez, muito
embora não acreditasse no futuro dos dois. Ela não sabia, mas dali
a alguns meses, superado o trauma da morte de Patrícia, ambos
retornariam aos velhos costumes, passando, cada qual, a seguir
sua vida como se o outro não existisse, limitando-se a dividir o
mesmo teto, manter as aparências e não repartir os bens.
408

capitulo
46
Assim que seus olhos se abriram, Patrícia estranhou imensamente
o lugar em que se encontrava. Era uma espécie de
enfermaria de guerra, suja e desagradável. Nos leitos a seu redor,
reconheceu a figura adormecida de Bira e de seus capangas.
- O que aconteceu? - indagou ela, tentando levantar-se.
Uma mulher se aproximou. Tinha o rosto sujo, as roupas
esfarrapadas. Sem dizer nada, empurrou-a de volta ao leito e saiu,
trancando a grade que servia de porta.
- O que é isso? - gritou Patrícia. - Que lugar é esse?
Estamos presos?
Ouvindo seus gritos, Bira e seus comparsas também despertaram.
Estavam todos assustados, sem nada entender. Neles, as
marcas dos tiros ainda se faziam visíveis, sanguinolentas. Logo a
porta se abriu, dando passagem à criatura mais assustadora que
já haviam visto.
Atílio caprichara na indumentária. Vestia uma roupa toda
negra, que é a cor eleita pelos encarnados para representar o mal,
sem que, necessariamente, tenha esse significado. Mas como
todo mundo teme as criaturas de preto, lá se foi Atílio trajado de
luto. Um capuz encobria parcialmente seu rosto, propositalmente
moldado com feições cadavéricas, olhos vermelhos, dentes e


unhas plasmados como se fossem presas e garras. Bem horripilante,
para impor medo e respeito.
Entrou fazendo ressoar as botas no chão, produzindo som
de cascos. Puxou uma cadeira com os dedos esqueléticos, exibindo
as unhas longas e sujas. Sentou-se defronte a eles, fixando
em Patrícia um olhar lúbrico, aterrador. Todos se encolheram, tão
aterrorizados que nada conseguiam falar.
- Prestem bem atenção no que vou lhes dizer, porque vou
dizer uma vez só - ele começou a falar, com voz cavernosa, meticulosamente
ensaiada para sair naquele tom. - Vocês morreram
num tiroteio com a polícia. São bandidos, traficantes, prostitutas -
e encarou Patrícia. - Por isso, senti-me no direito de reclamá-los.
De agora em diante, trabalharão para mim.
A notícia de que haviam morrido causou um certo mal-estar
no grupo. Como se sentiam vivos, os espíritos não compreendiam
a morte.
O senhor é... o diabo? - Patrícia ousou perguntar, tremendo
de medo.
A gargalhada de Atílio foi estrondosa, fazendo arrepiar os
cabelos dos presentes.
- Pode me chamar assim, se quiser. A ignorância do homem
põe rótulos naquilo que não compreende - disse, mais para si
mesmo. - O que chamam de diabo, na Terra, nada mais são do
que espíritos feito eu, que se aproveitam do medo para infligir mais
medo. Por isso, nos chamam de legião. Somos muitos. Mas nada
disso importa. Vocês morreram, ponto final. Agora me pertencem.
Preciso de homens sob o meu comando.
- Para fazer o quê? - arriscou Bira.
- O mesmo que vinham fazendo quando encarnados. Vocês
só mudaram de lado, agora estão mais livres para agir. É claro que
não podem mais segurar armas físicas, mas podem intuir os fracos
e levá-los a agir conforme a nossa vontade, matando, roubando,
estuprando, se drogando e coisas do gênero.
- Como faremos isso? - perguntou Bira, interessado.
410


