sábado, 11 de outubro de 2014 By: Fred

{clube-do-e-livro} LIVROS: CIDADE DOS ESPÍRITOS, CORPO FECHADO E MEDICINA DA ALMA - ROBSON PINHEIRO - TXT

Este livro é o resultado de uma inspiração, de uma
transpiração, de uma parceria entre dois mundos.
O mundo do médium e a mão do editor.
Muitos autores dedicam seus livros a familiares, amigos
ou pessoas ilustres que os inspiraram de alguma maneira.
Quero dedicar este a alguém que por vezes é esquecido pelos
autores e pelos leitores. Dedico-o a quem me inspira e me
faz transpirar, a quem me impulsiona de perto, junto com o
mentor e, algumas vezes, vestindo a máscara do obsessor.
A LEONARD O MÕLLER , ME U EDITOR .
Não sei se eu conseguiria dar uma roupagem tão digna e
valorosa ao trabalho que os espíritos fazem através de mim
sem sua participação, sem que fizesse seu papel.
A você, editor, amigo e companheiro, meu muito obrigado,
meu reconhecimento público e verdadeiro por tudo que
representa em relação ao livro, ao livro espírita em particular.



INTRODUÇÃO pelo espírito Ângelo Inácio,
CAPÍTULO 1 O lado avesso da vida, 14
CAPÍTULO 2 Uma nova civilização, 50
CAPÍTULO 3 Levantando o véu, 84
CAPÍTULO 4 Os Imortais, 130
CAPÍTULO 5 A soma das diferenças, 178
CAPÍTULO 6 Zonas de impacto, 222
CAPÍTULO 7 A festa de Oxum, 292
CAPÍTULO 8 Senhores do caos, 334
CAPÍTULO 9 Cidade dos guardiões, 392

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS, 456

SOBRE O AUTOR, 458


XI

pelo espírito

ÂNGELO INÁCIO

A VIDA NA erraticidade. Sem vagar entre nuvens de incertezas,
todos nós vivemos e viveremos apesar da morte, da
dor e do sofrimento. Sem nos perder no nada incompreensível
ou diluir a consciência, fundindo-a ao todo inexplicável
pelo vocabulário humano, seja religioso ou científico,
sobrevivemos e sobreviveremos entre as estrelas.

O homem é produto das estrelas e para as estrelas retornará
um dia, quando puder alçar voo rumo ao país da
eternidade. Lá é onde moram os sonhos, onde vivem os
Imortais, onde as luzes se fazem gente e onde os seres são
feitos de pura luz. É onde fica a cidade habitada pelas consciências
que despertaram para a vida além dos limites demarcados
por fronteiras, estandartes ou bandeiras; onde
cessam os partidarismos políticos, ideológicos ou religiosos.
Esse é o mundo onde não há medo, nem culpa, nem
cobrança. Essa é a Amand a de todos os povos, de todas as
gentes, a cidade dos espíritos.

O país das estrelas pode ser cantado em prosa, em verso,
ao som de atabaques ou entre melodias refinadas de


Xll

instrumentos mil. A cidade dos espíritos ou, simplesmente,
Aruanda é o céu, o orum, o paraíso, para muitos. Pode
ser também o fulgor das estrelas, o cantar dos pássaros ou,
então, a habitação de pais-velhos, a terra de caboclos, de
brancos e negros, asiáticos, índios, de peles vermelhas, pretas
ou amarelas; afinal, essa metrópole é a pátria daqueles
que não se sujeitam mais aos acanhados comportamentos
exclusivistas e sectários das sociedades humanas. Ali, entre
as estrelas, é onde o espírito se retempera, onde é capaz de
haurir forças para as tarefas de redenção, auxílio ou intervenção
no mundo dos homens.

Cidade dos agentes da justiça divina — essa é a realidade
da Aruanda. Onde a justiça e a equidade se aliam
para estabelecer o Reino nos corações humanos e na Terra,
em todas as dimensões. Dela partem guardiões, caravanas
que interferem no mundo em nome da divina justiça.
É onde me encontrei, aonde fui conduzido pela espada
flamejante de um guerreiro que descortinou, ante minha
visão estreita, as luzes e os caminhos de Aruanda, também
conhecida por alguns como Ilha Sagrada, por outros,
como Shamballa; para mim, somente Aruanda, a cidade
dos Imortais.


Xlll

Um estilo de vida, um conceito de paz, uma filosofia,
uma política divina — tudo isso faz da cidade dos espíritos
um lugar mítico, uma escola onde se preparam espíritos,
forjam-se heróis anônimos, que lutam pelo progresso da
humanidade. Onde residem encantos e encantados, onde
lendas encontram sua explicação e onde o tipo encontra o
antítipo. Da Amanda, onde me encontrei depois de abertos
os portais da morte e onde até hoje me inspiro e respiro,
quando posso, a fim de retornar à Terra dos meus encantos
e dos meus antigos amores, é de onde trago, na bagagem da
alma, a poesia da imensidade.

ÂNGELO INÁCIO

São Paulo, 3 de março de 2013.


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O PRINCÍPIO ME deslumbrei com a possibilidade de estar
fora do corpo, embora somente aos poucos me desse
conta de que a situação era irreversível. Os pensamentos
das pessoas no velório, familiares pensando em como
ficariam os direitos intelectuais de minhas obras e outras
situações que considerei insólitas naquele momento; tudo
contribuiu para formar um quadro muito diferente daquilo
que eu vira até então. Nunca havia pensado em como seria
cômico, até, poder penetrar nas emoções das pessoas
ou quanto seus pensamentos eram permeáveis. Mas aquilo
tudo não era brincadeira. Aos poucos surgia um sentimento
de saudade, um quê de gratidão pelo corpo que repousava
no caixão. Enquanto isso, outra parte do meu cérebro, se
é que eu ainda tivesse um cérebro depois de morto, parecia
se divertir com a situação ou, se não isso, ao menos observava
com certa curiosidade as pessoas, seus sentimentos e
emoções, e a realidade por detrás da fantasia de sofrimento
habilmente demonstrada por muitos ali presentes. Mas
as emoções... essas eu não conseguiria disfarçar por muito
tempo. Na verdade, disfarçava também por saber, no fundo,
que não havia retorno. Deveria reaprender a viver como
morto vivo e, quem sabe, até mesmo começar tudo de novo,


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soletrar o bê-á-bá outra vez, pois o mundo para o qual fora
transferido de maneira definitiva era algo completamente
distinto de tudo quanto conhecia ou a que me acostumara.

Comecei a pensar em como me comunicar com os possíveis
habitantes deste lugar, deste universo onde agora me
encontrava. E havia outros habitantes. Disso eu não poderia
duvidar, pois a lógica do raciocínio me demonstrava
isso. Se eu estava ali vivo, pensando, raciocinando, apesar
do corpo estendido sobre o leito, naturalmente outros também
haviam sobrevivido à morte. Aliás, se acontecia comigo,
então toda a humanidade sobreviveria; não era eu nenhum
privilegiado, nesse sentido.

Não sofri por estar morto. Senti, sim, uma espécie de
nostalgia ao concluir que tudo o que construíra, todas as
pessoas com quem convivera e a realidade com a qual me
relacionava tinham ficado para trás — para sempre. Puxa!
Para sempre é muito tempo. Muito mesmo! Porém, foi assim
que pensei naquele momento, e esse pensamento foi
suficiente para produzir certa melancolia em minha alma.
Logo, logo me peguei pensando em escrever sobre o assunto...
mas escrever para quem? Por quê? Quem leria minhas
crônicas e poesias, minha produção literária de morto vivo?


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Poderia eu continuar sendo um jornalista depois de morto?
Enquanto a multidão visitava o corpo cujo coração resolvera
entrar em colapso, parar de vez, tive de enfrentar

o avesso das coisas. O outro lado da realidade a que todos
os humanos estavam habituados. E tive de me enfrentar.
Mas Deus me livre de sofrer por isso. Escolhi jamais sofrer,
mesmo depois de morto. Como? Não dei importância aos
pensamentos de dor, tormento, revolta ou culpa. De modo
algum poderia me permitir esse tipo de situação íntima
quando a minha curiosidade por essa vida do Além superava
qualquer possível tendência ao masoquismo. Que sofresse
quem quisesse. Eu, decididamente, não tinha tempo
para isso. E olhe que tempo, a partir de então, é o que não
me faltava. Mas não queria nem poderia desperdiçá-lo com
sofrimentos e lamúrias que a nada me conduziriam.
Notei certo quê de saudade ou de vontade de rever minha
filha, que, quem sabe, estivesse em condições de vir
me ver, já que eu chegava a este outro lado como morador
definitivo. Mas... pensei: "Apesar da saudade dela, a mesma
saudade que te levou à depressão há alguns dias, deixe-
a seguir seu caminho". Outra hora eu voltaria ao assunto.
Agora queria explorar tudo ao meu redor, a começar pelos


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pensamentos das pessoas ali presentes. E curtir a pantomima
a que se entregavam, representando uns para os outros.
Acreditavam piamente que o morto em nenhuma hipótese
poderia conhecer o que pensavam. A maioria nem sequer
cogitava que o morto não estivesse tão morto assim.
E a saudade de minha filha parecia competir infinitamente
com minha curiosidade, sobremaneira exacerbada naqueles
primeiros momentos de vida de morto. Senti vontade de
tomar um vinho. Hummm! Como seria o meu predileto vinho
madeira? Como seria o original dele neste outro lado
do véu de ísis? Mas tive de deixar para depois os martínis,
os vinhos, fossem da Madeira, do Porto ou qualquer outro,
entre tantas coisinhas preciosas, sem falar no reencontro
com minha filha. Afinal, ela também era recém-chegada
a esta vidona de meu Deus e, como viria a confirmar mais
tarde, suspeitei que talvez estivesse se recuperando, digamos,
do cansaço da grande viagem.

Logo, logo me acostumei com a ideia de que as coisas
aqui não seriam exatamente o prosseguimento das que deixara
— ao contrário, pareciam-me bem melhores! Nossos
amores e afetos, embora continuassem amores e afetos, passavam
a ser tão somente outras almas, marujos no mesmo


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mar, a singrar o oceano desconhecido da imortalidade. Nossas
emoções, caso nos entregássemos a elas, constituiriam o
passaporte perfeito para a infelicidade e o inferno, que trazemos
todos dentro de nós. Por isso, ao me ver de pé ao lado
do antigo corpo, tomei a decisão acertada, segundo avalio
até hoje. Nada de sentimentalismo. Se na clínica, quando
dos últimos momentos, hora ou outra a tristeza havia me
visitado, aqui a curiosidade substituíra por completo a tristeza.
Havia a saudade, mas já que dispunha da eternidade
pela frente e já que o nada inexistia, então, que esperassem
os reencontros, que aguardassem as saudades, pois eu ainda
teria muita coisa a fazer pelo resto de minha vida eterna.

Não escolhi sofrer. E, ao pensar assim, descobri que
neste lado da existência pensava de maneira absolutamente
diferente do que nos derradeiros minutos da antiga existência.
A consciência da morte e, paradoxalmente, do fato
de que continuávamos vivos parecia modificar por completo
a realidade interna, íntima. O pensamento voava; não encontrava
apenas pedras no caminho. Havia muito mais do
que simples pedras no caminho... Havia construções, muito
mais do que areia; havia uma civilização invisível, em tudo
presente, viva, ativa, pululante de vida. E eu agora era par



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te desta civilização extracerebral, extrafísica, extracorpórea.
Isso era incrível e merecia ser celebrado. Mas eu ainda
não tinha acesso a meu saboroso vinho madeira, nem tampouco
ao martíni. Assim, eu comemorava internamente,
com mil pensamentos, com sentimentos novos, com uma
euforia na alma, que dificilmente eu poderia expressar em
palavras. Celebrava o fato de ser um vivo imortal. Não um
imortal vivo, como aqueles da velha Academia de Letras.
Não. Era um vivo imortal. E sem precisar, para tanto, ter
sorvido algum elixir milagroso que prolongasse a vidinha
no corpo físico. Não; não dependia mais do limitado corpo
envelhecido. E foi então que resolvi testar os poderes ocultos
da minha imortalidade.

Concentrei-me por longo tempo. Na verdade, uns dez
a quinze minutos — tempo demais para quem é imortal.
Concentrei-me de tal maneira que revi o corpo que tivera
mais de 20 anos antes. Pensei tão fortemente nele e com
tal intensidade e riqueza de detalhes que, ao abrir os olhos,
surpreendi-me ao constatar que meu corpo se tornara exatamente
igual àquele que visualizei. E tamanha era a alegria
ao descobrir o poder fantástico de minha condição de
imortal que gritei:


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- Viva!
Cerrei o punho direito e, como um adolescente, gritei
a plenos pulmões e saí correndo em torno do caixão, zombando
do povo que se contorcia para dar o último adeus ao
morto que não estava tão morto como aparentava.

— Ah!! — pulei novamente de alegria... — Que venham
a morte e seus desafios!
Sentia-me resoluto, agora. Desrespeitei meu próprio
velório e gritei e pulei como nunca. A morte até que não
é lá grande coisa, não. Ou melhor: a morte, ao menos para
mim, era o elixir da vida eterna! Decidi naquele momento
mesmo, diante do velho corpo que repousava frio no caixão:
a partir dali não sofreria jamais. Resolvi que aproveitaria
todo o tempo disponível para ser feliz à minha maneira,
isto é, estudando, trabalhando, matando a curiosidade e
escrevendo. Escreveria quanto pudesse para falar da vida
nova da imortalidade, das descobertas e da realidade da
vida além, sem fantasias, sem romantismos, mas da realidade
da vida assim como ela é.

Algum momento, pensaria em como mandar minha
produção para a imprensa do mundo antigo, dos que se
consideram vivos. Mas, por ora, descobrira o poder do pen



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samento, da vontade, da imortalidade. E exploraria ao máximo
a ocasião, aquele novo momento de minha vida, da
existência. Perante o aparente milagre do rejuvenescimento
da alma, esqueci-me inclusive das saudades da filha. E
gritei novamente, como um jovem alegre, inebriado com a
vida nova e com as possibilidades que se abriam diante de
meu espírito ávido por novidades, por novos conhecimentos
e, acima de tudo, por trabalho.

-Viva! !

— Alegre assim, Ângelo?
Virei-me rápido para o local de onde eu julgara ter vindo
a voz. Ainda não vira nenhum defunto vivo, além de mim
mesmo, nem ouvira nenhum pensamento, além daqueles
provenientes das pessoas que se achavam vivas entre os
chamados vivos. Mas ouvir a voz de outro imortal, era a primeira
vez. Virei-me no mesmo instante e vi um homem diferente.
Sorria, mas de alguma maneira ele era diferente.

— Seja bem-vindo ao novo mundo! — falou, sorrindo
um sorriso disfarçado, discreto. Mirei bem aquele ser estranho.
Um habitante do novo mundo, da nova vida e da nova
civilização onde eu aportara. Era alto, cabelos cortados de
tal maneira que me remetia aos militares. Roupas que eram

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estranhas para mim. As calças, semelhantes a bombachas,
lembravam soldados do III Reich. Apenas lembravam, pois
havia uma diferença marcante, que não consegui descobrir
de imediato. A camisa, algo imponente, parecia um traje de
gala ou algo assim: gola de padre, mangas longas, um distintivo
ou símbolo no lado esquerdo do peito. Era diferente
de tudo e de todos os militares que conhecera na Terra.
Mas com certeza era alguém que ocupava um cargo importante
neste mundão novo que eu começava a descobrir. Parecia
alguém de uns 30 a 35 anos, no máximo. Eu analisava
cada detalhe. E ele soube disso. Sorriu agora um sorriso
largo, magnético, enigmático.

— Eu sou Jamar! Muito prazer.
— E eu me chamo Ângelo, Ângelo Inácio. Muito prazer,
também.
Medindo-me, como a penetrar meus pensamentos, e
eu incomodado com esse fato, acentuou bem as palavras:

— Ora, ora! Já que você conseguiu chegar aqui sem o
peso da culpa que muitos forjam em suas mentes, parece
claro que se liberou conscientemente de uma carga muito
pesada. Não percamos tempo; você não pode mais continuar
aqui. Vamos embora!

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— Continuar aqui? Ir embora?
— Ou você pensa que continuará velando o próprio
corpo como esse povo todo aí, ainda mais agora que já descobriu
a inutilidade dessa despedida que fazem? E como
já sabe dos pensamentos que passam pela cabeça daqueles
que o homenageiam, então, por que ficar aqui? Perdendo
tempo? Temos muita coisa pela frente! Há muito trabalho
por fazer e você precisa começar logo. Tem de se preparar
para voltar.
— Voltar para onde?
— Na hora certa, você saberá. Por hora, temos de sair
daqui. Outros espíritos já estão a caminho para fazer o que
tem de ser feito.
Hesitei por alguns momentos, até que o vi envolvido
por uma luz quase mística. Ao redor, irradiações magnéticas
desenhavam o que me pareciam asas, como se fossem
de anjo ou algo do gênero. A visão foi muito rápida, porém

o suficiente para saber que lidava com alguém especial ou,
no mínimo, diferente de tudo e todos que conhecia. Desembainhou
em seguida uma espada, até então não percebida,
e brandiu-a no ar. A medida que intensificava aquelas
energias em torno de si, na forma de asas, conforme inter

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pretei na ocasião, suas roupas pareciam se diluir numa frequência
diferente, numa luz também distinta, mas que lhe
conferia a aparência de um anjo guerreiro, talvez meu anjo,

o anjo de guarda. E minha mente de imediato fez as conexões
necessárias, a fim de que eu não me demorasse mais
ali. Não poderia recusar o convite de um ser desses. Eu era
convidado para ir ao lado dele para sei lá onde, e soube que
não havia como recusar.
— Vamos, Ângelo! — falou, com o sorriso enigmático.
Enquanto falava, com uma mão estendida para mim e a
outra segurando a espada, instrumento que naquele momento
não tive condições de analisar, ele simplesmente
abriu um rasgo no espaço à sua frente. Uma porta no espaço
ou entre dimensões? Não saberia definir, ainda. Mas
a espada de fato abriu uma brecha no universo, quem
sabe, e pude vislumbrar, através daquela fenda, um mundo
diferente, talvez uma cidade, muito distante. Estrelas
que pareciam de outro mundo, estrelas que pareciam
me fitar... e o homem, Jamar, estendia-me a mão, embora
o convite se fizesse mesmo pelo pensamento, que também
rasgava o meu, e penetrava-me internamente como se fosse
o fio de sua espada.

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Eu olhava fascinado pela abertura dimensional instaurada
pela espada do guerreiro, do guardião, como ficaria
sabendo mais tarde. E aquele mundo diferente, iridescente,
cheio de estrelas; aquela cidade, cujo esboço eu via entre
os sóis da amplidão, rebrilhando entre nuvens ou poeira
de estrelas, parecia me magnetizar. E o fenômeno todo
daquele instante parecia diluir minha alma, de tal modo
que, ao tocar a mão estendida de Jamar, senti como se minha
alma toda se abrandasse e engrandecesse; acalmavam-
se meus pensamentos, tranquilizavam-se minhas emoções.
A curiosidade inata repousou por um instante, pois me senti
adormecer como num sono agradável, sereno e povoado
de sonhos. Sonhei com um país diferente, sem ditadura nem
ditadores, sem limites fixados por bandeiras ou fronteiras
hostis. Um país para o qual eu era levado pelas mãos de Jamar,
o anjo que me acompanhava em direção ao início de
uma vida nova, uma aventura espiritual que jamais teria fim.

Quando abri os olhos, fui tomado de surpresa. Encontrava-
me deitado numa espécie de barco, que deslizava
suavemente sobre águas calmas. Seria um mar? Não saberia
precisar, embora, para onde quer que olhasse, percebesse
somente águas e mais águas. Esforcei-me e me pus de


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pé, devagar, sentando-me logo após. E Jamar estava lá, de
pé, ereto, na proa da embarcação, ainda rebrilhando, porém
discretamente, como se quisesse disfarçar sua aparência.
De um lado e outro, dois outros homens remavam com
notável tranquilidade, ambos em pé, e somente eu sentado.
Brisa suave parecia vir de algum lugar; ao longe, à frente
do barco, avistava-se um brilho, um tremeluzir de uma
luz que, a mim, pareciam-me as luzes de uma cidade. Seria
a cidade que eu percebera quando Jamar rasgara o espaço
com sua espada? Seria a cidade das estrelas? Não saberia
dizer. Aliás, eu não sabia sequer como adormecera e nem
como fora parar ali.

— Este é o Mar da Serenidade! — falou Jamar, sem
olhar para mim.
Deliciava-me ao contemplar a paisagem marítima, e
agora tinha a confirmação de que estava diante de um mar.
Águas extremamente claras e de tal maneira translúcidas
que podia divisar golfinhos nos seguindo, pulando ora aqui,
ora ali, ao lado da embarcação, além de diversos outros habitantes
das águas. Ainda sem olhar para mim, mas fixando
longe aquilo que devia ser uma cidade, mas cujos detalhes
me escapavam, Jamar continuou:


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— Estes são guardiões, que estão nos remos. São servidores
como eu e meus outros irmãos.
Olhei para os dois homens que estavam de pé remando,
cada qual de um lado do barco, e os vi sorrir. Um sorriso largo,
aconchegante, espontâneo. Foi o suficiente para me sentir em
casa; era como se conhecesse essa gente de longa data. Até
mesmo Jamar, o anjo que nos conduzia. De repente, fui surpreendido
por um enxame de seres que pareciam borboletas.

— Não são borboletas. Olhe bem, Ângelo!... — falou Jamar,
sem se voltar para mim, ainda fitando ao longe.
Novamente observei e notei que o panapaná — ou seja
lá como se classificasse essa comunidade de seres — parecia
brincar sobre as águas, arrastando-se em grande velocidade.
Eram fosforescentes, a meu ver, e irradiavam uma
tonalidade azulada, quase como neon. Mas pareciam quase
humanos, muito embora o tamanho menor que uma mão
humana. Brincavam, sorriam e dançavam sobre as águas
em bandos, enquanto alguns cavalgavam um ou outro golfinho,
que pelo jeito se deliciavam com a presença daqueles
seres pequeninos. Pensei que estava sonhando, ainda.

— Não está sonhando, Ângelo. São seres reais, são habitantes
das águas e vêm nos recepcionar. Para onde iremos,

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você se acostumará com a presença deles. São os chamados
elementais.1

Minha mente pareceu um turbilhão. Minhas emoções
arrebentavam de dentro de mim ao perceber a vida abundante
naquele novo ambiente. E minha reação foi a mais
human a possível: comecei a chorar. Só então Jamar voltou-
se para mim.

— Não há como não se emocionar com a riqueza da vida
ao nosso redor. Sinta-se à vontade, amigo. Também choro
muitas vezes diante da manifestação da natureza sideral.
Olhei ao redor e vi os golfinhos levando vários seres na
garupa, os quais se divertiam visivelmente. Eram habitantes
daquele mund o diferente, novo, estuante de vida. E eu
exultava ao presenciar tudo aquilo.

Para maiores esclarecimentos sobre os elementais naturais, agrupados sob a denominação
espíritos da natureza na codificação espírita (cf. KARDEC. O livro dos
espíritos. Ia ed. esp. Rio de Janeiro: FEB, 2005. p. 337-340, itens 536-540), consulte

o volume 2 da série Segredos de Amanda (PINHEIRO. Pelo espírito Ângelo Inácio.
Amanda. 13a ed. rev. ampl. Contagem: Casa dos Espíritos, 2011. p. 86-98, cap. 7). Há
esclarecimentos importantes nesse trecho, inclusive sobre a opção por adotar a nomenclatura
do esoterismo clássico, elementais.

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— Estamos chegando — informou um dos guardiões
que remavam. Deixaram os remos de lado, e o barco deslizava
sozinho, pelo menos deduzi assim. Mas não! Eram
os golfinhos e os seres pequeninos que conduziam a embarcação
no trecho próximo à hora de atracar. Chegamos
deslizando, lentamente, sobre as águas calmas daquele mar
sereno, em tudo diferente do que eu conhecia. Mais e mais
seres das águas se mostravam às dezenas, às centenas. E o
mar parecia ganhar vida, uma vida nunca antes percebida
por mim ou, quem sabe, ainda desconhecida de todos na
face da Terra. Desembarcamos devagar e meus pés se molharam
naquela água ligeiramente fresca, agradável. Comovia-
me com cada detalhe do mundo novo. Foi quando notei
que havia gente nos recepcionando.
Logo ao pisarmos o solo, um grupo de crianças, adolescentes
e outros personagens diferentes, exibindo trajes de
diversas épocas e estilos, vinham em nossa direção. Alguns
correndo, brincando, soltando gritos de felicidade. No meio
deles, para minha surpresa, Maria, a minha Maria vinha me
receber. Além, um pouco mais vagaroso, como dando tempo
para os demais se apresentarem, notei um homem elegante,
um senhor já de idade, terno branco, alvíssimo, de linho


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puro. Sorriso largo nos lábios, olhava-nos, enquanto eu recebia
das mãos de uma criança um colar semelhante a um colar
havaiano, porém feito de flores reais, naturais, perfumosas.

Chorei ao rever Maria, minha adorada filha. E a saudade
arrebentou dentro de mim, disputando espaço com
emoções novas. Sem sofrimento, porém. Senti-me renovado
ao abraçá-la.

— Estou aqui apenas esperando a sua chegada, meu pai.
Apenas por um pouco de tempo, para que saiba que estou
bem e viva — disse ela. Abraçamo-nos ali mesmo, e me senti
aconchegado em seus braços por um tempo muito longo.
Ou seria impressão minha? Sei que, quando nos soltamos
um dos braços do outro, sentia-me ainda mais jovem do que
quando mentalizei o corpo de alguns anos antes. E Maria
olhava-me, e falava mais com o olhar do que com palavras.
Logo veio o ancião vestido de terno branco, enquanto
algumas crianças me conduziam pelas mãos. Maria ficou a
certa distância, olhando-me e sorrindo:

— Não se preocupe, meu pai. Você está em casa. Estaremos
juntos, a partir de agora — e senti que isso era verdade.
— Seja bem-vindo ao lar, Ângelo Inácio! — saudou-me
com largo sorriso o ancião que me recebera, acompanha

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do por Jamar, que curvava levemente a cabeça, como se o
reverenciasse.

— Obrigado pela acolhida generosa! Mas sabe o meu
nome, e eu não o conheço ainda...
— Chame-me de João! Apenas João. Isso é o bastante
por enquanto, meu filho.
— Este é um dos anciãos que compõem o colegiado de
nossa cidade — explicou Jamar.
— Colegiado?
— Mais tarde será devidamente informado.
Olhei ao redor e vi campos, florestas, montanhas. Ao
longe, talvez a alguns quilômetros, ainda, a cidade que se
erguia majestosa, entre bosques, trepadeiras, jardins e rios,
que pareciam escorrer de montanhas; havia também prédios
e outras construções. Era uma paisagem diferente,
exótica, maravilhosa, deslumbrante, em tudo diferente das
cidades que eu conhecera e da própria cidade maravilhosa
de onde viera. Tudo parecia repleto de vida, de cor e de
aromas únicos e inebriantes.

O ancião negro à minha frente segurava uma espécie
de cajado ou bengala, embora não precisasse de nada para
apoiar-se, afigurando-se mais como acessório a compor



35

-lhe o visual do que auxílio à locomoção, de modo a torná-
lo ainda mais elegante. Entre as crianças e adolescentes
que me recepcionaram, pude notar algo curioso: a grande
variedade de etnias ali representadas, num amálgama bonito
de se ver. Negros, mulatos, brancos e ruivos dos traços
os mais diversos, além de indígenas de toda parte, dos
peles-vermelhas aos aborígenes e outros mais, sem falar
nos representantes de povos asiáticos, em toda sua riqueza;
enfim, um mosaico de etnias, povos e culturas que me impressionou.
Ao que me parecia, conviviam todos de maneira
harmoniosa. Seria ali o Céu? A antecâmara do paraíso?
Sorrindo sempre de modo sincero e generoso, João olhou
para mim e, colocando a mão sobre meu ombro direito,
apontou para a cidade ao longe.

— Não é o Céu ainda, Ângelo. Ainda, não! — disse rindo
com um sorriso farto, espontâneo. — Aqui não tem anjos
nem santos — falava pausadamente —, apenas seres humanos
como você, eu e Jamar ou como os bilhões na superfície
do planeta. Aqui também estudamos, aprendemos, erramos
muito, mas muito mesmo, e tentamos acertar ao máximo.
Aqui é simplesmente a Aruanda de todos os povos, de todas
as gentes. Apenas a Aruanda.

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Não saberia dizer o porquê, mas esse nome me tocou
profundamente o coração desde o instante em que o ouvi
ser pronunciado pela primeira vez. Seu eco em minha mente
parecia mexer fundo com meus sentimentos e emoções, e
ainda não havia penetrado os limites da cidade, em si. Estava
na periferia, digamos assim. Enquanto mirava a cidade, que
para mim se afigurava deveras distante, fui insistentemente
chamado por um jovem adolescente, que apontava em determinada
direção, tentando me mostrar ao longe, do lado oposto
àquele onde se via o mar por onde chegáramos. Apontava
as montanhas no horizonte. E me encantei com o que vi.

Choupanas, bangalôs de traçado incrivelmente elegante,
contrastando com a simplicidade de sua estrutura. Eram
casas que, a meus olhos, pareciam feitas de madeira, mas
conviviam tão harmoniosamente com a paisagem natural
que formavam um quadro encantador, em meio a riachos,
cachoeiras e vegetação de tons variados, além de pássaros
e outros animais que jamais imaginava poder encontrar
após a morte, ou após a vida, em outra vida, em qualquer
lugar do universo. Havia também outras construções, que
pareciam feitas de concreto ou alguma substância similar,
mas na ocasião desconhecia pormenores para descrevê-las


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melhor. Do mesmo modo, exibiam beleza e conviviam pacificamente
com a natureza, denotando que o paisagismo
fora detalhadamente planejado, de forma a preservar tanto
a elegância das construções quanto o relevo e a vegetação
exuberante no entorno de cada uma delas. E me encantei, e
chorei novamente de emoção, de alegria por me sentir vivo
e por saber que faria parte de tudo aquilo, daquela paisagem
extraordinária, diante da qual as belezas naturais da
cidade de onde vinha eram apenas uma amostra, um esboço,
talvez. Nada se comparava àquilo que meus olhos enxergavam.
Nada. Enfim, aquela era a Aruanda da qual João
me falava e que as crianças e jovens me mostravam. Eu respirava
fundo o ar fresco e o frescor que parecia me trazer,
impregnado do aroma de flores de laranjeira.

— As construções que lembram algumas que você já
viu na Terra, Ângelo, feitas de concreto, são museus, onde
os artistas da nossa cidade e de outras expõem suas obras,
produto de criações mentais. No total, são 1,2 mil museus
dispostos em meio às montanhas, vales e planícies. As
choupanas, casas simples e bangalôs são habitações de espíritos,
daqueles que preferem viver em meio à natureza,
de maneira mais direta e intensa, e que não apreciam tanto

38

a vida urbana, isto é, na cidade, propriamente. Adiante —
continuou Jamar, aproximando-se de mim e de João, que
ainda repousava o braço sobre meus ombros — há outras
habitações, laboratórios de experimentos com a natureza,
entre outros departamentos, que você terá bastante tempo
para explorar.

Tudo aquilo era muito novo para mim. Embora me sentisse
à vontade diante das pessoas que me recebiam, àquela
altura percebi-me ainda um pouco fraco. Não sei se devido
ao fato de ter morrido para o mundo, ou desencarnado,
conforme algumas correntes espiritualistas diziam, certo é
que a transição parecia ter afetado de alguma maneira minha
vitalidade. Não era um cansaço profundo ou pesado,
como quando se está esgotado, após uma jornada de trabalho
intensa. Não! Era algo mais ameno, mas que me deixava
claro ser necessário repousar. Repousar? Ali mesmo veio à
tona o questionamento cruel: onde poderia eu descansar?
De que forma encontrar um local para me hospedar ou morar?
Acabara de chegar a este mundo espiritual, conforme
chamavam a vastidão daquele universo de almas e homens.
Não me senti confortável para falar a respeito e logo pensei
em minha filha. Ela chegara poucos dias antes de mim,


39

portanto talvez pudesse ficar com ela; assim, teríamos tempo
para conversar. Mal formulei o problema e João dava
mostras de conhecer profundamente meus pensamentos e
questionamentos:

— Não se preocupe, Ângelo. Você será encaminhado a
um dos nossos hotéis na cidade. Lá se sentirá tão à vontade
que talvez seja difícil convencê-lo a sair de lá, depois. Mas
tudo a seu tempo. Maria o acompanhará, junto com Jamar.
— Hotel? Como assim? Há hotéis por aqui?
— E como não? — falou Maria ao aproximar-se de mim,
tomando o lugar de João e abraçando-me. — Aprenda de vez,
meu pai: o mundo aqui é o mundo original, primordial; lá, na
Terra que eu e você deixamos há pouco, está apenas a cópia.
Lembrei-me de alguns hotéis onde havia me hospedado,
em cidades do Brasil e do mundo. E vários deles foram
bons hotéis.

— Então, se na Terra muita coisa é de boa qualidade,
imagino o original, do lado de cá...
— Pois é, meu querido — retornou Maria, dando-me
maior atenção ainda. — Em pouco tempo me surpreendi
com muita coisa, mas creio que para você, com sua curiosidade
inata, o campo de pesquisa seja muito mais vasto.

4 0

— Por acaso posso continuar escrevendo aqui? Posso
ser jornalista, também?
Antes que Maria me respondesse, Jamar assumiu a
dianteira e falou:

— Claro, Ângelo. Você verá em breve que terá muito
trabalho a fazer nessa sua área. Terá muitos elementos a
pesquisar e um campo bem amplo a ser explorado e comentado
num outro tipo de jornalismo. Poderá, inclusive,
conhecer a redação do nosso jornal e, quem sabe, queira
ser um dos escritores do Correio dos Imortais.
— Então terei como fazer o que mais gosto, escrever...
— Sim! Para os vivos do nosso lado e para os que continuam
na carne — completou ele.
— Não entendi. Quer dizer que não se fecharam para
sempre as portas de comunicação com o mundo dos vivos?
— impressionei-me.
— E você, eu e sua filha, por exemplo, não estamos vivos,
também?
— Eu sei, eu sei, mas falo dos que vivem no mundo, no
mundo que deixei...
— Ah! Sei do que está falando — Jamar se fazia de bobo
de propósito. — Basta por ora saber que você poderá voltar,

41

sim. E muito mais breve do que poderia imaginar!... Mas
vamos ao hotel.

Fiquei duplamente intrigado, curioso ao extremo. Ir
a um hotel numa cidade feita por espíritos e para espíritos.
De outro lado, a possibilidade de retornar ao mundo,
de trabalhar como repórter, escritor, jornalista. Como poderia
ser isso? Minha mente estava febril; antes mesmo das
outras surpresas que viria a ter, parece que meu cansaço
havia passado. Não conseguia pensar em nada mais, a não
ser o que eu escreveria sobre o mundo novo que começava
a conhecer. Mas aquilo era apenas a ponta do iceberg; jamais
imaginaria quais experiências me aguardavam. Mesmo
assim, fui descobrindo pouco a pouco que este mundo
novo talvez fosse mais desafiador, ao menos no que tange
a ideias e descobertas, do que o mundo antigo, que deixei
junto com o corpo físico.

Um veículo aproximou-se rapidamente de nós. E esse
foi mais um desafio para o tipo de ideia que eu ameaçava
fazer da vida de espírito. Era um veículo pequeno, bem ao
estilo dos automóveis que desfilavam nas ruas da Cidade
Maravilhosa e de outras tantas cidades do mundo... Não
fosse o fato de que não precisava de rodas! Deslizava a al



4 2

guns centímetros do chão daquele novo lar. Olhei para Jamar,
que sorria discretamente — aliás, dificilmente o vi sorrir
de maneira mais aberta, explícita, gargalhando, como se
vê entre os chamados vivos. Abriu-se a porta do veículo e
entramos, Maria, o próprio Jamar e eu. Não explicou, apenas
acompanhou meus pensamentos. Naquele ponto, era
claro para mim que ele conhecia os caminhos intricados
que trilhavam meus pensamentos.

— São aeronaves, meu pai — socorreu-me Maria. —
Aqui também existe muita tecnologia. Já vi muita coisa, em
poucos dias.

— Mas não somos todos espíritos? Por que não saímos
voando por aí?
— Não é simples assim. Você aprenderá logo, logo. Fique
quieto que terá outras surpresas por aqui.
O veículo partiu numa velocidade altíssima para os padrões
terrenos. Deslizava com tal facilidade que não percebi
nenhum sinal de movimento semelhante ao que ocorre
com os carros convencionais ao frear ou acelerar. Depois
de algum tempo, elevou-se ao alto e saiu voando, embora
parecesse planar enquanto adentrava a metrópole, propriamente
dita. E fiquei deslumbrado. Seria Niemayer o


43

arquiteto mágico de tudo isso? Mas não; ele permanecia
encarnado quando abandonei o corpo físico. Ou teria ele
estudado aqui antes de nascer no mundo? Quem sabe algum
artista, esteta ou escultor entalhara ou projetara aquela
maravilha da arquitetura, como se fosse uma obra-prima
engastada na própria natureza desse mundo imponderável,
invisível aos olhos humanos? Meu Deus!... Fui tomado de
deslumbre ao pensar no autor de tudo o que via.

Edifícios que pareciam esculpidos em cristal ou substância
similar; outros, em uma matéria tão sutil, etérea,
quem sabe de determinada constituição nunca antes detectada,
descoberta ou conhecida entre os mortais. Tudo
brilhava, cintilava entre formas e cores que em nenhuma
hipótese havia percebido ou vislumbrado. No meio da natureza
preservada, cultivada, eis que trafegavam os veículos,
uns imensos, outros menores e alguns outros, vistos ao
longe, rompendo o horizonte, pareciam sair da atmosfera.
Nunca me senti tão pequenino como naquele momento.
E, na Terra, como a gente se gabava de ter construído uma
civilização... Descerrava-se ali a verdadeira civilização do
planeta Terra. Meu coração encheu-se de terna gratidão à
vida, enquanto lágrimas desciam à minha face.


4 4

O veículo se dirigiu a determinado ponto da grande
metrópole, que se assemelhava a bairros residenciais da
paisagem urbana, de certa maneira. Pairamos no andar baixo
de um edifício de linhas modernas, em local que parecia
estar reservado ao veículo que nos conduzia. Jamar desceu
primeiro, abrindo a porta para nós.

Encontramos uma mulher elegante, trajando uma roupa
que lembrava a belle époque e os anos 1920 da antiga Paris,
com um chapéu igualmente elegante emoldurando os
cabelos. Maquiagem discreta, traços fisionômicos que inspiravam
confiança e segurança, ao mesmo tempo.

— Seja bem-vindo, guardião da noite. Sejam todos bem-
vindos. Já estamos esperando por vocês.
Olhei para Jamar como a pedir alguma explicação. Ele
ignorou minha curiosidade.

— Fique quieto, meu pai — falou Maria. — Em breve
você saberá quem é Jamar e por que está abonando nossa
estadia aqui.
Adentramos o ambiente, que à primeira vista não se
diferenciava de um dos ótimos hotéis, diria quase de luxo,
de uma capital europeia. Porém, distinguia-se pela sobriedade,
elegância e beleza incomuns, sem nada que reme



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tesse a fausto e opulência. Havia uma recepção e um balcão,
onde eram registrados os hóspedes, como de costume.
Para lá nos dirigimos, na companhia da mulher que nos
conduzia.

— Já o aguardávamos aqui, Sr. Ângelo! Meu nome é Dayane
e pode ficar à vontade para perguntar o que lhe convier.
Contudo, preciso que preste atenção a algumas informações
que devo lhe passar.
Olhei para Maria e também para Jamar, mas eles pareciam
mancomunados. Deixaram-me a sós com minha
curiosidade quase mórbida, que aflorava a todo vapor.

— Não é necessário preencher qualquer ficha por aqui.
Preciso apenas que o senhor seja submetido ao sensor de
emoções. Mas não demora o procedimento; é algo simples,
cujo funcionamento poderei lhe explicar, mais tarde.
Conduziu-me ao balcão e lá me orientou a colocar a
mão espalmada sobre um aparelho, que tinha a superfície
feita, ainda, de uma variação de um cristal cintilante. Assim
que pus a mão ali, à minha frente se ergueu uma espécie de
tela holográfica, com várias informações sobre minha vida,
e algumas outras que não pude entender naquele momento.
"Altíssima tecnologia", pensei.


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— Com certeza — afirmou Jamar, rompendo o silêncio.
— Pois bem, senhor — falou Dayane, a dama que nos recebera,
enquanto outras pessoas ou espíritos também eram
atendidos por seres que ali trabalhavam. — Temos aqui
uma espécie de hotel. Na verdade, assim o chamamos para
melhor facilitar o entendimento das pessoas que chegam à
nossa cidade diariamente, tanto advindos da Terra quanto
de outras cidades do espaço. Existem apenas duas regras:
convivência pacífica com a natureza e respeito aos limites.
Não se paga nada; sua estadia é abonada por seres mais experientes
que patrocinam sua vinda à nossa Aruanda. Ficará
aqui temporariamente; mesmo assim, estruturamos um
tipo de apartamento de acordo com suas necessidades particulares
e alguns de seus hábitos na Terra, de tal maneira
que não sofrerá grande impacto no novo ambiente. Fique à
vontade para pedir qualquer coisa através do aparelho de
comunicação que encontrará em seus aposentos.
A mulher saiu para logo começar o atendimento a outra
pessoa que chegava ao local. Não imaginei que fosse
simples assim o atendimento e tão rápido como se deu.

— Voltarei mais tarde, Ângelo. Devo comunicar a alguns
amigos sua chegada. Daremos um tempo para que se

4 7

recupere; porém, fique atento, pois daqui a exatamente 4
horas chegará um médico para ver seu estado energético e
emocional. É alguém muito humano, como você e eu; não
se preocupe. Aconselho que descanse, durma um pouco e
deixe a curiosidade para depois. Terá muita coisa com que
se ocupar breve, breve. Aproveite, pois espero que não fique
tempo demais por aqui — Jamar saiu, despedindo-se
de Maria e de mim e fazendo um aceno discreto para a mulher
que nos recebeu naquele ambiente tão acolhedor.

Olhei mais detidamente em volta e comecei, então, a
notar diferenças mais marcantes em relação às construções
terrenas. Mas eram tantas, tanta tecnologia que eu nunca
vira na Terra, que pensei estar inserido nu m sonho tridimensional
de ficção. No entanto, a presença de minha filha
me fez crer que aquilo tudo era realidade — era a nova realidade
com a qual eu teria de conviver a partir dali. Respirei
fundo. Abraçado com Maria, deixei-me conduzir por ela e
por outro espírito que logo se apresentou, no novo ambiente
onde eu repousaria por certo tempo. Iniciava-se ali minha
descoberta daquela cidade espantosa, maravilhosa e
sobretudo diferente de todas que conheci durante a existência
física. Eis que agora eu morava na Amanda; ao me



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nos por enquanto era hóspede em uma metrópole espiritual
que os humanos encarnados nem sonhavam existir.
Era a cidade dos espíritos, a cidade das estrelas.


53

ESPERTEI EXATAMENTE QUATRO horas depois, ou melhor,
dormi três horas apenas, pois durante uma das horas
a mim concedidas fiquei bisbilhotando o hotel e tentando
obter informações sobre seu funcionamento. Era tudo muito
inusitado e extraordinário para mim, embora estivesse
satisfeito com o fato de estar vivo, apesar da morte. Não
obstante, encontrar uma estrutura tão complexa e ainda incompreensível
para mim era algo que definitivamente me
intrigava e me instigava o espírito aventureiro e a curiosidade
inata, que fazia despertar em mim o interesse por tantas
coisas.

Acordei me sentindo satisfeito, inspirado, quase em
plena saúde. Assim que me levantei, descobri que o médico
já me aguardava na antessala. Alto, claro, magro e vestido
de maneira sóbria, impecável, parecia haver chagado
ali há apenas um minuto. Mas esperava por mim. Mal havia
me colocado de pé e ouvi tocar um instrumento, que soou
para mim como uma campainha, emitindo um som suave.
Apressei-me até a porta e vi o médico em pé diante de mim.
Não demonstrou hesitação: entrou imediatamente no amplo
quarto onde me encontrava e começou a conversa, quase
sem se apresentar:


5 4

— Boa tarde, Ângelo! Não temos muito tempo, meu irmão.
Sou um dos servidores da cidade e estou aqui para
avaliar sua condição energética ou saúde espiritual. Sente-
se, meu caro.
Fiquei um pouco perdido, confesso, mas obedeci quase
cegamente, pois sentia uma ascendência moral naquele homem,
como se fosse um carisma irradiante. Ia esboçar uma
pergunta quando ele continuou por si mesmo:

— Durante o tempo em que dormia, dois de nossos
magnetizadores ficaram a postos no quarto ao lado, manipulando
suas energias, magnetizando-o, de maneira que
pudesse se sentir melhor quando acordasse. Espero que tenha
sentido os resultados.
Enquanto discorria, tirava de uma maleta alguns instrumentos
e os colocava numa mesinha ao lado. Aliás, devo
acrescentar, uma mesinha sem pés, que de alguma forma
eu não havia reparado, flutuava no ambiente como um balão,
a apenas alguns centímetros do chão. Colocou ali dois
aparelhos muito pequenos, menores que uma mão humana,
e, ao tocar-lhes a superfície, sem botões aparentes, foram
acionados e começaram a funcionar. Enquanto isso, retirou
uma espécie de tubo de uns 20cm do mesmo lugar de onde


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extraíra os instrumentos anteriores. Tocava em mim levemente,
em alguns pontos que para mim não significavam
grande coisa, ao menos naquele momento. Provavelmente,
notando minha curiosidade sobre a forma como praticava
sua medicina, achou por bem esclarecer:

— Nossa medicina aqui é bem mais avançada que a
medicina terrena, isto é, dos encarnados. Do lado de cá
da vida, contamos com especialistas na tecnologia sideral
que desenvolvem instrumentos apropriados para devassar
o corpo espiritual de meus irmãos. Estes dois instrumentos
são usinas de energia que emitem radiação e eletricidade
que seriam suficientes, comparativamente, para abastecer
duas das grandes metrópoles da Terra por mais de 20
anos. Guardam um potencial que não pode ser mensurado
apenas pelo seu tamanho. Quanto à nossa medicina, ela é
energética, psicossomática. Avaliamos com instrumentos
ultrassensíveis os campos de força, as correntes de energia
e a condição das emoções de nossos pacientes. Não utilizamos
em nossa cidade métodos tradicionais como cirurgias
invasivas, injeções ou outros recursos usados na Terra
e também em muitas cidades espirituais. Aqui nosso tratamento
usa técnicas avançadas de magnetismo e alguns pro

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cedimentos mais intensos, em caso de necessidade, porém
não invasivos. Isso também é possível porque nos hospitais
da cidade não temos espíritos dementados ou em condições
de significativo desajuste. Mais tarde, poderá visitar-
nos as instalações médicas, caso queira.

O homem falava enquanto me analisava. Sentia que o
aparelho produzia em mim uma sensação de formigamento,
que até me parecia uma leve anestesia. Porém, o médico
não entrava em detalhes. Mal eu esboçava uma pergunta ou
pensava em falar e logo ele prosseguia:

— Como eu imaginava, algumas sessões de magnetismo
e um acompanhamento detalhado de seu estado emocional
serão suficientes para você se sentir mais pleno e em condições
de trabalhar. Tenho lhe acompanhado desde algum
tempo antes de realizar a grande viagem. O descarte biológico
foi programado detalhadamente por nossa equipe e tivemos
o cuidado de acompanhá-lo nos primeiros momentos
pós-morte, dispersando os fluidos que poderiam ser
mal utilizados por inteligências da oposição. Afinal, você
era alvo dos opositores do Cordeiro. Tínhamos que cuidar
bem de você devido ao potencial para o trabalho e também
ao passado ligado a nós, de certa maneira.

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— Posso perguntar alguma coisa?
— Mas você está perguntando, meu amigo, só que me
adianto aos seus pensamentos apenas porque não disponho
de muito tempo. Mas pode perguntar, sim. Sinta-se à
vontade, ou melhor, nem tão à vontade assim, pois tenho
compromissos urgentes em outro departamento.
— Qual... — comecei a selecionar bem as palavras, demorando
um pouco a formular a frase. Mas parece que o
espírito à minha frente era mais ágil ou não tinha tanta paciência
assim.
— Joseph Gleber, à sua disposição, meu querido.
E voltando-se em direção à saída, caminhou, detendo-
se mais um pouco somente para acrescentar:

— Existe um gravador ao lado de sua cama. Fique à
vontade para formular perguntas no seu tempo e no seu ritmo.
Quando terminar, basta encaminhar uma solicitação a
Jamar e eu responderei com os devidos esclarecimentos.
Estarei sempre ao seu dispor, mas não posso me deter por
muito tempo. Espero que compreenda que nosso trabalho
aqui é intenso e daqui a cinco minutos tenho de realizar
uma conferência em outra cidade, o que requer minha dedicação
imediata. Deus seja contigo, amigo.

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E simplesmente saiu! E sumiu. E eu ali, boquiaberto,
sozinho, me sentindo um lixo espiritual... nem tanto lixo
assim — tudo bem, seria um exagero —, mas quem sabe solitário
ou, ainda, melindrado com a situação.

"E esse cara entra aqui assim, apressado, sem me fazer
nenhuma pergunta, com esse sotaque rude que me faz
lembrar sei lá o quê... Parece um Sr. Spock do Além, cheio
de parafernálias tecnológicas, quase mágicas, e nem me
mandou respirar fundo, não mediu minha pressão. Afinal,
morto também deve ter pressão arterial e, tendo ou não,
a minha deve estar nas alturas, neste momento." Me senti
desprezado. Não era somente na Terra que as consultas
médicas duravam tão pouco. Parece que aqui, no tal mundo
original e primitivo, as coisas também eram rápidas, muito
rápidas. "Quero protestar. Aqui também deve existir um órgão
de reclamações. Quem esse tal Dr. Joseph Gleber pensa
que é para me tratar assim? Nem me deu chance de perguntar
nada..."

— Eu lhe dei chance sim, meu irmão — ressoou uma
voz em meus pensamentos, deixando-me arrepiado. Arrepiado
mesmo! Descobri ali que espírito também arrepia
de medo, de pavor. O homem já havia saído e demonstrava

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saber o que eu pensava. — Peço-lhe desculpas, amigo, mas
passei apenas para uma visita rápida, uma vez que você
será atendido por outro amigo de minha equipe. Quis apenas
me certificar de que não precisaria ficar internado no
hospital. Mas estou atento a você em todo momento.

— Então por que não retorna para conversarmos?...
— Sinto muito, já não me encontro na mesma cidade
espiritual que você. Estou a mais de 5 mil quilômetros daí,
se assim posso dizer.
Levei as mãos à cabeça e gritei:

— Meu Deus, que horrível é conviver com gente assim!
Esse homem está falando dentro de mim, e está em outra
cidade, a mais de 5 mil quilômetros!... Não posso entender.
— Deixe de dramas, meu irmão! Você não leva jeito
para isso. Tem muito o que aprender e desaprender ainda.
E muito desafio pela frente. Ah! O tal doutor não é nada
mais do que um simples servidor. Não me chame de doutor,
por favor. Fique bem!
E a voz silenciou por completo. Comecei a apalpar minha
cabeça desencarnada, como tentando identificar se havia
um implante de algum microfone ali, mas não identifiquei
nada. Era somente eu, mesmo.


6 0

"Desisto, vou esperar Jamar chegar, pelo menos ele parece
ter algum tempinho para mim..."

Um som de campainha se fez ouvir no quarto. "Também,
parece que por aqui ninguém dá tempo de a gente
descansar!" Atendi a porta, e era alguém ligado à recepção
do chamado hotel.

— Desculpe, meu senhor, mas haverá uma reunião no
salão de conferências, logo após sua primeira alimentação,
que poderá ser servida aqui mesmo em seu quarto ou, se
preferir, junto aos demais que chegaram da Terra, em nosso
refeitório principal. Onde prefere, senhor?
— E espírito come também?
— Por acaso não sente vontade de se alimentar? — redarguiu
o homem à minha frente.
— Talvez um pouquinho...
Sorrindo largamente ele se apresentou, desculpando-se:
— Queira me perdoar, Sr. Ângelo. Não me apresentei.
Sou Bernardo e estagio aqui há bem pouco tempo, por isso
a inexperiência. Desculpe-me a indelicadeza, senhor.
— Mas você não foi indelicado...
— Bem, senhor, notará que trouxe muita coisa de sua
humanidade consigo. E alimentar-se é algo muitíssimo na

61

tural e prazeroso em nossa cidade. Que prefere: que sirvamos
no quarto ou no refeitório?

Pensei um pouco, mas não tanto, com medo de o rapaz
à minha frente ler meus pensamentos, igual ao médico
apressadinho, e logo comuniquei minha decisão:

— Creio que prefiro ir ao refeitório. Quero conhecer
outras pessoas.
— Pois não, senhor, assim será feito. Se precisar de algo
mais, eu mesmo estou à disposição neste andar, com meus
amigos estagiários, para servir no que for necessário.
— E em qual andar estamos? Onde fica o refeitório?
— Estamos no trigésimo sétimo andar, senhor. E o refeitório
fica no quinquagésimo, o andar rotativo. Temos 10
refeitórios e mais 5 de apoio, caso seja necessário. Assim
que entrar no elevador será informado como chegar lá. Eu
mesmo esperarei pelo senhor.
— Chame-me de você, meu rapaz!
— Pois não, senhor! Quer dizer, você. Ou melhor...
— Vá, vá, meu caro! Eu entendi.
E ele se foi, deixando um ar de descontração, embora
tenha ficado sem graça. E eu me esforcei muito para não
corrigir o rapaz ali mesmo, no primeiro encontro. Parecia


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boa pessoa. Talvez eu pudesse falar com ele e sugerir que
fizesse um curso de português, de comunicação e expressão...
Quem sabe por aqui também encontre escolas, universidades
ou coisas do gênero?

Entrei no quarto e respirei fundo. Quinquagésimo andar...
Bom, para um mundo de mortos vivos, até que as coisas
aqui eram bem marcantes.

Quando me dirigia à janela, pois ainda não tivera oportunidade
de observar a paisagem no entorno, notei que havia
algo pendurado num cabide, à minha frente. Um bilhete
dizia:

"Meu pai, deixo este traje para que possa usá-lo nos
próximos encontros. Parece que está ainda com um tipo de
roupa igual a que usaram para abrigar o corpo que foi enterrado.
Sei que aprecia algo mais elegante. Use-o, se gostar.
Depois nos levarão às lojas para comprarmos trajes novos."
Assinava Maria.

Minha filha fora cuidadosa, mas como ela deixou o traje
ali? Teria sido levado pelo médico ou pelo Bernardo? Ou
se materializara diante de mim e eu não percebera? E esse
negócio de ir às lojas? Como assim? Naquela cidade havia
lojas, comércio, o mesmo sistema de compra e venda, como


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na Terra? Em todo lugar do mundo espiritual as coisas
eram semelhantes a esta cidade? Eram muitas perguntas
e algumas delas não faziam sentido nem para mim. Mas...
eu teria de aprender a esperar. Com certeza, as respostas
viriam. E eu teria de me preparar para elas. Mas espíritos
fazerem compras em lojas? Não soava fantasioso demais?
Minha filha não estaria delirando? Era uma espécie de
transe provocado pela morte? Preferi nem pensar, pois até
meus pensamentos ainda pareciam os dos vivos incorporados,
encorpados, encarnados ou sei lá o quê. E então? Teria
eu que aprender uma nova linguagem? Haveria aqui também
uma gramática diferente? Acordos gramaticais, sentidos
diferentes para as palavras? Não, eu tinha de parar imediatamente,
senão ficaria louco. Um morto vivo louco.

Preferi desligar esses pensamentos e fui trocar de roupa.
Estava longe de ser o terno mais perfeito que já vestira,
mas Maria nunca foi lá tão boa assim ao escolher roupas
para mim; sempre era preciso fazer ajustes. Pelo jeito, aqui
também deveriam ser feitos os devidos reajustes, mas por
ora era o bastante.

Esqueci-me de olhar pela janela mais uma vez. Virei-
me e fui em direção à porta. O corredor do hotel era ex



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tenso, largo e iluminado. Um tapete de extremo bom gosto
cobria o pavimento, e os detalhes na decoração pelo menos
fugiam à mesmice tão frequente nos hotéis em geral, mesmo
os mais requintados. Bem, eu não conhecia os piores, os
medianos. Mas ao menos ali havia, sem dúvida, um toque
de arquiteto, uma estética delicada, sem exageros e luxo,
de bom gosto. Em seguida, toquei num lugar mais sensível,
apenas iluminado, próximo ao elevador. Na verdade, havia
oito elevadores no corredor onde me encontrava, de modo
que não esperei muito tempo. Logo que a porta se abriu notei
a presença de Maria, que me recebeu com um abraço.

— Que bom que você está bem, papai!
Havia mais de 20 pessoas no elevador... Muita gente.
"Mas, como espírito não deve pesar muito, acredito que
não cairemos."

— Verá como a cidade é bonita e aconchegante. Logo
após a reunião no salão de conferências, teremos a oportunidade
de sair um pouco por aí.
— Pelo jeito, então, nem mesmo aqui a gente está livre
de reuniões...
— É, mas aqui as coisas são um pouco diferentes da forma
como ocorrem na Terra. Verá por si mesmo. Ainda não

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me acostumei, muito embora esteja meio eufórica, apesar
da saudade de casa.

Notei um leve tom de melancolia nas palavras de Maria.
Entrementes, o elevador chegou ao andar sem qualquer
ruído, sem nem mesmo percebermos que se movera. Será
mesmo que se movera? A porta se abriu e fomos recebidos
por uma mulher que aparentava ser mais idosa, porém com
uma vivacidade de dar inveja. Nobre, sobriamente vestida,
trajava um uniforme que lembrava o usado por Bernardo,
que, aliás, estava mais ao longe e fez um gesto com a cabeça
em minha direção. Uma música irritante era ouvida no
ambiente. O volume estava baixo, mas não me agradei da
trilha sonora logo que a escutei. Mas tudo bem, pois ali ninguém
era perfeito. Aliás, eram humanos demais para o meu
gosto. Podia até aparecer alguém assim, mais perfeito, mais
superpoderoso, mais...

— Pai, acorde! Vamos! Vamos para a mesa. Está na hora
do desjejum.
"Essa menina me irrita!" — pensei, sabendo que ela
não tinha superpoderes mentais ainda... ainda! Quase formal
demais para a ocasião com meu costume, dirigi-me à
mesa que apresentava uma placa com nosso nome. E dei


66

aquela olhada pelo salão. Vi uma mesa de frutas e sucos e
outra com petiscos; havia até mesmo frios fatiados, jamón
e presunto de Parma, ao lado de queijos variados, mas não
me pareceram bons como os de Minas.

— Que bom saber que há presuntos nobres por aqui!
Então encontrarei também carnes, peixes e coisas comuns
assim aos mortais... mesmo que agora sejam imortais. E
sabe de uma coisa? Sabe o que mais gostei?
— De poder comer, diga logo, meu pai! — falou Maria,
sorrindo.
— Não é nada disso. O que mais gostei é o fato dos espíritos
que até agora conheci não se assemelharem nada com
santos, nem religiosos extremistas, nem serem dados a crise
de santidade. Ser humano e continuar sendo como eu era na
Terra é a melhor coisa para mim... E quando vejo tudo isso a
meu redor, os alimentos todos iguaizinhos aos que conheci,
vejo que poderei ter o mesmo tipo de gosto e as preferências,
o mesmo estilo de vida, sem precisar forçar para ser santo ou
anjo. Ah! Como detesto anjos. Já lhe falei sobre isso?
— Sim, Seu Ângelo! Já me falou diversas vezes, mas
ainda quando estávamos na Terra. Agora, veja se alimenta
esse seu corpinho de espírito. Vá se servir, vá...

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Surpreendi-me com o sabor dos alimentos. Os sucos,
então, sabiam muito mais intensos ao paladar do que aqueles
que experimentei quando no corpo físico. Indescritíveis
eram os sabores. Ai, como eu queria experimentar
meu vinho do Porto. Só para saber se era tão bom quanto...
só para conferir!

Após o primeiro desjejum de desencarnado, sentia-me
bem mais refeito. Foi quando a recepcionista do hotel pediu-
nos, os recém-vindos da Terra, que nos reuníssemos no
salão de conferências. Desta vez fui sem Maria, pois ela já
havia passado pelo procedimento. Alguns esclarecimentos
deveriam ser feitos, a fim de que soubéssemos sobre a cidade
dos espíritos, a maneira de nos portarmos e, também,
as condições sob as quais poderíamos ser admitidos como
moradores do local. Para lá nos dirigimos, um grupo aproximadamente
de 140 espíritos.

Era um anfiteatro que acomodava confortavelmente
mais de 300 pessoas, embora naquele momento estivéssemos
em menor número. À nossa frente, um palco com
todos os recursos de iluminação comuns a um teatro moderno,
além de aparelhos que irradiavam imagens tridimensionais,
como numa projeção holográfica. Definitiva



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mente, não era uma tecnologia trivial, nem mesmo para os
países desenvolvidos da época.

Observava tudo nos mínimos detalhes. Dayane, a mesma
senhorita elegante que nos recepcionara ao chegarmos
ao hotel, foi quem primeiro subiu ao palco para dar as
boas-vindas oficiais ao grupo de seres recém-chegados da
experiência física.

— Quero dar as boas-vindas a todos vocês, que chegam
à nossa cidade, e dizer que todos estamos aqui como estagiários
a serviço da comunidade de espíritos. Por certo não
ignoram que não mais pertencem ao chamado mundo dos
vivos. De uma ou outra maneira, sabem que a morte visitou
cada um, rompendo definitivamente os laços que os ligavam
ao antigo corpo. Chegaram hoje à nossa cidade; dependerá
de vocês se continuarão conosco ou partirão para
outras estâncias, outras cidades ou mesmo postos de apoio
nesta ou em outras dimensões, mais próximas à Crosta.
Quero lhes apresentar alguém que dará as informações
necessárias para entrarem em contato com o cotidiano de
nossa metrópole espiritual.
Apontando a mão direita em determinada direção, percebemos
um emissário de aspecto africano, um homem ne



69

gro, sorridente, vestido em trajes típicos de algumas nações
daquele continente. Dayane fez um gesto com a cabeça, reverenciando
o homem que assumiu seu lugar, saindo por
outro lado, naturalmente para se dedicar às atribuições comuns
à vida de espírito desencarnado, vocábulo com o qual
eu haveria de me acostumar, quem sabe.

— Pois bem, meus amigos! Sou conhecido como Nassor,
o seu servidor, e venho apenas esclarecer. Não sou nenhum
espírito iluminado, superior ou habitante de regiões
sublimes; somente um companheiro que chegou aqui muito
antes de vocês. Também estou aprendendo a viver na
Amanda, em harmonia com a natureza espiritual deste
lugar. Como disse nossa amiga Dayane, sejam todos muito
bem-vindos à nossa metrópole, à nossa querida Amanda.
Alguns que aqui se encontram tiveram uma formação
cultural espiritualista, outros talvez nunca, durante a vida
terrena, estabeleceram contato direto com alguma religião;
outros, ainda, talvez nem entendam por que estão aqui.
"De qualquer forma, é bom começarmos a esclarecer
que nossa metrópole não é a única em nossa dimensão;
existem diversas outras cidades, redutos, comunidades de
espíritos, colônias ou como queiram denominar a comu



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nhão de seres com objetivos semelhantes, os quais se reúnem
em coletividades como a nossa. Cada uma das cidades
espirituais têm objetivos bem claros e definidos, por isso a
característica predominante e o tipo espiritual que nelas
habita divergem bastante. Em nosso caso, aqui, na Amanda,
temos uma especialidade. Recebemos aqueles que têm
gosto e potencial para estudar e ajudar a humanidade, cuja
mentalidade já tenha se elevado sobre as preferências e os
debates, as disputas e os apadrinhamentos denominacionais,
religiosos ou de cunho nacionalista. Ou seja, aqueles
espíritos que, em suas vidas e reencarnações, aprenderam,
de alguma maneira, a viver em comunidade, numa comunidade
universal, sem fronteiras, sem barreiras, e não alimentam
a necessidade de brigar por pontos de vista, tampouco
intentam impor sua ótica sobre as demais, ignorando as
verdades alheias. Nesse sentido, não somos uma comunidade
de seres evoluídos, no sentido literal do termo. Somos
humanos a serviço da humanidade; somente isso. Mas humanos
cujas mentes estão, em alguma medida, mais abertas
à procura da verdade no universo. Estamos conscientes
de que não temos aqui verdades absolutas, inamovíveis ou
inquestionáveis.


71

"A fim de que o espírito seja admitido aqui, obrigatoriamente
terá sido avalizado pela confiança de alguém ou
apontado como tendo forte potencial para ser um servidor
da humanidade. Durante dois anos, cada um de vocês terá
acesso a todas as dependências de nossa comunidade. Serão
avaliados segundo os mesmos critérios usados com todos
nós. Entretanto, somente permanecem como habitantes
da Amanda aqueles espíritos que observam três normas
ou aspectos principais, a fim de serem admitidos em caráter
permanente.

"A primeira delas é que se matriculem em nossas universidades
e se dediquem ao aprimorando contínuo, estudando
sempre. Sem estudar, sem se aprimorar, não há como

o espírito permanecer aqui conosco, devido à vocação ou
especialidade da nossa Amanda. Evidentemente, não ficam
desamparados aqueles que não se adaptam ou não se sentem
à vontade com uma das exigências de nossa comunidade.
Temos vasta relação de cidades espirituais cujos métodos
diferem dos nossos e podem muito bem abrigar qualquer
um daqueles que não se sentirem à vontade em nosso meio."
Enquanto Nassor falava, mostravam-se em projeção
holográfica as universidades e escolas da metrópole. Imen



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so parque escolar, como eu jamais vira. Espíritos indo e vindo
em diversas direções e veículos que desciam e subiam
na atmosfera, transportando pessoas para aquilo que nos
parecia ser um diversificado conjunto educacional. Nassor
apontava para a projeção enquanto se dirigia à plateia. É lógico
que adorei tanto a forma como falava quanto a possibilidade
de estudar, de dar continuidade a muitos projetos e,
quem sabe, aprender muito sobre a vida espiritual e as implicações
de ser, dali em diante, um espírito.

— Temos, aqui na Aruanda, três universidades. Cada
uma delas abrange muitos departamentos espalhados por
toda a comunidade, a fim de que seja oferecida oportunidade
tanto aos espíritos que aqui habitam quanto àqueles que
nos visitam apenas para ensinar e aprender. Todos os estudos
desenvolvidos no planeta podem ter sequência aqui,
nos vários departamentos dessas universidades, sendo possível
escolher entre ramos diversos, tais como: ciências do
espírito, estudo informativo e comparado das religiões e
sua influência no psiquismo e na cultura dos povos, conhecimento
da vida no universo e a evolução entre mundos, no
âmbito dos planetas. Aquele que se interessar pode estudar
sobre as inúmeras possibilidades da reencarnação e espe

73

cializar-se, a fim de desenvolver futuros trabalhos e projetos
em sua próxima vida, começando desde já a estagiar,
nos diversos setores da metrópole, na mesma profissão que
desempenhará quando voltar à Terra, em novo corpo. Para
aqueles que preferem aspectos ligados à saúde, temos amplos
laboratórios que oferecem especialização tanto na medicina
convencional, quanto na naturalista e na homeopática,
entre outros segmentos, que poderão ser escolhidos
conforme a área de interesse individual. Ainda há cursos
ligados à natureza, às ervas, à fitoterapia e à botânica, assim
como os que se dedicam a questões psíquicas, como mediunidade,
paranormalidade, magnetismo, psicobioenergética.
Essas são algumas entre tantas possibilidades oferecidas
por nossas escolas, que, para atender ao número de habitantes
permanentes e aos alunos itinerantes, funcionam 24
horas por dia. Aliás, todos os serviços de nossa Amanda,
devido à grande demanda e à diversidade imensa de seres e
culturas, funcionam dia e noite, em tempo integral.

As cenas se sucediam à medida que Nassor discursava,
e muitos pareciam encantados com a ideia de viver numa
comunidade desse porte e com tais características. Após ligeira
pausa para que pudéssemos absorver melhor e obser



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var o as imagens dinâmicas que eram exibidas, o espírito
continuou:

— A segunda condição para que qualquer espírito continue
vivendo conosco no período entre vidas é que ele
contribua com a comunidade por meio do trabalho. Não
usamos moeda de troca para conceder benefícios que qualquer
espírito possa usufruir em nosso meio. Isto é, aqui não
adotamos o sistema praticado, por exemplo, em colônias ou
cidades como Nosso Lar, Vitória Régia ou Halo de Luz, as
quais utilizam o chamado bônus-hora.2 Na Amanda, é preciso
que todo espírito trabalhe pela comunidade em alguma
atividade. Porém, não impomos como regra que deva
trabalhar 8 horas ininterruptas, ou qualquer outro número
de horas. Como todas as nossas atividades transcorrem 24
horas por dia, o espírito pode chegar ao seu ambiente de
trabalho à hora que lhe for mais conveniente ou favorável,
segundo o perfil individual, observando a necessidade de
2 A célebre e pioneira descrição da realidade extrafísica que toma por base a colônia
Nosso Lar, em livro homônimo, apresenta a moeda usada ali (cf. "Bônus-Hora". XAVIER,
Francisco Cândido. Pelo espírito André Luiz. Nosso lar. 3a ed. esp. Rio de Janeiro:
FEB, 2010. p. 131-136. A vida no mundo espiritual, v. 1. (ed. inaugural de 1944).


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conciliar o tempo com os estudos e o lazer. Assim, poderá
trabalhar 1 hora, 10 horas ou dosar sua dedicação conforme

o grau de responsabilidade assumido na tarefa abraçada. O
próprio espírito pode determinar o tempo que empregará
no trabalho. Mas, durante o período estipulado, ele deve
estar 100% disponível para desempenhar a tarefa que lhe
cabe e é intransferível.
"Se pudéssemos classificar nossa metodologia, de maneira
a facilitar o entendimento, nos aventuraríamos a dizer
que somos uma comunidade baseada em um ecumenismo
respeitoso e um método de convivência similar ao que
talvez denominássemos socialismo cristão. Claro, espero
que me compreendam que são apenas termos de referência,
mais a título de comparação; nossa metodologia nada
tem a ver com correntes políticas defendidas na Terra."

Nassor respirou fundo, pois com certeza sabia que nem
todos ali lhe compreenderiam a forma de expor ou o significado
das palavras. Ele prosseguiu, sem esperar nossa
aprovação:

— Por último, a terceira exigência para que qualquer
espírito continue habitando entre nós, na Aruanda, durante
a vida na erraticidade, é o convívio pacífico com a natu

76

reza, respeitando o ambiente onde vive e trabalhando para
que tudo e todos continuem usufruindo de todas as possibilidades
que nossa metrópole oferece, com o máximo de
qualidade.

À medida que falava, as imagens mostravam a vida urbana
da cidade, as pessoas indo e vindo e a natureza exuberante:
árvores, parques, bosques e campos em meio a uma
arquitetura cuidadosamente planejada em cada detalhe, de
modo que as construções formassem uma só composição
com a natureza.

— Temos à disposição dos cidadãos, operando em horário
integral, exatos 128 teatros ou casas de espetáculo,
que exibem uma programação artística bastante diversificada,
dando mostras da pluralidade de culturas aqui representadas.
Tais espaços oferecem uma variada e rica oferta
cultural, revelando talentos de nossa cidade tanto quanto
de outras mais, cujos artistas vêm apresentar repertórios
de alta qualidade para todos os gostos.
"Há música típica dos estilos conhecidos na Terra, visando
atender diversos gostos e afinidades, que vão desde
rock, blues e jazz até os ritmos brasileiros, como samba
de raiz, bossa nova, maracatu, baião e frevo, passando pela


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música latina — mambo, guajira, rumba, tango etc. —, isso
pra ficar apenas no continente americano. Há ainda muitas
outras tradições, acompanhadas de espetáculos típicos
de dança, como flamenco, os diversos ritmos africanos, sem
falar na música oriental, indiana... Todos têm livre acesso
a essa ampla oferta artística e cultural, desde que estejam
inseridos no contexto da vida em comunidade e de acordo
com a política vigente aqui, conforme apresentei a vocês.

"Além de tudo isso que falei, antes de liberá-los é preciso
esclarecer sobre o método de direção ou a coordenação
da nossa Aruanda."

E as imagens foram então direcionadas a um imponente
pavilhão, à primeira vista situado na periferia da cidade,
que não devia em nada em beleza e elegância às regiões que
pareciam centrais na projeção holográfica.

— Nosso governo é formado por um colegiado, com representantes
de diversos povos e culturas, que aqui convivem
pacificamente. Como poderão observar mais tarde, se
ainda não o fizeram, a maioria dos habitantes da Aruanda
é composta por espíritos procedentes de etnias africanas
ou daquelas derivadas ou influenciadas pela cultura negra
ou afro. O colegiado reflete essa realidade, mas é composto

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tanto de seres advindos de culturas africanas, como antigos
pais-velhos, quanto de chefes indígenas, monges budistas e
alguns mestres do antigo Oriente.

Dando uma pausa, Nassor fez com que a projeção parasse
e nos surpreendeu, apresentando-nos seres que não
fazíamos ideia estivessem ali ou fossem também nos receber
no nosso primeiro encontro na metrópole espiritual.

— Quero apresentar-lhes alguns espíritos representantes
do nosso conselho, que vêm lhes dar as boas-vindas.
Fiquei surpreso. Em que lugar do universo os próprios
dirigentes de uma cidade como esta, deste porte, viriam
pessoalmente receber novos candidatos a habitantes do local?
Eu nem sabia como avaliar uma atitude assim tão delicada
quanto inusitada.

Mas a minha maior surpresa, e creio que da maioria de
nós ali presentes, foi perceber a singularidade da aproximação
desses seres que compunham o colegiado. Quando
vieram, quase levitando, inicialmente se mostraram a nós
na forma espiritual que tiveram em suas culturas, muitos
com feição oriental ou de antigos sacerdotes de culturas
e civilizações que, decerto, haviam se perdido na noite
dos tempos. Outros vestiam-se de maneira mais exótica ou


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chamativa, mas igualmente representavam seus povos ou
culturas originais. Entretanto, à medida que se aproximavam
de nós, assumiam a aparência de pais-velhos, mães-velhas,
caboclos e, ainda, houve dois que tomaram forma de
criança, além de outros espíritos que vi, também se transformando
diante de nós, que adquiriam o aspecto e os trajes
típicos de monges tibetanos.

A presença do colegiado ali nos recepcionando marcou
profundamente nossos espíritos. Arrancou da boca de todos
um "Ohhh!" de admiração, espanto e até euforia, devido
à forma como se revelavam a nossos olhos de espíritos
recém-chegados. Eu não sabia o que dizer. Todos se colocaram
de pé quase ao mesmo tempo, ante os seres à nossa
frente. No meio deles reconheci o homem que encontrei
antes; depois da transformação, voltou a se apresentar
como o ancião que me recebera junto a Jamar. Era o senhor
que conheci com o nome de João que estava entre os demais
do colegiado... No entanto, ao contrário do que era de
esperar, que algum deles fizesse um pronunciamento à plateia,
eles outra vez nos surpreenderam. Desceram do palco
e se dirigiram a cada um de nós, abraçando-nos e dando
as boas-vindas individualmente, deixando-nos ainda mais


8 0

boquiabertos com a atitude inusitada, sobretudo porque vinha
de dirigentes de uma cidade espiritual. Era um gesto
diametralmente oposto à atitude dos políticos da Terra, de
qualquer cidade ou nação terrena; não havia comparação.

Ali mesmo, entre seres com aparência de crianças, índios,
negros africanos, mestres orientais e representantes
de outras culturas, a reunião transformou-se numa espécie
de confraternização. Ainda no palco, observando sorridente,
encostado numa pilastra, o homem de aspecto africano
que nos falara no início, Nassor, parecia se divertir com
nossa estupefação, rindo gostosamente da situação. Todos
envolveram pouco a pouco os representantes do colegiado,
que nos receberam de maneira tão incomum, mas nos deixaram
completamente à vontade. Por fim, eles permaneceram
no meio da turma de recém-vindos da Crosta, enquanto
alguns de nós se atreveram a formular perguntas sobre
aquela cidade, que mais parecia feita de estrelas, as quais
foram respondidas com grande solicitude e generosidade.

João me fitava, como a esperar algum questionamento.
Sorriu para mim, um largo sorriso emoldurado pela barba
branca cuidadosamente talhada e os cabelos também brancos,
aparados de maneira exemplar. O terno que vestia pa



81

recia ser feito do mais puro linho, alvíssimo, o que realçava
a sua cor negra de maneira tão bela, tornando a composição
muito harmoniosa. Fomos nos aproximando um do outro,
e naquele momento entendi que ele era alguém especial
naquela comunidade, e que estaríamos de alguma maneira
ligados por laços que, embora invisíveis, já poderiam ser
percebidos naquele encontro, que marcou profundamente
meu ser. Não saberia dizer por quê, naquela ocasião, mas
sinceramente eu soube que havia sido conquistado por
aquele espírito. Meu ser dizia isso, embora não pudesse explicar,
não tivesse palavras.

E assim mesmo, sem palavras, João foi saindo do meio
do grupo de espíritos, sem pronunciar nenhuma frase. Naquele
momento mágico, senti seu magnetismo vigoroso e
fui atraído pela força do seu olhar, olhos negros, grandes, e
pelo sorriso estampado em seu rosto. Segui-o, por ora abstendo-
me de qualquer pergunta. Apenas o segui, ávido por
novos aprendizados, sedento de sabedoria, mas não mais a
sabedoria das universidades, dos homens da Terra; poderia
ser apenas a sabedoria daquele preto-velho. Meu coração,
ah!... Como ele parecia arrebentar de emoção, batendo forte,
como se tambores houvesse dentro dele, tocando, rufan



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do, fazendo o barulho característico dos filhos da África ou
como o toque cadenciado dos tambores de Angola. O coração
apenas acelerava, e pude me sentir muito mais vivo do
que vivo estava antes, enquanto João me conduzia, sem palavras
e sem perguntas, para ver, para conhecer a Aruanda,
a morada dos espíritos.


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ESMO ANTES DE sairmos pelas ruas da Amanda e enquanto
os demais espíritos permaneceram no salão conversando
com os dirigentes da cidade, João e eu nos retiramos
devagar, como se estivéssemos passeando, ainda dentro
do hotel que nos acolhera. Foi somente então que observei
mais detidamente os pormenores da decoração. Lustres
deslumbrantes pendiam do teto; arranjos florais de incrível
bom gosto e harmonia coloriam o local. No entanto,
foram as obras de arte que mais me chamaram a atenção.
Belíssimos quadros pelas paredes, assinados por artistas
renomados, emprestavam charme e singularidade ao ambiente.
Um dos quadros em particular me marcou profundamente.
Era assinado por Debret, Jean-Baptiste Debret.3
A tela retratava cenas da colonização do Brasil, embora
nunca a tivesse visto em nenhum museu da Terra. No Rio
de Janeiro e em outras cidades importantes havia visitado
museus com alguma frequência, porém esta tela diferia
das demais que eu vira, do mesmo autor, as quais fizera
quando encarnado. Pois aquela apresentava cores tão marcantes,
e os personagens ali retratados pareciam tão vi


3 Paris, 1768-1848. Viveu no Brasil entre 1816 e 1831.


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vos que me dava a impressão de que a qualquer momento
saltariam da tela, movimentando-se. O céu tinha aspecto
igualmente vivo; ao olhar atento, suas nuvens deslizavam

— lentamente, mas deslizavam. Seria ilusão de ótica? Enquanto
eu estava ali parado admirando a pintura que me
prendera a atenção, João tocou-me levemente o ombro,
como a chamar-me de volta à realidade, e pronunciou algumas
poucas palavras:
— Esta tela, Debret a pintou enquanto encarnado, nos
momentos de desdobramento, em que visitava nossa cidade,
recém-fundada, à época. Você terá a oportunidade de
conhecer alguns museus e apreciar de perto a obra de diversos
artistas — as originais, como esta.
Sem entender muito bem as palavras do ancião, continuei
seguindo-o pelo hall do hotel. Foi aí que me dei conta
de que poderia lhe perguntar algo que estava de certa forma
incomodando minha dileta curiosidade:

— Não entendo como numa cidade de espíritos exista
até mesmo hotel. E também estes funcionários... Como entender
a existência de funcionários em um local como este,
se aqui, pelo que nos foi explicado, não há moeda, dinheiro
ou outra forma de pagamento?

89

— Nossa cidade, meu filho — iniciou João, respondendo-
me com a boa vontade que eu descobriria ser-lhe
característica, ao passo que nos sentávamos em poltronas
confortáveis, olhando o movimento da rua —, é uma
cidade que atualmente abriga 10 milhões de espíritos de
forma permanente, ou seja, durante seu período na erraticidade,
antes de mergulharem na carne novamente. Mas
recebemos também uma população itinerante de aproximadamente
5 milhões de seres, diariamente, advindos de
outras cidades da imensidão, com as quais mantemos intercâmbio.
Essa população itinerante vem visitar museus,
parques, centros de treinamento, mas principalmente as
escolas ligadas às nossas universidades, as quais funcionam
em tempo integral, conforme foi explicado, como
toda a vida urbana da nossa Aruanda. Os hotéis foram
criados há séculos para receber essa população, mas também
aqueles que chegam da experiência reencarnatória,
como você, no período de adaptação ao novo mundo que
encontram aqui.
Pausando um pouco e dando relativa atenção a alguns
espíritos que passavam próximos de nós e olhavam para
ele, João prosseguiu, sem se apressar:


9 0

— Mas os tais funcionários que você vê neste ambiente
não são funcionários no sentido que se dá ao termo na Terra.
Na verdade, são estagiários, alunos que estudam em nossa
universidade visando à reencarnação futura. Aqui desenvolvem
habilidades interpessoais, pois, ao reencarnar, lidarão
com o público na área de atuação que elegeram. Afinal, lá
na Crosta, existem inúmeras oportunidades de trabalho
profissional em que é requerida a habilidade com pessoas,
com seres humanos. Esse estágio em algumas instituições
do lado de cá ajuda a despertar aptidões adormecidas ou a
desenvolvê-las para, mais tarde, esses espíritos exercitarem
funções como essas. Muitos aqui estudam matérias ligadas
à hotelaria e se preparam para funções que desempenharão;
trata-se de treinamento constante na área escolhida conforme
a preferência pessoal. Quando for a hora de trabalhar, na
nova experiência reencarnatória, já terão impresso na memória
espiritual o que aprenderam aqui. Lá embaixo apenas
praticarão e aprimorarão o conhecimento adquirido.
— Então não são mesmo funcionários, mas estagiários,
como me falou um dos espíritos que me auxiliou...
— Exatamente. Sob esse aspecto, aqui somos todos estagiários,
aprendizes. Isso ocorre em todo o ambiente da

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metrópole. Há lugar para desenvolver as mais variadas habilidades
que têm probabilidade de eclodir nas futuras reencarnações.
Aqueles que trabalham em nossas lojas de roupa,
por exemplo, o fazem por pura afinidade, seja aperfeiçoando
a forma de atender o público, seja aprendendo alguma
faceta do ofício da moda, desde a produção — desenho, modelagem,
estilismo — até o negócio, mesmo — gestão, administração,
atendimento, entre tantos outros aspectos. Todos
na Amanda estão em processo de experimentação, pois na
universidade escolheram cursos e especialidades de acordo
com seus gostos. Enfim, trabalham aqui para se preparar
para as futuras experiências no corpo físico.

— Mas você falou em lojas. Existe comércio por aqui
também? Insisto: não falaram que não existe moeda ou
qualquer sistema de troca?
— Creio que você precisa visitar urgentemente o bairro
onde se localizam as lojas de roupa. Assim terá uma ideia melhor.
Vamos, meu filho! Eu o acompanho — falou João, meu
instrutor, ao levantar-se. Antes de cruzarmos a porta, dois espíritos
reverenciaram o ancião, e um deles o interpelou:
— Já vai, Pai João? Nos sentimos muito honrados com
sua presença aqui.

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— Breve retornarei, meus filhos. Vim receber este nosso
amigo que retorna da Terra. Mas breve voltarei para falar
com vocês.
Fiquei meio sem entender a forma como se dirigiram
ao meu amigo João. E não hesitei em perguntar:

— Por que ele o chamou de Pai João? E a forma como
normalmente se tratam por aqui?
— Nada disso, Ângelo. Pode me chamar como quiser;
fique à vontade, filho. Cada um deve se sentir livre para
comportar-se ou falar como melhor lhe convém... — E não
tocou mais no assunto.
Saímos. Na rua à frente do edifício havia intensa movimentação.
Grande número de jovens conversava e caminhava
pelas calçadas muito largas, e nenhum carro na rua,
embora houvesse demarcação para veículos que, no mínimo,
eram daquele tipo voador no qual fui transportado. De
um e outro lado da rua, cafeterias muito semelhantes a algumas
europeias. Não consegui apreender de imediato a finalidade
e especialidade de alguns tipos de loja. Notei um
edifício de arquitetura requintada, que denotava forte influência
da cultura árabe, entre tantos outros prédios onde
espíritos entravam e saíam. Em meio a tudo isso, trepadei



93

ras pendiam dos prédios de maneira que jamais vira, enquanto
árvores frondosas erguiam-se de ambos os lados da
rua. Frequentemente, os ramos e galhos se entrelaçavam no
alto, iluminados por um sol que mais parecia de inverno,
não muito quente, projetando uma claridade nada excessiva
e resultando numa temperatura ambiente extremamente
agradável, eu diria balanceada, sem excesso de calor e sem

o incômodo do frio intenso. Vi animais: cachorros, gatos,
pássaros e outros que, na Terra, decididamente não vi nem
em zoológicos. Todos passeavam guiados por algum espírito.
"Se isso não é o paraíso, é algo muito próximo", pensei.
A população que se via nas ruas era extremamente heterogênea.
Havia africanos ou ao menos espíritos de pele
negra, além de outros com traços fisionômicos indígenas.
Os dois grupos reuniam belos exemplares dos dois povos,
de etnias variadas, e eram maioria. Certos índios lembravam
os peles-vermelhas do continente norte-americano;
outros eram tipicamente brasileiros. Aqueles não envergavam
indumentárias típicas com plumas e peles de animal,
mas ambos se apresentavam muito bem vestidos. Os
trajes remetiam de alguma maneira à origem de cada um e
exibiam notável elegância — aliás, como tudo na Aruanda,


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ao menos até onde conhecera. Vi jovens e adultos vestidos
como monges, ainda que para mim mais se assemelhassem
a adeptos do movimento Hare Krishna. Um grupo desses
espíritos passava ao longe na mesma avenida por onde agora
transitávamos, um grupo de mais de 50 deles, cantando
músicas de forma alegre e contagiante.

O espírito Pai João não falava nada, apenas dirigia-se
para o bairro das lojas ou do comércio, como eu denominara
o local. Quanto a mim, limitava-me a apreciar a população
de seres exóticos, tão diferentes entre si, porém
usufruindo de uma convivência pacífica. Avistei um grupo
uniformizado, que mais parecia de soldados. Altos, imponentes,
como se rumassem a uma parada militar, porém
sem portar armas. Na cabeça, um quepe de estilo antigo,
mais precisamente um bibico, que trazia alguma insígnia
como decoração. Passaram por nós e menearam a cabeça
para João. Desta vez não aguentei e perguntei:

— Por aqui também há soldados, policiamento?
— Claro que sim, Ângelo. Lembre que aqui é o mundo
original, primitivo.4 Lá embaixo é cópia. Estes que você ob4
Cf. KARDEC. O livro dos espíritos. Op. cit. p. 112-113, itens 84-86.


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serva são os guardiões superiores. Temos poucos deles aqui
na Aruanda; apenas um contingente pequeno, que vem dar
aulas a aspirantes a guardiões, na universidade. A tarefa dos
aspirantes se restringe a uma área específica... com o tempo
ficará sabendo os detalhes. Mas temos diversos contingentes
de guardiões. Entre outros, há aqueles que chamamos
de sentinelas, e há também as guardiãs, uma espécie de polícia
feminina especializada nos entrechoques vibratórios
que envolvem emoções e sentimentos mais densos. Depois

o levarei até o quartel dos guardiões e poderá ver de perto
a diversidade de categorias existentes e a especialidade de
cada uma delas.
Enquanto prestava atenção na explicação de Pai João

— mentalmente acabei me acostumando a chamá-lo assim
—, interessei-me pela população de jovens espíritos que se
reunia no que me pareceu ser um pub bastante movimentado.
Mais uma vez minha curiosidade foi aguçada... e Pai
João não esperou que a manifestasse verbalmente.
— Está assustado, meu caro? Por aqui a vida social é
movimentadíssima. Não passamos nosso tempo rezando,
recitando ladainhas ou cultivando o fanatismo religioso
salvacionista, querendo ir ao umbral o tempo todo resgatar

9 6

almas sofredoras. A Amanda reúne os espíritos afins com
a proposta da justiça divina. Temos uma vida social muito
mais intensa, interessante e envolvente do que muitas cidades
e metrópoles da Terra. Os pubs e bares são locais frequentadíssimos.
Neles se reúne tanto a população itinerante
quanto muitos dos habitantes da metrópole. Conversam
sobre temas os mais variados, desde as manifestações artísticas
e culturais até os projetos reencarnatórios e familiares,
planejando seu regresso à Terra. Neste pub, especialmente,
é hora de encontro dos jovens alunos de ciências.
Discutem inventos e descobertas, e o debate é acalorado.
Este pub é mais frequentado por estudantes dedicados às
descobertas e invenções tecnológicas. Se entrar lá, com
certeza ficará eletrizado com as discussões. Servem-se bebidas
cujos sabores e aromas lembram muito de perto os da
Terra. E olhe que temos até a velha cerveja, conhecida sua,
e o vinho da mais pura procedência.

— E os espíritos daqui bebem também, como os humanos
reencarnados?
— Somos humanos também, Ângelo! Tanto quanto os
que habitam a Crosta. A diferença é que nossas bebidas não
têm teor alcoólico. Mas afirmo que o sabor é maravilhoso,

97

e as bebidas, cotadíssimas entre os cidadãos, embora toda
a experiência esteja cercada de profundo senso de limite,
mesmo não havendo graduação alcoólica. Entre elas, há algumas
desconhecidas dos homens, mas bastante apreciadas
aqui. Como não há compra e venda, todas são servidas
pelos espíritos que estagiam nesses lugares a quem queira
experimentar, porém uma cota racionada para cada espírito;
nada de abusos por aqui.

— Então há racionamento, controle, uma espécie de
controle de quantidade? —, perguntei sorrindo.
— Não há controle no sentido tradicional, que requer
fiscalização, mas sim um sistema ou método de regulação
que foi adotado pelos fundadores de nossa cidade e que
funciona naturalmente. O princípio é o seguinte: tudo o
que for de uso comum da população não pode estar sujeito
a consumo em excesso, até porque, se há excesso de um
lado, provavelmente haverá escassez de outro. Assim, como
tudo na Aruanda é formado a partir dos fluidos da atmosfera,
dos fluidos dispersos no espaço, caso alguém queira
utilizar uma cota maior do que seu corpo energético tenha
necessidade ou capacidade de processar adequadamente,
aquele mecanismo entra em ação. No caso da bebida,

98

por exemplo, na hipótese de consumo excessivo, o copo e

o líquido na mão do indivíduo se diluem na atmosfera de
modo natural, como que se desmaterializando em suas próprias
mãos. De modo que não há desperdício nem excesso
por aqui. E isso vale rigorosamente para tudo: alimentação,
vestuário e os demais recursos. Todo excesso, por mínimo
que seja, é reintegrado ao manancial da natureza na forma
de fluido, no momento de sua concretização. Isso contribui
para que cada habitante, cada pessoa aqui possa respeitar
os próprios limites. Para nós, esse sistema serve como fator
reeducativo importantíssimo; afinal, todos cometemos
excessos e precisamos desse mecanismo para usufruir das
bênçãos que a vida oferece, com moderação.
— Então a bebida aqui não teria a mesma finalidade das
bebidas alcoólicas da Terra, ou seja, talvez alegrar, despertar
o paladar para novas sensações, ainda que, em alguns
casos, criando dependência.
— Nem sei se essa é uma característica das bebidas na
Crosta ou se os homens, com os excessos que lhes são peculiares,
fizeram do prazer de beber isso que se vê hoje em
dia lá no mundo dos chamados vivos. Seja como for, aqui
o objetivo é experimentar sabores novos, ricos, que des

99

peitem o prazer sensorial no que ele tem de melhor, assim
como a satisfação em conviver e socializar-se. O consumo
na medida certa também faz com que cada um aprenda que
não é o uso da bebida que faz mal, mas o excesso, o que extrapola
o equilíbrio. De todo modo, como eu disse, nossas
bebidas não contêm teor alcoólico, ou seja, não temos espíritos
bêbados por aqui — falou Pai João, sorrindo. — Nem
alimentamos o vício de nenhum espírito. Você ouviu no
hotel as condições para se viver aqui. Não recebemos em
nossa cidade espíritos com esse tipo de comportamento; aí
está uma regra universal na Aruanda.

— É... Também não vi ninguém fumando por aqui —
comentei.

— Em hipótese alguma é permitido o uso do cigarro
em nossa cidade, Ângelo. Já tivemos inúmeros problemas
no passado e fizemos uma espécie de plebiscito há mais
de 150 anos, ocasião em que conseguimos abolir o consumo
do tabaco sob qualquer forma. Espíritos que ainda
cultivam esse hábito são encaminhados a outras cidades
do espaço, onde são admitidos temporariamente, até se livrarem
dele. Quando estiverem livres podem até ser admitidos
na Aruanda.

10 0

"Mas voltando aos nossos costumes aqui, você precisa
conhecer os hábitos noturnos de nossa população. Precisa
vir aqui à noite!"

Olhando para mim, para ver a minha reação, continuou:

— Aqui temos também a noite. E como são lindas as noites
da Amanda... Como a Lua aqui é muito mais brilhante,
parece muito maior e mais vívida do que vista do mundo dos
encarnados. A vida noturna é muitíssimo mais fervilhante.
As trocas de experiência, os encontros de namorados, futuros
parceiros na jornada reencarnatória — tudo isso encanta
na Amanda. Espere até conhecer os lugares especialmente
destinados ao encontro de diferentes culturas, ao intercâmbio
de ideias e experiências que ali se dá, entre espíritos
de etnias e procedências distintas. É algo que encanta,
envolve, apaixona. Não tem ideia de quanto são concorridos
esses momentos por aqui. A noite, aqueles que gostam
podem, ainda, ir a festas, ouvir boa música ou a música que
lhes apetece. Dançar, cantar, expressar sua veia artística ou
simplesmente participar das celebrações em meio a espíritos
ou pessoas, como queira dizer, nesses lugares que de alguma
forma lembram as danceterias do plano físico, embora
dotados de uma tecnologia que você nem imagina.

10 1

Antes que Pai João prosseguisse contando as novidades
da Amanda, chegamos ao local para onde nos dirigíamos.
Ruas largas, espaços naturais e amplos jardins entre
as lojas ou, melhor, lojas em meio a praças ou jardins, com
cafés movimentadíssimos, frequentados por gente bonita
dos mais variados estilos. Seres trajados de modo às vezes
inusitado, charmoso ou apenas diferente do que me era
habitual. Graças a Deus não vi espíritos vestindo mantos
brancos e esvoaçantes!

Antes de adentrarmos alguma das lojas, Pai João deu
algumas explicações:

— Aqui funciona assim, Ângelo: nem todo espírito
tem a capacidade mental de elaborar sua vestimenta simplesmente
a partir da força do pensamento; muito pelo
contrário, isso ocorre apenas com a minoria. Então, há o
que chamamos de parque industrial. Trabalham lá os espíritos
que na Terra desenvolveram ou desenvolverão as
profissões de estilista, designer e outras mais, ligadas à indústria
da moda e à produção de roupas, calçados e acessórios
em geral. Eles exercitam a criação mental, a configuração
e transformação dos fluidos da natureza em
peças de vestuário ou, em certos casos ligeiramente dis

10 2

tintos, em instrumentos e ferramentas de trabalho. Trata-
se de um parque de desenvolvimento do espírito humano
e do potencial do pensamento, onde se aperfeiçoam as
habilidades relacionadas a isso. Criam, inventam, desenvolvem
ideias e produzem itens de acordo com o contexto
e a demanda de nossa metrópole. À medida que o fazem,
capacitam-se individualmente para desempenharem
mais tarde, ao reencarnarem, funções semelhantes às que
aprenderam aqui.

"Pois bem, meu filho, o produto de suas criações é exposto
nas diversas lojas e departamentos existentes na
Aruanda e em outras cidades do espaço. Os espíritos que
não desenvolveram essa habilidade do pensamento ou que
não têm esse interesse vêm aqui e escolhem o tipo de roupa
ou acessório que melhor lhe pareça, tendo em vista a bagagem
cultural e espiritual, os costumes que tinha na Terra
e suas preferências. Como de resto, não há compra e venda,
nenhum tipo de transação monetária, embora entre o
atendente e o interessado haja, sim, uma espécie de negociação...
Você verá. Como foi explicado antes, aos recém-
chegados, como todos trabalham e estudam em nossa cidade,
todos podem usufruir livremente daquilo que está à


10 3

disposição nos diversos centros de distribuição. Basta chegar,
pedir aos estagiários e atendentes, e eles — que investem
no desenvolvimento das próprias habilidades no contato
com o público, visando às futuras experiências físicas
— orientarão da melhor forma que puderem. Mas não espere
perfeição no serviço prestado! São todos aprendizes e
muitas vezes cometem equívocos.

"A uma coisa você deve ficar atento, pois se trata de
uma regra para tudo aqui, em nossa cidade. Como já disse,
não pode haver desperdício. Se você deseja um traje, por
exemplo, de uma marca conceituada, com o melhor caimento,
pode escolher à vontade nas diversas lojas e entre
os diversos modelos. Contudo, se precisa somente de um
traje para a vida social e de outro para o trabalho que desenvolverá,
seja aqui na cidade ou em outras regiões mais
densas, e levar ainda que seja apenas um a mais, terá uma
decepção. O traje excedente se desmaterializará ou se dissolverá
assim que você o guardar em seu alojamento, seja
no hotel ou em qualquer moradia para onde for. O supérfluo
logo é absorvido pela natureza astral, e a matéria da
qual é constituído, fluídica, dissolve-se e se reintegra ao
plano extrafísico no qual transitamos."


10 4

— Ou seja, nada de ter dois ternos Stunner da Brioni
Vanquish,5 por exemplo...
Pai João sorriu largamente, entendendo a ironia.

— Bem, mas eu posso ter, então, mais um terno, quem
sabe da Kiton; algo bem simples, assim...
Pai João me olhou ainda sorridente, entendendo minha
brincadeira esnobe.

— Então vamos lá, Ângelo, pois já é hora de trocar esse
traje com que Maria lhe presenteou, sem que soubesse seu
tamanho certo. Quando aprender ou quiser usar a força do
pensamento para materializar sua indumentária, poderá
dispensar a visita às lojas. Mas confesso que esse é um prazer
que gosto de cultivar. Poder escolher, experimentar, descobrir
novas criações dos estudantes e estilistas da Amanda
e de outras cidades espirituais... Me parece impossível não
sentir prazer com essa experiência. A alternativa de materializar
as coisas pela força mental, sem sentir prazer no que
se faz... Ao menos para mim, fazer qualquer coisa que não
gere prazer e contentamento é algo que não posso conceber.
5 Grife italiana de forte tradição em costumes e ternos de alfaiataria, hoje conheci


da apenas como Brioni.


10 5

— É, a vida social aqui na Amanda é realmente envolvente,
apaixonante. Vamos lá, eu me contento com algo
simples mesmo, acho até que tenho de desenvolver mais a
humildade após a morte do corpo. Não precisa ser nada tão
requintado assim, Pai João. Onde fica mesmo a loja da marca
Ermenegildo Zegna?
Rimos gostosamente e rumamos para as lojas, a fim de
que eu experimentasse a forma de vida da metrópole, a experiência
insólita de escolher meu primeiro traje de morto
metido a vivo.

Comecei por observar a fim de escolher uma loja: ler o
nome, apreciar a logomarca e a comunicação visual, as cores
com as quais o estabelecimento fora pintado, até que
adentramos determinado ambiente. Acho que Pai João não
sabia da minha chatice nem do nível de exigência que me
caracterizava. Não sou nada humilde nem fácil de agradar,
devo confessar. Fomos atendidos por um rapaz que, logo
se via, era iniciante. Assim que reconheceu Pai João a meu
lado, passou a outro atendente a função e ficou nos observando
de longe.

— Bom dia, senhores! Sejam bem-vindos ao nosso centro
de distribuição.

10 6

Não poderia ser mais gentil o espírito. Parece-me que
estava há algum tempo estagiando ali, quem sabe se preparando
para lidar com um púbico tão diversificado e eclético
como o que ia e vinha na metrópole. Havia bastante gente
no departamento de roupas. A decoração era sóbria, chique,
e os trabalhadores ali tinham certo charme e presença.
O espírito que nos atendeu, como a maioria dos habitantes
da cidade, era negro, produto de alguma mistura étnica que
lhe conferira traços finos e delicados. Alto e esbelto, sorriso
farto, dentes branquíssimos, vestia um costume elegantíssimo,
mas ousado, de linhas modernas. Não tinha visto
ainda um traje como aquele. Fiquei impressionado com o
extremo bom gosto.

— Nosso amigo Ângelo quer escolher um tipo de roupa
para usar em nossa cidade — adiantou Pai João, se dirigindo
ao espírito.
— Pois bem! Chamo-me Watambi e serei seu servidor
enquanto estiver em nosso departamento — disse, enquanto
me deixava à vontade para aproveitar meu primeiro contato
social post-mortem. Medi cada detalhe, cada pessoa ali presente
e a fisionomia de cada um. Os trajes usados pelos espíritos
que vinham escolher novas roupas me impressionaram.

10 7

Havia negras vestidas de modo a lembrar as baianas
tradicionais de Salvador. Outras usavam peças fartamente
coloridas, com tecidos enrolados, cuja inspiração era claramente
africana. Cabelos arrojados, num estilo afro impossível
de não ser notado, ostentando a beleza dos povos do
continente africano. Ao lado daquelas figuras, havia uma senhora
requintada, à moda europeia do início do século xix,
embora talvez destoasse dos demais e da modernidade reinante;
a meu ver, era como uma dama retratada por artistas
renomados da época. Homens bem vestidos e alguns jovens
trajando esporte fino. Fiquei impressionado. Nada de espírito
usando longos mantos de cor branca ou azul, que se arrastassem
pelo solo ou cobertos de glória, luzes e auréolas.

Pai João me deixou à vontade. Observei tudo, todos os
detalhes, as expressões fisionômicas e o tipo humano ali representado
por toda aquela gente morta. E para quem esta


va morto até que eles estavam muito bem.

— Senhor Ângelo, aceita um suco ou alguma bebida em
particular, enquanto aprecia nossos trajes?
Olhei para Pai João, e ele sorriu disfarçadamente.


— Apenas água, por favor.
— Algum tipo específico, senhor?

10 8

E eu ainda podia escolher a água? Hesitei, sem saber o
que fazer. Lembrei-me logo da Perrier, mas fiquei encabulado
de demonstrar tanta simplicidade...

