quarta-feira, 29 de abril de 2015 By: Fred

{clube-do-e-livro} Livros Agatha Christie ZERO HORA ETC


HORA ZERO
AGATHA CHRISTIE




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HORA ZERO
Neste momento, algum
drama, algum assassinato estava sendo
planejado. Se eu estivesse
escrevendo uma dessas interessantes histórias
de crime e sangue, começaria com
um velho senhor abrindo sua correspondência
em frente à lareira, indo
irremediavelmente de encontro à hora zero.
COLEÇÃO AGATHA CHRISTIE.

Agatha Christie
HORA ZERO
Tradução de
ELIANE FONTENELLE
5.a edição









EDITORA
NOVA
FRONTEIRA



























Título original em inglês
TOWARDS ZERO


Copyright © 1944 by Agatha Christie Mallowan


Capa:
ROLF GUNTHER BRAUN


Revisão:
REINALDO GAIO DE OLIVEIRA



Direitos adquiridos somente para o Brasil pela
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A
Rua Maria Angélica, 168 - Lagoa - CEP.: 22.461 - Tel.: 246-8066
Endereço Telegráfico: NEOFRONT Rio de Janeiro — RJ


Proibida exportação para Portugal ou províncias ultramarinas
e países africanos de língua portuguesa.


Esta obra foi impressa na Monsanto, para a Editora Nova
Fronteira, em agosto de 1980.

Índice





Personagens
Prólogo
Abra a Porta. Eis as pessoas
Branca de Neve e rosa vermelha
Um toque de mestre
Hora Zero

Personagens
Sr.Treves — Um maduro e experiente advogado de 80 anos, cuja excelente memória de crimes anteriores causou sua morte.
Andrew MacWhirter — Um homem completamente arruinado, salvo a contra gosto de uma tentativa de suicídio, estava por acaso no mesmo local, alguns meses depois, para prestar o mesmo serviço a uma moça em desespero.
Superintendente Battle — Um detetive de fisionomia impassível, da Scotland Yard, cujo sistema metódico de investigações fazia com que sempre estivesse em atividade, mesmo durante suas férias.
Srta. Amphrey — Uma bem sucedida diretora de um Colégio de Moças; um ótimo exemplo do perigo de teorias psicológicas imaturas na cabeça de um amador.
Sylvia Battle — A jovem filha do Superintendente. Sua dolorosa experiência no internato ajudou o pai a salvar uma vítima inocente.
Nevile Strange — Um verdadeiro Apolo; tinha tudo que um homem poderia desejar, inclusive uma excelente reputação como atleta, uma grande conta bancária e duas lindas esposas. Entretanto, não era feliz.
Kay Strange — Jovem e de natureza vibrante, com um temperamento que se equiparava a seus inigualáveis cabelos ruivos. Definitivamente não era o tipo de mulher para ficar em segundo plano em relação à primeira esposa de Nevile.
Lady Camilla Tressilian — Uma autocrata inválida que gostava imensamente de receber, mas que impôs um limite quando Gull's Point se transformou num "Ménage à trois".
Mary Aldin — Abnegada e devotada dama de companhia da idosa Lady Camilla; apreciava sua posição de mediadora numa casa repleta de hóspedes tensos, até isso se tornar demasiado, mesmo para sua enorme paciência.
Audrey Strange — Sua beleza apagada e sem muito colorido tomou conta de Gull's Point, perturbando Nevile Strange e enfurecendo sua atual esposa.
Thomas Royde — Conhecido como "Fiel Thomas" por causa de sua irmã adotiva, Audrey, escondia um coração apaixonado sob sua aparente fleumática indiferença.
Ted Latimer — O atraente jovem, amigo de Kay Strange, que sempre aparecia inesperadamente onde ela estivesse.
Inspetor James Leach — Sobrinho de Battle. Novo em sua profissão, e uma vez designado para tratar do caso de assassinato em Gull's Point, aceitou a ajuda do tio, com quem aprendeu inúmeras lições úteis.


Prólogo
19 de novembro

O grupo, em volta da lareira, era quase todo de advogados ou pessoas interessadas em Direito. Ali estavam Martindale, o solicitador, Lorde Rufus, K. C., o jovem Daniels que se tornou famoso com o caso Carstairs e outros advogados; o Sr. Justice Cleaver, da Lewis e Lewis e ainda, o velho Sr. Treves. Este, com os seus quase 80 anos de experiência, era o mais importante membro de um famoso escritório de advocacia. Havia solucionado vários casos difíceis no tribunal, e era tido, mais do que qualquer outro homem no país, como um profundo conhecedor "dos bastidores" da História da Inglaterra, além de ser um grande criminalista.
Os imprudentes achavam que o Sr. Treves deveria escrever suas Memórias, mas ele não o faria, pois estava certo de que sabia demais.
Apesar de estar há muito tempo aposentado, não havia na Inglaterra homem nenhum cuja opinião fosse tão acatada pelos colegas de profissão. Sempre que sua voz pequena e precisa se levantava, havia um silêncio respeitoso.
A conversa girava em torno de um caso muito comentado que tinha sido resolvido naquele dia, no Old Bailey. Era um caso de assassinato e o acusado havia sido dado como inocente. Os presentes estavam ocupados reexaminando o caso e fazendo críticas do ponto de vista jurídico.
A acusação cometera um erro em confiar numa de suas testemunhas; o velho Depleach deveria ter percebido a oportunidade que estava dando à defesa. O jovem Arthur explorou ao máximo o depoimento da criada. Bentmore, em sua alegação final, situou o assunto em sua perspectiva correta, mas já então o dano estava feito: os jurados acreditaram na moça.
Os jurados são engraçados! Nunca se sabe no que estão acreditando. No entanto, no momento em que colocam uma idéia na cabeça, ninguém consegue tirá-la. Admitiram que a moça estava falando a verdade sobre a alavanca, e "ponto final".
O laudo médico havia sido muito complicado para que os jurados pudessem entendê-lo. Todas aquelas expressões técnicas, o palavreado científico, as péssimas testemunhas, aqueles "cientistazinhos" sempre hesitando ao falar, não sabendo dizer sim ou não a uma pergunta simples, sempre "sob certas circunstâncias que poderiam ter ocorrido", e assim por diante!
À medida que discutiam e as observações se tornavam tumultuadas e contraditórias, crescia uma sensação de que alguma coisa estava faltando. Uma após outra, as cabeças se viraram na direção do Sr. Treves, já que ainda não havia emitido a sua opinião. Aos poucos sentiu-se claramente que todos ali esperavam a palavra final de seu mais conceituado colega.
O Sr. Treves, recostado na cadeira, limpava os óculos distraidamente. Alguma coisa no silêncio fez com que levantasse a cabeça e olhasse com atenção.
— Hein? — disse ele. — O que foi? Alguém perguntou alguma coisa?
O jovem Lewis falou:
— Estávamos comentando o caso Lamorne.
E parou em atitude de expectativa.
— Sim, sim — disse o Sr. Treves. — Estava mesmo pensando sobre isto...
Fez-se um silêncio respeitoso.
— Mas receio — continuou o Sr. Treves, limpando os óculos — que eu estava imaginando coisas a respeito. Sim, fantasiando. Creio que é conseqüência da velhice. Na minha idade podemos ter o privilégio de ser imaginativos, se quisermos, é claro.
— Realmente senhor — comentou o jovem Lewis parecendo confuso.
— Estava pensando — falou o Sr. Treves — não apenas nos vários pormenores da lei, apesar de terem sido interessantes... muito interessantes! Se o veredito tivesse sido outro, teriam bons motivos para apelação... creio eu. Mas não quero discutir isso agora. Estava apenas pensando, como disse, não nos pormenores da lei, mas, nas... bem, nas pessoas envolvidas no caso.
Todos olharam um tanto espantados. Tinham considerado essas pessoas apenas no que dizia respeito à veracidade do que falaram ou então, como simples testemunhas. Nenhum deles, sequer, arriscou uma especulação sobre se o réu era culpado ou inocente, como o tribunal havia pronunciado.
— Seres humanos, como sabem — continuou o Sr. Treves, pensativo —, seres humanos de todo tipo, espécie, tamanho e forma. Alguns inteligentes, outros não. Vindos de todos os lugares, Lancashire ou Escócia, como aquele proprietário de um restaurante na Itália e aquela professora de algum lugar do Middle West. Todos apanhados, envolvidos no caso e finalmente levados juntos, num dia cinzento de novembro ao tribunal em Londres. Cada qual contribuindo com uma pequena parte. E tudo culminando num julgamento por crime de assassinato.
Parou e bateu levemente no joelho.
— Gosto de um bom romance policial, mas como se sabe, sempre começam do ponto errado! Começam do assassinato. Entretanto, o assassinato é o final. A história começa muito antes disso: algumas vezes anos antes, com todos os motivos e fatos que trazem certas pessoas a certos lugares, numa certa hora e num certo dia. Veja o testemunho da jovem criada: se a cozinheira não tivesse roubado seu namorado, ela não teria se descontrolado, e num acesso de raiva, ido à casa dos Lamornes tornando-se assim a principal testemunha da defesa. O tal Giuseppe Antonelli chegara para ficar no lugar do irmão por um mês. O irmão que é cego como um morcego, não teria visto o que os olhos aguçados de Giuseppe viram. Se o guarda não tivesse namoricado a cozinheira do n° 48, não teria se atrasado em sua ronda...
Balançou a cabeça levemente.
— Todos se dirigindo para um determinado lugar... E então, quando chegar a hora: o clímax! Hora zero. Sim, todos convergindo para a hora zero... Hora zero — repetiu ele.
Teve então um pequeno estremecimento.
— O senhor está com frio. Chegue mais perto da lareira.
— Não, não — disse o Sr. Treves. — É como se alguém estivesse andando sobre meu túmulo. Bem, preciso ir para casa.
Com um ligeiro e afável cumprimento, saiu da sala vagarosamente e com firmeza.
Houve um vago silêncio. Em seguida Rufus, Lorde, K. C., observou que o pobre Sr. Treves estava envelhecendo.
O Sr. Willian Cleaver comentou:
— É um cérebro muito perspicaz... realmente muito perspicaz.
— Seu coração já está fraco — disse o Lorde. — Pode morrer a qualquer momento.
— Mas ele sabe se cuidar — ressaltou o jovem Lewis. Naquele momento, o Sr. Treves entrava cuidadosamente em seu confortável Daimler, que o levaria até o quarteirão sossegado onde ficava sua casa. Um solícito mordomo ajudou-o a tirar o casaco.
Entrou em sua biblioteca onde a lareira ardia. Seu quarto ficava no mesmo andar pois seu coração o impedia de subir escadas. Sentou-se em frente ao fogo e apanhou as cartas. Seu pensamento ainda divagava na fantasia que esboçara no Clube.
Neste momento, algum drama, algum assassinato futuro estava sendo planejado. Se eu estivesse escrevendo uma destas interessantes histórias de crime e sangue, começaria com um velho senhor abrindo sua correspondência em frente à lareira, indo irremediavelmente de encontro à hora zero.
Abriu o envelope e olhou distraidamente para a folha de papel que tinha nas mãos. De repente sua expressão mudou. Saiu da fantasia para a realidade.
— Meu Deus! — disse o Sr. Treves. — Que aborrecimento! Realmente muito desagradável! Depois de tantos anos! Isto vai alterar os meus planos.

Abra a Porta. Eis as pessoas
11 de janeiro

O homem deitado na cama do hospital moveu-se soltando um gemido. A enfermeira de serviço, levantando de sua mesa, dirigiu-se até ele. Arrumando os travesseiros, colocou-o numa posição mais confortável.
Andrew MacWhirter apenas resmungou um agradecimento. Estava num estado de profunda revolta e amargura.
A esta hora tudo já deveria ter acabado. Deveria estar livre de tudo! Maldita árvore crescendo no penhasco! Malditos namoradinhos intrometidos que enfrentaram a noite fria de inverno para comparecer ao encontro na beira do penhasco. Não fossem eles e aquela árvore, e tudo teria terminado num mergulho na profunda água gelada. Talvez, uma rápida tentativa de luta para sobreviver, e então o esquecimento: o fim de uma vida mal vivida, inútil e vazia.
E agora, onde estava ele? Deitado ridiculamente numa cama de hospital, com o ombro quebrado e na expectativa de ser levado pela polícia ao tribunal, por crime de tentativa de suicídio.
Maldição! Era a sua própria vida, não?
Se seu intento tivesse sido bem sucedido, o teriam enterrado piedosamente como um doente mental.
Maluco? Nunca estivera tão lúcido! O suicídio era a atitude mais lógica e sensata para um homem naquela situação.
Completamente arruinado financeiramente, com a saúde afetada para sempre, com uma esposa que o deixara por outro homem, sem emprego, sem carinho, sem dinheiro, saúde ou esperança, certamente acabar com tudo seria a única solução possível.
E agora estava numa situação ridícula. Breve seria admoestado, por um juiz santarrão, por haver feito a única coisa ajuizada com aquilo que somente a ele pertencia: a sua vida!
Bufou de raiva. Uma onda de febre o invadiu.
A enfermeira estava novamente a seu lado. Era jovem, ruiva, um rosto bondoso com um ar distraído.
— Está sentindo muita dor?
— Não, não estou.
— Vou lhe dar alguma coisa para dormir.
— Você não vai fazer nada disso.
— Mas...
— Acha que não posso suportar um pouco de dor e insônia?
Ela sorriu, gentilmente, de maneira um tanto superior.
— O médico disse que você poderia tomar alguma coisa.
— Não me importa o que disse o médico.
Ela ajeitou as cobertas e colocou o copo de limonada mais perto do doente. Envergonhado de si mesmo, ele falou:
— Desculpe. Fui grosseiro.
— Não. Está tudo bem.
O fato de ela permanecer completamente impassível a seu mau humor o perturbava. Nada penetraria sua couraça de indulgente indiferença. Ele era um paciente e não um homem.
— Maldita interferência. Toda aquela maldita interferência... — disse ele.
Com ar de reprovação ela retrucou:
— Ora, ora, isto não foi muito gentil.
— Gentil? — exclamou ele. — Gentil? Meu Deus!
— Você se sentirá melhor pela manhã — respondeu, engolindo em seco.
— Vocês enfermeiras. Enfermeiras! São desumanas, isto é o que são!
— Sabemos o que é melhor para vocês.
— Isto é o que mais me enfurece. Você, o hospital, o mundo. A contínua interferência, sabendo sempre o que é melhor para as pessoas. Tentei me matar. Você sabe disso, não sabe?
Ela concordou com a cabeça.
— Era uma problema só meu me atirar ou não daquele penhasco. Para mim a vida terminara. Estava completamente arruinado.
A enfermeira estalou a língua num gesto de simpatia. Ele era um enfermo e ela o acalmava, deixando-o desabafar.
— Por que não devo me matar, se esta é minha vontade? — perguntou.
— Porque é errado — respondeu ela com seriedade.
— Errado por quê?
Ela o olhou indecisa. Não por falta de convicção, mas por não ter facilidade para se expressar.
— Bem, quero dizer, não é certo a pessoa se matar. Você tem que continuar vivendo, quer queira, quer não.
— Por quê?
— Bem, existem outras pessoas a considerar, não existem?
— Não no meu caso. Não há uma só pessoa no mundo que sentiria minha morte.
— Não tem parentes? Mãe, irmãs ou mais alguém?
— Não. Tinha uma esposa mas ela me abandonou. E estava certa! Viu que eu não servia para nada.
— Mas você tem amigos, não é certo?
— Não, não tenho. Não sou do tipo sociável. Olha aqui enfermeira, vou lhe contar uma coisa. Já fui um sujeito feliz. Tinha um bom emprego e uma mulher bonita. Houve um acidente de carro. Meu patrão estava dirigindo e eu estava com ele. Ele queria que eu dissesse que na hora do acidente estava dirigindo a menos de 50 quilômetros. Mas não estava. Estávamos a quase 80. Ninguém morreu, ou coisa parecida. Ele apenas queria estar com a razão para poder receber o seguro. Bem, não disse o que ele queria. Era uma mentira. E eu não minto!
— Bem, acho que você estava absolutamente certo. Realmente certo — disse ela.
— Você acha, não? Pois esta minha teimosia me valeu o emprego. Meu patrão foi perverso. Providenciou para que não conseguisse outro emprego. Minha mulher se cansou de me ver perambulando, incapaz de conseguir trabalho. E então foi embora em companhia de um amigo meu que estava progredindo e melhorando na vida. Vagueei, descendo sempre. Comecei a beber e isto não me ajudou a manter os empregos. Finalmente fui arrastado para baixo. Minha saúde ficou abalada, irremediavelmente abalada, como disse o médico. E a esta altura já não havia mais motivo para viver. O caminho mais fácil e mais honesto era desaparecer. Minha vida não tinha o menor valor, nem para mim, nem para os outros.
— Você não pode estar certo disso — retrucou a jovem enfermeira.
Ele riu. Já estava mais bem-humorado. Sua teimosia o divertia.
— Minha querida, para que é que eu sirvo?
— Nunca se sabe. Você pode algum dia...
— Algum dia? Não vai haver "algum dia". Na próxima vez, não vou falhar.
A enfermeira balançou a cabeça, resoluta.
— Ah não! — disse. — Vocês nunca tentam a segunda vez!
— Por que não?
— Vocês nunca tentam!
Então ele a encarou. "Vocês nunca tentam!"... Agora pertencia à classe dos futuros suicidas. Ao abrir a boca para protestar energicamente, sua honestidade inata o fez parar.
Tentaria de novo? Tinha realmente a intenção de fazê-lo?
De repente soube que não tentaria. Por nenhum motivo especial. Talvez o motivo exato fosse aquele dado por ela. Suicidas não tentam outra vez.
Além do mais ele se sentia decidido a forçar uma revelação do ponto de vista ético, por parte dela.
— De qualquer maneira tenho o direito de fazer o que quiser com a minha própria vida.
— Não. Você não tem.
— Mas por que minha querida?
Ela corou. Brincando com a pequena cruz de ouro pendurada em seu pescoço, falou:
— Você não compreende? Deus pode precisar de você.
Ele a encarou surpreso. Não queria perturbar sua fé infantil. Disse zombando:
— Suponho que um dia eu pare um cavalo fugitivo e salve da morte uma criança de cabelos dourados, hein? É isto?
Ela balançou a cabeça. Tentando expressar o que estava tão vivido em sua mente e tão hesitante em sua fala, disse com veemência:
— Pode ser apenas por estar em algum lugar, não por fazer alguma coisa, só por estar num determinado lugar numa determinada hora. Oh! não consigo dizer o que penso; entanto você pode estar simplesmente andando por uma rua algum dia, e só em fazer isto, realizar algo terrivelmente importante. Talvez nem mesmo sabendo que o fez.
A jovem e ruiva enfermeira era natural da costa ocidental da Escócia e parte de sua família tinha "visões".
Talvez ela tenha visto vagamente a imagem de um homem andando por uma estrada numa noite de setembro e salvando um ser humano de uma morte terrível.
14 de fevereiro

Havia uma única pessoa na sala e o único barulho que se ouvia era o da caneta rabiscando palavra por palavra no papel.
Não havia ninguém para ler o que estava sendo escrito. Se houvesse, dificilmente acreditaria no que estava vendo, porque estava sendo traçado um claro e detalhado plano de assassinato.
Há momentos em que o corpo tem consciência de que a mente o controla. É quando se curva obediente àquele algo estranho que comanda as ações. Há outros momentos em que a mente está consciente de possuir e controlar um corpo, e de realizar seu propósito ao usá-lo.
Era neste último estado que se encontrava a pessoa que escrevia.
Era uma inteligência fria e controlada. Esta cabeça tinha apenas um pensamento e um propósito: a destruição de um outro ser humano.
A fim de alcançar o propósito, o plano estava sendo cuidadosamente traçado no papel. Cada possibilidade e cada eventualidade estavam sendo consideradas. Tinha que ser absolutamente seguro. O esquema, como todo bom esquema, não estava completamente estabelecido. Sempre existiriam certas alternativas de ações em determinadas circunstâncias. Além disso, sendo inteligente, compreendia que era preciso estar preparado para os imprevistos. Contudo, as partes principais estavam claras e haviam sido cuidadosamente testadas. A hora... o lugar... a maneira... a vítima...
Levantou a cabeça. Apanhou as folhas de papel e leu cuidadosamente. Sim. Estava tudo claro como cristal.
Apareceu um sorriso em seu rosto sério. Não era um sorriso completamente são. Respirou fundo. Da mesma forma que o homem foi feito à imagem de seu Criador, ali estava agora um que era uma terrível caricatura da alegria de um criador.
Sim. Estava tudo planejado. Todas as reações previstas e levadas em consideração: o bem e o mal de cada um, explorados e harmonizados com um intento diabólico.
Faltava porém um detalhe...
Com um sorriso, marcou uma data. Uma data em setembro...
Então, com um riso, rasgou o papel, pegou os pedaços, atravessou a sala, e jogou-os no fogo reluzente. Não haveria descuido. Cada pedacinho foi consumido e destruído. Agora o plano existia somente na cabeça de seu criador.
18 de março

O Superintendente Battle estava sentado à mesa do café. Com o maxilar cerrado lia devagar e com atenção a carta que sua esposa lhe entregara chorosa. Não havia em seu rosto nenhuma expressão. Como sempre, nada denunciava. Tinha o aspecto de um rosto esculpido em madeira. Sólido, durável e de certa forma impressionante.
O Superintendente nunca sugeria brilhantismo; definitivamente não era um homem brilhante. Tinha, porém, outras qualidades difíceis de se definir, embora fossem poderosas.
— Não posso acreditar — disse a Sra. Battle soluçando. — Sylvia!
Sylvia era a mais nova dos cinco filhos do casal. Tinha 16 anos, e estava num colégio perto de Maidstone.
A carta era da Srta. Amphrey, diretora do colégio. Estava escrita de uma forma gentil, precisa e com muito tato: Expunha uma série de pequenos roubos que durante algum tempo haviam intrigado as autoridades escolares, e que finalmente haviam sido esclarecidos, uma vez que Sylvia Battle os havia confessado. A Srta. Amphrey gostaria ainda de ver o Sr. e a Sra. Battle na primeira oportunidade para que o problema fosse discutido.
O Superintendente Battle dobrou a carta. Colocando-a no bolso falou:
— Deixe isto comigo, Mary.
Levantou-se, deu a volta à mesa, fez um carinho no queixo da Sra. Battle e disse:
— Não se preocupe querida. Vai dar tudo certo.
Saiu da sala, deixando atrás de si o conforto e a segurança.
Naquela tarde, na moderna sala de visitas privativa da Srta. Amphrey, o Superintendente, sentado ereto, com suas grandes e rudes mãos pousadas nos joelhos, encarava a diretora, conseguindo parecer muito mais do que habitualmente, um policial em cada milímetro.
A Srta. Amphrey era uma diretora bem sucedida. Tinha personalidade, uma grande dose de personalidade. Era esclarecida e atualizada. Associava disciplina com avançadas idéias de autodeterminação. Sua sala traduzia o espírito de Meadway. Era tudo em cor creme, com grandes jarras de narcisos e taças de tulipas e jacintos. Na parede uma ou duas boas reproduções do grego antigo, duas esculturas modernas, dois primitivos italianos. Em meio a isto, ela própria vestida de azul escuro, com um rosto ansioso que fazia lembrar um galgo e com seus olhos azuis-claros observando com seriedade através de grossas lentes.
— O mais importante — dizia ela com sua voz clara e bem modulada — é que o assunto seja conduzido de forma correta. Devemos em primeiro lugar nos preocupar com a menina, Sr. Battle. Com a pessoa de Sylvia! É importante, muito importante, que sua vida não seja afetada de modo algum. Ela não deve ser forçada a assumir a responsabilidade do furto. No caso de ser julgada, a atitude dela deve ser encarada com indulgência. Devemos descobrir o que existe por trás desses pequenos roubos. Será talvez um complexo de inferioridade? Como o senhor sabe, ela não se sai bem nos esportes. Ou quem sabe tenha um desejo oculto de se sobressair noutro setor? Ou ainda um desejo de afirmação? Por essa razão quis falar-lhe a sós em primeiro lugar para aconselhá-lo a ser cauteloso ao tratar com Sylvia. Repito que é muito importante compreender o que há por trás disto.
— É por este motivo, Srta. Amphrey, que estou aqui — disse o Superintendente Battle.
Sua voz estava calma, o rosto imperturbável, examinando e avaliando a diretora.
— Tenho sido muito compreensiva com ela — afirmou.
— Meus parabéns minha senhora — retrucou ele lacônico.
— O senhor sabe, realmente amo e compreendo estas meninas.
Battle não respondeu a isto. Apenas comentou:
— Se não se importa, gostaria de ver minha filha agora.
Novamente, com ênfase, a Srta. Amphrey o advertiu para ser cuidadoso, falar com tato, não contrariar uma menina que está se tornando mulher.
O Superintendente não mostrava sinais de impaciência. Seu rosto estava inexpressivo.
Finalmente ela o levou para o gabinete. Depararam com uma ou duas meninas no caminho que permaneceram de pé, educadamente, mas com os olhos cheios de curiosidade. Depois de introduzir Battle na pequena sala que não refletia tanta personalidade como a do andar de baixo, a Srta. Amphrey retirou-se dizendo que iria buscar Sylvia.
No momento em que ia saindo, Battle a deteve.
— Espere um instante. Como a senhorita descobriu que era Sylvia a responsável por estes desaparecimentos?
— Usei meus métodos psicológicos, Sr. Battle — falou a diretora com dignidade.
— Psicológicos? Hum!... E quanto às evidências, Srta. Amphrey?
— Já sabia que seria esta a sua reação, Superintendente. É efeito de sua profissão. No entanto a psicologia está começando a ser reconhecida dentro da Criminologia. Posso lhe assegurar que não houve erro. Sylvia admitiu tudo espontaneamente.
Battle balançou a cabeça.
— Sim, eu já sei disto. Estava apenas perguntando como a senhorita veio a desconfiar dela.
— Bem, Sr. Battle, o número de coisas desaparecidas do vestiário aumentava. Reuni então as alunas e expus os fatos, enquanto estudava discretamente suas fisionomias. A expressão de Sylvia chamou-me atenção imediatamente. Trazia a culpa estampada no rosto! Naquele instante descobri quem era a culpada. Não queria forçá-la a confessar, mas sim fazê-la admitir o erro por si mesma. Preparei um pequeno teste para ela: um teste de associação de palavras,
Ele balançou a cabeça para mostrar que estava compreendendo. .
— E finalmente a menina confessou tudo.
— Entendo — disse o pai.
A diretora hesitou por um momento e então saiu.
Battle estava olhando pela janela, quando a porta se abriu novamente. Voltou-se e olhou para a filha.
Sylvia estava parada perto da porta que acabara de fechar. Era alta, morena e angulosa. Seu rosto estava sombrio e trazia vestígios de lágrimas. Falou de um modo mais tímido do que desafiante:
— Bem, aqui estou eu.
Battle olhou-a atentamente por um minuto ou dois e suspirou:
— Nunca deveria tê-la mandado para este lugar — comentou ele. — Aquela mulher é uma tola.
Sylvia, completamente surpresa, esqueceu-se até de seu problema.
— A Srta. Amphrey? Mas ela é maravilhosa! Todas nós achamos.
— Hum! Então não deve ser assim tão tola, uma vez que consegue ser tão bem aceita. De qualquer maneira este não era o lugar apropriado para você, embora tudo isto pudesse ter acontecido em qualquer outro lugar.
Sylvia torceu as mãos. Olhou para baixo e disse:
— Sinto muito, papai. Estou realmente arrependida.
— Pois deveria estar mesmo — retrucou abruptamente. — Venha cá.
Ela se encaminhou devagar e de má vontade até o pai; este, segurando-lhe o queixo com sua mão forte, a encarou:
— Você tem passado por maus momentos, não — é? — perguntou carinhosamente.
Vieram lágrimas aos olhos de Sylvia.
— Olhe, Sylvia, sempre soube que havia "algo" com você. A maioria das pessoas apresenta uma ou outra forma de fraqueza. Normalmente é uma coisa banal. Pode-se observar quando a criança é egoísta, tem mau gênio ou é briguenta. Você foi uma criança boa, muito sossegada, de temperamento dócil, e que não criou nenhum problema; o que me preocupou algumas vezes. Quando existe algum defeito que não podemos perceber, este defeito, por vezes, arruina totalmente o indivíduo no momento em que ele é posto à prova.
— Assim como eu? — perguntou Sylvia.
— Sim, como você. Você desmoronou sob tensão, e também de uma forma muito estranha. De maneira tão esquisita como nunca vi antes.
— Sempre pensei que você encontrasse ladrões com bastante freqüência — concluiu ela repentinamente e com ironia.
— Ah sim! Eu os conheço bem. E é por isso, minha querida, e não por ser seu pai (os pais pouco sabem a respeito dos filhos), mas sim um policial, que me leva a ter certeza de que você não é uma ladra. Você nunca tirou nada deste lugar. Há dois tipos de ladrão: o tipo que se entrega a súbita e irresistível tentação (e isto acontece muito raramente. E impressionante o número de tentações a que um ser humano comum, normal e honesto pode resistir), e o tipo que simplesmente se apossa do que não lhe pertence como se isto fosse um fato natural. Você não pertence a nenhum dos dois tipos. Você não é uma ladra, mas sim um tipo raro de mentirosa.
— Mas... — Sylvia começou a falar.
Ele continuou, num impulso:
— Você admitiu tudo? Sim, eu sei. Existia uma santa que destribuía pão para os pobres. Seu marido não aprovava. Aproximou-se dela e perguntou o que havia na cesta. Ela perdeu a calma e disse que eram rosas. Ele abriu a cesta com violência e lá estavam as rosas: um milagre! Se você tivesse sido Santa Isabel e saísse com uma cesta de rosas, e seu marido chegasse e perguntasse o que você estava carregando você perderia a calma e diria:
— Pão.
Fez uma pausa e depois disse carinhosamente:
— Foi assim que aconteceu, não foi?
Houve um silêncio ainda maior, e repentinamente Sylvia baixou a cabeça. Seu pai pediu:
— Conte-me filha. O que aconteceu exatamente?
— Ela nos reuniu. Fez um discurso. Vi seus olhos fixos em mim, e senti que eles me achavam culpada. Senti-me enrubescer, e notei que algumas garotas olhavam para mim. Foi horrível. Então as outras começaram a me olhar e a cochichar. Sabia o que pensavam. Assim, certa noite a Amp nos trouxe, a mim e as outras meninas, aqui para cima, e fizemos um certo tipo de jogo de palavras: ela dizia algumas palavras e nós dávamos respostas...
Battle resmungou aborrecido.
— Compreendi o que aquilo significava e fiquei de certo modo bloqueada. Tentei não dizer a palavra errada, tentei pensar em coisas diferentes, como esquilos e flores. Enquanto isso a Amp me olhava com olhos penetrantes que mais pareciam brocas. O senhor sabe, como se estivessem me penetrando. Tudo isso foi piorando dia após dia, até que certa vez a Amp falou comigo tão carinhosamente, tão compreensiva, que não resisti mais, confessando que tinha feito aquilo. Foi um alívio, papai!
Battle passava a mão no queixo.
— Entendo.
— Entende mesmo?
— Não Sylvia, não compreendo, porque não sou assim. Se alguém tentasse me fazer confessar alguma coisa que eu não tivesse feito, teria vontade de lhe dar um soco no queixo. Mas posso ver o que aconteceu no seu caso. Esta tal de Amp dos olhos penetrantes teve diante do nariz um ótimo exemplo de psicologia, exatamente como qualquer amador de novas teorias poderia desejar. Agora o importante é esclarecer esta confusão. Onde está a Srta. Amphrey?
A Srta. Amphrey estava discretamente por perto. O sorriso simpático desapareceu do seu rosto quando o Superintendente Battle disse bruscamente:
— Para fazer justiça a minha filha devo pedir que a senhorita chame a polícia.
— Mas, Sr. Battle, a própria Sylvia...
— Ela nunca tocou em nada aqui que não lhe pertencesse.
— Posso entender que o senhor como pai...
— Não estou falando como pai, mas sim como policia! Chame a polícia para ajudá-la neste caso. Serão discretos. Acharão os objetos escondidos em algum lugar, e espero que encontrem também as impressões digitais. Ladrões iniciantes não se lembram de usar luvas. Vou levar minha filha comigo. Se a polícia encontrar provas, provas reais, para ligá-la aos furtos estou preparado para levá-la ao tribunal e suportar o que lhe acontecer. Mas não estou receoso.
Cinco minutos mais tarde, ao atravessar o portão ao lado de Sylvia, perguntou:
— Quem é aquela garota de cabelo louro, ligeiramente crespo, as faces muito rosadas, um sinal no queixo e olhos azuis bem separados? Cruzamos com ela na passagem.
— Deve ser a Olive Parsons.
— Bem, não ficaria surpreso se fosse ela a culpada.
— Ela parecia assustada?
— Não. Parecia dissimulada. Uma aparência tão calma e tão dissimulada como as que tenho visto centenas de vezes no tribunal de polícia. Aposto bom dinheiro como ela é a ladra. Você não a verá confessar. Jamais!
Sylvia disse com um suspiro:
— É como sair de um pesadelo. Oh, papai, sinto muito! Sinto muito! Estou realmente arrependida! Como pude ser tão boba, completamente tola? Sinto-me horrível com tudo isso.
O Superintendente Battle tirou a mão do volante, acariciou o braço da filha e, para consolá-la, emitiu uma de suas frases usuais de carimbo:
— Ora, não se preocupe. Estas coisas acontecem só para nos atormentar. Sim, é isso. Pelo menos, é o que suponho. Não vejo outra razão para que sucedam.
19 de abril

O sol brilhava na casa de Nevile Strange, em Hindhead. Era um desses dias de abril, como acontece pelo menos uma vez durante o mês, mais quente que os dias de junho os quais ainda estavam para chegar.
Nevile desceu as escadas usando calça branca e com quatro raquetes de tênis debaixo do braço.
Se tivessem que escolher um homem entre outros ingleses, como um homem de sorte e com tudo aquilo que alguém possa desejar, a Comissão de Seleção bem que poderia escolher Nevile Strange. Era um homem popular, excelente jogador de tênis e um desportista versátil. Apesar de nunca ter chegado às finais em Wimbledon, havia ganho várias partidas nos torneios de abertura, e nas duplas mistas por duas vezes chegara às semifinais.
Era talvez, um desportista versátil demais para ser campeão de tênis. Jogava golfe, era bom nadador e havia feito escaladas nos Alpes. Tinha 33 anos, ótima saúde, boa aparência, muito dinheiro, uma linda mulher com quem se casara recentemente, e, ao que tudo indicava, nenhum problema ou preocupação.
Entretanto, naquela bela manha, quando desceu as escadas uma sombra o acompanhou. Uma sombra que só seus olhos perceberam. Estava consciente disto, e sua testa enrugada o fazia ficar com uma expressão perturbada e indecisa.
Atravessou o hall, ajeitando os ombros como que para livrar-se definitivamente de alguma carga. Passou pela sala de visitas indo até a varanda envidraçada, onde sua mulher estava enroscada em almofadas, bebendo um suco de laranja.
Kay Strange tinha 23 anos e era de uma beleza extraordinária. Era esbelta, mas o corpo possuía formas delicadamente exuberantes, cabelo ruivo escuro, a pele tão perfeita que para realçá-la usava pouquíssima maquilagem, olhos e sobrancelhas escuras que raramente combinam com cabelos ruivos mas que quando isto acontece são tão devastadores.
Seu marido disse alegremente:
— Olá beleza! O que temos para o café da manhã?
— Para você, horríveis rins sangrentos, cogumelos e bacon.
— Parece bom! — exclamou Nevile.
Serviu-se das carnes e de uma xícara de café. Houve um silêncio amistoso por alguns minutos.
— Oh! — disse Kay balançando sensualmente os pés de unhas vermelhas. — O sol não está lindo? Até que a Inglaterra não é tão desagradável.
Tinham acabado de chegar do Sul da França.
Depois de ler apenas as manchetes dos jornais, Nevile passou à seção de esporte e comentou simplesmente:
— Hum!...
Deixando de lado o jornal, pegou uma torrada com geléia e em seguida abriu a correspondência. Havia muitas cartas, mas ele rasgou a maioria delas e jogou fora. Circulares, Propagandas e impressos.
— Não gosto do colorido da sala de visitas. Posso reformá-la? — perguntou Kay.
— Como quiser, beleza.
— Azul-pavão — disse Kay sonhadora — e almofadas de cetim branco.
— Você terá que colocar um macaco — retrucou Nevile.
— Você pode ser o macaco — disse Kay.
Nevile abriu outra carta.
— A propósito — falou Kay. — Shirty nos convidou para um cruzeiro de iate até Norway, no final de junho. É pena que não possamos ir.
Ela olhou cautelosamente para ele e acrescentou, ansiosa:
— Adoraria ir.
Alguma coisa como uma nuvem, uma dúvida, pairou no semblante de Nevile.
Kay perguntou revoltada:
— Temos mesmo que ir à casa lúgubre da velha Camilla?
Nevile franziu as sobrancelhas.
— Claro que temos. Olhe aqui Kay, já discutimos isto antes. Sir Matthew foi meu tutor. Ele e Camilla tomaram conta de mim. Gull's Point é meu lar mais do que qualquer outro lugar.
— Está bem, está bem — disse ela. — Afinal de contas quando ela morrer ficaremos com todo aquele dinheiro. Por isso, suponho que tenhamos que bajulá-la.
Nevile respondeu zangado:
— Não é uma questão de bajular! Ela não tem controle sobre o dinheiro. Sir Matthew deixou-o em usufruto. Depois ficará para mim e para minha esposa. É uma questão de amizade. Por que você não consegue entender isso?
Depois de uma pausa, Kay disse:
— Sim, entendo. Estou fazendo uma cena porque sei que lá sou tolerada apenas por ser sua esposa. Elas me detestam! Sim, esta é a verdade! Lady Tressilian, com aquele seu nariz comprido, me olha com ar de superioridade, e Mary Aldin não me encara quando fala comigo. Para você está tudo ótimo. Você não vê o que se passa.
— Sempre me pareceram muito gentis com você. Bem sabe que não admitiria o contrário.
Por debaixo de seus cílios escuros, Kay lançou-lhe um olhar estranho.
— São suficientemente educadas, mas sabem muito bem me atingir. Para elas sou uma intrusa.
— Bem, afinal de contas, é uma reação natural, não é? — disse Nevile.
Sua voz havia mudado um pouco. Levantou-se, e de costas para ela, ficou olhando a paisagem.
— Ah! Sim! Eu diria que é natural. Eram tão devotas de Audrey, não eram? — sua voz tremeu um pouco. — A querida, a bem nascida, a tranqüila e insípida Audrey! Camilla nunca me perdoou por ter tomado o lugar dela.
Nevile não se virou. Sua voz estava velada e sem vida quando falou:
— Afinal de contas, Camilla é idosa. Já passou dos setenta. Sua geração não aceita bem o divórcio. Acho até que ela reagiu muito bem à situação, considerando o quanto ela gostava de... de Audrey.
Sua voz mudou um pouco ao pronunciar seu nome.
— Elas acham que você a tratou muito mal.
— E tratei mesmo — sussurrou Nevile. Mas Kay ouviu.
— Ora Nevile, não seja tão tolo. Só porque ela resolveu fazer drama.
— Ela não faz dramas. Audrey nunca age assim.
— Bem, você sabe a que estou me referindo. Ela foi embora, ficou doente, demonstrando sofrimento o tempo todo. É isto que chamo de drama! Audrey não é uma boa perdedora. No meu ponto de vista, se uma mulher não consegue prender o marido, deve abrir mão dele sem criar problemas! Vocês nada tinham em comum. Ela nunca praticava esporte, era anêmica e desanimada como um trapo. Não havia nela nenhuma vida ou energia. Se realmente gostava de você, deveria em primeiro lugar pensar na sua felicidade, e ficar satisfeita por você poder ser feliz com alguém com quem tivesse mais afinidade.
Nevile voltou-se e com um sorriso levemente sarcástico nos lábios, falou:
— Quanta sabedoria! Como você entende do jogo do amor e do matrimônio!
Kay riu e corou.
Bem, talvez eu tenha exagerado um pouco. De qualquer maneira, uma vez acontecido, não há mais jeito. É preciso saber aceitar os fatos.
E Audrey aceitou. Ela se divorciou para que pudéssemos casar.
— Sim, eu sei... — disse Kay hesitante.
— Você nunca entendeu Audrey.
— Não, nunca. De certa forma, ela me dá arrepios. Não sei o que há com ela. Nunca se sabe no que está pensando. Ela... ela é um pouco assustadora.
— Que bobagem, Kay!
— Bem, ela me assusta. Talvez por ser inteligente.
— Sua linda bobinha!
Kay riu.
— Você sempre me chama assim.
— Porque é isto que você é.
Sorriram um para o outro. Nevile indo até ela, se abaixou e beijou-lhe a nuca.
— Linda, linda Kay — murmurou ele.
— E também muito boazinha — disse ela. — Desisti da maravilhosa viagem de iate para ir visitar e ser tratada friamente pelos vitorianos parentes empertigados do meu marido.
Nevile voltou e sentou-se à mesa.
— Sabe, já que você deseja tanto ir, não vejo por que não fazermos essa viagem com Shirty.
Kay ficou atônita.
— E quanto a Saltcreek e Gull's Point?
Com a voz um tanto artificial, Nevile respondeu:
— Não vejo por que não irmos lá no começo de setembro.
— Mas, Nevile, certamente... — ela parou.
— Não podemos ir em julho nem em agosto por causa do torneio — disse Nevile. — O encerramento, porém, será na última semana de agosto em St. Loo, e de lá poderemos ir diretamente a Saltcreek.
— Assim seria perfeito. Mas pensei... bem, ela sempre vai lá em setembro, não vai?
— Você se refere a Audrey?
— Sim. Suponho que poderiam transferir a visita dela, mas...
— Mas por que iriam fazer isso?
Kay olhou-o indecisa.
— Você quer dizer que ficaríamos lá na mesma época? Que idéia mais estranha.
Nevile disse irritado:
— Não há nada de estranho nisto. Hoje em dia, muitas pessoas agem assim. Por que não devemos ser todos amigos? Simplificaria tudo! Ora, você mesma disse isto outro dia!
— Eu disse?
— Disse. Não se lembra? Estávamos falando sobre os Howes. Você comentou que era uma forma sensata e civilizada de encarar os fatos, e que a ex-esposa de Leonard e a atual eram ótimas amigas.
— Bem, eu não me incomodaria. Acho realmente uma atitude sensata, mas não creio que Audrey pense da mesma forma.
— Bobagem sua.
— Não é bobagem. Você sabe, Nevile, Audrey gostava imensamente de você... Não creio que suportasse esta situação nem por um minuto.
— Você está enganada, Kay. Audrey acha uma ótima idéia.
— O que você quer dizer com "Audrey acha"? Como sabe o que ela pensa?
Nevile ficou um pouco embaraçado. Pigarreou constrangido.
— Na verdade, encontrei-a ontem por acaso, quando estava em Londres.
— Você não me contou.
— Estou contando agora — disse Nevile irritado. — Foi uma simples coincidência. Estava andando pelo parque quando ela veio em minha direção. Você não iria querer que eu fugisse dela, não é?
— Não, claro que não — disse Kay encarando-o. — Continue.
— Eu... nós... bem, paramos, é claro, e começamos a caminhar juntos. Eu... eu achei que era o mínimo que poderia fazer.
— Continue.
— Depois nos sentamos e conversamos. Ela foi muito amável... muito mesmo.
— Ótimo para você.
— Continuamos a conversar sobre uma coisa e outra... Ela estava espontânea e natural.
— Maravilhoso!
— Ela perguntou por você.
— Muito amável da parte dela!
— Falamos um pouco a seu respeito. Acredite, Kay ela não poderia ter sido mais gentil.
— A querida Audrey!
— E então me ocorreu como seria bom se vocês duas fossem amigas, se pudéssemos nos reunir. Pensei que talvez fosse possível neste verão em Gull's Point. O tipo do lugar onde isto poderia acontecer com naturalidade.
— Esta idéia foi sua?
— Eu... bem, sim é claro. Foi toda minha.
— Você nunca me falou sobre esta hipótese.
— Na verdade, só me ocorreu naquela hora.
— Entendo. De qualquer maneira, você sugeriu e Audrey concordou achando uma brilhante idéia.
Só então Nevile percebeu alguma coisa diferente na maneira de Kay.
— Alguma coisa errada, beleza? — ele perguntou.
— Ah! não é nada. Nada mesmo! Vocês não se preocuparam com o que eu iria achar dessa idéia?
Nevile olhou-a nos olhos.
— Mas por que você haveria de se importar?
Kay mordeu o lábio.
— Você mesma disse, no outro dia... — prosseguiu ele.
— Ah, não vamos discutir isto novamente! Estava me referindo a outras pessoas, e não a nós.
— Mas, em parte, foi isto que me levou a pensar no assunto.
— Está querendo me fazer de boba?
Nevile a olhava espantado:
— Mas, Kay, por que você se aborreceria? Não há razão para isso.
— Não há?
— Bem, quero dizer, ciúme ou coisa assim deveria partir dela — fez uma pausa, e sua voz mudou. — Entenda Kay, nós tratamos Audrey terrivelmente mal. Não, não é isso que eu quero dizer. Você não tem culpa alguma. Eu é que a tratei muito mal. Não adianta nada dizer apenas que não pude evitar o que aconteceu. Se minha idéia desse certo, me sentiria muito melhor. Ficaria bem mais feliz.
— Então você não tem sido feliz? — disse Kay lentamente.
— Minha querida idiota, o que está dizendo? É claro que tenho sido feliz, extremamente feliz. Mas...
Kay o interrompeu.
— "Mas", é isto! Sempre houve um "mas" nesta casa. Uma sombra maldita rastejando pelo local. A sombra de Audrey.
Nevile a encarou.
— Não me diga que tem ciúmes de Audrey!
— Não tenho ciúme. Tenho medo. Nevile, você não conhece Audrey.
— Como não a conheço, se estive casado com ela por mais de 8 anos?
— Você não a conhece — repetiu Kay.
30 de abril.

— Um absurdo — disse Lady Tressilian. Ajeitou-se nas almofadas e olhou furiosamente em torno da sala. — Um absurdo completo! Nevile deve estar maluco.
— Parece realmente um tanto estranho — concluiu Mary Aldin.
Lady Tressilian tinha um perfil marcante, o nariz comprido e afilado, de tal forma que quando se inclinava ganhava uma aparência impressionante. Apesar de já ter passado dos 70 anos e de ter uma saúde frágil, sua energia mental não fora de modo algum afetada. É verdade que tinha longos períodos de abstração quando ficava deitada com os olhos semicerrados, mas saía destas letargias com todas as suas faculdades aguçadas ao máximo, e com uma língua mordaz. Numa cama larga em um dos cantos do quarto, apoiada nos travesseiros, dominava sua corte como se fosse uma Rainha da França.
Mary Aldin, uma prima afastada e que também morava ali, cuidava dela. As duas mulheres se davam maravilhosamente bem. Mary tinha 36 anos, com um desses rostos perenes que pouco mudam com o passar dos anos. Poderia ter tanto 30, como 45 anos. Tinha boa aparência e classe. O cabelo escuro, com uma mecha branca na frente, dava-lhe um ar de personalidade. Houve época em que a mecha estivera na moda, mas a de Mary era natural, uma vez que a possuía desde bem jovem. Ela olhava pensativa a carta de Nevile Strange que Lady Tressilian lhe entregara.
— Sim — disse ela. — Parece muito estranho.
— Não posso acreditar que seja idéia de Nevile! Alguém a colocou em sua cabeça. Provavelmente foi aquela sua nova mulher.
— Kay? A senhora acha que partiu dela?
— Seria bem próprio dela. Jovem e vulgar. Se o marido e mulher, porventura, têm que anunciar seus problemas e recorrer ao divórcio, deveriam pelo menos fazê-lo com decência. Acho revoltante que ambas se tornem amigas. Hoje em dia ninguém mais tem padrões morais.
— Deve ser o costume atual — disse Mary.
— Em minha casa não vou admitir tal coisa — afirmou Lady Tressilian. — Acho que já fiz muito, recebendo aquela criatura de unhas vermelhas aqui.
— Ela é a esposa de Nevile.
— Exatamente. Por isso, achei que Matthew gostaria que eu a recebesse. Era dedicado ao menino e sempre desejou que ele considerasse esta casa como seu próprio lar. Recusar recebê-la seria o rompimento de nossa amizade. Por este motivo, cedi e a convidei. Não gosto dela. É a esposa errada para Nevile: nem berço, nem raízes.
— Ela é bem nascida — apaziguou Mary.
— Péssima origem — retrucou Lady Tressilian. — O pai, como já lhe contei, foi expulso de todos os clubes depois daquele problema com jogos de cartas. Felizmente morreu logo em seguida. A mãe era famosa na Riviera. Que educação para uma menina! Morava sempre em hotéis... e com aquela mãe...! Depois conheceu Nevile nas quadras de tênis, passou a atacá-lo com tal determinação que não descansou enquanto ele não abandonou a mulher, de quem gostava muito. Ela é a culpada de tudo!
Mary sorriu timidamente. Lady Tressilian tinha a característica antiquada de sempre culpar a mulher e de ser indulgente com o homem.
— Para ser justa, devo dizer que acredito que Nevile tenha sido igualmente culpado — sugeriu Mary.
— Nevile teve muita culpa — concordou Lady Tressilian. — Tinha uma esposa encantadora, sempre dedicada, devotada até demais. Entretanto, se não fosse pela insistência dessa moça, estou convencida de que ele teria sido mais racional. Contudo, ela estava decidida a se casar com ele. Sim, minha simpatia é toda de Audrey. Gosto muito dela.
— Tudo tem sido muito difícil — suspirou Mary.
— Sim, realmente. Qualquer um fica desorientado, sem saber como agir em tais circunstâncias. Matthew e eu gostávamos de Audrey, e não se pode negar que era uma ótima esposa para Nevile. Pena não ser do tipo esportivo para ter participado mais das atividades do marido. Foi tudo muito penoso. Quando eu era jovem, estas coisas não aconteciam. É verdade que os homens tinham seus casos, mas não se admitia a hipótese de se dissolver um casamento.
— Bem, agora é diferente — enfatizou Mary bruscamente.
— Certo. Você tem bom senso querida. De nada adianta lembrar dias passados. Hoje estas coisas acontecem, e moças assim como Kay Mortimer roubam os maridos de outras mulheres, sem que ninguém pense o pior delas!
— Exceto pessoas como você, Camilla.
— Minha opinião não pesa. Aquela criatura não está se importando se eu a aprovo ou não. Está muito ocupada se divertindo. Nevile pode trazê-la quando vier, e estou mesmo disposta a receber seus amigos, apesar de não gostar muito daquele jovem com ar teatral que está sempre com ela. Qual é o nome dele?
— Ted Latimer?
— É este mesmo. Um amigo de seus dias de Riviera. Gostaria muito de saber como ele consegue viver daquela maneira.
— De sua esperteza.
— Isto seria perdoável. Acredito porém que viva de sua aparência. Não é um amigo adequado à esposa de Nevile. Não gostei quando, no último verão, ele se hospedou no Hotel Easterhead Bay durante a estada dos Nevile aqui.
Mary olhou pela janela. A casa de Lady Tressilian ficava num penhasco íngreme, projetando-se sobre o rio Tern. Do outro lado do rio havia o recém-construído balneário de Easterhead Bay com uma vasta praia, um conjunto de modernos bangalôs e um grande hotel no alto de um morro, com vista para o mar. Saltcreek era uma isolada e pitoresca vila de pesca, situada na encosta de uma colina. Era uma vila antiga, conservadora, e com um profundo desprezo por Eastterhad Bay e seus veranistas.
O Hotel Easterhead Bay ficava praticamente de frente para a casa de Lady Tressilian e Mary olhava através da estreita faixa de água para o espalhafatoso balneário.
— Fico satisfeita — comentou Lady Tressilian fechando os olhos — que Matthew não tenha chegado a ver esta construção vulgar. Na sua época, o litoral ainda não estava estragado.
Sir Matthew e Lady Tressilian haviam chegado a Gull's Point há 30 anos. Passaram-se 10 anos desde que ele, um entusiasta navegador, havia se afogado na presença de sua esposa quando seu bote virou.
Todos esperavam que Lady Tressilian vendesse Gull's Point e deixasse Saltcreek, todavia ela não o fez. Sua única reação foi vender todos os barcos e acabar com a casa dos barcos. Não haviam em Gull's Point barcos disponíveis para os hóspedes, assim tinham que caminhar até o ancoradouro, e alugá-los em um dos vários barqueiros existentes.
— Devo, então, escrever a Nevile e contar-lhe que seu propósito não vem de encontro aos seus planos? — perguntou Mary hesitante.
— Certamente nem sonho em interferir na visita de Audrey. Ela sempre vem em setembro e não pedirei que mude seus planos.
— Nevile diz aqui que Audrey aprova a idéia, e está disposta a se encontrar com Kay — comentou Mary olhando a carta.
— Simplesmente não acredito. Nevile, como todos os homens, acredita no que quer.
Mary insistiu:
— Ele diz que conversou com ela sobre o assunto.
— Que coisa mais estranha! Não. Talvez no fundo não seja.
Mary olhou-a esperando uma explicação.
— Tal qual Henrique VIII — disse Lady Tressilian.
Mary olhou-a intrigada.
Lady Tressilian explicou a observação:
— Problema de consciência! Henrique VIII estava sempre tentando fazer com que Catarina concordasse com o divórcio. Nevile sabe que agiu mal e quer sentir-se menos culpado. Está então tentando forçar Audrey a dizer que virá encontrar Kay e que nada a perturba.
— Estava pensando... — falou Mary pausadamente.
— Em que estava pensando minha querida?
— Estava pensando... — ela parou e depois prosseguiu — esta carta nem parece de Nevile. Você acha que por algum motivo especial Audrey possa desejar este encontro?
— Por que haveria? — perguntou Lady Tressilian categoricamente. — Depois que Nevile a abandonou, ela foi para casa da tia, a Sra. Royde, na Reitoria, onde teve um colapso nervoso. Ficou uma sombra do que era. È evidente que foi terrivelmente atingida. Ela é dessas pessoas calmas, controladas mas que sentem as coisas intensamente.
Mary mexeu-se inquieta.
— Sim. Ela é extremamente sensível. Uma moça estranha sob vários aspectos...
— Ela sofreu muito... Veio o divórcio, Nevile casou-se com a outra, e, aos poucos, Audrey começou a se recuperar. Atualmente ela está quase aquilo que era. Não me venha dizer que agora ela quer remexer em velhas recordações.
Mary respondeu com teimosia.
— É o que Nevile diz.
A velha senhora olhou-a com curiosidade:
— Você está excessivamente obstinada em relação a este assunto, Mary. Por quê? Você está querendo que isto aconteça?
Mary Aldin corou.
— Não,. claro que não.
Lady Tressilian disse rispidamente:
— Foi você quem fez esta sugestão a Nevile?
— Como pode pensar tamanho absurdo?
— Bem, nem por um segundo acreditei ser idéia de Nevile. Não é próprio dele — fez uma pausa e depois seu rosto se iluminou. — Amanhã é 1° de maio, não é? Bem, dia 3 Audrey virá para a casa dos Darlingtons em Esbank. Fica a menos de 40 quilômetros daqui. Escreva e convide-a para almoçar conosco.
5 de maio.

— A Sra. Strange está aqui.
Audrey Strange entrou no amplo quarto indo até a cama. Abaixou-se, beijou a velha senhora e sentou-se na cadeira que lhe fora destinada.
— Prazer em vê-la, minha querida — disse Lady Tressilian.
— A satisfação é minha — respondeu ela.
Havia algo de inatingível em Audrey Strange. Era pálida, feições delicadas e proporcionais ao rosto ovalado. Os olhos eram de um cinza-claro e bem separados. Os cabelos, louro-acinzentados. Tinha mãos e pés pequenos. Com tal colorido, com um rosto bonito, mas não lindo, tinha, entretanto, alguma coisa que não poderia ser ignorada e que fazia com que não lhe desviassem o olhar. Lembrava um fantasma, mas ao mesmo tempo sentia-se que neste fantasma havia algo mais real do que em qualquer ser humano vivo... Sua voz era excepcionalmente bonita, suave e límpida como um pequeno sino de prata.
Durante alguns minutos falaram sobre amigos comuns e acontecimentos em geral. Em seguida Lady Tressilian disse:
— Além do prazer de revê-la, minha querida, eu a convidei aqui porque recebi de Nevile uma carta um tanto curiosa.
Audrey encarou-a, seus olhos estavam serenos e calmos. Falou:
— Ah, sim!
— Sugere, uma sugestão absurda, eu diria, que ele e Kay venham para cá em setembro. Deseja que você e ela se tornem amigas, e que você mesma achou isto uma ótima idéia.
Fez uma pausa. Em seguida, Audrey, com sua voz tranqüila, perguntou:
— Acha a idéia assim tão absurda?
— Minha querida, você quer mesmo que isto aconteça?
Novamente Audrey calou-se por um ou dois minutos. Então, gentilmente, confessou:
— Sabe, acho que poderia ser uma boa coisa.
— Quer mesmo encontrar com esta... encontrar Kay?
— Creio, Camilla, que poderia simplificar as coisas.
— Simplificar! — repetiu Lady Tressilian com desânimo.
— Querida Camilla, você tem sido tão boa. Se Nevile deseja que... — Audrey falou suavemente.
— Pouco importa o que Nevile deseja! — reagiu Lady Tressilian bruscamente. — O problema é saber se é realmente isto o que você quer.
Audrey enrubesceu. Seu rosto ganhou o brilho delicado de uma concha.
— Sim. É o que eu quero.
— Bem, então...
Fêz-se uma pausa.
— Mas é claro que você e quem resolve — disse Audrey. — A casa é sua e...
Lady Tressilian fechou os olhos.
— Estou velha — enfatizou. — Não consigo entender mais nada.
— Mas é claro que... posso vir em outra época... quando você achar melhor.
— Você virá em setembro como todos os anos — disse repentinamente Lady Tressilian. — Nevile e Kay também virão. Posso ser velha, mas creio que consigo adaptar-me tanto quanto qualquer outra pessoa às mudanças da vida moderna. Chega de conversa, já está resolvido.
Fechou novamente os olhos. Pouco depois, com as pálpebras semicerradas, olhou para a jovem sentada ao seu lado, e perguntou:
— Então, conseguiu o que queria?
Audrey sobressaltou-se.
— Ah! sim, sim. Obrigada.
— Minha querida — falou Lady Tressilian com tom de preocupação —, tem- certeza de que esta situação não vai magoá-la? Você gostava muito de Nevile. Pode reabrir velhas feridas.
Audrey olhava para as mãos. Lady Tressilian notou que uma delas agarrava com força o lado da cama. Audrey levantou a cabeça. Seus olhos estavam calmos e imperturbáveis.
— Tudo já passou. Acabou completamente.
Lady Tressilian recostou-se com mais força nos travesseiros.
— Bem, você é quem sabe. Estou cansada... você deve ir agora, querida. Mary a espera lá embaixo. Peça a Barrett que suba.
Barrett era sua mais antiga e devotada criada. Encontrou a patroa recostada, com os olhos fechados.
— Quanto mais cedo me vá deste mundo, melhor, Barrett. Não compreendo as pessoas, nem mais nada que acontece.
— Não diga isto. A senhora está apenas cansada.
— Sim, estou cansada. Tire este edredão dos meus pés e me dê uma dose do meu tônico.
— Foi a vinda da Sra. Strange que a perturbou. É uma senhora agradável, mas eu diria que um pouco de tônico lhe faria bem. Ela não é saudável. Parece estar sempre vendo coisas que ninguém mais vê. Mas tem personalidade marcante e muita presença.
— Isto é verdade, Barrett — disse Lady Tressilian. — Sim, é a pura verdade. E é também o tipo de pessoa de quem não se esquece facilmente. Sempre imagino se, às vezes, o Sr. Nevile não pensa nela. A nova Sra. Strange é muito bonita, realmente bonita, mas a Srta. Audrey se faz lembrar na sua ausência.
Lady Tressilian ressaltou num rompante:
— Nevile é um tolo em querer aproximar estas duas mulheres. Será o primeiro a se arrepender.
29 de maio

Fumando cachimbo, Thomas Royde inspecionava o garoto malaio que arrumava as malas com muita agilidade. De vez em quando, seu olhar se dirigia até a plantação. Durante uns 6 meses, não veria aquela paisagem que nos últimos sete anos lhe fora tão familiar. Seria estranho retornar à Inglaterra.
Allen Drake, seu companheiro, apareceu na porta.
— Oi, Thomas, como vão as coisas?
— Já está tudo pronto.
— Venha tomar um drinque, seu sortudo. Estou me consumindo de inveja.
Thomas Royde saiu vagarosamente do quarto e foi ao encontro do amigo. Permaneceu calado, pois era um homem singularmente lacônico. Seus amigos aprenderam a julgar suas reações pelo tipo de seu silêncio. Tinha uma figura um pouco atarracada, um rosto honesto e grave, com olhos observadores e pensativos. Seu andar era meio de lado como o de um caranguejo. Isso era o resultado do esmagamento que sofrera, por uma porta, durante um terremoto, e que mais tarde viria a contribuir para o apelido de "Caranguejo Solitário". O braço e o ombro, que haviam ficado parcialmente paralíticos, além de um andar afetado, levavam as pessoas a acreditar que ele se sentia tímido e embaraçado, o que na verdade raramente acontecia.
Allen Drake preparou as bebidas.
— Bem — disse ele —, boa caçada.
Royde resmungou alguma coisa que soou como "hum, hum".
Drake olhou-o curioso.
— Fleumático como sempre — comentou. — Não sei como consegue ser assim. Há quanto tempo você está fora de casa?
— Sete anos. Quase oito.
— É muito tempo. Fico pensando se você já não se transformou inteiramente em um nativo.
— É. Talvez isso tenha acontecido.
— Você sempre pertenceu mais ao grupo animal do que ao humano. Por acaso planejou esta viagem?
— Bem... sim, em parte.
Seu rosto duro e impassível de repente se tingiu de vermelho profundo.
Allen Drake comentou muito surpreso:
— Acredito que existe uma garota nesta história. Credo, você está ruborizado!
— Não seja tolo — disse Thomas Royde um tanto ríspido, segurando com mais força seu velho cachimbo.
Batendo todos os recordes anteriores, continuou a conversa:
— Certamente encontrarei tudo um pouco mudado.
Allen Drake perguntou curioso:
— Nunca entendi por que da última vez você desistiu de ir para casa. E bem em cima da hora.
Royde encolheu os ombros.
— Achei que aquela caçada poderia ser mais interessante. E já havia, então, recebido más notícias de casa.
— Mas é claro, tinha me esquecido. Seu irmão morreu naquele acidente de automóvel.
Thomas Royde concordou com a cabeça.
Drake refletiu e achou que de qualquer maneira era um motivo estranho para se cancelar uma viagem de volta para casa. Havia a mãe e parece que também uma irmã. Certamente numa hora destas... Lembrou-se, então, de alguma coisa. Thomas havia cancelado a passagem antes de chegar a notícia do falecimento do irmão.
Allen olhou intrigado para o amigo. Seria o velho Thomas, um desconhecido?
Depois de passados três anos, podia agora perguntar:
— Você e seu irmão eram muito amigos?
— Adrian e eu? Não em especial. Cada um tinha sua vida. Ele era advogado.
Sim — pensou Drake —, uma vida muito diferente. Escritório em Londres, festas; ganhando a vida pela sagacidade da palavra. Concluiu que Adrian Royde tinha sido um sujeito muito diferente do velho e silencioso Thomas.
— Sua mãe ainda está viúva?
— Mamãe? Sim, está.
— Você também tem uma irmã, não?
Thomas balançou a cabeça.
— Ah, pensei que tivesse. Naquela fotografia...
— Não é minha irmã. É uma prima distante ou coisa parecida. Era órfã e foi criada conosco — Royde murmurou.
Mais uma vez uma leve cor apareceu em seu rosto bronzeado.
Drake perguntou curioso:
— Ela é casada?
— Ela foi casada com o tal de Nevile Strange.
— Aquele jogador de tênis, etc?
— Sim. Agora estão divorciados.
E você vai até lá tentar sua sorte com ela — pensou Drake.
Felizmente a conversa tomou outro rumo.
— Vai pescar ou caçar?
— Primeiro vou para casa. Depois pretendo velejar em Saltcreek.
— Conheço o lugar. Encantador. E tem um bom hotel antigo, porém bastante agradável.
— Sim, o Balmoral Court. Talvez fique lá, ou me hospede na casa de uns amigos.
— Parece-me ótimo.
— Saltcreek é um lugar muito sossegado. Ninguém para nos perturbar.
— Eu sei — comentou Drake. — O tipo de lugar onde nada acontece.
16 de junho

— É realmente irritante — disse o velho Sr. Treves. — Há 25 anos que me hospedo no Hotel Marine, em Leahead; e agora parece incrível, estão reformando todo o lugar. Estão ampliando a parte da frente e fazendo mais outras obras absurdas Por que será que não deixam em paz esses lugares no litoral? Leahead sempre teve um fascínio peculiar: o estilo regência, puro regência.
Sir Rufus disse querendo consolar:
— Mas suponho que existam outros lugares onde se hospedar, não?
— Na realidade, não vejo como ir a Leahead. No Marine, a Sra. Mackay compreendia perfeitamente minhas necessidades. Todos os anos eu ficava no mesmo quarto, e raramente havia mudanças no serviço do hotel. A comida era excelente, realmente excelente.
— E que tal ir a Saltcreek? Existe lá um hotel antigo e simpático: O Balmoral Court. O hotel está sob a gerência do casal Rogers. A Sra. Rogers foi cozinheira do velho Lorde Mounthead; ele dava os melhores jantares de Londres. Ela se casou com o mordomo e agora os dois administram esse hotel. Parece-me o lugar ideal para você: sossegado, sem orquestras de jazz, cozinha e serviço de primeira.
— É uma idéia, certamente uma idéia. Tem terraço coberto?
— Sim. Uma varanda coberta e também um terraço. Pode escolher a sombra ou o sol, conforme sua preferência. Se quiser, posso lhe dar urna carta de apresentação para aquela redondeza, Existe também a velha Lady Tressilian, que mora bem próximo. Tem uma bonita casa, sendo que ela própria é uma mulher encantadora, apesar de estar praticamente inválida.
— Refere-se à viúva do juiz?
— Sim, a ela mesma.
— Eu conheci Matthew Tressilian e acho que cheguei a conhecê-la. Uma mulher encantadora, mas é claro que isto foi há muito tempo. Saltcreek é perto de St. Loo, não é? Tenho vários amigos por lá. Sabe, acho Saltcreek uma ótima idéia. Vou escrever pedindo maiores detalhes. Pretendo ir em meados de agosto, e ficar até meados de setembro. Suponho que tenha garagem e lugar para o meu motorista, não?
— Sim. É inteiramente moderno.
— Pois como você sabe, tenho que ser cuidadoso com a subida de escadas. Prefiro um quarto no andar térreo, apesar de acreditar que haja elevador.
— Sim. Possui todas essas coisas.
— Parece que resolveria perfeitamente o meu problema; e apreciaria muito reencontrar Lady Tressilian.
28 de julho

Kay Strange, de short e casaquinho amarelo, estava debruçada assistindo à partida de tênis. Era a semifinal do torneio, a individual masculina, onde Nevile jogava com o jovem Merrick, considerado o futuro campeão de tênis. Sua habilidade era inegável, e alguns de seus saques irrebatíveis. Entretanto, às vezes perdia a calma, quando a experiência e a técnica do jogador mais velho conseguiam vencê-lo.
Deslizando, Ted Latimer sentou-se na cadeira vizinha à de Kay. Comentou com a voz vagarosa e irônica:
— A esposa devotada assiste ao marido abrir caminho para a vitória!
Kay sobressaltou-se:
— Como você me assustou! Não sabia que estava aí.
— Sempre estou. A esta altura você já deveria saber.
Ted Latimer tinha 25 anos e era extremamente bonito, apesar de velhos coronéis costumarem fazer comentários maldosos contra ele:
— "O toque latino".
Era moreno, com um lindo bronzeado, além de ótimo dançarino. Seus olhos escuros eram muito expressivos, e controlava a voz com a segurança de um ator. Kay o conhecia desde os quinze anos. Juntos, em Juan-les-Pins, haviam tomado banho de sol, dançado e jogado. Além de amigos, tinham sido aliados.
O jovem Merrick estava sacando do lado esquerdo da quadra. A devolução de Nevile foi irrebatível: uma magnífica jogada para o fundo da quadra.
— O seu golpe de esquerda é bom — comentou Ted. — É melhor do que o de direita. Ele sabe que o fraco de Merrick é o golpe de esquerda. Vai jogar tudo o que sabe.
Terminou a partida: "4x3". Nevile estava na liderança e continuou a levar vantagem na outra partida. O jovem Merrick jogava furiosamente.
— "5x3".
— Vantagem para Nevile — falou Latimer.
Em seguida o rapaz recuperou a calma. Suas jogadas tornaram-se cautelosas, modificando o compasso de seus lances.
— Ele tem cabeça — disse Ted. — E seu trabalho de pés é de primeira classe. Vai ser uma disputa para valer!
Aos poucos, Merrick conseguiu empatar: "5x5". Chegou a "7", e finalmente ganhou a partida com "9x7".
Nevile aproximou-se da rede. Sorrindo e balançando a cabeça, cumprimentou o adversário.
— A mocidade falou mais alto — disse Ted Latimer — 19 a 33. Mas posso lhe dizer, Kay, porque Nevile nunca chegou a campeão. É bom perdedor.
— Que bobagem!
— Não é não. O maldito Nevile comporta-se sempre como um perfeito desportista. Nunca o vi zangado por perder uma partida.
— É claro que não — falou Kay. — Os jogadores costumam agir como Nevile.
— Ah! Não costumam mesmo. Todos nós já vimos grandes tenistas ficarem nervosos, mas nunca Nevile. Deixa que o melhor deles vença; e tudo o mais.
Kay virou a cabeça.
— Não acha que está sendo muito maldoso?
— Sim, completamente felino!
— Preferiria que não demonstrasse tão claramente que não gosta de Nevile.
— E por que haveria de gostar? Ele roubou minha garota.
Ted olhou-a demoradamente.
— Eu não era sua garota. As circunstâncias impediam.
— Certamente. Não se pode esquecer o fato dele ter mais dinheiro.
— Cale esta boca. Apaixonei-me por Nevile e me casei com ele...
— E ele é um ótimo rapaz... é o que todos acham, não?
— Está tentando me aborrecer?
Ao fazer a pergunta, Kay virou a cabeça. Ele sorriu e imediatamente ela correspondeu ao sorriso.
— Como vai indo a temporada de verão, Kay?
Mais ou menos. Fiz uma linda viagem de iate. Já estou bastante cansada deste negócio de tênis.
— Por quanto tempo ainda vai ter que agüentar isto? Mais um mês?
— Sim. Depois, em setembro, iremos a Gull's Point por quinze dias.
— Estarei no Hotel Easterhead — disse Ted. — Já reservei um quarto.
— Vai ser um belo acontecimento! — exclamou Kay. — Nevile, eu, sua ex-esposa, e um fazendeiro da Malásia que vem para casa de férias.
— Perece muito divertido.
— E também, é claro, a prima desajeitada, sempre serviçal, em volta daquela velha desagradável, o que de nada adianta pois o dinheiro será meu e de Nevile.
— Talvez ela não saiba disto.
— E até que seria bem engraçado — disse Kay, falando distraidamente.
Olhou para a raquete que estava rodando nas mãos. De repente prendeu a respiração.
— Ah, Ted!
— O que há, meu bem?
— Não sei. Às vezes perco a coragem. Sinto-me estranha e com medo.
— Nem parece você, Kay.
— Não pareço, não é? De qualquer maneira você estará no Hotel Easterhead Bay.
— Conforme os planos.
Quando Kay encontrou Nevile na saída do vestiário, ele comentou:
— Vejo que seu amiguinho chegou.
— Ted?
— Sim, o cão fiel, ou talvez fosse mais apropriado dizer um lagarto.
— Você não gosta dele, não é?
— Ah! Ele não me preocupa. Se você se diverte em andar com ele pela coleira.
Nevile encolheu os ombros em sinal de indiferença.
— Acho que você está com ciúmes — disse Kay.
— De Latimer? — sua surpresa era verdadeira.
— Ted é considerado muito atraente.
— Tenho certeza de que sim. Tem aquele charme latino.
— Você está com ciúmes! — exclamou Kay.
Nevile apertou com carinho o braço de Kay.
— Não, não estou, beleza. Você pode ter seus admiradores Uma corte inteira deles, se quiser. Eu tenho a posse e, pela lei, o direito é meu.
— Você está muito seguro de si — contestou Kay chateada.
— Claro que estou. Você e eu fomos predestinados. O destino nos uniu. Lembra-se do nosso encontro em Cannes: eu estava a caminho do Estoril e, de repente, quando cheguei lá, a primeira pessoa que vi foi a linda Kay. Soube então que era o destino, e que não poderia escapar.
— Não foi exatamente o destino — esclareceu ela. — Fui eu!
— O que você quer dizer com "fui eu"?
— Porque fui eu! Ouvi você dizer no hotel que ia para o Estoril, e então insisti e convenci minha mãe. Por essa razão, a primeira pessoa que você encontrou lá foi a Kay.
Nevile olhou-a com uma expressão curiosa.
Falou devagar:
— Você nunca me contou isso antes.
— Não, porque não teria sido bom para você. Poderia torná-lo convencido. Sempre fui boa em planejar coisas. Nada acontece sem que preparemos o acontecimento. Às vezes você me chama de tola, mas a meu modo sou até bem esperta. Faço com que as coisas aconteçam. Algumas vezes planejo com bastante antecedência.
— É. O trabalho intelectual deve ser intenso.
— Pode zombar se quiser, Nevile — disse com uma estranha e repentina amargura.
— Será que só agora estou conhecendo a mulher com quem me casei? Em lugar de destino, leia-se Kay!
— Você não está zangado, está? — perguntou ela.
Seu marido disse um tanto distraído:
— Não, é claro que não. Só estava pensando...
10 de agosto

— E lá se foram minhas férias! — exclamou o Superintendente Battle aborrecido.
A Sra. Battle estava desapontada, mas os longos anos como esposa de um policial haviam-na preparado para aceitar com resignação esses contratempos.
— Bem, não podemos fazer nada — ressaltou ela. — Espero que pelo menos seja um caso interessante.
— Não é o que me parece — disse o Superintendente Battle. — O Ministério das Relações Exteriores está na maior confusão: todos aqueles jovens altos e esbeltos movimentando-se de um lado para o outro, dizendo: Calma! calma! No final tudo se resolverá satisfatoriamente e solucionaremos o problema de todos. Entretanto, não é o tipo de caso que colocaria em minhas Memórias, se algum dia fosse tolo o bastante para escrevê-las.
— Creio que podemos adiar nossas férias... — começou a Sra. Battle indecisa, quando o marido a interrompeu com firmeza.
— De forma alguma. Você e as garotas vão para Britlington. Os quartos estão reservados desde março e seria uma pena não aproveitá-los. Sabe o que vou fazer quando isto tudo acabar? Irei passar uma semana com Jim.
Jim era sobrinho do Superintendente Battle, inspetor James Leach.
— Saltington é bem perto da baía de Easterhead e Saltcreek — prosseguiu ele. — Posso respirar um pouco de ar puro e tomar banho de mar.
A Sra. Battle torceu o nariz.
— O mais provável é que ele o convença em ajudá-lo a resolver algum caso.
— Nesta época do ano, nada acontece, a não ser que uma mulher roube coisas de pouco valor de Woolworth. De qualquer maneira, Jim está muito bem, e não precisa que o orientem.
— Ah, bem! — disse a Sra. Battle. — Acredito que tudo isso dê certo, porém, mesmo assim foi uma decepção.
— Estas coisas acontecem para nos atormentar — afirmou o Superintendente Battle.



