sábado, 7 de novembro de 2015 By: Fred

{clube-do-e-livro} Livros em TXT 85 Historias de Arrepiar os Cabelos - Alfred Hitchkock etc

How To Be Popular
Meg Cabot
Como Ser Popular
POPULAR: adjetivo; Adorado, apreciado; estimado; adorado por conhecimentos; procurado para companhia.Popularidade.Nós todos queremos isso. Por quê? Porquê ser
popular quer dizer ser adorado. Todo mundo quer ser adorado.Infelizmente, porém, nem todos nós somos.O que as pessoas populares têm em comum que as fazem tão
popular?Todas elas têm:• Uma maneira amigável sobre elas mesmas;• Alguém para se meter e ajudar a ter o trabalho feito;• Um interesse em tudo o que acontece
no trabalho ou escola;• Um visual moderno e bonito.Essas não são coisas com as quais as pessoas populares nascem. É a cultivação dessas características que as
fazem serem tão populares......e você pode, também, seguindo as dicas deste livro!
Capítulo 1T-MENOS DOIS DIAS E CONTANDOSÁBADO, 26 DE AGOSTO, 19HEu devia saber, pela maneira como a mulher estava olhando para o crachá com o meu nome, o que
ela iria perguntar."Stephen Landry," disse ela quando retirou sua carteira. "Como eu sei esse nome?""Deus, senhora," eu disse. "Eu não sei." Sabendo que eu nunca
tinha visto esta mulher antes na minha vida, eu tinha uma pequena idéia de como ela poderia ter ouvido sobre mim."Eu sei," disse outra senhora, mexendo os dedos
e então apontando para mim. "Você está no time de futebol feminino da Bloomvile High School!""Não, senhora," disse para ela. "Não estou.""Você não estava na
quadra do Greene County Fair Queen, estava?"Mesmo que as palavras estivessem saindo da boca dela, ela sabia que estava errada de novo. Eu não tenho o cabelo da
rainha do Indiana County Fair - meu cabelo é curto, não longo; marrom, não loiro; e ondulado, não liso. Nem o corpo da rainha do Indiana County Fair - na verdade,
sou meio baixinha, e não faço exercícios regularmente, meu abdome meio que... se expande.Obviamente eu faço o que posso com o que Deus me deu, mas eu não estaria
no America's Next Top Model tão cedo, muito menos na quadra de alguma rainha de feira."Não, senhora," disse.O negócio é que eu realmente não queria me aprofundar
no assunto com ela. Quem iria querer?Mas ela não deixaria isso passar."Deus. Eu só sei que conheço seu nome de algum lugar," disse a mulher, me entregando seu
cartão de crédito para pagar por suas compras. "Tem certeza que eu não li sobre você no jornal?""Absoluta, senhora," eu disse. Deus, era só o que faltava. A coisa
toda ter que ser mostrada no jornal.Felizmente, pensei, eu não tenho estado no jornal desde o anúncio de meu nascimento. Por que estaria? Não sou particularmente
talentosa, musical ou o que quer que seja.E só estou na maioria das classes AP, não quer dizer que sou uma estudante de honra ou alguma coisa. Isso é só porque,
se você cresceu em Greene County sabendo que aquele limão Joy vai à lava-louça e não no chá gelado, você vai para a classe AP.Na realidade, é surpreendente a quantidade
de pessoas em Greene County que cometem esse erro. Com o limão Joy, quero dizer. De acordo com o pai de meu amigo Jason, que é médico do Hospital Bloomville."Provavelmente,"
eu disse para a mulher enquanto passava o cartão dela pelo scanner, "é porque meus pais são os donos dessa loja."Coisa que eu sei que não parece muito. Mas a Courthouse
Square Books é a única livraria independente de Bloomville. Isso se você não incluir Livros Adultos Doc Sawyer e Aids Sexual."Não," a mulher disse, balançando
a cabeça. "Também não é isso."Eu podia entender a frustração dela. O que é mais decepcionante sobre isso - se você pensar (o que eu tento não fazer, exceto como
coisas como essa acontecem) - é que Lauren e eu, até o fim da quinta série, éramos amigas. Não amigas próximas, talvez. É difícil ser próxima da garota mais popular
da escola, quando ela tem uma agenda social tão cheia.Mas certamente próxima o suficiente para que ela tenha ido à minha casa (certo, bem, uma vez. E ela não teve
exatamente bons tempos lá. Eu culpo meu pai, que estava cozinhando granola caseira naquela hora. O cheiro de cereal queimado ERA meio além da conta). E eu fui para
a dela (só uma vez... a mãe dela estava fora, fazendo as unhas, mas o pai dela estava em casa e tocou a porta do quarto de Lauren para dizer que o barulho das explosões
que eu estava fazendo durante o nosso jogo de Navy Seal Barbie estava um pouco alto demais. E que ele nunca tinha ouvido falar de Navy Seal Barbie, e queria saber
o que tinha de tão errado em jogar Quiet Nurse Enfermeira."Bem," eu disse para a cliente, "talvez eu só... você sabe. Tenha um daqueles nomes que soam familiares."É.
Imagine por quê. Lauren foi quem divulgou o termo "Não dê uma de Steph Landry." Sem retorno.É impressionante como isso se espalhou rápido. Agora se alguém na escola
faz algo remotamente estúpido ou desconcertante, as pessoas são todas, "Não dê uma de Steph!" ou "Isso foi tão Steph!" ou "Não seja Steph!"E eu sou a Steph de
quem eles estão falando.Ótimo."Talvez seja isso," a mulher disse duvidosa. "Deus, isso vai me incomodar a noite inteira. Eu simplesmente sei disso."O cartão
de crédito dela foi aprovado. Eu destaquei a nota para ela assinar e comecei a embalar suas compras. Talvez eu pudesse dizer a ela que a razão pela qual ela possivelmente
me conhecesse era por causa de meu avô. Por que não? Ele é atualmente uma dos mais falados - e ricos - homens no sul de Indiana, desde que ele vendeu algumas terras
que ele tinha e propôs a rota da nova I-69 ("conectando o México ao Canadá via um corredor" passando por Indiana, entre outros estados) para a construção de um Super
Sav-Mart, que foi inaugurado fim de semana passado.O que quer dizer que ele esteve muito no local, especialmente desde que gastou um punhado do seu dinheiro construindo
um observatório que ele pretende doar para a cidade.Porque toda pequena cidade no sul de Indiana precisa de um observatório.Não.Isso também quer dizer que
minha mãe não está falando com ele, por causa do Super Sav-Mart, que tem preços reduzidos, e vai provavelmente colocar todas as lojas da praça, incluindo a Courthouse
Square Books, fora de serviço.Mas eu sabia que a cliente não ia cair nessa. O sobrenome do meu avô não é nem o mesmo que o meu. Ele foi amaldiçoado no nascimento
com o horrível nome de Emile Kazoulis...mesmo assim, ele fez muito por si próprio, tirando essa desvantagem.Eu simplesmente ia ter que encarar o fato de que, igualzinho
o Super Big gulp vermelho, que não saiu da saia jeans branca D&G da Lauren - mesmo com o meu pai tentando. Ele usou Shout e tudo, e quando não funcionou, ele saiu
e comprou uma saia novinha em folha -o meu nome ficaria grudado na memória das pessoas para sempre.E não de uma forma boa."Bem" disse a mulher pegando sua sacola
e seu recibo. "Eu acho que deve ser uma dessas coisas.""Eu acho que sim," Eu disse para
ela. Não sem algum alívio. Porque ela estava indo embora. Finalmente.Mas
o meu alívio durou pouco. Porque um segundo depois o sino da porta da loja tocou, e Lauren Moffat em pessoa - usando as mesmas calças capris com cós baixo Lilly
Pulitzer que eu tinha experimentado no shopping no outro dia, mas que não pude comprar devido ao fato de que custava o equivalente há 25 horas trabalhando atrás
da caixa registradora na Courthouse Square Books - estava entrando na loja, segurando um Tasti D-Lite do Penguin e falando, "Mãe. Pode ir mais rápido? Eu estou te
esperando há, tipo, uma vida."E caiu a ficha de quem era a mulher com quem eu falava.Que seja. As pessoas não podem esperar que eu leia o nome em cada um dos
cartões de crédito que alguém me dá. Além do mais tem tipo uns cem Moffats aqui em Bloomville."Ah, Lauren, você vai saber," a Sra. Moffat disse para sua filha."Como
eu conheço o nome Steph Landry?""Um, talvez seja porque foi ela que derramou o Big Red Super Gulp na minha saia branca D&G na frente de todo mundo que estava no
refeitório aquele dia na 6ª série?" Lauren respondeu com um suspiro.E ela nunca me perdoou por isso. Muito menos deixou alguém esquecer.A sra. Moffat me deu
um olhar horroroso por cima do ombro de seu sweater Quaker Factory."Oh," ela disse. "Querida. Lauren, eu -"E foi quando a Lauren finalmente me notou, parada
atrás do caixa."Deus, mãe," ela disse rindo enquanto ela empurrava a porta para ir de volta para o ar do fim de tarde. "Bom jeito de dar uma de Steph Landry".
Vamos começar definindo o seu nível de popularidade ou falta dela:Pergunte a si mesmo como as outras pessoas no seu círculo social vêem você.Eles sabem quem
você é? Se sim, como te tratam?Eles fazem comentários maldosos sobre você, nas suas costas, ou na sua cara mesmo?Eles te ignoram?As outras pessoas te incluem
em saídas e atividades, te convidando para eventos sociais e ocasiões?Julgando pelo comportamento dos outros a sua volta você será capaz de dizer se você é adorado,
somente tolerado, ou completamente impopular.Se você é somente tolerado ou completamente impopular, é hora de entrar em ação.
Capítulo 2 AINDA T-MENOS DOIS DIAS E CONTANDOSÁBADO, 26 DE AGOSTOÉ assim que Jason tem me cumprimentado recentemente: "Yo, Crazytop!" E sim, é irritante.O
ruim é que ele parece não se importar quando eu falo isso para ele."Qual é o super plano criminoso essa noite, Crazytop?" Jason quis saber enquanto ele e Becca
caminhavam para dentro da loja uma hora depois que a Lauren e a Sra. Moffat saíram. Bom, a Becca caminhava. Jason se jogou para dentro. Ele passou por cima do balcão
e ajudou a si mesmo a pegar uma trufa Lindt do balcão de doces.Como se ele não achasse que isso não ia me deixar maluca nem nada."Você, coma isso e está me devendo
sessenta e nove centavos," Eu informei a ele.Ele pegou um dólar do bolso de seu jeans e colocou no balcão do caixa. "Fique com o troco", ele disse.Então ele
pegou outra trufa Lindt do balcão de doces e jogou para Becca.Que ficou tão surpresa quando a trufa de chocolate Lindt veio para ela vinda de lugar nenhum, que
ela não pensou em pegá-la, então ela bateu em sua clavícula, caiu no chão e rolou para baixo do balcão.Então Becca estava engatinhando no tapete de alfabeto e
falando:"Ei, tem bastante poeira aqui em baixo. Vocês nunca pensaram em passar o aspirador de pó?""Agora você me deve trinta e oito centavos," Eu disse à Jason."Eu
sou melhor que isso". Ele sempre diz isso. "Quanto tempo até você fechar essa caixa?"Ele sempre pergunta isso também. Mesmo quando ele sabe a resposta muito bem.
"A gente fecha as nove. Você sabe que a gente fecha as nove. A gente têm fechado as nove desde que esse lugar abriu, o que, eu devo adicionar, foi antes de eu
e você nascermos.""Se você diz, Crazytop."Então ele pegou mais uma trufa lindt.É realmente marcante como ele consegue comer sem ficar gordo. Eu como duas dessas
trufas por dia, e pelo fim do mês, o meu jeans não entra mais em mim. Jason consegue comer tipo vinte por dia e ainda tem muito espaço na (sem stretch) Levi's dele.Eu
acho que é uma coisa de garoto. Além disso, uma coisa de crescimento. Jason e eu tínhamos praticamente a mesma altura e peso durante todo o primário e o ginásio,
e na primeira parte do ensino médio, até. E enquanto ele ganhava de mim em chin-ups e qualquer coisa envolvendo jogar uma bola, eu freqüentemente arrasava com ele
em leg-wrestlig e Combate.Então no último verão ele foi para a Europa com a sua avó para ver todos os lugares do livro preferido dela, O Código da Vinci, e quando
ele voltou, ele estava 15 centímetros mais alto do que quando ele partiu. E, um pouco gostoso.Não gostoso tipo o Mark Finley, claro, sendo Mark Finley o cara mais
gostoso do Bloomville High. Mas mesmo assim. É uma coisa bem perturbadora de se perceber sobre seu melhor amigo, mesmo ele sendo um garoto - que ele ficou gostoso.Especialmente
porque ele ainda está tentando ganhar peso suficiente para acompanhar sua altura. (Eu sei. Ele tem que GANHAR peso.) A única coisa que eu posso bater nele agora
é leg-wrestling. Ele até mesmo consegue me bater em Stratego. E eu acho que a única razão que eu posso bater nele de leg-wrestling é só porque ficar sentando no
chão ao lado da garota o deixa um pouco pertubado.Eu tenho que adimitir, desde que ele voltou da Europa, ficar ao lado dele no chão - ou na grama no morro onde
nós vamos muito para olhar as estrelas - me deixa meio pertubada, também. Mas não bastante para fazer com que eu não consiga controlar a vontade de agarrá-lo.
É importante não deixar hormônios entrar no caminho de uma perfeitamente boa amizade. Também para manter sua mente focada."Pare de me chamar de Crazytop," Eu disse
a ele."Se o nome serviu," Jason disse."Carapuça," Eu disse. "A expressão é, 'se a carapuça...'"A fez Becca, tendo encontrado a perdida trufa da Lindt por fim,
aparecer e dizer, "Eu amo o nome Crazytop," toda ansiosa, enquanto tirava poeira do seu cabelo loiro ondulado. "Sim," Eu disse resmungando. "Bem, isso pode ser
seu apelido de agora, então". Mas lógico que Jason teve ser todo, "Desculpe-me, mas nem todos nós podemos ser um gênio criminal como Crazytop aqui.""Se você
quebrar esse vidro do mostruário," Eu alertei Jason, porque ele estava parado sentado no contador, balançando seus pés na frente do vidro abaixo dele, "eu farei
você levar todas essas bonecas para casa com você"Porque atras do vidro há cerca 30 bonecas Madame Alexander, a maioria delas são baseadas em personagens fictícios
de livros, como Marmee e Jo de "Mulherzinhas" e Heidi de "Heidi". Eu posso apontar que foi idéia minha colocar todas essas bonecas na semana dos colecionadores
de bonecas, depois que eu descobri que nós perdemos uma boneca na semana dos colecionadores de bonecas, de uma maneira vergonhosa, pela mão leve, fora a Madame Alexander,
que carrega uma grande bolsa - geralmente com gatos dentro - para passear nas lojas, como a nossa, com o propósito de aumentar sua coleção, sem se incomodar, com
o fato de que, na verdade ela tem de pagar pelas bonecas.O Jason diz que as bonecas o assustam. Ele diz que às vezes, ele tem pesadelos com elas vindo atrás dele
com seus pequenos dedos plásticos e seus brilhantes olhos azuis que não piscam.Jason parou de bater o pé."Meu Deus, eu não percebi que já era tão tarde ". Minha
mãe veio do escritório, seu estômago, normalmente guiando o caminho. Eu realmente acredito que meus pais estão indo para o livro dos recordes de produção de crianças.
Minha mãe está para ter seu sexto filho - meu filho-será-seu-pequeno-irmão-ou-irmã - em seis meses. Quando a última criança nascer, nós seremos a maior família da
cidade, não contando os Grubbs, que possuem oito filhos, mas com sua casa motorizada não é tecnicamente situada em Bloomville, é na divisa das cidades Greene e Bloomville.
Apesar de que atualmente eu acho que um dos jovens Grubbs foi levado embora depois que o serviço infantil descobriu que o seu pai estava fazendo limonada com garrafas
de limão Joy."Oi, Sra. Laundry." Jason e Becca disseram."Oh, oi, Jason, Becca." Minha mãe deu um sorriso brilhante para eles. Ela vem fazendo bastante isso ultimamente.
Brilhando, eu digo. Exceto quando o vovô está por perto, é claro. Então ela disse "E o que vocês crianças estão planejando fazer com o seu último sábado livre antes
das aulas começarem? Tem alguém dando uma festa?"Esse é o tipo de mundo de fantasia no qual a minha mãe vive. O tipo no qual eu e meus amigos somos convidados
para divertidas festas-de-volta-às-aulas. É como se ela nunca tivesse ouvido sobre o Super Big Red Gulp. Eu digo, ela estava LÁ quando aconteceu. Foi a culpa dela
que eu estava com Super Big Gulp, em primeiro lugar, porque ela sentiu pena por mim ter apertado a minha atadura e me presenteou com um Super Big Gulp para beber
no carro no caminho para a Bloomville Junior High. Que tipo de pais deixam uma menina de sexta série levar um Super Big Gulp pra escola? O que é mais uma evidência
para a minha teoria de que meus pais não tem a menor idéia do que eles estão fazendo. Eu sei que um monte de gente sente o mesmo sobre seus pais, mas no meu caso,
isso é realmente verdade. Eu percebi que era verdade na vez que a Mãe nos levou na viagem para a cidade de Nova York, e meus pais passaram a semana inteira alternando
entre ficarmos perdidos ou passando na frente dos carros, esperando que eles parem, porque as pessoas param para eles aqui em Bloomville.Em Nova York, não muito.Estaria
tudo bem se fossem só meus pais e eu. Mas nos tínhamos meu irmão Peter de cinco anos na época com a gente, e a minha pequena irmã Catie, que estava em um carrinho,
e meu irmão mais novo, Robbie, que ainda era só um bebê e ainda estava na barriga (a Sara ainda não tinha nascido). Não éramos só eu e meus pais. Tinham crianças
pequenas envolvidas!Depois da quinta vez que eles tentaram atravessar passando em frente do ônibus, eu percebi que meus pais eram insanos e não confiáveis sobre
quaisquer circunstâncias.E eu só tinha 7 anos. Esta descoberta foi concretizada quando eu entrei na puberdade e meus pais começaram a me dizer coisas como, "Olha,
nós nunca fomos pais de uma adolescente antes. Nós não sabemos se estamos fazendo a coisa certa, mas estamos fazendo o melhor que podemos". Isso não é algo que você
quer ouvir dos seus pais sobre nenhuma circunstância. Você quer sentir que os seus pais estão no controle, que eles sabem o que estão fazendo.É. Com os meus pais?
Não muito.O pior foi no verão entre a sexta e a sétima série, quando eles me mandaram para o Acampamento de Garotas. Tudo o que eu queria fazer era ficar em casa
e ajudar na loja. Eu não sou o que se pode chamar de grande fã da natureza, sendo basicamente uma humana que é um ímã para mosquitos. Então, para tornar as coisas
piores, eu descobri que Lauren Moffat iria ser minha colega de cabana. Quando eu muito calma e madura disse a instrutora chefe que não iria dar certo por causa do
extremo ódio da Lauren por mim, devido ao incidente do Super Big Gulp, a instrutora simplesmente disse "Oh, nós vamos ver sobre isso", e minha mãe se DESCULPOU por
mim dizendo que eu tinha dificuldade em fazer amigos."Nós mudaremos isso" disse a instrutora confidencialmente. E me fez ficar na cabana da Lauren.Até dois dias
depois quando eu não tinha comido nada -muito nauseda- ou ido ao banheiro - desde que toda a vez que eu tinha tentado, Lauren ou uma de suas amigas apareciam e diziam
do lado de fora da casa de banheiro "Hey... não de uma de Steph aí." Isso foi quando o instrutor me mudou para uma cabana com outros rejeitados como eu, e eu acabei
tendo um razoável divertimento. Obviamente, dada às condições - eu não estou incluindo o fato de que minha mãe sabe perto do nada sobre contadoria ou administração,
e ainda sim tem seu próprio negócio, ou meu pai pensa que é há um mercado enorme fora daqui, em algum lugar para sua série não publicada sobre o treinador de basquete
da escola Indiana que resolve crimes - meus pais não são para se ter confiança.Nem eles devem saber nada pessoal envolvendo minha vida, exceto o precisa-saber básico."Não,
nada de festa, senhora Landry", foi como Jason respondeu para a minha mãe sobre nossos planos para o fim-de-semana. Eu vinha intruindo o Jason a como conversar com
os meus pais porque a avó de Jason está se casando com o pai da minha mãe, o que faz ele primo de segundo grau dela. Eu acho. "Nós estávamos indo dirigir pela a
rua principal ".Ele disse isso como se não fosse nada de mais - Eu acho que nós estamos indo dirigir pela rua principal. Mas é longe de não ser nada de mais, porque
Jason é o primeiro de nós que ganhou seu próprio carro - ele economizou todo o verão para comprar o carro da governanta de sua avó, uma BMW 1974 2002tii- e esse
é o primeiro sábado à noite que ele o possuiu.Acontece de também ser o primeiro sábado à noite em nossas histórias combinadas que Jason, Beca e eu não vamos passar
deitados na grama observando as estrelas na colina, ou sentados na calçada do lado de fora do "Penguin", nos perguntando o que todo mundo na cidade- que tem acesso
a um carro - estão sentados no sábado à noite, assistindo crianças ricas (as quais ganharam seu próprio carro nos seus aniversários de 16 anos, o oposto de um e-book
como o resto de nós) cruzando em cima e em baixo da avenida principal, inteligentemente nomeada como dragão no centro comercial Bloomville.A avenida principal
começa no parque do riachinho de Bloomville - onde o observatório do vovô está quase terminando sua construção - e continua nesta linha com todas as lojas de rede,
que acaba deixando as pequenas lojas de roupas fora dos negócios (do mesmo jeito que minha mãe pensa que o Super "Sav-Mart", mercado econômico e seu grande desconto
nos departamento de livros irá nos fechar), até a corte judicial. A corte judicial - uma larga construção de calcário com uma abóboda branca que tem uma espiral
cravada de uma parte a outra do meio com um catavento em forma de peixe na parte mais alta, apesar de ninguém saber por que eles escolheram um peixe, visto que somos
um município fechado - é aonde todo mundo vira e desce para Bloomville Creek Park para outra volta."Oh". Mamãe olhou desapontada. Bem, e por que ela não deveria?
Que pai quer ouvir que sua filha está indo gastar sua última noite de sábado das férias de verão dirigindo para cima e para baixo? Ela não sabe o quanto isso é melhor
do que ficar lá sentado assistindo outras pessoas fazendo isso. Apesar de que a idéia de diversão da minha mãe é colocar as crianças na cama e assistir Law and
Order com uma grande tigela de Ben and Jerry's Vanilla Heath Bar Crunch. Então o julgamento dela obviamente tem de ser posto em questão. "Quanto tempo mais você
vai demorar, hein, Crazytop?" Jason perguntou.Eu estava puxando a gaveta do caixa, para começar a contagem do lucro do dia. Eu sabia que se eles não fossem iguais
ou maiores do que este dia do ano passado, minha mãe iria ter um enfarte."Eu queria que alguém me desse um apelido de gênio do crime" sugeriu Becca - não muito
sutilmente - com um suspiro."Desculpa, Bex" Jason disse "Você não tem uma característica facial marcante - como um grande queixo, ou um grande espaço entre os
olhos - isto mereceria o ganho de um nome de gênio do crime, como Lockjaw ou Walleye. Enquanto que Crazytop aqui... bom, olhe para ela. "Sessenta e sete, sessenta
e oito, sessenta e nove, setenta."Pelo menos eu posso deixar meu cabelo liso," Eu apontei " O que é mais do que eu posso dizer do seu nariz, Hawkface "."Stephanie!"
Minha mãe gritou, espantada com que eu fizesse graça do longo- ligeiramente-muito-grande nariz do Jason na cara dele."Está tudo bem, Sra. Landry" Jason disse com
um suspiro de desprezo "Eu sei que eu sou horrível. Desviem seus olhares, todos vocês." Eu revirei os meus olhos, porque Jason está muito longe de ser horrendo
- como eu sei, muito bem afinal - e suspendi a gaveta da maquina registradora, então andei para os fundos da loja para guardar aquilo na segurança do escritório
da minha mãe durante a noite. Eu não mencionei a ela que tinha 100 dólares a menos do que neste mesmo dia no ano passado, e felizmente, ela estava muito ocupada
perguntando porque eu tinha chamado Jason daquele jeito.Como se ela não tivesse ouvido ele me chamando de Crazytop aproximadamente 9 milhões de vezes. Ela acha
que é bonitinho.Minha mãe nunca conheceu Mark Finley, então é obvio que ela não sabe o quão bonitinho ele é.No caminho de volta, eu noticiei que Mr. Huff, um
dos nossos clientes assíduos, entrou para o último Guia para Mustangs. Seus três filhos, na qual ele fica com a custódia nos fins de semana, estavam ocupadas quebrando
os trilhos do trem Brio que nós colocamos na loja para crianças brincarem."Hey, crianças" eu disse para os pequenos Huffs, que estava arrancando a cabine do trem
e colocando roupas nas figuras de ação. "Nós temos que fechar agora, desculpe"As crianças resmungaram. O pai delas claramente não tinha brinquedos legais em casa
para brincar, assim como nós tínhamos na loja.O senhor Huff olhou para cima surpreso, "É realmente hora de fechar?" ele perguntou e olhou seu relógio "Oh, wow,
olhe para isso""Bom jeito de bancar Steph Landry, pai" disse Kevin Huff de apenas oito anos de idade com uma risada.Eu só fiquei lá, olhando para a criança assim
que ela resmungou isso. Estava claro que ele não tinha idéia nenhuma do que ele tinha dito. Ou em frente de quem ele havia dito isso.Está, na verdade, tudo certo.
Porque eu consegui o livro agora.E o livro vai me salvar.
Se você não é popular, é importante examinar as principais razões do porque:Elas podem ser muitas, é claro. • Você sofre de algum odor corporal?• Você tem
acne?• Você está particularmente fora - ou abaixo - do peso?• Você é o palhaço da sala (praticamente humor inapropiado?)Provavelmente não, desde que todas
acimas são facilmente remediadas através de produtos cosméticos, dietas, exercicios e auto-controle sobre si mesmo.Se você respondeu não para todas acima, então
seu caso de impopularidade é mais sério. Seu caso de impopularidade talvez seja algo que você trouxe sobre você.Supondo que uma vez você fez algo horrível, algo
que fez você impopular. O que você pode fazer sobre isso? Você pode fazer eles esquecerem isso?
Capítulo 3 AINDA T-MENOS: DOIS DIAS E CONTANDOSÁBADO, 36 DE AGOSTO, 22:20 Eu não sei por que eu não havia dito a Jason e Becca sobre O Livro, quero dizer, eu
não estou envergonhada sobre isso - bem, não muito, de qualquer jeito. E não é como se eu tivesse roubado ele, ou qualquer coisa. Eu totalmente perguntei para
a avó de Jason se eu podia pegar ele no dia que eu achei ele naquela caixa no sótão, que nós estávamos limpando para que Jason pudesse levar isso para a casa da
piscina estilo Ryan Atwood e Gred Bardy sofá do solteiro. (O que não faz, considerando ele ser filho único, nenhum sentido, exceto pelo fato de que foi fácil transformar
o sótão em seu novo quarto e retirar os pôsters de carros de corrida do seu quarto antigo)E ok, eu não tirei o livro da caixa e perguntei para Kitty - Sra. Hollenbach,
avó de Jason, que pediu para gente chamá-la pelo primeiro nome, para não confundirmos ela com a outra Sra. Hollenbach, sua nora, mãe de Jason - se eu podia tê-lo
em especificamente. Eu só perguntei se eu podia ficar com a CAIXA, que contem O Livro tão como algumas roupas antigas e um pouco de novelas românticas dos anos 80
- cujo, eu tenho que dizer, causou com que eu olhasse Kitty de um novo modo, considerando que a heroína de um deles gostava de ter sexo com um Turco, que no livro
não significa "enquanto veste uma roupa". Mas Kitty só olhou dentro da caixa e disse, "Oh, é claro querida, eu não consigo imaginar o que você quer com essas coisas
antigas"Se ela soubesse. De qualquer jeito, eu não tinha contado a eles. E eu não acho que eu vou. Porque, verdade?Eles iam rir. E eu não acho que eu poderia
suportar isso. Obrigado Lauren Moffat, eu tenho cinco anos de pessoas rindo de - não comigo - mim. Eu não acho que eu posso agüentar mais. De qualquer maneira,
isso com é dirigir pra cima e pra baixo na Rua Principal? Não é tão divertido quanto sentar por perto, assistindo pessoas descendo e subindo a rua Principal.E
rindo deles pelas costas enquanto eles fazem isso. Eu não posso acreditar que durante todo o verão, eu pude ficar desejando estar dentro de um carro invés de fora,
assistindo àquilo tudo na rua Principal. Quando você assisti de fora no Muro é muito melhor. Quero dizer, do Muro você pode ver Darlene Staggs abrir a porta do carona
de picape do namorado à noite, e vomitar toda a limonada que ela tinha tomado durante aquela tarde enquanto tomava sol.Do Muro você pode ouvir a voz esganiçada
de Bebe Johnson enquanto ela canta sozinha com Ashlee Simpson no rádio. Do Muro você pode ver Mark Finley ajustar o espelho para poder ver seu próprio reflexo
e ajeitar sua franja. Você não pode fazer nada dessas coisas sentada na traseira do novo carro de Jason. E eu tive que ir na trasseira porque Becca fica enjoada
quando senta no banco de trás. Então ela foi no carona, perto de Jason. O que significa que eu não podia ver muito, exceto a cabeça deles. Então quando Jason disse
"Wow, você viu aquilo? Alyssa Krueger caiu no meio da rua enquanto tentava passar com suas plataformas do SUV de Shane Mullen para o Jipe do Craig Wright." Eu perdi
a coisa toda. "Ela rasgou as calças?" Eu perguntei. Mas nem Jason nem Becca podiam confirmar se as calças dela tinham rasgado.Se nós estivéssemos sentando no
muro eu poderia ter visto a coisa toda.E ainda mais, eu entedi porque Jason está entusiasmado com o novo carro e a coisa toda. Eu acho que ele ficou um pouco cheio
com tudo. Agora, quando ele vê outra BMW, ele pratica aquilo que ele chama de Cortesia BMW, o que significa que quando ele vê outra BMW ele deixa ela passar em frente
a ele - especialmente se elas são da serie 7, a rainha de todas as BMW, ou o conversível 645Ci, que eu acho pessoalmente ridículo, porque é esse que Lauren Muffat
dirigi, levando em conta que seu pai é dono da concessionária BMW. "Oh não, você não acabou de fazer isso" Eu disse quando eu vi Jason deixa um cabelo loiro em
um conversível vermelho passar na nossa frente próximo do Hoosier Sweet Shoppe na Principal. "Por favor, me diga que você não deixou Lauren passar.""Cortesia BMW,
Crazytop" Jason disse "O que eu posso dizer? Quando ela dirige um modelo superior eu tenho que deixar ela ultrapassar. É um obrigação moral." Algumas vezes eu
acho que Jason deve ser o maior esquisitão do condado Greene. Maior que eu, até. Ou Becca. E isso dizendo algo, considerando que Becca passou o maior tempo da sua
vida em uma fazenda sem contato com crianças da sua idade, exceto na escola onde ninguém além de mim podia falar com ela levando em conta o fato de que ela sempre
caia no sono durante a quinta série porque ficava em casa trabalhando com macacões. As pessoas podiam, todas as vezes, tentar acordé-la, mas eu sempre dizia. "Deixe-a
em paz! Ela obviamente precisa de um cochilo"Eu sempre pensei que Becca devia ter uma casa bastante insatisfatória, eu achava isso só porque ela tinha que acordar
às 4:00 da madrugada para poder pegar o ônibus para a escola, já que ela vivia bem longe do condado.Isso levou uma delicada negociação para levar ela a dar um
chute na vida na fazenda. A dormida-durante-a-aula não apareceu mas desde ano passado, quando o governo comprou a fazenda dos pais dela para instalar Interestadual-69
, e os Taylors compraram a casa antiga dos Sydners na rua de baixo da nossa com o dinheiro da venda.Agora que Becca pode dormir até a sete, ela fica acordada durante
as aulas. Até mesmo nas aulas de Saúde, que nós não precisamos estar acordados para.Parecia que esses dois eram meus melhores amigos. Quero dizer, não que eu não
me sinta sortuda em ter os dois na minha vida (bem, okay, talvez não o Jason, com a maneira que ele vem agindo ultimamente). Porque nós tivemos boas risadas juntos.
E aquelas noite que nós estivemos deitados na colina, vendo o céu ficar rosa, depois roxo e finalmente azul escuro quando as estrelas vem uma à uma, enquanto nós
conversamos sobre o que fariamos se meteoros gigantes - como aqueles em Impacto Profundo - viessem para cima da gente à milhões de milhas por hora. (Becca: pedir
à Deus para perdoar seus pecados; Jason: Beijar a bunda dele de despedida; Eu: sair do caminho)Mas ainda, Becca e Jason não é aquilo que nós chamamos de normais.Tome
como exemplo o que nós estávamos ouvindo enquanto Jason dirigia se carro: uma coletânea do que Jason considerava as melhores músicas do anos 70, vendo que seu carro
era dessa época, ele trouxe as músicas no propósito de que nós as escutassem imaginando que estivéssemos naquela década. Aquela noite nós estávamos ouvindo seu ano
favorito 1977 - Sex Pistols com "God Save The Queen" e a trilha sonora completa de Star Wars, com a cena da Catrina. Sério, não há nada como cruzar a rua principal
ao som de uma banda do espaço. Isso foi quando nós estávamos parados sobre o posto em frente a loja de artes que eu vi Mark Finley parar na esquina da principal
com a Elm em seu roxo-e-branco 4x4 fazendo barulho. E meu coração, que sempre faz isso quando eu vejo Mark Finley, deu uma cambalhota em meu peito.Lauren, que
estava muito entusiasmada roncou os motores de volta e acenou pra ele. Não pra gente. Pra Mark. Foi difícil ver o que Mark fez de volta, porque Jason estava fazendo
gestos obcenos para ele... atrás do painel, para ter certeza que Mark não ia vê-los, levando em consideração que você não quer ser visto fazendo gestos obcenos pro
zagueiro da escola se você quiser sobreviver para ver o seu primeiro dia no 3ºano. "Olhe Steph," Jason disse. "é seu namorado" Isso fez com que Becca soltasse
um risinho. Ela estava tentando segurar isso, para não machucar meus sentimentos. Então tudo que veio pra fora foi um barulho bufado."Ele viu o seu novo e louco
penteado?" Jason quis saber "Eu posso apostar que quando ele ver, ele vai esquecer tudo sobre a pequena miss Muffat e cair aos seus pés, instantâneamente."Eu não
disse nada. Porque a verdade é, mesmo que Jason não soubesse do que ele estava falando, isso era exatamente o que ia acontecer. Mark Finley ia totalmente perceber
que eu e ele éramos feito um para o outro. Ele tinha que perceber.De qualquer jeito, andar pra cima e pra baixo na rua principal se tornou um porre. Não só pra
mim, por volta da terceira rodada, Jason disse, "Eu estou de saco cheio, quem quer um café?"Eu não queria, mas eu entendia o que ele queria dizer com de saco cheio.
Quero dizer, ficar dirigindo pra cima e pra baixo na rua principal - mesmo sendo uma rua que todas as pessoas que você conhece estão praticamente dirigindo pra cima
e pra baixo - é chato. E o lado bom do Pot Café, é que se você pegar um lugar no balcão no andar de cima, você ainda pode ver o que está acontecendo na rua principal,
por que é exatamente onde o Pot esta localizado. Está do outro lado da rua perto do muro, por detrás da onde o Góticos e os Pixadores se juntam para chutar os seus
sacos de areia feitos de couro na luz avermelhada de seus cigarros de cravo-da-índia.Assim que nós sentamos no balcão, Jason me deu uma cotovelada e apontou para
depois da grade."Alerta Ken e Barbie, às duas horas" ele disse. Eu olhei para baixo e vi Lauren Moffat e seu par, Mark Finley, se pegando debaixo do outdoor.
Era inaceitável para mim que alguém legal como Mark podia estar com alguém tão má como Lauren. Quero dizer, Mark é adorado universalmente (exceto por Jason, que
sustenta um irracional desdém por todo mundo menos pelo seu melhor amigo, Stuckey, que pode ser possivelmente um dos seres humanos mais chatos da face da terra;
Becca; e eu - quando não estamos brigando, de qualquer jeito). Mark vem sendo votado presidente da turma desde, hm... desde sempre, por causa do seu jeito legal,
enquanto Lauren -Bem, vamos por isso desse jeito; Mark só pode gosta de Lauren por causa do seu visual. Duas pessoas muito bonitas - por que claro, Mark não é
só legal ele é maravilhoso que nem o Brad Pitt, também - tem que ficar juntos. Eu acho. Mesmo que um deles for um enviado de satã. E Mark e Lauren - eles estavam
sem dúvidas juntos. O braço de Mark estava envolta dos ombros de Lauren e seus dedos estavam deslizando sobre eles. Os dois estavam totalmente se pegando, obviamente
desligados do fato de ter pessoas perto deles que não queriam necessariamente vê-los se beijando. Embora, obviamente, a única que achava que a visão de Mark e Lauren
se beijando era como uma espada fincada no coração. Becca e Jason não gostam de ver pessoas colocando a língua na boca de outras pessoas, eles acham nojento."Urgh"
Becca disse, desviando o seu olhar. "Eu estou cego agora" Jason declarou. "Eles me cegaram com sua nojenta afeição."Eu estiquei meu pescoço para poder ver depois
da avenida. Mas os dois havia se abaixado para que Mark pudesse usar o caixa eletrônico. Tudo que eu pude ver foi um pouco do cabelo de Lauren. "Porque eles tem
que fazer isso?" Jason quis saber. "Fazer isso em público? Eles querem esfregar na cara da gente que eles tem alguém especial e o resto de nós não? É isso que eles
estão tentando fazer?""Eu não acho que eles fazem isso de propósito" Becca disse. "Quero dizer, isso ainda é uma injustiça, mas eu acho que é só porque eles não
conseguem resistir um ao outro." "Viu, eu não acredito nisso" Jason disse "eu acho que eles fazem isso de propósito pra deixar o resto de nós se sentindo mal por
não ter achado nossa alma gêmea ainda. Como se o segundo grau fosse realmente o lugar que a maioria de nós quer encontrar nossa alma gêmea."."O que tem de errado
em achar sua alma gêmea no segundo grau?" Becca quis saber "Quero dizer, talvez essa seja a única chance que nós teremos para conhecer nossa alma gêmea. Se você
desperdiçar isso, só porque você não quer conhecer sua alma gêmea no segundo grau, você talvez nunca conheça sua alma gêmea, e vai ser sozinho como uma nuvem pro
resto da vida"."Eu não acredito que nós TEMOS só uma alma gêmea." Jason disse "Eu acho que nós estamos dando múltiplas chances para conhecer várias almas gêmeas.
