quarta-feira, 17 de junho de 2015 By: Fred

{clube-do-e-livro} Allan Kardec - (1861) O Livro dos Médiuns.txt

O Livro dos M�diuns
NOTA DA EDITORA

A tradu��o desta obra, devemo-la ao saudoso presidente da Federa��o Esp�rita
Brasileira - Dr. Guillon Ribeiro, engenheiro civil, poliglota e vernaculista.

Ruy Barbosa, em seu discurso pronunciado na sess�o de 14 de outubro de 1903
(Anais do Senado Federal, vol. II, p�g., 717), em se referindo ao seu trabalho de revis�o
do Projeto do C�digo Civil, trabalho monumental que resultou na R�plica, e que lhe
imortalizou o nome como fil�logo e purista da l�ngua, disse:

"Devo, entretanto, Sr. Presidente, desempenhar-me de um dever de consci�ncia
- registrar e agradecer da tribuna do Senado a colabora��o preciosa do Sr. Dr.
Guillon Ribeiro, que me acompanhou nesse trabalho com a maior intelig�ncia, n�o
limitando os seus servi�os a parte material do comum dos revisores, mas, muitas
vezes, suprindo at� a desaten��es e neglig�ncias minhas."

Como vemos, Guillon Ribeiro recebeu, aos vinte e oito anos de idade, o maior
pr�mio, o maior elogio a que poderia aspirar um escritor, e a Federa��o Esp�rita
Brasileira, vinte anos depois, consagrou-lhe o nome, aprovando unanimemente as suas
impec�veis tradu��es de Kardec.

Jornalista em�rito, Guillon Ribeiro foi redator do Jornal do Comm�rcio e
colaborador dos maiores jornais da �poca. Exerceu, durante anos, o cargo de Diretor-
Geral da Secretaria do Senado e foi Diretor da Federa��o Esp�rita Brasileira, no decurso
de 26 anos consecutivos, tendo traduzido, ainda, O Livro dos Esp�ritos, O Evangelho
segundo o Espiritismo, A G�nese e Obras P�stumas,todos de Allan Kardec.
ALLAN KARDEC


ESPIRITISMO EXPERIMENTAL



O Livro dos M�diuns
OU

GUIA DOS M�DIUNS E DOS EVOCADORES

Ensino especial dos Esp�ritos sobre a teoria de todos os g�neros de manifesta��es, os
meios de comunica��o com o mundo invis�vel, o desenvolvimento da mediunidade, as
dificuldades e os trope�os que se podem encontrar na pr�tica do Espiritismo

constituindo o seguimento d' O Livro dos Esp�ritos




FEDERA��O ESP�RITA BRASILEIRA
DEPARTAMENTO EDITORIAL
Rua Souza Valente, 17
20941-040 - Rio - RJ - Brasil
ISBN 85-7328-053-0

62� edi��o

Do 845 � ao 875� milheiro

T�tulo do original franc�s:
LE LIVRE DES M�DIUMS ou
GUIDE DES M�DIUMS ET DES �VOCATEURS
(Paris, 15-janeiro-1861)

Tradu��o de GUILLON RIBEIRO
da 49� edi��o francesa

Capa de CECCONI

B.N. 6.836

374-AA; 000.13-O; 7/1996

Copyright 1944 by
FEDERA��O ESP�RITA BRASILEIRA
(Casa-M�ter do Espiritismo)
Av. L-2 Norte - Q. 603- Conjunto F
70830-030 - Bras�lia - DF - Brasil

Composi��o, fotolitos e impress�ooffset das
Oficinas do Departamento Gr�fico da FEB
Rua Souza Valente, 17
20941-040 - Rio, RJ- Brasil
C.G. C. n�. 33.644.857/0002-84 I.E. no. 81.600.503

Impresso no Brasil
PRESITA EN BRAZILO


Pedidos de livros � FEB - Departamento Editorial, via Correio ou, em
grandes encomendas, via rodovi�rio: por carta, telefone (021) 589-6020, ou
FAX (021) 589-6838.
7




�NDICE



Introdu��o 13


PRIMEIRA PARTE
No��es preliminares


CAP�TULO I - H� Esp�ritos? 19

CAP�TULO II - Do maravilhoso e do sobrenatural 27

CAP�TULO III - Do m�todo. - De que modo se deve proceder com os
materialistas. Materialistas por sistema: materialistas que o s�o por falta de
coisa melhor. - Incr�dulos por ignor�ncia, por m�-vontade, por interesse e
m�-f�, por pusilanimidade, por escr�pulos religiosos, por efeito de
decep��es. - Tr�s classes de esp�ritas: esp�ritas experimentadores, esp�ritas
imperfeitos, esp�ritas crist�os ou verdadeiros esp�ritas. - Ordem a que devem
obedecer os estudos esp�ritas. 39
8


CAP�TULO IV - Dos sistemas. - Exame dos diferentes modos por que
o Espiritismo � encarado. - Sistemas de nega��o: do charlatan�smo, da
loucura, da alucina��o, do m�sculo estalante, das causas f�sicas, do reflexo.
- Sistemas de afirma��o; sistema da alma coletiva; id. sonamb�lico,
pessimista, diab�lico ou demon�aco, otimista, unisp�rita ou mono-esp�rita,
multisp�rita ou polisp�rita, sistema da alma material. 53


SEGUNDA PARTE

Das manifesta��es esp�ritas


CAP�TULO I - Da a��o dos Esp�ritos sobre a mat�ria 75

CAP�TULO II - Das manifesta��es f�sicas. - Das mesas girantes 82

CAP�TULO III - Das manifesta��es inteligentes 86

CAP�TULO IV - Da teoria das manifesta��es f�sicas. - Movimentos e
suspens�es. - Ru�dos. - Aumento e diminui��o do peso dos corpos. 91

CAP�TULO V - Das manifesta��es f�sicas espont�neas. - Ru�dos,
barulhos e perturba��es. - Arremesso de objetos. - Fen�meno de transporte.
Disserta��o de um Esp�rito sobre os transportes. 105

CAP�TULO VI - Das manifesta��es visuais. - No��es sobre as
apari��es. - Ensaio te�rico sobre as apari��es. - Esp�ritos gl�bulos. - Teoria
da alucina��o. 130

CAP�TULO VII - Da bicorporeidade e da transfigu-
9


ra��o. - Apari��es de Esp�ritos de pessoas vivas. - Homens duplos. - Santo
Afonso de Liguori e Santo Ant�nio de P�dua. - Vespasiano. -
Transfigura��o. - Invisibilidade. 152

CAP�TULO VIII - Do laborat�rio do mundo invis�vel. - Vestu�rio dos
Esp�ritos. - Forma��o espont�nea de objetos tang�veis. - Modifica��o das
propriedades da mat�ria. - A��o magn�tica curadora. 164

CAP�TULO IX - Dos lugares assombrados. 174

CAP�TULO X - Da natureza das comunica��es. - Comunica��es
grosseiras, fr�volas, s�rias e instrutivas 180

CAP�TULO XI - Da sematologia e da tiptologia. - Linguagem dos
sinais e das pancadas. - Tiptologia alfab�tica 185

CAP�TULO XII - Da pneumatografia ou escrita direta. Da
pneumatofonia. 192

CAP�TULO XIII - Da psicografia. Psicografia indireta: cestas e
pranchetas. - Psicografia direta ou manual 198

CAP�TULO XIV - Dos m�diuns. - M�diuns de efeitos f�sicos. -
Pessoas el�tricas. - M�diuns sensitivos ou impression�veis. - M�diuns
audientes. - M�diuns falantes. - M�diuns videntes. - M�diuns sonamb�licos.
- M�diuns curadores. - M�diuns pneumat�grafos. 203

CAP�TULO XV - Dos m�diuns escreventes ou psic�grafos. - M�diuns
mec�nicos, intuitivos, semimec�nicos, inspirados ou involunt�rios; de
pressentimentos. 221
10

CAP�TULO XVI - Dos m�diuns especiais. - Aptid�es especiais dos
m�diuns. - Quadro sin�ptico das diferentes esp�cies de m�diuns. 227

CAP�TULO XVII - Da forma��o dos m�diuns. - Desenvolvimento da
mediunidade. - Mudan�a de caligrafia. - Perda e suspens�o da mediunidade. 246

CAP�TULO XVIII - Dos inconvenientes e perigos da mediunidade. -
Influ�ncia do exerc�cio da mediunidade sobre a sa�de. - Idem sobre o
c�rebro. - Idem sobre as crian�as. 264

CAP�TULO XIX - Do papel dos m�diuns nas comunica��es esp�ritas.
- Influ�ncia do Esp�rito pessoal do m�dium. - Sistema dos m�diuns inertes. -
Aptid�o de certos m�diuns para coisas de que nada conhecem: l�nguas,
m�sica, desenho, etc. - Disserta��o de um Esp�rito sobre o papel dos
m�diuns. 268

CAP�TULO XX - Da influ�ncia moral do m�dium. - Quest�es
diversas. - Disserta��o de um Esp�rito sobre a influ�ncia moral. 283

CAP�TULO XXI - Da influ�ncia do meio. 294

CAP�TULO XXII - Da mediunidade nos animais. 298

CAP�TULO XXIII - Da obsess�o. - Obsess�o simples. - Fascina��o. -
Subjuga��o. - Causas da obsess�o. - Meios de a combater. 306

CAP�TULO XXIV - Da identidade dos Esp�ritos. - Provas poss�veis
de identidade. - Modo de se distinguirem os bons dos maus Esp�ritos. -
Quest�es sobre a natureza e identidade dos Esp�ritos. 324
11


CAP�TULO XXV - Das evoca��es. - Considera��es gerais. Esp�ritos
que se podem evocar. - Linguagem de que se deve usar com os Esp�ritos. -
Utilidade das evoca��es particulares. - Quest�es sobre as evoca��es. -
Evoca��es dos animais. - Evoca��es das pessoas vivas. - Telegrafia
humana. 347

CAP�TULO XXVI - Das perguntas que se podem fazer aos Esp�ritos.
- Observa��es preliminares. - Perguntas simp�ticas ou antip�ticas aos
Esp�ritos. - Perguntas sobre o futuro. - Sobre as exist�ncias passadas e
vindouras. - Sobre interesses morais e materiais. - Sobre a sorte dos
Esp�ritos. Sobre a sa�de. - Sobre as inven��es e descobertas. - Sobre os
tesouros ocultos. - Sobre outros mundos. 377

CAP�TULO XXVII - Das contradi��es e das mistifica��es. 396

CAP�TULO XXVIII - Do charlatanismo e do embuste. - M�diuns
interesseiros. - Fraudes esp�ritas. 408

CAP�TULO XIX - Das reuni�es e das Sociedades Esp�ritas. - Das
reuni�es em geral. - Das Sociedades propriamente ditas. - Assuntos de
estudo. - Rivalidades entre as Sociedades. 421

CAP�TULO XXX - Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos
Esp�ritas. 444

CAP�TULO XXXI - Disserta��es esp�ritas. - Acerca do Espiritismo. -
Sobre os m�diuns. - Sobre as Sociedades esp�ritas. - Comunica��es
ap�crifas 453

CAP�TULO XXXII - Vocabul�rio esp�rita 485
13




INTRODU��O

Todos os dias a experi�ncia nos traz a confirma��o de que as dificuldades e os
desenganos, com que muitos topam na pr�tica do Espiritismo, se originam da
ignor�ncia dos princ�pios desta ci�ncia e feliz nos sentimos de haver podido
comprovar que o nosso trabalho, feito com o objetivo de precaver os adeptos contra os
escolhos de um noviciado, produziu frutos e que � leitura desta obra devem muitos o
terem logrado evit�-los.
Natural �, que entre os que se ocupam com o Espiritismo, o desejo de poderem
p�r-se em comunica��o com os Esp�ritos. Esta obra se destina a lhes achanar o
caminho, levando-os a tirar proveito dos nossos longos e laboriosos estudos,
porquanto muito falsa id�ia formaria aquele que pensasse bastar, para se considerar
perito nesta mat�ria, saber colocar os dedos sobre uma mesa, a fim de faz�-la mover-
se, ou segurar um l�pis, a fim de escrever.
14
INTRODU��O

Enganar-se-ia igualmente quem supusesse encontrar nesta obra uma receita
universal e infal�vel para formar m�diuns. Se bem cada um traga em si o g�rmen das
qualidades necess�rias para se tornar m�dium, tais qualidades existem em graus muito
diferentes e o seu desenvolvimento depende de causas que a ningu�m � dado conseguir
se verifiquem � vontade. As regras da poesia, da pintura e da m�sica n�o fazem que se
tornem poetas, pintores, ou m�sicos os que n�o t�m o g�nio de alguma dessas artes.
Apenas guiam os que as cultivam, no emprego de suas faculdades naturais. O mesmo
sucede com o nosso trabalho. Seu objetivo consiste em indicar os meios de
desenvolvimento da faculdade medi�nica, tanto quanto o permitam as disposi��es de
cada um, e, sobretudo, dirigir-lhe o emprego de modo �til, quando ela exista. Esse,
por�m, n�o constitui o fim �nico a que nos propusemos.
De par com os m�diuns propriamente ditos, h�, a crescer diariamente, uma
multid�o de pessoas que se ocupam com as manifesta��es esp�ritas. Gui�-las nas suas
observa��es, assinalar-lhes os obst�culos que podem e h�o de necessariamente
encontrar, lidando com uma nova ordem de coisas, inici�-las na maneira de
confabularem com os Esp�ritos, indicar-lhes os meios de conseguirem boas
comunica��es, tal o c�rculo que temos de abranger, sob pena de fazermos trabalho
incompleto. Ningu�m, pois, se surpreenda de encontrar nele instru��es que, � primeira
vista, pare�am descabidas; a experi�ncia lhes real�ar� a utilidade. Quem quer que o
estude cuidadosamente melhor compreender� depois os fatos de que venha a ser
testemunha; menos estranha lhe parecer� a linguagem de alguns Esp�ritos. Como
reposit�rio de instru��o pr�tica, portanto, a nossa obra n�o se destina exclusivamente
aos m�diuns, mas a todos os que estejam em condi��es de ver e observar os fen�menos
esp�ritas.
N�o faltar� quem desejara public�ssemos um manual pr�tico muito sucinto,
contendo em poucas palavras a indica��o dos processos que se devam empregar para
entrar em comunica��o com os Esp�ritos. Pensar�o esses que
15

INTRODU��O

um livro desta natureza, dada a possibilidade de se espalhar profusamente por m�dico
pre�o, representaria um poderoso meio de propaganda, pela multiplica��o dos
m�diuns. Ao nosso ver, semelhante obra, em vez de �til, seria nociva, ao menos por
enquanto. De muitas dificuldades se mostra in�ada a pr�tica do Espiritismo e nem
sempre isenta de inconvenientes a que s� o estudo s�rio e completo pode obviar. Fora,
pois, de temer que uma indica��o muito resumida animasse experi�ncias levianamente
tentadas, das quais viessem os experimentadores a arrepender-se. Coisas s�o estas
com que n�o � conveniente, nem prudente, se brinque e mau servi�o acreditamos que
prestar�amos, pondo-as ao alcance do primeiro estouvado que achasse divertido
conversar com os mortos. Dirigimo-nos aos que v�em no Espiritismo um objetivo s�rio,
que lhe compreendem toda a gravidade e n�o fazem das comunica��es com o mundo
invis�vel um passatempo.
Hav�amos publicado uma Instru��o Pr�tica com o fito de guiar os m�diuns.
Essa obra est� hoje esgotada e, embora a tenhamos feito com um fim grave e s�rio,
n�o a reimprimiremos, porque ainda n�o a consideramos bastante completa para
esclarecer acerca de todas as dificuldades que se possam encontrar. Substitu�mo-la
por esta, em a qual reunimos todos os dados que uma longa experi�ncia e
conscienciosos estudos nos permitiram colher. Ela contribuir�, pelo menos assim o
esperamos, para imprimir ao Espiritismo o car�ter s�rio que lhe forma a ess�ncia e
para evitar que haja quem nele veja objeto de fr�vola ocupa��o e de divertimento.
A essas considera��es ainda aditaremos outra, muito importante: a m�
impress�o que produzem nos novatos as experi�ncias levianamente feitas e sem
conhecimento de causa, experi�ncias que apresentam o inconveniente de gerar id�ias
falsas acerca do mundo dos Esp�ritos e de dar azo � zombaria e a uma cr�tica quase
sempre fundada. De tais reuni�es, os incr�dulos raramente saem convertidos e
dispostos a reconhecer que no Espiritismo haja alguma coisa de s�rio. Para a opini�o
err�nea de
16
INTRODU��O

grande n�mero de pessoas, muito mais do que se pensa t�m contribu�do a ignor�ncia e
a leviandade de v�rios m�diuns.
Desde alguns anos, o Espiritismo h� realizado grandes progressos: imensos,
por�m, s�o os que conseguiu realizar, a partir do momento em que tomou rumo
filos�fico, porque entrou a ser apreciado pela gente instru�da. Presentemente, j� n�o �
um espet�culo: � uma doutrina de que n�o mais riem os que zombavam das mesas
girantes. Esfor�ando-nos por lev�-lo para esse terreno e por mant�-lo a�, nutrimos a
convic��o de que lhe granjeamos mais adeptos �teis, do que provocando a torto e a
direito manifesta��es que se prestariam a abusos. Disso temos cotidianamente a prova
em o n�mero dos que se h�o tornado esp�ritas unicamente pela leitura de "O Livro dos
Esp�ritos".
Depois de havermos exposto, nesse livro, a parte filos�fica da ci�ncia esp�rita,
damos nesta obra a parte pr�tica, para uso dos que queiram ocupar-se com as
manifesta��es, quer para fazerem pessoalmente, quer para se inteirarem dos
fen�menos que lhes sejam dados observar. Ver�o, a�, os �bices com que poder�o
deparar e ter�o tamb�m um meio de evit�-los. Estas duas obras, se bem a segunda
constitua seguimento da primeira, s�o, at� certo ponto, independentes uma da outra.
Mas, a quem quer que deseje tratar seriamente da mat�ria, diremos que primeiro leia
"O Livro dos Esp�ritos", porque cont�m princ�pios b�sicos, sem os quais algumas
partes deste se tornariam talvez dificilmente compreens�veis.
Importantes altera��es para melhor foram introduzidas nesta segunda edi��o,
muito mais completa do que a primeira. Acrescentando-lhe grande n�mero de notas e
instru��es do maior interesse, os Esp�ritos a corrigiram, com particular cuidado.
Como reviram tudo, aprovando-a, ou modificando-a � sua vontade, pode dizer-se que
ela �, em grande parte, obra deles, porquanto a interven��o que tiveram n�o se limitou
aos artigos que trazem assinaturas. S�o poucos esses artigos, porque apenas apusemos
17
INTRODU��O

nomes quando isso nos pareceu necess�rio, para assinalar que algumas cita��es um
tanto extensas provieram deles textualmente. A n�o ser assim, houv�ramos de cit�-los
quase que em todas as p�ginas, especialmente em seguida a todas as respostas dadas
�s perguntas que lhes foram feitas, o que se nos afigurou de nenhuma utilidade. Os
nomes, como se sabe, importam pouco, em tais assuntos. O essencial � que o conjunto
do trabalho corresponda ao fim que colimamos. O acolhimento dado � primeira
edi��o, posto que imperfeita, faz-nos esperar que a presente n�o encontre menos
receptividade.
Como lhe acrescentamos muitas coisas e muitos cap�tulos inteiros, suprimimos
alguns artigos, que ficariam em duplicata, entre outros o que tratava da Escala
esp�rita, que j� se encontra em "O Livro dos Esp�ritos". Suprimimos igualmente do
"Vocabul�rio" o que n�o se ajustava bem no quadro desta obra, substituindo
vantajosamente o que foi supresso por coisas mais pr�ticas. Esse vocabul�rio, al�m do
mais, n�o estava completo e tencionamos public�-lo mais tarde, em separado, sob o
formato de um pequeno dicion�rio de filosofia esp�rita. Conservamos nesta edi��o
apenas as palavras novas ou especiais, pertinentes aos assuntos de que nos ocupamos.
18
19




PRIMEIRA PARTE

No��es preliminares

CAP�TULO I

H� ESP�RITOS?


1. A d�vida, no que concerne � exist�ncia dos Esp�ritos, tem como causa
prim�ria a ignor�ncia acerca da verdadeira natureza deles. Geralmente, s�o figurados
como seres � parte na cria��o e de cuja exist�ncia n�o est� demonstrada a necessidade.
Muitas pessoas, mais ou menos como as que s� conhecem a Hist�ria pelos romances,
apenas os conhecem atrav�s dos contos fant�sticos com que foram acalentadas em
crian�a.
Sem indagarem se tais contos, despojados dos acess�rios rid�culos, encerram
algum fundo de verdade, essas pessoas unicamente se impressionam com o lado absurdo
que eles revelam. Sem se darem ao trabalho de tirar a casca amarga, para achar a
am�ndoa, rejeitam o todo,
20
CAP�TULO I

como fazem, relativamente � religi�o, os que, chocados por certos abusos, tudo
englobam numa s� condena��o.
Seja qual for a id�ia que dos Esp�ritos se fa�a, a cren�a neles necessariamente se
funda na exist�ncia de um princ�pio inteligente fora da mat�ria. Essa cren�a �
incompat�vel com a nega��o absoluta deste princ�pio. Tomamos, conseguintemente, por
ponto de partida, a exist�ncia, a sobreviv�ncia e a individualidade da alma, exist�ncia,
sobreviv�ncia e individualidade que t�m no Espiritualismo a sua demonstra��o te�rica e
dogm�tica e, no Espiritismo, a demonstra��o positiva. Abstraiamos, por um momento,
das manifesta��es propriamente ditas e, raciocinando por indu��o, vejamos a que
conseq��ncias chegaremos.

2. Desde que se admite a exist�ncia da alma e sua individualidade ap�s a morte,
for�oso � tamb�m se admita: 1�, que a sua natureza difere da do corpo, visto que,
separada deste, deixa de ter as propriedades peculiares ao corpo; 2�, que goza da
consci�ncia de si mesma, pois que � pass�vel de alegria, ou de sofrimento, sem o que
seria um ser inerte, caso em que possu�-la de nada nos valeria. Admitido isso, tem-se
que admitir que essa alma vai para alguma parte. Que vem a ser feito dela e para onde
vai?
Segundo a cren�a vulgar, vai para o c�u, ou para o inferno. Mas, onde ficam o
c�u e o inferno? Dizia-se outrora que o c�u era em cima e o inferno embaixo. Por�m, o
que s�o o alto e o baixo no Universo, uma vez que se conhecem a esfericidade da Terra,
o movimento dos astros, movimento que faz com que o que em dado instante est� no
alto esteja, doze horas depois, embaixo, e o infinito do espa�o, atrav�s do qual o olhar
penetra, indo a dist�ncias consider�veis? Verdade � que por lugares inferiores tamb�m
se designam as profundezas da Terra. Mas, que v�m a ser essas profundezas, desde que
a Geologia as esquadrinhou? Que ficaram sendo, igualmente, as esferas conc�ntricas
chamadas c�u de fogo, c�u das estrelas, desde
21
H� ESP�RITOS?

que se verificou que a Terra n�o � o centro dos mundos, que mesmo o nosso Sol n�o �
�nico, que milh�es de s�is brilham no Espa�o, constituindo cada um o centro de um
turbilh�o planet�rio? A que ficou reduzida a import�ncia da Terra, mergulhada nessa
imensidade? Por que injustific�vel privil�gio este quase impercept�vel gr�o de areia, que
n�o avulta pelo seu volume, nem pela sua posi��o, nem pelo papel que lhe cabe
desempenhar, seria o �nico planeta povoado de seres racionais? A raz�o se recusa a
admitir semelhante nulidade do infinito e tudo nos diz que os diferentes mundos s�o
habitados. Ora, se s�o povoados, tamb�m fornecem seus contingentes para o mundo das
almas. Por�m, ainda uma vez, que ter� sido feito dessas almas, depois que a Astronomia
e a Geologia destru�ram as moradas que se lhes destinavam e, sobretudo, depois que a
teoria, t�o racional, da pluralidade dos mundos, as multiplicou ao infinito?
N�o podendo a doutrina da localiza��o das almas harmonizar-se com os dados
da Ci�ncia, outra doutrina mais l�gica lhes assina por dom�nio, n�o um lugar
determinado e circunscrito, mas o espa�o universal: formam elas um mundo invis�vel,
em o qual vivemos imersos, que nos cerca e acotovela incessantemente. Haver� nisso
alguma impossibilidade, alguma coisa que repugne � raz�o? De modo nenhum; tudo, ao
contr�rio, nos afirma que n�o pode ser de outra maneira.
Mas, ent�o, que vem a ser das penas e recompensas futuras, desde que se lhes
suprimam os lugares especiais onde se efetivem? Notai que a incredulidade, com rela��o
a tais penas e recompensas, provam geralmente de serem umas e outras apresentadas em
condi��es inadmiss�veis. Dizei, em vez disso, que as almas tiram de si mesmas a sua
felicidade ou a sua desgra�a; que a sorte lhes est� subordinada ao estado moral; que a
reuni�o das que se votam m�tua simpatia e s�o boas representa para elas uma fonte de
ventura; que, de acordo com o grau de purifica��o que tenham alcan�ado, penetram e
entrev�em coisas que almas grosseiras n�o distinguem, e toda gente
22
CAP�TULO I

compreender� sem dificuldade. Dizei mais que as almas n�o atingem o grau supremo,
sen�o pelos esfor�os que fa�am por se melhorarem e depois de uma s�rie de provas
adequadas � sua purifica��o; que os anjos s�o almas que galgaram o �ltimo grau da
escala, grau que todas podem atingir, tendo boa-vontade; que os anjos s�o os
mensageiros de Deus, encarregados de velar pela execu��o de seus des�gnios em todo o
Universo, que se sentem ditosos com o desempenho dessas miss�es gloriosas, e lhes
tereis dado � felicidade um fim mais �til e mais atraente, do que fazendo-a consistir
numa contempla��o perp�tua, que n�o passaria de perp�tua inutilidade. Dizei,
finalmente, que os dem�nios s�o simplesmente as almas dos maus, ainda n�o
purificadas, mas que podem, como as outras, ascender ao mais alto cume da perfei��o e
isto parecer� mais conforme � justi�a e � bondade de Deus, do que a doutrina que os d�
como criados para o mal e ao mal destinados eternamente. Ainda uma vez: a� tendes o
que a mais severa raz�o, a mais rigorosa l�gica, o bom-senso, em suma, podem admitir.
Ora, essas almas que povoam o Espa�o s�o precisamente o a que se chama
Esp�ritos. Assim, pois, os Esp�ritos n�o s�o sen�o as almas dos homens, despojadas do
inv�lucro corp�reo. Mais hipot�tica lhes seria a exist�ncia, se fossem seres � parte. Se,
por�m, se admitir que h� almas, necess�rio tamb�m ser� se admita que os Esp�ritos s�o
simplesmente as almas e nada mais. Se se admite que as almas est�o por toda parte, ter-
se-� que admitir, do mesmo modo, que os Esp�ritos est�o por toda parte. Poss�vel,
portanto, n�o fora negar a exist�ncia dos Esp�ritos, sem negar a das almas.

3. Isto n�o passa, � certo, de uma teoria mais racional do que a outra. Por�m, j�
� muito que seja uma teoria que nem a raz�o, nem a ci�ncia repelem. Acresce que, se os
fatos a corroboram, tem ela por si a san��o do racioc�nio e da experi�ncia. Esses fatos
se nos deparam no fen�meno das manifesta��es esp�ritas, que, assim, cons-
23
H� ESP�RITOS?

tituem a prova patente da exist�ncia e da sobreviv�ncia da alma. Muitas pessoas h�,
entretanto, cuja cren�a n�o vai al�m desse ponto; que admitem a exist�ncia das almas e,
conseguintemente, a dos Esp�ritos, mas que negam a possibilidade de nos comunicarmos
com eles, pela raz�o, dizem, de que seres imateriais n�o podem atuar sobre a mat�ria.
Esta d�vida assenta na ignor�ncia da verdadeira natureza dos Esp�ritos, dos quais em
geral fazem id�ia muito falsa, supondo-os erradamente seres abstratos, vagos e
indefinidos, o que n�o � real.
Figuremos, primeiramente, o Esp�rito em uni�o com o corpo. Ele � o ser
principal, pois que � o ser que pensa e sobrevive. O corpo n�o passa de um acess�rio
seu, de um inv�lucro, uma veste, que ele deixa, quando usada. Al�m desse inv�lucro
material, tem o Esp�rito um segundo, semimaterial, que o liga ao primeiro. Por ocasi�o
da morte, despoja-se deste, por�m n�o do outro, a que damos o nome de perisp�rito.
Esse inv�lucro semimaterial, que tem a forma humana, constitui para o Esp�rito um
corpo flu�dico, vaporoso, mas que, pelo fato de nos ser invis�vel no seu estado normal,
n�o deixa de ter algumas das propriedades da mat�ria. O Esp�rito n�o �, pois, um ponto,
uma abstra��o; � um ser limitado e circunscrito, ao qual s� falta ser vis�vel e palp�vel,
para se assemelhar aos seres humanos. Por que, ent�o, n�o haveria de atuar sobre a
mat�ria? Por ser flu�dico o seu corpo? Mas, onde encontra o homem os seus mais
possantes motores, sen�o entre os mais rarificados fluidos, mesmo entre os que se
consideram imponder�veis, como, por exemplo, a eletricidade? N�o � exato que a luz,
imponder�vel, exerce a��o qu�mica sobre a mat�ria ponder�vel? N�o conhecemos a
natureza �ntima do perisp�rito. Suponhamo-lo, todavia, formado de mat�ria el�trica, ou
de outra t�o sutil quanto esta: por que, quando dirigido por uma vontade, n�o teria
propriedade id�ntica � daquela mat�ria?

4. A exist�ncia da alma e a de Deus, conseq��ncia uma da outra, constituindo a
base de todo o edif�cio,
24
CAP�TULO I

antes de travarmos qualquer discuss�o esp�rita, importa indaguemos se o nosso
interlocutor admite essa base. Se a estas quest�es:

Credes em Deus?
Credes que tendes uma alma?
Credes na sobreviv�ncia da alma ap�s a morte?

responder negativamente, ou, mesmo, se disser simplesmente: N�o sei; desejara que
assim fosse, mas n�o tenho a certeza disso, o que, quase sempre, eq�ivale a uma
nega��o polida, disfar�ada sob uma forma menos categ�rica, para n�o chocar
bruscamente o a que ele chama preconceitos respeit�veis, t�o in�til seria ir al�m, como
querer demonstrar as propriedades da luz a um cego que n�o admitisse a exist�ncia da
luz. Porque, em suma, as manifesta��es esp�ritas n�o s�o mais do que efeitos das
propriedades da alma. Com semelhante interlocutor, se se n�o quiser perder tempo, ter-
se-� que seguir muito diversa ordem de id�ias.
Admitida que seja a base, n�o como simples probabilidade, mas como coisa
averiguada, incontest�vel, dela muito naturalmente decorrer� a exist�ncia dos Esp�ritos.

5. Resta agora a quest�o de saber se o Esp�rito pode comunicar-se com o
homem, isto �, se pode com este trocar id�ias. Por que n�o? Que � o homem, sen�o um
Esp�rito aprisionado num corpo? Por que n�o h� de o Esp�rito livre se comunicar com o
Esp�rito cativo, como o homem livre com o encarcerado?
Desde que admitis a sobreviv�ncia da alma, ser� racional que n�o admitais a
sobreviv�ncia dos afetos? Pois que as almas est�o por toda parte, n�o ser� natural
acreditarmos que a de um ente que nos amou durante a vida se acerque de n�s, deseje
comunicar-se conosco e se sirva para isso dos meios de que disponha? Enquanto vivo,
n�o atuava ele sobre a mat�ria de seu corpo? N�o era quem lhe dirigia os movimentos?
Por que raz�o, depois
25
H� ESP�RITOS?

de morto, entrando em acordo com outro Esp�rito ligado a um corpo, estaria impedido
de se utilizar deste corpo vivo, para exprimir o seu pensamento, do mesmo modo que
um mudo pode servir-se de uma pessoa que fale, para se fazer compreendido?

6. Abstraiamos, por instante, dos fatos que, ao nosso ver, tornam incontest�vel a
realidade dessa comunica��o; admitamo-la apenas como hip�tese. Pedimos aos
incr�dulos que nos provem, n�o por simples negativas, visto que suas opini�es pessoais
n�o podem constituir lei, mas expendendo raz�es perempt�rias, que tal coisa n�o pode
dar-se. Colocando-nos no terreno em que eles se colocam, uma vez que entendem de
apreciar os fatos esp�ritas com o aux�lio das leis da mat�ria, que tirem desse arsenal
qualquer demonstra��o matem�tica, f�sica, qu�mica, mec�nica, fisiol�gica e provem por
a mais b, partindo sempre do principio da exist�ncia e da sobreviv�ncia da alma:
1� que o ser pensante, que existe em n�s durante a vida, n�o mais pensa depois
da morte;
2� que, se continua a pensar, est� inibido de pensar naqueles a quem amou;
3� que, se pensa nestes, n�o cogita de se comunicar com eles;
4� que, podendo estar em toda parte, n�o pode estar ao nosso lado;
5� que, podendo estar ao nosso lado, n�o pode comunicar-se conosco;
6� que n�o pode, por meio do seu envolt�rio flu�dico, atuar sobre a mat�ria
inerte;
7� que, sendo-lhe poss�vel atuar sobre a mat�ria inerte, n�o pode atuar sobre um
ser animado;
8� que, tendo a possibilidade de atuar sobre um ser animado, n�o lhe pode dirigir
a m�o para faz�-lo escrever;
9� que, podendo faz�-lo escrever, n�o lhe pode responder �s perguntas, nem lhe
transmitir seus pensamentos.
Quando os advers�rios do Espiritismo nos provarem que isto � imposs�vel,
aduzindo raz�es t�o patentes quais
26
CAP�TULO I

as com que Galileu demonstrou que o Sol n�o � que gira em torno da Terra, ent�o
poderemos considerar-lhes fundadas as d�vidas. Infelizmente, at� hoje, toda a
argumenta��o a que recorrem se resume nestas palavras: N�o creio, logo isto �
imposs�vel. Dir-nos-�o, com certeza, que nos cabe a n�s provar a realidade das
manifesta��es. Ora, n�s lhes damos, pelos fatos e pelo racioc�nio, a prova de que elas
s�o reais. Mas, se n�o admitem nem uma, nem outra coisa, se chegam mesmo a negar o
que v�em, toca-lhes a eles provar que o nosso racioc�nio � falso e que os fatos s�o
imposs�veis.
27




CAP�TULO II

DO MARAVILHOSO E DO SOBRENATURAL


7. Se a cren�a nos Esp�ritos e nas suas manifesta��es representasse uma
concep��o singular, fosse produto de um sistema, poderia, com visos de raz�o, merecer
a suspeita de ilus�ria. Digam-nos, por�m, por que com ela deparamos t�o vivaz entre
todos os povos, antigos e modernos, e nos livros santos de todas as religi�es
conhecidas? E, respondem os cr�ticos, porque, desde todos os tempos, o homem teve o
gosto do maravilhoso. - Mas, que entendeis por maravilhoso? - O que � sobrenatural. -
Que entendeis por sobrenatural? - O que � contr�rio �s leis da Natureza. - Conheceis,
porventura, t�o bem essas leis, que possais marcar limite ao poder de Deus? Pois bem!
Provai ent�o que a exist�ncia dos Esp�ritos e suas manifesta��es s�o contr�rias �s leis da
Natureza; que n�o �, nem pode ser uma destas leis. Acompanhai a Doutrina Esp�rita e
vede se todos os elos, ligados uniformemente � cadeia,
28
CAP�TULO II

n�o apresentam todos os caracteres de uma lei admir�vel, que resolve tudo o que as
filosofias at� agora n�o puderam resolver.
O pensamento � um dos atributos do Esp�rito; a possibilidade, que eles t�m, de
atuar sobre a mat�ria, de nos impressionar os sentidos e, por conseguinte, de nos
transmitir seus pensamentos, resulta, se assim nos podemos exprimir, da constitui��o
fisiol�gica que lhes � pr�pria. Logo, nada h� de sobrenatural neste fato, nem de
maravilhoso. Tornar um homem a viver depois de morto e bem morto, reunirem-se seus
membros dispersos para lhe formarem de novo o corpo, sim, seria maravilhoso,
sobrenatural, fant�stico. Haveria a� uma verdadeira derroga��o da lei, o que somente
por um milagre poderia Deus praticar. Coisa alguma, por�m, de semelhante h� na
Doutrina Esp�rita.

8. Entretanto, objetar�o, admitis que um Esp�rito pode suspender uma mesa e
mant�-la no espa�o sem ponto de apoio. N�o constitui isto um a derroga��o da lei de
gravidade? - Constitui, mas da lei conhecida; por�m, j� a Natureza disse a sua �ltima
palavra? Antes que se houvesse experimentado a for�a ascensional de certos gases,
quem diria que uma m�quina pesada, carregando muitos homens, fosse capaz de triunfar
da for�a de atra��o? Aos olhos do vulgo, tal coisa n�o pareceria maravilhosa, diab�lica?
Por louco houvera passado aquele que, h� um s�culo, se tivesse proposto a transmitir
um telegrama a 500 l�guas de dist�ncia e a receber a resposta, alguns minutos depois.
Se o fizesse, toda gente creria ter ele o diabo �s suas ordens, pois que, �quela �poca, s�
ao diabo era poss�vel andar t�o depressa. Porque, ent�o, um fluido desconhecido n�o
poderia, em dadas circunst�ncias, ter a propriedade de contrabalan�ar o efeito da
gravidade, como o hidrog�nio contrabalan�a o peso do bal�o? Notemos, de passagem,
que n�o fazemos uma assimila��o, mas apenas urna compara��o, e unicamente para
mostrar, por analogia, que o fato n�o � fisicamente imposs�vel.
29
DO MARAVILHOSO E DO SOBRENATURAL

Ora, foi exatamente por quererem, ao observar estas esp�cies de fen�menos,
proceder por assimila��o que os s�bios se transviaram.
Em suma, o fato a� est�. N�o h�, nem haver� nega��o que possa fazer n�o seja
ele real, porquanto negar n�o � provar. Para n�s, n�o h� coisa alguma sobrenatural. �
tudo o que, por agora, podemos dizer.

9. Se o fato ficar comprovado, dir�o, aceit�-lo-emos; aceitar�amos mesmo a
causa a que o atribu�s, a de um fluido desconhecido. Mas, quem nos prova a interven��o
dos Esp�ritos? A� � que est� o maravilhoso, o sobrenatural.
Far-se-ia mister aqui uma demonstra��o completa, que, no entanto, estaria
deslocada e, ao demais, constituiria uma repeti��o, visto que ressalta de todas as outras
partes do ensino. Todavia, resumindo-a nalgumas palavras, diremos que, em teoria, ela
se funda neste princ�pio: todo efeito inteligente h� de ter uma causa inteligente e, do
ponto de vista pr�tico, na observa��o de que, tendo os fen�menos ditos esp�ritas dado
provas de intelig�ncia, fora da mat�ria havia de estar a causa que os produzia e de que,
n�o sendo essa intelig�ncia a dos assistentes - o que a experi�ncia atesta - havia de lhes
ser exterior. Pois que n�o se via o ser que atuava, necessariamente era um ser invis�vel.
Assim foi que, de observa��o em observa��o, se chegou ao reconhecimento de
que esse ser invis�vel, a que deram o nome de Esp�rito, n�o � sen�o a alma dos que
viveram corporalmente, aos quais a morte arrebatou o grosseiro inv�lucro vis�vel,
deixando-lhes apenas um envolt�rio et�reo, invis�vel no seu estado normal. Eis, pois, o
maravilhoso e o sobrenatural reduzidos � sua mais simples express�o.
Uma vez comprovada a exist�ncia de seres invis�veis, a a��o deles sobre a
mat�ria resulta da natureza do envolt�rio rio flu�dico que os reveste. � inteligente essa
a��o, porque, ao morrerem, eles perderam t�o-somente o corpo, conser-
30
CAP�TULO II

vando a intelig�ncia que lhes constitui a ess�ncia mesma. A� est� a chave de todos esses
fen�menos tidos erradamente por sobrenaturais. A exist�ncia dos Esp�ritos n�o �,
portanto, um sistema preconcebido, ou uma hip�tese imaginada para explicar os fatos: �
o resultado de observa��es e conseq��ncia natural da exist�ncia da alma. Negar essa
causa � negar a alma e seus atributos. Dignem-se de apresent�-la os que pensem em
poder dar desses efeitos inteligentes uma explica��o mais racional e, sobretudo, de
apontar a causa de todos os fatos, e ent�o ser� poss�vel discutir-se o m�rito de cada
uma.

10. Para os que consideram a mat�ria a �nica pot�ncia da Natureza, tudo o que
n�o pode ser explicado pelas leis da mat�ria � maravilhoso, ou sobrenatural, e, para
eles, maravilhoso � sin�nimo de supersti��o. Se assim fosse, a religi�o, que se baseia na
exist�ncia de um princ�pio imaterial, seria um tecido de supersti��es. N�o ousam diz�-lo
em voz alta, mas dizem-no baixinho e julgam salvar as apar�ncias concedendo que uma
religi�o � necess�ria ao povo e �s crian�as, para que se tornem ajuizados. Ora, uma de
duas, ou o princ�pio religioso � verdadeiro, ou falso. Se � verdadeiro, ele o � para toda
gente, se falso, n�o tem maior valor para os ignorantes do que para os instru�dos.

11. Os que atacam o Espiritismo, em nome do maravilhoso, se ap�iam
geralmente no princ�pio materialista, porquanto, negando qualquer efeito extramaterial,
negam, ipso facto, a exist�ncia da alma. Sondai-lhes, por�m, o fundo das consci�ncias,
perscrutai bem o sentido de suas palavras e descobrireis quase sempre esse princ�pio, se
n�o categoricamente formulado, germinando por baixo da capa com que o cobrem, a de
uma pretensa filosofia racional. Lan�ando � conta do maravilhoso tudo o que decorre da
exist�ncia da alma, s�o, pois, conseq�entes consigo mesmos: n�o admitindo a causa, n�o
podem admitir os efeitos.
31
DO MARAVILHOSO E DO SOBRENATURAL

Da�, entre eles, uma opini�o preconcebida, que os torna impr�prios para julgar lisamente
do Espiritismo, visto que o princ�pio donde partem � o da nega��o de tudo o que n�o
seja material.
Quanto a n�s, dar-se-� aceitemos todos os fatos qualificados de maravilhosos,
pela simples raz�o de admitirmos os efeitos que s�o a conseq��ncia da exist�ncia da
alma? Dar-se-� sejamos campe�es de todos os sonhadores, adeptos de todas as utopias,
de todas as excentricidades sistem�ticas? Quem o supuser, demonstrar� bem minguado
conhecimento do Espiritismo. Mas, os nossos advers�rios n�o atentam nisto muito de
perto. O de que menos cuidam � da necessidade de conhecerem aquilo de que falam.
Segundo eles, o maravilhoso � absurdo; ora, o Espiritismo se ap�ia em fatos
maravilhosos, logo o Espiritismo � absurdo. E consideram sem apela��o esta senten�a.
Acham que op�em um argumento irretorqu�vel quando, depois de terem procedido a
eruditas pesquisas acerca dos convulsion�rios de Saint-M�dard, dos fan�ticos de
Cevenas, ou das religiosas de Loudun, chegaram � descoberta de patentes embustes, que
ningu�m contesta. Semelhantes hist�rias, por�m, ser�o o evangelho do Espiritismo?
Ter�o seus adeptos negado que o charlatanismo h� explorado, em proveito pr�prio,
alguns fatos? que outros sejam frutos da imagina��o? que muitos tenham sido
exagerados pelo fanatismo? T�o solid�rio � ele com as extravag�ncias que se cometam
em seu nome, quanto a verdadeira ci�ncia com os abusos da ignor�ncia, ou a verdadeira
religi�o com os excessos do sectarismo. Muitos cr�ticos se limitam a julgar do
Espiritismo pelos contos de fadas e pelas lendas populares que lhe s�o as fac��es. O
mesmo fora julgar da Hist�ria pelos romances hist�ricos, ou pelas trag�dias.

12. Em l�gica elementar, para se discutir uma coisa, preciso se faz conhec�-la,
porquanto a opini�o de um cr�tico s� tem valor, quando ele fala com perfeito
conhecimento de causa. Ent�o, somente, sua opini�o, embora err�nea,
32
CAP�TULO II

poder� ser tomada em considera��o Que peso, por�m, ter� quando ele trata do que n�o
conhece? A legitima cr�tica deve demonstrar, n�o s� erudi��o, mas tamb�m profundo
conhecimento do objeto que versa, ju�zo reto e imparcialidade a toda prova, sem o que,
qualquer menestrel poder� arrogar-se o direito de julgar Rossini e um pinta-monos o de
censurar Rafael.

13. Assim, o Espiritismo n�o aceita todos os fatos considerados maravilhosos,
ou sobrenaturais. Longe disso, demonstra a impossibilidade de grande n�mero deles e o
rid�culo de certas cren�as, que constituem a supersti��o propriamente dita. � exato que,
no que ele admite, h� coisas que, para os incr�dulos, S�o puramente do dom�nio do
maravilhoso, ou por outra, da supersti��o. Seja. Mas, ao menos, discuti apenas esses
pontos, porquanto, com rela��o aos demais, nada h� que dizer e pregais em v�o.
Atendo-vos ao que ele pr�prio refuta, provais ignorar o assunto e os vossos argumentos
erram o alvo.
Por�m, at� onde vai a cren�a do Espiritismo? perguntar�o. Lede, observai e
sab�-lo-eis. S� com o tempo e o estudo se adquire o conhecimento de qualquer ci�ncia.
Ora, o Espiritismo, que entende com as mais graves quest�es de filosofia, com todos os
ramos da ordem social, que abrange tanto o homem f�sico quanto o homem moral, �, em
si mesmo, uma ci�ncia, uma filosofia, que j� n�o podem ser aprendidas em algumas
horas, como nenhuma outra ci�ncia.
Tanta puerilidade haveria em se querer ver todo o Espiritismo numa mesa
girante, como toda a f�sica nalguns brinquedos de crian�a. A quem n�o se limite a ficar
na superf�cie, s�o necess�rios, n�o algumas horas somente, mas meses e anos, para lhe
sondar todos os arcanos. Por a� se pode apreciar o grau de saber e o valor da opini�o
dos que se atribuem o direito de julgar, porque viram uma ou duas experi�ncias, as mais
das vezes por distra��o ou divertimento. Dir�o eles com certeza que n�o lhes sobram
lazeres para consagrarem a tais estudos todo o tem-
33
DO MARAVILHOSO E DO SOBRENATURAL

po que reclamam. Est� bem; nada a isso os constrange. Mas, quem n�o tem tempo de
aprender uma coisa n�o se mete a discorrer sobre ela e, ainda menos, a julg�-la, se n�o
quiser que o acoimem de leviano. Ora, quanto mais elevada seja a posi��o que
ocupemos na ci�ncia, tanto menos escus�vel � que digamos, levianamente, de um
assunto que desconhecemos.

14. Resumimos nas proposi��es seguintes o que havemos expendido:
1� Todos os fen�menos esp�ritas t�m por principio a exist�ncia da alma, sua
sobreviv�ncia ao corpo e suas manifesta��es.
2� Fundando-se numa lei da Natureza, esses fen�menos nada t�m de
maravilhosos, nem de sobrenaturais. no sentido vulgar dessas palavras.
3� Muitos fatos s�o tidos por sobrenaturais, porque n�o se lhes conhece a causa;
atribuindo-lhes uma causa, o Espiritismo os rep�e no dom�nio dos fen�menos naturais.
4� Entre os fatos qualificados de sobrenaturais, muitos h� cuja impossibilidade o
Espiritismo demonstra, incluindo-os em o n�mero das cren�as supersticiosas.
5� Se bem reconhe�a um fundo de verdade em muitas cren�as populares, o
Espiritismo de modo algum d� sua solidariedade a todas as hist�rias fant�sticas que a
imagina��o h� criado.
6� Julgar do Espiritismo pelos fatos que ele n�o admite � dar prova de ignor�ncia
e tirar todo valor � opini�o emitida.
7� A explica��o dos fatos que o Espiritismo admite, de suas causas e
conseq��ncias morais, forma toda uma ci�ncia e toda uma filosofia, que reclamam
estudo s�rio, perseverante e aprofundado.
8� O Espiritismo n�o pode considerar cr�tico s�rio, sen�o aquele que tudo tenha
visto, estudado e aprofundado com a paci�ncia e a perseveran�a de um observador
consciencioso; que do assunto saiba tanto quanto qualquer adepto instru�do; que haja,
por conseguinte, haurido seus
34
CAP�TULO II

conhecimentos algures, que n�o nos romances da ci�ncia; aquele a quem n�o se possa
opor fato algum que lhe seja desconhecido, nenhum argumento de que j� n�o tenha
cogitado e cuja refuta��o fa�a, n�o por mera nega��o, mas por meio de outros
argumentos mais perempt�rios; aquele, finalmente, que possa indicar, para os fatos
averiguados, causa mais l�gica do que a que lhes aponta o Espiritismo. Tal cr�tico ainda
est� por aparecer.

15. Pronunciamos h� pouco a palavra milagre; uma ligeira observa��o sobre isso
n�o vir� fora de prop�sito, neste cap�tulo que trata do maravilhoso.
Na sua acep��o primitiva e pela sua etimologia, o termo milagre significa coisa
extraordin�ria, coisa admir�vel de se ver. Mas como tantas outras, essa palavra se
afastou do seu sentido origin�rio e hoje, por milagre, se entende (segundo a Academia)
um ato do poder divino, contr�rio �s leis comuns da Natureza. Tal, com efeito, a sua
acep��o usual e apenas por compara��o e por met�fora � ela aplicada �s coisas vulgares
que nos surpreendem e cuja causa se desconhece. De nenhuma forma entra em nossas
cogita��es indagar se Deus h� julgado �til, em certas circunst�ncias, derrogar as leis que
Ele pr�prio estabelecera; nosso fim �, unicamente, demonstrar que os fen�menos
esp�ritas, por mais extraordin�rios que sejam, de maneira alguma derrogam essas leis,
que nenhum car�ter t�m de miraculosos, do mesmo modo que n�o s�o maravilhosos, ou
sobrenaturais.
O milagre n�o se explica; os fen�menos esp�ritas, ao contr�rio, se explicam
racionalissimamente. N�o s�o, pois, milagres, mas simples efeitos, cuja raz�o de ser se
encontra nas leis gerais. O milagre apresenta ainda outro car�ter, o de ser ins�lito e
isolado. Ora, desde que um fato se reproduz, por assim dizer, � vontade e por diversas
pessoas, n�o pode ser um milagre.
Todos os dias a ci�ncia opera milagres aos olhos dos ignorantes. Por isso � que,
outrora, os que sabiam mais do que o vulgo passavam por feiticeiros; e, como se enten-
35
DO MARAVILHOSO E DO SOBRENATURAL

dia, ent�o, que toda ci�ncia sobre-humana vinha do diabo, queimavam-nos. Hoje, que j�
estamos muito mais civilizados, eles apenas s�o mandados para os hosp�cios.
Se um homem realmente morto, como dissemos em come�o, ressuscitar por
interven��o divina, haver� a� verdadeiro milagre, porque isso � contr�rio �s leis da
Natureza. Se, por�m, tal homem s� aparentemente est� morto, se ainda h� nele um resto
de vitalidade latente e a ci�ncia ou uma a��o magn�tica consegue reanim�-lo, um
fen�meno natural � o que isso ser� para pessoas instru�das. Todavia, aos olhos do vulgo
ignorante, o fato passar� por milagroso, e o autor se ver� perseguido a pedradas, ou
venerado, conforme o car�ter dos indiv�duos. Solte um f�sico, em campo de certa
natureza, um papagaio el�trico e fa�a, por esse meio, cair um raio sobre uma �rvore e o
novo Prometeu ser� tido certamente como senhor de um poder diab�lico. E, seja dito de
passagem, Prometeu nos parece, muito singularmente, ter sido um precursor de
Franklin; mas, Josu�, detendo o movimento do Sol, ou, antes, da Terra, esse teria
operado verdadeiro milagre, porquanto n�o conhecemos magnetizador algum dotado de
t�o grande poder, para realizar tal prod�gio.
De todos os fen�menos esp�ritas, um dos mais extraordin�rios �,
incontestavelmente, o da escrita direta e um dos que demonstram de modo mais patente
a a��o das intelig�ncias ocultas. Mas, da circunst�ncia de ser esse fen�meno produzido
por seres ocultos, n�o se segue que seja mais miraculoso do que qualquer dos outros
fen�menos devidos a agentes invis�veis, porque esses seres ocultos, que povoam os
espa�os, s�o uma das pot�ncias da Natureza, pot�ncias cuja a��o � incessante, assim
sobre o mundo material, como sobre o mundo moral.
Esclarecendo-nos com rela��o a essa pot�ncia, o Espiritismo nos d� a explica��o
de uma imensidade de coisas inexplicadas e inexplic�veis por qualquer outro meio e que,
� falta de toda explica��o, passaram por prod�gios, nos tempos antigos. Do mesmo
modo que o magnetismo,
36
CAP�TULO II

ele nos revela uma lei, se n�o desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou, mais
acertadamente, de uma lei que se desconhecia, embora se lhe conhecessem os efeitos,
visto que estes sempre se produziram em todos os tempos, tendo a ignor�ncia da lei
gerado a supersti��o. Conhecida ela, desaparece o maravilhoso e os fen�menos entram
na ordem das coisas naturais. Eis por que, fazendo que uma mesa se mova, ou que os
mortos escrevam, os esp�ritas n�o operam maior milagre do que opera o m�dico que
restitui � vida um moribundo, ou o f�sico que faz cair o raio. Aquele que pretendesse,
por meio desta ci�ncia,realizar milagres,seria ou ignorante do assunto, ou embusteiro.

16. Os fen�menos esp�ritas, assim como os fen�menos magn�ticos, antes que se
lhes conhecesse a causa, tiveram que passar por prod�gios. Ora, como os c�pticos, os
esp�ritos fortes, isto �, os que gozam do privil�gio exclusivo da raz�o e do bom-senso,
n�o admitem que uma coisa seja poss�vel, desde que n�o a compreendam, de todos os
fatos considerados prodigiosos fazem objeto de suas zombarias. Pois que a religi�o
conta grande n�mero de fatos desse g�nero, n�o cr�em na religi�o e da� � incredulidade
absoluta o passo � curto. Explicando a maior parte deles, o Espiritismo lhes assina uma
raz�o de ser.
Vem, pois, em aux�lio da religi�o, demonstrando a possibilidade de muitos que,
por perderem o car�ter de miraculosos, n�o deixam, contudo, de ser extraordin�rios, e
Deus n�o fica sendo menor, nem menos poderoso, por n�o haver derrogado suas leis.
De quantas gra�olas n�o foi objeto o fato de S�o Cupertino se erguer nos ares! Ora, a
suspens�o et�rea dos corpos graves � um fen�meno que a lei esp�rita explica. Fomos
dele pessoalmente testemunha ocular, e o Sr. Home, assim como outras pessoas de
nosso conhecimento, repetiram muitas vezes o fen�meno produzido por S�o Cupertino.
Logo, este fen�meno pertence � ordem das coisas naturais.
37
DO MARAVILHOSO E DO SOBRENATURAL

17. Entre os deste g�nero, devem figurar na primeira linha as apari��es, porque
s�o as mais freq�entes A de Salette, sobre a qual divergem as opini�es no seio do
pr�prio clero, nada tem para n�s de ins�lita. Certamente n�o podemos afirmar que o
fato se deu, porque n�o temos disso prova material; mas, consideramo-lo poss�vel,
atendendo a que conhecemos milhares de outros an�logos, recentemente ocorridos.
Damos-lhes cr�dito n�o s� porque lhes verificamos a realidade, como, sobretudo,
porque sabemos perfeitamente de que maneira se produzem. Quem se reportar � teoria,
que adiante expomos, das apari��es, reconhecer� que este fen�meno se mostra t�o
simples e plaus�vel, como um sem-n�mero de fen�menos f�sicos, que s� parecem
prodigiosos por falta de uma chave que permita explic�-los.
Quanto � personagem que se apresentou na Salette, � outra quest�o. Sua
identidade n�o nos foi absolutamente demonstrada. Apenas reconhecemos que pode ter
havido uma apari��o; quanto ao mais, escapa � nossa compet�ncia. A esse respeito,
cada um est� no direito de manter suas convic��es, nada tendo o Espiritismo que ver
com isso. Dizemos t�o-somente que os fatos que o Espiritismo produz nos revelam leis
novas e nos d�o a explica��o de um mundo de coisas que pareciam sobrenaturais. Desde
que alguns dos que passavam por miraculosos encontram, assim, explica��o l�gica,
motivo � este bastante para que ningu�m se apresse a negar o que n�o compreende.
Algumas pessoas contestam os fen�menos esp�ritas precisamente porque tais
fen�menos lhes parecem estar fora da lei comum e porque n�o logram achar-lhes
qualquer explica��o. Dai-lhes uma base racional e a d�vida desaparecer�. A explica��o,
neste s�culo em que ningu�m se contenta com palavras, constitui, pois, poderoso
motivo de convic��o. Da� o vermos, todos os dias, pessoas, que nenhum fato
testemunharam, que n�o observaram uma mesa agitar-se, ou um m�dium escrever, se
tornarem t�o convencidas quanto n�s, unicamente porque leram e com-
38
CAP�TULO II

preenderam. Se houv�ssemos de somente acreditar no que vemos com os nossos olhos,
a bem pouco se reduziriam as nossas convic��es.
39




CAP�TULO III

DO M�TODO


18. Muito natural e louv�vel �, em todos os adeptos, o desejo, que nunca ser�
demais animar, de fazer pros�litos. Visando facilitar-lhes essa tarefa, aqui nos propomos
examinar o caminho que nos parece mais seguro para se atingir esse objetivo, a fim de
lhes pouparmos in�teis esfor�os.
Dissemos que o Espiritismo � toda uma ci�ncia, toda uma filosofia. Quem, pois,
seriamente queira conhec�-lo deve, como primeira condi��o, dispor-se a um estudo
s�rio e persuadir-se de que ele n�o pode, como nenhuma outra ci�ncia, ser aprendido a
brincar. O Espiritismo, tamb�m j� o dissemos, entende com todas as quest�es que
interessam a Humanidade; tem imenso campo, e o que principalmente conv�m � encar�-
lo pelas suas conseq��ncias.
Formar-lhe sem d�vida a base a cren�a nos Esp�ritos, mas essa cren�a n�o basta
para fazer de algu�m um esp�rita esclarecido, como a cren�a em Deus n�o � suficiente
para
40
CAP�TULO III

fazer de quem quer que seja um te�logo. Vejamos, ent�o, de que maneira ser� melhor se
ministre o ensino da Doutrina Esp�rita, para levar com mais seguran�a � convic��o.
N�o se espantem os adeptos com esta palavra - ensino. N�o constitui ensino
unicamente o que � dado do p�lpito ou da tribuna. H� tamb�m o da simples
conversa��o. Ensina todo aquele que procura persuadir a outro, seja pelo processo das
explica��es, seja pelo das experi�ncias. O que desejamos � que seu esfor�o produza
frutos e � por isto que julgamos de nosso dever dar alguns conselhos, de que poder�o
igualmente aproveitar os que queiram instruir-se por si mesmos. Uns e outros, seguindo-
os, achar�o meio de chegar com mais seguran�a e presteza ao fim visado.

19. � cren�a geral que, para convencer, basta apresentar os fatos. Esse, com
efeito, parece o caminho mais l�gico. Entretanto, mostra a experi�ncia que nem sempre
� o melhor, pois que a cada passo se encontram pessoas que os mais patentes fatos
absolutamente n�o convenceram. A que se deve atribuir isso? � o que vamos tentar
demonstrar.
No Espiritismo, a quest�o dos Esp�ritos � secund�ria e consecutiva; n�o constitui
o ponto de partida. Este precisamente o erro em que caem muitos adeptos e que,
ami�de, os leva a insucesso com certas pessoas. N�o sendo os Esp�ritos sen�o as almas
dos homens, o verdadeiro ponto de partida � a exist�ncia da alma. Ora, como pode o
materialista admitir que, fora do mundo material, vivam seres, estando crente de que, em
si pr�prio, tudo � mat�ria? Como pode crer que, exteriormente � sua pessoa, h�
Esp�ritos, quando n�o acredita ter um dentro de si? Ser� in�til acumular-lhe diante dos
olhos as provas mais palp�veis. Contest�-las-� todas, porque n�o admite o princ�pio.
Todo ensino met�dico tem que partir do conhecido para o desconhecido. Ora,
para o materialista, o conhecido � a mat�ria: parti, pois, da mat�ria e tratai, antes de
tudo, fazendo que ele a observe, de convenc�-lo de que
41
DO M�TODO

h� nele alguma coisa que escapa �s leis da mat�ria. Numa palavra, primeiro que o
torneis ESP�RITA, cuidai de torn�-lo ESPIRITUALISTA. Mas, para tal, muito outra �
a ordem de fatos a que se h� de recorrer, muito especial o ensino cab�vel e que, por isso
mesmo, precisa ser dado por outros processos. Falar-lhe dos Esp�ritos, antes que esteja
convencido de ter uma alma, � come�ar por onde se deve acabar, porquanto n�o lhe ser�
poss�vel aceitar a conclus�o, sem que admita as premissas. Antes, pois, de tentarmos
convencer um incr�dulo, mesmo por meio dos fatos, cumpre nos certifiquemos de sua
opini�o relativamente � alma, isto �, cumpre verifiquemos se ele cr� na exist�ncia da
alma, na sua sobreviv�ncia ao corpo, na sua individualidade ap�s a morte. Se a resposta
for negativa, falar-lhe dos Esp�ritos seria perder tempo. Eis a� a regra. N�o dizemos que
n�o comporte exce��es. Neste caso, por�m, haver� provavelmente outra causa que o
toma menos refrat�rio.

20. Entre os materialistas, importa distinguir duas classes: colocamos na primeira
os que o s�o por sistema. Nesses, n�o h� a d�vida, h� a nega��o absoluta, raciocinada a
seu modo. O homem, para eles, � simples m�quina, que funciona enquanto est�
montada, que se desarranja e de que, ap�s a morte, s� resta a carcassa.
Felizmente, s�o em n�mero restrito e n�o formam escola abertamente confessada. N�o
precisamos insistir nos deplor�veis efeitos que para a ordem social resultariam da
vulgariza��o de semelhante doutrina. J� nos estendemos bastante sobre esse assunto em
O Livro dos Esp�ritos(n. 147 e � III da Conclus�o).
Quando dissemos que a d�vida cessa nos incr�dulos diante de uma explica��o
racional, excetuamos os materialistas extremados, os que negam a exist�ncia de
qualquer for�a e de qualquer princ�pio inteligente fora da mat�ria. A maioria deles se
obstina por orgulho na opini�o que professa, entendendo que o amor-pr�prio lhes imp�e
persistir nela. E persistem, n�o obstante todas as provas em
42
CAP�TULO III

contrario, porque n�o querem ficar de baixo. Com tal gente, nada h� que fazer; ningu�m
mesmo se deve deixar iludir pelo falso tom de sinceridade dos que dizem: fazei que eu
veja, e acreditarei. Outros s�o mais francos e dizem sem rebu�o: ainda que eu visse, n�o
acreditaria.

21. A segunda classe de materialistas, muito mais numerosa do que a primeira,
porque o verdadeiro materialismo � um sentimento antinatural, compreende os que o
s�o por indiferen�a, por falta de coisa melhor, pode-se dizer. N�o o s�o
deliberadamente e o que mais desejam � crer, porquanto a incerteza lhes � um tormento.
H� neles uma vaga aspira��o pelo futuro; mas esse futuro lhes foi apresentado com
cores tais, que a raz�o deles se recusa a aceit�-lo. Da� a d�vida e, como conseq��ncia da
d�vida, a incredulidade. Esta, portanto, n�o constitui neles um sistema.
Assim sendo, se lhes apresentardes alguma coisa racional, aceitam-na
pressurosos. Esses, pois, nos podem compreender, visto estarem mais perto de n�s do
que, por certo, eles pr�prios o julgam.
Aos primeiros n�o faleis de revela��o, nem de anjos, nem do para�so: n�o vos
compreenderiam. Colocai-vos, por�m, no terreno em que eles se encontram e provai-
lhes primeiramente que as leis da Fisiologia s�o impotentes para tudo explicar; o resto
vir� depois.
De outra maneira se passam as coisas, quando a incredulidade n�o �
preconcebida, porque ent�o a cren�a n�o � de todo nula; h� um g�rmen latente, abafado
pelas ervas m�s, e que uma centelha pode reavivar. E o cego a quem se restitui a vista e
que se alegra por tornar a ver a luz; � o n�ufrago a quem se lan�a uma t�bua de
salva��o.

22. Ao lado da dos materialistas propriamente ditos, h� uma terceira classe de
incr�dulos que, embora espiritualistas, pelo menos de nome, s�o t�o refrat�rios quanto
aqueles. Referimo-nos aos incr�dulos de m�-vontade. A esses muito aborreceria o terem
que crer, porque isso lhes
43
DO M�TODO

perturbaria a quietude nos gozos materiais. Temem deparar com a condena��o de suas
ambi��es, de seu ego�smo e das vaidades humanas com que se deliciam. Fecham os
olhos para n�o ver e tapam os ouvidos para n�o ouvir. Lament�-los � tudo o que se
pode fazer.

23. Apenas por n�o deixar de mencion�-la, falaremos de uma quanta categoria, a
que chamaremos incr�dulos por interesse ou de m�-f�. Os que a comp�em sabem muito
bem o que devem pensar do Espiritismo, mas ostensivamente o condenam por motivos
de interesse pessoal. N�o h� o que dizer deles, como n�o h� com eles o que fazer.
O puro materialista tem para o seu engano a escusa da boa-f�; poss�vel ser�
desengan�-lo, provando-se-lhe o erro em que labora. No outro, h� uma determina��o
assentada, contra a qual todos os argumentos ir�o chocar-se em v�o. O tempo se
encarregar� de lhe abrir os olhos e de lhe mostrar, qui�� � custa pr�pria, onde estavam
seus verdadeiros interesses, porquanto, n�o podendo impedir que a verdade se expanda,
ele ser� arrastado pela torrente, bem como os interesses que julgava salvaguardar.

24. Al�m dessas diversas categorias de opositores, muitos h� de uma infinidade
de matizes, entre os quais se podem incluir: os incr�dulos por pusilanimidade, que ter�o
coragem, quando virem que os outros n�o se queimam; os incr�dulos por escr�pulos
religiosos, aos quais um estudo esclarecido ensinar� que o Espiritismo repousa sobre as
bases fundamentais da religi�o e respeita todas as cren�as; que um de seus efeitos �
incutir sentimentos religiosos nos que os n�o possuem, fortalec�-los nos que os tenham
vacilantes. Depois, v�m os incr�dulos por orgulho, por esp�rito de contradi��o, por
neglig�ncia, por leviandade, etc., etc.

25. N�o podemos omitir uma categoria a que chamaremos incr�dulos por
decep��es. Abrange os que passaram de uma confian�a exagerada � incredulidade,
porque sofre-
44
CAP�TULO III

ram desenganos. Ent�o, desanimados, tudo abandonaram, tudo rejeitaram. Est�o no
caso de um que negasse a boa-f�, por haver sido ludibriado.
Ainda a� o que h� � o resultado de incompleto estudo do Espiritismo e de falta
de experi�ncia. Aquele a quem os Esp�ritos mistificam, geralmente � mistificado por lhes
perguntar o que eles n�o devem ou n�o podem dizer, ou porque n�o se acha bastante
instru�do sobre o assunto, para distinguir da impostura a verdade.
Muitos, aos demais, s� v�em no Espiritismo um novo meio de adivinha��o e
imaginam que os Esp�ritos existem para predizer a sorte de cada um. Ora, os Esp�ritos
levianos e zombeteiros n�o perdem ocasi�o de se divertirem � custa dos que pensam
desse modo. E assim que anunciar�o maridos �s mo�as; ao ambicioso, honras, heran�as,
tesouros ocultos, etc. Da�, muitas vezes, desagrad�veis decep��es, das quais, entretanto,
o homem s�rio e prudente sempre sabe preservar-se.

26. Uma classe muito numerosa, a mais numerosa mesmo de todas, mas que n�o
poderia ser inclu�da entre as dos opositores, � a dos incertos. S�o, em geral,
espiritualistas por princ�pio. Na maioria deles, h� uma vaga intui��o das id�ias esp�ritas,
uma aspira��o de qualquer coisa que n�o podem definir. N�o lhes falta aos pensamentos
sen�o serem coordenados e formulados. O Espiritismo lhes � como que um tra�o de luz:
a claridade que dissipa o nevoeiro. Por isso mesmo o acolhem pressurosos, porque ele
os livra das ang�stias da incerteza.

27. Se, da�, projetarmos o olhar sobre as diversas categorias de crentes,
depararemos primeiro com os que s�o esp�ritas sem o saberem. Propriamente falando,
estes constituem uma variedade, ou um matiz da classe precedente. Sem jamais terem
ouvido tratar da Doutrina Esp�rita, possuem o sentimento inato dos grandes princ�pios
que dela decorrem e esse sentimento se reflete em algumas passagens de seus escritos e
de seus discursos, a ponto
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DO M�TODO

de suporem, os que os ouvem, que eles s�o completamente iniciados. Numerosos
exemplos de tal fato se encontram nos escritores profanos e sagrados, nos poetas,
oradores, moralistas e fil�sofos, antigos e modernos.

28. Entre os que se convenceram por um estudo direto, podem destacar-se:
1� Os que cr�em pura e simplesmente nas manifesta��es. Para eles, o Espiritismo
� apenas uma ci�ncia de observa��o, uma s�rie de fatos mais ou menos curiosos.
Chamar-lhes-emosesp�ritas experimentadores.
2� Os que no Espiritismo v�em mais do que fatos; compreendem-lhe a parte
filos�fica; admiram a moral da� decorrente, mas n�o a praticam. Insignificante ou nula �
a influ�ncia que lhes exerce nos caracteres. Em nada alteram seus h�bitos e n�o se
privariam de um s� gozo que fosse. O avarento continua a s�-lo, o orgulhoso se
conserva cheio de si, o invejoso e o cioso sempre hostis. Consideram a caridade crist�
apenas uma bela m�xima. S�o os esp�ritas imperfeitos.
3� Os que n�o se contentam com admirar a moral esp�rita, que a praticam e lhe
aceitam todas as conseq��ncias. Convencidos de que a exist�ncia terrena � uma prova
passageira, tratam de aproveitar os seus breves instantes para avan�ar pela senda do
progresso, �nica que os pode elevar na hierarquia do mundo dos Esp�ritos, esfor�ando-
se por fazer o bem e coibir seus maus pendores. As rela��es com eles sempre oferecem
seguran�a, porque a convic��o que nutrem os preserva de pensarem em praticar o mal.
A caridade �, em tudo, a regra de proceder a que obedecem. S�o os verdadeiros
esp�ritas, ou melhor, os esp�ritas crist�os.
4� H�, finalmente, os esp�ritas exaltados. A esp�cie humana seria perfeita, se
sempre tomasse o lado bom das coisas. Em tudo, o exagero � prejudicial. Em
Espiritismo, infunde confian�a demasiado cega e freq�entemente pueril, no tocante ao
mundo invis�vel, e leva a aceitar-se, com
46
CAP�TULO III

extrema facilidade e sem verifica��o, aquilo cujo absurdo, ou impossibilidade a reflex�o
e o exame demonstrariam. O entusiasmo, por�m, n�o reflete, deslumbra. Esta esp�cie de
adeptos � mais nociva do que �til � causa do Espiritismo. S�o os menos aptos para
convencer a quem quer que seja, porque todos, com raz�o, desconfiam dos julgamentos
deles. Gra�as � sua boa-f�, s�o iludidos, assim, por Esp�ritos mistificadores, como por
homens que procuram explorar-lhes a credulidade. Meio-mal apenas haveria, se s� eles
tivessem que sofrer as conseq��ncias. O pior � que, sem o quererem, d�o armas aos
incr�dulos, que antes buscam ocasi�o de zombar, do que se convencerem e que n�o
deixam de imputar a todos o rid�culo de alguns. Sem d�vida que isto n�o � justo, nem
racional; mas, como se sabe, os advers�rios do Espiritismo s� consideram de bom
quilate a raz�o de que desfrutam, e conhecer a fundo aquilo sobre que discorrem � o que
menos cuidado lhes d�.

29. Os meios de convencer variam extremamente, conforme os indiv�duos. O
que persuade a uns nada produz em outros; este se convenceu observando algumas
manifesta��es materiais, aquele por efeito de comunica��es inteligentes, o maior
n�mero pelo racioc�nio. Podemos at� dizer que, para a maioria dos que se n�o preparam
pelo racioc�nio, os fen�menos materiais quase nenhum peso t�m. Quanto mais
extraordin�rios s�o esses fen�menos, quanto mais se afastam das leis conhecidas, maior
oposi��o encontram e isto por uma raz�o muito simples: � que todos somos levados
naturalmente a duvidar de uma coisa que n�o tem san��o racional. Cada um a considera
do seu ponto de vista e a explica a seu modo: o materialista a atribui a uma causa
puramente f�sica ou a embuste; o ignorante e o supersticioso a uma causa diab�lica ou
sobrenatural, ao passo que uma explica��o pr�via produz o efeito de destruir as id�ias
preconcebidas e de mostrar, sen�o a realidade, pelo menos a possibilidade da coisa, que,
assim, � compreendida antes de ser vista. Ora, desde
47
DO M�TODO

que se reconhece a possibilidade de um fato, tr�s quartos da convic��o est�o
conseguidos.

30. Convir� se procure convencer a um incr�dulo obstinado? J� dissemos que
isso depende das causas e da natureza da sua incredulidade. Muitas vezes, a insist�ncia
em querer persuadi-lo o leva a crer em sua import�ncia pessoal, o que, a seu ver,
constitui raz�o para ainda mais se obstinar. Com rela��o ao que se n�o convenceu pelo
racioc�nio, nem pelos fatos, a conclus�o a tirar-se � que ainda lhe cumpre sofrer a prova
da incredulidade. Deve-se deixar � Provid�ncia o encargo de lhe preparar circunst�ncias
mais favor�veis. N�o faltam os que anseiam pelo recebimento da luz, para que se esteja
a perder tempo com os que a repelem.
Dirigi-vos, portanto, aos de boa-vontade, cujo n�mero � maior do que se pensa,
e o exemplo de suas convers�es, multiplicando-se, mais do que simples palavras,
vencer� as resist�ncias. O verdadeiro esp�rita jamais deixar� de fazer o bem. Lenir
cora��es aflitos; consolar, acalmar desesperos, operar reformas morais, essa a sua
miss�o. E nisso tamb�m que encontrar� satisfa��o real. O Espiritismo anda no ar;
difunde-se pela for�a mesma das coisas, porque toma felizes os que o professam.
Quando o ouvirem repercutir em tomo de si mesmos, entre seus pr�prios amigos, os
que o combatem por sistema compreender�o o insulamento em que se acham e ser�o
for�ados a calar-se, ou a render-se.

31. Para, no ensino do Espiritismo, proceder-se como se procederia com rela��o
ao das ci�ncias ordin�rias, preciso fora passar revista a toda a s�rie dos fen�menos que
possam produzir-se, come�ando pelos mais simples, para chegar sucessivamente aos
mais complexos. Ora, isso n�o � poss�vel, porque poss�vel n�o � fazer-se um curso de
Espiritismo experimental, como se faz um curso de F�sica ou de Qu�mica. Nas ci�ncias
naturais, opera-se sobre a mat�ria bruta, que se manipula � vontade, tendo-se quase
48
CAP�TULO III

sempre a certeza de poderem regular-se os efeitos. No Espiritismo, temos que lidar com
intelig�ncias que gozam de liberdade e que a cada instante nos provam n�o estar
submetidas aos nossos caprichos. Cumpre, pois, observar, aguardar os resultados e
colh�-los � passagem. Da� o declararmos abertamente que quem quer que blasone de os
obter � vontade n�o pode deixar de ser ignorante ou impostor. Da� vem que o
verdadeiro Espiritismojamais se dar� em espet�culo, nem subir� ao tablado das feiras.
H� mesmo qualquer coisa de il�gico em supor-se que Esp�ritos venham exibir-se
e submeter-se a investiga��es, como objetos de curiosidade. Portanto, pode suceder que
os fen�menos n�o se d�em quando mais desejados sejam, ou que se apresentem numa
ordem muito diversa da que se quereria. Acrescentemos mais que, para serem obtidos,
precisa se faz a interven��o de pessoas dotadas de faculdades especiais e que estas
faculdades variam ao infinito, de acordo com as aptid�es dos indiv�duos. Ora, sendo
extremamente raro que a mesma pessoa tenha todas as aptid�es, isso constitui uma nova
dificuldade, porquanto mister seria ter-se sempre � m�o uma cole��o completa de
m�diuns, o que absolutamente n�o � poss�vel.
O meio, ali�s, muito simples, de se obviar a este inconveniente, consiste em se
come�ar pela teoria. A� todos os fen�menos s�o apreciados, explicados, de modo que o
estudante vem a conhec�-los, a lhes compreender a possibilidade, a saber em que
condi��es podem produzir-se e quais os obst�culos que podem encontrar. Ent�o,
qualquer que seja a ordem em que se apresentem, nada ter�o que surpreenda. Este
caminho ainda oferece outra vantagem: a de poupar uma imensidade de decep��es
�quele que queira operar por si mesmo. Precavido contra as dificuldades, ele saber�
manter-se em guarda e evitar a conjuntura de adquirir a experi�ncia � sua pr�pria custa.
Ser-nos-ia dif�cil dizer quantas as pessoas que, desde quando come�amos a
ocupar-nos com o Espiritismo, h�o vindo ter conosco e quantas delas vimos que se
conservaram indiferentes ou incr�dulas diante dos fatos mais positi-
49
DO M�TODO

vos e s� posteriormente se convenceram, mediante uma explica��o racional; quantas
outras que se predispuseram � convic��o, pelo racioc�nio; quantas, enfim, que se
persuadiram, sem nada nunca terem visto, unicamente porque haviam compreendido.
Falamos, pois, por experi�ncia e, assim, tamb�m, � por experi�ncia que dizemos
consistir o melhor m�todo de ensino esp�rita em se dirigir, aquele que ensina, antes �
raz�o do que aos olhos. Esse o m�todo que seguimos em as nossas li��es e pelo qual
somente temos que nos felicitar (1).

32. Ainda outra vantagem apresenta o estudo pr�vio da teoria - a de mostrar
imediatamente a grandeza do objetivo e o alcance desta ci�ncia. Aquele que come�a por
ver uma mesa a girar, ou a bater, se sente mais inclinado ao gracejo, porque dificilmente
imaginar� que de uma mesa possa sair uma doutrina regeneradora da humanidade.
Temos notado sempre que os que cr�em, antes de haver visto, apenas porque leram e
compreenderam, longe de se conservarem superficiais, s�o, ao contr�rio, os que mais
refletem. Dando maior aten��o ao fundo do que � forma, v�em na parte filos�fica o
principal, considerando como acess�rio os fen�menos propriamente ditos. Declaram
ent�o que, mesmo quando estes fen�menos n�o existissem, ainda ficava uma filosofia
que s� ela resolve problemas at� hoje insol�veis; que s� ela apresenta a teoria mais
racional do passado do homem e do seu futuro. Ora, como � natural, preferem eles uma
doutrina que explica, �s que n�o explicam, ou explicam mal.
Quem quer que reflita compreende perfeitamente bem que se poderia abstrair das
manifesta��es, sem que a Doutrina deixasse de subsistir. As manifesta��es a
corroboram, confirmam, por�m, n�o lhe constituem a base essencial. O observador
criterioso n�o as repele; ao contr�rio, aguarda circunst�ncias favor�veis, que lhe
permitam testemu-

__________
(1) O nosso ensino te�rico e pr�tico � sempre gratuito.
50
CAP�TULO III

nh�-las. A prova do que avan�amos � que grande n�mero de pessoas, antes de ouvirem
falar das manifesta��es, tinham a intui��o desta Doutrina, que n�o fez mais do que lhes
dar corpo, conex�o �s id�ias.

33. Demais, fora inexato dizer-se que os que come�am pela teoria se privam do
objeto das observa��es pr�ticas. Pelo contr�rio, n�o s� lhes n�o faltam os fen�menos,
como ainda os de que eles disp�em maior peso mesmo t�m aos seus olhos, do que os
que pudessem vir a operar-se em sua presen�a. Referimo-nos aos copiosos fatos de
manifesta��es espont�neas, de que falaremos nos cap�tulos seguintes. Raros ser�o os
que delas n�o tenham conhecimento, quando nada, por ouvir dizer. Outros conhecem
algumas, consigo mesmo ocorridas, mas a que n�o prestaram quase nenhuma aten��o. A
teoria lhes vem dar a explica��o. E afirmamos que esses fatos t�m grande peso, quando
se ap�iam em testemunhos irrecus�veis, porque n�o se pode sup�-los devidos a
arranjos, nem a coniv�ncias. Mesmo que n�o houvesse os fen�menos provocados, nem
por isso deixaria de haver os espont�neos e j� seria muito que ao Espiritismo coubesse
apenas lhes oferecer uma solu��o racional. Assim, os que l�em previamente reportam
suas recorda��es a esses fatos, que se lhes apresentam como uma confirma��o da teoria.

34. Singularmente se equivocaria, quanto � nossa maneira de ver, quem
supusesse que aconselhamos se desprezem os fatos. Pelos fatos foi que chegamos �
teoria. E certo que para isso tivemos de nos consagrar a ass�duo trabalho durante muitos
anos e de fazer milhares de observa��es. Mas, pois que os fatos nos serviram e servem
todos os dias, ser�amos inconseq�entes conosco mesmo se lhes contest�ssemos a
import�ncia, sobretudo quando compomos um livro para torn�-los conhecidos de todos.
Dizemos apenas que, sem o racioc�nio, eles n�o bastam para determinar a convic��o;
que uma explica��o pr�via,
51
DO M�TODO

pondo termo �s preven��es e mostrando que os fatos em nada s�o contr�rios � raz�o,
disp�e o indiv�duo a aceit�-los.
T�o verdade � isto que, em dez pessoas completamente novatas no assunto, que
assistam a uma sess�o de experimenta��o, ainda que das mais satisfat�rias na opini�o
dos adeptos, nove sair�o sem estar convencidas e algumas mais incr�dulas do que antes,
por n�o terem as experi�ncias correspondido ao que esperavam. O inverso se dar� com
as que puderem compreender os fatos, mediante antecipado conhecimento te�rico. Para
estas pessoas, a teoria constitui um meio de verifica��o, sem que coisa alguma as
surpreenda, nem mesmo o insucesso, porque sabem em que condi��es os fen�menos se
produzem e que n�o se lhes deve pedir o que n�o podem dar. Assim, pois, a intelig�ncia
pr�via dos fatos n�o s� as coloca em condi��es de se aperceberem de todas as
anomalias, mas tamb�m de apreenderem um sem-n�mero de particularidades, de
matizes, �s vezes muito delicados, que escapam ao observador ignorante. Tais os
motivos que nos for�am a n�o admitir, em nossas sess�es experimentais, sen�o quem
possua suficientes no��es preparat�rias, para compreender o que ali se faz, persuadido
de que os que l� fossem, carentes dessas no��es, perderiam o seu tempo, ou nos fariam
perder o nosso.

35. Aos que quiserem adquirir essas no��es preliminares, pela leitura das nossas
obras, aconselhamos que as leiam nesta ordem:
1� - O que � o Espiritismo? Esta brochura, de uma centena de p�ginas somente,
cont�m sum�ria exposi��o dos princ�pios da Doutrina Esp�rita, um apanhado geral
desta, permitindo ao leitor apreender-lhe o conjunto dentro de um quadro restrito. Em
poucas palavras ele lhe percebe o objetivo e pode julgar do seu alcance. A� se
encontram, al�m disso, respostas �s principais quest�es ou obje��es que os novatos se
sentem naturalmente propensos a fazer. Esta primeira leitura, que muito pouco tempo
consome, � uma introdu��o que facilita um estudo mais aprofundado.
52
CAP�TULO III

2� - O Livro dos Esp�ritos. Cont�m a doutrina completa, como a ditaram os
pr�prios Esp�ritos, com toda a sua filosofia e todas as suas conseq��ncias morais. E a
revela��o do destino do homem, a inicia��o no conhecimento da natureza dos Esp�ritos
e nos mist�rios da vida de al�m-t�mulo. Quem o l� compreende que o Espiritismo
objetiva um fim s�rio, que n�o constitui fr�volo passatempo.
3� - O Livro dos M�diuns. Destina-se a guiar os que queiram entregar-se �
pr�tica das manifesta��es, dando-lhes conhecimento dos meios pr�prios para se
comunicarem com os Esp�ritos. E um guia, tanto para os m�diuns, como para os
O
evocadores, e o complemento de Livro dos Esp�ritos.
4� - A Revue Spirite. Variada colet�nea de fatos, de explica��es te�ricas e de
trechos isolados, que completam o que se encontra nas duas obras precedentes,
formando-lhes, de certo modo, a aplica��o. Sua leitura pode fazer-se simultaneamente
com a daquelas obras, por�m, mais proveitosa ser�, e, sobretudo, mais intelig�vel, se for
feita depois deO Livro dos Esp�ritos.(1)
Isto pelo que nos diz respeito. Os que desejem tudo conhecer de uma ci�ncia
devem necessariamente ler tudo o que se ache escrito sobre a mat�ria, ou, pelo menos, o
que haja de principal, n�o se limitando a um �nico autor. Devem mesmo ler o pr� e o
contra, as cr�ticas como as apologias, inteirar-se dos diferentes sistemas, a fim de
poderem julgar por compara��o.
Por esse lado, n�o preconizamos, nem criticamos obra alguma, visto n�o
querermos, de nenhum modo, influenciar a opini�o que dela se possa formar. Trazendo
nossa pedra ao edif�cio, colocamo-nos nas fileiras. N�o nos cabe ser juiz e parte e n�o
alimentamos a rid�cula pretens�o de ser o �nico distribuidor da luz. Toca ao leitor
separar o bom do mau, o verdadeiro do falso.

__________
(1) Nota da Editora FEB: De Kardec s�o ainda as obras : O Evangelho segundo o
Espiritismo. - O C�u e o Inferno. - A G�nese. - Obras P�stumas.
53




CAP�TULO IV

DOS SISTEMAS

36. Quando come�aram a produzir-se os estranhos fen�menos do Espiritismo,
ou, dizendo melhor, quando esses fen�menos se renovaram nestes �ltimos tempos, o
primeiro sentimento que despertaram foi o da d�vida, quanto � realidade deles e, mais
ainda, quanto � causa que lhes dava origem. Uma vez certificados, por testemunhos
irrecus�veis e pelas experi�ncias que todos h�o podido fazer, sucedeu que cada um os
interpretou a seu modo, de acordo com suas id�ias pessoais, suas cren�as, ou suas
preven��es. Da�, muitos sistemas, a que uma observa��o mais atenta viria dar o justo
valor.
Julgaram os advers�rios do Espiritismo encontrar um argumento nessa
diverg�ncia de opini�es, dizendo que os pr�prios esp�ritas n�o se entendiam entre si A
pobreza de semelhante raz�o prontamente se patenteia, desde que se reflita que os
passos de qualquer ci�ncia nascente s�o necessariamente incertos, at� que o tempo haja
permitido
54
CAP�TULO IV

se colecionem e coordenem os fatos sobre que possa firmar-se a opini�o.
� medida que os fatos se completam e v�o sendo mais bem observados, as id�ias
prematuras se apagam e a unidade se estabelece, pelo menos com rela��o aos pontos
fundamentais, sen�o a todos os pormenores. Foi o que se deu com o Espiritismo, que
n�o podia fugir � lei comum e tinha mesmo, por sua natureza, que se prestar, mais do
que qualquer outro assunto, � diversidade das interpreta��es. Pode-se, ali�s, dizer que, a
este respeito, ele andou mais depressa do que outras ci�ncias mais antigas, do que a
medicina, por exemplo, que ainda traz divididos os maiores s�bios.

37. Seguindo met�dica ordem, para acompanhar a marcha progressiva das
id�ias, conv�m sejam colocados na primeira linha dos sistemas os que se podem
classificar como sistemas de nega��o, isto �, os dos advers�rios do Espiritismo. J� lhes
refutamos as obje��es, na introdu��o e na conclus�o de O Livro dos Esp�ritos, assim
como no volumezinho que intitulamos: O que � o Espiritismo. Fora sup�rfluo insistir
nisso aqui. Limitar-nos-emos a lembrar, em duas palavras, os motivos em que eles se
fundam.
De duas esp�cies s�o os fen�menos esp�ritas: efeitos f�sicos e efeitos inteligentes.
N�o admitindo a exist�ncia dos Esp�ritos, por n�o admitirem coisa alguma fora da
mat�ria, concebe-se que neguem os efeitos inteligentes. Quanto aos efeitos f�sicos, eles
os comentam do ponto de vista em que se colocam e seus argumentos se podem resumir
nos quatro sistemas seguintes:

38. Sistema do charlatanismo. - Entre os antagonistas do Espiritismo, muitos
atribuem aqueles efeitos ao embuste, pela raz�o de que alguns puderam ser imitados.
Segundo tal suposi��o, todos os esp�ritas seriam indiv�duos emba�dos e todos os
m�diuns seriam embaidores, de nada valendo a posi��o, o car�ter, o saber e a honradez
das pessoas. Se isto merecesse resposta, dir�amos que alguns
55
DOS SISTEMAS

fen�menos da F�sica tamb�m s�o imitados pelos prestidigitadores, o que nada prova
contra a verdadeira ci�ncia. Demais, pessoas h�, cujo car�ter afasta toda suspeita de
fraude e preciso � n�o saber absolutamente viver e carecer de toda urbanidade, para que
algu�m ouse vir dizer-lhe na face que s�o c�mplices de charlatanismo.
Num sal�o muito respeit�vel, um senhor, que se dizia bem educado, tendo-se
permitido fazer uma reflex�o dessa natureza, ouviu da dona da casa o seguinte: "Senhor,
pois que n�o estais satisfeito, � porta vos ser� restitu�do o que pagastes." E, com um
gesto, lhe indicou o que de melhor tinha a fazer. Dever-se-� por isso afirmar que nunca
houve abuso? Para cr�-lo, fora mister admitir-se que os homens s�o perfeitos. De tudo
se abusa, at� das coisas mais santas. Por que n�o abusariam do Espiritismo? Por�m, o
mau uso que de uma coisa se fa�a n�o autoriza que ela seja prejulgada
desfavoravelmente. Para chegar-se � verifica��o, que se pode obter, da boa-f� com que
obram as pessoas, deve-se atender aos motivos que lhes determinam o procedimento. O
charlatanismo n�o tem cabimento onde n�o h� especula��o.

39. Sistema da loucura. - Alguns, por condescend�ncia, concordam em p�r de
lado a suspeita de embuste. Pretendem ent�o que os que n�o iludem s�o iludidos, o que
eq�ivale a qualific�-los de imbecis. Quando os incr�dulos se abst�m de usar de
circunl�quios, declaram, pura e simplesmente, que os que cr�em s�o loucos, atribuindo-
se a si mesmos, desse modo e sem cerim�nias, o privil�gio do bom-senso. Esse o
argumento formid�vel dos que nenhuma raz�o plaus�vel encontram para apresentar.
Afinal, semelhante maneira de atacar se tomou rid�cula, tal a sua banalidade, e
n�o merece que se perca tempo em refut�-la. Acresce que os esp�ritas n�o se alteram
com isso; tomam corajosamente o seu partido e se consolam, lembrando-se de que t�m
por companheiros de infort�nio muitas pessoas de m�rito incontest�vel.
56
CAP�TULO IV

Efetivamente, for�oso ser� convir em que essa loucura, se loucura existe,
apresenta uma caracter�stica muito singular: a de atingir de prefer�ncia a classe instru�da,
em cujo seio conta o Espiritismo, at� ao presente, a imensa maioria de seus adeptos. Se
entre estes algumas excentricidades se manifestam, elas nada provam contra a Doutrina,
do mesmo modo que os loucos religiosos nada provam contra a religi�o, nem os loucos
melamos contra a m�sica, ou os loucos matem�ticos contra a matem�tica, Todas as
id�ias sempre tiveram fan�ticos exagerados e � preciso se seja dotado de muito obtuso
ju�zo, para confundir a exagera��o de uma coisa com a coisa mesma.
Para mais amplas explica��es a este respeito, recomendamos ao leitor a nossa
brochura: O que � o Espiritismoe O Livro dos Esp�ritos(Introdu��o, � 15).

40. Sistema da alucina��o. Outra opini�o, menos ofensiva essa, por trazer um
ligeiro colorido cient�fico, consiste em levar os fen�menos � conta de ilus�o dos
sentidos. Assim, o observador estaria de muito boa-f�; apenas, julgaria ver o que n�o v�.
Quando diz que viu uma mesa levantar-se e manter-se no ar, sem ponto de apoio, a
verdade � que a mesa n�o se mexeu. Ele a viu no ar, por efeito de uma esp�cie de
miragem, ou por uma refra��o, qual a que nos faz ver, na �gua, um astro, ou um objeto
qualquer, fora da sua posi��o real. Isto, a rigor, seria poss�vel; mas, os que j�
testemunharam fen�menos esp�ritas h�o podido certificar-se do isolamento da mesa
suspensa, passando por debaixo dela, o que parece dif�cil de se conseguir, caso o m�vel
n�o se houvesse despregado do solo. Por outro lado, muitas vezes tem sucedido
quebrar-se a mesa ao cair. Dar-se-� que tamb�m a� nada mais haja do que simples efeito
de �tica?
� fora de d�vida que uma causa fisiol�gica bem conhecida pode fazer que uma
pessoa julgue ver em movimento um objeto que n�o se moveu, ou que suponha estar ela
pr�pria a mover-se, quando permanece im�vel. Mas, quando, rodeando uma mesa,
muitas pessoas a v�em arrastada
57
DOS SISTEMAS

por um movimento t�o r�pido que dif�cil se lhes toma acompanh�-la, ou que mesmo
deita algumas delas ao ch�o, poder-se-� dizer que todas se acham tomadas de vertigem,
como o b�bedo, que acredita estar vendo a casa em que mora passar-lhe por diante dos
olhos?

41. Sistema do m�sculo estalante. - Sendo assim, pelo que toca � vis�o, de outro
modo n�o poderia ser, pelo que concerne � audi��o. Quando as pancadas s�o ouvidas
por todas as pessoas reunidas em determinado lugar, n�o h� como atribu�-las
razoavelmente a uma ilus�o. Pomos de parte, est� claro, toda id�ia de fraude e supomos
que uma atenta observa��o tenha verificado n�o serem as pancadas atribu�veis a
qualquer causa fortuita ou material.
E certo que um s�bio m�dico deu desse fen�meno uma explica��o, ao seu
parecer, perempt�ria (1). "A causa, disse ele, reside nas contra��es volunt�rias, ou
involunt�rias, do tend�o do m�sculo curto-per�nio." A este prop�sito, desce �s mais
completas min�cias anat�micas, para demonstrar por que mecanismo pode esse tend�o
produzir os ru�dos de que se trata, imitar os rufos do tambor e, at�, executar �rias
ritmadas. Conclui da� que os que julgam ouvir pancadas numa mesa s�o v�timas de uma
mistifica��o, ou de uma ilus�o.
O fato, em si mesmo, n�o � novo. Infelizmente para o autor dessa pretendida
descoberta, sua teoria � incapaz de explicar todos os casos. Digamos, antes de tudo, que
os que gozam da estranha faculdade de fazer que o seu m�sculo curto-per�nio, ou
qualquer outro, estale � vontade, da de executar �rias por esse meio, s�o indiv�duos
excepcionais, enquanto que muito comum � a de fazer-se

__________
(1) Foi o Sr. Jobert (de Lamballe). Para sermos justos, devemos dizer que a descoberta � devida
ao Sr. Schiff. O Sr. Jobert lhe deduziu as conseq��ncias perante a Academia de Medicina, pretendendo
dar assim o golpe de morte nos Esp�ritos batedores. Na Revue Spirite, do m�s de junho de 1859,
encontrar-se-�o todos os pormenores da explica��o do Sr. Jobert.
58
CAP�TULO IV

que uma mesa d� pancadas e que nem todos, dado que algum exista, dos que gozam
desta �ltima faculdade, possuem a primeira.
Em segundo lugar, o s�bio doutor esqueceu de explicar como o estalido
muscular de uma pessoa im�vel e afastada da mesa pode produzir nesta vibra��es
sens�veis a quem a toque; como pode esse ru�do repercutir, � vontade dos assistentes,
nas diferentes partes da mesa, nos outros m�veis, nas paredes, no forro, etc.; como,
finalmente, a a��o daquele m�sculo pode atingir uma mesa em que ningu�m toca e faz�-
la mover-se. Em suma, a explica��o a que nos reportamos, se de fato o fosse, apenas
infirmaria o fen�meno das pancadas, nada adiantando com rela��o a qualquer dos outros
muitos modos de comunica��o.
Reconhe�amos, pois, que ele julgou sem ter visto, ou sem ter observado tudo e
observado bem. E sempre de lamentar que homens de ci�ncia se afoitem a dar, do que
n�o conhecem, explica��es que os fatos podem desmentir. O pr�prio saber que possuem
devera torn�-los tanto mais circunspectos em seus ju�zos, quanto � certo que esse saber
afasta deles os limites do desconhecido.

42. Sistema das causas f�sicas. - Aqui, estamos fora do sistema da nega��o
absoluta. Averiguada a realidade dos fen�menos, a primeira id�ia que naturalmente
acudiu ao esp�rito dos que os verificaram foi a de atribuir os movimentos ao
magnetismo, � eletricidade, ou � a��o de um fluido qualquer; numa palavra, a uma causa
inteiramente f�sica e material. Nada apresentava de irracional esta opini�o e teria
prevalecido, se o fen�meno houvera ficado adstrito a efeitos puramente mec�nicos. Uma
circunst�ncia parecia mesmo corrobor�-la: a do aumento que, em certos casos,
experimentava a for�a atuante, na raz�o direta do n�mero das pessoas presentes. Assim,
cada uma destas podia ser considerada como um dos elementos de uma pilha el�trica
humana. J� dissemos que o que caracteriza uma teoria verdadeira � poder dar a raz�o de
tudo.
59
DOS SISTEMAS

Se, por�m, um s� fato que seja a contradiz, � que ela � falsa, incompleta, ou por demais
absoluta. Ora, foi o que n�o tardou a reconhecer-se, quanto a esta.
Os movimentos e as pancadas deram sinais inteligentes, obedecendo � vontade e
respondendo ao pensamento. Haviam, pois, de originar-se de uma causa inteligente.
Desde que o efeito deixava de ser puramente f�sico, outra, por isso mesmo, tinha que ser
a causa. Tanto assim, que o sistema da a��o exclusiva de um agente material foi
abandonado, para s� ser esposado ainda pelos que julgam a priori, sem haver visto
coisa alguma. O ponto capital, portanto, est� em verificar-se a a��o inteligente, de cuja
realidade se pode convencer quem quiser dar-se ao trabalho de observar.

43. Sistema do reflexo. - Reconhecida a a��o inteligente, restava saber donde
provinha essa intelig�ncia. Julgou-se que bem podia ser a do m�dium, ou a dos
assistentes, a se refletirem, como a luz ou os raios sonoros. Era poss�vel: s� a
experi�ncia poderia dizer a �ltima palavra. Mas, notemos, antes de tudo, que este
sistema j� se afasta por completo da id�ia puramente materialista. Para que a intelig�ncia
dos assistentes pudesse reproduzir-se por via indireta, preciso era se admitisse existir no
homem um princ�pio exterior do organismo.
Se o pensamento externado fora sempre o dos assistentes, a teoria da reflex�o
estaria confirmada. Mas, embora reduzido a estas propor��es, j� n�o seria do mais alto
interesse o fen�meno? J� n�o seria coisa bastante not�vel o pensamento a repercutir
num corpo inerte e a se traduzir pelo movimento e pelo ru�do? J� n�o haveria a� o que
excitasse a curiosidade dos s�bios? Por que ent�o a desprezaram eles, que se afadigam
na pesquisa de uma fibra nervosa?
S� a experi�ncia, dizemos, podia confirmar ou condenar essa teoria, e a
experi�ncia a condenou, porquanto demonstra a todos os momentos, e com os mais
positivos fatos, que o pensamento expresso, n�o somente pode ser
60
CAP�TULO IV

estranho ao dos assistentes, mas que lhes �, muitas vezes, contr�rio; que contradiz todas
as id�ias preconcebidas e frustra todas as previs�es. Com efeito, dif�cil me � acreditar
que a resposta provenha de mim mesmo, quando, a pensar no branco, se me fala em
preto.
Em apoio da teoria que apreciamos, costumam invocar certos casos em que s�o
id�nticos o pensamento manifestado e o dos assistentes. Mas, que prova isso, sen�o que
estes podem pensar como a intelig�ncia que se comunica? N�o h� por que pretender-se
que as duas opini�es devam ser sempre opostas. Quando, no curso de uma conversa��o,
o vosso interlocutor emite um pensamento an�logo ao que vos est� na mente, direis, por
isso, que de v�s mesmos vem o seu pensamento? Bastam alguns exemplos em contr�rio,
bem comprovados, para que positivado fique n�o ser absoluta esta teoria.
Como explicar, pela reflex�o do pensamento, as escritas feitas por pessoas que
n�o sabem escrever; as respostas do mais alto alcance filos�fico, obtidas por indiv�duos
iletrados; as respostas dadas a perguntas mentais, ou em l�ngua que o m�dium
desconhece e mil outros fatos que n�o permitem d�vida sobre a independ�ncia da
intelig�ncia que se manifesta? A opini�o oposta n�o pode deixar de resultar de falta de
observa��o.
Provada, como est�, moralmente, pela natureza das respostas, a presen�a de uma
intelig�ncia diversa da do m�dium e da dos assistentes, provada tamb�m o est�,
materialmente, pelo fato da escrita direta, isto �, da escrita obtida espontaneamente, sem
l�pis, nem pena, sem contacto e mau grado a todas as precau��es tomadas contra
qualquer subterf�gio. O car�ter inteligente do fen�meno n�o pode ser posto em d�vida:
logo, h� nele mais alguma coisa do que uma a��o flu�dica. Depois, a espontaneidade do
pensamento expresso contra toda expectativa e sem que alguma quest�o tenha sido
formulada, n�o consente se veja nele um reflexo do dos assistentes.
Em alguns casos, o sistema do reflexo � bastante descort�s. Quando, numa
reuni�o de pessoas honestas,
61
DOS SISTEMAS

surge inopinadamente uma dessas comunica��es de revoltante grosseria, fora
desatencioso, para com os assistentes, pretender-se que ela haja provindo de um deles,
sendo prov�vel que cada um se daria pressa em repudi�-la. (Vede O Livro dos Esp�ritos,
"Introdu��o", � 16.)

44. Sistema da alma coletiva. - Constitui uma variante do precedente. Segundo
este sistema, apenas a alma do m�dium se manifesta, por�m, identificada com a de
muitos outros vivos, presentes ou ausentes, e formando um todo coletivo, em que se
acham reunidas as aptid�es, a intelig�ncia e os conhecimentos de cada um. Conquanto
se intitule A Luz (1), a brochura onde esta teoria vem exposta, muito obscuro se nos
afigura o seu estilo. Confessamos n�o ter logrado compreend�-la e dela falamos
unicamente de mem�ria. E, em suma, como tantas outras, uma opini�o individual, que
conta poucos pros�litos. Pelo nome de Emah Tirps�, o autor designa o ser coletivo
criado pela sua imagina��o. Por ep�grafe, tomou a seguinte senten�a: Nada h� oculto
que n�o deva ser conhecido. Esta proposi��o � evidentemente falsa, porquanto uma
imensidade h� de coisas que o homem n�o pode e n�o tem que saber. Bem presun�oso
seria aquele que pretendesse devassar todos os segredos de Deus.