— Se me permite — interferiu Watambi —, sugiro que
experimente nossa água da Amanda. Em nada deixa a desejar
se comparada à tradicional Perrier ou à San Pellegrino,
velhas conhecidas de ambiente sofisticados da Terra.
Nossa água é de excelente qualidade — falou, como se adivinhasse
meu pensamento. Para disfarçar minha humildade
infinita, respondi:
— Então pode me servir essa mesmo. Aceito sua sugestão.
E Pai João acrescentou:
— Ele se esqueceu de dizer, Ângelo, que só temos esta
água aqui!... Mas não vai se decepcionar de jeito nenhum
com o sabor, a suavidade e a característica renovadora da
água da nossa dimensão.
Após ser servido de maneira bastante cortês, eu diria
mesmo com serviço de primeira, nosso anfitrião me auxiliou
na escolha do primeiro traje do outro mundo.

— Aqui temos diversos modelos. Devo dizer: os espíritos
que trabalham na criação mental se esmeram no desenho,
na modelagem e na confecção, mas principalmen

10 9

te quando materializam a matéria-prima, que é muito mais
pura e de melhor qualidade do que a encontrada nos tecidos
da Crosta. Afinal, tentam a qualidade ao grau máximo,
pois disso depende o futuro deles na Terra, quando retornarem
e eclodirem as intuições e a vocação para o gênero
de atividade que desempenham aqui.

"Portanto, apresento-lhe o melhor que temos, vindo
diretamente da nossa linha de produção — disse, voltando-se
para determinado grupo de peças. — Sem levar ectoplasma
em sua confecção, mas materializado em nossa, dimensão
através da matéria unicamente mental, criou-se esta textura
muito mais aprimorada do que o mais puro linho conhecido
na Terra. Como sabe — como se eu soubesse —, o
ectoplasma cria uma sensação mais grosseira na materialização.
Os detalhes, senhor, pode observar por si mesmo.
Nenhuma costura pode ser vista, uma vez que os produtores
e executores do projeto mental fizeram de tudo para
ocultá-las e deixar à mostra somente as dobraduras, elegantemente
distribuídas de maneira a realçar mais ainda a
beleza do tecido e a suavidade das formas."

Fiquei perplexo. Diante de mim havia pelo menos 18
tipos diferentes de trajes, desde costumes clássicos até os


11 0

mais modernos, semelhantes ao que o espírito à minha
frente vestia. Difícil escolher. Foi aí que descobri que espírito
também tem dúvidas ao escolher a vestimenta, sua
roupa de morto vivo. Espírito sofre... E que sofrimento é
este, meu Deus! Como Watambi notou minha hesitação ao
optar por este ou aquele modelo, acrescentou outras informações,
talvez pensando em me ajudar na escolha. Depois
do drama mental, da ironia não expressa em palavras, resolvi
ouvir mais atentamente; afinal, eu era assim, difícil de
contentar.

— Este traje aqui, por exemplo, é feito de uma matéria
fluídica especial. Ele se ajusta automaticamente ao corpo
do indivíduo, assumindo a forma mais aproximada possível
dos contornos do corpo.
Não era o meu caso. Mesmo tendo rejuvenescido alguns
anos na aparência, não ostentava lá aquele corpinho
que merecesse ser realçado. Não sei porque, mas me pareceu
que os espíritos ali escolhiam com desenvoltura suas
roupas ou, talvez, não se importassem em escolher muitas,
pois sabiam que o excesso era dissolvido magicamente
nos chamados fluidos ambientes... Mas eu, não! Eu não era
tão simples assim. Não me bastaram as explicações de Wa



111

tambi. Demorei mais de 2 horas e, sinceramente, não consegui
me decidir.

Resolvi procurar outra loja, outros modelos. Despedi-
me do atendente, não esperando voltar ali. Pai João, paciente,
me acompanhou. Ao sair à rua, mesmo movimentada
e cheia de gente de aparências mil, não houve como
não perceber a presença de uma mulher, eu diria, radiante
demais, devido aos trajes de procedência andaluz. Alta,
porém não muito, porte charmoso, magra e com os cabelos
pretos envoltos num tipo especial de véu negro com alguns
fios dourados, desfilava à nossa frente, chamando a atenção
de alguns outros espíritos. Vestido usado por ciganas espanholas,
leque à mão direita, passou por nós e, após alguns
passos, deteve-se bruscamente. Voltou-se para mim, ignorando
por completo a presença de Pai João, abiu o leque de
maneira escandalosa, produzindo aquele barulho característico
de quando se abre um leque, e falou:

— Pelo teu tipo, gajo, deves estar vivendo o maior drama
mental simplesmente para escolher uma roupa para ti.
Imagino o teu sofrimento... maior do que o das almas perdidas
nas furnas umbralinas! E dizem que espírito não sofre
nos planos superiores... — ironizou a mulher.

11 2

Fiquei meio pasmo com o jeito dela, arrojado, quase
atrevido. Abriu o leque novamente, de forma a chamar
mais ainda a atenção, e se apresentou, estendendo-me a
mão, à moda antiga:

— Consuela, encantada!
— Ângelo, Ângelo Inácio — respondi, meio sem saber
como me comportar.
Voltando-se para Pai João, acrescentou:

— Deixe o gajo por minha conta, meu velho. Darei a ele
todo o apoio necessário para a sua visita ao nosso barrio;
sei que tem muita coisa a fazer. Caso queira, quando terminarmos
o levo até onde você indicar.
Pai João parecia já conhecer a mulher, pois, sem dizer
uma palavra, ao menos não palavras articuladas, pois poderiam
muito bem estar conversando pelo pensamento, deixou-
nos, meneando a cabeça para mim. Também, depois
do tempo que gastei na loja, com certeza Pai João deduziu
que não me contentaria indo apenas a um ou dois lugares,
sobretudo porque teria de escolher somente um traje. Fiquei
meio inquieto com o comportamento da espanhola,
mas ela soube me deixar à vontade e me divertir com seu
jeito marcante e irreverente. Tão logo Pai João saiu, dei



113

lando-nos em frente a uma praça, ela curvou o braço, como
me convidando a segurá-lo, e disse-me:

— Não vai deixar uma dama esperando assim, não é,
gajo? Pelo visto você tem estirpe e não fica bem uma dama
de sangue nobre ficar esperando e caminhando ao lado de
um gajo desprotegida assim. E suspirando, num aparente
exagero, acrescentou:
— Ai, como sou desprotegida! Corro tanto risco no
meio desse povo sem estirpe...
Não sei exatamente o que ela pretendia, mas aquele
espírito me conquistou com seu jeito irônico, irreverente
e impetuoso. Dei o braço a ela e saímos em direção a outra
loja. Aliás, outras lojas. Visitamos mais de 20 lojas antes
que me decidisse. E depois de tanto andar, conhecer gente
de todo tipo, voltei à primeira loja, que visitara na companhia
de Pai João. Watambi foi extremamente cortês, auxiliando-
me uma vez mais. Foram mais 90 minutos analisando
e experimentando. Afinal, como dizia Consuela, ela
não ouvira as explicações de Watambi sobre os fios especiais,
o tecido sedoso e os fluidos empregados na materia


ização dos modelos à escolha. Ele teve de explicar tudo
de novo, e ela, ereta, abanando o leque e respirando fun



11 4

do, exigia mais detalhes antes que eu experimentasse cada
traje. Dizia:

— Afinal, não sairei por aí ao lado de um espírito malvestido
e com roupas que não condizem com a estirpe espiritual
a que estou habituada.
Ri gostosamente. Nunca me diverti tanto assim em tão
pouco tempo. Mais tarde eu contaria tudo a Pai João, que
diria somente: "É uma menina muito levada essa minha filha.
Mas é boa gente!".

Saímos dali, eu todo empertigado com meu novo traje
de morto vivo. Afinal, escolhi algo bem prático, simples mesmo,
mas funcional. Consuela adora brincar, fala muito e se
ofereceu para me mostrar algumas das praças da cidade. Foi
um passeio muito interessante. A noite já caía na metrópole
espiritual. Uma espécie de nostalgia parecia querer se instalar
em minha alma, mas Consuela não me deixava tempo
livre para sequer pensar em tristeza. Meu primeiro dia do
lado de cá foi algo realmente fantástico. Muito mais tarde eu
entenderia que fora tudo planejado nos mínimos detalhes,
a fim de evitar que eu me entregasse à depressão post-mortem,
como é comum a muitos espíritos. Mas naquele momento
eu não sabia nada disso. E não era mesmo para saber.


11 5

A primeira praça que fiquei conhecendo foi a chamada
Praça dos Orixás. Jamais vi tamanha beleza e expressividade
da cultura negra. Vários orixás representados em maravilhosa
obra de estatuária. Chegamos a um dos lugares mais
concorridos, onde espíritos de procedências e estilos diversos
se reuniam, a maioria com trajes típicos africanos, muitos
lembrando antigos baianos das décadas finais do século
XIX e das primeiras do século XX. Apresentações teatrais e
exibições de dança afro ocorriam ali, com precisão e beleza
exemplares. Os dançarinos elevavam-se entre 5 e 8 metros
de altura, deslizando na atmosfera ambiente e revolucionando
para, logo depois, pousarem ao som de instrumentos —
congas, surdos, tablas, flautas transversais, violões e diversos
outros que nunca vira, desenvolvidos do lado de cá por
espíritos experientes na criação de instrumentos musicais.

Em dado momento, Consuela, talvez mais para me
mostrar a tecnologia usada na cidade dos espíritos do que
para descansar, convidou-me a sentar nu m dos bancos da
praça. Havia vários outros espíritos sentados, entre eles
casais que mais me pareciam apaixonados, namorados, do
que simplesmente amigos espirituais. Assim que nos sentamos,
comentei:


116

— Puxa, a vida social aqui não deixa tempo para tristezas.
E olha que não conheço nem 1% das atividades realizadas
na cidade! Pensei que vida de morto era um verdadeiro
tédio, indo e vindo entre nuvens e louvores sem fim... Ledo
engano! Ainda bem!
Enquanto eu falava, o som dos instrumentos e da conversa
dos espíritos a pequena distância vinha em nossa direção
obedecendo ao mesmo processo pelo qual o som se
propaga no ambiente da Crosta. Então, Consuela tocou
numa lateral do banco onde estávamos sentados, numa espécie
de botão escondido num nicho. Logo percebi uma película
finíssima erguer-se em torno do banco e, logicamente,
de nós dois, como se fosse um campo de pura energia,
transparente ao máximo, mas perceptível, devido a certo
brilho que irradiava ou refletia. Como por encanto, o barulho
externo cessou. Consuela comentou:

— Assim é melhor. Em todo local público por aqui temos
essa tecnologia, tanto em ambientes fechados, como
pubs e casas de encontro dos jovens, quanto ao ar livre,
como nas praças. Podemos erguer esse campo de compensação,
como é chamado aqui, e somos isolados do som ambiente.
É uma forma discreta de preservar-nos ou manter

11 7

nossa privacidade, sem que outras pessoas precisem participar
da conversa que temos. No momento em que desejar,
pode simplesmente tocar no dispositivo ao lado dos bancos
e voltar a ouvir tudo ao redor.

Não é preciso dizer que já estava estupefato com a tecnologia
usada na metrópole, mas essa simplesmente me
conquistou. Uma das coisas que mais me irritava na vida
terrena era a obrigação de escutar as pessoas conversarem
num volume desconcertante, de ouvir assuntos que não me
interessavam e a impossibilidade de me isolar completamente
quando conversava com alguém. Era simplesmente
irritante isso tudo. Mas aqui... não! Senti-me tão compreendido,
como se essa tecnologia tivesse sido desenvolvida especialmente
para mim... Que máximo! E mais ainda: como
dissera Consuela, em todo local era possível optar por isolar-
se do ambiente, permitindo conversar de maneira harmoniosa,
sem a interferência de música, burburinho ou
outro tipo de som indesejado. Achei isso o ápice da privacidade.
Agora, só me faltaria descobrir como ocultar os pensamentos.
Pois, ao que parecia, alguns espíritos tinham a
mania besta de devassar os pensamentos alheios, de maneira
que deveria rever urgentemente o conceito de privacida



11 8

de. Antes que eu pudesse falar sobre isso, é claro, descobri
que a tal Consuela também tinha essa habilidade.

— Não são todos os espíritos que podem conhecer nossos
pensamentos. São somente alguns, aqueles que desenvolveram
habilidades psíquicas, como a telepatia, por exemplo.
Olhei para ela como que reprimindo o fato de ela saber

o que eu pensava.
— Mas não se preocupe, gajo, aqui aprendemos o verdadeiro
significado daquilo que na Terra é chamado de discrição
e ética. Não devassamos os pensamentos secretos, as
questões íntimas; não conseguiríamos fazer isso, ainda que
quiséssemos.
Olhando para mim com seu leque em modo barulhento

— em oposição a modo silencioso —, acrescentou:
— Na verdade, não são os espíritos com habilidades
mentais que lêem ou penetram pensamentos; as pessoas
é que são permeáveis. Pensam com tanta intensidade que
não há como os mais hábeis e conhecedores das leis do
mentalismo não notarem as formas mentais, os clichês, cores
e formas-pensamento criadas, mantidas ou alimentadas
pela gente despercebida. E como essas formas mentais irradiam-
se além dos limites do corpo espiritual, como elas,

119

por assim dizer, povoam a aura dos espíritos, os mais experientes
percebem, veem, leem nas entrelinhas o que se passa
no mundo íntimo.

— E não tem como a gente evitar que ouçam, entendam
ou leiam o que pensamos?
— Ah! Gajo, isso é outra história! Terá de estudar as leis
do mentalismo em nossa universidade e aprenderá métodos
que chamamos de educação do pensamento e das emoções.
Pois há espíritos que também conseguem distinguir e
interpretar nossas emoções de forma bem precisa.
— Ai, meu Deus! Isso não tem fim? Não há como levantar
uma barreira protetora em torno do nosso cérebro espiritual
ou extrafísico? Algo semelhante ao que você fez aqui
na praça, em torno do banco? Assim, a gente ficaria mais
isolado mentalmente.
— Como lhe disse, gajo, é questão de educar o pensamento.
E isso não sei como ensinar. Você terá muito tempo
para aprender. Aqui, tempo é o que não nos falta.
Fazendo menção de se levantar, fechou seu leque elegantemente,
não sem fazer o barulho característico, e me
convidou, quem sabe meio sem paciência com minhas neuroses
de espírito recém-desencarnado:


12 0

— Está na hora de levá-lo de volta ao hotel. Você já
apresenta sinais de desgaste vital.
— Eu? Euzinho? Estou me sentindo muito bem, se me
permite...
— Nada disso! O velho está dizendo que você precisa
descansar. Será analisado pelos médicos de nossos hospitais.
Afinal, é seu primeiro dia aqui. Precisa dormir. Amanhã
estarei com você novamente. Isto, é claro, se desejar.
E saiu quase me arrastando, enquanto o campo de
compensação se desfazia à nossa volta e o som característico
do pessoal reunido na praça, da música e de todo o contexto
da apresentação artística invadia nosso campo auditivo
e nossos sentidos, embora de forma harmoniosa, sem
causar nenhum mal-estar. Como estávamos mais ou menos
distantes do hotel, Consuela optou por pegar um transporte
público, o chamado aeróbus. Visualmente, era muito
semelhante aos trens rápidos da Europa. Entramos e, logo
que nos sentamos, Consuela começou:

— Aqui temos estes veículos. Os espíritas encarnados
os chamam de aeróbus. Eu odeio esse nome. Prefiro chamá-
lo apenas de veículo aéreo; uma questão de gosto, apenas.
Existem diferentes modelos para finalidades as mais

12 1

diversas. Usar veículos como este — sobretudo quem não
aprendeu a levitar ou não o faz sem grande esforço — evidentemente
economiza um bocado de energia mental, que
pode ser empregada em outras realizações.

Enquanto se desenrolava nossa conversa, o veículo
percorria lugares diferentes; com certeza, pararia próximo
ao local onde deveríamos descer. Mas uma coisa me
inquietou: ao invés de subir na atmosfera, ele literalmente
desceu, como se fosse um metrô, viajando logo abaixo da
superfície da cidade. Minha amiga percebeu meu espanto
de imediato.

— Não fique assim tão chocado com este nosso mundo,
gajo. Como eu disse, existem vários tipos de veículo. Este
aqui, que transporta uma quantidade maior de pessoas,
percorre as vias no subsolo, como os velhos e conhecidos
metrôs da Terra, embora estejam em operação em nossa cidade
desde o ano de 1695. Temos desde veículos que voam
pela atmosfera astral afora até aqueles projetados para descer
a regiões mais profundas do submundo, no conhecido
umbral ou mesmo em lugares mais densos. Pessoalmente,
adoro os que se prestam a sair da atmosfera terrena rumo
à Lua, por exemplo, os quais são potentíssimos, muito em

12 2

bora pouquíssimos espíritos tenham autorização de sair do
ambiente do planeta em direção ao espaço cósmico. Então,
vá se acostumando com as diversas faces da vida espiritual.
Vamos descer numa estação antes do hotel, pois quero lhe
mostrar alguma coisa antes de você descansar.

— Já falei que não me sinto cansado!
— Vamos descer, de todo jeito. — E acrescentou: — De
qualquer ponto onde estiver na cidade, encontrará uma estação
a no máximo 400 metros a pé, onde poderá embarcar
em algum dos veículos. É uma malha de transporte público
que funciona com uma eficiência de nos deixar orgulhosos.
Seja por terra, pelo ar ou pelo subsolo, como no caso deste
comboio, sempre haverá um tipo de transporte ao alcance
dos habitantes da metrópole, de modo permanente.
Descemos num entreposto de transporte ou, como
chamou Consuela, numa estação. Caminhamos pouco. Na
verdade, para chegar à superfície havia a opção de levitarmos,
impulsionados por uma espécie de colchão de ar, ou
subirmos em esteiras rolantes, que eram um charme à parte;
algo bem futurista. Adorei as possibilidades, mas preferimos
ir a pé mesmo, circulando em meio aos pedestres,
que, diante de tantas opções de transporte, não eram em


123

número tão grande assim. Foi uma experiência muito diferente
para um espírito, mas também muitíssimo gratificante.
Em alguns entroncamentos e passagens subterrâneas,
semelhantes a túneis confortavelmente largos, havia
obras artísticas a decorar o percurso. Entalhadas em material
ainda desconhecido para mim, erguiam-se colunas
portentosas, e o teto parecia haver sido pintado, quem sabe,
por algum Michelangelo, tamanha era a precisão nos traços
e a beleza observada ali, bem como nas demais obras
de arte. Em determinado local, pouco antes de emergirmos
à superfície, deparei com um espaço mais amplo, mesmo
dentro dos túneis. Era uma espécie de praça, com algumas
cadeiras dispostas harmoniosamente. Espíritos assentados
admiravam a música de qualidade apresentada talvez por
membros de alguma sinfônica — poucos, na verdade, mas
suficientes para produzir algo que tocava o espírito mais
exigente em relação à boa música.

Subimos, então, o último lance antes de ascender à superfície,
enquanto Consuela chamava a atenção por onde
passávamos, com o traje tipicamente andaluz, elegante
como ela só. E eu totalmente absorvido pela decoração,
pela beleza em cada detalhe.


12 4

Quando chegamos à superfície, minha amiga e guia de
turismo do mundo espiritual apontou em direção ao céu. As
estrelas me encantaram. Eram visíveis quase na totalidade
as estrelas da Via Láctea. Uma profusão de luzes inundava
suavemente o campo visual, e vários espíritos ficavam parados,
como nós, olhando, observando, inspirando-se, talvez,
no espetáculo de belezas imortais. Pela primeira vez,
eu chorei. Chorei de nostalgia, de enlevo, completamente
envolvido pela beleza da imensidade, da Amanda. E antes
que meu choro se convertesse em pranto, talvez pela minha
tendência post-mortem de transformar as coisas em melodrama,
minha amiga convidou-me a voltar os olhos para o
lado oposto do firmamento. Notei que diversos indivíduos,
de um e outro lado da rua, também fixavam aquele lugar.
E o que vi me encantou mais uma vez. Grande quantidade
de espíritos se aproximava, levitando na atmosfera da
cidade. Faziam uma espécie de ziguezague ou bailavam ao
se deslocar em suspensão. Lembravam borboletas iluminadas,
radiantes, de estonteante beleza. Na Terra, os relógios
marcavam alguns minutos após as 18 horas. A população
parecia extasiada, olhar fixo ora num ponto, ora noutro,
contemplando a beleza da natureza e a manifestação da



12 5

queles seres que desenvolviam uma coreografia inspirada,
quem sabe, em alguma música que meus ouvidos ainda não
eram capazes de perceber. Eram mais de 200 espíritos indo
e vindo em perfeita harmonia, no espaço acima de nós. Alguns
veículos aéreos interromperam seu curso, pairando
nas alturas enquanto os ocupantes assistiam ao espetáculo
de belezas indescritíveis. Se algo na Terra pudesse se aproximar
muito pálidamente do que presenciei, talvez fosse
uma apresentação do Cirque du Soleil, quando artistas circenses
se elevam ao alto graças a suportes de vida, cabos de
aço ou cordas elásticas. Mas é muito pálida essa comparação.
Seja como for, era impossível não ficar admirado diante
das capacidades do espírito humano. Como a arte expressa
com perfeição uma das faces mais interessantes da criação
e da própria sabedoria divina! Deixei-me tocar intimamente
por toda aquela beleza, e assim ficamos ali por cerca de
30 minutos, parados, na mais absoluta contemplação.

Os pensamentos, naturalmente, eu nem sabia por onde
iam, mas de uma coisa tive certeza: sentia-me imensamente
grato a quem quer que fosse que me avalizou, abrindo a
possibilidade abençoada de viver, estudar e trabalhar nesta
atmosfera de beleza, diversidade e respeito, nesta grande


12 6

escola de convivência mais harmoniosa com a vida universal.
A gratidão brotou no meu coração como nunca percebera
até ali. Gratidão a Deus, à vida, ao universo.

Nem me dei conta, transcorrido aquele tempo, de que
estávamos bem próximos do hotel. Consuela, sem se preocupar
em disfarçar uma lágrima discreta num canto de
olho, convidou-me a caminhar. E caminhamos em silêncio.
Aliás, nunca vi tamanho silêncio como o que percebi naquele
momento. Parece que toda a população da cidade dos
espíritos prosseguia em silêncio rumo aos mais diversos
afazeres. Simplesmente, todos estavam tocados com as impressões
de beleza que cada um tivera, conforme sua situação
íntima, segundo mais tarde me contaria Pai João. Dei
graças por haver percebido aquele espetáculo de maneira
tão intensa.

Aliás, eu sempre fora sensível a tudo que é belo, ao sentido
estético das coisas, das pessoas, de tudo à minha volta.
Mas descobri ali, naqueles momentos de enlevo, que de
alguma forma a morte parecia haver amplificado tudo em
mim. E a beleza fazia muito mais sentido em minha alma,
muito mais do que antes de experimentar a chamada morte
do corpo. E também ali, enquanto caminhava em silên



12 7

cio ao lado de Consuela, pude pensar no quanto a morte e o
morrer abrem as portas da alma, escancaram os sentidos do
espírito, libertam do medo e das limitações do entendimento.
Isso, naturalmente, dependerá da abertura que damos às
oportunidades e da postura mental do indivíduo. Por mim,
estava mais que decidido: dali em diante, não perderia jamais
uma chance de trabalhar e aprender, estudar e progredir
de alguma forma, pois descobri nesta cidade meu verdadeiro
lar. Se havia sobrevivido em mim alguma vontade de
retomar o corpo que ficou na Terra, essa vontade apagou-se
de vez ante as belezas e as possibilidades no novo lar, na pátria
à qual regressara pelos braços generosos da morte.

Adentramos o ambiente do hotel e me despedi da nova
amiga. Não sei para onde ela iria, se tinha uma casa, um
bangalô ou morava na área urbana da cidade. Despedi-
me dela grato por haver encontrado pessoas afins, com as
quais conviveria com satisfação, e deixei-me embalar pelos
pensamentos repletos das novidades que reservava a
cidade dos espíritos, a Aruanda de todos os povos, de todas
as gentes.

Nem me recordo de como cheguei ao quarto. Sei apenas
que, quando passei pela porta, deparei com um buquê


12 8

de flores sobre a mesa, num vaso que nem era lá do meu
gosto, mas não deixava de ser belo. A surpresa trazia um bilhete
subscrito pela equipe do hotel: Seja muito bem-vindo
ao novo lar! Esperamos fazer parte de sua família espiritual.
Que sua estadia entre nós seja uma descoberta diária de felicidade
e satisfação. Conte conosco, Sr. Ângelo Inácio — e várias
assinaturas preenchiam o restante do espaço no cartão.

Não sou muito chegado a esse tipo de manifestação,
de flores e coisas do gênero, mas, confesso, me emocionei.
Ao cheirar as flores, o aroma me tomou por completo e um
leve sono pareceu preencher minhas sensações. Dirigi-me
à cama. Colchão macio, lençóis elegantemente arrumados,
com um tecido de qualidade superior — em cuja composição
naturalmente não entrava ectoplasma, como diria o
atendente da loja que visitei —, com um toque sedoso que
me convidava a deitar-me.

Relaxei assim que me encostei naquele ninho que me
abrigava o espírito. E sonhei. Sonhei com as estrelas de
Amanda e com um país onde todos podiam conviver em
paz, onde reinava uma política diferente, com leis simples,
que bem serviam aos propósitos da população de seres que
ali habitava. Sonhei com uma vida diferente, com uma nova


12 9

civilização, com Maria, minha filha. Apenas sonhei e me retemperei;
refiz meu espírito em meio aos fluidos balsâmicos
da Amanda de Pai João, de Jamar e dos amigos novos
que eu conhecera ali, entre as estrelas.


133

ui ACORDADO POR Jamar, meu amigo guardião ou anjo
da guarda. Ele foi muito discreto e só adentrou o ambiente
do apartamento após me chamar, também discretamente.
Confesso que, se ele tivesse deixado, dormiria até mais tarde.
Era o primeiro sono verdadeiramente reparador depois
da transição e da desativação do corpo físico. Acordei me
sentindo bastante fortalecido, energizado e com uma disposição
íntima excelente.

Jamar me esperava na antessala. Ele precisaria aguardar
por mais algum tempo, na verdade, pois senti vontade
de tomar um banho demorado. Eu não tinha noção do que
ele faria durante o tempo da minha higiene, se ficaria ali
esperando ou sairia para resolver algo. Sei bem que esse
espírito não é lá de ficar aguardando sentado, esperando o
tempo passar.

O fato é que me dirigi ao toalete e encontrei uma banheira
grande o suficiente para me acomodar de modo
confortável. Ao lado, numa espécie de deck onde se alojava
a banheira, alguns vidros continham extratos de ervas, e
pareciam estar ali há pouco. Quem os teria providenciado?
Não saberia dizer. Talvez Bernardo, o rapaz que se dispusera
a auxiliar nos momentos de adaptação. Encontrei diver



13 4

sos frascos com algum conteúdo verde, um tipo de sumo ou
extrato que resolvi experimentar.

Assim que segurei o primeiro deles, notei um rótulo
com as informações: Extrato concentrado de ervas. E havia
instruções: Recomendado para liberar energias densas e
emoções mais intensas e pesadas. Derramar o conteúdo na
água e permanecer imerso por aproximadamente 20 minutos.
O segundo frasco era indicado para se recompor após

o descarte biológico, com propriedades terapêuticas energizantes.
E assim por diante, um a um trazia a indicação específica.
Escolhi o que acreditei me serviria melhor, e, tão
logo a banheira se encheu, o que não demorou, deitei o conteúdo
do frasco. O resultado foi muito semelhante ao que
se vê na Terra, quando se derramam sais de banho na água.
Após me despir, entrei na banheira e fiquei submerso por
alguns instantes, para logo relaxar com a água até os ombros.
Não era hidromassagem, mas nem tudo pode ser tão
perfeito. Respirei fundo e percebi os aromas agradáveis, intensos,
penetrantes. Parecia que alguma coisa se desprendia
do meu corpo espiritual — aprendi ser esse o nome do
novo envoltório que me servia —, mas era algo muito denso.
Fluidos ainda se mantinham impregnados nas células

13 5

ultrassensíveis do meu organismo, segundo me explicaram
mais tarde. Creio que o extrato que escolhi tinha alguma
propriedade terapêutica que liberava ou sugava de meu ser
tudo aquilo que excedia o necessário para minha vida ali,
naquele recanto abençoado do universo.

Relaxei a ponto de não me dar conta do tempo que se
passou. Será que meu anjo guardião ainda me esperava lá
fora ou desistira de mim? Levantei-me de sobressalto e foi
então que percebi quão mais leve eu estava. Caminhei pelo
quarto com a impressão que perdera boa quantidade de
fluido denso, de energia pesada ou sei lá como me referir à
sensação tão agradável e de leveza que experimentei após

o banho. O sabonete era um misto de calêndula, cardamomo
e cânfora, e talvez alguma outra erva, mas não li toda
a composição, no rótulo da embalagem. Sei é que já na banheira
senti uma suavidade incrível em meu corpo espiritual.
Mesmo agora faltam-me palavras para descrever em
sua amplitude a sensação que me dominava. Vesti o terno
que havia sido escolhido tão rapidamente no dia anterior,
na companhia da amiga Consuela, e saí para ter com Jamar.
Ele estava de pé na antessala, embora houvesse ali um espaço
confortável e poltrona para se instalar.

13 6

— Sente-se melhor, Ângelo? Espero que tenha experimentado
o efeito regenerador e estimulante do banho. Aqui
em nossa cidade, a água exerce um papel fundamental para
todos nós.
— Você ficou aí me esperando esse tempo todo?
— Não! Acabei de chegar.
— Mas ouvi a campainha tocar e você me chamar pelo
aparelho de comunicação...
— Ah! Com o tempo você aprenderá muitas coisas por
aqui. Estava ainda no Q G dos guardiões quando você me ouviu
e adentrei aqui exatamente no momento em que abriu a
porta. Não podia aguardar; sabe como são os compromissos.
Lembrei-me do médico que viera no dia anterior me
consultar. Embora o tempo aqui fosse mais dilatado do que
aquele ao qual havia me acostumado na superfície, parecia
que alguns espíritos preenchem seu tempo com tanto trabalho
e responsabilidade que não lhes sobra muito para curtir.
Sofrem de síndrome do trabalho compulsivo, imagino.

Jamar, vestido com um traje semelhante ao que usara
nas ocasiões anteriores, mantinha o porte ereto, sóbrio e,
acima de tudo, a atmosfera em seu entorno. A compleição
física do guardião denotava marcante masculinidade ou vi



137

rilidade, além de uma força descomunal. Numa proporção
muito acima da média, parecia exalar energia yang de cada
átomo do corpo espiritual. Não obstante, era a calma em
pessoa; mantinha-se tranquilo e inspirava segurança e um
quê de paternidade, de modo que estar em sua presença fazia
bem. Forçosamente ocupava uma posição de comando
naquela comunidade.

— Temos de ir, meu amigo. Alguns dos imortais nos
aguardam, e você precisa conhecer algumas pessoas centrais
em nossa comunidade. O trabalho que tem a realizar
não pode ser adiado.
— Trabalho? Mas eu mal morri e já tem trabalho para
mim? E o tal do descanso eterno? Não tenho direitos?
— E deveres, também. Não se esqueça de que conhecimento
e muita habilidade acarretam grande componente
de responsabilidade. Você não veio para nossa comunidade
por acaso. Você não escolheu; foi escolhido.
— Então não vou mais descansar?
— Sente-se cansado?
— Talvez... Depende do que me espera!
— Vamos! Alguns comentários não merecem resposta
— falou sério, mas sem nenhuma expressão de gravidade.

138

Parecia que ele não tinha tempo a perder, mesmo; não era
como Consuela. Não mesmo!

Saímos do hotel, e logo me chamou atenção o veículo.
"Como é mesmo o nome espírita para ele?" Àquela altura,
não pude recordar o nome que Consuela me falou no
dia anterior. Soube apenas que era algo feio, sem elegância
nem criatividade. Enfim, entrei naquela espécie de automóvel
e então notei mais um homem e uma mulher; ela
estava vestida com um uniforme similar ao de Jamar. Era
levemente mais descontraída, embora também inspirasse
segurança e responsabilidade. Jamar nos apresentou:

— Essa é Semíramis, a representante das guardiãs, e
Watab, um amigo servidor em nossa corporação.
Ambos me cumprimentaram sorridentes, porém notei
ainda certa reserva. Watab era alto, magro, com dentes
branquíssimos. O traje, um tanto solene, diferia bastante
do de Jamar. Era um tipo de roupa que se ligava ao
corpo, deixando-lhe as formas e os músculos mais evidentes.
Lembrou-me algum bailarino que havia visto na Terra,
em apresentação. Ri sozinho. Não sei se me perceberam o
pensamento, mas Jamar logo se manifestou, esclarecendo
nosso objetivo e ignorando ou ao menos desconsiderando o


13 9

que pensei. Graças a Deus, pois viver no meio de um povo
que sabe o tempo todo o que você pensa não é fácil, não. E
esse negócio de imortalidade? Meu Deus, como me pareceu
difícil conviver com gente que não morre nunca, nunquinha...
E o pior: sendo assim, eles não têm medo da morte
e, não tendo medo da morte, podem ter medo de alguma
coisa na vida? Jamar interrompeu meus diletos pensamentos
e raciocínio profundos.

— Vamos a uma reunião — dirigiu-se a mim — em que
alguns de nossos mentores e mestres querem conhecê-lo
ou dar-se a conhecer. São seres mais experientes, com um
grau de responsabilidade para com a humanidade do qual
nem sabemos a extensão verdadeira. Sabemos, contudo,
que trabalham numa dimensão muito mais alta e com tarefas
mais expressivas do que a nossa. Mas fique tranquilo;
são humanos, na verdadeira acepção do termo. Riem, brincam
e entendem nossos dilemas e limitações.
— Então podemos dizer que são espíritos de luz? —
perguntei, com certa dose de sarcasmo, reconheço, mais
pelo tom piegas dessa expressão...

— Não os classificamos assim; nós os chamamos de
orientadores evolutivos da humanidade e nossos, também.

14 0

A audiência será rápida, pois não dispõem de tempo para
se dedicar a uma conversa mais demorada.

— Tempo, tempo... Parece que aqui vocês não sabem
aproveitar o tempo eterno que têm pela frente.
— Em breve, você verá que há muito o que fazer pela
humanidade, sobretudo neste período da história. Muitos
lances do grande conflito dependem de nossa ação rápida e
constante. Há muito mais em jogo que nossa simples condição
de espíritos em aprendizado. — A conversa adquiriu
um tom mais grave. Olhei para Semíramis e ela esboçou um
sorriso contido, talvez dando a entender que me compreendia
o jeito humano de falar, não somente humano, mas irreverente;
irônico, até.
Chegamos a um edifício muito estilizado, se comparado
aos demais que vira até então. Formas modernas, arrojadas,
iluminado, pelo sol. O veículo pousou num local
preparado no alto do prédio, que, ao que parecia, situava-
se na periferia da cidade. Descemos numa espécie de elevador,
que funcionava com um sistema semelhante àquele
do hotel, com um tipo tecnologia que não existia nas instalações
da Crosta. Semíramis tomou a dianteira, seguida por
Jamar e Watab, e logo atrás ia eu, caminhando num passo


141

mais lento propositadamente, a fim de observar tudo ao redor.
Minha mente, sempre atenta, registrava cada detalhe.
Adentramos um ambiente acolhedor, com poltronas confortáveis,
onde uma recepcionista nos aguardava. Semíramis
apresentou a si e a Jamar.

— Olá! Somos aguardados pela administração da metrópole.
Trazemos um convidado recém-chegado da Crosta.
Poderia nos anunciar, por favor?
— Desculpe, senhores, senhora, mas ocorreu uma
emergência num dos países do extremo Oriente e nossos
dirigentes tiveram de se dirigir imediatamente para o campo
de batalha espiritual. Pediram para avisá-los que retornarão
em alguns minutos. Por favor, sentem-se enquanto
aguardam. Desejam algo? Alguma bebida, quem sabe?
— Obrigado, minha querida — respondeu Semíramis. —
Vamos aguardar por aqui, enquanto conversamos com nosso
convidado.

Meus novos amigos sentaram-se, enquanto eu notava
os detalhes do ambiente. A mesa de contornos nobres parecia
ter sido desenhada especialmente para aquele lugar.
O tampo flutuava sem pernas aparentes, ao passo que um
discreto dispositivo eletrônico sobre a mesa mostrava ima



14 2

gens ou paisagens desconhecidas para mim. Dirigi-me até
as janelas e observei a vida intensa da metrópole. Daqui era
possível ter um a ideia mais ampla daquela sociedade de seres
que viviam fora do corpo. Era uma verdadeira civilização
espiritual.

Olhando para a direita, via-se a vida na metrópole; veículos
indo e vindo em várias direções e espíritos levitando
na atmosfera, sempre em grupos, percorrendo uma estrada
invisível, como se bailassem ao som de alguma música
que não se escutava. Do lado oposto, incontáveis casas,
bangalôs, parques, campos, bosques e florestas, que se avistavam
mais além, de maneira que, à minha visão, parecia
não ter fim o mosaico de verde e harmoniosas intervenções
humanas sobre a paisagem natural. Pululava de vida aquele
recanto do universo. Pássaros exóticos, outros que já conhecia,
e uma infinidade de seres diferentes avistavam-se
ao longe. Minha visão parecia ter sido dilatada ao extremo,
por algum mecanismo ignorado. Olhei para baixo do
prédio e vi seres estranhos, diferentes não tanto pela vestimenta,
como pela conformação externa, física, a qual diferia
largamente do tipo humano convencional. A esta altura
de minhas observações, Jamar se aproximou e esclareceu:


143

— São nossos irmãos do espaço. Seres extraterrestres,
que convivem aqui conosco, harmoniosamente. Temos
um contingente desses seres nos visitando tanto aqui,
em nossa metrópole, quanto em algumas outras cidades
de espíritos, em torno do planeta. São poucos, mas trazem
enorme contribuição no preparo dos guardiões para o momento
de reurbanização extrafísica ou de transmigração
intermundos.
Olhei sem entender direito para o amigo guardião, e
ele entendeu tanto minha curiosidade quanto minhas dúvidas,
que certamente extravasavam do meu interior.

— Sim, Ângelo. Há vida em outros mundos, e não somente
vida depois da vida conhecida na Terra. No entanto,
as coisas não são exatamente como afirmam alguns grupos
na Crosta. Esses seres estão há tempos em contato com
diversas comunidades em torno do globo, mas evitam interferir
diretamente nas questões planetárias, a menos que
essas questões possam afetar diretamente o equilíbrio da
vida universal.
— Então eles interferem de alguma maneira? Existe algum
caso específico em que porventura tenham agido, de
forma mais direta?

14 4

— Claro! Desde algumas décadas, há países que já sabem
da existência desses seres; alguns destes inclusive já
fizeram contato direto com certos governos do mundo.
Quando da ameaça bastante plausível de uma nova guerra
nuclear, eles interferiram intensa e inesperadamente, como
ocorreu com o governo norte-americano. Estabeleceram
contato com os humanos no poder e ameaçaram uma investida
mais direta, aberta e ostensiva, caso aquela nação
não modificasse a política armamentista. Teriam condições,
tecnologia e autorização cósmica para atuar a ponto
de afetar os equipamentos elétricos e eletrônicos do planeta,
impedindo mesmo que bombas nucleares fossem disparadas
novamente. Poderiam agir na rede de comunicação
do planeta, o que causaria um caos completo. Com isso, alguns
governos resolveram modificar a política e a forma
de administrar os recursos tecnológicos, a fim de evitar a
guerra nuclear. Esse é apenas um dos casos.
— Então certos governos da Terra sabem da existência
de vida em outros planetas?
— Não somente sabem como também têm contato direto
com algumas inteligências extraterrestres atuantes no
sistema solar, em dado tipo de tarefa. Porém, caso admitam

14 5

tal fato publicamente ou provas venham a público de maneira
oficial, decerto ruiriam por completo e imediatamente
muitos paradigmas, sejam de caráter político, filosófico
ou religioso. Imagina o caos que se seguiria, principalmente
em âmbito religioso, de forma geral? Muitas teorias admitidas
como verdades intocáveis cairiam por Terra, e de
modo abrupto.

— Isso significa que o povo nunca saberá ao certo a respeito
desses seres? — indaguei. — Permanecerá na ignorância,
indefinidamente?
— De forma nenhuma, Ângelo. Os próprios governos
e agências de inteligência de determinados países paulatinamente
apresentarão documentos e provas para a população.
Igualmente planejam, sob a pressão dos extraterrestres,
é claro, várias estratégias de ação que visam preparar
o povo para aceitar a existência deles antes que se mostrem
abertamente. Muitas peças de comunicação de massa,
como filmes, por exemplo, são encomendadas por agências
de inteligência de certas nações e patrocinadas por órgãos
governamentais. Mundo afora, programas de televisão vão
ao ar e matérias são publicadas na imprensa visando habituar
lentamente o povo, até que a ideia da existência de se

14 6

res fora do planeta Terra seja admitida de maneira global.
A mudança cultural é gradual, mas consistente, e está em
pleno andamento. Em algum momento no início do milênio,
documentos virão à tona e, mais tarde, provas consideradas
cabais. Não se pode esquecer de que a população
do mundo ultrapassa 7 bilhões de almas reencarnadas; segundo
a contabilidade espiritual, são cerca de 9 bilhões de
desencarnados. Levando em conta a diversidade cultural e
religiosa dos habitantes do planeta, certas situações devem
ser levadas ao público de maneira gradativa, embora constante,
a fim de não provocar colapso em muitos setores da
vida terrena.

Olhei o universo à minha frente e entendi que havia
muito mais coisas a aprender do que eu supunha. Enorme
variedade de conhecimentos novos estavam à minha disposição,
esperando a hora de iniciar o aprendizado.

Mudando radicalmente o rumo de nossa conversa, perguntei
a Jamar:

— E quando poderei me matricular nas escolas da cidade?
Queria fazer um exame para ver em que situação me
encontro e, tão logo possível, colocar-me à disposição tanto
para os estudos quanto para as atividades.

147

— Não se preocupe, amigo. Em breve terá tanta coisa a
fazer que suplicará por momentos de descanso. — E riu um
sorriso discreto, mas imediatamente retornando à seriedade
costumeira.
Passados alguns minutos, meu amigo falou:

— Terá hoje a oportunidade de conhecer alguns de
nossos orientadores espirituais, mentores ou guias, como
alguns preferem chamá-los. São espíritos mais experientes
do que a maioria e do que nós que o convidamos.
— São porventura anjos guardiões? Seres de luz?
— Não falamos assim, por aqui. Esses termos, em geral,
são empregados na Terra por religiosos, que tentam associar
à personalidade de tais espíritos o conceito de santidade
ou elevação elaborado nas religiões. Longe de serem
santos ou seres redimidos, são, como nós, apenas humanos,
muito embora dotados de vasta experiência tanto quanto
de grandes responsabilidades, as quais muitos de nós estão
distantes de compreender. Alguns estão envolvidos com
um tipo de trabalho que transcorre num âmbito bem maior
d o que supomos ou conhecemos. São simplesmente nossos
mentores e orientadores, mas não isentos de lutas pessoais.
Não são anjos, que desconhecemos aqui; tampouco se ca

148

racterizam por aquele tipo de elevação que muitas religiões
da Terra lhes atribuem, e que chega a se confundir com
certa passividade contemplativa.

"Mesmo em meios que teoricamente dispõem de conhecimento
espiritual mais avançado, como o espírita, a
maioria dos adeptos é impregnada ou condicionada pelo
tipo de visão tipicamente medieval. Da mesma forma são
os conceitos, as ideias e crenças que alimentam a respeito
do trabalho tanto quanto da natureza dos espíritos que
nos dirigem. Transpuseram a forma de pensar católica e
os pensamentos seculares, francamente ultrapassados e
obsoletos, para a prática religiosa ou pretensamente filosófica
que adotam. Essa visão arcaica de mundo, limitada
por conceitos moralistas e maniqueístas, permanece como
pano de fundo das consciências; estas, mesmo com a chegada
das luzes esclarecedoras, parecem estar acomodadas
ou rearranjadas de tal maneira que a velha realidade mental
não seja ferida.

"Assim, no discurso a existência de anjos e santos é refutada,
em acordo com os princípios da filosofia espírita; na
prática, porém, os mentores espirituais preenchem o lugar
dos velhos ídolos e são tratados com devoção e veneração,


14 9

como se fossem entes divinos e supra-humanos. Frequentemente,
não se admite em hipótese alguma que tais espíritos
sejam questionados, nem sequer para entender suas
orientações e melhor cumprir eventuais determinações,
quanto mais para discordar ou pedir explicações mais pormenorizadas.
De modo geral, os adeptos são pessoas com
muita boa vontade, mas religiosos ao extremo, apegados
inadvertidamente a conceitos de religiões do passado, que
trazem vivos, enraizados na mente. A verdade é que nossos
orientadores espirituais não são nada disso e parecem
muito pouco com o que comumente se fala a respeito deles.
Verá por si mesmo."

— Devem ser seres muito sérios, compenetrados, cientes
de suas obrigações com a humanidade.
— Sim, é verdade, em certa medida. Mas seriedade não
implica severidade, rabugice, chatice ou falta de bom humor.
Aliás, alguns desses espíritos têm tamanha leveza e
bom humor que se confundem com a população comum.
São superiores, sim, mas não espíritos puros, muito menos
santos, e não detêm sabedoria plena. Enfim, não abdicaram
de sua humanidade, do prazer de vivenciar certas
experiências puramente humanas, tampouco se conside

15 0

ram missionários, como muitos encarnados os consideram.
Como na dimensão física o peso da herança católica é ainda
muito grande nos meios espírita e espiritualista, esses
nossos irmãos encarnados acabam por beatificar espíritos
protetores e aqueles que alcançaram um estágio maior de
experiência. Imputam a eles os mesmos atributos de infalibilidade
e santidade que fiéis costumam atribuir ao papa e
aos santos católicos. Mas quer saber de uma coisa, Ângelo?
Nenhum desses seres a quem chamamos superiores têm
qualquer coisa disso que se diz a seu respeito.

— Então, muita gente, religiosa ou não, quando ultrapassar
os portais da morte pelo descarte do corpo físico,
talvez se decepcione amargamente ao conhecer de perto os
próprios guias ou anjos da guarda, não é?
— Isso ocorre com larga frequência, principalmente
com médiuns que querem a todo custo que seus mentores
sejam mais adiantados, mais evoluídos ou detentores de
tão grande conhecimento que, para muitos, é quase como
se fossem o próprio Cristo. Apresentam seus mentores tão
envolvidos em luzes, irradiando tamanha bondade e detentores
de tal grau de santidade e elevação que, ao ouvir tais
descrições, cabe desconfiar. Será que elas se referem mes

15 1

mo a mentores ou se parecem mais com a descrição de algum
santo católico idealizado?

"Ao chegarem aqui, encontram seus mentores, quando
os encontram, vestidos como homens simples; descobrem
que a visão que tinham de seus orientadores não passava de
uma visão pessoal, requintada pelo orgulho e pelo desejo
de ser especial. Deparam com pessoas de bom coração, mas
ainda seres comuns. E tantos são os médiuns que descrevem
seus mentores de maneira portentosa que muita gente crédula
acredita que se trata da mais pura verdade. Querendo
ser ainda mais diferente, há quem afirme que seus mentores
são extraterrestres, como se isso fosse sinônimo de elevação
espiritual, e que decepção têm ao aportar em nossa dimensão
e constatar que não passam de espíritos familiares. São
pais, irmãos, parentes de outras vidas, cada qual com seu
sistema de crenças pessoais e culturais, como qualquer outro
espírito. Não raro encontramos médiuns desencarnados
totalmente transtornados, decepcionados com seus mentores
reais, em contraposição àqueles idealizados."

— Se é assim, por que não interferem, de maneira a
desmistificar as questões relacionadas à vida espiritual,
aos espíritos em particular? Uma abordagem sem misticis

15 2

mo, sem o componente de religiosismo, talvez servisse para
despertar alguns na Crosta e mostrar a vida do lado de cá
sem mistérios, sem o componente romântico que faz com
que os médiuns, ao desencarnarem, se decepcionem ou entrem
em depressão.

Olhando para seus amigos Semíramis e Watab, Jamar
sorriu mais uma vez discretamente, deixando algo no ar.

— Falei algo errado, porventura?
— Não é isso, meu Ângelo! Você terá oportunidade de
ouvir dos Imortais o projeto de trabalho que o espera. Verá
como eles planejam uma tarefa que trará resultados mais
amplos...
Antes de Jamar ou qualquer dos seus amigos falarem
mais, ousei perguntar:

— Por que vocês chamam esses espíritos de Imortais?
Não somos todos imortais, afinal? Os espíritos não são todos
eternos?
— É apenas uma convenção, Ângelo, uma forma de nos
referirmos àqueles que alcançaram maior experiência e
uma visão mais ampla das questões da vida.
— Também falamos assim — interferiu Watab, pela primeira
vez — ao nos referirmos àqueles espíritos que talvez

15 3

não tenham tanta necessidade de reencarnar, como a maioria
de nós, mesmo porque passam períodos de tempo muito
maiores na erraticidade do que a maioria. Embora voltem
ao palco da vida física como a esmagadora maioria dos seres
que já descartaram ou desativaram seus corpos materiais,
não mergulham mais na carne com as mesmas necessidades.

— Mas podemos diferenciar imortalidade e eternidade
de maneira a entender melhor — falou Semíramis com uma
voz potente, embora feminina. — Consideramos eterno
aquilo ou aquele que não teve início nem terá fim. Portanto,
segundo essa compreensão de eternidade, só o Pai é eterno,
o Criador, em cuja direção todos caminhamos. Imortalidade,
por outro lado, pode ser vista como atributo daqueles
que foram criados, ou seja, de quem teve início, porém não
terá fim. Dessa forma, todos os espíritos são imortais.
"Ainda assim, há outro aspecto a considerar, outro ponto
de vista, quando nos referimos a determinada categoria
de espíritos como Imortais. Eles representam, também,
aqueles seres que já descartaram o segundo corpo, isto é,

o corpo espiritual ou períspirito, de modo que vivem e vibram
na dimensão puramente mental. Não padecem da
necessidade inexorável de adotar um organismo mais ma

154

terial, quer seja de matéria física ou astral, a fim de que a
consciência possa se manifestar, como a maioria de nós;
aqui. Em razão disso, os Imortais são seres cujo compromisso
com a humanidade é muito mais abrangente, e cujas
responsabilidades, em âmbito universal e mental, escapam
por completo ao conhecimento e ao entendimento da maioria
dos seres comuns, como nós mesmos. Em suma, trata-
se apenas de uma forma de distinguir os mais avançados,
aquelas almas cujo comprometimento com as leis da vida
extrapola a noção que temos do assunto. Apesar de tudo
isso, à semelhança do que ocorre conosco, ainda erram, cometem
falhas, embora em dimensão e escala bem diferentes
do que consideramos habitual. Enfim, são autênticos espíritos
do bem, mas de modo algum espíritos puros."6

— Entendi... Então, esses Imortais a que se referem...
Fomos interrompidos pela assistente que nos chamavi
— Desculpem, meus senhores, mas nossos dirigentes já
estão de volta e os aguardam na sala ao lado. Por favor, me
acompanhem!
Cf. "Escala espírita". In: KARDEC. O livro dos espíritos. Op. cit. p. 117-127, item

100-113.


155

Ao adentrarmos o ambiente, elegante, porém minimalista,
tive um choque ao perceber o médico que me havia
examinado anteriormente. Ele estava ali, olhos claros,
meio sério, vestido de branco. Aliás, era o único vestido de
branco entre os demais. O ancião Pai João estava mais recuado,
próximo a um arranjo floral, única peça propriamente
de decoração vista no ambiente. Trajava um costume
bem cortado, na cor azul-marinho, que contrastava
com a camisa branquíssima e a gravata espantosamente
moderna e coerente. Mais outros espíritos estavam ali,
sorridentes. Havia um mais idoso, de barbas fartas, olhos
amendoados, que irradiava uma doçura imensa, mas todos,
absolutamente todos, eram muito humanos para meu gosto.
Todos me observavam silenciosos. Fui apresentado a
Saldanha, Júlio Verne, Anton e alguns outros de aparência
espiritual mais excêntrica, ao menos para os padrões a que
eu estava familiarizado.

Mesmo tendo Jamar e os guardiões falado a respeito
de como esses espíritos eram, eu sinceramente esperava
encontrar anjos ou algo do gênero. Mas... eram humanos,
tão humanos! O sorriso farto nos lábios de alguns desfazia
completamente qualquer ideia preconcebida de que


15 6

os chamados Imortais fossem seres iluminados, radiantes
de energia ou transfigurados em focos de luz iridescente.
Nada disso. De fato, me decepcionei! Esperava mesmo que
Jamar e Semíramis estivessem atenuando a característica
daqueles espíritos apenas para me deixar à vontade. Mas
não! Eram exatamente conforme descrito.

— Seja bem-vindo, Ângelo Inácio — falou o médico
para mim, uma vez que, naturalmente, já me conhecia. —
Sejam bem-vindos todos.
— Estamos felizes por encontrá-los novamente — falou
Jamar, exalando uma aura de tranquilidade e felicidade legítima.
Era contagiante a satisfação que demonstrava, embora
conservasse o aspecto de um guerreiro sempre a postos,
sempre atento a tudo.
— Estes são os nossos amigos Bezerra — falou Joseph
Gleber, o médico que conheci antes e que lera meus pensamentos
—, Séfora, do Oriente, Zarthú, o Indiano, Eurípedes
Barsanulfo e Anton, um dos chefes da segurança planetária.
Você conhece João Cobú, nosso convidado especial, e
os demais — apontou para a equipe —, que mais tarde serão
seus companheiros mais próximos nas tarefas que tem a
realizar. Infelizmente, outros amigos que queriam se apre

15 7

sentar não puderam permanecer, pois situações emergenciais
no extremo Oriente requerem a presença deles.

Todos nos olharam de maneira tão natural e nos deixaram
tão à vontade que pensei estar entre amigos, entre colegas
escritores e jornalistas com os quais convivi no passado.
Me senti em família.

Sem demora, indicando o trabalho intenso que esses
seres administravam, Joseph introduziu a pauta:

— Recebemos aval de nossa coordenadora de uma dimensão
mais elevada, nossa mãe, Maria, para eleger alguém
que pudesse nos auxiliar na transmissão de novas
ideias e de uma visão mais dilatada da vida espiritual, levando
ao mundo essa mensagem, mas principalmente tendo
os amigos espiritualistas como alvo.
Neste ponto da conversa, interveio o espírito Bezerra:

— Nossos amigos espíritas e espiritualistas precisam
expandir o campo de visão, contemplando uma realidade
mais ampla. Por essa razão, nós o temos acompanhado
desde há algum tempo e verificamos que suas disposições
mentais e emocionais provavelmente possam servir para
nos auxiliar como intérprete junto aos encarnados. Em certo
momento, na Crosta, durante o período da internação,

15 8

pessoalmente o acompanhei, quando a depressão o consumia.
Em decorrência disso, decidimos apressar sua vinda
para o lado de cá, em virtude dos trabalhos que precisam
ser levados a efeito.

Desta vez, Joseph Gleber voltou a se pronunciar, enquanto
os orientais Zarthú e Séfora mantinham-se calados:

— Precisamos de suas habilidades com a escrita. Encomendamos
um estudo aprofundado sobre diversos espíritos
reencarnados cuja particularidade no campo profissional
trouxesse elementos que nos pudessem auxiliar.
Atrevi-me a interferir e perguntar:

— Mas por aqui vocês não têm espíritos com essa habilidade
ou competência?
— Espírito é espírito, meu irmão — tornou Gleber —,
tanto no corpo como fora dele.
— Não é só isso! — falou Eurípedes Barsanulfo — "Meu
Deus, que nome!", pensei. — Dispomos, sim, de alguns espíritos,
jornalistas e outros, que até já escreveram através de
médiuns muito respeitáveis entre os espiritualistas. Porém,
apresentam ligação mais estreita com certas correntes do
movimento das ideias libertadoras ou, ainda, identificam-
se com uma tradição já estabelecida, de maneira mais ou

15 9

menos rígida ou engessada. É exatamente esse alvo que nos
propomos atingir com novos escritos, além de outros adeptos
do pensamento espiritualista, que surgem com mentalidade
mais aberta ou receptiva.

— Por isso, caro Ângelo — retomou Joseph Gleber, com
o sotaque carregado, lembrando um alemão tentando falar
português —, você foi indicado, justamente por não ter se envolvido
com a visão espírita padronizada, segundo o enfoque
de determinados médiuns e autores espirituais, por mais
boa vontade ou compromisso que tenham. Precisamos de alguém
mais ligado à literatura de forma geral, e não tanto à
literatura espírita. Mas, entenda, a tarefa não é tão simples
como possa imaginar; e não se trata apenas de escrever. Você
terá de estudar muito aqui, em regime permanente; deverá
se envolver com os guardiões e conhecer muitos aspectos
de suas atividades. João Cobú, a quem você já conheceu, se
encarregará diretamente de conduzi-lo. Apresentará a você
pessoas encarnadas, desdobradas além do limite de seus corpos,
tanto quanto espíritos, que já descartaram o corpo físico,
a fim de que entenda melhor o que o aguarda como tarefa.
"Meu pai!" — pensei, esquecendo que a maioria ali, senão
todos, poderia escutar meus pensamentos — "Então


16 0

minhas férias de espírito acabaram mesmo. Duraram apenas
um dia..."

— Você se preparará ao longo de 8 a 10 anos para escrever
através de um médium. Como no passado participou da
Revolução Francesa, redigindo pensamentos e difundindo
ideias com bastante esmero, e, mais tarde, no último mergulho
na carne, aprimorou esse conhecimento e as habilidades
narrativa e descritiva, escolhemos alguém que tem
algo em comum com suas experiências. Trata-se de um
companheiro do seu passado, velho conhecido nosso e dos
guardiões. Mas terá que preparar esse médium, além de se
preparar. Ele constituirá seu desafio, como espírito. Repito:
não será fácil.
Comecei a ficar temeroso diante daqueles espíritos e
sua proposta. Parece que imediatamente desconfiaram de
meus medos e apreensões, e logo, logo o espírito Bezerra
veio em meu socorro, abraçando-me e sorrindo um sorriso
tão cativante e envolvente que me acalmou os pensamentos
e as emoções.

— Deixemos os detalhes para depois. Primeiramente,
você será apresentado ao trabalho dos guardiões e à universidade.
Assim, poderá ficar mais tranquilo para, oportu

161

namente, decidir. Não se sinta pressionado, meu filho. Porém,
esperamos que esteja atento a cada elemento que lhe
será mostrado. Fará uma excursão, por assim dizer, a certos
recantos obscuros do mundo inferior, acompanhado por
Jamar. Mais tarde, Anton mesmo o levará ao quartel-general
dos guardiões e lhe mostrará as tarefas que realizam em
nível planetário.

— Isso mesmo! — falou Joseph Gleber. — Certamente
se sentirá mais à vontade para decidir sobre nossa proposta
após conhecer mais a respeito da vida espiritual e dos projetos
que levamos avante em nossa dimensão. Mas entenda:
você foi apontado como um dos prováveis seres a desempenhar
um papel importante ao lado de nossa equipe. Aproveite
a oportunidade e, quando se sentir mais à vontade ou
tiver decidido, procure-nos, ou quem sabe se sinta melhor
com Jamar e João Cobú.
Olhei para o ancião, para Pai João, e me senti mais
apoiado, mais envolvido e, quem sabe, seu olhar doce e
tranquilo me transmitisse um quê de serenidade. Confirmei
ali mesmo a impressão de que meu tempo de férias no
outro mundo havia terminado. Meus pensamentos deram
uma reviravolta. Agora, conheceria e examinaria a cidade e


16 2

seus trabalhadores com novo olhar. Bezerra aproveitou minhas
disposições íntimas e acrescentou:

— Enquanto estive abraçado com você, meu filho, não
pude me furtar à análise de sua condição espiritual. Sugiro
que procure uma de nossas unidades hospitalares para se
submeter a um tratamento rápido, porém necessário, a fim de
que se sinta melhor, mais leve e liberto de algumas impressões
físicas naturais de quem é recém-chegado da Crosta.
Olhei para Pai João como a pedir socorro. Ele compreendeu
meu pedido e se aproximou tranquilo, segurando
meu braço esquerdo.

— Eu o acompanho, Ângelo. Não se preocupe, não precisará
ficar internado. Aliás, aqui quase não temos espíritos
em regime de internação. Será submetido a um procedimento
magnético, somente isso. Depois lhe explico.
— Pois bem, meu irmão — voltou a falar o médico alemão.
— Aguardaremos até você se sentir em condições de se
definir. Mas não podemos esperar muito. Outros espíritos
com experiências semelhantes às suas estão esperando até
que se decida e, caso recuse a tarefa, procuraremos um deles.
Mas terá o devido tempo — e, falando assim, o espírito se
dissolveu à minha frente, como se fosse transportado para

16 3

um outro mundo. Da parte dele, deu o caso por encerrado.

Bezerra, Zarthú e Séfora se despediram de mim, sendo
que Zarthú transmitiu um pensamento muito audível para
meu cérebro de morto desencarnado: "Estarei contigo,
meu filho. Fique tranquilo, terá tempo suficiente para tomar
a decisão mais acertada. O que tiver de ser, será". Eurípedes,
por sua vez, saiu da maneira convencional, apenas
meneando a cabeça para mim, ao cruzar a porta. Os demais
se dissolveram à minha frente. Fixei Júlio Verne, desejando
uma entrevista ou um bate-papo, mas não foi diferente;
também ele se dissolveu com as forças do espírito, assim
como Saldanha e Anton. Fiquei com Pai João, além de Jamar,
Watab e Semíramis, que permaneceram quietos durante
a conversa com os chamados Imortais.

Após algum tempo me observando, Pai João rompeu o
silêncio e disse:

— Não se assuste com o jeito dos nossos irmãos. Eles
precisam atender outras urgências e também coordenar
atividades em outras cidades espirituais. Quanto ao método
de transporte que utilizaram, é algo comum entre os
espíritos mais experientes. Eles podem simplesmente caminhar,
como qualquer pessoa, lançar mão dos veículos à

164

disposição em várias cidades do astral ou, então, transportar-
se com o poder da mente, do pensamento. E claro, não
são todos os espíritos que conseguem essa proeza.

Sem registrar os pormenores de muita coisa do que
ocorria à minha volta, fui conduzido pelos amigos a um
complexo hospitalar numa região mais afastada da metrópole,
embora proporcionasse ampla visão de boa parte
dela. Só suspeitei que era um hospital quando já adentrava
o ambiente muito limpo, também minimalista, de cores
suaves e com intenso tráfego de gente morta viva no saguão.
Na presença de meus acompanhantes, fui logo admitido
e, em seguida, novamente conduzido por eles. Foi apenas
quando me vi no andar mais alto do prédio em forma
de "L" que me apercebi: aquele era mesmo o hospital da
comunidade, ou um dos hospitais. Do último andar pude
avistar uma torre de proporções monumentais. Seria um
edifício? Estava muito distante, talvez no centro da cidade.
A torre parecia singrar os céus e a altura dela era completamente
desconhecida para mim. Em meio a devaneios e
tantas cogitações de meu espírito acerca do que ouvira dos
Imortais, fui surpreendido por Jamar, que se aproximou
lentamente de mim.


16 5

— A torre não é um edifício, Ângelo, mas apenas uma
torre mesmo, uma espécie de antena, que capta energias de
planos mais sutis. Tem 300m de altura, a contar do solo, e,
nesta parte, ela capta emanações da energia cósmica e outras
mais, advindas de dimensões superiores à nossa. Embora
em outro plano, localizamo-nos na região da atmosfera
terrestre denominada termosfera, camada mais extensa,
que vem após a mesosfera. Apesar das temperaturas extremas
do ambiente físico, em nossa dimensão a torre de energia
canaliza determinados recursos sutis que nos eximem
dos efeitos de certas partículas da atmosfera e nos deixam
ao abrigo de radiações prejudiciais à nossa vida em sociedade.
Abaixo do solo da cidade, em sentido contrário, a torre
igualmente se estende, por mais ou menos 200m, apontando
diretamente para a superfície do planeta. Somos uma
cidade móvel, ou seja, a cidade inteira pode se deslocar até
outros pontos do planeta, conforme a situação exigir. A torre
inferior, como chamamos a que aponta no sentido da
Crosta, capta irradiações magnéticas advindas do interior
do planeta, ou aquilo que é conhecido como energia telúrica,
armazenando-a na região interna da cidade, em baterias
específicas para esse fim.

16 6

"Essas energias combinadas, de natureza tanto cósmica
quanto telúrica, possibilitam erguer um robusto campo
de proteção em torno da metrópole, e ao mesmo tempo
uma camada de invisibilidade, os quais impedem a localização
e o acesso à cidade por parte de entidades sombrias
ou habitantes de regiões densas. De mais a mais, como nossa
localização geográfica ultrapassa os 500km de distância
em relação à crosta terrestre, torna-se impossível a tais
espíritos atacar-nos diretamente, pois nunca conseguem
alcançar esta dimensão, tampouco esta altitude. Não obstante,
não prescindimos da chamada polícia de vibrações

— Jamar discorria todo o tempo como nunca o ouvira, nitidamente
apaixonado pelo tema que abordava, e isso me
contagiava, tirando-me da situação mental anterior e fazendo-
me conectar o pensamento com a realidade que ele
explicava tão habilmente.
"A polícia de vibrações, como a denominamos, é composta
por peritos que integram a equipe dos guardiões. São
especializados em rechaçar ou, conforme o caso, captar e
transformar qualquer espécie de energia mais densa proveniente
da Crosta. Grande cota de vibrações densas é desencadeada
por guerras constantes no planeta e pela exsu



16 7

dação de ectoplasma proveniente dos milhares de mortes
violentas que decorrem não só das guerras entre as nações,
mas dos conflitos civis, como homicídios e crimes diversos.
Esse volume descomunal de energia, que atinge diariamente
as dimensões mais próximas do mundo, pode interferir
no equilíbrio de muitas cidades espirituais ou colónias que
estejam mais próximas da Crosta."

Eram muitas as informações que Jamar me trazia naqueles
breves momentos de vivência na metrópole espiritual.
Vislumbrei o que me aguardava em matéria de estudo
e iniciação nos temas da vida extrafísica. Tudo aquilo me
encantava, me fascinava, e meu espírito acostumado a formular
indagações, minha curiosidade inata de escritor fizeram
com que meus pensamentos voassem para situações e
proezas mentais jamais imaginadas.

Foi quando Pai João me chamou para os tais exames e
então "aterrissei", de volta ao contexto do hospital. Confesso
que esperava encontrar equipamentos de última geração,
uma infinidade de computadores desencarnados ou extrafisicos,
que fizessem jus à tecnologia dos habitantes desta
cidade de imortais. Mas quando entrei na sala, onde vi
apenas uma maca à minha frente, quase desisti de entender


168

aquele lugar. Em nada combinava com o que vira até aquele
momento; não fazia sentido haver apenas uma maca e uma
decoração tão singela ou nula... Outra vez, fiquei profundamente
decepcionado. Duas mulheres entrarem no ambiente
e me pediram para deitar-me na maca, mais por meio de
gestos que de conversa. Decerto iriam fazer aparecer algum
equipamento oculto em uma das paredes. Esperava algo
que beirasse a ficção científica, no mínimo. Mas não. Elas
tão somente estenderam as mãos sobre mim. E eu, olhos arregalados,
tentava perceber, ver, olhar tudo à minha volta
Mas nada! Apenas as mãos deslizando a alguns centímetros
do meu corpo espiritual. Começavam no alto da cabeça e
deslizavam até meus pés. Em silêncio. E Pai João observava
tudo, também silencioso, medindo minhas reações.

Depois de algum tempo, chamaram Pai João a uma sala
ao lado e deixaram-me deitado. Na verdade, sentia-me mais
e mais leve. Parece que, a cada etapa vivida na nova cidade,
deixava alguma coisa de material, algo não percebido nem
conhecido por mim, mas, com efeito, me sentia bem mais
leve. Após algum tempo, Pai João regressou, auxiliando-me
a levantar-me da maca. Por um instante, pensei que iria flutuar
— e quase flutuei, no verdadeiro sentido do termo.


16 9

— Ceres e Altina são duas excelentes magnetizadoras
de nosso hospital — principiou Pai João. — São especializadas
no diagnóstico das pessoas recém-chegadas da
Crosta e determinam se precisam de tratamento e qual o
tipo de que precisam. Nesta ala do nosso Hospital do Silêncio
não trabalhamos com equipamentos eletrônicos
sofisticados como você esperava, Ângelo — ele leu meus
pensamentos de novo! Decididamente, os leu. — Aqui só
trabalhamos com magnetismo. De todo modo, seu caso
dispensa qualquer intervenção mais drástica, como cirurgias
espirituais, uso de equipamentos da técnica sideral e
outros recursos mais intensos ou sofisticados que tenhamos.
O magnetismo será suficiente e eficaz para liberar
certas cargas de ectoplasma ainda aderidas a seu corpo espiritual,
além de alguns cúmulos energéticos densos, comuns
no tipo de desencarne que você experimentou. Deverá
comparecer aqui pelo menos por dois meses, uma vez
ao dia, a fim de receber o tratamento magnético que lhe
foi prescrito.
"Ah! — acrescentou. — Nossas duas amigas magnetizadoras
pedem desculpas se não o cumprimentaram nem
conversaram com você, meu filho. Elas trabalham em com



17 0

pleto silêncio, concentradas ao máximo, a fim de auscultar

o corpo espiritual do consulente. Escrutinam cada detalhe
do corpo astral e analisam cada centro de força minuciosamente,
verificando também os órgãos perispirituais ou paraórgãos.
Mais tarde, no decurso do tratamento, conversarão
um pouco com você, orientando-o inclusive acerca dos
procedimentos a que será submetido.
"De qualquer maneira — continuou Pai João —, não espere
explicações teóricas ou científicas a respeito do que
lhe será ministrado; isso você obterá nos estudos da universidade
ou, quem sabe, junto ao médium que você visitará no
plano físico. Muita coisa, aliás, poderá absorver da mente
do médium, aproveitando os momentos em que estabelecerão
sintonia vibratória. Tanto ele absorverá conhecimentos
de você, os quais eclodirão na mente dele como intuições
ou informações que brotarão espontaneamente durante palestras
e conversas informais com os companheiros, quanto
você também absorverá muita coisa dele. Sendo assim, conhecimentos
sobre certos aspectos da vida espiritual, que

o médium que lhe foi designado já possui, serão automaticamente
transmitidos a você, tão logo se conecte à mente
dele. Trata-se de uma parceria, um intercâmbio.

171

"Mas não espere que tudo seja dessa forma. Você terá
de estudar muito. Em breve, lhe serão apresentados alguns
autores desencarnados, além de outros encarnados, em estado
de desdobramento, que poderão lhe ser úteis na aquisição
de novos conhecimentos, em suas pesquisas e coisas
do gênero. O trabalho de preparo para a escrita e transmissão
das ideias novas começa já."

Pai João me deixou a cargo de Jamar e sua equipe e retirou-
se dali de maneira tal que não o vi dissolver-se à minha
frente, como os outros espíritos, classificados como Imortais.
Nem mesmo o vi sair à moda convencional. Simplesmente,
quando voltei minha atenção para Jamar e Semíramis, esperando
deles o convite para sair rumo a algum lugar ou, quem
sabe, a fim de receber novas instruções, ao voltar-me para o
local onde antes estava Pai João, de fato havia sumido, desaparecido.
Um povinho metido a desaparecer como este eu
não havia conhecido antes. E o pior é que eram elegantes na
forma como o faziam; nada de fenômenos, nuvens de fogo
ou estrondos de relâmpagos e trovões. Tudo absolutamente
calmo, silencioso, mas nem por isso corriqueiro.

Respirei fundo, como que buscando absorver aquilo
tudo, mas decidi me controlar para não falar nada incon



17 2

veniente. Watab deu uma estrondosa gargalhada, mas imediatamente
cessou. Ficou ali, parado como uma estátua,
como se nunca houvesse emitido nenhum som. Estranho
esse sujeito. E era um dos guardiões mais graduados, amigo
de Jamar. Mas estranho, assim mesmo.

Saímos do edifício, e foi somente então que pude observar
ao derredor. O jardim realmente vasto do lado de
fora dava ao local um ar residencial, nada parecido com o
de um hospital. Imenso bosque no entorno fazia com que
um ar puríssimo banhasse o ambiente hospitalar. Diversas
pessoas caminhando pelo bosque e pelo jardim eram acompanhadas
discretamente por outros espíritos, que pareciam
enfermeiros. Aqui e ali, ilhotas formadas por estátuas
belíssimas, chafarizes e bancos, onde alguns se punham a
ler. Havia livros dispostos nesses recantos, à disposição de
quem se submetia a tratamento, segundo deduzi. O complexo
possivelmente estava localizado no topo de uma
montanha, pois era possível divisar as curvas sinuosas de
montes que comportavam bangalôs e outros tipos de construção
incrustados espaçadamente ali e acolá. Uma coisa
me chamou a atenção: o completo silêncio no lugar. Mesmo
as pessoas conversando, embora num volume baixo e civi



173

lizado, era como se alguma coisa absorvesse o som do ambiente,
dando a sensação curiosa do mais absoluto silêncio.

— Essa vibração que você observa, Ângelo — explicou
Semíramis, que até então permanecera sem falar nada —,
deve-se a nossas plantas, ao tipo de vegetação ao redor.
Elas foram desenvolvidas pelos pais-velhos e mães-velhas
nos laboratórios da Amanda. Quando o vento toca as folhas
das árvores, elas emitem um tipo de som ou uma frequência
registrada somente por nosso cérebro extrafísico, nada
audível. Isso produz em nós a sensação de que há um silêncio
completo no ambiente.
— São produto de modificação genética, então?
— Algo assim — respondeu Semíramis. — Alguns pais-
velhos, mais experientes, são estudiosos da natureza e se
especializaram em plantas e ervas, nos templos do passado,
tanto na Atlântida como em outros centros iniciáticos,
entre eles os de Tebas e Alexandria, no Egito, e os da antiga
Pérsia. Atualmente, vestem a roupagem fluídica de pais-velhos,
em conformidade com a última experiência reencarnatória,
que se deu em países como Brasil, Angola e outras
terras da África. Não obstante, conservam o conhecimento
ancestral e dele lançam mão ao desenvolver pesquisas

174

em nossos laboratórios, compartilhando os resultados com
cientistas da Amand a e de outras cidades de nossa dimensão.
Estas árvores em particular, assim como outras cultivadas
nas proximidades dos hospitais, são fruto dessas experiências.
Isso explica o nome do local: Hospital do Silêncio.

"Este hospital, especificamente, é especializado em terapias
que utilizam o magnetismo, daí a natureza dos pacientes
aqui tratados. Não verá injeções, procedimentos invasivos
no períspirito ou qualquer coisa que se assemelhe
aos tratamentos convencionais praticados na Crosta. Além
disso, este verde exuberante e a presença de espíritos ligados
à natureza, como os pais-velhos que habitam as choupanas,
bangalôs e outras vivendas no sopé das montanhas:
tudo faz deste um lugar especial. Na verdade — acentuou
Semíramis enquanto caminhávamos em direção ao estacionamento,
onde nos aguardavam os carros voadores —, costumo
chamar isto aqui de spa espiritual, e não de hospital.
Como você virá aqui diariamente, terá oportunidade de conhecer
a biblioteca; é uma atração à parte. Terá inúmeras
descobertas e surpresas aqui. Você verá."

O último comentário da guardiã me deixou curiosíssimo.
Uma biblioteca do outro mundo. Fiquei imaginando


17 5

como seriam os tratados, os livros mais antigos, aos quais
talvez pudesse ter acesso; ler originais de diversos autores,
alguns perdidos na poeira do tempo...

De fato, acabei me tornando frequentador assíduo da
biblioteca do Hospital do Silêncio. O procedimento magnético
em si durava apenas 30 minutos por sessão, mas eu ficava
pelo menos duas ou três horas na biblioteca, saboreando
e sorvendo tudo quanto podia. Descobri, ainda por cima,
que aquele era apenas um dos acervos da comunidade.

Sentia-me cada vez mais leve e revigorado. A quase
uma semana de encerrar o tratamento, experimentei pela
primeira vez a levitação. Caminhava pelo jardim do Hospital,
lendo um volume riquíssimo sobre literatura brasileira;
quando me dei conta, havia ultrapassado os limites do jardim
e andava em pleno ar, movimentando as pernas, mas
sobre um precipício logo abaixo de mim. Levitava, sentia-
me como uma pluma. E não é que esse tal de magnetismo
funcionava mesmo? Parecia que os últimos resquícios
de matéria que eu trouxera da experiência física haviam
se dissipado durante os atendimentos com Ceres. Um dia
depois, estava tão concentrado em cima da maca, tão relaxado,
que, quando ela terminou o procedimento magnéti



176

co, eu flutuava sobre o leito, meio abobalhado, sem saber
nem ao menos como me pôr de pé, Ela me olhou sorrindo,
apenas. Entendi que tudo tinha seu tempo. Pouco a pouca
aprendia a lidar com as percepções, os fluidos, a natureza
do corpo espiritual enquanto estudava, estudava, estudava.


18 1

PÓS DIAS DE dedicação aos estudos e à terapia magnética,
pude entender melhor o que alguns espíritos disseram sobre
tratamento não invasivo. Entendi que, em alguns casos,
existe mesmo a necessidade de fazer uma cirurgia nos tecidos
e órgãos do corpo espiritual e recorrer a métodos muito
parecidos com aqueles utilizados na Terra, em hospitais
convencionais. Porém, na Amanda se usava metodologia
bastante diversa. Embora toda a tecnologia à disposição dos
médicos e servidores dos hospitais, ao alcance também dos
demais departamentos da cidade, em matéria de saúde tal
recurso era empregado de forma acessória. Sobretudo, na
composição de diagnósticos e como auxiliar na produção e
manutenção de energias de natureza astral ou psíquica. Ha-

a instrumentos capazes de amplificar a força mental, bem
como de gerar campos energéticos de caráter desconhecido
na Terra, que favorecem a recomposição das matrizes
do organismo espiritual, do seu veículo, que aprendi chamar-
se perispírito ou corpo astral. No Hospital do Silêncio,
não se faziam incisões cirúrgicas, embora existissem outros
hospitais na erraticidade que usavam desse método quando
necessário. Compreendi de fato tal opção após verificar o
talento com que os espíritos radicados na Amand a mane



18 2

javam os recursos da natureza, explorando de modo sábio e
responsável a força das matas, dos rios e das fontes de água
pura, assim como inúmeros elementos dispersos na atmosfera,
curiosamente à disposição de todos, embora nem sempre
conhecidos da multidão de habitantes.

Imerso nesses pensamentos, nas novas descobertas do
período entre vidas, nem percebi a presença de meu amigo
protetor e orientador Jamar, que se aproximou de mim.
conduzindo-me a novas experiências.

— Agora é preciso conhecer algumas questões, Ângelo,
relativas a seu roteiro evolutivo, ou seja, ao planejamento de
seus estudos, como ocorre em qualquer área profissional na
Terra, mas levando em conta as atividades futuras programadas
para você. Creio que é hora de levá-lo até uma das
bases dos guardiões, uma vez que seu trabalho estará intimamente
ligado ao nosso. Antes, porém, é bom que retornemos
à vida urbana de nossa cidade, a fim de nos juntarmos a
alguns amigos que nos acompanharão. Pai João o conduzirá
enquanto faço contato com alguns guardiões; preciso me
desincumbir de algumas tarefas, mas será rápido. Logo nos
reencontraremos nos arredores da metrópole para, então,
irmos a um dos postos avançados de nossa equipe.

183

— Tenho a impressão de que você dá tanta importância
a esse programa de aprendizado, esse meu curso intensivo,
que fico apreensivo em relação ao que me aguarda. Mesmo
tendo lido alguma coisa no acervo da biblioteca, parece que
vem algo muito sério pela frente.
— Não fique assim, amigo. Você terá um tempo generoso
para se habituar com a situação e se familiarizar com as
informações novas. Nada de dramas.
— Não estou sendo dramático! E que noto um tom de
gravidade em sua voz...
— Desculpe meu jeito, mas é que ao mesmo tempo em
que estou aqui conversando com você devo me manter
atento, com os olhos abertos, se posso dizer,7 pois existem
outras situações mais complexas que dependem de mim
neste momento. Mais tarde compreenderá.
Falando assim, partimos em direção à região central da
cidade, onde já nos aguardava o amigo Watab. Jamar nos
deixou a sós por um tempo; parecia absorto em pensamentos
que decididamente eu não queria nem tinha condições

7 0 personagem faz alusão à ubiquidade dos espíritos (cf. KARDEC. O livro dos espí


ritos. Op. cit. p. 114-115, item 92).


184

de sondar. Ele ficou em completo silêncio, como se espreitasse
alguma coisa.

À nossa volta, espíritos iam e vinham nas diversas atividades
cotidianas da Amanda. A esta altura, eu já via a
vida da comunidade de maneira diferente. Não estava a
passeio, de férias, tampouco a esmo na minha dileta eternidade
ou no período entre vidas. Não sei por que, mas, desde
o encontro com os Imortais, minha vida mudou. Meus
pensamentos pareciam abarcar novas situações, que antes
nem imaginava conhecer; mais ainda, um senso de responsabilidade
parecia tomar conta do meu ser, de maneira incomum,
e numa dimensão muito mais ampla. Não havia
como encarar aqueles seres, ter um encontro tête-à-tête
com eles e continuar do mesmo jeito. Como se não bastasse,
Jamar, ao me falar sobre o programa de estudos, deixou-
me profundamente interessado, mas, ao mesmo tempo,
deveras preocupado. Como eu me sairia como novo aluno
de uma escola de vida, muito mais abrangente, como esta
que encontrei? Aqui, meus estudos, minha formação conquistada
na Terra pareciam apenas um ensaio numa escola
de pré-primário — ou pré-escola da vida. Teria muito pela
frente: um período mínimo de 8 anos consecutivos de estu



185

do, sem grandes intervalos, visando atualizar meus conhecimentos
para ser, com sorte, admitido num estágio como
colaborador dos guardiões, possivelmente. Somente com o
tempo saberia maiores detalhes.

Foi absorto nesses pensamentos que Pai João me encontrou.
Chegou a meu lado, tirando-me do silêncio que
havia sido estabelecido entre Watab e mim:

— Ora, Ângelo, não se atormente com pensamentos tão
sérios nem se cobre tanto assim! Em nossa realidade aqui
na Amanda, vamos trabalhando pouco a pouco, aprendendo
sempre e desaprendendo aquilo que for necessário. Ah!
Meu filho... — enfatizou o pai-velho — há tempo para tudo!
0 essencial é que continue estudando, que não desista;
quanto ao resto, Deus saberá nos usar na medida certa em
que estivermos preparados. Não espere saber muito, filho.
Faça o que pode e como pode, sabendo que ainda iremos
errar muito antes de acertar. É preciso ter compaixão consigo
mesmo.
"Em tempos remotos, a Amanda era apenas um campo
de treinamento, uma comunidade onde eram acolhidos
espíritos advindos de experiências reencarnatórias difíceis
ou amargas, principalmente em países onde a escravi



18 6

dão havia se espalhado como erva daninha. Com o passar
do tempo, a administração da cidade foi especializando os
espíritos, de tal maneira que, hoje, em nossa abençoada comunidade,
reúne-se quem pretende desenvolver atributos
de força mental e espiritual em benefício da humanidade.
Em outras palavras, estabelecem-se aqui, de modo mais ou
menos permanente, seres que já passaram por esferas inferiores
na jornada entre vidas e buscam aprimorar-se, rumo
a recantos mais iluminados, a estâncias mais felizes dos
mundos invisíveis. Na Amanda, essas consciências encerram
uma grande etapa da caminhada individual e se preparam
para atuar em favor da humanidade de forma mais
abrangente, destituída de fronteiras, bandeiras e barreiras
erguidas pelas civilizações. Mas somos humanos, Ângelo, e
nunca se esqueça disso! Com efeito, aqui termina uma fase
do processo evolutivo, baseada em modelos típicos de esferas
inferiores à nossa, o que implica dizer que foram superadas
dificuldades ou limitações de determinado gênero.
Mas, se essa constatação é verdadeira, é igualmente verdade
que aqui se inicia um ciclo de grandes desafios para tais
espíritos, cuja consciência já está preparada para voos mais
amplos em serviço incondicional à humanidade."


187

Respirei fundo, sentindo certo alento ao ouvir o que
Pai João falava a respeito dos habitantes da metrópole espiritual
e dos objetivos de um estágio nessa dimensão.

— As experiências vividas pelos espíritos antes de chegarem
até esta dimensão da Amanda, ao menos pela maioria
dos que aqui se encontram, geralmente determinaram
o desenvolvimento de um bom conjunto de qualidades íntimas.
De uma ou outra maneira, atuam como espíritos familiares
e auxiliares da evolução; aos olhos daqueles que
se movimentam em dimensões mais baixas, são figuras de
referência, uma vez que superaram barreiras e obstáculos
que afligem os membros de seu círculo de atuação. Esse
é um dos fatores que os capacita, agora, a se dedicarem a
nova etapa de aprendizado. Em grande parte, portanto, são
espíritos com potencial para serem admitidos como protetores
ou guias de muita gente, até mesmo de grupos e comunidades
por todo o mundo.8 Talvez, na Terra, meu filho,
os espíritos ligados à nossa metrópole espiritual sejam conhecidos
mais como anjos de guarda, mesmo que todos
8 "Anjos de guarda, espíritos protetores, familiares ou simpáticos". In: KARDEC. O
Livrodos espíritos. Op. cit. p. 317-330, item 489-521.


188

aqui precisemos muito de aprender e de desaprender tanta
coisa arquivada em nosso psiquismo. Concluindo: temos
pela frente o desafio de ajudar o mundo sem impor barreiras,
derrubando preconceitos, desconstruindo mitos ou
destronando ídolos erguidos pela ignorância humana. Esse
lema é o que norteia tudo e todos por aqui, é nossa principal
meta entre as demais, relacionadas às lutas individuais.

Enquanto Pai João falava, minha mente se ocupava em
absorver o que podia. Talvez, mais tarde, pudesse me sentir
mais integrado ao ideal nobre que motivava a Amanda e
em condições similares às dos espíritos ali residentes, partilhando
de sua visão e de seus objetivos.

Saímos andando, caminhando pelas ruas da cidade espiritual
que me recebia — um campo de atividades, uma oficina
de trabalho e uma universidade de vida incomparável.
Incomparável, sim, ao menos para mim, que sentia, agora
numa dimensão bem maior, o novo gênero de desafios que
se abria diante de meu espírito. Fiquei sensibilizado diante
da postura do pai-velho, de não exigir que eu estivesse
pronto, preparado desde já para o que me aguardava.

Foi assim, caminhando entre árvores, prédios e paisagens
daquele mundo novo, que alcançamos um bosque.


18 9

sempre acompanhados de Watab, sempre silencioso, seguindo
atrás de nós.

Chegando ao bosque — belíssimo, por sinal, com imensas
sequoias e tantas outras árvores e plantas desconhecidas
para mim —, avistei diversas pessoas passeando, outras
lendo ou estudando debaixo das árvores; de alguma maneira,
acho que todos estavam estudando. Aqui e ali, grupos
de espíritos orientados por quem parecia mais experiente
demonstravam estudar a rica flora naquele recanto cheio
de verde e de vida. Outra turma claramente recebia aulas
de desenho e pintura, pois os vi desenhando a paisagem,
as pessoas, as árvores e os animais que compunham aquele
bosque. Havia uma atividade intensa e, ao mesmo tempo,
um quase silêncio no entorno, como nunca vira em ambientes
assim, no mundo físico.

— Aqueles são estudantes de botânica e fitoterapia —
esclareceu Pai João. — Aprendem aqui, junto à natureza, as
matérias que estudaram na universidade. Depois irão para
os arredores, onde entrarão em contato com pais-velhos e
mães-velhas, caboclos e índios habitantes de nossa Amanda,
que orientarão os alunos com seu conhecimento mais
apurado do assunto que escolheram estudar.


19 0

Decerto notando minha curiosidade a respeito da fauna
e da flora e sobre o objetivo dos espíritos reunidos na
Amanda, o amigo Pai João foi um pouco mais longe em
suas considerações:

— Esta cidade, em sua estrutura atual, através do variado
programa de serviço, estudo e realização que oferece,
serve ao propósito de mesclar seres advindos de regiões
extrafísicas, como o plano astral, ou de cidades aí localizadas,
àqueles provenientes de dimensões superiores. Componentes
de ambas as esferas passam a conviver, por um
período mais ou menos dilatado, embora aqui o tempo seja
calculado de modo um pouco diferente de como é na Crosta.
Aqueles que se destacam nos estudos e no trabalho, que
alcançam um desempenho maior, podem se orgulhar de
descer a planos mais inferiores não apenas como socorristas,
mas como agentes da justiça divina. Outros, guias que
vêm se instruir e acabam por se especializar na função de
instrutores espirituais, espíritos protetores ou mesmo figuras
de inspiração, conseguem oferecer aos assistidos
ou pupilos maior grau de experiência. Ou seja, caso se sobressaiam
no programa evolutivo, numa espécie de curso
intensivo cá na Aruanda, têm a chance de contribuir com

191

mais capacitação e eficácia do que a massa de espíritos que
comumente assiste os encarnados.

— E qual é o papel que lhe cabe aqui na cidade, Pai
João? Tanto quanto o de Jamar, Watab e os Imortais, ante
os quais me vi como uma criança espiritual?
— Nossa tarefa aqui, Ângelo, é de trabalho intenso, esforço
constante e estudos ininterruptos. Enquanto aqui
estagiamos, por períodos de tempo administrados exclusivamente
por espíritos superiores, mantemos uma mão erguida
em direção ao alto, por assim dizer, absorvendo conhecimento,
alimentando nossos espíritos e tocando de
perto a aura de planos mais avançados, enquanto a outra
permanece apontada para regiões inferiores, onde exercitamos
algum reflexo de amor, no exercício de doação que
procura impedir que o mal dissemine sua vibração pelo
acampamento dos homens.
À medida que eu ouvia Pai João, que continuou falando
da vocação da comunidade conhecida como Aruanda, e
sobre o trabalho e o significado da presença dele nesta esfera,
como ele mesmo se refere à cidade dos espíritos, pude
compreender por que tantos seres de outras dimensões a
procuram, habitantes de outras paragens espirituais que ali


19 2

aportam em busca de conhecimento nas diversas escolas
da universidade local.

Entrementes, chamou-me a atenção determinado grupo
de pessoas que analisava, na presença de um instrutor,
a natureza que vicejava com esplendor naquele bosque,
que mais parecia um jardim ou parque de proporções mais
amplas que os demais, que conhecera na cidade. Notei, em
meio aos que ali transitavam, casais de espíritos de mãos
dadas, alguns trocando beijos e afagos comedidos, mas sobretudo
demonstrando carinho e afeto, de uma forma que
não esperava encontrar entre os chamados mortos ou desencarnados.
Pai João me surpreendeu os pensamentos,
vindo a meu encontro:

— São casais que escolheram ter uma vida em comum
aqui em nossa comunidade, Ângelo.
— Mas por aqui as pessoas se casam, como na Terra?
— E por que não, meu filho? Somos todos humanos, na
mais pura expressão do termo. Almas encontram afinidades
entre si e escolhem viver juntas em seus recantos, em
suas habitações, e muitos até oficializam a união com cerimônias
matrimoniais, qual ocorre na Terra. Só que aqui
as cerimônias visam muito mais ao convívio social, como

193

celebração e confraternização entre amigos, uma vez que
a verdadeira união é entre almas, motivada pela afinidade
de gostos e pensamentos, propósitos e sentimentos. Talvez
possamos dizer que a cerimônia seja apenas a oficialização
de algo que já existe dentro daquelas duas pessoas.

Complementando a ideia, Pai João acrescentou:

— De acordo com a ligação religiosa ou espiritual, os
indivíduos podem celebrar a união em conformidade com
a fé e as tradições que têm ou que dizem respeito à identidade
energética e à busca de espiritualidade de cada um.
Como temos, aqui em nossa Amanda, representantes de
diversas culturas, pode-se escolher desde uma cerimônia
oficiada por um espírito que teve experiências como padre
católico até uma conduzida por um sacerdote druida, por
exemplo, passando por opções tão distintas como as tradições
muçulmana, protestante, budista ou indígena. Como
dispomos dessa tremenda variedade e riqueza cultural, re"
osa e de espiritualidade, as pessoas elegem livremente

o que querem, de acordo com suas preferências. E isso não
é tudo. Acontece, também, de escolherem fazer tal evento
e m outras cidades espirituais com as quais temos convivência
mais estreita.

19 4

— Mas é casamento mesmo ou apenas uma encenação?
— Como encenação, filho? Casam-se mesmo e passam
a viver juntos, preparando-se para a existência física, quando
então poderão executar os planos que traçaram aqui, em
nossa dimensão. Aqui é o mundo original! Na Terra é onde
temos um tipo de ilusão dos sentidos necessária para levar
avante os projetos iniciados ou delineados do lado de cá. A
Terra, como você a deixou e como a conhecemos, o mundo
físico, este sim é o reflexo ou a representação do que vivemos
no plano da imortalidade. Jamais se esqueça, Angelo:
aqui é o mundo real, primitivo, original.9
— Se é assim, considerando-se os espíritos de forma feminina,
existe gravidez do lado de cá? Ou qualquer coisa
parecida com um parto?
— Não exatamente da forma como se observa na Terra.
A semelhança é que, tanto aqui como lá, o espírito não
9 "O mundo espírita [ou dos espíritos] é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente
e sobrevivente a tudo. O mundo corporal é secundário; poderia deixar de
existir, ou não ter jamais existido, sem que por isso se alterasse a essência do mundo
espírita" ("Introdução ao estudo da doutrina espírita". In: KARDEC. O livro dos
espíritos. Op. cit. p. 31, item vi).


195

produz outro espírito, ou melhor, não o concebe, propriamente,
mas lhe fornece um envoltório corporal que o capacita
a usufruir das experiências naquela dimensão. Ocorre
que muitas almas, advindas de regiões inferiores e tendo
vivido experiências infelizes, perdem seus corpos espirituais
e transformam-se naquilo que chamamos de espíritos
ovóides — trata-se de um processo complexo, que você terá
oportunidade de estudar em nossas escolas. Grande parte
dos casais que se juntam do lado de cá, transcorrido mais
ou menos tempo da união efetiva, aliam o desejo de formar
um núcleo familiar e os preparativos para a reencarnação
à vontade de fazer algo por aqueles que vivem semelhante
drama. Sendo assim, muitos espíritos femininos, como você
denominou, oferecem o útero perispiritual para que os espíritos
ovóides ou em processo de ovoidização possam ser
acoplados a ele, magneticamente, dando origem a uma espécie
de gravidez extrafísica. Na verdade, aqui denominamos
essa experiência de gravidez espiritual ou energética.

Nos seres desencarnados, o útero materno é uma câmara
de materialização divina, que proporciona ao espírito
ovoide a possibilidade de recuperar a forma original, humana,
recompondo as matrizes do períspirito. Este assume


19 6

a conformação humana lentamente, qual se dá numa gravi dez
na Terra. Depois do tempo previsto de 9 meses, o espírito
é desacoplado do útero de sua mãe espiritual, por meio
do magnetismo, e então ela o recebe no lar, como filho ou
pupilo, à semelhança também do que ocorre, ao menos teoricamente,
com as crianças que renascem na Terra. Como

o pai e a mãe desencarnados já possuíam um lar construído
aqui em nossa cidade espiritual, juntos eles se tornam
responsáveis diretos pela reeducação daquele ser, guiando-
o como podem, até que, num tempo mais ou menos breve,
seja reconduzido a novo corpo físico, no mundo."
Acho que Pai João notou que era muita explicação para
mim naqueles primeiros momentos, embora eu conseguisse,
de algum modo e até certo ponto, entender o que ele falava.
Mas eram muitas informações que chegavam de uma
vez só. Por outro lado, creio que esse bombardeio ocasionava
uma espécie de tempestade cerebral ou extracerebral,
mental, íntima, resultando numa integração cada vez maior
ao modus vivendi do lado de cá. A vida na Aruanda era uma
surpresa atrás de outra.

Mal o pai-velho encerrou aquelas explicações, fui surpreendido
por um grupo de homens que passavam de mãos


19 7

dadas, alguns trocando afagos discretos, carinho e demonstrando
um afeto tão natural que me surpreendi com o que via.
Outra turma menor, de mulheres, espíritos femininos, também
passeava abraçada, lado a lado, ou também de mãos dadas,
evidenciando certo tipo de comportamento social que, à
época, ainda era muito mal compreendido na Terra. Tratava-
se decididamente de homossexuais. E isso me chocou, pois
não sabia que do lado de cá encontraria com tamanha naturalidade
espíritos que se definiam sexualmente dessa maneira
ou adotavam esse tipo de identidade — nem soube como dizer.

— Aqui todos são vistos com a mesma naturalidade,
Angelo. Fora da matéria, não há por que ninguém esconder-
se com medo de ser rejeitado. É certo que encontramos
ainda algumas cidades espirituais cujos administradores
são muito religiosos e ligados a uma forma de pensar arcaica
ou medieval, vamos dizer. Nesses casos, espíritos que,
diante de sua constituição energética, identificam-se como
gays ou homossexuais, provavelmente não serão vistos com
a naturalidade com que os vemos aqui.
Antes que Pai João continuasse, fomos abordados por
dois namorados, espíritos em forma masculina, que pedim
licença para se dirigir ao pai-velho.


19 8

— Desculpe, meu pai — falou um dos rapazes. Permaneceram
de mãos dadas com a maior naturalidade, decerto
sabendo que não seriam discriminados nem recriminados.
— Queríamos que o senhor pudesse nos dar a honra de
abençoar nossa união.
— Claro, meus filhos! Afinal, vocês terem se reencontrado,
depois de tantas dificuldades, e reatado seu amor é algo
que merece ser festejado. Para quando será a cerimônia?
Preciso me preparar, sem que afete outros compromissos.
— Quem sabe possamos fazer assim? O senhor consulta
seus compromissos, sua agenda, e no tempo que estiver
disponível nós organizaremos tudo, faremos os convites
e oficializaremos nossa união. Já temos inclusive o local
onde iremos morar.
— Que bom, meus filhos. Assim fica melhor para mim e
espero que para vocês, também. Quero ser o primeiro a visitar
sua casa; não deixem de me convidar. Quem sabe nosso
amigo aqui — apontou para mim —, que se chama Ângelo
Inácio, também não possa ir comigo?
— Caso queira — respondeu um dos rapazes —, você é
nosso convidado! Meu nome é Camilo e este é meu namorado,
Mike. Estamos nos preparando para a futura vida fí

19 9

sica. Estudamos juntos e pretendemos realizar um trabalho
conjunto, tão logo estejamos de volta ao plano físico.
Enquanto isso, pretendemos ser admitidos na equipe dos
guardiões. Se conseguirmos, a experiência nos capacitará
para nosso projeto na Crosta, ao reencarnarmos.

— Por falar em guardiões, Ângelo — lembrou Pai João
—, Jamar já deve estar de regresso.
Voltando-se para Mike e Camilo, convidou-os:

— Caso queiram vir conosco, vamos visitar um dos postos
avançados dos guardiões em regiões inferiores. Sintam-
se à vontade, caso seus afazeres o permitam.
— Temos de nos apresentar às atividades na universidade,
meu pai. Hoje será a primeira fase da prova de admissão,
a fim de ingressarmos na equipe de guardiões. Depois,
eu e Mike assumimos um compromisso junto a um grupo
de espíritos com tarefas num país islâmico. Na próxima vez
que nos convidar, com certeza iremos, ou melhor, vamos
nos programar para isso. Por ora, espero que compreenda.
— Sintam-se à vontade, meus filhos. Eu os recomendarei
a Jamar pessoalmente, afinal, vocês já têm um currículo
com serviços e estudos que dificilmente seria menosprezado
pelo guardião da noite. Vão em paz. Se precisarem de

20 0

algum reforço na tarefa, por favor, não se acanhem; podem
me procurar.

— Obrigado, meu pai! E você, Ângelo, é nosso convidado
para o evento que prepararemos.
Olhando para Watab, que continuava silencioso como
ele só, acrescentaram:

— Não se esqueça: você também, guardião, é nosso
convidado — Watab meneou a cabeça em agradecimento.
Jamais eu esqueceria algo assim. Um casamento de dois
espíritos, na dimensão extrafísica. E dois espíritos de aspecto
masculino! Assim que os dois se foram, muitas dúvidas
e questionamentos surgiram em minha mente febril
Não tive coragem de olhar diretamente para Pai João, pois
sabia muito bem que ele conhecia meus mais secretos pensamentos.
Era novato naquela comunidade de seres, na cidade
dos espíritos; ainda não aprendera a ocultar minhas
emoções e pensamentos. E Pai João sabia disso muito bem.
Minha mente fervilhava.

— Fique tranquilo, meu filho — confortou-me Pai João.
— Você terá suas respostas em breve.
Ele foi discreto por demais. Não ousou mais do que
isso, deixando-me entregue aos mais intricados pensamen



20 1

tos, conjecturas e indagações acerca da natureza humana,
da forma como era vista, no mundo espiritual, a união dos
seres e dos sexos, e sobre o próprio conceito de casamento
entre desencarnados. Tudo isso mexia comigo de uma
maneira que nunca imaginara. Cheguei a suspeitar que Pai
João me levou àquele lugar já de caso pensado, ou melhor,
levou-me ao encontro daquele casal já vislumbrando algo
no futuro mais ou menos distante.

Com o tempo, percebi que aquele espírito, que dia a
dia eu aprendia a reverenciar e respeitar, sob o nome de Pai
João, não fazia nada sem um plano ou uma finalidade, sem
que fossem ponderados os detalhes, visando ao crescimento
e às tarefa futuras. Quando ousei levantar a cabeça e fitar
seus olhos negros, eles brilhavam fortemente. Ao lado
dos cabelos brancos, tão bem combinados com a barba alva
como a neve, em contraste com a epiderme negra, e junto
com o sorriso farto, os olhos do pai-velho ocultavam a sabedoria
milenar escondida por trás daquela roupagem de um
simples ancião.

Logo após nossa chegada a uma região mais afastada
da metrópole, pude ver grande quantidade de casas, bangalôs,
choupanas e outras construções, a maioria parecendo


20 2

ser feita de madeira ou algum material similar. Perdiam-se
de vista as construções em meio aos bosques, florestas, jardins
e montanhas. Aquele estilo arquitetônico parecia ser a
maioria absoluta ali na metrópole, ao contrário do que imaginara
antes, ao ver os prédios enormes do espaço urbano,
embora tão bem integrados à paisagem, respeitando o princípio
de tudo na Aruanda: a convivência pacífica com a natureza.
Mas ali, onde nos encontrávamos a convite de Pai
João, é como se minha visão do entorno ou dos subúrbios
da Aruanda tivesse se dilatado, e pude apreciar a vastidão
da cidade espiritual. Aliás, os arredores da cidade dos espíritos
eram encantadores, verdadeiro paraíso em meio a
montes, vales, rios, matas e lagos. Pássaros exóticos, desconhecidos
por mim; animais domésticos e outros como leopardo,
onça e leão, além de cavalos, zebras, girafas e uma
fauna muito variada — todos os bichos pareciam conviver
amigavelmente, soltos pelas campinas, planícies e ambientes
cheios de vida e verde. Vi crianças caminhando ao lado
de pacíficos leões ou montadas sobre eles, guiados por algum
outro espírito — algo impensável no mundo físico.
E não havia zoológicos. Por todo lugar, observava-se vida
exuberante, e os animais integravam o cotidiano da comu



20 3

nidade de maneira tranquila e natural, como nunca imaginara
possível.

A cada dia, a cada hora, fazia contato com as surpresas
de um mundo novo, de uma cidade espiritual na qual
me fixaria e que se tornaria a base para atividades futuras.
Morar na Amanda era uma ideia que dia após dia tomava
mais corpo; era realidade. Fascinavam-me as oportunidades
de aprendizado e estudo que se desdobravam diante
de meu espírito.