Com certeza, você pode conhecer uma alma gêmea no segundo grau. Mas isso não significa que se você não se concentrar nisso, você não vai conhecer mais ninguém. Você
vai, só que num tempo mais conveniente para você" "O que é tão inconveniente em conhecer sua alma gêmea durante o segundo grau?" Becca perguntou."Deixe me ver"
Jason disse, coçando seu queixo como se ele tivesse que pensar em algo. "Que tal... você ainda mora com seus pais? Onde você e sua alma gêmea terão que ir, pra você
sabe, levar adiante?"Becca pensou sobre isso e disse "Seu carro.""Viu, isso B.S" Jaison disse, chamando-a apenas pelas iniciais "O que há de romântico nisso?
Esqueça.""Então você está dizendo que ninguém deve namorar durante o segundo grau?" Becca perguntou. "Porque não é romântico fazer isso em um carro?" "É claro
que você pode namorar." Jason disse "Vá à cinemas, de uns amassos e tals. Mas não, você sabe, se apaixone.""O quê?" Becca olhou horrorizada "Nunca?""Não por
alguém que você estuda junto" Jason disse "Quero dizer, qual é, você não quer babar onde você come. Quer?"Só ele não disse babar."Ew" Becca disse."Estou falando
sério" Jason disse "Você namora alguém da escola, o que vai acontecer quando vocês terminarem? Você vai ter que ver ele todos os dias, de qualquer jeito. Super tenso.
Quem precisa disso? Escola já é um saco sem isso, imagine se por mais ISSO!""Então você está dizendo" - Becca precisava de algum esclarecimento - "que nós nunca
deveremos pensar em sair - ou ter um queda - por ninguém na escola? Ninguém?""Exatamente" Jason disse "E eu nunca vou."Becca olhou como se ela não acreditasse
nele, mas eu sabia que ele estava dizendo a verdade - eu sabia por experiência própria, quando, na quinta-série uma nova professora que não sabia nada deixou a gente
se sentar perto um do outro durante a aula, e Jason começou a me beliscar, cutucar e implicar comigo até eu não conseguir mais agüentar isso. Quando eu contei ao
meu avô à respeito de como eu deveria agüentar a situação - se deveria beliscá-lo de volta ou contar à professora - vovô disse "Stephanie, quando garotos implicam
com garotas, é sempre porque eles tem uma quedinha por elas." Mas quando eu - tolamente, agora eu percebi - repti isso para o Jason (na próxima vez que ele fingiu
limpar a meleca na minha cadeira justamente antes de eu sentar nela), ele ficou tão bravo que ele não falou comigo pelo resto do ano. Sem mais G.I.Joe encontra Spelunker
Barbie. Sem mais jogos do Startego. Sem mais corridas de bicicleta. No lugar disso, ele começou a sair com seu amigo estúpido Stuckey, me fazendo ser amiga da Bela
Adormecida (Becca).Ele não falou comigo de novo antes da sexta série, depois do incidente do Super Big Gulp, quando a campanha de Lauren sobre o terror à mim alcançou
o seu auge, ele não pode ajudar mais sentiu pena de mim, sentada sozinha na cafeteria, e finalmente voltou a lanchar comigo de novo.Jason não acredita em um romance
dentro do colégio. De um GRANDE modo."Porque de outra maneira" ele começou, na mesa de café, "você será como aqueles dois retardados lá. Falando sobre isso, Carzytop?
Posso perguntar oque você está fazendo?"Eu parei de balançar os pacotes de açúcar e tornei a abri-los sobre os trilhos do balcão e olhei para Jason inocentemente.
"Nada.""Claramente" Jason disse, "você não está fazendo nada. Você está definitivamente fazendo alguma coisa. O que parece que você está fazendo é pondo pacotes
de açúcar na cabeça de Lauren Moffat's"."Shhh", eu disse. "Está nevando. Mas só em Lauren." Eu agitei mais açúcar para fora do pacote. "Feliz Natal, Mrs. Potter,"
eu falei para Lauren na minha melhor imitação do Jimmy Stewart "Feliz Natal, seu edifício velho e emprestado."Jason começou a fazer barulho, e eu tive que acalmá-lo
quando Becca viu o meu estoque de açúcar se acabando e me trouxe mais pacotes."Pare de rir tão alto" eu disse para o Jason. "Você irá arruinar esse lindo momento
para eles." Eu polvilhei mais açúcar do meu lado do balcão. "Feliz Natal para todos vocês, e para todos uma boa noite"."Ei!" a voz de Lauren Moffat, soando notavelmente
irritada, chegou até nós. "O que -ew! O que tem meu cabelo?"Nós três nos escondemos abaixo da nossa mesa então Lauren não poderia ver a gente quando percebesse
o que havia acontecido. Eu conseguia vê-la entre as réguas do balcão, mas eu sabia que ela não conseguia me ver. Ela estava chacoalhando o cabelo. Becca, agachada
atrás de mim, teve que colocar as suas mãos sobre a boca para segurar a risada. Jason parecia que ia fazer xixi nas calças, ele estava tentando fortemente não rir."Qual
é o problema, bebê?" Mark saiu de baixo do balcão, pondo sua carteira no bolso traseiro. "Há algo - areia ou algo assim - em meu cabelo," Lauren disse, enquanto
afofava o cabelo dela - que, você pode ter certeza, ela não queria fazer, já que ela tinha feito chapinha para deixá-lo todo esticado. Mark se aproximou mais para
examinar o cabelo de Lauren. "Seu cabelo parece bom pra mim ," ele disse. O qual só nos fez rir mais, até que lágrimas estavam fluindo fora dos cantos de nossos
olhos."Bem," Lauren disse com uma última balançada nos cabelos perfeitamente lisos, "eu acho que você tem razão. Venha. Vamos."Só quando eles tinham rodearam
a esquina indo para o Penguin, que nós finalmente sentamos, rindo semi-histéricos. "Oh meu Deus, você viu a cara dela?" Becca perguntou entre gargalhadas."'Olha,
há algo em meu cabelo! '". Disse ela imitando a voz de Lauren."Isso foi fantástico, Crazytop," o Jason disse, enquanto enxugava as lágrimas das risadas dos olhos
dele. "O melhor grande plano piloto."A não ser que não era. Não era o grande plano. Ele não tinha a mínima idéia."Eu posso pedir o de sempre para vocês?" Isso
era o que Kirsten, nossa garçonete, queria saber, enquanto esfregava abaixo de nossa mesa-aparentemente, ela tinha notado todo o açúcar que eu tinha derramado.Normalmente,
quando Kirsten é nossa garçonete, o Jason derruba o guardanapo dele ou algo com que faça com que ele tenha que rastejar ao redor para procurar isto. Porque ele sente
sobre Kirsten o mesmo que eu sinto sobre Mark: Ele pensa que ela é perfeita. E talvez ela seja. Quem sou eu para julgar? Kirsten, que veio da Suécia, está se virando
através das gorgetas dos colegiais que comem no Café Pot e ainda sim, consegue manter seus reflexos loiros, que é uma das muitas razões pela qual Jason tem gastado
suas noites deitado na colina compondo em sua homenagem.Ele compõe especialmente poesias sobre quando ela usa uma blusa masculina branca com um botão desabotoado
e com a ponta amarrada em cima de sua costela e sem sutiã.Pessoalmente, eu acho que a Kirsten é legal e tudo, mas eu não acho que ela é boa o bastante para o Jason.
Eu nunca admitiria isso para ELE, é claro. Mas eu tenho percebido que ela tem realmente uma pele seca em torno do cotovelo, ela deveria investir em algum creme.Mas
essa noite, por alguma razão, Jason não aparentou notar Kirsten. Ele estava muito ocupado perguntando como Segunda de manhã irá funcionar (não a parte como eu vou
mudar a estrutura social do colégio Bloomville com a ajuda do livro da sua avó - Jason e Becca não sabem sobre isso, obviamente). Nós estavamos discutindo que horas
iriamos sair de casa para ir para a escola agora que o Jason tem um carro- a gloriosa oito da manhã, para pegarmos o toque primeiro sinal, às oito e dez, o oposto
da odiosa sete e meia, que é quando o ônibus escolar aparece na nossa vizinhança."Vocês podem imaginar as caras quando nós chegarmos"? Becca estava dizendo quando
Kirsten veio pegar nosso pedido, " eu quero dizer, no estacionamento de estudandes?""Especialmente se estivermos ouvindo Andy Gibb" , eu apontei o fato"A Classe-A",
Jason disse, "pode me comer ""O que é Classe-A?" Kirsten perguntou "Você sabe" Becca explicou enquanto agitava mais adoçante dentro do seu descafeinado. Becca
ganhou peso, em conta de como quando ela vivia na fazenda, seus pais tinham que a levar de carro a todo lugar porque não tinha nada num caminho que se poderia andar
a pé aos redores da sua casa. Agora que ela vive na cidade, ainda continuando levando ela de carro a todos os lugares, porque eles querem mostar seu novo Cadillac,
o qual eles também compraram com o dinheiro do I-69. "As pessoas populares."Kristen pareceu confusa. "Vocês não são populares?"Isso causou uma risada inapropriada
da nossa parte. O que estava bem, porque nós podemos conversar abertamente sobre a nossa falta de popularidade dentro do Pot, porque somos as únicas pessoas da Bloomville
High que vai lá. É um tipo de lugar hippie, freqüentado por leitores de poesia e que pedem chás em gigantes copos de plástico.E além do mais, não tem muitos adolescentes
no Condado Greene que bebem café (mesmo sendo metade café, metade leite com muito açúcar, que nem eu bebo), eles preferem Blizzerds (dito desse jeito mesmo para
não ser processado pela Dairy Queen por violação de direitos autorias) lá do Penguin."Mas vocês são tão legais" Kristen disse quando nossa risada tinha baixado.
"Eu não entendo, não são as pessoas mais populares na sua escola aquelas que são mais legais? Porque era assim lá na minha escola, na Suécia".Sério, isso quase
trouxe lágrimas aos meus olhos. Eu nunca tinha escutado nada tão lindo. Suécia deve ser o melhor lugar para se viver, não são as pessoas mais populares na sua escola
aquelas que são mais legais?. Por que lá fora, no cruel Midwest, popularidade não tem nada haver com ser legal. Ao menos que você seja Mark Finley, é claro."Fala
sério, vocês estão zoando comigo" Kristen disse com um sorriso que revelou seu dente do meio torto - dente sobre qual Jason tem encerado particularmente e eloqüente
no seu haikais (poema japones curtinho). "Vocês são populares. Eu sei disso."Foi quando Jason parou de rir por tempo suficiente para dizer "Espera, espera... então,
Kristen, você está dizendo que nunca ouviu sobre Steph Landry?"Kristen piscou para mim com seus grandes olhos marrons "Mas essa é você. Você é famosa ou algo,
Steph?""Ou algo" eu disse, desconfortável. Esse é o ponto. Kristen deve ser a única pessoa no Condado Greene que nunca ouviu sobre mim.O bom é que eu tenho
Jason por perto para mantê-la por dentro.
Você pode viver com o erro que o fez impopular? SIM! É claro que você pode. O primeiro passo durante o caminho para a popularidade e honestamente admitir que
talvez haja áreas da sua personalidade, guarda-roupa, e "looks" que precisam de algumas melhorias. Ninguém é perfeito, e a maior de nós temos ao menos caprichos
que podem diminuir nossas chances de se encaixar no mundo popular. É só quando nós admitimos isso que nós podemos começar a à aprender Como Ser Popular.
Capítulo 4 T-MENOS UM DIA E CONTANDODOMINGO, AGOSTO, 12h15min.Eu devia odiá-lo. Mas eu não odeio. É difícil odiar alguém que fica tão bom sem os shorts.Eu
não acredito que eu pensei isso. Eu não acredito que eu estou sentada aqui FAZENDO isso, quando eu juro, eu não queria. Nunca mais.Bem, é culpa dele de qualquer
jeito, por não baixar suas cortinas.A coisa é, o que você supostamente tem que fazer quando você sabe que algo está errado, mas você não pode para de fazê-lo?É
claro, eu acho que eu poderia parar se eu realmente quisesse. Mas, hm... Eu não queria, obviamente.Sério, se você pensar sobre isso, é só você pesquisar. Em caras.
Meu interesse em ver Jason sem roupa é puramente cientifico. Que é porque d'eu estar usando os binóculos que eu mandei para Bazooka Joe quando eu tinha onze (sexto
bazooka papel de chiclete, mas noventa e cinco, para transporte e suporte. Eles atualmente funcionam. Um pouco). Quero dizer, alguém tem que observar garotos em
seu habitat natural e entender o que os faz bonitos. Especialmente quando eles estão pelados.Mas eu realmente me sinto culpada com isso. Ainda mais sobre os binóculos.Mas
não culpada o suficiente para parar.Mais, você sabe, se você me perguntar, ele meio que merece isso - especialmente ontem à noite, depois de contar para Kristen
a historia do Super Big Gulp. Como se ela necessitasse saber sobre isso.E depois ele teve a coragem de dizer "Hey, vamos para colina?" Como se eu fosse realmente
sair me divertindo por ai depois dele ter contado para a única pessoa na cidade que não sabia sobre dar uma de Steph Landry.Sem falar que eu não tive o meu desconto
comigo e eu não gosto de mentir na grama e estar comendo bichos-de-pé só para fazer um pedido para as estrelas cadentes. Quero dizer, é por isso que vovô está construindo
o observatório, pelo amor de Deus!Então a culpa? Não muita. Certamente não o suficiente para ir ao confessionário falar sobre isso ou algo.Até porque, mesmo
que eu vá ao confessionário falar sobre isso, Padre Chuck ia dizer algo a minha mãe - eu simplesmente sei isso. E ai ela ia dizer a Kitty. E Kitty ia contar para
seu filho, Dr. Hollenbach, que iria contar para Jason (ou na melhor das hipóteses, ele ia dizer para Jason abaixar as cortinas). E ai, eu não ia poder vê-lo mais.
Pelado, quero dizer.E isso ia ser totalmente uma droga.Além do mais, você não pode me dizer que o que eu estou fazendo é tudo ISSO de errado. Garotos vem fazendo
isso com garotas à cem - talvez mil - anos. Desde que pessoas trocam de roupas em frente às janelas - ou pessoas não abaixam as cortinas, de qualquer, jeito - há
outras pessoas olhando elas.É tempo de nós garotas terem isso de volta, é disso que eu estou falando.E mesmo que seja um fardo eu reportar isso, Jason estava
me dando uma boa, boa revanche. Eu não sei o que ele comeu quando ele estava na Europa, mas ele voltou tão gostoso! Ele não tinha esses bíceps antes de ir. E de
jeito maneira ele tinha esse abdômen.Ou talvez ele tivesse e eu nunca tenha notado.É claro, não é como, antes dele ir, eu não ficava olhando ele pelado regulamente.
Isso não acontecia até ele se mudar para o sótão, o que acontece é que agora ele tem uma janela em frente há basculante do banheiro do andar de cima, foi ai que
eu notei que eu podia ver ele.E pessoas na minha família se perguntaram o que eu fazia no banheiro por tanto tempo, como meu pequeno irmão Pete, que só bateu na
porta."O que você está fazendo ai?" ele quis saber. "você está ai à uma hora"Meu maior erro foi abrir a porta."O que você quer?" Eu perguntei "Porque você
não está na sua cama?""Porque eu preciso fazer xixi" Pete disse, passando por mim com violência e tirando aquilo rápido. "O que você acha que seria?""Ew" eu
disse. Eu seriamente duvido que Lauren Moffat tem que ver seus irmãos mais novos fazendo xixi na frente dela.É claro, Lauren provavelmente tem seu próprio banheiro."Eu
disse pra você que eu tinha que ir" Pete disse, claramente não ligando para as cicatrizes psicológicas que ele havia-me causado fazendo xixi em frente de mim. Ele
olhou em volta e disse "Hey, porque você está sentada aqui no escuro?""Eu não estou" Eu disse. Mesmo que a luz no banheiro estivesse apagada. Eu só podia vê-lo
pelo brilho da lua, entrando pela janela."Uh, yeah, você está." Pete terminou e corou. "Você é realmente estranha, você sabe disso, Steph?"Um. Duh. "Volte pra
cama imbecil""Quem é o imbecil?" Pete quis saber.Mas ele voltou para cama. E não tinha notado os binóculos. Graças a Deus.Eu acho que eu deveria tentar ser
um pouquinho mais compreensiva de como a vida dele - Pete - deve ser. Tendo a nada famosa Steph Landry como irmã mais velha, quero dizer. Obviamente, isso deve por
ele em uma severa desvantagem social, pelo menos nessa cidade.No entanto ele carregou-o notavelmente bem... os aborrecimentos, os vexames, as desagradável visitas
no parquinho.Da maneira que eu vejo isso, as coisas poderiam ser piores. Isso é, tinha uma garota na escola ano passado, Justine Yeager, que era realmente um gênio
- ela tinha uma média de notas realmente boas e tinha o recorde mais alto que você pode conseguir no SATs, mesmo na parte escrita. Mas ela tinha zero em habilidade
social - ela era esperta em LIVROS, mas não em PESSOAS. Isso significa, pior do que jogar acidentalmente um grande e vermelho Super Big Gulp na menina mais popular
do colégio. Ninguém sentava ao lado da Justine no lanche, nem mesmo os B-crowders, porque tudo sobre o que ela falava era de como ela era mais inteligente que todo
mundo.Então quando as coisas ficam realmente ruins - como elas estão agora, quando é a última noite de sábado das férias de verão e em vez de estar fora em um
encontro ou em uma festa ou no lago ou em qualquer lugar, eu estou sentada no banheiro espiando o meu melhor amigo enquanto ele se despe e se arruma para dormir
- eu penso sobre como eu poderia ter nascido igual a Justine Yeager, ao invés de você sabe... eu. E isso ajuda.Sorte minha.Pelo menos eu não estou sozinha. Em
não estar numa festa no lago, porque Jason está em casa também. E aparentando muito, muito bem.Tudo bem, isso é doentio. DOENTIO. Eu vou definitivamente pedir
a Deus para me perdoar disso durante a missa na igreja de amanhã. Desde que eu não posso pedir ao Padre Chuck. Talvez seja bom ir reto ao topo.Sem mais desculpas.
Isso foi oque o meu avô sempre avisou, de qualquer forma.Embora que é claro que meu avô não sabia quanto tempo eu passei espiando o corpo nu do meu futuro meio-qualquer-coisa-que-
Jason-será-meu quando o sua avó casar com o meu avô.Mas, que seja.
Qual é o segredo da popularidade? O que faz algumas pessoas serem tão amadas e outras não?Pessoas populares:•Sempre tem um sorriso pronto para qualquer um.•Apresenta
um interesse genuíno nos outros e no que eles tem a dizer.•Lembram dos nomes das pessoa e o mais doce e mais importante som para eles! Pessoas populares chamam
as pessoas pelos seus nomes, e fazem isso sempre.•São bons ouvintes que encorajam os outros a falar sobre eles próprios.•Fazem a pessoa com quem estão falando
se sentir mais importante - e fazem isso sinceramente. Eles sempre fazem a conversa ser sobre VOCÊ, não sobre eles!
Capítulo 5T-MENOS UM DIA E CONTANDO DOMINGODOMINGO, AGOSTO 27, MEIO-DIA.Eu me encontrei com o vovô no observatório onde todos os outros estavam tendo café e
rosquinhas no porão da igreja após a missa. Eu tinha que ter uma rosquinha e orelhas de elefante de qualquer forma, enquanto elas iam direto para a minha bunda.
Eu tive que andar de bicicleta ao redor da cidade por uma hora para trabalhar por causa de uma rosquinha. Isso totalmente não vale a pena. A menos que for um Krispy
Kremem quente, é claro.Meu avô disse que eu herdei essa tendência da sua primeira esposa, minha avó. Eu não saberia se isso é verdade ou não, desde que minha avó
morreu de câncer no pulmão antes de eu nascer, mesmo que ela não fumasse. Meu avô fumava, então, minha avó culpou ele por ter dado isso a ela. O câncer, eu quero
dizer. Eu não acho que era muito legal da parte dela, mesmo que fosse verdade. Você pode dizer que meu avô se sentiu muito culpado por isso.No entanto não mal
o bastante para parar.Até que ele começou a sair com Kitty, isso é. Tudo que ela dizia era, "Fumar é uma hábito imundo. Eu nunca consegui me imaginar com um homem
que fuma", e então meu avô parou. Bem assim.O que não encareceu Kitty e muito menos minha mãe, mais eu vou mostrar o poder do Livro."Ei," eu disse depois que
eu deixei o observatório, enquanto usava o código especial que o Vovô tinha me ensinado na fechadura eletrônica. O código é a data do aniversário de Kitty, o que
eu acho, é bem romântico. Não tão romântico quanto tendo o lugar construído e nomeado com o nome dela - Katherine T. Hollenbach Observatório - e doado isto então
para a cidade.Mas lá em cima minha mãe não pensa que é tão romântico, entretanto. Ela chama, o que o Vovô está gastando desde que ele adquiriu o dinheiro do EU-69,
de "consumo conspícuo", e diz que desde que o pai dela (Vovô) fez isso ela tem medo de mostrar a face dela nas sessões da Comunidade no Centro da Cidade.Exceto
por essa Comunidade no Centro da Cidade ser um pouco atiçada sobre o observatório, que é realmente avançado por ser do interior, apesar de que foi projetado na parte
externa para misturar-se com a arquitetura da Square´s 193 os WPA.Mas a mamãe diz que está recorrendo principalmente ao condomínio novo do Vovô no lago e ao
HYPERLINK "http://pt.wikipedia.org/wiki/Rolls_Royce" \t "_blank" Rolls-Royce amarelo-manteiga que ele comprou e ainda está esperando chegar, com coberturas especiais
para as rodas."Ei," o Vovô disse para mim, atrás da rotunda onde ele estava consertando ao redor com materiais, a coberta do observatório. Considerando que era
domingo, nenhum dos trabalhadores estava lá. Éramos só Vovô e eu. O lugar está praticamente terminado, de qualquer maneira. Há pouco existe uma pequena parede de
gesso que precisa ser construída no quarto de controle "Como vai isto?""Bom," eu disse, enquanto alcançando meu bolso da saia e escalava a coberta de observação.
"Eu tenho oitenta-sete dólares aqui para você.""Bem, obrigado," o Vovô disse. Ele levou o dinheiro, arrastou ele em uma pilha mais limpa, o dobrou, e pôs ele na
carteira dele. Ele não se deu ao trabalho de contar o dinheiro. Nós dois sabemos que eu nunca faço contas erradas.Então ele pegou um bloco de notas do bolso da
camisa dele e cuidadosamente escreveu um recibo e deu para mim."A taxa de juros diminuiu""Eu vi isso na Web esta manhã," eu disse, enquanto colocava distraidamente
o recibo em meu bolso.O vovô e eu sempre compartilhamos um afeto mútuo para...bem, dinheiro.Na realidade, eu nunca, realmente, tive vocação para a matemática,
até que um dia o Vovô sentou comigo, na sétima série e disse, enquanto olhava para o problema de matemática que me fazia chorar, "Não importa quantas maçãs que a
Sue tem. Digamos que a Sue está trabalhando em troca na livraria. Mas é uma noite de sábado, e o único modo que você poderia conseguir que ela trabalhasse era lhe
prometer oito e cinqüenta por hora, ao invés de sete e cinqüenta, porque ela queria sair para Sizzler para ver um filme com o namorado dela.Mas você não quer que
sua mãe saiba que você anda pagando fora de hora enquanto não está, de fato, a qualquer hora. Como você configura o cheque de pagamento da Sue para ela receber o
dinheiro dela, sem a mamãe saber?"Minha resposta foi instantânea: Sue ganha 68 dólares por trabalhar 8 horas, sendo 8,50 por hora. 68 dividido por 75 rodadas desceram
para 9. Então você pôs que Sue trabalhou 9 horas em vez de 8.E então procure por um empregado que não seja tão popular como Sue, daí você pode lhe dar o sábado
a noite de folga e não tem que remendar mais os números."Muito bem," Vovô disse.E assim foi o fim do meu problema com a matemática. Pensar sobre números nos
termos dos salários e das horas parou finalmente com as névoas da álgebra para mim, e atualmente fez isso compreensível. Agora eu sou a melhor da classe e cuido
da folha de pagamento da loja do vovô, desde que mamãecaiu com os meios do vovô significa que ele não é mais bem-vindo lá."Você fez bons negócios, em todo caso?
Vovô quis saber, se referindo ao que eu comprei com o dinheiro que eu tinha pedido a ele.Eu disparei para ele um olhar agravado."Vovô", eu disse. "O que você
acha? É sobre mim que você está falando.""Só para garantir" Vovô disse.Ele têm um ar-condicionado no observatório todo, o que era bom porque estava uns 90 milhões
de graus abaixo de zero lá fora, com a umidade tão alta quanto se poderia sem realmente chover. Em outras palavras, um dia típico de Agosto em Indiana."Você transferiu
todos aqueles fundos dos clientes como eu te disse?" Vovô quis saber."É claro.""Porque as dívidas são pagas todo começo de mês""Vovô , eu sei. Eu já cobri
isso."Vovô balançou sua cabeça. Ele é muito ativo para a sua idade, embora ele nunca vai admitir o fato de que ele nunca cresceu para ser mais alto que 1,57. Eu
falei para ele não se preocupar, desde que olhe a altura do Tom Cruise, e ele se saiu muito bem - financeiramente, em todo o caso. Continuo suspeitando que é daí
que eu herdei a minha falta de altura.Mas aos 69, Vovô consegue jogar 18 buracos de golfe e ainda permanecer acordado por 11 horas completas de notícias. Ele é
especialmente orgulhoso da sua cabeça cheia de cabelos (completamente brancos). Ele tem uma barba descentemente bonita, também. É bem branca. Todo o tempo que estava
crescendo, a sua barba era manchada de amarelo dos cigarros que ele fumou. Tudo antes de começar a sair com a Kitty, em todo caso. Agora é tão branca quanto a neve."Como
vai o trabalho de Darren?" Vovô queria saber. O estudante da universidade de Indiana que nós empregamos para os deslocamentos de noite e de domingo na loja. Ele
gosta de trabalhar na Courthouse Square Books desde que lá não tem quase nenhum cliente, e ele consegue fazer um monte de deveres de casa durante o seu trabalho.
"Legal", eu disse. "Ele reorganizou a prateleira dos produtos que são vendidos à prazo na outra noite e encontrou um o urso de Steiff que ninguém fez pagamentos
nele por um ano inteiro. Nós colocamos de volta sobre as prateleiras da loja." O Vovô estalou a sua língua e foi para trás com o seu telescópio de 60 polegadas.
Não que ele soubesse o que estava fazendo. O Vovô não tem NENHUM interesse em astronomia. Ele teve que empregar todos os professores da Universidade de Indiana para
ajudar-lhe a projetar o observatório, e estes estudantes estão pegando os créditos do colégio para fazê-lo funcionar. A única razão pela qual vovô decidiu construir
um observatório em primeiro lugar ofi porque ele sabe o quanto Jason ama ver as estrelas, e ele sabe como Kitty ama Jason. A coisa toda é basicamente puxando saco
até chegar na mulher que ele ama.Eu construiria um observatório para Mark Finley. Se, você sabe, ele gostasse de estrelas também."E como vai a sua mãe? Está
tudo certo?""Ela está bem" eu disse. "Outro mês que vai antes que ela dê a luz"."Como vai você estando fazendo funcionar a loja," vovô quis saber, " e fazendo
essa coisa da popularidade ao mesmo tempo, com a sua mãe fora do quadro por um tempo com essa pequena coisa nova?""Fácil", eu disse. Vovô é a única alma viva na
terra que eu havia dito sobre O Livro. E eu ainda mostrei a ele. Eu tinha que, afim de fazê-lo me adiantar dinheiro. Eu não tinha dito para ele aonde eu tinha conseguido
ele.Tudo que ele tinha a dizer sobre isso foi, "Porque você se importa com oque a filha de Sharon Moffat pensa sobre você? Aquela garota não conheceria uma bala-T
se uma viesse e acertasse ela."Mas eu expliquei a ele que isto era algo que eu simplesmente tive que fazer - do mesmo modo que ele tinha tido que construir um
observatório para a cidade, embora ninguém - com a possível exceção de Jason que tentou sem sucesso, começar um clube de astronomia todos os anos na escola desde
o terceiro grau quando ele viu "Encontros Íntimos do Terceiro Tipo" no filme de tarde de domingo e nunca totalmente superou isto - de fato quis um.Mas, como o
Vovô disse, a maioria das pessoas é muito estúpida para saber o que eles realmente querem, de qualquer maneira."Eu ainda não gosto disto," o Vovô disse.Ele tinha
feito o que para ele tinha sentido e era tão vitalmente importante para ser feita no observatório essa manhã, e começou a se encaminhar para a porta, pela qual eu
a pouco viria, logo atrás dele."Beijando até mesmo um pequeno repudiante que é nada mais que a prova para fazer sua vida miserável.""Eu não estarei beijando
até ela, Vô," eu disse. "Confie em mim. Além do mais, a coisa inteira foi minha culpa em primeiro lugar.""Isso o que?" o Vovô olhou para mim enquanto abria a porta
- deixando uma inundação de calor insuportável em cima de nós, como sopa derramada - parecendo aborrecido. "Você tropeçou! Isso é tudo! Alguém conseguiu passar o
resto da vida com os outros se divertindo as suas custas por tropeçar quando tinha doze anos? É ridículo."Eu sorri para ele tolerante. Vovô não tem nenhuma idéia
o que é gostar de ser uma menina adolescente. Quando a única criança dele - minha Mãe - estava crescendo, ele quase não tinha contato com ela, já que ele ficava
constantemente fora da fazendo.Me assistir passar por meu próprio péssimo momento na minha adolescência dolorosa foi a única experiência dele na Agressão Escondida
de Meninas Adolescentes e a Dor que pode Causar. "Ah, lá está sua mãe," o Vovô disse, enquanto acenava com a cabeça para as portas da igreja que você pode ver
dos degraus do observatório. Embora muitas pessoas estivessem saindo de St. o Charles naquele momento, não era difícil de sentir falta da minha família, principalmente
por causa do estômago enorme de minha mãe. Mas também por causa do barulho que meus irmãos e irmãs estavam fazendo, o qual você provavelmente poderia ter tido notícias
à milhas de distância.O vovô deixou de ir para a igreja depois que a vovó morreu, de acordo com minha mãe, que ainda é outro osso de contenção entre eles. Mas
o vovô diz que ele pode adorar a Deus bem no nono buraco de golfe da mesma maneira como ele pode na igreja - se não melhor, desde que ele é mais íntimo a natureza,
e então Deus, no campo de golfe que ele está em nosso banco da igreja, a Igreja Santo Charles.Eu rezo para a alma imortal dele, e tudo, mas eu penso se Deus realmente
está perdoando-todos, como o Pai Nosso sempre está nos falando, vovô será perdoado (e, considerando o que eu estava fazendo ontem à noite, assim eu também).Felizmente
para Vovô, Kitty não é exatamente a pessoa mais religiosa.Eles irão ter uma cerimônia civil, executada por um dos juízes de Greene Município, fora do clube rural
numa semana de hoje, em vez de um casamento na igreja."Direito," eu disse. "Eu iria melhor. Você não está nervoso?""Nervoso?" Vovô me lançou um olhar repreensivo.
"O que poderia ter para eu estar nervoso? Eu estou me casando com a moça mais bonita de Greene County.""Eu quero dizer sobre ter que se levantar em frente a todas
essas pessoas domingo que vem," eu disse secamente."Ciumentos," o Vovô disse decididamente. "Isso é o que todos eles são. Porque ela está se casando comigo e não
com eles."A melhor parte é, Vovô realmente acredita nisto. Ele pensa que o sol brilha sobre Katherine T. Hollenbach. O qual eu acredito é completamente devido
a ela ter seguido as instruções do Livro.Os dois - o Vovô e Kitty - eu soube, se conhecem desde que ELES foram para Escola secundária de Bloomville, nos anos cinquenta.
Vovô disse que Kitty nem mesmo sabia quem ele era, já que ela era tão bonita e popular e ele era tão pequeno e tímido.Ela nem mesmo reconhecia a existência dele
até ano passado, quando eles se encontraram na comunidade de condomínios exclusiva, ambos se mudaram para o lago: Vovô depois que ele adquiriu o dinheiro do EU-69,
Kitty depois de decidir que ela já tinha vivido tempo bastante na cidade."Qualquer sinal de debilitar da parte dela?" o Vovô perguntou com um aceno para minha
mãe. Mamãe está boicotando o casamento dele a princípio, não porque ela não gosta de Kitty - embora ela não seja exatamente a pessoa favorita dela no mundo. Minha
mãe não é a única pessoa que tem mostrado para Vovô que Kitty nunca olhou para ele antes dele ter adquirido a inesperada sorte financeira dele. Mas o Vovô não parece
se preocupar sobre isto - principalmente porque ela ainda está tão furiosa sobre a coisa toda de Sav-Super mercado.Ela está deixando o resto de nós ir embora...
O que é uma coisa boa, desde que eu sou a dama de honra de Kitty, Pete um dos melhores homens de Vovô (o Jason é o outro), e Catie e Robbie são a menina da flor
e portador de anel (a Sara foi julgada muito jovem para fazer qualquer coisa).Eu gosto muito de Kitty, e não só porque todo mundo gosta dela (excluindo minha mãe).
Mas também porque ela sempre guarda meu segredo mais vergonhoso - que não é aquele vergonhoso, porque agora eu percebo que aquilo era só parte do crescimento. Mas
na ocasião, foi a pior coisa que alguma vez tinha me acontecido. Eu tinha sido convidado por Jason a passar a noite em sua casa - anos atrás, no jardim da infância,
quando ainda era certo para as meninas e meninos terem festas do pijama juntos - enquanto os pais dele estavam viajando e a avó dele estava cuidando dele.Uma coisa
que eu sempre admirei sobre os pais de Jason é que eles foram inteligentes o bastante para parar em só uma criança - diferente de meus próprios pais que continuam
tendo cada vez mais - assim eles podem dispor de fazer coisas juntos, como passar férias românticas em Paris sem Jason, e instalar uma piscina no quintal deles (diferente
de nós, claro que, sempre que eu me queixo disto para minha mãe, ela sempre fala a mesma coisa, "Bem, qual das crianças você sugeriria que eu não devesse ter tido?"
o qual é uma pergunta má, por que eu amo todos os meus irmãos e irmãs).(Entretanto eu não penso que qualquer um sentiria muita falta de Pete.)De qualquer maneira,
tinha sido minha primeira visita de noite, e eu admito que tinha tido muito excitação - ou possivelmente foi a Coca-cola que Kitty tinha nos dado, e da qual eu tinha
bebido muito, nunca tido sido permitido ter Coca-cola antes, excluindo em ocasiões muito especiais como Ação de graças e Páscoa - e eu molharia minha calcinha, e
pelo o que eu pensava era tarde da noite (embora provavelmente só tivesse por volta de meia-noite).Eu me lembro lá mentindo em minhas calças molhadas, pensando,
"O que eu vou fazer agora?" Jason estava adormecido, mas mesmo se ele não estivesse, eu na teria contado a ele oque aconteceu. Eu estava convencida a nunca ouvir
o fim dessa história. "Molhar a cama como um bebê!" ele gritaria. Bem, conhecendo Jason, ele provavelmente não teria dito nada. Mas em meu cérebro de quatro anos,
eu estava convencida de que ele não iria mais querer ser meu amigo se ele soubesse que eu molhava as camas.Também, naturalmente, isso veria a tona toda a vez que
eu vencesse ele em alguma coisa: "Bem, tudo bem, talvez você é melhor em Candy Land, mas pelo menos eu não molho camas".Finalmente, em quanto meu pijama ficava
cada vez mais frio e frio em torno de mim, eu não consegui mais lidar com isso, e eu me levantei e me acomodei na cama máster, onde a avó de Jason estava dormindo.Ela
acordou no momento certo, embora ela estivesse um pouco cansada."Oh, Stephanie," ela disse quando ela percebeu que era eu. "Querida, não é hora de acordar ainda.
Veja, nessa casa, a gente acorda quanto o ponteiro grande está no 12, e o pequeno ponteiro no 8. Ou 9."Mas eu expliquei para ela eu não tinha realmente acordado.