Branca de Neve e rosa vermelha
I
Ao descer do trem em Saltington, Thomas Royde encontrou Mary Aldin esperando-o na plataforma.
Guardava dela apenas uma vaga lembrança, e agora, revendo-a, ficou agradavelmente surpreso com sua maneira ativa de lidar com as coisas.
Ela o chamava pelo primeiro nome.
— Que prazer em revê-lo depois de todos estes anos, Thomas.
— Obrigado por me hospedar. Espero não incomodar.
— Nem um pouco. Você é especialmente bem-vindo. Aquele é o carregador? Diga-lhe para trazer a bagagem por aqui. O carro está estacionado logo adiante.
As malas foram guardadas no Ford. Mary sentou-se à direção e Royde a seu lado. Partiram. Thomas notou que ela era uma boa motorista, ágil, cuidadosa no trânsito, além de segura quando calculava a distância e o espaço entre os carros.
Saltington ficava a 11 quilômetros de Saltcreek. Logo que saíram do pequeno centro comercial da cidade e pegaram a estrada, Mary Aldin voltou ao assunto de sua visita.
— Na verdade, Thomas, sua vinda neste momento será como uma dádiva de Deus. Tudo está um pouco complicado e precisamos de um estranho, ou seja, alguém que não esteja realmente envolvido, para ajudar-nos.
— Qual é o problema?
Como sempre, seu jeito era indiferente e quase indolente. Deu a impressão de estar perguntando mais por delicadeza do que por interesse na resposta. Sua maneira acalmara Mary. Ela precisava urgentemente falar com alguém, entretanto, preferia que esse alguém fosse imparcial.
Ela disse:
— Bem, estamos numa situação bem delicada. Como deve saber, Audrey está aqui.
Ela parou interrogativa, e Thomas concordou com a cabeça.
— Nevile e a esposa também.
Thomas Royde ergueu as sobrancelhas. Depois de um instante, murmurou:
— Um tanto embaraçoso...
— Sim, é. Foi tudo idéia de Nevile.
Ela fez uma pausa. Royde não falou, mas sentiu que uma corrente de dúvida vinha da parte dela. Mary repetiu, afirmando:
— Foi realmente idéia de Nevile.
— Por quê?
Por um momento ela tirou as mãos do volante, levantando-as.
— Ah, alguma atitude moderna! Todos juntos, amigos e sensatos. Esta é a idéia. Mas não creio que esteja dando muito certo.
— Provavelmente não dará. Que tal é a nova esposa? — acrescentou ele.
— Kay? Bonita, é claro. Realmente muito bonita e bem jovem.
— E Nevile está apaixonado?
— Sim. Mas também, estão casados há apenas um ano e meio!
Thomas Royde virou a cabeça para olhá-la, dando um pequeno sorriso. Mary apressou-se.
— Não foi exatamente isto que eu quis dizer.
— Ora Mary. Acho que você quis sim.
— Bem, não se pode deixar de notar que eles têm muito pouco em comum. Os amigos, por exemplo... — Ela parou.
— Ele a conheceu na Riviera, não foi? — perguntou Royde. — Não estou bem a par do que aconteceu. Sei apenas de poucos fatos que minha mãe me contou quando me escreveu.
— Sim. Encontraram-se pela primeira vez em Cannes. Nevile sentiu-se atraído por ela. Acredito que isto já tenha acontecido antes, mas como sempre, de uma forma inofensiva. Continuo achando que se ela não tivesse insistido, não teria dado em nada. Como você sabe, ele gostava muito de Audrey.
Thomas concordou com a cabeça.
— Não creio que ele tivesse a intenção de se separar — prosseguiu Mary — Estou até certa disto. Kay estava, porém, terminantemente decidida. Não descansou enquanto não o fez abandonar a esposa. E como se sente um homem em tais circunstâncias? Naturalmente que fica lisonjeado.
— Ela estava muito apaixonada por ele?
— É. Talvez tenha sido isto.
Havia dúvida no tom de voz de Mary. O olhar de indagação de Royde fê-la corar.
— Estou sendo malévola! Há sempre por perto um velho amigo dela, um jovem bonitão, com tipo de gigolô. Às vezes, não se pode deixar de pensar se o fato de Nevile ter uma boa situação financeira e prestígio nada teve a ver com isto... Afinal, ela não tinha um tostão.
Fez uma pausa parecendo envergonhada. Thomas Royde apenas exclamou:
— Hum! hum!
— Entretanto — continuou Mary —, devo estar sendo muito maldosa. A moça é o que se pode chamar de deslumbrante, e isto, provavelmente, faz com que meus instintos felinos de solteirona venham à tona.
Royde olhou-a pensativo, porém em seu rosto impassível, não se via nenhuma reação. Pouco depois, ele perguntou:
— Exatamente, qual é o problema que está havendo?
— Na verdade, não tenho a menor idéia. É isto que é muito estranho. É lógico que primeiramente consultamos Audrey, porém ela não se mostrou contra o encontro com Kay. Foi encantadora em relação a tudo. E continua sendo. Ninguém poderia ter sido mais simpática. Aliás, é sempre correta em tudo que faz. Seu comportamento para com o casal é perfeito. Como você sabe, ela é muito reservada. Nunca se tem idéia do que realmente está sentindo ou pensando, mas sinceramente não acredito que esta situação não a perturbe.
— Não vejo por que haveria de perturbá-la — disse Thomas. — Afinal, já se passaram três anos — acrescentou ele depois de algum tempo.
— Será que pessoas como Audrey esquecem? Ela gostava muito de Nevile.
Thomas mexeu-se no banco.
— Ela tem apenas 32 anos. Há uma vida inteira pela frente.
— Ah! eu sei. Mas sofreu muito. Como você sabe, teve um colapso nervoso.
— Eu sei. Minha mãe me escreveu contando.
— De certa maneira — disse Mary —, ter que cuidar de Audrey foi até bom para a sua mãe. Distraiu-a de seu próprio sofrimento: a morte de seu irmão. Sentimos muito o que aconteceu
— Eu sei. Pobre Adrian. Sempre dirigiu em alta velocidade.
Ficaram calados. Mary fez sinal com o braço para avisar que iria tomar o caminho para Saltcreek.
Enquanto passavam pela estrada estreita e cheia de curvas, ela perguntou:
— Thomas, você conhece bem Audrey?
— Mais ou menos. Não a tenho visto muito nestes últimos dez anos.
— Eu sei. Mas você a conheceu em criança. Ela era como uma irmã para você e Adrian, não?
Ele concordou com a cabeça.
— Ela tinha... tinha alguma forma de desequilíbrio? Ah, não é bem isto que quero dizer. Mas sinto que atualmente há algo de muito errado com ela. É completamente desligada de tudo, e seu equilíbrio tão perfeito não é natural. Às vezes fico imaginando o que se passa por traz da sua fisionomia impassível. Uma vez ou outra, sinto que existe uma emoção forte. Mas não sei bem qual é. Sei apenas que ela não é normal. Há algo estranho, e isto me preocupa. Alguma coisa no ambiente daquela casa afeta as pessoas. Estamos todos nervosos e sobressaltados. Mas não sei o porquê. Algumas vezes, Thomas, sinto medo.
— Medo?
O tom de surpresa na sua voz a fez recobrar a calma e soltar um riso nervoso.
— Parece absurdo... Mas o que quero dizer é que sua chegada será boa para nós, trará uma mudança no ambiente. Olhe, chegamos.
Haviam dobrado a última curva. Gull's Point ficava num planalto de pedra com vista para o rio. Havia penhascos nos dois lados. Os jardins e a quadra de tênis ficavam do outro lado, perto da estrada.
— Vou guardar o carro e já volto. Hurstall cuidará de você — disse Mary.
Hurstall o velho mordomo, cumprimentou Thomas com o prazer de um velho amigo.
— Fico feliz em vê-lo, Sr. Royde, depois destes anos todos. Lady Tressilian também ficará. O senhor dormirá no quarto leste. Creio que encontrará todos no jardim, a não ser que prefira ir primeiro para o seu quarto.
Thomas balançou a cabeça. Atravessou a sala de visitas e abriu a janela que dava para o terraço. Ficou observando sem ser visto.
Duas mulheres eram as únicas ocupantes do terraço. Uma delas estava sentada na balaustrada, olhando o rio. A outra a observava.
A primeira era Audrey... a outra deveria ser Kay Strange, que por sua vez, não sabendo que estava sendo observada, não se preocupou em disfarçar a expressão do rosto. Talvez Thomas Royde não conhecesse bem as mulheres, mas não poderia deixar de notar que Kay Strange odiava Audrey Strange.
Audrey olhava o rio parecendo inconsciente ou indiferente à presença da outra.
Haviam passado mais de sete anos desde que Thomas vira Audrey pela última vez. Examinou-a cuidadosamente. Teria ela mudado, e se assim fosse, de que maneira?
Sim, havia uma mudança — concluiu ele. Estava mais magra, mais pálida, com uma aparência mais etérea. Porém havia mais alguma coisa, que não conseguiu definir bem. Era como se ela controlasse cada um de seus movimentos, mantendo-se presa a uma coleira, entretanto, sempre muito atenta a tudo que acontecia a sua volta. Parecia uma pessoa com um segredo a esconder. No entanto, que segredo? Ele tinha conhecimento de alguns fatos ocorridos com ela nestes últimos anos. Estava preparado para ouvir lamentações, porém o que estava vendo agora era algo diferente do que esperava. Ela parecia uma criança que por segurar com força um tesouro, chamava atenção para aquilo que queria esconder.
Em seguida ele olhou para a outra mulher: a atual esposa de Nevile Strange. Linda. Mary Aldin tinha razão. E também perigosa. Pensou: "Não a deixaria perto de Audrey se estivesse com uma faca na mão".
Contudo, por que haveria ela de odiar a primeira mulher de Nevile? Tudo já terminara. Atualmente, Audrey nada tinha a ver com a vida dos dois.
Passos ressoaram no terraço. Parecendo cordial, Nevile se aproximou com uma revista nas mãos.
— Eis a Illustrated Review — disse ele. — Não encontrei a outra...
Aconteceram então duas coisas ao mesmo tempo.
— Ótimo, me dá aqui — pediu Kay. E Audrey, sem. virar o rosto, estendeu a mão distraída.
Nevile estava parado entre as duas. Ficou embaraçado. Antes que pudesse falar, Kay exclamou com uma voz ligeiramente histérica:
— Eu quero a revista. Dê para mim, Nevile!
Audrey Strange sobressaltou-se, abaixou a mão, e murmurou um tanto confusa:
— Ah, desculpe. Pensei que estivesse falando comigo, Nevile.
Thomas Royde notou que Nevile Strange ficara ruborizado. Deu três passos à frente e entregou a revista à Audrey, que cada vez mais embaraçada, hesitando, continuou:
— Ah, mas...
Kay empurrou a cadeira com um movimento brusco. Levantou-se e saiu em direção à sala de visitas. Esbarrou em Royde antes que ele tivesse tempo de se mexer.
O choque fê-la recuar e olhá-lo, enquanto ele se desculpava. Só então percebeu por que ela não o tinha enxergado: seus olhos estavam cheios de lágrimas... lágrimas de raiva, supôs ele.
— Olá — disse ela. — Quem é você? Ah, mas é claro, o homem da Malásia.
— Sim — disse Thomas. — Sou o homem da Malásia.
— Agradeceria a Deus se eu estivesse agora na Malásia! Qualquer outro lugar, menos isto aqui. Detesto esta casa nojenta. Detesto todo mundo que está dentro dela!
Cenas nervosas sempre assustaram Thomas. Olhou para Kay receoso e murmurou nervoso:
— Hum!
— Se não tomarem cuidado — observou ela —, vou acabar matando alguém: ou Nevile ou aquela gata pálida lá fora!
Saiu apressadamente batendo a porta.
Thomas Royde continuou parado. Não tinha muita certeza do que faria em seguida, mas estava satisfeito que a jovem Sra. Strange tivesse ido embora. Ficou olhando para a porta que ela batera com violência. A nova Sra. Strange lembrava um gato selvagem.
Nevile surgiu, parando entre as duas portas. Estava ofegante.
Cumprimentou Thomas:
— Alô Royde, não sabia que já tinha chegado. Por sinal, viu a minha mulher?
— Ela passou por aqui há um minuto — respondeu.
Nevile saiu da sala, parecendo aborrecido.
Thomas Royde se encaminhou para o terraço. Seus passos eram leves, e somente quando estava a poucos metros de Audrey, é que ela virou a cabeça.
Então ele viu seus olhos arregalados e a sua boca entreaberta. Ela desceu de onde estava, vindo em sua direção com os braços estendidos.
— Thomas! — disse ela. — Meu querido Thomas! Que bom que você está aqui.
No momento em que ele se curvou e segurou as mãos de Audrey, Mary Aldin apareceu na janela. Ao ver os dois no terraço, parou e ficou observando-os por alguns minutos. Em seguida, voltou para dentro.
II
Lá em cima, Nevile encontrara Kay no quarto. O único quarto de casal que havia na casa era o de Lady Tressilian. Os casais ficavam sempre com os dois quartos, no lado oeste da casa, que tinha uma porta de comunicação, além de um pequeno banheiro. Era uma pequena e isolada suíte.
Nevile passou pelo seu quarto indo direto ao de sua mulher. Kay tinha se jogado sobre a cama. Levantou o rosto marcado de lágrimas, e gritou:
— Ah, você está aí! Já não era sem tempo!
— Por que esta confusão toda? Você ficou maluca, Kay?
Nevile falou calmamente, mas no canto de suas narinas havia vestígios de raiva.
Por que você deu a Illustrated Review para ela e não para mim?
— Ora, Kay, você está sendo infantil. Todo este drama por causa de uma revista?
— Você entregou a revista para ela e não para mim — repetiu Kay com obstinação.
— Bem, e por que não? Que importância tem isso?
— Para mim tem muita.
— Não entendo o que está havendo com você. Não pode ter esse comportamento histérico na casa dos outros. Será que não sabe se comportar em público?
— Por que você deu a revista para Audrey?
— Porque ela queria.
— Eu também queria. E além do mais sou sua mulher.
— Mais um motivo para dá-la a uma mulher mais velha, e que oficialmente não é parente.
— Ela se desforrou. Era o que queria, e conseguiu. Você estava do lado dela!
— Você está falando como uma criança idiota e ciumenta. Pelo amor de Deus, controle-se e procure se comportar corretamente em público.
— Como Audrey, não é?
Nevile falou com frieza:
— De qualquer modo, ela é uma dama. Não faz papel ridículo.
— Ela está jogando você contra mim. Me odeia e está conseguindo se vingar.
— Olhe aqui, Kay, chega de ser boba e melodramática. Já estou farto!
— Então vamos embora daqui. Amanhã mesmo. Detesto este lugar!
— Só estamos aqui há quatro dias.
— E já é o bastante! Por favor, vamos embora Nevile.
— Olhe aqui, Kay, já aturei o bastante. Viemos para ficar 15 dias e ficaremos.
— Se ficarmos — disse ela — você vai se arrepender. Você e a sua Audrey! Você a acha maravilhosa.
— Não acho Audrey maravilhosa, mas sim uma pessoa extremamente boa e gentil, a quem tratei muito mal e que foi generosa me perdoando.
— É aí que você se engana — falou. Levantou-se da cama. Tinha se acalmado. Falou seriamente, quase solene:
— Audrey não o perdoou, Nevile. Eu a tenho observado quando olha para você. Não sei dizer no que fica penando mas há alguma coisa... Ela é do tipo que não deixa ninguém saber em que está pensando.
— É pena — disse Nevile — que a maioria não seja assim.
Kay ficou muito pálida.
— Você está se referindo a mim? — Havia em sua voz uma ponta de ameaça.
— Bem... você não tem sido muito discreta, tem? Você demonstra claramente todo seu rancor e mau humor. Cria uma situação ridícula para você e para mim.
— Ainda tem alguma coisa para dizer?
Sua voz estava gelada.
Ele respondeu num tom igualmente frio:
— Sinto muito se você acha que fui injusto. Mas esta é a pura verdade. Você tem menos autocontrole do que uma criança.
— Você nunca perde a calma, não é? É sempre o senhor superior, de maneiras encantadoras e controladas. Acho que você não tem sentimentos. Nem parece que tem sangue nas veias! Por que você não se descontrai? Por que você não grita, não amaldiçoa, não me manda para o inferno?
Nevile suspirou e encolheu os ombros.
— Oh Deus — suspirou ele.
Virou-se e saiu do quarto.
III
— Você está com a mesma aparência que tinha aos 17 anos, Thomas Royde — comentou Lady Tressilian. — O mesmo jeitão de coruja. E continua calado como antes. Por quê?
Thomas disse vagamente:
— Não sei. Nunca tive o dom da palavra.
— Tão diferente de Adrian. Seu irmão era um conversador espirituoso e esperto.
— Talvez seja esse o motivo. Sempre deixei a conversa a cargo dele.
— Pobre Adrian. Tinha um futuro tão promissor.
Thomas concordou com a cabeça.
Lady Tressilian mudou de assunto. Estava concedendo uma audiência a Thomas. Normalmente ela preferia receber uma visita de cada vez. Desta forma não se cansava e podia dar maior atenção às pessoas.
— Você já está aqui há 24 horas — comentou ela. — O que está achando da situação?
— Situação?
— Não fique com esta cara de bobo. Você faz isto propositadamente. Sabe muito bem a que me refiro: ao triângulo amoroso que se instalou aqui em minha casa.
Thomas respondeu com cautela:
— Parece haver um pouco de conflito.
Lady Tressilian sorriu maliciosa.
— Devo lhe confessar, Thomas, que estou me divertindo. Esta situação aconteceu contra minha vontade: na verdade fiz o possível para evitá-la. Todavia, Nevile estava obstinado. Insistiu em reunir estas duas mulheres e agora está colhendo o que plantou!
Thomas Royde mexeu-se na cadeira.
— Perece-me estranho — falou ele.
— O que quer dizer com isto?
— Não pensei que Strange fosse desse tipo de sujeito.
— É interessante que você pense assim, porque foi o que também me ocorreu. Não é próprio dele. Nevile, como a maioria dos homens, preocupa-se em evitar qualquer problema ou possível aborrecimento. Desconfiei de que a idéia não tivesse partido dele, mas se não o foi, não posso imaginar de quem possa ter sido.
Ela fez uma pequena pausa, e com uma pequena inflexão na voz, perguntou:
— Não teria sido idéia de Audrey?
Thomas respondeu de imediato:
— Não, Audrey nunca!
— E também não posso acreditar que tenha sido idéia daquela jovem infeliz, a Kay. A não ser que seja uma atriz notável. Saiba que ultimamente sinto quase pena dela.
— A senhora não gosta muito dela, não é?
— Não. Ela parece uma cabeça oca, e sem nenhum equilíbrio emocional. Mas como lhe disse, começo a sentir pena. Tem se comportado de modo desajeitado e desnorteado. Não sabe que armas usar. Mau humor, péssimas maneiras, grosserias infantis, e tudo que tem o pior efeito sobre um homem como Nevile.
Thomas concluiu calmamente:
— Acho que Audrey é quem está numa situação difícil.
Lady Tressilian lançou-lhe um olhar penetrante.
Você sempre esteve apaixonado por Audrey, não é verdade Thomas?
— Acredito que sim — respondeu imperturbável. — Praticamente desde o tempo em que eram crianças, não é?
Ele concordou com a cabeça.
— E então Nevile apareceu, e a levou bem debaixo do seu nariz.
Ele se mexeu, inquieto, na cadeira.
— Bem... sempre soube que não tinha a menor chance.
— Derrotista! — disse Lady Tressilian.
— Sempre fui um estúpido.
— Pacato demais!
— Thomas, o bonzinho! É isto que Audrey pensa de mim.
— Fiel Thomas — lembrou Lady Tressilian. -— Era este o seu apelido, não era?
Ele sorriu pois estas palavras traziam lembranças de sua infância.
— Engraçado! Não ouço isto há muito tempo.
— Pode ser que agora isto lhe traga vantagem.
Ela respondeu ao seu olhar, segura e pensativa.
— Fidelidade — disse ela — é uma condição que qualquer pessoa, que tenha passado pela experiência que Audrey passou, deve apreciar. A devoção de uma vida inteira, Thomas, às vezes, é recompensada.
Royde olhou para baixo, desajeitado com seu cachimbo.
— Vim para cá com essa esperança — falou ele.
IV
— E aqui estamos todos — disse Mary Aldin.
Hurstall, o velho mordomo, enxugou a testa. Quando entrou na cozinha, a Sra. Spicer, a cozinheira, comentou sua expressão.
— A verdade é que não posso estar bem — afirmou ele. — Tenho a impressão de que, atualmente, tudo que é dito e feito nesta casa tem um significado diferente do que aparenta: será que você compreende?
A Sra. Spicer parecia não entender, e Hurstall prosseguiu:
— Agora mesmo, quando todos sentaram para jantar, a Srta. Aldin disse: "E aqui estamos todos." Isto me assustou. Fez-me pensar em um treinador preso numa jaula com as portas fechadas, com um bando de animais selvagens. De repente, tive a impressão de termos caído numa armadilha.
— Ora, Sr. Hurstall! — impacientou-se a Sra. Spicer. — O senhor deve ter comido alguma coisa que não lhe fez bem.
— Não é problema de digestão. É a maneira como todos estão nervosos. Ainda há pouco, a porta da frente bateu e a nossa Sra. Strange, a Srta. Audrey, sobressaltou-se como se tivesse levado um tiro. Existem ainda os silêncios, que são muito estranhos. Ê como se de repente todos tivessem medo de falar. Logo em seguida, começam a tagarelar todos ao mesmo tempo, dizendo a primeira coisa que lhes vem à cabeça.
— Realmente, é o bastante para deixar qualquer pessoa embaraçada — concordou a Sra. Spicer. — Duas Sras. Strange na mesma casa. Não acho decente.
Agora, a sala de jantar, estava num daqueles silêncios a que Hurstall tinha se referido.
Foi com muito esforço que Mary Aldin se dirigiu a Kay e disse:
— Convidei seu amigo, o Sr. Latimer, para jantar aqui amanhã.
— Ótimo! — disse Kay. Nevile perguntou:
— Latimer está aqui?
— Está hospedado no Hotel Easterhead Bay — respondeu Kay.
— Podemos ir jantar lá uma noite destas. Até que horas a barca funciona? — indagou Nevile.
— Até uma e meia — respondeu-lhe Mary.
— Imagino que dancem lá todas as noites, não?
— Lá, a maioria das pessoas tem cem anos! — exclamou Kay.
— Não deve ser muito divertido para o seu amigo — disse Nevile a ela.
Mary retrucou prontamente.
— Poderemos ir nadar um desses dias na baía de Easterhead. Ainda está calor e a praia é linda.
Em voz baixa, Thomas sussurrou a Audrey.
— Pensei em velejar amanhã. Gostaria de ir?
— Gostaria sim.
— Podemos ir todos — afirmou Nevile.
— Pensei que você havia dito que ia jogar golfe — lembrou Kay.
— Realmente pensei em ir ao campo de golfe. Outro dia joguei bastante mal.
— Que tragédia! — exclamou sua esposa.
Nevile respondeu, bem humorado:
— Golfe é um jogo trágico.
Mary perguntou a Kay se ela jogava.
— Sim. Jogo mais ou menos.
Nevile ressaltou:
— Ela seria uma boa jogadora se levasse o jogo mais a sério.
Kay perguntou a Audrey:
— Você não pratica nenhum esporte, não é?
— Na realidade não. Jogava um pouco de tênis, mas sou inteiramente desajeitada.
— Você ainda toca piano, Audrey? — perguntou Thomas.
— Atualmente não.
— Você costumava tocar muito bem — enfatizou Nevile.
— Pensei que não apreciasse música, Nevile — retrucou Kay.
— Não entendo muito de música — disse ele vagamente. — Nunca compreendi como Audrey, tendo as mãos tão pequenas, conseguia dar uma oitava.
Ele a estava olhando, quando Audrey pousou os talheres.
Ela corou um pouco e disse apressada:
— Meu dedo mínimo é muito comprido. Creio que isto ajuda.
— Você então deve ser egoísta — comentou Kay. — Senão seu dedo mínimo seria curto.
— Isto é verdade? — perguntou Mary Aldin. — Então devo ser altruísta. Olhe, meus dedos mínimos são bem curtos.
— Acho você muito generosa — falou Thomas Royde, olhando-a pensativamente.
Ela ficou vermelha, porém continuou prontamente:
— Quem será o menos egoísta de nós? Vamos comparar os dedos mínimos. O meu é mais curto que o seu, Kay. Mas, acho que Thomas ganha.
— Eu ganho de vocês dois — apressou-se Nevile. — Olhe! — e esticou a mão.
— Mas só em uma das mãos — lembrou Kay. — O dedo mínimo de sua mão esquerda é curto mas o da mão direita é comprido. E sua mão esquerda é o que nasce com você, e a direita é o resultado do que você faz de sua vida; o que significa que você nasceu egoísta, mas foi se tornando altruísta à medida que o tempo passou.
— Você pode ler o futuro, Kay? — perguntou Mary Aldin, estendendo-lhe a mão, com a palma virada para cima. — Uma quiromante me disse que eu ia ter dois maridos e três filhos. Vou ter que me apressar!
Kay corrigiu:
— Estas pequenas cruzes não significam crianças, e sim viagens. Você fará três viagens por mar.
— Isto também parece improvável — enfatizou Mary.
— Você já viajou muito? — perguntou Thomas Royde.
— Não.
Notando uma tristeza oculta em sua voz, continuou:
— Você gostaria de viajar?
— Mais do que qualquer outra coisa.
Ele refletiu sobre o tipo de vida que Mary levava. Sempre a serviço de uma mulher velha. Calma, diplomática, uma excelente administradora. Em seguida, perguntou curioso:
— Você mora com Lady Tressilian há muito tempo?
— Há quase quinze anos. Vim para cá logo depois da morte de meu pai, que já estava inválido há alguns anos antes de morrer.
Depois, respondeu à pergunta que ele estava querendo fazer:
— Tenho trinta e seis anos. Era isto que você queria saber, não?
— Eu estava imaginando — ele admitiu. — Você poderia ter qualquer idade, percebe?
— Este é um comentário que pode ter duplo sentido.
— É, imagino que sim.
Seu olhar pensativo e sombrio não se afastava do rosto de Mary. Ela porém não se sentia constrangida, pois havia ele um interesse genuíno e atencioso, despido de crítica. Vendo-o observar seus cabelos, ela passou a mão na mecha branca, e disse:
— Tenho esta mecha desde muito jovem.
— Gosto dela — comentou Thomas simplesmente.
Ele continuou a olhá-la. Finalmente, num tom ligeiramente divertido ela perguntou:
— Bem, qual é o veredicto?
Sob o rosto bronzeado, ele corou:
— Ah! acho que é indelicado ficar lhe encarando. Estava curioso a seu respeito; queria saber como você é realmente.
— Por favor — ela disse precipitadamente, levantando-se da mesa. Ao entrar na sala de visitas, segurando Audrey pelo braço, falou:
— O velho Sr. Treves também vem jantar amanhã.
— Quem é ele? — perguntou Nevile.
— Ele trouxe uma carta de apresentação de Lorde Rufus. É um senhor encantador. Está hospedado no Balmoral Court. Sofre do coração e tem uma aparência frágil, mas suas faculdades mentais estão perfeitas e ele conheceu muitas pessoas interessantes. Não me lembro se é advogado ou solicitador.
— Todos aqui são tão velhos! — exclamou Kay descontente.
Ela estava parada bem debaixo da luz, na mesma direção que Thomas olhava. Olhou-a com o pouco interesse que sempre dava a tudo que estava diretamente diante de seus olhos.
De repente foi fulminado pela beleza intensa e ardente de Kay. Uma beleza de muito colorido, repleta de vitalidade. Dirigiu então o olhar para Audrey, apagada e sem colorido, com seu vestido prateado.
Ele sorriu para si mesmo e murmurou:
— Rosa vermelha e Branca de Neve.
— O quê? — era Mary Aldin perguntando ao seu lado.
Ele repetiu as palavras:
— Como aquele velho conto popular, você sabe...
Mary disse:
— É uma ótima comparação...
V
O Sr. Treves bebia seu vinho com prazer. O vinho estava ótimo e o jantar muito bem servido. Era evidente que Lady Tressilian não tinha problemas com seus empregados. A casa também era bem administrada, apesar de sua dona ser uma inválida.
Pena que as senhoras não tenham se retirado da sala de jantar quando o vinho do porto foi servido. Ele preferia o costume antigo, porém os jovens têm hábitos diferentes.
Seus olhos pousaram pensativos na radiante beleza da jovem mulher: a atual esposa de Nevile Strange.
Hoje, a noite era de Kay. Sua resplandecente beleza brilhava à luz das velas. Ao seu lado. Ted Latimer com os cabelos escuros e brilhantes bajulava-a, fazendo-a se sentir triunfante e segura de si mesma.
A simples visão de tamanha e tão radiante vitalidade deixava o Sr. Treves animado.
Juventude! realmente, nada como a juventude! — pensou.
Não era de se admirar que o marido tivesse perdido a cabeça e deixado a primeira mulher. Audrey estava sentada perto dele. Uma criatura encantadora e também uma dama. Porém, segundo a experiência do Sr. Treves, ela era o tipo de mulher que é abandonada invariavelmente.
Ela estava com a cabeça abaixada olhando para o prato. Sua completa imobilidade chamou a atenção do Sr. Treves, que a observou mais atentamente. Ficou imaginando no que ela estaria pensando. Achou encantadora a maneira como o cabelo caía sobre sua pequenina orelha...
Ao notar que alguma coisa estava acontecendo, o Sr. Treves, com um pequeno sobressalto, voltou a si. Num movimento rápido ficou de pé.
Na sala de visitas, Kay Strange foi até a vitrola e colocou um disco para se dançar.
Mary Aldin desculpou-se com o Sr. Treves:
— Estou certa de que o senhor detesta jazz.
— De forma alguma — disse ele educadamente, apesar de não estar sendo sincero.
— Talvez mais tarde possamos jogar bridge — sugeriu ela. — Mas não começaremos uma partida agora, pois sei que Lady Tressilian o aguarda para conversarem.
— Está bem, com muito prazer! Lady Tressilian nunca desce para jantar?
— Não. Antes ela costumava descer numa cadeira de rodas. Por isto instalamos um elevador. No entanto, atualmente ela prefere ficar no seu quarto. Lá ela pode receber apenas quem desejar, convocando numa espécie de Comando Real.
— Muito bem expressado, Srta. Aldin. Estou ciente do toque real nas maneiras de Lady Tressilian.
No centro da sala, Kay ensaiava uns passos de dança.
— Tire esta mesa do caminho, Nevile — pediu ela.
Sua voz era autoritária e segura. Seus olhos brilhavam e sua boca estava entreaberta.
Obedientemente, Nevile empurrou a mesa. Ela caminhou em sua direção, mas deliberadamente, virou-se para Ted Latimer.
— Venha, Ted, vamos dançar.
Ted imediatamente passou o braço em torno dela. Dançavam, movendo-se, balançando, os passos perfeitamente coordenados. Era um lindo espetáculo.
O Sr. Treves murmurou:
— Ah! bastante profissional.
Mary Aldin estremeceu ligeiramente ao ouvir a palavra. Entretanto, o Sr. Treves falara apenas por simples admiração. Olhando para seu rosto sagaz, notou uma expressão distraída, como se ele estivesse perdido em seus próprios pensamentos.
Nevile hesitou por um momento, indo depois até Audrey que estava parada perto da janela.
— Quer dançar, Audrey?
Seu tom era formal, quase frio. Dir-se-ia que seu pedido fora por simples delicadeza. Audrey Strange hesitou um pouco antes de aceitar e dar um passo em direção a ele.
Mary fez alguns comentários banais, aos quais o Sr. Treves não respondeu. Até então ele não havia mostrado sinais de surdez e sua educação era perfeita. Ela concluiu que ele deveria estar absorto em alguma coisa; e era este o motivo de sua distração. Ela não pôde descobrir se ele observava os casais dançando, ou Thomas Royde parado, sozinho, do outro lado.
Com um pequeno sobressalto, o Sr. Treves perguntou:
— Desculpe-me, minha senhora, o que estava falando?
— Nada. Apenas comentava que não é normal, agora em setembro, termos um tempo tão bom, como estamos tendo.
— Sim, realmente. No hotel disseram-me que está precisando chover urgentemente.
— Espero que o senhor esteja bem instalado.
— Ah, sim! apesar de ter-me aborrecido ao chegar e encontrar...
O Sr. Treves parou.
Audrey tinha se soltado dos braços de Nevile. Com um sorriso, ela se desculpou:
— Está muito quente para dançar.
E saiu para o terraço.
— Vá atrás dela, seu tolo — murmurou Mary. Ela pretendia falar baixo, porém foi alto o bastante para o Sr. Treves virar-se e olhá-la surpreso.
Ela ficou encabulada e riu embaraçada.
— Estou pensando muito alto — comentou ela triste. — Mas ele me irrita tanto. É tão parado!
— O Sr. Strange?
— Oh, não, não o Nevile. Thomas Royde.
Enquanto Thomas fazia um gesto para sair, Nevile, depois de uma pequena pausa, já havia seguido Audrey.
Por um momento, o Sr. Treves olhou pensativo para a porta, e depois sua atenção voltou-se para os dançarinos.
— Um ótimo dançarino, o jovem Sr.... Latimer, é este o seu nome?
— Sim. Edward Latimer.
— Ah, Edward Latimer. Um velho amigo da Sra. Strange, não é?
— Sim.
— E o que este jovem tão decorativo faz para ganhar a vida?
— Bem, na verdade, eu não sei.
— Realmente! — disse o Sr. Treves, conseguindo colocar uma grande dose de compreensão numa palavra tão inofensiva.
Mary prosseguiu:
— Ele está hospedado no Hotel Easterhead Bay.
— Uma situação muito agradável — comentou o Sr. Treves.
Depois de um ou dois minutos, ele acrescentou, divagando:
— Tem um formato de cabeça muito interessante: um curioso ângulo da cabeça ao pescoço, que é disfarçado pelo seu corte de cabelo. Mas é realmente fora do comum.
Depois de outra pausa, continuou, ainda, a divagar:
— O último homem que vi, com este formato de cabeça, pegou dez anos de cadeia por uma brutal agressão a um velho joalheiro.
— Certamente, o senhor não quer dizer!... — exclamou Mary.
— Não, claro que não — disse o Sr. Treves. — A senhora não compreendeu. Não estou querendo fazer uma comparação injuriosa com um convidado seu. Estava apenas mostrando que um criminoso brutal pode estar escondido por trás de um jovem encantador e atraente. Parece estranho, mas é a pura verdade.
Ele sorriu amavelmente. Mary disse-lhe:
— Sabe, Sr. Treves, acho que estou com medo do senhor.
— Que bobagem, minha senhora.
— Mas estou. O senhor é um observador muito perspicaz.
— Meus olhos — explicou o Sr. Treves complacente — continuam perfeitos. — Fez uma pausa e depois prosseguiu: — Se isto é bom ou ruim, no momento não consigo saber.
— Como poderia ser ruim?
O Sr. Treves indeciso balançou a cabeça.
— Às vezes, nos encontramos numa posição de responsabilidade. A atitude certa a se tomar, nem sempre é fácil de se decidir.
Hurstall entrou, carregando a bandeja de café.
Depois de servir Mary e o velho advogado, foi até o canto da sala onde estava Thomas Royde. Em seguida, seguindo instruções de Mary, pousou a bandeja na mesa baixa e saiu da sala.
— Vamos acabar de dançar esta música — falou Kay por cima do ombro de Ted.
— Vou levar o de Audrey lá fora — disse Mary, saindo pela porta, com a xícara na mão. O Sr. Treves a acompanhou. Quando ela parou na soleira da porta, ele olhou-a por cima do ombro.
Audrey estava sentada na beira da balaustrada. À luz da lua, sua beleza ganhava vida: uma beleza feita de contornos, e não de colorido. Uma linha perfeita do maxilar à orelha, queixo e boca delicadamente modelados, os ossos da cabeça realmente bonitos e um nariz pequeno e reto. Esta beleza se conservaria até quando Audrey Strange se tornasse uma mulher velha, pois nada tinha a ver com a sua pele, os seus ossos é que eram bonitos. O vestido brilhante que usava acentuava o efeito do luar. Ela estava sentada, parada, enquanto Nevile a olhava.
Ele se aproximou:
— Audrey — disse ele —, você...
Ela mudou de posição, levantou-se repentinamente colocando a mão na orelha:
— Ah! meu brinco... devo tê-lo deixado cair.
— Onde? Deixe que eu procuro...
Ambos se abaixaram, desajeitados e embaraçados, esbarrando um no outro. Audrey recuou, e Nevile exclamou:
— Espere um minuto... minha abotoadura... prendeu em seu cabelo. Fique parada.
Ela ficou parada enquanto ele manuseava desastradamente a abotoadura.
— Oh, você está puxando o meu cabelo! Como você é desajeitado Nevile. Acabe logo com isso.
— Sinto muito. Sou mesmo desajeitado.
O luar estava bastante claro para que os dois espectadores vissem o que Audrey não podia ver: o tremor das mãos de Nevile ao tentar soltar os fios do cabelo bonito e acinzentado. Entretanto, Audrey também tremia, como se de repente sentisse frio.
Mary Aldin assustou-se quando uma voz calma, atrás dela, falou:
— Com licença... — pediu Thomas Royde se aproximando. — Posso ajudar, Strange?
Nevile levantou, afastando-se de Audrey.
— Está tudo bem. Já consegui.
O rosto de Nevile estava bastante branco.
— Você está com frio — comentou Thomas com Audrey. — Entre e tome seu café.
Ela voltou com ele, enquanto Nevile virou-se, encaminhando-se para o mar.
— Trouxe o seu café aqui para fora — disse Mary. — Mas talvez seja melhor você entrar.
— Sim — respondeu Audrey. — Tem razão. É melhor entrar.
Todos voltaram para a sala de visitas. Ted e Kay tinham parado de dançar.
A porta abriu, quando uma mulher magra e alta, vestida de preto, entrou e falou respeitosamente:
— Minha senhora manda os seus cumprimentos e gostaria de ver o Sr. Treves.
VI
Lady Tressilian recebeu o Sr. Treves com evidente prazer. Logo depois estavam mergulhados em agradáveis recordações, também lembrando amigos comuns.
Meia hora depois, ela deu um profundo suspiro de satisfação.
— Ah! — exclamou — passei bons momentos. Não há nada como ficar a par das novidades e relembrar velhos escândalos.
— Um pouco de malícia dá certo sabor à vida — concordou o Sr. Treves.
— A propósito — disse Lady Tressilian —, o que o senhor achou do nosso triângulo amoroso?
O Sr. Treves ficou discretamente inexpressivo.
— Hum... que triângulo?
— Não me diga que não notou? Nevile e suas duas esposas,
— Ah, isto? A atual Sra. Strange é uma jovem extremamente atraente.
— Audrey também o é — afirmou Lady Tressilian.
— Sim, ela tem encanto — o Sr. Treves admitiu.
— O senhor quer dizer que compreende que um homem possa deixar Audrey, que é uma pessoa de rara qualidade, por... por uma Kay? — perguntou Lady Tressilian.
— Perfeitamente. Acontece com freqüência — replicou o Sr. Treves com calma.
— É revoltante. Se eu fosse homem, logo me cansaria de Kay e desejaria nunca ter feito tamanha besteira!
— Isto também acontece com freqüência. Estas grandes e súbitas paixões — comentou o Sr. Treves, parecendo impassível e preciso — raramente têm longa duração.
— E o que costuma acontecer depois? — perguntou ela.
— Normalmente — explicou o Sr. Treves — eles se ajustam. Muitas vezes há um segundo divórcio. O homem se casa com uma terceira pessoa, alguém de bom gênio.
— Absurdo! Nevile não é um Mormon, como alguns de seus clientes possam ser.
— Às vezes, acontece, o antigo casal torna a se unir.
Lady Tressilian balançou a cabeça.
— Isto nunca! Audrey é muito orgulhosa.
— A senhora acha?
— Tenho certeza. Não balance a cabeça desta forma irônica.
— Falo por experiência — concluiu o Sr. Treves — que as mulheres têm pouco ou nenhum orgulho em questões de amor. Orgulho é uma palavra muito comum em suas bocas, entretanto não aparece em suas ações.
— O senhor não entende Audrey. Ela amava profundamente Nevile... Talvez em demasia. Depois que ele a abandonou por aquela moça, apesar de não culpá-lo inteiramente (a moça o perseguia por toda parte, e o senhor sabe como são os homens), ela nunca mais quis vê-lo.
O Sr. Treves tossiu levemente.
— Entretanto — disse ele — ela está aqui!
— Bem — retrucou Lady Tressilian aborrecida —, não digo que compreenda essas idéias modernas. Imagino que Audrey esteja aqui apenas para mostrar que não se importa, e que tudo já passou,
— Pode ser — duvidou o Sr. Treves, esfregando o queixo.
— Certamente que para si mesma, ela possa colocar o assunto nestes termos.
— Quer dizer — falou ela — que o senhor pensa que Audrey ainda continua ansiosa atrás de Nevile e que... ah, não! Não posso acreditar em tal coisa.
— Mas pode ser — opinou o Sr. Treves.
— Pois eu não aceito — disse Lady Tressilian. — Não em minha casa.
— A senhora já está confusa, não está? — perguntou ele astutamente. — Existe tensão. Senti no ambiente.
— Então o senhor também sentiu? — perguntou ela abruptamente.
— Sim. E devo confessar que estou intrigado. Os verdadeiros sentimentos do grupo permanecem obscuros. Mas na minha opinião, o pavio está aceso. A explosão pode vir a qualquer hora.
— Pare de falar como Guy Fawkes, e diga-me o que fazer — pediu Lady Tressilian.
O Sr. Treves levantou as mãos.
— Na verdade, não sei o que sugerir. Tenho certeza de existe um foco. Se pudéssemos isolá-lo... mas há tanta coisa que permanece obscura...
— Não tenho intenção de pedir à Audrey que se vá embora — disse Lady Tressilian. — Até onde pude observar, ela tem se comportado de maneira correta, numa situação muito difícil. Tem sido educada, mas mantendo distância dele. Considero sua conduta irrepreensível.
— Sim — concordou ele. — Bastante. Mas, mesmo assim, está tendo um efeito muito marcante sobre o jovem Nevile Strange.
— Nevile — disse Lady Tressilian — não está se comportando bem. Falarei com ele sobre isso. Porém, não posso nem pensar em mandá-lo embora desta casa. Matthew o considerava praticamente como um filho adotivo.
— Eu sei.
Lady Tressilian, suspirando, perguntou em voz baixa:
— O senhor sabe que Matthew morreu afogado aqui em Gull's Point?
— Sim, eu soube.
— Muitas pessoas ficaram surpresas por eu ainda permanecer neste lugar, o que eu considero pura ignorância. Aqui sempre senti Matthew perto de mim. A casa inteira está cheia da presença dele. Sentir-me-ia solitária e estranha em qualquer outro lugar. — Fez uma pausa e prosseguiu: — No começo, tive a esperança de que não demoraria a me juntar a ele, principalmente quando minha saúde começou a fraquejar. Mas parece que sou um destes inválidos perpétuos que não morrem nunca — zangada, deu uma pancada no travesseiro. — É horrível! Sempre desejei que quando chegasse minha hora, fosse tudo rápido. Que encontrasse a morte cara a cara, e que não a sentisse rastejando ao meu lado, gradativamente me forçando a sucumbir de uma humilhação a outra, por força da doença. Aumentando o meu desespero, e minha dependência para com as outras pessoas.
— Entretanto, tenho certeza de que são pessoas muito devotadas. A senhora tem uma criada fiel, não tem?
— Barrett? A que acompanhou o senhor até aqui em cima? É o conforto da minha vida. Uma velha severa e briguenta que está comigo há anos.
— E a senhora tem sorte em ter a Srta. Aldin.
— O senhor tem razão. Tenho sorte em ter Mary comigo.
— Ela é sua parenta?
— É uma prima distante. Uma dessas criaturas altruístas cuja vida é continuamente sacrificada em benefício de outros. Ela tomou conta do pai, um homem inteligente, mas de difícil relacionamento. Quando ele morreu, pedi que ela viesse morar comigo, e abençôo o dia em que veio. O senhor não tem idéia de como são terríveis, na maioria, as damas de companhia. Criaturas enfadonhas e fúteis. Chego a me exasperar com a inatividade delas. São damas de companhia só porque não servem para outra coisa melhor. É maravilhoso poder ter Mary, uma mulher inteligente e culta. Possui realmente um cérebro de primeira classe: um cérebro de homem. Ela leu muito aprofundadamente, não havendo o que não possa discutir. É esperta tanto no ponto de vista doméstico, como no intelectual. Dirige a casa com perfeição, e mantém os empregados contentes. Acaba com todas as discussões e ciúmes. Não sei como ela consegue isso, todavia creio que usa apenas de diplomacia.
— Mary está com a senhora há muito tempo?
— Há 12 anos. Não, mais do que isto. Uns treze ou quatorze anos. Uma coisa assim. Tem sido um grande conforto para mim.
O Sr. Treves concordou com a cabeça.
Lady Tressilian, observando-o com as pálpebras semicerradas, perguntou de repente:
— O que há? O senhor está preocupado com alguma coisa?
— É algo sem muita importância. Uma bobagem. A senhora é muito observadora — ressaltou o Sr. Treves.
— Gosto de estudar as pessoas — disse ela. — Sempre sabia o que se passava pela cabeça de Matthew — ela suspirou e recostou-se nos travesseiros. — Agora preciso descansar — era a palavra de uma rainha, embora não houvesse nisso nenhuma descortesia. — Estou muito cansada. Mas foi um grande prazer. Espero que volte logo.
— Pode estar certa de que voltarei. Só espero não ter falado demais.
— Não. É o meu cansaço que vem de repente. Antes de sair, toque a campainha para mim, por favor.
O Sr: Treves puxou energicamente um antiquado cordão com uma enorme borla na ponta.
— Uma relíquia e tanto — comentou ele.
— Minha campainha? Não gosto de coisas modernas. Na maior parte do tempo estão quebradas, fazendo as pessoas tocarem inutilmente, por um longo tempo. Esta nunca falha. Toca lá em cima no quarto de Barrett. Já que fica em cima de sua cama, ela nunca demora a responder. Se por acaso demora, eu chamo logo em seguida.
Ao sair do quarto, o Sr. Treves ouviu a campainha tocar pela segunda vez, ressoando em algum lugar do andar de cima. Olhou e viu os fios estendidos no teto. Barrett, que desceu correndo as escadas, passou por ele indo atender a patroa.
O Sr. Treves desceu vagarosamente sem se preocupar com o pequeno elevador. Em seu rosto havia uma expressão carrancuda de incerteza.
Encontrou o grupo todo reunido na sala de visitas, quando Mary Aldin, de pronto, sugeriu que jogassem bridge, o que o Sr. Treves recusou polidamente, alegando que em breve deveria ir embora.
— Meu hotel é antiquado — disse ele. — Eles não esperam que ninguém fique fora depois de meia-noite.
— Ainda falta muito para isso. São apenas dez e meia — observou Nevile. — Espero que não tranquem o senhor do lado de fora.
— Na verdade, acredito que nunca tranquem a porta. Às nove horas ela é fechada, mas basta girar o trinco e entrar. As pessoas aqui são muito displicentes, contudo suponho que tenham motivos para confiar na honestidade do povo local.
— Certamente. Aqui, durante o dia, ninguém tranca a porta — comentou Mary. — A nossa fica aberta o dia todo, entretanto é fechada à noite.
— Que tal é o Hotel Balmoral Court? — perguntou Ted Latimer. — Parece uma estranha monstruosidade vitoriana.
— Faz jus ao nome — observou o Sr. Treves —, tendo o bom e sólido conforto vitoriano. Boa cama, boa comida, armários espaçosos e banheiros imensos com móveis de mogno.
— O senhor não comentou que ficara aborrecido com alguma coisa? — perguntou Mary.
— Sim. Tinha cuidadosamente reservado, por carta, dois aposentos no andar térreo. Como sabe, por ter um coração fraco, as escadas estão proibidas para mim. Quando cheguei fiquei irritado ao saber que não estavam disponíveis. Ao contrário, deram-me dois aposentos, muito agradáveis, devo admitir, no andar de cima. Protestei, mas parece que um antigo hóspede que costuma ir à Escócia em setembro, ficou doente e não pôde desocupar o quarto.
— A Sra. Lucan, suponho? — perguntou Mary.
— Acho que é este o nome. Nestas circunstâncias, tive que me acomodar da melhor maneira possível; felizmente há um bom elevador. Assim sendo, na verdade, não há nenhum inconveniente.
— Ted, por que você não se muda para o Balmoral Court? Ficaria mais accessível — sugeriu Kay.
— Ah, não creio que se adapte ao meu gosto.
— Tem razão, Sr. Latimer — disse o Sr. Treves. — Não estaria de acordo com o seu estilo de vida.
Por algum motivo Ted Latimer corou.
— Não entendi o que o senhor quis dizer com isso — afirmou ele.
Mary, percebendo o ambiente constrangedor, fez rapidamente um comentário sobre um caso que saíra no jornal.
— Li que o homem do caso da mala de Kentish Town foi detido.
— É o segundo homem que prendem — comentou Nevile. — Espero que desta vez seja o certo.
— Mesmo que seja, talvez não possam retê-lo — explicou o Sr. Treves.
— Insuficiência de provas? — perguntou Royde.
— Sim.
— Contudo — disse Kay —, suponho que no final sempre se consigam as provas.
— Nem sempre, Sra. Strange. A senhora ficaria surpresa se soubesse quantos criminosos andam livres por este país, e sem serem molestados.
— O senhor quer dizer por que nunca foram descobertos, não é?
— Não é apenas isto. Há um homem, e cito um famoso caso ocorrido há dois anos, que a polícia sabe que matou aquelas duas crianças (sabem sem a menor sombra de dúvida), entretanto, nada pode fazer. Duas pessoas forneceram alibi, e embora fosse falso, não havia como prová-lo. Assim, o assassino continua livre até hoje.
— Que coisa horrível! — exclamou Mary.
— Isto vem confirmar o que sempre achei: há ocasiões que é admissível fazer justiça com as próprias mãos — disse Thomas Royde com sua voz calma e pensativa, esvaziando o cachimbo.
— O que quer dizer, Sr. Royde?
Thomas começou a encher o cachimbo. Olhava pensativo para as mãos, enquanto falava aos trancos:
— Suponha que o senhor soubesse de um trabalho sujo, soubesse ainda que o responsável não pode ser acusado perante às leis, e que está imune à punição. Nesse caso, mantendo meu ponto de vista, admito que se faça justiça pelas próprias mãos.
O Sr. Treves explicou cordialmente:
— Uma doutrina muito perniciosa. Sr. Royde! Tal atitude não se justificaria.
— Não vejo o porquê. Estou falando na hipótese de fatos provados.
— Ainda assim, uma atitude pessoal não seria permitida.
Thomas sorriu; um sorriso muito gentil.
— Não concordo — disse ele. — Se o homem merece ter o pescoço torcido, não me incomodaria de tomar o encargo de torcê-lo.
— E por sua vez, o senhor ficaria sujeito às penalidades da lei.
— Eu teria que ser cuidadoso, é claro... De fato, acho que teria que usar de muita astúcia... — continuou Thomas sorrindo.
Com sua voz clara, Audrey falou:
— Você seria descoberto, Thomas.
— Para falar a verdade, não creio que o fosse.
— Houve um caso, certa vez — começou o Sr. Treves, mas parou. Desculpando-se continuou: — Criminologia é uma espécie de hobby para mim.
— Por favor, continue — disse Kay.
— Tenho tido uma vasta experiência em casos de crimes. Poucos deles foram realmente interessantes. A maioria dos assassinos é de grande inexpressividade e de pouca visão. Entretanto, poderia contar um caso interessante.
— Ah, conte — pediu Kay. — Adoro assassinatos.
O Sr. Treves falava devagar, parecendo escolher as palavras com muito cuidado e ponderação.
— É o caso de uma criança. Não mencionarei nem a idade, nem o sexo. Os fatos foram os seguintes: duas crianças brincavam de arco e flecha. Uma delas atirou a flecha, que atingindo um ponto vital, causou, assim, a morte da outra. Houve um inquérito, a criança sobrevivente ficou completamente perturbada; o acidente foi lamentado e demonstraram compaixão pelo autor do acontecimento.
Fez-se uma pausa.
— Isto é tudo? — perguntou Ted Latimer.
— Sim, um triste acidente. Mas há outro lado da história: algum tempo antes do ocorrido, um fazendeiro, passando por acaso por um atalho da floresta, viu quando uma criança praticava arco e flecha, numa pequena clareira.
Fez-se outra pausa para que sentissem o que ele queria dizer.
— Quer dizer — perguntou Mary Aldin incrédula — que não foi um acidente? Foi intencional?
— Não sei — disse o Sr. Treves. — Nunca soube. Mas foi declarado, no inquérito, que, por não saberem usar arco e flecha, as crianças atiravam as flechas de uma forma desordenada.
— E não era verdade?
— Em relação a uma criança, certamente que não!
— O que fez o fazendeiro? — perguntou Audrey ansiosa.
— Não fez nada. Até hoje não sei se ele agiu certo ou pão. Era o futuro de uma criança que estava em jogo. Ele talvez tenha achado que se deveria dar o benefício da dúvida a tal criança.
— Mas o senhor mesmo nunca teve dúvida do que aconteceu? — falou Audrey.
O Sr. Treves respondeu sério:
— Pessoalmente, sou da opinião de que foi um crime muito engenhoso... um crime planejado com antecedência em seus mínimos detalhes.
— Havia um motivo? — perguntou Ted.
— Sim, havia um motivo. Implicâncias infantis e palavras más, o bastante para gerar ódio. As crianças odeiam com facilidade...
— Mas houve premeditação de tudo! — chocou-se Mary.
O Sr. Treves balançou a cabeça.
— Sim, a premeditação é que foi um mal. Uma criança, guardando uma intenção assassina no coração, praticando escondida dia após dia, e finalmente a consumação do seu plano: a estranha flechada... a catástrofe... a simulação da dor e do desespero. Foi tudo incrível, tão incrível que provavelmente ninguém acreditaria no tribunal.
— E o que aconteceu com as crianças? — perguntou Kay curiosa.
— Creio que seu nome foi trocado — explicou o Sr. — Depois da publicidade do inquérito, isto foi considerado conveniente. Aquela criança é, hoje, uma pessoa adulta, em algum lugar deste mundo. A questão é saber se ela ainda tem um coração assassino... Apesar de já ter-se passado muito tempo, reconheceria o pequeno assassino em qualquer lugar — acrescentou pensativo.
— Mas isso é impossível — objetou Royde.
— Não é não. Há uma certa peculiaridade física... Bem, não vou me estender no assunto. Não é um assunto muito agradável. Agora, tenho que ir embora — e levantou-se.
— O senhor não aceita uma bebida, antes de ir? — perguntou Mary.
As bebidas estavam numa mesa do outro lado da sala. Thomas Royde, que estava mais perto, aproximou-se e tirou a tampa da garrafa de uísque.
— Uísque com soda, Sr. Treves? Latimer, e você?
Nevile disse à ex-esposa em voz baixa:
— Está uma noite linda. Vamos lá fora um pouco?
Audrey estava parada perto da porta, olhando o terraço enluarado. Ele passou por ela e já do lado de fora, esperava-a. Ela voltou para a sala, balançando a cabeça e muito nervosa.
— Não, estou cansada... Eu... eu acho que vou dormir.
Atravessou a sala e saiu. Kay bocejou.
— Também estou com sono. E você Mary?
— Acho que também estou. Boa noite, Sr. Treves. Thomas, cuide bem dele.
— Boa noite, Srta. Aldin. Boa noite, Sra. Strange.
— Iremos almoçar com você amanhã, Ted — disse Kay. — Poderemos tomar banho de mar, se o tempo ainda estiver bom.
— Certo. Estarei esperando por você. Boa noite, Srta Aldin.
As duas mulheres deixaram a sala.
Ted Latimer disse com amabilidade para o Sr. Treves:
— Vamos pelo mesmo caminho. Porque vou pegar a barca, tenho que passar pelo seu hotel.
— Obrigado, Sr. Latimer. Ficarei satisfeito com a sua companhia.
Apesar de ter declarado sua intenção de partir, o Sr. Treves não parecia estar com pressa. Saboreava sua bebida com prazer e calma, e entregava-se à tarefa de extrair de Thomas Royde informações sobre as condições de vida na Malásia.
Royde era monossilábico em suas respostas. Os mais simples detalhes da vida do dia-a-dia pareciam segredos de estado, pela dificuldade com que eram arrancados. Ele parecia estar perdido em algum pensamento, do qual não era fácil sair para responder a seu interlocutor.
Ted Latimer estava inquieto. Parecia impaciente, entediado e ansioso para ir embora. De repente, interrompendo a conversa, exclamou:
— Ia quase me esquecendo! Trouxe os discos que Kay queria. Vou pegá-los lá no hall. Você fala com ela amanhã, Royde?
O outro concordou com a cabeça. Ted deixou a sala.
— Este jovem tem uma natureza inquieta — murmurou o Sr. Treves.
Royde resmungou alguma coisa, sem responder.
— É amigo da Sra. Strange, não é? — prosseguiu o velho advogado.
— De Kay Strange — disse Thomas.
O Sr. Treves sorriu.
— Sim. Foi isto que quis dizer. Dificilmente seria amigo da... primeira mulher de Nevile.
— Dificilmente — enfatizou Royde. Em seguida, notando o olhar zombeteiro do outro, falou corando um pouco: — O que quis dizer é que...
— Ah, compreendi muito bem o que quis dizer, Sr. Royde. O senhor é amigo da Sra. Audrey Strange, não é?
Thomas Royde enchia, vagarosamente, o cachimbo de tabaco. Seus olhos se abaixaram ao ouvir a pergunta. Concordou, ou melhor, murmurou:
— S... Sim. Mais ou menos. Fomos criados juntos.
— Ela deve ter sido uma moça muito bonita.
Thomas Royde murmurou alguma coisa parecida com "hum, hum".
— É esquisito ter duas Sras. Strange na mesma casa.
— Sim... sim, bastante!
— Uma situação difícil para o Sr. Strange.
— Extremamente difícil — Thomas corou.
O Sr. Treves se inclinou. Sua pergunta saiu num rompante:
— Por que ela veio, Sr. Royde?
— Bem... acho que... — sua voz estava confusa —, ela... não tinha como recusar.
— Recusar a quem?
Royde mexeu-se desajeitadamente.
— Bem, na verdade, creio que ela sempre vem nesta época do ano, no começo de setembro.
— E Lady Tressilian convidou Nevile e sua nova esposa para virem na mesma época? — na voz do velho senhor havia uma nota de incredulidade.
— Quanto a isso, creio que foi o próprio Nevile quem se convidou.
— Então ele estava ansioso por este... encontro.
— Creio que sim — mexendo-se inquieto, Royde respondeu, evitando encará-lo.
— É estranho! — disse o Sr. Treves.
— Uma idéia idiota! — exclamou Thomas numa fala mais demorada.
— Um tanto embaraçoso, eu diria — retrucou o Sr. Treves.
— Ah, é. Porém, hoje em dia há pessoas que agem dessa maneira.
— Fico pensando — comentou o Sr. Treves —, se não teria sido idéia de outra pessoa.
— De quem mais poderia ser? — encarou-o Royde.
O Sr. Treves suspirou.
— Há no mundo tantos amigos bem intencionados, sempre ansiosos em resolver os problemas alheios, nem sempre sugerindo o melhor.
Parou de falar assim que Nevile entrou pela porta do terraço. Neste exato momento, Ted Latimer entrava pela porta que dava para o hall.
— Olá, Ted, o que você tem aí? — perguntou Nevile.
— São os discos que Kay pediu para eu trazer.
— Ah, pediu? Ela não me contou nada.
Houve um rápido instante de constrangimento entre os dois. No entanto, Nevile se dirigiu à bandeja com as bebidas e se serviu de uísque com soda. Parecia nervoso e infeliz, e respirava ofegante.
O Sr. Treves já ouvira alguém se referir a Nevile como "aquele sujeito sortudo, o Strange, tem tudo que alguém poderia desejar neste mundo". Entretanto, neste momento, não parecia nada feliz.
Thomas, com a volta de Nevile, pareceu achar que suas obrigações como anfitrião haviam terminado. Saiu da sala sem mesmo se despedir. Seu andar estava mais ligeiro que o habitual. Era quase que uma fuga.
— Foi uma noite muito agradável — afirmou o Sr. Treves gentilmente ao posar o copo. — Muito... ah... instrutiva.
— Instrutiva? — Nevile ergueu ligeiramente as sobrancelhas.
— Informações sobre a Malásia — lembrou Ted, sorrindo. — Teve um trabalho enorme para arrancar respostas do Thomas Taciturno.
— É um sujeito singular, este Royde — enfatizou Nevile. — Creio que foi sempre assim. Fumando aquele seu velho e horrível cachimbo, ouvindo a conversa, ocasionalmente dizendo "hum!" e "ah!", e parecendo inteligente como uma coruja.
— É bem possível que ele esteja pensando a maior parte do tempo — disse o Sr. Treves. — E agora, preciso mesmo me retirar.
— Venha visitar Lady Tressilian brevemente — pediu Nevile ao acompanhar os dois homens ao hall. — O senhor a distrai muito. Atualmente tem pouquíssimo contato com o mundo lá fora. Ela é maravilhosa, não é?
— Sim, realmente. E tem uma conversa muito estimulante.
O Sr. Treves vestiu cuidadosamente o casaco e o cachecol, e depois de renovadas despedidas, partiu acompanhado por Ted Latimer.
O Balmoral Court ficava apenas a pouco mais de cem metros de distância, na curva da estrada. Erguia-se majestoso e misterioso, completamente à parte da cidade.
A barca, para onde Ted ia, ficava a cerca de 200 ou 300 metros adiante, no local onde o rio era mais estreito.
O Sr. Treves parou à porta do Balmoral Court e estendeu a mão.
— Boa noite, Sr. Latimer. Vai ficar aqui por muito tempo?
— Isto depende, Sr. Treves. Ainda não tive tempo para me sentir entediado — Ted sorriu mostrando dentes muito brancos.
— Estou certo disto. Imagino que, como a maioria dos jovens de hoje, o que você mais receia é o tédio. Entretanto, posso lhe assegurar que existem coisas muito piores.
— Como o quê, por exemplo?
A voz de Ted Latimer estava suave e agradável, mas havia nele um significado oculto, algo difícil de se definir.
— Ah! deixo à sua imaginação, Sr. Latimer. Saiba que eu jamais teria a pretensão de lhe dar conselhos. Conselhos de pessoas antiquadas são sempre tratados com desdém. E talvez tenham razão, quem sabe? Todavia, sujeitos velhos como eu gostam de pensar que a experiência nos ensinou algo, uma vez que observaram muito durante a vida inteira.
Uma nuvem cobriu a lua; o caminho estava muito escuro. Saindo da escuridão, subindo o monte, a figura de um homem vinha na direção deles.
Era Thomas Royde.
— Fui até as barcas para caminhar um pouco — comentou ele indistintamente, porque tinha o cachimbo preso entre os dentes.
— Esta é a sua taberna? — perguntou ao Sr. Treves. — Parece que o senhor ficou preso do lado de fora.
— Não creio.
Virou a grande maçaneta de metal, e a porta se abriu.
— Levaremos o senhor lá dentro — sugeriu Royde.
Os três entraram no hall, que estava pouco iluminado com apenas uma lâmpada elétrica. Não havia ninguém, e o odor do jantar, do veludo um tanto empoeirado, do verniz da mobília entrou em suas narinas.
De repente o Sr. Treves soltou uma exclamação de aborrecimento. À sua frente, na porta do elevador, havia um aviso: "PARADO".
— Meu Deus, que chateação! Terei que subir as escadas.
— Que azar — opinou Royde. — Não tem um elevador de serviço para bagagens e tudo mais?
— Receio que não. Este é usado para todos os propósitos. Bem, só terei que subir devagar, e isto é tudo. Boa noite.
Começou a subir vagarosamente as largas escadas. Royde e Latimer se despediram, saindo para a rua escura. Por um momento ficaram calados, quando Royde abruptamente disse:
— Bem, boa noite.
— Boa noite. Vejo-o amanhã.
— Sim.
Ted Latimer desceu o morro a passos largos, em direção à barca. Thomas ficou parado por uns minutos observando-o. Em seguida, caminhou vagarosamente na direção oposta, se dirigindo para Gull's Point.
A lua saiu de trás da nuvem e Saltcreek ficou novamente banhada de radiosa luz prateada.
VII
— Parece até um dia de verão — murmurou Mary Aldin.
Ela e Audrey estavam sentadas na praia do imponente prédio do Hotel Easterhead Bay. Audrey usava uma roupa de banho branca e parecia uma delicada estatueta de marfim. Mary não tomara banho de mar. Logo adiante, Kay estava deitada de bruços, com seu corpo bronzeado exposto ao sol.
— Uh! — disse ela sentando. — A água está terrivelmente fria.
— Bem, estamos em setembro — lembrou Mary.
— Faz sempre frio na Inglaterra — resmungou Kay descontente. — Como gostaria de estar no Sul da França. Lá sim, faz calor.
— Este sol, não é sol de verdade — murmurou Ted Latimer.
— Não vai entrar n'água, Sr. Latimer? — perguntou Mary..
Kay riu:
— Ted nunca entra n'água. Fica apenas tomando sol, que nem um lagarto.
Esticando o pé, ela o cutucou. Ele levantou-se num pulo.
— Vamos andar um pouco, Kay. Estou com frio.
Saíram andando pela praia.
— Lagarto? Uma comparação infeliz — murmurou Mary Aldin, acompanhando-os com o olhar.
— É isto que você pensa dele? — perguntou Audrey.
Mary Aldin franziu as sobrancelhas.
— Não. Um lagarto sugere alguma coisa domesticável, porém não creio que ele seja manso.
— Não — disse Audrey pensativa. — Eu também não acho.
— Formam um lindo par — comentou Mary, enquanto olhava os dois se afastarem. — Parecem combinar, não é?
— Acho que sim.
— Gostam das mesmas coisas — continuou Mary. — Têm as mesmas opiniões e falam a mesma língua. Que pena que...
Ela parou.
— Que o quê? — indagou Audrey abruptamente.
— Acho que ia dizer que foi uma pena ela e Nevile terem se conhecido.
Audrey ficou rígida. O que Mary chamava de "expressão gélica de Audrey" imediatamente surgiu em seu rosto. Mary desculpou-se apressada:
— Sinto muito Audrey. Eu não deveria ter dito isto.
— Se não se importa, eu preferiria não falar neste assunto.
— É claro. Foi estupidez minha. Eu... eu esperava que você já tivesse superado tudo.
Audrey virou a cabeça devagar, e com o rosto calmo e inexpressivo, afirmou:
— Posso lhe assegurar que não há nada a superar. Eu... eu não tenho nenhum sentimento a este respeito. Desejo... desejo de todo o coração, que Kay e Nevile sejam muito felizes juntos.
— Bem, é muita bondade de sua parte, Audrey.
— Não é bondade. É... apenas a verdade. E acho perda de tempo relembrar o passado: "é pena que isto aconteceu". Agora tudo já passou. Por que ficar remoendo? Temos que viver do presente.
— Acho — comentou Mary — pessoas como Kay e Ted tão excitantes, porque... bem, são tão diferentes de tudo que já conheci.
— Sim, suponho que sejam.
— Até você — lembrou Mary com repentina amargura — viveu e teve experiências as quais eu, provavelmente, nunca terei. Sei que você tem sido infeliz, muito infeliz. Todavia, não posso deixar de pensar que- mesmo todos estes fatos são melhores do que nada... o vazio! — pronunciou a última palavra com raiva.
Audrey olhou-a, um pouco assustada.
— Nunca imaginei que você se sentisse assim.
— Nunca? — Mary Aldin riu, se desculpando. — Ah! foi só um acesso de descontentamento, minha querida. Não estava falando sério.
— Não deve ser muito divertido para você — continuou Audrey — morar aqui com Camilla, apesar dela ser maravilhosa... ler para ela... cuidar dos criados... e nunca ter viajado.
— Estou bem alimentada e abrigada — ressaltou Mary. — Milhares de mulheres nem isto têm. E na verdade, Audrey, estou bem satisfeita. Tenho — um pequeno sorriso apareceu em seus lábios — minhas distrações secretas.
— Vícios secretos? — perguntou Audrey também sorrindo.
— Ah! eu planejo coisas — confessou Mary vagamente. — Na minha mente é lógico. Algumas vezes, gosto de fazer experiências com as pessoas, só para ver se posso fazê-las reagir da maneira que pretendo, ao que digo.
— Você parece quase sádica, Mary. Como eu a conheço pouco!
— Ah, é tudo inofensivo. Só uma brincadeira infantil.
— Você fez a experiência comigo? — perguntou Audrey curiosa.
— Não. Você é a única pessoa que sempre achei imprevisível. Nunca sei o que está pensando.
— Talvez — disse Audrey gravemente — eu sinta o mesmo em relação a você.
Estremeceu, e Mary exclamou:
— Você está com frio.
— Sim. Acho que vou me vestir. Afinal de contas é setembro!
Mary Aldin ficou sozinha, olhando o reflexo na água. O nível d'água estava baixando. Estirou-se na areia, fechando os olhos.
Todos haviam almoçado bem no hotel, que ainda estava repleto de pessoas dos mais variados tipos, apesar da temporada já ter terminado. Ah, bem, tinha sido um passeio! Algo para quebrar a monotonia do dia-a-dia. E, também, um alívio sair daquele clima de tensão, daquele ambiente sobressaltado que existia ultimamente em Gull's Point. Não tinha sido culpa de Audrey, mas Nevile...
Seus pensamentos foram interrompidos repentinamente, quando Ted Latimer sentou-se furioso a seu lado.
— O que houve com Kay? — perguntou Mary.
— Sua presença foi exigida pelo seu proprietário.
Alguma coisa, em seu tom de voz, impressionou Mary. Ela olhou para a faixa de areia dourada, por onde Nevile e Kay caminhavam. Em seguida, olhou também para o homem que estava ao seu lado.
Já havia pensado nele, como uma pessoa aproveitadora, esquisita e até mesmo perigosa. E agora, pela primeira vez, estava tendo a visão de um jovem ferido. Ela pensou:
"Ele amava Kay, amava realmente, e então Nevile chegou e a carregou"...
— Espero que esteja se divertindo aqui — disse ela amavelmente.
Eram palavras convencionais. Mary raramente usava palavras que não fossem as convencionais: era o seu modo de falar. Mas, pela primeira vez, seu tom era o de uma oferta de amizade. Ted Latimer respondeu:
— Tanto quanto em qualquer outro lugar.
— Sinto muito.
— Sente coisa nenhuma! Sou um estranho. E qual é a importância sobre o que um estranho sente ou pensa?
Ela voltou-se para poder olhar este jovem amargo e bonito, que, no entanto, retribuiu com um olhar desafiante.
Ela falou devagar, como alguém que faz uma descoberta:
— Entendo. Você não gosta de nós.
— Esperava que eu gostasse? — perguntou rindo.
— Sim, supus que sim. É claro que tomamos muita coisa como certa. Deveríamos ser mais humildes. Na verdade, nunca me ocorreu que você, porventura, pudesse não gostar de nós. Procuramos tratá-lo como um amigo de Kay.
— Sim... como amigo de Kay!
Fez o comentário com profundo rancor.
— Gostaria que dissesse, realmente, por que não lhe agradamos? O que lhe fizemos? O que há de errado conosco? — perguntou Mary, com uma sinceridade desconcertante.
— São todos afetados! — exclamou Ted Latimer, colocando toda a sua rudeza nesta palavra.
— Afetados? — perguntou Mary sem raiva, examinando a acusação.
— Sim — admitiu ela. — Acredito que possamos dar essa impressão.
— Vocês são assim! Tomam todas as boas coisas da vida como um direito. São felizes e superiores em seu pequeno mundo, isolado e fechado para as pessoas comuns. Gente que nem eu é considerada como um animal estranho!
— Sinto muito — desculpou-se Mary.
— Mas é a verdade, não é?
— Não, não é bem assim. Talvez sejamos pessoas tolas e sem imaginação, mas não somos mal intencionadas. Eu mesma sou convencional, superficial e diria que até um tanto afetada. Contudo, sou bastante humana. Neste momento, sinto muito que você esteja infeliz e gostaria até de poder fazer algo.
— Bem, se é assim, é muito gentil de sua parte.
Houve uma pausa, para que em seguida, Mary perguntasse afetuosamente:
— Você sempre esteve apaixonado por Kay?
— Sim, sempre.
— E ela?
— Pensei que sim. Até o dia em que Nevile apareceu.
— E você ainda está apaixonado por ela? — perguntou com delicadeza.
— Acho que isto está evidente, não está?
— Não seria melhor para você ir embora daqui? — perguntou ela amável.
— Por que seria?
— Porque você está se expondo a maiores tristezas.
Ele a olhou e riu.
— Você é uma boa pessoa, mas pouco sabe a respeito dos animais que podem rondar seu pequeno mundo fechado. Num futuro bem próximo, muitas coisas podem acontecer.
— Que tipo de coisas? — perguntou Mary ansiosa.
— Espere e verá — disse ele e riu.
VIII
Depois que Audrey trocou de roupa, andando pela praia, foi se encontrar com Thomas Royde. Sentado, fumava seu cachimbo, olhando para o outro lado do rio onde ficava Gull's Point, com toda sua brancura e serenidade.
Thomas apenas virou a cabeça com a chegada de Audrey. Ela sentou ao seu lado sem nada falar. Permaneceram calados, tornando o silêncio agradável, como o de duas pessoas que se conhecem muito bem.
— Parece tão perto! — exclamou finalmente Audrey, quebrando o silêncio.
Thomas olhou para Gull's Point.
— Poderíamos nadar até lá.
— Não com esta maré. Camilla tinha uma criada que gostava de nadar, e que costumava ir e voltar, sempre que a maré permitia. O problema é que quando há correnteza, você pode ser puxado para o fundo do rio. Certo dia, foi isto que aconteceu com ela. A sorte é que se salvou, conseguindo chegar em Easter Point, apenas muito exausta.
— Não há nada avisando que é perigoso.
— Mas não é deste lado. A corrente é do lado oposto, em frente aos penhascos. No ano passado houve uma tentativa de suicídio: um homem se jogou do Stark Head, ficando preso numa árvore no meio do penhasco, mas os guardas conseguiram salvá-lo.
— Pobre coitado! — exclamou Thomas. — Aposto que não ficou agradecido. Deve ser revoltante, ser salvo após a difícil decisão de se suicidar. Deve fazer com que o sujeito se sinta um tolo.
— Talvez agora ele esteja agradecido — sugeriu Audrey sonhadora.
— Duvido!
Thomas pitou seu cachimbo. Para olhar Audrey, bastava virar ligeiramente a cabeça. Notou que seu rosto estava sério e absorto enquanto ela olhava a água. Seus longos cílios escuros, a linha pura do rosto, a pequena orelha... Isto o fez lembrar de alguma coisa.
— Ah!, encontrei o seu brinco, aquele que você perdeu ontem à noite.
Ele procurou-o no bolso, ao mesmo tempo em que Audrey estendia a mão.
— Que bom! Onde o achou? No terraço?
— Não. Estava perto da escada. Você deve tê-lo perdido ao descer para jantar. Notei que no jantar você estava sem ele.
— Estou contente que o tenha encontrado.
Enquanto apanhava o brinco, Thomas observava como era grande e pesado para uma orelha tão pequena. Os que ela usava agora também eram grandes.
— Reparei que você usa brincos mesmo quando vem à praia. Não tem medo de perdê-los? — comentou ele.
— Não são de valor. Detesto ficar sem eles por causa disto, lembra?
Quando ela segurou a orelha esquerda, Thomas se lembrou.
— Sim. Aquela vez que o velho Bouncer lhe mordeu.
Audrey concordou com a cabeça.
Ficaram em silêncio, recordando um acontecimento da infância. Audrey Standish (como se chamava naquela época), uma criança de pernas compridas, cuidava da pata do velho Bouncer, quando ele lhe dera uma mordida traiçoeira. Ela tivera que dar uns pontos na orelha, o que atualmente se tornara quase que imperceptível, apenas uma pequena cicatriz.
— Minha querida — disse ele —, mal se vê a marca. Por que você se importa tanto?
Audrey fez uma pausa antes de responder com evidente sinceridade:
— É porque... porque simplesmente não suporto um defeito.
Thomas balançou a cabeça. Aquilo combinava com a idéia que tinha sobre Audrey e seu instinto de perfeição. E na realidade, ela própria era perfeita.
— Você é muito mais bonita que Kay — afirmou ele de repente.
— Ah, não Thomas! Kay... Kay é realmente linda — respondeu Audrey apressada.
— Apenas por fora.
— Você está se referindo à minha bela alma? — perguntou Audrey ligeiramente divertida.
Thomas jogou fora as cinzas do cachimbo.
— Não — ressaltou ele. — Acho que falava de seus ossos.
Audrey riu.
Thomas encheu novamente o cachimbo. Durante uns cinco minutos permaneceram calados. Olhou-a mais uma vez, porém de uma forma tão discreta que ela nem percebeu.
Finalmente, falou com muita calma:
— O que há de errado com você, Audrey?
— Errado? O que quer dizer com isso?
— Que há algo errado com você.
— Não há nada errado. Nada mesmo.
— Há alguma coisa sim.
Ela balançou a cabeça.
— Não vai me contar?
— Não há nada para contar.
— Creio que estou sendo insistente, mas eu tenho que lhe dizer... — e fez uma pausa. — Audrey, será que não pode esquecer? Tirar tudo de sua cabeça?
Nervosamente, ela fincou as pequenas mãos na pedra.
— Você não compreende... não pode compreender.
— Mas Audrey, minha querida, eu compreendo. É isto que quero lhe dizer. Eu sei de tudo.
Ela o olhou com o rosto pequeno cheio de dúvida.
— Sei exatamente tudo o que aconteceu. E... e o que deve ter significado para você.
Ela ficou pálida, muito pálida.
— Entendo — disse ela —, no entanto, não pensei que alguém soubesse...
— Bem, eu sei. Não vou mais tocar no assunto, porém gostaria de que você se convencesse que tudo já passou, que acabou para sempre!
— Certas coisas nunca passam — afirmou ela com a voz baixa.
— Olhe aqui, Audrey, de nada adianta ficar pensando e se atormentando. Você já sofreu demais. Não é saudável ficar remoendo um pensamento. Olhe para frente, e nunca para trás. Você ainda é bastante jovem. Tem a maior parte de sua vida para viver. Pense no futuro e não no passado.
Ela o olhou com os olhos muito abertos, tranqüilos e que ocultavam seus verdadeiros pensamentos.
— E se eu não puder fazer isto? — perguntou Audrey.
— Mas é preciso!
— Pensei que você não compreendesse. Acho... acho que não sou muito normal em... certas coisas.
Ele a interrompeu bruscamente:
— Tolice. Você...
— Eu o quê?
— Estava pensando em como você era quando menina, antes de se casar com Nevile. Por que se casou com ele?
Audrey sorriu.
— Porque me apaixonei.
— Sim. Sim, eu sei. Mas por que se apaixonou por ele? O que a atraiu tanto?
Franziu os olhos, tentando ver como se fosse a garota que já não existia.
— Acho que foi porque ele era tão positivo — ela observou. — Era o meu oposto. Sempre me senti sombria e irreal. Nevile tinha muita vida. Era tão feliz e seguro de si mesmo e tão... tudo o que eu não era; e também muito atraente, — acrescentou com um sorriso.
Thomas comentou com amargura:
— Sim, o homem ideal: bom nos esportes, sóbrio, atraente, sempre como um pequeno grande senhor conseguindo tudo que quer.
Audrey ajeitou-se encarando-o.
— Você o detesta — ela falou vagarosamente. — Você o detesta muito, não é?
Ele evitou olhá-la virando o rosto para acender o cachimbo que se apagara.
— Não seria nada surpreendente, seria? — falou baixinho. — Ele tem tudo que eu não tenho. Pratica esporte, dança, natação, e sabe conversar. E eu sou desajeitado, calado e com um braço aleijado. Ele sempre foi um homem brilhante e bem sucedido, enquanto eu sempre fui um indivíduo bronco. E além do mais, se casou com a única garota de quem gostei.
Ela soltou um som fraco. Thomas continuou cheio de ódio:
— Você sempre soube, não é? Sabia que desde que você tinha quinze anos, eu te amava. Sabe que ainda gosto...
Ela o interrompeu:
— Não. Atualmente não.
— O que quer dizer com... atualmente não?
Audrey levantou-se. Com a voz calma e pensativa, explicou:
— Porque agora... não sou mais a mesma.
— Não é mais a mesma como?
Ele ficou de pé, encarando-a. Audrey, com a voz muito excitada, falou apressada:
— Se você não sabe, não posso lhe dizer... Eu mesma não tenho certeza. Só sei que...
Calou. E, virando-se bruscamente, correu pelas pedras na direção do hotel.
No caminho, encontrou Nevile deitado, olhando atentamente para uma poça d'água. Ele levantou a cabeça e sorriu.
— Olá Audrey!
— Olá Nevile!
— Estou observando um caranguejo. O pobre coitado é terrivelmente ativo. Olhe, aqui está ele.
Ela se ajoelhou e olhou para onde ele apontava.
— Está vendo?
— Sim.
— Quer um cigarro?
Ele acendeu o cigarro que ela aceitara. Audrey permaneceu sem olhá-lo, e após algum tempo ele falou nervosamente:
— Escute Audrey?
— Sim. O que é?
— Está tudo bem, não está? Quero dizer... entre nós dois?
— Sim. Claro que está.
— Somos amigos, não somos?
— Sim, é claro que sim.
— Eu quero... que sejamos amigos.
Ele a olhou ansioso. Audrey sorriu nervosa.
— Foi um dia agradável, não foi? Bom tempo e tudo o mais — comentou ele.
— Ah, sim... foi.
— Está bastante quente para setembro, não acha?
— Sim. Demais.
Ficaram calados.
— Audrey..
Ela se levantou.
— Sua esposa está acenando para cá.
— Quem... Kay?
— Eu disse sua esposa.
Nevile levantou-se e olhando-a fixamente, falou em voz muito baixa:
— A minha esposa é você, Audrey...
Ela se virou e foi embora. Nevile correu pela areia ao encontro de Kay.
IX
Ao chegarem de volta a Gull's Point, Hurstall dirigiu-se a Mary.
— A senhorita poderia subir para ver Lady Tressilian? Ela está muito perturbada e gostaria de vê-la assim que chegasse.
Mary subiu imediatamente, encontrando-a pálida e trêmula.
— Querida Mary, ainda bem que chegou! Estou tão angustiada! O Sr. Treves está morto.
— Morto?
— Sim. Não é terrível? Foi tão repentino. Parece que nem chegou a trocar de roupa. Deve ter tido um colapso assim que chegou ao hotel.
— Oh, sinto muito!
— Sabíamos, é claro, que sua saúde estava abalada e seu coração fraco. Espero que, aqui, nada tenha acontecido que pudesse lhe causar uma tensão excessiva. Teve algum prato indigesto no jantar?
— Creio que não. Aliás, estou certa de que não. Parecia bem disposto e animado.
— Estou realmente desolada. Gostaria que fosse ao Balmoral Court e pedisse maiores informações à Sra. Rogers. Pergunte-lhe se não há nada que possamos fazer. Por causa de Matthew, gostaria de fazer alguma coisa, quanto ao funeral. Num hotel é tão desagradável.
— Querida Camilla, tente não se preocupar. Eu sei que foi um choque muito grande para a senhora — advertiu Mary.
— Sim. Realmente foi.
— Irei ao Balmoral Court agora mesmo, e lhe trarei notícias.
— Obrigada querida Mary. Você é sempre tão prática e compreensiva.
— Agora procure descansar. Um choque deste tipo não é bom para a senhora.
Mary Aldin saiu do quarto, desceu as escadas, e ao entrar na sala de visitas, exclamou:
— O velho Sr. Treves está morto! Morreu ontem à noite, no hotel.
— Coitado! — exclamou Nevile. — Como aconteceu?
— Foi o coração. Teve um colapso assim que chegou.
— Será que a escada o matou? — disse Thomas Royde pensativo.
— Escada? — Mary olhou-o sem compreender.
— Sim. Quando Latimer e eu o deixamos, ele estava começando a subir as escadas. Recomendamos que subisse devagar.
— Mas que estupidez não tomar o elevador! — exclamou Mary.
— Estava quebrado.
— Ah, entendo. Que falta de sorte! Pobre velho. Agora, vou até o hotel, pois Camilla quer saber se podemos fazer alguma coisa.
— Irei com você — disse Thomas.
Caminhando juntos até o Balmoral Court, Mary comentou:
— Será que ele tem algum parente que deva ser notificado?
— Ele não falou de ninguém.
— É, e normalmente as pessoas costumam mencionar. Dizem "minha sobrinha" ou "meu primo".
— Ele era casado?
— Creio que não.
Entraram no Balmoral Court. A Sra. Rogers, a proprietária, estava falando com um homem alto de meia-idade, que cumprimentou Mary cordialmente.
— Boa tarde, Srta. Aldin.
— Boa tarde, Dr. Lazenby. Este é o Sr. Royde. Viemos trazer um recado: Lady Tressilian se oferece para ajudar no que for preciso.
— É muita gentileza de sua parte, Srta. Aldin — comentou a proprietária do hotel. — Venha para a sala, por favor.
Todos entraram na pequena e confortável sala, quando o Dr. Lazenby perguntou:
— O Sr. Treves jantou ontem em sua casa, não foi?
— Sim.
— E como estava ele? Mostrava algum sinal de esgotamento?
— Não. Parecia bem disposto e alegre.
O médico balançou a cabeça.
— Isto é o pior de tudo nessas doenças cardíacas. A morte vem quase sempre repentinamente. Li sua prescrição médica, e ficou bem evidente que se encontrava em precário estado de saúde. É claro que me comunicarei com seu médico em Londres.
— Ele sempre se cuidava muito — afirmou a Sra. Rogers. — E posso lhe assegurar que aqui o tratávamos da melhor maneira possível.
— Estou certo disto, Sra. Rogers — afirmou o médico com delicadeza. — Não há dúvida que sua morte foi causada apenas por algum pequeno esforço a mais do que devia ter feito.
— Como subir escadas — sugeriu Mary.
— Sim, isto talvez fosse o suficiente. Na verdade, é quase certo que seria, isto é, se por ventura ele subisse os três lances da escada. Entretanto, não creio que o tenha feito.
— Nunca — espantou-se a Sra. Rogers. — Ele sempre usava o elevador. Era muito cauteloso.
— Quero dizer que... estando o elevador quebrado ontem à noite... — disse Mary.
A Sra. Rogers olhou-a surpresa.
— Mas, ontem, o elevador não estava quebrado, Srta. Aldin.
Thomas Royde tossiu.
— Desculpe-me — interrompeu ele — mas ontem à noite acompanhei o Sr. Treves até aqui, e havia um aviso no elevador escrito "PARADO".
A Sra. Rogers olhou-o atônita.
— Bem, isto é muito estranho! Afirmei que nada havia de errado com o elevador, e estou certa disto; caso contrário eu teria sabido. Não temos tido problemas com o elevador (bateu na madeira) há mais de oito meses. Pode acreditar!
— Talvez — sugeriu o médico — algum porteiro ou cabineiro tenha colocado o aviso, enquanto estava de folga.
— É um elevador automático. Não precisa de ninguém para manejá-lo.
— Sim, é mesmo! Já estava me esquecendo.
— Falarei com Joe — disse a Sra. Rogers. Saiu apressada da sala chamando-o: — Joe, Joe.
O Dr. Lazenby olhou curioso para Thomas.
— Perdoe-me, o senhor tem certeza, Sr.... er...
— Royde — interveio Mary.
— Absoluta! — assegurou Thomas.
A Sra. Rogers voltou acompanhada do porteiro. Joe foi enérgico ao declarar que, na noite anterior, nada havia de errado com o elevador. O tal aviso realmente existia, mas estava guardado na escrivaninha e não era usado há mais de um ano.
Todos se olharam e concordaram que era tudo muito misterioso. O médico sugeriu a hipótese de ter sido uma peça pregada por algum hóspede do hotel.
Em resposta às perguntas de Mary, o Dr. Lazenby explicou que o motorista do Sr. Treves havia fornecido o endereço do seu advogado, com quem ele iria se comunicar imediatamente, procurando Lady Tressilian para dizer-lhe como seria o funeral, logo em seguida.
Com pressa, o ativo e alegre médico despediu-se. Mary e Thomas voltaram lentamente a Gull's Point.
— Você tem certeza de que viu aquele aviso, Thomas? — perguntou Mary.
— Tanto eu como Latimer o vimos.
— Que coisa mais estranha! — exclamou Mary.
X
Era 12 de setembro.
— Faltam apenas mais dois dias — disse Mary Aldin e mordeu o lábio, enrubescendo.
Thomas olhou-a pensativo.
— É assim que se sente a esse respeito?
— Não sei o que está acontecendo comigo — explicou ela. — Em toda a minha vida, nunca fiquei tão ansiosa para que uma visita terminasse logo. Normalmente gostamos muito de receber Nevile aqui. E também a Audrey.
Thomas balançou a cabeça.
— Mas desta vez — prosseguiu Mary — sinto-me como se estivesse sentada em dinamite que poderá explodir a qualquer hora. Por isso, a primeira coisa em que pensei esta manhã é que faltam apenas mais dois dias. Audrey irá embora na quarta-feira, e Nevile e Kay na quinta.
— E eu irei na sexta-feira — disse Thomas.
— Ora, não o estou incluindo nisto. Você tem sido um forte apoio para mim. Não sei o que teria feito sem você.
— Uma espécie de pára-choque humano?
— Muito mais do que isto. Você tem sido tão paciente e tão... tão amável. Sei que estou parecendo ridícula, contudo é realmente isto que quero dizer.
Thomas parecia satisfeito, apesar de ligeiramente embaraçado.
— Não sei por que temos estado tão sobressaltados — comentou Mary pensativa. — Afinal de contas, se houvesse uma... uma explosão de sentimentos, seria desagradável e constrangedor. No entanto, nada mais além disto.
— Mas creio que você sente que ainda há alguma coisa por trás disso tudo.
— Sim, uma sensação de apreensão. E até os empregados sentem. Esta manhã, a copeira irrompeu em lágrimas e pediu demissão sem nenhum motivo. A cozinheira anda irritada, Hurstall tremendamente agitado e até Barrett, que habitualmente é calma e segura, tem mostrado sinais de nervosismo. E tudo porque Nevile teve a ridícula idéia de querer que suas duas esposas se tornassem amigas, para poder assim aliviar a sua consciência.
— O que foi um fracasso total — concluiu Thomas.
— Sim, realmente. Kay está começando a perder o controle. E eu não posso deixar de sentir pena dela. Você notou a maneira com que Nevile olhou para Audrey enquanto ela subia as escadas ontem à noite? Ele ainda gosta dela, Thomas. Foi tudo um terrível engano.
Thomas começou a encher o cachimbo.
— Ele deveria ter pensado nisto antes.
— Eu sei que isto seria o certo, embora não altere o fato de que tudo continue sendo uma tragédia. Sinto pena de Nevile.
— Pessoas como Nevile... — Thomas começou a falar.
— Sim?
— Pessoas como Nevile acham que podem ter tudo o que querem. Acho que até se deparar com este problema com Audrey, nunca tenha tido uma contrariedade na vida. Bem, agora ele levou a pior, não podendo ficar com Audrey. Ela está fora de seu alcance, e nada vai adiantar agir desta forma absurda. Terá que suportar a derrota!
— Imagino que você tenha razão, entretanto acho que está sendo muito severo. Andrey estava apaixonada por Nevile quando se casaram, e sempre se deram muito bem.
— Mas atualmente ela não o ama.
— Duvido muito — murmurou Mary baixinho.
Thomas prosseguiu:
— E lhe digo mais; é melhor Nevile tomar cuidado com Kay, pois é do tipo de moça perigosa, realmente muito perigosa. Se perder a calma, nada a deterá.
— Meu Deus! — Mary suspirou repetindo sua observação inicial. — Bem, faltam apenas mais dois dias.
Os últimos dias tinham sido difíceis. A morte do Sr. Treves causara um choque prejudicial à saúde de Lady Tressilian. O funeral, que tivera lugar em Londres, agradou Mary, pois faria Lady Tressilian esquecer mais depressa. Os empregados haviam estado nervosos e difíceis, e esta manhã Mary sentia-se cansada e deprimida.
— Em parte é culpa do tempo — disse Mary em voz alta. — Não está muito normal.
Realmente para o mês de setembro estava um calor fora do comum. Em certos dias, o termômetro chegara a marcar 40° à sombra.
Nevile aproximou-se no momento em que Mary falava.
— Culpando o tempo? — perguntou ele olhando o céu. — É mesmo incrível. Hoje está mais quente que nunca e não há vento. Deixa qualquer um nervoso, contudo creio que vai chover a qualquer momento, uma vez que está quente demais.
Thomas Royde, que se afastara com o seu andar calmo e incerto, desapareceu por trás da casa.
— A retirada do melancólico Thomas! — comentou Nevile. — Não se pode dizer que lhe agrade a minha companhia.
— Ele é um amor de pessoa — disse ela.
— Eu discordo. É o tipo de sujeito tacanho e cheio de preconceitos.
— Você acha isso porque sabe que ele desejou casar-se com Audrey, até que você apareceu e afastou-a dele.
— Ele levaria uns sete anos para se decidir a pedi-la em casamento. Será que ele queria que Audrey o esperasse até a morte?
— Agora talvez dê tudo certo — falou Mary deliberadamente.
Nevile olhou-a, levantando a sobrancelha.
— A recompensa do verdadeiro amor é isso? Audrey casar-se com aquele bolha? Ela é muito boa para isto. Não, não vejo Audrey casada com o melancólico Thomas.
— Acho que ela gosta muito dele, Nevile — afirmou Mary.
— Vocês mulheres são sempre umas casamenteiras! Por que não deixam Audrey aproveitar um pouco sua liberdade?
— Certamente. Mas será que está aproveitando?
— Você acha que ela não é feliz? — perguntou Nevile apressado.
— Não tenho a menor idéia.
— Nem eu — disse Nevile devagar. — Nunca se sabe o que Audrey está sentindo. — Ele fez uma pausa e depois acrescentou: — Na verdade, ela é perfeita! Tem classe... é correta...
Continuando, falou mais para si mesmo do que para Mary:
— Deus! Como tenho sido um completo idiota!
Mary entrou em casa um pouco preocupada. Pela terceira vez, repetiu as palavras que a confortavam:
— Apenas mais dois dias.
Nevile perambulou irrequieto pelo jardim e terraço.
Encontrou Audrey no fundo do jardim, sentada num muro, olhando para a água. A maré estava alta e o rio cheio.
Ela levantou-se imediatamente vindo em sua direção.
— Já ia voltar para casa, pois deve estar na hora do chá — falou nervosa e depressa, sem olhá-lo.
Calado, ele caminhou a seu lado. Somente quando chegaram ao terraço é que ele perguntou:
— Posso falar com você, Audrey?
— Acho melhor não — respondeu apressada, apertando com força a beira da balaustrada.
— Isto significa que você sabe o que tenho para lhe dizer.
Ela não respondeu.
— O que me diz, Audrey? Não podemos voltar ao que éramos? Esquecer tudo o que aconteceu?
— Inclusive Kay?
— Kay será sensata — afirmou ele.
— O que quer dizer com sensata?
— Simplesmente isto. Direi a verdade a Kay, e contarei com a sua generosidade. Direi que você é a única mulher a quem amei.
— Você amava Kay quando se casou com ela.
— Meu casamento com Kay foi o maior erro de minha vida. Eu...
Ele parou. Kay caminhava em sua direção, e havia tamanha fúria em seus olhos que Nevile se assustou um pouco.
— Sinto interromper esta cena tocante — ironizou ela. — Mas acho que já está na hora.
Audrey levantou-se. Seu rosto e a sua voz estavam totalmente sem expressão.
— Deixarei vocês sozinhos — falou se afastando.
— Pode ir. Você já causou todo dano que queria, não é? Mais tarde cuido de você. Agora prefiro me entender com Nevile.
— Olhe aqui, Kay, Audrey nada tem a ver com isto. Não é culpa dela. Pode me culpar, se quiser.
— E é o que vou fazer — respondeu Kay, com os olhos brilhando de raiva. — Que tipo de homem você é?
— Um pobre coitado — falou com amargura.
— Você deixa sua mulher, vem correndo atrás de mim como um obstinado e pede o divórcio. Num minuto está louco por mim e no outro já está cansado! Suponho que agora queira voltar para aquela choramingona, pálida, gata traidora...
— Pare com isto, Kay!
— Bem, o que você quer afinal?
Nevile estava muito pálido.
— Pode me chamar do que você quiser, mas de nada vai adiantar Kay. Não posso continuar com essa situação. Acho que sempre estive apaixonado por Audrey, e além do mais, meu amor por você foi uma espécie de loucura. Só sei que agora não conseguiria lhe fazer feliz por muito tempo. Acredite Kay, é melhor nos separarmos como amigos. Procure ser compreensiva.
— O que exatamente você está sugerindo? — perguntou Kay decepcionada.
Nevile não a encarou. Havia teimosia em seu rosto.
— Que nos divorciemos. Você pode alegar abandono de lar.
— Você terá que esperar algum tempo por isto.
— Não faz mal... eu espero — afirmou Nevile.
— E depois de três anos ou mais, você pedirá a querida e doce Audrey que se case novamente com você.
— Se ela aceitar...
— É claro que aceitará! — afirmou Kay maldosamente. — E como eu fico nesta história toda?
— Você ficará livre para encontrar um homem melhor do que eu. Naturalmente tratarei que fique bem financeiramente...
— Chega de conversa! — gritou ela se descontrolando. — Escute aqui, Nevile, você não pode fazer isto comigo. Não lhe darei o divórcio. Casei com você porque realmente o amava. Depois que lhe contei que o segui até o Estoril, é que você começou a ficar contra mim. Você preferiria acreditar que tudo não passava da obra do destino. Ao saber que fui eu e não o destino, a sua vaidade ficou abalada. Mas não estou envergonhada do que fiz! Você se apaixonou e se casou comigo, logo não vou deixar que volte para aquela gata dissimulada que o fisgou novamente. Eu juro que ela não vai conseguir o que quer! Antes disto mato você! Entendeu? Mato você e ela. Mato os dois. Eu...
Nevile segurou-lhe o braço, dizendo:
— Pelo amor de Deus, Kay. Cale a boca. Não vê que você não pode fazer este tipo de cena aqui?
— Não posso? Você verá. Eu...
Hurstall aproximou-se. Seu rosto estava impassível.
— O chá já está servido — anunciou ele.
Kay e Nevile se encaminharam lentamente para a sala de visitas.
Hurstall saiu do caminho, para deixá-los passar.
No céu, nuvens se agrupavam.
XI
A chuva começou a cair às 7 horas enquanto Nevile olhava pela janela de seu quarto. Ele e Kay não haviam conversado mais, evitando-se depois do chá.
Naquela noite, o jantar fora formal e penoso. Nevile estivera totalmente absorto em seus pensamentos; Kay se maquilara muito mais do que habitualmente; Audrey parecia um fantasma congelado; Mary Aldin, fazendo o possível para manter uma conversação, ficara um pouco aborrecida com Thomas Royde por ele não ter contracenado melhor com ela.
Hurstall estava muito nervoso e suas mãos tremiam ao servir a salada.
Quando a refeição estava quase por acabar, Nevile falou com estudada casualidade:
— Acho que depois do jantar irei ao Easterhead visitar Latimer. Lá poderemos jogar bilhar.
— Leve a chave para o caso de voltar tarde — ofereceu Mary.
— Obrigado. Levarei.
Foram para a sala de estar, onde o café foi servido. Ligaram o rádio, o que fez com que as notícias servissem para distrair o ambiente.
Kay, que estivera bocejando ostensivamente desde o jantar, declarou que estava com dor de cabeça e que ia dormir.
— Já tomou aspirina? — indagou Mary.
— Sim, obrigada — respondeu ela, saindo da sala.
Nevile mudou para um programa musical. Sentado no sofá, todo encolhido como um garoto infeliz, permaneceu calado por muito tempo, não olhando nem uma vez para Audrey. Apesar de ser contra sua vontade, Mary sentiu muita pena dele.
— Bem, é melhor eu ir agora — disse finalmente, levantando-se.
— Você vai de carro ou de barca?
— De barca. Não tem sentido dirigir 80 quilômetros. E depois, será bom andar um pouco.
— Sabe que está chovendo?
— Sei. Vou levar a capa. Boa noite.
No hall, Hurstall aproximou-se:
— Por favor, senhor. Lady Tressilian o chama. Gostaria de vê-lo imediatamente.
Nevile olhou o relógio. Eram quase 10 horas. Encolheu os ombros, e indo até o quarto de Lady Tressilian, bateu à porta. Enquanto esperava ordem para entrar, ouvia os demais se despedindo lá embaixo. Parecia que hoje todos iam dormir cedo.
— Entre — ordenou Lady Tressilian com sua voz clara.
Nevile entrou, fechando a porta atrás de si.
Ela estava preparada para dormir. Todas as lâmpadas estavam apagadas, exceto a da mesa de cabeceira. Tinha posto de lado o livro que lia. Olhou para Nevile por cima dos óculos, e foi de certa forma, um olhar terrível.
— Quero falar-lhe, Nevile.
Apesar de tudo, ele sorriu timidamente, e brincou:
— Sim, senhora diretora.
Lady Tressilian não retribuiu o sorriso.
— Há certas coisas que não permitirei em minha casa. Não tenho nenhuma intenção de ouvir as conversas particulares dos outros, mas desde que você e sua mulher resolveram gritar um com o outro bem debaixo da janela do meu quarto, dificilmente poderia deixar de ouvi-los. E pelo que entendi... você estava esboçando um plano, no qual Kay lhe daria o divórcio, e no tempo devido você se casaria outra vez com Audrey. Você não pode fazer isto. E não quero mais nem ouvir, nem saber que você ainda pensa nisso.
Nevile parecia estar se esforçando enormemente para se controlar.
— Peço desculpas pela cena, mas quanto ao resto, garanto que é problema unicamente meu!
— Não. Não é. Você usou a minha casa para se encontrar com Audrey, ou então foi ela quem usou...
— Ela não fez nada disto. Ela...
Lady Tressilian levantou a mão, fazendo-o calar.
— De qualquer maneira, você não pode fazer o que está pretendendo. Kay é sua esposa e tem certos direitos que você não pode lhe negar. Aliás, estou inteiramente do lado de Kay. Você tem que arcar com as conseqüências de todos os seus atos. Seu dever agora é com Kay e estou lhe dizendo claramente que...
Nevile deu um passo à frente. Elevou a voz:
— Este assunto não lhe diz respeito.
— E tem mais — continuou ela apesar de seu protesto. — Audrey deixará esta casa amanhã.
— Não pode fazer isto! Não permitirei.
— Não grite comigo, Nevile.
— Digo-lhe que não vou permitir...
Em algum lugar do corredor, uma porta se fechou...
XII
Alice Bentham, a empregada de olhar apatetado, aproximou-se meio perturbada da Sra. Spicer, a cozinheira.
— Não sei o que fazer, Sra. Spicer.
— O que há Alice?
— É a Srta. Barrett. Levei-lhe um xícara de chá há mais de uma hora. Porque ela estava dormindo profundamente, eu não quis acordá-la. Há cinco minutos, voltei novamente a seu quarto porque o chá de Lady Tressilian já estava pronto para ser levado, e ela ainda não tinha descido. Continua dormindo e não consigo acordá-la.
— Já tentou sacudi-la?
— Sim, Sra. Spicer. Sacudi a sua mão com força, mas ela continua deitada com uma cor horrível.
— Meu Deus! Ela não está morta, está?
— Oh, não! Posso ouvi-la respirar, apesar de ser uma respiração esquisita. Acho que está doente, ou qualquer coisa assim.
— Bem, irei vê-la. Agora leve o chá de Lady Tressilian. É melhor prepará-lo de novo. Ela deve estar preocupada sem saber o que aconteceu.
Enquanto a Sra. Spicer se dirigia para o segundo andar, Alice cumpria obedientemente as ordens.
Carregando a bandeja, Alice bateu na porta do quarto de Lady Tressilian. Depois de bater duas vezes sem conseguir resposta, resolveu entrar assim mesmo. Um segundo depois, ouviam-se o barulho de louça quebrada e vários gritos estridentes. Alice desceu correndo as escadas, quando encontrou Hurstall que se encaminhava para a sala de jantar.
— Sr. Hurstall, entraram ladrões e Lady Tressilian está morta, assassinada, com um grande buraco na cabeça e há sangue espalhado por todo lugar...
1
Um toque de mestre
I
O Superintendente Battle havia aproveitado bem suas férias. Ainda faltavam três dias para terminarem, entretanto a mudança de tempo e a chuva faziam-no ficar um pouco desapontado. Mas o que se poderia esperar na Inglaterra? Felizmente até agora, ele tinha tido muita sorte.
Estava tomando café com o Inspetor James Leach, seu sobrinho, quando o telefone tocou.
— Irei imediatamente — Jim desligou.
— Algum problema? — perguntou Battle, notando a expressão do rosto do sobrinho.
— Um caso de assassinato. Lady Tressilian, uma velha senhora inválida, muito conhecida aqui. É dona daquela casa, em Saltcreek, que fica em cima do penhasco.
Battle balançou a cabeça.
— Vou me encontrar com o velho (era assim, desrespeitosamente, que Leach se referia ao chefe de polícia). Ele era amigo dela. Vamos juntos ao local do crime.
Quando chegou perto da porta, pediu:
— O senhor vai me ajudar nisto, não vai tio? É o meu primeiro caso de assassinato.
— Enquanto estiver aqui, eu lhe ajudo. Foi um caso de furto e arrombamento?
— Ainda não sei.
II
Meia hora depois, o Major Robert Mitchell, Chefe de Polícia, falava com seriedade com o tio e o sobrinho.
— Ainda é cedo para afirmar, mas uma coisa é certa: não foi trabalho de estranhos. Nada foi roubado nem há sinais de arrombamento. Pela manhã todas as janelas e portas foram encontradas fechadas.
Ele olhou diretamente para Battle.
— Será que se eu pedisse à Scotland Yard, eles o colocariam no caso? O senhor já está aqui, e além do mais ainda existe o seu parentesco com Leach. Bem, só se o senhor estiver disposto, pois isto significa cortar o final de suas férias.
— Isso não é problema — afirmou Battle. — Quanto ao mais, terá que ser levado ao conhecimento do Sr. Edgar (Edgar Cotton era o Assistente do Comissário), mas creio que ele seja seu amigo, não?
Mitchell concordou com a cabeça.
— Sim, acho que posso me entender com Edgar. Então está resolvido! Vou tratar disso agora mesmo.
— Ligue-me com a Yard — falou ele ao telefone.
— O senhor acha que vai ser um caso importante? — indagou Battle.
— Vai ser um caso onde não poderá haver a possibilidade de um engano. É preciso estar absolutamente certo quanto ao nosso homem ou a nossa mulher.
Battle compreendeu claramente, que por trás daquelas palavras havia algo.
Ele pensa que sabe quem é o assassino — disse para si mesmo. — Apesar de não gostar de fazer prognósticos. É alguém conhecido e popular ou não me chamo Battle!
III
Battle e Leach estavam parados à porta do quarto bem mobiliado e, por sinal, muito bonito. No chão, em frente a eles, o oficial de polícia examinava cuidadosamente as impressões digitais que ficaram no cabo do taco de golfe... um pesado taco de golfe. A parte superior do taco estava cheia de sangue, tendo um ou dois fios de cabelo branco presos a ele.
Ao lado da cama, o Dr. Lazenby, o cirurgião da polícia local, estava debruçado sobre o corpo de Lady Tressilian.
Soltando um suspiro, ele se levantou.
— Foi um golpe direto. Ela foi atingida de frente, com uma força incrível. A primeira pancada, e que foi a fatal, esmagou o seu osso, mas por via das dúvidas o assassino golpeou-a uma segunda vez para ter plena certeza de que ela estaria morta. Não usarei termos complicados, e sim uma linguagem prática e de bom senso.
— Há quanto tempo ela está morta? — perguntou Leach.
— Eu diria... que deve ter sido entre as 10 horas e a meia-noite.
— Não poderia nos dar uma hora mais exata?
— Não. Há vários fatores a serem levados em consideração. Hoje em dia não condenamos ninguém baseados apenas em rigor mortis. Não foi nem antes das dez, nem depois da meia-noite.
— Ela foi atingida com este taco?
O médico olhou.
— Provavelmente! A sorte é que o assassino o esqueceu aqui. Porque pelo tipo de ferimento eu não poderia nunca chegar à conclusão do que teria sido usado como arma. Da forma como aconteceu, não foi a parte pontiaguda que atingiu a cabeça e sim o seu ângulo posterior.
— Isto não seria difícil de acontecer? — indagou Leach.
— Sim, se tivesse sido proposital — concordou o médico — mas suponho que tenha acontecido assim, por mera casualidade.
Leach levantou as mãos, tentando reconstruir o golpe.
— Estranho — comentou ele.
— Sim, é tudo muito estranho — disse o médico pensativo. — Ela recebeu o golpe no lado direito da cabeça. Mas seja lá quem o deu, deve ter ficado do lado direito da cama, exatamente em frente à cabeceira, porque, por ser o ângulo entre a parede e a cama muito pequeno, não há espaço à esquerda.
Leach aguçou os ouvidos.
— Seria canhoto? — perguntou ele.
— Eu não me arriscaria em afirmar isto — disse Lazenby. — Há sempre muitos imprevistos. É muito fácil a explicação de que o assassino seja canhoto. No entanto, existem vários outros fatos a se considerar: suponhamos, por exemplo, que a velha senhora tenha virado a cabeça ligeiramente para a esquerda na hora em que foi atingida; ou então que o criminoso tenha afastado a cama e ficado à sua esquerda, trazendo-a depois para sua posição anterior.
— Esta última hipótese não é muito provável.
— Talvez não. Mas poderia ter acontecido. Tenho alguma experiência neste assunto e posso lhe dizer que concluir que o golpe tenha sido dado por um canhoto pode ser muito perigoso.
O sargento-detetive Jones observou:
— Este é um taco destro de golfe.
Leach concordou com a cabeça.
— Contudo, poderia não pertencer ao homem que o usou. Foi um homem não foi, doutor?
— Não necessariamente. Se a arma do crime foi mesmo o taco, o assassino bem poderia ter sido uma mulher.
— Mas o senhor não pode afirmar que foi esta a arma, pode? — inquiriu Battle calmamente.
Lazenby olhou-o interessado.
— Não. Posso apenas dizer que a arma poderia ter sido o taco, e que provavelmente o tenha sido. Mandarei analisar o sangue para ver se é do mesmo tipo sangüíneo... e também os fios de cabelo.
— Sim, é sempre bom reunir todas as provas.
— O senhor também tem suas dúvidas em relação ao taco de golfe? — perguntou Lazenby curioso.
— Não, não. Sou apenas um homem simples que gosta de acreditar no que vê. Ela foi atingida com alguma coisa pesada... e isto é pesado. O sangue e cabelo nele fazem-nos presumir que sejam da vítima. Portanto... esta deve ter sido a arma usada.
— Ela estava acordada ou dormindo quando foi golpeada? — indagou Leach.
— Na minha opinião estava acordada, pela expressão de espanto que há em seu rosto. Acredito que ela não esperasse o que iria acontecer. Não há sinal nenhum de qualquer tentativa de luta... nem de horror ou medo em seu rosto. Direi sem compromisso que, ou ela tinha acabado de acordar e ainda meio confusa não entendeu o que acontecia, ou então que reconheceu, em seu assaltante, alguém que seria impossível lhe desejar algum mal.
— A única lâmpada acesa era a da mesa de cabeceira — comentou Leach pensativo.
— Sim, isto nos dá duas alternativas. Poderia tê-la ligado ao acordar, repentinamente, com alguém entrando em seu quarto, ou então poderia já estar ligada.
O sargento-detetive, levantando-se do chão, falou sorrindo:
— Lindas impressões digitais. Perfeitamente nítidas.
— Isto deve simplificar as coisas — disse Leach dando um profundo suspiro.
— Sujeito amável o criminoso. Deixou a arma... deixou as impressões digitais... é de se admirar que também não tenha deixado seu cartão de visita! — comentou o Dr. Lazenby.
— Pode ter perdido a cabeça. Às vezes isso acontece — observou o Superintendente Battle.
— É verdade — concordou o médico. — Agora devo ir cuidar de minha paciente.
— Que paciente? — Battle parecia interessado.
— Antes do crime ser descoberto, fui chamado pelo mordomo. Uma das empregadas de Lady Tressilian foi encontrada em estado de coma esta manhã.
— O que aconteceu com ela?
— Estava extremamente dopada com barbitúricos. Apesar de estar muito mal, é certo que se recuperará.
— A empregada?! — falou Battle. — Seu olhar se dirigiu para o cordão da campainha cuja borla estava pousada no travesseiro perto da mão da vítima.
Lazenby balançou a cabeça.
— Exatamente. A primeira coisa que Lady Tressilian faria caso se alarmasse, seria puxar a campainha chamando a empregada. Bem, mas neste caso, ela poderia puxar até cansar, pois a empregada não a ouviria jamais.
— O assassino tomou precauções quanto a isto, não acha? — perguntou Battle. — Mas você tem certeza de que ela não costumava tomar remédio para dormir?
— Tenho certeza absoluta. Não encontramos nada em seu quarto. E após algumas investigações, cheguei à conclusão de como foi usada a droga: colocaram-na no chá de cássia que ela costuma tomar todas as noites.
— Hum! — resmungou Battle, coçando o queixo. — Alguém conhece bem todos os hábitos desta casa. Sabe, doutor, este é um caso de assassinato muito estranho.
— Bem — disse Lazenby —, agora o problema é todo de vocês.
— Ele é um bom homem — afirmou Leach, depois que Lazenby saiu da sala.
Agora estavam sozinhos. Haviam sido tiradas fotografias e medidas. Os dois policiais já tinham todos os dados a respeito do aposento onde o crime havia sido cometido.
Battle concordou com a observação do sobrinho, mas parecia intrigado com alguma coisa.
— Você acha que alguém... de luvas.... poderia ter usado este taco... com impressões digitais anteriores?
— Não, e nem você acha. Não se poderia segurar nele sem apagar as impressões. E estão perfeitamente nítidas, como você mesmo viu — observou Leach.
Battle concordou.
— Agora pediremos educadamente a todos para que suas impressões digitais sejam tiradas... sem coação, é claro. Todos dirão que sim, o que acarretará em duas soluções: ou nenhuma das impressões digitais corresponderá a essas, ou então...
— Ou então teremos apanhado o nosso assassino.
— Suponho que sim. Ou quem sabe... uma assassina?
— Não, não foi uma mulher. As impressões no taco são grandes demais para serem de uma mulher. Além disso, não foi um crime com características femininas.
— Tem razão — consentiu Battle. — Realmente foi um crime tipicamente masculino. Brutal, másculo, um tanto atlético apesar de um. pouco idiota. Conhece alguém aqui que seja assim?
— Ainda não conheço ninguém nesta casa. Estão todos reunidos na sala de jantar.
— Vamos então conhecê-los — disse Battle dirigindo-se para a porta.
Olhando para a cama, balançou a cabeça, e comentou:
— Não gosto deste cordão de campainha.
— Por quê?
— Não se enquadra com o resto.
Acrescentou ao abrir a porta:
— Quem poderia querer matá-la? Há por aí uma porção de velhas rabugentas merecendo uma pancada na cabeça, mas ela não parecia ser deste tipo. Acredito que fosse uma pessoa querida. — Fez uma pausa, e em seguida perguntou: — Ela era rica, não? Quem ficará com o dinheiro?
— O senhor acertou no alvo! Isto esclarecerá tudo. É uma das primeiras coisas a se descobrir.
Enquanto desciam as escadas, Battle olhou a lista em sua mão, e leu alto:
— Srta. Aldin, Sr. Royde, Sr. Strange, Sra. Strange, Sra. Audrey Strange. Hum, parece que a família Strange é grande demais.
— São suas duas esposas.
— Um barba-azul... — murmurou Battle levantando as sobrancelhas.
A família estava reunida em torno da mesa, onde haviam tido um pretenso jantar.
O Superintendente Battle olhou aguçadamente para todos os rostos virados em sua direção. Ele os estava analisando de acordo com seus próprios métodos. Se soubessem... certamente ficariam surpresos com seu julgamento: era uma visão severa e cheia de preconceitos. Apesar da lei considerar a pessoa inocente até prova em contrário, o Superintendente Battle sempre considerava toda e qualquer pessoa envolvida num caso de homicídio como um assassino em potencial.
Olhou para Mary Aldin sentada ereta e pálida à cabeceira da mesa... para Audrey com uma xícara de café na mão direita e um cigarro na esquerda... para Nevile que parecia confuso e desnorteado tentando, com a mão trêmula, acender um cigarro... para Kay com os cotovelos apoiados na mesa e sua palidez aparecendo por debaixo da maquilagem.
Foram estes os pensamentos do Superintendente Battle:
"Aquela deve ser a Srta. Aldin. Diria que é uma pessoa calma, competente e dificilmente a pegaremos desprevenida. O homem a seu lado é imprevisível, tem uma fisionomia impassível, um braço defeituoso e provavelmente complexo de inferioridade. A outra (que deve ser uma das esposas) está morrendo de medo... sim, está mesmo muito assustada. Aquele é Strange (já o vi antes em algum lugar); está mesmo muito agitado... com os nervos em frangalhos. A ruiva é do tipo irritável, com um temperamento dos diabos. Contudo, parece ser muito esperta."
Enquanto os analisava, o Inspetor Leach fazia um pequeno discurso formal. Mary Aldin citou o nome dê cada um dos presentes.
— Foi um terrível choque para todos, mas estamos prontos para ajudar no que for preciso — finalizou ela.
— Para começar, alguém sabe alguma coisa sobre este taco de golfe? — indagou Leach.
— Que horrível! Foi isto que... — exclamou Kay chocada.
Nevile Strange levantando-se deu a volta à mesa.
— Parece um dos meus. O senhor me permite dar uma olhada?
— Agora não tem mais problema — falou o inspetor. — Pode segurá-lo.
A maneira significativa como o "agora" foi dito não pareceu produzir qualquer reação nos presentes. Nevile examinou o taco.
— Acho que é um dos meus. Se o senhor vier comigo, poderei confirmar com certeza.
Seguiram-no até um grande armário debaixo da escada. Ele abriu com violência a porta, e o armário estava repleto de raquetes de tênis.
Battle, lembrando-se de onde conhecia Nevile Strange, falou apressado:
— Já o vi jogar em Wimbledon.
— Ah, sim! — disse Nevile virando parcialmente o rosto.
Ele estava tirando algumas raquetes do armário. Encostados em um equipamento de pesca, estavam os dois sacos de golfe.
— Somente minha mulher e eu jogamos — explicou Nevile. — Este é um taco de homem... Sim... é meu.
Ele tinha apanhado o saco de golfe que continha pelo menos uns quatorze tacos.
Estes desportistas levam mesmo a coisa a sério. Não gostaria de ser seu caddy — pensou o Inspetor Leach.
— É um taco fabricado por Walter Hudson de St. Esbert.
— Obrigado, Sr. Strange. Com isso, uma parte, já está definida.
— O que me surpreende é que nada foi roubado, e além do mais a casa não parece ter sido assaltada — sua voz estava confusa, e também assustada.
Eles já andaram refletindo sobre o crime... — pensou Battle.
— Os empregados são completamente inofensivos — afirmou Nevile.
— Falarei com a Srta. Aldin sobre eles — explicou calmamente Leach. — Mas agora, gostaria de saber quais são os advogados de Lady Tressilian?
— Askwith & Trelawny — esclareceu de pronto Nevile.
— Obrigado, Sr. Strange. É preciso que nos informemos sobre os bens de Lady Tressilian.
— Para saber quem herdará seu dinheiro? — perguntou Nevile.
— Sim, é isso. Sobre o seu testamento e tudo o mais.
— Nada sei sobre o seu testamento, a não ser que ela pouco tinha para deixar. Entretanto posso informar-lhe sobre-a distribuição de seus bens.
— Sim, Sr. Strange?
— Ficarão para mim e para minha mulher, de acordo com o testamento do falecido Sir Matthew Tressilian. Sua esposa tinha os bens apenas em usufruto.
— Realmente! — o Inspetor Leach olhou para Nevile com o interesse de alguém que acaba de descobrir algo importante. Seu olhar fez Nevile estremecer. O inspetor prosseguiu:
— Não tem idéia do valor da fortuna, Sr. Strange?
— Não posso dizer com certeza, mas creio que seja por volta de 100.000 libras.
— Para cada um?
— Não. Para ser dividido entre nós dois.
— Entendo. É uma soma bastante considerável...
Nevile, sorrindo, falou com muita calma:
— Tenho bastante dinheiro para viver. Não preciso desejar desesperadamente uma herança.
Leach pareceu chocado, por serem tais idéias atribuídas a ele.
Voltaram à sala de jantar onde Leach fez outro pequeno discurso. Desta vez foi sobre as impressões digitais... uma simples questão de rotina, embora fossem excluídos os empregados que tivessem acesso ao quarto da vítima.
Todos expressaram desejo, quase ansiedade, para terem suas impressões digitais tiradas.
E com esta finalidade, foram para a biblioteca, onde o detetive Jones os esperava com seu equipamento.
O interrogatório começou pelos empregados.
Pouco tinham a dizer. Hurstall explicou seu sistema de trancar a casa e jurou que encontrara tudo conforme deixara na noite anterior: não havia nenhum sinal de arrombamento. A porta da frente, ele explicou, não fora trancada com o ferrolho, mas apenas com a chave, porque o Sr. Nevile tinha ido a Easterhead Bay e voltaria tarde.
— Sabe a que horas voltou?
— Sim, senhor, creio que foi por volta das duas e meia da madrugada. Acho que alguém veio com ele, pois ouvi vozes. Também ouvi um carro se afastando, a porta se fechando e, logo após, o Sr. Nevile subindo as escadas.
— A que horas ele foi para Easterhead Bay?
— Por volta das 10:20 horas. Ouvi quando fechou a porta.
Hurstall, por não ter muito mais a dizer, foi dispensado. Leach continuou entrevistando os outros criados. Todos pareciam nervosos e assustados, mas não mais do que seria natural nas circunstâncias.
O inspetor olhou inquisitivamente para seu tio quando a porta se fechou atrás da ligeiramente histérica ajudante de cozinha, a qual foi a última a ser interrogada.
— Traga a empregada de volta. Não a de olhar assustado, mas sim a alta e magra, e um tanto carrancuda. Ela sabe de alguma coisa.
Era evidente a inquietação de Emma Wales, que estava completamente alarmada, por agora estar sendo interrogada por aquele homem mais velho.
— Vou lhe dar um conselho, Srta. Wales — disse ele cordialmente —, não deve esconder nada da polícia. Pois, se o fizer, fará com que a senhorita mesma se comprometa... Se é que realmente compreende o que quero dizer...
Emma Wales protestou indignada e nervosa:
— Tenho certeza de que nunca...
— Agora chega! — ordenou Battle levantando sua grande mão. — Você viu ou ouviu alguma coisa. O que foi?
— Eu não ouvi exatamente... quero dizer... não pude deixar de ouvir. O Sr. Hurstall também ouviu. E acho que aquilo nada teve a ver com o assassinato.
— Provavelmente não, mas diga-nos apenas o que escutou.
— Bem, era pouco depois das dez e eu ia subir para dormir. No entanto, antes de me recolher, tinha que deixar o saco de água. quente que a Srta. Mary Aldin usa, seja no verão ou no inverno. Naturalmente para isso, eu teria que passar pela porta de Lady Tressilian.
— Continue — apressou Battle.
— Foi quando ouvi-a discutindo violentamente com o Sr. Nevile. As vozes estavam muito exaltadas e algumas vezes ele gritava. Oh, era uma discussão para valer!
— Lembra-se exatamente do que diziam?
— Bem, não estava propriamente prestando atenção.
— Eu sei. Mas mesmo assim deve ter ouvido pelo menos algumas palavras.
— Ela dizia que não ia admitir não sei bem o que em sua casa, e em seguida o Sr. Nevile respondia: "não ouse dizer nada contra ela". Ele parecia muito excitado.
Battle, com o rosto inexpressivo, tentou perguntar-lhe mais alguma coisa, porém não conseguindo mais nenhuma declaração, acabou por dispensá-la.
Ele e Jim se entreolharam. Em seguida, Leach falou:
— Jones a esta altura já deve ter alguma coisa para nos dizer sobre aquelas impressões digitais.
— Quem está revistando os quartos? — indagou Battle.
— Williams. Ele é muito eficiente, e não deixará escapar nada.
— Cada um dos ocupantes está sendo mantido afastado do seu quarto?
— Sim, até que Williams termine o seu trabalho.
A porta se abriu, e o jovem Williams apareceu.
— Venham ver o que encontrei no quarto do Sr. Nevile.
Seguiram-no até a suíte do lado oeste da casa. Williams apontou para um amontoado de roupa no chão. Um casaco azul-marinho, calças e colete.
— Onde encontrou isto? — perguntou Leach prontamente.
— Estavam jogados no fundo do armário. Agora, olhe isto aqui, senhor.
Apanhando o casaco azul-marinho, mostrou as manchas nos punhos.
— Estão vendo estas manchas escuras? Aposto que é sangue! E está espalhado por toda a manga.
— Hum! — resmungou Battle, evitando o olhar ansioso do outro. — Devo dizer que a situação parece feia para o jovem Nevile. Há algum outro terno no quarto?
— Sim, um terno cinza-escuro listrado jogado na cadeira. E tem ainda muita água no chão perto da bacia.
— Parece que ele tentou limpar o sangue com muita pressa. Contudo, não podemos afirmar nada, pois está perto da janela, e não se pode esquecer que choveu bastante.
— Não o bastante para fazer estas poças no chão, senhor. E ainda não secaram.
Battle ficou em silêncio. Uma imagem estava se formando diante de seus olhos: um homem com sangue nas mãos e nas mangas, tirando a roupa com violência e jogando-a suja no fundo do armário. Em seguida, lavando furiosamente suas mãos e braços.
Olhou para a porta da parede em frente.
— É o quarto da Sra. Strange, senhor. A porta está trancada — explicou Williams.
— Trancada? Deste lado?
— Não, do outro.
— Do lado da Sra. Strange, hem?
Battle ficou uns minutos pensativo. Finalmente falou:
— Vamos ver novamente aquele velho mordomo.
Hurstall estava nervoso, Leach perguntou-lhe enérgico:
— Por que não nos disse, Hurstall, que tinha ouvido uma discussão entre o Sr. Strange e Lady Tressilian ontem à noite?
O velho homem piscou nervoso.
— Não dei muita importância ao fato, senhor. Não creio que se possa chamar aquilo de discussão, mas sim de uma amigável divergência de opiniões.
Resistindo à tentação de dizer "amigável divergência de opiniões, uma ova!", Leach perguntou:
— Que terno o Sr. Strange usou ontem à noite no jantar?
Hurstall hesitou. Battle falou com calma:
— Era azul-marinho ou cinza listrado? Certamente se o senhor não se lembra outra pessoa poderá nos responder.
— Ah, estou me lembrando agora. Era um terno azul-marinho. Durante os meses de verão — continuou ansioso, para não perder o prestígio — a família não tem o hábito de usar traje a rigor. Freqüentemente saem após o jantar, indo algumas vezes para o jardim, ou então até o ancoradouro .
Battle dispensou Hurstall, que ao sair, encontrou Jones parecendo agitado.
— Vai ser uma barbada! Tirei as impressões digitais de todos. E apenas uma combina com as anteriores. Por enquanto, só pude fazer uma comparação grosseira, mas posso apostar que são estas mesmo.
— Então? — indagou Battle.
— As impressões digitais no taco são do Sr. Nevile Strange.
— Bem — disse Battle recostando-se na cadeira —, parece que isto resolve tudo, não é?
IV
Três homens de rostos graves e preocupados estavam no gabinete do Chefe de Polícia...
— Bem, acho que não há nada a fazer, a não ser prendê-lo — afirmou o Major Mitchell com um suspiro.
— É ó que parece, senhor — respondeu Leach.
Mitchell olhou o Superintendente Battle.
— Ânimo, Battle — disse gentilmente. — O seu melhor amigo não morreu.
— Isto não está me agradando — suspirou Battle.
— Não creio que esteja agradando a nenhum de nós, mas já temos evidências suficientes para que um mandado de prisão seja feito — afirmou Mitchell.
— Sim. Mais do que o suficiente — confirmou Battle.
— O fato é que, se não emitirmos uma ordem de prisão, perguntarão por que diabo isto não foi feito.
Battle balançou a cabeça insatisfeito.
— Vamos recapitular tudo — disse o Chefe de Polícia.
— Temos o motivo: com a morte de Lady Tressilian, Strange e sua mulher receberão uma considerável soma de dinheiro. Pelo que sabemos, foi a última pessoa a vê-la com vida, e também o ouviram discutindo com ela. O terno que ele usou naquela noite tinha manchas de sangue, as quais são do mesmo tipo sangüíneo do da vítima. E o que veio agravar a situação é que suas impressões digitais foram encontradas na arma do crime... e as de mais ninguém.
— Ainda assim, isto também não está lhe agradando — comentou Battle.
— Pode estar certo que não!
— O senhor não está gostando exatamente do quê?
O Major Mitchell esfregou o nariz.
— Tudo isso faz com que o criminoso pareça um pouco tolo demais, não acha? — perguntou.
— É. Mas, às vezes, eles se comportam como verdadeiros tolos.
— Ah! eu sei... eu sei. Onde estaríamos se não fosse assim?
— E você Jim, o que não gosta nisto tudo? — perguntou Battle a Leach.
— Sempre simpatizei com o Sr. Strange. Durante anos o tenho visto por aqui. Ele é um cavalheiro muito educado e um desportista excelente.
— Não? vejo por que um bom jogador de tênis não possa ser também um assassino. Não há nada que o impeça — Battle fez uma pausa. — Só não gosto é do taco de golfe.
— O taco de golfe? — indagou Mitchell, ligeiramente intrigado.
— Sim, e também a campainha. Ou um... ou outro... mas nunca os dois...
Ele continuou com calma e cautela.
— O que acha que realmente aconteceu? O Sr. Strange foi até o quarto dela, onde tiveram uma forte discussão. Perdendo a calma, golpeou-a na cabeça? Se não tivesse sido premeditado, por que razão estaria ele com um taco de golfe exatamente naquela hora? Não é o tipo de coisa que se carregue por aí durante a noite.
— Ele poderia ter estado praticando umas jogadas, ou algo assim, quem sabe?
— É, talvez, mas ninguém o viu fazê-lo. A última vez que foi visto com um taco na mão foi na semana passada, quando praticava umas tacadas na areia. Na minha opinião há duas possibilidades. Ou houve uma discussão e ele perdeu a cabeça... mas lembre-se de que o vi em um torneio de tênis, onde os jogadores ficam excitados e uma pilha de nervos, e pude notar que se descontrolam facilmente. Nunca vi o Sr. Strange perturbar-se. Dir-se-ia que tem um grande controle de si mesmo, muito maior do que a maioria das pessoas. E aqui estamos nós, sugerindo que ele tenha freneticamente atingido, na cabeça, uma frágil senhora.
— Há ainda uma outra alternativa, Battle — disse o Chefe de Polícia.
— Eu sei: é a teoria de que houve premeditação, por estar ele querendo o dinheiro. Isto se enquadra com a campainha o com a empregada narcotizada, mas nunca com o taco nem com a discussão. Se ele tivesse decidido matá-la, teria tido muito cuidado para que não discutissem, e teria poupado a empregada. O que teria feito é ter entrado furtivamente no quarto de Lady Tressilian, matando-a... simulado um pequeno roubo, e por fim, ter limpado o taco de tênis, guardando-o de volta em seu lugar. Porém, está tudo errado! Há mistura de uma fria premeditação com uma violência não premeditada... que simplesmente não combina!
— Está certo no que diz, Battle. Mas então, qual é a alternativa?
— É o taco que me intriga, senhor.
— É mais do que certo de que ninguém poderia usá-lo, sem que as impressões digitais do Sr. Nevile fossem apagadas.
— Neste caso — afirmou o Superintendente Battle — ela foi atingida na cabeça por algum outro objeto.
— É uma hipótese um tanto absurda, não acha?
— É uma questão de bom senso, senhor. Ou foi Strange quem golpeou-a com o taco ou mais ninguém. Meu voto é por ninguém. Neste caso o taco foi deliberadamente colocado no quarto, com sangue e fios de cabelos espalhados nele. O Dr. Lazenby também não está muito satisfeito em aceitar o taco como a arma do crime, mas teve que fazê-lo por não ter nada que o contradissesse.
O Major Mitchell recostou-se na cadeira.
— Continue, Battle. Estou lhe dando carta branca. Qual é o próximo passo?
— Deixando de lado o taco — prosseguiu Battle —, o que resta? Primeiro, o motivo. Tinha Nevile Strange realmente um motivo para matar Lady Tressilian? Ele herdaria o dinheiro. Mas na minha opinião, tudo depende se ele realmente necessita desse dinheiro. Ele afirma que não. Sugiro que o estado de suas finanças seja verificado. Se for constatado que está em aperto financeiro e precisando do dinheiro, então as suspeitas aumentarão. Se, por outro lado, estiver falando a verdade, e estiver bem de finanças, por que então...?
— Então?
— Então teremos que investigar os motivos de todas as outras pessoas.
— Acha que tentaram incriminar Nevile?
O Superintendente Battle apertou os olhos.
— Há uma frase que li em algum lugar, que ativa minha imaginação. Alguma coisa sobre um toque de mestre. É... é isto que acredito ver neste caso. Ostensivamente foi um crime brutal e direto, mas entrevejo alguma coisa mais... um verdadeiro toque de mestre por trás disso tudo.
Durante uma longa pausa, o Chefe de Polícia ficou encarando o Superintendente Battle.
— Talvez tenha razão. Raio! há algo esquisito nesta história! Como pretende agir agora?
— Bem, senhor, sou sempre a favor de agir de uma forma clara. Foi tudo preparado para suspeitarmos do Sr. Nevile Strange. Desse modo, continuaremos a suspeitar dele. Não precisaremos chegar ao ponto de prendê-lo, mas poderemos intimidá-lo, interrogá-lo, fazê-lo ficar com medo, e observar a reação de todos. Verificaremos seus depoimentos, e analisaremos cuidadosamente cada movimento da noite do crime. Colocaremos as cartas na mesa.
— Bastante maquiavélico — comentou o Major Mitchell com uma piscadela. — A imitação de um desastrado policial, pelo grande ator Battle.
O Superintendente Battle sorriu.
— Sempre gosto de fazer o que esperam de mim. Desta vez pretendo ir com muita calma... e não me apressar. Quero bisbilhotar um pouco; e suspeitar do Sr. Strange é uma boa desculpa para isto. Tenho a impressão de que alguma coisa muito estranha está acontecendo naquela casa.
— Quem sabe se não é uma incriminação passional?
— Se o senhor quer botar tudo sob este ângulo!
— Trabalhe à sua maneira, Battle. Deixo o assunto em suas mãos e nas de Leach.
— Então ficaremos de olho nestes três — afirmou Battle.
— Você é um sujeito desconfiado, não é? — disse Mitchell parecendo divertido.
— É bom não nos impressionarmos com 50.000 libras — observou Battle impassível. — Já foram cometidos muitos outros homicídios por muito menos do que 50 libras. Depende de quanto se queira o dinheiro. Barrett ganhou sua parte na herança, e quem sabe, tenha tomado a precaução de se dopar para evitar suspeitas?
— Mas quase morreu, e lembre-se de que Lazenby ainda não nos deixou interrogá-la.
— Talvez, por ignorância, ela tenha exagerado na dose. Hurstall também pode ter precisado, desesperadamente, de dinheiro. E Mary Aldin, que não tem dinheiro próprio, pode ter-se imaginado vivendo de renda própria, antes de ficar velha demais para poder se aproveitar disto.
O Chefe de Polícia pareceu ficar na dúvida.
— Bem — disse ele —, deixo o assunto em suas mãos. Continuem o trabalho.
V
Ao chegarem de volta a Gull's Point, os dois policiais receberam o relatório de Williams.
Nada de natureza significativa ou suspeita fora encontrado nos quartos. Os empregados pediam autorização para continuar com o trabalho doméstico.
— Pode dá-la — disse Battle. — Antes, porém, eu mesmo vou dar uma olhada lá em cima. Os quartos frequentemente revelam alguma coisa característica de seus donos.
Jones pousou na mesa uma pequena caixa de papelão.
— Isto estava no casaco azul-marinho do Sr. Nevile Strange — explicou. — Os cabelos ruivos estavam no punho, e os louros no lado de dentro do colarinho e no ombro direito.
Battle olhou os dois longos fios de cabelo ruivo, e meia dúzia de fios louros.
— Muito conveniente — comentou Battle, com leve brilho nos olhos. — Temos nesta casa uma loura, uma ruiva e uma morena. Sendo assim, saberemos de imediato o que queremos. O Sr. Nevile tem um pouco do Barba Azul. Seu braço em torno de uma das esposas, e a outra com a cabeça apoiada no seu ombro.
— O sangue da camisa já foi mandado para análise, senhor. E assim que tiverem o resultado, nos telefonarão.
— E quanto aos criados?
— Segui suas instruções, senhor. Chequei os empregados, e verifiquei que nenhum deles fora mandado embora, ou mesmo guarda rancor contra a velha senhora. Ela era severa, mas muito querida. De qualquer maneira, Mary Aldin é quem controla os empregados; e parece ser muito benquista entre eles.
— No momento em que botei os olhos nela, vi que era uma mulher eficiente — comentou Battle. — Se ela for a assassina, não será fácil enforcá-la.
— Mas aquelas impressões digitais no taco eram... — falou Leach espantado.
— Sei... sei — disse Battle. — Do excepcionalmente amável Sr. Strange. Há uma crença geral de que os atletas não são lá muito inteligentes (o que aliás, nem sempre é verdade), mas não acredito que Nevile Strange seja um completo débil mental. Mudando de assunto, o que apuraram sobre o chá de cássia?
— Fica sempre no armário do banheiro de empregada, no segundo andar. Ela costuma colocá-lo de molho ao meio-dia, ficando lá até a hora em que ela vai dormir.
— Sendo assim, qualquer pessoa teria acesso a ele, ou melhor, qualquer pessoa de dentro da casa.
— Não há dúvida de que foi um trabalho interno! — afirmou Leach com convicção.
— Sim, acho que sim. Não que este seja um daqueles crimes de poucos suspeitos. Qualquer um que tivesse a chave poderia abrir a porta da frente e entrar. Ontem à noite, Nevile tinha esta chave. Mas poderia ser uma simples questão de mandar-se fazer uma, ou alguém, com alguma experiência, poderia abri-la com um pedaço de arame. Entretanto não vejo como um estranho pudesse saber sobre a campainha e sobre o chá de cássia que Barrett tomava todas as noites. Só as pessoas da casa poderiam ter conhecimento disto! Venha Jim, vamos subir e ver o banheiro e todo o resto.
Chegaram ao andar superior. Em primeiro lugar olharam um pequeno quarto cheio de mobílias quebradas e sucata de todo o tipo.
— Não examinei este quarto, senhor. Não sabia que...
— Procurar o que aqui? Tem razão. É apenas perda de tempo. Pela poeira que há no chão, ninguém vem aqui há pelo menos seis meses.
Todos os quartos dos empregados ficavam neste andar, como também dois aposentos desocupados e um banheiro. Battle inspecionou cada quarto, notando que Alice, a empregada de olhos esbugalhados, dormia com a janela fechada; que Emma, a magra, tinha muitos parentes, cujas fotografias estavam agrupadas no fundo da gaveta, e que Hurstall tinha uma ou duas peças boas de porcelana de Dresden & Crown, apesar de lascadas.
O quarto da cozinheira era rigorosamente limpo e o de sua ajudante, caoticamente desarrumado. Em seguida foram até o banheiro que era o aposento mais próximo da escada. Williams apontou para a comprida prateleira em cima da pia, onde havia escovas, copos, vários ungüentos, vidros de sais e loção para cabelo. Em um dos cantos, um pacote de cássia estava aberto.
— Você não encontrou nenhuma impressão digital no copo ou no pacote?
— Somente as da própria empregada.
— É realmente seria... seria o suficiente jogar-se a droga dentro do copo, sem que para isto fosse preciso segurá-lo.
Battle, acompanhado de Leach, começou a descer. No topo da escada havia uma janela um tanto mal situada e perto dela uma vara com um gancho na ponta.
— Com ela se abre a parte de cima da janela — explicou Leach. — Entretanto o fecho de segurança só permite abrir até um determinado ponto, que é demasiado estreito para que alguém possa entrar.
— Não estava pensando que alguém tivesse entrado por aí — disse Battle meditando.
Entraram no quarto de Audrey Strange. Era arrumado, arejado, com escovas de marfim em cima da penteadeira. Não havia nenhuma roupa espalhada. No armário havia dois casacos e saias bem simples, alguns vestidos de noite, um ou dois trajes de verão. Estes eram vestidos baratos, embora houvesse também algumas roupas bem talhadas e caras, apesar de não serem novas.
Battle ficou algum tempo brincando com a caneta que estava perto do mata-borrão.
— Não encontrei nada que me interessasse, nem no mata-borrão nem na cesta de papel.
— Sua palavra é o bastante — afirmou Battle. — Podemos então passar para o outro quarto.
O de Thomas Royde era desarrumado, com roupas espalhadas, cachimbos e cinzas por todos os móveis e inclusive ao lado da cama, onde havia um exemplar de Kim, de Kipling.
— Bem se vê que está acostumado a ter o serviço dos nativos para limpar tudo — concluiu Battle. — Gosta de, ler velhos clássicos. Eu o chamaria de conservador.
O quarto de Mary Aldin era pequeno, mas muito confortável. Battle notou que as prateleiras estavam com livros de viagens, e escovas de prata antigas. A decoração1 era bem mais moderna do que a do resto da casa.
— Essa já não é tão conservadora, não acha? — observou Battle. — Nem há fotografias! Não é do tipo de pessoa que viva no passado.
Ainda viram três ou quatro aposentos desocupados, apesar de limpos e arrumados, prontos para serem usados. Adiante, estava o amplo quarto de casal de Lady Tressilian. A seguir, subindo-se três pequenos degraus, ficava a suíte dos Strange.
Battle não gastou muito tempo no quarto de Nevile. Olhou pela janela as pedras que caíam abruptamente em direção do mar. A vista dava para o lado oeste, onde Stark Head se erguia selvagem e misteriosa.
— Bate sol aqui à tarde — murmurou ele. — Entretanto, pela manhã, a vista é assustadora: aquele cabo tem uma aparência horrível. Não me admira que atraia suicidas.
Entrou no quarto de Kay, onde reinava a maior confusão. As roupas estavam completamente amontoadas: meias finas, roupas de baixo, blusas, modelos de verão jogados na cadeira. Battle viu o armário cheio de peles, vestidos a rigor, shorts, roupa de tênis, trajes esportivos.
Fechou a porta quase que com reverência, e comentou:
— Ela tem gostos dispendiosos. Tudo isso deve sair muito caro para seu marido.
— Talvez por isso que... — disse Leach sombriamente.
— Que precisasse das cem... ou melhor 50.000 libras? Quem sabe? Acho melhor vermos o que ele tem a nos dizer.
Desceram até a biblioteca. Williams ficou encarregado de avisar aos empregados que já podiam voltar aos seus habituais afazeres domésticos, e que os ocupantes poderiam voltar aos quartos se assim o desejassem. Deveria avisar ainda que o Inspetor Leach gostaria de entrevistar cada uma das pessoas separadamente, sendo que o Sr. Nevile deveria ser o primeiro.
Quando Williams saiu da sala, Battle e Leach se acomodaram atrás de uma pesada mesa vitoriana. Um jovem policial, com um bloco de anotação, sentou-se sério em um dos cantos da sala.
— Você cuida desta parte, Jim. Seja incisivo.
Leach concordou com a cabeça e Battle esfregou o queixo, franzindo a testa:
— Gostaria de saber por que não consigo tirar Hercule Poirot de minha cabeça?
— Você está se referindo àquele sujeitinho engraçado... o belga?
— Engraçado coisa nenhuma! Quando se faz passar por charlatão... é tão perigoso quanto uma cobra ou um leopardo! Gostaria que estivesse aqui agora, porque este caso se enquadra perfeitamente em sua especialidade.
— Mas de que maneira? — perguntou Leach.
— Psicologia — respondeu Battle. — Psicologia verdadeira e não estas tolices apresentadas por pessoas inexperientes, que nada sabem sobre o assunto — sua memória voltou-se ressentida para a Srta. Amphrey e sua filha, Sylvia. — Para ele, a verdadeira compreensão da matéria é saber exatamente o que faz as engrenagens funcionarem. Uma de suas normas é manter o assassino falando, pois diz que, com isto, mais cedo ou mais tarde, o criminoso acaba contando a verdade. Para todos é mais fácil contar tudo do que continuar inventando mentiras. Assim, um deslize cometido, mesmo que pareça sem importância, é o suficiente para que o peguemos.
— É assim que pretende agir com Nevile?
Distraído, Battle concordou. Depois prosseguiu um tanto surpreso e aborrecido:
— O que realmente me preocupa é saber por que me lembrei de Hercule Poirot. Acho que foi alguma coisa que devo ter visto lá em cima. O que teria sido?
A conversa terminou com a chegada de Nevile.
Estava pálido e preocupado, porém muito menos nervoso do que pela manhã. Battle estudou-o com atenção. Era incrível como um homem capaz de algum raciocínio, ciente de que as suas impressões digitais tinham sido reconhecidas pela polícia, não demonstrasse um intenso nervosismo, ou enfrentasse a situação de uma forma descarada. Contudo Nevile parecia bastante natural: chocado, preocupado, aflito, apenas aparentando um pouco de nervosismo saudável.
Jim Leach falava com o seu agradável sotaque do oeste.
— Gostaríamos, Sr. Nevile, que respondesse algumas perguntas relativas aos seus atos de ontem à noite e, também, outros dados particulares. Devo entretanto avisá-lo de que não é obrigado a responder a estas perguntas, sem a presença do seu advogado, se preferir fazê-lo dessa maneira.
Leach recostou-se para ver o efeito que esta observação lhe causara. Nevile parecia meio confuso.
Ou ele não tem a menor idéia do que pretendemos, ou então é um ótimo ator — pensou Leach. E como ele continuasse calado, o Inspetor insistiu:
— E então, Sr. Strange?
— Estou pronto para responder o que quiser saber.
— Compreenda bem que tudo o que disser aqui poderá ser usado como prova contra o senhor, no tribunal.
Um lampejo de raiva apareceu no rosto de Strange.
— Isto é uma ameaça?
— Não, não, Sr. Strange. Estou apenas lhe prevenindo.
Nevile encolheu os ombros, mostrando indiferença.
— Já que isto faz parte da sua rotina pode começar.
— O senhor está pronto para fazer uma declaração?
— Se é assim que vocês chamam!
— Para iniciar, o senhor nos contará o que fez ontem à noite, a partir da hora do jantar.
— É lógico. Depois do jantar fomos todos para a sala de visitas onde tomamos café e ouvimos rádio. Então resolvi ir até o Hotel Easterhead Bay para visitar um amigo que está hospedado lá.
— Qual é o nome dele?
— Latimer. Edward Latimer.
— Ele é seu amigo íntimo?
— Mais ou menos. Temos nos encontrado com bastante freqüência. Tanto ele tem vindo almoçar e jantar conosco, quanto nós também já estivemos lá.
— Um tanto tarde para ir até Easterhead Bay, não acha?
— Ora! É um lugar bastante animado. Fica aberto a noite toda.
— Neste caso, os empregados tiveram que ficar acordados para esperá-lo, não foi?
— Não. Eu levei a chave.
— Sua esposa não quis acompanhá-lo?
— Não. Ela estava com dor de cabeça e já tinha ido se deitar — respondeu Nevile com a voz um pouco dura.
— Prossiga, Sr. Strange.
— Ia subir para trocar de roupa, quando...
— Desculpe-me, Sr. Strange, mas trocar como? Vestir ou tirar a roupa a rigor?
— Nem uma coisa, nem outra. Estava usando um terno azul-marinho, aliás, o meu melhor terno. No entanto estava chovendo um pouco; e como eu pretendesse ir de barca até lá, teria que caminhar forçosamente até o hotel. Assim, vesti uma roupa mais velha, um terno cinza listrado. Já que todos os detalhes são importantes, espero estar lhe ajudando.
— Gostamos de tudo bem esclarecido, Sr. Nevile — explicou Leach humildemente. — Por favor, continue.
— Como estava dizendo, ia subir para trocar de roupa quando Hurstall aproximou-se dizendo que Lady Tressilian queria falar comigo. Fui até o seu quarto e conversei um pouco com ela.
— O senhor foi a última pessoa a vê-la com vida, não foi?
Nevile corou.
— Sim, sim. Suponho que sim. Na ocasião ela estava muito bem.
— Durante quanto tempo ficou com ela?
— Cerca de uns 20 minutos ou meia hora no máximo. Logo depois, fui para o meu quarto trocar de roupa. E quando saí, levei a chave da porta da frente comigo.
— A que horas foi isso?
— Acho que foi por volta das 10:30 horas. Apressei-me e peguei a barca que já estava de saída. Encontrei Latimer no hotel, onde bebemos um pouco, e jogamos bilhar. O tempo passou tão depressa que quando vi, já tinha perdido a última barca, a que sai à 1:30. Sendo assim, Latimer, muito amável, se ofereceu para trazer-me de carro. Como você sabe, isto significa dar toda volta por Saltington... 25 quilômetros mais precisamente. Saímos do hotel às 2 horas e diria que chegamos meia hora depois. Agradeci a Ted Latimer, e convidei-o para um drinque, o que ele recusou. Dessa maneira, entrei em casa indo direto para a cama. Não vi, nem ouvi nada de anormal. A casa parecia sossegada e tranqüila. Só esta manhã é que ouvi... aquela moça gritando e...
Leach o interrompeu.
— Esta bem! Esta bem!Vamos voltar a sua conversa com Lady Tressilian. Ela parecia bem?
— Ah, certamente.
— Sobre o que conversaram?
— Futilidades!
— Amigavelmente?
— Lógico! — exclamou Nevile corando.
— Por acaso, vocês tiveram uma discussão violenta?
Nevile não respondeu. Entretanto Leach insistiu:
— É melhor dizer a verdade, porque, por acaso, a sua conversa foi ouvida.
— Realmente houve um pequeno desentendimento, mas nada tão importante.
— E qual foi o motivo desse desentendimento, Sr. Strange? — perguntou Leach.
Com esforço Nevile recobrou a calma, e sorriu:
— Para lhe falar francamente, ela me passou um sermão, o que acontecia com freqüência. Sabia demonstrar sua raiva quando discordava de alguém. Era uma pessoa antiquada e contra todas as idéias modernas, assim como o divórcio. Tivemos uma pequena discussão e, talvez, eu tenha me exaltado um pouco, mas nos despedimos em termos amigáveis apesar dos nossos pontos de vista divergirem. — Nevile acrescentou um tanto inflamado: — Certamente não golpeei sua cabeça só porque perdi a calma numa discussão, se é isto. que está imaginando!
Leach olhou para Battle que, debruçando-se na mesa, disse:
— Esta manhã o senhor identificou o taco de golfe como seu. Tem alguma explicação para o fato de terem encontrado nele as suas impressões digitais?
— Eu... mas é claro que sim... o taco é meu, e eu o uso com freqüência.
— As impressões provam que o senhor foi a última pessoa a usá-lo. Existe alguma explicação para isso?
Nevile estava imóvel, e o colorido sumira de seu rosto.
— Isto não é verdade — disse finalmente. — Não pode ser. Alguém usou-o depois de mim... alguém que estivesse usando luvas.
— Não, Sr. Strange. Ninguém podê-lo-ia ter usado. Não da maneira que o senhor pensa, isto é, levantando-o para o: golpe. Para isso, as suas impressões estariam confusas.
Houve um silêncio... um silêncio muito longo.
— Ah, Deus! — exclamou Nevile estremecendo. Colocou as mãos sobre os olhos. Os dois policiais observavam-no.
Tirando as mãos dos olhos, sentou-se rígido.
— Não é verdade — afirmou calmamente. — Simplesmente não é verdade. Os senhores pensam que eu a matei, mas juro que não fui eu. Está havendo um terrível engano.
— Nesse caso, o senhor pode nos explicar aquelas impressões no taco?
— Como é que eu posso? Estou completamente aturdido.
— Tem alguma explicação para o fato das mangas e dos punhos de seu terno azul-marinho estarem manchados de sangue?
— Sangue? Não pode ser! — exclamou perplexo.
— O senhor, por acaso, não se cortou?
— Não, claro que não!
Nevile Strange, com a testa enrugada, parecia estar pensando. Finalmente, levantou os olhos, onde medo e pânico estavam estampados.
— É fantástico! Simplesmente fantástico! Nada disto é verdade.
— Os fatos estão bastante claros — contestou o Superintendente Battle.
— Mas por que eu faria tal coisa? É totalmente inconcebível... inacreditável. Sempre fui amigo de Camilla.
O senhor mesmo nos disse que com a morte de Lady Tressilian herdaria muito dinheiro.
— Acha que por isso eu... mas eu não quero dinheiro! Não preciso.
— Isto — comentou Leach, com um pigarro — é o que o senhor nos diz, Sr. Strange.
Nevile levantou-se repentinamente.
— Olhe aqui: isto é algo que posso lhes provar! É só me deixarem telefonar para o gerente do banco, e o senhor mesmo poderá falar com ele.
Em poucos minutos, a ligação para Londres foi completada. Nevile falou:
— É você, Ronaldson? Aqui quem fala é Nevile Strange. Você conhece minha voz. Quero que informe à polícia... é. Estão aqui agora... tudo que quiserem saber sobre minha situação financeira... sim, sim... por favor.
Leach pegou o telefone. Falava calmamente, fazendo perguntas e dando respostas. Por fim, acabou desligando.
— E então? — perguntou Nevile ansioso.
— O senhor tem um grande saldo bancário; e o banco, que é encarregado de todos os seus investimentos, declara que estão todos em ótima condição.
— O que prova que eu disse a verdade!
— É o que parece. Mas ainda há a hipótese de que o senhor tenha compromissos, dívidas, pagamento de extorsão, ou qualquer outra razão desconhecida, para precisar do dinheiro.
— Mas não tenho nada a esconder! Garanto-lhe que não vai encontrar nada deste tipo.
O Superintendente Battle falou em um tom amigável:
— O senhor deve concordar, Sr. Nevile, que temos provas suficientes para lhe darmos um mandado de prisão. Contudo, ainda não o fizemos, porque estamos lhe dando o benefício da dúvida.
— Quer dizer com isto que o senhor já decidiu que realmente fui eu quem a matou, mas que é preciso descobrir o motivo, para que o caso possa ser encerrado, não é isso? — perguntou Nevile amargamente.
Battle permaneceu calado, e Leach olhando para o teto.
— Parece até um pesadelo! Não há nada que eu possa dizer ou fazer. É como estar preso numa armadilha, sem se poder sair — desesperou-se Nevile.
O Superintendente mexeu-se agitado. Um brilho inteligente apareceu em seus olhos semicerrados.
— Muito bem pensado — comentou. — Realmente muito bem pensado. Isto me dá uma idéia...
VI
Para que marido e mulher não se encontrassem, o sargento Jones, astutamente, fez com que Nevile se retirasse pela sala de jantar, e com que Kay entrasse pela porta do terraço.
— Mas mesmo assim, é inevitável que ele se encontre com os outros — observou Leach.
— Não tem problema — esclareceu Battle. — Ela é a única pessoa que faço questão de entrevistar antes que saiba de alguma coisa.
Com o vento cortante, o dia tornara-se sombrio. Kay usava uma saia de lã, suéter roxo e seu cabelo tinha a aparência de uma brilhante auréola de cobre. Parecia um tanto assustada e excitada. Sua beleza e vitalidade resplandeciam no escuro e pesado cenário vitoriano.
Com bastante facilidade, Leach conseguiu com que ela fizesse um relatório da sua noite anterior.
Por causa de uma dor de cabeça, ela se recolhera cedo: mais ou menos por volta das 9:15 horas. Tinha dormido profundamente. Nada ouvira de anormal, até ser acordada com alguém gritando de manhã.
Battle passou a interrogá-la.
— Seu marido não foi vê-la antes de sair?
— Não.
— A senhora não o viu desde a hora em que ele deixou a sala de visitas até a manhã seguinte, está correto?
Kay concordou com a cabeça.
— Sra. Strange, a porta de comunicação entre o seu quarto e o de seu marido estava trancada. Quem a trancou?
— Fui eu.
Battle nada disse... esperou... como um gato experiente que espera o rato sair do buraco que está vigiando.
O seu silêncio teve o efeito que suas perguntas talvez não conseguissem ter. Descontrolando-se Kay falou:
— Oh, acho que o senhor terá que saber de tudo! Aquele velho decrépito do Hurstall deve ter-nos ouvido, e eu sei que acabará lhe contando tudo, se é que já não contou. Nevile e eu tivemos uma briga, uma briga feia! Eu estava furiosa com ele! Subi e fechei a porta de comunicação, porque continuava com uma raiva danada!
— Entendo... entendo — disse Battle complacente. — E qual foi o motivo da briga?
— E isto tem alguma importância? Ora, não me incomodo mesmo de contar. Nevile vem se comportando como um perfeito idiota, e é tudo culpa daquela mulher.
— Que mulher?
— Sua primeira esposa. Para começar, ela o persuadiu a vir até aqui.
— Quer dizer... encontrá-la?
— Sim. Nevile pensa que foi tudo idéia dele... pobre inocente! Mas sei que não foi. Ele nunca pensou em tal coisa, até encontrá-la certo dia num parque, quando ela tentou persuadi-lo com esta idéia, fazendo-o acreditar que fosse sua. Ele pensa realmente que foi idéia dele, mas posso ver a mão de Audrey por trás disto tudo.
— Por que ela faria tal coisa? — indagou Battle.
— Porque ela queria fisgá-lo novamente — Kay falava apressada e sua respiração estava ofegante. — Ela nunca o perdoou por tê-la abandonado, e esta é sua vingança. Fez com que ele providenciasse para que todos nos reuníssemos aqui, e desde então vem provocando-o. Tem feito isto desde que chegou. Ela é esperta: sabe como parecer patética e misteriosa. Há também outro homem na história, o Thomas Royde, um cachorro fiel, que sempre esteve apaixonado por ela. Pois bem, ela providenciou tudo para que ele também viesse para cá, e ao fingir que ia se casar com Thomas, deixou Nevile louco.
Parou ofegante de raiva.
— Creio que ele deveria ficar satisfeito ao saber que ela encontrará a felicidade com um velho amigo — aparteou Battle.
— Satisfeito? Ele está é morrendo de ciúme!
— Sendo assim, ele deve gostar muito dela.
— Sim, ele gosta! — disse Kay amargamente. — Ela se encarregou disso!
Battle continuava a passar a mão no queixo, em dúvida.
— A senhora poderia ter-se negado a vir para cá.
— Como poderia? Teria dado a impressão de que estava com ciúme.
— Bem, afinal de contas, a senhora estava, não estava?
Kay ficou ruborizada.
— Sim, sempre tive ciúme de Audrey. Desde o começo... ou melhor, quase desde o começo. Costumava sentir sua presença por toda a casa, como se esta fosse dela e não minha. Mudei toda a decoração, mas de nada adiantou. Continuei a sentir como se houvesse um fantasma triste sempre rastejando à nossa volta. Eu sabia que Nevile sempre se preocupou achando que a havíamos tratado muito mal. Não conseguia esquecê-la... ela estava sempre lá... como um sentimento de reprovação no fundo de sua mente. Há pessoas assim, que parecem apagadas e insignificantes, mas que fazem com que sintamos sua presença.
Battle balançou a cabeça, pensativo.
— Bem, muito obrigado, Sra. Strange. Por enquanto é só. Tivemos que lhe fazer todas essas perguntas, especialmente por ter seu marido herdado tanto dinheiro de Lady Tressilian... 50.000 libras...
— Tudo isso? Receberemos pelo testamento do velho Sir Matthew, não é?
— A senhora sabe tudo sobre a herança?
— Ah, sim! O que ele deixou deverá ser dividido entre Nevile e sua esposa. Não que eu esteja contente com a morte da velha, pelo contrário, não estou. É verdade que não gostava muito dela, provavelmente porque não gostava muito de mim, contudo é horrível imaginar que um ladrão tenha entrado e esmagado a sua cabeça.
Acabando de falar, se retirou. Battle olhou para Leach.
— O que você achou dela? Eu direi que é um bocado bonita. O tipo de mulher que faz qualquer homem perder a cabeça.
Leach concordou.
— Entretanto não me parece ser uma dama — duvidou ele.
— Não há muitas delas hoje em dia — afirmou Battle. — Vamos ver agora a número 1? Não, acho melhor que a próxima seja a Srta. Aldin. Assim poderemos ter um ponto de vista imparcial quanto a esse problema matrimonial.
Mary Aldin entrou muito tranqüila. Por baixo de sua aparente calma via-se que seus olhos estavam preocupados.
Respondeu às perguntas de Leach com bastante clareza, confirmando o depoimento de Nevile. Tinha ido para a cama por volta das 10 horas.
— O Sr. Strange estava então com Lady Tressilian? — perguntou Leach.
— Sim. Pude ouvi-los falando.
— Falando, Srta. Aldin, ou discutindo?
Ela corou, mas respondeu calmamente:
— Lady Tressilian apreciava uma discussão. Muitas vezes ela parecia mordaz, enquanto na realidade não era nada disto. Tinha tendência, também, a ser autoritária e dominadora, e há de convir que um homem não aceita isso com a mesma facilidade com que uma mulher o faz.
Da mesma maneira que você! — pensou Battle.
Ele olhou para o seu rosto inteligente. Foi ela quem quebrou o silêncio.
— Não quero bancar a tola, mas me parece inacreditável... realmente inacreditável, que o senhor suspeite de alguém desta casa. Por que não poderia ser obra de um estranho?
— Por várias razões, Srta. Aldin. Uma delas é que nada foi roubado, e nenhuma entrada forçada. Não preciso lembrar-lhe a disposição da casa e do terreno. Do lado oeste há o penhasco íngreme em direção do mar; ao sul fica o terreno com o muro e o mar lá embaixo; a leste, os jardins dão para a praia, mas são cercados por muros altos. As duas únicas saídas são uma pequena porta que dá para a estrada, mas que foi encontrada fechada pelo lado de dentro como de costume, e a porta principal da casa. Não nego que se pudesse ter entrado com uma chave falsa, mas na minha opinião não foi isso que aconteceu. Seja lá quem for o criminoso, sabia que Barrett costumava tomar chá de cássia todas as noites, o que significa que só pode ser alguém desta casa. O taco de golfe foi tirado do armário que fica debaixo das escadas. Tenho certeza de que não foi um estranho, Srta. Aldin!
— Não foi Nevile! Estou certa de que não foi ele!
— Por que está tão certa?
Desanimada, ela levantou as mãos.
— Porque ele nunca mataria uma velha indefesa. Não o Nevile!
— É. Não parece muito plausível — ponderou Battle. — A senhorita entretanto ficaria surpresa com o que as pessoas são capazes de fazer quando aparece um bom motivo. O Sr. Strange pode ter precisado desesperadamente de dinheiro.
— Tenho certeza de que não. Ele não é uma pessoa extravagante. Nunca o foi.
— Mas a sua esposa o é.
— Kay? — e após alguns minutos de reflexão. — Sim, talvez... mas isso é ridículo. Garanto que ultimamente a última coisa em que Nevile pensa é dinheiro.
O Superintendente Battle pigarreou.
— Tinha outras preocupações, não é mesmo?
— Kay lhe contou? Tudo tem sido muito embaraçoso porém nada tem a ver com este terrível acontecimento.
— Provavelmente não. Mesmo assim, gostaria de ouvir a sua versão sobre o caso, Srta. Aldin.
— Bem, como eu dizia, criou-se uma situação delicada. Seja lá de quem foi a idéia de...
Ele a interrompeu astutamente.
— Pelo que sei, a idéia foi do Sr. Nevile.
— É o que ele diz.
— Mas a senhorita não acredita — afirmou Battle.
— Eu... não... não me parece próprio de Nevile. Sempre achei que alguém impingiu-lhe esta idéia.
— Talvez a Sra. Audrey Strange?
— É incrível acharmos que Audrey tenha feito tal coisa.
— Neste caso quem mais poderia ser? — perguntou Battle.
Mary levantou os ombros desarmada.
— Eu não sei. É apenas... estranho.
— Estranho — repetiu Battle pensativo. — Também acho muito estranho!
— Tudo tem sido estranho. Tenho uma sensação... não sei bem descrevê-la. É alguma coisa no ar. Uma ameaça!
— Todos tensos e nervosos?.
— Sim. É isso. E todos nós sofremos as conseqüências. Até o Sr. Latimer...
— Eu já ia lhe perguntar sobre ele. O que sabe a respeito do Sr. Latimer, Srta. Aldin?
— Bem, na verdade, pouco sei a respeito dele. É um amigo de Kay
— Então, é amigo da Sra. Strange? Os dois se conhecem há muito tempo?
— Sim, ela o conheceu antes de se casar.
— O Sr. Strange gosta dele?
— Creio que bastante.
— Então não há nenhum problema? — perguntou sutilmente Battle.
— Certamente que não — respondeu Mary rápida e enfática.
— Lady Tressilian gostava do Sr. Latimer?
— Não muito.
Battle notou o tom de indiferença em sua voz e mudou de assunto.
— E Jane Barrett, a empregada, é digna de confiança?
— Sim! Completamente. Era muito dedicada a Lady Tressilian.
— Poderia considerar a possibilidade de Barrett assassinar sua patroa e dopar-se só para evitar que suspeitássemos dela?
— É claro que não. Por que faria isso? — espantou-se Mary.
— Como sabe, foi beneficiada com a herança.
— E eu também — disse Mary Aldin encarando-o.
— Sim, eu sei. Sabe quanto vai receber?
— O Sr. Trelawny, que chegou agora, acabou de me informar.
— A senhorita não o sabia de antemão?
— Não. É claro que supunha que ela me deixaria alguma coisa. Como sabe, não tenho dinheiro o suficiente para poder viver sem trabalhar. Achava que Lady Tressilian me deixaria uma renda de pelo menos 100 libras por ano, entretanto por ela ter alguns primos, não estava certa de como tencionava dispor do seu dinheiro. É evidente que eu sabia que a fortuna de Sir Matthew ficaria para Nevile e Audrey.
— Então ela não sabia quanto Lady Tressilian ia deixar para ela? — comentou Leach quando Mary Aldin se retirou. — Pelo menos é o que ela diz!
— É o que ela diz — repetiu Battle. — E agora interroguemos a primeira mulher do Barba Azul.
VII
Audrey usava um conjunto de lã cinza-claro, que a deixava com o mesmo aspecto do fantasma que Kay descrevera: "um fantasma triste rondando pela casa".
Ela respondeu às perguntas com naturalidade e sem nenhum sinal de emoção.
Tinha ido se deitar às 10 horas, a mesma hora que Mary Aldin. Não ouvira nada durante toda a noite.
— Desculpe-me pela intromissão em sua vida particular, mas poderia me explicar a razão da sua vinda a Gull's Point?
— Sempre venho nesta época. Este ano meu... meu ex-marido queria vir nesta mesma época, e por isto me perguntou se me incomodaria.
— Foi sugestão dele?
— Sim.
— Não foi sua?
— Não — respondeu categoricamente Audrey.
— Mas a senhora não concordou?
— Sim, concordei... não vi maneira de recusar.
— Por que não, Sra. Strange?
— Não gosto de ser descortês.
— A senhora foi a parte injuriada? — perguntou Battle.
— Como disse?
— Foi a senhora quem pediu o divórcio?
— Sim.
— Sente pelo seu ex-marido algum rancor?
— Não. Nem um pouco.
— É muito generosa, Sra. Strange.
Ela não respondeu. Ele tentou o silêncio, mas Audrey não era Kay para ser levada a falar. Poderia permanecer calada sem o menor sinal de inquietação. Battle considerou-se derrotado.
— Tem certeza de que a idéia deste... deste encontro não foi sua?
— Absoluta.
— Mantém relações amigáveis com a atual Sra. Strange?
— Acho que ela não gosta muito de mim.
— E a senhora? Gosta dela?
— Sim. Acho-a muito bonita.
— Bem, obrigado. Acho que por enquanto é só. Levantando-se, ela dirigiu-se para a porta. Logo depois, hesitando... voltou.
— Gostaria apenas de dizer... — falava nervosamente e depressa. — Os senhores acham que Nevile é o culpado... que a matou por causa do dinheiro. Tenho certeza de que não foi ele. Estivemos casados por 8 anos, e sei como ele nunca ligou para dinheiro. Não posso imaginá-lo matando alguém por esse motivo! Sei que o que estou dizendo não tem muito valor... mas gostaria que me acreditassem.
Virou-se e saiu da sala.
— O que achou dela? — perguntou Leach. — Nunca vi ninguém tão... tão despida de emoção.
— Ela não demonstrou nenhuma, mas garanto que existe alguma por debaixo daquela capa. Uma emoção muito forte, mas não sei qual é...
VIII
O último a ser interrogado foi Thomas Royde. Estava sério e formal, piscando um pouco como uma coruja.
Tinha vindo para casa, depois de 8 anos na Malásia. Desde menino tinha o hábito de se hospedar em Gull's Point. A Sra. Audrey Strange era uma prima distante e havia sido criada por sua família desde a idade de 9 anos. Na noite anterior, tinha ido se deitar um pouco antes das onze. Ouvira Nevile sair por volta das 10:20 ou talvez um pouco mais tarde; e não escutara nada de estranho durante a noite. Já tinha se levantado e estava no jardim, quando descobriram o corpo de Lady Tressilian. Ele era um madrugador.
Houve uma pausa.
— A Srta. Aldin nos disse que havia um clima de tensão na casa. O senhor também notou?
— Não, acho que não. Não sou muito observador — respondeu Thomas.
Está mentindo — pensou Battle. — Você observa tudo, diria até que muito mais do que os outros.
Não. Ele não achava que Nevile estivesse com problemas de dinheiro. Certamente não era o que parecia, apesar de pouco saber sobre os negócios do Sr. Strange.
— Conhece bem a segunda Sra. Strange?
— Conheci-a somente agora.
Battle deu sua última cartada:
— Como já deve saber, Sr. Royde, encontramos não só as impressões digitais do Sr. Nevile na arma do crime, como também sangue na manga do paletó que usou ontem à noite.
— Sim. Ele estava nos contando — murmurou Royde.
— Vou lhe perguntar francamente: acha que foi ele quem a matou?
Thomas Royde, que não gostava de ser apressado, esperou um pouco antes de responder.
— Não vejo por que está me perguntando isso. Isso não é problema meu, e sim seu. Porém acho muito improvável .
— Existe alguém que lhe pareça mais provável?
— A única pessoa que considero plausível, não poderia tê-lo feito. Assim, o assunto está encerrado.
— E quem é essa pessoa? — indagou Battle.
— Não direi, pois é apenas minha opinião particular — afirmou Royde, decidido.
— É seu dever auxiliar a polícia.
— Sim, mas só com fatos concretos. Isso não é um fato, e sim uma idéia. E de qualquer modo teria sido impossível .
— Não conseguimos arrancar muita coisa dele — comentou Leach, depois da saída de Royde.
— É. Realmente não conseguimos. Ele tem algo em mente; alguma coisa bem definida, que eu gostaria de saber o que é. Este é um crime muito peculiar, Jim.
Antes que Leach pudesse responder, o telefone tocou. Depois de ficar alguns minutos ouvindo, ele exclamou: "ótimo", e desligou.
— O sangue no paletó é do mesmo grupo sangüíneo que o de Lady Tressilian — informou ele. — Parece que Nevile está em maus lençóis.
Battle tinha ido até a janela e olhava para fora, com bastante interesse.
— Lá fora tem um jovem muito bonito — observou ele — e diria também que bastante perigoso. É pena que o Sr. Latimer tenha estado em Easterhead Bay ontem à noite. Ele é o tipo de pessoa que esmagaria a cabeça da própria avó, se soubesse que com isso poderia tirar algum proveito.
— Bem. Não lhe cabe nenhuma parte da herança. A morte de Lady Tressilian não o beneficia de forma alguma.
O telefone tocou de novo.
— Droga de telefone! O que será agora? — impacientou-se Leach indo atendê-lo.
— Alô. Ah!... é o senhor, doutor?...O quê?... Ela se recuperou?... O quê?... O quê?!
— Tio! Venha só ouvir isto.
Battle pegou o telefone e, como sempre, não havia nenhuma expressão em seu rosto.
— Chame o Sr. Strange, Jim.
Quando Nevile entrou, Battle estava acabando de colocar o fone no gancho.
Pálido e exausto, ele olhava curioso para o Superintendente da Scotland Yard, tentando adivinhar o que estava se passando por trás daquele rosto inexpressivo.
— Sr. Strange, conhece alguém que não goste do senhor? Nevile negou com a cabeça.
— Tem certeza? — Battle foi incisivo. — Quero dizer, alguém que realmente não goste do senhor, alguém que o deteste?
— Não. É claro que1 não — sobressaltou-se Nevile.
— Pense, por favor. Não existe alguém que, de alguma forma, tenha sido ofendido pelo senhor?
Nevile ruborizou-se.
— Há apenas uma pessoa a quem eu magoei, mas ela não é do tipo de guardar rancor. A minha primeira esposa ficou muito magoada quando a deixei por outra mulher. Entretanto posso garantir-lhe que ela não me odeia. Ela... ela tem sido um anjo.
O Superintendente debruçou-se na mesa.
— É um homem de sorte, Sr. Nevile. Não digo que me agradassem as provas que o incriminavam, mas elas existiam. E, a não ser que os jurados gostassem muito da sua pessoa, elas seriam o suficiente para condená-lo.
— O senhor fala como se tudo já pertencesse ao passado.
— E assim o é! O senhor foi inocentado por pura sorte.
Nevile continuava a olhá-lo, sem entender nada.
— Depois que o senhor saiu do quarto de Lady Tressilian, ela tocou a campainha chamando a empregada. — Battle observava a maneira com que Nevile assimilava o que tinha sido dito.
— Depois... então Barrett a viu... — surpreendeu-se Nevile.
— Sim — afirmou o Superintendente. — Ela estava viva. E antes que fosse atender a sua patroa, ela o viu deixando a casa.
— Mas o taco... e minhas impressões digitais?...
— Ela não foi morta por aquele taco. Na ocasião, notei que o Dr. Lazenby não queria aceitá-lo como a arma do crime. Ela foi atingida por algum outro objeto. O taco foi colocado, deliberadamente, lá, para que as suspeitas recaíssem sobre o senhor. Deve ter sido alguém que ouviu a sua discussão e que o escolheu como a vítima perfeita. Ou então, pode ter sido porque...
Parou e repetiu a pergunta:
— Quem o detesta nesta casa, Sr. Nevile?
IX
— Tenho uma pergunta a lhe fazer, doutor — disse Battle.
Estavam agora na casa do médico, depois de terem ido ao hospital, onde tinham tido uma pequena entrevista com Jane Barrett.
Apesar de fraca e exausta, ela foi bem clara em seu depoimento; já ia se deitar, depois de tomar o seu chá de cássia, quando ouviu a campainha tocar. Quando olhou o relógio, eram 10:25 horas. Vestiu o roupão e desceu. Ao ouvir barulho no hall, debruçou-se no corrimão com curiosidade .
— Era o Sr. Nevile preparando-se para sair. Estava pegando a sua capa no cabide.
— Que terno ele estava usando?
— Um cinza listrado. Parecia muito preocupado e insatisfeito. Vestiu a capa de qualquer maneira, como se isto fosse o menos importante; saindo, batendo a porta logo em seguida. Entrei no quarto de Lady Tressilian. Coitada, estava muito sonolenta, e não conseguia se lembrar por que me havia chamado, o que já acontecera outras vezes. Mas, mesmo assim, ajeitei seus travesseiros, colocando-a em uma posição confortável.
— Ela parecia perturbada ou com medo de alguma coisa?
— Não. Apenas cansada. Eu também estava cansada, bocejando o tempo todo. Subi e fui direto para a cama.
Esta era a história de Barrett. Era impossível duvidar-se da sua genuína tristeza e horror diante da notícia da morte da sua patroa.
Foram para a casa de Lazenby, onde Battle comunicou que tinha uma pergunta a fazer.
— Pode fazê-la — consentiu Lazenby.
— A que horas acha que Lady Tressilian morreu?
— Já lhe disse. Entre as 10 horas e meia-noite.
— Eu sei. Mas o que estou querendo ouvir é a sua opinião pessoal.
— Quer uma opinião extra-oficial?
— Sim — respondeu Battle categoricamente.
— Bem! Meus cálculos são de que foi por volta das 11 horas.
— É isso que eu queria saber.
— Por quê? — intrigou-se Lazenby.
— Nunca fiquei satisfeito com a idéia dela ter sido assassinada antes das 10:20. Veja bem: a esta hora os barbitúricos ainda não teriam feito efeito em Barrett. Isto prova que o crime estava preparado para ser cometido bem mais tarde. Eu ainda prefiro acreditar que foi à meia-noite.
— Pode ser. Onze horas é apenas uma suposição.
— Mas, definitivamente, não poderia ter sido depois da meia-noite? — insistiu Battle.
— Não.
— E depois das 2:30?
— Não! Isso nunca!
— Bem, sendo assim, parece que desta vez o Strange fica livre. Só me resta verificar os seus atos após a sua saída da casa. Se estiver falando a verdade, estará limpo, e teremos que procurar o criminoso entre os outros suspeitos.
— Entre os herdeiros? — sugeriu Leach.
— Talvez. Mas de alguma forma, não creio que seja isso. Estou procurando uma pessoa com alguma anomalia.
— Anomalia?
— Sim. Uma anomalia sórdida — explicou Battle.
Ao saírem da casa do médico, foram até o local das barcas, que eram operadas por dois irmãos, Will e George Barnes. Os irmãos Barnes conheciam de vista todas as pessoas de Saltcreek, e a maior parte dos que vinham de Easterhead Bay. George afirmou de imediato que, na noite anterior, o Sr. Strange de Gull's Point tinha atravessado na barca das dez e meia. Não. Ele não trouxera o Sr. Strange de volta. A última barca saíra de Easterhead à uma e meia, e o Sr. Strange não estava nela.
Battle perguntou se ele conhecia o Sr. Latimer.
— Latimer? Latimer? Um jovem alto, bonitão, que costuma vir do hotel para Gull's Point? Sim, eu o conheço. Ontem à noite, entretanto, não o vi. Esta manhã ele atravessou conosco para Gull's Point, só voltando agora na última viagem.
Chegando ao Hotel Easterhead Bay, encontraram Latimer que acabara de regressar. Estava muito ansioso para ajudar no que pudesse.
— Sim, o velho Nevile veio aqui ontem à noite, e parecia muito deprimido. Contou-me que tivera uma briga com a velha senhora. Soube depois que ele e Kay discutiram, mas isso, é claro, ele não me contou. De qualquer modo, ele estava bem desanimado, e parecia satisfeito em ter a minha companhia.
— Fui informado de que foi meio difícil para o Sr. Nevile encontrá-lo.
— Não entendo por que, se eu estava na sala de estar — explicou Latimer. — Strange disse que me procurou mas que não me viu. A verdade é que ele estava perturbado demais para se concentrar, ou eu mesmo posso ter saído por uns cinco minutos, para dar uma volta pelo jardim. Saio sempre que posso, pois há um cheiro muito desagradável neste hotel. Notei isso ontem à noite no bar. Acho que é o esgoto. Nevile também sentiu o mesmo cheiro repulsivo. Pode ser até um rato morto debaixo do chão da sala de bilhar.
— Vocês jogaram bilhar, e depois?
— Conversamos e bebemos mais um pouco, até que Nevile percebeu que tinha perdido a última barca. Foi aí que eu me ofereci para levá-lo em meu carro, e se estou certo, chegamos a Gull's Point por volta das duas e meia.
— E o Sr. Strange esteve em sua companhia durante toda a noite?
— Mas é claro! Pode perguntar a qualquer pessoa.
— Obrigado, Sr. Latimer. Temos que ser muito cuidadoso.
Assim que deixaram o controlado e sorridente jovem, Leach perguntou:
— Onde está querendo chegar, com todas estas minuciosas investigações a respeito do Sr. Nevile?
Battle sorriu, e de repente Leach compreendeu tudo.
— Ora veja, é o outro que você está inspecionando. Então é essa a idéia!
— Ainda é cedo para se ter idéias — afirmou Battle. — Tenho apenas que saber exatamente onde o Sr. Latimer esteve ontem à noite. Só sabemos que das onze e quinze à meia-noite ele estava com Nevile Strange. Mas onde esteve ele antes disso, fazendo com que o Sr. Nevile não o pudesse encontrar?
Continuaram a entrevistar com insistência os barmen, garçons, ascensoristas. Entre nove e dez horas, Latimer tinha sido visto na sala de estar, e estivera no bar às dez e quinze. Mas entre aquela hora e onze e vinte, ele estivera singularmente desaparecido. Por fim, encontraram uma empregada que declarou que o Sr. Latimer tinha estado em um dos pequenos escritórios com a Sra. Beddoes, uma gorda senhora do norte do país.
Pressionada quanto à hora, ela disse que deveria ter sido por volta das onze horas.
— Bem, isto resolve tudo — concluiu Battle tristemente. — Ele estava mesmo aqui. Apenas não queria atrair atenção para sua gorda e, sem dúvida, rica amiga. Isto nos leva de volta aos outros: os criados, Kay Strange, Audrey Strange, Mary Aldin e Thomas Royde. É mais do que certo que uma dessas pessoas tenha matado a velha senhora, mas quem? Se pudéssemos descobrir a verdadeira arma do crime...
Ele parou, e em seguida bateu com força na perna.
— Achei, Jim! Agora sei o que me fez lembrar de Hercule Poirot. Vamos almoçar rapidamente e voltar a Gull's Point, onde tenho algo a lhe mostrar.
X
Mary Aldin estava inquieta, entrando e saindo da casa; colhendo uma dália aqui e outra ali; arrumando os jarros de flores quase que mecanicamente.
Da biblioteca vinha um vago murmúrio de vozes. O Sr. Trelawny estava lá com Nevile, enquanto Kay e Audrey não se encontravam por perto.
Mary retornou ao jardim. E vendo Thomas Royde fumar tranqüilamente, foi se juntar a ele.
— Oh, meu Deus! — suspirou aturdida, sentando-se a seu lado.
— Algum problema? — perguntou Thomas.
Mary riu. Havia uma ponta de histeria em seu riso.
— Só mesmo você diria uma coisa desta. Com um assassinato em casa e você apenas pergunta "algum problema?".
Parecendo um pouco surpreso, Thomas disse:
— Estava me referindo a alguma novidade especial.
— Ah, eu sei o que você estava querendo dizer. É realmente um grande alívio encontrar alguém tão magnificamente imperturbável como você!
— Não adianta ficar nervoso, adianta?
— Não. Não. Você é profundamente sensato. O que me intriga é saber como consegue ser assim.
— Bem, suponho que seja, porque sou um estranho.
— Bem isto é verdade, é claro. Você não pode sentir o alívio que nós sentimos, depois que soubemos que Nevile foi inocentado.
— Mas mesmo assim, é claro que estou satisfeito — falou Royde.
— Ele esteve por um fio. Se Camilla não tivesse tocado a campainha para chamar Barrett depois que Nevile saiu...
Thomas terminou a frase que ela deixara incompleta.
— Nevile estaria perdido! — isto foi dito com uma certa satisfação, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça com um pequeno sorriso ao notar o olhar reprovador de Mary. — Não pense que sou cruel, mas agora que a situação de Nevile foi esclarecida, não posso deixar de sentir um certo prazer por saber que ele se abalou com tudo isso. Ele sempre foi tão presunçoso.
— Ele não é nada disso, Thomas — disse Mary.
— É. Talvez seja por causa do seu jeito. De qualquer maneira, ele parecia um bocado assustado hoje de manhã.
— Que maldade, Thomas! — irritou-se ela.
— Bem. Agora não há mais perigo. Sabe, Mary, até mesmo neste caso Nevile teve uma sorte danada. Qualquer outro sujeito que tivesse contra ele todas aquelas provas acumuladas não teria tido nenhuma chance.
— Não diga isto. Gosto de pensar que os inocentes são... protegidos.
— Você gosta, minha querida? — sua voz era amável.
— Thomas, estou muito preocupada. Preocupada e assustada.
— Com o quê?
— É a respeito do Sr. Treves.
Thomas deixou cair o cachimbo nas pedras. Sua voz mudou quando abaixou-se para apanhá-lo.
— Sobre o que você está falando?
— Lembra aquela noite que ele veio aqui... e aquela história que contou sobre um pequeno assassino? Estive pensando, Thomas... será que era apenas uma história, ou ele a contou de propósito?
— Você está querendo me dizer que ele visava um dos presentes?
— Sim — murmurou Mary.
— Eu também estive pensando — comentou Thomas calmamente. — Na realidade, estava pensando sobre isto agora mesmo, quando você chegou.
— Estive tentando me lembrar... ele contou a história tão deliberadamente. Foi como se estivesse forçando o assunto na conversa. Disse ainda que reconheceria a pessoa em qualquer lugar. Ele salientou bem esta parte, como se já a tivesse reconhecido.
— Hum... já pensei nisto tudo — disse Thomas.
— Mas por que ele faria isto? Qual seria o seu objetivo?
— Imagino que tenha sido como uma espécie de advertência, e não como alguma forma de experiência.
— Acha que o Sr, Treves sabia que Camilla iria ser assassinada? — espantou-se Mary.
— Não. Isto seria fantástico demais. Pode ter sido apenas uma advertência geral.
— Acha que eu deveria contar isto à polícia?
— Acho que não — respondeu Thomas finalmente, depois de refletir bastante. — Não me parece importante. Não é como se o Sr. Treves estivesse vivo e pudesse informar-lhes alguma coisa.
— Não. Ele está morto! — afirmou Mary estremecendo. — A maneira como ele morreu, Thomas, foi tão estranha.
— Foi um ataque do coração. Ele tinha problemas cardíacos.
— Refiro-me ao fato curioso do elevador estar quebrado. Não gostei nada daquilo.
— Eu também não — reforçou Thomas Royde.
XI
O Superintendente Battle olhou em torno do quarto. A única coisa que mudara era a cama que tinha sido feita. No mais, continuava tão arrumado como antes.
— É isto — disse o Superintendente Battle, apontando para a antiquada grade da lareira. — Vê alguma coisa de estranho naquela grade?
— Está precisando de limpeza — observou Jim Leach. — Está bem conservada. Não vejo nada de anormal, exceto... Sim! A esfera da extremidade esquerda está mais brilhante do que a da direita.
— Foi isto que me fez lembrar Hercule Poirot — explicou Battle. — Você conhece a sua mania pelas coisas que não estão em perfeita simetria. Acho que, inconscientemente, eu pensei: "isto teria chamado a atenção do velho Poirot", e então comecei a falar sobre ele. Trouxe seu equipamento de impressões digitais, Jones? Vamos dar uma olhada nessas esferas.
— Há impressões na esfera do lado direito, senhor, mas nenhuma na do lado esquerdo.
— Então é a esfera esquerda que queremos. Aquelas outras impressões são da empregada, quando ela fez a limpeza pela última vez. A esfera da esquerda já havia sido limpa.
— Encontrei na cesta de lixo alguns papéis amassados — informou Jones. — Não pensei que pudessem ter qualquer importância.
— É porque na ocasião você não sabia o que estava procurando. Entretanto aposto como, neste momento, o que você mais gostaria é de desatarrachar esta esfera... sim, foi o que pensei.
Jones segurou a esfera.
— É bem pesada — falou ele, avaliando o peso com as mãos.
— Tá algo escuro no parafuso — disse Leach olhando com atenção.
— Provavelmente é sangue — disse Battle. — A pessoa limpou a esfera cuidadosamente, entretanto não notou esta pequena mancha no parafuso. Aposto o que você quiser, como esta foi a arma que esmagou a cabeça de Lady Tressilian. Contudo, ainda há muito mais a se descobrir. Você, Jones, fica encarregado de dar uma nova busca pela casa. Só que, desta vez, você saberá exatamente o que procura.
Deu mais algumas instruções detalhadas, e foi olhar na janela.
— Há alguma coisa amarela presa nas plantas. Aquilo pode ser mais uma peça do quebra-cabeça. E é provável que seja.
XII
Ao atravessar o hall, o Superintendente Battle foi interpelado por Mary Aldin.
— Poderia falar-lhe um minuto, Superintendente?
— Mas é claro, Srta. Aldin. Entremos aqui — e abriu a porta da sala de jantar.
— Gostaria de lhe fazer uma pergunta. Certamente o senhor não continua a acreditar que este... este crime horrível tenha sido cometido por um de nós. Só pode ter sido um estranho! Um maníaco!
— Neste ponto, a senhorita não deve estar enganada, pois creio que esta é a melhor palavra para descrever o criminoso. Mas a verdade é que o crime não foi cometido por um estranho.
— Quer dizer que alguém nesta casa é... é louco? — perguntou ela com os olhos arregalados.
— Se a senhorita está pensando em alguém com a boca espumante e olhos revirados, não é bem isso. Alguns dos mais perigosos criminosos parecem tão sadios quanto qualquer um de nós. Normalmente trata-se de uma obsessão, como se fosse uma idéia que ficasse remoendo no pensamento, e que aos poucos o vai corrompendo. Pessoas patéticas e racionais vêm a nós, para nos contar como estão sendo perseguidas e como os seus atos e movimentos são espionados. Algumas vezes chegamos até a acreditar que é tudo verdade.
— Asseguro-lhe que aqui ninguém tem mania de perseguição.
— Citei apenas um exemplo. Há no entanto outras formas de insanidade. Minha opinião é de que quem cometeu este crime estava totalmente dominado por uma idéia fixa. Uma idéia que foi se desenvolvendo até ter a máxima importância.
Mary estremeceu, e disse:
— Creio que há algo que o senhor deveria saber.
Ela contou, de um modo claro e sucinto, a visita do Sr. Treves e a história que ele havia contado. O Superintendente Battle mostrava-se profundamente interessado.
— Ele reconheceu essa pessoa? Por acaso... era homem ou mulher?
— Eu achei que a história era sobre um menino, mas a verdade é que ele não afirmou nada... aliás estou me lembrando agora de que ele falou claramente que não iria especificar nem o sexo, nem a idade.
— É mesmo? Isto é muito significativo. E disse também que havia uma peculiaridade física, que faria com que ele reconhecesse esta criança em qualquer lugar?
— Sim — respondeu ela.
— Talvez uma cicatriz. Porventura, alguém aqui tem alguma cicatriz? — indagou Battle.
Ele percebeu a hesitação de Mary Aldin antes que respondesse:
— Não que eu tenha notado.
— Ora, Srta. Aldin — ele sorriu —, é evidente que a senhorita notou. É muita ingenuidade sua achar que eu não serei capaz de notá-la também, não acha?
— O senhor está enganado!
Ele pôde observar o quanto ela estava assustada. Obviamente as suas palavras tinham produzido uma desagradável sucessão de pensamentos. Ele desejaria saber qual era, mas a sua experiência lhe deixava ciente de que pressioná-la, naquele momento, não levaria a nada.
Ele voltou ao assunto do velho Sr. Treves. Mary narrou o fato trágico ocorrido naquela noite.
Battle interrogou-a detalhadamente. Ao terminar, comentou:
— Isto é novo para mim. Nunca me deparei com nada igual.
— O que quer dizer?
— Nunca tomei conhecimento de um assassinato cometido pelo simples ato de se pendurar um aviso na porta do elevador.
— O senhor não acha realmente que... — ela falou horrorizada.
— Que foi assassinato? É claro que foi! Um crime rápido e ligeiro. É lógico que poderia ter falhado... mas isto não aconteceu.
— Apenas porque o Sr. Treves sabia...
— Sim. Ele poderia fazer com que a nossa atenção se voltasse para um dos ocupantes da casa. Do jeito que aconteceu, começamos no escuro. No entanto já temos um vislumbre de luz, e a cada minuto que passa o caso se esclarece mais e mais. Digo-lhe uma coisa, Srta. Aldin, este crime foi cuidadosamente planejado em seus mínimos detalhes. Quero alertá-la para uma coisa: não deixe ninguém saber o que me contou. Isto é muito importante. Por favor, não comente com ninguém.
Apesar de meio confusa, Mary Aldin concordou com a cabeça.
O Superintendente Battle saiu da sala e encaminhou-se para fazer o que deveria ter feito, se não fosse a interrupção de Mary. Era um homem metódico e que desejava certas informações. Uma nova e promissora pista, por mais tentadora que pudesse ser, não o distrairia do cumprimento ordenado de suas obrigações. Bateu na porta da biblioteca, e Nevile Strange respondeu:
— Entre.
Battle foi apresentado ao Sr. Trelawny, um homem alto, de aparência distinta e de olhos penetrantes.
— Desculpe-me se os estou interrompendo — justificou-se o Superintendente Battle —, porém há uma coisa que ainda não está esclarecida: o senhor, Sr. Strange, herdará a metade da fortuna do falecido Sir Matthew. Quem receberá a outra metade?
Nevile pareceu surpreso.
— Eu já lhe disse. É a minha esposa.
— Sim. Mas qual delas, Sr. Strange?
— Ah, entendo. Desculpe-me se me expressei mal. O dinheiro vai para Audrey, porque na ocasião em que o testamento foi feito era ela a minha esposa. Está correto, Sr. Trelawny?
O advogado concordou.
— O testamento é bem claro. A herança é para ser dividida entre o tutelado de Sir Matthew, Nevile Henry Strange, e sua esposa, Audrey Elizabeth Strange, nascida Standish. O divórcio não altera em nada.
— Bem, agora está esclarecido. A Sra. Audrey Strange já está ciente destes fatos?
— Mas é óbvio — assegurou o Sr. Trelawny.
— E quanto à atual Sra. Strange?
— Kay? — Nevile parecia ligeiramente surpreso. — Suponho que sim! Pelo menos... nunca falamos muito sobre este assunto.
— Então houve um mal-entendido — disse Battle. — A Sra. Kay pensa que, com a morte de Lady Tressilian, o dinheiro ficará para o senhor e para ela, por ser a sua atual esposa. Pelo menos, foi isto que ela deu a entender esta manhã. Sendo assim, resolvi vir aqui para descobrir qual é a verdadeira situação.
— É incrível! — comentou Nevile. — Entretanto, imagino que isto possa ter acontecido facilmente. Pensando bem, agora me lembro dela ter dito uma ou duas vezes: "quando Camilla morrer, receberemos aquele dinheiro", mas naturalmente imaginava que ela se referia a nós dois, só levando em conta a minha parte na herança.
— É espantoso — afirmou Battle — o número de mal-entendidos que pode existir, mesmo entre duas pessoas que discutam um certo assunto com bastante freqüência: cada uma delas entende o que melhor lhe convém, sem que o outro desconfie de qualquer disparidade de pensamento.
— É. Suponho que sim — disse Nevile não parecendo muito interessado. — De qualquer forma, neste caso, isto não tem muita importância, porque nós realmente não precisamos de dinheiro. Fico muito satisfeito por Audrey. Ela tem passado por dificuldades e este testamento fará uma grande diferença para ela.
— Mas é certo que, ao ser discutido o divórcio, uma pensão tenha sido estabelecida, não?
Nevile, ruborizando-se, falou com a voz constrangida:
— Existe uma coisa chamada orgulho, Superintendente. Audrey sempre se recusou a tocar em um centavo da pensão que lhe enviava.
— Uma pensão muito generosa — acrescentou o senhor Trelawny. — Mas mesmo assim, a Sra. Audrey Strange sempre devolvia o dinheiro.
— Muito interessante — comentou Battle, retirando-se antes que pudessem lhe pedir qualquer explicação sobre o seu comentário.
Foi ao encontro de seu sobrinho.
— Aparentemente — comentou ele —, cada uma das pessoas envolvidas neste caso tem um bom motivo monetário: Nevile e Audrey Strange receberão 50.000 libras cada um; Kay Strange pensa que tem direito a 50.000; Mary Aldin ficará com uma renda que lhe possibilitará viver sem nunca mais ter que trabalhar. Quanto a Thomas Royde, sou obrigado a confessar que é o único que nada ganhará. Entretanto, podemos incluir Hurstall e até mesmo Barrett, se admitirmos a hipótese de que ela tenha se arriscado a morrer para evitar suspeitas. Sim, como eu já disse, não faltam motivos levados pelo dinheiro; apesar de achar que ele nada tem a ver com este crime. Este é um típico assassinato movido por puro ódio. E se não aparecer ninguém para atrapalhar o meu trabalho, vou pegar a pessoa culpada!
Mais tarde, ele ficou imaginando por que teria colocado aquela frase em sua cabeça.
Andrew MacWhirter havia chegado em Easterhead Bay no sábado anterior.
XIII
Andrew MacWhirter estava sentado no terraço do Hotel Easterhead Bay, olhando fixamente para o outro lado do rio onde ficava a sombria elevação do Stark Head. No momento, estava ocupado fazendo um cuidadoso levantamento de seus pensamentos e emoções.
Aqui, sete meses atrás, ele tentara contra a própria vida. O acaso, apenas o acaso, tinha intervido. Estaria ele grato a tudo isto?
Ele decidiu, orgulhosamente, que não. Era verdade que no momento presente não sentia a menor vontade de se matar. Esta fase tinha acabado para sempre. Agora estava disposto a cumprir a tarefa de viver, não com entusiasmo ou mesmo prazer, mas apenas com o metódico espírito do dia-a-dia. Ninguém pode, isto ele admitia, tirar a própria vida a sangue frio. Terá que haver um estímulo extra como o desespero, a tristeza, ou a paixão. Não se pode cometer suicídio meramente por sentir-se que a vida é uma triste sucessão de acontecimentos desinteressantes.
Ele supunha que agora poderia ser considerado um homem de bastante sorte. O destino, depois de ter-se mostrado adverso, agora sorria-lhe. Ele porém não estava com ânimo para sorrir em retribuição. Seu senso de humor foi revitalizado com a lembrança da entrevista para a qual havia sido convocado por aquele rico e excêntrico nobre, Lorde Cornelly.
— Você é o MacWhirter? Era você quem estava com Herbert Clay, não? Clay teve sua carteira de motorista apreendida porque você se negou a dizer que ele estava dirigindo a 40 quilômetros por hora. Certa noite, quando nos contou sobre todos os fatos, ele estava lívido. "Maldito escocês teimoso!", disse-nos ele. E aí eu pensei comigo mesmo que era este o tipo de sujeito que eu queria: um homem que não se deixa subornar. Comigo, você não terá que dizer mentiras, porque não é assim que trabalho. Eu vivo à cata de homens honestos... e como existem poucos por aí!
O nobre soltara uma gargalhada, e seu rosto astuto ganhara um aspecto alegre e jovial. MacWhirter permanecera indiferente, não se divertindo nem um pouco.
Porém havia conseguido um trabalho, um bom trabalho, e seu futuro estava assegurado. Dentro de uma semana ele deixaria a Inglaterra rumo à América do Sul.
Não sabia bem por que escolhera aquele lugar para passar seus últimos dias de lazer. Só sabia que alguma coisa o arrastara até ali. Talvez o desejo de se pôr à prova, de ver se em seu coração ainda havia algum vestígio do antigo desespero.
Mona? Atualmente ele pouco se importava. Ela estava casada com outro homem. Certo dia haviam se cruzado na rua, sem que ele sentisse qualquer emoção. Ainda podia lembrar sua tristeza e amargura quando ela o abandonara, mas agora isto tudo pertencia ao passado.
Ele foi despertado de seus pensamentos pelo impacto de um cachorro molhado e a agitação de sua nova amiga de 13 anos, Diana Brinton.
— Ah, saia daí, Don. Venha! Não é horrível? Ele se esfregou lá na praia, em algum peixe ou coisa parecida. E pelo jeito o peixe estava podre.
O nariz de MacWhirter confirmou esta hipótese.
— O peixe estava preso entre as pedras — explicou a menina Brinton. — Levei Don até o mar e tentei lavá-lo, mas parece que não adiantou nada.
MacWhirter concordou. Don, um terrier pêlo-de-arame, de temperamento amigo e amoroso, parecia magoado com a atitude de seus amigos, em mantê-lo preso aos braços.
— A água do mar não serve para isto. A única coisa que resolve é água quente e sabão — observou MacWhirter.
— Eu sei. Porém em um hotel isto não é lá muito fácil. Não temos banheiro privativo.
Levando Don pela coleira, MacWhirter e Diana acabaram entrando, sorrateiramente, pela porta lateral, conduzindo-o clandestinamente para o banheiro de MacWhirter. Fizeram uma limpeza completa. Tanto ele como a menina ficaram muito molhados. Quando tudo terminou, Don estava muito triste.
Outra vez este cheiro horrível de sabonete... e logo agora que ele encontrara um perfume realmente agradável, capaz de fazer inveja a qualquer pessoa. Bem, era sempre a mesma coisa com os humanos... eles não tinham o sentido do olfato aguçado.
Este pequeno incidente deixara MacWhirter mais animado. Pegou o ônibus para Saltington, onde havia deixado um terno na lavanderia.
A moça encarregada da Lavanderia 24-Horas olhou-o com uma expressão vazia.
— MacWhirter, o senhor disse? Receio que a roupa não esteja pronta.
Mas já deveria estar. Haviam-no prometido para ontem e, mesmo assim, já se teriam passado 48 horas e não 24. Uma mulher teria dito tudo isto, entretanto ele apenas franziu a testa.
— Ainda não houve tempo para ficar pronta — disse a moça, sorrindo com indiferença.
— Conversa fiada!
A moça parou de sorrir e falou com rispidez:
— Seja lá como for, não está pronta!
— Então vou levar agora mesmo, do jeito que estiver — retrucou MacWhirter.
— Ainda nem começamos o serviço — preveniu-o a garota.
— Vou levar assim mesmo.
— Talvez possa ficar pronto amanhã... como favor especial.
— Não tenho o hábito de pedir favores especiais. Só quero que me entregue o terno, por favor.
Lançando-lhe um olhar mal-humorado, a moça dirigiu-se à sala dos fundos. Voltou com um embrulho mal feito que empurrou para o outro lado do balcão.
MacWhirter, pegando-o, saiu.
Ele se sentiu, apesar de ridiculamente, como se tivesse conseguido uma vitória. Na verdade isso apenas significava que ele teria que mandar o terno para outro lugar!
Chegando ao hotel, jogou o embrulho em cima da cama, extremamente aborrecido. Talvez pudesse ser lavado e passado lá mesmo. Na verdade, não estava muito sujo... quem sabe nem precisasse ser lavado?
Ao desfazer o embrulho, apareceu em seu rosto uma expressão de aborrecimento. Realmente, a Lavanderia 24-Horas era ineficiente demais para ser descrita. Este não era o seu terno. Não era nem da mesma cor! O dele era azul-marinho. O serviço era confuso e ineficaz!
Olhou irritado para a etiqueta que tinha o nome de MacWhirter. Seria um outro MacWhirter ou alguma estúpida troca de etiquetas?
Olhando contrariado para o amontoado de roupas amassadas, sentiu, repentinamente, um odor estranho. Certamente ele conhecia aquele cheiro, um cheiro desagradável... ligado de alguma forma a um cachorro. Sim, era isto! Diana e seu cachorro. Era sem dúvida o mau cheiro do peixe podre.
Curvando-se, ele examinou o terno. No ombro do paletó» havia um pequeno pedaço de pano desbotado. No ombro...
Isto — pensou MacWhirter — é realmente muito curioso...
De qualquer modo, no dia seguinte, ele iria ter uma conversa com a moça da lavanderia, que por sinal tinha uma péssima administração.
XIV
Depois do jantar, ele saiu do hotel e andou até as barcas. Era uma noite clara, apesar de fria, com um vento cortante, antecipando o inverno. O verão acabara.
MacWhirter atravessou de barca até a margem de Saltcreek. Esta era a segunda vez que voltava a Stark Head, e mesmo assim, o lugar exercia uma espécie de fascínio sobre ele. Subiu vagarosamente o morro, passando pelo Hotel Balmoral Court. Adiante, viu uma grande casa na beira de um penhasco, onde leu um nome no portão: Gull's Point.
É claro! Fora ali que a velha senhora havia sido assassinada. No hotel comentaram muito sobre o caso: a camareira insistia em lhe contar tudo que sabia, e os jornais haviam dado muito destaque ao assunto, o que tinha lhe desagradado, pois preferia ler notícias de interesse geral e não sobre crimes,
Prosseguiu seu caminho. Descendo novamente o morro, dirigiu-se até a margem de uma pequena praia, onde havia algumas cabanas antigas, as quais tinham sido modernizadas. Em seguida tornou a subir até o final do caminho e, exausto, tomou o atalho que o levaria a Stark Head.
Stark Head era sombrio e misterioso. MacWhirter ficou parado à beira do penhasco olhando para o mar. Fora desta mesma forma que ele ficara naquela outra noite. Tentou relembrar alguns dos sentimentos que tivera então: o desespero, a raiva, a exaustão, o desejo de se ver livre de tudo. No entanto, não havia mais nada para ser relembrado. Agora, tudo aquilo pertencia ao passado. Ficara apenas uma raiva profunda: preso naquela árvore, salvo pelos guardas, tratado no hospital como uma criança malcriada e uma série de indignidades e afrontas. Por que não o haviam deixado sozinho? Ele teria preferido mil vezes ficar livre de tudo; e ainda pensava assim. A única coisa que perdera fora a impetuosidade necessária.
Naquela época, como lhe doía pensar em Mona! Atualmente, porém, conseguia se lembrar dela com muita tranqüilidade. Ela sempre fora muito tola: era facilmente envolvida por qualquer pessoa que soubesse lhe adular e cortejar. Era muito bonita, realmente muito bonita, mas nada inteligente. Não era o tipo de mulher com quem ele sonhara algum dia.
Mas aquilo era a beleza, é claro... A imagem vaga e fantasiosa de uma mulher, com sua roupa branca esvoaçante, correndo através da noite... algo como a figura de um navio, porém não tão bravia... nem tão sólida...
E então, mais que de repente, o incrível aconteceu! Dentro da noite, surgiu uma figura correndo. Por um momento, ela não estava lá... e no momento seguinte, lá estava ela... uma figura branca correndo... correndo em direção à beira do penhasco. Uma figura bonita e desesperada, sendo levada à destruição, perseguida pelas Fúrias! Correndo num desespero terrível... ele conhecia aquele desespero. Ele sabia o que significava...
Com um salto brusco, ele saiu das sombras e conseguiu segurá-la no exato momento em que ela ia pular!
— Não! Você não vai fazer isso... — condenou-a com firmeza.
Era como se ele estivesse segurando um pássaro. Ela se debateu... se debateu silenciosamente, e então, novamente como um pássaro, ficou completamente imóvel.
MacWhirter exclamou ansioso:
— Não se mate! Nada Tale isto. Nada! Mesmo que você esteja desesperadamente infeliz...
Ela emitiu um som. Era talvez como o riso de um fantasma distante.
— Você não é infeliz? Então qual é o seu problema? — perguntou bruscamente.
Ela respondeu de imediato, com um sussurro:
— Medo!
— Medo? — ele ficou tão atônita que a soltou, dando um passo para trás a fim de que pudesse vê:la melhor.
Compreendeu então a veracidade de suas palavras. Foi o medo que tinha colocado aquela premência em seus passos. Era o medo que fazia com que seu pequeno e inteligente rosto branco estivesse vazio e aparvalhado. Era o medo que arregalava aqueles olhos.
— De que você tem medo? — perguntou ele incrédulo.
Ela lhe respondeu tão baixo que ele mal pôde ouvir.
— Tenho medo de ser enforcada...
Sim. Fora isto mesmo que ela dissera. Ele ficou encarando-a fixamente e, em seguida, desviou o olhar para a beira do penhasco.
— Então é por isto?
— Sim. Uma morte rápida ao invés de... — ela fechou os olhos e estremeceu. Continuou a estremecer.
De uma forma lógica, MacWhirter juntava as peças em seu cérebro, como num jogo de quebra-cabeça. Finalmente ele falou:
— Lady Tressilian? A velha senhora que foi assassinada? — Em seguida, falou acusador: — A senhora deve ser a Sra. Strange... a primeira Sra. Strange.
Ainda tremendo, ela concordou com a cabeça.
Com a voz calma e cuidadosa, MacWhirter continuou. tentando se lembrar de tudo o que ouvira. Agora os rumores tomavam forma.
— Eles detiveram seu marido, não é verdade? Havia muitas provas contra ele, mas aí então descobriram que tinham sido forjadas por alguém que...
Calando-se, ele a encarou. Ela parara de tremer. Estava imóvel, olhando-o como uma criança dócil. MacWhirter achou a sua atitude profundamente comovente.
Ele continuou a falar:
— Eu entendo... sim, eu entendo o que aconteceu... Ele a abandonou por outra mulher, não foi?... e você estava apaixonada por ele... foi por isso... — e fez uma pausa. — Eu compreendo. Minha mulher também me deixou por outro homem.
Repentinamente ela estendeu os braços e começou a gaguejar desesperada:
— N... não é... n-n-nada disso. N... não é...
Com a voz firme e autoritária, ele a fez calar.
— Vá para casa. Não precisa mais ter medo, está me ouvindo? Cuidarei para que você não seja enforcada!
XV
Mary Aldin estava deitada no sofá da sala de visitas. Sentia-se completamente exausta, e a cabeça lhe doía.
O inquérito tivera lugar no dia anterior. E após as formalidades de identificação, ficara adiado por uma semana.
O funeral de Lady Tressilian seria no dia seguinte. Audrey e Kay tinham ido de carro a Saltington a fim de providenciar algumas roupas para o luto. Ted Latimer as acompanhara. Nevile e Thomas tinham ido dar uma volta. Sendo assim, à exceção dos empregados, Mary estava sozinha em casa.
O Superintendente Battle e o Inspetor Leach não haviam aparecido, o que também era um alívio. Parecia que, com a ausência deles, uma sombra sumira. Eles haviam sido bastante educados, e é verdade que até bem agradáveis. Contudo, as perguntas incessantes e todas aquelas investigações de cada fato eram o tipo de coisa que arrasaria com os nervos de qualquer um. Agora, o Superintendente de fisionomia indecifrável já deveria saber de cada incidente, cada palavra e até cada gesto dos últimos dez dias. Agora, com a sua ausência, havia paz. Assim, Mary deixou-se descansar. Ela iria esquecer tudo... tudo. Apenas recostar-se, sem pensar em nada.
— Perdão senhora... — interrompeu-lhe uma voz.
Era Hurstall, à porta, parecendo desculpar-se.
— O que é, Hurstall?
— Um cavalheiro deseja vê-la. Levei-o para o escritório.
Mary olhou-o surpresa e um tanto aborrecida.
— Quem é ele?
— Apresentou-se como MacWhirter, senhora.
— Não o conheço — estranhou ela.
— Não, senhora.
— Deve ser um repórter. Não deveria tê-lo deixado entrar, Hurstall.
— Não creio que seja um repórter, senhora. Acho que é um amigo da Sra. Audrey — pigarreou ele.
— Bem, assim é diferente.
Sentindo-se bastante cansada, Mary, ajeitando os cabelos, atravessou o hall em direção do pequeno escritório. Chegando lá, ficou um tanto perplexa quando o homem alto que estava parado à janela se virou, pois não parecia em nada com um amigo de Audrey.
Mesmo assim ela lhe falou amavelmente:
— Sinto muito, mas a Sra. Strange não está. O senhor queria vê-la?
— A senhorita deve ser a Srta. Aldin? — e examinou-a pensativo.
— Sim, sou eu.
— Acredito também que a senhorita possa me ajudar. Preciso ver se há alguma corda por aqui.
— Corda? — exclamou ela extremamente intrigada.
— Sim, uma corda! Tem idéia de onde possa estar guardada?
Mais tarde Mary concluiu que deveria estar semi-hipnotizada. Se aquele estranho homem tivesse dado qualquer explicação, talvez ela tivesse resistido. Entretanto, Andrew MacWhirter, incapaz de pensar em uma explicação plausível, limitou-se simplesmente a dizer o que queria.
Assim, ela se encontrava, semi-entorpecida, conduzindo-o à procura da tal corda.
— Que tipo de corda o senhor está procurando? — perguntou ela.
— Serve qualquer uma — respondeu ele.
— Talvez lá no depósito...
— Vamos até lá? — pediu MacWhirter.
Ela o conduziu ao local. Lá, encontraram não só um pedaço de corda trançada, mas também um tipo de barbante, mais grosso. No entanto, isto não lhe agradou. O que ele queria era uma corda... um bom pedaço de corda...
— Há um outro pequeno depósito lá em cima no sótão — disse Mary hesitante.
— É! Talvez esteja lá!
Entraram na casa e subiram as escadas. Mary abriu a porta do depósito e MacWhirter, olhando para dentro, soltou um curioso suspiro de contentamento.
— Lá está ela! — exclamou ele.
Em um baú, junto com um velho equipamento de pesca e algumas almofadas comidas por traças, estava um grande rolo de corda. Segurou o braço de Mary, impelindo-a gentilmente para frente, de modo que pudessem ver melhor a corda. Pegando-a MacWhirter disse:
— Quero que guarde isto muito bem na sua memória. A senhorita pode observar que o depósito inteiro está coberto de poeira... tudo... menos esta corda. Pode até segurar para comprovar.
— Está um pouco úmida — comentou ela admirada.
— É isto mesmo — confirmou ele.
Andrew se virou para sair.
— Mas, e a corda? Pensei que a quisesse? — surpreendeu-se Mary.
— Eu só queria ter certeza de que estava aqui — e sorriu. — Apenas isto. A senhorita se incomodaria de trancar a porta e tirar a chave? Obrigado. Eu ficaria muito agradecido se a entregasse ao Superintendente Battle ou ao Inspetor Leach. Com eles, ela estaria mais bem guardada.
Enquanto desciam as escadas, Mary fez esforço para se recobrar. Ao chegarem ao hall principal, ela protestou:
— Mas realmente, eu não estou compreendendo nada...
— Não há necessidade disso — retrucou ele com firmeza. Segurou a mão dela, apertando-a amigavelmente. — Estou muito grato pela sua cooperação.
Acabando de falar, saiu apressadamente pela porta da frente. Mary ficou imaginando se não havia sonhado!
Nevile e Thomas chegaram logo em seguida, e pouco depois o carro voltava trazendo Kay e Ted. Mary Aldin sentiu inveja ao vê-los tão alegres. Estavam rindo e tagarelando. Afinal de contas, por que não? — pensou ela. Camilla Tressilian nada significava para Kay, e todo este acontecimento trágico era demasiado para uma jovem cheia de vida.
Tinham acabado de almoçar quando a polícia chegou. Hurstall parecia um tanto assustado ao anunciar que o Superintendente Battle e o Inspetor Leach estavam aguardando na sala de visitas.
Com bastante cordialidade o Superintendente os cumprimentou.
— Espero não estar incomodando — desculpou-se ele. — Porém preciso esclarecer um ou dois assuntos. Por exemplo: a quem pertence esta luva?
Mostrou uma pequena luva de camurça amarela e, dirigindo-se a Audrey, perguntou:
— E sua, Sra. Strange?
— Não... não é minha.
— Srta. Aldin?
— Acho que não. Não tenho nenhuma desta cor.
— Posso ver? — perguntou Kay estendendo a mão. — Não. Não é minha.
— Por favor, poderia calçá-la?
Kay tentou, mas a luva era muito pequena.
— Srta. Aldin?
Mary, por sua vez, também calçou a luva.
— Também é muito pequena para a senhorita — observou Battle. Então se voltou para Audrey. — Creio que ficará perfeita na senhora. Sua mão é menor do que as das duas outras senhoras presentes.
Audrey apanhou a luva e calçou-a em sua mão direita.
— Ela já disse, Superintendentes que não é dela — repreendeu Nevile com rispidez.
— Bem — explicou Battle. — Nesse caso, talvez ela tenha se enganado ou, até mesmo, se esquecido.
Audrey falou:
— É capaz de ser minha... as luvas são tão parecidas umas com as outras, não são?
— De qualquer forma, ela foi encontrada presa entre as plantas... com a outra luva, debaixo da sua janela, Sra. Strange.
Houve uma pausa. Audrey abriu a boca para falar, mas fechou-a em seguida. Diante do olhar fixo do Superintendente Battle, ela baixou os olhos.
Nevile levantou-se bruscamente.
— Olhe aqui, Superintendente...
— Poderia falar-lhe em particular, Sr. Strange? — perguntou Battle sério.
— Com todo o prazer. Vamos para a biblioteca. — Mostrou o caminho para os dois policiais, e assim que a porta se fechou, falou rispidamente. — Que história ridícula é essa a respeito das luvas debaixo da janela de minha esposa?
— Foram encontradas algumas coisas estranhas nesta casa, Sr. Strange — informou Battle calmamente.
— Estranhas? O que pretende dizer com isto?
— Vou lhe mostrar.
Em obediência a um gesto feito pelo tio, Leach saiu da sala e voltou trazendo um objeto muito esquisito.
Battle explicou:
— Isto, como o senhor pode ver, consiste de uma esfera de aço tirada de uma grade vitoriana... uma pesada esfera de aço. A raquete de tênis foi serrada e a pesada esfera foi presa a seu cabo. Creio que não há dúvida de que foi esta a arma que matou Lady Tressilian.
— Que horror! — exclamou Nevile estremecendo. — Mas como o senhor achou este... este pesadelo?
— A esfera foi limpa e recolocada na grade. O assassino entretanto, se descuidando, não limpou o parafuso, levando-nos a encontrar vestígios de sangue. Da mesma forma, as duas partes da raquete foram novamente fixadas com esparadrapo. Jogaram-na, então, displicentemente no armário debaixo das escadas, onde provavelmente passaria desapercebida entre outros objetos, se não fosse o caso de estarmos procurando por alguma coisa deste tipo.
— O senhor foi muito esperto, Superintendente.
— É apenas uma questão de rotina.
— Suponho que não tenham encontrado impressões digitais?
— Aquela raquete, que pelo peso pude concluir que pertença a Sra. Kay Strange, foi usada por ela e também pelo senhor, pois encontramos nela suas impressões. Entretanto, também há sinais indiscutíveis de que alguém calçando luvas tenha usado a raquete depois de vocês dois. Encontramos apenas mais uma impressão, deixada provavelmente por descuido, no esparadrapo usado para recompor a raquete. Por enquanto não direi de quem é. Antes tenho que tratar de outros detalhes.
Battle se calou por um momento, e pouco depois voltou a falar:
— Quero que se prepare para um choque, Sr. Strange. Primeiro tenho uma pergunta a lhe fazer. Está certo de que a idéia deste encontro aqui foi sua, e não da Sra. Audrey Strange?
— Audrey nada teve a ver com isto, Audrey...
A porta se abriu e Thomas Royde entrou.
— Desculpe-me pela intromissão — disse ele — mas creio que gostaria de participar da conversa.
Nevile olhou-o com uma expressão de aborrecimento.
— Sinto muito, meu velho, mas este é um assunto particular.
— Lamento! Mas não estou me importando com isto. Eu ouvi um nome entende?! O nome de Audrey.
— E que diabo você tem a ver com o nome de Audrey? — indagou Nevile perdendo a calma.
— Bem... e o que você teria a ver com isso? Ainda não disse nada de definitivo a ela, mas vim para cá com a intenção de pedi-la em casamento, o que acho que ela já sabe. E tem mais: pretendo me casar com ela.
O Superintendente Battle pigarreou. Nevile se dirigiu ao policial bruscamente.
— Perdão, Superintendente, esta interrupção...
— Eu não me importo, Sr. Strange. Tenho mais uma coisa a lhe perguntar. Aquele terno azul-marinho que o senhor usou durante o jantar, na noite do crime está com cabelos louros dentro do colarinho e nos ombros. Poderia me explicar como foram parar lá?
— Acho que são meus.
— Não. Não são seus. São cabelos de mulher, e há alguns fios de cabelos ruivo nas mangas.
— Suponho que estes sejam da minha mulher... Kay. Por acaso o senhor está insinuando que os outros são de Audrey?... É... parece-me bastante provável! Lembro-me de que uma noite no terraço prendi minha abotoadura nos seus cabelos.
— Neste caso — murmurou o Inspetor Leach — os cabelos louros deveriam estar na abotoadura.
— Que diabo está querendo insinuar com isto? — gritou Nevile.
— Também há vestígios de pó-de-arroz na parte de dentro do colarinho — observou Battle. — Primavera Naturelle N° 1: um pó-de-arroz caro e de aroma muito agradável. E não adianta querer me convencer que é o senhor quem o usa, Sr. Strange, porque não vou acreditar. A Sra. Kay Strange usa Orchid Sun Kiss, e a Sra. Audrey Strange usa Primavera Naturelle N° 1.
— O que está querendo insinuar com isto? — repetiu Nevile.
Battle se inclinou para a frente.
— Estou dizendo que a Sra. Audrey Strange usou aquele casaco em alguma ocasião. É a única explicação lógica para o fato de termos encontrado o pó nele. O senhor reparou aquela luva que eu mostrei ainda há pouco? É lógico que é dela. Aquela era a mão direita, aqui está a esquerda... — ele tirou uma luva do bolso, colocando-a em cima da mesa. Estava amassada e com manchas cor de ferrugem.
— O que é isto? — na voz de Nevile havia um quê de medo.
— Sangue, Sr. Strange — respondeu Battle com firmeza. — E repare: é a luva da mão esquerda. A Sra. Audrey Strange é canhota. Pude observar assim que a vi sentada à mesa com e xícara de café na mão direita e o cigarro na esquerda. E além do mais, o tinteiro em sua escrivaninha estava do lado esquerdo. Tudo se enquadra perfeitamente: a esfera da grade de seu quarto, as luvas debaixo da sua janela, o cabelo e o pó-de-arroz no paletó. Lady Tressilian foi atingida na têmpora direita, mas a posição da cama não permitiria que alguém ficasse do outro lado. Donde se conclui que golpear Lady Tressilian com a mão direita seria muito difícil, mas para uma pessoa canhota, esta seria a maneira normal.
Nevile riu com desdém.
— O senhor está insinuando que Audrey... Audrey seria capaz de todos esses elaborados preparativos para matar uma velha senhora com quem ela conviveu durante todos esses anos, só para colocar a mão naquele dinheiro?
Battle balançou a cabeça.
— Eu não estou insinuando nada. Sinto muito, Sr. Strange, mas o senhor precisa entender o que está se passando. Este crime foi desde o começo dirigido contra o senhor. Desde que foi abandonada, a Sra. Audrey vem alimentando o desejo de vingança. Acabou se tornando mentalmente desequilibrada. Talvez nunca tenha sido mentalmente muito forte. É possível que ela tenha pensado em matá-lo, mas isto não seria o suficiente. Finalmente teve a idéia de vê-lo enforcado por assassinato. Escolheu uma noite em que sabia que o senhor tinha discutido com Lady Tressilian. Pegou o paletó em seu quarto e usou-o ao golpear a vítima, para que assim ficasse manchado de sangue. Colocou seu taco de golfe no chão para que encontrássemos nele as suas impressões digitais, e espalhou sangue e cabelo na sua parte superior. Persuadiu-o sutilmente a vir aqui na mesma época que ela. O que o salvou foi a única coisa com que ela não podia contar... o fato de Lady Tressilian ter tocado a campainha chamando Barrett, que por acaso o viu sair de casa.
Nevile enterrou o rosto nas mãos.
— Não é verdade! Não pode ser verdade! Audrey nunca guardou rancor contra mim. O senhor compreendeu tudo errado. Ela é a pessoa mais correta, honesta... incapaz de qualquer maldade.
Battle suspirou.
— Não pretendo discutir com o senhor. Queria apenas preveni-lo. Devo pedir à Sra. Strange que me acompanhe. Tenho um mandado de prisão. É melhor arranjar-lhe um advogado.
— É um absurdo! Completamente absurdo!
— O amor se transforma em ódio muito mais facilmente
— Digo que é tudo um erro... um absurdo!
Thomas Royde o interrompeu. Sua voz era calma e agradável:
— Pare de repetir que é um absurdo, Nevile. Procure se controlar. Não vê que a única coisa que pode ajudar Audrey agora é você desistir de todas as suas idéias de cavalheirismo e dizer a verdade?
— A verdade? Você quer dizer... — gaguejou Nevile.
— A verdade sobre Audrey e Adrian — Royde voltou-se para os policiais. — Sabe, Superintendente, o senhor está equivocado. Nevile não abandonou Audrey... e sim ela é que o deixou. Fugiu com o meu irmão Adrian, que logo em seguida morreu em um acidente de automóvel. Nevile se comportou com o máximo de cavalheirismo para com ela. Combinou que se divorciariam, e que ele levaria a culpa.
— Eu não queria que o nome dela fosse arrastado na lama — murmurou Nevile mal-humorado. — Pensei que ninguém soubesse nada a este respeito.
— Adrian me escreveu contando — explicou Thomas. — Isto elimina o motivo, Superintendente. Audrey não tem por que odiar Nevile; pelo contrario, ela só tem razões para lhe ser agradecida. Ele tentou fazer com que ela aceitasse uma mesada, o que Audrey recusou. Naturalmente, quando ele quis que ela viesse e se encontrasse com Kay, ela não teve como recusar.
— O senhor está vendo? — acrescentou aflito Nevile. — Isto elimina o motivo. Thomas tem razão.
Battle continuava imperturbável.
— O motivo é apenas uma parte — disse ele. — Posso ter-me enganado, mas existem os fatos, e todos eles mostram que ela é a culpada.
— Há dois dias, todos os fatos mostravam que era eu o culpado! — afirmou Nevile de maneira significativa.
Battle pareceu um tanto hesitante.
— Bem, isto é verdade. Mas veja bem o que o senhor está me pedindo para acreditar. Está pedindo que eu acredite que existe alguém que detesta vocês dois... alguém que, se a trama armada contra o senhor falhasse, teria preparado uma trilha para nos levar até a Sra. Audrey. Pode pensar em alguém que deteste tanto o senhor quanto a sua antiga esposa?
Mais uma vez, Nevile afundou o rosto nas mãos.
— Da maneira como o senhor fala, tudo parece tão fantástico!
— Mas é fantástico! Tenho que me basear nos fatos. Se a Sra. Strange tiver alguma explicação a dar...
— Por acaso eu tive alguma explicação? — perguntou Nevile.
— Não adianta, Sr. Nevile. Eu tenho que cumprir o meu dever.
Battle levantou-se abruptamente. Ele e Leach foram os primeiros a se retirar, e logo atrás saíram Nevile e Royde. Atravessaram o hall indo para a sala de visitas. Chegando lá, pararam.
Audrey Strange levantou-se e foi até eles. Ela olhou diretamente para Battle, com os lábios entreabertos, quase num sorriso.
— É a mim que o senhor quer, não é?
Battle falou em tom muito profissional:
— Sra. Strange, tenho comigo a sua ordem de prisão pelo assassinato de Lady Tressilian, na última segunda-feira, no dia 12 de setembro. Devo preveni-la de que tudo o que disser será anotado, e poderá ser usado como prova no seu julgamento.
Audrey suspirou. Seu pequeno rosto estava calmo e puro como um camafeu.
— É quase um alívio. Estou contente que... que tudo tenha acabado!
Nevile deu um passo à frente.
— Audrey, não diga nada... nada mesmo.
— Por que não, Nevile? É tudo verdade... e estou tão cansada!
Leach suspirou fundo. Bem, o caso estava resolvido! Coisa de louco, é claro, mas pouparia um bocado de preocupação! Ele ficou imaginando o que teria acontecido com seu tio. O velho parecia ter visto um fantasma. Olhava fixamente para a pobre moça desequilibrada, como se não acreditasse no que estava vendo. Bem, tinha sido um caso interessante — pensou Leach satisfeito.
E então, num anticlímax quase grotesco, Hurstall abriu a porta e anunciou:
— O Sr. MacWhirter.
MacWhirter entrou resoluto, indo direto até Battle.
— O senhor é o policial encarregado do caso de Lady Tressilian?
— Sim, sou eu.
— Tenho uma importante declaração a fazer. Lamento não ter vindo antes, mas só agora percebi a importância do que eu vi, por acaso, na noite da última segunda-feira — ele lançou um rápido olhar em torno da sala. — Será que poderíamos conversar em algum outro lugar?
Battle dirigiu-se a Leach.
— Pode ficar aqui com a Sra. Strange?
— Sim, senhor — respondeu Leach.
Em seguida, ele se inclinou e cochichou alguma coisa no ouvido do tio:
— Venha por aqui. — disse Battle para MacWhirter, conduzindo-o até a biblioteca.
— Bem. E agora? O que significa tudo isto? Meu colega me falou que já o viu antes... no inverno passado?
— Correto — confirmou MacWhirter. — Tentativa de suicídio. Isto faz parte da minha história.
— Prossiga, Sr. MacWhirter.
— No último mês de janeiro tentei me matar, jogando-me do Stark Head. Entretanto, algo me impeliu agora, para que voltasse ao mesmo lugar. Na noite de segunda-feira subi até lá. Olhei para o mar, para Easterhead Bay e em seguida para a minha esquerda. O que significa que olhei na direção desta casa. Com o luar, eu pude ver com muita clareza.
— Continue — ordenou Battle.
— Somente hoje dei-me conta de que aquela noite tinha sido a do crime. — Inclinou-se para a frente. — Vou lhe contar o que vi.
XVI
Na realidade haviam-se passado apenas cinco minutos antes de Battle retornar à sala de visitas, entretanto, para os que lá estavam, pareceu uma eternidade.
Kay tinha, repentinamente, perdido o controle, e gritava para Audrey:
— Sabia que era você. Sempre soube que era você. Tinha certeza de que você estava tramando alguma coisa...
— Por favor, Kay — pediu Mary apressada.
— Cale a boca, Kay, pelo amor de Deus — disse Nevile rispidamente.
Ted Latimer foi até Kay, que começara a chorar.
— Procure se controlar — disse ele carinhosamente.
Virando-se para Nevile, falou com raiva:
— Parece que você não compreende que Kay tem estado sob enorme tensão! Por que não cuida dela um pouco, Strange?
— Eu estou bem — disse Kay.
— Por mim eu a levaria, agora mesmo, para longe deste bando — exclamou Ted.
O Inspetor Leach pigarreou. Como ele tão bem sabia, numa hora dessas, sempre se diziam muitos insultos. O mal é que, normalmente, depois de tudo terminado, sempre continuavam a ser lembrados.
Battle voltou para a sala. Seu rosto estava inexpressivo.
— Quer preparar algumas coisas para levar, Sra. Strange? Receio que o Inspetor Leach terá que acompanhá-la até lá em cima — informou ele.
— Eu também irei — informou Mary Aldin.
Assim que as duas mulheres se retiraram com o Inspetor, Nevile indagou aflito:
— Bem, o que desejava aquele sujeito?
— O Sr. MacWhirter contou uma história muito estranha.
— E vai servir para ajudar Audrey? O senhor continua decidido a prendê-la?
— Já lhe disse, Sr. Strange. Tenho que cumprir o meu dever.
Nevile virou-se. A ansiedade estava apagando-se do seu rosto.
— Creio que é melhor telefonar para. Trelawny.
— Isto pode esperar, Sr. Strange. Primeiro há uma certa experiência que eu quero fazer, por causa da declaração de MacWhirter. Só estou esperando que a Sra. Strange se vá.
Audrey vinha descendo as escadas, e ao seu lado estava o Inspetor Leach. Ainda havia em seu rosto aquela expressão tranqüila, distante e desligada.
Com as mãos estendidas, Nevile foi até ela.
— Audrey...
Ela, que estava com o olhar vazio, falou:
— Está tudo bem, Nevile. Eu não me importo. Não me importo com coisa alguma.
Perto da porta, estava Thomas Royde, como se fosse barrar a saída.
Um sorriso desmaiado apareceu nos lábios de Audrey. .
— O Fiel Thomas — sussurrou ela.
— Se há alguma coisa que eu possa fazer... — murmurou ele.
— Ninguém pode fazer nada — disse ela. E saiu de cabeça erguida.
Lá fora um carro da polícia e o sargento Jones aguardavam. Audrey e Leach entraram no carro.
— Linda saída! — comentou Ted Latimer.
Nevile partiu furioso para cima dele. O Superintendente Battle, habilmente, apartou-os com o corpo, e começou a falar com voz suave:
— Como eu disse, tenho uma experiência a fazer. O Sr. MacWhirter está nos esperando nas barcas. Devemos encontrá-lo daqui a dez minutos. Vamos sair numa lancha a motor. Sendo assim, é melhor que as senhoras se agasalhem bem. Em dez minutos, por favor!
Parecia um diretor de teatro, comandando o elenco no palco. Não tomou o menor conhecimento dos rostos intrigados.