45. Sistema sonamb�lico. - Mais adeptos teve este, que ainda conta alguns.
Admite, como o anterior, que todas as comunica��es inteligentes prov�m da alma ou
Esp�rito do m�dium. Mas, para explicar o fato de o m�dium tratar de assuntos que est�o
fora do �mbito de seus conhecimentos, em vez de supor a exist�ncia, nele, de uma alma
m�ltipla, atribui essa aptid�o a uma sobreexcita��o moment�nea de suas faculdades
mentais, a uma esp�cie

__________
(1) Comunh�o. A luz do fen�meno do Esp�rito. Mesas falantes, son�mbulos, m�diuns,
milagres. Magnetismo espiritual: poder da pr�tica da f�. Por Emah Tirps�, uma alma coletiva que
escreve por interm�dio de uma prancheta. Bruxelas, 1858, casa Dewoye.
62
CAP�TULO IV

de estado sonamb�lico, ou ext�tico, que lhe exalta e desenvolve a intelig�ncia. N�o h�
negar, em certos casos, a influ�ncia desta causa. Por�m, a quem tenha observado como
opera a maioria dos m�diuns, essa observa��o basta para lhe tornar evidente que aquela
causa n�o explica todos os fatos, que ela constitui exce��o e n�o regra.
Poder-se-ia acreditar que fosse assim, se o m�dium tivesse sempre ar de
inspirado ou de ext�tico, aspecto que, ali�s, lhe seria f�cil aparentar perfeitamente, se
quisesse representar uma com�dia. Como, por�m, se h� de crer na inspira��o, quando o
m�dium escreve como uma m�quina, sem ter a m�nima consci�ncia do que est� obtendo,
sem a menor emo��o, sem se ocupar com o que faz, distra�do, rindo e conversando de
uma coisa e de outra? Concebe-se a sobreexcita��o das id�ias, mas n�o se compreende
possa fazer que uma pessoa escreva sem saber escrever e, ainda menos, quando as
comunica��es s�o transmitidas por pancadas, ou com o aux�lio de uma prancheta, de
uma cesta.
No curso desta obra, teremos ocasi�o de mostrar a parte que se deve atribuir �
influ�ncia das id�ias do m�dium. Todavia, t�o numerosos e evidentes s�o os fatos em
que a intelig�ncia estranha se revela por meio de sinais incontest�veis, que n�o pode
haver d�vida a respeito. O erro da maior parte dos sistemas, que surgiram nos primeiros
tempos do Espiritismo, est� em haverem deduzido, de fatos insulados, conclus�es
gerais.

46. Sistema pessimista, diab�lico ou demon�aco. - Entramos aqui numa outra
ordem de id�ias. Comprovada a interven��o de uma intelig�ncia estranha, tratava-se de
saber de que natureza era essa intelig�ncia. Sem d�vida que o meio mais simples
consistia em lhe perguntar isso. Algumas pessoas, contudo, entenderam que esse
processo n�o oferecia garantias bastantes e assentaram de ver em todas as
manifesta��es, unicamente, uma obra diab�lica. Segundo essas pessoas, s� o diabo, ou
os dem�nios, podem comunicar-se. Conquanto fraco eco encontre hoje este sis-
63
DOS SISTEMAS

tema, � ineg�vel que gozou, por algum tempo, de certo cr�dito, devido mesmo ao
car�ter dos que tentaram fazer que ele prevalecesse. Faremos, entretanto, notar que os
partid�rios do sistema demon�aco n�o devem ser classificados entre os advers�rios do
Espiritismo: ao contrario. Sejam dem�nios ou anjos, os seres que se comunicam s�o
sempre seres incorp�reos. Ora, admitir a manifesta��o dos dem�nios � admitir a
possibilidade da comunica��o do mundo vis�vel com o mundo invis�vel, ou, pelo menos,
com uma parte deste �ltimo.
Compreende-se que a cren�a na comunica��o exclusiva dos dem�nios, por muito
irracional que seja, n�o houvesse parecido imposs�vel, quando se consideravam os
Esp�ritos como seres criados fora da humanidade. Mas, desde que se sabe que os
Esp�ritos s�o simplesmente as almas dos que h�o vivido, ela perdeu todo o seu prest�gio
e pode-se dizer que toda a verossimilhan�a, porquanto, admitida, o que se seguiria � que
todas essas almas eram dem�nios, embora fossem as de um pai, de um filho, ou de um
amigo e que n�s mesmos, morrendo, nos tomar�amos dem�nios, doutrina pouco
lisonjeira e nada consoladora para muita gente. Bem dif�cil ser� persuadir a uma m�e de
que o filho querido, que ela perdeu e que lhe vem dar, depois da morte, provas de sua
afei��o e de sua identidade, � um suposto satan�s. Sem d�vida, entre os Esp�ritos, h�-os
muito maus e que n�o valem mais do que os chamados dem�nios, por uma raz�o bem
simples:
a de que h� homens muito maus que, pelo fato de morrerem, n�o se tomam bons. A
quest�o est� em saber se s� eles podem comunicar-se conosco. Aos que assim pensem,
dirigimos as seguintes perguntas:
1� H� ou n�o Esp�ritos bonse ma us?
2� Deus � ou n�o mais poderoso do que os maus Esp�ritos, ou do que os
dem�nios, se assim lhes quiserdes chamar?
3� Afirmar que s� os maus se comunicam � dizer que os bons n�o o podem fazer.
Sendo assim, uma de
64
CAP�TULO IV

duas: ou isto se d� pela vontade, ou contra a vontade de Deus. Se contra a Sua vontade,
� que os maus Esp�ritos podem mais do que Ele; se, por vontade Sua, por que, em Sua
bondade, n�o permitiria Ele que os bons fizessem o mesmo, para contrabalan�ar a
influ�ncia dos outros?
4� Que provas podeis apresentar da impossibilidade em que est�o os bons
Esp�ritos de se comunicarem?
5� Quando se vos op�e a sabedoria de certas comunica��es, respondeis que o
dem�nio usa de todas as m�scaras para melhor seduzir. Sabemos, com efeito, haver
Esp�ritos hip�critas, que d�o � sua linguagem um verniz de sabedoria; mas, admitis que
a ignor�ncia pode falsificar o verdadeiro saber e uma natureza m� imitar a verdadeira
virtude, sem deixar vest�gio que denuncie a fraude?
6� Se s� o dem�nio se comunica, sendo ele o inimigo de Deus e dos homens, por
que recomenda que se ore a Deus, que nos submetamos � vontade de Deus, que
suportemos sem queixas as tribula��es da vida, que n�o ambicionemos as honras, nem
as riquezas, que pratiquemos a caridade e todas as m�ximas do Cristo, numa palavra:
que fa�amos tudo o que � preciso para lhe destruir o imp�rio, dele, dem�nio? Se tais
conselhos o dem�nio � quem os d�, for�oso ser� convir em que, por muito manhoso que
seja, bastante in�bil � ele, fornecendo armas contra si mesmo (1).
7� Pois que os Esp�ritos se comunicam, � que Deus o permite. Em presen�a das
boas e das m�s comunica��es, n�o ser� mais l�gico admitir-se que umas Deus as
permite para nos experimentar e as outras para nos aconselhar ao bem?

__________
(1) Esta quest�o foi tratada em O Livro dos Esp�ritos (n�meros 128 e seguintes); mas, com
rela��o a este assunto, como acerca de tudo o que respeita � parte religiosa, recomendamos a brochura
intitulada: Carta de um cat�lico sobre o Espiritismo , do Dr. Grand, ex-c�nsul da Fran�a (� venda na
Livraria Ledoyen, in-18; pre�o 1 franco), bem como a que vamos publicar sob o t�tulo: Os
contraditores do Espiritismo, do ponto de vista da religi�o, da ci�ncia e do materialismo.
65
DOS SISTEMAS

8� Que direis de um pai que deixasse o filho � merc� dos exemplos e dos
conselhos perniciosos, e que o afastasse de si; que o privasse do contacto com as
pessoas que o pudessem desviar do mal? Ser-nos-� l�cito supor que Deus procede como
um bom pai n�o procederia, e que, sendo ele a bondade por excel�ncia, fa�a menos do
que faria um homem?
9� A Igreja reconhece como aut�nticas certas manifesta��es da Virgem e de
outros santos, em apari��es, vis�es, comunica��es orais, etc. Essa cren�a n�o est� em
contradi��o com a doutrina da comunica��o exclusiva dos dem�nios?
Acreditamos que algumas pessoas hajam professado de boa-f� essa teoria; mas,
tamb�m cremos que muitas a adotaram unicamente com o fito de fazer que outras
fugissem de ocupar-se com tais coisas, pelo temor das comunica��es m�s, a cujo
recebimento todos est�o sujeitos. Dizendo que s� o diabo se manifesta, quiseram
aterrorizar, quase como se faz com uma crian�a a quem se diz: n�o toques nisto, porque
queima. A inten��o pode ter sido louv�vel; por�m, o objetivo falhou, porquanto a s�
proibi��o basta para excitar a curiosidade e bem poucos s�o aqueles a quem o medo do
diabo tolhe a iniciativa. Todos querem v�-lo, quando mais n�o seja para saber como �
feito e muito espantados ficam por n�o o acharem t�o feio como o imaginavam.
E n�o se poderia achar tamb�m outro motivo para essa teoria exclusiva do
diabo? Gente h�, para quem todos os que n�o lhe s�o do mesmo parecer est�o em erro.
Ora, os que pretendem que todas as comunica��es prov�m do dem�nio n�o ser�o a isso
induzidos pelo receio de que os Esp�ritos n�o estejam de acordo com eles sobre todos
os pontos, mais ainda sobre os que se referem aos interesses deste mundo, do que sobre
os que concernem aos do outro? N�o podendo negar os fatos, entenderam de apresent�-
los sob forma apavorante. Esse meio, entretanto, n�o produziu melhor resultado do que
os outros. Onde o temor do rid�cu-
66
CAP�TULO IV

lo se mostre impotente, for�oso � se deixem passar as coisas.
O mu�ulmano, que ouvisse um Esp�rito falar contra certas leis do Alcor�o,
certamente acreditaria tratar-se de um mau Esp�rito. O mesmo se daria com um judeu,
pelo que toca a certas pr�ticas da lei de Mois�s. Quanto aos cat�licos, de um ouvimos
que o Esp�rito que se comunica n�o podia deixar de ser o diabo, porque se permitira a
liberdade de pensar de modo diverso do dele, acerca do poder temporal, se bem que, em
suma, o Esp�rito n�o houvesse pregado sen�o a caridade, a toler�ncia, o amor do
pr�ximo e a abnega��o das coisas deste mundo, preceitos todos ensinados pelo Cristo.
N�o sendo os Esp�ritos mais do que as almas dos homens e n�o sendo estes
perfeitos, o que se segue � que h� Esp�ritos igualmente imperfeitos, cujos caracteres se
refletem nas suas comunica��es. E fato incontest�vel haver, entre eles, maus, astuciosos,
profundamente hip�critas, contra os quais preciso se faz que estejamos em guarda. Mas,
porque se encontram no mundo homens perversos, � isto motivo para nos afastarmos de
toda a sociedade? Deus nos outorgou a raz�o e o discernimento para apreciarmos, assim
os Esp�ritos, como os homens. O melhor meio de se obviar aos inconvenientes da
pr�tica do Espiritismo n�o consiste em proibi-la, mas em faz�-lo compreendido. Um
receio imagin�rio apenas por um instante impressiona e n�o atinge a todos. A realidade
claramente demonstrada, todos a compreendem.

47. Sistema otimista. - Ao lado dos que nestes fen�menos unicamente v�em a
a��o do dem�nio, est�o outros que t�o-somente h�o visto a dos bons Esp�ritos.
Supuseram que, estando liberta da mat�ria a alma, nenhum v�u mais lhe encobre coisa
alguma, devendo ela, portanto, possuir a ci�ncia e a sabedoria supremas. A confian�a
cega, nessa superioridade absoluta dos seres do mundo invis�vel, tem sido, para muitos,
a causa de n�o poucas
67
DOS SISTEMAS

decep��es. Esses aprender�o � sua custa a desconfiar de certos Esp�ritos, quanto de
certos homens.

48. Sistema unisp�rita, ou mono-esp�rita. - Como variedade do sistema otimista,
temos o que se baseia na cren�a de que um �nico Esp�rito se comunica com os homens,
sendo esse Esp�rito o Cristo, que � o protetor da Terra. Diante das comunica��es da
mais baixa trivialidade, de revoltante grosseria, impregnadas de malevol�ncia e de
maldade, haveria profana��o e impiedade em supor-se que pudessem emanar do Esp�rito
do bem por excel�ncia. Se os que assim o cr�em nunca tivessem obtido sen�o
comunica��es inatac�veis, ainda se lhes conceberia a ilus�o. A maioria deles, por�m,
concordam em que t�m recebido algumas muito ruins, o que explicam dizendo ser uma
prova a que o bom Esp�rito os sujeita, com o lhes ditar coisas absurdas. Assim,
enquanto uns atribuem todas as comunica��es ao diabo, que pode dizer coisas
excelentes para tentar, pensam outros que s� Jesus se manifesta e que pode dizer coisas
detest�veis, para experimentar os homens. Entre estas duas opini�es t�o opostas, quem
sentenciar�? O bom-senso e a experi�ncia. Dizemos: a experi�ncia, por ser imposs�vel
que os que professam id�ias t�o exclusivas tudo tenham visto e visto bem.
Quando se lhes objeta com os fatos de identidade, que atestam, por meio de
manifesta��es escritas, visuais, ou outras, a presen�a de parentes ou conhecidos dos
circunstantes, respondem que � sempre o mesmo Esp�rito, o diabo, segundo aqueles, o
Cristo, segundo estes, que toma todas as formas. Por�m, n�o nos dizem por que motivo
os outros Esp�ritos n�o se podem comunicar, com que fim o Esp�rito da Verdade nos
viria enganar, apresentando-se sob falsas apar�ncias, iludir uma pobre m�e, fazendo-lhe
crer que tem ao seu lado o filho por quem derrama l�grimas. A raz�o se nega a admitir
que o Esp�rito, entre todos santo, des�a a representar semelhante com�dia. Demais,
negar a possibilidade de qualquer outra comuni-
68
CAP�TULO IV

ca��o n�o importa em subtrair ao Espiritismo o que este tem de mais suave: a
consola��o dos aflitos? Digamos, pura e simplesmente, que tal sistema � irracional e n�o
suporta exame s�rio.

49. Sistema multisp�rita ou polisp�rita. - Todos os sistemas a que temos passado
revista, sem excetuar os que se orientam no sentido de negar, fundam-se em algumas
observa��es, por�m, incompletas ou mal interpretadas. Se urna casa for vermelha de um
lado e branca do outro,' aquele que a houver visto apenas por um lado afirmar� que ela �
branca, outro declarar� que � vermelha. Ambos estar�o em erro 'e ter�o raz�o. No
entanto, aquele que a tenha visto dos dois lados dir� que a casa � branca e vermelha e s�
ele estar� com a verdade. O mesmo sucede com a opini�o que se forme do Espiritismo:
pode ser verdadeira, a certos respeitos, e falsa, se se, generalizar o que � parcial, se se
tomar como regra o que constitui exce��o, como o todo o que � apenas a parte. Por isso
dizemos que quem deseje estudar esta ci�ncia deve observar muito e durante muito
tempo. S� o tempo lhe permitir� apreender os pormenores, notar os matizes delicados,
observar uma imensidade de fatos caracter�sticos, que lhe ser�o outros tantos raios de
luz. Se, por�m, se detiver na superf�cie, exp�e-se a formular ju�zo prematuro e,
conseguintemente, err�neo.
Eis aqui as conseq��ncias gerais deduzidas de uma observa��o completa e que
agora formam a cren�a, pode-se dizer, da universalidade dos esp�ritas, visto que os
sistemas restritivos ano passam de opini�es insuladas:
1� Os fen�menos esp�ritas s�o produzidos por intelig�ncias extracorp�reas, �s
quais tamb�m se d� o nome de Esp�ritos;
2� Os Esp�ritos constituem o mundo invis�vel; est�o em toda parte; povoam
infinitamente os espa�os; temos muitos, de cont�nuo, em torno de n�s, com os quais nos
achamos em contacto;
69
DOS SISTEMAS

3� Os Esp�ritos reagem incessantemente sobre o mundo f�sico e sobre o mundo
moral e s�o uma das pot�ncias da Natureza;
4� Os Esp�ritos n�o s�o seres � parte, dentro da cria��o, mas as almas dos que
h�o vivido na Terra, ou em outros mundos, e que despiram o inv�lucro corp�reo; donde
se segue que as almas dos homens s�o Esp�ritos encarnados e que n�s, morrendo, nos
tomamos Esp�ritos;
5� H� Esp�ritos de todos os graus de bondade e de mal�cia, de saber e de
ignor�ncia;
6� Todos est�o submetidos � lei do progresso e podem todos chegar � perfei��o;
mas, como t�m livre-arb�trio, l� chegam em tempo mais ou menos longo, conforme seus
esfor�os e vontade;
7� S�o felizes ou infelizes, de acordo com o bem ou o mal que praticaram
durante a vida e com o grau de adiantamento que alcan�aram. A felicidade perfeita e
sem mescla � partilha unicamente dos Esp�ritos que atingiram o grau supremo da
perfei��o;
8� Todos os Esp�ritos, em dadas circunst�ncias, podem manifestar-se aos
homens; indefinido � o n�mero dos que podem comunicar-se;
9� Os Esp�ritos se comunicam por m�diuns, que lhes servem de instrumentos e
int�rpretes;
10� Reconhecem-se a superioridade ou a inferioridade dos Esp�ritos pela
linguagem de que usam; os bons s� aconselham o bem e s� dizem coisas proveitosas;
tudo neles lhes atesta a eleva��o; os maus enganam e todas as suas palavras trazem o
cunho da imperfei��o e da ignor�ncia.
Os diferentes graus por que passam os Esp�ritos se acham indicados na Escala
Esp�rita (O Livro dos Esp�ritos, parte II, cap�tulo I, n. 100). O estudo dessa
classifica��o � indispens�vel para se apreciar a natureza dos Esp�ritos que se
manifestam, assim como suas boas e m�s qualidades.

50. Sistema da alma material. - Consiste apenas numa opini�o particular sobre a
natureza �ntima da alma.
70
CAP�TULO IV


Segundo esta opini�o, a alma e o perisp�rito n�o seriam distintos uma do outro, ou,
melhor, o perisp�rito seria a pr�pria alma, a se depurar gradualmente por meio de
transmigra��es diversas, como o �lcool se depura por meio de diversas destila��es, ao
passo que a Doutrina Esp�rita considera o perisp�rito simplesmente como o envolt�rio
flu�dico da alma, ou do Esp�rito. Sendo mat�ria o perisp�rito, se bem que muito et�rea, a
alma seria de uma natureza material mais ou menos essencial, de acordo com o grau da
sua purifica��o.
Este sistema n�o infirma qualquer dos princ�pios fundamentais da Doutrina
Esp�rita, pois que nada altera com rela��o ao destino da alma; as condi��es de sua
felicidade futura s�o as mesmas; formando a alma e o perisp�rito um todo, sob a
denomina��o de Esp�rito, como o g�rmen e o perisperma o formam sob a de fruto, toda
a quest�o se reduz a considerar homog�neo o todo, em vez de consider�-lo formado de
duas partes distintas.
Como se v�, isto n�o leva a conseq��ncia alguma e de tal opini�o n�o
houv�ramos falado, se n�o soub�ssemos de pessoas inclinadas a ver uma nova escola no
que n�o �, em definitivo, mais do que simples interpreta��o de palavras. Semelhante
Opini�o, restrita, ali�s, mesmo que se achasse mais generalizada, n�o constituiria uma
cis�o entre os esp�ritas, do mesmo modo que as duas teorias da emiss�o e das
ondula��es da luz n�o significam uma cis�o entre os f�sicos. Os que se decidissem a
formar grupo � parte, por uma quest�o assim pueril, provariam, s� com isso, que ligam
mais import�ncia ao acess�rio do que ao principal e que se acham compelidos �
desuni�o por Esp�ritos que n�o podem ser bons, visto que os bons Esp�ritos jamais
insuflam a acrim�nia, nem a ciz�nia. Da� o concitarmos todos os verdadeiros esp�ritas a
se manterem em guarda contra tais sugest�es e a n�o darem a certos pormenores mais
import�ncia do que merecem. O essencial � o fundo.
Julgamo-nos, entretanto, na obriga��o de dizer algumas palavras acerca dos
fundamentos em que repousa a
71
DOS SISTEMAS

opini�o dos que consideram distintos a alma e o perisp�rito. Ela se baseia no ensino dos
Esp�ritos, que nunca divergiam a esse respeito. Referimo-nos aos esclarecidos,
porquanto, entre os Esp�ritos em geral, muitos h� que n�o sabem mais, que sabem
mesmo menos do que os homens, ao passo que a teoria contraria � de concep��o
humana. N�o inventamos, nem imaginamos o perisp�rito, para explicar os fen�menos.
Sua exist�ncia nos foi revelada pelos Esp�ritos e a experi�ncia no-la confirmou (O Livro
dos Esp�ritos, n. 93). Ap�ia-se tamb�m no estudo das sensa��es dos Esp�ritos (O Livro
dos Esp�ritos, n. 257) e, sobretudo, no fen�meno das apari��es tang�veis, fen�meno
que, de conformidade com a opini�o que estamos apreciando, implicaria a solidifica��o
e a desagrega��o das partes constitutivas da alma e, pois, a sua desorganiza��o.
Fora mister, al�m disso, admitir-se que esta mat�ria, que pode ser percebida
pelos nossos sentidos, �, ela pr�pria, o principio inteligente, o que n�o nos parece mais
racional do que confundir o corpo com a alma, ou a roupa com o corpo. Quanto �
natureza intima da alma, essa desconhecemo-la. Quando se diz que a alma � imaterial,
deve-se entend�-lo em sentido relativo, n�o em sentido absoluto, por isso que a
imaterialidade absoluta seria o nada. Ora, a alma, ou o Esp�rito, s�o alguma coisa.
Qualificando-a de imaterial, quer-se dizer que sua ess�ncia � de tal modo superior, que
nenhuma analogia tem com o que chamamos mat�ria e que, assim, para n�s, ela �
imaterial. (O Livro dos Esp�ritos,ns. 23 e 82).

51. Eis aqui a resposta que, sobre este assunto, deu um Esp�rito:
"O que uns chamam perisp�rito n�o � sen�o o que outros chamam envolt�rio
material flu�dico. Direi, de modo mais l�gico, para me fazer compreendido, que esse
fluido � a perfectibilidade dos sentidos, a extens�o da vista e das id�ias. Falo aqui dos
Esp�ritos elevados. Quanto aos Esp�ritos inferiores, os fluidos terrestres ainda lhes s�o
72
CAP�TULO IV

de todo inerentes; logo, s�o, como vedes, mat�ria. Da� os sofrimentos da fome, do frio,
etc., sofrimentos que os Esp�ritos superiores n�o podem experimentar, visto que os
fluidos terrestres se acham depurados em torno do pensamento, isto �, da alma. Esta,
para progredir, necessita sempre de um agente; sem agente, ela nada �, para v�s, ou,
melhor, n�o a podeis conceber. O perisp�rito, para n�s outros Esp�ritos errantes, � o
agente por meio do qual nos comunicamos convosco, quer indiretamente, pelo vosso
corpo ou pelo vosso perisp�rito, quer diretamente, pela vossa alma; donde, infinitas
modalidades de m�diuns e de comunica��es.
"Agora o ponto de vista cient�fico, ou seja: a ess�ncia mesma do perisp�rito. Isso
� outra quest�o. Compreendei primeiro moralmente. Resta apenas uma discuss�o sobre
a natureza dos fluidos, coisa por ora inexplic�vel. A ci�ncia ainda n�o sabe bastante,
por�m l� chegar�, se quiser caminhar com o Espiritismo. O perisp�rito pode variar e
mudar ao infinito. A alma � o pensamento: n�o muda de natureza. N�o vades mais
longe, por este lado; trata-se de um ponto que n�o pode ser explicado. Supondes que,
como v�s, tamb�m eu n�o perquiro? V�s pesquisais o perisp�rito; n�s outros, agora,
-
pesquisamos a alma. Esperai, pois."Lamennais.
Assim, Esp�ritos, que podemos considerar adiantados, ainda n�o conseguiram
sondar a natureza da alma. Como poder�amos n�s faz�-lo? E, portanto, perder tempo
querer perscrutar o principio das coisas que, como foi dito em O Livro dos Esp�ritos
(ns. 17 e 49), est� nos segredos de Deus. Pretender esquadrinhar, com o aux�lio do
Espiritismo, o que escapa � al�ada da humanidade, � desvi�-lo do seu verdadeiro
objetivo, � fazer como a crian�a que quisesse saber tanto quanto o velho. Aplique o
homem o Espiritismo em aperfei�oar-se moralmente, eis o essencial. O mais n�o passa
de curiosidade est�ril e muitas vezes orgulhosa, cuja satisfa��o n�o o faria adiantar um
passo. O �nico meio de nos adiantarmos consiste em nos tornarmos melhores. Os
Esp�ritos que ditaram o livro que
73
DOS SISTEMAS

lhes traz o nome demonstraram a sua sabedoria, mantendo-se, pelo que concerne ao
princ�pio das coisas, dentro dos limites que Deus n�o permite sejam ultrapassados e
deixando aos Esp�ritos sistem�ticos e presun�osos a responsabilidade das teorias
prematuras e err�neas, mais sedutoras do que s�lidas, e que um dia vir�o a cair, ante a
raz�o, como tantas outras surgidas dos c�rebros humanos. Eles, ao justo, s� disseram o
que era preciso para que o homem compreendesse o futuro que o aguarda e para, por
essa maneira, anim�-lo � pr�tica do bem. (Vede, aqui, adiante, na 2� parte, o cap. 1�: Da
a��o dos Esp�ritos sobrea mat�ria.)
74
75




SEGUNDA PARTE

Das manifesta��es esp�ritas

CAP�TULO I
DA A��O DOS ESP�RITOS SOBRE A MAT�RIA

52. Posta de lado a opini�o materialista, porque condenada pela raz�o e pelos
fatos, tudo se resume em saber se a alma, depois da morte, pode manifestar-se aos
vivos. Reduzida assim � sua express�o mais singela, a quest�o fica extraordinariamente
desembara�ada. Caberia, antes de tudo, perguntar por que n�o poderiam seres
inteligentes, que de certo modo vivem no nosso meio, se bem que invis�veis por
natureza, atestar-nos de qualquer forma sua presen�a. A simples raz�o diz que nisto
nada absolutamente h� de imposs�vel, o que j� � alguma coisa. Demais, esta cren�a tem
a seu favor o assentimento de todos os povos, porquanto com ela deparamos em toda
parte e em todas as �pocas. Ora, nenhuma intui��o pode mostrar-se
76
CAP�TULO I

t�o generalizada, nem sobreviver ao tempo, se n�o tiver algum fundamento. Acresce que
se acha sancionada pelo testemunho dos livros sagrados e pelo dos Pais da Igreja, tendo
sido preciso o cepticismo e o materialismo do nosso s�culo para que fosse lan�ada ao
rol das id�ias supersticiosas. Se estamos em erro, aquelas autoridades o est�o
igualmente.
Mas, isso n�o passa de considera��es de ordem moral. Uma causa,
especialmente, h� contribu�do para fortalecer a d�vida, numa �poca t�o positiva como a
nossa, em que toda gente faz quest�o de se inteirar de tudo, em que se quer saber o
porqu� e o como de todas as coisas. Essa causa � a ignor�ncia da natureza dos Esp�ritos
e dos meios pelos quais se podem manifestar. Adquirindo o conhecimento daquela
natureza e destes meios, as manifesta��es nada mais apresentam de espantosas e entram
no c�mputo dos fatos naturais.

53. A id�ia que geralmente se faz dos Esp�ritos torna � primeira vista
incompreens�vel o fen�meno das manifesta��es. Como estas n�o podem dar-se, sen�o
exercendo o Esp�rito a��o sobre a mat�ria, os que julgam que a id�ia de Esp�rito implica
a de aus�ncia completa de tudo o que seja mat�ria perguntam, com certa apar�ncia de
raz�o, como pode ele obrar materialmente. Ora, a� o erro, pois que o Esp�rito n�o � uma
abstra��o, � um ser definido, limitado e circunscrito. O Esp�rito encarnado no corpo
constitui a alma. Quando o deixa, por ocasi�o da morte, n�o sai dele despido de todo o
envolt�rio. Todos nos dizem que conservam a forma humana e, com efeito, quando nos
aparecem, trazem as que lhes conhec�amos.
Observemo-los atentamente, no instante em que acabem de deixar a vida; acham-
se em estado de perturba��o; tudo se lhes apresenta confuso, em tomo; v�em perfeito
ou mutilado, conforme o g�nero da morte, o corpo que tiveram; por outro lado se
reconhecem e sentem vivos; alguma coisa lhes diz que aquele corpo lhes pertence e n�o
compreendem como podem estar separados dele. Con-
77
DA A��O DOS ESP�RITOS SOBRE A MAT�RIA

tinuam a ver-se sob a forma que tinham antes de morrer e esta vis�o, nalguns, produz,
durante certo tempo, singular ilus�o: a de se crerem ainda vivos. Falta-lhes a experi�ncia
do novo estado em que se encontram, para se convencerem da realidade. Passado esse
primeiro momento de perturba��o, o corpo se lhes torna uma veste imprest�vel de que
se despiram e de que n�o guardam saudades. Sentem-se mais leves e como que aliviados
de um fardo. N�o mais experimentam as dores f�sicas e se consideram felizes por
poderem elevar-se, transpor o espa�o, como tantas vezes o fizeram em sonho, quando
vivos (1). Entretanto, mau grado � falta do corpo, comprovam suas personalidades; t�m
uma forma, mas que os n�o importuna nem os embara�a; t�m, finalmente, a consci�ncia
de seu eu e de sua individualidade. Que devemos concluir da�? Que a alma n�o deixa
tudo no t�mulo, que leva consigo alguma coisa.

54. Numerosas observa��es e fatos irrecus�veis, de que mais tarde falaremos,
levaram � consequ�ncia de que h� no homem tr�s componentes: 1�, a alma, ou Esp�rito,
princ�pio inteligente, onde tem sua sede o senso moral; 2�, o corpo, inv�lucro grosseiro,
material, de que ele se revestiu temporariamente, em cumprimento de certos des�gnios
providenciais; 3�, o perisp�rito, envolt�rio flu�dico, semimaterial, que serve de liga��o
entre a alma e o corpo.
A morte � a destrui��o, ou, antes, a desagrega��o do envolt�rio grosseiro, do
inv�lucro que a alma abandona.
O outro se desliga deste e acompanha a alma que, assim, fica sempre com um
envolt�rio. Este �ltimo, ainda que

__________
(1) Quem se quiser reportar a tudo o que dissemos em O Livro dos Esp�ritos sobre os sonhos e
o estado do Esp�rito durante o sono (ns. 400 a 418), conceber� que esses sonhos que quase toda gente
tem, em que nos vemos transportados atrav�s do espa�o e como que voando, s�o mera recorda��o do
que o nosso Esp�rito experimentou, quando, durante o sono, deixara momentaneamente o corpo
material, levando consigo apenas o corpo flu�dico, o que ele conservar� depois da morte. Esses sonhos,
pois, nos podem dar uma id�ia do estado do Esp�rito, quando se houver desembara�ado dos entraves que
o ret�m preso ao solo.
78
CAP�TULO I

flu�dico, et�reo, vaporoso, invis�vel, para n�s, em seu estado normal, n�o deixa de ser
mat�ria, embora at� ao presente n�o tenhamos podido assenhorear-nos dela e submet�-
la � an�lise.
Esse segundo inv�lucro da alma, ou perisp�rito, existe, pois, durante a vida
corp�rea; � o intermedi�rio de todas as sensa��es que o Esp�rito percebe e pelo qual
transmite sua vontade ao exterior e atua sobre os �rg�os do corpo. Para nos servirmos
de uma compara��o material, diremos que � o fio el�trico condutor, que serve para a
recep��o e a transmiss�o do pensamento; �, em suma, esse agente misterioso,
impercept�vel, conhecido pelo nome de fluido nervoso, que desempenha t�o grande
papel na economia org�nica e que ainda n�o se leva muito em conta nos fen�menos
fisiol�gicos e patol�gicos.
Tomando em considera��o apenas o elemento material ponder�vel, a Medicina,
na aprecia��o dos fatos, se priva de uma causa incessante de a��o. N�o cabe, aqui,
por�m,
o exame desta quest�o. Somente faremos notar que no conhecimento do perisp�rito est�
a chave de in�meros problemas at� hoje insol�veis.
O perisp�rito n�o constitui uma dessas hip�teses de que a ci�ncia costuma valer-
se, para a explica��o de um fato. Sua exist�ncia n�o foi apenas revelada pelos Esp�ritos,
resulta de observa��es, como teremos ocasi�o de demonstrar. Por ora e por nos n�o
anteciparmos, no tocante aos fatos que havemos de relatar, limitar-nos-emos a dizer
que, quer durante a sua uni�o com o corpo, quer depois de separar-se deste, a alma
nunca est� desligada do seu perisp�rito.

55. H�o dito que o Esp�rito � uma chama, uma centelha. Isto se deve entender
com rela��o ao Esp�rito propriamente dito, como princ�pio intelectual e moral, a que se
n�o poderia atribuir forma determinada. Mas, qualquer que seja o grau em que se
encontre, o Esp�rito est� sempre revestido de um envolt�rio, ou perisp�rito, cuja
natureza se eteriza, � medida que ele se depura e eleva na hierarquia
79
DA A��O DOS ESP�RITOS SOBRE A MAT�RIA

espiritual. De sorte que, para n�s, a id�ia de forma � insepar�vel da de Esp�rito e n�o
concebemos uma sem a outra. O perisp�rito faz, portanto, parte integrante do Esp�rito,
como o corpo o faz do homem. Por�m, o perisp�rito, s� por s�, n�o � o Esp�rito, do
mesmo modo que s� o corpo n�o constitui o homem, porquanto o perisp�rito n�o pensa.
Ele � para o Esp�rito o que o corpo � para o homem: o agente ou instrumento de sua
a��o.

56. Ele tem a forma humana e, quando nos aparece, � geralmente com a que
revestia o Esp�rito na condi��o de encarnado. Da� se poderia supor que o perisp�rito,
separado de todas as partes do corpo, se modela, de certa maneira, por este e lhe
conserva o tipo; entretanto, n�o parece que seja assim. Com pequenas diferen�as quanto
�s particularidades e exce��o feita das modifica��es org�nicas exigidas pelo meio em o
qual o ser tem que viver, a forma humana se nos depara entre os habitantes de todos os
globos. Pelo menos, � o que dizem os Esp�ritos. Essa igualmente a forma de todos os
Esp�ritos n�o encarnados, que s� t�m o perisp�rito; a com que, em todos os tempos, se
representaram os anjos, ou Esp�ritos puros. Devemos concluir de tudo isto que a forma
humana � a forma tipo de todos os seres humanos, seja qual foro grau de evolu��o em
que se achem. Mas a mat�ria sutil do perisp�rito n�o possui a tenacidade, nem a rigidez
da mat�ria compacta do corpo; �, se assim nos podemos exprimir, flex�vel e expans�vel,
donde resulta que a forma que toma, conquanto decalcada na do corpo, n�o � absoluta,
amolga-se � vontade do Esp�rito, que lhe pode dar a apar�ncia que entenda, ao passo
que o inv�lucro s�lido lhe oferece invenc�vel resist�ncia.
Livre desse obst�culo que o comprimia, o perisp�rito se dilata ou contrai, se
transforma: presta-se, numa palavra, a todas as metamorfoses, de acordo com a vontade
que sobre ele atua. Por efeito dessa propriedade do seu envolt�rio flu�dico, � que o
Esp�rito que quer dar-se a conhecer pode, em sendo necess�rio, tomar a apar�ncia
80
CAP�TULO I

exata que tinha quando vivo, at� mesmo com os acidentes corporais que possam
constituir sinais para o reconhecerem
Os Esp�ritos, portanto, s�o, como se v�, seres semelhantes a n�s, constituindo,
ao nosso derredor, toda urna popula��o, invis�vel no estado normal. Dizemos - no
estado normal, porque, conforme veremos, essa invisibilidade nada tem de absoluta.

57. Voltemos � natureza do perisp�rito, pois que isto � essencial para a
explica��o que temos de dar. Dissemos que, embora flu�dico, o perisp�rito n�o deixa de
ser uma esp�cie de mat�ria, o que decorre do fato das apari��es tang�veis, a que
volveremos. Sob a influ�ncia de certos m�diuns, tem-se visto aparecerem m�os com
todas as propriedades de m�os vivas, que, como estas, denotam calor, podem ser
palpadas, oferecem a resist�ncia de um corpo s�lido, agarram os circunstantes e, de
s�bito, se dissipam, quais sombras. A a��o inteligente dessas m�os, que evidentemente
obedecem a uma vontade, executando certos movimentos, tocando at� melodias num
instrumento, prova que elas s�o parte vis�vel de um ser inteligente invis�vel. A
tangibilidade que revelam, a temperatura, a impress�o, em suma, que causam aos
sentidos, porquanto se h� verificado que deixam marcas na pele, que d�o pancadas
dolorosas, que acariciam delicadamente, provam que s�o de uma mat�ria qualquer. Seus
desaparecimentos repentinos provam, al�m disso, que essa mat�ria � eminentemente
sutil e se comporta como certas subst�ncias que podem alternativamente passar do
estado s�lido ao estado flu�dico e vice-versa.

58. A natureza �ntima do Esp�rito propriamente dito, isto �, do ser pensante,
desconhecemo-la por completo. Apenas pelos seus atos ele se nos revela e seus atos n�o
nos podem impressionar os sentidos, a n�o ser por um intermedi�rio material. O Esp�rito
precisa, pois, de mat�ria, para atuar sobre a mat�ria. Tem por instrumento direto
81
DA A��O DOS ESP�RITOS SOBRE A MAT�RIA

de sua a��o o perisp�rito, como o homem tem o corpo. Ora, o perisp�rito � mat�ria,
conforme acabamos de ver. Depois, serve-lhe tamb�m de agente intermedi�rio o fluido
universal, esp�cie de ve�culo sobre que ele atua, como n�s atuamos sobre o ar, para
obter determinados efeitos, por meio da dilata��o, da compress�o, da propuls�o, ou das
vibra��es.
Considerada deste modo, facilmente se concebe a a��o do Esp�rito sobre a
mat�ria. Compreende-se, desde ent�o, que todos os efeitos que da� resultam cabem na
ordem dos fatos naturais e nada t�m de maravilhosos. S� pareceram sobrenaturais,
porque se lhes n�o conhecia a causa. Conhecida esta, desaparece o maravilhoso e essa
causa se inclui toda nas propriedades semimateriais do perisp�rito. E uma ordem nova de
fatos que uma nova lei vem explicar e dos quais, dentro de algum tempo, ningu�m mais
se admirar� como ningu�m se admira hoje de se corresponder com outra pessoa, a
grande dist�ncia, em alguns minutos, por meio da eletricidade.

59. Perguntar-se-�, talvez, como pode o Esp�rito, com o auxilio de mat�ria t�o
sutil, atuar sobre corpos pesados e compactos, suspender mesas, etc. Semelhante
obje��o certo que n�o ser� formulada por um homem de ci�ncia, visto que, sem falar
das propriedades desconhecidas que esse novo agente pode possuir, n�o temos
exemplos an�logos sob as vistas? N�o � nos gases mais rarefeitos, nos fluidos
imponder�veis que a ind�stria encontra os seus mais possantes motores? Quando vemos
o ar abater edif�cios, o vapor deslocar enormes massas, a p�lvora gaseificada levantar
rochedos, a eletricidade lascar �rvores e fender paredes, que dificuldades acharemos em
admitir que o Esp�rito, com o auxilio do seu perisp�rito, possa levantar uma mesa,
sobretudo sabendo que esse perisp�rito pode tornar-se vis�vel, tang�vel e comportar-se
como um corpo s�lido?
82




CAP�TULO II

DAS MANIFESTA��ES F�SICAS. - DAS MESAS
GIRANTES

60. D�-se o nome de manifesta��es f�sicas �s que se traduzem por efeitos
sens�veis, tais como ru�dos, movimentos e desloca��o de corpos s�lidos. Umas s�o
espont�neas, isto �, independentes da vontade de quem quer que seja; outras podem ser
provocadas, Primeiramente, s� falaremos destas ultimas.
O efeito mais simples, e um dos primeiros que foram observados, consiste no
movimento circular impresso a uma mesa, Este efeito igualmente se produz com
qualquer outro objeto, mas sendo a mesa o m�vel com que, pela sua comodidade, mais
se tem procedido a tais experi�ncias, a designa��o de mesas girantes prevaleceu, para
indicar esta esp�cie de fen�menos.
Quando dizemos que este efeito foi um dos que primeiro se observaram,
queremos dizer nos �ltimos tempos, pois n�o h� d�vida de que todos os g�neros de
mani-
83
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS

festa��es eram conhecidos desde os tempos mais long�nquos. Visto que s�o efeitos
naturais, necessariamente se produziram em todas as �pocas. Tertuliano trata, em
termos expl�citos, das mesas girantes e falantes.
Durante algum tempo esse fen�meno entreteve a curiosidade dos sal�es. Depois,
aborreceram-se dele e passaram a cultivar outras distra��es, porquanto apenas o
consideravam como simples distra��o. Duas causas contribu�ram para que pusessem de
parte as mesas girantes. Pelo que toca � gente fr�vola, a causa foi a moda, que n�o lhe
permite conservar por dois invernos seguidos o mesmo divertimento, mas que, no
entanto, consentiu que em tr�s ou quatro predominasse o de que tratamos, coisa que a
tal gente deve ter parecido prodigiosa. Quanto �s pessoas criteriosas e observadoras, o
que as fez desprezar as mesas girantes foi que, tendo visto nascer delas algo de s�rio,
destinado a prevalecer, passaram a ocupar-se com as conseq��ncias a que o fen�meno
dava lugar, bem mais importantes em seus resultados. Deixaram o alfabeto pela ci�ncia,
tal o segredo desse aparente abandono com que tanta bulha fazem os motejadores.
Como quer que seja, as mesas girantes representar�o sempre o ponto de partida
da Doutrina Esp�rita e, por essa raz�o, algumas explica��es lhes devemos, tanto mais
que, mostrando os fen�menos na sua maior simplicidade, o estudo das causas que os
produzem ficar� facilitado e, uma vez firmada, a teoria nos fornecer� a chave para a
decifra��o dos efeitos mais complexos.

61. Para que o fen�meno se produza, faz-se mister a interven��o de uma ou
muitas pessoas dotadas de especial aptid�o, que se designam pelo nome de m�diuns. O
n�mero dos cooperadores em nada influi, a n�o ser que entre eles se encontrem alguns
m�diuns ignorados. Quanto aos que n�o t�m mediunidade, a presen�a desses nenhum
resultado produz, pode mesmo ser mais prejudicial do que �til pela disposi��o de
esp�rito em que se achem.
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CAP�TULO II

Sob este aspecto, os m�diuns gozam de maior ou menor poder, produzindo, por
conseguinte, efeitos mais ou menos pronunciados. Muitas vezes, um poderoso m�dium
produzir� sozinho mais do que vinte outros juntos. Basta-lhe colocar as m�os na mesa
para que, no mesmo instante, ela se mova, erga, revire, d� saltos, ou gire com viol�ncia.

62. Nenhum ind�cio h� pelo qual se reconhe�a a exist�ncia da faculdade
medi�nica. S� a experi�ncia pode revel�-la. Quando, numa reuni�o, se quer
experimentar, devem todos, muito simplesmente, sentar-se ao derredor da mesa e
colocar-lhe em cima, espalmadas, as m�os, sem press�o, nem esfor�o muscular. A
princ�pio, como se ignorassem as causas do fen�meno, recomendavam muitas
precau��es, que depois se verificou serem absolutamente in�teis. Tal, por exemplo, a
alterna��o dos sexos; tal, tamb�m, o contacto entre os dedos m�nimos das diferentes
pessoas, de modo a formar uma cadeia ininterrupta. Esta �ltima precau��o parecia
necess�ria, quando se acreditava na a��o de uma esp�cie de corrente el�trica. Depois, a
experi�ncia lhe demonstrou a inutilidade,
A �nica prescri��o de rigor obrigat�rio � o recolhimento, absoluto sil�ncio e,
sobretudo, a paci�ncia, caso o efeito se fa�a esperar. Pode acontecer que ele se produza
em alguns minutos, como pode tardar meia hora ou uma hora. Isso depende da for�a
medi�nica dos co-participantes.

63. Acrescentemos que a forma da mesa, a subst�ncia de que � feita, a presen�a
de metais, da seda nas roupas dos assistentes, os dias, as horas, a obscuridade, ou a luz
etc., s�o indiferentes como a chuva ou o bom tempo. Apenas o volume da mesa deve ser
levado em conta, mas t�o-somente no caso em que a for�a medi�nica seja insuficiente
para vencer-lhe a resist�ncia. No caso contr�rio, uma pessoa s�, at� uma crian�a, pode
fazer que uma mesa de cem quilos se levante, ao passo que, em condi��es
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DAS MANIFESTA��ES F�SICAS

menos favor�veis, doze pessoas n�o conseguir�o que uma mesinha de centro se mova.
Estando as coisas neste p�, quando o efeito come�a a produzir-se, geralmente se
ouve um pequeno estalido na mesa; sente-se como que um fr�mito, que � o prel�dio do
movimento. Tem-se a impress�o de que ela se esfor�a por despregar-se do ch�o; depois,
o movimento de rota��o se acentua e acelera ao ponto de adquirir tal rapidez, que os
assistentes se v�em nas maiores dificuldades para acompanh�-lo. Uma vez acentuado o
movimento, podem eles afastar-se da mesa, que esta continua a mover-se em todos os
sentidos, sem contacto.
Doutras vezes, ela se agita e ergue, ora num p�, ora noutro, e, em seguida,
retoma suavemente a sua posi��o natural. Doutras, entra a oscilar, imitando o duplo
balan�o de um navio. Doutras, afinal, mas para isto necess�rio se faz consider�vel for�a
medi�nica, se destaca completamente do solo e se mant�m equilibrada no espa�o, sem
nenhum ponto de apoio, chegando mesmo, n�o raro, a elevar-se at� o forro da casa, de
modo a ser poss�vel passar-se-lhe por baixo. Depois, desce lentamente, baloi�ando-se
como o faria uma folha de papel, ou, sen�o, cai violentamente e se quebra, o que prova
de modo patente que os que presenciam o fen�meno n�o s�o v�timas de uma ilus�o de
�tica.

64. Outro fen�meno que se produz com freq��ncia, de acordo com a natureza
do m�dium, � o das pancadas no pr�prio tecido da madeira, sem que a mesa fa�a
qualquer movimento. Essas pancadas, �s vezes muito fracas, outras vezes muito fortes,
se fazem tamb�m ouvir nos outros m�veis do compartimento, nas paredes e no forro.
Dentro em pouco voltaremos a esta quest�o. Quando as pancadas se d�o na mesa,
produzem nesta uma vibra��o muito apreci�vel por meio dos dedos e que se distingue
perfeitamente, aplicando-se-lhe o ouvido.
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CAP�TULO III

DAS MANIFESTA��ES INTELIGENTES

65. No que acabamos de ver, nada certamente revela a interven��o de uma
pot�ncia oculta e os efeitos que passamos em revista poderiam explicar-se perfeitamente
pela a��o de uma corrente magn�tica, ou el�trica, ou, ainda, pela de um fluido qualquer.
Tal foi, precisamente, a primeira solu��o dada a tais fen�menos e que, com raz�o, podia
passar por muito l�gica. Teria, n�o h� d�vida, prevalecido, se outros fatos n�o tivessem
vindo demonstr�-la insuficiente. Estes fatos s�o as provas de intelig�ncia que eles
deram. Ora, como todo efeito inteligente h� de por for�a derivar de uma causa
inteligente, ficou evidenciado que, mesmo admitindo-se, em tais casos, a interven��o da
eletricidade, ou de qualquer outro fluido, outra causa a essa se achava associada. Qual
era ela? Qual a intelig�ncia? Foi o que o seguimento das observa��es mostrou.
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DAS MANIFESTA��ES INTELIGENTES

66. Para uma manifesta��o ser inteligente, indispens�vel n�o � que seja
eloq�ente, espirituosa, ou s�bia; basta que prove ser um ato livre e volunt�rio,
exprimindo uma inten��o, ou respondendo a um pensamento. Decerto, quando uma
ventoinha se move, toda gente sabe que apenas obedece a uma impuls�o mec�nica: � do
vento; mas, se se reconhecessem nos seus movimentos sinais de serem eles intencionais,
se ela girasse para a direita ou para a esquerda, depressa ou devagar, conforme se lhe
ordenas-se, for�oso seria admitir-se, n�o que a ventoinha era inteligente, por�m, que
obedecia a uma intelig�ncia. Isso o que se deu com a mesa.

67. Vimo-la mover-se, levantar-se, dar pancadas, sob a influ�ncia de um ou de
muitos m�diuns. O primeiro efeito inteligente observado foi o obedecerem esses
movimentos a uma determina��o. Assim � que, sem mudar de lugar, a mesa se erguia
alternativamente sobre o p� que se lhe indicava; depois, caindo, batia um n�mero
determinado de pancadas, respondendo a uma pergunta. Doutras vezes, sem o contacto
de pessoa alguma, passeava sozinha pelo aposento, indo para a direita, ou para a
esquerda, para diante, ou para tr�s, executando movimentos diversos, conforme o
ordenavam os assistentes. Est� bem visto que pomos de parte qualquer suposi��o de
fraude; que admitimos a perfeita lealdade das testemunhas, atestada pela honradez e
pelo absoluto desinteresse de todas. Falaremos mais tarde dos embustes contra os quais
manda a prud�ncia que se esteja precavido.

68. Por meio de pancadas e, sobretudo, por meio dos estalidos, de que h� pouco
tratamos, produzidos no interior da mesa, obt�m-se efeitos ainda mais inteligentes,
como sejam: a imita��o dos rufos do tambor, da fuzilaria de descarga por fila ou por
pelot�o, de um canhoneio; depois, a do ranger da serra, dos golpes de martelo, do ritmo
de diferentes �rias, etc. Era, como bem se compreende, um vasto campo a ser
explorado. Raciocinou-se que,
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CAP�TULO III

se naquilo havia uma intelig�ncia oculta, for�osamente lhe seria poss�vel responder a
perguntas e ela de fato respondeu, por um sim, por um n�o, dando o n�mero de
pancadas que se convencionara para um caso e outro.
Por serem muito insignificantes essas respostas, surgiu a id�ia de fazer-se que a
mesa indicasse as letras do alfabeto e compusesse assim palavras e frases.

69. Estes fatos, repetidos � vontade por milhares de pessoas e em todos os
pa�ses, n�o podiam deixar d�vida sobre a natureza inteligente das manifesta��es. Foi
ent�o que apareceu um novo sistema, segundo o qual essa intelig�ncia seria a do
m�dium, do interrogante, ou mesmo dos assistentes. A dificuldade estava em explicar
como semelhante intelig�ncia podia refletir-se na mesa e se expressar por pancadas.
Averiguado que estas n�o eram dadas pelo m�dium, deduziu-se que, ent�o, o eram pelo
pensamento. Mas, o pensamento a dar pancadas constitu�a fen�meno ainda mais
prodigioso do que todos os que haviam sido observados. N�o tardou que a experi�ncia
demonstrasse a inadmissibilidade de tal opini�o. Efetivamente, as respostas muito
ami�de se achavam em oposi��o formal �s id�ias dos assistentes, fora do alcance
intelectual do m�dium e eram at� dadas em l�nguas que este ignorava, ou referia fatos
que todos desconheciam. S�o t�o numerosos os exemplos, que quase imposs�vel � n�o
ter sido disso testemunha muitas vezes quem quer que j� um pouco se ocupou com as
manifesta��es Esp�ritas. Citaremos apenas um, que nos foi relatado por uma testemunha
ocular.

70. Num navio da marinha imperial francesa, estacionado nos mares da China,
toda a equipagem, desde os marinheiros at� o estado-maior, se ocupava em fazer que as
mesas falassem. Tiveram a id�ia de evocar o Esp�rito de um tenente que pertencera �
guarni��o do mesmo navio e que morrera havia dois anos. O Esp�rito veio e, depois de
v�rias comunica��es que a todos encheram de espanto, disse o que segue, por meio de
pancadas: "Pe�o-vos instan-
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DAS MANIFESTA��ES INTELIGENTES

temente que mandeis pagar ao capit�o a soma de... (indicava a cifra), que lhe devo e que
lamento n�o ter podido restituir-lhe antes de minha morte." Ningu�m conhecia o fato: o
pr�prio capit�o esquecera esse d�bito, ali�s m�nimo. Mas, procurando nas suas contas,
encontrou uma nota da divida do tenente, de import�ncia exatamente id�ntica � que o
Esp�rito indicara. Perguntamos: do pensamento de quem podia essa indica��o ser o
reflexo?

71. Aperfei�oou-se a arte de obter comunica��es pelo processo das pancadas
alfab�ticas, mas o meio continuava a ser muito moroso. Algumas, entretanto, se
obtiveram de certa extens�o, assim como interessantes revela��es sobre o mundo dos
Esp�ritos. Estes indicaram outros meios e a eles se deve o das comunica��es escritas.
Receberam-se as primeiras deste g�nero, adaptando-se um l�pis ao p� de uma
mesa leve, colocada sobre uma folha de papel. Posta em movimento pela influ�ncia de
um m�dium, a mesa come�ou a tra�ar caracteres, depois palavras e frases. Simplificou-
se gradualmente o processo, pelo emprego de mesinhas do tamanho de uma m�o,
constru�das expressamente para isso; em seguida, pelo de cestas, de caixas de papel�o e,
afinal, pelo de simples pranchetas. A escrita sa�a t�o corrente, t�o r�pida e t�o f�cil
como com a m�o. Por�m, reconheceu-se mais tarde que todos aqueles objetos n�o
passavam, em definitiva, de ap�ndices, de verdadeiras lapiseiras, de que se podia
prescindir, segurando o m�dium, com sua pr�pria m�o, o l�pis. For�ada a um
movimento involunt�rio, a m�o escrevia sob o impulso que lhe imprimia o Esp�rito e
sem o concurso da vontade, nem do pensamento do m�dium. A partir de ent�o, as
comunica��es de al�m-t�mulo se tornaram sem limites, como o � a correspond�ncia
habitual entre os vivos.
Voltaremos a tratar destes diferentes meios, a fim de explic�-los
minuciosamente. Por ora, limitamo-nos a esbo��-los, para mostrar os fatos sucessivos
que levaram
90
CAP�TULO III

os observadores a reconhecer, nestes fen�menos, a interven��o de intelig�ncias ocultas,
ou, por outra, dos Esp�ritos.
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CAP�TULO IV

DA TEORIA DAS MANIFESTA��ES F�SICAS

Movimentos e suspens�es. Ru�dos. Aumento e diminui��o de peso dos corpos.

72. Demonstrada, pelo racioc�nio e pelos fatos, a exist�ncia dos Esp�ritos, assim
como a possibilidade que t�m de atuar sobre a mat�ria, trata-se agora de saber como se
efetua essa a��o e como procedem eles para fazer que se movam as mesas e outros
corpos inertes.
Uma id�ia se apresenta muito naturalmente e n�s a tivemos. Dando-nos outra
explica��o muito diversa, pela qual longe est�vamos de esperar, os Esp�ritos a
combateram, constituindo isto uma prova de que a teoria deles n�o era efeito da nossa
opini�o. Ora, essa primeira id�ia todos a podiam ter, como n�s; quanto � teoria dos
Esp�ritos, n�o cremos que jamais haja acudido � mente de quem quer que seja. Sem
dificuldade se reconhecer� quanto � superior � que espos�vamos, se bem que menos
simples,
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CAP�TULO IV

porque d� solu��o a in�meros outros fatos que, com a nossa, n�o encontravam
explica��o satisfat�ria.

73. Desde que se tornaram conhecidas a natureza dos Esp�ritos, sua forma
humana, as propriedades semimateriais do perisp�rito, a a��o mec�nica que este pode
exercer sobre a mat�ria; desde que, em casos de apari��o, se viram m�os flu�dicas e
mesmo tang�veis tomar dos objetos e transport�-los, julgou-se, como era natural, que o
Esp�rito se servia muito simplesmente de suas pr�prias m�os para fazer que a mesa
girasse e que � for�a de bra�o � que ela se erguia no espa�o. Mas, ent�o, sendo assim,
que necessidade havia de m�dium? N�o pode o Esp�rito atuar s� por si? Porque, �
evidente que o m�dium, que as mais das vezes p�e as m�os sobre a mesa em sentido
contr�rio ao do seu movimento, ou que mesmo n�o coloca ali as m�os, n�o pode
secundar o Esp�rito por meio de uma a��o muscular qualquer. Deixemos, por�m, que
primeiro falem os Esp�ritos a quem interrogamos sobre esta quest�o.

74. As respostas seguintes nos foram dadas pelo Esp�rito S�o Lu�s. Muitos
outros, depois, as confirmaram.

I. Ser� o fluido universal uma emana��o da divindade?
"N�o."

II. Ser� uma cria��o da divindade?
"Tudo � criado, exceto Deus."

?
III. O fluido universal ser� ao mesmo tempo o elemento universal
"Sim, � o princ�pio elementar de todas as coisas."

IV. Alguma rela��o tem ele com o fluido el�trico, cujos efeitos conhecemos?
"E o seu elemento."

V. Em que estado o fluido universal se nos apresenta, na sua maior simplicidade?
"Para o encontrarmos na sua simplicidade absoluta, precisamos ascender aos
Esp�ritos puros. No vosso mundo,
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DA TEORIA DAS MANIFESTA��ES F�SICAS

ele sempre se acha mais ou menos modificado, para formar a mat�ria compacta que vos
cerca. Entretanto, podeis dizer que o estado em que se encontra mais pr�ximo daquela
simplicidade � o do fluido a que chamais fluido magn�tico animal. "

VI. J� disseram que o fluido universal � a fonte da vida. Ser� ao mesmo tempo a
fonte da intelig�ncia?
"N�o, esse fluido apenas anima a mat�ria."

VII. Pois que � desse fluido que se comp�e o perisp�rito, parece que, neste, ele
se acha num como estado de condensa��o, que o aproxima, at� certo ponto, da mat�ria
propriamente dita?
"At� certo ponto, como dizes, porquanto n�o tem todas as propriedades da
mat�ria. E mais ou menos condensado, conforme os mundos."

VIII. Como pode um Esp�rito produzir o movimento de um corpo s�lido?
"Combinando uma parte do fluido universal com o fluido, pr�prio �quele efeito,
que o m�dium emite."

IX. Ser� com os seus pr�prios membros, de certo modo solidificados, que os
Esp�ritos levantam a mesa?
"Esta resposta ainda n�o te levar� at� onde desejas. Quando, sob as vossas m�os,
uma mesa se move, o Esp�rito haure no fluido universal o que � necess�rio para lhe dar
uma vida fact�cia. Assim preparada a mesa, o Esp�rito a atrai e move sob a influ�ncia do
fluido que de si mesmo desprende, por efeito da sua vontade. Quando quer p�r em
movimento uma massa por demais pesada para suas for�as, chama em seu aux�lio outros
Esp�ritos, cujas condi��es sejam id�nticas �s suas. Em virtude da sua natureza et�rea, o
Esp�rito, propriamente dito, n�o pode atuar sobre a mat�ria grosseira, sem
intermedi�rio, isto �, sem o elemento que o liga � mat�ria. Esse elemento, que constitui
o que chamais perisp�rito, vos faculta a chave de todos os fen�menos esp�ritas de ordem
material. Julgo ter-me explicado muito claramente, para ser compreendido."
NOTA. Chamamos a aten��o para a seguinte frase, primeira da resposta acima:
Esta resposta AINDA te n�o levar� at� onde desejas.
94
CAP�TULO IV

O Esp�rito compreendera perfeitamente que todas as quest�es precedentes s� haviam
sido formuladas para chegarmos a esta �ltima e alude ao nosso pensamento que. com
efeito, esperava por outra resposta muito diversa, isto �, pela confirma��o da id�ia que
t�nhamos sobre a maneira por que o Espirito obt�m o movimento da mesa.

X. Os Esp�ritos, que aquele que deseja mover um objeto chama em seu aux�lio,
s�o-lhe inferiores? Est�o-lhe sob as ordens?
"S�o-lhe iguais, quase sempre. Muitas vezes acodem espontaneamente."

XI. S�o aptos, todos os Esp�ritos, a produzir fen�menos deste g�nero?
"Os que produzem efeitos desta esp�cie s�o sempre Esp�ritos inferiores, que
ainda se n�o desprenderam inteiramente de toda a influ�ncia material."

XII. Compreendemos que os Esp�ritos superiores n�o se ocupam com coisas que
est�o muito abaixo deles. Mas, perguntamos se, uma vez que est�o mais
desmaterializados, teriam o poder de faz�-lo, dado que o quisessem?
"Os Esp�ritos superiores t�m a for�a moral, como os outros t�m a for�a f�sica.
Quando precisam desta for�a, servem-se dos que a possuem. J� n�o se vos disse que
eles se servem dos Esp�ritos inferiores, como v�s vos servis dos carregadores?"
NOTA. J� foi explicado que a densidade do perisp�rito, se assim se pode dizer,
varia de acordo com o estado dos mundos. Parece que tamb�m varia, em um mesmo
mundo, de indiv�duo para indiv�duo. Nos Esp�ritos moralmente adiantados, � mais sutil
e se aproxima da dos Esp�ritos elevados; nos Esp�ritos inferiores, ao contr�rio,
aproxima-se da mat�ria e � o que faz que os Esp�ritos de baixa condi��o conservem por
muito tempo as ilus�es da vida terrestre. Esses pensam e obram como se ainda fossem
vivos; experimentam os mesmos desejos e quase que se poderia dizer a mesma
sensualidade. Esta grosseria do perisp�rito, dando-lhe mais afinidade com a mat�ria,
torna os Esp�ritos inferiores mais aptos �s manifesta��es f�sicas. Pela mesma raz�o � que
um homem de sociedade, habituado aos trabalhos da intelig�ncia, franzino e delicado de
corpo, n�o pode suspender fardos pesados, como o faz um carregador. Nele, a mat�ria
�, de certa maneira, menos compacta, menos resistentes
95
DA TEORIA DAS MANIFESTA��ES F�SICAS

os �rg�os; h� menos fluido nervoso. Sendo o perisp�rito, para o Esp�rito, o que o corpo
� para o homem e como � sua maior densidade corresponde menor inferioridade
espiritual, essa densidade substitui no Esp�rito a for�a muscular, isto �, d�-lhe, sobre os
fluidos necess�rios �s manifesta��es, um poder maior do que o de que disp�em aqueles
cuja natureza � mais et�rea. Querendo um Esp�rito elevado produzir tais efeitos, faz o
que entre n�s fazem as pessoas delicadas: chama para execut�-los um Esp�rito do
of�cio.

XIII. Se compreendemos bem o que disseste, o princ�pio vital reside no fluido
universal; o Esp�rito tira deste fluido o envolt�rio semimaterial que constitui o seu
perisp�rito e � ainda por, meio deste fluido que ele atua sobre a mat�ria inerte. � assim?
"�. Quer dizer: ele empresta � mat�ria uma esp�cie de vida fact�cia; a mat�ria se
anima da vida animal. A mesa, que se move debaixo das vossas m�os, vive como animal;
obedece por si mesma ao ser inteligente. N�o � este quem a impele, como faz o homem
com um fardo. Quando ela se eleva, n�o � o Esp�rito quem a levanta, com o esfor�o do
seu bra�o: � a pr�pria mesa que, animada, obedece � impuls�o que lhe d� o Esp�rito."

XIV. Que papel desempenha o m�dium nesse fen�meno?
"J� eu disse que o fluido pr�prio do m�dium se combina com o fluido universal
que o Esp�rito acumula. E necess�ria a uni�o desses dois fluidos, isto �, do fluido
animalizado e do fluido universal para dar vida � mesa. Mas, nota bem que essa vida �
apenas moment�nea, que se extingue com a a��o e, �s vezes, antes que esta termine,
logo que a quantidade de fluido deixa de ser bastante para a animar."

XV. Pode o Esp�rito atuar sem o concurso de um m�dium?
"Pode atuar � revelia do m�dium. Quer isto dizer que muitas pessoas, sem que o
suspeitem, servem de auxiliares aos Esp�ritos. Delas haurem os Esp�ritos, como de uma
fonte, o fluido animalizado de que necessitem. Assim � que o concurso de um m�dium,
tal como o entendeis,
96
CAP�TULO IV

nem sempre � preciso, o que se verifica Principalmente nos fen�menos espont�neos."

XVI. Animada, atua a mesa com intelig�ncia? Pensa?
"Pensa tanto quanto a bengala com que fazes um sinal inteligente. Mas, a
vitalidade de que se acha animada lhe permite obedecer � impuls�o de uma intelig�ncia.
Fica, pois, sabendo que a mesa que se move n�o se torna Esp�rito e que n�o tem, em si
mesma, capacidade de pensar, nem de querer."
NOTA. Muito ami�de, na linguagem usual, servimo-nos de uma express�o
an�loga. Diz-se de uma roda, que gira velozmente, que est� animada de um movimento
r�pido.

XVII. Qual a causa preponderante, na produ��o desse fen�meno: o Esp�rito, ou
o fluido?
"O Esp�rito � a causa, o fluido o instrumento, ambos s�o necess�rios."

XVIII. Que papel, nesse caso, desempenha a vontade do m�dium?
"O de atrair os Esp�ritos e secund�-los no impulso que d�o ao fluido."
a) � sempre indispens�vel a a��o da vontade?
"Aumenta a for�a, mas nem sempre � necess�ria, pois que o movimento pode
produzir-se contra essa vontade, ou a seu malgrado, e isso prova haver uma causa
independente do m�dium."
NOTA. Nem sempre o contacto das m�os � necess�rio para que um objeto se
mova. As mais das vezes esse contacto s� se faz preciso para dar o primeiro impulso;
por�m, desde que o objeto est� animado, pode obedecer � vontade do Esp�rito, Sem
contacto material. Depende isto, ou da potencialidade do m�dium, ou da natureza do
Esp�rito. Nem sempre mesmo � indispens�vel um primeiro contacto, do que s�o provas
os movimentos e deslocamentos espont�neos, que ningu�m cogitou de provocar.

XIX. Por que � que nem toda gente pode produzir o mesmo efeito e n�o t�m
todos os m�diuns o mesmo poder?
97
DA TEORIA DAS MANIFESTA��ES F�SICAS

"Isto depende da organiza��o e da maior ou menor facilidade com que se pode
operar a combina��o dos fluidos. Influi tamb�m a maior ou menor simpatia do m�dium
para com os Esp�ritos que encontram nele a for�a flu�dica necess�ria. D�-se com esta
for�a o que se verifica com a dos magnetizadores, que n�o � igual em todos. A esse
respeito, h� mesmo pessoas que s�o de todo refrat�rias; outras com as quais a
combina��o s� se opera por um esfor�o de vontade da parte delas; outras, finalmente,
com quem a combina��o dos fluidos se efetua t�o natural e facilmente, que elas nem d�o
por isso e servem de instrumento a seu mau grado, como atr�s dissemos." (Vede aqui
adiante o cap�tulo das Manifesta��es espont�neas).
NOTA. Estes fen�menos t�m sem d�vida por princ�pio o magnetismo, por�m,
n�o como geralmente o entendem. A prova est� na exist�ncia de poderosos
magnetizadores que n�o conseguiram fazer que uma pequenina mesa se movesse e na de
pessoas que n�o logram magnetizar a ningu�m, nem mesmo a uma crian�a, �s quais, no
entanto, basta que ponham os dedos sobre uma mera pesada, para que esta se agite.
Assim, desde que a for�a medi�nica n�o guarda propor�ao com a for�a magn�tica, � que
outra causa existe.

XX. As pessoas qualificadas de el�tricas podem ser consideradas m�diuns?
"Essas pessoas tiram de si mesmas o fluido necess�rio � produ��o do fen�meno
e podem operar sem o concurso de outros Esp�ritos. N�o s�o, portanto, m�diuns, no
sentido que se atribui a esta palavra. Mas, tamb�m pode dar-se que um Esp�rito as
assista e se aproveite de suas disposi��es naturais."
NOTA. Sucede com essas pessoas o que ocorre com os son�mbulos, que podem
operar com ou sem o concurso de Esp�ritos estranhos. (Veja-se, no cap�tulo dos
M�diuns, o artigo relativo aos m�diuns sonamb�licos.)

XXI. O Esp�rito que atua sobre os corpos s�lidos, para move-los, se coloca na
subst�ncia mesma dos corpos, ou fora dela?
98
CAP�TULO IV

"D�-se uma e outra coisa. J� dissemos que a mat�ria n�o constitui obst�culos
para os Esp�ritos. Em tudo eles penetram. Uma por��o do perisp�rito se identifica, por
assim dizer, com o objeto em que penetra."

XXII. Como faz o Esp�rito para bater? Serve-se de algum objeto material?
"Tanto quanto dos bra�os para levantar a mesa. Sabes perfeitamente que nenhum
martelo tem o Esp�rito � sua disposi��o. Seu martelo � o fluido que, combinado, ele p�e
em a��o, pela sua vontade, para mover ou bater. Quando move um objeto, a luz vos d�
a percep��o do movimento; quando bate, o ar vos traz o som."

XXIII. Concebemos que seja assim, quando o Esp�rito bate num corpo duro;
mas como pode fazer que se ou�am ru�dos, ou sons articulados na massa inst�vel do ar?
"Pois que � poss�vel atuar sobre a mat�ria, tanto pode ele atuar sobre uma mesa,
como sobre o ar. Quanto aos sons articulados, pode imit�-los, como o pode fazer com
quaisquer outros ru�dos."

XXIV. Dizes que o Esp�rito n�o se serve de suas m�os para deslocar a mesa.
Entretanto, j� se tem visto, em certas manifesta��es visuais, aparecerem m�os a dedilhar
um teclado, a percutir as teclas e a tirar dali sons. Neste caso, o movimento das teclas
n�o ser� devido, como parece, � press�o dos dedos? E n�o � tamb�m direta e real essa
press�o, quando se faz sentir sobre n�s, quando as m�os que a exercem deixam marcas
na pele?
"N�o podeis compreender a natureza dos Esp�ritos nem a maneira por que
atuam, sen�o mediante compara��es, que de uma e outra coisa apenas vos d�o id�ia
incompleta, e errareis sempre que quiserdes assimilar aos vossos os processos de que
eles usam. Estes, necessariamente, h�o de corresponder � organiza��o que lhes �
pr�pria. J� te n�o disse eu que o fluido do perisp�rito penetra a mat�ria e com ela se
identifica, que a anima de uma vida fact�cia? Pois bem! Quando o Esp�rito p�e os dedos
sobre as teclas, realmente os p�e e de fato as movimenta.
99
DA TEORIA DAS MANIFESTA��ES F�SICAS

Por�m, n�o � por meio da for�a muscular que exerce a press�o. Ele as anima, como o
faz com a mesa, e as teclas, obedecendo-lhe � vontade, se abaixam e tangem as cordas
do piano. Em tudo isto uma coisa ainda se d�, que dif�cil vos ser� compreender: � que
alguns Esp�ritos t�o pouco adiantados se encontram e, em compara��o com os Esp�ritos
elevados, t�o materiais se conservam, que guardam as ilus�es da vida terrena e julgam
obrar como quando tinham o corpo de carne. N�o percebem a verdadeira causa dos
efeitos que produzem, mais do que um campon�s compreende a teoria dos sons que
articula. Perguntai-lhes como � que tocam piano e vos responder�o que batendo com os
dedos nas teclas, porque julgam ser assim que o fazem. O efeito se produz
instintivamente neles, sem que saibam como, se bem lhes resulte da a��o da vontade. O
mesmo ocorre, quando se exprimem por palavras.
NOTA. Destas explica��es decorre que os Esp�ritos podem produzir todos os
efeitos que n�s outros homens produzimos, mas por meios apropriados � sua
organiza��o. Algumas for�as, que lhes s�o pr�prias, substituem os m�sculos de que
precisamos para atuar, da mesma maneira que, para um mudo, o gesto substitui a
palavra que lhe falta.

XXV. Entre os fen�menos que se apontam como probantes da a��o de uma
pot�ncia oculta, alguns h� evidentemente contr�rios a todas as conhecidas leis da
Natureza. Nesses casos, n�o ser� leg�tima a d�vida?
"� que o homem est� longe de conhecer todas as leis da Natureza. Se as
conhecesse todas, seria Esp�rito superior. Cada dia que se passa desmente os que,
supondo tudo saberem, pretendem impor limites � Natureza, sem que por isso,
entretanto, se tornem menos orgulhosos. Desvendando-lhe, incessantemente, novos
mist�rios, Deus adverte o homem de que deve desconfiar de suas pr�prias luzes,
porquanto dia vir� em que a ci�ncia do mais s�bio ser� confundida. N�o tendes todos
os dias, sob os olhos, exemplos de corpos animados de um movimento que domina a
for�a da gravita��o? Uma pedra, atirada para o ar,
100
CAP�TULO IV

n�o sobrepuja momentaneamente aquela for�a? Pobres homens, que vos considerais
muito s�bios e cuja tola vaidade a todos os momentos est� sendo desbancada, ficai
sabendo que ainda sois muito pequeninos."

75. Estas explica��es s�o claras, categ�ricas e isentas de ambig�idade. Delas
ressalta, como ponto capital, que o fluido universal, onde se cont�m o principio da vida,
� o agente principal das manifesta��es, agente que recebe impuls�o do Esp�rito, seja
encarnado, seja errante. Condensado, esse fluido constitui o perisp�rito, ou inv�lucro
semimaterial do Esp�rito. Encarnado este, o perisp�rito se acha unido � mat�ria do
corpo; estando o Esp�rito na erraticidade, ele se encontra livre. Quando o Esp�rito est�
encarnado, a subst�ncia do perisp�rito se acha mais ou menos ligada, mais ou menos
aderente, se assim nos podemos exprimir. Em algumas pessoas se verifica, por efeito de
suas organiza��es, uma esp�cie de emana��o desse fluido e � isso, propriamente
falando, o que constitui o m�dium de influ�ncias f�sicas. A emiss�o do fluido
animalizado pode ser mais ou menos abundante, como mais ou menos f�cil a sua
combina��o, donde os m�diuns mais ou menos poderosos. Essa emiss�o, por�m, n�o �
permanente, o que explica a intermit�ncia do poder medi�nico.

76. Fa�amos uma compara��o. Quando se tem vontade de atuar materialmente
sobre um ponto colocado a dist�ncia, quem quer � o pensamento, mas o pensamento
por si s� n�o ir� percutir o ponto; �-lhe preciso um intermedi�rio, posto sob a sua
dire��o: uma vara, um projetil, uma corrente de ar, etc. Notai tamb�m que o
pensamento n�o atua diretamente sobre a vara, porquanto, se esta n�o for tocada, n�o
se mover�. O pensamento, que n�o � sen�o o Esp�rito encarnado, est� unido ao corpo
pelo perisp�rito e n�o pode atuar sobre o corpo sem o perisp�rito, como n�o o pode
sobre a vara sem o corpo. Atua sobre o perisp�rito, por ser esta a subst�ncia com que
tem mais afinidade; o perisp�rito atua sobre os m�sculos, os m�s-
101
DA TEORIA DAS MANIFESTA��ES F�SICAS

culos tomam a vara e a vara bate no ponto visado. Quando o Esp�rito n�o est�
encarnado, faz-se-lhe mister um auxiliar estranho e este auxiliar � o fluido, mediante o
qual torna ele o objeto, sobre que quer atuar, apto a lhe obedecer � impuls�o da
vontade.

77. Assim, quando um objeto � posto em movimento, levantado ou atirado para
o ar, n�o � que o Esp�rito o tome, empurre e suspenda, como o far�amos com a m�o. O
Esp�rito o satura, por assim dizer, do seu fluido, combinado com o do m�dium, e o
objeto, momentaneamente vivificado desta maneira, obra como o faria um ser vivo, com
a diferen�a apenas de que, n�o tendo vontade pr�pria, segue o impulso que lhe d� a
vontade do Esp�rito.
Pois que o fluido vital, que o Esp�rito, de certo modo, emite, d� vida fact�cia e
moment�nea aos corpos inertes; pois que o perisp�rito n�o � mais do que esse mesmo
fluido vital, segue-se que, quando o Esp�rito est� encarnado, � ele pr�prio quem d� vida
ao seu corpo, por meio do seu perisp�rito, conservando-se unido a esse corpo, enquanto
a organiza��o deste o permite. Quando se retira, o corpo morre. Agora, se, em vez de
uma mesa, esculpirmos uma est�tua de madeira e sobre ela atuarmos, como sobre a
mesa, teremos uma est�tua que se mover�, que bater�, que responder� com os seus
movimentos e pancadas. Teremos, em suma, uma est�tua animada momentaneamente de
uma vida artificial. Em lugar de mesas falantes, ter-se-iam est�tuas falantes. Quanta luz
esta teoria n�o projeta sobre uma imensidade de fen�menos at� agora sem solu��o!
Quantas alegorias e efeitos misteriosos ela n�o explica!

78. Os incr�dulos ainda objetam que o fen�meno da suspens�o das mesas, sem
ponto de apoio, � imposs�vel, por ser contr�rio � lei de gravita��o. Responder-lhes-emos
que, em primeiro lugar, a negativa n�o constitui uma prova; em segundo lugar, que,
sendo real o fato, pouco importa contrarie ele todas as leis conhecidas, circunst�ncia
102
CAP�TULO IV

que s� provaria uma coisa: que ele decorre de uma lei desconhecida e os negadores n�o
podem alimentar a pretens�o de conhecerem todas as leis da Natureza.
Acabamos de explicar uma dessas leis, mas isso n�o � raz�o para que eles a
aceitem, precisamente porque ela nos � revelada por Esp�ritos que despiram a veste
terrena, em vez de o ser por Esp�ritos que ainda trazem essa veste e t�m assento na
Academia. De modo que, se o Esp�rito de Arago, vivo na Terra, houvesse enunciado
essa lei, eles a teriam admitido de olhos fechados; mas, desde que vem do Esp�rito de
Arago, morto, e uma utopia. Por que isto? Porque acreditam que, tendo Arago morrido,
tudo o que nele havia tamb�m morreu. N�o temos a presun��o de os dissuadir;
entretanto, como tal obje��o pode causar embara�o a algumas pessoas, tentaremos dar-
lhes resposta, colocando-nos no ponto de vista em que eles se colocam, isto �,
abstraindo, por instante, da teoria da anima��o fact�cia.

79. Quando se produz o v�cuo na camp�nula da m�quina pneum�tica, essa
camp�nula adere com for�a tal ao seu suporte, que imposs�vel se toma suspend�-la,
devido ao peso da coluna de ar que sobre ela faz press�o. Deixe-se entrar o ar e a
camp�nula pode ser levantada com a maior facilidade, porque o ar que lhe fica por baixo
contrabalan�a
o ar que, pela parte exterior, a comprime. Contudo, se ningu�m lhe tocar, ela
permanecer� assente no suporte, por efeito da lei de gravidade. Agora, comprima-se-lhe
o ar no interior, d�-se-lhe densidade maior que a do que est� por fora, e a camp�nula se
erguer�, apesar da gravidade. Se a corrente de ar for violenta e r�pida, a mesma
camp�nula se manter� suspensa no espa�o, sem nenhum ponto vis�vel de apoio, � guisa
desses bonecos que se fazem rodopiar em cima de um repuxo d�gua. Por que ent�o o
fluido universal, que � o elemento de toda a Natureza, acumulado em torno da mesa,
n�o poderia ter a propriedade de lhe diminuir ou aumentar o peso espec�fico relativo,
como faz o ar com a camp�nula da m�quina pneum�ti-
103
DA TEORIA DAS MANIFESTA��ES F�SICAS

ca, como faz o g�s hidrog�nio com os bal�es, sem que para isso seja necess�ria a
derroga��o da lei de gravidade? Conheceis, porventura, todas as propriedades e todo o
poder desse fluido? N�o. Pois, ent�o, n�o negueis a realidade de um fato, apenas por
n�o o poderdes explicar.

80. Voltemos � teoria do movimento da mesa. Se, pelo meio indicado, o Esp�rito
pode suspender uma mesa, tamb�m pode suspender qualquer outra coisa: uma poltrona,
por exemplo. Se pode levantar uma poltrona, tamb�m pode, tendo for�a suficiente,
levant�-la com uma pessoa assentada nela. A� est� a explica��o do fen�meno que o Sr.
Home produziu in�meras vezes consigo mesmo e com outras pessoas. Repetiu-o
durante uma viagem a Londres e, para provar que os espectadores n�o eram joguetes de
uma ilus�o de �tica, fez no forro, enquanto suspenso, uma marca a l�pis e que muitas
pessoas lhe passassem por baixo. Sabe-se que o Sr. Home � um poderoso m�dium de
efeitos f�sicos. Naquele caso, era ao mesmo tempo a causa eficiente e o objeto.

81. Falamos, h� pouco, do poss�vel aumento de peso. Efetivamente, esse � um
fen�meno que �s vezes se produz e que nada apresenta de mais anormal do que a
prodigiosa resist�ncia da camp�nula, sob a press�o da coluna atmosf�rica. T�m-se visto,
sob a influ�ncia de certos m�diuns, objetos muito leves oferecerem id�ntica resist�ncia e,
em seguida, cederem de repente ao menor esfor�o. Na experi�ncia de que acima
tratamos, a camp�nula n�o se torna realmente mais nem menos pesada em si mesma;
mas, parece ter maior peso, por efeito da causa exterior que sobre ela atua. O mesmo
provavelmente se d� aqui. A mesa tem sempre o mesmo peso intr�nseco, porquanto sua
massa n�o aumentou; por�m, uma for�a estranha se lhe op�e ao movimento e essa causa
pode residir nos fluidos ambientes que a penetram, como reside no ar a que aumenta ou
diminui o peso aparente da camp�nula. Fazei a experi�ncia da camp�nula pneum�tica
diante de um camp�nio
104
CAP�TULO IV

ignorante, incapaz de compreender que o que atua � o ar, que ele n�o v�, e n�o vos ser�
dif�cil persuadi-lo de que aquilo � obra do diabo.
Dir�o talvez que, sendo imponder�vel esse fluido, um ac�mulo dele n�o pode
aumentar o peso de qualquer objeto. De acordo; mas notai que, se nos servimos do
termo ac�mulo, foi por compara��o, n�o por que assimilemos em absoluto aquele fluido
ao ar. Ele � imponder�vel: seja. Entretanto, nada prova que o �. Desconhecemos a sua
natureza �ntima e estamos longe de lhe conhecer todas as propriedades. Antes que se
houvesse experimentado a gravidade do ar, ningu�m suspeitava dos efeitos dessa mesma
gravidade. Tamb�m a eletricidade se classifica entre os fluidos imponder�veis; no
entanto, um corpo pode ser fixado por uma corrente el�trica e oferecer grande
resist�ncia a quem queira suspend�-lo. Tornou-se, assim, aparentemente mais pesado.
Fora il�gico afirmar-se que o suporte n�o existe, simplesmente por n�o ser vis�vel. O
Esp�rito pode ter alavancas que nos sejam desconhecidas: a Natureza nos prova todos
os dias que o seu poder ultrapassa os limites do testemunho dos sentidos.
S� por uma causa semelhante se pode explicar o singular fen�meno, tantas vezes
observado, de uma pessoa fraca e delicada levantar com dois dedos, sem esfor�o e como
se se tratasse de uma pena, um homem forte e robusto, juntamente com a cadeira em
que est� assentado. As intermit�ncias da faculdade provam que a causa � estranha a
pessoa que produz o fen�meno.
105




CAP�TULO V

DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

Ru�dos, barulhos e perturba��es. - Arremesso de objetos. - Fen�meno de
transporte. - Disserta��o de um Esp�rito sobre os transportes.

82. S�o provocados os fen�menos de que acabamos de falar. Sucede, por�m, �s
vezes, produzirem-se espontaneamente, sem interven��o da vontade, at� mesmo contra
a vontade, pois que freq�entemente se tornam muito importunos. Al�m disso, para
excluir a suposi��o de que possam ser efeito de imagina��o sobreexcitada pelas id�ias
esp�ritas, h� a circunst�ncia de que se produzem entre pessoas que nunca ouviram falar
disso e exatamente quando menos por semelhante coisa esperavam.
Tais fen�menos, a que se poderia dar o nome de Espiritismo pr�tico natural, s�o
muito importantes, por n�o permitirem a suspeita de coniv�ncia. Por isso mesmo,
recomendamos, �s pessoas que se ocupam com os fatos
106
CAP�TULO V

Esp�ritas, que registrem todos os desse g�nero, que lhes cheguem ao conhecimento,
mas, sobretudo, que lhes verifiquem cuidadosamente a realidade, mediante
pormenorizado estudo das circunst�ncias, a fim de adquirirem a certeza de que n�o s�o
joguetes de uma ilus�o, ou de uma mistifica��o.

83. De todas as manifesta��es esp�ritas, as mais simples e mais freq�entes s�o os
ru�dos e as pancadas. Neste caso, principalmente, � que se deve temer a ilus�o,
porquanto uma infinidade de causas naturais pode produzi-los: o vento que sibila ou que
agita um objeto, um corpo que se move por si mesmo sem que ningu�m perceba, um
efeito ac�stico, um animal escondido, um inseto, etc., at� mesmo a mal�cia dos
brincalh�es de mau gosto. Ali�s, os ru�dos esp�ritas apresentam um car�ter especial,
revelando intensidade e timbre muito variado, que os tornam facilmente reconhec�veis e
n�o permitem sejam confundidos com os estalidos da madeira, com as crepita��es do
fogo, ou com o tique-taque mon�tono do rel�gio. S�o pancadas secas, ora surdas,
fracas e leves, ora claras, distintas, �s vezes retumbantes, que mudam de lugar e se
repetem sem nenhuma regularidade mec�nica. De todos os meios de verifica��o, o mais
eficaz, o que n�o pode deixar d�vida quanto � origem do fen�meno, � a obedi�ncia
deste � vontade de quem o observa. Se as pancadas se fizerem ouvir num lugar
determinado, se responderem, pelo seu n�mero, ou pela sua intensidade, ao pensamento,
n�o se lhes pode deixar de reconhecer uma causa inteligente. Todavia, a falta de
obedi�ncia nem sempre constitui prova em contr�rio.

84. Admitamos agora que, por uma comprova��o minuciosa, se adquira a
certeza de que os ru�dos, ou outros efeitos quaisquer, s�o manifesta��es reais: ser�
racional que se lhes tenha medo? N�o, decerto; porquanto, em caso algum, nenhum
perigo haver� nelas. S� os que se persuadem de que � o diabo que as produz podem ser
107
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

por elas abalados de modo deplor�vel, como o s�o as crian�as a quem se mete medo
com o lobisomem, ou o pap�o. Essas manifesta��es tomam �s vezes, for�oso � convir,
propor��es e persist�ncias desagrad�veis, causando aos que as experimentam o desejo
muito natural de se verem livres delas. A este prop�sito, uma explica��o se faz
necess�ria.

85. Dissemos atr�s que as manifesta��es f�sicas t�m por fim chamar-nos a
aten��o para alguma coisa e convencer-nos da presen�a de uma for�a superior ao
homem. Tamb�m dissemos que os Esp�ritos elevados n�o se ocupam com esta ordem de
manifesta��es; que se servem dos Esp�ritos inferiores para produzi-las, como nos
utilizamos dos nossos servi�ais para os trabalhos pesados, e isso com o fim que vamos
indicar.
Alcan�ado esse fim, cessa a manifesta��o material, por desnecess�ria. Um ou
dois exemplos far�o melhor compreender a coisa.

86. H� muitos anos, quando ainda iniciava meus estudos sobre o Espiritismo,
estando certa noite entregue a um trabalho referente a esta mat�ria, pancadas se fizeram
ouvir em torno de mim, durante quatro horas consecutivas. Era a primeira vez que tal
coisa me acontecia. Verifiquei n�o serem devidas a nenhuma causa acidental, mas, na
ocasi�o, foi s� o que pude saber. Por essa �poca, tinha eu freq�entes ensejos de estar
com um excelente m�dium escrevente. No dia seguinte, perguntei ao Esp�rito, que por
seu interm�dio se comunicava, qual a causa daquelas pancadas. Era, respondeu-me ele,
o teu Esp�rito familiar que te desejava falar. - Que queria de mim? Resp.: Ele est� aqui,
pergunta-lhe. - Tendo-o interrogado, aquele Esp�rito se deu a conhecer sob um nome
aleg�rico. (Vim a saber depois, por outros Esp�ritos, que pertence a uma categoria
muito elevada e que desempenhou na Terra importante papel.) Apontou erros no meu
as
trabalho, indicando-me linhas onde se encontravam; deu-me �teis e
108
CAP�TULO V

s�bios conselhos e acrescentou que estaria sempre comigo e atenderia ao meu chamado
todas as vezes que o quisesse interrogar. A partir de ent�o, com efeito, esse Esp�rito
nunca mais me abandonou. Dele recebi muitas provas de grande superioridade e sua
interven��o ben�vola e eficaz me foi manifesta, assim nos assuntos da vida material,
como no tocante �s quest�es metaf�sicas. Desde a nossa primeira entrevista, as pancadas
cessaram. De fato, que desejava ele? P�r-se em comunica��o regular comigo; mas, para
isso, precisava de me avisar. Dado e explicado o aviso, estabelecidas as rela��es
regulares, as pancadas se tomaram in�teis. Dai o cessarem. O tambor deixa de tocar,
para despertar os soldados, logo que estes se acham todos de p�.
Fato quase semelhante sucedeu a um dos nossos amigos. Havia algum tempo, no
seu quarto se ouviam ru�dos diversos, que j� se iam tornando fatigantes. Apresentando-
lhe ocasi�o de interrogar o Esp�rito de seu pai, por um m�dium escrevente, soube o que
queriam dele, fez o que foi recomendado e da� em diante nada mais ouviu. Deve-se
notar que as manifesta��es deste g�nero s�o mais raras para as pessoas que disp�em de
meio regular e f�cil de comunica��o com os Esp�ritos, e isso se concebe.

87. As manifesta��es espont�neas nem sempre se limitam a ru�dos e pancadas.
Degeneram, por vezes, em verdadeiro estardalha�o e em perturba��es. M�veis e objetos
diversos s�o derribados, projetis de toda sorte s�o atirados de fora para dentro, portas e
janelas s�o abertas e fechadas por m�os invis�veis, ladrilhos s�o quebrados, o que n�o se
pode levar � conta da ilus�o.
Muitas vezes o derribamento se d�, de fato; doutras, por�m, s� se d� na
apar�ncia. Ouvem-se vozerios em aposentos cont�guos, barulho de lou�a que cai e se
quebra com estrondo, cepos que rolam pelo assoalho. Acorrem as pessoas da casa e
encontram tudo calmo e em ordem. Mal saem, recome�a o tumulto.
109
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

88. As manifesta��es desta esp�cie n�o s�o raras, nem novas. Poucas ser�o as
cr�nicas locais que n�o encerrem alguma hist�ria desta natureza. E fora de d�vida que o
medo tem exagerado muitos fatos que, passando de boca em boca, assumiram
propor��es gigantescamente rid�culas. Com o aux�lio da supersti��o, as casas onde eles
ocorrem foram tidas como assombradas pelo diabo e da� todos os maravilhosos ou
terr�veis contos de fantasmas. Por outro lado, a velhacaria n�o consentiu em perder t�o
bela ocasi�o de explorar a credulidade e quase sempre para satisfa��o de interesses
pessoais. Ali�s, facilmente se concebe que impress�o podem fatos desta ordem produzir,
mesmo dentro dos limites da realidade, em pessoas de caracteres fracos e predispostas,
pela educa��o, a alimentar id�ias supersticiosas. O meio mais seguro de obviar aos
inconvenientes que possam trazer, visto n�o ser poss�vel impedir-se que se d�em,
consiste em tornar conhecida a verdade. Em coisas terr�ficas se convertem as mais
simples, quando se lhes desconhecem as causas. Ningu�m mais ter� medo dos Esp�ritos,
quando todos estiverem familiarizados com eles e quando os a quem eles se manifestam
j� n�o acreditem que est�o �s voltas com uma legi�o de dem�nios.
Na Revue Spirite se encontram narrados muitos fatos aut�nticos deste g�nero,
entre outros a hist�ria do Esp�rito batedor de Bergzabern, cuja a��o durou oito anos
(n�meros de maio, junho e julho de 1858); a de Dibbelsdorff (agosto de 1858); a do
padeiro das Grandes-Vendas, perto de Di�ppe (mar�o de 1860); a da rua des Noyers,
em Paris (agosto de 1860); a do Esp�rito de Castelnaudary, sob o t�tulo de Hist�ria de
um danado (fevereiro de 1860); a do fabricante de S�o Petersburgo (abril de 1860) e
muitas outras.

89. Tais fatos assumem, n�o raro, o car�ter de verdadeiras persegui��es.
Conhecemos seis irm�s que moravam juntas e que, durante muitos anos, todas as
manh�s encontravam suas roupas espalhadas, rasgadas e cortadas em peda�os, por mais
que tomassem a precau��o de guard�-las
110
CAP�TULO V

� chave. A muitas pessoas tem acontecido que, estando deitadas, mas completamente
acordadas, lhes sacudam os cortinados da cama, tirem com viol�ncia as cobertas,
levantem os travesseiros e mesmo as joguem fora do leito. Fatos destes s�o muito mais
freq�entes do que se pensa; por�m, as mais das vezes, os que deles s�o v�timas nada
ousam dizer, de medo do rid�culo. Somos sabedores de que, por causa desses fatos, se
tem pretendido curar, como atacados de alucina��es, alguns indiv�duos, submetendo-as
ao tratamento a que se sujeitam os alienados, o que os torna realmente loucos. A
Medicina n�o pode compreender estas coisas, por n�o admitir, entre as causas que as
determinam, sen�o o elemento material; donde, erros freq�entemente funestos. A
hist�ria descrever� um dia certos tratamentos em uso no s�culo dezenove, como se
narram hoje certos processos de cura da Idade M�dia.
Admitimos perfeitamente que alguns casos s�o obra da mal�cia ou da malvadez.
Por�m, se tudo bem averiguado, provado ficar que n�o resultam da a��o do homem,
dever-se-� convir em que s�o obra, ou do diabo, como dir�o uns, ou dos Esp�ritos,
como dizemos n�s. Mas de que Esp�ritos?

90. Os Esp�ritos superiores, do mesmo modo que, entre n�s, os homens retos e
s�rios, n�o se divertem a fazer charivaris. Temos por diversas vezes chamado aqueles
Esp�ritos, para lhes perguntar por que motivo perturbam assim a tranq�ilidade dos
outros. Na sua maioria, fazem-no apenas para se divertirem. S�o mais levianos do que
maus, que se riem dos terrores que causam e das pesquisas in�teis que se empreendem
para a descoberta da causa do tumulto. Agarram-se com freq��ncia a um indiv�duo,
comprazendo-se em o atormentarem e perseguirem de casa em casa. Doutras vezes,
apegam-se a um lugar, por mero capricho. Tamb�m, n�o raro, exercem por essa forma
uma vingan�a, como teremos ocasi�o de ver.
Em alguns casos, mais louv�vel � a inten��o a que cedem. procuram chamar a
aten��o e p�r-se em comuni-
111
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

ca��o com certas pessoas, quer para lhes darem um aviso proveitoso, quer com o fim de
lhes pedirem qualquer coisa para si mesmos. Muitos temos visto que pedem preces;
outros que solicitam o cumprimento, em nome deles, de votos que n�o puderam
cumprir; outros, ainda, que desejam, no interesse do pr�prio repouso, reparar uma a��o
m� que praticaram quando vivos.
Em geral, � um erro ter-se medo. A presen�a desses Esp�ritos pode ser
importuna, por�m, n�o perigosa. Concebe-se, ali�s, que toda gente deseja ver-se livre
deles; mas, geralmente, as que isso desejam fazem o contr�rio do que deveriam fazer
para consegui-lo. Se se trata de Esp�ritos que se divertem, quanto mais ao s�rio se
tomarem as coisas, tanto mais eles persistir�o, como crian�as travessas, que tanto mais
molestam as pessoas, quanto mais estas se impacientam, e que metem medo aos
poltr�es. Se todos tomassem o alvitre sensato de rir das suas partidas, eles acabariam
por se cansar e ficar quietos. Conhecemos algu�m que, longe de se irritar, os excitava,
desafiando-os a fazerem tal ou tal coisa, de modo que, ao cabo de poucos dias, n�o mais
voltaram.
Por�m, como dissemos acima, alguns h� que assim procedem por motivo menos
fr�volo. Da� vem que � sempre bom saber-se o que querem. Se pedem qualquer coisa,
pode-se estar certo de que, satisfeitos os seus desejos, n�o renovar�o as visitas. O
melhor meio de nos informarmos a tal respeito consiste em evocarmos o Esp�rito, por
um bom m�dium escrevente. Pelas suas respostas, veremos imediatamente com quem
estamos �s voltas e obraremos de conformidade com o esclarecimento colhido. Se se
trata de um Esp�rito infeliz, manda a caridade que lhe dispensemos as aten��es que
mere�a. Se � um engra�ado de mau gosto, podemos proceder desembara�adamente com
ele. Se um malvado, devemos rogar a Deus que o torne melhor. Qualquer que seja o
caso, a prece nunca deixa de dar bom resultado. As f�rmulas graves de exorcismo, essas
os fazem rir; nenhuma import�ncia lhes ligam. Sendo poss�vel entrar em comunica��o
com eles, deve-se sempre des-
112
CAP�TULO V

confiar dos qualificativos burlescos, ou apavorantes, que d�o a si mesmos, para se
divertirem com a credulidade dos que acolhem como verdadeiros tais qualificativos.
Nos cap�tulos referentes aos lugares assombrados e �s obsess�es,
consideraremos com mais pormenores este assunto e as causas da inefic�cia das preces
em muitos casos.

91. Estes fen�menos, conquanto operados por Esp�ritos inferiores, s�o com
freq��ncia provocados por Esp�ritos de ordem mais elevada, com o fim de
demonstrarem a exist�ncia de seres incorp�reos e de uma pot�ncia superior ao homem.
A repercuss�o que eles t�m, o pr�prio temor que causam, chamam a aten��o e acabar�o
por fazer que se rendam os mais incr�dulos. Acham estes mais simples lan�ar os
fen�menos a que nos referimos � conta da imagina��o, explica��o muito c�moda e que
dispensa outras. Todavia, quando objetos v�rios s�o sacudidos ou atirados � cabe�a de
uma pessoa, bem complacente imagina��o precisaria ela ter, para fantasiar que tais
coisas sejam reais, quando n�o o s�o.
Desde que se nota um efeito qualquer, ele tem necessariamente uma causa. Se
uma observa��o fria e calma nos demonstra que esse efeito independe de toda vontade
humana e de toda causa material; se, demais nos d� evidentes sinais de intelig�ncia e de
vontade livre, o que constitui o tra�o mais caracter�stico, for�oso ser� atribu�-lo a uma,
intelig�ncia oculta. Que seres misteriosos, s�o esses? E o que os estudos esp�ritas nos
ensinam do modo menos contest�vel, pelos meios que nos facultam de nos
comunicarmos com eles.
Esses estudos, al�m disso, nos ensinam a distinguir o que � real do que � falso,
ou exagerado, nos fen�menos de que n�o fomos testemunha. Se um efeito ins�lito se
produz: ru�do, movimento, mesmo apari��o, a primeira id�ia que se deve ter � a de que
prov�m de uma causa inteiramente natural, por ser a mais prov�vel. Tem-se ent�o que
buscar essa causa com o maior cuidado e n�o admitir
113
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

a interven��o dos Esp�ritos, sen�o muito cientemente. Esse o meio de se evitar toda
ilus�o. Um, por exemplo, que, sem se haver aproximado de quem quer que fosse,
recebesse uma bofetada, ou bengalada nas costas, como tem acontecido, n�o poderia
duvidar da presen�a de um invis�vel.
Cada um deve estar em guarda, n�o somente contra narrativas que possam ser,
quando menos, acoimadas de exagero, mas tamb�m contra as pr�prias impress�es,
cumprindo n�o atribuir origem oculta a tudo o que n�o compreenda. Uma infinidade de
causas muito simples e muito naturais pode produzir efeitos � primeira vista estranhos e
seria verdadeira supersti��o ver por toda parte Esp�ritos ocupados em derribar m�veis,
quebrar lou�as, provocar, enfim, as mil e uma perturba��es que ocorrem nos lares,
quando mais racional � atribu�-las ao desazo.

92. A explica��o dada do movimento dos corpos inertes se aplica naturalmente a
todos os efeitos espont�neos a que acabamos de passar revista. Os ru�dos, embora mais
fortes do que as pancadas na mesa, procedem da mesma causa. Os objetos derribados,
ou deslocados, o s�o pela mesma for�a que levanta qualquer objeto. H� mesmo aqui
uma circunst�ncia que ap�ia esta teoria. Poder-se-ia perguntar onde, nessa
circunst�ncia, o m�dium. Os Esp�ritos nos disseram que, em tal caso, h� sempre algu�m
cujo poder se exerce � sua revelia. As manifesta��es espont�neas muito raramente se
d�o em lugares ermos; quase sempre se produzem nas casas habitadas e por motivo da
presen�a de certas pessoas que exercem influ�ncia, sem que o queiram. Essas pessoas
ignoram possuir faculdades medi�nicas, raz�o por que lhes chamamos m�diuns naturais.
S�o, com rela��o aos outros m�diuns, o que os son�mbulos naturais s�o relativamente
aos son�mbulos magn�ticos e t�o dignos, como aqueles, de observa��o.

93. A interven��o volunt�ria ou involunt�ria de uma pessoa dotada de aptid�o
especial para a produ��o destes
114
CAP�TULO V

fen�menos parece necess�ria, na maioria dos casos, embora alguns haja em que, ao que
se afigura, o Esp�rito obra por si s�. Mas, ent�o, poder� dar-se que ele tire de algures o
fluido animalizado, que n�o de uma pessoa presente. Isto explica porque os Esp�ritos,
que constantemente nos cercam, n�o produzem perturba��o a todo instante. Primeiro, �
preciso que o Esp�rito queira, que tenha um objetivo, um motivo, sem o que nada faz.
Depois, � necess�rio, muitas vezes, que encontre exatamente no lugar onde queira
operar uma pessoa apta a secund�-lo, coincid�ncia que s� muito raramente ocorre. Se
essa pessoa aparece inopinadamente, ele dela se aproveita.
Mesmo quando todas as circunst�ncias sejam favor�veis, ainda poderia acontecer
que o Esp�rito se visse tolhido por uma vontade superior, que n�o lhe permitisse
proceder a seu bel-prazer. Pode tamb�m dar-se que s� lhe seja permitido faz�-lo dentro
de certos limites e no caso de serem tais manifesta��es julgadas �teis, quer como meio
de convic��o, quer como prova��o para a pessoa por ele visada.

94. A este respeito, apenas citaremos o di�logo provocado a prop�sito dos fatos
ocorridos em junho de 1860, na rua des Noyers, em Paris. Encontrar-se-�o os
pormenores do caso na Revue Spirite, n�mero de agosto de 1860.
1� (A S�o Lu�s). Quererias ter a bondade de nos dizer se s�o reais os fatos que se
dizem passados na rua des Noyers? Quanto � possibilidade deles se darem, disso n�o
duvidamos.
"S�o reais esses fatos; simplesmente, a imagina��o dos homens os exagerar�,
seja por medo, seja por ironia. Mas, repito, s�o reais. Produz essas manifesta��es um
Esp�rito que se diverte um pouco � custa dos habitantes do lugar."

2� Haver� na casa alguma pessoa que d� causa a tais manifesta��es?
"Elas s�o sempre causadas pela presen�a da pessoa visada. � que o Esp�rito
perturbador n�o gosta do habitante
115
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

do lugar onde ele se acha; trata ent�o de fazer-lhe maldades, ou mesmo procura obrig�-
lo a mudar-se."

3� Perguntamos se, entre os moradores da casa, algu�m h� que seja causador
desses fen�menos, por efeito de uma influ�ncia medi�nica espont�nea e involunt�ria?
"Necessariamente assim �, pois, sem isso, o fato n�o poderia dar-se. Um
Esp�rito vive num lugar que lhe � predileto; conserva-se inativo, enquanto nesse lugar
n�o se apresenta uma pessoa que lhe convenha. Desde que essa pessoa surge, come�a
ele a divertir-se quanto pode."

4� Ser� indispens�vel a presen�a dessa pessoa no pr�prio lugar?
"Esse o caso mais comum e � o que se verifica no de que tratas. Por isso foi que'
eu disse que, a n�o ser assim, o fato n�o teria podido produzir-se. Mas, n�o pretendi
generalizar. H� casos em que a presen�a imediata n�o � necess�ria."