Eu tive um acidente.Kitty foi ÓTIMA. Ela me tirou dos pijamas molhados e os jogou na máquina de lavar, sem acordar Jason.E então ela tentou me fazer voltar para
cama, e eu reclamei porque não tinha nenhuma calcinha (Sim. Olha o tipo de criança que eu era), ela pegou um par do Jason e me deu e disse que cuecas são tão boas
quanto calcinhas, e eu poderia usar por de baixo dos meus pijamas que Jason nunca iria saber.Eu estava, é claro, horrorizada. Quero dizer, uma cueca não é nada
parecida com uma calcinha - Tinha uma mosca! E ainda, a cueca do Jason tinha um Batman nela.Mas era melhor do que nada. Então eu voltei para cama com a cueca de
Batman do Jason, com a promessa de que, de manhã, minha calcinha teria voltado para mim, limpa e seca.Eu estava lá com o pensamento, "Eu estou vestido as GRANDES
CUECAS do Jason", porque isso era o que ele chamou quando nós dois estávamos trocando nossa calças do treino - ele tinha Grandes Cuecas e as minhas eram Grandes
Calcinhas.E a verdade é, eu senti um certo horror de vestir as cuecas de Jason. Eu era uma criança doentia, mesmo quando eu devolvesse elas.De manhã, enquanto
Jason estava no banheiro, Kitty colocou as minhas calcinhas de novo em mim, e eu lhe dei a Grandes Cueca do Jason - a qual eu tive sorte de ver ir. E ela nunca disse
uma palavra - nem para Jason, nem para os pais dele ou os meus, ninguém. Este dia, eu não sei se ela se lembra como ela me salvou ... mas eu nunca irei esquecer.E
eu estou contente que ela vai ser a minha avó, porque eu acho que ela é umas das avós mais legais que uma garota pode ter.É triste que a minha mãe não concorda.
Mas talvez é porque Kitty nunca A resgatou de uma vergonha mortal de calcinhas molhadas antes."Não," eu disse para o vovô, na pergunta sobre a mamãe. "Mas não
se preocupe. Ela virá".Eu particularmente não acredito nisso. É só uma coisa que eu digo para o vovô quando ele parece triste, como ele estava agora. Minha mãe é
uma pessoa muito determinada. Eu uma vez vi o seu físico jogando um garoto que ela suspeitava de ter levado algo para fora da loja sem pagar, só porque ele tinha
pendurado em torno do brinco uma cremalheira um pouco longa demais. Ele era de um certo modo maior que ela, mas isso não importou. O centro de gravidade da mamãe
é um pouco menor que o da maioria das pessoas, eu acho que é o motivo de ela ter dado a luz tantas vezes."Eu espero que você esteja certa Stephanie," Vovô disse,
seus olhos azuis se estreitaram como se ele tivesse começado a ver a mamãe sobre o lote do estacionamento da igreja. "Eu tenho certeza que sinto a falta dela."Eu
dei um tapinha de leve no seu braço. "Eu manterei você informado", eu lhe disse. "E espere a outra prestação do meu empréstimo semana que vem.""Eu irei manter
um olho nas taxas interessantes". Vovô me assegurou.Então eu lhe dei um beijo de despedida e corri até o Parque Bloomville Creek para aproveitar o resto da minha
família na minivan. Eles, como usual, não perguntaram aonde eu iria. Essa é uma das vantagens de ter 5 irmãos e irmãs.
Quais são alguns hábitos das pessoas populares?
Pessoas populares:•Fazem do jeito deles porque eles são a "coisa real". Eles são genuínos, verdadeiros com eles mesmos.•São totalmente consistentes no que acreditam
e em suas ações. Eles são as mesmas pessoas na vida privada assim como na vida pública.•Fazem oque eles tem querem fazer na vida. Eles curtem várias perseguições
e hobbies e vivem com um propósito.•São diretos e honestos, sendo sempre conscientes dos sentimentos dos outros.•Nunca são impostores ou falsos.Você consegue
honestamente dizer o mesmo sobre você?
Capítulo 6
AINDA T-MENOS UM DIA E CONTANDODOMINGO, AGOSTO 27, 3 DA TARDE,O Jason veio quando eu estava dispondo tudo o que eu ia precisar durante a próxima semana. Ele foi,
"O que você está fazendo?""O que se parece?" eu lhe perguntei."Eu não sei," o Jason disse. "Ordenando suas roupas?""Veja," eu disse. "Eles tinham razão para
o deixar ir para o segundo grau este ano, afinal de contas.""Engraçado," o Jason disse. Ele estava encarando todas as minhas roupas. "Elas são novas?""Elas são.""Onde
você conseguiu o dinheiro?"Eu olhei para ele. É um fato novo, esse que o Jason não pode controlar dinheiro. O único modo que ele pôde economizar bastante para
o carro dele era porque ele estava dando o dinheiro para mim. Ele devolveu isto seis meses depois com um retorno saudável.Eu não pensei que era necessário revelar
que, neste caso particular, eu tinha pedido emprestado de Vovô. Eu só tinha precisado pedir emprestado de Vovô porque todas minhas poupanças são investidas atualmente
em fundos mútuos."Bem," o Jason disse, enquanto, aparentemente percebia a estupidez da pergunta dele, "certo. Mas, como...desde quando você se preocupa com roupas?""Eu
sempre me preocupei com roupas," eu disse, genuinamente assustada pela pergunta "eu quero dizer, eu me preocupo como eu me vejo.""Oh, realmente, Crazytop?""Para
sua informação," eu disse, "este corte de cabelo é toda a raiva nas pistas de Paris."Bem, a versão endireitada disto, de qualquer maneira. Mas, de qualquer modo,
sou eu que vou ter toda a dificuldade para endireitar meu cabelo em um dia de non-escola."Paris, Texas, talvez," o Jason disse, enquanto se abaixava em meu chão,
no único lugar em meu quarto não coberto com os vários conjuntos que eu estava reunindo (porque o Livro disse muito claramente que você deveria escolher suas roupas,
inclusive roupas de baixo, com antecedência de qualquer evento que você está planejando os usar para evitar uma crise de moda de última hora)."Que seja," eu disse.
Ele estará cantando uma melodia diferente assim que ele ver a versão endireitada de meu corte de cabelo. Mais importantemente, assim vai Mark Finley."Você não
tem algo que deveria estar fazendo?""Sim," o Jason disse. "Eu estava pensando em levar O B ao lago." Isto é como o Jason chama o carro novo dele. Como "O B.""Quer
vir?"Tão tentadora quanto a idéia de ver o Jason sem camisa - e sem o beneficio dos binóculos Bazooka Joe - eu fui obrigada a recusar, levando em conta a tarde
ocupada que eu tive, catalogando meu guarda-roupa inteiro."Ah, qual é," Jason disse. "Quando você virou tão garota?"Eu encarei ele. "Obrigada.""Você sabe o
que eu quero dizer," ele disse, rolando por cima da cama e e olhando no stick-on constelação brilhantes-no-escuro que nós colocamos na minha cabeceira quando estávamos
na quarta. "Quero dizer, você não costumava se preocupar sobre roupas e seu cabelo- e o quão grande a sua bunda ficou.""Bom, nem todos nós podemos comer tudo o
que nós queremos e não engordar," eu falei. "Nem todos nós PRECISAMOS ganhar peso. Como certas pessoas que eu poderia mencionar."Jason se projetou em cima de um
cotovelo. "Isso é pelo Mark Finley?" ele mandou.Eu podia me sentir ficando vermelha. Não por que ele mencionou o Mark, mas porque quando ele se projetou em cima
de um cotovelo daquele jeito, eu pude ver o pelo de seu antebraço se projetando para fora da manga da sua camiseta, e aquilo me lembrou o pelo que eu tinha visto
em outras partes de seu corpo. Você sabe. Pela janela. Com os meus binóculos Bazooka Joe."Não," eu disse, mais alto do que queria. "Porque se fosse isso, eu estaria
implorando para ir com você, não estaria? Já que o lago é o lugar mais comum para os populares estarem hoje. O que implica na questão, por que você quer ir lá, considerando
o quanto que você odeia aqueles caras?"O Jason rolou em cima do meu HYPERLINK "http://www.naturalarearugs.com/images/resized/used/shag-cosmopolitan-choc.jpg"
\t "_blank" shag e fez uma careta. (Sim. eu tenho um shag azul. Meus pais estão renovando a casa lentamente, mas até meu pai de fato vende um dos mistérios que
ele está constantemente escrevendo, entre confundir grupos de granola caseiro, e comprar um shag azul, da cor do horizonte, que eu gostei)"Eu quero levar O B ao
lago," ele disse. "Ele nunca é visto. Pelo menos, não comigo. Mais, você sabe, terminar essas curvas do posto, eu quero experimentá-la fora.""Oh meu Deus," eu
disse. "E você me acusa de ser uma garota? Você é que é um garoto."Com isso, o Jason se levantou e disse, "Bom, eu irei sozinho.""Por que você não pergunta para
Becca? Ela provavelmente só está scrapbooking em casa, ou algo assim." Becca, agora que ela mora longe da fazenda, não é acostumada a ter tempo livre, e assim enche
os dias dela de projetos de arte, como fazer saias de fronhas, e encher álbuns de recortes de quadros de gatinhos adoráveis que ela corta no domingo na seção de
Desfiles. Se ela não fosse minha amiga, eu provavelmente não iria nem mesmo conversar com ela, baseado naquele fato."Ela fica enjoada a caminho do lago," o Jason
disse. "Se lembra?""Não se você a deixar sentar na frente.""Becca..." o Jason andou sem destino para a entrada do meu quarto, olhando...bem, estranho, é o único
modo como eu poderia definir."Becca está agindo estranha ultimamente comigo. Você não notou?""Não," eu disse. Porque eu não tinha.E também, se qualquer um
deveria estar agindo estranho com Jason, esse alguém sou eu. Eu quero dizer, fui eu que vi Jason sem calças, não Becca.E eu posso dizer que o que eu vi era muito
impressionante?Na verdade, não que eu tenho qualquer coisa para medir e comparar. Excluindo meus irmãos."Bem," o Jason disse, "Ela tem me importunando para lhe
dar um nome de inteligência dominante criminal. Aquela coisa toda de ontem à noite sobre achar sua alma-gêmea. Aquele tipo de coisa.""Venha, Jason," eu disse.
"Ela deseja estar dentro, se ajustar, fazer parte da gangue. Eu quero dizer, é duro para ela, enquanto está vivendo na cidade. Ela é acostumada a lidar com vacas
e materiais. Der uma folga para ela. Você não pode pensar em um nome de inteligência dominante criminal para ela?""Não," o Jason disse abruptamente. "Quer ir hoje
à noite para a Colina?""Não. Da vez passada eu tive que colocar um pouco de gasolina para eliminar todos os bichos-de-pé que ficaram em minha roupa íntima.""Nós
poderíamos ir para o observatório, então.""Por que? O Perseids terminou. E o Orionids não começa até Outubro.""Há outras coisas para se ver no céu além de chuva
de meteoros, você sabe, Steph," o Jason disse. "Eu quero dizer, há Antares. E Arcturus."Eu juro, eu quis dizer, "Veja, Jason! Isto é por que você não é popular.
Você poderia ser popular - você tem uma face decente, se você for olhar, como só eu sei muito bem, um assassino bod. Você tem um bom senso de humor e você é filho
único, assim seus pais podem lhe comprar as roupas certas. Você tem bons graus que são uma greve contra sua popularidade-sábia, claro que, mas você joga golfe, um
esporte cada vez mais popular entre adolescentes. Entretanto você tem que arruinar tudo falando sobre contemplar estrelas e Cortesia de BMW. O que tem de errado
com você?"Só que eu não falei. Porque isso seria muito mau.Ao invés disso eu disse, "é uma noite escolar, Jason. Eu não vou para o observatório.""Quem não
vai para o observatório?" meu pai perguntou, enquanto cutucava a cabeça dele ao redor do ombro de Jason."Oh, oi, Sr. Landry," o Jason disse, enquanto se virava.
"Steph e eu estávamos conversando""Eu posso ver," meu pai disse na voz de Eu-estou-falando-para-um-garoto-adolescente-de-pé-no-quarto-da-minha-jovem-filha. Excluindo,
claro que era só Jason. "Como vai o carro novo?""Temeroso," o Jason disse. "Esta manhã eu limpei os bolbos em minhas medidas de colisão. Agora eles estão lustrados,
como novos.""Bom para você," meu pai disse. E os dois entraram em uma conversa completamente fortuita sobre telegrafar areia.Deus. Meninos às vezes são tão bobos.
Examine eles em seu círculo social quem é mais popular que outros.Os estude.Veja onde eles vão.Observe o que eles fazem e como eles se comportam.Analise o
que eles usam.Escute sobre o que eles falam.Estas pessoas são seus modelos de papel. Sem estar "os copiando" (ninguém gosta de um imitador!), tente estar mais
como eles.
Capítulo 7 AINDA T-MENOS UM DIA E CONTANDODOMINGO, AGOSTO 27, 9 DA TARDE,Bem. É isto. Tudo está pronto. Eu tenho meus:1. Calças jeans de extensão de brim escuras
(não muito apertada, mas definitivamente não muito solta).2. Cordas de esbelto-ajuste em sombras múltiplas.3. Suéter de duas peças versátil em vários tons lisonjeiros.4.
Roupas esportivas (com casacos) nenhuma calça sacudindo, como fibras que "puxam" a atenção para seu meio.5. Jaquetas em belbutina e brim, entre à cintura para
revelar minha forma de ampulheta.6. Saias - lápis de comprimento no joelho, novamente em belbutina e brim (uma em cáqui); míni (mas nenhuma microminis...licença
para Darlene Staggs).7. Tops múltiplos (nenhuma com a barriga descoberta - uma menina deveria economizar ALGUNS segredos para a piscina, ou para aquele alguém
especial), inclusive pescoço de concha e balizas de franzidos; blusas com só uma sugestão de arrepie ao punho da manga, para maximizar a feminilidade.8. Dedo do
pé-redondo, calça como Mary Janes; botas com salto de sapato lisonjeiro; esbelto gatuno de ioga.9. Jaqueta baixa íntima-própria para excursões casuais, e coberta
com lisonjear (imitação) colarinho de pele para eventos mais formais; lenço de casimira emparelhando e luvas, durante o inverno.10. Vestidos (não com saia esclarecedora,
sim com cheia) em preto ou rosa para danças.Claro, eu tive que fugir um pouco de ALGUNS conselhos do Livro. Quero dizer, O Livro é consideravelmente velho. Eu
não acho que uma cinta ou alguma coisa chamada "calças três-quartos femininas" iria flutuar nos corredores do Colégio Bloomville.Para não mencionar o fato de que
se eu andasse com luvas brancas ao anoitecer ( "sem manchas, sem rasgado" ), eu não iria ganhar nenhum ponto fashion com Lauren e suas amigas.Então, obviamente,
eu tive que improvisar em grande parte com as roupas.Mas com a ajuda de uma dupla de revistas para adolescentes e o guarda-roupa para volta às aulas delas, eu
acho que o fiz consideravelmente bem. Obrigada Deus por T.J. Maxx, é tudo que eu tenho para dizer. Ah, e as lojas fora da "Dunes", onde a mãe e o pai de Becca levaram
a gente em um final-de-semana de Julho. Como mais eu poderia encontrar suéters Benetton por quinze doláres?De qualquer maneira, eu realmente acho que estou pronta.
Amanhã de manhã - e todas as manhãs do resto da minha vida, conforme as instruções do Livro - eu irei:1. Tomar banho - xampu e condicionador, esfoliante, raspar
pernas e debaixo do braço, e então umectação.2. Usar desodorante generosamente (claro, do tipo que seca rápido, para não deixar manchas feias de desodorante nas
blusas).3. Passar fio-dental e escovar os dentes (] HYPERLINK "http://www.whitekit.com/images/crest_premium.jpg" \t "_blank" Crest White Strips , para ser
usado por uma hora toda manhã e toda noite).4. Aplicar mousse, passar creme anti-frizz, secar o cabelo com secador e alisá-lo.5. Colocar roupas de baixo limpas,
incluindo sutiã que atualmente está adaptado (obrigada à vendedora da loja Maidenform que atualmente me mede corretamente, ao contrário da mamãe) e me faz parecer
um número maior do que o (errado) número de sutiã que eu costumava vestir.6. Ter sapatos brilhantes, limpos e andar sem arrastar o pé no chão.7. Ter certeza de
que as unhas estão limpas, lixadas, gloss claro aplicado, sem lascas, todas as cúticulas tiradas (checar a viabilidade de ir semanalmente nas manicures do shopping).8.
Usar uma perfeita base de maquiagem, aplicada levemente nas áreas com problemas e bem misturadas, com filtro fator 15 no mínimo; cobertura para qualquer acne explodindo
(que vai ser controlada com Retin-A, preescrita pelo pai do Jason, tão bom quanto uma boa rotina de lavagem, usando adstringente, e aplicando peroxide de benzoyl
antes de ir para a cama) em círculo abaixo dos olhos; um batom/gloss duradouro, somente discreto como malva (levemente aplicadas, sombra macia, como cinza e lavanda);
máscara preta impermeável.9. Ter certeza que as roupas estão limpas, sem enrugados, tudo combinando, sem exibições se não deveria ser exibido. SELECIONAR AS ROUPAS
DA NOITE ANTES!!!10. Escolher acessórios.- brincos (SOMENTE HYPERLINK "http://www.fordsjewelers.com/graphics/earrings.jpg" \t "_blank" small studs ou hoops);
não mais que um colar, se nenhum; estar atenta com munhequeira, braceletes (sem nenhum) ou outro; sem piercings, tornozeleira, HYPERLINK "http://www.moondancebellydance.com/belly
chainjw135.JPG
" \t "_blank" belly chains , tatuagens (como se eu fosse); mochila (pequena para média, nova, sem enrugados) preta ou marrom, bolsa pequena, designer
APENAS.Phew. É uma grande lista para uma manhã em que não parecerei eu mesma.Mas eu calculo que se eu começar às quinze para as sete, eu terei apenas tempo suficiente
para apanhar uma barra de cereal ou qualquer outra coisa para o café da manhã e encontrar Jason e Becca no The B oito horas para chegar no colégio no primeiro sinal,
às oito e dez. Eu posso pegar uma Coca Diet da máquina do ginásio para o meu choque de cafeína.Minha mãe há pouco gingou até o meu quarto e afundou na cama atrás
de mim."Como está, querida?" ela perguntou. "Tudo pronto para o colégio amanhã? É um grande dia... segundo ano. Não posso acreditar que meu bebê já é um junior!""Sim,
mãe" eu disse. "Está tudo ótimo. Não se preocupe comigo.""Você é a única com quem eu não preciso me preocupar" minha mãe disse, dando um tapinha em minha perna.
"Eu conheço a boa cabeça que você tem sobre os seus ombros."E então ela reparou a roupa que estava pendurada na porta do meu closet."Bem," ela disse após um
minuto. "Isso é novo."Ela não disse isso exatamente como se ela pensasse que era uma coisa boa, tampouco.Minha mãe é divertida deste modo. Quero dizer, eu tinha
tentado explicar a ela antes que Wrangler jeans não são o mesmo que Calvin Kleins. Eu tinha tentado falar a ela como "somente ignorar Lauren" na escola quando ela
começasse com "Não banque a Steph" realmente não funciona.Mas minha mãe - e pai, também - não conseguem entender isso! Eu acho que é pelo fato de que ela nunca
se preocupou em ser popular na escola. Tudo o que ela sempre fez foi ler livros. Esse sempre foi seu sonho: abrir e dirigir uma loja de livros, assim como sempre
foi o sonho de meu pai ser um escritor de mistério (um sonho que ainda não se tornou realidade).Eu havia tentado explicar a ela que ser popular não é o ponto -
as pessoas me darem uma chance para ser adorada, uma chance que Lauren consideravelmente arruinou aquele dia no sexto ano - é o que eu buscoMas ela não entende
por que eu me preocupo com ser adorada por pessoas parecidas com Lauren Moffat, quem ela considerada abaixo de mim intelectualmente.Esse é o porquê de eu não poder
dizer a ela sobre O Livro. Ela simplesmente nunca poderia entender."Eu suponho" mamãe disse ainda olhando para a roupa, "que você pegou o dinheiro emprestado para
isso com o seu avô.""Um," eu disse, supresa. "Sim."Minha mãe, vendo minha expressão de dúvida, encolheu os ombros"Bem, eu sei que você nunca iria gastar as
suas economias com roupas novas," mamãe explicou. "Isso não seria fiscalmente responsável."Eu me senti realmente triste então. Eu sei o quanto brava mamãe está
com seu pai."Eu tenho esperança, você não faz idéia," Eu disse. "Quer dizer, eu ainda falo com o vovô.""Oh, querida," Mamãe disse com o riso, inclinando-se por
cima para escovar minha franja para longe onde ela caia sobre meus olhos ( com um olhar de Christoffe, Cacho Acima e Tintura do principal estilo de cabelo, garantindo
me uma coisa mais quente.)"Você e seu avô são muito parecidos," Mamãe continuou. "Seria um crime manter vocês dois afastados.Eu gostei de ouvir aquilo. Ainda
que mamãe esteja brava com vovô, eu estou satisfeita por ela pensar que eu sou igual a ele. Eu quero ser como vovô. Exceto pelo bigode."Eu não consigo entender
por que vocês não podem se reconciliar," eu disse. "Eu sei que você ainda está nervosa por causa do Super Sav Mart. Mas não é como se Vovô estivesse usando o dinheiro
todo apenas para ele. Quero dizer, ele construiu o observatório e o doou para a cidade."Ele não fez isso para a cidade," mamãe disse. "Ele fez isso por ela."Ouch.
Eu acho que minha mãe realmente não gosta de Kitty.Ou talvez ela apenas não goste do fato de que Vovô parou de fumar por ela, mas não foi capaz de fazer isso por
sua esposa, ainda que ela estivesse morrendo de câncer.Contudo papai uma vez me confidenciou, pelas costas de mamãe, que vovó era do tipo "mulher briguenta", que
é o motivo de mamãe ter gastado tanto tempo lendo quando criança. Ela precisava se manter longe de sua mãe, constantemente tocando harpa e criticando.Entretanto,
mesmo que sua mãe fosse uma total insuportável, você não gostaria de ouvir seu pai por aí chamando uma outra mulher de "garota dos meus sonhos", como Vovô tem chamado
Kitty."O que essa cidade precisa é de um Centro de Recreação para as crianças," mamãe continuou, "então você não precisaria gastar as suas noites de sábado cruzando
a rua principal de cima a baixo, ou sentada naquele muro, ou deitada naquele morro com todos aqueles bichos-de-pé. Se Vovô realmente quisesse ser um humanista, é
o que ele deveria ter construído, não um planetário."Observatório," eu a corrigi. "E eu entendi o que você está dizendo. Mas você e papai realmente não vão ao
casamento?"O casamento de Gramps com Kitty será o evento do ano... metade da cidade foi convidada, e vovô já me confidenciou que isso custará cinquenta mil dólares.
Mas ele disse que o preço não importa... já que está se casando com a garota dos seus sonhos.Exceto é claro, sempre que ele diz isso, mamãe contrai os lábios ao
máximo. "Kitty Hollenbach nunca lhe deu um minuto de seu dia antes," eu ouvi secretamente uma vez mamãe lamentar-se com papai. "Agora ele é um milionário, e de repente
ela é toda dele como as penas em um passarinho"O que não é uma descrição muito agradável de Kitty que é de fato uma senhora muito fresca que sempre ordena que
vejam Manhattans quando o Vovô a leva para sair e a mim e Jason para jantar no clube rural. Vovó, pelo o que eu entendo, pensava que beber álcool era um pecado e
freqüentemente falava isso para o Vovô, que você não chamaria de tão abstêmio assim."Nós veremos," foi o que minha mãe disse em resposta a minha pergunta sobre
o andamento dela para o casamento.Entretanto, eu sei o que "nós veremos" significa. Na minha família significa "de nenhum modo na terra verde de Deus" - neste
caso, quer dizer que de nenhum modo minha mãe verá seu pai se casando.Eu posso ver por que ela está tão furiosa. Realmente fere os negócios pequenos, localizados
em lugares que possuem o Super Sav Mart - que vendem os mesmos produtos por muito menos, e tudo convenientemente localizado debaixo de um telhado - na cidade.Por
outro lado, o Super Sav Mart vai precisar de alguém para administrar a seção de livro da loja nova, e quem melhor que minha mãe?A não ser que minha Mãe diga que
prefere comer ela mesma do que usar um avental vermelho do Super Sav Mart."Bem, boa noite, querida," minha Mãe disse, enquanto se levantava com esforço de minha
cama e se dirigia a porta. "Te vejo pela manhã.""Vejo você," eu disse.Eu não disse o que eu queria dizer para ela, que era "Se você pedisse para o Vovô o dinheiro
para ampliar a loja no Hoosier Doce Shoppe abaixo, que fechou, assim nós poderíamos ter um café que é exatamente o que Courthouse Square Books precisa para concorrer
com Super Sav Mart, ele daria isto a você. E então você não precisaria se preocupar sobre ter que usar aquele avental vermelho."Porque eu sei que se ela levasse
o dinheiro, ela sentiria como se ela tivesse que ser agradável com Kitty.E isso a mataria, quase.
Espera! Seu cabelo e guarda-roupa podem estar perfeitos, mas seu makeover não está completo sem isto:A uma coisa que você pode usar em qualquer estação que sempre
vai estar na moda, é a confiança.Confiança em você é um acessório que ninguém pode dispor em casa.As pessoas são naturalmente líderes, e os líderes são esses
que têm confiança neles.
Capítulo 8 O-DIASEGUNDA, 28 de AGOSTO, 9 A.M."Bom dia, Crazyt - O que aconteceu com você ?" foi o que Jason disse quando eu subi no acento traseiro de O B, essa
manhã."Nada," eu disse inocentemente enquanto fechava a porta. Nós progredimos do CD mixado de 1977, eu percebi imediatamente quando assimilei os sons do Rolling
Stones. "Por que? Tem alguma coisa errada?""O que aconteceu com seu cabelo?" Jason queria saber. Na verdade, ele virou só redor do seu banco, no oposto, só para
olhar o meu reflexo no espelho retrovisor."Oh, isso?" eu puxei a minha franja para ter certeza que ela estava caindo sensualmente em cima de um olho, do jeito
que Christoffe disse que deveria ser. Ela estava. "Eu só usei uma chapinha, é isso.""Eu acho que parece bom," Becca disse indignadamente do banco da frente."Obrigada,
Becca," eu disse.Jason ainda estava virado para trás me encarando, do jeito que Mick Jagger lamenta o fato dela não conseguir nenhuma satisfação (A musica Satisfaction)."Que
tipo de MEIAS são essa?" Jason mandou."Três quartos," eu expliquei pacientemente.Embora por dentro, eu imaginava se tinha cometido um erro. Todas essas revistas
adolescentes tinham insistido que meias finas três-quartos eram OS tem-que-ter do outono.Mas julgando a cara do Jason, eu ficaria tão bem se usasse sapatos de
palhaço."Eu acho que parece legal," Becca disse."A sua saia está curta o suficiente?" Jason me perguntou, parecendo estranhamente vermelho no seu rosto. Especialmente
já que a minha saia era restritamente uma mini, não uma micro-mini. Eu imaginei se talvez a mãe do Jason tinha feito ele comer aveia quente de café da manha. Ele
fica sempre chateado quando ela faz isso, algumas vezes ela tenta todo ano no primeiro dia de aula. Algumas vezes ela coloca uva-passa também. Nada deixa o Jason
mais desconcertado que uva-passa - ele teve uma experiência desagradável envolvendo uma e seu nariz direto quando ele tinha três."Isso é style," eu disse, dando
de ombros."Desde quando você se importa com estilo?" Jason disse praticamente gritando."Ei, muito obrigada," eu disse, fingindo estar ofendida. "Eu não posso
tentar parecer bem no primeiro dia de escola, nem nada.""Eu acho que ela parece ótima," Becca disse.Mas Jason não estava caindo nessa."Isso é sobre o que,
Crazytop?" ele perguntou enquanto punha marcha no carro. "Qual é o plano?""Não há plano," eu insisti. "E você não pode me chamar de Crazytop mais, já que o meu
cabelo não está cacheado mais.""Eu vou te chamar de Crazytop qualquer maldita hora que eu quiser," Jason disse de forma bombástica. "Agora qual é a parada?"Não
importa o quanto eu assegure a ele que não há nada (mesmo que, claro, haja um), Jason não acreditou em mim.E quando nos entramos no estacionamento de estudantes
bem atrás de um conversível vermelho, e vimos Lauren Moffat sair dele, Jason parecia ter sido acertado por algo fervendo."Ela ta usando as mesmas meias!" ele berrou
- felizmente nos ainda estávamos dentro do carro, então Lauren não escutou.Eu olhei e vi com algum alivio que aquelas revistas adolescentes estavam certas... meias
finas três-quartos estavam na moda. Deviam estar já que Lauren Moffat estava usando elas.Só que as de Lauren, diferentes das minhas, que eram azuis marinho, eram
brancas.Isso era uma violação de um mandamento fashion restrito do 'O Livro', que é que meias brancas - mesmo as finas- são boas só se você é uma enfermeira, já
que cores claras tem a tendência de deixar as pernas parecerem mais largas do que realmente são.Isso era verdade, eu vi, em Lauren, com o celular colado na orelha,
atravessando apressadamente o estacionamento. As pernas normalmente bem torneadas pareciam tão grandes quanto às de um elefante. Bem, mais ou menos."O que está
acontecendo com o mundo?" Jason queria saber enquanto nos arrastávamos pela entrada de trás da Bloomville High (nossa primeira vez usando, já que nos anos anteriores
nós éramos deixados na frente pelo ônibus.). "Quando Steph Landry e Lauren Moffat estão vestidas iguais?""Nós dificilmente nos vestimos iguais," eu coloquei, empurrando
a maçaneta da porta."Quero dizer, ela está usando uma micro-mini, e a minha é só-"Mas eu não tive a chance de terminar , já que as minhas palavras foram imediatamente
tragadas pelo estrondo que nos recebeu dentro da escola. Combinado com barulhos de discagem. Portas batendo. Garotas que não tinham se visto desde que a escola tinha
acabado verão passado davam gritos agudos e se abraçavam. Garotos batiam as mãos no alto (high five) com outros garotos. Professores estavam de pé na porta de suas
salas, assoprando as fumaças de seus cafés e fofocando uns com os outros. A Vice Diretora Maura Wampler- ou Brejenta Wampler, como ela é comumente conhecida- estava
parada em frente ao escritório de administração, frustrantemente gritando, "Vão para as suas salas! Vão para as suas salas antes do ultimo sinal! Vocês não vão querer
pegar uma detenção no primeiro dia de aula, vão, pessoal?""Sentamos juntos na convocação de boas vinda?" Becca gritou pra mim acima do caos."Vejo vocês então,"
eu gritei de volta."Eu ainda não acabei com você, Crazytop," Jason me assegurou enquanto ele alcançava o seu armário, e eu tinha que continuar para alcançar o
meu. "Tem alguma coisa com você, e eu vou descobrir o que é!"Eu não podia evitar rir disso. "Boa Sorte," eu disse a ele, e me apressei sem resposta.Quando eu
cheguei perto do meu armário, as coisas pareciam ter ficado quietas. O que é, na verdade, impossível, porque o meu armário fica localizado em um ponto da escola
onde os dois corredores principais da escola se interceptam. Há o banheiro das meninas e um bebedouro perto do meu armário, para não mencionar a porta para a cafeteira
lá em baixo.Normalmente essa é a parte mais barulhenta da escola.Mas hoje, por alguma razão, o corredor parecia estranhamente quieto enquanto eu andava. E não,
como eu gostaria de pensar, porque eu estava maravilhosa no meu novo armário e corte de cabelo, que todo mundo ficou chocado e silencioso, como quando a Drew Barrymore
apareceu no baile na fantasia de anjo no filme 'Para Sempre Cinderela.'Na verdade, estava provavelmente tão barulhento quanto o normal. As coisas só PARECIAM estar
mais quietas.E isso era porque Mark Finley tinha entrado no meu campo de visão.O armário do Mark é do outro lado do corredor do meu. Ele estava parado lá conversando
com outros caras da equipe de futebol americano enquanto eu andava. Na sua jaqueta roxa-e-branca, ele parecia bronzeado e tranqüilo, o cabelo marrom claro dele manchado
de dourado em algumas partes por causa de todo o tempo que ele passou no lago no verão passado. Até seus olhos mel pareciam mais brilhosos contra suas bochechas
queimadas de sol.Eu, claro, não podia tirar meus olhos dele. Bom, que garota poderia?E com aquele tipo de visão parada na minha frente, era algumas surpresa
que eu ficasse desapontada ao ver que Lauren Moffate suas seguidoras Negras Ladies do Sith, Alyssa Krueger e Bebe Johnson, estavam paradas ao lado do bebedouro,
me encarando?"O que," Lauren disse, seu olhar indo do topo da minha cabeça até a os meus dedos na minha plataforma Mary Janes, "VOCÊ deveria ser?"Felizmente
na noite passada eu li a seção de O Livro sobre inveja, então eu sabia exatamente o que fazer."Oh, oi Lauren," eu disse, plastificando um sorriso brilhoso no meu
rosto. "Você teve um bom verão?"Lauren olhou incrédula da Alyssa para Bebe, depois de volta pra mim."Com licença?", ela disse."O seu verão." Eu espero que
elas não possam ter visto meus dedos tremendo enquanto eu virava a combinação do meu cadeado. "Como foi? Bom, eu espero. A sua mãe gostou dos livros?"O queixo
de Lauren caiu. Eu podia dizer que eu tinha acertado ela. Veja, a maioria das nossas interações anteriores - desde o incidente do Super Big Gulp, de qualquer forma
- tinham sido como o que nos tínhamos tido na noite de Sábado. Lauren diz alguma coisa maldosa para mim, e eu respondo dizendo... nada.O fato de essa vez eu ter
respondido - e a maneira que deixava claro que eu me recusaria a deixar ela me agredir - tinham feito seu plano mover-se para outra direção."Eu certamente espero
que sim," eu disse.Os olhos azuis de Lauren se estreitaram. "O que?" ela perguntou, parecendo irritada."Que a sua mãe tenha gostado dos livros que ela comprou
na nossa loja," eu disse.Naquele momento - Graças a Deus - o sino tocou. Eu fechei a porta do meu armário com uma batida, coloquei a minha nova bolsa de designer
no ombro, e disse, "Bom, te vejo na convocação," e desci o corredor...... bem do lado do Mark Finley.Quem, eu não pude deixar de noticiar, tinha ficado olhando
na minha direção, porque ele percebeu a minha interação com a sua namorada, ou - mesmo que eu saiba que isso é muito a se esperar... ainda, O Livro diz que otimismo
é crucial no sucesso de qualquer aventura social - ele estava olhando a minha meia-calça fina.Qualquer um, nossos olhares se encontraram quando eu passei.Eu
sorri e disse, "Oi Mark. Espero que tenha tido um bom verão."Essas eram as primeiras palavras que eu tinha dito a Mark Finley na minha vida.E eu acho que teve
o efeito desejado. Porque enquanto eu me afastava dele, eu ouvi ele dizer, "Quem era essa?" e ouvi Lauren murmurar, "Essa era Steph Landry, seu retardado."Oh yeah.
Eu dei uma de Steph, certo.E pela primeira vez na minha vida eu me senti ÓTIMA sobre isso.
Agora que as necessidades do seu armário foram solucionadas, é hora de trabalhar a sua personalidade.Você está namorando? Dois em um? Se não, você PODE se tornar
um.Como?Se envolvendo em clubes e atividades que você sinta entusiasmo.As pessoas estão destinadas para aqueles que têm as habilidades de deixá-los excitados
- quer seja lavar carros, fazer carne assada ou dar socos!Então se escreve agora no máximo possível de atividades escolares social que couberem no seu horário...
depois mostre o seu espírito escolar.Entusiasmo é contagioso, e logo VOCÊ será, também.
Capítulo 9 AINDA O-DIASEGUNDA, 28 DE AGOSTO, 11 DA MANHA"Isso é tão chato," Jason disse enquanto ia aos nossos lugares tradicionais na ultima fileira do auditório,
onde, ano passado, foi a minha idéia de deixar lotas de refrigerantes rolarem a baixo por toda a sala durante o discurso do presidente escolar. Já que o chão é de
cimento, elas fazem uma bagunça extremamente satisfatória.Ninguém nunca suspeitou de nós, porque somos tão bons alunos. Sra. Wampler gritou com uns caras totalmente
inocentes na fileira na nossa frente, porque eles eram alunos de horticultura (i.e., alunos sem limite). Ela daria detenção a eles, também, se não no exato momento
uma das minhas latas de Coca Diet tivessem escapado, tornando o rosto da Brejenta um vermelho brilhoso quando ela gritou, "QUEM ESTA FAZENDO ISSO?"Eu tive pontadas
por dentro de tanto rir."Eu tenho uma idéia," eu disse antes que o Jason sentasse em um lugar. "Vamos sentar mais perto."Entusiasmo é contagioso, tudo bem. A
Becca ficou tipo, "Oh meu Deus! Isso é parte do seu plano criminoso?""Hum," eu disse. "É.""Como eu vou deixar as minhas latas de Coca rolarem a baixo se nos
vamos sentar na frente?""Você não vai," eu expliquei, selecionando três lugares vazios a poucas fileiras do palco."Qualquer que seja o seu plano," Jason disse
quando ele viu o quão perto os lugares eram de onde Sra. Wampler e os outros administradores da escola era, "é melhor funcionar. Nós vamos ter que, tipo, prestar
atenção.""Exatamente," eu disse, e peguei um lugar no corredor."Eu não entendo," Jason disse, balançando a cabeça. "Primeiro o cabelo, depois as meias, agora
isso. Você sofreu uma contusão esse verão que eu não tenha ficado sabendo?""Shhh," eu disse, porque a Sra. Wampler estava começando a convocação. Que é como eles
chamam na Bloomville High quando todos nós juntos no auditório temos que escutar ex-drogados e pessoas que mataram seus amigos acidentes dirigindo bêbadas falarem
de suas experiências.Eles calaram a boca porque o Diretor Greer, que joga golfe, mantêm um clube no seu escritório que ele constantemente pratica jogadas - sem
olhar, dizem por ai, para ninguém que possa estar sentado no seu escritório na hora. Há um cara que trabalha no lava-carro que só tem um olho bom, e todos dizem
que o Dr. Greer que o deixou assim com o seu taco 5-iron no dia que ele foi mandado a sua sala por bater boca com a Brejenta Wampler.Dr, Greer começou seu discurso
de boas vindas - "Sejam bem-vindos estudantes, a outro ano escolar na Bloomville High" - e Jason afundou na sua cadeira do meu lado, e afundou mais ainda, colocando
seu Converse (all star) no alto de trás da cadeira em frente a ele e fazendo a pessoa na cadeira - Courtney Pierce, a bêbada da sala - virar e dar um olhar intenso,
que o Jason respondeu como, "O que? Eu não estou encostando em você," uma frase que na verdade ele aprendeu com o meu irmão Pete.Ao lado de Jason, Becca, claramente
entediada, pegou um lápis roxo que ela pôs na minha conta dos empregados da livraria ($1.12, 73 centavos com os meus 35% a menos) e começou a fazer pequenas estrelas
no parte branca do Tópico "Melhores" do Jason.E Jason, depois começou a lançar um olhar para mim (como se dissesse, "Você está vendo o que sua amiga insana está
fazendo?"), apenas sentado lá e deixando ela fazer aquilo. Como se ele estivesse com medo de que se ele se movesse, ela pudesse mergulhar o lápis no seu antebraço,
ou algo assim.Após o término do Dr. Gree com o discurso chato sobre como nós devemos usar nossas volta as aulas para realizar nosso melhor potencial veio a leitura
da Swampy dos destaques do código de conduta do estudante: não matar aula, sem violência, sem apelidos para qualquer criança, ou você será expulso e terá que ir
para a Academia Militar Culver ou uma escola alternativa. É difícil ver que poderia ser pior. Na Culver, você é forçado a levantar-se no alvorecer e executar brocas.