- Vou ensiná-los. E você, particularmente, pelo seu histórico,
se me servir bem, poderá ser promovido. Perdi, recentemente,
dois importantes colaboradores, e a vaga de segundo em comando
está em aberto.
- E quanto a mim? - interrompeu Patrícia. - Não entendo
nada disso.
- Você me servirá de outras maneiras, por um tempo.
Depois, veremos.
Ela sentiu que lágrimas lhe subiam aos olhos. Abaixou a cabeça,
tentando fugir do olhar invasivo de Atíiio, mas não conseguiu.
- Oh! A menininha mimada vai chorar? - debochou ele. -
Quer correr para os braços do papai, quer?
- Estou com medo - balbuciou ela. - Quero ver o meu pai.
- É bom mesmo que esteja. Esqueça a família, você não
vai mais tornar a vê-la. Você agora me pertence. Vai fazer o que
eu mandar.
- O quê?
- O que sabe fazer melhor. Ser prostituta.
Embora assustada com a perspectiva de servir àquele demônio
horrendo, Patrícia não ousou contestar. Não sabia que, por
detrás daquela fantasia energética, havia um homem atraente,
embora nada gentil. Os bandidos, porém, pareciam não apenas
satisfeitos, mas muito à vontade naquele submundo de sombras.
Tal qual agiam em vida, continuariam a agir depois da morte, só
que sem a polícia em seu encalço. Receberiam orientação para
fugir dos seres de luz, mas isso não seria problema para eles, já
que espíritos iluminados não costumam perseguir ninguém.
Não seja tola, Patrícia - censurou Bira, cada vez mais
entusiasmado. - Vamos nos dar muito bem aqui. Se fizermos
tudo direitinho, aposto como seremos bem recompensados.
- Gosto de gente que aprende rápido-tornou Atílio, satisfeito.
- Não quer saber os nossos nomes? - indagou, timidamente,
um dos homens de Atílio.


- Não precisa. Sei o nome de todos. Vocês é que não
sabem o meu. Sou Atílio, dono e senhor de todo este lugar e dos
espíritos que aqui vivem.
- Que lugar é esse, exatamente? - quis saber Patrícia,
cada vez mais assustada. - E como foi que viemos parar aqui?
Foi porque fomos maus em vida?
- O que você acha? Vocês foram tão maus que ninguém quis
salvar a alma de vocês. Só eu me interessei. Vocês foram punidos,
e, por causa da sua maldade, não têm mais como sair daqui.
Atílio mentia deliberadamente, para infligir-lhes terror. Não
queria dizer que todos haviam sido atraídos para aquele submundo
por afinidade de pensamentos e sentimentos. Seu baixo padrão
energético bloqueou o acesso dos seres de luz, que os teriam
convidado a partir com eles, se conseguissem alcançá-los.
Quando o tiroteio se armou, alguns chefões das sombras se
candidataram a assistir o desenrolar dos acontecimentos, à espera
do desencarne de seres comprometidos que pudessem recrutar.
Como, porém, Atílio vinha acompanhando Bira e seu bando havia
algum tempo, conseguiu intimidar os invasores e reclamou para si
a posse daqueles espíritos. Sem saber que Atílio perdia o poder,
os espíritos desistiram.
Foi uma grande sorte para ele. O fracasso de Mizael, o
reencarne de Nora e a traição de Damien foram golpes dolorosos,
duros de superar. Podia considerá-los perdidos, sabia que
nunca mais os teria de volta. Sem contar a interferência de Josué,
que quase o derrubara. Mas não podia se permitir enfraquecer. O
recrutamento de Bira representava uma importante aquisição para
o seu bando. E talvez conseguisse usar Patrícia para manipular
alguém. Ainda não sabia como, mas ela podia ser-lhe útil. Tinha
medo, achava que fora má e merecia o castigo. Nada melhor do
que esses elementos para manter seu espírito preso ali.
Depois de se apresentar aos recém-chegados, Atílio foi
indagado por seus subordinados sobre como proceder com relação
a Mizael.