5� Sendo sempre de ordem inferior esses Esp�ritos, constituir� presun��o
desfavor�vel a uma pessoa a aptid�o que revele para lhes servir de auxiliar? Isto n�o
denuncia, da parte dele, uma simpatia para com os seres dessa natureza?
"N�o � precisamente assim, porquanto essa aptid�o se acha ligada a uma
disposi��o f�sica. Contudo, denuncia freq�entemente uma tend�ncia material, que seria
prefer�vel n�o existisse, visto que, quanto mais elevado moralmente � o homem, tanto
mais atrai a si os bons Esp�ritos que, necessariamente, afastam os maus."

6� Onde vai o Esp�rito buscar os projetis de que se serve?
"Os diversos objetos que lhe servem de projetis s�o, as mais das vezes,
apanhados nos pr�prios lugares dos fen�menos, ou nas proximidades. Uma for�a
provinda do Esp�rito os lan�a no espa�o e eles v�o cair no ponto que o mesmo Esp�rito
indica."

7� Pois que as manifesta��es espont�neas s�o muitas vezes permitidas e at�
provocadas para convencer os homens, parece-nos que, se fossem pessoalmente
atingidos
116
CAP�TULO V

por elas, alguns incr�dulos se veriam for�ados a render-se � evid�ncia. Eles costumam
queixar-se de n�o serem testemunhas de fatos concludentes. N�o est� no poder dos
Esp�ritos dar-lhes uma prova sens�vel?
"Os ateus e os materialistas n�o s�o a todo instante testemunhas dos efeitos do
poder de Deus e do pensamento? Isso n�o impede que neguem Deus e a alma. Os
milagres de Jesus converteram todos os seus contempor�neos? Aos fariseus, que lhe
diziam: "Mestre, faze-nos ver algum prod�gio", n�o se assemelham os que hoje vos
pedem lhes fa�ais presenciar algumas manifesta��es? Se n�o se converteram pelas
maravilhas da cria��o, tamb�m n�o se converter�o, ainda quando os Esp�ritos lhes
aparecessem do modo mais inequ�voco, porquanto o orgulho os torna quais alim�rias
empacadoras. Se procurassem de boa-f�, n�o lhes faltaria ocasi�o de ver; por isso, n�o
julga Deus conveniente fazer por eles mais do que faz pelos que sinceramente buscam
instruir-se, pois que o Pai s� concede recompensa aos homens de boa-vontade. A
incredulidade deles n�o obstar� a que a vontade de Deus se cumpra. Bem vedes que n�o
obstou a que a doutrina se difundisse. Deixai, portanto, de inquietar-vos com a oposi��o
que vos movem. Essa oposi��o �, para a doutrina, o que a sombra � para o quadro:
maior relevo lhe d�. Que m�rito teriam eles, se fossem convencidos � for�a? Deus lhes
deixa toda a responsabilidade da teimosia em que se conservam e essa responsabilidade
� mais terr�vel do que podeis supor. Felizes os que cr�em sem ter visto' disse Jesus,
porque esses n�o duvidam do poder de Deus."

8� Achas que conv�m evoquemos o Esp�rito a que nos temos referido, para lhe
pedirmos algumas explica��es?
"Evoca-o, se quiseres, mas � um Esp�rito inferior, que s� te dar� respostas muito
insignificantes."

95. Di�logo com o Esp�rito perturbador da rua des Noyers:
117
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

1� Evoca��o.
"Que tinhas de me chamar? Queres umas pedradas? Ent�o � que se havia de ver
um bonito salve-se quem puder, n�o obstante o teu ar de valentia."

2� Quando mesmo nos atirasses pedras aqui, isso n�o nos amedrontaria; at� te
pedimos positivamente que, se puderes, nos atires algumas.
"Aqui talvez eu n�o pudesse, porque tens um guarda a velar por ti."

3� Havia, na rua des Noyers, algu�m que, como auxiliar, te facilitava as partidas
que pregavas aos moradores da casa?
"Certamente; achei um bom instrumento e n�o havia nenhum Esp�rito douto,
s�bio e virtuoso para me embara�ar. Porque, sou alegre; gosto �s vezes de me divertir."

4� Qual a pessoa que te serviu de instrumento?
"Uma criada."

5� Era mau grado seu que ela te auxiliava?
"Ah! sim; pobre! era a que mais medo tinha!"

6� Procedias assim com algum prop�sito hostil?
"Eu, n�o. Nenhum prop�sito hostil me animava. Mas, os homens, que de tudo se
apoderam, far�o que os fatos redundem em seu proveito."

7� Que queres dizer com isso? N�o te compreendemos.
"Eu s� cuidava de me divertir; v�s outros, por�m, estudareis a coisa e tereis mais
um fato a mostrar que n�s existimos."

8� Dizes que n�o alimentavas nenhum prop�sito hostil; entretanto, quebraste
todo o ladrilho da casa. Causaste assim um preju�zo real.
"� um acidente,"

9� Onde foste buscar os objetos que atiraste?
"S�o objetos muito comuns. Achei-os no p�tio e nos jardins pr�ximos."

10� Achaste-os todos, ou fabricaste algum? (Ver adiante o cap. VIII.)
"N�o criei, nem compus coisa alguma."
118
CAP�TULO V

11� E, se os n�o houvesse encontrado, terias podido fabric�-los?
"Fora mais dif�cil. Por�m, a rigor, misturam-se mat�rias e isso faz um todo
qualquer."

12� Agora, dize-nos; como os atiraste?
"Ah! isto � mais dif�cil de explicar. Busquei aux�lio na natureza el�trica daquela
rapariga, juntando-a � minha, que � menos material. Pudemos assim os dois transportar
os diversos objetos."

13� Vais dar-nos de boa-vontade, assim o esperamos, algumas informa��es
acerca da tua pessoa. Dize-nos, primeiramente, se j� morreste h� muito tempo.
"H� muito tempo; h� bem cinq�enta anos."

14� Que eras quando vivo?
"N�o era l� grande coisa; simples trapeiro naquele quarteir�o; �s vezes me
diziam tolices, porque eu gostava muito do licor vermelho do bom velho No�. Por isso
mesmo, queria p�-los todos dali para fora."

15� Foi por ti mesmo e de bom grado que respondeste �s nossas perguntas?
"Eu tinha um mestre."

16� Quem � esse mestre?
"O vosso bom rei Lu�s."
NOTA. Motivou esta pergunta a natureza de algumas respostas dadas, que nos
pareceram acima da capacidade desse Esp�rito, pela subst�ncia das id�ias e mesmo pela
forma da linguagem. Nada, pois, de admirar � que ele tenha sido ajudado por um
Esp�rito mais esclarecido, que quis aproveitar a ocasi�o para nos instruir. � este um fato
muito comum, mas o que nesta circunst�ncia constitui not�vel particularidade � que a
influ�ncia do outro Esp�rito se fez sentir na pr�pria caligrafia. A das respostas em que
ele interveio � mais regular e mais corrente, a do trapeiro � angulosa, grossa, irregular,
�s vezes pouco leg�vel, denotando car�ter muito diferente.

17� Que fazes agora? Ocupas-te com o teu futuro?
"Ainda n�o; vagueio. Pensam t�o pouco em mim na Terra, que ningu�m roga
por mim. Ora, n�o tendo quem me ajude, n�o trabalho."
119
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

NOTA. Ver-se-�, mais tarde, quanto se pode contribuir para o progresso e o
al�vio dos Esp�ritos inferiores, por meio da prece e dos conselhos.

18� Como te chamavas quando vivo?
"Jeannet."

l9� Est� bem, Jeannet! oraremos por ti. Dize-nos se a nossa evoca��o te deu
prazer ou te contrariou?
"Antes prazer, pois que sois bons rapazes, viventes alegres, embora um pouco
austeros. N�o importa: ouviste-me, estou contente."

Fen�meno de transporte

96. Este fen�meno n�o difere do de que vimos de falar, sen�o pela inten��o
ben�vola do Esp�rito que o produz, pela natureza dos objetos, quase sempre graciosos,
de que ele se serve e pela maneira suave, delicada mesmo, por que s�o trazidos.
Consiste no trazimento espont�neo de objetos inexistentes no lugar onde est�o os
observadores. S�o quase sempre flores, n�o raro frutos, confeitos, j�ias, etc.

97. Digamos, antes de tudo, que este fen�meno � dos que melhor se prestam �
imita��o e que, por conseguinte, devemos estar de sobreaviso contra o embuste. Sabe-se
at� onde pode ir a arte da prestidigita��o, em se tratando de experi�ncias deste g�nero.
Por�m, mesmo sem que tenhamos de nos haver com um verdadeiro prestidigitador,
poderemos ser facilmente enganados por uma manobra h�bil e interessada. A melhor de
todas as garantias se encontra no car�ter, na honestidade not�ria, no absoluto
desinteresse das pessoas que obt�m tais efeitos. Vem depois, como meio de resguardo,
o exame atento de todas as circunst�ncias em que os fatos se produzem; e, finalmente, o
conhecimento esclarecido do Espiritismo poder� descobrir o que fosse suspeito.
120
CAP�TULO V

98. A teoria do fen�meno dos transportes e das manifesta��es f�sicas em geral se
acha resumida, de maneira not�vel, na seguinte disserta��o feita por um Esp�rito, cujas
comunica��es todas trazem o cunho incontest�vel de profundeza e l�gica. Com muitas
delas deparar� o leitor no curso desta obra. Ele se d� a conhecer pelo nome de Erasto,
disc�pulo de S�o Paulo, e como protetor do m�dium que lhe serviu de instrumento:
"Quem deseja obter fen�meno desta ordem precisa ter consigo m�diuns a que
chamarei - sensitivos, isto e, dotados, no mais alto grau, das faculdades medi�nicas de
expans�o e de penetrabilidade, porque o sistema nervoso facilmente excit�vel de tais
m�diuns lhes permite, por meio de certas vibra��es, projetar abundantemente, em torno
de si, o fluido animalizado que lhes � pr�prio.
"As naturezas impression�veis, as pessoas cujos nervos vibram � menor
impress�o, � mais insignificante sensa��o; as que a influ�ncia moral ou f�sica, interna ou
externa, sensibiliza s�o muito aptas a se tornarem excelentes m�diuns, para os efeitos
f�sicos de tangibilidade e de transportes. Efetivamente, quase de todo desprovido do
inv�lucro refrat�rio, que, na maioria dos outros encarnados, o isola, o sistema nervoso
dessas pessoas as capacita para a produ��o destes diversos fen�menos. Assim, com um
indiv�duo de tal natureza e cujas outras faculdades n�o sejam hostis � mediunidade,
facilmente se obter�o os fen�menos de tangibilidade, as pancadas nas paredes e nos
m�veis, os movimentos inteligentes e mesmo a suspens�o, no espa�o, da mais pesada
mat�ria inerte. A fortiori, os mesmos resultados se conseguir�o se, em vez de um
m�dium, o experimentador dispuser de muitos, igualmente bem dotados.
"Mas, da produ��o de tais fen�menos � obten��o dos de transporte h� um
mundo de permeio, porquanto, neste caso, n�o s� o trabalho do Esp�rito � mais
complexo, mais dif�cil, como, sobretudo, ele n�o pode operar, sen�o por meio de um
�nico aparelho medi�nico, isto �, muitos m�diuns n�o podem concorrer
simultaneamente para a produ��o do mesmo fen�meno. Sucede at� que, ao contr�rio,
121
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

a presen�a de algumas pessoas antip�ticas ao Esp�rito que opera lhe obsta radicalmente
� opera��o. A estes motivos a que, como vedes, n�o falta import�ncia, acrescentemos
que os transportes reclamam sempre maior concentra��o e, ao mesmo tempo, maior
difus�o de certos fluidos, que n�o podem ser obtidos sen�o com m�diuns superiormente
dotados, com aqueles, numa palavra, cujo aparelho eletromedi�nico � o que melhores
condi��es oferece.
"Em geral, os fatos de transporte s�o e continuar�o a ser extremamente raros.
N�o preciso demonstrar porque s�o e ser�o menos freq�entes do que os outros
fen�menos de tangibilidade; do que digo, v�s mesmos podeis deduzi-lo. Demais, estes
fen�menos s�o de tal natureza, que nem todos os m�diuns servem para produzi-los.
Com efeito, � necess�rio que entre o Esp�rito e o m�dium influenciado exista certa
afinidade, certa analogia; em suma: certa semelhan�a capaz de permitir que a parte
expans�vel do fluido perispir�tico (1) do encarnado se misture, se una, se combine com o
do Esp�rito que queira fazer um transporte. Deve ser tal esta fus�o, que a for�a
resultante dela se torne, por assim dizer, uma: do mesmo modo que, atuando sobre o
carv�o, uma corrente el�trica produz um s� foco, uma s� claridade. Por que essa uni�o,
essa fus�o, perguntareis? � que, para que estes fen�menos se produzam, necess�rio se
faz que as propriedades essenciais do Esp�rito motor se aumentem com algumas das do
m�dium; � que o fluido vital, indispens�vel � produ��o de todos os fen�menos
medi�nicos, � apan�gio exclusivo do encarnado e que, por conseguinte, o Esp�rito
operador fica obrigado a se impregnar dele. S� ent�o pode, mediante certas
propriedades, que desconheceis, do vosso meio ambiente, iso-

__________
(1) V�-se que, quando se trata de exprimir uma id�ia nova, para a qual faltam termos na l�ngua, os
Esp�ritos sabem perfeitamente criar neologismos. Estas palavras: eletromedi�nico, perispir�tico, n�o s�o
de inven��o nossa. Os que nos tem criticado por havermos criado os termos esp�rita, espiritismo,
perisp�rito, que tinham an�logos, poder�o fazer tamb�m a mesma cr�tica aos Esp�ritos.
122
CAP�TULO V

lar, tornar invis�veis e fazer que se movam alguns objetos materiais e mesmo os
encarnados.
"N�o me � permitido, por enquanto, desvendar-vos as leis particulares que
governam os gases e os fluidos que vos cercam; mas, antes que alguns anos tenham
decorrido, antes que uma exist�ncia de homem se tenha esgotado, a explica��o destas
leis e destes fen�menos vos ser� revelada e vereis surgir e produzir-se uma variedade
nova de m�diuns, que agir�o num estado catal�ptico especial, desde que sejam
mediunizados.
"Vedes, assim, quantas dificuldades cercam a produ��o do fen�meno dos
transportes. Muito logicamente podeis concluir da� que os fen�menos desta natureza s�o
extremamente raros, como eu disse acima, e com tanto mais raz�o, quanto os Esp�ritos
muito pouco se prestam a produzi-los, porque isso d� lugar, da parte deles, a um
trabalho quase material, o que lhes acarreta aborrecimento e fadiga. Por outro lado,
ocorre tamb�m que, freq�entemente, n�o obstante a energia e a vontade que os animem,
o estado do pr�prio m�dium lhes op�e intranspon�vel barreira.
"Evidente �, pois, e o vosso racioc�nio, estou certo, o sancionar�, que os fatos de
tangibilidade, como pancadas, suspens�o e movimentos, s�o fen�menos simples, que se
operam mediante a concentra��o e a dilata��o de certos fluidos e que podem ser
provocados e obtidos pela vontade e pelo trabalho dos m�diuns aptos a isso, quando
secundados por Esp�ritos amigos e benevolentes, ao passo que os fatos de transporte
s�o m�ltiplos, complexos, exigem um concurso de circunst�ncias especiais, n�o se
podem operar sen�o por um �nico Esp�rito e um �nico m�dium e necessitam, al�m do
que a tangibilidade reclama, uma combina��o muito especial, para isolar e tornar
invis�veis o objeto, ou os objetos destinados ao transporte.
"Todos v�s esp�ritas compreendeis as minhas explica��es e perfeitamente
apreendeis o que seja essa concentra��o de fluidos especiais, para a locomo��o e a
tatilidade da mat�ria inerte. Acreditais nisso, como acreditais nos
123
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

fen�menos da eletricidade e do magnetismo, com os quais os fatos medi�nicos t�m
grande analogia e de que s�o, por assim dizer, a confirma��o e o desenvolvimento.
Quanto aos incr�dulos e aos s�bios, piores estes do que aqueles, n�o me compete
convenc�-los e com eles n�o me ocupo. Convencer-se-�o um dia, por for�a da
evid�ncia, pois que for�oso ser� se curvem diante do testemunho dos fatos esp�ritas,
como for�oso foi que o fizessem diante de outros fatos, que a princ�pio repeliram.
"Resumindo: os fen�menos de tangibilidade s�o freq�entes, mas os de transporte
s�o muito raros, porque muito dif�ceis de se realizar s�o as condi��es em que se
produzem. Conseguintemente, nenhum m�dium pode dizer: a tal hora, em tal momento,
obterei um transporte, visto que muitas vezes o pr�prio Esp�rito se v� obstado na
execu��o da sua obra. Devo acrescentar que esses fen�menos s�o duplamente dif�ceis
em p�blico, porque quase sempre, entre este, se encontram elementos energicamente
refrat�rios, que paralisam os esfor�os do Esp�rito e, com mais forte raz�o, a a��o do
m�dium. Tende, ao contr�rio, como certo que, na intimidade, os ditos fen�menos se
produzem quase sempre espontaneamente, as mais das vezes � revelia dos m�diuns e
sem premedita��o, sendo muito raros quando esses se acham prevenidos. Deveis
deduzir da� que h� motivo de suspei��o todas as vezes que um m�dium se lisonjeia de os
obter � vontade, ou, por outra, de dar ordens aos Esp�ritos, como a servos seus, o que �
simplesmente absurdo. Tende ainda como regra geral que os fen�menos esp�ritas n�o se
produzem para constituir espet�culo e para divertir os curiosos. Se alguns Esp�ritos se
prestam a tais coisas, s� pode ser para a produ��o de fen�menos simples, n�o para os
que, como os de transporte e outros semelhantes, exigem condi��es excepcionais.
"Lembrai-vos, esp�ritas, de que, se � absurdo repelir sistematicamente todos os
fen�menos de al�m-t�mulo, tamb�m n�o � de bom aviso aceit�-los todos, cegamente.
Quando um fen�meno de tangibilidade, de visibilidade,
124
CAP�TULO V

ou de transporte se opera espontaneamente e de modo instant�neo, aceitai-o. Por�m,
nunca. o repetirei demasiado, n�o aceiteis coisa alguma �s cegas. Seja cada fato
submetido a um exame minucioso, aprofundado e severo, porquanto, crede, o
Espiritismo, t�o rico em fen�menos sublimes e grandiosos, nada tem que ganhar com
essas pequenas manifesta��es, que prestidigitadores h�beis podem imitar.
"Bem sei que ides dizer: � que estes s�o �teis para convencer os incr�dulos. Mas,
ficai sabendo, se n�o houv�sseis disposto de outros meios de convic��o, n�o contar�eis
hoje a cent�sima parte dos esp�ritas que existem. Falai ao cora��o; por a� � que fareis
maior n�mero de convers�es s�rias. Se julgardes conveniente, para certas pessoas,
valer-vos dos fatos materiais, ao menos apresentai-os em circunst�ncias tais, que n�o
possam permitir nenhuma interpreta��o falsa e, sobretudo, n�o vos afasteis das
condi��es normais dos mesmos fatos, porque, apresentados em m�s condi��es, eles
fornecem argumentos aos incr�dulos, em vez de convenc�-los.
ERASTO."

99. O fen�meno de transporte apresenta uma particularidade not�vel, e � que
alguns m�diuns s� o obt�m em estado sonamb�lico, o que facilmente se explica. H� no
son�mbulo um desprendimento natural, uma esp�cie de isolamento do Esp�rito e do
perisp�rito, que deve facilitar a combina��o dos fluidos necess�rios. Tal o caso dos
transportes de que temos sido testemunha.
As perguntas que se seguem foram dirigidas ao Esp�rito que os operara, mas as
respostas se ressentem por vezes da defici�ncia dos seus conhecimentos. Submetemo-las
ao Esp�rito Erasto, muito mais instru�do do ponto de vista te�rico, e ele as completou,
aditando-lhes notas muito judiciosas. Um � o artista, o outro o s�bio, constituindo a
pr�pria compara��o dessas intelig�ncias um estudo instrutivo, porquanto prova que n�o
basta ser Esp�rito para tudo saber.
125
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

1� Dize-nos, pe�o, por que os transportes que acabaste de executar s� se
produzem estando o m�dium em estado sonamb�lico?
"Isto se prende � natureza do m�dium. Os fatos que produzo, quando o meu est�
adormecido, poderia produzi-los igualmente com outro m�dium em estado de vig�lia."

2� Por que fazes demorar tanto a trazida dos objetos e por que � que avivas a
cobi�a do m�dium, excitando-lhe o desejo de obter o objeto prometido?
"O tempo me � necess�rio a preparar os fluidos que servem para o transporte.
Quanto � excita��o, essa s� tem por fim, as mais das vezes, divertir as pessoas presentes
e o son�mbulo."
NOTA DE ERASTO. O Esp�rito que responde n�o sabe mais do que isso; n�o
percebe o motivo dessa cobi�a, que ele instintivamente agu�a, sem lhe compreender o
efeito. Julga proporcionar um divertimento, enquanto que, na realidade, provoca, sem o
suspeitar, uma emiss�o maior de fluido. � uma conseq��ncia da dificuldade que o
fen�meno apresenta, dificuldade sempre maior quando ele n�o � espont�neo, sobretudo
com cestos m�diuns.

3� Depende da natureza especial do m�dium a produ��o do fen�meno e poderia
produzir-se por outros m�diuns com mais facilidade e presteza?
"A produ��o depende da natureza do m�dium e o fen�meno n�o se pode
produzir, sen�o por meio de naturezas correspondentes. Pelo que toca � presteza, o
h�bito que adquirimos, comunicando-nos freq�entemente com o mesmo m�dium, nos �
de grande vantagem."

4� As pessoas presentes influem alguma coisa no fen�meno?
"Quando h� da parte delas incredulidade, oposi��o, muito nos podem embara�ar.
Preferimos apresentar nossas provas aos crentes e a pessoas versadas no Espiritismo.
N�o quero, por�m, dizer com isso que a m�-vontade consiga paralisar-nos
inteiramente."

5� Onde foste buscar as flores e os confeitos que trouxeste para aqui?
126
CAP�TULO V

"As flores, tomo-as aos jardins, onde bem me parece.

6� E os confeitos? Devem ter feito falta ao respectivo negociante.
"Tomo-os onde me apraz. O negociante nada absolutamente percebeu, porque
pus outros no lugar dos que tirei."

7� Mas, os an�is t�m valor. Onde os foste buscar? N�o ter�s com isso causado
preju�zo �quele de quem os tiraste?
"Tirei-os de lugares que todos desconhecem e fi-lo por maneira que da� n�o
resultar� preju�zo para ningu�m."
NOTA DE ERASTO. Creio que o fato foi explicado de modo incompleto, em
virtude da defici�ncia da capacidade do Esp�rito que respondeu. Sim, de fato, pode
resultar preju�zo real; mas, o Esp�rito n�o quis passar por haver desviado o que quer que
fosse. Um objeto s� pode ser substitu�do por outro objeto id�ntico, da mesma forma, do
mesmo valor. Conseguintemente, se um Esp�rito tivesse a faculdade de substituir, por
outro objeto igual, um de que se apodera, j� n�o teria raz�o para se apossar deste, visto
que poderia dar o de que se iria servir para substituir o objeto retirado.

8� Ser� poss�vel trazer flores de outro planeta?
"N�o; a mim n�o me � poss�vel."
- (A Erasto) Teriam outros Esp�ritos esse poder?
"N�o, isso n�o � poss�vel, em virtude da diferen�a dos meios ambientes."

9� Poderias trazer-nos flores de outro hemisf�rio; dos tr�picos, por exemplo?
"Desde que seja da Terra, posso.

10� Poderias fazer que os objetos trazidos nos desaparecessem da vista e lev�-los
novamente?
"Assim como os trouxe aqui, posso lev�-los, � minha vontade."

11� A produ��o do fen�meno dos transportes n�o � de alguma forma penosa,
n�o te causa qualquer embara�o?
127
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

"N�o nos � penosa em nada, quando temos permiss�o para oper�-los. Poderia
ser-nos grandemente penosa, se quis�ssemos produzir efeitos para os quais n�o
estiv�ssemos autorizados."
NOTA DE ERASTO. Ele n�o quer convir em que isso lhe � penoso, embora o
seja realmente, pois que se v� for�ado a executar uma opera��o por assim dizer
material.

12� Quais s�o as dificuldades que encontras?
"Nenhuma outra, al�m das m�s disposi��es flu�dicas, que nos podem ser
contr�rias."

13� Como trazes o objeto? Ser� segurando-o com as m�os?
"N�o; envolvo-o em mim mesmo."
NOTA DE ERASTO. A resposta n�o explica de modo claro a opera��o. Ele n�o
envolve o objeto com a sua pr�pria personalidade; mas, como o seu fluido pessoal �
dilat�vel, combina uma parte desse fluido com o fluido animalizado do m�dium e � nesta
combina��o que oculta e transporta o objeto que escolheu para transportar. Ele, pois,
n�o exprime com justeza o fato, dizendo que envolve em si o objeto.

14� Trazes com a mesma facilidade um objeto de peso consider�vel, de 50 quilos
por exemplo?
"O peso nada � para n�s. Trazemos flores, porque agrada mais do que um
volume pesado."
NOTA DE ERASTO. � exato. Pode trazer objetos de cem ou duzentos quilos,
por isso que a gravidade, existente para v�s, � anulada para os Esp�ritos. Mas, ainda
aqui, ele oito percebe bem o que se passa, A massa dos fluidos combinados �
proporcional � dos objetos. Numa palavra, a for�a deve estar em propor��o com a
resist�ncia; donde se segue que, se o Esp�rito apenas traz uma flor ou um objeto leve, �
muitas vezes porque n�o encontra no m�dium, ou em si mesmo, os elementos
necess�rios para um esfor�o mais consider�vel.

15� Poder-se-�o imputar aos Esp�ritos certas desapari��es de objetos, cuja causa
permanece ignorada?
128
CAP�TULO V

"Isso se d� com freq��ncia; com mais freq��ncia do que supondes; mas isso se
pode remediar, pedindo ao Esp�rito que traga de novo o objeto desaparecido."
NOTA DE ERASTO. � certo. Mas, �s vezes, o que � subtra�do, muito bem
subtra�do fica, pois que para muito longe s�o levados os objetos que desaparecem de
uma casa e que o dono n�o mais consegue achar. Entretanto, como a subtra��o dos
objetos exige quase que as mesmas condi��es flu�dicas que o trazimento deles reclama,
ela s� se pode dar com o concurso de m�diuns dotados de faculdades especiais. Por
isso, quando alguma coisa desapare�a, � mais prov�vel que o fato seja devido a
descuido vosso, do que � a��o dos Esp�ritos.

16� Ser�o devidos � a��o de certos Esp�ritos alguns efeitos que se consideram
como fen�menos naturais?
"Nos dias que correm, abundam fatos dessa ordem, fatos que n�o percebeis,
porque neles n�o pensais, mas que, com um pouco de reflex�o, se vos tornariam
patentes."
NOTA DE ERASTO. N�o atribuais aos Esp�ritos o que � obra do homem; mas,
cr�de na influ�ncia deles, oculta, constante, a criar em torno de v�s mil circunst�ncias,
mil incidentes necess�rios ao cumprimento dos vossos atos, da vossa exist�ncia.

17� Entre os objetos que os Esp�ritos costumam trazer, n�o haver� alguns que
eles pr�prios possam fabricar, isto �. produzidos espontaneamente pelas modifica��es
que os Esp�ritos possam operar no fluido, ou no elemento universal?
"Por mim, n�o, que n�o tenho permiss�o para isso. S� um Esp�rito elevado o
pode fazer."

18� Como conseguiste outro dia introduzir aqueles objetos, estando fechado o
aposento?
"Fi-los entrar comigo, envoltos, por assim dizer, na minha subst�ncia. Nada mais
posso dizer, por n�o ser explic�vel o fato."

19� Como fizeste para tornar vis�veis estes objetos que, um momento antes, eram
invis�veis?
ue
"Tirei a mat�ria q os envolvia."
129
DAS MANIFESTA��ES F�SICAS ESPONT�NEAS

NOTA DE ERASTO. O que os envolve n�o � mat�ria propriamente dita, mas
um fluido tirado, metade, do perisp�rito do m�dium e, metade, do Esp�rito que opera.

20� (A Erasto) Pode um objeto ser trazido a um lugar inteiramente fechado?
Numa palavra: pode o Esp�rito espiritualizar um objeto material, de maneira que se
torne capaz de penetrar a mat�ria?
"� complexa esta quest�o. O Esp�rito pode tornar invis�veis, por�m, n�o
penetr�veis, os objetos que ele transporte; n�o pode quebrar a agrega��o da mat�ria,
porque seria a destrui��o do objeto. Tornando este invis�vel, o Esp�rito o pode
transportar quando queira e n�o o libertar sen�o no momento oportuno, para faz�-lo
aparecer. De modo diverso se passam as coisas, com rela��o aos que compomos. Como
nestes s� introduzimos os elementos da mat�ria, como esses elementos s�o
essencialmente penetr�veis e, ainda, como n�s mesmos penetramos e atravessamos os
corpos mais condensados, com a mesma facilidade com que os raios sol ares atravessam
uma placa de vidro, podemos perfeitamente dizer que introduzimos o objeto num lugar
que esteja hermeticamente fechado, mas isso somente neste caso.
NOTA. Quanto � teoria da forma��o espont�nea dos objetos, veja-se adiante o
cap�tulo intitulado:Laborat�rio do mundo invis�vel.
130




CAP�TULO VI

DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

No��es sobre as apari��es. Ensaio te�rico sobre as apari��es. - Esp�ritos
gl�bulos. - Teoria da alucina��o.

100. De todas as manifesta��es esp�ritas, as mais interessantes, sem contesta��o
poss�vel, s�o aquelas por meio das quais os Esp�ritos se tornam vis�veis. Pela explica��o
deste fen�meno se ver� que ele n�o � mais sobrenatural do que os outros. Vamos
apresentar primeiramente as respostas que os Esp�ritos deram acerca do assunto:

1� Podem os Esp�ritos tornar-se vis�veis?
"Podem, sobretudo, durante o sono. Entretanto algumas pessoas os v�em
quando acordadas, por�m, isso � mais raro."
NOTA. Enquanto o corpo repousa, o Esp�rito se desprende dos la�os materiais;
fica mais livre e pode mais facilmente ver os outros Esp�ritos, entrando com eles em
comunica��o. O sonho n�o � sen�o
131
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

a recorda��o desse estado. Quando de nada nos lembramos, diz-se que n�o sonhamos,
mas, nem por isso a alma deixou de ver e de gozar da sua liberdade. Aqui nos ocupamos
especialmente com as apari��es no estado de vig�lia (1).

2� Pertencem mais a uma categoria do que a outra os Esp�ritos que se
manifestam fazendo-se vis�veis?
"N�o; podem pertencer a todas as classes, assim �s mais elevadas, como as mais
inferiores."

3� A todos os Esp�ritos � dado manifestarem-se visivelmente?
"Todos o podem; mas. nem sempre t�m permiss�o para faz�-lo, ou o querem.

4� Que fim objetivam os Esp�ritos que se manifestam visivelmente?
"Isso depende; de acordo com as suas naturezas, o fim pode ser bom, ou mau."

5� Como lhes pode ser permitido manifestar-se, quando para mau fim?
"Nesse caso � para experimentar os a quem eles aparecem. Pode ser m� a
inten��o do Esp�rito e bom o resultado."

6� Qual pode ser o fim que tem em vista o Esp�rito que se torna vis�vel com m�
inten��o?
"Amedrontar e muitas vezes vingar-se."
a) Que visam os que v�m com boa inten��o?
"Consolar as pessoas que deles guardam saudades, provar-lhes que existem e
est�o perto delas; dar conselhos e, algumas vezes, pedir para si mesmos assist�ncia."

7� Que inconveniente haveria em ser permanente e geral entre os homens a
possibilidade de verem os Esp�ritos? N�o seria esse um meio de tirar a d�vida aos mais
incr�dulos?
"Estando o homem constantemente cercado de Esp�ritos, o v�-los a todos os
instantes o perturbaria, embara�ar-lhe-ia os atos e tirar-lhe-ia a iniciativa na maioria dos

__________
(1) Ver, para maiores particularidades sobre o estado do Esp�rito durante o sono, O Livro dos
Esp�ritos, cap. "Da emancipa��o da alma", n. 409.
132
CAP�TULO VI

casos, ao passo que, julgando-se s�, ele age mais livremente. Quanto aos incr�dulos, de
muitos meios disp�em para se convencerem, se desses meios quiserem aproveitar-se e
n�o estiverem cegos pelo orgulho. Sabes multo bem existirem pessoas que h�o visto e
que nem por isso cr�em, pois dizem que s�o ilus�es. Com esses n�o te preocupes; deles
se encarrega Deus."
NOTA. Tantos inconvenientes haveria em vermos constantemente os Esp�ritos,
como em vermos o ar que nos cerca e as mir�ades de animais microsc�picos que sobre
n�s e em torno de n�s polulam. Donde devemos concluir que o que Deus faz � bem
feito e que Ele sabe melhor do que n�s o que nos conv�m.

8� Uma vez que h� inconveniente em vermos os Esp�ritos, por que, em certos
casos, � isso permitido?
"Para dar ao homem uma prova de que nem tudo morre com o corpo, que a
alma conserva a sua Individualidade ap�s a morte. A vis�o passageira basta para essa
prova e para atestar a presen�a de amigos ao vosso lado e n�o oferece os
Inconvenientes da vis�o constante."

9� Nos mundos mais adiantados que o nosso, os Esp�ritos s�o vistos com mais
freq��ncia do que entre n�s?
"Quanto mais o homem se aproxima da natureza espiritual, tanto mais facilmente
se p�e em comunica��o com os Esp�ritos. A grosseria do vosso envolt�rio � que
dificulta e torna rara a percep��o dos seres et�reos."

10� Ser� racional assustarmo-nos com a apari��o de um Esp�rito?
"Quem refletir dever� compreender que um Esp�rito, qualquer que seja, � menos
perigoso do que um vivo. Demais, podendo os Esp�ritos, como podem, ir a toda parte,
n�o se faz preciso que uma pessoa os veja para saber que alguns est�o a seu lado. O
Esp�rito que queira causar dano pode faz�-lo, e at� com mais seguran�a, sem se dar a
ver. Ele n�o � perigoso pelo fato de ser Esp�rito, mas, sim, pela influ�ncia que pode
exercer sobre o homem, desviando-o do bem e impelindo-o ao mal."
133
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

NOTA. As pessoas que, quando se acham na solid�o ou na obscuridade, se
enchem de medo raramente se apercebem da causa de seus pavores. N�o seriam capazes
de dizer de que � que t�m medo. Muito mais deveriam temer o encontro com homens do
que com Esp�ritos, porquanto um malfeitor � bem mais perigoso quando vivo, do que
depois de morto. Uma senhora do nosso conhecimento teve uma noite, em seu quarto,
uma apari��o t�o bem caracterizada, que ela julgou estar em sua presen�a uma pessoa e
a sua primeira sensa��o foi de terror. Certificada de que n�o havia pessoa alguma, disse:
;
"Parece que � apenas um Esp�rito posso dormir tranq�ila."

11� Poder� aquele a quem um Esp�rito apare�a travar com ele conversa��o?
"Perfeitamente e � mesmo o que se deve fazer em tal caso, perguntando ao
Esp�rito quem ele �, o que deseja e em que se lhe pode ser �til. Se se tratar de um
Esp�rito infeliz e sofredor, a comisera��o que se lhe testemunhar o aliviar�. Se for um
Esp�rito bondoso, pode acontecer que traga a inten��o de dar bons conselhos."
a) Como pode o Esp�rito, nesse caso, responder?
"Algumas vezes o faz por meio de sons articulados, como o faria uma pessoa
viva. Na maioria dos casos, por�m, pela transmiss�o dos pensamentos."

12� Os Esp�ritos que aparecem com asas t�m-nas realmente, ou essas asas s�o
apenas uma apar�ncia simb�lica?
"Os Esp�ritos n�o t�m asas, nem de tal coisa precisam, visto que podem ir a toda
parte como Esp�ritos. Aparecem da maneira por que precisam impressionar a pessoa a
quem se mostram. Assim � que uns aparecer�o em trajes comuns, outros envoltos em
amplas roupagens, alguns com asas, como atributo da categoria espiritual a que
pertencem."

13� As pessoas que vemos em sonho s�o sempre as que parecem ser pelo seu
aspecto?
"Quase sempre s�o mesmo as que os vossos Esp�ritos buscam, ou que v�m ao
encontro deles."

14� N�o poderiam os Esp�ritos zombeteiros tomar as apar�ncias das pessoas que
nos s�o caras, para nos induzirem em erro?
134
CAP�TULO VI

"Somente para se divertirem � vossa custa tomam eles apar�ncias fant�sticas. H�
coisas, por�m, com que n�o lhes � l�cito brincar."

15� Compreende-se que, sendo uma esp�cie de evoca��o, o pensamento fa�a
com que se apresente o Esp�rito em quem se pensa. Como �, entretanto, que muitas
vezes as pessoas em quem mais pensamos, que ardentemente desejamos tornar a ver,
jamais se nos apresentam em sonho, ao passo que vemos outras que nos s�o indiferentes
e nas quais nunca pensamos?
"Os Esp�ritos nem sempre podem manifestar-se visivelmente, mesmo em sonho e
mau grado ao desejo que tenhais de v�-los. Pode dar-se que obstem a isso causas
independentes da vontade deles. Freq�entemente, � tamb�m uma prova, de que n�o
consegue triunfar o mais ardente desejo. Quanto �s pessoas que vos s�o indiferentes, se
� certo que nelas n�o pensais, bem pode acontecer que elas em v�s pensem. Ali�s, n�o
podeis formar id�ia das rela��es no mundo dos Esp�ritos. L� tendes uma multid�o de
conhecimentos �ntimos, antigos ou recentes, de que n�o suspeitais quando despertos."
NOTA. Quando nenhum meio tenhamos de verificar a realidade das vis�es ou
apari��es, podemos sem d�vida lan��-las � conta da alucina��o. Quando, por�m, os
sucessos as confirmam, ningu�m tem o direito de atribu�-las � imagina��o. Tais, por
exemplo, as apari��es, que temos em sonho ou em estado de vig�lia, de pessoas em
quem absolutamente n�o pens�vamos e que, produzindo-as no momento em que
morrem, vem, por meio de sinais diversos, revelar as circunst�ncias totalmente
ignoradas em que faleceram. T�m-se visto cavalos empinarem e recusarem caminhar
para a frente, por motivo de apari��es que assustam os cavaleiros que os montam.
Embora se admita que a imagina��o desempenhe a� algum papel, quando o fato se passa
com os homens, ningu�m, certamente, negar� que ela nada tem que ver com o caso,
quando este se d� com os animais. Acresce que, se fosse exato que as imagens que
vemos em sonho s�o sempre efeito das nossas preocupa��es quando acordados, n�o
haveria como explicar que nunca sonhemos, conforme se verifica freq�entemente, com
aquilo em que mais pensamos.
135
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

16� Por que raz�o certas vis�es ocorrem com mais freq��ncia quando se est�
doente?
"Elas ocorrem do mesmo modo quando estais de perfeita sa�de. Simplesmente,
no estado de doen�a, os la�os materiais se afrouxam; a fraqueza do corpo permite maior
liberdade ao Esp�rito, que, ent�o, se p�e mais facilmente em comunica��o com os outros
Esp�ritos."

17� As apari��es espont�neas parecem mais freq�entes em certos pa�ses. Ser�
que alguns povos est�o mais bem dotados do que outros para receberem esta esp�cie de
manifesta��es?
"Dar-se-� tenhais um registro hist�rico de cada apari��o? As apari��es, como os
ru�dos e todas as manifesta��es, produzem-se igualmente em todos os pontos da Terra;
apresentam, por�m, caracteres distintos, de conformidade com o povo em cujo seio se
verificam. Nuns, por exemplo, onde o uso da escrita est� pouco espalhado, n�o h�
m�diuns escreventes; noutros, abundam os m�diuns desta natureza; entre outros,
observam-se mais os ru�dos e os movimentos do que as manifesta��es inteligentes, por
serem estas menos apreciadas e procuradas."

18� Por que � que as apari��es se d�o de prefer�ncia � noite? N�o indica isso que
elas s�o efeito do sil�ncio e da obscuridade sobre a imagina��o?
"Pela mesma raz�o por que vedes, durante a noite, as estrelas e n�o as divisais
em pleno dia. A grande claridade pode apagar uma apari��o ligeira; mas, err�neo �
supor-se que a noite tenha qualquer coisa com isso. Inquiri os que t�m tido vis�es e
verificareis que s�o em maior n�mero os que as tiveram de dia."
NOTA. Muito mais freq�entes e gerais do que se julga s�o as apari��es; por�m,
muitas pessoas deixam de torn�-las conhecidas, por medo do rid�culo, e outras as
atribuem � ilus�o. Se parecem mais numerosas entre alguns povos, � isso devido a que a�
se conservam com mais cuidado as tradi��es verdadeiras, ou falsas, quase sempre
ampliadas pelo poder de sedu��o do maravilhoso a que mais ou menos se preste o
aspecto das localidades. A credulidade ent�o faz que se vejam efeitos sobrenaturais nos
mais vulgares fen�menos: o sil�ncio
136
CAP�TULO VI

da solid�o, o escarpamento das quebradas, o mugido da floresta, as rajadas da
tempestade, o eco das montanhas, a forma fant�stica das nuvens, as sombras, as
miragens, tudo enfim se presta � ilus�o, para imagina��es simples e ing�nuas, que de
boa-f� narram o que viram, ou julgaram ver. Por�m, ao lado da fic��o, h� a realidade. O
estudo s�rio do Espiritismo leva precisamente o homem a se desembara�ar de todas as
supersti��es rid�culas.

19� A vis�o dos Esp�ritos se produz no estado normal, ou s� estando o vidente
num estado ext�tico?
"Pode produzir-se achando-se este em condi��es perfeitamente normais.
Entretanto, as pessoas que os v�em se encontram muito ami�de num estado pr�ximo do
de �xtase, estado que lhes faculta uma esp�cie de dupla vista." (O Livro dos Esp�ritos, n.
447.)

20� Os que v�em os Esp�ritos v�em-nos com os olhos?
"Assim o julgam; mas, na realidade, � a alma quem v� e o que o prova e que os
podem ver com os olhos fechados."

21� Como pode o Esp�rito fazer-se vis�vel?
"O princ�pio � o mesmo de todas as manifesta��es, reside nas propriedades do
perisp�rito, que pode sofrer diversas modifica��es, ao sabor do Esp�rito."

22� Pode o Esp�rito propriamente dito fazer-se vis�vel, ou s� o pode com o
aux�lio do perisp�rito?
"No estado material em que vos achais, s� com o aux�lio de seus inv�lucros
semimateriais podem os Esp�ritos manifestar-se. Esse inv�lucro � o intermedi�rio por
meio do qual eles atuam sobre os vossos sentidos. Sob esse envolt�rio � que aparecem,
�s vezes, com uma forma humana, ou com outra qualquer, seja nos sonhos, seja no
estado de vig�lia, assim em plena luz, como na obscuridade."

23� Poder-se-� dizer que � pela condensa��o do fluido do perisp�rito que o
Esp�rito se torna vis�vel?
"Condensa��o n�o � o termo. Essa palavra apenas pode ser usada para
estabelecer uma compara��o, que vos faculte compreender o fen�meno, porquanto n�o
h� real-
137
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

mente condensa��o. Pela combina��o dos fluidos, o perisp�rito toma uma disposi��o
especial, sem analogia para v�s outros, disposi��o que o torna percept�vel."

24� Os Esp�ritos que aparecem s�o sempre inapreens�veis e impercept�veis ao
tato?
"Em seu estado normal, s�o inapreens�veis, como num sonho. Entretanto, podem
tornar-se capazes de produzir impress�o ao tato, de deixar vest�gios de sua presen�a e
at�, em certos casos, de tornar-se momentaneamente tang�veis, o que prova haver
mat�ria entre v�s e eles."

25� Toda gente tem aptid�o para ver os Esp�ritos?
"Durante o sono, todos t�m; em estado de vig�lia, n�o. Durante o sono, a alma
v� sem intermedi�rio; no estado de vig�lia, acha-se sempre mais ou menos influenciada
pelos �rg�os. Da� vem n�o serem totalmente id�nticas as condi��es nos dois casos."

26� De que depende, para o homem, a faculdade de ver os Esp�ritos, em estado
de vig�lia?
"Depende da organiza��o f�sica. Reside na maior ou menor facilidade que tem o
fluido do vidente para se combinar com o do Esp�rito. Assim, n�o basta que o Esp�rito
queira mostrar-se, � preciso tamb�m que encontre a necess�ria aptid�o na pessoa a
quem deseje fazer-se vis�vel."
a) Pode essa faculdade desenvolver-se pelo exerc�cio?
"Pode, como todas as outras faculdades; mas, pertence ao n�mero daquelas com
rela��o �s quais � melhor que se espere o desenvolvimento natural, do que provoc�-lo,
para n�o sobreexcitar a imagina��o. A de ver os Esp�ritos, em geral e permanentemente,
constitui uma faculdade excepcional e n�o est� nas condi��es normais do homem."

27� Pode-se provocar a apari��o dos Esp�ritos?
"Isso algumas vezes � poss�vel, por�m, muito raramente. A apari��o � quase
sempre espont�nea. Para que algu�m veja os Esp�ritos, precisa ser dotado de uma
faculdade especial."

28� Podem os Esp�ritos tomar-se vis�veis sob outra apar�ncia que n�o a da forma
humana?
138
CAP�TULO VI

"A humana � a forma normal. O Esp�rito pode variar-lhe a apar�ncia, mas
sempre com o tipo humano."
a) N�o podem manifestar-se sob a forma de chama?
"Podem produzir chamas, clar�es, como todos os outros efeitos, para atestar sua
presen�a; mas, n�o s�o os pr�prios Esp�ritos que assim aparecem. A chama n�o passa
muitas vezes de uma miragem, ou de uma emana��o do perisp�rito. Em todo caso,
nunca � mais do que uma parcela deste. O perisp�rito n�o se mostra integralmente nas
vis�es."

29� Que se deve pensar da cren�a que atribui os fogos-f�tuos � presen�a de
almas ou Esp�ritos?
"Supersti��o produzida pela ignor�ncia. Bem conhecida � a causa f�sica dos
fogos-f�tuos."
a) A chama azul que, segundo dizem, apareceu sobre a cabe�a de S�rvius T�lius,
quando menino, � uma f�bula, ou foi real?
"Era real e produzida por um Esp�rito familiar, que desse modo dava um aviso �
m�e do menino. M�dium vidente, essa m�e percebeu uma irradia��o do Esp�rito
protetor de seu filho. Assim como os m�diuns escreventes n�o escrevem todos a mesma
coisa, tamb�m, nos m�diuns videntes, n�o � em todos do mesmo grau a vid�ncia. Ao
passo que aquela m�e viu apenas uma chama, outro m�dium teria podido ver o pr�prio
corpo do Esp�rito."

30� Poderiam os Esp�ritos apresentar-se sob a forma de animais?
"Isso pode dar-se; mas somente Esp�ritos muito inferiores tomam essas
apar�ncias. Em caso algum, por�m, ser� mais do que uma apar�ncia moment�nea. Fora
absurdo acreditar-se que um qualquer animal verdadeiro pudesse ser a encarna��o de
um Esp�rito. Os animais s�o sempre animais e nada mais do que isto."
NOTA. Somente a supersti��o pode fazer crer que certos animais s�o animados
por Esp�ritos. � preciso uma imagina��o muito complacente, ou muito impressionada
para ver qualquer coisa de sobrenatural nas circunst�ncias um pouco extravagantes em
que eles algumas vezes se apresentam. O medo faz que ami�de se veja o que n�o existe.
Mas,
139
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

n�o s� no medo tem sua origem essa id�ia. Conhecemos uma senhora, muito inteligente
ali�s, que consagrava desmedida afei��o a um gato preto, porque acreditava ser ele de
natureza sobreanimal. Entretanto, essa senhora jamais ouvira falar do Espiritismo. Se o
houvesse conhecido, ele lhe teria feito compreender o rid�culo da causa de sua
predile��o pelo animal, provando-lhe a impossibilidade de tal metamorfose.

Ensaio te�rico sobre as apari��es

101. As manifesta��es aparentes mais comuns se d�o durante o sono, por meio
dos sonhos: s�o as vis�es. Os limites deste estudo n�o comportam o exame de todas as
particularidades que os sonhos podem apresentar. Resumiremos tudo, dizendo que eles
podem ser: uma vis�o atual das coisas presentes, ou ausentes; uma vis�o retrospectiva
do passado e, em alguns casos excepcionais, um pressentimento do futuro. Tamb�m
muitas vezes s�o quadros aleg�ricos que os Esp�ritos nos p�em sob as vistas, para dar-
nos �teis avisos e salutares conselhos, se se trata de Esp�ritos bons; para induzir-nos em
erro e nos lisonjear as paix�es, se s�o Esp�ritos imperfeitos os que no-lo apresentam. A
teoria que se segue aplica-se aos sonhos, como a todos os outros casos de apari��es.
(Veja-se: O Livro dos Esp�ritos,ns. 400 e seguintes.)
Temos para n�s que far�amos uma inj�ria aos nossos leitores, se nos
propus�ssemos a demonstrar o que h� de absurdo e rid�culo no que vulgarmente se
chama a interpreta��o dos sonhos.

102. As apari��es propriamente ditas se d�o quando o vidente se acha em estado
de vig�lia e no gozo da plena e inteira liberdade das suas faculdades. Apresentam-se, em
geral, sob uma forma vaporosa e di�fana, �s vezes vaga e imprecisa. A princ�pio �, quase
sempre, uma claridade esbranqui�ada, cujos contornos pouco a pouco se v�o
desenhando. Doutras vezes, as formas se mostram nitidamente acentuadas, distinguindo-
se os menores tra�os da fisionomia, a ponto de se tornar poss�vel fazer-se da
140
CAP�TULO VI

apari��o uma descri��o completa. Os ademanes, o aspecto, s�o semelhantes aos que
tinha o Esp�rito quando vivo.
Podendo tomar todas as apar�ncias, o Esp�rito se apresenta sob a que melhor o
fa�a reconhec�vel, se tal � o seu desejo. Assim, embora como Esp�rito nenhum defeito
corp�reo tenha, ele se mostrar� estropiado, coxo, corcunda, ferido, com cicatrizes, se
isso for necess�rio � prova da sua identidade. Esopo, por exemplo, como Esp�rito, n�o �
disforme; por�m, se o evocarem como Esopo, ainda que muitas exist�ncias tenha tido
depois da em que assim se chamou, ele aparecer� feio e corcunda, com os seus trajes
tradicionais.
Coisa interessante � que, salvo em circunst�ncias especiais, as partes menos
acentuadas s�o os membros inferiores, enquanto que a cabe�a, o tronco, os bra�os e as
m�os s�o sempre claramente desenhados. Da� vem que quase nunca s�o vistos a andar,
mas a deslizar como sombras. Quanto �s vestes, comp�em-se ordinariamente de um
amontoado de pano, terminando em longo pregueado flutuante. Com uma cabeleira
ondulante e graciosa se apresentam os Esp�ritos que nada conservam das coisas
terrenas. Os Esp�ritos vulgares, por�m, os que aqui conhecemos aparecem com os trajos
que usavam no �ltimo per�odo de sua exist�ncia.
Freq�entemente, mostram atributos caracter�sticos da eleva��o que alcan�aram,
como uma aur�ola, ou asas, os que possam ser tidos por anjos, ao passo que outros
trazem os sinais Indicativos de suas ocupa��es terrenas. Assim, um guerreiro aparecer�
com a sua armadura, um s�bio com livros, um assassino com um punhal, etc. Os
Esp�ritos superiores t�m uma figura bela, nobre e serena; os mais Inferiores denotam
alguma coisa de feroz e bestial, n�o sendo raro revelarem ainda os vest�gios dos crimes
que praticaram, ou dos supl�cios que padeceram. A quest�o do traje e dos objetos
acess�rios com que os Esp�ritos aparecem � talvez a que mais espanto causa.
Voltaremos a essa quest�o em cap�tulo especial, porque ela se liga a outros fatos muito
importantes.
141
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

103. Dissemos que as apari��es t�m algo de vaporoso. Em certos casos, poder-
se-ia compar�-las � imagem que se reflete num espelho sem a�o e que, n�o obstante a
sua nitidez, n�o impede se vejam os objetos que lhe est�o por detr�s. Geralmente, �
assim que os m�diuns videntes as percebem. Eles as v�em ir e vir, entrar num aposento,
sair dele, andar por entre os vivos com ares, pelo menos se se trata de Esp�ritos comuns,
de participarem ativamente de tudo o que os homens fazem ao derredor deles, de se
interessarem por tudo isso, de ouvirem o que dizem os humanos. Com freq��ncia s�o
vistos a se aproximar de uma pessoa, a lhe insuflar id�ias, a influenci�-la, a consol�-la, se
pertencem � categoria dos bons, a escarnec�-la, se s�o malignos, a se mostrar tristes ou
satisfeitos com os resultados que logram. Numa palavra: constituem como que o forro
do mundo corp�reo.
Tal � esse mundo oculto que nos cerca, dentro do qual vivemos sem o
percebermos, como vivemos, tamb�m sem darmos por isso, em meio das mir�ades de
seres do mundo microsc�pico. O microsc�pio nos revelou o mundo dos infinitamente
pequenos, de cuja exist�ncia n�o suspeit�vamos; o Espiritismo, com o aux�lio dos
m�diuns videntes, nos revelou o mundo dos Esp�ritos, que, por seu lado, tamb�m
constitui uma das for�as ativas da Natureza. Com o concurso dos m�diuns videntes,
poss�vel nos foi estudar o mundo invis�vel, conhecer-lhe os costumes, como um povo de
cegos poderia estudar o mundo vis�vel com o aux�lio de alguns homens que gozassem da
faculdade de ver. (Veja-se adiante, no cap�tulo referente aos m�diuns, o par�grafo que
trata dos m�diuns videntes.)

104. O Esp�rito, que quer ou pode fazer-se vis�vel, reveste �s vezes uma forma
ainda mais precisa, com todas as apar�ncias de um corpo s�lido, ao ponto de causar
completa ilus�o e dar a crer, aos que observam a apari��o, que t�m diante de si um ser
corp�reo. Em alguns casos, finalmente, e sob o imp�rio de certas circunstancias, a
tangibilidade se pode tornar real, isto �, poss�vel se torna
142
CAP�TULO VI

ao observador tocar, palpar, sentir, na apari��o, a mesma resist�ncia, o mesmo calor que
num corpo vivo, o que n�o impede que a tangibilidade se desvane�a com a rapidez do
rel�mpago. Nesses casos, j� n�o � somente com o olhar que se nota a presen�a do
Esp�rito, mas tamb�m pelo sentido t�til.
Dado se possa atribuir � ilus�o ou a uma esp�cie de fascina��o a apari��o
simplesmente visual, o mesmo j� n�o ocorre quando se consegue segur�-la, palp�-la,
quando ela pr�pria segura o observador e o abra�a, circunst�ncias em que nenhuma
d�vida mais � l�cita.
Os fatos de apari��es tang�veis s�o os mais raros; por�m, os que se t�m dado
nestes �ltimos tempos, pela influ�ncia de alguns m�diuns de grande poder (1) e
absolutamente autenticados por testemunhos irrecus�veis, provam e explicam o que a
hist�ria refere acerca de pessoas que, depois de mortas, se mostraram com todas as
apar�ncias da realidade.
Todavia, conforme j� dissemos, por mais extraordin�rios que sejam, tais
fen�menos perdem inteiramente todo car�ter de maravilhosos, quando conhecida a
maneira por que se produzem e quando se compreende que, longe de constitu�rem uma
derroga��o das leis da Natureza, s�o apenas efeito de uma aplica��o dessas leis.

105. Por sua natureza e em seu estado normal, o perisp�rito � invis�vel e tem isto
de comum com uma imensidade de fluidos que sabemos existir, sem que, entretanto,
jamais os tenhamos visto. Mas, tamb�m, do mesmo modo que alguns desses fluidos,
pode ele sofrer modifica��es que o tornem percept�vel � vista, quer por meio de uma
esp�cie de condensa��o, quer por meio de uma mudan�a na disposi��o de suas
mol�culas. Aparece-nos ent�o sob uma forma vaporosa.

__________
(1)Entre outros, o Sr. Home.
143
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

A condensa��o (preciso � que n�o se tome esta palavra na sua significa��o
literal; empregamo-la apenas por falta de outra e a t�tulo de compara��o), a
condensa��o, dizemos, pode ser tal que o perisp�rito adquira as propriedades de um
corpo s�lido e tang�vel, conservando, por�m, a possibilidade de retomar
instantaneamente seu estado et�reo e invis�vel. Podemos apreender esse efeito,
atentando no vapor, que passa do de invisibilidade ao estado brumoso, depois ao estado
l�quido, em seguida ao s�lido e vice-versa.
Esses diferentes estados do perisp�rito resultam da vontade do Esp�rito e n�o de
uma causa f�sica exterior, como se d� com os nossos gases. Quando o Esp�rito nos
aparece, � que p�s o seu perisp�rito no estado pr�prio a torn�-lo vis�vel. Mas, para isso,
n�o basta a sua vontade, porquanto a modifica��o do perisp�rito se opera mediante sua
combina��o com o fluido peculiar ao m�dium. Ora, esta combina��o nem sempre �
poss�vel, o que explica n�o ser generalizada a visibilidade dos Esp�ritos. Assim, n�o
basta que o Esp�rito queira mostrar-se; n�o basta t�o pouco que uma pessoa queira v�-
lo; � necess�rio que os dois fluidos possam combinar-se, que entre eles haja uma esp�cie
de afinidade e tamb�m, porventura, que a emiss�o do fluido da pessoa seja
suficientemente abundante para operar a transforma��o do perisp�rito e, provavelmente,
que se verifiquem ainda outras condi��es que desconhecemos. E necess�rio, enfim, que
o Esp�rito tenha a permiss�o de se fazer vis�vel a tal pessoa, o que nem sempre lhe �
concedido, ou s� o � em certas circunst�ncias, por motivos que n�o podemos apreciar.

106. Outra propriedade do perisp�rito inerente � sua natureza et�rea � a
penetrabilidade. Mat�ria nenhuma lhe op�e obst�culo: ele as atravessa todas, como a luz
atravessa os corpos transparentes. Da� vem n�o haver tapagem capaz de obstar �
entrada dos Esp�ritos. Eles visitam o prisioneiro no seu calabou�o, com a mesma
facilidade com que visitam uma pessoa que esteja em pleno campo.
144
CAP�TULO VI

107. N�o s�o raras, nem constituem novidades as apari��es no estado de vig�lia.
Elas se produziram em todos os tempos. A hist�ria as registra em grande n�mero. N�o
precisamos, por�m, remontar ao passado, t�o freq�entes s�o nos dias de hoje e muitas
pessoas h� que as t�m visto e que as tomaram, no primeiro momento, pelo que se
convencionou chamar alucina��es. S�o freq�entes, sobretudo, nos casos de morte de
pessoas ausentes, que v�m visitar seus parentes ou amigos. Muitas vezes, as apari��es
n�o trazem um fim muito determinado, mas pode dizer-se que, em geral, os Esp�ritos
que assim aparecem s�o atra�dos pela simpatia. Interrogue cada um as suas recorda��es
e poucos ser�o os que n�o conhe�am alguns fatos desse g�nero, cuja autenticidade n�o
se poderia p�r em d�vida.

108. �s considera��es precedentes acrescentaremos o exame de alguns efeitos
de �tica, que deram lugar ao singular sistema dos Esp�ritos gl�bulos.
Nem sempre � absoluta a limpidez do ar e ocasi�es h� em que s�o perfeitamente
vis�veis as correntes das mol�culas aeriformes e a agita��o em que as p�e o calor.
Algumas pessoas tomaram isto por aglomera��es de Esp�ritos a se agitarem no espa�o.
Basta se cite esta opini�o, para que ela fique desde logo refutada. H�, por�m, outra
esp�cie de ilus�o n�o menos estranha, contra a qual bom � tamb�m se esteja precavido.
O humor aquoso do olho apresenta pontos quase impercept�veis, que h�o
perdido alguma coisa da sua natural transpar�ncia. Esses pontos s�o como corpos
opacos em suspens�o no l�quido, cujos movimentos eles acompanham. Produzem no ar
ambiente e a dist�ncia, por efeito do aumento e da refra��o, a apar�ncia de pequenos
discos, cujos di�metros variam de um a dez mil�metros e que parecem nadar na
atmosfera. Pessoas conhecemos que tomaram esses discos por Esp�ritos que as seguiam
e acompanhavam a toda parte. Essas pessoas, no seu entusiasmo, tomavam como
figuras os matizes da irisa��o, o que �
145
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

quase t�o racional como ver uma figura na Lua. Uma simples observa��o, fornecida por
essas pessoas mesmo, as reconduzir� ao terreno da realidade.
Os aludidos discos ou medalh�es, dizem elas, n�o s� as acompanham, como lhes
seguem todos os movimentos, v�o para a direita, para a esquerda, para cima, para baixo,
ou param, conforme o movimento que elas fazem com a cabe�a. Isto nada tem de
surpreendente. Uma vez que a sede da apar�ncia � no globo ocular, tem ela que
acompanhar todos os movimentos do olho. Se fossem Esp�ritos, for�oso seria convir em
estarem eles adstritos a um papel por demais mec�nico para seres inteligentes e livres,
papel bem fastidioso, mesmo para Esp�ritos inferiores e, pois, com mais forte raz�o,
incompat�vel com a id�ia que fazemos dos Esp�ritos superiores.
Verdade � que alguns tomam por maus Esp�ritos os pontos escuros ou moscas
amaur�ticas. Esses discos, do mesmo modo que as manchas negras, t�m um movimento
ondulat�rio, cuja amplitude n�o vai al�m da de um certo �ngulo, concorrendo para a
ilus�o a circunst�ncia de n�o acompanharem bruscamente os movimentos da linha
visual. Bem simples � a raz�o desse fato. Os pontos opacos do humor aquoso, causa
prim�ria do fen�meno, se acham, conforme dissemos, como que em suspens�o e tendem
sempre a descer. Quando sobem, � que s�o solicitados pelo movimento dos olhos, de
baixo para cima; chegados, por�m, a certa altura, se o olho se torna fixo, nota-se que os
discos descem por si mesmos e depois se imobilizam. Extrema � a mobilidade deles,
porquanto basta um movimento impercept�vel do olho para faz�-los mudar de dire��o e
percorrer rapidamente toda a amplitude do arco, no espa�o em que se produz a imagem.
Enquanto n�o se provar que uma imagem tem movimento pr�prio, espont�neo e
inteligente, ningu�m poder� enxergar no fato de que tratamos mais do que um simples
fen�meno �tico ou fisiol�gico.
O mesmo se d� com as centelhas que se produzem algumas vezes em feixes mais
ou menos compactos, pela contra��o do m�sculo do olho, e s�o devidas, provavel-
146
CAP�TULO VI

mente, � eletricidade fosforescente da �ris, pois que s�o geralmente adstritas �
circunfer�ncia do disco desse �rg�o.
Tais ilus�es n�o podem provir sen�o de uma observa��o incompleta. Quem quer
que tenha estudado a natureza dos Esp�ritos, por todos os meios que a ci�ncia pr�tica
faculta, compreender� tudo o que elas t�m de pueril. Do mesmo modo que combatemos
as aventurosas teorias com que se atacam as manifesta��es, quando essas teorias
assentam na ignor�ncia dos fatos, tamb�m devemos procurar destruir as id�ias falsas,
que indicam mais entusiasmo do que reflex�o e que, por isso mesmo, mais dano do que
bem causam, com rela��o aos incr�dulos, j� de si t�o dispostos a buscar o lado rid�culo.

109. O perisp�rito, como se v�, � o princ�pio de todas as manifesta��es. O
conhecimento dele foi a chave da explica��o de uma imensidade de fen�menos e
permitiu que a ci�ncia esp�rita desse largo passo, fazendo-a enveredar por nova senda,
tirando-lhe todo o cunho de maravilhosa. Dos pr�prios Esp�ritos, porquanto notai bem
que foram eles que nos ensinaram o caminho, tivemos a explica��o da a��o do Esp�rito
sobre a mat�ria, do movimento dos corpos inertes, dos ru�dos e das apari��es. A�
encontraremos ainda a de muitos outros fen�menos que examinaremos antes de
passarmos ao estudo das comunica��es propriamente ditas. Tanto melhor as
compreenderemos, quanto mais conhecedores nos acharmos das causas prim�rias.
Quem haja compreendido bem aquele princ�pio, facilmente, por si mesmo, o aplicar� aos
diversos fatos que se lhe possam oferecer � observa��o.

110. Longe estamos de considerar como absoluta e como sendo a �ltima palavra
a teoria que apresentamos. Novos estudos sem d�vida a completar�o, ou retificar�o
mais tarde; entretanto, por mais incompleta ou imperfeita que seja ainda hoje, sempre
pode auxiliar o estudioso a reconhecer a possibilidade dos fatos, por efeito de causas
147
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

que nada t�m de sobrenaturais. Se � uma hip�tese, n�o se lhe pode contudo negar o
m�rito da racionalidade e da probabilidade e, como tal, vale tanto, pelo menos, quanto
todas as explica��es que os negadores formulam, para provar que nos fen�menos
esp�ritas s� h� ilus�o, fantasmagoria e subterf�gios.

Teoria da alucina��o

111. Os que n�o admitem o mundo Incorp�reo e invis�vel julgam tudo explicar
com a palavra alucina��o. Toda gente conhece a defini��o desta palavra. Ela exprime o
erro, a ilus�o de uma pessoa que julga ter percep��es que realmente n�o tem. Origina-se
do latim hallucinari, errar, que vem de ad lucem. Mas, que saibamos, os s�bios ainda
n�o apresentaram a raz�o fisiol�gica desse fato.
N�o tendo a �tica e a fisiologia, ao que parece, mais segredos para eles, como �
que ainda n�o explicaram a natureza e a origem das imagens que se mostram ao Esp�rito
em dadas circunst�ncias?
Tudo querem explicar pelas leis da mat�ria; seja. Forne�am ent�o, com o aux�lio
dessas leis, uma teoria, boa ou m�, da alucina��o. Sempre ser� uma explica��o.

112. A causa dos sonhos nunca a ci�ncia a explicou. Atribui-os a um efeito da
imagina��o; mas, n�o nos diz o que � a imagina��o, nem como esta produz as imagens
t�o claras e t�o n�tidas que �s vezes nos aparecem. Consiste isso em explicar uma coisa,
que n�o � conhecida, por outra que ainda o � menos. A quest�o permanece de p�.
Dizem ser uma recorda��o das preocupa��es da v�spera. Por�m, mesmo que se
admita esta solu��o, que n�o o �, ainda restaria saber qual o espelho m�gico que
conserva assim a impress�o das coisas. Como se explicar�o, sobretudo, essas vis�es de
coisas reais que a pessoa nunca viu no estado de vig�lia e nas quais jamais, sequer,
pensou? S� o Espiritismo nos podia dar a chave desse estranho
148
CAP�TULO VI

fen�meno, que passa despercebido, por causa da sua mesma vulgaridade, como sucede
com todas as maravilhas da Natureza, que calcamos aos p�s.
Os s�bios desdenharam de ocupar-se com a alucina��o. Quer seja real, quer n�o,
ela constitui um fen�meno que a Fisiologia tem que se mostrar capaz de explicar, sob
pena de confessar a sua insufici�ncia. Se, um dia, algum s�bio se abalan�ar a dar desse
fen�meno, n�o uma defini��o, entendamo-nos bem, mas uma explica��o fisiol�gica,
veremos se a sua teoria resolve todos os casos. Sobretudo, que ele n�o omita os fatos,
t�o comuns, de apari��es de pessoas no momento de morrerem; que diga donde vem a
coincid�ncia da apari��o com a morte da pessoa. Se este fosse um fato insulado, poder-
se-ia atribu�-lo ao acaso; �, por�m, muito freq�ente para ser devido ao acaso, que n�o
tem dessas reincid�ncias.
Se, ao menos, aquele que viu a apari��o tivesse a imagina��o despertada pela
id�ia de que a pessoa que lhe apareceu havia de morrer, v�. Mas, quase sempre, a que
aparece � a em quem menos pensava a que a v�. Logo, a imagina��o n�o entra a� de
forma alguma. Ainda menos se podem explicar pela imagina��o as circunst�ncias, de
que nenhuma id�ia se tem, em que se deu a morte da pessoa que aparece.
Dir�o, porventura, os alucinacionistas que a alma (se � que admitem uma alma)
tem momentos de sobreexcita��o em que suas faculdades se exaltam. Estamos de
acordo; por�m, quando � real o que ela v�, n�o h� ilus�o. Se, na sua exalta��o, a alma
v� uma coisa que n�o est� presente, � que ela se transporta; mas, se nossa alma pode
transportar-se para junto de uma pessoa ausente, por que n�o poderia a alma dessa
pessoa transportar-se para junto de n�s? Dignem-se eles de levar em conta estes fatos,
na sua teoria da alucina��o, e n�o esque�am que uma teoria a que se podem opor fatos
que a contrariam � necessariamente falsa, ou incompleta.
Aguardando a explica��o que venham a oferecer, vamos tentar emitir algumas
id�ias a esse respeito.
149
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

113. Provam os fatos que h� apari��es verdadeiras, que a teoria esp�rita explica
perfeitamente e que s� podem ser negadas pelos que nada admitem fora do organismo.
Mas, a par das vis�es reais, haver�, alucina��es, no sentido em que esse termo se
emprega? E fora de d�vida. Donde se originam? Os Esp�ritos � que v�o esclarecer-nos
sobre isso, porquanto a explica��o, parece-nos, est� toda nas respostas dadas �s
seguintes perguntas:
a) S�o sempre reais as vis�es? N�o ser�o, algumas vezes, efeito da alucina��o?
Quando, em sonho, ou de modo diverso, se v�em, por exemplo, o diabo, ou outras
coisas fant�sticas, que n�o existem, n�o ser� isso um produto da imagina��o?
"Sim, algumas vezes; quando d� muita aten��o a certas leituras, ou a hist�rias de
sortil�gios, que impressionam, a pessoa, lembrando-se mais tarde dessas coisas, julga
ver o que n�o existe. Mas, tamb�m, j� temos dito que o Esp�rito, sob o seu envolt�rio
semimaterial, pode tomar todas as esp�cies de formas, para se manifestar. Pode, pois,
um Esp�rito zombeteiro aparecer com chifres e garras, se assim lhe aprouver, para
divertir-se � custa da credulidade daquele que o v�, do mesmo modo que um Esp�rito
bom pode mostrar-se com asas e com uma figura radiosa."
b) Poder-se-�o considerar como apari��es as figuras e outras imagens que se
apresentam a certas pessoas, quando est�o meio adormecidas, ou quando apenas fecham
os olhos?
"Desde que os sentidos entram em torpor, o Esp�rito se desprende e pode ver
longe, ou perto, aquilo que lhe n�o seria poss�vel ver com os olhos. Muito
freq�entemente, tais imagens s�o vis�es, mas tamb�m podem ser efeito das impress�es
que a vista de certos objetos deixou no c�rebro, que lhes conserva os vest�gios, como
conserva os dos sons. Desprendido, o Esp�rito v� nos seu pr�prio c�rebro as impress�es
que a� se fixaram como numa chapa daguerreot�pica. A variedade e o baralhamento das
impress�es formam os conjuntos estranhos e fugidios, que se
150
CAP�TULO VI

apagam quase imediatamente, ainda que se fa�am os maiores esfor�os para ret�-los. A
uma causa id�ntica se devem atribuir certas apari��es fant�sticas' que nada t�m de reais
e que muitas vezes se produzem durante uma enfermidade."
� corrente ser a mem�ria o resultado das impress�es que o c�rebro conserva.
Mas, por que singular fen�meno essas impress�es, t�o variadas, t�o m�ltiplas, n�o se
confundem? Mist�rio impenetr�vel, por�m, n�o mais estranh�vel do que o das
ondula��es sonoras que se cruzam no ar e que, no entanto, se conservam distintas. Num
c�rebro s�o e bem organizado, essas impress�es se revelam n�tidas e precisas; num
estado menos favor�vel, elas se apagam e confundem; da� a perda da mem�ria, ou a
confus�o das id�ias. Ainda menos extraordin�rio parecer� isto, se se admitir, como se
admite, em frenologia, uma destina��o especial a cada parte e, at�, a cada fibra do
c�rebro.
Assim, pois, as imagens que, atrav�s dos olhos, v�o ter ao c�rebro, deixam a�
uma impress�o, em virtude da qual uma pessoa se lembra de um quadro, como se o
tivera diante de si Nunca, por�m, h� nisso mais do que uma quest�o de mem�ria. Ora,
em certos estados de emancipa��o, a alma v� o que est� no c�rebro, onde torna a
encontrar aquelas imagens, sobretudo as que mais o chocaram, segundo a natureza das
preocupa��es, ou as disposi��es de esp�rito. E assim que l� encontra de novo a
impress�o de cenas religiosas, diab�licas, dram�ticas, mundanas, figuras de animais
esquisitos, que ela viu noutra �poca em pinturas, ou mesmo em narra��es, porquanto
tamb�m as narrativas deixam impress�es. De sorte que a alma v� realmente; mas, v�
apenas uma imagem fotografada no c�rebro. No estado normal, essas imagens s�o
fugidias, ef�meras, porque todas as partes cerebrais funcionam livremente, ao passo que,
no estado de mol�stia, o c�rebro sempre est� mais ou menos enfraquecido, o equil�brio
entre todos os �rg�os deixa de existir, conservando somente alguns a sua atividade,
enquanto que outros se acham de certa forma paralisados. Da� a perman�ncia de
151
DAS MANIFESTA��ES VISUAIS

determinadas imagens, que as preocupa��es da vida exterior n�o mais conseguem
apagar, como se d� no estado normal. Essa a verdadeira alucina��o e causa prim�ria das
id�ias fixas.
Conforme se v�, explicamos esta anomalia por meio de uma muito conhecida lei.
inteiramente fisiol�gica, a das impress�es cerebrais. Por�m, preciso nos foi sempre fazer
intervir a alma. Ora, se os materialistas ainda n�o puderam apresentar, deste fen�meno,
uma explica��o satisfat�ria, � porque n�o querem admitir a alma. Por isso mesmo, dir�o
que a nossa explica��o � m�, pela raz�o de erigirmos em princ�pio o que � contestado.
Contestado por quem? Por eles, mas admitido pela imensa maioria dos homens, desde
que houve homens na Terra. Ora, a nega��o de alguns n�o pode constituir lei.
� boa a nossa explica��o? Damo-la pelo que possa valer, em falta de outra, e, se
quiserem, a t�tulo de simples hip�tese, enquanto outra melhor n�o aparece. Qual ela �,
d� a raz�o de ser de todos os casos de vis�o? Certamente que n�o. Contudo, desafiamos
todos os fisiologistas a que apresentem uma que abranja todos os casos, porquanto
nenhuma d�o, quando pronunciam as palavras sacramentais - sobreexcita��o e
exalta��o. Assim sendo, desde que todas as teorias da alucina��o se mostram incapazes
de explicar os fatos, � que alguma outra coisa h�, que n�o a alucina��o propriamente
dita. Seria falsa a nossa teoria, se a aplic�ssemos a todos os casos de vis�o, pois que
alguns a contraditariam. E leg�tima, se restringida a alguns efeitos.
152




CAP�TULO VII

DA BICORPOREIDADE E DA TRANSFIGURA��O

Apari��es dos Esp�ritos de pessoas vivas. - Homens duplos. - Santo Afonso de
Liguori e Santo Ant�nio de P�dua. - Vespasiano. - Transfigura��o. - Invisibilidade.

114. Estes dois fen�menos s�o variedades do das manifesta��es visuais e, por
multo maravilhosos que pare�am � primeira vista, facilmente se reconhecer�, pela
explica��o que deles se pode dar, que n�o est�o fora da ordem dos fen�menos naturais.
Assentam ambos no princ�pio de que tudo o que ficou dito, das propriedades do
perisp�rito ap�s a morte, se aplica ao perisp�rito dos vivos. Sabemos que durante o sono
o Esp�rito readquire parte da sua liberdade, isto �, isola-se do corpo e � nesse estado
que, em muitas ocasi�es, se tem ensejo de observ�-lo. Mas, o Esp�rito, quer o homem
esteja vivo, quer morto, traz sempre
o envolt�rio semimaterial que, pelas mesmas causas de
153
DA BICORPOREIDADE E DA TRANSFIGURA��O

que j� tratamos, pode tornar-se vis�vel e tang�vel. H� fatos muito positivos, que
nenhuma d�vida permitem a tal respeito. Citaremos apenas alguns exemplos, de que
temos conhecimento pessoal e cuja exatid�o podemos garantir, sendo que a todos �
poss�vel registrar outros an�logos, consultando suas pr�prias reminisc�ncias.

115. A mulher de um dos nossos amigos viu repetidas vezes entrar no seu
quarto, durante a noite, houvesse ou n�o luz, uma vendedora de frutas que ela conhecia
de vista, residente nas cercanias, mas com quem jamais falara. Grande terror lhe causou
essa apari��o, n�o s� porque, na �poca em que se deu, ela ainda nada conhecia do
Espiritismo, como tamb�m porque se produzia com multa freq��ncia. Ora, a vendedora
de frutas estava perfeitamente viva e, �quelas horas, provavelmente dormia. Assim,
enquanto, na sua casa, seu corpo material repousava, seu Esp�rito, com o respectivo
corpo flu�dico, ia � casa da senhora em quest�o. Por que motivo? � o que se n�o sabe.
Diante de fato de tal natureza, um esp�rita, iniciado nessa esp�cie de fen�menos, ter-lho-
ia perguntado; disso, por�m, nenhuma id�ia teve a senhora. De todas as vezes, a
apari��o se. eclipsava, sem que ela soubesse como, e, de todas igualmente, ap�s a
desapari��o, cuidou de se certificar de que as portas estavam bem fechadas, de modo a
n�o poder ningu�m penetrar-lhe no aposento. Esta precau��o lhe deu a prova de estar
sempre completamente acordada na ocasi�o e de n�o haver sido joguete de um sonho.
De outras vezes, viu, da mesma maneira, um homem que lhe era desconhecido e,
certo dia, viu seu pr�prio irm�o, que se achava na Calif�rnia. Este se lhe apresentou
com a apar�ncia t�o perfeita de uma pessoa real, que, no primeiro momento, acreditou
que ele houvesse regressado e quis dirigir-lhe a palavra. Logo, entretanto, o vulto
desapareceu, sem lhe dar tempo a isso. Uma carta, que posteriormente lhe chegou,
trouxe-lhe a prova de que o
154
CAP�TULO VII

irm�o, que ela vira, n�o morrera. Essa senhora era o que se pode chamar um m�dium
vidente natural. Mas, ent�o, como acima dissemos, ainda nunca ouvira falar em
m�diuns.

116. Outra senhora, residente na prov�ncia, estando gravemente enferma, viu
certa noite, por volta das dez horas, um senhor idoso, que residia na mesma cidade e
com quem ela se encontrava �s vezes na sociedade, mas sem que existissem rela��es
estreitas entre ambos. Viu-o perto de sua cama, sentado numa poltrona e a tomar, de
quando em quando, uma pitada de rap�. Tinha ares de vigi�-la. Surpreendida com
semelhante visita a tais horas, quis perguntar-lhe por que motivo ali estava, mas o
senhor lhe fez sinal que n�o falasse e tratasse de dormir. De todas as vezes que ela
intentou dirigir-lhe a palavra, o mesmo gesto a impediu de faz�-lo. A senhora acabou
por adormecer. Passados alguns dias, tendo-se restabelecido, recebeu a visita do dito
senhor, mas em hora mais pr�pria, sendo que dessa vez era ele realmente quem l�
'estava. Trazia a mesma roupa, a mesma caixa de rap� e os modos eram os mesmos.
Persuadida de que ele a visitara durante sua enfermidade, agradeceu-lhe o inc�modo a
que se dera. O homem, muito espantado, declarou que havia longo tempo n�o tinha a
satisfa��o de v�-la. A senhora, conhecedora que era dos fen�menos esp�ritas,
compreendeu o de que se tratava: mas, n�o querendo entrar em explica��es, limitou-se a
dizer que provavelmente fora um sonho.
� o mais prov�vel, dir�o os incr�dulos, os "esp�ritos fortes", o que, para eles
mesmos, � sin�nimo de pessoas de esp�rito. O certo, entretanto, � que a senhora de
quem falamos, do mesmo modo que a outra, n�o dormia. - Ent�o, � que sonhara
acordada, ou, por outra, tivera uma alucina��o. - A� est� a palavra m�gica, a explica��o
universal de tudo o que se n�o compreende. Como, por�m, j� rebatemos suficientemente
essa explica��o, prosseguiremos, dirigindo-nos aos que nos podem compreender.
155
DA BICORPOREIDADE E DA TRANSFIGURA��O

117. Eis aqui agora outro fato ainda mais caracter�stico e grande curiosidade
ter�amos de ver como poderiam explic�-lo unicamente por meio da imagina��o.
Trata-se de um senhor provinciano, que jamais quisera casar-se, mau grado �s
inst�ncias de sua fam�lia, que muito insistira notadamente a favor de uma mo�a residente
em cidade pr�xima e que ele jamais vira. Um dia, estando no seu quarto, teve a enorme
surpresa de se ver em presen�a de uma donzela vestida de branco e com a cabe�a
ornada por uma coroa de flores. Disse-lhe que era sua noiva, estendeu-lhe a m�o, que
ele tomou nas suas, vendo-lhe num dos dedos um anel. Ao cabo de alguns instantes,
desapareceu tudo. Surpreendido com aquela apari��o, depois de se haver certificado de
estar perfeitamente acordado, inquiriu se algu�m l� estivera durante o dia.
Responderam-lhe que na casa pessoa alguma fora vista. Decorrido um ano, cedendo a
novas solicita��es de uma parenta, resolveu-se a ir ver a mo�a que lhe propunham.
Chegou � cidade onde ela morava, no dia da festa de Corpus-Christi. Voltaram todos da
prociss�o e uma das primeiras pessoas que lhe surgiram ante os olhos, ao entrar ele na
casa aonde ia, foi uma mo�a que lhe n�o custou reconhecer como a mesma que lhe
aparecera. Trajava tal qual a apari��o, porquanto esta se verificara tamb�m num dia de
Corpus-Christi. Ficou at�nito e a mocinha, por seu lado, soltou um grito e sentiu-se mal.
Voltando a si, disse j� ter visto aquele senhor, um ano antes, em dia igual ao em que
estavam. Realizou-se o casamento. Isso ocorreu em 1835, �poca em que ainda se n�o
cogitava de Esp�ritos, acrescendo que ambos os protagonistas do epis�dio s�o
extremamente positivistas e possuidores da imagina��o menos exaltada que h� no
mundo.
Dir�o talvez que ambos tinham o esp�rito despertado pela id�ia da uni�o
proposta e que essa preocupa��o determinou uma alucina��o. Importa, por�m, n�o
esquecer que o marido se conservara t�o indiferente a isso, que deixou passar um ano
sem ir vera sua pretendida. Mesmo, todavia, que se admita esta hip�tese, ainda ficaria
pendendo de
156
CAP�TULO VI

explica��o a apari��o dupla, a coincid�ncia do vestu�rio com o do dia de Corpus-Christi
e, por fim, o reconhecimento f�sico, reciprocamente ocorrido entre pessoas que nunca se
viram, circunst�ncias que n�o podem ser produto da imagina��o.

118. Antes de irmos adiante, devemos responder imediatamente a uma quest�o
que n�o deixar� de ser formulada: como pode o corpo viver, enquanto est� ausente o
Esp�rito? Poder�amos dizer que o corpo vive a vida org�nica, que independe do Esp�rito,
e a prova � que as plantas vivem e n�o t�m Esp�rito. Mas, precisamos acrescentar que,
durante a vida, nunca o Esp�rito se acha completamente separado do corpo. Do mesmo
modo que alguns m�diuns videntes, os Esp�ritos reconhecem o Esp�rito de uma pessoa
viva, por um rastro luminoso, que termina no corpo, fen�meno que absolutamente n�o
se d� quando este est� morto, porque, ent�o, a separa��o � completa. Por meio dessa
comunica��o, entre o Esp�rito e o corpo, � que aquele recebe aviso, qualquer que seja a
dist�ncia a que se ache do segundo, da necessidade que este possa experimentar da sua
presen�a, caso em que volta ao seu inv�lucro com a rapidez do rel�mpago. Da� resulta
que o corpo n�o pode morrer durante a aus�ncia do Esp�rito e que n�o pode acontecer
que este, ao regressar, encontre fechada a porta, conforme h�o dito alguns romancistas,
em hist�rias compostas para recrear. ( O Livro dos Esp�ritos,ns. 400 e seguintes.)

119. Voltemos ao nosso assunto. Isolado do corpo, o Esp�rito de um vivo pode,
como o de um morto, mostrar-se com todas as apar�ncias da realidade. Demais, pelas
mesmas causas que hemos exposto, pode adquirir moment�nea tangibilidade. Este
fen�meno, conhecido pelo nome de bicorporeidade, foi que deu azo �s hist�rias de
homens duplos, isto �, de Indiv�duos cuja presen�a simult�nea em dois lugares diferentes
se chegou a comprovar. Aqui
157
DA BICORPOREIDADE E DA TRANSFIGURA��O

v�o dois exemplos, tirados, n�o das lendas populares, mas da hist�ria eclesi�stica.
Santo Afonso de Liguori foi canonizado antes do tempo prescrito, por se haver
mostrado simultaneamente em dois s�tios diversos, o que passou por milagre.
Santo Ant�nio de P�dua estava pregando na It�lia (vide Nota Especial � p�gina
162), quando seu pai, em Lisboa, ia ser supliciado, sob a acusa��o de haver cometido
um assass�nio. No momento da execu��o, Santo Ant�nio aparece e demonstra a
Inoc�ncia do acusado. Comprovou-se que, naquele Instante, Santo Ant�nio pregava na
It�lia, na cidade de P�dua.
Por n�s evocado e interrogado, acerca do fato acima, Santo Afonso respondeu
do seguinte modo:

l� Poderias explicar-nos esse fen�meno?
"Perfeitamente. Quando o homem, por suas virtudes, chegou a desmaterializar-
se completamente; quando conseguiu elevar sua alma para Deus, pode aparecer em dois
lugares ao mesmo tempo. Eis como: o Esp�rito encarnado, ao sentir que lhe vem o sono,
pode pedir a Deus lhe seja permitido transportar-se a um lugar qualquer. Seu Esp�rito,
ou sua alma, como quiseres, abandona ent�o o corpo, acompanhado de uma parte do
seu perisp�rito, e deixa a mat�ria imunda num estado pr�ximo do da morte. Digo
pr�ximo do da morte, porque no corpo ficou um la�o que liga o perisp�rito e a alma �
mat�ria, la�o este que n�o pode ser definido. O corpo aparece, ent�o, no lugar desejado.
Creio ser isto o que queres saber."

2� Isso n�o nos d� a explica��o da visibilidade e da tangibilidade do perisp�rito.
"Achando-se desprendido da mat�ria, conformemente ao grau de sua eleva��o,
pode o Esp�rito tornar-se tang�vel � mat�ria."

3� Ser� indispens�vel o sono do corpo, para que o Esp�rito apare�a noutros
lugares?
"A alma pode dividir-se, quando se sinta atra�da para lugar diferente daquele
onde se acha seu corpo. Pode acontecer que o corpo n�o se ache adormecido, se bem
seja
158
CAP�TULO VII

isto muito raro; mas, em todo caso, n�o se encontrar� num estado perfeitamente normal;
ser� sempre um estado mais ou menos ext�tico."
NOTA. A alma n�o se divide, no sentido literal do termo: irradia-se para
diversos lados e pode assim manifestar-se em muitos pontos, sem se haver fracionado.
D�-se o que se d� com a luz, que pode refletir-se simultaneamente em muitos espelhos.

4� Que sucederia se, estando o homem a dormir, enquanto seu Esp�rito se mostra
noutra parte, algu�m de s�bito o despertasse?
"Isso n�o se verificaria, porque, se algu�m tivesse a inten��o de o despertar, o
Esp�rito retornaria ao corpo, prevendo a inten��o, porquanto o Esp�rito l� os
pensamentos."
NOTA. Explica��o inteiramente id�ntica nos deram, muitas vezes, Esp�ritos de
pessoas mortas, ou vivas. Santo Afonso explica o fato da dupla presen�a, mas n�o a
teoria da visibilidade e da tangibilidade.

120. T�cito refere um fato an�logo:
Durante os meses que Vespasiano passou em Alexandria, aguardando a volta
dos ventos estivais e da esta��o em que o mar oferece seguran�a, muitos prod�gios
ocorreram, pelos quais se manifestaram a prote��o do c�u e o interesse que os deuses
tomavam por aquele pr�ncipe...
Esses prod�gios redobraram o desejo, que Vespasiano alimentava, de visitar a
sagrada morada do deus, para consult�-lo sobre as coisas do imp�rio. Ordenou que o
templo se conservasse fechado para quem quer que fosse e, tendo nele entrado, estava
todo atento ao que ia dizer o or�culo, quando percebeu, por detr�s de si, um dos mais
eminentes Eg�pcios, chamado Bas�lide, que ele sabia estar doente, em lugar distante
muitos dias de Alexandria. Inquiriu dos sacerdotes se Bas�lide viera naquele dia ao
templo; inquiriu dos transeuntes se o tinham visto na cidade; por fim, despachou alguns
homens a cavalo, para saberem de Bas�lide e veio a certificar-se de que, no momento
159
DA BICORPOREIDADE E DA TRANSFIGURA��O

em que este lhe aparecera, estava a oitenta milhas de dist�ncia. Desde ent�o, n�o mais
duvidou de que tivesse sido sobrenatural a vis�o e o nome de Bas�lide lhe ficou valendo
por um or�culo. (T�cito: Hist�rias, liv. IV, caps. LXXXI e LXXXII. Tradu��o de
Burnouf.)

121. Tem, pois, dois corpos o indiv�duo que se mostra simultaneamente em dois
lugares diferentes. Mas, desses dois corpos, um somente � real, o outro � simples
apar�ncia. Pode-se dizer que o primeiro tem a vida org�nica e que o segundo tem a vida
da alma. Ao despertar o indiv�duo, os dois corpos se re�nem e a vida da alma volta ao
corpo material. N�o parece poss�vel, pelo menos n�o conhecemos disso exemplo algum,
e a raz�o, ao nosso ver, o demonstra, que, no estado de separa��o, possam os dois
corpos gozar, simultaneamente e no mesmo grau, da vida ativa e inteligente. Demais, do
que acabamos de dizer ressalta que o corpo real n�o poderia morrer, enquanto o corpo
aparente se conservasse vis�vel, porquanto a aproxima��o da morte sempre atrai o
Esp�rito para o corpo, ainda que apenas por um instante. Da� resulta igualmente que o
corpo aparente n�o poderia ser matado, porque n�o � org�nico, n�o � formado de carne
e osso. Desapareceria, no momento em que o quisessem matar (1).

122. Passemos ao segundo fen�meno, o da transfigura��o. Consiste na mudan�a
do aspecto de um corpo vivo. Aqui est� um fato dessa natureza cuja perfeita
autenticidade podemos garantir, ocorrido durante os anos de 1858 e 1859, nos
arredores de Saint-Etienne.

__________
(1) Ver na Revue Spirite, janeiro de 1859: O Duende de Baiona; fevereiro de 1859: Os
ag�neres; meu amigo Hermann; maio de 1859: O la�o que prende o Esp�rito ao corpo ; novembro de
1859: A alma errante; janeiro de 1860: O Esp�rito de um lado e o corpo do outro ; mar�o de 1860:
Estudos sobre o Esp�rito de pessoas vivas; o doutor V. e a senhorita I .; abril de 1860: O fabricante
de S�o Petersburgo; apari��es tang�veis ; novembro de 1860: Hist�ria de Maria Agreda ; julho de
1861: Uma apari��o providencial.
160
CAP�TULO VII

Uma mocinha, de mais ou menos quinze anos, gozava da singular faculdade de
se transfigurar, isto �, de tomar, em dados momentos, todas as apar�ncias de certas
pessoas mortas. T�o completa era a ilus�o, que os que assistiam ao fen�meno julgavam
ter diante de si a pr�pria pessoa, cuja apar�ncia ela tomava, tal a semelhan�a dos tra�os
fision�micos, do olhar, do som da voz e, at�, da maneira particular de falar. Esse
fen�meno se repetiu centenas de vezes sem que a vontade da mocinha ali interferisse.
Tomou, em v�rias ocasi�es, a apar�ncia de seu irm�o, que morrera alguns anos antes.
Reproduzia-lhe n�o somente o semblante, mas tamb�m o porte e a corpul�ncia. Um
m�dico do lugar, testemunha que fora, muitas vezes, desses estranhos efeitos, querendo
certificar-se de que n�o havia naquilo ilusionismo, fez a experi�ncia que vamos relatar.
Conhecemos os fatos, pelo que nos referiram ele pr�prio, o pai da mo�a e diversas
outras testemunhas oculares, muito honradas e dignas de cr�dito. Veio a esse m�dico a
id�ia de pesar a mo�a no seu estado normal e de fazer-lhe o mesmo no de
transfigura��o, quando apresentava a apar�ncia do irm�o, que contava, ao morrer, vinte
e tantos anos, e era mais alto do que ela e de complei��o mais forte. Pois bem! verificou
que, no segundo estado, o peso da mo�a era quase duplo do seu peso normal.
Concludente se mostra a experi�ncia, tornando imposs�vel atribuir-se aquela apar�ncia a
uma simples ilus�o de �tica.
Tentemos explicar esse fato, que noutro tempo teria sido qualificado de milagre
e a que hoje chamamos muito simplesmente fen�meno.

123. A transfigura��o, em certos casos, pode originar-se de uma simples
contra��o muscular, capaz de dar � fisionomia express�o muito diferente da habitual, ao
ponto de tornar quase irreconhec�vel a pessoa. Temo-lo observado freq�entemente com
alguns son�mbulos; mas, nesse caso, a transforma��o n�o � radical. Uma mulher poder�
parecer jovem ou velha, bela ou feia, mas ser� sempre uma mulher e, sobretudo, seu
peso n�o aumentar�,
161
DA BICORPOREIDADE E DA TRANSFIGURA��O

nem diminuir�. No fen�meno com que nos ocupamos, h� mais alguma coisa. A teoria do
perisp�rito nos vai esclarecer.
Est�, em princ�pio, admitido que o Esp�rito pode dar ao seu perisp�rito todas as
apar�ncias; que, mediante uma modifica��o na disposi��o molecular, pode dar-lhe a
visibilidade, a tangibilidade e, conseguintemente, a opacidade; que o perisp�rito de uma
pessoa viva, isolado do corpo, � pass�vel das mesmas transforma��es; que essa mudan�a
de estado se opera pela combina��o dos fluidos. Figuremos agora o perisp�rito de uma
pessoa viva, n�o isolado, mas irradiando-se em volta do corpo, de maneira a envolv�-lo
numa esp�cie de vapor. Nesse estado, pass�vel se torna das mesmas modifica��es de que
o seria, se o corpo estivesse separado. Perdendo ele a sua transpar�ncia, o corpo pode
desaparecer, tornar-se invis�vel, ficar velado, como se mergulhado numa bruma. Poder�
ent�o o perisp�rito mudar de aspecto, fazer-se brilhante, se tal for a vontade do Esp�rito
e se este dispuser de poder para tanto. Um outro Esp�rito, combinando seus fluidos com
os do primeiro, poder�, a essa combina��o de fluidos, imprimir a apar�ncia que lhe �
pr�pria, de tal sorte, que o corpo real desapare�a sob o envolt�rio flu�dico exterior, cuja
apar�ncia pode variar � vontade do Esp�rito. Esta parece ser a verdadeira causa do
estranho fen�meno e raro, cumpra se diga, da transfigura��o.
Quanto � diferen�a de peso, explica-se da mesma maneira por que se explica
com rela��o aos corpos inertes. O peso intr�nseco do corpo n�o variou, pois que n�o
aumentou nele a quantidade de mat�ria. Sofreu, por�m, a influ�ncia de um agente
exterior, que lhe pode aumentar ou diminuir o peso relativo, conforme explicamos
acima, ns. 78 e seguintes. Prov�vel �, portanto, que, se a transforma��o se produzir,
tomando a pessoa o aspecto de uma crian�a, o peso diminua proporcionalmente.

124. Concebe-se que o corpo possa tomar outra apar�ncia de dimens�o igual ou
maior do que a que lhe �
162
CAP�TULO VII

pr�pria. Como, por�m, lhe ser� poss�vel tomar uma de dimens�o menor, a de uma
crian�a, conforme acabamos de dizer? Neste caso, n�o ser� de prever que o corpo real
ultrapasse os limites do corpo aparente?
Por isso mesmo que tal se pode dar, n�o dizemos que o fato se tenha produzido.
Apenas, reportando-nos � teoria do peso espec�fico, quisemos fazer sentir que o peso
aparente houvera podido diminuir. Quanto ao fen�meno em si, n�o afirmamos nem a sua
possibilidade, nem a sua impossibilidade. Dado, entretanto, que ocorra, a circunst�ncia
de se lhe n�o oferecer uma solu��o satisfat�ria de nenhum modo o infirmaria. Importa
se n�o esque�a que nos achamos nos prim�rdios da ci�ncia e que ela est� longe de haver
dito a �ltima palavra sobre esse ponto, como sobre muitos outros. Ali�s, as partes
excedentes poderiam ser perfeitamente tornadas invis�veis.
A teoria do fen�meno da invisibilidade ressalta muito naturalmente das
explica��es precedentes e das que foram ministradas a respeito do fen�meno dos
transportes, ns. 96 e seguintes.

125. Resta-nos falar do singular fen�meno dos ag�neres que, por muito
extraordin�rio que pare�a � primeira vista, n�o � mais sobrenatural do que os outros.
Por�m, como o explicamos na Revue Spirite (fevereiro de 1859), julgamos in�til tratar
dele aqui pormenorizadamente. Diremos t�o-somente que � uma variedade da apari��o
tang�vel. E o estado de certos Esp�ritos que podem revestir momentaneamente as formas
de uma pessoa viva, ao ponto de causar completa ilus�o. (Do grego a privativo, e geine,
geinoma�, gerar: que n�o foi gerado.)

__________
NOTA ESPECIAL da Editora (FEB) � 59� edi��o, em 1991.
O fato hist�rico est� correto no par�grafo inicial da p�gina n. 157 das edi��es febianas de O
Livro dos M�diuns. No entanto, no original franc�s, foi ele narrado por Kardec sob a vers�o seguinte:
"Santo Ant�nio
163
DA BICORPOREIDADE E DA TRANSFIGURA��O

de P�dua achava-se na Espanha e, no instante em que predicava, seu pai, que estava em P�dua, era
levado ao supl�cio sob a acusa��o de homic�dio. Nesse momento, Santo Ant�nio aparece, demonstra a
inoc�ncia de seu pai e revela o verdadeiro criminoso, mais tarde punido. Comprovou-se que nesse
momento Santo Ant�nio n�o havia deixado a Espanha."
Kardec louvou-se em comp�ndio de autor que evidentemente se equivocou, como a outros escritores,
relativamente a esse fato, sucedeu � sua �poca. (O livro Ant�nio de P�dua - Sua Vida de Milagres e
Prod�gios, de Almerindo Martins de Castro, 7� edi��o, FEB, 1987, esclarece devidamente o fen�meno
referido no texto kardequiano.)
164




CAP�TULO VIII

DO LABORAT�RIO DO MUNDO INVIS�VEL

Vestu�rio dos Esp�ritos. - Forma��o espont�nea de objetos tang�veis. -
Modifica��o das propriedades da mat�ria. - A��o magn�tica curadora.

126. Temos dito que os Esp�ritos se apresentam vestidos de t�nicas, envoltos em
largos panos, ou mesmo com os trajes que usavam em vida. O envolvimento em panos
parece costume geral no mundo dos Esp�ritos. Mas, onde ir�o eles buscar vestu�rios
semelhantes em tudo aos que traziam quando vivos, com todos os acess�rios que os
completavam? E fora de qualquer d�vida que n�o levaram consigo esses objetos, pois
que os objetos reais temo-los ainda sob as vistas. Donde ent�o prov�m os de que usam
no outro mundo? Esta quest�o deu sempre muito que pensar. Para muitas pessoas,
por�m, era simples motivo de curiosidade. A ocorr�ncia, todavia, confirmava uma
quest�o de princ�pio, de grande import�ncia, porquanto sua
165
DO LABORAT�RIO DO MUNDO INVIS�VEL

solu��o nos fez entrever uma lei geral, que tamb�m encontra aplica��o no nosso mundo
corp�reo. M�ltiplos fatos a vieram complicar e demonstrar a insufici�ncia das teorias
com que tentaram explic�-la.
At� certo ponto, poder-se-ia compreender a exist�ncia do traje, por ser poss�vel
consider�-lo como, de alguma sorte, fazendo parte do indiv�duo. O mesmo, por�m, n�o
se d� com os objetos acess�rios, qual, por exemplo, a caixa de rap� do visitante da
senhora doente, de quem falamos no n. 116. Notemos, a este prop�sito, que ali n�o se
tratava de um morto, mas de um vivo, e que tal senhor, quando voltou em pessoa, trazia
na m�o uma caixa de rap� semelhante em tudo � da apari��o. Onde encontrara seu
Esp�rito a que tinha consigo, quando sentado junto ao leito da doente? Poder�amos citar
grande n�mero de casos em que Esp�ritos, de mortos ou de vivos, apareceram com
diversos objetos, tais como bengalas, armas, cachimbos, lanternas, livros, etc.
Veio-nos ent�o uma id�ia: a de que, possivelmente, aos corpos inertes da terra
correspondem outros, an�logos, por�m et�reos, no mundo invis�vel; de que a mat�ria
condensada, que forma os objetos, pode ter uma parte quintessenciada, que nos escapa
aos sentidos. N�o era destitu�da de verossimilhan�a esta teoria, mas se mostrava
impotente para explicar todos os fatos. Um h�, sobretudo, que parecia destinado a
frustrar todas as interpreta��es.
At� ent�o, n�o se tratara sen�o de imagens, ou apar�ncias. Vimos perfeitamente
bem que o perisp�rito pode adquirir as propriedades da mat�ria e tornar-se tang�vel, mas
essa tangibilidade � apenas moment�nea e o corpo s�lido se desvanece qual sombra. J� �
um fen�meno muito extraordin�rio; por�m, o que o � ainda mais � produzir-se mat�ria
s�lida persistente, conforme o provam numerosos fatos aut�nticos, notadamente o da
escrita direta, de que falaremos minuciosamente em cap�tulo especial. Todavia, como
este fen�meno se liga intimamente ao assunto de que agora tratamos, constituindo uma
de suas mais positi-
166
CAP�TULO VIII

vas aplica��es, antecipar-nos-emos, colocando-o antes do lugar em que, pela ordem,
deveria ser explanado.

127. A escrita direta, ou pneumatografia, � a que se produz espontaneamente,
sem o concurso, nem da m�o do m�dium, nem do l�pis. Basta tomar-se de uma folha de
papel branco, o que se pode fazer com todas as precau��es necess�rias, para se ter a
certeza da aus�ncia de qualquer fraude, dobr�-la e deposit�-la em qualquer parte, numa
gaveta, ou simplesmente sobre um m�vel. Feito isso, se a pessoa estiver nas devidas
condi��es, ao cabo de mais ou menos longo tempo encontrar-se-�o, tra�ados no papel,
letras, sinais diversos, palavras, frases e at� disserta��es, as mais das vezes com uma
subst�ncia acinzentada, an�loga � plumbagina, doutras vezes com l�pis vermelho, tinta
comum e, mesmo, tinta de imprimir.
Eis o fato em toda a sua simplicidade e cuja reprodu��o, se bem pouco comum,
n�o �, contudo, muito rara, porquanto pessoas h� que a obt�m com grande facilidade.
Se ao papel se juntasse um l�pis, poder-se-ia supor que o Esp�rito se servira deste para
escrever. Mas, desde que o papel � deixado inteiramente s�, evidente se torna que a
escrita se formou por meio de uma mat�ria depositada sobre ele. De onde tirou o
Esp�rito essa mat�ria? Tal o problema, a cuja solu��o fomos levados pela caixa de rap� a
que h� pouco nos refer�amos.