— Antes de encontrar Jamar, visitaremos uns amigos
em nossa cidade, para você ter uma ideia de como funciona
a vida em família por aqui, em nossa dimensão.
Enfim teria oportunidade de ver de perto uma família
de espíritos. E isso me excitava. Dirigimo-nos a uma casa
belamente construída numa espécie de bairro residencial.
Não havia muros, apenas jardins separando uma casa da
outra. Era o tipo de projeto urbanístico que lembrava bastante
o dos subúrbios de algumas cidades norte-americanas.
Todas as residências da região pareciam ser construídas
de madeira ou algo muito semelhante, ainda que
estruturadas em fluidos desta dimensão. Havia um espaço
generoso entre uma casa e outra, e isso me fez pensar na


20 4

extensão da cidade como um todo. Neste momento Watab
rompeu seu silêncio e falou:

— Hoje, a Aruanda tem mais ou menos a dimensão da
Grande São Paulo, porém um número bem menor de habitantes.
Por isso, como pode ver, há espaço para todos confortavelmente,
sem incorrer na alta densidade demográfica
que se observa em cidades tão populosas como a capitai
paulistana.
— De qualquer forma, meu filho — completou Pai João
—, como vivemos em uma dimensão extrafísica, o problema
do espaço aqui é diferente do que ocorre na Terra. A população
é monitorada, de maneira que não ultrapasse muito
a marca dos 10 milhões de habitantes. Há um fluxo razoável
daqueles que reencarnam e outros — embora poucos,
se comparados a outras cidades — que vêm da Terra e de
outras metrópoles espirituais para cá. Ou seja, temos uma
população balanceada, um número compatível com uma
vivência tranquila e sadia junto à natureza. Já pôde reparar
que a área urbana de nossa cidade é ampla, mas ainda
assim a maior parte da população prefere viver nas casas e
em outras construções semelhantes ao redor do centro, da
região mais densamente povoada.

20 5

Enquanto caminhávamos rumo à visita à família espiritual
da qual Pai João falara, perguntei algo que, de certo
modo, causava-me estranhamento:

— Não vi igrejas por aqui. Onde os religiosos se reúnem
para rezar e adorar a Deus ou suas divindades?
— É porque adotamos um tipo de estrutura espiritual
que difere de outras cidades no mundo extrafísico. Não há
templos semelhantes aos que existem no plano físico. Cada
grupo afim se reúne em meio à natureza; incentivamos os
espíritos a se reunirem em família. As formalidades dos
cultos, conforme existem na Terra, deixaram de existir por
aqui há mais de 200 anos. Mas, caso algum espírito ou grupo
de espíritos queira, existem diversos recantos, belíssimos
por sinal, verdadeiros paraísos, que podem ser utilizados
por quem pensa e reza de maneira semelhante, ou seja,
irmãos de fé. Todos são livres para adorar a Deus ou não,
segundo crêem. Há até mesmo liberdade para não se envolver
com qualquer manifestação de religiosidade, embora
por aqui não existam ateus. Para muitos espíritos, a ciência
é a religião que adotam para perscrutarem a verdade do
universo; outros necessitam de certos aparatos, rituais e
crenças; há, ainda, quem prefira se dizer sem religião. Sob a

20 6

ótica da administração da cidade, tudo está bem, desde que
sejam respeitadas as poucas regras de convivência pacífica.

— Então existem espíritos que não professam nenhuma
religião?
— Sim, pelo menos nenhuma religião que se identifique
com alguma das denominações existentes ou com o
que estas ensinam. Não podemos forçar ninguém a acreditar
em nada. Mas temos como regra o estudo das leis universais.
Sob esse ponto de vista, podemos dizer que, para
muita gente, a religião verdadeira está dentro de si; trata-
se de uma forma pessoal de se conectar à divindade e de se
relacionar com as leis sublimes da vida. Respeitamos quem
assim procede, como não podia deixar de ser.
Fomos impedidos de continuar o assunto, pois chegamos
a uma das casas da região onde nos encontrávamos.
Pai João e Watab pareciam ser velhos conhecidos ali. Assim
que se aproximaram da construção, um tipo de sobrado
com trepadeiras adornando a fachada e algumas flores dispersas
pelo jardim, as quais demonstravam o cuidado dos
moradores do lugar, uma mulher saiu de dentro da casa,
saudando efusivamente o pai-velho e o guardião. De súbito,
senti certa emoção me envolvendo, de modo a recordar


20 7

minha antiga família na Terra. Parecia que estava voltando
para casa depois de uma viagem muito longa.

— Sejam bem-vindos, todos. Que honra recebê-lo, meu
velho! — falou a mulher, visivelmente alegre ante a presença
de Pai João. — E você, guardião silencioso, meu querido
Watab, quanto tempo, hein?
— Estamos de volta, Laura! Estamos de volta... E você,
como está? E as crianças?
— Estamos muito bem, meu pai... Vamos, entrem! Entrem,
logo — convidou-nos festiva.
— Este é Ângelo Inácio, nosso amigo recém-chegado
da Terra — apresentou-me Pai João.
— Então você é o escritor e jornalista? Já ouvimos falar
de você, meu caro. Seja bem-vindo!
Não sabia o que dizer diante de tanta naturalidade e
boa vontade com que fui recebido. Parecia a hospitalidade
mineira. Em instantes me habituei com o jeito de Laura.

— As crianças estão na escola, Pai João. E Alberto está
agora nas fábricas, treinando um processo de criação mental
e manipulação de fluidos visando à construção de habitações.
Quando reencarnar, ele pretende ser arquiteto. Imagine
quantas oportunidades terá nas fábricas de formas mentais...

20 8

Depois de um breve silêncio, eu talvez tenha percebido
uma sombra de preocupação em seu semblante, logo disfarçada
com a conversa, que parecia ser interessante:

— Estou me ocupando mais intensamente do nosso
menino, o Régis. Assim que o adotamos em nosso lar, e após
o período de desenvolvimento do corpo espiritual em meu
útero de mãe, ele logo começou seu tratamento magnético.
Mas temo que precise ser transferido a outra comunidade,
a uma outra cidade, meu pai.
Enquanto sentávamos numa poltrona confortabilíssima,
Laura confidenciou suas preocupações, agora mais plenamente
visíveis.

— O Régis é um espírito que não tem nenhuma afinidade
com nossa família. O adotei porque estava muitíssimo
necessitado de recompor sua forma perispiritual e eu ansiava
pela oportunidade de ser mãe novamente. Confesso,
meu pai, que foi mais por egoísmo de minha parte do que
por amor...
Pai João colocou sua mão sobre a mão de Laura e confortou-
a com um jeito bem paternal:

— Mas não importa isso agora, minha filha. O mais importante
é que ajudou nosso Régis a se recompor espiri

20 9

malmente, pelo menos no que tange à forma espiritual. E
você não desistiu de encarar outra etapa, abraçando também
a condução do seu espírito.

— Pois é, meu pai... Ocorre que, como sabe, ele veio diretamente
de uma situação em que foi submetido ao trato
hipnótico por um dos habilidosos magos das regiões inferiores.
Tinha o psiquismo totalmente nublado, num processo de
amnésia espiritual forçada ou induzida. Assim que o retiramos
do contato mais direto com meu períspirito, por meio do
magnetismo, isto é, assim que renasceu em nossa dimensão,
num corpo de criança mais reestruturado, parece que seu cérebro
perispiritual começou a recobrar memórias. Nem imagina
as situações que temos enfrentado em nosso lar para
aconchegá-lo e conduzi-lo a um estado mais harmonioso.
— Confesso que nem imagino, Laura. Mas podemos falar
diretamente com a equipe de educadores da Nova Galileia,
pois eles detêm recursos educativos e uma forma de
abordar o psiquismo de seres nessas condições, que você
precisa conhecer. É realmente bastante eficiente a metodologia
que usam.
— Ah! Meu pai... Sabia que sua vinda aqui seria uma
bênção para nossa família. Já tinha ouvido falar nessa esco

21 0

la, mas não tive a oportunidade de conhecer nenhum espírito
ligado a ela...

Voltando-se para mim e Watab, a anfitriã falou, cheia
de cuidados:

— Me perdoem vocês dois, meus queridos, mas sabem
como é o coração de mãe. Do lado de cá da vida, Ângelo, as
coisas não são tão diferentes do que acontece com a maioria
das mães, na Terra. Vou preparar alguma coisa para nós.
Fiquem à vontade ou, então, me acompanhem até a cozinha...
Por favor!
Levantamo-nos e a seguimos até a cozinha. Lembrei-
me mais uma vez dos costumes que vi em Minas Gerais,
mais precisamente no interior. A cozinha era imensa. Uma
bancada ficava no meio, com diversos apetrechos comuns
a uma cozinha qualquer, embora houvesse alguns equipamentos
que eu desconhecia. Mas a geladeira, o fogão
moderno por demais... Porém, não vi fogo no fogão. Parecia
que o calor irradiava da boca do fogão, sobre a qual se
apoiava um vasilhame em tudo semelhante às panelas que
conhecia, embora parecesse ser feito de louça, e não de
metal. Sentamo-nos em torno da bancada, numa conversa
animada. Foi somente então que vi Watab descontrair-se,


21 1

entrando na conversa e auxiliando Laura a preparar alguma
coisa para comermos. Na verdade, eu não sentia fome,
mas os sucos e os bolinhos preparados pareciam ressuscitar
em mim o paladar e a vontade de degustar quitutes caseiros.
Nunca havia experimentado sabores tão intensos e
bolinhos tão saborosos. Sentia-me em casa. Em determinado
momento de nossa conversa, Laura dirigiu-se a mim de
maneira especial:

— Então você está ainda num hotel, Ângelo? Ainda não
considerou morar em sua própria casa? Um chalé, um bangalô
ou, quem sabe, pelo seu jeito, um loft?
— Ainda me sinto muito novo neste mundo de espíritos,
Laura. Aliás, não me habituei complemente ao fato de
ser um espírito.
— Então, quem sabe não podemos ser mais úteis a esse
processo de adaptação do lado de cá? Caso queira, poderá
ficar conosco por algum tempo. Alberto, meu marido, com
certeza ficará extremamente feliz com sua presença em
nosso meio, pois adora seus poemas e é um homem muito
dedicado a estudar; é muito culto, por sinal, ao contrário de
mim, que sou apenas uma dona de casa e colaboro em serviços
mais simples da nossa comunidade.


21 2

— Laura não está se valorizando como merece, Ângelo.
Ela é excelente artista; toca piano como nenhum espírito
que eu conheça — falou Watab.
— Na verdade, uso a música para acalmar corações e
emoções; só isso. Mas acho que preciso alargar meus horizontes.
Tenho me dedicado de maneira insuficiente a estudar
outros importantes ramos do conhecimento. Acabo
usando como desculpa o fato de precisar me dedicar mais
aos filhos espirituais.
Queria muito conhecer de perto o dia a dia de uma família
de espíritos e parece que esta seria uma chance ímpar
para mim. Pai João notou meu interesse em estar mais perto
da família de Laura e falou, dirigindo-se a mim:

— Pois é, meu filho! Acho que as oportunidades são excelentes
para você. Se desejar, podemos providenciar uma
casa para você por aqui. Quem sabe se sinta à vontade no
hotel... no entanto, chegará a hora em que desejará um lugar
todo seu, que tenha sua cara.
— Acho que, se me derem a chance, vou preferir morar
neste bairro residencial. Talvez possa ficar mais próximo
da família de Laura e, assim que me for possível, construirei
ou reunirei minha própria família espiritual.

21 3

— Que seja assim, Ângelo! — exclamou Pai João. —
Laura e sua família poderão ser pra você uma espécie de
ancora ou referência em seu novo estágio na erraticidade.

— Ficaremos felizes em poder ajudá-lo, de alguma forma,
a se instalar mais definitivamente aqui na Aruanda. Podemos
lhe mostrar a cidade com mais detalhes enquanto
você se encaixa em alguma atividade ou grupo de estudos.
Fiquei emocionado mais uma vez. Senti-me em casa,
aconchegado por uma família e contente com a perspectiva
de construir um lar. Diante dessa possibilidade, não me
via mais como um visitante ou apenas um espírito itinerante,
que estivesse de passagem para estudar na cidade; com
efeito, sentia-me um habitante daquela comunidade de espíritos.
Com a construção do novo lar e a reunião da família
espiritual, eu me sentiria integrante e participante ativo da
vida espiritual da metrópole. Isso me fez um bem imenso,
principalmente porque, em breve, seria apresentado a outra
realidade, ao trabalho dos guardiões amigos da humanidade.
Era importante que estivesse integrado ao modo de
vida da Aruanda. Dessa forma, com minha autoestima reafirmada
ou elevada, poderia colaborar com mais qualidade
nas tarefas que me aguardavam.


21 4

Após nos despedirmos de Laura e tomarmos o caminho
de volta, pude observar melhor a vegetação que compunha
os jardins em torno das casas. Sinceramente, nem mesmo
com modificação genética e avanços de mais 100 anos seria
possível ver, na Terra, algo que ao menos se assemelhasse à
natureza das plantas e, até mesmo, de minerais, pedras e da
própria terra que pisávamos. Algumas flores pareciam cantar,
emitindo certa sonoridade à medida que passávamos
perto delas. Novamente pude perceber seres pequeninos
esvoaçando em torno de flores e plantas, sentados sobre as
pedrinhas que compunham os jardins, adornando fontes
ou mesmo demarcando espaço para algum arranjo diferente
de arbustos e flores exóticas, a meu ver.

Uma vez que permanecia em silêncio, num silêncio
criativo, pensando intensamente em tudo que vira e ouvira,
no convite de Laura e na proposta de Pai João, Watab rompeu
a quietude, falando direto a mim:

— Aqui, Ângelo, como verá em todo lugar em nossa cidade,
tudo quanto na Crosta era classificado como sem vida
ou inanimado, sem inteligência e pertencente a reinos biológicos
inferiores ao humano, na verdade está cheio de vitalidade,
de energia, uma energia radiante, que interage com

21 5

tudo à volta. Dessa maneira, as plantas, as flores e até mesmo
as pedras e o solo abaixo de nós respondem aos estímulos
mentais e emocionais dos habitantes. As cores modificam-
se de acordo com o teor do pensamento dos espíritos mais
próximos; a tonalidade do verde se intensifica ou esmaece
de acordo com o sentimento e a aura de quem se achega. Do
mesmo modo, as construções, elaboradas a partir do fluido
cósmico, dos fluidos mais sutis da atmosfera do planeta, refletem
a qualidade emocional dos moradores. Lentamente,
as formas se modificam. Nas cores das paredes, nos móveis
mais ou menos elegantes, nas linhas mais arrojadas ou singelas,
evidencia-se a característica de cada morador ou de
cada pessoa que entra em contato direto e constante com
tais criações. Enfim, tudo aqui vive e vibra; nada é morto,
nem as pedras, nem as montanhas, nem o ar que respiramos.
Tudo vive e está cheio de vida, em todo lugar.

Junto com minhas impressões sobre a vida familiar,
brotava em minha alma um respeito por tudo o que via ao
meu redor. A natureza, as coisas mais simples até as mais
complexas: tudo para mim renascia sob novo prisma, e me
fazia sentir cada vez mais vivo, embora também me percebesse
pequenino naquele momento, ao atestar a riqueza a


21 6

meu redor. A estrutura íntima da matéria — se é que posso
chamar assim esse tipo de material que via no entorno —
na qual fora erguida e edificada a cidade era algo impressionante
e, ao mesmo tempo, para mim, inexplicável, tendo
em vista o conhecimento reduzido sobre o funcionamento
das coisas nesta dimensão.

Enquanto me diluía em sentimentos de respeito e gratidão,
tocado intimamente por tudo, extasiado perante a
estrutura que me cercava, Pai João complementou a palavra
de Watab, o guardião:

— Também chamamos matéria os elementos que temos
à disposição nesta dimensão.1 0 Pode-se dizer matéria
mental, astral ou mesmo fluid o mais ou menos condensado,
assim mesmo segue sendo um tipo especial de matéria,
desde a substância componente dos trajes usados pelos espíritos
até aquilo que é empregado nas construções da ci10
"Mas a matéria existe em estados que ignorais. Pode ser, por exemplo, tão etérea
e sutil, que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria.
Para vós, porém, não o seria" (KARDEC. O livro dos espíritos. Op. cit. p. 81-82,
item 22). "O que te parece vazio está ocupado por matéria que te escapa aos sentidos
e aos instrumentos" (Ibidem, p. 88, item 36).


21 7

dade. Se lhe disséssemos que as construções não são tanto
uma forma, mas um sentimento cristalizado ou coagulado,
talvez você me interpretasse, meu filho, como falando por
parábolas, usando uma figura de linguagem, devido à sua
formação acadêmica e profissional. Pode-se dizer, apenas
para efeito de comparação, que nossas construções são feitas
de luz — luz líquida ou coagulada, que é moldada pelos
sentimentos dos moradores. Em algum momento você
compreenderá melhor, provavelmente quando estiver em
sua própria casa, segundo o desenho que escolher, isto é,
quando emoções e pensamentos mais profundos se refletirem
em tudo a seu redor: nas paredes, nas cores, nos móveis
e nos utensílios. Aí, verá como seus sentimentos estão
intimamente relacionados com o ambiente particular. Assim
é a Amanda; assim, o Invisível, o mundo dos espíritos.

Conforme caminhávamos e meus sentimentos pareciam
se dilatar, minha visão da cidade e dos arredores parecia
dilatar-se, também. Com pouco esforço, pude ver ou
perceber pormenores das montanhas ao longe; sobre colinas
distantes, erguiam-se majestosas construções, que davam
a impressão de templos, embora templos ali não houvesse.
Apresentavam-se na forma de torres, arcos, pátios e


21 8

cúpulas, em meio à vegetação farta que eu percebia. Mais
uma vez, Pai João me socorreu, à medida que nos aproximávamos
do ponto de encontro com Jamar:

— As cúpulas e torres que você vê, Ângelo, cuja cintilação
impressiona os olhos e o brilho encanta a alma, são
constituídas de elementos que, na Terra, seriam classificados
como pedras preciosas. Decerto já ouviu alguma vez,
em leituras da Bíblia, a referência à Nova Jerusalém,1 1 cidade
espiritual que o apóstolo João descreve no livro Apocalipse:
ruas de ouro, portas de pedras preciosas e coisas
semelhantes.1 2 É que aqui, numa esfera de vida além da conhecida
na Crosta, as possibilidades do espírito são ilimitadas.
A exuberância da vida coloca à disposição, numa escala
bem mais ampla, incontáveis recursos da natureza. São
fluidos condensados ou energia coagulada pela força mental
dos espíritos construtores, que modelam, através desses
mesmos fluidos, elementos que são conhecidos na Terra,
porém numa dimensão diferente da que se observa entre
os encarnados. A luz coagulada pode assumir praticamente
11 Cf. Ap 21.

12 Cf. Ap 21:11,18-21.


21 9

todas as formas conhecidas no mundo físico, mas aqui são
muito mais intensas, precisas e harmoniosas.

"As construções são museus, onde, em diversos deles,
trabalham e estudam seres de nossa cidade ou de outras,
que vêm em busca de conhecimento arquivado nos bancos
de dados ou sob a forma de acervo. Cada pedra preciosa,
cada gema, independentemente do tamanho e da forma,
têm um significado. As gemas preciosas refletem as auras,
os pensamentos e emoções, sentimentos e características
de cada visitante ou trabalhador do local, bem como das
obras expostas nos museus. Essas construções, sim, talvez
fossem confundidos com templos pelos mais religiosos, tão

significativas são a arquitetura, as exposições e o acervo ali
oferecido aos estudiosos da ciência do espírito."

Pai João despertava em mim admiração e respeito
como nunca tivera, nessa medida, por nenhum ser com o
qual convivera. De outro lado, havia a gratidão, sobretudo
por fazer parte deste lugar, que, somente agora, descobria
em maiores detalhes, ainda que soubesse faltar grande número
de coisas para conhecer na natureza da vida extrafísica.
Havia muito que aprender. Certamente, o encontro com
Jamar, que me apresentaria uma base de apoio dos guar



22 0

diões, descortinaria novos conhecimentos e mais reverência
perante a grandeza da vida e as tarefas que me a
davam no porvir. Nunca imaginei que morrer era viver,
viver com intensidade.


22 5

UANDO JAMAR CHEGOU, já me encontrava bem mais tranquilo
e integrado ao tipo de vida que a cidade espiritual
oferecia. Eram muitos fatores recentes e novos para mim.
Primeiramente, a visita ao lar de Laura, que revelara pormenores
da vida familiar e doméstica na Amanda, desde
a forma de se alimentar até a maternidade. Antes mesmo
disso, deparar com vários casais, contemplar a vida conjugal
no Além e observar a diversidade e a pluralidade dos
tipos humanos foram coisas que me fizeram refletir sobre

o modo como todos eram tratados e se tratavam na Amanda.
No que diz respeito à vida afetiva, pude observar tanto
espíritos que tiveram experiências na heterossexualidade
como seres com identidade energética voltada à homossexualidade,
mas ambos na mais singela normalidade, como
se esse aspecto não fizesse a menor diferença; parecia ser
mesmo irrelevante. Cada casal levava a vida conforme melhor
lhe parecesse, com respeito mútuo; traçavam planos,
usufruíam de todas as oportunidades que a comunidade
lhes podia oferecer.
Junte-se a isso a enorme variedade de manifestações
culturais e religiosas, de aparências, estilos e preferências
dos espíritos, bem como de elementos étnicos e raciais, e


22 6

me peguei por muitos momentos admirando a capacidade
desta gente de conviver com o diferente e a diversidade.
De abrigar, acolher e encorajar tamanha riqueza do espírito
humano, sem moralismos ou códigos de conduta que
se pautassem por outra coisa senão os valores mais nobreque
todos conhecem: amor genuíno, harmonia no convívio,
educação e gentileza, respeito às escolhas e ao jeito de cada
um. Enfim, nada que segregasse, confinasse o espírito aos
limites estreitos das crenças e concepções particulares ou
ditasse regras rígidas e insensatas, que sufocassem a vastidão
das possibilidades humanas.

Tantas vivências e reflexões descortinaram diante de
meu espírito toda uma maneira de pensar razoavelmente
distinta do que conhecia e cultivava antes, quando encarnado.
O sentido de lar e família deveria ser refundido, reescrito,
pois aqui começara a divisar novo horizonte e nova
concepção, mais larga, do que vem a ser lar. As construções
da Aruanda, então, impressionavam-me a cada momento.
A matéria da qual eram feitas merecia estudo à parte. E as
plantas, as flores, os animais e todo o resto? Simplesmente,
não poderia formar uma ideia exata sem me aprofundar
em estudos da ciência universal, e não somente da ciência


22 7

humana dos encarnados, que avançava dentro dos rígidos
limites de paradigmas antigos e ortodoxos, dedicando-se
apenas à realidade material, que era ainda mais estreita.
Este plano ou dimensão não seria um mundo à parte
do planeta? Outro continente no espaço, quem sabe? Uma

extensão do orbe ou uma realidade paralela? Estava longe
de obter respostas para tantas perguntas que emergiam de
meu interior; porém, para que elas viessem, era necessário
de estudar. E então compreendi o porquê da obrigatoriedade
dos estudos neste mundo novo.

Um lugar onde a própria natureza irradia cores, sons,
música. Descobri que o som tem cores e a cor emite som e
faz música. Mas isso jamais será compreendido por quem
pensa o mundo apenas por meio dos sentidos, restrito pela

visão material. Somente libertando-se da ilusão da matéria

— da convicção da vida material como realidade absoluta
— é possível compreender algo que transcenda os estreitos
limites dos cinco sentidos. Conheci cores muito diferentes
daquelas que são vistas no mundo físico, embora todas que
conheci na Terra aqui estivessem, em intensidade e nuances
surpreendentes e superiores. Ao ser introduzido no
ambiente onde residiam Laura e sua família, e observando

22 8

o tipo de habitação dos demais espíritos, entrei em contato
com o significado e a harmonia das cores. Soube que, de
acordo com os sentimentos dos habitantes, com o trabalho
e a ocupação a que se entregassem, seja de caráter mental
ou não, as diversas cores se misturavam, formando outras,
que passavam a imprimir na atmosfera, no ambiente a sua
volta, a marca profunda ou a aura particular daquele espírito.
Esse mecanismo explica por que as casas e construções
da Amand a vibram e respondem ao pensamento do
morador. A matéria sutil em que são elaboradas é tão sensível
à ação da mente que as paredes, o mobiliário e tudo o
mais que cerca o espírito dão resposta imediata ao influxo
de pensamentos e emoções. Aí está um fator ou mecanismo
que favorece, a todo instante, a reeducação das emoções e
dos pensamentos dos habitantes da cidade.
E como a música faz parte da vida dos moradores... É
tão importante que de tudo emana som, música, melodia.1 3

13 "A música possui infinitos encantos para os Espíritos, por terem eles muito desenvolvidas
as qualidades sensitivas. Refiro-me à música celeste, que é tudo o que
de mais belo e delicado pode a imaginação espiritual conceber" (KARDEC. O livro
dos espíritos. Op. cit. p. 207, item 251).


22 9

As flores cantam, as folhas emitem vibrações sonoras e a
Aruanda é toda musicalidade, que penetra no âmago dos
espíritos e auxilia na pacificação dos seres que aí habitam.
A música é parte da vida, da energia, da substância da qual
é construída a cidade e a comunidade. E não há filho da
Aruanda que não se deixe envolver e não se envolva com
música, arte e poesia. Em poucas palavras, a música emana
da alma dos espíritos desta cidade. Assim como emana
da própria natureza desta dimensão, deste outro mundo,
e também das flores, das plantas, das águas, dos seres
de todas as formas. Cores, músicas e sons não são coisas
inanimadas, mas detentoras de vida própria, de ritmo, harmonia
e vibração perfeitamente palpáveis, perceptíveis e
mensuráveis.

As edificações residenciais, conforme verifiquei no
lar de Laura e, mais tarde, nos demais locais onde passei,
não foram erguidas para a proteção das pessoas ou dos espíritos,
conforme acontece na Terra. Não. Tudo é feito de
modo a concentrar as energias dos moradores; trata-se de
uma espécie de condensador de emoções, emissões fluídicas
e pensamentos, ou melhor, da qualidade dos pensamentos
dos que ali habitam. Assim, a energia peculiar a


23 0

cada morador, concentrada nas paredes, no teto, nas cores
e na substância mesma das residências, faz com que estas
se tornem uma pilha energética particular, de onde cada
inquilino pode haurir forças e reabastecer-se. Pode, ainda,
direcionar o recurso ali armazenado para quem dele necessite
ou enviá-lo, sem perda de qualidade, a lugares distantes,
movido pela necessidade ou pelo desejo de ajudar. Isso
é uma maravilha por si só! Difere de tudo e de toda concepção
do plano físico a respeito de engenharia civil, de função
da habitação e de critérios para a escolha do ambiente
onde se vai viver e morar. Não posso dizer que exista alguém
que não se encante com a natureza deste mundo chamado
Amanda.

Quando ainda hoje penso naqueles primeiros momentos
de contato com a natureza sideral deste universo novo,
encho meu espírito de gratidão e não há como impedir que
verta uma lágrima de emoção diante de tamanha diversidade,
tamanha pluralidade e grandeza da vida espiritual. De
modo que, em minhas reflexões, cheguei à seguinte conclusão:
era preciso ir além das convicções terrenas e refazer as
concepções de certo e errado, de virtude e pecado, de natural
e subversivo. Onde me encontrava, ou refazia minhas


231

ideias de normalidade e anormalidade ou, simplesmente,
não conseguiria me incluir entre os agentes do Cordeiro
que trabalhavam numa dimensão mais ampla do que aquela
na qual transcorre a vida na Terra.

Por ora, não conhecia ainda outras cidades espirituais.
Apenas ouvira falar de Nosso Lar, Grande Coração, Vitória


- Régia e outras mais. Também ignorava como se comportavam
os habitantes daquelas cidades ou colônias, como
se costumava chamar as comunidades menores. Mas aqui,
na Aruanda, não havia como permanecer com as acanhadas
formas de pensar e agir, tal qual a maioria dos humanos
encarnados e, também, desencarnados. Tudo o que vira
até então serviu para alargar os horizontes do meu conhecimento
e refundir conceitos, abrindo minha mente para
uma forma mais universalista de pensar. Até mesmo a maneira
de lidar com as questões humanas, sem o peso da culpa
e sem cobranças, foi para mim um tipo de bênção.
Ante meu passado cheio de equívocos, não me senti cobrado
por nenhum tribunal, tampouco deslocado ao realizar
meu aprendizado na metrópole, em tarefas ou condições
diversas daquelas às quais estava acostumado. Fui
respeitado intimamente, inclusive nos gostos, no tempera



23 2

mento e no jeito de ser, mesmo com as manias e a acidez característica,
ao criticar tudo e todos à minha volta. Não precisei
abdicar do meu humor, do jeito de me expressar. Tudo
isso foi respeitado como aquisição da minha alma, e assim
me senti mais humano. E foi somente a partir de então que
senti vontade de modificar alguma coisa dentro de mim,
de fazer uma reavaliação íntima, sem nenhuma imposição
nem discurso moralista, muito menos o peso religioso que
presumivelmente pudesse acompanhar certos ensinamentos
transmitidos a mim nesta outra vida que encontrei. Não!
Mudei apenas porque cheguei à conclusão de que queria
mudar. O tempo todo ouvi que eu era apenas humano.

Pai João, Jamar, Watab, Consuela, da qual não posso
esquecer jamais, o encontro com Laura em seu lar, com Camilo
e Mike, sem falar nos Imortais que dirigem os destinos
desta comunidade — nenhum deles, em nenhum momento,
jamais se apresentou a mim como portador de grande
elevação espiritual ou de uma santidade incompreensível.
Deparei tão somente com seres humanos comuns, embora
dignos de respeito e consideração. Nenhum espírito havia
que se dissesse elevado ou que fosse tido como um primor
de evolução. Encontrei-me entre humanos, e isso fez toda a


23 3

diferença dentro de mim. As mudanças começaram a acontecer
naturalmente, sem cobrança nem força, sem imposições
nem pregações religiosas, santificacionistas ou "espiritualizadas".
Segui apenas o curso comum e natural, sem
pressa e sem martírio.

Os espíritos com quem travava contato não se cansavam
de dizer que ninguém ali era anjo e não se ocupava de
desacertos e erros de quem quer que ali estagiasse. Em nenhum
momento, entre os habitantes da cidade espiritual,
senti sequer um traço de dor moral, do peso e do rigor típicos
das posturas de culpa e cobrança. E isso me conquistou
de vez. Sentia-me integrado à vida da metrópole espiritual,
com seus mais de 10 milhões de habitantes, de todas
a s etnias e povos do planeta. Eram indivíduos que haviam
palmilhado, cada qual a seu tempo, diversos caminhos, dos
mais corriqueiros aos mais extravagantes da humanidade.
Haviam superado — ou ao menos se colocado em via
d e superar as barreiras do preconceito, da culpa, das preferências
religiosas e, principalmente, da necessidade de
fazer proselitismo religioso ou político. Definitivamente,
vivia numa comunidade de seres comprometidos mais
intensamente com o bem da humanidade, e não com uma


23 4

doutrina ou filosofia em particular. Assim eram os habitantes
da Amanda. E havia outras Aruandas no universo,
no Invisível.

— Desculpe interromper suas reflexões, meu amigo
— falou Jamar, delicadamente. — Mas é que temos de partir
para as zonas inferiores, onde você terá contato com a
realidade de nossa escola de guardiões. Precisamos tomar
precauções, pois sairemos dos limites da cidade espiritual
e mergulharemos num tipo de vibração em que nos sujeitamos
ao impacto dos pensamentos, tanto de encarnados
quanto de desencarnados, os quais podem comprometer o
equilíbrio do grupo.
Fiquei pensando em que consistiria essa chamada zona
de impacto. Seria uma espécie de inferno? Um purgatório,
conforme ensinava a igreja? Estava longe de ter uma ideia
mais acertada a respeito. Jamar continuou:

— Semíramis irá conosco, pois as guardiãs são especializadas
em dissolver formas-pensamento e emoções cristalizadas;
além disso, detectam habilmente influxos energéticos
carregados de forte teor emocional, os quais advêm de
planos inferiores. Pai João tem outras atividades ao lado do
colegiado, na administração da cidade; assim, não poderá

23 5

ir conosco nesta escala pelas regiões ínferas. Watab se encarregará
de você particularmente, ampliando o escudo de
proteção à sua volta, até que tenha condições de fazê-lo por
si próprio. Alguns outros amigos irão conosco, mas a eles
você será apresentado no caminho.

Demonstrando pressa ou até urgência para começar
nossa jornada, Jamar ordenou:

— Vamos! Não podemos perder mais tempo.
— Temos de aproveitar — acentuou Semíramis, que
estava acompanhada de mais três guardiãs. — Neste momento,
há um intervalo regular no influxo das formas-
pensamento. Aproveitaremos a zona neutra, entre um feixe
e outro, para passarmos sem maior prejuízo ou desgaste
energético.
Assim que Jamar deu a ordem, Watab estendeu as
mãos acima de mim, e logo depois desceu ambas lentamente,
formando uma espécie de círculo ou bolha em torno do
meu organismo espiritual, a qual, naquele instante, eu ainda
não conseguia enxergar. Fiquei pensando se seria algum
ritual excêntrico, mas não. Depois percebi que havia se formado
em torno de mim uma espécie de película, que se ligava
diretamente à cabeça de Watab por um fio finíssimo.


23 6

Mais precisamente, tal fio de energia parecia entranhar-se
entre seus olhos, ligando-se à mente do guardião. Senti certo
conforto, que não saberia descrever minuciosamente; de
qualquer maneira, notei uma sensação de tranquilidade e
uma resposta emocional interessante. Minha confiança naquela
equipe havia aumentado de maneira extraordinária.
Seria fruto da ação de Watab?

Entramos num veículo aéreo cuja forma diferia da de
todos que eu vira até ali. Havia, na parte da frente, aberturas
circulares, que me pareceram apropriadas para canhões,
fato que me provocou estranhamento. Tive receio
de perguntar. Não sabia, ainda, que existia armamento de
tal porte naquela dimensão, quanto mais adaptado aos veículos.
Era novidade a maioria das coisas que presenciava.
Entrementes, nos limites da Aruanda, o veículo levantou
voo e saiu com relativa facilidade. Tão logo deixamos o perímetro
da cidade, as coisas começaram a se modificar. Nuvens
mais espessas e de tonalidades fortes apareciam de
um lado e outro do veículo. Leve tremor lembrava os momentos
de turbulência em viagens de avião, embora fosse
um tipo especial de turbulência, que os aviões terrestres
talvez nunca experimentassem.


23 7

— Vamos ficar atentos — ressoou a voz de Jamar. — Estamos
em alta velocidade e começamos a adentrar as zonas
de impacto mental e emocional.
O veículo balançou ainda mais intensamente. Quando
olhei, vi bolhas de luz, uma luz fosca, de um vermelho
escuro, vindo em nossa direção. Mas não atingiu o veículo
diretamente.

— Erguer os campos de proteção! — gritou Semíramis
para a guardiã que pilotava o veículo. Balançamos novamente
e, quando o petardo de energia quase nos atingiu,
formou-se uma barreira energética em torno da nave, distribuindo
o impacto que parecia fulminante. Certa dose
de medo ou apreensão tomou conta de mim. Medo semelhante
ao que ocorre com alguém dentro de um avião que
enfrenta turbulência. Algo assim. Meu coração de desencarnado
começou a bater mais intensamente. Watab olhou
para mim tranquilizando-me, mas não conseguiu fazê-lo
totalmente. Outro petardo veio em nossa direção, mas a
condutora do veículo desviou a tempo, porém não conseguiu
desviar-se de raios que riscavam os céus daquela região,
os quais atingiram em cheio a nave que nos conduzia.
Balançamos feito folhas ao vento, e eu me segurei em al

23 8

gum lugar, um tipo de aresta do veículo, própria para isso.
Arregalei os olhos.

— À esquerda, cuidado! — falou novamente Semíramis,
sempre atenta. — Ativar os canhões de energia! — comandou
a guardiã, enérgica.
E eu ali, sem entender nada de nada. Eles não me explicaram
que ocorreria algo dessa natureza. Estávamos sendo
atacados? Era uma guerra? Nem tive tempo de perguntar

— e confesso que não conseguiria mesmo. Quase molhei as
calças do meu sagrado terno duramente conquistado nas
lojas da cidade. Aliás, pensei mesmo que houvesse me molhado.
Mas não. Espírito nunca se molha. Elimina ectoplasma!...
Só acordei para o perigo real da situação quando vi
os canhões emergirem à frente da nave, das aberturas que
notara mais cedo, e cuspirem fogo ao redor. As bolhas de
luz avermelhadas explodiam antes de nos atingir. Os raios
pareciam ter sido interceptados pela energia dos canhões,
da qual nada sabia, nem sequer a respeito de sua natureza
e seu poder de impacto. Apenas presenciava, com o coração
quase saindo pela boca. Pouco a pouco as coisas foram
se acalmando. Jamar manteve-se em silêncio o tempo todo
durante o ataque energético.

23 9

— Pronto! Cruzamos tranquilos a zona neutra... Breve
chegaremos à base de apoio dos guardiões.
Zona neutra? Tranquilos? Será que nenhum deles me
viu, por acaso, quase molhando as calças do meu elegante
traje de desencarnado? Aquilo porventura era uma zona
neutra? Jamar olhou para mim e me senti envergonhado.
Infelizmente ele sabia o que eu pensava, ou sentia. Jurei
um dia aprender como me proteger mentalmente.

— Não se preocupe, Ângelo! Terminaram os ataques —
falou Semíramis para mim, enquanto a mulher na direção
do veículo ria gostosamente das minhas reações. — Eram
somente formas-pensamento dos encarnados. Nem experimentou
ainda o ataque de entidades perversas. Aí, sim,
você vai se molhar todo! — e riu também. Todos riram. Eu
ri de raiva e nervosismo. Tive raiva de Semíramis saber o
que eu pensava. Será que raiva era pecado aqui?

— Fomos atingidos pelos impactos das formas mentais
vindas diretamente de encarnados — explicou Jamar,
agora mais descontraído, embora eu não pudesse dizer se
ele estava alegre ou triste; apenas descontraído. — Estamos
nos aproximando de uma de nossas bases. Observe o arredor
para não criar nenhuma expectativa quanto à natureza

240

deste lugar. Não estamos mais na Amanda. Este é o início
das zonas inferiores, conhecidas pelos espíritas como umbral
— arrematou.

— E olhe que, ainda assim, trata-se de uma região tranquila,
se comparada aos locais onde estamos habituados a
trabalhar e enfrentar espíritos criminosos e outros tipos
que mais tarde você conhecerá — disse Watab.
Então nem tudo eram flores no mundo dos espíritos.
Se conheci de perto o conforto e a vida social relativamente
tranquila da Amanda, agora entrava em contato com a realidade
das chamadas zonas ínferas.

Ainda suava frio, após vivenciar os impactos de energia
discordante que vieram em direção ao aeróbus. De repente,
um feixe maior daquela substância veio em nossa direção.
Algo horrendo e de tal proporção que o veículo balançou
muito mais do que nas descargas anteriores. Parecia que
pegara os guardiões desprevenidos.

— Vamos sair do veículo! — gritou Jamar, em meio à
fumaça e ao estrondo, que parecia vir de dentro do próprio
carro voador. Saímos um a um, e Watab sempre próximo de
mim, envolvendo-me num campo protetor.
— Vez ou outra isso acontece, embora a frequência dos

241

ataques esteja menor a cada dia — falou Semíramis.

— Sim — arrematou Jamar. — Precisamos ficar atentos,
afinal, estamos numa zona purgatorial. Continuar com o
veículo será chamar a atenção das entidades sombrias que
vivem nessa região. Vamos deslizando nos fluidos ambientes
ou mesmo caminhando entre os vales sombrios.
— Enviarei um sinal à nossa equipe para que venha a
nosso encontro — falou uma das guardiãs, dirigindo-se a
Jamar e Semíramis, que, pelo visto, eram os líderes entre
os guardiões. Mantive-me em silêncio, temendo que meus
companheiros soubessem quanto medo eu sentia. Escorria
suor em minha fronte. Jamar me olhou, transmitindo segurança,
porém dessa vez ficou calado, guardando para si o
que talvez ouvira de meus pensamentos. Senti-me confortado
na presença dele, como sempre.
Descíamos por uma região que parecia sombria demais,
se comparada com qualquer experiência que tivera
até então. Abaixo de nós e no entorno, surgiam camadas de
nuvens de cores variadas, mas sempre de tonalidade mais
escura. Do cinza passavam ao vapor negro; as avermelhadas
se mesclavam a uma cor que talvez pudesse ser chamada
de roxo — talvez, pois acredito que era uma cor des



242

conhecida para quem acabara de vir da terra dos mortais.
Olhando mais intensamente ou concentrando minha atenção,
era como se visse uma espécie de auréola em torno do
planeta, ao longe, no horizonte, mas não luminosa nem cintilante.
Em meio àquelas sombras e à medida que nos aproximávamos,
notei que o próprio globo estava envolvido
num tipo de escuridão, como se pairasse entre nuvens de
fuligem e vapores. Nesse momento, Semíramis adiantou-se
e posicionou-se a meu lado e de Watab, tentando explicar o
que ocorria:

— São criações mentais ou formas-pensamento carregadas
de emoções fortes. A grande maioria advém de regiões
da Terra onde a guerra vem ceifando a vida de habitantes
do mundo, além de espalhar luto, miséria e dor entre
os que ficam.
— Parecem vivas as nuvens.... Sinto como se houvesse
um movimento ordenado, talvez até programado ou mesmo
inteligente.
— As formas mentais inferiores são, por si sós, um perigo
para a vida dos habitantes do mundo. Associam-se naturalmente
a seres dementais e, como ocorre entre a droga
e o usuário, viciam os espíritos da natureza que vivem

24 3

nestas regiões. Por isso você nota certo movimento naquilo
que classifica como nuvens, Ângelo. Na verdade, são egrégoras,
ou seja, a união de um sem-número de formas-pensamento.
Nesse caso em especial, lidamos com pensamentos
e emoções gerados em meio ao sofrimento das guerras.

— Só para você ter uma ideia, meu amigo — acrescentou
Watab —, no presente momento ocorrem mais de 180
conflitos armados espalhados por diferentes recantos do
planeta. Isso, sem contar os embates existentes do lado de
cá, na dimensão astral onde agora estamos. — Dando-me
um tempo para absorver o que falavam, pois para mim tudo
era novo, Watab logo continuou. — Considere, por um instante,
a quantidade de pessoas que desencarnam abrupta
e violentamente em todas as guerras, bem como daquelas
que permanecem vivas entre os mortais, mas cheias de dor,
ódio e rancor, devido ao horror que vivem nesses eventos.
Assim, pode imaginar quanto as descargas mentais de milhões
de espíritos, dos dois lados da vida, povoam e contaminam
a atmosfera psíquica do orbe.
A fala de Watab parecia abrir em minha mente uma
nova porta para observar a realidade do mundo, de modo
totalmente diferente do meu habitual. E aquilo era somen



24 4

te uma parte da realidade, que se descortinava diante de
meu olhar de espírito.

— Você está começando a entender, meu caro — falou
Jamar, voltando-se para mim.
À medida que caminhávamos, com imensa dificuldade,
a paisagem se desdobrava ao redor. Ainda não havíamos
deparado com entidades ditas das sombras, mas somente
com energias, formas mentais dos encarnados e desencarnados,
além das miríades de dementais, que organizavam
as formas-pensamento e emoções. Mesmo alguns deles se
tornando viciados, acabavam por evitar que as egrégoras
densas pudessem regressar e afetar com intensidade brutal
a morada dos homens.

A paisagem tornava-se mais e mais escura e densa.
Os fluidos daquele ambiente se assemelhavam, a meus
olhos, a faixas de gaze sujas ou a formas quase liquefeitas,
como tiras gigantes de tecido a se arremessarem aqui
e ali, desordenadamente. Formas escuras, verdes, vermelhas;
algumas vezes, percebi a coloração marrom em meio
àquelas nuvens de emoção e pensamento conturbados, as
quais se originavam do ódio e da amargura excretados pelas
almas em sofrimento. A nosso redor, movia-se alguma


24 5

substância cuja natureza eu nem sequer imaginava, mas,
pelo que me explicaram os guardiões, eram raios mentais,
energias direcionadas, e não apenas dispersas aleatoriamente,
que se dirigiam contra os causadores das guerras.
Movia-se gelatinosa aquela substância de densidade
absurda, considerando-se que estávamos todos numa dimensão
astral, fora da matéria. Ia e vinha de um lado para
outro, e por vezes tínhamos de nos afastar, baixando-nos
para evitar que tais criações, que agora pareciam serpentes
do inferno, pudessem nos tocar o corpo espiritual. Vi-
me coberto de fuligem, uma espécie de pó, subproduto da
atmosfera daquele plano.

Foi quando avistamos os exércitos dos guardiões. Dispostos
em forma de meia-lua, marchavam em perfeita ordem,
com alguns espíritos destacados do conjunto, à frente,
carregando aquilo que me pareceram baterias elétricas
ou algo do gênero. Suas vestes rebrilhavam e, a mim, pareciam
espalhafatosas por demais, em cores vivíssimas, quase
lembrando tons fosforescentes. Talvez por isso, eram
plenamente visíveis, em meio a tantas e tenebrosas nuvens.
Um batalhão de polícia feminina parecia vir de dois lados
ao mesmo tempo; eram as guardiãs. Semíramis emitiu um


24 6

assobio nu m volume tão alto e num tom tão agudo que me
incomodou. Logo mais, Jamar se pronunciou:

— Para lidar com as formas-pensamento e emoções
cristalizadas nesta dimensão, somente as guardiãs. Repare
como elas lidam com a situação de maneira habilidosa.
Observei e vi como muitas das mulheres-soldado se revolviam
no ar, por entre os fluidos do ambiente astral. Subiam
sibilando, ao passo que os fluidos densos envolviam
cada uma, adquirindo forma de caracol, para em seguida
serem sugados em lugar ainda mais alto, desconhecido por
mim naquele momento. Imediatamente depois, uma explosão,
semelhante a uma fornalha ardente, consumia as formas
mentais inferiores em pleno ar, enquanto as guardiãs
voltavam levitando, suavemente, com seus bastões ou armas
energéticas em punho. A região ficou muito mais limpa e
agora era mais fácil se movimentar através dela. Com a limpeza
do ambiente, sobressaiu a vegetação raquítica de um
chão pedregoso em alguns lugares, ressequido em outros,
com rachaduras que lembravam o solo sertanejo do Nordeste
brasileiro, no auge da estiagem. O batalhão de guardiões
chegou e um de seus representantes parou diante de
todos, cumprimentando Jamar e colocando-se às ordens.


247

— Estamos a postos, Jamar! As guardiãs seguirão pelos
flancos, enquanto dividiremos nosso batalhão em dois. Um
seguirá à frente, e o outro, ficará na retaguarda. Não serão
incomodados nem surpreendidos na caminhada restante.
— Obrigado, guardião. Fiquem todos à vontade. Vamos
logo ao nosso campo de apoio.
Prosseguimos a jornada escoltados e, portanto, mais
tranquilos. Pelo menos eu estava mais tranquilo, pois não
notara da parte de Jamar, Semíramis e suas amigas, tampouco
de Watab, qualquer insinuação de que estivessem
assustados. Mantinham-se sempre vigilantes, atentos, mas
não tensos nem assustados. Penso que eram habituados a
situações do gênero. Continuamos pela paisagem astral, caminhando
rumo ao quartel dos guardiões. Mesmo assim,
ainda se observava no entorno algum resquício daquela
substância repugnante que descrevi. Enquanto eu examinava
ao derredor, refletindo sobre a natureza dos pensamentos
e como influenciam o mundo, Semíramis falou baixinho,
dirigindo-se somente a mim:

— Não podemos desanimar ante as lutas na Terra, meu
amigo. Não é preciso temer quando presenciamos fatos
como esses ou outros com os quais você terá contato bre

24 8

vemente. Nosso trabalho consiste em implantar a política
do Cordeiro, a base do Reino no mundo todo, em todas as
dimensões da vida.

"Esta substância escura e repulsiva, que representa a
soma dos pensamentos de angústia de nossos amigos encarnados,
bem como da massa de desencarnados em aflição,
está na própria Terra. O planeta geme como quando
se está para dar à luz um novo ser. Nesse caso, trata-se da
geração de um novo homem, uma nova humanidade. Mas
essa escuridão toda é apenas a extensão do que vai dentro
do homem. E seu lado sombrio, nada mais."

Calando-se por um breve momento, visivelmente emocionada,
Semíramis prosseguiu num tom ligeiramente diferente,
carregado de sentimentos que pareciam irradiar-se
de sua aura:

— Precisamos dar as mãos e desenvolver, quanto pudermos,
respeito, amor, amizade e compreensão das diferenças.
Somente assim, deixando para trás as barreiras do
preconceito e as de ordem denominacional, religiosa e política,
é que conseguiremos renovar o mundo ao nosso redor.
A Terra espera por nós, e nossa ajuda é incrivelmente
necessária neste mundo que todos amamos.

24 9

A fala de Semíramis tocou-me profundamente. Não
conseguia imaginar como a humanidade, como os homens
conseguiam viver e respirar em meio àqueles elementos
mentais e fluídicos, que pareciam se aglutinar
em torno de sua morada. Como se movimentar e interagir
em meio a esse caldo de formas-pensamento e emoções
tão densas e carregadas de dor e sofrimento? A cada
momento podia compreender melhor a extensão do trabalho
dos guardiões do bem, daqueles que eram comprometidos
com a humanidade. Sem eles, sem as guardiãs e
os guardiões, não é exagero dizer que a vida na atualidade
seria impossível na crosta terrena. Invisíveis aos olhos
humanos, trabalhavam diuturnamente para manter certa
cota de equilíbrio no organismo sensível do planeta, que
gemia, segundo o dizer de Semíramis, sofrendo o parto de
uma nova geração de homens mais conscientes. Mas era
um parto; talvez este fosse o momento das dores e contrações,
que antecedem o parto cósmico, propriamente. De
todo modo, até que o homem novo nascesse, aprendesse a
viver em paz com o mundo, atingisse a maturidade espiritual,
muito trabalho esperava pelos guardiões e por todos
os espíritos representantes da política superior, que inspi



250

rava os seres da Aruanda e, evidentemente, de tantas outras
cidades espirituais.

Jamar deteve seu olhar sobre mim um instante, talvez
sabendo de meus pensamentos, minhas reflexões. A esta altura,
eu já não me importava que qualquer um dos guardiões
ou dos Imortais conhecesse meus mais secretos pensamentos.
Queria fazer parte daquele time; aliás, eu fazia parte daquela
equipe, que trabalhava pela renovação do mundo.

Já nos aproximando do ambiente no qual se localizava

o reduto dos guardiões, Jamar falou:
— O que nos cabe, Ângelo, é aprender quanto pudermos,
absorver ao máximo o conhecimento advindo das experiências
da humanidade, tanto boas como más, aprendendo
a transmutar tudo à nossa volta, do mesmo modo
como a planta absorve a luz solar e do ar retira elementos
que favorecem a manutenção da vida. Após o labor nosso—
e das miríades de exércitos do Senhor que trabalham
nas regiões inferiores — provar a existência ou determinar
quais casos são temporariamente insolúveis, estes serão
conduzidos a regiões mais profundas da vida astral. Trata-
se de um lugar em alguma medida comparável à concepção
de inferno dos católicos. Ali, alguns espíritos aprende

251

rão, com outros professores da vida, a reavaliar a conduta e,
quem sabe, acordarão para as claridades de uma vida com
maior qualidade. No que tange a nós, estamos a salvo não
porque tenhamos resolvido todas as questões íntimas ou
porque talvez tenhamos enfrentado as próprias sombras
internas. Não! Isso ocorre apenas porque trabalhamos do
lado vencedor, e estamos sendo capacitados para nossa tarefa;
então, estamos a salvo na medida em que lutamos do
lado de nosso líder, o Cristo.

Pela primeira vez na vida ouvi uma referência a Cristo
sem ser com forte conotação religiosa. Ele era apresentado
ali, nas palavras de Jamar, como o líder máximo dos exércitos
dos céus. Era algo muito novo para mim esse tipo de
abordagem. Fiquei satisfeito, pois constatava, a cada passo,
que eu também fazia parte desse exército do Cordeiro.

Astrid, uma das guardiãs que acompanhava Semíramis
mais de perto, apontou ao longe, e olhei, juntamente com
todos de nossa equipe. Olhamos e vimos, parado em torno
de uma imponente muralha, numeroso grupo de seres, os
guardiões que nos esperavam em um local que mais parecia
uma pequena cidade, uma fortaleza em meio a tanta paisagem
desoladora.


25 2

Abaixo de uma cadeia de montanhas, localizava-se a
base dos sentinelas do bem. Longa escadaria levava diretamente
para a fortaleza, onde Jamar parecia ser a referência
para aquelas centenas de almas que se capacitavam continuamente
para o trabalho de Cristo. A visão das montanhas
era algo impressionante. E a escadaria parecia levar não somente
até o local onde os guardiões se reuniam, como também,
segundo pude enxergar naquele momento, subia até

o pico do monte mais imponente entre os demais. Um tipo
de luz impenetrável jazia no topo deste monte que se sobressaía.
Parecia impenetrável para mim, considerando-se
minha visão ainda não acostumada aos efeitos da dimensão
extrafísica. Por certo, tanto Jamar quanto outros mais
de sua equipe eram capazes de perscrutar profundamente
aquela luz que encobria o cume.
Assim que chegamos à cidade dos guardiões, base onde
se reuniam mais de 10 mil espíritos sob o comando de Jamar
e Semíramis, pude ver em detalhes os exércitos que
ali estavam albergados sob a bandeira do bem. Por sobre
as escadas, morro acima, centenas de seres aguardavam
seu comandante, que retornava ao campo de apoio. Não
sei quantos lugares como este existiam naquelas paragens


25 3

ou espalhados pelo plano astral, mas sei que a visão dos seres
acima da escadaria e dos outros, em frente às muralhas,
causou-me forte impressão. E eu chorei. Ali mesmo, ante
a imagem fantástica de tanta gente boa trabalhando pelo
bem da humanidade, chorei de emoção. A cena era arrebatadora,
em grau ainda mais elevado quando adentrávamos
as muralhas da cidade.

Perto de nós, víamos os espíritos, uma legião deles,
vestidos de uma roupa tecida de fluidos radiantes. Outra
equipe usava uniformes de cores e matizes desconhecidos
por mim, e não conhecia palavras capazes de descrever
as nuances inusitadas. Os guardiões a postos, no topo
das escadarias, as quais levavam montanha acima, sugeriam
tamanha imponência em seu porte, que era comparável
apenas à das vestes que ostentavam. Parecia haver
diversas ordens de guardiões, pois envergavam trajes distintos,
certamente conforme o agrupamento a que pertenciam.
Alguns eram atarracados, outro grupo mais parecia
de pigmeus; outros, ainda, lembravam na aparência certos
povos asiáticos. Estavam todos ali aguardando-nos, no
espaço dedicado ao quartel dos guardiões da noite, como
mais tarde vim a saber. Tratava-se de um local de estudos,


25 4

de aprimoramento; a escola onde era formada a maior parte
dos espíritos que trabalhavam nessa falange de soldados
do bem.

Fui acolhido de maneira generosa. Conduziram-me a
um aposento espaçoso, onde pude me limpar da poeira comum
à dimensão onde transitávamos. Logo depois fui me
alimentar, junto com os guardiões. Confesso que esperava
uma refeição semelhante à que encontrei na Aruanda, mas
aqui as coisas eram um tanto diferentes. Estávamos numa
zona de transição, cujas vibrações eram muito densas. Encontramo-
nos num amplo saguão daquela construção ímpar.
Nem tive tempo de observar direito a parte externa,
pois me sentia cansado. Ali o clima era de descontração e
riso, mas muitas perguntas:

— Então você é o escritor que veio da Terra recentemente?
Trabalhará conosco? — perguntou um guardião,
sentando-se a meu lado.
— Sim, sou eu mesmo, Ângelo Inácio. E você, quem é?
— Sou um estudante da escola dos guardiões. Não tenho
patente ainda, ou seja, não terminei minha especialização.
Meu nome é Ferreira. Mas você irá mesmo se integrar
à nossa escola?

25 5

— Não sei exatamente o que me aguarda. Por ora, fui
apenas convidado a conhecer de perto este posto avançado
dos guardiões. De resto, espero que Jamar me oriente a respeito
de tudo.
— Você é amigo do chefe? Que bom! — falou quase aos
berros outro sentinela, que foi logo se aproximando; igualmente
descontraído, deixou-me mais à vontade ainda.
Logo, logo se formou em torno de mim um grupo de
espíritos, cujo comportamento era parecido com o dos soldados
da Terra. Contudo, respeitoso, sem nenhum excesso.
Riram, brincaram e me deixaram muito à vontade. Entre
uma conversa e outra, pude notar algo peculiar. Eram bastante
instruídos, estudavam com afinco e conheciam a vida
astral em profundidade. Certamente, com qualquer um daqueles
que se encontravam no salão de refeições eu aprenderia
muito.

Em meio ao clima de alegria, entrou uma guardiã. Uma
voz ressoou no ambiente:

— Uma guardiã! Todos a postos!
Todos se levantaram quase ao mesmo tempo, fazendo
um gesto com o braço direito, colocando a mão sobre o peito.
Bem, o grupo era composto por uma espécie de militar


25 6

do plano astral; de fato, até seus gestos pareciam de militar,
embora sem o rigor costumeiro visto na Crosta por parte
de cadetes frente a seus comandantes.

Tão logo se levantaram, um dos guardiões cedeu o lugar
à mulher, que entrou elegante, vestindo uniforme azul-
cobalto e um tipo de capacete. Tirou o capacete e colocou-o
sobre uma das mesas, dirigindo-se aos demais. Como todos
fizeram silencio, ouviram-na facilmente.

— Sintam-se à vontade, companheiros. Sou Astrid, da
força-tarefa das guardiãs do hemisfério norte. — Todos se
sentaram, continuando a conversar alegremente, após a
apresentação de Astrid. Já a vira antes, no veículo junto
com Semíramis; parecia que ocupava uma posição de destaque
no agrupamento. Assim que me viu, deixou seu lugar
e se dirigiu aonde eu estava.
— Então já se enturmou com nosso pessoal?
— Não tem como não se sentir à vontade por aqui. A
turma parece bem animada.
Havia um grupo de mais ou menos 15 espíritos a meu
redor. Não dava para ignorar a energia feminina emanada
de Astrid; por isso, alguns olhares, bem humanos, por sinal,
voltaram-se para ela de maneira especial.


257

— Rapazes!... — falou Astrid, alto e bom som, sorrindo
em seguida.
— Desculpe, senhora... — respondeu um dos espíritos,
quase gaguejando de vergonha.
Astrid riu gostosamente, entendendo a situação e deixando
a rapaziada descontraída. Em seguida falou comigo,
deixando que a turma ouvisse claramente o que dizia:

— Bem, são humanos, Ângelo, como todos aqui. E homens,
também — olhou rindo para um deles. — Bem, quase
todos, não é?
Não entendi naquele momento a brincadeira; somente
mais tarde consegui interpretar a insinuação de Astrid,
pois entre os guardiões havia espíritos que viveram, quando
encarnados, como homossexuais. E ali havia muitos
deles. Porém, o comentário da guardiã denotava razoável
intimidade com esses espíritos, não havendo nenhuma conotação
depreciativa.

Os rapazes a nosso lado se abraçavam, riam e conversavam.
Um deles, que se apresentou com o nome de Kelsey,
de procedência nitidamente inglesa, cedeu lugar para
a guardiã. Enquanto Astrid conversava comigo, abraçados
como velhos amigos, começaram a cantarolar uma canção.


258

Brincavam, implicavam uns com os outros, faziam gracejos,
mas tudo como se fossem amigos de longa data, como
realmente eram — vim a saber em seguida. A guardiã, sentindo-
se à vontade a meu lado, disse num tom mais baixo,
deixando a música dos guardiões ao fundo, mesmo que eles
estivessem tão próximos de nós:

— Estão aqui há um bom tempo, meu amigo. Neste
posto de especialização, todos estudam intensamente.
Nestes momentos de folga, quando se reúnem para refeição
e descanso, se mostram como crianças. São necessários
momentos assim, de descanso e descontração, senão
ninguém aguenta. O programa de estudo dos guardiões é
intenso. Dedicam-se pelo menos 10 anos seguidos a estudos
elementares, antes de serem admitidos definitivamente
como guardiões. Por isso, Jamar permite estes momentos.
Os grupos se revezam: enquanto estes estão aqui, os outros
treinam, estudam ou atuam em campo, montando guarda
em algum recanto obscuro do astral.
A música dos rapazes parecia estar cada vez mais interessante,
pois não somente o grupo ao nosso redor estava
cantando, como também um número cada vez maior parecia
se deixar envolver com a canção. Era algo que inspirava


25 9

saudades, que falava da vida na Terra e da falta que sentiam
de seus lares, porém num tom nada triste, embora inspirasse
um sentimento de nostalgia.

— Vê que sentem saudade das famílias terrenas e dos
antigos lares?
— Puxa vida, Astrid! Nunca imaginei que os espíritos
pudessem se comportar de maneira tão humana assim...
Astrid riu, olhando para a turma, que, abraçada, balançava-
se, mexendo uns com os outros, divertindo-se na
companhia alheia, numa franca expressão de carinho.

— Formam uma família espiritual. Entre eles, encontram
o sossego das emoções. Muitos deles, Ângelo, deixaram
o corpo físico durante batalhas no seu país de origem
ou longe dos familiares queridos, pois haviam sido enviados
para guerras ou missões em nome da pátria. Despertaram
do lado de cá da vida cheios de saudades do lar. Foram
aconchegados por outros guardiões e lhes foi oferecida a
oportunidade de trabalhar, estudar e lutar por uma causa
maior, por um mundo sem fronteiras, por um ideal universal.
Assim aportam aqui dezenas de espíritos, e Jamar os
acolhe com sua equipe. Semíramis os adota como pupilos,
enquanto aprendem sobre questões relevantes para o tra

26 0

balho que desempenharão em algum momento da jornada.

— Mas você falou antes que estudam durante 10 anos
consecutivos até serem admitidos como guardiões? Não é
muito tempo? Isso deve desencorajar muita gente.
— Aqui não, Ângelo. Esse tempo é o mínimo necessário
para entrarem em contato com o conhecimento básico, essencial,
e também testarem em campo o que aprenderam.
Afinal de contas, especializam-se em assuntos muito delicados
e complexos; precisam de tempo para aprofundar
seus estudos.
Concedendo-me um instante para pensar, enquanto
ouvíamos novas canções dos cadetes a nosso redor, Astrid
continuou:

— Afinal, que são 10 anos diante da eternidade? Muitos
passam até 100 anos do lado de cá da vida sem reencarnar e,
conforme a especialização de alguns, até bem mais tempo.
— Como assim? Demoram tanto a voltar? Não existe
um limite máximo para esses espíritos ficarem aqui?
— Nada é absoluto, amigo. Com o tempo, verá que tudo
depende de você mesmo, da dedicação, das responsabilidades
assumidas e assim por diante. Por exemplo: examinemos
o caso daqueles espíritos que manipulam ectoplas

261

ma diretamente, seja junto aos encarnados, seja associados
a inteligências sombrias, as quais usam esse combustível
quase material para levar a cabo seus projetos. Uma vez
que lidam cotidianamente com efeitos mais materiais ou físicos,
tais espíritos demoram mais a reencarnar. Isso se dá
porque o contato estreito com fluidos de natureza material
ou semimaterial, como o ectoplasma, lhes proporciona relativa
sensação de materialidade, na comparação com outros
desencarnados. Lidar com ectoplasma, do modo como
me refiro, é como se fosse uma reencarnação em menor espaço
de tempo, uma minirreencarnação.

— Você fala em ectoplasma assim, como se eu fosse um
entendido do assunto!
— Ah! Me desculpe, Ângelo. Esqueci que você ainda
não começou os estudos e não teve, na Terra, uma formação
que lhe transmitisse conhecimento na área.
Assim que Astrid falou essas palavras, um guardião
de olhos claros, alto e corpulento, intrometeu-se em nossa
conversa, de maneira até respeitosa, mas assim mesmo intrometendo-
se, e falou baixinho, em meu ouvido:

— Prepare-se, camarada. Você ficará muito tempo conosco
estudando antes de começar a trabalhar. Dez anos é

262

um tempo considerável, mesmo aqui em nossa dimensão —
olhando de soslaio para a guardiã, afastou-se lentamente,
talvez esperando uma repreensão que não veio.

Naquele momento, outras guardiãs penetraram o ambiente,
e a música parou de vez. Todos os rapazes olharam
para as mulheres, sempre respeitosos, logo esquecendo Astrid
e eu. Elas entraram em formação militar e em seguida
se dispersaram e se sentaram à mesa junto deles. Nada daqueles
comentários bobos ou piadinhas sem graça que se
ouvem na Crosta, entre os homens, quando um grupo de
mulheres adentra um ambiente predominantemente masculino.
Riam, conversavam como antes, mas conservavam
certa discrição na presença das guardiãs.

Em seguida, veio a refeição. Como já disse, foi decepcionante
para mim, que esperava algo igual ou bem próximo
do que usufruíamos na cidade dos espíritos, a Amanda.
Serviram-se sucos e outras bebidas semelhantes àquelas
conhecidas na Terra. Porém, ao tomá-las, notei que tinham
conteúdo altamente revitalizante, pois, logo após o primeiro
copo de suco, já me sentia refeito e plenamente satisfeito.
Foi distribuída uma espécie de comida com aparência
muito próxima a pão, além de algumas guarnições — pou



26 3

cas, aliás. Com o suco já me senti deveras saciado, mas assim
mesmo experimentei o novo alimento, que em nada
lembrava a fartura da Aruanda. Felizmente, nada de sopinhas
ou caldos. E me senti quase empanturrado ao ingerir
a refeição oferecida ali.

Um dos guardiões aproximou-se e falou baixo, mas
quase alegre demais:

— Acostume-se, amigo. Aqui as coisas são muito mais
racionadas do que lá em cima — apontou para o alto. E eu
compreendi que falava da cidade espiritual. — Mas temos
algo de maior qualidade nutritiva, pois nestas regiões necessitamos
de um alimento muito mais calórico, vamos assim
dizer. Lidamos com energias mais densas. No campo
de batalha, então, as coisas mudam. Levamos conosco outro
tipo, mais concentrado, de alimento fortificante. Logo
você saberá, se ficar conosco.
Após pequena pausa no comentário inesperado, o
guardião de nome Yurik, decerto advindo da antiga União
Soviética, arrematou, quase num convite direto:

— E esperamos que fique entre nós! Temos muita
curiosidade e vontade de aprender por aqui e, também,
queremos ter notícias da velha Terra.

264

Neste ponto da conversa, Watab entrou no ambiente,
e logo todos se colocaram de pé. O guardião fez um gesto
com a mão, e todos se sentaram novamente, descontraindo-
se e continuando a conversa.

— Está na hora, Ângelo! Jamar pede que se apresente
para conhecer de perto nosso esquema de segurança
— aproximou-se de mim e de Astrid, colocando a mão esquerda
sobre meu ombro. — Aqui parece que você já se enturmou.
Ao que tudo indica, os rapazes ficaram contentes
com sua chegada. Só se ouve falar de você em vários departamentos.
Isso ocorre quando a pessoa que chega traz certa
bagagem de conhecimento, pois para eles significa a possibilidade
de se aprofundarem nos estudos.
Olhando à volta, como a conferir alguma coisa, Watab
convidou-nos:

— Vamos, então, amigos? — dirigindo-se a Astrid, convidou-
a também. — Se desejar ir, será boa companhia para
nós. Venha, Semíramis também está à espera. Vamos deixar
os rapazes e as meninas à vontade. Afinal, eles têm só mais
alguns minutos, antes de se apresentarem ao trabalho.
Saímos, rumo ao pátio onde Jamar nos aguardava. Somente
então pude notar a grandeza das instalações, a im



26 5

ponência que transmitiam. Os guardiões, um numeroso
contingente deles, dividiam-se em tipos humanos e especialidades,
até onde puder deduzir. Dispunham-se, conforme
a procedência cultural, em pelotões de mais ou menos
500 soldados. Agruparam-se no hall do colégio dos guardiões
ou do prédio central.

O hall apresentava formato circular com um ligeiro
alongamento num dos lados, quase se confundindo com
uma forma oval. Era realmente enorme, pois, mesmo contando-
se as pessoas aos milhares, tanto homens quanto
mulheres, havia espaço de sobra. Os guardiões marchavam,
fazendo revoluções diante de nós. Era algo belíssimo de se
ver, pois o faziam de tal maneira que não havia nenhuma
quebra ou interrupção no ritmo. A polícia feminina, se assim
posso chamar as guardiãs, esteve irrepreensível durante
a apresentação. Os rapazes também se esmeraram, como
se estivessem imbuídos de um ideal mais profundo, algo
que hoje em dia muito raramente se vê na Terra, entre os
encarnados.

Existia uma tribuna à frente. Estávamos ali Jamar, Watab,
Semíramis, Astrid e eu. Havia outros representantes
dos guardiões, também, a quem mais tarde eu seria apre



266

sentado; eram líderes de falanges de espíritos. De repente,
algum som foi ouvido, como o soar de uma trombeta, e os
diversos grupos de guardiões, cada qual uniformizado de
maneira diferente, posicionaram-se em perfeita ordem à
frente da tribuna onde nos encontrávamos.

— Nem sempre é assim, Ângelo. Convoquei os guardiões
especialmente para apresentar a você nossos contingentes.
Isso será de grande valia para seu aprendizado e
para o desempenho das tarefas que lhe competirão. Afinal
— falou Jamar sério, como um general frente a seus subordinados
—, um escritor do Além precisa de muitos elementos
para poder se reportar aos futuros leitores.
Sinceramente, não entendi direito ou completamente o
alcance das palavras de Jamar. Mas fiquei tão impressionado
com o que via, que nem me arrisquei a perguntar nada,
por medo de perder trechos das apresentações.

Um espírito foi chamado à tribuna, uma espécie de artista
ou cantor. Ele começou um hino, num ritmo tão envolvente
que me fez chorar, pela segunda vez; vi também
algumas lágrimas discretas nos olhos dos guardiões a meu
redor. Todos os demais acompanharam o hino, e somente
então uma bandeira foi hasteada no pátio, enquanto todos


26 7

a fitavam, com certa reverência. Era uma flâmula de fundo
branco, que trazia a imagem do planeta Terra em três dimensões,
ao que me pareceu, de tão real se mostrava. Em
torno do planeta, várias estrelas de um amarelo suave, quase
dourado.

— O símbolo da Terra unificada — falou Semíramis
perto de mim —, da Terra pacificada.
Os guardiões pareciam hipnotizados, tal era o ardor, o
fervor com que cantavam o hino. Não conseguiria reproduzir
a letra aqui nestas páginas, pois ainda agora, quando
me lembro do evento, emociono-me profundamente. Era
algo verdadeiramente belo. Este grupo de seres vivendo
fora da matéria, unidos em favor do bem da humanidade,
e a bandeira hasteada, que não era de nenhuma pátria, de
nenhuma nação em particular, mas do planeta todo, da humanidade,
enfim — isso era emocionante de se ver. Após o
hino, cada equipe passou a se apresentar perante seu líder
ou chefe de falange, como me explicaria Semíramis, mais
tarde. Uma falange, neste posto de guardiões, era composta
de 500 espíritos. Uma legião seria algo em torno de 12 mil
entidades. Portanto, ali havia uma legião de guardiões com
diversas falanges a serviço do Cordeiro. Enquanto se apre



268

sentavam aos seus comandantes, Watab falava baixo, para
que somente eu escutasse:

— Aqui valorizamos muito a música e a utilizamos
muitas vezes em nossas investidas nas regiões das trevas e
do abismo. Além de tocar os corações mais empedernidos,
a música, principalmente em forma de hinos e marchas,
movimenta recursos fluídicos tais que nos facilitam o trabalho,
que não raro é penoso, em regiões ainda bem mais
densas do que esta onde estamos.
Durante o silêncio que logo se fez nas falanges de guardiões,
notei que os grupos se moviam lentamente, em perfeita
ordem e sincronia. Alguns ficaram de pé, mais ao fundo.
Outros, no meio, sentaram-se em pequenos bancos, que
eu nem percebera como foram postos ali. Pelo visto, ainda
teria inúmeras surpresas nesta dimensão da vida; não poderia
me incomodar com isso. A frente, outro contingente
assentou-se em lugar mais baixo, de modo que cada grupo
estava num patamar diferente, não atrapalhando o de
trás, que poderia ver tão bem quanto o da frente. Um e outro
guardião e guardiã eram chamados à frente, a fim de entoar
uma canção de sua respectiva equipe. À medida que
cantavam, uma a uma as falanges exibiram uma coreografia


26 9

própria, à frente dos demais, que ilustrava características
do trabalho sob sua alçada. Assim, fiquei sabendo que havia
arte ali, também. Mesmo nas regiões mais inferiores, a arte
era ensinada, estimulada e valorizada, de maneira a atuar
como instrumento para enfrentar os desafios apresentados
pelas entidades sombrias.

Enquanto se davam as apresentações artísticas das diversas
equipes de guardiões, Jamar falou comigo num volume
em que todos da tribuna ouviam, porém sem incomodar
ninguém:

— Todos os guardiões, no início de nossas atividades
no planeta, fomos preparados com muita pressa, a fim de
entrarmos logo na peleja do bem, contra a propagação do
mal. Aceleradamente, as primeiras equipes de guardiões
foram convocadas e, ao longo dos séculos, gradativamente,
formou-se a estrutura maior, atuante hoje nas diversas
dimensões da vida terrena. Nos dias atuais, nosso colegiado
dispõe de recursos quase ilimitados, uma vez que estamos
trabalhando com maior sintonia junto aos governadores
espirituais do orbe. Emanando do próprio Cristo e de
Miguel, o representante maior da justiça divina no mundo,
as virtudes e os poderes são transferidos e infundidos nos

270

diversos departamentos da segurança planetária. Este aqui
é apenas um dos diversos agrupamentos responsáveis pela
segurança energética da Terra. À proporção que os espíritos
se integram, estudam e se dedicam ao trabalho, sua capacidade
magnética também aumenta, de maneira que representam
considerável obstáculo aos representantes das
sombras. Nesse aspecto, somos de tal forma estimulados
por nossos superiores, por Miguel em particular, que nossa
capacidade de visão comumente é ampliada, quando estamos
a serviço nas zonas mais inferiores, na subcrosta.

"Devido à necessidade de intervenção nessas regiões e
de fazer contato com as inteligências mais sombrias e criminosas,
nossa capacidade de ver e ouvir é muitas vezes
maior do que a dos orientadores evolutivos das pessoas, ou
seja, dos mentores habituais. Há regiões no abismo mais
profundo aonde nem mesmo certos mentores têm autorização
para ir, assim como muitos nem detêm treinamento
para lidar com os agentes do mal ou as energias poderosas
presentes em seus redutos.

"Sendo assim, talvez você consiga entender — falava
Jamar, solene — a necessidade de nos dedicarmos por tanto
tempo aos estudos em regiões como esta. Temos de desen



271

volver nossa capacidade de atuar nas esferas mais densas,
abaixo de nós, tanto quanto de elevarmos nossa frequência
a regiões mais altas da espiritualidade, a fim de nos abastecermos
com as inspirações que nos orientam as tarefas."

Ao ouvir a exposição de Jamar sobre a natureza das
atividades realizadas pela equipe, enquanto observava a
apresentação dos guardiões, impressionei-me com a grandeza
do trabalho desses espíritos e da estrutura a seu serviço,
ou seja, o poder que representavam. Após ligeira pausa
para que eu assimilasse o que explicava, o guardião da noite
continuou:

— Trabalhamos profundamente ligados às estruturas
de poder superiores, aos Imortais. Deles vêm as deliberações,
as inspirações, e vez ou outra recebemos a visita de
um dos Imortais, que nos brindam com sua presença nas
regiões de transição. Servimos em sintonia com o comando
supremo dos guardiões, que mais tarde lhe apresentarei.
Aqueles que se ocupam de tarefas em regiões mais inferiores
ou densas, em lugares comumente ignorados ou mesmo
vedados a espíritos comuns, recebem intuição e orientação
dos espíritos mais avançados, que assumem encargos
em dimensões mais etéreas, menos materiais. Jamais estão

272

sozinhos os que atuam na frente de combate ou defesa. Há
uma estrutura espiritual invejável, coordenada pelo próprio
Cordeiro de Deus e por seu emissário maior, Miguel, o
príncipe dos exércitos celestiais.1 4

— Então, são todos guerreiros a serviço de Cristo? —
perguntei.

— Isso mesmo, guerreiros do bem. E assim seremos até
que a Terra esteja completamente renovada pelas diretrizes
apresentadas pela política divina.
Jamar silenciou-se por um tempo, durante o qual eu
assistia, cada vez mais interessado, às apresentações. Neste
momento, as guardiãs entraram em cena e, elevando-se ao
alto, apresentavam interessante coreografia no espaço logo
acima de nós. Semíramis parecia orgulhosa de sua equipe.
E era realmente para orgulhar-se, pois nenhuma outra
equipe se igualou à das guardiãs, especialistas singulares da
equipe geral. Em seguida, Jamar me apresentou algumas
das falanges e sua especialidade. Muitas delas estavam representadas
na Amanda, pois na universidade local davam

1 4

Cf. Dn 12:1; Ap 12:7. Cf. PINHEIRO. Pelo espírito Ângelo Inácio. A marca da besta.
Contagem: Casa dos Espíritos, 2010. p. 605-614.


273

instruções e formavam espíritos, a fim de que, mais tarde,
integrassem a grande hoste do bem formada pelos servidores
de Cristo nas regiões inferiores.

— Primeiro é necessário que você conheça a inspiração
ou concepção da estrutura montada no planeta — retomou
ele — para, depois, entender nossa própria especialização
como guardiões.
"Ninguém ignora que a maioria dos habitantes da Terra
é composta por pessoas cujo passado religioso tem grande
peso em sua formação espiritual e cultural, a tal ponto
que a maior parte é de religiosos ou ex-religiosos. Designamos
esses espíritos como agentes da misericórdia divina
quando se colocam a serviço da humanidade ou de Cristo,
ainda que conservem cada qual sua cultura espiritual ou
sua maneira de ver e pensar segundo antigas convicções.
De maneira geral, são seres que se destacam por apresentarem
característica íntima do tipo emotivo. Desenvolveram
em si a capacidade de auxiliar, embora nem sempre auxiliar
signifique amar. Descem às regiões umbralinas e exercitam
aquilo que a religião ensinou, no que concerne ao
amor ao próximo. Fundados nessa tradição, criaram cidades,
colônias e estruturas de governo do lado de cá da vida,


27 4

no intuito de acolher, conduzir ou orientar, exortar ou doutrinar
espíritos necessitados, convalescentes ou em sofrimento,
que buscam trazer das zonas de purgação. São muitas
as equipes de socorro que se reúnem sob a alcunha de
agentes da misericórdia. Mesmo entre os encarnados, são
maioria absoluta. E notável como progride na Terra, atualmente,
o número de iniciativas de ordem assistencial, de
promoção humana e de socorro aos necessitados, nos mais
diversos recantos do globo. E assim precisa ser, pois ainda
há muito sofrimento nos dois lados da vida. Não obstante,
geralmente tais servidores se encontram ligados à forma de
pensar e de ver a vida segundo o movimento religioso que
fez parte de sua história pessoal."

Jamar falava de tal maneira que eu percebia imagens
mentais a ilustrar o que me dizia. Será que ele estava realmente
projetando em minha mente tudo aquilo? Era telepatia
esse fenômeno intrigante e especial? Sem me responder
as indagações, o guardião da noite prosseguiu:

— Contudo, Ângelo, os guardiões fazem parte de outro
time, embora sempre sob a orientação de Cristo. Somos
o que se pode caracterizar como agentes da justiça divina.
Encarnados tanto quanto desencarnados, não nos detemos

27 5

para ouvir o pranto dos oprimidos nem tampouco socorrer
os aflitos. Nossa atuação visa recompor a ordem e a disciplina,
evitando que o caos se estabeleça no mundo, nas várias
dimensões. Nosso trabalho não se antagoniza com as
tarefas dos agentes da misericórdia; pelo contrário, lhe é
complementar. Enquanto um grupo se especializa em determinado
aspecto, como auxílio e amparo, ajudas humanitárias
e erguimento dos caídos, a outro grupo compete
evitar o caos. Também somos conhecidos, em algumas dimensões,
como agentes d e vibrações. Seja lá qual for o nome
pelo qual nos designam, nossa tarefa principal é fazer oposição
ao mal e estabelecer as bases da política divina, de
maneira que possamos auxiliar a Cristo na administração
e na renovação planetárias. Essa é a forma mais resumida
possível que encontrei para lhe apresentar, meu amigo, ambas
as faces do governo oculto do mundo.

"Por um lado, os agentes da misericórdia se caracterizam
pela natural propensão a ajudar sempre, quase sem
olhar a quem auxiliam, e por imprimir nas atividades certa
conotação moral e religiosa. Por outro lado, a maioria desses
espíritos entendem a própria sombra como algo indesejável.
Costumeiramente, referem-se a seu passado cul



276

poso e à necessidade de se reformarem; em seu discursa
salientam quão longe estão de atingir os objetivos supremos
do amor e das virtudes. De modo geral, com raríssimas
exceções, são espíritos que trazem um sentimento de
culpa profundamente arraigado, justamente devido à forte
influência da cultura religiosa na formação espiritual. Por
isso, não raro, nota-se em sua fala a ênfase na necessidade
de trabalhar muito e sempre, de não descansar jamais ou
quase nunca, de estudar o Evangelho o tempo todo, restringindo
a ele as conversas e explanações. Não gostam de tocar
em assuntos considerados polêmicos ou controversos e.
com frequência, são bastante políticos, pois desejam agradar
a todos, em nome da paz, do amor e da união fraternal.

"Evidentemente, isso não é um mal em si, mas difere
largamente da característica espiritual dos agentes da justiça
divina, os quais adoram entrar numa briga, desde que
ela seja útil e resolva a situação. Não são nada políticos,
quando muito se esforçam para ser diplomáticos, visando
a determinada estratégia. Definem-se abertamente a favor
da ética, mas de modo algum são moralistas a ponto de
classificar as coisas mais sérias da vida segundo um sistema
simplista de bem e mal, certo e errado, virtude e pecado.


27 7

Os agentes da justiça não temem enfrentar o mal, mesmo
que este esteja disfarçado de bem, e entram em discussão
acalorada para solucionar os distúrbios de emoção, de
comportamento ou de intrusão do mal. Embora se deixem
sensibilizar com a dor do outro, sua tarefa consiste muito
mais em enfrentar os opositores do bem no campo de batalha
do que em enxugar lágrimas. Tipicamente, não são de
falar manso, baixinho ou de forma discreta; incomodam e
polemizam quando há alguma discussão ou manifestação
de ideias. Tendem a ser mais seguros de si, pois precisam
defender o que é ético, sobre o qual têm plena convicção.
Nós, os guardiões, como já disse, somos agentes da justiça
divina, como pode notar.

"Dito isso, meu amigo, vamos à apresentação de alguns
poucos grupos entre os guardiões. Não haveria tempo de
lhe apresentar todos; eis os que mais se destacam em nossa
corporação."

Fiquei boquiaberto diante da explanação de Jamar.
Não imaginava tão grande abrangência do método de trabalho
do lado de cá da vida. Antes que ele continuasse ou
começasse a me apresentar as diversas faces dos guardiões,
ousei interrompê-lo e perguntar:


27 8

— E como classificar os espíritos que vivem na Amanda?
São agentes da justiça ou da misericórdia?
Jamar olhou para mim, como que intrigado por eu
não ter percebido isso ainda. Mesmo assim, respondeu-me
sem hesitar:

— Claro que a Amand a é uma região espiritual onde
se reúnem agentes da justiça divina. Se quiser conhecer os
amigos nossos que trabalham como agentes da misericórdia,
deverá se dirigir a Nosso Lar, Vitória Régia e outras cidades
do Além.
Sem me dar tempo para réplica, introduziu os guardiões.
Apontando cada guarnição de soldados da justiça divina,
explicou:

— Aqueles vestidos de verde-oliva são os guardiões da
noite, espíritos especializados no trato com magos negros,
os mais cruéis obsessores conhecidos no submundo — Jamar
levantou a mão, e logo uma guarnição de mais ou menos
100 soldados do astral adiantou-se em direção à tribuna,
tornando possível observá-los detidamente.
O traje que usavam impunha respeito. A calça masculina
lembrava aquela usada pelo exército alemão na Segunda
Guerra, uma espécie de bombacha. No entanto, a jaqueta


27 9

diferia bastante desse estilo; tinha traçado mais moderno,
design arrojado para a tradição militar. Mostrava gola
de padre, algumas poucas insígnias no ombro, cuja função
parecia ser distinguir a especialidade ou determinar a classe
de guardiões a que esses espíritos pertenciam. As mulheres
ou espíritos femininos que compunham esse pelotão
de especialistas desfilavam com um figurino não menos
impressionante. Todas traziam cabelos curtos, uma espécie
de quepe adornando a cabeça, calças compridas e também
usavam insígnias, porém do ombro direito. Todos, homens
e mulheres, portavam algum tipo de arma, que somente
mais tarde vim a saber tratar-se de equipamento de segurança
que utilizava radiação. Oportunamente, Jamar explicou-
me que lhe davam o nome de arma d e pulsos, cuja
finalidade é enfrentar os magos e cujo efeito é fazer desmoronar
seus campos de invisibilidade.

— Os guardiões da noite são hábeis na utilização de
magnetismo e eletromagnetismo dispersos na atmosfera
astral. Conseguem manipular com extrema eficiência esses
fluidos, independentemente de empregarem ou não equipamento
para tal finalidade. Podem usar as mãos, como se
fossem antenas, ou instrumentos guiados pelo pensamen

28 0

to — habilmente treinado durante pelo menos 40 anos, antes
de enfrentarem o campo de batalha; assim, aglutinam
raios de grande poder. Por meio dessa técnica, são capazes
de formar campos de força e de contenção em torno de espíritos
e ambientes. São eles, também, os responsáveis diretos
pelo colégio dos guardiões, na Amanda.

Fiquei impressionado já com a descrição resumida que
Jamar fazia da habilidade daqueles espíritos. Não imaginava
que fosse tão minuciosa a capacitação de seres do plano extrafísico.
Se era assim, é porque existia demanda, ou seja, decerto
havia um sistema de poder nas regiões inferiores que
precisava ser enfrentado da maneira mais eficaz possível.

Antes que meus pensamentos pudessem voar nas reflexões
produzidas pelo que eu presenciava, o guardião
continuou a apresentação. Levantou a mão e deu novo sinal.
Aproximaram-se agora os espíritos de formação cultural
nitidamente indiana. Vestiam calças brancas e jaquetas
muitíssimo diferentes das anteriores. Traziam inscrita no
peito, assim como numa flâmula branca que carregavam,
uma cruz azul, símbolo da ligação com determinada hierarquia
espiritual. Turbantes azuis encimavam a cabeça; eram
notadamente sérios, e transmitiam certa segurança e fascí



28 1

nio com sua presença. Desfilaram diante da tribuna como
os outros, apresentando-se de maneira irrepreensível, com
movimentos quase robóticos de tão alinhados. Obedeciam
rigorosamente ao ritmo da marcha; até mesmo a expressão
facial parecia sincronizada.

— Esta é a Legião de Maria — falou Jamar, empertigando-
se e respondendo ao sinal apresentado por aqueles espíritos.
Era algo como um cumprimento militar, embora muito
diferente do que se vê na Crosta. — Eles são coordenados
por Zura, um dos nossos mais competentes guardiões, que
agora está em tarefa junto aos encarnados. A maior especialidade
desses espíritos é lidar com quem cometeu suicídio
ou habita vales de dor e sofrimento. A eles coube reestruturar
os vales existentes no plano astral. Organizaram a
reurbanização do vale dos suicidas, em particular. Mediante
a colaboração de espíritos de outras áreas, transformaram
a região em um posto de socorro avançado, com hospitais,
escolas e toda uma estrutura de apoio àqueles seres,
cuja carga tóxica exige depuração, além da necessária reeducação
espiritual, mental e emocional.
"Os legionários de Maria sabem como ninguém resgatar
almas mantidas em cativeiro pelos magos negros, em


282

prisões localizadas nas zonas abissais ou na região astral
correspondente às águas oceânicas mais profundas. Agem
sempre em grupos de mais de 50 espíritos e trabalham sob
a inspiração de Maria de Nazaré. Também detêm grande
habilidade na defesa direta, à frente do campo de batalha.
Através de suas lanças, projetam poderosa radiação, emitida
por elementos radioativos retirados do interior do planeta
e ainda desconhecidos dos encarnados. Tais radiações
são capazes de desestruturar, em instantes, as construções
mentais dos magos e cientistas da oposição, além de causar

o colapso dos campos de força que estes mantêm através de
equipamentos eletrônicos e tecnologia científica."
Logo depois, outro grupo de espíritos se apresentou,
vestindo roupas semelhantes às que usavam alguns povos
asiáticos no início do primeiro milênio. Pareciam feitas de
peles de animais, embora o traço rústico não se fizesse presente
na maneira de desfilarem. Era um pelotão composto
por mais de 200 espíritos, e o ritmo como marchavam à nossa
frente lembrava muito o estilo e a disciplina observados
nas forças armadas chinesas e japonesas, nos dias atuais.

— Estes são os mongóis — explicou Jamar. — Seu comandante
é conhecido pelo nome de Gengis Khan, em ho

283

menagem ao líder mongol. Como instrumentos de combate
nas regiões inferiores, usam formas extrafísicas de
animais, tais como cavalos, os quais cavalgam numa velocidade
alucinante, deslizando sobre os fluidos mais pesados
com notável habilidade. Costumam surpreender legiões de
espíritos maus com seu armamento favorito, o arco e flecha,
tendo seu arco o formato típico dos asiáticos, bastante
curvo Na verdade, trata-se de um equipamento de alta
tecnologia forjado com esse aspecto. Quando atiradas durante
o cavalgar nas regiões mais densas, as flechas abrem
caminho, rasgando e queimando os fluidos ambientes. Ao
atingir o alvo, como, por exemplo, as construções extrafísicas
de entidades sombrias, provocam sensível estrago. Levam
a substância astralina da qual tais construções é feita a
explodir, esfacelando muralhas, casas, castelos ou qualquer
edificação das entidades do mal.

"A falange dos mongóis é muito temida nas regiões ínferas,
nos lugares onde se reúnem antigos políticos e seus
exércitos de seres sombrios. Tem agilidade e capacidade
defensiva e ofensiva comparáveis somente às dos nossos
amigos índios peles-vermelhas, que você conheceu na
Aruanda, Ângelo. Os mongóis são ciosos de seu dever e es



28 4

pecialistas nas culturas da Ásia, conhecendo mais que outros
grupos de guardiões não apenas a cultura, mas o território
astral daquele continente. Também são nossos
aliados nos planos abissais que correspondem a determinada
região do Oceano Pacífico, bem como nas profundezas
do Mar Cáspio, locais onde se reúne numeroso grupo de
magos que se graduaram nos colégios iniciáticos da Ásia.
Geralmente, entram em ação apenas quando a harmonia e
a disciplina estão ameaçadas, embora trabalhem em estreita
associação com os guardiões da noite em suas investidas.
Como disse, constituem um dos grupos mais temidos e respeitados,
notadamente naquelas regiões do submundo. O
símbolo, que pode ver desenhado na bandeira dessa falange,
consiste num lobo que parece vivo, apesar de ser apenas
um desenho."

Não havia como não se impressionar com aquele pelotão
de guardiões. Era realmente estonteante imaginar o
que era capaz de fazer. Assim que terminaram de passar à
nossa frente, outra equipe da mesma categoria veio do alto,
com seus integrantes montados em cavalos negros, crinas
bem visíveis. Fizeram uma revolução nos fluidos acima de
nós, para logo em seguida baixarem, aterrissando diante de


28 5

todos com seu armamento de guerra contra as hostes sombrias
à mostra. Eu estava eletrizado com o que via. Porém,
não se encerrou aí a apresentação dos guardiões. Logo após
veio outro grupo, desfilando com grande orgulho, disciplina
e altivez. Eram os legionários romanos, pelotão formado
por soldados do primeiro e segundo séculos, além de espíritos
cristãos daquele tempo de perseguição, que se ofereceram
para defender a política do Cordeiro.

— São orientados por Sérvulo Túlio, chefe desta legião.
Estão a postos por toda a Aruanda e são muito respeitados
nas regiões umbralinas mais próximas à Crosta.
Especializaram-se em lidar com espíritos vândalos e alguns
componentes energéticos mais densos advindos de
regiões inferiores, emitidos sobretudo por desencarnados
— tanto por aqueles em sofrimento quanto por bandos
conhecidos como quiumbas, segundo a nomenclatura
de algumas correntes espiritualistas. Os romanos sabem
rebater os dardos inflamados enviados por tais espírito e,
se preciso for, vão abertamente, à frente dos demais guardiões,
na luta contra as hostes que se opõem ao trabalho
do bem ou que investem contra as obras comunitárias, sociais
e de grupos religiosos.

28 6

Talvez para não ficar cansativo demais, Jamar passou
a me fornecer explicações antes mesmo de os espíritos se
apresentarem. O grupo do qual ele falou em seguida nem
mesmo estava presente no quartel, mas Jamar fazia questão
de falar sobre eles.

— Há também os puris. São antigos índios, não espíritos
superiores ou esclarecidos como alguns caboclos, mas
índios guerreiros primitivos, porém conduzidos e orientados
ao bem pela figura de antigos comandantes, caciques e
chefes de falange. Entre eles, temos guerreiros, no verdadeiro
sentido da palavra. Flecheiros e guerreiros das antigas
tribos de tupinambás, guaicurus e tupis-guaranis, além
de representantes de algumas nações indígenas da América
do Norte. Os puris são, por excelência, os combatentes
dos obsessores. Não são muito esclarecidos quanto a
questões de ciência ou magia, mas trabalham como recrutas,
soldados de campo de batalha, que saem pelo umbral,
sob o comando dos caboclos, em cavalos brancos, invadindo
as bases sombrias e driblando as forças das trevas. São
muito temidos por quiumbas e hordas de obsessores, pois
detêm uma força bruta invejável, além de manipularem
habilmente os fluidos mais grosseiros da natureza. Foram

28 7

exclusivamente índios, selvagens, por assim dizer, em suas
últimas encarnações.

"Como chefes dessa falange, temos os caboclos mais
ilustrados. Estes, sim, espíritos mais instruídos, em cujo
passado espiritual viveram diversas experiências como comandantes,
especialistas em ciências naturais ou, então, foram
verdadeiros iniciados de tradições ainda mais remotas,
e escolheram reencarnar entre as nações indígenas como
orientadores evolutivos. Esses caboclos são muito comumente
vistos nas ruas da Aruanda. Com certeza, em breve
saberá maiores detalhes sobre eles."

Queria muito ver tais espíritos em ação algum dia, pois
me fascinava, em larga medida, pensar sobre a cultura indígena
e ver como foram valorosos em alguns países, resistindo
à invasão do home m branco. Indignara-me numerosas
vezes, quando encarnado, ao constatar como as nações
europeias de conquistadores dizimaram a maior parte da
população e da cultura indígenas. Mais ainda, eles continuam
trabalhando no mundo oculto, mas agora em prol do
equilíbrio e da harmonia dos ambientes onde os homens da
civilização ocidental vivem e labutam. Que atitude louvável,
de tirar o chapéu...


288

Enquanto refletia a respeito dessas questões, Jamar
deu um sinal e, então, veio à frente um batalhão de mais de
700 espíritos.

— Estes são apenas os chefes de falange de outro grupo,
que é o dos exus. Os que aqui se apresentam trazem nomes
com conotação cabalística, escritos e pronunciados numa
linguagem mística, embora saibamos seus nomes particulares,
usados fora dos círculos de encarnados. Também são
conhecidos como guardiões de rua, pois sem eles a situação
nas cidades, nas rodovias, no ambiente humano, enfim, seria
insustentável, incapaz de se administrar com a mínima
ordem e disciplina.
E, como se eu hesitasse, ele reiterou.

— Sem a atuação desses espíritos, seria impossível
manter o controle e o equilíbrio nas cidades e em tudo o
mais que envolve de perto a população humana. Os chefes
ou mentores receberam especialização nas escolas da
Amand a e de algumas poucas cidades do astral superior.
"O papel mais importante que desempenham os exus.
de modo geral, é promover a limpeza energética e mental
do ambiente dos homens, além de auxiliar na manutenção
da ordem e da disciplina nas ruas e nos locais públicos. São


28 9

os guardiões que mais se assemelham à figura dos soldados
ou dos policiais conhecidos no mundo físico."

Notei que se vestiam elegantemente — pelo menos todos
ali, os chamados chefes de falange. Apresentavam-se
com ternos e trajes que lembravam seguranças de elite, que
se encarregam da proteção de autoridades e personalidades
em ambientes públicos. Ou seja, à paisana, porém elegantes,
com um porte que denotava força, domínio e autoridade.
Jamar esclareceu que os espíritos mais comuns
dessa falange, à exceção evidente de seus orientadores ou
líderes, nem sempre eram espíritos esclarecidos, mas eram
bem intencionados e guiados pelos guardiões que lhe são
imediatamente superiores.

— Bem, Ângelo, aqui você teve uma descrição resumida
de diversas equipes de guardiões que trabalham mais
particularmente ligadas a nós, aqueles que representamos
a política do Cordeiro, a que denominamos política divina.
Será convidados um representante de cada equipe que aqui
se apresentou para um momento mais íntimo com você, no
qual terá oportunidade de tirar dúvidas e se instruir mais a
respeito. Entretanto, não temos um tempo muito dilatado
à nossa disposição, pois a Amanda chama por você — aliás,

29 0

Pai João, que tem outras questões a lhe mostrar, que farão
parte de seu projeto de trabalho futuro.

Depois de um período razoável de conversa e orientações
sobre o trabalho dos guardiões, retornei à Amanda;
mais do que nunca, trazia o espírito decidido. E agradecida
imensamente agradecido por fazer parte dessa equipe de
agentes da justiça divina. Sentia-me muito envolvido com

o trabalho dos guardiões. À noite ainda teria um encontro
particular, sob a orientação do pai-velho, é claro. Aguardava
novas sensações na descoberta da vida espiritual. Queria
me preparar logo, estudar muito e me sentir o mais útil
possível, nem que fosse apenas dentro de 10 anos, como os
espíritos me disseram. Mas eu queria começar já. Na verdade,
meus estudos já haviam se iniciado, embora naquele
momento não soubesse disso.

295

UANDO CHEGUEI À Amanda, minha mente fervilhava com
tantas ideias e tanto conhecimento que haviam me transmitido
ao longo dos últimos dias. Era tal o número de coisas
novas que, sinceramente, até tentei me deitar naquela que
seria minha última noite no hotel, antes de me mudar definitivamente
para a zona residencial da cidade dos espíritos,
bem próximo à família de Laura. Insisti no propósito de
conciliar o sono, mas não consegui me acalmar mentalmente
e, então, resolvi sair, sabendo que a vida social da cidade
funcionava 24 horas por dia, ininterruptamente. Mesmo assim,
fui tomado de surpresa, pois não imaginava que era tão
intensa. Ao sair do hotel encontrei novamente a amiga Consuela.
Elegante e extravagante ao mesmo tempo, ela conseguia
juntar essas duas características de maneira ímpar.

— E então, gajo? Qual foi sua impressão das atividades
dos guardiões?
— Você já sabe que estive numa das bases dos nossos
amigos?
— Como não? — falou abrindo seu leque de maneira
chamativa.
— Puxa, as notícias parecem correr muito mais velozes
por aqui. Mal cheguei e você já sabe de tudo?

29 6

— Inclusive, sei que esta será sua última noite no hotel.
Amanhã já estará em sua própria habitação — olhou de soslaio
para mim, como me tentando a dar maiores detalhes.
— É, você sabe mesmo!
— Brincadeira, gajo! É que andei conversando sobre
você com o velho.
— Pai João?
— E quem mais? Parece que ele e o guardião estão decididos
a tutelar você por uns tempos.
Ri intimamente, de satisfação.

— Mas não fique assim tão eufórico com a situação.
Essa gente tem cada mania que você nem imagina. Trabalho,
trabalho, trabalho... descobrirá logo.
— O pior é que já descobri... Nem me deram tempo
para umas férias do lado de cá. Estou adorando. Mas e você,
Consuela, onde mora aqui na cidade?
— Nem imagina, gajo! Sofro muito só de pensar nisso.
E lá sou por acaso um espírito superior? Vivo na humildade
e na pobreza absoluta e voluntária. Me contento com uma
casinha lááá nos arredores da cidade. Discretíssima e pobre
como só!...
— Discreta? Sua casa?

29 7

Suspirando fundo, Consuela continuou, como se fosse
a mais sofredora de todos os espíritos do umbral:

— É uma casinha assim! — gesticulou com as mãos, formando
um quadrado no ar. — Retinha, comunzinha, tão
pobre, meu Deus, que nem sei ainda por que os superiores
não atentaram para tanta humildade que vai dentro de
mim. Deviam se inspirar em minha vida de absoluta pobreza
e simplicidade.
— Quero ver onde você mora, Consuela. Será que você
me convidaria algum dia destes?
— Ah! Gajo! Não sei se com seu bom gosto suportaria
ver tamanha singeleza... — falou com tanta ênfase e teatralidade
que me senti realmente tocado por suas palavras. —
Mas se é assim que quer, podemos ir lá tomar um chá ou
comer umas tapas acompanhadas de alguma bebida de sua
preferência.
Após o breve diálogo, dirigimo-nos à zona residencial
onde Consuela morava. Assim que adentramos essa parte
da cidade, realmente, como ela havia me falado, era possível
notar nos arredores a diferença em relação ao local
onde residia Laura. Eram casas belíssimas, embora a de
Laura também fosse bela. No entanto, aquelas ali pareciam


298

de outro porte, mais suntuoso. Procurava com os olhos a.
casinha da pobre Consuela, entre as demais que apareciam
à medida que avançávamos.

É que, na Amanda, o espírito escolhia viver num local
de conformidade com seus gostos; cada um idealizava o lar
de acordo com a inspiração, o momento, os sentimentos c
as emoções que lhe caracterizassem. E não havia nenhum
juízo de valor, caso alguém optasse por viver num apartamento
na região central da cidade, num bangalô singelo
nas montanhas, nem tampouco numa mansão. Em suma,
cada cidadão buscava viver em local mais compatível com
sua identidade energética, e isso sem nenhuma culpa ou
sentimento de inferioridade, ou mesmo de superioridade
Todos tinham igual acesso a tudo.

Esperei por alguns instantes ver a casa de Consuela, o
local onde ela escolhera viver com maior simplicidade. Ela
trazia estampada na face uma expressão que inspirava tamanha
comiseração que concluí que, no caso dela, lhe fora
imposto viver num casebre próximo àquelas elegantes casas
do bairro residencial, a fim de aprender alguma lição.

— Puxa, como são bonitas as residências aqui — comentei.
— E aquela casa ali, então?

29 9

Apontei para uma construção que sobressaía, de contornos
majestosos. Devia ter sido projetada por algum arquiteto
renomado. As linhas sofisticadas da edificação,
muitos vidros ou coisa parecida, rodeada por enorme jardim,
com trepadeiras que recaíam sobre as laterais da mansão.
Algo que impressionava os sentidos. Uma beleza clássica.
Assustei-me quando Consuela se dirigiu justamente
para aquele local. Acompanhei-a com meus pensamentos
em revoada. Será que ela conhecia os moradores? Me apresentaria
aos donos?