- Não façam nada - respondeu simplesmente. - Esqueçam-
se dele. Vamos achar outra pessoa que nos sirva.
- Não vamos revidar? Vamos permitir que ele nos traia e
saia impune?
- Ninguém toca nele! É uma ordem. Ou alguém aqui vai
querer me enfrentar?
Ninguém se atreveu, como sempre. Sinal de que Atílio ainda
guardava resquícios de seu antigo poder, que ele pretendia, em
curto tempo, recuperar.
- E os novatos? O que faremos com eles?
- Quero que os treinem bem. Foram homens perigosos em
vida, continuarão sendo aqui.
- Treiná-los para quê? Nossa missão era Mizael. Agora que
ele se foi, a quem iremos influenciar?
- Aos políticos, idiota! Temos que revelar nosso poder através
da política. Políticos corruptos são excelentes instrumentos de
disseminação das forças da treva. Acho que fracassamos porque
escolhi mal nossa frente de atuação. Se tivesse mandado Mizael
para a política, talvez ele não tivesse mudado de lado.
• - Vamos nos concentrar só nos políticos?
- Não necessariamente. Já temos influenciado muitos
agentes, inclusive juizes e policiais, em todas as esferas do Poder
Público, mas a corrupção na política está em alta, o que nos favorece.
Muitos espíritos partiram daqui com a falsa ilusão da tal
última chance, mas prontos para reincidir nos vícios tão logo estimulados.
Creio que vocês não encontrarão dificuldades, porque
eles estão em sintonia direta conosco. Vocês não precisarão
gastar muita energia para convencê-los a se corromper. Basta um
empurrãozinho.
- Parece fácil.
- Cuidado apenas para não esbarrarem nos políticos
honestos. Podem não ser muitos, mas ainda existem. Evitem-nos
a qualquer preço, pois eles poderão lhes trazer embaraços.
- Tudo bem, chefe, pode deixar.


- Levem Bira com vocês, já que ele queria ser vereador.
Pode ser que ele seja útil.
- Sim, chefe.
- E tragam Patrícia aqui. Quero me divertir com ela.
Assim ficou decidido o destino dos desencarnados. Até que
conseguissem despertar para as verdades do espírito, muito tempo
iria se passar. Patrícia foi levada à presença de Atílio morrendo de
medo de seu ar feroz. Contudo, ao descobrir que sua aparência
não era exatamente aquela com que se apresentara, o medo cedeu
lugar ã admiração. Em pouco tempo, estava tão acostumada a Atílio
que quase não saía mais do seu lado, sentindo até mesmo prazer
em sua companhia. Não tinha mais saudade de casa.
414


epílogo
Totalmente recuperado, Régis caminhava de mãos dadas
com a mãe, sem saber exatamente aonde ela o levava. Geórgia
seguiu com ele pela rua, até a praça que fora palco de toda a
sua desgraça. Ela estava diferente agora. Após a morte de Bira,
a polícia montara uma guarita em uma das pontas, e a prefeitura
investira na revitalização da área. Havia homens plantando flores,
fazendo canteiros, aparando arbustos e podando árvores. Um
parquinho seria montado a um lado, o calçamento, refeito, com
novos bancos e mesinhas de concreto. Ainda não estava pronta,
mas dava para perceber que ficaria muito bonita.
Segurando-o pela mão, Geórgia sentou-se em um banco
próximo ao local em que Tácio a atacara. Sentiu um nó na garganta,
uma vontade louca de fugir, mas resistiu. Estava na hora de
superar o passado.
- O que foi que houve, mãe? - indagou Régis, olhando
ao redor, como se esperasse ver os costumeiros viciados e
traficantes.
- Preciso lhe contar uma história. Foi ali que tudo aconteceu...
Ela apontou para um local entre os arbustos, mas Régis não
compreendeu.
- Aconteceu o quê? - espantou-se ele.


- Quero que me ouça com atenção. O que vou lhe contar é
profundamente doloroso, mas você tem que saber. Por favor, não
me julgue, procure compreender. Você não faz ideia do quanto
sofri todos esses anos. Jamais se esqueça de que sempre amei
você, desde quando ainda era uma sementinha no meu ventre.
- Por favor, mãe, o que você quer dizer? Está me deixando
preocupado. Diga logo: o que foi que aconteceu aqui?
Ela respirou profundamente, fechou os olhos e disparou:
- Foi aqui que você foi concebido, pois este foi o lugar onde
seu pai me estuprou.
Régis olhou para ela sem saber se compreendia ou não.
- Meu pai a forçou a transar com ele?
- Sim.
- Mas por quê? Vocês não estavam namorando?
- Não, Régis, não estávamos. Eu mal conhecia seu pai.
Vira-o apenas uma vez no churrasco do banco em que Júlio
trabalhava. Eles eram colegas de trabalho. Soube que perdeu o
emprego, viciou-se em cocaína. Não sei se foi por isso ou não,
mas ele... ele... - engoliu o choro, até terminar de dizer o que
queria: - ele me surpreendeu uma noite, me atacou... me bateu
muito, me machucou de verdade, até que me estuprou. Foi assim
que engravidei.
Régis estava assombrado. Jamais poderia esperar por uma
coisa daquelas.
- Um estupro? - espantou-se ele. - Foi assim que eu fui
concebido? Numa onda de ódio e violência?
- Não posso dizer que foi ódio. Foi medo. Quando soube
que estava grávida, meu mundo desabou. Júlio queria que eu abortasse,
mas essa foi uma ideia que eu jamais tive. Para mim, a única
solução seria ter o filho e criá-lo com amor. Mas Júlio não aceitou.
Sugeriu adoção, que eu recusei. Queria ficar com você. Amava-o,
você não tinha nada a ver com o homem que me estuprou.
- O que você estava fazendo sozinha num lugar como
esse? - tornou ele, com uma certa raiva.