128. Foi o Esp�rito S�o Lu�s quem nos deu essa solu��o, mediante as respostas
seguintes:

1� Citamos um caso de apari��o do Esp�rito de uma pessoa viva. Esse Esp�rito
tinha uma caixa de rap�, do qual tomava pitadas. Experimentava ele a sensa��o que
experimenta um indiv�duo que faz o mesmo?
"N�o."

2� Aquela caixa de rap� tinha a forma da de que ele se servia habitualmente e que
se achava guardada em sua casa. Que era a dita caixa nas m�os da apari��o?
167
DO LABORAT�RIO DO MUNDO INVIS�VEL

"Uma apar�ncia. Era para que a circunst�ncia fosse notada, como realmente foi,
e n�o tomassem a apari��o por uma alucina��o devida ao estado de sa�de da vidente. O
Esp�rito queria que a senhora em quest�o acreditasse na realidade da sua presen�a e,
para isso, tomou todas as apar�ncias da realidade."

3� Dizes que era uma apar�ncia; mas, uma apar�ncia nada tem de real, � como
uma ilus�o de �tica. Desej�ramos saber se aquela caixa de rap� era apenas uma imagem
sem realidade, ou se nela havia alguma coisa de material?
"Certamente. E com o aux�lio deste princ�pio material que o perisp�rito toma a
apar�ncia de vestu�rios semelhantes aos que o Esp�rito usava quando vivo."
NOTA. � evidente que a palavra apar�ncia deve ser aqui tomada no sentido de
aspecto, imita��o. A caixa de rap� real n�o estava l�; a que o Esp�rito deixava ver era
apenas a representa��o daquela: era, pois, com rela��o ao original, uma simples
apar�ncia, embora formada de um princ�pio material
A experi�ncia ensina que nem sempre se deve dar significa��o literal a certas
express�es de que usam os Esp�ritos. Interpretando-as de acordo com as nossas id�ias,
expomo-nos a grandes equ�vocos. Da� a necessidade de aprofundar-se o sentido de suas
palavras, todas as vezes que apresentem a menor ambig�idade. � esta uma
recomenda��o que os pr�prios Esp�ritos constantemente fazem. Sem a explica��o que
provocamos, o termo apar�ncia, que de cont�nuo se reproduz nos casos an�logos,
poderia prestar-se a uma interpreta��o falsa.

4� Dar-se-� que a mat�ria inerte se desdobre? Ou que haja no mundo invis�vel
uma mat�ria essencial, capaz de tomar a forma dos objetos que vemos? Numa palavra,
ter�o estes um duplo et�reo no mundo invis�vel como os homens s�o nele representados
pelos Esp�ritos?
"N�o � assim que as coisas se passam. Sobre os elementos materiais
disseminados por todos os pontos do espa�o, na vossa atmosfera, t�m os Esp�ritos um
poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, eles concentrar � sua vontade esses
elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda � dos objetos materiais."
168
CAP�TULO VIII

NOTA. Esta pergunta, como se pode ver, era a tradu��o do nosso pensamento,
isto �, da id�ia que form�vamos da natureza de tais objetos. Se as respostas, conforme
alguns o pretendem, fossem o reflexo do pensamento, houv�ramos obtido a confirma��o
da nossa teoria e n�o uma teoria contr�ria.

5� Formulo novamente a quest�o, de modo categ�rico, a fim de evitar todo e
qualquer equ�voco:
S�o alguma coisa as vestes de que os Esp�ritos se cobrem?
"Parece-me que a minha resposta precedente resolve a quest�o. N�o sabes que o
pr�prio perisp�rito � alguma coisa?"

6� Resulta, desta explica��o, que os Esp�ritos fazem passar a mat�ria et�rea pelas
transforma��es que queiram e que, portanto, com rela��o � caixa de rap�, o Esp�rito
n�o a encontrou completamente feita, f�-la ele pr�prio, no momento em que teve
necessidade dela, por ato de sua vontade. E, do mesmo modo que a fez, p�de desfaz�-
la. Outro tanto naturalmente se d� com todos os demais objetos, como vestu�rios, j�ias,
etc. Ser� assim?
"Mas, evidentemente."

7� A caixa de rap� se tornou t�o vis�vel para a senhora de que se trata, que lhe
produziu a ilus�o de uma tabaqueira material. Teria o Esp�rito podido torn�-la tang�vel
para a mesma senhora?
"Teria."

8� T�-la-ia a senhora podido tomar nas m�os, crente de estar segurando uma
caixa de rap� verdadeira?
"Sim."

9� Se a abrisse, teria achado nela rap�? E, se aspirasse esse rap�, ele a faria
espirrar?
"Sem d�vida."

10� Pode ent�o o Esp�rito dar a um objeto, n�o s� a forma, mas tamb�m
propriedades especiais?
"Se o quiser. Baseado neste princ�pio foi que respondi afirmativamente �s
perguntas anteriores. Tereis provas da poderosa a��o que os Esp�ritos exercem sobre a
mat�-
169
DO LABORAT�RIO DO MUNDO INVIS�VEL

ria, a��o que estais longe de suspeitar, como eu disse h� pouco.

11� Suponhamos, ent�o, que quisesse fazer uma subst�ncia venenosa. Se uma
pessoa a ingerisse, ficaria envenenada?
"Teria podido, mas n�o faria, por n�o lhe ser isso permitido."

12� Poder� fazer uma subst�ncia salutar e pr�pria para curar uma enfermidade? E
j� se ter� apresentado algum caso destes?
"J�, muitas vezes."

13� Ent�o, poderia tamb�m fazer uma subst�ncia alimentar? Suponhamos que
tenha feito uma fruta, uma iguaria qualquer: se algu�m pudesse comer a fruta ou a
iguaria, ficaria saciado?
"Ficaria, sim; mas, n�o procures tanto para achar o que � t�o f�cil de
compreender. Um raio de sol basta para tornar percept�veis aos vossos �rg�os
grosseiros essas part�culas materiais que enchem o espa�o onde viveis. N�o sabes que o
ar cont�m vapores d�gua? Condensa-os e os far�s voltar ao estado normal. Priva-as de
calor e eis que essas mol�culas impalp�veis e invis�veis se tornar�o um corpo s�lido e
bem s�lido, e, assim, muitas outras subst�ncias de que os qu�micos tirar�o maravilhas
ainda mais espantosas. Simplesmente, o Esp�rito disp�e de instrumentos mais perfeitos
do que os vossos: a vontade e a permiss�o de Deus."
NOTA. A quest�o da saciedade � aqui muito importante. Como pode produzir a
saciedade uma subst�ncia cuja exist�ncia e propriedades s�o meramente tempor�rias e,
de certo modo, convencionais? O que se d� � que essa subst�ncia, pelo seu contacto
com o est�mago, produz a sensa��o da saciedade, mas n�o a saciedade que resulta da
plenitude. Desde que uma subst�ncia dessa natureza pode atuar sobre a economia e
modificar um estado m�rbido, tamb�m pode, perfeitamente. atuar sobre o est�mago e
produzir a' a impress�o da saciedade. Rogamos, todavia, aos senhores farmac�uticos e
inventores de reconstituintes que n�o se encham de zelos, nem creiam que os Esp�ritos
lhes venham fazer concorr�n-
170
CAP�TULO VIII

cia. Esses casos s�o raros, excepcionais e nunca dependem da vontade. Doutro modo,
toda a gente se alimentaria e curaria a pre�o barat�ssimo.

14� Os objetos que, pela vontade do Esp�rito, se tornam tang�veis, poderiam
permanecer com esse car�ter e tornarem-se de uso?
"Isso poderia dar-se,mas n�o se faz. Est� fora das leis."

15� T�m todos os Esp�ritos, no mesmo grau, o poder de produzir objetos
tang�veis?
"� fora de d�vida que quanto mais elevado � o Esp�rito, tanto mais facilmente o
consegue. Por�m, ainda aqui, tudo depende das circunst�ncias. Desse poder tamb�m
podem dispor os Esp�ritos inferiores."

16� O Esp�rito tem sempre o conhecimento exato do modo por que comp�e suas
vestes, ou os objetos cuja apar�ncia ele faz vis�vel?
"N�o; muitas vezes concorre para a forma��o de todas essas coisas, praticando
um ato instintivo, que ele pr�prio n�o compreende, se j� n�o estiver bastante esclarecido
para isso."

17� Uma vez que o Esp�rito pode extrair do elemento universal os materiais que
lhe s�o necess�rios � produ��o de todas essas coisas e dar-lhes uma realidade
tempor�ria, com as propriedades que lhes s�o peculiares, tamb�m poder� tirar dali o que
for preciso para escrever, possibilidade que nos daria a explica��o do fen�meno da
escrita direta?
"At� que, afinal, chegaste ao ponto."
NOTA. Era, com efeito, a� que quer�amos chegar com todas as nossas quest�es
preliminares. A resposta prova que o Esp�rito lera o nosso pensamento.

18� Pois que a mat�ria de que se serve o Esp�rito carece de persist�ncia, como �
que n�o desaparecem os tra�os da escrita direta?
"N�o fa�as jogo de palavras. Primeiramente, n�o empreguei o termo - nunca.
Tratava-se de um objeto material volumoso, ao passo que aqui se trata de sinais que,
por
171
DO LABORAT�RIO DO MUNDO INVIS�VEL

ser �til conserv�-los, s�o conservados. O que quis dizer foi que os objetos assim
compostos pelos Esp�ritos n�o poderiam tornar-se objetos de uso comum por n�o haver
neles, realmente, agrega��o de mat�ria, como nos vossos corpos s�lidos."

129. A teoria acima se pode resumir desta maneira: o Esp�rito atua sobre a
mat�ria; da mat�ria c�smica universal tira os elementos de que necessite para formar, a
seu bel-prazer, objetos que tenham a apar�ncia dos diversos corpos existentes na Terra.
Pode igualmente, pela a��o da sua vontade, operar na mat�ria elementar uma
transforma��o �ntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade �
inerente � natureza do Esp�rito, que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando
necess�rio, sem disso se aperceber. Os objetos que o Esp�rito forma, t�m exist�ncia
tempor�ria, subordinada � sua vontade, ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode
faz�-los e desfaz�-los livremente. Em certos casos, esses objetos, aos olhos de pessoas
vivas, podem apresentar todas as apar�ncias da realidade, isto �, tornarem-se
momentaneamente vis�veis e at� mesmo tang�veis. H� forma��o; por�m, n�o cria��o,
atento que do nada o Esp�rito nada pode tirar.

130. A exist�ncia de uma mat�ria elementar �nica est� hoje quase geralmente
admitida pela Ci�ncia, e os Esp�ritos, como se acaba de ver, a confirmam. Todos os
corpos da Natureza nascem dessa mat�ria que, pelas transforma��es por que passa,
tamb�m produz as diversas propriedades desses mesmos corpos. Da� vem que uma
subst�ncia salutar pode, por efeito de simples modifica��o, tornar-se venenosa, fato de
que a Qu�mica nos oferece numerosos exemplos. Toda gente sabe que, combinadas em
certas propor��es, duas subst�ncias inocentes podem dar origem a uma que seja
delet�ria. Uma parte de oxig�nio e duas de hidrog�nio, ambos inofensivos, formam a
�gua. Juntai um �tomo de oxig�nio e tereis um liquido corrosivo.
172
CAP�TULO VIII

Sem mudan�a nenhuma das propor��es, �s vezes, a simples altera��o no modo de
agrega��o molecular basta para mudar as propriedades. Assim � que um corpo opaco
pode tornar-se transparente e vice-versa. Pois que ao Esp�rito � poss�vel t�o grande a��o
sobre a mat�ria elementar, concebe-se que lhe seja dado n�o s� formar subst�ncias, mas
tamb�m modificar-lhes as propriedades, fazendo para isto a sua vontade o efeito de
reativo.

131. Esta teoria nos fornece a solu��o de um fato bem conhecido em
magnetismo, mas inexplicado at� hoje: o da mudan�a das propriedades da �gua, por
obra da vontade. O Esp�rito atuante � o do magnetizador, quase sempre assistido por
outro Esp�rito. Ele opera uma transmuta��o por meio do fluido magn�tico que, como
atr�s dissemos, e a subst�ncia que mais se aproxima da mat�ria c�smica, ou elemento
universal. Ora, desde que ele pode operar uma modifica��o nas propriedades da �gua,
pode tamb�m produzir um fen�meno an�logo com os fluidos do organismo, donde o
efeito curativo da a��o magn�tica, convenientemente dirigida.
Sabe-se que papel capital desempenha a vontade em todos os fen�menos do
magnetismo. Por�m, como se h� de explicar a a��o material de t�o sutil agente? A
vontade n�o � um ser, uma subst�ncia qualquer; n�o �, sequer, uma propriedade da
mat�ria mais et�rea que exista. A vontade � atributo essencial do Esp�rito, isto �, do ser
pensante. Com o aux�lio dessa alavanca, ele atua sobre a mat�ria elementar e, por uma
a��o consecutiva, reage sobre seus compostos, cujas propriedades �ntimas v�m assim a
ficar transformadas.
Tanto quanto do Esp�rito errante, a vontade � igualmente atributo do Esp�rito
encarnado; da� o poder do magnetizador, poder que se sabe estar na raz�o direta da
for�a de vontade. Podendo o Esp�rito encarnado atuar sobre a mat�ria elementar, pode
do mesmo modo mudar-lhe as propriedades, dentro de certos limites. Assim se explica a
faculdade de cura pelo contacto e pela imposi��o das
173
DO LABORAT�RIO DO MUNDO INVIS�VEL

m�os, faculdade que algumas pessoas possuem em grau mais ou menos elevado. (Veja-
se, no cap�tulo dos M�diuns, o par�grafo referente aos M�diuns curadores. Veja-se
tamb�m a Revue Spirite, de julho de 1859, p�gs. 184 e 189: O zuavo de Magenta; Um
)
oficial do ex�rcito da It�lia.
174




CAP�TULO IX

DOS LUGARES ASSOMBRADOS

132. As manifesta��es espont�neas, que em todos os tempos se h�o produzido, e
a persist�ncia de alguns Esp�ritos em darem mostras ostensivas de sua presen�a em
certas localidades, constituem a fonte de origem da cren�a na exist�ncia de lugares mal-
assombrados. As respostas que se seguem foram dadas a perguntas feitas sobre este
assunto:

1� Os Esp�ritos se apegam unicamente �s pessoas, ou tamb�m �s coisas?
"Depende da eleva��o deles. Alguns Esp�ritos podem apegar-se aos objetos
terrenos. Os avarentos, por exemplo, que esconderam seus tesouros e que ainda n�o
est�o bastante desmaterializados, muitas vezes se obstinam em vigi�-los e montar-lhes
guarda."

2� T�m os Esp�ritos errantes lugares de sua predile��o?
175
DOS LUGARES ASSOMBRADOS

"O princ�pio ainda � aqui o mesmo. Os Esp�ritos que j� se n�o acham apegados �
Terra v�o para onde se lhes oferece ensejo de praticar o amor. S�o atra�dos mais pelas
pessoas do que pelos objetos materiais. Contudo, pode dar-se que dentre eles alguns
tenham, durante certo tempo, prefer�ncia por determinados lugares. Esses, por�m, s�o
sempre Esp�ritos inferiores."

3� O apego dos Esp�ritos a uma localidade, sendo sinal de inferioridade,
constituir� igualmente prova de serem eles maus?
"Certamente que n�o. Pode um Esp�rito ser pouco adiantado, sem que por isso
seja mau. N�o se observa o mesmo entre os homens?"

4� Tem qualquer fundamento a cren�a de que os Esp�ritos freq�entam de
prefer�ncia as ru�nas?
"Nenhum. Os Esp�ritos v�o a tais lugares, como a todos os outros. A imagina��o
dos homens � que, despertada pelo aspecto l�gubre de certos s�tios, atribui � presen�a
dos Esp�ritos o que n�o passa, quase sempre, de efeito muito natural. Quantas vezes o
medo n�o tem feito que se tome por fantasma a sombra de uma �rvore e por espectros o
grito de um animal, ou o sopro do vento? Os Esp�ritos gostam da presen�a dos homens;
da� o preferirem os lugares habitados, aos lugares desertos."
a) Contudo, pelo que sabemos da diversidade dos caracteres entre os Esp�ritos,
podemos inferir a exist�ncia de Esp�ritos misantropos, que prefiram a solid�o.
"Por isso mesmo, n�o respondi de modo absoluto � quest�o. Disse que eles
podem vir aos lugares desertos, como a toda parte. � evidente que, se alguns se
conservam insulados, � porque assim lhes apraz. Isso, por�m, n�o constitui motivo para
que for�osamente tenham predile��o pelas ru�nas. Em muito maior n�mero os h� nas
cidades e nos pal�cios, do que no interior dos bosques."

5� Em geral, as cren�as populares guardam um fundo de verdade. Qual ter� sido
a origem da cren�a em lugares mal-assombrados?
176
CAP�TULO IX

"O fundo de verdade est� na manifesta��o dos Esp�ritos, na qual o homem
instintivamente acreditou desde todos os tempos. Mas, conforme disse acima, o aspecto
l�gubre de certos lugares lhe fere a imagina��o e esta o leva naturalmente a colocar
nesses lugares os seres que ele considera sobrenaturais. Demais, a entreter essa cren�a
supersticiosa, a� est�o as narrativas po�ticas e os contos fant�sticos com que o
acalentam na inf�ncia."

6� H�, para os Esp�ritos que costumam reunir-se, dias e horas em que prefiram
faz�-lo?
"N�o. Os dias e as horas s�o medidas de tempo para uso dos homens e para a
vida corp�rea, das quais os Esp�ritos nenhuma necessidade sentem e nenhum caso
fazem."

7� Donde nasceu a id�ia de que os Esp�ritos v�m preferentemente durante a
noite?
"Da impress�o que o sil�ncio e a obscuridade produzem na imagina��o. Todas
essas cren�as s�o supersti��es que o conhecimento racional do Espiritismo destruir�. O
mesmo se d� com os dias e as horas que muitos julgam lhes serem mais favor�veis. Fica
certo de que a influ�ncia da meia-noite nunca existiu, sen�o nos contos."
a) Sendo assim, por que � ent�o que alguns Esp�ritos anunciam sua vinda e suas
manifesta��es para certos e determinados dias, como a sexta-feira, por exemplo?
"Isso fazem Esp�ritos que aproveitam a credulidade dos homens para se
divertirem. Pela mesma raz�o, h� os que se dizem o diabo, ou d�o a si mesmos nomes
infernais. Mostrai-lhes que n�o vos deixais enganar e n�o mais voltar�o."

8� Preferem os Esp�ritos freq�entar os t�mulos onde repousam seus corpos?
"O corpo era uma simples vestidura. Do mesmo modo que o prisioneiro
nenhuma atra��o sente pelas correntes que o prendem, os Esp�ritos nenhuma
experimentam pelo envolt�rio que os fez sofrer. A lembran�a das pessoas que lhes s�o
caras � a �nica coisa que para eles tem valor."
177
DOS LUGARES ASSOMBRADOS

a) S�o-lhes mais agrad�veis, do que quaisquer outras, as preces que por eles se
fa�am junto dos t�mulos de seus corpos?
"A prece, bem o sabes, � uma evoca��o que atrai os Esp�ritos. Tanto maior a��o
ter�, quanto mais fervorosa e sincera for. Ora, junto de um t�mulo venerado, sempre se
est� em maior recolhimento, do que algures, e a conserva��o de estimadas rel�quias �
em testemunho de afei��o dado ao Esp�rito e que nunca deixa de o sensibilizar.
O que atua sobre o Esp�rito � sempre o pensamento e n�o os objetos materiais. Mais
influ�ncia, do que sobre o Esp�rito, exercem esses objetos sobre aquele que ora, porque
lhe fixam a aten��o."

9� A vista disso, parece que n�o se deve considerar absolutamente falsa a cren�a
em lugares mal-assombrados?
"Dissemos que certos Esp�ritos podem sentir-se atra�dos por coisas materiais.
Podem s�-lo por determinados lugares, onde parecem estabelecer domic�lio, at� que
desapare�am as circunst�ncias que os faziam buscar esses lugares. "
a) Que circunst�ncias podem induzi-los a buscar tais lugares?
"A simpatia por algumas das pessoas que os freq�entam, ou o desejo de com
elas se comunicarem. Entretanto, nem sempre os animam inten��es louv�veis. Quando
s�o Esp�ritos maus, podem pretender tirar vingan�a de pessoas de quem guardam
queixas. A perman�ncia em determinado lugar tamb�m pode ser, para alguns, uma
puni��o que lhes � infligida, sobretudo se ali cometeram um crime, a fim de que o
tenham constantemente diante dos olhos (1).''

10� Os lugares assombrados sempre o s�o por antigos habitantes deles?
"Sempre, n�o - �s vezes, porquanto, se o antigo habitante de um desses lugares �
Esp�rito elevado, t�o pouco se preocupar� com a sua habita��o terrena, quanto

__________
(1) Veja-se Revue Spirite, de fevereiro de 1860: "Hist�ria de um danado".
178
CAP�TULO IX

com o seu corpo. Os Esp�ritos que assombram certos lugares muitas vezes n�o t�m,
para assim procederem, outro motivo que n�o simples capricho, a menos que para l�
sejam atra�dos pela simpatia que lhes inspirem determinadas pessoas."
a) Podem estabelecer-se num lugar desses com o fito de protegerem uma pessoa,
ou a pr�pria fam�lia?
"Certamente, se forem Esp�ritos bons; por�m, neste caso, nunca manifestam sua
presen�a por meios desagrad�veis."

11� Haver� alguma coisa de real na hist�ria da Dama Branca'?
"Mero conto, extra�do de mil fatos verdadeiros."

os
12� Ser� racional temerem-se os lugares assombrados pel Esp�ritos?
"N�o. Os Esp�ritos que freq�entam certos lugares, produzindo neles desordens,
antes querem divertir-se � custa da credulidade e da poltronaria dos homens, do que lhes
fazer mal. Ali�s, deveis lembrar-vos de que em toda parte h� Esp�ritos e de que, assim,
onde quer que estejais, os tereis ao vosso lado, ainda mesmo nas mais tranq�ilas
habita��es. Quase sempre, eles s� assombram certas casas, porque encontram ensejo de
manifestarem sua presen�a nelas."

13� Haver� meios de os expulsar?
"H�; por�m, as mais das vezes o que fazem, para isso, os atrai, em vez de os
afastar. O melhor meio de expulsar os maus Esp�ritos consiste em atrair os bons. Atra�,
pois, os bons Esp�ritos, praticando todo o bem que puderdes, e os maus desaparecer�o,
visto que o bem e o mal s�o incompat�veis. Sede sempre bons e somente bons Esp�ritos
tereis junto de v�s."
a) H�, no entanto, pessoas muito bondosas que vivem �s voltas com as tropelias
dos maus Esp�ritos. Por qu�?
"Se essas pessoas s�o realmente boas, isso acontece talvez como prova, para
lhes exercitar a paci�ncia e concit�-las a se tornarem ainda melhores. Fica certo, por�m,
de que n�o s�o os que continuamente falam das virtudes
179
DOS LUGARES ASSOMBRADOS

os que mais as possuem. Aquele que � possuidor de qualidades reais quase sempre o
ignora, ou delas nunca fala."

14� Que se deve pensar com rela��o � efic�cia dos exorcismos, para expelir dos
lugares mal-assombrados os maus Esp�ritos?
"J� tiveste ocasi�o de verificar a efic�cia desse processo? N�o tens visto, ao
contr�rio, as tropelias redobrarem de intensidade, depois das cerim�nias do exorcismo?
� que os Esp�ritos que as causam se divertem com o serem tomados pelo diabo.
"Tamb�m, os que se n�o apresentam com inten��es mal�volas podem manifestar
sua presen�a por meio de arru�dos e at� tornando-se vis�veis, mas nunca praticam
desordens, nem inc�modos. S�o, freq�entemente, Esp�ritos sofredores, cujos
sofrimentos podeis aliviar orando por eles. Outras vezes, s�o mesmo Esp�ritos
benfazejos, que vos querem provar estarem junto de v�s, ou, ent�o, Esp�ritos levianos
que brincam. Como quase sempre os que perturbam o repouso s�o Esp�ritos que se
divertem, o que de melhor t�m a fazer, os que se v�em perseguidos, � rir do que lhes
sucede. Os perturbadores se cansam, verificando que n�o conseguem meter medo, nem
impacientar." (Veja-se atr�s o cap�tulo V: Das manifesta��es espont�neas. )
Resulta das explica��es acima haver Esp�ritos que se prendem a certos lugares,
preferindo permanecer neles, sem que, entretanto, tenham necessidade de manifestar sua
presen�a por meio de efeitos sens�veis. Qualquer lugar pode constituir morada
obrigat�ria, ou predileta de um Esp�rito, embora mau, sem que jamais qualquer
manifesta��o se produza.
Os que se prendem a certas localidades, ou a certas coisas materiais nunca s�o
Esp�ritos superiores. Contudo, mesmo que n�o perten�am a esta categoria, pode dar-se
que n�o sejam maus e nenhuma inten��o m� alimentem. N�o raro, s�o at� comensais
mais �teis do que prejudiciais, porquanto, desde que se interessam pelas pessoas, podem
prot�ge-las.
180




CAP�TULO X

DA NATUREZA DAS COMUNICA��ES

Comunica��es grosseiras, fr�volas, s�rias e instrutivas

133. Dissemos que todo efeito, que revela, na sua causalidade, um ato, ainda
que insignificant�ssimo, de livre vontade, atesta, por essa circunst�ncia, a exist�ncia de
uma causa inteligente. Assim, um simples movimento de mesa, que responda ao nosso
pensamento, ou manifeste car�ter intencional, pode ser considerado uma manifesta��o
inteligente. Se a isso houvesse de ficar circunscrito o resultado, s� muito secund�rio
interesse nos despertaria. Contudo, j� seria alguma coisa o dar-nos a prova de que, em
tais fen�menos, h� mais do que uma a��o puramente material. Nula, ou, pelo menos,
muito restrita seria a utilidade pr�tica que da� decorreria. O caso, por�m, muda
inteiramente de figura, quando essa intelig�ncia ganha um desenvolvimento tal, que
permite regular e cont�nua troca de id�ias. J� n�o h� ent�o simples manifesta��es
inteligentes,
181
DA NATUREZA DAS COMUNICA��ES

mas verdadeiras comunica��es. Os meios de que hoje dispomos permitem que as
obtenhamos t�o extensas, t�o expl�citas e t�o r�pidas, como as que mantemos com os
homens.
Quem estiver bem compenetrado, segundo a escala esp�rita ("O Livro dos
Esp�ritos", n. 100), da variedade infinita que apresentam os Esp�ritos, sob o duplo
aspecto da intelig�ncia e da moralidade, facilmente se convencer� de que h� de haver
diferen�a entre as suas comunica��es; que estas h�o de refletir a eleva��o, ou a baixeza
de suas id�ias, o saber e a ignor�ncia deles, seus v�cios e suas virtudes; que, numa
palavra, elas n�o se h�o de assemelhar mais do que as dos homens, desde os selvagens
at� o mais ilustrado europeu. Em quatro categorias principais se podem grupar os
matizes que apresentam. Segundo seus caracteres mais acentuados, elas se dividem em:
grosseiras, fr�volas, s�riase instrutivas.

134. Comunica��es grosseiras s�o as concebidas em termos que chocam o
decoro. S� podem provir de Esp�ritos de baixa estofa, ainda cobertos de todas as
impurezas da mat�ria, e em nada diferem das que provenham de homens viciosos e
grosseiros. Repugnam a quem quer que n�o seja inteiramente baldo de toda a delicadeza
de sentimentos, pela raz�o de que, acordemente com o car�ter dos Esp�ritos, elas ser�o
triviais, ign�beis, obscenas, insolentes, arrogantes, mal�volas e mesmo �mpias.

135. As comunica��es fr�volas emanam de Esp�ritos levianos, zombeteiros, ou
brincalh�es, antes maliciosos do que maus, e que nenhuma import�ncia ligam ao que
dizem. Como nada de indecoroso encerram, essas comunica��es agradam a certas
pessoas, que com elas se divertem, porque encontram prazer nas confabula��es f�teis,
em que muito se fala para nada dizer. Tais Esp�ritos saem-se �s vezes com tiradas
espirituosas e mordazes e, por entre fac�cias vulgares, dizem n�o raro duras verdades,
que quase sempre ferem com justeza. Em torno de n�s pululam
182
CAP�TULO X

os Esp�ritos levianos, que de todas as ocasi�es aproveitam para se intrometerem nas
comunica��es. A verdade � o que menos os preocupa; da� o maligno encanto que acham
em mistificar os que t�m a fraqueza e mesmo a presun��o de neles crer sob palavra. As
pessoas que se comprazem nesse g�nero de comunica��es naturalmente d�o acesso aos
Esp�ritos levianos e falaciosos. Delas se afastam os Esp�ritos s�rios, do mesmo modo
que na sociedade humana os homens s�rios evitam a companhia dos doidivanas.

136. As comunica��es s�rias s�o ponderosas quanto ao assunto e elevadas
quanto � forma. Toda comunica��o que, isenta de frivolidade e de grosseria, objetiva
um fim �til, ainda que de car�ter particular, �, por esse simples fato, uma comunica��o
s�ria. Nem todos os Esp�ritos s�rios s�o igualmente esclarecidos; h� muita coisa que eles
ignoram e sobre que podem enganar-se de boa-f�. Por isso � que os Esp�ritos
verdadeiramente superiores nos recomendam de cont�nuo que submetamos todas as
comunica��es ao crivo da raz�o e da mais rigorosa l�gica.
No tocante a comunica��es s�rias, cumpre se distingam as verdadeiras das
falsas, o que nem sempre � f�cil, porquanto, exatamente � sombra da eleva��o da
linguagem, � que certos Esp�ritos presun�osos, ou pseudo-s�bios, procuram conseguir a
preval�ncia das mais falsas id�ias e dos mais absurdos sistemas. E, para melhor
acreditados se fazerem e maior import�ncia ostentarem, n�o escrupulizam de se
adornarem com os mais respeit�veis nomes e at� com os mais venerados. Esse um dos
maiores escolhos da ci�ncia pr�tica; dele trataremos mais adiante, com todos os
desenvolvimentos que t�o importante assunto reclama, ao mesmo tempo que daremos a
conhecer os meios de premoni��o contra o perigo das falsas comunica��es.

137. Instrutivas s�o as comunica��es s�rias cujo principal objeto consiste num
ensinamento qualquer, dado pelos Esp�ritos, sobre as ci�ncias, a moral, a filosofia,
183
DA NATUREZA DAS COMUNICA��ES

etc. S�o mais ou menos profundas, conforme o grau de eleva��o e de desmaterializa��o
do Esp�rito. Para se retirarem frutos reais dessas comunica��es, preciso � que elas sejam
regulares e continuadas com perseveran�a. Os Esp�ritos s�rios se ligam aos que desejam
instruir-se e lhes secundam os esfor�os, deixando aos Esp�ritos levianos a tarefa de
divertirem os que em tais manifesta��es s� v�em passageira distra��o. Unicamente pela
regularidade e freq��ncia daquelas comunica��es se pode apreciar o valor moral e
intelectual dos Esp�ritos que as d�o e a confian�a que eles merecem. Se, para julgar os
homens, se necessita de experi�ncia, muito mais ainda � esta necess�ria, para se julgarem
os Esp�ritos.
Qualificando de instrutivas as comunica��es, supomo-las verdadeiras, pois o
que n�o for verdadeiro n�o pode ser instrutivo, ainda que dito na mais imponente
linguagem. Nessa categoria, n�o podemos, conseguintemente, incluir certos ensinos que
de s�rio apenas t�m a forma, muitas vezes empolada e enf�tica, com que os Esp�ritos
que os ditam, mais presun�osos do que instru�dos, contam iludir os que os recebem.
Mas, n�o podendo suprir a subst�ncia que lhes falta, s�o incapazes de sustentar por
muito tempo o papel que procuram desempenhar. A breve trecho, traem-se, pondo a nu
a sua fraqueza, desde que alguma seq��ncia tenham os seus ditados, ou que eles sejam
levados aos seus �ltimos redutos.

l38. S�o variad�ssimos os meios de comunica��o. Atuando sobre os nossos
�rg�os e sobre todos os nossos sentidos, podem os Esp�ritos manifestar-se � nossa
vis�o, por meio das apari��es; ao nosso tato, por impress�es tang�veis, vis�veis ou
ocultas; � audi��o pelos ru�dos; ao olfato por meio de odores sem causa conhecida. Este
�ltimo modo de manifesta��o, se bem muito real, �, incontestavelmente, o mais incerto,
pelas m�ltiplas causas que podem induzir em erro. Da� o nos n�o demorarmos em tratar
dele. O que devemos examinar com cuidado s�o os diversos meios de se obterem
comunica��es, isto �, uma permuta
184
CAP�TULO X

regular e continuada de pensamentos. Esses meios s�o: as pancadas, a palavra e a
escrita. Estud�-los-emos em cap�tulos especiais.
185




CAP�TULO XI

DA SEMATOLOGIA E DA TIPTOLOGIA

Linguagem dos sinais e das pancadas - Tiptologia alfab�tica.

139. As primeiras comunica��es inteligentes foram obtidas por meio de
pancadas, ou da tiptologia. Muito limitados eram os recursos que oferecia esse meio
primitivo, que se ressentia de estar na inf�ncia a arte, tudo se reduzindo, nas
comunica��es, a respostas monossil�bicas, por - sim, ou - n�o, mediante convencionado
n�mero de pancadas. Mais tarde, foi aperfei�oado, como j� dissemos.
De duas maneiras se obt�m as pancadas, com m�diuns especiais. Esse modo de
operar demanda certa aptid�o para as manifesta��es f�sicas. A primeira, a que se poderia
chamar tiptologia por meio de b�sculo, consiste no movimento da mesa, que se levanta
de um s� lado e cai batendo com um dos p�s. Basta para isso que o m�dium lhe ponha
186
CAP�TULO XI

a m�o na borda. Se se quiser confabular com determinado Esp�rito, ser� necess�rio
evoc�-lo. No caso contr�rio, manifesta-se o primeiro que chegue, ou o que tenha o
costume de apresentar-se. Tendo convencionado, por exemplo -que uma pancada
significar� - sim e duas pancadas - n�o, ou vice-versa, indiferentemente, o
experimentador dirigir� ao Esp�rito as perguntas que quiser. Veremos adiante quais as
de que cumpre se abstenha. O inconveniente est� na brevidade das respostas e na
dificuldade de formular a pergunta de modo a dar lugar a um sim, ou a um n�o.
Suponhamos se pergunte ao Esp�rito: que desejas? Ele n�o poder� responder sen�o com
uma frase. Ser� preciso ent�o dizer: desejas isto? N�o. - Aquilo? Sim. Assim por diante.

140. � de notar-se que, quando se emprega esse meio, o Esp�rito usa tamb�m de
uma esp�cie de m�mica, isto �, exprime a energia da afirma��o ou da nega��o pela for�a
das pancadas. Tamb�m exprime a natureza dos sentimentos que o animam: a viol�ncia,
pela brusquid�o dos movimentos; a c�lera e a impaci�ncia, batendo repetidamente fortes
pancadas, como uma pessoa que bate arrebatadamente com os p�s, chegando �s vezes a
atirar ao ch�o a mesa. Se � am�vel e delicado, inclina, no come�o e no fim da sess�o, a
mesa, � guisa de sauda��o. Se quer dirigir-se diretamente a um dos assistentes, para ele
encaminha a mesa com brandura, ou viol�ncia, conforme deseje testemunhar-lhe afei��o,
ou antipatia. Essa, propriamente falando, a sematologia, ou linguagem dos sinais como
a tiptologia � a linguagem das pancadas. Eis aqui um exemplo not�vel do emprego
espont�neo da sematologia.
Um dia, na sua sala de visitas, onde muitas pessoas se ocupavam com as
manifesta��es, um senhor do nosso conhecimento recebeu uma carta nossa. Enquanto a
lia, a mesa que servia para as experi�ncias veio repentinamente colocar-se-lhe ao lado.
Conclu�da a leitura da carta, ele a foi colocar sobre uma outra mesa, do lado oposto da
187
DA SEMATOLOGIA E DA TIPTOLOGIA

sala. Aquela mesa o acompanhou e se dirigiu para onde estava a carta. Surpreendido
com essa coincid�ncia, calculou o destinat�rio da carta que entre esta e aquele
movimento alguma rela��o havia e interrogou a respeito o Esp�rito, que respondeu ser o
nosso Esp�rito familiar. Informado do ocorrido, perguntamos, por nossa vez, a esse
Esp�rito qual o motivo da visita que fizera �quele senhor. A resposta foi: "� natural que
eu visite as pessoas com que te achas em rela��es, a fim de poder, se for preciso, dar-te,
assim como a elas, os avisos necess�rios."
�, pois, evidente que o Esp�rito quisera chamar a aten��o da pessoa a quem nos
referimos e procurava uma ocasi�o de cientific�-la de que estava l�. Um mudo n�o se
houvera conduzido melhor.

141. N�o tardou que a tiptologia se aperfei�oasse e enriquecesse com um meio
de comunica��o mais completo, o da tiptologia alfab�tica, que consiste em serem as
letras do alfabeto indicadas por pancadas. Podem obter-se ent�o palavras, frases e at�
discursos inteiros. De acordo com o m�todo adotado, a mesa dar� tantas pancadas
quantas forem necess�rias para indicar cada letra, isto �, uma pancada para o a, duas
pancadas para o b, e assim por diante. Enquanto isto, uma pessoa ir� escrevendo as
letras, � medida que forem sendo designadas. O Esp�rito faz sentir que terminou, usando
de um sinal que se haja convencionado.
Como se v�, este modo de operar � muito lento e consome longo tempo para as
comunica��es de certa extens�o. Entretanto, pessoas h� que t�m tido a paci�ncia de se
utilizarem dele, para obter ditados de muitas p�ginas. Por�m, a pr�tica levou �
descoberta de abreviaturas, que permitiram trabalhar-se com maior rapidez. A de uso
mais freq�ente consiste em colocar o experimentador, diante de si, um alfabeto e a s�rie
dos algarismos indicadores das unidades. Estando o m�dium � mesa, uma outra pessoa
percorre sucessivamente as letras do alfabeto, se se trata de obter uma palavra, ou a
s�rie dos algarismos, se de
188
CAP�TULO XI

um n�mero. Apontada a letra que serve, a mesa, por si mesma, bate uma pancada e
escreve-se a letra. Recome�a-se a opera��o para obter-se a segunda, depois a terceira
letra e assim sucessivamente. Se tiver havido engano em alguma letra, o Esp�rito
previne, fazendo a mesa dar repetidas pancadas, ou produzir um movimento especial, e
recome�a-se. Com o h�bito, chega-se a andar bem depressa. Mas, adivinhando o fim de
uma palavra come�ada e com a qual se pode atinar pelo sentido da frase, � como,
sobretudo, se consegue abreviar de muito a comunica��o. Em havendo incerteza,
pergunta-se ao Esp�rito se foi esta ou aquela palavra a que ele quis empregar e o
Esp�rito responde sim, ou n�o.

142. Todos os efeitos que acabamos de indicar podem obter-se de maneira ainda
mais simples, por meio de pancadas produzidas na pr�pria madeira da mesa, sem
nenhuma esp�cie de movimento, processo que j� descrevemos no cap�tulo das
manifesta��es f�sicas, n�mero 64. � a tiptologia interior. Nem todos os m�diuns s�o
igualmente aptos �s manifesta��es deste �ltimo g�nero. Muitos h� que s� obt�m as
pancadas pelo movimento basculat�rio da mesa. Contudo, exercitando-se, podem eles,
em sua maioria, chegar a consegui-las daquela maneira, que tem a dupla vantagem de
ser mais r�pida e de oferecer menos azo � suspeita do que o b�sculo, que se pode
atribuir a uma press�o volunt�ria. Verdade � que a~ pancadas no interior da madeira
tamb�m podem ser imitadas por m�diuns de m�-f�. As melhores coisas podem ser
simuladas, o que, ali�s, nada prova contra elas. (Veja-se, no fim deste volume, o
cap�tulo intitulado:Fraudes e embustes.)
Quaisquer, por�m, que sejam os aperfei�oamentos que se possam introduzir
nessa maneira de proceder, jamais se conseguir� faz�-la alcan�ar a rapidez e a facilidade
que apresenta a escrita, raz�o por que, presentemente, j� � pouco empregada. Ela, no
entanto, �, �s vezes, interessant�ssima, do ponto de vista do fen�meno, sobretudo para
os novatos, e tem, principalmente, a vantagem de
189
DA SEMATOLOGIA E DA TIPTOLOGIA

provar, de forma perempt�ria, a absoluta independ�ncia do pensamento do m�dium.
Assim se obt�m, n�o raro, respostas t�o imprevistas, de ato flagrantes a prop�sito, que
s� uma preven��o bastante determinada ser� capaz de impedir que os assistentes se
rendam � evid�ncia. Da� vem que esse processo constitui, para muitas pessoas, forte
motivo de convic��o. Mas, seja ele o empregado, seja qualquer outro, em caso algum os
Esp�ritos se mostram dispostos a prestar-se aos caprichos dos curiosos, que pretendam
experiment�-los por meio de quest�es despropositadas.

143. Com o fim de melhor garantir a independ�ncia ao pensamento do m�dium,
imaginaram-se diversos instrumentos em forma de quadrantes, sobre os quais se tra�am
as letras, � maneira dos quadrantes do tel�grafo el�trico. Uma agulha m�vel, que a
influ�ncia do m�dium p�e em movimento, mediante um fio condutor e uma polia, indica
as letras. Esses instrumentos s� os conhecemos pelos desenhos e descri��es que t�m
sido publicados na Am�rica. Nada, pois, podemos dizer do valor deles; temos por�m,
para n�s, que a s� complica��o que denotam constitui um inconveniente; que a
independ�ncia do m�dium se comprova perfeitamente pelas pancadas interiores e, ainda
melhor, pelo imprevisto das respostas, do que por todos os meios materiais. Acresce
que os incr�dulos, sempre dispostos que est�o a ver por toda parte artif�cios e arranjos,
muito mais inclinados h�o de estar a sup�-los num mecanismo especial, do que na
primeira mesa de que se lance m�o, livre de todo e qualquer acess�rio.

144. Um aparelho mais simples, por�m, do qual a m�-f� pode abusar facilmente,
conforme veremos no cap�tulo das Fraudes, � o que designaremos sob o nome de Mesa-
Girardin, tendo em aten��o o uso que fazia dele a Sr.� Em�lio de Girardin nas
numerosas comunica��es que obtinha como m�dium. Porque, essa senhora, se bem
fosse uma mulher de esp�rito, tinha a fraqueza de crer nos Esp�ri-
190
CAP�TULO XI

tos e nas suas manifesta��es. Consiste o instrumento num tampo m�vel de mesa, com o
di�metro de trinta a quarenta cent�metros, girando livre e facilmente em torno de um
eixo, como uma roleta. Sobre sua superf�cie e acompanhando-lhe a circunfer�ncia, se
acham tra�ados, como sobre um quadrante, as letras do alfabeto, os algarismos e as
palavras sim e n�o. Ao centro existe uma agulha fixa. Pousando o m�dium os dedos na
borda do disco m�vel, este gira e p�ra, quando a letra desejada est� sob a agulha.
Escrevem-se, umas ap�s outras, as letras indicadas e formam-se assim, muito
rapidamente, as palavras e as frases.
� de notar-se que o disco n�o desliza sob os dedos do m�dium; que os seus
dedos, conservando-se apoiados nele, lhe acompanham o movimento. Talvez que um
m�dium poderoso consiga obter um movimento independente. Julgamo-lo poss�vel, mas
nunca o observamos. Se se pudesse fazer a experi�ncia dessa maneira, infinitamente
mais probante ela seria, porque eliminaria toda possibilidade de embuste.

145. Resta-nos destruir um erro assaz espalhado: o de confundirem-se com os
Esp�ritos batedores todos os Esp�ritos que se comunicam por meio de pancadas. A
tiptologia constitui um meio de comunica��o como qualquer outro, e que n�o �, mais do
que o da escrita, ou da palavra, indigno dos Esp�ritos elevados. Todos os Esp�ritos, bons
e maus, podem servir-se dele, como dos diversos outros existentes. O que caracteriza os
Esp�ritos superiores � a eleva��o das id�ias e n�o o instrumento de que se utilizem para
exprimi-las. Sem d�vida, eles preferem os meios mais c�modos e, sobretudo, mais
r�pidos; mas, em falta de l�pis e papel, n�o escrupulizar�o de valer-se da vulgar mesa
falante e a prova � que, por esse meio, se obt�m os mais sublimes ditados. Se dele n�o
nos servimos, n�o � porque o consideremos desprez�vel, por�m unicamente porque,
como fen�meno, j� nos ensinou tudo o que pud�ramos vir a saber, nada mais lhe sendo
poss�vel
191
DA SEMATOLOGIA E DA TIPTOLOGIA

acrescentar �s nossas convic��es, e porque a extens�o das comunica��es que recebemos
exige uma rapidez com a qual � incompat�vel a tiptologia.
Assim, pois, nem todos os Esp�ritos que se manifestam por pancadas s�o
batedores. Este qualificativo deve ser reservado para os que poder�amos chamar
batedores de profiss�o e que, por este meio, se deleitam em pregar partidas, para
divertimentos de umas tantas pessoas, em aborrecer com as suas importuna��es. Pode-
se esperar que algumas vezes d�em coisas espirituosas; por�m, coisas profundas, nunca.
Seria, conseguintemente, perder tempo formular-lhes quest�es de certo porte cient�fico,
ou filos�fico. A ignor�ncia e a inferioridade que lhes s�o peculiares deram motivo a que,
com justeza, os outros Esp�ritos os qualificassem de palha�os, ou saltimbancos do
mundo esp�rita. Acrescentemos que, al�m de agirem quase sempre por conta pr�pria,
tamb�m s�o ami�de instrumentos de que lan�am m�o os Esp�ritos superiores, quando
querem produzir efeitos materiais.
192




CAP�TULO XII

DA PNEUMATOGRAFIA OU ESCRITA DIRETA.
DA PNEUMATOFONIA

Escrita direta

146. A pneumatografia � a escrita produzida diretamente pelo Esp�rito, sem
intermedi�rio algum; difere da psicografia, por ser esta a transmiss�o do pensamento do
Esp�rito, mediante a escrita feita com a m�o do m�dium.
O fen�meno da escrita direta �, n�o h� negar, um dos mais extraordin�rios do
Espiritismo; mas, por multo anormal que pare�a, � primeira vista, constitui hoje fato
averiguado e incontest�vel. A teoria, sempre necess�ria, para nos inteirarmos da
possibilidade dos fen�menos esp�ritas em geral, talvez mais necess�ria ainda se faz neste
caso que, sem contesta��o, � um dos mais estranhos que se possam apresentar, por�m
que deixa de parecer sobrenatural, desde que se lhe compreenda o princ�pio.
Da primeira vez que este fen�meno se produziu, a da d�vida foi a impress�o
dominante que deixou. Logo
193
DA PNEUMATOGRAFIA OU ESCRITA DIRETA

acudiu aos que o presenciaram a id�ia de um embuste. Toda gente, com efeito, conhece
a a��o das tintas chamadas simp�ticas, cujos tra�os, a princ�pio completamente
invis�veis, aparecem ao cabo de algum tempo. Podia, pois, dar-se que houvessem, por
esse meio, abusado da credulidade dos assistentes e longe nos achamos de afirmar que
nunca o tenham feito. Estamos at� convencidos de que algumas pessoas, seja com
intuitos mercantis, seja apenas por amor-pr�prio e para fazer acreditar nas suas
faculdades, h�o empregado subterf�gios. (Veja-se o cap�tulo das Fraudes).
Entretanto, do fato de se poder imitar uma coisa, fora absurdo concluir-se pela
sua inexist�ncia. Nestes �ltimos tempos, n�o se h� encontrado meio de imitar a lucidez
sonamb�lica, ao ponto de causar ilus�o? Mas, por que esse processo de escamotea��o
se tenha exibido em todas as feiras, dever-se-� concluir que n�o haja verdadeiros
son�mbulos? Por que certos comerciantes vendem vinho falsificado, ser� uma raz�o
para que n�o haja vinho puro? O mesmo sucede com a escrita direta. Bem simples e
f�ceis eram, ali�s, as precau��es a serem tomadas para garantir da realidade do fato e,
gra�as a essas precau��es, j� hoje ele n�o pode constituir objeto da mais ligeira d�vida.

147. Uma vez que a possibilidade de escrever sem intermedi�rio representa um
dos atributos do Esp�rito; uma vez que os Esp�ritos sempre existiram desde todos os
tempos e que desde todos os tempos se h�o produzindo os diversos fen�menos que
conhecemos, o da escrita direta igualmente se h� de ter operado na antig�idade, tanto
quanto nos dias atuais. Deste modo � que se pode explicar o aparecimento das tr�s
palavras c�lebres, na sala do festim de Baltazar. A Idade M�dia, t�o fecunda em
prod�gios ocultos, mas que eram abafados por meio das fogueiras, tamb�m conheceu
necessariamente a escrita direta, e poss�vel � que. na teoria das modifica��es por que os
Esp�ritos podem fazer passar a mat�ria, teoria que desenvolvemos
194
CAP�TULO XII

no cap�tulo VIII, se encontre o fundamento da cren�a na transmuta��o dos metais.
Todavia, quaisquer que tenham sido os resultados obtidos em diversas �pocas,
s� depois de vulgarizadas as manifesta��es esp�ritas foi que se tomou a s�rio a quest�o
da escrita direta. Ao que parece, o primeiro a torn�-la conhecida, estes �ltimos anos, em
Paris, foi o bar�o de Guldenstubbe, que publicou sobre o assunto uma obra muito
interessante, com grande n�mero de fac similes das escritas que obteve (1). O fen�me-
no j� era conhecido na Am�rica, havia algum tempo. A posi��o social do Sr.
Guldenstubbe, sua independ�ncia, a considera��o de que goza nas mais elevadas rodas
incontestavelmente afastam toda suspeita de fraude intencional, porquanto nenhum
motivo de interesse havia a que ele obedecesse. Quando muito, o que se poderia supor,
� que fora v�tima de uma ilus�o; a isto, por�m, um fato responde peremptoriamente: o
de haverem outras pessoas obtido o mesmo fen�meno, cercadas de todas as precau��es
necess�rias para evitar qualquer embuste e qualquer causa de erro.

148. A escrita direta se obt�m, como, em geral, a maior parte das manifesta��es
esp�ritas n�o espont�neas, por meio da concentra��o, da prece e da evoca��o. T�m-se
produzido em igrejas, sobre t�mulos, no sop� de est�tuas, ou imagens de personagens
evocadas. Evidente, porem, � que o local nenhuma outra influ�ncia exerce, al�m da de
facultar maior recolhimento espiritual e maior concentra��o dos pensamentos;
porquanto, provado est� que o fen�meno se obt�m, igualmente, sem esses acess�rios e
nos lugares mais comuns, sobre um simples m�vel caseiro, desde que os que desejam
obt�-lo se achem nas devidas condi��es morais e que entre esses se encontre quem
possua a necess�ria faculdade medi�nica.

__________
(1) A realidade dos Esp�ritos e de suas manifesta��es demonstrada mediante o fen�meno da
escrita direta pelo bar�o de Guldenstubbe, 1 vol. in-8�, com 15 estampas e 93 fac similes.
195
DA PNEUMATOGRAFIA OU ESCRITA DIRETA

Julgou-se, a princ�pio, ser preciso colocar-se aqui ou ali um l�pis com o papel. O
fato ent�o podia, at� certo ponto, explicar-se. E sabido que os Esp�ritos produzem o
movimento e a desloca��o dos objetos; que, algumas vezes, os tomam e atiram longe.
Bem podiam, pois, tomar tamb�m do l�pis e servir-se dele para tra�ar letras. Visto que o
impulsionam, utilizando-se da m�o do m�dium, de uma prancheta, etc., podiam, do
mesmo modo, impulsion�-lo diretamente. N�o tardou, por�m, se reconhecesse que o
l�pis era dispens�vel, que bastava um peda�o de papel, dobrado ou n�o, para que, ao
cabo de alguns minutos, se achassem nele grafadas letras. Aqui, j� o fen�meno muda
completamente de aspecto e nos transporta a uma ordem inteiramente nova de coisas.
As letras h�o de ter sido tra�adas com uma subst�ncia qualquer. Ora, sendo certo que
ningu�m forneceu ao Esp�rito essa subst�ncia, segue-se que ele pr�prio a comp�s.
Donde a tirou? Esse o problema.
Quem queira reportar-se �s explica��es dadas no cap�tulo VIII, ns. 127 e 128,
encontrar� completa a teoria do fen�meno. Para escrever dessa maneira, o Esp�rito n�o
se serve das nossas subst�ncias, nem dos nossos instrumentos. - Ele pr�prio fabrica a
mat�ria e os instrumentos de que h� mister, tirando, para isso, os materiais precisos, do
elemento primitivo universal que, pela a��o da sua vontade, sofre as modifica��es
necess�rias � produ��o do efeito desejado. Poss�vel lhe �, portanto, fabricar tanto
o l�pis vermelho, a tinta de imprimir, a tinta comum, como o l�pis preto, ou, at�,
caracteres tipogr�ficos bastante resistentes para darem relevo � escrita, conforme temos
tido ensejo de verificar. A filha de um senhor que conhecemos, menina de 12 a 13 anos,
obteve p�ginas e p�ginas escritas com uma subst�ncia an�loga ao pastel.

149. Tal o resultado a que nos conduziu o fen�meno da tabaqueira, descrito no
cap�tulo VII, n. 116, e sobre o qual nos estendemos longamente, porque nele
percebemos oportunidade para perscrutarmos uma das mais impor-
196
CAP�TULO XII

tantes leis do Espiritismo, lei cujo conhecimento pode esclarecer mais de um mist�rio,
mesmo do mundo vis�vel. Assim � que, de um fato aparentemente vulgar, pode sair a
luz. Tudo est� em observar com cuidado e isso todos podem fazer como n�s, desde que
se n�o limitem a observar efeitos, sem lhes procurarem as causas. Se a nossa f� se
fortalece de dia para dia, � porque compreendemos. Tratai, pois, de compreender, se
quiserdes fazer pros�litos s�rios. Ainda outro resultado decorre da compreens�o das
causas: o de deixar riscada uma linha divis�ria entre a verdade e a supersti��o.
Considerando a escrita direta do ponto de vista das vantagens que possa
oferecer, diremos que, at� ao presente, sua principal utilidade h� consistido na
comprova��o material de um fato s�rio: a interven��o de um poder oculto que, nesse
fen�meno, tem mais um meio de se manifestar. Todavia, raramente s�o extensas as
comunica��es que por essa forma se obt�m. Em geral espont�neas, elas se reduzem a
algumas palavras ou proposi��es e, �s vezes, a sinais inintelig�veis. T�m sido dadas em
todas as l�nguas: em grego, em latim, em s�rio, em caracteres hierogl�ficos, etc., mas
ainda se n�o prestaram �s disserta��es seguidas e r�pidas, como permite a psicografia
ou a escrita pela m�o do m�dium.

Pneumatofonia

150. Dado que podem produzir ru�dos e pancadas, os Esp�ritos podem
igualmente fazer se ou�am gritos de toda esp�cie e sons vocais que imitam a voz
humana, assim ao nosso lado, como nos ares. A este fen�meno � que damos o nome de
pneumatofonia. Pelo que sabemos da natureza dos Esp�ritos, podemos supor que,
dentre eles, alguns, de ordem inferior, se iludem e julgam falar como quando vivos.
(Veja-se Revue Spirite, fevereiro de 1858:Hist�ria da apari��o de Mlle. Clairon.)
Devemos, entretanto, preservar-nos de tomar por vozes ocultas todos os sons
que n�o tenham causa conhecida,
197
DA PNEUMATOGRAFIA OU ESCRITA DIRETA

ou simples zumbidos, e, sobretudo, de dar o menor cr�dito � cren�a vulgar de que,
quando o ouvido nos zune, � que nalguma parte est�o falando de n�s. Ali�s, nenhuma
significa��o t�m esses zunidos, cuja causa � puramente fisiol�gica, ao passo que os sons
pneumatof�nicos exprimem pensamentos e nisso est� o que nos faz reconhecer que s�o
devidos a uma causa inteligente e n�o acidental. Pode-se estabelecer, como princ�pio,
que os efeitos notoriamente inteligentes s�o os �nicos capazes de atestar a interven��o
dos Esp�ritos. Quanto aos outros, h� pelo menos cem probabilidades contra uma de
serem oriundos de causas fortuitas.

151. Acontece freq�entemente ouvirmos, de modo distinto, quando nos
achamos meio adormecidos, palavras, nomes, �s vezes frases inteiras, ditas com tal
intensidade que nos despertam, espantados. Se bem nalguns casos possa haver ai, na
realidade, uma manifesta��o, esse fen�meno nada de bastante positivo apresenta, para
que tamb�m possa ser atribu�do a uma causa an�loga � que estudamos
desenvolvidamente na teoria da alucina��o, cap�tulo VI, ns. 111 e seguintes. Demais,
nenhuma seq��ncia tem o que de tal maneira se escuta. O mesmo, no entanto, n�o
acontece, quando se est� inteiramente acordado, porque, ent�o, se � um Esp�rito que se
faz ouvir, quase sempre se podem trocar id�ias com ele e travar uma conversa��o
regular.
Os sons esp�ritas, os pneumatof�nicos se produzem de duas maneiras distintas:
�s vezes, � uma voz interior que repercute no nosso foro �ntimo, nada tendo, por�m, de
material as palavras, conquanto sejam claramente percept�veis; outras vezes, s�o
exteriores e nitidamente articuladas, como se proviessem de uma pessoa que nos
estivesse ao lado.
De um modo, ou de outro, o fen�meno da pneumatofonia � quase sempre
espont�neo e s� muito raramente pode ser provocado.
198




CAP�TULO XIII

DA PSICOGRAFIA

Psicografia indireta: cestas e pranchetas. - Psicografia direta ou manual.

152. A ci�ncia esp�rita h� progredido como todas as outras e mais rapidamente
do que estas. Alguns anos apenas nos separam da �poca em que se empregavam esses
meios primitivos e incompletos, a que trivialmente se dava o nome de "mesas falantes",
e j� nos achamos em condi��es de comunicar com os Esp�ritos t�o f�cil e rapidamente,
como o fazem os homens entre si e pelos mesmos meios: a escrita e a palavra. A escrita,
sobretudo, tem a vantagem de assinalar, de modo mais material, a interven��o de uma
for�a oculta e de deixar tra�os que se podem conservar, como fazemos com a nossa
correspond�ncia. O primeiro meio de que se usou foi o das pranchas e cestas munidas
de l�pis, com a disposi��o que passamos a descrever.
199
DA PSICOGRAFIA

153. J� dissemos que uma pessoa, dotada de aptid�o especial, pode imprimir
movimento de rota��o a uma mesa, ou a outro objeto qualquer. Tomemos, em vez de
uma mesa, uma cestinha de quinze a vinte cent�metros de di�metro (de madeira ou de
vime, a subst�ncia pouco importa). Se fizermos passar pelo fundo dessa cesta um l�pis e
o prendermos bem, com a ponta de fora e para baixo; se mantivermos o aparelho assim
formado em equil�brio sobre a ponta do l�pis, apoiado este sobre uma folha de papel, e
apoiarmos os dedos nas bordas da cesta, ela se por� em movimento; mas, em vez de
girar, far� que o l�pis percorra, em diversos sentidos, o papel, tra�ando ou riscos sem
significa��o, ou letras. Se se evocar um Esp�rito que queira comunicar-se, ele
responder� n�o mais por meio de pancadas, como na tiptologia, por�m, escrevendo
palavras. O movimento da cesta j� n�o � autom�tico, como no caso das mesas girantes;
torna-se inteligente. Com esse dispositivo, o l�pis, ao chegar � extremidade da linha, n�o
volta ao ponto de partida para come�ar outra; continua a mover-se circularmente, de
sorte que a linha escrita forma uma espiral, tornando necess�rio voltear muitas vezes o
papel para se ler o que est� grafado. Nem sempre � muito leg�vel a escrita assim feita,
por n�o ficarem separadas as palavras. Entretanto, o m�dium, por uma esp�cie de
intui��o, facilmente a decifra. Por economia, o papel e o l�pis comum podem ser
substitu�dos por uma lousa com o respectivo l�pis. Designaremos este g�nero de cesta
pelo nome de cesta-pi�o. As vezes, em lugar da cesta, emprega-se um papel�o muito
semelhante �s caixas de pastilhas, formando-lhe o l�pis o eixo, como no brinquedo
chamado carrapeta.

154. Muitos outros dispositivos se t�m imaginado para a obten��o do mesmo
resultado. O mais c�modo � o a que chamaremos cesta de bico e que consiste em
adaptar-se � cesta uma haste inclinada, de madeira, prolongando-se dez a quinze
cent�metros para o lado de fora, na posi��o do mastro de gurup�s, numa embarca��o.
Por
200
CAP�TULO XIII

um buraco aberto na extremidade dessa haste, ou bico, passa-se um l�pis bastante
comprido para que sua ponta assente no papel. Pondo o m�dium os dedos na borda da
cesta, o aparelho todo se agita e o l�pis escreve, como no caso anterior, com a
diferen�a, por�m, de que, em geral, a escrita � mais leg�vel, com as palavras separadas e
as linhas sucedendo-se paralelas, como na escrita comum, por poder o m�dium levar
facilmente o l�pis de uma linha a outra. Obt�m-se assim disserta��es de muitas p�ginas,
t�o rapidamente como se se escrevesse com a m�o.

155. Ainda por outros sinais inequ�vocos se manifesta ami�de a intelig�ncia que
atua. Chegando ao fim da p�gina, o l�pis faz espontaneamente um movimento para virar
o papel. Se ele se quer reportar a uma passagem j� escrita, na mesma p�gina, ou noutra,
procura-a com a ponta do l�pis, como qualquer pessoa o faria com a ponta do dedo, e
sublinha-a. Se, enfim, o Esp�rito quer dirigir-se a algu�m, a extremidade da haste de
madeira se dirige para esse algu�m. Por abreviar, exprimem-se freq�entemente as
palavras sim e n�o, pelos sinais de afirma��o e nega��o que fazemos com a cabe�a. Se o
Esp�rito quer exprimir c�lera, ou impaci�ncia, bate repetidas pancadas com a ponta do
l�pis e n�o raro a quebra.

156. Em vez de cesta, algumas pessoas se servem de uma esp�cie de mesa
pequenina, feita de prop�sito, tendo de doze a quinze cent�metros de comprimento, por
cinco a seis de altura, e tr�s p�s a um dos quais se adapta um l�pis. Os dois outros s�o
arredondados, ou munidos de uma bola de marfim, para deslizar mais facilmente sobre o
papel. Outros se utilizam apenas de uma prancheta de quinze a vinte cent�metros
quadrados, triangular, oblonga, ou oval. Num dos bordos, h� um furo obl�quo para
introduzir-se o l�pis. Colocada em posi��o de escrever, ela fica inclinada e se ap�ia por
um dos lados no papel. Algumas trazem desse lado rod�zios para lhe facilitarem o
movimento. E de ver-se, em suma, que todos esses dispositivos nada t�m de absoluto. O
melhor � o que for mais c�modo.
201
DA PSICOGRAFIA

Com qualquer desses aparelhos, quase sempre � preciso que os operadores sejam
dois; mas, n�o � necess�rio que ambos sejam dotados de faculdades medi�nicas. Um
serve unicamente para manter o equil�brio e poupar ao m�dium excesso de fadiga.

157. Chamamos psicografia indireta � escrita assim obtida, em contraposi��o �
psicografia direta ou manual, obtida pelo pr�prio m�dium. Para se compreender este
�ltimo processo, � mister levar em conta o que se passa na opera��o. O Esp�rito que se
comunica atua sobre o m�dium que, debaixo dessa influ�ncia, move maquinalmente o
bra�o e a m�o para escrever, sem ter (� pelo menos o caso mais comum) a menor
consci�ncia do que escreve; a m�o atua sobre a cesta e a cesta sobre o l�pis. Assim, n�o
� a cesta que se torna inteligente; ela n�o passa de um instrumento manejado por uma
intelig�ncia; n�o passa, realmente, de uma lapiseira, de um ap�ndice da m�o, de um
intermedi�rio, entre a m�o e o l�pis. Suprima-se esse intermedi�rio, coloque-se o l�pis
na m�o e o resultado ser� o mesmo, com um mecanismo muito mais simples, pois que o
m�dium escreve como o faz nas condi��es ordin�rias. De sorte que toda pessoa que
escreve com o concurso de uma cesta, prancheta, ou qualquer outro objeto, pode
escrever diretamente.
De todos os meios de comunica��o, a escrita manual, que alguns denominam
escrita involunt�ria, �, sem contesta��o, a mais simples, a mais f�cil e a mais c�moda,
porque nenhum preparativo exige e se presta, como a escrita corrente, aos maiores
desenvolvimentos. Dela tornaremos a falar, quando tratarmos dos m�diuns.

158. Nos primeiros tempos das manifesta��es, quando ainda ningu�m tinha
sobre o assunto id�ias exatas, muitos escritos foram publicados com este t�tulo:
Comunica��es de uma mesa, de uma cesta, de uma prancheta, etc. Hoje, bem se
percebe o que tais express�es t�m de impr�-
202
CAP�TULO XIII

prias, ou err�neas, abstra��o feita do car�ter pouco s�rio que revelam. Efetivamente,
como acabamos de ver, as mesas, pranchetas e cestas n�o s�o mais do que instrumentos
inteligentes, embora animados, por instantes, de uma vida fict�cia, que nada podem
comunicar por si mesmos. Dizer o contr�rio � tomar o efeito pela causa, o instrumento
pelo princ�pio. Fora o mesmo que um autor declarar, no t�tulo da sua obra, t�-la escrito
com uma pena met�lica ou com uma pena de pato. Esses instrumentos, ao demais, n�o
s�o exclusivos. Conhecemos algu�m que, em vez da cesta-pi�o, que acima
descrevemos, se servia de um funil, em cujo gargalo introduzia o l�pis. Ter-se-ia ent�o
podido receber comunica��es de um funil, do mesmo modo que de uma ca�arola ou de
uma saladeira. Se elas s�o obtidas por meio de pancadas com uma cadeira, ou uma
bengala, j� n�o h� uma mesa falante, mas uma cadeira, ou uma bengala falantes. O que
importa se conhe�a n�o � a natureza do instrumento e, sim, o modo de obten��o. Se a
comunica��o vem por meio da escrita, qualquer que seja o aparelho que sustente o l�pis,
o que h�, para n�s, � psicografia; tiptologia, se por meio de pancadas. Tomando o
Espiritismo as propor��es de uma ci�ncia, indispens�vel se lhe torna uma linguagem
cient�fica.
203




CAP�TULO XIV

DOS M�DIUNS

M�diuns de efeitos f�sicos. - Pessoas el�tricas. - M�diuns sensitivos ou
impression�veis. - M�diuns audientes. - M�diuns falantes. - M�diuns videntes. -
M�diuns sonamb�licos. - M�diuns curadores. - M�diuns pneumat�grafos.

159. Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influ�ncia dos Esp�ritos �,
por esse fato, m�dium. Essa faculdade � inerente ao homem; n�o constitui, portanto, um
privil�gio exclusivo. Por isso mesmo, raras s�o as pessoas que dela n�o possuam alguns
rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos s�o, mais ou menos, m�diuns. Todavia,
usualmente, assim s� se qualificam aqueles em quem a faculdade medi�nica se mostra
bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que ent�o
depende de uma organiza��o mais ou menos sensitiva. E de notar-se, al�m disso, que
essa faculdade n�o se revela, da mesma maneira, em todos. Geralmente,
204
CAP�TULO XIV

os m�diuns t�m uma aptid�o especial para os fen�menos desta, ou daquela ordem,
donde resulta que formam tantas variedades, quantas s�o as esp�cies de manifesta��es.
As principais s�o: a dos m�diuns de efeitos f�sicos; a dos m�diuns sensitivos, ou
impression�veis; a dos audientes; a dos videntes; a dos sonamb�licos; a dos
curadores; a dos pneumat�grafos; a dos escreventes, ou psic�grafos.

1. M�diuns de efeitos f�sicos

160. Os m�diuns de efeitos f�sicos s�o particularmente aptos a produzir
fen�menos materiais, como os movimentos dos corpos inertes, ou ru�dos, etc. Podem
dividir-se em m�diuns facultativos e m�diuns involunt�rios. (Veja-se a 2� parte, caps. II
e IV.)
Os m�diuns facultativos s�o os que t�m consci�ncia do seu poder e que
produzem fen�menos esp�ritas por ato da pr�pria vontade. Conquanto inerente � esp�cie
humana, conforme j� dissemos, semelhante faculdade longe est� de existir em todos no
mesmo grau. Por�m, se poucas pessoas h� em quem ela seja absolutamente nula, mais
raras ainda s�o as capazes de produzir os grandes efeitos tais como a suspens�o de
corpos pesados, a transla��o a�rea e, sobretudo, as apari��es. Os efeitos mais simples
s�o a rota��o de um objeto, pancadas produzidas mediante o levantamento desse objeto,
ou na sua pr�pria subst�ncia. Embora n�o demos import�ncia capital a esses fen�menos,
recomendamos, contudo, que n�o sejam desprezados. Podem proporcionar ensejo a
observa��es interessantes e contribuir para a convic��o dos que os observem. Cumpre,
entretanto, ponderar que a faculdade de produzir efeitos materiais raramente existe nos
que disp�em de mais perfeitos meios de comunica��o, quais a escrita e a palavra. Em
geral, a faculdade diminui num sentido � propor��o que se desenvolve em outro.

161. Os m�diuns involunt�rios ou naturais s�o aqueles cuja influ�ncia se exerce
a seu mau grado. Nenhuma
205
DOS M�DIUNS

consci�ncia t�m do poder que possuem e, muitas vezes, o que de anormal se passa em
torno deles n�o se lhes afigura de modo algum extraordin�rio. Isso faz parte deles,
exatamente como se d� com as pessoas que, sem o suspeitarem, s�o dotadas de dupla
vista. S�o muito dignos de observa��o esses indiv�duos e ningu�m deve descuidar-se de
recolher e estudar os fatos deste g�nero que lhe cheguem ao conhecimento. Manifestam-
se em todas as idades e, freq�entemente, em crian�as ainda muito novas. (Veja-se acima,
o cap�tulo V, Das manifesta��es f�sicas espont�neas.)
Tal faculdade n�o constitui, em si mesma, ind�cio de um estado patol�gico,
porquanto n�o � incompat�vel com uma sa�de perfeita. Se sofre aquele que a possui,
esse sofrimento � devido a uma causa estranha, donde se segue que os meios
terap�uticos s�o impotentes para faz�-la desaparecer. Nalguns casos, pode ser
conseq�ente de uma certa fraqueza org�nica, por�m, nunca � causa eficiente. N�o seria,
pois, razo�vel tirar dela um motivo de inquieta��o, do ponto de vista higi�nico. S�
poderia acarretar inconveniente, se aquele que a possui abusasse dela, depois de se
haver tornado m�dium facultativo, porque ent�o se verificaria nele uma emiss�o
demasiado abundante de fluido vital e, por conseguinte, enfraquecimento dos �rg�os.

162. A raz�o se revolta � lembran�a das torturas morais e corporais a que a
ci�ncia tem por vezes sujeitado criaturas fracas e delicadas, para se certificar da
exist�ncia de fraude da parte delas. Tais experimenta��es, ami�de feitas maldosamente,
s�o sempre prejudiciais �s organiza��es sensitivas, podendo mesmo dar lugar a graves
desordens na economia org�nica. Fazer semelhantes experi�ncias � brincar com a vida.
O observador de boa-f� n�o precisa lan�ar m�o desses meios. Aquele que est�
familiarizado com os fen�menos desta esp�cie sabe, ali�s, que eles s�o mais de ordem
moral, do que de ordem f�sica e que ser� in�til procurar-lhes uma solu��o nas nossas
ci�ncias exatas.
206
CAP�TULO XIV

Por isso mesmo que tais fen�menos s�o mais de ordem moral, deve-se evitar
com escrupuloso cuidado tudo o que possa sobreexcitar a imagina��o. Sabe-se que de
acidentes pode o medo ocasionar e muito menos imprud�ncias se cometiam, se se
conhecessem todos os casos de loucura e de epilepsia, cuja origem se encontra nos
contos de lobisomens e pap�es. Que n�o ser�, se se generalizar a persuas�o de que o
agente dos aludidos fen�menos � o diabo? Os que espelham semelhantes id�ias n�o
sabem a responsabilidade que assumem: podem matar. Ora, o perigo n�o existe apenas
para o paciente, mas tamb�m para os que o cercam, os quais podem ficar aterrorizados,
ao pensarem que a casa onde moram se tornou um covil de dem�nios. Esta cren�a
funesta � que foi causa de tantos atos de atrocidade nos tempos de ignor�ncia.
Entretanto, se houvesse um pouco mais de discernimento, teria ocorrido aos que os
praticaram que n�o queimavam o diabo, por queimarem o corpo que supunham
possesso do diabo. Desde que do diabo � que queriam livrar-se, ao diabo � que era
preciso matassem. Esclarecendo-nos sobre a verdadeira causa de todos esses
fen�menos, a Doutrina Esp�rita lhe d� o golpe de miseric�rdia. Longe, pois, de
concorrer para que tal id�ia se forme, todos devem, e este � um dever de moralidade e
de humanidade, combat�-la onde exista.
O que h� a fazer-se, quando uma faculdade dessa natureza se desenvolve
espontaneamente num indiv�duo, � deixar que o fen�meno siga o seu curso natural: a
Natureza � mais prudente do que os homens. Acresce que a Provid�ncia tem seus
des�gnios e aos maiores destes pode servir de instrumento a mais pequenina das
criaturas. Por�m, for�oso � convir, o fen�meno assume por vezes propor��es fatigantes
e importunas para toda gente (1).

__________
(1) Um dos fatos mais extraordin�rios desta natureza, pela variedade e singularidade dos
fen�menos, �, sem contesta��o, o que ocorreu em 1852, no Palatinado (Baviera renana), em
Bergzabern, perto de Wissemburg. � tanto mais not�vel, quanto denota, reunidos no mesmo indiv�duo,
quase todos os g�neros de manifesta-
207
DOS M�DIUNS

Eis, ent�o, o que em todos os casos importa fazer-se. No cap�tulo V - Das
manifesta��es f�sicas espont�neas, j� demos alguns conselhos a este respeito, dizendo
ser preciso entrar em comunica��o com o Esp�rito, para dele saber-se o que quer. O
meio seguinte tamb�m se funda na observa��o.
Os seres invis�veis, que revelam sua presen�a por efeitos sens�veis, s�o, em geral,
Esp�ritos de ordem inferior e que podem ser dominados pelo ascendente moral. A
aquisi��o deste ascendente � o que se deve procurar.
Para alcan��-lo, preciso � que o indiv�duo passe do estado de m�dium natural ao
de m�dium volunt�rio. Produz-se, ent�o, efeito an�logo ao que se observa no
sonambulismo. Como se sabe, o sonambulismo natural cessa geralmente, quando
substitu�do pelo sonambulismo magn�tico. N�o se suprime a faculdade, que tem a alma,
de emancipar-se; d�-se-lhe outra diretriz. O mesmo acontece com a faculdade
medi�nica. Para isso, em vez de p�r �bices ao fen�meno, coisa que raramente se
consegue e que nem sempre deixa de ser perigosa, o que se tem de fazer � concitar o
m�dium a produzi-los � sua vontade, impondo-se ao Esp�rito. Por esse meio, chega o
m�dium

__________
��es espont�neas: estrondos de abalar a casa, derribamento dos m�veis, arremesso de objetos ao longe
por m�os invis�veis, vis�es e apari��es, sonambulismo, �xtase, catalepsia, atra��o el�trica, gritos e sons
a�reos, instrumentos tocando sem contacto, comunica��es inteligentes, etc. e, o que n�o � de somenos
import�ncia, a comprova��o destes fatos, durante quase dois anos, por in�meras testemunhas oculares,
dignas de cr�dito pelo saber e pelas posi��es sociais que ocupavam. A narra��o aut�ntica dos aludidos
fen�menos foi publicada, naquela �poca, em muitos jornais alem�es e, especialmente, numa brochura
hoje esgotada e rar�ssima. Na Revue Spirite de 1858 se encontra a tradu��o completa dessa brochura,
com os coment�rios e explica��es indispens�veis. Essa, que saibamos, � a �nica publica��o feita em
franc�s do folheto a que nos referimos. Al�m do empolgante interesse que tais fen�menos despertam,
eles s�o eminentemente instrutivos, do ponto de vista do estudo pr�tico do Espiritismo.
208
CAP�TULO XIV

a sobrepuj�-lo e, de um dominador �s vezes tir�nico, faz um ser submisso e, n�o raro,
d�cil. Fato digno de nota e que a experi�ncia confirma � que, em tal caso, uma crian�a
tem tanta e, por vezes, mais autoridade que um adulto: mais uma prova a favor deste
ponto capital da Doutrina, que o Esp�rito s� � crian�a pelo corpo; que tem por si mesmo
um desenvolvimento necessariamente anterior � sua encarna��o atual, desenvolvimento
que lhe pode dar ascendente sobre Esp�ritos que lhe s�o inferiores.
A moraliza��o de um Esp�rito, pelos conselhos de uma terceira pessoa influente
e experiente, n�o estando o m�dium em estado de o fazer, constitui freq�entemente
meio muito eficaz. Mais tarde voltaremos a tratar dele.

163. Nesta categoria parece, � primeira vista, se deviam incluir as pessoas
dotadas de certa dose de eletricidade natural, verdadeiros torpedos (*) humanos, a
produzirem, por simples contacto, todos os efeitos de atra��o e repuls�o. Errado,
por�m, fora consider�-las m�diuns, porquanto a vera mediunidade sup�e a interven��o
direta de um Esp�rito. Ora, no caso de que falamos, concludentes experi�ncias h�o
provado que a eletricidade � o agente �nico desses fen�menos. Esta estranha faculdade,
que quase se poderia considerar uma enfermidade, pode �s vezes estar aliada �
mediunidade, como � f�cil de verificar-se na hist�ria do Esp�rito batedor de Bergzabern.
Por�m, as mais das vezes, de todo independe de qualquer faculdade medi�nica.
Conforme j� dissemos, a �nica prova da interven��o dos Esp�ritos � o car�ter inteligente
das manifesta��es. Desde que este car�ter n�o exista, fundamento h� para serem
atribu�das a causas puramente f�sicas. A quest�o � saber se as pessoas el�tricas estar�o
ou n�o mais aptas, do que quaisquer outras, a tornar-se m�diuns de efeitos

__________
(*) Vide p�gina 220, Nota da Editora (FEB).
209
DOS M�DIUNS

f�sicos. Cremos que sim, mas s� a experi�ncia poderia demonstr�-lo.

2. M�diuns sensitivos, ou impression�veis

164. Chamam-se assim �s pessoas suscet�veis de sentir a presen�a dos Esp�ritos
por uma impress�o vaga, por uma esp�cie de leve ro�adura sobre todos os seus
membros, sensa��o que elas n�o podem explicar. Esta variedade n�o apresenta car�ter
bem definido. Todos os m�diuns s�o necessariamente impression�veis, sendo assim a
impressionabilidade mais uma qualidade geral do que especial. � a faculdade rudimentar
indispens�vel ao desenvolvimento de todas as outras. Difere da impressionabilidade
puramente f�sica e nervosa, com a qual preciso � n�o seja confundida, porquanto,
pessoas h� que n�o t�m nervos delicados e que sentem mais ou menos o efeito da
presen�a dos Esp�ritos, do mesmo modo que outras, muito irrit�veis, absolutamente n�o
os pressentem.
Esta faculdade se desenvolve pelo h�bito e pode adquirir tal sutileza, que aquele
que a possui reconhece, pela impress�o que experimenta, n�o s� a natureza, boa ou m�,
do Esp�rito que lhe est� ao lado, mas at� a sua individualidade, como o cego reconhece,
por um certo n�o sei qu�, a aproxima��o de tal ou tal pessoa. Torna-se, com rela��o aos
Esp�ritos, verdadeiro sensitivo. Um bom Esp�rito produz sempre uma impress�o suave e
agrad�vel; a de um mau Esp�rito, ao contr�rio, � penosa, angustiosa, desagrad�vel. H�
como que um cheiro de impureza.

3. M�diuns audientes

165. Estes ouvem a voz dos Esp�ritos. �, como dissemos ao falar da
pneumatofonia, algumas vezes uma voz interior, que se faz ouvir no foro �ntimo;
doutras vezes, � uma voz exterior, clara e distinta, qual a de uma pessoa viva. Os
m�diuns audientes podem, assim, travar conversa��o com os Esp�ritos. Quando t�m o
h�bito
210
CAP�TULO XIV

de se comunicar com determinados Esp�ritos, eles os reconhecem imediatamente pela
natureza da voz. Quem n�o seja dotado desta faculdade pode, igualmente, comunicar
com um Esp�rito, se tiver, a auxili�-lo, um m�dium audiente, que desempenhe a fun��o
de int�rprete.
Esta faculdade � muito agrad�vel, quando o m�dium s� ouve Esp�ritos bons, ou
unicamente aqueles por quem chama. Assim, entretanto, j� n�o �, quando um Esp�rito
mau se lhe agarra, fazendo-lhe ouvir a cada instante as coisas mais desagrad�veis e n�o
raro as mais inconvenientes. Cumpre-lhe, ent�o, procurar livrar-se desses Esp�ritos,
pelos meios que indicaremos no cap�tulo da Obsess�o.

4. M�diuns falantes

166. Os m�diuns audientes, que apenas transmitem o que ouvem, n�o s�o,
a bem dizer, m�diuns falantes. Estes �ltimos, as mais das vezes, nada ouvem. Neles, o
Esp�rito atua sobre os �rg�os da palavra, como atua sobre a m�o dos m�diuns
escreventes. Querendo comunicar-se, o Esp�rito se serve do �rg�o que se lhe depara
mais flex�vel no m�dium. A um, toma da m�o; a outro, da palavra; a um terceiro, do
ouvido. O m�dium falante geralmente se exprime sem ter consci�ncia do que diz e
muitas vezes diz coisas completamente estranhas �s suas id�ias habituais, aos seus
conhecimentos e, at�, fora do alcance de sua intelig�ncia. Embora se ache perfeitamente
acordado e em estado normal, raramente guarda lembran�a do que diz. Em suma, nele, a
palavra � um instrumento de que se serve o Esp�rito, com o qual uma terceira pessoa
pode comunicar-se, como pode com o auxilio de um m�dium audiente.
Nem sempre, por�m, � t�o completa a passividade do m�dium falante. Alguns h�
que t�m a intui��o do que dizem, no momento mesmo em que pronunciam as palavras.
Voltaremos a ocupar-nos com esta esp�cie de m�diuns, quando tratarmos dos m�diuns
intuitivos.
211
DOS M�DIUNS

5. M�diuns videntes

167. Os m�diuns videntes s�o dotados da faculdade de ver os Esp�ritos. Alguns
gozam dessa faculdade em estado normal, quando perfeitamente acordados, e
conservam lembran�a precisa do que viram. Outros s� a possuem em estado
sonamb�lico, ou pr�ximo do sonambulismo. Raro � que esta faculdade se mostre
permanente; quase sempre � efeito de uma crise passageira. Na categoria dos m�diuns
videntes se podem incluir todas as pessoas dotadas de dupla vista. A possibilidade de
ver em sonho os Esp�ritos resulta, sem contesta��o, de uma esp�cie de mediunidade,
mas n�o constitui, propriamente falando, o que se chama m�dium vidente. Explicamos
esse fen�meno em o cap�tulo VI - Das manifesta��es visuais.
O m�dium vidente julga ver com os olhos, como os que s�o dotados de dupla
vista; mas, na realidade, � a alma quem v� e por isso � que eles tanto v�em com os olhos
fechados, como com os olhos abertos; donde se conclui que um cego pode ver os
Esp�ritos, do mesmo modo que qualquer outro que tem perfeita a vista. Sobre este
�ltimo ponto caberia fazer-se interessante estudo, o de saber se a faculdade de que
tratamos � mais freq�ente nos cegos. Esp�ritos que na Terra foram cegos nos disseram
que, quando vivos, tinham, pela alma, a percep��o de certos objetos e que n�o se
encontravam imersos em negra escurid�o.

168. Cumpre distinguir as apari��es acidentais e espont�neas da faculdade
propriamente dita de ver os Esp�ritos. As primeiras s�o freq�entes, sobretudo no
momento da morte das pessoas que aquele que v� amou ou conheceu e que o v�m
prevenir de que j� n�o s�o deste mundo. H� in�meros exemplos de fatos deste g�nero,
sem falar das vis�es durante o sono. Doutras vezes, s�o, do mesmo modo, parentes, ou
amigos que, conquanto mortos h� mais ou menos tempo, aparecem, ou para avisar de
um perigo, ou para dar um conselho, ou, ainda, para pedir um servi�o.
212
CAP�TULO XIV

O servi�o que o Esp�rito pode solicitar �, em geral, a execu��o de uma coisa que lhe n�o
foi poss�vel fazer em vida, ou o aux�lio das preces. Estas apari��es constituem fatos
isolados, que apresentam sempre um car�ter individual e pessoal, e n�o efeito de uma
faculdade propriamente dita. A faculdade consiste na possibilidade, sen�o permanente,
pelo menos muito freq�ente de ver qualquer Esp�rito que se apresente, ainda que seja
absolutamente estranho ao vidente. A posse desta faculdade � o que constitui,
propriamente falando, o m�dium vidente.
Entre esses m�diuns, alguns h� que s� v�em os Esp�ritos evocados e cuja
descri��o podem fazer com exatid�o minuciosa. Descrevem-lhes, com as menores
particularidades, os gestos, a express�o da fisionomia, os tra�os do semblante, as vestes
e, at�, os sentimentos de que parecem animados. Outros h� em quem a faculdade da
vid�ncia � ainda mais ampla: v�em toda a popula��o esp�rita ambiente, a se mover em
todos os sentidos, cuidando, poder-se-ia dizer, de seus afazeres.

169. Assistimos uma noite � representa��o da �pera Oberon, em companhia de
um m�dium vidente muito bom. Havia na sala grande n�mero de lugares vazios, muitos
dos quais, no entanto, estavam ocupados por Esp�ritos, que pareciam interessar-se pelo
espet�culo. Alguns se colocavam junto de certos espectadores, como que a lhes escutar
a conversa��o. Cena diversa se desenrolava no palco: por detr�s dos atores muitos
Esp�ritos, de humor jovial, se divertiam em arremed�-los, imitando-lhes os gestos de
modo grotesco; outros, mais s�rios, pareciam inspirar os cantores e fazer esfor�os por
lhes dar energia. Um deles se conservava sempre junto de uma das principais cantoras.
Julgando-o animado de inten��es um tanto levianas e tendo-o evocado ap�s a
termina��o do ato, ele acudiu ao nosso chamado e nos reprochou, com severidade, o
temer�rio ju�zo: "N�o sou o que julgas, disse; sou o seu gula e seu Esp�rito protetor; sou
encarregado de dirigi-la." Depois de alguns minutos de uma palestra muito s�ria,
deixou-
213
DOS M�DIUNS

-nos, dizendo: "Adeus; ela est� em seu camarim; � preciso que v� vigi�-la." Em seguida,
evocamos o Esp�rito Weber, autor da �pera, e lhe perguntamos o que pensava da
execu��o da sua obra. "N�o de todo m�; por�m, frouxa; os atores cantam, eis tudo. N�o
h� inspira��o. Espera, acrescentou, vou tentar dar-lhes um pouco do fogo sagrado." Foi
visto, da� a nada, no palco, pairando acima dos atores. Partindo dele, um como efl�vio
se derramava sobre os int�rpretes. Houve, ent�o, nestes, vis�vel recrudesc�ncia de
energia.

170. Outro fato que prova a influ�ncia que os Esp�ritos exercem sobre os
homens, � revelia destes: Assist�amos, como nessa noite, a uma representa��o teatral,
com outro m�dium vidente. Travando conversa��o com um Esp�rito espectador, disse-
nos ele: "V�s aquelas duas damas s�s, naquele camarote da primeira ordem? Pois bem,
estou esfor�ando-me por fazer que deixem a sala." Dizendo isso, o m�dium o viu ir
colocar-se no camarote em quest�o e falar �s duas. De s�bito, estas, que se mostravam
muito atentas ao espet�culo, se entreolharam, parecendo consultar-se mutuamente.
Depois, v�o-se e n�o mais voltam. O Esp�rito nos fez ent�o um gesto c�mico, querendo
significar que cumprira o que dissera. N�o � tornamos a ver, para pedir-lhe explica��es
mais amplas. assim que muitas vezes fomos testemunha do papel que os Esp�ritos
desempenham entre os vivos. Observamo-los em diversos lugares de reuni�o, em bailes,
concertos, serm�es, funerais, casamentos, etc., e por toda parte os encontramos
ati�ando paix�es m�s, soprando disc�rdias, provocando rixas e rejubilando-se com suas
proezas. Outros, ao contr�rio, combatiam essas influ�ncias perniciosas, por�m,
raramente eram atendidos.

171. A faculdade de ver os Esp�ritos pode, sem d�vida, desenvolver-se, mas �
uma das de que conv�m esperar o desenvolvimento natural, sem o provocar, em n�o se
querendo ser joguete da pr�pria imagina��o. Quando
214
CAP�TULO XIV

o g�rmen de uma faculdade existe, ela se manifesta de si mesma. Em princ�pio, devemos
contentar-nos com as que Deus nos outorgou, sem procurarmos o imposs�vel, por isso
que, pretendendo ter muito, corremos o risco de perder o que possu�mos.
Quando dissemos serem freq�entes os casos de apari��es espont�neas (n. 107),
n�o quisemos dizer que s�o muito comuns. Quanto aos m�diuns videntes, propriamente
ditos, ainda s�o mais raros e h� muito que desconfiar dos que se inculcam possuidores
dessa faculdade. E prudente n�o se lhes dar cr�dito, sen�o diante de provas positivas.
N�o aludimos sequer aos que se d�o � ilus�o rid�cula de ver os Esp�ritos gl�bulos, que
descrevemos no n. 108; falamos apenas dos que dizem ver os Esp�ritos de modo
racional. E fora de d�vida que algumas pessoas podem enganar-se de boa-f�, por�m,
outras podem tamb�m simular esta faculdade por amor-pr�prio, ou por interesse. Neste
caso, � preciso, muito especialmente, levarem conta o car�ter, a moralidade e a
sinceridade habituais; todavia, nas particularidades, sobretudo, � que se encontram
meios de mais segura verifica��o, porquanto algumas h� que n�o podem deixar suspeita,
como, por exemplo, a exatid�o no retratar Esp�ritos que o m�dium jamais conheceu
quando encamados. Pertence a esta categoria o fato seguinte:
Uma senhora, vi�va, cujo marido se comunica freq�entemente com ela, estava
certa vez em companhia de um m�dium vidente, que n�o a conhecia, como n�o lhe
conhecia a fam�lia. Disse-lhe o m�dium, em dado momento: - Vejo um Esp�rito perto da
senhora. - Ah! disse esta por sua vez: E com certeza meu marido, que quase nunca me
deixa. - N�o, respondeu o m�dium, � uma mulher de certa idade; est� penteada de modo
singular; traz um band� branco sobre a fronte.
Por essa particularidade e outros detalhes descritos, a senhora reconheceu, sem
haver possibilidade de engano, sua av�, em quem naquele instante absolutamente n�o
pensava. Se o m�dium houvesse querido simular a faculda-
215
DOS M�DIUNS

de, f�cil lhe fora acompanhar o pensamento da dama. Entretanto, em vez do marido,
com quem ela se achava preocupada, ele v� uma mulher, com uma particularidade no
penteado, da qual coisa alguma lhe podia dar id�ia. Este fato prova tamb�m que a
vid�ncia, no m�dium, n�o era reflexo de qualquer pensamento estranho. (Veja-se o n.
102.)

6. M�diuns sonamb�licos

172. Pode considerar-se o sonambulismo uma variedade da faculdade medi�nica,
ou, melhor, s�o duas ordens de fen�menos que freq�entemente se acham reunidos. O
son�mbulo age sob a influ�ncia do seu pr�prio Esp�rito; � sua alma que, nos momentos
de emancipa��o, v�, ouve e percebe, fora dos limites dos sentidos. O que ele externa
tira-o de si mesmo; suas id�ias s�o, em geral, mais justas do que no estado normal, seus
conhecimentos mais dilatados, porque tem livre a alma. Numa palavra, ele vive
antecipadamente a vida dos Esp�ritos. O m�dium, ao contr�rio, � instrumento de uma
intelig�ncia estranha; � passivo e o que diz n�o vem de si Em resumo, o son�mbulo
exprime o seu pr�prio pensamento, enquanto que o m�dium exprime o de outrem. Mas,
o Esp�rito que se comunica com um m�dium comum tamb�m o pode fazer com um
son�mbulo; d�-se mesmo que, muitas vezes, o estado de emancipa��o da alma facilita
essa comunica��o. Muitos son�mbulos v�em perfeitamente os Esp�ritos e os descrevem
com tanta precis�o, como os m�diuns videntes. Podem confabular com eles e transmitir-
nos seus pensamentos. O que dizem, fora do �mbito de seus conhecimentos pessoais,
lhes � com freq��ncia sugerido por outros Esp�ritos. Aqui est� um exemplo not�vel, em
que a dupla a��o do Esp�rito do son�mbulo e de outro Esp�rito se revela e de modo
inequ�voco.

173. Um de nossos amigos tinha como son�mbulo um rapaz de 14 a 15 anos, de
intelig�ncia muito vulgar
216
CAP�TULO XIV

e instru��o extremamente escassa. Entretanto, no estado de sonambulismo, deu provas
de lucidez extraordin�ria e de grande perspic�cia. Excedia, sobretudo, no tratamento das
enfermidades e operou grande n�mero de curas consideradas imposs�veis. Certo dia,
dando consulta a um doente, descreveu a enfermidade com absoluta exatid�o. N�o
basta, disseram-lhe, agora � preciso que indiques o rem�dio. N�o posso, respondeu, meu
anjo doutor n�o est� aqui. Quem � esse anjo doutor de quem falas? - O que dita os
rem�dios. - N�o �s tu, ent�o, que v�s os rem�dios? - Oh! n�o; estou a dizer que � o meu
anjo doutor quem mos dita.
Assim, nesse son�mbulo, a a��o de ver o mal era do seu pr�prio Esp�rito que,
para isso, n�o precisava de assist�ncia alguma; a indica��o, por�m, dos rem�dios lhe era
dada por outro. N�o estando presente esse outro, ele nada podia dizer. Quando s�, era
apenas son�mbulo; assistido por aquele a quem chamava seu anjo doutor, era
son�mbulo-m�dium.

174. A lucidez sonamb�lica � uma faculdade que se radica no organismo e que
independe, em absoluto, da eleva��o, do adiantamento e mesmo do estado moral do
indiv�duo. Pode, pois, um son�mbulo ser muito l�cido e ao mesmo tempo incapaz de
resolver certas quest�es, desde que seu Esp�rito seja pouco adiantado. O que fala por si
pr�prio pode, portanto, dizer coisas boas ou m�s, exatas ou falsas, demonstrar mais ou
menos delicadeza e escr�pulo nos processos de que use, conforme o grau de eleva��o,
ou de inferioridade do seu pr�prio Esp�rito. A assist�ncia ent�o de outro Esp�rito pode
suprir-lhe as defici�ncias. Mas, um son�mbulo, tanto como os m�diuns, pode ser
assistido por um Esp�rito mentiroso, leviano, ou mesmo mau. AI, sobretudo, � que as
qualidades morais exercem grande influ�ncia, para atra�rem os bons Esp�ritos. (Veja-se:
O Livro dos Esp�ritos, "Sonambulismo", n. 425, e, aqui, adiante, o cap�tulo sobre a
"Influ�ncia moral do m�dium".)
217
DOS M�DIUNS

7. M�diuns curadores

175. Unicamente para n�o deixar de mencion�-la, falaremos aqui desta esp�cie
de m�diuns, porquanto o assunto exigiria desenvolvimento excessivo para os limites em
que precisamos ater-nos. Sabemos, ao demais, que um de nossos amigos, m�dico, se
prop�e a trat�-lo em obra especial sobre a medicina intuitiva. Diremos apenas que este
g�nero de mediunidade consiste, principalmente, no dom que possuem certas pessoas de
curar pelo simples toque, pelo olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de qualquer
medica��o. Dir-se-�, sem d�vida, que isso mais n�o � do que magnetismo.
Evidentemente, o fluido magn�tico desempenha a� importante papel; por�m, quem
examina cuidadosamente o fen�meno sem dificuldade reconhece que h� mais alguma
coisa. A magnetiza��o ordin�ria � um verdadeiro tratamento seguido, regular e
met�dico; no caso que apreciamos, as coisas se passam de modo inteiramente diverso.
Todos os magnetizadores s�o mais ou menos aptos a curar, desde que saibam conduzir-
se convenientemente, ao passo que nos m�diuns curadores a faculdade � espont�nea e
alguns at� a possuem sem jamais terem ouvido falar de magnetismo. A interven��o de
uma pot�ncia oculta, que � o que constitui a mediunidade, se faz manifesta, em certas
circunst�ncias, sobretudo se considerarmos que a maioria das pessoas que podem, com
raz�o, ser qualificadas de m�diuns curadores recorre � prece, que � uma verdadeira
evoca��o. (Veja-se atr�s o n. 131.)

176. Eis aqui as respostas que nos deram os Esp�ritos �s perguntas que lhes
dirigimos sobre este assunto:

1� a Podem considerar-se as pessoas dotadas de for�a magn�tica como formando
uma variedade de m�diuns?
"N�o h� que duvidar."

2� Entretanto, o m�dium � um intermedi�rio entre os Esp�ritos e o homem; ora, o
magnetizador, haurindo
218
CAP�TULO XIV

em si mesmo a for�a de que se utiliza, n�o parece que seja intermedi�rio de nenhuma
pot�ncia estranha.
"� um erro; a for�a magn�tica reside, sem d�vida, no homem, mas � aumentada
pela a��o dos Esp�ritos que ele chama em seu auxilio. Se magnetizas com o prop�sito de
curar, por exemplo, e invocas um bom Esp�rito que se interessa por ti e pelo teu doente,
ele aumenta a tua for�a e a tua vontade, dirige o teu fluido e lhe d� as qualidades
necess�rias."

3� H�, entretanto, bons magnetizadores que n�o cr�em nos Esp�ritos?
"Pensas ent�o que os Esp�ritos s� atuam nos que cr�em neles? Os que
magnetizam para o bem s�o auxiliados por bons Esp�ritos. Todo homem que nutre o
desejo do bem os chama, sem dar por isso, do mesmo modo que, pelo desejo do mal e
pelas m�s inten��es, chama os maus."

4� Agiria com maior efic�cia aquele que, tendo a for�a magn�tica, acreditasse na
interven��o dos Esp�ritos?
"Faria coisas que considerar�eis milagre."

5� H� pessoas que verdadeiramente possuem o dom de curar pelo simples
contacto, sem o emprego dos passes magn�ticos?
"Certamente; n�o tens disso m�ltiplos exemplos?"

6� Nesse caso, h� tamb�m a��o magn�tica, ou apenas influ�ncia dos Esp�ritos?
"Uma e outra coisa. Essas pessoas s�o verdadeiros m�diuns, pois que atuam sob
a influ�ncia dos Esp�ritos; isso, por�m, n�o quer dizer que sejam quais m�diuns
curadores, conforme o entendes."

7� Pode transmitir-se esse poder?
"O poder, n�o; mas o conhecimento de que necessita, para exerc�-lo, quem o
possua. N�o falta quem n�o suspeite sequer de que tem esse poder, se n�o acreditar que
lhe foi transmitido."

8� Podem obter-se curas unicamente por meio da prece?
219
DOS M�DIUNS

"Sim, desde que Deus o permita; pode dar-se, no entanto, que o bem do doente
esteja em sofrer por mais tempo e ent�o julgais que a vossa prece n�o foi ouvida."

9� Haver� para isso algumas f�rmulas de prece mais eficazes do que outras?
"Somente a supersti��o pode emprestar virtudes quaisquer a certas palavras e
somente Esp�ritos ignorantes, ou mentirosos podem alimentar semelhantes id�ias,
prescrevendo f�rmulas. Pode, entretanto, acontecer que, em se tratando de pessoas
pouco esclarecidas e incapazes de compreender as coisas puramente espirituais, o uso
de determinada f�rmula contribua para lhes infundir confian�a. Neste caso, por�m, n�o �
na f�rmula que est� a efic�cia, mas na f�, que aumenta por efeito da id�ia ligada ao uso
da f�rmula."

8. M�diuns pneumat�grafos

177. D�-se este nome aos m�diuns que t�m aptid�o para obter a escrita direta, o
que n�o � poss�vel a todos os m�diuns escreventes. Esta faculdade, at� agora, se mostra
muito rara. Desenvolve-se, provavelmente, pelo exerc�cio; mas, como dissemos, sua
utilidade pr�tica se limita a uma comprova��o patente da interven��o de uma for�a
oculta nas manifesta��es. S� a experi�ncia � capaz de dar a ver a qualquer pessoa se a
possui Pode-se, portanto, experimentar, como tamb�m se pode inquirir a respeito um
Esp�rito protetor, pelos outros meios de comunica��o. Conforme seja maior ou menor o
poder do m�dium, obt�m-se simples tra�os, sinais, letras, palavras, frases e mesmo
p�ginas inteiras. Basta de ordin�rio colocar uma folha de papel dobrada num lugar
qualquer, ou indicado pelo Esp�rito, durante dez minutos, ou um quarto de hora, �s
vezes mais. A prece e o recolhimento s�o condi��es essenciais; � por isso que se pode
considerar imposs�vel a obten��o de coisa alguma, numa reuni�o de pessoas pouco
s�rias, ou n�o animadas de sentimentos de simpatia e benevo-
220
CAP�TULO XIV

l�ncia. (Veja-se a teoria da escrita direta, cap�tulo VIII, Laborat�rio do mundo invis�vel,
n. 127 e seguintes, e cap�tulo XII, Pneumatografia.)
Trataremos de modo especial dos m�diuns escreventes nos cap�tulos que se
seguem.

__________
Nota da Editora (FEB) - No original franc�s est� no grifo. "Torpilles humaines" (Vide p�gina
208). Torpille � um peixe semelhante � raia, ou arraia, que tem �rg�os capazes de emitir descargas
el�tricas. � o peixe-torpedo, � seme1han�a das denomina��es que damos, de "enguia-el�trica" ou
"peixe-el�trico", ao peixe poraqu� amaz�nico.
221




CAP�TULO XV

DOS M�DIUNS ESCREVENTES OU
PSIC�GRAFOS

M�diuns mec�nicos, intuitivos, semimec�nicos, inspirados ou involunt�rios; de
pressentimentos.

178. De todos os meios de comunica��o, a escrita manual � o mais simples,
mais c�modo e, sobretudo, mais completo. Para ele devem tender todos os esfor�os,
porquanto permite se estabele�am, com os Esp�ritos, rela��es t�o continuadas e
regulares, como as que existem entre n�s. Com tanto mais afinco deve ser empregado,
quanto � por ele que os Esp�ritos revelam melhor sua natureza e o grau do seu
aperfei�oamento, ou da sua inferioridade. Pela facilidade que encontram em exprimir-se
por esse meio, eles nos revelam seus mais �ntimos pensamentos e nos facultam julg�-los
e apreciar-lhes o valor. Para o m�dium, a faculdade de escrever �, al�m disso, a mais
suscet�vel de desenvolver-se pelo exerc�cio.
222
CAP�TULO XV

M�diuns mec�nicos

179. Quem examinar certos efeitos que se produzem nos movimentos da mesa,
da cesta, ou da prancheta que escreve n�o poder� duvidar de uma a��o diretamente
exercida pelo Esp�rito sobre esses objetos. A cesta se agita por vezes com tanta
viol�ncia, que escapa das m�os do m�dium e n�o raro se dirige a certas pessoas da
assist�ncia para nelas bater. Outras vezes, seus movimentos d�o mostra de um
sentimento afetuoso. O mesmo ocorre quando o l�pis est� colocado na m�o do m�dium;
freq�entemente � atirado longe com for�a, ou, ent�o, a m�o, bem como a cesta, se
agitam convulsivamente e batem na mesa de modo col�rico, ainda quando o m�dium
est� possu�do da maior calma e se admira de n�o ser senhor de si Digamos, de
passagem, que tais efeitos demonstram sempre a presen�a de Esp�ritos imperfeitos; os
Esp�ritos superiores s�o constantemente calmos, dignos e ben�volos; se n�o s�o
escutados convenientemente, retiram-se e outros lhes tomam o lugar. Pode, pois, o
Esp�rito exprimir diretamente suas id�ias, quer movimentando um objeto a que a m�o do
m�dium serve de simples ponto de apoio, quer acionando a pr�pria m�o.
Quando atua diretamente sobre a m�o, o Esp�rito lhe d� uma impuls�o de todo
independente da vontade deste �ltimo. Ela se move sem interrup��o e sem embargo do
m�dium, enquanto o Esp�rito tem alguma coisa que dizer, e p�ra, assim ele acaba.
Nesta circunst�ncia, o que caracteriza o fen�meno � que o m�dium n�o tem a
menor consci�ncia do que escreve. Quando se d�, no caso, a inconsci�ncia absoluta;
t�m-se os m�diuns chamados passivos ou mec�nicos. E preciosa esta faculdade, por n�o
permitir d�vida alguma sobre a independ�ncia do pensamento daquele que escreve.