Numa escola alternativa, você seria forçado em pôr nas suas performances partes dos seus sentimentos a respeito da guerra. O que seria uma situação perdidade qualquer
forma. É obviamente melhor só manter-se sem violar o código de conduta estudantil do Bloomville High.Finalmente, depois que ela teve os olhares alternados para
os relógios ao invés dela e esperando pela hora do lanche, e roncando, Swampy virou o microfone para Mark Finley, que andou até o palco com um aplauso estrondoso
que fez algumas pessoas - como Jason, que acenou com a cabeça - para permanecermos em nossos lugares."Oh, man," o Jason disse olhando para baixo aos sapatos dele.
Além das estrelas, Becca tinha somado unicórnios minúsculos."Eles não são fofos?" Becca perguntou, claramente emocionada pela própria coragem artística."Oh,
man," o Jason disse novamente, enquanto não parecia tê-los achados bonitos.Mas eu não tive tempo para lidar com o drama dos sapatos de Jason.Porque o Mark tinha
começado a oração."Ei," o Mark disse, a voz funda e áspera dele - mas totalmente encantadora - no microfone que ele tinha tido que ajustar à própria altura dele,
depois que a Sra. Wampler diminuiu e pisou longe disto, para divertimento do corpo estudantil. "Assim, sim. Uh. É um calendário escolar novo, e vocês sabem que o
juniors daquele ano de meios...último, são agora os superiores em cargo, e-"Aqui ele foi cortado por mais aplauso, alegrando os superiores em seus cargos, que se
felicitaram por conseguir fazer isto pelo verão sem se matar em acidentes motorizados bêbados ou mergulhando de ponta-cabeça no fim raso da piscina (sem mencionar,
não bebendo em qualquer grupo de limonada da Alegria limão)."Um, sim," o Mark disse enquanto os superiores em cargo se estabeleceram novamente, enquanto sorria
um pequeno sorriso envergonhado dele. "Assim, vocês sabem o que isso significa. Nós temos que começar a economizar para nossa viagem sênior esta primavera. Com esses
meios nós ganhamos pouco dinheiro. Agora, eu sei que o último ano, classe sênior, conseguiram cinco mil dólares fazendo lavagens de carros de fim de semana. E eu
proponho que nós façamos a mesma coisa. A Lagosta Vermelha, centro comercial, diz que nós podemos usar o lote de estacionamento deles novamente, assim...o que vocês
dizem? Você estão prontos para uma lavagem de carros?"Mais aplausos, estes acompanhados de assobios e gritos de "Vá, peixe!" que conduziu inevitavelmente a risos
silenciosos sobre jogos de cartão de infância.Eu não sei, seriamente, como nossa escola foi aderiu o Peixe Lutador como seu mascote. Porque como vão mascotes,
chupada de peixe. Aparentemente tem algo a ver com o cata-vento de peixe em cima do palácio da justiça... que alguma pessoa suspeita ser um salmão, o peixe geralmente
é achado no lago. Assim eu imagino que as coisas poderiam ser piores. Nós poderíamos ser os Salmões Lutadores.O Mark deu uma olhada ao redor do quarto para ver
se alguma pessoa tinha qualquer coisa a mais para dizer, sem ser "Vá, Peixe!". Eu dei uma olhada, também.Mas a única pessoa que levantou a mão foi Gordon Wu, o
presidente de classe júnior (eleito unicamente devido a não ter oponente, sendo a minha classe - qual é o jeito legal de colocar isso? - levemente apática), que
levantou e perguntou, "Com licença, hum, Mark, mas eu estava imaginando se não tem outro método pelo qual nós podemos angariar fundos, outro que não o lava-jato?
Veja bem, alguns de nós prefeririam ter os sábados livres para, hum, trabalho de laboratório..."Este comentário foi seguido pelas vaias vindas dos estudantes e
por vários "Não seja tão Steph, Wu!"Eu não podia acreditar na minha boa sorte - quero dizer, que Gordon Wu, de todas as pessoas, tenha realmente deixado a porta
aberta pra que eu pudesse passar. O que eu fiz sem pensar duas vezes, antes que Mark pudesse dizer alguma coisa."Gordon ressaltou um ponto interessante," eu disse,
levantando da minha cadeira - tão repentinamente que Jason escorregou os dois do encosto da cadeira em frente a ele. Ele também não pareceu perceber o barulho que
eles fizeram ao atingir o chão de cimento do auditório. Em vez disso ele virou a cabeça para mim e murmurou, "O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO? SENTE!" enquanto Becca, com
um dedo na boca (ela é uma roedora de unhas), me encarou com uma expressão horrorisada no rosto.O silêncio tomou conta do auditório enquanto todos os rostos se
voltavam na minha direção. Eu podia sentir o calor do meu rosto ficando vermelho, mas eu tentei ignorar. Esse, eu sabia, era o momento. Minha grande chance de mostra
meu Espírito Escolar, depois de anos fazendo o que Jason estava fazendo um segundos atrás - cochilando - durante todos os eventos escolares aos quais eu era forçada
a comparecer, e simplesmente não aparecendo nos que não eram obrigatórios.Bem, não mais."Nós temos muitos talentos individuais nesse sala," eu continuei, feliz
por ninguém poder ver os meus joelhos de onde eu estava de pé (exceto Jason. Mas ele não estava olhando os meus joelhos), já que eles estavam tremendo tanto. "Parece
uma vergonha desperdiçá-los. Que é o porque de eu estar pensando que uma boa maneira de levantar fundos para a viajem da turma dos sêniors este ano seria um leilão
de talentos dos estudantes."A platéia, que estava congelada em silêncio até esse ponto, começor a zumbir. Eu vi Lauren Moffat, os olhos dela brilhando de alegria
ao ver o que eu estava fazendo (fazendo um espetáculo público de mim mesma... de novo), se inclinar na cadeira para sussurrar alguma coisa no ouvido de Alyssa Krueger."Deixe-me
explicar," eu disse urgentemente antes que o zumbido pudesse me amedrontar. "Estudantes como Gordon, por exemplo, que são muito bons com computadores, poderiam leiloar
algumas horas de progamação de computadores para um membro da comunidade."Os murmúrios começaram a aumentar. Eu podia sentir os estudantes se agitando. Logo, eu
sabia, os "Não seja tão Steph"s íam começar. Eu ainda não tinha ouvido-os ainda. Eu precisava fechar o negócio."Ou você, por exemplo, Mark," eu disse, olhando
para o palco e encontrando o olhar calmo, de olhos castanhos, de Mark. eu imagino se ele sabe o efeito eletrificante que se olhar tem na população feminina da escola
Bloomville High.É estranho o que vc pensa enquanto a sua vida está se esvaindo por seus olhos."Sendo o zagueiro da escola, Mark," eu continuei, "você poderia
leiloar um poco do seu tempo para participar de algum anúncio nas redes locais de televisão para algum negócio da
comunidade. Pessoas pagariam muito por esse dipo
de propaganda."Eu notei que, na mesa atrás do pódium onde Mark estava de pé, tanto a Sra. Wampler quanto o Dr. Greer estavam olhando para mim. Swampy chegou ao
ponte de se inclinar e dizer algo para o Dr. Greer, que, ainda olhando para mim, acenou positivamente com a cabeça. Eu imagino se ela sempre suspeitou de nós sobre
o incidente das Latas Rolando do ano passado e finalmente colocou dois mais dois. Eu tentei ignorá-los."É só que parece que nós temos tantas pessoas extraordináriamente
talentosas nessa escola," eu continuei. Essa era a parte perigosa. O Livro foi bastante explícito sobre não parecer um puxa-saco. Apesar de O Livro não chamar assim.
O Livro chama de 'curring favor'. Sob nenhuma circunstância você deve fazê-lo. Ainda assim, eu descobri, é difícil puxar-o-saco sem parecer que você está fazendo
isso."Seria uma vergonha não dar a eles a chance de brilhar fazendo as coisas nas quais eles são naturalmente bons," eu disse, "ao invés de forçar todos a trabalharem...
bem, em um lava-a-jato."Que foi quando uma foi disse, "Qual é o SEU talento, Steph?"Ao que outra respondeu, "Ah, certo. Super Big Gulp!"Eu não precisava olhar
na direção das vozes para saber que elas pertenciam à Alyssa e Lauren. Eu conhecia essas vozes muito bem."O que não quer dizer," eu continuei, consciente dos risinhos
daqueles que estavam perto o bastante para ouvir a pergunta de Alyssa e a resposta de Lauren, "que nós não devríamos ter um lava-a-jato para somar com o leilão de
talentos, para participação daquelas pessoas cujos talentos são menos marcantes que os outros."Eu quis acrescentar, "Ou para aqueles cujo único talento é algo
que vc possa ir para a cadeia se aceitar dinheiro por ele," enquando olhava diretamente para Lauren.Mas O Livro deixa bem claro que se você quer uma popularidade
duradoura, você não deve atingir seus inimigos em público. O que me faz pensar se a Lauren sabe quão limitado o tempo dela no topo do tótem da popularidade pode
acabar sendo."Mas," eu disse, "eu acho que nós deveríamos considerar um leilão de talentos também."E então eu me sentei.Uma coisa boa, já que meus joelhos
tinham finalmente desistido. Eu não poderia ter ficado de pé por mais um segundo. Eu fiquei sentada lá, meu coração martelando contra as minhas costelas, e olhei
para Jason e Becca. Os dois estavam me encarando, suas bocas silenciosamente abertas."Sobre o que," Jason perguntou suavemente, "era tudo AQUILO? Desde quando
você se importa..."Mas eu não consegui ouvir o que ele disse depois disso, já que Mark, batendo no microfone para chamar atenção depois que todos começaram a susurrar
entre eles mesmos, disse, "Hum, okay. Obrigada, hum, hum...""Steph Landry!" Lauren gritou do seu lugar, onde ela tinha se dissolvido numa poça de meias-altas-brancas
cheia de zombarias."Obrigado, Steph," Mark disse, ele olhos para o Dr. Greer e para a Sra. Wampler. Os dois, eu percebi, estavam acenando positivamente com as
cabeças.O que aquilo significa? Que eles gostaram da minha idéia?Ou que Mark deveria simplesmente me ignorar e seguir em frente?"Hum, eu acho que um, hum, leilão
de talentos," Mark disse, seus olhos castanhos olhando direto para mim - não, queimando através de mim - onde eu tinha derretido em minha própria cadeira... não
apenas pelos risos, mas também pela minha própria mortificação, "parece uma grande idéia.""O QUE?"A palavra - que tinha vindo de Lauren - atravessou o auditório
como a pistola de partida de uma corrida.Todos olharam para Lauren, cujo rosto era uma cômica face de ultraje.Ou pelo menos eu achei que foi cômica.Mark olhou
de Lauren para mim, a sua expressão de imcompreensão mostrando claramente que ele, Mark Finley, não fazia idéia de qual era o problema de sua namorada."Ótimo,"
Mark disse para mim. "Então, tudo bem se eu te colocar a cargo de inscrever as pessoas interessadas para isso, Steph? A, hum, coisa de talentos?""Claro", eu disse."Ótimo,"
Mark disse de novo. "Então o que todos nós precisamos em seguida é a Batida dos Peixes Lutadores de Bloomville..."E então Mark liderou a todos nós na batida da
nossa escola, uma coisa ridícula que você faz com os seus braços, betendo um contra o outro para fazer um som de palmas, como um rabo de peixe na água.Então o
sinal tocou.
Não fique surpreso se alguns colegas se ressentirem da sua nova confiança e tiverem tendência a subestimar seus esforços de auto-crescimento.Eles estão, sem dúvida,
com inveja e talvez preocupados com o próprio estatus social, em vista da sua ascensão meteórica à popularidade. Faça o seu melhor para afastar os medos deles e
deixe os antigos amigos saberem que sempre serão importantes para você - tão importantes quanto seus novos amigos.
Capítulo 10 AINDA DIA-DSEGUNDA, 28 DE AGOSTO, 1 DA TARDE.Todos saíram para almoçar.Todos, isso é, com exceção de mim.E Jason e Becca, porque eles estavam presos
na fileira de cadeiras, já que eu não estava me mechendo.Mas é claro, eu NÃO PODIA me mecher. Por que meus joelhos ainda estavam tremendo. Por causa do que acabou
de acontecer.E as coisas não melhoraram muito quando todo mundo estava passando pela gente, e pessoas como Gordon Wu pararam na nossa fileira para dizer coisas
como, "Grande idéia, Stephanie," e, "Você acha que eu posso leiloar aulas de desenho para criancinhas? Por que eu sei desenhar. Isso conta como talento?"Até o
Dr. Greer parou perto da minha cadeira no seu caminho para seu próximo jogo de golfe e disse, "Muito boa sugestão Tiffany. É bom ver vc participando de eventos escolares
para variar." Ele deu uma rápida olhada para Jason e Becca. "Seus amigos aqui poderiam seguir o seu exemplo.""É Stephanie," Jason disse enquanto Dr. Greer ía embora.
"O nome dela é Stephanie."Mas o Dr. Greer não pareceu ter ouvido.Não que importasse. Quem liga se o diretor sabe ou não o seu nome? Mark Finley sabia.E isso
é tudo que importa.Eu sei que Mark Finley sabia o meu nome por que enquanto ele vinha andando pelo corredor perto da minha cadeira, ele sorriu e acenou para mim."Idéia
legal, Steph," ele disse. "Te vejo por aí."E tudo bem, o braço dele estava nos ombras de Lauren Moffat enquanto ele dizia isso.Mas isso é só por que ela o colocou
lá. Eu VI ela fazendo isso. Ela ficou esperando Mark descer do palco e praticamente se jogou em cima dele no instante em que ele colocou os dois pés em chão sólido.E
claro, ela olhou para mim com cara de zombaria enquanto passava, mesmo que que o cara ao qual ela estava presa pelo quadril estivesse sorrindo para mim.Mas quem
liga? MARK FINLEY SORRIU PARA MIM!O que foi exatamente o que Becca disse depois que todos já tinham ido embora."Mark Finley sorriu para você." O tom dela era
de reverência. "Ele SORRIU. Para VOCÊ. De um jeito LEGAL.""Eu sei," eu disse. Eu podia sentir a força voltando lentamente às minhas pernas."Mark Finley," Becca
murmurou maravilhada. "Quero dizer, ele é tipo... ele é o cara mais popular de toda a escola.""Eu sei," eu disse de novo. Vazio, o auditório é um lugar totalmente
diferente de quando está cheio. Há algo quase calmente sobre o tamanho do seu eco."Mas que diabos," Jason, que até aquele momento tinha ficado estranhamente silencioso,
estourou, "é o seu problema, Steph? Alguém colocou crack no seu cereal esta manhã, ou algo assim?""O que?" Eu perguntei, tentando aparentar - e soar - como se
eu não soubesse do que ele estava falando. E não sobre o crack, também."Não faça isso," Jason disse, "você sabe exatamente O QUE. O que foi tudo aquilo? O que
é um leilão de talentos? E o que é isso de se oferecer para participar de um? O que é que há com você demonstrando ESPÍRITO ESCOLAR?"Mas nessa hora as minhas pernas
já tinham parado de tremer, e eu podia me levantar."Eu só queria ajudar," eu disse, "quero dizer, alguém fai fazer o mesmo quando for a nossa vez de ir para Kings
Island no ano que vem.""Você odeia Kings Island," Jason disse, se levantando. "Você vomitou na Barca e se recusou a ir em qualquer outro passeio.""E?" Eu disse
encolhendo os ombros. "Isso significa que eu não posso tentar ajudar outras pessoas a aproveitar algo, só por que eu não gosto de alturas?""Sim," disse Jason,
saindo atrás de mim enquanto eu ía pelo corredor em direção da saída para o resto do prédio. "Por que isso é perigosamente próximo de espírito escolar. E você não
tem espírito escolar.""Na verdade," eu disse, "Eu estive pensando muito sobre isso, e...""E daí?" Jason exigiu. "Ela é o inimigo - e eles são os amigos dela.
Portanto, eles são seus inimigos."Eu só fiquei lá e olhei para ele. Bem, não que eu tivesse muita escolha, já que ele estava bloqueando a porta."Você está sendo
realmente infantil quanto a tudo isso Jason," eu disse na minha voz mais razoável. "Não tem nada de errado em mostrar um pouco de espírito escolar tentando ajudar
outros que podem estar precisando. Nós só temos mais dois anos nesse lugar. Nós realmente deveríamos tentar aproveita o pouco tempo que nos resta."Pelo menos,
isso era o que dizia O Livro. Você sabe, sobre como você deveria tentar aproveitar os seus anos no segundo grau enquanto pode, por que eles você nunca os terá de
volta.Jason, obviamente, não tinha lido O Livro. Mas estava claro pela sua reação ao que eu tinha dito que, mesmo se ele tivesse lido, não teria feito muita diferença.Por
que o que ele fez em seguida foi se esticar e colocar a mão na minha testa, como se ele estivesse verificando se eu estava com febre."Ela parece quente para vc,
Becca?" ele perguntou. "Por que eu acho que ela pode estar ficando doente com alguma coisa. Febre de Lassa (um tipo de febre acompanhada de hemorragia interna) ou
talvez Febre Amarela. Ou isso ou ela foi sequestrada e trocada por um clone muito esperto. Clone!" Ele tirou a mão da minha testa e olhou nos meus olhos. "Me diga
qual jogo Steph Landry e eu jogávamos na grande pilha de sujeira que eles fizeram enquanto eles estavam construindo a piscina da minha família, quando nós dois tínhamos
sete anos, ou eu vou saber que vc é um clone alienígena e que você está mantendo a verdadeira Steph na sua nave mãe!"Eu o encarei. "G.I. Joe encontra Spelunker
(alguém que gosta de esplorar cavernas) Barbie," eu disse. "E pare de ser tão ridículo. Nós temos que ir. Nós vamos acabar na mesa ruim para o almoço."Finalmente
Becca se pronunciou."Eu pensei que nós íamos sair para almoçar," ela disse. "Você sabe, agora que Jason tem um carro.""Nós não podemos SAIR para almoçar," eu
expliquei para os dois. "Vocês não entendem? O almoço é a parte mais importante para interação social na escola."Tão cedo as palavras saíram da minha boca eu percebi
como elas tinham soado. Elas eram, é claro, uma citação d'O Livro.Mas Jason e Becca não sabem nada sobre O Livro. Então, naturalmente, eles ficaram perplexos,
como se não soasse como uma coisa que eu falo normalmente. Eu podia dizer que eles estavam confusos antes mesmo de eu terminar de falar."O que eu quis dizer é,
eu não posso simplesmente não aparecer por lá," eu expliquei no que eu pensava ser um tom de voz bastante razoável. "Eu tenho que estar disponível, para o caso de
alguém querer se inscrever. Vocês sabem, para o leilão. Vocês vêem o que eu quero dizer?""Oh," Jason disse, acenando. "Nós vemos o que você quer dizer, tudo bem.
E se isso não é parte de algum plano mestre diabólico - um que envolva convencer a escola a comprar algum terreno de pântanos, inexistente, na Flórida ou algo assim
- então nós estamos fora. Então. É?"Eu balancei a cameça. "É o que?""Parte de algum plano mestre diabólico para tirar o Mark Finley da presidência da classe
de sêniores e colocar a si mesma no lugar, ou algo assim?"Eu não sabia o que dizer. ERA parte de um plano mestre diabólico, é claro. Mas não do tipo que ele estava
esperando.Ele pareceu perceber isso sem que eu tivesse que dizer qualquer coisa. Virondo-se para Becca, ele disse, "Vamos."Becca se apressou para acompanhá-lo,
me olhando de forma preocupada o tempo todo como se eu fosse um cão raivoso, ou um bolinho Ana Maria frito, ou algo assim.Ainda assim, eu não parcebi. Não imediatamente.
Por que a verdade era horrível demais para a acreditar, eu acho.Eu estava tipo, "Legal." Eu até me senti aliviada. Eu realmente pensei que eles tinham entendido.
"Agora, nó só temos que ir lá pra baixo e ir perto das saladas ou o que for, e então sentar perto daquelas plantas que o clube de horticultura plantou, e se ninguém
vier até nós, nós vamos...""NÓS não vamos fazer nada," Jason disse, abrindo as portas e saindo com a Becca para o corredor."Bem," eu disse, seguindo-os, ainda
não entendendo. "Não, quero dizer, é claro que não, eu sei que isso é coisa minha, e tudo. Vocês não tem que me ajudar. Mas se - ei, onde vcs estão indo?"Por que,
ao invés de virar para a refeitório, eles viraram para o estacionamento dos estudantes."Nós estamos indo para o Pizza Hut," Jason disse. "Você é bem-vinda para
vir conosco, se você mudar de idéia."Eu só fiquei lá, encarando-os, sem entender o que estava acontecendo. Jason e eu SEMPRE almoçamos juntos. Quero dizer, exceto
durante aquela briga na quinta série... SEMPRE.E agora ele estava me abandonando? Só por que eu demonstrei um pouco de espírito escolar?"Ei, vocês," eu disse.
Eu acho que uma parte de mim achava que eles poderiam estar brincando, ou algo assim. "Vocês não podem estar falando sério. Quero dizer, fala sério. Nós não podemos
ser mal-humurados descontentes as nossas vidas inteiras. Nós temos que começar a participar das atividades escolares, ou as pessoas nunca vão nos conhecer e ver
o quão fantásticos nós somos. Eles vão ficar só, 'Não seja tão Steph' pelo resto de nossas vidas - Ei vocês? Ei vocês!"Mas era tarde demais. Por que eu estava
falando com um corredor vazio, já que eles tinham ido embora.
É tudo sobre empatia - se indentificar com os sentimentos das outras pessoas e ver as coisas pelo ponto de vista deles.Pessoas populares "se conectam" com os sentimentos
dos outros, fazendo com que eles pensem que são parte do todo. Eles não simplesmente acenam quando os outros contam seus problemas - eles realmente tentam imaginar
como eles mesmos se sentiriam ou reagiriam se estivessem na mesma situação.Sendo mais empático com os sentimentos dos outros, eles se sentirão mais "conectados"
com você, e a sua simpatia - e popularidade - irá crescer astronomicamente!
Capítulo 11 AINDA DIA-DSEGUNDA-FEIRA, AGOSTO 28, 2 DA TARDE,A lanchonete da Bloomville Escola Secundária é um lugar assustador, e não é só por causa da comida.
É muito igual à Rua Principal - o lugar para se ver e para ser visto - se você é um adolescente em Bloomville, Indiana. As mesas de lá são redondas e só ajustam
aproximadamente dez pessoas. Isto significa que se você, como eu, quer sentar em uma mesa cheia de pessoas populares, você tem que achar um espaço apertado deixado
para você por alguma pessoa.Mais importantemente, você tem que achar pessoas que se citam à vontade em DEIXAR você sentar apertada.Quando eu deixei a barra de
salada e estava de pé, enquanto inspecionando a paisagem lá antes de mim, eu vi que - da mesma maneira que eu tinha predito atrás no auditório ao Jason e Becca -
quase todos os assentos bons foram levados. Havia um assento ou dois na "cabeça" da mesa onde Lauren e Mark e a companhia deles, inclusive Alyssa Krueger e o resto
do time de futebol americano, estavam sentando.Enquanto isso, havia BASTANTE lugar vazio na mesa de Gordon Wu. Na realidade, me vendo estando lá de pé, Gordon
na verdade se levantou e acenou para mim, e então moveu a mochila dele para fora da cadeira que estava próxima a ele, como se ele tivesse guardando um lugar para
mim.O que era muito agradável da parte dele, e tudo.Mas se eu sentasse próximo a Gordon Wu, eu ainda seria nenhum adicional longe de lançar o meu ' Não dê uma
de Steph' , que eu tinha sido esta manhã.Que era quando eu notei ainda havia um espaço à mesa de Darlene Staggs, corrija próximo ao Mark e a mesa de Lauren. Normalmente
Darlene teria sentado na mesa deles.Mas desde que ela cultivou o que eu tenho que dizer que provavelmente é a mais impressionante competição de quem tem o maior
peito em Greene County durante parte do inverno do ano passado (algumas pessoas menos generosas, como Jason, dizem que os peitos de Darlene são silicone, mas eu
me recuso a acreditar que qualquer pai - até mesmo o meu - seria irresponsável o bastante para deixar a filha de dezesseis - anos deles arrumar um peito falso. Você
nem mesmo está com mais de dezesseis!), ela tem que se sentar em uma mesa só para ela, para acomodar os acompanhantes já-crescidos de admiradores masculinos dela.Darlene
Staggs é possivelmente a pessoa mais demente que eu já encontrei que não estava de fato em Ed Especial. Uma vez na oitava série, em biologia, ela finalmente entendeu
que o mel vem das abelhas, e assim ela compreendeu que o codimento favorito dela veio de "fora de um bicho", o que fez com que ela fosse enviada ao escritório da
enfermeira para ter uma compressa fresca aplicada à sua testa.Mas enquanto Deus estava dando troco a menos para Darlene no departamento de cérebros, ela foi abençoada
com um mar de beleza. Embora até mesmo antes da visita de Natal milagrosa da 'fada dos seios', você pudesse contar que Darlene era o tipo de menina que, em um par
de anos (depois que ela se tornasse à esposa de troféu de algum banqueiro e tivesse uma criança ou duas), ia experimentar o mesmo tipo de batalha com gravidade que
eu estou enfrentando no momento.Mas agora mesmo, ela é a menina mais bonita em nossa escola inteira e assim é constantemente rodeado por meninos que se reúnem
a ela na esperanças de poder algum dia afundar nela e em suas delicadas fragâncias.A outra coisa sobre Darlene é, quando ela, Lauren, Alyssa Krueger, e Bebe Johnson
estavam na linha de obter maldade de Deus, Darlene deve ter visto uma borboleta e deve ter ido correr atrás dela, ou algo assim, desde que ela não tem um osso bom
no corpo dela.Mas Lauren ainda deixa a Dralene andar com ela e com as outras Ladys Negras do Sith porque Darlene é muito bonita para não se manter por perto, no
caso de uma delas precisar lidar com a ralé. E foi por isso que, com um sorriso de desculpas para Gordon Wu, eu fiz um caminho em linha reta para a acdeira vazia
na mesa de almoço de Darlene, que era apenas alunos emtros de onde Lauren e Mark estavam sentados."Oi, Darlene," eu disse, colocando minha bandeja na frente da
dela. "Se importa se eu sentar aqui?"Todos os oito garotos que estavam na mesa de Darlene tiraram o olhar de seu peito e olharam para mim. Ou para a área logo
acima da linha composta pelos minhas meias 3/4, para ser mais exata."Oh, você é aquela garota da assembléia hoje," Darlene disse, amável. Porque é desse jeito
que ela faz tudo. "Claro, oi."Então eu sentei e comecei a comer meu frango cozido, cuidadodamente retirando a pele para evitar adcionar qualquer quantidade de
gordura insaturada que iria para a minha bunda."Gostei das meias," Todd Rubin disse para mim com um sorriso largo que eu só podia chamar de devasso.Ao invés
de ficar toda, "Nojento, saí daqui, e a propósito, só em seus sonhos" como eu teria feito antes de ler O Livro, eu sorri para Todd e disse com um olhar sonso, "Ora,
obrigada, Todd. Me diz, Todd. Você naõ está na minha classe de Trigonometria avançada?"Todd olhou com nervosismo para a direção de Darlene, como se alguém mencionar
seu poder com a matemática poderia diminuir suas chances de faturar alguém cuja a combinação de GPA era igual a quantidade de capitais que ela podia mencionar de
memória.O que, tendo em vista que eu estive em Civilização Mundial com ela no ano passado, eu sei que são duas."Yeah," Todd disse, com cautela."Talvez você
poderia se inscrever para o leilão de talentos, então," eu disse. "Há provavelmente toneladas de calouras bonitinhas que morreriam para ter você como seu tutor por
um dia. Não acha?" Todd, com outro relance a Darlene que estava o encarando sem expressão como ela lambiscou uma vara de cenoura, olhou menos alarmado, desde o
que eu há pouco tinha feito era lhe ter dado um elogio. Em frente à mulher dos seus sonhos."Bem," Todd disse. "Eu quero dizer, Ok. Eu quero dizer, com certeza.""Excelente,"
eu disse, e chicoteei a prancheta que eu tinha roubado do escritório central enquanto eu ia até o refeitório. "Sinal positivo para você, então. Emocione, nós faremos
uma fortuna , provavelmente, com isto - bastante para a classe sênior ir para a França, a esta taxa. Como você soube sobre os sujeitos? Qualquer pessoa te disse
sobre alguma oferta de meninas para você?"Cinco minutos depois, todos os sujeito à mesa tinham se inscrito, enquanto listando, debaixo do título dos TALENTOS,
habilidades tão variadas quanto: CORTAR GRAMA; GUIA DE TELEVISÃO; DUAS HORAS DE VIAGEM PARA PESCA EM GREENE LAKE; CARREGAR BOLSAS ENQUATO VOCÊ FIZER COMPRAS NO SHOPPING
DE BLOOMVILLE; e MOTORISTA DE CARRO QUASE PROFISSIONAL.Como outras pessoas notaram os sujeitos à mesa de Darlene, que falam tão animadamente, eles pararam para
ver em qual iam, e então se inscreveram. Até que o próximo sino de período tocasse, eu tive quase trinta voluntários - a maioria deles populares - incluindo a própria
Darlene, que mesmo com charminho perguntou, "Mas e vocês, meninos, o que tem a dizer sobre mim? Eu não tenho nenhum talento.""Claro que você tem, Darlene," eu
lhe falei na mesma voz animada que eu tinha estado usando com todos os outros sujeitos. Porque O Livro diz, são as pessoas populares as extrovertidas e de outros
tipos alegres. "Olha como você é bonita. Por que você não se oferece para dar a alguém um makeover?""Ooooh," Darlene disse empolgada. "Gosto de maquiagnes Lancôme...
pode ser no shopping?""Um," eu disse. "Sim." Então, vendo que ela não entendeu claramente, eu somei, "Só que você vai estar DANDO um makeover, não adquirindo um.
Você, provavelmente, teria que usar sua própria maquiagem para ganha isto.""Oh," Darlene disse, enquanto olhava desapontada. Você poderia contar que ela totalmente
tinha pensado que ela estaria usando maquiagem grátis de alguma maneira na coisa inteira.O qual, dado o fato de que Darlene está provavelmente dando cada minuto
livre do seu tempo, é compreensível. "Mas se ninguém me comprar?""Não se preocupe, Dar", Mike Sanders apressou-se para dizer, desde que nenhum humano pudesse estar
lá para ver Darlene olhar triste. "Eu irei oferecer minha mãe para você. Ela precisa totalmente de uma transformação". Darlene brilhou, "Sério, Mike?" ela perguntou.
"Você realmente faria?""Com certeza, Dar," Mike assegurou a ela. E todos os outros garotos da mesa se apressaram para lhe assegurar que as suas mães pareciam cachorros
que precisavam de uma transformação também.Era o que estava acontecendo quando o sinal tocou e todos começaram a se levantar para ir ... incluindo Mark Finley
e Lauren Moffat, que acabou andando atrás de mim quando eu estava anotando rapidamente os nomes de alguns manifestantes de última hora.Mesmo que Lauren tivesse
o braço de Mark envolvido outra vez em torno do seu pescoço, ele não parecia estar dando muita atenção a ela. Ele estava olhando para mim, de fato."Ei," ele disse
sorrindo para mim, assentindo para a minha prancheta. "Conseguiu um monte de nomes aí, huh?"Eu sorri para ele radiante, enquanto ao mesmo tempo evitava encontrar
o olhar zangado de Lauren."Nós conseguimos," eu disse alegremente. "As pessoas parecem realmente interessadas. Oque eu vou fazer a seguir é colocar um anúncio
na Gazeta Bloomville, deixando as pessoas da cidade saber sobre o leilão, então eles podem vir oferecer. Que noite você acha que nós devemos fazer isso? O leilão,
quero dizer?"."Quinta-feira? É tempo suficiente para colocar o anúncio?".Eu disse isso chegando mais perto, mas tendo cuidado."Ei, você quis, uh, dizer isso?
Mark quis saber, seus olhos cor de mel quase verdes nas luzes florescentes. "Aquela coisa que você disse no auditório, sobre as pessoas talvez oferecerem por mim
para fazer propaganda para negócios?""Absolutamente," eu disse. Eu lancei um olhar para Lauren para ver como ela estava tolerando isso, você sabe, sobre as circunstâncias.
As circunstâncias de o seu namorado estar falando comigo. Ela tinha seus olhos meio-tampados como os de um lagarto. Estava claro que ela estava desejando ela mesma
em qualquer lugar exceto lá." Você quer se inscrever?" Eu pedi a Mark, segurando a prancheta". Isso provavelmente irá conseguir muito mais pessoas, se você sabe,
virem o seu nome aqui."" Você acha?" Mark pediu. Mas ele já estava alcançando uma caneta e inscrevendo seu nome".O que eu deveria pôr como talento?" O sorriso
que ele armou para mim foi inclinado para o lado, uma charmosa mistura de incerteza e retração. "Eu não sei se 'modelo comunicativo' é o tom certo."" Eu irei botar
pessoa comunicativa," eu disse, sorrindo de volta para ele. E porque eu não queria ela pensasse que eu estava tentando á ignorar, ou qualquer coisa. Eu disse para
Lauren, "Você gostaria de se inscrever Lauren? Talvez você poderia se oferecer para ser motorista das pessoas em alguma das BMW do seu pai, você sabe, das muitas
que ele tem."O olhar que Lauren me deu foi glacial. "Obrigada," ela disse sarcasticamente. "Mas eu não irei dirigir como uma idiota durante o dia todo em um dos
carros novos do meu pai".E, só para enfatizar como foi pior do que qualquer idéia que ela pensou que fosse, Lauren falou para Alyssa, a qual quase se sufocou com
a sua soda diet, ela riu tanto quando Lauren adicionou, "Deus, ela conseguiria ser mais do que uma Steph?"Mark, no entanto, não pareceu ver nada de engraçado na
situação."Laur" ele disse, olhando para baixo em sua pequena cara de rato, envolvidos por seu braço e seu ombro." É para caridade. Bem, quero dizer, para a viagem
sênior. Porque você está sendo tão má com ela?"Agora Alyssa realmente se engasgou com a sua soda. Ela pulverizou uma boca cheia disso através da (agora quase vazia)
cafeteria.Lauren,para a sua parte, olho para Mark, e apertando sua cara de rato, disse, "Eu estava só brincando."Então ela arrancou a prancheta de mim, inscreveu
seu nome nele, e escreveu, QUALQUER COISA, no TALENTO.O que é provavelmente melhor, porque eu não acho que haveriam muitas pessoas que dariam uma oferta para ver
Lauren BEIJANDO A BUNDA DE MARK FINLEY, sendo que nós podemos ver isso de graça todo o dia.Eu fiz uma nota mentalmente para repetir isso ao Jason mais tarde, porque
eu sabia o quanto ele iria apreciar, de tão engraçado."Feliz?" Lauren perguntou, entregando a prancheta de volta para mim."Ótimo, muito obrigado," eu disse como
se fosse completamente óbvia a sua rudez . "Isso irá realmente fazer a diferença. Espere e veja."E então eu lhe dei um sorriso final e virei a cabeça para a minha
aula seguinte.
Você é uma garota popular? Você pode ser, fazendo oque as garotas populares fazem.Garotas populares:• São respeitosas e educadas como todos.• Se põe no lugar
dos outros e pensa no sentimentos dos outros primeiro.• São generosos com o seu tempo e talentos.• São alegres e gostam de sair.
Capítulo 12 AINDA DIA-D DE AGOSTOSEGUNDA-FEIRA, 4 HORAS DA TARDE.Jason e Becca estavam um pouco quietos comigo no caminho da escola para casa.Eu disse a mim
mesma que foi porque eu estava um pouco atrasada para encontrar eles pelo B. Isso foi porque em todo lugar que eu fui nos corredores, as pessoas estavam me parando
e me perguntando se eles poderiam se inscrever para o leilão de talentos. Eu tinha mais de cem voluntários. Isso é de certa forma mais do que eu havia previsto.
Isso é quase mais do que nós poderíamos razoavelmente por no leilão em uma noite.Jason e Becca não quiseram participar. Mesmo eu mostrando que os dois tinham muitos
talentos."Jason, você poderia dar lições de golfe. As pessoas iriam adorar," eu disse para ele no carro a caminho de casa. "Ou você poderia oferecer excursões
no observatório. E, Becca, você poderia prender seminários confidenciais do livro de recados".Mas Jason recusa qualquer coisa que pode talvez beneficiar Mark Finley.