- Eu voltava de um curso que fazia à noite. Uma tempestade
se aproximava, por isso cortei caminho pelo meio da praça. Foi
quando seu pai me atacou.
-- Não o chame de meu pai! - revoltou-se ele. - O monstro
que lhe fez isso não é meu pai!
- Ele é seu pai, Régis. Poucos dias depois, foi encontrado
morto em casa, vítima de overdose. Seu nome era Tácio. Estava
desesperado, havia perdido tudo.
- Você ainda o defende? - retorquiu com fúria, dando um
salto do banco. - Por quê? Gostou do que ele lhe fez?
A agressão gratuita a fez chorar de forma sentida. Na mesma
hora em que falou, Régis se arrependeu. Não sabia que, a seu lado,
o espírito de Tácio acompanhava o desenrolar dos acontecimentos.
- Você não tem o direito de julgá-la - afirmou ele, a mão
pousada sobre a testa de Régis. - Ninguém nunca o amou tanto
quanto ela. Por você, ela enfrentou todas as adversidades, renunciou
ao homem que amava. E foi você quem escolheu nascer assim.
Embora Régis não o ouvisse, conseguiu captar a intenção
das suas palavras. Arrependido, voltou para onde ela estava, ajoelhando-
se ao seu lado:
- Perdoe-me, mãe, pelo amor de Deus! Eu não queria dizer
isso. Sei que deve ter sido horrível. Quem sou eu para julgá-la,
justo você, que enfrentou o mundo para que eu nascesse?
- É isso mesmo - incentivou Tácio, a seu lado. - Se fosse
outra, teria tomado o caminho mais fácil e abortado. E com permissão
legal!
- Você podia ter me abortado, me dado para adoção. Mas
não, ficou comigo. Como posso recriminá-la? Perdoe-me, mãe,
perdoe-me!
Ele se agarrou a ela, chorando copiosamente. Os dois choravam
muito. Geórgia alisou os cabelos dele, fez com que tornasse
a se sentar ao lado dela. Em seguida, contou toda a história, em
seus mínimos detalhes. Régis não conseguia parar de chorar.
Tácio também não. Foi preciso que Josué interviesse para levá-lo
417


dali. A emoção foi demais, principalmente porque, havia anos, não
revivia a cena do estupro.
- Vamos embora - chamou Josué. - Você já fez o que
devia fazer. Aconselhou seu filho a compreender a mãe. Eles vão
ficar bem agora.
- Pensei que tivesse superado - afirmou Tácio. - Mas
ainda dói em mim, talvez mais do que doa nela.
- A dor da culpa é pior do que a dor da agressão. Mas você
está se recuperando bem. Aceite sua ignorância e esforce-se
para melhorar.
- Estou fazendo isso.
- Então, não exija muito de si mesmo. Aguarde, que o tempo
irá ajudá-lo. O tempo é nosso maior aliado na luta contra a culpa.
Ele nos traz oportunidades que, se formos sábios, não deixaremos
passar. Agora venha. Eles ficarão bem.
Realmente, Régis e Geórgia se abraçavam com tanto amor,
que uma luminosidade rósea os envolvia suavemente, intensificando-
se na altura do cardíaco. Guiado por Josué, Tácio se foi.
- Mãe - chamou Régis. - Quero que você saiba que eu
só não me perdi no crime por sua causa.
- Como assim?
- Por amar muito você e vovó foi que resisti a fazer muitas
coisas erradas, embora tenha feito tantas outras.
- Você resistiu porque seu caráter é íntegro, embora você
pensasse que não. Sua avó e eu podemos ter servido de estímulo,
mas o esforço foi seu. Acredito que você queria mudar e se
apegou ao que há de bom dentro de você para lhe dar forças. E
não existe nada melhor do que o amor.
- Tem razão. Como amo você, mãe! Como pude me deixar
levar pela revolta e acusá-la, ainda que por um ínfimo momento?
- Não se culpe. Ninguém deixa de reagir ante uma notícia
dessas.