Hora Zero
I
A água estava fria, fazendo com que Kay se aconchegasse mais a seu pequeno casaco de pele.
A lancha deslizava pelo rio abaixo, e mais adiante deu a volta entrando na pequena baía que dividia Gull's Point da massa sombria de Stark Head.
De quando em quando alguém esboçava uma pergunta, mas a cada vez que isso acontecia, o Superintendente Battle levantava sua grande mão, como um aviso de que a hora ainda não havia chegado. Assim, o silêncio só fora quebrado pelo ruído do motor da lancha,
Kay e Ted se encontravam de pé olhando para a água; Nevile estava afundado num canto, com as pernas para fora; Mary Aldin e Thomas Royde estavam sentados na proa. De vez em quando, todos olhavam curiosamente para a figura alta e desinteressada de MacWhirter perto da popa. Ele não olhava para ninguém, permanecendo virado de costas, com os ombros curvados.
Somente quando chegaram debaixo da pesada sombra de Stark Head é que Battle diminuiu a marcha da lancha e começou a falar.
Falava sem constrangimento e o seu tom de voz era acima de tudo ponderado.
— Este foi um caso muito curioso; um dos mais curiosos que eu já vi, e assim, gostaria de dizer-lhes algumas palavras sobre assassinatos em geral. Entretanto, o que vou dizer-lhes não é nada novo. Na realidade ouvi o jovem Daniels K.C. comentar alguma coisa a este respeito, e não ficaria surpreso se ele também já tivesse ouvido de uma outra pessoa... ele tem o costume de agir desta maneira!
— É o seguinte: quando os senhores lêem o relato de um assassinato, ou mesmo um romance baseado num assassinato, normalmente eles começam com o próprio crime. No entanto, está tudo errado. O crime começa muito antes. Ele é o ponto culminante de várias circunstâncias diferentes, todas convergindo para um determinado momento e para um determinado local. As pessoas são reunidas, vindas de todas as partes do mundo por motivos inesperados. O Sr. Royde, por exemplo, veio da Malásia; o Sr. MacWhirter está aqui porque desejava rever o local onde havia tentado o suicídio. O assassinato é o final da história, é a Hora Zero.
Fez-se uma pausa.
— Agora é a Hora Zero — repetiu Battle.
Cinco rostos se viraram em sua direção... apenas cinco, pois MacWhirter não moveu a cabeça. Cinco rostos intrigados.
Mary Aldin foi a primeira a falar:
— O senhor quer dizer que a morte de Lady Tressilian foi o clímax de uma longa série de acontecimentos?
— Não, Srta. Aldin, não estou me referindo ao assassinato de Lady Tressilian. Sua morte foi apenas uma conseqüência do principal objetivo do assassino. Estou falando sobre o assassinato de Audrey Strange.
Podia-se ouvir a respiração ofegante dos presentes. Battle ficou imaginando se, de repente, alguém estaria com medo...
— Este crime foi planejado há muito tempo... provavelmente no último inverno. Foi planejado em seus mínimos detalhes. Tinha um objetivo... um único objetivo: que Audrey Strange fosse pendurada pelo pescoço até morrer... Tudo foi astutamente arquitetado por alguém que se considerava muito esperto. Os assassinos costumam ser muito vaidosos. Primeiro foram todas aquelas provas insatisfatórias contra Nevile Strange, preparadas só para nos enganar. Depois de termos tantas provas forjadas, seria quase impossível considerarmos a hipótese de uma repetição de fatos. Entretanto, se observarmos bem, todas as provas contra Audrey Strange também poderiam ter sido forjadas. A arma tirada da lareira de seu quarto; suas luvas; a luva da mão esquerda salpicada de sangue e escondida entre as plantas debaixo de sua janela; o pó-de-arroz e também alguns fios de cabelo espalhados no colarinho do paletó; suas impressões digitais no esparadrapo, que foi tirado de seu quarto e até mesmo a natureza do golpe de canhota.
— E por último — prosseguiu Battle —, a evidência condenatória da própria Sra. Strange. Não creio que entre vocês exista alguém (exceto aquele que o sabe) que possa acreditar em sua inocência, depois da maneira como se comportou, quando a levamos presa. Naquela hora, ela praticamente admitiu a sua culpa. Talvez eu mesmo não tivesse acreditado em sua inocência se não tivesse tido minha experiência particular... Assim que a vi e a ouvi falar, fiquei muito impressionado, porque conheci uma garota que fez exatamente a mesma coisa, isto é, que se confessou culpada quando na verdade não o era. Naquele momento, Audrey Strange estava me olhando com os olhos daquela garota...
— Todavia, era preciso cumprir o meu dever. Eu sabia disto. Nós policiais temos que nos basear em evidências, e não no que pensamos ou sentimos. Entretanto posso lhes afirmar que, naquele exato momento, rezei por um milagre, porque sabia que só assim aquela pobre moça poderia se salvar. E eu consegui o milagre. Consegui-o na mesma hora! O Sr. MacWhirter, que aqui está, apareceu contando a sua história.
Fez-se uma nova pausa.
— Sr. MacWhirter, poderia repetir o que me contou?
MacWhirter se virou. Ele falou em frases curtas e precisas, cheias de convicção justamente por serem sucintas.
Fez um relato sobre o seu salvamento no penhasco em janeiro último e sobre a sua vontade de voltar ao local. E continuou falando.
— Fui até lá na noite de segunda-feira. Fiquei parado, perdido em meus pensamentos. Isto deve ter sido por volta das onze horas. Olhei em direção daquela casa naquele cabo... Gull's Point, como agora sei que se chama.
Ele fez uma pausa, e depois prosseguiu:
— Havia uma corda pendurada na janela, caindo no mar. Vi um homem subindo por ela...
Passou-se apenas um minuto para que percebessem o que ele havia dito.
Mary exclamou:
— Então foi mesmo um estranho?! Nada teve a ver com nenhum de nós. Foi um ladrão comum!
— Não se precipite — retrucou Battle. — Realmente foi alguém vindo do outro lado do rio, já que veio nadando. No entanto, era preciso que alguém de dentro da casa tivesse deixado a corda pronta para ser usada; donde se concluí que se trata realmente de alguém de Gull's Point.
— Sabemos de alguém que, naquela noite, estava do outro lado do rio — continuou Battle vagarosamente. — Alguém que não foi visto entre às 10:30 hs e 11:15 hs, e que poderia ter nadado ida e volta. Alguém que poderia ter um amigo nesta margem do rio.
— Eh, Sr. Latimer? — acrescentou ele.
Ted deu um passo para trás, gritando numa voz estridente:
— Mas eu não sei nadar! Todo mundo sabe que eu não sei nadar! Kay, diga a eles que eu não sei nadar.
— É claro que Ted não sabe nadar — gritou Kay.
— É verdade? — perguntou o Superintendente gentilmente.
Battle atravessou o barco no momento em que Ted se movia na sua direção. Houve algum movimento desajeito, e ouviu-se um barulho n'água.
— Meu Deus! — exclamou o Superintendente, preocupado. — O Sr. Latimer caiu n'água.
Battle segurou Nevile com as duas mãos, quando este se preparava para pular atrás de Ted.
— Não, não, Sr. Strange. Não há necessidade de se molhar. Dois dos meus homens estão pescando ali naquele bote. — Ele olhou para a água. — O Sr. Latimer estava falando a verdade. Realmente não sabe nadar. Agora está tudo bem. Já conseguiram pegá-lo. Peço desculpas, mas só existe uma maneira para se ter certeza absoluta de que uma pessoa não sabe nadar: é jogá-la n'água e ficar observando. Não gosto de cometer erros! Primeiro eu precisava eliminar o Sr. Latimer. O Sr. Royde tem um braço defeituoso e não poderia ter subido por aquela corda.
A voz de Battle tornou-se felina:
— Isso nos leva ao senhor, não é, Sr. Strange? Um ótimo atleta, alpinista, nadador e tudo o mais. Já foi confirmado que o senhor pegou a barca das 10:30 hs., entretanto, ninguém pode jurar que o tenha visto no Hotel Easterhead antes das 11:15 hs., apesar da sua versão de ter ficado durante este tempo todo à procura do Sr. Latimer.
Com um puxão, Nevile soltou o braço. Jogou a cabeça para trás e riu.
— Está sugerindo que eu atravessei o rio a nado e subi pela corda...
— Que o senhor já tinha deixado pendurada em sua janela — afirmou Battle.
— Matado Lady Tressilian e nadado de volta? Por que eu faria uma coisa tão fantástica? E quem preparou todas aquelas provas contra mim? Suponho que tenha sido eu mesmo!
— Exatamente — atestou Battle. — E a idéia não foi má.
— E por que eu haveria de querer matar Camilla Tressilian?
— O senhor não queria! Queria, no entanto, enforcar a mulher que o deixara por outro homem. O senhor é um tanto perturbado mentalmente. E assim o é desde criança... investiguei aquele velho caso do arco e flecha. Qualquer pessoa que o ofenda deve ser castigada, e a morte não era o suficiente para Audrey, a sua Audrey a quem amava tanto. Oh, sim! O senhor a amava antes de seu amor se transformar em ódio. Precisava pensar em algum tipo especial de morte: uma morte lenta e sofrida. E quando o senhor decidiu como ela seria, o fato de que seu plano incluiria o assassinato de uma mulher que tinha sido uma espécie de mãe para o senhor, não o preocupou nem um pouco...
Quando Nevile falou, sua voz parecia bastante calma.
— É tudo mentira. Tudo mentira. E eu não sou louco. Não sou louco.
Battle falou com desdém:
— Quando foi embora, deixando-o por outro homem, ela o atingiu profundamente, não foi? Feriu o seu orgulho. Era um absurdo pensar que ela seria capaz de abandonar uma pessoa como o senhor. Fingindo para o mundo todo que o senhor a havia abandonado, conseguiu salvar o seu orgulho. E para reforçar esta crença, ainda se casou com outra mulher. No entanto, durante este tempo todo o senhor esteve planejando o que faria contra Audrey. Não pôde pensar em nada pior do que vê-la enforcada. Realmente foi uma idéia bastante boa! Pena que não tenha tido cabeça para executá-la melhor!
Nevile mexeu os ombros, num movimento esquisito. Battle continuou:
— Infantil... toda aquela história do taco de golfe! Todas aquelas pistas grosseiras apontando para a sua pessoa. Audrey deveria saber o que o senhor estava tramando. Como ela deve ter rido ao pensar que eu não suspeitava do senhor. Vocês assassinos são uns sujeitos engraçados. Tão convencidos! Sempre achando que são muito espertos e habilidosos, quando, na verdade, são lamentavelmente infantis...
Um estranho e grotesco grito partiu de Nevile.
— Foi um plano excelente... realmente foi! O senhor nunca teria descoberto. Nunca! Se não fosse a interferência deste pretensioso e arrogante escocês idiota. Eu estudei cada detalhe... cada detalhe. Não pude evitar o que aconteceu. Como poderia saber que Royde tinha conhecimento da verdade a respeito de Audrey e Adrian? Audrey e Adrian... Maldita Audrey... Ela vai ser enforcada... o senhor tem que enforcá-la... quero que ela morra sentindo muito medo... que morra... morra. Eu a odeio. Quero que ela morra.
Sua voz alta e lamurienta se calou. Nevile se afundou em um canto e começou a chorar baixinho.
— Oh! meu Deus — disse Mary Aldin, que estava muito pálida.
Battle falou delicadamente:
— Sinto muito, mas tive que pressioná-lo. Havia poucas provas.
Nevile continuava a chorar. Seu choro parecia o de uma criança.
— Quero que ela seja enforcada. Quero que ela seja enforcada...
Mary estremeceu e se virou para Thomas Royde, que segurou suas mãos.
II
— Eu sempre senti medo — disse Audrey.
Audrey estava sentada no terraço, perto do Superintendente Battle, o qual havia retomado suas férias e se encontrava agora em Gull's Point na condição de amigo.
— Sempre tive medo... o tempo todo — repetiu Audrey.
Balançando a cabeça, Battle comentou:
— No primeiro momento em que a vi, soube que estava morta de medo. A senhora tinha aquele mesmo jeito apagado e reservado que as pessoas possuem quando estão reprimindo alguma emoção muito forte. Poderia ser amor ou ódio, mas na verdade, era medo, não era? Audrey concordou com a cabeça.
— Comecei a ter medo de Nevile pouco depois que nos casamos. Mas, sabe o que era terrível em tudo isso? É que eu não sabia o porquê. Comecei a pensar que estava ficando louca.
— Não, não era a senhora.
— Quando me casei com Nevile ele parecia tão sadio e normal, sempre maravilhosamente bem-humorado e gentil.
— Interessante — comentou Battle. — Ele desempenhava o papel de um bom desportista. É por isto que conseguia manter tão bem a calma nos jogos de tênis. Para ele, o papel de bom desportista era mais importante do que ganhar as partidas. Porém isto o mantinha sob constante tensão, o que sempre acontece quando se vive representando um papel. E assim, ele acabou se destruindo interiormente.
— O interior — murmurou Audrey com um tremor. — Sempre o interior. Nada em que se possa tocar. Às vezes havia uma palavra ou um olhar. Mas logo em seguida, eu ficava pensando que era tudo minha imaginação... Algo esquisito. E 2depois, como eu já disse, comecei a achar que eu é que deveria ser desequilibrada. E assim, continuei a me sentir cada vez mais amedrontada... um medo irracional que deixa qualquer um doente!
— Disse a mim mesma que estava ficando louca — continuou Audrey. — Mas eu não podia evitar o que estava acontecendo. Senti que faria qualquer coisa no mundo para poder fugir. Foi aí que Adrian apareceu dizendo que me amava, e eu achei que seria ótimo fugir com ele, porque assim eu ficaria a salvo... — ela fez uma pausa. — Sabe o que aconteceu? Fui ao encontro de Adrian... ele nunca apareceu... ele morreu... tive a sensação de que de alguma forma Nevile havia preparado aquilo...
— Talvez tenha — observou Battle.
Audrey olhou-o alarmada.
— Ah, o senhor acha?
— Nós nunca saberemos. Acidentes de carro podem ser preparados. Contudo não fique se afligindo com esta idéia, Sra. Strange. Provavelmente foi apenas um acidente.
— Eu... eu estava arrasada. Fui então para a Reitoria: a casa da mãe de Adrian. Íamos escrever-lhe contando tudo sobre nós, mas já que ela não chegara a saber, resolvi não lhe contar para evitar o seu sofrimento. Nevile foi até lá, logo em seguida. Foi muito amável e gentil, mas durante o tempo todo em que conversamos eu estava morrendo de medo. Ele disse que não havia necessidade de ninguém saber sabre Adrian, e que eu poderia me divorciar dele alegando os motivos que ele me indicaria mais tarde. Disse também que iria se casar novamente, logo em seguida. Fiquei muito grata por tudo aquilo. Sabia que ele achava Kay atraente. Eu esperava que tudo desse certo e que pudesse me livrar daquela estranha obsessão, pois continuava a pensar que era eu que não estava bem.
— Na verdade — prosseguiu Audrey —, nunca consegui me livrar completamente daquela sensação. Sempre achei que não escaparia. Então, certo dia encontrei Nevile no parque e ele me explicou que gostaria muito de que eu e Kay nos tornássemos amigas, e sugeriu que viéssemos todos para cá em setembro. Eu não pude recusar. Como poderia recusar, depois de tudo de bom que ele havia feito por mim?
— "Quer entrar em minha casa? Disse a aranha para a mosca" — observou Battle.
Audrey estremeceu.
— Sim, foi exatamente isso — confirmou ela.
— Ele foi muito esperto a este respeito — comentou Battle. — Protestou tão alto dizendo que a idéia tinha sido dele, que todos ficaram com a impressão de que não tinha sido.
— E então cheguei aqui... e foi como um pesadelo — disse Audrey. — Eu sabia que algo horrível iria acontecer... sabia que Nevile estava tramando alguma coisa... alguma coisa contra mim. Porém eu não sabia o quê. Acredite, eu quase fiquei louca de verdade. Estava paralisada de medo, como quando se está sonhando que algo vai acontecer e não se consegue se mover...
— Sempre achei — comentou o Superintendente — que gostaria de ver uma cobra hipnotizar um pássaro, para não deixá-lo voar. Agora, no entanto, eu já não tenho certeza se gostaria.
Audrey continuou falando:
— Mesmo quando Lady Tressilian foi assassinada, eu não compreendi o que aquilo significava. Estava confusa. Não suspeitei de Nevile. Sabia que ele não dava importância a dinheiro, e seria um absurdo pensar que ele a havia matado para herdar 50.000 libras.
— Pensei sem parar no Sr. Treves e na história que ele havia contado — disse ela. — Mesmo assim, não associei o Nevile ao caso. O Sr. Treves mencionara uma peculiaridade física que faria com que ele reconhecesse a criança da história, mesmo depois de passado tanto tempo. Eu tenho uma cicatriz na orelha, mas não pude notar nada de diferente em mais ninguém da casa.
Battle observou:
— A Srta. Aldin tem uma mecha branca. Thomas Royde tem um braço defeituoso, que poderia não ter sido apenas o resultado de um terremoto. O Sr. Ted Latimer tem um formato de cabeça bastante estranho. E Nevile Strange...
Ele se calou.
— Nevile não tem nenhuma peculiaridade física — afirmou Audrey.
— Oh, sim, tem. O dedo mínimo de sua mão esquerda é mais curto do que o da mão direita. Isto é muito raro, Sra. Strange... muito raro.
— Então era isto?
— Sim.
— E Nevile pendurou aquele cartaz na porta do elevador?
— Sim. Foi até lá e voltou rapidamente, enquanto Royde e Latimer serviam bebidas para o velho. Um golpe inteligente e simples. Tenho minhas dúvidas se conseguiríamos provar que aquilo foi um assassinato.
Mais uma vez Audrey estremeceu.
— Calma, calma — pediu Battle. — Agora tudo já acabou, minha querida. Continue falando.
— O senhor é muito esperto... há anos que não falo tanto!
— É! E este foi o seu erro. Quando foi que percebeu o jogo do Sr. Nevile?
— Eu não sei exatamente. Percebi tudo de repente. Ele havia sido inocentado, deixando assim nós todos como suspeitos. E então, subitamente, eu o vi olhando para mim... um olhar de satisfação maligna. E foi aí que compreendi! Foi então que...
Ela parou repentinamente.
— Foi então que o quê?
— Foi então que pensei que uma saída rápida seria o melhor — Audrey falou vagarosamente.
O Superintendente Battle balançou a cabeça.
— Nunca desista. Este é o meu lema.
— Oh, o senhor tem razão. Contudo, não sabe o que o medo pode fazer a uma pessoa. Fica-se paralisada... não se consegue pensar... não se pode planejar nada... fica-se apenas esperando que uma coisa terrível aconteça. E então quando acontece. — Audrey deu um sorriso rápido e inesperado. — O senhor ficaria surpreso com o alívio que se sente. Nada mais de esperas ou de medo. Acho que o senhor vai pensar que eu sou maluca, se eu lhe contar que quando veio me prender por assassinato eu não me importei nem um pouco. Nevile tinha conseguido o que queria, e agora estava tudo terminado. Senti-me tão segura indo embora em companhia do Inspetor Leach.
— Em parte, foi por este motivo que fizemos aquilo — explicou Battle. — Queria que a senhora ficasse fora do alcance daquele louco. E, além disso, se eu pretendia desmascará-lo era preciso poder contar com o choque da sua reação. E ele achando que seu plano dera certo, o choque seria muito maior.
— Se Nevile não tivesse perdido a calma, haveria alguma prova contra ele?
— Pouca coisa. Haveria o relato de MacWhirter sobre o homem que ele vira, ao luar, subindo pela corda. E para confirmar esta história, havia a própria corda, guardada no sótão, ainda ligeiramente úmida. Como sabe, estava chovendo naquela noite.
Calou-se e ficou encarando Audrey como se esperasse que ela fosse dizer alguma coisa. Já que ela permaneceu calada aparentando apenas interesse, ele prosseguiu:
— Havia também o terno listrado. Naquela noite, ele tinha se despido no escuro, na parte rochosa da margem da Easterhead Bay, enfiando o terno em um vão entre as pedras. Por acaso ele colocou o terno em cima de um pedaço de peixe deteriorado, que tinha sido levado pela maré dois dias antes. Com isto, o paletó ficou com uma mancha no ombro e com um cheiro muito forte. Descobri que houve uns rumores sobre algum problema com os esgotos no hotel. Foi o próprio Nevile quem se encarregou de espalhar o boato. Vestiu a capa de chuva por cima do terno, mas o cheiro era muito ativo. Mais tarde, viu-se atrapalhado com o terno e, na primeira oportunidade, levou-o para a lavanderia onde, muito tolamente, não deu o seu nome verdadeiro. Escolheu um nome a esmo, na realidade um que ele tinha visto no registro do hotel. E assim o terno foi parar nas mãos de seu amigo, que sendo inteligente, associou-o com o homem subindo pela corda. Você pisa num peixe deteriorado, mas não põe o ombro nele a não ser que tenha tirado a roupa para se banhar à noite; e ninguém iria se banhar por prazer numa noite chuvosa de setembro. O Sr. MacWhirter encaixou todas as peças. Ele é um homem muito engenhoso.
— Mais do que engenhoso — opinou Audrey.
— M-m, bem, talvez. Quer informações sobre ele? Posso lhe contar o que sei a seu respeito.
Audrey ouviu com atenção. Battle encontrou nela uma boa ouvinte.
— Devo muito a ele e ao senhor — disse ela.
— A senhora não me deve tanto assim — observou Battle. — Se não tivesse sido tão tolo, teria logo percebido a questão da campainha.
— Campainha? Que campainha?
— A campainha do quarto de Lady Tressilian. Sempre achei que havia algo de errado com ela. Quase decifrei tudo quando, ao descer as escadas, vi uma dessas varas usadas para abrir janelas.
Audrey ainda parecia confusa.
— Esta era toda a questão com a campainha, entende... dar a Nevile um alibi. Lady Tressilian não se lembrava por que tocara a campainha... é claro que não poderia se lembrar, pois não a tinha tocado! Fora Nevile que, com aquela vara comprida, tocara a campainha no corredor, encostando nos fios que ficavam ao longo do teto. Foi por isto que Barrett, ao descer, viu o Sr. Nevile Strange descendo as escadas e saindo, e encontrou Lady Tressilian viva e em perfeita saúde. Todo o caso da empregada era bastante suspeito. De que adiantaria dopá-la para um crime que iria ser cometido antes da meia-noite? Haveria poucas chances de que ela já estivesse convenientemente adormecida até então. Contudo, ficaria assim determinado que o assassinato fora um trabalho interno, dando algum tempo para Nevile desempenhar seu papel de principal suspeito. Em seguida Barrett dava seu testemunho e Nevile seria tão triunfalmente inocentado que ninguém se preocuparia em investigar, mais minuciosamente, a hora exata em que ele havia chegado ao hotel. Sabemos que ele não tinha atravessado de barca, e que nenhum barco fora roubado. Restava ainda a possibilidade de ter nadado. Ele é um excelente nadador, mas mesmo assim o tempo parecia pouco. Subindo pela corda que ele mesmo havia deixado pendurada, entrou em seu quarto deixando no chão uma considerável quantidade de água, como pudemos notar, mas infelizmente sem perceber o indício. Vestiu o terno azul-marinho, foi até o quarto de Lady Tressilian (não vamos entrar em detalhes aqui), o que não teria levado mais do que alguns minutos, uma vez que havia deixado previamente preparada a esfera de aço. Em seguida voltou ao seu quarto, tirou a roupa, desceu pela corda e voltou para Easterhead.
— E se Kay entrasse no quarto?
— Pode estar certa de que ela havia sido suavemente dopada. Contaram-me que logo após o jantar ela começou a bocejar. Além disso, ele tinha providenciado uma discussão com ela, para que assim ela trancasse a porta, impedindo a sua entrada.
— Estou tentando me lembrar se eu notei a falta da esfera na grade da lareira. Acho que não. Quando foi que ele a recolocou no lugar?
— Na manhã seguinte, quando a confusão começou. Depois de voltar no carro de Ted Latimer, teve toda a noite para se livrar das pistas, ajeitar tudo, reparar a raquete de tênis, etc... A propósito, ele matou a velha senhora com um golpe de esquerda. Foi por este motivo que se teve a impressão de que o crime havia sido cometido por uma pessoa canhota. Lembre-se de que, no tênis, o golpe de esquerda sempre foi o ponto forte de Nevile!
— Chega... chega... — Audrey levantou as mãos. — Não suporto mais.
Ele sorriu para ela.
— De qualquer maneira lhe fez bem desabafar. Posso ser impertinente e lhe dar um conselho, Sra. Strange?
— Sim, por favor.
— A senhora viveu durante oito anos com um criminoso lunático, e isto é o bastante para acabar com os nervos de qualquer mulher. Mas agora é preciso acordar, Sra. Strange, Não precisa mais ter medo. A senhora deve se convencer disto.
Audrey sorriu. A expressão gélida desaparecera de seu rosto. Neste momento ele era doce, um tanto tímido, mas confiante. Seus olhos estavam cheios de gratidão.
— Qual será a melhor maneira de se fazer isto?
O Superintendente Battle refletiu.
— Pense na coisa mais difícil que puder imaginar, e então comece a realizá-la imediatamente — aconselhou Battle.
III
Andrew MacWhirter estava fazendo as malas. Guardou cuidadosamente três camisas que havia se lembrado de apanhar na lavanderia. Dois ternos deixados por dois MacWhirters diferentes tinha sido demais para a balconista.
Uma batida na porta e ele gritou:
— Entre.
— Audrey entrou.
— Vim agradecer-lhe... está fazendo as malas?
— Sim. Vou-me embora hoje à noite. O navio parte depois de amanhã.
— Para a América do Sul?
— Para o Chile.
— Deixe que eu faço a mala para você — disse ela.
MacWhirter protestou, mas ela não lhe deu ouvidos. Ele a observava enquanto trabalhava ágil e metodicamente.
— Pronto — falou ela ao terminar.
— Você fez isso muito bem — observou MacWhirter.
Ficaram em silêncio. Foi Audrey quem falou.
— Você salvou minha vida. Se não tivesse visto o que viu...
Ela interrompeu o que estava dizendo, para logo depois perguntar-lhe.
— Você compreendeu de imediato, naquela noite no penhasco, quando você... você me impediu de pular... quando disse "Vá para casa, não deixarei que seja enforcada", foi naquele instante que você percebeu que tinha alguma prova importante?
— Não exatamente — respondeu MacWhirter. — Eu ainda precisava refletir.
— Então como pôde dizer o que disse?
MacWhirter sempre ficava aborrecido quando tinha que explicar a enorme simplicidade do curso de seu pensamento.
— Era exatamente aquilo o que eu queria dizer... que pretendia impedir que você fosse enforcada.
Audrey ficou ruborizada.
— E se eu fosse culpada.
— Isto não teria feito nenhuma diferença.
— Então você achava que eu era culpada?
— Eu não pensei muito no assunto. Estava inclinado a acreditar que você era inocente. Mas mesmo que não o fosse eu teria feito tudo da mesma maneira que fiz.
— Foi então naquela hora que você se lembrou do homem da corda?
MacWhirter permaneceu em silêncio por alguns minutos. Depois pigarreou.
— Suponho que é melhor que você saiba logo a verdade:eu não vi nenhum homem subindo por aquela corda. Na realidade eu não poderia ter visto, pois estive em Stark Head na noite de domingo e não na segunda-feira. Deduzi o que deveria ter acontecido pelas evidências do terno, e as minhas suposições foram confirmadas ao encontrar no sótão a corda ainda úmida.
De vermelha Audrey ficara branca. Ela perguntou incrédula:
— Toda a sua história era uma mentira?
— A polícia não teria dado crédito a uma simples dedução. Eu precisava afirmar que tinha visto o que acontecera.
— Mas... mas você poderia ter tido que jurar no tribunal.
— Eu sei.
— E você o teria feito?
— Sim.
Audrey gritou:
— E é você... você, o homem que perdeu o emprego e chegou ao ponto de se jogar de um penhasco por não querer adulterar a verdade!
— Eu tenho um grande respeito pela verdade. Entretanto, descobri que existem coisas mais importantes.
— Como o quê?
— Você — afirmou MacWhirter.
Audrey baixou os olhos. Ele pigarreou, embaraçado.
— Não precisa achar que me deve algum favor ou coisa parecida. Amanhã você não mais ouvirá falar em mim. Uma vez que Nevile confessou, a polícia não mais precisará do meu testemunho. Seja como for, ouvi dizer que ele está tão mal, que talvez não viva para comparecer ao julgamento.
— É melhor assim — comentou Audrey.
— Você já gostou muito dele, não é mesmo?
— Gostei do homem que eu pensei que ele fosse.
MacWhirter balançou a cabeça.
— Acho que todos nós já sentimos isto alguma vez na vida.
Ele continuou falando:
— Tudo terminou bem. O Superintendente Battle pôde conseguir o que queria usando a minha história...
Audrey o interrompeu, dizendo:
— Sim, ele usou realmente a sua história para conseguir o que queria. Entretanto não acredito que você tenha conseguido enganá-lo. Ele deliberadamente fechou os olhos.
— Por que está dizendo isto?
— Quando estávamos conversando, ele mencionou que tinha sido uma sorte você ter visto o que viu ao luar. Logo adiante, acrescentou algo sobre ter sido uma noite chuvosa.
MacWhirter ficou perplexo.
— Ele está certo. Duvido muito que na noite de segunda-feira eu pudesse ter visto qualquer coisa.
— Não tem importância — afirmou Audrey. — Ele sabia que o que você alegou ter visto era o que realmente tinha acontecido. Há, entretanto, uma explicação para o fato de ter provocado Nevile até desmascará-lo: no momento em que Thomas contou sobre mim e Adrian, ele suspeitou de Nevile. Sabia que tinha se fixado na pessoa errada, estando porém certo a respeito da natureza do crime. O que precisava era de alguma evidência para ser usada contra Nevile. Ele queria, como ele mesmo disse, um milagre... e você foi a resposta às preces do Superintendente Battle.
— Isto é uma coisa muito esquisita para ele dizer — falou MacWhirter secamente.
— Como você está vendo, você é um milagre. O meu milagre especial.
MacWhirter respondeu de modo grave:
— Eu não gostaria que você sentisse que me deve algum favor. Vou sair de sua vida...
— Isto é preciso? — indagou Audrey.
Ele a encarou, fazendo com que ficasse ruborizada.
— Por que não me leva com você? — pediu ela.
— Você não sabe o que está dizendo!
— Sim, sei. Estou fazendo algo muito difícil... mas algo que para mim tem mais importância do que a própria vida ou a morte. Sei que temos pouco tempo. A propósito, sou muito convencional e gostaria de me casar antes de partirmos.
— Naturalmente — disse MacWhirter, profundamente chocado. — Você não imaginou que eu fosse capaz de lhe propor uma coisa diferente.
— Estou certa de que não — assegurou Audrey.
— Eu não sou o seu tipo — observou MacWhirter. — Pensei que se casaria com aquele sujeito calado, que gosta de você há tanto tempo.
— Thomas? Querido e fiel Thomas! Ele é fiel demais. Manteve-se leal à imagem da garota que amou anos atrás. Porém a pessoa de quem ele realmente gosta é Mary Aldin, apesar dele ainda não saber disto.
MacWhirter aproximou-se dela, e falou gravemente:
— Você está falando sério?
— Sim. Quero ficar com você para sempre e nunca mais sair do seu lado. Se for embora, jamais encontrarei alguém como você, e meus dias futuros serão muito tristes.
MacWhirter respirou fundo. Pegou a carteira e examinou cuidadosamente o seu conteúdo.
— Uma licença especial de casamento custa caro. Amanhã cedo vou ter que ir ao banco.
— Eu poderia lhe emprestar algum dinheiro — murmurou Audrey.
— Você não vai fazer nada disto. Quando me casar, eu pago a licença de casamento. Compreendeu?
— Não precisa ficar tão sério — disse Audrey suavemente.
Chegando mais perto dela, MacWhirter falou carinhosamente:
— Na última vez em que a tive em meus braços, você parecia um pássaro, debatendo-se para fugir. Agora nunca mais a deixarei fugir...
