M�diuns intuitivos

180. A transmiss�o do pensamento tamb�m se d� por meio do Esp�rito do
m�dium, ou, melhor, de sua alma,
223
DOS M�DIUNS ESCREVENTES OU PSIC�GRAFOS

pois que por este nome designamos o Esp�rito encarnado. O Esp�rito livre, neste caso,
n�o atua sobre a m�o, para faz�-la escrever; n�o a toma, n�o a guia. Atua sobre a alma,
com a qual se identifica. A alma, sob esse impulso, dirige a m�o e esta dirige o l�pis.
Notemos aqui uma coisa importante: � que o Esp�rito livre n�o se substitui � alma, visto
que n�o a pode deslocar. Domina-a, mau grado seu, e lhe imprime a sua vontade. Em tal
circunst�ncia, o papel da alma n�o � o de inteira passividade; ela recebe o pensamento
do Esp�rito livre e o transmite. Nessa situa��o, o m�dium tem consci�ncia do que
escreve, embora n�o exprima o seu pr�prio pensamento. E o que se chama m�dium
intuitivo.
Mas, sendo assim, dir-se-�, nada prova seja um Esp�rito estranho quem escreve e
n�o o do m�dium. Efetivamente, a distin��o � �s vezes dif�cil de fazer-se, por�m, pode
acontecer que isso pouca import�ncia apresente. Todavia, � poss�vel reconhecer-se o
pensamento sugerido, por n�o ser nunca preconcebido; nasce � medida que a escrita vai
sendo tra�ada e, ami�de, � contr�rio � id�ia que antecipadamente se formara. Pode
mesmo estar fora dos limites dos conhecimentos e capacidades do m�dium.
O papel do m�dium mec�nico � o de uma m�quina; o m�dium intuitivo age como
o faria um int�rprete. Este, de fato, para transmitir o pensamento, precisa compreend�-
lo, apropriar-se dele, de certo modo, para traduzi-lo fielmente e, no entanto, esse
pensamento n�o � seu, apenas lhe atravessa o c�rebro. Tal precisamente o papel do
m�dium intuitivo.

M�diuns semimec�nicos

181. No m�dium puramente mec�nico, o movimento da m�o independe da
vontade; no m�dium intuitivo, o movimento � volunt�rio e facultativo. O m�dium
semimec�nico participa de ambos esses g�neros. Sente que � sua m�o uma impuls�o �
dada, mau grado seu, mas, ao mesmo tempo, tem consci�ncia do que escreve, � medida
que as palavras se formam. No primeiro o pensamento vem
224
CAP�TULO XV

depois do ato da escrita; no segundo, precede-o; no terceiro, acompanha-o. Estes
�ltimos m�diuns s�o os mais numerosos

M�diuns inspirados

182. Todo aquele que, tanto no estado normal, como no de �xtase, recebe, pelo
pensamento, comunica��es estranhas �s suas id�ias preconcebidas, pode ser inclu�do na
categoria dos m�diuns inspirados. Estes, como se v�, formam uma variedade da
mediunidade intuitiva, com a diferen�a de que a interven��o de uma for�a oculta � a�
muito menos sens�vel, por isso que, ao inspirado, ainda � mais dif�cil distinguir o
pensamento pr�prio do que lhe � sugerido. A espontaneidade � o que, sobretudo,
caracteriza o pensamento deste �ltimo g�nero. A inspira��o nos vem dos Esp�ritos que
nos influenciam para o bem, ou para o mal, por�m, procede, principalmente, dos que
querem o nosso bem e cujos conselhos muito ami�de cometemos o erro de n�o seguir.
Ela se aplica, em todas as circunst�ncias da vida, �s resolu��es que devamos tomar. Sob
esse aspecto, pode dizer-se que todos s�o m�diuns, porquanto n�o h� quem n�o tenha
seus Esp�ritos protetores e familiares, a se esfor�arem por sugerir aos protegidos
salutares id�ias. Se todos estivessem bem compenetrados desta verdade, ningu�m
deixaria de recorrer com freq��ncia � inspira��o do seu anjo de guarda, nos momentos
em que se n�o sabe o que dizer, ou fazer. Que cada um, pois, o invoque com fervor e
confian�a, em caso de necessidade, e muito freq�entemente se admirar� das id�ias que
lhe surgem como por encanto, quer se trate de uma resolu��o a tomar, quer de alguma
coisa a compor. Se nenhuma id�ia surge, � que � preciso esperar. A prova de que a id�ia
que sobrev�m � estranha � pessoa de quem se trate esta em que, se tal id�ia lhe existira
na mente, essa pessoa seria senhora de, a qualquer momento, utiliz�-la e n�o haveria
raz�o para que ela se n�o manifestasse � vontade. Quem n�o � cego nada mais precisa
fazer do que abrir os olhos, para ver quando quiser. Do mesmo
225
DOS M�DIUNS ESCREVENTES OU PSIC�GRAFOS

modo, aquele que possui id�ias pr�prias tem-nas sempre � disposi��o. Se elas n�o lhes
v�m quando quer, � que est� obrigado a busc�-las algures, que n�o no seu intimo.
Tamb�m se podem incluir nesta categoria as pessoas que, sem serem dotadas de
intelig�ncia fora do comum e sem sa�rem do estado normal, t�m rel�mpagos de uma
lucidez intelectual que lhes d� momentaneamente desabitual facilidade de concep��o e
de elocu��o e, em certos casos, o pressentimento de coisas futuras. Nesses momentos,
que com acerto se chamam de inspira��o, as id�ias abundam, sob um impulso
involunt�rio e quase febril. Parece que uma intelig�ncia superior nos vem ajudar e que o
nosso esp�rito se desembara�ou de um fardo.

183. Os homens de g�nio, de todas as esp�cies, artistas, s�bios, literatos, s�o
sem d�vida Esp�ritos adiantados, capazes de compreender por si mesmos e de conceber
grandes coisas. Ora, precisamente porque os julgam capazes, � que os Esp�ritos, quando
querem executar certos trabalhos, lhes sugerem as id�ias necess�rias e assim � que eles,
as mais das vezes, s�o m�diuns sem o saberem. T�m, no entanto, vaga intui��o de uma
assist�ncia estranha, visto que todo aquele que apela para a inspira��o, mais n�o faz do
que uma evoca��o. Se n�o esperasse ser atendido, por que exclamaria, t�o
freq�entemente: meu bom g�nio, vem em meu aux�lio?
As respostas seguintes confirmam esta asser��o:

a) Qual a causa prim�ria da inspira��o?
"O Esp�rito que se comunica pelo pensamento."

b) A revela��o das grandes coisas n�o � que constitui o objeto �nico da
inspira��o?
"N�o, a inspira��o se verifica, muitas vezes, com rela��o �s mais comuns
circunst�ncias da vida. Por exemplo, queres ir a alguma parte: uma voz secreta te diz
que n�o o fa�as, porque correr�s perigo; ou, ent�o, te diz que fa�as uma coisa em que
n�o pensavas. � a inspira��o. Poucas pessoas h� que n�o tenham sido mais ou menos
inspiradas em certos momentos."
226
CAP�TULO XV

c) Um autor, um pintor, um m�sico, por exemplo, poderiam, nos momentos de
inspira��o, ser considerados m�diuns?
"Sim, porquanto, nesses momentos, a alma se lhes torna mais livre e como que
desprendida da mat�ria; recobra uma parte das suas faculdades de Esp�rito e recebe mais
facilmente as comunica��es dos outros Esp�ritos que a inspiram."

M�diuns de pressentimentos

184. O pressentimento � uma intui��o vaga das coisas futuras. Algumas pessoas
t�m essa faculdade mais ou menos desenvolvida. Pode ser devida a uma esp�cie de
dupla vista, que lhes permite entrever as conseq��ncias das coisas atuais e a filia��o dos
acontecimentos. Mas, muitas vezes, tamb�m � resultado de comunica��es ocultas e,
sobretudo neste caso, � que se pode dar aos que dela s�o dotados o nome de m�diuns
de pressentimentos,que constituem uma variedade dos m�diuns inspirados.
227




CAP�TULO XVI

DOS M�DIUNS ESPECIAIS

Aptid�es especiais dos m�diuns. Quadro sin�ptico das
diferentes esp�cies de m�diuns.

185. Al�m das categorias de m�diuns que acabamos de enumerar, a
mediunidade apresenta uma variedade infinita de matizes, que constituem os chamados
m�diuns especiais, dotados de aptid�es particulares, ainda n�o definidas, abstra��o feita
das qualidades e conhecimentos do Esp�rito que se manifesta.
A natureza das comunica��es guarda sempre rela��o com a natureza do Esp�rito
e traz o cunho da sua eleva��o, ou da sua inferioridade, de seu saber, ou de sua
ignor�ncia. Mas, em igualdade de merecimento, do ponto de vista hier�rquico, h� nele
incontestavelmente uma propens�o para se ocupar de uma coisa preferentemente a
outra. Os Esp�ritos batedores, por exemplo, jamais saem das manifesta��es f�sicas e,
entre os que d�o comunica��es inteli-
228
CAP�TULO XVI

gentes, h� Esp�ritos poetas, m�sicos, desenhistas, moralistas, s�bios, m�dicos, etc.
Falamos dos Esp�ritos de mediana categoria, por isso que, chegando eles a um certo
grau, as aptid�es se confundem na unidade da perfei��o. Por�m, de par com a aptid�o
do Esp�rito, h� a do m�dium, que �, para o primeiro, instrumento mais ou menos
c�modo, mais ou menos flex�vel e no qual descobre ele qualidades particulares que n�o
podemos apreciar.
Fa�amos uma compara��o: um m�sico muito h�bil tem ao seu alcance diversos
violinos, que todos, para o vulgo, s�o bons instrumentos, mas que s�o muito diferentes
uns dos outros para o artista consumado, o qual descobre neles matizes de extrema
delicadeza, que o levam a escolher uns e a rejeitar outros, matizes que ele percebe por
intui��o, visto que n�o os pode definir. O mesmo se d� com rela��o aos m�diuns. Em
igualdade de condi��es quanto �s for�as medi�nicas, o Esp�rito preferir� um ou outro,
conforme o g�nero da comunica��o que queira transmitir. Assim, por exemplo,
indiv�duos h� que, como m�diuns, escrevem admir�veis poesias, sendo certo que, em
condi��es ordin�rias, jamais puderam ou souberam fazer dois versos; outros, ao
contr�rio, que s�o poetas e que, como m�diuns, nunca puderam escrever sen�o prosa,
mau grado ao desejo que nutrem de escrever poesias. Outro tanto sucede com o
desenho, com a m�sica, etc. Alguns h� que, sem possu�rem de si mesmos conhecimentos
cient�ficos, demonstram especial aptid�o para receber comunica��es eruditas; outros,
para os estudos hist�ricos; outros servem mais facilmente de int�rpretes aos Esp�ritos
moralistas.. Numa palavra, qualquer que seja a maleabilidade do m�dium, as
comunica��es que ele com mais facilidade recebe trazem geralmente um cunho especial;
alguns existem mesmo que n�o saem de uma certa ordem de id�ias e, quando destas se
afastam, s� obt�m comunica��es incompletas, lac�nicas e n�o raro falsas. Al�m das
causas de aptid�o, os Esp�ritos tamb�m se comunicam mais ou menos preferentemente
por tal ou qual intermedi�rio, de acordo com as suas simpatias. Assim, em perfeita
igualdade
229
DOS M�DIUNS ESPECIAIS

de condi��es, o mesmo Esp�rito ser� muito mais expl�cito com certos m�diuns, apenas
porque estes lhe conv�m mais.

186. Laboraria, pois, em erro quem, simplesmente por ter ao seu alcance um
bom m�dium, ainda mesmo com a maior facilidade para escrever, entendesse de querer
obter por ele boas comunica��es de todos os g�neros. A primeira condi��o �, n�o h�
contestar, certificar-se a pessoa da fonte donde elas promanam, isto �, das qualidades do
Esp�rito que as transmite; por�m, n�o � menos necess�rio ter em vista as qualidades do
instrumento oferecido ao Esp�rito. Cumpre, portanto, se estude a natureza do m�dium,
como se estuda a do Esp�rito, porquanto s�o esses os dois elementos essenciais para a
obten��o de um resultado satisfat�rio. Um terceiro existe, que desempenha papel
igualmente importante: � a inten��o, o pensamento �ntimo, o sentimento mais ou menos
louv�vel de quem interroga. Isto facilmente se concebe. Para que uma comunica��o
seja boa, preciso � que proceda de um Esp�rito bom; para que esse bom Esp�rito a
POSSA transmitir indispens�vel lhe � um bom instrumento; para que QUEIRA
transmiti-la, necess�rio se faz que o fim visado lhe convenha. O Esp�rito, que l� o
pensamento, julga se a quest�o que lhe prop�em merece resposta s�ria e se a pessoa que
lha dirige � digna de recebe-la. A n�o ser assim, n�o perde seu tempo em lan�ar boas
sementes em cima de pedras e � quando os Esp�ritos levianos e zombeteiros entram em
a��o, porque, pouco lhes importando a verdade, n�o a encaram de muito perto e se
mostram geralmente pouco escrupulosos, quer quanto aos fins, quer quanto aos meios.
Vamos fazer um resumo dos principais g�neros de mediunidade, a fim de
apresentarmos, por assim dizer, o quadro sin�ptico de todas, compreendidas as que j�
descrevemos nos cap�tulos precedentes, indicando o n�mero onde tratamos de cada uma
com mais min�cias.
Grupamos as diferentes esp�cies de m�diuns por analogia de causas e efeitos,
sem que esta classifica��o algo
230
CAP�TULO XVI

tenha de absoluto. Algumas se encontram com facilidade; outras, ao contr�rio, s�o raras
e excepcionais, o que teremos o cuidado de indicar. Estas �ltimas indica��es foram
todas feitas pelos Esp�ritos, que, ali�s, reviram este quadro com particular cuidado e o
completaram por meio de numerosas observa��es e novas categorias, de sorte que o
dito quadro �, a bem dizer, obra deles. Mediante aspas, destacamos as suas observa��es
textuais, sempre que nos pareceu conveniente assin�-las. S�o, na sua maioria, de Erasto
e de S�crates.

187. Podem dividir-se os m�diuns em duas grandes categorias:

M�diuns de efeitos f�sicos, os que t�m o poder de provocar efeitos materiais, ou
manifesta��es ostensivas. (N. 160.)

M�diuns de efeitos intelectuais, os que s�o mais aptos a receber e a transmitir
comunica��es inteligentes. (N. 65 e seguintes.)

Todas as outras esp�cies se prendem mais ou menos diretamente a uma ou outra
dessas duas categorias; algumas participam de ambas. Se analisarmos os diferentes
fen�menos produzidos sob a influ�ncia medi�nica, veremos que, em todos, h� um efeito
f�sico e que aos efeitos f�sicos se alia quase sempre um efeito inteligente. Dif�cil � muitas
vezes determinar o limite entre os dois, mas isso nenhuma conseq��ncia apresenta. Sob
a denomina��o de m�diuns de efeitos intelectuais abrangemos os que podem, mais
particularmente, servir de intermedi�rios para as comunica��es regulares e fluentes. (N.
133.)


188. Esp�cies comuns a todos os g�neros
de mediunidade

M�diuns sensitivos: pessoas suscet�veis de sentir a presen�a dos Esp�ritos, por
uma impress�o geral ou local, vaga ou material. A maioria dessas pessoas distingue os
231
DOS M�DIUNS ESPECIAIS

Esp�ritos bons dos maus, pela natureza da impress�o. (N. 164.)
"Os m�diuns delicados e muito sensitivos devem abster-se das comunica��es
com os Esp�ritos violentos, ou cuja impress�o � penosa, por causa da fadiga que da�
resulta."

M�diuns naturais ou inconscientes: os que produzem espontaneamente os
fen�menos, sem interven��o da pr�pria vontade e, as mais das vezes, � sua revelia.
(N. 161.)

M�diuns facultativos ou volunt�rios: os que t�m o poder de provocar os
fen�menos por ato da pr�pria vontade. (N. 160.)
"Qualquer que seja essa vontade, eles nada podem, se os Esp�ritos se recusam, o
que prova a interven��o de uma for�a estranha."

189. Variedades especiais para os efeitos f�sicos

M�diuns tipt�logos: aqueles pela influ�ncia dos quais se produzem os ru�dos, as
pancadas. Variedade muito comum, com ou sem interven��o da vontade.

M�diuns motores: os que produzem o movimento dos corpos inertes. Muito
comuns. (N. 61.)

M�diuns de transla��es e de suspens�es: os que produzem a transla��o a�rea e a
suspens�o dos corpos inertes no espa�o, sem ponto de apoio. Entre eles h� os que
podem elevar-se a si mesmos. Mais ou menos raros, conforme a amplitude do
fen�meno; muito raros, no �ltimo caso. (Ns. 75 e seguintes; n. 80.)

M�diuns de efeitos musicais: provocam a execu��o de composi��es, em certos
instrumentos de m�sica, sem contacto com estes. Muito raros. (N. 74, perg. 24.)

M�diuns de apari��es: os que podem provocar apari��es flu�dicas ou tang�veis,
vis�veis para os assistentes. Muito excepcionais. (N. 100, perg. 27; n. 104.)

M�diuns de transporte: os que podem servir de auxiliares aos Esp�ritos para o
transporte de objetos materiais.
232
CAP�TULO XVI

Variedade dos m�diuns motores e de transla��es. Excepcionais. (N. 96.)

M�diuns noturnos: os que s� na obscuridade obt�m certos efeitos f�sicos. � a
seguinte a resposta que nos deu um Esp�rito � pergunta que fizemos sobre se se podem
considerar esses m�diuns como constituindo uma variedade:
"Certamente se pode fazer disso uma especialidade, mas esse fen�meno � devido
mais �s condi��es ambientes do que � natureza do m�dium, ou dos Esp�ritos. Devo
acrescentar que alguns escapam a essa influ�ncia do meio e que os m�diuns noturnos,
em sua maioria, poderiam chegar, pelo exerc�cio, a operar t�o bem no claro, quanto na
obscuridade. � pouco numerosa esta esp�cie de m�diuns. E, cumpre diz�-lo, gra�as a
essa condi��o, que oferece plena liberdade ao emprego dos truques da ventriloquia e
dos tubos ac�sticos, � que os charlat�es h�o abusado muito da credulidade, fazendo-se
passar por m�diuns, a fim de ganharem dinheiro. Mas, que importa? Os trampolineiros
de gabinete, como os da pra�a p�blica, ser�o cruelmente desmascarados e os Esp�ritos
lhes provar�o que andam mal, imiscuindo-se na obra deles. Repito: alguns charlat�es
receber�o, de modo bastante rude, o castigo que os desgostar� do oficio de falsos
m�diuns. Ali�s, tudo isso pouco durar�." - ERASTO.

M�diuns pneumat�grafos os que obt�m a escrita direta. Fen�meno muito raro e,
sobretudo, muito f�cil de ser imitado pelos trapaceiros. (N. 177.)
NOTA. Os Esp�ritos insistiram, contra a nossa opini�o, em incluir a escrita direta
entre os fen�menos de ordem f�sica, pela raz�o, disseram eles, de que: "Os efeitos
inteligentes s�o aqueles para cuja produ��o o Esp�rito se serve dos materiais existentes
no c�rebro do m�dium, o que n�o se d� na escrita direta. A a��o do m�dium � aqui toda
material, ao passo que no m�dium escrevente, ainda que completamente mec�nico, o
c�rebro desempenha sempre um papel ativo."

M�diuns curadores: os que t�m o poder de curar ou de aliviar o doente, pela s�
imposi��o das m�os, ou pela prece.
233
DOS M�DIUNS ESPECIAIS

"Esta faculdade n�o � essencialmente medi�nica; possuem-na todos os
verdadeiros crentes, sejam m�diuns ou n�o. As mais das vezes, � apenas uma exalta��o
do poder magn�tico, fortalecido, se necess�rio, pelo concurso de bons Esp�ritos." (N.
175.)

M�diuns excitadores: pessoas que t�m o poder de, por sua influ�ncia,
desenvolver nas outras a faculdade de escrever.
"A� h� antes um efeito magn�tico do que um caso de mediunidade propriamente
dita, porquanto nada prova a interven��o de um Esp�rito. Como quer que seja, pertence
� categoria dos efeitos f�sicos." (Veja-se o cap�tulo Da forma��o dos m�diuns.)

190. M�diuns especiais para efeitos intelectuais.
Aptid�es diversas

M�diuns audientes:os que ouvem os Esp�ritos. Muito comuns. (N. 165.)
"Muitos h� que imaginam ouvir o que apenas lhes est� na imagina��o."

M�diuns falantes: os que falam sob a influ�ncia dos Esp�ritos. Muito comuns.
(N. 166.)

M�diuns videntes: os que, em estado de vig�lia, v�em os Esp�ritos. A vis�o
acidental e fortuita de um Esp�rito, numa circunst�ncia especial, � muito freq�ente; mas,
a vis�o habitual, ou facultativa dos Esp�ritos, sem distin��o, � excepcional. (N. 167.)
"� uma aptid�o a que se op�e o estado atual dos �rg�os visuais. Por isso � que
cumpre nem sempre acreditar na palavra dos que dizem ver os Esp�ritos."

M�diuns inspirados: aqueles a quem, quase sempre mau grado seu, os Esp�ritos
sugerem id�ias, quer relativas aos atos ordin�rios da vida, quer com rela��o aos grandes
trabalhos da intelig�ncia. (N. 182.)

M�diuns de pressentimentos: pessoas que, em dadas circunst�ncias, t�m uma
intui��o vaga de coisas vulgares que ocorrer�o no futuro. (N. 184.)
234
CAP�TULO XVI

M�diuns prof�ticos: variedade dos m�diuns inspirados, ou de pressentimentos.
Recebem, permitindo-o Deus, com mais precis�o do que os m�diuns de
pressentimentos, a revela��o de futuras coisas de interesse geral e s�o incumbidos de d�-
las a conhecer aos homens, para instru��o destes.
"Se h� profetas verdadeiros, mais ainda os h� falsos, que consideram revela��es
os devaneios da pr�pria imagina��o, quando n�o s�o embusteiros que, por ambi��o, se
apresentam como tais." (Veja-se, em O Livro dos Esp�ritos, o n. 624 - "Caracter�sticas
do verdadeiro profeta".)

M�diuns son�mbulos: os que, em estado de sonambulismo, s�o assistidos por
Esp�ritos. (N. 172.)

M�diuns ext�ticos: os que, em estado de �xtase, recebem revela��es da parte
dos Esp�ritos.
"Muitos ext�ticos s�o joguetes da pr�pria imagina��o e de Esp�ritos zombeteiros
que se aproveitam da exalta��o deles. S�o rar�ssimos os que mere�am inteira confian�a."

M�diuns pintores ou desenhistas: os que pintam ou desenham sob a influ�ncia
dos Esp�ritos. Falamos dos que obt�m trabalhos s�rios, visto n�o se poder dar esse
nome a certos m�diuns que Esp�ritos zombeteiros levam a fazer coisas grotescas, que
desabonariam o mais atrasado estudante.
Os Esp�ritos levianos se comprazem em imitar. Na �poca em que apareceram os
not�veis desenhos de J�piter, surgiu grande n�mero de pretensos m�diuns desenhistas,
que Esp�ritos levianos induziram a fazer as coisas mais rid�culas. Um deles, entre outros,
querendo eclipsar os desenhos de J�piter, ao menos nas dimens�es, quando n�o fosse na
qualidade, fez que um m�dium desenhasse um monumento que ocupava muitas folhas de
papel para chegar � altura de dois andares. Muitos outros se divertiram fazendo que os
m�diuns pintassem supostos retratos, que eram verdadeiras caricaturas. (Revue Spirite,
agosto de 1858.)

M�diuns m�sicos: os que executam, comp�em, ou escrevem m�sicas, sob a
influ�ncia dos Esp�ritos. H� m�-
235
DOS M�DIUNS ESPECIAIS

diuns m�sicos, mec�nicos, semimec�nicos, intuitivos e inspirados, como os h� para as
M�diuns para efeitos musicais.)
comunica��es liter�rias. (Veja-se -

VARIEDADES DOS M�DIUNS ESCREVENTES

191. 1� - Segundo o modo de execu��o

M�diuns escreventes ou psic�grafos: os que t�m a faculdade de escrever por si
mesmos sob a influ�ncia dos Esp�ritos.

M�diuns escreventes mec�nicos: aqueles cuja m�o recebe um impulso
involunt�rio e que nenhuma consci�ncia t�m do que escrevem. Muito raros. (N. 179).

M�diuns semimec�nicos: aqueles cuja m�o se move involuntariamente, mas que
t�m, instantaneamente, consci�ncia das palavras ou das frases, � medida que escrevem.
S�o os mais comuns. (N. 181.)

M�diuns intuitivos: aqueles com quem os Esp�ritos se comunicam pelo
pensamento e cuja m�o � conduzida voluntariamente. Diferem dos m�diuns inspirados
em que estes �ltimos n�o precisam escrever, ao passo que o m�dium intuitivo escreve o
pensamento que lhe � sugerido instantaneamente sobre um assunto determinado e
provocado. (N. 180.)
"S�o muito comuns, mas tamb�m muito sujeitos a erro, por n�o poderem, multas
vezes, discernir o que provem dos Esp�ritos do que deles pr�prios emana."

M�diuns pol�grafos: aqueles cuja escrita muda com o Esp�rito que se comunica,
ou aptos a reproduzir a escrita que o Esp�rito tinha em vida. O primeiro caso � muito
vulgar; o segundo, o da identidade da escrita, � mais raro. (N. 219.)

M�diuns poliglotas: os que t�m a faculdade de falar, ou escrever, em l�nguas que
lhes s�o desconhecidas. Muito raros.

M�diuns iletrados: os que escrevem, como m�diuns, sem saberem ler, nem
escrever, no estado ordin�rio.
236
CAP�TULO XVI

ial
"Mais raros do que os precedentes; h� maior dificuldade mater a vencer."

192. 2� - Segundo o desenvolvimento da faculdade

M�diuns novatos: aqueles cujas faculdades ainda n�o est�o completamente
desenvolvidas e que carecem da necess�ria experi�ncia.

M�diuns improdutivos: os que n�o chegam a obter mais do que coisas
insignificantes, monoss�labos, tra�os ou letras sem conex�o. (Veja-se o cap�tulo "Da
forma��o dos m�diuns".)

M�diuns feitos ou formados: aqueles cujas faculdades medi�nicas est�o
completamente desenvolvidas, que transmitem as comunica��es com facilidade e
presteza, sem hesita��o. Concebe-se que este resultado s� pelo h�bito pode ser
conseguido, porquanto nosm�diuns novatosas comunica��es s�o lentas e dif�ceis.

M�diuns lac�nicos: aqueles cujas comunica��es, embora recebidas com
facilidade, s�o breves e sem desenvolvimento.

M�diuns expl�citos: as comunica��es que recebem t�m toda a amplitude e toda a
extens�o que se podem esperar de um escritor consumado.
"Esta aptid�o resulta da expans�o e da facilidade de combina��o dos fluidos. Os
Esp�ritos os procuram para tratar de assuntos que comportam grandes
desenvolvimentos."

M�diuns experimentados: a facilidade de execu��o � uma quest�o de h�bito e
que muitas vezes se adquire em pouco tempo, enquanto que a experi�ncia resulta de um
estudo s�rio de todas as dificuldades que se apresentam na pr�tica do Espiritismo. A
experi�ncia d� ao m�dium o tato necess�rio para apreciar a natureza dos Esp�ritos que
se manifestam, para lhes apreciar as qualidades boas ou m�s, pelos mais minuciosos
sinais, para distinguir o embuste dos Esp�ritos zombeteiros, que se acobertam com as
apar�ncias da verdade. Facilmente se compreende a
237
DOS M�DIUNS ESPECIAIS

import�ncia desta qualidade, sem a qual todas as Outras ficam destitu�das de real
utilidade. O mal � que muitos m�diuns confundem a experi�ncia, fruto do estudo, com a
aptid�o, produto da organiza��o f�sica. Julgam-se mestres, porque escrevem com
facilidade; repelem todos os conselhos e se tomam presas de Esp�ritos mentirosos e
hip�critas, que os captam, lisonjeando-lhes o orgulho. (Veja-se, adiante, o cap�tulo "Da
obsess�o".)

M�diuns male�veis: aqueles cuja faculdade se presta mais facilmente aos
diversos g�neros de comunica��es e pelos quais todos os Esp�ritos, ou quase todos,
podem manifestar-se, espontaneamente, ou por evoca��o.
"Esta esp�cie de m�diuns se aproxima muito da dos m�diuns sensitivos."

M�diuns exclusivos: aqueles pelos quais se manifesta de prefer�ncia um Esp�rito,
at� com exclus�o de todos os demais, o qual responde pelos outros que s�o chamados.
"Isto resulta sempre de falta de maleabilidade. Quando o Esp�rito � bom, pode
ligar-se ao m�dium, por simpatia, ou com um intento louv�vel; quando mau, � sempre
objetivando p�r o m�dium na sua depend�ncia. E mais um defeito do que uma qualidade
e muito pr�ximo da obsess�o." (Veja-se o cap�tulo "Da obsess�o".)

M�diuns para evoca��o: os m�diuns male�veis s�o naturalmente os mais
pr�prios para este g�nero de comunica��o e para as quest�es de minud�ncias que se
podem propor aos Esp�ritos. Sob este aspecto, h� m�diuns inteiramente especiais.
"As respostas que d�o n�o saem quase nunca de um quadro restrito,
incompat�vel com o desenvolvimento dos assuntos gerais."

M�diuns para ditados espont�neos: recebem comunica��es espont�neas de
Esp�ritos que se apresentam sem ser chamados. Quando esta faculdade � especial num
m�dium, torna-se dif�cil, �s vezes imposs�vel mesmo, fazer-se por ele urna evoca��o.
"Entretanto, s�o mais bem aparelhados que os da classe precedente. Atenta em
que o aparelhamento de que
238
CAP�TULO XVI

aqui se trata � o de materiais do c�rebro, pois mister se faz, freq�entemente, direi
mesmo - sempre, maior soma de intelig�ncia para os ditados espont�neos, do que para
as evoca��es. Entende por ditados espont�neos os que verdadeiramente merecem essa
denomina��o e n�o algumas frases incompletas ou algumas id�ias corriqueiras, que se
deparam em todos os escritos humanos."

193. 3� - Segundo o g�nero e a particularidade
das comunica��es

M�diuns versejadores: obt�m, mais facilmente do que outros, comunica��es em
verso. Muito comuns, para maus versos; muito raros, para versos bons.

M�diuns po�ticos: sem serem versificadas, as comunica��es que recebem t�m
qualquer coisa de vaporoso, de sentimental; nada que mostre rudeza. S�o, mais do que
os outros, pr�prios para a express�o de sentimentos ternos e afetuosos. Tudo, nas suas
comunica��es, � vago; fora in�til pedir-lhes id�ias precisas. Muito comuns.

M�diuns positivos: suas comunica��es t�m, geralmente, um cunho de nitidez e
precis�o, que muito se presta �s min�cias circunstanciadas, aos informes exatos. Muito
raros.
M�diuns liter�rios: n�o apresentam nem o que h� de impreciso nos m�diuns po�ticos,
nem o terra-a-terra dos m�diuns positivos; por�m, dissertam com sagacidade. T�m o
estilo correto, elegante e, freq�entemente, de not�vel eloq��ncia.

M�diuns incorretos: podem obter excelentes coisas, pensamentos de inatac�vel
moralidade, mas num estilo prolixo, incorreto, sobrecarregado de repeti��es e de termos
impr�prios.
"A incorre��o material do estilo decorre geralmente de falta de cultura
intelectual do m�dium que, ent�o, n�o �, sob esse aspecto, um bom instrumento para o
Esp�rito, que a isso, ali�s, pouca import�ncia liga. Tendo como essencial o pensamento,
ele vos deixa a liberdade de dar-
239
DOS M�DIUNS ESPECIAIS

lhe a forma que convenha. J� assim n�o � com rela��o �s id�ias falsas e il�gicas que uma
comunica��o possa conter, as quais constituem sempre um �ndice da inferioridade do
Esp�rito que se manifesta."

M�diuns historiadores: os que revelam aptid�o especial para as explana��es
hist�ricas. Esta faculdade, como todas as demais, independe dos conhecimentos do
m�dium, porquanto n�o � raro verem-se pessoas sem instru��o e at� crian�as tratar de
assuntos que lhes n�o est�o ao alcance. Variedade rara dos m�diuns positivos.

M�diuns cient�ficos: n�o dizemos s�bios, porque podem ser muito ignorantes e,
apesar disso, se mostram especialmente aptos para comunica��es relativas �s ci�ncias.

M�diuns receitistas: t�m a especialidade de servirem mais facilmente de
int�rpretes aos Esp�ritos para as prescri��es m�dicas. Importa n�o os confundir com os
m�diuns curadores, visto que absolutamente n�o fazem mais do que transmitir o
pensamento do Esp�rito, sem exercerem por si mesmos influ�ncia alguma. Muito
comuns.

M�diuns religiosos: recebem especialmente comunica��es de car�ter religioso,
ou que tratam de quest�es religiosas, sem embargo de suas cren�as, ou h�bitos.

M�diuns fil�sofos e moralistas: as comunica��es que recebem t�m geralmente
por objeto as quest�es de moral e de alta filosofia. Muito comuns, quanto � moral.

"Todos estes matizes constituem variedades de aptid�es dos m�diuns bons.
Quanto aos que t�m uma aptid�o especial para comunica��es cient�ficas, hist�ricas,
m�dicas e outras, fora do alcance de suas especialidades atuais, fica certo de que
possu�ram, em anterior exist�ncia, esses conhecimentos, que permaneceram neles em
estado latente, fazendo parte dos materiais cerebrais de que necessita o Esp�rito que se
manifesta; s�o os elementos que a este abrem caminho para a transmiss�o de id�ias que
lhe s�o pr�prias, porquanto, em tais m�diuns encontra ele instrumentos mais inteligentes
e mais male�veis do que num ignaro." - (Erasto.)

M�diuns de comunica��es triviais e obscenas: estas palavras indicam o g�nero
de comunica��es que alguns
240
CAP�TULO XVI

m�diuns recebem habitualmente e a natureza dos Esp�ritos que as d�o. Quem haja
estudado o mundo esp�rita, em todos os graus da escala, sabe que Esp�ritos h�, cuja
perversidade iguala � dos homens mais depravados e que se comprazem em exprimir
seus pensamentos nos mais grosseiros termos. Outros,, menos abjetos, se contentam
com express�es triviais. E natural que esses m�diuns sintam o desejo de se verem livres
da prefer�ncia de que s�o objeto por parte de semelhantes Esp�ritos e que devem invejar
os que, nas comunica��es que recebem, jamais escreveram uma palavra inconveniente.
Fora necess�rio uma estranha aberra��o de id�ias e estar divorciado do bom senso, para
acreditar que semelhante linguagem possa ser usada por Esp�ritos bons.

194. 4� - Segundo as qualidades f�sicas do m�dium

M�diuns calmos: escrevem sempre com certa lentid�o e sem experimentar a
mais ligeira agita��o.

M�diuns velozes: escrevem com rapidez maior do que poderiam
voluntariamente, no estado ordin�rio. Os Esp�ritos se comunicam por meio deles com a
rapidez do rel�mpago. Dir-se-ia haver neles uma superabund�ncia de fluido, que lhes
permite identificarem-se instantaneamente com o Esp�rito. Esta qualidade apresenta �s
vezes seu inconveniente: o de que a rapidez da escrita a toma muito dif�cil de ser lida,
por quem quer que n�o seja o m�dium.
"� mesmo muito fatigante, porque desprende muito fluido inutilmente."

M�diuns convulsivos: ficam num estado de sobreexcita��o quase febril. A m�o e
algumas vezes todo o corpo se lhes agitam num tremor que � imposs�vel dominar. A
causa prim�ria desse fato est� sem d�vida na organiza��o, mas tamb�m depende muito
da natureza dos Esp�ritos que por eles se comunicam. Os bons e ben�volos produzem
sempre uma impress�o suave e agrad�vel; os maus, ao contr�rio, produzem-na penosa.
241
DOS M�DIUNS ESPECIAIS

"� preciso que esses m�diuns s� raramente se sirvam de sua faculdade
medi�nica, cujo uso freq�ente lhes poderia afetar o Sistema nervoso." (Cap�tulo "Da
"
identidade dos Esp�ritos , diferencia��o dos bons e maus Esp�ritos.)

195. 5� - Segundo as qualidades morais dos m�diuns

Mencionamo-las sumariamente e de mem�ria, apenas para completar o quadro,
visto que ser�o desenvolvidas adiante, nos cap�tulos: Da influ�ncia moral do m�dium,
Da obsess�o, Da identidade dos Esp�ritos e outros, para os quais chamamos
particularmente a aten��o do leitor. A� se ver� a influ�ncia que as qualidades e os
defeitos dos m�diuns pode exercer na seguran�a das comunica��es e quais os que com
raz�o se podem considerar m�diuns imperfeitos ou bons m�diuns.

196. M�diuns imperfeitos

M�diuns obsidiados: os que n�o podem desembara�ar-se de Esp�ritos
importunos e enganadores, mas n�o se iludem.

M�diuns fascinados: os que s�o iludidos por Esp�ritos enganadores e se iludem
sobre a natureza das comunica��es que recebem.

M�diuns subjugados: os que sofrem uma domina��o moral e, muitas vezes,
material da parte de maus Esp�ritos.

M�diuns levianos: os que n�o tomam a s�rio suas faculdades e delas s� se
servem por divertimento, ou para futilidades.

M�diuns indiferentes: os que nenhum proveito moral tiram das instru��es que
obt�m e em nada modificam o proceder e os h�bitos.

M�diuns presun�osos: os que t�m a pretens�o de se acharem em rela��o
somente com Esp�ritos superiores. Cr�em-se infal�veis e consideram inferior e err�neo
tudo o que deles n�o provenha.
242
CAP�TULO XVI

M�diuns orgulhosos: os que se envaidecem das comunica��es que lhes s�o
dadas; julgam que nada mais t�m que aprender no Espiritismo e n�o tomam para si as
li��es que recebem freq�entemente dos Esp�ritos. N�o se contentam com as faculdades
que possuem, querem t�-las todas.

M�diuns suscet�veis: variedade dos m�diuns orgulhosos, suscetibilizam-se com
as cr�ticas de que sejam objeto suas comunica��es; zangam-se com a menor contradi��o
e, se mostram o que obt�m, � para que seja admirado e n�o para que se lhes d� um
parecer. Geralmente, tomam avers�o �s pessoas que os n�o aplaudem sem restri��es e
fogem das reuni�es onde n�o possam impor-se e dominar.
"Deixai que se v�o pavonear algures e procurar ouvidos mais complacentes, ou
que se isolem; nada perdem as reuni�es que da presen�a deles ficam privadas." -
ERASTO.

M�diuns mercen�rios:os que exploram suas faculdades.

M�diuns ambiciosos: os que, embora n�o mercadejem com as faculdades que
possuem, esperam tirar delas quaisquer vantagens.

M�diuns de m�-f�: os que, possuindo faculdades reais, simulam as de que
carecem, para se darem import�ncia. N�o se podem designar pelo nome de m�dium as
pessoas que, nenhuma faculdade medi�nica possuindo, s� produzem certos efeitos por
meio da charlatanaria.

M�diuns ego�stas: os que somente no seu interesse pessoal se servem de suas
faculdades e guardam para si as comunica��es que recebem.

M�diuns invejosos: os que se mostram despeitados com o maior apre�o
dispensado a outros m�diuns, que lhes s�o superiores.
Todas estas m�s qualidades t�m necessariamente seu oposto no bem.

197. Bons m�diuns

M�diuns s�rios: os que unicamente para o bem se servem de suas faculdades e
para fins verdadeiramente
243
DOS M�DIUNS ESPECIAIS

�teis. Acreditam profan�-las, utilizando-se delas para satisfa��o de curiosos e de
indiferentes, ou para futilidades.

M�diuns modestos: os que nenhum reclamo fazem das comunica��es que
recebem, por mais belas que sejam. Consideram-se estranhos a elas e n�o se julgam ao
abrigo das mistifica��es. Longe de evitarem as opini�es desinteressadas, solicitam-nas.

M�diuns devotados: os que compreendem que o verdadeiro m�dium tem uma
miss�o a cumprir e deve, quando necess�rio, sacrificar gostos, h�bitos, prazeres, tempo
e mesmo interesses materiais ao bem dos outros.

M�diuns seguros: os que, al�m da facilidade de execu��o, merecem toda a
confian�a, pelo pr�prio car�ter, pela natureza elevada dos Esp�ritos que os assistem; os
que, portanto, menos expostos se acham a ser iludidos. Veremos mais tarde que esta
seguran�a de modo 'algum depende dos nomes mais ou menos respeit�veis com que os
Esp�ritos se manifestem.
"� incontest�vel, bem o sentis, que, epilogando assim as qualidades e os defeitos
dos m�diuns, isto suscitar� contrariedades e at� a animosidade de alguns; mas, que
importa? A mediunidade se espalha cada vez mais e o m�dium que levasse a mal estas
reflex�es, apenas uma coisa provaria: que n�o � bom m�dium, isto �, que tem a assisti-lo
Esp�ritos maus. Ao demais, como j� eu disse, tudo isto ser� passageiro e os maus
m�diuns, os que abusam, ou usam mal de suas faculdades, experimentar�o tristes
conseq��ncias, conforme j� se tem dado com alguns. Aprender�o � sua custa o que
resulta de aplicarem, no interesse de suas paix�es terrenas, um dom que Deus lhes
outorgara unicamente para o adiantamento moral deles. Se os n�o puderdes reconduzir
ao bom caminho, lamentai-os, porquanto, posso diz�-lo, Deus os reprova." -
(ERASTO.)
"Este quadro � de grande import�ncia, n�o si para os m�diuns sinceros que,
lendo-o, procurarem de boa-f� preservar-se dos escolhos a que est�o expostos, mas
tamb�m para todos os que se servem dos m�diuns, porque lhes dar� a medida do que
podem racionalmente esperar. Ele dever� estar constantemente sob as vistas de todo
aquele que se ocupa de manifesta��es, do mesmo modo que a escala esp�rita, a que
serve de complemento. Esses dois quadros re�nem todos os princ�pios
244
CAP�TULO XVI


da Doutrina e contribuir�o, mais do que o supondes, para trazer o Espiritismo ao
verdadeiro caminho." (S�CRATES.)

198. Todas estas variedades de m�diuns apresentam uma infinidade de graus em
sua intensidade. Muitas h� que, a bem dizer, apenas constituem matizes, mas que, nem
por isso, deixam de ser efeito de aptid�es especiais. Concebe-se que h� de ser muito
raro esteja a faculdade de um m�dium rigorosamente circunscrita a um s� g�nero. Um
m�dium pode, sem d�vida, ter muitas aptid�es, havendo, por�m, sempre uma
dominante. Ao cultivo dessa � que, se for �til, deve ele aplicar-se. Em erro grave incorre
quem queira for�ar de todo modo o desenvolvimento de uma faculdade que n�o possua.
Deve a pessoa cultivar todas aquelas de que reconhe�a possuir os g�rmens. Procurar ter
as outras �, acima de tudo, perder tempo e, em segundo lugar, perder talvez,
enfraquecer com certeza, as de que seja dotado.
"Quando existe o princ�pio, o g�rmen de uma faculdade, esta se manifesta
sempre por sinais inequ�vocos. Limitando-se � sua especialidade, pode o m�dium tornar-
se excelente e obter grandes e belas coisas; ocupando-se de todo, nada de bom obter�.
Notai, de passagem, que o desejo de ampliar indefinidamente o �mbito de suas
faculdades � uma pretens�o orgulhosa, que os Esp�ritos nunca deixam impune. Os bons
abandonam o presun�oso, que se torna ent�o joguete dos mentirosos. Infelizmente, n�o
� raro verem-se m�diuns que, n�o contentes com os dons que receberam, aspiram, por
amor-pr�prio, ou ambi��o, a possuir faculdades excepcionais, capazes de os tornarem
notados. Essa pretens�o lhes tira a qualidade mais preciosa: a de m�diuns seguros." -
(S�CRATES.)

199. O estudo da especialidade dos m�diuns n�o s� lhes � necess�rio, como
tamb�m ao evocador. Conforme a natureza do Esp�rito que se deseja chamar e as
perguntas que se lhe quer dirigir, conv�m se escolha o m�dium mais apto ao que se tem
em vista. Interrogar o primeiro que apare�a � expor-se a receber respostas incompletas,
ou err�neas. Tomemos aos fatos comuns um exemplo. Ningu�m confiar� a reda��o de
qualquer trabalho, nem mesmo uma simples c�pia, ao primeiro que encontre, apenas
por-
245
DOS M�DIUNS ESPECIAIS

que saiba escrever. Suponhamos um m�sico, que queira seja executado um trecho de
canto por ele composto. Muitos cantores, h�beis todos, se acham � sua disposi��o. Ele,
entretanto, n�o os tomar� ao acaso: escolher�, para seu int�rprete, aquele cuja voz, cuja
express�o, cujas qualidades todas, numa palavra, digam melhor com a natureza do
trecho musical. O mesmo fazem os Esp�ritos, com rela��o aos m�diuns, e n�s devemos
fazer como os Esp�ritos.
Cumpre, al�m disso, notar que os matizes que a mediunidade apresenta e aos
quais outros mais se poderiam acrescentar, nem sempre guardam rela��o com o car�ter
do m�dium. Assim, por exemplo, um m�dium naturalmente alegre, jovial, pode obter
comumente comunica��es graves, mesmo severas e vice-versa. E ainda uma prova
evidente de que ele age sob a impuls�o de uma influ�ncia estranha. Voltaremos ao
assunto, no cap�tulo que trata da influ�ncia moral do m�dium.
246




CAP�TULO XVII

DA FORMA��O DOS M�DIUNS

Desenvolvimento da mediunidade. Mudan�a de caligrafia. - Perda e
suspens�o da mediunidade.

Desenvolvimento da mediunidade

200. Ocupar-nos-emos aqui, especialmente, com os m�diuns escreventes, por
ser o g�nero de mediunidade mais espalhado e, al�m disso, porque �, ao mesmo tempo,
o mais simples, o mais c�modo, o que d� resultados mais satisfat�rios e completos. E
tamb�m o que toda gente ambiciona possuir. Infelizmente, at� hoje, por nenhum
diagn�stico se pode inferir, ainda que aproximadamente, que algu�m possua essa
faculdade. Os sinais f�sicos, em os quais algumas pessoas julgam ver ind�cios, nada t�m
de infal�veis. Ela se manifesta nas crian�as e nos velhos, em homens e mulheres,
quaisquer que sejam o temperamento, o estado de sa�de, o grau de desenvolvimento
247
DA FORMA��O DOS M�DIUNS

intelectual e moral. S� existe um meio de se lhe comprovar a exist�ncia. � experimentar.
Pode obter-se a escrita, como j� vimos, com o aux�lio das cestas e pranchetas,
ou, diretamente, com a m�o. Sendo o mais f�cil e, pode dizer-se, o �nico empregado
hoje, este �ltimo modo � o que recomendamos � prefer�ncia de todos. O processo � dos
mais simples: consiste unicamente em a pessoa tomar de um l�pis e de papel e colocar-
se na posi��o de quem escreve, sem qualquer outro preparativo. Entretanto, para que
alcance bom �xito, muitas recomenda��es se fazem indispens�veis.

201. Como disposi��o material, recomendamos se evite tudo o que possa
embara�ar o movimento da m�o. E mesmo prefer�vel que esta n�o descanse no papel. A
ponta do l�pis deve encostar neste o bastante para tra�ar alguma coisa, mas n�o tanto
que ofere�a resist�ncia. Todas essas precau��es se tomam in�teis, desde que se tenha
chegado a escrever correntemente, porque ent�o nenhum obst�culo det�m mais a m�o.
S�o meras preliminares para o aprendiz.

202. � indiferente que se use da pena ou do l�pis. Alguns m�diuns preferem a
pena que, todavia, s� pode servir para os que estejam formados e escrevem
pausadamente. Outros, por�m, escrevem com tal velocidade, que o uso da pena seria
quase imposs�vel, ou, pelo menos, muito inc�modo. O mesmo sucede, quando a escrita
e feita �s arrancadas e irregularmente, ou quando se manifestam Esp�ritos violentos, que
batem com a ponta do l�pis e a quebram, rasgando o papel.

203. O desejo natural de todo aspirante a m�dium � o de poder confabular com
os Esp�ritos das pessoas que lhe s�o caras; deve, por�m, moderara sua impaci�ncia,
porquanto a comunica��o com determinado Esp�rito apresenta muitas vezes dificuldades
materiais que a tornam imposs�vel ao principiante. Para que um Esp�rito possa
248
CAP�TULO XVII

comunicar-se, preciso � que haja entre ele e o m�dium rela��es flu�dicas, que nem
sempre se estabelecem instantaneamente. S� � medida que a faculdade se desenvolve, �
que o m�dium adquire pouco a pouco a aptid�o necess�ria para p�r-se em comunica��o
com o Esp�rito que se apresente. Pode dar-se, pois, que aquele com quem o m�dium
deseje comunicar-se, n�o esteja em condi��es prop�cias a faz�-lo, embora se ache
presente, como tamb�m pode acontecer que n�o tenha possibilidade, nem permiss�o
para acudir ao chamado que lhe � dirigido. Conv�m, por isso, que no come�o ningu�m
se obstine em chamar determinado Esp�rito, com exclus�o de qualquer outro, pois
ami�de sucede n�o ser com esse que as rela��es flu�dicas se estabelecem mais
facilmente, por maior que seja a simpatia que lhe vote o encarnado. Antes, pois, de
pensar em obter comunica��es de tal ou tal Esp�rito, importa que o aspirante leve a
efeito o desenvolvimento da sua faculdade, para o que deve fazer um apelo geral e
dirigir-se principalmente ao seu anjo guardi�o.
N�o h�, para esse fim, nenhuma f�rmula sacramental. Quem quer que pretenda
indicar alguma pode ser tachado, sem receio, de impostor, visto que para os Esp�ritos a
forma nada vale. Contudo, a evoca��o deve sempre ser feita em nome de Deus. Poder-
se-� faz�-la nos termos seguintes, ou outros equivalentes: Rogo a Deus Todo-Poderoso
que permita venha um bom Esp�rito comunicar-se comigo e fazer-me escrever; pe�o
tamb�m ao meu anjo de guarda se digne de me assistir e de afastar os maus Esp�ritos.
Formulada a s�plica, � esperar que um Esp�rito se manifeste, fazendo escrever alguma
coisa. Pode acontecer venha aquele que o impetrante deseja, como pode ocorrer
tamb�m venha um Esp�rito desconhecido ou o anjo de guarda. Qualquer que ele seja, em
todo caso, dar-se-� conhecer, escrevendo o seu nome. Mas, ent�o apresenta-se a
quest�o da identidade, uma das que mais experi�ncia requerem, por isso que poucos
principiantes haver� que n�o estejam expostos a ser enganados. Dela trataremos adiante,
em cap�tulo especial.
249
DA FORMA��O DOS M�DIUNS

Quando queira chamar determinados Esp�ritos, � essencial que o m�dium
comece por se dirigir somente aos que ele sabe serem bons e simp�ticos e que podem ter
motivo para acudir ao apelo, como parentes, ou amigos.
Neste caso, a evoca��o pode ser formulada assim: Em nome de Deus Todo-
Poderoso pe�o que tal Esp�rito se comunique comigo, ou ent�o: Pe�o a Deus Todo-
Poderoso permita que tal Esp�rito se comunique comigo; ou qualquer outra f�rmula
que corresponda ao mesmo pensamento. N�o � menos necess�rio que as primeiras
perguntas sejam concebidas de tal sorte que as respostas possam ser dadas por um sim
ou um n�o, como por exemplo: Estas a�? Queres responder-me? Podes fazer-me
escrever? etc. Mais tarde essa precau��o se torna in�til. No princ�pio, trata-se de
estabelecer assim uma rela��o. O essencial � que a pergunta n�o seja f�til, n�o diga
respeito a coisas de interesse particular e, sobretudo, seja a express�o de um sentimento
de benevol�ncia e simpatia para com o Esp�rito a quem � dirigida. (Veja-se adiante o
cap�tulo especial sobre as Evoca��es.)

204. Coisa ainda mais importante a ser observada, do que o modo da evoca��o,
s�o a calma e o recolhimento, juntas ao desejo ardente e � firme vontade de conseguir-se
o intuito. Por vontade, n�o entendemos aqui uma vontade ef�mera, que age com
intermit�ncias e que outras preocupa��es interrompem a cada momento; mas, uma
vontade s�ria, perseverante, cont�nua, sem impaci�ncia, sem febricita��o. A solid�o, o
sil�ncio e o afastamento de tudo o que possa ser causa de distra��o favorecem o
recolhimento. Ent�o, uma s� coisa resta a fazer: renovar todos os dias a tentativa, por
dez minutos, ou um quarto de hora, no m�ximo, de cada vez, durante quinze dias, um
m�s, dois meses e mais, se for preciso. Conhecemos m�diuns que s� se formaram depois
de seis meses de exerc�cio, ao passo que outros escrevem correntemente logo da
primeira vez.
250
CAP�TULO XVII

205. Para se evitarem tentativas in�teis, pode consultar-se, por outro m�dium,
um Esp�rito s�rio e adiantado. De;, por�m, notar-se que, quando algu�m inquire dos
Esp�ritos se � m�dium ou n�o, eles quase sempre respondem afirmativamente, o que n�o
impede que os ensaios resultem infrut�feros. Isso se explica naturalmente. Desde que se
fa�a ao Esp�rito uma pergunta de ordem geral, ele responde de modo geral. Ora, como
se sabe, nada � mais el�stico do que a faculdade medi�nica, pois que pode apresentar-se
sob as mais variadas formas e em graus muito diferentes. Pode, portanto, uma pessoa
ser m�dium, sem dar por isso, e num sentido diverso daquele que imagina. A esta
pergunta vaga: Sou m�dium? O Esp�rito pode responder - Sim. A esta outra mais
precisa: Sou m�dium escrevente? Pode responder - N�o.
Deve tamb�m levar-se em conta a natureza do Esp�rito a quem � feita a
pergunta. H�-os t�o levianos e ignorantes, que respondem a torto e a direito, como
verdadeiros est�rdios. Por isso aconselhamos se dirija o interrogante a Esp�ritos
esclarecidos, que, geralmente, respondem de boa-vontade a essas perguntas e indicam o
melhor caminho a seguir-se, desde que haja possibilidade de bom �xito.

206. Um meio que muito freq�entemente d� bom resultado consiste em
empregar-se, como auxiliar de ocasi�o, um bom m�dium escrevente, male�vel, j�
formado. Pondo ele a m�o, ou os dedos, sobre a m�o do que deseja escrever, raro � que
este �ltimo n�o o fa�a imediatamente. Compreende-se o que em tal circunst�ncia se
passa: a m�o que segura � l�pis se torna, de certo modo, um ap�ndice da m�o do
m�dium, como o seria uma cesta, ou uma prancheta. Isto, por�m, n�o impede que esse
exerc�cio seja muito �til, quando � poss�vel empreg�-lo, visto que, repetido ami�de e
regularmente, ajuda a vencer o obst�culo material e provoca o desenvolvimento da
faculdade. Algumas vezes, basta mesmo que o m�dium magnetize, com essa inten��o, a
m�o e o bra�o daquele que quer escrever. N�o raro at� limitando-se o magnetizador a
colocar a m�o
251
DA FORMA��O DOS M�DIUNS

no ombro daquele, temo-lo visto escrever prontamente sob essa influ�ncia. Id�ntico
efeito pode tamb�m produzir-se sem nenhum contacto, apenas por ato da vontade do
auxiliar. Concebe-se facilmente que a confian�a do magnetizador no seu poder, para
produzir tal resultado, h� de a� desempenhar papel importante e que um magnetizador
incr�dulo fraca a��o ou nenhuma, exercer�.
O concurso de um guia experimentado �, al�m disso, muito �til, �s vezes, para
apontar ao principiante uma por��o de precau��ezinhas que ele freq�entemente
despreza, em detrimento da rapidez de seus progressos. Sobretudo o � para esclarec�-lo
sobre a natureza das primeiras quest�es e sobre a maneira de prop�-las. Seu papel �
o de um professor, que o aprendiz dispensar� logo que esteja bem habilitado.

207. Outro meio, que tamb�m pode contribuir fortemente para desenvolver a
faculdade, consiste em reunir-se certo n�mero de pessoas, todas animadas do mesmo
desejo e comungando na mesma inten��o. Feito isso, todas simultaneamente, guardando
absoluto sil�ncio e num recolhimento religioso, tentem escrever, apelando cada um para
o seu anjo de guarda, ou para qualquer Esp�rito simp�tico. Ou, ent�o, uma delas poder�
dirigir, sem designa��o especial e por todos os presentes, um apelo aos bons Esp�ritos
em geral, dizendo por exemplo: Em nome de Deus Todo-Poderoso, pedimos aos bons
Esp�ritos que se dignem de comunicar-se por interm�dio das pessoas aqui presentes. E
raro que entre estas n�o haja algumas que d�em prontos sinais de mediunidade, ou que
at� escrevam correntemente em pouco tempo.
Compreende-se o que em tal caso ocorre. Os que se re�nem com um intento
comum formam um todo coletivo, cuja for�a e sensibilidade se encontram acrescidas por
uma esp�cie de influ�ncia magn�tica, que auxilia o desenvolvimento da faculdade. Entre
os Esp�ritos atra�dos por esse concurso de vontades estar�o, provavelmente, alguns
252
CAP�TULO XVII

que descobrir�o nos assistentes o instrumento que lhes convenha. Se n�o for este, ser�
outro e eles se aproveitar�o desse.
Este meio deve sobretudo ser empregado nos grupos esp�ritas a que faltam
m�diuns, ou que n�o os possuam em n�mero suficiente.

208. T�m-se procurado processos para a forma��o dos m�diuns, como se t�m
procurado diagn�sticos; mas, at� hoje nenhum conhecemos mais eficaz do que os que
indicamos. Na persuas�o de ser uma resist�ncia de ordem toda material o obst�culo que
encontra o desenvolvimento da faculdade, algumas pessoas pretendem venc�-la por
meio de uma esp�cie de gin�stica quase deslocadora do bra�o e da cabe�a. N�o
descrevemos esse processo, que nos vem do outro lado do Atl�ntico, n�o s� porque
nenhuma prova possu�mos da sua efici�ncia, como tamb�m pela convic��o que nutrimos
de que h� de oferecer perigo para os de complei��o delicada, pelo abalo do sistema
nervoso. Se n�o existirem rudimentos da faculdade, nada poder� produzi-los, nem
mesmo a eletriza��o, que j� foi empregada, sem �xito, com o mesmo objetivo.

209. No m�dium aprendiz, a f� n�o � a condi��o rigorosa; sem d�vida lhe
secunda os esfor�os, mas n�o � indispens�vel; a pureza de inten��o, o desejo e a boa-
vontade bastam. T�m-se visto pessoas inteiramente incr�dulas ficarem espantadas de
escrever a seu mau grado, enquanto que crentes sinceros n�o o conseguem, o que prova
que esta faculdade se prende a uma disposi��o org�nica.

210. O primeiro ind�cio de disposi��o para escrever � uma esp�cie de fr�mito no
bra�o e na m�o. Pouco a pouco, a m�o � arrastada por uma impuls�o que ela n�o logra
dominar. Muitas vezes, n�o tra�a sen�o riscos insignificantes; depois, os caracteres se
desenham cada vez mais nitidamente e a escrita acaba por adquirir a rapidez
253
DA FORMA��O DOS M�DIUNS

da escrita ordin�ria. Em todos os casos, deve-se entregar a m�o ao seu movimento
natural e n�o oferecer resist�ncia, nem propeli-la.
Alguns m�diuns escrevem desde o princ�pio correntemente com facilidade, �s
vezes mesmo desde a primeira sess�o, o que � muito raro. Outros, durante muito tempo,
tra�am riscos e fazem verdadeiros exerc�cios caligr�ficos. Dizem os Esp�ritos que � para
lhes soltar a m�o. Em se prolongando demasiado esses exerc�cios, ou degenerando na
grafia de sinais rid�culos, n�o h� duvidar de que se trata de um Esp�rito que se diverte,
porquanto os bons Esp�ritos nunca fazem nada que seja in�til. Nesse caso, cumpre
redobrar de fervor no apelo � assist�ncia destes. Se, apesar de tudo, nenhuma altera��o
houver, deve o m�dium parar, uma vez reconhe�a que nada de s�rio obt�m. A tentativa
pode ser feita todos os dias, mas conv�m cesse aos primeiros sinais equ�vocos, a fim de
n�o ser dada satisfa��o aos Esp�ritos zombeteiros.
A estas observa��es, acrescenta um Esp�rito: "H� m�diuns cuja faculdade n�o
pode produzir sen�o esses sinais. Quando, ao cabo de alguns meses, nada mais obt�m
do que coisas insignificantes, ora um sim, ora um n�o ou letras sem conex�o, � in�til
continuarem, ser� gastar papel em pura perda. S�o m�diuns, mas m�diuns improdutivos.
Demais, as primeiras comunica��es obtidas devem considerar-se meros exerc�cios,
tarefa que � confiada a Esp�ritos secund�rios. N�o se lhes deve dar muita import�ncia,
visto que procedem de Esp�ritos empregados, por assim dizer, como mestres de escrita,
para desembara�arem o m�dium principiante. N�o creiais sejam alguma vez Esp�ritos
elevados os que se aplicam a fazer com o m�dium esses exerc�cios preparat�rios;
acontece, por�m, que, se o m�dium n�o colima um fim s�rio, esses Esp�ritos continuam
e acabam por se lhe ligarem. Quase todos os m�diuns passaram por este cadinho, para
se desenvolverem; cabe-lhes fazer o que seja preciso a captarem a simpatia dos Esp�ritos
verdadeiramente superiores."
254
CAP�TULO XVII

211. O escolho com que topa a maioria dos m�diuns Principiantes � o de terem
de haver-se com Esp�ritos inferiores e devem dar-se por felizes quando s�o apenas
Esp�ritos levianos. Toda aten��o precisam p�r em que tais Esp�ritos n�o assumam
predom�nio, porquanto, em acontecendo isso, nem sempre lhes ser� f�cil desembara�ar-
se deles. � ponto este de tal modo capital, sobretudo em come�o, que, n�o sendo
tomadas as precau��es necess�rias, podem perder-se os frutos das mais belas
faculdades.
A primeira condi��o � colocar-se o m�dium, com f� sincera, sob a prote��o de
Deus e solicitar a assist�ncia do seu anjo de guarda, que � sempre bom, ao passo que os
esp�ritos familiares, por simpatizarem com as suas boas ou m�s qualidades, podem ser
levianos ou mesmo maus.
A segunda condi��o � aplicar-se, com meticuloso cuidado, a reconhecer, por
todos os ind�cios que a experi�ncia faculta, de que natureza s�o os primeiros Esp�ritos
que se comunicam e dos quais manda a prud�ncia sempre se desconfie. Se forem
suspeitos esses ind�cios, dirigir fervoroso apelo ao seu anjo de guarda e repelir, com
todas as for�as, o mau Esp�rito, provando-lhe que n�o conseguir� enganar, a fim de que
ele desanime. Por isso � que indispens�vel se faz o estudo pr�vio da teoria, para todo
aquele que queira evitar os inconvenientes peculiares � experi�ncia. A este respeito,
instru��es muito desenvolvidas se encontram nos cap�tulos Da obsess�o e Da
identidade dos Esp�ritos. Limitar-nos-emos aqui a dizer que, al�m da linguagem, podem
considerar-se provas infal�veis da inferioridade dos Esp�ritos. todos os sinais, figuras,
emblemas in�teis, ou pueris; toda escrita extravagante, irregular, intencionalmente
torturada, de exageradas dimens�es, apresentando formas rid�culas e desusadas. A
escrita pode ser muito m�, mesmo pouco leg�vel, sem que isso tenha o que quer que seja
de ins�lito, porquanto � mais quest�o do m�dium que do Esp�rito. Temos visto m�diuns
de tal maneira enganados, que medem a superioridade dos Esp�ritos pelas dimens�es das
letras e que ligam grande import�ncia �s letras bem talhadas, como se foram letras de
impren-
255
DA FORMA��O DOS M�DIUNS

sa, puerilidade evidentemente incompat�vel com uma superioridade real.

212. Se � importante n�o cair o m�dium, sem o querer, na depend�ncia dos
maus Esp�ritos, ainda mais importante � que n�o caia por espont�nea vontade. Preciso,
pois, se torna que imoderado desejo de escrever n�o o leve a considerar indiferente
dirigir-se ao primeiro que apare�a, salvo para mais tarde se livrar dele, caso n�o
convenha, por isso que ningu�m pedir� impunemente, seja para o que for, a assist�ncia
de um mau Esp�rito, o qual pode fazer que o imprudente lhe pague caro os servi�os.
Algumas pessoas, na impaci�ncia de verem desenvolver-se em si as faculdades
medi�nicas, desenvolvimento que consideram muito demorado, se lembram de buscar o
aux�lio de um Esp�rito qualquer, ainda que mau, contando despedi-lo logo. Muitas h�o
tido plenamente satisfeitos seus desejos e escrito imediatamente. Por�m, o Esp�rito,
pouco se incomodando com o ter sido chamado na pior das hip�teses, menos d�cil se
mostrou em ir-se do que em vir. Diversas conhecemos, que foram punidas da presun��o
de se julgarem bastante fortes para afast�-los quando o quisessem, por anos de
obsess�es de toda esp�cie, pelas mais rid�culas mistifica��es, por uma fascina��o tenaz
e, at�, por desgra�as materiais e pelas mais cru�is decep��es. O Esp�rito se mostrou, a
princ�pio, abertamente mau, depois hip�crita, a fim de fazer crer na sua convers�o, ou
no pretendido poder do seu subjugado, para repeli-lo � vontade.

213. A escrita � algumas vezes leg�vel, as palavras e as letras bem destacadas;
mas, com certos m�diuns, � dif�cil que outrem, a n�o ser ele> a decifre, antes de haver
adquirido o h�bito de faz�-lo. E formada, freq�entemente, de grandes tra�os; os
Esp�ritos n�o costumam economizar papel. Quando uma palavra ou uma frase � quase
de todo ileg�vel, pede-se ao Esp�rito que consinta em recome�ar, ao que ele em geral
aquiesce de boa-vontade. Quando a escrita � habitualmente ileg�vel, mesmo para o m�-
256
CAP�TULO XVII

dium, este chega quase sempre a obt�-la mais n�tida, por meio de exerc�cios freq�entes e
demorados, pondo nisso uma vontade forte e rogando com fervor ao Esp�rito que seja
mais correto. Alguns Esp�ritos adotam sinais convencionais, que passam a ser de uso nas
reuni�es do costume. Para assinalarem que uma pergunta lhes desagrada e que n�o
querem responder a ela, fazem, por exemplo, um risco longo ou coisa equivalente.
Quando o Esp�rito conclui o que tinha a dizer, ou n�o quer continuar a
responder, a m�o fica im�vel e o m�dium, quaisquer que sejam seu poder e sua vontade,
n�o obt�m nem mais uma palavra. Ao contr�rio, enquanto o Esp�rito n�o conclui, o l�pis
se move sem que seja poss�vel � m�o det�-lo. Se o Esp�rito quer espontaneamente dizer
alguma coisa, a m�o toma convulsivamente o l�pis e se p�e a escrever, sem poder obstar
a isso O m�dium, ali�s, sente quase sempre em si alguma coisa que lhe indica ser
moment�nea a parada, ou ter o Esp�rito conclu�do. � raro que n�o sinta o afastamento
deste �ltimo.
Estas as explica��es essenciais que temos para ministrar, no tocante ao
desenvolvimento da psicografia. A experi�ncia revelar�, na pr�tica, alguns pormenores
de que seria in�til tratar aqui e a cujo respeito os princ�pios gerais servir�o de guia. Se
muitos forem os que experimentarem, haver� mais m�diuns do que em geral se pensa.

214. Tudo o que acabamos de dizer se aplica � escrita mec�nica. E a que todos
os m�diuns procuram, com raz�o, conseguir. Por�m, rar�ssimo � o mecanismo puro; a
ele se acha freq�entemente associada, mais ou menos, a intui��o. Tendo consci�ncia do
que escreve, o m�dium � naturalmente levado a duvidar da sua faculdade; n�o sabe se o
que lhe sai do l�pis vem do seu pr�prio, ou de outro Esp�rito. N�o tem absolutamente
que se preocupar com isso e, nada obstante, deve prosseguir. Se se observar a si mesmo
com aten��o, facilmente descobrir� no que escreve uma por��o de coisas que lhe n�o
passavam pela mente e que at� s�o contr�rias �s suas id�ias, prova evi-
257
DA FORMA��O DOS M�DIUNS

dente de que tais coisas n�o prov�m do seu Esp�rito. Continue, portanto, e, com a
experi�ncia, a d�vida se dissipar�.

215. Se ao m�dium n�o foi concedido ser exclusivamente mec�nico, todas as
tentativas para chegar a esse resultado ser�o infrut�feras; erro seu, no entanto, fora o
julgar-se, em conseq��ncia, n�o aquinhoado. Se apenas � dotado de mediunidade
intuitiva, cumpre que com isso se contente e ela n�o deixar� de lhe prestar grandes
servi�os, se a souber aproveitar e n�o a repelir.
Desde que, ap�s in�teis experimenta��es, efetuadas seguidamente durante algum
tempo, nenhum ind�cio de movimento involunt�rio se produz, ou os que se produzem
s�o por demais fracos para dar resultados, n�o deve ele hesitar em escrever o primeiro
pensamento que lhe for sugerido, sem se preocupar com o saber se esse pensamento
promana do seu Esp�rito ou de uma fonte diversa: a experi�ncia lhe ensinar� a distinguir.
Ali�s, � freq�ente acontecer que o movimento mec�nico se desenvolva ulteriormente.
Dissemos acima haver casos em que � indiferente saber o m�dium se o
pensamento vem de si pr�prio, ou de outro Esp�rito. Isso ocorre quando, sendo ele
puramente intuitivo ou inspirado, executa por si mesmo um trabalho de imagina��o.
Pouco importa atribua a si pr�prio um pensamento que lhe foi sugerido; se lhe acodem
boas id�ias, agrade�a ao seu bom g�nio, que n�o deixar� de lhe sugerir outros. Tal � a
inspira��o dos poetas, dos fil�sofos e dos s�bios.

216. Suponhamos agora que a faculdade medi�nica esteja completamente
desenvolvida; que o m�dium escreva com facilidade; que seja, em suma, o que se chama
um m�dium feito. Grande erro de sua parte fora crer-se dispensado de qualquer
instru��o mais, porquanto apenas ter� vencido uma resist�ncia material. Do ponto a que
chegou � que come�am as verdadeiras dificuldades, � que ele mais do que nunca precisa
dos conselhos da prud�ncia e da
258
CAP�TULO XVII

experi�ncia, se n�o quiser cair nas mil armadilhas que lhe v�o ser preparadas. Se
pretender muito cedo voar com suas pr�prias asas, n�o tardar� em ser v�tima de
Esp�ritos mentirosos, que n�o se descuidar�o de lhe explorar a presun��o.

217. Uma vez desenvolvida a faculdade, � essencial que o m�dium n�o abuse
dela. O contentamento que da� adv�m a alguns principiantes lhes provoca um
entusiasmo, que muito importa moderar. Devem lembrar-se de que ela lhes foi dada para
o bem e n�o para satisfa��o de v� curiosidade. Conv�m, portanto, que s� se utilizem
dela nas ocasi�es oportunas e n�o a todo momento. N�o lhes estando os Esp�ritos ao
dispor a toda hora, correm o risco de ser enganados por mistificadores. Bom � que, para
evitarem esse mal, adotem o sistema de s� trabalhar em dias e horas determinados,
porque assim se entregar�o ao trabalho em condi��es de maior recolhimento e os
Esp�ritos que os queiram auxiliar, estando prevenidos, se dispor�o melhor a prestar esse
aux�lio.

218. Se, apesar de todas as tentativas, a mediunidade n�o se revelar de modo
algum, dever� o aspirante renunciar a ser m�dium, como renuncia ao canto quem
reconhece n�o ter voz. Do mesmo modo que aquele que ignora uma l�ngua se vale de
um tradutor, o recurso para o dito aspirante ser� servir-se de outro m�dium. Mas, se
n�o puder, � falta de m�diuns, recorrer a nenhum, nem por isso dever� considerar-se
privado da assist�ncia dos Esp�ritos. Para estes, a mediunidade constitui um meio de se
exprimirem, por�m, n�o um meio exclusivo de serem atraidos. Os que nos consagram
afei��o se acham ao nosso lado, sejamos ou n�o m�diuns. Um pai n�o abandona um
filho porque, surdo e cego, n�o o pode ouvir nem ver; cerca-o, ao contr�rio, de toda a
solicitude. O mesmo fazem conosco os bons Esp�ritos. Se n�o podem transmitir-nos
materialmente seus pensamentos, auxiliam-nos por meio da inspira��o.
259
DA FORMA��O DOS M�DIUNS 259

Mudan�a de caligrafia

219. Um fen�meno muito comum nos m�diuns escreventes � a mudan�a da
caligrafia, conforme os Esp�ritos que se comunicam. E o que h� de mais not�vel � que
uma certa caligrafia se reproduz constantemente com determinado Esp�rito, sendo �s
vezes id�ntica � que este tinha em vida. Veremos mais tarde as conseq��ncias que da� se
podem tirar, com rela��o � identidade dos Esp�ritos. A mudan�a da caligrafia s� se d�
com os m�diuns mec�nicos ou semimec�nicos, porque neles � involunt�rio o movimento
da m�o e dirigido unicamente pelo Esp�rito. O mesmo j� n�o sucede com os m�diuns
puramente intuitivos, visto que, neste caso, o Esp�rito apenas atua sobre o pensamento,
sendo a m�o dirigida, como nas circunst�ncias ordin�rias, pela vontade do m�dium.
Mas, a uniformidade da caligrafia, mesmo em se tratando de um m�dium mec�nico, nada
absolutamente prova contra a sua faculdade, porquanto a varia��o da forma da escrita
n�o � condi��o absoluta, na manifesta��o dos Esp�ritos: deriva de uma aptid�o especial,
de que nem sempre s�o dotados os m�diuns, ainda os mais mec�nicos. Aos que a
possuem damos a denomina��o de M�diuns pol�grafos.

Perda e suspens�o da mediunidade

220. A faculdade medi�nica est� sujeita a intermit�ncias e a suspens�es
tempor�rias, quer para as manifesta��es f�sicas, quer para a escrita. Damos a seguir as
respostas que obtivemos dos Esp�ritos a algumas perguntas feitas sobre este ponto:

1� Podem os m�diuns perder a faculdade que possuem?
"Isso freq�entemente acontece, qualquer que seja o g�nero da faculdade. Mas,
tamb�m, muitas vezes apenas se verifica uma interrup��o passageira, que cessa com a
causa que a produziu."

2� Estar� no esgotamento do fluido a causa da perda da mediunidade?
260
CAP�TULO XVII

"Seja qual for a faculdade que o m�dium possua, ele nada pode sem o concurso
simp�tico dos Esp�ritos. Quando nada mais obt�m, nem sempre � porque lhe falta a
faculdade; isso n�o raro se d�, porque os Esp�ritos n�o mais querem, ou podem servir-se
dele."

o
3� Que � o que pode causar o abandon de um m�dium, por parte dos Esp�ritos?
"O que mais influi para que assim procedam os bons Esp�ritos � o uso que o
m�dium faz da sua faculdade. Podemos abandon�-lo, quando dela se serve para coisas
fr�volas, ou com prop�sitos ambiciosos; quando se nega a transmitir as nossas palavras,
ou os fatos por n�s produzidos, aos encarnados que para ele apelam, ou que t�m
necessidade de ver para se convencerem. Este dom de Deus n�o � concedido ao m�dium
para seu deleite e, ainda menos, para satisfa��o de suas ambi��es, mas para o fim da sua
melhora espiritual e para dar a conhecer aos homens a verdade. Se o Esp�rito verifica
que o m�dium j� n�o corresponde �s suas vistas e j� n�o aproveita das instru��es nem
dos conselhos que lhe d�, afasta-se, em busca de um protegido mais digno."

4� N�o pode o Esp�rito que se afasta ser substitu�do e, neste caso, n�o se
conceberia a suspens�o da faculdade?
"Esp�ritos n�o faltam, que outra coisa n�o desejam sen�o comunicar-se e que,
portanto, est�o sempre prontos a substituir os que se afastam; mas, quando o que
abandona
o m�dium � um Esp�rito bom, pode suceder que o seu afastamento seja apenas
tempor�rio, para priv�-lo, durante certo tempo, de toda comunica��o, a fim de lhe
provar que a sua faculdade n�o depende dele m�dium e que, assim, raz�o n�o h� para
dela se vangloriar. Essa impossibilidade tempor�ria tamb�m serve para dar ao m�dium a
prova de que ele escreve sob uma influ�ncia estranha, pois, de outro modo, n�o haveria
intermit�ncias."
"Em suma, a interrup��o da faculdade nem sempre � uma puni��o; demonstra �s
vezes a solicitude do Esp�rito para com o m�dium, a quem consagra afei��o, tendo por
objetivo proporcionar-lhe um repouso material de que o
261
DA FORMA��O DOS M�DIUNS

julgou necessitado, caso em que n�o permite que outros Esp�ritos o substituam."

5� V�em-se, no entanto, m�diuns de muito m�rito, moralmente falando, que
nenhuma necessidade de repouso sentem e que muito se contrariam com essas
interrup��es, cujo fim lhes escapa.
"Servem para lhes p�r a paci�ncia � prova e para lhes experimentar a
perseveran�a. Por isso � que os Esp�ritos nenhum termo, em geral, assinam � suspens�o
da faculdade medi�nica; � para verem se o m�dium descoro�oa. E tamb�m para lhe dar
tempo de meditar as instru��es recebidas. Por essa medita��o dos nossos ensinos � que
reconhecemos os esp�ritas verdadeiramente s�rios. N�o podemos dar esse nome aos
que, na realidade, n�o passam de amadores de comunica��es."

6� Ser� preciso ent�o, que, nesse caso, o m�dium prossiga nas suas tentativas
para escrever?
"Se o Esp�rito lhe aconselhar isto, deve; se lhe disser que se abstenha, n�o deve."

7� Haveria meio de abreviar essa prova?
"A resigna��o e a prece. Demais, basta que fa�a cada dia uma tentativa de alguns
minutos, visto que in�til lhe ser� perder o tempo em ensaios infrut�feros. A tentativa s�
deve ter por fim verificar se j� recobrou, ou n�o, a faculdade."

8� A suspens�o da faculdade n�o implica o afastamento dos Esp�ritos que
habitualmente se comunicam?
"De modo algum. O m�dium se encontra ent�o na situa��o de uma pessoa que
perdesse temporariamente a vista, a qual, por isso, n�o deixaria de estar rodeada de seus
amigos, embora impossibilitada de os ver. Pode, portanto, o m�dium e at� mesmo deve
continuar a comunicar-se pelo pensamento com seus Esp�ritos familiares e persuadir-se
de que � ouvido. Se � certo que a falta da mediunidade pode priv�-lo das comunica��es
ostensivas com certos Esp�ritos, tamb�m certo � que n�o o pode privar das
comunica��es morais."
262
CAP�TULO XVII

9� Assim, a interrup��o da faculdade medi�nica nem sempre traduz uma censura
da parte do Esp�rito?
"N�o, sem d�vida, pois que pode ser uma prova de benevol�ncia."

10� Por que sinal se pode reconhecer a censura nesta interrup��o?
"Interrogue o m�dium a sua consci�ncia e inquira de si mesmo qual o uso que
tem feito da sua faculdade, qual o bem que dela tem resultado para os outros, que
proveito h� tirado dos conselhos que se lhe t�m dado e ter� a resposta."

11� O m�dium que ficou impossibilitado de escrever poder� recorrer a outro
m�dium?
"Depende da causa da interrup��o, que tem por fim, ami�de, deixar-vos algum
tempo sem comunica��es, depois de vos terem dado conselhos, a fim de que vos n�o
habitueis a nada fazer sen�o com o nosso concurso. Se este for o caso, ele nada obter�
recorrendo a outro m�dium, o que tamb�m ocorre com o fim de vos provar que os
Esp�ritos s�o livres e que n�o est� em vossas m�os obrig�-los a fazer o que queirais.
Ainda por esta raz�o � que os que n�o s�o m�diuns nem sempre recebem todas as
comunica��es que desejam."
NOTA. Deve-se efetivamente observar que aquele que recorre a terceiro para
obter comunica��es, n�o obstante a qualidade do m�dium, muitas vezes nada de
satisfat�rio consegue, ao passo que doutras vezes as respostas s�o muito explicitas. Isso
tanto depende da vontade do Esp�rito, que ningu�m coisa alguma adianta mudando de
m�dium. Os pr�prios Esp�ritos como que d�o, a esse respeito, uns aos outros a palavra
de ordem, porquanto o que n�o se obtiver de um, de nenhum mais se obter�. Cumpre
ent�o que nos abstenhamos de insistir e de impacientar-nos, se n�o quisermos ser
v�timas de Esp�ritos enganadores, que responder�o, dado procuremos � viva for�a uma
resposta, deixando os bons que eles o fa�am, para nos punirem a insist�ncia.

12� Com que fim a Provid�ncia outorgou de maneira especial, a certos
indiv�duos, o dom da mediunidade?
263
DA FORMA��O DOS M�DIUNS

"� uma miss�o de que se incumbiram e cujo desempenho os faz ditosos. S�o os
int�rpretes dos Esp�ritos com os homens."

13� Entretanto, m�diuns h� que manifestam repugn�ncia ao uso de suas
faculdades.
"S�o m�diuns imperfeitos; desconhecem o valor da gra�a que lhes � concedida."

14� Se � uma miss�o, como se explica que n�o constitua privil�gio dos homens
de bem e que semelhante faculdade seja concedida a pessoas que nenhuma estima
merecem e que dela podem abusar?
"A faculdade lhes � concedida, porque precisam dela para se melhorarem, para
ficarem em condi��es de receber bons ensinamentos. Se n�o aproveitam da concess�o,
sofrer�o as conseq��ncias. Jesus n�o pregava de prefer�ncia aos pecadores, dizendo ser
preciso dar �quele que n�o tem?"

15� As pessoas que desejam muito escrever como m�diuns, e que n�o o
conseguem, poder�o concluir da� alguma coisa contra si mesmas, no tocante �
benevol�ncia dos Esp�ritos para com elas?
"N�o, pois pode dar-se que Deus lhe haja negado essa faculdade, como negado
tenha o dom da poesia, ou da m�sica. Por�m, se n�o forem objeto desse favor, podem
ter sido de outros."

16� Como pode um homem aperfei�oar-se mediante o ensino dos Esp�ritos,
quando n�o tem, nem por si mesmo, nem com o aux�lio de outros m�diuns, os meios de
receber de modo direto esse ensinamento?
"N�o tem ele os livros, como tem o crist�o o Evangelho? Para praticar a moral
de Jesus, n�o � preciso que o crist�o tenha ouvido as palavras ao lhe sa�rem da boca."
264




CAP�TULO XVIII

DOS INCONVENIENTES E PERIGOS DA
MEDIUNIDADE

Influ�ncia do exerc�cio da mediunidade sobre a sa�de. - Idem sobre o c�rebro.
- Idem sobre as crian�as.

221. l� Ser� a faculdade medi�nica ind�cio de um estado patol�gico qualquer, ou
de um estado simplesmente an�malo?
"An�malo, �s vezes, por�m, n�o patol�gico; h� m�diuns de sa�de robusta; os
doentes o s�o por outras causas."

2� O exerc�cio da faculdade medi�nica pode causar fadiga?
"O exerc�cio muito prolongado de qualquer faculdade acarreta fadiga; a
mediunidade est� no mesmo caso, principalmente a que se aplica aos efeitos f�sicos, ela
necessariamente ocasiona um disp�ndio de fluido, que traz a fadiga, mas que se repara
pelo repouso."
265
INCONVENIENTES E PERIGOS DA MEDIUNIDADE

3� Pode o exerc�cio da mediunidade ter, de si mesmo, inconveniente, do ponto de
vista higi�nico, abstra��o, feita do abuso?
"H� casos em que � prudente, necess�ria mesmo, a absten��o, ou, pelo menos, o
exerc�cio moderado, tudo dependendo do estado f�sico e moral do m�dium. Ali�s, em
geral; o m�dium o sente e, desde que experimente fadiga, deve abster-se."

4� Haver� pessoas para quem esse exerc�cio seja mais inconveniente do que para
outras?
"J� eu disse que isso depende do estado f�sico e moral do m�dium. H� pessoas
relativamente �s quais se devem evitar todas as causas de sobreexcita��o e o exerc�cio
da mediunidade � uma delas." (Ns. 188 e 194.)

5� Poderia a mediunidade produzir a loucura?
"N�o mais do que qualquer outra coisa, desde que n�o haja predisposi��o para
isso, em virtude de fraqueza cerebral. A mediunidade n�o produzir� a loucura, quando
esta j� n�o exista em g�rmen; por�m, existindo este, o bom-senso est� a dizer que se
deve usar de cautelas, sob todos os pontos de vista, porquanto qualquer abalo pode ser
prejudicial."

6� Haver� inconveniente em desenvolver-se a mediunidade nas crian�as?
"Certamente e sustento mesmo que � muito perigoso, pois que esses organismos
d�beis e delicados sofreriam por essa forma grandes abalos, e as respectivas imagina��es
excessiva sobreexcita��o. Assim, os pais prudentes devem afast�-las dessas id�ias, ou,
quando nada, n�o lhes falar do assunto, sen�o do ponto de vista das conseq��ncias
morais."

7� H�, no entanto, crian�as que s�o m�diuns naturalmente, quer de efeitos
f�sicos, quer de escrita e de vis�es. Apresenta isto o mesmo inconveniente?
"N�o; quando numa crian�a a faculdade se mostra espont�nea, � que est� na sua
natureza e que a sua constitui��o se presta a isso O mesmo n�o acontece, quando �
provocada e sobreexcitada. Nota que a crian�a, que
266
CAP�TULO XVIII

tem vis�es, geralmente n�o se impressiona com estas, que lhe parecem coisa
natural�ssima, a que d� muito pouca aten��o e quase sempre esquece. Mais tarde, o fato
lhe volta � mem�ria e ela o explica facilmente, se conhece o Espiritismo."

8� Em que idade se pode ocupar, sem inconvenientes, de mediunidade?
"N�o h� idade precisa, tudo dependendo inteiramente do desenvolvimento f�sico
e, ainda mais, do desenvolvimento moral. H� crian�as de doze anos a quem tal coisa
afetar� menos do que a algumas pessoas j� feitas. Falo da mediunidade, em geral;
por�m, a de efeitos f�sicos � mais fatigante para o corpo; a da escrita tem outro
inconveniente, derivado da inexperi�ncia da crian�a, dado o caso de ela querer entregar-
se a s�s ao exerc�cio da sua faculdade e fazer disso um brinquedo."

222. A pr�tica do Espiritismo, como veremos mais adiante, demanda muito tato,
para a inutiliza��o das tramas dos Esp�ritos enganadores. Se estes iludem a homens
feitos, claro � que a inf�ncia e a juventude mais expostas se acham a ser v�timas deles.
Sabe-se, al�m disso, que o recolhimento � uma condi��o sem a qual n�o se pode lidar
com Esp�ritos s�rios. As evoca��es feitas estouvadamente e por gracejo constituem
verdadeira profana��o, que facilita o acesso aos Esp�ritos zombeteiros, ou malfazejos.
Ora, n�o se podendo esperar de uma crian�a a gravidade necess�ria a semelhante ato,
muito de temer � que ela fa�a disso um brinquedo, se ficar entregue a si mesma. Ainda
nas condi��es mais favor�veis, � de desejar que uma crian�a dotada de faculdade
medi�nica n�o a exercite, sen�o sob a vigil�ncia de pessoas experientes, que lhe
ensinem, pelo exemplo, o respeito devido �s almas dos que viveram no mundo. Por a� se
v� que a quest�o de idade est� subordinada �s circunst�ncias, assim de temperamento,
como de car�ter. Todavia, o que ressalta com clareza das respostas acima � que n�o se
deve for�ar o desenvolvimento dessas faculdades nas crian�as, quando n�o � es-
267
INCONVENIENTES E PERIGOS DA MEDIUNIDADE

pont�nea, e que, em todos os casos, se deve proceder com grande circunspe��o, n�o
convindo nem excit�-las, nem anim�-las nas pessoas d�beis. Do seu exerc�cio cumpre
afastar, por todos os meios poss�veis, as que apresentem sintomas, ainda que m�nimos,
de excentricidade nas id�ias, ou de enfraquecimento das faculdades mentais, porquanto,
nessas pessoas, h� predisposi��o evidente para a loucura, que se pode manifestar por
efeito de qualquer sobreexcita��o. As id�ias esp�ritas n�o t�m, a esse respeito, maior
influ�ncia do que outras, mas, vindo a loucura a declarar-se, tomar� o car�ter de
preocupa��o dominante, como tomaria o car�ter religioso, se a pessoa se entregasse em
excesso �s pr�ticas de devo��o, e a responsabilidade seria lan�ada ao Espiritismo. O que
de melhor se tem a fazer com todo indiv�duo que mostre tend�ncia � id�ia fixa � dar
outra diretriz �s suas preocupa��es, a fim de lhe proporcionar repouso aos �rg�os
enfraquecidos.
Chamamos, a prop�sito deste assunto, a aten��o dos nossos leitores para o
par�grafo XII da "Introdu��o" de O Livro dos Esp�ritos.
268




CAP�TULO XIX

DO PAPEL DOS M�DIUNS NAS COMUNICA��ES
ESP�RITAS

Influ�ncia do Esp�rito pessoal do m�dium. - Sistema dos m�diuns inertes. -
Aptid�o de certos m�diuns para coisas de que nada conhecem: l�nguas, m�sica,
desenho. - Disserta��o de um Esp�rito sobre o papel dos m�diuns.

223. 1� No momento em que exerce a sua faculdade, est� o m�dium em estado
perfeitamente normal?
"Est�, �s vezes, num estado, mais ou menos acentuado, de crise. E o que o
fadiga e � por isso que necessita de repouso. Por�m, habitualmente, seu estado n�o
difere de modo sens�vel do estado normal, sobretudo se se trata de m�diuns
escreventes."

2� As comunica��es escritas ou verbais tamb�m podem emanar do pr�prio
Esp�rito encamado no m�dium'?
"A alma do m�dium pode comunicar-se, como a de qualquer outro. Se goza de
certo grau de liberdade, recobra
269
OS M�DIUNS NAS COMUNICA��ES ESP�RITAS

suas qualidades de Esp�rito. Tendes a prova disso nas visitas que vos fazem as almas de
pessoas vivas, as quais muitas vezes se comunicam convosco pela escrita, sem que as
chameis. Porque, ficai sabendo, entre os Esp�ritos que evocais, alguns h� que est�o
encarnados na Terra. Eles, ent�o, vos falam como Esp�ritos e n�o como homens. Por
que n�o se havia de dar o mesmo com o m�dium?"
a) N�o parece que esta explica��o confirma a opini�o dos que entendem que
todas as comunica��es prov�m do Esp�rito do m�dium e n�o de Esp�rito estranho?
"Os que assim pensam s� erram em darem car�ter absoluto � opini�o que
sustentam, porquanto � fora de d�vida que o Esp�rito do m�dium pode agir por si
mesmo. Isso, por�m, n�o � raz�o para que outros n�o atuem igualmente, por seu
interm�dio."

3� Como distinguir se o Esp�rito que responde � o do m�dium, ou outro?
"Pela natureza das comunica��es. Estuda as circunst�ncias e a linguagem e
distinguir�s. No estado de sonambulismo, ou de �xtase, � que, principalmente, o Esp�rito
do m�dium se manifesta, porque ent�o se encontra mais livre. No estado normal � mais
dif�cil. Ali�s, h� respostas que se lhe n�o podem atribuir de modo algum. Por isso � que
te digo: estuda e observa."
NOTA. Quando uma pessoa nos fala, distinguimos facilmente o que vem dela
daquilo de que ela � apenas o eco. O mesmo se verifica com os m�diuns.

4� Desde que o Esp�rito do m�dium h� podido, em exist�ncias anteriores,
adquirir conhecimentos que esqueceu debaixo do envolt�rio corporal, mas de que se
lembra como Esp�rito, n�o poder� ele haurir nas profundezas do seu pr�prio eu as id�ias
que parecem fora do alcance da sua instru��o?
"Isso acontece freq�entemente, no estado de crise sonamb�lica, ou ext�tica,
por�m, ainda uma vez repito, h� circunst�ncias que n�o permitem d�vida. Estuda
longamente e medita."
270
CAP�TULO XIX

5� As comunica��es que prov�m do Esp�rito do m�dium, s�o sempre inferiores
�s que possam ser dadas por outros Esp�ritos?
"Sempre, n�o; pois um Esp�rito, que n�o o do m�dium, pode ser de ordem
inferior � deste e, ent�o, falar menos sensatamente. E o que se v� no sonambulismo. A�,
as mais das vezes, quem se manifesta � o Esp�rito do son�mbulo, o qual n�o raro diz
coisas muito boas."

6� O Esp�rito, que se comunica por um m�dium, transmite diretamente seu
pensamento, ou este tem por intermedi�rio o Esp�rito encamado no m�dium?
"O Esp�rito do m�dium � o int�rprete, porque est� ligado ao corpo que serve
para falar e por ser necess�ria uma cadeia entre v�s e os Esp�ritos que se comunicam,
como � preciso um fio el�trico para comunicar � grande dist�ncia uma not�cia e, na
extremidade do fio, uma pessoa inteligente, que a receba e transmita."

7� O Esp�rito encarnado no m�dium exerce alguma influ�ncia sobre as
comunica��es que deva transmitir, provindas de outros Esp�ritos?
"Exerce, porquanto, se estes n�o lhe s�o simp�ticos, pode ele alterar-lhes as
respostas e assimil�-las �s suas pr�prias id�ias e a seus pendores; n�o influencia, por�m,
os pr�prios Esp�ritos, autores das respostas; constitui-se apenas em mau int�rprete."

8� Ser� essa a causa da prefer�ncia dos Esp�ritos por certos m�diuns?
"N�o h� outra. Os Esp�ritos procuram o int�rprete que mais simpatize com eles e
que lhes exprima com mais exatid�o os pensamentos. N�o havendo entre eles simpatia,
o Esp�rito do m�dium � um antagonista que oferece certa resist�ncia e se toma, um
int�rprete de m� qualidade e muitas vezes infiel. E o que se d� entre v�s, quando a
opini�o de um s�bio � transmitida por interm�dio de um estonteado, ou de uma pessoa
de m�-f�."

9� Compreende-se que seja assim, tratando-se dos m�diuns intuitivos, por�m,
n�o, relativamente aos m�diuns mec�nicos.
271
OS M�DIUNS NAS COMUNICA��ES ESP�RITAS

"� que ainda n�o percebeste bem o papel que desempenha o m�dium. H� a� uma
lei que ainda n�o apanhaste. Lembra-te de que, para produzir o movimento de um corpo
inerte, o Esp�rito precisa utilizar-se de uma parcela de fluido animalizado, que toma ao
m�dium, para animar momentaneamente a mesa, a fim de que esta lhe obede�a �
vontade. Pois bem. compreende igualmente que, para uma comunica��o inteligente, ele
precisa de um intermedi�rio inteligente e que esse intermedi�rio � o Esp�rito do
m�dium."
a) Isto parece que n�o tem aplica��o ao que se chama mesas falantes, visto que,
quando objetos inertes, como as mesas, pranchetas e cestas d�o respostas inteligentes, o
Esp�rito do m�dium, ao que se nos afigura, nenhuma parte toma no fato.
"� um erro; o Esp�rito pode dar ao corpo inerte uma vida fict�cia moment�nea,
mas n�o lhe pode dar, intelig�ncia. Jamais um corpo inerte foi inteligente. E, pois, o
Esp�rito do m�dium quem recebe, a seu mau grado, o pensamento e o transmite,
sucessivamente, com o aux�lio de diversos intermedi�rios."

10� Dessas explica��es resulta, ao que parece, que o Esp�rito do m�dium nunca �
completamente passivo?
"� passivo, quando n�o mistura suas pr�prias id�ias com as do Esp�rito que se
comunica, mas nunca � inteiramente nulo. Seu concurso � sempre indispens�vel, como o
de um intermedi�rio, embora se trate dos que chamais m�diuns mec�nicos."

11� N�o haver� maior garantia de independ�ncia no m�dium mec�nico, do que
no m�dium intuitivo?
"Sem d�vida alguma e, para certas comunica��es, � prefer�vel um m�dium
mec�nico; mas, quando se conhecem as faculdades de um m�dium intuitivo, torna-se
indiferente, conforme as circunst�ncias. Quero dizer que h� comunica��es que exigem
menos precis�o."

12� Entre os diferentes sistemas, que se h�o concebido para explicar os
fen�menos esp�ritas, h� um que proclama estar a verdadeira mediunidade num corpo
completamente
272
CAP�TULO XIX

inerte, na cesta, ou no papel�o, por exemplo, que serve de instrumento; que o Esp�rito
manifestante se identifica com esse objeto e o toma, al�m de vivo, inteligente, donde o
nome de m�diuns inertes dado a esses objetos. Que pensais desse sistema?
"Pouco h� que dizer a tal respeito e � que, se o Esp�rito transmitisse intelig�ncia
ao papel�o, ao mesmo tempo que a vida, aquele escreveria sozinho, sem o concurso do
m�dium. Fora singular que o homem inteligente se mudasse em m�quina e que um
objeto inerte se tornasse inteligente. Esse � um dos muitos sistemas oriundos de id�ias
preconcebidas e que caem, como tantos outros, ante a experi�ncia e a observa��o."

13� Uni fen�meno bem conhecido poderia abonar a opini�o de que nos corpos
inertes animados h� mais do que a vida: o d�s mesas, cestas, etc. que, pelos seus
movimentos, exprimem a c�lera, ou a afei��o?
"Quando um homem agita col�rico um pau, n�o � o pau que est� presa de c�lera,
nem mesmo a m�o que o segura, mas o pensamento que dirige a m�o. As mesas e as
cestas n�o s�o mais inteligentes do que o pau, nenhum sentimento inteligente
apresentam; apenas obedecem a uma intelig�ncia. Numa palavra, o Esp�rito n�o se
transforma em cesta, nem nela se domicilia."

14� Desde que n�o � racional atribuir-se intelig�ncia a esses objetos, poder-se-�
consider�-los como uma categoria de m�diuns, dando-se-lhes o nome de m�diuns
inertes'?
"� uma quest�o de palavras, que pouco nos importa, contanto que vos
entendais. Sois livres de dar a um boneco o nome de homem."

15� Os Esp�ritos s� t�m a linguagem do pensamento; n�o disp�em da linguagem
articulada, pelo que s� h� para eles uma l�ngua. Assim sendo, poderia um Esp�rito
exprimir-se, por via medi�nica, numa l�ngua que Jamais falou quando vivo? E, nesse
caso, de onde tira as palavras de que se serve?
"Acabaste tu mesmo de responder � pergunta que formulaste, dizendo que os
Esp�ritos s� t�m uma l�ngua,
273
OS M�DIUNS NAS COMUNICA��ES ESP�RITAS

que � a do pensamento. Essa l�ngua todos a compreendem, tanto os homens como os
Esp�ritos. O Esp�rito errante, quando se dirige ao Esp�rito encarnado do m�dium, n�o
lhe fala franc�s, nem ingl�s, por�m, a l�ngua universal que � a do pensamento. Para
exprimir suas id�ias numa l�ngua articulada, transmiss�vel, toma as palavras ao
vocabul�rio do m�dium."

16� Se � assim, s� na l�ngua do m�dium deveria ser poss�vel ao Esp�rito exprimir-
se. Entretanto, � sabido que escreve em idiomas que o m�dium desconhece. N�o h� a�
uma contradi��o?
"Nota, primeiramente, que nem todos os m�diuns s�o aptos a esse g�nero de
exerc�cio e, depois, que os Esp�ritos s� acidentalmente a ele se prestam, quando julgam
que isso pode ter alguma utilidade. Para as comunica��es usuais e de certa extens�o,
preferem servir-se de uma l�ngua que seja familiar ao m�dium, porque lhes apresenta
menos dificuldades materiais a vencer."

17� A aptid�o de certos m�diuns para escrever numa l�ngua que lhes � estranha
n�o provir� da circunst�ncia de lhes ter sido familiar essa l�ngua em outra exist�ncia e de
haverem guardado a intui��o dela?
"� certo que isto se pode dar, mas n�o constitui regra. Com algum esfor�o, o
Esp�rito pode vencer momentaneamente a resist�ncia material que encontra. E o que
acontece quando o m�dium escreve, na l�ngua que lhe � pr�pria, palavras que n�o
conhece."

18� Poderia uma pessoa analfabeta escrever como m�dium?
"Sim, mas � f�cil de compreender-se que ter� de vencer grande dificuldade
mec�nica, por faltar � m�o o h�bito do movimento necess�rio a formar letras. O mesmo
sucede com os m�diuns desenhistas, que n�o sabem desenhar."

19� Poderia um m�dium, muito pouco inteligente, transmitir comunica��es de
ordem elevada?
"Sim, pela mesma raz�o por que um m�dium pode escrever numa l�ngua que lhe
seja desconhecida. A mediu-
274
CAP�TULO XIX

nidade propriamente dita independe da intelig�ncia, bem como das qualidades morais.
Em falta de instrumento melhor, pode o Esp�rito servir-se daquele que tem � m�o.
Por�m, � natural que, para as comunica��es de certa ordem, prefira o m�dium que lhe
ofere�a menos obst�culos materiais. Acresce outra considera��o: o idiota muitas vezes
s� o � pela imperfei��o de seus �rg�os, podendo, entretanto, seu Esp�rito ser mais
adiantado do que o julguem. Tens a prova disso em certas evoca��es de idiotas, mortos
ou vivos."
NOTA. Este � um fato que a experi�ncia comprova. Por muitas vezes temos
evocado idiotas vivos que h�o dado patentes provas de identidade e responderam com
muita sensatez e mesmo de modo superior. Esse estado � uma puni��o para o Esp�rito,
que sofre com o constrangimento em que se v�. Um m�dium idiota pode, pois, oferecer
ao Esp�rito que queira manifestar-se mais recursos de que se supunha. (Veja-se: Revue
Spirite, julho de 1860, artigo sobre a Frenologia e a Fisiognomia.)

20� Donde vem a aptid�o de alguns m�diuns para escrever em verso?
"A poesia � uma linguagem. Eles podem escrever em verso, como podem
escrever numa l�ngua que desconhe�am. Depois, � poss�vel que tenham sido poetas em
outra exist�ncia e, como j� te dissemos, os conhecimentos adquiridos jamais os perde o
Esp�rito, que tem de chegar � perfei��o em todas as coisas. Nesse caso, o que eles h�o
sabido lhes d� uma facilidade de que n�o disp�em no estado ordin�rio."

21� O mesmo ocorre com os que t�m aptid�o especial para o desenho e a
m�sica?
"Sim; o desenho e a m�sica tamb�m s�o maneiras de se exprimirem os
pensamentos. Os Esp�ritos se servem dos instrumentos que mais facilidade lhes
oferecem."