— Vamos, gajo! Mas não se assuste, está tudo una confusión;
não tenho tempo de arrumar nada. Sinto até vergonha
de lhe receber em minha humilde morada...
Meu Deus! Era o lar de Consuela!

— Ai, como sofro aqui. Fico envergonhada com meus
vizinhos. Ainda bem que eles são almas boas e entendem
minha escolha de viver num lugar tão singelo — falava quase
chorando e num tom tão dramático que parecia realmente
estar padecendo horrores.
— Mas Consuela... — ameacei falar alguma coisa enquanto
entrávamos na belíssima casa onde morava. Ela me
interrompeu:

300

— Nem me fale, Ângelo! Nem precisa falar! Bem que
eu merecia algo mais elaborado, mas devo ser um exemplo
de humildade para os que sofrem. Até tentei ser diferente
— respirava fundo, enquanto eu ficava abismado com tanto
requinte, embora sem opulência, mas assim mesmo com
tremenda beleza à volta. — Mas sabe como são as coisas
por aqui, não? A gente tem de se esforçar ao máximo para
ser referência perante aqueles que sofrem e os mais simples
de coração.
A mansão — era esta a palavra correta para descrever
a morada "humilde" de Consuela — era uma obra de arte
em si mesma. Tudo à volta, ainda que o ambiente interno
revelasse um quê minimalista, era de extremo bom gosta
Quadros impressionantes nas paredes lembravam obras
de Salvador Dali, Pablo Picasso e El Greco, além de outros
desse naipe. Consuela notou minha admiração pelas obras
de arte e logo, logo se explicou:

— São cópias muuuito mal feitas. Não tenho méritos
para ter um original destes autores...
Impressionei-me com a beleza das obras. Não havia
como não admirar algo tão majestoso. Inspirava qualquer
espírito e arrebatava a visão. Aliás, pouco a pouco percebi


301

que toda a casa se assemelhava a uma galeria de arte. Embora
no formato de uma residência, cada pormenor ali fora
disposto de modo a conceber uma galeria com a exposição
de alguns dos mais renomados artistas espanhóis. Havia
obras atribuídas a Diego Velasquez, Francisco de Goya,
Joan Miró e outros mais, talentosamente distribuídas pelas
paredes. Em meio àquilo tudo, móveis que remontavam
a épocas diferentes, conforme os cômodos da residência e
galeria. Não tive dúvidas: Consuela, com toda aquela "humildade",
era alguém ligado à arte, talvez curadora de algum
dos museus da cidade. Mas ali ela era toda humildade,
simples como ninguém. E pensar que, por um momento,
acreditei que ela realmente estivesse falando de si com sinceridade,
sobre a renúncia em viver num lugar paupérrimo
por escolha própria.

Ainda quando eu formulava esse pensamento, quase
me derretendo numa gargalhada mental, ouvi o suspiro e

o barulho do leque de Consuela atrás de mim. Na verdade,
fiquei tão absorto pela beleza do lugar e pelas obras esplêndidas
que nem me dei conta do tempo que transcorrera
desde que entrei naquele ambiente tão simples...
— Veja como sofro aqui, Ângelo! Eu mesma escolhi vi

302

ver neste casebre cheio de objetos antigos. Nada de superficialidade;
acho que tudo deve refletir a beleza interior, a
simplicidade de alma que vai dentro de nós — e falando assim,
enquanto me virava para ela, ainda não acreditando no
que via, na sua casinha tão singela, continuou. — Sei que
você me entende. Afinal, meu amigo, nós, pessoas como
eu e você e alguns poucos espíritos no mundo, sabemos o
que significa viver num local totalmente diferente da nossa
natureza; algo assim — enxugou uma lágrima invisível no
canto do olho, respirando fundo e em profundo lamento —.
incompatível com nossos mais secretos gostos e elevação.
Mas tudo bem. Já falei para o velho que aceito de bom grado
a tarefa de que fui incumbida.

Ela exagerava caricaturalmente na expressão de sua
humildade infinita. Meu Deus!... Como adorava a cada hora
viver na Amanda. Havia lugar para tudo e todos, sem cobranças
de santidade — aliás, era o que mais faltava ali, em
minha amiga sofredora. Virando-se rapidamente, com leque
em punho, o sofrimento parece ter cedido com extrema
rapidez a outro estado de espírito.

— Vamos tomar uma bebida, Ângelo. Acho que você
merece, depois de tanto penar.

303

E me trouxe minha bebida favorita, meu sagrado e aromático
vinho madeira.

— Claro que não é nada comparável aos nossos vinhos
de Espanha, mas...
— Eu aceito este sofrimento, Consuela! Eu aceito! — falei,
irônico.
E ela, brindando charmosamente, deixou de lado as
brincadeiras e exageros ao levantar a taça do mais puro
cristal e sorvermos, juntos, o delicioso vinho com o sabor
mais acentuado que já provei em toda minha vida de encarnado
ou desencarnado.

— Como disse o velho, meu amigo, aqui é o mundo original
e tudo aqui é muito original mesmo; o da Terra é que é
a cópia. E lá, pelo que sei, para aproximar-se ao máximo do
que temos no mundo primitivo e original, as bebidas precisam
ficar em barris de carvalho, passar por um processo
especial, envelhecer e otras pequenas cosas. E tudo isso
somente para se aproximar do sabor original, que é este
acá — ela falava numa mistura de espanhol e português ou
um portunhol perfeito. Rimo-nos gostosamente. E eu apreciando
o extremo bom gosto do lugar, até que alguém se
anunciou. Era o velho, como ela chamava Pai João.

304

Ele vinha acompanhado de um sujeito estranho. Aliás,
pela primeira vez vi alguém que não me pareceu habitante
do lugar. Era alto, esguio, cabelos longos e um olhar curioso,
aliás, muito mais curioso do que o meu.

— Este é um amigo encarnado, Ângelo! Está aqui desdobrado,
fora do corpo, e o trouxe para que possa conhecé-
lo — informou Pai João, após cumprimentar Consuela.
Fomos apresentados, e o sujeito à minha frente pareceu
encantado como eu pelo estilo de Consuela, impresso
em cada detalhe da decoração.

— Puxa! — exclamou. — Isto aqui é pura Espanha...
— E como não, chico? — respondeu Consuela, tomando
o rapaz pelo braço e mostrando-lhe cada cômodo.
Enquanto isso, eu e Pai João conversávamos.
— Não imaginava que Consuela vivesse num lugar destes,
lindo assim.
— Era o sonho dela quando chegou aqui na Aruanda.
meu filho. Queria fazer uma galeria de arte e viver e respirar
em meio à arte. Ela queria respirar beleza e viver assim,
recebendo visitantes que quisessem aulas de arte espanhola.
Então, nada melhor do que construir uma residência que
servisse também como galeria. Consuela é um dos espíritos

305

responsáveis, na universidade, pelas aulas de arte. Ela conhece
muito bem a história da arte, não somente espanhola,
como também de outros países da Europa. E mestra no
assunto, e não se assuste se algum dia a vir por aí desfilando
ao lado de Pablo Picasso, que vez ou outra vem nos visitar
em nossa comunidade. Consuela conhece muito bem a colônia
dos artistas e tem relacionamento estreito com eles.
Mas prefere, como diz, esconder-se por trás de seu manto
espanhol da mais profunda humildade.

— É, dá para notar a simplicidade dessa pobre alma —
brinquei, rindo gostosamente.

— Mas você notou o rapaz aí? Nosso amigo encarnado?
Queria muito que você o conhecesse melhor. Seria de muita
valia para seu futuro trabalho.
— E quem é ele? Alguém em especial?
— Alguém que servirá a você de instrumento e companheiro
de trabalho, ao mesmo tempo.
— Não entendi.
— Não precisa se apressar, meu filho. Mas como ele é
o instrumento que trabalhará junto a você, compete-lhe
aproximar-se dele, fazer amizade, estabelecer laços e moldá-
lo, como se molda uma escultura, já que estamos falan

306

do de obras de arte. Pense nele sobretudo como um amigo e
aproxime-se o máximo que puder. A partir de hoje, ele virá
aqui, a nossa cidade, pelo menos três vezes por semana.
Nós o traremos através do desdobramento, enquanto estiver
dormindo. Frequentará nossa universidade e, assim,
você terá maior tempo para aproximar-se devidamente e
fazer do médium um instrumento mais afinado. Mais tarde,
Zarthú, nosso amigo do colegiado, lhe trará mais detalhes a
respeito dele.

— Ele é médium? Sabe que está aqui na Aruanda? Tem
consciência disso?
— No momento, não! Tivemos o cuidado de interferir
em sua consciência, de maneira que as lembranças ficarão
impressas, porém inacessíveis quando estiver em vigília.
Somente no momento oportuno ele se recordará do encontro
com você. Por ora, é o que basta a ele. Mas vocês precisam
aproximar-se um do outro.
— Então ele é médium... Que estranho é o sujeito.
— Bem, é o que temos no momento. Você verá o porqué
assim que estiver mais próximo dele. Terá mais ou menos
10 anos para prepará-lo e achegar-se o máximo possível
de nosso amigo. Depois... bem, o trabalho intenso, os desa

307

fios naturais do intercâmbio. Coisas assim, como diria Consuela
— ao falar nela, acercou-se de nós novamente, ainda
de braços dados ao médium. Mas ele parecia estar absorto
com tudo ao redor. E quem não estaria?

— E o rapaz aí, Pai João? Ele sabe do trabalho que o
aguarda?
— Sabe sim, meu filho. Ele conviveu com os guardiões
no período entre vidas e sabe muito bem o que o aguarda.
Só que a mente dele foi preparada antes de reencarnar para
que as lembranças aflorem no momento certo. Mas não lhe
resta dúvida quanto à tarefa que tem a desempenhar.
— Quer dizer que neste exato momento ele não tem
consciência do trabalho que nos aguarda?
— E por aí! — respondeu Pai João, sorrindo para o rapaz.
— Ele é um velho amigo. Cuide bem de fazer uma amizade
sólida e não se assuste com o jeito dele. Com o tempo,
irá se acostumar.
— Como assim? Acostumar?
— Você descobrirá com o tempo — Pai João riu, discretamente.
— No mais, você será apresentado em breve
à equipe encarnada com quem trabalhará. Mas vamos por
partes; cada coisa tem sua hora.

30 8

Levantei-me e entabulei uma conversa com o rapaz,
enquanto Consuela, com todo aquele sofrimento íntimo,
confabulava com Pai João, talvez sobre alguma matéria que
ministrava na universidade local. Vez ou outra, ela nos fitava
com olhar enigmático. De repente, o rapaz começou a
dissolver-se à minha frente, e fiquei intrigado com o fenómeno.
Pensei logo no jeito do espírito Joseph Gleber, sair
assim, sumindo feito fantasma...

— Ele está com fome, Ângelo. Por isso o corpo físico o
puxou de volta. Neste momento, um dos guardiões o acompanha
até a base física. Não se preocupe. Esta é uma das
coisas com que você terá de se acostumar.
— Com esse tipo de sumiço? Essa dissolução total,
completa, irreversível?
— Não, chico! — intrometeu Consuela, rindo e abrindo
seu leque de maneira estrondoso. — Com a fome dele! É
algo sobre-humano...
E Pai João, juntamente com Consuela, riu uma risada
que dava gosto de ouvir, embora eu não entendesse nada
naquele momento. Mas descobriria brevemente o que significava
tudo isso que envolvia o rapaz médium. Havia outras
surpresas também... muitas outras. Afinal, seriam 10


30 9

anos de preparo! E estavam apenas no inicio.

Depois de algum tempo conosco, numa alegre conversa,
Pai João convidou-me:

— Bem, Ângelo, está na hora de irmos. Temos ainda alguns
amigos para lhe apresentar. Acho que terá uma noite
muito intensa por aqui.
Despedimo-nos de Consuela, que abanava seu leque
suspirando de tanta humildade, enquanto enxugava uma
lágrima sentida e invisível, e saímos Pai João e eu rumo às
choupanas ali perto, localizadas num dos bosques nos arredores
da cidade.

Eu via beleza em tudo, mas as choupanas e chalés eram
algo especial. A harmonia arquitetônica fazia jus ao nome
de construção ecológica. Muitas árvores no entorno, jardins
belamente floridos, crianças por todo lado... Mesmo
sendo noite na Aruanda, eu as via alegres, festivas e sempre
acompanhadas de algum adolescente, que talvez fosse
a forma como os educadores se mostrassem a elas, acompanhando-
as de perto. Imagino que assim se sentissem mais
à vontade.

Havia dezenas e dezenas de espíritos nos aguardando
num local a curta distância de uma choupana em particu



310

lar. Parecia-me um lugar de reunião ao ar livre, uma espécie
de praça ou uma clareira em meio a matas e bosques e
à estonteante paisagem natural ao redor. Seria alguma reunião
planejada, também com a finalidade de me orientar,
ou somente uma recepção, por parte de espíritos que não
conhecera ainda?

Grande era a movimentação no ambiente. Muitos espíritos
estavam ali reunidos, naquilo que parecia ser alguma
comemoração. E havia algo a comemorar em toda a cidade,
pelo jeito. Pelas conversas, deduzi que era apenas o início
de uma série de eventos em toda a comunidade, a fim de
homenagear alguém ou comemorar algo. Era o começo das
festividades.

Estranhamente para mim, ao menos pelo que observei
à primeira vista, naquele recanto havia somente espíritos
com aparência de índios brasileiros, sul-americanos e norte-
americanos, além daqueles que se mostravam como negros
de várias etnias. Os peles-vermelhas vestiam-se com
trajes que lembravam, em alguma medida, as vestimentas
típicas de suas nações indígenas, ao passo que os sul-americanos
traziam mantas de cor branca, creme ou amarela
jogadas sobre o corpo. Nenhum deles usava os célebres pe



311

nachos ou qualquer apetrecho comumente observado nos

indígenas dos diversos povos ali representados. Tão despo


jado quanto as vestes era o porte da maior parte daqueles

seres, embora se notasse em alguns um tipo espiritual gar


boso, que sugeria representarem uma hierarquia mais alta

no sistema de vida daquela comunidade.

Os negros chamavam a atenção pela aparência. As

mulheres, na maioria, vestiam trajes típicos africanos, co


loridíssimos, com os cabelos estilizados e adornando be


lamente a cabeça. Outras vestiam-se conforme o costume

observado nas baianas típicas de Salvador e do Pelourinho,

embora sem excesso de balangandãs. Era uma vestimenta

linda de se ver, de uma alvura inacreditável, ou então em

tons pastel, especialmente amarelo suave. Os bordados e

rendas eram de uma riqueza e um nível de detalhes en


cantador. Sempre, como tudo o que via na Aruanda, a be


leza e a elegância dominavam, tanto na aparência quanto

na expressão.

Alguns dos espíritos apresentavam-se nitidamente com
aparência de mais idade que os demais, porém sem que o
peso dos anos lhes roubasse vitalidade, como ocorre com
a maior parte das pessoas idosas na Crosta. Empertigados,


312

esguios em sua maioria, denotavam certo charme, vestindo
ternos e costumes claros, muitos em tecidos semelhantes
ao linho, o que lhes conferia uma aparência tropical ou
descontraída. Outros tinham roupas mais simples, porém
de extremo bom gosto. Não vi nenhuma extravagância por
ali, como de resto.

Fiquei por alguns momentos observando ao redor, enquanto
limpava meus preciosos óculos de morto metido a
vivo entre os imortais. Pai João deixou-me à vontade por
alguns instantes, pois decerto sabia de minha curiosidade e
de como eu examinaria cada detalhe. Ele, o pai-velho, sempre
muito elegante em sua forma de se apresentar, vestia
terno branco e tinha cabelos e barba bem aparados, como
se fosse para uma festa importante. E, afinal, era uma festa
muito importante, como logo pude descobrir.

Quando Pai João voltou-se para mim, sorridente e animado,
vinha juntamente com uma senhora que aparentava
ter entre 60 e 65 anos de idade, embora com o viço de
uma jovem mulher. Óculos grossos, como se precisasse deles
para enxergar alguma coisa. Sabia que ela não precisava;
no entanto, talvez fosse um costume trazido da última
experiência física. Adornada belamente com roupas que


313

lembravam as baianas praticantes do candomblé, todas de
renda, encimava-lhe a cabeça um lenço ornamentado e disposto
de maneira um tanto exótica. Teria algum significado
aquele adereço? Alguns colares de contas coloridas enfeitavam-
lhe o pescoço, mas de maneira discreta. A composição
toda inspirava bom gosto e harmonia.

— Meu Deus!... — pronunciei, num misto de admiração
e surpresa. — Será quem estou pensando? Será mesmo?
Pai João sorriu novamente, em silêncio, enquanto a
mulher veio me abraçar num abraço longo, demorado,
cheio de vida, calor e energia.

— Esta é nossa querida Maria Escolástica, a nossa Menininha
— disse Pai João, apresentando-nos formalmente.
Como admirava essa personalidade e como queria encontrar-
me com ela!
— Salve, meu filho! — falou-me Menininha, com um
sorriso cativante, irradiando uma luz suave em torno de si,
como se fora iluminada pelas estrelas.
Enquanto ela colocava o braço em torno do meu, fomos
em direção aos outros representantes daquelas culturas
tão incompreendidas pela maioria dos encarnados,
mas que ocupavam um lugar de destaque entre os filhos da


314

Aruanda. Achegaram-se a nós alguns espíritos de cultura
indígena, os quais me foram apresentados por Pai João:

— Estes são nossos amigos Pena Verde, Pena Branca,
Tupinambá, Nuvem Vermelha, Cobra Coral e Nuvem Cinzenta.
São nossos amigos de longa data e representam diversas
hierarquias espirituais dentro das nossas tarefas na
Aruanda. Podem ser chamados de caboclos ou, simplesmente,
por seus nomes de procedência indígena. Fique à
vontade, Ângelo.
Notei que alguns traziam o semblante muito sério.
Outros sorriram, embora a firmeza dos traços e a aparência
que inspirava certa altivez, própria daquela gente. Ao
sorrir, mostravam uma dentição invejável. Nenhum deles
usava a plumagem costumeiramente observada em fotografias
e gravuras dos livros. Fui convidado a ficar ao lado
de Menininha e Nuvem Vermelha, além de dois outros espíritos
de procedência africana, que me deixaram muito
à vontade.

Parecia que algum evento estava prestes a começar.
Todos silenciaram-se e alguns se posicionaram a nosso
lado, porém de forma a ver muito além, de onde parecia vir
uma nuvem se movimentando, aproximando-se da plateia


31 5

de espíritos. Não demorei muito a perceber que a nuvem
era, na verdade, um grupo de espíritos, que vinha deslizando
nos fluidos da Amanda rumo ao local onde estávamos.
Cavalgavam velozes cavalos, que pareciam galopar em pleno
ar, até se colocarem à nossa frente, como um exército de
índios — estes sim, com o figurino completo, conforme os
costumes de cada tribo. Julgo que houvesse pelo menos 5
mil espíritos em completo silêncio, dispostos como tropas
numa formação perfeita, como se fossem guerreiros prontos
para o combate.

A nossa frente, enquanto eu permanecia ao lado da
mais bela das oxuns, o Chefe Tupinambá tomou a iniciativa
e leu algum tipo de manuscrito, talvez uma reedição da antiga
carta de um velho cacique, dirigida aos homens brancos.
Desta vez, porém, eu a ouvia redirecionada, como um
apelo aos espíritos de índios, caboclos e peles-vermelhas,
concitando-os a trabalhar e ajudar os irmãos de humanidade.
A cada palavra eu me emocionava, em cada letra podia
ver, viva, a memória de um povo. E foram estas as palavras
pronunciadas pela boca de um cacique, de um espírito cuja
vida se voltara para a ajuda àqueles que um dia massacraram
seu povo e suas esperanças:


316

— Em nome do Grande Espírito do universo, queremos
hoje assegurar a amizade, a benevolência e a generosidade
de todos os caboclos com os homens da Terra. Embora saibamos
que o homem no mundo dificilmente imagina o que
nos inspira a amizade, estaremos a seu lado no momento
de despertamento da consciência espiritual. Se algum dia
as armas dos homens tiraram nossa terra e nos tiraram nossa
gente, temos a compreensão de que foi uma transição
necessária para estabelecer uma nova etapa na vida dos povos
do mundo. Nossa palavra e nossa dedicação são como
as estrelas; não empalidecem nunca.
"Aqui na Aruanda, na terra dos caboclos e de todas
as gentes, sabemos a grandeza e o valor dos nossos céus.
do ar que respiramos e do calor que aquece nossas almas.
Aqui sabemos que não somos donos da pureza do ar ou do
brilho da água. Somos apenas espíritos que os preservam,
e que um dia utilizamos tais recursos em favor de nosso
povo. Toda a Terra e seus habitantes são e serão sempre
sagrados para nossa gente, do mesmo modo como a
Aruanda representa para nós o céu onde os guerreiros se
reúnem em nome do sagrado, em nome da vida e do Grande
Espírito.


317

"Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada
véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos
os insetos a zumbir são sagrados em nossa Amanda, tanto
quanto na Terra que amamos, segundo as sagradas tradições
e crenças dos nossos ancestrais.

"Sabemos que o homem no mundo não compreende
nosso modo de trabalhar em seu favor; os religiosos muitas
vezes nos rejeitam, pois desconhecem o valor de nosso conhecimento
ou não acreditam que possamos ter sabedoria.
Mas não importa! Eles, nossos irmãos brancos e de muitas
raças, ainda ignoram que um torrão de terra é igual ao outro.
Que somos todos iguais perante o Espírito do universo.

"A terra é nossa irmã, é nossa amiga e, depois de cultivá-
la com sabedoria, o homem branco a deixará renovada
para sua descendência, e virá ele também algum dia para a
Amanda, onde verá o fruto de seus dias e o valor da natureza
à sua volta. É preciso preparar os homens para a plantação
da sabedoria, numa Terra que será a herança para seus
filhos, e o respeito a ela reverterá em seu próprio benefício.

"A lembrança dos antepassados e a ciência dos espíritos
garantirá aos nossos irmãos na Terra o direito de viverem
num mundo renovado, quando então, talvez, possamos


31 8

retornar em novos corpos, um dia, para ajudar nossos irmãos
a semearem um novo tempo, uma nova humanidade.
As cidades dos homens, cheias de vida e de conhecimento,
precisam de nós, a fim de lhes garantirmos uma vida de
paz — não a paz enganadora do silêncio, mas a paz que será
construída com muito trabalho, suor e nossa contribuição.

"Não se pode encontrar paz sem a tomada de consciência
da vida espiritual, sem saber que somos todos espíritos,
filhos do Grande Espírito, e assim respeitar nossa divina
herança.

"Aqui na Amand a é o lugar onde atualmente podemos
ouvir o desabrochar da folhagem na primavera, o zunir das
asas dos insetos ou o barulho da revoada dos pássaros; é
onde podemos conviver de maneira pacificada com o lobo.

o leopardo e a serpente. E aqui é o lugar a partir do qual
inspiraremos o ser humano para que possa aguçar seus ouvidos
e voltar a ouvir voz do Grande Espírito dentro de si
mesmo; quem sabe reaprender a ouvir a voz dos rouxinóis
e da cotovia?
"Sei que nossos espíritos preferem ouvir o suave sussurro
do vento sobre as águas e sentir o cheiro da brisa, purificada
pela chuva ao meio-dia, com o aroma do pinho, da


31 9

alfazema ou do limão. Mas voltaremos à Terra para levar essas
aragens benfazejas aos sentidos de nossos irmãos brancos;
é nossa tarefa protegê-los de seus inimigos íntimos ou
espirituais. Quem sabe auxiliemos os homens no mundo a
voltar seus sentidos para as paisagens internas, até que um
dia possam vir para a Amanda, ou para outras terras no espaço,
reaprendendo a viver como filhos do Grande Pai.

"Sabemos que o homem, nosso irmão, carece de valores
que somente daqui, da Aruanda, podemos lhe inspirar.
Assim como o ar é precioso para o homem vermelho, porque
todos os seres vivos respiram o mesmo ar — os animais,
as árvores e as flores —, os homens nossos irmãos também
são preciosos para nossos espíritos, e os abraçaremos
como irmãos quando aqui aportarem, depois de atravessar

o grande rio da vida.
"Somos considerados por muitos como selvagens, que
não compreendem como as descobertas e invenções do novo
mundo dos brancos possam ser mais valiosas que a natureza,
da qual nós, peles-vermelhas, usufruímos um dia na medida
certa, o suficiente para sustentar nossa própria existência.

"Que é o home m sem nossa ajuda? Poderá sobreviver
a si mesmo? Aos seus inimigos íntimos e espirituais? O ho



32 0

mem precisa de nós, os caboclos, os índios, os considerados
selvagens, e de todos os que habitam a Amanda, de todas
as gentes e todos os povos, para que não morra de solidão
espiritual. Não podemos permitir que o que aconteceu e
acontece com os animais na Terra aconteça também com
os homens, seus filhos e seus espíritos. De alguma maneira,
temos de ajudar nossos irmãos a sobreviver, sem afetar
a vida em torno de si. Sobreviver com o máximo de qualidade
que lhe for possível. Para isso, nossas falanges de espíritos
da natureza precisam limpar o ambiente psíquico da
morada humana, senão dentro em breve será difícil para o
homem branco respirar no próprio mundo onde vive. Lembremos,
meus irmãos índios, peles-vermelhas, puris, caboclos
de todas as nações indígenas, que tudo quanto fere a
Terra, fere também os filhos da Terra, os próprios homens,
nossos irmãos.

"Se vossos filhos viram um dia os próprios pais humilhados
na derrota, ante a exterminação de nossa raça, é
hora de nossos guerreiros, que sucumbiram sob o peso da
vergonha ao florescer a civilização dos brancos, recuperarem
sua glória, ajudando o mesmo homem a manter viva a
chama da fé no Grande Espírito e manter a Terra em paz.


32 1

Um dia retornaremos ao mundo em novas roupagens e precisamos
auxiliar agora, a fim de encontrarmos um mundo
pelo menos um pouco melhor do que aquele que deixamos.

"De uma coisa sabemos com absoluta certeza, caboclos:
o homem branco vem do mesmo Grande Espírito que
nós todos viemos, e um dia, com certeza, ele irá descobrir
que nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode
ser dono Dele, da mesma maneira como desejou possuir a
própria terra e outros seus irmãos. Então, avante, guerreiros
de Aruanda! Vamos em direção à morada dos homens,
vamos com nossos arcos e flechas, nosso grito de guerra,
limpando o caminho espiritual de todos os povos, de todas
as gentes e ajudando nossa raça — a raça humana — a melhorar-
se, a sobreviver e viver com harmonia, mesmo ante
a realidade invisível que muitos ainda desconhecem."

Encerrando sua fala, Tupinambá aproximou-se de Menininha
e falou, emocionado:

— Nosso tributo de gratidão em nome de todos os líderes
espirituais de nossa terra, do povo de Aruanda, à mais
doce de todas as oxuns, à mãe espiritual da nossa Aruanda.
Não havia como não se emocionar. Chorei, chorei, deixei
abertas as represas da alma e mergulhei meu espírito


32 2

naquela sabedoria milenar expressa ali, nas palavras de
um caboclo, um dos habitantes mais respeitados da cidade
dos espíritos.

Pai João, tomando agora a palavra, falou para mim, enquanto
as falanges de espíritos se revezavam, indo e vindo
no espaço, numa coreografia realizada sobre nossas cabeças,
de modo a nos deixar perplexos perante o movimento
que faziam, num tributo a Mãe Menininha, que visitava
a Amand a numa passagem para outros planos, outras dimensões
celestes. Pai João aproveitava a comemoração feita
pelos espíritos para me esclarecer:

— Na Aruanda, trabalhamos com uma diversidade cultural
muito grande. Os espíritos que dirigem esta falange
de caboclos e índios são, na verdade, espíritos mais experientes,
que viveram sob o sol de outros continentes, continentes
perdidos. Geralmente, Ângelo, apesar de vestirem
a roupagem espiritual dos povos que floresceram nas Américas,
como a dos índios norte-americanos e tupiniquins,
entre outros, trata-se de grandes iniciados do passado e de
antigas civilizações. Detentores de um conhecimento ancestral
invejável, muitos deles assumiram a conformação
de pais-velhos, bem como de chefes, xamãs e outras figu

32 3

ras representativas dessas raças. Com isso, intentam auxiliar
esses povos em sua caminhada de aprendizado e crescimento
espiritual. Muitos, inclusive os chefes de falange
dos espíritos que viveram no Brasil como índios, não quiseram
reencarnar entre os homens da civilização moderna.
Preferiram retornar à Terra em meio a esses povos considerados
primitivos ou ultrapassados, justamente porque aí
encontraram um espírito virgem, por assim dizer, tal como
a pedra bruta, isto é, não enredado pela maneira como os
homens brancos construíram sua cultura e civilidade. Mas,
sobretudo, porque entre os índios encontraram solo fértil
para deitar nos corações a semente da sabedoria milenar.

Enquanto as comemorações da noite prosseguiam, homenageando
a ialorixá das mais representativas da cultura
afro, Pai João prosseguiu:

— Temos aqui, em nossa cidade, os espíritos mais representativos
das nações tupinambá, tupi-guarani, apache,
comanche, navajo, dakota, sioux, pawnees e miccosukee, entre
outras tribos, além de representantes dos antigos astecas
e maias, também considerados civilizações e espíritos
primitivos por alguns, que desconhecem o verdadeiro sentido
da ciência e da sabedoria desses povos. Muitos estu

324

diosos ou iniciados da ciência pretérita — magos brancos,
sacerdotes e outros sábios — assumiram voluntariamente a
vestimenta perispiritual de caboclos daquelas tribos, assim
como de negros de etnias africanas, e hoje são os grandes
representantes desses espíritos perante o governo oculto
do planeta. Quando chegam a se manifestar através de médiuns,
nas poucas vezes em que travam contato com os habitantes
da Crosta mais diretamente, levam mensagens gerais,
de cunho moral e direcionadas à comunidade, e não
propriamente a pessoas em particular.

Como minha curiosidade sobre o tema havia sido despertada
com todo o vigor, perguntei a Pai João algo que me
causava certo incômodo:

— E qual é a especialidade desses espíritos nesta dimensão
da vida, já que conservam a aparência e o conhecimento
oriundos de suas experiências como indígenas?
— Aqui, meu filho, temos imensa variedade de contribuições
que eles prestam a nossa comunidade e a outras
do espaço. Falando de maneira abrangente, os caboclos são
grandes guardiões, defensores da lei e da disciplina, que
combatem as falanges do mal ou daqueles que se opõem ao
progresso e ao bem comum. Se necessário, investem contra

32 5

as bases das sombras, principalmente os índios puris e os
antigos guerreiros em geral. Com o poder de manipular eficazmente
as energias da natureza, representam uma força
considerável, ante a qual se dobram os agentes do mal. Os
comandantes e líderes caboclos são detentores de grande
magnetismo e, por essas razões, entre outras, são respeitados
e temidos pelas entidades do mal, desde os chamados
quiumbas até mesmo os magos antigos, que ainda persistem
em empregar seu conhecimento em oposição ao progresso
do mundo.

"Alguns, mais ligados à libertação e à reeducação do
ser humano, lideram falanges que trabalham com o sentimento
e as emoções, operando diretamente na ruptura de
imantações magnéticas que vinculam indivíduos a formas-
pensamento e entidades perversas. Entre os mestres ou líderes
espirituais dessas falanges, há muitos cientistas que,
sendo conhecedores da natureza, atuam nos laboratórios
da Aruanda e de outras comunidades do espaço, de modo
a auxiliar a humanidade. Contudo, quando se mostram a
médiuns encarnados ou em outros momentos, como sucede
agora, transfiguram-se e assumem a aparência que mais
lhes faz sentido, de acordo com o que realizarão."


326

— E com relação ao que se passa aqui, meu pai, o que
está ocorrendo, na realidade? O que se comemora com a
presença de tantos de espíritos, verdadeira legião de seres
que aqui comparecem esta noite? Noto que chegam mais e
mais espíritos de todo recanto da cidade.
Pai João, olhando mais a meu lado, apontou para Menininha
e falou:

— Os representantes das culturas negra, indígena e outras
mais de nossa cidade vêm prestar reverência e homenagem
à mais conhecida e respeitada missionária da cultura
afro no Brasil. Oxum nos honrou passando o último ano
aqui conosco, na orientação de muitas almas advindas desse
celeiro cultural; aproveitou a estadia em nossa comunidade
para realizar conferências dirigidas a grande número
de espíritos. Hoje recebe nossa homenagem e despedida.
Daqui, logo partirá rumo a altos planos, em regiões por nós
ainda desconhecidas.
— Lembro-me bem da música, ou melhor, da oração de
Dorival Caymmi dedicada a ela.
E Menininha, a meu lado, apertou meu braço discretamente,
como dizendo para não comentar nada mais. E me
calei. Mas não poderia deixar de lembrar aquela maravilha


32 7

de saudação, de homenagem e reverência à personalidade
missionária da oxum do Gantois.

Logo após, os espíritos negros, africanos, baianos e outros
representantes da cultura afro, desfilaram, tocaram
atabaques e outros instrumentos, ao som dos quais muitos
interpretaram uma coreografia maravilhosa em pleno
ar; em seguida, desceram majestosamente à frente da sacerdotisa
do Gantois, iluminando os céus da Aruanda. Enquanto
a saudavam, flores iluminadas caíam sobre toda a
plateia de espíritos; pétalas de rosas exalavam um perfume
indescritível e derramavam-se sobre nós. Reverenciavam a
oxum mais bonita entoando canções numa língua que me
era desconhecida; elas falavam da generosidade, do trabalho
e da grandeza dessa alma que viera ter com seu povo na
cidade dos espíritos. Pais-velhos, mães-velhas, caboclos e
tantos mais se uniam numa sinfonia da cultura negra e dos
orixás, e apresentavam-se na mais bela comemoração que
já presenciei até hoje.

Depois de tudo, ainda ouvindo ao fundo as músicas e
melodias entoadas por uma espécie de coral de seres de
procedência nitidamente africana, eis que surgiu alguém
entre nós, descendo do alto. Fazia-se acompanhar por


32 8

mais de uma centena de espíritos de ex-escravos, negros
e mulheres vestidos de maneira sui generis, de conformidade
com os costumes do candomblé de kêtu. Caminhando
numa estrada de flores — rosas brancas, lírios e outras
mais, que se mesclavam ao formar um tapete iluminado
e perfumoso —, vinha a entidade com os braços abertos
na direção da oxum mais bela entre todas as oxuns. Menininha
se despedia da Aruanda para rumar a outros sítios
do universo. Uma voz melodiosa, que tocou o coração d e
todos nós, formava o pano de fundo para se despedir d a
alma iluminada que desceu até aquele lugar abençoado. á
semelhança de um diamante encravado entre as estrelas
do firmamento.

Menininha abraçou cada integrante das nações africanas
ali presentes, abraçou e abençoou cada uma das entidades
representativas das comunidades da Aruanda. Na ponta
do rastro de luz que descia sobre todos, ela alçava voo a
outros recantos do mundo espiritual — insondáveis, ao menos
por ora, ao menos para nós. Não houve quem não ficasse
profundamente tocado diante daquela cena. Pela primeira
vez, vi Pai João chorar. Os demais caciques, xamãs e
líderes espirituais das falanges da Aruanda ajoelharam-se


32 9

respeitosamente, saudando a mulher que, com seus encantos
e encantados, deixou sua marca eterna no coração e na
vida de tanta gente.

Naquela mesma noite, em homenagem à mais linda
estrela da Bahia e em nome do colegiado de espíritos
da Amanda, Pai João inaugurou uma reserva natural, um
museu a céu aberto nu m dos lugares mais belos de nossa
cidade espiritual, que foi batizado de Museu Natural Menininha
do Gantois. Tratava-se de um tributo aos negros
ex-escravos, aos povos que trabalharam e viveram sob o regime
da escravidão e, uma vez libertos, brilhavam, muitos
deles, como estrelas na eternidade, mas principalmente na
Amanda, pois era este o caso de grande parte de seus habitantes.
Ao longe, os tambores rufavam, e novo espetáculo
de dança contemporânea era realizado por artistas da cultura
afro, que saíram bailando atrás da comitiva que conduzia
oxum a seu orum.15

Amanda estava em festa. Pais-velhos, mães-velhas e outros
cidadãos reuniam-se para conversar sobre as características
daquele museu e para apreciá-lo, uma vez que fora

15 Orum. Do ioruba: mundo dos espíritos, Além.


33 0

especialmente projetado, nos mínimos detalhes, visando representar
os povos da mãe Africa com o máximo de deferência.
Tremulando sob o pórtico dos orixás, as bandeiras
de todas as nações do continente africano formavam um espetáculo
à parte.

Retirei-me da multidão de espíritos verdadeiramente
emocionado. Vi os pais-velhos caminhando e confabulando
entre si, muito embora não se portassem da maneira caricata
comumente observada nos terreiros, isto é, curvados e
usando palavreado de pessoas idosas e sem escolaridade. Ao
contrário, apresentavam-se eretos e articulados, cada qual
se vestindo segundo as preferências pessoais. Alguns trajavam
terno branquinho, parecendo de linho, enquanto outros
seguravam um cajado, ou então uma espécie de bengala,
e outros, ainda, simplesmente andavam, portando-se
como um idoso saudável dos dias atuais. Demonstravam
uma beleza incomum, uma alegria e um sorriso contagiante.

Muitas vezes, presenciei gargalhadas entre eles, talvez
observando este ou aquele aspecto das coisas a seu redor
ou, quem sabe, do comportamento excêntrico de certos espíritos.
Pude vê-los, naquele momento e em outros, geralmente
em intensa atividade por todo o ambiente social da


331

cidade. Pelo que pude notar, gostam muito de se vestir de
branco, inclusive as mães-velhas, tanto as que se mostram
negras como as que se apresentam como brancas. Assim,
não encontrei aqui apenas pretos-velhos e pretas-velhas.
Também havia ali muitas brancas-velhas; muitas índias
idosas, que conservavam esse aspecto porque talvez lhes
recordasse algum momento precioso que viveram em alguma
de suas existências.

Ainda quando eu fitava os habitantes daquela joia espiritual
a que chamávamos Amanda, Pai João aproximou-se
de maneira lenta, quem sabe para não atrapalhar minhas
reflexões. Pela primeira vez, percebi sua aproximação sem
precisar me virar para vê-lo. Ri intimamente de alegria,
pois já conseguia entrar em contato com a aura do outro espírito,
percebendo-lhe a presença. Caminhando a meu lado
por um bom tempo, sem dizer palavra, Pai João respeitou
meu silêncio até que lhe dei um sinal, um pensamento apenas,
e ele falou:

— Estes são os fundadores da nossa cidade, meu filho.
Representam os povos que um dia aportaram do nosso
lado da vida e ergueram as bases de uma civilização na
parte mais etérea dos fluidos do planeta. Tenho certeza de

332

que um dia, num futuro bem próximo, você dará voz a muitos
deles através da pena, da escrita, falando das belezas da
imensidade ao mundo dos nossos amigos encarnados, ajudando
a retirar o véu do preconceito, que nubla a mente de
muitos dos filhos da Terra.

— Eu, Pai João? Não me sinto preparado para uma tarefa
de tamanha responsabilidade. Diante de tudo que têm
me mostrado, da realidade dos guardiões, dos pais-velhos,
caboclos e outras entidades que trabalham pelo bem da
humanidade neste mundo invisível, sinto que terei de reaprender
muita, muita coisa. Toda minha cultura mostra-se
ínfima perante a riqueza e a diversidade cultural que encontrei
aqui.
— Pois é, meu filho, todos temos muito a aprender. Mas
é preciso ter coragem para devassar o mundo invisível sem
a visão preconceituosa e deturpada que muitos fazem da
vida espiritual. Em breve, você será chamado à luta. Novos
horizontes se abrirão a seu olhar espiritual, e nós, os mensageiros
da Aruanda, jamais o abandonaremos.
Abraçando-me como a um filho, senti-me aconchegado
nos braços amigos da entidade que aprendi a admirar e
respeitar, sob o nome de Pai João de Aruanda. Quando abri


333

os olhos, depois desse aconchego de almas, vi a nosso lado

o médium que o pai-velho me apresentara em casa de Consuela.
Estava junto dela e fora trazido ali pela própria espanhola,
que viera participar da festa.
Ao longe, as estrelas do firmamento pareciam festejar
a passagem de Menininha pela Amanda, ao passo que por
toda a cidade havia festa, música e apresentação de vários
artistas da imensidade, muitos advindos de outras cidades
espirituais. Fervilhava de gente nossa comunidade.

Levando em conta a presença de Pai João a meu lado,
de Consuela e do rapaz com o qual deveria me habituar,
com vistas a uma parceria, aproveitei para passear pela cidade
e conhecer aspectos da vida espiritual ainda ignorados.
Era uma oportunidade ímpar para entrar em contato
com espíritos de procedências as mais variadas, analisar
aspectos da cultura espiritual em incontáveis pormenores
e matizes; enfim, me enturmar, como diriam alguns amigos
na Terra. Eu renascia entre as estrelas, mesmo que para renascer
tenha sido necessário morrer primeiro, a fim de despertar
para esta tão intensa vida, em outra dimensão.


337

STAMOS CANSADOS DE esperar os acontecimentos na Terra!
— falou o guardião Antony Heppkins para a guardiã
Merlíades, com um timbre de voz que demonstrava irritação.
— Já há um ano temos vigiado bem de perto a situação
e visto como se complica dia a dia a política e as relações
internacionais desses países que o guardião superior
pediu que observássemos. Estamos praticamente sem notícias
sobre o que nossa base principal na Lua tem avaliado,
visando intervir na região em que detectamos a possibilidade
de um conflito iminente. Gostaria de saber se Jamar já
está no lado oculto da Lua, se preparando para a interven


ção ou, ao menos, se obteve permissão do governo do planeta
para isso.

A base móvel dos guardiões continuava girando sobre
a região espiritual no Oriente Médio, entre a península da
Arábia e o Irã. Mais precisamente, a fortaleza voadora dos
guardiões policiava a corrente astral em determinado ponto,
localizado geográfica e estrategicamente acima do Golfo
Pérsico. O comando da estação móvel estava sob a responsabilidade
da guardiã Merlíades, especialista nos conflitos
da região. Um dos especialistas de plantão, espírito bastante
esperiente em matéria de possibilidades mentais e telepa



338

tia, de nome Ashter, tentava captar pensamentos ou formas-
pensamento dos líderes dos países vizinhos e dar-lhes as
devidas interpretações. O resultado das observações era encaminhado
diretamente para a base principal dos guardiões,
situada no satélite natural da Terra. A mente de Ashter permanecia
atenta ao que ocorria junto aos governos da região:
Emirados Árabes, Arábia Saudita, Bahrein, Kuwait, Qatar.
Irã e Iraque. Tanto Ashter quanto Merlíades eram especialistas
na cultura, na mentalidade e na política dessas nações.

— Recebemos ordem de esperar e ficar de olho na região,
pois há um conjunto de fatores que indica a presença
de magos negros e alguns outros representantes de poder
do submundo a se concentrar nesta região astral. Um conflito
é iminente, não há dúvida.
Antony Heppkins passou a mão entre os cabelos perfeitamente
aparados, de cor acobreada, num claro gesto de
impaciência.

— Está bem, está bem, Ashter. Acontece que eu sou um
guardião, e não um animalzinho que fica sentado à espera
do dono, nem me presto a ficar inerte enquanto forças da
oposição se reúnem, colocando em risco a segurança energética
do planeta.

33 9

— Sua fala significa algum tipo de insinuação sobre a
responsabilidade de nosso comandante, Jamar? Porque, se
for assim — intrometeu-se Merlíades —, sua postura será
interpretada como insubordinação e indisciplina, guardião.
Antony pediu desculpas pela forma como falara ao especialista
e tentou se justificar. Mas a guardiã era intransigente
e não permitiu que ele continuasse com a postura
inquieta. Passou-lhe uma reprimenda à altura da responsabilidade
assumida por eles. Alguém na base voadora deu
uma gargalhada estridente, descontraindo o ambiente.

Os especialistas em visão à distância Mário Pitanga e
Simon Ormutz entreolharam-se, mas ficaram quietos. O
primeiro era expert em política internacional, e ambos pertenciam
ao grupo de força psíquica do exército especial dos
guardiões. Admiraram-se de que Antony tivesse ficado tão
quieto assim após a repreensão da guardiã, pois lhe conheciam
o jeito de agir e reagir às situações. Com a cara mais
inocente do mundo, depois de um tempo mais longo, Antony
fez um comentário, como se não houvesse falado nada
anteriormente:

— A base lunar está cada vez mais capacitada. Parece
que Anton e seus auxiliares recebem a cada dia mais e

34 0

mais tecnologia de dimensões superiores. Imagino até que
saibam de algo iminente e comprometedor sobre esta região
do planeta.

Outra base móvel dos guardiões, ainda que de proporções
bem maiores, orbita o planeta, em velocidade pouco
maior do que a da rotação da Lua, porém em sentido contrário
a este movimento, a uma distância aproximada de
200 mil quilômetros da superfície do planeta. Isto é, pouco
mais da metade da distância que separa a Lua da Terra.
Nessa base, outros guardiões observam detidamente
a ação de entidades perversas e sombrias que tentam influenciar
de modo decisivo a estrutura de poder nos governos
do mundo. Existem várias bases espalhadas estrategicamente
pela região astral da Terra. A base sob o comando
de Merlíades era uma das mais importantes, pois se localizava
estrategicamente num dos pontos de maior conflito
do Oriente Médio e, afinal, de todo o globo. Todos os guardiões
nesse centro de operações especiais usavam o mesmo
uniforme, e dificilmente se distinguiria o posto ocupado
por eles através de sinais externos.

— Como faremos para intervir no caso de uma guerra
entre os países envolvidos no jogo de poder desta região?

34 1

— Já disse anteriormente — falou Merlíades, sabendo
que seu nome era alvo de brincadeiras entre os guardiões,
pois era de procedência persa, algo que a maior parte não
entendia, de modo que soava estranho aos ouvidos deles. —
Só agiremos depois que nosso comandante Jamar trouxer
as ordens da Lua. Até lá, faremos todo o possível para entender
a situação por aqui, anotar cada lance que ocorre nos
bastidores da vida, no que tange aos países observados, e,
com base nisso, elaborar estratégias de ação para sugerir no
caso de deflagrarem a guerra que se esboça no horizonte.
Antony tentou mais uma vez interferir:

— Conforme vinha dizendo... — esboçou ele.
Mas a guardiã foi mais ágil e ardilosa e, pela primeira
vez, Merlíades o surpreendeu, quase mudando o rumo da
conversa ou, talvez, dando-lhe novo enfoque:

— Que tal pedirmos a Jamar que entre em contato com
a Amanda? Como se trata de uma metrópole itinerante,
ou seja, que pode se deslocar nos fluidos do planeta, talvez
possam nos auxiliar mais diretamente nesta região.
Antony ainda refletia sobre o que pretendia dizer
quando o novo comentário de Merlíades modificou completamente
o rumo de seus pensamentos. Mas como lhe


342

era característico em certos momentos, pensava uma coisa
e falava outra completamente diferente. Dessa forma, somente
Merlíades e Ashter, capacitados a se aprofundar nos
pensamentos de outros, conseguiram interpretar de forma
correta o que o guardião queria efetivamente dizer. Os demais
ficaram sem compreender o sentido de suas palavras:

— A esta altura, a situação deve ser ainda mais difícil
em relação aos espíritos das regiões sombrias, já que os magos
se intrometem junto com cientistas que desenvolveram
a habilidade hipnótica... Talvez somente especialistas
consigam ficar imunes aos hipnocomandos desses seres. Se
Amanda enviasse alguns de seus peritos!
Merlíades olhou para Ashter, trocando impressões que
ficaram somente no nível mental mais profundo, imperceptíveis
aos demais guardiões.

— Entrarei em contato imediato com Jamar — falou a
guardiã, de certo modo reconhecendo a habilidade de Antony
em prever certos lances de um conflito de caráter mais
abrangente. — Com certeza ele saberá como proceder ao
entrar em contato com os administradores da metrópole.
Antony sorriu intimamente. De alguma forma conseguira
influenciar a opinião da guardiã. Ele tinha absoluta


34 3

convicção acerca da urgência que cercava os acontecimentos.
Enquanto Merlíades assumia o posto de comunicação
da base, Antony comentou num tom mais baixo que o usual:

— Se continuarmos sentados só observando, talvez ocorra
uma tragédia muito maior do que esperamos. Os governantes
da região e de outros países que lhes são antagônicos
talvez sejam induzidos por comandos hipnóticos dos
especialistas da oposição. Os magos e cientistas do astral
inferior não brincam em serviço. Não podemos ficar dando
uma de espiões, apenas. Temos de advertir as diversas
cidades no espaço, a fim de ficarem em prontidão, pois
uma guerra se precipita e não sabemos a extensão dos danos
nem a quantidade de espíritos que poderão abandonar
o corpo físico de maneira brutal. Eis um problema difícil de
enfrentar, até mesmo para os poderosos guardiões.
O especialista Simon Ormutz acrescentou:

— Temos de contar com a estação móvel dos guardiões,
que descreve a órbita em torno do planeta. Com seu potencial
de trabalhadores e especialistas, talvez consigamos interferir
decisivamente no palco dos conflitos.
Foi nesse momento que Ashter comentou, talvez soando
como se estivesse advogando a causa defendida por Antony:


344

— Como você disse, amigo, a base móvel descreve uma
órbita em torno do planeta, mas, obedecendo ao conjunto
de forças naturais do orbe, não pode nem acelerar nem
reverter sua trajetória. A base não pode se virar constantemente
para a Crosta. Por isso, acho acertada a presença
de uma metrópole que possa controlar seus movimentos
para onde quer que sejam necessários. Além da Aruanda,
temos mais duas outras cidades espirituais que podem nos
socorrer. Uma está sobre os céus da Europa e outra, sobre
a Antártida. Elas também podem se deslocar, em caso de
necessidade.
Ashter conseguiu convencer os guardiões com seus comentários.
Mais uma vez, Antony riu silenciosamente. Ele
sabia da urgência da situação. O Golfo Pérsico era um barril
de pólvora prestes a explodir.

Quando Merlíades conseguiu contato com a base dos
guardiões, localizada em regiões mais profundas do plano
astral, Jamar já estava atento e imediatamente convocou
enorme contingente comandado pelo oficial Watab. A
nave ou, melhor dizendo, o carro voador que transportava
um contingente invejável de guardiões da noite tinha mais
ou menos 300m de diâmetro e era protegido por um gigan



34 5

tesco campo energético, imperturbável e impenetrável. Representava
um poder que não poderia ser ignorado pelas
forças do mal e da oposição à política do Cordeiro. Havia
um transmissor montado no portentoso aeróbus, desenvolvido
especificamente para enfrentar tempos de guerra.
Emitia constantemente um chamado para diversas cidades
e colônias astrais, principalmente as mais próximas da região
onde o confronto se desenhava.

Próximo ao local onde ficava o transmissor, numa sala
mais ampla, estava um destacamento de vanguarda dos
guardiões, que partiria rumo aos lugares críticos e a determinados
países, que haviam se aliado para enfrentar a
possibilidade da guerra, mas que, no final, teriam participação
mais intensa. Estados Unidos, Grã-Bretanha, França,
Arábia Saudita, Egito e Síria eram os alvos principais para
onde o grupo seria enviado, na tentativa de administrar
ou amenizar a provável intervenção internacional na região.
Outro comando de guardiões ficou de prontidão junto
aos governos do Irã e da antiga União Soviética, procurando
incitá-los de alguma forma a intervir, numa tentativa
de paz entre os países envolvidos. O conflito do Golfo estava
armado, e as forças dos guardiões, de prontidão, deslo



34 6

cavam seu exército composto de espíritos das diversas falanges:
mongóis, legionários de Maria, guardiões da noite e
outros especialistas. Além do mais, aguardavam uma equipe
de pais-velhos peritos no trato com os magos, pois a região
espiritual nas imediações do evento que se precipitava
constituía um ponto de concentração de antigos magos das
remotas civilizações da Pérsia e da Babilônia.

A nave dos guardiões percorria o espaço dimensional
entre os planos astral e físico, cercada pelo campo defensivo
iluminado numa cor azul-turquesa intensa, que a protegia
contra qualquer ataque. A Aruanda, respondendo ao
chamado dos guardiões, deslocava-se, qual fortaleza poderosa,
movida por forças gravitacionais direcionadas e devidamente
controladas por técnicos especialistas. Enquanto
realizava uma manobra ligeira, imperceptível aos habitantes
da comunidade, foram evacuados mais de 5 milhões de
espíritos visitantes, que estavam na cidade apenas para estudo
ou lazer. Restaram apenas os habitantes da cidade.

O conflito no plano físico era dado como certo, principalmente
devido às posturas do ditador da região, que se
envolvera em antigas disputas territoriais. Ele assumia esse
posicionamento naquele momento histórico perigoso com


347

a desculpa de defender sua política de preço do petróleo.
Além disso, exigia absurdas indenizações do país vizinho.

No meio daquele confronto de dimensões espirituais e
históricas foi que tive meu primeiro contato com as forças
que costumeiramente os guardiões chamam de forças da
oposição. Esse termo fora cunhado para designar as hostes
inimigas do bem, contrárias à política do Cordeiro, nome
dado ao governador espiritual da humanidade, mais conhecido
entre os homens pelo nome de Jesus Cristo.

Estava a bordo do poderoso comboio, que mais parecia
uma nave de guerra. Havia especialistas por todo lado. Da
Amanda, chegaram também diversos pais-velhos, que, tão
logo se materializaram no ambiente da nave, transformaram
a vestimenta perispiritual, de modo a assumir a aparência
que tiveram em encarnações mais recuadas, como
magos brancos e sacerdotes dos colégios iniciáticos antigos.
Precisavam enfrentar os magos que se reuniam numa
localidade entre os rios Tigre e Eufrates, onde no passado
existiu importante centro de iniciação espiritual.

O enorme comboio se colocou acima dos Montes Taurus,
na Turquia, numa região logo ao norte da ilha de Chipre,
e aí fixou a base dos guardiões. Antes mesmo que fos



348

se decretada a guerra, Pai João, secundado por sua equipe
especialista no trato com os magos, juntamente com Jamar.
localizaram uma base dos temíveis magos negros numa dimensão
subcrostal que ficava abaixo da região de Al-Qurna,
no sudeste iraquiano. Ali foram concentrados os esforços
dos guardiões e dos pais-velhos. As cidades espirituais
do Velho Mundo foram todas acionadas para ficarem em
estado de alerta, caso houvesse descarregamento de uma
cota extra de ectoplasma na atmosfera espiritual do planeta,
devido aos prováveis desencarnes em massa. Havia mui


ta tensão no ar.

Voltando sua atenção para mim, Jamar falou, não me

dando margem para discordância:

— Você permanecerá conosco por um pouco de tempo.
Ângelo. Não convém que se exponha diretamente e de maneira
intensa ao embate de forças discordantes. Pelo menos,
ainda não. Portanto, não estranhe se, depois de algum
tempo, o convidarmos a retornar à cidade e ficar ao abrigo
das energias aqui desencadeadas.
— Mas eu gostaria de participar...
— Como eu disse — acentuou Jamar —, ficará certo tempo
conosco, mas não podemos colocar em risco sua integri

349

dade espiritual, pois é recente sua estadia conosco. É preciso
entender que nem tudo pode ser conforme queremos.

Não havia como debater com o guardião. Meu anjo protetor
não deixava dúvidas quanto à sua decisão. Só me restava
calar e torcer para que pudesse ver a maior parte dos
lances do conflito iminente. Precisava recolher informações,
mas não sabia até que ponto minha presença seria útil
a mim ou prejudicial à ação dos guardiões. Eu esperaria.

Num plano dimensional próximo à Crosta, diversos
servidores do Cordeiro se reuniam na base móvel dos guardiões,
o grande comboio, com o intuito de discutir temas
importantes para o momento, em que a guerra era por demais
significativa e determinava, no cômputo do tempo, o
inicio de uma nova etapa do processo de seleção e colheita,
como se referiam ao período intenso de atividades vivido
pela humanidade. Jamar expedira um boletim no qual,
além da dar notícia dos acontecimentos que se desenrolara
m no plano dos homens, convocava as comunidades do
espaço a somarem esforços para enfrentar os horrores de
uma guerra iminente e de graves consequências globais.
Vieram representantes de várias colônias e cidades do
Além, reunidos em prol da humanidade. Entre os espíritos


35 0

ali presentes, Merlíades e Antony, Asher e outros mais da
equipe aguardavam os próximos lances.

Entre os desafios apresentados tanto por Jamar quanto
por Semíramis e Pai João, estava a necessidade de ampliação
das áreas adjacentes às cidades espirituais e colônias
do plano astral. Era preciso capacitar as cidades vibratoriamente
mais próximas da Terra a receber os milhares de
espíritos que desencarnariam em condições traumáticas e
em pequeno espaço de tempo. E isso não exclusivamente
naquela guerra que fora decretada pela insanidade de um
tirano, mas também em cataclismos como terremotos, tsunamis,
maremotos e outros mais, cuja incidência aumentaria.
A isso se somariam outros conflitos bélicos e revoltas,
atentados e outros atos de violência, patrocinados pela insensatez
humana, redundando no aumento do número de
desencarnes em massa.

— Precisamos invocar o auxílio dos espíritos construtores,
pois haverá necessidade de ampliar as áreas de
socorro nas colônias, cidades espirituais e metrópoles do
plano astral mais perto da Crosta — falou Pai João, agora
numa roupagem fluídica diferente da habitual. — Os chamados
postos de socorro, localizados em regiões inóspitas

351

do conhecido umbral e em dimensões mais densas, não
somente devem ser ampliados, como também devemos
formar mais trabalhadores. Temos na Aruanda o cadastro
de numerosos seres, ainda encarnados, que poderão servir
de auxiliares desdobrados. Colocaremos nossos registros
desses filhos à disposição das diversas cidades e colônias
do astral.

Olhando atentamente os espíritos que participavam da
reunião emergencial, o pai-velho continuou, acentuando
mais ainda suas palavras:

— As várias cidades espirituais que se apresentaram
para colaborar nos eventos críticos que enfrentaremos precisam
aprimorar a rede de comunicação, estabelecendo
intercâmbio eficiente entre elas tanto quanto com todo o
sistema de cidades do plano astral do planeta, a fim de receber
e compartilhar recursos e orientações do Alto. Uma
rede de comunicação estreita e funcional deve entrar em
operação urgentemente.
Após dar um tempo para os diversos espíritos processarem
as ideias, o pai-velho continuou:

— Nós, da Aruanda, podemos oferecer nossa universidade
e seus diversos departamentos para a formação de

35 2

trabalhadores, que poderão ser encaminhados para servir
nas diversas frentes de batalha espiritual. Nosso amigo Anton,
um dos representantes maiores dos guardiões, enviará

o registro de médiuns e trabalhadores de diversos países, a
fim de que se faça um apelo para que unam seus esforços
neste momento crítico.
Quanto a mim, ficava o tempo todo somente ouvindo,
pois ainda não tinha adquirido nenhuma habilidade para
me dispor como servidor nesta hora grave. Observei como
os representantes de algumas cidades espirituais estavam
muito sensíveis ao que se desenrolava no Oriente Médio.

Foi quando Semíramis tomou a palavra e complementou
a fala de Pai João:

— Algo também me preocupa a partir deste momento,
que, para nós, é somente o início das provações coletivas.
Falo, ainda, sobre a necessidade de preparação das cidades
espirituais. A readequação das cidades e a capacitação de
mais trabalhadores precisam ocorrer de maneira planejada
e inteligente, a fim de formarmos trabalhadores com competência
e discernimento, e não somente com boa vontade. Assim,
teremos a possibilidade de socorrer e amparar os seres
que desencarnarão com o máximo de habilidade e eficácia.

35 3

"Não podemos esquecer que quem virá da Terra nos
próximos anos, em levas ou desencarnes coletivos, será proveniente
das experiências mais variadas, no que concerne a
religiões e cultos. Então, pergunto: como promover a adoção
de uma linguagem que, se não todos, ao menos a maioria
compreenda? Creio que precisamos nos reunir, tanto os administradores
quanto os líderes de equipes das diversas cidades,
a fim de ajustar um método eficaz de cumprir a missão
que está diante de nós, além de estabelecer uma cadeia
de auxílio mútuo, levando em conta os desafios de abrigar e
conduzir milhares de espíritos que reclamarão amparo."

Entendi que nem para os espíritos mais experientes
era fácil lidar com culturas espirituais tão diversas como
as que existiam em torno do globo terrestre. O problema
cultural e religioso persistia, além da sepultura, como um
grande desafio, agravando-se nos momentos de crise espiritual
e resgates coletivos.

Ainda com o mesmo pensamento, Astrid pediu a palavra
para comentar:

— Sei que pode ser prematura esta proposta, principalmente
numa hora de urgência como esta, mas aproveito a
presença de representantes das diversas comunidades do

35 4

espaço para fazer um apelo. Precisamos enfrentar um desafio
muito grande, mas que, encarado em conjunto, pode
surtir um resultado valioso e facilitar o trabalho no futura
O desafio que vejo se esboçar é o de inspirar os servidores e
aprendizes dos diversos cultos e religiões, principalmente
os de cunho espiritualista, onde ocorra atividade mediunica
ostensiva, a se unirem e deixarem de lado as diferenças
em prol de um ideal maior.

Notei que alguns espíritos se entreolharam, pois, entre
os que faziam parte da assembleia naquele momento, alguns
não pertenciam a ramos que admitiam declaradamente
a prática mediúnica. Havia, por exemplo, cinco espíritos
representantes da crença católica, provenientes de cidades
espirituais que foram construídas dentro desse ideal, além
de dois membros de colônias de feição manifestamente
evangélica. E a palavra de Astrid pareceu mexer muito com
eles. Pai João, habilmente, conseguiu deixá-los mais à vontade,
embora vissem alguns dos espíritos da Aruanda com
certa reserva. Mesmo assim, colaboraram ante o apelo dos
guardiões e se colocaram prontos a servir. Pelo menos ali e
naquele momento, deixaram de lado os pontos de vista discordantes
para auxiliar como podiam.


355

Além deles, pais-velhos, caboclos e espíritos que se apresentavam
neste momento com forma diferente da habitual,
todos atenderam ao chamado deflagrado pelos guardiões.
Havia colaboradores do extremo oriente asiático, médicos
do espaço e espíritos comprometidos com o bem ligados à
religiosidade do povo brasileiro. Ainda se viam espíritos procedentes
de alguns países da Europa, inclusive do leste europeu,
que ali se reuniam também para ajudar quanto pudessem.
Todos conversavam sobre estratégias para aumentar o
contingente de trabalhadores, reurbanizar diversas cidades
do Além, preparando-as melhor para receber, educar e auxiliar,
da melhor maneira possível, os espíritos da Terra.

Receberam de bom grado a proposta de Jamar e João
Cobú, bem como de Antony, Ashter e Merlíades, que participavam
da reunião na base voadora dos guardiões. Não
somente naquele momento crítico da guerra que estava
em andamento, embora em fase inicial, mas também nos

eventos futuros, precisavam aprofundar a união. Os espíritos
especialistas precisavam de mais colaboradores com o
máximo de capacitação e responsabilidade, mas sobretudo
que não ficassem brigando por seu ponto de vista sobre a
vida espiritual.


35 6

Disse João Cobú, acentuando a opinião de espíritos
que trabalhavam sob a feição espiritual de pais-velhos:

— Temos de ficar muito atentos, pois do lado de cá ainda
temos nossas diferenças culturais e espirituais muito marcantes
e, principalmente nesta região onde estamos agora,
no Golfo Pérsico, a diversidade cultural e religiosa é enorme.
A composição étnico-linguística é na maior parte árabe, com
uma minoria curda. Devemos estar atentos ao lidar com esses
espíritos, uma vez que mais de 90% da população de encarnados
e desencarnados teve ou tem formação religiosa
islâmica. Mais ainda: pelo menos nesta região, a maior pane
de nossos amigos muçulmanos, de um e outro lado pertencem
à facção xiita. Assim como os demais, todos dignos de
consideração em nossos planos de auxílio, constituem um
povo cioso de seus costumes e interpretações religiosas, que
perpassam de forma marcante todos os aspectos de sua vida.
"Também é importante lembrar que é necessário atuar
nos países que se opõem ao regime e à política do ditador
que começou o conflito, isto é: Estados Unidos, Reino
Unido e os outros — cerca de 30 nações — que formam a
coalizão liderada pelos norte-americanos. Seus governos
precisam ser acompanhados por nossos representantes.


357

Sabemos que este será um marco importante, que determinará
o inicio de um período de lutas intensas para os povos
da Terra. Então, meus amigos, é hora de selecionar os espíritos
mais competentes e que mais entendem de política
internacional, pois devemos manter contato com os líderes
mundiais e, de todas as maneiras possíveis, buscar amenizar
a situação que se desenha. Não podemos esquecer que,
entre os representantes espirituais da cultura islâmica, temos
valiosos colaboradores, tanto entre desencarnados
quanto entre encarnados. Fora do corpo, muitas vezes, estes
podem colaborar com mais celeridade, sem as rivalidades
que vemos entre os homens."

Fiquei olhando a expressão dos espíritos ali presentes;
não havia como não notar certa aversão aos membros
da cultura islâmica. Esse sentimento, ao que tudo indicava,
havia se dilatado para este lado da vida. Ou seja, aqui
também vi que, entre os representantes de diversas cidades
espirituais, havia aqueles nos quais persistia alguma nódoa
de preconceito. Os religiosos, principalmente, pareciam
ter dificuldade de se liberar dos pontos de vista pessoais e
doutrinários, de comungar com quem pensava diferente ou

rezava por uma cartilha distinta. Mesmo assim, eram espí



358

ritos dispostos a servir, a auxiliar nos momentos de crise
política e espiritual. Talvez observando o mesmo que eu.
foi Jamar quem tomou a decisão:

— Distribuirei especialistas da noite que trabalham
mais intensamente com as lideranças mundiais ao lado
dos respectivos líderes de cada país envolvido no conflito.
Sabemos que, por trás das ações de diversos governos do
mundo, existem inteligências sombrias, espíritos inteligentes
e astutos, principalmente magos negros, que intentam
dominar o planeta, de alguma maneira. Por isso, acho mais
apropriado que sejam os guardiões a assumir essa responsabilidade
em particular. Mas também porque — acentuou
Jamar —, como guardiões, não podemos agir motivados por
doutrinas religiosas ou atitudes sectárias. Nossos parceiros
são todos os homens de boa vontade, ou melhor, aqueles
que se irmanam em prol da humanidade. Os pais-velhos.
como especialistas da nossa metrópole na abordagem dos
temíveis magos negros, sugiro que assumam essa questão
mais intensamente. Quanto aos demais, durante a guerra,
dediquem-se ao aspecto que mais lhes diz respeito.
Todos concordaram. A decisão de Jamar havia trazido
certa tranquilidade a alguns representantes de outras cida



35 9

des espirituais. Eles não teriam de lidar diretamente com
questões que certamente emergiriam, em razão da diversidade
cultural e religiosa dos espíritos que seriam envolvidos
na guerra iminente.

Mudando de assunto de um momento para outro, Jamar
apresentou uma proposta aos iniciados da cidade dos
espíritos ali presentes:

— Aproveito a oportunidade para pedir a colaboração
dos habitantes da Aruanda. Estamos de posse de mapas
que indicam uma base muito preciosa dos nossos velhos
conhecidos magos negros. Como muitos iniciados são
exímios magnetizadores, conhecedores de leis do mundo
oculto que muitos espíritos, mesmo alguns especialistas,
desconhecem, venho pedir-lhes a contribuição. Não
se faz necessário apenas desarticular recantos usados pelos
magos. Será preciso também levar a eles o ultimato
concernente tanto a esta guerra em andamento, que terá
uma repercussão insuspeita na sociedade dos encarnados,
quanto aos efeitos desse acontecimento na estrutura
de poder nas regiões inferiores. Para essa missão, não
vejo nenhuma categoria de espíritos mais indicada que
os pais-velhos.

360

Após longa discussão que se seguiu, a respeito da política
na região e da influência mental e espiritual dos espíritos
do mal sobre governos e governantes, ficou bem claro
que os pais-velhos teriam toda a autonomia para agir nos
ambientes inferiores, onde determinados magos mantinham
bases e laboratórios. Ficou acertado que Pai João organizaria
a equipe, juntamente com mais três pais-velhos,
além de recorrer a um médium para auxiliá-los na tarefa,
desdobrado, caso precisassem de energias mais animalizadas
ou de uma cota de ectoplasma mais intensa, algo que
não pode ser descartado quando se trata de ações visando
aos magos negros.

Deixando o grupo debatendo a situação que ocorria no
campo de lutas no plano dos encarnados envolvidos com
a política, entre os cidadãos dos países comprometidos no
conflito, Pai João retirou-se e eu o segui, sempre observando,
muito embora intimamente receoso, ainda ignorando
os ardis dos chamados magos.

João Cobú acionou alguns guardiões ligados a seu trabalho,
depois de analisar documentos compartilhados por
Jamar, muito importantes para os próximos lances do conflito
em dimensão próxima à Crosta. O pai-velho soubera


36 1

de uma reunião de um grupo de magos que pretendia fazer
frente aos chefes de legião das sombras, nas eternas disputas
entre facções existente dentro da oposição; para cumprir
o intento, eles tentariam arregimentar forças entre os
encarnados, após os conflitos que patrocinavam e inspiravam
diretamente. Como o império do mal a cada dia era
questionado e parecia soçobrar como uma nau num oceano
em tempestade, havia diversos grupos pretendendo formar
um domínio à parte; estruturas de poder de uma política
cada vez mais delirante. Por isso, aqueles magos ousaram
influenciar um de seus médiuns ou, melhor dizendo, uma
de suas marionetes no plano físico. Resolveram, também,
lançar mão de outros instrumentos humanos, preparando-
os para desencadear uma guerra mais mortal e absurda.
Recorreram a um governante do Oriente e outro do Ocidente;
ambos seriam o estopim para o que intentavam.

Esses espíritos precisavam saber que os representantes
do Cordeiro, os guardiões, estavam atentos e tinham condições
de intervir de forma a cercear a ação dos magos nas
zonas umbralinas e na superfície, entre os chamados vivos.

Aceitando a incumbência apresentada por Jamar em
nome do governo oculto do planeta, os pais-velhos parti



362

ram em direção às regiões ínferas, que conheciam muito
bem, enquanto equipes socorristas iam e vinham, de
um lado a outro, preparando-se para receber as vítimas da
guerra. Entrementes, num plano muito mais sutil, espíritos
construtores começavam o trabalho de expansão da estrutura
espiritual da Amanda, visando ao acolhimento de
almas com determinada identidade energética que viriam
da Terra. Da mesma forma, outras equipes trabalhavam em
outras colônias e cidades do astral, ampliando as estruturas
de trabalho, como hospitais e campos de apoio, forjando
mais equipamentos e arregimentando número maior de
trabalhadores.

Os calendários da Terra marcavam o dia 17 de janeiro
de 1991 quando um maciço ataque aéreo dava início a uma
represália à terra dos califas. Depois disso, mais de meio
milhão de soldados foram enviados à guerra, que geraria
um pesado tributo de dor abrindo caminho para outras batalhas
que viriam trazer o terror a um povo que sofreria por
longo tempo com um governo aterrador. Foi esse, exatamente,
o dia em que descemos rumo ao recanto do abismo
onde se refugiavam os temíveis obsessores do submundo
da escuridão.


363

Ao transitar por regiões inóspitas e seguir diretamente
a um dos redutos assinalados nos mapas cedidos pelos
especialistas do mundo superior, os pais-velhos chegaram
a um entroncamento energético que parecia esconder a tal
base do grupo sombrio. E foi aí, exatamente, que encontraram
o precioso segredo guardado a sete chaves pelos magos
negros.

O local parecia uma caverna, incrustada numa rocha da
paisagem astral, em regiões profundas da subcrosta. No entanto,
por fora, a tal caverna gozava de um disfarce: uma espécie
de crosta de musgo a envolvia, embora fosse uma vegetação
um tanto distinta daquela composta por elementos
conhecidos do reino vegetal. Em alguns minutos de observação,
um dos médiuns que nos acompanhava, desdobrado
e acompanhado de um dos pais-velhos, sentiu suas forças se
esvaírem. Algo decididamente sugava suas energias, deixando-
o quase desacordado, em questão de minutos. Foi o pai-
velho conhecido como Rei Congo quem o socorreu, eliminando
de sua aura os elementos sutis exalados pelo musgo.
Tratava-se de um gás, além de outros elementos invisíveis,
perfeitamente sentidos pelo médium; pareciam ser expelidos
de dentro da caverna disfarçada. Passaram-se mais de


364

duas horas até que ele recobrasse os sentidos e a lucidez
fora do corpo. Por várias noites retornaria àquele campo de
batalha espiritual, até que o conflito estivesse decidido.

Enquanto eu anotava tudo, observando sempre cada
detalhe e cheio de curiosidade, João Cobú acercou-se de
dois pais-velhos — todos modificados em sua forma espiritual,
que se transfigurara na aparência de antigos magos

— e fizeram o reconhecimento da área. Certificaram-se de
que se tratava exatamente do local apontado pelos mapas
dos especialistas.
Os elementos da flora astral ali presentes guardavam
a característica de absorver energia e fluido vital de qualquer
médium eventualmente desdobrado. Talvez fosse uma
modificação da substância componente dos vegetais, produzida
em laboratório pelos magos que dominavam o local.
Além do perigo que representavam para os viventes, havia
indícios de que entidades vampiras estivessem a postos,
também disfarçadas, para a guarda daquele sítio. O que não
combinava de forma alguma com uma base dos magos era

o fato de haver um campo de forças envolvendo o lugar, rebrilhando
discretamente, de maneira tal que somente espíritos
mais experientes como os pais-velhos pudessem per

36 5

cebê-lo, pois era quase invisível. Isso naturalmente era obra
de entidades que lidavam mais diretamente com a ciência, e
não de magos negros, cuja especialidade era a manipulação
de forças mentais e seres elementais, além de algumas leis
do mundo oculto, desconhecidas da maioria. No entanto, ali
estava o tal campo. Erguia-se como uma cúpula em torno da
montanha onde estava incrustada a caverna. Teriam de ter
cuidado, pois a natureza daquele campo era ignorada.

Após observações mais acuradas, o espírito conhecido
como Pai Joaquim notou que aquele campo fazia com
que a montanha toda — e não somente a entrada da caverna,
que descobriram por acaso — assumisse aspecto diferente,
como se desaparecesse ou fosse aplainada e se misturasse
à paisagem no entorno, formando um ilusório vale
profundo. Esse era o segredo do estranho campo de força:
ocasionava no observador uma espécie de alucinação e, por
isso mesmo, suscitava dúvidas sobre o que ele via, se era
realidade ou uma ilusão dos sentidos. A montanha ora estava
ali, diante dos olhos de quem observasse, ora deixava
de existir, pelo menos visualmente, revelando um extenso
vale. Leve tremeluzir marcava o momento em que a formação
desaparecia, como se o campo energético estivesse


366

prestes a entrar em colapso. Tratava-se de um recurso antigo,
empregado por certos magos ao criar ilusões, imagens e
projeções mentais, de maneira a confundir quem quer que
fosse. Caso os pais-velhos estivessem corretos em suas percepções
e conclusões, a base dos magos propriamente dita
estaria ainda a considerável distância; ali era somente a entrada,
camuflada e repleta de perigos e armadilhas criados
pelos donos do lugar. Não poderia ser de outra forma, pois
assim agiam os magos tradicionalmente, segundo Pai João
pôde explicar. E foi ele quem assumiu a frente do grupo,
tão logo Pai Joaquim relatou a descoberta.

Primeiramente, João Cobú fez um pedido diretamente
à Aruanda e a Jamar para que enviassem mais guardiões
e especialistas. E parece que Jamar já estava de prontidão,
atento a tudo e a todos os detalhes, pois não tardou a chegar
o reforço requerido. Na sequência, os pais-velhos se colocaram
em pontos estratégicos em torno da montanha,
mesmo que sua visão se alternasse com a do vale projetado
pelos magos. O representante do colegiado da Aruanda deixou
o médium que doava energias animalizadas necessárias
ao trabalho, sob a custódia dos guardiões, por ora evitando
que fosse exposto desnecessariamente.


367

Foi somente depois de confirmar que ele estava em segurança
que os pais-velhos começaram a bater no solo do
astral com seus cajados, que, segundo mais tarde vim a saber,
eram condensadores energéticos de grande potência. A
batida cadenciada e cada vez mais ritmada, mais forte e intensa
provocou a queda do campo vibratório que envolvia
a montanha sagrada dos magos, o local que escondiam de
quem a observasse. A cena lembrava a entrada dos israelitas
na terra prometida de Canaã, quando Josué, o comandante
guerreiro, sitiou a cidade de Jericó. Na ocasião, os soldados
de Israel marcharam de modo cadenciado em torno das
muralhas e, ao tocarem trombetas, também obedecendo ao
ritmo determinado por seu líder, as muralhas da cidade ruiram.
1 6 Assisti a algo semelhante, e não era obra de magia,
mas de uma lei da física, porém levada a cabo numa região
astral bem próxima da Crosta, por competentes guerreiros
da luz, que sabiam manejar com maestria seus instrumentos
de trabalho disfarçados de cajados ou coisa similar.

Ao som dos instrumentos utilizados na ofensiva ao laboratório
dos magos negros, ocorreram fenômenos dig


16 Cf. Js 6:1-20.


368

nos de nota. À medida que os cajados se chocavam contra

o chão, despejando no solo astral energias por mim desconhecidas
na ocasião, a estrutura energética do campo de
força cedia, pelo poder e conhecimento dos pais-velhos.
Primeiramente, surgiram faíscas; pequenos raios pipocaram
em diversos pontos da redoma energética, como se a
técnica empregada houvesse provocado curto-circuito em
equipamentos que regulavam a estabilidade da fonte mantenedora
da proteção eletromagnética da base oculta. Logo
após, ocorreram explosões em locais onde o campo tocava

o solo astral, para em seguida todo o complexo ruir, ao som
cadenciado dos cajados dos pais-velhos, que desencadearam
forças acumuladas em seus instrumentos, as quais penetraram
o solo sob a redoma com poderosa vibração.
Assim que a estrutura energética ruiu, causando um
ruído estrondoso, instaurou-se verdadeiro colapso nas defesas
das entidades, que não contavam com a presença ali,
na região, de pais-velhos e altos iniciados de templos do
passado remoto. As entidades vampiras foram vistas; seu
disfarce pôs-se a descoberto no mesmo instante em que a
redoma dos magos se desmantelou. Ao notarem que ficaram
sem a proteção da invisibilidade temporária, ensaia



369

ram um ataque aos guardiões, pais-velhos e ao próprio médium
desdobrado. O vivente era o alvo mais cobiçado, pois,
sendo detentor de força vital, desejavam a todo custo vampirizá-
lo. Entretanto, a providência tomada por Pai João,
convocando o reforço de guardiões, mostrou-se eficaz.

A equipe de sentinelas que veio da Aruanda assumiu
a frente e, sem nenhum escrúpulo, investiu contra os espíritos
vampiros. Resultado: nem sequer as entidades esboçaram
o ataque e logo foram completamente dominadas
pelos guardiões, que as atacaram com poderoso arsenal
magnético de armas elétricas, que despejavam raios sobre
a turba de obsessores, causando entorpecimento dos sentidos
espirituais. Adormeceram logo que foram atingidos
pelas descargas das mais de 50 armas. Em meio a gritos e
pontapés, desferidos pelas entidades vampiras que escaparam
ao furacão dos raios narcotizantes, os sentinelas enviados
de Aruanda os prenderam magneticamente, de maneira
que não mais pudessem representar qualquer perigo
para a equipe.

Entrementes, os pais-velhos cessaram o movimento
com os cajados, pois a vibração no solo astral poderia fazer
toda a caverna ou sua entrada ser destruída.


370

Meu coração parecia querer sair pela garganta, de tal
forma fiquei envolvido pela situação e, honestamente, com
medo do desfecho que se daria. Se já naquele ponto da jornada
encontramos tamanha resistência das entidades que
defendiam os magos, que dizer, então, dos próprios magos
negros? Confesso que meu primeiro contato com as
regiões inferiores não foi nada confortável nem tranquilo
para mim. Por muitos dias, permaneceria revendo aquela
cena na cabeça.

Ao tempo em que esses acontecimentos ocorriam nas
regiões sombrias próximas à Crosta, Anton resolvera sair
da base principal no satélite lunar e visitar o campo de
guerra. Juntamente com Jamar, conversava com um dos
guardiões do Oriente, sob a supervisão de Zura, a respeito
da situação dos países envolvidos no conflito do Golfo
Pérsico e sobre o que essa guerra representava para o futuro
político e socioeconómico do planeta. O Oriente Médio
causava grande preocupação nos guardiões naquele momento;
além de Iraque e Kuwait, palco dos conflitos, observavam
Israel e as demais nações palestinas, e sobretudo
países árabes da África setentrional, como Egito e Líbia.
Falavam sobre os ditadores que cairiam e aqueles que se



371

riam fantoches manipulados pelos magos negros no exercício
do poder.

Nos EUA, na sede da ONU, na Grã-Bretanha e no restante
dos países aliados, poderosos guardiões montavam
guarda, pois sabiam que tais países remeteriam tropas
cada vez mais letais para a região. Havia uma movimentação
intensa dos dois lados da vida. Os especialistas de
Jamar desarticulavam estruturas erguidas em torno dos
governantes, em seus gabinetes de governo — aparatos engendrados
pelos magos negros e seus asseclas. Os habilidosos
representantes do poder em lugares ocultos sabiam
bem como manipular os homens, que acreditavam piamente
na própria autonomia ao tomar decisões. Havia, no
entanto, um fluxo de influência intenso, por meio da habilidade
hipnótica dos magos, antagonizando Oriente e
Ocidente, a ponto de cumprirem o intento de desencadear
uma guerra que assinalaria o início de um período de agravamento
das animosidades, gerando intensas dores e provas
para a população global.

Enquanto isso ocorria nos bastidores da política internacional,
os guardiões interferiam. Após confabular com
Anton, que trazia informações preciosas da base principal


372

dos guardiões, Jamar assumiu a dianteira pessoalmente.
Elevou-se ao ar com sua aura rebrilhando como potente irradiação
magnética, e todos os guardiões o viram elevar-se
como um anjo guerreiro. Plainando sobre o local do confronto,
sobrevoou cidades importantes do Oriente Próximo
enquanto rasgava os céus do planeta, rumando ao cerne da
guerra de Saddam Hussein.

Ao mesmo tempo, Watab e um grupo de guerreiros dirigiram-
se ao continente norte-americano, postando-se
lado a lado com George H. W. Bush, ocasião em que liberaram
agentes do governo das garras de entidades associadas
aos magos, bem como desarticularam sofisticados equipamentos
das sombras, instalados diretamente na Casa Branca,
sede do poder estadunidense, a fim de manter a força
hipnótica sobre os homens daquele governo e de muitos
outros da coalizão. Mas a ação de Watab não se limitava a
esse continente. Ele ia e vinha numa velocidade alucinante,
entre o continente norte-americano e o palco dos confrontos,
no Golfo Pérsico, sempre que era necessária uma atuação
mais decisiva e conjunta com o chefe dos guardiões.

Jamar mergulhou no cerne do conflito. Quando desceu
sobre o abrigo de Hussein, mais de 20 magos, de plantão


373

ao lado do ditador, viram a luz imortal brilhando, a emanar

potentes forças magnéticas, enquanto o guardião desem


bainhava a espada e rasgava, com um só golpe, o campo de

força formado por magos e científicos em torno do coman


dante iraquiano. Uma comitiva de magos elevou-se a alguns

metros do solo, emitindo vibrações intensas contra o guer


reiro que descia em nome da política do Cordeiro. Um deles

conseguiu atingir Jamar com a irradiação poderosa e quase

fatal ao seu equilíbrio, não fosse o fato de tal golpe ter sido

desferido exatamente contra o mais capacitado chefe da se


gurança espiritual. Jamar desviou-se para o flanco esquerdo,

enquanto duas outras entidades o envolveram num campo

vibratório potentíssimo. O guerreiro contorceu-se, envolto

numa energia desconhecida, que cerceava seus movimen


tos. Gargalhadas foram ouvidas ressoando no ambiente en


quanto o guardião detinha seu voo e concentrava-se. Mais

alguns minutos de completa imobilidade e ele literalmente

explodiu o campo de forças, imediatamente começando a

girar, cada vez mais rápido, pegando o grupo de magos des


prevenido. Duas entidades aparentemente especialistas em

ciência apontaram o alvo, que se libertara do robusto cam


po energético, mirando nele com armas invencíveis, segun



374

do consideravam. Jamar parou o giro em torno de si mesmo,
notando que um furacão parecia varrer a base inimiga.

Enquanto isso, na Crosta, acontecia a operação que ficou
conhecida como Tempestade no Deserto. Duas ousadas
empreitadas ocorriam simultaneamente. Em um e outro
lado da vida, acontecimentos singulares marcariam o
fim de um período sangrento de batalhas.

O guardião da noite concentrou-se mais uma vez e,
em voo rasante, zinguezagueando, despistou a artilharia
dos científicos e pairou suavemente, como se usasse paraquedas,
logo acima das cabeças dos magos e seus aliados.
Observou com olhar atento as entidades que envolviam
Saddam e ficou impassível ao que ocorria, num tremendo
esforço de concentração. Aguardava as notícias de Pai João
e sua equipe de iniciados, que se encontravam nas regiões
inferiores do planeta, a fim de dar o golpe final. Os magos
não entenderam a repentina imobilidade do guerreiro. Não
suspeitavam do que sucedia mais abaixo vibratoriamente,
entre os seus aliados no submundo, no lugar onde a guerra
era arquitetada pelos detentores do poder na região.

Em outros recantos do mundo, guardiões especialistas
assumiam controle sobre a situação, no que tange aos lide



37 5

res governamentais. Nos Estados Unidos, envolviam Colin
Powell, o então militar de mais alta patente no Departamento
de Defesa, e o Comandante-em-Chefe General Norman
Schwarzkopt; além deles, cercavam o ministro da defesa
egípcio Mohamed Tantawi, assim como o premiê britânico
John Major e o rei saudita Fahd. Ao lado desses e de outros
expoentes do poder temporal, grupos de 5 guardiões
foram estrategicamente posicionados, no intuito de aniquilar
qualquer ação dos magos dirigida a esses membros da
comunidade internacional, peças-chave no conflito em curso,
visando desfazer o que pudessem da estrutura de domínio
hipnótico sobre eles. Do mesmo modo, guardiões cercaram
as famílias dos atores principais da guerra. Mohamed
Hussein Tantawi recebeu especial atenção dos guardiões,
pois, através dele, magos mais habilidosos montaram um
aparato especial, desmantelado com dificuldade. Pretendiam
usá-lo mais intensamente em seus planos na região.

Jamar, ainda impassível acima dos magos no escritório
de Saddam, acompanhava tudo, dando ordens aos seus oficiais,
à distância, a fim de que tomassem as devidas providências
e liberassem o marechal egípcio da influência articulada
pelos magos. A partir de então, trariam diariamente


37 6

o estrategista desdobrado a uma das bases dos guardiões,
na tentativa de explicar-lhe os lances e as implicações do
conflito que se desenrolava, e conscientizá-lo da importância
de sua ajuda no futuro político da região. Todavia, dependiam
do Marechal Tantawi sintonizar-se com a proposta
dos guardiões.
Semíramis, acompanhada de mais 10 especialistas e algumas
guardiãs lideradas por Astrid, partiram em direção
à Arábia Saudita, montando guarda junto ao Rei Fahd bin
Abdul Aziz Al-Saud. Ali Semíramis reuniu suas guardiãs e
libertou o rei das amarras impostas por um grupo seleto de
magos. Desdobrando-o, ela lhe apresentou uma proposta
de reformas políticas, visando desencadear a receptividade
a novas interpretações da religião islâmica. Semíramis e
Astrid pessoalmente se envolveram com Fahd e sua equipe
mais próxima, na tentativa de conduzir o governo a uma visão
mais aberta. O resultado dessa ação, era claro para elas,
somente seria visto no futuro, a partir de 30 anos. Mas as sementes
foram ali plantadas, enquanto os guardiões competiam
com o grupo de magos da antiga Babilônia que montavam
quartel no palácio do governo. Watab, requisitado por
Semíramis, encarregava-se pessoalmente das questões poli



377

ticas mais prementes, inspirando Sua Majestade a dar apoio
à campanha para liberar a região das forças de Saddam.

Jamar coordenava tudo, envolvido em seu campo de
energia particular. Dali, conversava mentalmente com cada
equipe disposta em vários recantos do mundo. Os magos
hesitavam, sem saber o que fazer, impotentes para atingir

o guardião.
Pai João, por sua vez, acompanhava tudo por meio da
conversa mental do guardião da noite. No cenário do planeta,
na Crosta, a situação geopolítica exigia providências
imediatas. Mais de 30 mil mortos e muito mais de 70 mil
feridos na guerra despejavam na atmosfera uma cota maciça
de ectoplasma, decorrente dos desencarnes coletivos
que ocorriam em meio a uma atmosfera de medo, dor e sofrimento
indizíveis. Carga tóxica de proporções monumentais
derramava-se na região astral. Ante essa realidade, a cidade
de Aruanda entrou em ação.

Na estrutura psicofísica da metrópole itinerante, havia
duas grandes torres ou antenas: uma, erguida em direção ao
alto, captava energias advindas de regiões superiores; a outra
descia abaixo da superfície da cidade dos espíritos, em
direção à Terra. Ambas foram acionadas. A inferior absor



37 8

via o conteúdo energético de diversas regiões do Golfo, sugando
a cota excedente de fluido vital, exsudada em razão
das mortes violentas de milhares de vítimas. Ao se concentrar
o excesso de energia na base da estrutura da Aruanda,
evitava-se que tal recurso fosse utilizado pelos magos como
combustível para suas atividades repulsivas. Ao mesmo
tempo, espíritos de antigos caboclos, em conjunto com os
legionários de Maria, realizavam verdadeira varredura astral,
dispersando, no ambiente astral, elementos residuais
da guerra. De outro lado, equipes de espíritos socorristas
levavam grande contingente de seres para a periferia da
Aruanda, onde eram atendidos por pais-velhos e mães-velhas,
além de índios, que auxiliavam os seres recém-desencarnados
fazendo com que adormecessem, visando evitar
tragédias desnecessárias em nossa dimensão. Após serem
atendidos em caráter de emergência, eram conduzidos a
outras cidades e colônias do espaço, mais capacitadas a lidar
com indivíduos daquele perfil espiritual, os quais deixavam
o corpo no campo de batalha. A Aruanda não era o
destino final desses espíritos, mas ali eram atendidos e levados
aos mares, às cascatas e florestas, a fim de reabaste


cerem as forças nos recantos naturais da metrópole.


379

Fora construída ampla rede de auxílio entre as cidades
espirituais. Caso alguém do plano físico pudesse ver, observaria
naves portentosas decolando com inúmeros espíritos
a bordo, voando em direção a outras cidades da imensidade,
onde os desencarnados seriam mais detidamente amparados.
Muitos deles nem sequer puderam ser ajudados,
pois preferiram ficar prisioneiros nos campos de combate,
jungidos mentalmente à dor e ao sofrimento, à angústia e
à sede de vingança. Todavia, mesmo ali, junto aos escombros
de guerra, comunidades foram levantadas e espíritos
benfeitores auxiliavam no resgate e na assistência a quantos
quisessem ajuda.

Jamar coordenava tudo, mentalmente ligado a todas as
equipes, enquanto Anton dava cobertura com seu destacamento
de especialistas.

No momento em que os pais-velhos adentraram o
grande laboratório de experiências paracientíficas dos magos
negros, encontraram o horror estampado no olhar de
um dos nove iniciados do passado. Pareciam hipnotizados
diante de uma câmara, onde flutuavam à sua frente figuras
representativas de membros do alto escalão de diversos governos
mundiais.


38 0

Uma substância gelatinosa parecia se adaptar e revestir
o corpo espiritual totalmente deformado dos seres diante
de nós. Um deles sobressaía aos demais. Era curvo, alto,
sem cabelos; tinha a pele totalmente ressequida e enrugada.
Nitidamente exercia um domínio fantástico sobre os
demais, que se localizavam num nível abaixo deste que parecia
ser o líder. Estranho manto descia sobre as costas do
ser hediondo à nossa frente. Estremeci.

A cor dominante no ambiente era roxa, a fim de favorecer
a concentração dos magos. Eles acreditavam estar totalmente
a salvo de quaisquer invasores, e essa crença tão
forte, decerto alimentada por boa dose de presunção, não
permitiu que percebessem de imediato nossa aproximação.
Ademais, estavam sobremodo concentrados nos líderes
mundiais, a tal ponto que tudo o mais escapava a seu
conhecimento.

O mago alfa, como chamei mais tarde aquele que sobressaía
aos demais, sem dúvida alguma era o chefe do
grupo. Pai João confirmou tal fato. Olhos negros sombriamente
expressivos, porém estáticos, davam-lhe um aspecto
bizarro e ao mesmo tempo temível. Os globos oculares
refletiam a luz do ambiente, muito embora não se deixas



381

sem inebriar. Apesar do aparente transe em que se achava
seu dono, aqueles olhos denotavam um processo mental
complexo e tremendo, ao qual se agarravam com afinco o
mago e sua equipe de iniciados. A alma desse ser parecia
um oceano abismal de superlativos de horror — e tal realidade
transparecia em seu olhar. Um fanatismo hediondo,
calcado no desejo de governar o mundo, jorrava na atmosfera
mental que absorvia o grupo, mas sobretudo da aura
do mago sobre o qual concentrávamos a atenção. Qualquer
tentativa de expressar com exatidão o conteúdo de seu ser,
ou de descrever a força empregada para impor suas ideias
fanáticas e extravagantes seria improdutiva. Os pensamentos
exalados e as imagens mentais que eram refletidas no
ambiente, como se fossem flashes ideoplásticos, falavam
por si sós acerca da degeneração daqueles espíritos e da
impossibilidade de exprimir através de qualquer vocábulo
a hediondez das intenções que alimentavam. Conectavam-
se entre si de tal maneira que davam a impressão de ser
uma única inteligência.

Parte da mente dos magos, condicionada e dirigida
pelo chefe da horda, estendeu para além de si laços mentais,
os quais se alongavam até outros países, passando por


38 2

uma dimensão invisível aos sentidos humanos. A consciência
dos nove dirigia-se exclusivamente aos chefes de estado
e seus auxiliares mais próximos, principalmente àqueles
que serviriam de modo mais direto aos planos de transformar
a guerra em algo nunca antes visto pelos humanos encarnados;
de levá-la a proporções inéditas, se não inimagináveis.
A vantagem que detinham sobre os governantes era
exatamente a invisibilidade e a capacidade nada desprezível
de estimular e influenciar, a partir de sua dimensão, as
mentes que se lhes associavam, num processo complexo de
obsessão ou compartilhamento de intenções. A consciência
diabólica do mago que chefiava a quadrilha armazenava as
informações colhidas no contato parapsíquico estabelecido
com as autoridades dos países em foco. Enquanto isso,
comandantes de esquadras, generais, ministros de guerra e
estadistas de nações como Estados Unidos, França, Reino
Unido, Bélgica, Egito, Canadá, Paquistão e algumas outras
coligadas desempenhavam suas atividades totalmente induzidos
ou hipnotizados pelos magos, que se conectavam integralmente
a suas marionetes, jogando uns contra os outros,
na tentativa de fazer a guerra alastrar-se por territórios cada
vez mais amplos, até finalmente tomar os cinco continentes.


383

De repente, Pai João e um grupo de iniciados de primeiro
grau, representantes de um alto colegiado de sacerdotes
que compunha a equipe proveniente da Amanda e de
outras cidades, dirigiram a atenção, em conjunto, ao mago
principal. O fluxo mental dos pais-velhos, antigos sábios e
sacerdotes, penetrou como lanças ou tentáculos na mente
altamente concentrada do mago negro. Um pesadelo sacudiu
a consciência do ser demoníaco, ao perceber uma intrusão
mental em seu ambiente psíquico. O subconsciente
agitou-se e rebelou-se, mas os pais-velhos não seriam demovidos
de seu intento tão facilmente. Concentraram-se
mais e mais intensamente. Verdadeira batalha espiritual se
travava numa dimensão que eu desconhecia por completo.

O consórcio de mentes hediondas foi por fim rompido,
devido à pressão psíquica, num embate que já durava mais
de três horas. A tensão espiritual pareceu atingir o clímax
quando os magos começaram a gemer, agonizar, sem que
fosse interrompido, de maneira definitiva, o processo mórbido
de influência à distância que exerciam sobre os líderes
internacionais.

Um dos magos, entretanto, não suportou a intromissão
mental levada a cabo pelos mensageiros da Aruanda. Estre



384

meceu mais que os oito restantes e, sobressaltado, sucumbiu,
acordando do sonho-pesadelo, do estado de transe autoinduzido
a que se entregara juntamente com os demais.
Cambaleou, caiu ao chão, recobrando a consciência muito
lentamente e percebendo que seu reduto fora descoberto,
que havia seres poderosos interferindo em seu lúgubre
plano de dominação. A concretude do que acontecia pareceu
detonar uma bomba mental no íntimo de seu cérebro
extrafísico. O ser sucumbia à dor, uma dor indescritível. A
constatação peremptória de que seus planos haviam sido
descobertos e, mais ainda, de que havia representantes dos
poderosos guardiões ali, no reduto mais sagrado dos magos,
lhe fez sentir como se um pedaço de metal incandescente
tivesse sido cravado no próprio peito. Mas não havia
como acordar os outros do transe a que estavam entregues.

Pai João voltou-se para o mago que rolava no chão de
pavor e dor e intensificou seu pensamento sobre ele, de
maneira a amenizar o efeito que sentia na mente em franco
colapso. Tentáculos mentais apalpavam a sede da consciência
do mago negro, que, incapaz de evitar a torrente de
pensamentos intrusos do mago branco, buscava escapar a
todo custo da força que lhe invadia o ser, rasgando-o e des



385

nudando-o, de forma a patentear-lhe as intenções tão abertamente.
Pai João concentrou ainda mais o pensamento e
conseguiu afastar o pavor e o medo que dominavam o mago
negro, que o levavam à beira da loucura. O famigerado ser
tombou definitivamente, impotente diante da força mental
que o assaltara e dobrara. Assim que o mago se prostrou,
Pai João voltou a somar-se a Vovô Rei Congo, Pai Joaquim e
os demais espíritos, altos iniciados do passado. Era noite na
esfera dos homens.

Nesse exato momento, Jamar tornou a movimentar-
se como se fosse um pião, girando em volta de si mesmo.
O movimento repentino surpreendeu os magos. O guardião
desembainhou sua espada e ergueu-a no ar num gesto
ameaçador. Dela saíram raios, relâmpagos, e, por algum
mecanismo ignoto, o instrumento do guardião da noite rasgou
o espaço dimensional à sua frente, subitamente engolindo
os temíveis magos que montavam guarda no gabinete
de Saddam. Jamar elevou-se novamente e rumou ao pelotão
de guardiões que guardava posição no gabinete de governo
norte-americano.

Entrementes, os pais-velhos liderados por Pai João
concentravam ainda mais a atenção nos outros magos. Estes


386

pareciam totalmente absortos. Os pais-velhos concentravam-
se progressivamente, penetrando mais e mais em sua
mente. A comunicação do grupo do terror com os governantes
manipulados, levada a efeito pela obstinada associação
dos magos, finalmente sofreu a ruptura necessária, muito
embora os sacerdotes da destruição ainda mantivessem
estreita sintonia entre si, auto-hipnotizados e hipnotizando,
de alguma maneira. No momento em que o elo mental se
quebrava e os principais alvos eram libertos da ligação aterradora,
a força de coalizão atacava mais uma vez, no plano
físico. O patriarca do grupo de magos não saberia explicar,
depois, como o consórcio mental fora invadido, como outra
união de mentes, investida de habilidades psíquicas superiores
às suas, se imiscuíra nessa rede de comunicação..

O monstro principal, o ser mais hediondo que eu conhecera
até aquele momento, o principal dos magos, ameaçou
se mexer, embora não conseguisse expressar nenhum
pensamento perceptível, nem tampouco emitir qualquer
som. Apenas abriu quase lentamente demais os olhos negros
e sombrios, que refletiam o mais obscuro dos sentimentos.
Abriu-os sem poder entender o que se passava ao
redor de si. Demorou um tempo dilatado até que logras



38 7

se sair do transe ao qual se entregara. Nesse momento, os
olhos cheios de um terror impossível de descrever pareciam
transformar-se em fogo, num fogo ameaçador, porém
impotente para queimar além da própria consciência. As
veias em sua cabeça calva e enrugada pareciam querer arrebentar,
tamanha a concentração e o nervosismo. As jugulares
tremiam no pescoço e a criatura infernal contorcia-
se toda, ao perceber o que sucedera a seu precioso grupo.
De repente, ante um influxo de pensamento mais tenaz dos
pais-velhos, o ser à nossa frente imobilizou-se por completo.
Olhos vítreos, se eu não soubesse se tratar de seres fora
do corpo, poderia jurar que ele estava morrendo, desencarnando.
Não obstante, não havia como deixar de notar que

o coração da estranha criatura, se é que ainda possuía um
coração, batia de forma alucinante, quem sabe por sentir-se
sobrecarregado das emoções descontroladas e ensandecidas
de seu dono.
Em determinado momento, quando os pais-velhos se
deram as mãos, formando uma ligação ainda mais intensa
que anteriormente, uma substância gelatinosa e cinzenta,
com rajadas negras, parecia verter do corpo de cada mago,
como se estivesse se derretendo.


388

— Meu Deus! — exclamei, em voz alta, num misto de
pavor e curiosidade...
À minha visão inexperiente de recém-chegado da dimensão
física, era como se seus corpos se desintegrassem.
Mais tarde, soube que os magos negros rejeitam a reencarnação
durante séculos e até milênios, de modo que os
corpos deformados ao extremo são mantidos tão somente
pela força do pensamento, eventualmente favorecido pelo
auxílio de alguns equipamentos, como era o caso daquela
horda, em particular. Uma vez que a guerra mental lhes
esgotava as reservas energéticas, as células perispirituais
se desestabilizavam ante a força mental dos pais-velhos,
que buscavam promover a todo custo o colapso do consórcio
de pensamentos das entidades perversas. Parte da
substância semimaterial constituinte de seus períspiritos
dissolvia-se, desagregava-se perante nossa visão espiritual.
Os magos resistiam à ação dos pais-velhos, porém, ao empregar
o poder mental para defender-se ou atacar os pais-
velhos, sucumbiam a qualquer tentativa de conservar a
forma espiritual.

Forte abalo sacudiu a montanha onde estava incrustada
a caverna. Muitos espíritos de vampiros, que se esguei



389

ravam na escuridão, caíram ao chão, à medida que os próprios
magos negros deixavam-se tombar, um a um, devido
à concentração mental dos pais-velhos. Um série de abalos
sacudia ainda mais fortemente a montanha, no mesmo instante
em que os magos se agitavam e estremeciam no chão.
Pareciam sofrer violento ataque epiléptico; convulsionavam-
se em estertores. Um dos magos, após o incrível fenômeno
que eu presenciara, abriu os olhos finalmente e, ao
divisar os representantes da Amanda, iniciados tal como
ele, mas embaixadores de um poder superior, deu um grito
assustador, aterrador e logo desmaiou.

Mais tarde, ao conversar com Jamar, Watab, Semíramis
e os demais para saber o que ocorrera nos outros campos
da luta em que estiveram trabalhando, não consegui tirar
a imagem dos magos negros de minha cabeça. Fiquei por
muitos dias impressionado e requisitei voltar ao Hospital
do Silêncio para novas sessões de magnetismo. Precisava
me recompor. Porém, Pai João notou minha dificuldade em
absorver tantas informações e evocou para me auxiliar um
guardião que respondia pelo nome de Sete. Este conduziu-
me aos pórticos de Amanda e, em meio aos campos e à natureza,
fui me retemperar, aguardando o desfecho da guer



39 0

ra, que, no futuro breve, Jamar me relataria. Era demais
para mim, naquele momento. Deveria estudar muito, avançar
no aprendizado, mas eu sinceramente vibrava, delirava
de alegria por poder pertencer a tal grupo de pessoas, comprometidas
com o bem da humanidade.