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1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
Se quiser outros títulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, será um prazer recebê-lo em nosso grupo.

2 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
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A CASA TORTA
— Quando digo que Brenda provavelmente o
matou, estou consciente de que isso não passa
de um desejo. Tenho que saber a verdade.
Preciso saber. Preciso saber em benefício de
minha própria paz de espírito. Mas o fato é
que tenho medo... medo... muito medo!
COLEÇÃO AGATHA CHRISTE.



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AGATHA CHRISTIE
A CASA TORTA
Tradução de
CARMEN BALLOT
9ª edição


















EDITORA
NOVA
FRONTEIRA





Título do original em inglês
CROOKED HOUSE
© 1948, 1949 by Agatha Christie Mallowan
Capa
ROLF GUNTHER BRAUN
Revisão
A. TAVARES
Direitos adquiridos para a língua portuguesa pela
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Maria Angélica, 168 — Lagoa — CEP 22461 — Tel. 286-7822
Endereço Telegráfico: NEOFRONT
Rio de Janeiro — RJ
Proibida a exportação para Portugal
e países africanos de língua portuguesa

LISTA DOS PERSONAGENS
Charles Hayward
Seu amor por Sophia levou-o a tentar desvendar o mistério que pairava sobre a Casa Torta.
Sophia Leonides
Neta do velho Aristide — apesar do medo era uma moça decidida.
Sir Arthur Hayward
Pai de Charles, Comissário-Assistente da Scotland Yard. Ele acha que a melhor maneira de conseguir informações é ficar à escuta...
Inspetor-Chefe Taverner
O braço direito de Sir Arthur. Acredita que remexer o assunto é sempre útil.
Edith de Haviland
Não havia dúvidas de que ela odiava o velho Aristide, seu cunhado, mas talvez ela também o amasse...
Philip Leonides
Pai de Sophia, frio como aço, por fora, mas por dentro cheio de paixões que bem podiam ser homicidas.
Magda Leonides
Mãe de Sophia, uma atriz que sabia representar diversos papéis.
Roger Leonides
O filho mais velho de Aristide, um homem de temperamento violento.
Clemency Leonides
A esposa de Roger, uma cientista. Era impossível saber onde a levaria o amor pelo marido.
Brenda Leonides
A jovem segunda esposa de Aristide. Talvez ela quisesse ser viúva...
Laurence Brown
Ele achava Brenda extremamente gentil... e talvez, ele também quisesse que ela fosse viúva.
Eustace Leonides
Irmão de Sophia, um rapaz que tinha um caráter tão torto como a Casa Torta.
Josephine Leonides
Irmã de Sophia, a mais nova do clã dos Leonides — e um detetive em potencial.

Capítulo 1
EU CONHECI Sophia Leonides no Egito, lá para o fim da guerra. Ela ocupava um cargo de muita responsabilidade num dos departamentos do Ministério do Exterior ali sediados. Eu a vi pela primeira vez em missão oficial e reparei logo na eficiência que a elevara à posição que ocupava, apesar de sua juventude (ela estava, naquela época, com apenas vinte e dois anos).
Além de ser uma mulher muito bonita, tinha um espírito muito vivo e um senso de humor perfeito que eu achei deliciosos. Tornamo-nos amigos. Eu gostava de conversar com ela e nos divertíamos muito quando saíamos juntos para jantar e dançar.
Disso tudo eu sabia — mas somente ao ser transferido para o Oriente, no final da guerra na Europa, foi que me ocorreu outra coisa: que eu amava Sophia e queria casar-me com ela.
Jantávamos no Shepheard's quando fiz essa descoberta. Não foi bem uma surpresa, e sim, o reconhecimento de um fato com que já me familiarizara. Olhei-a com novos olhos — mas percebi que já sabia disso há muito tempo. Gostei do que vi. Os cabelos escuros anelados que brotavam orgulhosamente do alto da testa, os olhos azuis muito vivos, o queixinho quadrado e agressivo, o nariz reto. Gostei do costume cinza-claro, bem talhado, e da blusa branca, pregueada. Ela parecia inglesa da cabeça aos pés e isto ainda mais me atraiu, depois de três anos longe da terra natal. Ninguém, pensei, poderia ser mais britânico do que Sophia — e ao mesmo tempo em que pensava nisso, indaguei comigo mesmo se, de fato, ela era, ou melhor, poderia ser tão inglesa quanto aparentava. As coisas reais teriam acaso a mesma perfeição de um desempenho no palco?
Fiquei pensando nisso enquanto conversávamos, debatendo idéias, nossas preferências e desagrados, o futuro, os amigos próximos e os conhecidos. Sophia jamais mencionara seu lar ou sua família. Sabia tudo a meu respeito (era, como eu já disse, uma boa ouvinte), mas sobre ela eu nada Sabia Acreditava que ela tivesse uma família de classe, mas até então eu jamais percebera a omissão.
Sophia perguntou em que eu estava pensando.
— Em você — respondi com franqueza.
— Eu percebo — disse ela. E deu-me a impressão de haver percebido mesmo.
— Talvez não voltemos a nos ver por uns dois anos — falei. — Não sei quando voltarei à Inglaterra, mas assim que voltar, a primeira coisa que farei será telefonar-lhe, vê-la e pedi-la em casamento.
Ela aceitou isso sem um piscar de olhos. Sentada ao meu lado, continuou fumando, sem me olhar.
Por um ou dois minutos temi que não me houvesse compreendido.
—Ouça — falei, — só há uma coisa que eu estou determinado a fazer: é não pedir a você que se case comigo agora. Seria um gesto precipitado. Primeiro porque você poderia recusar e eu, me sentindo infeliz, provavelmente seria vítima de alguma mulher horrorosa só para curar a minha vaidade ferida. E se você não disser não, que poderíamos fazer? Casar e nos separarmos logo depois? Noivar e, longe um do outro, esperar tanto tempo? Não desejaria amarrá-la a um compromisso desses. Você talvez encontrasse outro e se sentisse obrigada a ser "fiel". Estamos envolvidos numa atmosfera febril, do tipo "resolva logo hoje porque amanhã pode ser tarde demais". Casamentos e amores surgem e se desfazem à nossa volta. Preferia sentir que você há de voltar para casa, livre e independente, e que, adaptada ao novo mundo de após-guerra, decidiria então o que fazer de sua vida. O que existe entre nós, Sophia, tem de ser permanente. Assim é que eu encaro o casamento.
— E eu também — disse Sophia.
— Por outro lado — continuei — acho-me no direito de comunicar a você como eu... bem... quais são os meus sentimentos.
— Mas sem uma declaração romântica? — murmurou Sophia.
— Querida... não está entendendo? Esforcei-me para não dizer que a amo...
Ela me interrompeu.
—Entendo sim, Charles. E eu gosto da sua maneira
engraçada de fazer as coisas. Você pode procurar-me quando voltar — se ainda quiser me ver...
Foi a minha vez de interromper:
— Quanto a isto não há dúvida.
— Existe sempre uma dúvida acerca de tudo neste mundo, Charles. Pode sempre surgir um fator imprevisível que transtorne nossos planos. A propósito, você não sabe muita coisa a meu respeito, não é?
— Nem mesmo sei onde você vive na Inglaterra.
— Vivo em Swinly Dean.
Acenei a cabeça à menção do bem conhecido subúrbio de Londres, que se orgulha dos três excelentes campos de golfe para os financistas da cidade.
Sophia acrescentou suavemente, em voz divertida: "Numa casinha torta..."
Devo ter demonstrado alguma surpresa, pois ela riu e explicou-se com a citação: "E viveram todos juntos numa casinha torta." Somos nós. Não que a casa seja pequena, mas é definitivamente torta... o telhado descendo para os oitões e as vigas visíveis entre os tijolos!
— Você faz parte de uma família grande? Tem irmãos e irmãs?
— Um irmão, uma irmã, mãe, pai, um tio, uma tia por casamento, um avô, uma tia-avó e uma madrasta-avó!
—Deus do Céu! — exclamei um tanto surpreso. Ela riu.
— Claro que normalmente não vivemos todos juntos. A guerra e os bombardeios em massa nos reuniram... mas não sei bem... — ela franziu a testa, pensativa — talvez espiritual mente a família sempre tenha morado junta... sob a vigilância e a proteção de meu avô. É uma personalidade, o meu avô. Tem mais de oitenta anos, cerca de um metro e meio, mas todo mundo parece apagar-se a seu lado.
— Ele parece interessante — eu disse.
— E é mesmo. É um grego de Smyrna. Aristide Leonides — e ela acrescentou com um piscar de olhos: — Extremamente rico.
— Alguém ainda conseguirá ser rico, depois que esta guerra acabar?
— Meu avô, sim — disse Sophia com segurança; — essas táticas do gênero "vamos explorar os ricaços" não têm efeito algum sobre ele. Acaba explorando os exploradores.
E acrescentou:
— Eu me pergunto se você gostará dele.
— Você gosta? — eu perguntei.
— Mais do que qualquer outra pessoa no mundo — disse Sophia.

Capítulo 2
ISTO SE PASSOU uns dois anos antes de eu retornar à Inglaterra. Não foram anos fáceis. Escrevi a Sophia e tive notícias dela com muita freqüência. Suas cartas, tal como as minhas, não eram cartas de amor. Eram cartas escritas por amigos íntimos, expunham idéias e pensamentos e traziam comentários sobre o curso diário da vida. Entretanto, eu sabia que, no que me tocava, e acreditava também que em relação a Sophia — nosso sentimento mútuo crescia e se estreitava.
Voltei à Inglaterra num suave dia cinzento de setembro. As folhas das árvores estavam douradas à luz do crepúsculo. O vento soprava em remoinhos brincalhões. Ao descer no aeroporto enviei um telegrama para Sophia.
"Acabo de chegar. Espero-a para jantar Mario's às nove. Charles."
Umas duas horas depois eu estava sentado lendo o Times. E percorrendo a coluna de Nascimentos, Casamentos e Óbitos, dei com o nome Leonides:
A 19 de setembro, em Três Oitões, Swinly Dean, Aristide Leonides, idolatrado esposo de Brenda Leonides, aos oitenta e cinco anos. Profundos pêsames.
Havia outro anúncio imediatamente depois:
Leonides. De repente, em sua residência os Três Oitões, Swinly Dean, Aristide Leonides. Seus filhos e netos estão profundamente consternados. Flores para a igreja de St. Eldred, Swinly Dean.
Achei os dois anúncios curiosos. Parecia que a falta de providências em comum resultara numa dualidade. Mas minha principal preocupação era Sophia. Apressei-me em enviar-lhe um segundo telegrama:
"Acabo ver notícias morte seu avô. Lamento muito. Informe quando poderei vê-la. Charles"
Um telegrama de Sophia chegou às seis em ponto à casa de meu pai. Dizia:
"Estarei Mario's às nove. Sophia."
O pensamento de reencontrar Sophia deixou-me nervoso e excitado. Nos ponteiros do relógio o tempo passava com uma lentidão de enlouquecer. Cheguei ao Mario's vinte minutos adiantado. Sophia só chegou cinco minutos depois do combinado.
É sempre um choque encontrar de novo uma pessoa a quem não se vê há muito tempo, mas que permaneceu viva em nossa lembrança durante esse período. Quando finalmente Sophia apareceu na porta giratória, nosso encontro parecia completamente irreal. Ela vestia-se de preto, o que, de uma maneira curiosa, me surpreendeu: grande número de mulheres estava também de preto, mas eu pusera na cabeça que o preto era definitivamente um sinal de luto — e surpreendeu-me que Sophia fosse o tipo de pessoa que usasse luto — mesmo por um parente próximo.
Bebemos uns coquetéis e fomos, em seguida, para uma mesa. Falávamos depressa e febrilmente — pedindo notícias dos velhos amigos dos dias no Cairo. Era uma conversa artificial, mas nos fazia vencer o embaraço inicial. Expressei meu pesar pela morte de seu avô e Sophia disse baixinho que a morte fora "muito súbita". Depois retornamos às reminiscências. Comecei a sentir, inquieto, que algo não se ajustava bem algo quero dizer, além do primeiro embaraço natural do reencontro. Havia alguma coisa errada, definitivamente errada, com a própria Sophia. Iria ela dizer-me, por acaso, que encontrara outro homem de quem gostara mais? Que o seu sentimento por mim fora "um erro"?
Não sei por que, mas não acreditei nessa possibilidade, embora eu ainda não soubesse o que havia. Continuamos com a nossa conversa artificial.
Então, de repente, enquanto o garçom punha o café na mesa e se retirava com uma reverência, tudo começou a entrar em foco. Ali estavam Sophia e eu, sentados juntos, como acontecera tantas vezes diante de uma mesinha num restaurante qualquer. Os anos de nossa separação não haviam transcorrido jamais.
—Sophia — eu disse.
E imediatamente ela respondeu:
—Charles.
Soltei um profundo suspiro de alívio.
— Graças a Deus acabou tudo — falei. — O que houve conosco?
— Provavelmente culpa minha. Fui uma tola.
— Mas agora está tudo bem?
—Sim, está tudo bem agora.
Sorrimos um para o outro.
—Querida! — disse. E depois: — Quando você se casará comigo?
O sorriso dela morreu. Aquilo, fosse o que fosse, voltara.
— Não sei — disse. — Não estou certa, Charles, de que eu possa casar-me com você.
— Mas Sophia! Por que não? Você acha que não me conhece direito? Precisa de tempo para se habituar outra vez à minha presença? Ou existe algo mais? Não... — suspendi a frase. — Sou um tolo. Não é nenhuma dessas coisas.
— Não, não é — sacudiu a cabeça. Aguardei. Ela disse em voz baixa:
— É a morte de meu avô.
— A morte de seu avô? Mas por quê? Meu Deus, que diferença isto pode fazer? Você não quer dizer... certamente não imagina... que haja uma questão de dinheiro? Ele não lhe deixou nada? Olhe aqui, querida...
— Não é dinheiro — mostrou um sorriso fugaz. — Creio que você me aceitaria "com a roupa do corpo" como diz o velho ditado. E meu avô nunca perdeu dinheiro na vida.
— Então de que se trata?
— É apenas a sua morte... sabe, Charles? eu creio que ele não tenha apenas... morrido. Creio que talvez tenha sido assassinado...
Olhei-a fixamente.
— Mas... que idéia fantástica! O que a levou a pensar assim?
— Não fui eu quem pensou. Foi o médico que começou.
Não quis assinar a certidão de óbito. Vão fazer uma autópsia. Ficou claro que suspeitam de alguma coisa errada.
Não argumentei com Sophia. Ela tinha boa organização mental e podia-se confiar em quaisquer conclusões a que houvesse chegado.
Ao invés de contradizê-la, apressei-me a dizer:
—As suspeitas podem ser injustificadas. Mas pondo isto de lado, supondo que sejam válidas, como isto afetaria a nós dois?
— Pode afetar sob certas circunstâncias. Você está no serviço diplomático. Eles são muito rigorosos a respeito das esposas. Não... por favor, não vá dizer as coisas que está prestes a dizer. Seu impulso é dizê-las e eu acredito realmente na sua sinceridade. Teoricamente, concordo com elas. Mas sou um bocado orgulhosa... sabe? Muito orgulhosa. Quero que o nosso casamento seja uma boa coisa para todos dois... não quero representar a metade de um sacrifício a bem do amor! E, como eu falei, talvez não haja motivos para preocupações...
— Quer dizer que o médico... talvez tenha cometido um engano?
— Mesmo se não houver, pouco importa... se foi a pessoa certa que matou meu avô.
— Que pretende dizer, Sophia?
— Sei que isto é rude mas, acima de tudo, devemos ser francos.
Ela antecipou-se às minhas palavras.
—Não, Charles, não direi mais nada. Provavelmente já falei demais. Mas eu estava determinada a vir encontrar-me com você esta noite... a vê-lo pessoalmente e fazê-lo compreender. Não podemos combinar coisa alguma até que esse assunto se esclareça.
— Pelo menos conte-me alguma coisa.
Ela abanou a cabeça.
— Não quero.
— Mas Sophia...
— Não, Charles. Não quero que você nos veja segundo o meu ângulo. Quero que nos conheça imparcialmente, de um ponto de vista externo.
— E como poderei fazer tal coisa?
Ela olhou-me, um brilho estranho nos claros olhos azuis.
—Você o conseguirá através de seu pai.
Eu contara a Sophia, no Cairo, que meu pai era Comissário-Assistente da Scotland Yard. Ainda desempenhava o cargo. Ao ouvir isto senti um arrepio.
— É tão grave assim?
— Eu acho. Está vendo aquele homem sentado à mesa, sozinho, perto da porta... aquele de tipo simpático e pacato de ex-soldado?
— Sim.
— Ele estava na plataforma de Swinly Dean, esta tarde, quando entrei no trem.
— Quer dizer que ele a seguiu até aqui?
— Sim. Acho que estamos todos... como é que se diz mesmo?... Sob suspeita. Insinuaram que seria melhor não sair mos de casa. Mas eu estava decidida a ver você — o queixinho quadrado de Sophia avançou, agressivo. — Saí pela janela do banheiro e escorreguei pelo cano d'água.
— Querida!
— Mas a polícia é muito eficiente. E, naturalmente, havia o telegrama que eu enviei a você. Bem... não importa... estamos aqui juntos... Mas doravante, temos de agir separados.
Fez uma pausa e em seguida acrescentou:
— Infelizmente... não há dúvida... acerca do amor que sentimos um pelo outro.
— Dúvida alguma — disse eu; — e não diga "infelizmente". Você e eu sobrevivemos a uma guerra mundial, escapamos muitas vezes da morte iminente... e não vejo por que a morte repentina de um ancião... que idade ele tinha, a propósito?
— Oitenta e cinco.
— Claro. Saiu no Times. Se quer saber a minha opinião, ele morreu apenas de velhice e qualquer clínico geral que se preze aceitaria o fato.
— Se você conhecesse meu avô — disse Sophia, — ficaria surpreso de que ele morresse de alguma coisa!

Capítulo 3
EU SEMPRE demonstrara um certo interesse pelas atividades policiais de meu pai, mas não estava preparado para a possibilidade de um interesse direto e pessoal nelas.
Ainda não vira o Velho. Não estava em casa quando cheguei, e depois de um banho, de fazer a barba e trocar de roupa, eu saíra para me encontrar com Sophia. Quando voltei, Glover me disse que ele estava em seu gabinete.
Estava sentado à escrivaninha, a testa franzida sobre um monte de papéis. Pôs-se imediatamente de pé quando entrei.
—Charles! Sim senhor! Sim senhor! Faz tanto tempo!
Nosso encontro, após cinco anos de guerra, teria desapontado a um francês. Mas na verdade, toda a emoção do reencontro fora acentuada. O Velho e eu nos queríamos bem e nos compreendíamos perfeitamente.
—Tenho uísque — disse ele. — Peça quando quiser. Desculpe eu estar ausente quando você chegou aqui. Encontro-me enterrado até as orelhas em trabalho. O diabo de um caso que mal começou ainda.
Recostei-me na cadeira e acendi um cigarro.
—Aristide Leonides? — perguntei.
As sobrancelhas dele baixaram sobre os olhos. Atirou-me um olhar rápido, avaliador. Sua voz era polida e dura como o aço.
— O que o faz pensar assim, Charles?
— Estou certo, então?
— Como veio a saber?
— Informações recebidas.
O Velho esperou.
— Minhas informações — eu disse — vieram da própria casa.
— Vamos, Charles, desembuche.
— Você pode não gostar. Conheci Sophia Leonides no Cairo. Apaixonei-me por ela. Vou casar-me com ela. Encontrei-a esta noite e jantamos juntos.
— Jantou com ela? Em Londres? Eu só queria saber como conseguiu. A família teve ordens... polidamente, é claro, de não sair.
— Isso mesmo. Ela escorregou pelo cano da janela do banheiro.
Os lábios do Velho contraíram-se por um instante num sorriso.
— Ela parece ser uma jovem de certos recursos.
— Mas a sua força policial é bem eficiente — eu disse. — Um tipo simpático, com ar de recruta, seguiu-a ao Mario's. Devo constar dos relatórios que você recebeu. Um metro e setenta e oito, cabelos castanhos, olhos castanhos, terno azul escuro de listrinhas etc...
O Velho olhou-me com dureza.
— Isto é... sério?
— Sim. É sério, papai.
Houve um momento de silêncio.
— Você se importa? — perguntei.
— Não me teria importado... uma semana atrás. A família é bem estabelecida... a moça terá dinheiro... e eu conheço você. Sei que não perde a cabeça facilmente. De qualquer modo...
— Sim, papai?
— Pode dar tudo certo, se...
—Se o quê?
Se a pessoa certa o matou.
Era a segunda vez naquela noite que eu ouvia aquela frase. Comecei a me interessar.
—Mas quem é a pessoa certa?
Ele me dirigiu um olhar penetrante.
— O que é que você sabe do caso?
— Nada.
— Nada? — pareceu surpreso. — A moça não contou?
— Não. Ela disse que era melhor eu ver tudo... de um ponto de vista próprio.
— Eu gostaria de saber a razão disto.
— Não é óbvio?
— Não, Charles. Não creio que seja.
Andou pela sala, a testa franzida. Acendera um charuto e o charuto se apagara. Isso mostrava como ele estava inquieto.
— O que sabe você da família? — perguntou de supetão.
— Bolas! Sei que havia o velho e uma porção de filhos e netos e cunhados. As ramificações não ficaram claras na minha cabeça — fiz uma pausa e depois disse: — Seria melhor você me dar uma idéia, papai.
— Sim — disse e sentou-se. — Muito bem, então... começarei do princípio... com Aristide Leonides. Ele chegou à Inglaterra quando tinha vinte e quatro anos.
— Um grego de Smyrna.
— Também sabia disto?
— Sim, mas é tudo quanto sei.
A porta abriu-se e Glover entrou para dizer que o Inspetor-Chefe Taverner estava ali.
—Ele está encarregado do caso — disse meu pai. — Convém mandá-lo entrar. Andou investigando a família. Sabe mais a respeito do que eu.
Perguntei se a polícia local convocara a Scotland Yard.
—A jurisdição é nossa. Swinly Dean está na Grande Londres.
Fiz um aceno quando o Inspetor-Chefe Taverner entrou na sala. Conhecia Taverner de muitos anos atrás. Ele me cumprimentou com cordialidade e congratulou-se com a minha volta.
— Estou pondo Charles dentro do quadro — disse o Velho. — Corrija-me se eu errar, Taverner. Leonides chegou a Londres em 1884. Instalou um pequeno restaurante no Soho. Deu certo. Ele partiu para outro. Em breve possuía sete ou oito. Todos rendiam dinheiro imediatamente.
— Jamais cometeu um erro em tudo quanto se meteu — disse o Inspetor Taverner.
— Tinha um instinto natural — disse meu pai. — Por fim, estava por trás de quase todos os famosos restaurantes de Londres. Entrou então no negócio de fornecimento para clubes e hotéis, em grande escala.
— Também andou metido em muitos outros negócios — disse Taverner. — Comércio de roupas usadas, lojas de jóias baratas, um monte de coisas. Naturalmente — acrescentou, pensativo — ele sempre foi um espertalhão.
—Quer dizer que era desonesto?
Taverner sacudiu negativamente a cabeça.
— Não, não chego a tanto. Esperto, sim... mas não trapaceiro. Nunca fez nada fora da lei. Mas era o tipo de sujeito que pensava em todas as formas de tangenciar a lei. Embolsou uma fortuna dessa maneira na última guerra, embora fosse um velho. Nada do que fez era ilegal, mas sempre que se envolvia numa coisa, precisava-se regularizar uma lei a respeito, se entende o que eu quero dizer. E quando a lei chegava, ele já havia passado a outra atividade.
— Não parece um caráter dos mais atraentes — comentei.
— É engraçado, mas ele era simpático. Tinha personalidade. Sentia-se a personalidade do homem. Afora isso, nada mais possuía digno de nota. Um gnomo... um Sujeitinho horroroso mas magnético. As mulheres sempre caíram por ele.
—Fez um casamento surpreendente — disse meu pai. — Desposou a filha de um nobre rural, um M.F.H.1
1 Master of Foxhounds — Mestre de Caça à Raposa (N. do T.).
Ergui as sobrancelhas.
—Dinheiro?
O Velho abanou a cabeça.
— Não, foi um caso de amor. Ela o conheceu durante as compras para o banquete do casamento de uma amiga e se apaixonou. Seus pais deram o contra mas ela estava determinada a tê-lo. Já disse, o homem tinha mesmo charme... algo exótico e dinâmico que a atraiu. E ela andava entediada com os cavalheiros de sua própria classe.
— E o casamento foi feliz?
— Muito feliz, por estranho que pareça. Naturalmente seus respectivos amigos não se misturaram (naquela época o dinheiro não sobrepujava ainda as distinções de classes), mas isto não impediu de serem felizes nem pareceu aborrecê-los. Viviam sem amigos. Ele construiu uma casa suntuosa em Swinly Dean, moraram ali e tiveram oito filhos.
— Na verdade, uma autêntica crônica familiar.
— O velho Leonides foi muito esperto ao escolher Swinly Dean. O lugar mal começava a entrar na moda. O segundo e o terceiro campos de golfe ainda não tinham sido construídos. Havia por lá uma mistura de Velhos Habitantes Tradicionais, apaixonados pelos seus jardins, de que muito se orgulhavam e que simpatizaram com a Sra. Leonides, e os ricaços da cidade que desejavam entrar em contato com Leonides; assim, o casal pôde escolher seus amigos. Foram perfeitamente felizes, acredito, até que ela morreu de pneumonia em 1905.
— Deixando-o com oito filhos?
— Um morreu na infância. Dois foram mortos na Primeira Guerra. Uma filha casou-se e foi viver na Austrália, onde faleceu. Uma filha solteira morreu num acidente de automóvel. Outra, faleceu há um ou dois anos. Ainda há dois vivos — o filho mais velho, Roger, que é casado mas não tem descendência, e Philip, que desposou uma atriz famosa e tem três filhos — sua Sophia, Eustace e Josephine.
— E vivem todos nessa... como é mesmo?... Três Oitões?
— Sim. A casa de Roger Leonides foi bombardeada no começo da guerra. Philip e sua família passaram a morar lá em 1938. E há uma tia mais idosa, Miss de Haviland, irmã da primeira Sra. Leonides. Ela aparentemente sempre detestou o cunhado, mas quando a irmã morreu julgou do seu dever aceitar o convite para morar com ele e cuidar das crianças.
— É uma pessoa que cumpre à risca seus deveres — disse o Inspetor Taverner. — Mas não costuma mudar de opinião acerca dos outros. Sempre desaprovou Leonides e seus métodos...
— Bem — disse eu, — a casa parece bem movimentada. Na sua opinião, quem o assassinou?
Taverner sacudiu a cabeça.
— É cedo — disse, — muito cedo para se saber.
— Vamos Taverner — animei-o. — Aposto como você já sabe quem foi. Não estamos no tribunal, homem!
— Não — disse Taverner, abatido. — E talvez lá não cheguemos.
— Quer dizer que talvez ele não tenha sido assassinado?
— Não é isto. Ele foi assassinado, sim. Envenenado. Mas você sabe como são esses casos de envenenamento. Muito difícil recolher a prova. Coisa muito complicada. Todas as possibilidades parecem apontar numa direção...
— É isto que eu tentava dizer. Você já tem tudo arrumado na cabeça, não tem?
—Trata-se de uma probabilidade muito forte. Uma dessas coisas óbvias. O palco perfeito. Mas eu não sei ainda, creia. É complicado.
Olhei esperançoso para o Velho.
Ele disse devagar:
— Em casos de homicídio, como você sabe, Charles, o óbvio é geralmente a solução correta. O velho Leonides casou-se outra vez, há dez anos.
— Aos setenta e cinco?
— Sim, com uma moça de vinte e quatro anos.
Assobiei.
— Que espécie de moça?
— Uma moça empregada numa casa de chá. Respeitável, em todos os sentidos... de boa aparência, com um jeitinho anêmico, apático.
— E ela é a possibilidade forte?
— É o que eu digo — falou Taverner. — Ela tem apenas trinta e quatro anos, agora... uma idade perigosa. Gosta de vida fácil. E há um rapaz na casa. Professor dos netos. Não esteve na guerra. Caso de coração fraco, ou coisa que o valha. São íntimos, unha-e-carne.
Olhei-o pensativamente. Tratava-se sem dúvida de um velho quadro familiar. A mistura de sempre. E a segunda Sra. Leonides era, conforme meu pai acentuara, muito respeitável. Em nome da respeitabilidade muitos crimes tinham sido cometidos.
— Com que foi? — perguntei. — Arsênico?
— Não. Ainda não recebemos o laudo do perito mas o médico acha que é eserina.
— Um pouco incomum, não é? Deve ser fácil descobrir o comprador.
— Não neste caso. Pertencia à vítima. Um colírio.
— Leonides sofria de diabete — disse meu pai. — Tomava injeções regulares de insulina. A insulina vem em frasquinhos com tampa de borracha. Uma agulha hipodérmica é enfiada no tampão de borracha e a injeção preparada.
Adivinhei o que se seguiria.
— E não havia insulina no frasco, e sim eserina?
— Exato.
— E quem lhe aplicou a injeção? — perguntei.
— A esposa.
Compreendi então o que Sophia quisera dizer ao mencionar a "pessoa certa".
Perguntei:
— A família dá-se bem com a segunda Sra. Leonides?
— Não. Ao contrário, acho que mal se falam.
Tudo parecia mais claro, cada vez mais claro. Todavia o Inspetor Taverner também dava mostras claras de insatisfação.
— Por que não está satisfeito? — perguntei-lhe.
— Se ela cometeu o crime, Sr. Charles, teria sido muito fácil pôr no lugar depois um frasco autêntico de insulina. De fato, se é a culpada, não posso imaginar por que cargas d'água não agiu assim.
— Sim, parece lógico. Havia muita insulina ao alcance?
— Ah, uma porção de frascos cheios e vazios. E se ela houvesse recorrido à insulina, haveria uma possibilidade em dez de o médico identificar o veneno. Sabe-se muito pouco das aparências post-mortem de um envenenamento por eserina. Mas como veio a se examinar a insulina (para o caso de ter sido administrada uma dose errada, ou algo no gênero), não se tardou a constatar que não era insulina.
— Neste caso, parece — disse eu, pensativamente, — que a Sra. Leonides ou foi muito estúpida... ou talvez muito esperta.
— Quer dizer...
— Que ela pode ter contado com a sua conclusão de que ninguém poderia ser tão estúpido a este ponto... como ela parece ter sido. Quais são as alternativas? Há outros... suspeitos?
O Velho respondeu calmamente:
— Praticamente qualquer pessoa da casa poderia ter cometido o crime. Havia sempre um bom estoque de insulina... pelo menos, para uns quinze dias. Um dos vidros podia ter sido falsificado e devolvido ao lugar, na certeza de que viria a ser usado no devido tempo.
— E alguém tinha, mais ou menos, acesso aos frascos?
— Não estavam trancados. Eram guardados numa prateleira especial do armário de remédios, no banheiro do Sr. Leonides. Todos da casa entravam e saíam dali livremente.
—Qualquer motivo em especial?
Meu pai suspirou.
— Meu caro Charles, Aristide Leonides era fabulosamente rico! Gastava muito dinheiro com a família, é verdade, mas talvez alguém tenha querido mais.
— Mas quem deveria querer mais seria a atual viúva.
O admirador dela tem dinheiro?
— Não. É pobre como um rato de igreja.
Alguma coisa estalou na minha cabeça. Lembrei-me da citação de Sophia. De repente recordei o verso inteiro da canção de ninar:
Era uma vez um homem torto que andou por uma estrada torta
E achou uma moeda torta junto a uma porteira torta
Ele tinha um gato torto que caçou um rato torto
E viveram todos juntos numa casinha torta.
Eu disse para Taverner:
—Qual a impressão que ela causa... a Sra. Leonides? Que pensa dela?
Ele respondeu vagarosamente:
—Difícil dizer... muito difícil mesmo. Ela não é fácil. Muito quieta... de modo que não se sabe em que pensa. Mas gosta de vida mansa, isso eu chegaria a jurar. Faz-me lembrar um gato, um grande gato preguiçoso, ronronando... Não que eu tenha alguma coisa contra os gatos. Gatos são gatos...
Suspirou.
— O que queremos — disse — são provas.
Sim, pensei, todos nós queremos provas de que a Sra. Leonides envenenou o marido. Sophia quer, eu quero, e o Inspetor-Chefe Taverner também quer.
Então, tudo seria formidável!
Mas Sophia não tinha certeza, eu não tinha certeza e creio que o Inspetor-Chefe Taverner tampouco tinha certeza...

Capítulo 4
NO DIA SEGUINTE fui a Três Oitões com Taverner.
Minha posição era das mais curiosas. Melhor dizendo, muito pouco ortodoxa. Mas o Velho nunca primou em ser ortodoxo.
De certo modo eu tinha uma qualificação. Trabalhara com a Divisão de Espionagem da Yard, durante os primeiros dias da guerra.
Naturalmente isto agora era bastante diferente — mas minhas atuações anteriores conferiam-me, de certa forma, uma posição oficial.
Meu pai dissera:
—Se quisermos mesmo resolver este caso, temos de introduzir um amador. Precisamos saber tudo a respeito do pessoal da casa. Temos de conhecê-los por dentro... não por fora. Você é o homem capaz de encarregar-se disto.
Não gostei. Atirei a ponta de cigarro na lareira enquanto dizia:
—Sou um espião da polícia? É isso? Tenho de extrair informações confidenciais de Sophia, a quem amo e que também me ama e confia em mim, segundo creio?
O Velho tornou-se irritado. Respondeu com voz cortante:
— Pelo amor de Deus, não veja as coisas por este prisma! Para começar, você não acredita que sua moça assassinou o avô, acredita?
— Claro que não. A idéia é inteiramente absurda!
— Muito bem... também não pensamos nisto. Ela esteve ausente alguns anos, sempre manteve boas relações com ele. Recebe uma pensão generosa e ele ficaria encantado, eu diria, se chegasse a saber do compromisso de vocês. Sem dúvida da ria uma linda festa de casamento. Não suspeitamos dela. Por que iríamos suspeitar? Mas fique certo de uma coisa: se o crime não se esclarecer, a moça não vai querer casar-se com você. A julgar pelo que me disse, eu tenho certeza disto. E veja bem, que este é o tipo de crime que talvez não se esclareça nunca. Estamos propensos a crer que a esposa e o jovem admirador agiram de parceria — mas provar isto são outros quinhentos. Nem sequer existe um caso para se levar avante uma investigação. E a menos que obtenhamos provas evidentes contra ela,
sempre perdurará uma dúvida vexatória. Você percebe, não é?
Sim, eu percebia.
O Velho prosseguiu calmamente:
— Por que não dizer-lhe, então?
— Quer dizer... perguntar a Sophia se eu... — parei.
— Sim, sim... — o Velho acenava vigorosamente a cabeça. — Não lhe estou pedindo para entrar sub-repticiamente, sem contar à moça o que pretende. Veja o que ela tem a dizer a respeito.
E assim, lá fui eu no dia seguinte, com o Inspetor Taverner e o detetive Sargento Lamb para Swinly Dean.
Um pouco depois dos campos de golfe, viramos em uma entrada onde eu imaginei que antes da guerra deveria ter havido um imponente portão duplo. Patriotismo ou uma requisição forçada haviam levado as grades dos portões. Subimos uma longa alameda em curva, cercada de rododendros e chegamos a um pátio encascalhado, em frente da casa.
Era incrível! Imaginei por que teriam chamado a casa de Três Oitões. Onze Oitões seria mais apropriado! E coisa curiosa, a casa dava a impressão estranha de ser mesmo torta e eu imaginei o porquê. Tinha o tipo mesmo de um chalé, mas era um chalé de proporções desmedidas. Como se olhássemos para uma casa de campo através de uma lente de aumento. As vigas oblíquas, os oitões, os frontões... tratava-se de uma casinha torta que crescera como cogumelo em uma noite!
Entretanto eu percebi a intenção. Era a idéia que um grego — gerente de restaurante — fazia da Inglaterra. Destinava-se a ser uma residência típica inglesa, mas fora construída com as proporções de um castelo. Fiquei pensando o que a primeira Sra. Leonides achara da casa. Sem dúvida ela não fora consultada nem vira a planta. Provavelmente a casa fora uma pequena surpresa de seu exótico marido. Imaginei se ela dera de ombros ou sorrira.
Aparentemente ela vivera ali muito feliz.
—Um tanto apavorante, não é? — disse o Inspetor Taverner. — Naturalmente o velho empenhou-se a fundo. Transformou-a em três casas distintas a bem dizer, com cozinhas e tudo o mais. Dentro, tudo é da melhor categoria, mobiliada como um hotel de luxo.
Sophia apareceu à porta da frente. Estava sem chapéu e usava uma blusa verde e uma saia de tweed.
Quase caiu para trás quando me viu.
— Você! — exclamou.
— Sophia — disse eu, — preciso falar com você. Onde podemos ir?
Por um instante ela hesitou mas depois voltou-se e disse:
—Venha.
Passamos pelo gramado. Tinha-se uma bela vista do primeiro campo de golfe de Swinly Dean, que se distanciava até um bosque de pinheiros numa colina, e além dele, até perder-se no campo enevoado.
Sophia conduziu-me a um jardim com canteiros de pedras, um pouco abandonado, onde havia um banco de madeira rústico, bastante desconfortável, e ali nos sentamos.
—E então? — perguntou.
A voz não era encorajadora.
Falei da missão que me fora atribuída — contei tudo.
Ela ouviu muito atenta. Seu rosto não deixou transparecer o que estava pensando, mas quando parei afinal, suspirou. Foi um suspiro profundo.
— Seu pai — disse — é um homem esperto.
— O Velho tem suas opiniões. Eu acho que é uma idéia
detestável, mas...
Ela me interrompeu.
— Não, nada disso. A idéia está longe de ser detestável. É a única coisa que pode dar certo. Seu pai, Charles, sabe exatamente o que se passa na minha cabeça. Muito melhor do que você.
Com uma veemência súbita e quase desesperadora, entrelaçou uma mão na outra.
— Tenho de saber a verdade. Preciso saber.
— Por nossa causa? Mas, querida...
— Não apenas por nossa causa, Charles. Preciso saber em benefício de minha própria paz de espírito. Olhe, Charles, não lhe disse ontem à noite... mas a verdade é que... eu estou com medo.
— Medo?
— Sim. Medo... medo... medo. A polícia pensa, seu pai pensa, todo mundo pensa que foi Brenda.
— As probabilidades...
— Sim, é claro que as probabilidades são inúmeras. É possível. Mas quando eu digo "Brenda provavelmente o matou" torno-me consciente de que isso não passa de um desejo. Porque eu realmente não acredito.
— Não acredita? — perguntei devagar.
— Não sei. Você tomou conhecimento do caso lá fora, como eu queria. Agora, eu o mostrarei de dentro para fora. Eu simplesmente não creio que Brenda seja a espécie de pessoa... o tipo de pessoa capaz de fazer algo que lhe traga qualquer perigo. Ela é muito cuidadosa consigo mesma.
— E que me diz do rapaz? Laurence Brown.
— Laurence é um coelho assustado. Não tem tutano.
— Nunca se sabe.
— Sim, realmente nunca se sabe ao certo, não é mesmo? As pessoas são capazes de surpresas terríveis. Forma-se uma impressão acerca de alguém e ela às vezes resulta totalmente errada. Nem sempre... mas às vezes, acontece. De qualquer modo, Brenda — ela sacudiu a cabeça — sempre agiu com tanta uniformidade! E o que chamaria o tipo indicado para um harém. Gosta de ficar sentada, comer balas, usar roupas e jóias bonitas, ler novelas baratas e ir ao cinema. Sei que é esquisito o que vou dizer, levando-se em conta que ele tinha oitenta e cinco anos, mas creio que realmente o Avô a impressionava. Ele tinha força, sabe? Acho que podia fazer com que uma mulher se sentisse... bem, como uma rainha... a favorita do sultão! Penso... aliás sempre pensei... que ele fez Brenda sentir-se uma pessoa muito romântica. Sempre foi um sábio com as mulheres. Trata-se de uma espécie de arte... e não se perde o jeito para isto, apesar da idade.
Deixei o problema de Brenda por um instante e aferrei-me a uma frase de Sophia que me preocupara.
—Por que você disse que tinha medo?
Sophia estremeceu ligeiramente e apertou as mãos.
—Porque é a verdade — respondeu em voz baixa. — E muito importante, Charles, que eu o faça compreender isto. Olhe, somos uma família muito estranha... Há muita crueldade em nós... várias formas de crueldade. Isso é o que mais me aflige. As diversas formas de crueldade.
Ela deve ter percebido a incompreensão em meu rosto. Prosseguiu falando com empenho:
—Vou tentar ser clara. O Avô, por exemplo. Uma vez, quando nos falava de sua meninice em Smyrna, mencionou, de modo casual, que apunhalara dois homens. Houve alguma rixa, motivada sem dúvida por um insulto imperdoável... não sei bem... mas a coisa aconteceu com tanta naturalidade. Ele esquecera praticamente o incidente. Mas era uma coisa tão estranha para ser contada mesmo casualmente na Inglaterra!
Concordei com um aceno de cabeça.
— Este é um dos tipos de crueldade a que me referi — continuou Sophia. — Agora, minha avó. Mal me lembro dela, mas ouvi muita coisa a seu respeito. Creio que ela possuía a impiedade que deriva da total falta de imaginação. Todos esses ancestrais caçadores de raposas... e os velhos generais do tipo "só matando!". Cheios de retidão e arrogância, sem um pingo de medo em assumir responsabilidades em questões de vida e de morte.
— Isso não parece um tanto forçado?
— Sim, acho que sim... mas senti um pouco de medo dessas coisas. Das pessoas cheias de retidão, porém cruéis ao mesmo tempo. Depois, temos a minha mãe... uma atriz. Uma pessoa adorável, mas despida de qualquer senso de proporções. Uma dessas egoístas inconscientes que só conseguem enxergar os problemas na medida em que estes as afetam. Às vezes é de assustar, sabe? Temos Clemency, a mulher do tio Roger. Ela é cientista... vive empenhada em qualquer descoberta muito importante. Também é uma pessoa impiedosa, de uma forma impessoal, a sangue-frio. O oposto do tio Roger. Este é a pessoa mais bondosa e amável do mundo mas possui um temperamento terrível. Quando o sangue lhe ferve, não sabe o que faz. E há ainda meu pai...
Ela fez uma longa pausa.
— Meu pai — disse lentamente — é quase excessivamente bem controlado. Nunca se sabe em que pensa. Jamais demonstra uma emoção. Provavelmente trata-se de uma auto defesa inconsciente contra as orgias emotivas de minha mãe, mas às vezes isto também me preocupa um pouco.
— Minha querida — disse eu, — você está-se preocupando sem necessidade. Acabará por concluir que todos, talvez, sejam capazes de cometer um assassinato.
— Creio que isto é exato. Até eu.
— Você não!
— Sim, Charles, não me transforme em exceção. Acho que eu poderia matar alguém... — ficou calada um momento e depois acrescentou: — Mas se o fizesse, teria de ser por um motivo que realmente valesse a pena!
Ri. Não pude evitá-lo. E Sophia também riu.
—Talvez eu seja uma tola — confessou — mas temos de descobrir a verdade sobre a morte do Avô. É absolutamente necessário. Se ao menos fosse Brenda...
Senti, de súbito, uma certa pena de Brenda Leonides.

Capítulo 5
NA ALAMEDA surgiu em nossa direção uma figura alta, caminhando com vivacidade. Trazia um gasto chapéu de feltro, uma saia informe e um suéter pesadão.
—A tia Edith — disse Sophia.
A figura parou uma ou duas vezes, inclinando-se para as flores, depois avançou para nós. Levantei-me.
—Este é Charles Hayward, tia Edith. Minha tia, Srta. de Haviland.
Edith de Haviland era uma mulher de cerca de setenta anos. Tinha uma cabeleira grisalha e revolta, o rosto enrugado e um olhar agudo e penetrante.
— Como vai? Já ouvi falar a seu respeito. Voltou do Oriente. E seu pai, como vai?
Um tanto surpreso, eu respondi que ele ia bem.
— Eu o conheci quando era ainda garoto — disse Edith de Haviland. — Conheci também sua mãe. Você se parece muito com ela. Veio para nos ajudar... ou tem outro motivo?
— Eu espero ser de alguma ajuda — disse meio encabulado.
Ela fez que sim com a cabeça.
— Nós estamos mesmo precisando de ajuda. A casa está enxameando de policiais. Aparecem quando menos se espera. Não fui com a cara de alguns. Um rapaz que freqüentou uma escola decente não devia entrar para a polícia. Outro dia vi o filho de Moyra Kinoul dirigindo o trânsito lá em Marble Arch. A gente fica sem saber onde está.
Virou-se para Sophia:
— Nannie está chamando você, Sophia. Peixe.
— Ora! — disse Sophia. — Eu vou telefonar para resolver.
Dirigiu-se rapidamente para a casa. Edith de Haviland voltou-se e seguiu-a lentamente. Eu a acompanhei.
—Não sei o que nós faríamos sem as Nannies — disse ela. — Quase todos têm uma velha Nannie em casa. Elas sempre voltam, lavam, passam, cozinham e arrumam a casa. São fiéis. Esta nossa fui eu mesma quem escolheu... há muitos anos.
Ela se abaixou e arrancou com raiva um matinho no meio de um canteiro.
—É detestável esta jitirana! A pior das pragas. Abafa e se enrola nas plantas e não se pode arrancá-la direito. Espalha-se por todos os lados!
Com o calcanhar ela esmoeu violentamente no chão o raminho verde.
—Este negócio está cheirando mal, Charles Hayward — disse e olhou na direção da casa. — O que a polícia está pensando do caso? Acho que eu não devia perguntar isto. Parece tão estranho pensar que Aristide foi envenenado. Parece estranho até pensar que ele morreu. Eu não gostava dele... — nem um pingo! Mas não consigo acostumar-me com a sua morte... Faz a casa parecer tão... vazia.
Eu não disse nada. Durante a sua breve fala, Edith de Haviland parecia recordar o passado.
— Estive pensando hoje de manhã... eu moro aqui há tanto tempo. Mais de quarenta anos. Vim para cá quando minha irmã morreu. Ele pediu. Sete crianças... e a mais nova apenas com um ano de idade... Não podia deixar que elas fossem educadas por um gringo ordinário, podia? Foi um casamento inadmissível, é claro. Eu sempre imaginei que Márcia tivesse sido enfeitiçada. Um Sujeitinho vulgar e horroroso! Ele me deu carta branca... isto eu tenho de reconhecer. Enfermeiras, governantas, escolas. E uma alimentação sadia e simples para as crianças... não aqueles pratos apimentados de arroz que ele costumava comer.
— E desde então a senhora está aqui?
— Sim. É estranho de certa forma... Eu creio que podia ter ido embora depois que as crianças cresceram e se casaram... Acho que na verdade eu me deixei interessar pelo jardim. E depois foi Philip. Se um homem se casa com uma atriz não deve esperar uma vida caseira. Não sei por que as atrizes têm filhos. Assim que os bebês nascem elas saem correndo para representar em Edimburgo ou em outro lugar ainda mais distante. Philip fez a coisa mais sensata que pôde: mudou-se para cá com seus livros.
— O que é que Philip Leonides faz?
— Escreve livros. Nunca soube por quê. Ninguém quer saber de lê-los. São todos sobre obscuros detalhes históricos. Você nunca ouviu falar sobre eles, ouviu?
Eu tive que admitir que não.
— Dinheiro demais, é isto o que ele tem — continuou ela. — A maior parte das pessoas devia deixar de ser excêntrica e trabalhar para ganhar a vida.
— Ele recebe dinheiro pelos livros?
— É claro que não. Parece que é uma grande autoridade em certos períodos históricos e tudo o mais. Mas não tem necessidade de vender seus livros. Aristide garantiu-lhe uma renda de cem mil libras... algo assim louco! Para evitar os impostos de herança Aristide tornou-os todos independentes financeiramente. Roger dirige a Associação dos Fornecedores. Sophia tem uma belíssima renda. O dinheiro das crianças está depositado em nome delas.
— Então nenhum deles tinha um interesse direto em sua morte?
Ela me lançou um olhar estranho.
— E lógico que todos tinham. Todos ganharão mais dinheiro. Mas teriam conseguido mais dinheiro se quisessem. Bastava pedir.
— A senhora tem idéia de quem o teria envenenado, Srta. de Haviland?
Ela respondeu categórica:
— Não, eu não tenho idéia. E isto me aborrece muito! É desagradável pensar que temos um Borgia solto pela casa. Eu suponho que a polícia vai jogar a culpa em cima da pobre Brenda.
— A senhora acha que eles estarão certos se fizerem isto?
— Também não posso dizer nada. Ela sempre me pareceu uma moça tola e vulgar... muito convencional. Não seria a minha idéia de uma envenenadora. Entretanto, é uma mulher jovem, de vinte e quatro anos que se casa com um velho de quase oitenta — está na cara que ela fez isto por dinheiro. Se as coisas corressem normalmente ela esperava tornar-se uma viúva rica muito em breve. Mas Aristide era um velho excepcionalmente forte. A diabete dele não estava piorando. Pelo jeito, ele ia viver cem anos. Vai ver que ela cansou de esperar.
— Neste caso... — eu comecei mas calei-me.
— Neste caso — disse ela vivamente, — tudo está mais ou menos certo. Uma publicidade desagradável, é claro. Mas afinal de contas ela não faz parte da família.
— A senhora não tem outras idéias?
— Que outras idéias eu poderia ter?
Eu fiquei pensando. Calculava que por baixo daquele chapéu de feltro surrado havia mais do que eu imaginava.
Por trás daquele discurso feito aos arrancos, havia — calculei eu — um cérebro muito vivo trabalhando. Por um breve instante eu cheguei mesmo a imaginar se não fora a própria Edith de Haviland quem envenenara Aristide Leonides...
Não me pareceu uma idéia assim tão absurda; No fundo de meus pensamentos eu ainda via a maneira vingativa como ela esmagara o raminho de jitirana no chão com o calcanhar.
Lembrei-me da palavra que Sophia empregara. Crueldade.
Dei uma olhada de esguelha para Edith de Haviland.
Se houvesse uma razão que valesse a pena!... Mas no parecer de Edith de Haviland qual seria a razão que valeria a pena?
Para saber disso eu precisava conhecê-la melhor.

Capítulo 6
A PORTA DA FRENTE estava aberta. Entramos em um vestíbulo surpreendentemente espaçoso, mobiliado de forma discreta — móveis bem cuidados de carvalho escuro e metais reluzentes. Na parte dos fundos, onde normalmente deveria haver uma escadaria, havia uma parede branca com uma porta.
—É a parte da casa que meu cunhado ocupava — disse Edith de Haviland. — O andar térreo é de Philip e Magda.
Passamos por uma porta à esquerda que dava para uma ampla sala de estar. As paredes tinham lambris azul claro, os móveis eram estofados com brocados pesados e em cada mesa e em todas as paredes estavam pendurados retratos e fotografias de atores, bailarinas, peças de teatro e cenários. Um quadro de Degas mostrando dançarinas de balé estava pendurado sobre a lareira. Uma profusão de flores, crisântemos dourados e enormes vasos de cravos.
—Calculo — disse a Srta. de Haviland, — que queira conhecer Philip.
Será que eu queria mesmo conhecer Philip? Não tinha idéia. A única coisa que eu queria fazer era ver Sophia, e isto eu já conseguira. Ela dera o seu enfático apoio ao plano do Velho — mas depois saíra de cena e provavelmente, agora, estaria em outro lugar qualquer telefonando a respeito de um peixe — sem ter dado nenhuma indicação de como eu deveria agir. Será que eu devia apresentar-me a Philip Leonides como um rapaz para casar com sua filha, como um amigo casual que viera fazer uma visita (decerto não era o momento indicado!) ou como um auxiliar da polícia?
Edith de Haviland não me deu tempo de pensar. De fato, ela não estava formulando uma pergunta e sim fazendo uma afirmação.
—Vamos à biblioteca — disse ela.
Conduziu-me por um corredor até uma outra porta.
Era uma sala grande, cheia de livros. Os livros não estavam apenas nas prateleiras que subiam até o teto. Estavam em cadeiras e mesas e mesmo pelo chão. E, mesmo assim, não havia um ar de desordem muito grande.
A sala era fria. E havia no ar a falta de um cheiro que eu esperava sentir — cheirava a mofo de livros velhos e a um ligeiro perfume de cera de abelha. Em poucos segundos percebi o que estava faltando: era o cheiro de fumo. Philip Leonides não era um fumante.
Ele se ergueu da mesa onde estava quando nós entramos — era um homem alto, de cerca de uns cinqüenta anos, estranhamente bonito. Todos tinham enfatizado tanto a feiúra de Aristide Leonides, que eu não sei por qual razão esperava que seu filho também fosse feio. O que eu não estava preparado para encontrar era esta tal perfeição de traços — o nariz reto, a linha perfeita do queixo, os cabelos louros já um pouco grisalhos, jogados para trás, e a testa bem proporcionada.
— Este é Charles Hayward, Philip — disse Edith de Haviland.
— Ah, como tem passado?
Eu não tinha idéia se ele já ouvira falar de mim. A mão que me estendeu era fria. A expressão indiferente. Isto me fez ficar mais nervoso. Ele continuou de pé, paciente e desinteressado.
— Onde andam todos esses policiais horrorosos? — perguntou Miss de Haviland. — Já estiveram aqui?
— Eu creio que o Inspetor-Chefe... (ele deu uma olhada num cartão em sua mesa) ahn... Taverner, virá falar comigo daqui a pouco.
— Onde ele está agora?
— Não tenho idéia, tia Edith. Lá em cima, eu acho.
— Com Brenda?
— Não sei mesmo.
Olhando-se para Philip Leonides parecia impossível se imaginar que um crime acabasse de ser cometido em suas proximidades.
— Magda já está de pé?
— Não sei. Geralmente ela não se levanta antes das onze.
—É, isto é muito dela — resmungou Edith de Haviland. O que era mesmo de Magda Leonides, foi a voz aguda, falando muito depressa e que se aproximava rapidamente. A porta às minhas costas abriu-se num arranco e uma mulher entrou. Eu não sei como ela conseguia dar a impressão de serem três mulheres entrando na sala ao invés de uma só.
Estava fumando um cigarro numa piteira comprida e usava um robe de cetim cor-de-pêssego que segurava com uma das mãos. Uma massa enorme de cabelos louro-Titiano caía em cachos sobre os seus ombros. O rosto impressionava pela nudez que as mulheres de hoje em dia têm quando não estão pintadas. Os olhos eram azuis e imensos e ela falava depressa, com voz rouca e atraente, e uma dicção muito clara.
—Querido, eu não agüento mais... eu não agüento mais isto... imagine só o noticiário... ainda não está nos jornais, mas é claro que breve estará... e eu ainda não pensei como vou apresentar-me no inquérito: devo parecer muito abatida? Mas eu acho que de preto não, talvez roxo escuro... e não me sobrou nenhum talão de racionamento... e eu perdi o endereço daquele homem horroroso que me vendia talões... você se lembra? Aquela garagem perto da Avenida Shaftesbury... e se eu for lá de automóvel a polícia vai-me seguir... e podem fazer perguntas desagradáveis, não podem? Sei lá... o que é que eu vou dizer? Puxa, como você está calmo, Philip! Como é que você pode ser assim tão calmo? Não sabe que a gente já pode sair desta casa horrível agora? Liberdade!... Liberdade!... Oh! que indelicadeza... o pobre velho queridinho! É claro que nós não poderíamos deixar de morar aqui enquanto ele fosse vivo. Ele nos adorava, não é? Apesar das intrigas que aquela mulher lá de cima procurava fazer entre nós. Eu tenho certeza de que se nós nos tivéssemos mudado e os deixado sozinhos, ele nos teria deserdado. Criatura horrível! Imagine que o pobre coitadinho já estava perto dos noventa... nem todos os sentimentos da família podiam lutar contra aquela mulher pavorosa. Sabe, Philip? Eu acho que é uma oportunidade maravilhosa para representarmos a peça de Edith Thompson. Este crime vai-nos dar um bocado de publicidade gratuita. Bildenstein disse que ele podia arranjar a dramaticidade... e é uma peça tremenda em verso sobre aqueles mineiros e está quase pronta... é um papel maravilhoso!... maravilhoso! Eu sei que dizem que eu devo fazer apenas comédia, por causa do meu nariz, mas você sabe que se pode arranjar um toque de comédia no papel de Edith Thompson... eu acho que nem o autor teve esta idéia... mas a comédia aumenta o suspense. Eu sei exatamente como interpretar o papel... bem lugar-comum, bem tola, uma aparência fingida até o último momento e então...
Ela estendeu o braço num gesto violento — o cigarro voou da piteira para cima da mesa de mogno encerado de Philip e começou a queimar a madeira. Impassível ele o apanhou e colocou dentro da cesta de papéis usados.
—E então... — suspirou Magda Leonides, os olhos de repente arregalados, o rosto contraído — ... apenas o terror...
A rígida expressão de terror ficou em seu rosto por uns vinte segundos, depois descontraiu-se, tornou a se crispar — desta vez como uma criança espantada prestes a chorar e desmanchar-se em lágrimas.
De repente todas as emoções desapareceram como apagadas por uma esponja e, voltando-se para mim, ela perguntou em um tom muito profissional:
—Não acha que é assim que se deve desempenhar o papel de Edith Thompson?
Eu disse que achava que era exatamente assim que se devia representar o papel de Edith Thompson. No momento eu mal me lembrava quem era Edith Thompson mas estava ansioso em causar boa impressão na mãe de Sophia.
—Quase igual a Brenda, realmente, não acha? — disse Magda. — Sabe? Eu ainda não tinha pensado nisto. É muito interessante. Será que eu devo lembrar ao Inspetor?
O homem por trás da mesa franziu ligeiramente a testa.
—Não há nenhuma necessidade, Magda — disse ele, — de você falar com ele. Eu direi tudo o que for necessário.
— Não falar com ele? — ela levantou a voz. — Mas é claro que eu preciso falar com ele! Querido, querido, você não tem imaginação nenhuma! Não imagina a importância dos de talhes. Ele precisa saber exatamente como foi e quando foi que tudo aconteceu e as coisinhas pequenas que a gente nota na hora e não dá a importância devida...
— Mamãe — disse Sophia, entrando pela porta aberta, — a senhora não vai contar uma porção de mentiras para o Inspetor.
— Sophia... querida...
— Eu sei, mamãe querida, que a senhora já tem tudo decorado na cabeça e está pronta para desempenhar um papel maravilhoso. Mas acontece que decorou tudo errado. Completamente errado.
— Tolice. Você não sabe...
— Sei, sim. Precisa representar de uma maneira diferente, querida. Humilde... falando pouco... escondendo alguma coisa... para sua proteção... para a proteção da família.
O rosto de Magda Leonides espelhou a ingênua perplexidade de uma criança.
— Meu amor... — começou ela — você pensa mesmo...
— Claro que sim. Esqueça o resto. O papel é este.
Sophia continuou a falar e um sorriso satisfeito foi aparecendo aos poucos no rosto de sua mãe.
— Eu preparei um chocolate para a senhora. Está na sala de estar.
— Oh, que ótimo! Estou morrendo de fome...
Ela parou ao chegar à porta:
—Você não faz idéia — disse ela, e as palavras parece que foram dirigidas para mim ou para a estante que estava às minhas costas — como é adorável ter-se uma filha!
Com esta deixa de saída, ela foi-se embora.
— Só Deus sabe — disse Edith de Haviland — o que é que ela vai contar para a polícia!
— Ela vai falar tudo certo — garantiu Sophia.
— Ela pode dizer qualquer coisa.
— Não se preocupe — disse Sophia. — Ela vai representar da maneira que o diretor de cena mandar. E o diretor sou eu!
Ela saiu atrás de sua mãe, mas logo deu meia volta e anunciou:
—O Inspetor Taverner está aqui para vê-lo, papai. O senhor não se importa que Charles assista à entrevista, não é?
Pensei ver um ligeiro ar de espanto passar pelo rosto de Philip Leonides. É bem possível. Mas o seu hábito de desatenção desta vez me foi útil. Ele murmurou:
—Oh, claro que não... claro que não... — numa voz um tanto vaga.
O Inspetor Taverner entrou, seguro de si, digno de confiança, com um ar de desembaraço profissional que era de certa forma tranqüilizante.
Mais um ligeiro aborrecimento — era o que ele deu a impressão de dizer — e então nós sairemos desta casa de uma vez. Ninguém vai ficar mais satisfeito do que eu. Nós não gostamos de forçar nossa presença, eu lhe garanto...
Eu não sei como ele conseguia dar esta impressão sem dizer uma só palavra, apenas no gesto de arrastar uma cadeira para perto da mesa — eu só sei que funcionava. Sentei-me discretamente num canto da sala.
—Sim, Inspetor? — disse Philip.
Edith de Haviland interrompeu bruscamente:
— O senhor não vai precisar de mim, não é, Inspetor?
— Por enquanto, não, Srta. de Haviland. Mais tarde, se eu pudesse, gostaria de trocar umas palavras com a senhora...
— É claro. Eu estarei lá em cima.
Ela saiu, fechando a porta ao passar.
— Muito bem, Inspetor? — repetiu Philip.
—Eu sei que o senhor é um homem muito ocupado e não tomarei o seu tempo. Mas precisava comunicar-lhe que as nossas suspeitas se confirmaram. Seu pai não morreu de morte natural. A morte foi em resultado de uma dose muito elevada de fisostigmina... mais conhecida como eserina.
Philip fez que sim com a cabeça. Não demonstrou nenhuma emoção em especial.
— Eu não sei se isto lhe sugere algo — continuou Taverner.
— O que poderia sugerir? Meu ponto de vista pessoal
é que meu pai deve ter tomado o veneno por acidente.
— O senhor pensa realmente assim, Sr. Leonides?
— Sim, isso me parece perfeitamente cabível. Lembre-se de que ele estava perto dos noventa anos e via muito pouco.
— Então ele esvaziou o conteúdo de seu vidro de colírio dentro de um frasco de insulina. Será que isto lhe parece uma sugestão viável, Sr. Leonides?
Philip não respondeu. Sua expressão tornou-se ainda mais inexpressiva.
Taverner continuou:
—Nós encontramos o vidro de colírio... vazio... na lata de lixo e sem nenhuma impressão digital. Por si só isto já é um fato curioso. Normalmente deveria haver impressões. Com certeza seu pai, sua madrasta ou possivelmente o criado...
Philip Leonides levantou a cabeça.
— O que é que há com o criado? — perguntou. — O que há com Johnson?
— O senhor sugere que seja Johnson o provável criminoso? Com certeza ele teve oportunidade... Mas quando leva mos em consideração o motivo é muito diferente Era costume de seu pai pagar-lhe todos os anos uma gratificação... e a cada ano a gratificação aumentava. Seu pai lhe dissera que isto era uma recompensa em lugar de lhe deixar alguma coisa no testamento. Esta gratificação, depois de sete anos de serviço, alcançara uma soma considerável e continuava aumentando. É óbvio que, para o interesse de Johnson, seu pai deveria viver o máximo possível. Além disto, eles estavam em excelentes termos e o levantamento da vida passada de Johnson foi irrepreensível. Ele é muito fiel e competente como criado de quarto — fez uma pausa. — Nós não suspeitamos de Johnson.
Philip respondeu vagamente:
— Compreendo.
— Agora, Sr. Leonides, talvez o senhor pudesse fazer-nos um relato detalhado de seus próprios atos durante o dia da morte de seu pai?
— Certamente, Inspetor. Eu estive nesta sala o dia inteiro... com exceção das refeições, é claro.
— Não viu seu pai durante o dia?
— Eu lhe dei bom-dia depois do café como era meu hábito.
— Esteve sozinho com ele neste momento?
— Minha... ahn... madrasta estava no quarto.
— Ele lhe pareceu normal?
Com um leve toque de ironia, Philip replicou:
— Ele não demonstrou nenhum conhecimento prévio de que iria ser assassinado naquele dia.
— A parte da casa que seu pai ocupava é completamente separada desta?
— Sim, a única comunicação é através da porta que fica na sala da entrada.
— A porta é trancada?
— Não.
— Nunca?
— Que eu saiba não.
— Qualquer pessoa podia circular livremente entre esta
ou aquela parte da casa?
— Claro. Eram apenas separadas por motivos de conveniências domésticas.
— Como foi que tomou conhecimento da morte de seu pai?
— Meu irmão Roger, que ocupa a ala esquerda do andar de cima, desceu correndo para me dizer que meu pai tivera um ataque repentino. Tinha dificuldade em respirar e parecia muito mal.
— O que foi que o senhor fez?
— Telefonei para o médico, coisa que ninguém ainda pensara em fazer. O médico tinha saído... e eu deixei um recado para que ele viesse para cá o mais depressa possível. Então eu subi.
— E então?
— Meu pai estava obviamente muito mal. Morreu antes de o médico chegar.
Não havia nenhuma emoção na voz de Philip. Estava apenas enunciando um fato consumado.
—Onde estava o resto da família?
— Minha mulher estava em Londres. Ela chegou logo depois. Sophia também não estava, eu creio. Os dois mais novos, Eustace e Josephine, estavam em casa.
— Eu peço que o senhor não me compreenda mal, Sr., Leonides, se eu lhe perguntar exatamente em como a morte
de seu pai lhe afetará sua posição financeira.
— Eu aprecio muito os seus esforços em saber todos os fatos. Meu pai tornou-nos financeiramente independentes há muitos anos. Meu irmão é presidente e o principal acionista da Associação de Fornecedores, a maior companhia de meu pai, e é o único responsável por ela. Ele me deu uma soma em dinheiro equivalente... posso dizer-lhe que foi cerca de cento e cinqüenta mil libras em letras e ações... para que eu usasse meu capital como bem entendesse. Deu também somas consideráveis para minhas duas irmãs que já faleceram.
— Mas apesar disto ele ainda guardou uma fortuna considerável para si, não?
— Não, na verdade ele ficou apenas com uma pequena parcela de sua fortuna. Disse que isto lhe daria mais interesse na vida. Desde então — pela primeira vez um leve sorriso delineou-se no rosto de Philip, — ele se tornou, devido a diversos empreendimentos, um homem ainda mais rico do que era.
— Seu irmão e o senhor vieram morar aqui. Isto foi devido a dificuldades... financeiras?
— É lógico que não. Foi apenas uma questão de conveniência. Meu pai sempre nos dizia que seríamos bem-vindos aqui. Por diversas razões domésticas isto se tornou conveniente para mim. E também — acrescentou Philip deliberadamente — eu gostava imensamente de meu pai. Vim para cá com minha família em 1937. Não pago aluguel e sim uma porcentagem das despesas.
— E seu irmão?
— Meu irmão veio para cá depois que a casa dele em Londres foi bombardeada em 1943 na blitz.
— Agora, Sr. Leonides, o senhor tem alguma idéia sobre as disposições testamentárias de seu pai?
— Eu creio que sim. Ele refez seu testamento logo depois que a paz foi assinada em 1945. Meu pai não era homem de guardar segredos. Fez uma reunião familiar na qual o seu advogado também estava presente e, a seu pedido, nos tornou cientes dos termos de seu testamento. Eu imagino que o senhor já conheça esses termos. O Sr. Gaitskill sem dúvida já deve ter-lhe informado. Aproximadamente uma soma de cem mil libras livres de impostos para minha madrasta, além de sua já generosa pensão fixada na ocasião do casamento. O total líquido de sua herança foi dividido em três partes, uma para
mim, uma para meu irmão e a terceira depositada em nome de seus três netos. A herança é muito grande, mas os impostos mortuários, é claro, serão bem pesados.
— Alguma doação para empregados ou para caridade?
— Nenhuma doação de espécie alguma. Os salários pagos aos empregados eram aumentados anualmente se eles permanecessem em serviço.
— O senhor não está... perdoe a pergunta... precisando de dinheiro no momento, Sr. Leonides?
— O imposto de renda é bastante pesado, Inspetor... mas minhas rendas me bastam amplamente... e também para minha esposa. Além disto, meu pai sempre nos fazia presentes generosos, e se surgisse alguma emergência, imediatamente ele vinha em nosso auxílio.
Philip acrescentou de maneira fria e insofismável:
— Eu lhe garanto, Inspetor, que não possuía nenhuma razão financeira para desejar a morte de meu pai.
— Eu sinto muito, Sr. Leonides, se pensou que eu estava sugerindo isto. Mas nós precisamos reunir todos os fatos. Eu peço que me desculpe mas preciso ainda fazer-lhe algumas perguntas muito delicadas. A respeito das relações entre seu pai e sua madrasta. Eles eram felizes juntos?
— Que eu saiba, perfeitamente felizes.
— Nenhuma briga?
— Creio que não.
— Havia... uma grande diferença de idade?
— Havia.
— O senhor... perdoe... aprovou o segundo casamento de seu pai?
— Não me pediram a aprovação.
— Isto não é resposta, Sr. Leonides.
— Já que o senhor me pediu a opinião, eu diria que considerei este casamento como... insensato.
— O senhor censurou seu pai pelo fato?
— Quando eu soube, já era um fato consumado.
— Foi um grande choque para o senhor, não?
Philip não respondeu.
— Houve algum mal-entendido sobre o assunto?
— Meu pai era livre para fazer o que bem entendesse.
— Suas relações com a segunda Sra. Leonides eram amigáveis?
— Perfeitamente.
— O senhor mantinha laços de amizade com ela?
— Nós nos víamos raramente.
O Inspetor Taverner mexeu-se na cadeira.
— O senhor pode dizer-me algo a respeito do Sr. Laurence Brown?
— Sinto muito, mas não posso. Ele foi contratado por meu pai.
— Mas foi contratado para ensinar seus filhos, Sr. Leonides.
— É verdade. Meu filho sofreu de paralisia infantil... felizmente um caso leve... mas consideramos que não seria prudente mandá-lo para uma escola pública. Meu pai sugeriu que ele e minha filha mais nova, Josephine, tivessem um professor particular... naquela época a escolha era muito reduzida... uma vez que o professor em questão teria de ser inapto para o serviço militar. As credenciais deste rapaz eram satisfatórias e meu pai e minha tia (que sempre zelou pelo bem-estar das crianças) se deram por satisfeitos e eu concordei. Posso acrescentar que nunca encontrei nenhum defeito em seus métodos de ensino, que sempre foram conscientes e adequados.
— Os aposentos dele são na parte da casa ocupada por seu pai ou aqui?
— Lá há mais espaço.
— O senhor notou alguma vez... peço que me desculpe a pergunta... algum sinal de intimidade entre Laurence Brown e sua madrasta?
— Eu nunca tive oportunidade de observar nada neste sentido.
— O senhor ouviu alguma vez algum boato ou mexe rico a este respeito?
— Eu não ouço boatos ou mexericos, Inspetor.
— Muito louvável de sua parte — disse o Inspetor Taverner. — Então o senhor não viu nada de mau, não ouviu nada de mau e também não falará nada de mau, não é?
— O senhor interpretará como quiser, Inspetor.
O Inspetor Taverner levantou-se.
— Bem — disse ele, — muito obrigado, Sr. Leonides. Eu o segui discretamente quando saiu da sala.
— Ufa! — disse Taverner, — que sujeito duro de roer!

Capítulo 7
—E AGORA — DISSE Taverner — vamos ter uma palavrinha com a Sra. Philip. O nome dela no palco é Magda West.
— Ela tem talento? — eu perguntei. — Eu a conheço de nome e me recordo de tê-la visto em várias peças mas não consigo me lembrar onde, nem quando.
— Ela é dessas que são "quase um sucesso" — disse Taverner. — Fez sucesso uma ou duas vezes no West End e um certo nome no Teatro do Repertório; geralmente trabalha nestes teatros esnobes e nos clubes mais fechados. Eu acredito que, no duro mesmo, ela nunca teve foi motivação e isto a prejudicou. Ela sempre pôde escolher, sempre foi aonde quis e de vez em quando entra com dinheiro para financiar uma peça onde tem vontade de representar um determinado papel... geralmente o último que deveria representar... O resultado é que
ela é considerada mais como amadora que como uma verdadeira profissional. Trabalha muito bem, apesar de tudo, especialmente em comédias, mas os diretores não gostam muito dela... dizem que é muito independente e cria muita confusão, arranja brigas e depois se diverte com as travessuras. Eu não sei se é verdade mas ela também não goza de muita popularidade entre os companheiros de trabalho.
Sophia veio da sala de estar e disse:
—Mamãe está lá, Inspetor.
Eu segui Taverner até a grande sala de estar. No primeiro momento quase não reconheci a mulher que estava sentada no sofá de brocado.
Os cabelos louros estavam presos no alto da cabeça num penteado de estilo e ela vestia um bem talhado costume cinza-escuro e uma blusa lilás muito clara, delicadamente pregueada, com um decote alto fechado por um pequeno camafeu. Pela primeira vez eu reparei na delicadeza de seu nariz arrebitado. Lembrei-me vagamente de Athene Seyler — e me pareceu impossível imaginar que fosse a mesma criatura tempestuosa do robe cor-de-pêssego.
—Inspetor Taverner? — disse ela. — Entre, por favor, e sente-se. Quer fumar? Este assunto é muito desagradável. Ainda não posso acreditar no que aconteceu.
Sua voz era baixa e inexpressiva, a voz de uma pessoa determinada a demonstrar a todo o custo o seu autodomínio. Ela continuou:
— Por favor, diga-me em que lhe posso ser útil.
— Obrigado, Sra. Leonides. Onde a senhora estava no momento da tragédia?
— Eu creio que estava voltando de Londres. Almocei lá naquele dia no Ivy, com uma amiga. Depois nós fomos a um desfile de modas. Estivemos no Berkeley tomando um drinque com outros amigos. De lá vim para casa. Quando cheguei aqui tudo estava em tumulto. Parece que meu sogro tivera um ataque repentino. Ele estava... morto — a voz dela estremeceu ligeiramente.
— A senhora gostava de seu sogro?
— Eu adorava...
A voz subiu de tom. Sophia endireitou, imperceptivelmente, a posição do quadro de Degas. A voz de Magda voltou ao tom anterior.
— Eu gostava muito dele — disse com muita calma. — Todos nós. Ele era... muito bom para nós.
— A senhora se dava bem com a Sra. Leonides?
— Nós quase não víamos Brenda.
— Por quê?
— Bem, nós não tínhamos muita coisa em comum. Pobre Brenda. A vida deve ter sido dura para ela algumas vezes.
Novamente Sophia ajeitou o Degas.
— É mesmo? Em que sentido?
— Oh, eu não sei — Magda balançou a cabeça, com um pequeno sorriso triste.
— A Sra. Leonides era feliz com o marido?
— Oh, eu creio que sim.
— Não brigavam?
Outra vez o leve aceno negativo de cabeça e o mesmo sorriso.
— Na verdade, eu não sei dizer, Inspetor. A parte da casa onde eles moravam é separada desta.
— Ela e o Sr. Laurence Brown eram muito amigos, não eram?
Magda Leonides endireitou-se. Seus olhos muito abertos olharam recriminadoramente para o Inspetor.
— Eu não creio — disse ela com dignidade — que o senhor deva fazer-me perguntas como esta. Brenda é muito amável com todas as pessoas. Ela sempre foi uma criatura muito gentil.
— A senhora gosta do Sr. Laurence Brown?
— Ele é muito tranqüilo. Bastante simpático, quase não se nota sua presença. Eu quase não o vejo.
— O seu ensino é satisfatório?
— Eu creio que sim. Na verdade, eu não lhe sei dizer. Philip parece estar satisfeito.
Taverner tentou uma tática de choque.
—Eu sinto ter de fazer-lhe esta pergunta, mas em sua opinião havia alguma coisa... assim no gênero de um caso de amor... entre o Sr. Brown e a Sra. Brenda Leonides?
Magda levantou-se. Ela tinha o ar de uma grande dama.
—Eu nunca vi nada que evidenciasse algo deste gênero — disse ela. — E eu não creio, Inspetor, que esta seja uma pergunta a me fazer. Ela era a esposa de meu sogro
Eu quase bati palmas.
O Inspetor também se levantou.
—Seria mais uma pergunta para fazer aos criados? — sugeriu ele.
Magda não respondeu.
— Muito obrigado, Sra. Leonides — disse o Inspetor e saiu.
— A senhora esteve maravilhosa, mamãe — disse Sophia calorosamente para sua mãe.
Magda enrolou um cacho de cabelo atrás da orelha direita, olhando-se meditativamente no espelho.
—S-sim — disse ela — eu creio que foi a maneira correta de interpretar esse papel.
Sophia olhou para mim.
— Você não devia — perguntou ela — ir junto com o Inspetor?
— Olhe aqui, Sophia, o que é que eu devo fazer?...
Parei. Eu não podia perguntar ali em frente à mãe de Sophia qual era exatamente o papel que eu deveria assumir. Magda Leonides já demonstrara suficientemente não ter o mínimo interesse na minha presença, exceto como um espectador útil para apreciar as suas deixas finais sobre filhas. Eu podia ser um repórter, o noivo de sua filha, um obscuro funcionário da polícia ou mesmo um papa-defuntos — para Magda Leonides todos seriam apenas rotulados de audiência comum.
Olhando para os pés, a Sra. Leonides disse aborrecida:
—Estes sapatos não estavam bem. São frívolos.
Obedecendo ao imperativo aceno de cabeça de Sophia, eu saí correndo atrás de Taverner. Alcancei-o na sala da entrada, no momento em que ia entrar pela porta que dava para a escadaria.
—Ia subir para ver o irmão mais velho — explicou ele.
—Com ele eu posso falar com menos cerimônia.
— Olhe aqui, Taverner, quem é que eu devo ser?
Ele pareceu surpreso.
— Quem é que você deve ser?
— Sim, o que é que eu estou fazendo nesta casa? Se alguém me perguntar, o que é que eu digo?
— Ahn... sei... — pensou um momento. Depois sorriu. —Alguém já perguntou?
— Bem... não.
— Então, por que não deixa como está? Não explique nada. É um bom lema. Especialmente numa casa transtornada como esta. Cada qual está tão assoberbado com seus próprios problemas e temores que ninguém está em estado de fazer perguntas. Eles confiarão em você enquanto parecer seguro de si. É um grande erro falar quando não há necessidade. Hum... vamos subir as escadas. A porta não está trancada. E claro que você já percebeu, eu calculo, que estas perguntas que eu estou fazendo não servem para nada. Não tem o menor sentido saber quem estava ou não em casa, ou onde estavam todos naquele dia particular...
—Então por quê...?
Ele continuou:
—Porque pelo menos me dá uma oportunidade de dar uma olhada neles todos, estudá-los e escutar o que têm a dizer... e esperar que... Deus sabe por que sorte!... alguém pudesse me dar uma colher de chá — calou-se durante um instante e murmurou: — Eu aposto que a Sra. Magda Leonides poderia contar um bocado de coisas se quisesse!
— Mas você teria confiança no que ela dissesse? — perguntei.
— Oh, é claro que não — disse Taverner; — eu não poderia ter confiança. Mas poderia servir para o início de uma linha de investigações. Cada qual nesta maldita casa teve os meios e a oportunidade. Eu só estou procurando um motivo.
No alto da escadaria, uma porta fechava o lado direito do corredor. Na porta, uma argola de bronze que o Inspetor Taverner fez soar.
A porta abriu-se tão depressa, que parece que o homem estava por detrás à espera. Era um homenzarrão desajeitado, de ombros muito largos, cabelos escuros desgrenhados e o rosto horrivelmente feio mas ao mesmo tempo muito simpático. Seus olhos se fixaram em nós e logo se desviaram daquela maneira encabulada que tantas vezes têm as pessoas tímidas mas honestas.
—Oh, é o senhor — disse ele. — Entrem. Por favor. Eu ia sair... mas não tem importância. Venham para a sala de visita. Eu vou chamar Clemency. Oh... você está aí, que rida. É o Inspetor Taverner. Ele... o senhor tem cigarros? Espere um instante. O senhor me dá licença... — foi de encontro a um biombo, disse "desculpe" para a parede, muito atarantado e saiu da sala.
Parecia a saída de uma abelha barulhenta e deixou um grande silêncio atrás de si.
A Sra. Roger Leonides estava de pé perto da janela. Eu fiquei imediatamente fascinado pela sua personalidade e pela atmosfera da peça onde me encontrava.
Via-se claramente que era o seu quarto. Disto eu não tinha a menor dúvida.
As paredes eram pintadas de branco — branco mesmo, e não marfim ou creme que é geralmente o que se usa, quando se diz "branco" em decoração. Não havia quadros nas paredes — exceto um sobre a lareira — representando uma fantasia geométrica em triângulos cinza-escuro e azul-marinho. Quase não havia móveis — apenas o necessário, três ou quatro cadeiras, uma mesa com tampo de vidro, uma pequena estante. Não havia enfeites. Havia luz, ar e espaço. Era tão diferente da sala cheia de brocados e flores do andar de baixo como a água do vinho. E também a Sra. Roger Leonides era tão diferente da Sra. Philip Leonides como uma mulher pode ser diferente de outra. Sentia-se que Magda Leonides podia ser, e com freqüência era, pelo menos uma meia dúzia de mulheres diferentes, ao passo que Clemency Leonides nunca poderia ser mais ninguém a não ser ela mesma. Era uma mulher de personalidade marcante e bem definida.
Teria cerca de cinqüenta anos, eu calculei, o cabelo era grisalho, cortado muito curto, quase como um rapaz, mas assentava tão bem em sua cabeça pequena e bem feita que não tinha nada daquela feiúra que eu sempre associara às mulheres de cabelo curto. A expressão do rosto era inteligente e sensível, com olhos cinza-claro de uma intensidade penetrante e característica. Usava um vestido simples de lã vermelho-escuro que acentuava perfeitamente o seu corpo esguio.
Ela era, eu percebi logo, uma mulher extremamente perigosa... Talvez porque imaginei que ela não se guiava pelos preceitos de uma mulher comum. Compreendi logo por que Sophia usara a palavra "crueldade" em relação a ela. Seu quarto era frio e eu estremeci ligeiramente.
Clemency Leonides falou numa voz calma e bem modulada:
— Por favor, sente-se, Inspetor. Há algo de novo?
— A morte foi provocada por eserina, Sra. Leonides.
Ela disse pensativa:
— Então veio mesmo a ser um crime. Não poderia ser um acidente ocasional, poderia?
— Não, Sra. Leonides.
— Por favor, dê a notícia com muito jeito a meu marido,
Inspetor. Isso vai fazê-lo sofrer muito. Ele adorava o pai e é
muito sensível. É uma pessoa muito emotiva.
— A senhora mantinha boas relações com seu sogro, Sra. Leonides?
— Sim, muito boas relações — ela acrescentou com muita calma: — Eu não gostava muito dele.
— Por quê?
— Eu discordava de seus objetivos na vida... e dos métodos para atingi-los.
— E da Sra. Brenda Leonides?
— Brenda? Eu sempre a vi muito pouco.
— A senhora acha que seria possível existir alguma coisa entre ela e o Sr. Laurence Brown?
— O senhor quer dizer... um caso de amor? Eu creio que não. Mas se houvesse eu não saberia mesmo.
Sua voz era completamente indiferente.
Roger Leonides voltou, aos arrancos, sempre dando a mesma impressão de uma abelha barulhenta.
— Chamaram-me — disse ele. — Telefone. Bem, Inspetor? Então? Já tem alguma notícia? O que foi que causou a morte de meu pai?
— A morte foi provocada por um envenenamento por eserina.
— Foi? Meu Deus! Então foi aquela mulher! Ela não pôde esperar! Ele a tirou da sarjeta e este foi o seu prêmio. Ela o matou a sangue-frio! Deus, o meu sangue ferve só em pensar nisto!
— O senhor tem alguma razão particular para pensar assim? — perguntou Taverner.
— Razão? Quem poderia ser então? Eu nunca confiei nela — jamais gostei dela! Nenhum de nós gostava dela. Philip e eu ficamos estarrecidos quando papai chegou em casa um dia e nos disse o que havia feito! Na idade dele! Era loucura... loucura! Meu pai era um homem estranho, Inspetor. Intelectualmente, era jovem e ativo como um homem de uns quarenta anos. Tudo o que eu tenho no mundo devo a ele. Fez tudo por mim... nunca me falhou. Se alguém falhou alguma vez fui eu... quando eu penso nisso...
Deixou-se cair pesadamente numa cadeira. Sua mulher veio imediatamente colocar-se a seu lado.
— Vamos, Roger, já chega. Não se mortifique mais.
— Eu sei, minha querida... eu sei — ele lhe tomou as mãos. — Mas como eu posso ficar calmo... como posso manter a calma...
— Mas todos nós precisamos manter a calma, Roger. O Inspetor Taverner precisa da nossa ajuda.
—A senhora está certa, Sra. Leonides.
Roger gritou:
—Sabe o que eu gostaria de fazer? Estrangular aquela mulher com minhas próprias mãos. Roubando àquele pobre velho alguns poucos anos a mais de vida. Se eu pusesse as mãos nela... — deu um pulo. Estava trêmulo de ódio. Estendeu as mãos convulsas. — Sim, eu lhe torceria o pescoço... eu lhe torceria o pescoço...
—Roger! — disse Clemency com voz cortante.
Ele olhou para ela, confuso.
—Desculpe, minha querida — virou-se para nós: — Eu peço desculpas. Meus sentimentos transbordaram. Eu... me perdoem...
Ele saiu da sala outra vez. Clemency Leonides disse com um sorriso vago:
—Na verdade, o senhor sabe que ele não faria mal a uma mosca.
Taverner aceitou esta observação polidamente.
E recomeçou com as suas pretensas perguntas de rotina.
Clemency Leonides respondia consciente e acuradamente.

Roger Leonides estivera em Londres no dia da morte do pai, na Box House, a sede da Associação de Fornecedores. Voltara cedo e passara bastante tempo com o pai como de costume. Ela estivera como sempre no Instituto Lambert, na Rua Gower, onde trabalhava. Voltara para casa um pouco antes das seis horas.
— Viu o seu sogro?
— Não. A última vez que o vi foi no dia anterior. Tomamos café juntos depois do jantar.
— Não o viu no dia de sua morte?
— Não. Eu estive na parte da casa que ele ocupava porque Roger pensou que tivesse deixado o cachimbo lá... um cachimbo de que ele gosta muito... mas estava mesmo era na mesa da sala da entrada e então eu não tive necessidade de incomodar meu sogro. Geralmente ele cochilava lá pelas seis horas.
— Quando foi informada de sua doença?
— Brenda veio correndo. Foi um ou dois minutos de pois das seis e meia.
Estas perguntas, como eu já sabia, não tinham importância, mas eu estava cônscio da maneira que o Inspetor Taverner observava com perspicácia a mulher que as respondia. Ele fez algumas perguntas sobre a natureza de seu trabalho em Londres. Ela respondeu que ele era relacionado com os efeitos das radiações da desintegração atômica.
— A senhora trabalha então para a bomba atômica?
— Meu trabalho não tem nada de destrutivo. O Instituto está realizando experiências apenas nos efeitos terapêuticos.
Quando Taverner levantou-se, demonstrou o desejo de conhecer aquela parte da casa. Ela pareceu um pouco surpresa mas mostrou-nos imediatamente todo o resto. O quarto de dormir com camas separadas e colchas brancas e a simplicidade da decoração lembrou-me outra vez um hospital ou uma cela de mosteiro. O banheiro também era severamente simples, sem nenhum luxo, nem mesmo os tão comuns potinhos de creme e pintura. A cozinha era nua, impecavelmente limpa e muito bem equipada com inúmeros aparelhos de utilidade doméstica. Clemency abriu outra porta, dizendo:
— Este é o quarto particular de meu marido.
— Entrem — disse Roger, — entrem.
Eu dei um suspiro de alívio. Não sei por que mas aquela atmosfera imaculada lá de fora estava-me dando nos nervos. Este quarto era intensamente pessoal. Havia uma escrivaninha grande literalmente coberta de cachimbos velhos, papéis e cinza. Duas enormes poltronas surradas. Tapetes persas forravam o chão todo. Nas paredes, fotos já um tanto esmaecidas de grupos de pessoas: grupos de colégio, grupos de críquete, grupos de soldados. Aquarelas de desertos e minaretes, barcos a vela, cenas de mar e de sol poente. Era, de fato, um quarto agradável, de um homem cativante e sociável.
Roger, desajeitado, começou a servir as bebidas, afastando livros e papéis de uma das cadeiras.
— Isto aqui está uma bagunça, eu estava pondo tudo para fora, vendo a papelada que não presta. Quanto quer? — o Inspetor recusou a bebida; eu aceitei. — Eu quero pedir-lhe desculpas — continuou Roger. Trouxe o meu drinque e, virando a cabeça, falou com Taverner:
— Eu me descontrolei.
Ele olhou em torno com um ar de culpa mas Clemency Leonides não nos acompanhara.
—Ela é maravilhosa — disse ele. — Minha mulher, eu quero dizer. Em meio a tudo isto, ela tem sido esplêndida... esplêndida! Eu não saberia dizer quanto eu admiro aquela mulher! E ela já sofreu tanto... já passou tão mal! Eu vou-lhes contar. Foi antes de nos casarmos, eu quero dizer. O seu primeiro marido era um bom sujeito... um tipo inteligente... mas muito franzino, tuberculoso para falar com franqueza. Estava trabalhando numa pesquisa muito importante sobre cristalografia, eu acho. Serviço mal pago e muito exaustivo, mas ele não desistia. Ela trabalhava como uma escrava para sustentá-lo, sabendo o tempo todo que ele estava à morte. E nunca se queixou... nunca deixou perceber uma fraqueza. Sempre dizendo que era feliz. Quando ele morreu, ela ficou profundamente magoada. Muito tempo depois concordou em casar-se comigo. Eu fiquei muito feliz em poder dar-lhe um pouco de descanso, um pouco de felicidade. Fiz tudo para que ela parasse de trabalhar mas, como era no tempo da guerra, ela considerava o trabalho como um dever e mesmo agora ainda acha que deve continuar. Tem sido uma esposa maravilhosa... a melhor esposa que um homem pode desejar. Deus, como eu tive sorte! Faria qualquer coisa por ela.
Taverner fez o comentário adequado. Depois recomeçou uma vez mais com as suas perguntas rotineiras. Quando foi que soube da doença de seu pai?
— Brenda veio correndo chamar-me. Meu pai estava mal... ela disse que ele tivera uma espécie de ataque.
— Eu estivera sentado com meu velhinho querido há uma meia hora apenas. Ele estava otimamente bem. Eu corri para lá. Ele estava com o rosto azulado, sufocando. Desci correndo para chamar Philip. Ele telefonou para o médico. Eu... nós não pudemos fazer nada. É claro que eu não sonhei nem por um instante que houvesse algo engraçado. Engraçado? Eu disse engraçado? Meu Deus, que palavra que eu fui empregar!
Com uma certa dificuldade, Taverner e eu conseguimos escapar da atmosfera emocional do quarto de Roger Leonides e finalmente nos encontramos uma vez mais no alto da escadaria.
— Puxa! — disse Taverner — que contraste de um irmão para outro.
E acrescentou, um tanto sem propósito:
— Quartos são peças curiosas. Contam muita coisa sobre as pessoas que vivem nelas.
Eu concordei e nós fomos em frente.
_ É estranho como as pessoas se casam umas com as outras, não é?
Eu não tinha certeza se ele estava-se referindo a Clemency e Roger, ou a Philip e Magda. Suas palavras se aplicavam igualmente a ambos. Entretanto eu pensava que os dois casamentos podiam ser considerados como uniões felizes. O de Roger e Clemency certamente era.
— Eu não creio que ele seja um envenenador, e você? — perguntou Taverner e continuou: — Assim de cara eu diria que não. É lógico, a gente nunca sabe. Ela sim, tem mais tipo... Parece uma mulher impiedosa. É capaz até que seja meio doida.
Novamente eu concordei.
— Mas não acredito — disse eu — que ela matasse alguém apenas porque não aprovava os seus objetivos e a sua maneira de viver. Talvez, se ela odiasse realmente o velho... mas existem crimes cometidos apenas por ódio puro?
— Pouquíssimos — disse Taverner. — Eu mesmo nunca vi nenhum. Não, eu acho melhor ficarmos com a Sra. Brenda. Mas só Deus sabe se nós vamos conseguir alguma prova.