22� A express�o do pensamento pela poesia, pelo desenho, ou pela m�sica
depende unicamente da aptid�o especial do m�dium, ou tamb�m da do Esp�rito que se
comunica?
275
OS M�DIUNS NAS COMUNICA��ES ESP�RITAS

"�s vezes, do m�dium; �s vezes, do Esp�rito. Os Esp�ritos superiores possuem
todas as aptid�es. Os Esp�ritos inferiores s� disp�em de conhecimentos limitados."

23� Por que � que um homem de extraordin�rio talento numa exist�ncia j� n�o o
tem na exist�ncia seguinte?
"Nem sempre assim �, pois que muitas vezes ele aperfei�oa, numa exist�ncia, o
que come�ou na precedente. Mas, pode acontecer que uma faculdade extraordin�ria
dormite durante certo tempo, para deixar que outra se desenvolva. E um g�rmen latente,
que tornar� a ser encontrado mais tarde e do qual alguns tra�os, ou, pelo menos, uma
vaga intui��o sempre permanecem."

224. O Esp�rito que se quer comunicar compreende, sem d�vida, todas as
l�nguas, pois que as l�nguas s�o a express�o do pensamento e � pelo pensamento que o
Esp�rito tem a compreens�o de tudo; mas, para exprimir esse pensamento, torna-se-lhe
necess�rio um instrumento e este � o m�dium. A alma do m�dium, que recebe a
comunica��o de um terceiro, n�o a pode transmitir, sen�o pelos �rg�os de seu corpo.
Ora, esses �rg�os n�o podem ter, para uma l�ngua que o m�dium desconhe�a, a
flexibilidade que apresentam para a que lhe � familiar.
Um m�dium, que apenas saiba o franc�s, poder�, acidentalmente, dar uma
resposta em ingl�s, por exemplo, se ao Esp�rito apraz faz�-lo; por�m, os Esp�ritos, que
j� acham muito lenta a linguagem humana, em confronto com a rapidez do pensamento,
tanto assim que a abreviam quanto podem, se impacientam com a resist�ncia mec�nica
que encontram; da�, nem sempre o fazerem. Essa tamb�m a raz�o por que um m�dium
novato, que escreve penosa e lentamente, ainda que na sua pr�pria l�ngua, em geral n�o
obt�m mais do que respostas breves e sem desenvolvimento. Por isso, os Esp�ritos
recomendam que, com um m�dium assim, s� se lhes dirijam perguntas simples. Para as
de grande alcance, faz-se mister um m�dium desenvolvido, que nenhuma dificuldade
mec�nica ofere�a ao Esp�rito. Ningu�m tomaria para seu ledor um estudante que
276
CAP�TULO XIX

estivesse aprendendo a soletrar. Um bom oper�rio n�o gosta de servir-se de maus
instrumentos.
Acrescentemos outra considera��o de muita gravidade no que concerne �s
l�nguas estrangeiras. Os ensaios deste g�nero s�o sempre feitos por curiosidade e por
experi�ncia. Ora, nada mais antip�tico aos Esp�ritos do que as provas a que tentem
sujeit�-los. A elas jamais se prestam os Esp�ritos superiores, os quais se afastam, logo
que se pretende entrar por esse caminho. Tanto se comprazem nas coisas �teis e s�rias,
quanto lhes repugna ocuparem-se com coisas f�teis e sem objetivo. E, dir�o os
incr�dulos, para nos convencermos e esse fim � �til, porque pode granjear adeptos para
a causa dos Esp�ritos. A isto respondem os Esp�ritos: "A nossa causa n�o precisa dos
que t�m orgulho bastante para se suporem indispens�veis. Chamamos a n�s os que
queremos e estes s�o quase sempre os mais pequeninos e os mais humildes. Fez Jesus os
milagres que lhe pediam os escribas? E de que homens se serviu para revolucionar o
mundo? Se quiserdes convencer-vos, de outros meios dispondes, que n�o a for�a;
come�ai por submeter-vos; n�o � regular que o disc�pulo imponha sua vontade ao
mestre."
Da� decorre que, salvo algumas exce��es, o m�dium exprime o pensamento dos
Esp�ritos pelos meios mec�nicos que lhe est�o � disposi��o e tamb�m que a express�o
desse pensamento pode e deve mesmo, as mais das vezes, ressentir-se da imperfei��o de
tais meios. Assim, o homem inculto, o camp�nio, poder� dizer as mais belas coisas,
expressar as mais elevadas e as mais filos�ficas id�ias, falando como camp�nio,
porquanto, conforme se sabe, para os Esp�ritos o pensamento a tudo sobrepuja. Isto
responde a certas cr�ticas a prop�sito das incorre��es de estilo e de ortografia, que se
imputam aos Esp�ritos, mas que tanto podem provir deles, como do m�dium. Apegar-se
a tais coisas n�o passa de futilidade. N�o � menos pueril que se atenham a reproduzir
essas incorre��es com exatid�o minuciosa, conforme o temos visto fazerem algumas
vezes.
277
OS M�DIUNS NAS COMUNICA��ES ESP�RITAS

L�cito �, portanto, corrigi-las, sem o m�nimo escr�pulo, a menos que caracterizem o
Esp�rito que se comunica, caso em que � bom conserv�-las, como prova de identidade.
Assim �, por exemplo, que temos visto um Esp�rito escrever constantemente Jule (sem o
s), falando de seu neto, porque, quando vivo, escrevia desse modo, muito embora o
neto, que lhe servia de m�dium, soubesse perfeitamente escrever o seu pr�prio nome.

225. A disserta��o que se segue, dada espontaneamente por um Esp�rito
superior, que se revelou mediante comunica��es de ordem elevad�ssima, resume, de
modo claro e completo, a quest�o do papel do m�dium:
"Qualquer que seja a natureza dos m�diuns escreventes, quer mec�nicos ou
semimec�nicos, quer simplesmente intuitivos, n�o variam essencialmente os nossos
processos de comunica��o com eles. De fato, n�s nos comunicamos com os Esp�ritos
encarnados dos m�diuns, da mesma forma que com os Esp�ritos propriamente ditos, t�o-
s� pela irradia��o do nosso pensamento.
"Os nossos pensamentos n�o precisam da vestidura da palavra, para serem
compreendidos pelos Esp�ritos e todos os Esp�ritos percebem os pensamentos que lhes
desejamos transmitir, sendo suficiente que lhes dirijamos esses pensamentos e isto em
raz�o de suas faculdades intelectuais. Quer dizer que tal pensamento tais ou quais
Esp�ritos o podem compreender, em virtude do adiantamento deles, ao passo que, para
tais outros, por n�o despertarem nenhuma lembran�a, nenhum conhecimento que lhes
dormitem no fundo do cora��o, ou do c�rebro, esses mesmos pensamentos n�o lhes s�o
percept�veis. Neste caso, o Esp�rito encarnado, que nos serve de m�dium, � mais apto a
exprimir o nosso pensamento a outros encarnados, se bem n�o o compreenda, do que
um Esp�rito desencarnado, mas pouco adiantado, se f�ssemos for�ado a servir-nos dele,
porquanto o ser terreno p�e seu corpo, como instrumento, � nossa disposi��o, o que o
Esp�rito errante n�o pode fazer.
278
CAP�TULO XIX

"Assim, quando encontramos em um m�dium o c�rebro povoado de
conhecimentos adquiridos na sua vida atual e o seu Esp�rito rico de conhecimentos
latentes, obtidos em vidas anteriores, de natureza a nos facilitarem as comunica��es,
dele de prefer�ncia nos servimos, porque com ele o fen�meno da comunica��o se nos
toma muito mais f�cil do que com um m�dium de intelig�ncia limitada e de escassos
conhecimentos anteriormente adquiridos. Vamos fazer-nos compreens�veis por meio de
algumas explica��es claras e precisas.
"Com um m�dium, cuja intelig�ncia atual, ou anterior, se ache desenvolvida, o
nosso pensamento se comunica instantaneamente de Esp�rito a Esp�rito, por uma
faculdade peculiar � ess�ncia mesma do Esp�rito. Nesse caso, encontramos no c�rebro
do m�dium os elementos pr�prios a dar ao nosso pensamento a vestidura da palavra que
lhe corresponda e isto quer o m�dium seja intuitivo, quer semimec�nico, ou inteiramente
mec�nico. Essa a raz�o por que, seja qual for a diversidade dos Esp�ritos que se
comunicam com um m�dium, os ditados que este obt�m, embora procedendo de
Esp�ritos diferentes, trazem, quanto � forma e ao colorido, o cunho que lhe � pessoal.
Com efeito, se bem o pensamento lhe seja de todo estranho, se bem o assunto esteja
fora do �mbito em que ele habitualmente se move, se bem o que n�s queremos dizer n�o
provenha dele, nem por isso deixa o m�dium de exercer influ�ncia, no tocante � forma,
pelas qualidades e propriedades inerentes � sua individualidade. E exatamente como
quando observais panoramas diversos, com lentes matizadas, verdes, brancas, ou azuis;
embora os panoramas, ou objetos observados, sejam inteiramente opostos e
independentes,. em absoluto, uns dos outros, n�o deixam por isso de afetar uma
tonalidade que prov�m das cores das lentes. Ou, melhor: comparemos os m�diuns a
esses bocais cheios de l�quidos coloridos e transparentes, que se v�em nos mostru�rios
dos laborat�rios farmac�uticos. Pois bem, n�s somos como luzes que clareiam certos
panoramas morais, filos�ficos e internos, atrav�s dos m�diuns, azuis, verdes,
279
OS M�DIUNS NAS COMUNICA��ES ESP�RITAS

ou vermelhos, de tal sorte que os nossos raios luminosos, obrigados a passar atrav�s de
vidros mais ou menos bem facetados, mais ou menos transparentes, isto �, de m�diuns
mais ou menos inteligentes, s� chegam aos objetos que desejamos iluminar, tomando a
colora��o, ou, melhor, a forma de dizer pr�pria e particular desses m�diuns. Enfim, para
terminar com uma �ltima compara��o: n�s os Esp�ritos somos quais compositores de
m�sica, que h�o composto, ou querem improvisar uma �ria e que s� t�m � m�o ou um
piano, um violino,, uma flauta, um fagote ou uma gaita de dez centavos. E incontest�vel
que, com o piano, o violino, ou a flauta, executaremos a nossa composi��o de modo
muito compreens�vel para os ouvintes. Se bem sejam muito diferentes uns dos outros os
sons produzidos pelo piano, pelo fagote ou pela clarineta, nem por isso ela deixar� de
ser id�ntica em qualquer desses instrumentos, abstra��o feita dos matizes do som. Mas,
se s� tivermos � nossa disposi��o uma gaita de dez centavos, ai est� para n�s a
dificuldade.
"Efetivamente, quando somos obrigados a servir-nos de m�diuns pouco
adiantados, muito mais longo e penoso se torna o nosso trabalho, porque nos vemos
for�ados a lan�ar m�o de formas incompletas, o que � para n�s uma complica��o, pois
somos constrangidos a decompor os nossos pensamentos e a ditar palavra por palavra,
letra por letra, constituindo isso uma fadiga e um aborrecimento, assim como um
entrave real � presteza e ao desenvolvimento das nossas manifesta��es.
"Por isso � que gostamos de achar m�diuns bem adestrados, bem aparelhados,
munidos de materiais prontos a serem utilizados, numa palavra: bons instrumentos,
porque ent�o o nosso perisp�rito, atuando sobre o daquele a quem mediunizamos, nada
mais tem que fazer sen�o impulsionar a m�o que nos serve de lapiseira, ou caneta,
enquanto que, com os m�diuns insuficientes, somos obrigados a um trabalho an�logo ao
que temos, quando nos comunicamos mediante pancadas, isto �, formando, letra
280
CAP�TULO XIX

por letra, palavra por palavra, cada uma das frases que traduzem os pensamentos que
vos queiramos transmitir.
"� por estas raz�es que de prefer�ncia nos dirigimos, para a divulga��o do
Espiritismo e para o desenvolvimento das faculdades medi�nicas escreventes, �s classes
cultas e instru�das, embora seja nessas classes que se encontram os indiv�duos mais
incr�dulos, mais rebeldes e mais imorais. E que, assim como deixamos hoje, aos
Esp�ritos galhofeiros e pouco adiantados, o exerc�cio das comunica��es tang�veis, de
pancadas e transportes, assim tamb�m os homens pouco s�rios preferem o espet�culo
dos fen�menos que lhes afetam os olhos ou os ouvidos, aos fen�menos puramente
espirituais, puramente psicol�gicos.
"Quando queremos transmitir ditados espont�neos, atuamos sobre o c�rebro,
sobre os arquivos do m�dium e preparamos os nossos materiais com os elementos que
ele nos fornece e isto � sua revelia. E como se lhe tom�ssemos � bolsa as somas que ele
a� possa ter e pus�ssemos as moedas que as formam na ordem que mais conveniente nos
parecesse.
"Mas, quando o pr�prio m�dium � quem nos quer interrogar, bom � reflita nisso
seriamente, a fim de nos fazer com m�todo as suas perguntas, facilitando-nos assim o
trabalho de responder a elas. Porque, como j� te dissemos em instru��o anterior, o
vosso c�rebro est� freq�entemente em inextric�vel desordem e, n�o s� dif�cil, como
tamb�m penoso se nos torna mover-nos no d�dalo dos vossos pensamentos. Quando
seja um terceiro quem nos haja de interrogar, � bom e conveniente que a s�rie de
perguntas seja comunicada de antem�o ao m�dium, para que este se identifique com o
Esp�rito do evocador e dele, por assim dizer, se impregne, porque, ent�o, n�s outros
teremos mais facilidade para responder, por efeito da afinidade existente entre o nosso
perisp�rito e o do m�dium que nos serve de int�rprete.
"Sem duvida, podemos falar de matem�ticas, servindo-nos de um m�dium a
quem estas sejam absolutamente
281
OS M�DIUNS NAS COMUNICA��ES ESP�RITAS

estranhas; por�m, quase sempre, o Esp�rito desse m�dium possui, em estado latente,
conhecimento do assunto, isto �, conhecimento peculiar ao ser flu�dico e n�o ao ser
encarnado, por ser o seu corpo atual um instrumento rebelde, ou contr�rio, a esse
conhecimento. O mesmo se d� com a astronomia, com a poesia, com a medicina, com as
diversas l�nguas, assim como com todos os outros conhecimentos peculiares � esp�cie
humana.
"Finalmente, ainda temos como meio penoso de elabora��o, para ser usado com
m�diuns completamente estranhos ao assunto de que se trate, o da reuni�o das letras e
das palavras, uma a uma, como em tipografia.
"Conforme acima dissemos, os Esp�ritos n�o precisam vestir seus pensamentos;
eles os percebem e transmitem, reciprocamente, pelo s� fato de os pensamentos
existirem neles. Os seres corp�reos, ao contr�rio, s� podem perceber os pensamentos,
quando revestidos. Enquanto que a letra, a palavra, o substantivo, o verbo, a frase, em
suma, vos s�o necess�rios para perceberdes, mesmo mentalmente, as id�ias, nenhuma
forma vis�vel ou tang�vel nos � necess�ria a n�s."
ERASTO e TIM�TEO

NOTA. Esta an�lise do papel dos m�diuns e dos processos pelos quais os
Esp�ritos se comunicam � t�o clara quanto l�gica. Dela decorre, como princ�pio, que o
Esp�rito haure, n�o as suas id�ias, por�m, os materiais de que necessita para exprimi-
las, no c�rebro do m�dium e que, quanto mais rico em materiais for esse c�rebro, tanto
mais f�cil ser� a comunica��o. Quando o Esp�rito se exprime num idioma familiar ao
m�dium, encontra neste, inteiramente formadas, as palavras necess�rias ao revestimento
da id�ia; se o faz numa l�ngua estranha ao m�dium, n�o encontra neste as palavras, mas
apenas as letras. Por isso � que o Esp�rito se v� obrigado a ditar, por assim dizer, letra a
letra, tal qual como quem quisesse fazer que escrevesse alem�o uma pessoa que desse
idioma n�o conhecesse uma s� palavra. Se o m�dium � analfabeto, nem mesmo as letras
fornece ao Esp�rito. Preciso se torna a este conduzir-lhe a m�o, como se faz a uma
crian�a que come�a a aprender. Ainda maior dificuldade a vencer encontra a�, o Esp�rito.
Estes fen�menos,
282
CAP�TULO XIX

pois, s�o poss�veis e h� deles numerosos exemplos; compreende-se, no entanto, que
semelhante maneira de proceder pouco apropriada se mostra para comunica��es
extensas e r�pidas e que os Esp�ritos h�o de preferir os instrumentos de manejo mais
f�cil, ou, como eles dizem, os m�diuns bem aparelhados do ponto de vista deles.
Se os que reclamam esses fen�menos, como meio de se convencerem,
estudassem previamente a teoria, haviam de saber em que condi��es excepcionais eles
se produzem.
283




CAP�TULO XX

DA INFLU�NCIA MORAL DO M�DIUM

Quest�es diversas. - Disserta��o de um Esp�rito sobre a influ�ncia moral.

226. 1� O desenvolvimento da mediunidade guarda rela��o com o
desenvolvimento moral dos m�diuns?
"N�o; a faculdade propriamente dita se radica no organismo; independe do
moral. O mesmo, por�m, n�o se d� com o seu uso, que pode ser bom, ou mau,
conforme as qualidades do m�dium."

2� Sempre se h� dito que a mediunidade � um dom de Deus, uma gra�a, um
favor. Por que, ent�o, n�o constitui privil�gio dos homens de bem e por que se v�em
pessoas indignas que a possuem no mais alto grau e que dela usam mal?
"Todas as faculdades s�o favores pelos quais deve a criatura render gra�as a
Deus, pois que homens h� privados delas. Poderias igualmente perguntar por que
concede
284
CAP�TULO XX

Deus vista magn�fica a malfeitores, destreza a gatunos, eloq��ncia aos que dela se
servem para dizer coisas nocivas. O mesmo se d� com a mediunidade. Se h� pessoas
indignas que a possuem, � que disso precisam mais do que as outras, para se
melhorarem. Pensas que Deus recusa meios de salva��o aos culpados? Ao contr�rio,
multiplica-os no caminho que eles percorrem; p�e-nos nas m�os deles. Cabe-lhes
aproveit�-los. Judas, o traidor, n�o fez milagres e n�o curou doentes, como ap�stolo?
Deus permitiu que ele tivesse esse dom, para mais odiosa tornar aos seus pr�prios olhos
a trai��o que praticou."

3� Os m�diuns, que fazem mau uso das suas faculdades, que n�o se servem delas
para o bem, ou que n�o as aproveitam para se instru�rem, sofrer�o as conseq��ncias
dessa falta?
"Se delas fizerem mau uso, ser�o punidos duplamente, porque t�m um meio a
mais de se esclarecerem e o n�o aproveitam. Aquele que v� claro e trope�a � mais
censur�vel do que o cego que cai no fosso."

4� H� m�diuns aos quais, espontaneamente e quase constantemente, s�o dadas
comunica��es sobre o mesmo assunto, sobre certas quest�es morais, por exemplo,
sobre determinados defeitos. Ter� isso algum fim?
"Tem, e esse fim � esclarec�-lo sobre o assunto freq�entemente repetido, ou
corrigi-los de certos defeitos. Por isso � que a uns falar�o continuamente do orgulho, a
outros, da caridade. E que s� a saciedade lhes poder� abrir, afinal, os olhos. N�o h�
m�dium que fa�a mau uso da sua faculdade, por ambi��o ou interesse, ou que a
comprometa por causa de um defeito capital, como o orgulho, o ego�smo, a leviandade,
etc., e que, de tempos a tempos, n�o receba admoesta��es dos Esp�ritos. O pior � que as
mais das vezes eles n�o as tomam como dirigidas a si pr�prios."
NOTA. E freq�ente usarem os Esp�ritos de circunl�quios em suas li��es, dando-
as de modo indireto para n�o tirarem o m�rito �quele que as sabe aproveitar e aplicar.
Por�m, tais s�o a cegueira e o orgulho
285
DA INFLU�NCIA MORAL DO M�DIUM

de algumas pessoas, que elas n�o se reconhecem no quadro que se lhes p�e diante dos
olhos. Ainda mais: se o Esp�rito lhes d� a entender que � delas que se trata, zangam-se e
o qualificam de mentiroso, ou malicioso. S� isto basta para provar que o Esp�rito tem
raz�o.

5� Nas li��es ditadas, de modo geral, ao m�dium, sem aplica��o pessoal, n�o
figura ele como instrumento passivo, para instru��o de outrem?
"Muitas vezes, os avisos e conselhos n�o lhe s�o dirigidos pessoalmente, mas a
outros a quem n�o nos podemos dirigir, sen�o por interm�dio dele, que, entretanto,
deve tomar a parte que lhe caiba em tais avisos e conselhos, se n�o o cega o amor-
pr�prio.
"N�o creias que a faculdade medi�nica seja dada somente para corre��o de uma,
ou duas pessoas, n�o. O objetivo � mais alto: trata-se da Humanidade. Um m�dium � um
instrumento pouqu�ssimo importante, como indiv�duo. Por isso � que, quando damos
instru��es que devem aproveitar � generalidade dos homens, nos servimos dos que
oferecem as facilidades necess�rias. Tenha-se, por�m, como certo que tempo vir� em
que os bons m�diuns ser�o muito comuns, de sorte que os bons Esp�ritos n�o precisar�o
servir-se de instrumentos maus."

6� Visto que as qualidades morais do m�dium afastam os Esp�ritos imperfeitos,
como � que um m�dium dotado de boas qualidades transmite respostas falsas, ou
grosseiras?
"Conheces, porventura, todos os escaninhos da alma humana? Demais, pode a
criatura ser leviana e fr�vola, sem que seja viciosa. Tamb�m isso se d�, porque, �s vezes,
ele necessita de uma li��o, a fim de manter-se em guarda."

7� Por que permitem os Esp�ritos superiores que pessoas dotadas de grande
poder, como m�diuns, e que muito de bom poderiam fazer, sejam instrumentos do erro?
"Os Esp�ritos de que falas procuram influenci�-las; mas, quando essas pessoas
consentem em ser arrastadas para mau caminho, eles as deixam ir. Da� o servirem-se
286
CAP�TULO XX

"
delas com repugn�ncia, visto que a verdade n�o pode ser interpretada pela mentira.

8� Ser� absolutamente imposs�vel se obtenham boas comunica��es por um
m�dium imperfeito?
"Um m�dium imperfeito pode algumas vezes obter boas coisas, porque, se
disp�e de uma bela faculdade, n�o � raro que os bons Esp�ritos se sirvam dele, � falta de
outro, em circunst�ncias especiais; por�m, isso s� acontece momentaneamente,
porquanto, desde que os Esp�ritos encontrem um que mais lhes convenha, d�o
prefer�ncia a este."
NOTA. Deve-se observar que, quando os bons Esp�ritos v�em que um m�dium
deixa de ser bem assistido e se torna, pelas suas imperfei��es, presa dos Esp�ritos
enganadores, quase sempre fazem surgir circunst�ncias que lhes desvendam os defeitos
e o afastam das pessoas s�rias e bem intencionadas, cuja boa-f� poderia ser ilaqueada.
Neste caso, quaisquer que sejam as faculdades que possua, seu afastamento n�o � de
causar saudades.

r de
9� Qual o m�dium que se poderia qualifica perfeito?
"Perfeito, ah! bem sabes que a perfei��o n�o existe na Terra, sem o que n�o
estar�eis nela. Dize, portanto, bom m�dium e j� � muito, por isso que eles s�o raros.
M�dium perfeito seria aquele contra o qual os maus Esp�ritos jamais ousassem, uma
tentativa de engan�-lo. O melhor � aquele que, simpatizando somente com os bons
Esp�ritos, tem sido o menos enganado."

10� Se ele s� com os bons Esp�ritos simpatiza, como permitem estes que seja
enganado?
"Os bons Esp�ritos permitem, �s vezes, que isso aconte�a com os melhores
m�diuns, para lhes exercitar a pondera��o e para lhes ensinar a discernir o verdadeiro do
falso. Depois, por muito bom que seja, um m�dium jamais � t�o perfeito, que n�o possa
ser atacado por algum lado fraco. Isto lhe deve servir de li��o. As falsas comunica��es,
que de tempos a tempos ele recebe, s�o avisos para
287
DA INFLU�NCIA MORAL DO M�DIUM

que n�o se considere infal�vel e n�o se ensoberbe�a. Porque, o m�dium que receba as
coisas mais not�veis n�o tem que se gloriar disso, como n�o o tem o tocador de realejo
que obt�m belas �rias movendo a manivela do seu instrumento."

11� Quais as condi��es necess�rias para que a palavra dos Esp�ritos superiores
nos chegue isenta de qualquer altera��o?
"Querer o bem; repulsar o ego�smo e o orgulho. Ambas essas coisas s�o
necess�rias."

12� Uma vez que a palavra dos Esp�ritos superiores n�o nos chega pura, sen�o
em condi��es dif�ceis de se encontrarem preenchidas, esse fato n�o constitui um
obst�culo � propaga��o da verdade?
"N�o, porque a luz sempre chega ao que a deseja receber. Todo aquele que
queira esclarecer-se deve fugir �s trevas e as trevas se encontram na impureza do
cora��o.
"Os Esp�ritos, que considerais como personifica��es do bem, n�o atendem de boa-
vontade ao apelo dos que trazem o cora��o manchado pelo orgulho, pela cupidez e pela
falta de caridade.
"Expurguem-se, pois, os que desejam esclarecer-se, de toda a vaidade humana e
humilhem a sua intelig�ncia ante o infinito poder do Criador. Esta a melhor prova que
poder�o dar da sinceridade do desejo que os anima. � uma condi��o a que todos podem
satisfazer."

227. Se o m�dium, do ponto de vista da execu��o, n�o passa de um instrumento,
exerce, todavia, influ�ncia muito grande, sob o aspecto moral. Pois que, para se
comunicar, o Esp�rito desencarnado se identifica com o Esp�rito do m�dium, esta
identifica��o n�o se pode verificar, sen�o havendo, entre um e outro, simpatia e, se
assim � l�cito dizer-se, afinidade. A alma exerce sobre o Esp�rito livre uma esp�cie de
atra��o, ou de repuls�o, conforme o grau da semelhan�a existente entre eles. Ora, os
bons t�m afinidade com os bons e os maus com os maus, donde se segue que as
qualidades morais do m�dium exercem
288
CAP�TULO XX

influ�ncia capital sobre a natureza dos Esp�ritos que por ele se comunicam. Se o m�dium
� vicioso, em torno dele se v�m grupar os Esp�ritos inferiores, sempre prontos a tomar o
lugar aos bons Esp�ritos evocados. As qualidades que, de prefer�ncia, atraem os bons
Esp�ritos s�o: a bondade, a benevol�ncia, a simplicidade do cora��o, o amor do
pr�ximo, o desprendimento das coisas materiais. Os defeitos que os afastam s�o: o
orgulho, o ego�smo, a inveja, o ci�me, o �dio, a cupidez, a sensualidade e todas as
paix�es que escravizam o homem � mat�ria.

228. Todas as imperfei��es morais s�o outras tantas portas abertas ao acesso
dos maus Esp�ritos. A que, por�m, eles exploram com mais habilidade � o orgulho,
porque � a que a criatura menos confessa a si mesma. O orgulho tem perdido muitos
m�diuns dotados das mais belas faculdades e que, se n�o fora essa imperfei��o, teriam
podido tornar-se instrumentos not�veis e muito �teis, ao passo que, presas de Esp�ritos
mentirosos, suas faculdades, depois de se haverem pervertido, aniquilaram-se e mais de
um se viu humilhado por amar�ssimas decep��es.
O orgulho, nos m�diuns, traduz-se por sinais inequ�vocos, a cujo respeito tanto
mais necess�rio � se insista, quanto constitui uma das causas mais fortes de suspei��o,
no tocante � veracidade de suas comunica��es. Come�a por uma confian�a cega nessas
mesmas comunica��es e na infalibilidade do Esp�rito que lhas d�. Da� um certo desd�m
por tudo o que n�o venha deles: � que julgam ter o privil�gio da verdade. O prest�gio
dos grandes nomes, com que se adornam os Esp�ritos tidos por seus protetores, os
deslumbra e, como neles o amor pr�prio sofreria, se houvessem de confessar que s�o
ludibriados, repelem todo e qualquer conselho; evitam-nos mesmo, afastando-se de seus
amigos e de quem quer que lhes possa abrir os olhos. Se condescendem em escut�-los,
nenhum apre�o lhes d�o �s opini�es, porquanto duvidar do Esp�rito que os assiste fora
quase uma profana��o. Aborrecem-se com a menor contradita, com uma simples
observa��o cr�tica e v�o �s
289
DA INFLU�NCIA MORAL DO M�DIUM

vezes ao ponto de tomar �dio �s pr�prias pessoas que lhes t�m prestado servi�o. Por
favorecerem a esse insulamento a que os arrastam os Esp�ritos que n�o querem
contraditores, esses mesmos Esp�ritos se comprazem em lhes conservar as ilus�es, para
o que os fazem considerar coisas sublimes as mais polpudas absurdidades. Assim,
confian�a absoluta na superioridade do que obt�m, desprezo pelo que deles n�o venha,
irrefletida import�ncia dada aos grandes nomes, recusa de todo conselho, suspei��o
sobre qualquer cr�tica, afastamento dos que podem emitir opini�es desinteressadas,
cr�dito em suas aptid�es, apesar de inexperientes: tais as caracter�sticas dos m�diuns
orgulhosos.
Devemos tamb�m convir em que, muitas vezes, o orgulho � despertado no
m�dium pelos que o cercam. Se ele tem faculdades um pouco transcendentes, �
procurado e gabado e entra a julgar-se indispens�vel. Logo toma ares de import�ncia e
desd�m, quando presta a algu�m o seu concurso. Mais de uma vez tivemos motivo de
deplorar elogios que dispensamos a alguns m�diuns, com o intuito de os animar.

229. A par disto, ponhamos em evid�ncia o quadro do m�dium verdadeiramente
bom, daquele em que se pode confiar. Supor-lhe-emos, antes de tudo, uma grand�ssima
facilidade de execu��o, que permita se comuniquem livremente os Esp�ritos, sem
encontrarem qualquer obst�culo material. Isto posto, o que mais importa considerar � de
que natureza s�o os esp�ritos que habitualmente o assistem, para o que n�o nos devemos
ater aos nomes, por�m, � linguagem. Jamais dever� ele perder de vista que a simpatia,
que lhe dispensam os bons Esp�ritos, estar� na raz�o direta de seus esfor�os por afastar
os maus. Persuadido de que a sua faculdade � um dom que s� lhe foi outorgado para o
bem, de nenhum modo procura prevalecer-se dela, nem apresent�-la como
demonstra��o de m�rito seu. Aceita as boas comunica��es, que lhe s�o transmitidas,
como uma gra�a, de que lhe cumpre tornar-se cada vez mais
290
CAP�TULO XX

digno, pela sua bondade, pela sua benevol�ncia e pela sua mod�stia. O primeiro se
orgulha de suas rela��es com os Esp�ritos superiores; este outro se humilha, por se
considerar sempre abaixo desse favor.

230. A seguinte instru��o deu-no-la, sobre o assunto, um Esp�rito de quem
temos inserido muitas comunica��es:
"J� o dissemos: os m�diuns, apenas como tais, s� secund�ria influ�ncia exercem
nas comunica��es dos Esp�ritos; o papel deles � o de uma m�quina el�trica, que
transmite os despachos telegr�ficos, de um ponto da Terra a outro ponto distante.
Assim, quando queremos ditar uma comunica��o, agimos sobre o m�dium, como o
empregado do tel�grafo sobre o aparelho, isto �, do mesmo modo que o tique-taque do
tel�grafo tra�a, a milhares de l�guas, sobre uma tira de papel, os sinais reprodutores do
despacho, tamb�m n�s comunicamos, por meio do aparelho medi�nico, atrav�s das
dist�ncias incomensur�veis que separam o mundo vis�vel do mundo invis�vel, o mundo
imaterial do mundo carnal, o que vos queremos ensinar. Mas, assim como as influ�ncias
atmosf�ricas atuam, perturbando, muitas vezes, as transmiss�es do tel�grafo el�trico,
igualmente a influ�ncia moral do m�dium atua e perturba, �s vezes, a transmiss�o dos
nossos despachos de al�m-t�mulo, porque somos obrigados a faz�-los passar por um
meio que lhes � contr�rio. Entretanto, essa influ�ncia, ami�de, se anula, pela nossa
energia e vontade, e nenhum ato perturbador se manifesta. Com efeito, os ditados de
alto alcance filos�fico, as comunica��es de perfeita moralidade s�o transmitidas algumas
vezes por m�diuns impr�prios a esses ensinos superiores; enquanto que, por outro lado,
comunica��es pouco edificantes chegam tamb�m, �s vezes, por m�diuns que se
envergonham de lhes haverem servido de condutores.
"Em tese geral, pode afirmar-se que os Esp�ritos atraem Esp�ritos que lhes s�o
similares e que raramente os Esp�ritos das pl�iadas elevadas se comunicam por apare-
291
DA INFLU�NCIA MORAL DO M�DIUM

lhos maus condutores, quando t�m � m�o bons aparelhos medi�nicos, bons m�diuns,
numa palavra.
"Os m�diuns levianos e pouco s�rios atraem, pois, Esp�ritos da mesma natureza;
por isso � que suas comunica��es se mostram cheias de banalidades, frivolidades, id�ias
truncadas e, n�o raro, muito heterodoxas, espiriticamente falando. Certamente, podem
eles dizer, e �s vezes dizem, coisas aproveit�veis; mas, nesse caso, principalmente, � que
um exame severo e escrupuloso se faz necess�rio, porquanto, de envolta com essas
coisas aproveit�veis, Esp�ritos hip�critas insinuam, com habilidade e preconcebida
perf�dia, fatos de pura invencionice, asser��es mentirosas, a fim de iludir a boa-f� dos
que lhes dispensam aten��o. Devem riscar-se, ent�o, sem piedade, toda palavra, toda
frase equivoca e s� conservar do ditado o que a l�gica possa aceitar, ou o que a
Doutrina j� ensinou. As comunica��es desta natureza s� s�o de temer para os esp�ritas
que trabalham isolados, para os grupos novos, ou pouco esclarecidos, visto que, nas
reuni�es onde os adeptos est�o adiantados e j� adquiriram experi�ncia, a gralha perde o
seu tempo a se adornar com as penas do pav�o: acaba sempre desmascarada.
"N�o falarei dos m�diuns que se comprazem em solicitar e receber comunica��es
obscenas. Deixemos se deleitem na companhia dos Esp�ritos c�nicos. Ali�s, os autores
das comunica��es desta ordem buscam, por si mesmos, a solid�o e o isolamento;
porquanto s� desprezo e nojo poder�o causar entre os membros dos grupos filos�ficos e
s�rios. Onde, por�m, a influ�ncia moral do m�dium se faz realmente sentir, � quando ele
substitui, pelas que lhe s�o pessoais, as id�ias que os Esp�ritos se esfor�am por lhe
sugerir e tamb�m quando tira da sua imagina��o teorias fant�sticas que, de boa-f�, julga
resultarem de uma comunica��o intuitiva. � de apostar-se ent�o mil contra um que isso
n�o passa de reflexo do pr�prio Esp�rito do m�dium. D�-se mesmo o fato curioso de
mover-se a m�o do m�dium, quase mecanicamente �s vezes, impelida por um Esp�rito
secund�rio e zombeteiro. � essa a pedra de
292
CAP�TULO XX

toque contra a qual v�m quebrar-se as imagina��es ardentes, por isso que, arrebatados
pelo �mpeto de suas pr�prias id�ias, pelas lentejoulas de seus conhecimentos liter�rios,
os m�diuns desconhecem o ditado modesto de um Esp�rito criterioso e, abandonando a
presa pela sombra, o substituem por uma par�frase empolada. Contra este escolho
terr�vel v�m igualmente chocar-se as personalidades ambiciosas que, em falta das
comunica��es que os bons Esp�ritos lhes recusam, apresentam suas pr�prias obras como
sendo desses Esp�ritos. Da� a necessidade de serem, os diretores dos grupos esp�ritas,
dotados de fino tato, de rara sagacidade, para discernir as comunica��es aut�nticas das
que n�o o s�o e para n�o ferir os que se iludem a si mesmos.
"Na d�vida, abst�m-te, diz um dos vossos velhos prov�rbios. N�o admitais,
portanto, sen�o o que seja, aos vossos olhos, de manifesta evid�ncia. Desde que uma
opini�o nova venha a ser expendida, por pouco que vos pare�a duvidosa, fazei-a passar
pelo crisol da raz�o e da l�gica e rejeitai desassombradamente o que a raz�o e o bom-
senso reprovarem. Melhor � repelir dez verdades do que admitir uma �nica falsidade,
uma s� teoria err�nea. Efetivamente, sobre essa teoria poder�eis edificar um sistema
completo, que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento
edificado sobre areia movedi�a, ao passo que, se rejeitardes hoje algumas verdades,
porque n�o vos s�o demonstradas clara e logicamente, mais tarde um fato brutal, ou
uma demonstra��o irrefut�vel vir� afirmar-vos a sua autenticidade.
"Lembrai-vos, no entanto, � esp�ritas! de que, para Deus e para os bons
Esp�ritos, s� h� um imposs�vel: a injusti�a e a iniq�idade.
"O Espiritismo j� est� bastante espalhado entre os homens e j� moralizou
suficientemente os adeptos sinceros da sua santa doutrina, para que os Esp�ritos j� n�o
se vejam constrangidos a usar de maus instrumentos, de m�diuns imperfeitos. Se, pois,
agora, um m�dium, qualquer que ele seja, se tornar objeto de leg�tima suspei��o, pelo
293
DA INFLU�NCIA MORAL DO M�DIUM

seu proceder, pelos seus costumes, pelo seu orgulho, pela sua falta de amor e de
caridade, repeli, repeli suas comunica��es, porquanto a� estar� uma serpente oculta
entre as ervas. E esta a conclus�o a que chego sobre a influ�ncia moral dos m�diuns."

ERASTO
294




CAP�TULO XXI

DA INFLU�NCIA DO MEIO

231. 1� O meio em que se acha o m�dium exerce alguma influ�ncia nas
manifesta��es?
"Todos os Esp�ritos que cercam o m�dium o auxiliam, para o bem ou para o
mal."

2� N�o podem os Esp�ritos superiores triunfar da m�-vontade do Esp�rito
encarnado que lhes serve de int�rprete e dos que o cercam?
"Podem, quando julgam conveniente e conforme a inten��o da pessoa que a eles
se dirige. J� o dissemos: os Esp�ritos mais elevados se comunicam, �s vezes, por uma
gra�a especial, mau grado � imperfei��o do m�dium e do meio, mas, ent�o, estes se
conservam completamente estranhos ao fato."

3� Os Esp�ritos superiores procuram encaminhar para uma corrente de id�ias
s�rias as reuni�es f�teis?
"Os Esp�ritos superiores n�o v�o �s reuni�es onde sabem que a presen�a deles �
in�til. Nos meios pouco
295
DA INFLU�NCIA DO MEIO

instru�dos, mas onde h� sinceridade, de boa mente vamos, ainda mesmo que a� s�
instrumentos med�ocres encontremos. N�o vamos, por�m, aos meios instru�dos onde
domina a ironia. Em tais meios, � necess�rio se fale aos ouvidos e aos olhos: esse o
papel dos Esp�ritos batedores e zombeteiros. Conv�m que aqueles que se orgulham da
sua ci�ncia sejam humilhados pelos Esp�ritos menos instru�dos e menos adiantados."

4� Aos Esp�ritos inferiores � interdito o acesso �s reuni�es s�rias?
"N�o, algumas vezes lhes � permitido assistir a elas, a fim de aproveitarem os
ensinos que vos s�o dados; mas, conservam-se silenciosos, como estouvados numa
assembl�ia de gente ponderada. "

232. Fora erro acreditar algu�m que precisa ser m�dium, para atrair a si os seres
do mundo invis�vel. Eles povoam o espa�o; temo-los incessantemente em tomo de n�s,
ao nosso lado, vendo-nos, observando-nos, intervindo em nossas reuni�es, seguindo-
nos, ou evitando-nos, conforme os atra�mos ou repelimos. A faculdade medi�nica em
nada influi para isto: ela mais n�o � do que um meio de comunica��o. De acordo com o
que dissemos acerca das causas de simpatia ou antipatia dos Esp�ritos, facilmente se
compreender� que devemos estar cercados daqueles que t�m afinidade com o nosso
pr�prio Esp�rito, conforme � este graduado, ou degradado. Consideremos agora o
estado moral do nosso planeta e compreenderemos de que g�nero devem ser os que
predominam entre os Esp�ritos errantes. Se tomarmos cada povo em particular,
poderemos, pelo car�ter dominante dos habitantes, pelas suas preocupa��es, seus
sentimentos mais ou menos morais e humanit�rios, dizer de que ordem s�o os Esp�ritos
que de prefer�ncia se re�nem no seio dele.
Partindo deste princ�pio, suponhamos uma reuni�o de homens levianos,
inconseq�entes, ocupados com seus prazeres; quais ser�o os Esp�ritos que
preferentemente os cercar�o? N�o ser�o de certo Esp�ritos superiores, do mes-
296
CAP�TULO XXI

mo modo que n�o seriam os nossos s�bios e fil�sofos os que iriam passar o seu tempo
em semelhante lugar. Assim, onde quer que haja uma reuni�o de homens, h� igualmente
em torno deles uma assembl�ia oculta, que simpatiza com suas qualidades ou com seus
defeitos, feita abstra��o completa de toda id�ia de evoca��o. Admitamos agora que
tais homens tenham a possibilidade de se comunicar com os seres do mundo invis�vel,
por meio de um int�rprete, isto �, por um m�dium; quais ser�o os que lhes responder�o
ao chamado? Evidentemente, os que os est�o rodeando de muito perto, � espreita de
uma ocasi�o para se comunicarem. Se, numa assembl�ia f�til, chamarem um Esp�rito
superior, este poder� vir e at� proferir algumas palavras ponderosas, como um bom
pastor que acode ao chamamento de suas ovelhas desgarradas. Por�m, desde que n�o se
veja compreendido, nem ouvido, retira-se, como em seu lugar o faria qualquer de n�s,
ficando os outros com o campo livre.

233. Nem sempre basta que uma assembl�ia seja s�ria, para receber
comunica��es de ordem elevada. H� pessoas que nunca riem e cujo cora��o, nem por
isso, � puro. Ora, o cora��o, sobretudo, � que atrai os bons Esp�ritos. Nenhuma
condi��o moral exclui as comunica��es esp�ritas; os que, por�m, est�o em m�s
condi��es, esses se comunicam com os que lhes s�o semelhantes, os quais n�o deixam
de enganar e de lisonjear os preconceitos.
Por a� se v� a influ�ncia enorme que o meio exerce sobre a natureza das
manifesta��es inteligentes. Essa influ�ncia, entretanto, n�o se exerce como o
pretenderam algumas pessoas, quando ainda se n�o conhecia o mundo dos Esp�ritos,
qual se conhece hoje, e antes que experi�ncias mais concludentes houvessem esclarecido
as d�vidas. Quando as comunica��es concordam com a opini�o dos assistentes, n�o �
que essa opini�o se reflita no Esp�rito do m�dium, como num espelho; � que com os
assistentes est�o Esp�ritos que lhes s�o simp�ticos, para o bem, tanto
297
DA INFLU�NCIA DO MEIO

quanto para o mal, e que abundam nos seus modos de ver. Prova-o o fato de que, se
tiverdes a for�a de atrair outros Esp�ritos, que n�o os que vos cercam, o mesmo m�dium
usar� de linguagem absolutamente diversa e dir� coisas muito distanciadas das vossas
id�ias e das vossas convic��es.
Em resumo: as condi��es do meio ser�o tanto melhores, quanto mais
homogeneidade houver para o bem, mais sentimentos puros e elevados, mais desejo
sincero de instru��o, sem id�ias preconcebidas.
298




CAP�TULO XXII

DA MEDIUNIDADE NOS ANIMAIS

234. Podem os animais ser m�diuns? Muitas vezes tem sido formulada esta
pergunta, � qual parece que alguns fatos respondem afirmativamente. O que, sobretudo,
tem autorizado a opini�o dos que pensam assim s�o os not�veis sinais de intelig�ncia de
alguns p�ssaros que, educados, parecem adivinhar o pensamento e tiram de um ma�o de
cartas as que podem responder com exatid�o a uma pergunta feita. Observamos com
especial aten��o tais experi�ncias e o que mais admiramos foi a arte que houve de ser
empregada para a instru��o dos ditos p�ssaros.
Incontestavelmente, n�o se lhes pode recusar uma certa dose de intelig�ncia
relativa, mas preciso se torna convir em que, nesta circunst�ncia, a perspic�cia deles
ultrapassaria de muito a do homem, pois ningu�m h� que possa lisonjear-se de fazer o
que eles fazem. Fora mesmo necess�rio supor-lhes, para algumas experi�ncias, um dom
de segunda vista superior ao dos son�mbulos mais l�cidos.
299
DA MEDIUNIDADE NOS ANIMAIS

Sabe-se, com efeito, que a lucidez � essencialmente vari�vel e sujeita a freq�entes
intermit�ncias, ao passo que nesses animais seria permanente e funcionaria com uma
regularidade e precis�o que em nenhum son�mbulo se v�em. Numa palavra: ela nunca
lhes faltaria.
Na sua maior parte, as experi�ncias que presenciamos s�o da natureza das que
fazem os prestidigitadores e n�o podiam deixar-nos em d�vida sobre o emprego de
alguns dos meios de que usam estes, notadamente o das cartas for�adas. A arte da
prestidigita��o consiste em dissimular esses meios, sem o que o efeito n�o teria gra�a.
Todavia, o fen�meno, mesmo reduzido a estas propor��es, n�o se apresenta menos
interessante e h� sempre que admirar o talento do instrutor, tanto quanto a intelig�ncia
do aluno, pois que a dificuldade a vencer � bem maior do que seria se o p�ssaro agisse
apenas em virtude de suas pr�prias faculdades. Ora, lev�-lo a fazer coisas que excedem
o limite do poss�vel para a intelig�ncia humana � provar, por este simples fato, o
emprego de um processo secreto. Ali�s, h� uma circunst�ncia que jamais deixa de
verificar-se: a de que os p�ssaros s� chegam a tal grau de habilidade, ao cabo de certo
tempo e mediante cuidados especiais e perseverantes, o que n�o seria necess�rio, se
apenas a intelig�ncia deles estivesse em jogo. N�o � mais extraordin�rio educ�-los para
tirar cartas, do que os habituar a repetir �rias, ou palavras.
O mesmo se verificou, quando a prestidigita��o pretendeu imitar a segunda vista.
Obrigava-se o paciente a ir ao extremo, para que a ilus�o durasse longo tempo. Desde a
primeira vez que assistimos a uma sess�o deste g�nero, nada mais vimos do que muito
imperfeita imita��o do sonambulismo, revelando ignor�ncia das condi��es essenciais
dessa faculdade.

235. Como quer que seja, no tocante �s experi�ncias de que acima falamos, n�o
menos integral permanece, de outro ponto de vista, a quest�o principal, por isso que,
assim como a imita��o do sonambulismo n�o obsta a que
300
CAP�TULO XXII

a faculdade exista, tamb�m a imita��o da mediunidade por meio dos p�ssaros nada
prova contra a possibilidade da exist�ncia, neles, ou em outros animais, de uma
faculdade an�loga.
Trata-se, pois, de saber se os animais s�o aptos, como os homens, a servir de
intermedi�rios aos Esp�ritos, para suas comunica��es inteligentes. Muito l�gico parece
mesmo se suponha que um ser vivo, dotado de certa dose de intelig�ncia, seja mais apto,
para esse efeito, do que um corpo inerte, sem vitalidade, qual, por exemplo, uma mesa.
�, entretanto, o que n�o se d�.

236. A quest�o da mediunidade dos animais se acha completamente resolvida na
disserta��o seguinte, feita por um Esp�rito cuja profundeza e sagacidade os leitores h�o
podido apreciar nas cita��es, que temos tido ocasi�o de fazer, de instru��es suas. Para
bem se apreender o valor da sua demonstra��o, essencial � se tenha em vista a
explica��o por ele dada do papel do m�dium nas comunica��es, explica��o que atr�s
reproduzimos. (N. 225.)
Esta comunica��o deu-a ele em seguida a uma discuss�o, que se travara, sobre o
assunto, na Sociedade Parisiense de Estudos Esp�ritas:
"Explanarei hoje a quest�o da mediunidade dos animais, levantada e sustentada
por um dos vossos mais fervorosos adeptos. Pretende ele, em virtude deste axioma:
Quem pode o mais pode o menos, que podemos "mediunizar" os p�ssaros e os outros
animais e servir-nos deles nas nossas comunica��es com a esp�cie humana. E o que
chamais, em filosofia, ou, antes, em l�gica, pura e simplesmente um sofisma. "Podeis
animar, diz ele, a mat�ria inerte, isto �, uma mesa, uma cadeira, um piano; a fortiori,
deveis poder animar a mat�ria j� animada e particularmente p�ssaros. Pois bem! no
estado normal do Espiritismo, n�o � assim, n�o pode ser assim.
"Primeiramente, entendamo-nos bem acerca dos fatos. Que � um m�dium? E o
ser, � o indiv�duo que serve de tra�o de uni�o aos Esp�ritos, para que estes possam
301
DA MEDIUNIDADE NOS ANIMAIS

comunicar-se facilmente com os homens: Esp�ritos encarnados. Por conseguinte, sem
m�dium, n�o h� comunica��es tang�veis, mentais, escritas, f�sicas, de qualquer natureza
que seja.
"H� um princ�pio que, estou certo, todos os esp�ritas admitem, � que os
semelhantes atuam com seus semelhantes e como seus semelhantes. Ora, quais s�o os
semelhantes dos Esp�ritos, sen�o os Esp�ritos, encarnados ou n�o? Ser� preciso que vo-
lo repitamos incessantemente? Pois bem! repeti-lo-ei ainda: o vosso perisp�rito e o nosso
procedem do mesmo meio, s�o de natureza id�ntica, s�o, numa palavra, semelhantes.
Possuem uma propriedade de assimila��o mais ou menos desenvolvida, de magnetiza��o
mais ou menos vigorosa, que nos permite a n�s, Esp�ritos desencarnados e encamados,
pormo-nos muito pronta e facilmente em comunica��o. Enfim, o que � peculiar aos
m�diuns, o que � da ess�ncia mesma da individualidade deles, � uma afinidade especial
e, ao mesmo tempo, uma for�a de expans�o particular, que lhes suprimem toda
refratariedade e estabelecem, entre eles e n�s, uma esp�cie de corrente, uma esp�cie de
fus�o, que nos facilita as comunica��es. E, em suma, essa refratariedade da mat�ria que
se op�e ao desenvolvimento da mediunidade, na maior parte dos que n�o s�o m�diuns.
"Os homens se mostram sempre propensos a tudo exagerar; uns, n�o falo aqui
dos materialistas, negam alma aos animais, outros de boa mente lhes atribuem uma,
igual, por assim dizer, � nossa. Por que h�o de pretender deste modo confundir o
perfect�vel com o imperfect�vel? N�o, n�o, convencei-vos, o fogo que anima os
irracionais, o sopro que os faz agir, mover e falar na linguagem que lhes � pr�pria, n�o
tem, quanto ao presente, nenhuma aptid�o para se mesclar, unir, fundir com o sopro
divino, a alma et�rea, o Esp�rito em uma palavra, que anima o ser essencialmente
perfect�vel: o homem, o rei da cria��o. Ora, n�o � essa condi��o fundamental de
perfectibilidade o que constitui a superioridade da esp�cie humana sobre as outras
esp�cies terrestres? Reconhecei, ent�o, que n�o
302
CAP�TULO XXII

se pode assimilar ao homem, que s� ele � perfect�vel em si mesmo e nas suas obras,
nenhum indiv�duo das outras ra�as que vivem na Terra.
"O c�o que, pela sua intelig�ncia superior entre os animais, se tornou o amigo e
o comensal do homem, ser� perfect�vel por si mesmo, por sua iniciativa pessoal?
Ningu�m ousaria afirm�-lo, porquanto o c�o n�o faz progredir o c�o. O que, dentre
eles, se mostre mais bem educado, sempre o foi pelo seu dono. Desde que o mundo �
mundo, a lontra sempre construiu sua cho�a em cima d'�gua, seguindo as mesmas
propor��es e uma regra invari�vel; os rouxin�is e as andorinhas jamais constru�ram os
respectivos ninhos sen�o do mesmo modo que seus pais o fizeram. Um ninho de pardais
de antes do dil�vio, como um ninho de pardais dos tempos modernos, � sempre um
ninho de pardais, edificado nas mesmas condi��es e com o mesmo sistema de
entrela�amento das palhinhas e dos fragmentos apanhados na primavera, na �poca dos
amores. As abelhas e formigas, que formam pequeninas rep�blicas bem administradas,
jamais mudaram seus h�bitos de abastecimento, sua maneira de proceder, seus
costumes, suas produ��es. A aranha, finalmente, tece a sua teia sempre do mesmo
modo.
"Por outro lado, se procurardes as cabanas de folhagens e as tendas das
primeiras idades do mundo, encontrareis, em lugar de umas e outras, os pal�cios e os
castelos da civiliza��o moderna. As vestes de peles brutas sucederam os tecidos de ouro
e seda. Enfim, a cada passo, achais a prova da marcha incessante da Humanidade pela
senda do progresso.
"Desse progredir constante, invenc�vel, irrecus�vel, do Esp�rito humano e desse
estacionamento indefinido das outras esp�cies animais, haveis de concluir comigo que,
se � certo que existem princ�pios comuns a tudo o que vive e se move na Terra: o sopro
e a mat�ria, n�o menos certo � que somente v�s, Esp�ritos encarnados, estais
submetidos a inevit�vel lei do progresso, que vos impele fatalmente para diante e sempre
para diante. Deus colocou
303
DA MEDIUNIDADE NOS ANIMAIS

os animais ao vosso lado como auxiliares, para vos alimentarem, para vos vestirem, para
vos secundarem. Deu-lhes uma certa dose de intelig�ncia, porque, para vos ajudarem,
precisavam compreender, por�m lhes outorgou intelig�ncia apenas proporcionada aos
servi�os que s�o chamados a prestar. Mas, em sua sabedoria, n�o quis que estivessem
sujeitos � mesma lei do progresso. Tais como foram criados se conservaram e se
conservar�o at� � extin��o de suas ra�as.
"Dizem: os Esp�ritos "mediunizam" a mat�ria inerte e fazem que se movam
cadeiras, mesas, pianos. Fazem que se movam, sim, "mediunizam", n�o! porquanto,
mais uma vez o digo, sem m�dium, nenhum desses fen�menos pode produzir-se. Que h�
de extraordin�rio em que, com o aux�lio de um ou de muitos m�diuns, fa�amos se mova
a mat�ria inerte, passiva, que, precisamente em virtude da sua passividade, da sua
in�rcia, � apropriada a executar os movimentos e as impuls�es que lhe queiramos
imprimir? Para isso, precisamos de m�diuns, � positivo; mas, n�o � necess�rio que o
m�dium esteja presente, ou seja consciente, pois que podemos atuar com os elementos
que ele nos fornece, a seu mau grado e ausente, sobretudo para produzir os fatos de
tangibilidade e o de transportes. O nosso envolt�rio flu�dico, mais imponder�vel e mais
sutil do que o mais sutil e o mais imponder�vel dos vossos gases, com uma propriedade
de expans�o e de penetrabilidade inapreci�vel para os vossos sentidos grosseiros e quase
inexplic�vel para v�s, unindo-se, casando-se, combinando-se com o envolt�rio flu�dico,
por�m animalizado, do m�dium, nos permite imprimir movimento a m�veis quaisquer e
at� quebr�-los em aposentos desabitados.
"� certo que os Esp�ritos podem tornar-se vis�veis e tang�veis aos animais e,
muitas vezes, o terror s�bito que eles denotam, sem que lhe percebais a causa, �
determinado pela vis�o de um ou de muitos Esp�ritos, mal-intencionados com rela��o
aos indiv�duos presentes, ou com rela��o aos donos dos animais. Ainda com mais
freq��ncia vedes cavalos que se negam a avan�ar ou a recuar, ou
304
CAP�TULO XXII

que empinam diante de um obst�culo imagin�rio. Pois bem! tende como certo que o
obst�culo imagin�rio � quase sempre um Esp�rito ou um grupo de Esp�ritos que se
comprazem em impedi-los de mover-se. Lembrai-vos da mula de Bala�o que, vendo um
anjo diante de si e temendo-lhe a, espada flamejante, se obstinava em n�o dar um passo.
E que, antes de se manifestar visivelmente a Bala�o, o anjo quisera tornar-se vis�vel
somente para o animal. Mas, repito, n�o mediunizamos diretamente nem os animais,
nem a mat�ria inerte. �-nos sempre necess�rio o concurso consciente, ou inconsciente,
de um m�dium humano, porque precisamos da uni�o de fluidos similares, o que n�o
achamos nem nos animais, nem na mat�ria bruta.
"O Sr. T..., diz-se, magnetizou o seu c�o. A que resultado chegou? Matou-o,
porquanto o infeliz animal morreu, depois de haver ca�do numa esp�cie de atonia, de
langor, conseq�entes � sua magnetiza��o. Com efeito, saturando-o de um fluido haurido
numa ess�ncia superior � ess�ncia especial da sua natureza de c�o, ele o esmagou,
agindo sobre o animal � semelhan�a do raio, ainda que mais lentamente. Assim, pois,
como n�o h� assimila��o poss�vel entre o nosso perisp�rito e o envolt�rio flu�dico dos
animais, propriamente ditos, aniquila-los-�amos instantaneamente, se os mediuniz�s-
semos.
"Isto posto, reconhe�o perfeitamente que h� nos animais aptid�es diversas; que
certos sentimentos, certas paix�es, id�nticas �s paix�es e aos sentimentos humanos, se
desenvolvem neles; que s�o sens�veis e reconhecidos, vingativos e odientos, conforme se
procede bem ou mal com eles. � que Deus, que nada fez incompleto, deu aos animais,
companheiros ou servidores do homem, qualidades de sociabilidade, que faltam
inteiramente aos animais selvagens, habitantes das solid�es. Mas, da� a poderem servir
de intermedi�rios para a transmiss�o do pensamento dos Esp�ritos, h� um abismo: a
diferen�a das naturezas.
"Sabeis que tomamos ao c�rebro do m�dium os elementos necess�rios a dar ao
nosso pensamento uma forma
305
DA MEDIUNIDADE NOS ANIMAIS

que vos seja sens�vel e apreens�vel; � com o auxilio dos materiais que possui, que o
m�dium traduz o nosso pensamento em linguagem vulgar. Ora bem! que elementos
encontrar�amos no c�rebro de um animal? Tem ele ali palavras, n�meros, letras, sinais
quaisquer, semelhantes aos que existem no homem, mesmo o menos inteligente?
Entretanto, direis, os animais compreendem o pensamento do homem, adivinham-no at�.
Sim, os animais educados compreendem certos pensamentos, mas j� os vistes alguma
vez reproduzi-los? N�o. Deveis ent�o concluir que os animais n�o nos podem servir de
int�rpretes.
"Resumindo: os fatos medi�nicos n�o podem dar-se sem o concurso consciente,
ou inconsciente, dos m�diuns; e somente entre os encarnados, Esp�ritos como n�s,
podemos encontrar os que nos sirvam de m�diuns. Quanto a educar c�es, p�ssaros, ou
outros animais, para fazerem tais ou tais exerc�cios, � trabalho vosso e n�o nosso.

ERASTO.
NOTA. Na Revue Spirite, de setembro de 1861, encontra-se, minudenciado, um
processo empregado pelos educadores de p�ssaros s�bios, com o fim de faz�-los tirar de
um ma�o de cartas as que se queiram.
306




CAP�TULO XXIII

DA OBSESS�O

Obsess�o simples. - Fascina��o. - Subjuga��o. - Causas de obsess�o. - Meios
de a combater.

237. Entre os escolhos que apresenta a pr�tica do Espiritismo, cumpre se
coloque na primeira linha a obsess�o, isto �, o dom�nio que alguns Esp�ritos logram
adquirir sobre certas pessoas. Nunca � praticada sen�o pelos Esp�ritos inferiores, que
procuram dominar. Os bons Esp�ritos nenhum constrangimento infligem. Aconselham,
combatem a influ�ncia dos maus e, se n�o os ouvem, retiram-se. Os maus, ao contr�rio,
se agarram �queles de quem podem fazer suas presas. Se chegam a dominar algum,
identificam-se com o Esp�rito deste e o conduzem como se fora verdadeira crian�a.
A obsess�o apresenta caracteres diversos, que � preciso distinguir e que resultam
do grau do constrangimento e da natureza dos efeitos que produz. A palavra obses-
s�o
307
DA OBSESS�O

�, de certo modo, um termo gen�rico, pelo qual se designa esta esp�cie de fen�meno,
a
cujas principais variedades s�o: obsess�o simples,a fascina��o e a subjuga��o.

238. D�-se a obsess�o simples, quando um Esp�rito malfazejo se imp�e a um
m�dium, se imiscui, a seu mau grado, nas comunica��es que ele recebe, o impede de se
comunicar com outros Esp�ritos e se apresenta em lugar dos que s�o evocados.
Ningu�m est� obsidiado pelo simples fato de ser enganado por um Esp�rito
mentiroso. O melhor m�dium se acha exposto a isso, sobretudo, no come�o, quando
ainda lhe falta a experi�ncia necess�ria, do mesmo modo que, entre n�s homens, os mais
honestos podem ser enganados por velhacos. Pode-se, pois, ser enganado, sem estar
obsidiado. A obsess�o consiste na tenacidade de um Esp�rito, do qual n�o consegue
desembara�ar-se a pessoa sobre quem ele atua.
Na obsess�o simples, o m�dium sabe muito bem que se acha presa de um
Esp�rito mentiroso e este n�o se disfar�a; de nenhuma forma dissimula suas m�s
inten��es e o seu prop�sito de contrariar. O m�dium reconhece sem dificuldade a felonia
e, como se mant�m em guarda, raramente � enganado. Este g�nero de obsess�o �,
portanto, apenas desagrad�vel e n�o tem outro inconveniente, al�m do de opor
obst�culo �s comunica��es que se desejara receber de Esp�ritos s�rios, ou dos
afei�oados.
Podem incluir-se nesta categoria os casos de obsess�o f�sica, isto �, a que
consiste nas manifesta��es ruidosas e obstinadas de alguns Esp�ritos, que fazem se
ou�am, espontaneamente, pancadas ou outros ru�dos. Pelo que concerne a este
(N.
fen�meno, consulte-se o cap�tulo Das manifesta��es f�sicas espont�neas. 82.)

239. A fascina��o tem conseq��ncias muito mais graves. E uma ilus�o
produzida pela a��o direta do Esp�rito sobre o pensamento do m�dium e que, de certa
maneira, lhe paralisa o racioc�nio, relativamente �s comunica��es.
308
CAP�TULO XXIII

O m�dium fascinado n�o acredita que o estejam enganando: o Esp�rito tem a arte de lhe
inspirar confian�a cega, que o impede de ver o embuste e de compreender
o absurdo do que escreve, ainda quando esse absurdo salte aos olhos de toda gente. A
ilus�o pode mesmo ir at� ao ponto de o fazer achar sublime a linguagem mais rid�cula.
Fora erro acreditar que a este g�nero de obsess�o s� est�o sujeitas as pessoas simples,
ignorantes e baldas de senso. Dela n�o se acham isentos nem os homens de mais
esp�rito, os mais instru�dos e os mais inteligentes sob outros aspectos, o que prova que
tal aberra��o � efeito de uma causa estranha, cuja influ�ncia eles sofrem.
J� dissemos que muito mais graves s�o as conseq��ncias da fascina��o.
Efetivamente, gra�as � ilus�o que dela decorre, o Esp�rito conduz o indiv�duo de quem
ele chegou a apoderar-se, como faria com um cego, e pode lev�-lo a aceitar as doutrinas
mais estranhas, as teorias mais falsas, como se fossem a �nica express�o da verdade.
Ainda mais, pode lev�-lo a situa��es rid�culas, comprometedoras e at� perigosas.
Compreende-se facilmente toda a diferen�a que existe entre a obsess�o simples e
a fascina��o; compreende-se tamb�m que os Esp�ritos que produzem esses dois efeitos
devem diferir de car�ter. Na primeira, o Esp�rito que se agarra � pessoa n�o passa de um
importuno pela sua tenacidade e de quem aquela se impacienta por desembara�ar-se. Na
segunda, a coisa � muito diversa. Para chegar a tais fins, preciso � que o Esp�rito seja
destro, ardiloso e profundamente hip�crita, porquanto n�o pode operar a mudan�a e
fazer-se acolhido, sen�o por meio da m�scara que toma e de um falso aspecto de
virtude. Os grandes termos - caridade, humildade, amor de Deus - lhe servem como que
de carta de cr�dito, por�m, atrav�s de tudo isso, deixa passar sinais de inferioridade, que
s� o fascinado � incapaz de perceber. Por isso mesmo, o que o fascinador mais teme s�o
as pessoas que v�em claro. Da� o consistir a sua t�tica, quase sempre, em inspirar ao seu
int�rprete o afastamento de quem quer que lhe possa abrir os olhos.
309
DA OBSESS�O

Por esse meio, evitando toda contradi��o, fica certo de ter raz�o sempre.

240. A subjuga��o � uma constri��o que paralisa a vontade daquele que a sofre
e o faz agir a seu mau grado. Numa palavra: o paciente fica sob um verdadeiro jugo.
A subjuga��o pode ser moral ou corporal. No primeiro caso, o subjugado �
constrangido a tomar resolu��es muitas vezes absurdas e comprometedoras que, por
uma esp�cie de ilus�o, ele julga sensatas: � uma como fascina��o. No segundo caso, o
Esp�rito atua sobre os �rg�os materiais e provoca movimentos involunt�rios. Traduz-se,
no m�dium escrevente, por uma necessidade incessante de escrever, ainda nos
momentos menos oportunos. Vimos alguns que, � falta de pena ou l�pis, simulavam
escrever com o dedo, onde quer que se encontrassem, mesmo nas ruas, nas portas, nas
paredes.
Vai, �s vezes, mais longe a subjuga��o corporal; pode levar aos mais rid�culos
atos. Conhecemos um homem, que n�o era jovem, nem belo e que, sob o imp�rio de
uma obsess�o dessa natureza, se via constrangido, por uma for�a irresist�vel, a p�r-se de
joelhos diante de uma mo�a a cujo respeito nenhuma pretens�o nutria e pedi-la em
casamento. Outras vezes, sentia nas costas e nos jarretes uma press�o en�rgica, que o
for�ava, n�o obstante a resist�ncia que lhe opunha, a se ajoelhar e beijar o ch�o nos
lugares p�blicos e em presen�a da multid�o. Esse homem passava por louco entre as
pessoas de suas rela��es; estamos, por�m, convencidos de que absolutamente n�o o era;
porquanto tinha consci�ncia plena do rid�culo do que fazia contra a sua vontade e com
isso sofria horrivelmente.

241. Dava-se outrora o nome de possess�o ao imp�rio exercido por maus
Esp�ritos, quando a influ�ncia deles ia at� � aberra��o das faculdades da v�tima. A
possess�o
310
CAP�TULO XXIII

seria, para n�s, sin�nimo da subjuga��o. Por dois motivos deixamos de adotar esse
termo: primeiro, porque implica a cren�a de seres criados para o mal e perpetuamente
votados ao mal, enquanto que n�o h� sen�o seres mais ou menos imperfeitos, os quais
todos podem melhorar-se; segundo, porque implica igualmente a id�ia do apoderamento
de um corpo por um Esp�rito estranho, de uma esp�cie de coabita��o, ao passo que o
que h� � apenas constrangimento. A palavra subjuga��o exprime perfeitamente a id�ia.
Assim, para n�s, n�o h� possessos, no sentido vulgar do termo, h� somente obsidiados,
subjugados e fascinados.

242. A obsess�o, como dissemos, � um dos maiores escolhos da mediunidade e
tamb�m um dos mais freq�entes. Por isso mesmo, n�o ser�o demais todos os esfor�os
que se empreguem para combat�-la, porquanto, al�m dos inconvenientes pessoais que
acarreta, � um obst�culo absoluto � bondade e � veracidade das comunica��es. A
obsess�o, de qualquer grau, sendo sempre efeito de um constrangimento e este n�o
podendo jamais ser exercido por um bom Esp�rito, segue-se que toda comunica��o dada
por um m�dium obsidiado � de origem suspeita e nenhuma confian�a merece. Se nelas
alguma coisa de bom se encontrar, guarde-se isso e rejeite-se tudo o que for
simplesmente duvidoso.

243. Reconhece-se a obsess�o pelas seguintes caracter�sticas:
1� Persist�ncia de um Esp�rito em se comunicar, bom ou mau grado, pela escrita,
pela audi��o, pela tiptologia, etc., opondo-se a que outros Esp�ritos o fa�am;
2� Ilus�o que, n�o obstante a intelig�ncia do m�dium, o impede de reconhecer a
falsidade e o rid�culo das comunica��es que recebe;
3� Cren�a na infalibilidade e na identidade absoluta dos Esp�ritos que se
comunicam e que, sob nomes respeit�veis e venerados, dizem coisas falsas ou absurdas;
311
DA OBSESS�O

4� Confian�a do m�dium nos elogios que lhe dispensam os Esp�ritos que por ele
se comunicam;
5� Disposi��o para se afastar das pessoas que podem emitir opini�es
aproveit�veis;
6� Tomar a mal a cr�tica das comunica��es que recebe;
7� Necessidade incessante e inoportuna de escrever;
8� Constrangimento f�sico qualquer, dominando-lhe a vontade e for�ando-o a
agir ou falar a seu mau grado;
9� Rumores e desordens persistentes ao redor do m�dium, sendo ele de tudo a
causa, ou o objeto.

244. Diante do perigo da obsess�o, ocorre perguntar se n�o � lastim�vel o ser-
se m�dium. N�o � a faculdade medi�nica que a provoca? Numa palavra, n�o constitui
isso uma prova de inconveni�ncia das comunica��es esp�ritas? F�cil se nos apresenta a
resposta e pedimos que a meditem cuidadosamente.
N�o foram os m�diuns, nem os esp�ritas que criaram os Esp�ritos; ao contr�rio,
foram os Esp�ritos que fizeram haja esp�ritas e m�diuns. N�o sendo os Esp�ritos mais do
que as almas dos homens, � claro que h� Esp�ritos desde quando h� homens; por
conseguinte, desde todos os tempos eles exerceram influ�ncia salutar ou perniciosa
sobre a Humanidade. A faculdade medi�nica n�o lhes � mais que um meio de se
manifestarem. Em falta dessa faculdade, fazem-no por mil outras maneiras, mais ou
menos ocultas. Seria, pois, erro crer-se que s� por meio das comunica��es escritas ou
verbais exercem os Esp�ritos sua influ�ncia. Esta influ�ncia � de todos os instantes e
mesmo os que n�o se ocupam com os Esp�ritos, ou at� n�o cr�em neles, est�o expostos
a sofr�-la, como os outros e mesmo mais do que os outros, porque n�o t�m com que a
contrabalancem. A mediunidade �, para o esp�rito, um meio de se fazer conhecido. Se
ele � mau, sempre se trai, por mais hip�crita que seja. Pode, pois, dizer-se que a
mediunidade permite se veja o inimigo face a face, se assim nos podemos exprimir, e
combate-lo com suas pr�prias armas. Sem essa faculdade, ele age na sombra
312
CAP�TULO XXIII

e, tendo a seu favor a invisibilidade, pode fazer e faz realmente muito mal. A quantos
atos n�o � o homem impelido, para desgra�a sua, e que teria evitado, se dispusesse de
um meio de esclarecer-se! Os incr�dulos n�o imaginam enunciar uma verdade, quando
dizem de um homem que se transvia obstinadamente: "� o seu mau g�nio que o impele �
pr�pria perda." Assim, o conhecimento do Espiritismo, longe de facilitar o predom�nio
dos maus Esp�ritos, h� de ter como resultado, em tempo mais ou menos pr�ximo, e
quando se achar propagado, destruir esse predom�nio, dando a cada um os meios de se
p�r em guarda contra as sugest�es deles. Aquele ent�o que sucumbir s� de si ter� que se
queixar.
Regra geral: quem quer que receba m�s comunica��es esp�ritas, escritas ou
verbais, est� sob m� influ�ncia; essa influ�ncia se exerce sobre ele, quer escreva, quer
n�o, isto �, seja ou n�o seja m�dium, creia ou n�o creia. A escrita faculta um meio de ser
apreciada a natureza dos Esp�ritos que sobre ele atuam e de serem combatidos, se forem
maus, o que se consegue com mais �xito quando se chega a conhecer os motivos da
a��o que desenvolvem. Se bastante cego � ele para o n�o compreender, podem outros
abrir-lhe os olhos.
Em resumo: o perigo n�o est� no Espiritismo, em si mesmo, pois que este pode,
ao contr�rio, servir-nos de governo e preservar-nos do risco que corremos
incessantemente, � revelia nossa. O perigo est� na orgulhosa propens�o de certos
m�diuns para, muito levianamente, se julgarem instrumentos exclusivos de Esp�ritos
superiores e nessa esp�cie de fascina��o que lhes n�o permite compreender as tolices de
que s�o int�rpretes. Mesmo os que n�o s�o m�diuns podem deixar-se apanhar. Fa�amos
urna compara��o. Um homem tem um inimigo secreto, a quem n�o conhece e que
contra ele espalha sub-repticiamente a cal�nia e tudo o que a mais negra maldade possa
inventar. O infeliz v� a sua fortuna perder-se, afastarem-se seus amigos, perturbada a
sua ventura �ntima. N�o podendo descobrir a m�o que o fere, impossibilitado se acha de
313
DA OBSESS�O

defender-se e sucumbe. Mas, um belo dia, esse inimigo oculto lhe escreve e se trai, n�o
obstante todos os ardis de que se vale. Eis descoberto o perseguidor do pobre homem,
que desde ent�o pode confundi-lo e se reabilitar. Tal o papel dos maus Esp�ritos, que o
Espiritismo nos proporciona a possibilidade de conhecer e desmascarar.

245. As causas da obsess�o variam, de acordo com o car�ter do Esp�rito. E, �s
vezes, uma vingan�a que este toma de um indiv�duo de quem guarda queixas da sua vida
presente ou do tempo de outra exist�ncia. Muitas vezes, tamb�m, n�o h� mais do que o
desejo de fazer mal: o Esp�rito, como sofre, entende de fazer que os outros sofram;
encontra uma esp�cie de gozo em os atormentar, em os vexar, e a impaci�ncia que por
isso a v�tima demonstra mais o exacerba, porque esse � o objetivo que colima, ao passo
que a paci�ncia o leva a cansar-se. Com o irritar-se e mostrar-se despeitado, o
perseguido faz exatamente o que quer o seu perseguidor. Esses Esp�ritos agem, n�o raro
por �dio e inveja do bem; da� o lan�arem suas vistas malfazejas sobre as pessoas mais
honestas. Um deles se apegou como "tinha" a uma honrada fam�lia do nosso
conhecimento, � qual, ali�s, n�o teve a satisfa��o de enganar. Interrogado acerca do
motivo por que se agarrara a pessoas distintas, em vez de o fazer a homens maus como
ele, respondeu: estes n�o me causam inveja. Outros s�o guiados por um sentimento de
covardia, que os induz a se aproveitarem da fraqueza moral de certos indiv�duos, que
eles sabem incapazes de lhes resistirem. Um destes �ltimos, que subjulgava um rapaz de
intelig�ncia muito apoucada, interrogado sobre os motivos dessa escolha, respondeu:
Tenho grand�ssima necessidade de atormentar algu�m; uma pessoa criteriosa me
repeliria; ligo-me a um idiota, que nenhuma for�a me op�e.

246. H�, Esp�ritos obsessores sem maldade, que alguma coisa mesmo denotam
de bom, mas dominados pelo orgulho do falso saber. T�m suas id�ias, seus sistemas
314
CAP�TULO XXIII

sobre as ci�ncias, a economia social, a moral, a religi�o, a filosofia, e querem fazer que
suas opini�es prevale�am. Para esse efeito, procuram m�diuns bastante cr�dulos para os
aceitar de olhos fechados e que eles fascinam, a fim de os impedir de discernirem o
verdadeiro do falso. S�o os mais perigosos, porque os sofismas nada lhes custam e
podem tornar cridas as mais rid�culas utopias. Como conhecem o prest�gio dos grandes
nomes, n�o escrupulizam em se adornarem com um daqueles diante dos quais todos se
inclinam, e n�o recuam sequer ante o sacril�gio de se dizerem Jesus, a Virgem Maria, ou
um santo venerado. Procuram deslumbrar por meio de uma linguagem empolada, mais
pretensiosa do que profunda, eri�ada de termos t�cnicos e recheada das retumbantes
palavras caridade e moral. Cuidadosamente evitar�o dar um mau conselho, porque bem
sabem que seriam repelidos. Da� vem que os que s�o por eles enganados os defendem,
dizendo: Bem vedes que nada dizem de mau. A moral, por�m, para esses Esp�ritos �
simples passaporte, � o que menos os preocupa. O que querem, acima de tudo, � impor
suas id�ias por mais disparatadas que sejam.

247. Os Esp�ritos dados a sistemas s�o geralmente escrevinhadores, pelo que
buscam os m�diuns que escrevem com facilidade e dos quais tratam de fazer
instrumentos d�ceis e, sobretudo, entusiastas, fascinando-os. S�o quase sempre
verbosos, muito prolixos, procurando compensar a qualidade pela quantidade.
Comprazem-se em ditar, aos seus int�rpretes, volumosos escritos indigestos e
freq�entemente pouco intelig�veis, que, felizmente, t�m por ant�doto a impossibilidade
material de serem lidos pelas massas. Os Esp�ritos verdadeiramente superiores s�o
s�brios de palavras; dizem muita coisa em poucas frases. Segue-se que aquela
fecundidade prodigiosa deve sempre ser suspeita.
Nunca ser� demais toda a circunspec��o, quando se trate de publicar
semelhantes escritos. As utopias e as excentricidades, que neles por vezes abundam e
chocam
315
DA OBSESS�O

o bom-senso, produzem lament�vel impress�o nas pessoas ainda novi�as na Doutrina,
dando-lhes uma id�ia falsa do Espiritismo, sem mesmo se levar em conta que s�o armas
de que se servem seus inimigos, para ridiculiz�-lo. Entre tais publica��es, algumas h�
que, sem serem m�s e sem provirem de um obsess�o, podem considerar-se imprudentes,
intempestivas, ou desazadas.

248. Acontece muito freq�entemente que um m�dium s� se pode comunicar com
um �nico Esp�rito, que a ele se liga e responde pelos que s�o chamados por seu
interm�dio. Nem sempre h� nisso uma obsess�o, porquanto o fato pode derivar da falta
de maleabilidade do m�dium, de uma afinidade especial sua com tal ou tal Esp�rito.
Somente h� obsess�o propriamente dita, quando o Esp�rito se imp�e e afasta
intencionalmente os outros, o que jamais � obra de um Esp�rito bom. Geralmente, o
Esp�rito que se apodera do m�dium, tendo em vista domin�-lo, n�o suporta o exame
cr�tico das suas comunica��es; quando v� que n�o s�o aceitas, que as discutem, n�o se
retira, mas inspira ao m�dium o pensamento de se insular, chegando mesmo, n�o raro, a
ordenar-lho. Todo m�dium, que se melindra com a cr�tica das comunica��es que obt�m,
faz-se eco do Esp�rito que o domina, Esp�rito esse que n�o pode ser bom, desde que lhe
inspira um pensamento il�gico, qual o de se recusar ao exame. O insulamento do
m�dium � sempre coisa deplor�vel para ele, porque fica sem uma verifica��o das
comunica��es que recebe. N�o somente deve buscar a opini�o de terceiros para
esclarecer-se, como tamb�m necess�rio lhe � estudar todos os g�neros de comunica��es,
a fim de as comparar. Restringindo-se �s que lhe s�o transmitidas, exp�e-se a se iludir
sobre o valor destas, sem considerar que n�o lhe � dado tudo saber e que elas giram
-
quase sempre dentro do mesmo c�rculo. (N. 192 M�diuns exclusivos.)

249. Os meios de se combater a obsess�o variam, de acordo com o car�ter que
ela reveste. N�o existe real-
316
CAP�TULO XXIII

mente perigo para o m�dium que se ache bem convencido de que est� a haver-se com
um Esp�rito mentiroso, como sucede na obsess�o simples; esta n�o passa ent�o, para
ele, de fato desagrad�vel. Mas, precisamente porque lhe � desagrad�vel constitui uma
raz�o de mais para que o Esp�rito se encarnice em vex�-lo. Duas coisas essenciais se t�m
que fazer nesse caso: provar ao Esp�rito que n�o est� iludido por ele e que lhe �
imposs�vel enganar; depois, cansar-lhe a paci�ncia, mostrando-se mais paciente que ele.
Desde que se conven�a de que est� a perder o tempo, retirar-se-�, como fazem os
importunos a quem n�o se d� ouvidos.
Isto, por�m, nem sempre basta e pode levar muito tempo, porquanto Esp�ritos h�
tenazes, para os quais meses e anos nada s�o. Al�m disso, portanto, deve o m�dium
dirigir um apelo fervoroso ao seu anjo bom, assim como aos bons Esp�ritos que lhe s�o
simp�ticos, pedindo-lhes que o assistam. Quanto ao Esp�rito obsessor, por mau que seja,
deve trat�-lo com severidade, mas com benevol�ncia e venc�-lo pelos bons processos,
orando por ele. Se for realmente perverso, a princ�pio zombar� desses meios; por�m,
moralizado com perseveran�a, acabar� por emendar-se. E uma convers�o a empreender,
tarefa muitas vezes penosa, ingrata, mesmo desagrad�vel, mas cujo m�rito est� na
dificuldade que ofere�a e que, se bem desempenhada, d� sempre a satisfa��o de se ter
cumprido um dever de caridade e, quase sempre, a de ter-se reconduzido ao bom
caminho uma alma perdida.
Conv�m igualmente se interrompa toda comunica��o escrita, desde que se
reconhe�a que procede de um Esp�rito mau, que a nenhuma raz�o quer atender, a fim de
se lhe n�o dar o prazer de ser ouvido. Em certos casos, pode at� convir que o m�dium
deixe de escrever por algum tempo, regulando-se ent�o pelas circunst�ncias. Entretanto,
se o m�dium escrevente pode evitar essas confabula��es, outro tanto j� n�o se d� com o
m�dium audiente, que o Esp�rito obsessor persegue �s vezes a todo instante com as suas
proposi��es grosseiras e obscenas e que nem
317
DA OBSESS�O

sequer disp�e do recurso de tapar os ouvidos. Ali�s, cumpre se reconhe�a que algumas
pessoas se divertem com a linguagem trivial dessa esp�cie de Esp�ritos, que os animam e
provocam com o rirem de suas tolices, em vez de lhes imporem sil�ncio e de os
moralizarem. Os nossos conselhos n�o podem servir a esses, que desejam afogar-se.

250. Apenas aborrecimento h�, pois, e n�o perigo, para todo m�dium que n�o se
deixe ludibriar, porque n�o poder� ser enganado. Muito diverso � o que se d� com a
fascina��o, porque ent�o n�o tem limites o dom�nio que o Esp�rito assume sobre o
encarnado de quem se apoderou. A �nica coisa a fazer-se com a v�tima � convenc�-la de
que est� sendo ludibriada e reconduzir-lhe a obsess�o ao caso da obsess�o simples. Isto,
por�m, nem sempre � f�cil, dado que algumas vezes n�o seja mesmo imposs�vel. Pode
ser tal o ascendente do Esp�rito, que torne o fascinado surdo a toda sorte de racioc�nio,
podendo chegar at�, quando o Esp�rito comete alguma grossa heresia cient�fica, a p�-lo
em d�vida sobre se n�o � a ci�ncia que se acha em erro. Como j� dissemos, o fascinado,
geralmente, acolhe mal os conselhos; a cr�tica o aborrece, irrita e o faz tomar quizila dos
que n�o partilham da sua admira��o. Suspeitar do Esp�rito que o acompanha � quase,
aos seus olhos, uma profana��o e outra coisa n�o quer o dito Esp�rito, pois tudo o a que
aspira � que todos se curvem diante da sua palavra.
Um deles exercia, sobre pessoa do nosso conhecimento, uma fascina��o
extraordin�ria. Evocamo-lo e, depois de umas tantas fanfarrices, vendo que n�o lograva
mistificar-nos quanto � sua identidade, acabou por confessar que n�o era quem se dizia.
Sendo-lhe perguntado por que ludibriava de tal modo aquela pessoa, respondeu com
estas palavras, que pintam claramente o car�ter desse g�nero de Esp�rito: Eu procurava
um homem que me fosse poss�vel manejar; encontrei-o, n�o o largo. - Mas se lhe
mostrais as coisas como s�o, ele vos soltar� isto: -� o que veremos! Como n�o h� cego
pior do que aquele
318
CAP�TULO XXIII

que n�o quer ver, reconhecida a inutilidade de toda tentativa para abrir os olhos ao
fascinado, o que se tem de melhor a fazer � deix�-lo com as suas ilus�es. Ningu�m pode
curar um doente que se obstina em conservar o seu mal e nele se compraz.

251. A subjuga��o corporal tira muitas vezes ao obsidiado a energia necess�ria
para dominar o mau Esp�rito. Da� o tornar-se precisa a interven��o de um terceiro, que
atue, ou pelo magnetismo, ou pelo imp�rio da sua vontade. Em falta do concurso do
obsidiado, essa terceira pessoa deve tomar ascendente sobre o Esp�rito; por�m, como
este ascendente s� pode ser moral, s� a um ser moralmente superior ao Esp�rito � dado
assumi-lo e seu poder ser� tanto maior, quanto maior for a sua superioridade moral,
porque, ent�o, se imp�e �quele, que se v� for�ado a inclinar-se diante dele. Por isso �
que Jesus tinha t�o grande poder para expulsar o a que naquela �poca se chamava
dem�nio, isto �, os maus Esp�ritos obsessores.
Aqui, n�o podemos oferecer mais do que conselhos gerais, porquanto nenhum
processo material existe, como, sobretudo, nenhuma f�rmula, nenhuma palavra
sacramental, com o poder de expelir os Esp�ritos obsessores. As vezes, o que falta ao
obsidiado � for�a flu�dica suficiente; nesse caso, a a��o magn�tica de um bom
magnetizador lhe pode ser de grande proveito. Contudo, � sempre conveniente
procurar, por um m�dium de confian�a, os conselhos de um Esp�rito superior, ou do
anjo guardi�o.

252. As imperfei��es morais do obsidiado constituem, freq�entemente, um
obst�culo � sua liberta��o. Aqui vai um exemplo not�vel, que pode servir para instru��o
de todos.
Havia umas irm�s que se encontravam, desde alguns anos, v�timas de
depreda��es muito desagrad�veis. Suas roupas eram incessantemente espalhadas por
todos os cantos da casa e at� pelos telhados, cortadas, rasgadas e
319
DA OBSESS�O

crivadas de buracos, por mais cuidado que tivessem em guard�-las � chave. Essas
senhoras, vivendo numa pequena localidade de prov�ncia, nunca tinham ouvido falar de
Espiritismo. A primeira id�ia que lhes veio foi, naturalmente, a de que estavam �s voltas
com brincalh�es de mau gosto. Por�m, a persist�ncia e as precau��es que tomavam lhes
tiraram essa id�ia. S� muito tempo depois, por algumas indica��es, acharam que deviam
procurar-nos, para saberem a causa de tais depreda��es e lhes darem rem�dio, se fosse
poss�vel. Sobre a causa n�o havia d�vida; o rem�dio era mais dif�cil. O Esp�rito que se
manifestava por semelhantes atos era evidentemente malfazejo. Evocado, mostrou-se de
grande perversidade e inacess�vel a qualquer sentimento bom. A prece, no entanto,
pareceu exercer sobre ele uma influ�ncia salutar. Mas, ap�s algum tempo de
interrup��o, recome�aram as depreda��es. Eis o conselho que a prop�sito nos deu um
Esp�rito superior:
"O que essas senhoras t�m de melhor a fazer � rogar aos Esp�ritos seus
protetores que n�o as abandonem. Nenhum conselho melhor lhes posso dar do que o de
dizer-lhes que des�am ao fundo de suas consci�ncias, para se confessarem a si mesmas e
verificarem se sempre praticaram o amor do pr�ximo e a caridade. N�o falo da caridade
que consiste em dar e distribuir, mas da caridade da l�ngua; pois, infelizmente, elas n�o
sabem conter as suas e n�o demonstram, por atos de piedade, o desejo que t�m de se
livrarem daquele que as atormenta. Gostam muito de maldizer do pr�ximo e o Esp�rito
que as obsidia toma sua desforra, porquanto, em vida, foi para elas um burro de carga.
Pesquisem na mem�ria e logo descobrir�o quem ele �.
"Entretanto, se, conseguirem melhorar-se, seus anjos guardi�es se aproximar�o e
a simples presen�a deles bastar� para afastar o mau Esp�rito, que n�o se agarrou a uma
delas em particular, sen�o porque o seu anjo guardi�o teve que se afastar, por efeito de
atos repreens�veis, ou maus pensamentos. O que precisam � fazer preces fervorosas
pelos que sofrem e, principalmente, praticar as virtudes
320
CAP�TULO XXIII

impostas por Deus a cada um, de acordo com a sua condi��o."
Como ponder�ssemos que essas palavras pareciam um tanto severas e que talvez
fosse conveniente ado��-las, para serem transmitidas, o Esp�rito acrescentou:
"Devo dizer o que digo e como digo, porque as pessoas de quem se trata t�m o
h�bito de supor que nenhum mal fazem com a l�ngua, quando o fazem muit�ssimo. Por
isso, preciso � ferir-lhes o Esp�rito, de maneira que lhes sirva de advert�ncia s�ria.
Ressalta do que fica dito um ensinamento de grande alcance: que as imperfei��es
morais d�o azo � a��o do Esp�ritos obsessores e que o mais seguro meio de a pessoa se
livrar deles � atrair os bons pela pr�tica do bem. Sem d�vida, os bons Esp�ritos t�m mais
poder do que os maus, e a vontade deles basta para afastar estes �ltimos; eles, por�m, s�
assistem os que os secundam pelos esfor�os que fazem por melhorar-se, sem o que se
afastam e deixam o campo livre aos maus, que se tomam assim, em certos casos,
instrumentos de puni��o, visto que os bons permitem que ajam para esse fim.

253. Cumpre, todavia, se n�o atribuam � a��o direta dos Esp�ritos todas as
contrariedades que se possam experimentar, as quais, n�o raro, decorrem da inc�ria, ou
da imprevid�ncia. Um agricultor nos escreveu certo dia que, havia doze anos, toda sorte
de infelicidades lhe acontecia, relativamente ao seu gado; ora eram as vacas que
morriam, ou deixavam de dar leite, ora eram os cavalos, os carneiros, ou os porcos que
sucumbiam. Fez muitas novenas, que em nada remediaram o mal, do mesmo modo que
nada obteve com as missas que mandou celebrar, nem com os exorcismos que mandou
praticar. Persuadiu-se, ent�o, de acordo com o preconceito dos campos, de que lhe
haviam enfeiti�ado os animais. Supondo-nos, sem d�vida, dotados de um poder
esconjurador maior do que o do cura da sua aldeia, pediu o nosso parecer. Foi a
seguinte a resposta que obtivemos:
321
DA OBSESS�O

"A mortalidade ou as enfermidades do gado desse homem prov�m de que seus
currais est�o infetados e ele n�o os repara, porque custa dinheiro."

254. Terminaremos este cap�tulo inserindo as respostas que os Esp�ritos deram a
algumas perguntas e que v�m em apoio do que dissemos.

1� Por que n�o podem certos m�diuns desembara�ar-se de Esp�ritos maus que se
lhes ligam e como � que os bons Esp�ritos que eles chamam n�o se mostram bastante
poderosos para afastar os outros e se comunicar diretamente?
"N�o � que falte poder ao Esp�rito bom; �, as mais das vezes, que o m�dium n�o
� bastante forte para o secundar; � que sua natureza se presta melhor a outras rela��es;
� que seu fluido se identifica mais com o de um Esp�rito do que com o de outro. Isso o
que d� t�o grande imp�rio aos que entendem de ludibri�-los."

2� Parece-nos, entretanto, que h� pessoas de muito m�rito, de irrepreens�vel
moralidade e que, apesar de tudo, se v�em impedidas de comunicar com os bons
Esp�ritos.
"� uma prova��o. E quem te diz, ao demais, que elas n�o trazem o cora��o
manchado de um pouco de mal? que o orgulho n�o domina um pouco a apar�ncia de
bondade? Essas provas, com o mostrarem ao obsidiado a sua fraqueza, devem faz�-lo
inclinar-se para a humildade.
"Haver� na Terra algu�m que possa dizer-se perfeito? Ora, um, que tem todas as
apar�ncias da virtude, pode ter ainda muitos defeitos ocultos, um velho fermento de
imperfei��o. Assim, por exemplo, dizeis, daquele que nenhum mal pratica, que � leal em
suas rela��es sociais: � um bravo e digno homem. Mas, sabeis, porventura, se as suas
boas qualidades n�o s�o tisnadas pelo orgulho; se n�o h� nele um fundo de ego�smo; se
n�o � avaro, ciumento, rancoroso, maldizente e mil outras coisas que n�o percebeis, por
que as vossas rela��es com ele n�o vos deram lugar a descobri-las? O mais poderoso
meio
322
CAP�TULO XXIII

de combater a influ�ncia dos maus Esp�ritos � aproximar-se o mais poss�vel da natureza
dos bons."

3� A obsess�o, que impede um m�dium de receber as comunica��es que deseje, �
sempre um sinal de indignidade da sua parte?
"Eu n�o disse que � um sinal de indignidade, mas que um obst�culo pode opor-
se a certas comunica��es; em remover o obst�culo que est� nele, � o a que deve aplicar-
se; sem isso, suas preces, suas s�plicas nada far�o. N�o basta que um doente diga ao seu
m�dico: d�-me sa�de, quero passar bem. O m�dico nada pode, se o doente n�o faz o
que � preciso."

4� Assim, a impossibilidade de comunicar com os bons Esp�ritos seria uma
esp�cie de puni��o?
"Em certos casos, pode ser uma verdadeira puni��o, como a possibilidade de
comunicar com eles � uma recompensa que deveis esfor�ar-vos por merecer." (Veja-se
Perda e suspens�o da mediunidade, n. 220.)

5� N�o se pode tamb�m combater a influ�ncia dos maus Esp�ritos, moralizando-
os?
"Sim, mas � o que n�o se faz e � o que n�o se deve descurar de fazer, porquanto,
muitas vezes, isso constitui uma tarefa que vos � dada e que deveis desempenhar
caridosa e religiosamente. Por meio de s�bios conselhos, � poss�vel induzi-los ao
arrependimento e apressar-lhes o progresso."
- Como pode um homem ter, a esse respeito, mais influ�ncia do que a t�m os
pr�prios Esp�ritos?
"Os Esp�ritos perversos se aproximam antes dos homens que eles procuram
atormentar, do que dos Esp�ritos, dos quais se afastam o mais poss�vel. Nessa
aproxima��o dos humanos, quando encontram algum que os moralize, a princ�pio n�o o
escutam e at� se riem dele; depois, se aquele os sabe prender, acabam por se deixarem
tocar. Os Esp�ritos elevados s� em nome de Deus lhes podem falar e isto os apavora. O
homem, indubitavelmente, n�o disp�e de mais poder do que os Esp�ritos superiores,
por�m, sua linguagem se identifica melhor com a natureza
323
DA OBSESS�O

daqueles outros e, ao verem o ascendente que o homem pode exercer sobre os Esp�ritos
inferiores, melhor compreendem a solidariedade que existe entre o c�u e a terra.
"Demais, o ascendente que o homem pode exercer sobre os Esp�ritos est� na
raz�o da sua superioridade moral. Ele n�o domina os Esp�ritos superiores, nem mesmo
os que, sem serem superiores, s�o bons e benevolentes, mas pode dominar os que lhe
s�o inferiores em moralidade." (Veja-se o n. 279.)

6� A subjuga��o corporal, levada a certo grau, poder� ter como conseq��ncia a
loucura?
"Pode, a uma esp�cie de loucura cuja causa o mundo desconhece, mas que n�o
tem rela��o alguma com a loucura ordin�ria. Entre os que s�o tidos por loucos, muitos
h� que apenas s�o subjugados; precisariam de um tratamento moral, enquanto que com
os tratamentos corporais os tornamos verdadeiros loucos. Quando os m�dicos
conhecerem bem o Espiritismo, saber�o fazer essa distin��o e curar�o mais doentes do
que com as duchas." (N. 221.)

7� Que se deve pensar dos que, vendo um perigo qualquer no Espiritismo,
julgam que o meio de preveni-lo seria proibir as comunica��es esp�ritas?
"Se podem proibir a certas pessoas que se comuniquem com os Esp�ritos, n�o
podem impedir que manifesta��es espont�neas sejam feitas a essas mesmas pessoas,
porquanto n�o podem suprimir os Esp�ritos, nem lhes impedir que exer�am sua
influ�ncia oculta. Esses tais se assemelham �s crian�as que tapam os olhos e ficam
crentes de que ningu�m as v�. Fora loucura querer suprimir uma coisa que oferece
grandes vantagens, s� porque imprudentes podem abusar dela. O meio de se lhe
prevenirem os inconvenientes consiste, ao contr�rio, em torn�-la conhecida a fundo."
324




CAP�TULO XXIV

DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

Provas poss�veis de identidade. - Modo de se distinguirem os bons dos maus
Esp�ritos. - Quest�es sobre a natureza e a identidade dos Esp�ritos.

Provas poss�veis de identidade

255. A quest�o da identidade dos Esp�ritos � uma das mais controvertidas,
mesmo entre os adeptos do Espiritismo. � que, com efeito, os Esp�ritos n�o nos trazem
um ato de notoriedade e sabe-se com que facilidade alguns dentre eles tomam nomes
que nunca lhes pertenceram. Esta, por isso mesmo, �, depois da obsess�o, uma das
maiores dificuldades do Espiritismo pr�tico. Todavia, em muitos casos, a identidade
absoluta n�o passa de quest�o secund�ria e sem import�ncia real.
A identidade dos Esp�ritos das personagens antigas � a mais dif�cil de se
conseguir, tornando-se muitas vezes
325
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

imposs�vel, pelo que ficamos adstritos a uma aprecia��o puramente moral. Julgam-se os
Esp�ritos, como os homens, pela sua linguagem. Se um Esp�rito se apresenta com o
nome de F�nelon, por exemplo, e diz trivialidades e puerilidades, est� claro que n�o
pode ser ele. Por�m, se somente diz coisas dignas do car�ter de F�nelon e que este n�o
se furtaria a subscrever, h�, sen�o prova material, pelo menos toda probabilidade moral
de que seja de fato ele. Nesse caso, sobretudo, � que a identidade real se torna uma
quest�o acess�ria. Desde que o Esp�rito s� diz coisas aproveit�veis, pouco importa o
nome sob o qual as diga. Objetar-se-�, sem d�vida, que o Esp�rito que tome um nome
suposto, ainda que s� para o bem, n�o deixa de cometer uma fraude: n�o pode,
portanto, ser um Esp�rito bom. Aqui, h� delicadezas de matizes muito dif�ceis de
apanhar e que vamos tentar desenvolver.

256. � medida que os Esp�ritos se purificam e elevam na hierarquia, os
caracteres distintivos de suas personalidades se apagam, de certo modo, na
uniformidade da perfei��o; nem por isso , entretanto, conservam eles menos suas
individualidades. � o que se d� com os Esp�ritos superiores e os Esp�ritos puros. Nessa
culmin�ncia, o nome que tiveram na Terra, em uma das mil exist�ncias corporais
ef�meras por que passaram, � coisa absolutamente insignificante. Notemos mais que os
Esp�ritos s�o atra�dos uns para os outros pela semelhan�a de suas qualidades e formam
assim grupos, ou fam�lias, por simpatia. De outro lado, se considerarmos o n�mero
imenso de Esp�ritos que, desde a origem dos tempos, devem ter galgado as fileiras mais
altas e se o compararmos ao n�mero t�o restrito dos homens que h�o deixado um
grande nome na Terra, compreenderemos que, entre os Esp�ritos superiores, que podem
comunicar-se, a maioria deve carecer de nomes para n�s. Por�m, como de nomes
precisamos para fixarmos as nossas id�ias, podem eles tomar o de uma personagem
conhecida, cuja natureza mais identificada seja com a deles. � assim que os nossos anjos
guardi�es se fazem as
326
CAP�TULO XXIV

mais das vezes conhecer pelo nome de um dos santos que veneramos e, geralmente,
pelo daquele que nos inspira mais simpatia. Segue-se da� que, se o anjo guardi�o de uma
pessoa se d� como sendo S. Pedro, por exemplo, ela nenhuma prova material pode ter
de que seja exatamente o ap�stolo desse nome. Tanto pode ser ele, como um Esp�rito
desconhecido inteiramente, mas pertencente � fam�lia de Esp�ritos de que faz parte S�o
Pedro. Segue-se ainda que, seja qual for o nome sob que algu�m invoque o seu anjo
guardi�o, este acudir� ao apelo que lhe � dirigido, porque o que o atrai � o pensamento,
sendo-lhe indiferente o nome.
O mesmo ocorre todas as vezes que um Esp�rito superior se comunica
espontaneamente, sob o nome de uma personagem conhecida. Nada prova que seja
exatamente o Esp�rito dessa personagem; por�m, se ele nada diz que desminta o car�ter
desta �ltima, h� presun��o de ser o pr�prio e, em todos os casos, se pode dizer que, se
n�o � ele, � um Esp�rito do mesmo grau de eleva��o, ou talvez at� um enviado seu. Em
resumo, a quest�o de nome � secund�ria, podendo-se considerar o nome como simples
ind�cio da categoria que ocupa o Esp�rito na escala esp�rita.
O caso muda de figura, quando um Esp�rito de ordem inferior se adorna com um
nome respeit�vel, para que suas palavras mere�am cr�dito e este caso � de tal modo
freq�ente que toda precau��o n�o ser� demasiada contra semelhantes substitui��es.
Gra�as a esses nomes de empr�stimo e, sobretudo, com o aux�lio da fascina��o, � que
alguns Esp�ritos sistem�ticos, mais orgulhosos do que s�bios, procuram tornar aceitas as
mais rid�culas id�ias.
A quest�o da identidade �, pois, como dissemos, quase indiferente, quando se
trata de instru��es gerais, uma vez que os melhores Esp�ritos podem substituir-se
mutuamente, sem maiores conseq��ncias. Os Esp�ritos superiores formam, por assim
dizer, um todo coletivo, cujas individualidades nos s�o, com exce��es raras,
desconhecidas. N�o � a pessoa deles o que nos interessa, mas o ensino que nos
proporcionam. Ora, desde que esse ensino � bom,
327
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

pouco importa que aquele que o deu se chame Pedro, ou Paulo. Deve ele ser julgado
pela sua qualidade e n�o pelas suas ins�gnias. Se um vinho � mau, n�o ser� a etiqueta
que o tornar� melhor. Outro tanto j� n�o sucede com as comunica��es �ntimas, porque
a� � o indiv�duo, a sua pessoa mesma que nos interessa; muito razo�vel, portanto, � que,
nessas circunst�ncias, procuremos certificar-nos de que o Esp�rito que atende ao nosso
chamado � realmente aquele que desejamos.