Entre as estrelas da Amanda, prossegui meu aprendizado,
confiante de que, futuramente, quem sabe em alguns
poucos anos, pudesse compor de maneira definitiva a equipe
de guardiões ou de agentes da justiça divina. E este era um
motivo muito especial para que me dedicasse aos estudos.
Tinha a eternidade pela frente, e a Amanda como pátria.


39 5

RANSCORRIDO CERTO TEMPO após entrar em contato
com a realidade espiritual, pude notar que toda verdade
tem o lado sombra e o lado luz, e que lado sombra não significa
necessariamente lado ruim, negativo, como se precisássemos
lhe atribuir juízo de valor. Também descobri
que há algo que nos impele a compreender e conviver com
nosso próprio lado sombra, incita-nos a aceitar que somos
como somos, que faz parte de nós o elemento humano, vulnerável,
permeável, comum a todos os seres. Tanto quanto
existe em nós o aspecto divino, superlativo, transcendente,
com infinitas possibilidades, embora não esteja completo,
ainda. Ele requer dedicação para crescer e frutificar. Contudo,
desenvolver nossas habilidades divinas não implica
matar, negar ou sufocar nossa humanidade, nem mesmo
nosso lado sombra.

Foi assim que descobri um aspecto interessante. Se por
um lado os mentores, os chamados Imortais, podem ser
classificados como o que há de mais representativo em matéria
daquilo que chamamos de luz — por falta de um termo
mais refinado ou preciso —, por sua vez os guardiões
sintetizam a justiça, a equidade, o fiel da balança. Portanto,
lançando mão de uma alegoria — igualmente devido à es



39 6

cassez de vocabulário para melhor caracterizá-los —, talvez
possamos chamá-los de lado esquerdo de Deus.

Traçando um paralelo, a Aruanda não é somente o que
vi nos planos mais sublimes, nesse meu primeiro contato
com a vida além. Aruanda é também a região escura, onde
os guardiões têm seu refugio, seu campo de experiências e
de trabalho. Aruanda é também orum, o Céu ou as regiões
mais sublimes ainda, das quais somente ouvi falar; Aruanda
é a erraticidade para uns, o lugar mais sagrado para outros.
Pode ser, simplesmente, o paraíso sem formas, o mundo
mental, sobre-humano, onde as aparentes discordâncias, os
aparentes paradoxos se encontrem, fundam-se, unam-se,
de tal maneira que humano e divino façam parte de uma só
entidade; que luz e sombra sejam vistas com a mesma naturalidade,
despidas da visão moralista e maniqueísta que
elege um como bom e outro como ruim.

Verifiquei que estar em sintonia com o Alto não significa
obrigatoriamente concordar com tudo que vem do
Alto, não implica pensar de modo idêntico, tampouco formatar
o cérebro, seja físico ou extrafísico, para falar o mesmo
idioma espiritual ou professar a mesma doutrina filosófica.
Há beleza na diversidade. Há uma beleza terrífica


397

nas sombras, tanto quanto há algo de atemorizante na luz,
dependendo da cor e da intensidade que tiver, até porque
luz nem sempre significa claridade. Descobri muitas coisas
nesse pouco tempo de vida no Além.

Mas minhas descobertas não pararam por aí. Foi quando
me reencontrei com minha filha Maria que me dei conta
de que meu lugar não era entre os anjos, nem os santos,
nem mesmo entre os Imortais:

— E agora, meu pai? Qual será o próximo passo? Que
fará a partir daqui?
— Não há mais como ficar aguardando as oportunidades
aparecerem. Creio, Maria, que terei de criar minhas
próprias oportunidades. Que tal ir comigo à universidade?
— Não poderei, meu pai. Me desculpe! Porém, tenho
de compartilhar algo com você.
— Não me diga que vai voltar ao mundo físico, isto é,
reencarnar?
— Não é isso, meu pai. Eu vou morar em outra cidade
espiritual!
— Como assim? Por que não fica aqui, na Aruanda?
— Desde o início eu sabia que não poderia ficar aqui.
Os administradores me chamaram apenas para ajudá-lo, de

398

alguma forma, a se sentir em casa. Mas não é aqui o meu lugar.
Tenho outro tipo de aprendizado diferente do seu.

— Não sei o que dizer, Maria...
— O melhor de tudo é que poderemos nos ver, como
ocorre na Terra quando as pessoas que se amam moram em
cidades diferentes.
— Mas para que local você irá? Já sabe em qual cidade
ficará morando, aprendendo e estudando?
— Vou para uma região mais próxima da Terra, vibratoriamente.
Já fui visitar o local. É uma colônia, na verdade;
não uma metrópole grande como esta. Mas preciso ir para lá,
pois tenho muitos laços afetivos que preciso reatar, e as pessoas
com quem devo conviver mais de perto, tanto quanto
as experiências que preciso vivenciar, sei que as encontrarei
por lá. Mas o seu lugar é aqui. Um dos guardiões me falou,
papai. Sabia que você seria preparado para algo importante.
— Não importante, filha, mas necessário. Prefiro pensar
assim. Mas se você já se decidiu, acho que devo lhe oferecer
apoio, como sempre. Bom, pelo menos temos carros
voadores e comboios através dos quais podemos nos locomover
entre as dimensões. Não estaremos isolados, de
qualquer forma.

399

— Além do mais, podemos nos falar constantemente,
através dos aparelhos de comunicação.
Maria convidou-me a acompanhá-la até o local onde
pegaria o veículo para viajar até a cidade onde passaria a
residir. Fomos rumo a um tipo de aeroporto. Batizei-o de
astroporto, por estar no limiar das dimensões astral e espiritual,
propriamente dita, ou dimensão mental. O lugar era
surpreendente. Via-se grande diversidade de veículos voadores,
alguns enormes para os padrões terrenos. Observei
desde equipamentos voadores mais simples, semelhantes
aos helicópteros da Terra, embora sem as hélices, até outros
imponentes, de formato totalmente diferente daquele
que vira na cidade. O espaço onde estavam pousados era
circular. E os carros voadores não precisavam taxiar, à semelhança
do que ocorre com os aviões na dimensão física.
Tão somente levantam voo na vertical e, depois, deslizam
na direção do local desejado. Os maiores equipamentos
de voo eram de formato esférico, imponentes, de proporções
realmente singulares. Não soube qual a finalidade deles,
mas com certeza deveriam ter uma função específica,
e eram poucos esses gigantes da técnica astral. Vi também
veículos menores, pilotados por espíritos experientes e tri



400

pulados por guardiões. Com estes eu já havia tido contato
quando fomos visitar a base dos guardiões.

Tanto Maria quanto eu estávamos maravilhados com
as possibilidades técnicas dos espíritos. Decerto eu acabaria
descobrindo para que servia cada tipo de veículo. Por
ora, precisava desfrutar da presença de minha filha. E foi
num hall muito grande, uma espécie de sala de embarque,
onde centenas ou até milhares de seres chegavam e partiam
da Amanda, que me despedi de minha filha, uma despedida
sem dor, sem sofrimento, apenas com leve quê de
melancolia ou saudosismo antecipado. Não cheguei a pensar
que ela se integraria aos trabalhos apresentados a mim
pelos guardiões. Ela nem sequer participou de alguma das
visitas que fiz ou de qualquer reunião junto comigo.

Maria tivera um papel naquilo tudo. Ela apareceu logo
no início de minha chegada e em seguida sumiu, talvez
para entrar em contato com sua própria realidade espiritual.
No meu caso, me envolvi de tal maneira com as novas
experiências que acabei não sentindo mais a saudade
imensa de Maria que sentira nos últimos momentos de minha
vida no mundo físico. Eram tantas as coisas apresentadas
a mim que a saudade em si ou foi disfarçada em meio


401

aos acontecimentos ou, então, diluíra-se definitivamente.
Como eu sabia que minha filha e eu não estávamos mortos,
nem terminantemente separados, com efeito essa constatação
serviu para diluir de vez qualquer resquício de aperto
emocional. Estávamos vivos, e isso era o que importava.

Após me despedir de Maria, dirigi-me à universidade.
O prédio principal era um edifício imponente, com uma arquitetura
que lembrava bastante um templo rosacruz em
sua fachada ou, quem sabe, os traços egípcios. Era dotado
de pórticos impressionantes e um pátio muito maior do
que qualquer universidade que eu conhecera na Terra. Os
demais prédios apresentavam aspecto que me remetia aos
museus da velha Europa.

Havia muitas cúpulas e a arquitetura privilegiara a
construção de vários salões e bibliotecas. O prédio central
era cercado por jardins muito bem cuidados e as flores que
ornamentavam a entrada cintilavam como pedras preciosas
de muitas cores. Havia estátuas dispostas como num
grande museu, formando extenso corredor, e fontes e chafarizes
refrescantes, tudo com intenso movimento de pessoas
por todo lado. De modo geral, os espíritos movimentavam-
se em grupos. Raramente se via alguém sozinho. A cor


402

dominante nas construções era o dourado, embora outras
se mostrassem em alguns arranjos na cidade universitária.
Sim, trata-se de verdadeira cidade o complexo educacional.

Dentre os vários edifícios, escolhi aquele onde encontraria
meus orientadores. Logo que me aproximei do hall
de entrada, fui recebido por um dos dirigentes do local.
Novamente percorri os olhos em derredor e me apaixonei
pelo conjunto que via. Tive a nítida sensação de que nunca
me cansaria de observar os prédios clássicos, os quais provavelmente
exigiriam semanas a fim de serem completamente
conhecidos.

Ao longe, envolvendo o conjunto da obra, havia muros
altos, que se estendiam em forma de meia-lua. Sobre os
muros, mantendo considerável distância entre si, havia observadores
ou atalaias, como se diz por aqui. Encarregam-
se de noticiar quando chegam visitantes de outras cidades
ou colônias, além de organizar as diversas manifestações
dos alunos, que, de tempos em tempos, constituem grupos
para realizar práticas e estudos no pátio principal.

O preceptor notou minha curiosidade e quanto me deliciava
observando o ambiente em volta. Talvez mais para
captar minha atenção, comentou:


403

— Ora, ora, Ângelo! Então já sabe da notícia?
— Notícia? Que notícia? Vim apenas discutir sobre o
curso intensivo. Fui informado de que deveria procurar a
direção da universidade.
— Ah! Me desculpe se interferi, adiantando a surpresa.
— Que surpresa, meu amigo? Vamos, fale! Não me mate
de curiosidade...
— Não há como matar ninguém aqui, Ângelo... Você já
morreu, lembra?
— Você me entendeu — falei, quase morrendo de verdade.
A curiosidade era meu fraco.
— Então, vamos até a recepção e logo saberá. Não quero
quebrar o encanto. Lá encontrará alguns amigos.
Desisti de perguntar alguma coisa mais. Resolvi que
iria direto ao setor responsável para discutir, se fosse o
caso, meu projeto de estudos na Amanda.

No momento em que adentramos o ambiente — um
local arejado, com janelas grandes, através das quais era
possível contemplar todo o pátio da escola —, notei a presença
de alguns espíritos que já haviam sido apresentados
a mim. Além de Jamar, estavam ali Júlio Verne, Watab e
outros mais.


404

Jamar, alto, forte, cor de bronze, ficou segurando a espada,
um instrumento de alta tecnologia que ele parecia
não largar, como se estivesse o tempo todo preparado para
entrar em ação. Seus olhos penetrantes fitavam ao longe ou
profundamente, como se devassassem o interior da alma da
gente. Outro guardião se encontrava ali: era Zura, dos legionários
de Maria, ao qual fui apresentado em seguida. A
indumentária do sentinela era algo que impressionava. Ele
era a imagem de um guerreiro das hostes celestiais. Um gigante!
Corpo maciço, acobreado, cuja aura brilhava como
um relâmpago, semelhante à de Jamar. Refulgia com a luz
que o envolvia, de maneira que lhe percebi a elevação. Assim
como o guardião da noite, trazia um instrumento em
forma de espada, que segurava apoiada no chão, descansando
uma das mãos sobre ela.

Fiquei preocupado, pois não sabia que havia necessidade
de tantas pessoas importantes assim; além do mais,
minha intenção era somente discutir meu programa de estudos
no curso intensivo.

— Estamos esperando por você, Ângelo. Temos novidades
muito interessantes que lhe dizem respeito, pessoalmente
— principiaram.

40 5

— Não me digam que desistiram de mim?!
— Nada disso, meu amigo — falou Jamar enquanto eu
cumprimentava a todos, e me postava ao lado de Júlio Verne.
— Conversamos entre nós sobre a necessidade de você
se especializar em alguns assuntos. A tarefa que lhe cabe
requererá intenso preparo, que já começou aqui na cidade.
No entanto, como sabe, nossa metrópole engloba outros
campos de trabalho e laboratórios de experiência.
— Não sei aonde você quer chegar.
— Bem, você conheceu nossa base de trabalho nas regiões
inferiores. Podemos dizer que é uma parte da Amanda,
embora seja mais um tipo de faculdade, onde os espíritos
se preparam em regime intensivo para tarefas mais
expressivas e determinadas. Lá, Ângelo, é onde julgamos
que você terá mais campo para aprender e aprofundar-se
em situações com as quais conviverá no futuro, e que farão
parte de seu mapa de estudos.
— Então não vou mais viver aqui na cidade?
— Bem, não é exatamente o que pensamos, amigo —
adiantou-se um preceptor responsável pelo estudo de filosofias
na universidade. — A cidade dos guardiões ou base
de apoio está sendo ampliada. Você não a reconhecerá

406

quando lá chegar. Após os eventos da última guerra e do
embate contra os filhos da noite — os magos —, fez-se necessário
ampliar a estrutura do quartel dos guardiões. Por
isso, a chamamos agora de cidade, e não somente de base.

— E de certo modo ela é uma extensão da Aruanda, embora
não esteja na mesma dimensão — falou Watab, olhando
para Júlio Verne, que pedia a palavra.
— Temos de convir que, se você se encarregará de levar
notícias ao mundo dos chamados vivos sobre o que
existe além das fronteiras do romantismo espiritual, então
terá de travar contato direto com a realidade, tal qual ela é.
E nada melhor do que ficarmos juntos numa região como
a que se encontra a cidade dos guardiões — uma espécie
de antecâmara da Aruanda, um posto avançado em regiões
mais densas.
— Isso me preocupa — falei meio sem jeito diante da
proposta. — Já estava me acostumando com a boa vida aqui
na metrópole...
— É amigo, isso aqui vicia qualquer um. Não há como
não se habituar com coisa boa.
— Mas temos de convir que sua tarefa, de maneira específica,
será muito mais abrilhantada com uma estrutu

407

ra de aprendizado ligada diretamente ao palco das lutas
mais ardentes que temos levado a cabo nas regiões inferiores.
Ademais, entre os guardiões, você contará com uma infraestrutura
muitíssimo especializada. E poderá visitar a
Aruanda quando quiser, além de ter aqui o seu refúgio pessoal,
junto ao lago, onde foi construída sua morada.

— E, não há do que reclamar. Se é assim, estou de pleno
acordo.
E falando baixinho, como se tentasse evitar que os demais
ouvissem, Júlio Verne comentou com outro espírito
ali presente:

— Como se houvesse opções disponíveis...
Ignorando a observação, que para mim foi apenas um
gracejo, ousei perguntar sobre determinada coisa que não
ouvira ninguém mencionar, até então:

— Como me disseram que eu teria de preparar o médium
com o qual devo trabalhar no futuro, como ficará essa
aproximação? O rapaz será conduzido também para as regiões
inferiores, ao invés de vir aqui para a cidade?
— Primeiramente, meu amigo, é bom que saiba um
pouco mais sobre os companheiros de trabalho na dimensão
física.

40 8

— Mas não será somente com uma pessoa, um médium,
que trabalharei?
— Bem, de maneira mais íntima, sim. E falo de intimidade
no sentido de compartilhar pensamentos e emoções
com o rapaz que lhe servirá de intérprete. No entanto, nenhum
trabalho se realiza somente com um trabalhador.
Você terá de se afinar com o pequeno grupo de pessoas que
lhe servirá de apoio entre os encarnados. Trata-se dos companheiros
do médium com o qual trabalhará; isto é, terá de
preparar a equipe também, e não apenas o médium.
— Mas não seria mais fácil o ambiente da metrópole para
que o médium fosse preparado? Cheguei a encontrá-lo aqui
algumas vezes... Talvez por aqui se sentisse mais à vontade....
Jamar olhou para mim de maneira significativa, como
se estivesse perdendo tempo precioso. Mesmo assim, ele
prosseguiu calmo, dando-me mais detalhes:

— Ocorre o contrário, Ângelo. O rapaz que terá que
preparar para ser seu intérprete, e nosso também, sente-se
mais à vontade nas regiões inferiores. Com o tempo conhecerá
a história dele no período entre vidas e compreenderá
melhor o que lhe falo. Por outro lado, não é nada fácil desdobrar
o médium e elevar a frequência do seu corpo espi

409

ritual, a fim de que se manifeste em nossa metrópole com
consciência plena ou suficiente. Esse tipo de ação exige
enorme dispêndio de energia de nossa parte. Como ele terá
de se inscrever num curso regular do lado de cá da vida,
além, é claro, de participar de algumas tarefas conosco, ficar
no plano mais próximo à Crosta é muito mais fácil para
ele — e também para nós. Afinal, ele pertence a este lugar,
ao mundo dos guardiões. E na escola que estruturamos na
zona de apoio, mais próxima à superfície do orbe, terão a
disposição não somente as matérias e materiais para estudo
e aprendizado, como também poderão entrar em contato,
na nova cidade dos guardiões, com espíritos de longa
bagagem, no que tange às incursões a planos mais densos.

No momento não entendi bem o que Jamar pretendia
com sua explicação, mas senti que era o melhor para
mim. Só aos poucos clarearam as coisas que antes não faziam
sentido para meu espírito. Foi quando Zura prosseguiu
com o pensamento de Jamar:

— Para quem quer se especializar, os planos mais densos
oferecem recursos de aprendizado que não encontramos
em nenhuma outra dimensão. O contato com zonas de
impacto e com seres mais ou menos materializados, imer

410

sos numa realidade próxima ao que encontramos no mundo
dos encarnados, evoca certa familiaridade. Verá como
seu agente no mundo dos escarnados, quando em desdobramento
junto aos guardiões, guardará mais lembranças
do que entre as estrelas da Amanda.

— Mas eu poderei voltar à cidade quando quiser, para
me retemperar?
— Se você conseguir sozinho... — insinuou Watab, de
maneira reticente. Ou seria irônica?
— O que você quer dizer com isso? — perguntei, ligeiramente
desconfiado.
— Você descobrirá, Ângelo. Chegar à nossa cidade não
é tão fácil assim. Lembra-se de como chegou aqui? Foi trazido
pelos guardiões. Por Jamar, pessoalmente.
Fiquei meio ensimesmado, pensando na oferta de estudos
junto aos guardiões e nas implicações de toda a proposta.
Afinal de contas, não teria obrigatoriamente que concordar
de imediato, mas como havia ali seres responsáveis
e mais esclarecidos que eu...

— Está bem. Vou aceitar a proposta de estudo na base
de apoio dos guardiões. Depois, durante minhas tarefas por
lá, talvez entenda melhor o que quiseram dizer. Aceito!

411

Jamar olhou os demais com certo brilho no olhar. Em
todo caso, ficaria mais perto dele e dos novos amigos que
fiz na Amanda. Uma vez que não perderia minha morada
na cidade, deduzi que, à medida que o tempo passasse, poderia
regressar, com a ajuda de Jamar, à cidade que para
mim era como o paraíso. Se eu tinha uma tarefa pela frente,
que tudo fosse feito em função dessa tarefa.

Deixei a universidade cheio de expectativas, já que
compartilharia da presença de Jamar, Watab, Zura e dos
demais guardiões de modo mais próximo e permanente.
Embora as belezas da cidade dos espíritos, segundo o que
meus amigos explicaram, a cidade dos guardiões era parte
da Amanda, um entreposto dos espíritos que se comprometiam
com a humanidade, com o bem da humanidade.
Então, apesar da diferença marcante, tanto na paisagem
ao redor quanto na distância vibratória, se comparasse a
Amanda ao local onde eu residiria, veria que estávamos conectados
intimamente devido aos ideais.

— Ah! Ângelo, me esqueci de lhe falar. Terá em nossa
cidade uma espécie de instrutor, que poderá auxiliar até
que você se adapte aos fluidos mais densos e ao tipo de vida
mais ou menos militar de nossa cidade. Como estamos lo

41 2

calizados em dimensão hostil, temos de manter certo rigor
no tocante ao modo de vida e aos hábitos, pois nossa cidade
é uma espécie de cidade universitária e militar, onde especializamos
muita gente para lidar com vibrações mais
densas e pesadas ou espíritos mais inteligentes, embora em
oposição à política do Reino.

Um instrutor! Não imaginava precisar de alguém mais intimamente
ligado a mim, mas, considerando o tipo de fluido
com os quais deveria me habituar, até que a ideia não era tão
sem fundamento. E lá fui me despedir de Consuela, de Laura
e dos amigos que fiz neste meu primeiro momento na Aruanda.
Quando conversava com Consuela, ela me surpreendeu:

— E pensa que vai para a cidade dos guardiões sozinho?
Pelo que fiquei sabendo, um grupo numeroso de espíritos
irá junto para formar a equipe com a qual você vai
trabalhar. E conte comigo! Toda vez que sair algum veículo
em direção às regiões mais densas, procurarei ir junto ou
enviarei notícias de nossa humilde morada — como sempre,
Consuela dramatizava.
— Que espíritos são esses? Você os conhece?
— Claro que conheço alguns, mas é um a turma muito
grande. Acho que você os conhecerá assim que chegar. Es

41 3

pero que dê tudo certo. Assim que vier se retemperar nos
ambientes de nossa cidade, seu lugar estará arrumadinho,
tudo no lugar, esperando por você.

Despedi-me dos amigos, menos de Pai João, pois ele
nos guiaria até a base dos guardiões, a cidade dos sentinelas,
localizada nas regiões mais densas. Estava ansioso para
me ver entre o pessoal de Jamar, no local que visitara antes.

Tão logo entrei no veículo, que estava na espécie de
hangar de onde partiam os aeróbus, entrou uma mulher
em tudo diferente de todas as outras que eu conhecera
nos primeiros tempos na Aruanda. Parecia muito mais
uma pessoa encarnada do que desencarnada. Algo era diferente
nela. E a familiaridade com que conversava com
os guardiões indicava serem velhos conhecidos. Mais tarde,
soube que se chamava Irmina Loyola e era um agente
dos guardiões entre os chamados vivos. Atuava fora do corpo
junto aos representantes da Aruanda, em várias frentes
de trabalho. Somente mais tarde eu viria a saber que ela fazia
parte da equipe. Aliás, a equipe dos guardiões era muito
grande e contava com várias pessoas encarnadas, que,
durante o sono físico, colocavam-se a serviço dos emissários
da justiça divina. A rede de trabalhadores em torno do


414

planeta era algo incrível e, mais ainda, não dependia de religião
nem de serem os envolvidos pessoas religiosas. Bastava
estar sintonizado com a proposta de auxiliar a humanidade
de maneira intensa e genuína.

A primeira reunião que presenciei foi presidida pelo
espírito Joseph Gleber, que deu início à sessão com um comentário
que me abriu a mente, de maneira inusitada, para
questões até então desconsideradas por mim. Ele fez um
convite para que eu presenciasse, juntamente com Irmina
e mais dois médiuns encarnados em desdobramento, alguns
eventos relativos ao movimento espírita. Seria importante
conhecer as características do movimento, pois em
alguma medida me envolveria com espíritos espíritas ou
médiuns espíritas. Pai João participava silencioso da reunião,
e um grupo de mais de 100 guardiões estava ali também,
demonstrando interesse no assunto.

— Com certeza não será nada agradável para vocês
perceberem que os amigos encarnados mais envolvidos
com a renovação do pensamento e o esclarecimento espiritual
não são nada resolvidos entre si — falou o médico de
procedência alemã. — Por essa e outras razões, vocês precisam
ficar atentos, pois inicialmente enfrentarão resistência

415

cerrada entre aqueles que dizem representar a luz do progresso
espiritual. Notarão, também, que, embora falem em
progresso e evolução do pensamento, meus irmãos encarnados
no movimento espírita são, de modo geral, os mais
resistentes a novas ideias e à própria característica renovadora
e inovadora da mensagem espiritual.

Sinceramente, não entendi como pessoas que afirmavam
divulgar ideias renovadoras e representar um movimento
de libertação pudessem, em algum nível, combater
ou ao menos contrariar o objetivo da mensagem que diziam
propagar. Não tivera ainda contato mais íntimo com
espíritas. Será que eu teria surpresas pela frente?

De qualquer forma, para mim, e quem sabe para os demais
espíritos ali presentes, seria ótima a oportunidade
de ter contato estreito com a realidade de integrantes do
movimento com o qual lidaríamos. Tratava-se da primeira
aproximação direta; experimentaria a primeira impressão
do campo de trabalho em que militaria.

Joseph Gleber deu prosseguimento à sua fala, discorrendo
sobre a ocasião que teríamos de observar o diálogo
entre um dirigente encarnado em desdobramento e seus
mentores. Pediu que reparássemos na dificuldade enfren



416

tada pelos espíritos responsáveis pela tarefa educativa dos
agentes encarnados ao lidar com as limitações e crenças
pessoais dos pupilos. Após a breve introdução, continuou:

— Os eventos que marcam o final do século xx no planeta
Terra indicam que, apesar de certas conquistas no âmbito
dos movimentos religiosos — tanto aqueles declaradamente
espiritualistas, que trabalham abertamente com a
mediunidade e a comunicação com o Invisível, quanto os
que não admitem tal prática —, apesar do progresso alcançado
e admitido entre os representantes das ideias renovadoras,
no tocante a diversos campos da ciência espiritual,
ainda há muito a ser feito, quando se considera o objetivo
de levar uma visão nova e mais dilatada da vida além-túmulo.
Há muito campo a ser desbravado e muitos mitos a
serem dissipados ou desconstruídos.
"Também se pode pensar o seguinte, a partir do estudo
mais aprofundado do movimento renovador da alma humana.
Levando-se em conta as manifestações de religiosidade
do povo brasileiro, em particular, e as nuances que lhes são
próprias; considerando-se os avanços do movimento espírita
no âmbito mundial e as ações e reações que observamos
no panorama interno desse movimento; tomando-se


417

por base o relacionamento entre médiuns, oradores e demais
elementos que se declaram divulgadores da terceira
mensagem, chega-se a uma conclusão inequívoca: o movimento
espírita está em crise. Numa crise sem precedentes.

"Os espíritas mais religiosos — que se inspiram em
homens-mitos, em indivíduos que tomam como referência
de santidade e comportamento, quase beatificados pelos
conceitos católicos importados para a prática espírita,
que engendram sua visão de espiritualidade — combatem
qualquer um que ouse mostrar uma visão mais ampla da
realidade espiritual e procure lhes alargar os horizontes.
Outros, os que se dizem mais científicos, pretendem fazer
um espiritismo sem espíritos, uma quase-igreja, palco
de disputas, de teorias pseudocientíficas, de pretensões
de pessoas que se acham na vanguarda das interpretações
mais acaloradas e atuais.

"Por outro lado, aqueles que ficam no meio, que tentam
fazer um movimento de qualidade, estabelecendo uma
ponte entre ambos os lados, a partir do conhecimento de
verdades de ponta, que chegam cotidianamente através da
mediunidade, mas que sabem serem relativas, são atacados
pelos dois outros setores."


41 8

Joseph Gleber deu um tempo ao grupo reunido na cidade
dos guardiões, de modo a avaliarmos a natureza do
movimento com o qual iríamos interagir mais intensamente.
Em seguida, continuou:

— Os mais estudiosos, aqueles que se permitiram ir
além das ideias cristalizadas ou meramente reproduzidas
e mimetizadas, que ousaram ultrapassar conceitos engessados
e práticas farisaicas, na medida em que procuraram o
pensamento evolucionário e progressista do codificador do
espiritismo, iniciaram uma transição. Somente com muita
coragem e estudo é que são capazes de avançar nas observações
a respeito de outros sistemas de vida nas dimensões
mais próximas à Terra.
"É tarefa impostergável desta equipe de espíritos aqui
reunida levar ao conhecimento dos meus irmãos encarnados
a realidade tal qual ela é, ou ao menos um retrato dela
que seja o mais fiel possível. É fundamental descortinar,
diante da visão de quem queira se aprofundar nas observações
e estudos, a possibilidade de anteverem o trabalho de
certas inteligências mais sofisticadas, embora voltadas para
uma ética seriamente questionável. É necessário que meus
irmãos encarnados percebam as implicações dos chamados


419

processos psíquicos complexos, no tocante às obsessões, e
possam ir um pouco adiante.

"Vocês terão a oportunidade e a responsabilidade de
mapear o trabalho de inteligências extracorpóreas em regiões
inferiores, na subcrosta e no grande abismo. Este ousado
empreendimento espiritual será uma das maiores tarefas
apresentadas a vocês. Mas não se enganem, pois o
fato de se fazerem porta-vozes de conhecimento mais dilatado,
ou de levarem ao mundo suas experiências mais árduas
do lado de cá, será visto como ameaça por aqueles que
se encontram cristalizados, cujas mentes encaixotadas pararam
numa fase que já deveria ter sido ultrapassada. Paradoxalmente,
temem pelo progresso e querem manter o movimento
renovador estacionário."

Fiquei pensando, após as palavras de Joseph. Se, por
um lado, nós estávamos fora do corpo físico, de certa maneira
incólumes aos comentários malsãos que poderiam
advir de nosso trabalho ou das avaliações a seu respeito,

o que seria dos nossos agentes, os médiuns e a equipe que
nos representaria no mundo? Por certo não seria nada fácil
para eles. Olhei para o lado, onde se encontravam dois
de nossos amigos encarnados em desdobramento, e fiquei

420

imaginando quanta coragem e determinação deveriam ter,
necessariamente, para dar a cara a tapa em nosso lugar.
Exatamente isso, pois seriam eles a receber as agressões
verbais e os ataques nervosos dos opositores do progresso;
mais ainda, a estar na mira da raiva explícita daqueles que
se sentissem ameaçados com o resultado de nossa parceria.
Respirei fundo, apreensivo quanto ao futuro de nossos amigos
no plano físico.

Enquanto tais pensamentos passavam em minha mente,
o espírito amigo retomava a fala, antes de nos liberar
para observarmos certos acontecimentos importantes, a
fim de que formulássemos nossa visão acerca do contexto
espiritual com o qual entraríamos em contato.

— Dia após dia, surgem novos grupos, comandados
por legítimos representantes do progresso da humanidade
e do movimento espírita. Grupos formados por cientistas
da alma, pesquisadores de certas verdades, médiuns
que se sentem na responsabilidade de desmistificar as crendices
a respeito do plano extrafísico, e muitos outros, que
se especializaram no trato com os habitantes da dimensão
extrafísica em algum tipo de abordagem da problemática
humana.

421

"Finalmente — disse com maior ênfase —, grupos de
pessoas que representam organizações não espíritas, de outras
filosofias e religiões, cujo tronco não está diretamente
ligado à gênese do espiritismo, despertarão também para
a necessidade de se unirem num movimento de vanguarda
mundial, a fim de aprofundar as observações e experimentações
que investigam o mundo invisível.

"Contudo, várias batalhas estão em curso e são travadas
entre aqueles que deveriam representar o Cordeiro de
Deus no mundo. Embora todos estejam à procura de melhores
instrumentos e instrumentalidades para serem ativos
colaboradores da renovação planetária, perdem precioso
tempo ao brigar entre si, disputar posições ilusórias ante
as vistas de muitas lideranças e, quem sabe, esperar aplauso
e possível beatificação da parte dos homens. Enxameiam
as pretensões à conquista de um suposto poder e o desejo
de alguns médiuns de ser considerados missionários; graças
a Deus, porém, essa postura não maculará a face verdadeira
da mensagem, que paira acima das manifestações humanas
e do próprio movimento criado pelos homens.

"Esse estado de coisas, comum em agrupamentos humanos
— mas não esperado entre os representantes do


42 2

Cristo, embora presente entre eles —, desperta a atenção de
seres da oposição tanto quanto daqueles que defendem os
ideais nobres esboçados pelo espírito Verdade. De um dos
lados, o desejo de conhecer mais profundamente as fraquezas
dos opositores; de outro, o empenho em pesquisar,
catalogar tais fraquezas, visando dar novo fôlego ao movimento,
de modo a investir no lado bom de cada indivíduo."

Talvez porque estivéssemos muito envolvidos com
a temática apresentada e, mais ainda, porque a situação
enunciada nas palavras do espírito amigo diziam respeito
diretamente ao trabalho que realizaríamos a partir de então,
parece que ele compreendeu como suas palavras despertavam
em nós uma emoção muito intensa. O médico
Joseph Gleber deu por encerrada sua participação nessa
parte de nosso aprendizado, deixando que Jamar e sua
equipe nos conduzissem nos próximos passos do contato
com a realidade íntima de alguns trabalhadores espíritas.
Decididamente, nosso aprendizado, nosso curso intensivo
havia começado.

Dando-nos a conhecer certas particularidades do ambiente
espiritual onde nos movimentaríamos ao levar o fruto
de nossas observações por intermédio da mediunidade,


423

Jamar compartilhou conosco, através de uma projeção tridimensional,
certos arquivos dos guardiões mostrando alguns
poucos lances em dois momentos e dimensões diferentes.
As imagens pareciam tão palpáveis que me lembro
de pensar que dificilmente saberia distinguir se era uma
projeção ou um fato observado i n loco.

— Dentro em breve a humanidade se verá às voltas com
uma crise muito mais de ordem espiritual, diferentemente
da que ocorre nestas três ou quatro décadas que marcam o
final deste milênio e o início do outro, a qual abala as estruturas
sociais e econômicas do mundo — dizia um espírito
representante de esferas superiores ao um amigo de trabalho.
E a conversa entre ambos denotava certa preocupação
com os parceiros encarnados.
— Sim, essa crise talvez anuncie e preceda acontecimentos
mundiais de consequências muito graves, como
ainda não se verificou na história atual da civilização. Veja
a Guerra no Golfo, por exemplo. Não foi uma guerra como
outra qualquer; ela representou muito mais do que se poderia
imaginar. Marca o início de eventos cósmicos, de alcance
mundial. E não há como ignorar que o movimento
espiritualista precisa se erguer sobre bases de verdadeira

424

fraternidade e dar as mãos para enfrentar momentos decisivos
da vida coletiva. Os representantes do Alto ora encarnados
talvez sejam inspirados a deixar de lado as brigas
e disputas, que só têm servido para diminuir a marcha do
progresso, que é inevitável.

— Muitas vezes, me parece que o processo de espiritualização
da humanidade patrocinado pelo movimento
espírita dá sinais de estar em crise, pois deveria ser algo
que ocorresse com maior agilidade e com a união daqueles
que interpretam a mensagem consoladora e de espiritualidade
no mundo. Creio que, atualmente, o movimento
dos espíritas desempenha um papel importante na história
do mundo, mas não podemos deixar de considerar os médiuns
e demais figuras atuantes desse movimento, de forma
particular.
— Na batalha que nos aguarda em prol da implantação
definitiva do Reino1 7 sobre a Terra, temos de considerar
certas diferenças entre os representantes do Cristo no
mundo: espíritas, umbandistas, esoteristas ou espiritualistas,
de forma abrangente. Creio que, por ora, essas parti17
Cf. Mt 4:23; 6:10,13; 8:12; 13:19,38; 24:14; Ap 17:12.


42 5

cularidades exigem de nós maior investimento, investigações
mais aprofundadas, pois as pessoas que se encontram
à frente do trabalho e aquelas que seriam chamadas a participar
mais ativamente nesse movimento mundial têm ficado
perdidas, em meio às disputas particulares. Lutam contra
fantasmas.

Um dos espíritos, mais ligado à área de educação do
espírito, compartilhou sua apreensão:

— Nós, os espíritos, não podemos nos furtar a essa luta.
Muitas vezes, sentimo-nos incapazes de interferir. A forma
de pensar de muitos de nossos representantes no mundo é
tão diferente da nossa que eu, pessoalmente, me vejo aflito
diante da maneira de pensar e agir daqueles que deveriam
ser nossos médiuns e parceiros.
— Sei como se sente! Muitas vezes, nossos médiuns,
tanto quanto bom número de dirigentes, se sentem atacados
toda vez que enviamos recursos em forma de conhecimento,
a fim de que se instrumentalizem melhor. Ignoram
que estão no meio de uma batalha espiritual e querem viver
na fantasia; preferem a visão romântica da vida espiritual,
cheia de fantasias quanto a seus mentores e à realidade. Há
de chegar o dia em que os espiritualistas, e os espíritas em

426

particular, reconhecerão que esse tipo de reação não poderá
ser considerado sadio nem útil para o futuro do movimento
renovador. Chegará a hora em que perceberão que
é necessário se preparar com conhecimentos mais detalhados
e aprofundados, que queremos enviar para a esfera física,
pois precisam estar cientes das táticas dos opositores do
progresso no mundo.

Nesse momento do diálogo, um dos amigos espirituais
se posicionou mais intensamente:

— Ninguém se mantém firme numa guerra de âmbito
mundial e caráter espiritual, com graves consequências,
sem conhecer e mapear o território do inimigo, sem ter
consciência das possibilidades, dos truques, enfim, da capacidade
que este detém. Nossos parceiros no mundo verão
que precisam atualizar e aprimorar a metodologia de
abordagem do mundo extrafísico, o conhecimento e, sobretudo,
o comportamento que adotam perante aqueles irmãos
que pensam de maneira diferente. Caso contrário, os
espíritas correrão o risco de se diluir entre as diversas seitas
e religiões do mundo, perdendo a característica principal,
que é o caráter progressista e de revelação da doutrina
que abraçaram.

42 7

— Esperamos que chegue o momento em que esses diversos
representantes da verdade relativa de ponta, que estão
encarnados no mundo, convivam com respeito e consideração
uns pelos outros. Até lá, pelo menos para nós, teremos
muito trabalho, muito esforço. Precisamos conhecer e acompanhar
de perto a forma como se comportam os representantes
do Cordeiro de Deus, a fim de darmos um impulso
novo, rumo à união de todos no ideal que deveria ser comum.
— Sei, amigo — falou um dos espíritos. — Mas se a nós
nos preocupa a situação do movimento espírita e espiritualista
em geral, há também interesse por parte dos espíritos
representantes da oposição, pois igualmente almejam
conhecer mais de perto nossos pupilos, mapear as reações
psicológicas e as respostas de nossos parceiros, os médiuns
e demais agentes do movimento. Querem saber se eles são
realmente prepostos do Cristo ou simplesmente se comportam
como inimigos uns dos outros.
Após as imagens do diálogo entre os embaixadores das
ideias progressistas, outras imagens foram mostradas, agora
ilustrando o grupo oposto e oposicionista às ideias de espiritualidade.
Num outro lugar, em outra dimensão, novo
diálogo, novas personagens:


428

— Você deverá fazer uma excursão ao acampamento
do inimigo. Esses religiosos de carteirinha pretendem instrumentalizar-
se, tentando enfrentar-nos. Desconhecem
nossas possibilidades reais. Pensam que estamos parados
no tempo, como eles ficaram por décadas. Enquanto permaneceram
isolados do progresso espiritual, concentrando
a atenção apenas em alguns de seus médiuns e em receitas
de paz, de espiritualização e de santidade, e alçando as
questões sentimentais e emocionais ao primeiro plano, nós
progredimos em nossos métodos, atualizamos nossa tática.
Fiquei impressionado ao perceber a tecnologia dos
guardiões. Não contentes em enviar um tipo de agente duplo
à base dos inimigos do bem, dos espíritos que faziam
oposição ao que chamamos sistema do Cordeiro, também
gravaram cada palavra dita por eles — inclusive, percebíamos
as emoções presentes no diálogo das entidades sombrias.
Presenciar os diálogos e as emoções dessas entidades
fez com que eu visse nossa tarefa sem nenhum romantismo,
tal qual seria: um desafio, e dos grandes.

— Eles pensam que estamos ainda na época da inquisição
— falava a entidade. — Acham que estamos com o
pensamento voltado para as questões internas do seu mo

429

vimento, enquanto já formamos aliados no mundo todo,
entre os representantes das nações. Estes seguidores do
Cordeiro estão parados no tempo. Sabem que o mundo físico
progride, usam de tecnologia modestamente avançada
na esfera física e, ainda assim, muitos imaginam que do
lado de cá continuamos com os mesmos métodos de 100
anos atrás. Esse pensamento vem bem a calhar para nossos
propósitos. Sem querer e sem saber, eles colaboram conosco
ao defender técnicas ultrapassadas, ao combaterem entre
si, deixando-nos mais à vontade para agir.

— Ou, então, não agir. Pois, se ficam combatendo entre
si, deixam pouco serviço para nós. Se autodestroem. E o
que é melhor: em nome da própria filosofia e verdade que
julgam defender.
A partir desse ponto da conversa entre as inteligências
sombrias, pude entender o que planejavam — e eu vira somente
uma pequena parte do véu ser levantado. Pude entender,
também, por que aqui, na cidade dos guardiões, era
mais fácil nos instruirmos acerca desses detalhes, que possivelmente
nem interessassem à maioria dos espíritos com
os quais convivíamos na Aruanda. Aqui poderíamos ficar
mais à vontade, nos aprofundar nas observações e estudar


430

a metodologia empregada pelos seres que faziam frente ao
progresso espiritual da humanidade.

Prosseguindo na conversa, um dos espíritos interessados
em minar o movimento de renovação continuou:

— Temos de observar de perto alguns dentre eles, que
têm despontado como representantes de uma ciência dos
superiores. Muitos espíritos foram chamados a reencarnar
no mundo com o objetivo de levantar o véu da ilusão que
encobre a visão espiritual dos dirigentes e dos defensores
da pureza. Precisamos ficar atentos, catalogar todas as informações
que pudermos ter a respeito desses enviados e
de seus seguidores.
"Enquanto observamos, continuaremos nossa investida,
nosso investimento em escala mais ampla, mundial.
Novas lideranças devem subir ao poder entre os representantes
das nações; novas alianças devem ser feitas entre os
políticos, pois os emissários do Cordeiro rejeitam a ideia
de se envolver na política humana. Gradativamente, estabeleceremos
bases e sintonia com os homens públicos, representantes
do povo. Afinal, ninguém no movimento espiritualista
costuma se preocupar em abordar as questões
espirituais desses líderes mundiais.


43 1

"À medida que inspiramos disputas e dissensões entre
os defensores das ideias do Cordeiro, e durante os conflitos
pessoais daí decorrentes, trabalharemos em silêncio, preparando
o caminho para a hora do anticristo. Quando os
parceiros do Cordeiro despertarem para a realidade, já teremos
dominado muitas mentes representativas."

Vi o ardil dos planos excêntricos das entidades perversas.
E pretendiam muito mais.

— Mas também faremos com que nossas ideias penetrem
nesse movimento, e não só em nossos aliados. Enviaremos
alguns hábeis hipnotizadores de multidões, a fim de
defenderem nossos interesses de dentro das fileiras desse
movimento. Queremos estabelecer alianças em todo lugar.
— E o que farei, de minha parte? Tem alguma tarefa especial
para mim? — perguntou uma das entidades sombrias.
— É claro, nobre colega — respondeu o interlocutor,
dando estrondosa gargalhada. Suas unhas afiadas, como
garras, raspavam a mesa que lhe servia de suporte. — Preciso
que você nos represente, fazendo apenas observações.
Quero que siga de perto as reações de alguns representantes
do movimento do inimigo e nos traga todas as impressões.
Não interfira, não gaste suas forças com eles. Aja com

432

prudência, com extrema habilidade política. Queremos
apenas mapear o movimento deles, a fim de sabotarmos,
mais tarde, qualquer plano que nos pareça ameaçador. Isto
é, queremos informações sobre as reações dos parceiros do
Cordeiro, pois aí, na hora certa, agiremos com a estratégia
mais eficaz.

Olhando significativamente para os olhos negros e fundos
de seu colega, disse:

— Entrego-lhe especialmente o cadastro de alguns que.
temos certeza, foram enviados com objetivos bem definidos,
para tarefas no mundo. Quero o máximo de sigilo, de
detalhes e de acerto em suas observações.
"As informações contidas nas fichas dos trabalhadores
que serão investigados foram colhidas durante anos de silenciosas
observações por parte dos chamados 'olhos' ou
agentes duplos. Foram mapeadas emoções, sentimentos,
reações e atitudes desenvolvidas em cada atividade, desde
a profissional até o envolvimento social e familiar de cada
um. Essas fichas constituem, na verdade, mapas mentais
muitíssimo detalhados."

Depois do diálogo ocorrido em regiões inferiores e ignotas
da dimensão extrafísica, o emissário da escuridão


433

partiu em direção ao mundo dos homens. Tinha muito o

que observar, catalogar, registrar. Por enquanto, nada mais!

Afinal, não deveria gastar tempo, por ora, combatendo os

representantes do Cordeiro. Estes estavam muito ocupados

entre si; digladiavam, disputavam títulos e posições, aplau


sos e reconhecimento. Muitos representantes do abismo e

das regiões inferiores poderiam tirar férias, não fossem

seus planos mais ambiciosos, em âmbito planetário. Os es


píritas e espiritualistas, segundo entendiam, estavam numa

luta sem precedentes contra si mesmos; perdiam lon


go tempo fazendo relatórios que condenavam os próprios

companheiros de ideal; divulgavam ideias uns sobre os ou


tros de modo que mais pareciam inimigos. E essa atitude os

espíritos das sombras aplaudiam.

Fiquei abismado ao entrar em contato com aquela realidade.
Não teria podido sequer supor o que nos aguardava
no futuro, especialmente dentro do próprio movimento espiritualista.
Ao ouvir o diálogo das entidades perversas, seu
planejamento estratégico inteligente e minucioso, fiquei a
imaginar como nossos parceiros no plano físico seriam atacados.
Precisávamos realmente estabelecer uma frequência
mais íntima, um tipo de relacionamento mais estreito, uma


434

rede de proteção eficiente, a fim de amparar nossos agentes
encarnados quando as ideias que apresentaríamos fossem
levadas a público. Finalmente, eu começava a ter uma ideia
mais exata do que os guardiões me falaram sobre o preparo
da equipe que deveria trabalhar em sintonia conosco.

— Diante da iminente crise de valores que ameaça os
religiosos e as religiões do mundo, incluindo os espiritualistas
— iniciava nova cena —, faz-se urgente conhecer não
somente as armas e o potencial dos inimigos do bem, do
Reino, mas também suas fraquezas. É preciso, além disso,
tomar ciência do que ocorre em nossas próprias fronteiras,
quais elementos temos dentro de seu perímetro, a fim
de averiguar se podemos contar com obreiros conscientes
e munidos do conhecimento do Alto ou se devemos lidar,
ainda, com irmãos envolvidos em intrigas da política religiosa,
que grassou nos séculos passados. Diante de desafios
em escala cada vez maior, urge conhecer nossas forças internas,
como movimento de renovação, de novos homens.
Em breve, como humanidade, teremos de nos submeter a
provas e desafios que porão em cheque nossa pretensa espiritualidade,
quando o mundo enfrentar os momentos difíceis
da transição planetária.

43 5

"Sabemos que as provas às quais seremos submetidos
nos próximos anos deixarão para trás quaisquer outras que

o povo de Deus, os filhos do Reino tenham passado até então.
As revelações a respeito das artimanhas da oposição,
dos espíritos das sombras, já começam a se disseminar. De
acordo com o que ouvi em conversas de entidades que se
opõem à política do Reino, não há como negar que estamos
em pleno campo de batalha espiritual.
"Muita gente ainda dormita em meio a expressões de
boa vontade, embriagada com conceitos religiosos ultrapassados.
Contudo, somente o conhecimento amplo e irrestrito
das questões ligadas ao grande conflito espiritual
que está em curso — desde as armas empregadas na batalha
de mentes e emoções até as estratégias da guerra que se
passa nos bastidores da história humana — é que será capaz
de proporcionar uma visão acurada e mais precisa dos
desafios inerentes ao tempo em que vivemos.

"No aspecto subjetivo, apenas a firmeza oriunda do conhecimento
de nossas próprias dificuldades íntimas tanto
quanto de nosso potencial poderá proporcionar a vitória
certa contra as ciladas do inimigo, pois, como assevera

o apóstolo dos gentios: Não temos de lutar contra a carne e

43 6

o sangue, e, sim, contra os principados, contra as potestades,
contra os poderes deste mundo tenebroso, contra as forças
espirituais da maldade nas regiões celestes".18
As imagens se sucederam, e outro aspecto foi revelado
na projeção dos guardiões. O ambiente agora era outro.
Creio que Jamar queria acabar, de uma vez por todas, com
qualquer fantasia que alimentássemos em nosso espírito
a respeito de possíveis facilidades na tarefa pela frente. O
que vimos a partir dali era algo que merecia nossa reflexão;
os guardiões e aprendizes estavam todos atentos para o que
se passava em três dimensões.

— Vamos trazer nosso amigo Jaime até aqui — falou um
dos espíritos responsáveis pela orientação do movimento
espírita na região. Era nada mais, nada menos do que Cícero
Pereira, o eminente professor que se dedicara ao movimento
doutrinário. Cícero estava preocupado com a atitude
de Jaime em relação a um grupo espírita envolvido
na divulgação das ideias de renovação. O grupo se formara
por orientação superior e fazia o possível para firmar-se,
1 8 Ef 6:12 (Todas as citações extraídas de: BÍBLIA de referência Thompson. Edição

corrigida de Almeida. São Paulo: Vida, 1995.)


437

em sua estrutura energética, a fim de cumprir as orientações
que recebia de mensageiros da dimensão invisível. O
pequeno grupo ainda teria um papel a desempenhar no
Brasil, principalmente; de maneira mais precisa, traria novos
elementos para que o movimento pudesse repensar sua
metodologia de trabalho e seu compromisso com as esferas
de espiritualização da humanidade.

Jaime, dirigente regional, fizera-se inimigo público número
um desse grupo e de alguns de seus representantes,
em particular. Segundo víamos na projeção, ele não admitia
que alguém ou algum grupo pudesse obter a expressão
que o pequeno agrupamento estava conseguindo em meio
às outras casas espíritas.

— Não podemos permitir que Jaime, que é um bom trabalhador,
se equivoque assim quanto aos compromissos espirituais
de nossos irmãos. Nós o traremos à nossa dimensão
e veremos o que se pode fazer. Dialogaremos quanto
for possível, pois, sem se dar conta, combate nossos representantes,
seus irmãos.
A projeção mostrou a ação dos benfeitores durante o
período de sono do dirigente espírita. À noite, um dos espíritos
responsáveis dirigiu-se à cidade onde residia Jaime,


438

um trabalhador dedicado, porém equivocado e envolvido
na política interna do movimento espírita. Quando a equipe
espiritual de trabalhadores, coordenados por Anastácia,
adentrou o ambiente da casa de Jaime a pedido de Cícero, a
situação que encontraram não era nada boa.

O ambiente doméstico estava repleto de criações mentais,
que fervilhavam em torno do quarto de Jaime. Ele
dormia, mas não um sono tranquilo, pois parecia estar
mergulhado em rancor, expresso através das imagens que
compunham seu quadro íntimo. Anastácia, ao ver a situação,
realçou a importância deste trabalhador, no que tange
aos atropelos de seus desafios pessoais, íntimos, os quais
estavam definindo, muitas vezes, suas reações no movimento
de que participa:

— Jaime está envolvido em fantasias herdadas de seu
passado espiritual. Ficou preso aos conceitos de domínio e
agora amarga as imagens mentais que criou e às quais se
enredou — falou Anastácia ao outro espírito.
— Também, pudera. Segundo temos notícias do histórico
pessoal, Jaime foi alguém muito ligado ao catolicismo
no passado. Parece que ele se ajustou perfeitamente ao papel
de sacerdote da igreja.

439

— É, meu amigo, temos muitos ex-católicos reencarnados
no movimento espírita. Por um lado isso é bom, uma
vez que têm oportunidade de reavaliar sua visão a respeito
de espiritualidade; por outro lado, trazem os resquícios do
passado para a prática espírita. Nesse caso, veja como Jaime
ressuscita a velha fórmula católica de gerir os centros
espíritas. Ele não permite nada novo, nem qualquer coisa
que não passe pelo aval daquilo que convencionou chamar
de movimento oficial, em contraste ao conceito errôneo que
convencionou e que chamou de movimento paralelo.
— Não entendo essa coisa de movimento paralelo,
Anastácia.
— Nem você, nem ninguém. Trata-se de uma invenção
de dirigentes espíritas que querem dominar o movimento,
de espíritos católicos que reencarnaram para atrapalhar a
marcha do espiritismo. Qualquer pessoa ou centro espírita
que porventura se destaque nas pesquisas ou no trabalho
que realiza e que não baixe a cabeça e peça bênção àqueles
que querem ditar normas aos demais, é tachado de paralelo.
Isso é apenas política rasteira que fazem, a fim de manter
um status que não têm mais e, além disso, uma posição
insustentável para a época atual.

440

Ao ouvir o diálogo das entidades que tentavam auxiliar
Jaime, pude vislumbrar melhor o que nos aguardava
no porvir. Não seria fácil nossa tarefa. Jamar parecia saber
disso muito bem, pois não nos poupou, nem sequer aos médiuns
desdobrados, de ouvir um pouco mais.

Deixando de lado os comentários sobre a política de alguns
dirigentes, os dois espíritos dirigiram-se a Jaime. Dispersaram
as formas mentais invasivas que gravitavam no
interior do ambiente doméstico e, em seguida, Anastácia
magnetizou Jaime, com passes longitudinais lentos. À proporção
que o magnetismo agia sobre o homem deitado, seu
corpo espiritual desdobrava-se na dimensão extrafísica,
com aparência bastante diferente. Aparecia um sacerdote
católico, em toda a sua roupagem, vestido com indumentária
representativa para as convenções daquela religião.

— Meu Deus do céu! — pronunciou Nélio, assustado
com o rompante do homem desdobrado.
Jaime trazia sob o braço um exemplar de O livro dos
espíritos, de Allan Kardec — algo que não combinava com a
roupa de sacerdote.

— Olá, meu amigo! — falou Anastácia. — Aguardamos
você para uma conversa séria a respeito de nosso movi

441

mento. Mas, antes, acho que podemos modificar sua aparência.
O que acha?

Olhando para si mesmo, Jaime-espírito também se assustou
com a roupagem fluídica que trazia estampada em
sua aparência perispiritual. A um comando de Anastácia,
Nélio magnetizou lentamente Jaime, tentando modificar-
lhe a aparência ou a indumentária com que se apresentava.
Mas não conseguiu completamente. Alguns elementos
pareciam resistir ao magnetismo.

Olhando para o companheiro espiritual, Anastácia falou:

— Parece que a postura do sacerdote católico está tão
arraigada que, mesmo sob ação externa, não há como desvencilhá-
lo daquilo que para ele representa uma insígnia
de poder. Não obstante, não poderíamos deixá-lo totalmente
como estava, pois essa figura reforça em seu psiquismo
uma posição que não mais detém e que é por demais pretensiosa.
Vamos levá-lo conosco.
As imagens projetadas se modificaram totalmente. Vimos
outro ambiente. Irmina parecia incomodada com a situação.
Talvez porque ela, entre todos nós, era a única que
não teria nenhuma ligação direta com o movimento espiritualista.
Mas diante de um olhar significativo de um dos


442

guardiões, ela se aquietou. A projeção continuou por mais
algum tempo.

Jaime foi conduzido pelos dois espíritos amigos a um
ambiente da dimensão extrafísica onde poderia se expressar
aos benfeitores e também ouvir algo que o fizesse refletir.

— Queremos conversar um pouco com você, meu amigo
— introduziu o companheiro espiritual que pretendia
orientá-lo.
— Não vejo por que me trouxeram aqui; tenho muita
coisa a fazer no movimento espírita. Mas, aproveitando a
oportunidade, trago algumas considerações para as quais
pretendo pedir medida urgente da parte de vocês — o homem
desdobrado fazia suas reivindicações.
Aprendi muito nesses poucos momentos em que presenciava
a gravação que os guardiões exibiam. Era interessante
observar a postura de alguém fora do corpo, ver o
modo pelo qual se expressava como espírito, e não somente
como encarnado.

— Consideramos a situação do movimento espírita e
sabemos que muitas casas espíritas têm surgido e se destacado,
buscando atuar conforme as diretrizes recebidas
de nossa dimensão — falou um dos espíritos mentores do

443

movimento regional. — Segundo informações que detemos,
provenientes de planos mais superiores, nosso movimento
carece de urgente união, e muitas casas, como naus num
oceano, precisam de apoio a fim de se sustentarem, visando
às tarefas que lhes reserva o futuro.

— Existem muitos que estão formando grupos fora do
movimento de unificação. Fazem um movimento paralelo
e tentam fazer espiritismo de uma forma diferente — argumentou
Jaime.
— Mas como pode haver unificação sem união, meu
amigo? Como pretender que todos falem a mesma linguagem
quando colocam argueiros nos próprios olhos, que
impedem de ver as próprias limitações, a deficiência na
maneira de se comunicar com irmãos do mesmo ideal ou,
ainda, as barreiras de caráter político, atinentes à administração
do movimento? Será que não seria hora de, ao menos,
escutar aqueles que você classifica como participantes
de movimento paralelo?
— Não adianta diálogo. Veja o caso da casa espírita
com a qual tenho lidado pessoalmente. Atrevem-se a publicar
livros, divulgar eventos e, ainda por cima, têm ganhado
terreno e público executando um trabalho espiri

44 4

tual para o qual não nos pediram permissão, nem sequer
nos informaram.

— Mas qual é o papel dos dirigentes do movimento espírita?
Seria ditar normas de conduta para os centros? É
gerir internamente aqueles grupos que surgiram com uma
proposta inspirada pelo Alto, embora você mesmo confesse
não se dar ao trabalho de conhecer tal proposta?
Ignorando o que o amigo espiritual dizia, Jaime prosseguiu
com seus argumentos:

— Os dirigentes dessa casa, por exemplo, não têm competência
para decidir a respeito de livros que devem ser
lançados em nome da Doutrina. Estão causando confusão
e abordam assuntos polêmicos; querem divulgar o trabalho
do médium deles sem que o conteúdo dos livros passem
por nosso crivo, o conselho doutrinário.
Eu não sabia que existia um conselho doutrinário. Sinceramente,
fiquei impressionado com a ideia apresentada
pelo dirigente encarnado.

— Mas me responda uma coisa, amigo — insistiu Anastácia,
interessada na conversa. — Baseados em que orientação
ou conselho de Kardec vocês instituíram esse crivo a
que se refere, esse conselho doutrinário? Melhor, ainda: as

445

pessoas que compõem o tal conselho foram investidas de
que autoridade para se julgarem em condição de definir o
que deve ou não ser publicado, divulgado ou pregado?

— Nós temos o dever de zelar pela pureza doutrinária!
— esquivou-se Jaime, desdobrado, convicto, em meio
àquela assembleia.
— Mas você não me respondeu ainda, querido Jaime.
Não encontramos respaldo algum para as pretensões
descabidas de arrogar-se o direito de dar a última palavra
a respeito de qualquer assunto, o que não compete a nenhum
dirigente. Você acredita realmente que está prestando
um serviço ao movimento espírita com essa atitude,
boicotando ou combatendo os trabalhos de uma instituição
que faz de tudo para levar a cabo as tarefas de divulgação
doutrinária que lhe foram confiadas? Acha realmente
que você foi investido de algum poder político ou censor,
papel que jamais passou pelas cogitações do próprio Allan
Kardec reivindicar?
— Se nós somos os representantes legítimos do movimento
de unificação do espiritismo, nos cabe zelar por
tudo aquilo que é difundido, pelo conteúdo dos livros, jornais
e revistas que as editoras publicam, e até mesmo pelo

446

que é ensinado dentro dos centros — falou Jaime, num tom
já nervoso.

Mais pasmo ainda fiquei. Não imaginava que, no futuro,
possíveis mensagens e informações que eu levasse pelo
correio entre os dois mundos teriam de ser submetidas a
um crivo, uma censura espiritual. Estava arrepiado com o
que ouvia. Realmente, Jamar conseguira dissipar qualquer
ilusão de que a tarefa que teríamos pela frente seria simples.
Creio que o guardião percebeu que as projeções mexeram
com a maioria de nós. Ele não prosseguiu muito
mais com as imagens tridimensionais; mesmo assim, ainda
ouviríamos outro trecho do diálogo.

Respirando fundo, como que para dar um tempo até os
ânimos se acalmarem, Cícero interveio:

— Fico preocupado, meu caro Jaime, sinceramente
preocupado com o destino de nosso movimento espírita.
Vejo que temos muitas pessoas de boa vontade combatendo
entre si, como se fossem rivais. E falta diálogo. Pergunto-
lhe, respeitando seu ponto de vista: quando foi que você
visitou a casa espírita que acusa de fazer "movimento paralelo"?
Já conversou com os dirigentes, como amigo, como
companheiro de um ideal que está acima das questões po

447

líticas e administrativas do movimento? Já lhes deu a oportunidade
de se expressarem, de falarem a respeito do trabalho
que realizam? E ainda, como dirigente do movimento
de unificação, você conhece as diretrizes do trabalho espiritual
dessa casa, os projetos que norteiam a fundação da
casa e o trabalho dos dirigentes?

Quase emburrado, não conseguindo esconder na fisionomia
o desgosto de participar daquela reunião, Jaime expressou-
se, num rompante:

— Não tenho de conhecer nada! Eles é que têm de vir
até nós, em nossa sede, e marcar uma reunião conosco, submetendo
suas ideias a nosso Conselho. Não podem fundar
um trabalho assim, sair por aí fazendo divulgação da Doutrina
sem que haja consentimento da direção do movimento.
Afinal — complementou, quase irado —, temos uma diretoria
e um dever maior, que é coordenar o espiritismo
local, não permitindo abusos da parte de ninguém.
Novamente foi Anastácia quem interferiu:

— Vejo que a questão não se atém meramente ao que você
falou, a respeito dos companheiros da tal instituição formarem
um movimento paralelo. Creio, Jaime, que você tem algo
muito malresolvido com a questão da autoridade e do poder.

44 8

Pareceu que Anastácia tocara no ponto fraco e no calcanhar
de Aquiles do dirigente desdobrado. Continuando,
ela avançou em seu raciocínio:

— Com certeza você traz na memória espiritual o registro
de outros tempos, nos quais liderou um grupo religioso;
então, na atualidade, quer fazer de tudo para continuar
exercendo o pretendido domínio em seu círculo de ação.
— Eu não preciso ouvir tamanhas barbaridades! Sou psicólogo,
tenho meu título reconhecido pelo conselho e, acima
de tudo, sou legítimo representante do movimento espírita!
— e, sem considerar a elevação do espírito com quem falava,
sobrepôs sua voz, dando vazão a seu pensamento e ao orgulho
ferido. — Quem é você que pensa poder me influenciar
com seu pensamento antidoutrinário? O espiritismo precisa
urgentemente de pessoas que o defendam dos misticismos e
dos exageros daqueles que pretendem macular a sã Doutrina.
E vocês pensam que podem deter os abusos com seus argumentos
fracos e sem consistência doutrinária?
As imagens cessaram por aí. Jamar observou a plateia
de espíritos que compunha a equipe de divulgação de
novas ideias, que seria responsável por desbravar o mundo
extrafísico de maneira inusitada. Ele próprio, Jamar,


449

um dos comandantes dos guardiões, estaria junto daquela
equipe. Deixando-nos refletir um pouco sobre o que víramos,
o guardião da noite tomou a palavra:

— Acredito, meus amigos, que esta projeção dá uma
ideia bem aproximada do que nos espera durante os próximos
anos. Vamos deixar para trás todo sonho e ilusão.
Me perdoem se estou sendo tão franco, mas esta será nossa
realidade, de modo que cabe a vocês, a partir de agora,
definirem-se ante a proposta apresentada pelos eminentes
espíritos que nos dirigem.
Pai João, ainda calado, olhava-nos, talvez perscrutando
nossos pensamentos no intuito de sentir mais de perto
o terreno de nossos corações. Joseph Gleber se retirara
para outras tarefas. O guardião deu por encerrada esta parte
de nossas atividades. Terminava ali meu primeiro e mais
impactante contato com a realidade do movimento com o
qual eu desenvolveria, a partir daquele momento, profunda
intimidade.

Saímos do ambiente da projeção e fomos rumo ao pátio.
Eu pensava febrilmente sobre o que assistira. Afastei-
me ligeiramente de meus companheiros e me dirigi a um
chafariz no meio do enorme pátio, que era decorado com


450

esmero, embora sóbrio. Notei que a base dos guardiões estava
realmente sendo ampliada. Não era mais apenas um
dos quartéis onde eles se reuniam, mas agora se assemelhava
a uma cidade, com construções à altura. Havia atividade
da parte dos espíritos construtores em ritmo acelerado, visando
ampliar aquele lugar, que, de fato, estava em franca
expansão. Olhei no entorno, percebi os fluidos ambientes e,
logo mais, Pai João se aproximou de mim, segurando-me.
Estava acompanhado por Irmina e pelo rapaz que ele próprio
me apresentara, na casa de Consuela.

Ainda respeitando meu momento de reflexão, diante
dos desafios que enfrentaríamos juntos, o pai-velho olhou
para o alto, expressando talvez um quê de gratidão ou esperança.
Apontou silencioso uma luz que brilhava bem alto,
apesar da densidade vibratória da região onde estávamos, e
pude sentir seu pensamento pela primeira vez:

— Amanda! É o que nos basta saber no momento, meus
amigos. Amanda é a certeza de que não estaremos sozinhos.
Que vocês não estarão sozinhos; afinal, os filhos de
Pai João bambeiam, mas não caem...
Senti o carinho expresso no pensamento daquele ser
admirável. O médium aproximou-se de mim; Irmina, ins



45 1

pirada na atitude do rapaz, também se achegou. Abraçamo-
nos os três, olhando para a estrela que brilhava na imensidão,
reflexo daquele paraíso que nos abrigou. Somente
então o pai-velho comentou, rompendo o silêncio:

— Que venham as dificuldades, que venham as lutas! O
importante, meus filhos, é que permaneçamos unidos. Saibam
que, onde vocês estiverem, estarei junto. Caso caiam,
cairei antes, ao chão me jogarei para ampará-los em meus
braços. Estaremos intimamente ligados pelos mais sagrados
laços de afeto, e, embora as incompreensões naturais
ao caminho dos desbravadores, nossa fidelidade a Jesus estará
acima de qualquer espécie de dificuldade.
Olhando-nos com imenso carinho e, quem sabe, sondando
nossas almas um pouco assustadas diante dos desafios
que nos aguardavam no porvir, complementou, estendendo
suas mãos numa bênção:

— Onde Pai João põe a mão, Deus, que é poderoso, põe
a sua bênção!...
O céu estava claro, limpo de fluidos perniciosos e contaminações
energéticas. Embora não tão claro quanto o visto
da Aruanda, mas imensamente mais claro, se comparado
ao que víamos em derredor, naquela dimensão onde se lo



45 2

calizava a cidade dos guardiões. Iluminada discretamente
com a luz que irradiava da Amanda, que permanecia como
uma estrela vista ao longe, um farol de dimensões mais altas,
e fortalecida com o pensamento dos guardiões que ali
trabalhavam e estudavam, era muito bom ver aquela estância
tão limpa e transformada numa cidade esplêndida, antecâmara
da metrópole espiritual.

Jamar e Watab iniciaram um deslizar suave sobre a
nova cidade. Voavam sobre os fluidos ambientes como se
asas tivessem; pairaram como se suas asas imaginárias
bem abertas estivessem — ou, talvez, como se planassem
de paraquedas, quase preguiçosamente, acima da cidade
dos guardiões, em seu percurso passando sobre a escola de
guardiões. Embaixo, os diversos destacamentos das hostes
dos sentinelas da luz. Os dois guerreiros voavam, planando
cada vez mais baixo sobre algumas construções e, logo em
seguida, subiram o altiplano, aumentando a velocidade lentamente
para depois pairarem mais acima.

Observando-os, vi que, tão logo chegaram ao topo, pareciam
pairar quase imóveis acima de nós, talvez meditando,
perscrutando os detalhes da cidade construída numa
dimensão quase material, mas além das percepções huma



45 3

nas. Em seguida, moveram-se novamente sobre os fluidos
ambientes, modificaram a rota do seu voo e detiveram-se,
enfim, descendo lentamente, feito uma pluma, logo acima
do ponto mais alto da montanha. Jamar apontou para baixo,
e logo uma mutidão de guardiões se posicionou desde
a base da montanha sagrada até pouco abaixo do cume.
Uma legião de trabalhadores, de guerreiros a serviço do
bem da humanidade, sob a supervisão de Miguel, o príncipe
dos exércitos celestes. Dois pontos de luz logo surgiram;
como águias com suas poderosas asas voaram, deslocaram-
se rumo ao local onde estacionaram os guardiões Jamar e
Watab. Eram Semíramis e Astrid, guardiãs que supervisionavam
um destacamento de forças femininas, também sob

o comando do príncipe Miguel, as quais eram especialistas
nos entroncamentos energéticos entre a razão e a emoção.
O batalhão estava a postos. Enquanto Jamar desembainhava
a espada, que rebrilhava em meio à semimatéria
daquela dimensão do mundo invisível, os guardiões alçaram
voo, todos, em conjunto, descrevendo uma coreografia
no ar para imediatamente partir rumo ao planeta dos homens,
ao mundo dos encarnados. Como paraquedistas, pairaram
os milhares de guardiões sobre a cidade erguida sob


45 4

o patrocínio da Amanda, sob as bênçãos de pais-velhos e de
sábios de todas as nações, e então voaram com destino à dimensão
dos filhos dos homens.
Jamar e Watab, Semíramis e Astrid a tudo observavam
com as espadas erguidas; olharam além do véu a humanidade,
e suas almas rejubilaram porque permaneceriam invisíveis,
numa terra encravada entre as estrelas, velando pelo
destino do mundo. E enquanto muitos, milhões dormiam
ou se perdiam em meio ao nevoeiro da ilusão, do maia,
mergulhados e completamente absortos no cenário oferecido
pela dimensão física, entre a materialidade e a realidade
primitiva do mundo original, eles, os guardiões, trabalhariam
para o mundo despertar e para preservar o mesmo
mundo da destruição, das armadilhas da corrupção, das investidas
das forças inimigas do progresso e da evolução. Ali
estariam eles, invisíveis, mas presentes nos gabinetes de
governos, nas regiões mais ignotas, em meio à multidão ou
onde quer que a humanidade deles precisasse. Se porventura
os homens pudessem levantar o véu que separa as dimensões,
veriam os espíritos que velam por eles, os conduzem
e os influenciam, em grau muito maior do que sequer
poderiam imaginar.


45 7

BÍBLI A de referência Thompson. Edição corrigida de Almeida.
São Paulo: Vida, 1995.

a

KARDEC . O livro dos espíritos. I ed. esp. Rio de Janeiro:
FEB , 2005.

PINHEIRO . Pelo espírito Ângelo Inácio. Amanda. 13a ed.
rev. ampl. Contagem: Casa dos Espíritos, 2011. (Segredos
de Amanda, v. 1.)

Pelo espírito Ângelo Inácio. A marca da besta. Contagem:
Casa dos Espíritos, 2010.

XAVIER , Francisco Cândido. Pelo espírito André Luiz.
Nosso lar. 3a ed. esp. Rio de Janeiro: FEB , 2010. (A vida no
mundo espiritual, v. 1.)


459

ROBSON PINHEIRO é mineiro, filho de Everilda Batista.
Em 1989, ela escreve por intermédio de Chico Xavier: "Meu
filho, quero continuar meu trabalho através de suas mãos".
É autor de mais de 30 livros, quase todos de caráter mediúnico,
entre eles Legião, Senhores da escuridão e A marca da
besta, que compõe a trilogia O Reino das Sombras, também
do espírito Ângelo Inácio. Fundou e dirige a Sociedade Espírita
Everilda Batista desde 1992, que integra a Universidade
do Espírito de Minas Gerais. Em 2008, tornou-se Cidadão
Honorário de Belo Horizonte.



OUTROS LIVROS DE ROBSON PINHEIRO


PELO ESPÍRITO ÂNGELO INÁCIO

Tambores de Angola
Amanda
Encontro com a vida

Crepúsculo dos deuses
O fim da escuridão
O próximo minuto


TRILOGIA O REINO DAS SOMBRAS

Legião: um olhar sobre o reino das sombras
Senhores da escuridão
A marca da besta


ORIENTADO PELO ESPIRITO ÂNGELO INÁCIO

Faz parte do meu show
Corpo fechado (pelo espírito W. Voltz)


PELO ESPÍRITO PAI JOÃO DE ARUAND A

Sabedoria de preto-velho
Pai João
Negro

PELO ESPÍRITO TERESA DE CALCUT Á

A força eterna do amor
Pelas ruas de Calcutá


PELO ESPÍRITO JOSEPH GLEBER

Medicina da alma


Além da matéria
Consciência: em mediunidade, você precisa saber
o que está fazendo

PELO ESPÍRITO ALEX ZARTHÚ

Gestação da Terra
Serenidade: uma terapia para a alma
Superando os desafios íntimos


PELO ESPÍRITO ESTÊVÃO

Apocalipse: uma interpretação espírita das profecias
Mulheres do Evangelho


PELO ESPÍRITO EVERILDA BATISTA

Sob a luz do luar
Os dois lados do espelho


PELO ESPÍRITO FRANKLIM

Canção da esperança:
diário de um jovem que viveu com aids

ORIENTADO PELOS ESPÍRITOS

JOSEPH GLEBER, ANDRÉ LUIZ E JOSÉ GROSSO

Energia: novas dimensões da bioenergética humana

COM LEONARDO MÕLLER

Os espíritos em minha vida: memórias

www.casadosespiritos.com


mostrou-me como os espíritos, os fantasmas — ou
os chamados mortos — já se utilizavam desde há
muito tempo de outros médiuns, não religiosos.
Aqueles que nem mesmo se davam conta de sua faculdade,
como ocorreu consigo. Do lado de cá da
vida, a convite de Joseph Gleber e sua equipe, pôde

avaliar a imensidade de fenômenos mediúnicos
e paranormais que experimentou em sua própria
vida. Durante mais de 40 anos, vivenciou-os sem
saber que tais fenômenos eram de origem espírita,
mesmo porque não lhes eram familiares, quando
encarnado, os conceitos espirituais aos quais hoje
se dedica com afinco a estudar e aprofundar.
Cativou-se, nesse meio tempo, pela forma simples,
sincera e serena do espírito João Cobú, o Pai João,
e pediu-me para auxiliá-lo em seu primeiro ensaio
mediúnico, um romance ao longo do qual gostaria
de testar sua habilidade para escrever através do
médium. A afinidade se mostrou de pronto, devido
a fatores de um passado recente que já os aproximava,
em virtude do pensamento universalista de
Voltz e de sua maneira livre e inventiva de abordar
os problemas humanos, sociais e científicos, visando
a um futuro caminho para uma humanidade
sem fronteiras e sem preconceitos.
Do modo como ocorreu comigo mesmo, escritor
dos dois lados da vida, ele não pretende trazer ensi


16


namentos nem formar gurus, tampouco doutrinar
quem quer que seja. Não aborda temas doutrinários
de religião alguma; apenas reporta o que ouviu,

o que acompanhou nas conversas de João Cobú ao
tratar de certos casos, cujo relato, talvez, traga alguma
contribuição para o leitor destituído de espírito
cético e preconceituoso.
Este romance é o primeiro de uma série que pretende
escrever, mostrando aos homens de boa
vontade que a mediunidade e a paranormalidade
não são propriedade exclusiva de ninguém e de
nenhuma religião em particular. Nem mesmo as
interpretações de tais fenômenos são únicas. Ao
contrário, são diversas as visões e os ângulos pelos
quais se podem ver certas verdades relativas
no mundo atual.
Com você, leitor, o amigo João Cobú, na visão humanista
de Voltz — escritor, médium e paranormal
que retorna, pelas mãos da psicografia, para dedilhar
na harpa da mediunidade uma nota, apenas
uma nota neste grande concerto da espiritualidade
sem fronteiras, sem bandeiras, vista sob o olhar do
amor e da fraternidade.
Ângelo Inácio

Belo Horizonte, 4 de abril de 2009.

17



dependia das bênçãos da natureza para sua sobrevivência.
Na cabana de Pai João, os filhos e filhas do
devotado pai-velho reuniam-se para ouvir do benfeitor
as palavras de sabedoria que lhes definiriam
os caminhos da vida espiritual. Estavam numa casa
onde se adorava a Deus e se praticava a caridade segundo
a orientação dos espíritos do bem.

— Sabem, meus filhos? — principiava o pai-velho, incorporado
em seu médium. — O caminho da espiritualidade
tem muitas faces interessantes. Nego-velho
diria que esse caminho é feito de muitas cores,
de muitos aromas, de muitas ervas. Diferentemente
das religiões, em que cada uma pretende ser a única
forma de agradar a Deus; diferentemente de outros
filhos espiritualistas, que também querem acreditar
que a sua maneira de buscar o Pai é a mais correta, a
espiritualidade em nosso país é feita de diversas culturas,
da fusão de muitas raças, crenças e concepções
religiosas. Afinal, aqui onde nós trabalhamos
respeitam-se as diferenças, porque existem inúmeras
nuances e visões acerca da espiritualidade.
— Meu pai — perguntou a Efigênia, trabalhadora da
cabana do pai-velho. — Eu não entendo a sua forma
de falar a respeito da espiritualidade. Queria entender
um pouco da umbanda, já que muita gente fala
tanto dessa religião e nós sabemos tão pouco...
— É bom entender, minha filha, que não existe ape20



nas uma maneira de cultuar a umbanda. Também
é preciso compreender que umbanda não é apenas
uma denominação religiosa; antes de ser assim usada,
a palavra sagrada era, acima de tudo, o nome divino
da suprema lei do Pai. Aumbandã é lei de caridade,
é lei divina. De modo mais particularizado é
que foi empregado o nome sagrado para designar o
culto atual; daí a umbanda nasceu, com a finalidade
sagrada de congregar, sob a bandeira de Oxalá, o
povo de Deus disperso.

— E há outras umbandas diferentes das que vemos
por aí, meu pai?
— Pai-velho compreendeu sua pergunta, meu filho
— respondeu de boa vontade o pai-velho para
José Benedito, um dos médiuns da casa. — Não é
que existam "outras umbandas", como diz meu filho.
O que há são diversas formas de praticar os ensinamentos
da espiritualidade; nesse caso, também
diversas maneiras de cultuar os orixás, de adorar a
Deus ou de praticar a umbanda. Acima de tudo, filhos,
o que importa mesmo não é a forma externa,
mas sim a intenção, o que se faz em nome da lei suprema.
Uns cultuam a umbanda misturada a certo
conhecimento a respeito dos orixás, com um ritual
inusitado, ao menos para vocês. Vestem-se com
roupas coloridas, cantam numa língua diferente,
familiar a certo número de indivíduos. É também
21



chamada de língua de santo ou do povo do santo. Na
verdade, trata-se de um idioma antigo, dos povos
da mãe Africa. Esse é o culto umbandista conhecido
como omolocô.
Dando um tempinho para que seus filhos pudessem
absorver as coisas que ele explicava, o vovô, incorporado
em seu médium, falava mansinho, devagar,
com paciência digna de um verdadeiro sábio:


— Existem aqueles filhos que praticam uma umbanda
com mais simplicidade, como a que vocês
conhecem... Alguns chamam essa variação de umbanda
pés-no-chão, ou pés-descalços. Não importam
os nomes dados aos cultos; essencial é que todos
trabalhem conforme as regras do coração e de
maneira a praticar a suprema lei do bem.
"Outros filhos fazem um culto mais refinado, desprovido
dos elementos africanos. Tentam desafricanizar
a umbanda, no sentido de afastar aquilo que
a aproxima dos métodos do candomblé, tais como
matança de animais, toque de atabaques e outras
características próprias dos rituais de origem africana.
Introduziram o estudo entre os médiuns e
desenvolveram uma visão mais detalhada a respeito
dos orixás e seu simbolismo, formando uma teologia
umbandista bastante interessante."
— Mas, meu pai, ainda tem gente que usa atabaque
nos terreiros?
22


— É claro que sim, meu filho — agora o velho dirigiu-
se a Antônio de Freitas, outro trabalhador muito
dedicado de sua cabana. — Como eu dizia no início,
existem muitas maneiras de praticar a umbanda...
Não podemos ignorar que, como humanidade,
estamos ainda distantes de um estágio em que a visão
acerca de espiritualidade e da forma de buscar
as coisas do espírito seja única. Devemos respeitar
as crenças e os métodos alheios tanto quanto desejamos
ver nossos fundamentos respeitados.
— Mas, vovô — assim muitos chamavam o preto-velho.
— Para que servem os atabaques que os outros
irmãos usam em seu culto e por que não os empregamos
em nossa cabana?
— Ah! Meu filho — falou com boa vontade o pai-velho.
— E preciso estudar em profundidade os fundamentos
por trás do uso de certas ferramentas de
trabalho. Nego-velho já falou pra vocês a respeito
da força do som em toda a natureza, se lembram?
Muitos de meus filhos devem se lembrar da conversa
que tivemos outro dia...
— Lembro sim, vovô, mas muita coisa não ficou
gravada na minha cabeça. Parece que estou de miolo
mole... — essa era Zefa do Malaquias, a mulher
que chegara à casa de Pai João com um encosto
daqueles. Havia se curado, mas se submetia agora
ao cuidado médico. O benfeitor estabeleceu como
23



exigência que ela prosseguisse com o tratamento e
acatasse os conselhos de seu médico a fim de poder
continuar junto à comunidade.

— Pois então nego-velho vai lembrar um pouco do
que já falou pra vocês — sendo interrompido para
ouvir outro de seus filhos que levantara a mão, pedindo
a oportunidade de se expressar. O pai-velho
ouviu serenamente o que tinha a dizer:
— Sabe, meu pai, eu até que me alembrei istrudia do
que o sinhô falou pra nóis. Mas óia que eu até tento
intende as coisa, mas a minha cabeça aqui — dizia
batendo a ponta do dedo em si — num tá querendo
aprende muita coisa não... Parece que os males da
Zefa tão querendo me pegar.
— É preguiça, meu filho — falou o pai-velho, dando
gostosa gargalhada. — Preguiça mesmo.
— O que eu gosto mesmo é de fazer os servicinho
que o sinhô passa pra nóis...
— Então faz o seguinte, meu filho: que tal você visitar
pelo menos uma vez por semana a sinhá Antônia,
que ficou sozinha depois da morte do seu marido?
Ela está acamada e precisa que alguém limpe a
casa dela. Você se compromete a fazer isso?
— Com certeza, meu avozinho, isso eu entendo
muito bem. Eu posso muito mermo fazê isso e não
é somente uma vêis pro semana, não. Eu vô é mais
vêis visitar donAntônia.
24


— Aproveite, meu filho, e leve pra ela uns banhos de
firmeza que estão guardados ali no outro cômodo...
Parece que a interferência do rapaz acabou por ali,
pois assim que Pai João falou as últimas palavras,
ele saiu correndo, nem sequer esperando para ouvir
os ensinamentos do preto-velho.
— Cada um sabe ser útil a sua maneira, não é, meus
filhos? — Pai João se dirigiu ao restante de seus filhos,
referindo-se com imenso carinho àquele que tinha
dificuldades no aprendizado. Depois de suspirar
um pouco e ajeitar-se na cadeira, o pai-velho prosseguiu
com a tranqüilidade que lhe era característica:
— Como dizia antes, filhos, nego vai lembrar um
pouquinho do que disse a respeito do valor e da função
do som em nossas vidas. Quando meus filhos
pensam alguma coisa, elaboram idéias ou fazem algum
planejamento mental, tudo isso tem que se materializar
de algum jeito no mundo, não é mesmo?
— Ah! Meu pai, agora me lembro um pouco do que
o senhor falou...
— Pois é. Dessa forma, o som é uma das principais
formas de materialização do pensamento na realidade
objetiva da vida. Quando nosso Senhor Jesus Cristo
fez as coisas no mundo, ele foi considerado a palavra
viva de Deus. E a palavra divina ou o verbo divino
é, para nós, a precipitação do pensamento do Pai.
O som tem essa função, de condensar certas ener25




gias, certos pensamentos, e fazer com que repercutam
nos planos astral, físico e etérico, de acordo com
as características e disposições advindas da fonte.
Quando vocês provocam um som e esse som obedece
a um ritmo, produz-se um efeito que varia conforme
a cadência entoada. Isso é válido desde uma cantiga
que desperta a saudade a uma música que irrita

o pensamento e as emoções de meus filhos.
"O atabaque produz determinado tipo de som. Se
for explorado por uma pessoa que entenda da lei
do ritmo, da harmonia, e saiba como conduzir esse
som de modo a atender a um propósito específico,
ele será um bom instrumento. Quando tocado no
ritmo de algumas cantigas dos orixás, o som dos
atabaques desperta energias primárias em meus filhos,
movimentando a força dos chacras localizados
na região inferior, abaixo do umbigo."
— Eu já senti uma força quase me dominando, uma
vez — interferiu grosseiramente um dos filhos do
pai-velho. — Quando fui a um lugar onde tocavam
atabaque, senti que minhas pernas pareciam querer
se movimentar. Uma coisa parecendo um fogo
subia dos meus pés...
— Sei, meu filho — tornou o pai-velho delicadamente,
enquanto os outros filhos seus olhavam o colega
de soslaio. — O que você sentiu provavelmente foi a
vibração que o som do atabaque provocou em você
2 6


e que repercutiu imediatamente em seu sistema
nervoso. Isso não tem qualquer relação com espírito
ou fenômenos da mediunidade. Trata-se apenas
de uma reação nervosa e emocional que pode muito
bem ser dominada por você.
Mais outro levantou a mão entre os presentes, pedindo
a palavra:


— E então, Pai João: por que nós não usamos o atabaque
em nossos trabalhos?
— Pois é, meu filho. A pergunta é muito interessante.
Em nossas atividades não temos necessidade
de certas energias e, por conseguinte, de alguns
instrumentos usados em outros terreiros. Isso não
significa que esses instrumentos não tenham valor.
Percebem? Ser útil não é um atributo absoluto, mas
relativo ao contexto em que se aplica. Determinado
remédio pode ser bom e eficaz, o que não implica
seja adequado para este ou aquele caso. Em nosso
meio, aos poucos temos procurado retirar algumas
expressões de religiosidade cuja função, ao menos
para nós, se extinguiu.
"Mas veja bem, meu filho. Não fique pensando que
quem emprega instrumentos de trabalho diferentes
daqueles que usamos esteja errado ou seja atrasado
na vida espiritual. É que se ocupam com energias
ainda primárias e só conhecem essa forma de
interagir com elas. Por outro lado, estamos apren2
7



dendo a lidar de outra maneira com tais energias, e é
por isso que não temos mais necessidade de instrumentos
daquela natureza. De mais a mais, qualquer
que seja o instrumento, a eficácia do método depende
em larga medida da dedicação, da habilidade e do
conhecimento de quem o opera, bem como da resposta
mental e emocional das pessoas envolvidas.
"Em resumo, o que nego-velho quer dizer é que não
devemos julgar ninguém porque lança mão de vestes,
rituais ou instrumentos diferentes; enfim, qualquer
item que, em nossa comunidade, julgamos
desnecessário. Em matéria de espiritualidade, vale
muito mais a intenção e o coração do que as palavras
bonitas, a roupagem externa ou mesmo a maneira
como se pretende buscar a vida espiritual. A
forma não é nada se não há força moral, força vital
ou o poder iniciático real e verdadeiro. Mais do que
espiritismo, umbanda e espiritualismo — com ênfase
nos "ismos" das religiões — precisamos mesmo é
de mais espiritualidade, ou seja, de uma visão mais
abrangente das coisas.
"Vejam bem como ocorre com algumas pessoas
que usam o método dos passes. Não adianta a pessoa
estender as mãos, querer ser magnetizador, se
não sabe como funciona o processo e não domina
sequer os rudimentos de como manipular as energias
que pretende administrar. É preciso estudo

2 8


constante para aperfeiçoar a forma de servir. Porém,
não basta: também é preciso a pessoa ter axé,
isto é, a força espiritual outorgada pelo Alto.
"Por isso vemos muitos filhos-de-santo ou simplesmente
pessoas de boa vontade por aí a fundar terreiros
de umbanda ou centros espíritas que, apesar
de certo conhecimento adquirido em alguns anos
de estudo, não têm força espiritual para solucionar
os problemas que naturalmente se apresentam na
jornada. Não são dotados daquilo que se convencionou
chamar de axé, a força superior para manipular
as energias; não são iniciados."

— Mas, meu pai, então todo o mundo tem que fazer
uma iniciação para manipular certas forças da
natureza?
— Nego-velho não quer dizer da iniciação que se faz
nos terreiros, que, em sua grande maioria, não passa
de um conjunto de rituais que não transmite a força
ou energia necessária para a pessoa converter-
se verdadeiramente numa iniciada. Muitos foram
submetidos à iniciação num ou noutro culto, mas
só possuem aparência de sabedoria; participaram
de um monte de ritos que não resolvem o problema
de ninguém nem cumprem o objetivo principal,
que supostamente seria introduzir o indivíduo no
conhecimento de determinadas leis naturais. Nem
mesmo a própria pessoa que patrocina a iniciação
29



consegue solucionar seus dramas por meio das práticas
recomendadas. Ou seja, quer ajudar o outro,
mas não consegue nem ao menos se ajudar.
"Nego-velho refere-se, na verdade, a uma iniciação
superior, realizada no plano espiritual, assim como
ao conhecimento das leis da natureza adquirido
no passado remoto, em experiências de outras vidas,
através de anos e anos de dedicação. Para se ter
uma idéia dos diferentes níveis de aprofundamento,
façamos uma comparação entre o que significava
iniciação em sociedades antigas e o que significa
na atualidade. Ainda que houvesse variações de
cultura para cultura, os ritos serviam apenas para
completar, coroar um processo de iniciação; a verdadeira
iniciação já havia ocorrido e se processado
dos 7 aos 49 anos de idade, período em que o pupilo
permanecia internado no colégio de sábios, no pretérito.
Portanto, iniciar-se nos mistérios da natureza
consistia em estudar, praticar, adestrar faculdades,
amadurecer e provar não só o conhecimento,
mas a capacidade de administrá-lo.
"Pessoas que passaram por uma verdadeira iniciação,
quando encarnadas, trazem um rastro de realizações
atrás de si. Não precisam fazer propaganda
de seus dons ou de suas pretensas habilidades. Só
se pode identificar alguém com tal força e energia
superiores por meio das obras que realiza; em tor


30


no delas, há uma movimentação que revela a construção
de algo maior, em benefício da humanidade.
Ao contrário dos rituais pueris e sem maior significado
de nosso tempo, a iniciação real não está
atrelada a recursos materiais e financeiros nem ao
ganho à custa de dores alheias, tampouco se macula
com troca de favores e com pagamento por serviços
de ordem espiritual. Na presente existência,
a maioria dos iniciados verdadeiros jamais passou
por rituais exóticos que pretendessem fazer deles
pessoas mais poderosas, zeladores de forças da natureza.
Refiro-me a uma iniciação constante, progressiva,
espiritual, profundamente comprometida
com a ética e o crescimento do espírito humano. É
algo bem distante das barganhas e fantasias pensadas
para festas... Um dia, em longínquas culturas,
talvez guardassem algum sentido espiritual, porém
hoje não passam de desfiles carnavalescos de que
sobressai apenas o cuidado com as coisas da matéria:
a profusão de comes e bebes, as roupas vistosas
e inusitadas, sem contar a disputa e o jogo sensual
ou erótico, elementos que servem somente para
mascarar a pobreza espiritual de quem alimenta
tais espetáculos de viciação espiritual."
Após breve intervalo para que seus filhos examinassem
melhor as idéias por ele ventiladas, o pai-velho
continuou, imprimindo novo enfoque à conversa:

31



— À parte essas coisas, hoje nego-velho quer falar de
algo que julga extremamente necessário para meus
filhos e irmãos. Diante de tanta gente que vem à procura
de auxílio espiritual ou que, em seu desespero,
deseja encontrar proteção, nego-velho acha urgente
que os filhos entendam um pouco mais a respeito
de defesa energética. É preciso caminhar em busca
de sua espiritualidade de forma tranqüila e com a
certeza de quem sabe lidar com energias contrárias,
antagônicas ou mesmo discordantes.
"Meus filhos ficam muito à mercê de ataques energéticos,
de fluidos malfazejos ou de outros tipos de
energia que acabam por minar suas defesas. Vejo
muita gente boa se envergar diante de um ataque
de origem energética e, pior: acreditando que tem
espírito por trás de seu mal-estar. Outros tombam
com suas próprias questões espirituais, íntimas, e
não se dão conta de que suas emoções é que estão
desajustadas e os fazem vacilar. Alguns reclamam
de peso nas costas, dor na coluna, cansaço sem motivo
aparente ou incômodos que se manifestam aqui
ou ali. Percebo que meus filhos desconhecem questões
simples da vida espiritual que poderiam leválos
a significativo ganho na qualidade de vida."
Antônio de Freitas aproveitou uma pausa na fala de
Pai João e transformou suas dúvidas em palavras:
— Eu mesmo, meu pai, muitas vezes senti como se
32


quisesse desistir da minha jornada de espiritualidade.
Senti tanto desânimo outro dia que julguei que
tudo a minha volta conspirava contra mim e passei
a considerar que estava a tal ponto desequilibrado
que o melhor a fazer era afastar-me dos trabalhos.
Estava convencido de que minha presença prejudicava
os demais.

— Pois é, filho — comentou afetuosamente o benfeitor.
— Como você, muita gente envolvida com o trabalho
espiritual fica remoendo certos pensamentos
em sua cabeça, devido muitas vezes a uma insatisfação
pessoal. Em vez de se pronunciar, ou procurar
ajuda, faz da insatisfação um trampolim para se
afastar do grupo em que milita. Esse é um tipo de
desgaste de origem mental e emocional que afasta
muita gente do trabalho. A pessoa chega a se sentir
culpada de algo que não sabe o que é e nem imagina
que seu mal-estar é sem consistência. Afastase
gradativamente do trabalho: primeiro, distanciase
das tarefas mais simples; depois, parece não se
enquadrar mais nas idéias que fazem parte da coletividade
e são características do agrupamento. É
como se estivesse alheia a tudo e a todos. O passo
seguinte é achar que os outros a deixaram de lado,
não mais se comunicam com ela nem a convidam
para as tarefas. Sente-se incomodada com algo que,
na verdade, é de sua inteira responsabilidade. Ou
33



seja, é o indivíduo que está desajustado mentalmente
e envolve-se com situações outras, que acabam
por ocasionar seu desligamento da tarefa ou
da meta espiritual, permitindo-se assim boicotar
a própria escalada de sucesso espiritual. Para isso
tudo nego-velho tem um nome, que é desequilíbrio
energético e emocional.

— E tem remédio pra isso, meu pai?
— O remédio está na própria natureza, meu filho
— respondeu o pai-velho. — Seja dentro da própria
pessoa ou na natureza em si. O certo é que muita
coisa depende de se desenvolver uma postura
mental e emocional sadia. Antes de qualquer coisa,
é preciso ver que a fonte do problema está em
si mesmo. Nada de culpar o outros por seu fracasso
espiritual ou pela situação interna que traz incômodos
variados.
— A gente pode entender um pouco melhor a respeito
de como combater esses males, meu pai? —
tornou a perguntar Antônio de Freitas.
— É preciso agir a tempo, meus filhos, sem delongas.
Muita gente reage às situações. Alguém toma
uma atitude e, como reação a esse movimento externo,
o sujeito caminha como se tivesse despertado
de um sono letárgico. Nunca toma a dianteira.
Por isso pai-velho diz que se deve adotar uma atitude
proativa, isto é, que envolva ação; é preciso ser o
34


fator de realização, aquele que gerencia suas escolhas,
toma as rédeas de sua vida nas próprias mãos
e não apenas tem reações aos atos de outrem.
"Quando você toma a decisão de fazer alguma coisa
e a faz, você movimenta energias, e movimentar implica
deixar de lado a ociosidade espiritual, emocional
ou energética. Equivale a fazer uma faxina em
seu interior e limpar tudo de dentro para fora. Esse é

o resultado de uma atitude deliberada, de uma ação
construtiva. Fazer alguma coisa, e não apenas pedir
ajuda ou deixar que outros façam por você."
— Muitos vêm aqui na cabana pedir por um descarrego,
Pai João, que a gente reze por eles, ou ainda
pedem passes que querem tomar. O que o senhor
pensa a respeito?
— É bom pedir ajuda, meu filho. Muitas vezes a gente
precisa mesmo é de aprender a gritar por socorro
quando não damos conta de carregar, sozinhos, o
peso de nossos incômodos. Mas não deve esquecer
que, embora a eficácia de certas energias da natureza
ou de certos métodos de manipulação energética,
esses elementos só serão eficientes quando a pessoa
que as recebe estabelecer em si uma atitude de
autodefesa energética ou autodefesa psíquica. Fazer
um descarrego com ervas, passes ou outro método
qualquer consiste apenas em se tomar emprestadas
energias alheias em benefício próprio. Quando
35



tais energias se esgotam, pois que são um empréstimo,
volta-se ao estado anterior. Sendo assim, a única
maneira de restaurar o equilíbrio é desenvolver
nova postura íntima, mental e emocional capaz de
gerar em si o estado almejado, preferencialmente
enquanto dura o suprimento externo.
"Banhos, defumações, passes ou qualquer outro recurso
empregado na defesa de meus filhos só será
eficaz caso desenvolvam uma atitude mental e
emocional sadia. Não adianta pensar que os espíritos
resolvem tudo, porque não resolvem. Não temos
resposta para todas as perguntas, nem sequer sabemos
solucionar os problemas que vocês mesmos
originaram. O máximo que podemos fazer é direcionar
meus filhos, mas isso não exime cada um de
caminhar com as próprias pernas, com os próprios
pés. E vivendo e desenvolvendo uma ação construtiva
e ética diante da vida que meus filhos se sentirão
ao abrigo de forças inferiores. Rezas fortes nem
banhos, ebós nem sacudimentos conduzirão ao objetivo
desejado se meus filhos não aprenderem a viver
intensamente e com profundo respeito a espiritualidade
e os conceitos de defesa psíquica."
Dando novo enfoque a suas palavras, para melhor
traduzir seu pensamento de orientador evolutivo
daquela comunidade, arrematou:

— Com o tempo, meus filhos — continuou o espírito
3 6


milenar que se apresentava na roupagem fluídica de
pai-velho —, os homens se libertarão da dependência
de muletas psíquicas. Muita gente tem imensa
boa vontade em sua expressão de religiosidade, mas
ainda se conserva prisioneira de expressões e convicções
primárias e dispensáveis no caminho da espiritualidade.
Enquanto não atingem um estado de
independência espiritual, reclamam elementos mais
ou menos educativos, que funcionam como alavancas
em sua caminhada evolutiva. Muita gente deixa
de estudar e experimentar vivências superiores,
libertando-se de crendices, para ficar cativa de suposições
pessoais cegas, as quais carecem de comprovação.
Outros indivíduos, alguns dotados mesmo
de vontade firme, encontram-se presos a crenças
impostas por pseudo-sábios e mestres que mantêm
fascinada a multidão. Até em certas expressões
religiosas louváveis encontramos pessoas prisioneiras
dos efeitos quase hipnóticos de cânticos, danças
e rituais esdrúxulos, que se apoiam na característica
sugestionável de pessoas inseguras ou imaturas
para uma vivência espiritual mais ampla.
"Mesmo sabendo disso, nós, os espíritos comprometidos
com a libertação desse cativeiro da alma, utilizamos
alguns poucos recursos pedagógicos que tenham
significado para certas comunidades religiosas,
a fim de conduzir o maior número de pessoas a

37



livrar-se de expressões primárias de espiritualidade.
Ainda não há como dispensar simbologias e um ou
outro elemento que tenha representatividade para
os encarnados. No entanto, aos poucos, vamos conduzindo
meus filhos para a compreensão maior das
leis da vida, na esperança de que, em breve, possam
abdicar dos atavismos milenares que impedem vôos
mais altos nos céus da vida espiritual."
Com estas palavras, Pai João deu por encerrada a
conversa com seus filhos, a fim de poder atender o
povo que chegava à tenda para clamar ajuda.
Renovados com as palavras do pai-velho, os trabalhadores
daquele recanto se levantaram para dar as
mãos aos que sofrem, com maior vontade de servir
e com um pouco mais de consciência de suas responsabilidades.
Os trovões e relâmpagos não impediram que a tenda
de Pai João ficasse cheia de gente que pedia por
socorro espiritual. Aquele era um refugio seguro, e
nem sempre os espíritos atendiam diretamente as
pessoas. Muitas vezes, ao emitir uma comunicação,
eles davam por encerrada a sessão, deixando os ouvintes
refletir sobre o sentido daquilo que se pronunciara.
Esse era o melhor remédio que os benfeitores
podiam indicar para muita gente.