Capítulo 8
UMA COPEIRA abriu a porta da ala oposta do corredor. Parecia amedrontada mas olhou com certo desdém para Taverner.
— O senhor quer ver a patroa?
— Sim, por favor.
Ela nos levou até uma grande sala de visitas e saiu.
Esta sala era do mesmo tamanho da sala do andar de baixo. Os estofados eram de cretones estampados, de cores muito alegres, e as cortinas de seda listrada. Sobre a lareira havia um retrato que imediatamente chamou minha atenção — não apenas por admirar a mão do mestre que o pintara mas também pela notável expressão do modelo.
Era o retrato de um homem pequeno, já velho, de agudos olhos escuros. Usava um gorro de veludo negro e tinha a cabeça enterrada nos ombros — mas a vitalidade e o poder daquele homem emanavam da tela. Aqueles olhos faiscantes pareciam prender os meus.
—E ele — disse Taverner simplesmente. — Pintado por Augustus John. Era uma figura, não era?
— Sim — disse eu, mas senti que o monossílabo era inadequado.
Eu entendia agora o que Edith de Haviland quis dizer ao afirmar que a casa parecia vazia sem ele. Era o Original Homenzinho Torto que construíra a Casinha Torta — e sem ele, a Casa Torta havia perdido o significado...
—Aquela ali era a primeira mulher dele, pintada por Sargent — disse Taverner.
Eu examinei o quadro entre as duas janelas. Tinha aquela certa crueldade de muitos dos retratos de Sargent. O comprimento do rosto era exagerado, eu pensei — e também a ligeira sugestão de um ar cavalar — a incontestável seriedade. Era o retrato de uma típica Senhora Inglesa da Alta Sociedade Rural (e não do Café-Society). Uma estranha esposa para o pequeno déspota careteiro de cima da lareira.
A porta abriu-se e o Sargento Lamb entrou.
—Eu fiz o que pude com os empregados, senhor — disse ele. — Não adiantou nada.
Taverner suspirou.
O Sargento Lamb tirou o seu caderninho do bolso e retirou-se para o canto mais afastado da sala, onde se sentou discretamente.
A porta abriu-se outra vez e a segunda esposa de Aristide Leonides entrou na sala.
Ela estava de luto — um vestido preto muito caro — mas um luto meio exagerado. Estava coberta de preto do pescoço até os pulsos. Ela andava de maneira despreocupada e indolente, e a cor preta lhe ia muito bem. O rosto era razoavelmente bonito, assim como os cabelos castanhos penteados de forma um pouco sofisticada. Apesar do pó-de-arroz, do batom e do rouge via-se claramente que estivera chorando. Usava um colar de pérolas muito graúdas e tinha em uma das mãos um anel com uma enorme esmeralda e na outra um imenso rubi.
Outra coisa eu ainda notei: ela tinha o ar assustado.
—Bom dia, Sra. Leonides — disse Taverner tranqüilamente. — Eu sinto muito tornar a incomodá-la.
Ela falou com voz abatida:
— Eu creio que isto não pode ser evitado.
— A senhora sabe, Sra. Leonides, que, se por acaso quiser que o seu advogado esteja presente, será perfeitamente normal.
Eu imaginei se ela compreendeu o significado destas palavras. Aparentemente não. Disse apenas um tanto mal-humorada:
— Eu não gosto do Sr. Gaitskill. Não quero saber dele.
— A senhora pode ter o seu próprio advogado, Sra. Leonides.
— Será que eu preciso? Não gosto de advogados. Eles me atrapalham.
— Cabe exclusivamente à senhora decidir — disse Taverner, mostrando um sorriso automático. — Podemos prosseguir, então?
O Sargento Lamb lambeu a ponta do lápis. Brenda Leonides sentou-se no sofá em frente a Taverner.
— O senhor descobriu alguma coisa?
Eu reparei que seus dedos torciam e retorciam uma prega da fazenda de seu vestido.
— Nós podemos afirmar categoricamente que seu marido morreu em conseqüência de um envenenamento por eserina.
— O senhor quer dizer que foi aquele colírio que o matou?
— Está praticamente fora de dúvida que, quando a senhora aplicou aquela última injeção no Sr. Leonides, foi eserina que injetou e não insulina.
— Mas eu não sabia disto. Eu não tenho nada a ver com isto. Realmente, Inspetor, eu não sabia de nada.
— Então alguém deve ter substituído deliberadamente a insulina pelo colírio.
— Que coisa perversa!
— Sim, Sra. Leonides.
—O senhor acha... que alguém fez isto de propósito? Ou foi acidental? Não poderia ter sido... uma brincadeira?
Taverner disse com muita calma:
—Nós não cremos que tenha sido uma brincadeira, Sra. Leonides.
— Deve ter sido um dos empregados.
Taverner não respondeu.
— Só pode ser. Eu não vejo quem pudesse fazer isto.
—A senhora tem certeza? Pense, Sra. Leonides... Não tem nenhuma idéia? Não havia nenhum sentimento de maldade? Nenhuma briga? Nenhum rancor?
Ela continuava a encará-lo com olhos arrogantes.
— Não tenho a mínima idéia — disse.
— A senhora tinha ido ao cinema naquela tarde, não tinha?
— Sim, eu cheguei às seis e meia... era a hora da insulina... eu... eu... apliquei a injeção como de costume e então ele... ele ficou logo indisposto. Eu fiquei apavorada... corri para chamar Roger... eu já contei isso tudo ao senhor. Preciso recomeçar outra vez? — a voz dela estava num tom quase histérico.
— Eu sinto muitíssimo, Sra. Leonides. Eu posso falar agora com o Sr. Brown?
— Com Laurence? Para quê? Ele não sabe de nada.
—Eu gostaria de falar com ele de qualquer forma.
Ela olhou para ele desconfiada.
— Eustace está estudando latim com ele na sala de aula. O senhor quer que ele venha aqui?
— Não, nós iremos até lá.
Taverner saiu rapidamente da sala. Eu e o Sargento o seguimos.
—O senhor deixou-a com a pulga atrás da orelha — disse o Sargento Lamb.
Taverner deu um resmungo e nos conduziu a uma pequena escadaria e através de um corredor até uma sala grande que dava para o jardim. Um homem ainda moço, louro, de uns trinta anos, e um belo rapaz de uns dezesseis anos estavam sentados a uma mesa.
À nossa entrada eles levantaram os olhos. Eustace, o irmão de Sophia, olhou para mim. Laurence Brown olhou para o Inspetor Taverner com ar agoniado.
— Oh... ahn... bom dia, Inspetor.
— Bom dia — Taverner foi lacônico. — Posso ter uma conversa com o senhor?
— Claro, claro. Com o maior prazer. Pelo menos...
Eustace levantou-se.
— O senhor quer que eu saia, Inspetor?
Sua voz era satisfeita e tinha uma leve entonação de arrogância.
— Nós... nós podemos continuar os estudos depois — disse o professor.
Eustace encaminhou-se negligentemente para a porta. Ele tinha um andar desajeitado, duro. Ao sair, me deu uma olhada e, fazendo uma careta, passou o dedo indicador pela garganta. Saiu, fechando a porta.
— Muito bem, Sr. Brown — disse Taverner. — A análise foi positiva. Foi eserina o que causou a morte do Sr. Leonides.
— Eu... o senhor quer dizer... que o Sr. Leonides foi assassinado mesmo? Eu estava esperando...
— Ele foi envenenado — disse Taverner secamente. — Alguém substituiu a insulina pelo colírio de eserina.
— Eu não posso acreditar... É inacreditável.
— A questão é... quem tinha um motivo?
— Ninguém. Absolutamente ninguém! — a voz do rapaz elevou-se excitada.
— O senhor não quer a presença de seu advogado, quer? — perguntou Taverner.
— Eu não tenho advogado. Eu não quero advogado. Eu não tenho nada a esconder... nada!
— E o senhor está sabendo que tudo o que disser será
anotado.
— Eu sou inocente... eu lhe garanto, eu sou inocente.
— Eu não sugeri nada — Taverner fez uma pausa. — A Sra. Leonides era muito mais moça que seu marido, não era?
— Eu... eu creio que sim... eu quero dizer, era sim.
—Ela se sentia muito solitária de vez em quando?
Laurence Brown não respondeu. Passou a língua sobre os lábios muito secos.
— Ter um companheiro mais ou menos da idade dela morando aqui deve ter sido bastante agradável para ela, não?
— Eu... não, absolutamente... eu quero dizer... eu não sei.
— Parece-me bastante natural que uma certa afeição deva ter surgido entre vocês dois.
O rapaz protestou violentamente.
—Não era não! De forma nenhuma! Nada do que o senhor está pensando! Eu sei o que o senhor está pensando mas não era não! A Sra. Leonides sempre foi muito gentil comigo e eu tenho um grande... o maior respeito por ela! Não havia nada, nada mais do que isto! Eu lhe garanto. É monstruoso sugerir uma coisa destas! Monstruoso! Eu não seria capaz de matar ninguém! Nem de substituir os vidros ou de fazer algo errado. Eu sou muito sensível, tenho os nervos à flor da pele. Eu... só a idéia de um homicídio já é um pesadelo para mim... eles vão compreender isto no tribunal... eu tenho objeções religiosas contra o crime. Eu já trabalhei num hospital... punha carvão nas caldeiras... era um trabalho terrivelmente pesado... eu não pude continuar... então me deixaram trabalhar como educador. Eu tenho feito o melhor que posso com Eustace e com Josephine, uma criança muito inteligente mas muito difícil. E todos têm sido muito gentis comigo... o Sr. Leonides e a Sra. Leonides e a Srta. de Haviland. E agora acontece esta coisa horrível... E o senhor pensa que... eu... seja um criminoso!
O Inspetor Taverner olhou para ele como se o avaliasse com interesse.
— Eu não disse nada disto — disse ele.
— Mas o senhor está pensando! Eu sei que o senhor está pensando! Todos eles pensam assim! Eles olham para mim. Eu... eu não posso continuar. Não me estou sentindo bem.
Ele saiu correndo da sala. Taverner voltou a cabeça lentamente para mim.
— Muito bem, o que você acha dele?
— Ele está apavorado.
— Sim, eu sei, mas será que ele é um assassino?
— Se o senhor me perguntasse — disse o Sargento Lamb, — eu diria que ele não tem peito para isto.
— Ele nunca quebraria a cabeça de ninguém, nem daria um tiro de revólver — concordou o Inspetor. — Mas neste crime particular o que era preciso fazer? Apenas mexer com duas garrafinhas... Só ajudar um velho a sair deste mundo de uma maneira praticamente indolor...
— Praticamente eutanásia — disse o Sargento.
— E então, talvez, depois de um intervalo decente, o casamento com uma mulher que herdou cem mil libras livres de imposto, que já possui mais ou menos outro tanto pelo casamento, e que além disso ainda tem pérolas e rubis e esmeraldas do tamanho de... ovos!
— Muito bem... — Taverner suspirou. — Mas tudo são teorias e conjeturas. Eu fiz o que pude para assustá-lo mas isto não prova nada. Ele é do tipo que se apavoraria mesmo se fosse inocente. E de qualquer jeito, eu duvido que tenha sido mesmo ele quem praticou o crime. É mais provável que tenha sido a mulher... mas por que cargas d'água ela não jogou fora o vidro de insulina ou pelo menos lavou-o?
Ele virou-se para o Sargento Lamb.
— Os empregados nunca viram nada entre eles?
— A copeira diz que eles gostavam um do outro.
— Até que ponto?
— A maneira como eles se olhavam quando ela lhes servia o café.
— Que beleza para contar na sala do tribunal! Nunca houve nenhum avanço?
— Não que alguém visse.
— Eu aposto que se houvesse algo para ver, eles teriam visto. Sabe? Eu estou começando a acreditar que não havia mesmo nada entre eles — olhou para mim: — Volte e vá falar com ela. Eu gostaria de ter a sua impressão sobre ela.
Eu fui, relutando um pouco, mas não nego que estivesse interessado.


Capítulo 9
ENCONTREI BRENDA Leonides sentada exatamente onde a deixáramos. Olhou rapidamente para mim quando entrei.
— Onde está o Inspetor Taverner? Ele vai voltar?
— Agora não.
— Quem é você?
Finalmente alguém me fez a pergunta que eu estivera esperando durante toda a manhã.
Respondi de forma razoavelmente verdadeira.
— Eu sou ligado à polícia mas sou também um amigo da família.
— A família! Animais! Eu os odeio todos.
Ela olhou para mim, os lábios trêmulos. Parecia emburrada, assustada e enraivecida.
—Eles têm sido abomináveis comigo... sempre. Desde o início. Por que é que eu não me podia casar com o seu precioso pai? O que importava para eles? Todos tinham montes de dinheiro. Ele o deu para eles. Nenhum tinha miolo para ganhar dinheiro por conta própria!
Ela continuou:
—Por que é que um homem não se pode casar outra vez — mesmo se já está um pouco velho? E ele não era nada velho... no seu íntimo. Eu gostava dele. Eu gostava muito dele.
Ela olhou para mim arrogantemente.
— Eu estou vendo — disse eu. — Eu estou vendo.
— Eu garanto que você não acredita... mas é a verdade. Eu estava cansada dos homens. Queria ter uma casa... queria alguém que me fizesse festas e me dissesse coisas agradáveis. Aristide me dizia sempre coisas adoráveis e ele era capaz de fazer a gente rir sempre... e era muito esperto. Pensava em todas as espertezas para passar para trás estas regulamentações tolas. Ele era muito vivo. Eu não fiquei contente por ele ter morrido. Eu fiquei triste.
Ela recostou-se no sofá. Sua boca era um pouco grande, mas curvava-se para cima numa espécie de sorriso preguiçoso.
— Eu fui feliz aqui. Eu me sentia segura. Fui a todos esses costureiros famosos... aqueles sobre os quais eu lia nos jornais. Eu valia tanto quanto qualquer pessoa. E Aristide me dava presentes maravilhosos.
Ela estendeu a mão olhando para o rubi.
Por um segundo eu vi aquele braço e aquela mão como a pata espichada de um gato e ouvi a sua voz como um ron-rom. Ela estava sorrindo consigo mesma.
—O que havia de errado nisto? — perguntou ela. — Eu era boazinha para ele. Eu o fiz feliz — inclinou-se para a frente. — Sabe como foi que o conheci?
Ela prosseguiu sem esperar a resposta.
—Foi no Trevo Alegre. Ele pedira ovos mexidos e torradas e quando eu trouxe a comida estava chorando. "Sente-se aqui" disse ele e "me conte qual é o seu problema". "Oh, eu não posso" falei "eles me põem na rua se eu fizer uma coisa destas". "Não põem, não" disse ele, "o dono do restaurante sou eu". Foi então que eu olhei para ele. Era um velhinho tão estranho, eu pensei no princípio... mas tinha uma espécie de poder. Eu disse isto para ele... Você já deve ter ouvido o que todos eles dizem de mim, eu calculo... Dizem que eu era
uma mulher à-toa... mas não é verdade. Eu fui educada muito bem. Nós tínhamos uma loja... uma loja muito distinta... de trabalhos de costura e bordados. Eu nunca fui deste tipo de moças que têm um bando de namorados e se torna fácil. Mas Terry era diferente. Ele era irlandês... e ia emigrar para o outro lado do mundo... Ele nunca escreveu uma linha, nada... eu acho que era uma tola... E aconteceu o pior. Eu estava grávida... como uma empregadinha qualquer...
A voz dela era desdenhosa em seu esnobismo.
— Aristide foi maravilhoso. Ele disse que tudo ia acabar bem. Disse que se sentia muito solitário. Nós nos casaríamos imediatamente, ele disse. Foi como num sonho... E só depois foi que eu descobri que ele era o grande Sr. Leonides. Tinha montes de restaurantes e bares e boates. Foi quase como um conto de fadas, não foi?
— Um verdadeiro conto de fadas — disse eu secamente.
— Nós nos casamos numa igrejinha no centro da cidade e fomos para o estrangeiro.
— E a criança?
Ela me olhou com olhos que pareciam vir de muito longe.
—Não havia criança afinal de contas. Eu me enganara.
Ela sorriu, o mesmo sorriso meio de lado.
— Eu prometi a mim mesma que seria uma boa esposa para ele, e eu fui. Só servia as comidas de que ele gostava, usava as cores que ele queria e fazia tudo o que podia para agradá-lo. E ele era feliz. Mas nunca conseguimos nos livrar da família dele. Sempre vindo para cá como parasitas, vivendo às custas dele. A velha Srta. de Haviland... eu achava que ela devia ter ido embora quando nós nos casamos. Eu disse isso. Mas Aristide disse que "ela já estava aqui há muito tempo, que aqui já era a casa dela". A verdade é que ele gostava de tê-los todos debaixo dos calcanhares. Eles eram de testáveis para mim, mas ele nunca pareceu ter notado ou se preocupado com isto. Roger me odeia... você já viu Roger? Ele sempre me odiou. Ele tinha ciúmes. E Philip é tão emproado que nunca fala comigo. E agora eles estão pretendendo que fui eu que o assassinei... e não fui eu! Não fui eu! — inclinou-se para mim. — Por favor, você acredita em mim, não é?
Eu a achei patética. A maneira desdenhosa como a família Leonides se referia a ela, a ansiedade que tinham em acreditar que ela cometera o crime — para mim, neste exato momento, isto parecia uma conduta positivamente desumana. Ela estava sozinha, sem defesa, acuada.
— E se não fui eu, eles pensam que foi Laurence — ela continuou.
— E sobre Laurence? — perguntei.
— Eu sinto muitíssimo por Laurence. Ele é fraco e não é capaz de lutar. Não que seja um covarde. Ele é muito nervoso. Eu sempre tentei animá-lo e fazê-lo um pouco feliz. Ele tem de ensinar àquelas crianças horríveis. Eustace está sempre fazendo pouco dele, e Josephine, bem... você já deve ter visto Josephine. Sabe como ela é.
Eu disse que ainda não conhecera Josephine.
—Às vezes eu penso que aquela menina não é muito certa da cabeça. Ela faz as coisas às escondidas e tem um jeito esquisito... Às vezes ela me dá arrepios...
Eu não queria falar sobre Josephine. Voltei novamente a Laurence Brown.
— Quem é ele? — perguntei. — De onde veio?
Eu fizera uma pergunta meio sem jeito. Ela corou.
— Ele não é ninguém. É assim como eu... Que chance nós podemos ter contra todos eles?
— Não acha que está sendo um pouco histérica?
— Não acho, não. Eles querem provar que foi Laurence...
ou então que fui eu. Estão com a polícia do lado deles. Que
chance eu tenho?
— Não se preocupe demais — disse eu.
— Por que não pode ter sido um deles quem o matou? Ou alguém de fora? Ou um dos empregados?
— Há uma certa falta de motivo.
— Oh, motivo. Que motivo eu tinha? Ou Laurence?
Eu me senti meio encabulado ao dizer:
—Eles podem sugerir, eu presumo, que a senhora e... ahn... e Laurence... estão apaixonados um pelo outro... e que queriam casar-se.
Ela pôs-se de pé, empertigada.
—Isto é uma sugestão maldosa! E não é verdade! Nós nunca trocamos uma palavra neste sentido. Eu só sentia pena dele e tentava alegrá-lo. Nós éramos amigos, nada mais. Você acredita em mim, não acredita?
Eu acreditava nela. Isto é, eu acreditava que ela e Laurence eram apenas, como ela dizia, amigos. Mas eu também acreditava que, possivelmente sem que ela mesma soubesse, estivesse apaixonada pelo rapaz.
Foi com esta idéia na cabeça que eu desci à procura de Sophia.
Quando eu estava entrando na sala de estar, Sophia enfiou a cabeça por uma outra porta perto do corredor.
—Alô! — disse ela. — Estou ajudando Nannie com o almoço.
Eu ia entrar, mas ela saiu e, puxando-me pelo braço, levou-me para a sala de estar, que estava vazia.
—Bem — disse ela. — Você viu Brenda? O que achou dela?
—Francamente — disse eu, — eu fiquei com pena dela.
Sophia pareceu divertida.
—Estou vendo — disse. — Então ela já conquistou você.
Eu me irritei.
— A verdade é que eu posso ver o ponto de vista dela. Aparentemente você não pode.
— Qual é o ponto de vista dela?
— Honestamente, Sophia, algum de vocês da família tentou ser amável com ela, ou mesmo razoavelmente tolerante, desde que ela veio para cá?
— Não, nenhum de nós tentou ser amável com ela. Por que deveríamos ser?
— Apenas um pouco de caridade cristã, nada mais.
— Que ar emproado de moralista você está tomando, Charles. Brenda deve ter representado muito bem para você.
— Realmente Sophia, você parece... eu não sei o que há com você.
— Eu estou sendo apenas honesta e não estou fingindo. Você diz que viu o lado de Brenda, não foi? Agora, dê uma olhada no meu lado. Eu não gosto deste tipo de mulher moça que inventa uma história triste e se casa com um velho muito rico em decorrência desta história. Eu tenho todo o direito de não gostar deste tipo de mulher, e não há nenhuma razão válida que me faça fingir o contrário. E se os fatos fossem escritos friamente num papel, você também não gostaria daquela mulher.
— Era uma história forjada? — perguntei.
— Sobre a criança? Eu não sei. Pessoalmente acho que sim.
— E você se ressente pelo fato de seu avô ter sido enganado?
— Oh, não, meu avô não foi enganado — Sophia riu-se. — Meu avô nunca foi enganado por ninguém. Ele que ria Brenda. Queria bancar o santo para sua pobre Cinderela. Ele sabia exatamente o que estava fazendo e tudo correu lindamente como ele esperava. Do ponto de vista de meu avô, este casamento foi um sucesso completo. Como todos os seus outros negócios.
— Contratar Laurence Brown como professor foi outro dos sucessos de seu avô? — perguntei ironicamente.
Sophia franziu a testa.
— Sabe? Eu não estou tão certa que não tenha sido... Ele queria manter Brenda contente e satisfeita. Talvez tenha pensado que jóias e roupas não fossem o suficiente. Ele deve ter pensado que um ligeiro romance em sua vida fosse bom... deve ter calculado que alguém como Laurence Brown, alguém realmente muito dócil, se você entende o que quero dizer, funcionaria bem. Uma linda amizade espiritual, mesclada com melancolia, impediria Brenda de ter um caso verdadeiro com qualquer outro de fora. Eu não me espantaria se meu avô tivesse arquitetado um plano assim. Ele era um velho diabólico, você sabe...
— Deve ter sido mesmo — disse eu.
— Ele pode não ter, é claro, visualizado que isto resultaria num crime... E é por isto — disse Sophia, falando de repente com veemência — que por mais que eu queira, não consigo acreditar realmente que foi ela quem o matou. Se ela planejasse assassiná-lo... ou se ela e Laurence tivessem planejado juntos... meu avô teria descoberto tudo. Eu diria que foi assim, mas isto deve parecer-lhe um tanto forçado...
— Eu confesso que parece.
— Mas você não conhecia o meu avô. Ele certamente não seria conivente de seu próprio assassinato! Então onde estamos? Novamente na estaca zero!
— Ela está apavorada, Sophia — disse eu. — Ela está completamente apavorada.
O Inspetor-Chefe Taverner e seus alegres rapazes? Sim, eu diria que eles são um tanto ou quanto alarmantes. Eu imagino que Laurence esteja histérico?
— Praticamente. A meu ver, ele deu uma exibição repelente dele próprio. Eu não entendo como uma mulher pode cair por um homem daqueles.
— Não sabe, Charles? Realmente Laurence é um bocado atraente.
— Um fracote daqueles? — disse eu incrédulo.
— Por que os homens pensam que somente o tipo homem-das-cavernas seja necessariamente o único tipo atrativo para o sexo oposto? Laurence tem atrativos sim... mas eu não esperaria mesmo que você os percebesse — olhou para mim. — Brenda também fisgou-o.
— Não seja absurda. Ela não é nem mesmo bonita. E certamente não tem...
— Não demonstra seus encantos? Não, ela fez você ficar com pena dela. Ela não é mesmo bonita, não é muito inteligente... mas possui uma característica notável. Ela sempre gera problemas. Já criou um agora, entre você e eu.
— Sophia! — disse eu agastado.
Sophia saiu pela porta.
— Esqueça, Charles, eu preciso ir ajudar com o almoço.
— Eu irei ajudá-la.
— Não, fique aqui. Vai embatucar Nannie ter "um cavalheiro na cozinha".
— Sophia! — eu chamei quando ela ia saindo.
— O que é?
— Apenas um problema de empregados. Por que vocês não têm empregadas de uniforme aqui e lá em cima para abrir as portas?
— Meu avô tinha cozinheira, copeira, arrumadeira e um criado de quarto. Ele gostava de ter empregados. Pagava-lhes uma fortuna, é claro, e tinha o que queria. Clemency e Roger têm somente uma mulher que vem trabalhar por hora e que faz a limpeza. Eles não gostam de criadas... ou pelo me nos, Clemency não gosta. Se Roger não fizesse uma refeição decente na cidade todos os dias, ele morreria de fome. A idéia que Clemency faz de uma refeição é alface, tomates e cenoura crua. Às vezes nós temos empregadas, mas então mamãe
tem uma crise temperamental e elas vão embora, e nós ficamos com alguém por dia até recomeçar outra vez. Agora estamos no período das diaristas. Nannie é que é permanente e sempre ajuda nas emergências. Agora você já sabe.
Sophia saiu. Eu me afundei numa das enormes poltronas de brocado e desisti de minhas especulações.
No andar de cima eu vira o lado de Brenda. Aqui eu acabara de ver o lado de Sophia. Calculei a justeza do ponto de vista de Sophia — que poderia ser chamado de ponto de vista da família Leonides. Eles se indignavam com aquela estrangeira que transpusera os portões da família e entrara usando meios que eles consideravam ignóbeis. Eles estavam inteiramente em seus direitos. Como Sophia dissera: no papel a história não parecia bem contada...
Mas havia o lado humano — o lado que eu via e eles não. Eles eram, e sempre tinham sido, ricos e bem estabelecidos. Não tinham idéia das tentações de um pobre-diabo. Brenda Leonides quisera ter riqueza, coisas bonitas e segurança — um lar. Ela clamava que em troca fizera de seu velho marido um homem feliz. Eu simpatizara com ela. Certamente, enquanto eu falava com ela, simpatizara com o seu problema... Simpatizaria ainda agora?
Dois lados de um problema — ângulos diferentes de visão — qual seria o ângulo verdadeiro... o ângulo verdadeiro...
Eu dormira muito pouco na noite anterior. Acordara muito cedo para acompanhar Taverner. Agora, na atmosfera tépida e perfumada da sala de estar de Magda Leonides, meu corpo relaxou entre os amplos braços acolchoados da enorme poltrona e meus olhos se fecharam...
Pensando em Brenda, em Sophia, no retrato de um velho, meus pensamentos misturaram-se num cochilo agradável.
Eu adormeci.


Capítulo 10
VOLTEI À CONSCIÊNCIA tão lentamente que não percebi logo que estivera dormindo. O perfume das flores me envolvia. À minha frente, uma mancha branca parecia flutuar no espaço. Foram precisos alguns segundos para que eu percebesse que era um rosto humano aquilo que eu estava olhando — um rosto suspenso no ar a meio metro de mim. Quando meus sentidos foram voltando, minha visão tornou-se mais precisa. O rosto ainda tinha uma certa sugestão de duende — era redondo, com as sobrancelhas salientes, cabelos penteados para trás e olhos pequenos, pretos e redondos como contas. Mas estava definitivamente preso a um corpo — um corpo magro e pequeno. E me olhava com muita atenção.
— Alô — disse.
— Alô — respondi, piscando os olhos.
— Eu sou Josephine.
Eu já deduzira isto. Josephine, a irmã de Sophia, devia ter — calculei — uns onze ou doze anos. Era uma criança fantasticamente feia e se parecia muito com seu avô. Pareceu-me que ela tivesse herdado igualmente a sua inteligência.
—Você é o rapaz de Sophia — disse Josephine.
Eu confirmei a verdade desta afirmação.
— Mas você veio para cá com o Inspetor-Chefe Taverner. Por que foi que você veio para cá com o Inspetor-Chefe Taverner?
— Porque ele é meu amigo.
— É mesmo? Não gosto dele. Eu não contaria coisas para ele.
— Que tipo de coisas?
— As coisas que eu sei. Sei uma porção de coisas. Eu gosto de saber de coisas.
Ela se sentou no braço de minha cadeira e continuou me examinando com atenção. Comecei a me sentir inconfortável.
— Vovô foi assassinado. Você sabia?
— Sim — disse eu. — Eu sabia.
— Ele foi envenenado. Com e-se-ri-na — pronunciou a palavra cuidadosamente. — É interessante, não é?
— Eu creio que sim.
— Eustace e eu estamos muito interessados. Nós gostamos de histórias de detetives. Sempre quis ser um detetive. Agora estou sendo um. Estou recolhendo indícios.
Eu percebi que ela era uma criança um tanto vampiresca.
Voltou à carga.
— O homem que veio com o Inspetor Taverner é um detetive também, não é? Nos livros dizem que a gente sempre reconhece um detetive à paisana pelas botas. Mas este detetive estava usando sapatos de camurça.
— Os tempos mudaram — disse eu.
Josephine interpretou este comentário de acordo com suas próprias idéias.
—Sim — disse ela. — Haverá muitas mudanças por aqui, eu espero. Nós vamos mudar-nos e morar em uma casa em Londres, perto do rio. Há muito tempo que mamãe queria. Ela vai ficar muito alegre. Eu acho que papai não se vai importar se os livros dele também forem. Antes ele não podia ir. Perdeu um bocado de dinheiro em Jezebel.
— Jezebel? — perguntei.
— Você não foi ver, foi?
— Oh, era uma peça. Não, eu não vi. Eu cheguei de fora.
— Não ficou em cartaz muito tempo. De fato, foi o maior fiasco. Eu não acho que mamãe seja realmente o tipo para interpretar Jezebel, você acha?
Eu examinei minhas impressões sobre Magda. Nem a mulher do robe cor de pêssego, nem a do costume elegante me davam a mínima sugestão de Jezebel, mas eu acreditava que devia haver ainda muitas Magdas que eu não conhecia.
— Talvez não — disse eu cauteloso.
— Vovô sempre disse que ia ser um fracasso. Ele disse que não poria um tostão nestas peças históricas sobre religião. Dizia que elas nunca deram sucesso de bilheteria. Mas mamãe estava tremendamente entusiástica. Eu mesmo não gostei. E não estava nem um pingo parecida com a história da Bíblia. Eu quero dizer, Jezebel não era tão malvada como ela é na Bíblia. Ela era muito patriótica e mesmo muito simpática. Assim ficou chato. Afinal, o fim foi bom. Eles a jogaram pela janela. Mas os cachorros não vieram comê-la. Eu achei que foi uma pena, não acha? A parte que eu mais gosto é onde os cachorros vêm comê-la. Mamãe disse que não era possível ter cachorros no palco, mas eu não vejo por quê. Podiam arranjar cachorros ensinados — recitou a passagem com alegria: — "E eles comeram-na toda, só deixando as palmas de suas mãos." Por que é que eles não comeram as palmas das mãos?
— Realmente eu não tenho idéia — disse eu.
— Você acha que esses cachorros eram assim tão especiais? Os nossos não são. Eles comem de tudo.
Josephine ficou meditando sobre este mistério bíblico por alguns segundos.
— Eu sinto muito que a peça tenha sido um fracasso — disse eu.
— Sim. Mamãe ficou horrivelmente aborrecida. As críticas eram simplesmente horrorosas. Quando ela as leu, desmanchou-se em lágrimas e chorou o dia inteiro. Jogou a bandeja do café em cima de Gladys e Gladys pediu demissão. Foi muito engraçado.
— Eu já vi que você gosta de dramas, Josephine.
— Eles fizeram uma autópsia em vovô — disse Josephine. — Para saber de que foi que ele morreu. Um P. M. ... post mortem... eles chamam isso, mas eu acho que faz muita confusão, não acha? Porque P. M. serve também para Primeiro-Ministro. E para as horas da tarde1. — Ela acrescentou pensativa.
1 PM.— Past Meridian: depois do meio-dia.

— Você ficou triste porque seu avô morreu? — perguntei.
— Não muito. Eu não gostava muito dele. Não me deixou ser uma bailarina.
— Você queria estudar balé?
— Queria, e mamãe também queria que eu aprendesse, e papai não se importava, mas vovô disse que eu não ia prestar para o balé.
Ela escorregou do braço da poltrona, chutou para o ar os sapatos e esforçou-se para ficar no que tecnicamente chamam, creio eu, de pontas.
—Você precisa os sapatos adequados — explicou. — E mesmo assim a gente fica às vezes com abscessos horríveis na ponta dos dedos.
Ela recuperou os sapatos e perguntou com casualidade:
— Você gosta desta casa?
— Eu ainda não tenho certeza — respondi.
— Eu acho que vai ser vendida agora A menos que Brenda continue a morar aqui. E eu acho que o tio Roger e tia Clemency não vão mais viajar para o exterior.
— Eles iam viajar? — perguntei com um ligeiro movimento de interesse.
— Sim. Eles iam embora terça-feira. Para o estrangeiro, um lugar qualquer. Eles iam de avião. Tia Clemency comprou uma destas valises novas, superleves.
— Eu não tinha ouvido dizer que eles iam viajar — disse eu.
— Não — disse Josephine. — Ninguém sabia. Era um segredo. Eles não iam contar para ninguém até terem ido embora. Iam deixar um bilhete para o vovô. Mas não ia ficar na almofadinha de alfinetes. Somente em livros velhos e quando as mulheres deixam os maridos. Agora ia parecer besteira, porque ninguém mais usa almofadinhas de alfinetes.
— É claro que não. Josephine, você sabe por que o seu tio Roger estava... indo embora?
Josephine me deu uma olhada de esguelha muito ladina.
— Eu acho que sei. Tinha alguma coisa que ver com o escritório de tio Roger em Londres. Eu até acho... mas não tenho certeza... que ele desviou um dinheiro.
— O que a faz pensar assim?
Josephine se aproximou respirando pesadamente sobre meu rosto.
—O dia em que vovô foi assassinado, tio Roger ficou trancado com ele no quarto mais tempo do que de costume. Eles falavam e falavam. E tio Roger estava dizendo que ele nunca prestara mesmo, e que ele deixara o vovô na mão... e que não era tanto o dinheiro que importava... era o sentimento de não ter correspondido à confiança. Ele estava péssimo.
Eu olhei para Josephine com sentimentos confusos.
—Josephine — disse, — ninguém nunca lhe disse que não é bonito ficar ouvindo o que os outros falam por detrás das portas?
Josephine fez que sim vigorosamente com a cabeça.
—É claro que disseram. Mas se você quiser descobrir alguma coisa, tem que ficar escutando atrás das portas. Eu aposto que o Inspetor Taverner faz isso, não faz?
Eu considerei a questão. Josephine continuou com veemência:
—E de todo jeito, se ele não fizer isto, o outro deve fazer, aquele de sapatos de camurça. E eles espionam nas escrivaninhas das pessoas e lêem todas as cartas e descobrem todos os segredos. A única coisa é que são burros! Não sabem onde olhar!
Josephine falou com fria superioridade. Eu tinha sido por demais estúpido ao fazer este comentário. A desagradável criança continuou:
— Eustace e eu sabemos uma porção de coisas... mas eu ainda sei mais que Eustace. E não vou contar pra ele. Ele diz que as mulheres não podem nunca ser bons detetives. Mas eu digo que podem. Vou escrever tudo o que eu sei num caderno e então, quando a polícia estiver completamente desconcertada, eu vou dar um passo à frente e dizer: "Eu posso dizer-lhes quem foi".
— Você lê muitas histórias de detetives, Josephine?
— Montes!
— Eu calculo que você pensa que sabe quem foi que matou seu avô?
— Bem, eu penso que sim... mas ainda tenho de descobrir mais algumas pistas — fez uma pausa e acrescentou: — O Inspetor Taverner pensa que foi Brenda, não é? Ou Brenda e Laurence juntos porque eles estão apaixonados um pelo outro.
— Você não devia dizer isto, Josephine.
— Por que não? Eles estão apaixonados um pelo outro.
— Você não pode julgar isto.
— É claro que eu posso. Eles se escrevem. Cartas de amor.
— Josephine! Como é que você sabe disto?
— Porque eu li as cartas. Cartas horrivelmente sentimentais. Mas Laurence é um sentimental. Ele teve tanto medo que não foi lutar na guerra. Ficou pelos porões e punha carvão nas caldeiras. Quando as bombas voadoras caíam por aqui, ele ia ficando verde... verde mesmo! Eustace e eu ríamos um bocado.
O que eu deveria dizer agora eu não sei, pois neste instante um carro parou do lado de fora. Num relâmpago Josephine estava na janela, o nariz arrebitado espremido contra o vidro.
— Quem é? — eu perguntei.
— É o Sr. Gaitskill, o advogado de vovô. Eu acho que ele veio por causa do testamento.
Respirando excitadamente, saiu correndo da sala, certamente para continuar seu trabalho de investigação.
Magda Leonides entrou na sala e para minha surpresa veio até onde eu estava e tomou as minhas mãos entre as suas.
— Meu caro — disse ela, — graças a Deus que você ainda está aqui. É tão bom ter um homem perto!
Ela deixou cair minhas mãos, dirigiu-se a uma cadeira de encosto alto, mudou-a ligeiramente de posição, olhou-se no espelho, e pegando uma pequena caixa esmaltada de cima de uma mesa, pôs-se pensativamente a abri-la e fechá-la.
Era uma pose muito atraente.
Sophia enfiou a cabeça pela porta e disse num sussurro repreensivo:
— Gaitskill!
— Eu sei — disse Magda.
Alguns momentos depois, Sophia entrou na sala acompanhada por um homenzinho pequeno, já idoso, e Magda deixou de lado a sua caixa esmaltada e levantou-se para cumprimentá-lo.
— Bom dia, Sra. Philip. Eu estou indo lá para cima. Parece que há um mal-entendido sobre o testamento. Seu ma rido me escreveu dando a impressão de que o testamento estava em meu poder. Eu ouvi do próprio Sr. Leonides que o testamento estava em seu cofre. A senhora sabe de alguma coisa?
— Sobre o testamento do pobrezinho? — Magda arregalou os olhos. — Não, é claro que não. Não me diga que aquela malvada daquela mulher lá de cima destruiu-o?
— Vamos, Sra. Philip — ele balançou um dedo admoestador para ela. — Não faça conjeturas irrefletidas. É apenas uma questão de saber onde o seu sogro guardava o testamento.
— Mas ele o mandou para o senhor... foi o que ele fez... depois de assiná-lo. Ele mesmo nos disse que fez isto.
— Eu ouvi dizer que a polícia já examinou os papéis particulares do Sr. Leonides — disse o Sr. Gaitskill. — Irei falar com o Inspetor Taverner.
Ele saiu da sala.
— Querida! — gritou Magda. — Ela o destruiu. Eu sei que estou certa.
— Tolice, mamãe, ela não faria uma estupidez dessas.
— Não seria estupidez nenhuma. Se não houver testamento ela fica com tudo.
— Pssiuu... Gaitskill está voltando.
O advogado entrou de novo na sala. O Inspetor Taverner estava com ele, e atrás de Taverner vinha Philip.
—Eu ouvi do Sr. Leonides — Gaitskill estava dizendo — que ele deixaria o testamento no Banco para ficar bem guardado.
Taverner balançou negativamente a cabeça.
—Eu já me comuniquei com o Banco. Eles não tinham nenhum papel privado do Sr. Leonides a não ser algumas ações de que cuidavam para ele.
Philip disse:
—Eu imagino se Roger... ou tia Edith... Sophia, talvez se você pudesse chamá-los aqui um instante?
Mas Roger Leonides, convocado assim como os outros para o conclave, também não pôde dar nenhuma ajuda.
— Mas é bobagem... bobagem absoluta — declarou ele. — Papai assinou o testamento e disse claramente que ia pô-lo no correio para o Sr. Gaitskill no dia seguinte.
— Se não me falha a memória — disse o Sr. Gaitskill, inclinando-se para trás e semicerrando os olhos, — foi no dia 24 de novembro do ano passado que eu remeti um rascunho feito de acordo com as instruções do Sr. Leonides. Ele aprovou o rascunho, devolveu-o para mim e no tempo devido, eu lhe enviei o testamento para a sua assinatura. Depois do espaço de uma semana, eu tomei a liberdade de lembrá-lo que ainda não recebera o testamento devidamente assinado com testemunhas e perguntei-lhe se havia alguma cláusula que quisesse alterar. Ele respondeu que estava perfeitamente satisfeito e acrescentou que depois de assinado tinha enviado o testamento para o Banco.
— Foi assim mesmo — disse Roger ansioso. — Foi mais ou menos no fim de novembro do ano passado... você se lembra, Philip? Papai nos chamou a todos lá em cima uma noite e leu o testamento para nós.
Taverner voltou-se para Philip Leonides.
— Isto está de acordo com o que o senhor se lembra, Sr. Leonides?
— Sim — disse Philip.
— É quase como a Herança de Voysey — disse Magda e suspirou deliciada. — Eu sempre achei que havia algo dramático sobre os testamentos.
— Srta. Sophia?
— Sim — disse Sophia, — eu me lembro perfeitamente.
— E quais eram os termos deste testamento? — perguntou Taverner.
Gaitskill ia responder em sua maneira precisa mas Roger Leonides adiantou-se:
— Era um testamento muito simples. Electra e Joyce já tinham morrido e a parte que lhes coubera nos outros termos retornara a meu pai. William, o filho de Joyce, foi morto em ação na Birmânia e o dinheiro dele ficou para seu pai. Philip, eu e as crianças éramos os únicos parentes que lhe restavam. Papai nos explicou isso. Ele deixava cinqüenta mil libras livres de impostos para tia Edith, cem mil libras livres de impostos para Brenda, esta casa ou uma outra a ser comprada em Londres para Brenda... o que ela preferisse. O restante seria dividido em três porções, uma para mim, uma para Philip e
a terceira a ser dividida entre Sophia, Eustace e Josephine, sendo
que a parte destes dois ficaria depositada em juízo até que eles
atingissem a maioridade. Eu creio que foi assim, não foi, Sr.
Gaitskill?
— Eram estes, aproximadamente, os termos do documento que eu preparei — concordou o Sr. Gaitskill, demonstrando um certo azedume por não lhe terem permitido falar por si próprio.
— Papai leu-o para nós — disse Roger. — Ele perguntou se havia algum comentário que nós gostaríamos de fazer. É lógico que não havia nenhum.
— Brenda fez um comentário — disse Edith de Haviland.
— Sim — confirmou Magda com picardia. — Ela falou que não agüentava ouvir o seu querido Aristide falar sobre a morte. "Me dá arrepios" ela disse. E que depois que ele morresse ela não queria saber daquele horrível dinheiro!
—Este — disse Edith de Haviland — era o protesto convencional, típico da classe dela.
Era um comentário cruel e maldoso. Eu percebi de repente o quanto Edith de Haviland detestava Brenda.
— Uma maneira muito justa e razoável de dispor de seus bens — disse Gaitskill.
— E depois de ler o testamento, o que aconteceu? — perguntou o Inspetor Taverner.
— Depois de lê-lo — disse Roger, — ele o assinou.
Taverner inclinou-se para a frente.
— Como e quando ele o assinou?
Roger olhou para o lado de sua esposa como pedindo auxílio. Clemency falou em resposta ao olhar. O resto da família parece que ficou satisfeito ao vê-la tomar a palavra.
— O senhor quer saber exatamente como foi que isto se passou?
— Por favor, Sra. Roger.
— Meu sogro pôs o testamento em sua mesa e pediu a um de nós... creio que foi a Roger... que tocasse a campainha. Roger fez o que ele pediu. Quando Johnson veio em resposta, meu sogro pediu que ele fosse buscar Janet Woolmer, a copeira. Quando ambos estavam na sala, ele assinou o testamento e pediu-lhes que assinassem abaixo de seu nome.
— O procedimento correto — disse o Sr. Gaitskill. — Um testamento deve ser assinado pelo interessado na presença de duas testemunhas que devem assinar ao mesmo tempo e no mesmo local.
— E depois? — perguntou Taverner.
— Meu sogro agradeceu-lhes e eles saíram. Meu sogro pegou o testamento, colocou-o num envelope e mencionou que iria enviá-lo para o Sr. Gaitskill no dia seguinte.
— Vocês todos estão de acordo — disse o Inspetor Taverner, olhando em torno — que este relato é aproximadamente o que se passou?
Houve uma série de murmúrios de assentimento.
— O testamento estava sobre a mesa, dizem vocês. A que distância da mesa vocês estavam?
— Não muito perto. Cinco ou seis metros, no mínimo.
— Quando o Sr. Leonides leu o testamento, ele próprio estava sentado à mesa?
— Sim.
— Ele se levantou ou deixou a mesa, depois de ler o testamento e antes de assiná-lo?
— Não.
— Os empregados puderam ler o testamento enquanto assinavam seus nomes?
— Não. Meu sogro colocou uma folha de papel dobrada sobre a parte de cima do documento — disse Clemency.
— Muito acertado — disse Philip. — Os termos do testamento não eram da conta dos empregados.
— Eu estou vendo... — disse Taverner. — Pelo menos... mas eu não compreendo.
Com um movimento rápido ele tirou do bolso um envelope comprido e inclinou-se para entregá-lo ao advogado.
—Dê uma espiada nisto — disse ele. — E diga-me do que se trata.
Gaitskill tirou um documento dobrado de dentro do envelope. Olhou para ele com acentuado espanto, virando-o diversas vezes entre as mãos.
— Isto — disse ele — é extremamente surpreendente. Eu não compreendo. Onde foi que o senhor o encontrou?
— No cofre. Entre os outros papéis do Sr. Leonides.
— Mas o que é isto? — perguntou Roger. — Por que todo este espanto?
— Este é o testamento que eu preparei para o seu pai assinar, Roger... mas... eu não entendo que depois de tudo o que vocês disseram... ele não está assinado.
— O quê? Bem, eu calculo que seja apenas um rascunho.
— Não — disse o advogado. — O Sr. Leonides me mandou de volta o rascunho original. Foi então que eu preparei o testamento... este testamento — bateu no papel com os dedos — e enviei-o para que ele o assinasse. De acordo com o testemunho de todos vocês ele assinou este testamento em frente de todos e também das duas testemunhas que assinaram; entretanto, este papel não está assinado.
— Mas isto é impossível! — exclamou Philip Leonides, falando no tom mais animado que eu já escutara dele.
Taverner perguntou:
— Como era a vista de seu pai?
— Ele sofria de glaucoma. Usava lentes muito fortes, é claro, para ler.
— Ele estava de óculos naquela noite?
— Claro. Ele não tirou os óculos até a hora de assinar. Vocês concordam?
— Com toda a certeza — disse Clemency.
— E ninguém... vocês estão certos disso?... chegou perto da mesa dele antes que ele assinasse o testamento?
— Eu estou tentando imaginar — disse Magda, apertando os olhos — se nós podemos visualizar tudo outra vez.
— Ninguém esteve perto da mesa — disse Sophia. — E vovô ficou sentado o tempo inteiro.
— A mesa estava na mesma posição em que está agora? Não estava perto de uma porta, de uma janela ou de alguma cortina?
— Estava no mesmo lugar em que se encontra agora.
— Eu estou tentando ver se alguma substituição pode ter sido efetuada — disse Taverner. — Deve ter havido uma substituição. O Sr. Leonides teve a impressão de que estava assinando este documento, que ele acabara de ler em voz alta.
— As assinaturas não poderiam ter sido apagadas? — perguntou Roger.

—Não, Sr. Leonides. Elas teriam deixado traços no papel. Há uma outra possibilidade. Que este aqui não seja o documento enviado pelo Sr. Gaitskill para o Sr. Leonides e que ele assinou na presença de vocês.
— Pelo contrário — disse Gaitskill. — Eu posso jurar que este é o documento original. Havia uma pequena mancha no papel... no alto à esquerda... que lembrava, por um acaso estranho, um avião. Eu reparei nisto.
A família se entreolhava perplexa.
— Uma circunstância deveras curiosa — disse Gaitskill. — Absolutamente sem precedentes na minha profissão.
— Tudo isto é impossível — disse Roger. — Nós estávamos todos lá. Simplesmente não pode ter acontecido nada.
Edith de Haviland pigarreou.
— Não adianta vocês ficarem gastando o fôlego a dizer que uma coisa que aconteceu não podia ter acontecido — disse ela. — Em que ficamos agora? Isto é o que eu gostaria de saber.
Imediatamente Gaitskill tornou-se o advogado cauteloso.
—A posição precisará ser examinada muito cuidadosamente. O documento, é lógico, revoga todos os testamentos e documentos anteriores — disse ele. — Há um grande número de testemunhas que viram o Sr. Leonides assinar o que ele em sua boa-fé pensava ser este testamento. Hum... Muito interessante... Um probleminha jurídico.
Taverner deu uma espiada no relógio.
— Eu sinto muito — disse ele — mas acho que estou atrasando o almoço de vocês.
— Não quer ficar e almoçar conosco, Inspetor? — perguntou Philip.
— Obrigado, Sr. Leonides, mas eu preciso encontrar-me com o Dr. Gray em Swinly Dean.
Philip virou-se para o advogado.
—Você almoça conosco, Gaitskill?
—Muito obrigado, Philip.
Todos ficaram de pé. Eu me aproximei discretamente de Sophia.
— Devo ir ou ficar? — murmurei. Parecia ridículo como o título de uma canção vitoriana.
— Ir, eu creio — disse Sophia.
Eu saí de manso da sala para alcançar Taverner. Josephine estava-se balançando de um lado para outro pendurada na porta que dava para os fundos da casa. Ela parecia estar achando alguma coisa muito engraçada.
— A polícia é estúpida — observou ela.
Sophia saiu da sala de visitas.
— O que é que você estava fazendo, Josephine?
— Ajudando Nannie.
—Eu garanto que você estava atrás da porta escondida e ouvindo a conversa.
Josephine fez uma careta para ela e foi-se embora.
—Esta criança — disse Sophia — é um problema.

Capítulo 11
QUANDO EU ENTREI na sala do Comissário Assistente da Yard, Taverner estava acabando de desfiar o resumo de um rosário de lágrimas.
E aqui estamos — estava dizendo ele. — Eu virei uma porção deles pelo avesso... e que foi que eu consegui?... absolutamente nada! Nenhum motivo. Nenhum deles precisando de dinheiro. E a única coisa que conseguimos contra a mulher e seu rapazinho foi que ele lhe dava olhares melosos quando ela servia o café!
— Vamos, vamos, Taverner — disse eu — eu acho que consegui um pouquinho mais do que você.
— Conseguiu mesmo? Muito bem, Sr. Charles, o que foi que descobriu?
Eu me sentei, acendi um cigarro, recostei-me na cadeira e observei a audiência.
—Roger Leonides e a mulher estavam planejando uma fuga para o exterior na próxima terça-feira. Roger e o pai tiveram uma entrevista tempestuosa no dia da morte do velho. O velho Leonides descobrira algo errado e Roger estava admitindo a culpabilidade.
Taverner ficou roxo.
—Em que diabos você conseguiu isto? — perguntou ele. — Se foi pelos empregados...
— Não foi pelos empregados. Consegui — disse eu — de um agente particular.
— O que é que você quer dizer?
— Devo admitir que de acordo com as regras das melhores histórias de detetives, ele, ou talvez ela... ou seria melhor dizer, aquilo... passou a polícia para trás! E eu penso também — continuei — que o meu detetive particular ainda tem uma porção de coisas escondidas na manga dele, dela ou daquilo...
Taverner abriu a boca e fechou-a novamente. Ele queria fazer tantas perguntas de uma vez que achou difícil saber por onde começar.
—Roger! — disse ele. — Então Roger... não vale nada, hein?
Eu senti uma certa relutância enquanto contava tudo. Eu gostara de Roger Leonides. Lembrava-me de seu quarto confortável e simpático, de seu ar amigável e me desgostava soltar os cães da polícia atrás dele. Era possível também, é claro, que as informações de Josephine não fossem dignas de crédito mas eu não pensava assim.
—Então foi a menina que lhe contou? — perguntou Taverner. — Ela parece saber de tudo o que se passa na casa.
Esta informação, é verdade, alterava toda a situação. Se Roger tivesse, como Josephine atrevidamente sugerira, "desviado" os fundos da Associação de Fornecedores e se o velho houvesse descoberto, teria sido vital silenciar o velho Leonides e deixar a Inglaterra antes que a verdade viesse à tona. Possivelmente Roger tornara-se passível de um processo criminal.
Concordamos que um inquérito deveria ser feito sem demora nos negócios da Associação de Fornecedores.
—Vai ser um colapso financeiro monumental, se isto acontecer mesmo — disse meu pai. — É uma empresa imensa. Há milhões envolvidos.
—Se ele estiver mesmo em apuros, isto nos dará o que queremos — disse Taverner. — O papai chama Roger. Roger perde o controle e confessa. Brenda Leonides estava no cinema. Roger só tem de sair do quarto do pai, ir até o banheiro, esvaziar um vidro de insulina e substituí-lo por uma solução forte de eserina e cá estamos! Ou talvez sua esposa é quem tenha feito a troca. Ela foi até a outra ala da casa depois que chegou naquele dia... alega que foi procurar um cachimbo que Roger deixara lá. Mas ela pode ter ido até lá dentro para trocar as drogas antes que Brenda chegasse em casa e lhe desse a injeção. Ela me parece bastante fria e calculista para fazê-lo.
Eu concordei com a cabeça.
— Sim, eu sou capaz de vê-la como o autor da façanha. Ela me parece fria o bastante para fazer qualquer coisa! Não imagino Roger Leonides pensando em veneno como um meio... este truque da insulina tem algo de feminino!
— Há uma porção de envenenadores homens — disse meu pai secamente.
— Oh, eu sei, sim senhor — disse Taverner. — Imagine se eu não soubesse! — acrescentou meio sentido.
— De qualquer forma, eu não acho que Roger seja deste tipo.
— Pritchard — lembrou-lhe o Velho — enganava muito...
— Digamos que os dois agiram juntos.
— Com um toque de Lady Macbeth — disse meu pai, quando Taverner saiu. — É isto o que o intriga, Charles?
Eu visualizei a figura graciosa parada em frente à janela naquele quarto austero.
— Não é bem isso — eu disse. — Lady Macbeth era essencialmente uma mulher gananciosa. Eu não creio que Clemency Leonides o seja. Não acredito que ela deseja ou mesmo faça caso de riquezas.
— Mas ela desejaria, desesperadamente, a segurança de seu marido?
—Isto sim. E ela poderia ser certamente... bem... impiedosa.
"Diferentes tipos de crueldade...": fora isto o que Sophia dissera.
Eu levantei os olhos e vi que o Velho estava-me observando.
—Em que é que você está pensando, Charles?
Mas eu não lhe contei nada.
Fui chamado no dia seguinte e encontrei Taverner e meu pai juntos.
Taverner parecia satisfeito consigo mesmo e ligeiramente excitado.
— A Associação de Fornecedores está à beira da falência — disse meu pai.
— Vai por água abaixo a qualquer momento — disse Taverner.
— Eu soube que houve uma queda violenta das ações a noite passada — disse eu. — Mas parece que eles conseguiram recuperar-se hoje de manhã.
— Nós investigamos com muita cautela — disse Taverner. — Nenhum inquérito direto. Nada que pudesse causar pânico... ou que deixasse o nosso cavalheiro fujão com a pulga atrás da orelha. Mas temos fontes particulares de informações e as informações foram muito definidas. A Associação de Fornecedores está à beira da falência. Não pode manter de maneira alguma os seus compromissos. A verdade é que parece que está sendo mal administrada há anos.
— Por Roger Leonides?
— Sim. Ele tem o poder supremo, você sabe.
— E ele passou a mão no dinheiro...
— Não — disse Taverner. — Nós não pensamos assim. Para falar com franqueza, ele pode ser um assassino mas não cremos que seja um vigarista. No duro mesmo, ele foi apenas... um tolo. Não tem nenhuma capacidade para negócios. Ele soltava o que devia prender... hesitava na hora que devia jogar tudo. Delegava poderes às últimas pessoas às quais devia fazê-lo. É o tipo do sujeito confiante e confiava nas pessoas erradas. Cada vez e em cada ocasião ele fazia a coisa errada.
— Há pessoas assim — disse meu pai. — E eles não são realmente estúpidos. São apenas maus juizes da natureza humana. E se entusiasmam na ocasião errada.
— Um homem assim não devia nunca se meter em negócios — disse Taverner.
— Provavelmente ele não se meteria nunca — disse meu pai, — exceto pelo acidente de ser o filho de Aristide Leonides.
— O negócio estava em franca alta no mercado quando o velho passou-o às mãos dele. Devia ser uma mina de ouro! A gente pensa que bastava ele ficar sentado e deixar o barco correr sozinho.
— Não — meu pai balançou a cabeça. — Nenhum barco pode correr sozinho. Há sempre decisões a tomar... demitir um homem aqui... contratar um outro lá... pequenas questões de política interna. E com Roger Leonides as respostas parecem ter sido sempre as erradas...
— O senhor tem razão — disse Taverner. — Ele é um sujeito muito leal. Conserva os piores elementos... só porque gosta deles... ou porque já estão lá há muito tempo. E, às vezes, ele tinha as piores idéias ou as mais absurdas e insistia em executá-las apesar das enormes despesas que envolviam.
— Mas nada criminoso? — insistiu meu pai.
— Não, nada criminoso.
— Então, por que um assassinato? — perguntei.
— Ele pode ter sido um tolo e não um patife — disse Taverner. — Mas o resultado era o mesmo... ou quase o mesmo. A única coisa que poderá salvar a Associação de Fornecedores de uma falência seria uma colossal soma de dinheiro, o mais tardar (ele consultou um livrinho de notas)... o mais tardar até quarta-feira próxima no máximo.
— Uma tal soma que ele herdaria... ou pensava que herdaria... pelo testamento de seu pai?
— Exatamente.
— Mas ele não conseguiria arranjar esta tal soma em dinheiro.
—Não. Mas conseguiria o crédito. É a mesma coisa.
O Velho balançou a cabeça.
— Não teria sido mais simples ir até o velho Leonides e pedir auxílio? — sugeriu ele.
— Eu acho que ele fez isto — disse Taverner. — Eu creio que deve ser isto que a menina escutou. O velho recusou categoricamente, eu imagino, a jogar dinheiro fora. Era o que ele faria, vocês sabem.
Eu calculei que neste ponto Taverner estava certo. Aristide Leonides recusara-se a financiar a peça de Magda — dissera que não seria um êxito de bilheteria. Os fatos provaram que ele tinha razão. Era um homem generoso com a família mas não era um homem que pusesse dinheiro fora em empreendimentos improfícuos. E a Associação de Fornecedores precisava de milhares ou de centenas de milhares, provavelmente. Ele se recusara categoricamente e a única maneira de Roger evitar a ruína financeira seria com a morte do pai.
Sim, aí havia certamente um bom motivo.
Meu pai olhou para o relógio.
— Eu pedi a ele que viesse aqui — disse. — Deve estar chegando a qualquer minuto.
— Roger?
— Sim.
— Você quer vir à minha casa, perguntou a aranha à mosca? — murmurei eu.
Taverner olhou para mim com ar chocado.
—Nós devemos dar a ele todas as advertências necessárias — disse ele com severidade.
O palco estava arrumado, a estenodatilógrafa preparada. Neste instante a campainha soou e alguns minutos depois Roger Leonides entrou na sala.
Ele chegou ansioso — e um tanto sem jeito — tropeçou numa cadeira. Eu me lembrei, como da primeira vez, de um cachorrão simpático. Foi neste momento que eu decidi que não podia ter sido ele quem levara a cabo o processo de troca da eserina no frasco de insulina. Ele teria quebrado o vidro, derramado tudo, ou falhado a operação de uma ou outra maneira. Não, Clemency — decidi eu — deve ter feito a troca, se bem que Roger fosse conivente no delito.
Ele começou a falar aos arrancos:
—O senhor queria ver-me? Descobriu alguma coisa? Alô, Charles, eu não o tinha visto. Que bom você ter vindo. Mas, por favor, diga-me Sir Arthur...
Um camarada tão simpático — realmente um camarada muito simpático. Mas um monte de assassinos também tinham sido sujeitos simpáticos — pelo menos é o que diziam seus amigos espantados depois. Sentindo-me como Judas, eu lhe dei um sorriso de boas-vindas.
Meu pai foi deliberado, frio, oficial. Frases fluentes foram ditas. Declarações... seriam anotadas... não era obrigado... advogado...
Roger Leonides pôs tudo isto de lado com a mesma impaciência e ansiedade características.
Eu percebi um leve sorriso sardônico no rosto do Inspetor Taverner e, por ele, li os seus pensamentos.
"Sempre certos de si, esses caras... Não podem cometer um erro. São mais do que espertos!"
Eu me sentei discretamente em um canto e escutei.
—Eu lhe pedi para vir aqui, Sr. Leonides — começou meu pai, — mas não foi para lhe dar novas informações e sim para lhe pedir uma informação... informação esta que o senhor anteriormente escondeu.
Roger Leonides pareceu confuso.
— Escondi? Mas eu lhe contei tudo... absolutamente tudo!
— Eu penso que não. O senhor teve uma conversa com o falecido na tarde de sua morte?
— Sim, sim, eu tomei chá com ele. Eu lhes contei isto.
— O senhor nos contou isto, mas não falou sobre o assunto da conversa.
— Nós... apenas... conversamos.
— Sobre o quê?
— Acontecimentos do dia, a casa, Sophia...
— E a respeito da Associação de Fornecedores? Mencionaram isto?
Creio que eu testava torcendo para que Josephine tivesse inventado a história toda mas se foi assim a esperança foi por água abaixo.
O rosto de Roger transfigurou-se. Mudou de uma expressão de ansiedade para algo facilmente reconhecível como perto do desespero.
—Oh, meu Deus! — disse ele e deixou-se cair numa cadeira, afundando o rosto nas mãos.
Taverner sorriu como um gato satisfeito.
— O senhor admite, Sr. Leonides, que não foi franco conosco?
— Como foi que vocês souberam disto? Eu pensei que ninguém soubesse... eu não sei como alguém pôde saber.
— Nós temos meios de saber de coisas como estas, Sr. Leonides — houve uma pausa majestosa. — Eu acho que o senhor está vendo agora que é melhor nos contar toda a verdade.
— Sim, sim, é claro. Eu vou contar. O que é que os senhores querem saber?
— É verdade que a Associação de Fornecedores está à beira do colapso?
— Sim. Agora não pode mais ser salva do desastre. A falência está às portas. Se ao menos meu pai tivesse morrido sem saber de nada. Eu me sinto tão envergonhado... tão desgraçado...
—Há possibilidade de instauração de processo?
Roger sentou-se muito espigado.
—Não, de jeito nenhum. Será a falência... mas uma falência honrosa. Os credores serão pagos integralmente se eu lançar mão de meus bens pessoais, o que farei. Não, a desgraça que eu sinto é a de ter falhado a meu pai. Ele confiou em mim. Passou tudo para mim, o seu maior negócio... e a menina de seus olhos. Nunca interferiu, nunca perguntou o que eu estava fazendo. Apenas... confiou em mim... E eu o deixei na mão...
Meu pai disse secamente:
— O senhor diz que não haverá uma instauração de processo? Então por que o senhor e sua esposa planejavam ir para o exterior sem contar a ninguém a sua intenção?
— O senhor também sabe disto?
— Sim, Sr. Leonides.
— Mas não compreendeu? — inclinou-se para a frente, ansioso. — Eu não poderia enfrentá-lo com a verdade. Iria parecer, o senhor pode ver, que eu lhe estava pedindo dinheiro. Como se eu lhe estivesse pedindo para me pôr em pé novamente. Ele... ele gostava muito de mim. Iria querer ajudar-me. Mas eu não podia... eu não podia mesmo... ia ser outra vez a mesma confusão... eu não presto para nada. Não tenho nenhuma habilidade. Não sou o homem que meu pai era. Eu sempre soube disto. Eu tentei mas não adiantou. Tenho-me sentido tão miserável... Deus! O senhor não pode imaginar como eu me tenho sentido miserável. Tentando sair da embrulhada, esperando conseguir safar-me, esperando que o meu velhinho querido não chegasse nunca a saber disto. Mas aconteceu... não havia mais esperança de evitar a queda. Clemency, minha mulher, ela compreendeu, estava de acordo comigo. Nós planejamos tudo. Não dissemos nada a ninguém. Íamos embora. E depois que a tempestade estourasse, deixaria uma carta para meu pai, contando-lhe tudo. Contando como eu estava envergonhado e pedindo-lhe que me perdoasse. Ele sempre fora tão bom para mim... o senhor não pode imaginar! Mas teria sido tarde demais para fazer qualquer coisa. Era o que eu queria. Não pedir nada a ele... nem mesmo sonhar em pedir auxílio. Começar outra vez sozinho em qualquer lugar. Viver simples e humildemente. Plantar nossa comida. Café... frutas... Apenas as necessidades essenciais à vida... seria duro para Clemency mas ela jurou que não se incomodava. Ela foi maravilhosa... simplesmente maravilhosa...
— Eu vejo — a voz de meu pai era seca. — E o que o fez mudar de idéia?
— Mudar de idéia?
— Sim. O que o fez decidir-se a falar com seu pai e pedir-lhe para ajudá-lo financeiramente?
Roger olhou para ele.
— Mas eu não fiz isto!
— Vamos, vamos, Sr. Leonides!
— O senhor entendeu mal. Eu não fui falar com ele. Foi ele quem me chamou. Ele ouviu falar, não sei como, lá na cidade. Um boato, eu suponho. Mas ele sabia das coisas. Alguém falou com ele. Ele me apertou. Então, é lógico, eu me abri... Contei-lhe tudo. Disse que eu não me importava com o dinheiro... era o sentimento de ter falhado quando ele confiou em mim.
Roger engoliu convulsivamente.
—O meu velhinho querido — disse ele. — O senhor não pode imaginar como ele era bom para mim. Nenhuma censura. Apenas bondade. Eu disse que não queria ajuda, que eu preferia não ter ajuda... que eu preferia mesmo ir embora como havia planejado. Mas ele não me ouviu. Insistiu em me salvar... em levantar outra vez a Associação de Fornecedores.
Taverner disse bruscamente:
— O senhor está querendo fazer-nos crer que o seu pai pretendia auxiliá-lo financeiramente?
— E claro que sim. Ele escreveu para os seus corretores diversos, dando-lhes instruções.
Eu calculei que ele via a incredulidade no rosto dos dois homens. Ficou vermelho.
—Olhem aqui — disse ele. — Eu ainda tenho a carta. Era para botar no correio. Mas é claro que depois... com... com o choque e a confusão, eu esqueci. É provável que ela esteja ainda no meu bolso.
Tirou a carteira do bolso e começou a remexê-la. Finalmente encontrou o que queria. Era um envelope dobrado já selado. Estava endereçado, como eu pude ver ao me espichar, aos Srs. Greatorex e Hanbury.
—Leiam os senhores mesmos — disse ele, — se não acreditam em mim.
Meu pai rasgou o envelope. Taverner deu a volta e ficou por detrás. Eu não li a carta nesta ocasião mas um pouco depois. Instruía os Srs. Greatorex e Hanbury para realizarem certos investimentos e pedia a um membro da firma que viesse no dia seguinte receber certas instruções a respeito da Associação de Fornecedores. Algumas delas eram ininteligíveis para mim, mas a sua finalidade era bastante clara. Aristide Leonides estava-se preparando para levantar novamente a Associação de Fornecedores.
Taverner disse:
—Nós lhe daremos um recibo por esta carta, Sr. Leonides.
Roger aceitou o recibo. Levantou-se e disse:
—É tudo? Os senhores vão examinar tudo, não vão?
Taverner disse:
— O Sr. Leonides deu-lhe esta carta e o senhor foi-se embora? O que fez então?
— Eu voltei depressa para a minha parte da casa. Minha mulher acabara de chegar. Eu lhe contei o que meu pai pretendia fazer. Como ele fora maravilhoso! Eu... realmente, eu nem sei o que estava fazendo.
— E seu pai adoeceu... quanto tempo depois disto?
— Deixe-me ver... meia hora, talvez, ou uma hora... Brenda veio correndo. Ela estava assustada. Disse que ele estava esquisito. Eu... eu corri de volta. Mas eu já lhes contei isso tudo.
— Durante a sua visita anterior, o senhor esteve no banheiro ao lado do quarto de seu pai?
— Creio que não. Não... eu tenho certeza de que não estive. Mas, o senhor não está pensando que eu...
Meu pai reprimiu-lhe a indignação repentina. Levantou-se e abanou as mãos.
—Muito obrigado, Sr. Leonides — disse ele. — O senhor nos prestou um grande favor. Mas devia ter-nos falado sobre isto antes.
A porta fechou-se atrás de Roger. Eu me levantei e vim olhar a carta que estava sobre a mesa de meu pai.
— Pode ser falsa — disse Taverner esperançoso.
— Pode ser — disse meu pai. — Mas eu não creio que seja. Acho que nós devemos aceitá-la como prova. O velho Leonides estava pronto a tirar seu filho da enrascada. Teria sido mais fácil fazê-lo com ele vivo do que por Roger, depois de sua morte... especialmente agora que se descobriu que nenhum testamento apareceu e, em conseqüência, a parte da herança de Roger está sujeita a questões. Isto significa demoras... e dificuldades. Não, Taverner, Roger Leonides e sua esposa não tinham motivo para querer tirar o velho do caminho. Pelo contrário...
Ele parou e repetiu pensativamente como se uma idéia súbita houvesse lhe ocorrido.
— Pelo contrário...
— O que o senhor está pensando? — perguntou Taverner.
O Velho falou lentamente:
— Se ao menos Aristide Leonides tivesse vivido mais vinte e quatro horas, Roger estaria são e salvo. Mas ele não viveu vinte e quatro horas. Morreu de repente e de forma dramática, um pouco mais de uma hora apenas...
— Hum... — disse Taverner. — O senhor acha que alguém em casa gostaria de ver Roger falido? Alguém que tivesse um interesse financeiro contrário a ele? Não me parece muito provável.
— Em que pé ficamos em relação ao testamento? —perguntou meu pai. — Quem é que vai ficar com dinheiro de Leonides?
— O senhor sabe como são esses advogados. Não se pode obter uma resposta direta deles. Há um testamento anterior, feito quando ele se casou pela segunda vez. Este deixa a mesma soma para ela, um pouco menos para Edith de Haviland e o restante entre Philip e Roger. Eu achava que se este novo testamento não foi assinado, então o primeiro seria válido, mas parece que não é tão fácil assim. A feitura de um novo testamento revoga o anterior e há testemunhas quanto à sua assinatura e à "intenção do testamentário". Parece que vai haver
uma confusão se aconteceu mesmo que ele morreu sem testamento. Então a viúva aparentemente fica com tudo... ou pelo menos com uma renda pelo resto da vida.
— Então se o testamento desapareceu Brenda Leonides é a pessoa que mais lucrou?
— Sim. Se houve fraude, provavelmente ela está por baixo de tudo. E obviamente houve fraude mas eu não posso imaginar como foi cometida...
Eu também não podia ver. Supus que nós éramos de fato incrivelmente estúpidos. Mas estávamos olhando, é claro, pelo ângulo errado.

Capítulo 12
HOUVE UM SILÊNCIO breve depois que Taverner saiu.
Então eu falei:
— Papai, como são os assassinos?
O Velho olhou-me pensativo. Nós nos entendíamos tão bem, que ele compreendeu exatamente o que eu tinha na cabeça quando lhe fiz esta pergunta. E respondeu-a com seriedade:
—Sim... — disse ele. — Isto é muito importante agora... muito importante para você... O crime chegou perto de você. Não pode mais olhá-lo pelo lado de fora.
Eu sempre me interessara, de maneira amadorística, em alguns dos "casos" mais espetaculares que o Departamento de Investigações Criminais lidara, mas, como meu pai dissera, sempre me interessara pelo lado de fora — olhando-os como se estivessem por detrás de uma vitrina. Mas agora, como Sophia percebera bem antes de mim mesmo, o crime tornara-se o fator dominante em minha vida.
O Velho continuou:
—Eu não sei se sou a pessoa certa para você fazer esta pergunta. Eu poderia pô-lo em contato com um par de bons psiquiatras que trabalham para nós. Eles têm tudo dissecado e certinho. Ou Taverner pode dar-lhe as informações de dentro. Mas eu penso que você quer ouvir o que eu, pessoalmente, em resultado de minhas experiências com assassinos, acho sobre eles?
—É isto o que eu quero — disse eu agradecido.
Meu pai traçou um amplo círculo com o dedo sobre a mesa.
—Como são os assassinos? Alguns deles — um leve sorriso melancólico apareceu em seu rosto — foram sujeitos muito simpáticos.
Eu acho que demonstrei uma certa surpresa.
—Oh, sim, foram mesmo — disse ele. — Camaradas simples e simpáticos assim como você ou eu... ou como o homem que acabou de sair daqui... Roger Leonides. O assassinato é um crime de amador. Eu estou falando, é lógico, do tipo de crime em que você está pensando... não em quadrilhas organizadas. A gente muitas vezes sente que esses sujeitos simpáticos foram surpreendidos pelo crime quase acidentalmente. Ou eles estavam na miséria, ou queriam algo com todas as forças, dinheiro ou uma mulher, e mataram para conseguir isto... O freio que age conosco não age com eles. Uma criança, você sabe, transfere o desejo em ação sem nenhum remorso.
Uma criança zangada com seu gatinho diz: "Eu mato você" e bate-lhe na cabeça com um martelo... e depois morre de chorar porque o gatinho não fica vivo outra vez! Uma porção de crianças tenta tirar o bebê do berço para "afogá-lo", por que ele usurpa atenção... ou interfere em seus prazeres. Elas chegam, muito cedo felizmente, a um estágio em que sabem que isso é "errado", isto é, que se fizerem isso serão castigadas. Depois, começam a perceber que isso ê errado. Mas algumas pessoas, eu penso, permanecem moralmente imaturas.
Continuam a considerar que o crime é errado mas não sentem isso. Eu não penso, com minha experiência, que qualquer assassino tenha realmente sentido remorsos... E isto talvez seja a marca de Caim... Assassinos são classificados à parte, eles são "diferentes"... o crime é errado mas não para eles, nem quando é "necessário"... a vítima "pediu isto", era a "única maneira".
— O senhor acha — eu perguntei — que se alguém odiasse o velho Leonides, mas odiasse mesmo, digamos, há muito tempo, isto seria uma razão?
— Ódio puro? Pouco provável, eu diria — meu pai olhou-me curiosamente. — Quando você diz ódio, eu imagino que queira dizer uma antipatia extrema. Um ódio ciumento é diferente... ele se forma pela afeição e a frustração. Constance Kent, diziam todos, gostava muito do irmãozinho menor que matou. Mas ela queria, a gente supõe, a atenção e o amor que ele dividira. Eu acho que as pessoas matam com mais facilidade aqueles a quem amam, que aqueles a quem odeiam. Possivelmente porque apenas as pessoas que amamos
são realmente capazes de nos infernizar a vida.
— Mas isto não o ajuda muito, não é? — continuou ele. — O que você quer, se eu o interpreto corretamente, é um sinal, algum sinal universal que o ajude a achar o seu assassino entre uma família aparentemente de pessoas normais e agradáveis?
— Sim, é isto mesmo.
— Se há um denominador comum? Eu imagino... Você sabe — ele fez uma pausa para pensar — se há mesmo, eu estou inclinado a acreditar que seja a vaidade.
— Vaidade?
— Sim, eu nunca conheci um assassino que não fosse vaidoso... É a vaidade que os conduz à ruína, nove entre dez vezes. Mesmo tendo medo de serem capturados não conseguem evitar de se vangloriarem e de se orgulharem e geralmente acham-se espertos demais para serem descobertos — e acrescentou: — E há uma coisa ainda, um assassino gosta de falar.
— De falar?
— Sim, você sabe que tendo cometido um crime isso o deixa numa posição de muita solidão. Tem vontade de contar tudo a alguém... mas não pode. E isso o faz querer ainda mais. E assim, se você não puder contar a ninguém o que fez, pode ao menos falar sobre o crime... discuti-lo, apresentar teorias... dissecá-lo.
—Se eu fosse você, Charles, tentaria olhar por este lado. Ir novamente para lá, misturar-se com eles, fazê-los falar. É claro que não vai ser sopa. Culpados ou inocentes, eles vão ficar contentes de poder conversar com alguém de fora, por que poderão dizer coisas que não poderiam dizer entre si. Mas é possível, creio eu, que você note uma diferença. Uma pessoa que tem realmente algo a esconder não pode se dar ao luxo de falar nada. Os sujeitos da Seção de Inteligência aprendiam isso durante a guerra. Se você fosse capturado, só dizia o nome, o posto, a unidade e nada mais. Pessoas que tentam dar informações falsas terminam quase sempre escorregando. Faça aquele povo falar, Charles, e fique atento a um escorregão ou a algum lampejo de culpa.
Eu contei a ele o que Sophia dissera a respeito da crueldade na família — as diferentes formas de crueldade. Ele ficou muito interessado.
—Sim... — disse ele. — Sua jovem descobriu alguma coisa aí. Quase todas as famílias têm um defeito, um ponto fraco. Muitas pessoas podem ter uma fraqueza, mas a maioria não resiste a duas fraquezas diferentes. É uma coisa engraçada, a hereditariedade. Veja, por exemplo, a crueldade dos De Haviland, e o que poderíamos chamar de falta de escrúpulos dos Leonides... os De Haviland são muito boa gente por que não são inescrupulosos, e os Leonides também, se bem que sem escrúpulos, mas são gentis. Mas vejamos um descendente de ambos que herdasse ambos os defeitos... percebeu aonde eu quero chegar?
Eu não tinha pensado nisto nestes termos. Meu pai falou:
—Mas eu não preocuparia minha cabeça com hereditariedade se fosse você. É um assunto muito complicado e cheio de problemas. Não, menino, vá para lá e faça-os conversar com você. Sua Sophia está certa sobre uma certa coisa. Nada, a não ser a verdade, servirá para ela ou para você. Você precisa saber de tudo.
Ele acrescentou quando eu estava saindo:
— E tome cuidado com a criança.
— Josephine? Não deixar que ela saiba o que eu estou fazendo?
— Não, eu não quis dizer isto. Eu quis dizer... tomar conta dela. Nós não queremos que lhe aconteça nada.
Eu olhei para ele.
— Vamos, vamos, Charles. Há um assassino de sangue frio naquela casa. A menina Josephine parece saber de muita coisa ali dentro.
— Ela sabia mesmo de tudo sobre Roger... até mesmo ter chegado à conclusão de que ele era um vigarista. O que contou sobre a conversa que ouviu parece ter sido bastante acurado.
— Sim, sim. As evidências de crianças são sempre as melhores que existem. Eu sempre confio nelas. Não servem para nada no tribunal, é claro. Crianças não servem para responder a perguntas diretas. Elas gaguejam ou ficam com cara de bestas e dizem que não sabem de nada. Estão no auge quando querem mostrar-se para alguém. Era isso o que ela estava fazendo. Se mostrando... Você conseguirá saber mais coisas desse jeito. Não fique fazendo perguntas. Finja que você acha que ela não sabe de nada. Isso vai encantá-la.
Acrescentou:
—Mas tome conta dela. Talvez saiba mais do que deva para a segurança de alguém.

Capítulo 13
EU FUI PARA a Casa Torta (como a chamava em meus pensamentos) com um leve sentimento de culpa. Apesar de eu ter contado a Taverner as confidências de Josephine sobre Roger, eu não dissera nada sobre a declaração que ela me fizera de que Brenda e Laurence Brown escreviam cartas de amor um para o outro.
Eu me desculpei comigo mesmo, pretendendo que ela estava apenas romanceando e que não havia nenhuma razão para acreditar que fosse verdade. Mas na realidade eu sentia uma estranha relutância em acrescentar mais evidências contra Brenda Leonides. Eu ficara impressionado pelo lado patético de sua posição na casa — rodeada por uma família hostil solidamente unida contra ela. Se tais cartas existissem mesmo, sem dúvida Taverner e seus sabujos iriam encontrá-las. Eu não gostaria de ser o portador de novas suspeitas sobre uma mulher já em posição tão difícil. Além disto, ela me assegurara solenemente que não havia nada dessa natureza entre ela e Laurence Brown e eu me sentia mais inclinado a acreditar nela que naquele gnomo pequeno e malicioso que era Josephine. A própria Brenda não dissera que Josephine "não era muito certa da cabeça"?
Eu sufocara uma certeza constrangida ao imaginar que Josephine não era muito certa. Eu me lembrava da inteligência que havia naqueles olhinhos pretos e redondos.
Telefonei para Sophia pedindo-lhe para voltar novamente à sua casa.
— Venha por favor, Charles.
— Como vão as coisas?
— Eu não sei. Acho que está tudo bem. Eles continuam dando buscas na casa. O que é que estão procurando?
— Não tenho idéia.
— Estamos ficando todos muito nervosos. Venha logo que puder. Eu vou ficar louca se não tiver com quem falar.
Eu disse que iria imediatamente.
Não havia ninguém à vista quando cheguei à porta da frente. Paguei o táxi e ele foi embora. Eu não sabia ao certo se devia tocar a campainha ou ir entrando. A porta da frente estava aberta.
Enquanto estava de pé, hesitante, ouvi um leve ruído atrás de mim. Voltei a cabeça vivamente. Josephine, com o rosto parcialmente escondido atrás de uma maçã enorme, estava de pé aparecendo por uma sebe de teixos e olhando para mim.
Quando eu virei a cabeça, ela também virou a dela.
—Alô, Josephine.
Ela não respondeu e se escondeu atrás da cerca. Atravessei o caminho e fui atrás dela. Sentara-se num banco rústico e inconfortável perto do laguinho de peixes vermelhos, balançando as pernas para cima e para baixo e dando mordidas na maçã. Por cima da circunferência vermelha seus olhos me olhavam sombrios e com um ar de hostilidade.
—Eu voltei novamente, Josephine.
Era um começo bem pobre mas eu estava achando aquele silêncio de Josephine e o seu olhar fixo bastante enervantes.
Com um excelente sentido estratégico ela ainda não respondeu.
—A maçã está gostosa? — perguntei.
Desta vez Josephine condescendeu em responder. Mas a sua resposta consistiu numa só palavra.
— Farinhenta.
— Que pena — disse eu. — Eu não gosto de maçãs farinhentas.
Josephine acrescentou zombeteira:
— Ninguém gosta.
— Por que você não falou comigo quando eu disse "Alô"?
— Eu não queria falar.
— Por que não?
Josephine tirou a maçã da boca para fazer a sua acusação com clareza.
— Você foi lá e avisou a polícia — disse ela.
— Oh! — fiquei perplexo. — Você quer dizer... sobre...
— Sobre tio Roger.
— Mas foi tudo bem, Josephine — eu lhe garanti. — Está tudo bem. Eles sabem que ele não fez nada errado, isto é, ele não desviou dinheiro ou nada no gênero.
Josephine lançou-me um olhar desesperado.
— Como você é burro!
— Eu sinto muito.
— Eu não estava preocupada com tio Roger. E sim por que você não fez direito o seu trabalho de detetive. Não sabe que não se deve nunca falar com a polícia até chegar ao fim?
— Oh, eu compreendo — eu disse. — E sinto muito, Josephine. Sinto muitíssimo.
— Devia sentir mesmo — acrescentou com reprovação:
—Eu confiei em você.
Eu disse que sentia muito pela terceira vez. Josephine pareceu um tanto mais apaziguada. Deu mais duas dentadas na maçã.
—Mas a polícia iria mesmo saber de tudo sobre isso — disse eu. — Você... eu... nós não poderíamos guardar este segredo.
— Você quer dizer porque ele vai à falência?
Como sempre Josephine estava bem informada.
— Eu acho que vai terminar assim.
—Vão falar sobre isso hoje à noite — disse Josephine. — Papai e mamãe e tio Roger e tia Edith. Tia Edith daria o dinheiro dela mas ela não recebeu ainda, acho porém que papai não daria não. Ele diz que se Roger se meteu numa encrenca a culpa é somente dele e que não adianta pôr dinheiro bom atrás de dinheiro perdido, e mamãe nem quer ouvir falar em dar dinheiro porque ela quer que ele use o dinheiro para financiar Edith Thompson. Você conhece Edith Thompson? Ela era casada mas não gostava do marido. Estava apaixonada por um moço chamado Bywaters que saiu de um navio e foi para uma rua diferente depois do teatro e ela o apunhalou pelas costas.
Eu maravilhei-me outra vez pela competência dos conhecimentos de Josephine, e também pelo senso dramático, apenas ligeiramente obscurecido por uns pronomes confusos, com que ela apresentara todos os fatos principais em tão poucas palavras.
—Parece muito bom — continuou Josephine — mas eu não acho que a peça vá ser assim. Vai ser como Jezebel novamente.
Ela suspirou.
— Eu gostaria de saber por que os cachorros não comeram as palmas das mãos dela.
— Josephine — disse eu, — você me contou que estava quase certa de quem era o assassino?
— Então?
— Quem é?
Ela me deu uma olhada desdenhosa.
—Eu entendo — disse eu. — Somente no último capítulo? Mesmo se eu prometer não contar nada ao Inspetor Taverner?
— Eu ainda preciso de mais algumas pistas — disse Josephine.
— E além disso — acrescentou ela, jogando o miolo da maçã no laguinho dos peixes vermelhos — eu não contaria para você. Se você for alguém, você é o Watson.
Eu engoli este insulto.
— Muito bem — disse eu. — Eu sou Watson. Mas mesmo a Watson eram fornecidos os dados.
— O quê?
— Os fatos. E então ele fazia deduções erradas sobre os fatos. Não seria uma farra para você me ver fazer as deduções erradas?
Por um momento ela quase caiu em tentação. Mas depois balançou a cabeça.
— Não — disse ela e acrescentou: — De qualquer jeito, eu não gosto muito de Sherlock Holmes. Ele está horrivelmente fora de moda. Ainda anda em carruagens.
— E sobre as cartas? — perguntei.
— Que cartas?
— As cartas que você disse que Laurence Brown e Brenda escreviam um para o outro.
— Eu inventei — disse Josephine.
— Eu não acredito em você.
— Eu inventei, sim. Eu sempre invento coisas. Me diverte.
Eu olhei para ela. Ela me olhou de volta.
—Olhe aqui, Josephine. Eu conheço um homem, no Museu Britânico, que sabe um bocado de coisas sobre a Bíblia. Se eu descobrir por que os cachorros não comeram as palmas das mãos de Jezebel você me fala sobre as cartas?
Desta vez Josephine realmente hesitou.
Em algum lugar um raminho estalou fazendo um barulho seco. Josephine falou numa voz sem expressão:
—Não, eu não falo.
Eu aceitei a derrota. Um pouco tarde, lembrei-me do aviso de meu pai.
—Muito bem, é mesmo uma brincadeira. É claro que na realidade você não sabe mesmo de nada.
Os olhos de Josephine se acenderam, mas ela não engoliu a isca.
Eu me levantei.
— Agora eu vou — disse eu — procurar Sophia. Venha.
— Eu vou ficar aqui — disse Josephine.
— Não vai, não — disse eu. — Você vem comigo.
Sem cerimônias eu a ergui de pé. Ela pareceu surpresa e pronta a reclamar mas rendeu-se de muito boa vontade, parcialmente, sem dúvida, porque gostaria de observar a reação da família à minha presença.
Porque eu estava tão ansioso para que ela me acompanhasse eu não teria sido capaz de dizer naquele momento. Só me veio à cabeça quando nós passamos pela porta da frente.
Foi porque o raminho estalara.


Capítulo 14
UM MURMÚRIO vinha da grande sala de visitas. Eu hesitei mas não entrei. Fiquei andando pelo corredor e então, guiado por um impulso, empurrei uma porta. O corredor do outro lado era escuro mas de repente outra porta abriu-se mostrando uma cozinha grande e muito clara. No umbral da porta apareceu uma mulher idosa, cheia de corpo. Usava um avental branco muito limpo amarrado em volta de sua cintura ampla e, desde o instante em que a vi, senti que tudo estava bem. É este sentimento que uma boa babá sempre nos traz. Eu tinha trinta e cinco anos mas me senti como um garotinho de quatro.
Que eu soubesse, Nannie nunca me tinha visto, mas disse logo:
—É o Sr. Charles, não é? Venha para a cozinha que eu lhe darei uma xícara de chá.
Era uma cozinha alegre e feliz. Eu me sentei na mesa do centro e Nannie trouxe-me uma xícara de chá e dois bolinhos num prato. Eu me senti novamente como se tivesse voltado aos tempos de criança. Tudo ia bem — e os terrores da sala escura e do desconhecido não estavam mais comigo.
—D. Sophia vai ficar contente porque o senhor veio — disse Nannie. — Ela estava ficando nervosa.
Acrescentou em tom de censura:
— Todos estão muito nervosos.
Eu olhei por cima do ombro.
— Onde está Josephine? Ela entrou em casa comigo.
Nannie deu um estalo de censura com a língua.
— Escutando atrás das portas ou escrevendo coisas naquele livrinho bobo que ela carrega pra todo lado — disse ela. — Ela devia ter ido para a escola e ter crianças da idade dela para brincar. Eu disse a D. Edith e ela está de acordo mas o patrão dizia que ela estaria melhor em casa.
— Eu acho que ele gosta muito dela.
— Ele gostava, sim, senhor. Ele gostava muito deles todos.
Olhei-a um tanto surpreso, imaginando por que a afeição de Philip por seus filhos fosse assim tão definitivamente colocada no passado. Nannie viu minha expressão e, corando ligeiramente, disse:
—Quando eu disse o patrão foi ao velho Sr. Leonides que eu me referi.
Antes que eu pudesse dar-lhe uma resposta a isso, a porta abriu-se num arranco e Sophia entrou:
— Oh, Charles! — disse ela e acrescentou muito depressa: — Oh, Nannie, eu estou tão contente que ele tenha chegado.
— Eu sei que você está, querida.
Nannie apanhou uma porção de panelas e caldeirões e foi para a copa, fechando a porta ao passar.
Eu me levantei e fui até onde Sophia estava. Pus meus braços em volta dela e apertei-a contra mim.
— Minha querida — disse eu, — você está tremendo. O que foi?
— Eu estou com medo, Charles, eu estou com medo.
—Eu a amo — disse eu. — Se eu pudesse levá-la daqui...
Ela afastou-se de mim e balançou a cabeça.
—Não, isto é impossível. Nós temos de ir até o fim. Mas você sabe, Charles, eu não estou gostando. Eu não gosto desta impressão de que alguém... alguém aqui desta casa... alguém que eu estou vendo e com quem falo todos os dias é um envenenador frio e calculista...
Eu não soube o que responder a isto. Para alguém como Sophia a gente não consegue dar uma falsa resposta para acalmá-la.
Ela falou:
— Se ao menos alguém soubesse...
— Isto seria o pior — disse eu.
— Você sabe o que me assusta realmente? — murmurou ela. — É que talvez nós não saibamos nunca...
Eu pude imaginar com facilidade o pesadelo que isto seria... E me parecia altamente provável que talvez nunca soubéssemos a verdade de quem matara o velho Leonides.
Mas isto também me fez lembrar de uma pergunta que eu queria fazer a Sophia, num ponto que me interessava.
— Diga-me, Sophia — disse eu — quantas pessoas nesta casa sabiam sobre as gotas de eserina, eu quero dizer, primeiro: quem sabia que seu avô as tinha em seu poder e, segundo: quem sabia que elas eram venenosas e qual seria a dose fatal?
— Eu sei aonde você está querendo chegar, Charles. Mas não vai adiantar. Calcule que todos nós sabíamos.
— Bem, sim, vagamente eu suponho, mas especificamente...
— Todos nós sabíamos especificamente. Estávamos todos reunidos com vovô um dia depois do almoço tomando café. Ele gostava de ter a família a sua volta, você sabe. E seus olhos vinham-lhe dando uma série de problemas. E Brenda trouxe o colírio para pingar uma gota em cada olho e Josephine, que vive sempre fazendo perguntas sobre tudo, disse: O que é que quer dizer: Colírio — para uso externo — aí no vidrinho?" E vovô sorriu e disse: "Se Brenda se enganasse e me desse uma injeção de colírio um dia em vez da insulina... eu acho que ia dar um suspiro fundo, ficar com o rosto azul e morrer, sabe, porque o meu coração não é muito forte." E Josephine disse: "Oh!" e vovô continuou: "É por isto que nós precisamos ter muito cuidado com Brenda para que ela não me dê uma injeção de eserina em vez de insulina, não acha?" — Sophia fez uma pausa e continuou: — Nós estávamos todos ali escutando. Viu agora? Todos nós ouvimos!
Eu compreendi. Tivera uma vaga idéia que apenas um primário conhecimento especializado fosse necessário. Mas agora estava provado que fora o velho Leonides quem havia feito o próprio plano de seu assassinato. O assassino não tivera de pensar em um esquema, nem de planejar ou imaginar coisa alguma. Um método simples para causar a morte fora indicado pela própria vítima.
Eu respirei fundo. Sophia, adivinhando meus pensamentos, disse:
— Sim, foi horrível, não foi?
— Sabe, Sophia? — falei lentamente. — Só há uma coisa que me intriga.
— O quê?
— Que você tem razão e que não pode ter sido Brenda. Ela não podia fazer isto assim da mesma maneira... quando todos vocês tinham ouvido... quando vocês todos se lembravam.
— Eu não posso dizer nada sobre isso. Para certas coisas ela é muito boba, você sabe.
— Mas tão boba assim não — disse eu. — Não, não pode ter sido Brenda.
Sophia afastou-se de mim.
—Você não quer que tenha sido Brenda, não é? — perguntou ela.
O que é que eu podia dizer? Eu não podia — não, eu não podia mesmo — dizer calmamente?: "Sim, eu espero que tenha sido Brenda".
Por que é que eu não podia? Apenas a impressão de que Brenda estava sozinha de um lado do campo, e que a animosidade concentrada da poderosa família Leonides estava formada do outro lado do campo contra ela? Cavalheirismo? Uma certa queda pelos mais fracos? Pelos indefesos? Eu me lembrava dela sentada no sofá, em seu luto luxuoso, e a falta de esperança em sua voz — e do medo em seus olhos.
Nannie voltou oportunamente da copa. Eu não sei como, mas ela percebeu que havia algo entre nós dois.
Disse com censura:
— Falando sobre crimes e coisas assim. Esqueçam isso, é o que eu digo. Deixem para a polícia. O problema é deles, e não de vocês.
— Oh, Nannie, você não está vendo que alguém nesta casa é um assassino?
— Tolice, D. Sophia, eu não tenho mais paciência com a senhora. A porta da frente não vive aberta o tempo todo? Todas as portas vivem abertas, nada é trancado... pedindo ladrões e assaltantes.
— Mas não pode ter sido um ladrão, não roubaram nada. E além disto, por que é que um ladrão entraria para envenenar alguém?
— Eu não disse que foi um ladrão, D. Sophia. Eu disse apenas que todas as portas vivem abertas. Qualquer um podia entrar. Se me perguntarem quem foi eu garanto que foram os comunistas.
Nannie abanou a cabeça de maneira satisfeita.
—E por que os comunistas iriam assassinar o meu pobre avô?
—Bem, todos dizem que eles estão sempre por dentro de tudo o que acontece. Mas se não foram os comunistas, preste atenção ao que eu digo, então foram os católicos. A Mulher Escarlate da Babilônia, isso é que é.
Com um ar de quem tinha dito a última palavra, Nannie desapareceu novamente na copa.
Sophia e eu rimos.
— Uma protestante convicta... — disse eu.
— É sim, não acha? Venha, Charles, venha para a sala de visitas. Há uma espécie de conclave familiar lá. Estava marcado para hoje à noite mas começou mais cedo.
— É melhor eu não me meter, Sophia.
— Se por acaso você for mesmo casar-se na família, é melhor que nos veja com as unhas de fora.
— E é sobre o quê?
— Os negócios de Roger. Pelo jeito você também já se meteu neles. Mas está louco se imagina que Roger mataria meu avô. Roger o adorava.
— Eu nunca pensei que tivesse sido Roger. Pensei que fosse talvez Clemency.
— Só porque eu lhe pus isso na cabeça. Mas você também está errado aí. Eu acho que Clemency não se importa de jeito nenhum se Roger perder todo o dinheiro. Eu acho até que ela ia ficar satisfeita. Ela tem uma paixão esquisita em não possuir coisas. Venha.
Quando Sophia e eu entramos na sala de visitas, as vozes que estavam falando calaram-se bruscamente. Todos nos olharam.
Estavam todos ali. Philip sentado numa enorme poltrona vermelha de brocado, entre as janelas, seu rosto bonito transformado numa máscara severa. Parecia um juiz pronto a dar a sentença. Roger estava a cavalo sobre um tamborete estofado perto da lareira. Tinha passado tanto os dedos pelos cabelos que estava todo descabelado. A perna esquerda de sua calça estava arregaçada e a gravata de lado. Ele estava vermelho com a discussão. Clemency estava sentada atrás dele e seu corpo esguio parecia pequeno demais para a enorme cadeira estofada. Ela não olhava para ninguém e parecia estudar os lambris das paredes com um olhar desinteressado. Edith estava sentada num tipo de cadeira do papai, muito espigada. Tricotava com energia incrível, os lábios apertados. A coisa mais linda da sala eram Magda e Eustace. Eles pareciam um retrato de Gainsborough. Estavam sentados juntos no sofá — o rapaz moreno e bonito com uma expressão sombria no rosto, e a seu lado, um braço sobre o encosto, Magda, a Duquesa dos Três Oitões, num vestido de tafetá e um pezinho pequeno aparecendo num sapato de brocado.
Philip franziu as sobrancelhas.
—Sophia — disse ele. — Eu sinto muito, mas nós estamos discutindo problemas familiares de natureza privada.
As agulhas de Edith de Haviland estalaram. Eu me preparei para pedir desculpas e sair. Sophia antecipou-se a mim. A voz dela era clara e determinada.
— Charles e eu — disse ela — pretendemos casar-nos. Eu quero que ele esteja presente.
— E por que não haveria de ficar? — gritou Roger, dando um pulo do tamborete com uma energia explosiva. — Eu não me canso de dizer a Philip, não há nada de particular nisto! O mundo inteiro vai ficar sabendo amanhã ou depois. E de qualquer jeito, meu caro — ele veio até onde eu estava e pôs uma mão amigável em meu ombro, — você já sabe de tudo. Estava lá hoje de manhã.
— Conte-me por favor — falou Magda, inclinando-se para a frente. — Como são as coisas lá na Scotland Yard? A gente fica imaginando. Uma mesa? Uma escrivaninha? Cadeiras? Que tipo de cortinas? Não deve haver flores, eu calculo. Um ditafone?
— Ora, cale a boca, mamãe — disse Sophia. — E de qualquer jeito a senhora já falou com Vavasour Jones para cortar aquela cena na Scotland Yard. A senhora mesma disse que era um anticlímax.
— É que faz a peça parecer muito com uma história policial — disse Magda. — Edith Thompson é definidamente um drama psicológico... ou um mistério psicológico... o que é que você acha que soa melhor?
— Você estava lá hoje de manhã? — Philip perguntou-me secamente. — Por quê? Oh, é claro... seu pai...
Ele franziu as sobrancelhas. Percebi ainda mais claramente que a minha presença ali não era desejada mas a mão de Sophia apertou-me o braço.
Clemency empurrou uma cadeira para a frente.
— Sente-se — disse ela.
Eu dei-lhe um olhar agradecido e aceitei.
—Vocês podem dizer o que bem quiserem — disse Edith de Haviland, aparentemente recomeçando de onde a haviam interrompido — mas eu creio que nós devemos respeitar os desejos de Aristide. Quando este negócio do testamento se arranjar, na parte que me diz respeito, o meu legado está inteiramente à sua disposição, Roger.
Roger puxou os cabelos com desespero.
— Não, tia Edith, não! — gritou ele.
— Eu gostaria de poder dizer o mesmo — disse Philip — mas cada um tem de levar cada fator em consideração...
— Mas, meu caro Phil, você não entende? Eu não vou aceitar um tostão de ninguém.
— É claro que não! — retrucou Clemency.
— E de qualquer jeito, Edith — disse Magda, — se este testamento aparecer, ele terá o seu próprio dinheiro.
— Mas será que vai aparecer em tempo? — perguntou Eustace.
— Você não entende nada disso, Eustace — disse Philip.
— O menino tem toda a razão — gritou Roger. — Ele acertou em cheio. Nada pode impedir a queda. Nada!
Ele falou com uma espécie de contentamento.
— Na verdade não há nada mesmo a discutir — disse Clemency.
— E de qualquer forma — disse Roger, — o que importa?
— Eu pensava que isso importava em muitas coisas — disse Philip, os lábios apertados.
— Não — disse Roger. — Não! Alguma coisa mais importa agora que papai está morto? Papai está morto! E nós ficamos aqui discutindo problemas de dinheiro!
Um ligeiro rubor apareceu no rosto pálido de Philip.
— Nós estávamos apenas tentando ajudar — falou com secura.
— Eu sei, Phil, meu velho, eu sei. Mas ninguém pode fazer nada. Então vamos deixar pra lá.
— Eu creio — disse Philip — que talvez eu possa levantar uma certa quantia de dinheiro. As minhas ações baixaram um bocado e uma parte do meu capital está empatado de tal forma que eu não posso contar com ele: a peça de Magda e mais outras coisas... mas...
Magda disse rapidamente:
—E claro que você não pode levantar esse dinheiro, querido. Seria um absurdo tentar... e não seria justo para com as crianças.
— Eu estou dizendo que não estou pedindo nada a ninguém! — berrou Roger. — Estou rouco de tanto dizer isto. Estou satisfeito com o rumo que as coisas estão tomando.
— É uma questão de prestígio — disse Philip. — De papai. Nosso.
— Não é um negócio de família. Estava inteiramente em minhas mãos.
— Sim — disse Philip, olhando para ele. — Estava inteiramente em suas mãos.
Edith de Haviland levantou-se e disse:
—Eu acho que nós já discutimos isso bastante.
Havia na voz dela aquela nota autêntica de autoridade que nunca deixa de produzir efeito.
Philip e Magda levantaram-se. Eustace saiu da sala e eu notei a rigidez de seu andar. Ele não era exatamente um aleijado, mas seu andar era defeituoso.
Roger enfiou seu braço no de Philip e disse:
—Você foi um camaradão, Phil, mesmo só de pensar em tal coisa!
Os dois irmãos saíram juntos.
Magda murmurou:
—Que confusão! — enquanto os seguia e Sophia disse que ia arrumar a sala.
Edith de Haviland ficou de pé enrolando o seu tricô. Ela olhou para mim e eu pensei que me fosse falar alguma coisa. Havia quase um apelo em seu olhar. Entretanto ela mudou de idéia, suspirou e saiu atrás dos outros.
Clemency foi até a janela e pôs-se a olhar para o jardim. Eu fui até perto dela. Voltou a cabeça ligeiramente para mim.
— Graças a Deus que tudo acabou — disse e acrescentou com repugnância: — Que sala horrorosa esta!
— Não gosta dela?
— Não consigo respirar aqui dentro. Há sempre um cheiro de flores meio murchas e de poeira.
Achei que ela estava sendo injusta com a sala. Mas eu sabia o que ela queria dizer. Era definitivamente uma sala muito fechada.
Era uma sala feminina, exótica, macia, fechada às intempéries lá de fora. Não era uma peça onde um homem pudesse ser feliz por muito tempo. Não era uma sala onde se pudesse descansar e ler o jornal e fumar um cachimbo com os pés para cima. No entanto, eu a preferia à expressão abstrata de Clemency lá em cima. No duro mesmo, eu preferia uma sala de estar a um palco.
Ela falou, olhando em torno:
—É somente um palco. Um cenário para Magda representar suas cenas — olhou para mim. — Você reparou, não foi? Reparou no que nós estávamos fazendo? Ato II: o conclave da família. Magda arranjou tudo. Não significava nada. Não havia nada a falar, nada a discutir. Tudo está decidido, terminado.
Não havia tristeza em sua voz. Quase satisfação. Ela percebeu meu olhar.
— Oh, você não compreende? — falou com impaciência. — Nós estamos livres... finalmente! Não entende que Roger foi um infeliz... absolutamente infeliz... durante anos? Ele nunca teve jeito para os negócios. Gosta de coisas como cavalos e vacas e de perambular pelos campos. Mas ele adorava o pai... todos o adoravam. É isto o que é errado nesta casa... é familiar demais. Eu não quero dizer que o velho fosse um tirano, ou que os oprimisse ou maltratasse. De jeito nenhum. Ele lhes dava dinheiro e liberdade. Era-lhes completamente
devotado. E todos se devotavam por ele.
— E há algo errado nisto?
— Eu acho que há. Eu creio que, quando as crianças crescem, nós devemos afastar-nos delas, devemos apagar-nos, sumir, forçá-los a se esquecerem de nós.
— Forçá-los? É um tanto drástico, não acha? A coação de uma ou de outra forma não é igualmente prejudicial?
— Se ele não tivesse construído a sua personalidade...
— Ninguém pode construir a sua personalidade — disse eu. — Ele tinha a sua personalidade.
— Pois ele tinha personalidade demais para Roger. Roger adorava-o. Queria fazer tudo que seu pai queria que ele fizesse, queria ser o tipo de filho que seu pai queria que ele fosse. E ele não podia ser isto. O pai deu-lhe a Associação de Fornecedores... era o brinquedo predileto e o orgulho do velho e Roger tentou com todas as forças seguir as pegadas do pai. Mas ele não tinha aquele tipo de habilidade. Em matéria de negócios Roger é... sim, eu digo francamente... é um tolo. E isso cortou-lhe o coração. Ele foi infeliz durante anos, lutando, vendo tudo ir por água abaixo, tendo repentinas "idéias" maravilhosas e "esquemas" extraordinários que sempre davam errado e pioravam as coisas cada vez mais. É horrível sentir-se um fracasso ano após ano. Você não pode calcular como ele tem sido infeliz. Eu posso.
Novamente ela se voltou e me encarou:
— Você pensou, e chegou mesmo a sugerir para a polícia que Roger teria morto o pai... por dinheiro! Você não sabe como... como isto é absolutamente ridículo!
— Agora eu sei — falei com humildade.
— Quando Roger viu que não podia mais safar-se, que a falência era iminente, ficou quase que aliviado. Sim, ele ficou mesmo. Só ficou preocupado porque seu pai ia saber... mas não sobre as outras conseqüências. Ele estava olhando em frente, para a nova vida que nós íamos levar.
Seu rosto estremeceu levemente e sua voz tornou-se mais suave.
— Para onde vocês iam? — perguntei.
— Para os Barbados. Um primo meu distante morreu há algum tempo e deixou-me um pequeno sítio lá... oh, não é quase nada. Mas pelo menos era um lugar para irmos. Nós seríamos muito pobres mas daríamos um jeitinho de viver... custa tão pouco viver simplesmente. Nós estaríamos juntos... despreocupados, longe deles todos.
Ela suspirou.
—Roger é ridículo às vezes. Ele se preocupa muito comigo... porque eu sou pobre. Eu creio que ele adotou demais a atitude da família Leonides sobre o dinheiro. Quando meu primeiro marido era vivo, nós éramos horrivelmente pobres. E Roger pensa que eu era muito corajosa e maravilhosa! Ele não consegue imaginar que eu era feliz... realmente feliz! Eu nunca mais fui feliz como eu era! E, no entanto, eu nunca amei Richard como eu amo Roger.
Seus olhos estavam semicerrados. Senti a intensidade de suas emoções.
Ela os abriu, olhou-me e disse:
—Você vê, eu nunca mataria alguém por dinheiro. Eu não gosto de dinheiro.
Eu tive a certeza de que era aquilo mesmo que ela queria dizer. Clemency Leonides era uma dessas raras pessoas que não se sentem atraídas por dinheiro. Elas não gostam do luxo, preferem a austeridade e suspeitam das riquezas.
Entretanto, há alguns para os quais o dinheiro não tem nenhum apelo pessoal, mas que podem ser tentados pelo poder que ele confere.
Eu falei:
—Talvez você não quisesse dinheiro para si mesma... mas sabiamente dirigido, o dinheiro pode fazer uma série de coisas interessantes. Pode patrocinar pesquisas, por exemplo.
Eu suspeitava talvez de que Clemency fosse uma fanática pelo seu trabalho mas ela disse apenas:
— Duvido que esses patrocínios sirvam para alguma coisa. Eles são em geral usados erradamente. As coisas que valem mesmo a pena são usualmente conseguidas por alguém que tenha entusiasmo e iniciativa... e uma visão natural. Equipamentos dispendiosos, treinamentos e experiências nunca fazem o que se pensa. O seu uso quase sempre cai em mãos erradas.
— Você não se importa em largar o seu trabalho e ir para os Barbados? — perguntei. — Vocês vão mesmo, não é?
— Oh, sim, assim que a polícia deixar. Não, eu não me importo absolutamente de largar o meu trabalho. Por que haveria de me importar? Não gostaria de ficar à toa, mas sei que não ficarei à toa em Barbados.
Ela acrescentou impaciente:
— Oh, se ao menos tudo isso pudesse ser logo esclarecido e nós pudéssemos ir logo embora.
— Clemency — perguntei — você tem alguma idéia de quem fez isso? Considerando que nem você nem Roger têm nada a ver com a coisa (e realmente eu não vejo razão para pensar que vocês têm), certamente, com a sua inteligência, você deve ter alguma idéia de quem possa ter feito?
Ela me deu um olhar estranho, um olhar de lado. Quando falou, sua voz perdera a espontaneidade. Meio sem jeito, quase encabulada.
—A gente não pode fazer conjeturas, não é científico — disse ela. — Só se pode dizer que Brenda e Laurence são os suspeitos óbvios.
—Então você pensa que foram eles?
Clemency deu de ombros.
Ficou quieta por um instante como se estivesse escutando algo e depois saiu da sala, cruzando com Edith de Haviland ao passar pela porta.
Edith veio direta para o meu lado.
—Eu quero falar com você — disse ela.
As palavras de meu pai vieram à tona. Será que isto...
Mas Edith de Haviland prosseguiu:
—Eu espero que você não tenha tomado uma impressão errada — disse ela. — Sobre Philip, eu quero dizer. Philip é muito difícil de entender. Ele pode parecer frio e reservado mas não é tanto assim. É somente uma maneira de ser. Não consegue evitar.
—Eu realmente não pensei... — comecei eu.
Mas ela continuou:
—Agora mesmo... sobre Roger. Ele não está realmente com má vontade. Ele nunca foi sovina com dinheiro. E ele é realmente um amor... sempre foi um amor... mas é preciso que o compreendam.
Eu olhei para ela com um ar, espero, de quem está mesmo querendo entender. Ela prosseguiu:
—Parcialmente, creio eu, é por ter sido o segundo da família. Diversas vezes existe alguma coisa sobre um segundo filho... eles já começam com desvantagem. Ele adorava o pai, sabe? É claro, todas as crianças adoravam Aristide e ele as adorava. Mas Roger era o seu orgulho e a sua alegria principais. Talvez por ter sido o primeiro. E eu acho que Philip sentia isto. Ele se fechou em si mesmo. Começou a gostar de livros e do passado e de coisas que eram completamente divorciadas da vida quotidiana. Eu acho que ele sofreu... crianças
sofrem muito...
Ela fez uma pausa e continuou:
— O que eu queria mesmo dizer, suponho, é que ele sempre teve ciúmes de Roger. Talvez nem ele próprio perceba isto. Mas eu penso que o fato de Roger ter-se transformado num fracasso... oh, parece tão odioso dizer isto e realmente, eu tenho certeza que nem ele próprio sabe disso... mas eu penso que talvez Philip não esteja tão sentido quanto deveria estar.
— A senhora quer dizer que ele está quase satisfeito por Roger ter bancado o tolo.
— Sim — disse Edith de Haviland. — E exatamente o que eu queria dizer.
Ela acrescentou, franzindo as sobrancelhas:
— Eu fiquei muito sentida, sabe, de ele não ter oferecido ajuda imediata a seu irmão.
— Por que ele deveria ter ajudado? — disse eu. — Apesar de tudo, Roger fez uma série de confusões. Mas é um homem adulto. Não tem filhos a considerar. Se ele estivesse doente ou mesmo com uma necessidade real, é claro que sua família ajudaria. Mas eu não tenho a menor dúvida de que Roger na verdade prefere recomeçar inteiramente sozinho.
— Oh, é claro que sim! Ele só se importa com Clemency. E Clemency é uma criatura extraordinária. Ela gosta realmente de se sentir inconfortável e de ter apenas uma xícara barata para tomar chá. É moderna, eu acho. Não tem nenhum sentido do passado, nenhum senso de beleza.
Eu senti seus olhos agudos olhando para mim de cima abaixo.
—Isto é uma prova horrível para Sophia — disse ela. — Eu tenho tanta pena de que a sua juventude possa ser atingida por isto. Eu gosto deles todos, sabe? Roger e Philip, e agora Sophia e Eustace e Josephine. Todas essas crianças que ridas... As crianças de Márcia. Sim, eu os quero muito.
Fez uma pausa e acrescentou bruscamente:
—Fique sabendo, que é quase uma idolatria...
Ela se voltou rapidamente e saiu. Eu tive a impressão de que ela quisera dizer algo com aquela última frase mas eu não entendi o quê.