- Mas já passou. Quero que saiba que a admiro muito. Você
é uma mulher corajosa e determinada. E íntegra. Muito mais do
que eu serei um dia.
- Não diga isso. Você agora tem um emprego, com chances
de fazer sucesso. Se tiver juízo, vai longe.
- Eu tenho juízo. Aprendi com você.
Ela riu, tornando a abraçá-lo.
- Nunca me arrependi, nem por um minuto sequer, de não
ter abortado nem dado você para adoção.
- Nem quando eu fazia besteiras?
- Não. Você é e sempre será o amor da minha vida. Quero
que seja feliz.
- Eu vou ser. Recebi um convite para desfilar na Espanha.
Estou pensando em aceitar. Vou e volto em seguida.
- Natália já sabe? - Ele assentiu. - E não se importou?
- Não. Ela sabe que a amo. Minha carreira vai deslanchar,
vou me casar com ela e encher você de netinhos.
Ela sorriu, ao mesmo tempo em que o celular de Régis tocou.
Vendo que era Natália, ele atendeu.
, - Oi, meu amor. Estou na praça, com minha mãe - pausou,
olhando para Geórgia. - Está na minha casa? Ótimo, estamos
indo para aí. Beijo.
Desligou, encarando a mãe com admiração. Estava ali uma
mulher única, singular, inigualável. Ele se levantou e estendeu a
mão para ela, passando o braço por seus ombros. Geórgia deu um
passo na direção dos arbustos em que fora estuprada, passando
por eles de cabeça erguida, sem medo das lembranças difíceis.
O que conquistara na vida fora muito mais importante do que o
sofrimento que vivera ali.
Por onde passavam, um rastro de luz os seguia, consolidando
a vitória do bem sobre as forças das sombras. Régis, ou
Mizael, jamais retornaria às hordas de Atílio, que os observava
a distância, incapaz de se aproximar. Perdera-se para sempre
do espírito que um dia fora seu irmão. Nos anos que viriam


à frente, Régis continuaria íntegro, embora de temperamento
estouvado, pouco dado à caridade, mas honesto, sincero,
digno. Percebendo isso, Atílio rilhou os dentes, com raiva de si
mesmo, de sua estupidez, imaginando quantos séculos levaria
até que encontrasse o irmão novamente.
Os dois agora se aproximavam da beira da praça, onde, do
outro lado, Natália os aguardava. Atílio viu quando eles atravessaram
a rua e Régis beijou Natália, colocando-se entre as duas
mulheres, que o abraçavam felizes. Ali havia amor. Reconheceu
isso. Remoeu a revolta, repensando sua vida. Revolta? Talvez não.
Inveja? Era possível. Mas não. O que sentia mesmo era cansaço,
dúvida, frustração.
Não os seguiu. Permaneceu onde estava, vendo-os sumir
no fim da rua, um turbilhão de questionamentos atravessando
seu cérebro astral. Olhando para eles e para si mesmo, imaginou
com quem estaria o poder. Lutando ainda para alimentar essa
ilusão, que agora sentia esvanecer-se ante a inevitável descoberta,
abaixou os olhos e, com um gesto de desânimo, fez o corpo
dissipar-se.
fim
420






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PENSE NISSO! ASSIM CONSTRUIREMOS UM MUNDO MELHOR."

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3 comentários:

Gabrielly Fromholz disse...

Boa tarde, venho lhe dar a sugestão de fazer um menu que separe os livros por gênero pois é muito mais fácil de encontrar o preferido do leitor, esse arquive do blog é muito difícil encontrar-mos o que desejamos. Qualquer dúvida é só entrar em contato comigo, meu e-mail é gfromholz@hotmail.com e qualquer coisa eu ensino a fazer o menu! Abraços

Márcia Oliveira disse...

Amei esse livro!!! Gostei muito de tê-lo encontrado aqui.

Stela Maris Araldi disse...

Olá, seria legal se tivesse a opção de baixar o livro.

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