38


da vida. Como cavalos, seriam conduzidos, embora
tivessem movimentos próprios, tal como esses animais.
Tinham a liberdade de ir e vir, de atuar, interferir,
impedir excessos, sendo responsáveis pelas
ações realizadas através de si. Não eram marionetes
sem vida, mas obedeciam às intuições conforme
o bom senso, a razão. O termo cavalo era apenas
uma figura simbólica muito utilizada na linguagem
cabocla, mas bastante apropriada, considerando-se

o tipo de trabalho que era realizado e os costumes
locais. Abstraindo-se dos nomes usados aqui e acolá,
todos eram médiuns de seus guias, a serviço do
amor ao próximo, da caridade.
Este era um aspecto que fazia toda a diferença nas
atividades realizadas sob o patrocínio do preto-velho
Pai João: nada se cobrava pelas orientações dadas
pelos guias espirituais ou pelos serviços prestados
pela comunidade. Fazia questão de deixar muito
clara a natureza filantrópica e espiritual de suas
atividades junto àquele agrupamento.
Em respeitoso silêncio, as pessoas foram se acomodando
nos bancos simples do salão, construído em
meio a várias árvores e jardins. A simplicidade, no
entanto, não significava desleixo. Tudo era muito
arrumado. As paredes claras com algumas samambaias
e outras plantas faziam a decoração do lugar.
À frente da cabana ou do salão de atendimento
4 2


ao público, uma espécie de altar, onde se via apenas
uma cruz simbolizando o compromisso com o
Cristo, envolta num ramo de parreira, cujo simbolismo
remetia ao espiritismo, às falanges do espírito
Verdade. Uma toalha branca alvíssima emoldurava
o altar singelo, onde se concentravam as energias
dos médiuns e visitantes. Era um condensador
energético de grande potência, pois para ali convergiam
as vibrações dos médiuns e dos benfeitores
como se fosse uma bateria, pronta para ser utilizada
a fim de abastecer a corrente mediúnica em
suas necessidades magnéticas. Nenhuma imagem
de santo nem qualquer outro adereço compunha o
quadro, que, de tão simples, passaria despercebido
a qualquer um que não fosse informado de suas finalidades.
Dali irradiavam energias benfazejas, que
eram diariamente renovadas pelos benfeitores daquela
comunidade.
Não era um centro espírita, portanto não se poderia
esperar que a forma de culto ou de intercâmbio
obedecesse ao rigor observado nos centros que
chamavam de mesa ou nos que seguiam à risca as
convenções do movimento espírita. Era uma casa
de caridade apenas, um templo em cujas dependências
se praticava a lei da caridade conforme os
espíritos mais simples ensinavam. Nada mais.
Ouvia-se, desde o salão, um cântico suave, harmo


4 3



nioso, que vinha dos aposentos atrás da mesa-altar
ou condensador energético. Era o local onde se reuniam
os médiuns, preparando-se para o atendimento
ao público. Todos se movimentavam tendo em
mente a santidade do lugar, conforme Pai João ensinara.
Um a um os médiuns tomavam seu banho de
asseio para depois entrar em contato com as energias
benéficas da natureza extraídas das plantas. Era

o banho de ervas, conforme haviam aprendido.
Afinal, os médiuns vinham todos de suas atividades
diárias, de seu trabalho. Segundo o ensinamento
recebido dos benfeitores de suas atividades, durante
o banho mentalizavam uma limpeza não somente
física, mas sobretudo energética. O banho com o
perfume das ervas remetia às forças da natureza,
de onde tais ervas eram retiradas, de acordo com as
instruções dadas previamente pelos pais-velhos. Os
médiuns respiravam fundo, faziam uma oração; ao
despejar o banho sobre si, reabasteciam-se de fluidos
balsâmicos, preparando-se para o atendimento
aos consulentes.
Ali, tomava-se precaução quanto às eventuais energias
daninhas e discordantes que alguém porventura
trouxesse impregnadas em sua aura. Ao exalar
o cheiro das ervas do próprio corpo, os médiuns,
muitas vezes sem o saber, contribuíam para que o
consulente pudesse aspirar o magnetismo primário
4 4


da natureza. Isso fazia diferença. O perfume natural
das substâncias medicamentosas penetrava fundo
através do olfato e atingia certas regiões do cérebro,
liberando químicos que favoreciam novo estado
consciencial. Os próprios médiuns, ao inspirar

o perfume e as essências aromáticas, colocavam-se
em sintonia com energias balsâmicas.
A higiene física realizada antes dos trabalhos predispunha
à higiene mental e emocional, proporcionada
pelo contato com a natureza. Conforme Pai
João falara para seus filhos certo dia: "Se vocês não
convivem tão intensamente com a natureza, meus
filhos, vamos trazer a natureza para perto de vocês
através das ervas".
Na atualidade ainda há quem conteste a eficácia
dessas técnicas; contudo, entre aqueles supostamente
mais esclarecidos, esses métodos caboclos
são chamados de fitoterapia. Mudam-se os nomes,
a nomenclatura, mas o ensinamento e os efeitos
são idênticos.
Os médiuns vestiam-se de branco, e as roupas eram
feitas de forma simples, sem adereços, colares ou
qualquer outro tipo de enfeite. Apenas a roupa,
que era preparada especialmente para o trabalho.
A adoção desse comportamento ocorria para que
os médiuns não precisassem permanecer com suas
próprias roupas durante os trabalhos práticos, pois
45



muitas vezes estavam sujas, usadas ou com odores
desagradáveis. O frescor e a limpeza dos trajes refletiam
o cuidado com o aspecto externo, lembrando
da necessidade de preparar-se internamente. A
roupa branca, além de revelar um aspecto simbólico
que lhe é inerente, transmitindo asseio e leveza,
apresentava também a vantagem de ser fácil de lavar
e de extrair dela possíveis manchas.
Todos ali cultivavam um sentimento de respeito
muito profundo para com o trabalho mediúnico.
Algo que, aos poucos, muita gente perdeu. Em
alguns locais, os indivíduos penetram em ambientes
dedicados ao trabalho espiritual como se adentrassem
uma reunião qualquer. Com freqüência, os
trabalhadores vêm de suas atividades profissionais
e nem sequer têm tempo de passar em casa para a
higiene pessoal ou para reabastecer-se energeticamente.
Comumente, as roupas impregnadas de
poeira ou de outros elementos, como os resíduos
da poluição atmosférica, são as mesmas com que
adentram os ambientes de seus templos ou casas
espíritas e com as quais atendem o público. Não
que isso seja errado, mas pode refletir a perda, observada
em muitos lugares, do sentido de santidade
que envolve o intercâmbio com os benfeitores espirituais
e o respeito para com aqueles que são atendidos,
de um e outro lado da vida.

4 6


Quantos levantam os braços para aplicar os passes
curadores, exalando cheiro tão desagradável que se
anula o resultado esperado, devido às reações causadas
nos consulentes? Em outras ocasiões, a roupa
inapropriada do trabalhador desagrada os conceitos
mais simples de bom senso e respeito: curtas ou
apertadas demais, evidenciando partes, e decotes em
excesso, composições esdrúxulas ou simplesmente
trajes criados para o lazer, e não para o trabalho.
A fim de evitar situações semelhantes, Pai João definiu
entre os seus filhos a adoção de algumas medidas
naquele recanto de trabalho. Além do uniforme
branco, todos deveriam realizar a higiene física
e energética ali, antes do atendimento ao público.
Após os banhos de asseio e com as ervas, os médiuns
deveriam receber o passe magnético antes de
adentrar o salão de atendimento ou as salas de manipulação
magnética, local onde eram tratados os
casos mais graves de saúde e alguma emergência de
natureza espiritual ou energética.
Aquelas não eram regras rígidas, que nunca pudessem
ser quebradas. Aliás, Pai João adiantara para
seus filhos, os trabalhadores do remanso de paz, que
toda regra é para ser quebrada quando necessário,
uma vez que imprevistos surgem aqui e acolá. Era
necessário pedir a sabedoria do Alto a fim de entender
quando e como agir; em que momentos deve


4 7



riam se apressar ou diminuir o ritmo da caminhada
e, ainda, quando precisavam simplesmente parar,
a fim de evitar zelo em excesso, o que, em geral, se
aproxima perigosamente do fanatismo religioso.
Na hora em que os médiuns penetraram o ambiente
onde se encontrava o público, já encontraram
um lugar harmonizado. Aroma de ervas muitíssimo
discreto exalava não se sabia de onde. Era algo muito
sutil, quase imperceptível, não agressivo ao olfato
nem a alguma sensibilidade.
Quando as pessoas ingressavam no salão, as precauções
energéticas já haviam sido tomadas. A limpeza
fluídica do ambiente já se realizara, e as vibrações
necessárias à manutenção da harmonia já haviam
sido feitas anteriormente. O respeitoso silêncio dos
consulentes daquela noite, e de tantas outras, era
algo notável. Tinham em mente que o lugar era dedicado
ao intercâmbio com os representantes do
bem maior, das fraternidades do espaço e consagrado
ao contato com os próprios benfeitores. De
branco, os médiuns lembravam enfermeiros que,
instantes antes, haviam se preparado e se higienizado
e então estavam aptos a receber os médicos
do Alto, que atenderiam os convidados de Jesus, os
necessitados de carinho, de aconchego ou simplesmente
de uma palavra amiga.
Música suave e com tons harmoniosos começou a

4 8


ser cantada por um dos médiuns, acompanhada pelas
notas harmônicas de um violão, dedilhado por
alguém que sabia como dar o tom certo a fim de tocar
os corações. Era uma cantiga que lembrava o
paraíso espiritual; era uma cantiga de Aruanda.
Após a prece de abertura dos trabalhos, um a um
os médiuns foram incorporando seus mentores. Pai
João assumiu seu médium em conformidade com
as práticas daquele recanto de trabalhos fraternos.
Em silêncio, os presentes ouviam a mensagem do
pai-velho, que abria os trabalhos da noite:

— Deus seja louvado, meus filhos. Estamos aqui
nesta noite abençoada para dar uma palavra de
conforto aos filhos que vêm em busca de consolo.
Nosso objetivo não é solucionar os problemas materiais
nem trazer respostas para questões de ordem
íntima, vividas por todos. Trabalhamos na tarefa
do consolo, do esclarecimento e da cura espiritual.
Não viemos substituir a medicina nem os médicos.
Nosso trabalho, meus filhos, é auxiliar, amparar
de acordo com as necessidades energéticas e
espirituais de meus filhos. Vestimos a roupagem do
pai-velho para que possamos falar aos simples, de
forma simples. Não somos mais escravos, tampouco
estamos aqui para satisfazer os desejos de quem
quer que seja. Nosso intuito é combater o preconceito,
é indicar caminhos na busca da espirituali4
9



dade. Se porventura houver algo mais complexo no
histórico de vida de meus filhos, faremos de nossa
parte o possível para orientar cada um quanto à melhor
maneira de se libertar das complicações de origem
espiritual ou energética. Mas não pensem que
resolveremos seus problemas nem que tenhamos
respostas para todas as indagações e dúvidas. Não
adivinhamos nada da vida de ninguém nem pretendemos
fazer aquilo que cabe somente a vocês. Não
trabalhamos por interesses mesquinhos, não fazemos
casamento, não arranjamos emprego nem pretendemos
curar os males do corpo. Também não lidamos
com questões sentimentais ou conjugais.
"Nosso objetivo aqui é de ordem espiritual. Tenham
fé em Deus e confiem na força que existe dentro de
vocês. Juntos podemos muito, e nessa parceria entre
o esforço de cada um e as vibrações divinas é
que serão vencedores. Deus seja louvado!"
Após as palavras do preto-velho Pai João, os consulentes
foram encaminhados um a um para a conversa
fraterna e consoladora com os espíritos que
atendiam através de seus médiuns. Perto de cada
médium havia outro trabalhador, responsável por
transcrever as prescrições e o aconselhamento propriamente
dito.
De repente, um dos presentes foi envolvido por
uma energia estranha. Primeiro, foi um arrepio que

50


considerou como algo comum, natural, como tantos
outros que já sentira. Em seguida, Tony, que visitava
a casa pela primeira vez, notou um pensamento
estranho imiscuir-se em sua mente, como se fosse
tateado por tentáculos invisíveis. Estava ofegante
diante da presença de alguém que não podia ver,
embora o percebesse de maneira intensa. Já sentira
algo assim antes, principalmente quando chegava
em casa tarde da noite, após freqüentar alguns
ambientes que ele próprio julgava inapropriados.
Certo dia, viu-se quase arrancado de seu próprio
corpo, como se alguém estivesse empurrando-o ou
querendo assumir o controle de sua mente e de seu
corpo. Era uma força estranha, uma presença marcante.
Em ocasiões como essa, seus braços movimentavam-
se de modo involuntário e a cabeça parecia
ganhar vida própria. Era como se sua voz se
modificasse levemente e ele começasse a pronunciar
coisas que não tinha o costume de falar. Depois
de tentar os recursos da psicologia, inclusive fazendo
regressão de memória, qual não foi sua surpresa
quando se ouviu falando com o terapeuta num
timbre de voz desconhecido. Não conseguia dominar-
se nesses momentos. Foi então que um amigo

o conduziu à tenda onde agora se encontrava, para
uma entrevista com os espíritos, a fim de que pudesse
compreender o que se passava.
51



Agora Tony estava ali, sentado e aguardando o seu
momento de falar com o preto-velho, quando aquilo
tudo, aquela sensação estranha, parecia querer
eclodir novamente. Tinha medo de si mesmo. Seria
essa força um espírito?
Pai João, demonstrando conhecer o que se passava
com Tony, interrompeu sua conversa com a consulente
que atendia e pediu a um dos trabalhadores
que conduzisse o rapaz a um cômodo ao lado. Lá
deveria receber um passe, uma transfusão de energias;
tal iniciativa serviria para acalmar a entidade
e também para revigorar o moço, que sofria visivelmente
ao tentar conter o assédio espiritual, embora
não conhecesse o bastante a respeito do assunto
para obter completo êxito.
Pai João retomou sua conversa com a mulher que
lhe pedira auxílio:

— Sabe, minha filha, muitas vezes os filhos de Terra
desconhecem certas questões espirituais e não
atentam para o fato de que suas atitudes definem o
tipo de energia que atraem para si. Tudo é sintonia
neste mundo de Deus. É preciso ficar atenta, porque
todos vocês estão mergulhados num oceano de
energias, com o qual interagem o tempo inteiro. No
mundo, estando encarnado ou não, não podemos
deixar de pensar que nossas ações, pensamentos e
emoções são poderosos instrumentos de elevação
52


ou de queda. Portanto, filha, pense um pouco em
como você tem conduzido sua vida; como tem agido
ou reagido em face das diversas situações que
tem encontrado como desafios. Ao que parece, filha,
você tem criado em sua mente os próprios fantasmas
que a perseguem e julga que tem coisa-feita,
magia ou maleita que alguém imaginário está enviando
contra você.
"Nego-velho pede apenas que possa sondar seu interior
e procurar em seus pensamentos a própria
fonte de tudo o que julga estar lhe atingindo. Minha
filha tem gerado energias a partir de sua atitude
mental, do tipo de pensamento que está alimentando
e das emoções que acompanham tais pensamentos.
E é natural que esse padrão específico de
imagem mental, oriunda de si própria, atraia emoções
e imagens compatíveis, com o mesmo peso
ou teor energético. Essa é a magia mental, talvez a
mais difícil de ser enfrentada, pois exige da pessoa
uma mudança de rota, uma redecisão para modificar
completamente o foco de sua atenção e educar
as emoções e sentimentos com vistas a melhorar a
qualidade da vida íntima."

— Mas, meu pai — falou a consulente. — Eu tenho
me sentido dividida entre o que devo fazer e as minhas
emoções...
— Você está numa encruzilhada energética, minha
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filha — tornou o pai-velho. — É o entroncamento
entre razão e emoção. Aí, nesse exato lugar, é que
se define a vida de muitos filhos de Terra. Sabem
que há algo errado ou que precisam mudar, modificar
a rota e estabelecer novo rumo ou nova meta
pra suas vidas. Contudo, minha filha, tão-somente
saber disso parece não servir de impulso para as
realizações. É que as emoções de meus filhos encontram-
se comprometidas ou desarmonizadas,
e, embora saibam intimamente qual é o caminho,
querem que as coisas se modifiquem de acordo
com suas emoções, e não o contrário; querem que

o mundo se adapte a si, e não o contrário. Desejam
que as emoções, freqüentemente desajustadas, estejam
acima da razão e sofrem por ver que a realidade
não é assim. Ninguém consegue mudar a lei
divina, minha filha. Não há como fugir da responsabilidade
de ser o próprio semeador de sua felicidade
ou infelicidade. Não adianta culpar espíritos,
procurar coisa-feita ou mandinga ou mesmo tentar
fazer um trabalho para mudar a situação. Somente
você poderá fazer o trabalho operoso de modificação.
Não há como mudar os sentimentos dos outros
nem as emoções alheias.
"Mas existe uma maneira de você se modificar, de
investir em suas próprias emoções, usando a razão
para definir um estado melhor de vida mental e
54


emocional para si. Não espere o outro mudar, filha;
mude você primeiro. Comece em si mesma as mudanças
que deseja no outro e verá como sua vida
ganhará em qualidade. Tire esse negócio de mandinga,
de trabalho feito ou de alguma maleita de
sua cabeça; aprenda de uma vez por todas, minha
filha: se há qualquer coisa que pode modificar sua
vida para melhor ou para pior, essa força parte é de
dentro de você. É a sua própria mente que vai definir
o tipo ou a qualidade de vida que você terá deste
ponto em diante.
"Pai-velho sabe que você está numa encruzilhada vibratória,
dividida entre a razão e a emoção. Mas vou
lhe dizer, filha. Certo amigo bem mais elevado do
que pai-velho disse uma vez que Deus colocou a cabeça
acima do coração para que a gente possa pensar
primeiro antes de agir. Vamos aprender com esse
pensamento e traçar novos rumos para a vida. Não
aja por impulso nem baseada nas emoções, porque
se arrependerá sempre. Pare de reagir e aja; seja uma
pessoa ativa, que toma as decisões baseada num planejamento
de sua vida. Não transfira a outros, quer
espírito ou encarnado, a direção de sua vida. Você é
arquiteta da própria felicidade, minha filha."
Antes que a consulente pudesse falar mais alguma
coisa, o pai-velho deu por encerrados seus conselhos
e, levantando a mão direita, evocou as forças

55



superiores do bem as quais se vinculava, rogando
as bênçãos da misericórdia divina para a vida daquela
que o procurava. Com essa atitude, o pai-velho
João Cobú ou Pai João de Amanda deu por encerrada
a conversa com a consulente. Ele precisava
atender o rapaz que naquele momento recebia o
passe na sala ao lado.
Incorporado em seu médium, o preto-velho levantou-
se da cadeira e dirigiu-se ao outro aposento, enquanto
no salão os demais médiuns atendiam aqueles
que procuravam socorro emergencial. Mentalmente,
tateara os pensamentos de Tony, o moço
que sentia uma ação estranha sobre si. O pai-velho
já sabia a forma exata de abordar a questão. Adentrou
o ambiente reservado, onde poderia atender o
caso fora do olhar atento dos curiosos, respeitando
a ética, que resguardaria tanto a pessoa quanto
o espírito dos olhares alheios. Ali, em sua tenda,
Pai João optara por trabalhar apenas na presença
de outros médiuns, sem expor o consulente diante
de outras pessoas. Ao chegar ao local onde estava

o rapaz, rodeado por quatro trabalhadores da casa
de caridade, pôde perceber mais precisamente a dimensão
do problema que o moço enfrentava.
A princípio, o rapaz lutava intimamente contra a
força que o pressionava, que quase o tornava impermeável
aos fluidos transmitidos através dos
56


passes. Quando o pai-velho adentrou o ambiente,
aí sim, ele pareceu perder completamente o equilíbrio
e cedeu lugar quase imediatamente à entidade
que o acompanhava.
No mesmo instante, Pai João pediu a um dos médiuns
que se colocasse à disposição para aquilo que
na umbanda se denominava puxada. O espírito que
acompanhava o rapaz seria imantado à aura do médium
a fim de ser encaminhado a tratamento. Nada
de força, nada de constrangimento.


— Este caso — falou baixinho o preto-velho para os
outros médiuns presentes — é o típico caso do encosto,
conforme dizem meus filhos. Um espírito
qualquer se sentiu atraído pela aura do rapaz e, de
modo bastante natural, sentiu afinidade com o comportamento
dele. O espírito não pretende fazer mal
algum; porém, está quase que aprisionado magneticamente
à sua aura. Mas não adianta nada separarmos
os dois se o moço não modificar a vibração de
seus pensamentos e emoções, adquirindo atitudes
mais sadias. Vamos ver o que se pode fazer.
O pai-velho induziu um dos médiuns a ficar ao lado
do rapaz, que se contorcia e chorava, como se estivesse
numa luta intensa.
Do outro lado da situação, a entidade tremia violentamente,
quase em espasmos, literalmente grudada
à aura do rapaz. Energias sutis eram sugadas
57



pela entidade, que subtraía de Tony fluidos preciosos,
porém em grande medida comprometidos pela
qualidade das emoções do consulente. Eram fluidos
pesados, que pareciam se esvair através dos poros
ao mesmo tempo em que eram absorvidos pelo
espírito errante.
O médium entrou em sintonia com o pensamento
da entidade, e a transferência magnética foi imediata,
liberando Tony da influência estranha. O espírito
acoplou-se vibratoriamente à aura do médium e
começou a se utilizar da sua voz para expressar-se:

— Eu não tenho culpa — falou, quase gaguejando,
a entidade através do médium Paulo César. — Fui
atraído para perto dele e, a partir daí, não consegui
mais me livrar. Estou amarrado a ele.
Sob a orientação do pai-velho, a entidade foi desligada
fluidicamente da aura do consulente.
Espíritos amigos aproximaram-se do rapaz, manipulando
energias magnéticas com tal intensidade
que os laços fluídicos com a entidade foram desfeitos
de imediato. Contudo, via-se claramente que
fluidos pesados ainda ficaram aderidos ao corpo espiritual
de Tony. Parecia uma fuligem, que impregnava
a aura do moço, penetrando pelo interior de
seu corpo.
— Você está com uma crosta de sujeira energética,
meu filho — falou o pai-velho para o rapaz, que
58


recobrava seu domínio mental. — É como se você,
durante longo tempo, tivesse se envolvido com ambientes
ruins e nocivos a sua saúde espiritual. Elementos
de baixíssima vibração impregnaram sua
aura. E olha que a culpa não é do obsessor, mas é
responsabilidade sua.
O rapaz baixou o rosto sensibilizado e, ao mesmo
tempo, envergonhado.


— Sua conduta, filho, é que define o tipo de companhia
espiritual que circunda ao seu redor. Não
adianta estar vestido de terno e gravata e ter um
verniz social, sem uma vivência real de qualidade.
Pode até ser que você pense estar escondendo algo
de seus amigos ou de alguma pessoa, mas sua vida,
na verdade, é um livro aberto. Para nós, espíritos, as
atitudes e os comportamentos se transformam em
entidades vivas, em energias poderosas, sejam eles
bons ou maus. É dessa forma que você atrai outros
seres que se apegam a seus vícios e paixões e,
de alguma maneira, passam a se alimentar de seus
pensamentos mais secretos, espelhando-se em seu
comportamento. Nem sempre esses espíritos despreparados
querem prejudicá-lo, mas com certeza
a qualidade de seus pensamentos e atitudes os
excita e atrai. Por sua vez, através do processo de
sintonia mental, eles acabam por influenciar você
também, embora nem sempre tenham consciência
59



do que lhes ocorre. Tenha cuidado, filho, pois semelhante
atrai semelhante.
Depois de algum tempo, oferecido para reflexão de
Tony, o pai-velho arrematou:


— Fique mais um pouco por aqui e veja se assimila
algum ensinamento para sua alma. Depois, vá entrar
em contato com a natureza, respirar ar puro ou
simplesmente tomar um banho de ervas de cheiro.
Os filhos que trabalham com pai-velho lhe darão as
ervas e ensinarão o que fazer com elas.
Do outro lado da vida, espíritos especialistas conduziram
a entidade responsável por parte do malestar
de Tony a um recanto da natureza. Um dos
espíritos socorristas, cuja vestimenta fluídica tinha
o aspecto de um caboclo, trouxe recursos extraídos
da natureza. Dentro de uma espécie de pote, havia
um preparado de diversas ervas, que lançavam no
ar um cheiro peculiar, um aroma forte e ao mesmo
tempo agradável. O espírito que se afastara do
rapaz aspirou o perfume que exalavam, e o que se
viu em seguida foram estruturas semelhantes a vapores
densos serem expulsas ou exsudarem de seu
corpo espiritual. A tal entidade parecia adormecer
lentamente, enquanto o aroma das ervas cumpria
seu efeito terapêutico, sob a ação do caboclo juremeiro
— isto é, especialista na força das plantas.
Outros espíritos especialistas nesse tipo de auxílio
60


levaram a entidade a um posto de socorro no plano
extrafísico, onde certamente obteria mais recursos
para recuperar-se e reeducar-se.
O caboclo que agiu sob a orientação de João Cobú
era um profundo conhecedor das ervas e de outras
terapias naturais. Quando encarnado, fora um estudioso
da fitoterapia e desenvolvera amplo conhecimento
acerca da homeopatia. Escolhera trabalhar
ali devido aos inúmeros casos que ofereciam grande
oportunidade de ser útil. A roupagem fluídica
de caboclo era referência a uma de suas existências,
em que fora um velho cacique numa aldeia da
Terra de Santa Cruz. Ali, naquela casa de socorro,
desempenhava um papel importante: auxiliava na
limpeza energética ou fluídica dos corpos espirituais.
Recebia sob sua custódia espíritos sofredores
e outros mais, que acompanhavam as pessoas que
ali acorriam em busca de ajuda. Enquanto isso, Pai
João, incorporado em seu médium, dedicava-se à
orientação, à conversa fraterna e a ouvir as pessoas
que o procuravam.
Retornando a atenção para a tenda, no salão onde
se encontravam diversas pessoas se consultando
com os médiuns incorporados — algo nada comum
numa casa espírita, mas perfeitamente compreensível
dentro da filosofia do culto umbandista, de suas
práticas e costumes —, o pai-velho atendia uma pes


61



soa que parecia interessada em conhecer algo mais
a respeito dos espíritos e da forma fluídica que adotavam
ao se manifestar em outros cultos.

— Venho aqui, Pai João — começou a falar o homem
que pedia auxílio em seus estudos —, para entender
um pouco como funciona o culto no formato
da umbanda. Eu não sou umbandista, mas espírita;
portanto, nunca vi nada semelhante ao que ocorre
por aqui. Queria sua ajuda para meus estudos, a fim
de obter maiores detalhes a respeito das diversas
manifestações espirituais em sua tenda.
— Eu entendo, meu filho. Primeiro, louvo a Deus
que alguém queira estudar um pouco das manifestações
tais como ocorrem em locais ou cultos diferentes
do seu, destituído de preconceito. Mas é bom
que saiba, meu filho, que por aqui não se pratica a
umbanda da forma ortodoxa, como outros irmãos
umbandistas a entendem; temos aqui uma espécie
de transição em matéria de vivências espirituais.
Não posso classificar nosso método como umbanda
propriamente dita. Estamos nos esforçando por
trazer apontamentos aos trabalhadores desta tenda,
de modo a ensinar outros métodos tão eficazes
quanto os praticados na umbanda de raiz. Os filhos
que aqui trabalham estudam bastante, aprendem
diretamente, no campo abençoado do dia-a-dia,
como lidar com os problemas de ordem espiritual.
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Acredito que estamos, aos poucos, conseguindo liberar
meus filhos do misticismo exagerado e de
certas fantasias que são fruto de crenças irrefletidas,
assim como educá-los para que possam dar um
passo além, em termos de espiritualidade.
"Contudo, aqui trabalhamos com caboclos, paisvelhos
e outras entidades que preferem essa forma
fluídica a fim de cativar aquelas pessoas mais simples
ou aqueles que se sentem mais afinados com
certos elementos que são familiares a seu conceito
de vida espiritual e sua cultura, do ponto de vista
reencarnatório. Também optamos por esse formato
ou aparência fluídica porque, no plano astral, trabalhamos
com espíritos que, durante muito tempo,
ficaram presos a crenças bem distorcidas ou mesmo
a interpretações equivocadas sobre a vida espiritual.
Apresentarmo-nos com o aspecto de paisvelhos
ou caboclos geralmente resulta em mais impacto
e maior respeito entre esses espíritos, além, é
claro, de podermos cativar aqueles mais simples, a
quem dedicamos nosso trabalho e nossa atenção."

— Mas não entendo por que vocês são chamados
de pais-velhos, e não de irmãos, como nos centros
espíritas...
— Pai, irmão, primo; tanto faz, meu filho. Você mesmo
pode escolher o tratamento, como quiser. Os filhos
nos chamam de pais-velhos apenas como for63




ma de distinguir aqueles espíritos mais experientes,
os responsáveis por sua condução ou orientação
espiritual. O termo pai-velho significa apenas
isto: alguém mais experiente, mais vivido. De todo
modo, não se atenha a essas minúcias, filho. Chame-
nos como quiser e estaremos próximos, conforme
a vontade de Deus, nosso pai.
"Se bem que nego-velho também poderia questionar
meu filho sobre o porquê de se referir aos obsessores,
de maneira generalizada, como irmãos ou
irmãozinhos, quando na verdade não há nenhuma
identidade espiritual entre eles e aqueles que, ao
menos em tese, buscam o bem e o amor do Cristo.
No mínimo, não se poderia chamar de irmão quem
luta contra o estabelecimento do bem sobre a Terra!
Acredito que essa acepção da palavra irmão seja
exclusiva do movimento espírita. Agora, vocês querem
que em todo lugar onde se manifestem espíritos
o vocabulário empregado seja o mesmo, tomando
por base a forma comum a vocês? Isso nego-
velho não entende também. Se assim fosse, meu
filho, como iríamos encaixotar as mentes de todas
as pessoas que trabalham com manifestação mediúnica
ao redor do mundo, de maneira que falassem
do mesmo jeito, com as mesmas palavras?"

— É, eu não havia pensado nisso...
— Portanto, meu filho, fica a sua inteira escolha cha6
4


mar um espírito de pai, irmão ou usar um pronome
qualquer, sem que nenhuma forma escolhida seja
considerada errada. Errado, no entender de negovelho,
é o preconceito arraigado, que se esconde
por trás dessa idéia ou questionamento. Pare pra
pensar, filho: por que será que o espírito de um paivelho
é rejeitado como se fosse inferior, apenas por
se manifestar como um ancião negro? Unicamente
por causa da aparência fluídica? Será que no plano
espiritual ou astral existe uma forma correta de
manifestação ou uma prescrição a respeito? Onde
está escrito que todos os espíritos têm de se manifestar
como brancos? As vezes tenho a impressão
de que muitos acham que a conformação original
do espírito é branca... Negro ou indígena seriam
formas transitórias, inferiores.
"Por que, na forma espiritual de um negro, um espírito
não pode ser recebido entre aqueles que proclamam
a fraternidade e se dizem representantes
do Cristo, que nunca fez acepção de pessoa? Nego
não consegue entender como em certos locais não
se admitem espíritos de negros velhos, mas se admitem
de brancos velhos — padres, doutores ou o
que for —, que levam seus médiuns a falar com voz
embargada, quase curvados, adotando evidente aspecto
de ancião, mas, como são médicos, letrados
ou católicos — e brancos — são considerados qua


65



se anjos, são quase venerados. Caso outro espírito
se apresente como negro, envergando um pouco o
médium e falando com voz entrecortada, num tom
ligeiramente diferente do habitual, logo ele é rotulado
como obsessor, espírito inferior, 'apegado a
seu passado espiritual', e acaba rejeitado porque se
utiliza de um vocabulário mais simples. Engraçado...
O espírito não tem de escolher alguma forma
para se comunicar? No entanto, nego-velho nunca
viu alguém dizer que aparecer com vestes eclesiásticas
era sinônimo de apego ao passado, a despeito
de todos os horrores patrocinados pela Igreja na
história da humanidade.
"Pense nisso, meu filho, e reflita onde está a raiz do
problema. Analise se não há uma contradição nessa
postura ante os espíritos ou, quem sabe, algo que
ainda incomoda meus filhos desde a época da escravidão
moderna: o preconceito racial e religioso
escondido sob o manto de conceitos espirituais
mais sofisticados. Você sabe, os jesuítas também
achavam que estavam fazendo um favor ao converter
negros e indígenas ao catolicismo, ainda que
à custa de ameaça, pois, afinal, estavam salvándoos
do inferno! Intolerância, falta de disposição em
conviver com o diferente, adotar as próprias convicções
como referência — alguns séculos depois,
tudo permanece ainda muito forte na alma huma


6 6


na, não é, meu filho?
"Pense mais: por que se podem receber antigos padres,
freiras, médicos e orientais, enquanto no mesmo
lugar os espíritos dos negros e índios não encontram
abertura para trabalhar? Um pouco de pesquisa
a respeito do passado do nosso país, meu filho,
lhe dirá a respeito do que se passou entre padres, irmãs
de caridade e outros tipos que, no passado, abusaram
dos negros e indígenas e veneravam pessoas
procedentes da Europa e de países do Oriente como
representantes de uma cultura mais evoluída. Passado
algum tempo, ao se manifestarem em centros espíritas,
é natural que ainda tragam resquícios de seu
passado através da religiosidade exagerada e do preconceito
transferido para a esfera extrafísica."
Dando uma pausa para o homem pensar, Pai João
continuou:

— Agora, filho, vocês têm de ficar atentos, pois se
padres e irmãs de caridade não conseguiram deter
a marcha do espiritismo como desencarnados, cuidado,
muito cuidado, pois muitos deles se encontram
disfarçados numa roupagem de carne e intentam
dominar os centros espíritas com uma catequese
castradora dissimulada de espiritualidade.
— Pois é, Pai João, fico pensando em algo semelhante
quando avalio o perfil das pessoas que geralmente
compõem a diretoria de nossas casas espíritas...
67



No entanto, deixando de lado minhas preocupações,
queria entender melhor a natureza dos espíritos
que tradicionalmente se manifestam na umbanda e
noutros cultos semelhantes, especialmente quanto
à especialidade dos pais-velhos. Como entender o
tipo de atividade que realizam no plano astral?

— Quando alguns espíritos se apresentam com aspecto
de pais-velhos, isso não implica necessariamente
que tenham sido escravos ou negros em sua
última existência. Muitos escolhem essa figura humana
a fim de estampar em sua vestimenta perispiritual
algo que tenha afinidade com a cultura brasileira,
com a formação espiritual de nosso povo e,
assim, aproximar-se das pessoas simples e atingilas
mais facilmente. A forma exterior que ostentam
tais benfeitores pode conter muito mais de simbolismo
do que revelar que tenham sido escravos.
Querem combater o preconceito e quebrar barreiras
raciais, religiosas, sociais.
"Há espíritos que realmente foram negros e desencarnaram
em idade avançada, embora nem sempre
tivessem conhecimento de questões espirituais.
Não se pode ignorar que muitos experimentaram
enorme sofrimento e, impotentes, sem ter como
se defender, desenvolveram amarga revolta contra
seus senhores. Evidentemente, isso também revela
que não possuíam a devida maturidade espiritual.
6 8


"Por outro lado, posso dizer também que verdadeiros
iniciados do passado glorioso de certas civilizações
buscaram, no seio da mãe África, o meio
de desempenhar seu papel, servindo de referência
para os povos que precisavam de orientação, principalmente
no momento em que se enchiam os navios
negreiros rumo à terra brasileira. Reencarnaram
no Congo, em Daomé [atual Benim] e em outras
nações da costa ocidental africana, trazendo o
conhecimento de suas experiências passadas. Estes,
sim, são os verdadeiros pais-velhos — em oposição
a pretos-velhos. Repare que o termo pai aqui
é empregado com muito acerto, pois ressalta a dilatada
experiência de vida que tais espíritos possuem,
algo muito bem representado na figura do
ancião. Necessariamente possuidores de algum conhecimento
iniciático ou espiritual, os pais-velhos
são entidades geralmente mais experientes que os
demais, inclusive que os pretos-velhos. Claro que
essa é uma separação didática; no dia-a-dia, ambos
os termos são empregados sem distinção: pai-velho
e preto-velho. A rigor, entretanto, há diferença entre
eles, conforme expliquei.
"No que diz respeito à forma astral escolhida pelos
pais-velhos para se manifestar — não somente
em seus médiuns, mas no plano extrafísico também
—, ela remete à idéia de humildade, sabedo


6 9



ria, simplicidade e experiência, próprias da maturidade
espiritual.
"Iniciados de antigas civilizações e, hoje, na roupagem
fluídica de pais-velhos, tais espíritos possuem
vasto conhecimento acerca do desmanche de magia
negra ou antigoécia, por exemplo. São respeitados
entre os representantes das sombras, na subcrosta,
e muitos deles, inclusive, são temidos por essas falanges
de obsessores. No campo da saúde, conhecem
muito sobre os recursos da medicina espiritual e natural,
tal como o uso de ervas, que meus filhos atualmente
chamam de fitoterapia. Além disso, os paisvelhos
dominam o elemento ectoplasma, do qual são
hábeis manipuladores. Sabem empregar essa substância
a fim de materializar certos medicamentos,
utilizados para a cura dos filhos da Terra, sem contar
sua extrema habilidade na área do magnetismo.

— Eu não tinha idéia da procedência espiritual, tampouco
da especialidade dos chamados pais-velhos.
— Pois é, filho, mas como você veio em busca de conhecimento,
Pai João gosta muito disso e aproveita
para falar a respeito dessas e de outras coisas importantes.
É preciso formar uma idéia mais ampla
sobre a diversidade de espíritos que trabalham em
nosso planeta.
"Examine, por exemplo, o caso dos caboclos. As
entidades espirituais que se manifestam tanto em
70


seus médiuns quanto no plano astral com a vestimenta
de caboclo não foram obrigatoriamente índios
ou selvagens em sua última encarnação. Muito
pelo contrário!
"Grande número dos espíritos que adotam a característica
de caboclo tiveram seu caráter firme forjado
em templos do passado, principalmente entre
as civilizações inca e asteca, entre outras. Tal como
ocorre com os pais-velhos, possuem íntima ligação
com certas energias da natureza, tanto quanto com
a cultura da qual procedem. Em virtude desse fato,
preferem estampar a imagem de um índio, de um
sertanejo ou de um bandeirante em sua vestimenta
espiritual, em sua aparência. Daí se pode entender
por que alguns caboclos são recrutados para trabalhar
ao lado de grandes luminares da espiritualidade,
que foram sábios em sua última existência.
Além de tudo isso, a forma astral do caboclo também
traz um simbolismo. Representa jovialidade,
energia, destemor e valentia, bem como capacidade
de transformação e progresso. É a representação
do jovem guerreiro, daquele que tem a característica
de mudar o panorama, de enfrentar os desafios
da existência e modificar as situações menos favoráveis
em outras mais nobres.

— Então os caboclos também foram iniciados em
outras civilizações, como os pais-velhos?
71



— Não se pode generalizar, meu filho. Especialmente
se considerarmos que, na umbanda e em certos cultos
de transição, observa-se uma variedade de seres
espirituais a que muitos dão o nome de caboclos.
"Antes de continuar com as explicações, é preciso
dizer que este pai-velho está lhe dando apenas um
ponto de vista a respeito da variedade de manifestações.
O que estou lhe falando não é consenso nem
mesmo entre os representantes da umbanda. No
entanto, é sob esse ponto de vista que nego-velho
quer conduzir seu olhar.
"Assim sendo, dentro da variedade a que me referi,
temos os chamados caboclos índios. Eles integram
imensa legião de trabalhadores, guardiões, baluartes
da lei e da ordem, combatentes que são das falanges
do mal. Como verdadeiros caças, saem pelo
umbral afora em tarefas de defesa e disciplina, temidos
que são por muitos espíritos das trevas.
"Na umbanda e em outras expressões de espiritualidade,
são comuns outros tipos, tais como os boiadeiros.
Especialistas em desobsessões, coletivas e
individuais, investem contra as bases das sombras
e destroem as fortalezas do astral inferior. Dotados
de grande magnetismo, são respeitados e temidos
pelas entidades do mal, sobretudo pelos marginais
ou quiumbas, tão comuns em ambientes que oferecem
grande perigo aos encarnados."
72


Após breve intervalo, para que o interlocutor pudesse
assimilar o que dizia, Pai João prosseguiu:

— Como já lhe disse, nego-velho está lhe dando uma
explicação baseada não na teologia umbandista, mas
na realidade cultural mais próxima da que você está
habituado, meu filho. Certamente encontrará outros
pontos de vista sobre esse assunto entre os representantes
da umbanda e do candomblé. Porém,
nego-velho, neste momento, não tem por objeto religião
e doutrina, mas a descrição da realidade espiritual
que transcende as interpretações religiosas.
— Entendo, meu pai. Se julgar apropriado conceder
mais informações, estou aberto a ouvir e estudar.
— Pois bem, meu filho — retomou Pai João calmamente.
— Ainda sobre a forma espiritual adotada
por alguns espíritos, alguns caboclos adotam não a
forma do índio, mas do marinheiro. De alguém que
viveu junto às águas, ao mar, portanto trabalhando
com emoções, inclusive por ter vivenciado os tremendos
desafios que envolvem a navegação: desde
tormentas e fenômenos climáticos até a solidão dos
meses e anos singrando pelos mares, longe da família
e dos seus. Na umbanda, bem como em alguns
candomblés que recebem sua influência, chama-se
freqüentemente de marinheiro aquele espírito que
lidera falanges acostumadas a lidar com o sentimento
e as emoções e que atuam no contato com o
73



elemento água — que remete à suavidade e ao amor
e auxilia na libertação de vinculações magnéticas.
Quando se pretende fazer uma limpeza energética
com suavidade, o elemento água é o mais indicado,
liberando fortes emoções que anuviem a visão espiritual
dos filhos. É lógico concluir que quem teve
experiências reencarnatórias junto ao elemento
água pode ser bastante eficaz nessa tarefa.
Era muita informação para aquele homem reservado,
que não queria se expor perante os presentes.
Era ele um representante do espiritismo e, por
essa razão, não desejava, ao menos até aquele momento,
ser identificado numa tenda onde a manifestação
mediúnica ocorria segundo parâmetros
diferentes daqueles com os quais se familiarizava.
Entendendo isso, o preto-velho vez ou outra dava
um tempo para ele refletir e depois de um suspiro,
uma pausa, continuava.

— Os chamados quimbandeiros constituem outra
espécie de caboclo. Sua especialidade é enfrentar
os magos negros e seus dirigidos nos campos de batalha
do umbral e da subcrosta. Gostam de estar à
frente das demandas que ocorrem na esfera astral,
muitas vezes nem sequer percebidas pelos médiuns.
Como se fossem generais guerreiros, trabalham
para a defesa, porém com ênfase em limitar
e cercear a ação das trevas, o que, muitas vezes, os
74


leva a afirmar que transitam entre o bem e o mal.
Além, é claro, do fato de que conhecem em profundidade
as artimanhas dos seres da escuridão.
"Não há dúvida, meu filho, de que nego-velho está
procurando usar a linguagem mais espírita possível
para que possa entender os diversos perfis e especialidades
daqueles seres que trabalham na vibração
da umbanda, em suas variadas manifestações e
interpretações. Por estarem ligadas à vibração e à
atmosfera cultural — e não a rótulos religiosos —,
essas mesmas entidades também militam nos centros
espíritas, caso encontrem abertura dos médiuns
e dirigentes. Ainda que, em certas ocasiões,
optemos por nos apresentar em outra roupagem
fluídica, conforme seja conveniente ao trabalho e
tenhamos condições para tal."

— São tantas informações, meu pai... Simplesmente
não imaginei ter à disposição tanto conhecimento
novo para estudar e aprofundar minhas
observações.
— Ah! Meu filho... Se Allan Kardec tivesse a oportunidade
de estudar as manifestações da mediunidade
no âmbito da cultura e da religiosidade brasileiras,
com seus ricos e diversificados elementos, com
certeza ele desbravaria todo um aspecto da vida espiritual.
É impossível negar que as manifestações
de caráter mediúnico revelam um país que é um
75



celeiro de médiuns, dos mais férteis no aspecto fenoménico.
No entanto, nego-velho deve dizer que,
ao reverenciar e valorizar características e traços
próprios do desenvolvimento histórico e sociocultural
do Brasil, não pretende aprovar ou sancionar
certas práticas exóticas e abusos que se encontram
aos montes por aí. Não é mesmo, meu filho?
Quando o homem se levantou, agradecido pela
conversa franca e aberta com o pai-velho, já estava
modificado intimamente. Com certeza teria muito
para refletir a partir da conversa com o pai-velho
João Cobú.
Os trabalhos se encerraram com uma mensagem do
benfeitor e a prece final, realizada por um dos trabalhadores.
A noite ia alta quando os médiuns retornaram
a seus lares para o repouso que antecedia

o trabalho profissional, no dia seguinte.
76


cachoeiras, onde recebiam fluidos benéficos para
seu refazimento. Um dos dirigentes espirituais da
comunidade recebia pessoalmente os sensitivos
ao redor de um lago esculpido em meio a um bosque
localizado na esfera extrafísica.
A luz do luar refletia raios revigorantes sobre a natureza
física e a astral, inundando a todos com energias
salutares. O espírito que atendia pelo nome
de Macaia conduziu dois dos trabalhadores para

o lago e com eles levitou por sobre a superfície de
água brilhante, que refletia o tom prateado do luar.
Nenhum dos dois sensitivos guardava lucidez extrafísica
de forma plena; assim, após retornar a seus
corpos físicos, horas depois, teriam somente vagas
lembranças do ocorrido.
Pairando acima do lago, Antônio e Efigênia sentiram
medo ao perceber que estavam andando sobre
as águas. Os demais companheiros de atividades,
de pé nas margens, observavam atentos o que
se passava com a dupla.
Macaia levou-os até um local que parecia ser o centro
do lago e fez Antônio e Efigênia se deitarem
com as cabeças perispirituais voltadas para o norte.
O espírito, especialista em magnetismo e no trato
com as forças elementáis, aspirou profundamente
o ar levemente rarefeito e aplicou um passe de sopro
em ambos os trabalhadores, que, desdobrados
8 0


em corpo astral, recebiam os benefícios da transfusão
energética. O sopro de Macaia estava impregnado
de elementos vitalizantes, pois, a cada vez que
ele enchia os pulmões, absorvia do ambiente extrafísico
mais e mais propriedades balsâmicas. Os
dois médiuns pareciam mergulhados numa onda
de fluidos e energias que atuavam diretamente em
seu centro de memória, liberando imagens mentais
e clichês indesejáveis de seu campo mental.
A uma observação atenta, poderiam ser vistas pequenas
bolhas, semelhantes a bolhas de sabão, que
se dissipavam mediante o sopro renovador. Eram
concentrados de formas-pensamento que os dois
trabalhadores haviam absorvido de pessoas atendidas
durante os trabalhos de assistência espiritual.
As pessoas que chegavam à tenda em busca de socorro
— principalmente se apresentassem quadro
emocional mais grave ou complexo — traziam criações
mentais e certas concentrações energéticas de
baixa vibração, as quais eram transferidas para a
aura dos médiuns que os atendiam. De igual maneira,
os conteúdos sutis acumulados pelos médiuns
costumavam ser absorvidos pelos consulentes,
quer estivessem aqueles em transe mediúnico ou

Em razão disso, durante o sono físico os mentores
trabalhavam intensamente, liberando a carga
de fluidos indesejáveis e reabastecendo os médiuns

81



com novas e balsâmicas energias, conforme a necessidade
de cada um e a capacidade desenvolvida
de armazenar fluidos mais ou menos sutis. Não havia
milagres, evidentemente.
Depois de algum tempo, Macaia levantou as mãos e
colocou-se em oração:


— Supremo Pai e senhor da vida, concede aos teus
filhos a oportunidade de se refazer com as energias
da criação, com os fluidos benéficos da mãe natureza.
Cá estamos como trabalhadores teus, necessitados
da proteção espiritual e de forças, a fim de
prosseguir com a tarefa que nos foi confiada.
Respirando mais profundamente, prosseguiu:
— Permite, ó Pai, que os elementais, criaturas tuas
sob nossa responsabilidade, possam atender ao
nosso chamado e vir em socorro daqueles teus filhos
que de ti necessitam.
Antes mesmo que terminasse a oração sentida, milhares
de seres minúsculos, semelhantes a pirilampos,
subiam das águas cristalinas do lago e envolviam
não somente os dois médiuns atendidos diretamente
por Macaia, mas também os demais, que
permaneciam na margem. O fenômeno inspirava
elevados pensamentos de gratidão, tão fantástico se
mostrava. O psicossoma dos médiuns foi envolvido

por cintilações dos elementais, que pareciam sugar
os fluidos densos acumulados na aura dos trabalha


82


dores. Uma emanação semelhante a vapor, de coloração
acinzentada, exalava levemente de cada corpo
perispiritual desdobrado na dimensão extrafísica.
Em contrapartida, outro vapor, na verdade uma bruma
luminosa subia da superfície do lago e era canalizada
pelos elementais para fins terapêuticos. Macaia
mantinha os braços elevados, como que a polarizar
energias sutilíssimas que se derramavam de mais
alto. Os demais médiuns, que ficaram à margem do
lago, elevaram-se alguns centímetros no ar e pareciam
adormecer um a um, novamente, porém em
corpo espiritual. Neste momento, João Cobú aparece
rodeado de trabalhadores da Amanda, advindos
das matas que emolduravam o local. Traziam cumbucas
cheias de bioplasma e de outros componentes
extraídos das plantas, que, sob a orientação do paivelho,
ministravam aos médiuns adormecidos.

— Temos de cuidar bem de nossos parceiros — falou
João Cobú para um espírito que se mostrava
com a aparência de um índio apache. Corpulento,
olhar penetrante e irradiando forte magnetismo,
o antigo guerreiro conduzia o vasilhame que
continha os extratos naturais, para que cada médium
pudesse inalar. — Atendemos casos bastante
complexos, que vários outros afirmam não se tratar
de questões espirituais. Seja como for, as energias
densas oriundas de tais processos aderem-se
83



à aura de nossos médiuns e devem ser liberadas a
todo custo, de modo que se reabasteçam, visando à
continuidade das tarefas que desempenham conosco.
Médiuns há que não se importam, nem ao menos
se interessam pela higiene energética nem pelos
procedimentos de autodefesa psíquica; ignoram
que, a fim de ser amparados pelos benfeitores que
os assistem, necessariamente devem se colocar em
atitude receptiva, de abertura mental. É uma ilusão
acreditar que se pode realizar um trabalho intenso,
do ponto de vista energético, e permanecer com o
próprio campo energético inalterado.
Ao mesmo tempo em que administrava os recursos
da natureza aos médiuns que já haviam sido submetidos
ao contato benéfico com os dementais da
água doce — as ondinas —, o espírito apache acrescentou
ao comentário do pai-velho:

— Os dementais são seres singulares e, para muita
gente que lida com as questões espirituais e energéticas,
ainda envoltos em superstição e mistério;
contudo, obedecem a uma vontade superior e estão
à disposição para auxiliar na manutenção das
energias vitais, tão necessárias aos trabalhos desta
ordem. Não entendo por que nossos irmãos não recorrem
com maior freqüência a esses seres da natureza,
tendo em vista seu próprio bem-estar e o
reabastecimento energético.
84


— Tais seres da natureza — elucidou João Cobú —
incorporam em si as substâncias medicamentosas
próprias dos sítios naturais aos quais estão relacionados,
constituindo-se em expressões da natureza
em estado de evolução. Potencializam forças e energias,
obedecendo às leis naturais. Não podemos deixar
de nos valer deles. Contudo, sua existência permanece
ignorada pela maioria das pessoas.

— E quanto à bênção oferecida pelas plantas, pelas
águas e por outros recursos encontrados na natureza?
Não vejo como desprezar esse manancial colocado
pelo Pai à disposição de seus filhos. Todos
que lidam com os aspectos espirituais da vida em
planos mais densos ou mesmo atendem indivíduos
cujas emoções estão conturbadas e em ebulição poderiam
ser abastecidos com os fluidos que exalam a
cura e equilibram.
— Sim, meu amigo — complementou João Cobú,
uma vez mais. — Entretanto, parece que algumas
pessoas cheias de pretensa sabedoria ignoram certas
propriedades terapêuticas da natureza ou, então,
relegam esses meios de amparo e refazimento a segundo
plano, como se fossem ferramentas menores,
próprias de matutos ou seres inferiores. Talvez justamente
por serem elementos simples demais, que
estão à disposição de qualquer um... Enfim, continuemos
com nossos parceiros, os médiuns. Eles pre85




cisam de nós tanto quanto precisamos deles.
Os médiuns desdobrados eram atendidos pelos
espíritos do bem. A luz do luar canalizava outras
energias também benéficas, para equilibrar os centros
de força do corpo espiritual dos médiuns.
Embora estivessem quase todos ali, ainda faltava
um, devido ao fato de que estava trabalhando até
tarde. Não fora tirado do corpo, como os demais,
em respeito ao seu trabalho profissional, que o ocupava
num horário diferente. Os espíritos sabiam
respeitar o chamado "fuso horário" de cada um.
Após o atendimento àquele grupo de trabalhadores
desdobrados, um espírito guardião dirigiu-se à
casa de Tobias, que enfim se preparava para deitarse.
Como era um homem religioso, recitava uma
oração, conforme aprendera de sua velha avó, antiga
benzedeira. Acostumado com as palavras decoradas,
sua mente respondia à citação conforme ele
esperava. Habituou-se àquele tipo de oração e não
a pronunciava como se fossem expressões vazias;
ao contrário, acreditava naquelas palavras, no significado
de cada uma, depositando emoção vigorosa
à medida que as declamava, a ponto de fortalecer
sua fé. Em virtude da resposta que obtinha de sua
própria mente, atingia o efeito desejado com a oração,
isto é: a proteção energética.
Dizia Tobias: "Chagas abertas, sagrado coração, todo

86


amor e bondade. O sangue do meu Senhor Jesus
Cristo no corpo meu se derrame hoje e sempre. Eu
andarei vestido e armado com as armas de São Jorge.
Para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem;
tendo mãos, não me peguem; tendo olhos, não
me enxerguem e nem pensamentos eles possam ter
para me fazerem mal". Respirando profundamente,
pronunciou as palavras finais: "Armas de fogo meu
corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrarão
sem ao meu corpo chegar, cordas e correntes se arrebentarão
sem o meu corpo amarrar...".
Os guardiões chegaram à casa de Tobias exatamente
no instante em que dizia as palavras tidas por ele
como sagradas. A proporção que recitava a oração,
deitava-se lentamente, deixando seus sentidos em
alerta para as percepções do mundo extrafísico.
Ferreira, ex-soldado e um dos guardiões responsáveis
por Tobias, ao ouvir a reza de seu protegido
perguntou ao companheiro de atividade:

— Essa coisa de reza forte funciona mesmo ou é
apenas crendice? Você sabe, estou há pouco tempo
em contato com este médium e preciso me inteirar
de certas coisas...
— Bem, pelo que me ensinaram em alguns cursos
que fiz após meu desencarne, pode-se dizer que
as rezas funcionam sim, mas de maneira diferente
daquela que se divulga por aí. Por exemplo: mui87




ta gente reza o Salmo 91, que é uma destas orações
consideradas fortes e sagradas por muitos religiosos...
E ela faz um efeito interessante de se observar,
segundo já presenciei. Quando a pessoa acredita
mesmo naquilo que pronuncia, ao longo do tempo,
à medida que repete a citação, seu cérebro e sua
mente processam as palavras de modo a obedecer
àquela espécie de comando, formando algo similar
a uma aura em torno de si. Caso os dizeres dessas
orações ou rezas de fato estejam calcadas em uma
convicção pessoal, em uma crença íntima genuína,
então gradativamente passam a agir sobre a mente
do indivíduo, que é acionada com a finalidade de
erguer um campo de forças, uma aura de proteção
a seu redor. É claro que, segundo essa ótica, palavras
idênticas não têm o mesmo efeito sobre pessoas
diferentes. Portanto...

— Portanto, não é a reza ou oração que tem um poder
intrínseco, mas a crença pessoal, a força mental
da pessoa que pronuncia a oração e a energia depositada
naquele ato.
— Mais ou menos isso, Ferreira. Ocorre que, se porventura
a pessoa repetir determinada oração acreditando
verdadeiramente no que está realizando, sua
mente aos poucos desenvolve a capacidade de arregimentar
forças ou energias, que são atraídas para a
própria aura. Tais energias têm um efeito cumulati8
8


vo, ou seja, quanto mais se exercita o pensamento,
mais intensamente agirão em torno do sujeito.

— Então posso entender que as orações fortes ou rezas
fortes funcionam como um tipo de muleta psíquica
para alguns — ou, mais exatamente, um instrumento
de que a mente lança mão e que, de acordo
com a vontade1 depositada nesse ato, pode desencadear
um processo de autodefesa psíquica. Correto?
— Pelo menos é o que pude perceber em meus estudos.
Veja o caso de Tobias — indicou o guardião,
sinalizando para o rapaz que se deitava justamen•
Há quem possa depreender dessas linhas que se está a recomendar o uso
de preces sacramentadas. Não só não é assim, como as passagens demonstram
perfeita coerência com o que afirmam os espíritos na codificação do
espiritismo: "A forma nada vale, o pensamento é tudo. Ore, pois, cada um
segundo suas convicções e da maneira que mais o toque. Um bom pensamento
vale mais do que grande número de palavras com as quais nada tenha
o coração" (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o espiritismo. Rio de
Janeiro: FEB, 2002.120a ed. luxo, cap. 28, item 1, p. 493). Ora, é justamente
o pensamento, a vontade e a fé que são destacados pelos personagens como
elementos cruciais. De todo modo, é válido confrontar essa passagem de O
Evangelho segundo o espiritismo com outro trecho, logo adiante, no mesmo
Preâmbulo escrito por Kardec para sua Coletânea de preces espíritas:
"O Espiritismo reconhece como boas as preces de todos os cultos, quando
ditas de coração e não de lábio somente. Nenhuma impõe, nem reprova nenhuma"
(Idem, ibidem, p. 494 — grifo nosso).
89



te naquele momento.
A aura de Tobias iluminava-se por inteiro quando
pronunciava a chamada oração de São Jorge, que
ele acreditava piamente ser uma oração forte.


— Analisemos as palavras da oração feita por Tobias
— prosseguiu Simas, o guardião que conversava
com Ferreira. — Ao introduzir sua prece: "Chagas
abertas, sagrado coração, todo amor e bondade...",
e por aí vai, claramente relembra a crucifixão
de Jesus. Essas palavras estabelecem ligação mental
com o episódio que os cristãos talvez considerem
o mais sagrado de todos e, provavelmente, o
símbolo por excelência da vitória espiritual. Tobias
evoca em seus pensamentos, portanto, a força moral
do Cristo e sua misericórdia; pede amparo superior
da maneira que sabe pedir e segundo acredita.
"Depois ele continua a oração, dizendo: 'Eu andarei
vestido e armado com as armas de São Jorge.
Para que meus inimigos, tendo pés, não me alcancem;
tendo mãos, não me peguem; tendo olhos, não
me enxerguem e nem pensamentos eles possam ter
para me fazerem mal'. Nesse trecho, o médium define
uma postura mental de defesa íntima. Como
reafirma dia após dia tais palavras, com todo o seu
espírito, elas alimentam uma decisão mental, consciente
e portadora de força real, em que ele se vê
e se coloca na posição de defesa psíquica. Ou seja,
90


proporciona um estado íntimo de segurança. Na
verdade, não são os espíritos malévolos que têm
medo da oração, nem são os desastres e acidentes
que evitam Tobias, mas é ele quem gera um comando
mental de tal intensidade que sua aura se ilumina
e ele passa a atrair forças do plano extrafísico capazes
de envolvê-lo fortemente e lhe dar segurança.
Em matéria de segurança espiritual e energética, o
importante é que a pessoa se sinta plenamente segura
e tenha atitudes compatíveis e coerentes com
aquilo que busca, num nível mais amplo. Em termos
psicológicos, possivelmente esse hábito de Tobias
pudesse se classificar como redefinição ou reprogramação
mental e emocional, a que sua mente
responde de modo eficaz."

— A oração então é uma mola propulsora, uma forma
de desencadear ações mentais e emocionais
para se estabelecer a atitude interna desejada...
— Exatamente! E funcionará contanto que a pessoa
progressivamente se reprograme no âmbito mental
e emocional, de acordo com as palavras que recita.
Talvez se possa fazer um paralelo com o que os psicoterapeutas
modernos realizam em seus consultórios
utilizando a terapia de vivências passadas,
conhecida como TVP. É costume eleger uma frase
para o paciente pronunciar durante algum tempo.
Ela deve refletir a nova postura mental e emocional
91



que se estabeleceu na reprogramação.

— Uau! Nunca havia visto a questão sob esta ótica!...
— Examine a aura de Tobias após a oração.
Ambos fixaram os olhos nas irradiações coloridas
em torno de Tobias, o médium que pretendiam auxiliar
e conduzir para experiências fora do corpo. O
rapaz parecia uma usina de energias potentes, um
gerador. De seu cérebro, onde se concentrava com
maior intensidade o foco do corpo mental, raios
eram produzidos com tal intensidade que iluminavam
completamente o ambiente do quarto do rapaz.
Fios tenuíssimos irradiavam de si, tateando o
espaço ao redor até se fixarem nos dois guardiões,
como imãs, atraindo-os de forma leve e persistente,
até o corpo deitado.
— Veja que os raios que partem da aura de Tobias
são atraídos automaticamente por nossas auras
pessoais — observou Simas. — É como se, através
de filamentos elétricos, ele se ligasse a nós, seus
guardiões pessoais.
— Ou seja, a partir do estado induzido pela prece,
Tobias se conecta mentalmente com quem possa
representar um fator de segurança energética para
si. Neste caso, somos nós.
— Mas não é somente isso que ocorre. Observe com
mais intensidade — disse, com o dedo indicando
determinado ponto. — Veja os corpúsculos mentais
92


que são liberados da aura dele.
Os guardiões notaram algo semelhante a uma comunidade
imensa de matéria mental desnecessária
à manutenção do equilíbrio energético do médium,
que era literalmente expulsa de sua aura. Até
então, tais corpúsculos mentais gravitavam em torno
da aura do sensitivo, aguardando o momento em
que se diluiriam em suas glândulas através do fenômeno
da repercussão vibratória. No entanto, o estado
íntimo no qual se abrigara através da oração
estimulou seu corpo mental a produzir anticorpos
energéticos ou irradiações magnéticas capazes de
liberar de sua aura os elementos daninhos ou nocivos
à sua saúde espiritual.

— Antes de qualquer pessoa desejar e verbalizar seu
desejo ou sua necessidade de proteção energética e
espiritual, é mais sensato e inteligente que produza
por si mesma as energias que geram um estado íntimo
de segurança ou que inspirem segurança. Só
assim, nós, os guardiões, encontraremos elementos
para trabalhar suas defesas energéticas, sobretudo
no caso dos médiuns.
Explicando seus passos ao amigo Ferreira, o guardião
Simas aproximou-se de Tobias, que a esta hora
já estava sonolento sobre o leito. Levantou as mãos
e aplicou-lhe um passe longitudinal lento, da cabeça
aos pés. Executados poucos movimentos, trans93




corrido tempo mínimo, Tobias já ensaiava sair do
corpo, rodopiando em torno de si mesmo.
Embora a sonolência, o sensitivo notou quando as
energias magnéticas de Simas o atingiram. Sentiu
um formigamento nas extremidades do corpo,
que lhe percorreu, gradualmente, todo o organismo.
Após o formigamento, Tobias percebeu uma irradiação,
que se intensificou à medida que o guardião
continuava com os movimentos longitudinais.
O médium vibrava intensamente e se sentia como
uma corda de violão tangida por hábil instrumentista.
Estava em processo de decolagem do corpo e,
tão logo se estabelecera suficiente cota de magnetismo
em seu organismo perispiritual, subiu ao teto
como um balão, para logo depois descer lentamente,
até ficar a poucos centímetros do solo.

— Vamos, Tobias, o velho está esperando por você
— falou Simas ao médium agora desdobrado.
— Pai João? — perguntou o rapaz.
— Quem mais? Não é ele quem nos orienta as atividades?
O nosso amigo João Cobú está com os outros
médiuns desdobrados como você, em meio à
natureza. Ele espera por nós.
Ferreira, de soslaio, observava o comportamento do
médium, como a mirar cada detalhe de suas atitudes
fora do corpo.
Enquanto se dirigiam ao sítio natural onde os de94



mais se encontravam, Ferreira, curioso, perguntou
ao amigo guardião:

— Será que ele se lembrará de nós dois ou dos eventos
que marcam esta noite?
— Por certo se lembrará de alguns detalhes. Depende
muito do que João Cobú decidir.
— Quer dizer que as lembranças das ocorrências
em nossa dimensão estão subordinadas à vontade
de quem coordena as atividades?
— Perfeitamente, Ferreira. O espírito responsável
ou o amparador de cada médium é quem define
se ele deve ou não guardar certas lembranças.
Essa regra é válida para todos os médiuns a serviço
do bem maior. Não obstante, em casos particulares,
observa-se que o organismo de certos médiuns
possui facilidade relativa para registrar ao menos
alguma parcela das lembranças do que foi vivenciado
do lado de cá.
Após breve pausa, Simas alertou:
— Vamos logo. Afinal, os outros estão apenas nos
aguardando a chegada.
Os três planaram sobre o lago onde se reuniam os
demais, médiuns e benfeitores. Desceram lentamente
perto do pai-velho, que os aguardava.
— Vejo que aproveitaram a tarefa para estudar um
pouco — observou João Cobú. — Gostei de ver como
estão aprimorando o conhecimento de vocês.
95



— Ferreira apresentou algumas questões que julguei
apropriado esclarecer, compartilhando alguns ensinamentos
que tivemos no colégio dos guardiões.
— Isso é muito bom. Compartilhar conhecimentos
e experiências entre amigos de trabalho é o princípio
da fraternidade universal. Ensaiamos assim a
convivência pacífica entre irmãos, inclusive entre
aqueles que não pensam de forma igual.
Voltando-se para Tobias, o preto-velho perguntou:
— Então, meu filho, está se sentindo bem? Pronto
para o trabalho?
— Sim, meu pai! — respondeu Tobias, dando ênfase
às palavras. — Estou à disposição para servir.
Sem delongas, João Cobú convidou Tobias:
— Vamos ao trabalho, então. Temos muito que fazer
nesta noite.
— Não vamos realizar os procedimentos de limpeza
energética em Tobias, conforme foi feito com os
outros? — perguntou Simas.
— Não há necessidade. Tobias, ao deitar-se para
dormir, teve uma atitude proativa. Ele se cuidou
energeticamente e colocou-se ao abrigo de energias
contrárias ou discordantes. Os demais confiaram
tanto em nós — Pai João fez questão de emprestar
um tom diferente às suas palavras, quase irônico —
que não se cuidaram, ou melhor, descuidaram das
defesas psíquicas. Esperaram que nós fizéssemos
96


por eles, como realmente fizemos, aquilo que poderiam
ter feito por si sós.

— Então perdemos um tempo grande com os procedimentos
de limpeza energética que efetuamos
nos outros médiuns?
— Não que tenhamos perdido tempo, meu filho, mas
é fato que empregamos uma cota de energia nesse
procedimento que poderia ter sido aplicada em outras
atividades. Nem todos os médiuns têm atitudes
que exprimam segurança íntima. Confiam que façamos
tudo, e eles mesmos acabam por deixar de lado
as obrigações pessoais relacionadas a sua defesa ou
imunidade energética. Investe-se grande quantidade
de energia a fim de preparar os médiuns para o
trabalho ou para liberar certos componentes magnéticos
de suas auras. Caso estudassem mais e, além
disso, tivessem atitudes mentais que os imunizassem
das energias nocivas, aproveitaríamos melhor
o magnetismo nosso e o da natureza para atender
àqueles necessitados que nos procuram.
Dando por encerrado o comentário, João Cobú reuniu
os médiuns, visando conduzir à tarefa programada
os que apresentavam condições. No leito, em
suas casas, os corpos repousavam — sob a vigilância
atenta de sentinelas especialmente destacados para
esse fim — enquanto essas experiências eram vividas
em conjunto. Porém, cada um, depois de acor97




dar, conservaria apenas parte das memórias em relação
ao ocorrido.
João Cobú conduziu alguns médiuns ao lar de Tony,


o rapaz que procurara a tenda na última reunião.
Lá chegando, alguns médiuns tiveram dificuldade
de penetrar no ambiente devido à densidade
energética, incompatível com o estado vibracional
de seus corpos perispirituais. João Cobú designou
dois guardiões e o médium Tobias para ajudar.
As emanações do pensamento de Tony criaram
uma crosta suja em torno do local onde residia. Espessa
película envolvia o ambiente extrafísico. Tal
era a densidade de materialização que, entre os encarnados
desdobrados na dimensão extrafísica ali
presentes, apenas Tobias poderia ajudar mais intensamente.
João Cobú produzia sons na atmosfera,
por meio dos quais arregimentava recursos da
natureza nas proximidades. Mediante o comando
do pai-velho, Tobias arrancava, com as próprias
mãos, a película de matéria mental densa que envolvia
a casa do rapaz. Com as duas mãos, num trabalho
notadamente braçal, o médium literalmente
rasgava a dura camada de sujeira semimaterial que
bloqueava o acesso à moradia de Tony. Quase materializados,
os guardiões, que vibravam numa freqüência
diferente da de alguns espíritos ali reunidos,
auxiliavam o médium em sua tarefa.
98


— Podíamos contar com a ajuda de mais médiuns?
— pediu Ferreira a João Cobú e a Macaia, os espíritos
que lideravam aquela comitiva e se apresentavam
ao grupo de trabalhadores desdobrados como
responsáveis por aquela tarefa.
— Somente Tobias detém condições de ajudar mais
de perto. Infelizmente, temos que contar só com
ele, pois os demais, ainda que amparados por nós,
têm a mente dispersa. Embora conduzidos por
seus mentores pessoais, neste momento não possuem
acuidade mental que lhes permita atuar na
matéria extrafísica.
João Cobú abriu caminho entre os médiuns desdobrados
e adensou seu perispírito de maneira a conseguir
uma espécie de semimaterialização. Tomou
a dianteira das tarefas e, ao lado de Tobias, pôs-se a
arrancar com as mãos o amálgama denso que fora
produzido pelas mentes das pessoas que ali viviam,
principalmente por Tony. Depois de algum tempo,
conseguiram liberar passagem, formando brechas
na compacta estrutura de matéria astral. Os outros
médiuns sentiram-se envergonhados por não poder
participar do trabalho. Afinal, estavam confusos
e não conseguiam concentração suficiente para
agir com clareza ou lucidez mental na dimensão
extrafísica, ao menos sem receber instruções explícitas,
até para as operações mais triviais. Em segui9
9



da, o pai-velho voltou a iluminar-se, ficando quase
invisível aos olhos dos demais. Adentraram o ambiente
como se estivessem a explorar uma caverna
natural. Fios tenuíssimos se amontoavam nos cantos
dos cômodos da residência. No quarto onde o
rapaz repousava, encontraram substâncias quase
vivas aderidas às paredes. João Cobú dirigiu-se aos
médiuns e guardiões:

— Isto vocês podem fazer. Façam uma faxina na residência.
Retirem as criações mentais grudadas nas
paredes, que assumiram a forma de larvas. Enquanto
isso, Tobias, Macaia e eu veremos o que se pode
fazer em benefício do nosso atendido.
Na mesa de cabeceira de Tony havia algumas revistas
de conteúdo erótico e alguns gibis. A televisão
permanecia ligada enquanto ele dormia. O perispírito
do rapaz pairava pouco acima do corpo, envolvido
por dois elementos distintos: imagens fugidias
e bolhas de estrutura mental, que orbitavam
em torno de sua cabeça. Macaia adiantou-se a João
Cobú e explicou a Tobias o que se passava:
— Estas bolhas que você vê contêm as formas-pensamento
alimentadas por Tony no seu dia-a-dia.
São clichês que ele nutre com seus pensamentos
mais cotidianos. As outras imagens que gravitam
em torno dele são elementos externos, fruto de
idéias que compartilha, de emoções complicadas
100


que divide com os amigos que moram com ele neste
apartamento. Veja a televisão, Tobias.
Olhando para o aparelho de TV, O médium quase
não acreditou. As imagens pareciam sair da tela e
adquirir vida própria. Agitavam-se no ambiente
quase em câmera lenta, exalando odores e adquirindo
independência de movimentos. Como figuras
escorregadias, semelhantes a uma ameba gigante,
formavam tentáculos em cuja estrutura outras
imagens pareciam refletir-se, partindo em direção
a Tony, que, desdobrado sobre o próprio corpo, absorvia
tudo aquilo mentalmente.

— Veja que ele esqueceu o televisor ligado e, durante
o sono, ficou acoplado vibratoriamente àquilo a
que assistia. Sua mente oferece os recursos e manipula
por si mesma o adensamento vibratório dessas
imagens, que por sua vez se encarregam de aglutinar
mais e mais energias. Desdobrado, fica prisioneiro
dessas criações mentais.
Enquanto o trio analisava o que acontecia com
Tony, os outros médiuns e guardiões faziam uma
espécie de faxina nos demais cômodos. Era um trabalho
quase material, que causava certo cansaço
nos poucos médiuns que auxiliavam. Eles lidavam
com fluidos grosseiros, semimateriais, que requeriam
ações de natureza mais física do que se poderia
supor. João Cobú, ao lado de Macaia e Tobias,
101



observava os conteúdos mentais do rapaz que dormia.
Depois de alguns minutos auscultando a mente
de seu protegido, já sabia o que fazer.

— Vamos queimar as criações mentais que gravitam
no ambiente. Mas antes temos de acordar Tony e
fazer com que ele desligue o aparelho de televisão,
pois as imagens transmitidas servem de clichê para
as criações infelizes. Mergulhado nessas formações
etéricas e mentais, ele não consegue repouso tranqüilo.
Desse modo, acordará tarde amanhã e ainda
por cima não se sentirá refeito. O sono não lhe servirá
de conforto ou refazimento.
Falando assim, o pai-velho soprou com intensidade
o chacra laríngeo do jovem, cuja abertura estava próxima
ao pomo de adão, na garganta do moço. Ele engasgou-
se com a própria saliva e acordou imediatamente,
tossindo muito. Assustado, Tony levantou-se
de um salto e percebeu que deixara a TV ligada, dormindo
no meio do programa a que assistia. Tobias
aproximou-se do rapaz assustado e, dispondo ambas
as mãos em torno de sua cabeça, inspirou-lhe:
— Desligue! Desligue a TV...
Tobias utilizou-se de toda a concentração possível,
e, como resultado, Tony obedeceu-lhe a sugestão
mental quase que instantaneamente. Tony não estava
de todo consciente do que fazia, devido ao sono
ainda forte que o dominava. Mesmo assim, desligou
102


o aparelho. Aproveitou para beber um pouco de
água e logo após dirigiu-se ao leito, adormecendo
novamente. As imagens, que haviam ganhado vida
temporária, foram gradativamente se diluindo, sobretudo
em razão dos movimentos de energia que
João Cobú realizava na atmosfera daquele cômodo.
Logo após esses preparativos, o pai-velho magnetizou
Tony para induzi-lo ao desdobramento em corpo
astral. Os passes longitudinais foram aplicados
diretamente pelo pai-velho, e logo se pôde notar
que Tony-espírito se deslocava pela esquerda do
corpo, colocando-se alguns decímetros acima do
chão, à frente de João Cobú. Desdobrado, o rapaz
não portava a consciência lúcida. Havia considerável
confusão mental, o que lhe vedava o reconhecimento
dos benfeitores.
Macaia pediu permissão ao pai-velho para magnetizar
Tony, e João Cobú, de pronto, acedeu ao pedido
com boa vontade. Enquanto o espírito amigo
ministrava passes dispersivos — transversais e,
depois, longitudinais —, Tobias aproveitou-se da
presença de João Cobú para indagar a respeito do
magnetismo. O pai-velho respondeu com palavras
recheadas de sabedoria:
— Esta atmosfera fluídica em torno de cada ser humano,
à qual damos o nome genérico de aura, contém
energias que operam mudanças ou transfor103




mações benéficas e podem ser impulsionadas pela
vontade e dirigidas pelo pensamento, meu filho.
Por isso acontece a transferência magnética entre
as pessoas.

— Ao transmitir energia por meio dos movimentos
das mãos, meu pai, podemos influenciá-la, atribuindo-
lhe maior qualidade? — perguntou Tobias,
interessado.
Dando uma pausa para que o médium desdobrado
pudesse observar o que Macaia fazia, Pai João falou
mais pausadamente:
— É claro que sim, meu filho. As qualidades morais
do magnetizador podem influenciar e muito a
emissão dessas energias, conferindo maior ou menor
poder de irradiação e, por conseguinte, de ação
no que se refere à saúde da pessoa. Sentimentos ou
atitudes como ódio, ciúme, inveja ou orgulho, tanto
quanto outros assemelhados, com certeza fazem
diminuir a qualidade curativa da energia administrada
a qualquer pessoa.
— Então podemos entender que o contrário também
é verdadeiro, ou seja, que amor, bondade, compaixão
e outras virtudes podem contribuir para aumentar
o efeito terapêutico da energia do magnetizador
sobre as pessoas?
Dirigindo os olhos a seu pupilo, Pai João esboçou
um sorriso e falou:
104


— Que bom que você entendeu, Tobias! Assim pode
compreender que ostentar rótulos religiosos, títulos
iniciáticos, divinos ou outra coisa qualquer não
é o que concede poder ou força magnética, mas sim
a capacidade de amar, de viver com ética e ter uma
moral elevada...
Enquanto conversavam, Macaia ministrava energias
benéficas a Tony, que, desdobrado, permanecia
ainda sem lucidez quanto ao que ocorria. A
ação dirigida ao perispírito do rapaz fez com que
as ligações magnéticas entre ele e os clichês mentais
e as formas-pensamento daninhas fossem desfeitas.
Os laços fluídicos foram destruídos, liberando
o sistema nervoso de Tony da influência negativa
de agentes da dimensão extrafísica. Antes que
Tobias pudesse comentar mais alguma coisa, João
Cobú acrescentou:
— É bom observar que, em casos como esse, a ação
de espíritos conscientes e comprometidos com o auxílio
à humanidade é um dos principais fatores de
sucesso para a maioria dos tratamentos magnéticos.
Tobias pôde compreender um pouco mais a respeito
da importância de se trabalhar como parceiro de
seres mais esclarecidos do plano superior da vida.
— Agora é a sua vez, Tobias — falou Macaia, apontando
para uma cadeira ao lado da cama. — Sentese
ali e nos auxilie, doando seus recursos para um
105



choque intenso de energias, que possam revigorar

o nosso protegido.
Conforme requisitado, Tobias sentou-se na cadeira
e fechou os olhos numa prece sentida. Quem o visse
naquele momento provavelmente o teria confundido
com um dos mentores responsáveis pelas tarefas
da noite. O rapaz concentrou seu pensamento
de tal maneira que logrou se conectar com correntes
mentais superiores. Intenso fluxo de energias
desceu sobre ele, aumentando a luminosidade de
sua aura. João Cobú novamente entrou em ação,
magnetizando o médium com passes lentos, que
despertavam significativa cota de vitalidade. Pouco
a pouco, uma substância vaporosa começou a desprender-
se do médium, à sua esquerda. Dentro de
instantes, essa substância etérica formou, ao lado
dele, uma duplicata perfeita do seu corpo astral.
Estávamos diante do duplo etérico de Tobias, que,
enquanto desdobrado em projeção extracorpórea,
era manipulado pelo pai-velho. O duplo afastava-se
alguns centímetros do lado esquerdo de seu psicossoma.
Até então, parecia que os dois corpos, o espiritual
e o etérico, estavam justapostos. Agora, sob a
influência magnética do mentor, o corpo etérico se
deslocava para favorecer o atendimento a Tony. Por
sua vez, Macaia agia em perfeita sintonia com João
Cobú, atuando sobre o rapaz. Conduziu o espíri106



to de Tony, desdobrado, a um ligeiro acoplamento
com o duplo de Tobias. Quando ambos se tocaram
— corpo astral de um, etérico de outro —, houve
uma transferência imediata de vitalidade para

o perispírito do rapaz. Tobias sentia como se uma
leve corrente elétrica perpassasse seu psicossoma.
Um fio tenuíssimo unia ambos os veículos do médium.
No momento em que seu duplo travou contato
com a aura do jovem desdobrado, o fio prateado
iluminou-se rapidamente, como se um raio o atingisse,
ou melhor, como se ele próprio, o cordão de
prata, fosse um relâmpago coagulado ou congelado
por alguns segundos. O fenômeno inspirava respeito
e veneração pelas forças superiores da vida, que
coordenam todo o processo de evolução no mundo.
Era uma visão que dificilmente sairia da retina espiritual
do médium.
Após o choque anímico patrocinado e coordenado
pelos benfeitores, Tobias abriu os olhos lentamente,
como se estivesse emergindo de um sono profundo.
Mas não! Ele apenas estava conectado com
energias benéficas, em estado de transe, ao se colocar
a serviço das forças superiores do bem e da luz,
os representantes do Cordeiro de Deus.
— Nossa parte já está feita — declarou João Cobú
a seus assistentes Macaia e Tobias, o médium que
os auxiliava com suas energias anímicas. — Agora,
107



temos de deixar um dos guardiões de plantão por
aqui, a fim de manter a ordem e disciplina no ambiente
do lar e inspirar nosso assistido a colaborar
com essa diretriz. Devemos induzir Tony a procurar
uma orientação emocional, valendo-se do concurso
de um terapeuta profissional.

— Ele não pode fazer um tratamento espiritual que
o livre de encostos ou obsessores? — perguntou Tobias
ao mentor.
— Não há dúvida de que o tratamento espiritual
será de grande valia para ele; no entanto, de modo
algum substitui a orientação de um terapeuta. Nosso
amigo precisa redirecionar seus pensamentos
e emoções de maneira a criar novos hábitos. Para
manter-se em equilíbrio, ele reclama o apoio de alguém
especializado. Não pense que o tratamento
espiritual elimine a necessidade do devido acompanhamento
da medicina terrestre ou de uma abordagem
de ordem psicológica. Eles se complementam.
— Temos de considerar também o tipo psicológico
de Tony. Na verdade, ele nos procurou em nossa
tenda apenas em razão de uma necessidade emergencial.
Porém, nosso amigo não tem afinidade com
o método de trabalho e a expressão de espiritualidade
que nos é própria — acrescentou Macaia, ponderando
acerca da possibilidade de encaminhar o
tutelado a outras formas de abordagem espiritual.
10 8


— Claro, meu amigo — respondeu o pai-velho. — No
caso em questão, é evidente que nosso amigo necessita
de certos limites e de uma pedagogia mais
firme em seu processo reeducativo.
— Então ele será encaminhado ao espiritismo cristão?
— perguntou Tobias, interessado no assunto.
— Não, não meu filho — respondeu João Cobú, visivelmente
preocupado com o caso de Tony. — O
espiritismo é uma religião de liberdade e creio que
nosso amigo ainda não está preparado para se conduzir
com responsabilidade perante os seus desafios
pessoais. No futuro, possivelmente será encaminhado
a um centro espírita, no qual lhe serão esclarecidas
suas necessidades e possibilidades espirituais.
Mas, no momento, creio que o melhor para
ele é ser levado a um culto pentecostal, que trabalha
com questões de cunho mediúnico indiretamente,
de forma adequada à linguagem evangélica.
Nossos irmãos pentecostais impõem tantos limites
aos desregramentos morais que muita gente necessitada
desse aprendizado ali consegue reeducar-se
em maior ou menor tempo.
Tobias não entendeu direito a indicação de João
Cobú para o caso em questão. Ainda pensava que
o rapaz deveria ser conduzido diretamente seja a
um centro espírita, seja a uma casa umbandista.
Nem sequer imaginava a possibilidade de o rapaz
10 9



ser intuído a procurar um culto evangélico de caráter
pentecostal.
João Cobú notou quanto sua indicação causava estranheza
ao médium e resolveu esclarecer:


— Nem sempre as escolas espírita ou umbandista
representam o melhor caminho para os meus filhos.
Temos de considerar que todas as religiões são apenas
escolas iniciáticas com o papel fundamental de
oferecer um programa reeducativo aos habitantes
do planeta. Nenhuma é melhor do que outra. Apenas
devemos considerar que cada pessoa traz um
perfil psicológico compatível com este ou aquele
método de ensino. Tony reclama um encaminhamento
que vise estabelecer limites para os abusos
cometidos, e estes poderão gerar lágrimas amargas
no futuro. Seu caso exige processos mais intensos,
duros até, cuja pedagogia lhe será mais eficaz.
Creio que os irmãos pentecostais poderão auxiliálo
e muito. Lá, entre os crentes, ele aprenderá conceitos
de Evangelho conforme sua capacidade de
assimilá-los. Também entre os irmãos do Evangelho
nosso pupilo encontrará forte oposição aos vícios
que cultiva, assim como um jeito de abordar o
problema que não fira suas crenças pessoais.
Dando um tempo para Tobias digerir suas palavras,
o pai-velho continuou mais pausadamente:
— No meio evangélico, sobretudo entre os pente110



costais, há uma vocação para afastar pessoas das
drogas, do exercício sexual sem controle, entre outras
questões. Abordam esses problemas com uma
força de expressão tão grande que o medo dos fiéis
de ir para o inferno ou cair nas mãos do Maligno
os impede de cometer tais abusos. Confesso —
Pai João deu maior ênfase a suas palavras — que

o método só funciona com pessoas em cuja mente
haja registros de medo, culpa ou algum clichê de
autopunição. Mas funciona, isso não se pode negar.
Noutro momento, talvez até em outra encarnação,
nosso amigo poderá se esclarecer acerca de outros
aspectos, em contato com os ensinamentos espíritas.
Por ora, no entanto, seu perfil espiritual indica
a necessidade de um tratamento diferente.
Depois da abordagem feita pelo pai-velho a respeito
do tratamento de choque do rapaz, Tobias calou-
se, evitando tocar no assunto. O momento era
para ação.
Pai João aproximou-se de Tony e o reconduziu
para bem próximo do corpo físico, que repousava
na cama. Ali mesmo, fazendo-o deitar-se poucos
centímetros acima do corpo, o pai-velho concentrou-
se com o objetivo de perceber, com maior
acuidade mental, os pensamentos do rapaz. Inspirou-
o a passar perto de uma igreja pentecostal
ao final do dia seguinte. Quem sabe não encontra111




ria uma doutrina condizente com sua maneira de
pensar e suas crenças pessoais, a fim de encetar
sua busca por espiritualidade?
João Cobú orientou os guardiões no que tangia à
condução dos médiuns para outras atividades, enquanto
ele, Macaia e Tobias se dirigiriam a um templo
evangélico à procura de ajuda para o caso.
Em busca de elegância, o local ostentava beleza e rigor
nas formas arquitetônicas. Era um templo onde
alguns milhares se abrigavam espiritualmente, segundo
os ensinamentos da fé pentecostal. A linguagem
usada ali era característica do vocabulário
evangélico. Quando os três chegaram ao ambiente
próximo ao templo, logo encontraram os atalaias,
guardiões do plano extrafísico que se incumbiam
das defesas energéticas. Pai João foi logo apresentando
suas credenciais como enviado e trabalhador
a serviço do Cordeiro:

— Deus seja louvado, meus amigos — pronunciou
o pai-velho.
— Deus seja louvado, irmão — respondeu um dos
atalaias da guarnição espiritual do lugar.
Pai João vestia-se como sempre, com seu terno de
uma substância extrafísica semelhante ao linho delicado
e finíssimo. O paletó e a gravata refletiam
suave luminosidade azul, que se expandia particularmente
em torno de sua cabeça, emoldurada por
112


cabelos brancos. A aparência do pai-velho, trajando
aquele costume branco, sem dúvida favoreceu para
que fosse recepcionado como um pastor ou um dos
responsáveis espirituais do lugar. O atalaia aproximou-
se respeitoso, sem nem de longe cogitar que o
espírito João Cobú trabalhasse de acordo com outra
ótica espiritual.

— Preciso falar com um dos responsáveis pelo templo.
Em nome do Cordeiro venho pedir ajuda para
uma pobre alma que precisa ser encaminhada ao redil
do Senhor — assim mesmo falou João Cobú, na
linguagem que o sentinela espiritual compreendia.
— Vou anunciá-lo imediatamente, pastor — respondeu
o guardião do templo.
— Diga a seu imediato que sou representante do
ministério divino junto a outros irmãos, de outro
aprisco. Ele compreenderá — declarou com firmeza
o pai-velho.
Minutos depois, apresentou-se um espírito envergando
um terno de uma alvura impecável, curiosamente
muito semelhante ao que João Cobú vestia.
— Deus seja louvado! — falou com alegria o espírito
que recebeu o pai-velho. — É você, meu irmão?!
— Pois é, meu amigo, venho em busca de auxílio
para uma ovelha desgarrada. — E, mudando o foco
da conversa quase bruscamente, o pai-velho perguntou,
demonstrando intimidade com o espírito
113



que o recepcionava:

— Diga-me, Gabriel, como andam as coisas por aqui?
Tem visitado nossa Amanda de vez em quando?
— Temos tido muito trabalho, irmão, e já faz mais de
duas décadas que me dedico a este posto de socorro
sem poder me ausentar um dia sequer. Você sabe, irmão,
que trabalhamos com espíritos vândalos, aqueles
que vocês lá da Amanda chamam de quiumbas.
— É verdade, Gabriel — disse o pai-velho. — São os
acompanhantes por excelência da maior parte das
pessoas que aqui comparece em busca de auxílio.
— Pois é, irmão João — tornou a comentar o espírito.
— E olhe que por aqui temos de disfarçar o
método de abordar os problemas espirituais. Usamos
uma linguagem figurada, pois os freqüentadores
do templo ainda estão apegados a conceitos
religiosos ultrapassados. Não podemos falar abertamente
através dos médiuns-pastores a respeito
da vida espiritual.
— Sei disso, amigo. De todo modo, vocês prestam
enorme contribuição para retirar muita gente do
crime, da prostituição e das drogas. Graças a Deus,
do lado de cá da vida, não há separação entre nós,
pois servimos ao mesmo Deus e Senhor.
— Mas, diga-me, irmão: a que devo a honra de sua
presença no templo esta noite?
— Tenho um caso interessante que venho acompa114



nhando com grande carinho — falou João Cobú. —
É um pupilo que precisa muito mais de você e de
sua escola de Evangelho do que de meus métodos.

— Fale, irmão...
— Chama-se Tony o rapaz que pretendo trazer
para seus domínios. Sei que tem um perfil muito
condizente com o trabalho que você realiza neste
recanto sublime.
Tão logo expôs o caso a Gabriel, o dirigente espiritual
do templo pentecostal, o pai-velho adicionou
mais um detalhe, a título de conclusão:
— Trata-se de um rapaz com imensas possibilidades
na vida espiritual. No entanto, traz uma característica
muito acentuada: é alguém que tem a sexualidade
muito exacerbada e precisa ser conduzido
de forma a não se perder em meio aos apelos
que encontra no mundo.
— Sei bem como conduzir o caso, irmão. Vou providenciar
para que seja encaminhado ao templo ainda
esta noite, durante o arrebatamento de seu espírito
— esta é a expressão evangélica para o fenômeno
do desdobramento. — Vamos trabalhar seus
conteúdos mentais e emocionais e elaborar nosso
plano de auxílio ao rapaz. Há aqui uma irmã que
foi arrebatada em espírito e tem necessidades semelhantes
às que você relata. Creio que podemos
ajudar ambos aproximando-os ainda esta noite e
115



depois, quando em vigília, arranjaremos um meio
de se conhecerem pessoalmente no culto.
Depois de detalhar a estratégia de abordagem espiritual
para Tony, João Cobú retornou à sua base
de serviço, juntamente com Tobias e Macaia, que
acompanharam o desfecho do caso com imenso interesse.
O sensitivo resolveu guardar para si as inúmeras
indagações, entendendo que no momento
oportuno João Cobú estaria à disposição para favorecer
seu aprendizado. Uma coisa ficou clara para
Tobias naquela noite, que saiu a meditar consigo
mesmo: "Todos trabalhamos para o mesmo objetivo:
o aperfeiçoamento e a educação dos espíritos
da Terra. Embora sintonizados com metodologias
diferentes e escolas especializadas de acordo com
a necessidade espiritual dos diversos filhos do Pai
Maior, estamos todos sob a bandeira da paz e da caridade,
sob a proteção do Alto. Podemos nem entender
direito os caminhos de Deus, mas sabemos
que cada um é consolado, atendido e amparado de
acordo com sua capacidade de assimilar a lição que
está sendo administrada".

116


problemas de circulação. Suas pernas cansadas e
inchadas representavam sempre um peso ao percorrer
o morro de cima a baixo ou na hora de sair
e buscar a subsistência nos serviços prestados em
casa de gente rica. Espremida pela angústia que morava
no peito e pelo sapato apertado, descia entre
degraus mal-arranjados, becos estreitos e a ladeira
de piso irregular, que, àquela altura, parecia querer
lhe derrubar a qualquer preço.
Estava chateada com as trapaças do marido e indecisa,
insegura quanto ao futuro. Teria algum futuro?
Ela olhava a si mesma como num espelho nebuloso
e não sabia, na verdade, o que pensar... "Que
vai ser da minha vida?". A esperança de mudar para
melhor morrera há tempos. Até os pais lhe haviam
sido emprestados, como ela própria definia sua situação
de filha adotada. Casou-se com um homem
apenas para poder garantir a sobrevivência, mas
não deu certo. Era ela quem tinha de trabalhar para
colocar o alimento em casa.
Geralda era desse jeito. Mulher trabalhadeira, porém
crédula e extremamente mística. Acreditava
em quase tudo: de cristais, incensos e velas até assombrações
e superstições. Ver gato preto ou passar
debaixo de escadas? "Deus me livre!". Qualquer
coisa era motivo para banhar-se inteirinha nas
águas salgadas do mar: ela corria para a praia quan


120


do temia que alguém estivesse fazendo algum trabalho
contra ela.
Foi assim que, ao descer a favela para mais um dia
de labuta na casa da patroa rica, Geralda topou com
um despacho no meio do caminho. Um daqueles
cheios de vela, farinha, cachaça e dendê. "Ah! O
barraco está armado!" — esbravejou alto. Insatisfeita
por causa da briga do dia anterior com o marido,
Geralda chegou ao trabalho soltando fogo pelas
ventas. Sua mente já estava uma tremenda confusão.
Em apenas alguns instantes, arranjou briga
com a patroa e foi demitida.

— E agora, como vou fazer pra pagar o aluguel do
barraco? E a comida?! — falou sozinha, transtornada.
Depois de pensar um pouco, descobriu o motivo
do seu dissabor. — Já sei, foi aquele despacho que
encontrei. Tem coisa-feita nisso! Tem gente maquinando
contra mim...
E já se passavam alguns dias quando ainda se via
Geralda arrumando oferendas na encruzilhada, fazendo
promessas, gastando o que tinha e o que não
tinha com as compras de material para seus trabalhos.
O problema, como era de se prever, só aumentou!
O pouco dinheiro que possuía, gastara na demanda
contra quem imaginava ser a autora do despacho.
Pois ela supunha, apenas; não havia certeza.
Desamparada, brigara com o marido e se viu sem
121



trabalho e sem dinheiro.
Essa foi a situação em que a mulher procurou ajuda
na tenda da caridade de Pai João. Era um caso comum,
muito comum de se ver no dia-a-dia das pessoas
de fé mais simples. A mulher foi se achegando
meio desconfiada e com medo de ter de pagar por
algum trabalho. Não tinha mais dinheiro, não tinha
nem mesmo esperanças. Aliás, ela foi encaminhada
para ali justamente pela pessoa que, segundo
julgava, fizera feitiço contra ela. A mulher dissera
que estava freqüentando um lugar longe, uma tenda
onde só se fazia caridade.
Ao chegar, Geralda ouviu algumas cantigas no salão,
que lhe faziam chorar de saudades de algum lugar
indefinível. Ou seriam saudades de alguém? Enfim,
estava ali, sentada, à procura de um altar com muitas
imagens de santos, mas nada disso encontrou.
Somente uma mesa simples, sobre a qual havia uma
cruz adornada com alguns ramos de algo que lhe
pareciam folhas de parreira. Ninguém lhe cobrara
nada para entrar ali.
Na hora da consulta, pensou que veria os médiuns
estremecer, jogar-se no chão, mas nada também.
Eles reuniam-se numa sala à parte. Geralda imaginou:
"Então é lá que o bicho pega! É ali que a coisa
fica preta...".


Nenhuma de suas idéias estranhas se confirmou.


122


Não havia nada para chamar a atenção.
Entrou no ambiente e logo ouviu um dos médiuns
chamá-la, já incorporado. Sentou-se numa cadeira
simples em frente ao preto-velho, que olhava para
ela com aquele olhar que parecia devassar seus
pensamentos e sentimentos.

— Tem feitiço contra mim, meu pai — falou num
repente ao pai-velho, que permanecia calado,
olhando com seu olhar singelo. — Minha vida está
muito ruim e sei que isso é obra de macumbaria.
Fiquei sem emprego, meu marido me trai e, depois
que encontrei um feitiço feito contra mim, então,
é que as coisas ficaram pretas mesmo. Peguei uma
urticária que, veja só — mostrou o braço à entidade
incorporada —, parece até frieira. Meu pai, o senhor
tem de me ajudar. Preciso fazer alguma coisa
pra fechar meu corpo. Acho que tem alguém com
inveja de mim...
Deixando a mulher falar e desabafar, o pai-velho
olhava com carinho aquela que para ali fora conduzida
a fim de pedir ajuda. Afinal, ela precisava se
desafogar com alguém.
Depois de algum tempo, a entidade incorporada falou
pausadamente:
— Minha filha, se sua vida está assim do jeito que
você conta, nego-velho pergunta, então: como é
que alguém em sã consciência pode invejar você
123



do jeito que está? Se é inveja, minha filha, a pessoa
tem inveja de quê? Das suas dificuldades? Das suas
lutas? Pense bem e veja se não é você quem está
se enfeitiçando a cada dia com seus pensamentos e
suas atitudes.
Respirando pausadamente, o pai-velho continuou:

— Você falou de sua insatisfação com a vida, com
seu casamento e com a falta de trabalho. Você acha,
filha, que realmente são as outras pessoas que estão
fazendo algo contra você ou é você mesma
quem está boicotando sua vida? Minha filha casouse
sem amor nem afeto, apenas para garantir a comida
e a sobrevivência; não pensou antes e engravidou
sem perceber que essa atitude foi o passo em
falso que lhe jogou de encontro a alguém que não
tem afinidade com sua alma. Queria ganhar e saiu
perdendo. Perdeu a paz, perdeu a razão e a chance
de ser mais feliz ou tão feliz quanto poderia ser. É
hora de avaliar sua caminhada, minha filha. Ainda
é tempo de ser feliz.
— Mas, meu pai, como posso ser feliz com tanta
conta pra pagar, com o marido e eu desempregados
e meus filhos sem ir à escola?
— Volta no tempo, minha filha, e veja o que pode
estar errado em sua caminhada. Você precisa refazer
sua vida, seus planos, sua forma de agir. Caso
repita os erros e atitudes de antes, então o resulta124



do será também o mesmo! Insatisfação e infelicidade.
É preciso ter coragem para mudar. Quanto a fechar
seu corpo, minha filha é aquilo que estudantes
da alma humana chamam de personalidade esponja.
Essa característica faz com que a filha absorva
energias discordantes e emoções de toda espécie.
Antes que o pai-velho pudesse concluir seu pensamento,
a mulher interferiu bruscamente:

— O senhor nem parece preto-velho falando assim!
Até parece que é branco e inteligente...
Com sorriso nos lábios e compreensão no coração,
o espírito retomou sua fala sem se queixar da maneira
como a pobre mulher se expressava, num flagrante
preconceito.
— Pois é, filha. Como nego-velho falava, você precisa
rever suas emoções e deixar de sofrer e de se
considerar coitadinha. Pretender ter o corpo fechado
contra mau-olhado, coisa-feita, feitiçaria ou
macumbaria é algo que merece ser revisto urgentemente.
Talvez aquilo que minha filha encontrou
na encruzilhada nem fosse pra você! Imagine se alguém
vai gastar dinheiro comprando o material do
tal despacho, como você diz, a fim de lhe atingir, de
lhe fazer infeliz ou outra coisa qualquer? Isso não
seria inteligente da parte da pessoa que a filha acredita
ser a autora de tal coisa. Não é necessário fazer
nada contra você se você mesma já está fazendo... E
125



nego-velho pergunta ainda mais: pra que um espírito
perderia seu tempo contra alguém que já está
destruindo a própria vida com tantos contratempos?
Já pensou nisso antes, minha filha?
A mulher começou a chorar ao ouvir as reflexões
do pai-velho. Sua expectativa era encontrar ali alguém
que se dispusesse a fazer um trabalho de fechamento
de corpo e um feitiço de retorno para
quem arquitetara sua miséria. Porém, ouvindo
tudo aquilo, via-se obrigada a admitir que era ela
própria, com suas atitudes, a razão de tanta coisa
dar errado ao longo de sua vida. Como fazer para
modificar, então?

— Nego-velho — continuou o espírito incorporado
— vai dar um tempo a você para refletir. Não há nenhum
trabalho para lhe fazer feliz ou trazer para
você a atenção de seu marido. Nem mesmo para
arranjar um emprego. Infelizmente, pai-velho não
trabalha com correio sentimental, nem numa firma
de recrutamento de pessoas para o trabalho. Por
isso, pai-velho não arranja emprego pra ninguém.
"Você precisa entender que, para ser feliz na vida,
a filha tem de ter atitudes sadias, semear felicidade
e trabalhar de tal maneira e com tal qualidade
que possa ser considerada necessária àquele que
é seu patrão. Muita gente por aí diz que não tem
emprego, que não ganha o suficiente, mas nego126



velho acredita que falta é gente competente, gente
que sue a camisa pra ser um bom profissional e
que se empenhe em dar o melhor de si. De modo
geral, minha filha, as pessoas querem saber só de
seus direitos e se esquecem dos deveres. Querem
reconhecimento, mas não fazem nada que as qualifique
nem apresentam qualquer diferencial. Querem
emprego e salário, e não trabalho e dedicação.
Pense nisso um pouco. Quem sabe você poderá se
ajudar bastante através destas reflexões?"

— Mas... e quanto à minha família, meu pai? Como
vou fazer com meus dois filhos? Eles estão sem estudar
por causa da nossa pobreza e, além disso, não
querem nada com a vida...
— Pare de passar a mão na cabeça deles, filha! Nem
Deus passa a mão na cabeça de seus filhos desgarrados...
A vida tem leis que precisam ser respeitadas,
e quem não anda de acordo com essas leis fatalmente
encontrará as conseqüências. Para viver
em comunidade, qualquer um precisa observar certas
regras de conduta. A comunidade familiar não é
diferente. Estabeleça regras de comportamento e
faça com que sejam cumpridas.
"Sobre não ter como estudar, tem muitas escolas
públicas por aí hoje em dia! O que lhes impede
de matricular-se, se o ensino e até quase todo o
material são gratuitos? Afinal, a pobreza não deve
127



ser pretexto pra tudo. Ou deve? Não pretenda viver
uma vida que você não tem condições de sustentar,
minha filha. Seus garotos precisam de limites, e
você, minha filha, de aprender a viver sem desculpar
e justificar os erros de seus filhos. Você é que
não soube impor limites nem regras e agora imagina
que os espíritos resolverão, em seu lugar, aquilo
que você mesma criou. Isso não existe!
"E não adianta procurar ajuda com aqueles que dizem
trazer seu amor de volta em meia dúzia de dias
ou com mirongas e feitiços de pessoas que também
não conseguem se resolver. Ninguém tem o poder
de solucionar problemas que a gente mesmo criou.
Só você tem a capacidade e a oportunidade de consertar
e reciclar suas experiências. O máximo que
alguém pode fazer por você, minha filha, é lhe dar
uma opinião para refletir. Não empregue seu dinheiro
em trabalhos que não levam a nada, a não
ser ao aumento da poupança daqueles pretensiosos
profissionais do espírito.
"Tome nas mãos as rédeas de sua vida e faça você
mesma a revolução que precisa ser feita, hoje e
agora. Pra isso você não necessita despachos, velas
ou oferendas; necessita é ter coragem e atitude.
Essa conduta é que a tornará imune aos dissabores
da vida. O corpo não precisa estar fechado; a mente
é que deve estar aberta a novos conhecimentos,

128


novas possibilidades, nova atitude. Pense, reflita e
depois retorne para nego-velho ver se você aprendeu
a lição."
Diante do que o espírito disse, a mulher enxugou as
lágrimas e, ao levantar, falou de repente, como que
desaguando as palavras:


— Acho que o senhor está enganando a gente. Não
é nego coisa nenhuma! Essa conversa é coisa de
branco inteligente...
E saiu da tenda com a cabeça crepitando, cheia
de novas idéias em que matutar e repleta de desafios
pela frente, porém com esperança de mudar
— para melhor.
Ao lado do médium incorporado um trabalhador
estava de prontidão, anotando as indicações do espírito
que atendia naquela noite. Assim que a mulher
saiu, permitiu-se perguntar ao pai-velho:
— Puxa, meu pai, aprendi tanto com essa conversa
que o senhor teve com a consulente... Será que daria
para explicar melhor aquilo que o senhor falou a
respeito da personalidade esponja? Talvez suas palavras
sirvam para entender o que ocorre comigo!
— Pois é, meu filho — atendeu prontamente o espírito.
— Na realidade espiritual e energética do mundo,
há ao menos dois tipos de pessoa, de encarnados,
que demandam urgente trabalho de reorganização
emocional. Trata-se das personalidades que
129



nego chama de vampira e de esponja.
"No mundo de hoje, mais do que nunca, vocês estão
cercados de vampiros. São os indivíduos comuns
que vivem das energias alheias e delas se
nutrem, lesando e roubando mesmo aqueles com
quem convivem. Não se vestem de preto, nem
tampouco vagueiam pela noite em busca do pescoço
de inocentes para saciar sua sede de sangue.
Nada disso. Os vampiros modernos esgotam as reservas
energéticas dos outros atacando pelo lado
emocional e afetivo. Fazem-se de vítima e querem
despertar cuidados especiais da parte de quem
está a seu redor, provocando-lhes o esgotamento
nervoso e vital. Vivem num mar de lágrimas e
justificam sua atitude afirmando que a infelicidade
ou a insatisfação que experimentam é culpa do
outro, do obsessor ou de alguma coisa que foi arquitetada
contra si. Deve-se que ter cautela contra
esse tipo de gente.
"Por outro lado, há aqueles que, embora não sejam
vampiros, sugam todo tipo de emoção — ou forma
energética de conteúdo emocional — que esteja
dispersa em ambientes os mais diversos. Caso
deparem com alguém atravessando um problema
emocional, fazem verdadeira sucção dessas energias
discordantes; rapidamente, passam a sofrer os
impactos vibratórios decorrentes das atitudes e da

130


vida do outro, que logo começa a se sentir bem, pois
recebeu certa cota de vitalidade com a simples proximidade
do indivíduo esponja. Simultaneamente,
as energias negativas e indesejáveis que este absorveu
provocam-lhe grande mal-estar. É um mecanismo
infeliz, cujo efeito é bem diferente do que se
verifica na doação. Esse é o drama dos seres de personalidade
esponja."