Capítulo 15
SEU QUARTO ESTÁ pronto — disse Sophia.
Ela estava ao meu lado, olhando para o jardim. Este parecia desolado e cinzento, com as árvores quase desnudas balançando-se ao vento.
Sophia pareceu ler meus pensamentos ao dizer:
—Parece tão desolado...
Enquanto olhávamos, uma figura, e logo depois, uma outra, apareceram através da sebe de teixos indo para o jardim de pedras. Ambas pareciam irreais na luz que se apagava.
Brenda Leonides era a primeira. Ela estava envolta num casaco cinzento de chinchila e havia um certo ar felino e furtivo em seus movimentos. No crepúsculo ela flutuava com uma graça sobrenatural.
Vi seu rosto ao passar pela janela. Havia um meio sorriso nele, aquele mesmo meio sorriso que eu já notara lá em cima. Alguns minutos depois, Laurence Brown, parecendo ainda mais magro e encolhido, também desapareceu no crepúsculo. Só posso descrever assim a cena. Eles não pareciam duas pessoas andando normalmente, duas pessoas que tivessem saído para dar uma volta. Havia algo irreal sobre eles, como se fossem dois fantasmas.
Fiquei pensando no estalido que ouvira, se fora o pé de Brenda ou o de Laurence.
Por uma associação natural de idéias, eu perguntei:
— Onde está Josephine?
— Provavelmente com Eustace na sala de aulas — franziu o rosto. — Eu estou preocupada com Eustace, Charles.
— Por quê?
— Ele anda tão amuado e estranho. Ficou tão diferente depois que teve a paralisia. Não consigo imaginar o que anda pela cabeça dele. Às vezes parece que nos odeia a todos.
— Provavelmente ele ultrapassará isto tudo. É apenas uma fase.
— Sim, eu creio que seja. Mas eu me preocupo muito, Charles.
— Por que, meu coração?
— Na verdade, eu acho que papai e mamãe nunca se preocupam. Eles não se comportam como um pai e uma mãe.
— Talvez isso seja melhor para vocês todos. Mais crianças sofrem com o zelo excessivo do que o contrário.
— É verdade. Sabe, eu nunca pensei nisso até voltar do exterior mas eles são um casal esquisito. Papai vivendo propositadamente num mundo obscuro de trilhas históricas e mamãe sempre se divertindo e vivendo suas cenas. Aquela bobagem de hoje à tarde foi idéia de mamãe. Ela queria representar uma cena de uma reunião familiar. Ela se aborrece aqui e fica tentando criar um drama.
Por um momento eu tive a fantástica visão da mãe de Sophia envenenando o velho sogro de maneira suave, apenas para observar um drama em primeira mão e com ela representando o papel principal.
Um pensamento engraçado! Eu o deixei de lado — mas fiquei um tanto encabulado.
— Mamãe — continuou Sophia — precisa de que se tome conta dela o tempo inteiro. A gente nunca imagina o que ela pretende fazer.
— Esqueça sua família, Sophia — disse eu com firmeza.
—Eu adoraria isso mas no momento é muito difícil. Eu estava feliz no Cairo porque os esquecera a todos.
Eu me lembrava de que Sophia nunca mencionara seu
lar ou seus parentes.
— É por isso que você nunca falava deles? — perguntei. — Porque você tinha vontade de esquecê-los?
— Eu creio que sim. Nós vivemos sempre, todos nós, sempre agarrados uns com os outros. Nós... nós gostamos demais uns dos outros. Não somos como essas famílias que se odeiam até a morte. Deve ser horrível mas quase que é pior vivermos sempre presos por sentimentos de afeição.
Ela acrescentou:
—Eu acho que é por isso que eu lhe disse que nós vivíamos todos juntos numa Casa Torta. Eu não quis dizer torta num sentido de desonestidade. Eu creio que quis dizer é que todos nós não conseguimos crescer e nos tornarmos independentes, responsáveis, íntegros. Nós somos um pouquinho tortos e enrolados.
Eu vi Edith de Haviland esmagando uma erva daninha no caminho enquanto Sophia acrescentava:
—Como a jitirana...
E de repente, Magda estava conosco — escancarando a porta, dando gritinhos:
—Meus queridos, por que vocês não acendem as luzes? Está quase escuro.
E ela apertou os comutadores e as luzes se acenderam nas paredes e nas mesas, e ela, Sophia e eu puxamos as pesadas cortinas cor-de-rosa e ficamos naquele interior perfumado de flores, e Magda, espichando-se num sofá, falou:
—Que cena incrível, não foi? Como Eustace estava contrariado! Ele me disse que achou aquilo positivamente indecente! Como esses meninos são engraçados!
Ela suspirou.
— Roger é um amor. Eu adoro quando ele passa a mão pelos cabelos e começa a chutar as coisas. Não foi um encanto a Edith ter-lhe oferecido a sua parte da herança? Ela estava mesmo disposta a fazer isso, sabem? Não foi apenas um gesto. Mas foi terrivelmente estúpido. Imagine se Philip quisesse fazer a mesma coisa! É claro que Edith faria qualquer coisa pela família! Há algo quase patético no amor de uma solteirona pelos filhos de sua irmã. Qualquer dia desses eu vou querer representar um papel de uma dessas devotadas tias solteironas. Indiscreta, obstinada e devotada.
— Deve ter sido muito duro paria ela quando sua irmã morreu — disse eu, recusando-me a permitir que a conversa fosse desviada para outro dos papéis das peças de Magda. — Isto é, se ela detestava tanto o velho Leonides.
Magda interrompeu-me.
— Detestava-o? Quem lhe disse isso? Tolice. Ela estava apaixonada por ele.
— Mamãe! — disse Sophia.
— Nem tente contradizer-me, Sophia. Naturalmente que na sua idade vocês pensam que o amor é somente o de dois jovens bonitões ao luar.
— Ela me disse — disse eu — que sempre o detestara.
— Provavelmente sim, quando veio para cá. Ela estava zangada com sua irmã por ter-se casado com ele. Eu diria que havia uma espécie de antagonismo... mas ela estava apaixonada mesmo por ele! Queridos, eu sei do que estou falando! É claro que, como irmã da falecida esposa e tudo o mais, ele não podia casar-se com ela, e eu diria também que ele nunca pensou nisso... e provavelmente ela também não. Ela era bastante feliz tomando conta das crianças e brigando com ele. Mas ela não gostou quando ele se casou com Brenda. Não gostou nem um pouquinho!
— Você e papai também não gostaram — disse Sophia.
— Não, é lógico que não gostamos! Naturalmente! Mas Edith foi quem mais detestou. Querida, o jeito que eu a vi olhar para Brenda!
— Vamos, mamãe — disse Sophia.
Magda dirigiu-lhe um olhar afetuoso e meio de culpa, um olhar de criança mimada e maliciosa.
Ela continuou a falar, sem perceber que mudara completamente de assunto:
— Eu resolvi que Josephine precisa ir para uma escola.
— Josephine? Para uma escola?
— Sim. Para a Suíça. Vou cuidar disso amanhã. Acho que realmente nós devemos tratar do assunto imediatamente. E péssimo para ela estar presenciando estes momentos horríveis. Está-se tornando muito mórbida. O de que ela precisa são outras crianças de sua idade. Vida escolar. Eu sempre pensei assim.
— Vovô não queria que ela fosse para a escola — disse Sophia lentamente. — Ele era muito contra isto.
— O nosso velhinho querido queria que todos ficassem sob suas vistas. Muitas pessoas idosas são assim egoístas. Uma criança deve viver entre outras crianças. E a Suíça é tão saudável, com os esportes de inverno, o ar puro, e tantas coisas mais, comida muito melhor do que a daqui!
— Não será difícil ir para a Suíça agora com as restrições cambiais? — perguntei.
— Tolice, Charles. Há uma espécie de acordo educacional... uma troca com uma criança suíça... há várias formas. Rudolf Alstir está em Lausanne. Eu vou telegrafar para ele amanhã para arranjar tudo. Nós poderemos enviá-la já no próximo fim da semana!
Magda desamassou uma almofada, sorriu para nós, foi até a porta, ficou parada um instante olhando para trás de uma maneira encantadora e disse:
—São somente os jovens que importam.
E dito por ela, isto foi uma deixa adorável.
— Eles sempre vêm em primeiro lugar. E, queridos, lembrem-se das flores, das gencianas azuis, dos narcisos...
— Em novembro? — perguntou Sophia, mas Magda já saíra.
Sophia deu um suspiro exasperado.
— Realmente! — disse ela. — Mamãe deixa a gente desesperada! Ela tem essas manias repentinas, envia centenas de telegramas e tudo tem de ser arranjado na última hora. Por que é que Josephine tem de ser mandada para a Suíça assim a toque de caixa?
— Ela tem uma certa razão nesta idéia de escola. Eu acho que crianças da idade dela farão muito bem a Josephine.
—Vovô não pensava assim — disse Sophia obstinada.
Eu fiquei ligeiramente irritado.
— Minha cara Sophia, você acha que um velho de mais de oitenta anos seja o melhor juiz para o bem-estar de uma criança?
— Ele era o melhor juiz para cada um daqui desta casa.
— Melhor que sua tia Edith?
— Não, talvez não. Ela era a favor da idéia da escola. Eu admito que Josephine se tornou uma criança difícil... ela tem o hábito horrível de viver espionando. Mas eu acho que é porque ela gosta de bancar o detetive.
Teria sido apenas pelo bem-estar de Josephine que Magda tomara aquela decisão repentina? Eu fiquei imaginando. Josephine era surpreendentemente bem informada a respeito dos fatos acontecidos antes do assassinato e que não eram da sua conta. Uma saudável vida escolar, com uma boa quantidade de jogos, certamente lhe faria muito bem. Mas eu me pus a imaginar por que a decisão urgente e repentina de Magda — a Suíça ficava tão longe...

Capítulo 16
O VELHO DISSERA:
—Deixe-os falar.
Enquanto eu fazia a barba na manhã seguinte, fiquei considerando até onde isso me ajudara.
Edith de Haviland falara comigo — ela me procurara especialmente para isso. Clemency falara comigo (ou fora eu que falara com ela?). Magda num certo sentido falara comigo, isto é, eu fizera parte da audiência para uma de suas representações. Sophia naturalmente falara comigo. Até mesmo Nannie falara comigo. Teria eu ficado mais sabido depois de ter falado com todos eles? Teria havido alguma frase ou palavra significantes? Mais, teria havido alguma evidência de uma vaidade anormal em que meu pai tanto confiara? Eu não podia ver nada ainda.
A única pessoa que não mostrara absolutamente nenhum desejo de falar comigo, sobre coisa nenhuma, fora Philip. Isso não seria de certa maneira anormal? Ele já devia saber agora que eu queria casar-me com a filha dele. E, no entanto, continuava a proceder como se eu não estivesse na casa. Provavelmente ele se ressentia com a minha presença ali. Edith de Haviland desculpara-se por ele. Ela dissera que era apenas "uma maneira de ser". Demonstrara estar preocupada com Philip. Por quê?
Considerei o pai de Sophia. Ele era em todos os sentidos um indivíduo reprimido. Fora uma criança infeliz e invejosa. Fora forçado a se retrair. Refugiara-se no mundo dos livros — num passado histórico. Aquela frieza e reserva estudadas podiam esconder um bom bocado de seus sentimentos apaixonados. A falta de motivos financeiros com a morte de seu pai era inconvincente — eu não teria pensado nem por um minuto que Philip Leonides pudesse ter matado o pai porque quisesse ter mais dinheiro do que já tinha. Mas poderia ter havido uma outra razão psicológica profunda que o fizesse desejar a morte do pai. Philip voltara a morar em casa do pai, e mais tarde, devido aos bombardeios, Roger também voltara — e Philip fora obrigado a ver, dia após dia, que Roger ainda era o favorito do pai... As coisas podem ter corrido de tal maneira na sua mente torturada que o único alívio possível seria a morte do pai? E, supondo que esta morte incriminasse o seu irmão mais velho? Roger estava precisando de dinheiro — à beira da falência. Não sabendo nada sobre a última entrevista entre Roger e o pai e a oferta deste último para ajudá-lo, Philip não poderia ter pensado que os motivos seriam bastante poderosos e que Roger seria imediatamente o suspeito? Estariam as faculdades mentais de Philip tão conturbadas que o levassem ao homicídio?
Cortei o queixo com a gilete e soltei um palavrão.
Que diabos eu estava tentando fazer? Tentando culpar o pai de Sophia pelo crime? Não era das coisas mais simpáticas de minha parte. Pelo menos não era o que Sophia esperava que eu fizesse...
Ou... talvez fosse? Havia algo, sempre houvera algo o tempo todo, por trás do apelo de Sophia. Se houvesse a mais remota suspeita de que seu pai fosse o assassino, então ela jamais concordaria em se casar comigo — no caso da suspeita ser verdadeira. E, uma vez que ela era Sophia, arguta e corajosa, ela queria a verdade, já que a incerteza seria uma barreira eterna e perpétua entre nós. Não tinha ela mesmo dito a mim: "Prove-me que esta coisa pavorosa que eu estou imaginando não é verdadeira — mas se for mesmo a verdade, então me prove que é verdade — para que eu possa saber o pior e encará-lo!"?
Será que Edith de Haviland sabia, ou suspeitava, que Philip era o culpado? O que é que ela tinha querido dizer com aquela "quase idolatria"?
E o que é que Clemency tinha querido dizer com aquele olhar estranho que me lançara quando lhe perguntei se ela suspeitava de alguém e ela me respondera: "Laurence e Brenda são os mais prováveis suspeitos, não são?"
A família inteira queria que fossem Brenda e Laurence, tinha a esperança que fossem Brenda e Laurence, mas na realidade não acreditava que fossem Brenda e Laurence...
E, é lógico, a família inteira podia estar errada, e talvez os criminosos fossem mesmo Laurence e Brenda.
Ou talvez fosse Laurence, e não Brenda...
Esta seria uma solução muito melhor.
Eu acabei de dar umas palmadinhas no queixo cortado e desci para o café, determinado a ter uma entrevista com Laurence Brown, o mais cedo possível.
Foi somente depois de beber a minha segunda xícara de café que me ocorreu que a Casa Torta estava também me atingindo. Eu, também, queria encontrar não a solução certa mas a solução que melhor me convinha.
Depois do café fui até o vestíbulo e subi as escadas. Sophia me dissera que eu encontraria Laurence dando aulas a Eustace e Josephine na sala de aulas.
Lá em cima eu hesitei um instante em frente à porta de Brenda. Deveria tocar ou bater, ou entrar diretamente? Decidi tratar a casa como um todo integral e não como a parte privada de Brenda.
Abri a porta e entrei. Tudo estava silencioso, parecia não haver ninguém. A minha esquerda, a porta que dava para a grande sala de estar estava fechada. À direita, duas portas abertas mostravam um quarto de dormir e um banheiro. O banheiro eu sabia que era o que ficava ao lado do quarto de Aristide Leonides, onde a eserina e a insulina eram guardadas. A polícia já terminara de examiná-lo. Empurrei a porta entreaberta e entrei. Percebi como teria sido fácil para qualquer pessoa da casa (ou para falar com franqueza também para alguém de fora), chegar até o banheiro sem ser visto.
Fiquei um pouco no banheiro examinando-o. Era suntuosamente decorado com azulejos brilhantes e uma banheira embutida no chão. De um lado havia vários aparelhos elétricos: uma caçarola elétrica e uma grelha por baixo de uma chaleira também elétrica, uma pequena frigideira, uma torradeira tudo o que o criado de quarto de um senhor de idade pudesse precisar. Na parede, um pequeno armário esmaltado. Eu o abri. Dentro estavam objetos médicos, dois vidros de remédios, um copinho para lavar os olhos, um conta-gotas e alguns vidrinhos rotulados. Aspirinas, bórax em pó, iodo, esparadrapo etc... Numa prateleira separada estava o estoque de insulina, duas agulhas hipodérmicas e um vidro de éter. Numa terceira prateleira estava um frasco marcado: "Pílulas uma ou duas à noite conforme a receita". Nesta prateleira sem dúvida estivera o vidro de colírio. Tudo era simples, bem arranjado, fácil para qualquer pessoa pegar o que desejasse. Igualmente fácil para o crime.
Eu podia ter feito o que quisesse com os vidros e depois sair de mansinho outra vez e ninguém nunca saberia que eu estivera ali. Tudo isso, é claro, não era novo para mim, mas me deixou ver o quanto era difícil a tarefa da polícia.
Somente do culpado, ou dos culpados, a gente poderia conseguir algo.
"Sacuda-os — Taverner me dissera. — Faça com que tenham medo. Faça-os crer que nós sabemos de alguma coisa. Mantenha-os sempre em primeiro plano. Mais cedo ou mais tarde, se continuarmos assim, nosso criminoso vai cansar de ficar calado e vai tentar ser ainda mais esperto... e então... nós o pegaremos..."
Bem, até agora o criminoso ainda não reagira a esse tratamento.
Saí do banheiro. Ainda não havia ninguém à vista. Fui até o corredor. Passei pela sala de jantar que ficava à esquerda e pelo quarto e o banheiro de Brenda, à direita. Neste último, uma das empregadas ia e vinha de um lado para outro. A porta da sala de jantar estava fechada. De uma outra peça mais de trás, eu ouvi a voz de Edith de Haviland falando ao telefone com o inevitável peixeiro. Um lanço de escada em espiral levava ao andar de cima. Subi. Ali estavam o quarto de dormir e a salinha de estar de Edith, eu sabia, mais dois banheiros e o quarto de Laurence Brown. Mais além ainda, um outro lanço curto de escadas descia para uma sala muito grande construída sobre a área de serviço e que era usada como sala de aula.
Parei do lado de fora da porta. Podia-se ouvir a voz de Laurence Brown, um pouco alterada, vinda lá de dentro.
Acho que o hábito de escutar atrás das portas de Josephine era contagioso. Sem sentir nenhuma vergonha eu me abaixei até a altura da fechadura e escutei.
Era uma aula de história que estava em curso, e o período em questão era o Diretório francês.
Enquanto ouvia, o espanto fez-me arregalar os olhos. Foi uma surpresa considerável para mim descobrir que Laurence Brown era um magnífico professor.
Não sei por que isso me surpreendeu tanto. Apesar de tudo, Aristide Leonides sempre fora um excelente juiz de homens. Apesar de toda a aparência desprezível, Laurence tinha o dom supremo de despertar o entusiasmo e a imaginação de seus alunos. O drama de Thermidor, o decreto que considerou Robespierre fora da lei, a magnificência de Barras, a lábia de Fouché e Napoleão, um tenentezinho da artilharia que morria de fome — todos estavam ali, vivos e reais.
De repente Laurence parou, fez uma pergunta a Eustace e a Josephine, fez com que eles se pusessem no lugar de uma e de outras figuras do drama. Se bem que ele não obtivesse muito resultado com Josephine, cuja voz soava como se ela estivesse resfriada, Eustace parecia muito diferente de seu jeito normal Ele mostrava muita cabeça e inteligência e aquele arguto sentido histórico que sem dúvida herdara de seu pai.
Ouvi então as cadeiras sendo empurradas para trás e arranhando o assoalho. Recuei alguns degraus e estava apenas chegando quando a porta se abriu.
Eustace e Josephine saíram.
—Alô — disse eu.
Eustace pareceu surpreso ao me ver.
—Você está procurando alguém? — perguntou polidamente.
Josephine, sem ligar para mim, foi-se embora.
— Eu só queria ver a sala de aula — disse meio sem jeito.
— Você já a viu outro dia, não viu? É mesmo uma sala para criancinhas. Antigamente servia de quarto de brinquedos. Ainda tem uma porção de brinquedos espalhados pelos cantos.
Ele segurou a porta aberta para mim e eu entrei.
Laurence Brown estava de pé ao lado da mesa. Olhou-me, corou, murmurou algo em resposta ao meu bom-dia e saiu apressado.
— Você o deixou amedrontado — disse Eustace. — Ele se amedronta com facilidade.
— Você gosta dele, Eustace?
— Oh! Ele é legal. Mas é meio burro, é claro.
— Mas não é um mau professor?
— Não, para falar com franqueza, ele é mesmo muito interessante. E sabe um bocado de coisas. Faz a gente ver as coisas por um ângulo diferente. Eu nunca soube que Henrique VIII tinha escrito poesias... para Anne Boleyn, é lógico... poesia muito bacana.
Nós conversamos mais um pouco sobre outros assuntos como o Velho Marinheiro, de Chaucer, as questões políticas por detrás das Cruzadas, a maneira de encarar a vida na época medieval e, para Eustace, a surpresa de saber que Oliver Cromwell proibira a celebração do Natal. Por trás do ar desdenhoso e quase desagradável de Eustace, eu percebi que havia uma mente curiosa e inteligente.
Logo eu também comecei a perceber a razão de seu mau humor. Sua doença não fora apenas uma dura prova, fora igualmente uma frustração e um passo atrás em sua vida, logo no momento em que ele começava a gozá-la.
— Eu estaria no 11°, no ano que vem — e então eu iria para a universidade. É muito chato ter de estudar em casa e estudar com uma criança horrorosa como Josephine. Imagine, ela só tem doze anos.
— Eu sei, mas vocês não estudam a mesma coisa, não é?
— Não, é claro que ela não estuda matemática avançada... ou latim. Mas você não gostaria de dividir um professor com uma menina, não é?
Tentei aplacar seu orgulho masculino ferido, fazendo-o ver que Josephine era uma menina bastante inteligente para a sua idade.
—Você acha? Eu a acho muito errada. É louca por histórias de detetives e vive enfiando o nariz em todo canto e escrevendo coisas num livrinho preto e pretendendo que está descobrindo tudo. É uma menina boba, é isto que ela é — disse Eustace muito altivo.
— E de qualquer jeito — acrescentou ele — meninas não podem ser detetives. Eu já disse a ela. Acho que mamãe está muito certa e quanto mais cedo mandarem Josephine para a Suíça melhor será.
— Você não vai sentir falta dela?
— Sentir falta de uma menina daquela idade? — disse Eustace desdenhoso. — É claro que não. Meu Deus, esta casa é o máximo! Mamãe sempre andando para cima e para baixo lá por Londres e chateando uns autores bobocas a reescreverem as peças para ela, e fazendo confusões incríveis absolutamente por nada. E papai fechado com os livros dele, às vezes nem escutando o que a gente fala com ele. Eu não sei por que é que eu tenho de carregar este fardo de ter todos estes parentes... E tio Roger... tão sincero que faz até a gente estremecer... Tia Clemency é legal, não aborrece ninguém, mas às vezes eu penso que ela é um pouquinho maluca. Tia Edith também
não é das piores mas é muito velha. As coisas melhoraram um pouco depois que Sophia voltou... se bem que ela saiba ser muito severa às vezes. Mas é uma família estranha, você não acha? Ter uma madrasta-avó tão moça que podia ser sua tia ou mesmo sua irmã mais velha? Eu quero dizer, isto faz a gente se sentir meio besta!
Eu compreendi os seus sentimentos. Lembrava-me (muito vagamente) de minha própria supersensitividade na idade de Eustace. O horror que eu tinha de parecer diferente ou de que meus parentes fossem diferentes do normal.
—E sobre seu avô? — eu perguntei. — Você gostava dele?
Uma expressão curiosa passou pelo rosto de Eustace.
— Vovô — disse ele — era definitivamente anti-social!
— Em que sentido?
— Ele não pensava em nada a não ser em ganhar dinheiro. Laurence diz que isto é completamente errado. E ele era também um grande individualista. Tudo isso tende a acabar, você não acha?
—Bem — eu disse bruscamente, — ele acabou.
—Uma boa coisa, na verdade — disse Eustace. — Eu não quero parecer desumano, mas você não pode mais gozar a vida naquela idade!
— E ele não gozava?
— Não poderia. E de qualquer forma, já era mesmo tempo de ele ir embora. Ele... — Eustace interrompeu-se quando Laurence voltou à sala de aula.
Laurence pôs-se a remexer nalguns livros, mas eu calculei que ele nos estivesse observando pelo rabo do olho.
Olhou para seu relógio de pulso e disse:
— Por favor, esteja de volta às onze horas em ponto, Eustace. Nós perdemos muito tempo ultimamente.
— Sim, senhor.
Eustace dirigiu-se para a porta e saiu assobiando.
Laurence Brown deu outra olhada furtiva para o meu lado. Passou a língua nos lábios uma ou duas vezes. Eu estava convencido de que ele voltara à sala de aula exclusivamente para falar comigo.
Com efeito, depois de um arrumar e desarrumar de livros absolutamente inútil e um pretenso pretexto de achar um livro que estava faltando, ele falou:
— Ahn... Como é que eles estão indo?
— Eles?
— A polícia.
Torceu o nariz. Um rato numa ratoeira, eu pensei, um rato na ratoeira.
— Eles não me fazem muitas confidências — disse eu.
— Oh, eu pensei que seu pai fosse o Comissário Assistente.
—Ele é, mas naturalmente não revela os segredos oficiais.
Fiz uma voz propositadamente pomposa.
— Então você não sabe como... o quê... se... — sua voz sumiu. — Eles não vão deter ninguém, vão?
— Que eu saiba não. Mas, é como eu digo, talvez eu não saiba.
Faça-os ficar com medo, o Inspetor Taverner dissera. Faça-os ficar apavorados. Bem, Laurence Brown estava apavorado mesmo.
Começou a falar depressa e com nervosismo.
—Você não sabe como é... a tensão... sem saber como, isto é, eles entram e saem... Fazendo perguntas... perguntas que aparentemente não têm nada a ver com o caso...
Parou. Esperei. Ele queria falar, muito bem, eu devia deixá-lo falar.
—Você estava aqui outro dia quando o Inspetor-Chefe fez aquela sugestão monstruosa? Sobre a Sra. Leonides e eu? Foi monstruoso. Faz a gente se sentir tão indefeso. Não podemos impedir que as pessoas pensem coisas assim de nós! E tudo era maldosamente falso! Apenas porque ela é... era... tantos anos mais nova que seu marido. Há pessoas que têm a mente suja... a mente muito suja... Eu sinto... eu não posso deixar de sentir... que tudo isto é uma conspiração.
—Uma conspiração? Que coisa interessante!
Interessante era, mas não no sentido que ele interpretou.
—A família, você sabe, a família do Sr. Leonides nunca teve simpatia por mim. Eles sempre se mantiveram afastados. Eu sempre senti que me desprezavam.
As mãos dele começaram a tremer.
—Só porque eles sempre foram ricos... e poderosos — olhou para mim. — O que eu era para eles? Apenas um professor. Apenas um objetar de consciência fracassado. E minhas objeções eram de consciência. Eram mesmo!
Eu não disse nada.
—Muito bem! — ele explodiu. — O que é que tem se eu era... um covarde? Eu tive medo de fazer confusão. Tive medo de que, quando fosse obrigado a puxar o gatilho... eu não fosse capaz de fazê-lo. Como eu podia ter certeza de que era um nazista que eu ia matar? Podia ser algum rapaz decente... algum rapaz do campo... que não tivesse pendores políticos, apenas chamado para servir à sua pátria? Eu acho que a guerra é um erro, você compreende? Eu penso que é um erro!
Eu continuei em silêncio. Achei que meu silêncio era mais útil que se eu argumentasse ou concordasse com ele. Laurence Brown estava discutindo consigo mesmo, e revelava uma boa parte de si próprio.
— Todos sempre riram de mim — sua voz estremeceu. — Parece que eu tenho um quê para me fazer ridículo. Não é realmente uma falta de coragem... mas eu sempre faço as coisas erradas. Entrei numa casa que estava pegando fogo para salvar uma mulher que estava presa lá dentro. Mas eu me perdi logo na entrada e a fumaça me fez perder os sentidos, e eu dei um trabalhão aos bombeiros para me acharem. Eu os ouvi dizer: "Por que esse cabeça oca não deixa o trabalho para nós?" Não adianta eu tentar, todos são contra mim. Quem quer que tenha morto o Sr. Leonides arranjou para que eu fosse o suspeito. Alguém o matou só para me desgraçar.
— E sobre a Sra. Leonides? — perguntei.
Ele corou. Tornou-se um pouco menos rato e um pouco mais homem.
—A Sra. Leonides é um anjo — disse ele — um anjo. Sua doçura, sua bondade para o idoso marido eram maravilhosas. Pensar nela em conexão com o veneno é ridículo... ridículo! E aquele cabeça dura daquele inspetor não é capaz de ver isto!
—Ele tem uma opinião preconcebida — disse eu — pelo número de casos em seus arquivos onde maridos idosos foram envenenados por doces e jovens esposas.
—Um insuportável imbecil! — disse raivoso Laurence Brown.
Ele foi até a estante do canto e começou a remexer nos livros. Eu calculei que não conseguiria mais nada dele. Saí lentamente da sala.
Ao passar pelo corredor, uma porta à minha esquerda abriu-se e Josephine quase caiu em cima de mim. Sua entrada fora tão precipitada quanto a entrada de um demônio numa pantomima arcaica.
O rosto e as mãos estavam imundos e uma enorme teia de aranha flutuava presa à sua orelha esquerda.
—Onde você estava, Josephine?
Olhei através da porta entreaberta. Uns dois degraus conduziam a um pátio retangular onde se viam vários tanques grandes.
—Na sala das cisternas.
— Por que você estava na sala das cisternas?
Josephine respondeu de maneira muito concisa:
— Descobrindo coisas.
—E que diabo de coisas existem na sala das cisternas para serem descobertas?
A isto, Josephine apenas replicou:
— Eu preciso lavar-me.
— Eu diria que está precisando muito.
Josephine sumiu pela porta do banheiro mais próximo. De lá de dentro olhou para mim e disse:
— Eu acho que está na hora do próximo assassinato, você não acha?
— O que é que você quer dizer... o próximo assassinato?
— Bem, nos livros há sempre um segundo assassinato mais ou menos nessa hora. Alguém que sabe de alguma coisa é eliminado antes que possa contar o que sabe.
—Você lê histórias de detetives demais, Josephine. Na vida real não é assim. E, se alguém nesta casa sabe de alguma coisa, a última coisa que fará será falar sobre isto.
A resposta que Josephine deu foi meio confusa devido ao jato d'água da torneira.
— Às vezes é algo que eles não sabem que sabem.
Eu pisquei os olhos ao tentar compreender o significado do que ela dissera. E então, deixando Josephine entregue às suas abluções, eu desci para o andar de baixo.
No instante em que eu estava saindo da porta da escadaria, Brenda apareceu num suave rumor pela porta da sala de visitas.
Ela chegou perto de mim e pousou a mão em meu braço, me olhando no rosto.
—E então? — perguntou.
Era a mesma procura de informações que Laurence demonstrara, apenas a pergunta fora formulada de outra forma. E sua única palavra fora mais efetiva.
Eu balancei a cabeça.
—Nada.
Ela deu um suspiro profundo.
—Eu estou com tanto medo, Charles — disse ela. — Eu estou com tanto medo...
O seu medo era mesmo real. Ela me contagiou naquele espaço apertado. Eu queria tranqüilizá-la, ajudá-la. Uma vez mais eu sentia aquele sentimento pungente de sabê-la terrivelmente sozinha naquele ambiente hostil.
Ela poderia igualmente ter gritado: "Quem está a meu lado?"
E qual teria sido a resposta? Laurence Brown? E quem era, afinal de contas, Laurence Brown? Não era um ponto de apoio num momento de tormenta. O lado mais fraco da corda. Eu me lembrava dos dois passeando no jardim na noite anterior.
Queria ajudá-la. Queria ajudá-la com todas as minhas forças. Mas não havia muita coisa que eu pudesse fazer ou dizer. E eu tinha no fundo de minha consciência um senti--mento de culpa, como se os olhos desdenhosos de Sophia me estivessem espreitando. Eu me lembrava da voz de Sophia dizendo: "Então ela conquistou você".
E Sophia não via, nem queria ver o lado de Brenda na história. Sozinha, suspeita do crime, sem ninguém para ficar a seu lado.
—O inquérito é amanhã. O que... o que vai acontecer?
Neste ponto eu podia ajudá-la.
—Nada — eu garanti. — Você não precisa preocupar-se com isto. Será adiado para a polícia continuar com as investigações. Mas isto vai certamente deixar a imprensa alerta. Que eu saiba, até agora não saiu nada nos jornais que deixasse entrever que a morte não foi natural. Os Leonides ainda têm um bocado de influência. Mas um inquérito adiado... bem, aí a farra vai começar.
(Que coisas esquisitas que a gente diz! A farra! Por que é que eu tinha de escolher esta palavra?)
— Será que... será que vai ser muito ruim?
— Eu não daria nenhuma entrevista se fosse você. Sabe, Brenda, você devia arranjar um advogado...
Ela recuou num gesto de horror.
—Não... não é o que você está pensando. Mas alguém que zele pelos seus interesses e a aconselhe como deve proceder, o que deve dizer e fazer e o que não deve dizer ou fazer. — Você sabe — eu acrescentei — você está sempre muito só.
Sua mão apertou meu braço com mais força.
—Sim — disse ela. — Você compreendeu isto. Você me tem ajudado, Charles, você me tem ajudado muito...
Eu desci as escadas com um sentimento de calor, de alegria... Foi então que vi Sophia parada em frente à porta principal. Sua voz era fria e bastante seca.
— Há quanto tempo você sumiu — disse ela. — Ligaram para você de Londres. Seu pai quer falar-lhe.
— Lá na Yard?
— Sim.
— Não imagino o que eles queiram comigo. Não disseram nada?
Sophia balançou a cabeça negativamente. Seus olhos estavam ansiosos. Puxei-a para mim.
—Não se preocupe, querida. Eu voltarei logo.


Capítulo 17
HAVIA UMA FORTE tensão na atmosfera do escritório de meu pai. O Velho estava sentado à sua escrivaninha. O Inspetor Taverner encostado ao batente da janela. Na cadeira destinada aos visitantes estava sentado o Sr. Gaitskill, que parecia contrariado.
—... uma extraordinária falta de confiança — ele estava dizendo acidamente.
— É claro, é claro — meu pai falou apaziguador. — Ah, alô, Charles, você veio depressa. Aconteceu um fato bastante surpreendente.
— Imprecedente — disse Gaitskill.
Alguma coisa havia visivelmente contrariado o pequeno advogado em seu íntimo. Por trás dele, o Inspetor Taverner fez uma careta para mim.
— Se eu recapitulasse? — perguntou meu pai. — O Sr. Gaitskill recebeu uma comunicação assaz surpreendente esta manhã, Charles. De um Sr. Agrodopolous, proprietário do restaurante Delphos. É um senhor muito idoso, grego de nascimento, e quando era moço foi ajudado e prestigiado por Aristide Leonides. Ele permaneceu sempre muito agradecido a seu amigo e benfeitor e, ao que parece, Leonides depositava muita confiança nele.
— Eu nunca pude imaginar que Leonides fosse assim tão desconfiado e de natureza tão secretiva — disse Gaitskill.
—É claro, ele já estava muito avançado nos anos... praticamente caduco, pode-se dizer.
—A nacionalidade conta — disse meu pai gentilmente.
—Sabe, Gaitskill, quando se fica muito idoso o seu pensamento se volta para os dias de sua juventude e para os amigos de sua juventude.
—Mas os negócios de Leonides estão em minhas mãos há mais de quarenta anos — disse Gaitskill. — Quarenta e três anos e seis meses, para ser exato.
Taverner fez outra careta.
—O que foi que aconteceu? — perguntei.
Gaitskill ia abrindo a boca mas meu pai adiantou-se.
— O Sr. Agrodopolous declarou nesta comunicação que estava obedecendo a certas instruções que lhe haviam sido dadas por seu amigo Aristide Leonides. Resumindo, há cerca de um ano, o Sr. Leonides confiou-lhe um envelope selado que ele, Sr. Agrodopolous, deveria entregar ao Sr. Gaitskill imediatamente após a morte do Sr. Leonides. No caso de o Sr. Agrodopolous morrer primeiro, seu filho, um afilhado do Sr. Leonides, deveria executar as mesmas instruções. O Sr.
Agrodopolous desculpou-se pela demora mas explicou que ele estivera doente com pneumonia e só soube da morte de seu velho amigo ontem à tarde.
— Tudo isto é muito antiprofissional — disse Gaitskill.
— Quando o Sr. Gaitskill abriu o envelope selado e tomou conhecimento de seu conteúdo, ele decidiu que era seu dever...
— Devido às circunstâncias — explicou Gaitskill.
— Trazer ao nosso conhecimento os documentos. Eles consistem em um testamento, devidamente assinado com testemunhas, e uma carta explicativa.
—Então afinal o testamento apareceu? — perguntei.
O Sr. Gaitskill ficou rubro.
—Não é o mesmo testamento — berrou ele. — Não foi este o documento que eu preparei a pedido do Sr. Leonides. Este foi escrito com suas próprias mãos, uma coisa muito perigosa para qualquer leigo fazer. Ao que parece, a intenção do Sr. Leonides era fazer-me de bobo.
O Inspetor Taverner tentou acalmar um pouquinho a amargura reinante.
—Ele era um senhor muito idoso, Sr. Gaitskill — disse. — Eles ficam meio gagás quando ficam velhos, o senhor sabe... não chegam a caducar de todo, mas ficam um pouquinho excêntricos.
Gaitskill fungou.
—O Sr. Gaitskill nos telefonou — disse meu pai — e nos fez tomar conhecimento dos termos principais do testamento e eu lhe pedi que viesse até aqui e trouxesse os documentos com ele. Eu também telefonei a você, Charles.
Não imaginei por que era que me tinham telefonado. Parecia-me bastante estranho este procedimento de meu pai e de Taverner. Eu ficaria sabendo mais tarde do testamento, e não era mesmo da minha conta saber o que o velho Leonides tinha feito de seu dinheiro.
— É um testamento diferente? — perguntei. — Eu quero dizer, ele dispôs de sua fortuna de outra forma?
— Muito diferente — disse Gaitskill.
Meu pai estava olhando para mim. O Inspetor Taverner estava tendo muito cuidado para não olhar para mim. Não sei por que, mas eu comecei a me sentir ligeiramente encabulado...
Algo estava-se passando no pensamento deles — e era algo que eu não tinha a mínima idéia do que podia ser.
Olhei inquisitivamente para Gaitskill.
—Não é da minha conta — disse eu — mas...
Ele me respondeu:
— As disposições testamentárias do Sr. Leonides não são, é lógico, secretas — disse ele. — Eu achei que era meu dever apresentar os fatos às autoridades policiais primeiro e deixar que me guiassem para o meu procedimento seguinte. Eu creio — fez uma pausa — que há um... certo entendimento eu diria... entre o senhor e a Srta. Sophia Leonides?
— Eu espero casar-me com ela — disse eu — porém ela não deseja um noivado neste momento.
— Muito adequado — disse Gaitskill.
Eu não concordava com ele. Mas não era este o momento para discutirmos isto.
—Por este testamento — continuou Gaitskill, — datado de 29 de novembro do ano passado, o Sr. Leonides, após um dote para sua esposa de cento e cinqüenta mil libras, deixa a sua fortuna inteira, real e pessoal, para sua neta Sophia Katherine Leonides, exclusivamente.
Eu quase me engasguei. Fosse o que fosse que eu estava esperando, não era absolutamente isto.
— Ele deixou tudo para Sophia! — exclamei. — Que coisa extraordinária! Alguma razão?
— Ele explicou suas razões com muita clareza na carta anexa — disse meu pai e pegou uma folha de papel que estava à sua frente na escrivaninha. — O senhor não tem nenhuma objeção que Charles leia isto, Sr. Gaitskill?
— Eu me pus em suas mãos — disse Gaitskill com frieza. — A carta pelo menos oferece uma explicação... e possivelmente (se bem que eu tenha minhas dúvidas quanto a isto) uma desculpa para a extraordinária conduta do Sr. Leonides.
O Velho me entregou a carta. Estava escrita numa letrinha intricada com uma tinta muito preta. O talhe da letra demonstrava caráter e individualidade, não era absolutamente a letra de um velho — exceto talvez pelo desenho caprichoso das letras, característico dos tempos antigos, quando a escrita era algo dificilmente adquirido e devidamente valorizado. Dizia:
Caro Gaitskill:
Você vai ficar surpreso ao receber esta carta, e provavelmente ofendido. Mas eu tenho minhas próprias razões em proceder de uma forma que para você talvez pareça desnecessariamente secreta. Eu sempre fui uma pessoa que acredita na individualidade. Numa família (isto eu observei durante a minha infância e nunca esqueci), há sempre um caráter mais forte e geralmente cabe a esta pessoa zelar e ter a responsabilidade de tomar conta da família. Na minha família eu fui esta pessoa. Vim para Londres, ali me estabeleci, sustentei minha mãe e meus avós idosos em Smyrna, livrei um de meus irmãos das garras da lei, assegurei a liberdade de minha irmã salvando-a de um casamento infeliz e muitas coisas assim. Deus foi generoso comigo concedendo-me uma vida longa e eu pude zelar e cuidar de meus filhos e dos filhos de meus filhos. Muitos me foram levados pela morte, os outros, e eu sou feliz ao dizê-lo, estão sob o meu teto. Quando eu morrer, a responsabilidade que eu tenho deverá recair em outra pessoa. Refleti muito pensando em dividir minha fortuna igualmente entre todos os meus entes queridos — mas fazendo isso eu não estaria sendo justo com todos. Os homens nascem diferentes uns dos outros. Para compensar a desigualdade natural da Natureza, nós precisamos endireitar a balança. Em outras palavras, alguém deveria ser o meu sucessor, deveria tomar sobre os ombros o cargo de responsabilidade pelo resto da família. Depois de uma observação cuidadosa, eu cheguei à conclusão de que nenhum de meus filhos poderia arcar com esta responsabilidade. Meu muito querido filho Roger não tem nenhum sentido de negócios, e se bem que seja de uma natureza muito amável é impulsivo demais para poder julgar os outros. Meu filho Philip é muito inseguro de si mesmo e não é capaz de fazer nada a não ser se encolher perante a vida. Eustace, meu neto, ainda é muito jovem e eu não creio que tenha as qualidades de percepção e julgamento necessárias. Ele é indolente e facilmente influenciável pelas idéias da primeira pessoa que encontra. Apenas minha neta Sophia me parece ter as qualidades positivas requeridas. Ela tem cabeça, julgamento, coragem, a mente livre de preconceitos e, penso eu, generosidade de espírito. A ela, eu confio o bem-estar da família — e o bem-estar de minha querida cunhada Edith de Haviland, pela devoção de toda a vida à minha família e a qual eu agradeço de todo o coração. Isto explica o documento anexo. O que será difícil de explicar — ou seja, difícil de explicar a você — é o ardil que eu empreguei. Achei que não devia levantar nenhuma especulação sobre a disposição de minha fortuna, e não tenho a intenção de deixar que minha família saiba que Sophia será a minha herdeira. Uma vez que meus dois filhos já têm consideráveis fortunas pessoais à sua disposição, eu não creio que as minhas, disposições testamentárias os coloque numa posição humilhante.
Para abafar a curiosidade e a suspeita, eu lhe pedi que me preparasse um testamento. Este testamento eu leria para toda a família reunida. Poria este testamento sobre a minha mesa, colocaria uma folha de papel sobre ele, e pediria que fossem chamados dois empregados. Quando eles chegassem, eu escorregaria a folha de papel sobre o documento, assinaria meu nome e pediria a eles que assinassem também. Não tenho necessidade de acrescentar que o testamento que eu e eles havíamos assinado seria o testamento que eu agora anexo a esta carta e não o que você preparara e que eu lera em voz alta.
Eu sei que não espero que você vá compreender o que me levou a executar tal coisa. Eu lhe pedirei apenas que me perdoe por deixá-lo às escuras. Um velho homem gosta de guardar seus pequenos segredos.
Obrigado, meu velho amigo, pela assiduidade que você sempre dedicou aos meus negócios. Transmita a Sophia o meu amor. Peça-lhe que vele pelo bem da família e proteja-a de todos os males.
Seu amigo sincero,
Aristide Leonides
Li este estranho documento com imenso interesse.
— Extraordinário! — exclamei.
— Extremamente extraordinário — disse Gaitskill, levantando-se. — Eu repito, penso que meu velho amigo Leonides devia ter confiado em mim.
— Não, Gaitskill — disse meu pai. — Ele era um enrolado nato. Gostava, eu diria, de fazer as coisas sempre meio fora da lei.
— Isto mesmo, senhor — disse o Inspetor Taverner. — Se havia alguém enrolado neste mundo, era ele — acrescentou com convicção.
Gaitskill saiu altivamente sem se acalmar. Ele fora ferido no mais profundo âmago de seus sentimentos profissionais.
— Ele foi ferido fundo — disse Taverner. — É uma firma muito respeitável, a Gaitskill, Callum & Gaitskill. Com eles não se fazem trapaças. Quando o velho Leonides fazia uma transação duvidosa, ele nunca a fazia através da Gaitskill, Callum & Gaitskill. Ele tinha uma meia dúzia de firmas de advocacia diferentes que atuavam para ele. Oh, como ele era enrolado!
— E nunca o provou tanto como quando fez este testamento — disse meu pai.
— Nós fomos uns tolos — disse Taverner. — Pensando melhor, a única pessoa que podia ter feito algum truque com o testamento era o próprio velho. Apenas a idéia não nos ocorreu nunca!
Eu me lembrei do sorriso superior de Josephine ao dizer:
—A polícia não é burra?
Mas Josephine não estivera presente no momento da assinatura do testamento. E mesmo que ela estivesse do lado de fora da porta escutando (o que eu estava certo a acreditar) ela dificilmente poderia adivinhar o que seu avô estava fazendo. O que é que ela sabia que a fizera dizer que a polícia era estúpida? Ou novamente talvez ela se estivesse mostrando?
Surpreso pelo silêncio que havia na sala, levantei os olhos rapidamente — ambos, meu pai e Taverner, me observavam. Não sei o que havia neles que me obrigou a deixar escapar um desafio:
— Sophia não sabia de nada sobre isto! Absolutamente de nada!
— Não? — disse meu pai.
Eu não soube se ele estava concordando ou se perguntara algo.
— Ela ficará absolutamente estarrecida!
— Será?
— Estarrecida!
Houve uma pausa. Então, numa dissonância repentina o telefone da mesa de meu pai soou.
—Sim? — Ele ergueu o receptor, escutou e disse: — Pode ligar.
Olhou para mim.
—É a sua jovem — disse ele. — Ela quer falar conosco. É urgente.
Eu peguei o aparelho de suas mãos.
—Sophia?
—Charles? É você? É... Josephine! — a voz dela estremeceu ligeiramente.
— O que houve com Josephine?
— Ela foi ferida na cabeça. Concussão. Ela... ela está muito mal... Eles dizem que talvez ela não recobre a consciência...
Eu me virei para os dois.
—Josephine foi posta a nocaute — eu disse.
Meu pai pegou o aparelho de minha mão. Disse secamente para mim:
—Eu lhe disse para ficar de olho naquela criança...


Capítulo 18
SEM PERDA DE TEMPO, Taverner e eu estávamos correndo num veloz carro da polícia em direção a Swinly Dean. Eu me lembrei de Josephine, saindo do pátio das cisternas e seu comentário frívolo de que "estava na hora do segundo crime". A pobre criança não tinha idéia de que seria ela a vítima do "segundo crime".
Eu aceitei plenamente a reprimenda que meu pai tacitamente me deu. É claro que eu devia ter ficado de olho em Josephine. Apesar de nem eu nem Taverner termos a mínima pista quanto ao envenenador do Sr. Leonides, era bastante possível que Josephine tivesse. O que eu tomara por uma tolice infantil e "exibição" poderia muito bem ser algo diferente. Josephine, praticando o seu esporte favorito de espionar e bisbilhotar, poderia ter ficado de posse de alguma informação a que talvez nem ela própria houvesse atribuído o valor devido.
Eu me lembrei do raminho que estalara no jardim.
Eu tivera o pressentimento que o perigo estava por perto. Agi assim naquele instante, mas depois, minhas suspeitas me pareceram melodramáticas e irreais. Pelo contrário, eu deveria ter imaginado que houvera um crime, e quem o tivesse cometido pusera o seu pescoço em perigo, e conseqüentemente esta mesma pessoa não hesitaria em repetir o crime se assim a sua segurança fosse garantida.
Talvez Magda, por algum obscuro instinto materno, percebesse que Josephine estava em perigo, e talvez tenha sido este o motivo de sua febril e súbita impetuosidade de enviar a criança para a Suíça.
Sophia veio à porta para nos receber. Josephine, disse ela, fora levada de ambulância para o Hospital Geral de Market Basing. O Dr. Gray lhes poria ao corrente o mais rápido possível sobre o resultado das radiografias.
—Como foi que aconteceu? — perguntou Taverner.
Sophia guiou-nos até os fundos da casa e por uma porta entramos num pequeno pátio abandonado. Em um canto havia uma outra porta entreaberta.
—Era uma espécie de lavandaria — explicou Sophia. — Há um buraco para o gato passar na parte de baixo da porta e Josephine costumava pendurar-se nela e balançar para frente e para trás.
Eu me lembrei que também gostava de balançar nas portas na minha própria infância.
A lavandaria era pequena e bastante escura. Havia alguns caixotes de madeira, uma mangueira velha, alguns instrumentos de jardinagem abandonados e uns móveis quebrados. Ao lado da porta havia um leão de mármore que servia de calço para portas.
—E o calço da porta da frente — explicou Sophia. — Deve ter sido posto em equilíbrio no alto da porta.
Taverner passou a mão por cima da porta. Era uma porta baixa, a parte de cima ficava apenas a uns trinta centímetros acima de sua cabeça.
—Uma armadilha — disse ele.
Balançou a porta, experimentando-a para um lado e para outro. Depois, inclinou-se sobre o bloco de mármore mas não o tocou.
—Alguém mexeu nele?
— Não — disse Sophia. — Eu não deixaria que ninguém o tocasse.
— Muito bem. Quem foi que a encontrou?
— Fui eu. Ela não apareceu para almoçar à uma hora da tarde. Nannie estava chamando. Ela passara pela cozinha e fora para o pátio das estrebarias mais ou menos uns quinze minutos antes. Nannie me dissera: "Ela deve estar-se balançando novamente naquela porta" e eu vim aqui buscá-la.
Sophia fez uma pausa.
—Ela tinha o hábito de brincar assim, você disse? Quem sabia disto?
Sophia balançou os ombros.
— Eu acho que todos aqui em casa, creio eu.
— Quem mais usa esta lavandaria? Jardineiros?
— Quase ninguém põe os pés aqui.
— E este pequeno pátio não é visto da casa — resumiu Taverner. — Qualquer um poderia ter saído de casa ou dado a volta pela frente e preparado a armadilha. Mas seria arriscado...
Ele parou, olhando para a porta e balançou-a levemente de um lado para outro.
—Não se podia ter certeza. Acertar ou errar. E era mais provável errar do que acertar. Mas ela não teve sorte. Com ela foi acertar.
Sophia estremeceu.
Ele olhou para o chão. Havia várias marcas no solo.
— Parece que alguém andou experimentando antes... para ver como iria cair... O barulho não chegaria até a casa.
— Não, nós não ouvimos nada. Não tínhamos idéia de que havia algo errado até que eu vim até aqui e a encontrei deitada de bruços... estatelada — a voz de Sophia tremeu um pouco. — Havia sangue em seus cabelos.
— Este lenço é dela? — Taverner apontou para um cachecol de lã xadrez no chão.
—Sim.
Usando o cachecol ele pegou o bloco de mármore cuidadosamente.
—Pode ser que tenha impressões digitais — disse ele, falando com pouca esperança. — Mas eu creio que quem quer que tenha feito isso foi... cuidadoso.
Virou-se para mim:
—O que é que você está olhando?
Eu estava olhando para uma cadeira de cozinha com o encosto quebrado que estava entre as coisas abandonadas. No assento havia algumas marcas de terra...
—Curioso — disse Taverner. — Alguém ficou de pé nesta cadeira com pés enlameados. Por que razão?
Ele balançou a cabeça.
— Que horas eram quando a encontrou, Srta. Leonides?
— Deve ter sido à uma e cinco.
— E a sua Nannie viu-a saindo vinte minutos antes. Qual foi a última pessoa que esteve antes disso na lavandaria?
— Não tenho idéia. Provavelmente a própria Josephine. Ela estava-se balançando na porta esta manhã depois do café, eu sei.
Taverner aquiesceu com a cabeça.
—Então desta hora até um quarto para a uma alguém preparou a armadilha. A senhorita disse que este pedaço de mármore serve de calço para a porta da entrada? Tem idéia de quando deu falta dele?
Sophia balançou negativamente a cabeça.
— A porta não foi aberta totalmente durante o dia inteiro. Fez muito frio.
— Tem alguma idéia de onde estavam as pessoas da casa hoje de manhã?
— Eu saí para dar um passeio. Eustace e Josephine tiveram aulas até as doze e meia, com uma pausa às dez e meia. Papai, eu penso, esteve na biblioteca a manhã inteira.
— Sua mãe?
— Ela estava saindo do quarto de dormir quando eu voltei do passeio... devia ser meio dia e quinze. Ela não se levanta muito cedo.
Nós entramos na casa outra vez. Segui Sophia até a biblioteca. Philip, muito pálido e ansioso, estava sentado na cadeira de costume.
Magda, encolhida sobre seus joelhos, chorava baixinho. Sophia perguntou:
—Eles já telefonaram do hospital?
Philip abanou a cabeça.
Magda soluçou:
— Por que não me deixaram ir com ela? Meu bebezinho... meu bebezinho feio e engraçado. E eu gostava de brincar com ela dizendo que tinha sido trocada pelas fadas e ela ficava furiosa. Como eu pude ser tão cruel? E agora ela vai morrer... Eu sei que ela vai morrer!
— Vamos, meu bem — disse Philip. — Tenha calma.
Eu senti que não havia lugar para mim nesta cena familiar de ansiedade e desespero. Saí mansamente e fui procurar Nannie. Ela estava sentada na cozinha chorando baixinho.
—É um castigo para mim, Sr. Charles, pelas coisas horríveis que eu estava pensando. Um castigo, é isto que é.
Não tentei decifrar o seu significado.
— Há maldade nesta casa. É isto que há. Eu não queria ver nem acreditar. Mas só vendo para crer. Alguém matou o patrão e este mesmo alguém tentou matar Josephine.
— Por que será que tentaram matar Josephine?
Nannie puxou um canto do lenço de um olho e me deu uma olhada perspicaz.
—O senhor sabe muito bem como ela é, Sr. Charles. Ela gosta de saber de tudo. Ela sempre foi assim, mesmo quando era um tiquinho de gente. Costumava esconder-se embaixo da mesa de jantar e ouvir o que as criadas falavam e depois fazia chantagem com elas. Fazia com que ela se sentisse importante. Sabe? Ela foi muito abandonada pela patroa. Não era uma criança bonita como as outras duas. Sempre foi uma menininha feia. Uma bruxinha, a patroa costumava chamá-la. Eu sempre achei ruim com a patroa por isto, pois eu acho que deixa as crianças amargas. Mas de uma forma engraçada, ela se vingava descobrindo coisas sobre as pessoas e deixando que elas soubessem que ela sabia. Mas isto não é uma coisa a se fazer quando há um envenenador por aí!
Não, não era uma coisa a se fazer! E isto me trouxe outra coisa à cabeça. Perguntei a Nannie:
— Você sabe onde ela guarda um livrinho preto... um livrinho de notas onde ela costuma escrever as coisas que descobre?
— Eu sei o que o senhor quer dizer, Sr. Charles. Muito manhosa é que ela é, sabe? Eu a via chupando a ponta do lápis e escrevendo no livrinho e chupando outra vez o lápis. E "não faça isso" eu dizia, "você vai-se envenenar com o chumbo" e "não, eu não vou não" ela dizia, "porque não é mesmo chumbo no lápis, é grafita" apesar de eu não saber por que é que é assim, pois se chamamos um lápis de ponta de chumbo é porque deve haver chumbo nele.
— Você pensa que é assim — concordei eu — mas na verdade ela tinha razão (Josephine sempre tinha razão!) — E sobre o livrinho? Você sabe onde ela costuma guardá-lo?
— Não tenho idéia, senhor. É outra das coisas em que ela é ardilosa.
— Não estava com ela quando foi encontrada?
— Oh, não, Sr. Charles, não havia nenhum livro.
Será que alguém pegara o livrinho? Ou talvez ela o escondera em seu quarto? Tive a idéia de ir procurá-lo lá. Eu não tinha certeza de qual era o quarto de Josephine mas hesitei ao ouvir a voz de Taverner me chamando do corredor.
—Venha cá — disse ele. — Eu estou no quarto da menina. Você já viu coisa igual?
Eu cheguei à porta e parei estarrecido.
O pequeno quarto parecia que recebera a visita de um furacão. As gavetas da cômoda estavam puxadas e seu conteúdo esparramado pelo chão. O colchão e as cobertas tinham sido arrancados da caminha. Os tapetes estavam empilhados. As cadeiras estavam de pernas para cima, os quadros arrancados das paredes, as fotografias arrancadas das molduras.
— Deus do Céu! — exclamei — Que foi isto?
— O que é que você acha?
— Alguém estava procurando alguma coisa.
—Exatamente.
Eu dei uma olhada em torno e assobiei.
—Mas quem poderia ter... Certamente ninguém poderia entrar aqui e fazer esta bagunça sem que fosse ouvido... ou visto?
—Por que não? A Sra. Leonides passa a manhã inteira no quarto, fazendo as unhas e telefonando para as amigas e brincando de experimentar suas roupas. Philip senta-se na biblioteca enfiado nos livros. A empregada está na cozinha descascando batatas e cortando vagens. Numa família em que cada um conhece os hábitos dos outros isso seria muito fácil. E eu lhe digo uma coisa. Qualquer um desta casa podia ter feito este trabalhinho... ter preparado a armadilha para a menina e revistado seu quarto. Mas era alguém que estava com pressa, alguém que não teve tempo de dar uma busca minuciosa.
—Qualquer um da casa, você acha?
—Sim, eu já chequei todos. Cada um tem um tempinho que não pode provar onde estava. Philip, Magda, a empregada, sua moça. Lá em cima a mesma coisa. Brenda passou a maior parte da manhã sozinha. Laurence e Eustace tiveram meia hora de recreio — das dez e meia às onze... você esteve com eles parte deste tempo... mas não o tempo todo. A Srta. de Haviland estava no jardim sozinha. Roger estava em seu estúdio.
— Então somente Clemency estava em Londres no trabalho.
— Não, nem ela saiu hoje. Ficou em casa o dia todo com dor de cabeça; estava sozinha no quarto com a sua dor de cabeça! Qualquer um deles... qualquer um desses desgraçados! E eu não sei qual deles! Não tenho idéia. Se eu soubesse o que é que eles estavam procurando aqui...
Seus olhos deram a volta do quarto desarrumado.
—E se eu soubesse se eles encontraram o que queriam...
Algo estalou em minha cabeça — um pensamento...
Taverner interrompeu-o ao me perguntar:
— O que é que esta menina estava fazendo quando você a viu pela última vez?
— Espere — disse eu.
Saí do quarto às pressas e subi as escadas. Passei pela porta da esquerda e fui até o andar de cima. Empurrei a porta da sala das cisternas, subi os dois degraus e, baixando a cabeça porque o teto era muito baixo e sujo, dei uma olhada em torno.
Josephine dissera quando eu lhe perguntara o que ela estava fazendo ali que ela estava "procurando pistas".
Eu não sabia o que ela podia estar procurando naquela sala cheia de teias de aranha e tanques cheios d'água. Mas uma tal peça daria um bom esconderijo. Considerei provável que Josephine tivesse escondido alguma coisa por ali, alguma coisa que ela sabia muito bem que não era da sua conta. Se assim fosse, eu não deveria levar muito tempo para encontrar.
Só levei três minutos. Enfiado por detrás do tanque maior, de onde saía um assobio sibilante que acrescentava uma nota fantasmagórica à atmosfera, eu encontrei um maço de cartas enroladas num pedaço de papel pardo.
Li a primeira carta:
Oh, Laurence — meu querido, meu único e verdadeiro amor... Foi maravilhoso a noite passada quando você citou aquele verso de poesia. Eu sabia que era dirigido para mim, apesar de você nem me ter olhado. Aristide disse: "Você lê versos muito bem". Ele não adivinhou o que ambos estávamos sentindo. Meu querido, eu tenho certeza de que brevemente tudo vai dar certo. Nós poderemos alegrar-nos que ele não tenha sabido nunca e que morreu feliz. Ele foi bom para mim. Eu não quereria que ele sofresse. Mas eu não penso mesmo que se possa retirar algum prazer da vida depois dos oitenta anos. Eu não quereria! Breve nós estaremos juntos para sempre. Como vai ser maravilhoso quando eu puder dizer a você: meu marido adorado... Meu amor, nós fomos feitos um para o outro, eu te amo, eu te amo, eu te amo — eu sei que nosso amor não tem fim, eu...
Havia muito mais, mas eu não quis continuar.
Fazendo uma careta, desci as escadas e joguei o pacote nas mãos de Taverner.
—É possível — disse eu — que fosse isto o que o nosso amigo desconhecido estivesse procurando.
Taverner leu alguns trechos, assobiou e remexeu entre as várias cartas.
Então foi que olhou para mim com a expressão de um gato que acabava de ser alimentado com o melhor dos cremes.
—Bem — disse ele mansamente, — isto liquida as esperanças da Sra. Brenda Leonides. E também as do Sr. Laurence Brown. Então eram eles, o tempo todo...

Capítulo 19
PARECEU-ME ESTRANHO, ao olhar para trás, como a minha piedade e simpatia por Brenda Leonides desapareceram repentinamente com a descoberta de suas cartas, das cartas que ela escrevera para Laurence Brown. Teria sido a minha vaidade ferida que não agüentara a revelação de que ela amava Laurence com uma paixão boba e piegas e que me mentira deliberadamente? Eu não sei. Não sou um psicólogo. Prefiro acreditar que foi o pensamento em Josephine, ferida de maneira cruel por alguém que queria silenciá-la, que apagara os últimos vestígios de minha simpatia.
— Se me perguntarem, eu diria que Brown preparou a armadilha — disse Taverner — e isto explica o que foi que me intrigou.
— O que foi que o intrigou?
— Bem, era uma coisa tão boba. Olhe só, se a garota passou a mão naquelas cartas — cartas que eram absolutamente infernais! — a primeira coisa a fazer era tentar reavê-las — (afinal de contas a menina pode falar sobre as cartas, mas se não tem nada a mostrar, vão dizer que ela estava romanceando), porém você não pode reavê-las porque não sabe onde estão. Então a única coisa a fazer é desembaraçar-se de vez da menina. Você já cometeu um crime e não vai ter muitos escrúpulos para cometer um outro. Você sabe que ela gosta de se balançar na porta de um pátio onde ninguém vai. A coisa ideal é ficar escondido atrás da porta e abatê-la quando vier com um pedaço de pau ou uma barra de ferro, ou ainda um pedaço de mangueira no pescoço. Estava tudo ali à mão. Por que mexer com um leão de mármore pendurado numa porta e que pode muito bem falhar completamente ou, se chegar a acertá-la, poderia fazer o serviço incompleto (que foi o que acabou acontecendo)? Eu lhe pergunto: por quê?
— Bem — disse eu, — qual é a resposta?
— A única idéia que eu tive foi que alguém tentou ajeitar isto com o álibi de outra pessoa. Alguém teria um álibi formidável no momento em que Josephine estava sendo posta fora de combate. Mas isto não adiantou nada porque, para começar, ninguém tem álibi de espécie alguma, e segundo, alguém havia de procurar a menina na hora do almoço e encontraria a armadilha e o bloco de mármore, e todo o modus operandi iria por água abaixo. É claro, se o assassino tivesse tirado o bloco antes de a menina ser encontrada, então talvez
nós tivéssemos ficado na mão. Mas da maneira que foi, a coisa toda não faz sentido.
Ele estendeu as mãos.
— E qual é a sua explicação?
— O elemento pessoal. Idiossincrasia pessoal. Laurence Brown é excêntrico. Não gosta de violência... não consegue se forçar a praticar uma violência. Literalmente, ele não poderia ficar atrás da porta e dar uma pancada na cabeça da menina. Poderia ter preparado a armadilha e ido embora para não ver o resultado.
— Sim, eu entendo — eu disse devagar. — É a eserina
na garrafa de insulina outra vez?
— Exatamente.
— Você acha que ele fez isso sem que Brenda soubesse?
— Isso explicaria por que ela não jogou fora a garrafinha de insulina depois. É claro, é possível que eles tenham combinado tudo entre si... ou talvez ela mesma tenha pensado no veneno... uma morte fácil e suave para o seu marido velho e cansado e a melhor das melhores como solução! Mas eu aposto que não foi ela que arrumou a armadilha. Mulheres nunca confiam em coisas mecânicas que funcionem bem. E elas têm razão. Eu mesmo acho que a eserina foi idéia dela mas que obrigou o seu escravo abobalhado a fazer a troca. Ela é do tipo que consegue geralmente evitar qualquer coisa que as comprometa. E assim, elas se conservam sempre com a consciência tranqüila.
Fez uma pausa e continuou:
—Com aquelas cartas eu acho que o Promotor Público dirá que nós já temos um caso. Eles vão ter um trabalhinho para se explicarem! Então, se a garota se recuperar, tudo vai ficar azul outra vez! — ele me deu uma olhada meio de lado. — Que tal é ficar noivo de um milhão de libras?
Eu pisquei. Na excitação das últimas horas, eu esquecera completamente os problemas do testamento.
— Sophia ainda não sabe — eu disse. — Você quer que eu lhe dê a notícia?
— Ouvi dizer que Gaitskill vai dar a triste (ou alegre?) notícia amanhã depois do inquérito.
Taverner fez uma pausa e olhou-me pensativo.
— Eu estou imaginando — disse ele — quais serão as reações da família?


Capítulo 20
O INQUÉRITO passou-se mais ou menos como eu previra. Foi adiado a pedido da polícia.
Estávamos todos alegres porque as notícias que vieram do hospital diziam que os ferimentos de Josephine eram bem menos sérios do que se imaginara e que sua convalescença seria rápida. No momento, o Dr. Gray dissera, ela não podia receber visitas — nem mesmo de sua mãe.
—Principalmente de sua mãe — murmurara Sophia para mim. — Eu chamei a atenção do Dr. Gray para isso. De qualquer maneira, ele conhece mamãe.
Acho que a olhei meio em dúvida, porque Sophia disse bruscamente:
— Por que este olhar de censura?
— Bem... certamente a mãe...
— Eu fico muito satisfeita de você ter certas idéias simpáticas e antiquadas, Charles. Mas você ainda não sabe do que mamãe é capaz. A queridinha não pode evitar mas haveria infalivelmente uma grande cena dramática. E cenas dramáticas não são o que há de melhor para alguém que está convalescendo de um ferimento na cabeça.
— Você pensa em tudo, não é, meu amor?
— Bem, alguém tem de pensar agora que vovô morreu.
Olhei para ela pensativo. Vi que a argúcia do velho Leonides não o abandonara. O fardo de responsabilidade já estava sobre os ombros de Sophia.
Depois do inquérito, Gaitskill acompanhou-nos de volta aos Três Oitões. Pigarreou e disse:
—Há uma participação que é meu dever fazer a vocês todos.
Para isto, toda a família reuniu-se na sala de visitas de Magda. Eu senti neste instante as sensações bastante agradáveis do homem que está por detrás dos bastidores. Eu já sabia o que Gaitskill ia dizer.
Preparei-me para observar as reações de cada um.
Gaitskill foi lacônico e seco. Qualquer sinal pessoal de aborrecimento foi muito bem escondido. Ele leu primeiro a carta de Aristide Leonides e depois o próprio testamento.
Foi muito interessante observá-los. Só desejei que meus olhos vissem todos ao mesmo tempo.
Não prestei muita atenção a Brenda e Laurence. O dinheiro para Brenda neste testamento era igual ao outro. Olhei primeiro para Roger e Philip, e depois para Magda e Clemency.
Minha primeira impressão foi de que todos se comportaram muito bem.
Os lábios de Philip estavam apertados, sua bela cabeça recostada contra a cadeira alta em que estava sentado. Ele não falou nada.
Magda, pelo contrário, prorrompeu num discurso assim que Gaitskill acabou de falar, sua voz cheia emergindo sobre todos os tons como uma maré de enchente sobre um riachinho.
—Sophia querida... Que coisa extraordinária!... Que romântico... Imagine, o nosso velhinho como foi manhoso e trapaceiro... como um menininho esperto. Será que ele não confiava em nós? Será que ele achava que nós iríamos passá-lo pra trás? Ele nunca pareceu gostar mais de Sophia do que de qualquer um de nós. Mas, realmente, como isso é dramático!
De repente, Magda ficou de pé de um salto, dançou em volta de Sophia e fez-lhe uma grande reverência.
—Madame Sophia, a sua mãe pobre e sem tostão pede-lhe uma esmolinha.
Passou a falar em gíria:
—Me dá uma grana, queridinha. Sua mãezinha quer ir ao cinema...
Sua mão, em forma de garra, estalava para Sophia com ânsia.
Philip, sem se mexer, falou através dos lábios semicerrados:
— Por favor, Magda, não há necessidade de bancar a palhaça.
— Oh, mas Roger! — disse Magda, virando-se de repente para Roger. — Pobre Roger querido! O velhinho ia socorrê-lo e agora, antes que ele pudesse fazer alguma coisa, morreu. E agora Roger não tem nada, Sophia.
Virou-se impetuosamente para Sophia:
— Você precisa fazer alguma coisa por Roger!
— Não! — disse Clemency. Ela dera um passo à frente. Seu rosto era um desafio. — Nada. Absolutamente nada.
Roger veio para perto de Sophia bamboleando como um ursão simpático.
Tomou-lhe as mãos afetuosamente.
—Eu não quero um níquel, minha menina. Assim que este negócio terminar... ou se apagar, que é o que parece que vai acontecer... então Clemency e eu vamos para as Índias Ocidentais e para uma vida simples. Se eu me vir mesmo em apuros sérios, pedirei ajuda à cabeça da família — ele lhe fez uma careta de simpatia — mas até lá, eu não quero um tostão. Eu sou realmente uma pessoa muito simples, minha que rida, pergunte só a Clemency.
Uma voz inesperada interrompeu-os. Era Edith de Haviland.
— Tudo isto está muito bom — disse ela. — Mas vocês precisam prestar atenção a uma coisa. Se você for à falência, Roger, e depois escapulir para o outro lado do mundo sem que Sophia lhe dê uma ajuda, haverá um falatório tão grande que não vai ser agradável para ela.
— E o que importa a opinião alheia? — perguntou Clemency desdenhosa.
— Nós sabemos que para você não importa, Clemency — disse Edith de Haviland secamente, — mas Sophia vive neste mundo. Ela é uma moça que tem cabeça e bom coração e eu não tenho dúvidas de que Aristide estava certo quando escolheu-a para cuidar da fortuna da família... se bem que passar por cima de seus dois filhos ainda vivos nos pareça estranho para nossas idéias inglesas... mas eu acho que seria muito triste se ela demonstrasse avareza quanto a esta questão... e deixar Roger arrebentar-se sem tentar ajudá-lo,
Roger aproximou-se da tia. Pôs as mãos sobre seus ombros e apertou-a contra si.
—Tia Edith — disse ele, — a senhora é uma lutadora teimosa e é um amor, mas ainda não começou a compreender. Clemency e eu sabemos o que queremos... ou o que não queremos!
Clemency, um toque colorido aparecendo de repente em seu rosto, ficou de pé num desafio em frente de todos.
—Nenhum de vocês — disse ela — compreende Roger. Nunca compreenderam! E eu acho que não compreenderão nunca! Venha, Roger.
Eles deixaram a sala enquanto Gaitskill pigarreava e remexia em seus papéis. Sua atitude era a da mais profunda censura. Ele não gostara muito da cena anterior. Isto estava claro.
Meus olhos foram então para Sophia. Ela estava de pé muito bonita e espigada, perto da lareira, o queixo erguido, os olhos firmes. Acabara de herdar uma imensa fortuna mas o meu pensamento principal era como ela se tornara de repente tão sozinha. Entre ela e sua família fora criada uma barreira. De hoje em diante, ela se dividira deles e eu calculei que ela já sabia disso e encarava o fato como consumado. O velho Leonides colocara o fardo sobre seus ombros — ele sabia disto e ela também. Ele acreditava que seus ombros eram fortes o bastante para agüentá-lo mas neste exato momento eu sentia uma pena indescritível dela.
Até então ela não dissera nada — na verdade, ninguém lhe dera uma oportunidade, mas brevemente ela seria obrigada a falar. Já, agora, por baixo da afeição familiar, eu podia sentir uma hostilidade latente. Mesmo no ato gracioso representado por Magda, eu percebi uma malícia sutil. E havia muitas outras coisas obscuras que ainda não tinham vindo à tona.
Os pigarros do Sr. Gaitskill deram lugar a um discurso preciso e comedido.
—Permita-me dar-lhe os parabéns, Sophia — disse ele. — Você é agora uma mulher muito rica. Eu a aconselho a não tomar nenhuma... ahn... decisão precipitada. Posso adiantar-lhe o dinheiro de que você necessitar no momento para as primeiras despesas. Se você quiser discutir arranjos futuros, eu ficarei muito feliz de dar-lhe os melhores conselhos que estiverem ao meu alcance. Marque uma hora comigo no Hotel Lincoln quando você tiver um tempo livre para pormos tudo em dia.
—Roger... — começou obstinadamente Edith de Haviland.
Gaitskill interrompeu-a rapidamente.
—Roger — disse ele — precisa arranjar-se sozinho. Ele é um homem adulto... ahn... tem cinqüenta e quatro anos, eu creio. E Aristide Leonides estava certo, vocês sabem disto. Ele não é um homem de negócios e nunca o será.
Olhou para Sophia:
—Se você puser a Associação de Fornecedores outra vez de pé, não tenha ilusões de que Roger poderá dirigi-la satisfatoriamente.
—Eu nem sonharia de levantar outra vez a Associação de Fornecedores — disse Sophia.
Era a primeira vez que ela falava. Sua voz era viva e comercial.
—Seria uma coisa estúpida a fazer — acrescentou.
Gaitskill deu-lhe uma olhada por baixo das sobrancelhas e sorriu consigo mesmo. Então ele deu até logo para todos e saiu.
Houve alguns minutos de silêncio, a certeza de que a família estava sozinha.
Foi quando Philip ergueu-se muito empertigado.
— Preciso voltar à biblioteca — disse ele. — Já perdi muito tempo.
— Papai... — Sophia falou incerta, quase suplicante.
Eu senti que ela estremeceu e recuou ao Philip dirigir-lhe um olhar hostil e frio.
—Você deve desculpar-me por não lhe dar os parabéns — disse ele. — Mas isso foi um grande choque para mim. Não acreditaria nunca que meu pai pudesse humilhar-me tanto... que ele não tivesse levado em conta a minha devoção de toda a vida... sim... devoção.
Pela primeira vez, o homem verdadeiro quebrou aquela crosta de gelo que o cercava.
— Meu Deus! — gritou ele. — Como ele pôde fazer isso comigo? Sempre foi injusto comigo... sempre!
— Oh, não, Philip, não, você não deve pensar assim! — gritou Edith de Haviland. — Não olhe isso como um menosprezo. Não foi. Quando as pessoas envelhecem, voltam-se naturalmente para a geração mais nova... Eu lhe garanto que foi apenas isso... E além disso, Aristide tinha um senso para negócios muito grande. Eu sempre o ouvi dizer que pagar dois direitos sobre a herança...
—Ele nunca ligou para mim — disse Philip. Sua voz era baixa e rouca. — Foi sempre Roger... Roger. Bem, pelo menos...
Uma expressão extraordinária de rancor desfigurou-lhe o rosto bonito.
— Papai percebeu que Roger era um tolo e um fracassado. Ele também deserdou Roger.
— E eu então? — disse Eustace.
Eu mal reparara em Eustace até agora, mas percebi que ele estava tremendo com alguma emoção violenta. Seu rosto estava rubro e, havia, creio eu, lágrimas em seus olhos. Sua voz tremia quando ele falou histérico:
—É uma vergonha! — disse Eustace. — É uma vergonha maldita! Como foi que vovô ousou fazer isso comigo? Como foi que ele ousou preferir Sophia a mim. Eu era o seu único neto. Não é justo. Eu o odeio. Eu o odeio. Nunca o perdoarei enquanto viver. Velho tirânico e imbecil! Eu queria que ele morresse. Eu queria sair desta casa. Eu queria ser dono de mim mesmo. E agora eu vou ter de obedecer e de bajular Sophia e bancar o tolo. Eu preferia estar morto...
Sua voz sumiu e ele saiu correndo da sala.
Edith de Haviland deu um estalo rápido com a língua.
— Não sabe controlar-se — murmurou ela.
— Eu sei como ele se sente — gritou Magda.
— Eu tenho certeza de que sabe — disse Edith acidamente.
— Meu pobrezinho! Eu vou atrás dele.
— Ora, Magda... — Edith apressou-se a correr atrás dela.
Suas vozes morreram a distância. Sophia permaneceu olhando para Philip. Eu acho que havia uma certa súplica em seu olhar. Ele olhou-a friamente, muito controlado outra vez.
—Você fez um trabalhinho muito bem feito, Sophia — disse ele e saiu da sala.
—Isto foi uma coisa cruel que o senhor disse — gritei.
—Sophia...
Ela estendeu as mãos para mim. Tomei-a nos braços.
— Isto foi demais para você, meu amor.
— Eu sei como eles se sentem — disse Sophia.
— Aquele velho diabólico, o seu avô, não devia ter feito
isso com você.
Ela endireitou os ombros.
— Ele achava que eu agüentaria. E eu também acho. Eu gostaria... eu gostaria que Eustace não se tivesse importado tanto.
— Ele esquecerá.
— Será? Eu não sei. Ele é do tipo que fica meditando
o tempo todo. E eu não gostei que papai ficasse assim tão ferido.
— Sua mãe não ligou.
— Ela se importa, sim. Somente a contragosto ela virá à sua filha pedir dinheiro para financiar suas peças. Ela vai ficar atrás de mim para pôr dinheiro em Edith Thompson bem antes do que você imagina.
—E o que é que você vai dizer? Se isto a faz feliz...
Sophia soltou-se de meus braços, a cabeça jogada para trás.
—Eu vou dizer "Não!" É uma peça idiota e mamãe não pode representar aquele papel. Seria como se eu jogasse dinheiro fora!
Eu ri baixinho. Não pude evitar.
— Por que é que você está rindo? — perguntou Sophia desconfiada.
— Estou começando a entender por que foi que seu avô lhe deixou o dinheiro. Filho de peixe nasce nadando, Sophia...


Capítulo 21
MINHA ÚNICA tristeza nesta hora foi que Josephine não estivesse presente. Ela ter-se-ia divertido muito.
Sua convalescença foi rápida e ela estava sendo esperada a qualquer hora, mas ainda assim perdeu outro acontecimento de muita importância.
Eu estava no jardim de manhã com Sophia e Brenda quando um carro parou à porta da frente. Taverner e o Sargento Lamb desceram e entraram na casa.
Brenda ficou imóvel, olhando para o carro.
—São aqueles homens — disse ela. — Voltaram e eu que pensava que eles já tinham desistido... eu pensei que já estivesse tudo acabado.
Eu vi quando ela estremeceu.
Ela se juntara a nós uns dez minutos antes. Enrolada em seu abrigo de chinchila, ela dissera:
—Se eu não tomar ar e fizer um pouco de exercício, vou ficar louca. Se eu ponho os pés lá fora há sempre um repórter esperando para me abordar. É como se sentir sitiada. Vai ser assim sempre?
Sophia disse que acreditava que breve os repórteres se cansariam.
—Você pode dar uma volta de automóvel — acrescentou.
— Eu lhe digo que preferia fazer um pouco de exercício.
Depois ela disse bruscamente:
— Você despediu Laurence, Sophia. Por quê?
Sophia respondeu devagar:
— Estamos arranjando outra coisa para Eustace. E Josephine vai para a Suíça.
— Bem, você deixou Laurence aborrecido. Ele achou que você não confia nele.
Sophia não respondeu e foi neste instante que o carro de Taverner chegou.
Parada ali, trêmula no ar úmido do outono, Brenda murmurou:
—O que é que eles querem? Por que foi que vieram?
Eu calculei que sabia por que eles tinham voltado. Não dissera nada a Sophia sobre as cartas que eu encontrara perto da cisterna mas eu sabia que elas tinham sido encaminhadas ao Promotor Público.
Taverner saiu outra vez da casa. Atravessou a alameda e o gramado em nossa direção. Brenda tremeu ainda com mais força.
—O que é que ele quer? — ela repetia nervosa. — O que é que ele quer?
Taverner chegou perto de nós. Falou pouco, com sua voz oficial, usando frases oficiais.
—Eu tenho um mandado de prisão para a senhora... a senhora está sendo acusada de ter administrado eserina a Aristide Leonides no dia 19 de setembro último. Eu devo avisá-la de que qualquer coisa que a senhora disser poderá ser usado como evidência em seu julgamento.
E foi então que Brenda se descontrolou. Gritou. Agarrou-se a mim. Gritou alto:
—Não, não, não, não é verdade! Charles, diga-lhes que não é verdade! Eu não fiz isso! Eu não sei de nada. É uma conspiração. Não os deixe me levar. Não é verdade, eu lhes digo... Não é verdade... Eu não fiz nada...
Foi horrível — inacreditavelmente horrível. Eu tentei acalmá-la, soltei seus dedos de meu braço. Disse-lhe que arranjaria um advogado para ela — que mantivesse a calma — que um advogado arranjaria tudo...
Taverner levou-a gentilmente pelo cotovelo.
—Venha, Sra. Leonides — disse ele. — A senhora não quer um chapéu, quer? Não? Então precisamos ir logo.
Ela o empurrou, olhando para ele com seus enormes olhos de gata.
— Laurence — disse ela. — O que foi que vocês fizeram com Laurence?
— O Sr. Laurence Brown também está preso sob a mesma acusação — disse Taverner.
Ela afrouxou então. Seu corpo pareceu entrar em colapso e encolher-se. As lágrimas rolaram sobre seu rosto. Caminhou mansamente atrás de Taverner pelo gramado. Eu vi Laurence Brown e o Sargento Lamb saírem da casa. Todos entraram no carro... O carro foi embora.
Dei um suspiro fundo e virei-me para Sophia. Ela estava muito pálida e havia um ar de angústia em seu rosto.
— É horrível, Charles — disse ela. — Oh, como é horrível!
— Eu sei.
— Você precisa conseguir para ela um advogado de primeira classe... o melhor de todos. Ela... ela precisa de toda a ajuda possível.
— A gente nunca imagina — disse eu — como são essas coisas. Eu nunca havia visto antes ninguém ser preso.
— Eu sei. A gente não tem idéia.
Ficamos ambos em silêncio. Eu estava pensando no terror desesperado no rosto de Brenda. Parecera-me familiar e de repente eu entendi por quê. Fora a mesma expressão que eu vira no rosto de Magda Leonides, quando viera pela primeira vez na Casa Torta e que ela estava falando sobre a peça de Edith Thompson.
—E então — ela dissera, — o terror puro, você não acha?
Terror puro — era isto que eu vira no rosto de Brenda. Brenda não era uma lutadora. Fiquei imaginando se ela teria tido algum dia a coragem para praticar um crime. Possivelmente não. É provável que tenha sido Laurence Brown, com sua mania de perseguição, sua personalidade instável, que pusera o conteúdo de um vidrinho no outro — um ato tão simples — para libertar a mulher que amava.
—Então está acabado — disse Sophia.
Ela suspirou profundamente e perguntou: .
— Mas por que prendê-los agora? Eu pensei que não havia provas suficientes.
— Uma certa evidência veio à luz. Cartas.
— Você quer dizer cartas de amor entre eles?
— Sim.
— Como as pessoas são tolas em guardar essas coisas!
Sim, era a verdade. Tolos. O tipo de tolice que se repete apesar da experiência dos outros. Não se podia abrir um jornal qualquer sem se ver alguma tolice deste tipo — a paixão de se guardar a palavra escrita, a certeza escrita do amor.
— É cruel, Sophia — disse eu. — Mas não adianta você se preocupar mais sobre isto. Depois de tudo, era isto que todos nós estávamos esperando o tempo todo, não era? Foi isso que você me disse naquela primeira noite no Mario's. Disse que tudo ficaria bem se tivesse sido a pessoa certa que matara seu avô. Brenda era a pessoa certa, não era? Brenda ou Laurence?
— Por favor, Charles, não me faça sentir assim tão horrorosa.
—Mas nós precisamos ser sensatos. Podemos casar-nos agora, Sophia. Você não pode mais me recusar. A família Leonides está fora do crime.
Ela olhou para mim. Eu nunca percebera antes como era forte o azul de seus olhos.
— Sim — disse ela, — eu suponho que agora estamos fora. Será que estamos mesmo? Você tem certeza?
— Minha menina querida, nenhum de vocês tinha a menor sombra de motivo.
Seu rosto empalideceu de repente.
— Exceto eu, Charles. Eu tinha um motivo.
— Sim, é claro... — fiquei surpreso. — Mas não na verdade. Você não sabia, não é? Não sabia sobre o testamento.
— Mas eu sabia, Charles — murmurou ela.
— O quê? — eu olhei para ela. Esfriei de repente.
— Eu sabia o tempo todo que vovô deixara o dinheiro para mim.
— Mas como?
— Ele me contou. Uns quinze dias antes de sua morte. Ele me disse assim de repente "Eu deixei todo o meu dinheiro para você, Sophia. Você precisa tomar conta da família quando eu for embora".
Eu a encarei.
— Você nunca me disse nada.
— Não. Sabe? Quando todos eles explicaram sobre o testamento e sobre a assinatura dele, eu pensei que talvez houvesse um erro... que ele estava apenas imaginando que deixara o dinheiro para mim. Ou que talvez tivesse mesmo feito um testamento deixando-o para mim, e que depois o testamento se perdera e que não apareceria nunca. Eu não queria que ele aparecesse... eu estava com medo.
— Com medo? Por quê?
— Eu acho que... por causa do crime.
Eu me lembrei do olhar de terror no rosto de Brenda — o terror pânico e irracional. Eu me lembrei do pânico puro que Magda evocara como que por encanto enquanto estava interpretando o papel de uma assassina. Não havia pânico no pensamento de Sophia mas ela era realista e via claramente que o testamento de Leonides fazia dela uma suspeita. Compreendi melhor agora (ou pensei que compreendi) a sua recusa de se tornar minha noiva e a sua insistência de que eu devia procurar saber a verdade. Nada, a não ser a verdade, ela dissera, serviria para ela. Eu me lembrei da paixão, da ansiedade com que ela dissera isto.
Nós nos voltáramos e caminhávamos na direção da casa, e de repente, num certo lugar, eu me lembrei de outra coisa que ela dissera.
Dissera que achava que era capaz de assassinar alguém, mas que se fosse assim, acrescentara, teria de ser por algo que verdadeiramente valesse a pena.
Capítulo 22

NUMA CURVA DO JARDIM, Roger e Clemency caminhavam vivamente em nossa direção. O paletó largão de Roger caía-lhe melhor que as suas roupas de cidade. Ele parecia ansioso e excitado. Clemency tinha a testa franzida.
—Alô, vocês dois! — disse Roger. — Enfim! Eu pensei que não iam prender nunca aquela mulher pérfida! O que eles estavam esperando é que eu não sei. Bem, eles a pegaram agora, e aquele miserável do seu namorado... e eu espero que os enforquem a ambos.
As rugas de Clemency se acentuaram. Ela disse:
— Não seja tão bárbaro, Roger.
— Bárbaro? Tolice! Envenenamento frio e deliberado de um pobre velho inocente e indefeso... e quando eu digo que me alegro que eles paguem por sua culpa, você diz que eu sou bárbaro! Eu lhe digo que queria enforcar aquela mulher com minhas próprias mãos!
Acrescentou:
— Ela estava com vocês, não estava, quando a polícia veio procurá-la? Como foi que ela agiu?
— Foi horrível — disse Sophia em voz baixa. — Ela estava apavorada.
— Bem feito.
— Não seja vingativo — disse Clemency.
— Oh, eu sei, minha querida, mas você não pode compreender. Não era o seu pai. Eu amava meu pai. Você não compreende? Eu o adorava!
— Eu acho que já era tempo de que eu compreendesse — disse Clemency.
Roger falou para ela, em tom de brincadeira:
—Você não tem imaginação, Clemency. Suponhamos que tivesse sido eu que fosse envenenado?...
Eu vi seus olhos se abaixarem rapidamente, as mãos semicerradas. Ela disse secamente:
—Não diga estas coisas nem por brincadeira.
—Não ligue, querida, breve nós estaremos longe daqui.
Dirigimo-nos para a casa. Roger e Sophia iam na frente e Clemency e eu mais atrás. Ela falou:
— Será que eles agora... vão-nos deixar ir embora?
— Você está assim tão ansiosa para ir-se? — perguntei.
— Isto está-me acabando.
Olhei para ela surpreso. Ela enfrentou meu olhar com um leve sorriso de desespero e um aceno de cabeça.
—Você ainda não viu, Charles, que eu estou lutando o tempo todo? Lutando pela minha felicidade. Pela felicidade de Roger. Eu fiquei com tanto medo de que a família o convencesse a ficar na Inglaterra. Que nós ficássemos outra vez presos no meio deles, presos por laços familiares. Eu estava com medo que Sophia lhe oferecesse uma renda e que ele ficasse na Inglaterra porque isto significasse um maior conforto e facilidades para mim. O problema com Roger é que ele não escuta ninguém. Ele põe idéias na cabeça... elas nunca são as idéias certas. Ele não sabe de coisa nenhuma. E é demais enraizado na família para pensar que a felicidade de uma mulher está ligada ao conforto e ao dinheiro. Mas eu lutarei pela minha felicidade... eu lutarei... Eu lutarei até arrancar Roger daqui e dar-lhe a vida que lhe convém e onde ele não se sinta um fracasso. Eu o quero para mim... longe deles todos... bem longe...
Ela falara numa voz baixa e apressada, com um tom de desespero que me espantara. Eu não percebera como ela estava abalada. Não percebera também o quanto era desesperado e possessivo o seu amor por Roger.
Voltou-me em mente uma citação passada de Edith de Haviland. Ela falara desta "quase adoração" com uma entoação particular. Imaginei se ela não estava falando de Clemency.
Roger, eu pensei, amava o pai mais do que a qualquer outra pessoa, mais do que à sua esposa, apesar de lhe ser muito devotado. Eu percebi pela primeira vez como era urgente o desejo de Clemency de ter o marido para si própria. O amor por Roger, eu vi, significava toda a sua existência. Ele era o seu filho, o seu marido e o seu amante.
Um automóvel parou na porta da frente.
— Alô! — disse eu. — Josephine está de volta.
Josephine e Magda saíram do carro. Josephine tinha uma atadura em volta da cabeça, mas apesar disso parecia extremamente bem.
Ela disse logo:
— Eu quero ver meu peixinho dourado — e foi para perto do laguinho.
— Querida — gritou Magda, — é melhor você subir primeiro e deitar-se um pouco e, talvez tomar uma sopinha fortificante.
— Não exagere, mamãe — disse Josephine. — Eu estou muito bem e detesto sopinhas fortificantes.
Magda pareceu indecisa. Eu sabia que Josephine estava para vir embora do hospital já há alguns dias, e que foi apenas por sugestão de Taverner que ela ficara lá. Ele não estava querendo correr riscos quanto à segurança de Josephine até que seus suspeitos estivessem bem guardados debaixo de sete chaves.
Eu disse a Magda:
—Eu diria que um pouco de ar fresco fará bem a ela. Eu fico aqui e tomarei conta.
Alcancei Josephine antes que ela chegasse perto do laguinho.
—Um monte de coisas aconteceu enquanto você estava fora.
Josephine não respondeu. Ela olhava com seus olhos míopes para o laguinho.
— Não estou vendo Ferdinando — disse ela.
— Qual é o Ferdinando?
— O que tem quatro rabos.
— É um tipo de peixe engraçado. Eu gosto mais daquele douradinho ali.
— É muito comum.
— Eu não gosto muito daquele que tem cara de ser roído
pelas traças, o branquinho.
Josephine me deu um olhar de desdém.
— É uma fêmea de beijador. Elas custam muito caro, muito mais do que os vermelhinhos.
— Você não quer saber do que está acontecendo, Josephine?
— Eu acho que eu sei de tudo.
— Você sabia que acharam outro testamento e que seu avô deixou tudo para Sophia?
Josephine fez que sim com a cabeça com um ar enfastiado.
— Mamãe me disse. E de qualquer jeito, eu já sabia mesmo.
— Quer dizer que você soube quando estava no hospital?
— Não, eu quis dizer que eu sabia que vovô deixou todo o dinheiro para Sophia. Eu escutei quando ele contou a ela.
— Você estava escutando outra vez?
— Sim. Eu gosto de escutar as coisas.
— É uma coisa muito feia de se fazer, e lembre-se, gente que escuta as coisas nunca ouve coisas boas de si mesma.
Josephine olhou-me estranhamente.
—Eu ouvi o que ele falou de mim para ela, se é isso que você quis dizer.
Ela acrescentou:
—Nannie fica danada quando me pega escutando atrás das portas. Ela diz que não é uma coisa para uma mocinha educada fazer.
— Ela tem razão.
— Pô! — disse Josephine. — Ninguém tem mais educação hoje em dia. Eles dizem isso, os peritos no assunto. Dizem que é ob-so-le-to. — Ela pronunciou a palavra cuidadosamente.
Eu mudei de assunto.
—Você chegou um pouquinho atrasada para o último acontecimento: o Inspetor Taverner prendeu Brenda e Laurence.
Pensei que Josephine, em seu papel de jovem detetive, fosse ficar emocionada com esta informação, mas ela apenas repetiu da mesma forma enfastiada:
— Sim, eu sei.
— Você não pode saber. Acabou de acontecer.
— O automóvel passou pela gente na estrada. O Inspetor Taverner e o detetive de sapatos de camurça estavam dentro com Brenda e Laurence, então eu deduzi que eles deviam ter sido presos. Eu espero que ele tenha feito as coisas em regra. Tem de ser feito com muita prudência, você sabe.
Eu lhe assegurei que Taverner agira estritamente de acordo com a etiqueta.
—Eu tive de contar a ele sobre as cartas — disse, me desculpando. — Eu as encontrei atrás da cisterna. Eu devia ter deixado você contar a ele mas você estava machucada.
A mão de Josephine passou desajeitada pela cabeça.
— Eu podia ter morrido — disse com complacência. — Eu lhe disse que estava na hora do segundo crime. A cisterna era um lugar muito ruim para esconder aquelas cartas. Eu adivinhei logo quando vi Laurence saindo de lá um dia. Eu sabia que ele não é do tipo de homem que mexe com bóias, encanamentos ou fusíveis, logo deduzi que ele devia estar escondendo alguma coisa.
— Mas eu pensei... — me interrompi ao ouvir a voz de Edith de Haviland chamando com autoridade.
—Josephine, Josephine, venha aqui imediatamente!
Josephine suspirou.
—Mais confusão — disse ela. — Mas é melhor eu ir. Você também, é tia Edith.
Ela correu pelo gramado. Eu a segui mais devagar.
Depois de urna breve troca de palavras, Josephine entrou em casa. Eu me juntei a Edith de Haviland no terraço.
Nesta manhã, ela aparentava mesmo a idade que tinha. Fiquei surpreso pelas rugas de cansaço e sofrimento em seu rosto. Parecia exausta e derrotada. Viu que eu estava reparando nela e tentou sorrir.
—Esta criança não parece ter sofrido nada com a aventura — disse ela. — Precisamos cuidar melhor dela no futuro. Entretanto... eu suponho que agora não é mais necessário.
Suspirou e acrescentou:
—Eu estou contente que tudo tenha terminado. Mas que exibição! Se você for detido por um crime de morte, deve ter ao menos dignidade. Eu não tenho paciência com gente como Brenda que começa a berrar e fica histérica. Não tem tutano, essa gente. Laurence Brown parecia um coelho assustado.
Um obscuro instinto de piedade tomou conta de mim.
— Pobres coitados... — disse eu.
— Sim... pobres coitados. Será que ela vai ter juízo para saber cuidar de si? Eu quero dizer, contratar os advogados certos... essas coisas todas?
Era estranho, eu pensei, a ojeriza que todos tinham por Brenda, e entretanto, o cuidado escrupuloso para que ela tivesse todas as vantagens de defesa.
Edith de Haviland continuou:
—Quanto tempo vai durar? Quanto tempo leva todo o processo?
Eu disse que não sabia exatamente. Eles iriam acusá-la na própria corte de polícia, e com certeza ela seria enviada a julgamento. Três ou quatro meses, eu calculei — e se for condenada haveria apelo.
— Você acha que eles serão condenados? — perguntou ela.
— Não sei. Não sei exatamente quantas provas tem a polícia. Há as cartas.
— Cartas de amor? Eles eram amantes?
—Eles estavam apaixonados um pelo outro.
Seu rosto pareceu mais sombrio.
— Eu não estou satisfeita com isto tudo, Charles, Eu não gosto de Brenda. No passado, eu a detestava mesmo. Disse muitas coisas desagradáveis sobre ela. Mas agora... sinto que é necessário que ela tenha todas as chances... todas as chances possíveis. Aristide havia de querer que fosse assim. Eu creio que cabe a mim agora cuidar disso... Cuidar que Brenda tenha um julgamento honesto.
— E Laurence?
— Oh, Laurence! — ela deu de ombros, impaciente. — Os homens devem cuidar de si mesmos. Mas Aristide nunca nos perdoaria se nós... — deixou a frase inacabada.
Depois disse:
—Deve ser quase hora de almoço. É melhor entrarmos.
Eu lhe expliquei que ia para Londres.
— No seu carro?
— Sim.
— Hum... Talvez você possa levar-me até lá. Eu calculo que nós já estamos liberados agora.
— É claro que eu a levarei mas acredito que Magda e Sophia também vão para lá depois do almoço. A senhora estará mais confortável com elas do que no meu carrinho de dois lugares.
— Eu não quero ir com elas. Leve-me com você e não diga nada a ninguém.
Fiquei surpreso mas fiz o que ela pediu. Não falamos quase enquanto nos dirigíamos para a cidade. Perguntei-lhe onde queria que eu a deixasse.
—Na Rua Harley.
Eu senti uma leve apreensão mas não queria falar nada. Ela continuou:
— Não, ainda é muito cedo. Pode deixar-me no Debenhams. Eu almoço qualquer coisa e depois vou para a Rua Harley.
— Eu espero... — comecei a falar mas parei.
— É por isso que eu não queria vir com Magda. Ela dramatiza as coisas. Faz muita confusão.
— Eu sinto muito — disse eu.
— Não diga isso. Eu tive uma vida boa. Uma vida muito boa — fez uma careta repentina. — E ela ainda não terminou.