E Becca só disse, "Oh, não mesmo. Eu não sou boa o bastante para isso. E eu não acho que os meus pais deixariam, você sabe. Ser leiloada.""Você não vai ser leiloada",
eu apontei pra ela. "O seu talento é que vai."Mas ela só balançou sua cabeça um pouco mais.Eu consigo entender Becca, que, quando não está ao nosso redor, é
muito tímida e tudo mais, não esperando fazer parte disso. Mas Jason é totalmente extrovertido... se é que você pode ser extrovertido e anti-social ao mesmo tempo.Eu
não tive chance de realmente incomodar ele no carro, mais felizmente eu recebi uma ligação em casa um pouco mais tarde de Kitty, deixando eu e Catie saber que nossos
vestidos estavam prontos - e os smokings do Pete e do Robbie também - para nosso ajuste final e perguntando se nós queríamos ir lá."Nós vamos ficar bem aqui,"
eu disse, quando peguei Catie - que ainda estava fazendo os deveres de casa, desde que a quarta série é o primeiro ano que eles dão isso no condado dos Greene, e
Catie, estava tão animada sobre isso, que ela não podia esperar (esse tipo de "nerdinismo" é típico de mim e do resto da minha família, então eu não fiquei alarmada)
- e Pete e Robbie, que estavam assistindo MTV2 na sala da família, configurando a senha da mamãe para a parental V-Chips outra vez.Depois, avisamos ao papai aonde
nós íamos e deixando a Sara na frente de Dora a Exploradora (então ele não percebeu que sabíamos sobre a senha), nós todos corremos através do gramado da casa de
Jason, onde a decoradora de casamento estava aguardando.E não me considero uma pessoa super fashion. Quero dizer, tirando as meias de perna alta, que eu troquei
depois de chegar em casa, eu não me visto muito melhor.Mas o vestido feminino de dama-de-honra que Kitty escolheu para nós é mesma alguma coisa especial. Uma manga
de um rosa delicado - mas em um jeito irritante de menina - cetim coberto com uma gaze de seda de um rosa ainda mais leve flutuando ao redor dele, toda coberta com
cristais transparentes de diferentes tamanhos que capturavam a luz e o brilho... mas não em jeito ridículo, de Barbie princesa. Eu poderia totalmente retirar a fixa
rosa e usar o vestido na formatura. Você sabe, no evento improvável onde ninguém vai me convidar para ir.E a melhor parte disso tudo era que meu avô estava pagando
por eles. Porque se tivesse isso deixado para a minha mãe, nós teriam que usar vestidos combinando das prateleiras da Sears ao invés desses lindos vetsidos feito
a mão pela costureira e desenhista da própria Kitty."Olá, crianças," Kitty disse quando nós entramos pela porta de trás da cozinha, que é a única que os Hollenbachs
usam. A casa deles, onde Kitty cresceu, é uma das casas mais velhas do quarteirão, uma grande casa de fazendo no estilo vitoriano (se bem que a parte da fazenda
foi vendida há muito tempo, para construir outras casas, como a minha) com um chique parquete na entrada que os Hollenbachs nunca usam. A casa tem um copa de mordomos
e uma quarto de empregada ( o quarto do sótão para o qual Jason tinha recentemente se mudado), e um botão debaixo da mesa de jantar que você pode apertar para chamar
a empregada para a cozinha, o qual Jason e eu costumávamso apertas tantas vezes quando eu era criança e ia brincar com ele que sua mãe teve que finalmente desconectá-lo."Vocês
gostariam de um pouco de limonada?" Kitty perguntou.O que é uma das razões pelas quais eu gostava tanto de ir para a casa de Jason quando eu era pequena. Por uma
coisa, era a única casa do quarteirão com ar condicionado central, então era sempre legal e gelada. Mas por outra coisa, sua mãe sempre tinha coisas como limonada
e suco de laranja fresco para servir. Na minha casa, a única coisa que see tem para beber, além do leite, é água. Da torneira. Meu pai diz que nós não podemos com
os custos de se ter suco, mesmo em polpa, já que é tão caro (e também, assim que algum acidentalmente aparece em nosso congelador, é imediatamente consumido pelo
Pete), e ele não vai nos deixar ter refrigerante ou Kool-Ais, porque todo esse açúcar não é bom para vocês.Jason pode ter o quanto de açúcar que ele quiser. Como
consequência, ele nunca quer. Nós bebemos quase dois galões de limonada (Pete bebeu particamente um galão sozinho) antes que Kitty pudesse finalmente nos convencer
a subir as escadas e provar as roupas.Mas quando nós fizemos isso, valeu totalmente a pena."Oh," Kitty disse quando Catie e eu saímos do velho quarto de Jason,
que tinha sido transformado em um um improvisado quarto de costura. Com papel de parede de carros de corrida. "Olhe para vocês! Como duas princesas!"Catie olhou
para si mesma em seu vestido feminino , que era exatamente como o meu, só que em miniatura, apenas um pouco menos decotado, e disse "Você realmente acha?" parecendo
extremamente contente consigo mesma."Eu definitivamente acho," a avô de Jason disse. Sra. Lee, a costureira de Kitty, nos estudou, então veio para mim e disse,
agarrando minhas axilas "Precisa ser diminuido um poco aqui.""Sim," Kitty disse, inclinando a cabeça. "Só um pouco."Pete, que estava puxando com desconforto
sua gravata borboleta - tingida do mesmo rosa que nosso vestidos- deixou escapar um ronco. Eu olhei para baixo e vi que a Sra. Lee estava falando sobre a área dos
meus peitos, onde o vestido estava um pouco solto. Isto é porque, quando ela tirou minhas medidas pela primeira vez, eu não estava usando o meu novo e correto sutiã,
então eu tinha estado por todo o lado. Agora estava na proporção correta - mas o vestido não."Cale a boca, Pete," eu disse. "Você vai conseguir terminar a tempo?!
eu perguntou para a Sra. Lee, preocupada."Oh, é claro, " Sra. Lee disse. "Posso fazer isso em um segundo." Para Catie, ela disse. "O seu está perfeito. Você pode
tirá-lo agora." Ela olhou para Pet e Robbie e disse numa voz menos amigável "Vocês também."Os meninos gritaram e começaram a tirar seus cintos e ternos, quase
antes de chegarem ao corredor para o banheiro, onde era a sala de vestir dos meninos para o dia.Mas Catie pareceu tão pronta para tirar aquele vestido como ela
estava para comer um sanduíche de sujeira."Como o SEU vestido irá ser, Mrs Hollenbach?" ela perguntou à avó de Jason."Me chame de Kitty, querida," Kitty disse
com uma risada. Ela pediu a todos nós para chamá-la por seu primeiro nome, especialmente agora que ela vai ser nossa avó. Mas as crianças menores têm esquecido."Não
é tão bonito quanto os seus," Kitty nos assegurou. "Mas eu acredito que Emile vai gostar dele.""Ele vai," Catie garantiu a ela. "Ele está entusiasmado com o seu
tipo""Catie!" eu choraminguei, chocada.Mas Kitty e Mrs. Lee estavam rindo."Bem," Catie disse, me olhando com uma expressão defensiva em seu rosto. "É o que
Jason disse. Eu o OUVI.""Falando em Jason," Kitty disse, "onde está aquele menino? Nós temos que ter certeza que seu smoking serve, também.""Aqui estou eu,
vó." Jason apareceu na entrada, colocando cereal em sua boca de uma bacia de salada. Não uma bacia que você colocaria uma única porção de salada dentro. Mas a própria
bacia de salada de madeira, em que tinha derramado uma caixa inteira de Nut Cheerios e aproximadamente um galão de leite, seu lanche usual após a escola."Oh, Jason,"
Kitty disse com um suspiro quando ela viu isso. "O que sua mãe irá dizer quando seu jantar estiver estragado?""Eu estarei faminto de novo para o jantar," Jason
disse encolhendo os ombros.Kitty, que compartilhou dos olhos azuis brilhantes e do frame delgado de Jason, mas não de sua altura ou longo cabelo preto - o dela
era cortado em um corte em que o comprimento médio tem as pontas enroladas para dentro e franja na testa, tão branco quanto o cabelo de vovô, que é porque fazem
um par tão fofo, apesar do que mamãe deva pensar - agitou sua cabeça."Deve ser bom, certo, Stephanie?" ela disse com uma piscada para mim. "Estar apto a comer
como um cavalo e nunca ganhar uma onça (medida de peso. Uma onça = 28,35 gramas).Eu não disse o que eu queria dizer, que era, "É, mas pelo menos nós não parecemos
com um cavalo," referindo a Jason.Mas eu não achei que sua avó iria apreciar essa pequena ironia. Embora teria servido à Jason por ter sido tão maldoso comigo
na escola todo o dia.Sra. Lee fez Jason ir para o banheiro para trocar seu smoking. Quando ele saiu, seguido de Pete e Robbie, que estavam de volta em suas roupas
normais, ele ainda estava comendo de sua bacia de salada.Mesmo assim, vê-lo num smoking me deu algo como um choque elétrico. Porque ele parecia tão lindo nele.
Como James Bond, ou alguém. Se James Bond já comeu cereal de uma bacia de salada."Cara," Pete estava dizendo, olhando acima de Jason, quem ele adorou por estar
a mais de seis pés de altura e possuindo seu próprio carro, "as 5 novas séries tem uma capacidade de cinco litros, dez cilindros, 383 libras. - ft. maximum torque
- é a BOMBA.""Eu sei," Jason disse, mastigando."Que tal seus pais, Stephanie?" Kitty perguntou, um pouco demasiado casual, com a Sra. Lee espalhafatosa ao redor
com o cinto de Jason. "Alguma chance de que eles estarão aproveitando conosco o Sábado depois de tudo?""Eu não acredito que estarão," eu disse, não encontrando
com o olhar dela. Eu realmente gostava da avó de Jason, e o comportamento de meus pais - principalmente a parte de minha mãe, desde que meu pai estava apenas fazendo
o que ela disse para ele fazer - me envergonhava. O casamento do vovô era mais importante do que qualquer abertura de uma superloja na cidade. Eu não sei porque
minha mãe não podia ver aquilo."Oh, bem," Kitty disse com um suspiro. Seu sorriso, como seus olhos, estavam ainda brilhando. "Nunca se sabe. Ainda há um tempo.
Eu estou guardando lugares para eles na recepcao, apenas para o caso. Jason, querido, você vai cortar seu cabelo antes do casamento, ou vai deixá-lo caindo em seus
olhos como agora?""Eu acredito que devo usá-lo como agora," Jason disse, penteando com os dedos as mechas por cima de seus olhos, fazendo-o parecer com o cachorro
dos Snyders. Pete e Robbie deram uma risadinha prazerosa por isso."Oh, Jason," Kitty disse suspirando. Mas você poderia dizer que ela amou a arrelia de seu neto.Foi
quando eu percebi que Robbie achou o gato de Jason, Mr. Softy, e estava tentando erguê-lo, e que Catie estava tantando tirar o gato dele."Catie, deixe o Mr. Softy
sozinho quando você estiver em seu vestido feminino de flor," eu disse, e Mrs. Lee e Kitty imediatamente entraram em ação, Mrs. Lee agarrando as duas mãos de Catie
e afastando-a do gato preto, conhecido por sua abundante queda de pelo, por ser um Persa, e Kitty distraindo Robbie - e Pete - perguntando se eles gostariam de descer
para sanduíches caseiros de sorvete.Eles o fizeram, deixando Jason e eu sozinhos no corredor, olhando um para o outro no inábil silencio que se seguiu. Depois
que ele sacudiu a parte de trás de seu cabelo, isto é, assim ele poderia olhar de novo. Era especialmente estranho desde que Jason e eu NÃO TEMOS silêncios inábeis.
Ordinariamente, nós temos tanto para nos dizer, é como uma corrida para ver quem pode por tudo para fora antes que o outro interrompa.Agora, entretanto... silêncio.Eu
não pensei que era devido a ele estar gostoso em um smocking, também. Eu não poderia ajudar, mas achava que nosso não ter qualquer coisa a dizer era devido ao Livro.Eu
não sei porque Jason não podia simplesmente estar feliz por mim. Eu quero dizer, que eu finalmente tenho pessoas para pensar sobre mim em algum outro jeito do que
a menina que derramou Big Red Super Big Guld na saia D&G de Lauren Moffat. Não era como se eu fosse esquecer ele e Becca desde que eu fosse popular. Eu planejei
inteiramente levar os dois junto para todas as festas que eu estava limitada a começar a ser convidada.Então com o que ele estava triste?Jason foi quem quebrou
o silêncio."Você viu o que ela fez?" ele requeriu irritadamente."Quem?" eu perguntei, achando que ele se referia a sua avó e imaginando o que ela poderia ter
feito."A sua amiga Becca," ele disse. E levantou o pé para me mostrar as solas dos seus 'tênis de cano-alto', aqueles nos quais Becca tinha desenhado durante a
assembléia."Nos melhores, cara!" Jason resmungou indignado. "Ela desenhou nos melhores!""E daí?" Eu não podia acreditar que isso é o que fez ele tão irritado.
"A sua língua está quebrada? Você podia ter pedido que ele parasse.""Eu não queria ferir os sentimentos dela," Jason disse. "Você sabe como ela é. Toda sensível.""Você
não está," eu disse, com uma mão levantada, "colocando a culpa disso em cima de mim.""Por que não?" Jason reclamou. "Ela é sua amiga!""Ela é sua amiga também,"
eu lembrei a ele. "Ou não foi ela que você levou para almoçar no Pizza Hut hoje?""Oh, como se aquilo não tivesse sido um pesadelo vivo. Eu estou te dizendo, tem
alguma coisa estranha acontecendo com aquela garota," ele disse. "Alguma coisa ainda mais estranha do que-"Ele parou. Eu o encarei."Continue.""Não," ele disse.
"nada. Olhe, eu tenho que...""O que?" Eu exigi. De repente, eu senti calor no meu vestido de dama-de-honra, apesar do ar-condicionado. "Só diga. Alguma coisa ainda
mais estranha do que o que está acontecendo comigo. Era isso que você ía dizer. Certo?""Bem." Jason estava girando a sua gravata, tentando desamarra-lá sem ter
que colocar a tigela de salada no chão. "Você é que está dizendo. Não eu. Mas, agora que você mencionou, é. O que aconteceu com você? O que foi tudo aqilo hoje?
Eu achei que você odiava aquele tipo de coisa.""Aqui," eu disse, sem conseguir aguentar assisti-lo girar a gravata por nem mais um segundo. "Deixe que eu faço
isso." Eu fui até ele e desfiz o laço. "Eu não vejo o que há de errado em dar uma chance a essa coisa de espírito escolar. Quero dizer, nem todos nós somos felizes
por sermos rejeitados sociais.""Eu achei que você amasse ser uma rejeitada social," Jason disse, olhando genuinamente surpreso. Ele ergueu seus dedos como se agitasse
um pacote de açúcar. "'Feliz Natal, Mr. Potter!' Lembra? Nós nos divertimos sendo rejeitados sociais."Eu sei," eu disse o mais gentil que pude. Eu estava tentando
me por no lugar dele, porque eu não queria ferir seus sentimentos. "Eu só.. eu estou cansada de ser a Steph, sabe?""Mas esse é o seu NOME," Jason me lembrou."Eu
sei, mas eu estou cansada daquela garota. Eu quero ser alguém diferente. E não," eu adicionei rapidamente, "Crazytop, chefe da criminalidade, também. Eu quero ser
Steph Landry... mas uma Steph Landry diferente. Uma Steph Landry que é... bem" - eu não podia olhar para ele nos olhos - "popular.""Popular?" Jason repetiu, como
se fosse francês ou algo assim. "POPULAR? Mas antes que ele tivesse a chance de dizer algo mais, Mrs. Lee saiu do quarto de convidados, olhando dolorosamente."Stephanie,"
ela disse. "Você acha que poderia vir aqui e convencer sua irmã de tirar o vestido? Parece que ela quer manter-se com ele até o casamento.""Claro," eu disse. E
eu entreguei a Jason sua gravata. "Falo com você depois, Jase.""Sim," ele disse, pegando-na de mim. Sua expressão, eu vi, era uma mistura de confusão e... bem,
não há outra palavra para isso: dor. "Tanto faz."Exceto que sobre o que ele tinha que sentir dor? Ele não era o que Lauren Moffat e suas odiável gang não permitiram
fazer xixi por dois dias durante o acampamento Girl Scout. Ele não era o que as meninas atacavam uma vez durante dodgeball e golpeavam com aquelas bolas vermelhas
estúpidas. Ninguém em nossa cidade jamais disse, "Não dê uma de Jason," ou, "Você é tão Jason". Ele era? Não. Ele não era. Estava tudo certo e bom para Jason para
dizer aquilo - "POPULAR?" - mas ele não sabia, sabia? Ele não sabia como era. Ele era um esquisito por OPÇÃO. Ele não TINHA que ser esquisito, com aquele corpo e
aqueles pais e aquela casa. Ele podia ser tão popular quanto Mark Finley, se ele quisesse.Ele simplesmente não queria.Algo que eu nunca, jamais, em um milhão
de anos, entenderia.
Garotas Populares...Nunca:• Ostentam sua aparência, talentos ou posses.• Permitem que os meninos sejam "frescos" com elas.• Fofocam ou falam coisas maldosas
sobre os outros• Provocam ou zombam outras garotas.
Capítulo 13 AINDA DIA DSEGUNDA, 28 DE AGOSTO, 19h00minO leilão de talentos estava definitivamente funcionando. E, para começar o ano na escola com a turma em
vantajem financeira, ele estava de pé para quinta-feira. Eu sabia por que recebi um e-mail de Mark Finley me dizendo isso.Sim. Eu, Stephanie Landry, recebi um
e-mail de Mark Finley.Eu não faço idéia de como ele pegou meu endereço de e-mail. Mas eu acho que se você é Mark Finley, zagueiro de Bloomville High, presidente
sênior de classe, e o namorado de Lauren Moffat, você pode ter o endereço de e-mail de qualquer pessoa que quiser. Eu quase morri quando chequei minha conta de
e-mail no computador da família, e lá estava - o nome de Mark Finley - na minha caixa de entrada. Não era exatamente uma carta de amor, ou qualquer coisa. Era
apenas de fatos, como a nota de trabalho para eu saber que ele reservou o ginásio - onde sentam mais pessoas que no auditório - para a proposta de sustentar o leilão
de talentos, às 19h. Quinta-feira à noite. Mas ainda era um e-mail de Mark Finley. Meu primeiro e-mail de uma pessoa popular. De todos os tempos.Mas aparentemente
não destinado a ser meu último, também. Porque o de Mark não era o único email que eu recebi. Um considerável numero de pessoas queriam inscrever seus talentos para
o leilão de talentos. Eu tinha ofertas tão variadas, passando por serviço de babás, indo à removedor de tocos e terminando em ajustes para acordeões em casa.Eu
não fazia idéia que os estudantes de Bloomville High fossem tão talentosos.E então eu percebi alguns e-mails que pareciam... Bem, não bem, certos. Porque seus
assuntos diziam "Vc = merda" e "Eu odeio vc". E mais, todos eles vinham de alguém cujo nome de usuário era SteffDeviaMorrer.Legal. Eles não podiam nem soletrar
meu nome direito. Eu sabia o que isso era. Eu também tinha uma boa idéia de quem eles vinham. Mas isso não fez ficar mais fácil. Não me fez ficar melhor quando
eu cliquei neles. Porque eu tinha que clicar neles, claro, mesmo que para deletá-los.POR QUE VOCE NÃO DESISTE E GRUDA EM SEUS AMIGOS PERDERORES, ESQUISITONA, uma
não-tão-amigável mensagem perguntava, não necessariamente gramaticamente correta.PARE DE CHORAR, NARIZ VERMELHO, ela me avisou, no próximo.E, é, tudo bem. Isso
machucou. Fez meu tórax apertar, aqueles e-mails. Como se eu não pudesse respirar. Quem poderia me odiar tanto para me fazer sentir tão mau? Especialmente quando
eu não havia feito nada para ninguém - bem, exceto espionar meu vizinho e polvilhar açúcar no cabelo de Lauren Moffat.Mas ela não sabia que era eu. E foi ela quem
começou, com a coisa de "Não dê uma de Steph".Eu vi filmes em que meninas recebem e-mails maldosos de seus colegas. Nos filmes, as meninas sempre piram e começam
a chorar, depois imprimem as mensagens e correm para falar para suas mães, que se queixam para o diretor da sua escola, que então faz como sua missão de vida encontrar
quem estava por trás das mensagens.Nos filmes, o diretor sempre encontra e suspende o responsável, que, no final do filme, desculpa-se para a vítima. E então eles
todos ficam amigos depois de perceberem que tudo era apenas um grande engano... Normalmente depois de algum professor bonito roteirista baseia-se em suas intervenções
ensinam a todos eles a se importarem mais com os outros. Eu posso apenas dizer que na vida real, isso nunca acontece? As pessoas que mandam os e-mails maldosos
sempre se livram disso, e as vitimas apenas tem que superar e supor para o resto de suas vidas quem poderia odiá-los tanto - sempre suspeitando, mas nunca tendo
certeza. Sempre querendo saber se eles tiveram feito ou dito algo só um pouco diferente, a pessoa fosse odiá-los menos... Mas nunca sabendo, desde que eles não têm
idéia do que eles fizeram para fazer a pessoa odiá-los em primeiro lugar. Bem, exceto que eles sou eu. Então eles têm uma boa idéia do que eles fizeram. Eles
apenas não sabem por que algo que aconteceu há tanto tempo - e foi um total acidente, aliás - tem que assombrá-los para o resto de suas vidas. Eu não comecei a
chorar. E eu não corri para minha mãe, também. Ao contrário, eu apenas DELETEI. Porque sério. Quem liga? Eu já tive coisas piores ditas na minha cara. Eu não estava
exatamente indo pirar porque alguém que nem tinha coragem de usar seu real nome estava me magoando.Além disso, O Livro inteiramente alertou que qualquer hora que
você tentar fazer uma mudança social, haverão aqueles que se sentirão ameaçados e/ou inseguros, e vão tentar parar você, tanto por intimidação como por ostracismo.Essas
pessoas, O Livro disse, eram para ser ignoradas. Não a nenhum outro jeito de lidar com elas, com seu medo de mudança da ordem social completamente irracional. Então
o que mais eu poderia fazer? Exceto deletar. Deletar. Deletar.Foi então que eu recebi um e-mail da BeccaScrpbooker90: Hey, sou eu. Então, você estava estranha
hoje. Eu acho, legal. Mas estranho. Eu posso pergunta pra você uma coisa, uma idéia? Não tem nada pra faze, você sabe. Na sua coisa do leilão.Minha mãe se recusa
as nos deixar usar contas de mensagens instantâneas, já que ela as considera buracos negros cerebrais que sugam o seu cérebro e deixam você passar horas basicamente
não fazendo nada (ela se sente do mesmo modo em relação a MTV, que é o porquê dela tem uma senha de proteção). Então eu tive que retornar o e-mail da Becca e só
torcer para que ela estivesse on-line e me respondesse logo. StephLandry(Eu sei. Esse é o nome da minha conta de e-mail. Minha mãe fez isso.): Claro, pergunte-me
qualquer coisa.Ela estava on-line. Um minuto depois, eu recebi o seguinte email:Scrpbooker90: Oh, oi. Está bem, eu me sinto realmente estúpida por estar pedindo
isto a você. Mas você pode me fazer um grande favor e descobrir se o Jason gosta de mim?Eu olhei fixamente para a tela. Eu li a mensagem umas dez vezes, e ainda,
não tinha entendido. Ou melhor, eu entendi... Mas eu achei que não podia significar o que eu pensei que significava. StephLandry: Claro que ele gosta de você.
Nós somos todos amigos, certo?Enquanto eu esperava a Becca responder, eu escutei Robbie discutindo com o meu pai, que estava fazendo lasanha pro jantar. Robbie
detesta lasanha - e toda comida vermelha, na verdade - em princípio e queria frango no lugar. Scrpbooker90: Sim, isso é só isso. Quero dizer, descubra se ele gosta
de mim mais do que uma amiga. Eu acho que ele gosta. Hoje, na Pizza Hut - bom, você não estava lá. Mas eu senti um clima. Um CLIMA? Sobre o que ela estava FALANDO?
Que tipo de clima o JASON podia estar passando? Exceto seu usual clima eu-estou-com-fome-e-eu-vou-comer. A menos que ela estivesse confundindo o clima Becca-está-agindo-muito-estra

nha com Becca-é-gostosa.StephLandry: Hum, Bex, você tem que estar enganada. Jason gosta da Kirsten, lembra?Na cozinha, Robbie estava perdendo a batalha da lasanha.
Ele teve que recorrer à sua maneira:"Certo. Então eu terei que comer apenas manteiga de amendoim e geléia." Argumentou.Scrpbooker90: Ele não gosta REALMENTE
da Kirsten. Bem, quero dizer, eu sei que ele gosta. Mas ela está na FACULDADE. Ela não está interessada NELE, de qualquer jeito. Mesmo que agora ele tenha um carro.
Eu penso seriamente que ele gosta de mim. Gosta, COMO gosta de mim. Você viu como ele me deixou tirar seus sapatos durante a convocação de hoje?Ah, meu Deus. Que
confusão.Porque é claro que não tem como Jason "gostar gostar" da Becca. Mesmo se ele não tivesse vindo e reclamado dela pra mim há apenas duas horas atrás, o
fato é... Bem, o tempo todo em que eu conheço o Jason - mesmo quando estivemos afastados na maternidade - ele nunca gostou de alguém que ele tenha chance de conquistar.
Sempre foi Xena, a guerreira, ou a Lara Croft, ou a mãe do Stuckey, Ou a Fergie do Black Eyed Peas. Ele nunca gostou de uma garota de nenhuma das nossas classes...
conforme eu o conheço muito bem, apesar da nossa briga na quinta série.Não, Jason provavelmente não está caído pela Becca. Mas como dizer a ela isso, sem ferir
seus sentimentos?Eu tenteiStephLandry: Becca, você não se lembra o que ele disse na outra noite, sobre como você não quer " cuspir " aonde você come e como namorar
no colegial é estúpido?Becca respondeu quase imediatamenteScrpbooker90: Ele disse encontrar sua alma gêmea no colegial é estúpido. Ele disse que ele era preferia
encontros - ir ao cinema e sair. E é tudo que eu quero. Por enquanto. Até ele, você sabe, perceber que eu sou "AQUELA""Aquela"? Ai meu Deus, isso está pior do
que eu pensei. StephLandry: Becca, não me entenda mal, ou alguma coisa, eu amo o Jason e tudo- como amigo, é claro - mas ele é longe de ser "AQUELE" pra você.
Eu realmente acho que não, quero dizer, Jason não consegue agüentar ficar recortando. Ele não tem um fio de criatividade em seu corpo, você não acha que " AQUELE
" deve, no mínimo - eu não sei - gostar de arte ao invés de golfe? Mas a Becca tinha resposta para isso, também. Scrpbooker90: Ele apenas odeia artes, porque
ele não foi exposto a isso o bastante StephLandry: Sua avó o levou para o Louvre no verão passado! E ele disse que iria detonar se instalassem um buraco-nove de
golfe lá. Scrpbooker90: Então o que você está tentando dizer, Steph? Que você pensa que o Jason não gosta de mim dessa maneira?Sim!! Eu queria escrever, "É EXATAMENTE
O QUE EU PENSO", mas isso seria muita maldade, apesar de verdade. Ao Invés, eu escrevi: Stephlandry: Eu só acho que você deveria se manter aberta para os outros
garotos e 'não colocar todos os seus ovos em uma única cesta'. Eu sabia que a Becca iria apreciar essa analogia, tendo crescido em uma fazenda e tal.Stephlandry:
Eu vou definitivamente perguntar ao Jason por você - você sabe, sutilmente. Mas eu acho que você deve se preparar emocionalmente para o caso do Jason estar guardando
seu coração para a Kirsten. Ou para outra garota que ele conheça no colégioBecca, pensei, perdeu a parte do aviso no meu e-mail e absorveu apenas a parte em que
eu disse que iria perguntar ao Jason se ele gosta dela. Scrpbooker90: Obrigada, Steph! Você é uma boa amiga, só por isso, eu decidi aceitar seu conselho e me permitir
ser leiloada. Eu acredito que você esteja certa e há um monte de pessoas que gostariam de aprender sobre recortes. Então eu leiloarei 3 horas ensinando recortes.
O que você acha disso?Eu acho que ninguém irá dar um lance em Becca, com exceção talvez de sua mãe, mas eu tentei ser entusiasmada igual a ela e agradecê-la. Foi
aí que eu desliguei, já que minha mãe ia vir para casa da loja, brava como costume, pelo baixo movimento que está ocorrendo." Quanto nós ganhamos nesse dia no
ano passado, Stephanie? " ela me perguntou enquanto apertava a sua bolsa e chaves do carro na presilha de dentro da porta do carro." Ai, Mãe" eu disse com um grunhido,
agindo como se eu pensasse que ela estava me 'arrastando'. Mas na verdade, é claro, eu sabia que se eu dissesse a ela, ela ficaria ainda mais chateada. Eu estava
certa. Ela me fez olhar pelo meu arquivo especial no Excel e nós ganhamos seis dólares menos que o ano passado. ""Mas seis dólares não é muito", eu tentei apontar
para ela." Talvez não tenha nada a haver com o Super Sav-Mart, pois poderia ser, você sabe, porque nós não vendemos uma boneca hoje, ou sei lá. ""Deus", minha
mãe disse, me ignorando, "Eu preciso de uma bebida"." Talvez você deva pensar sobre instalar aquele café como eu tenho falado ", Eu aconselhei. "Agora que o Hoosier
Sweet Shoppe fechou" " Fechou!" Minha mãe interrompeu, puxando seu não-tão-secreto armazenamento de 'Tootsie Rolls' do topo da estante de livros ( ela não se importa
se eu sei sobre eles, desde que eu nunca me empanturrei deles, tendo muito medo de mudar de tamanho, diferente dos meus irmãos e irmãs ) e se ajudando com a mão
cheia. "Eles ficaram de fora dos negócios por causa do Super Sav-Mart!" Bem, não exatamente. 'A Hoosier Sweet Shoppe' fechou ano passado, depois do acidente com
o cano de água que estorou no teto, destruindo todo o estoque, mas você não quer argumentar com uma mulher tão hormonal quanto a minha mãe." Não seria difícil
quebrar a parede da loja Hoosier Sweet Shoppe", eu disse, "já que é logo na próxima porta " " E aonde eu deveria arrumar dinheiro para isso, Stephanie?" Minha
mãe quis saber. Depois, antes que eu pudesse dizer alguma coisa, ela disse "e NÃO DIGA do seu avô. Eu não me ajoelharei para esse homem, tentando pegar seu dinheiro.
Diferente do resto das pessoas nessa cidade, eu tenho alguma dignidade".Fale sobre sensibilidadeEu queria dizer a ela para não se preocupar - que tudo ficaria
bem. Porque eu tinha um plano que iria trazer toneladas de negócios para a loja. Mas eu não quis azarar, então fiquei com a minha boca fechada e fui fazer o Robbie
um sanduíche de manteiga de amendoim e geléia, então ele calou a boca sobre não estar comendo a lasanha do papai.
Então você acha que conheceu o garoto dos seus sonhos - mas ele não parece saber que você está viva? Sem problemas!!Um jeito infalível de conseguir atenção do
sexo oposto é com o SORRISOOperação Sorriso:O poder do sorriso é incrível e não pode ser ignorado. Um único deslumbrante sorriso na direção do seu paquera pode
fazer mais que qualquer outra coisa para chamar a sua atenção.Então escove suas pérolas brancas e comece a praticar.. aí na próxima vez que você passar por ele
no corredor, mostre sua covinhas!Você pode apostar que ele estará pedindo pelo seu número antes do fim da semana.
Capítulo 14 DIA DOIS DE POPULARIDADE. TERÇA, 29 DE AGOSTO, 13h00min Mark Finley falou comingo no almoço de novo hoje. Eu estava sentada, tentando atrair a
Darlene com alguns assuntos que ela parece saber tudo sobre - Maquiagem e filmes da Brittany Murphy ( eu tinha dito tudo que eu poderia dizer sobre o 8 mile, com
a ajuda de um dos pretendentes sortidos da Darlene, que voluntariamente disse que sua parte favorita foi na fábrica, quando Brittany lambeu sua mão )- quando um
dos caras disse, " Ah, Oi Mark" e eu olhei para o alto e vi Mark Finley apoiado sobre a minha cadeira."Oi", Mark disse e puxou a cadeira da mesa ao lado enquanto
ainda estava perto de mim e sentou de frente pro enconsto."Escute, ótimo folheto", Mark disse para mim Sim, Mark Finley veio na nossa mesa com o propósito de
falar comigo. COMIGO. Eu não posso não ter Jason e Becca sentados comigo no almoço - Jason, ainda excitado com o fato que, agora que ele tem um carro, ele pode sair
do campus para almoçar todo dia e insiste em fazê-lo, assim como a Becca, que devido a sua convicção que o Jason é AQUELE, o fica seguindo. Mesmo sabendo que Jason
convidou o amigo Stuckey para se juntar a eles e a Becca não o suporta, dando o seu costume de ficar incansavelmente relatando os momentos importantes dos jogos
de basquete colegial de Indiana.Claramente, eles não querem comer comigo. O que é só porque, a vinda para a escola essa manhã foi tortuosa. Se não fosse ruim o
suficiente, Jason se sentiu compelido a comentar sobre todos os artigos que eu estava usando e eu estava toda - "O que há de errado com essa saia? Porque é tão apertada?
Como você supõe que teremos que correr se o Gordon Wu explodir sua química no laboratório de novo e pegar fogo e todos nós teremos que evacuar?" - Há o fato de Becca
aparentemente não fala mais na companhia do Jason, contando que ela está muito tímida, desde que ele é AQUELE, então eu tenho que fazer toda a conversação.Eu posso
começar a pegar o ônibusMas Mark Finley não parece se importar em comer comigo. Não mesmo. "Ah", eu disse ficando imediamente vermelha. Porque, você sabe, mesmo
sabendo que ele me mandou um e-mail ontem à noite e tudo, falar com o Mark Finley em pessoa... Bem é totalmente diferente, porque seus olhos, estão mais verdes que
o normal, por alguma razão. "Bem, não foi nada", eu disseDefinitivamente, é claro que não, não tinha sido nada. O folheto - anunciando o leilão de Quinta à noite
- levou metade da noite para ser feito. Eu tinha que deixar minha lição de casa, mas valeu a pena, já que no final, acabou com um visual-semi profissional, o que
foi bom, já que eu tive que comprar um anúncio no jornal local, para fazer propaganda do evento e precisava de algo especial, que fosse chamativo.Eu poderia, eu
suponho, ter pedido a ajuda da minha mãe nisso, já que anúncios e arrumação de vitrines é a melhor coisa que ela faz - a única coisa, na verdade, a única coisa em
que ela é boa, considerando como ela está gerenciando a loja. Ela é ótima em imaginar o que vai vender como bolinhos na nossa cidade - biografam e bonecas Madame
Alexander - e o que não vai - tell-alls e Sanrio] - tão bem quanto em fazer vendas.Mas ela é péssima em cuidar dos livros e pagar salários... O que faz com que
seja bom ela me ter por perto, agora que ela deu o pontapé no vovô. Ainda assim, eu não estava super entusiasmada em deixar a minha mãe saber o que eu estava aprontando
ainda... Não que ela já não esteja suspeitando, especialmente hoje de manhã quando eu desci usando uma das minhas sais lápis [são aquelas justinhas] e ela ficou
toda, "E você está indo... aonde? Para a escola? Vestida assim?"Eu pude perceber que eu tinha vivido de jeans e camisetas por muito tempo."O anúncio deve ser
publicado amanhã," eu disse para Mark. "Eu enviei por faz logo cedo hoje de manhã. Esperamos ter muitas pessoas dando lances.""Oh, nós teremos," Mark disse com
aquele meio sorriso que fez o meu coração perder o compasso. Então eu olhei por cima do ombro dele e vi que Lauren estava fingindo estar profundamente envolvida
em uma animada discussão sobre a sua novela favorita, Paixões, com Alyssa Krueger.Mas o olhar dela continuava vindo nervosa mente na minha direção. E na de Mark."Vai
ser incrível," Mark disse. "As pessoas estão animadas. A cidade inteira está falando sobre isso.""Ótimo," eu disse. E mostrei a ele o meu mais deslumbrante sorriso.Infelizmente
, ele não pareceu ter notado - talvez porque no mesmo momento, Toddy disse, "Hei Mark, você vai ao 'racha na pedreira' na sexta, ou não?" "é claro que eu vou ",
Mark disse com seu sorriso forçado que é marca registrada " Nunca perdi um racha Todd Rubin´s volta às aulas antes, não é? ""Sexta?" Darlene olhou por cima da
detalha inspeção nas cutículas. "Era para chover na sexta"Nós olhos para Darlene, porque é tão diferente dela estar familiarizada com as notícias.O tempo, entretanto,
parece ser diferente das notícias, desde que a Darlene explicou, notando nossas caras de espanto, " Eu sempre checo o tempo de cinco dias, porque eu planejo minha
programação de bronzeamento no lago, no fim de semana".E é claro que explicou tudo"Não pode ter racha na chuva, cara", Jeremy Stuhl disse franzindo as sobrancelhasO
Todd pareceu preocupado "Eu irei descobrir um jeito", ele disse, não muito confidencialmenteQue foi quando Lauren apareceu de repente ao lado do Mark."Oh, Mark"
ela disse. "Você está com as chaves do seu carro com você? Eu acho que eu dexei meu Cd da Carrie Underwood dentro e a Alyssa quer emprestado" Aí, fingindo me notar
pela primeira vez, ela disse, " Ah, Oi Steph""Oi Lauren" eu disse e esperei os insultos começarem. O que seria dessa vez? "Lindo colar, não é de ouro de verdade,
certo? Deus, você é tão Steph",ou,"Eu a vi comendo a salada do chef, tá com medo que seus botões voem pela cantina? Dêem distância para puxar a Steph" Ela não
disse nada disso, ao invés ela disse, colocando suas duas mãos no bíceps do Mark, "Meu pai está realmente ansioso para o leilão. Adivinha quem ele irá comprar?"Mark
olhou prazerosamente desnorteado "Quem?""Você, bobo" Lauren disse, colocando sua cabeça para trás e rindo infectuosamente, ou pelo menos eu suponho que ela pensava
que era.Mark franzio as sombrancelhas e disse: "Mas eu posso trabalhar para o seu pai de graça, bebe""Não diga isso a ele" Lauren disse "Deus, ele teria você
no lote todo dia, você tem idéia de quando trabalho você traria, querido? Quero dizer, o zagueiro? especialmente se vocês ganharem o Estadual esse ano"As chances
do "Peixe lutador" ganhar o estadual são extremamente baixas e todos sabíamos - até, eu suspeito, o Mark. Mas todos fomos obrigados a dizer " Claro, totalmente"
como se realmente acreditássemos que iria acontecer."Ai meu deus, bebe" Mark disse "Será muito legal se o seu pai me comprar"Lauren sorriuEu não consegui deixar
de sentir um pouco de pena dela, porque não tem jeito na terra verde de Deus que o pai da Lauren compre o Mark Finley na quinta à noite. Não se eu e a carteira da
Emile Kazoulis não tivermos nada a dizer sobre isso.