— E tem remédio contra isso, meu pai?
— Bem, meu filho, nós, os espíritos, acreditamos
que sim. Na realização de sua atividade cotidiana,
o terapeuta do espírito, o espiritualista e o estudioso
das ciências psíquicas devem necessariamente
familiarizar-se com certos princípios fundamentais
para entender o mecanismo de funcionamento da
criação mental. O conhecimento evita que o sujeito
se coloque como vítima e promove sua ascensão
a agente de sua própria vida, aprendendo a coibir
perdas fluídicas desnecessárias.
"Quando se considera o encarnado em sua existência
intrafísica, é correto afirmar que todos os pensamentos
ou idéias, uma vez abrigados de modo mais
ou menos permanente, causarão reação física. Embora
se percebam eventuais conseqüências somente
após algum tempo em que são cultivados e irradiados,
torna-se inevitável considerar que meus filhos
precisam ficar atentos à qualidade do produto
131



da mente2, que pode afetar as diversas funções do
corpo de maneira intensa.
"Um aparelho psíquico que emite vibrações e formas-
pensamento negativas, pessimistas ou de baixa
freqüência naturalmente compele o cérebro a executar,
no corpo, padrão energético análogo. Ou seja:
lenta, mas ininterruptamente o corpo é estimulado
com o conteúdo mental impróprio. Assim sendo,
nada mais sensato do que reorganizar as matrizes
do pensar e fazer uma faxina mental, selecionando
a qualidade das idéias, dos conceitos e das imagens
que se acolhem na intimidade, visando deixar

o lixo tóxico dos pensamentos de baixa vibração do
lado de fora. Eis por que muita gente vem atrás dos
espíritos pedindo que os livremos deste ou daquele
problema e, com efeito, nada podemos fazer. E que
a fonte do problema está no psiquismo de quem se
sente incomodado; é a própria pessoa que necessita
reciclar sua vida mental com urgência."
Explorando o silêncio através de uma pausa mais
longa, claramente movido pela intenção de dar
tempo ao rapaz, que se esforçava por assimilar o
que dissera, o pai-velho continuou:
2 Vale nota r que os espíritos, quand o emprega m a palavra pensamento, não

se referem estritament e ao produt o do intelecto, que a rigor ne m existe de

mod o isolado, ma s ao tod o compost o po r pensament o e emoção.

132


— Muita gente queixa-se de problemas físicos cujas
causas os médicos da Terra não conseguem descobrir.
Ocorre que certas patologias, meu filho, principalmente
aquelas sem diagnóstico, na maior parte
das vezes são causadas por uma vida mental e emocional
complexa e desarmônica. Tomemos como
exemplo as preocupações constantes. Elas induzem
inúmeras mudanças no aparelho digestivo, no
sistema nervoso, notadamente no vago-simpático,
bem como na própria musculatura, determinando
que o organismo entre em estado de emergência ou
instabilidade. Não há mais como culpar a vida, os
espíritos do mal ou supostos feitiços e artifícios de
magia negra por eventuais — ou constantes — desequilíbrios
orgânicos.
"Na verdade, requerem-se muita coragem e disposição
para realizar uma cirurgia na própria alma,
abrindo-se para uma análise ou uma autocrítica
pormenorizada. Somente assim se verá que a maioria
dos males que imputados aos outros é resultado
do estilo de vida mental e emocional que o ser desenvolveu
ao longo do tempo.
"Outro exemplo: a raiva. Abrigada dentro de si por
muitos, é uma emoção que envenena a alma e as células
do corpo. Popularmente, aquele que guarda raiva
e mágoa é o chamado 'engolidor de sapos'. Engole
tanta indignação, sem se expressar de modo conve133




niente diante de suas emoções discordantes e tempestuosas,
que acaba por estimular a liberação de
adrenalina na corrente sangüínea, causando muitas
alterações no funcionamento da máquina corporal.
Por exemplo, grande número dos que se queixam de
problemas cardíacos são, na verdade, agentes da ansiedade
ou do medo infundado, sensações que afetam
a freqüência do chacra cardíaco e ocasionam resposta
imediata no órgão correspondente: o coração."

— Então, meu pai — falou o auxiliar das tarefas da
noite. — Temos de rever urgentemente nossos hábitos
emocionais e mentais, do contrário ficaremos
permanentemente dependentes de orientação espiritual
e, ainda por cima, à mercê de idéias errôneas
a respeito das questões espirituais...
— Isso mesmo, filho! A maioria das pessoas que
vêm às casas de caridade em busca dos guias para
obter orientações ou a resolução de seus problemas
deveria, com grande proveito, procurar também
um bom terapeuta. Nego-velho acredita que, em
vez de gastar dinheiro comprando produtos para
trabalhos, descarregos ou ebós, o mais indicado seria
mesmo empregar seus recursos numa psicoterapia
ou acompanhamento emocional de qualidade.
Quem sabe assim, em vez de querer mudar a
forma como as coisas funcionam — sem o poder —,
as pessoas pudessem abraçar a lei divina tal como é
134


e, em seguida, migrar o foco de sua atenção de fora
para dentro de si? Está aí um trabalho que vale mais
a pena do que aqueles de encruzilhada e outros do
gênero. Entretanto, as pessoas costumam achar
mais fácil pagar alguém para fazer algo em seu lugar,
transferindo assim ao outro a responsabilidade
por sua própria satisfação, do que elas próprias encararem
o trabalho de modificar sua conduta mental
e emocional. Seja como for, perante a força soberana
da vida, de nada adiantam3 os trabalhos fei-

Estas observações, em absoluta consonância com os conceitos espíritas,
dão uma interpretação ainda mais abrangente à prática de contratar terceiros
para fins espirituais, o que foi duramente condenado tanto por Jesus
quanto por Kardec. Pela paixão que despertam e pelas verdades que encerram,
transcrevemos passagens de uma das principais fontes que abordam

o assunto, porém recomendando enfaticamente a leitura na íntegra: "Deus
não vende os benefícios que concede. Como, pois, um que não é, sequer,
o distribuidor deles, que não pode garantir a sua obtenção, cobraria um
pedido que talvez nenhum resultado produza? Não é possível que Deus subordine
um ato de clemência, de bondade ou de justiça, que da sua misericórdia
se solicite, a uma soma em dinheiro". Mais especificamente sobre a
terceirização de responsabilidades, prossegue o texto: "Ainda outro inconveniente
apresentam as preces pagas: é que aquele que as compra se julga,
as mais das vezes, dispensado de orar ele próprio, porquanto se considera
quite. desde que deu o seu dinheiro" (KARDEC, Allan. O Evangelho segundo
o espiritismo , op. cit, cap. 26, itens 3-4: Preces pagas, p. 466-467).
135



tos, encomendados a outros com o propósito de resolver
aquilo que cabe somente ao indivíduo.

— Vi muitas vezes o senhor falando a respeito das
imagens mentais, meu pai — interpelou-o novamente
o trabalhador. — Como elas atuam e exercem
influência sobre nosso comportamento no diaa-
dia? Afinal, essas imagens afetam nosso estado de
espírito, correto?
— Por certo que afetam. As imagens mentais são
o resultado de pensamentos recorrentes, mais ou
menos constantes, de um mesmo padrão vibratório.
Tanto o cérebro físico quanto o sistema nervoso
respondem de maneira rápida e intensa às figuras
criadas e mantidas pelo indivíduo. Elaborada a
partir dessa repetição de pensamentos de qualquer
natureza, a imagem torna-se um tipo de impressão
mental ou clichê, do qual o subconsciente lançará
mão toda vez que houver associação com novos
estímulos, sejam endógenos ou exógenos. Dito de
outro modo: o ser forja os clichês em sua mente, e,
no momento em que surge alguma situação externa
que estabeleça sintonia com o tipo de imagem
mental que cultivou, o sistema é ativado, entrando
num estado de inter-retroalimentação. Quanto
mais estímulo, mais vida ganha a imagem mental;
quanto mais consistente esta se torna, mais incita
novas doses. É um círculo vicioso, como se pode
136


ver. O próximo passo é materializarem-se, no corpo
ou em suas emoções, quadros ou comportamentos
que consolidam o desequilíbrio.
"Observe, meu filho, que muitas pessoas querem erguer
em torno de si um campo de defesa energética
ou espiritual, contudo não cuidam da natureza dos
pensamentos que cultivam e dos clichês que elaboram
em torno de si. Ora, qualquer proteção energética
ou espiritual depende inteira e diretamente
da qualidade da produção e do substrato mental de
quem almeja a imunidade vibratória ou fluídica. A
força e o dínamo da corrente magnética que mantêm
ativos e eficazes os campos de proteção que
envolvem o indivíduo — tanto quanto a comunidade
— estão enraizados na sua conduta mental. Não
há como escapar a essa realidade; é do arcabouço
psíquico que se extrai a matéria-prima para sustentar
a defesa ou imunidade espiritual. Irradiar pulsos
magnéticos e fortalecer escudos das mais variadas
formas e métodos será inócuo se o ser não cuidar
das fontes do pensamento e não compreender
tais leis de manutenção do equilíbrio energético.
"Quando realizamos tarefas de desobsessão e fortalecimento
da proteção fluídica, observamos que
a maior contribuição que se poderia dar às pessoas
assistidas é um curso intensivo mostrando a responsabilidade
pessoal na manutenção do pensamento e

137



das emoções organizados. Enfim, como já disse: não
se pode abrir mão de um acompanhamento emocional
junto com o atendimento desses casos. Afinal, é
ingênuo supor que apenas alguns comandos mentais
estimulados pelo magnetismo sejam suficientes para
erguer e sustentar a defesa energética, seja no âmbito
individual, seja no coletivo, sem levar em conta o
cuidado com a fonte propulsora da força magnética,
que são as emoções e os pensamentos."

— É, Pai João, então temos de zelar de verdade por
nossos pensamentos, e no caso dos médiuns não somente
no dia das tarefas espirituais ou magnéticas,
como também em nosso dia-a-dia...
— Essa é a realidade, meu filho, a pura e simples
realidade; ela demonstra o princípio que deve nortear
a forma de lidar com as questões do magnetismo.
Também essa é a maior necessidade daqueles
que procuram ajuda para suas vidas. No fim das
contas, não há nenhum proveito em conversar com
espíritos, sejam eles pais-velhos, caboclos ou quaisquer
outras figuras espirituais, a não ser com o objetivo
de despertar para tais fatos. Do contrário, o
auxílio serve apenas de muleta para fomentar a dependência
doentia que certas pessoas desenvolvem
em relação aos espíritos. O remédio de que precisamos
mesmo é trabalhar as emoções e os pensamentos
por meio do esclarecimento das pessoas.
138


— Que é isso, Isabel? — respondeu Zuleika. — É claro
que sei que isso é do Diabo, mas e se por acaso a
gente estiver enganada? Como ficam as coisas?
— Você duvida, minha amiga? Você duvida então
da palavra de Deus?
— Ora, Isabel, você com suas idéias... Sabe muito
bem que vou ao culto todos os domingos e adoro
participar das orações no templo. Como eu poderia
duvidar? Estou apenas procurando conversar
e saber como as coisas seriam se a gente estivesse
enganada a respeito dessas questões. Não é que eu
duvide, mas sabe? E se...
— "Se" coisa nenhuma, minha amiga. O pastor lá da
igreja sempre está certo. Não podemos mexer com
quem já morreu...
Zuleika é uma mulher experiente. Trinta e oito
anos, morena clara, cabelos cacheados e olhos pretos.
Desde criança convive com situações incomuns,
para as quais não encontrou explicações satisfatórias
em sua religião. Freqüentava a igreja renovada
por razões sociais e, atendendo ao apelo da
mãe no leito de morte, não abandonara a religião.
Temia descumprir o juramento feito à morta. Com
esse pensamento é que ia semanalmente ao templo,
apenas para aplacar seus medos quanto à promessa
feita, sem raciocinar sobre quais seriam as implicações
dessa decisão. Era religiosa, dedicada a Jesus.
142


Assim jurava de pés juntos para as amigas que professavam
a mesma fé. Mas, no fundo, no fundo, desejava
mesmo era arranjar um bom namorado entre
os fiéis, pois entre todas as irmãs somente ela
ficara solteirona. Ah! Como era difícil permanecer
na solidão assim, sem ninguém com quem compartilhar
a vida, as paixões e os anseios de mulher.
Até que tivera algumas aventuras amorosas, entretanto
isso não a satisfazia. Era mulher casadoira, e

o que mais queria era encontrar alguém com quem
se unir até que a morte os separasse. Amasiar-se?
Nem ver. Que falariam dela na cidade? Afinal, ela
podia até morar na capital, mas a turminha com a
qual convivia no dia-a-dia era um povo exigente
e conservador. De jeito nenhum perdoariam caso
morasse com um homem sem a devida cerimônia,
com direito a véu e grinalda. Exatamente da maneira
como a velha mãe idealizara e como fizera a irmã
mais nova. Entrar na igreja com toda aquela gente
jogando pétalas de flores sobre o casal... "Ah!" —
suspirava só de imaginar. Zuleika sonhava constantemente
com o casamento. Mas, infelizmente, não
conseguira o noivo.
Resolveu então aderir ao movimento carismático e,
deste, foi para uma igreja evangélica. Assim, se uma
religião não ajudasse, ela teria duas. Por segurança.
Era um povo alegre o pessoal da igreja, uma turma
143



renovada, embora não pudesse negar sua queda por
outras religiões. Já que tinha de cumprir a promessa
com a morta, que fizesse uso conveniente da situação...
Afinal, ela só prometera não abandonar a religião
— qualquer que fosse a denominação religiosa!
Jamais garantiu à mãe que não iria a outras igrejas
nem se interessaria por outras religiões. Até porque,
apesar de haver muitos rapazes atraentes, estava tão
difícil achar um marido ali na igreja... E amasiar-se
ela não queria mesmo. Isso era ponto decidido.
Já fizera até promessa para Santo Antônio, o santo
casamenteiro, e nada — ai, se Isabel descobrisse!
Um dia ensinaram a ela que deveria adquirir
uma imagem do dito santo e cozinhá-la de cabeça
para baixo no feijão. Pobre santo!... Não é que ela
fez tudo conforme o figurino? E para que adiantou?
Nada, nenhum homem ou maridão foi pescado.
Submeteu-se a todo tipo de fantasia criada pela
imaginação popular, inclusive tomar banho de pipoca
nuazinha em pêlo, à noite, em frente a uma
igreja. Já pensou se passa alguém e vê?
Pobre Zuleika, agora tinha de apelar. As simpatias
não surtiram resultado e ela continuava solteirona,
rezando e fazendo promessas. E as velas que acendera?
Já perdera as contas... Evidentemente, fez
tudo isso escondido da amiga, que era uma legítima
fanática.

144


A busca de Zuleika por um marido foi tão intensa e
determinada que até uma "vidente" ela procurou.
Dessas que afixam folhetos nas ruas e nos postes:
"Mãe Fulana de Tal — traz a pessoa amada em 7
dias". E olha que, nos dias de hoje, o mercado está
tão concorrido que tem gente anunciando prazo de
5 ou 3 dias e até de 24 horas!
A amiga Isabel bem que alertou: "Isso é obra do demônio".
Afinal de contas, o pastor falou, está falado.
Nada adiantou também. Zuleika continuava sonhando
com o noivado, o casamento. A tal mulher
que lhe prometera arranjar um marido em uma semana
só soube comer seu rico dinheirinho. Fora
embora todo o seu salário e as economias que fizera
para comprar o enxoval. Em vão.
Zuleika se transformara numa devota da igreja renovada.
A amiga Isabel contara que o Espírito Santo
estava obrando na igreja e que ela mesma tivera provas
do seu poder: depois das orações ela falara em
línguas, conforme constava da Bíblia. Eram línguas
estranhas, na verdade, que ninguém entendia. Os
crentes diziam ser línguas dos anjos. Quem sabe?
"Já que estão ocorrendo milagres tão fantásticos na
igreja, será que eu não consigo um milagrezinho
assim, desse tamanhinho, só para ajudar a amarrar
meu homem?" — tentava se convencer Zuleika.
Estava louca, desesperada, endiabrada... "Ah! Que

145



calor! Que calor, meu Deus!" Zuleika não agüentava
mais pensar na situação.
Outra amiga — Morgana, a esotérica — dissera-lhe
que sua energia yang estava em ebulição. Ou seria
a energia biang1? "Sei lá" — pensava ela. "Esse povo
todo é muito maluco!" Mas, se essa maluquice toda
servisse para ajudá-la a ter sucesso em seu intento,
então se encheria de balangandãs, penduricalhos,
incensos, cristais e decoraria todas as rezas,
mantras e assemelhados. Em nome de Deus ou de
quem quer que fosse, ela precisava casar, tinha de
arranjar um noivo a qualquer preço. Não agüentava
mais esperar.
Foi numa dessas conversas com Isabel que ela se
distraiu e deixou escapar que Morgana era esotérica.
Justamente sua amiga Morgana, a única que
a entendia... Bastou um instante de desatenção e

o caos estava armado, a pregação havia começado.
Também, por que não ficou com o bico calado? Tinha
de falar sobre esoterismo logo com Isabel, sua
companheira de igreja?
Isabel era outra... Mal-amada, não se conformava
com as estripulias do marido. Para curar sua inquietação
com o casamento, que vivia só de aparências,
resolveu então "entregar seu coração para Jesus".
"Também pudera" — pensou Zuleika. "Depois de
aprontar todas que tinha direito e de ser rejeitada
146


pelo marido, só tinha uma saída: entregar para Jesus!
Coitado, tadinho dele..." — ela ria sem se incomodar
com Isabel, que estava bem ali, a seu lado.

— Que é isso, Zuleika? Está doida, mulher? — perguntava
Isabel, sem entender o motivo do riso repentino
da colega.
E Zuleika, sem responder, absorta em seus pensamentos,
continuou o raciocínio:
"Ele recebe cada coisa... Depois de a pessoa virar
um bagaço, depois de pintar e bordar e não ter mais
nada que presta, entrega o restolho pra Jesus. É um
tal de ex-marginal, ex-prostituta, ex-ladrão, ex-macumbeiro...
Ele ganha cada coisa nesse mundo!" —
pensou Zuleika, com seu sorriso maroto. "Será que
o tadinho não ganha nada que presta?"
— Zuleika!!! — berrou a amiga.
— Deixa de ser abestalhada, mulher... Me deixe em
paz, de uma vez!
— Mas você está pensando bobeira. Conheço este
seu sorriso cínico. Pensa em Jesus, minha amiga.
E, olhando de soslaio para Isabel, abana-se como
que para dar fim àquela conversa chata e sai na
frente, rebolando exageradamente, feito doida.
— Ai, mais que calor... Que calor, meu Deus! — exclamou
Zuleika.
As duas entraram no templo com o sentimento
voltado para Deus e as coisas do espírito. Pelo me147




nos Isabel, pois Zuleika estava com os olhos revirando
na órbita de tanto olhar para os lados. Tudo

o que via eram aqueles irmãos que ali chegavam
para orar e louvar a Deus, nada mais. Afinal, se não
podia ver Jesus mesmo, em pessoa, poderia aproveitar
para olhar e admirar os filhos do Senhor,
seus seguidores...
— Sagrado Jesus, Senhor da glória! — balbuciava Zuleika
ao ver todos aqueles homens reunidos, tentando
apascentar sua libido e minorar o incômodo com
sua situação emocional, sua solteirice compulsória.
Tão logo o pastor começou a pregar e, na conclusão
da prédica, a orar, o público foi aos poucos entrando
em sintonia com as suas palavras. As emoções
de cada um pareciam adquirir vida própria, e o clima
psíquico era algo palpável, facilmente perceptível.
O pastor sabia manipular as palavras de maneira
a falar aos desejos e às emoções dos presentes.
Um clamor coletivo dominava o ar. Em torno
do missionário evolava-se intenso magnetismo. De
suas mãos e olhos partiam irradiações eletromagnéticas
de tal intensidade que reforçavam a convicção
dos fiéis ali presentes, que realmente acreditavam
ser ele um enviado de Deus para resolver suas
mazelas. De repente, o pastor gritou em sua oração
renovada e inspirada:
— Coloquem a mão direita sobre o local onde dói
148


ou onde julgam estar o problema que os incomoda!
Neste momento, pedirei aos anjos do Senhor que
toquem seus corações e suas mentes, que libertem
do mal que acompanha os irmãos. Esta é uma noite
de libertação. Em nome do Senhor, eu repreendo os
espíritos da maldição! Em nome do Senhor Jesus,
eu repreendo os espíritos da macumbaria e da feitiçaria!
Em nome de Deus, eu declaro a vitória sobre

o inimigo, sobre as pombajiras, os exus do mal e sobre
toda sorte de demônios que afetam as vidas dos
irmãos. Aleluia! Aleluia! Ô glórias...
No auge da oração forte, as pessoas já estavam de
tal modo entregues, abertas ao transe anímico que
se predispunham ao que quer que o pastor as induzisse.
A oração funcionava como recurso magnético
e hipnótico de grande potência. Pessoas perdiam o
controle emocional, choravam ou começavam a rir
nervosamente, sem parar, enquanto se viam outros
a pronunciar palavras desconexas, interpretadas
pelos crentes como sendo o idioma dos anjos.
— Eu os liberto de toda ação do Demônio, de toda
artimanha do Maligno e dos laços de Satanás —
anunciava o pastor com autoridade e firmeza impressionantes.
Simultaneamente às palavras que
constituíam o ápice de sua oração, ele bateu o pé
direito no tablado do púlpito de uma só vez, produzindo
forte som em meio ao burburinho crescente.
149



De repente, mediante as sugestões hipnóticas emitidas
pelas calculadas palavras do pastor, Zuleika
pôs-se a tremer convulsivamente. Tremia tanto
que a amiga Isabel parou de falar a língua dos anjos
e tentou segurá-la, o que se demonstrou inútil.
Neste instante, o missionário gritou ainda mais alto
e então foi acompanhado por um grupo de mais ou
menos 10 obreiros que com ele dividiam o tablado,
os quais, em meio aos apelos magnéticos do pastor,
passaram a bater os pés em uníssono, emitindo estrondos
ritmados que sobressaíam da algazarra de
línguas e gemidos da turba.

Zuleika surtou de vez e foi ao chão feito uma fruta
madura quando cai da árvore. Debatia-se loucamente,
num ataque de nervosismo que denotava o
intenso grau de desequilíbrio que a dominava.

— É a pombajira dos infernos! — exclamou a amiga
Isabel a plenos pulmões. — Valha-me, Deus,
nosso Senhor!
O pastor aproveitou a situação e desceu do tablado,
sempre orando com palavras cada vez mais insufladas
de emoção e vitalidade. Dirigiu-se logo para
onde Zuleika se estrebuchava no chão.
— É o poder de Deus que repreende os demônios da
maldade! — anunciou o pastor enquanto a multidão
cantava, gritava e falava a língua dos anjos, conforme
se manifestava a histeria nas pessoas.
150


— Eu te repreendo, demônio, em nome do Senhor
Jesus. Salve, salve! Aleluia, aleluia! Glórias...
Zuleika foi então erguida por dois brutamontes que
acompanhavam o pastor Moisés naquela noite de
libertação e descarrego. Em franco desequilíbrio
emocional e nervoso, ela tremia dos pés à cabeça,
quando o pastor resolveu interpelá-la, tal como se
ele se dirigisse a um espírito incorporado:
— Fale, demônio da pombajira, diga o que você quer
desta mulher — ordenava o pastor em pleno volume,
ao mesmo tempo em que batia na cabeça de
Zuleika com pesada Bíblia, incitando a pobre mulher
a se expressar como se fosse um demônio incorporado.
Gemia, rugia e soltava palavrões como
se fosse mesmo um espírito do mal. Não havia outro
jeito: ou cumpria o protocolo daquele lugar ou
seria espancada com a Bíblia indefinidamente.
Zuleika fingiu desmaiar diante de tantos golpes que
levara na cabeça e de tal estardalhaço em torno de
si. Isabel pulava e soltava sons incompreensíveis
durante o descarrego feito pelo pastor, que, àquela
hora, já se consagrava como o enviado do Altíssimo
para a libertação da mulher possuída. Conduzida a
outro cômodo, todos acreditavam que Zuleika estava
inconsciente. Sua amiga Isabel, pulando e louvando
em meio aos hinos dos fiéis, acompanhava a recémliberta,
que fora levada do ambiente pelos dois ho151




mens que escoltavam o pastor. Enquanto isso, o pastor
Moisés continuava no salão curando e libertando
outras almas da perdição. Quando a mulher deu por
si na poltrona da sala anexa, completamente sugada
e desvitalizada, a amiga foi logo comentando:

— Irmã Zuleika, a pombajira estava com você. Eu
falei, eu falei que você estava possuída pelo demônio!
Aquele calor todo que você sentia era o fogo
do inferno. Mas, graças a Deus, o pastor Moisés libertou
sua alma. Você agora está salva por Jesus e
a demônia da pombajira te largou e foi queimada
pelo fogo do Espírito Santo.
Zuleika abriu os olhos lentamente, enquanto a amiga
tagarelava a seu lado, quase possuída — quem
sabe pelo Espírito Santo? Certificou-se de que estavam
sozinhas e de que os homens haviam retornado
ao salão da igreja. Num átimo, reuniu as poucas
energias de que ainda dispunha e pôs-se de pé, falando
à amiga Isabel, interrompendo-a:
— Que pombajira, que nada, amiga! Eu é que não
volto mais aqui. Me deu uma tremedeira tão grande
que não tive como me dominar, mas sei que não
era nenhum demônio coisa nenhuma.
— Era ela sim, Zuleika! Era a pombajira dos infernos
que estava danando sua alma, amiga. Ela é a
mulher do Satanás. Logo notei, quando a gente vinha
pra igreja, que você estava estranha. Ela te jo152



gou no chão quando o pastor se aproximou. Ele
orou o Salmo 91 sobre você, que é uma oração poderosa,
e retirou a danada de seu corpo. Você agora
está com o corpo fechado, amiga, nenhum demônio
pega você mais.

— Que nada, Isabel. Fui obrigada a fingir que havia
um espírito em mim, pois não conseguia dizer nenhuma
palavra, tamanha força me dominou. Se eu
não fingisse, apanharia ainda mais com aquela Bíblia
enorme com a qual o pastor surrava minha cabeça.
Passando a mão sobre o couro cabeludo para certificar-
se de que não sofrera nenhuma contusão, Zuleika
tratou de sair quase correndo pela porta dos
fundos da igreja, deixando para trás a amiga boquiaberta,
na certa acreditando que o demônio, ou
melhor, a demônia havia se apossado novamente de
Zuleika. Depois desse teatro todo, as duas nunca
mais se viram. Zuleika ficou realmente possessa de
raiva da igreja, do pastor e dos demônios evocados
por ele naquela sessão de descarrego.
Tinha também raiva de Jesus. "Ô povinho miserável
que ele arrumou para lhe representar" — pensava
a mulher endiabrada, indignada e desiludida
com a religião.
Foi assim que resolveu apelar. Não voltaria mais à
igreja, nem que Jesus ou sua falecida mãe a amaldiçoassem,
deixando-a solteira para o resto da
153



vida. Tamanho desespero acometia a pobre mulher
que acabou procurando um terreiro. Tudo o
que a antiga amiga não queria e que lhe desaconselhara
veementemente.
Que se danasse a promessa feita à mãe morta! No
fim das contas, ela estava morta mesmo, não estava?
Encontrou uma mulher que se dizia mãe-de-santo.
Se era alguém confiável ou não, Zuleika ainda não
sabia, mas que tinha conhecimento da coisa, isso
sim. Não podia negar. Dizia-se ser do candomblé, e
foi em sua roça que Zuleika conheceu o jogo de búzios.
Ela tinha de consultar o seu santo de qualquer
jeito. Ver o que estava atrapalhando sua vida.

— O búzio é uma espécie de concha ou caramujo
africano usado para interpretar a vontade dos orixás
— informava Mãe Mercedes. — Você tem de vir
aqui um dia desses para eu jogar búzios e ver o que
os orixás determinam para sua vida.
— Vir eu até venho, Mãe Mercedes, mas primeiro
eu tenho de conhecer alguma coisa a respeito. A senhora
sabe, sou uma pessoa inteligente, que usa a
cabeça, e não vou me jogar num lance desses aí sem
saber com que estou mexendo...
— Então, vamos lá, que eu vou dar a você algumas
explicações antes de jogar.
Mercedes era uma mulher esguia, alta, com o rosto
marcado por rugas fortes e expressão que remetia a
154


uma cigana. Usava óculos com lentes grossas e roupas
simples, nada vistosas. Em sua casa havia um
cômodo onde repousava uma peneira sobre pequena
mesa. Colares, contas e um cristal faziam parte
dos apetrechos que eram vistos sobre a mesa coberta
de pano muito alvo. Dentro da peneira estavam
dispostas 16 contas africanas. Eram os búzios,
considerados sagrados. Mãe Mercedes era representante
do culto de kêtu — segundo dizia. Ao lado
da peneira, destacava-se um copo branco com alguma
coisa dentro, que Zuleika jamais vira.

— Esta é a raiz de ázio, que faz parte do ritual do
jogo. As raspas da raiz sagrada devem ser trocadas
diariamente, duas vezes ao dia. A bigorna de ferro
em tamanho reduzido é o instrumento de Ogum, o
orixá da guerra, do ferro e da tecnologia. A outra
bigorna que você vê aqui, de alumínio, é representativa
de Oxalá, e a figa de chumbo, de Nanã, a avó
dos orixás.
Após fitar a mulher que a procurara e perceber
que, com toda a sua inteligência, não entendera
quase nada do que havia explicado, Mãe Mercedes
continuou:
— Aqui, Zuleika, eu uso alguns instrumentos simbólicos
que me auxiliam nas predições. No meu caso,
preciso disto tudo a fim de abrir minha clarividência
no contato com as forças da natureza. Tem gen155




te boa por aí que não precisa destes elementos. Mas
eles fazem parte da tradição que herdei de minha
velha avó. Uso minerais, algumas pedras preciosas,
como vê, além de um idê de ferro para o Sr. Ogum,
que abre os caminhos da minha vida. As sementes
de aridã, junto com os obis e orobós, representam
os elementos masculino e feminino. Também fazem
parte do ritual do jogo de búzios e possuem sua função
para os representantes do candomblé. É claro
que falo daquelas pessoas que realmente têm o fundamento
do santo, não daqueles que aprendem de
qualquer jeito e ficam a enganar as pessoas por aí.
"Esta aqui — falou apontando para uma pedra à
frente da mesa — é a pedra d'ara, que representa
para nós, da nação, o compromisso com a verdade,
em dizer exatamente aquilo que os orixás determinam
no jogo. Antes de ser usados, os búzios devem
ser preparados. Há todo um ritual do candomblé
para isso. Têm de ser colocados numa infusão
de determinada erva que dá dentro d'agua, a chamada
santos-olhos. Neste meu jogo utilizo 16 contas
de búzios, mas essa quantidade varia conforme
a orientação do culto e da nação."
Vendo que a mulher começara a se interessar, Mercedes
ousou perguntar:

— Quer que eu jogue pra você agora? — ofereceu a
dirigente do culto de nação.
156


Sem saber muito bem o que queria e confusa com
tanta novidade, Zuleika cedeu ao impulso e aceitou
a oferta do jogo.

— Bem, já que você quer saber dos detalhes do que
vai acontecer, vou lhe dar algumas informações enquanto
preparo o jogo no tabuleiro dos búzios.
"Segundo a mitologia africana, e também segundo
alguns cultos de nação, Lebá ou Elegbará, que representa
Exu, era o mensageiro dos orixás e possuía
o dom da adivinhação. De um momento para
outro, Lebá pediu a Urumilá, o deus supremo na
mitologia ioruba, que desse a Ifá o privilégio desse
dom, e, desse modo, foi transferida a este orixá a ascendência
nos jogos divinatórios. (A título de comparação,
Ifá talvez corresponda ao mesmo papel do
Espírito Santo, na linguagem da Igreja.) Esse orixá,
então, assumiu o compromisso de, sempre que procurado
pelos homens, servir de guia na interpretação
da vontade dos orixás. Por ter abdicado do dom
da adivinhação em favor de Ifá, Exu, o mensageiro,
passaria a ser reverenciado primeiro no jogo, como
forma de recompensar sua generosidade.
"Ainda de acordo com a mitologia, segundo pude
estudar, Ifá não cumpriu sua parte no trato. Em
virtude disso, Oxum recorre ao deus supremo requisitando
para si a incumbência do jogo. Revoltado
com a interferência desta iabá, Ifá resolve assu157




mir sua responsabilidade; porém, a partir de então,
Urumilá reorganiza a situação e divide entre Oxum
e Ifá a obrigação do jogo, desde que consultassem
Exu, o guardião, toda vez que jogassem as contas
sagradas. Assim se fez, e até hoje, antes de jogar os
búzios, nós, os praticantes do candomblé, reverenciamos
Exu como aquele que por direito sagrado
detém o poder de abrir as portas da adivinhação, os
caminhos e as porteiras da vida."

— Deus me livre, Dona Mãe Mercedes — falou Zuleika,
apavorada com a palavra exu e o que significava
para ela, que vinha de uma formação religiosa
diferente. — Mas Exu não é o Diabo?
Soltando gostosa gargalhada, Mãe Mercedes respondeu
boamente:
— Nada disso, Zuleika! Quando falo de Exu, não
me refiro a entidades que se manifestam com esse
nome na umbanda ou em outros cultos. Aqui não
trabalhamos com eguns ou almas de mortos. Em
nossa nação, trabalhamos exclusivamente com forças
da natureza, com os elementos ou encantados,
como se diz em outras nações. Dessa maneira, assim
como acontece com cada orixá, Exu para nós é
apenas uma vibração, uma força da natureza.
E arrematou, depois:
— Claro que falo assim para que você possa entender;
afinal, você não é do santo, portanto não adian158



ta lhe explicar os detalhes. Por isso, estou resumindo
tudo de forma que você entenda, numa linguagem
mais comum.

— Então a senhora me garante que esse tal de Exu
que vocês falam não é nenhum demônio?
— Com certeza, Zuleika! O único demônio que a
gente conhece aqui são as pessoas que fazem o mal
ou aquelas que aqui vêm pedindo ou querendo evocar
a força dos orixás para vinganças, maldades e
mesquinharias. Mas pode ficar tranqüila, porque
aqui a gente não faz maldade e nem encomenda
serviços de amarração, demandas e outras coisas
inconfessáveis. Sou filha de Xangô e o meu orixá é
santo de justiça. Ninguém fica impune diante da lei
de Oxalá e Urumilá.
Antes de jogar os búzios, Mãe Mercedes acrescentou
mais alguns detalhes:
— Tenho de lhe falar alguma coisa mais, Zuleika, e
talvez isto até possa assustá-la um pouco, mas peço
que primeiro me ouça, antes de me julgar.
— Ai, meu Deus, lá vem você com essa mania de deixar
a gente com medo! Tem alguém perto de mim?
A senhora está vendo alguma coisa me rondando?
Fale, mulher, fale logo senão dou um troço...
— Não é nada disso, Zuleika! É sobre a lei de santo.
Existe uma lei que é conhecida por nós como a
lei de salva. Ela é muito mal interpretada por quem
159



não nos conhece. Diz a lei que toda vez que vamos
jogar os búzios a pessoa deve dar uma oferta para a
manutenção dos trabalhos com os orixás. O pagamento
pelo serviço de Exu, conforme lhe falei antes,
na história que lhe contei.

— Ah! Então não é nada de espírito perto de mim,
não, né? Graças a Deus, Mãe Mercedes. Então eu
terei de pagar pra jogar para mim?
— Pois é, Zuleika. No candomblé, respeitamos algumas
leis que membros de outras religiões desconhecem
ou fazem de conta que não existem. Como
na igreja evangélica, por exemplo, onde os fiéis têm
de doar o dízimo; na igreja católica, pagam-se os
sacramentos para sustentar o culto e tudo o mais
que envolve o trabalho dos sacerdotes. A manutenção
do templo envolve desde a limpeza e os pequenos
reparos até o pagamento de funcionários, impostos,
contas de água, luz e telefone, entre outras
despesas. No meu caso, estabeleci que o consulente
deve doar de acordo com o que ele propuser, de coração,
assegurando que o dinheiro será empregado
para levar adiante o serviço dos orixás, adquirir ervas
e material de culto.
Ajeitando-se toda na cadeira em que estava sentada,
quase rebolando, Zuleika respondeu:
— Ixe! Não precisa explicar essas coisas pra mim,
Mãe Mercedes. Sei muito bem que a senhora está
160


tirando do seu tempo, do seu trabalho para me
atender de boa vontade...

— Mas ainda não é isso, Zuleika. Eu não fico com
0 dinheiro da salva. Também fiz um compromisso
com meu pai Xangô que empregaria todo o recurso
financeiro dos jogos numa creche aqui do bairro.
Na verdade, me inspirei na vida e nos ensinamentos
de Mãe Menininha do Gantois. Pessoalmente, não
preciso desse dinheiro, pois tenho uma boa pensão
do meu falecido marido e trabalho como enfermeira
em serviços particulares, atendendo idosos.
— Não se preocupe, Mãe Mercedes. Entendo isso,
de verdade. Afinal, fui evangélica e já entreguei pra
Jesus um dia. Lá na igreja, a gente era acostumada
a doar de coração, e eu fazia com muita boa vontade.
Só que aqui eu posso ver no que a senhora emprega
as contribuições...
Antes que Zuleika entrasse em detalhes, Mercedes
a interrompeu:
— Vamos lá, minha filha, não é hora da gente abrir
brecha para mágoas ou desconfianças infundadas!
Zuleika ficou sentada ali mesmo, em frente à pequena
mesa atrás da qual se colocara Mercedes. A
mãe-de-santo pediu a Zuleika para orar, elevar o
pensamento ao seu anjo da guarda, enquanto ela
própria recitava uma oração numa língua diferente,
enquanto sacudia as contas sagradas nas mãos em
161



concha. Ao jogá-las na peneira, Mercedes olhava
atentamente a posição dos búzios, e depois de algumas
outras manobras, rezando suas rezas sagradas,
a sacerdotisa falou para Zuleika:

— Quem responde por você é Iansã, o orixá dos
raios e das tempestades. Oxalá interfere na resposta,
e Oxum é quem interpreta. Você precisa procurar
um lugar onde se trabalha com eguns. Aqui em
minha roça não me envolvo com alma de pessoas
mortas, mas com encantados ou orixás. Segundo o
jogo me mostra, há alguém que normalmente chamamos
de egum — ou um ser desencarnado — que
lhe cobra algo do passado. É um homem a quem
você amou muito, e ele igualmente se dedicou intensamente
a você.
Jogando novamente as contas sagradas, Mercedes
acrescentou:
— Não adianta tentar afastar egum, pois ele só será
encaminhado mediante o trabalho com os espíritos,
algo que eu não faço aqui. Esse egum, seu antigo
afeto, está o tempo todo a seu lado. Você sonha com
ele como se fosse um vulto lhe seguindo. Não perseguindo,
mas caminhando sempre no seu rastro.
"Iansã diz pra não se preocupar, mas você precisa
resolver essa situação com urgência, senão você ficará
à mercê de uma força muito poderosa, a força
sexual, que está tão contida e mascarada em você
162


que, de um momento para outro, você poderá perder
o equilíbrio."
Após jogar mais umas duas vezes as contas sagradas,
a mãe-de-santo acrescentou, sem que Zuleika
tivesse falado qualquer coisa com ela:


— Ah! Minha filha... Iansã diz aqui que o ocorrido lá
na igreja com você era o tal moço, o egum que está
junto de você e que, num momento de transe, você
se descontrolou por completo e o sentiu de forma
mais intensa. Ele precisa ser encaminhado por alguém
que é especialista nisso. E não sou eu a pessoa
indicada pelos búzios.
— E será que não fala aí a respeito de um marido
para mim? De um namoradinho que seja?
— Olha, Zuleika, acho que você está procurando
em lugar errado. Como eu lhe disse, não pratico a
lei do santo conforme muitos fazem por aí. Tenho
meus valores espirituais e minha própria lei. Aqui
não faço amarração nem conheço esses tais arranjos
matrimoniais. Outra coisa, mulher — falou Mãe
Mercedes, em tom mais sério. — Procure logo um
lugar para ir e resolver essa pendência em relação
a esse egum, senão corre o risco de complicar mais
ainda sua situação espiritual. Acho que deve procurar...
Espere aí. Vou jogar outra vez.
Rezando num idioma desconhecido, Mercedes procurou
se concentrar e jogou novamente os búzios.
163



— Quem responde é Xangô, o orixá da justiça. Ele
diz para procurar um lugar onde certo homem trabalha
com eguns. Há um local numa cidade próxima
daqui que você deve procurar. É um filho de
Xangô, mas ele não é da nação, é um homem que
faz ponte entre dois mundos. Segundo os orixás, ele
trabalha com um velho que tem competência para
ajudar no seu caso. Xangô encerra o jogo.
Após a conversa com os búzios, em que Mãe Mercedes
interpretara as ocorrências no jogo, ela passou
por escrito as indicações. Assim, Zuleika deixou-se
cativar pelo trabalho de Mercedes, entendendo que
já era hora de colocar fim a seu preconceito. Encontrara
alguém que, embora não professasse sua religião,
tinha compromisso sério com as questões espirituais.
Mercedes era adepta do candomblé e era
respeitada, confiável e, dentro daquilo que acreditava,
fazia o que podia para auxiliar, sem exageros e
sem viver à custa da religião.
Impressionada, Zuleika saiu da casa da sacerdotisa
com novos elementos para pensar. Entre outras
coisas fazia uma reflexão a respeito de sua caminhada
em busca do casamento, do uso que fez da
religiosidade apenas para encontrar um homem
e de sua insatisfação com as questões espirituais.
Contudo, demonstrando seu jeito maroto, a mulher
remexeu-se toda em meio aos pensamentos, arru164



mou o decote enorme, mostrou seu requebrado pra
nem sabe quem que passava na rua e pensou:
"'Ah! Também, depois que entreguei pra Jesus e
ele não fez nadinha comigo nem por mim, eu até
que mereço essa vida mesmo. Preciso me resolver
senão vou morrer velha, um cangaço. Vou procurar
esse sujeito na outra cidade e já, já resolvo meu
problema."
E, em voz alta, de maneira que qualquer um na rua
pudesse ouvir, Zuleika declarou, abanando-se toda:

— Ai, meu Deus! Que calor, que calor! Minha energia
biang hoje está a todo o vapor... Acho que ela vai
se derramar toda uma hora dessas. E aí, quando ela
se esparrama, ninguém me ajunta depois... Posso
morrer solteira, mas não desço do tamanco jamais!
165



Zuleika era uma mulher nada dada a delicadezas nem
a detalhes e, portanto, com freqüência confundia
nomes de objetos e de pessoas. Como não se importava
muito com minúcias, vivia se desculpando
toda vez que errava o nome de alguém com quem
tinha se encontrado. Não se poderia esperar que
aquela mulher conseguisse gravar nomes que não
eram comuns ao seu vocabulário.
Tentando chegar a alguma conclusão a respeito das
inquietações íntimas e dos luluns foi que Zuleika
encontrou o recanto de caridade onde o tal médium
do pai-velho atendia os consulentes. Adentrou o
ambiente tentando ser sutil, mas não conseguiu,
com todo aquele remelexo, os penduricalhos que
trazia nos punhos em forma de braceletes, a roupa
vermelha — discretíssima —, sapatos com salto alto
e bico finíssimo e cabelos soltos feito um bambuzal
numa tempestade. Para completar o visual tão modesto,
trazia enorme bolsa prateada a tiracolo... Foi
assim que ela entrou no ambiente, desejando que
ninguém a percebesse. Não se arrumara conforme
tinha o hábito, pois queria parecer uma simples
mortal, perdida na multidão sem ninguém a notar.
Afinal, segundo a sacerdotisa, ela era filha de Iansã,
uma santa. No verdadeiro sentido da palavra. Ela
era uma pessoa requintada, devota a Deus, casadoira,
discreta. Concluindo, uma mulher fina.

168


Sentou-se no banco um tanto desconfortável e
aguardou o momento da sessão. Não vira nada semelhante
ao que encontrou na roça de Mercedes.
Havia ali uma singeleza que beirava a austeridade.
Nenhum quadro nas paredes, nada de imagens
nem velas. Apenas um discreto cheiro de ervas pairando
no ar, como se fosse algum perfume ou águade-
cheiro. Música suave, mais como uma cantiga,
parecia vir de um outro cômodo, deixando Zuleika
com as emoções à flor da pele.
Alguém se introduziu no ambiente quando já havia
muita gente sentada e em atitude de oração. Dirigiu
algumas palavras ao público, explicando o objetivo
das atividades daquela tarde, e prontificou-se a
conversar, depois da sessão, com quem tivesse alguma
dúvida. Ao que tudo indicava, era o encarregado
dos trabalhos ali. Em seguida, fez uma prece sincera
e cheia de gratidão, abrindo os trabalhos. Um homem
assumiu a frente do salão e começou a falar,
discorrendo sobre Jesus e seu exemplo de bondade.
Fez uma comparação entre as várias formas de ver
Jesus, segundo cada religião, e mostrou como o espiritismo
via a pessoa do Mestre. Citou nomes que Zuleika
nunca havia ouvido: Allan Kardec, Alziro Zarur,
W. W. da Matta e Silva, Chico Xavier, Madre Teresa
de Calcutá. Os personagens foram desfilando na
fala do homem como exemplos de espiritualidade e

169



de indivíduos dotados de uma visão ampla da vida.
Novas perspectivas se abriam ao pensamento de
Zuleika, que, a esta hora, já se sentia incomodada
com seu jeito de se vestir e sua maneira "discreta"
de estar ali, naquele ambiente. Sem que ninguém
falasse nada, ela sentiu que em algum momento deveria
mudar, principalmente quando fosse visitar
uma casa de caridade onde se pretendia buscar espiritualidade.
Uma a uma as pessoas foram chamadas
para serem atendidas numa sala contígua, por
meio dos médiuns, que, até então, ainda não vira.
Ela ficava para depois, talvez a última. Será que precisava
ouvir a pregação do sujeito e, por isso, não
fora chamada ainda? Bem, até que estava aprendendo
bastante a respeito de uma série de coisas
que nunca pensara.
Quando já estava se conformando com a idéia de
que não seria chamada para conversar com algum
médium da casa, alguém apareceu numa porta à esquerda
do salão e apontou discretamente para ela.
Zuleika levantou-se — não sem chamar a atenção
de todos — e dirigiu-se, humilde como ela só, para a
sala de atendimento.
Esperava-lhe o espírito incorporado em seu médium.
Pai João foi logo cumprimentando Zuleika
feito alguém que a conhecia há muito tempo:

— Deus seja louvado, minha filha! Nego-velho es170



tava lhe esperando há muito tempo. Que bom que
você chegou hoje, num momento muito especial

para sua vida.

Sem saber como se comportar na frente do espírito
que falava através de seu médium, a mulher gaguejou
algumas frases:

— Salve, salve! Vós é o espírito que vai conversar
comigo? Eu não sei direito como falar com vós —
usava um jeito diferente ao se referir à entidade.
— Fique à vontade, minha filha. Nego-velho é apenas
um filho de Deus que foi designado para servir
aos filhos da Terra.
Notando que Zuleika relaxara um pouco, o pai-velho
conduziu a conversa, de modo direto:
— Você vem aqui em busca de ajuda para sua vida.
Procura ajuda porque julga que tem alguém em sua
companhia que está atrapalhando você, não é, filha?
Zuleika ficou boquiaberta com a revelação do paivelho.
Ela nem tivera tempo de dizer nada e já ouvia
dele a respeito do tal espírito de que Mercedes
lhe falara.
— Você também está cansada de alisar bancos de
igreja e procurar ajuda para sua vida sentimental.
Mas primeiro nego-velho quer lhe dizer, minha filha,
que é preciso aquietar seu coração e trabalhar
um pouco sua ansiedade. Se não, vai se tornar mais
e mais amarga com o tipo de vida que vem levan171




do. Vamos primeiro resolver o problema maior que
a impede de ser feliz.
E, chamando um médium da equipe, pediu-lhe auxílio,
junto com mais dois outros trabalhadores, a
fim de abordar o caso de Zuleika. Deveriam os três
ir a outro aposento e lá evocar o espírito que acompanhava
a mulher.
Enquanto isso, o pai-velho continuava a conversar
com Zuleika sobre suas decisões e escolhas em
busca da felicidade:


— Você passa muito tempo pensando em ser feliz,
minha filha. Enquanto pensa demais, a vida vai
passando lentamente, sem que você perceba. Pensar
é bom, mas deve-se ter o cuidado para não ter a
cabeça cheia de boas idéias e conservar-se sem nenhuma
realização, com as mãos vazias. Você escolhe
tanto a pessoa com quem quer se casar que deixa
passar ótimas oportunidades de se relacionar.
Deseja uma pessoa que se enquadre em seu ideal,
quer alguém que seja do seu jeito e vive buscando
nos olhos de outras pessoas o tipo mais perfeito
para ser aquilo que você denomina de alma gêmea.
De que adianta escolher tanto e ficar só? Por
que você não enfrenta a realidade de que os seres
humanos são únicos, sem cópias? Assim, não ficará
esperando alguém do seu jeito. Imagine, filha Zuleika,
caso você encontrasse outra pessoa igual a
172


você, com os mesmos gostos, os mesmos sentimentos
e idêntica visão a respeito da vida... Esse relacionamento
seria fadado ao fracasso, filha, ou vocês
se tornariam dois seres em simbiose; seria uma
doença emocional. Aprenda que, na natureza, as diferenças
se complementam, se completam. Culpar
a vida por um excesso de zelo de sua parte é imaturidade
emocional.

— Mas, meu pai, então não é verdade que tem um
espírito me atrapalhando a vida e a felicidade?
— Ah! Filha... E se a gente pensar de forma diferente?
E se for você que estiver alimentando esse espírito
com seus traumas emocionais, suas fantasias
mais secretas ou com pensamentos tão voltados
para seus desejos mais íntimos que o tal espírito tenha
sido atraído para perto de você? Suponha ainda
que esse excesso de emoções mal-resolvidas e essas
idéias abrigadas em sua mente sirvam de alimento
para a vida mental de alguma entidade, viciando o
desencarnado em formas-pensamento dessa natureza.
Então nego-velho pergunta: quem está atrapalhando
quem? Pergunto mais, minha filha: quem
pode acusar um desencarnado de alguma coisa, dizendo
que não tem nada a ver com a situação, isentando-
se de toda responsabilidade, como se o desencarnado
fosse o único culpado pelo processo
que acomete a pessoa?
173



Zuleika baixou os olhos evitando encarar o pai-velho,
meditando no assunto, envergonhada.

— Espírito nenhum constrange nem obriga ninguém
a fazer aquilo que a pessoa não traz, de algum
modo, mascarado ou disfarçado dentro de si.
O chamado obsessor somente realça aquilo que já
existe dentro da pessoa, que o alimenta com pensamentos,
emoções e desejos complicados. Se você
não quiser nem deixar, nenhum espírito tem poder
sobre você. Portanto, filha, deixe de culpar os outros,
seja encarnado ou desencarnado, pela sua infelicidade.
Até quando você baseará sua felicidade
nas reações emocionais de outra pessoa? Pense nisso
um pouco antes de ficar procurando culpados
pela vida afora. Abra seu coração para viver com
mais qualidade, aproveitando as oportunidades de
ser feliz tanto quanto você pode.
— Sabe, meu pai — falou Zuleika. — Já fui em busca
de muita gente para fazer trabalhos para mim, tentei
arranjar um namorado ou um marido em igrejas,
festas e em tanto lugar... É que tenho medo de
morrer solteirona.
— Filha, não adianta gastar seu dinheiro com serviços
de embusteiros, que pretendem trazer seu
amor amarrado, em meia dúzia de dias. Mude o
foco de sua atenção e deixe-se levar pela correnteza
da vida. Caso funcionassem tais trabalhos, de
174


que adiantaria você ter alguém ao seu lado sabendo
que esta pessoa estaria ali apenas porque uma
força estranha agiu, que não a sua própria, minha
filha? Será que seu espírito ficaria tranqüilo tendo
consciência de que esse amante poderia descobrir

o que você fez ou encomendou, com vistas a deixálo
preso a você? Que segurança você sentiria num
caso encomendado?
"Nego-velho quer que você pense com muito carinho
nisso tudo. Há muita gente no mundo precisando
de amor e de ser amado. Tantas crianças aguardam
o aconchego de um coração, tantos adultos
abandonados circulam pelas avenidas da vida necessitando
de consolo, carinho, coração e amparo...
E você desperdiça essa capacidade de amar a troco
de feitiços, quebrantos e trabalhos que lhe tragam
aquilo que você mesma afasta de si com suas atitudes.
Sabe, filha, muita gente encarnada no mundo
possui um magnetismo bastante forte e se dá conta
de que pode se nutrir emocional e financeiramente
das crendices e superstições de pessoas simples.
Empregue seus recursos com mais inteligência e
pare de contribuir com esses vendedores de sorte,
exploradores de felicidade e promessas vãs. É preciso
que você se liberte de tais artimanhas, filha,
que são fruto de emoções mal-resolvidas, do desespero
existencial e de desejos frustrados. Viva sua
175



vida e aprenda a olhar mais perto de você. Em geral,
a felicidade que você procura distante e muito
além está ao seu lado, bem pertinho, esperando que
você a perceba..."
Enquanto o pai-velho falava com Zuleika a respeito
de suas escolhas, de sua felicidade, dando elementos
para sua reflexão, na sala ao lado os médiuns
atendiam o espírito que a acompanhava:


— Ela é quem me persegue; e não eu, a ela — dizia a
entidade incorporada num dos médiuns.
— Então por que você não a deixa e prossegue a
vida, buscando sua felicidade? — perguntou um dos
trabalhadores ao espírito.
— Eu bem que tentei, juro que tentei bastante. Porém,
quando chega a noite, ela se liberta do corpo
físico e sai como uma bruxa a minha procura, buscando
me alcançar de todo jeito. Ontem mesmo ela
saiu do corpo gritando meu nome! Exalava desejo e
tinha um cheiro peculiar; um odor que lembra sexo,
lascívia ou coisa assim. Fugi e me escondi dentro de
uma igreja, onde julguei estar ao abrigo dela. Mesmo
assim, ela me encontrou. Os pensamentos dela
me alcançaram como tentáculos de um polvo gigantesco,
como serpentes de uma Medusa dos infernos,
e aí não tive como resistir.
— Mas você também não está contribuindo para a
situação de infelicidade da moça? Além disso, es176



tando perto dela você não somente a influencia,
mas também recebe a influência direta de seus
pensamentos.

— No princípio eu a procurei na esperança de encontrar
amparo em seu coração, sim, não posso negar.
Afinal, fui pai dela e me sentia com o coração
despedaçado ao morrer... ou desencarnar, como vocês
dizem. Hoje em dia, no entanto, vejo-me prisioneiro
dos pensamentos dela. Descobri apenas mais
tarde que havíamos sido amantes, marido e mulher,
antes da existência mais recente, como pai e filha.
Logo que me aproximei dela, depois da morte, fiquei
quase paralisado ao ver as imagens de nossas
vidas passando em sua mente. Desde então, ela reacendeu
o desejo do passado, duramente reprimido
durante a última existência. Agora ela me culpa por
não se casar. Ora, ela é quem não me larga e não se
permite prosseguir num caminho novo, em busca
da sua felicidade!
— Portanto, você gostaria de seguir avante, afastando-
se dela e procurando por si mesmo sua felicidade,
correto?
— Com certeza eu gostaria! — concordou o espírito
imediatamente.
— Vocês estão vivendo uma espécie de circuito fechado
entre suas mentes; um é prisioneiro do outro.
— Sei disso! Porém, nos poucos momentos de lu177




cidez que tenho, vejo-me apanhado feito uma presa
numa teia de aranha. Sinto-me apanhado numa
emboscada, ameaçado, sugado ou vampirizado por
ela, a filha que não me larga.

— Vamos ver o que se pode fazer para libertá-lo
— tornou o trabalhador-terapeuta. — Pai João está
falando com ela neste momento, e ainda na noite
de hoje veremos o que fazer a fim de romper esse
elo infeliz.
No aposento ao lado, o salão de atendimento, Pai
João avançava no diálogo, que tinha por objetivo provocar
reflexões em Zuleika. Ao final, propôs a ela:
— Esta noite, filha, ao deitar, faça uma oração. Mas
reze do fundo da alma, com toda a fé que possui.
Nessa prece, mentalize você mesma, minha filha.
Procure ler o Salmo 91, mas não apenas recitar o
texto a sua frente. Procure meditar em cada palavra,
no significado daquilo que está escrito e, só
depois, durma, sabendo que a visitaremos ao longo
da madrugada.
— Deus seja louvado! Vai ter espírito em minha casa
hoje à noite? Será que vou conseguir dormir sabendo
que irão me visitar?
— Não se preocupe, filha, que você não nos verá.
Será um sono sem pesadelos, sem sonhos, sem lembranças.
Você apenas se sentirá bem, nada mais.
Após a conversa com o pai-velho, Zuleika retor178



nou ao seu lar, agora com muitos elementos em que
pensar. Não se remexia mais como fizera ao entrar
no ambiente. Sentia vergonha de seu jeito, pois encontrara
ali, naquele recanto de paz, muito mais segurança
e simpatia do que esperava.
A noite descia lentamente e calma quando os espíritos
João Cobú e Macaia se reuniam com o médium
Tobias, já desdobrado.


— Preciso atender com urgência um chamado que
nos foi encaminhado pelo Alto — principiou o paivelho.
— Guarda ligações com a situação espiritual
da mulher que pretendemos ajudar. Deixarei você
por algum tempo e o encontrarei na casa de Zuleika.
Ferreira, o guardião, permanecerá o tempo todo
com você. Fique atento ao que vir, mas não interfira
até eu chegar. Precisamos de mais informações
para poder agir com acerto.
O pai-velho deixou Tobias já na porta de entrada
da casa de Zuleika. Dali prosseguiu com as medidas
que julgava necessárias, juntamente com Macaia,
a fim de poder melhor ajudar no caso que lhe
fora encaminhado. Entrementes, Tobias dialogava
com Ferreira, o guardião de noites anteriores, que
ali já o aguardava:
— Podemos entrar na casa de Zuleika enquanto Pai
João não vem? — perguntou Tobias ao guardião.
— Temos de ter cuidado, Tobias, pois não sabemos
179



com que depararemos no interior da residência.
Refiro-me às companhias espirituais de Zuleika.

— Mas ela não é uma pessoa recatada, religiosa?
Terá alguma companhia complicada por perto?
— Não sabemos, meu amigo. Por certo as pessoas
religiosas deveriam ser as mais protegidas... Mas
quem nos protegerá delas?
— Não entendo o que quer dizer — realmente Tobias
não entendeu a ironia do guardião.
— Vamos lá, Tobias... Algum dia você entenderá.
Penetremos o ambiente com cuidado. Em seguida
veremos os detalhes.
Adentraram a morada da mulher que procurara
ajuda e notaram, logo de início, que havia algo estranho
no ar. Imagens e figuras bizarras pairavam
na sala de estar, parecendo orbitar em torno do
quarto ou em sua direção. Eram imagens mentais
plasmadas por Zuleika, fortemente imantadas ao
ambiente doméstico.
— Coisa estranha, Ferreira — falou Tobias sem entender
nada do que percebia. — Nunca vi nada igual
durante os desdobramentos.
Eram imagens relacionadas a sexo, a relacionamentos
íntimos, com impressionante riqueza de detalhes.
Sem dúvida, poderiam arrebatar qualquer um
para vivências nessa área. Até porque eram vívidas,
extremamente envolventes. Caso não houves18
0


se concentração nos objetivos do trabalho e disciplina
mental — até mesmo obstinação — da parte
do médium, aquele lhe seria um ambiente vedado,
para sua própria segurança. Impregnada às paredes,
uma gosma violácea escorria lentamente até o
chão. Forte cheiro exalava daquela substância, cuja
lembrança teimava em emergir da memória de Tobias,
muito embora ainda não estivesse claro a que
se referia aquele odor. Seria algum perfume?
Os dois se dirigiram ao aposento onde repousava

o corpo de Zuleika. Ela estava quase em sono profundo.
Sobre seu corpo físico, que estava de barriga
para cima, havia uma duplicata exata de si, porém
com o rosto voltado para baixo, como que beijando
a si própria, imóvel, parada. Assim que o guardião
entrou, acompanhado de Tobias, viram um vapor
esvoaçar sobre os dois corpos, o físico e o etérico —
a duplicata ou duplo de Zuleika. O fluido semelhante
a fumaça parecia ganhar consistência enquanto
os dois examinavam-na sobre a cama. A emanação
formava lentamente uma imagem quase idêntica a
Zuleika, não fossem as distorções da forma. Ela estava
em processo de desdobramento do corpo astral.
Porém, que aparência!
A mulher religiosa permanecia deitada sobre a
cama, vestida de maneira sóbria. O perispírito, no
entanto, desprendera-se com trajes sensuais — ou
181



melhor, lascivos —, embora o aspecto fosse o de
uma vampira decadente, de alguém que tivera sua
conformação perispiritual deformada. Seu perfil
lembrava o das bruxas esquálidas e maquiavélicas
dos antigos contos de fada, o que não combinava
com o corpo físico, que sugeria idade entre 20 e 23
anos. Igualmente degenerados, os braços pendiam
estranhamente do corpo astral e apresentavam
mãos desfiguradas e dedos cadavéricos, com unhas
grandes e pontiagudas. Os cabelos que compunham
o quadro horripilante eram esparsos, como
se tivessem caído da cabeça extrafísica, revelando
partes perfeitamente visíveis do couro cabeludo.
Zuleika-espírito rodopiava sobre o corpo somático,
espumando e babando como se estivesse em meio a
uma convulsão severa. Mas não.

— Juvenal!... — gritou várias vezes a plenos pulmões,
exigindo a presença imediata de alguém invisível.
Tobias ficou com os olhos arregalados e amparouse
no guardião.
— Venha, miserável! — prosseguiu a criatura em
franco desequilíbrio. — Você não me escapa. Tentou
me enganar dizendo que era meu pai e agora,
que descobri tudo, você é meu, inteiramente meu!
Zuleika-espírito saiu do quarto grasnando feito louca
em direção à sala. Não podia atravessar as paredes
e então optou por cruzar a porta que separava
182


os aposentos. O guardião Ferreira acompanhou-a,
juntamente com Tobias, que assistia à cena assustado.
Evidentemente, ela não os podia ver, em parte
devido à distância vibratória, mas, sobretudo, ao
fato de que estava obcecada, cega, com a atenção
voltada exclusivamente à perseguição de Juvenal,

o pobre infeliz.
Levantando as mãos esquálidas, indicando lhe faltarem
forças, a mulher desdobrada tateava o ar, como
se estivesse à procura de uma presa, à maneira de
uma fera completamente irada. O odor no ambiente
aumentou sobremaneira. As imagens mentais
que exalavam da aura de Zuleika desdobrada eram
impregnadas de fluidos de ordem sexual e libidinosa.
Já não havia como confundir a natureza das formas-
pensamento que gravitavam em torno dela.
Num canto da sala, o espírito de Juvenal, amarrado
por uma coleira que mais parecia um apetrecho sadomasoquista,
estava acuado, gemendo, soluçando.
— Me solte, Zuleika! Pelo amor de Deus, me solte!
Eu preciso respirar, preciso sair daqui...
— Pensa que pode me deixar? Ou por acaso acredita
que eu o deixarei? Vamos os dois para o altar,
meu bem... Será meu para sempre!
Segurando o pobre espírito pela coleira, levantou-o
vagarosamente, enquanto, a longos haustos, absorvia
de seus chacras os fluidos que lhe roubava. Pas183




sivo, Juvenal parecia perdido em meio àquilo tudo.
Era prisioneiro daquela que fora sua própria filha
na última existência. Ambos viviam e morbidamente
se alimentavam um do outro. Ela literalmente
cravava os dentes no espírito, mordendo-o lentamente,
à moda vampiresca, como se quisesse apropriar-
se de seu sangue; na falta deste, entretanto,
esgotava as reservas vitais ainda restantes no perispírito
de Juvenal. Ao terminar o festim doentio, antes
que iniciasse outro ato criminoso, dava gostosas
gargalhadas, embriagando-se visivelmente naquela
espécie de droga que saciava seu instinto infernal.
Neste exato momento, João Cobú adentrou o ambiente
junto com Macaia e mais um espírito. Pai
João trouxera a mãe de Zuleika, desencarnada, que
se prontificara a interferir. Quem sabe poderiam
reverter o processo?
Ao deparar com sua filha desdobrada usurpando
as energias do próprio genitor, aquele que fora seu
companheiro, Alzira falou com lágrimas nos olhos:

— Zuleika foi, no passado, dona de um cabaré, uma
casa de prostituição numa vila espanhola. Pobre
Juvenal, por diversas vezes submeteu-se a seus caprichos
em outras experiências reencarnatórias.
Quando retornou na última encarnação, trazia a
meta de ampará-la como filha no intuito de, exercendo
papel de autoridade, modificar o quadro in184



feliz ao qual se lançara em outras vidas. Mas faltoulhe
vontade e determinação. Juvenal abusou sexualmente
de Zuleika durante a adolescência da filha,
fazendo com que eclodissem em sua mente as lembranças
do passado. Tão logo eu soube desse fato,
não resisti, e a morte levou-me num momento complicado
da vida dos dois.
O espírito da mãe chorava ao ver a cena da filha
vampirizando Juvenal. João Cobú a amparou nos
braços, serenamente.


— Vamos interferir agora, Alzira. Não se aflija. Creio
que o momento é propício, pois, ainda que de maneira
incipiente, Zuleika tem renovado seus pensamentos
e refletido sobre o que ocorre consigo.
— Pois é, meus amigos, induzi Zuleika a me prometer
que não se afastaria da religião, pensando que,
com isso, ela seria amparada. Vejo que não adiantou.
Quando Alzira se pronunciou, Zuleika parou em
meio ao ato que realizava, buscando tatear o pensamento
que a atingia.
— Mãe?! — gritou Zuleika desdobrada, soltando sua
vítima e desviando dela a atenção.
Neste instante, João Cobú deu um sinal para Ferreira
e Macaia, a fim de que interferissem. Os dois
espíritos, aproveitando o lapso de lucidez de Zuleika,
tomaram Juvenal nos braços e o libertaram das
amarras fiuídicas, levando-o a outro ambiente.
185



— Mãe!! É você?
O espírito trazido por João Cobú aproximou-se da
filha, deixando as lágrimas descer como águas que
lavavam o perispírito deformado de Zuleika. Abraçou-
a, aconchegando-a a si.
— Mãe! — começava a soluçar a mulher desdobrada.
— É você, minha mãezinha? Por que você me
deixou com ele? Eu tinha de me defender, mãe...
Sem que a filha a visse, pois estavam em dimensões
diferentes — embora no mesmo plano astral —, Alzira
abraçou-a ainda mais, falando, entre prantos:
— Filha, querida, não faça isso com seu pai! Sei que
ele errou, e errou muito, porém após eu partir foi
ele quem cuidou de você, a educou e alimentou. Ele
traz a consciência culpada, Zuleika, tanto que procurou
até o fim de sua vida, a seu modo, reparar o
mal que lhe causou. Perdoe, minha filha amada, liberte
seu pai...
As lágrimas de Alzira caíam sobre o corpo espiritual
desfigurado de Zuleika. As duas pareciam se
fundir, molhadas em pranto. Enquanto isso, João
Cobú apenas olhava, orando. Pedia em sua prece:
— Povo de Amanda, Mãe Santíssima, tomem esta
filha em seus braços de misericórdia e façam com
que ela possa ter consciência da importância deste
momento para sua vida eterna...
A medida que as lágrimas de Alzira caíam sobre a
186


filha, sua forma perispiritual gradualmente se modificava.
Não retomou completamente a conformação
do corpo físico, no entanto não trazia mais estampada
a imagem da bruxa, da vampira de energias.
Era mais humana, quase harmoniosa a aparência
de Zuleika. Ainda abraçadas, aos poucos
ambas se acalmaram, e João Cobú, neste momento,
conseguiu magnetizar Zuleika, fazendo-a adormecer
fora do corpo. De nada ela se recordaria, mas
com certeza acordaria modificada intimamente,
com novas disposições.
João Cobú conduziu Zuleika a um recanto natural,
junto a matas e cachoeiras, promovendo seu contato
com energias ao mesmo tempo revigorantes e calmantes.
O pai-velho comandou um exército de de mentais
das águas para que realizassem profunda
limpeza no corpo psicossomático de Zuleika, removendo
placas ou cascões de energia sexual deletéria
que se viam aderidos a seu perispírito, sua aura.

— Caboclos da mata virgem e da mata fria! — rezou
o pai-velho. — Trazei o sumo das ervas do reino
e vinde descarregar esta filha de Terra dos fluidos
daninhos.
Dois caboclos se prontificaram a atender a evocação
feita por João Cobú. Ao longe Alzira observava
a filha projetada na dimensão astral sendo amparada
e medicada pelos mestres na manipulação
187



das energias da natureza. Os dois espíritos trouxeram
extratos de ervas em forma astral e etérica semelhante
a um emplastro, depositando-o sobre o
corpo perispiritual de Zuleika, que dormia profundamente
sobre a superfície de águas tranqüilas. Ela
parecia balbuciar algumas palavras sem nexo enquanto
recebia os cuidados dos espíritos do bem.
Os extratos de ervas ou bioplasma trazidos pelos
especialistas da natureza — o grande laboratório
divino — absorveram lentamente grande parte das
impurezas acumuladas no psicossoma de Zuleika.
O bioplasma sem dúvida surtia efeito, pois as criações
mentais que gravitavam em torno da mulher
desdobrada pouco a pouco estouravam como bolhas,
liberando certa fuligem que ali mesmo dissipava-
se nas matas e águas do reino, conforme Pai
João denominava os sítios naturais.
Após o processo levado a cabo pelos benfeitores,
Zuleika foi reconduzida ao corpo físico, que ficou
sob a vigilância atenta de sua mãe desencarnada. A
partir de então, Alzira permaneceria ao lado da filha,
ao menos por algum tempo, visando ampararlhe
com orações, energias e fluidos benfazejos.
Tobias acompanhara Juvenal juntamente com Macaia
e o guardião Ferreira. O espírito subjugado fora
encaminhado diretamente a um posto de socorro
na esfera extrafísica. Mais tarde, ele se recuperaria

188


e então deveria retornar à tenda de Pai João para
receber um choque anímico, liberando-o de certos
fluidos e imagens mentais nos quais estava mergulhado,
devido ao sentimento de culpa.

— Veja, Tobias — comentou Macaia. — Nem sempre,
ao se queixar de perseguição espiritual, as pessoas
têm razão nas reclamações. Repare como Zuleika
a um só tempo se vingava do pai e mantinha-o
prisioneiro de seus caprichos e desejos.
— Não entendo, Macaia. Zuleika era uma mulher
religiosa...
— Muita gente se esconde na religião, Tobias, em
vez de adotar a postura ética que sua filosofia inspira
e de dedicar-se à busca por espiritualidade. Trocam
espiritualidade por religiosidade, e esta, no fundo,
para grande parte dos adeptos, representa fuga
e não realização. Ignoram o fato, mas sua motivação
é fugir do passado culposo registrado na memória
espiritual, que os compele a entregar-se a cultos
exóticos e religiões salvacionistas. Inconscientemente,
objetivam sufocar recordações dolorosas
em práticas e rituais religiosos. As pessoas procuram
esconder-se de si mesmas; contudo, ao dormir,
libertam-se dos limites estreitos do corpo e se revelam
em sua realidade nua e crua. Irrompem os desejos
mais secretos, íntimos, inconfessáveis durante
a vigília física, cuja vazão se dá durante o desdo189




bramento pelo sono. Soltam-se as amarras sociais
e quedam-se as convenções humanas; como espíritos,
embora ainda encarnados, avidamente perseguem
o objeto dos seus clamores reprimidos. Visitam
os ambientes que, quando acordados, afirmam
abominar. A religião muitas vezes apenas mascara
a realidade espiritual e energética dos indivíduos.
Macaia, Ferreira e Tobias retornaram para a casa de
Zuleika, onde encontraram João Cobú novamente
em oração. Era hora de liberar as energias ali acumuladas,
fazendo uma limpeza energética eficaz —
agora no ambiente doméstico.

— Devemos ensinar Zuleika a fazer uma limpeza
com ervas de cheiro.
— Posso passar a ela algumas informações, se o senhor
me permitir — falou Tobias, ainda desdobrado.
— Veremos, meu filho. Será necessário conduzir
nossa filha novamente até o nosso recanto fraterno.
Assim que ela acordar se sentirá melhor e, com
certeza, terá vontade de voltar à tenda. Lá, você
terá condições de indicar o modo adequado de usar
as energias das ervas para promover uma limpeza
energética intensa em sua casa.
Os espíritos benfeitores retornaram à Amanda,
a dimensão espiritual à qual estavam ligados, enquanto
Tobias era levado ao corpo físico para prosseguir
com as atividades de sua vida social.
19 0


preparado suas perguntas, a fim de escutar, nas palavras
simples da entidade, as indicações e os ensinamentos
que lhe favoreceriam as tarefas no dia-a-dia.

— Hoje em dia, meus filhos — principiou o pai-velho
—, por todo lado, ao redor do globo, observa-se
um surto de progresso, de busca por espiritualidade,
mas também há um reacender do misticismo.
De modo geral, as pessoas dão mostras de estar cansadas
diante de tantas promessas vãs no que tange
às simples coisas da vida, como as entendem políticos
e administradores das nações do mundo, tanto
quanto vêem com descrédito o constante vaivém
da ciência. Nessa caminhada à procura de satisfação,
entregam-se ao misticismo, ao religiosismo e
às religiões salvacionistas. Estas pretendem resolver
os problemas das massas de um instante para
outro, porém, conservando a população ignorante
das idéias renovadoras a respeito de espiritualidade.
Fazem sua parte, embora sem ser este seu objetivo
central, ao tirar multidões das garras do materialismo
e das conseqüências desastrosas das drogas
e de outras verdadeiras prisões mentais. No entanto
— deu maior ênfase às suas palavras — temos
de considerar, filhos, que cada ser humano tem em
si uma identidade espiritual, e é a partir dessa identidade
de natureza energética que ele empreende
sua busca, sua caminhada. Não há como violentá-lo
194


em sua visão de mundo e da vida.

— Como fica nossa fé, Pai João, em meio a tantas
formas de expressar a religiosidade e a espiritualidade?
— perguntou Tobias.
— A fé está dentro de cada um de nós, filho. Aqueles
que têm fé — porém não de maneira requintada, e
sim mais simples — são os místicos de todas as épocas.
A fé mais trabalhada, aliada à inteligência ou
à razão, é atributo daqueles que questionam, pesquisam
e deduzem suas observações da realidade
que experimentam. Credos, religiões, seitas e confrarias
ou fraternidades existem como classes de
uma grande escola espiritual, que é o planeta Terra.
Nessa escola, ninguém está mais adiantado do
que outro, apenas a linguagem ou o vocabulário serão
mais ou menos adequados ao tipo espiritual ou
à identidade energética de cada aluno.
Notando que dava elementos de reflexão para a platéia
de ouvintes atentos, o pai-velho continuou:
— Podemos afirmar, sem correr o risco de sermos religiosos
por demais, que a fé é a base de toda a procura
pela ciência e pela espiritualidade. Ou — quem
sabe? — pela busca da ciência espiritual. Com a fé,
acreditando, pode-se utilizar dos elementos da natureza
para restaurar a saúde. Por meio da fé, associada
ou a partir de certos conhecimentos, é possível
recuperar a auto-estima das pessoas, insuflar maior
195



qualidade de vida à sua caminhada espiritual. Através
da fé, a água adquire propriedades terapêuticas,
os cristais ampliam as energias emanadas por uma
mente que crê, ou, ainda, as cores podem ser empregadas
como fonte de energias que harmonizam
meus filhos. Pessoalmente, nego-velho acredita que
a fé é o grande elixir que faz com que os métodos
terapêuticos alcancem o efeito desejado. E, quando
nego-velho fala de fé, não se trata de simples crença
induzida por mentes alheias ou vivenciada apenas
na esfera social e cultural. Nego se refere a uma fé
que é operosa, que investiga e que se amplia na medida
exata em que as investigações se convertem em
convicções pessoais, em ciência da alma.

— Meu pai — perguntou um dos trabalhadores. — O
senhor poderia nos falar como são os laboratórios
do mundo invisível, onde os guias preparam os medicamentos,
as poções e tudo aquilo de que se utiliza
para a cura das pessoas na Terra?
— Bem, meu filho, há no invisível uma diversidade
muito grande de metodologias, cada uma delas de
acordo com o perfil psicológico dos filhos que necessitam
de ajuda.
"Existem, então, os laboratórios que trabalham exclusivamente
com os remédios que meus filhos denominam
de alopatia, ou seja, com substâncias químicas
extraídas da natureza, com radiação de mi196



nerais e outros produtos ainda desconhecidos pelos
homens de ciência do mundo. Não se pode pretender
curar tudo apenas com aquilo que na Terra se
convencionou chamar de natural. Embora os produtos
químicos também provenham da natureza,
as pessoas mais esotéricas ou aquelas que são mais
radicais em seu pensamento religioso desejam tratar
as enfermidades estritamente com remédios que
considerem naturais, desprezando ou relegando ao
segundo plano as conquistas da ciência na área da
alopatia. Os laboratórios do mundo invisível consideram
e muito as conquistas da ciência, de modo
que nenhuma terapia séria poderá menosprezar tais
substâncias, que, ao longo dos séculos, têm podido
contribuir sensivelmente para a restauração da
saúde de meus filhos na Terra. Espíritos altamente
comprometidos com o equilíbrio do ser humano
têm incentivado, desde os institutos de pesquisa do
invisível, a investigação e o aprimoramento dos recursos
alopáticos. Levam a cabo estudos altamente
especializados, relacionando o tipo psicológico das
pessoas que desenvolvem certas enfermidades e o
uso de medicamentos alopáticos, radiações minerais
e diversas metodologias tidas, por muita gente
preconceituosa, como antinaturais.

'Há laboratórios nos quais se exploram os aromas
da natureza, tais como os conhecem no mundo físi


197



co, além de outros que meus filhos ignoram. Alguns
são especializados em homeopatia; outros, em fitoterapia,
e outros, ainda, no uso de cores, aromas, sumos,
frutos e flores. Na verdade, observa-se uma variedade
dificilmente mensurável no que toca às nuances
e especialidades desses laboratórios do lado
de cá da vida. Nos últimos 50 anos, têm-se multiplicado
as pesquisas da ciência espiritual e energética
acerca das emanações de plantas em geral, metais e
minerais do planeta.
"Também por aqui se empregam pipetas, bicos de
Bunsen e outros instrumentos similares aos encontrados
no mundo físico, tais como discos de ouro
e outros elementos. Na realidade, os laboratórios
da Terra é que são a cópia daqueles que temos do
lado de cá. Grande número de cientistas, durante o
sono físico, visita centros de pesquisa da erraticidade
para aí dar seqüência a seus estudos, devido às
limitações inerentes aos métodos do mundo material.
Muitas vezes, ao acordar após estas experiências,
trazem intuições e promovem descobertas que
tão-somente traduzem o conhecimento armazenado
na memória espiritual."

— Então vocês dispõem de grande variedade de estudos
para ajudar o ser humano, não é assim? Em
que mais se concentram esses conhecimentos desenvolvidos
no mundo espiritual? — tornou a per198



guntar Tobias, interessado no assunto.

— Por aqui, meu filho, estuda-se de tudo, a depender
do interesse do espírito e da necessidade dos habitantes
tanto do mundo físico quanto do extrafísico.
Cirurgias mediúnicas, sua técnica e sua eficácia, ou
simplesmente curas psíquicas, são aqui investigadas
por cientistas da alma — e não somente por espíritos
espíritas e médiuns. Uso de plantas ou ervas, magnetoterapia,
bioenergia, ectoplasmias e até mesmo
as chamadas poções mágicas dos xamãs aqui são escrutadas
com zelo e dedicação pelos representantes
da ciência espiritual. Nada é menosprezado.
"Contudo, na prática, pequena parcela das técnicas
é canalizada de maneira eficiente pelos terapeutas
e sensitivos na Terra. Muitos captam intuições
a respeito de algumas práticas terapêuticas, mas
acrescentam suas próprias idéias, seu achismo, sua
imaginação e, por encontrar pessoas altamente crédulas,
acabam fazendo escola ou proselitismo, à semelhança
de uma religião qualquer. Transformam
o processo terapêutico numa iniciação cheia de ritos
que vão do exótico ao misterioso, com práticas
nada científicas. Nem sequer se ocupam de separar
aquilo que provém de sua mente ou de suas crenças
pessoais daquilo que é o objetivo real da terapia empregada.
Como resultante, temos indivíduos bem
intencionados que tentam fazer o melhor; ocor199




re, porém, que seu melhor vem recheado de idéias
particulares, às quais querem conferir o status de
necessárias e importantes. Para tanto, emprestam
certo sentido religioso, esotérico, iniciático ao processo,
ou simplesmente imprimem a ele característica
ou selo pessoal, tornando complexo e sofisticado
algo que deveria ser simples e bem mais eficaz,
até porque teria também um efeito educativo.
"Feliz ou infelizmente, temos de trabalhar com
os limites e maneirismos das pessoas encarnadas.
Isso nos obriga a adaptar a ciência espiritual ao
jeito de cada terapeuta, na esperança de que mais
dia, menos dia os homens amadureçam e comecem
a pensar, a raciocinar, sem se deixar levar por
idéias esdrúxulas."
Respirando profundamente, o pai-velho prosseguiu,
aprofundando suas observações:

— Vamos falar das ervas, meus filhos, que é o que
mais de perto temos como trabalho terapêutico.
No mundo, as observações dos estudiosos dedicados
ao assunto já evoluiu bastante. Em razão disso,
a intenção aqui é descrever apenas um método,
de modo algum o mais correto entre tantos disponíveis.
Nego-velho não vai abordar o uso ritualístico
das ervas, conforme se adota no candomblé ou
na umbanda. Isso nego deixa a cargo dos chamados
mestres e sacerdotes de tais religiões. Nego-velho
200


quer falar aos meus filhos de uma metodologia que
une diversas práticas e que facilita a identificação
das ervas mais apropriadas aos trabalhos e desafios
que encontramos cá em nossa tenda.
"No universo há dois tipos de força ou de particularidade
da energia. Aquilo que os nossos irmãos
chineses denominam como yang ou pólo positivo,
e o que eles identificam como polaridade negativa,
complementar ou simplesmente yin. Essas duas
particularidades da energia referem-se respectivamente
ao que é ativo, positivo, masculino e ao aspecto
feminino, passivo, negativo. Isso, apenas em
termos de polaridade ou de caráter emocional; não
há qualquer juízo de valor implícito nessa divisão.
"Nego-velho quer apresentar uma classificação das
ervas de acordo com essa ótica, ou seja, à moda taoísta
de entender os aspectos da energia. Portanto,
não esperem que este pai-velho relate ou comente a
maneira como se faz nos terreiros ou nos barracões
de religiões de procedência africana ou influenciadas
pela mãe África. Nego prefere associar os ensinamentos
oriundos do continente africano, que
os negros trouxeram e que se desenvolvem amplamente
na América, às pesquisas e conhecimentos
adquiridos nos altos estudos realizados nos laboratórios
do invisível. Isso visa possibilitar aos meus
filhos a adoção de um método simples, porém efi


20 1



ciente, quando lidam com a natureza e os recursos
de cura que oferece.
"Obedecendo a essa divisão, as ervas podem ser
agrupadas em duas categorias distintas. De um
lado, positivas, ativas ou yang; de outro, negativas,
passivas ou simplesmente yin, se não houver objeção
da parte de meus filhos quanto aos nomes. Os
filhos poderão observar que a maioria das plantas
com tons fortes, tais como verde-musgo, verdebandeira
ou verde-escuro, mais intensos, são exatamente
as de característica positiva ou ativa, isto é:
yang, de acordo com a terminologia chinesa. Igualmente,
as de cor laranja, vermelha e amarela com
traços avermelhados. De modo oposto, aquelas que
apresentam coloração verde-clara ou esmaecida,
bem como amarelo-clara, azul e qualquer outra tonalidade
mais suave pertencem à classe negativa ou
passiva — yin — e são ótimas para trabalhar emoções,
sentimentos e intuições."
Interrompendo o pai-velho em sua explicação, um
trabalhador perguntou, afoito:

— Mas como podemos aprender a colher a erva certa
de acordo com a necessidade da pessoa?
— Primeiro é preciso identificar outros aspectos das
ervas, meu filho. Por exemplo: toda erva que tenha
a terminação pontiaguda ou que exala um cheiro
forte, intenso, possui a propriedade absorvente, tais
20 2


como: arruda, guiné, alho, samambaias em geral e
outras mais. Assim sendo, caso meus filhos queiram
fazer algum procedimento para absorver energias
densas, contagiosas e de natureza muito inferior,
prefiram esse tipo de planta.
"No entanto, há aquelas ervas aromáticas de cores
suaves ou vibrantes, porém que exalam cheiro agradável,
semelhante ao de manjericão, poejo, menta,
erva-cidreira, capim-de-aruanda e outras, que, além
de assimilar elementos emocionais ou emoções
densas de ambientes domésticos, favorecem um estado
de consciência mais harmonioso, saudável. Esses
vegetais agem diretamente no plexo solar das
pessoas, limpando energias densas e acalmando em
profundidade. As energias ou fluidos exalados pelas
chamadas ervas-de-cheiro atuam na intimidade do
sistema nervoso, no hipotálamo, conforme observações
nos laboratórios da erraticidade. Estimulam aí
certos elementos químicos do cérebro humano, de
maneira a causar estados conscienciais agradáveis,
como melhor auto-estima, dispondo o indivíduo à
vida com maior qualidade. Os aromas cítricos de
determinadas ervas, frutos ou mesmo flores vibram
em sintonia com emoções superiores, liberando toxinas
mentais, etéricas e físicas, favorecendo também
estados de saúde mais harmônicos."
Sorrindo para o trabalhador, que ficou satisfeito com

203



as explicações do pai-velho, João Cobú prosseguiu:

— Entretanto, é necessário examinar a forma de retirar
as ervas de seu habitat natural. Para isso, meus
filhos, temos de ficar atentos ao seguinte. De forma
alguma, ao ser utilizada para fins terapêuticos, a erva
pode ser colhida na madrugada ou à noite, isto se
quisermos aproveitar ao máximo suas propriedades
medicamentosas e fluídicas. Mesmo que não haja
sol e o dia esteja nublado, deve-se colher desde a alvorada
até o momento do pôr-do-sol ou ao entardecer,
antes de cair a noite. Mas não basta obedecer a
esse critério; há cuidados adicionais: as ervas só devem
ser apanhadas respeitando-se o fluxo do fluido
vital ou do bioplasma, se quisermos ser mais exatos.
Pela manhã, até aproximadamente as 9 horas, quando
os raios solares ainda estão no processo de aquecimento
da morada dos homens, colhem-se apenas
raízes, pois é aí que o fluido vital ou bioplasma das
plantas se concentra. Desse momento até mais ou
menos as 15 horas, podem-se apanhar folhas e flores
para uso da medicina espiritual ou terapia energética.
Durante esse período, em que o sol irradia com
maior intensidade seus raios revitalizadores, a vitalidade
circula mais vigorosamente nas extremidades
da porção exposta, acima do chão. Somente após as
15 horas tira-se o caule, pois este é o horário em que
o bioplasma inicia o processo de "descida" em dire204



ção à terra, energizando o caule das plantas. À noite
se dá o repouso do bioplasma; durante o período noturno,
a vitalidade manifesta-se apenas o suficiente
para manter a vida orgânica da planta.

— Então não tem efeito colher as plantas de qualquer
jeito, em horários diferentes do que meu pai indica?
— Não é bem assim, meu filho. Podem-se colher
as ervas em qualquer horário, sim; contudo, não
se aproveita a seiva energética ou bioplasma, que
obedece ao fluxo da energia solar em todos os reinos
da natureza. Apanhando-as sem levar em conta
esse fluxo, apenas os elementos de sua constituição
química serão extraídos, mas de forma alguma
a vitalidade.
— E quanto às ervas secas, elas servem para finalidades
terapêuticas, meu pai?
— Ainda aí temos de considerar qual propriedade terapêutica
se pretende explorar. Caso a busca se resuma
aos elementos químicos, que favorecem exclusivamente
a saúde física, então as ervas secas atenderão.
No entanto, se o objetivo é extrair os elementos
fluídicos, etéricos e mais dinâmicos que oferecem,
as plantas são destituídas de tais elementos no processo
de secagem, ao longo do qual a energia vital é
corrompida ou alterada. Muito embora haja, mesmo
com as ervas secas, uma maneira de fazer o bioplasma
retomar seu fluxo natural, nego-velho só pode
20 5



ensinar essa técnica quando meus filhos avançarem
no estudo sobre bioenergias e magnetismo. Sem amplo
conhecimento do magnetismo não há como alterar
o fluxo energético e vital das plantas.

— E quanto à forma de preparo das ervas, meu
pai? Devem ser administradas sempre por meio
dos banhos ou existe outra maneira que ainda não
conhecemos?
— Quando há indicação para uso de banhos, meus
filhos hão de convir que é o meio mais fácil de usufruir
das substâncias terapêuticas e energéticas das
ervas. É um recurso que está ao alcance de qualquer
pessoa. Porém, ao se prepararem banhos de
imersão (como, por exemplo, se faz com a camomila,
indicada para estresse, ansiedade e ainda crises
de pânico), não é adequado ferver a água juntamente
com as ervas. O melhor método, o mais eficaz
é, após a fervura, apagar o fogo e somente então
adicionar as ervas, deixando-as em repouso até o
chá esfriar ligeiramente. Depois de alguns minutos
de decocção — é esse o nome do processo — as ervas
devem ser retiradas da água, restando apenas o
sumo e as propriedades medicamentosas e energéticas.
Aí, sim, o produto está pronto para ser usado
para banhos de imersão, para aspersão ou outra
coisa qualquer, de acordo com a prescrição, inclusive
como chá fitoterápico.
20 6


"Caso tais cuidados não sejam tomados, corre-se o
risco de surgir alergia ao elemento material, sem relação
com o extrato ou fluido. Reações indesejadas
podem ocorrer ao menos de duas maneiras: tanto
em razão da fervura de determinadas ervas, quanto
devido à falta de coagem, isto é, por causa do contato
direto da erva com a pele. Na última hipótese, o
processo alérgico pode-se estender por semanas.
"Há ainda, meus filhos, outra forma mais requintada
e também muito eficaz de explorar os recursos
bioenergéticos das plantas. Para quem tem acesso a
tais meios, é possível retirar a essência, o extrato ou
a tintura da erva, respeitando determinado fator que
nego-velho por ora não deseja explicar. Para fins de
terapia energética, primeiramente deve-se subtrair
da tintura o componente alcoólico comumente empregado
em sua elaboração. Em seguida, despeja-se
a tintura em um recipiente com água, de preferência
advinda de cachoeiras, olhos d'água, fontes naturais
preservadas, do mar ou simplesmente coletada
durante as chuvas. No frasco onde o extrato foi
misturado à água, o ideal é que haja um dispositivo
para aspergir o conteúdo no corpo, em forma de gotículas,
como se fosse um chuvisco que caísse sobre
a pessoa, após o banho de higiene. A água com as
substâncias medicamentosas e energéticas deverá
ficar em contato com a pele por algum tempo, sem

207



enxugá-la, a fim de que absorva os fluidos acumulados
na água após a adição da tintura."

— Então não é somente através de banhos que se
pode aproveitar os recursos fluídicos das plantas?
— Não, Tobias — respondeu o pai-velho. — Como
disse antes, o banho é a forma mais simples, consagrada
por nossos ancestrais e ao alcance da maioria.
Todavia, os tempos mudaram, e nada impede que a
técnica seja aperfeiçoada. Ao manipular as ervas, o
importante é preservar suas propriedades terapêuticas
de natureza sutil, a fim de que sejam absorvidas
no contato com a pele humana. Vendo por essa
ótica, pode-se lançar mão de outro método, ainda
mais eficaz, porque a pessoa consegue permanecer
mais tempo em contato com os extratos herbáceos.
— E qual é esse método, meu pai?
— Calma, meu filho, que nego-velho vai explicar
e você verá que é algo bastante simples. Imagine
se tiver uma banheira ou similar cheia de água e o
produto obtido com a infusão das ervas puder ser
nela derramado? Aí a pessoa em tratamento entra
na banheira, imergindo naquela solução, e ali permanece
por um tempo maior em contato com o líquido
que contém as propriedades terapêuticas.
Naturalmente, o sujeito receberá assim benefícios
em mais alto grau do que simplesmente se deitasse
a água sobre o corpo por alguns segundos. O con208



tato prolongado com os elementos curativos das
plantas produzirá efeitos bem mais rápidos e duradouros,
devido ao aumento da exposição e, conseqüentemente,
da intensidade de absorção dos fluidos
presentes no líquido.

— Ah! Pai João... Então não precisa jogar a água sobre
o corpo durante o banho, como a gente é ensinada
a fazer? Podemos mergulhar na banheira com
o líquido dentro?
— Bem, meu filho, nego-velho corre o risco de ir de
encontro aos ensinamentos de muita gente que se
diz especializada. Mas, como disse antes, nego não
visa trazer ensinamentos de acordo com o que é difundido
nos barracões de candomblé nem tampouco
em consonância com o método tradicional de
alguns irmãos umbandistas. Portanto, permite-se
alargar um pouco a visão de meus filhos a respeito
do assunto, ampliando pontos de vista.
O tema estava interessante, e as pessoas ali presentes,
ávidas por maiores detalhes acerca da fitoterapia
sob a perspectiva de uma ciência espiritual destituída
de misticismos, preconceitos e apêndices
acrescentados pelos homens ao longo do tempo.
Pai João sentia-se à vontade podendo contribuir
com sua visão a respeito do assunto.
— Também temos de considerar outro aspecto,
meus filhos, que diz respeito à atitude daquele
20 9



que interage com os recursos que ora analisamos.
No trato com as fontes de energia vital do planeta,
a oração funciona como precioso instrumento,
que, arregimentando a força do pensamento e da
fé, age sobre os fluidos dispersos ou concentrados
na natureza — ou nas plantas, em particular, que
constituem nossa matéria de estudos de hoje. Quero
dizer mais claramente que, durante o processo
de maceração, o ato de pedir aos espíritos da natureza
que ajam nos elementos curativos das ervas
e extraiam o bioplasma de modo mais intenso
incrementa sobremaneira os resultados atingidos.
Na prática, é quase imperativo conectar-se com as
forças superiores que administram os destinos da
humanidade, as quais detêm os recursos da ciência
espiritual e o conhecimento de fluidos e bioenergias.
Esse é um fator que não deve ser desprezado
jamais. Cabe aqui um alerta, porém. Nego se refere
à oração verdadeira, ou seja, a ligar-se deliberadamente
ao Alto como uma técnica eficaz de mobilizar
elementos em favor da cura, e não de recitar
palavras ao vento, da boca para fora, apenas para
cumprir um rito qualquer.

— E será que meu pai poderia nos indicar algumas
fórmulas, visando ao uso de ervas ou de sua força
fluídica para atenuar certas dificuldades?
— Meu filho, nego-velho sente-se imensamente fe210



liz em poder ajudar. Se não houver questionamentos
e interesse, nego interpreta como se todos já estivessem
satisfeitos com o que sabem. Mas quando
meus filhos perguntam e demonstram desejo de
aprender, então os espíritos se sentem honrados
em esclarecer.
"Antes de prosseguir, nego-velho quer deixar claro
que aquilo que vai ensinar não deve ser interpretado,
de maneira alguma, como substituto à orientação
médica. Muita gente precisa mesmo é da alopatia,
com seus recursos mais agressivos, a fim de
debelar os males do corpo. Não adianta usar fitoterapia
e homeopatia quando se está diante de uma
infecção ou inflamação aguda, que ocasiona dor ou
limitação de alguma espécie. Para esses casos, a melhor
saída é a prescrição médica convencional, com
seus antibióticos e antiinflamatórios, embora também
haja remédios ditos naturais com propriedades
terapêuticas que apresentam bons resultados.
"De toda forma, ficar sentindo dor enquanto se tem
à disposição excelentes drogas desenvolvidas pela
medicina é, acima de tudo, indício de preconceito
e de falta de auto-amor e auto-estima, e não sinal
de suposta espiritualidade, como geralmente julga
quem defende tal atitude como opção por uma
vida mais natural. Não se deve fazer do emprego de
quaisquer terapias uma religião, muito menos sec


211



tária e fundamentalista, que não admite colaborações
diversas que concorram para igual e sagrado
objetivo: o bem-estar do ser humano. O médico que
rejeita toda abordagem que escapa à alopatia sem
sequer examiná-la erra tanto quanto o naturalista
radical, que professa sua crença nas terapias que
elegeu de maneira excludente.
"A dor, a infecção e a inflamação devem ser combatidas
imediatamente com os recursos clássicos
da medicina, e, durante o tratamento ou mesmo
prévia e posteriormente, é possível acompanhálos
com ferramentas acessórias, que aumentem a
imunidade. Como se vê, os recursos fitoterápicos
são muito mais coadjuvantes e complementares
do que substitutos para os instrumentos da medicina
tradicional."

— É, Pai João, conheço muita gente que padece de
sérios problemas de saúde, com infecções ou dores
fortes e se recusa terminantemente a usar medicamentos
alopáticos. Querem se curar estritamente
com remédios naturais, fitoterápicos, homeopáticos
e outros semelhantes. E ainda inventam uma filosofia
da dor para dar suporte à sua decisão...
— Pois é, meu filho — comentou o pai-velho. — Temos
de desenvolver o bom senso e aprender que a
dor não nos leva a lugar nenhum, a não ser à revolta.
É necessário cultivar o bom senso ao lidar com
212


muita coisa na vida, inclusive com a própria saúde
e a alheia. Nego-velho chega a acreditar que o terapeuta
que se recusa a indicar o tratamento convencional
e recomenda somente o uso de métodos
que vê como naturais enquanto o consulente ou
ele mesmo sentem dores, de duas, uma: ou se acha
num estado grave de limitação de suas atividades,
ou não merece respeito como terapeuta do espírito.
A ciência holística (como o próprio nome diz, halos:
do grego, todo) engloba todas as metodologias,
e não somente as que se convencionou serem chamadas
de naturais. Por isso, nego repete: bom senso
nunca é demais. Tem gente que quer ser mais espiritualizada
do que Deus exige! Adotam tom de voz
manso e macio e métodos "alternativos" como se
fossem os únicos eficazes. Na verdade, estão desprezando
as bênçãos que a vida lhes oferece; não
podem se queixar. Definitivamente, não é esse o
comportamento que pai-velho quer incentivar ao
ensinar estas coisas para meus filhos.
Depois de discorrer sobre o assunto, o pai-velho
prosseguiu, introduzindo conceitos e fazendo ressalvas
ao conteúdo ou às dicas que emitia, a pedido
dos trabalhadores de sua tenda.

— Em segundo lugar, nego-velho quer observar
mais alguns pontos acerca das indicações que fará.
"As fórmulas que vou passar aos meus filhos de213




vem ser utilizadas com discernimento, e não como
uma panaceia, isto é, uma substância mágica capaz
de erradicar qualquer mal. Não é como cura, e
sim como auxiliares ao tratamento de meus filhos
que pai-velho recomenda tais remédios. Além disso,
entendam que, se não houver mudança de hábitos
e reeducação das emoções e dos pensamentos,
grande quantidade dos males que se pretende
debelar retornará após algum tempo, e, freqüentemente,
em grau mais alto.
"Notem, meus filhos — disse, com entonação mais
grave. — No que tange às fórmulas de fitoterapia
que nego-velho vai transmitir, deve-se prestar atenção
aos detalhes e cumpri-los à risca, pois trata-se
de uma fórmula, que apresentará resultados compatíveis
com o esperado apenas se devidamente
seguidas todas as instruções. Vamos enumerá-las,
para facilitar a compreensão de meus filhos. Para o
preparo dos banhos de imersão que nego-velho indicar
a partir daqui, valem as seguintes regras:

"1. Obedecer sempre à proporção de 2 litros para
infusão de 50g de flores ou ervas indicadas.
"2. Quando houver essências florais, devem ser
acrescidas ao líquido na medida de 30 gotas
para cada 2 litros. Os remédios florais podem
ser: de Bach, de Gaia, de Minas, californianos,

214


australianos, entre outros.
"3. Aquilo que nego chamará de essências ou extratos
especiais deve ser adicionado numa
proporção de 10% do líquido, ou seja, 200ml
para cada 2 litros.
"4. Os demais itens se referem ao uso de minerais.
As pedras para os elixires necessariamente
permanecem todo o tempo submersas quando
guardadas. Exige-se água mineral para o
mergulho e repouso das pedras, a qual precisa
ser trocada após a elaboração de cada elixir.
"5. Todo elixir usando minerais preferencialmente
será confeccionado após a pessoa responsável
haver se higienizado, tomando seu banho
de asseio, tendo feito também suas preces,
buscando conexão com a dimensão superior.
A idéia é a pessoa se ligar ao elemental correspondente
àquele plano específico da natureza
que será manipulado — no caso, o reino mineral,
representado pela pedra.
"6. Depois de orar, pode-se colocar uma música
para favorecer a harmonização mental e emocional.
Somente concluídos esses preparativos é
que se devem iniciar os procedimentos propriamente
ditos para produzir os elixires, nos quais
se pretende fixar a força natural dos dementais.
"7. Depositar as pedras na água, conforme indi215




cação, empregando para tal um vidro transparente,
cristalino e incolor, de modo a receber
os raios do Sol ou a luz do luar, novamente a
variar de acordo com a prescrição.

"8. Durante o processo, ministrar passe magnético
longitudinal no vidro onde estão contidos a pedra
e o líquido, imantando-os com o magnetismo
animal, que apenas o ser humano possui.

"9. Caso a instrução determine exposição ao Sol,
deixar durante todo o dia até aproximadamente
as 17 horas ou até o momento em que
se prenuncia o ocaso, a depender da região.
Recolher e repetir a exposição por mais duas
vezes, isto é, dois outros dias.

"10. Se a indicação for para submeter à luz do luar,
expor o recipiente apenas quando a noite estiver
completamente instalada, ainda que não
se veja a Lua. Retirar antes do alvorecer, portanto
mais ou menos às 5 horas, a variar de
uma localidade para outra.

"11. Prestar especial atenção ao que a fórmula determina:
se o conteúdo deve ser exposto à luz
solar ou às influências lunares, pois são vibrações
bem distintas. Aquela é positiva, yang e
ativa, enquanto esta é passiva, negativa e yin.