Capítulo 23
EU NÃO VIA MEU pai já há alguns dias. Encontrei-o ocupado com outros problemas diferentes do caso Leonides, e saí à procura de Taverner.
Taverner estava aproveitando um tempinho livre e aceitou meu convite para sairmos e tomarmos uma bebida. Eu dei-lhe os parabéns por ter desvendado o caso e ele aceitou-os, mas sua maneira estava longe de ser triunfante.
— Bem, tudo acabou — disse ele. — Nós conseguimos um processo. Ninguém pode negar que nós conseguimos um processo.
— Você acha que eles vão ser condenados?
— Impossível dizer. A evidência é circunstancial... é quase sempre nos crimes de morte... não pode deixar de ser. Tudo depende muito da impressão que eles causem ao júri.
— Até onde vão as cartas?
— A primeira vista, Charles, elas são terríveis. Há referências à vida futura, juntos, quando o marido dela estiver morto. Frases como — "não será por muito tempo agora". Veja bem, que o advogado de defesa vai tentar virar isso ao contrário — que o marido era tão idoso que é claro que realmente eles esperavam que ele morresse. Não há nenhuma menção ao envenenamento... assim por escrito... mas há algumas passagens que poderiam ter este sentido. Depende do juiz que conseguirmos. Se for o velho Carberry eles estão fritos. Ele é sempre muito cheio de história contra os amores ilícitos. Suponho que eles vão pegar Eagles ou Humphrey Kerr para a defesa. Humphrey é magnífico para esses casos mas ele gosta de um galante passado de guerras ou algo no gênero para ajudá-lo. Um objetor de consciência vai aleijar o seu estilo. A questão é: será que o júri vai gostar deles? A gente nunca sabe o que eles têm na cabeça. Sabe, Charles, aqueles dois não são dois tipos simpáticos. Ela é uma mulher bonita, que se casou com um homem muito velho por seu dinheiro e Brown é um objetor de consciência neurótico. O crime é tão familiar... tão de acordo com o padrão, que a gente não pode mesmo acreditar que eles não o tenham cometido. É claro, eles podem resolver que foi ele quem fez tudo e que ela não sabia de nada... ou por outro lado, que foi ela quem fez tudo e que ele é que não sabia de nada... ou que talvez os dois tenham agido juntos.
—E o que é que você acha? — perguntei.
Ele me olhou com uma cara sem expressão.
—Eu não acho nada. Eu entreguei os fatos para o Promotor Público e foi decidido que havia lugar para um processo. Foi tudo. Eu cumpri meu dever e estou por fora. Agora você já sabe, Charles.
Mas eu não sabia. Via não sei por que razão que Taverner não estava satisfeito.
Foi somente uns três dias depois que eu me abri com meu pai. Ele próprio nunca comentara o caso comigo. Havia uma certa barreira entre nós — e eu pensava que sabia a razão. Mas eu precisava quebrar a barreira.
—Nós precisamos rever esse caso — disse eu. — Taverner não está convencido de que foram aqueles dois que fizeram isso... e o senhor também não está satisfeito.
Meu pai balançou a cabeça. Disse o mesmo que Taverner já me dissera:
— Não está mais em nossas mãos. Há um processo a responder. Quanto a isto não há mais dúvida.
— Mas o senhor não acha, nem Taverner, que eles sejam os culpados, não é?
— Isto cabe ao júri decidir.
— Pelo amor de Deus — disse eu, — não me enrole com essa terminologia técnica. O que o senhor pensa... ambos... pessoalmente?
— A minha opinião pessoal não é melhor do que a sua, Charles.
— É, sim. O senhor tem mais experiência.
— Então eu serei honesto com você. Eu simplesmente... não sei!
— Eles podem ser os culpados?
— Oh, sim.
— Mas o senhor não tem certeza de que sejam?
Meu pai deu de ombros.
— Como se pode ter certeza?
— Não se esquive às minhas perguntas, papai. O senhor teve certeza em outras vezes, não teve? Certeza absoluta? Nenhuma dúvida em sua mente?
— Algumas vezes, sim. Nem sempre.
— Eu pediria a Deus que tivesse certeza desta vez.
— Eu também.
Ficamos em silêncio. Eu estava pensando naquelas duas figuras flutuando pelo jardim na hora do crepúsculo. Sozinhos, perseguidos e amedrontados. Eles tiveram medo desde o início. Isso não mostraria uma consciência culpada?
Mas eu mesmo me respondi: Não necessariamente. Ambos, Brenda e Laurence, tinham medo da vida — não tinham confiança em si próprios, em suas habilidades para evitar o perigo e a derrota, e só viam — claramente demais — o exemplo de seus amores ilícitos que possivelmente os envolveria a qualquer momento.
Meu pai falou e sua voz era grave e gentil:
— Vamos, Charles — disse ele, — encaremos os fatos. Você ainda tem na cabeça que é um dos membros da família Leonides o verdadeiro culpado, não é?
— Não de verdade. Eu apenas imagino...
— Você pensa assim. Pode estar errado, mas você pensa assim.
— Sim — eu disse.
— Porquê?
— Porque... — fiquei pensando sobre isto, tentando ver as coisas com clareza, pondo minhas idéias em dia... — Porque... (sim, era isto!) porque eles mesmos pensam assim!
— Eles mesmos pensam? Isso é interessante. Isso é muito interessante. Você quer dizer que eles suspeitam uns dos outros, ou que talvez mesmo saibam quem foi que fez aquilo?
— Eu não tenho certeza — disse eu. — Tudo está muito enevoado e confuso. Eu penso... assim por alto... que eles estão tentando esconder a verdade de si próprios.
Meu pai fez que sim com a cabeça.
— Roger não — disse eu. — Roger acredita piamente que foi Brenda e de todo o coração ele quer que ela seja enforcada. É... é um alívio estar-se perto de Roger porque ele é sincero e positivo, e não tem nada por detrás de seus pensamentos.
— Mas os outros são cheios de justificativas, cheios de dedos... pedem-me demais que eu garanta a Brenda a melhor defesa... que todas as vantagens possíveis lhe sejam dadas... por quê?
Meu pai respondeu:
—Porque eles não acreditam realmente, no fundo de seus corações, que ela seja a culpada... Sim, parece lógico.
Então ele falou calmamente:
—Quem poderia ter sido? Você falou com todos eles? Qual é o melhor palpite?
— Eu não sei — disse eu. — E isso está-me deixando maluco. Nenhum deles preenche as "características de um assassino"; entretanto, eu sinto... eu sinto mesmo... que um deles é um assassino.
— Sophia?
— Não! Por Deus do Céu! Não!
— A possibilidade está em sua mente, Charles... sim, está, não queira negar. E potencialmente mais ainda porque você não quer dar o braço a torcer. E sobre os outros? Philip?
— Somente pelo mais fantástico dos motivos.
— Motivos podem ser fantásticos... ou absurdamente insignificantes. Qual é o motivo dele?
— Ele tem um ciúme terrível de Roger... sempre teve, a vida inteira. A preferência de seu pai por Roger deixou Philip fora de si. Roger estava próximo à falência, e então o velho soube de tudo. Ele prometeu reerguer Roger novamente. Suponhamos que Philip tenha ouvido isso. Se o velho morresse naquela noite não havia ajuda para Roger. Roger seria derrotado de vez. Oh! Eu sei que é um absurdo...
— Oh, não, não é. É fora do normal mas acontece. É humano. E Magda?
— Ela é muito infantil. Ela... ela não percebe a dimensão de nada. Mas eu não pensaria duas vezes que ela estivesse envolvida se ela não tivesse querido enviar Josephine a toda pressa para a Suíça. Eu não pude deixar de sentir que esteja com medo de alguma coisa que Josephine possa saber ou dizer...
— E foi então que Josephine levou a pancada na cabeça?
— Bem, mas não podia ter sido sua mãe!
— Por que não?
— Mas papai, uma mãe não poderia...
— Charles, Charles, você nunca lê os noticiários policiais? Sempre e sempre a mãe toma uma antipatia por um de seus filhos. Somente um... ela pode ser dedicada aos outros. Há sempre uma associação, alguma razão, mas geralmente é difícil de se saber. Mas quando existe, é uma aversão irracional e é muito forte.
— Ela chamava Josephine de bruxinha — eu admiti a contragosto.
— E a menina se importava?
— Que eu saiba, não.
— Então quem mais podia ser? Roger?
— Roger não matou o pai. Eu tenho certeza disso.
— Então afastemos Roger. Sua mulher... como é mesmo o nome dela?... Clemency?
— Sim — disse eu. — Se ela matou o velho Leonides foi por uma razão muito estranha.
Contei a ele as minhas conversas com Clemency. Disse que podia ser possível que em sua paixão por afastar Roger da Inglaterra ela poderia ter deliberadamente envenenado o velho.
— Ela persuadiu Roger a ir-se embora sem falar a seu pai. Depois o velho descobriu tudo. Ele ia reconstituir a Associação de Fornecedores. Todas as esperanças e os planos de Clemency frustraram-se. E ela gosta desesperadamente de Roger... é quase uma idolatria.
— Você está repetindo o que Edith de Haviland disse!
— Sim. E Edith é em outra que eu penso. Ela pode ter feito isso. Mas eu não sei por quê. Eu só posso acreditar que, se ela tiver uma razão boa e suficiente, pode querer fazer justiça com suas próprias mãos. Ela é desse tipo de pessoa.
— E ela também estava ansiosa que Brenda tivesse uma defesa adequada?
— Sim. Eu creio que isto pode ser a sua consciência. Mas eu não penso, nem por um instante, que se ela fosse a culpada pretendesse que eles sejam acusados de seu crime.
— Provavelmente não. Mas ela teria atingido Josephine?
— Não — disse eu devagar. — Não creio. E isto me faz lembrar uma coisa que Josephine me disse e que não me sai da cabeça, mas que eu não consigo lembrar o que é. É um lapso em minha memória. Mas é alguma coisa que não se encaixa bem na história. Se ao menos eu pudesse me lembrar...
— Deixe pra lá. Vai lembrar-se depois. Mais alguma coisa ou mais alguém em sua cabeça?
— Sim — disse eu. — Mais uma coisa. O senhor sabe algo sobre paralisia infantil? Sobre seus efeitos sobre o caráter, eu quero dizer?
— Eustace?
— Sim. Quanto mais eu penso nele, mais me parece provável que ele se encaixe no papel. Ele não gostava e tinha ressentimentos contra o avô. É esquisito e rabugento. Não é normal.
— É o único da família que eu veria liquidando Josephine sem piedade se ela soubesse de alguma coisa sobre ele... e é bem possível que ela saiba. Aquela menina sabe de tudo. Ela escreve as coisas num livrinho...
Parei.
— Deus do Céu! — exclamei. — Como eu fui bobo!
— O que foi que houve?
— Eu sei agora o que é que estava errado. Nós calculamos, Taverner e eu, que a destruição no quarto de Josephine, a busca frenética, fosse por aquelas cartas. Pensei que ela tivesse passado a mão nelas e as tivesse escondido no pátio das cisternas. Mas quando ela estava falando comigo outro dia, ela me disse claramente que foi Laurence quem as escondera lá. Ela o viu saindo e foi bisbilhotar e achou as cartas. Então, é claro que as leu. Imagine se não ia ler! Mas ela as deixou onde estavam.
— Então?
— Não está vendo? Não poderiam ter sido as cartas que alguém estava procurando no quarto de Josephine. Só pode ter sido outra coisa.
— E essa outra coisa...
— Era o livrinho preto onde ela escreve suas "descobertas de detetive". Era isto que alguém estava procurando! Eu penso também que quem fez aquilo não o encontrou. Acho que Josephine ainda o tem. Mas se for assim...
Eu comecei a me levantar.
— Se for assim — disse meu pai — ela ainda não está a salvo. Era isto o que você ia dizer?
— Sim. Ela não estará livre de perigo enquanto não for mesmo mandada para a Suíça. Estão planejando enviá-la para lá, o senhor sabe.
— Ela quer ir?
Considerei isto.
— Eu creio que não.
—Então provavelmente ela ainda não foi — disse meu pai secamente. — Mas eu acho que você tem razão quanto ao perigo. É melhor ir para lá.
—Eustace? — perguntei em desespero. — Clemency?
Meu pai disse gentilmente:
—Para mim os fatos apontam claramente numa única direção... Eu não sei como é que você ainda não percebeu.
Eu...
Glover abriu a porta.
—Desculpe, Sr. Charles, é o telefone. A Srta. Leonides está chamando de Swinly. É urgente.
Parecia uma repetição horrível. Josephine se teria transformado em vítima outra vez? E será que desta vez o criminoso não se enganara?...
Corri para o telefone.
—Sophia? É Charles falando.
A voz de Sophia chegou com uma entonação de desespero.
—Charles, ainda não está tudo acabado. O criminoso ainda está aqui.
— O que é que você quer dizer? O que foi que aconteceu? Foi... Josephine?
— Não é Josephine. É Nannie.
— Nannie?
— Sim, foi uma xícara de chocolate... o chocolate de Josephine, que ela não bebeu. Ela deixou em cima da mesa. Nannie achou que era uma pena desperdiçá-lo. Então, tomou-o.
— Pobre Nannie. Ela está muito mal?
A voz de Sophia sumiu.
— Oh, Charles, ela está morta.


Capítulo 24
ESTÁVAMOS DE volta ao pesadelo.
Foi nisto que eu pensei enquanto Taverner e eu saíamos de Londres. Era a repetição de nossa viagem anterior.
De vez em quando, Taverner dizia um palavrão.
Eu repetia de tempos em tempos, estupidamente, sem nenhum proveito:
—Então não eram Brenda e Laurence. Não eram Brenda e Laurence.
Será que alguma vez eu pensara que eram eles? Fiquei contente com esta lembrança. Contente para escapar para uma outra, mais sinistra, possibilidade.
Eles tinham-se apaixonado um pelo outro. Tinham trocado tolas cartas românticas. Tinham esperanças de que o marido velho de Brenda em breve morresse, calma e tranqüilamente — mas eu imaginava se eles haviam mesmo desejado a sua morte. Eu tinha uma intuição de que os desesperos e desejos de um caso de amor infeliz lhes fosse tão bem, ou talvez melhor ainda, que uma vida trivial quando estivessem casados e juntos. Eu não pensava que Brenda estivesse mesmo apaixonada. Ela era anêmica demais, apática demais. Era romance o que ela queria. E eu pensava que Laurence, também, era do tipo que aproveitaria melhor a sua frustração e uns vagos sonhos futuros de bem-aventurança do que as satisfações concretas da carne.
Eles tinham sido apanhados numa armadilha e, aterrorizados, não tiveram capacidade de encontrar uma saída. Laurence, por uma burrice incrível, não destruíra as cartas de Brenda. Brenda provavelmente destruíra as dele, uma vez que elas não tinham sido encontradas. E não tinha sido Laurence quem pendurara o calço de mármore na porta da lavandaria. Era alguém cujo rosto estava escondido atrás de uma máscara.
Chegamos à porta da frente. Taverner desceu e eu o segui. Havia um policial à paisana que eu não conhecia no vestíbulo. Ele cumprimentou Taverner e este chamou-o para um lado.
Minha atenção foi atraída por uma pilha de bagagens na entrada. Estava já com as etiquetas e pronta para a saída. Enquanto olhava para elas, Clemency desceu as escadas e passou pela porta que estava aberta. Ela estava vestida com o mesmo vestido vermelho, um casaco cinzento e usava um chapéu de feltro vermelho.
— Você chegou a tempo de nos dar adeus, Charles — disse ela.
— Vocês estão indo embora?
— Vamos para Londres hoje à noite. Nosso avião sai amanhã de manhã.
Ela estava calma e sorridente mas eu percebi que seus olhos estavam vigilantes.
— Mas é claro que agora vocês não vão mais.
— Por que não? — sua voz era dura.
— Com esta morte...
— A morte de Nannie não tem nada a ver conosco.
— Talvez não. Mas apesar de tudo...
— Por que é que você diz "talvez não"? Não tem nada a ver conosco. Roger e eu estávamos lá em cima, terminando de arrumar a bagagem. Não descemos nem uma vez enquanto o chocolate estava em cima da mesa da copa.
— Você pode provar isto?
— Eu posso responder por Roger. E Roger pode responder por mim.
— Nada mais que isso... Vocês são marido e mulher, lembre-se.
Ela encolerizou-se.
— Você é impossível, Charles! Roger e eu vamos embora viver a nossa própria vida. Por que diabos nós quereríamos envenenar uma pobre velha simpática e boba que não nos podia causar nenhum mal?
— Talvez não tenha sido ela que vocês quisessem envenenar.
— Menos ainda seria provável que quiséssemos envenenar uma criança.
— Depende muito da criança, não é?
— O que é que você quer dizer?
— Josephine não é uma criança comum. Ela sabe de muitas coisas sobre as pessoas. Ela...
Eu me interrompi. Josephine surgira na porta que dava para a sala de visitas. Ela estava comendo a inevitável maçã e por cima deste círculo rosado seus olhos brilhavam com uma alegria macabra.
— Nannie foi envenenada — disse ela. — Igualzinho ao vovô. É formidável, não é?
— E você não está triste por isto? — perguntei com severidade. — Você gostava dela, não gostava?
— Não muito. Ela estava sempre ralhando comigo por um ou outro motivo. Criava casos.
— Você gosta de alguém, Josephine? — perguntou Clemency.
Josephine lançou seu olhar macabro para Clemency.
—Eu gosto de tia Edith — disse ela. — Eu gosto muito de tia Edith. E eu poderia gostar de Eustace, se ele não fosse sempre tão malvado comigo e estivesse interessado em descobrir quem foi que fez isso.
— É melhor você parar de descobrir coisas, Josephine. Não é muito seguro.
— Eu não preciso descobrir mais nada — disse Josephine. — Eu sei.
Houve um momento de silêncio. Os olhos de Josephine, solenes e sem piscar, estavam fixos em Clemency. Um som feito um suspiro fundo chegou até os meus ouvidos. Eu me virei rapidamente. Edith de Haviland estava no meio da escadaria, mas eu não pensei que fosse ela quem havia suspirado. O ruído viera da porta por onde Josephine acabara de passar.
Eu corri até lá e empurrei-a. Não havia ninguém.
No entanto, eu estava seriamente preocupado. Alguém estivera de pé atrás daquela porta e ouvira as palavras de Josephine. Voltei e segurei Josephine pelo braço. Ela continuava comendo a maçã e olhando fixamente para Clemency. Por detrás do ar solene, havia, eu pensei, uma certa satisfação maligna.
—Venha, Josephine — eu disse. — Nós vamos ter uma conversinha.
Pensei que Josephine fosse protestar mas eu não iria permitir mais nenhuma tolice. Levei-a à força para a outra parte da casa. Havia uma pequena sala de almoço, que não era usada, onde nós podíamos estar razoavelmente seguros de não sermos perturbados. Levei-a para lá, tranquei a porta e a fiz sentar-se numa cadeira. Peguei outra cadeira e puxei-a para perto, ficando frente a frente com ela.
— Agora, Josephine — disse eu, — nós vamos pôr as cartas na mesa. O que é que você sabe exatamente?
— Um monte de coisas.
— Disto eu não tenho a menor dúvida. Esta sua cabecinha deve estar cheia até transbordar de informações verdadeiras e de informações despropositadas. Você sabe muito bem o que eu quero dizer. Não sabe?
— E claro que eu sei. Não sou burra.
Eu não sei dizer se isto foi para mim ou para a polícia, mas não dei atenção e continuei:
— Você sabe quem foi que pôs alguma coisa em seu chocolate?
Josephine fez que sim com a cabeça.
— Você sabe quem foi que envenenou seu avô?
Josephine fez que sim outra vez.
— E quem foi que lhe deu uma pancada na cabeça?
Mais uma vez Josephine fez que sim.
— Então você vai dizer-me o que sabe. Vai contar-me tudo... agora!
— Não posso.
— Você precisa contar. Cada informação que você tem ou que você descobriu precisa ser dada à polícia.
— Eu não vou dizer nada à polícia. Eles são burros. Pensavam que era Brenda... ou Laurence. Eu não fui assim tão burra. Eu sabia muito bem que não tinha sido eles e então fiz uma espécie de teste... e agora eu sei que estava certa.
Ela terminou com uma nota triunfante.
Eu pedi aos céus para ter paciência e recomecei:
—Olhe, Josephine, eu diria que você é extremamente esperta... — Josephine pareceu satisfeita. — Mas não lhe adiantará nada se não estiver viva para gozar esse fato. Não está vendo, sua bobinha, que enquanto você guardar seus segredos desta maneira idiota você estará em perigo iminente?
Josephine fez que sim, em aprovação.
— E claro que eu estou.
— Você já escapou de fininho duas vezes. Um dos atentados quase foi bem sucedido. O outro custou a vida de outra pessoa. Não está vendo que se você continuar a se pavonear pela casa, proclamando em altos brados que sabe quem é o assassino, haverá outros atentados... e que, ou você vai morrer ou alguém mais morrerá?
— Em alguns livros vai morrendo um atrás do outro — Josephine informou com deleite. — Você termina descobrindo quem é o assassino porque ele ou ela é praticamente a única pessoa que resta.
— Esta não é uma história de detetives. Isto aqui é Três Oitões, Swinly Dean, e você é uma menininha muito boba que lê mais do que deve. Eu a farei falar nem que tenha de sacudila até seus dentes chocalharem.
— Eu posso contar-lhe uma coisa que não seja a verdade.
— Você pode mas não vai fazer isto. O que é que você está esperando, afinal de contas?
— Você não entende — disse Josephine. — Talvez eu não conte nunca. Sabe, talvez eu... goste da pessoa.
Fez uma pausa para me deixar digerir isto.
— E se eu contar — continuou ela, — eu o farei da maneira correta. Deixarei todos sentados à minha volta, e então, recapitularei tudo... com as pistas, e então eu direi, assim de repente:
— E foi você!...
Ela esticou um dramático dedo acusador no instante em que Edith de Haviland entrava na sala.
—Ponha esse miolo de maçã na cesta de papéis, Josephine — disse Edith. — Você tem um lenço? Seus dedos estão melados. Vamos passear de carro.
Seus olhos encontraram os meus e com ênfase ela disse:
—Ela estará melhor fora daqui durante as próximas horas.
Como Josephine queria rebelar-se, Edith acrescentou:
— Vamos a Longbridge e tomaremos um refresco.
Os olhos de Josephine brilharam e ela disse:
— Dois!
—Vamos ver — disse Edith. — Ande, vá pegar seu chapéu, o casaco e aquele lenço azul escuro. Está frio lá fora. Charles, vá com ela buscar as coisas. Não a deixe sozinha. Eu tenho apenas de escrever umas duas notinhas.
Ela sentou-se à mesa e eu segui Josephine para fora da sala. Mesmo sem o aviso de Edith, eu teria ficado colado a Josephine como uma sanguessuga.
Eu estava certo de que havia perigo para aquela criança ali por perto.
Quando eu acabei de vigiar Josephine se vestir, Sophia entrou no quarto. Ela pareceu surpresa ao me ver.
— Ora, ora, Charles, você agora virou babá? Eu não sabia que estava aqui.
— Eu vou a Longbridge com tia Edith — disse Josephine muito importante. — Nós vamos tomar sorvetes.
— Brrrr... num dia como este?
— Sorvetes são sempre gostosos — disse Josephine. — Quando a gente fica fria por dentro sente calor por fora.
Sophia franziu a testa. Parecia preocupada. Fiquei assustado pela palidez e pelas olheiras em seu rosto.
Voltamos à sala de almoço. Edith estava acabando de passar o mata-borrão em dois envelopes. Levantou-se depressa.
—Vamos embora agora — disse ela. — Eu disse a Evans para trazer o Ford.
Ela foi para o vestíbulo. Nós a seguimos.
Meu olhar foi novamente atraído para as valises e suas etiquetas azuis. Por alguma razão elas me trouxeram uma vaga inquietude.
—O dia está agradável — disse Edith de Haviland, calçando as luvas e dando uma espiada para o céu. O Ford 10 estava à espera em frente da casa. — Frio mas revigorante. Um verdadeiro dia de outono inglês. Como estão lindas as árvores com seus galhos nus contra o céu... apenas uma ou duas folhas douradas ainda penduradas...
Ela ficou em silêncio um ou dois minutos, depois voltou-se e beijou Sophia.
—Adeus, querida — disse ela. — Não se preocupe tanto. Precisamos enfrentar e encarar certas coisas.
Depois ela disse:
—Venha, Josephine — e entrou no carro.
Josephine subiu a seu lado.
Ambas deram adeus com a mão enquanto o carro se afastava.
— Eu acho que ela tem razão, é melhor manter Josephine afastada um certo tempo. Mas nós precisamos fazer esta menina contar o que sabe, Sophia.
— Provavelmente ela não sabe de nada. Josephine gosta de bancar a importante, você sabe.
— É mais do que isto. Eles já sabem qual é o veneno que havia no chocolate?
— Acham que é digitalina. Tia Edith toma digitalina para o coração. Ela tem um vidro cheio de pílulas no seu quarto. Agora, o vidro está vazio.
— Ela devia guardar essas coisas trancadas.
— Ela guardava. Mas acho que não deve ser difícil para alguém descobrir onde estava a chave.
— Alguém? Quem? Eu olhei outra vez para a pilha de malas.
De repente eu falei alto:
— Eles não podem ir embora. Não se pode permitir que eles saiam.
Sophia olhou-me surpresa.
—Roger e Clemency? Charles, você não está pensando...
—Bem, o que é que você está pensando?
Sophia estendeu as mãos num gesto de desalento.
— Eu não sei, Charles — sussurrou. — Eu só sei que eu estou de volta... de volta ao pesadelo...
— Eu sei. Foram estas as palavras que eu disse para mim mesmo quando vinha para cá com Taverner.
— Porque é um pesadelo o que isto é. Andando no meio de pessoas que você conhece, olhando em seus rostos... e de repente os rostos se transfiguram... e não é mais alguém que você conhece há muito tempo... é um estranho... um estranho cruel...
Ela gritou:
—Vamos lá para fora, Charles... vamos lá para fora. É mais seguro lá fora... Eu estou com medo de ficar nesta casa...


Capítulo 25
FICAMOS NO jardim muito tempo. Por uma espécie de acordo mútuo, não discutimos o terror que se apossara de nós. Ao invés disto, Sophia falava amorosamente da mulher que morrera, das coisas que ela fizera, das brincadeiras que brincavam com Nannie quando eram crianças, das histórias que ela costumava contar sobre Roger e o pai e sobre os outros irmãos e irmãs.
—Eles eram todos seus filhos, sabe? Ela só nos veio ajudar durante a guerra quando Josephine era um bebê e Eustace um menininho engraçado.
Havia um certo consolo para Sophia nessas lembranças e eu encorajei-a a falar.
Fiquei imaginando o que Taverner estaria fazendo. Perguntas às pessoas da casa, calculei. Um carro foi-se embora com o fotógrafo da polícia e dois outros homens, e depois, uma ambulância chegou.
Sophia estremeceu ligeiramente. Nesse instante a ambulância saiu e nós soubemos que o corpo de Nannie fora levado para ser preparado para a autópsia.
E ficamos sentados quietos, andamos pelo jardim e conversamos — nossas palavras tornando-se de mais a mais um disfarce para nossos próprios pensamentos.
Finalmente, com um arrepio, Sophia disse:
—Deve ser muito tarde... já está quase escuro. Temos de entrar. Tia Edith e Josephine ainda não voltaram... Não acha que elas já deviam estar de volta?
Eu senti um pressentimento vago. O que teria acontecido? Edith estaria mantendo a menina deliberadamente longe da Casa Torta?
Entramos. Sophia puxou as cortinas. O fogo estava aceso e a grande sala de estar tinha um ar harmonioso e irreal do luxo dos tempos passados. Grandes vasos de crisântemos cor de bronze estavam sobre as mesas.
Sophia chamou uma empregada e eu reconheci a que me levara o chá lá em cima uma vez. Ela estava com os olhos vermelhos e fungava continuamente. Notei também que parecia amedrontada e olhava assustada por cima do ombro.
Magda juntou-se a nós mas o chá de Philip foi levado para a biblioteca. O papel que Magda desempenhava era a mais rígida imagem da tristeza. Ela quase não falava. Disse apenas uma vez:
—Onde estão Edith e Josephine? Elas estão fora há muito tempo.
Mas ela dissera isto de maneira preocupada.
Eu próprio estava começando a ficar preocupado. Perguntei se Taverner ainda estava na casa e Magda respondeu que ela pensava que sim. Fui à sua procura. Disse-lhe que eu estava preocupado sobre Edith e a menina.
Ele foi imediatamente ao telefone e deu certas instruções.
—Eu lhe aviso quando souber de alguma coisa — disse ele.
Agradeci e voltei para a sala de visitas. Sophia estava lá com Eustace. Magda fora embora.
—Ele nos avisará se souber de alguma coisa — disse para Sophia.
Ela respondeu em voz baixa:
— Alguma coisa aconteceu, Charles, alguma coisa deve ter acontecido.
— Sophia, querida, ainda não é muito tarde.
— Por que é que vocês estão preocupados? — disse Eustace. — Provavelmente elas foram ao cinema.
Ele saiu da sala. Eu disse para Sophia:
—Talvez ela tenha levado Josephine para um hotel... ou para Londres. Acho que ela percebeu que a menina corre perigo... talvez ela tenha percebido isto melhor do que nós todos.
Sophia respondeu com um ar sombrio que eu não pude compreender.
—Ela me deu um beijo e disse adeus...
Não percebi o que ela quisera dizer com esta reflexão sem nexo, ou o que pretendia dizer. Perguntei se Magda estava preocupada.
—Mamãe? Não, ela não está ligando. Ela não tem nenhum senso de tempo. Ela está lendo uma nova peça de Vavasour Jones chamada A Mulher Dispõe. Ê uma peça engraçada sobre um crime... uma Barbazul de saias... um plágio de Arsênico e Alfazema se você me perguntar, mas tem um bom papel feminino, uma mulher que tem mania de ficar viúva.
Eu não falei mais nada. Ficamos sentados, fingindo que líamos.
Eram seis e meia quando Taverner abriu a porta. Seu rosto preparou-nos para o que ele ia dizer.
Sophia levantou-se.
— Sim? — disse ela.
— Eu sinto muito. Mas tenho más notícias para a senhora. Eu dei um alarme geral para procurar o carro. Um motorista informou que viu um carro Ford com um número parecido com o dele, saindo da estrada principal no campo de Flackspur — através do bosque.
— Não... é a estrada que vai para a pedreira de Flackspur?
— Sim, Srta. Leonides — fez uma pausa e continuou: — O carro foi encontrado no fundo da pedreira. As duas ocupantes estavam mortas. A senhora talvez goste de saber que elas tiveram morte instantânea.
— Josephine! — era Magda que estava de pé na entrada. Sua voz subiu num uivo. — Josephine!... Meu bebezinho!...
Sophia foi para junto dela e apertou-a entre os braços. Eu disse:
—Esperem um minuto.
Eu me lembrara de algo! Edith de Haviland escrevera duas cartas na escrivaninha e fora para o vestíbulo com elas na mão.
Mas elas não estavam em suas mãos quando ela saíra no carro!
Corri para o vestíbulo e fui até a grande arca de carvalho. Encontrei as cartas — estavam discretamente colocadas debaixo de um samovar de bronze.
A de cima estava endereçada ao Inspetor-Chefe Taverner.
Taverner me seguira. Eu entreguei-lhe a carta e ele a abriu. De pé a seu lado, eu li o seu breve conteúdo:
Eu espero que esta carta seja aberta depois de minha morte. Não quero entrar em detalhes mas aceito plena responsabilidade pelas mortes de meu cunhado Aristide Leonides e de Janet Rowe (Nannie). Eu declaro aqui, solenemente, que Brenda Leonides e Laurence Brown são inocentes do crime contra Aristide Leonides. Se pedirem informações ao Dr. Michael Chavasse, na Rua Harley, 783, ele confirmará que minha vida só poderá ser prolongada por uns poucos meses. Eu prefiro escolher esta saída e poupar a duas pessoas inocentes a provação de serem acusadas por um crime que não cometeram. Eu estou em pleno gozo de minhas faculdades mentais e inteiramente consciente do que estou escrevendo.
Edith Elfrida de Haviland
Quando terminei de ler a carta, percebi que Sophia também a lera — não sei se com o consentimento de Taverner, ou não.
—Tia Edith... — murmurou Sophia.
Eu me lembrei da crueldade de Edith de Haviland esmagando a jitirana com o pé. Lembrei de minhas primeiras suspeitas, quase imaginárias, sobre ela. Mas por que...
Sophia adivinhou meu pensamento.
— Por que Josephine? Por que foi que ela levou Josephine?
— Por que foi que ela fez isto? — eu perguntei. — Qual foi o motivo?
Mas mesmo ao dizer isto, eu percebi a verdade. Vi tudo claramente. Vi que ainda estava com a segunda carta na mão. Olhei-a: era meu próprio nome no envelope.
Era mais grossa e pesada que a outra. Acho que adivinhei o que havia dentro antes de abri-la. Rasguei o envelope e o pequeno caderninho preto de Josephine caiu. Peguei-o do chão — ele abriu-se em minhas mãos e eu vi o que estava escrito na primeira página...
Parecendo vir de muito longe, ouvi a voz de Sophia, clara e controlada.
— Nós entendemos tudo errado — disse ela. — Não foi Edith.
— Não — disse eu.
Sophia aproximou-se mais de mim e murmurou:
— Foi... Josephine... não foi? Era isso, Josephine.
Juntos nós olhamos para o primeiro assentamento do livrinho preto, escrito numa caligrafia mal feita e infantil.
Hoje eu matei vovô.


Capítulo 26
FIQUEI IMAGINANDO depois como é que eu pude ser tão cego. A verdade era tão clara o tempo todo... Josephine, e somente Josephine, se encaixava com todos os requisitos necessários. Sua vaidade, sua importância persistente, seu prazer em falar, sua reafirmação de como ela era esperta e de como a polícia era burra.
Eu nunca pensara nela porque era uma criança. Mas crianças também cometem crimes, e este crime particular estivera sempre ao alcance de uma criança. Seu avô mesmo indicara o método preciso — ele praticamente dera a receita. Tudo o que ela tinha a fazer era evitar deixar impressões digitais e um leve conhecimento de aventuras de detetives que a ensinariam como agir. E tudo o mais fora uma simples miscelânea, escolhidas ao acaso entre uma porção de histórias de mistérios. O livrinho de notas... as investigações... suas pretensas suspeitas... sua insistência em dizer que ela não ia contar a ninguém até ter certeza...
E, finalmente, o ataque a si mesma. Um papel quase incrível, considerando-se que ela podia facilmente ter-se matado. Mas aí, muito infantil, ela nunca considerara uma tal possibilidade. Ela era a heroína. A heroína nunca morre. No entanto, ali nós tivéramos uma pista — as manchas de terra no assento da cadeira velha na lavandaria. Josephine era a única pessoa que precisaria subir numa cadeira para equilibrar o bloco de mármore em cima da porta. Obviamente ela não se acertara da primeira vez (as marcas no chão) e pacientemente ela subira outra vez e o recolocara no lugar, segurando-o com o cachecol para não deixar impressões digitais. E quando ele caíra — ela escapara da morte por um fio.
Fora uma cena perfeita — a impressão que ela estava ansiosa por causar! Ela estava em perigo, ela sabia "alguma coisa", ela fora atacada!
Eu via agora como ela chamara deliberadamente a minha atenção para a sua presença no pátio das cisternas. E ela completara a artística desordem em seu quarto antes de ir para a lavandaria.
Mas, quando voltara do hospital, quando descobrira que Brenda e Laurence tinham sido presos, ela deve ter ficado aborrecida. O caso estava terminado — e ela, Josephine — estava fora das luzes da ribalta.
Então ela roubou a digitalina do quarto de Edith e a pôs na sua própria xícara de chocolate e deixou a xícara intacta em cima da mesa.
Será que ela sabia que Nannie iria beber? Possivelmente. Pelas suas palavras naquela manhã, ela se ressentira das críticas de Nannie a seu respeito. Será que Nannie, talvez devido a uma vida inteira com crianças, suspeitara dela? Eu creio que Nannie sabia, e soubera sempre, que Josephine não era normal. Com seu precoce desenvolvimento mental aparecera um retardamento de seu senso moral. Talvez, também, os fatores de hereditariedade diversos — que Sophia chamara de "crueldade da família" — se tivessem reunido.
Ela herdara a crueldade autoritária da família de sua avó, o cruel egoísmo de Magda, que só via o seu próprio ponto de vista. Provavelmente ela também sofrera, sensível como Philip, com o estigma de ser a feia — a bruxinha — da família. Finalmente, em sua própria medula, corria a deformação essencial do velho Leonides. Ela fora uma neta de Leonides, parecia-se com ele na sua inteligência e sua argúcia — mas, quanto ao amor, ele o dera para sua família e seus amigos, e ela o conservara para si mesma.
Eu pensei que o velho Leonides percebera o que ninguém da família havia visto: que Josephine poderia ser uma fonte de perigo para os outros e para si própria. Ele a resguardara da vida escolar porque tinha medo do que ela pudesse fazer. Ele a protegera, guardara-a em casa, e eu compreendi a urgência com que pedira a Sophia que olhasse por Josephine. A súbita decisão de Magda em mandá-la para o exterior — teria sido também por medo da criança? Não por um medo consciente mas por algum vago instinto materno?
E Edith de Haviland? Será que ela suspeitara no início, receara depois... e finalmente descobrira?
Olhei para a carta em minhas mãos.
Caro Charles. Isto é em confidência para você — e para Sophia se você assim o decidir. É imperativo que alguém saiba da verdade. Eu encontrei o caderno anexo no canil abandonado atrás da porta de serviço. Ela o guardava lá. Veio a confirmar o que eu já suspeitava. O ato que eu vou empreender pode ser errado ou certo. Eu não sei. Mas minha vida, de qualquer forma, já está perto de seu fim, e eu não quero que esta criança sofra, como eu acredito que sofrerá se for chamada a prestar contas pelo que fez.
Há sempre alguém da ninhada que não é "muito certo".
Se eu estiver errada, que Deus me perdoe — mas eu o faço por amor. Deus abençoe vocês dois.
Edith de Haviland
Hesitei por um segundo, depois entreguei a carta a Sophia. Juntos, nós abrimos novamente o pequeno livro preto de Josephine.
Hoje eu matei vovô.
Viramos as páginas. Era uma composição espantosa. Interessante, eu imaginei, para um psicólogo. Exibia, com terrível lucidez, a fúria de um egoísmo frustrado. O motivo do crime estava escrito ali, lamentavelmente infantil e inadequado.
Vovô não me quer deixar estudar balé então eu resolvi que eu vou matar ele. Então nós iremos para Londres e mamãe não vai importar-se que eu faça balé.
Eu só li algumas passagens. Todas eram significantes.
Eu não quero ir para a Suíça — eu não vou. Se mamãe me obrigar a ir, eu mato ela também — só que agora eu não vou mais conseguir veneno. Talvez eu possa fazer isto com frutinhas do jardim. Elas são venenosas, o livro diz.
Eustace me chateou muito outro dia. Ele disse que eu sou só uma menina e que é uma tolice o meu trabalho de detetive. Ele não acharia que eu sou boba se soubesse que fui eu que cometi o crime.
Eu gosto de Charles — mas ele é meio burro. Eu ainda não resolvi quem é que eu vou fazer ser o culpado do crime. Talvez Brenda e Laurence — Brenda às vezes é malvada comigo — ela diz que eu não regulo bem mas eu gosto de Laurence — ele me contou a história de Charlot Korday — ela matou alguém dentro da banheira. Ela não foi muito esperta.
O último assentamento era revelador:
Eu odeio Nannie... Eu odeio ela... Eu odeio ela... Ela diz que eu sou apenas uma menininha. Ela diz que eu gosto de me mostrar. É ela que está fazendo mamãe me mandar lá para longe... Eu vou matar ela também — eu acho que o remédio de tia Edith serve. Se houver um outro assassinato, então a polícia vai voltar e tudo vai ficar bacana de novo.
Nannie morreu. Eu estou contente. Eu ainda não resolvi onde vou esconder o vidro com as pilulinhas. Talvez no quarto de tia Clemency — ou então no de Eustace. Quando eu morrer, muito velha, vou deixar este caderno endereçado para o Chefe de Polícia e eles vão ver como eu fui realmente uma grande criminosa.
Fechei o livro. As lágrimas de Sophia corriam copiosas.
—Oh, Charles... Oh, Charles... é tão pavoroso. Ela é um tal monstrinho... e, no entanto... no entanto, ela é tão horrivelmente comovente...
Eu sentia o mesmo.
Eu gostava de Josephine... Eu ainda agora sentia carinho por ela... Você não deixa de gostar de alguém só porque ele está tuberculoso ou com alguma outra doença fatal. Josephine, como dissera Sophia, era um pequeno monstro, mas era um pequeno monstro comovente. Ela nascera com um estigma — era a criança torta da pequena casa torta.
Sophia perguntou:
— Se... ela estivesse viva... o que teria acontecido?
— Eu suponho que teria sido enviada para um reformatório ou para uma escola especial. Mais tarde seria libertada... ou provavelmente receberia um certificado, eu não sei.
Sophia estremeceu.
— Foi melhor assim. Mas tia Edith... eu não queria que tia Edith levasse a culpa.
— Foi ela que escolheu assim. Eu não creio que isto se torne público. Imagino que quando Brenda e Laurence forem responder ao processo, não haverá acusação contra eles e então serão absolvidos. — E você, Sophia — eu disse, desta vez num tom diferente e tomando as suas mãos entre as minhas — vai casar-se comigo. Eu acabei de saber que fui designado para servir na Pérsia. Iremos juntos para lá, e você vai esquecer da pequena Casa Torta. Sua mãe vai continuar a representar suas peças e seu pai vai comprar mais livros e Eustace estará indo para a universidade. Não se preocupe mais com eles. Pense em mim. Sophia olhou-me firmemente nos olhos.
— Você não tem medo, Charles, de se casar comigo?
— E por que teria? Todos os males da família estavam concentrados na pobre Josephine. Em você, Sophia, eu acredito piamente que está o que de mais valente e corajoso existia na família Leonides. Seu avô tinha-a na mais alta consideração e parece que ele era um homem que sempre tinha razão. Levante a cabeça, querida. O futuro é nosso.
— Eu me casarei com você, Charles. Eu o amo e eu me casarei com você e o farei feliz.
Baixou os olhos para o livrinho de notas.
— Pobre Josephine...
— Pobre Josephine... — eu repeti.
—Qual é a verdade, Charles? — perguntou meu pai. Eu nunca mentira para o Velho.
—Não foi Edith de Haviland — eu disse. — Foi Josephine.
Meu pai acenou gentilmente com a cabeça.
—Sim — disse ele. — Eu já pensava assim há algum tempo. Pobre criança...

















ESTA OBRA FOI IMPRESSA NA EDITORA
VOZES LTDA., PARA A EDITORA NOVA
FRONTEIRA S.A., EM DEZEMBRO DE MIL
NOVECENTOS E OITENTA E TRÊS.
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A FILHA


Ela era uma mulher tranqüila Gostava das coisas simples da vida — a luz suave de uma lareira e as noites passadas em casa. Uma tranqüila viúva, dedicada unicamente à sua filha.
Até que passou a fazer parte de um sofisticado grupo, indo de festa em festa, fazendo coisas que outrora consideraria inadmissíveis, jamais pensando nas conseqüências.
Por que teria mudado? E o que aconteceria à sua sensível e jovem filha?
PEQUENA COLEÇÃO
AGATHA CHRISTE

AGATHA CHRISTIE
escrevendo sob o nome
Mary Westmacott
A FILHA
Tradução de
CARMEN VERA CIRNE LIMA




EDITORA
NOVA
FRONTEIRA

Título original em inglês
A DAUGHTER'S A DAUGHTER
© 1952 by Agatha Christie
Direitos adquiridos somente para o Brasil pela
EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A.
Rua Barão de Itambi, 28 — Botafogo — ZC-01 — Tel.: 266.7474
Endereço telegráfico: NEOFRONT
Rio de Janeiro
Proibida a exportação para Portugal ou províncias ultramarinas e países africanos de língua portuguesa
Capa
SÉRGIO MATTA
Revisão
ÁLVARO TAVARES NILDON FERREIRA
Diagramação
ANTONIO HERRANZ
FICHA CATALOGRÁFICA
(Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte
do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ)
Christie, Agatha, 1891-1976.
C479f A Filha; tradução de Carmen Vera Cirne Lima.
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1976.
220p. 21cm (Agatha Christie)
Do original em inglês: A daughter's a daughter.
1. Romance inglês. I. Título. II. Série.
76-0065 CDD-823.0872
CDU-820-312.4

SUMÁRIO
LIVRO
UM
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
LIVRO
DOIS
Capítulo
Capítulo
Capítulo
Capítulo
LIVRO
TRÊS
Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI

LIVRO
UM

Capítulo I
1
ANN PRENTICE ficou acenando, parada na plataforma da Estação Vitória.
O trem pôs-se em marcha com uma série de arrancos decididos, a cabeça escura de Sarah desapareceu, e Ann voltou-se e caminhou vagarosamente pela plataforma em direção à saída.
Foi tomada por aquelas sensações estranhamente confusas que às vezes nos assaltam ao nos despedirmos de alguém muito querido.
Querida Sarah — como sentiria falta dela... É claro que seria apenas por três semanas... Mas o apartamento ia parecer tão vazio... Só ela e Edith, duas insípidas mulheres de meia-idade...
Sarah era animada, tão viva, tão positiva acerca de tudo... E, no entanto, ainda um bebê tão adorável de cabelos negros...
Que horror! Que maneira de pensar! Como isso deixaria Sarah tremendamente irritada! A única coisa que Sarah e todas as outras garotas da idade dela pareciam fazer questão era de uma atitude de displicente indiferença por parte dos pais. "Não exagere, Mamãe", diziam insistentemente.
Aceitavam, é claro, tributos em espécie: que levassem suas roupas à lavanderia, fossem buscá-las e geralmente pagassem por elas; que dessem telefonemas difíceis ("Se você telefonar a Carol será tão mais fácil, Mamãe"); que limpassem a constante desordem ("Querida, eu tinha intenção de dar um jeito nas minhas coisas, mas tenho que sair simplesmente voando").
"Agora, quando eu era moça", refletiu Ann.
Seus pensamentos retrocederam. Sua casa fora antiquada. A mãe tinha mais de quarenta anos quando ela nasceu, o pai era ainda mais velho, tinha quinze ou dezesseis anos mais que a esposa. A casa era administrada da maneira que o pai gostava.
O carinho que existia fora sempre claramente demonstrado: "Essa é minha menininha querida"; "Mimosa do papai"; "Posso lhe ajudar em alguma coisa, Mamãe querida?".
Arrumar a casa, levar pequenos recados, pagar contas, redigir convites e cuidar da correspondência social, tudo isso era tarefa de Ann, que ela aceitava como obrigação. As filhas existiam para servir aos pais — não o inverso.
Ao passar perto da banca de livros, Ann de repente perguntou a si mesma: "Qual será o melhor?"
Surpreendentemente, não parecia uma pergunta fácil de responder.
Passando os olhos pelas publicações expostas (alguma coisa para ler esta noite, diante do fogo), chegou à inesperada conclusão de que aquilo realmente não tinha importância. Era tudo convenção, nada mais que isso. Como usar gíria. Numa determinada época a gente dizia que as coisas eram "o máximo", ou então que eram "divinas", depois que eram "maravilhosas", e que "não se podia estar mais de acordo", e que se era "louco" por isto, aquilo e mais aquilo.
Os filhos serviam aos pais, ou os pais serviam aos filhos — isso não fazia diferença na relação básica vital entre as pessoas. Ann acreditava que entre ela e Sarah havia um amor profundo e verdadeiro. Entre ela e sua própria mãe? Recordando, pensou que sob a aparente ternura e afeição houvera, na verdade, aquela indiferença afável e displicente que era moda adotar hoje em dia.
Sorrindo consigo mesma, Ann comprou um livro de bolso, que lembrava ter lido e apreciado alguns anos antes. Talvez pudesse parecer um pouco sentimental agora, mas isso não tinha importância, uma vez que Sarah não estaria ali...
Ann pensou: "Vou sentir falta dela — claro que vou — mas vai ser um bocado tranqüilo..."
E pensou: "Será também um descanso para Edith. Ela se aborrece quando estão sempre mudando os planos e alterando o horário das refeições".
Porque Sarah e seus amigos estavam permanentemente numa maré de ir e vir e telefonar, mudando de planos: "Mamãe querida, podemos comer mais cedo? Queremos ir ao cinema". "É você, Mamãe? Telefonei para avisar que não vou estar em casa para o almoço, afinal".
Para Edith, aquela fiel servidora há mais de vinte anos, trabalhando agora três vezes mais do que se esperara dela no início, tais interrupções da vida normal eram extremamente irritantes.
Como dizia Sarah, Edith seguidamente ficava azeda.
Não que Sarah não soubesse levar Edith, e sempre que quisesse. Edith podia rezingar e resmungar, mas adorava Sarah.
Seria tudo muito silencioso, sozinha com Edith. Tranqüilo — mas silencioso demais... Uma estranha sensação de frio fez Ann estremecer... Pensou: "Nada além do silêncio, agora". Silêncio, avançando pelas veredas da velhice até chegar à morte. Nada mais a esperar.
"Mas o que quero, afinal?" perguntou a si mesma. "Tive tudo. Amor e felicidade com Patrick. Uma filha. Tive tudo que quis da vida. Agora... acabou. Agora Sarah vai continuar onde eu parei. Vai casar, ter filhos. Serei avó."
Sorriu. Gostaria de ser avó. Imaginou crianças espertas e bonitas, filhos de Sarah. Garotinhos travessos, com o cabelo preto e rebelde da mãe, menininhas rechonchudas. Leria para eles... contaria histórias...
A idéia a fez sorrir — mas a sensação de frio persistia . Se ao menos Patrick ainda vivesse... A mágoa antiga e rebelde despertou. Fora há tanto tempo (Sarah tinha apenas três anos), tanto tempo, que a perda e a agonia tinham cicatrizado. Podia pensar em Patrick com ternura, sem angústia. O marido jovem e impetuoso que ela tanto amara, tão longe agora — longe, no passado.
Mas hoje a revolta despertou outra vez. Se Patrick ainda estivesse vivo, Sarah sairia de perto deles — para a Suíça, praticar esportes de inverno, para um marido e um lar no devido tempo — e ela e Patrick estariam ali juntos, mais velhos, mais tranqüilos, mas partilhando a vida, com seus altos e baixos. Não estaria sozinha...
Ann Prentice saiu para o pátio apinhado da estação. Pensou consigo: "Que sinistros parecem todos esses ônibus vermelhos — formados em linha como monstros à espera de comida". Era fantástico como pareciam ter vida própria — uma vida que era, talvez, hostil ao seu criador, o Homem. Que mundo atarefado, barulhento, era esse — todos indo e vindo, correndo, apressando-se, falando, rindo, reclamando, um mundo de encontros e despedidas.
E de repente, mais uma vez, sentiu aquela dor aguda de solidão.
Pensou: "Era hora de Sarah se afastar; estou ficando por demais dependente dela. E talvez a esteja tornando dependente demais de mim. Não devo fazer isso. Não devemos agarrar-nos aos jovens, impedi-los de levar suas próprias vidas. Isso seria cruel — realmente cruel."
Devia eclipsar-se, manter-se bem ao fundo, encorajar Sarah a fazer seus próprios planos, seus próprios amigos.
E então sorriu, porque na verdade não havia necessidade alguma de encorajar Sarah. Sarah tinha montes de amigos e estava sempre fazendo planos, correndo de um lugar para outro com a máxima segurança e alegria. Adorava a mãe, mas a tratava com amável condescendência, como alguém incapaz de compreender e participar devido à idade avançada.
Como quarenta e um anos pareciam a Sarah uma idade avançada — enquanto para Ann era um verdadeiro esforço pensar em si mesma como uma mulher de meia-idade. Não que ela tentasse fazer o tempo parar. Quase não usava pintura, e suas roupas ainda tinham o ar levemente provinciano de uma jovem senhora em visita à cidade: simples casacos e saias, e um fiozinho de pérolas verdadeiras. Ann suspirou.
—Não sei por que estou tão tola — disse a si mesma em voz alta. — Acho que foi a despedida de Sarah.
O que diziam os franceses? Partir, c'est mourir un peu...
Sim, era verdade... Sarah, arrebatada por aquele trem majestoso e arquejante, estava, no momento, morta para sua mãe. "E eu para ela", pensou Ann. "Uma coisa curiosa, a distância. Separação no espaço..."
Sarah vivendo uma vida. Ela, Ann, vivendo outra... Sua própria vida.
Uma sensação ligeiramente agradável substituiu a angústia que sentira anteriormente. Agora poderia escolher quando levantar, o que fazer... poderia planejar seu dia. Poderia ir cedo para a cama, com o jantar numa bandeja, ou ir a um teatro, ou um cinema. Ou tomar um trem para o campo e sair a passear... caminhando pela mata sem folhas, com o céu azul aparecendo por entre o intrincado desenho dos galhos.
Naturalmente, ela podia fazer todas essas coisas a qualquer hora que quisesse. Mas quando duas pessoas vivem juntas, há uma tendência para que uma vida molde a outra. Ann divertira-se bastante, indiretamente, com as animadas idas e vindas de Sarah.
Sem dúvida era muito divertido ser mãe. Era como repetir a própria vida, sem muitas das agonias da juventude. Uma vez que se sabia como certas coisas tinham pouca importância, era possível sorrir com indulgência frente às crises que surgiam.
—Mas francamente, Mamãe — diria Sarah com veemência, — é tremendamente sério, não deve achar graça. Nádia acha que todo seu futuro está em jogo!
Mas, aos quarenta e um, a gente já aprendeu que muito raramente todo o futuro está em jogo. Que a vida é muito mais elástica e resiliente do que se pensara um dia.
Quando serviu numa ambulância, durante a guerra, Ann percebeu pela primeira vez como as pequenas coisas eram importantes. As pequenas invejas e ciúmes, os pequenos prazeres, a fricção de um colarinho, uma frieira dentro de um sapato apertado — tudo isso parecia muito mais importante no momento do que o fato iminente de que se podia ser morto a qualquer instante. Esse pensamento deveria ser grave e esmagador, mas na realidade as pessoas se acostumavam rapidamente a ele — e as pequenas coisas cresciam de importância, talvez exageradas só porque, no fundo, havia a idéia de restar muito pouco tempo. Aprendera também alguma coisa sobre curiosas inconsistências da natureza humana, de como era difícil classificar as pessoas como "boas" ou "más", como se vira inclinada a fazer nos seus dias de dogmatismo juvenil. Tinha visto pessoas demonstrarem inacreditável coragem ao socorrer uma vítima, e depois se rebaixarem a roubar uma ninharia daquele que acabavam de salvar. Na verdade, as pessoas tinham várias facetas.
Enquanto hesitava, de pé no meio-fio, a buzina estridente de um táxi trouxe Ann de volta a considerações mais práticas, fazendo-a abandonar as reflexões abstratas. O que deveria fazer agora, neste momento? Naquela manhã não pensara em nada além de assistir à partida de Sarah.
Hoje à noite sairia para jantar com James Grant. Querido James, sempre tão bom e atencioso. "Você vai se sentir um pouco deprimida com a ausência de Sarah. Vamos sair e festejar." Realmente, era muita bondade de James. Bem o tipo de coisa que faria Sarah rir e chamá-lo de "O seu namorado pukka Sahib, querida". James era uma ótima pessoa. Podia ser às vezes um pouco difícil manter a atenção quando contava uma de suas histórias muito compridas e confusas, mas ele tinha tanto prazer em contá-las, e afinal de contas, se a gente conhece alguém há vinte e cinco anos, o mínimo que se pode fazer é escutá-lo amavelmente.
Ann olhou o relógio. Poderia ir até às lojas Army and Navy. Edith estava querendo algumas coisas para a cozinha. Essa decisão resolveu seu problema imediato. Mas durante todo o tempo em que examinou caçarolas e perguntou preços (realmente fantásticos, agora!), esteve consciente daquele estranho pânico frio no fundo de sua mente.
Afinal, num impulso, entrou numa cabine telefônica e discou um número.
— Posso falar com Dame1 Laura Whitstable, por favor?
1 Dame — titular feminina da Ordem do Império Britânico, correspondente a Knight (anteposto ao nome próprio, corresponde a Sir) (N. do T.)
— Quem fala?
— A Sra. Prentice.
— Só um momento, Sra. Prentice.
Houve uma pausa, e então uma voz profunda, ressonante, falou:
— Ann?
— Oh, Laura, sei que não devia telefonar a esta hora do dia, mas acabo de me despedir de Sarah, e pensei se você estaria terrivelmente ocupada hoje...
A voz disse, em tom decidido:
— É melhor almoçar comigo. Pão de centeio e coalhada. Serve?
— Qualquer coisa serve. Você é um anjo.
— Estarei esperando. A uma e um quarto.
2
Faltava um minuto para a uma e quinze quando Ann pagou o táxi, na Rua Harley, e tocou a campainha.
O eficiente Harknesse abriu a porta, acolheu-a com um sorriso, e disse:
— Queira subir, Sra. Prentice. Dame Laura talvez ainda demore alguns minutos.
Ann subiu agilmente as escadas. A sala de jantar da casa era agora uma sala de espera, e o andar de cima fora convertido num confortável apartamento. Na sala de estar havia uma mesinha, posta para uma refeição. A peça em si parecia muito mais pertencer a um homem do que a uma mulher: poltronas grandes e confortáveis, uma profusão de livros, alguns dos quais empilhados nas cadeiras, e coloridas cortinas de veludo de boa qualidade.
Ann não precisou esperar muito. Dame Laura, sua voz a precedê-la nas escadas como um fagote triunfante, entrou na sala e beijou afetuosamente a convidada .
Dame Laura Whitstable era uma mulher de sessenta e quatro anos. Tinha em torno dela a aura que envolve a realeza, ou conhecidas figuras públicas. Tudo nela era um pouco maior do que o normal: a voz, o busto firme como uma plataforma, as massas empilhadas de cabelo cinza escuro, o nariz que mais parecia um bico.
— Que prazer vê-la, minha querida criança — disse com estrondo. — Está muito bonita, Ann. Vejo que comprou um ramo de violetas. Soube escolher. É
a flor com que você mais se parece.
— A tímida violeta? Francamente, Laura.
— Doçura de outono, bem escondida pelas folhas.
— Não parece coisa sua, Laura. Você é sempre tão rude.
— Descobri que compensa, mas às vezes é um esforço e tanto. Vamos comer logo. Basset, onde está Basset? Ah, cá está. Vai gostar de saber que há um filé de peixe para você, Ann. E um copo de vinho branco.
— Oh, Laura, você não devia. Coalhada e pão de centeio seriam mais que suficientes.
— Só há coalhada que chegue para mim. Vamos, sente. Então Sarah foi para a Suíça? Por quanto tempo?
— Três semanas.
— Que bom.
A angulosa Basset deixara a sala. Bebericando seu copo de coalhada com toda aparência de satisfação, Dame Laura disse judiciosamente:
— E você vai sentir falta dela. Mas não me telefonou nem veio aqui para me dizer isso. Vamos, Ann, diga-me. Não temos muito tempo. Sei que me aprecia, mas quando as pessoas telefonam e querem minha companhia dentro de um prazo mínimo, geralmente a atração é minha superior sabedoria.
— Sinto-me horrivelmente culpada — disse Ann em tom de desculpa.
— Bobagem, minha cara. Na verdade, é quase um elogio.
Ann disse apressadamente:
— Laura, sou uma perfeita idiota, sei disso! Mas fiquei numa espécie de pânico. Lá na Estação Vitória, com todos aqueles ônibus! Senti-me tão... senti-me tão terrivelmente só!
— Si... sim, eu entendo.
— Não era só que Sarah ia embora e eu ia sentir falta dela. Era mais que isso...
Laura Whitstable inclinou a cabeça, enquanto seus astutos olhos cinzentos observavam calmamente Ann.
Ann falou vagarosamente:
— Porque, afinal, na verdade a gente está sempre só...
— Ah, então descobriu isso? A gente descobre, mais cedo ou mais tarde. Curiosamente, é sempre um choque. Que idade você tem, Ann? Quarenta e um?
Uma idade muito boa para fazer sua descoberta. Se a gente deixa para muito tarde, pode ser devastador. Se descobre cedo demais, precisa-se de um bocado de coragem para aceitar.
— Você alguma vez já se sentiu realmente sozinha, Laura? — perguntou Ann, curiosa.
— Oh, sim. Aconteceu quando eu tinha vinte e seis anos... foi até em meio a uma reunião familiar das mais cordiais. Fiquei surpresa e assustada... mas aceitei. Nunca negue a verdade. É preciso aceitar o fato de que temos apenas um companheiro neste mundo, um companheiro que nos segue do berço à sepultura: nós mesmos. Mantenha boas relações com esse companheiro... aprenda a viver consigo mesma. Essa é a resposta. Nem sempre é fácil.
Ann suspirou.
— A vida pareceu absolutamente sem sentido... estou lhe contando tudo, Laura... nada mais que anos vazios até perder de vista. Oh, acho que não passo de uma mulher tola e inútil...
— Ora, ora, conserve o bom-senso. Você fez um trabalho muito bom, eficiente e nada espetacular durante a guerra; educou Sarah, ensinando-lhe boas maneiras e como aproveitar a vida; e você mesma, a seu modo tranqüilo, goza a vida. Isso tudo é muito satisfatório. De fato, se você viesse ao meu consultório, eu
a mandaria embora sem nem ao menos cobrar a consulta... e eu sou uma velha gananciosa.
— Laura, querida, você é muito animadora. Mas penso que, na verdade, eu me preocupo demais com Sarah.
— Bobagem!
— Tenho sempre tanto medo de me tornar uma dessas mães possessivas, que positivamente devoram os filhos!
Laura Whitstable disse secamente:
— Falam tanto em mães possessivas, que algumas mulheres têm medo de mostrar uma afeição normal pelos filhos!
— Mas ser possessiva é um mal!
— Claro que é. Eu encontro isso todos os dias. Mães que conservam os filhos amarrados às tiras do avental, pais que monopolizam as filhas. Mas nem
sempre é inteiramente culpa deles. Certa vez tive um ninho de passarinhos em meu quarto, Ann. No devido tempo as avezinhas deixaram o ninho, mas havia uma
que não queria ir. Queria ficar, queria ser alimentada, recusava-se a encarar o momento de se atirar da bordado ninho. Isso perturbava muito a mãe-pássaro. Ela mostrava ao filho, descia voando da borda várias vezes, gorjeava, batia as asas. Finalmente, deixou de alimentá-lo. Trazia comida no bico, mas ficava a chamá-lo
do outro lado do quarto. Bem, há seres humanos assim. Crianças que não querem crescer, que não querem encarar as dificuldades da vida adulta. Não é pela educação. São elas mesmas.
Fez uma pausa antes de continuar:
— Há o desejo de ser possuído, assim como o desejo de possuir. É um caso de amadurecimento tardio? Ou alguma falta de elementos essenciais à maturidade? Ainda sabemos muito pouco sobre a personalidade humana.
— De qualquer modo — disse Ann, nem um pouco interessada em generalidades, — você não acha que sou uma mãe possessiva?
— Sempre pensei que você e Sarah tivessem um relacionamento muito satisfatório. Eu diria que há um profundo amor natural entre vocês duas. — Acrescentou pensativamente: — Claro que Sarah é infantil para a idade que tem.
— Sempre pensei que fosse madura para a idade.
— Eu não diria isso. Ela me parece ter mentalidade inferior a dezenove anos.
— Mas é muito positiva, muito segura. E bastante sofisticada. Cheia de idéias próprias.
— Cheia de idéias correntes, você quer dizer. Vai se passar muito tempo antes que tenha idéias realmente suas. E todas essas jovens criaturas hoje em
dia parecem positivas. É porque precisam de reafirmação. Vivemos numa época de incertezas; tudo é instável, e os jovens sentem isso. É aí que começa metade
do problema, hoje em dia. Falta de estabilidade; lares despedaçados; falta de padrões morais. Você sabe que uma planta nova precisa ser amarrada a uma estaca boa e firme.
Riu subitamente.
— Como todas as velhas, embora sendo ilustre, eu faço sermões. — Esvaziou o copo de coalhada. — Sabe por que eu bebo isto?
— Porque é saudável?
— Bah! Eu gosto. Sempre gostei, depois de passar férias numa fazenda. A outra razão é "para ser diferente". A gente faz pose. Todos nós fazemos. Temos que fazê-lo. Eu, mais que a maioria. Mas, graças a Deus, sei que estou fazendo isso. Mas agora vamos ao seu caso, Ann. Não há nada de errado com você.
Está só no seu segundo fôlego, nada mais que isso.
— O que quer dizer com segundo fôlego, Laura? Não se refere... — hesitou.
— Não me refiro a nada físico. Estou falando em termos mentais. As mulheres têm sorte, embora noventa e nove dentre cem não saibam disso. Com que idade Sta. Teresa se dispôs a reformar os conventos? Aos cinqüenta. E eu poderia citar inúmeros outros casos. Dos vinte aos quarenta anos as mulheres estão biologicamente absorvidas... e isso se justifica. Sua preocupação é com crianças, maridos, amantes... com relações pessoais. Ou sublimam essas coisas e se lançam
a uma carreira, de maneira emocional e feminina. Mas a segunda florescência natural é a da mente e do espírito, e acontece na meia-idade. As mulheres se interessam mais por coisas impessoais quando ficam mais velhas. Os interesses dos homens se tornam cada vez mais limitados, os das mulheres cada vez mais amplos. Um homem de sessenta anos habitualmente se repete como um disco de gramofone. Uma mulher de sessenta anos, se tiver algum resquício que seja de individualidade, é uma pessoa interessante. .
Ann pensou em James Grant e sorriu.
— As mulheres buscam algo novo. Oh, também fazem tolices nessa idade. As vezes se voltam para o sexo. Mas a meia-idade é uma época de grandes possibilidades .
— Como você é animadora, Laura! Pensa que devo começar alguma coisa? Algum tipo de assistência social?
— Até que ponto você ama seus semelhantes? — perguntou Laura Whitstable gravemente. — A ação não tem valor sem o impulso interior. Não faça coisas que não quer fazer, para depois dar pancadinhas nas próprias costas por tê-las feito! Nada, se me é permitido dizer, produz resultados dos mais odiosos. Se você tem prazer em visitar as velhas doentes, ou em levar pirralhos antipáticos e sem modos para a praia, faça isso, pelo amor de Deus! Muita gente sente prazer nisso. Não, Ann, não se force a nenhuma atividade. Lembre-se de que todo solo precisa às vezes descansar. Até agora, a maternidade tem sido sua colheita. Não posso imaginá-la transformada numa reformadora, artista ou expoente do serviço social. Você é uma mulher bastante comum, Ann, mas muito agradável. Espere. Espere tranqüilamente, com fé e esperança, e verá que logo alguma coisa que valha a pena aparecerá para encher a sua vida.
Hesitou antes de continuar:
— Você nunca teve um caso, teve?
Ann enrubesceu.
— Não. — E, tomando coragem: — Você acha... acha que eu deveria?
Dame Laura soltou uma enorme risada, um som explosivo e agudo que fez tremer os copos na mesa.
— Esse modernismo! Na era vitoriana, tínhamos medo do sexo, chegávamos a cobrir até as pernas dos móveis. O sexo era algo que devia ser escondido, empurrado para longe do alcance dos olhos. Um erro, sem dúvida. Mas hoje em dia caímos no extremo oposto, e o sexo é tratado como algo que se pode pedir na farmácia. Uma coisa parecida com sulfa, ou penicilina. Sou procurada por mulheres jovens que me perguntam: "Não seria melhor que eu arranjasse um amante?" "A senhora acha que eu deveria ter um filho?" Como se ir para a cama com um homem fosse um dever sagrado e não um prazer! Você não é uma mulher ardente, Ann. Tem uma grande reserva de afeição e ternura, e embora isso também possa incluir o sexo, ele não é o mais importante para você. Se me
pedir para prever seu futuro, eu lhe direi que você tornará a casar, no devido tempo.
— Oh, não! Não creio que pudesse fazer isso.
— Por que então comprou este ramo de violetas e o prendeu no casaco? Você costuma comprar flores para embelezar sua casa, não para se enfeitar. Essas violetas são um símbolo, Ann. Foram compradas por que, lá bem no fundo, você sente que a primavera... sua segunda primavera... está chegando.
— Você quer dizer um veranico de outono...
— Se quiser chamá-lo assim.
— Realmente uma bela idéia, Laura, mas acredite: só comprei as violetas porque a vendedora me pareceu uma mulher gelada e infeliz!
— Isso é o que você pensa, mas é apenas a razão superficial. Procure descobrir o verdadeiro motivo, Ann. Aprenda a conhecer a si mesma. Essa é a coisa mais importante da vida: tentar se conhecer. Céus... já passa das duas. Tenho que correr. O que vai fazer esta noite?
— Vou jantar com James Grant.
— O Coronel Grant? Sim, claro. Um bom sujeito — seus olhos brilharam. — Ele anda atrás de você há muito tempo, Ann.
Ann Prentice riu e corou.
— Oh, é só um hábito.
— Pediu-lhe várias vezes que casasse com ele, não foi?
— Sim, mas não é nada sério. Oh, Laura, acha que... talvez... eu devesse? Afinal, se nós dois somos solitários?
— Ninguém casa porque deve, Ann. E lembre-se de que um companheiro errado é pior do que nenhum. Pobre Coronel Grant... não que eu tenha realmente
pena dele. Afinal, um homem que vive pedindo a uma mulher que se case com ele e não consegue convencê-la a dizer sim, é porque secretamente deve gostar de se dedicar a causas perdidas. Sem dúvida teria gostado de estar em Dunquerque... embora, na minha opinião, a Carga da Brigada Ligeira fosse ainda mais ao seu gosto. Como nós, ingleses, parecemos gostar de nossos erros e derrotas... e como parecemos sentir vergonha de nossas vitórias!

Capítulo II
1
AO VOLTAR AO APARTAMENTO, Ann foi recebida com uma certa frieza pela fiel Edith.
— Tinha um lindo pedaço de linguado para o seu almoço — falou ela, aparecendo na porta da cozinha. — E um pudim de caramelo.
— Sinto muito. Almocei com Dame Laura. Mas telefonei a tempo, avisando que não viria, não telefonei?
— Ainda não tinha cozinhado o linguado — admitiu Edith, relutante. Era uma mulher alta e delgada, com o porte ereto de um granadeiro e uma boca franzida e desaprovadora. — Mas essas mudanças de planos não são coisa que se espere da senhora. Agora, se fosse a Srta. Sarah, eu não me surpreenderia. Depois
que ela se foi, encontrei as luvas enfeitadas que ela andava procurando; mas aí já era tarde demais. Estavam enfiadas atrás do sofá.
— Que pena! — disse Ann, pegando as coloridas luvas de tricô. — Ela partiu sem problemas.
— E bem feliz, com certeza.
— Sim, todo o grupo estava muito alegre.
— Talvez não estejam tão alegres na volta. É bem possível que apareçam de muletas.
— Oh, não Edith, não diga isso!
— Esses lugares suíços são perigosos. Quebram os braços e as pernas das pessoas e depois não arrumam direito. A gangrena começa por baixo do gesso, e... acabou-se.
— Bem, esperemos que isso não aconteça a Sarah — disse Ann, já habituada às sombrias previsões de Edith, ditas sempre com considerável deleite.
— Isto aqui não vai ser o mesmo sem a Srta. Sarah — continuou Edith. — Vamos ficar tão quietas que nem vamos nos reconhecer.
— Você vai poder descansar um pouco, Edith.
— Descansar? Para que vou querer descansar? É melhor a gente se gastar trabalhando do que enferrujando, é o que minha mãe sempre me dizia... e eu
sempre segui esse conselho. Agora que a Srta. Sarah está fora, e ela e os amigos não vão ficar entrando e saindo daqui a cada minuto, posso fazer uma boa faxina. A casa bem que está precisando.
— Tenho certeza de que o apartamento está limpíssimo, Edith.
— Isso é o que a senhora pensa. Mas eu sei que não. As cortinas precisam de uma boa sacudida, e uma boa lavada nos lustres e nas lâmpadas não ia fazer mal nenhum. Oh, há mil e uma coisas que precisam ser feitas. — Os olhos de Edith brilhavam de agradável expectativa.
— Arranje alguém para ajudá-la.
— Quem, eu? De jeito nenhum! Gosto das coisas bem feitas, e hoje em dia não há muitas dessas mulheres capazes de trabalhar decentemente. A senhora
tem muita coisa bonita aqui, e essas coisas devem continuar bonitas. Com a cozinha, e uma coisa e outra, não posso fazer meu trabalho tão bem quanto deveria.
— Mas você cozinha muito bem, Edith. Sabe disso.
Um leve sorriso de gratidão transformou a costumeira expressão de profunda censura do rosto de Edith.
— Ora, cozinhar — disse ela com jeito brusco. — Isso não é nada, não é o que eu chamo trabalhar de verdade.
Voltando à cozinha, perguntou:
— A que horas vai querer seu chá?
— Agora não. Lá pelas quatro e meia.
— Se eu fosse a senhora, deitava e dormia um pouco. Assim, ficava novinha em folha para esta noite. É melhor aproveitar a calma enquanto durar.
Ann riu. Entrou na sala e deixou que Edith a acomodasse confortavelmente no sofá.
— Você cuida de mim como se eu fosse uma meninazinha, Edith.
— Bem, a senhora não era muito mais que uma criança quando fui trabalhar com sua mãe, e não mudou muito desde então. O Coronel Grant telefonou. Disse para não esquecer que o encontro é às oito horas, no Restaurante Mogador. Falei que a senhora sabia, mas isso é bem coisa de homem... ficam o tempo todo se preocupando com bobagens. E os militares são os piores.
— Foi muita gentileza dele lembrar que eu poderia me sentir sozinha hoje à noite, e me convidar para sair.
Edith falou judiciosamente:
— Não tenho nada contra o Coronel. Pode ser um pouco maçante, mas é um cavalheiro da melhor espécie. — Fez uma pausa, e acrescentou: — Pensando
bem, a senhora poderia arranjar alguém bem pior que o Coronel Grant.
— O que disse, Edith?
Edith encarou-a sem pestanejar.
— Falei que há cavalheiros bem piores... Bem, acho que já não veremos tanto o Sr. Gerry, agora que a Srta. Sarah partiu.
— Você não gosta dele, não é mesmo Edith?
— Ora, gosto e não gosto, se é que me entende. Ele tem um certo encanto, isso não se pode negar. Mas não é do tipo perseverante. A minha sobrinha Marlene casou com um desses. Nunca fica mais de seis meses num emprego. E, aconteça o que acontecer, a culpa nunca é dele.
Edith deixou a sala, e Ann recostou a cabeça nas almofadas e fechou os olhos. Os sons do tráfego chegavam distantes e amortecidos através da janela fechada, num agradável zumbido, como de abelhas distantes. Na mesa perto dela, um vaso de junquilhos amarelos desprendia no ar o seu cheiro doce.
Sentia-se em paz, e feliz. Sentiria falta de Sarah, mas era bastante repousante ficar só por algum tempo. Que sensação esquisita de pânico tivera de manhã...
Indagou-se quem seriam os convidados de James Grant esta noite.
2
O Mogador era um restaurante pequeno e um tanto antiquado, com boa comida, bons vinhos e ambiente tranqüilo. Ann foi a primeira a chegar, e encontrou o Coronel Grant sentado no bar da entrada, abrindo e fechando o relógio de bolso.
— Ah, Ann — saltou para saudá-la — você chegou. — Seus olhos examinaram com ar de aprovação o vestido preto e o cordão de pérolas.
— É ótimo quando uma mulher bonita consegue ser pontual.
— Estou apenas três minutos atrasada — disse Ann, sorrindo para ele.
James Grant era um homem alto, de porte rígido e marcial, cabelos grisalhos cortados rente e um queixo obstinado.
Tornou a consultar o relógio.
— Por que os outros não chegam? A mesa estará pronta para nós às oito e quinze, e vamos beber alguma coisa antes. Sherry para você? Prefere sherry a um coquetel, não é mesmo?
— Sim, por favor. Quem são os outros?
— Os Massinghams. Você os conhece?
— Naturalmente.
— E Jennifer Graham. É minha prima, mas não sei se você alguma vez...
— Acho que já a encontrei uma vez, com você.
— E o outro homem é Richard Cauldfield. Eu não o via há muitos anos, e o encontrei outro dia. Passou a maior parte da vida em Burma, e agora ao voltar sente-se um pouco desambientado.
— Sim, imagino.
— É um bom sujeito. Uma história bastante triste. A mulher morreu ao nascer o primeiro filho. Ele era extremamente dedicado a ela. Ficou inconsolável durante muito tempo e achou que devia afastar-se... por isso foi para Burma.
— E a criança?
— Também morreu.
— Que tristeza!
— Ah, lá vêm os Massinghams.
A Sra. Massingham, que Sarah sempre chamava a Mem Sahib, lançou-se sobre eles com uma grande exibição de dentes. Era uma mulher magra e comprida, com a pele descorada e seca pelos anos passados na Índia. O marido, um homem baixo e corpulento, que falava em stacatto.
— Como é bom tornar a vê-la — disse a Sra. Massingham, apertando calorosamente a mão de Ann. — E que delícia poder jantar com roupas apropriadas. Positivamente, parece que eu nunca consigo pôr um vestido de noite. Todos estão sempre me dizendo: "Não precisa trocar de roupa"! Na verdade, acho a vida bem insípida hoje em dia. E as coisas que a gente é obrigada a fazer sozinha! Tenho a impressão de estar eternamente junto à pia da cozinha. Realmente não creio que possamos continuar neste país. Estamos pensando em ir para o Quênia.
— Muita gente indo embora — disse o marido. — Fartos. É este governo omisso.
— Aqui está Jennifer — exclamou o Coronel Grant. — E Cauldfield.
Jennifer Graham era uma mulher de trinta e cinco anos, alta e com cara de cavalo, que relinchava quando ria; e Richard Cauldfield, um homem de meia-idade, de rosto queimado de sol.
Sentou-se junto a Ann, e esta começou a conversar. Estava há muito tempo na Inglaterra? Qual era sua impressão?
Não era fácil acostumar-se, disse ele. Tudo agora era tão diferente do que costumava ser antes da guerra. Estava à procura de trabalho, mas não havia muitos empregos para um homem da sua idade.
— Não, creio que não. E isso me parece tão injusto!
— Sim, pois afinal eu ainda não cheguei aos cinqüenta — sorriu ele, um sorriso um pouco infantil, desconcertante. — Disponho de um pequeno capital.
Estou pensando em comprar um lugarzinho no campo e me dedicar à floricultura, ou à criação de galinhas.
— Galinhas não! — protestou Ann. — Tenho muitos amigos que tentaram... e elas sempre apanham alguma doença.
— Não, talvez a floricultura fosse melhor. Provavelmente não daria muito lucro, mas seria uma vida agradável. — Suspirou. — Tudo parece tão confuso!
Talvez que uma mudança de governo...
Ann concordou, hesitante. Era o remédio de sempre.
— Deve ser difícil saber exatamente o que fazer — falou. — Isso deve preocupá-lo bastante.
— Ah, eu não me preocupo. Acho que não vale a pena. Se um homem tem fé em si mesmo, e bastante determinação, todas as dificuldades podem ser vencidas.
Era uma afirmação muito dogmática, e Ann não pareceu muito convencida.
— Não tenho muita certeza.
— Posso garantir-lhe que é assim. Não tenho nenhuma paciência com gente que anda sempre se queixando da falta de sorte.
— Ah, nesse ponto concordo com você — exclamou Ann, com tanto fervor que ele arqueou as sobrancelhas, numa interrogação:
— Parece que você conhece alguém assim.
— E conheço mesmo. Um dos namorados da minha filha vem sempre contar a sua última desgraça. Eu costumava sentir pena dele, mas agora só consegue me deixar insensível e aborrecida.
Do outro lado da mesa, a Sra. Massingham interveio:
— Histórias de azar são mesmo aborrecidas.
O Coronel Grant perguntou:
— De quem está falando? Do jovem Gerald Lloyd? Ele nunca será grande coisa na vida.
Richard Cauldfield disse baixinho para Ann:
— Então tem uma filha? E com idade bastante para ter um namorado?
— Oh, sim, Sarah tem dezenove anos.
— E você gosta muito dela?
— É claro!
Percebeu no rosto dele uma fugaz expressão de dor, e lembrou a história que o Coronel Grant tinha contado. Richard Cauldfield era um homem solitário, pensou.
Ele falou baixinho:
— Você parece jovem demais para ter uma filha já crescida.
— Isso é o que se costuma dizer a uma mulher da minha idade — respondeu Ann, com uma risada.
— Talvez seja, mas estou sendo sincero. Seu marido... morreu?
— Sim, há muito tempo.
— E por que não voltou a casar?
Poderia ter sido uma pergunta impertinente, mas o interesse sincero da voz dele o eximia de qualquer acusação desse tipo. Mais uma vez Ann pensou que Richard Cauldfield era um homem simples. Ele realmente queria saber.
— Ah... porque... — parou. Então falou a verdade, francamente: — Eu amava muito meu marido. Depois que ele morreu, não voltei a amar ninguém. E
havia Sarah, é claro.
— Sim — disse Cauldfield. — Sim... as coisas teriam que acontecer exatamente assim com você.
Grant levantou e sugeriu que passassem ao restaurante. Na mesa redonda, Ann sentou-se entre o anfitrião e o Major Massingham. Não teve mais oportunidade de continuar seu tête-à-tête com Cauldfield, que agora conversava, com certo esforço, com a Srta. Graham.
— Será que vão se dar bem? — murmurou o coronel no ouvido de Ann. — Ele precisa casar, sabe?
Por alguma razão a sugestão a desagradou. Logo Jennifer Graham, com aquela voz aguda e enérgica, o riso relinchado! Jamais o tipo de mulher que servia para casar com um homem como Cauldfield.
As ostras foram servidas, e o grupo dedicou-se a comer e conversar.
— Sarah partiu esta manhã?
— Sim, James. Espero que encontrem bastante neve.
— Sim, embora seja de duvidar, nesta época do ano. De qualquer forma, creio que ela vai se divertir. Sarah é uma bela moça. Por falar nisso, espero que
o jovem Lloyd não faça parte do grupo.
— Ah, não, ele começou a trabalhar há pouco tempo na firma do tio. Não poderia ausentar-se.
— Ótimo. Você tem que cortar essa história pela raiz.
— Hoje em dia isso não é tão fácil, James.
— Hummm, creio que não deve ser. Mesmo assim, você conseguiu afastá-la por algum tempo.
— Sim, achei que seria uma boa idéia, eu... Realmente achei...
— Ah, você achou? Não é nada tola, Ann. Esperemos que ela encontre algum outro rapaz por lá.
— Sarah ainda é muito jovem, James. Não creio que aquela história com Gerald Lloyd devesse ser levada a sério.
— Talvez não, mas da última vez que a vi ela parecia muito preocupada com ele.
— Preocupar-se com os outros é um traço característico de Sarah. Ela sabe exatamente o que cada um deve fazer, e não descansa enquanto não fazem. É muito leal aos seus amigos.
— Ê uma criança muito querida. E atraente. Mas nunca será tão atraente quanto você, Ann. Ela é um tipo mais duro... como se diz hoje em dia... mais
durona.
Ann sorriu.
— Não creio que seja assim tão dura. É o jeito da geração dela.
— Talvez seja... Mas algumas dessas moças poderiam ter aulas de charme com as mães.
Ele a olhava com carinho, e Ann pensou, com repentino e raro calor: "Querido James. — Como ele é bom para mim. Para ele, eu sou perfeita. Não estarei sendo tola ao recusar o que me oferece? Ser amada, querida..."
Infelizmente, naquele exato momento o Coronel Grant começou a contar uma história sobre um dos seus subalternos e a mulher de um major, na Índia. Era uma história comprida, e ela já a ouvira três vezes antes.
O afetuoso calor desapareceu. Olhou Richard Cauldfield, do outro lado da mesa, avaliando-o. Um pouquinho confiante demais em si mesmo, excessivamente dogmático — não, corrigiu-se, não de verdade... Tudo devia ser apenas uma armadura que ele usava para se defender de um mundo estranho e provavelmente hostil.
Era na verdade um rosto triste. Um rosto solitário...
Tinha muitas qualidades, pensou. Devia ser bom, honesto, e totalmente justo. Teimoso, provavelmente, e preconceituoso algumas vezes. Um homem que não estava acostumado a achar graça nas coisas, nem a que achassem graça nele. O tipo do homem que floresceria ao sentir-se realmente amado.
— ...e você acredita — o coronel chegava ao ponto culminante da história — que Sayce sabia de tudo, todo o tempo?
Com um choque, Ann retornou aos seus deveres imediatos, e riu com o esperado entusiasmo.

Capítulo III
1
ANN acordou na manhã seguinte, e por um momento se indagou onde estaria. Certamente a silhueta mal delineada da janela deveria estar à sua direita, e não à esquerda... A porta... O guarda-roupa...
Então percebeu que estivera sonhando; sonhando que era outra vez uma menina, de volta à velha casa em Applestream. Tinha chegado lá cheia de alegria, fora recebida pela mãe e por uma Edith mais jovem. Correra pelo jardim, admirando Uma coisa e outra, e finalmente entrara na casa. Tudo estava exatamente como tinha sido: o vestíbulo um pouco escuro, a sala de estar coberta de chintz que se abria para ele. E então, surpreendentemente, sua mãe dissera: "Vamos tomar o chá aqui", e a conduzira para uma sala nova e desconhecida. Uma sala agradável, com os móveis cobertos de alegre chintz estampado, flores, sol. E alguém tinha dito: "Você não sabia que estas salas estavam aqui, sabia? Nós as descobrimos no ano passado!" Havia mais salas novas, uma escadinha e mais quartos lá em cima. Era tudo muito excitante, emocionante.
Agora, acordada, sentia-se ainda parcialmente dentro do sonho. Era Ann, a menina, para quem a vida apenas começava.
Aqueles quartos nunca vistos. Estranho, ter passado tantos anos sem saber que existiam. Quando tinham sido descobertos? Há pouco tempo? Há muitos anos?
A realidade infiltrou-se vagarosamente através da confusa e agradável lembrança do sonho. Fora tudo um sonho, um sonho bom. Entremeado agora por uma ligeira dor, a dor da saudade. Porque não se pode voltar atrás. E como era estranho que sonhar com a descoberta de alguns quartos a mais em uma casa pudesse provocar um prazer tão singular e arrebatador. Sentiu-se triste quando pensou que esses quartos nunca tinham existido.
Ann permaneceu deitada, olhando os contornos da janela, cada vez mais nítidos. Já devia ser bem tarde, pelo menos nove horas. As manhãs eram tão escuras, agora. A esta hora, Sarah estaria acordando para o sol e a neve, na Suíça.
Mas, de uma certa maneira, Sarah parecia não existir naquele momento. Estava distante, remota, apagada. O que era real era a casa de Cumberland, os chintz, o sol, as flores... sua mãe. E Edith, respeitosamente parada em posição de sentido, parecendo tão desaprovadora como de costume, apesar do rosto jovem, macio e sem rugas.
Ann sorriu e chamou:
— Edith!
Edith entrou, e abriu as cortinas.
— Bem — falou aprovadoramente, — dormiu bastante. Não quis acordá-la, o dia não está lá essas coisas. Acho que vamos ter nevoeiro.
Visto pela janela, o céu era amarelo escuro.
Não era uma perspectiva atraente, mas não abalou a sensação de bem-estar que Ann sentia. Continuou deitada, sorrindo para si mesma.
— Seu café está pronto, já vou trazê-lo. — Edith parou antes de deixar o quarto, e olhou a patroa com curiosidade.
— Parece contente esta manhã. Deve ter-se divertido ontem.
— Ontem? — por um momento Ann ficou no ar. — Oh, sim, foi bom. Edith, sonhei que tinha voltado para casa. Você estava lá, era verão, e a casa tinha quartos novos que nós não conhecíamos.
— E foi melhor não conhecer, é o que lhe digo. Aquele casarão velho já tinha quartos demais. E a cozinha! Quando penso na quantidade de carvão que
aquele fogão devia gastar! Por sorte o carvão era barato naquele tempo.
— Você era bem moça outra vez, Edith, e eu também.
— Ah, não se pode fazer o tempo voltar, não é mesmo? Por mais que a gente queira, aqueles tempos estão mortos e enterrados para sempre.
— Mortos e enterrados para sempre — Ann repetiu baixinho.
— Não que eu não esteja satisfeita. Tenho força e saúde, embora digam que a meia-idade é a melhor época para se arranjar um desses tumores internos. Tenho pensado muito nisso, ultimamente.
— Estou certa de que você não tem nada disso, Edith.
— Ah, mas nunca se pode ter certeza. Só se fica sabendo quando carregam a gente para o hospital, abrem e descobrem que já é tarde demais.
E Edith saiu do quarto com ar soturno. Voltou pouco depois, trazendo numa bandeja o café e a torrada de Ann.
— Aqui está, senhora. Sente-se, e eu ajeito o travesseiro nas suas costas.
Ann olhou-a, e falou num impulso:
—Como você é boa para mim, Edith.
Edith ficou vermelha.
— Sei como as coisas devem ser feitas, só isso. E, de qualquer jeito, alguém tem de cuidar da senhora. A senhora não é uma dessas mulheres de espírito forte.
Se fosse aquela Dame Laura... nem o Papa de Roma pode com ela.
— Dame Laura é uma grande personalidade, Edith.
— Eu sei, já a ouvi falando no rádio. Ora, só pela cara já se pode saber que ela é alguém. E conseguiu casar, pelo que ouvi dizer. Foi divórcio ou morte que
os separou?
— Oh, ele morreu.
— Provavelmente a melhor coisa que lhe poderia acontecer. Ela não é o tipo de mulher com quem um cavalheiro goste de viver... embora eu não possa negar que alguns homens preferem que a mulher use as calças. — Caminhou em direção à porta, observando: — Agora não precisa ter pressa, minha querida. Descanse bastante, fique deitadinha pensando seus belos pensamentos e aproveitando as férias.
"Férias", pensou Ann, divertida. "É esse o nome que ela dá?"
E, no entanto, não deixava de ser verdade. Aqueles dias seriam um intervalo no ritmo sempre igual de sua vida. No fundo há sempre uma certa ansiedade, quando se vive com uma filha que se ama. Ela é feliz? Será que A ou B são boas amizades para ela? Deve ter acontecido alguma coisa na festa de ontem à noite. O que poderia ter sido?
Ela nunca tinha interferido, nem feito perguntas. Compreendia que Sarah devia sentir-se livre para falar ou calar — devia aprender sozinha as lições da vida, escolher seus próprios amigos. E no entanto, como amava a filha, era impossível ignorar seus problemas. Ann poderia ser necessária a qualquer momento, e se Sarah a procurasse, em busca de apoio ou ajuda prática, tinha que estar ali, a postos. As vezes Ann pensava: "Devo estar preparada para ver Sarah infeliz algum dia, e mesmo então não falar nada, a menos que ela o deseje."
O que a vinha preocupando ultimamente era o crescente interesse de Sarah por Gerald Lloyd, um rapaz amargo e sempre cheio de queixas. Daí seu alívio ao pensar que Sarah ficaria pelo menos três semanas longe dele, e conheceria muitos outros rapazes durante esse tempo.
Sim, com Sarah na Suíça ela poderia tirá-la despreocupadamente da cabeça e descansar, deitada em sua cama confortável, pensando no que poderia fazer hoje. Divertira-se no jantar da noite anterior. Querido James — tão bom, e no entanto tão maçante também, pobre querido! As histórias intermináveis que contava! Realmente, ao chegar aos quarenta e cinco os homens deviam fazer o voto de não contar mais histórias ou anedotas. Se pudessem imaginar o desânimo que dominava os amigos assim que começavam: "Não sei se já contei, mas uma vez aconteceu uma coisa curiosa com o...", e assim por diante. É claro que sempre se poderia interromper, dizendo: "Sim, James, já me contou três vezes". Mas o pobrezinho ficaria tão magoado! Não, era impossível fazer uma coisa dessas com James.
E aquele outro, Richard Cauldfield. Naturalmente era muito mais moço, mas provavelmente ele também um dia começaria a repetir as mesmas histórias compridas e sem graça.
Talvez... pensou... mas não acreditava que pudesse acontecer. Não. Era mais provável que se tornasse prepotente, didático, cheio de preconceitos e idéias preconcebidas. Precisaria de alguém que caçoasse dele, delicadamente. Poderia ser um pouco ridículo, às vezes, mas era um bom homem — um homem solitário, muito solitário... Teve pena dele. Sentia-se perdido na frustrada vida moderna de Londres. Pensou em qual o tipo de trabalho que ele iria conseguir. Isso não era tão fácil hoje em dia. Provavelmente compraria sua fazendola, ou floricultura, e se instalaria no campo.
Pensou se voltaria a encontrá-lo. Qualquer noite dessas convidaria James para jantar, e poderia sugerir que ele trouxesse Richard Cauldfield. Seria uma gentileza — ele era obviamente um homem muito sozinho. E convidaria outra mulher. Poderiam ir ao teatro...
Que algazarra Edith estava fazendo! Ela estava na sala ao lado, e, pelo barulho, parecia haver lá um exército de homens fazendo a mudança. Baques, batidas, de vez em quando o zumbido alto do aspirador de pó. Edith devia estar se divertindo.
Logo ela apareceu na porta, a cabeça envolta num pano de pó e o olhar sublime e extasiado de uma sacerdotisa celebrando alguma orgia ritual.
— A senhora não vai almoçar fora, por acaso? Eu estava enganada, vai ser um belo dia, sem névoa. Não é que eu tenha esquecido o linguado, não esqueci. Mas
se não estragou até agora, não vai estragar até o jantar. Não se pode negar que essas geladeiras conservam mesmo as coisas... mas tiram o gosto de tudo, é o que eu digo.
Ann olhou para ela e riu.
— Está bem, está bem, eu almoço fora.
— Para mim não faz diferença, é claro. Eu não me importo.
— Sim, Edith. Mas não se mate. Por que não traz a Sra. Hopper para ajudá-la, já que quer limpar a casa de alto a baixo?
— Sra. Hopper, Sra. Hopper. Pois sim! Na última vez que ela veio eu deixei que limpasse aquela grade da lareira de latão bonita que foi da sua mãe. Ficou
toda manchada. Essas mulheres só sabem mesmo é lavar o assoalho, e isso qualquer um pode fazer. Lembra-se da grelha de ferro trabalhado que nós tínhamos em
Applestream? Aquilo, sim, dava trabalho. Tinha orgulho dela, palavra. Ah, bem... a senhora tem móveis bem bonitos, e eles ficam lindos quando bem lustrados. Pena que haja tanta coisa embutida.
— Facilita o trabalho.
— Fica muito parecido com hotel, para o meu gosto. Então a senhora vai sair? Ótimo. Posso tirar todos os tapetes.
— Posso voltar hoje à noite? Ou prefere que eu durma num hotel?
— Ora, Sra. Ann, não me venha com essas brincadeiras. Por falar nisso, aquela panela dupla que a senhora comprou não vale nada. É grande demais, e tem
um formato ruim para se mexer com a colher lá dentro. Quero uma igual à minha antiga.
— Sinto muito, mas acho que aquelas não existem mais.
— Esse governo — falou Edith com desagrado. — E os pratos de porcelana tiara suflê que eu lhe pedi? A Srta. Sarah gosta de suflê servido naqueles pratos.
— Esqueci que você tinha pedido, mas acho que poderia encontrá-los facilmente.
— Então! Já tem alguma coisa para fazer!
— Francamente, Edith! — exclamou Ann, irritada. — Parece até que sou uma meninazinha que você tem que mandar brincar lá fora.
— Confesso que com a Srta. Sarah longe a senhora parece mais moça. Mas eu estava apenas fazendo uma sugestão, madame — Edith empertigou-se
e falou com azeda cerimônia, — que se por acaso passasse perto das Lojas Army and Navy, ou talvez John Barker's...
— Muito bem, Edith. Agora vá você brincar na sala.
— Ora, francamente — disse Edith, ofendida; e bateu em retirada.
Recomeçaram os baques e as batidas, e logo veio juntar-se a eles um novo som, o da voz fraca e desafinada de Edith, elevando-se num hino particularmente lúgubre:
"Este mundo é só dor e mágoa,
Não há sol, nem alegria, nem luz.
Oh, lava-nos, lava-nos no teu sangue,
Para que possamos chorar-te, ó Jesus!"
2
Ann divertiu-se na seção de louças das Lojas Army and Navy. Pensou que nos dias que correm, com tantos artigos inferiores e mal feitos, era um consolo ver que boa louça, cristais e cerâmica o país ainda podia produzir.
Nem os avisos proibitivos "Somente para exportação" estragaram sua admiração pelos artigos expostos em brilhantes fileiras. Chegou até às mesas onde estavam em exibição as mercadorias rejeitadas para exportação, onde havia sempre compradoras rondando, de olhos ávidos, prontas a saltar sobre alguma peça mais atraente.
Hoje fora Ann a felizarda. Havia até um jogo de café quase completo, com lindas xícaras arredondadas de cerâmica vitrificada marrom decorada. O preço não era excessivo, e ela comprou bem a tempo. No instante em que anotavam seu endereço apareceu uma mulher, e disse nervosamente:
— Fico com este.
— Lamento, senhora. Já está vendido.
Ann falou hipocritamente "Sinto muito", e afastou-se, animada pelo prazer de uma boa compra. Tinha encontrado também alguns pratos para suflê bastante bonitos e de bom tamanho, e embora fossem de vidro e não de louça, esperava que Edith os aceitasse sem muitos resmungos.
Saindo da seção de louças, atravessou a rua e entrou no departamento de plantas e jardins. A jardineira da janela do apartamento estava em ruínas, e ela queria substituí-la.
Falava a respeito disso com o vendedor, quando ouviu uma voz atrás dela:
— Ora, bom dia, Sra. Prentice.
Voltou-se e viu Richard Cauldfield. Era tão evidente o prazer que ele sentia ao vê-la, que Ann não pôde deixar de sentir-se lisonjeada.
— Imagine, encontrá-la aqui! É realmente uma maravilhosa coincidência. Na verdade, eu estava mesmo pensando em você. Sabe, ontem à noite eu quis
perguntar seu endereço, e se poderia talvez visitá-la. Mas depois temi que me julgasse impertinente. Deve ter tantos amigos, e...
Ann interrompeu:
— É claro que deve me visitar. Para ser franca, eu estava pensando em convidar o Coronel Grant para jantar em minha casa, e sugerir que o levasse também.
— Estava mesmo? De verdade? — Sua ansiedade e prazer eram tão óbvios, que Ann teve pena. Pobre homem, como devia se sentir sozinho! Aquele sorriso feliz parecia o sorriso de um menino.
— Estava encomendando uma jardineira nova para minha janela. É a coisa mais parecida com um jardim que se pode ter num apartamento.
— Sim, imagino que seja.
— O que faz aqui?
— Estava examinando as incubadoras.
— Ainda pensando em criar galinhas?
— De certa forma. Estive examinando os equipamentos mais modernos para a avicultura. Pelo que sei, esta chocadeira elétrica é a última novidade.
Caminharam juntos para a saída. Richard Cauldfield disse, num arranco:
— Será que... naturalmente já tinha outro compromisso... será que gostaria de almoçar comigo... se não tem mais nada para fazer?

— Obrigada, eu gostaria muito. Na verdade Edith, minha criada, lançou-se numa orgia de limpeza de primavera, e me disse, com muita firmeza, que eu não
fosse almoçar em casa.
Richard Cauldfield não achou graça nenhuma, e pareceu até um tanto chocado com as palavras dela.
— Isso é muito arbitrário, não é?
— Edith tem seus privilégios.
— Ainda assim, não convém mimar os criados. —
Ele está me reprovando, pensou Ann, divertida. E disse, delicadamente:
— Já não restam muitos para mimar. E, de qualquer forma, Edith é mais amiga do que criada. Está comigo há muitos anos.
— Oh, entendo. — Percebeu que fora gentilmente censurado, mas a impressão permaneceu. Esta bela e delicada senhora estava sendo governada por uma criada despótica, e era demasiado dócil e submissa para enfrentá-la.
— Limpeza de primavera? — perguntou, confuso. — Deve ser feita nesta época?
— Não, na verdade não deve. Deve ser feita em março, mas minha filha foi passar algumas semanas na Suíça e aproveitamos a oportunidade. Quando ela
está aqui há sempre muito movimento.
— Imagino que deve sentir falta dela.
— Sim, muita.
— Parece que as moças quase não gostam de ficar em casa, hoje em dia. Creio que preferem viver suas próprias vidas.
— Não tanto quanto até pouco tempo atrás; acho que a novidade já perdeu um pouco o encanto.
— Ah! Bonito dia, não? Gostaria de caminhar pelo parque, ou isso iria cansá-la?
— Não, é claro que não. Ia mesmo sugerir.
Atravessaram a Rua Vitória e desceram por uma estreita passagem, chegando afinal ao lado da estação do Parque Saint James. Cauldfield ergueu os olhos para as esculturas de Epstein.
— Vê alguma coisa nisso? Como é possível chamar essas coisas de arte?
— Oh, creio que é possível, sim. Bem possível.
— Você certamente não gosta delas?
— Não, eu pessoalmente não. Sou antiquada, e continuo a gostar da escultura clássica, e de todas as coisas que me ensinaram a gostar. Mas não significa que o meu gosto seja o certo. Acho que é necessário aprender a apreciar novas formas de arte. E acontece o mesmo com a música.
— Música! Não se pode chamar isso de música!
— Não acha que está sendo um pouco reacionário, Cauldfield?
Ele voltou rapidamente a cabeça para olhá-la. Ela estava afogueada, um pouquinho nervosa, mas seus olhos o encararam sem pestanejar.
— Estou? Talvez. Sim, quando se esteve longe durante tanto tempo, tem-se a tendência de não gostar de tudo que não é mais exatamente como a gente
lembrava. — De repente sorriu. — Deve ter paciência comigo.
Ann disse depressa:
— Oh, eu também sou terrivelmente antiquada. Sarah muitas vezes ri de mim. Mas sinceramente, acho terrível que a gente... como posso explicar... que a
gente vá perdendo o interesse pelas coisas novas à medida que... bem, à medida que vai envelhecendo. Porque, em primeiro lugar, isso nos torna terrivelmente enfadonhos, e, além disso, também podemos estar perdendo alguma coisa importante.
Richard caminhou em silêncio por alguns momentos, antes de falar:
— Parece-me tão absurdo ouvi-la falar em envelhecer! Você é a pessoa mais jovem que conheci nestes últimos tempos. Muito mais jovem do que algumas dessas garotas assustadoras. Elas realmente me dão medo.
— Sim, a mim também assustam um pouco. Mas sempre descubro que são ótimas pessoas.
Tinham chegado ao Parque Saint James. O sol estava forte agora, e o dia quase quente.
— Aonde vamos?
— Vamos olhar os pelicanos.
Olharam os pássaros, satisfeitos, e conversaram sobre as várias espécies de aves aquáticas. Completamente tranqüilo e à vontade, Richard era um companheiro encantador, jovial e espontâneo. Falaram e riram juntos, e sentiram-se extremamente felizes na companhia um do outro.
Logo Richard disse:
— Que tal sentarmos um pouco ao sol? Não está sentindo frio?
— Não, estou bem aquecida.
Sentaram-se e ficaram olhando a água. Com suas cores desmaiadas, a paisagem parecia uma gravura japonesa.
Ann falou baixinho:
— Como Londres pode ser bonita. Nem sempre a gente percebe isso.
— Não, é quase uma revelação.
Ficaram em silêncio durante um ou dois minutos, e Richard continuou:
— Minha mulher sempre dizia que Londres é o único lugar para se estar na chegada da primavera. Dizia que os brotos verdes, as amendoeiras e, a seu
tempo, os lilases, realçavam contra o fundo de tijolos e argamassa. Achava que no campo era tudo muito vasto, e acontecia de modo demasiado confuso para
que pudesse ser devidamente apreciado; mas que num jardim suburbano a primavera chegava da noite para o dia.
— Creio que ela tinha razão.
Richard falou com esforço, e sem olhar para Ann:
— Ela morreu... há muito tempo.
— Eu sei, o Coronel Grant me contou.
Richard voltou-se e olhou para ela.
— Contou como ela morreu?
— Sim.
— É algo que jamais poderei esquecer. Terei sempre a impressão de tê-la matado.
Ann hesitou um momento, antes de falar.
— Posso entender o que sente, no seu lugar eu sentiria o mesmo. Mas não é verdade, sabe.
— Sim, é verdade.
— Não. Não do ponto de vista dela... de uma mulher. A responsabilidade de aceitar esse risco é da mulher. Está implícita no seu... no seu amor. Lembre-se de que ela quer a criança. Sua esposa desejava. .. o filho?
— Ah, sim. Aline estava muito feliz. Eu também. Era uma jovem forte, saudável. Parecia não haver qualquer motivo para as coisas não correrem bem.
Houve um silêncio, e então Ann falou:
— Sinto muito... muito, mesmo.
— Já faz muito tempo.
— O bebê também morreu?
— Sim. E de certa forma eu me alegro que isso tenha acontecido, sabe. Acho que iria culpar o pobrezinho. Nunca esqueceria o preço que fora preciso pagar
pela vida dele.
— Fale-me sobre sua esposa.
E ali, com os dois sentados sob o pálido sol de inverno, ele lhe falou sobre Aline. Como tinha sido bonita e alegre. E das vezes em que ficava quieta de repente e ele se perguntava em que estaria pensando e por que estaria tão longe.
Uma vez ele se interrompeu para dizer, admirado:
— Há muitos anos eu não falava nela com ninguém.
E Ann incitou-o suavemente:
— Continue.
Tudo fora tão breve — breve demais. Três meses de noivado, o casamento — "o exagero de sempre, nós não queríamos mas a mãe dela insistiu". Tinham passado a lua-de-mel viajando de carro pela França, visitando os castelos do Loire.
— Ela ficava nervosa quando andava de carro — acrescentou despropositadamente. — Costumava pôr a mão no meu joelho. Isso parecia acalmá-la, mas não sei por que ficava tão nervosa, ela nunca sofreu um acidente. — Fez uma pausa, antes de continuar: — As vezes, quando eu corria no meu carro, lá em Burma, depois de tudo já ter acontecido, eu parecia sentir a mão dela. Imaginava, entende?... Parecia incrível que ela pudesse ter desaparecido assim, que não vivesse mais.
Sim, pensou Ann, é isso que a gente sente — parece incrível. Sentira o mesmo com relação a Patrick. Ele tinha que estar em algum lugar. Precisava fazê-la sentir sua presença. Não era possível que tivesse partido assim, sem deixar nada atrás de si. O terrível abismo que separa os vivos dos mortos!
Richard continuava. Contava da casinha que eles tinham descoberto numa rua sem saída, com uma touceira de lilases e uma pereira. Então, quando a voz brusca e áspera deixou de falar as frases vacilantes, ele repetiu, surpreso:
— Não sei por que lhe contei tudo isto.
Mas ele sabia. Quando perguntara, um tanto nervoso, se ela gostaria de almoçar no seu clube — "Acho que eles têm um Anexo para Senhoras — ou prefere ir a um restaurante?", e ela respondera que preferia o clube, e eles tinham levantado e começado a caminhar em direção a Pall Mall, soube no seu íntimo o que estava acontecendo, embora não o quisesse reconhecer.
Este fora seu adeus a Aline, ali em meio à beleza fria e extraterrena do parque no inverno.
Ele a deixaria ali, junto ao lago, onde os galhos nus das árvores mostravam seus rendilhados arabescos contra o céu.
Pela última vez ele a fez reviver na sua juventude, na sua força, na tristeza do seu destino. Foi um lamento, um canto fúnebre, um hino de louvor — talvez um pouco de cada um.
Mas foi também um funeral.
Deixou Aline ali no parque, e caminhou com Ann para as ruas de Londres.