257. Muito mais f�cil de se comprovar � a identidade, quando se trata de
Esp�ritos contempor�neos, cujos caracteres e h�bitos se conhecem, porque,
precisamente, esses h�bitos, de que eles ainda n�o tiveram tempo de despojar-se, s�o
que os fazem reconhec�veis e desde logo dizemos que isso constitui um dos sinais mais
seguros de identidade. Pode, sem d�vida, o Esp�rito dar provas desta, atendendo ao
pedido que se lhe fa�a; mas, assim s� procede quando lhe convenha. Geralmente,
semelhante pedido o magoa, pelo que deve ser evitado. Com o deixar o seu corpo, o
Esp�rito n�o se despojou da sua suscetibilidade; agasta-o toda quest�o que tenha por fim
p�-lo � prova. Perguntas h� que ningu�m ousaria dirigir-lhe, se ele se apresentasse
vivo, pelo receio de faltar �s conveni�ncias; por que se lhe h� de dispensar menos
considera��o, depois da sua morte? A um homem, que se apresente num sal�o,
declinando o seu nome, ir� algu�m pedir-lhe, � queima-roupa, sob o pretexto de haver
impostores, que prove ser quem diz que �? Certamente, esse homem teria o direito de
lembrar ao interrogante as regras de civilidade. � o que fazem os Esp�ritos, n�o
respondendo, ou retirando-se. Fa�amos, para exemplo, uma compara��o. Suponhamos
que o astr�nomo Arago, quando vivo, se apresentasse numa casa onde ningu�m o
conhecesse e que o apostrofassem deste modo: Dizeis que sois Arago, mas, n�o vos
conhecemos; dignai-vos de prov�-lo, respondendo �s nossas perguntas. Resolvei tal
problema de Astronomia; dizei-nos o vosso nome, prenome, os de vossos filhos, o que
328
CAP�TULO XXIV

faz�eis em tal dia, a tal hora, etc. Que responderia ele? Pois bem: como Esp�rito, far� o
que teria feito em vida e os outros Esp�ritos procedem da mesma maneira.

258. Ao passo que se recusam a respondera perguntas pueris e extravagantes,
que toda gente teria escr�pulo em lhes dirigir, se vivos fossem, os Esp�ritos d�o
espontaneamente provas irrecus�veis de sua identidade, por seus caracteres, que se
revelam na linguagem de que usam, pelo emprego das palavras que lhes eram familiares,
pela cita��o de certos fatos, de particularidades de suas vidas, �s vezes desconhecidas
dos assistentes e cuja exatid�o se pode verificar. As provas de identidade ressaltam,
al�m disso, de um sem-n�mero de circunst�ncias imprevistas, que nem sempre se
apresentam na primeira ocasi�o, mas que surgem com a continua��o das manifesta��es.
Conv�m, pois, esper�-las, sem as provocar, observando-se cuidadosamente todas as que
possam decorrer da natureza das comunica��es. (Veja-se o fato referido em o n. 70.)

259. Um meio empregado, �s vezes com �xito, para se conseguir identificar um
Esp�rito que se comunica, quando ele se toma suspeito, consiste em faz�-lo afirmar, em
nome de Deus Todo-Poderoso, que � realmente quem diz ser. Sucede freq�entemente
que o que se apresentou com um nome usurpado recua diante do sacril�gio e que, tendo
come�ado a dizer: Afirmo, em nome de... p�ra e tra�a, col�rico, riscos sem valor no
papel, ou quebra o l�pis. Se � mais hip�crita, ladeia a quest�o, mediante uma restri��o
mental, escrevendo, por exemplo: Certifico-vos que digo a verdade, ou ent�o: Atesto,
em nome de Deus, que sou mesmo eu quem vos fala, etc. Alguns h�, entretanto, nada
escrupulosos, que juram tudo o que se lhes exigir. Um desses se comunicou a um
m�dium, dizendo-se Deus, e o m�dium, honrado com t�o alta distin��o, n�o hesitou em
acredit�-lo. Evocado por n�s, n�o ousou sustentar a sua impostura e disse: N�o sou
Deus, mas sou seu filho. - �s ent�o Jesus? Isto n�o � prov�vel, porquanto Jesus
329
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

est� muito altamente colocado para empregar um subterf�gio. Ousas, n�o obstante,
afirmar que �s o Cristo? - N�o digo que sou Jesus; digo que sou filho de Deus, porque
sou uma de suas criaturas.
Deve-se concluir da� que o recusar um Esp�rito afirmar a sua identidade, em
nome de Deus, � sempre uma prova manifesta de que o nome que ele tomou � uma
impostura; mas tamb�m que, se ele o afirma, essa afirma��o n�o passa de uma
presun��o, n�o constituindo prova certa.

260. Igualmente se pode incluir entre as provas de identidade a semelhan�a da
caligrafia e da assinatura; mas, al�m de que nem a todos os m�diuns � dado obter esse
resultado, ele n�o representa, invariavelmente, uma garantia bastante. H� fals�rios no
mundo dos Esp�ritos, como os h� neste. A� n�o se tem, pois, mais do que uma
presun��o de identidade, que s� adquire valor pelas circunst�ncias que a acompanhem.
O mesmo ocorre com todos os sinais materiais, que algumas pessoas t�m como talism�s
inimit�veis para os Esp�ritos mentirosos. Para os que ousam perjurar ao nome de Deus,
ou falsificar uma assinatura, nenhum sinal material pode oferecer obst�culo maior. A
melhor de todas as provas de identidade est� na linguagem e nas circunst�ncias fortuitas.

261. Dir-se-�, sem d�vida, que, se um Esp�rito pode imitar uma assinatura,
tamb�m pode perfeitamente imitar a linguagem. E exato; alguns temos visto tomar
atrevidamente o nome do Cristo e, para impingirem a mistifica��o, simulavam o estilo
evang�lico e pronunciavam a torto e a direito estas bem conhecidas palavras: Em
verdade, em verdade vos digo. Estudando, por�m, sem preven��o, o ditado, em seu
conjunto, perscrutado o fundo das id�ias, o alcance das express�es, quando, a par de
belas m�ximas de caridade, se v�em recomenda��es pueris e rid�culas, fora preciso estar
fascinado para que algu�m se equivocasse. Sim, certas partes da forma material da
linguagem podem ser imitadas, mas n�o o pensamento. Jamais a igno-
330
CAP�TULO XXIV

r�ncia imitar� o verdadeiro saber e jamais o v�cio imitar� a verdadeira virtude. Em
qualquer ponto, sempre aparecer� a pontinha da orelha. E ent�o que o m�dium, assim
como o evocador, precisam de toda a perspic�cia e de toda a pondera��o, para
destrin�ar a verdade da impostura. Devem persuadir-se de que os Esp�ritos perversos
s�o capazes de todos os ardis e de que, quanto mais vener�vel for o nome com que um
Esp�rito se apresente, tanto maior desconfian�a deve inspirar. Quantos m�diuns t�m tido
comunica��es ap�crifas assinadas por Jesus, Maria, ou um santo venerado!

Modos de se distinguirem os bons dos
maus Esp�ritos

262. Se a identidade absoluta dos Esp�ritos �, em muitos casos, uma quest�o
acess�ria e sem import�ncia, o mesmo j� n�o se d� com a distin��o a ser feita entre bons
e maus Esp�ritos. Pode ser-nos indiferente a individualidade deles; suas qualidades,
nunca. Em todas as comunica��es instrutivas, � sobre este ponto, conseguinte-mente,
que se deve fixar a aten��o, porque s� ele nos pode dar a medida da confian�a que
devemos ter no Esp�rito que se manifesta, seja qual for o nome sob que o fa�a. � bom,
ou mau, o Esp�rito que se comunica? Em que grau da escala esp�rita se encontra? Eis as
quest�es capitais. (Veja-se: "Escala esp�rita", em O Livro dos Esp�ritos,n. 100.)

263. J� dissemos que os Esp�ritos devem ser julgados, como os homens, pela
linguagem de que usam. Suponhamos que um homem receba vinte cartas de pessoas que
lhe s�o desconhecidas; pelo estilo, pelas id�ias, por uma imensidade de ind�cios, enfim,
verificar� se aquelas pessoas s�o instru�das ou ignorantes, polidas ou mal-educadas,
superficiais, profundas, fr�volas, orgulhosas, s�rias, levianas, Sentimentais, etc. Assim,
tamb�m, com os Esp�ritos. Devemos consider�-los correspondentes que nunca vi-
331
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

mos e procurar conhecer o que pensar�amos do saber e do car�ter de um homem que
dissesse ou escrevesse tais coisas. Pode estabelecer-se como regra invari�vel e sem
exce��o que - a linguagem dos Esp�ritos est� sempre em rela��o com o grau de
eleva��o a que j� tenham chegado. Os Esp�ritos realmente superiores n�o s� dizem
unicamente coisas boas, como tamb�m as dizem em termos isentos, de modo absoluto,
de toda trivialidade. Por melhores que sejam essas coisas, se uma �nica express�o
denotando baixeza as macula, isto constitui um sinal indubit�vel de inferioridade; com
mais forte raz�o, se o conjunto do ditado fere as conveni�ncias pela sua grosseria. A
linguagem revela sempre a sua proced�ncia, quer pelos pensamentos que exprime, quer
pela forma, e, ainda mesmo que algum Esp�rito queira iludir-nos sobre a sua pretensa
superioridade, bastar� conversemos algum tempo com ele para a apreciarmos.

264. A bondade e a afabilidade s�o atributos essenciais dos Esp�ritos depurados.
N�o t�m �dio, nem aos homens, nem aos outros Esp�ritos. Lamentam as fraquezas,
criticam os erros, mas sempre com modera��o, sem fel e sem animosidade. Admita-se
que os Esp�ritos verdadeiramente bons n�o podem querer sen�o o bem e dizer sen�o
coisas boas e se concluir� que tudo o que denote, na linguagem dos Esp�ritos, falta de
bondade e de benignidade n�o pode provir de um bom Esp�rito.

265. A intelig�ncia longe est� de constituir um ind�cio certo de superioridade,
porquanto a intelig�ncia e a moral nem sempre andam emparelhadas. Pode um Esp�rito
ser bom, af�vel, e ter conhecimentos limitados, ao passo que outro, inteligente e
instru�do, pode ser muito inferior em moralidade.
� cren�a bastante generalizada que, interrogando-se o Esp�rito de um homem
que, na Terra, foi s�bio em certa especialidade, com mais seguran�a se obter� a verdade.
Isto � l�gico; entretanto, nem sempre � o que se
332
CAP�TULO XXIV

d�. A experi�ncia demonstra que os s�bios, tanto quanto os demais homens, sobretudo
os desencarnados de pouco tempo, ainda se acham sob o imp�rio dos preconceitos da
vida corp�rea; eles n�o se despojam imediatamente do esp�rito de sistema. Pode> pois,
acontecer que, sob a influ�ncia das id�ias que esposaram em vida e das quais fizeram
para si um t�tulo de gl�ria, vejam com menos clareza do que supomos. N�o
apresentamos este princ�pio como regra; longe disso. Dizemos apenas que o fato se d� e
que, por conseguinte, a ci�ncia humana que eles possuem n�o constitui sempre uma
prova da sua infalibilidade, como Esp�ritos.

266. Em se submetendo todas as comunica��es a um exame escrupuloso, em se
lhes perscrutando e analisando o pensamento e as express�es, como � de uso fazer-se
quando se trata de julgar uma obra liter�ria, rejeitando-se, sem hesita��o, tudo o que
peque contra a l�gica e o bom-senso, tudo o que desminta o car�ter do Esp�rito que se
sup�e ser o que se est� manifestando, leva-se o des�nimo aos Esp�ritos mentirosos, que
acabam por se retirar, uma vez fiquem bem convencidos de que n�o lograr�o iludir.
Repetimos: este meio � �nico, mas � infal�vel, porque n�o h� comunica��o m� que
resista a uma cr�tica ngorosa. Os bons esp�ritos nunca se ofendem com esta, pois que
eles pr�prios a aconselham e porque nada t�m que temer do exame. Apenas os maus se
formalizam e procuram evit�-lo, porque tudo t�m a perder. S� com isso provam o que
s�o.
Eis aqui o conselho que a tal respeito nos deu S�o Lu�s:
"Qualquer que seja a confian�a leg�tima que vos inspirem os Esp�ritos que
presidem aos vossos trabalhos, uma recomenda��o h� que nunca ser� demais repetir e
que dever�eis ter presente sempre na vossa lembran�a, quando vos entregais aos vossos
estudos: � a de pesar e meditar, � a de submeter ao cadinho da raz�o mais severa todas
as comunica��es que receberdes; � a de n�o deixardes
333
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

de pedir as explica��es necess�rias a formardes opini�o segura, desde que um ponto vos
pare�a suspeito, duvidoso ou obscuro."

267. Podem resumir-se nos princ�pios seguintes os meios de se reconhecer a
qualidade dos Esp�ritos:

1� N�o h� outro crit�rio, sen�o o bom-senso, para se aquilatar do valor dos
Esp�ritos. Absurda ser� qualquer f�rmula que eles pr�prios d�em para esse efeito e n�o
poder� provir de Esp�ritos superiores.

2� Apreciam-se os Esp�ritos pela linguagem de que usam e pelas suas a��es.
Estas se traduzem pelos sentimentos que eles inspiram e pelos conselhos que d�o.

3� Admitido que os bons Esp�ritos s� podem dizer e fazer o bem, de um bom
Esp�rito n�o pode provir o que tenda para o mal.

4� Os Esp�ritos superiores usam sempre de uma linguagem digna, nobre,
elevada, sem eiva de trivialidade; tudo dizem com simplicidade e mod�stia, jamais se
vangloriam, nem se jactam de seu saber, ou da posi��o que ocupam entre os outros. A
dos Esp�ritos inferiores ou vulgares sempre algo refletem das paix�es humanas. Toda
express�o que denote baixeza, pretens�o, arrog�ncia, fanfarronice, acrim�nia, � ind�cio
caracter�stico de inferioridade e de embuste, se o Esp�rito se apresenta com um nome
respeit�vel e venerado.

5� N�o se deve julgar da qualidade do Esp�rito pela forma material, nem pela
corre��o do estilo. � preciso sondar-lhe o �ntimo, analisar-lhe as palavras, pes�-las
friamente, maduramente e sem preven��o. Qualquer ofensa � l�gica, � raz�o e �
pondera��o n�o pode deixar d�vida sobre a sua proced�ncia, seja qual for o nome com
que se ostente o Esp�rito. (N. 224.)

6� A linguagem dos Esp�ritos elevados � sempre id�ntica, sen�o quanto � forma,
pelo menos quanto ao fundo. Os pensamentos s�o os mesmos, em qualquer tempo e em
todo lugar. Podem ser mais ou menos desenvolvidos, conforme as circunst�ncias, as
necessidades e as faculdades
334
CAP�TULO XXIV

que encontrem para se comunicar; por�m, jamais ser�o contradit�rios. Se duas
comunica��es, firmadas pelo mesmo nome, se mostram em contradi��o, uma das duas �
evidentemente ap�crifa e a verdadeira ser� aquela em que nada desminta o conhecido
car�ter da personagem. Sobre duas comunica��es assinadas, por exemplo, com o nome
de S�o Vicente de Paulo, uma das quais propendendo para a uni�o e a caridade e a
outra tendendo para a disc�rdia, nenhuma pessoa sensata poder� equivocar-se.

7� Os bons Esp�ritos s� dizem o que sabem; calam-se ou confessam a sua
ignor�ncia sobre o que n�o sabem. Os maus falam de tudo com desassombro, sem se
preocuparem com a verdade. Toda heresia cient�fica not�ria, todo princ�pio que choque
o bom-senso, aponta a fraude, desde que o Esp�rito se d� por ser um Esp�rito
esclarecido.

8� Reconhecem-se ainda os Esp�ritos levianos, pela facilidade com que predizem
o futuro e precisam fatos materiais de que n�o nos � dado ter conhecimento. Os bons
Esp�ritos fazem que as coisas futuras sejam pressentidas, quando esse pressentimento
convenha; nunca, por�m, determinam datas. A previs�o de qualquer acontecimento para
uma �poca determinada � ind�cio de mistifica��o.

9� Os Esp�ritos superiores se exprimem com simplicidade, sem prolixidade. T�m
o estilo conciso, sem exclus�o da poesia das id�ias e das express�es, claro, intelig�vel a
todos, sem demandar esfor�o para ser compreendido. T�m a arte de dizer muitas coisas
em poucas palavras, porque cada palavra � empregada com exatid�o. Os Esp�ritos
inferiores, ou falsos s�bios, ocultam sob o empolamento, ou a �nfase, o vazio de suas
id�ias. Usam de uma linguagem pretensiosa, rid�cula, ou obscura, � for�a de quererem
pare�a profunda.

10� Os bons Esp�ritos nunca ordenam; n�o se imp�em, aconselham e, se n�o s�o
escutados, retiram-se. Os maus s�o imperiosos; d�o ordens, querem ser obedecidos e
n�o se afastam, haja o que houver. Todo Esp�rito que imp�e trai a sua inferioridade. S�o
exclusivistas e
335
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

absolutos em suas opini�es; pretendem ter o privil�gio da verdade. Exigem cren�a cega
e jamais apelam para a raz�o, por saberem que a raz�o os desmascararia.

11� Os bons Esp�ritos n�o lisonjeiam; aprovam o bem feito, mas sempre com
reserva. Os maus prodigalizam exagerados elogios, estimulam o orgulho e a vaidade,
embora pregando a humildade, e procuram exaltar a import�ncia pessoal daqueles a
quem desejam captar.

l2� Os Esp�ritos superiores desprezam, em tudo, as puerilidades da forma. S� os
Esp�ritos vulgares ligam import�ncia a particularidades mesquinhas, incompat�veis com
id�ias verdadeiramente elevadas. Toda prescri��o meticulosa � sinal certo de
inferioridade e de fraude, da parte de um Esp�rito que tome um nome imponente.

13� Deve-se desconfiar dos nomes singulares e rid�culos, que alguns Esp�ritos
adotam, quando querem impor-se � credulidade; fora soberanamente absurdo tomar a
s�rio semelhantes nomes.

14� Deve-se igualmente desconfiar dos Esp�ritos que com muita facilidade se
apresentam, dando nomes extremamente venerados, e n�o lhes aceitar o que digam,
sen�o com muita reserva. A�, sobretudo, � que uma verifica��o severa se faz
indispens�vel, porquanto isso n�o passa muitas vezes de uma m�scara que eles tomam,
para dar a crer que se acham em rela��es �ntimas com os Esp�ritos excelsos. Por esse
meio, lisonjeiam a vaidade do m�dium e dela se aproveitam freq�entemente para induzi-
lo a atitudes lament�veis e rid�culas.

15� Os bons Esp�ritos s�o muito escrupulosos no tocante �s atitudes que hajam
aconselhar. Elas, qualquer que seja o caso, nunca deixam de objetivar um fim s�rio e
eminentemente �til. Devem, pois, ter-se por suspeitas todas as que n�o apresentam este
car�ter, ou sejam conden�veis perante a raz�o, e cumpre refletir maduramente antes de
tom�-las, a fim de evitarem-se mistifica��es desagrad�veis.

l6� Tamb�m se reconhecem os bons Esp�ritos pela prudente reserva que guardam
sobre todos os assuntos
336
CAP�TULO XXIV

que possam trazer comprometimento. Repugna-lhes desvendar o mal, enquanto que aos
Esp�ritos levianos, ou malfazejos apraz p�-lo em evid�ncia. Ao passo que os bons
procuram atenuar os erros e pregam a indulg�ncia, os maus os exageram e sopram a
ciz�nia, por meio de insinua��es p�rfidas.

17� Os bons Esp�ritos s� prescrevem o bem. M�xima nenhuma, nenhum
conselho, que se n�o conformem estritamente com a pura caridade evang�lica, podem
ser obra de bons Esp�ritos.

18� Jamais os bons Esp�ritos aconselham sen�o o que seja perfeitamente racional.
Qualquer recomenda��o que se afaste da linha reta do bom-senso, ou das leis imut�veis
da Natureza, denuncia um Esp�rito atrasado e, portanto, pouco merecedor de confian�a.

19� Os Esp�ritos maus, ou simplesmente imperfeitos, ainda se traem por ind�cios
materiais, a cujo respeito ningu�m se pode enganar. A a��o deles sobre o m�dium � �s
vezes violenta e provoca movimentos bruscos e intermitentes, uma agita��o febril e
convulsiva, que destoa da calma e da do�ura dos bons Esp�ritos.

20� Muitas vezes, os Esp�ritos imperfeitos se aproveitam dos meios de que
disp�em, de comunicar-se, para dar conselhos p�rfidos. Excitam a desconfian�a e a
animosidade contra os que lhes s�o antip�ticos. Especialmente os que lhes podem
desmascarar as imposturas s�o objeto da maior animadvers�o da parte deles. Alvejam os
homens fracos, para os induzir ao mal. Empregando alternativamente, para melhor
convenc�-los, os sofismas, os sarcasmos, as inj�rias e at� demonstra��es materiais do
poder oculto de que disp�em, se empenham em desvi�-los da senda da verdade.

21� Os Esp�ritos dos que na Terra tiveram uma �nica preocupa��o, material ou
morai, se se n�o desprenderam da influ�ncia da mat�ria, continuam sob o imp�rio das
id�ias terrenas e trazem consigo uma parte dos preconceitos, das predile��es e mesmo
das manias que tinham neste
337
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

mundo. F�cil � isso de reconhecer-se pela linguagem de que se servem.

22� Os conhecimentos de que alguns Esp�ritos se enfeitam, �s vezes, com uma
esp�cie de ostenta��o, n�o constituem sinal da superioridade deles. A inalter�vel pureza
dos sentimentos morais �, a esse respeito, a verdadeira pedra de toque.

23� N�o basta se interrogue um Esp�rito para conhecer-se a verdade.
Precisamos, antes de tudo, saber a quem nos dirigimos; porquanto, os Esp�ritos
inferiores, ignorantes que s�o, tratam frivolamente das quest�es mais s�rias. Tamb�m
n�o basta que um Esp�rito tenha sido na Terra um grande homem, para que, no mundo
esp�rita, se ache de posse da soberana ci�ncia. S� a virtude pode, purificando-o,
aproxim�-lo de Deus e dilatar-lhe os conhecimentos.

24� Da parte dos Esp�ritos superiores, o gracejo � muitas vezes fino e vivo,
nunca, por�m, trivial. Nos Esp�ritos zombadores, quando n�o s�o grosseiros, a s�tira
mordaz �, n�o raro, muito apropositada.

25� Estudando-se cuidadosamente o car�ter dos Esp�ritos que se apresentam,
sobretudo do ponto de vista moral, reconhecem-se-lhes a natureza e o grau de confian�a
que devem merecer. O bom-senso n�o poderia enganar.

26� Para julgar os Esp�ritos, como para julgar os homens, � preciso, primeiro,
que cada um saiba julgar-se a si mesmo. Muita gente h�, infelizmente, que toma suas
pr�prias opini�es pessoais como paradigma exclusivo do bom e do mau, do verdadeiro e
do falso; tudo o que lhes contradiga a maneira de ver, a suas id�ias e ao sistema que
conceberam, ou adotaram, lhes parece mau. A semelhante gente evidentemente falta a
qualidade primacial para uma aprecia��o s�: a retid�o do ju�zo. Disso, por�m, nem
suspeitam. E o defeito sobre que mais se iludem os homens.
Todas estas instru��es decorrem da experi�ncia e dos ensinos dos Esp�ritos.
Vamos complet�-las com as pr�prias respostas que eles deram, sobre os pontos mais
importantes.
338
CAP�TULO XXIV

268. Quest�es sobre a natureza e a identidade
dos Esp�ritos

1� Por que sinais se pode reconhecer a superioridade ou a inferioridade dos
Esp�ritos?
"Pela linguagem, como distinguis um doidivanas de uni homem sensato. J�
dissemos que os Esp�ritos superiores n�o se contradizem nunca e s� dizem coisas
aproveit�veis. S� querem o bem, que lhes constitui a �nica preocupa��o.
"Os Esp�ritos inferiores ainda se encontram sob o influxo das id�ias materiais;
seus discursos se ressentem da ignor�ncia e da imperfei��o que lhes s�o caracter�sticas.
Somente aos Esp�ritos superiores � dado conhecer todas as coisas e julg�-las
desapaixonadamente."

2� A ci�ncia � sempre sinal certo de eleva��o de um Esp�rito?
"N�o, porquanto, se ele ainda est� sob a influ�ncia da mat�ria, pode ter os
vossos v�cios e preju�zos. H� pessoas que, neste mundo, s�o excessivamente invejosas e
orgulhosas; julgais que, apenas o deixam, perdem esses defeitos? Ap�s a partida daqui,
os Esp�ritos, sobretudo os que alimentaram paix�es bem marcadas, permanecem
envoltos numa esp�cie de atmosfera que lhes conserva todas as coisas m�s de que se
impregnaram.
"Esses Esp�ritos semi-imperfeitos s�o mais de temer do que os maus Esp�ritos,
porque, na sua maioria, re�nem � intelig�ncia a ast�cia e o orgulho. Pelo pretenso saber
de que se jactam, eles se imp�em aos simples e aos ignorantes, que lhes aceitam sem
exames as teorias absurdas e mentirosas. Embora tais teorias n�o possam prevalecer
contra a verdade, nem por isso deixam de produzir um mal passageiro, pois que
entravam a marcha do Espiritismo e os m�diuns voluntariamente se fazem cegos sobre o
m�rito do que lhes � comunicado. Esse um ponto que demanda grande estudo da parte
dos esp�ritas esclarecidos e dos m�diuns. Para distinguir o verdadeiro do falso � que
cumpre se fa�a convergir toda a aten��o."
339
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

3� Muitos Esp�ritos protetores se designam pelos nomes de santos, ou de
personagens conhecidas. Que se deve pensar a esse respeito?
"Nem todos os nomes de santos e de personagens conhecidas bastariam para
fornecer um protetor a cada homem. Entre os Esp�ritos, poucos h� que tenham nome
conhecido na Terra. Por isso � que, as mais das vezes, eles nenhum nome declinam.
V�s, por�m, quase sempre quereis um nome; ent�o, para vos satisfazer, o esp�rito toma
o de um homem que conhecestes e a quem respeitais."

4� O uso desse nome n�o pode ser considerado uma fraude?
"Seria uma fraude da parte de um Esp�rito mau, que quisesse enganar; mas,
quando � para o bem, Deus permite que assim procedam os Esp�ritos da mesma
categoria, porque h� entre eles solidariedade e analogia de pensamentos."

5� Assim, quando um Esp�rito protetor diz ser S�o Paulo, por exemplo, n�o �
certo que seja o Esp�rito mesmo, ou a alma, do ap�stolo que teve esse nome?
"Exatamente, porquanto h� milhares de pessoas �s quais foi dito que t�m por
anjo guardi�o S�o Paulo, ou qualquer outro. Mas que vos importa isso, desde que o
Esp�rito que vos protege � t�o elevado quanto S�o Paulo? Eu j� o disse: como precisais
de um nome, eles tomam um para que os possais chamar e reconhecer, do mesmo modo
que tomais os nomes de batismo para vos distinguirdes dos outros membros da vossa
fam�lia. Podem, pois, tomar igualmente os dos arcanjos Rafael, Miguel, etc., sem que da�
nada de mais resulte.
"Acresce que, quanto mais elevado � um Esp�rito, tanto mais dilatada � a sua
irradia��o. Segue-se, portanto, que um Esp�rito protetor de ordem muito elevada pode
ter sob a sua tutela centenas de encarnados. Entre v�s, na Terra, h� not�rios que se
encarregam dos neg�cios de cem e duzentas fam�lias; por que haver�eis de supor que
menos aptos f�ssemos n�s, espiritualmente falando,
340
CAP�TULO XXIV

para a dire��o moral dos homens, do que aqueles o s�o para a dire��o material de seus
interesses?"

6� Por que � que os Esp�ritos que se comunicam tomam freq�entemente nomes
de santos?
"Identificam-se com os h�bitos daqueles a quem falam e adotam os nomes mais
apropriados a causar forte impress�o nos homens por efeito de suas cren�as.

7� Quando evocados, os Esp�ritos superiores v�m sempre em pessoa, ou, como
alguns o sup�em, se fazem representar por mandat�rios incumbidos de lhes transmitir os
pensamentos?
"Por que n�o vir�o em pessoa, se o podem? Se, por�m, o Esp�rito evocado n�o
pode vir, o que se apresenta � for�osamente um mandat�rio."

8� E o mandat�rio � sempre suficientemente esclarecido para responder como
faria o Esp�rito que o envia?
"Os Esp�ritos superiores sabem a quem confiam o encargo de os substituir. Al�m
disso, quanto mais elevados s�o os Esp�ritos, mais se confundem pela comunh�o dos
pensamentos, de tal sorte que, para eles, a personalidade � coisa indiferente, como o
deve ser tamb�m para v�s. Julgais, ent�o, que no mundo dos Esp�ritos superiores n�o
haja sen�o os que conhecestes na Terra, como capazes de vos instru�rem? De tal modo
sois propensos a considerar-vos como os tipos do universo, que sempre supondes nada
mais haver fora do vosso mundo. Em verdade vos assemelhais a esses selvagens que,
nunca tendo sa�do da ilha em que habitam, cr�em que o mundo n�o vai al�m dela."

9� Compreendemos que seja assim, quando se trate de um ensino s�rio; mas,
como permitem os Esp�ritos superiores que outros, de baixo estal�o, adotem nomes
respeit�veis, para induzirem os homens em erro, por meio de m�ximas n�o raro
perversas?
"N�o � com a permiss�o dos primeiros que estes o fazem. O mesmo n�o se d�
entre v�s? Os que desse modo enganam os homens ser�o punidos, ficai certos, e a
puni��o deles ser� proporcionada � gravidade da impostura. Ao
341
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

demais, se n�o f�sseis imperfeitos, n�o ter�eis em tomo de v�s sen�o bons Esp�ritos; se
sois enganados, s� de v�s mesmos vos deveis queixar. Deus permite que assim
aconte�a, para experimentar a vossa perseveran�a e o vosso discernimento e para vos
ensinar a distinguir a verdade do erro. Se n�o o fazeis, � que n�o estais bastante
elevados e precisais ainda das li��es da experi�ncia."

10� N�o sucede que os Esp�ritos pouco adiantados, por�m, animados de boas
inten��es e do desejo de progredir, se v�em designados �s vezes para substituir um
Esp�rito superior, a fim de que tenham o ensejo de se exercitarem no ensinar aos seus
irm�os?
"Nunca, nos grandes centros; quero dizer, nos centros s�rios e quando se trate
de ministrar um ensinamento geral. Os que a� se apresentam o fazem por sua pr�pria
conta, para, como dizeis, se exercitarem. Por isso � que suas comunica��es, ainda que
boas, trazem o cunho da inferioridade deles. Delegados s� o s�o para as comunica��es
pouco importantes e para as que se podem chamar pessoais."

11� Nota-se que, �s vezes, as comunica��es esp�ritas rid�culas se mostram
entremeadas de excelentes m�ximas. Como explicar esta anomalia, que parece indicar a
presen�a simult�nea de bons e maus Esp�ritos?
"Os Esp�ritos maus, ou levianos, tamb�m se metem a enunciar senten�as, sem
lhes perceberem bem o alcance, ou a significa��o. Entre v�s, ser�o homens superiores
todos os que as enunciam? N�o; os bons e os maus Esp�ritos n�o andam juntos; pela
uniformidade constante das boas comunica��es � que reconhecereis a presen�a dos bons
Esp�ritos."

12� Os Esp�ritos que nos induzem em erro procedem sempre cientes do que
fazem?
"N�o; h� Esp�ritos bons, mas ignorantes e que podem enganar-se de boa-f�.
Desde que tenham consci�ncia da sua ignor�ncia, conv�m nisso e s� dizem o que
sabem."

13� O Esp�rito que d� uma comunica��o falsa sempre o faz com inten��o
mal�fica?
342
CAP�TULO XXIV

"N�o; se � um Esp�rito leviano, diverte-se em mistificar, sem outro intuito."

14� Podendo alguns Esp�ritos enganar pela linguagem de que usam, segue-se
que tamb�m podem, aos olhos de um m�dium vidente, tomar uma falsa apar�ncia?
"Isso se d�, por�m, mais dificilmente. Todavia, s� se verifica com um fim que os
pr�prios Esp�ritos maus desconhecem. Eles ent�o servem de instrumentos para uma
li��o... O m�dium vidente pode ver Esp�ritos levianos e mentirosos, como outros os
ouvem, ou escrevem sob a influ�ncia deles. Podem os Esp�ritos levianos aproveitar-se
dessa disposi��o, para o enganar, por meio de falsas apar�ncias; isso depende das
qualidades do Esp�rito do pr�prio m�dium."

15� Para n�o ser enganado, basta que algu�m esteja animado de boas inten��es?
E os homens s�rios, que n�o mesclam de v� curiosidade seus estudos, tamb�m se acham
sujeitos a ser enganados?
"Evidentemente, menos do que os outros; mas, o homem tem sempre alguns
pontos fracos que atraem os Esp�ritos zombeteiros. Ele se julga forte e muitas vezes n�o
o �. Deve, pois, desconfiar sempre da fraqueza que nasce do orgulho e dos
preconceitos. Ningu�m leva bastante em conta estas duas causas de queda, de que se
aproveitam os Esp�ritos que, lisonjeando as manias, t�m a certeza do bom �xito."

16� Por que permite Deus que maus Esp�ritos se comuniquem e digam coisas
ruins?
"Ainda mesmo no que haja de pior, um ensinamento sempre se colhe. Toca-vos
saber colh�-lo. Mister se faz que haja comunica��es de todas as esp�cies, para que
aprendais a distinguir os bons Esp�ritos dos maus e para que vos sirvam de espelho a v�s
mesmos."

17� Podem os Esp�ritos, por meio de comunica��es escritas, inspirar
desconfian�as infundadas contra certas pessoas e causar diss�dios entre amigos?
"Esp�ritos perversos e invejosos podem fazer, no terreno do mal, o que fazem os
homens. Por isso � que
343
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

estes devem estar em guarda. Os Esp�ritos superiores s�o sempre prudentes e
reservados, quando t�m de censurar; nada de mal dizem: advertem cautelosamente. Se
querem que, no interesse delas, duas pessoas deixem de ver-se, dar�o causa a incidentes
que as separar�o de modo todo natural. Uma linguagem pr�pria a semear a disc�rdia e a
desconfian�a � sempre obra de um mau Esp�rito, qualquer que seja o nome com que se
adorne. Assim, pois, usai de muita circunspec��o no acolher o que de mal possa um
Esp�rito dizer de um de v�s, sobretudo quando um bom Esp�rito vos tenha falado bem
da mesma pessoa, e desconfiai tamb�m de v�s mesmos e das vossas pr�prias
preven��es. Das comunica��es dos Esp�ritos, guardai apenas o que haja de belo, de
grande, de racional, e o que a vossa consci�ncia aprove."

18� Pela facilidade com que os maus Esp�ritos se intrometem nas comunica��es,
parece leg�timo concluir-se que nunca estaremos certos de ter a verdade?
"N�o � assim, pois que tendes um ju�zo para as apreciar. Pela leitura de uma
carta, sabeis perfeitamente reconhecer se foi um tipo sem educa��o, ou um homem bem
educado, um n�scio ou um s�bio que a escreveu; por que n�o podereis conseguir isso,
quando s�o os Esp�ritos que vos escrevem? Ao receberdes uma carta de um amigo
ausente, que � o que vos assegura que ela prov�m dele? A caligrafia, direis; mas, n�o h�
fals�rios que imitam todas as caligrafias; tratantes que podem conhecer os vossos
neg�cios? Entretanto, h� sinais que n�o vos permitir�o qualquer equ�voco. O mesmo
sucede com rela��o aos Esp�ritos. Figurai, pois, que � um amigo quem vos escreve, ou
que ledes a obra de um escritor, e julgai pelos mesmos processos."

19� Poderiam os Esp�ritos superiores impedir que os maus Esp�ritos tomassem
falsos nomes?
"Certamente que o podem; por�m, quanto piores s�o os Esp�ritos, mais
obstinados se mostram e muitas vezes resistem a todas as injun��es. Tamb�m � preciso
saibais que h� pessoas pelas quais os Esp�ritos superiores se inte-
344
CAP�TULO XXIV

ressam mais do que outras e, quando eles julgam conveniente, as preservam dos ataques
da mentira. Contra essas pessoas os Esp�ritos enganadores nada podem."

20� Qual o motivo de semelhante parcialidade?
"N�o h� parcialidade, h� justi�a. Os bons Esp�ritos se interessam pelos que usam
criteriosamente da faculdade de discernir e trabalham seriamente por melhorar-se. D�o a
esses suas prefer�ncias e os secundam; pouco, por�m, se incomodam com aqueles junto
dos quais perdem o tempo em belas palavras."

21� Por que permite Deus que os Esp�ritos cometam sacril�gio de usar
falsamente de nomes venerados?
"Poderias tamb�m perguntar por que permite Deus que os homens mintam e
blasfemem. Os Esp�ritos, assim como os homens, t�m o seu livre-arb�trio para o bem,
tanto quanto para o mal; por�m, nem a uns nem a outros a justi�a de Deus deixar� de
atingir."

22� Haver� f�rmulas eficazes para expulsar os Esp�ritos enganadores?
"F�rmula � mat�ria; muito mais vale um bom pensamento dirigido a Deus."

23� Dizem alguns Esp�ritos disporem de sinais gr�ficos inimit�veis, esp�cies de
emblemas, pelos quais podem ser conhecidos e comprovarem a sua identidade; �
verdade?
"Os Esp�ritos superiores nenhum outro sinal t�m para se fazerem reconhecer
al�m da superioridade das suas id�ias e de sua linguagem. Qualquer Esp�rito pode imitar
um sinal material. Quanto aos Esp�ritos inferiores, esses se traem de tantos modos, que
fora preciso ser cego para deixar-se iludir."

24� N�o podem tamb�m os Esp�ritos enganadores contrafazer o pensamento?
"Contrafazem o pensamento, como os cen�grafos contrafazem a Natureza."

25.� Parece assim f�cil sempre descobrir-se a fraude por meio de um estudo
atento?
"N�o o duvides. Os Esp�ritos s� enganam os que se deixam enganar. Mas, �
preciso ter olhos de mercador
345
DA IDENTIDADE DOS ESP�RITOS

de diamantes, para distinguir a pedra verdadeira da falsa. Ora, aquele que n�o sabe
distinguir a pedra fina da falsa se dirige ao lapid�rio."

26� H� pessoas que se deixam seduzir por uma linguagem enf�tica, que
apreciam mais as palavras do que as id�ias, que mesmo tomam id�ias falsas e vulgares
por sublimes. Como podem essas pessoas, que n�o est�o aptas a julgar as obras dos
homens, julgar as dos Esp�ritos?
"Quando essas pessoas s�o bastante modestas para reconhecer a sua
incapacidade, n�o se fiam de si mesmas; quando por orgulho se julgam mais capazes do
que o s�o, trazem consigo a pena da vaidade tola que alimentam. Os Esp�ritos
enganadores sabem perfeitamente a quem se dirigem. H� pessoas simples e pouco
instru�das mais dif�ceis de enganar do que outras, que t�m finura e saber. Lisonjeando-
lhes as paix�es, fazem eles do homem o que querem.

27� Na escrita, dar-se-� que os maus Esp�ritos algumas vezes se traiam por
sinais materiais involunt�rios?
"Os h�beis, n�o; os desazados se desencaminham. Todo sinal in�til e pueril �
ind�cio certo de inferioridade. Coisa alguma in�til fazem os Esp�ritos elevados."

28� Muitos m�diuns reconhecem os bons e os maus Esp�ritos pela impress�o
agrad�vel ou penosa que experimentam � aproxima��o deles. Perguntamos se a
impress�o desagrad�vel, a agita��o convulsiva, o mal-estar s�o sempre ind�cios da m�
natureza dos Esp�ritos que se manifestam?
"O m�dium experimenta as sensa��es do estado em que se encontra o Esp�rito
que dele se aproxima. Quando ditoso, o Esp�rito � tranq�ilo, leve, refletido; quando
infeliz, � agitado, febril, e essa agita��o se transmite naturalmente ao sistema nervoso do
m�dium. Em suma, d�-se o que se d� com o homem na Terra: o bom � calmo, tranq�ilo;
o mau est� constantemente agitado."
NOTA. H� m�diuns de maior ou menor impressionabilidade nervosa, pelo que a
agita��o n�o se pode considerar como regra absoluta.
346
CAP�TULO XXIV

Aqui, como em tudo, devem ter-se em conta as circunst�ncias. O car�ter penoso e
desagrad�vel da impress�o � um efeito de contraste, porquanto, se o Esp�rito do
m�dium simpatiza com o mau Esp�rito que se manifesta, nada ou muito pouco a
proximidade deste o afetar�. Todavia, � preciso se n�o confunda a rapidez da escrita,
que deriva da extrema flexibilidade de certos m�diuns, com a agita��o convulsiva que os
m�diuns mais lentos podem experimentar ao contacto dos Esp�ritos imperfeitos.
347




CAP�TULO XXV

DAS EVOCA��ES

Considera��es gerais. - Esp�ritos que se podem evocar. - Linguagem de que se
deve usar com os Esp�ritos. - Utilidade das evoca��es particulares. - Quest�es sobre as
evoca��es. - Evoca��es dos animais. - Evoca��es das pessoas vivas. - Telegrafia
humana.

Considera��es gerais

269. Os Esp�ritos podem comunicar-se espontaneamente, ou acudir ao nosso
chamado, isto �, vir por evoca��o. Pensam algumas pessoas que todos devem abster-se
de evocar tal ou tal Esp�rito e ser prefer�vel que se espere aquele que queira comunicar-
se. Fundam-se em que, chamando determinado Esp�rito, n�o podemos ter a certeza de
ser ele quem se apresente, ao passo que aquele que vem espontaneamente, de seu moto
pr�prio, melhor prova a sua identidade, pois que manifesta assim o desejo que
348
CAP�TULO XXV

tem de se entreter conosco. Em nossa opini�o, isso � um erro: primeiramente, porque h�
sempre em tomo de n�s Esp�ritos, as mais das vezes de condi��o inferior, que outra
coisa n�o querem sen�o comunicar-se; em segundo lugar e mesmo por esta �ltima
raz�o, n�o chamar a nenhum em particular � abrir a porta a todos os que queiram entrar.
Numa assembl�ia, n�o dar a palavra a ningu�m � deix�-la livre a toda a gente e sabe-se o
que da� resulta. A chamada direta de determinado Esp�rito constitui um la�o entre ele e
n�s; chamamo-lo pelo nosso desejo e opomos assim uma esp�cie de barreira aos
intrusos. Sem uma chamada direta, um Esp�rito nenhum motivo ter� muitas vezes para
vir confabular conosco, a menos que seja o nosso Esp�rito familiar.
Cada uma destas duas maneiras de operar tem suas vantagens e nenhuma
desvantagem haveria, sen�o na exclus�o absoluta de uma delas. As comunica��es
espont�neas inconveniente nenhum apresentam, quando se est� senhor dos Esp�ritos e
certo de n�o deixar que os maus tomem a dianteira. Ent�o, � quase sempre bom
aguardar a boa-vontade dos que se disponham a comunicar-se, porque nenhum
constrangimento sofre o pensamento deles e dessa maneira se podem obter coisas
admir�veis; entretanto, pode suceder que o Esp�rito por quem se chama n�o esteja
disposto a falar, ou n�o seja capaz de faz�-lo no sentido desejado. O exame escrupuloso,
que temos aconselhado, �, ali�s, uma garantia contra as comunica��es m�s. Nas
reuni�es regulares, naquelas, sobretudo, em que se faz um trabalho continuado, h�
sempre Esp�ritos habituais que a elas comparecem, sem que sejam chamados, por
estarem prevenidos, em virtude mesmo da regularidade das sess�es. Tomam, ent�o,
freq�entemente a palavra, de modo espont�neo, para tratar de um assunto qualquer,
desenvolver uma proposi��o ou prescrever o que se deva fazer, caso em que s�o
facilmente reconhec�veis, quer pela forma da linguagem, que � sempre id�ntica, quer
pela escrita, quer por certos h�bitos que lhes s�o peculiares.
349
DAS EVOCA��ES

270. Quando se deseja comunicar com determinado Esp�rito, � de toda
necessidade evoc�-lo. (N. 203.) Se ele pode vir, a resposta � geralmente: Sim, ou Estou
aqui, ou, ainda: Que quereis de mim? As vezes, entra diretamente em mat�ria,
respondendo de antem�o �s perguntas que se lhe queria dirigir.
Quando um Esp�rito � evocado pela primeira vez, conv�m design�-lo com
alguma precis�o. Nas perguntas que se lhe fa�am, devem evitar-se as f�rmulas secas e
imperativas, que constituiriam para ele um motivo de afastamento. As f�rmulas devem
ser afetuosas, ou respeitosas, conforme o Esp�rito, e, em todos os casos, cumpre que o
evocador lhe d� prova da sua benevol�ncia.

271. Surpreende, n�o raro, a prontid�o com que um Esp�rito evocado se
apresenta,, mesmo da primeira vez. Dir-se-ia que estava prevenido. E, com efeito, o que
se d�, quando com a sua evoca��o se preocupa de antem�o aquele que o evoca. Essa
preocupa��o � uma esp�cie de evoca��o antecipada e, como temos sempre conosco os
nossos Esp�ritos familiares, que se identificam com o nosso pensamento, eles preparam
o caminho de tal sorte que, se nenhum obst�culo surge, o Esp�rito que desejamos
chamar j� se acha presente ao ser evocado. Quando assim n�o acontece, � o Esp�rito
familiar do m�dium, ou o do interrogante, ou ainda um dos que costumam freq�entar as
reuni�es que o vai buscar, para o que n�o precisa de muito tempo. Se o Esp�rito
evocado n�o pode vir de pronto, o mensageiro (os Pag�os diriam Merc�rio) marca um
prazo, �s vezes de cinco minutos, um quarto de hora e at� muitos dias. Logo que ele
chega, diz: Aqui estou. Podem ent�o come�ar a ser feitas as perguntas que se lhe quer
dirigir.
O mensageiro nem sempre � um intermedi�rio indispens�vel, porquanto o
Esp�rito pode ouvir diretamente o chamado do evocador, conforme ficou dito em o n.
282, pergunta 5, sobre o modo de transmiss�o do pensamento.
350
CAP�TULO XXV

Quando dizemos que se fa�a a evoca��o em nome de Deus, queremos que a
nossa recomenda��o seja tomada a s�rio e n�o levianamente. Os que nisso vejam o
emprego de uma f�rmula sem conseq��ncias far�o melhor abstendo-se.

272. Freq�entemente, as evoca��es oferecem mais dificuldades aos m�diuns do
que os ditados espont�neos, sobretudo quando se trata de obter respostas precisas a
quest�es circunstanciadas. Para isto, s�o necess�rios m�diuns especiais, ao mesmo
tempo flex�veis e positivos e j� em o n. 193 vimos que estes �ltimos s�o bastante raros,
por isso que, conforme dissemos, as rela��es flu�dicas nem sempre se estabelecem
instantaneamente com o primeiro Esp�rito que se apresente. Da� convir que os m�diuns
n�o se entreguem �s evoca��es pormenorizadas, sen�o depois de estarem certos do
desenvolvimento de suas faculdades e da natureza dos Esp�ritos que os assistem, visto
que com os mal assistidos as evoca��es nenhum car�ter podem ter de autenticidade.

273. Os m�diuns s�o geralmente muito mais procurados para as evoca��es de
interesse particular, do que para comunica��es de interesse geral; isto se explica pelo
desejo muito natural que todos t�m de confabular com os entes que lhes s�o caros.
Julgamos dever fazer a este prop�sito algumas recomenda��es importantes aos
m�diuns. Primeiramente que n�o acedam a esse desejo, sen�o com muita reserva, se se
trata de pessoas de cuja sinceridade n�o estejam completamente seguros e que se
acautelem das armadilhas que lhes possam preparar pessoas malfazejas. Em segundo
lugar, que a tais evoca��es n�o se prestem, sob fundamento algum, se perceberem um
fim de simples curiosidade, ou de interesse, e n�o uma inten��o s�ria da parte do
evocador; que se recusem a fazer qualquer pergunta ociosa, ou que sai do �mbito das
que racionalmente se podem dirigir aos esp�ritos. As perguntas devem ser formuladas
com clareza, precis�o e sem id�ia preconce-
351
DAS EVOCA��ES

bida, em se querendo respostas categ�ricas. Cumpre, pois, se repilam todas as que
tenham car�ter insidioso, porquanto � sabido que os Esp�ritos n�o gostam das que t�m
por objetivo p�-los � prova. Insistir em quest�es desta natureza � querer ser enganado.
O evocador deve ferir franca e abertamente o ponto visado, sem subterf�gios e sem
circunl�quios. Se receia explicar-se, melhor ser� que se abstenha.
Conv�m igualmente que s� com muita prud�ncia se fa�am evoca��es, na
aus�ncia das pessoas que as pediram, sendo mesmo prefer�vel que n�o sejam feitas
nessas condi��es, visto que somente aquelas pessoas se acham aptas a analisar as
respostas, a julgar da identidade, a provocar esclarecimentos, se for oportuno, e a
formular quest�es incidentes, que as circunst�ncias indiquem. Al�m disso, a presen�a
delas � um la�o que atrai o Esp�rito, quase sempre pouco disposto a se comunicar com
estranhos, que lhes n�o inspiram nenhuma simpatia. O m�dium, em suma, deve evitar
tudo o que possa transform�-lo em agente de consultas, o que, aos olhos de muitas
pessoas, � sin�nimo de ledor da "buena-dicha".

Esp�ritos que podem ser evocados

274. Todos os Esp�ritos, qualquer que seja o grau em que se encontrem na
escala espiritual, podem ser evocados: assim os bons, como os maus, tanto os que
deixaram a vida de pouco, como os que viveram nas �pocas mais remotas, os que foram
homens ilustres, como os mais obscuros, os nossos parentes e amigos, como os que nos
s�o indiferentes. Isto, por�m, n�o quer dizer que eles sempre queiram ou possam
responder ao nosso chamado. Independente da pr�pria vontade, ou da permiss�o, que
lhes pode ser recusada por uma pot�ncia superior, � poss�vel se achem impedidos de o
fazer, por motivos que nem sempre nos � dado conhecer. Queremos dizer que n�o h�
impedimento absoluto que se oponha �s comunica��es, salvo o que dentro em pouco
diremos. Os obst�culos capa-
352
CAP�TULO XXV

zes de impedir que um Esp�rito se manifeste s�o quase sempre individuais e derivam das
circunst�ncias.

275. Entre as causas que podem impedir a manifesta��o de um Esp�rito, umas
lhe s�o pessoais e outras, estranhas. Entre as primeiras, devem colocar-se as ocupa��es
ou as miss�es que esteja desempenhando e das quais n�o pode afastar-se, para ceder aos
nossos desejos. Neste caso, sua visita apenas fica adiada.
H� tamb�m a sua pr�pria situa��o. Se bem que o estado de encarna��o n�o
constitua obst�culo absoluto, pode representar um impedimento, em certas ocasi�es,
sobretudo quando aquela se d� nos mundos inferiores e quando o pr�prio Esp�rito est�
pouco desmaterializado. Nos mundos superiores, naqueles em que os la�os entre o
Esp�rito e a mat�ria s�o muito fracos, a manifesta��o � quase t�o f�cil quanto no estado
errante, mais f�cil, em todo caso, do que nos mundos onde a mat�ria corp�rea � mais
compacta.
As causas estranhas residem principalmente na natureza do m�dium, na da
pessoa que evoca, no meio em que se faz a evoca��o, enfim, no objetivo que se tem em
vista. Alguns m�diuns recebem mais particularmente comunica��es de seus Esp�ritos
familiares, que podem ser mais ou menos elevados; outros se mostram aptos a servir de
intermedi�rios a todos os Esp�ritos, dependendo isto da simpatia ou da antipatia, da
atra��o ou da repuls�o que o Esp�rito pessoal do m�dium exerce sobre o Esp�rito
chamado, o qual pode tom�-lo por int�rprete, com prazer, ou com repugn�ncia. Isto
tamb�m depende, abstra��o feita das qualidades �ntimas do m�dium, do
desenvolvimento da faculdade medi�nica. Os Esp�ritos v�m de melhor vontade e,
sobretudo, s�o mais expl�citos com um m�dium que lhes n�o oferece nenhum obst�culo
material. Ali�s, em igualdade de condi��es morais, quanto mais facilidade tenha o
m�dium para escrever ou para se exprimir, tanto mais se generalizam suas rela��es com
o mundo esp�rita.
353
DAS EVOCA��ES

276. Cumpre ainda levar em conta a facilidade que deve resultar do h�bito da
comunica��o com tal ou qual Esp�rito. Com o tempo, o Esp�rito estranho se identifica
com o do m�dium e tamb�m com aquele que o chama. Posta de parte a quest�o da
simpatia, entre eles se estabelecem rela��es flu�dicas que tornam mais prontas as
comunica��es. Por isso � que uma primeira confabula��o nem sempre � t�o satisfat�ria
quanto fora de desejar e que os pr�prios Esp�ritos pedem freq�entemente que os
chamem de novo. O Esp�rito que vem habitualmente est� como em sua casa: fica
familiarizado com seus ouvintes e int�rpretes, fala e age livremente.

277. Em resumo, do que acabamos de dizer resulta: que a faculdade de evocar
todo e qualquer Esp�rito n�o implica para este a obriga��o de estar � nossa disposi��o;
que ele pode vir em certa ocasi�o e n�o vir noutra, com um m�dium, ou um evocador
que lhe agrade e n�o com outro; dizer o que quer, sem poder ser constrangido a dizer o
que n�o queira; ir-se quando lhe aprouver; enfim, que por causas dependentes ou n�o da
sua vontade, depois de se haver mostrado ass�duo durante algum tempo, pode de
repente deixar de vir.
Por todos estes motivos � que, quando se deseja chamar um Esp�rito que ainda
n�o se apresentou, � necess�rio perguntar ao seu guia protetor se a evoca��o � poss�vel;
caso n�o o seja, ele geralmente d� as raz�es e ent�o � in�til insistir.

278. Uma quest�o importante se apresenta aqui, a de saber se h� ou n�o
inconveniente em evocar maus Esp�ritos. Isto depende do fim que se tenha em vista e do
ascendente que se possa exercer sobre eles. O inconveniente e nulo, quando s�o
chamados com um fim s�rio, qual o de os instruir e melhorar; �, ao contr�rio, muito
grande, quando chamados por mera curiosidade ou por divertimento, ou, ainda. quando
quem os chama se p�e na depend�ncia deles, pedindo-lhes um servi�o qualquer.
354
CAP�TULO XXV

Os bons Esp�ritos, neste caso, podem muito bem dar-lhes o poder de fazerem o que se
lhes pede, o que n�o exclui seja severamente punido mais tarde o temer�rio que ousou
solicitar-lhe o auxilio e sup�-los mais poderosos do que Deus. Ser� em v�o que prometa
a si mesmo, quem assim proceda, fazer dali em diante bom uso do aux�lio pedido e
despedir o servidor, uma vez prestado o servi�o. Esse mesmo servi�o que se solicitou,
por m�nimo que seja, constitui um verdadeiro pacto firmado com o mau Esp�rito e este
n�o larga facilmente a sua presa. (Veja-se o n. 212.)

279. Ningu�m exerce ascendentes sobre os Esp�ritos inferiores, sen�o pela
superioridade moral. Os Esp�ritos perversos sentem que os homens de bem os
dominam. Contra quem s� lhes oponha a energia da vontade, esp�cie de for�a bruta,
eles lutam e muitas vezes s�o os mais fortes. A algu�m que procurava domar um
Esp�rito rebelde, unicamente pela a��o da sua vontade, respondeu �quele: Deixa-me em
paz, com teus ares de mata-mouros, que n�o vales mais do que eu; dir-se-ia um ladr�o
a pregar moral a outro ladr�o.
H� quem se espante de que o nome de Deus, invocado contra eles, nenhum
efeito produza. A raz�o desse fato deu-no-la S�o Lu�s, na resposta seguinte:
"O nome de Deus s� tem influ�ncia sobre os Esp�ritos imperfeitos, quando
proferido por quem possa, pelas suas virtudes, servir-se dele com autoridade.
Pronunciado por quem nenhuma superioridade moral tenha, com rela��o ao Esp�rito, �
uma palavra como qualquer outra. O mesmo se d� com as coisas santas com que se
procure domin�-los. A mais terr�vel das armas se torna inofensiva em m�os in�beis a se
servirem dela, ou incapazes de manej�-la."

Linguagem de que se deve usar com os Esp�ritos

280. O grau de superioridade ou inferioridade dos Esp�ritos indica naturalmente
em que tom conv�m se lhes
355
DAS EVOCA��ES

fale. � evidente que, quanto mais elevados eles sejam, tanto mais direito t�m ao nosso
respeito, �s nossas aten��es e � nossa submiss�o. N�o lhes devemos demonstrar menos
defer�ncia do que lhes demonstrar�amos, embora por outros motivos, se estivessem
vivos. Na Terra, levar�amos em considera��o a categoria e a posi��o social deles; no
mundo dos Esp�ritos, o nosso respeito tem que ser motivado pela superioridade moral
de que desfrutam. A pr�pria eleva��o que possuem os coloca acima das puerilidades das
nossas f�rmulas bajulat�rias. N�o � com palavras que se lhes pode captar a
benevol�ncia, mas pela sinceridade dos sentimentos. Seria, pois, rid�culo estarmos a dar-
lhes os t�tulos que os nossos usos consagram, para distin��o das categorias, e que
porventura lhes lisonjeariam a vaidade, quando vivos. Se s�o realmente superiores, n�o
somente nenhuma import�ncia d�o a esses t�tulos, como at� lhes desagrada que os
empreguemos. Um bom pensamento lhes � mais agrad�vel do que os mais elogiosos
ep�tetos; se assim n�o fosse, eles n�o estariam acima da Humanidade.
O Esp�rito de vener�vel eclesi�stico, que foi na Terra um pr�ncipe da Igreja,
homem de bem, praticante da lei de Jesus, respondeu certa vez a algu�m que o evocara
dando-lhe o t�tulo de Monsenhor: "Deveras, ao menos, dizer: ex-Monsenhor, porquanto
aqui um s� Senhor h� - Deus. Fica sabendo: muitos vejo, que na Terra se ajoelhavam na
minha presen�a, diante dos quais hoje me inclino."
Quanto aos Esp�ritos inferiores, o car�ter que revelam nos tra�a a linguagem de
que devemos usar para com eles. H� os que, embora inofensivos e at� delicados, s�o
levianos, ignorantes, estouvados. Dar-lhes tratamento igual ao que dispensamos aos
Esp�ritos s�rios, como o fazem certas pessoas, o mesmo fora que nos inclinarmos diante
de um colegial, ou diante de um asno que trouxesse barrete de doutor. O tom de
familiaridade n�o seria descabido entre eles, que por isso n�o se formalizam; ao
contr�rio, acolhem-no de muito boa vontade.
356
CAP�TULO XXV

Entre os Esp�ritos inferiores, muitos h� que s�o infelizes. Quaisquer que sejam as
faltas que estejam expiando, seus sofrimentos constituem t�tulos tanto maiores � nossa
comisera��o, quanto � certo que ningu�m pode lisonjear-se de lhe n�o caberem estas
palavras do Cristo: "Atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecado." A
benignidade que lhe testemunhemos representa para eles um alivio. Em falta de simpatia,
precisam encontrar em n�s a indulg�ncia que desejar�amos tivessem conosco.
Os Esp�ritos que revelam a sua inferioridade pelo cinismo da linguagem, pelas
mentiras, pela baixeza dos sentimentos, pela perf�dia dos conselhos, s�o,
indubitavelmente, menos dignos do nosso interesse, do que aqueles cujas palavras
atestam o seu arrependimento; mas, pelo menos, devemo-lhes a piedade que nos
inspiram os maiores criminosos e o meio de os reconduzirmos ao sil�ncio consiste em
nos mostrarmos superiores a eles, que n�o confiam sen�o nas pessoas de quem julgam
nada terem que temer, porquanto os Esp�ritos perversos sentem que os homens de bem,
como os Esp�ritos elevados, s�o seus superiores.
Em resumo, t�o irreverente seria tratarmos de igual para igual os Esp�ritos
superiores, quanto rid�culo seria dispensarmos a todos, sem exce��o, a mesma
defer�ncia. Tenhamos venera��o para os que a merecem, reconhecimento para os que
nos protegem e nos assistem e, para todos os demais, a benignidade de que talvez um
dia venhamos a necessitar. Penetrando no mundo incorp�reo, aprendemos a conhec�-lo
e esse conhecimento nos deve guiar em nossas rela��es com os que o habitam. Os
Antigos, na sua ignor�ncia, levantaram-lhes altares; para n�s, eles s�o apenas criaturas
mais ou menos perfeitas, e altares s� a Deus se levantam.

Utilidade das evoca��es particulares

281. As comunica��es que se obt�m dos Esp�ritos muito elevados, ou dos que
animaram grandes personagens
357
DAS EVOCA��ES

da antig�idade, s�o preciosas, pelos altos ensinamentos que encerram. Esses Esp�ritos
conquistaram um grau de perfei��o que lhes permite abranger muito mais extenso
campo de id�ias, penetrar mist�rios que escapam ao alcance vulgar da Humanidade e,
por conseguinte, iniciar-nos melhor do que outros em certas coisas. N�o se segue da�
sejam in�teis as comunica��es dos Esp�ritos de ordem menos elevada. Delas muita
instru��o colhe o observador. Para se conhecerem os costumes de um povo, mister se
faz estud�-lo em todos os graus da escala. Mal o conhece quem n�o o tenha visto sen�o
por uma face. A hist�ria de um povo n�o � a dos seus reis, nem a das suas sumidades
sociais; para julg�-lo, � preciso v�-lo na vida �ntima, nos h�bitos particulares.
Ora, os Esp�ritos superiores s�o as sumidades do mundo esp�rita; a pr�pria
eleva��o em que se acham os coloca de tal modo acima de n�s, que nos aterra a
dist�ncia a que deles estamos. Esp�ritos mais burgueses (que se nos relevem esta
express�o) nos tornam mais palp�veis as circunst�ncias da nova exist�ncia em que se
encontram. Neles, a liga��o entre a vida corp�rea e a vida esp�rita � mais �ntima,
compreendemo-la melhor, porque ela nos toca mais de perto. Aprendendo, pelo que eles
nos dizem, em que se tornaram, o que pensam e o que experimentam os homens de
todas as condi��es e de todos os caracteres, assim os de bem como os viciosos, os
grandes e os pequenos, os ditosos e os desgra�ados do s�culo, numa palavra. os que
viveram entre n�s, os que vimos e conhecemos, os de quem sabemos a vida real, as
virtudes e os erros, bem lhes compreendemos as alegrias e os sofrimentos, a umas e
outros nos associamos e destes e daquelas tiramos um ensinamento moral, tanto mais
proveitoso, quanto mais estreitas forem as nossas rela��es com eles. Mais facilmente
nos pomos no lugar daquele que foi nosso igual, do que no de outro que apenas
divisamos atrav�s da miragem de uma gl�ria celestial. Os Esp�ritos vulgares nos
mostram a aplica��o pr�tica das grandes e sublimes verdades, cuja teoria os Esp�ritos
superiores nos ministram. Ali�s, no
358
CAP�TULO XXV

estudo de uma ci�ncia, nada � in�til. Newton achou a lei das for�as do Universo, no
mais simples dos fen�menos.
A evoca��o dos Esp�ritos vulgares tem, al�m disso, a vantagem de nos p�r em
contacto com Esp�ritos sofredores, que podemos aliviar e cujo adiantamento podemos
facilitar, por meio de bons conselhos. Todos, pois, nos podemos tomar �teis, ao mesmo
tempo que nos instru�mos. H� ego�smo naquele que somente a sua pr�pria satisfa��o
procura nas manifesta��es dos Esp�ritos, e d� prova de orgulho aquele que deixa de
estender a m�o em socorro dos desgra�ados. De que lhe serve obter delas comunica��es
de Esp�ritos de escol, se isso n�o o faz melhor para consigo mesmo, nem mais caridoso
e ben�volo para com seus irm�os deste mundo e do outro? Que seria dos pobres
doentes, se os m�dicos se recusassem a lhes tocar as chagas?

282. Quest�es sobre as evoca��es

1� Pode algu�m, sem ser m�dium, evocar os Esp�ritos?
"Toda gente pode evocar os Esp�ritos e, se aqueles que evocares n�o puderem
manifestar-se materialmente, nem por isso deixar�o de estar junto de ti e de te escutar."

2� O Esp�rito evocado atende sempre ao chamado que se lhe dirige?
"Isso depende das condi��es em que se encontre, porquanto h� circunst�ncias
em que n�o o pode fazer."

ao
3� Quais as causas que podem impedir atenda um Esp�rito nosso chamado?
"Em primeiro lugar, a sua pr�pria vontade; depois, o seu estado corporal, se se
acha encarnado, as miss�es de que esteja encarregado, ou ainda o lhe ser, para isso,
negada permiss�o.
"H� Esp�ritos que nunca podem comunicar-se: os que, por sua natureza, ainda
pertencem a mundos inferiores a Terra. T�o pouco o podem os que se acham nas esferas
de puni��o, a menos que especial permiss�o lhes seja dada,
359
DAS EVOCA��ES

com um fim de utilidade geral. Para que um Esp�rito possa comunicar-se, preciso �
tenha alcan�ado o grau de adiantamento do mundo onde o chamam, pois, do contr�rio,
estranho que ele � �s id�ias desse mundo, nenhum ponto de compara��o ter� para se
exprimir. O mesmo j� n�o se d� com os que est�o em miss�o, ou em expia��o, nos
mundos inferiores. Esses t�m as id�ias necess�rias para responder ao chamado."

4� Por que motivo pode a um Esp�rito ser negada permiss�o para se comunicar?
"Pode ser uma prova, ou uma puni��o, para ele, ou para aquele que o chama."

5� Como podem os Esp�ritos, dispersos pelo espa�o ou pelos diferentes mundos,
ouvir as evoca��es que lhes s�o dirigidas de todos os pontos do Universo?
"Muitas vezes s�o prevenidos pelos Esp�ritos familiares que vos cercam e que os
v�o procurar. Por�m, aqui se passa um fen�meno dif�cil de vos ser explicado porque
ainda n�o podeis compreender o modo de transmiss�o do pensamento entre os
Esp�ritos. O que te posso afirmar � que o Esp�rito evocado, por muito afastado que
esteja, recebe, por assim dizer, o choque do pensamento como uma esp�cie de como��o
el�trica que lhe chama a aten��o para o lado de onde vem o pensamento que o atinge.
Pode dizer-se que ele ouve o pensamento, como na Terra ouves a voz."
a) Ser� o fluido universal o ve�culo do pensamento, como o ar o � do som?
"Sim, com a diferen�a de que o som n�o pode fazer-se ouvir sen�o dentro de um
espa�o muito limitado, enquanto que o pensamento alcan�a o infinito. O Esp�rito, no
Al�m, � como o viajante que, em meio de vasta plan�cie, ouvindo pronunciar o seu
nome, se dirige para o lado de onde o chamam."

6� Sabemos que as dist�ncias nada s�o para os Esp�ritos; contudo, causa espanto
ver que respondem t�o prontamente ao chamado, como se estivessem muito perto.
360
CAP�TULO XXV

"� que, com efeito, �s vezes, o est�o. Se a evoca��o � premeditada, o Esp�rito se
acha de antem�o prevenido e freq�entemente se encontra no lugar onde o v�o evocar,
antes que o chamem."

7� Dar-se-� que o pensamento do evocador seja mais ou menos facilmente
percebido, conforme as circunst�ncias?
"Sem d�vida alguma. O Esp�rito � mais vivamente atingido, quando chamado
por um sentimento de simpatia e de bondade. � como uma voz amiga que ele
reconhece. A n�o se dar isso, acontece com freq��ncia que a evoca��o nenhum efeito
produz. O pensamento que se desprende da evoca��o toca o Esp�rito; se � mal dirigido,
perde-se no v�cuo. D�-se com os Esp�ritos o que se d� com os homens; se aquele que
os chama lhes � indiferente ou antip�tico, podem ouvi-lo, por�m, as mais das vezes, n�o
o atendem."

8� O Esp�rito evocado vem espontaneamente, ou constrangido?
"Obedece � vontade de Deus, isto �, � lei geral que rege o Universo. Todavia, a
palavra constrangido n�o se ajusta ao caso, porquanto o Esp�rito julga da utilidade de
vir, ou deixar de vir. Ainda a� exerce o livre-arb�trio. O Esp�rito superior vem sempre
que chamado com um fim �til; n�o se nega a responder, sen�o a pessoas pouco s�rias e
que tratam destas coisas por divertimento."

di
9� Pode o Esp�rito evocado negar-se a atender ao chamado que lhe � rigido?
"Perfeitamente; onde estaria o seu livre-arb�trio, se assim n�o fosse? Pensais que
todos os seres do Universo est�o �s vossas ordens? V�s mesmos vos considerais
obrigados a responder a todos os que vos pronunciam os nomes? Quando digo que o
Esp�rito pode recusar-se, refiro-me ao pedido do evocador, visto que um Esp�rito
inferior pode ser constrangido a vir, por um Esp�rito superior."

10� Haver�, para o evocador, meio de constranger um Esp�rito a vir, a seu mau
grado?
361
DAS EVOCA��ES

"Nenhum, desde que o Esp�rito lhe seja igual, ou superior, em moralidade. Digo
- em moralidade e n�o em intelig�ncia, porque, ent�o, nenhuma autoridade tem o
evocador sobre ele. Se lhe � inferior, o evocador pode consegui-lo, desde que seja para
bem do Esp�rito, porque, nesse caso, outros Esp�ritos o secundar�o." (N. 279.)

11� Haver� inconveniente em se evocarem Esp�ritos inferiores e ser� de temer
que, chamando-os, o evocador lhes fique sob o dom�nio?
"Eles n�o dominam sen�o os que se deixam dominar. Aquele que � assistido por
bons Esp�ritos nada tem que temer. Imp�e-se aos Esp�ritos inferiores e n�o estes a ele.
Isolados, os m�diuns, sobretudo os que come�am, devem abster-se de tais evoca��es.
(N. 278.)

12� Ser�o necess�rias algumas disposi��es especiais para as evoca��es?
"A mais essencial de todas as disposi��es � o recolhimento, quando se deseja
entrar em comunica��o com Esp�ritos s�rios. Com f� e com o desejo do bem, tem-se
mais for�a para evocar os Esp�ritos superiores. Elevando sua alma, por alguns instantes
de recolhimento, quando da evoca��o, o evocador se identifica com os bons Esp�ritos e
os disp�e a virem."

13� Para as evoca��es, � preciso f�?
"A f� em Deus, sim; para o mais, a f� vir�, se desejardes o bem e tiverdes o
prop�sito de instruir-vos."

14� Reunidos em comunh�o de pensamentos e de inten��es, disp�em os homens
de mais poder para evocar os Esp�ritos?
"Quando todos est�o reunidos pela caridade e para o bem, grandes coisas
alcan�am. Nada mais prejudicial ao resultado das evoca��es do que a diverg�ncia de
id�ias."

15� Ser� conveniente a precau��o de se formar cadeia, dando-se todos as m�os,
alguns minutos antes de come�ar a reuni�o?
"A cadeia � um meio material, que n�o estabelece entre v�s a uni�o, se esta n�o
existe nos pensamentos; mais conveniente do que isso � unirem-se todos por um
362
CAP�TULO XXV

pensamento comum, chamando cada um, de seu lado, os bons Esp�ritos. N�o imaginais
o que se pode obter numa reuni�o s�ria, de onde se haja banido todo sentimento de
orgulho e de personalismo e onde reine perfeito o de m�tua cordialidade."

16� S�o prefer�veis as e voca��es em dias e horas determinados?
"Sim e, se for poss�vel, no mesmo lugar: os Esp�ritos ai acorrem com mais
satisfa��o. O desejo constante que tendes � que auxilia os Esp�ritos a se porem em
comunica��o convosco. Eles t�m ocupa��es, que n�o podem deixar de improviso, para
satisfa��o vossa pessoal. Digo no mesmo lugar, mas n�o julgueis que isso deva
constituir uma obriga��o absoluta, porquanto os Esp�ritos v�o a toda parte. Quero dizer
que um lugar consagrado �s reuni�es � prefer�vel, porque o recolhimento se faz mais
perfeito."

17� Certos objetos, como medalhas e talism�s, t�m a propriedade de atrair ou
repelir os Esp�ritos conforme pretendem alguns?
"Esta pergunta era escusada, porquanto bem sabes que a mat�ria nenhuma a��o
exerce sobre os Esp�ritos. Fica bem certo de que nunca um bom Esp�rito aconselhar�
semelhantes absurdidades. A virtude dos talism�s, de qualquer natureza que sejam,
jamais existiu, sen�o, na imagina��o das pessoas cr�dulas."

18� Que se deve pensar dos Esp�ritos que marcam encontros em lugares l�gubres
e a horas indevidas?
"Esses Esp�ritos se divertem � custa dos que lhes d�o ouvidos. E sempre in�til e
n�o raro perigoso ceder a tais sugest�es: in�til, porque nada absolutamente se ganha em
ser mistificado; perigoso, n�o pelo mal que possam fazer os Esp�ritos, mas pela
influ�ncia que isso pode ter sobre c�rebros fracos."

19� Haver� dias e horas mais prop�cias para as evoca��es?
"Para os Esp�ritos, isso � completamente indiferente, como tudo o que �
material, e fora supersti��o acreditar-se na influ�ncia dos dias e das horas. Os momentos
mais
363
DAS EVOCA��ES

prop�cios s�o aqueles em que o evocador possa estar menos distra�do pelas suas
ocupa��es habituais, em que se ache mais calmo de corpo e de esp�rito."

20� Para os Esp�ritos, a evoca��o � coisa agrad�vel ou penosa? Eles v�m de
boa-vontade, quando chamados?
"Isso depende do car�ter deles e do motivo com que s�o chamados. Quando �
louv�vel o objetivo e quando o meio lhes � simp�tico, a evoca��o constitui para eles
coisa agrad�vel e mesmo atraente; os Esp�ritos se sentem sempre ditosos com a afei��o
que se lhes demonstre. Alguns h� para os quais representa grande felicidade se
comunicarem com os homens e que sofrem com o abandono em que s�o deixados. Mas,
como j� disse, isto igualmente depende dos caracteres deles. Entre os Esp�ritos, tamb�m
h� misantropos, que n�o gostam de ser incomodados e cujas respostas se ressentem do
mau humor em que vivem, sobretudo quando chamados por pessoas que lhes s�o
indiferentes, pelas quais n�o se interessam. Um Esp�rito nenhum motivo tem, muitas
vezes, para atender ao chamado de um desconhecido, que lhe � indiferente e que quase
sempre tem a inspir�-lo a curiosidade. Se vem, suas apari��es, em geral, s�o curtas, a
menos que a evoca��o vise a um fim s�rio e instrutivo."
NOTA. H� pessoas que s� evocam seus parentes para lhes perguntar as coisas
mais vulgares da vida material, por exemplo: um, para saber se alugar� ou vender� sua
casa; outro, para saber que lucro tirar� da sua mercadoria, o lugar em que h� dinheiro
escondido, se tal neg�cio ser� ou n�o vantajoso. Nossos parentes de al�m-t�mulo por
n�s s� se interessam em virtude da afei��o que lhes consagremos. Se os nossos
pensamentos, com rela��o a eles, se limitam a sup�-los feiticeiros, se neles s� pensamos
para lhes pedir informa��es, � claro que n�o nos podem ter grande simpatia e ningu�m
deve surpreender-se com a pouca benevol�ncia que lhes demonstrem.

21� Alguma diferen�a h� entre os bons e os maus Esp�ritos, pelo que toca �
solicitude com que atendam ao nosso chamado?
364
CAP�TULO XXV

"Uma bem grande h�: os maus Esp�ritos n�o v�m de boa-vontade, sen�o quando
contam dominar e enganar; experimentam viva contrariedade, quando for�ados a vir,
para confessarem suas faltas, e outra coisa n�o procuram sen�o ir-se embora, como um
colegial a quem se chama para repreend�-lo. Podem a isso ser constrangidos por
Esp�ritos superiores, como castigo e para instru��o dos encamados. A evoca��o �
penosa para os bons Esp�ritos, quando s�o chamados inutilmente, para futilidades.
Ent�o, ou n�o v�m, ou se retiram logo.
"Podeis dizer que, em princ�pio, os Esp�ritos, quaisquer que eles sejam, n�o
gostam, exatamente como v�s, de servir de distra��o a curiosos, Freq�entemente, outro
fim n�o tendes, evocando um Esp�rito, sen�o ver o que ele vos dir� ou interrog�-lo
sobre particularidades de sua vida, que ele n�o deseja dar-vos a conhecer, porque
nenhum motivo tem para vos fazer confid�ncias. Julgais que ele se v� colocar na
berlinda, somente para vos dar prazer? Desenganai-vos; o que ele n�o faria em vida n�o
far� tampouco como Esp�rito."
NOTA. A experi�ncia, com efeito, prova que a evoca��o � sempre agrad�vel aos
Esp�ritos, quando feita com fim s�rio e �til. Os bons v�m prazerosamente instruir-nos;
os que sofrem encontram alivio na simpatia que se lhes demonstra; os que conhecemos
ficam satisfeitos com o se saberem lembrados, os levianos gostam de ser evocados pelas
pessoas fr�volas, porque isso lhes proporciona ensejo de se divertirem � custa delas;
sentem-se pouco � vontade com pessoas graves.

22� Para se manifestarem, t�m sempre os Esp�ritos necessidade de ser evocados?
"N�o; muito freq�entemente, eles se apresentam sem serem chamados, o que
prova que v�m de boa-vontade."

23� Quando um Esp�rito se apresenta por si mesmo, pode-se estar certo da sua
identidade?
"De maneira alguma, porquanto os Esp�ritos enganadores empregam ami�de
esse meio, para melhor mistificarem."
365
DAS EVOCA��ES

24� Quando se evoca pelo pensamento o Esp�rito de uma pessoa, esse Esp�rito
vem, ainda mesmo que n�o haja manifesta��o pela escrita, ou de outro modo?
"A escrita � um meio material, para o Esp�rito, de atestar a sua presen�a, mas o
pensamento � que o atrai e n�o o fato da escrita."

25� Quando se manifeste um Esp�rito inferior, poder-se-� obrig�-lo a retirar-se?
"Sim, n�o se lhe dando aten��o. Mas, como quereis que se retire, quando vos
divertis com as torpezas? Os Esp�ritos inferiores se ligam aos que os escutam com
complac�ncia, como os tolos entre v�s."

26� A evoca��o feita em nome de Deus � uma garantia contra a imiscu�ncia dos
maus Esp�ritos?
"O nome de Deus n�o constitui freio para todos os Esp�ritos, mas cont�m muitos
deles; por esse meio, sempre afastareis alguns e muitos mais afastareis, se ela for feita do
fundo do cora��o e n�o como f�rmula banal."

27� Poder-se-� evocar nominativamente muitos Esp�ritos ao mesmo tempo?
"N�o h� nisso dificuldade alguma e, se tiv�sseis tr�s ou quatro m�os para
escrever, tr�s ou quatro Esp�ritos vos responderam ao mesmo tempo; � o que ocorre se
se disp�e de muitos m�diuns."

28� Quando muitos Esp�ritos s�o evocados simultaneamente, n�o havendo mais
de um m�dium, qual o que responde?
"Um deles responde por todos e exprime o pensamento coletivo."

29� Poderia o mesmo Esp�rito comunicar-se, simultaneamente, durante uma
sess�o, por dois m�diuns diferentes?
"T�o facilmente quanto, entre v�s, os que ditam v�rias cartas ao mesmo tempo."
NOTA. Vimos um Esp�rito responder, servindo-se de dois m�diuns ao mesmo
tempo, �s perguntas que lhe eram dirigidas, por um em
366
CAP�TULO XXV

franc�s, por outro em ingl�s, sendo id�nticas as respostas quanto ao sentido; algumas
at� eram a tradu��o literal de outras.
Dois Esp�ritos, evocados simultaneamente por dois m�diuns, podem travar entre
si uma conversa��o. Sem que este modo de comunica��o lhes seja necess�rio, pois que
reciprocamente um l� os pensamentos do outro, eles se prestam a isso, algumas vezes,
para nossa instru��o. Se s�o Esp�ritos inferiores, como ainda est�o imbu�dos das paix�es
terrenas e das id�ias corp�reas, pode acontecer que disputem e se apostrofem com
palavras pesadas, que se reprochem mutuamente os erros e at� que atirem os l�pis, as
cestas, as pranchetas, etc., um contra o outro.

30� Pode o Esp�rito, simultaneamente evocado em muitos pontos, responder ao
mesmo tempo �s perguntas que lhe s�o dirigidas?
"Pode, se for um Esp�rito elevado."
a) Nesse caso, o Esp�rito se divide ou tem o dom da ubiq�idade?
"O Sol � um s� e, no entanto, irradia ao seu derredor, levando longe seus raios,
sem se dividir. Do mesmo modo, os Esp�ritos. O pensamento do Esp�rito � como uma
centelha que projeta longe a sua claridade e pode ser vista de todos os pontos do
horizonte. Quanto mais puro � o Esp�rito tanto mais o seu pensamento se irradia e se
estende, como a luz. Os Esp�ritos inferiores s�o muito materiais; n�o podem responder
sen�o a uma �nica pessoa de cada vez, nem vir a um lugar, se s�o chamados em outro.
"Um Esp�rito superior, chamado ao mesmo tempo em pontos diferentes,
responder� a ambas as evoca��es, se forem ambas s�rias e fervorosas. No caso
contr�rio, d� prefer�ncia � mais s�ria."
NOTA. � o que sucede com um homem que, sem mudar de lugar, pode
transmitir seu pensamento por meio de sinais percept�veis de diferentes lados.
Numa sess�o da Sociedade Parisiense de Estudos Esp�ritas, em a qual fora
discutida a quest�o da ubiq�idade, um Esp�rito ditou espontaneamente a comunica��o
seguinte:
"Inquir�eis esta noite qual a hierarquia dos Esp�ritos, no tocante � ubiq�idade.
Comparai-vos a um aer�stato que se eleva pouco a pouco
367
DAS EVOCA��ES

nos ares. Enquanto ele rasteja na terra, s� os que est�o dentro de um pequeno c�rculo o
podem perceber; � medida que se eleva, o c�rculo se lhe alarga e, em chegando a certa
altura, se torna vis�vel a uma infinidade de pessoas. � o que se d� conosco; um mau
Esp�rito, que ainda se acha preso � Terra, permanece num c�rculo restrito, entre as
pessoas que o v�em. Suba ele na gra�a, melhore-se e poder� conversar com muitas
pessoas. Quando se haja tornado Esp�rito superior, pode irradiar como a luz do Sol,
mostrar-se a muitas pessoas e em muitos lugares ao mesmo tempo." - CHANNING.

31� Podem ser evocados os puros Esp�ritos, os que h�o terminado a s�rie de suas
encarna��es?
"Podem, mas muito raramente atender�o. Eles s� se comunicam com os de
cora��o puro e sincero e n�o com os orgulhosos e ego�stas. Por isso mesmo, � preciso
desconfiar dos Esp�ritos inferiores que alardeiam essa qualidade, para se darem
import�ncia aos vossos olhos."

32� Como � que os Esp�ritos dos homens mais ilustres acodem t�o facilmente e
t�o familiarmente ao chamado dos homens mais obscuros?
"Os homens julgam por si os Esp�ritos, o que � um erro. Ap�s a morte do corpo,
as categorias terrenas deixam de existir. S� a bondade estabelece distin��o entre eles e
os que s�o bons v�o a toda parte onde haja um bem a fazer-se."

33� Quanto tempo deve decorrer, depois da morte, para que se possa evocar um
Esp�rito?
"Podeis faz�-lo no instante mesmo da morte; mas, como nesse momento o
Esp�rito ainda est� em perturba��o, s� muito imperfeitamente responde,"
NOTA. Sendo vari�vel o tempo que dura a perturba��o, n�o pode haver prazo
fixo para fazer-se a evoca��o. Entretanto, � raro que, ao cabo de oito dias, o Esp�rito j�
n�o tenha conhecimento do seu estado, para poder responder. Algumas vezes, isso lhe �
poss�vel dois ou tr�s dias depois da morte, em todos os casos se pode experimentar com
prud�ncia.

34� A evoca��o, no momento da morte, � mais penosa para o Esp�rito do que
algum tempo depois?
368
CAP�TULO XXV

"Algumas vezes. � como se vos arrancassem ao sono, antes que estiv�sseis
completamente acordados. Alguns h�, todavia, que de nenhum modo se contrariam com
isso e aos quais a evoca��o ato ajuda a sair da perturba��o."

35� Como pode o Esp�rito de uma crian�a, que morreu em tenra idade,
responder com conhecimento de causa, se, quando viva, ainda n�o tinha consci�ncia de
si mesma?
"A alma da crian�a � um Esp�rito ainda envolto nas faixas da mat�ria; por�m,
desprendido desta, goza de suas faculdades de Esp�rito, porquanto os Esp�ritos n�o t�m
idade, o que prova que o da crian�a j� viveu. Entretanto, at� que se ache completamente
desligado da mat�ria, pode conservar, na linguagem, tra�os do car�ter da crian�a."
NOTA. A influ�ncia corp�rea, que se faz sentir, por mais ou menos tempo,
sobre o Esp�rito da crian�a, igualmente � notada, �s vezes, no Esp�rito dos que
morreram em estado de loucura. O Esp�rito, em si mesmo, n�o � louco; sabe-se, por�m,
que certos Esp�ritos julgam, durante algum tempo, que ainda pertencem a este mundo.
N�o �, pois, de admirar que, no louco, o Esp�rito ainda se ressinta dos entraves que,
durante a vida, se opunham � livre manifesta��o de seus pensamentos, at� que se
encontre completamente desprendido da mat�ria, Este efeito varia, conforme as causas
da loucura, porquanto h� loucos que, logo depois da morte, recobram toda a sua
lucidez.

283. Evoca��o dos animais

36� Pode evocar-se o Esp�rito de um animal?
"Depois da morte do animal, o princ�pio inteligente que nele havia se acha em
estado latente e � logo utilizado, por certos Esp�ritos incumbidos disso, para animar
novos seres, em os quais continua ele a obra de sua elabora��o. Assim, no mundo dos
Esp�ritos, n�o h�, errantes, Esp�ritos de animais, por�m unicamente Esp�ritos humanos."
a) Como � ent�o que, tendo evocado animais, algumas pessoas h�o obtido
resposta?
"Evoca um rochedo e ele te responder�. H� sempre uma multid�o de Esp�ritos
prontos a tomar a palavra, sob qualquer pretexto."
369
DAS EVOCA��ES

NOTA. Pela mesma raz�o, se se evocar um mito, ou uma personagem aleg�rica,
ela responder�, isto �, responder�o por ela, e o Esp�rito que, como sendo ela, se
apresentar, lhe tomar� o car�ter e as maneiras. Algu�m teve um dia a id�ia de evocar
Tartufo e Tartufo veio logo. Mais ainda: falou de Orgon, de Elmira, de D�mide e de
Val�ria, de quem deu not�cias. Quanto a si pr�prio, imitou o hip�crita com tanta arte,
que se diria o pr�prio Tartufo, se este houvera existido. Disse mais tarde ser o Esp�rito
de um ator que desempenhara esse papel. Os Esp�ritos levianos se aproveitam sempre da
inexperi�ncia dos interrogantes; guardam-se, por�m, de dirigir-se aos que eles sabem
bastante esclarecidos para lhes descobrir as imposturas e que n�o lhes dariam cr�dito
aos contos. O mesmo sucede entre os homens.
Um senhor tinha em seu jardim um ninho de pintassilgos, pelos quais se
interessava muito. Certo dia, desapareceu o ninho. Tendo-se certificado de que ningu�m
da sua casa era culpado do delito, como fosse ele m�dium, teve a id�ia de evocar a m�e
das avezinhas. Ela veio e lhe disse em muito bom franc�s: "A ningu�m acuses e
tranq�iliza-te quanto � sorte de meus filhinhos; foi o gato que, saltando, derribou o
ninho; encontr�-lo-�s debaixo dos arbustos, assim como os passarinhos, que n�o foram
comidos." Feita a verifica��o, reconheceu ele exato o que lhe fora dito. Dever-se-�
concluir ter sido o p�ssaro quem respondeu? Certamente que n�o; mas, apenas, um
Esp�rito que conhecia a hist�ria. Isso prova quanto se deve desconfiar das apar�ncias e
quanto � preciosa a resposta acima: evoca um rochedo e ele te responder� (Veja-se atr�s
,
o cap�tulo Da Mediunidade nos animais n. 234.)

284. Evoca��o das pessoas vivas

37� A encarna��o do Esp�rito constitui obst�culo � sua evoca��o?
"N�o, mas � necess�rio que o estado do corpo permita que no momento da
evoca��o o Esp�rito se desprenda. Com tanto mais facilidade vem o Esp�rito encarnado,
quanto mais elevado for em categoria o mundo onde ele est�, porque menos materiais
s�o l� os corpos."

38� Pode evocar-se o Esp�rito de uma pessoa viva?
"Pode-se, visto que se pode evocar um Esp�rito encarnado. O Esp�rito de um
vivo tamb�m pode, em seus momentos de liberdade, se apresentar sem ser evocado; isto
depende da simpatia que tenha pelas pessoas com quem
370
CAP�TULO XXV

.)
se comunica." (Veja-se, em n. 116, a Hist�ria do homem da tabaqueira

39� Em que estado se acha o corpo da pessoa cujo Esp�rito � evocado?
"Dorme, ou cochila; � quando o Esp�rito est� livre,"
a) Poderia o corpo despertar enquanto o Esp�rito est� ausente?
"N�o; o Esp�rito � for�ado a reentrar na sua habita��o; se, no momento, ele
estiver confabulando convosco, deixa-vos e �s vezes diz por que motivo."

40� Como, estando ausente do corpo, o Esp�rito � avisado da necessidade da sua
presen�a?
"O Esp�rito jamais est� completamente separado do corpo vivo em que habita;
qualquer que seja a dist�ncia a que se transporte, a ele se conserva ligado por um la�o
flu�dico que serve para cham�-lo, quando se torne preciso. Esse la�o s� a morte o
rompe."
NOTA. Esse la�o flu�dico h� sido muitas vezes percebido por m�diuns videntes.
� uma esp�cie de cauda fosforescente que se perde no Espa�o e na dire��o do corpo.
Alguns Esp�ritos h�o dito que por a� � que reconhecem os que ainda se acham presos ao
mundo corporal.

41� Que sucederia se, durante o sono e na aus�ncia do Esp�rito, o corpo fosse
mortalmente ferido?
o
"O Esp�rito seria avisad e voltaria antes que a morte se consumasse."
a) Assim, n�o poder� dar-se que o corpo morra na aus�ncia do Esp�rito e que
este, ao voltar, n�o possa entrar?
"N�o; seria contr�rio � lei que rege a uni�o da alma e do corpo."
b) Mas, se o golpe for dado subitamente e de improviso?
"O Esp�rito ser� prevenido antes que o golpe mortal seja vibrado."
NOTA. Interrogado sobre este fato, respondeu o Esp�rito de um vivo: "Se o
corpo pudesse morrer na aus�ncia do Esp�rito, este seria um meio muito c�modo de se
cometerem suic�dios hip�critas."
371
DAS EVOCA��ES

42� O Esp�rito de uma pessoa evocada durante o sono � t�o livre de se
comunicar como o de uma pessoa morta?
"N�o; a mat�ria sempre o influencia mais ou menos."
NOTA. Uma pessoa, que se achava nesse estado e a quem foi feita essa
pergunta, respondeu: Estou sempre ligada � grilheta que arrasto comigo.
a) Nesse estado, poderia o Esp�rito ser impedido de vir, por se achar em outra
parte?
"Sim, pode acontecer que o Esp�rito esteja num lugar onde lhe apraza
permanecer e ent�o n�o acode � evoca��o, sobretudo quando feita por quem n�o o
interesse."

43� � absolutamente imposs�vel evocar-se o Esp�rito de uma pessoa acordada?
"Ainda que dif�cil, n�o � absolutamente imposs�vel, porquanto, se a evoca��o
produz efeito, pode dar-se que a pessoa adorme�a; mas, o Esp�rito n�o pode comunicar-
se, como Esp�rito, sen�o nos momentos em que a sua presen�a n�o � necess�ria �
atividade inteligente do corpo."
NOTA. A experi�ncia prova que a evoca��o feita durante o estado de vig�lia
pode provocar o sono, ou, pelo menos, um torpor aproximado do sono, mas semelhante
efeito n�o se pode produzir sen�o por ato de uma vontade muito en�rgica e se existirem
la�os de simpatia entre as duas pessoas; de outro modo, a evoca��o nenhum resultado
d�. Mesmo no caso de a evoca��o poder provocar o sono, se o momento � inoportuno,
a pessoa, n�o querendo dormir, opor� resist�ncia e, se sucumbir, seu Esp�rito ficar�
perturbado e dificilmente responder�. Segue-se da� que o momento mais favor�vel para
a evoca��o de uma pessoa viva � o do sono natural, porque, estando livre, seu Esp�rito
pode vir ter com aquele que o chama, do mesmo modo que poder� ir algures.
Quando a evoca��o � feita com consentimento da pessoa e esta procura dormir
para esse efeito, pode acontecer que essa preocupa��o retarde o sono e perturbe o
Esp�rito. Por isso, o sono n�o for�ado � sempre prefer�vel.

44� Evocada, uma pessoa viva conserva a lembran�a da evoca��o, depois de
despertar?
372
CAP�TULO XXV

"N�o; v�s mesmos o sois mais freq�entemente do que pensais. S� o Esp�rito o
sabe, podendo �s vezes deixar do fato uma impress�o vaga, qual a de um sonho."
a) Quem pode evocar-nos, sendo n�s, como somos, seres obscuros?
"Pode suceder que em outras exist�ncias tenhais sido pessoas conhecidas nesse
mundo, ou em outros. Podem faz�-lo igualmente vossos parentes e amigos nesse
mundo, ou em outros. Suponhamos que teu Esp�rito tenha animado o corpo do pai de
outra pessoa. Pois bem, quando essa pessoa evocar seu pai, � teu Esp�rito que ser�
evocado e quem responder�."

45� Evocado o Esp�rito de uma pessoa viva, responde ele como Esp�rito, ou
com as id�ias que tem no estado de vig�lia?
"Isso depende da sua eleva��o; por�m, sempre julga com mais pondera��o e tem
menos preju�zos, exatamente como os son�mbulos; � um estado quase semelhante."

46� Se fosse evocado no estado de sono magn�tico, o Esp�rito de um son�mbulo
seria mais l�cido do que o de qualquer outra pessoa?
"Responderia sem d�vida mais facilmente, por estar mais desprendido; tudo
decorre do grau de independ�ncia do Esp�rito com rela��o ao corpo."
a) Poderia o Esp�rito de um son�mbulo responder a uma pessoa que o evocasse
a dist�ncia, ao mesmo tempo que respondesse verbalmente a outra pessoa?
"A faculdade de se comunicar simultaneamente em dois pontos diferentes s� a
t�m os Esp�ritos completamente desprendidos da mat�ria."

47� Poder-se-iam modificar as id�ias de uma pessoa em estado de vig�lia,
atuando-se sobre o seu Esp�rito durante o sono?
"Algumas vezes, ser� poss�vel. N�o estando o Esp�rito ent�o preso � mat�ria por
la�os t�o estreitos, mais acess�vel se acha �s impress�es morais e essas impress�es
podem influir sobre a sua maneira de ver no estado ordin�rio. Infelizmente, acontece
com freq��ncia que, ao desper-
373
DAS EVOCA��ES

tar ele, a natureza corp�rea predomina e lhe faz esquecer as boas resolu��es que haja
tomado."

48� E livre, o Esp�rito de uma pessoa viva, de dizer o que queira?
"Ele tem suas faculdades de Esp�rito e, por conseguinte, seu livre-arb�trio; e,
como ent�o disp�e de mais perspic�cia, se mostra mais circunspecto do que no estado
de vig�lia."

49� Poder-se-ia, evocando-a, constranger uma pessoa a dizer o que quisesse
calar?
"Eu disse que o Esp�rito tem o seu livre-arb�trio; pode, por�m, dar-se que, como
Esp�rito, a pessoa ligue menos import�ncia a certas coisas do que no estado ordin�rio,
podendo ent�o sua consci�ncia falar mais livremente. Demais, se ela n�o quiser falar,
poder� sempre fugir �s importuna��es, indo-se o seu Esp�rito embora, porquanto
ningu�m pode reter um Esp�rito, como se lhe ret�m o corpo."

50� Poderia o Esp�rito de uma pessoa viva ser constrangido, por outro Esp�rito,
a vir e falar, como se d� com os Esp�ritos errantes?
"Entre os Esp�ritos, sejam de mortos, ou de vivos, n�o h� supremacia sen�o por
efeito da superioridade moral e bem deves compreender que um Esp�rito superior jamais
prestaria apoio a uma covarde indiscri��o."
NOTA. Este abuso de confian�a seria, efetivamente, uma a��o m�, mas que
nenhum resultado poderia produzir, pois que n�o h� meio de arrancar-se um segredo ao
Esp�rito que o queira guardar, a menos que, dominado por um sentimento de justi�a,
confessasse o que em outras circunst�ncias calaria.
Uma pessoa quis saber, por esse modo, de um de seus parentes, se o testamento
que por este fora feito era a seu favor. O Esp�rito respondeu: "Sim, minha cara sobrinha,
e ter�s em breve a prova. "A coisa era, de fato, real; mas, poucos dias depois, o parente
destruiu seu testamento e teve a mal�cia de fazer disso ciente a pessoa, sem que,
entretanto, haja sabido que esta o evocara. Um sentimento instintivo o levou sem d�vida
a executar a resolu��o que seu Esp�rito tomara, de acordo com a pergunta que lhe fora
feita. H� covardia em perguntar-se
374
CAP�TULO XXV

ao Esp�rito de um morto ou de um vivo o que se n�o ousaria perguntar � sua pessoa,
covardia essa que nem mesmo tem, por compensa��o, o resultado que se pretende.

51� Pode evocar-se um Esp�rito cujo corpo ainda se ache no seio materno?
"N�o; bem sabes que nesse momento o Esp�rito est� em completa perturba��o."
NOTA. A encarna��o n�o se torna definitiva sen�o no momento em que a
crian�a respira; por�m, desde a concep��o do corpo, o Esp�rito designado para anim�-lo
� presa de uma perturba��o que aumenta � medida que o nascimento se aproxima e lhe
tira a consci�ncia de si mesmo e, por conseguinte, a faculdade de responder. (Veja-se: O
Livro dos Esp�ritos: "Da volta do Esp�rito � vida corporal. - Uni�o da alma e do
corpo", n� 344.)

52� Poderia um Esp�rito mistificador tomar o lugar de uma pessoa viva que se
evocasse?
"E fora de d�vida que sim e isso acontece freq�entemente, sobretudo quando
n�o � pura a inten��o do evocador. Em suma, a evoca��o das pessoas vivas s� tem
interesse como estudo psicol�gico. Conv�m que dela vos abstenhais sempre que n�o
possa ter um resultado instrutivo."
NOTA. Se a evoca��o dos Esp�ritos errantes nem sempre d� resultado,
conforme express�o usada por eles, muito mais freq�ente � que assim aconte�a com a
dos que est�o encarnados. Ent�o, sobretudo, � que os Esp�ritos mistificadores se
apresentam, em lugar dos evocados.

53� Tem inconvenientes a evoca��o de uma pessoa viva?
"Nem sempre � sem perigo, dependendo isso das condi��es em que se ache a
pessoa, porquanto, se estiver doente, poder� aumentar-lhe os sofrimentos."

54� Em que caso ser� mais inconveniente a evoca��o de uma pessoa viva?
"N�o devem evocar-se as crian�as de tenra idade, nem as pessoas gravemente
doentes, nem, ainda, os velhos enfermos. Numa palavra, ela pode ter inconvenientes
todas as vezes que o corpo esteja muito enfraquecido."
375
DAS EVOCA��ES

NOTA. A brusca suspens�o das qualidades intelectuais, durante o estado de
vig�lia, tamb�m poderia oferecer perigo, se a pessoa nesse momento precisasse de toda a
sua presen�a de Esp�rito.

55� Durante a evoca��o de uma pessoa viva, seu corpo, embora ausente,
experimenta fadiga por efeito do trabalho a que se entrega seu Esp�rito?
Uma pessoa, que se encontrava nesse estado e que pretendia que seu corpo se
fatigava, respondeu assim a essa pergunta:
"Meu Esp�rito � como um bal�o cativo preso a um poste; meu corpo � o poste,
que as oscila��es do bal�o sacodem."

56�. Pois que a evoca��o das pessoas vivas pode ter inconvenientes, quando
feitas sem precau��o, deixa de existir perigo quando se evoca um Esp�rito que n�o se
sabe se est� encarnado e que poderia n�o se encontrar em condi��es favor�veis?
"N�o, as circunst�ncias n�o s�o as mesmas, Ele s� vir�, se estiver em condi��es
de faz�-lo. Ali�s, eu j� n�o vos disse que pergunt�sseis, antes de fazer uma evoca��o, se
ela � poss�vel?"

57� Quando, nos momentos mais inoportunos, experimentamos irresist�vel
vontade de dormir, provir� isso de estarmos sendo evocados nalguma parte?
"Pode, sem d�vida, acontecer que assim seja; por�m, as mais das vezes, n�o h�
nisso sen�o um efeito f�sico, quer porque o corpo tenha necessidade de repouso, quer
porque o Esp�rito precise da sua liberdade."
NOTA. Uma senhora de nosso conhecimento, m�dium, teve um dia a id�ia de
evocar o Esp�rito de seu neto, que dormia no mesmo quarto. A identidade foi
comprovada pela linguagem, pelas express�es habituais da crian�a e pela narra��o
exat�ssima de muitas coisas que lhe tinham sucedido no col�gio; mas, ainda uma
circunst�ncia a veio confirmar. De repente, a m�o da m�dium p�ra em meio de uma
frase, sem que seja poss�vel obter-se mais coisa alguma. Nesse momento, a crian�a,
meio despertada, fez diversos movimentos na sua cama. Alguns instantes depois, tendo
novamente adormecido, a m�o da m�dium come�ou
376
CAP�TULO XXV

a mover-se outra vez, continuando a conversa interrompida. A evoca��o das pessoas
vivas, feita em boas condi��es, prova, da maneira menos contest�vel, a a��o do Esp�rito
distinta da do corpo e, por conseguinte, a exist�ncia de um princ�pio inteligente
independente da mat�ria. (Veja-se, na Revue Spirite de 1860, p�ginas 11 e 81, muitos
exemplos not�veis de evoca��o de pessoas vivas.)

285. Telegrafia humana

58� Evocando-se reciprocamente, poderiam duas pessoas transmitir de uma a
outra seus pensamentos e corresponder-se?
"Certamente, e essa telegrafia humana ser� um dia um meio universal de
correspond�ncia ."
a) Por que n�o ser� praticada desde j�?
"� pratic�vel para certas pessoas, mas n�o para toda gente. Preciso � que os
homens se depurem, a fim de que seus Esp�ritos se desprendam da mat�ria e isso
constitui uma raz�o a mais para que a evoca��o se fa�a em nome de Deus. At� l�,
continuar� circunscrita �s almas de escol e desmaterializadas, o que raramente se
encontra nesse mundo, dado o estado dos habitantes da Terra."
377




CAP�TULO XXVI

DAS PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER
AOS ESP�RITOS

Observa��es preliminares. - Perguntas simp�ticas ou antip�ticas aos Esp�ritos.
- Perguntas sobre o futuro. - Sobre as exist�ncias passadas e vindouras. - Sobre
interesses morais e materiais. - Sobre a sorte dos Esp�ritos. - Sobre a sa�de. - Sobre as
inven��es e descobertas. - Sobre os tesouros ocultos. - Sobre os outros mundos.