Os olhos têm: Você pode não saber, mas seus olhos são as mais poderosas ferramentas para se cultivar a popularidadePessoas que fazem contato visual são consideradas
lideres naturaisEntão, na próximas vez que alguém olhar em seu olho, não seja tímido - olhe de voltaE cuide da maquiagem dos olhos para que sejam a sua características
mais notável (mas não maquie demais!) e cative as pessoas ao redor com suas hiponitizadoras "meninas dos olhos"
Capítulo 15 Ainda Dia Dois de PopularidadeTerça, 29 de agosto, 16:00.Eu acho que morri e fui para o céu.Isso não pareceu assim no inicio, é claro. Quando eu
fui para o estacionamento dos estudantes depois da escola e procurei por Jason, eu vi que o carro dele não estava lá. Depois eu notei Becca parada perto das bicicletas,
parecendo mais infeliz do que quando ela descobriu que Craig em Degrassi era bipolar."Onde está o Hawkface?" Eu perguntei pra ela.E as torneiras foram abertas."Ele
disse que tinha que enviar algumas importantes para a avó dele, para o casamento." Ela desmoronou, as lagrimas tremendo em suas pestanas. "E que ele sentia muito,
mas ele não tinha tempo para nos levar para casa primeiro e que nos só teríamos que pegar o ônibus! O ONIBUS! Como ele pode fazer isso conosco, Steph? Quero dizer,
o ONIBUS!"Eu achava que ela estava sendo um pouco dramática demais, mas eu entendia o que ela queria dizer. Uma vez que nos estávamos indo e vindo para a escola
de BMW, voltar de ônibus iria ser difícil.Mesmo se você esta começando a ficar um pouco cansada de Bee Gees."Não se preocupe com isso" Eu disse, batendo confortavelmente
nas costas delas. "As coisas estão loucas agora com o casamento, e tudo, e -""Eu acho que ele estava mentindo", Becca interrompeu, secando suas lagrimas com as
costas de uma mão. "Quero dizer, ele levou o Stuckey com ele. STUCKEY! Você sabe o que o Stuckey falou durante todo o lanche hoje? Vitória da Indiana no NCAA Final
Four de 1987. Ele nem estava VIVO em 1987. Mas ele sabia cada detalhe idiota. E não parou de falar sobre isso. E Jason o levou para enviar erratas em vez da gente.
Eu acho que ele só não quer andar com a gente, porque eu fico tão quieta perto dele, devido ao meu grande amor por ele, e você está tão - " Ela parou e mordeu os
seus lábios."Eu estou tão o que?" Eu perguntei. Mesmo já sabendo o que ela iria dizer."Você está agindo tão estranho!" Becca gritou. Quase como se fosse um alivio
finalmente dizer. "quero dizer, comendo com Darlene Staggs? Ela é uma vaca!""Hey, agora." Eu disse gentilmente. "A Darlene não é uma vaca. Só porque ela tem peitos
grandes - ""Eles são peitos-comprado!" Becca me lembrou."Eles podem ser," Eu disse. "Mas isso não é razão para julgar as pessoas. Darlene é muito legal. Você
saberia disso, se você tivesse sentado comigo."As pessoas não querem falar comigo," Becca disse, olhando para seus tênis. "Quero dizer, para eles eu ainda sou
aquela garota tonta da fazenda que costumava dormir durante toda a aula.""Bom, talvez dependa de você mostrar para eles que você não é mais aquela garota" eu sugeri.
"Agora, vem, vamos para nos podermos pegar o ônibus antes que ele - ".Então eu soltei uma "exclamação" sobre a qual eu teria que falar ao Padre Chuck na confissão
da próxima semana."Que?" Becca perguntou. "O que foi?"Eu estava olhando para o meu relógio. "Nós perdemos o ônibus" Eu disse firmemente.Becca repetiu a minha
"exclamação". "Agora o que nos vamos fazer?" Ela lamentou."Sem problema," eu disse. Estava quente no estacionamento. Eu estava começando a suar. Logo, eu sabia,
meu cabelo iria começar a frizar. "Eu só vou ligar pro meu pai. Ele virá nos pegar.""Ah, Deus," Becca gemeu. Pelo que eu entedia e era insultada. Não tem anda
pior do que ser pega no colégio por seu pai em uma minivan.Foi aí que um milagre ocorreu."Oh, ei, Steph," uma familiar - mas ainda uma emocionante voz - falou
das portas do colégio.Eu sabia quem era antes mesmo de eu me virar, por causa daqueles pontinhos de prazer que tinham surgido em meus braços."Oi, Mark" Eu disse
o mais normalmente que eu podia, conforme eu ia virando...E então eu vi, com uma ponta de desapontamento, que Lauren e Alyssa estavam com ele.Oh bem. O que eu
esperava? Ele é o garoto mais popular da escola. Eu realmente pensava que ele ia a algum lugar sozinho?Esta tudo bem ainda, até quando as coisas começaram a aparentar..."Qual
é o problema?" Mark perguntou, notando os dentes da Becca (era difícil de não se notar, mesmo com ela tentando esfregá-los). "Perderam a carona?""Mais ou menos
isso," eu disse com um sorriso que só o Mark retornou. Laren e Alyssa só olharam fixamente para mim cruelmente.Mas estava tudo bem. Graças ao Livro, eu sabia que
o mais apropriado modo de ação nessas circunstâncias era sorrir radiantemente para eles."Ah, que droga," Mark disse. Eu não conseguia ver seus olhos cor de mel,
porque eles estavam escondidas atrás da lentes do seu Ray-Ban. "Eu iria lhe oferecer uam carona, mas eu tenho que ficar aqui depois do colégio. Eu só estava acompanhando
a Lauren até o carro.""Ah, não se preocupe com a gente," eu disse alegremente. "Eu irei conseguir uma carona de alguma maneira.""Ah, sim, eu sei," Mark disse.E
eu sabia - eu sabia, talvez porque Mark fosse o AQUELE - o que ele ia dizer."Porque você não dá a elas uma carona, amor?" Mark pediu a Lauren.Mark deve ser AQUELE
dela também, já que ela parecia saber o que ele iria dizer e já tinha a resposta pronta. Ou pelo menos, pareceu isso, considerando quão rápido ela falou, "Oh, eu
gostaria de poder. Mas elas vivem na cidade, a você sabe que, é tão longe do meu caminho."E isso é realmente verdade. Lauren e a sua família vivem em uma das novas
mansões fora do Y, á três milhas de direção das casas antigas, que fica á alguns blocos da prefeitura, aonde eu e Becca moramos."Sim, mais você não vão parar no
centro de Benetton para pegar algo para vestir na 'racha na pedreira' de sexta-feira? Mark perguntou. "Eu pensei ter ouvido você dizerem algo assim".Lauren foi
apanhada, e ela sabia disso. Mark deixou claro como ele estava agradecido por minha brilhante idéia do leilão de talentos. Ela não ousou recusar na frente dele.
Não tinha nada que ela pudesse fazer a não ser sorrir firmimente e dizer, "Ah, é mesmo. Tinha me esquecido. Você querem uma carona?"Ao meu lado eu ouvi Becca engolir.
Mas eu disse, ainda soando alegremente (ou foi assim que eu esperava), "Ah, claro, Lauren. Isso seria ótimo.""Ótimo" Mark disse.E então, como super namorado
que ele é, ele nos acompanhou até o conversível vermelho da Lauren, que brilha no sol."Até mais tarde, querida" Mark disse, dando a Lauren um beijo de despedida,
depois de segurar o banco da frente para eu e a Becca passarmos para trás (Becca estava tão perplexa com o que estava acontecendo que ela nem se lembrou de usar
a sua voz para argumentar sobre como ela tinha que se sentar na frente devido a tendência que ela tinha a enjoar no carro), então ajudou a Lauren atrás da roda,
tão carinhosamente como se ela tivesse sido feita na China."Tenha um bom treino" Lauren disse, e bateu suas unhas francesinhas nele.E então ela dirigiu pra fora
do terreno.E desse jeito, Becca e eu? Nós estávamos sentadas no banco traseiro da MBW de Lauren Moffat.Uma parte de mim esperava que assim que nós virássemos
a esquina, aonde Mark não poderia mais ver a gente, Lauren ia empurrar a gente pra fora no meio da rua, com um escândalo publico, e obrigar a gente a SAIR com a
voz de um potergeist de Horror em Amityville.Mas ela não fez. Em vez disso, ela começou uma conversinha.LAUREN MOFFAT ESTAVA BATENDO UM PAPO COMIGO."Então,"
ela disse, "você meninas não vão geralmente com aquele cara? Aquele cara o Jason? O que aconteceu com ele?".Eu amo como Lauren estava se referindo a Jason "aquele
cara o Jason". Como se ela não tivesse sentado perto dele durante toda 2ª serie e atuado como Branca de Neve para o Príncipe Encantado dele durante peça da escola
(Eu fui escalada como Bruxa má, e sim, eu chorei quando peguei esse papel e não o de Branca de Neve, até vovô me dizer que sem a Bruxa Má, não teria história, e
essa era realmente a parte importante de tudo)"Ele teve que ir fazer um serviço na rua" Eu disse."Para a sua avó" Becca acrescentou. "A avó dele vai estar casando
com o avô de Steph esse fim de semana"Uou. Falando sobre o casamento. Eu enviei a Becca um olhar que legal isso. Mas ela estava muito longe. Ela estava falando
como Bloomville Creek."Steph é a dama de honra." Ela continuou. "E Jason é o padrinho""Isso não é incesto?" Lauren perguntou, olhando de relance para Alyssa
com um olhar divertido. Alyssa que estava tomando o que deveria ser sua sexta coca light do dia, reprimiu uma risada o quanto ela podia."Porque seria incesto?"
Becca perguntou."Bem, como, não estão Steph e aquele cara o Jason saindo?" Lauren quis saber."O que?!" Becca olhou como se tivesse levado um tapa na cara. "Não,
ele não estão saindo""Sério?" Lauren olhou pra mim pelo seu espelho retrovisor. "Eu sempre pensei que vocês dois estavam saindo. Quero dizer, você dois vem praticamente
andando juntos desdes, o que? Jardim de infância?"Eu olhei rapidamente para o reflexo dela no espelho. "Jason e eu somos amigos" Eu disso."Só amigos" Becca disse
"Eles são só amigos, Jason é solteiro""Oh" Lauren sei, mandando outro sorrisinho na direção de Alyssa. "Isso é um alívio""Sério?" Alyssa disse, colocando de
lado sua latinha de refrigerante vazia. "Quero dizer, isso me diz que ele ainda está disponível"Então as duas começaram com um riso semi-histerico.Eu olhei para
a parte de trás das cabeças delas. Jason deve ser tipo um esquisito. Mas ele é MEU esquisito. Como elas podiam rir dele?Eu não estava feliz com Becca também, como
ela não podia aprender a ser legal uma única vez?Lauren fingiu que não se lembrava onde eu morava, mesmo depois d'eu ter dito que ela já foi lá. Ela agiu como
se ela não tivesse nenhuma lembrança do mingau de aveia OU o acidente da Barbie marinheira naval.Não tem nada n'O Livro em dizendo pra ter amnésia seletiva em
afim de se tornar popular, mas é obviamente uma parte crucial do processo. Você tem que esquecer todas as coisas ruins que pessoas fizeram a você a fim de tornar
seu futuro mais agradável. Talvez quando tudo isso terminar, e eu for popular, eu irei escrever meu próprio livro.Ah, espera. Eu já SOU popular. Lauren Moffat
tinha me dado uma carona da escola.E ela não foi má comigo.Jason ia pirar e nunca mas iria recusar a dar caronas pra mim quando soubesse que isso foi a melhor
coisa que aconteceu comigo.
Planetas giram em torno do sol - pessoas giram em torno de pessoas iluminadas.Quem não ama estar perto de pessoas realmente alegres, pessoa alegre? Ninguém!É
por isso que é importante, se você quer ser popular, agir com entusiasmo e sinceridade em todas as situações!Não deixe tempestades transparecerem em sua vida!
Mantenha o céu limpo e o seu rosto feliz, e ai todos estarão girando em volta de seu brilho!
Capítulo 16 AINDA DIA DOIS DE POPULARIDADETERÇA, 29 DE AGOSTO, 23h00min.Nem todo mundo acha que Jason ignorar a gente é uma boa coisa.Scrpbooker90: Você conversou
com ele? Ele disse alguma coisa? Sobre mim, quero dizer.StephLandry: Como eu posso ter conversado com ele? Você sabe que eu não vejo ele desde a escola, que nem
você.Exceto que isso era mentira, eu tinha acabado de ver ele se despindo mais cedo à uma meia hora.Mas desde que isso não era algo que eu ia mencionar para
Padre Chuck, pra quem eu diria tudo (quase tudo), eu certamente não ia mencionar para Becca.Scrpbooker90: Bem, o que você acha que vai acontecer amanhã? Sabe,
a gente vai ter que pegar o ônibus?StephLandry: Eu acho que nós teremos que nos preparar psicologicamente para a possibilidade.Scrpbooker90: Eu NÃO quero fazer
isso. Eu NÃO vou fazer isso. Eu to perguntando pro meu pai se ele pode levar a gente. DEUS, porque Jason está fazendo isso com a gente? Você acha que talvez foi
porque ele percebeu os seus sentimentos por mim, e então não pode mais ficar por perto, achando que ele nunca poderá me ter, não sabendo que eu sinto o mesmo por
ele?Eu podia dizer que Becca estava lendo alguns dos romances de Kitty, que eu peguei emprestado dela. Eu espero que ela não tenha chegado à parte do Turco ainda.
Porque eu sabia que ela ia perguntar aos seus pais o que aquilo significava, e de alguma maneira, e então eu estaria em problemas.StephLandry: Hum, talvez.Scrpbooker90:
Bem, você vai PERGUNTAR a ele? - Ou você acha que ele vai vir me DIZER? Talvez eu devesse perguntar ao Stuckey para ele perguntar pra mim. Você acha que eu devo
perguntar Stuckey?StephLandry: Totalmente, você deveria totalmente perguntat ao Stuckey. Qualquer coisa pra tirar isso das minhas costas.Scrpbooker90: Eu vou
fazer isso. Eu vou perguntar ao Stuckey. Ele está nas minhas aulas de química. Eu vou perguntar pra ele amanhã. Ah, obrigado Steph. Você é a melhor!Mas Becca era
atualmente uma das poucas pessoas que pensavam isso de mim - que eu era a melhor, eu quero dizer, porque eu ainda estou recebendo e-mails de SteffTemQueMorrer.Legal.
Realmente Legal.Eu juro, se eu não tivesse a janela de Jason pra olhar toda a noite. Eu acho que eu teria ficado completamente louca no exato momento.E eu sei
que é errado ficar espiando ele desse jeito. EU SEIMas a vista dele - especialmente em sua cueca calção - me deixa com uma sensação interna calma desigual que eu
nunca sentia antes.Na verdade, é tipo a sensação que eu tive aquela noite que eu tive que usar as cuecas de Batman dele.Eu me perguntei o que aquilo significava,
se significasse algo?
Capítulo 17 DIA TRÊS DE POPULARIEDADEQUARTA, 30 DE AGOSTO, 9h30min.Na verdade Jason parou em frente a minha casa enquanto eu estava lá essa manhã, esperando
Mr. Taylor vir com Becca me pegar e levar-nos para escola.A janela do banco do carona se abaixou, e eu pude ouvir a os vocais de Roberta Flack."Belas calças"
Jason disse, aparentemente se referindo a minhas calças jeans de lavagem escura, na qual, eu não devia dizer isso de mim mesma, eu fico muito bonita."Obrigado"
eu disse."Bem" ele disse com um misto de impaciência um minuto depois. "você não vai entrar, ou o que? Onde está Bex?""O pai dela vai levar a gente pra escola
essa manhã" Eu disse "nós imaginamos depois de ontem, que você não estava mais interessado no cargo.""Que cargo?""De nosso chofer"Jason tirou alguns fios de
cabelo da sua face. Kitty estava certa. Ele PRECISA cortar o cabelo antes do casamento"Eu disse pra Becca" Ele disse com o que pareceu uma compostura forçada,
"que eu tinha algumas coisas pra fazer na rua. Isso não significa que eu nunca mais quero dar uma carona pra vocês, pra sempre. Eu só não podia fazer isso ontem
naquela tarde"."Aham" Eu disse, desconhecida, não convencida da resposta, e soou assim."Eu tive que pegar os cartões de lugar na gráfica de caligrafias e leva-los
para Vovó." Jason começou "Para as mesas na recepção"."Com certeza você o fez" Eu disse."E depois eu tive que ir pegar algumas coisas na impressora da outra
gráfica. E eu quero dizer, não é como se vocês não pudessem pegar o ônibus. Ele deixa você em frente de casa, praticamente.""É claro que ele nos deixa." Eu disse
"Quero dizer, se você tivesse dito a gente com antecipação, então nós teríamos esperado em frente à escola para pega-lo".Jason olhou para mim "Você perdeu o ônibus?"."Sim."
Eu disse "Mas tudo bem, nós conseguimos uma carona no carro de Lauren Moffat.".Jason empalideceu "Não no 645Ci""Esse mesmo"Jason deu um tapa com seu punho
em seu volante."O que está acontecendo?" ele praticamente gritou. Isso não foi muito legal, porque nós não vivemos numa rua barulhenta. Quero dizer, tem um monte
de idosos ricos na minha rua - mesmo que minha família não seja o que você pode deixar de idosos solitários. Eu pude ver um pedaço da cortina de babados da casa
da Sra. Hoadley se afastar um pouco e seus olhos tentando ver o que estava acontecendo em frente a casa dela (isso não estava sendo fácil pra ela, viver próximo
na mesma rua de uma família de sete pessoas... quase se tornando oito. De fato, no Hallowen, minha mãe manda a gente jogar fora qualquer coisa que ela dá pra gente,
achando que está provavelmente envenenado. Mas mesmo assim, pra uma pessoa rica, Sra. Hoadley é uma total pão-dura e só nos dá UMA bala, nós nunca reclamamos)"O
que aconteceu com você?" Jaoson gritou. "Por que você está agindo estranha?""Eu poderia te perguntar exatamente a mesma coisa" eu disse, calmamente."Eu não estou
agindo estranho" Jason gritou. "Você está. E Becca - ela não deveria ficar me seguindo por ai! É como ter um filhote maluco me seguindo por ai a porra do tempo todo!
E você - desde quando você pega carona com LAUREN MOFFAT?!"Nesse momento eu vi o cadillac dos Taylors estacionando bem ao lado d'O B. Por sorte todas as janelas
estavam fechadas, então dificilmente Becca tinha ouvido o que Jason tinha acabado de dizer sobre ela. Através da janela, eu vi o Sr. Taylor, olhando confuso e sonolento,
para o carro de Jason, parado no meio da rua, então apertou gentilmente a buzina."Essa é minha carona" eu disse para Jason "eu tenho que ir"Então eu me levei
a sentar no refrigerado banco traseiro do carro dos Taylors. Alguém lá dentro estava falando sobre não matar docemente uma canção, o que foi um alivio. Mr. Taylor
só ouve rádio de noticias."O que Jason estava fazendo aqui?" Becca perguntou toda entusiasmada. "Ele veio pra buscar a gente? A gente deveria ir com ele? Oh, gee,
desculpa, pai, mas -"."Espera" eu disse, assim que Becca colocou suas mãos na maçaneta do carro. "Não vá, só -""Mas se ele quer levar a gente, nós deveríamos
ir com ele -".Felizmente naquela hora Jason apertou o acelerador (no mesmo tempo da batida da sua musica favorita) e caiu fora."Ah" Becca disse, ainda com a
sua mão na maçaneta. "Ele se foi""Acredite em mim" Eu disse "Foi melhor desse jeito""Eu não entendo o que está acontecendo com vocês, meninas" Sr. Taylor disse
com sua voz calma e sonolenta "Mas eu posso levá-las pra escola pra que eu possa voltar pra casa e dormir?""Sim Sr." Eu disse "desculpe-me sobre isso, Jason só
está em uma fase ruim""Ele disse alguma coisa sobre mim?" Becca perguntou esperançosa."Hum" Eu disse. "Na verdade não."Becca escorregou para seu assento "Droga"Mas
eu sabia que a verdade teria desapontado ela ainda mais.
Reputação Reconstruida.Se você uma vez cometeu um erro social grave (ou um simples rumor de algo que você não fez), sem pânico. Sua reputação pode ser reparada.
Até mesmo a mais suja jóia pode ser polida e voltar a brilhar.A fim de fazer os outros esquecerem do seu passado sujo, é importante que você fique muito mais disposto
a ajudar e entusiasmado do que o normal. Saia do seu jeito para os outros algumas vezes. O que for que você tenha feito (ou o que o rumor tenha feito) isso ofende
o seu circulo social, é importante pedir desculpas.Acreditando ou não, pessoas IRÃO te perdoar e esquecer isso.Mas seja mais cuidadosa no futuro.
Capítulo 18 AINDA DIA TRÊS DE POPULARIDADEQUARTA-FEIRA, AGOSTO 30, 1 DA TARDE,Eu só consegui almoçar a tarde, já que eu estive correndo, recrutando a ajuda de
professores para o leilão de amanhã à noite - Sr. Schneck, o diretor de drama, concordou, de qualquer maneira, como leiloeiro que deveria emprestar a nota certa
de diversão do campy aos procedimentos... Na minha opinião, entretanto, provavelmente não a dele - assim eu tive uma surpresa agradável quando sentei em minha cadeira
na mesa de Darlene e vi que Becca estava sentada lá, enquanto parecia distintamente miserável.Ela se iluminou, entretanto, quando me viu."Oh, oi," ela disse.
"Eu posso sentar aqui? Eu quero dizer, tudo bem? Eu perguntei para estes sujeitos -" ela acenou com a cabeça para Darlene que estava comendo uma banana com êxtase
da companhia dela - "e eles disseram que era, mas -""Claro que pode!," eu disse, enquanto me sentava com minha bandeja de salada de atum. "Mas o que aconteceu
a respeito de almoçar fora com Jason?""Oh," Becca disse, enquanto cutucava o hambúrguer dela (Becca sempre esteve de regime) com o garfo dela e não olhando no
meu olho. "Eu falei com Stuckey."Eu sentia uma varredura de raiva assassina em cima de mim. Se Stuckey tivesse dito qualquer coisa que feriu os sentimentos dela
- o qual eu totalmente poderia o ver fazendo isso, desde que ele não sabe nada sobre qualquer coisa que não tenha a ver com basquetebol -ele era um homem morto."O
que ele disse?" eu perguntei, enquanto tentava soar tranqüila."Só que se eu quisesse que o Jason gostasse de mim, eu deveria ser menos disponível." Becca tomou
tristemente um gole da Coca-cola Diet dela. "Stuckey disse que o Jason é o tipo de cara que gosta de meninas que jogam duro."Todd Rubin bufou, embora nenhum de
nós estivesse falando com ele. "Não eu." ele disse. "Eu gosto de mulheres que conhecem o lugar delas." Ele indicou o lugar onde estava o toldo da pélvis dele, para
a diversão dos amigos dele."Oh, sério?" Darlene tinha terminado a banana dela, e agora ela se estirou, enquanto trazia todos os olhares da mesa para o busto dela.
"E que lugar seria esse, Todd?""Um," Todd disse, a boca dele estava ligeiramente entreaberta. "Qualquer lugar que você queira. Nada."Darlene apanhou a Coca-cola
Diet dela levantou e mexeu, enquanto indicava que estava vazio."Oh não. Todd! Você pode ser uma doçura e pode ir me trazer outra?"Todd tropeçou praticamente
em cima dos próprios pés dele na pressa dele para pegar outro refrigerante. Darlene olhou para Becca e para mim com um sorriso instruído. Era difícil de não rachar
em cima.E de repente eu percebi que Darlene não é tão boba quanto ela finge ser."Eu acho que Stuckey provavelmente falou a verdade," eu disse, enquanto me virava
para Becca."Eu sei," Becca disse com um suspiro. "Ele realmente era muito útil. Stuckey, eu quero dizer. Ele disse que ele não pensa que é sério entre o Jason
e Kirsten."Era minha própria hora para bufar. "Claro que não é sério," eu disse. "Porque não há nada ainda de fato entre eles. Exceto talvez na cabeça de Jason.
E até mesmo se havia, Kirsten não encorajou ele. Você alguma vez olhou os cotovelos dela?""Os cotovelos dela?" Becca ecoou."Sim. Eles são todos escamosos.""Eu
odeio isso," Darlene disse. "Isso é por que eu esfrego pura manteiga de cacau em meus cotovelos todas as noites." Ela retirou a manga dela para mostrar para nós.
Darlene realmente tem os cotovelos mais agradáveis que eu alguma vez tenha visto, um sentimento com que todo cara à mesa, inclusive Todd que devolveu com o refrigerante
de Darlene, teve.Eu vou ter que me lembrar daquele truque da manteiga de cacau."Bem, Stuckey disse que ele não pensa nem sequer que o Jason gosta de Kirsten
- você sabe, daquele modo," Becca foi. "Ele diz que ele pensa que o Jason finge gostar de Kirsten, assim as pessoas não desconfiaram de quem ele realmente gosta."Isto
estava me intrigando. Eu não tinha nenhuma idéia de que Stuckey era um observador agudo membro da raça humana."Bem?" eu disse. "Quem disse que Stuckey sabe de
quem o Jason realmente gosta?"Becca encolheu os ombros. "Isso é que é. Stuckey não sabe. Ele nunca diz se o Jason fala sobre aquele tipo de coisa - as meninas
- com ele. Mas eu não pude parar de pensar...bem, você pensa em quem é a menina de que Jason realmente gosta, se é, possivelmente, bem...eu?""Eu não sei," eu respondi
fianlmente. Porque eu realmente não sabia. Eu tive cuidado para não dizer, "Mas eu duvido disto, que seja você." Ao invés, eu perguntei, " O que mais disse Stuckey?"
Porque a idéia de Stuckey ter uma conversa com qualquer que não é envolvida com a Faculdade de Indiana de basquetebol estava me impressionando."Oh, vejamos." Becca
pensou durante um minuto, então disse. "Ele perguntou se eu queria ir em uma excursão para o Indiana Campus Universitário para o deixar saber, e ele me levaria de
carro ( dirigiria ) para lá e me mostraria o Corredor de Assembléia que é onde o Hoosiers jogam basquetebol."Isso pareceu mais o Stuckey que eu conhecia.O Mark
e Lauren escolheram aquele momento para fazer o que me parecia estar sendo desenvolvida uma espécie de visita diária a nossa mesa."Tudo certo para amanhã de noite,
Steph?" Mark perguntou enquanto Lauren colocou o seu braço envolta da cintura dele e por sorte teve ela em cima dele como se fosse um ponche. Como o usual, Alyssa
Krueger estava atrás deles... Como se fosse o Tinkerbell para Lauren Paris (Tinkerbell é o cachorrinho da Paris Hilton pra quem não sabe)"Parece estar tudo bem",
eu disse, abrindo a minha agenda ofical do leilão de talentos da Bloomville High."A propaganda deve estar no jornal de hoje. Nós tivemos mais de cem pessoas inscritas.
Dependendo de quantas pessoas aparecerem, nós poderemos ganhar mais do que qualquer lavação de carro jamais ganhou.""Ei," Mark disse, seus olhos mel brilhando.
"Isso é ótimo! Bom trabalho.""Obrigada," eu disse. Eu estava incapacitada, é claro, de não ficar vermelha. Algumas coisas você não consegue controlar.Como o
que aconteceu a seguir. Que quando Mark, Lauren, e Alyssa passaram, uma nota firmimente dobrada caiu, aparentemente do ar, e que causou o meu constrangimento.Ninguém
além de mim percebeu. Bem, ninguém além de mim e Becca, que olhou para mim curiosa depois de ter pegado a nota. Tinha as palavras PARA STEFF escritas fora em letras
de forma, indicando que era para mim ... ou ao menos para alguém chamada Steph, mas alguém que se fala com dois FF em vez de P-H. Eu comecei a me encolher.Eu só
precisei ver as primeiras poucas letras - VOCÊ VACA ESTÚPIDA, PORQUE VOCÊ NÃO TEM UMA VIDA - mas antes de eu ver o que era.E de quem isso veio.O vermelhinho
que estava nas minhas bochechas quando Mark me elogiou se tornou um monte de chamas.Meu rosto pareceu como se estivesse pegando fogo.Mas isso não me fez parar
de empurrar minha cadeira para trás e seguir Mark e Lauren, com o bilhete nas minhas mãos."Ei, vocês," eu disse, alcançando o casal - com a Alyssa - quando estavam
saindo da cafeteria, no pátio. "Um de vocês deixou cair isso. Diz que é pra alguém com o nome de Steff, mas não é assim que se escreve o meu nome, então deve ser
para outra pessoa."E eu dei o bilhete para o Mark.Alyssa imediatamente disse, "O que é isso? Eu não deixei isso cair. Eu nunca vi isso antes. E você, Lauren?"Mas
Lauren há pouco estava lá, enquanto me encarava.E eu a fitei. 'Nem pense em fazer isso comigo Lauren', eu tentei fazer meu olhar fixo dizer. Porque eu tenho O
Livro agora. E esses meios são BAIXOS que nem você, Lauren Moffat.A face de Mark, quando ele leu a nota - quem sabe o que dizia depois da primeira linha? Eu não
tinha nenhuma idéia, e eu não me preocupei de fato - mudou. Eu vi a mandíbula dele fixada, e as bochechas dele lentamente ficando com a mesma cor que a minha. Só
que nele era bonito.Ele olhou diretamente para Lauren. E ela virou para enfrentar Alyssa imediatamente."Deus, Al," ela disse. "Você poderia ser mais imatura?"A
mandíbula de Alyssa caiu. Eu podia ver, de fato, um pedaço de goma de mascar mastigada na boca dela."Lauren," ela chorou. "Era seu - como pôde -""Como pôde?"
Lauren arrancou o papel dos dedos de Mark e começou a rasgá-lo. "Por que você escreveria algo assim para a pobre Steph? Ela só está tentando arrecadar dinheiro
para a classe de Mark. O que há de errado com você?"Mark, enquanto encarava Alyssa com olhos estreitados, lentamente tremeu a cabeça dele."Isso é baixo, Alyssa,"
ele disse na voz funda dele. "Realmente baixo.""Mas eu não fiz isto!" Alyssa insistiu. "Bem, eu quero dizer, eu fiz, mas era -""Eu não quero ouvir mais nada,"
o Mark interrompeu, em um tom que deixava claro por que ele foi votado no último ano pela maioria dos jogadores e foi escolhido como quarterback deste ano. Ele não
toleraria nenhum desrespeito no time dele. "Eu gostaria que você fosse embora agora."Alyssa tinha começado a chorar."Partir... da es-escola?" ela perguntou."Não."
o Mark olhou sem paciência. "Não da escola. Da minha frente. Chega, fora daqui."Alyssa, com um finalmente, olhar penetrante na direção de Lauren, colocou uma mão
sobre a sua cara quando você esconde o rosto pra chorar, sabe? e correu, na direção do vestuário das meninas. Mark olhou sem interesse para a imagem de Alyssa, e
então olhou para Lauren."Porque ela faria algo como isso?" Ele perguntou para ela, parecendo realmente envergonhado com a situação."Eu não sei" Lauren disse,
dando os ombros inocentemente. "Talvez seja ciúmes? Você sabe, porque eu dei uma carona pra Steph noite passada? Talvez ela esteja preocupada com eu e Steph estarmos
nos tornando amigas e ela pode ser jogada de lado. Você sabe o quão insegura ela é."Meu queixo caiu. Eu nunca tinha ouvido tamanha mentira em toda a minha vida.Você
tem que saber isso sobre Lauren: Tanto faz o que você dizer sobre ela, ela é uma grande manipuladora."Eu acho melhor eu ir lá ver se ela está bem. Eu não quero
que ela faça algum dano em si mesma."Algum dano em si mesma?"Certo, certo" Mark disse, concordando com a cabeça. "Vai lá" E então, quando Lauren foi - com um
olhar Eu vou pegar você por causa disso na minha direção - ele pos a mão pra fora do bolso e gentilmente me tocou.No meu braço. Mark Finley. Me tocou."Hey" Ele
perguntou docemente "Você ta bem?".Eu não podia acreditar que Mark Finley tinha me tocado. E perguntando se eu estava bem."Eu to bem" Eu disse, balançando a
cabeça. De algum jeito, eu tive que descobrir como fazer para a minha boca voltar a se mexer de novo. "Não se preocupe comigo""Eu não posso acreditar que ela fez
isso" Mark disse. "Eu realmente peço desculpas. Eu espero que você não vá levar isso pro lado pessoal, ou algo assim."Levar aquilo pro lado pessoal? Eu vinha ouvindo
Alyssa Krueger - junto com a maioria da população de meninas abaixo de dezoito do Condado Greene - dizendo para as pessoas Não serem tão Steph Landry por cinco anos.
E aqui estava o cara mais popular da escola - um cara que nunca tiraram sarro na escola ou no dia-a-dia durante toda a vida dela - me dizendo para não levar aquilo
pro lado pessoal. Yeah, sem problemas, Mark. Tanto faz o que você dizer."Eu não vou" Eu disse, dando a ele um sorriso meio trêmulo... trêmulo porque eu estava
realmente com medo, no momento, de que eu poderia começar a chorar."Ótimo" Mark disse .E colocou um dedo na minha bochecha. Só um dedo.Mas isso foi tudo que
precisou. Tudo que precisou para eu saber com 100% de certeza de que ele era o Meu Aquele.Mesmo que ele ainda não soubesse.
Melhores AmigosMelhores amigos são ótimos. Mas se você for popular, você não pode se limitar - ou limitar seu tempo - a só uma pessoa.É importante ter tempo
para novos amigos - mas não se esqueça dos antigos!
Capítulo 19 AINDA DIA TRÊS DE POPULARIDADEQUARTA, 30 DE AGOSTO, 15h00min.A Gazeta de Bloomivelle é um jornal vespertino, então eu pude checar para ver como o
anuncio tinha ficado assim que eu chegasse a Courthouse Square Books, onde eu trabalho no turno de 15h às 21h toda quarta-feira.Antes de eu virar a sessão aonde
eu tinha posto o anúncio (perto das tirinhas e da coluna de Ann Landers - eu sei que todo mundo na cidade lê esse primeiro), eu percebi uma noticia com uma foto
do observatório na primeira pagina, com a manchete, CIDADÃO LOCAL DOA OBSERVATÓRIO - E O DEDICA A SUA FUTURA ESPOSA. Com uma foto de vovô dentro do observatório
seus braços abertos apontando para a cúpula, sorrindo.Eu liguei pra ele do telefone perto da maquina registradora mais próxima."Bela história" eu disse quando
ele atendeu."Kitty," Vovô disse, soando orgulhoso "está muito contente""Ela tinha que estar" eu disse "não são muitos caras que constroem algo em sua honra""Bem"
Vovô disse "Kitty merece isso.""Mas é claro que merece" Eu disse. E eu realmente acredito nisso."Não tenho falado com você a uns dias" Vovô disse "Como está
indo a história da popularidade?"Eu lembrei do jeito que Mark tinha posto o seu dedo na minha bochecha. Ele só ficou lá por um momento. Mas tinhas sido como o
momento mais longo da minha vida inteira."Excelente" eu disse."Sério?" Foi minha imaginação, ou vovô tinha soado supresso? "Muito bom, então. As coisas vão bem
para nós dois ao mesmo tempo, pelo menos. E como ta a sua mãe?"Eu tinha acabado de ver mamãe saindo apressada da loja, indo pra casa a pé. Ela já estava quase
no nono mês e seus tornozelos pareciam com as pernas de Lauren em suas meias 3/4 brancas."Ela ta bem" Eu disse "Mas nenhuma mudança, você sabe, sobre o casamento".Vovô
suspirou. "Não posso dizer que eu realmente esperava uma. Ela é a uma mulher teimosa, sua mãe. Mas como você, de um jeito.""Eu?" eu não podia acreditar naquilo
"Eu não sou teimosa".Vovô deu um longo assovio."Eu não sou" insisti.E foi quando o sino a porta da loja tocou, e Darren, meu colega de trabalho na tarde entrou
com dois Delicias D-Litgh do Pingüim para nós dois."Não ta quente o bastante lá fora?" Darren quis saber, segurando o meu sem-gordura, sem-calorias e muito sem-gosto
sorvete. "Pode se disser que é um verão de Indiana, ou o que?""Obrigado" eu disse "Eu só vou terminar essa ligação"Darren balançou o dedo pra mim para mostrar
que tinha entendido, e foi para as prateleiras de jóias para organizar os brincos, a seção favorita dele."Hum, vovô," eu disse. "Ei, me escute... Eu provavelmente
vou precisar emprestado um pouco mais de dinheiro. Como parte do plano. Mas isso é para ajudar a loja. Não minha vida social." Bem, não totalmente, pelo menos."Eu
vejo," vovô disse. "Bem, eu terei que dar uma olhada nesses interesses...""É compreensível," eu disse. Eu não fiquei insultada que o meu único avô tivesse interresse
nos meus empréstimos. Eu faria a mesma coisa se alguém pegasse dinheiro emprestado de mim. Pessoas na TV, como Judge Judy e minha ídola, Suze Orman, sempre dizem
que as pessoas da família não devem emprestar dinheiro para as outras pessoas família. Isso pode funcionar, se você for negociante sobre isso."Vovô", eu disse.