Capítulo IV
— A SRA. PRENTICE ESTÁ? — perguntou Dame Laura Whitstable.
— Não, no momento não está. Mas acho que não deve demorar. Gostaria de entrar e esperar, madame? Sei que ela ia gostar de ver a senhora.
Edith afastou-se respeitosamente enquanto Dame Laura entrava, dizendo:
— Bem, vou esperar ao menos uns quinze minutos. Já faz algum tempo que não a vejo.
— Sim, senhora.
Edith conduziu-a até a sala e ajoelhou-se para acender o aquecedor elétrico. Dame Laura olhou em volta, e soltou uma exclamação:
— Vejo que mudaram os móveis de lugar. Aquela escrivaninha costumava ficar no canto. E o sofá está num lugar diferente.
— A Sra. Prentice achou que seria bom variar — disse Edith. — Um dia entrei aqui e dei com ela empurrando e arrastando coisas de um lado para o outro.
"Oh, Edith", ela me disse, "não acha que a sala fica muito melhor assim? Mais espaçosa?" Bem, eu não pude ver nenhuma melhora, mas naturalmente não
quis dizer isso. As senhoras têm seus caprichos. A única coisa que eu disse foi: "Agora, não vá fazer muito esforço, madame. Não há nada pior para as entranhas
do que ficar levantando peso; e depois que elas saem do lugar, não voltam assim tão fácil". Eu sei o que digo. Aconteceu com minha própria cunhada. Foi levantar uma dessas janelas de guilhotina e passou o resto da vida deitada no sofá.
— Provavelmente sem a menor necessidade — comentou Dame Laura com energia. — Felizmente acabamos com essa mania de achar que ficar deitado num sofá é o remédio para todas as doenças.
— Agora nem deixam mais a pessoa ter seu mês de descanso depois do parto — disse Edith com ar de censura. — Veja a minha pobre sobrinha, fizeram a coitadinha caminhar no quinto dia.
— Somos hoje uma raça muito mais saudável do que jamais fomos.
— Espero que seja verdade — disse Edith sombriamente. — Fui uma criança muito fraquinha. Nunca pensaram que eu fosse me criar. Tinha desmaios e convulsões horríveis. E no inverno ficava azul... o frio me atacava o coração.
Indiferente aos males passados de Edith, Dame Laura examinava as modificações feitas na sala.
— Acho que mudou para melhor — comentou. — A Sra. Prentice tem razão. Não sei por que não fez isso antes.
— Está fazendo ninho — disse Edith, significativamente.
— O quê?
— Fazendo ninho. Já vi passarinhos fazerem a mesma coisa, voando para lá e para cá com gravetos no bico.
— Oh!
As duas mulheres trocaram um olhar; e embora não se notasse nenhuma mudança de expressão, uma informação parecia ter sido transmitida.
Dame Laura perguntou em tom casual:
— O Coronel Grant tem aparecido muito ultimamente?
Edith sacudiu a cabeça.
— Pobre senhor — disse. — Se quer saber, acho que ele se congeu. Isso é quebrar a cara, em francês — acrescentou, à guisa de explicação.
— Oh, congé, entendo...
— Era um cavalheiro muito bom — disse Edith, falando nele no passado, com o jeito fúnebre de quem pronuncia um epitáfio. — Oh, bem...
Enquanto deixava a sala, falou:
— Vou lhe dizer quem não vai gostar de ver a sala diferente: a Srta. Sarah. Ela não gosta de mudanças.
Laura Whitstable ergueu as sobrancelhas hirsutas. Depois retirou um livro da estante e folheou desinteressadamente as páginas.
Logo escutou o ruído da chave na fechadura, e a porta do apartamento se abriu. Ouviu no pequeno vestíbulo duas vozes animadas e alegres: a de Ann e a de um homem.
A voz de Ann disse:
— Oh, a correspondência. Veio carta de Sarah.
Entrou na sala com a carta na mão e parou de chofre, momentaneamente confusa:
— Ora, Laura, que bom vê-la — voltou-se para o homem que entrara na sala atrás dela. — Sr. Cauldfield, Dame Laura Whitstable.
Dame Laura avaliou-o rapidamente.
Tipo convencional. Podia ser teimoso. Honesto. Bom coração. Nenhum senso de humor. Provavelmente sensível. Muito apaixonado por Ann.
Pôs-se a conversar com ele, naquele seu jeito expansivo.
Ann murmurou:
— Vou dizer a Edith que traga o chá — e deixou a sala.
— Para mim não, querida — Dame Laura gritou para ela. — Já são quase seis horas.
— Bem, Richard e eu queremos chá, fomos a um concerto. O que você vai tomar?
— Brandy e soda.
— Muito bem.
Dame Laura perguntou:
— Gosta de música, Sr. Cauldfield?
— Sim. Especialmente Beethoven.
— Todos os ingleses gostam de Beethoven. Sinto dizer que ele me dá sono, mas a verdade é que não sou muito musical.
— Aceita um cigarro, Dame Laura? — Cauldfield abriu sua cigarreira.
— Não, obrigada. Só fumo charutos. — Acrescentou, olhando-o astutamente: — Então é do tipo de homem que prefere tomar chá às seis horas, em vez de um coquetel ou sherry?
— Não, acho que não. Não sou grande apreciador de chá. Mas ele parece combinar com Ann — ele se interrompeu. — Isso parece absurdo!
— De modo algum. O senhor demonstra ser perspicaz. Não estou querendo dizer que Ann não beba coquetéis ou sherry, ela bebe, mas é essencialmente o tipo de mulher que fica melhor atrás de uma bandeja de chá; uma bandeja com um belo serviço de prata georgiana, e xícaras e pires da mais fina porcelana.
Richard estava encantado:
— A senhora tem toda a razão!
— Conheço Ann há muitos anos. Gosto muito dela.
— Eu sei, ela me falou muito na senhora. E, é claro, eu a conheço de outras fontes.
Dame Laura sorriu jovialmente:
— Oh, sim, sou uma das mulheres mais conhecidas da Inglaterra. Sempre participando de comitês, ou divulgando minhas idéias pelo rádio, ou geralmente decretando o que é melhor para a humanidade. Entretanto, de uma coisa eu sei: seja o que for que se consiga realizar na vida, é realmente muito pouco e outra pessoa poderia tê-lo feito facilmente.
— Ora, vamos — protestou Richard. — Não acha que é uma conclusão um tanto deprimente?
— Não deveria ser. A humildade deveria estar por trás de todo esforço.
— Acho que não concordo com a senhora.
— Não?
— Não. Penso que a primeira condição para que um homem (ou uma mulher, naturalmente) chegue a realizar qualquer coisa válida é acreditar em si mesmo.
— E por que deveria?
— Ora, Dame Laura, certamente...
— Sou antiquada. Eu preferiria que um homem conhecesse a si mesmo, e acreditasse em Deus.
— Conhecimento, fé, não são a mesma coisa?
— Perdoe-me, mas não são, absolutamente, a mesma coisa. Uma de minhas teorias favoritas (totalmente irrealizável, é claro, e isso é o que as teorias têm de agradável) é que todos deveriam passar um mês por ano no meio do deserto. Acampados junto a um poço, é claro, e com um suprimento bem grande
de tâmaras, ou seja lá o que for que se coma no deserto.
— Poderia ser bastante agradável — disse Richard, sorrindo. — Mas eu insistiria em levar alguns clássicos da literatura.
— Ah, mas aí é que está. Nenhum livro. Livros são uma droga que vicia. Com água e alimentos suficientes, e nada... absolutamente nada para fazer,
teria, afinal, uma boa oportunidade de se conhecer.
Richard sorriu, descrente:
— Não acha que quase todos se conhecem bastante bem?
— É claro que não! Hoje em dia, não temos tempo de reconhecer nada além das nossas características mais agradáveis.
— Sobre o que os dois estão discutindo? — perguntou Ann, entrando com um copo na mão. — Aqui está seu brandy com soda, Laura. Edith já vai trazer
o chá.
— Estou propondo minha teoria de meditação no deserto — respondeu Laura.
— É uma das idéias de Laura — disse Ann, rindo. — A gente fica sentado no deserto, sem fazer nada, e descobre que é realmente horrível.
— Mas será que todos têm que ser horríveis? — perguntou Richard secamente. — Sei que os psicólogos nos dizem isso; mas por que, afinal?
— Porque se só tivermos tempo para conhecer uma parte de nós mesmos, como acabei de dizer, escolheremos sempre a mais agradável — respondeu Dame Laura resolutamente.
— Está tudo muito bem, Laura — disse Ann, — mas depois de ficarmos sentados no deserto e descobrirmos como somos horríveis, de que nos adiantará isso? Seremos capazes de mudar?
— Acho bem pouco provável... mas pelo menos teremos uma indicação de como iremos reagir sob determinadas circunstâncias e (o que é ainda mais importante) por que o faremos.
— Mas será que não somos capazes de saber exatamente qual será nossa reação sob dadas circunstâncias? Quero dizer, basta a gente se imaginar nelas.
— Oh, Ann, Ann. Pense em qualquer homem que fica ensaiando o que vai dizer para o chefe, a namorada ou o vizinho. Tem tudo na ponta da língua, mas
quando chega o momento de falar, ou fica mudo ou acaba dizendo algo completamente diferente. As pessoas que intimamente estão certas de poder enfrentar qualquer emergência são exatamente aquelas que perdem completamente a cabeça, enquanto aqueles que têm medo de não estar à altura se surpreendem ao dominar totalmente uma situação.
— Sim, mas você não está sendo muito justa. O que está querendo dizer agora é que as pessoas ensaiam diálogos ou ações imaginárias, como gostariam
que acontecessem. Provavelmente sabem muito bem que nada vai ser como imaginam. Mas acho que fundamentalmente sempre sabemos qual vai ser nossa
reação e como... bem, como é nosso caráter.
— Ah, minha querida criança — Dame Laura ergueu as mãos, — então você acha que conhece Ann Prentice? Eu me pergunto se isso é verdade...
Edith entrou com o chá.
— Não creio que seja particularmente boa — disse Ann, sorrindo.
— Aqui está a carta da Srta. Sarah, madame. A senhora a deixou no quarto.
— Oh, obrigada Edith.
Ann colocou a carta, ainda fechada, ao lado do prato. Dame Laura lançou-lhe um rápido olhar.
Richard bebeu, um tanto apressado, sua taça de chá, e retirou-se.
— Ele está sendo delicado — disse Ann. — Acha que nós duas queremos conversar.
Dame Laura olhou atentamente a amiga. Estava bastante surpresa com a transformação que se operara em Ann. Suas feições tranqüilas tinham florescido numa espécie de beleza. Laura Whitstable já vira isso acontecer antes, e sabia o motivo. Aquele ar radiante e feliz só poderia significar uma coisa: Ann estava apaixonada. Como é injusto, pensou Dame Laura, que as mulheres quando amam fiquem com seu melhor aspecto, enquanto os homens apaixonados parecem ovelhas atacadas de melancolia.
— O que tem feito ultimamente, Ann? — perguntou.
— Oh, não sei. Andado por aí. Nada de especial.
— Richard Cauldfield é um amigo novo, não é?
— Sim. Eu o conheço há apenas dez dias. Encontrei-o no jantar de James Grant.
Contou alguma coisa sobre Richard para Dame Laura, e acabou perguntando ingenuamente:
— Você gosta dele, não gosta?
Laura, que ainda não havia decidido se gostava ou não de Richard Cauldfield, apressou-se em responder:
— Sim, muito.
— Eu acho, sabe, é que teve uma vida muito triste.
Dame Laura já ouvira muitas vezes essa afirmação. Reprimiu um sorriso e perguntou:
— Tem tido notícias de Sarah?
O rosto de Ann se iluminou.
— Oh, Sarah está se divertindo loucamente. A neve está ótima, e parece que ninguém quebrou nada.
Dame Laura observou secamente que Edith ficaria desapontada. Ambas riram.
— Esta carta é dela. Importa-se que eu abra?
— É claro que não.
Ann rasgou o envelope e leu a cartinha; riu afetuosamente e passou-a para Dame Laura.
"Querida mamãe (escrevera Sarah).
A neve tem estado perfeita. Todos dizem que esta foi a melhor temporada até hoje. Lou fez o teste, mas infelizmente foi reprovada. Roger tem treinado bastante comigo, o que é muita bondade dele, uma vez que é tal figurão no mundo do esqui. Jane diz que ele está interessado em mim, mas realmente não acredito. Acho que sente um prazer sádico em me olhar enquanto me emaranho toda e caio de cabeça nos montes de neve. Lady Cronsham está aqui com aquele sul-americano horrível. Eles são mesmo blatant. Estou meio apaixonada por um dos guias (incrivelmente lindo), mas infelizmente ele não me dá a mínima confiança, pois está acostumado a despertar essas paixonites. Ao menos aprendi a dançar valsa no gelo.
E você como está, querida? Espero que esteia saindo bastante com todos os seus namorados. Mas não vá longe demais com o velho coronel — ele tem às vezes um brilho estranho no olhar! Como vai o professor? Tem lhe contado alguns ritos matrimoniais bem grosseiros ultimamente? Até breve. Com amor, Sarah."
Dame Laura devolveu a carta.
— É, Sarah parece estar se divertindo. Suponho que o professor seja aquele seu amigo arqueólogo?
— Sim, Sarah sempre caçoa comigo por causa dele. Tinha intenção de convidá-lo para almoçar, mas tenho estado tão ocupada!
— Sim, parece ter estado mesmo...
Ann dobrava e desdobrava a carta de Sarah. Por fim, disse num meio suspiro:
— Ah, meu Deus...
— Por que o "Ah, meu Deus"?
— Ora, creio que é melhor eu lhe contar logo. De qualquer modo, provavelmente já adivinhou. Richard Cauldfield pediu que eu casasse com ele.
— Quando foi isso?
— Oh, só hoje.
— E você vai casar?
— Acho que sim... Por que estou dizendo isto? É claro que vou.
— Foi rápido, Ann.
— Você quer dizer que o conheço há pouco tempo. Ah, mas nós estamos bem certos.
— E você sabe muita coisa sobre ele, através do Coronel Grant. Estou contente por você, minha querida. Parece muito feliz.
— Suponho que vá achar uma bobagem, Laura, mas eu o amo muito.
— Por que pareceria bobagem? Sim, pode-se ver que gosta dele.
— E ele me ama.
— Isso também é evidente. Nunca vi um homem parecer tanto com um carneiro.
— Richard não parece um carneiro.
— Um homem apaixonado sempre se parece com um carneiro. Deve ser alguma lei da natureza.
— Mas você gosta dele, Laura? — insistiu Ann.
Desta vez, Laura Whitstable não respondeu tão depressa.
— Ele é um tipo de homem, muito simples, sabe Ann.
— Simples? Talvez. Mas isso não é bem agradável?
— Bem, pode ter as suas dificuldades. Ele é sensível, ultra-sensível.
— Você observou bem, Laura. Alguns não perceberiam.
— Eu não sou "alguns". — Hesitou antes de continuar. — Já contou a Sarah?
— Não, é claro que não. Já lhe disse. Aconteceu hoje.
— O que eu quis perguntar, realmente, foi se você falou nele nas suas cartas... se preparou o caminho.
— Não... não, não, para falar a verdade. — Fez uma pausa e continuou: — Terei que escrever e contar a ela.
— Sim.
Novamente Ann hesitou antes de falar:
— Não creio que ela se importe muito; e você?
— É difícil dizer.
— Ela é sempre tão carinhosa comigo. Ninguém imagina como Sarah pode ser carinhosa... quero dizer, sem falar coisa alguma. É claro... suponho... — Ann olhou para a amiga com ar de súplica. — Talvez ela vá achar engraçado.
— É bem possível. Você se importa?
— Oh, eu não me importo. Mas Richard vai se importar.
— Sim... sim. Bem, Richard vai ter que engolir, não vai? Mas eu certamente contaria tudo a Sarah antes que ela voltasse. Daria tempo para que ela se acostumasse com a idéia. A propósito, quando pensa casar?
— Richard quer que seja o mais cedo possível. E não há mesmo nenhuma razão para esperar, não acha?
— Realmente. Eu diria que quanto mais cedo vocês casassem, melhor.
— Foi uma sorte... Richard acaba de conseguir um emprego, com Hellner Bros. Conheceu um dos sócios interessados em Burma, durante a guerra. É uma
sorte, não é; mesmo?
— Minha querida, tudo parece muito bem. — Voltou a falar, suavemente: — Estou muito contente por você.
Levantando-se, Laura Whitstable aproximou-se de Ann e a beijou.
— Então... por que a testa franzida?
— É por causa de Sarah... esperando que ela não vá se importar.
— Minha querida Ann, qual vida você está vivendo... a sua ou a dela?
— A minha, é claro, mas...
— Se ela achar ruim, achou, ora! Acabará aceitando. Ela gosta muito de você, Ann.
— Oh, eu sei.
— Ê bastante incômodo ser amado. Quase todo mundo descobre isso mais cedo ou mais tarde. Quanto menos pessoas nos amarem, menos teremos que sofrer.
Que sorte a minha, que a maioria das pessoas me deteste, e o resto sinta por mim apenas uma alegre indiferença.
— Laura, isso não é verdade. Eu...
— Adeus, Ann. E não obrigue o seu Richard a dizer que gosta de mim. Na verdade ele me detestou, mas isso não tem a menor importância.
Naquela noite, durante um jantar oficial, o erudito sentado junto a Dame Laura ficou desapontado quando, ao terminar de expor uma inovação revolucionária no tratamento por eletrochoques, descobriu que ela o olhava totalmente distraída.
— Você não estava ouvindo — exclamou, em tom de censura.
— Sinto muito, David. Estava pensando numa mãe e numa filha.
— Ah, sim, um caso — disse ele, interessado. — Não, não um caso. Amigas.
— Uma dessas mães possessivas?
— Não — respondeu ela. — Neste caso, trata-se de uma filha possessiva.

Capítulo V
1
— BEM, MINHA QUERIDA ANN — disse Geoffrey Fane, — certamente lhe dou meus cumprimentos, ou seja lá o que for que se costuma dizer nessas ocasiões. Hum... Ele é um felizardo, se me permite dizê-lo. Sim, um homem de muita sorte. Eu não o conheço, não é mesmo? Não consigo recordar o nome.
— Não, eu o conheço há apenas algumas semanas.
O professor Fane espiou docemente por cima dos óculos, como era seu hábito.
— Meu Deus — disse em tom de reprovação. — Não é tudo um tanto repentino? Precipitado?
— Não, acho que não.
— Entre os Matawayala, existe um período de corte de pelo menos um ano e meio.
— Deve ser uma gente muito cautelosa. Pensei que os selvagens obedecessem a impulsos primitivos.
— Os Matawayala estão longe de ser selvagens — respondeu Geoffrey Fane em voz chocada. — Sua cultura é muito característica. Seus rituais de casamento são curiosamente complexos. Na véspera da cerimônia, os amigos da noiva... ha, hum... bem, talvez seja melhor não falar nisso. Mas é realmente muito interessante, e parece sugerir que nalguma época o ritual sagrado do casamento da sacerdotisa-mor... não, acho que não devo continuar. Vamos falar do presente de casamento. Qual o presente que gostaria de receber, Ann?
— Você não precisa me dar nenhum presente, Geoffrey.
— É geralmente alguma coisa de prata, não é mesmo? Parece que me lembro de ter comprado uma caneca de prata... ah, não, isso foi para um batizado. Colheres, talvez? Ou uma torradeira? Ah, já sei: um centro de mesa. Mas Ann, você sabe alguma coisa sobre esse sujeito? Quero dizer, ele tem quem o recomende... amigos comuns, essas coisas? Porque a gente sempre lê coisas tão extraordinárias!
— Ele não me apanhou no cais, nem eu fiz um seguro de vida em seu favor.
Geoffrey Fane espiou para ela ansiosamente, e ficou aliviado ao descobrir que ela estava rindo.
— Está bem. Está certo. Temi que tivesse ficado aborrecida comigo. Mas é preciso ter cuidado. E o que a menina acha de tudo isso?
O rosto de Ann anuviou-se por um momento.
— Escrevi para Sarah... ela está na Suíça, sabe... mas não tive resposta. É claro que mal dava tempo para ela responder, mas eu esperava... — interrompeu-se.
— É difícil lembrar de responder cartas. Acho cada vez mais difícil. Fui convidado a fazer uma série de conferências em Oslo, em março. Tive a intenção
de responder, mas esqueci completamente. Fui descobrir a carta ontem... metida no bolso de um casaco velho.
— Ora, ainda tem bastante tempo — disse Ann, querendo consolá-lo.
Geoffrey Fane voltou para ela os suaves olhos azuis, cheio de tristeza.
— Mas o convite era para março passado, querida Ann.
— Ah, céus! Mas Geoffrey, como é que uma carta pode ficar todo esse tempo no bolso de um casaco?
— Era o meu casaco mais velho. Uma das mangas estava quase solta, o que o deixava muito incômodo. Eu... hmm... o deixei de lado.
— Alguém devia mesmo tomar conta de você, Geoffrey.
— Prefiro que não cuidem de mim. Tive uma vez uma governanta muito eficiente, ótima cozinheira, mas uma dessas inveteradas maníacas por limpeza. Chegou a pôr fora minhas anotações sobre os fazedores de chuva de Bulyano. Uma perda irreparável. Sua desculpa foi alegar que elas estavam dentro do balde de carvão... mas, como eu disse a ela, "um balde de carvão não é uma cesta de papéis, Sra..." Sei lá como se chamava. Temo que as mulheres não tenham nenhum sentido de proporção. Dão uma importância absurda à limpeza, tarefa que realizam como se fosse um ato ritual.
— Algumas pessoas dizem que é mesmo, não dizem? Laura Whitstable (você a conhece, naturalmente) me deixou realmente horrorizada com o significado
sinistro que parecia atribuir às pessoas que lavam o pescoço duas vezes por dia. Aparentemente, quanto mais sujos formos, mais limpo será nosso coração!
— Re... almente? Bem, tenho que ir andando — suspirou. — Sentirei sua falta, Ann, mais do que poderia dizer.
— Mas você não vai me perder, Geoffrey. Não vou embora daqui. Richard trabalha em Londres. Tenho certeza de que vai gostar dele.
Geoffrey Fane voltou a suspirar.
— Não será a mesma coisa. Não, não, quando uma mulher bonita casa com outro homem... — apertou a mão dela. — Você significou muito para mim, Ann. Cheguei a ter a esperança... mas não, não, teria sido impossível. Um velho fóssil como eu. Não, você se aborreceria. Mas gosto muito de você, Ann, e desejo sinceramente que seja feliz. Sabe do que você sempre me fez lembrar? Daquelas frases de Homero.
Citou, com visível prazer, um longo trecho em grego.
— Aí está — concluiu, sorrindo.
— Muito obrigada, Geoffrey. Não sei o que significa...
— Quer dizer...
— Não, não me diga. Nunca seria tão belo quanto parece. Que bela língua é o grego! Adeus, querido Geoffrey, e obrigada. Não vá esquecer seu chapéu. Esse não é seu guarda-chuva, é a sombrinha de Sarah... e... espere um minuto: aqui está sua pasta.
Fechou a porta atrás dele.
Edith pôs a cabeça para fora da porta da cozinha.
— Desamparado como um bebê, não é mesmo? Mas não que seja gagá. Acho que até é bem inteligente, nos assuntos dele. Embora eu ache que essas tribos
indígenas de quem ele gosta tanto têm umas idéias bem sujas. Aquela figura de madeira que ele trouxe para a senhora eu guardei no fundo da rouparia; está
precisando de um sutiã e de uma folha de parreira. E, no entanto, o velho professor não é capaz de um mau pensamento. E nem é tão velho assim.
— Tem quarenta e cinco anos.
— É isso. Foi esse estudo todo que fez ele perder o cabelo daquele jeito. O meu sobrinho teve uma febre e perdeu todo o cabelo. Ficou careca como um
ovo. Mas cresceu de novo, depois de um tempo. Tem duas cartas aqui.
Ann apanhou-as.
— Correspondência devolvida? — Seu rosto mudou. — Oh, Edith, é a carta que escrevi a Sarah. Como sou idiota! Enderecei ao hotel e não escrevi o
nome do lugar. Não sei o que há comigo ultimamente.
— Eu sei — disse Edith, de maneira significativa.
— Faço as coisas mais estúpidas... Esta outra é de Dame Laura... oh, que amor... tenho que telefonar a ela.
Foi até a sala, e discou.
— Laura? Acabo de receber sua carta. É muita gentileza. Nada me agradaria mais do que um Picasso. Sempre quis ter um. Vou pendurá-lo sobre a escrivaninha. Você é muito boa para mim. Oh, Laura, tenho sido tão idiota! Escrevi a Sarah, contando tudo... e agora minha carta voltou. Só escrevi "Hôtel des Alpes, Suíça". Pode imaginar alguém ser tão pateta?
A voz profunda de Laura disse:
— Hmm, interessante.
— O que quer dizer com "interessante"?
— Só o que disse.
— Conheço esse tom de voz. Você está querendo dizer alguma coisa. Está insinuando que eu na verdade não queria que Sarah recebesse minha carta, ou
coisa parecida. É essa sua teoria irritante que todos os erros são cometidos deliberadamente.
— A teoria não é bem minha.
— Bem, de qualquer modo, não é verdade. Cá estou eu, com Sarah voltando para casa depois de amanhã, e tendo de contar-lhe pessoalmente, o que será muito mais embaraçoso. Simplesmente não saberei como começar.
— Sim, é o que merece por não querer que Sarah recebesse aquela carta.
— Mas eu queria que ela recebesse. Não seja tão irritante.
Ouviu-se um riso reprimido no outro lado da linha.
Ann disse, mal-humorada:
— De qualquer maneira, é uma teoria ridícula! Ora, Geoffrey Fane acaba de sair daqui. Ele recebeu um convite para fazer conferências em Oslo em março
do ano passado, e só agora o encontrou, perdido num bolso. Você com certeza diria que ele o extraviou de propósito?
— Ele queria fazer conferências em Oslo? — perguntou Dame Laura.
— Suponho... bem, não sei.
Dame Laura disse: "interessante", numa voz maliciosa, e desligou.
2
Richard Cauldfield comprou um ramo de narcisos na florista da esquina.
Estava de bom humor. Após as primeiras dificuldades, começava a se ajustar à rotina do novo emprego. Achava Merrick Hellner, seu chefe, bastante simpático; e a amizade, iniciada em Burma, permanecia estável na Inglaterra. O trabalho não era técnico. Era um serviço administrativo comum, no qual um conhecimento de Burma e do Oriente vinha a calhar. Richard não era um homem brilhante, mas era escrupuloso, trabalhador, e tinha bastante bom-senso.
Os primeiros reveses de sua volta à Inglaterra foram esquecidos. Era como se começasse uma vida nora, com tudo a seu favor. Trabalho adequado, um patrão amável e compreensivo, e a perspectiva próxima de casar com a mulher amada.
A cada dia, de novo se admirava de que Ann gostasse dele. Como ela era meiga, gentil e atraente! E no entanto às vezes, quando ele expressava firmemente suas idéias, de maneira um tanto dogmática, ao levantar os olhos dava com ela a olhá-lo com um sorriso malicioso. Poucas vezes haviam rido dele, e a princípio não estava certo de que isso o agradasse; mas afinal foi forçado a admitir que, vindo de Ann, poderia aceitar, e até mesmo gostar disso.
Quando Ann dizia: "Não estamos sendo arrogantes, querido?" ele a princípio franzia o cenho, depois acompanhava o riso, e dizia: "Acho que estava sendo um pouco prepotente".
E uma vez ele lhe disse:
— É muito boa para mim, Ann. Você me faz muito mais humano.
Ela retrucou rapidamente:
— Nós dois somos bons um para o outro.
— Não há muito que eu possa fazer, exceto protegê-la e cuidar de você.
— Não me proteja demais. Não encoraje minhas fraquezas.
— Suas fraquezas? Ora, você não tem nenhuma!
— Oh, tenho sim, Richard. Gosto que as pessoas fiquem contentes comigo. Não gosto de contrariar ninguém. Não gosto de brigas, nem de confusões.
— Graças a Deus! Eu detestaria ter uma mulher brigona, sempre discutindo. Já vi várias, eu lhe garanto. A coisa que mais admiro em você, Ann, é estar sempre tranqüila e de bom humor. Minha querida, como vamos ser felizes juntos!
— Sim, acho que vamos.
Pensou que Richard tinha mudado bastante desde a noite em que o conhecera. Não tinha mais aquele jeito agressivo de um homem na defensiva. Estava, como ele mesmo dissera, muito mais humano. Mais seguro de si, e portanto mais tolerante e amável.
Richard apanhou os narcisos e caminhou até o bloco de apartamentos. O de Ann era no terceiro andar. Subiu pelo elevador, após ser saudado amavelmente pelo porteiro, que a esta altura já o conhecia bem de vista.
Edith abriu-lhe a porta e ele ouviu, lá do fim do corredor, a voz de Ann chamando um tanto ansiosa:
— Edith! Edith, você viu minha bolsa? Deixei-a em algum lugar.
— Boa tarde, Edith — disse Cauldfield ao entrar.
Nunca se sentia muito à vontade com Edith, e tentava dissimular o fato com uma cordialidade exagerada que não parecia muito natural.
— Boa tarde, senhor — disse Edith respeitosamente.
— Edith! — a voz de Ann soava com insistência, vinda do quarto. — Não me ouviu? Venha!
Ela saiu para o corredor bem quando Edith disse:
— É o Sr. Cauldfield, madame.
— Richard? — Ann veio pelo corredor na direção dele, parecendo surpresa. Puxou-o para a sala, dizendo a Edith, por sobre o ombro:
— Você tem que achar aquela bolsa. Veja se a deixei no quarto de Sarah.
— Da próxima vez, perde a cabeça — falou Edith.
Richard franziu as sobrancelhas. A liberdade de expressão de Edith feria seu senso de decoro. Os criados não falavam assim quinze anos atrás.
— Richard, não o esperava hoje. Pensei que viria almoçar amanhã. — Ela parecia surpresa, e um tanto constrangida.
— Amanhã parecia muito longe — disse ele, sorrindo. — Trouxe-lhe isto.
Ao entregar-lhe os narcisos, enquanto ela dava demonstrações de alegria, ele subitamente notou que já havia uma profusão de flores na sala. Um vaso de jacintos estava na mesinha baixa, junto ao fogo, e havia jarros de tulipas e de narcisos.
— Parece muito festiva — observou.
— É claro. Sarah volta hoje para casa.
— Oh, sim... sim, é verdade. Sabe, eu havia esquecido.
— Oh, Richard.
Ela falou em tom de censura. Era verdade, ele esquecera. Sabia perfeitamente o dia da chegada dela, mas quando ele e Ann haviam ido juntos ao teatro na noite anterior, nenhum dos dois fizera referência ao fato. No entanto, tinham discutido o assunto, e concordado em que Sarah teria Ann só para si na noite em que voltasse, e que ele viria almoçar no dia seguinte, para conhecer a futura enteada.
— Sinto muito, Ann. Na verdade me fugiu da memória. Você parece muito animada — acrescentou, com um ligeiro tom reprovador.
— Bem, voltas ao lar são sempre um tanto especiais, não acha?
— Acho que sim.
— Estou saindo para encontrá-la na estação. — Olhou o relógio. — Oh, está bem. De qualquer modo, acho que o trem vai chegar atrasado. Ele geralmente
chega.
Edith entrou marchando na sala, carregando a bolsa de Ann.
— A rouparia... foi lá que deixou.
— É claro, quando estava procurando as fronhas. Pôs os lençóis verdes na cama dela? Não esqueceu?
— Ora, eu alguma vez esqueço?
— E lembrou dos cigarros?
— Sim.
— E Toby e Jumbo?
— Sim, sim, sim.
Balançando indulgentemente a cabeça, Edith saiu da sala.
— Edith! — Ann chamou-a de volta e estendeu-lhe os narcisos. — Ponha num vaso, sim?
— Vai ser difícil encontrar um. Não se preocupe, eu acho alguma coisa. — Apanhou as flores e saiu.
Richard falou:
— Você está alvoroçada como uma criança, Ann.
— Bem, é tão bom pensar em voltar a ver Sarah!
Ele perguntou em tom de troça, embora com uma leve dureza na voz:
— Há quanto tempo não a vê? Três semanas inteiras?
— Sei que provavelmente estou sendo ridícula — Ann sorriu candidamente — mas gosto muito de Sarah, mesmo. Você não gostaria que eu não a amasse,
gostaria?
— É claro que não. Estou ansioso por conhecê-la.
— Ela é tão impulsiva e afetuosa. Tenho certeza de que vocês vão se dar bem.
— Estou certo que sim — acrescentou, ainda sorrindo. — Ela é sua filha, portanto é certamente uma pessoa encantadora.
— Que gentil de sua parte dizer isso, Richard — pousou as mãos nos ombros dele, e levantou o rosto. — Querido Richard — murmurou ao beijá-lo. Então acrescentou: — Você... você será paciente, não, querido? Quer dizer... você vê, nós nos casarmos pode ser até certo ponto um choque para ela. Se ao menos eu não tivesse feito aquela tolice com a carta!
— Ora, vamos, acalme-se querida. Sabe que pode confiar em mim. Talvez Sarah custe a aceitar de início, mas devemos fazê-la ver que é realmente uma
idéia muito boa. Eu lhe asseguro que não me ofenderei com coisa alguma que ela disser.
— Oh, ela não dirá coisa alguma. Sarah é muito bem educada. Mas ela tem tanto horror a qualquer tipo de mudança!
— Bem, anime-se, querida. Afinal de contas, ela não pode impedir o casamento, pode?
Ann não respondeu à brincadeira. Ainda parecia preocupada.
— Se ao menos eu tivesse escrito logo...
Richard falou, rindo abertamente:
— Você está com o ar exato da menininha que foi apanhada roubando geléia! Vai dar tudo certo, querida. Sarah e eu logo seremos amigos.
Ann olhou-o com ar de dúvida. Não gostou da segurança da atitude dele; preferiria que estivesse um pouco mais nervoso.
Richard continuou:
— Querida, você precisa mesmo não deixar que as coisas a preocupem assim.
— Eu habitualmente não deixo — disse Ann.
— Deixa, sim. Cá está você tremendo, quando a coisa toda é perfeitamente simples e coerente.
— É só que estou... bem, acanhada. Não sei exatamente o que dizer, como explicar.
— Por que não dizer apenas "Sarah, este é Richard Cauldfield. Vou casar-me com ele daqui a três semanas".
— Assim tão cruamente? — Ann sorriu, a despeito de si mesma. Richard retribuiu o sorriso.
— Não é mesmo a melhor maneira?
— Talvez seja — ela hesitou. — O que você não percebe é que eu vou me sentir tão... tão terrivelmente boba.
— Boba? — ele a interrompeu vivamente.
— A gente se sente mesmo boba ao contar a uma filha crescida que vai casar.
— Não posso ver por quê.
— Suponho que é porque os jovens inconscientemente consideram que a gente tenha acabado esse tipo de coisa. Para eles, nós somos velhos. Eles acham
que o amor (apaixonar-se, quero dizer) é monopólio da juventude. Não podem deixar de achar ridículo que pessoas de meia-idade se apaixonem e se casem.
— Não há nada de ridículo nisso — disse Richard bruscamente.
— Não para nós, porque somos de meia-idade.
Richard franziu as sobrancelhas. Quando falou, foi com uma certa aspereza:
— Agora olhe aqui, Ann, sei que você e Sarah são muito devotadas uma à outra. Acho provável que a menina venha a se sentir um tanto magoada e enciumada. Eu entendo; é natural, e estou disposto a aceitar isso. Acho provável que ela me deteste, de início... mas vai acabar mudando de opinião. É preciso fazê-la entender que você tem direito a viver sua própria vida, a encontrar sua própria felicidade.
Um leve rubor subiu ao rosto de Ann.
— Sarah não vai se ressentir com o que você chama de "minha felicidade" — disse ela. — Sarah nada tem de egoísta ou mesquinha. É a criatura mais generosa do mundo.
— A verdade é que você está se enervando por nada, Ann. Sarah talvez fique até bem contente que você case. Isso a deixará mais livre para viver sua própria vida.
— Viver sua própria vida — Ann repetiu a frase com sarcasmo. — Francamente, Richard, você fala como um romance vitoriano.
— A verdade é que vocês, mães, nunca querem que o pássaro abandone o ninho.
— Você está muito enganado, Richard. Totalmente enganado.
— Não quero aborrecê-la, querida, mas às vezes até o amor da mais devotada das mães pode ser demasiado. Ora, lembro de quando eu era jovem. Gostava muito de meu pai e de minha mãe, mas morar com eles era muitas vezes exasperante. Sempre me perguntando aonde ia, e a que horas ia voltar. "Não esqueça sua chave"; "Tente não fazer barulho quando entrar"; "Esqueceu de apagar a luz do hall, da última vez"; "O quê? Sair de novo esta noite?"; "Não parece gostar nem um pouco de sua casa, depois de tudo que
fizemos por você". — Fez uma pausa. — Eu gostava da minha casa... mas, Meu Deus, como eu queria só me sentir livre!
— Entendo tudo isso, é claro.
— Então não deve se sentir ferida se no final Sarah desejar mais sua independência do que você pensa. Lembre-se de que há tantas carreiras abertas
às moças hoje em dia.
— Sarah não é do tipo de fazer carreira.
— Isso é o que você diz. Mas lembre-se de que a maioria das moças trabalha.
— Isso é em grande parte uma questão de necessidade econômica, não é?
— O que quer dizer com isso?
Ann falou com impaciência:
— Você está uns quinze anos atrasado, Richard. Houve uma época em que era moda "levar a própria vida" e "sair para o mundo". As moças ainda o fazem mas não há encanto algum nisso. Com as taxas e os impostos que recaem sobre as heranças, e todo o resto da história, uma moça faz bem em se preparar para alguma coisa. Sarah não tem nenhuma tendência em especial. Ela tem algum conhecimento de línguas modernas, e está fazendo um curso de decoração floral.
Uma amiga nossa dirige uma loja de decorações florais e conseguiu um lugar para Sarah lá. Acho que ela vai gostar bastante, mas é só um emprego e nada mais que isso. Não, é inútil falar tão solenemente nesse negócio todo de independência. Sarah adora a casa dela e é perfeitamente feliz aqui.
— Sinto muito se a contrariei, Ann, mas... — interrompeu-se quando Edith enfiou a cabeça para dentro da sala. Seu rosto tinha a expressão de alguém
que escutou mais do que pretende admitir.
— Não quero interrompê-la, madame, mas sabe que horas são?
Ann olhou o relógio.
— Ainda tenho muito... ora, está marcando exatamente a mesma hora que marcava da última vez que olhei. — Levou o relógio ao ouvido. — Richard,
ele parou. Que horas são realmente, Edith?
— Passam vinte minutos da hora.
— Meu Deus, não vou encontrá-la. Mas os trens estão sempre atrasados, não estão? Onde está minha bolsa? Oh, aqui. Há muitos táxis agora, graças a Deus.
Não, Richard, não venha comigo. Olhe, fique e tome chá conosco. Sim, fique. Sério. Acho que seria melhor. Acho mesmo. Tenho que ir.
Saiu correndo da sala. A porta da frente bateu. O balanço do casaco de pele tinha tirado duas tulipas do vaso. Edith parou para apanhá-las e voltou a arrumá-las cuidadosamente no vaso, dizendo enquanto o fazia:
— Tulipas são as flores favoritas da Srta. Sarah. Sempre foram, especialmente as lilases.
Richard disse, um pouco irritado:
— Tudo aqui parece girar em torno da Srta. Sarah.
Edith lançou-lhe um rápido olhar. Seu rosto permaneceu imperturbável — desaprovador como sempre. Falou, na sua voz insípida e fria:
— Ah, ela é insinuante, isso não se pode negar. Já notei muitas vezes como tem moças que deixam as coisas desarrumadas, esperam que tudo seja consertado para elas, fazem a gente gastar os pés de tanto arrumar a desordem que fazem... e ainda assim não há o que a gente não faça por elas! Tem outras que não incomodam nada, tudo arrumadinho, nada de trabalho demais... e, no entanto, veja só, a gente parece que não gosta delas do mesmo jeito. Diga o que
disser, é um mundo injusto. Só um político maluco pode falar em quinhões justos para todos. Uns têm um milhão, outros um tostão, e a coisa é assim mesmo.
Movia-se pela sala enquanto falava, pondo em ordem um ou dois objetos e afofando uma das almofadas.
Richard acendeu um cigarro, e perguntou amavelmente:
— Você está há muito tempo com a Sra. Prentice, não Edith?
— Mais de vinte anos. Vinte e dois, quero dizer. Vim para a mãe dela antes da Srta. Ann casar com o Sr. Prentice. Um cavalheiro muito bom, ele era.
Richard lançou-lhe um olhar penetrante. Seu ego ultra-sensível levou-o a imaginar que houvera uma ligeira ênfase no "ele".
Perguntou:
— A Sra. Prentice lhe contou que vamos nos casar em breve?
Edith sacudiu a cabeça.
— Não que precisasse contar — disse ela.
Richard, falando em tom solene porque estava acanhado, continuou, um tanto constrangido:
— Eu... eu espero que sejamos bons amigos, Edith.
Edith disse sombriamente:
— Eu também espero, senhor.
Richard continuou, ainda falando em tom formal:
— Temo que possa significar trabalho a mais para você, mas precisamos arranjar alguém que ajude...
— Não gosto dessas mulheres que vêm. Quando estou sozinha, sei onde estou. Sim, vai mudar muito ter um cavalheiro na casa. Para começar, as refeições são diferentes.
— Na verdade não sou de comer muito — Richard lhe assegurou.
— É o tipo de refeição — disse Edith. — Cavalheiros não aprovam bandejas.
— As mulheres as aprovam um pouco demais.
— Isso pode ser — admitiu Edith. Numa voz lúgubre, acrescentou: — Não nego que um cavalheiro em casa anima as coisas.
Richard sentiu-se quase enjoativamente agradecido.
— É muita bondade sua, Edith — disse com entusiasmo.
— Oh, pode confiar em mim, senhor. Eu não vou deixar a Sra. Prentice. Não deixo por nada deste mundo. E, afinal, nunca foi do meu feitio abandonar o
barco se há barulho a bordo.
— Barulho? O que quer dizer com barulho?
— Tempestade.
Richard repetiu o que ela dissera:
— Tempestade?
Edith encarou-o sem pestanejar.
— Ninguém me pediu conselho — disse ela. — E eu não sou do tipo que vai dando sem que peçam. Mas uma coisa eu digo: se a Srta. Sarah tivesse voltado para casa e a coisa toda estivesse feita e acabada... bem, teria sido melhor, se é que me entende.
A campainha da porta da frente tocou, e logo voltou a soar insistentemente.
— E eu sei muito bem quem é — disse Edith.
Saiu para o vestíbulo. Quando abriu a porta, ouviram-se duas vozes, uma feminina e outra masculina. Houve risos e exclamações.
— Edith, minha jóia! — Era uma voz de moça, uma voz cálida de contralto. — Onde está Mamãe? Vamos, Gerry, jogue esses esquis na cozinha.
— Não, na minha cozinha é que não!
— Onde está Mamãe? — repetiu Sarah Prentice, entrando na sala e falando por sobre o ombro.
Era uma moça alta e morena, e seu vigor e vitalidade exuberantes surpreenderam Richard Cauldfield. Ele vira fotografias de Sarah pelo apartamento, mas uma fotografia nunca pode retratar a vida. Ele tinha esperado uma edição mais jovem de Ann — uma edição mais dura, mais moderna, mas o mesmo tipo. Mas Sarah Prentice se parecia com o pai, alegre e encantadora. Era exótica e impaciente, e sua simples presença parecia transformar toda a atmosfera do apartamento.
— Oh, tulipas adoráveis — exclamou ela, curvando-se por sobre o vaso. — Elas têm aquele leve cheiro de limão que é absolutamente primavera. Eu...
Seus olhos se arregalaram enquanto ela endireitava o corpo e via Cauldfield. Ele se adiantou, dizendo:
— Meu nome é Richard Cauldfield.
Sarah apertou-lhe a mão delicadamente, perguntando de maneira educada:
— Está esperando por Mamãe?
— Receio que ela tenha recém-saído para esperá-la na estação... deixe-me ver... há cinco minutos.
— Que coisa mais idiota! Por que Edith não a fez sair em tempo? Edith!
— O relógio dela tinha parado.
— Os relógios de Mamãe... Gerry... Onde você anda, Gerry?
Um rapaz de rosto bonito e expressão um tanto descontente espiou para dentro por um momento, com uma mala em cada mão.
— Gerry, o robô humano — observou ele. — Onde quer tudo isto, Sarah? Por que vocês não têm porteiros nesses apartamentos?
— Nós temos. Mas eles nunca estão por perto se a gente chega com bagagem. Leve para o meu quarto, Gerry. Oh, este é o Sr. Lloyd. Senhor...
— Cauldfield — disse Richard.
Edith entrou. Sarah agarrou-a e deu-lhe um beijo estalado.
— Edith, é adorável ver sua carinha de gato rabugento.
— Gato rabugento uma ova — disse Edith, indignada. — E não vá me beijando, Srta. Sarah. Devia conhecer melhor o seu lugar.
— Não fique tão zangada, Edith. Você sabe que está encantada em me ver. Como tudo parece limpo! Está tudo igualzinho. Os estofados, e a caixa de conchas de Mamãe... oh, vocês mudaram o sofá de lugar. E a escrivaninha costumava ficar lá.
— Sua mãe diz que assim fica mais espaçoso.
— Não, eu quero como era antes. Gerry! Gerry, onde anda você?
Gerry Lloyd entrou, perguntando:
— O que é, agora?
Sarah já estava arrastando a escrivaninha. Richard fez menção de ajudá-la, mas Gerry disse animadamente :
— Não se incomode, senhor, eu faço. Onde você a quer, Sarah?
— Onde estava antes. Lá.
Quando tinham mudado a escrivaninha e empurrado o sofá para a antiga posição, Sarah suspirou e disse:
— Assim é melhor.
— Não estou tão certo disso — replicou Gerry, afastando-se para observar o efeito.
— Bem, eu estou — retrucou Sarah. — Gosto que tudo esteja igual. De outro modo, não é minha casa. Onde está a almofada de passarinhos, Edith?
— Foi para a lavanderia.
— Oh, bem, está certo. Tenho que ir ver meu quarto. — Parou na portada, para dizer: — Prepare uns drinques, Gerry. Dê um ao Sr. Coalfield. Você
sabe onde estão as coisas.
— Certo — Gerry olhou para Richard. — O que vai tomar? Martini, gim e laranja? Pink-gin?
Richard tomou uma súbita decisão.
— Não, muito obrigado. Nada para mim. Tenho de sair.
— Não vai esperar até a Sra. Prentice voltar? — Gerry tinha maneiras agradáveis e encantadoras. — Não penso que ela vá demorar. Assim que descobrir que o trem já chegou, vai voltar direto.
— Não, preciso ir. Diga à Sra. Prentice que o... compromisso... está de pé... para amanhã.
Cumprimentou Gerry com a cabeça e saiu para o vestíbulo. Podia ouvir pelo corredor a voz de Sarah, vinda do quarto, falando com Edith numa torrente de palavras.
Melhor não ficar agora, pensou. O plano original dele e de Ann fora o acertado. Ela poderia contar a Sarah esta noite, e amanhã ele viria almoçar e começar a fazer amizade com a futura enteada.
Estava perturbado porque Sarah não era como tinha imaginado. Ele pensara nela como superprotegida por Ann, como dependente dela. Sua beleza, sua vitalidade e segurança o haviam assustado.
Até aqui, ela fora uma mera abstração. Agora era realidade.

Capítulo VI
SARAH voltou à sala, fechando um robe de brocado.
— Eu tinha que tirar aquela roupa de esquiar. Quero mesmo um banho. Como os trens são sujos! Tem um drinque para mim, Gerry?
— Cá está.
Sarah apanhou o copo.
— Obrigada. Aquele homem já foi? Bom trabalho.
— Quem era ele?
— Nunca o vi na minha vida — disse Sarah. Riu: — Deve ser um desses que Mamãe pega na rua.
Edith entrou na sala para puxar as cortinas, e Sarah perguntou:
— Quem era ele, Edith?
— Um amigo de sua mãe, Srta. Sarah. — Edith deu um puxão nas cortinas e rumou para a segunda janela.
Sarah disse animadamente:
— Já era tempo de voltar para casa e escolher os amigos dela.
Edith disse "Ah", e puxou a segunda cortina. Então, olhando fixamente para Sarah, ela falou:
— Não gostou dele?
— Não, não gostei.
Edith resmungou alguma coisa e saiu da sala.
— O que foi que ela disse, Gerry?
— Acho que falou que era uma pena.
— Que engraçado.
— Parecia misteriosa.
— Ora, você sabe como ela é. Por que Mamãe não chega? Por que tem que ser tão confusa?

— Ela não costuma ser muito confusa. Eu, pelo menos, não diria isso.
— Foi delicadeza sua vir me receber, Gerry. Sinto nunca ter escrito, mas você sabe como é a vida. Como conseguiu sair do escritório a tempo de ir à Vitória?
Houve uma ligeira pausa, antes que Gerry dissesse:
— Oh, não foi particularmente difícil, face às circunstâncias.
Sarah sentou-se, muito atenta, e olhou para ele.
— Então, Gerry, conte logo. O que há de errado?
— Nada. Só que as coisas não saíram muito bem.
Sarah falou em tom acusador:
— Você disse que ia ser paciente e manter a calma.
Gerry franziu as sobrancelhas.
— Sei de tudo isso, querida, mas você não tem idéia do que tem sido. Bom Deus, voltar para casa depois de um lugar como a Coréia, onde tudo é infernal mas ao menos a maioria dos caras é decente, e se ver preso num escritório ganancioso da City. Você não imagina como é o Tio Luke. Gordo e ofegante, com olhinhos vivos como os de um porco. "Contente em vê-lo em casa, meu filho". — Gerry era um bom mímico. Ele arquejava a cada palavra, num jeito asmático e untuoso. — "Er... ah... espero que, agora que essa agitação acabou, você venha para o escritório e aa... aa... e se esforce mesmo de verdade. Nós estamos... aa... com falta de pessoal... acho que posso dizer que há... excelentes perspectivas se você levar mesmo a sério o trabalho. Naturalmente começará de baixo. Nada... aa... de favores, é o meu lema. Você já teve um longo período de folga... agora veremos se pode começar a trabalhar seriamente".
Levantou-se, e começou a caminhar.
— Folga, é assim que aquela coisa gorda chama o serviço ativo no exército. Por Deus, eu gostaria de vê-lo tocaiado por um daqueles comunistas amarelos. Esses ricaços ficam de traseiro sentado nos escritórios, sem pensar em nada a não ser dinheiro...
— Ora cale-se, Gerry — disse Sarah, impaciente. — Seu tio simplesmente não tem imaginação. Afinal, você mesmo disse que precisava ter um emprego e ganhar algum dinheiro. Não nego que seja tudo muito desagradável, mas qual é a alternativa? Na verdade você tem sorte em ter um tio rico na City. A maioria das pessoas daria os olhos para ter um!
— E por que ele é rico? — perguntou Gerry. — Porque está nadando no dinheiro que devia ter vindo para mim. Por que meu tio-avô Harry deixou para
ele, ao invés de deixar para meu pai, que era o irmão mais velho...
— Tudo isso não importa — disse Sarah. — De qualquer jeito, provavelmente quando o dinheiro chegasse às suas mãos já não restaria mais nada. Teria ido tudo no imposto de transmissão causa mortis.
— Mas foi injusto. Você admite isso?
— Tudo é sempre injusto — retorquiu Sarah. — Mas não adianta continuar se queixando. Para começar, isso deixa você extremamente maçante. A gente fica tão cansada de só ouvir falar na falta de sorte das pessoas.
— Devo dizer que você não está sendo muito compreensiva.
— Não. Sabe, no que eu acredito é em franqueza absoluta. Acho que devia ou tomar uma atitude e sair desse emprego, ou parar de se queixar dele e apenas
agradecer aos céus por ter um tio rico na City, com olhos de porco e asma. Olá, parece que Mamãe chegou finalmente.
Ann mal abrira a porta. Entrou correndo na sala.
— Sarah querida!
— Mamãe... finalmente — Sarah envolveu a mãe num grande abraço. — O que houve?
— É o meu relógio. Tinha parado.
— Bem, Gerry me encontrou, o que já foi alguma coisa.
— Oh, olá Gerry, não o tinha visto. — Ann saudou-o animadamente, embora no íntimo se sentisse irritada. Desejava tanto que essa história de Gerry acabasse!
— Deixe-me olhá-la, querida — disse Sarah. — Você está muito elegante. Esse chapéu é novo, não? Está com ótimo aspecto, Mamãe.
— Você também. E tão bronzeada!
— Sol na neve. Edith está terrivelmente desapontada por eu não ter chegado em casa envolta em ataduras. Você gostaria que eu tivesse quebrado alguns ossos, não é Edith?
Edith, que estava trazendo a bandeja do chá, não replicou diretamente:
— Trouxe três xícaras — disse ela, — embora pense que a Srta. Sarah e o Sr. Lloyd não vão querer, uma vez que estão tomando gim.
— Como você faz isso soar dissoluto, Edith — observou Sarah. — Em todo caso, nós oferecemos àquele fulano. Quem é ele, Mamãe? Um nome como Cauliflower.
Edith disse a Ann:
— O Sr. Cauldfield disse que não podia esperar, madame. Vai vir amanhã, como tinha ficado combinado.
— Quem é Cauldfield, Mamãe, e por que ele tem que vir amanhã? Tenho certeza de que não o queremos.
Ann disse rapidamente:
— Você toma mais um, não Gerry?
— Não, obrigado, Sra. Prentice. Preciso mesmo ir agora. Adeus, Sarah.
Sarah foi com ele até o vestíbulo. O rapaz perguntou :
— Que tal um cinema esta noite? Há um bom filme francês no Academy.
— Oh, que bom. Não... talvez seja melhor não ir. Afinal, é minha primeira noite em casa. Penso que devia passá-la com Mamãe. A pobrezinha pode ficar desapontada se eu sair logo.
— Eu acho, Sarah, que você é uma filha incrivelmente boa.
— Bem, Mamãe é mesmo muito querida.
— Oh, sei que é.
— Faz um monte incrível de perguntas, é claro. Você sabe, quem a gente encontrou e o que fez. Mas de um modo geral, para uma mãe ela é bastante sensata. Vamos fazer uma coisa, Gerry, se eu achar que não tem problema telefono mais tarde.
Sarah voltou à sala e começou a mordiscar bolinhos.
— Esses são a especialidade de Edith — observou. — Loucamente engordantes. Não sei onde ela consegue arranjar os ingredientes. Agora, Mamãe, conte-me tudo o que tem feito. Tem saído com o Coronel Grant e o resto dos amigos, e se divertido bastante?
— Não... só que... sim, de um certo modo...
Ann parou. Sarah encarou-a.
— Aconteceu alguma coisa, Mamãe?
— Acontecer? Não. Por quê?
— Você está tão estranha!
— Eu?
— Mamãe, alguma coisa há. Você realmente parece muito esquisita. Vamos, conte. Nunca vi uma expressão tão culpada. Vamos, Mamãe, o que andou fazendo?
— Nada... nada de mais. Oh, Sarah, querida. Precisa crer que não fará nenhuma diferença. Tudo será o mesmo, só que... — A voz de Ann vacilou e
morreu. "Como sou covarde", pensou consigo. "Por que uma filha deixa a gente tão acanhada, ao falar nessas coisas?"
Enquanto isso Sarah continuava a encará-la. Subitamente começou a sorrir da maneira mais amável possível.
— Eu acho... Vamos, Mamãe, confesse. Está tentando me contar, com jeito, que vou ter um padrasto?
— Oh, Sarah — Ann deu um suspiro de alívio.
— Como adivinhou?
— Não foi tão difícil assim. Nunca vi alguém tremer de maneira tão horrível. Pensou que eu fosse me importar?
— Acho que pensei. E não se importa? Mesmo?
— Não — respondeu Sarah em tom sério. — Acho até que está certa. Afinal, Papai morreu há dezesseis anos. Você deve ter alguma vida sexual antes que seja tarde demais. Está exatamente no que chamam de idade perigosa. E é antiquada demais para apenas ter um caso.
Ann olhou um tanto desamparada para a filha. Pensou em como tudo estava acontecendo de modo diferente do que pensara.
— Sim — disse Sarah, balançando a cabeça. — Com você tem que ser casamento.
Ann pensou: "Esse querido bebê absurdo", mas teve cuidado em não dizer coisa alguma desse tipo.
— Você ainda é bem bonita — continuou Sarah, com a devastadora franqueza da juventude. — É por que tem pele boa. Mas ficaria muito mais bonita se depilasse as sobrancelhas.
— Gosto das minhas sobrancelhas — disse Ann, obstinadamente.
— Você é mesmo tremendamente atraente, querida — disse Sarah. — Fico mesmo surpresa por não ter escapado antes. Quem é, por falar nisso? Tenho três palpites: um, o Coronel Grant, dois o Professor Fane, três aquele polonês melancólico de nome impronunciável. Mas estou quase certa de que é o Coronel Grant. Ele anda atrás de você há anos.
Ann disse quase sem fôlego:
— Não é James Grant. É... é Richard Cauldfield.
— Quem é Richard Cauld... Mamãe, aquele homem que estava aqui ainda agora?
Ann assentiu com a cabeça.
— Mas não pode, Mamãe. Ele é todo arrogante e horrível.
— Não é nem um pouco horrível — disse Ann, asperamente.
— Francamente, Mamãe, você podia conseguir coisa melhor.
— Sarah, não sabe do que está falando. Eu... eu gosto muito dele.
— Quer dizer que o ama? — Sarah estava francamente incrédula. — Quer dizer que está realmente apaixonada por ele?
Ann voltou a sacudir a cabeça.
— Sabe — disse Sarah, — eu não consigo mesmo entender tudo isso.
Ann endireitou os ombros.
— Você viu Richard apenas por um ou dois momentos — disse ela. — Quando o conhecer melhor, estou certa de que gostará muito dele.
— Parece tão agressivo!
— É porque estava acanhado.
— Bem — disse Sarah lentamente. — O enterro é seu, é claro.
Mãe e filha permaneceram silenciosas por alguns momentos. Estavam ambas constrangidas.
— Sabe, Mamãe — falou Sarah, rompendo o silêncio. — Precisa mesmo de alguém para cuidar de você. Só porque me afasto por algumas semanas, faz uma bobagem.
— Sarah! — Ann encolerizou-se. — Você está sendo muito cruel.
— Sinto muito, querida, mas acredito em franqueza total.
— Bem, acho que eu não.
— Há quanto tempo isso vem acontecendo? — perguntou Sarah.
A despeito de si mesma, Ann deu uma risada.
— Francamente, Sarah, você parece um pai tirano nalgum drama vitoriano. Conheci Richard há três semanas.
— Onde?
— Com James Grant. James o conhece há anos. Ele voltou recentemente de Burma.
— Ele tem dinheiro?
Ann estava tão irritada quanto comovida. Como aquela criança era ridícula! Tão resoluta nas suas perguntas. Controlando a irritação, disse numa voz seca e irônica:
— Tem uma renda independente e é perfeitamente capaz de me sustentar. Trabalha na Hellner Brothers, uma grande firma da City. Francamente, Sarah,
qualquer um pensaria que eu sou sua filha, e não sua mãe.
Sarah disse seriamente:
— Bem, alguém tem que tomar conta de você, querida. É positivamente incapaz de cuidar de si mesma. Gosto muito de você, e não quero que faça uma
bobagem. Ele é solteiro, divorciado ou viúvo?
— Perdeu a mulher há muitos anos. Ela morreu ao ter o primeiro filho, e o bebê morreu também.
Sarah suspirou e balançou a cabeça.
— Estou entendendo tudo agora. Foi assim que ele conseguiu prendê-la. Você sempre teve um fraco por essas histórias sentimentalóides.
— Deixe de ser absurda, Sarah!
— Ele tem mãe e irmãs... todo esse tipo de coisas?
— Acho que não tem parentes próximos.
— Isso é uma bênção, pelo menos. Ele tem casa? Onde vocês vão morar?
— Aqui, acho eu. Há montes de lugar, e ele trabalha em Londres. Você não se importa, não é Sarah?
— Oh, eu não me importo. Estou pensando apenas em você.
— Querida, isso é muito gentil de sua parte, mas eu realmente sei melhor da minha vida. Estou certa de que Richard e eu seremos felizes juntos.
— Quando estão pensando em casar?
— Dentro de três semanas.
— Três semanas? Oh, não pode casar com ele tão cedo!
— Não parece haver razão para esperar.
— Oh, por favor, querida. Adie um pouco. Dê-me algum tempo para... para me acostumar à idéia. Por favor, Mamãe.
— Não sei... vamos ver...
— Seis semanas. Deixe para seis semanas.
— Nada foi decidido ainda, na verdade. Richard vem almoçar amanhã. Você... Sarah... você será boazinha com ele, não?
— Claro que serei boazinha. O que está pensando?
— Obrigada, querida.
— Anime-se, Mamãe, não há razão para se preocupar.
— Estou certa de que vão gostar muito um do outro — disse Ann, um tanto sem convicção.
Sarah ficou em silêncio.
Ann falou novamente num repente de raiva:
— Pode ao menos tentar...
— Já lhe disse que não precisa se preocupar — acrescentou Sarah, depois de alguns momentos. — Prefere que eu fique em casa hoje à noite?
— Por quê? Está com vontade de sair?
— Pensei que talvez saísse... mas não quero deixá-la sozinha, Mamãe.
Ann sorriu para a filha, e o antigo relacionamento se restabeleceu.
— Oh, não ficarei sozinha. Para falar a verdade, Laura convidou-me para uma conferência.
— Como está a velha guerreira? Incansável como sempre?
— Oh, sim, como sempre. Eu disse não à conferência, mas posso facilmente telefonar a ela.
Podia, com a mesma facilidade, telefonar a Richard... Mas recuou. Seria melhor conservar-se longe de Richard até que ele e Sarah se tivessem encontrado, no dia seguinte.
— Então muito bem — disse Sarah. — Vou telefonar a Gerry.
— Ah, é com Gerry que vai sair?
Sarah falou, num desafio:
— Sim. Por que não?
Mas Ann não aceitou a provocação. Disse suavemente :
— Estava só pensando...

Capítulo VII
1
— GERRY?
— Sim, Sarah?
— Não quero ver esse filme. Podemos ir conversar em algum lugar?
— Claro. Vamos comer alguma coisa?
— Oh, eu não poderia. Edith simplesmente me empanturrou.
— Bem, então vamos beber alguma coisa num lugar qualquer. — Olhou-a de relance, pensando no que a teria aborrecido.
Sarah só falou depois que estavam acomodados, diante dos copos. Então irrompeu abruptamente:
— Gerry, Mamãe vai casar de novo.
— Opa! — Gerry estava verdadeiramente surpreso. Perguntou: — Você não suspeitava?
— Como poderia? Ela só o conheceu depois que viajei.
— Trabalho rápido.
— Rápido demais. Para algumas coisas Mamãe simplesmente não tem juízo.
— Quem é ele?
— Aquele homem que estava lá esta tarde. O nome dele é Cauliflower, ou coisa parecida.
— Ah, aquele homem.
— Sim. Não concorda que ele é um tanto impossível?
— Bem, não prestei muita atenção nele — disse Gerry, refletindo. — Parecia um sujeito bastante comum.

— Ele é absolutamente a pessoa errada para Mamãe.
— Acho que ela é quem pode julgar isso melhor — falou Gerry, em tom conciliador.
— Não, não pode. O problema de Mamãe é que ela é fraca. Fica com pena das pessoas. Mamãe precisa de alguém que cuide dela.
— Ela aparentemente pensa o mesmo — disse Gerry com um sorriso.
— Não ria, Gerry; isto é sério. Cauliflower é o tipo errado para Mamãe.
— Bem, isso é assunto dela.
— Eu tenho que cuidar dela. Sempre senti isso. Conheço mais a vida, e sou duas vezes mais resistente.
Gerry não discutiu a afirmação. De um modo geral, concordava. Ainda assim, estava preocupado. Disse lentamente:
— De qualquer modo, Sarah, se ela quer casar novamente...
Sarah não o deixou terminar:
— Ah, eu concordo com isso. Mamãe deve casar de novo. Eu disse isso a ela. Ela está precisando de mais de uma vida sexual normal. Mas definitivamente
não com o Cauliflower.
— Você não acha... — Gerry parou, em dúvida.
— Não acha o quê?
— Que talvez possa... bem, sentir o mesmo por alguém? — Estava um pouco nervoso, mas deixou escapar as palavras. — Afinal, não pode realmente saber
se Cauliflower não serve para ela. Você não trocou duas palavras com ele. Não acha que talvez na verdade esteja — precisou de coragem para dizer a última palavra, mas conseguiu — aaa... com ciúmes?
Sarah imediatamente saltou:
— Com ciúmes? Eu? Quer dizer, essa história de padrasto? Gerry querido! Não lhe disse há muito tempo... antes de ir para a Suíça... que Mamãe precisava
voltar a casar?
— Sim. Mas há uma diferença — disse Gerry num lampejo de percepção — entre só dizer as coisas e vê-las acontecer de verdade.
— Não sou ciumenta — disse Sarah. — Só estou pensando na felicidade de Mamãe — acrescentou virtuosamente.
— Se eu fosse você, não andaria brincando com a vida dos outros.
— Mas é minha própria Mãe.
— Bem, ela provavelmente sabe melhor da sua vida.
— Estou lhe dizendo que Mamãe é fraca.
— De qualquer modo — disse Gerry — não há nada que você possa fazer.
Pensou que Sarah estava fazendo muito barulho por nada. Estava cansado de Ann e seus problemas, e queria falar de si mesmo.
Disse abruptamente:
— Estou pensando em dar o fora.
— Dar o fora do escritório do seu tio? Ah, Gerry...
— Não posso mesmo agüentar mais. Fazem um barulho dos diabos cada vez que me atraso quinze minutos.
— Bem, a gente tem de ser pontual em escritórios, não?
— Bando miserável de indolentes. Sempre às voltas com aqueles livros de contabilidade, pensando só em dinheiro, da manhã à noite.
— Mas Gerry, se mandar o emprego às favas, o que irá fazer?
— Ora, encontrarei alguma coisa — disse Gerry serenamente.
— Você já tentou muitas coisas — falou Sarah em tom de dúvida.
— Está querendo dizer que sempre me põem na rua? Bem, não vou esperar que me despeçam desta vez.
— Mas Gerry, francamente, acha que está sendo inteligente? — Sarah olhou para ele com uma solicitude preocupada, quase maternal. — Quer dizer, ele é seu tio, e quase o único parente que tem, e você disse que ele estava nadando em dinheiro.
— E se eu me portasse bem ele poderia me deixar todo seu dinheiro? Suponho que é o que quer dizer.
— Bem, você já se queixa o suficiente daquele tio-avô — como é o nome dele? — por não ter deixado o dinheiro para seu pai.
— Se ele tivesse tido qualquer sentimento familiar decente, eu não precisaria me humilhar para esses magnatas da City. Acho que todo este país está podre até a medula. Pretendo ir embora definitivamente.
— Ir para algum outro lugar, no estrangeiro?
— Sim. Ir para algum lugar onde se tenha perspectivas.
Ficaram ambos em silêncio, imaginando uma vida nebulosa que tivesse perspectiva.
Sarah, que sempre teve os pés mais firmes na terra do que Gerry, disse sutilmente:
— Pode fazer alguma coisa que valha a pena sem capital? Você não tem capital nenhum, tem?
— Sabe que não tenho. Ora, imagino que haja muitas coisas que se possa fazer.
— Bem, o que pode fazer... realmente?
— Precisa ser tão abominavelmente desanimadora, Sarah?
— Desculpe. O que quero dizer é que você não tem preparo específico de espécie alguma.
— Tenho jeito para dirigir homens, e viver ao ar livre. Não encerrado num escritório.
— Oh, Gerry — disse Sarah; e suspirou.
— O que há?
— Não sei. A vida parece mesmo difícil. Todas essas guerras transtornaram tanto as coisas.
Ficaram ambos olhando o nada, com ar sombrio.
Dentro em pouco Gerry, magnanimamente, disse que daria outra oportunidade ao tio. Sarah aplaudiu essa decisão.
— É melhor eu ir para casa agora — falou ela. — Mamãe já deve ter voltado da conferência.
— Sobre o que era?
— Não sei. "Para onde vamos, e por quê?", esse tipo de coisa. — Levantou. — Obrigada, Gerry. Você ajudou muito.
— Tente não ser parcial, Sarah. Se sua mãe gosta desse sujeito e vai ser feliz com ele, é isso que interessa.
— Se Mamãe vai ser feliz com ele, então está tudo bem.
— Afinal, você mesma vai acabar casando... eu acho... um desses dias... — Disse isso sem olhar para ela. Sarah ficou absorta, encarando a bolsa.
— Algum dia, com certeza — ela murmurou. — Não estou particularmente ansiosa...
Pairou no ar, entre eles, um agradável constrangimento.
2
No dia seguinte, durante o almoço, Ann sentiu-se aliviada. Sarah estava se portando muito bem. Recebeu Richard com amabilidade e conversou educadamente com ele durante a refeição. Ann sentiu-se orgulhosa da filha, jovem, com seu rosto vivo e suas boas maneiras. Devia ter sabido que podia contar com Sarah — ela nunca a desapontaria.
O que ela gostaria é que Richard pudesse mostrar-se sob um ângulo mais favorável. Percebeu que ele estava nervoso. Ansiava por causar boa impressão e, como seguidamente acontece, sua própria ansiedade trabalhava contra ele. Estava sendo pedante, quase pretensioso. Ansioso por parecer à vontade, dava a impressão de dominar a reunião. A própria deferência que Sarah lhe demonstrava agravava essa impressão. Era positivo demais nas suas afirmações e parecia indicar que seria impossível outra opinião que não a sua. Isso afligia Ann, que conhecia até muito bem o quanto ele era retraído.
Mas como Sarah poderia perceber? Ela estava vendo o lado pior de Richard, e era tão importante que visse o melhor! Isso deixou a própria Ann nervosa e pouco à vontade, o que, ela logo viu, aborrecia Richard.
Depois que a refeição terminou e foi trazido o café, ela os deixou, com a desculpa de que precisava passar um telefonema. Havia uma extensão em seu quarto. Esperava que, deixados juntos, Richard pudesse sentir-se mais à vontade e mostrar mais de sua verdadeira personalidade. Era ela realmente a causa da irritação. Uma vez que se retirasse, podia ser que as coisas se acomodassem.
Depois que Sarah serviu café a Richard, ela comentou educadamente alguns lugares-comuns, e a conversa então esgotou-se.
Richard tomou coragem. Ele julgava que a franqueza era seu melhor trunfo. De um modo geral, Sarah lhe causara uma impressão favorável. Ela não mostrara hostilidade. A grande coisa seria mostrar como entendia a posição dela. Antes de vir, ensaiara o que pretendia dizer. Como a maioria das coisas ensaiadas com antecedência, soaram insípidas e artificiais. Para se pôr à vontade adotou uma cordialidade presunçosa que era totalmente diferente da sua verdadeira e dolorosa timidez.
— Olhe aqui, jovem, há uma ou duas coisas que gostaria de lhe dizer.
— Ah, é? — Sarah voltou para ele um rosto atraente, mas de momento bastante inexpressivo. Esperou educadamente, e Richard ficou ainda mais nervoso.
— Só quero dizer que entendo muito bem seus sentimentos. Tudo isto deve ter sido um choque para você. Você e sua mãe sempre foram muito unidas. É perfeitamente natural que se ressinta por outra pessoa entrar na vida dela. Não pode deixar de estar um pouco magoada e ciumenta por isso.
Sarah disse rapidamente, em tom amável e formal:
— De maneira alguma, posso lhe assegurar.
Incauto, Richard não deu atenção ao que era, na verdade, um aviso. Continuou, às cegas:
— Como eu digo, é tudo muito normal. Não vou apressá-la. Seja tão fria comigo quanto quiser. Quando decidir que está pronta a ser minha amiga, estarei pronto a fazer minha parte. Tem que pensar é na felicidade de sua mãe.
— Eu penso nisso — disse Sarah.
— Até aqui, ela tem feito tudo por você. Agora é a vez dela ser levada em consideração. Estou certo de que quer vê-la feliz. E tem que lembrar disto; você tem sua própria vida a levar... está toda à sua frente. Tem seus próprios amigos e suas próprias esperanças e ambições. Se casasse, ou arranjasse algum em
prego, sua mãe seria deixada completamente só. Isso significaria para ela grande solidão. É este o momento em que precisa pô-la em primeiro lugar, e deixar a
si mesma por último. — Fez uma pausa. Pensou ter-se expressado bastante bem.
A voz de Sarah, educada mas com uma subcorrente quase imperceptível de impertinência, interrompeu sua satisfação:
— Faz discursos em público seguidamente?
Surpreso, ele perguntou:
— Por quê?
— Acho que deve ser muito bom nisso — murmurou Sarah.
Ela estava agora recostada na poltrona, admirando as unhas. O fato destas serem vermelho carmesim, uma moda que ele desgostava intensamente, aumentou a irritação de Richard. Ele reconhecia agora que estava encontrando hostilidade.
Com um esforço, conservou a calma. Como resultado, falou num tom quase condescendente:
— Talvez eu estivesse lhe passando um pequeno sermão, minha filha. Mas queria chamar sua atenção para algumas coisas que poderia não ter considerado. E posso assegurá-la de uma coisa: sua mãe não vai gostar menos de você porque gosta de mim, sabe?
— É mesmo? Que bondade sua, me dizer isso.
Agora não havia dúvida quanto à hostilidade.
Se Richard tivesse abandonado suas defesas, se tivesse dito simplesmente — "Estou fazendo uma terrível confusão disso tudo, Sarah. Estou acanhado e infeliz, e isso me faz dizer todas as coisas erradas, mas gosto demais de Ann e quero que, se possível, você goste de mim" — isso talvez tivesse enfraquecido as resistências de Sarah, uma vez que ela era, no fundo, uma criatura generosa.
Mas, ao invés disso, sua voz endureceu:
— Os jovens — disse ele — tendem a ser egoístas. Não costumam pensar em ninguém além de si mesmos. Mas você tem que pensar na felicidade de sua mãe. Ela tem direito a uma vida própria, e direito a agarrar a felicidade quando a encontrar. Ela precisa de alguém que cuide dela e a proteja.
Sarah levantou os olhos e encarou-o de frente. A expressão do seu olhar o deixou intrigado. Era duro, e tinha um quê de calculista.
— Não poderia estar mais de acordo — disse ela, inesperadamente.
Ann voltou para a sala um tanto nervosa. Perguntou:
— Sobrou algum café?
Sarah serviu uma xícara, cuidadosamente. Levantou-se e passou a xícara à mãe.
— Aqui está, Mamãe — disse ela. — Voltou no momento exato. Tivemos nossa conversinha. — Saiu da sala.
Ann lançou a Richard um olhar indagador. Ele tinha o rosto um pouco vermelho.
— Sua filha já decidiu não gostar de mim.
— Seja paciente com ela, Richard, por favor. Seja paciente.
— Não se preocupe, Ann, estou perfeitamente preparado para ser paciente.
— Você vê, para ela foi um choque.
— Realmente.
— Sarah é na verdade muito amorosa. É uma criança tão querida!
Richard não replicou. Considerava Sarah uma jovem odiosa, mas era impossível dizer isso a sua mãe.
— Tudo vai dar certo — disse, tranqüilizadoramente.
— Estou certa de que sim. É uma questão de tempo.
Estavam ambos infelizes, e não sabiam bem o que dizer depois.
3
Sarah tinha ido para o quarto. Com olhos cegos, tirou roupas do armário e espalhou-as pela cama.
Edith entrou.
— O que está fazendo, Srta. Sarah?
— Oh, dando uma olhada nas minhas coisas. Talvez precisem ser lavadas, ou consertadas, ou qualquer coisa.
— Já providenciei tudo isso. Não precisa se incomodar.
Sarah não respondeu. Edith olhou-a de relance, e viu os olhos dela se encherem de lágrimas.
— Ora, ora, vamos, não fique assim.
— Ele é detestável, Edith, positivamente detestável. Como é que Mamãe pôde? Oh, está tudo arruinado, estragado... nada vai ser como antes.
— Ora, ora, Srta. Sarah. Não adianta ficar nervosa. Quanto menos se fala, mais depressa se conserta. O que não tem remédio remediado está.
Sarah riu freneticamente.
— "Um passo dado a tempo vale por nove", e "Pedras que rolam não juntam musgo". Vá embora, Edith. Por favor, vá!
Edith balançou compassivamente a cabeça e saiu, fechando a porta.
Sarah chorou arrebatadamente, como uma criança. Estava dilacerada pela dor. Como uma criança, ela via escuridão em toda parte, uma escuridão que nada poderia aliviar.
Soluçava baixinho:
— Oh, Mamãe, Mamãe, Mamãe...

Capítulo VIII
1
— OH, LAURA, que prazer vê-la!
Laura Whitstable sentou-se numa cadeira de espaldar alto. Ela nunca se recostava indolentemente.
— Bem, Ann, como vão as coisas?
Ann suspirou.
— Temo que Sarah esteja sendo um tanto difícil.
— Bem, isso era de se esperar, não?
Laura Whitstable falou com animada despreocupação. Mas olhava para Ann com certa ansiedade.
— Não está com boa aparência, minha cara.
— Eu sei. Não tenho dormido bem, e sinto dor de cabeça.
— Não leve as coisas tão a sério.
— É fácil dizer isso, Laura. Você não tem idéia de como as coisas estão. — Ann falava com impaciência. — Assim que Sarah e Richard são deixados juntos
por um momento, eles discutem.
— Sarah está com ciúmes, é claro.
— Acho que sim.
— Bem, como eu disse, já era de se esperar. Sarah ainda é muito infantil. Todas as crianças se ressentem quando as mães dão tempo e atenção a outra pessoa. Certamente você estava preparada para isso, Ann?
— Sim, de uma certa maneira. Embora Sarah sempre parecesse tão independente e adulta. Ainda assim, como você diz, eu estava preparada. O que eu não podia esperar é que Richard tivesse ciúmes de Sarah.
— Esperava que Sarah agisse como uma tola, mas pensou que Richard tivesse mais juízo?

— Sim.
— Ele é um homem fundamentalmente inseguro. Um homem com mais segurança limitar-se-ia a rir e mandar Sarah para o inferno.
Ann esfregou a testa num gesto exasperado.
— Realmente, Laura, não tem idéia de como estão as coisas! Eles se desentendem pelos motivos mais bobos, e então me olham para ver de que lado vou ficar.
— Muito interessante.
— Muito interessante para você... mas para mim não tem graça nenhuma.
— De que lado você fica?
— De nenhum, quando posso. Mas às vezes...
— Sim, Ann?
Ann ficou um momento em silêncio, e então falou:
— Entende, Laura, Sarah é mais esperta do que Richard em tudo.
— Como assim?
— Bem, os modos de Sarah são sempre corretos... exteriormente. Educada, entende, e tudo isso. Mas ela sabe como irritar Richard. Ela.... ela o atormenta. E
então ele estoura e se torna bastante irracional. Oh, por que não podem gostar um do outro?
— Porque há uma verdadeira antipatia natural entre eles, eu diria. Concorda com isso? Ou pensa que é só ciúme de você?
— Receio que esteja certa, Laura.
— Sobre que tipo de coisa eles discutem?
— As coisas mais bobas. Por exemplo, você lembra que eu troquei os móveis de lugar, mudei a escrivaninha e o sofá... e então Sarah os pôs de volta nos lugares, porque detesta mudanças... Bem, Richard disse um dia, de repente: "Pensei que você gostasse da escrivaninha ali, Ann". Eu disse que gostava, que
achava que dava mais espaço. Aí Sarah falou: "Bem, eu gosto do jeito que ficava sempre". E imediatamente Richard disse, naquele tom dominador que adota às
vezes: "Não é uma questão do que você gosta, Sarah, mas do que sua mãe gosta. Vamos arrumar do modo que ela prefere, agora mesmo". E mudou a escrivaninha de lugar naquele momento, e me disse: "É assim que você quer, não é?" Então eu mais ou menos fui obrigada a dizer "Sim", e ele virou-se para Sarah e falou: "Alguma objeção, mocinha?" E Sarah olhou para ele e disse, muito suave e educadamente: "Oh, não, Mamãe é que sabe. Eu não conto". E sabe, Laura, embora eu estivesse apoiando Richard, na verdade estava do lado de Sarah. Ela adora sua casa e todas as coisas dentro dela... e Richard não tem idéia de como ela se sente. Oh, meu Deus, não sei o que fazer.
— Sim, deve ser difícil para você.
— Posso esperar que vá passar?
Ann olhou esperançosamente para a amiga.
— Eu não contaria com isso.
— Devo dizer que você não é muito animadora, Laura!
— Não adianta a gente contar a si mesma histórias de fadas.
— Francamente é muita maldade deles. Deviam perceber como estão me fazendo infeliz. Eu me sinto mesmo doente.
— Autocomiseração não vai ajudá-la, Ann. Nunca ajuda ninguém.
— Mas estou tão infeliz!
— Eles também, minha querida. Tenha pena deles. Sarah, pobre criança, está desesperadamente infeliz... e também, imagino eu, Richard.
— Oh, céus, e éramos tão felizes juntos antes de Sarah voltar para casa.
Dame Laura ergueu levemente as sobrancelhas. Ficou um ou dois momentos em silêncio. Então disse:
— Você vai casar... quando?
— Dia treze de março.
— Quase duas semanas ainda. Você adiou. Por quê?
— Sarah pediu-me que o fizesse. Disse que teria mais tempo para se acostumar à idéia. Insistiu e insistiu até que concordei.
— Sarah... compreendo. E Richard se aborreceu?
— Claro que se aborreceu. Ficou muito brabo mesmo. Fica dizendo que eu sempre mimei Sarah. Laura, você acha que isso é verdade?
— Não, não acho. Apesar de todo seu amor por Sarah, você nunca foi excessivamente indulgente. E até agora Sarah tem demonstrado sempre uma razoável consideração por você... tanto, é claro, quanto pode qualquer jovem egoísta.
— Laura, acha que devo... — parou.
— Acho que deve fazer o quê?
— Oh, nada. Mas às vezes eu sinto que não posso agüentar isso por muito mais tempo.
Interrompeu-se, enquanto se ouvia o ruído da porta da frente do apartamento, que se abria. Sarah entrou na sala e pareceu contente ao ver Laura Whitstable .
— Oh, Laura, não sabia que estava aqui.
— Como vai minha afilhada?
Sarah aproximou-se e beijou-a. Seu rosto estava frio do ar da rua.
— Muito bem.
Murmurando alguma coisa, Ann deixou a sala. Os olhos de Sarah a seguiram. Ao voltarem e encontrarem os de Dame Laura, Sarah enrubesceu com ar culpado.
Laura Whitstable sacudiu vigorosamente a cabeça.
— Sim, sua mãe estava chorando.
Sarah pareceu surpresa e indignada.
— Bem, não é minha culpa.
— Não? Você gosta muito de sua mãe, não é?
— Adoro Mamãe. Você sabe disso.
— Então por que fazê-la infeliz?
— Mas não faço. Não faço coisa alguma.
— Você discute com Richard, não?
— Oh, isso! Isso ninguém pode evitar! Ele é impossível. Se ao menos Mamãe pudesse perceber como ele é impossível! Na verdade, acho que verá um dia.
Laura Whitstable disse:
— Você precisa tentar organizar a vida dos outros, Sarah? Quando eu era jovem, eram os pais os acusados de fazer isso com os filhos. Hoje, ao que parece, acontece o inverso.
Sarah sentou-se no braço da poltrona de Laura Whitstable. Falou em tom confidencial:
— Mas estou muito preocupada. Ela não vai ser feliz com ele, sabe.
— Isso não é da sua conta, Sarah.
— Mas não posso deixar de me preocupar. Por que não quero que Mamãe seja infeliz. E ela vai ser... Mamãe é tão... tão indefesa. Precisa ser cuidada.
Laura Whitstable prendeu as mãos bronzeadas de Sarah entre as suas. Falou com um vigor que alarmou Sarah:
— Agora escute, Sarah. Escute. Tenha cuidado. Tenha muito cuidado.
— O que quer dizer?
Laura voltou a falar com ênfase:
— Tenha muito cuidado para não deixar sua mãe fazer alguma coisa de que se arrependerá toda a vida.
— É exatamente o que eu...
Laura continuou, empolgada:
— Estou lhe avisando. Ninguém mais o fará. — Fungou súbita e longamente. — Sinto o cheiro de alguma coisa no ar, Sarah, e vou lhe dizer o que é. É o cheiro de oferendas queimadas... e não gosto de sacrifícios.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Edith abriu a porta e anunciou:
— O Sr. Lloyd.
Sarah levantou-se de um salto.
— Olá, Gerry — voltou-se para Laura Whitstable: — Este é Gerry Lloyd. Minha madrinha, Dame Laura Whitstable.
Gerry apertou-lhe a mão e disse:
— Acredito tê-la ouvido no rádio, ontem à noite.
— Fico satisfeita.
— Fazendo a segunda palestra da série "Como estar vivo hoje". Fiquei muito impressionado.
— Nada de impertinências — disse Dame Laura, olhando-o com uma súbita piscadela.
— Não, mas fiquei mesmo. A senhora parecia saber todas as respostas.
— Ah! — disse Dame Laura. — Sempre é mais fácil ensinar alguém a fazer um bolo do que o fazer mos nós mesmos. E também muito mais divertido.
Mau para o caráter, no entanto. Estou bem consciente de estar ficando a cada dia mais detestável.
— Ora, não está não — protestou Sarah.
— Estou sim, filha. Estou quase chegando ao ponto de dar conselhos às pessoas... um pecado imperdoável. Agora vou ao encontro de sua mãe, Sarah.
2
Assim que Laura Whitstable saiu da sala, Gerry falou:
— Vou deixar a Inglaterra, Sarah.
A moça, aflita, olhou-o espantada.
— Oh, Gerry... quando?
— Praticamente logo. Quinta-feira que vem.
— Onde?
— África do Sul.
— Mas é muito longe — exclamou Sarah.
— Bastante.
— Não vai voltar por anos e anos!
— Provavelmente não.
— O que vai fazer lá?
— Cultivar laranjas. Vou me associar a dois outros camaradas. Deve ser bem divertido.
— Oh, Gerry, você tem de ir?
— Bem, estou saturado deste país. É insípido e presunçoso demais. Não serve para mim, e eu não sirvo para ele.
— E o seu tio?
— Oh, não estamos mais nos falando; Tia Lena, no entanto, tem sido muito boa. Deu-me um cheque e um remédio para mordidas de cobras. — Ele sorriu.
— Mas você sabe alguma coisa sobre laranjas, Gerry?
— Absolutamente nada, mas imagino que se aprenda logo.
Sarah suspirou.
— Vou sentir sua falta...
— Acho que não... não por muito tempo — Gerry falou um tanto asperamente, evitando olhar para ela, — Se a gente está longe, do outro lado do mundo, as pessoas logo nos esquecem.
— Não, não esquecem...
Ele olhou-a rapidamente.
— Não?
Sarah sacudiu a cabeça.
Perturbados, evitaram olhar um para o outro.
— Tem sido divertido... andando juntos por aí — disse Gerry.
— É...
— Às vezes as pessoas conseguem prosperar cultivando laranjas.
— Imagino que sim.
Gerry falou, escolhendo cuidadosamente as palavras:
— Acredito que seja uma vida bastante alegre... quer dizer, para uma mulher. Bom clima... e muitos criados... tudo isso.
— É.
— Mas acho que você vai casar com algum sujeito. ..
— Oh, não — Sarah sacudiu a cabeça. — É um grande erro casar muito cedo. Não pretendo casar por séculos.
— Você acha isso... mas algum porco ou outro vai fazer você mudar de idéia — disse Gerry, com ar lúgubre.
— Sou muito fria por natureza — disse Sarah tranqüilizadoramente.
Permaneceram de pé, desajeitados, sem olhar um para o outro.
Então Gerry disse, em voz embargada, o rosto muito pálido:
— Sarah querida... sou louco por você. Sabe disso, não é?
— É mesmo?
Vagarosamente, como se contra a vontade, eles se aproximaram mais. Os braços de Gerry a envolveram. Beijaram-se, tímidos e maravilhados.
Estranho, pensou Gerry, que ele pudesse ser tão desajeitado. Tinha sido um jovem alegre, e tivera muitas experiências com garotas. Mas esta não era uma "garota", esta era sua querida Sarah...
— Gerry...
— Sarah...
Beijou-a de novo.
— Não vai esquecer, querida, vai? Todos os momentos felizes que vivemos... e tudo mais?
— Claro que não esqueço.
— Você me escreve?
— Não gosto muito de escrever cartas.
— Mas vai escrever para mim. Por favor, querida. Estarei tão sozinho...
Sarah afastou-se dele e deu uma risadinha trêmula.
— Não ficará sozinho. Haverá um monte de garotas.
— Se houver, será um monte horrível. Mas prefiro imaginar que não vai haver nada além de laranjas.
— É melhor me mandar uma caixa, de vez em quando.
— Mando mesmo. Oh, Sarah, eu faria qualquer coisa por você.
— Bem, então trabalhe muito. Faça de sua fazenda de laranjas um sucesso.
— Farei. Juro que farei.
Sarah suspirou.
— Gostaria que você não tivesse que ir justamente agora — disse ela. — Tem sido tão confortador poder falar com você.
— Como vai Cauliflower? Está gostando um pouco mais dele?
— Não, não estou. Nunca paramos de brigar. Mas — sua voz era de triunfo — acho que estou vencendo, Gerry!
Gerry olhou-a, inquieto.
— Quer dizer que sua mãe...
— Acho que ela começa a ver como ele é insuportável.
Sarah sacudiu a cabeça, triunfante. Gerry mostrou-se ainda mais inquieto.
— Sarah, seja como for, gostaria que você não...
— Não combatesse Cauliflower? Vou lutar contra ele com unhas e dentes! Não vou desistir. Mamãe tem que ser salva.
— Gostaria que você não interferisse, Sarah. Sua mãe deve saber o que quer.
— Já lhe disse antes, Mamãe é fraca. Fica com pena das pessoas, e perde o discernimento. Estou salvando-a de fazer um casamento infeliz.
Gerry criou coragem.
— Bem, ainda penso que você está só com ciúmes.
Sarah lançou-lhe um olhar furioso.
— Muito bem! Se é isso que pensa, é melhor ir agora.
— Ora vamos, não fique zangada comigo. Provavelmente sabe o que está fazendo.
— Claro que sei — disse Sarah,
3
Ann estava em seu quarto, sentada frente à penteadeira, quando Laura Whitstable entrou.
— Sente-se melhor agora, minha cara?
— Sim. Foi mesmo muita estupidez minha. Não devo deixar essas coisas me atacarem os nervos.
— Um rapaz acaba de chegar. Gerald Lloyd. É esse o...
— Sim. O que achou dele?
— Sarah o ama, naturalmente.
Ann pareceu perturbada.
— Oh, Deus, espero que não.
— Não adianta esperar.
— Não pode dar em nada, compreende?
— Ele é totalmente insatisfatório, é?
Ann suspirou.
— Parece que sim. Nunca leva nada até o fim. É atraente. Não se pode deixar de gostar dele. Mas...
— Sem estabilidade?
— A gente sente que nunca vai dar certo em lugar algum. Sarah está sempre falando na má sorte que ele teve, mas não acho que seja só isso. — Ela
continuou: — Além disso, Sarah conhece tantos rapazes bons de verdade.
— E os acha sem graça, suponho. Garotas bem dotadas e capazes... e Sarah é mesmo muito capaz... são sempre atraídas por rapazes que não prestam. Parece uma lei da natureza. Devo confessar que até eu achei o rapaz atraente.
— Até você, Laura?
— Tenho minhas fraquezas femininas, Ann. Boa noite, minha cara. Boa sorte.
4
Richard chegou ao apartamento um pouco antes das oito. Devia jantar com Ann. Sarah ia sair para jantar e dançar. Ela estava na sala, pintando as unhas, quando ele chegou. Havia no ar um cheiro de esmalte.
Ela levantou os olhos e disse: "Olá, Richard", e depois retomou a operação. Richard observou-a irritado. Ele mesmo estava bastante assustado com a crescente antipatia que sentia por Sarah. Tivera tão boa intenção, vira-se no papel de padrasto bondoso, amável e indulgente... quase carinhoso. Estivera preparado para uma desconfiança inicial, mas vira-se facilmente superando preconceitos infantis.
Ao invés disso, parecia que Sarah, e não ele, estava no comando da situação. Seu frio desprezo e sua antipatia atravessavam-lhe a pele fina, ferindo-o e humilhando-o. Richard nunca se julgara grande coisa, e o modo pelo qual Sarah o tratava aviltava ainda mais seu amor próprio. Todos seus esforços, a princípio para aplacá-la e depois para dominá-la, tinham sido desastrosos. Ele sempre parecia dizer e fazer a coisa errada. Por trás de sua antipatia por Sarah estava surgindo também uma crescente irritação com Ann. Ann devia apoiá-lo. Ann devia voltar-se contra Sarah e pô-la no seu lugar, Ann devia ficar do lado dele; os esforços que ela fazia para agir como mediadora, para se conservar num meio-termo, o irritavam. Aquele tipo de coisa não adiantava nada, e Ann precisava compreender isso!
Sarah estendeu uma das mãos para secar as unhas, virando-a para cá e para lá.
Consciente de que teria sido melhor não dizer coisa alguma, Richard não pôde deixar de observar:
— Parece que mergulhou as unhas em sangue. Não posso entender por que vocês meninas têm que usar esse negócio nas unhas.
— Não pode?
Procurando um assunto mais seguro, Richard continuou:
— Encontrei seu amigo Lloyd esta noite. Ele me contou que vai embora para a África do Sul.
— Vai na quinta-feira.
— Ele vai ter que trabalhar de verdade, se quiser ter sucesso lá. Não é lugar para um homem que não gosta de trabalhar.
— Acho que sabe tudo sobre a África do Sul, não?
— Todos esses lugares são muito parecidos. Precisam de homens de tutano.
— Gerry tem tutano de sobra — disse Sarah, acrescentando: — se precisa usar essa expressão.
— O que há de errado nela?
Sarah levantou a cabeça e olhou-o friamente.
— Eu só acho que é bastante desagradável, nada mais — disse ela.
Richard ficou vermelho.
— É uma pena que sua mãe não a tenha educado melhor.
— Fui rude? — Seus olhos se abriram numa expressão inocente. — Sinto muito.
Suas desculpas exageradas não conseguiram acalmá-lo. Perguntou bruscamente:
— Onde está sua mãe?
— Mudando de roupa. Estará aqui num minuto.
Sarah abriu a bolsa e examinou cuidadosamente o rosto. Começou a retocar a pintura, repintando os lábios, aplicando lápis de sobrancelhas. Ela na verdade já se pintara pouco antes. Suas ações agora eram calculadas para irritar Richard. Sabia que ele tinha uma estranha e antiquada aversão por ver uma mulher se maquiar em público.
Tentando falar em tom brincalhão, Richard disse:
— Ora vamos, Sarah, não exagere.
Ela baixou o espelho que segurava e perguntou:
— O que quer dizer?
— Quero dizer o ruge, o pó. Na verdade os homens não gostam de tanta pintura, posso lhe assegurar. Você simplesmente fica parecendo...
— Parecendo uma rameira, acho que quer dizer!
Richard falou furioso:
— Não foi isso que eu disse.
— Mas quis dizer. — Sarah arremessou os apetrechos de maquiagem para dentro da bolsa. — Afinal, por que, diabos, isso seria da sua conta?
— Olhe aqui, Sarah...
— O que eu ponho no rosto é só da minha conta. Não é da sua, seu metido.
Sarah estava tremendo de fúria, meio chorando. Richard perdeu completamente a calma. Gritou para ela:
— Mocinha insuportável e mal-educada! Você é absolutamente impossível!
Naquele momento Ann entrou. Parou na porta e disse com ar cansado:
— Oh, Deus, o que há agora?
Sarah passou correndo por ela. Ann olhou para Richard.
— Eu estava só dizendo que ela põe pintura de mais no rosto.
Ann deu um suspiro agudo, exasperado.
— Francamente, Richard, acho que você devia ter um pouco mais de juízo. O que tem a ver com isso?
Richard caminhou de um lado para o outro, furioso.
— Ora, muito bem. Se gosta que sua filha saia parecendo uma rameira...
— Sarah não parece uma rameira — retrucou Ann vivamente. — Que coisa horrível para dizer! Todas as moças usam maquiagem, hoje em dia. Você tem idéias tão antiquadas, Richard!
— Antiquado! Fora de moda! Você não me tem em alta conta, não Ann?
— Oh, Richard, precisamos discutir? Não percebe que ao dizer o que disse de Sarah está na verdade me criticando?
— Não posso dizer que a considere uma mãe particularmente criteriosa. Não se Sarah é uma amostra de sua maneira de educar.
— É uma coisa cruel para dizer, e não é verdade. Não há nada errado com Sarah.
Richard atirou-se num sofá.
— Deus ajude o homem que casa com a mãe de uma filha única! — disse ele.
Os olhos de Ann se encheram de lágrimas.
— Você sabia de Sarah quando me pediu em casamento. Eu lhe disse quanto a amava e tudo que ela significava para mim.
— Eu não sabia que você era absolutamente bestificada por ela! Para você é Sarah, Sarah da manhã à noite!
— Oh, Deus! — disse Ann. Ela caminhou para ele e sentou-se ao seu lado. — Richard, tente ser razoável. Eu pensei que Sarah poderia ter ciúmes de
você... mas não pensei que você fosse ter ciúmes dela.
— Não tenho ciúmes de Sarah — disse Richard, amuado.
— Mas querido, você tem.
— Você sempre põe Sarah em primeiro lugar.
— Oh, céus — Ann recostou-se, desanimada, e fechou os olhos. — Francamente não sei o que fazer.
— Onde fico eu? Em lugar nenhum! Eu simplesmente não conto, para você. Adiou nosso casamento... simplesmente porque Sarah lhe pediu que o fizesse...
— Eu queria dar a ela um pouco mais de tempo para se acostumar à idéia.
— E ela está mais acostumada agora? Passa todo o tempo fazendo tudo que pode para me irritar.
— Sei que ela tem sido difícil... mas na verdade, Richard, acho mesmo que você exagera. A pobre Sarah mal pode dizer uma palavra sem que você tenha um acesso de fúria.
— Pobre Sarah. Pobre Sarah. Está vendo? É isso que você pensa!
— Afinal de contas, Richard, Sarah é pouco mais que uma criança. Devemos ser tolerantes com ela. Mas você é um homem... um ser humano adulto.
Richard disse de súbito, candidamente:
— É porque a amo tanto, Ann.
— Oh, querido.
— Éramos tão felizes juntos... antes de Sarah voltar.
— Eu sei...
— E agora... pareço estar todo o tempo perdendo você.
— Mas não está me perdendo, Richard.
— Ann, minha adorada... você ainda me ama?
Ann disse com súbita paixão:
— Mais do que nunca, Richard. Mais do que nunca.
5
O jantar foi um sucesso. Edith tinha se esmerado e o apartamento, removida a tempestuosa influência de Sarah, era novamente o cenário calmo que fora antes.
Richard e Ann conversaram, riram, lembraram um ao outro incidentes passados, e para ambos foi uma calma bem-vinda e serena.
Foi depois de terem voltado à sala e terminado o café e o Beneditino que Richard falou:
— Foi uma noite maravilhosa. Tão calma. Ann, minha querida, se pudesse ser sempre assim!
— Mas vai ser, Richard.
— Não está sendo sincera, Ann. Sabe, tenho pensado muito. A verdade é uma coisa desagradável, mas tem que ser encarada. Para ser bem franco, acho que
Sarah e eu nunca vamos nos dar bem. Se nós três tentarmos morar juntos, a vida será insuportável. Na verdade, só há uma coisa a fazer.
— O que está querendo dizer?
— Para falar com franqueza, Sarah precisa sair daqui.
— Não, Richard. Isso é impossível.
— Quando as moças não estão felizes em casa, vão viver sozinhas.
— Sarah só tem dezenove anos, Richard.
— Há lugares em que moças podem morar. Pensionatos. Ou como hóspedes de uma família.
Ann sacudiu a cabeça com decisão.
— Acho que não se dá conta do que está sugerindo. Sugere que, por querer casar de novo, eu expulse minha filha... enxote-a para fora de sua casa.
— Moças gostam de ser independentes e de morar sozinhas.
— Sarah não. Não é uma questão de ela querer morar sozinha. Esta é a casa dela, Richard. Ela nem sequer é de maior idade.
— Bem, eu penso que é um bom plano. Podemos dar-lhe uma boa mesada... eu contribuirei. Ela não precisará sentir-se restringida. Será feliz sozinha, e nós seremos felizes sozinhos. Não posso ver nada de errado nisso.
— Você está pressupondo que Sarah vai ser feliz sozinha?
— Ela vai gostar. Eu lhe digo que as moças gostam de ser independentes.
— Você não sabe coisa alguma sobre moças, Richard. Tudo que está pensando é no que você quer.
— Estou sugerindo o que penso ser uma solução perfeitamente razoável.
Ann falou lentamente:
— Antes do jantar, você disse que ponho Sarah em primeiro lugar. De um certo modo, Richard, isso é verdade... Não é uma questão de qual de vocês eu amo mais. Mas quando penso em ambos... sei que são os interesses de Sarah que devem vir antes dos seus. Porque você vê, Richard, Sarah é minha responsabilidade. Não estou livre dessa responsabilidade até que Sarah seja uma mulher feita... e ela ainda não é uma mulher feita.
— As mães nunca querem que os filhos cresçam.
— Isso às vezes é verdade, mas honestamente não penso que seja verdade no nosso caso. Vejo algo que você não pode ver: que Sarah é ainda muito jovem e
indefesa.
Richard riu com desdém.
— Indefesa!
— Sim, foi exatamente o que quis dizer. E insegura sobre si mesma, sobre a vida. Quando estiver pronta a sair para o mundo, ela quererá ir... e então
estarei mais do que pronta a ajudá-la. Mas ela não está pronta.
Richard suspirou, e disse:
— Acho que simplesmente não se pode discutir com mães.
Ann retorquiu com insuspeitada firmeza:
— Não vou expulsar minha filha da casa dela. Fazer isso, quando ela não quer ir, seria uma crueldade.
— Bem, se você está tão decidida.
— Oh, certamente. Mas Richard, querido, se você ao menos for paciente. Não vê que não é você o intruso, mas Sarah? E ela sente isso. Mas sei que, com
o tempo, ela aprenderá a ser sua amiga. Porque ela realmente me ama, Richard. E no fim não quererá que eu seja infeliz.
Richard olhou para ela com um sorriso levemente irônico.
— Minha doce Ann, que otimista incurável você é.
Ela entrou no círculo dos braços dele.
— Richard querido... eu o amo... Oh, Deus, gostaria de não ter tanta dor de cabeça...
— Vou buscar uma aspirina...
Ocorreu-lhe que, agora, toda conversa que tinha com Ann acabava sempre em aspirina.

Capítulo IX
1
POR DOIS DIAS houve uma paz bem-vinda e inesperada. Isso animou Ann. Afinal, as coisas não eram tão más. Como havia dito, com o tempo tudo se ajeitaria. O apelo que fizera a Richard dera resultado. Dentro de uma semana estariam casados... e depois disso, parecia-lhe que a vida seria mais normal. Sarah certamente deixaria de hostilizar tanto Richard, e acharia mais interesse em outros assuntos.
— Sinto-me realmente muito melhor hoje — comentou com Edith.
Ocorreu-lhe que um dia sem dor de cabeça era agora um verdadeiro fenômeno.
— Quase como uma calmaria na tempestade, pode-se dizer — concordou Edith. — São como cão e gato, a Srta. Sarah e o Sr. Cauldfield. Tomaram o que
se pode chamar de uma genuína aversão um pelo outro.
— Mas acho que Sarah está superando um pouco, não acha?
— Se eu fosse a senhora, não me encheria de falsas esperanças, madame — disse Edith sombriamente.
— Mas não pode continuar sempre assim.
— Eu não apostaria nisso.
Edith era sempre tão lúgubre, pensou Ann! Divertia-se em predizer desastres.
— Tem sido melhor ultimamente — insistiu.
— Ah, porque o Sr. Cauldfield tem vindo aqui quase sempre de dia, quando a Srta. Sarah está na loja de flores, e ela tem ficado com a senhora só para ela
de noite. Além disso, ela está absorvida pela ida daquele Sr. Gerry para o estrangeiro. Mas depois que a senhora estiver casada, vai ter os dois aqui juntos. Vão reduzir a senhora a pedaços, isso é que vão!
— Oh, Edith — o desalento se apoderou de Ann. Era uma comparação horrível.
E exprimia tão bem o que vinha sentindo!
Disse desesperadamente:
— Não agüento isso. Detesto cenas e brigas, e sempre detestei.
— É verdade. Sempre viveu quieta e protegida, e é isso que lhe convém.
— Mas o que posso fazer? O que você faria, Edith?
Edith disse com gosto:
— Não adianta se lamentar. Me ensinaram quando criança: "Esta vida não é mais que um vale de lágrimas".
— Se é tudo que pode sugerir para me consolar!
— Essas coisas são mandadas para nos pôr à prova — disse Edith solenemente. — Agora, se ao menos a senhora fosse uma dessas que gostam de brigas! Há muitas que gostam. A segunda mulher do meu tio, por exemplo. Não há nada que goste mais do que de bater boca. Tem uma língua ferina... mas quando termina, não guarda ressentimentos e não torna a pensar naquilo. Já desabafou. Acho que é o sangue irlandês. A mãe dela veio de Limerick. Não são rancorosos, mas adoram uma briga. A Srta. Sarah tem um pouco disso. Lembro da senhora ter falado que o Sr. Prentice era meio irlandês. Tem seus repentes, a
Srta. Sarah, mas nunca houve uma moça de coração tão bom. Se quer saber, é muito bom que o Sr. Gerry esteja indo para o outro lado do mar. Ele nunca vai
se acomodar e ficar numa coisa só. A Srta. Sarah pode conseguir coisa melhor que ele.
— Acho que ela gosta muito dele, Edith.
— Eu não me preocuparia. Dizem que "A ausência aumenta o amor", mas minha tia Jane costumava acrescentar "por outro". "Longe da vista, longe do
coração" é um provérbio mais verdadeiro. Agora não se preocupe com ela nem com mais ninguém. Está aqui aquele livro que a senhora tanto queria ler, e vou trazer uma boa xícara de café e um ou dois biscoitos. Distraia-se enquanto pode.
Ann ignorou a sugestão levemente sinistra das três últimas palavras. Falou:
— Você é um grande consolo, Edith.
Na quinta-feira Gerry Lloyd viajou e Sarah, naquela noite, voltou para casa e teve a pior das discussões com Richard.
Ann os deixou e procurou refúgio em seu próprio quarto. Ficou lá, deitada no escuro, cobrindo os olhos com as mãos. os dedos apertando a testa dolorida. Lágrimas lhe rolaram dos olhos.
Disse a si mesma várias vezes, num murmúrio: — não posso agüentar... não posso agüentar...
Daí a pouco escutou o fim de uma frase dita por Richard, quase gritada, enquanto ele saía tempestuosamente da sala:
— ... e sua mãe não pode escapar sempre, fugindo com uma das eternas dores de cabeça!
Ouviu-se então a batida da porta da frente.
Os passos de Sarah soaram no corredor, vindo hesitante e vagarosamente para seu próprio quarto. Ann chamou:
— Sarah.
A porta se abriu. A voz de Sarah, levemente culpada, disse:
— No escuro?
— Minha cabeça dói. Acenda a lampadazinha do canto.
Sarah fez isso. Veio devagar até a cama, os olhos baixos. Havia nela algo desamparado e infantil que tocou o coração de Ann, embora apenas minutos antes tivesse ficado violentamente zangada com ela.
— Sarah — disse Ann. — Você precisa?
— Preciso o quê?
— Brigar com Richard todo o tempo? Não sente coisa alguma por mim? Percebe como está me fazendo infeliz? Não quer que eu seja feliz?
— Claro que quero. É por isso mesmo.
— Não a entendo. Você me faz perfeitamente infeliz. Penso às vezes que não posso continuar... Tudo é tão diferente.
— Sim, tudo é diferente. Ele estragou tudo. Quer me tirar daqui. Não vai deixar ele fazer você me mandar embora, vai?
Ann ficou zangada.
— Claro que não. Quem sugeriu uma coisa dessas?
— Ele. Agora mesmo. Mas você não