Observa��es preliminares

286. Nunca ser� excessiva a import�ncia que se d� � maneira de formular as
perguntas e, ainda mais, � natureza das perguntas. Duas coisas se devem considerar nas
que se dirigem aos Esp�ritos: a forma e o fundo. Pelo que toca � forma, devem ser
redigidas com clareza e precis�o, evitando as quest�es complexas. Mas, outro ponto h�
n�o menos importante: a ordem que deve presidir � disposi��o das perguntas. Quando
um assunto reclama
378
CAP�TULO XXVI

uma s�rie delas, � essencial que se encadeiem com m�todo, de modo a decorrerem
naturalmente umas das outras. Os Esp�ritos, nesse caso, respondem muito mais
facilmente e mais claramente, do que quando elas se sucedem ao acaso, passando, sem
transi��o, de um assunto para outro. Esta a raz�o por que � sempre muito conveniente
prepar�-las de antem�o, salvo o direito de, durante a sess�o, intercalar as que as
circunst�ncias tornem necess�rias. Al�m de que a reda��o ser� melhor, quando feita
pr�via e descansadamente, esse trabalho preparat�rio constitui, como j� o dissemos,
uma esp�cie de evoca��o antecipada, a que pode o Esp�rito ter assistido e que o disp�e
a responder. E de notar-se que muito freq�entemente o Esp�rito responde por
antecipa��o a algumas perguntas, o que prova que j� as conhecia.
O fundo da quest�o exige aten��o ainda mais s�ria, porquanto �, muitas vezes, a
natureza da pergunta que provoca uma resposta exata ou falsa. Algumas h� a que os
Esp�ritos n�o podem ou n�o devem responder, por motivos que desconhecemos. Ser�,
pois, in�til insistir. Por�m, o que sobretudo se deve evitar s�o as perguntas feitas com o
fim de lhes p�r � prova a perspic�cia. Quando uma coisa existe, dizem, eles a devem
saber. Ora, precisamente porque conheceis a coisa, ou porque tendes os meios de
verific�-la, � que eles n�o se d�o ao trabalho de responder. Essa suspeita os agasta e
nada se obt�m de satisfat�rio. N�o temos todos os dias exemplos disso entre n�s,
criaturas humanas? Homens superiores, conscientes do seu valor, gostariam de
responder a todas as perguntas tolas, que objetivassem submet�-los a um exame, como
se foram estudantes? O desejo de fazer-se de tal ou tal pessoa um adepto n�o constitui,
para os Esp�ritos, motivo de atenderem a uma v� curiosidade. Eles sabem que a
convic��o vir�, cedo ou tarde, e os meios que empregam para produzi-la nem sempre
s�o os que supomos melhores.
Imaginai um homem grave, ocupado em coisas �teis e s�rias, incessantemente
importunado pelas perguntas pueris de uma crian�a e tereis id�ia do que devem pensar
379
PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER AOS ESP�RITOS

os Esp�ritos superiores de todas as futilidades que se lhes perguntam.
N�o se segue da� que dos Esp�ritos n�o se possam obter �teis esclarecimentos e,
sobretudo, bons conselhos; eles, por�m, respondem mais ou menos bem, conforme os
conhecimentos que possuem, o interesse que nos t�m, a afei��o que nos dedicam e,
finalmente, o fim a que nos propomos e a utilidade que vejam no que lhes pedimos. Se,
entretanto, os inquirimos unicamente porque os julgamos mais capazes do que outros de
nos esclarecerem melhor sobre as coisas deste mundo, claro � que n�o nos poder�o
dispensar grande simpatia. Nesse caso, curtas ser�o suas apari��es e, muitas vezes,
conforme o grau da imperfei��o de que ainda se ressintam, manifestar�o mau-humor,
por terem sido inutilmente incomodados.

287. Pensam algumas pessoas ser prefer�vel que todos se abstenham de formular
perguntas e que conv�m esperar o ensino dos Esp�ritos, sem o provocar. E um erro. Os
Esp�ritos d�o, n�o h� d�vida, instru��es espont�neas de alto alcance e que err�neo seria
desprezar-se. Mas, explica��es h� que freq�entemente se teriam de esperar longo
tempo, se n�o fossem solicitadas. Sem as quest�es que propusemos, O Livro dos
Esp�ritos e O Livro dos M�diuns ainda estariam por fazer-se, ou, pelo menos, muito
incompletos e sem solu��o uma imensidade de problemas de grande import�ncia. As
quest�es, longe de terem qualquer inconveniente, s�o de grand�ssima utilidade, do ponto
de vista da instru��o, quando quem as prop�e sabe encerr�-las nos devidos limites.
T�m ainda outra vantagem: a de concorrerem para o desmascaramento dos
Esp�ritos mistificadores que, mais pretensiosos do que s�bios, raramente suportam a
prova das perguntas feitas com cerrada l�gica, por meio das quais o interrogante os leva
aos seus �ltimos redutos. Os Esp�ritos superiores, como nada t�m que temer de
semelhante question�rio, s�o os primeiros a provocar explica��es, sobre os pontos
obscuros. Os outros, ao contr�rio,
380
CAP�TULO XXVI

receando ter que se haver com antagonistas mais fortes, cuidadosamente as evitam. Por
isso mesmo, em geral, recomendam aos m�diuns, que eles desejam dominar, e aos quais
querem impor suas utopias, se abstenham de toda controv�rsia a prop�sito de seus
ensinos.
Quem haja compreendido bem o que at� aqui temos dito nesta obra, j� pode
fazer id�ia do c�rculo em que conv�m se encerrem as perguntas a serem dirigidas aos
Esp�ritos. Todavia, para maior seguran�a, inserimos abaixo as respostas que eles nos
deram acerca dos assuntos principais sobre que as pessoas pouco experientes se
mostram em geral dispostas a interrog�-los.

288. Perguntas simp�ticas ou antip�ticas aos Esp�ritos

1� Os Esp�ritos respondem de boa-vontade �s perguntas que lhes s�o dirigidas?
"Conforme as perguntas. Os Esp�ritos s�rios sempre respondem com prazer �s
que t�m por objetivo o bem e os meios de progredirdes. N�o atendem �s f�teis."

2� Basta que uma pergunta seja s�ria para obter uma resposta s�ria?
"N�o; isso depende do Esp�rito que responde."
a) Mas, uma pergunta s�ria n�o afasta os Esp�ritos levianos?
"N�o � a pergunta que afasta os Esp�ritos levianos, o car�ter daquele que a
formula."

3� Quais as per guntas com que mais antipatizam os bons Esp�ritos?
"Todas as que sejam in�teis, ou feitas por pura curiosidade e para experiment�-
los. Nesses casos, n�o respondem e se afastam."
a) Haver� quest�es que sejam antip�ticas aos Esp�ritos imperfeitos?
"Unicamente as que possam p�r-lhes de manifesto a ignor�ncia ou o embuste,
quando procuram enganar; a n�o ser isso, respondem a tudo, sem se preocuparem com a
verdade."
381
PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER AOS ESP�RITOS

4� Que se deve pensar das pessoas que nas manifesta��es esp�ritas apenas v�em
uma distra��o e um passatempo, ou um meio de obterem revela��es sobre o que as
interessa?
"Essas pessoas agradam muito aos Esp�ritos inferiores que, do mesmo modo que
elas, gostam de divertir-se e rejubilam quando as t�m mistificado."

5� Quando os Esp�ritos n�o respondem a certas perguntas, ser� por que o n�o
queiram, ou por que uma for�a superior se op�e a certas revela��es?
"Por ambas essas causas. H� coisas que n�o podem ser reveladas e outras que o
pr�prio Esp�rito n�o conhece."
a) Insistindo-se fortemente, o Esp�rito acabaria respondendo?
"N�o; o Esp�rito que n�o quer responder tem sempre a facilidade de se ir
embora. Por isso � que se toma necess�rio espereis, quando se vos diz que o fa�ais, e,
sobretudo, n�o vos obstineis em querer for�ar-nos a responder. Insistir, para obter uma
resposta que se n�o quer dar, � um meio certo de ser enganado."

6� Todos os Esp�ritos s�o aptos a compreender as quest�es que se lhes
proponham?
"Muito ao contrario: os Esp�ritos inferiores s�o incapazes de compreender certas
quest�es, o que n�o impede respondam bem ou mal, como sucede entre v�s mesmos."
NOTA. Nalguns casos e quando seja conveniente, sucede com freq��ncia que
um Esp�rito esclarecido vem em aux�lio do Esp�rito ignorante e lhe sopra o que deva
dizer. Isso se reconhece facilmente pelo contraste de certas respostas e al�m do mais,
porque o pr�prio Esp�rito quase sempre o diz. O fato, entretanto, s� ocorre com os
Esp�ritos ignorantes, mas de boa f�; nunca com os que fazem alarde de falso saber.

289. Perguntas sobre o futuro

7� Podem os Esp�ritos dar-nos a conhecer o futuro?
"Se o homem conhecesse o futuro, descuidar-se-ia do presente.
382
CAP�TULO XXVI

"� esse ainda um ponto sobre o qual insistis sempre, no desejo de obter uma
resposta precisa. Grande erro h� nisso, porquanto a manifesta��o dos Esp�ritos n�o �
um meio de adivinha��o. Se fizerdes quest�o absoluta de uma resposta, receb�-la-eis de
um Esp�rito doidivanas, temo-lo dito a todo momento." (Veja-se O Livro dos Esp�ritos -
"Conhecimento do futuro", n. 868.)

8� N�o � certo, entretanto, que, �s vezes, alguns acontecimentos futuros s�o
anunciados espontaneamente e com verdade pelos Esp�ritos?
"Pode dar-se que o Esp�rito preveja coisas que julgue conveniente revelar, ou
que ele tem por miss�o tornar conhecidas; por�m, nesse terreno, ainda s�o mais de
temer os Esp�ritos enganadores, que se divertem em fazer previs�es. S� o conjunto das
circunst�ncias permite se verifique o grau de confian�a que elas merecem."

9� De que g�nero s�o as previs�es de que mais se deve desconfiar?
"Todas as que n�o tiverem um fim de utilidade geral. As predi��es pessoais
podem quase sempre ser consideradas ap�crifas."

10� Que fim visam os Esp�ritos que anunciam acontecimentos que se n�o
realizam?
"Fazem-no as mais das vezes para se divertirem com a credulidade, o terror, ou a
alegria que provocam; depois, riem-se do desapontamento. Essas predi��es mentirosas
trazem, no entanto, algumas vezes, um fim s�rio, qual o de p�r � prova aquele a quem
s�o feitas, mediante uma aprecia��o da maneira por que toma o que lhe � dito e dos
sentimentos bons ou maus que isso lhe desperta."
NOTA. � o que se daria, por exemplo, com a predi��o do que possa lisonjear a
vaidade, ou a ambi��o, como a morte de uma pessoa, a perspectiva de uma heran�a, etc.

11� Por que, quando fazem pressentir um acontecimento, os Esp�ritos s�rios de
ordin�rio n�o determinam a data? Ser� porque o n�o possam, ou porque n�o queiram?
383
PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER AOS ESP�RITOS

"Por uma e outra coisa. Eles podem, em certos casos, fazer que um
acontecimento seja pressentido: nessa hip�tese, � um aviso que vos d�o. Quanto a
precisar-lhe a �poca, � freq�ente n�o o deverem fazer. Tamb�m sucede com freq��ncia
n�o o poderem, por n�o o saberem eles pr�prios. Pode o Esp�rito prever que um fato se
dar�, mas o momento exato pode depender de acontecimentos que ainda se n�o
verificaram e que s� Deus conhece. Os Esp�ritos levianos, que n�o escrupulizam de vos
enganar, esses determinam os dias e as horas, sem se preocuparem com que o fato
predito ocorra ou n�o. Por isso � que toda predi��o circunstanciada vos deve ser
suspeita.
"Ainda uma vez: a nossa miss�o consiste em fazer-vos progredir; para isso vos
auxiliamos tanto quanto podemos. Jamais ser� enganado aquele que aos Esp�ritos
superiores pedir a sabedoria; n�o acrediteis, por�m, que percamos o nosso tempo em
ouvir as vossas futilidades e em vos predizer a boa fortuna. Deixamos esse encargo aos
Esp�ritos levianos, que com isso se divertem, como crian�as travessas.
"A Provid�ncia p�s limite �s revela��es que podem ser feitas ao homem. Os
Esp�ritos s�rios guardam sil�ncio sobre tudo aquilo que lhes � defeso revelarem. Aquele
que insista por uma resposta se exp�e aos embustes dos Esp�ritos inferiores, sempre
prontos a se aproveitarem das ocasi�es que tenham de armar la�os � vossa credulidade."
NOTA. Os Esp�ritos v�em, ou pressentem, por indu��o, os acontecimentos
futuros; v�em-nos a se realizarem num tempo que eles n�o medem como n�s. Para que
lhes determinassem a �poca, seria mister que se identificassem com a nossa maneira de
calcular a dura��o, o que nem sempre consideram necess�rio. Da�, n�o raro, uma causa
de erros aparentes.

12� N�o h� homens dotados de uma faculdade especial, que os faz entrever o
futuro?
"H�, sim, aqueles cuja alma se desprende da mat�ria. Ent�o, � o Esp�rito que v�.
E, quando � conveniente, Deus lhes permite revelarem certas coisas, para o bem.
384
CAP�TULO XXVI

Todavia, mesmo entre esses, s�o em maior n�mero os impostores e os charlat�es. Nos
tempos vindouros, essa faculdade se tornar� mais comum."

13� Que pensar dos Esp�ritos que gostam de predizer a algu�m o dia e hora certa
em que morrer�?
"S�o Esp�ritos de mau gosto, de muito mau gosto mesmo, que outro fim n�o
t�m, sen�o gozar com o medo que causam. Ningu�m se deve preocupar com isso."

14� Como � ent�o que certas pessoas s�o avisadas, por pressentimento, da �poca
em que morrer�o?
"As mais das vezes, � o pr�prio Esp�rito delas que vem a saber disso em seus
momentos de liberdade e guardam, ao despertar, a intui��o do que entrevia. Essas
pessoas, por estarem preparadas para isso, n�o se amedrontam, nem se emocionam. N�o
v�em nessa separa��o da alma e do corpo mais do que uma mudan�a de situa��o, ou, se
o preferirdes e para usarmos de uma linguagem mais vulgar, a troca de uma veste de
pano grosseiro por uma de seda. O temor da morte ir� diminuindo, � medida que as
cren�as esp�ritas se forem dilatando."

290. Perguntas sobre as exist�ncias passadas e futuras

15� Podem os Esp�ritos dar-nos a conhecer as nossas exist�ncias passadas?
"Deus algumas vezes permite que elas vos sejam reveladas, conforme o objetivo.
Se for para vossa edifica��o e instru��o, as revela��es ser�o verdadeiras e, nesse caso,
feitas quase sempre espontaneamente e de modo inteiramente imprevisto. Ele, por�m,
n�o o permite nunca para satisfa��o de v� curiosidade."
a) Por que � que alguns Esp�ritos nunca se recusam a fazer esta esp�cie de
revela��es?
"S�o Esp�ritos brincalh�es, que se divertem � vossa custa. Em geral, deveis
considerar falsas, ou, pelo menos, suspeitas, todas as revela��es desta natureza que n�o
tenham um fim eminentemente s�rio e �til. Aos Esp�ritos
385
PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER AOS ESP�RITOS

zombeteiros apraz lisonjear o amor-pr�prio, por meio de pretendidas origens, H�
m�diuns e crentes que aceitam como boa moeda o que lhes � dito a esse respeito e que
n�o v�em que o estado atual de seus Esp�ritos em nada justifica a categoria que
pretendem ter ocupado. Vaidadezinha que serve de divertimento aos Esp�ritos
brincalh�es, tanto quanto para os homens. Fora mais l�gico e mais consent�neo com a
marcha progressiva dos seres que tais pessoas houvessem subido, em vez de terem
descido, o que, sem d�vida, lhes seria mais honroso. Para que se pudesse dar cr�dito a
essa esp�cie de revela��es, necess�rio seria que fossem feitas espontaneamente, por
diversos m�diuns estranhos uns aos outros e ao que anteriormente j� fora revelado.
Ent�o, sim, raz�o evidente haveria para crer-se.
b) Assim como n�o podemos conhecer a nossa individualidade anterior, segue-se
que tamb�m nada podemos saber do g�nero de exist�ncia que tivemos, da posi��o social
que ocupamos, das virtudes e dos defeitos que em n�s predominaram?
"N�o, isso pode ser revelado, porque dessas revela��es podeis tirar proveito
para vos melhorardes. Ali�s, estudando o vosso presente, podeis v�s mesmos deduzir o
vosso passado." (Veja-se:O Livro dos Esp�ritos,"Esquecimento do passado", n. 392.)

16� Alguma coisa nos pode ser revelada sobre as nossas exist�ncias futuras?
"N�o; tudo o que a tal respeito vos disserem alguns Esp�ritos n�o passar� de
gracejo e isso se compreende: a vossa exist�ncia futura n�o pode ser de antem�o
determinada, pois que ser� conforme a preparardes pelo vosso proceder na Terra e pelas
resolu��es que tomardes quando fordes Esp�ritos. Quanto menos tiverdes que expiar
tanto mais ditosa ser� ela. Saber, por�m, onde e como transcorrer� essa exist�ncia,
repetimo-lo, � imposs�vel, salvo o caso especial e raro dos Esp�ritos que s� est�o na
Terra para desempenhar uma miss�o importante, porque ent�o
386
CAP�TULO XXVI

o caminho se lhes acha, de certo modo, tra�ado previamente."

291. Perguntas sobre os interesses morais e materiais

17� Podem pedir-se conselhos aos Esp�ritos?
"Certamente. Os bons Esp�ritos jamais recusam aux�lio aos que os invocam com
confian�a, principalmente no que concerne � alma. Repelem, por�m, os hip�critas, os
.
que simulam pedir a luz e se comprazem nas trevas "

18� Podem os Esp�ritos dar conselhos sobre coisas de interesse privado?
"Algumas vezes, conforme o motivo. Isso tamb�m depende daqueles a quem tais
conselhos s�o pedidos. Os que se relacionam com a vida privada s�o dados com mais
exatid�o pelos Esp�ritos familiares, que s�o os que se acham mais ligados � pessoa que
os pede e se interessam pelo que lhes diz respeito; � o amigo, 'o confidente dos vossos
mais secretos pensamentos. Mas, � t�o freq�ente os cansardes com perguntas banais,
que eles vos deixam. T�o absurdo fora perguntardes, sobre coisas �ntimas, Esp�ritos que
vos s�o estranhos, como seria o vos dirigirdes, para isso, ao primeiro indiv�duo que
encontr�sseis no vosso caminho. Jamais dever�eis esquecer que a puerilidade das
perguntas � incompat�vel com a superioridade dos Esp�ritos. Preciso igualmente � leveis
em conta as qualidades do Esp�rito familiar, que pode ser bom, ou mau, conforme suas
simpatias pela pessoa a quem se ligue. O Esp�rito familiar de um homem mau � mau
Esp�rito, cujos conselhos podem ser perniciosos, mas que se afasta e cede o lugar a um
Esp�rito melhor, se o pr�prio homem se melhora. Unem-se os que se assemelham,"

19� Podem os Esp�ritos familiares favorecer os interesses materiais por meio de
revela��es?
"Podem e algumas vezes o fazem, de acordo com as circunst�ncias; mas, ficai
certos de que os bons Esp�ritos
387
PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER AOS ESP�RITOS

nunca se prestam a servir � cupidez. Os maus vos fazem brilhar diante dos olhos mil
atrativos, a fim de vos espica�arem e, depois, mistificarem, pela decep��o. Ficai tamb�m
sabendo que, se � da vossa prova passar por tal ou tal vicissitude, os vossos Esp�rito5
protetores poder�o ajudar-vos a suport�-la com mais resigna��o, poder�o mesmo, �s
vezes, suaviz�-la; mas, no pr�prio interesse do vosso futuro, n�o lhes � l�cito isentar-vos
dela. Um bom pai n�o concede ao filho tudo o que este deseja."
NOTA. Os nossos Esp�ritos protetores podem, em muitas circunst�ncias,
indicar-nos o melhor caminho, sem, entretanto, nos conduzirem pela m�o, porque, se
assim fizessem, perder�amos o m�rito da iniciativa e n�o ousar�amos dar um passo sem a
eles recorrermos, com preju�zo do nosso aperfei�oamento. Para progredir, precisa o
homem, muitas vezes, adquirir experi�ncia � sua pr�pria custa. Por isso � que os
Esp�ritos ponderados nos aconselham, mas quase sempre nos deixam entregues �s
nossas pr�prias for�as, como faz o educador h�bil, com seus alunos. Nas circunst�ncias
ordin�rias da vida, eles nos aconselham pela inspira��o, deixando-nos assim todo o
m�rito do bem que fa�amos, como toda a responsabilidade do mal que pratiquemos.
Fora abusar da condescend�ncia dos Esp�ritos familiares e equivocar-se quanto �
miss�o que lhes cabe o interrog�-los a cada instante sobre as coisas mais vulgares, como
o fazem certos m�diuns. Alguns h� que, por um sim, por um n�o, tomam o l�pis e
podem conselho para o ato mais simples. Esta mania denota pequenez nas id�ias, ao
mesmo tempo que a presun��o de supor, quem quer que seja, que tem sempre um
Esp�rito servidor �s suas ordens, sem outra coisa mais a fazer sen�o cuidar dele e dos
seus m�nimos interesses. Al�m disso, quem assim procede aniquila o seu pr�prio ju�zo e
se reduz a um papel passivo, sem utilidade para a vida presente e indubitavelmente
prejudicial ao adiantamento futuro. Se h� puerilidade em interrogarmos os Esp�ritos
sobre coisas f�teis, menos puerilidade n�o h� da parte dos Esp�ritos que se ocupam
espontaneamente com o que se pode chamar - neg�cios caseiros. Em tal caso, eles
poder�o ser bons, mas, inquestionavelmente, ainda s�o muito terrestres.

20� Se uma pessoa, ao morrer, deixar embara�ados seus neg�cios, poder-se-�
pedir a seu Esp�rito que ajude a desembara��-los? Poder-se-� tamb�m interrog�-lo sobre
388
CAP�TULO XXVI

o quanto dos haveres que deixou, dado o caso de se n�o conhecer esse quanto, desde
que isso se fa�a no interesse da justi�a?
"Esqueceis que a morte � a liberta��o dos cuidados terrenos. Julgais ent�o que o
Esp�rito, ditoso com a liberdade de que goza, venha de boa-vontade retomar a cadeia de
que se livrou e ocupar-se com coisas que j� n�o o interessam, apenas para satisfazer �
cupidez de seus herdeiros, que talvez hajam rejubilado com a sua morte, na esperan�a de
que lhes fosse ela proveitosa? Falais de justi�a; mas, a justi�a, para esses herdeiros, est�
na decep��o que lhes sofre a cobi�a. E o come�o das puni��es que Deus lhes reserva �
avidez dos bens da Terra. Demais, os embara�os em que �s vezes a morte de uma
pessoa deixa seus herdeiros, fazem parte das provas da vida, e no poder de nenhum
Esp�rito est� o libertar-vos delas, porque se acham compreendidas nos decretos de
Deus."
NOTA. A resposta acima desapontar� sem d�vida os que imaginam que os
Esp�ritos nada de melhor tem a fazer do que nos servirem de auxiliares clarividentes e
nos ajudarem, n�o a subirmos para o C�u, mas a nos prendermos � Terra. Outra
considera��o vem em apoio dessa resposta. Se um homem, por inc�ria durante a vida,
deixou seus neg�cios em desordem, n�o � de crer que, depois da morte, tenha com eles
mais cuidados, porquanto feliz deve sentir-se de estar livre dos aborrecimentos que tais
neg�cios lhe causavam e, por pouco elevado que seja, ainda menos import�ncia lhes
ligar� como Esp�rito do que como homem. Quanto aos bens desconhecidos que haja
podido deixar, nenhum motivo lhe d�o para que se interesse por herdeiros �vidos, que
provavelmente j� n�o pensariam nele, se alguma coisa n�o esperassem colher. Se estiver
ainda imbu�do das paix�es humanas, poder� mesmo encontrar malicioso prazer no
desapontamento dos que lhe cobi�avam a heran�a.
Se, no interesse da justi�a e das pessoas que lhe s�o caras, um Esp�rito julgar
conveniente fazer revela��es deste g�nero, fa-las-� espontaneamente e, para obt�-las,
ningu�m precisa ser m�dium nem recorrer a um m�dium. O pr�prio Esp�rito dar�
conhecimento das coisas, por meio de circunst�ncias fortuitas, n�o, todavia, por efeito
de pedidos que se lhe fa�am, visto que semelhantes pedidos de modo algum podem
mudar a natureza das provas que os encarnados devam sofrer. Eles constitu�ram antes
uma maneira de as agravar, porque s�o quase sempre
389
PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER AOS ESP�RITOS

ind�cio de cupidez e d�o a ver ao Esp�rito que os que os formulam s� se ocupam com
ele por interesse. (Veja-se o n. 295.)

292. Quest�es sobre a sorte dos Esp�ritos

21� Podem pedir-se aos Esp�ritos esclarecimentos sobre a situa��o em que se
encontram no mundo espiritual?
"Sim, e eles os d�o de boa-vontade, quando � a simpatia que dita o pedido, ou o
desejo de lhes ser �til, e n�o a simples curiosidade."

22� Podem os Esp�ritos descrever a natureza de seus sofrimentos ou da
felicidade de que gozam?
"Perfeitamente e as revela��es desta esp�cie s�o um grande ensinamento para
v�s outros, porquanto vos iniciam no conhecimento da verdadeira natureza das penas e
das recompensas futuras. Destruindo as falsas id�ias que hajais formado a tal respeito,
elas tendem a reanimar a vossa f� e a vossa confian�a na bondade de Deus. Os bons
Esp�ritos se sentem felizes em vos descreverem a felicidade dos eleitos; os maus podem
ser constrangidos a descrever seus sofrimentos, a fim de que o arrependimento os
ganhe. Nisso encontram eles, �s vezes, at� uma esp�cie de alivio: � o desgra�ado que se
lamenta, na esperan�a de obter compaix�o.
"N�o esque�ais que o fim essencial, exclusivo, do Espiritismo � a vossa melhora
e que, para o alcan�ardes, � que os Esp�ritos t�m a permiss�o de vos iniciarem na vida
futura, oferecendo-vos dela exemplos de que podeis aproveitar. Quanto mais vos
identificardes com o mundo que vos espera, tanto menos saudosos vos sentireis desse
onde agora estais. Eis, em suma, o fim atual da revela��o."

23� Evocando-se uma pessoa, cuja sorte seja desconhecida, poder-se-� saber
dela mesma se ainda existe?
"Sim, se a incerteza de sua morte n�o constituir uma necessidade, ou uma prova
para os que tenham interesse em sab�-lo."
a) Se estiver morta, poder� dar a conhecer as circunst�ncias de sua morte, de
modo que esta possa ser verificada?
390
CAP�TULO XXVI

"Se ligar a isso alguma import�ncia, fa-lo-�. Se assim n�o for, pouco se
incomodar� com semelhante fato."
NOTA. A experi�ncia demonstra que, nesse caso, o Esp�rito de nenhum modo se
acha empolgado pelos motivos do interesse que possam ter os vivos de conhecerem as
circunst�ncias em que se deu a sua morte. Se ele tiver empenho em as revelar, fa-lo-�
por si mesmo, quer mediunicamente, quer por meio de vis�es ou apari��es. No caso
contr�rio, pode perfeitamente um Esp�rito mistificador enganar os inquiridores e
divertir-se com os induzir a procederem a pesquisas in�teis.
Acontece freq�entemente que o desaparecimento de uma pessoa, cuja morte n�o
pode ser oficialmente comprovada, traz embara�os aos neg�cios da fam�lia. S�
excepcionalmente, em casos muito raros, temos visto os Esp�ritos indicarem a pista da
verdade, nesse terreno, atendendo a pedidos que lhes s�o feitos. Se o quisessem, � fora
de divida que o poderiam; por�m, as mais das vezes, isso n�o lhes � permitido, desde
que tais embara�os representem provas para os que anseiam por v�-los removidos.
�, pois, embalar-se em quim�rica esperan�a o pretender algu�m conseguir, por
esse meio, entrar na posse de heran�as, das quais o �nico tra�o positivo que lhes fica � o
dinheiro despedindo para tal fim.
N�o faltam Esp�ritos dispostos a alimentar semelhantes esperan�as e que nenhum
escr�pulo t�m em induzir, os que lhes d�o cr�dito, a pesquisas, com as quais os que a
elas se entregam devem dar-se por muito felizes, quando da� lhes resulte apenas um
pouco de rid�culo.

293. Quest�es sobre a sa�de

24� Podem os Esp�ritos dar conselhos relativos � sa�de?
"A sa�de � uma condi��o necess�ria para o trabalho que se deve executar na
Terra, pelo que os Esp�ritos se ocupam de boa-vontade com ela. Mas, como h�
ignorantes e s�bios entre eles, conv�m que, para isso, como para qualquer outra coisa,
ningu�m se dirija ao primeiro que apare�a."

25� Se nos dirigirmos ao Esp�rito de uma celebridade m�dica, poderemos estar
mais certos de obter um bom conselho?
391
PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER AOS ESP�RITOS

"As celebridades terrenas n�o s�o infal�veis e alimentam, �s vezes, id�ias
sistem�ticas, que nem sempre s�o justas e das quais a morte n�o as liberta
imediatamente. A ci�ncia terrestre bem pouca coisa �, ao lado da ci�ncia celeste, S� os
Esp�ritos superiores possuem esta �ltima ci�ncia. Sem usarem de nomes que conhe�ais,
podem eles saber, sobre todas as coisas, muito mais do que os vossos s�bios, N�o � s� a
ci�ncia o que torna superiores os Esp�ritos e muito espantados ficareis da categoria que
alguns s�bios ocupam entre n�s. O Esp�rito de um s�bio pode, pois, n�o saber mais do
que quando estava na Terra, desde que n�o haja progredido como Esp�rito."

26� O s�bio, ao se tornar Esp�rito, reconhece seus erros cient�ficos?
"Se chegou a um grau bastante elevado, para se achar livre da sua vaidade e
compreender que o seu desenvolvimento n�o � completo, reconhece-os e os confessa
sem pejo. Mas, se ainda se n�o desmaterializou bastante, pode conservar alguns dos
preconceitos de que se achava imbu�do na Terra."

27� Poderia um m�dico, evocando os Esp�ritos de seus clientes que morreram,
obter esclarecimentos sobre o que lhes determinou a morte, sobre as faltas que haja
porventura cometido no tratamento deles e adquirir assim um acr�scimo de experi�ncia?
"Pode e isso lhe seria muito �til, sobretudo se conseguisse a assist�ncia de
Esp�ritos esclarecidos, que supririam a falta de conhecimentos de certos doentes. Mas,
para tal, fora mister que ele fizesse esse estudo de modo s�rio, ass�duo, com um fim
humanit�rio e n�o como meio de adquirir, sem trabalho, saber e riqueza."

294. Perguntas sobre as inven��es e descobertas

28� Podem os Esp�ritos guiar os homens nas pesquisas cient�ficas e nas
descobertas?
"A ci�ncia � obra do g�nio; s� pelo trabalho deve ser adquirida, pois s� pelo
trabalho � que o homem se
392
CAP�TULO XXVI

adianta no seu caminho. Que m�rito teria ele, se n�o lhe fosse preciso mais do que
interrogar os Esp�ritos para saber tudo? A esse pre�o, qualquer imbecil poderia tornar-
se s�bio. O mesmo se d� com as inven��es e descobertas que interessam � ind�stria. H�
ainda uma outra considera��o e � que cada coisa tem que vir a seu tempo e quando as
id�ias est�o maduras para a receber. Se o homem dispusesse desse poder, subverteria a
ordem das coisas, fazendo que os frutos brotassem antes da esta��o pr�pria.
"Disse Deus ao homem: tirar�s da terra o teu alimento, com o suor do teu rosto.
Admir�vel figura, que pinta a condi��o em que ele se encontra nesse mundo. Tem que
progredir em tudo, pelo esfor�o no trabalho. Se lhe dessem as coisas inteiramente
prontas, de que lhe serviria a intelig�ncia? Seria como o estudante cujos deveres um
outro fa�a."

29�. O s�bio e o inventor nunca s�o assistidos, em suas pesquisas, pelos
Esp�ritos?
"Oh! isto � muito diferente. Quando h� chegado o tempo de uma descoberta, os
Esp�ritos encarregados de lhe dirigirem a marcha procuram o homem capaz de a levar a
efeito e lhe inspiram as id�ias necess�rias, mas de maneira a lhe deixarem todo o m�rito
da obra, porquanto essas id�ias preciso � que ele as elabore e ponha em execu��o. O
mesmo se d� com todos os grandes trabalhos da intelig�ncia humana. Os Esp�ritos
deixam cada homem na sua esfera. Daquele que s� � apto a cavar a terra, n�o far�o
deposit�rio dos segredos de Deus; mas, sabem tirar da obscuridade aquele que seja
capaz de lhes secundar os des�gnios. N�o deixeis, pois, que a curiosidade ou a ambi��o
vos arrastem por um caminho que n�o corresponde aos fins do Espiritismo e que vos
conduziria �s mais rid�culas mistifica��es."
NOTA. O conhecimento mais aprofundado do Espiritismo acalmou a febre das
descobertas que, no princ�pio, toda gente imaginava poder fazer por meio dele. Houve
at� quem chegasse a pedir aos Esp�ritos receitas para tingir e fazer nascer os cabelos,
curar os calos dos p�s, etc. Conhecemos muitas pessoas que, convencidas de que assim
fariam
393
PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER AOS ESP�RITOS

fortuna, nada conseguiram sen�o processos mais ou menos rid�culos. O mesmo acontece
quando se pretende, com a ajuda dos Esp�ritos, penetrar os mist�rios de origem das
coisas, Alguns deles t�m, sobre essas mat�rias, seus sistemas, que n�o valem mais do
que os dos homens e aos quais � prudente n�o dar acolhida, sen�o com a maior reserva.

295. Perguntas sobre tesouros ocultos

30� Podem os Esp�ritos fazer que se descubram tesouros?
"Os Esp�ritos superiores n�o se ocupam com essas coisas; mas, os zombeteiros
freq�entemente indicam tesouros que n�o existem, ou se comprazem em apont�-los num
lugar, quando se acham em lugar oposto. Isso tem a sua utilidade, para mostrar que a
verdadeira riqueza est� no trabalho. Se a Provid�ncia destina tesouros ocultos a algu�m,
esse os achar� naturalmente; de outra forma, n�o."

31� Que se deve pensar da cren�a nos Esp�ritos guardi�es de tesouros ocultos?
"Os Esp�ritos que ainda n�o est�o desmaterializados se apegam �s coisas.
Avarentos, que ocultaram seus tesouros, podem, depois de mortos, vigi�-los e guard�-
los; e o temor em que vivem, de que algu�m os venha arrebatar, constitui um de seus
castigos, at� que compreendam a inutilidade dessa atitude. Tamb�m h� os Esp�ritos da
Terra, incumbidos de lhe dirigirem as transforma��es interiores, dos quais, por alegoria,
h�o feito guardas das riquezas naturais."
NOTA. A quest�o dos tesouros ocultos est� na mesma categoria da das heran�as
desconhecidas. Bem louco seria aquele que conteste com as pretendidas revela��es, que
lhe possam fazer os gaiatos do mundo invis�vel. J� tivemos ocasi�o de dizer que, quando
os Esp�ritos querem ou podem fazer semelhantes revela��es, eles as fazem
espontaneamente, sem precisarem de m�diuns para isso. Aqui est� um exemplo:
Uma senhora acabava de perder o marido, depois de trinta anos de vida
conjugal, e se encontrava prestes a ser despejada do seu domic�lio, sem nenhum recurso,
pelos enteados, para com os quais desempenhara o papel de m�e. Chegara ao c�mulo o
seu desespero, quando, uma noite, o marido lhe apareceu e disse que ela o
acompanhasse ao seu
394
CAP�TULO XXVI

gabinete. L� lhe mostrou a secret�ria, que ainda estava selada com os selos judiciais, e,
por um efeito de dupla vista, lhe fez ver o interior, indicando-lhe uma gaveta secreta que
ela n�o conhecia e cujo mecanismo lhe explica, acrescentando: Previ o que est�
acontecendo e quis assegurar a tua sorte; nessa gaveta est�o as minhas �ltimas
disposi��es. Deixei-te o usufruto desta casa e uma renda de... Depois, desapareceu. No
dia em que foram levantados os selos, ningu�m p�de abrir a gaveta. A Senhora, ent�o,
narrou o que lhe sucedera. Abriu-a, de acordo com as indica��es de seu marido, e l�
estava o testamento, conforme ao que ele lhe anunciara.

296. Perguntas sobre os outros mundos

32� Que confian�a se pode depositar nas descri��es que os Esp�ritos fazem dos
diferentes mundos?
"Depende do grau de adiantamento real dos Esp�ritos que d�o essas descri��es,
pois bem deveis compreender que Esp�ritos vulgares s�o t�o incapazes de vos
informarem a esse respeito, quanto o �, entre v�s, um ignorante, de descrever todos os
pa�ses da Terra. Formulais muitas vezes, sobre esses mundos, quest�es cient�ficas que
tais Esp�ritos n�o podem resolver. Se eles estiverem de boa-f� falar�o disso de acordo
com suas id�ias pessoais; se forem Esp�ritos levianos divertir-se-�o em dar-vos
descri��es estranhas e fant�sticas, tanto mais facilmente quanto esses Esp�ritos, que na
erraticidade n�o s�o menos providos de imagina��o do que na Terra, tiram dessa
faculdade a narra��o de muitas coisas que nada tem de real. Entretanto, n�o julgueis
absolutamente imposs�vel obterdes, sobre os outros mundos, alguns esclarecimentos. Os
bons Esp�ritos se comprazem mesmo em descrever-vos os que eles habitam, como
ensino tendente a vos melhorar, induzindo-vos a seguir o caminho que vos conduzir� a
esses mundos. � um meio de vos fixarem as id�ias sobre o futuro e n�o vos deixarem na
incerteza."
a) Como se pode verificar a exatid�o dessas descri��es?
"A melhor verifica��o reside na concord�ncia que haja entre elas. Por�m,
lembrai-vos de que semelhantes
395
PERGUNTAS QUE SE PODEM FAZER AOS ESP�RITOS

descri��es t�m por fim o vosso melhoramento moral e que, por conseguinte, � sobre o
estado moral dos habitantes dos Outros mundos que podeis ser mais bem informados e
n�o sobre o estado f�sico ou geol�gico de tais esferas. Com os vossos conhecimentos
atuais, n�o poder�eis mesmo compreend�-lo; semelhante estudo de nada serviria para o
vosso progresso na Terra e toda a possibilidade tereis de faz�-lo, quando nelas
estiverdes."
NOTA. As quest�es sobre a constitui��o f�sica e os elementos astron�micos dos
mundos se compreendem no campo das pesquisas cient�ficas, para cuja efetiva��o n�o
devem os Esp�ritos poupar-nos os trabalhos que demandam. Se n�o fosse assim, muito
c�modo se tornaria para um astr�nomo pedir aos Esp�ritos que lhe fizessem os c�lculos,
o que, no entanto, depois, sem d�vida, esconderia. Se os Esp�ritos pudessem, por meio
da revela��o, evitar o trabalho de uma descoberta, � prov�vel que o fizessem para um
s�bio que, por bastante modesto, n�o hesitaria em proclamar abertamente o meio pelo
qual o alcan�ara e n�o para os orgulhosos que os renegam e a cujo amor-pr�prio, ao
contr�rio, eles muitas vezes poupam decep��es.
396




CAP�TULO XXVII

DAS CONTRADI��ES E DAS MISTIFICA��ES

Das contradi��es

297. Os advers�rios do Espiritismo n�o deixam de objetar que seus adeptos n�o
se acham entre si de acordo; que nem todos partilham das mesmas cren�as; numa
palavra: que se contradizem. Ponderam eles: se o ensino vos � dado pelos esp�ritos,
como n�o se apresenta id�ntico? S� um estudo s�rio e aprofundado da ci�ncia pode
reduzir estes argumentos ao seu justo valor.
Apressemo-nos em dizer desde logo que essas contradi��es, de que algumas
pessoas fazem grande cabedal, s�o, em regra, mais aparentes que reais; que elas quase
sempre existem mais na superf�cie do que no fundo mesmo das coisas e que, por
consequ�ncia, carecem de import�ncia. De duas fontes prov�m: dos homens e dos
Esp�ritos.

298. As contradi��es de origem humana j� foram suficientemente explicadas no
cap�tulo referente aos Siste-
397
DAS CONTRADI��ES E DAS MISTIFICA��ES

mas, n. 36, ao qual nos reportamos. Todos compreender�o que, no princ�pio, quando as
observa��es ainda eram incompletas, hajam surgido opini�es divergentes sobre as
causas e as conseq��ncias dos fen�menos esp�ritas, opini�es cujos tr�s quartos j� ca�ram
diante de um estudo mais s�rio e mais aprofundado. Com poucas exce��es e postas de
lado certas pessoas que n�o se desprendem facilmente das id�ias que h�o acariciado ou
engendrado, pode dizer-se que hoje h� unidade de vistas na imensa maioria dos esp�ritas,
ao menos quanto aos princ�pios gerais, salvo pequenos detalhes insignificantes.

299. Para se compreenderem a causa e o valor das contradi��es de origem
esp�rita, � preciso estar-se identificado com a natureza do mundo invis�vel e t�-lo
estudado por todas as suas faces. A primeira vista, parecer� talvez estranho que os
Esp�ritos n�o pensem todos da mesma maneira, mas isso n�o pode surpreender a quem
quer que se haja compenetrado de que infinitos s�o os degraus que eles t�m de percorrer
antes de chegarem ao alto da escada. Supor-lhes igual aprecia��o das coisas fora
imagin�-los todos no mesmo n�vel; pensar que todos devam ver com justeza fora admitir
que todos j� chegaram � perfei��o, o que n�o � exato e n�o o pode ser, desde que se
considere que eles n�o s�o mais do que a Humanidade despida do envolt�rio corporal.
Podendo manifestar-se Esp�ritos de todas as categorias, resulta que suas comunica��es
trazem o cunho da ignor�ncia ou do saber que lhes seja peculiar no momento, o da
inferioridade, ou da superioridade moral que alcan�aram. A distinguir o verdadeiro do
falso, o bom do mau, � a que devem conduzir as instru��es que temos dado.
Cumpre n�o esque�amos que, entre os Esp�ritos, h�, como entre os homens,
falsos s�bios e semi-s�bios, orgulhosos, presun�osos e sistem�ticos. Como s� aos
Esp�ritos perfeitos � dado conhecerem tudo, para os outros h�, do mesmo modo que
para n�s, mist�rios que eles explicam � sua maneira, segundo suas id�ias, e a cujo
respeito podem
398
CAP�TULO XXVII

formar opini�es mais ou menos exatas, que se empenham, levados pelo amor-pr�prio,
por que prevale�am e que gostam de reproduzir em suas comunica��es. O erro est� em
terem alguns de seus int�rpretes esposado muito levianamente opini�es contr�rias ao
bom-senso e se haverem feito os editores respons�veis delas. Assim, as contradi��es de
origem esp�rita n�o derivam de outra causa, sen�o da diversidade, quanto � intelig�ncia,
aos conhecimentos, ao ju�zo e � moralidade, de alguns Esp�ritos que ainda n�o est�o
aptos a tudo conhecerem e a tudo compreenderem. (Veja-se: O Livro dos Esp�ritos -
"Introdu��o", � XIII; "Conclus�o", � IX.)

300. De que serve o ensino dos Esp�ritos, dir�o alguns, se n�o nos oferece mais
certeza do que o ensino humano? F�cil � a resposta. N�o aceitamos com igual confian�a
o ensino de todos os homens e, entre duas doutrinas, preferimos aquela cujo autor nos
parece mais esclarecido, mais capaz, mais judicioso, menos acess�vel �s paix�es. Do
mesmo modo se deve proceder com os Esp�ritos. Se entre eles h� os que n�o est�o
acima da Humanidade, muitos h� que a ultrapassaram e estes nos podem dar
ensinamentos que em v�o buscar�amos com os homens mais instru�dos. De distingui-los
� do que deve tratar com cuidado quem queira esclarecer-se e a fazer essa distin��o � o
a que conduz o Espiritismo. Por�m, mesmo esses ensinamentos t�m um limite e, se aos
Esp�ritos n�o � dado saberem tudo, com mais forte raz�o isso se verifica relativamente
aos homens. H� coisas, portanto, sobre as quais ser� in�til interrogar os Esp�ritos, ou
porque lhes seja defeso revel�-las, ou porque eles pr�prios as ignoram e a cujo respeito
apenas podem expender suas opini�es pessoais. Ora, s�o essas opini�es pessoais que os
Esp�ritos orgulhosos apresentam como verdades absolutas. Sobretudo, acerca do que
deva permanecer oculto, como o futuro e o principio das coisas, � que eles mais
insistem, a fim de insinuarem que se acham de posse dos segredos de Deus. Por isso
mesmo, sobre esses pontos � que mais
399
DAS CONTRADI��ES E DAS MISTIFICA��ES

contradi��es se observam. (Veja-se o cap�tulo precedente.)

301. Eis as respostas que os Esp�ritos deram a perguntas feitas acerca das
contradi��es:

1� Comunicando-se em dois centros diferentes, pode um Esp�rito dar-lhes, sobre
o mesmo ponto, respostas contradit�rias?
"Se nos dois centros as opini�es e as id�ias diferirem, as respostas poder�o
chegar-lhes desfiguradas, por se acharem eles sob a influ�ncia de diferentes colunas de
Esp�ritos. Ent�o, n�o � a resposta que � contradit�ria, mas a maneira por que � dada."

2� Concebe-se que uma resposta possa ser alterada; mas, quando as qualidades
do m�dium excluem toda id�ia de m� influ�ncia, como se explica que Esp�ritos
superiores usem de linguagens diferentes e contradit�rias sobre o mesmo assunto, para
com pessoas perfeitamente s�rias?
"Os Esp�ritos realmente superiores jamais se contradizem e a linguagem de que
usam � sempre a mesma, com as mesmas pessoas. Pode, entretanto, diferir, de acordo
com as pessoas e os lugares, Cumpre, por�m, se atenda a que a contradi��o, �s vezes, �
apenas aparente; est� mais nas palavras do que nas id�ias; porquanto, quem reflita
verificar� que a id�ia fundamental � a mesma. Acresce que o mesmo Esp�rito pode
responder diversamente sobre a mesma quest�o, segundo o grau de adiantamento dos
que o evocam, pois nem sempre conv�m que todos recebam a mesma resposta, por n�o
estarem todos igualmente adiantados. � exatamente como se uma crian�a e um s�bio te
fizessem a mesma pergunta. De certo, responder�eis a uma e a outro de modo que te
compreendessem e ficassem satisfeitos. As respostas, nesse caso, embora diferentes,
seriam fundamentalmente id�nticas."

3� Com que fim Esp�ritos s�rios, junto de certas pessoas, parecem aceitar id�ias e
preconceitos que combatem junto de outras?
"Cumpre nos fa�amos compreens�veis. Se algu�m tem uma convic��o bem
firmada sobre uma doutrina, ainda
400
CAP�TULO XXVII

que falsa, necess�rio � lhe tiremos essa convic��o, mas pouco a pouco. Por isso � que
muitas vezes nos servimos de seus termos e aparentamos abundar nas suas id�ias: � para
que n�o fique de s�bito ofuscado e n�o deixe de se instruir conosco.
"Ali�s, n�o � de bom aviso atacar bruscamente os preconceitos. Esse o melhor
meio de n�o se ser ouvido. Por essa raz�o � que os Esp�ritos muitas vezes falam no
sentido da opini�o dos que os ouvem: � para os trazer pouco a pouco � verdade.
Apropriam sua linguagem �s pessoas, como tu mesmo far�s, se fores um orador mais ou
menos h�bil. Da� o n�o falarem a um chin�s, ou a um maometano, como falar�o a um
franc�s, ou a um crist�o. E que t�m a certeza de que seriam repelidos.
"N�o se deve tomar como contradi��o o que muitas vezes n�o � sen�o parte da
elabora��o da verdade. Todos os Esp�ritos t�m a sua tarefa designada por Deus.
Desempenham-na dentro das condi��es que julgam convenientes ao bem dos que lhes
recebem as comunica��es."

4� As contradi��es, mesmo aparentes, podem lan�ar d�vidas no Esp�ritos de
algumas pessoas. Que meio de verifica��o se pode ter, para conhecer a verdade?
"Para se discernir do erro a verdade, preciso se faz que as respostas sejam
aprofundadas e meditadas longa e seriamente. E um estudo completo a fazer-se. Para
isso, � necess�rio tempo, como para estudar todas as coisas.
"Estudai, comparai, aprofundai. Incessantemente vos dizemos que o
conhecimento da verdade s� a esse pre�o se obt�m. Como querer�eis chegar � verdade,
quando tudo interpretais segundo as vossas id�ias acanhadas, que, no entanto, tomais
por grandes id�ias? Longe, por�m, n�o est� o dia em que o ensino dos Esp�ritos ser� por
toda parte uniforme, assim nas min�cias, como nos pontos principais. A miss�o deles �
destruir o erro, mas isso n�o se pode efetuar sen�o gradativamente."

5� Pessoas h� que n�o t�m nem tempo, nem a aptid�o necess�ria para um estudo
s�rio e aprofundado e que
401
DAS CONTRADI��ES E DAS MISTIFICA��ES

aceitam sem exame o que se lhes ensina. N�o haver� para elas inconveniente em esposar
erros?
"Que pratiquem o bem e n�o fa�am o mal � o essencial. Para isso, n�o h� duas
doutrinas. O bem � sempre o bem, quer feito em nome de Allah, quer em nome de
Jeov�, visto que um s� Deus h� para o Universo."

6� Como � que Esp�ritos, que parecem desenvolvidos em intelig�ncia, podem ter
id�ias evidentemente falsas sobre certas coisas?
"E que t�m suas doutrinas. Os que n�o s�o bastante adiantados, e julgam que o
s�o, tomam suas id�ias pela pr�pria verdade. Tal qual entre v�s."

7� Que se deve pensar de doutrinas segundo as quais um s� Esp�rito poderia
comunicar-se e que esse Esp�rito seria Deus ou Jesus?
"O que isto ensina � um Esp�rito que quer dominar, pelo que procura fazer crer
que � o �nico a comunicar-se. Mas, o infeliz que ousa tomar o nome de Deus duramente
expiar� o seu orgulho. Quanto a essas doutrinas, elas se refutam a si mesmas, porque
est�o em contradi��o com os fatos mais bem averiguados. N�o merecem exame s�rio,
pois que carecem de ra�zes.
"A raz�o vos diz que o bem procede de uma fonte boa e o mal de uma fonte m�;
por que haver�eis de querer que uma boa �rvore desse maus frutos? J� colhestes uvas em
macieira? A diversidade das comunica��es � a prova mais patente da variedade das
fontes donde elas precedem. Ali�s, os Esp�ritos que pretendem ser eles os �nicos que se
podem comunicar esquecem-se de dizer por que n�o o podem os outros faz�-lo. A
pretens�o que manifestam � a nega��o do que o Espiritismo tem de mais belo e de mais
consolador: as rela��es do mundo vis�vel com o mundo invis�vel, dos homens com os
seres que lhes s�o caros e que assim estariam para eles sem remiss�o perdidos. S�o essas
rela��es que identificam o homem com o seu futuro, que o desprendem do mundo
material. Suprimi-las � remergulh�-lo na d�vida, que constitui o seu tormento; �
alimentar-lhe o ego�smo. Examinando-se
402
CAP�TULO XXVII

com cuidado a doutrina de tais Esp�ritos, nela se descobrir�o a cada passo contradi��es
injustific�veis, marcas da ignor�ncia deles sobre as coisas mais evidentes e, por
conseguinte, sinais certos da sua inferioridade" -O Esp�rito de Verdade.

8� De todas as contradi��es que se notam nas comunica��es dos Esp�ritos, uma
das mais frisantes � a que diz respeito � reencarna��o. Se a reencarna��o � uma
necessidade da vida esp�rita, como se explica que nem todos os Esp�ritos a ensinem?
"N�o sabeis que h� Esp�ritos cujas id�ias se acham limitadas ao presente, como
se d� com muitos homens na Terra? Julgam que a condi��o em que se encontram tem
que durar sempre: nada v�em al�m do circulo de suas percep��es e n�o se preocupam
com o saberem donde v�m, nem para onde v�o e, no entanto, devem sofrer a a��o da lei
da necessidade. A reencarna��o �, para eles, uma necessidade em que n�o pensam,
sen�o quando lhes chega. Sabem que o Esp�rito progride, mas de que maneira? T�m isso
como um problema. Ent�o, se os interrogardes a respeito, falar-vos-�o dos sete c�us
superpostos como andares. Alguns mesmo vos falar�o da esfera do fogo, da esfera das
estrelas, depois da cidade das flores, da dos eleitos."

9� Concebemos que os Esp�ritos pouco adiantados possam deixar de
compreender esta quest�o; mas, como � que Esp�ritos de uma inferioridade moral e
intelectual not�ria falam espontaneamente de suas diferentes exist�ncias e do desejo que
t�m de reencarnar, para resgatarem o passado?
"Passam-se no mundo dos Esp�ritos coisas bem dif�ceis de compreenderdes. N�o
tendes entre v�s pessoas multo ignorantes sobre certos assuntos e esclarecidas acerca de
outros; pessoas que t�m mais ju�zo do que instru��o e outras que t�m mais esp�rito que
ju�zo? N�o sabeis tamb�m que alguns Esp�ritos se comprazem em conservar os homens
na ignor�ncia, aparentando instru�-los, e que aproveitam da facilidade com que suas
palavras s�o acredi-
403
DAS CONTRADI��ES E DAS MISTIFICA��ES

tadas? Podem seduzir os que n�o descem ao fundo das coisas; mas, quando pelo
racioc�nio s�o levados � parede, n�o sustentam por muito tempo o papel."
"Cumpre, al�m disso, se tenha em conta a prud�ncia de que, em geral, os
Esp�ritos usam na promulga��o da verdade: uma luz muito viva e muito subit�nea
ofusca, n�o esclarece. Podem eles, pois, em certos casos, julgar conveniente n�o a
espalharem sen�o gradativamente, de acordo com os tempos, os lugares e as pessoas.
Mois�s n�o ensinou tudo o que o Cristo ensinou e o pr�prio Cristo muitas coisas disse,
cuja intelig�ncia ficou reservada �s gera��es futuras. Falais da reencarna��o e vos
admirais de que este princ�pio n�o tenha sido ensinado em alguns pa�ses. Lembrai-vos,
por�m, de que num pa�s onde o preconceito da cor impera soberanamente, onde a
escravid�o criou ra�zes nos costumes, o Espiritismo teria sido repelido s� por proclamar
a reencarna��o, pois que monstruosa pareceria, ao que � senhor, a id�ia de vir a ser
escravo e reciprocamente. N�o era melhor tomar aceito primeiro o princ�pio geral, para
mais tarde se lhe tirarem as conseq��ncias? Oh! homens! como � curta a vossa vista,
para apreciar os des�gnios de Deus! Sabei que nada se faz sem a sua permiss�o e sem
um fim que as mais das vezes n�o podeis penetrar. Tenho-vos dito que a unidade se far�
na cren�a esp�rita; ficai certos de que assim ser�; que as dissid�ncias, j� menos
profundas, se apagar�o pouco a pouco, � medida que os homens se esclarecerem e que
acabar�o por desaparecer completamente. Essa � a vontade de Deus, contra a qual n�o
pode prevalecer o erro." - O Esp�rito de Verdade.

10� As doutrinas err�neas, que certos Esp�ritos podem ensinar, n�o t�m por
efeito retardar o progresso da verdadeira ci�ncia?
"Desejais tudo obter sem trabalho. Sabei, pois, que n�o h� campo onde n�o
cres�am as ervas m�s, cuja extirpa��o cabe ao lavrador. Essas doutrinas err�neas s�o
uma conseq��ncia da inferioridade do vosso mundo. Se os homens fossem perfeitos, s�
aceitariam o que � verdadeiro.
404
CAP�TULO XXVII

Os erros s�o como as pedras falsas, que s� um olhar experiente pode distinguir.
Precisais, portanto, de um aprendizado, para distinguirdes o verdadeiro do falso. Pois
bem! as falsas doutrinas t�m a utilidade de vos exercitarem em fazerdes a distin��o entre
o erro e a verdade."
a) - Os que adotam o erro n�o retardam o seu adiantamento?
"Se adotam o erro, � que n�o est�o bastante adiantados para compreender a
verdade."

302. A espera de que a unidade se fa�a, cada um julga ter consigo a verdade e
sustenta que o verdadeiro � s� o que ele sabe, ilus�o que os Esp�ritos enganadores n�o
se descuidam de entreter. Assim sendo, em que pode o homem imparcial e
desinteressado basear-se, para formar ju�zo?
"Nenhuma nuvem obscurece a luz mais pura; o diamante sem m�cula � o que
tem mais valor; julgai, pois, os Esp�ritos pela pureza de seus ensinos. A unidade se far�
do lado onde ao bem jamais se haja misturado o mal; desse lado � que os homens se
ligar�o, pela for�a mesma das coisas, porquanto considerar�o que a� est� a verdade.
Notai, ao demais, que os princ�pios fundamentais s�o por toda parte os mesmos e t�m
que vos unir numa id�ia comum: o amor de Deus e a pr�tica do bem. Qualquer que seja,
conseguintemente, o modo de progress�o que se imagine para as almas, o objetivo final
� um s� e um s� o meio de alcan��-lo: fazer o bem. Ora, n�o h� duas maneiras de faz�-
lo. Se dissid�ncias capitais se levantam, quanto ao principio mesmo da Doutrina, de uma
regra certa dispondes para as apreciar, esta: a melhor doutrina � a que melhor satisfaz ao
cora��o e � raz�o e a que mais elementos encerra para levar os homens ao bem. Essa, eu
vo-lo afirmo, a que prevalecer�." - O Esp�rito de Verdade.
NOTA. Das causas seguintes podem derivar as contradi��es que se notam nas
comunica��es esp�ritas: da ignor�ncia de certos Esp�ritos; do embuste dos Esp�ritos
inferiores que, por mal�cia ou maldade, dizem
405
DAS CONTRADI��ES E DAS MISTIFICA��ES

o contr�rio do que disse algures o Esp�rito cujo nome eles usurpam; da vontade do
pr�prio Esp�rito, que fala segundo os tempos, os lugares e as pessoas, e que pode julgar
conveniente n�o dizer tudo a toda gente; da insufici�ncia da linguagem humana, para
exprimir as coisas do mundo incorp�reo; da insufici�ncia dos meios de comunica��o,
que nem sempre permitem ao Esp�rito expressar todo o seu pensamento; enfim, da
interpreta��o que cada um pode dar a uma palavra ou a uma explica��o, segundo suas
id�ias, seus preconceitos, ou o ponto de vista donde considere o assunto. S� o estudo, a
observa��o, a experi�ncia e a isen��o de todo sentimento de amor-pr�prio podem
ensinar a distinguir estes diversos matizes.

Das mistifica��es

303. Se o ser enganado � desagrad�vel, ainda mais o � ser mistificado. Esse,
ali�s, um dos inconvenientes de que mais facilmente nos podemos preservar. De todas as
instru��es precedentes ressaltam os meios de se frustrarem as tramas dos Esp�ritos
enganadores. Por essa raz�o, pouca coisa diremos a tal respeito. Sobre o assunto, foram
estas as respostas que nos deram os Esp�ritos:

1� As mistifica��es constituem um dos escolhos mais desagrad�veis do
Espiritismo pr�tico. Haver� meio de nos preservarmos deles?
"Parece-me que podeis achar a resposta em tudo quanto vos tem sido ensinado.
Certamente que h� para isso um meio simples: o de n�o pedirdes ao Espiritismo sen�o o
que ele vos possa dar. Seu fim � o melhoramento moral da Humanidade; se vos n�o
afastardes desse objetivo, jamais sereis enganados, porquanto n�o h� duas maneiras de
se compreender a verdadeira moral, a que todo homem de bom-senso pode admitir.
"Os Esp�ritos vos v�m instruir e guiar no caminho do bem e n�o no das honras e
das riquezas, nem v�m para atender �s vossas paix�es mesquinhas. Se nunca lhes
pedissem nada de f�til, ou que esteja fora de suas atribui��es, nenhum ascendente
encontrariam jamais os enganadores; donde deveis concluir que aquele que � mistificado
s� o � porque o merece.
406
CAP�TULO XXVII

"O papel dos Esp�ritos n�o consiste em vos informar sobre as coisas desse
mundo, mas em vos guiar com seguran�a no que vos possa ser �til para o outro mundo.
Quando vos falam do que a esse concerne, � que o julgam necess�rio, por�m n�o porque
o pe�ais. Se vedes nos Esp�ritos os substitutos dos adivinhos e dos feiticeiros, ent�o �
certo que sereis enganados.
"Se os homens n�o tivessem mais do que se dirigirem aos Esp�ritos para tudo
saberem, estariam privados do livre-arb�trio e fora do caminho tra�ado por Deus �
Humanidade. O homem deve agir por si mesmo. Deus n�o manda os Esp�ritos para que
lhe achanem a estrada material da vida, mas para que lhe preparem a do futuro."
a) Por�m, h� pessoas que nada perguntam e que s�o indignamente enganadas
por Esp�ritos que v�m espontaneamente, sem serem chamados.
"Elas nada perguntam, mas se comprazem em ouvir, o que d� no mesmo. Se
acolhessem com reserva e desconfian�a tudo o que se afasta do objetivo essencial do
Espiritismo, os Esp�ritos levianos n�o as tomariam t�o facilmente para joguete."

2� Por que permite Deus que pessoas sinceras e que aceitam o Espiritismo de
boa-f� sejam mistificadas? N�o poderia isto ter o inconveniente de lhes abalar a cren�a?
"Se isso lhes abalasse a cren�a, � que n�o tinham muito s�lida a f�. Os que
renunciassem ao Espiritismo, por um simples desapontamento., provariam n�o o
haverem compreendido e n�o lhe terem atentado na parte s�ria. Deus permite as
mistifica��es, para experimentar a perseveran�a dos verdadeiros adeptos e punir os que
do Espiritismo fazem objeto de divertimento."
NOTA. A ast�cia dos Esp�ritos mistificadores ultrapassa �s vezes tudo o que se
possa imaginar. A arte, com que disp�em as suas baterias e combinam os meios de
persuadir, seria uma coisa curiosa, se eles nunca passassem dos simples gracejos; por�m,
as mistifica��es podem ter conseq��ncias desagrad�veis para os que n�o se achem em
guarda. Sentimo-nos felizes por termos podido abrir a tempo os olhos a muitas
407
DAS CONTRADI��ES E DAS MISTIFICA��ES

pessoas que se dignaram de pedir o nosso parecer e por lhes havermos poupado a��es
rid�culas e comprometedoras. Entre os meios que esses Esp�ritos empregam, devem
colocar-se na primeira linha, como sendo os mais freq�entes, os que t�m por fim tentar a
cobi�a, como a revela��o de pretendidos tesouros ocultos, o anuncio de heran�as, ou
outras fontes de riquezas. Devem, al�m disso, considerar-se suspeitas, logo � primeira
vista, as predi��es com �poca determinada, assim como todas as indica��es precisas,
relativas a interesses materiais. Cumpre n�o se d�em os passos prescritos ou
aconselhados pelos Esp�ritos, quando o fim n�o seja eminentemente racional; que
ningu�m nunca se deixe deslumbrar pelos nomes que os Esp�ritos tomam para dar
apar�ncia de veracidade �s suas palavras; desconfiar das teorias e sistemas cient�ficos
ousados; enfim, de tudo o que se afaste do objetivo moral das manifesta��es.
Encher�amos um volume dos mais curiosos, se houv�ramos de referir todas as
mistifica��es de que temos tido conhecimento.
408




CAP�TULO XXVIII

DO CHARLATANISMO E DO EMBUSTE

M�diuns interesseiros. - Fraudes esp�ritas

M�diuns interesseiros

304. Como tudo pode tornar-se objeto de explora��o, nada de surpreendente
haveria em que tamb�m quisessem explorar os Esp�ritos. Resta saber como receberiam
eles a coisa, dado que tal especula��o viesse a ser tentada. Diremos desde logo que nada
se prestaria melhor ao charlatanismo e � trapa�a do que semelhante of�cio. Muito mais
numerosos do que os falsos son�mbulos, que j� se conhecem, seriam os falsos m�diuns e
este simples fato constituiria fundado motivo de desconfian�a. O desinteresse, ao
contr�rio, � a mais perempt�ria resposta que se pode dar aos que nos fen�menos s�
v�em trampolinices N�o h� charlatanismo desinteressado. Qual, pois, o fim que
objetivariam os que usassem de embuste sem proveito,
409
DO CHARLATANISMO E DO EMBUSTE

sobretudo quando a honorabilidade os colocasse acima de toda suspeita?
Se � de constituir motivo de suspei��o o ganho que um m�dium possa tirar da
sua faculdade, jamais essa circunst�ncia constituir� uma prova de que tal suspei��o seja
fundada. Quem quer, pois, que seja poderia ter real aptid�o e agir de muito boa-f�,
fazendo-se retribuir. Vejamos se, neste caso, � razoavelmente poss�vel esperar-se algum
resultado satisfat�rio.

305. Quem haja compreendido bem o que dissemos das condi��es necess�rias
para que uma pessoa sirva de int�rprete dos bons Esp�ritos, das m�ltiplas causas que os
podem afastar, das circunst�ncias que, independentemente da vontade deles, lhes sejam
obst�culos � vinda, enfim de todas as condi��es morais capazes de exercer influ�ncias
sobre a natureza das comunica��es, como poderia supor que um Esp�rito, por menos
elevado que fosse, estivesse, a todas as horas do dia, �s ordens de um empres�rio de
sess�o e submisso �s suas exig�ncias, para satisfazer � curiosidade do primeiro que
aparecesse? Sabe-se que avers�o infunde aos Esp�ritos tudo o que cheira a cobi�a e a
ego�smo, o pouco caso que fazem das coisas materiais; como, ent�o, admitir-se que se
prestem a ajudar quem queira traficar com a presen�a deles? Repugna pensar isso e seria
preciso conhecer muito pouco a natureza do mundo esp�rita, para acreditar-se que tal
coisa seja poss�vel. Mas, como os Esp�ritos levianos s�o menos escrupulosos e s�
procuram ocasi�o de se divertirem � nossa custa, segue-se que, quando n�o se seja
mistificado por um falso m�dium, tem-se toda a probabilidade de o ser por alguns de tais
Esp�ritos. Estas s�s reflex�es d�o a ver o grau de confian�a que se deve dispensar �s
comunica��es deste g�nero. Ao demais, para que serviriam hoje m�diuns pagos, desde
que qualquer pessoa, se n�o possui faculdade medi�nica, pode t�-la nalgum membro da
sua fam�lia, entre seus amigos, ou no c�rculo de suas rela��es?
410
CAP�TULO XXVIII

306. M�diuns interesseiros n�o s�o apenas os que porventura exijam uma
retribui��o fixa; o interesse nem sempre se traduz pela esperan�a de um ganho material,
mas tamb�m pelas ambi��es de toda sorte, sobre as quais se fundem esperan�as
pessoais. E esse um dos defeitos de que os Esp�ritos zombeteiros sabem muito bem tirar
partido e de que se aproveitam com uma habilidade, uma ast�cia verdadeiramente
not�veis, embalando com falaciosas ilus�es os que desse modo se lhes colocam sob a
depend�ncia. Em resumo, a mediunidade � uma faculdade concedida para o bem e os
bons Esp�ritos se afastam de quem pretenda fazer dela um degrau para chegar ao que
quer que seja, que n�o corresponda �s vistas da Provid�ncia. O ego�smo � a chaga da
sociedade; os bens Esp�ritos a combatem; a ningu�m, portanto, assiste o direito de supor
que eles o venham servir. Isto � t�o racional, que in�til fora insistir mais sobre este
ponto.

307. N�o est�o na mesma categoria os m�diuns de efeitos f�sicos, pois que estes
geralmente s�o produzidos por Esp�ritos inferiores, menos escrupulosos. N�o dizemos
que tais Esp�ritos sejam por isso necessariamente maus. Pode-se ser um simples
carregador e ao mesmo tempo homem muito honesto. Um m�dium, pois, desta
categoria, que quisesse explorar a sua faculdade, muitos Esp�ritos talvez encontraria,
que sem grande repugn�ncia o assistissem. Mas, ainda a� outro inconveniente se
apresenta. O m�dium de efeitos f�sicos, do mesmo modo que o de comunica��es
inteligentes, n�o recebeu para seu gozo a faculdade que possui. Teve-a sob a condi��o
de fazer dela bom uso; se, portanto, abusa, pode dar-se que lhe seja retirada, ou que
redunde em detrimento seu, por que, afinal, os Esp�ritos inferiores est�o subordinados
aos Esp�ritos superiores.
Aqueles gostam muito de mistificar, por�m, n�o de ser mistificados; se se
prestam de boa-vontade ao gracejo, �s coisas de mera curiosidade, porque lhes apraz
divertirem-se, tamb�m � certo que, como aos outros, lhes repugna
411
DO CHARLATANISMO E DO EMBUSTE

ser explorados, ou servir de comparsas, para que a receita aumente, e a todo instante
provam que t�m vontade pr�pria, que agem quando e como bem lhes parece, donde
resulta que o m�dium de efeitos f�sicos ainda menos certeza pode ter da regularidade das
manifesta��es, do que o m�dium escrevente. Pretender produzi-los em dias e horas
determinados, fora dar prova da mais profunda ignor�ncia. Que h� de ele ent�o, fazer
para ganhar seu dinheiro? Simular os fen�menos. E o a que naturalmente recorrer�o,
n�o s� os que disso fa�am um of�cio declarado, como igualmente pessoas aparentemente
simples, que acham mais f�cil e mais c�modo esse meio de ganhar a vida, do que
trabalhando. Desde que o Esp�rito n�o d� coisa alguma, supre-se a falta: a imagina��o �
t�o fecunda, quando se trata de ganhar dinheiro! Constituindo um motivo leg�timo de
suspeita, o interesse d� direito a rigoroso exame, com o qual ningu�m poder� ofender-
se, sem justificar as suspeitas. Mas, tanto estas s�o leg�timas neste caso, como ofensivas
em se tratando de pessoas honradas e desinteressadas.

308. A faculdade medi�nica, mesmo restrita �s manifesta��es f�sicas, n�o foi
dada ao homem para ostent�-la nos teatros de feira e quem quer que pretenda ter �s
suas ordens os Esp�ritos, para exibir em p�blico, est� no caso de ser, com justi�a,
suspeitado de charlatanismo, ou de mais ou menos h�bil prestidigita��o. Assim se
entenda todas as vezes que apare�am an�ncios de pretendidas sess�es de Espiritismo,
ou de Espiritualismo, a tanto por cabe�a. Lembrem-se todos do direito que compram ao
entrar.
De tudo o que precede, conclu�mos que o mais absoluto desinteresse � a melhor
garantia contra o charlatanismo. Se ele nem sempre assegura a excel�ncia das
comunica��es inteligentes, priva, contudo, os maus Esp�ritos de um poderoso meio de
a��o e fecha a boca a certos detratores.

309. Resta o que se poderia chamar as tram�ias do amador, isto �, as fraudes
inocentes de alguns graceja-
412
CAP�TULO XXVIII

dores de mau gosto. Podem sem d�vida ser praticadas, � guisa de passatempo, em
reuni�es levianas e fr�volas, por�m, jamais, em assembl�ias s�rias, onde s� se admitam
pessoas s�rias. Ali�s, a quem quer que seja � poss�vel dar-se a si mesmo o prazer de uma
mistifica��o moment�nea. mas, seria preciso que uma pessoa fosse dotada de singular
paci�ncia, para representar esse papel por meses e anos e, de cada vez durante horas
consecutivas. S� um interesse qualquer facultaria essa perseveran�a, mas o interesse,
repetimo-lo, d� lugar a que se suspeite de tudo.

310. Dir-se-�, talvez, que um m�dium, que consagra todo o seu tempo ao
p�blico, no interesse da causa, n�o o pode fazer de gra�a, porque tem que viver. Mas, �
no interesse da causa, ou no seu pr�prio, que ele o emprega? N�o ser�, antes, porque v�
nisso um of�cio lucrativo? A tal pre�o, sempre haver� gente dedicada. N�o tem ent�o ao
seu dispor sen�o essa ind�stria? N�o esque�amos que os Esp�ritos, seja qual for a sua
superioridade, ou inferioridade, s�o as almas dos mortos e que, quando a moral e a
religi�o prescrevem como um dever que se lhes respeitem os restos mortais, maior �
ainda a obriga��o, para todos, de lhes respeitarem o Esp�rito.
Que diriam daquele que, para ganhar dinheiro, tirasse um corpo do t�mulo e o
exibisse por ser esse corpo de natureza a provocar a curiosidade? Ser� menos
desrespeitoso, do que exibir o corpo, exibir o Esp�rito, sob pretexto de que � curioso
ver-se como age um Esp�rito? E note-se que o pre�o dos lugares ser� na raz�o direta do
que ele fa�a e do atrativo do espet�culo. Certamente, embora houvesse sido um
comediante em vida, ele n�o suspeitaria que, depois de morto, encontraria um
empres�rio que, em seu proveito exclusivo, o fizesse representar de gra�a.
Cumpre n�o olvidar que as manifesta��es f�sicas, tanto quanto as inteligentes,
Deus s� as permite para nossa instru��o.
413
DO CHARLATANISMO E DO EMBUSTE

311. Postas de parte estas considera��es morais, de nenhum modo contestamos
a possibilidade de haver m�diuns interesseiros, se bem que honrados e conscienciosos,
porquanto h� gente honesta em todos os of�cios. Apenas falamos do abuso. Mas, �
preciso convir, pelos motivos que expusemos, em que mais raz�o h� para o abuso entre
os m�diuns retribu�dos, do que entre os que, considerando uma gra�a a faculdade
medi�nica, n�o a utilizam, sen�o para prestar servi�o.
O grau da confian�a ou desconfian�a que se deve dispensar a um m�dium
retribu�do depende, antes de tudo, da estima que infundam seu car�ter e sua moralidade,
al�m das circunst�ncias. O m�dium que, com um fim eminentemente s�rio e �til, se
achasse impedido de empregar o seu tempo de outra maneira e, em conseq��ncia, se
visse exonerado, n�o deve ser confundido com o m�dium especulador, com aquele que,
premeditadamente, fa�a da sua mediunidade uma ind�stria. Conforme o motivo e o fim,
podem, pois, os Esp�ritos condenar, absolver e, at�, auxiliar. Eles julgam mais a inten��o
do que o fato material.

312. N�o est�o no mesmo caso os son�mbulos que empregam sua faculdade de
modo lucrativo. Conquanto essa explora��o esteja sujeita a abusos e o desinteresse
constitua a maior garantia de sinceridade, a posi��o � diferente, tendo-se em vista que
s�o seus pr�prios Esp�ritos que agem. Estes, por conseguinte, lhes est�o sempre �
disposi��o e, em realidade, eles s� exploram a si mesmos, porque lhes assiste o direito
de disporem de suas pessoas como o entenderem, ao passo que os m�diuns
especuladores exploram as almas dos mortos. (Veja-se o n. 172, M�diuns
sonamb�licos.)

313. N�o ignoramos que a nossa severidade para com os m�diuns interesseiros
levanta contra n�s todos os que exploram, ou se v�em tentados a explorar essa nova
ind�stria, fazendo-os, bem como de seus amigos. que naturalmente lhes esposam a
opini�o, encarni�ados
414
CAP�TULO XXVIII

inimigos nossos. Consolamo-nos com o nos lembrarmos de que os mercadores expulsos
do templo por Jesus tamb�m n�o o viam com bons olhos. Temos igualmente contra n�s
os que n�o consideram a coisa com a mesma gravidade. Entretanto, julgamo-nos no
direito de ter uma opini�o e de a emitir. A ningu�m obrigamos que a adote. Se uma
imensa maioria a esposou, � que aparentemente a acharam justa; porquanto, n�o vemos,
com efeito, como se provaria que n�o h� mais facilidade de se encontrarem a fraude e os
abusos na especula��o, do que no desinteresse. Quanto a n�s, se os nossos escritos h�o
contribu�do para desacreditar, assim na Fran�a, como em outros pa�ses, a mediunidade
interesseira, entendemos que esse n�o ser� dos menores servi�os que tenhamos prestado
ao Espiritismos�rio.

Fraudes esp�ritas

314. Os que n�o admitem a realidade das manifesta��es f�sicas geralmente
atribuem � fraude os efeitos produzidos. Fundam-se em que os prestidigitadores h�beis
fazem coisas que parecem prod�gios, para quem n�o lhes conhece os segredos; donde
concluem que os m�diuns n�o passam de escamoteadores. J� refutamos este argumento,
ou, antes, esta opini�o, notadamente n�s nossos artigos sobre o Sr. Home e nos
n�meros da Revue de janeiro e fevereiro de 1858. Aqui, pois, n�o diremos mais do que
algumas palavras, antes de falarmos de coisa mais s�ria.
H�, em suma, uma considera��o que n�o escapar� a quem quer que reflita um
pouco. Existem, sem d�vida, prestidigitadores de prodigiosa habilidade, mas s�o raros.
Se todos os m�diuns praticassem a escamotea��o, for�oso seria reconhecer que esta arte
fez, em pouco tempo, inauditos progressos e se tornou de s�bito vulgar�ssima,
apresentando-se inata em pessoas que dela nem suspeitavam e, at�, em crian�as.
Do fato de haver charlat�es que preconizam drogas nas pra�as p�blicas, mesmo
de haver m�dicos que, sem
415
DO CHARLATANISMO E DO EMBUSTE

irem � pra�a p�blica, iludem a confian�a dos seus clientes, seguir-se-� que todos os
m�dicos s�o charlat�es e que a classe m�dica haja perdido a considera��o que merece?
De haver indiv�duos que vendem tintura por vinho, segue-se que todos os negociantes
de vinho s�o falsificadores e que n�o h� vinho puro? De tudo se abusa, mesmo das
coisas mais respeit�veis e bem se pode dizer que tamb�m a fraude tem o seu g�nio. Mas,
a fraude sempre visa a um fim, a um interesse material qualquer; onde nada haja a
ganhar, nenhum interesse h� em enganar. Por isso foi que dissemos, falando dos
m�diuns mercen�rios, que a melhor de todas as garantias � o desinteresse absoluto.

315. De todos os fen�menos esp�ritas, os que mais se prestam � fraude s�o os
fen�menos f�sicos, por motivos que conv�m considerar. Primeiramente, porque
impressionam mais a vista do que a intelig�ncia, s�o, para prestidigita��o, os mais
facilmente imit�veis. Em segundo lugar, porque, despertando, mais do que os outros, a
curiosidade, s�o mais apropriados a atrair as multid�es; s�o, por conseguinte, os mais
produtivos. Desse duplo ponto de vista, portanto, os charlat�es t�m todo interesse em
simular as manifesta��es desta esp�cie; os espectadores, na sua maioria estranhos �
ci�ncia, acorrem, geralmente, em busca muito mais de uma distra��o do que de
instru��o s�ria e � sabido que se paga melhor o que diverte do que o que instrui. Por�m,
posto isto de lado, outro motivo h�, n�o menos perempt�rio. Se a prestidigita��o pode
imitar efeitos materiais, para o que s� de destreza se h� mister, n�o lhe conhecemos,
todavia, at� ao presente, o dom de improvisa��o, que exige uma dose pouco vulgar de
intelig�ncia, nem o produzir esses belos e sublimes ditados, freq�entemente t�o cheios
de a-prop�sitos, com que os Esp�ritos matizam suas comunica��es. Isto nos faz lembrar
o fato seguinte:
Certo dia, um homem de letras bastante conhecido veio ter conosco e nos disse
que era muito bom m�dium escrevente intuitivo e que se punha � disposi��o da So-
416
CAP�TULO XXVIII

ciedade esp�rita. Como temos por h�bito n�o admitir na Sociedade sen�o m�diuns cujas
faculdades nos s�o conhecidas, pedimos ao nosso visitante assentisse em dar antes
provas de sua faculdade numa reuni�o particular. Ele, efetivamente, compareceu a esta,
na qual muitos m�diuns experimentados deram ou disserta��es, ou respostas de not�vel
precis�o, sobre quest�es propostas e assuntos que lhes eram desconhecidos. Quando
chegou a vez daquele senhor, ele escreveu algumas palavras insignificantes, disse que
nesse dia estava indisposto e nunca mais o vimos. Achou sem d�vida que o papel de
m�dium de efeitos inteligentes � mais dif�cil de representar do que o supusera.

316. Em tudo, as pessoas mais facilmente engan�veis s�o as que n�o pertencem
ao of�cio. O mesmo se d� com o Espiritismo. As que n�o o conhecem se deixam
facilmente iludir pelas apar�ncias, ao passo que um pr�vio estudo atento as inicia, n�o s�
nas causas dos fen�menos, como tamb�m nas condi��es normais em que eles costumam
produzir-se e lhes ministra, assim, os meios de descobrirem a fraude, se existir.

317. Os m�diuns trapaceiros s�o estigmatizados, como merecem, na seguinte
carta que publicamos em a Revue do m�s de agosto de 1861:
"Paris, 21 de julho de 1861.
"Senhor.
"Pode-se estar em desacordo sobre certos pontos e de perfeito acordo sobre
outros. Acabo de ler, � p�gina 213 do �ltimo n�mero do vosso jornal, algumas reflex�es
acerca da fraude em mat�ria de experi�ncias espiritualistas (ou esp�ritas), reflex�es a que
tenho a satisfa��o de me associar com todas as minhas for�as. A�, quaisquer
dissid�ncias, a prop�sito de teorias e doutrinas, desaparecem como por encanto.
"N�o sou talvez t�o severo quanto o sois, com rela��o aos m�diuns que, sob
forma digna e decente, aceitam uma paga, como indeniza��o do tempo que consagram a
expe-
417
DO CHARLATANISMO E DO EMBUSTE

ri�ncias muitas vezes longas e fatigantes. Sou, por�m, tanto quanto o sois - e ningu�m o
seria demais - com rela��o aos que, em tal caso, suprem, quando se lhes oferece
ocasi�o, pelo embuste e pela fraude, a falta ou a insufici�ncia dos resultados prometidos
e esperados. (Veja-se o n. 311.)
"Misturar o falso com o verdadeiro, quando se trata de fen�menos obtidos pela
interven��o dos Esp�ritos, � simplesmente uma inf�mia e haveria oblitera��o do senso
moral no m�dium que julgasse poder faz�-lo sem escr�pulo. Conforme o observastes
com perfeita exatid�o - � lan�ar a coisa em descr�dito no Esp�rito dos indecisos, desde
que a fraude seja reconhecida. Acrescentarei que � comprometer do modo mais
deplor�vel os homens honrados, que prestam aos m�diuns o apoio desinteressado de
seus conhecimentos e de suas luzes, que se constituem fiadores da boa-f� que neles deve
existir e os patrocinam de alguma forma. E cometer para com eles uma verdadeira
prevarica��o.
"Todo m�dium que fosse apanhado em manejos fraudulentos; que fosse
apanhado, para me servir de uma express�o um tanto trivial, com a boca na botija,
mereceria ser proscrito por todos os espiritualistas ou esp�ritas do mundo, para os quais
constituiria rigoroso dever desmascar�-los ou infam�-los.
"Se vos convier, Senhor, inserir estas breves linhas no vosso jornal, ficam elas �
vossa disposi��o.
"Aceitai, etc. - Mateus."

318. A imita��o de todos os fen�menos esp�ritas n�o � igualmente f�cil. Alguns
h� que evidentemente desafiam a habilidade da prestidigita��o: tais, notadamente, o
movimento dos objetos sem contacto, a suspens�o dos corpos pesados no ar, as
pancadas de diferentes lados, as apari��es, etc., salvo o emprego das tram�ias e do
compadrio. Por isso dizemos que o que necess�rio se faz em tal caso � observar
atentamente as circunst�ncias e,
418
CAP�TULO XXVIII

sobretudo, ter muito em conta o car�ter e a posi��o das pessoas, o objetivo e o interesse
que possam ter em enganar. Essa a melhor de todas as fiscaliza��es, porquanto
circunst�ncias h� que fazem desaparecer todos os motivos de suspeita. Julgamos, pois,
em princ�pio, que se deve desconfiar de quem quer que fa�a desses fen�menos um
espet�culo, ou objeto de curiosidade e de divertimento, e que pretenda produzi-los � sua
vontade e da maneira exigida, conforme j� explicamos. Nunca ser� demais repetir que as
intelig�ncias ocultas que se nos manifestam t�m suas suscetibilidades e fazem quest�o de
nos provar que tamb�m gozam de livre-arb�trio e n�o se submetem aos nossos
caprichos. (N. 38.)
Ser� suficiente assinalemos alguns subterf�gios, que costumam empregar-se, ou
que o podem ser em certos casos, para premunirmos contra a fraude os observadores de
boa-f�. Quanto aos que se obstinam em julgar, sem aprofundarem as coisas, fora tempo
perdido procurar desiludi-los.

319. Um dos fen�menos mais comuns � o das pancadas no interior mesmo da
subst�ncia da madeira, com ou sem movimento da mesa, ou do objeto de que se fa�a
uso. Esse efeito � um dos mais f�ceis de ser imitado, quer pelo contacto dos p�s, quer
provocando-se pequenos estalidos no m�vel. H�, por�m, uma artimanhazinha especial,
que conv�m desvendar. Basta que uma pessoa coloque as duas m�os espalmadas sobre a
mesa e t�o aproximadas que as unhas dos polegares se ap�iem fortemente uma contra a
outra; ent�o, por meio de um movimento muscular inteiramente impercept�vel, produz-
se nelas um atrito que d� um ru�do seco, apresentando grande analogia com o da
tiptologia �ntima. Esse ru�do repercute na madeira e produz completa ilus�o. Nada mais
f�cil do que fazer que se ou�am tantas pancadas quantas se queiram, o rufo do tambor,
etc., do que responder a certas perguntas, por um sim, ou um n�o, por n�meros, ou
mesmo pela indica��o das letras do alfabeto.
419
DO CHARLATANISMO E DO EMBUSTE

Estando-se prevenido, � muito simples o modo de descobrir a fraude. Ela se
torna imposs�vel, desde que as m�os sejam afastadas urna da outra e desde que se tenha
a certeza de que nenhum outro contacto poder� produzir o ru�do. Al�m disso, as
pancadas reais apresentam esta caracter�stica: mudam de lugar e de timbre, � vontade, o
que n�o pode dar-se quando devidas � causa que assinalamos, ou a qualquer outra
an�loga. Assim � que deixam a mesa, para se fazerem ouvir noutro m�vel qualquer, com
o qual ningu�m se acha em contacto, nas paredes, no forro, etc., e respondem a
quest�es n�o previstas. (Veja--se o n. 41.)

320. A escrita direta ainda � mais facilmente imit�vel. Sem falar dos agentes
qu�micos bem conhecidos, para fazerem que em dado tempo a escrita apare�a no papel
branco, o que se consegue impedir com as mais vulgares precau��es, pode acontecer
que, por meio de h�bil escamotea��o, se substitua um papel por outro. Pode dar-se
tamb�m que aquele que queira fraudar tenha a arte de desviar as aten��es, enquanto
escreva com destreza algumas palavras. Algu�m nos disse ter visto uma pessoa escrever
assim com um peda�o de ponta de l�pis escondido debaixo da unha.

321. O fen�meno do trazimento de objetos, de fora para o lugar onde se efetua a
reuni�o, n�o se presta menos � trapa�a e facilmente se pode ser enganado por um
escamoteador mais ou menos destro, sem que haja mister se trate de um prestidigitador
profissional. No par�grafo especial que acima inserimos (n. 96), os pr�prios Esp�ritos
determinaram as condi��es excepcionais em que ele se produz, donde l�cito � concluir-
se que a sua obten��o facultativa e f�cil deve, quando nada, ser tida por suspeita. A
escrita direta est� no mesmo caso.

322. No cap�tulo Dos m�diuns especiais, mencionamos, segundo os Esp�ritos, as
aptid�es medi�nicas comuns e as que s�o raras. Cumpre, pois, desconfiar dos m�diuns
420
CAP�TULO XXVIII

que pretendam possuir estas �ltimas com muita facilidade, ou que ambicionem dispor de
m�ltiplas faculdades, pretens�o que s� muito raramente se justifica.

323. As manifesta��es inteligentes s�o, conforme as circunst�ncias, as que
oferecem mais garantias; entretanto, nem mesmo essas escapam � imita��o, pelo menos
no que toca �s comunica��es banais e vulgares. Pensam alguns que, com os m�diuns
mec�nicos, est�o mais seguros, n�o s� pelo que respeita � independ�ncia das id�ias,
como tamb�m contra os embustes; da� o preferirem os intermedi�rios materiais. Pois
bem! � um erro. A fraude se insinua por toda parte e sabemos que, com habilidade, at�
mesmo uma cesta, ou uma prancheta que escreve pode ser dirigida � vontade, com todas
as apar�ncias dos movimentos espont�neos. S� os pensamentos expressos, quer venham
de um m�dium mec�nico, quer de um intuitivo, audiente, falante ou vidente, afastam
todas as d�vidas. H� comunica��es, t�o fora das id�ias, dos conhecimentos e mesmo do
alcance intelectual do m�dium, que s� por efeito de estranha oblitera��o se poderia
atribui-las a este �ltimo. Reconhecemos que o charlatanismo disp�e de grande
habilidade e vastos recursos, mas ainda lhe n�o descobrimos o dom de dar saber a um
ignorante, nem esp�rito a quem n�o o tenha.
Em resumo, repetimos, a melhor garantia est� na moralidade not�ria dos
m�diuns e na aus�ncia de todas as causas de interesse material, ou de amor-pr�prio,
capazes de estimular-lhes o exerc�cio das faculdades medi�nicas que possuam,
porquanto essas mesmas causas poderiam induzi-los a simular as de que n�o disp�em.
421




CAP�TULO XXIX

DAS REUNI�ES E DAS SOCIEDADES ESP�RITAS


Das reuni�es em geral. - Das Sociedades propriamente ditas. - Assuntos de
estudo. - Rivalidades entre as Sociedades.

Das reuni�es em geral

324. As reuni�es esp�ritas oferecem grand�ssimas vantagens, por permitirem que
os que nelas tomam parte se esclare�am, mediante a permuta das id�ias, pelas quest�es e
observa��es que se fa�am, das quais todos aproveitam. Mas, para que produzam todos
os frutos desej�veis, requerem condi��es especiais, que vamos examinar, porquanto
erraria quem as comparasse �s reuni�es ordin�rias. Todavia, sendo, afinal, cada reuni�o
um todo coletivo, o que lhes diz respeito decorre naturalmente das precedentes
instru��es. Cabe-lhes tomarem as mesmas precau��es e preservarem-se dos mesmos
escolhos que os indiv�-
422
CAP�TULO XXIX

duos. Essa a raz�o por que colocamos em �ltimo lugar esse cap�tulo.
Elas apresentam caracteres muito diferentes, conforme o fim com que se
realizam; por isso mesmo, suas condi��es intr�nsecas tamb�m devem diferir. Segundo o
g�nero a que perten�am, podem ser fr�volas, experimentais,ou instrutivas.

325. As reuni�es fr�volas se comp�em de pessoas que s� v�em o lado divertido
das manifesta��es, que se divertem com as fac�cias dos Esp�ritos levianos, aos quais
muito agrada essa esp�cie de assembl�ia, a que n�o faltam por gozarem nelas de toda a
liberdade para se exibirem. E nessas reuni�es que se perguntam banalidades de toda
sorte, que se pede aos Esp�ritos a predi��o do futuro, que se lhes p�e � prova a
perspic�cia em adivinhar as idades, ou o que cada um tem no bolso, em revelar
segredinhos e mil outras coisas de igual import�ncia.
Tais reuni�es s�o sem conseq��ncia; mas, como �s vezes os Esp�ritos levianos
s�o muito inteligentes e, em geral, de bom humor e bastante jovialidade, d�o-se
freq�entemente nelas fatos muito curiosos, de que o observador pode tirar proveito.
Aquele que s� isso tenha visto e julgue o mundo dos Esp�ritos por essa amostra, id�ia
t�o falsa far� deste, como quem julgasse toda a sociedade de uma grande capital pela de
alguns de seus quarteir�es. O simples bom-senso diz que os Esp�ritos elevados n�o
comparecem �s reuni�es deste g�nero, em que os espectadores n�o s�o mais s�rios do
que os atores. Quem queira ocupar-se com coisas f�teis deve francamente chamar
Esp�ritos levianos, do mesmo modo que para divertir uma sociedade chamaria tru�es;
por�m, cometeria uma profana��o aquele que convidasse para semelhantes meios
individualidades veneradas, porque seria misturar o sagrado com o profano.

326. As reuni�es experimentais t�m particularmente por objeto a produ��o das
manifesta��es f�sicas. Para mui-
423
DAS REUNI�ES E DAS SOCIEDADES ESP�RITAS

tas pessoas, s�o um espet�culo mais curioso que instrutivo. Os incr�dulos saem delas
mais admirados do que convencidos, quando ainda outra coisa n�o viram, e se voltam
inteiramente para a pesquisa dos artif�cios, porquanto, nada percebendo de tudo aquilo,
de boa mente imaginam a exist�ncia de subterf�gios. J� outro tanto n�o se d� com os
que h�o estudado; esses compreendem de antem�o a possibilidade dos fen�menos, e a
observa��o dos fatos positivos lhes determina ou completa a convic��o. Se houver
subterf�gios, eles se achar�o em condi��es de descobri-los.
Nada obstante, as experi�ncias desta ordem trazem uma utilidade, que ningu�m
ousaria negar, visto terem sido elas que levaram � descoberta das leis que regem o
mundo invis�vel e, para muita gente, constituem poderoso meio de convic��o.
Sustentamos, por�m, que s� por s� n�o logram iniciar a quem quer que seja na ci�ncia
esp�rita, do mesmo modo que a simples inspe��o de um engenhoso mecanismo n�o
torna conhecida a mec�nica de quem n�o lhe saiba as leis. Contudo, se fossem dirigidas
com m�todo e prud�ncia, dariam resultados muito melhores. Voltaremos em breve a
este ponto.

327. As reuni�es instrutivas apresentam car�ter muito diverso e, como s�o as
em que se pode haurir o verdadeiro ensino, insistiremos mais sobre as condi��es a que
devem satisfazer.
A primeira de todas � que sejam s�rias, na integral acep��o da palavra. Importa
se persuadam todos que os Esp�ritos cujas manifesta��es se desejam s�o de natureza
especial�ssima; que, n�o podendo o sublime aliar-se ao trivial, nem o bem ao mal, quem
quiser obter boas coisas precisa dirigir-se a bons Esp�ritos. N�o basta, por�m, que se
evoquem bons Esp�ritos; � preciso, como condi��o expressa, que os assistentes estejam
em condi��es prop�cias, para que eles assintam em vir. Ora, a assembl�ias de homens
levianos e superficiais, Esp�ritos superiores n�o vir�o, como n�o viriam quando vivos.
424
CAP�TULO XXIX

Uma reuni�o s� e verdadeiramente s�ria, quando cogita de coisas �teis, com
exclus�o de todas as demais. Se os que a formam aspiram a obter fen�menos
extraordin�rios, por mera curiosidade, ou passatempo, talvez compare�am Esp�ritos que
os produzam, mas os outros da� se afastar�o. Numa palavra, qualquer que seja o car�ter
de uma reuni�o, haver� sempre Esp�ritos dispostos a secundar as tend�ncias dos que a
componham. Assim, pois, afasta-se do seu objetivo toda reuni�o s�ria em que o ensino �
substitu�do pelo divertimento. As manifesta��es f�sicas, como dissemos, t�m sua
utilidade; v�o �s sess�es experimentais os que queiram ver; v�o �s reuni�es de estudos
os que queiram compreender; � desse modo que uns e outros lograr�o completar sua
instru��o esp�rita, tal qual fazem os que estudam medicina, os quais v�o, uns aos cursos,
outros �s cl�nicas.

328. A instru��o esp�rita n�o abrange apenas o ensinamento moral que os
Esp�ritos d�o, mas tamb�m o estudo dos fatos. Incumbe-lhe a teoria de todos os
fen�menos, a pesquisa das causas, a comprova��o do que � poss�vel e do que n�o o �;
em suma, a observa��o de tudo o que possa contribuir para o avan�o da ci�ncia. Ora,
fora erro acreditar-se que os fatos se limitam aos fen�menos extraordin�rios; que s� s�o
dignos de aten��o os que mais fortemente impressionam os sentidos. A cada passo, eles
ressaltam das comunica��es inteligentes e de forma a n�o merecerem desprezados por
homens que se re�nem para estudar. Esses fatos, que seria imposs�vel enumerar, surgem
de um sem-n�mero de circunst�ncias fortuitas. Embora de menor relevo, nem por isso
menos dignos s�o do mais alto interesse para o observador, que neles vai encontrar ou a
confirma��o de um princ�pio conhecido, ou a revela��o de um princ�pio novo, que o faz
penetrar um pouco mais nos mist�rios do mundo invis�vel. Isso - tamb�m � filosofia.

329. As reuni�es de estudo s�o, al�m disso, de imensa utilidade para os m�diuns
de manifesta��es inteli-
425
DAS REUNI�ES E DAS SOCIEDADES ESP�RITAS

gentes, para aqueles, sobretudo, que seriamente desejam aperfei�oar-se e que a elas n�o
comparecerem dominados por tola presun��o de infalibilidade. Constituem um dos
grandes trope�os da mediunidade, como j� tivemos ocasi�o de dizer, a obsess�o e a
fascina��o. Eles, pois, podem iludir-se de muito boa-f�, com rela��o ao m�rito do que
alcan�am e facilmente se concebe que os Esp�ritos enganadores t�m o caminho aberto,
quando apenas lidam com um cego. Por essa raz�o � que afastam o seu m�dium de toda
fiscaliza��o; que chegam mesmo, se for preciso, a faz�-lo tomar avers�o a quem quer
que o possa esclarecer. Gra�as ao insulamento e � fascina��o, conseguem sem
dificuldade lev�-lo a aceitar tudo o que eles queiram.
Nunca ser� demais repetir: a� se encontra n�o somente um trope�o, mas um
perigo; sim, verdadeiro perigo, dizemos. O �nico meio, para o m�dium, de escapar-lhe �
a an�lise praticada por pessoas desinteressadas e benevolentes que, apreciando com
sangue frio e imparcialidade as comunica��es, lhe abram os olhos e o fa�am perceber o
que, por si mesmo, ele n�o possa ver. Ora, todo m�dium que teme esse ju�zo j� est� no
caminho da obsess�o; aquele que acredita ter sido a luz feita exclusivamente em seu
proveito est� completamente subjugado. Se toma a mal as observa��es, se as repele, se
se irrita ao ouvi-las, d�vida n�o cabe sobre a natureza m� do Esp�rito que o assiste.
Temos dito que um m�dium pode carecer dos conhecimentos necess�rios para
perceber os erros; que pode deixar-se iludir por palavras retumbantes e por uma
linguagem pretensiosa, ser seduzido por sofismas, tudo na maior boa-f�. Por isso � que
em falta de luzes pr�prias, deve ele modestamente recorrer � dos outros, de acordo com
estes dois ad�gios: quatro olhos v�em mais do que dois e -ningu�m � bom juiz em causa
pr�pria. Desse ponto de vista � que s�o de grande utilidade para o m�dium as reuni�es,
desde que se mostre bastante sensato para ouvir as opini�es que se lhe d�em, porque ali
se encontrar�o pessoas mais esclarecidas do que ele e que apanhar�o os
426
CAP�TULO XXIX

matizes, muitas vezes delicados, por onde trai o Esp�rito a sua inferioridade.
Todo m�dium, que sinceramente deseje n�o ser joguete da mentira, deve,
portanto, procurar produzir em reuni�es serias, levando-lhes o que obtenha em
particular, aceitar agradecido, solicitar mesmo o exame cr�tico das comunica��es que
receba. Se estiver �s voltas com Esp�ritos enganadores, esse o meio mais seguro de se
desembara�ar deles, provando-lhes que n�o o podem enganar. Ali�s, ao m�dium, que se
irrita com a cr�tica, tanto menos raz�o assiste para semelhante irrita��o, quanto o seu
amor-pr�prio nada tem que ver com o caso, pois que n�o � seu o que lhe sai da boca, ou
do l�pis, e que mais respons�vel n�o � por isso, do que o seria se lesse os versos de um
mau poeta.
Insistimos nesse ponto, porque, assim como esse � um escolho para os m�diuns,
tamb�m o � para as reuni�es, nas quais importa n�o se confie levianamente em todos os
int�rpretes dos Esp�ritos. O concurso de qualquer m�dium obsidiado, ou fascinado, lhes
seria mais nocivo do que �til; n�o devem elas, pois, aceit�-lo. Julgamos j� ter expendido
observa��es suficientes, de modo a lhes tomar imposs�vel equivocarem-se acerca dos
caracteres da obsess�o, se o m�dium n�o a puder reconhecer por si mesmo. Um dos
mais evidentes �, da parte deste, a pretens�o de ter sempre raz�o contra toda gente. Os
m�diuns obsidiados, que se recusam a reconhecer que o s�o, se assemelham a esses
doentes que se iludem sobre a pr�pria enfermidade e se perdem, por se n�o submeterem
a um regime salutar.

330. O objetivo de uma reuni�o s�ria deve consistir em afastar os Esp�ritos
mentirosos. Incorreria em erro, se se supusesse ao abrigo deles, pelos seus fins e pela
qualidade de seus m�diuns. N�o o estar�, enquanto n�o se achar em condi��es
favor�veis.
A fim de que bem compreenda o que se passa em tais circunst�ncias, rogamos ao
leitor se reporte ao que
427
DAS REUNI�ES E DAS SOCIEDADES ESP�RITAS

dissemos acima, no n. 231, sobre a lnflu�ncia do meio. Imagine-se que cada indiv�duo
est� cercado de certo n�mero de ac�litos invis�veis, que se lhe identificam com o
car�ter, com os gostos e com os pendores. Assim sendo, todo aquele que entra numa
reuni�o traz consigo Esp�ritos que lhe s�o simp�ticos. Conforme o n�mero e a natureza
deles, podem esses ac�litos exercer sobre a assembl�ia e sobre as comunica��es
influ�ncia boa ou m�. Perfeita seria a reuni�o em que todos os assistentes, possu�dos de
igual amor ao bem, consigo s� trouxessem bons Esp�ritos. Em falta da perfei��o, a
melhor ser� aquela em que o bem suplante o mal. Muito l�gica � esta proposi��o, para
que precisemos insistir.

331. Uma reuni�o � um ser coletivo, cujas qualidades e propriedades s�o a
resultante das de seus membros e formam como que um feixe. Ora, este feixe tanto mais
for�a ter�, quanto mais homog�neo for. Se se houver compreendido bem o que foi dito
(n. 282, pergunta 5), sobre a maneira por que os Esp�ritos s�o avisados do nosso
chamado, facilmente se compreender� o poder da associa��o dos pensamentos dos
assistentes. Desde que o Esp�rito � de certo modo atingido pelo pensamento, como n�s
somos pela voz, vinte pessoas, unindo-se com a mesma inten��o, ter�o necessariamente
mais for�a do que uma s�; mas, a fim de que todos esses pensamentos concorram para o
mesmo fim, preciso � que vibrem em un�ssono; que se confundam, por assim dizer, em
um s�, o que n�o pode dar-se sem a concentra��o.
Por outro lado, o Esp�rito, em chegando a um meio que lhe seja completamente
simp�tico, a� se sentir� mais � vontade. Sabendo que s� encontrar� amigos, vir� mais
facilmente e mais disposto a responder. Quem quer que haja acompanhado com alguma
aten��o as manifesta��es esp�ritas inteligentes for�osamente se h� convencido desta
verdade. Se os pensamentos forem divergentes, resultar� da� um choque de id�ias
desagrad�vel ao Esp�rito e, por conseguinte, prejudicial � comunica��o. O mesmo
428
CAP�TULO XXIX

acontece com um homem que tenha de falar perante uma assembl�ia: se sente que todos
os pensamentos lhes s�o simp�ticos e ben�volos, a impress�o que recebe reage sobre as
suas pr�prias id�ias e lhes d� mais vivacidade. A unanimidade desse concurso exerce
sobre ele uma esp�cie de a��o magn�tica que lhe decuplica os recursos, ao passo que a
indiferen�a, ou a hostilidade o perturbam e paralisam. E assim que os aplausos eletrizam
os atores. Ora, os Esp�ritos muito mais impression�veis do que os humanos, muito mais
fortemente do que estes sofrem, sem d�vida, a influ�ncia do meio.
Toda reuni�o esp�rita deve, pois, tender para a maior homogeneidade poss�vel.
Est� entendido que falamos das em que se deseja chegar a resultados s�rios e
verdadeiramente �teis. Se o que se quer � apenas obter comunica��es sejam estas quais
forem, sem nenhuma aten��o � qualidade dos que as d�em, evidentemente
desnecess�rias se tornam todas essas precau��es; mas, ent�o, ningu�m tem que se
queixar da qualidade do produto.

332. Sendo o recolhimento e a comunh�o dos pensamentos as condi��es
essenciais a toda reuni�o s�ria, f�cil � de compreender-se que o n�mero excessivo dos
assistentes constitui uma das causas mais contrarias � homogeneidade. N�o h�, � certo,
nenhum limite absoluto para esse n�mero e bem se concebe que cem pessoas,
suficientemente concentradas e atentas, estar�o em melhores condiʏ