"Lembra quando você me contou que sempre gostou de Kitty, mesmo quando estavam no colégio? Mas ela gostava de outra pessoa?""Ronald Hollenbach," Vovô disse como
se o nome soasse estranho em sua boca."Certo, o avô de Jason. Bem, eu só estava pensando, como você... finalmente fez ela e afastar dele?Do Sr. Hollenbach eu digo.""Isso
foi fácil" vovô falou. "Ele resmungou"."Ah". Isso não foi de muita ajuda como eu esperaria ser, eu estava procurando por algum conselho sobre como eu poderia roubar
o Mark Finley da Lauren. Na qual eu não considero, na verdade, uma coisa errada de se fazer, porque a Lauren é muito maldosa e Mark é um garoto mais legal da cidade
e ele merece alguém melhor que ela. Mesmo, vc sabe, ele não sabendo disso."Receber todo o dinheiro das pessoas boas que compram no Super Sav-Mart não doeu muito
também" Vovô disse. "Kitty aprecia um bom filé no jantar do Clube Country desde antes e agora"."Certo", eu disse. Filé, checado."Mas, eu tenho certeza que você
jogou um charme para cima dela, certo? Como você fez isso?""Eu não posso te dizer", o vovô disse. "Sua mãe me mataria""Vovô, ela já quer te matar, quantos problemas
mais você pode ter com ela?""Verdade", ele disse. " Bem, o fato é, Steph, nós, os Kazoulises, nós somos apaixonados e nós sabemos como agradar uma mulher"Eu
engasguei com a boca cheia de 'Tast D-Lite'"Obrigado,Vovô" Eu disse assim que as palavras saíram. " Eu acho que eu peguei""Kitty é uma mulher com necessidades,
você sabe Stephanie e - ""Ah, eu sei isso, tudo bem," eu disse rapidamente. Quero dizer, eu podia muito bem imaginar o quão facilmente a cópia da Kitty de Mentiras
de Amor caiu aberta na cena do estilo-turco. Ela obviamente leu muito aquela parte. "Obrigada, vovô. Foi um conselho muito útil.""Eu sei que você é meio Laundry",
vovô disse. "Mas é também 50% Kazoulis. Então você não deve ter problemas na - ""Ah, olhe á, um cliente chegando," eu menti. "Tenho que ir, vovê, falo com você
mais tarde. Tchau."Eu fiquei olhando fixamente para o telefone depois de desligá-lo. Estava claro que, quando vovô me dava dicas financeira era bom, mais em matéria
do coração ... bem, eu estava sozinha. Eu teria que achar uma maneira de como ganhar o Mark da Lauren sem ajuda."Ah meu deus," Dauren disse, se apressando ao caixa
com o seu sorvete. "Você sabe oque Shelley no pingüim me disse? Que o ensino médio faria um leilão de escravos amanhã a noite.""Não é um leilão de escravos," eu
disse, mostrando a ele a propaganda do jornal. "É um leilão de talentos. As pessoas voluntariam seus talentos para a comunidade ofereça sobre ele. Não aquilo que
você está pensando.""Oh", Darren disse, parecendo um pouco desapontado. "Como você sabe tanto sobre isso?""Porque," eu disse. Eu tentei não parecer orgulhosa,
desde que ser orgulhosa é parecer arrogante, segundo o livro, e arrogância não é um tratamento de uma garota popular. "eu fui quem deu a idéia. E estava funcionando.Darren
pareceu chocado. "Você? Mas você é -"Ele parou si mesmo."Está tudo bem," eu disse. "Pode dizer isso.""Ah que bom," Darren disse. "É só que - querida, você
é tão Steph Laundry!""Mas eu não serei por muito tempo," eu estava aberta para contar isso a ele, com a maior confidência.
Quer uma maneira garantida de ganhar os corações e as mentes das pessoas?Seja criativa!Converse!E siga completamente!Não sente e deixe os outros decidirem
por você. Apareça com idéias/opiniões próprias... Depois deixe os outros animados sobre eles mesmos e então animados por você!Entusiasmo vence.E vencedores são
populares!
Capítulo 20 DIA QUATRO DE POPULARIDADEQUINTA, AGOSTO 31, 6 P.MEu estava enlouquecendo o dia todo para ficar pronta para o leilão adquirindo: inscrevendo pessoas
de última hora, então pegando os nomes/talentos deles para Mr. Schneck assim ele poderia praticar o seu discurso... Pegando os caras do clube de áudio-visual para
instalar o sistema de som no ginásio, dessa maneira qualquer pessoa poderia ouvir o leiloeiro... Pegando as pás de comando (leque-mãos eu arranjei no Dia do Necrotério
para contribuir. Mas eu tenho certeza que as pessoas não tem idéia. Eu penso, sobre se lembrar da existência de pessoas mortas no leilão.)Eram coisas tão malucas,
eu não arranjei almoço OU jantar. Eu nem mesmo fui pra casa depois da escola! Obrigada Deus, Becca ficou junto ao redor para ajudar... E, surpreendentemente, Darlene.
Dobrar Darlene é natural pegando pessoas para fazer parte mais importante. Se eu não a tivesse por perto toda a tarde, eu não sabia o que eu gostaria de ter feito.
Ela só tinha que abaixar os cílios dela e falar, "Ei, vocês, movam o pódio adiante" e pessoas - bem, okay, caras - praticamente inclinados sobre eles mesmos para
fazer isso por ela.Ela realmente não é tão burra como parece. Quando a Tv a cabo local apareceu, porque eles queriam filmar o leilão e mostrar para o público nesse
fim de semana, e eles não tinham os fios certos, Darlene ela pediu para Todd, "Todd, corre para o escritório e peça a Swampy se você pode pegar emprestado o cabo
coaxial da sala dos professores."E os caras da AV, todos olharam com imensa adoração, "Como você sabe que é chamado de cabo coaxial?"E Darlene percebeu que acidentalmente
deu seu show de inteligência, e ficou como, "Ah, eu disse isso? Eu não sei sobre oque estou falando."Mas depois, quando os garotos não estavam por perto, e eu
pedi a ela, "Como você sabia que tipo de cabo eles precisavam?" Darlene disse, "Bem, cara. Todo mundo sabe isso."O que fez Becca perguntar, "Você REALMENTE não
sabia que o mel vem das abelhas aquela vez na oitava série?"E Darlene riu e disse, "Bem, não. Mas a aula estava tão chata. Eu só queria levantar um pouco o astral.""Mas
agir como uma burra não faz as pessoas te olharam como inferior?" Becca quis saber. "Ah, não", Darlene disse. "Porque isso faz as pessoas fazerem mais coisas pra
mim, e assim eu tenho mais tempo para ver tv."O que realmente faz sentido. Sorte dela.Darlene e Becca não eram as únicas ajudando. Mark e o resto do seu time
veio depois do treino para ajudar a levantar o banner do PRIMEIRO LEILÃO DE TALENTOS ANUAL DE BLOOMVILLE HIGH que eu passei todo o meu período do lanche pintando,
com a ajuda de algumas garotas legais e - apesar de ela ter se oferecido - Lauren.Lauren apareceu depois da escola também, como Bebe Jonhson. Sua sombra usual,
Alyssa Krueger, tinha estado notavelmente ausente do lado da Lauren desde o incidente STEFF. Eu captei uma breve sombra dela na cafeteria quando eu parei para apanhar
um refrigerante antes de ir pintar o minha faixa, aparentemente esperando que ninguém fosse notá-la comprando um sanduíche e escapando para o mastro da bandeira
para comer sozinha, já que ela não é mais bem-vinda na mesa do Mark.Eu provavelmente deveria me sentir triunfante, vendo uma das lendária As Garotas da Bloomville
High fazendo a Caminhada da Vergonha através da cafeteria.Mas o fato é que, a visão me deixou um pouco triste. Eu não tenho nada contra Alussa Krueger. Muito.
Quero dizer, ela é um canhão de maldade, e tudo isso.Mas era a Lauren que eu queria ver caindo.E IRIA ver caindo. Hoje à noite. Se havia alguma justiça no mundo.Enquanto
nós estávamos pintando a faixa, uma das formandas acidentalmente fez um movimento brusco e derrubou tinta no chão do ginásio, e Lauren começou a rir."Deus, Cheryl,"
ela disse. "Bom jeito de dar uma de St-"Nós todos sabíamos o que ela iria dizer. Mas ela parou a si mesma no ultimo minuto.Eu olhei pra ela e levantei uma sobrancelha
(um truque que eu gastei varias horas em frente ao espelho - para a diversão do Jason - ensinando a mim mesma na quarta serie, depois de conhecer Nancy Drew, que
estava sempre por ai, levantando uma sobrancelha para as pessoas).Cheryl, que não notou a minha sobrancelha, disse, "Eu sei, eu sei. Bom jeito de bancar uma Steph
Landry. Alguém tem papel-toalha?"Quando ninguém disse nada, Cheryl olhou para cima e viu todo mundo - incluindo eu - encarando-a."O quê?" ela disse, genuinamente
sem saber."Eu sou Steph Landry," eu disse, tentando não demonstrar a minha raiva. Porque raiva não é uma emoção desejável de mostrar se você quer ser popular.Cheryl,
uma bonita ruiva membro do time de dança, os Fishnets (por Fighting Fich - Peixe Lutador), disse, "Certo. Engraçado. Sério, alguém tem papel toalha?""Eu estou
falando sério," eu disse.Cheryl, percebendo que eu estava dizendo a verdade, começou a ficar tão vermelha quanto a tinta que ela tinha derramado."Mas você é
- quero dizer, você é - e Steph é... ela é -" ela gaguejou. "Eu sei que seu nome é Steph, mas eu não achei que você fosse AQUELA Steph. Quero dizer, aquela Steph...
ela não, tipo, atirou em alguém?""Não," eu disse."Não, mas sério. Ela afundou um carro no Lago Greene ou alguma coisa. Eu sei.""Não," eu disse. "E eu deveria
saber. Porque eu sou Steph Landry. E eu não fiz nada dessas coisas. Tudo o que eu fiz foi derramar Big Red Super Big Gulp em uma pessoa uma vez."E eu lancei a
Lauren o que eu esperava ser um olhar malvado."Só isso?" Cheryl franziu seu pequeno nariz Fishnet. "Deus. Eu amo Big Red Super Big Gulps. Esse é, tipo, o melhor
sabor.""Certo," outra formanda disse. "Mas mancha loucamente. Eu derramei um no carpete branco da minha mãe, eu ainda ouço sobre isso algumas vezes quando ela
está brava comigo.""Totalmente," Cheryl disse. "Qual é, mas, sério, caras. Eu tenho que limpar esta tinta antes que seque. Ninguém tem um solvente ou alguma coisa
assim?"E foi isso. Lauren , com o rosto vermelho, voltou a pintar. E ninguém mais disse nada sobre isso.Depois de hoje a noite? Ninguém diria mais.
Tenha uma vida - uma vida extracurricular, é isso!Escola é importante, é verdade, como são as notas e estudar.Mas ninguém gosta de um sabe-tudo ou chato!Então
faça uma pausa entre livros de vez em quando e cultive interesses fora da escola.Não importa nem um pouco se o seu hobby é costurar, jardinar, cozinhar, colecionar
selos, ou andar a cavalo. Um interesse torna VOCÊ interessante aos outros... e podem te ajudar a cultivar talentos que você nem sabia que tinha!Então saia de casa
e se envolva!
Capítulo 21
Ainda o dia 4 de popularidade5º feira, 31 de agosto, 20:00 hsTá começandoE eu não acredito que eu vou me vangloriar, ao dizer que tá indo tudo BEM!E, tudo
bem, nós não temos as 7 mil pessoas que costumam ir aos jogos de basquete, mas nós temos umas 3 mil, eu acho. e isso é muito mais do que a gente iria conseguir com
o lava-carros.E as pessoas tão gastando dinheiro. Gordon Wu e as suas três horas de aulas de computação foram vendidos por 35 dólares. O cara com o amolador de
tocos? 58 dólares. Uma menina que diz que ensina a qualquer um a fazer um morango perfeito e uma torta de ruibarbo? 22 dólares.Mas o mais bem-vendido talento da
noite até agora tinha sido as aulas de maquiagem de Darlene. Todd e seus amigos davam lances um contra o outro- ostensivamente para suas mães - Toss ganhou - por
incríveis 67 dólares.Eu realmente espero que a sua mãe valorize isso!E, até agora, a única coisa com a qual eu estava preocupada - que alguém fosse chamado ao
palco e ninguém desse um lance por seu talento- não aconteceu. Até Courtney Pierce, a bajuladora da sala, conseguiu dinheiro com as suas aulas de espanhol.Então
eu não estava muito preocupada quando o sr. Schneck chamou o nome da proxima pessoa cujo talento iria ser leiloado, e era Becca Taylor. Eu quero dizer, recortes
e colagens é um hobbie popular na na cidade. Tem até uma loja dedicada a isso- Fazendo Recorte - no shopping. Becca não é popular ou qualquer coisa, as pessoas ainda
lembram dos dias que ela dormia nas aulas.Mas alguém iria comprar o seu talento!"E aqui nós temos a aluna do 1 ano, Becca Taylor" Sr. Schneck começou o seu discurso
de leiloeiro. Ele até usou gravata borboleta e suspensórios para o leilão. Ninguém podia acusar o sr. Schneck de não ser dedicado a sua profissao. "Becca está oferecendo
3 horas de aulas pra algum inciante em recorte e colagem aqui. Algum de vocês está interessado em recorte e colagem mas precisa de um empurrãozinho? Bom, Becca Taylor
é a sua garota então.""Ela vai até a sua casa e faz toda a arte com suas próprias tesouras, adesivos e pedaços de jornal e também dá idéias de layout e preenche
a sua página com figuras pra você fazer o seu próprio albúm. Vamos começar o leilão desse talento com um lance de 10 dólares."Eu olhei do meu lugar para a arquibancada
do fundo.A arquibancada do fundo - que é a mais perto do chão do ginásio - são é a que os populares sentam, porque eles são os que são chamados pra receber prêmios,
dançar ou qualquer outra coisa.E hoje eu estava sentada com eles! Não só com eles... Eu estava sentado realmente perto de Mark Finley!E, tudo bem, Lauren Moffat
estava do seu outro lado.Mas ele escolheu sentar ao meu lado - ele vinha caminhado pelo ginásio, me viu na primeira fileira, onde eu estava ocupanda destribuindo
os leques-da-mão do dia do necrotério, e sentou do meu lado.E todo o resto dos populares - com a exceção de Alyssia Krueger, que tinha sido relegada aos assentos
dos perdedores onde eu e Jason costumávamos sentar, nas poucas vezes que nós éramos forçados a comparecer a um evento no ginásio - sentaram com eles.E eu era um
deles. Eu era uma Ppopular, uma das bonitas, das pessoas Populares. Eu tinha conseguido.E todo mundo sabia disso. Eu podia sentir seus olhares em mim - Courtney
Pierce e Tiffany Cushing e todas as garotas que, eram no máximo um POUCO populares, ainda dizia a cada oportunidade "não dê uma de Steph Landry" pra eu ouvir. Elas
estavam com ciúmes. Mas elas não deveriam estar, eu lutei pra chegar à minha posição na primeira fileira. Eu tinha quebrado a minha cabeça.Quase literalmente.O
ginásio tava lotado de rostos familiares, nem todos pertencentes a estudantes da Bloomville High School.Eu podia ver os pais de Becca olhando na sua direção afetuosamente.
Eles estavam empolgados com a perspectiva da sua filha finalmente participar com alguma atividade da escola.Eles tinha me perguntado na porta, quando eles tavam
entrando, se os meus pais viriam, porque aí poderia sentar todo mundo junto.Eles ficaram um pouco desapontados quando eu disse que os meus pais estavam muito cansados
- mamãe com os cuidados com o bebê e papai com as outras crianças - para vir.Na verdade, eu não mencionei sobre o fato que eles nem mesmo sabem sobre isso. Bem,
eles sabiam - a cidade inteira sabia -, mas eles não sabiam que era eu quem tava organizando.E lá estava o dr. Greer, sentando com a sua esposa e um homem que
parecia o prefeito - o PREFEITO apareceu... Sozinho, já que ele e sua esposa estão no meio de um divórcio sórdido do qual nós temos notícias na Gazeta. Swampy Wampler
estava sentada com eles, parecendo reconhecível com um jeans e um suéter de algodão, o oposto dos seus rotineiros cinza ou preto terninhos. Ela permanceu olhando
para o prefeito Waicukowski e sacudindo seu cabelo marrom-cor-de-rato. Estava óbvio que ela estava flertando com ele.E também tava óbvio que ele não tava nem aí.E
no último minuto - antes do sr. Schnek começar o ritual da palma de peixe - eu vi a ultima pessoa que eu esperava ver num evento da escola no ginásio, passando pela
porta: Jason.Ele tava com seu amigo Stuckey - um tipo pesado que tradicionalmente veste camisas, da universidade de Indiana, apenas execessivamentes grandes e
calças-capri. Os dois subiram a arquibancada descoberta - não exatamente os assentos dos perdedores, mas perto - e se sentaram olhando ao redor. Eu senti o olhar
de Jason pousar sobre mim. Eu levantei a mão pra acenar pra ele. Depois de tudo, ele é quem aparentemente tem um problema comigo, eu não tenho nenhum problema com
ele. Bem, tirando o fato que ele ainda me chama de Crazytop. Jason não acenou de volta, e eu sei que ele me viu.Odeio dizer isso, mas azar o dele. Quer dizer,
ele que tá me ignorando. O que foi que eu fiz pra ele?Tirando pegar uma carona no 645Ci de Lauren.O que eu realmente não posso chamar de um cortesia de BMW's.
Ele tá me desprezando porque eu estive em outro 645Ci, eu acho.Mas tudo bem. Se ele quer ficar chateado comigo por causa disso, ele pode ficar. O que eu posso
fazer?É só que... Bem, vai ser um pouco estranho quando ele tiver que me acompanhar ao casamento de Vovô e a gente não estiver se falando.Mas, fazer o que?Eu
olhei pra Becca, que estava no palco, parecendo bonita na sua capri cáqui e com uma blusa floral rosa. Ela tá no time de Stuckey, na verdade. Ela só veste roupas
que realmente ficam bem nelas. Ela tava segurando um de seus álbuns de recortes e sorrindo para a multidão na arquibancada.A não ser... A não ser que tinha algo
errado com o jeito que Becca tava sorrindo. Seus lábios estavam curvados, e tal. Mas o sorriso não parecia se estender até os seus olhos azuis. Ele tava parado nas
suas bochechas.Foi quando eu notei que as pontas dos seus lábios tremiam.E que o sr. Schneck, o leiloeiro, tava dizendo "vamo lá, pessoal. Este é um serviço
que você não pode encontrar em qualquer lugar. Eu sei o quanto recorte e colagem é popular nessa comunidade, porque tem noites que eu não posso entrar no Sizzler
porque o clube de recorte e colagem tá se encontrando lá, e todas as mesas estão cheias. Entao eu vou ouvir 10 dólares pra os serviços desta garotinha? Alguém?"Foi
então que eu percebi, como um relâmpago:Ninguém tava dando lance em Becca.Era como um pesadelo virando realidade. Becca estava em pé lá, tentando sorrir bravamente
e não cair em lágrimas, enquanto os nós-dos-dedos da mão que tava segurando o álbum-de-recorte tavam ficando cada vez mais brancos."Nós temos um lance de 10 dólares"
disse sr. Schneck pra meu alívio. "eu ouvi 15? alguém dá 15 dólares?".Eu levantei do meu assento pra ver quem tinha dado o lance...E meu coração afundou, era
o sr. Taylor. O PAI de Becca que tava dando o lance.Isso é pior do que se ninguém tivesse dado um lance nela."algo errado, Steph?" eu ouvi uma voz profunda perguntar
ao meu lado.Eu virei a cabeça pro outro lado - e praticamente bati a cabeça na cabeça de Mark Finley, cujos olhos cor-de-mel me fitavam."você parece preocupada"
Mark disse. "tá tudo bem?"Estalando, eu apontei pra Becca"A-alguém precisa dar um lance por ela." Eu disse. "Alguém que não seja seu pai!"E antes que eu pudesse
dizer outra palavra, Mark levantou a mão."15 dólares!" Mr. Schneck disse, apontando para Mark. "Nós temos 15 dólares pela jovem moça que é um gênio em cadernos
de colagens. Será que eu ouvi 20?"Todo o ginásio tinha caído no silêncio desde que Mark tinha levantado sua mão. Era como se ninguém pudesse acreditar no que estava
vendo - o garoto mais popular do colégio dando lance nos serviços de recorte e colagem prestados por uma garota que costumava ficar dormindo no horário das aulas.
Você podia contar um monte de pessoas que estavam achando que ele tinha perdido a cabeça - Lauren entre elas, já que eu a ouvi dizer "Baby, você tá brincando comigo?"
sussurando.Mas Mark não ligava. Ele continuou com a sua mão levantada.E os lábios de Becca pararam de tremer."20 dólares, pessoal" sr. Schnek disse. "Alguém
gostaria de dar o lance de 20 dólares? Não? As aulas de recorte e colagem de Becca Taylor serão vendidas por 15 dólares. Dou uma. Dou duas. vendi.."Mas antes que
ele pudesse falar o "do", uma voz gritou pelo ginásio"162 dólares e cinquenta e oito centavos"Cada pescoço no ginásio virou a sua cabeça pra saber quem tinha
dado um lance tão alto por Becca.Eu não acho que eu era a única que tava totalmente atônita de ver Jason, com uma mão erguida e com sua bolsa - contendo toda a
quantia que ele acabava de ofertar - na outra."VENDIDO!" Sr. Schnek gritou. "pra pra pra aquele garoto ali por 162 dólares e 58 centavos"E o seu martelo bateu.
Popularidade pode ser comparada à uma casaTem paredes, uma boa estrutura e muitos cômodos.Quanto melhor é a estrutura, mais forte são as paredes e mais cômodos
podem ser acrescentados.Isso é porque, assim como não há nada como uma casa com muitos cômodos, não há nada como uma pessoa com muitos amigos.
Capítulo 22 Ainda dia 4 de popularidadeQuinta-feira, 31 de agosto, 22:00 hs.Eu tava feliz por Becca. De verdade. Quer dizer, foi legal o Jason ter comprado ela.
Eu realmente acho.Eu soh não acho que ele precisava gastar AQUELA grande quantia pra aquilo. Quer dizer, ele basicamente gastou 142 dólares pra nada, já que
ele podia ter comprado os serviços delas por 20.Mas, tanto faz. Eu acho que isso é legal. Eu acho mesmo.Mas não tão legal quanto o que aconteceu depois.E foi
quando Sr. Schnek - depois de Becca ter deixado o palco, olhando toda empolgada e feliz (E eu não tenho que ser uma gênia pra saber o porque: Ela deve tá achando
que se Jason estava disposto a gastar aquela quantia por ela, ela DEVIA ser a garota que Stuckey suspeita que Jason gosta secretamente. Ela vai ser IMPOSSÍVEL de
tratar depois dessa. Eu não sei o que Jason tá pensando. Eu não sei mesmo.) - limpou sua garganta, foi ao microfone e disse "e agora, Peixes de Bloomville, o momento
que eu sei que vocês estiveram esperando pra leiloar, o orador da classe sênior, capitão do time e zagueiro, o jogador mais importante do ano passado, e um bom garoto
para todos, MARK FINLEY!"Os gritos e aplausos depois desta afirmação quase derrubaram o telhado de aço abaixo. Mark se levantou, se esticando timidamente, e acenou
pra multidão enquanto ele fazia o seu caminho até o palco. Talvez, o maior grito de todos estivesse vindo da sua namorada, Lauren, que parecia não conseguir sentar
na sua cadeira, já que estava pulando pra cima e pra baixo tão empolgadamente.Quando Mark chegou no palco, ele acenou pra multidão do outro lado do ginásio tambem.
Então, ele virou a sua cabeça pro sr. Schnek que estava dizendo "Tudo bem pessoal, calma, calma. Nós sabemos que todos amam Mark. Agora tá na hora de ver o quanto
REALMENTE vocês o amam."Mark generosamente se ofereceu pra ser usado como uma espécie de garoto-propaganda - então vamos ver quem é o proprietário desse feliz
negócio. Vamos começar com um lance de..."A mão de Lauren levantou.E ela não era a única.Sr. Schnek parou e disse "Hum, Pessoal, eu ainda..""100 dólares!"
gritou Lauren.Ela estava, eu sei, só tentando imitar Jason, oferecendo um preço tão alto que ninguém iria cobrir o lance.Muito ruim pra ela já que outras 10
pessoas tiveram a mesma idéia."120 dólares" gritou o homem que eu reconheci como o done do Penguin."140 dólares", gritou Stan, o gerente da Courthouse Square
Diner,"160" disse Lauren de volta"180", o prefeito Waicukowski, que tinha uma firma de contabilidade na cidade - Waicukowski e Associados: Nós somos mais. Mais
que uma firma de contabilidade (apesar de ninguém parecer saber o que isso quer dizer) - gritou, levantando a sua mão."200 dólares" disse Lauren.Mark no palco
continuava sem graça - embora ele parecesse estar se sentindo, ao mesmo tempo."220" disse o prefeito do seu assento perto do dr. Greer.Lauren, realmente cansada
disso, levantou, abriu sua bolsa, olhou o seu talão de cheques e leu o total da sua conta:"532 dólares e 17 centavos"Então ela se sentou, olhando satifeita para
todas os murmúrios que o número causou - e pela cara feliz de Mark.Eu estava triste por ter que acabar com esse momento tão bonito deles. Mas, depis de tudo, eu
tinha um negócio a gerir também."1000 dólares" eu disse, me levantando.O número de murmúrios que eu causei, contra o número de murmúrios que Lauren causou, aumentou
exponencialmente."Peço o seu perdão Stephanie?" Até o sr. Schnek parecia chocado "você disse 1000 dólares?""Sim, tá certo" eu disse calmamente. "Courthouse Square
Diner dá um lance de 1000 dólares em Mark Finley"Agora todos os olhares tavam em mim, em vez de Mark - incluindo o de Mark. Sua expressão era uma mistura de confusão
e felicidade - felicidade pelo fato que alguem tava pagando tanto pelos seus serviços, eu acho, e confusão pelo fato que era eu, e não sua namorada, que estava fazendo
a compra."A pequena garota ali da frente ofertou 1000 dólares" sr. Schnek disse pegando o seu martelo "Eu ouço 1200? Alguém? Vendido por 1000 dólares então"Lauren
tava no celular, desesperadamente tentando convencer seu pai. Ela tava, eu não pude deixar de notar, já ke eu tava sentada perto dela, praticamente chorando."Mas
pai" ela disse "vc não entende...""dou uma" sr. Schnek disse."É realmente por uma boa causa e nunca mais...""Dou duas" Sr. Schnek disse."eu vou pedir mais
nada a vc, eu prometo, se vc só...""VENDIDO pra Stephanie Landry da livraia Courthouse Square Diner" sr. Schnek gritou.E Lauren jogou o seu celular através do
ginásio com tanta força que quando ele bateu na parede perto da porta, ele explodiu em 1000 pedacinhos.
Não existe popularidade imediata.Ninguém se torna popular de uma noite pra outra. Popularidade é uma coisa que se conquista pagando duras penas, como em um clube
social.Então, não cometa o erro de agir como se você fosse melhor que essas outras pessoas, que estão no jogo há mais tempo que você. Eles conquistaram suas popularidades
trabalhando duro e com compromisso e merecem o seu respeito.Uma vez que você ganhar a sua popularidade, eles vão pagar da mesma forma.
Capítulo 23 Quase acabando o 4º dia de popularidadequinta-feira, 31 de agosto, 23:30 hs.Eu realmente não entendo porque todo mundo ficou tão louco.Eu comprei
Mark Finley - bem, seus serviços como um garoto-propaganda para a livraria - pra loja, e isso poderia ser o fim.Eu não sei porque Stan tinha que ligar pra minha
mãe e contar a ela sobre isso, então a primeira coisa que aconteceu assim que eu botei os pés na porta, depois dos Sr e Sra. Taylor me deixarem, foi a minha mãe
gritando que eu era a piada da cidade.Primeiro, Eu vou ser quem estará rindo quando começar a contar todo o dinheiro que a campanha com a imagem de Mark em nossos
anúncios e prateleiras irá trazer.E segundo, Stan deveria cuidar da sua vida."ele disse que você comprou um garoto em algum leilão" minha mão seguia repetindo.
"como você pôde comprar um garoto Stephanie? Como você pôde?".Isso é o que dar assistir Law and Order e tomar muito sorvete. Eu tô falando sério. Isso prejudica
sua mente.Nem Lauren ficou tão louca. Uma vez que o seu choque inicial acabou, e tal. Ela e Mark vieram me dar os parabéns."sua participação vai realmente ajudar
o negócio a vir pra parte central da cidade" eu disse pra Mark. Você sabe, pra deixar claro que eu não comprei ele pra MIM, mas sim pra LOJA. "a abartura do Super
Sav-Mart realmente nos deu um golpe.""Vou ajudar em como eu puder" disse Mark, parecendo como se fosse verdade mesmo.E Lauren tava tipo "Oh Steph, eu não tinha
idéia que a pequena loja dos seus pais estava assim com tantos problemas. Eu vou falar pra todos os meus amigos comprarem lá agora.""Obrigada" eu disse.E eu
juro, que por uns momentos, eu realmente pensei que Lauren Moffat não fosse tão ruim como eu pensava.Mas eu não processei o pensamento porque Becca veio e queria
que eu analizasse porque Jason tinha comprado ela e o que eu achava que aquilo significava e se ela podia ligar pra ele (já que ele foi embora logo depois do sr.
Schneck ter me declarado ganhadora do Mark).Eu falei pra ela que é claro que ela podia ligar pra Jason, e que nada tava diferente - ele era amigo dela antes do
leilão, e continuaria a ser depois."Mas ele deve gostar de mim mais do que como amiga pra gastar todo aquele dinheiro só pra eu não me sentir mal sobre o fato
que mais ninguém, além do meu pai, estava dando lance em mim." Becca disse."Mark fez uma oferta em você" eu lembrei a ela."Ele só fez porque você mandou" Becca
disse praticamente. "Ninguém mandou Jason fazer o que ele fez. Ele deve ter feito isso porque ele acha que eu sou Aquela. Eu vou ligar pra ele assim que eu chegar
em casa. Talvez até dê uma passada e o veja."Eu lembrei que já passava das 10 e os Hollenbachs não iriam apreciar uma "passadinha" tão tarde em uma noite de escola.
Eu juro, às vezes eu acho que Becca foi criada por lobos.De qualquer forma, Mark irá pra livraria amanhã depois da escola pra posar pra algumas fotos de publicidade
e talvez distribuir cartazes no parque ou algo assim.E será uma ótima oportunidade pra ele me conhecer como pessoa, fora dos limites da escola.E fora dos limites
da sua namorada.Porque eu realmente acho, que se ele tiver um tempo pra me conhcer - REALMENTE me conhecer - ele poderia perceber o quanto eu sou mais legal que
Lauren - apesar do que a minha mão acha, que tipos de meninos como Mark só estão interessados em uma coisa, e agora que eu o comprei, ele vai pensar que eu estou
dispostar a dar essa coisa pra ele."Você sabe o porque dele estar saindo com essa orgulhosa da Lauren Moffat" minha mãe disse "Uma única razão: porque ela se abre."Eu
quase comecei a chorar, de tanto que isso foi fofo. Falando sério, me lembrou a pergunta de Kirsten "Mas as pessoas mais populares na sua escola não são as mais
legais?"Eu não acho que existam outras pessoas mais tão fora da real como Kirsten e mamãe.Porque se eu saísse com Mark, eu também me abriria totalmente. Até
o padre iria entender isso.
Cinderela não esperou pelo seu PríncipeUm dos maiores erros que as garotas podem cometer acerca da sua vida romântica é ficar sentada, esperando que o príncipe
as achem, ao invés de sair e procurar por ele elas mesmas.Não esqueça, Cinderela perseguiu o seu príncipe, se vestindo e indo ao baile.Verdade, ela teve a ajuda
de uma fada madrinha - mas ela desclumbrou o príncipe com o seu próprio charme.Então não espere o seu príncipe te achar - vai lá e mostre a ele o que você tem!
Capítulo 24 Sexta-feria, 1º de semtembro, 00:00Eu só estava sentada no balcão do banheiro, olhando para a janela de Jason com o meu binóculo, quando de repente
eu vi Becca - BECCA! - entrando no seu quarto.Dr. Hollenbach tinha que ter deixado ela entrar. Ele sempre teve sua cabeça nas nuvens, pensando sobre coisas de
médico, que nunca poderia ocorrer a ele não deixar uma garota que apareceu 23:30, procurando por seu filho, subir ao quarto de Jason.Eu sei que Becca não poderia
ter ligado antes, porque Jason estava deitado na cama e sem camisa, escrevendo alguma coisa - um poema japonês pra Kirsten, sem dúvida - quando a porta abriu e entrou
a última pessoa no mundo que eu esperava ver passando pela porta do quarto de Jason.Jason se levantou num ímpeto como se ele tivesse percebido que as suas calcinhas
estavam pegando fogo, e procurou por uma camisa.Então Becca começou a falar enquanto Jason estava olhando como se não pudesse acreditar no que estava acontecendo.
Depois de um tempo, ele disse alguma coisa - Eu não tenho idéia do que... Porque eu não fiz leitura labial ao invés de espanhol???? PORQUE???? - e Becca caiu na
sua cama, parecendo depressiva.E foi quando aconteceu. Jason sentou perto dela, botou seu braço ao redor do ombro dela...E ELES TAVAM SE BEIJANDO!Eu não tenho
idéia de quem começou. Eu só vi os seus rostos ficarem perto, perto e...BAM! E eles estavam com os lábios em cima um do outro.E claro, como se ainda não fosse
esquisitisse suficiente, Pete tinha que escolher aquele ótimo momento pra entrar no banheiro reclamando."o que você tá fazendo aqui sentada no escuro de novo?"
ele queria saber."Nada! Deus! Você nunca bate?" Eu gritei por sussurro."Não quando eu não vejo luz embaixo da porta" ele disse. Então, pro meu horror, ele disse
"Oh, espera, eu sei o que você tá fazendo! Você tá espiando o Hawkface""Eu não tô" eu praticamente gritei. Eu só tive que manter a minha voz baixa, pra não acordar
mamãe e papai. "E não conte pra ele!""Porque não? Você espia. Você tá espionando ele. Você tá segurando binóculos! E você pode ver logo no quarto dele --Hey. Aquela
é Becca deitada na cama dele?""SAIA DAQUI" eu queria matá-lo."O que Becca tá fazendo com Hawkface?""Nada. Eles não tão fazendo nada! Viu? Eles tão parados.Pete
e eu ficamos lá e vimos enquanto Jason - a parte de tras da sua cabeça pra janela - disse alguma coisa pra Becca, que pareceu acenar com a cabeça. Tava um pouco
difícil dizer o que tava acontecendo.Mas eu vi Becca se levantar da cama e sair."Uau" disse Pete "eu tenho uma coisa difícil a dizer sobre isso pra ELE no casamento!"Eu
me virei e o belisquei, tanto o suficiente pra fazê-lo latir."você não vai dizer a ele NADA sobre isso" eu sussurrei pra ele. "Porque ele nunca pode saber que
nós estávamos fazendo isso. Espiando ele desse jeito.""porque não?" Pete queria saber. "você começou""eu não estava o espiando" Eu insisti. "Eu tava... meditando""claro"
Pete disse. e saiu do banheiro "o que você disser, Crazytop"Ele gritou tão alto quando eu o belisquei por me chamar de Crazytop queele acordou papai, que perguntou
dormindo da sua cama, "o que tá acontecendo aí?""nada" eu respondi docemente "boa noite!"Eu posso acreditar nisso. Becca e Jason? Eu quero dizer, eu sei que
ela tem uma queda por ele, e tudo. Mas eu não tinha idéia que ele sentia a mesma coisa por ELA! Mas eu acho que eu devia saber, vendo como ele a comprou hoje a noite.Espere.
Jason e Becca?O mundo tá completamente insano!
Se tornando irresistível pra um homemComo você pode fazer isso? é simples: fazendo o que você ama.Pode parecer maluquice, mas é totalmente verdade: se você faz
o que você ama - se é pintar, dançar, ler ou colecionar selos - vc será feliz, e homens, como o resto da sociedade, não resistem a uma pessoa feliz.Não esqueça
- garotos também podem ser tímidos.E uma feliz, sorridente garota é mais fácil de se aproximar do que uma carrancuda ou distante.
Capítulo 25 Ainda dia 5 de popularidadeSexta-feira, 1 de setembro, 9:00 hs.Ela não disse uma palavra no carro sobre o que aconteceu.Uma simples palavra.Eu
não posso acreditar que ela e Jason têm um segredo do qual eu não sei. Eu quero dizer, que seria pra eu não saber.Isso significa alguma coisa? O fato que ela não
me contou sobre o beijo? Eu quero dizer, o fato de nós estarmos no Cadillac do pai dela de novo, e não na BMW de Jason, tem de significar algo. Se ela e Jason tão
tendo um rolo, ele não deveria oferecer carona a ela esta manhã?Tem que significar que foi só um beijo de compaixão. Becca provavelmente confessou seus verdadeiros
sentimentos por Jason, e ele disse a ela que seu coração ainda pertence a Kirsten. Ou ele deu a ele aquele discurso de alma-gêmea na escola de novo.Deve ser por
isso que ela não disse nada.A menos que signifique o OPOSTO. Que o bjo foi tão especial e secreto que Becca quer guardá-lo só pra ela - pertencendo só a ela, como
o meu segredo sobre ter vestido a cueca do batmam de Jason uma vez?E a razão que o seu pai está nos levando, e não Jason, é porque eles dois estão esperando a
hora certa pra me contar - a verdade sobre o seu caso de amor, eu quero dizer.A verdadeira questão é, Porque eu tô ligando? Eu não gosto de Jason. Desse jeito.