"12. Em ambos os casos é necessário magnetizar por
meio de passes longitudinais, como explicado

216


no item 8. Idealmente, essa operação se realiza
com número ímpar de pessoas: 1,3,5,7 etc;

"13. Por último, uma recomendação válida para
flores, frutos, folhas, sementes, caules e raízes:
todos devem ser preparados conforme a
Lua especificada; porém, qualquer que seja
a fase lunar, considera-se somente o período
depois dos 3 primeiros dias da lunação. Dito
de outra forma: a Lua pode ser nova, cheia,
quarto crescente ou minguante, mas apenas
do quarto dia em diante a fase torna-se favorável
à realização dos procedimentos aqui
descritos.

"Meus irmãos hão de se lembrar de que a Lua exerce
influência muito marcante nas marés, no clima e
noutros eventos da natureza, inclusive sobre o parto
das mulheres e dos animais. Desse modo, ao se
trabalhar com os instrumentos da natureza, não se
pode menosprezar a intervenção energética e gravitacional
que a Lua exerce sobre os fluidos."
Interrompendo o preto-velho, Tobias indagou sobre
algo que fazia parte de suas dúvidas:

— Pai João, há alguns dias o senhor indicou para mim
um elixir de prata. Nem perguntei antes, porque fiquei
com medo de ser inoportuno. Mas o certo é que
não consegui encontrar o tal elixir e fiquei com re217




ceio de incomodar o senhor com o questionamento.

— Pois é, filho, quem não incomoda não aprende.
Não é assim? — o pai-velho explicava pacientemente.
— Entenda que sempre, em qualquer fórmula que
nego-velho indicar o uso do elixir de prata, quer dizer
a prata coloidal, excelente remédio contra muitos
males que afligem meus filhos. Portanto, basta
adquirir a prata coloidal nas farmácias especializadas
e adicioná-la à fórmula ou, conforme a prescrição,
usá-la diretamente. Nego-velho vai tocar nesse
assunto novamente, quando ditar algumas fórmulas.
Por enquanto, só estou listando algumas diretrizes
básicas a fim de facilitar para os meus filhos a
manipulação dos remédios energéticos.
"Aproveitando a pergunta de meu filho, ainda sobre
certas particularidades de elixires específicos.
Toda vez que, em suas indicações, nego-velho mencionar
o elixir de cristal de quartzo, será necessário
ferver o quartzo durante 30 minutos antes de ser
empregado na fórmula.
"Recomendações entendidas, vamos ao preparo de
alguns remédios energéticos.
"Ao primeiro preparado nego-velho dá o nome de
Águas-de-Cheiro. Lembro que as essências especiais
e o composto energético, que aparecerão nas
fórmulas a seguir, nego-velho ensinará a preparar
em outra oportunidade.
218


Águas-de-cheiro

Ingredientes: Folhas e flores de alfazema e manjericão;
remédios florais: Alfazema, Artemísia, Rosmarinus;
águas de cachoeira e orvalho ou sereno;
essências especiais.
Preparo: Lua nova.
Indicação terapêutica: Suaviza e tranqüiliza. Útil
à revitalização das energias da aura. As propriedades
etéricas dessas flores e folhas enchem o indivíduo
de vitalidade, pois trazem elementos da natureza
ricos em bioplasma, estimulantes das reservas
fluídicas do duplo etérico. Ao mesmo tempo, agem
no plexo solar, no nível emocional, liberando formas
adensadas.

"O próximo remédio energético que vou descrever
denomino Águas-de-ísis, pois é inspirado numa
fórmula semelhante, utilizada por alguns hierofantes
do Egito antigo.

Águas-de-ísis

Ingredientes: Rosas vermelha e branca, flores de
alfazema, hibiscos vermelhos e crisântemos amarelo
e branco; remédios florais: Quince, Hibiscus,

219



Rock Water, Sempervivum, Orelana; águas de chuva
e de cachoeira; essências especiais.
Preparo: Lua nova.
Indicação terapêutica: Libera o coração de mágoas
e desperta o lado feminino, o sentimento, a intuição.
Favorece a manifestação do auto-amor. Estimula
pensamentos altruístas e eleva a freqüência
vibratória do chacra cardíaco.


"O próximo remédio natural e energético deve ser
administrado a pessoas que se encontram desvitalizadas,
abatidas física e moralmente. Indicado como
auxiliar no processo de recuperação de indivíduos
que enfrentaram longos períodos de enfermidade
ou processos de vampirismo energético, principalmente.
A este remédio chamo Raio-de-Luz.


Raio-de-luz

Ingredientes: canela em pau, cravo e gengibre;flores:
pétalas de girassol e rosas vermelhas; remédios
florais: Sempervivum, Moutain Pride, Rescue e Buquê
de 5 Flores; águas de fonte e de cachoeira; es


sências especiais e composto energético.

Preparo: Lua nova ou cheia.

Indicação terapêutica: Desperta a energia yang

220


e revitaliza, liberando substâncias etéricas densas,
tanto do corpo físico como do duplo. Fortificante
energético, que transfere a vitalidade das ervas e da
essência para o corpo e a mente.

Tobias ouvia e anotava tudo, pois não queria perder
as indicações de João Cobú, que, como sabia o médium,
fora também médico em outra existência.
Continuando, o pai-velho falou mais:

— Outro remédio energético que indico para certos
filhos é aquele que denomino Chuva-de-Prata.
Desde já, entretanto, peço aos meus filhos que não
se atenham à nomenclatura. Chamo-os assim apenas
para distinguir uma fórmula natural da outra,
nada mais. Nenhum dos nomes tem qualquer sentido
oculto ou esotérico.
Chuva- de-prata

Ingredientes: Rosas brancas, camomila, flor de
laranjeira, alecrim e manjericão-branco; remédios
florais: Momórdica, Star Tulip, Rosmarinus; águas

de chuva e de cachoeira.

Preparo: Lua cheia e exposição ao sereno durante

a noite, com o vidro aberto.

Indicação terapêutica: Libera energias nocivas

221



e toxinas do organismo, dilui ou atenua emoções
densas e promove a harmonia da aura. Aumenta as
defesas naturais e energéticas.

— Creio que devo frisar — continuou o pai-velho
— que esses remédios energéticos não são para administração
via oral, e sim como banhos, conforme
explicado anteriormente. De preferência, banhos
de imersão, semelhantes aos chamados banhos de
ofurô, que se vêem em spas e clínicas atualmente.
Ou seja, as fórmulas devem ser derramadas numa
banheira de qualquer espécie, onde meus filhos
procurarão relaxar ao longo de 20 a 40 minutos,
no máximo. Na impossibilidade, faz-se o banho de
aspersão, isto é, borrifando ao longo de todo o corpo
os preparados líquidos. Durante os banhos de
imersão ou após aspergir o produto sobre o corpo,
na falta de banheira ou similar, meus filhos poderão
ingerir o chá da camomila, indiscriminadamente, o
que será muito benéfico para as emoções.
"Outra fórmula desenvolvida do lado de cá pelos
espíritos responsáveis pela natureza é a Silvestre.
Silvestre

Ingredientes: Hortelã, espada-de-são-jorge, arru


22 2


da, levante, canela, sementes de mostarda e mirra;
remédios florais: Pink Yarrow, Buquê de 9 Flores,
Manto de Luz, Crab Apple, Sulphur Flower; águas
de chuva, de cachoeira, bem como água mineral gasosa
natural ou sulfurosa; essências aromoterápicas
verdes e silvestres.
Preparo: Lua cheia e exposição aos raios solares.
Composto especialmente sob a ação dos dementais.
Indicação terapêutica: Auxiliar na limpeza do
campo áurico e tratamento de emoções conflitantes.
Liberação de mágoas e pensamentos recorrentes.
Trabalha as energias de cura do duplo etérico.
Bastante eficaz principalmente para quem lida
com público em geral e com pessoas difíceis, portadoras
de conteúdo emocional grave, tal como é a
rotina de terapeutas e médiuns.

— Meu Deus, Pai João — falou um dos trabalhadores.
— Existe tanta coisa que desconhecemos!...
— É, meu filho. E assim mesmo há quem critique a
sabedoria milenar dos pais-velhos sem sequer experimentar,
classificando tudo como pura fantasia
e misticismo. Nego-velho espera que, ao menos, façam-
se testes e análises antes de atribuir tudo ao
domínio do fantástico.
"Mas vamos continuar mais um pouco, filho. Acredito
ser possível passar mais algumas dicas para
22 3



aproveitarem em seus trabalhos e, assim, não ficarem
tão dependentes de orientação espiritual.
"O próximo remédio energético, nego-velho o chama
de Aguas-de-Hórus, apenas relembrando um
preparado muito eficiente da Antiguidade.

Águas-de-hórus

Ingredientes: Rosas brancas e vermelhas, alecrim,
manjericão, alfavaca, alfazema, girassol, mirra
e levante; remédios florais: Rosmarinus, Aristolóquia,
Holly, Chaparral, Floral de Emergência Australiano;
tinturas: arnica, espinheira-santa e menta;
águas de mar, cachoeira, chuva e fonte.
Preparo: Lua nova ou cheia.
Indicação terapêutica: Ideal para iniciados ou
pessoas que estejam despertando para o caminho
espiritual. Desperta o sentido do belo e do bem.
Promove o aumento da freqüência vibratória dos
chacras superiores e sensibiliza o psiquismo.

— Pai João — interpelou Tobias. — Conforme o senhor
explicou, a pessoa pode apresentar excesso
nas características de determinada polaridade
energética, tanto com perfil de ansiedade, mais ativo,
elétrico ou yang quanto, de modo contrário, evi22
4


denciando traços mais sensíveis, emotivos ou yin.
Nesse caso, existe alguma fórmula indicada para
auxiliar no equilíbrio energético desse indivíduo?

— Claro, filho — respondeu o pai-velho. — Tenho
duas recomendações baseadas em observações e
anos de estudo com os tipos citados. É claro que
tais indicações, como as que fiz antes, não são fórmulas
milagrosas, mas auxiliares. Apenas isso.
"Estes são os remédios energéticos que denomino
simplesmente Yin e Yang, devido aos tipos de ervas
empregadas.
Yang

Ingredientes: Espada-de-são-jorge, arnica, cravo,
canela, sementes de girassol e de mostarda, picão,
cipó-mil-homens, gengibre; água do mar, exclusivamente;
remédios florais: Sempervivum, Pink Yarrow,
Moutain Pride, que visam equilibrar as energias
do indivíduo.
Preparo: Lua nova ou cheia.
Indicação terapêutica: Aumenta o tônus vital e
combate o esgotamento energético. Trabalha as
energias vitais do organismo, a kundalini. Estimula
a libido e desperta o lado yang, ativo e positivo do
ser. Combate dificuldade de concentração, disper


22 5



são mental e emoções mais afloradas ou intensas.

Yin

Ingredientes: Alecrim, alfazema, alfavaca, manjericão,
rosas brancas e lírio; águas de cachoeira e de
chuva; remédios florais: Linum, Manto de Luz, Rosmarinus,
Hibiscus.
Preparo: Lua nova com exposição ao sereno.
Indicação terapêutica: É ideal para despertar o
lado sensível, emocional. Suaviza o pensamento e
as emoções fortes. Trabalha o lado yin, passivo e
emotivo do ser. Para as pessoas elétricas, inquietas
e ansiosas. Também é eficaz para pessoas hiperativas
mental ou fisicamente.

"Por último, nego-velho vai ensinar a vocês um remédio
energético muito indicado para combater insónia,
como auxiliar no tratamento desse mal, que
atinge milhares de filhos na Terra. Por isso, negovelho
o chama de Sonhos. De todas as fórmulas até
aqui descritas, é a única que pode ser administrada
como solução oral, ao recolher-se.

22 6


Sonhos

Ingredientes: Tinturas de capim-cidreira, maracujá
e valeriana; remédios florais: Calmin, Passiflora,
Valerian, Agrimony, Angélica (do Alasca); água
mineral.
Dosagem: Tomar 30 a 35 gotas em um cálice de
água ou no chá de camomila, antes de deitar.
Indicação terapêutica: Insónia.

"Como vêem, meus filhos — concluía o pai-velho —,
há muito que aproveitar das ervas, em suas diversas
modalidades de preparo. Entretanto, para saber se
esse recurso funciona, você terá de experimentar
primeiro, antes de sugerir aos outros o uso desses
remédios da natureza. Não se esqueçam da oração,
da fé e da mentalização de forças positivas durante
o preparo e o uso. Assim meus filhos adicionarão
elementos mentais nobres ao composto feito sob a
influência dos dementais."

Encerrando o assunto nesse dia, Pai João despediuse
dos trabalhadores, deixando-lhes a incumbência
de pôr ou não em prática os ensinamentos ali ventilados.
Havia muito que ponderar a respeito.

22 7



candomblecista, de modo geral?

— Meus filhos, primeiro é preciso aprender, antes
de falar no assunto, que não devemos julgar os demais,
sua forma de viver e seus costumes, de acordo
com nosso padrão de comportamento ou de espiritualidade.
Estudar os fundamentos de uma religião
que não a nossa implica abstrair-nos daquilo
que acreditamos e mergulhar no princípio e nas razões
do outro; significa se dispor a ver o mundo sob
a ótica do outro. Se a postura adotada não for essa,
há grandes chances de se fazerem comparações, o
que é desonestidade intelectual.
— Não entendi, vovô...
— Nego-velho explica, meu filho. Imagine se você
tentar entender as religiões mulçumana ou budista
sob o ponto de vista da doutrina cristã, ou mesmo
por meio de comparações entre elas. Ao tomar
a própria visão de mundo como referência, inevitavelmente
você começará a estabelecer conceitos de
certo e errado, bem e mal e coisas do gênero, que,
diga-se de passagem, são criações que se originam,
em larga medida, no pensamento judaico-cristão.
Ou, melhor dizendo: o hábito de separar assim os
fatos, à primeira vista, e sobretudo de forma maniqueísta,
é bastante arraigado à cultura judaico-cristã
e tem nela profundas raízes.
"A mesma consideração é válida quanto à conduta
23 0


adotada pelo observador4 ao examinar as religiões
de procedência africana ou descendentes delas. Se
você for traçar um paralelo entre essas filosofias religiosas
e a forma espírita de pensar e ver o mundo,
também entrará no terreno espinhoso das comparações,
o que acarretará a caracterização das religiões
em estudo como obra das trevas, de espíritos
inferiores ou coisa semelhante. Isso se não houver
quem diga que são manifestações primitivistas
ou de baixo espiritismo, abominável expressão que
em si é um enorme equívoco. Por isso, antes de iniciar
qualquer estudo a respeito do assunto, é melhor
despir-se de preconceito e procurar enxergar,
como um todo, a realidade cultural e social da África
e de seus habitantes emigrados para o Brasil."

— Pelo que pude entender, primeiro é preciso comPai
Joã o de Aruanda , na verdade , nã o apresent a nenhum a novidad e ao

discorre r sobre a disposição necessária ao pesquisado r quand o analisa

culturas e sociedades estranha s a si mesmo . O mérit o de sua fala está em

destaca r algo que, apesa r de te r sido aprendid o pela antropologia — ciên


cia qu e se dedica ao estud o das cultura s — logo após as primeira s década s

de seu surgimento , no início do século xx , ainda dificilmente se vê entr e

religiosos. O mei o espírita nã o é exceção. Sem sombr a de dúvida é urgen


te que se aprend a a admiti r a pluralidad e de ponto s de vista sobre a rea


lidade espiritual par a qu e a fraternidade esteja mais na prática e meno s

no discurso.

23 1



preender as origens, antes de nos iniciarmos nos
chamados mistérios?

— Certamente é assim. Mas há outra ressalva a fazer,
meus filhos, logo no começo. Como as diversas
tradições de cultos africanos no Brasil passaram
por inúmeras interpretações, seguramente se
pode inferir que qualquer um — inclusive pai-velho,
ao falar do assunto — corre o risco de transmitir
muito de sua visão pessoal, de sua opinião
particular. E a perspectiva adotada dependerá, sobretudo,
da quantidade de preconceito abrigado
no coração do indivíduo, bem como da menor ou
maior abertura que tiver em relação às questões
de ordem espiritual.
— Ah! Então só posso concluir que não estamos
preparados para aprofundar nesses temas, meu pai.
Ainda temos em nós muita má informação e má
formação espiritual. Trazemos o preconceito arraigado
no peito. Talvez, o senhor nos permita apenas
alguns apontamentos — quem sabe? — bastante superficiais
para que possamos introduzir nossos estudos
a respeito do assunto.
— Nego-velho acredita, meu filho, que esse é o melhor
caminho. É mais coerente. A tentativa de aprofundar-
se no estudo das religiões africanas ou afrodescendentes
sem pesquisar direto nas fontes fatalmente
levará a pessoa a se deter em pontos de vis23
2


ta particulares, portanto sujeitos a erros graves. Se
quiser aprofundar-se em qualquer religião, o ideal
é pesquisar diretamente com seus representantes, e
não com quem tenta estabelecer comparações sem
deter o fundamento daquilo que pretende abordar.
Mas nego-velho compreende sua curiosidade sadia
a respeito do assunto.

— Meu pai, um dia o senhor nos falou que em outra
existência já fez parte de um culto de candomblé.
Será que não nos poderia esclarecer algumas dúvidas,
sem querer importuná-lo com nossas perguntas?
Também queríamos saber mais alguma coisa a
seu respeito, seus projetos junto de nós.
— Estou aqui, meu filho, com o objetivo principal
de quebrar os preconceitos e esclarecer o quanto
puder as dúvidas dos filhos de Terra. Pessoalmente,
assumo a aparência de pai-velho não porque
ela esteja ligada às raízes da umbanda ou do candomblé.
Escolhi me apresentar desta forma devido
a um fator educativo. Pretendo, assim, contribuir
para desmistificar certas idéias que se alimentam a
respeito daqueles cuja procedência sociocultural é
considerada mais simples. Em suma, é uma maneira
de enfrentar o preconceito nas diversas esferas
em que se apresenta, seja religiosa, social, racial,
espiritual ou cultural. Na roupagem de preto-velho,
também posso falar de verdades mais amplas e pro23
3



fundas com uma forma externa singela e uma linguagem
ao alcance de qualquer classe sociocultural.
Entretanto, como espírito, nego-velho guarda
uma relação mais estreita do que se pode imaginar
com a visão e as falanges do espírito Verdade, aquele
que, no mundo, representa as verdades veiculadas
pelas idéias espíritas.
Dando uma pausa, visando provocar reflexões, o
pai-velho continuou:


— Não pretendo dar novas revelações a nossos irmãos
umbandistas; também não desejo acrescentar
nada ao corpo doutrinário da filosofia ou da teologia
umbandistas. Nego-velho tem um mandato divino
a ele confiado: explicar certos fenômenos, certas
verdades vivenciadas em outras religiões sob uma
ótica mais abrangente, possibilitando sua compreensão
segundo a perspectiva espírita. Assim sendo,
este preto-velho que fala com meus filhos não tenciona
nem mesmo ensinar segundo as interpretações
da doutrina espírita, mas sim divulgar conceitos
espíritas, tais como imortalidade, mediunidade,
reencarnação, leis morais e de causa e efeito.
— A gente vê que, como pai-velho, o senhor não usa
cachimbo, não fala com palavras truncadas, não anda
encurvado nem sequer se assenta num toco. Por que
isso, meu pai? Não é usual a gente presenciar manifestações
de pretos-velhos fazendo tudo isso?
234


— Como eu disse, filho, meu objetivo é essencialmente
educativo: desbravar o conhecimento visando
dilatar a mente das pessoas. O uso de cachimbos
e outros apetrechos de fato é algo comum num culto
umbandista. Porém, meu filho há de convir que
Pai João neste momento não está num terreiro desta
religião. Estamos numa casa em que se estuda e
pratica a caridade, mas esta não é uma casa de umbanda.
Tanto assim que não praticamos os rituais
que lhe são próprios nem tampouco adotamos os
instrumentos de trabalho típicos dessa religião, que
pratica o bem e a caridade.
"Nego-velho procura ensinar os filhos a lançar mão
de outras ferramentas — nem melhores nem piores
do que aquelas com as quais se trabalha na umbanda.
Apenas diferentes. Meu esforço consiste em
mostrar como chegar às mesmas realizações a partir
de outros recursos ou métodos de trabalho menos
materiais (e, por isso, segundo nossa experiência,
mais eficazes), que nos façam atingir os objetivos
que temos em mente. Em resumo, não há como
confrontar características entre uma e outra comunicação
mediúnica sem levar em conta o contexto
em que acontece."
— E quanto ao culto dos orixás, meu pai?
— Note, filho, que também tenho me dedicado à
questão dos orixás apenas como um recurso didá23
5



tico-pedagógico, por entender que a riqueza e os
pontos de conexão entre as culturas brasileira e
africana oferecem muitos elementos para a compreensão
do psiquismo humano. Minha abordagem
relativa aos orixás é tão-somente voltada para
dois aspectos.
"O primeiro deles diz respeito a seu valor simbólico
e psicológico, inerente à própria mitologia, através
da qual entendemos melhor a alma humana. O panteão
africano e seu enredo é uma espécie de mapa
ou síntese psicológica do comportamento humano.
De modo análogo ao que ocorre com aqueles que
estudam o zodíaco ou a mitologia grega, apreciada
na academia e na escola psicológica clássica, nego
acredita que, sob esse prisma, a análise da mitologia
dos orixás pode facilitar o autoconhecimento e a
relação entre os indivíduos, com a vantagem de haver
identidade bem maior com a cultura brasileira,
esse amálgama de raças e complexidades. Entenda
bem que a nego-velho não interessa se os orixás são
ou não seres conscientes da criação; nem quer entrar
nesse mérito. Refiro-me a uma mitologia e ao
significado, assim como aos símbolos psicológicos
representados por esses personagens.
"Além disso, não vemos nos orixás seres imortais e
muito menos santos com os quais devêssemos nos
relacionar de forma a realizar um culto em seu fa


23 6


vor. Nego encara Orixá como vibração. E é esse o segundo
aspecto. Trata-se de usar a mitologia ou, mais
precisamente, a figura dos orixás como uma espécie
de guia ou esquema prático das diversas vibrações
da natureza. Isso ajuda — e muito — no estudo
dos dementais, por exemplo, e de sua relação com
os respectivos redutos ou recantos naturais. Como
usar e manipular os recursos sagrados da mãe natureza
sem convencionar uma nomenclatura comum,
que nos permita andar sobre um terreno único, onde
se darão as conversas e trocas de informações e experiências?
Há uma questão prática, de linguagem.
E nego-velho pensa: Para que inventar um novo sistema,
se já dispomos do panteão africano? E mais:
por que não empregar a terminologia daqueles que
se especializaram no estudo e no comando das forças
da natureza ao longo de séculos e milênios?
"Como meu filho pode ver, nego-velho intenta abrir
as mentes de alguns irmãos e filhos. Em vez de rejeitar
outras crenças e interpretações só porque são
desconhecidas e diferentes, que possam abraçá-las
ao menos o suficiente para estudá-las e, quiçá, compreendê-
las, desenvolvendo assim uma visão mais
ampla. Apenas isso. Quem sabe aprendam elementos
novos, extraindo algo de positivo e construtivo
para aplicar e enriquecer a própria realidade?"

— Então, meu pai, que me diz a respeito dos rituais
23 7



do candomblé? — perguntou Tobias, retomando as
questões com as quais iniciara a conversa com o
pai-velho.

— É preciso entender, filho, que as religiões africanas
não vêm do mesmo tronco histórico-cultural e
espiritual do cristianismo. São tradições de origens
distintas. Aliás, se quisermos extrapolar a metáfora,
podemos afirmar que não são galhos da mesma
árvore, mas espécies vegetais diferentes no grande
bosque da verdade.
"Ter ciência disso é essencial para a compreensão
da mitologia e do culto afro. A título de exemplo:
não existe, nessas religiões, o conceito de bem e
mal, tal qual é ensinado nas religiões de procedência
cristã. A espiritualidade desses cultos, absolutamente
respeitáveis em seus fundamentos, está
intimamente associada a um ritual próprio, riquíssimo
em significado. Tão variados quanto os homens
que os interpretam, tais ritos são recheados
de elementos materiais, que trazem um simbolismo
merecedor de estudo por parte de pessoas sérias
e de pesquisadores do psiquismo e dos agrupamentos
humanos.
"Portanto, não há ponto de comparação entre um
tipo de religião ritualística, cujos recursos pedagógicos
são de ordem material — como a representação
dos orixás em seus assentamentos, os ata23
8


baques, as velas, indumentárias e oferendas, entre
outros apetrechos — e, de outro lado, uma filosofia
religiosa de caráter eminentemente espiritual
e metafísico, desprovida de elementos simbólicos
cognitivos e representativos, como é o caso do espiritismo.
Talvez a noção mais acurada que este nego
possa transmitir para meus filhos acerca das nações
do candomblé esteja associada às idéias divulgadas
pela umbanda — embora sejam religiões distintas
entre si, distantes inclusive na origem histórica, e
que não devem ser confundidas em nenhuma hipótese.
Não obstante, é inegável que a umbanda faz
uma ponte, estabelece um elo entre conceitos como
orixás e divindades africanas e o pensamento espírita,
que versa sobre idéias como reencarnação,
imortalidade, responsabilidade espiritual e social."

— E como o senhor vê a matança de animais que se
realiza nesses cultos de origem africana?
— Tudo depende do ponto de vista a partir do qual
se observam tais rituais, meu filho, que estão sujeitos,
inclusive, a diferenças segundo seu autor ou
executor. Nego-velho talvez veja a coisa por um ângulo
pouco convencional. Embora reprove a prática
de sacrifícios, eu a estudo, como qualquer estudioso,
tentando vê-la sob as melhores lentes possíveis
e procurando identificar sobretudo as razões
que levam ao exercício e ao cultivo dessa tradição.
23 9



Segundo posso entender, meu filho, o costume de
matar animais com fins ritualísticos é um resquício
das religiões ancestrais, que caminham rumo
a maior espiritualização ou compreensão da espiritualidade.
É bom lembrar que, à época de Jesus,
a própria sociedade judaica, berço do cristianismo,
tinha o sacrifício de animais como regra de conduta
ao adorar a Deus. E Jesus jamais censurou ou condenou
tal costume em sua essência, pois sabia respeitar
as tradições.
"Na umbanda, não há necessidade das oferendas
animais, nem tampouco em nossa maneira particular
de exercer a busca por espiritualidade, cá na
tenda. Entretanto, alguns cultos de raiz africana
também não realizam matanças, conforme interpretam
meus filhos. Usam os animais apenas para
sua nutrição, como a maior parte das pessoas faz no
cotidiano. Assim como há abatedouros em todos os
países que comercializam diversas criações para o
consumo, muitos rituais diferem desse hábito apenas
porque emprestam conteúdo místico a tal feito.
Abatem o animal com um sentido maior de respeito
e veneração à natureza, obedecendo a princípios
de sua fé. Como a maioria dos habitantes do mundo,
os praticantes de certos cultos de nação ingerem
algumas partes do animal sacrificado ou abatido.
As porções que julgam imprestáveis à alimen


24 0


tação — geralmente entranhas, asas, pés, pescoço e
outros pedaços mais —, ofertam-nas de volta à natureza,
em gratidão pelo dom maior, que é a vida.
Tais adeptos costumam apresentar essas partes do
animal sacrificado às forças representativas dos
orixás, como que agradecendo pelo alimento, compartilhando
as bênçãos adquiridas para a manutenção
de suas vidas.
"Talvez, meu filho, essa seja uma visão diferente da
que habitualmente se vê acerca daqueles que professam
um culto diferente daquele a que estamos
acostumados. Essa é sua forma de entrar em contato
com as energias da natureza, a qual visivelmente
remonta à vida tribal e ancestral."
Meditando um pouco em como prosseguir sem afetar
as crenças de seus ouvintes, o pai-velho, logo
após, complementou:


— Mas ainda aí temos de considerar a intenção.
Para tanto, vale abstrair-nos da realidade contemporânea
e analisar a questão novamente. Por exemplo:
o homem na atualidade promove a briga de
bois em alguns países, em nome de festejar as tradições,
além de criar aves, suínos, caprinos e bovinos
em geral para o abate. Tudo isso sucede em
países ricos, ocidentais, que se consideram civilizados
e, por vezes, arvoram-se em referência para os
demais povos da Terra. Pois bem, justamente nes241




sas sociedades democráticas e civilizadas, promove-
se a matança de criações sem nenhum escrúpulo,
e, apesar disso, tal ato é visto de modo absolutamente
normal, natural e necessário. Por que não se
combatem tais práticas, que nos matadouros ocorrem
em larga escala e em dimensão muito mais grave,
chegando a requintes de crueldade que não se
vêem nos barracões e roças do candomblé?
"Nego não está defendendo o sacrifício de animais,
que, como disse, não aprova. O que Pai João está
querendo mostrar, meus filhos, é como é hipócrita
a atitude de muita gente por aí, que se diz boa,
religiosa e moralista, mas pretende censurar aqueles
que executam determinados trabalhos dotados
de um sentido bem mais profundo do que eles emprestam
a suas realizações — até porque, no fim das
contas, continuam se fartando de carne e vertendo
o sangue de animais inocentes. Refestelam-se
com o cheiro dos assados na churrasqueira e, ainda
assim, insistem em criticar o aroma do incenso
de outros, que tentam acertar em seu caminho espiritual.
Pai João quer apenas induzir meus filhos
a uma reflexão mais abrangente e profunda, de tal
maneira que não se atirem pedras no próximo. Que
se concentrem em tirar dos próprios olhos a trave
que nubla sua visão mais seriamente que o argueiro
no olho alheio, antes de condenar indivíduos que se

242


distinguem por uma filosofia de vida diversa e pautam
sua fé num saber milenar.

— Isso quer dizer, meu pai, que o senhor aprova esses
rituais?
— Não é esse o mérito da questão, meu filho. O que
nego-velho deseja ressaltar é o mau hábito de julgar
os outros e de fazer comparações infundadas e
a necessidade de sermos coerentes com aquilo em
que acreditamos e que professamos. Falta muita coerência
entre os seguidores do Cristo. Falamos mal
da religião do próximo sem conhecer-lhe os fundamentos.
Declaramos apressadamente que o outro
está obsidiado ou assistido por espíritos inferiores,
apegados à matéria; porém, no fundo, nossa atitude
destoa da doutrina que afirmamos abraçar. Nossa
forma de viver, nosso comportamento social, nossa
conduta diária atestam muitas vezes contra aquilo
que pregamos. É disso que nego-velho fala; é contra
essa realidade que devemos nos precaver.
— E esse negócio de a pessoa ter de fazer o santo,
dar oferendas e, assim, estar protegida contra as forças
da maldade? Como o senhor vê isso, meu pai?
— Nego-velho é suspeito para falar desse assunto,
meu filho. Como espírito, não vejo necessidade alguma
de ninguém se submeter a práticas ritualísticas
desse calibre, principalmente se agressivas ou de
ordem mais material. Embora — enfatizava o preto24
3



velho — eu seja o primeiro a defender o direito de
quem quer que seja de agir, pensar, acreditar, cultuar
e fazer aquilo que deseja. Como alguém que está
comprometido com a mensagem e a visão libertadora
do espírito Verdade, nego-velho trabalha pela
libertação da consciência, pela iluminação interior
através do conhecimento imortalista. Ciente de certos
aspectos da vida espiritual, suas conseqüências e
seu alcance, não acredito ser necessário, no momento
atual da humanidade, sujeitar-se a determinados
rituais, mesmo que pareçam imprescindíveis a muitos.
Tudo é questão de evolução do pensamento.
"Quanto à crença de que fazendo isto ou aquilo a
pessoa se protegerá, temos de rever também nossa
visão a respeito de segurança energética e espiritual.
É inócuo participar de processos externos
na tentativa de obter segurança energética, assim
como entregar-se a práticas que visam ao chamado
fechamento do corpo, se a mente permanece em
circuito fechado, numa idéia estacionária, sem iluminar-
se, sem obedecer à torrente de progresso. É
urgente convencer-se de que a maior segurança espiritual
de qualquer um começa pela adoção de atitudes
sadias, coerentes, nobres. Passa por uma postura
íntima inequívoca, consistente com aquilo que
se crê e se procura, bem como com a ética nas relações
humanas. A partir dessa reeducação e da am


244


pliação dos valores da alma, teremos a ajuda de espíritos
comprometidos com nossa imunidade energética
e mental."
O pai-velho foi muito enfático em suas palavras
nesse diálogo com os trabalhadores de sua casa de
oração. Outros filhos e tarefeiros externaram suas
indagações com relação à segurança energética e às
defesas pessoais.

— O senhor quer dizer que há necessidade de a
gente desenvolver uma atitude mental sadia antes
de procurar nos resguardar de energias contrárias?
— expressou sua dúvida um dos trabalhadores.
Procurando palavras para se fazer melhor compreendido,
João Cobú respondeu, lentamente:
— Pois é, meu filho, algumas pessoas se dedicam a
fazer assentamentos de exu e a invocar a força dos
guardiões, pretendem se imunizar com amuletos,
pingentes ou patuás. Usam toda sorte de artifícios
para ficar sob uma redoma de proteção energética.
Ao assistir a essa busca desenfreada, nego-velho
pensa simplesmente o seguinte. Se a pessoa está
tão preocupada assim com sua segurança energética,
quem sabe o que está sentindo não seja um
reflexo da sua insegurança interna? De suas atitudes,
que merecem ser recicladas com urgência, ou
de sua conduta, que, de alguma maneira, a perturba
por saber que está agindo de maneira contrária
24 5



àquilo que se espera de alguém consciente da vida
espiritual? Quem sabe?
"Nego-velho apenas levanta essa hipótese por notar
tanta gente aparentemente boa defendendo a necessidade
de se ter um gongá em certos locais que
não têm esse procedimento como regra. Querem induzir
outras pessoas a fazer assentamentos de exu,
quando tal prática não se coaduna com a proposta
espiritual do indivíduo ou de sua comunidade religiosa.
Exigir isso do outro é equivalente a impor ao
umbandista o abandono de seus rituais e suas práticas,
de sua forma de exercer o culto, em favor da
adoção de uma fé mais espiritualizada que a dele,
conforme o entendimento parcial de alguém.
"Antes de tudo, deve-se perceber que a verdadeira
segurança está, como eu disse anteriormente, na
intimidade do ser. Os guardiões e as forças superiores
do bem só podem trabalhar pelo indivíduo ou
pela comunidade se ancorados no comportamento
das pessoas, em sua conduta. Essa é uma realidade
da qual ninguém poderá se furtar."

— Meu pai, com relação à segurança energética e à
conduta que a promove, freqüentemente nos pegamos
preocupados com as questões íntimas e as
de nossa comunidade. Como devemos proceder ao
abrir atividades de ordem espiritual? — perguntou
um dirigente e pesquisador espírita, que resolvera
24 6


acompanhar de perto os ensinamentos do pai-velho.

— Sem sombra de dúvida, inaugurar ou começar
qualquer atividade de ordem espiritual sem estabelecer
a segurança espiritual, sobretudo caso
haja intercâmbio mediúnico, é complicado e perigoso
— respondeu Pai João. — Primeiramente, é
preciso conhecer quais espíritos integram a equipe
responsável pelos trabalhos e os que, de modo
particular, zelam pela segurança.
— Mas a maioria das casas espíritas não sabe sequer
quem é o seu mentor, quanto mais ter acesso a
esses espíritos! Muitos dirigentes afirmam que não
é necessário saber quem compõe a equipe, que temos
de confiar na espiritualidade...
— Pois é, meu filho. Nego-velho acredita que centro
espírita sem espíritos é igreja. Portanto, vê com
grande pesar tanta gente cheia apenas de boa vontade,
tentando fazer o que pode. Ocorre que, em
matéria de espiritualidade, boa vontade, sozinha,
não basta. Há necessidade de conhecer, aprimorar
o conhecimento. Por isso, é imperativo evocar os
espíritos responsáveis pelos trabalhos, indagar, ser
insistente com o objetivo de descobrir como funciona
o planejamento espiritual da instituição. Para
que haja uma relação transparente e de confiança
entre encarnados e desencarnados, vocês têm de
conhecer com quem trabalham. Isso é essencial!
24 7



"Existe muita gente e muito centro espírita ou tenda
umbandista operando com obsessores disfarçados
de guias e mentores. Infelizmente, é um fato, que.
como espírito, observo em muitos lugares. Como
combater isso?5 Pai João acredita que é fundamental
estabelecer uma relação clara, aberta e transparente
através da mediunidade para se saber com
quem trabalha e quais os planos de ação, as metas
dos mentores em relação ao agrupamento e aos médiuns.
E isso só é possível mediante diálogo, questionamentos
e pesquisa junto aos espíritos. No âmbito
da guarnição espiritual não é diferente. Se a casa deseja
conhecer a identidade dos guardiões que amparam
os trabalhos, só há um jeito: perguntando. Afi


5 Com relação à indagação do pai-velho, pode-se anotar que Allan Kardec

adotou ao menos dois métodos. De um lado, esquadrinha a equipe espiri


tual, que nomeia com desenvoltura ao longo da obra da codificação, esta


belecendo nitidamente o vínculo de cada qual com este ou aquele aspecto

da filosofia e da ciência espíritas. De outro, praticou à exaustão o princípio

de questionar sempre os espíritos. Afinal, foi de interrogações que o es


piritismo nasceu. O livro dos espíritos, obra que funda a doutrina espírita,

é composto a partir das perguntas formuladas por Kardec, retomando a

forma de diálogos da filosofia clássica. Inúmeras vezes, ao longo de seus

textos, o Codificador recomenda a elaboração prévia de questionários ao

se tratar com os espíritos, em detrimento das comunicações espontâneas,

que hoje se tornaram regra geral no movimento espírita.

24 8


nal de contas, como podemos confiar a qualquer um

o comando energético de nossas atividades? Como
entregar a um ser anônimo a guarda de nossos trabalhos?
De que modo esperar resultados satisfatórios
se ignoramos com que espíritos interagimos?"
— É, faz muita falta no meio espírita a prática a que
o senhor se refere — tornou o visitante. — De toda
forma, nas situações em que o dirigente dos trabalhos
e os próprios trabalhadores conhecem a equipe
espiritual, como fazer para aumentar as defesas e
contribuir para o bom desempenho das atividades?
— Começando pelo começo, meu filho. Abrem-se os
trabalhos com os guardiões, evocando-os para que
possam assumir o comando energético e as defesas
espirituais do lugar. Uma vez estabelecidas as defesas
energéticas, faz-se a limpeza do ambiente, dos
médiuns e dos trabalhadores e, logo após, formamse
os campos de força e de contenção. Para isso é
importante conhecer técnicas avançadas de magnetismo,
sem as quais não há como se preservar de
energias discordantes.
Depois de ouvir atentamente as explicações do paivelho,
o bom homem resolveu abordar outra face do
conhecimento espiritual e da prática mediúnica:
— Algumas pessoas na atualidade têm se dedicado
à prática de um tipo específico de reunião mediúnica.
Dizem se chamar apometria. Como espírito e
249



pesquisador da verdade espiritual, como o senhor
vê isso, Pai João?

— Com muita boa vontade, meu filho. Contudo, tenho
de observar algumas questões que merecem reflexão.
Por exemplo, alguns entusiastas da apometria
como técnica de desdobramento têm difundido
que basta emitir um comando verbal acompanhado
do estalar de dedos, e pronto: consegue-se o desdobramento
de alguém. Ou que, com apenas alguns
dias de estudo, um curso qualquer, todo candidato
torna-se apto a mentalizar e dar comandos de energia
ou pulsos magnéticos de grande intensidade.
"Nego-velho fica pensando como tem gente que
vulgariza questões espirituais a tal ponto de julgar
ser possível, mediante um simples estalar de dedos,
obter resposta mental e agir sem empecilho no plano
extrafísico. A única conclusão a que posso chegar
é que muita gente perdeu a noção dos limites,
o senso de autocrítica e quer resultados rápidos
sem dedicação. Não há como manter a mente em
sintonia ou arregimentar recursos para a criação
de campos de força após poucos minutos de dedicação.
A mente precisa ser adestrada por meio de
exercícios regulares de criação mental para que se
possa lograr êxito. Porém, nada disso é milagroso!
A ninguém é dado agir no plano extrafísico com
desenvoltura tão-somente pronunciando algumas
25 0


palavras, estalando dedos, sem submeter-se a treinamento
demorado, persistente e disciplinado. Só
gradativamente, mediante prática contínua, é que
se desenvolve tal força mental, tal capacidade de
comando. Não ocorre como muita gente pensa,
pretendendo obter esses predicados em apenas alguns
dias ou meses de treinamento.
"Então, nego-velho vê com muito carinho esses
esforços de meus filhos, entretanto acredita sinceramente
que o assunto reclama bem mais estudo,
disciplina mental e ainda muitíssimo estudo antes
de iniciar atendimentos em qualquer grupo, despreparadamente;
antes de mergulhar na vivência
das questões mediúnicas e espirituais propriamente
ditas.

— Não basta ter um integrante que conheça certos
métodos de abordagem dos problemas humanos e
algumas técnicas de apometria?
— Basta sim, meu filho. Basta para a derrocada espiritual
do grupo e para a insatisfação de quem procura
pessoas despreparadas. Se a finalidade é obter
resultados concretos, passíveis de serem comprovados,
deve-se acompanhar os casos, idealmente,
a cada semana, procedendo a uma anamnese detalhada.
Além disso, a equipe que se reúne para praticar
apometria tanto quanto qualquer outra ciência
ou técnica espiritual e que não se aprofunda no co25
1



nhecimento espírita é um grupo fadado ao fracasso,
embora a boa vontade de seus condutores.
"Já visitei muitos agrupamentos que se formam
com o intuito de auxiliar, mas cujos integrantes não
gostam de estudar. Tornam-se prisioneiros do fenômeno,
mas desconhecem questões básicas a respeito
da maneira de abordar os espíritos. Como não investem
em aprender, conhecem muito superficialmente
a fisiologia espiritual elementar; mal ouviram
falar do perispírito e de sua relação com os fenômenos
mediúnicos; ignoram as leis que regem o
intercâmbio mediúnico; não têm ciência sequer das
bases da ectoplasmia, do magnetismo, do duplo etérico,
da força mental e de coisas semelhantes. Apesar
disso, aspiram a qualquer trabalho que envolva
apometria, mediunidade e assuntos correlatos.
"Encontram-se eufóricos com as desinformações
que se divulgam sobre o assunto, acreditando que
apometria é uma vara de condão que tudo resolve.
Logo depois de fundar os grupos, afundam-se num
mar de equívocos e melindres. Precisamos de muito
estudo, meus filhos, de formar — e conservar —
um grupo que fale a mesma língua, que persiga a
homogeneidade constantemente."
Respirando fundo, como que a medir suas palavras,

o pai-velho prosseguiu:
— Já presenciei certo grupo sendo guiado por um
252


operador que pronunciava expressões empoladas,
tais como: "arcos voltaicos", "formações dimensionais
da esfera superior", "formando campos do
primeiro subnível" e outras pérolas do gênero. Enquanto
falava, quase forçando os movimentos e agitando
vigorosamente os dedos, os médiuns nem de
longe sabiam o significado daquelas palavras. Posso
dizer com segurança que nem mesmo o tal dirigente
que inventara tais frases conhecia algo a respeito.
Diante disso, nego pergunta: qual força poderá ser
canalizada em prol de um objetivo que não é nem
sequer compreendido?
"O que mais existe por aí, meu filho, são pessoas a
forçar determinadas situações para que sejam vistas
como expertas em alguma iniciação espiritual,
em mediunidade e assuntos do espírito. Nessa tentativa
frustrada, formam bandos de gente que não
se entende entre si, mas que pretende ajudar indivíduos
crédulos e incautos com uma ferramenta
que, por sua própria natureza, merece maior aprofundamento,
estudo e cautela. Aliás, boa dose de
cautela não faz mal a ninguém."

— Pelo que se vê, aquilo que se pratica em muitas
casas não é confiável. Correto, meu pai?
— Não é bem assim, meu filho. Nego-velho critica é
a mania generalizada de querer formar grupos mediúnicos
sem preparo nem estudo pormenorizado,
25 3



demorado e profundo das questões espirituais. Há
gente boa e com grande disposição, mas que atropela
a razão com o coração e as emoções. Reúne-se,
muitas vezes, um grupo de pessoas cheias de boa
vontade, porém sem qualquer identidade espiritual;
transcorridos poucos meses de estudos, ministrados
somente uma vez por semana, julgam saber
o suficiente e possuir os elementos necessários
para abordar casos complexos. É disso que pai-velho
está falando.
"Então, quando se pretende erguer uma defesa
energética contando com o comando de alguém
que imagina resolver tudo com um simples estalar
de dedos, que negligencia o acompanhamento à
pessoa após o atendimento, que não dá indicações
nem palmilha, junto com o consulente, o caminho
de sua reeducação mental e emocional, como se
pretende ser levado a sério? Tudo é questão de coerência.
E mais: atende-se um número enorme de
casos em apenas uma reunião, como se fosse um
serviço público de baixa qualidade ou uma linha
de produção. Nesses locais, as pessoas não são vistas
como seres humanos, mas como desafios para
patrocinar a ostentação de grupos mediúnicos que
não são capazes de solucionar os dilemas dos próprios
integrantes."
Neste momento, dando por encerrada aquela con


25 4


versa, o pai-velho acrescenta:

— Bem, meus filhos, vamos ao trabalho. Por hoje, nego-
velho já deu a conhecer o que pensa a respeito de
muitas questões. Espero que não vejam em minhas
palavras algo com que sejam obrigados a concordar,
muito menos o ponto final da questão. São apenas
opinião de quem está aprendendo e estudando do
lado de cá da vida. Afinal, nego-velho não é nenhum
mestre, mas apenas um aprendiz da vida.
25 5



demonstrar consideração pelos benfeitores que
atendiam na tenda de Pai João, os quais não poderiam
ficar à disposição das pessoas devido aos compromissos
assumidos em outras dimensões da vida.
O pai-velho mal havia se dirigido às macas onde
atenderia aos consulentes, na companhia de outras
entidades, quando foi interpelado por uma mulher
que seria auxiliada naquele dia.

— Sou trabalhadora de uma casa espírita — começou
a mulher. — Venho aqui pedir ajuda. Queria saber
por que não me deixam trabalhar ministrando
passes lá na casa que freqüento; parece que o pessoal
de lá não me quer como voluntária.
— Minha filha, o que lhe traz aqui à procura de ajuda?
— perguntou o pai-velho antes de responder ao
questionamento que lhe fora feito.
Enquanto se deitava na maca, onde mais dois outros
médiuns auxiliavam no processo de tratamento,
a mulher relatou ao pai-velho:
— Tenho tosses constantes, meu pai. Parece que o
pulmão está, de alguma forma, comprometido, e
minha respiração, entrecortada.
— E mesmo se sentindo assim você queria ser admitida
como passista numa casa de caridade?
— Pois é, meu pai. Um dia um espírito me falou —
eu sou médium também, sabe? — que eu deveria
trabalhar muito e que, mesmo me sentindo assim,
25 8


eu poderia aplicar passes e ser médium de cura.

— Ah! Filha... Acho que esse seu mentor precisa
é de oração. Veja que o conselho dele é algo muito
questionável. Aliás, acho mesmo, filha, que você
tem uma imaginação muito fértil.
— Como assim, Pai João?
— É que você só imagina aquilo que lhe interessa.
Como você quer ministrar passes magnéticos se é
vítima de si mesma?
— Não entendi!...
— Seu caso de pulmão é devido ao hábito de fumar,
minha filha. Como pensa que pode oferecer fluidos
balsâmicos para alguém se esse fluido está contaminado
pelo uso do cigarro? Acha mesmo que um
espírito sério lhe convocaria ao trabalho do passe
sendo que suas energias vitais estão contaminadas
pelo alcatrão e pela nicotina? Como ficariam as
pessoas que recebessem suas energias ou os passes
ministrados por você?
"Sabe, filha, primeiro você precisa dominar-se, adquirir
controle sobre si mesma; só então poderá ensaiar
o direcionamento dos fluidos através do passe.
Como pretende manipular as energias da natureza
utilizando o magnetismo curador se não consegue
administrar um vício como o do cigarro, que
lhe faz escrava? No mínimo, isso é incoerente. Antes
de qualquer coisa, você precisa se cuidar, obser25
9



vando sua saúde com maior atenção, procurando
assistência médica e, depois, após conseguir desintoxicar-
se através de algumas terapias energéticas,
precisa se submeter à orientação espiritual. Aí, talvez,
quem sabe possa aplicar passes?"
Impondo as mãos sobre a mulher, sem tocá-la, o
pai-velho havia conduzido o assunto para outro aspecto:
a saúde daquela que o procurara.
Enquanto a mulher deitada na maca pensava no
que lhe havia sido dito, o pai-velho voltou-se para
um dos trabalhadores, que estava iniciando naquele
dia o atendimento nas macas, e lhe disse:

— Antes de tentar qualquer abordagem com o consulente,
meu filho, deve-se fazer uma anamnese
detalhada daquele que busca orientação. Nada de
atendê-lo sem preencher uma ficha com seu histórico,
abordando os problemas tanto de ordem física
quanto emocional, além de dificuldades espirituais
de que eventualmente a pessoa se queixe.
Emocionado pela possibilidade de aprender diretamente
com o pai-velho, Djalma, o novo trabalhador,
falou sensibilizado:
— Há algum motivo para se fazer a anamnese antes
do atendimento?
— Claro, meu filho. E não é só isso. A pessoa que
busca orientação deveria assinar a anamnese. Isso
evita que meus filhos sejam incriminados, caso
260


ocorra alguma coisa fora do esperado. Com o documento
arquivado por vocês, a pessoa não poderá
dizer depois que foi submetida a um procedimento
terapêutico contra a sua vontade. Além disso, nessa
ficha individual teremos o histórico completo
do consulente e o motivo de sua procura por tratamento.
É um procedimento de segurança para vocês,
no plano físico.
"Depois — continuou João Cobú, ainda se dirigindo
a Djalma —, com objetivo de estabelecer ligação
com a realidade energética da pessoa, toque levemente
seu pulso. Nesse toque, procure perceber a
pulsação dela, seu batimento cardíaco. Tal procedimento
é importante para obter sintonia com o ritmo
biológico do indivíduo. Não tenha pressa nesse
momento. Procure adequar sua respiração ao ritmo
respiratório da pessoa."
Pai João induziu Djalma a experimentar esse procedimento
com a pessoa sobre o leito. Djalma concentrou-
se, fechou os olhos, com as duas mãos segurando
o pulso da mulher. Ao lado, outro médium acompanhava
o processo, em oração. Incorporado em seu
médium, João Cobú conduzia tanto o atendimento
quanto o aprendizado do novo trabalhador.

— Lentamente procure sondar o interior da pessoa
e sentir o que ela sente, meu filho.
— Sinto culpa de alguma coisa, meu pai. É como se
261



ela sentisse vergonha de algo que fez...

— Não precisa falar com a consulente, meu filho.
Deixe o bate-papo para outro momento. Por ora,
basta sentir, nada mais. Em seguida, os procedimentos
terapêuticos devem ser indicados, tomando precauções
para evitar o constrangimento da pessoa.
João Cobú assumiu novamente o atendimento da
consulente, conversando com ela:
— Filha, seu caso é essencialmente de educação da
vontade, ou melhor, reeducação de seu espírito. É
necessário que continue o tratamento médico, pois
nós, os espíritos, não viemos substituir a medicina.
Nosso tratamento é complementar.
— Mas eu não quero tomar remédios alopáticos, Pai
João. Eles são prejudiciais para nosso organismo...
— Minha filha — falou o pai-velho pacientemente.
— Mas você usa todo dia alimentos com vários aditivos,
fuma cigarros que contêm inúmeras toxinas,
ingere sua cerveja e outras bebidas mais, cheias
de impurezas e produtos químicos e, apesar disso
tudo, quer me dizer que não usa medicamentos
prescritos pelo médico porque fazem mal?
— É que só gosto de coisas naturais, Pai João...
— Ah! Sei. Como os cigarros que fuma, as bebidas
que engole... Tudo muito natural!
Sem esperar resposta da consulente, o pai-velho
a despediu com o máximo cuidado, evidenciando
26 2


preocupação com sua saúde:

— Bem, minha filha, façamos assim. Você retorne
ao seu lar e faça muita oração para que possa abrir
sua mente. Depois marque uma consulta com seu
médico. Somente depois que estiver em tratamento
e trouxer sua receita aviada, é que prosseguiremos
com o auxílio terapêutico energético.
A mulher levantou-se da maca, não entendendo o
que o pai-velho queria dela nem como fora liberada
sem receber ajuda.
Voltando-se para o novo trabalhador, João Cobú falou
antes que ele perguntasse:
— Não se assuste, meu filho. Cada um recebe a ajuda
que precisa, e não a que quer. Esta mulher deve
se submeter urgentemente ao tratamento médico.
Ela está desenvolvendo um câncer, embora se recuse
a fazer o que o médico orienta. Se nós a atendermos
aqui, criará ainda maior resistência contra
o tratamento prescrito por seu médico e ficará
abrigando no coração esperanças de que vai se
curar apenas com o tratamento espiritual. Não é
esse nosso objetivo.
— Não podemos fazer nada por ela, meu pai?
— Já fizemos, filho. Mas ela não precisa saber disso.
E terá muito que pensar por estes dias. Só a atenderemos
novamente quando ela se conscientizar de
que precisa da medicina da Terra. Aí entraremos
26 3



com o complemento. Ainda aí, repare que nego-velho
quer evitar problemas para vocês. Já imaginou
se esta mulher entra numa crise de saúde durante

o atendimento magnético, meu filho? Vocês podem
ser classificados como praticantes de curandeirismo.
Se, por outro lado, estiver sob tratamento médico,
vocês estarão amparados legalmente, segundo
as normas vigentes em seu país. Aí podemos entrar
com uma avaliação energética e o complemento
do tratamento.
Instantes depois, outra pessoa foi conduzida à maca,
após passar pela avaliação dos trabalhadores, realizando-
se a anamnese aconselhada pelo pai-velho.
Conduzida à maca, deitou-se em silêncio, em oração.
O pai-velho aproximou-se, incorporado no
médium, postando-se atrás da cabeça da mulher.
Colocou suas mãos espalmadas sobre os olhos dela,
ao passo que um dos médiuns assistentes auscultava-
lhe através dos pulsos. Música suave envolvia a
atenção da consulente, motivando um estado alterado
de consciência.
Enquanto as mãos do médium de João Cobú permaneciam
sobre a cabeça da mulher, o pai-velho,
em espírito, acoplava instrumentos à forma perispiritual
dela, atuando sobre certos órgãos de seu
psicossoma. Realizava uma cirurgia sem instrumentos
físicos. Rapidamente, produzia reações no
26 4


corpo dela, através da manipulação fluídica nos
chacras, no cérebro e mesmo na mente. Assim que
fez a sua parte, o pai-velho orientou os dois médiuns
que o auxiliavam:

— Usem do recurso magnético de que são portadores,
meus filhos, e formem um campo abençoado
de energias, de defesa em torno da nossa companheira.
Esse campo de defesa energética deve ser
fortalecido pelo menos uma vez ao mês durante o
processo de tratamento de nossa pupila.
— E quanto aos demais procedimentos, meu pai?
Podemos prescrever algo mais?
Incentivando a participação dos médiuns, de forma
que não se tornassem dependentes dele, Pai
João redarguiu:
— O que vocês prescreveriam, neste caso? Como
agiriam, segundo o que têm aprendido?
— Bem, creio eu que ela precisaria passar por um
tratamento de desintoxicação do duplo etérico e do
corpo físico — respondeu Djalma. — E, para isso,
aconselharia banhos de imersão semanais com o
sumo de algumas ervas.
— E qual erva você empregaria neste caso, meu filho?
— voltou a perguntar o pai-velho.
Olhando para o outro médium, que ficara em silêncio,
Djalma discorreu com uma tranqüilidade de
chamar atenção:
26 5



— Levando em conta a característica de certas ervas,
eu indicaria arruda, levante e pinhão. Acho que
serão suficientes para a desintoxicação. Porém, depois
que tomar pelo menos três banhos de imersão,
poderíamos acrescentar ainda dois ingredientes.
Quem sabe o manjericão e a camomila como chás?
Afinal de contas, ela precisa trabalhar emoções que
favoreçam sua recuperação.
— Pois bem, meu filho — observou o pai-velho, sorridente.
— Então faça o que tiver de ser feito. Mas
não se esqueça do principal.
— Posso falar, meu pai? — interrompeu o outro
médium, que até ali se mantivera calado.
— Não precisa pedir licença, meu filho. Estamos no
trabalho como auxiliares do Cristo.
— Acho que o principal seria motivar uma reflexão
sobre o que levou esta enfermidade a se desenvolver.
Talvez lhe seja benéfico ouvir palestras em nossa
tenda ou em algum outro lugar e refletir bastante
para evitar que a enfermidade volte a se manifestar.
Enfim, mudança de atitude.
Dando-se por satisfeito com seus dois colaboradores,
João Cobú terminou o atendimento:
— Isso mesmo! Fico contente que estejam estudando
as lições que temos compartilhado em nosso remanso
de paz. Creio que não dependem de eu estar
incorporado para prosseguirem no atendimento.
26 6


Ambos os médiuns conduziram a mulher ao aposento
anexo, onde ficaria repousando por algum
tempo antes de sair do ambiente, enquanto outra
pessoa era direcionada para a maca, então desocupada.
Assim que se deitou, conduzida por um assistente,
a mulher disparou, pois mal conseguira manter-
se calada até ali:

— Meu marido me deixou, meu pai. Acho que ele
arranjou outra mulher. Aposto que tem feitiçaria,
alguma macumba, na certa. Será que o senhor poderia
me mostrar quem fez esta macumbaria toda
contra mim?
— Minha filha, Deus seja louvado. Aqui nós estamos
atendendo casos de saúde, filha. E como você
nos pediu ajuda para problemas orgânicos, pois reclama
dores fortes em seu fígado...
Interrompendo a entidade, a mulher partiu com
mais pedidos:
— Meu fígado incomoda sim, mas o que eu quero
mesmo é saber quem fez feitiço para tirar meu marido
de mim. Isso me incomoda muito mais!
Mirando, paciente, a pobre mulher, o preto-velho
Pai João de Amanda anunciou:
— Minha filha, é verdade que disponho aqui de
um método para lhe mostrar a pessoa responsável
pela sua infelicidade. Vamos fazer assim: depois
que lhe mostrar, aí a atenderei com o tratamento
26 7



do fígado. Que acha?

— O senhor pode me mostrar, então? Jura?
— É claro, filha. Basta você se concentrar bastante.
Vamos, levante-se...
Pai João conduziu a mulher para um cômodo próximo
na companhia dos dois trabalhadores, que
não entendiam nada do que o pai-velho pretendia.
Afinal, sua atitude não era nada ortodoxa.
— Feche bem os olhos e faça uma oração, que é para
você ter forças para ficar frente a frente com a pessoa
que está fazendo feitiçaria contra você. E somente
abra os olhos quando eu lhe indicar o momento.
Enquanto a mulher rezava um Pai-Nosso, o pai-velho
a conduziu a um canto da sala.
— Respire fundo agora e prepare-se para ver a pessoa
que está destruindo sua vida e seu casamento.
Agora abra seus olhos.
Antes de abrir, a mulher pensava em vingar-se da
pessoa que tirara seu marido. Quando abriu os
olhos, viu-se refletida no espelho à sua frente.
— O que o senhor quer dizer com isso? Não entendi...
— balbuciou a mulher.
— Veja por si só, minha filha. Esta é a pessoa que está
fazendo feitiços contra você. Esta que está refletida
no espelho é a responsável por sua infelicidade.
Concedendo um pouco de tempo para a mulher
pensar, o pai-velho continuou a usar da técnica de
268


choque que empregava na terapia daquele dia:

— Imagine se fosse você o homem na situação. Seja
sincera, minha filha. Será que você se apaixonaria
por isto que vê aí no espelho? Será que morreria de
amores por esta figura, que reflete desleixo e falta
de amor próprio, deixando os cabelos por arrumar,
as roupas com evidente sinal de descaso e a pele
sem o mínimo cuidado? Será que algum homem
seria feliz ao lado de alguém que já perdeu o gosto
por si mesma?
As ponderações do pai-velho fizeram a mulher
chorar copiosamente, pois o que via no espelho era
o mais puro retrato do desleixo, de alguém que não
dispensava a si mesmo nenhum cuidado; que não
se amava, enfim. João Cobú deixou que as lágrimas
fizessem seu papel de lavar a alma daquela mulher,
provocando um choque de emoções que seria muito
benéfico para sua auto-estima.
— Pois é, filha. Esta aí é a responsável por seu casamento
não dar certo. Esta mulher que você vê aí
não lhe tirou seu marido, ela o deu de presente para
outra. Agora que você conhece quem é a autora de
sua infelicidade, que tal tomar algumas providências?
Que tal um servicinho, um trabalho que lhe
faça recuperar a vontade de viver, a estima e quem
sabe até seu marido?
Enxugando as lágrimas copiosas, a mulher indagou
26 9



do pai-velho:

— Como posso reverter a situação, meu pai? Que
posso fazer para recuperar meu amor?
— Primeiro, filha, você terá de aprender a se amar
mais. Veja o reflexo no espelho sem sentir piedade
de si mesma. Olhe o que precisa mudar. Dê um
jeito no cabelo, modifique sua postura; arrume-se,
mulher! — exclamou o pai-velho, enfático. — Você
está viva! Precisa reagir e dar mais valor a si mesma.
Quem poderá gostar de você, filha, se você estampa
na própria feição o desleixo e o desgosto que
sente consigo mesma?
Vendo que a mulher reagia a suas palavras, conduziu-
a novamente para a maca e deixou-a sob os cuidados
dos demais médiuns para os procedimentos
necessários à sua saúde física. Para alguns, o remédio
amargo funciona. Para outros, outros medicamentos
apropriados.
O pai-velho passou a um cômodo diferente para
continuar o atendimento a seus consulentes. Como
sempre, Pai João fora original em seus apontamentos,
sem passar a mão na cabeça de ninguém, visando
acima de tudo ao aprendizado de quem o procurava.
O líder espiritual daquela comunidade trabalhava
conforme sua proposta espiritual, e não segundo
o que as pessoas esperavam dele. Era questão
de coerência, nada mais.
270


desafortunados. Afinal, percebera que os mais desesperados
é que recorriam a milagres e promessas
e que estes estavam dispostos a dar qualquer quantia
para se ver livres dos problemas que os atormentavam.
Era mais conhecida como Mãe Otília. Morava
num sobrado imponente, mantido pelo segundo
marido. O primeiro morrera de doença grave após
envolver-se com elementos criminosos.
Quanto à sua mediunidade, realmente apresentava
fenômenos reais, uma produção mediúnica verdadeira;
todavia, sem qualquer comprometimento
com a ética, o bem ou a humanidade. Os espíritos
que a orientavam não se cansavam de enviar mensagens,
aguardando que ela pudesse, algum dia,
despertar a consciência para as responsabilidades
com sua tarefa mediúnica. Porém, o dinheiro vinha
em primeiro lugar.
Certo dia, uma de suas filhas-de-santo a procurou,
e Otília foi logo insinuando:


— Você precisa se preparar para ser minha supervisora
no terreiro. Vejo que seu futuro, Ângela, é muito
promissor. Os guias disseram que devo fazer seu
preparo na próxima Lua cheia.
Otília precisava de dinheiro para concluir a compra
de um sítio. Seu plano era obtê-lo a partir da fé das
pessoas mais chegadas.
— Você prepara um cabrito, sete frangos, e me traz,
27 4


além disso, sete velas de sete dias.

— Então serei sua supervisora aqui na tenda após a
preparação?
— É isso que os guias disseram. Mas tudo tem seu
tempo. Primeiro, a preparação no cemitério, com
os compadres, depois com os santos, e, mais tarde,
veremos o que os guias terão a dizer. Você sabe que,
para ficar à frente de um trabalho como este, precisa
ser preparada nas sete linhas.
— Eu sei, madrinha. Sei que nossa seita é muito séria
— assim pensava e acreditava Ângela.
— Então providencie logo o material e não se esqueça
de trazer o dinheiro dos compadres.
— Que dinheiro, madrinha? — indagou Angela, surpresa,
sem saber o que viria depois.
— Ora, você não sabe que temos de pagar os compadres
das encruzilhadas para você ser aceita e respeitada?
É uma forma de retribuição por tudo que
eles têm feito em sua vida. Eu também tive de pagar,
e muito, pois assim eles provaram minha fé.
— Mas como funciona isso, madrinha?
— Antes de fazer sua iniciação, você tem de provar
sua fé nos compadres da esquerda. Funciona assim:
traga R$7.000,00 que a gente vai na "encruza", à
meia-noite, e coloca tudo num alguidar com pólvora
dentro. Assim que a gente despachar, se o dinheiro
pegar fogo junto com a pólvora, é sinal de que os
27 5



compadres lhe aceitaram. Se não queimar, então a
gente pode pegá-lo de volta e você pode desistir. Se
eles aceitarem, a gente passa para a segunda etapa,
que exigirá muito mais fé de sua parte; uma entrega
total ao poder dos espíritos.

— Não sei como conseguir tanto dinheiro, madrinha,
mas se a senhora diz que é para eu ser aceita
pelo povo da "encruza", então vou ver se tomo
emprestado. Quem sabe o Manoel, meu marido, me
ajuda nisso?
— Pois é, filha, você sabe que eu te amo muito e tem
conhecimento de como é importante para o futuro
dos trabalhos. Acho que será uma futura chefe de
terreiro. Vejo isso em seus olhos.
— Você acha, madrinha?
— É claro! Tenho certeza, aliás. Já olhei isso em minhas
rezas e senti sua força vir ao meu encontro.
— Verei o que posso fazer a respeito, madrinha. Vou
tomar emprestado um pouco do Manoel e a outra
parte verei como conseguir.
— Ah! Mas não se esqueça do cabrito, das galinhas
e das velas. Serão usados depois, em outro preparo.
Ângela saiu cheia de esperanças e com a fé muito
mais reforçada em sua madrinha ou suposta
mãe-de-santo. Ela simplesmente não fazia idéia de
como conseguir tanto dinheiro, mas sabia que daria
um jeito.
27 6


Mal Angela cruzara os umbrais da porta, Otília se
pôs a conversar com o marido:

— Sei que teremos o dinheiro que nos falta. Conversei
com Ângela e ela acreditou que vou fazer sua
preparação no cemitério. Pedi os R$7.000,00 e estou
crente que ela vai conseguir. Façamos o seguinte.
Lembra aquele golpe que aprendemos com Eliana?
— Claro que me lembro, mas você pretende aplicar
o mesmo golpe em Ângela? Afinal, ela é mulher de
um grande amigo nosso.
— Que importa? Precisamos do dinheiro, e ela o trará
até nós. Pronto! Vamos testar com ela tudo que
aprendemos. Vou com Ângela lá para Várzea Grande,
mas você irá antes num outro carro. Assim que eu
colocar o dinheiro no alguidar e cantar para os compadres,
me afasto um pouco, ficando de costas para o
local onde depositamos o dinheiro e a pólvora...
Assim que Ângela conseguiu o dinheiro, não se sabe
como nem com quem, foi atrás da madrinha Otília,
como ela e outras filhas-de-santo chamavam a mulher
que as (des)orientava. À noite, as duas foram
ao local previamente combinado e, para dar um ar
de maior seriedade ao procedimento, Otília arrumou-
se com uma capa negra sobre um vestido vermelho.
Era o capeta em pessoa. Feia, de uma feiúra
de dar dó, a mulher sabia fazer-se respeitar ou temer,
como diriam seus seguidores.
27 7



Ângela trajava um manto azul escuro, conforme
Otília exigira, e se preparavam para o ritual que
pretendiam realizar. A médium proferiu palavras
incompreensíveis para Angela e cantou algumas
músicas exóticas, formando um quadro estranho,
tão místico e irreal parecia. Estavam próximas a
algumas árvores onde pretendiam depositar o dinheiro
trazido por Ângela, que, crédula ao extremo,
entregou-se por completo aos excessos e às barbaridades
cometidas por Otília em nome da pseudoreligião
que professava.
Tão logo as duas depositaram o dinheiro, como sinônimo
da fé de Ângela, afastaram-se lentamente,
entoando os cânticos exóticos que, de tão exóticos,
eram incompreensíveis. Algo que beirava o ridículo,
não fosse a fé da mulher que se entregara ao domínio
de Otília. Deram alguns passos, viraram-se de costas
e colocaram-se a uma distância segura do lugar.
Ângela tinha o coração palpitante pela expectativa de
ser recebida pelos compadres da encruzilhada, conforme
lhe fora dito pela médium em que confiava.
Com o intuito de envolver o feito numa atmosfera

o mais enigmática e misteriosa possível, Otília cobriu
a cabeça com o manto negro que trazia sobre
os ombros e pediu a Ângela que fizesse o mesmo.
Enquanto ambas encenavam a pantomima de um
ritual nada sagrado, Marcelo, o marido de Otília,
278


aproximou-se do local onde estavam depositados
os maços de notas junto com a pólvora e retirou o
dinheiro de dentro do alguidar. Em seu lugar, colocou
pedaços de jornal previamente rasgados e atiçou
fogo à pólvora por meio de um pavio. Correu
exatamente no momento em que o rastro do pavio
se consumia.
Quando as duas ouviram o barulho da pólvora crepitando,
Angela, toda satisfeita, comentou com sua
madrinha:


— Acho que fui aceita pelos compadres!...
— É, minha filha. Eu disse que você tinha jeito pra
ser chefe de terreiro ou não disse? Vamos embora.
Sem dar tempo para Ângela fazer novos comentários,
a médium perguntou:
— E os animais, as velas que lhe pedi? Você trouxe?
— Ah! Madrinha. Você nem imagina como fizemos
para conseguir tudo. Sabe aquele carro velho que
meu marido usava para trabalhar? Pois é, convenci
Manoel a vendê-lo, e, como o dinheiro ainda era
pouco, peguei o que a gente estava ajuntando na
poupança para nossa filha mais velha ir à capital
fazer vestibular... Deu para comprar tudinho. O cabrito
será entregue ainda amanhã.
É claro que Angela não conseguiria chegar à posição
prometida de madrinha da comunidade. Ao
menos, não apenas com aquele serviço. O caminho
279



era longo e teria de aguardar até ajuntar mais algum
dinheiro para a segunda obrigação, segundo
explicara Otília.

— Madrinha, madrinha — chamou Vera, uma das
afilhadas ou filhas-de-santo de Otília. — Tem uma
mulher aí dizendo que quer falar com a senhora.
— Mande esperar, que estou fazendo um processo
espiritual... Estou em contato com os guias! — gritou
Otília, do segundo andar de seu sobrado, para
a afilhada, que estava no térreo, atendendo alguém
no portão.
— Ah! Meu Deus, que chatice dessa crioula, que fica
o tempo todo no meu pé, incomodando...
— É mais um freguês, Otília — declarou o marido,
de onde estava. — Quem sabe você poderá ter alguma
intuição de seus guias tão bondosos?
Os dois entreolharam-se e acabaram rindo um do
outro, soltando uma gargalhada maliciosa, sem que
isso diminuísse a chateação de Otília por ser interrompida
no "processo espiritual" em que estava altamente
envolvida — com um copo de uísque na
mão, que bebia junto ao parceiro.
Desceu as escadarias uma hora e meia depois, deixando
a pobre mulher aguardando no sol, sem sequer
deixá-la entrar.
— A senhora é a D. Otília? Disseram-me que atende
28 0


todos os dias.

— Sou eu mesma, querida. Venha! Entre e sintase
à vontade. Eu estava em contato com os espíritos,
estava rezando... Você sabe, para ter acesso ao
mundo dos espíritos a gente tem que se dedicar
muito. Passo muitas horas do dia em oração, só eu
e os espíritos.
— Preciso da senhora com urgência. Quanto a senhora
cobra para a gente saber das coisas, das mandingas
que fizeram pra nós?
A mulher estava apavorada. Queria a todo custo
consultar-se com Otília, que aproveitou a situação
para, uma vez mais, explorar a fé ingênua de alguém
em desespero.
— Bem, minha filha. Aqui não se cobra nada, apenas
incentivamos as pessoas a deixar algum dinheiro
para manter o serviço do santo. Você sabe: da tranqueira
a velas, defumadores, banhos, bebidas etc. É
muita despesa. Dessa forma, estabeleci que as pessoas
que nos procuram devem deixar pelo menos...
— e mencionou uma quantia nada simbólica.
— Estou desesperada, minha mãe — principiou a
mulher. — Perdi quase todo o meu investimento
num negócio que faliu e hoje eu sei que tem coisa
feita contra mim. Só pode ser isso. Tentei de tudo,
mas nada, nada deu certo. Quero saber como fazer
pra descobrir quem fez o feitiço que destruiu mi28
1



nha vida e a de meus filhos. Pago qualquer coisa.

— Você está disposta a saber tudo mesmo? Olha
que tem gente que não está preparada para saber
de certas coisas...
— Eu pago o que puder pra desmanchar o que fizeram.
Até meu marido parece que está se afastando
de mim. Como deixar as coisas degringolando assim,
sem tentar desmanchar?
— Então seu marido já está desse jeito, afastandose
de você?
— Ele quase não conversa mais comigo! Está calado,
ensimesmado. Aposto que tem outra na jogada.
— Faz isso, mulher — aproveitou Otília. — Traz pra
mim um lenço branco virgem e uma rosa vermelha.
Vou mostrar a você quem está fazendo feitiço contra
sua vida. Me traga também um papel virgem,
branco, que nunca foi usado. Compre um novinho,
de preferência na sexta-feira... Ah! Uma vela também,
me traga uma vela branca. Assim que você tiver
tudo, me telefone e marcaremos um dia para eu
lhe mostrar o que está acontecendo.
A pobre mulher, desesperada, aceitou a proposta
indecorosa de Otília. Saiu à procura dos apetrechos
encomendados.
Durante a semana, Otília preparou uma folha branca,
onde escreveu um nome qualquer com uma
vela, de modo que a parafina ficasse invisível, per282



ceptível apenas ao tato.
Alguns dias depois, quando retornou Isabella, a mulher
que viera se consultar, Otília a recebeu à noite.
Pediu que ficasse quieta, sem falar nada. Pegou o material,
a vela branca, acendeu-a em frente a Isabella
e riscou um círculo no chão, fazendo com que a mulher
se postasse dentro dele. Quanto à rosa vermelha,
enrolou-a no lenço virgem e entregou-a a Isabella,
que deveria permanecer com os olhos bem abertos
durante o processo, para ver que Otília não estava
fazendo nada errado e que ela era uma pessoa que
cumpria o prometido. A rosa deveria ficar intocada
em poder de Isabella ao longo de uma semana, quando
deveria abrir o lenço e ver o que havia dentro.
Segurou a folha de papel que Isabella trouxera e
pronunciou algumas palavras cabalísticas, enquanto
a mulher crédula observava tudo. Queimou o papel
com a chama da vela e esfregou o resíduo nas
próprias mãos. Com as cinzas nas mãos, passou-as
sobre a outra folha, previamente preparada, com
a inscrição em parafina. A mulher não poderia ver
nada, pois a parafina era transparente. Assim que a
mão suja de Otília percorreu o papel, as cinzas aderiram
à parafina, grudando nas letras escritas, invisíveis
aos olhos de Isabella. E a mulher, atônita,
quase não acreditava que vira um nome aparecer
diante de si, grafado com as cinzas do papel quei


283



mado, como que por mágica.

— É um nome?! Que está escrito aí?
Com um ar de seriedade, circunspecta, Otília declarou,
num tom de voz quase incompreensível:
— É o nome da mulher com quem seu marido está
lhe traindo. Os espíritos mostraram que esta mulher
é quem está fazendo o feitiço contra você.
Isabella pôs-se a chorar copiosamente. Ela sabia —
aliás, já desconfiava de que houvesse algo errado.
Agora, tinha certeza.
— Vou lhe dar mais uma semana — prosseguiu a
feiticeira de araque. — Quando você trouxer o lenço
com a rosa vermelha dentro, veremos o que esta
mulher está tramando contra você.
— Mas eu quero saber agora. Tenho de saber!
— Não se apresse. Deixe aqui a vela queimando
até o fim, que os espíritos vão cuidar do seu caso.
Quando você trouxer o lenço (não o desenrole antes
de uma semana!), então saberemos o que a maldita
amante do seu marido está tramando contra
você e sua família.
Nem é preciso dizer que a semana de Isabella transcorreu
entre tantas dores e conflitos que mal conseguiu
pronunciar algumas palavras com o marido
e os filhos. A semana passava vagarosamente, enquanto
ela vigiava vez ou outra o lenço, sem ter coragem
para abri-lo. Por alguma razão estranha, des284



conhecida, parecia que aos poucos surgiam manchas
vermelhas em seu exterior. Como ela já esperava
alguma coisa de anormal, de ruim, sua mente
arquitetou toda a trama, sem precisar que Otília fizesse
muito mais.
Na sexta-feira seguinte, retornou à casa da médium
inescrupulosa, quase à beira de um ataque. Otília a
recebeu com um suspiro fundo. Tomou o lenço em
suas mãos sem que nenhuma palavra fosse proferida
por Isabella, que trazia os olhos fundos, devido
às noites e noites em claro. A mulher estava dilacerada,
e sua mente, fervilhando com mil idéias.
Abrindo o lenço que outrora fora branco, Otília,
sem nenhum pudor, mostrou-o a Isabella:

— Veja o sangue! Estão querendo sua morte e de
seus filhos.
Os soluços de Isabella foram ouvidos fora do aposento
onde estavam as duas.
— Você precisa fazer um trabalho enquanto há
tempo. Vamos, mulher — saiu com Isabella pela
porta, ao mesmo passo em que deitava o lenço fora.
— Você precisa ser levada com urgência para fazer
um descarrego. Vou ver o que posso fazer por você.
— Me ajude, pelo amor de Deus, Mãe Otília! Eu
não agüento mais, minha mãe. Desfaz este feitiço,
pelo amor de Deus!!
Otília ria intimamente. Ela tinha agora a pobre mulher
285



nas mãos. Afinal, trabalhara com as próprias crenças
de Isabella. Não fizera nada mais que realçar em sua
mente aquilo em que ela já acreditava e os fatos de
que suspeitava. Apenas isso. Pura hipnose.
É claro que engodos dessa natureza não teriam sido
eficazes com pessoas acostumadas a raciocinar,
questionar ou a usar mais o intelecto e o bom senso.
Entretanto, com aqueles desesperados — sempre os
há —, com os desiludidos, místicos e crédulos sem
limites, a forma como Otília elaborava seus planos
era perfeita para envolvê-los, ganhar sua confiança
e enredá-los em seus golpes.
Como os casos de Ângela e Isabella, muitos e muitos
outros embustes foram patrocinados pela irresponsabilidade
de Otília, que, pouco a pouco, já não
sentia mais o vigor de outrora. O tempo passava, e
ano após ano, década após década ela foi aproveitando-
se da fé alheia. Complicou-se espiritualmente
a tal ponto que o próprio marido a deixou, assim
que se fartou das suas perversidades. Ela não era
mais a mulher de antes. Odiada, sozinha, já não dormia
como em outras épocas. Lentamente, o tempo
trouxe em seus braços uma enfermidade que a medicina
não pôde diagnosticar.
Otília desencarnou em situação lamentável. Sobre

o leito, com o corpo em putrefação longa e dolorosa,
gradativamente via a vida esvair-se, em meio a
28 6


odores fétidos e ao abandono. Enquanto definhava,
vozes, gritos e gemidos a atormentavam, escutados
por ela nos últimos momentos, num recanto precário
de um hospital público.
Despertou no mundo extrafísico em triste situação.
"Miserável! Vampira! Ladra!"... Eram as palavras
mais amenas que ouvia repercutirem incessantemente
em sua mente. Rolava pelo solo astral sem
destino, como que açoitada por um forte vendaval,
que ignorava de onde partia.
Foi assim que, certo dia, aconchegou-se em alguém
que vinha andando pela rua. Não sabia precisar
quando se sentira tão bem na presença de quem
quer que seja. Sentia-se acolhida; era um calor agradável
que irradiava da aura da pessoa, a qual Otília
nem conseguia ver quem era. Seus olhos ainda estavam
nublados; não divisava muita coisa da paisagem
extrafísica. Precisava prolongar a sensação de
alívio provocada pelo ato de grudar-se àquele sujeito,
fosse quem fosse. Dali não sairia.
Ouvia gargalhadas. Ela própria gargalhava, nervosa,
à medida que rasgava suas roupas continuamente,
feito louca, ensandecida numa roda-viva de cobranças
que partiam de sua própria consciência.

Rafael passeava noutras bandas. Em seus pensamentos,
um só objetivo: ser médium, ser reconhe


287



cido como médium, ser respeitado ou — quem sabe,
até? — ser obedecido como médium. Há alguns anos
Rafael freqüentava centros espíritas, casas de umbanda,
roças de candomblé. Mas em vão. Ninguém

o considerava médium. Teriam alguma coisa contra
ele? Queria ver espírito, falar com espírito ou ao
menos que acreditassem que ele era alguém que entra
em contato com os habitantes do outro mundo.
Crédulo, místico, facilmente persuadido e influenciável,
usufruía sempre da companhia de uma amiga
com quem conversava, trocava impressões, dizendo-
se portador de mediunidade. Vez ou outra
fazia algum curso de conteúdo místico, aprendera a
dar passes, ministrar reiki, mas... nada. Não conseguia
ser levado a sério, considerado sensitivo, situação
a que aspirava ardentemente.
De repente, no meio da rua, sua imaginação fértil,
aliada à extrema impressionabilidade, fazia com
que pensasse estar vendo espíritos. Alguma emoção
mais forte, fruto também de sua sensibilidade,
fazia-o sentir-se possuído, quase incorporado por
uma entidade do Além. A despeito de todos esses
acontecimentos, em nenhum centro o aceitavam
como médium. Será que estavam dificultando sua
carreira mediúnica? — pensava. Ou seria tudo fruto
de um desejo de chamar a atenção para si, sentir-
se respeitado, causando impressão sobre os de28
8


mais, destacando-se perante a comunidade em que
vivia? De qualquer maneira, Rafael tinha de manter
a postura de sensitivo. Sentia-se menosprezado, é
verdade; não obstante, seria médium. "Custe o que
custar", convencia-se.
Foi num dia desses, em que se sentia mais fragilizado
em suas emoções, mais rejeitado por aqueles
diante dos quais queria apresentar-se como médium,
que resolveu valer-se de outros recursos: fingir
que "recebia". Tinha que receber espírito de
qualquer jeito! Mentalmente chamou, implorou,
evocou qualquer espírito, na ânsia de ser possuído,
incorporado, invadido; qualquer coisa, mas precisava
"receber" de todo jeito.
Nesse estado de espírito, nessa evocação mental e
emocional foi que atraiu para perto de si o espírito
de Otília, aos farrapos. Em algum momento dos
clamores do rapaz, ela captou o chamado, sentiu-se
atraída, aconchegou-se à aura de Rafael. E teve início
o rebuliço. O conteúdo emocional e as imagens
da aura de Otília foram sendo absorvidos pouco a
pouco por Rafael, que começou a se sentir inquieto,
incomodado, muito mais rejeitado e incompreendido
que antes. Ele se sentia assim, ofendido — embora
não soubesse por quê. E que Otília estava imersa
em seus pensamentos, imiscuída em suas reflexões,
ligada intimamente a sua aura. A invasora passou a

28 9



alimentar-se do rapaz, à proporção que crescia seu
desejo de atuar na mediunidade de qualquer jeito,
a qualquer preço. E custou caro. O preço alto quem
cobrou foi Otília, desencarnada; sem escrúpulos,
sem limites.
A vida de Rafael começou a se despedaçar, como se
se fragmentasse toda, pois suas conquistas até ali,
duramente colecionadas, começaram a se desmoronar.
Seu castelo pessoal, suas emoções começaram
a ser controladas pelo espírito, pela consciência
intrusa.
Em curto espaço de tempo, o rapaz começou a desenvolver
tiques nervosos. Agigantou-se seu desespero
para ser tomado por médium e começou
a fazer previsões como se houvera tido visões. A
família logo ficou atenta aos sinais cada vez mais
evidentes de psicose apresentados por ele. Falava
sozinho, principalmente quando percebia que havia
alguém observando-o. Tinha de ser considerado
sensitivo, queria ser respeitado como tal. Falava
aos ventos quando entrava no ônibus, na esperança
de que alguém lhe perguntasse com quem dialogava.
Otília sentia-se completa, embora faminta de
energias, de fluidos. Ela agora manipulava a mente
do rapaz, que lhe sofria a influência. Ele abordava
desconhecidos, na rua, e os amigos especialmente,
atestando ver vultos perto de cada um deles: espíri


290


tos de amigos, familiares. Perdera o senso de limites,
o domínio de si. A família logo o internou, a fim
de que recebesse tratamento psiquiátrico. Otília
sentia-se mais e mais lúcida, participava dos dois
lados da vida: da vida de Rafael e da própria desgraça
post-mortem.
Levando em conta o estado grave que o acometia, a
mãe de Rafael procurou a tenda de Pai João como
último recurso. Foi onde encontrou um pouco de
segurança, de conforto, de esperança, enfim.

— O caso é complicado, filha. Nosso menino precisa
mesmo de tratamento médico; no entanto, podemos
ver o que se passa em seu psiquismo, pois ele
entrou numa espécie de simbiose com um espírito.
O caso é para a gira dos caboclos. Vou acompanhar
pessoalmente e prometo cuidar com enorme carinho
do seu filho — assegurou João Cobú.
— Nem sei o que dizer, meu pai — retornou Joana,
a mãe de Rafael. — Já procurei todo tipo de ajuda,
inclusive uma seção de descarrego, numa igreja
evangélica.
— Como seu filho está internado, você se ofereceria
como elemento de ligação entre ele e nós, para que
possamos auxiliá-lo?
— Faço tudo que puder pelo meu filho, meu pai. Ele
está num estado deplorável, parece louco, e está sob
efeito de drogas por um longo período de tempo.
29 1



— Vejamos, filha, vejamos o que se pode fazer. Enquanto
isso, oremos, minha filha, rogando ao Alto
os recursos da misericórdia divina.
Imediatamente, João Cobú convocou os médiuns,
que se reuniram num círculo em torno da mãe que
buscava socorro. Dois deles sentaram-se em poltronas
confortáveis, para auxiliar, desdobrados. Assim
que João Cobú sinalizou, um dos trabalhadores
utilizou a técnica do pulso magnético com passes
longitudinais, desligando a dupla de seus corpos.
Eram eles Tobias e Djalma; este agora acompanhava
o amigo em desdobramento, para o aprendizado
na esfera extrafísica.
Assim que os dois médiuns deixaram o corpo,
Ferreira se apresentou a ambos. Uma vez mais, o
guardião acompanharia os médiuns daquele recanto
de trabalho fraterno em suas investigações
no plano astral.
A pedido de João Cobú, dirigiram-se ao hospital
onde Rafael estava internado. Enquanto isso, a
mãe do rapaz orava fervorosamente, no círculo de
médiuns, que estavam vibrando, formando defesas
energéticas em torno de Joana, pois ela atuava
como ponte energética e emocional com o filho.
O hospital parecia ser bem assessorado por habitantes
da esfera extrafísica. Assim que os sensitivos
chegaram, junto com o guardião, procuraram a aju29
2


da de um dos responsáveis pela instituição.

— Vimos a pedido de nossos orientadores a fim de
auxiliar o rapaz que está no 3o andar, leito 35 — informou
o guardião ao espírito que estava de plantão
naquela noite.
— Sei de quem se trata — respondeu o responsável
pela ala onde estava Rafael. — É um caso gravíssimo.
Infelizmente, não dispomos das ferramentas
para interceder em seu favor de modo mais intenso.
O rapaz está sendo vampirizado por alguém que,
com certeza, convive com ele em processo simbiótico.
Aqui não temos condições de desligar a entidade
hostil. Como se não bastasse, a mulher que vive
nesta associação doentia com Rafael está também
drenando fluidos de outros pacientes. Desde que o
rapaz aqui chegou, os demais internos da ala onde
se encontram pioraram visivelmente.
Respirando fundo, mostrando alívio pela ação da
Providência, o espírito desabafou:
— Graças a Deus que vocês vieram! Precisava ser
feito algo com urgência.
A entidade responsável pela guarda do local conduziu
o guardião e os dois médiuns até o quarto onde
Rafael se encontrava. Os enviados em desdobramento
ficaram assombrados com o que viram.
Otília, completamente deformada, estava sobre o
leito de outro doente como um fantasma, emitindo
29 3



sons incompreensíveis. Fluidos com aparência de
névoa pareciam envolver o rosto da mulher vampira,
que salivava sobre a cabeça de um paciente.
Não obstante, permanecia ligada a Rafael por alguns
fios de parca luminosidade, de tal sorte que,
ao mesmo tempo em que se debruçava sobre o leito
de outra pessoa, mantinha o rapaz sob seu controle
emocional e mental. Rafael vivia um pesadelo
mais ou menos constante. Repleto de fluidos perniciosos
e malsãos, o quarto também abrigava outros
espíritos de vibração inferior. Eram os comparsas e
carrascos de Otília, alguns dos quais cobrando dela

o tributo de sangue, as juras feitas em nome deles
para suas vítimas encarnadas, e alguns, ainda, prometendo
desforra, tão logo pudessem se apossar da
mulher-espírito-fantasma. A cena lembrava um filme
de terror. Djalma ficou algo ensimesmado com
a situação, pois era a primeira vez que, desdobrado,
se encontrava frente a frente com um caso envolvendo
uma feiticeira e o vampirismo extrafísico.
— Tranqüilize-se, Djalma — falou Tobias para o
amigo. — Ferreira sabe como lidar com esta situação.
Mantenha-se em oração.
Os dois médiuns oraram juntos, mas parecia que as
orações espontâneas não surtiam nenhum efeito no
fantasma. Enquanto isso, Ferreira requisitou mais
dois guardiões, que o auxiliaram a limpar o ambien294



te. As entidades que cobravam vingança contra Otília
afastaram-se, temerosas, ao ver a imponência do
guardião e dos demais seres que atenderam a seu
chamado. Eram espíritos que traziam estampadas
na roupagem fluídica a imagem de caboclos, imponentes,
de cuja aura irradiavam energias de dimensões
superiores. Aqueles que desejavam a desforra
contra a mulher bateram em retirada, conservando-
se, porém, a uma distância que julgavam segura.
Um dos caboclos — Guaraci — aproximou-se de
Rafael com alguns extratos fluídicos de ervas, colocando-
os bem próximo a seu nariz, para que aspirasse
o perfume. O rapaz adormeceu logo em seguida.
No entanto, acordou na dimensão extrafísica
assustado, esboçando reação de pânico ao perceber
os espíritos ao seu lado.

— Socorro, socorro! — gritava o moço, desdobrado
no plano astral. — São fantasmas! Pelo amor de
Deus, me socorram...
Observando a reação inusitada de Rafael, Guaraci
chamou a atenção do guardião:
— Curioso o modo como reage à nossa presença.
Queria tanto ser médium, quando no corpo advogava
o direito de ver espíritos, conversar com espíritos,
mas do lado de cá, em nosso plano, morre de
pânico ao nos registrar a presença.
— E isso porque ele ainda não viu Otília! — acres29
5



centou Ferreira.

— Vamos conduzi-lo até João Cobú — tornou o
caboclo. — Ele deverá receber ajuda direta através
de um dos médiuns. Enquanto isso, veja o que
pode fazer com relação a Otília.
A reação da mulher desencarnada não foi muito diferente
da de Rafael, ao se desdobrar na dimensão
astral. Ao divisar Ferreira e os dois médiuns, começou
a berrar, deixando perceber a baba, uma espécie
de gosma que lhe caía da boca sobre o leito onde
se encontrava o paciente de quem roubava energias.
Esbugalhou os olhos de tal maneira que sua aparência,
que já refletia algo quase inumano, pareceu
ainda mais macabra e deformada. Neste momento,
aproveitando o susto da mulher vampira, Ferreira
apontou para Tobias e Djalma e pediu-lhes:
— Trabalhem com as crenças dela. Rezem uma daquelas
orações fortes!
— Já estamos em oração, mas não vimos nenhum
efeito sobre ela.
— Embora tenha usado mal o escasso conhecimento
que tinha sobre mediunidade, Otília acreditava
firmemente no poder das rezas. Portanto, rezem a
oração de São Jorge. É o caso de usarmos aquilo em
que ela acredita. Precisam envolvê-la com a imagem
que ela traz na memória espiritual.
Assim que entenderam o que o guardião queria di29
6


zer, Djalma e Tobias levantaram as mãos espalmadas
em direção a Otília, que a esta altura se mostrava
completamente tresloucada, correndo de um
lado para outro no quarto. A dupla rezou:

— Chagas abertas, sagrado coração, todo amor e
bondade. O sangue do meu Senhor Jesus Cristo
no corpo meu se derrame hoje e sempre. Andarei
vestido e armado com as armas de Jorge. Para que
meus inimigos, tendo pés, não me alcancem; mãos
tendo, não me peguem; olhos tendo, não me vejam
e nem pensamentos eles possam ter para me fazerem
mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão;
facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar;
cordas e correntes se arrebentem sem o meu
corpo amarrar.
À medida que rezavam e pronunciavam cada termo
vigorosamente, mentalizando cada palavra e seu
significado ou simbolismo, o gesto surtia efeito sobre
o espírito dementado. Otília parou, de repente,
gritando, espumando:
— Eu conheço essa reza, eu conheço...
Começou a rodar em torno de si mesma, como se
fosse um peão. Girava cada vez mais rápido, roncando,
grasnando como louca. Ao passo que rodopiava,
vomitava e expelia fluidos nauseabundos, e
estes se transformavam em fios que se enroscavam,
envolvendo seu corpo espiritual. Ao cabo de alguns
29 7



minutos, ela parecia uma múmia, envolta numa matéria
do plano extrafísico que se assemelhava a cordões,
alguns até lembravam panos velhos, rasgados,
rotos, que impediam qualquer movimento da parte
dela. Caiu ao chão do hospital como um casulo,
através do qual só se percebiam os sons incompreensíveis
que pronunciava, até calar-se por completo,
imóvel.

— Ela é nossa! — irrompeu a voz de um espírito
que adentrou o ambiente. Alto, esguio, portando-se
com extrema elegância, porém com uma tez sombria,
olhos fundos e negros.
Os dois médiuns miraram o ser diferente, estranho,
que inspirava, contudo, certo respeito. Ferreira
já conhecia o representante de determinada
falange de espíritos reconhecida e temida nas regiões
inferiores:
— Você vem em nome de quem, e o que o traz aqui?
— indagou o guardião.
— Estávamos observando esta mulher há muito
tempo. Somos os representantes da justiça no mundo.
Sou um dos juristas e advogo em favor daqueles
que foram enganados e cujos nomes foram usados
por esta mulher para defraudar, roubar e mentir
durante a maior parte de sua existência. Ela se
serviu de nomes que merecem veneração, não respeitou
os fundamentos sagrados dos seres que tra29
8


balham na subcrosta; em suma: subornou, mentiu,
enganou. Ela deve ser levada aos tribunais do submundo
para responder pelos seus atos.

— Mas ela própria se condenou. Veja o estado em
que imergiu. Sua consciência a julgou e agora se
encontra em animação suspensa, prisioneira dos
próprios pesadelos que criou para si mesma — asseverou
Ferreira.
— Isso não a isenta de ser julgada pelo tribunal da
inquisição do mundo inferior. De forma alguma ela
escapará de enfrentar a justiça.
— Mas ela está sob nossa guarda; ela colocou-se sob
a nossa proteção. Como você pretende subtraí-la de
nossa influência?
— Engana-se, guardião. Sei do seu trabalho e respeito
os fundamentos de seus superiores, assim como
eles respeitam os nossos. Mas aqui não é você nem
eu quem decidimos. Ela própria arbitrou seu futuro
quando enveredou pelo caminho do engano, da
fraude e da mistificação. Há pouco, quando se entregou
à culpa e envolveu-se nos fluidos perniciosos
de seus próprios delitos, fechando-se no casulo
de autopunições, já se declarou culpada, e perante
a justiça e seus emissários ela deve comparecer.
Terá de prestar contas, explicar-se, apresentar suas
credenciais e responder pelos seus atos.
Ferreira fechou os olhos, tentando tatear a mente
29 9



da mulher, auscultando seu interior, trancafiado no
casulo de fluidos grosseiros.

— Veja, guardião, que a mente da vampira está fechada
a qualquer ajuda de sua parte. Não há como
levá-la para a sua dimensão. A culpa a colocou em
nossas mãos. Mas não se preocupe, pois somos apenas
juízes, e não algozes. Queremos apenas que ela
meça a dimensão real de seus atos, que sinta o tamanho
dos crimes que cometeu. No mais, não impingiremos
nenhum castigo além daquele que ela
forja para si mesma.
Enquanto o guardião sondava o interior de Otília,
tentando obter algum dado a respeito de sua situação
interna, ouvia, na intimidade, a voz de João
Cobú a instruí-lo:
— Vá com ele, meu filho. Vá e fique perto de Otília.
Não a deixe sozinha. Não podemos violentar a realidade
espiritual dela, é verdade, uma vez que ainda
não nos pediu ajuda. Porém, quando despertar, devemos
estar a postos, junto dela.
Abrindo os olhos, Ferreira disse para o jurista:
— Que assim seja. Não posso mesmo interferir no livre-
arbítrio de Otília. Ela fechou-se por completo na
culpa e na punição. Tenho uma condição, contudo.
— Fale, guardião, sentinela da misericórdia — pronunciou
o espírito.
— Recebi ordens de meu superior para acompa30
0


nhar Otília até o seu tribunal. Quero conhecer sua
estrutura, seus métodos e ficar por perto, caso este
espírito necessite de socorro.
Esboçando um sorriso na face até então sisuda, o
espírito do jurista falou:

— A misericórdia divina... Sempre ela. Ao passo que
represento a justiça dos poderosos, você e seus superiores
querem intervir para arrebatar a ré de seu
destino inevitável.
— Absolutamente. Não vou interferir em seu julgamento,
mas quero estar por perto.
— Enfim, não confia em nós, é isso que quer dizer.
Pois bem, concordo com sua condição. Venha.
Falando assim, suspendeu o casulo no qual se envolvera
o espírito vampiro e saiu arrastando-o, seguido
do guardião.
Tobias e Djalma, sem entender muito bem o que se
passava — incluindo o porquê de a mulher haver se
envolvido naquele casulo de fluidos após a reza que
fizeram —, saíram em direção à casa de oração onde
se encontrava João Cobú com os demais médiuns
e Rafael desdobrado. No trajeto, ouviram o pensamento
de Ferreira dentro de sua mente, como num
contato de telepatia:
— Fiquem calmos. Pai João está coordenando tudo,
e ele lhes dará as explicações. Voltem tranqüilos e
orem por mim.
30 1



Quando os médiuns em projeção extrafísica entraram
no ambiente da casa de caridade onde o paivelho
atendia, Rafael desdobrado estava incorporado
num dos médiuns, chorando muito. Sua mãe
fora recolhida a outro cômodo, a fim de que não interferisse
emocionalmente no processo. Rafael recebia
o choque anímico através de uma incorporação
parcial num dos médiuns da tenda de Pai João.

— Não estranhem, meus filhos — falou o pai-velho.
— Sei que vocês não estão acostumados a esse tipo
de trabalho. O que acontece aqui é mais conhecido
como comunicação entre vivos, ou seja, acoplamos
a um dos nossos médiuns o espírito de alguém que
está desdobrado, sendo ainda detentor de corpo físico.
Através desse tipo de atendimento, em que lidamos
com o conteúdo anímico do sujeito, acessamos
as matrizes da memória espiritual de Rafael.
Temos, assim, condições de agir mais intensamente
em seus conteúdos traumáticos e extratos de
outras vidas, conseqüentemente trabalhando por
seu reequilíbrio.
Enquanto observavam o fenômeno a partir da esfera
extrafísica, os dois médiuns questionaram o
pai-velho:
— E como ficará este caso, Pai João? Parece que Otília
foi levada para um tipo de tribunal de justiça das
regiões inferiores...
30 2


— Não se preocupem, filhos. Otília só está respondendo
à sua própria consciência pelos males que
fez no corpo e fora dele. Nosso guardião ficará a
postos a fim de socorrê-la, tão logo ela desperte e
peça ajuda. Quanto a Rafael, alcançará relativa melhora;
no entanto, precisará de acompanhamento
com um bom terapeuta, a fim de educar emoções
e pensamentos. Depende dele, a partir de hoje, encurtar
o tempo de sua melhora. O que pudemos fazer,
fizemos. Sem que ele queira, não podemos interferir
mais. Não há como ajudar quem não pede
nem quer ajuda. Façamos a nossa parte e confiemos
em Deus, aprendendo a maior lição que a mediunidade
traz para todos nós: com coisa séria não
se brinca. Mediunidade é coisa santa, e temos de vivê-
la santamente.
Pai João encerrou os atendimentos naquela noite,
mas muitas outras noites e outros dias se seguiram,
nos quais o espírito que trazia a vestimenta do paivelho
expressava seu conhecimento para aqueles
que queriam aprender.
Quem tem olhos de ver, que veja. Quem tem ouvidos
de ouvir, que ouça.
30 3



Os direitos autorais desta obra foram cedidos gratuitamente pelo médiu m Robson Pinheiro
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Dados internacionais de catalogação na publicação (CIP )

[Câmara Brasileira do Livro | São Paulo | SP | Brasil]

Gleber, Joseph [Espírito].

Medicina da alma / pelo espírito Joseph Gleber; [psicografado por] Robson

Pinheiro — 2a ed. rev. e ampl. — Contagem, MG: Casa dos Espíritos, 2007.

ISBN 978-85-87781-25-3

1. Cura pelo espírito e Espiritismo 2. Espiritismo 3. Holismo 4. Medicina
holística 5. Psicograíia l. Pinheiro, Robson n. Tirulo.
IY7J.S40 eco : 133.93
ÍNDICES PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO:

1. Saúde e medicina: Mensagens mediúnicas psicografadas: Espiritismo

MEDICINA DA ALMA

observações, uma das médiuns presentes disse ter visto
um livro cair à minha frente, com algo de cor vermelha a
envolver o livro. Mas era só. Ela não havia percebido mais
nada. A partir de então, dei complemento ao relato da
médium, falando a respeito do que havia notado.

Ocorre que, àquela altura, eu já vinha psicografando
alguns textos do espírito Joseph Gleber, mas ele sempre
me instruíra para guardá-los, pois não gostaria que fossem
levados a público, ao menos naquele momento. Assim
procedi, conforme sua orientação.

No início de 1997, mais precisamente em janeiro, o
benfeitor espiritual me pede para ficar à sua disposição e,
se possível, que me retirasse para algum lugar junto à natureza.
Ele prosseguiria os escritos e os reuniria a todos num
volume a ser publicado. O título: Medicina da alma.

Concluída a psicograna do livro, duas semanas antes do
carnaval de 97, fui presenteado por um amigo, Marcos Leão,
com um plano de saúde que poderia me dar cobertura
imediata para qualquer procedimento médico, inclusive
cirurgias e exames, em virtude de uma campanha promocional
que abolia as carências típicas desse tipo de produto.
Na verdade, era um seguro-saúde. Não imaginava o que
poderia ocorrer comigo, pois, até aquele momento, não
havia experimentado nenhum problema de saúde grave
que justificasse, ao menos para mim, a preocupação em
ter um seguro-saúde.


MINHAS EXPERIÊNCIAS CO M O ESPÍRITO JOSEPH CLEBER 13

O livro Medicina da alma logo entrou no processo de
diagramação e preparação, pois desejávamos publicá-lo
ainda no início do ano. Todos nós estávamos ansiosos na
Casa dos Espíritos, que então mal havia começado suas
atividades, pois aquele recém-terminado era o segundo
livro a ser publicado; nada sabíamos, entretanto, acerca da
programação do Alto e do autor espiritual.

Ainda faltavam alguns dias para os originais rumarem
em direção à gráfica, quando, numa conversa com o espírito
Joseph Gleber, ele me disse:

— Não permitirei que você publique um livro se