Becca pode ficar com ele. Meu Deus. EU TENHO MARK FINLEY POR UM DIA.Eu tenho que me acalmar.Claro, o fato de Mark ter me olhado de um jeito engraçado quando
eu tava fechando a minha gaveta essa manha nãp ajudou em nada. Ele tava tipo "Oi, Steph - o que aconteceu com seu cabelo?"Foi quando eu percebi que eu esqueci
de alisá-lo hoje de manha.Mas sério, tem tanto drama que uma garota pode carregar. Eu ainda tava em estado de choque sobre Jason e Becca. E não é uma maravilha
eu ter esquecido de alisar o meu cabelo e agora ele estar cacheando por todas as partes?Exceto que naturalmente eu não podia dizer isso a Mark. Eu não poderia
ficar tipo "Oh, eu acordei Crazytop porque noite passada enquanto eu tava espiando o meu vizinho eu vi os meus 2 melhores amigos se beijando"Então eu só disse
"Bem, tentando novo visual""Bem" Mark disse " Tá... Interessante. Entao beleza pra você se eu chegar na loja umas 18:00? Porque eu tenho que treinar depois da
escola."Totalmente" eu disse. "Perfeito. te vejo lá"Mark levantou suas sobrancelhas "Almoço. Te vejo no almoço""Isso!" eu disse "desculpe. Almoço""E, sobre
a noite de ontem"Ontem à noite? Como ELE sabe sobre ontem à noite? Ele também viu Jason e Becca se beijando?"O leilão" Mark disse, Eu acho que foi porque eu
olhei um pouco confusa."ah, claro" eu disse com uma risada. "O leilão. Isso!""Sim. Eu ouvi que a gente arrecadou 7 mil dólares."" 7.923,00" eu o corrigi. Isso
é como eu sou."Certo", Mark disse com o seu tradiconal olhar . "7.923. Eu só queria dizer obrigado. Eu quero dizer, é mais dinheiro que a classe sênior arrecadou
durante todo o ano passado, e nós só estamos na 1 semana de aula."Deus. Era verdade que era só a 1 semana de aula? Parecia que tinha SÉCULOS desde a primeira vez
que eu andei pelo corredor com as minhas meias três-quartos azuis e disse oi pra Mark como se eu fosse uma pessoa de verdade, não a escória social que eu costumava
ser."E eu devo tudo a você". Mark continuou. "realmente. Obrigado, Stphanie".Entao ele abaixou e me beijou na testa.Logo quando Alyssia Krueger passou correndo
pra o banheiro das garotas pra reparar a mancha embaixo dos seus olhos, já q ela parecia ter chorado..de novo.É engraçado, mas teve um tempo que eu pensei que
quando Mark Finley me beijasse - mesmo que na testa - eu poderia ter o meu coração explodido.Mas hoje quando de fato aconteceu, eu só tava tipo... Tanto faz.O
que tá acontecendo comigo?Eu imagino se Jason e Becca usaram a língua.
CUIDADOPreocupação demais em ser popular, pode te fazer impopular.Não esqueça - todo mundo quer tá na "classe dos populares". Mas a verdade é que se você passar
o tempo todo se preocupando em ser popular, ao invés de curtir a vida e seus amigos, você vai estar perdendo toda a alegria. Mais, ninguém quer sair com uma neurótica.Então
não se preocupe tanto em ser popular. É mais importante ser feliz.
Capítulo 26
AINDA DIA CINCO DE POPULARIDADESEXTA-FEIRA, 1 DE SETEMBRO, 1 DA TARDE,Bem. Aconteceu. Eles me advertiram, mas eu não acreditei neles.Eu não pude enfrentar o
almoço hoje. Eu não sei por que. Eu só... eu não pude fazer isto. Não era nada contra Darlene. Era mais... veja, eu tinha medo que se eu sentasse lá e Becca não
aparecesse,
eu saberia que ela estava com Jason e que era verdade, sobre eles serem um par agora.E que me fez sentir como se eu fosse vomitar, por alguma razão.Assim eu
agarrei uma barrinha de cereais e um pouco de refrigerante diet das máquinas pelo ginásio, e fui para a biblioteca, já que estava muito chuvoso para comer lá fora.
Além, eu pensei ninguém que eu conhecia era perdedor o bastante para estar comendo na biblioteca, assim eu estaria segura.Eu estava errada.Porque sentada lá,
onde eu tinha ido sentar, na mesa de estudos, na seção de biografias, onde ninguém vai, estava Alyssa Krueger.Eu ia saindo furtivamente quieta, mas ela me viu.E
abaixou a própria barrinha de cereais dela e disse, "Bem, se não é Steph Landry," em uma voz muito hostil.Ela nem mesmo teve a preocupação de sussurrar. Isso é
porque ninguém entra na Biblioteca de Bloomville, inclusive os bibliotecários, que sempre estão no escritório da parte de trás desde que eles nunca, na verdade,
têm qualquer cliente, ao menos um professor de inglês que precise aprender sobre o sistema decimal de Dewey, ou qualquer outra coisa."Olha, Alyssa," eu disse,
enquanto tentando me lembrar do conselho d' O Livro em como lidar com inimigos. Empatia. Estava em toda parte empatia. "Não há nada que me culpe pelo o que aconteceu
entre você e Lauren. Você não deveria ter escrito aquela nota sobre mim.""Lauren escreveu aquilo," Alyssa disse amargamente."Eu sei que foi Lauren que escreveu
aquilo," eu disse. "Você não deveria ter levado a culpa por isto. Você deveria ter contado para o Mark a verdade.""Oh, certo," Alyssa disse, parecendo incrédula.
"E então Lauren e eu poderíamos estar comendo aqui, em vez do refeitório."Eu tirei uma cadeira de uma mesa de estudos vizinha e me sentei."Em primeiro lugar,
se ela realmente fosse sua amiga," eu disse, "ela estaria agora aqui com você."Os olhos de Alyssa se encheram de lágrimas. "Eu sei," ela disse com um soluço. "Você
pensa que eu não sei disso? Ela é uma cadela." Alyssa jogou no chão a barrinha dela, incapaz de comer qualquer coisa mais. "O que eu estou lhe contando? Você sabe.
Você foi um recipiente diário do show de cadela dela no passado - quanto tempo faz agora agora? Desde que você derramou aquela bebida nela?""Quase cinco anos,"
eu disse."Certo. E agora olha para você."Eu olhei para mim. Eu estava usando um par de meus esbelto-ajuste e um jogo de suéteres, porque estava chovendo todo
o dia e coisas frescas são boas... só a tempo para Vovô e Kitty estarem se casando amanhã. Eu tinha conferido o Canal do Tempo de manhã e foi dito para que todos
ficassem
aliviados, pois estaria fazendo céu claro durante o sábado."Não o que você tem," Alyssa disse desdenhosamente. "Sua posição social. Eu quero dizer, eu vi Mark
Finley te beijar esta manhã."Eu levei uma mordida da minha própria barrinha. "Sim," eu disse. "Na testa. Grande coisa.""Ele gosta de você, entretanto," Alyssa
disse. "Seriamente. Ele contou para Lauren. Ele disse que você é boa."Ela disse isto como se isto fosse uma palavra suja."Eu sou agradável," eu disse. Então
eu me lembrei de todas as vezes que eu tinha assistido o Jason se despido por minha Bazooka Joe binóculos. E o açúcar que eu tinha borrifado no cabelo de Lauren.
"Bem, a maioria do tempo, de qualquer maneira.""Eu sei," Alyssa disse. "Isso é por que Lauren está caindo fora. Porque você está fazendo ela parecer ruim. Em frente
a Mark.""Lauren está se fazendo de ruim em frente a Mark," eu a corrigi."E então quando você fez aquela coisa ontem à noite, onde você deu o lance por ele -
eu quero dizer, o patrocínio dele, para sua livraria, de qualque maneira. Eu a ouvi depois, conversando com as meninas no quarto. Ela estava espumando pela a boca,
ela estava tão furiosa. Ela disse que ela vai ganhá-lo, você sabe."Eu dei outra mordida em minha barrinha de cereais. "Oh, certo," eu disse de boca cheia, embora
O Livro diga que modos ruins podem a impedir de ficar popular. "O que, possivelmente, ela pode fazer a mim que já não tenha feito?""Eu não sei," Alyssa disse,
os olhos dela estavam com as bordas vermelhas e imóveis. "Mas eu cairia fora se eu fosse você. Porque eu era a melhor amiga dela, e olha o que ela fez a mim.""Alyssa,"
eu disse. "Você só está nesta posição porque você a DEIXOU fazer isto com você. Se você se levantasse e lutasse com ela - se todo o mundo nesta escola só se levantasse
e lutasse contra ela -""Você está louca," Alyssa disse, enquanto enrolava os restos do almoço dela em uma pequena bola apertada, e se levantava. "Você sabe de
uma coisa, Steph? Ninguém resiste a Lauren Moffat. Nem mesmo você.""Com licença," eu disse, enquanto engolia. "O que você pensa que eu tenho feito toda a semana?""Isso
não está abalando ela," Alyssa disse. "Isso só está fazendo com que ela veja melhor o jogo. E você sabe do que mais? Você vai perder. Porque ela vai achar um modo
- alguma mancha vulnerável que nem você faz idéia de que tem - o pegar, e lhe fazer passar vergonha em frente a todos estes seus novos amigos. E então você vai voltar
em breve aonde você começou. Guarde minhas palavras."E com isso, Alyssa saiu.Eu pensei o tempo todo no que ela tinha dito, enquanto terminava minha barrinha
de cereais. Mas a verdade era, eu só não pude ver o que estava contecendo. Lauren achará algum modo de puxar o tapete da popularidade para debaixo de mim, eu quero
dizer. Porque não havia qualquer arma que ela pudesse usar contra mim. De qualquer forma, eu tinha a mão superior.Porque agora eu sabia que o Mark gostava de mim.E
Lauren estava chateada com isso.Eu estava me sentindo contente comigo mesma quando eu terminei meu almoço, me levantei e fui...Até que eu notei quem estava sentado
em uma terceira mesa de estudo, não dez pés longe de mim."O que você está fazendo aqui?" eu exigi."Tentando conseguir alguma paz e me aquietar," o Jason disse.
"E, escute, eu vim para o lugar errado.""Por que você não foi sentar em seu carro?" eu perguntei.Jason fez uma careta. "Porque todo o mundo sabe que eles podem
me achar lá."Eu tentei não me deixar pensar que por "todo o mundo" ele quis dizer Becca, e que ele estava a evitando. Em primeiro lugar porque eu não me preocupei.
E, por outro lado, porque não fazia absolutamente nenhum sentido que eu estivesse tão contente por ele estar tentando evitar Becca."Ela tem razão, você sabe,"
o Jason disse, enquanto acenando com a cabeça na direção que Alyssa tinham ido embora. "Sobre Lauren. Ela vai achar algum modo para se vingar de você por ter comprar
o namorado dela.""Oh, por favor," eu disse. "Como se eu estivesse assustada.""Você deveria está," o Jason disse. "Ela poderia fazer sua vida bem desagradável."Eu
só o encarei. "Jason, o que tem sido estes últimos cinco anos? O que, possivelmente, ela pode fazer a mim que ela já não tenha feito?""Isso é o que eu não entendo,"
o Jason disse, enquanto estendia um pouco de salgadinhos para mim (o qual eu recusei), "por que você quer ser como ela.""Eu não quero," eu disse.A careta de
Jason afundou. "Então o que está acontecendo? Toda esta... coisa esta semana?""Eu só quero ser popular," eu disse."Por que?"A parte engraçada era, ele perguntou
isto como se ele genuinamente não entendesse."Porque, Jason," eu disse, nem mesmo acreditando totalmente que eu tinha que explicar isto, "minha vida inteira -
bem, todo o sexto grau, de qualquer maneira - eu estive em baixo. E agora é minha vez de dar a volta por cima.""Sim, mas" - o Jason mastigou um Funyun - "o que
é tão bom sobre isso? Você nem pode ser você mesma.""Sim, eu posso," eu disse."Oh, certo. Porque faz isso regularmente com seu cabelo."Eu elevei uma sobrancelha
a ele, e ele disse, "Bem, certo, hoje você foi toda Crazytop. Mas eu quero dizer o resto desta semana - o que leva você, a perder meia hora diariamente para conseguir
isso? Por que você quer um grupo de amigos que só ficarão com você se estiver com o cabelo direito? O que há de tão errado com seus velhos amigos que a amavam do
modo que você era?""Nada," eu disse. Eu não pude acreditar que eu estava tendo esta conversa. "Mas o que há de tão errado com querer ter outros amigos além de
só você e Becca?""Nada," ele admitiu. "Mas Lauren Moffat? Ou é só o namorado dela que você está tentando roubar?""Eu não estou tentando roubá-lo," eu disse,
enquanto me sentindo corar."Oh, você não está? Você gastou mil dólares de seu duramente-ganho dinheiro nele, por nenhuma razão?""Não," eu disse, enquanto me
esquecendo de limitar minha entrada de gordura saturada e alcançando o pacote dele de salgadinhos, na sua escrivaninha. "Você sabe por que eu fiz isso. Trazer negócio
para a loja.""Oh, seguramente. E você não está encantado com ele.""Certo. Igual você está encantado com Becca."Até mesmo como as palavras estavam saindo de
minha boca, eu estava desejando colocá-las de volta. Mas já era muito tarde. Eles já estavam fora."Becca?" o Jason fez uma cara bem engraçada quando ele disse
o nome, para alguém que, só doze horas atrás, tinha a estado beijando. "Desde quando eu estou encantado com Becca?""Bem, você a comprou," eu mostrei. Considerando
que eu não podia mencionar que eu tinha visto o beijo."Claro que eu a comprei," o Jason disse. "Que mais eu poderia fazer? Desde que ela estava de pé lá em cima
e estava sendo humilhada, porque só o pai dela estava dando lances por ela? Eu não podia deixar Mark Finley a comprar.""O que há de errado com Mark Finley?" eu
exigi. "Ele é um sujeito realmente agradável.""Claro" Jason disse com desdenho "se você gosta de clones mentalmente deficientes que só fazem o que suas namoradas
- ou você - os manda fazer.""Mark não é assim. Ele...""Tanto faz, Steph" Jason disse, se levantando. "Você sabe, Alyssa é um ogro de burra, mas ela está certa
sobre uma coisa. A única coisa que você vai conseguir ficando perto dos tipos como Lauren Moffat e seus namorados de ouro é se queimar. E eu só espero que quando
isso acontecer, Eu esteja lá para ver isso"A pior parte disso tudo é, quando isso aconteceu?Ele estava lá.
Você é confiável?Pessoas gostam de pessoas com as quais elas possam contar.Você está lá para seus amigos quando eles precisam de uma mãozinha, ou talvez só um
ombro alheio para chorar?Você paga seus empréstimos no tempo certo (de preferência no dia seguinte)?Você honra todas as suas obrigações e promessas?Essas são
qualidades de uma pessoa popular.
Capítulo 27
Isso aconteceu logo após nós sairmos da biblioteca. Bem, não "nós" exatamente, desde que eu e Jason não estávamos saindo da biblioteca juntos. Ele estava bem na
frente, suas longas pernas facilmente me ultrapassavam.Mas ele viu quem estava esperando por mim perto da porta, então ele diminuiu o passo para assistir o show.Legal
da parte dele, não?Porque a gangue inteira estava lá. Lauren. Mark. Todd. Darlene. O cortejo de Darlene. Bebe. Todos menos Alyssa Krueger.Mas nada a se preocupar.
Eu vi ela perto do bebedouro, pretendendo reencher sua garrafa de água, mas realmente assistindo o que estava para acontecer."Ah, ai está ela." Lauren choramingou
assim que eu sai pelas portas da biblioteca, tentando entender o que estava acontecendo. "Deus Steph, a gente estava procurando você por toda a parte.""Yeah, porque
você não foi ao refeitório para o almoço?"Darlene quis saber. Ela, pelo menos parecia que realmente sentia minha falta."Uh, eu tinha que estudar umas coisas..."
Eu disse me lamentando "tenho prova de química daqui a pouco.""Que saco" Darlene disse simpática.Lauren foi a única que foi direto ao ponto "Essa cara aqui"
segurando a primeira pagina da Gazzeta de Bloomville "Ele não é o seu avô?"Eu olhei a foto de vovô com os braços abertos para a cúpula do observatório. Eu não
podia imaginar o que Lauren queria com aquilo."Hum" eu disse "Sim""Ele construiu isso?" Lauren perguntou, levantando outra foto que ficava dentro do artigo,
do lado de fora do observatório. "Certo?""Bem-" Eu disse "Sim, digo, ele construiu isso. Ele está doando para a cidade-""Mas ele ainda não o fez, ainda" Lauren
disse "não está aberto ao publico ainda, certo?""Certo" eu disse "não até semana que vem.""Então está vazio?" Lauren quis saber."Yeah" eu disse "quer dizer,
tem um trabalhador lá-""Durante o dia""Certo""Mas está vazio durante a noite""Sim" eu disse "Por quê?""Viram?" Lauren olhou triunfante para Mark "Eu te
disse. É perfeito""Perfeito para o que?" eu perguntei, logo que o sinal de termino do recreio havia batido."Para o racha de Todd hoje a noite" Lauren disse "Normalmente
a gente faz isso na pedreira, mas vai chover durante o dia inteiro e durante a noite. Ele ia cancelar isso, mas ai eu lembrei que seu avô era o cara que estava construindo
o novo observatório, e que não estava aberto ainda, então você poderia deixar a gente usar lá.""Você pode deixar, né?" Todd disse animado. "digo, eu sei que provavelmente
está trancado. Mas você tem a chave, o código ou sei lá o que certo?""Bem" eu disse "Digo, sim, mas-""Viu?" Lauren piscou para Mark. "Eu te disse! Steph você
é a melhor!""Mas" eu disse. Isso não estava acontecendo. Nenhuma maneira disso estar acontecendo. "De quantas pessoas vocês estão falando?""Só cem" Todd disse.
"Os tops, talvez uma dúzia a mais. Mas sério Steph, meus rachas são exclusivos - convidados apenas. Bem, a gente coloca alguém na entrada, e mantém um olho nos tiras,
esses tipo de trabalho. Vai provavelmente chover durante toda noite, então não vai ter gente na colina ou na Rua Principal, ou em lugar algum. Eu juro, ninguém vai
saber que nós estamos lá. Tudo que você precisa fazer é abrir a porta pra gente por volta dás 22h. Só isso."Eu pensei nas paredes brancas e no piso brilhante do
observatório. Eu pensei no pódio do telescópio principal e suas colunas em volta, no hall e no deck.Então eu pensei em todas as imagens de festas de adolescente
que eu já havia visto na TV e nos filmes (desde que eu nunca estive em uma).E com isso eu disse "Eu realmente acho que isso não-""Ah, fala sério Steph" Mark
disse olhando pra mim com seus olhos avelã "A gente será cuidadoso. Você não ira ser presa. E se você for, a gente paga sua fiança. Eu juro""Tudo bem" eu me ouvi
murmurrar."Yeah!" Todd disse, e ele e Mark fitaram um ao outro. Lauren parecia contente, e Darlene disse, "Espera, assim...isso significa que nós teremos aceso a
festa afinal de contas?""Festa é aqui , baby," Todd disse, e tentou pôr o braço dele ao redor da cintura de Darlene, mas ela pisou rapidamente fora, enquanto dizendo,
"Oh, bom, eu posso usar minhas novas calças de camurça.""Você é a melhor," Lauren disse a mim. "Eu sabia que nós poderíamos contar com você, Steph."Então o segundo
sino tocou, e todo mundo se foi.Todo mundo menos Jason, que dizer.Que olhou para mim e disse, "eu sabia que nós poderíamos contar com você, Steph."Mas em um
tom completamente diferente da voz em que Lauren tinha dito isto.E então foi embora.
As pessoas Populares sabem ganhar.O modo mais fácil para ganhar um argumento é evitar um, em primeiro lugar. Você pode fazer isto mostrando respeito pela opinião
dos outros, até mesmo se você pensa que eles estão errados. Nunca diga, "Você está errado." (E se acontecer de você está errado, admita depressa!)É melhor deixar
os outros falarem mais. Os deixe pensar que sua idéia era, de fato, deles.Os melhores negociadores tentam ver as coisas do ponto de vista de outras pessoas e expressar
honestamente suas idéias, opiniões e desejos.
Capítulo 28 AINDA DIA CINCO DE POPULARIDADESEXTA-FEIRA, 1 DE SETEMBRO, 4 DA TARDE,Eu não posso acreditar que isto está acontecendo.Seriamente. O que eu vou
fazer?Eu não os posso deixar fazerem isto. Terem o racha deles no observatório de Vovô, eu quero dizer. Porque se eu não fizer, eles vão me odiar. Tudo para o
que eu trabalhei, tudo o que eu planejei, toda minha nova popularidade - ir embora. Vai tudo desaparecer, simplesmente assim. Eu terei tirado o Steph Landry maior
na história de Greene County.Mas eu não os posso deixar arruinarem tudo para o que o Vovô trabalhou tão duro.Porque eles arruinarão isto. Eu não me preocupo
com o que o Todd disse. Aquele observatório está cheio de equipamentos super-sensíveis. Você não pode ter cem adolescentes dançando - sem mencionar um DJ - na coberta
de observação e não ter instrumentos delicados empurrados ou, até mesmo, destruídos.Eu não posso deixar eles fazerem isto. Eu não posso deixar eles desordenarem
o presente de casamento de Vovô para Kitty.Mas eu não posso bancar uma de Steph Landry.O QUE EU VOU FAZER?Mãmãe só perguntou, "o que é que há com você? Você
está assim desde que chegou aqui." Aqui é a loja. Considerando que eu estou vendo aqui o Mark tirar as fotos para os anúncios da loja, que ele concordou serem feitas
aqui dentro."Não é nada," eu disse. "Tudo bem."E se o Jason me denunciar?Eu lhe perguntei se ele ia fazer isso. Eu esperei por ele depois de escola, no lote
do estacionamento dos estudantes. Ele veio, correndo rapidamente, ele era praticamente um borrão. Eu não sei de quem ele estava se escondendo, mas eu não penso que
era de mim, porque quando eu chamei o nome dele, e ele se virou e viu que era eu, ele olhou aliviado.Embora o tempo inteiro em que nós estávamos conversando, o
olhar dele estava arremessando ao redor, como se ele estivesse procurando alguém."Isso o que?" ele disse de uma maneira totalmente não-amigável."Eu só preciso
saber," eu disse. "Você vai contar?" "Não é da minha conta," o Jason disse. "Eu não fui convidado, lembra "Eu sei," eu disse. Eu não o aborreci por ter lhe falado
que ele foi convidado. Ele não viria, de qualquer maneira. "Mas você vai tentar parar isto?""Você sabe do que, Steph?" o Jason disse. "Você fez isto muito claramente
esta última semana, que você toma suas próprias decisões, e não precisa da ajuda de ninguém - ou opiniões. Você tem ido tão bem sem mim. Assim, por que eu deveria
interferir agora?"Eu sentia um pequeno alívio em meu ombro esquerdo."Assim... você não vai contar?""Eu não vou contar," o Jason disse. "Eu vou confiar que você
tomará a decisão certa. Desde que conseguem te convencer assim facilmente, de qualquer maneira."Eu o encarei. "Se eu não deixo eles terem esta festa," eu disse,
"eles vão me odiar.""Sim," o Jason disse. "Eles vão.""Mas se eu os deixo ter esta festa," eu disse. "Você me odiará. Se já não me odeia.""Supondo isso" Jason
disse "Também supondo que você liga pros meu sentimentos em relação a você.""Eu ligo" Eu disse, replicando a acusação de que eu não me importava.Mas eu não acho
que Jason me ouviu, porque naquele momento ele viu algo por cima da minha cabeça que o deixou pálido, e ele disse "Te vejo."E então ele correu pro O B.Mas quando
eu virei para olhar, tudo que eu vi foi Becca e se amigo Stuckey saindo da escola."Não era Jason com quem você acabou de falar?" Becca quis saber quando ela me
alcançou."Yeah" eu disse. Claramente, o que quer que tenha acontecido entre ele noite passada, tudo não era vinho e flores hoje. Era obvio que Jason estava fazendo
tudo que ele podia pra evitar Becca.Só porque? Digo, porque, se ele a comprou - e a beijou?Mas eu não queria machucar o sentimentos dela. Então eu disse, "ele
tem uns negócios pra fazer. Para o casamento""Oh" Becca disse. "Stuckey está me dando uma carona para casa. Quer ir com a gente?"Eu disse que sim. Eu não estava
muito animada pra ouvir sobre os testes e os triunfos do Indiana Hoosiers time de basquete. Mas isso parecia melhor que ônibus.E surpreendentemente, Stuckey estava
apto a conversar sobre um ou mais assuntos que não fossem relacionados a basquete, incluindo recortes e colagens (claramente ele vem passando muito tempo com Becca)
e o racha no observatório do vovô hoje à noite."Você sabe que eles estão planejando fazer isso lá, Steph?" Stuckey quis saber. "Porque eu não posso imaginar que
você não saiba e não está, você sabe, tentando pará-los. Eu ouvi sobre os rachas de Todd. Ele vez um em uma das casas de um menino ano passado, enquanto os pais
do menino estavam em Aruba, e eles causaram dez mil dólares de danos. Alguém colocou fogo no carpete da sala de estar. Com gasolina. Eles escreveram os nomes deles
com chamas.""Oh, Steph nunca iria os deixar fazerem algo desse tipo com o observatório do avô dela." Becca disse conscientemente. "Você deve ter ouvindo errado,
John"É engraçado, mas eu nunca pude sequer imaginar que Stuckey TINHA um nome, nem imaginava que era John.Tanto faz.De qualquer jeito, só tem uma coisa que
eu posso fazer. Levou-me um tempo para eu descobrir como. Mas tem UM jeito de evitar essa festa E continuar minha popularidade.Infelizmente, isso não vai ser fácil.Mas
eu acho que eu já aprendi bastante d'O Livro pra por isso em pratica.É claro, boa parte disso depende de Mark...Mas isso está tudo certo. Porque Jason está totalmente
errado sobre ele.E Mark vai fazer tudo dar certo. Eu sei isso.
Uma pessoa popular pode mudar a mente de qualquer um sobre qualquer coisa.Logo abaixo como fazer isso:• Começando a elogiar as pessoas. Gente gosta de ouvir
coisas boas sobre elas.• Falar sobre seus próprios erros. Mencione que você sabe que ninguém é perfeito, nem mesmo você.• Com sutileza repare nos erros das pessoas.•
Dê a pessoa chance de explicar/salvar a cara dela.• Preze ele por reconhecer o erro. E então dê sugestões de como ele/ela pode fazer melhor na próxima vez, tendo
certeza que ele/ela é que terá a solução.• Encoraje. Faça o erro parecer fácil de corrigir.• Faça a pessoa se sentir feliz fazendo a coisa que você sugeriu.Problema
resolvido!
Capítulo 29 AINDA DIA 5 DE POPULARIDADESEXTA, 1 DE SETEMBRO, 20h00minMark apareceu às seis no ponto. Exatamente aonde ele disse que iria. Seu cabelo ainda estava
molhado por causa da chuveirada após o treino - e possivelmente por toda chuva que estava chovendo do lado de fora.Mas isso não importa. Ele está gostoso, como
sempre."Hey" ele disse quando eu sai de trás do balcão da máquina registradora. Ele estava pingando no carpete de borracha do alfabeto. Mas foi difícil reparar
nisso quando eu olhei para seus olhos castanho esverdeado. "Como isso está indo?""Ótimo" eu disse "Mark, essa é minha mãe"Minha mãe, que esperou bastante tempo
pra conhecer Mark, esqueceu o fato que seus joelhos estavam matando ela e papai tinha passado o dia inteiro fazendo o seu mundialmente famoso (bem, no condado Greene,
de qualquer jeito) chilli para o jantar, parou ao lado e cumprimentou Mark."Olá Mark, é bom conhecer você," Mamãe disse "Muito obrigado por concordar em fazer
isso. Você não sabe o quanto isso significa para Steph. Digo, para mim! Digo, para a loja!"Mark riu com minha mãe. Foi meio que gratificante saber que ele envergonhou
uma mulher de mais de 30 - até mesmo uma que estava grávida de oito meses do seu sexto filho - do mesmo jeito que ele fazia com sua filha de 16."É meu prazer."
Mark disse "bom te conhecer, também."Deixando eu fazer minha própria coisa - pela primeira vez - Mamãe pegou seu guarda-chuva e disse tchau."O tempo estando
desse jeito," ela disse, observando os pingos de chuva na janela "vocês não serão incomodados por muitos clientes. E Darren está nos fundos dando uma pausa. Só grite
se você precisar de alguma coisa"."Eu vou" Eu a assegurei. E não perdi o movimento dos seus lábios dizendo você está certa. Ele é realmente bonito quando ela saiu.Graças
a deus Mark estava olhando uma copia da Sports Ilustraded na prateleiras de revistas no momento, e não percebeu.Eu tinha a câmera digital da família pronta pra
bater, então eu não gastaria nenhum tempo dele. "Eu ia tirar as suas fotos do lado de fora, mas com a chuva e tudo, você se importar em só sentar nas cadeiras da
parte de ficção cientifica?" Eu perguntei.Mark disse "Sem problemas" e me seguiu.Eu tinha ele sentado no encosto da velha poltrona de couro segurando uma copia
do último livro de capa dura do John Grisham em suas mãos."Isso vai ficar bom" Eu disse "Vai ser tipo, 'quando ele não está liderando o Bloomville Fish para o
estadual, você pode encontrar Mark Finely relaxando na Courthouse Square Books"Mark sorriu modestamente. "Bem, se eu realmente puder liderar a gente até as finais,
você quer dizer.""Oh, você irá" Eu disse e comecei a tirar fotos "levante o seu queixo só um pouco. Ótimo. Você pode fazer qualquer coisa que vier a sua cabeça.
Você é esse tipo de pessoa.""Bem" Mark disse sorrindo um pouco mais de uma maneira geral "Eu não sei sobre isso""É verdade" eu disse "Você é realmente incrível.
Não só no campo, mas fora dele também.""Fala sério" Mark disse rolando seus olhos. Mas ainda sorrindo."Fala sério, você" Eu disse "Você sabe que é verdade. Eu
queria poder ser um pouco mais como você.""oh, não" Mark disse. "você também é mt boa. Ninguém mais em toda a história do colégio achou um modo de ganhar tanto
dinheiro como você em soh uma noite.""Oh, eu sou boa com coisas de dinheiro" Eu disse passando com a câmera."mas eu não sou tao boa com as pessoas. Sua namorada,
por exemplo. Ei, você poderia passar uma perna pelo braço da cadeira? Sim, tipo assim, chique e casual.""Lauren?" Mark tinha parado de sorrir."É, Lauren. Você
provavelmente não sabia disso, mas ela me odiou por anos"."Sem chance" Mark disse. Mark tava sorrindo de novo. "Lauren acha você legal. Ela até me falou que vocês
costumavam brincar de barbie quando vocês eram pequenas.""Ela te disse isso?" Eu esqueci de tirar fotos por um segundo. " Ela falou sobre o Super Big Gulp?""Eu
posso ter ouvido sobre isso uma ou duas vezes" Mark disse. Agora ele parecia um pouco desconfotável "Mas isso foi há muito tempo atrás, certo? Eu sei que Lauren
- e todo mundo - tá muito contente de você ter nos deixado fazer a festa na construção do seu avô"."É" eu disse. "Olhe, porque você não pega alguma coisa no balcão,
como se você tivesse comprando algo. Ok?""legal" Mark disse, e se levantou, me dando uma perfeita visão da sua bunda na sua calça desbotada e confortável."é
isso" eu disse engolindo em seco "sobre isso. A festa, eu quero dizer.""É tão legal você ter deixado a gente fazer a festa no observatório" Mark disse parando
no balcão com uma mão no queixo. Tava óbvio que com a sua desenvoltura em frente às cameras ela já tinha feito aquilo antes. A mão no queixo parecia uma coisa do
catálogo da Sears. Mas eu não queria falar nada."você realmente salvou as nossas cabeças, de novo.""Certo" eu disse. "Mas essa coisa com Lauren-""Que coisa
com Lauren?""Essa coisa entre ela e eu-""É o que eu continuo tentando te falar" Mark disse com uma risada. "Não tem nada. Eu quero dizer, não por Lauren. Ela
totalmente gosta de você, Steph. Você viu como ela rompeu com Alyssia porque ela tinha te mandado aquele bilhete. Se ela não gostasse de você, porque ela iria brigar
com a melhor amiga dela?"Para continuar com você, eu queria dizer. Mas invés disso, eu disse, "Eu acho que é um pouco mais complicado que isso. E eu estou com
medo que -""Espere" Mark congelou, um cotovelo na balcão, e uma mão nos quadris. "Eu sei sobre o que é isso."Eu olhei fixadamente para ele surpresa. "Você...
sabe?""Sim".E foi quando ele o fez. Ele alcançou e segurou a minha mão - a que eu não estava segurando a câmera - e me puxou até ele. E realmente não entendi
oque iria acontecer até que eu estava duas polegadas longe dele, e ele colocou seu dedo sobre meu queixo para levantar o meu rosto para que assim eu ficasse olhando
ele nos olhos."Você está com medo," Mark disse, sorrindo para mim - esse sorriso forçado que fez meu coração doer todas as vezes que eu havia olhado, "de que as
pessoas estraguem o lugar do seu avô hoje à noite.""Bem," eu disse. Graças a Deus. Ele finalmente percebeu. Sem que eu tivesse que falar para ele."Sim. Na verdade,
eu estava esperando que você talvez pudesse falar com a Lauren e com todos e ajudá-los a entender que eu realmente não posso -"."Deus, você é tão legal.""Hum,"
eu disse. Se só ele soubesse a verdade. "Não muito. Então você acha que talvez -"Mas antes que eu pudesse dizer outra palavra, Mark se inclinou para baixo e pôs
sua boca sobre a minha.Isso mesmo. Mark Finley estava me beijando.Na boca, dessa vez.Eu não tinha nenhuma idéia de não beijar também. Eu estava tão surpresa,
que não sabia o que fazer.Não é como se eu tivesse muita experiência em beijos, eu nunca fui beijada antes. Eu só fiquei lá, deixando ele me beijar, ciente do
som do trânsito e da chuva lá fora, e do gosto dos seus lábios - como ChapStick - e do calor do seu corpo.Mark Finley estava me beijando. Foi isso que ficou passando
na minha mente todo o tempo. Mark Finley está me beijando. Eu sei que quando você recebe um beijo, supostamente deveriam aparecer fogos de artifício, ou alguma coisa
dentro da sua cabeça. Você é supostamente para ouvir sinos dos anjos, e passarinhos cantando, como nos desenhos quando alguém é espancado na cabeça com uma panela
de fritar.Então eu mantive meus olhos fechados e realmente tentei ver fogos de artifício e ouvir o canto de passarinhos. Mark Finley estava me beijando. MARK FINLEY
ESTAVA ME BEIJANDO.E eu vi eles. E escutei eles. Eu sempre.Finalmente Mark levantou sua cabeça. Olhando para mim com seus olhos metade escondidos por seus cílios
marrons, ele disse com uma voz profunda, "Deus, você é fofa. Alguém já te falou sobre como você é fofa?"Eu chacoalhei minha cabeça. Eu não achei que eu conseguiria
falar se eu tentasse. Tudo que eu podia pensar era. Mark me beijou. Mark Finley acha que eu sou fofa.MARK FINLEY ACHA QUE EU SOU FOFA."Eu acho que não," ele disse,
acariciando gentilmente meus lábios tremendo com seu polegar. "Desculpe por isso." Ele quis dizer, ei sabia, sobre o beijo. "Você é tão fofa, eu simplismente não
consegui resistir. Me desculpa?"Desculpar ele? Por me beijar?Era tudo que eu podia fazer para não me ajoelhar e agradecer ele. Mark Finley me beijou. MARK FINLEY
ME BEIJOU."Eu não vou deixar nada acontecer com a propriedade do seu avô, Steph," ele disse com a mesma voz profunda, olhando intensamente nos meus olhos. "Não
se preocupe."Eu balancei minha cabeça. É claro que não iria me preocupar. Porque ele é ... bem, ele é Mark Finley. MARK FINLEY. E ele me beijou. E ele me acha
legal. E fofa."Você tem fotos suficientes até agora?"Mark me pediu suavemente, ainda segurando meu rosto."Sim," Eu me ouvi responder. Eu não sabia que meus lábios
eram capazes de formar palavras, eles ainda estavam tremendo do beijo."Então está bem se eu for agora?" Eu tenho que pegar o barril para hoje a noite.""Sim,"
eu me ouvi dizer de novo. Eu não conseguia descobrir o que havia de errado comigo. É como se eu estivesse fora do meu corpo, olhando uma garota com o nome Steph
numa cena de amor com um cara chamado Mark. Um cara chamado Mark que a beijou."Legal," Mark disse.E então me beijou novamente, dessa vez levemente, e só uma
vez, na testa."Vejo você ás dez," ele disse.E partiu.
A vida da festa é você!Fazer uma festa não deve ser difícil. Aqui tem algumas dicas em como fazer todos se divertirem ... mesmo os anfitriões!- Se um de seus convidados
aparecer por si próprio - alguém que você não convidou - receba ele graciosamente. Você sabe a velha frase - quanto mais, melhor!- Não se preocupe que a sua casa
não seja limpa - ou grande - o bastante para se divertir. Seus convidados estam lá para curtir as companhias, e não para fazer um tour na casa!-Músicas são boas
para qualquer ocasião! Tenha certeza que você tem algumas das melhores musicas das paradas do dia para tocar.- E curta você - nada arruína uma festa mais rápido
do que um anfitrião nervoso!
Capítulo 30 Ainda 5 dia de popularidadeSexta-feira, 1 de setembro, 22:00Darren veio da sala dos fundos na hora que Mark tava indo embora. Ela veio pra o registro
e disse "quem era AQUELE?""aquele" eu disse vendo Mark ir embora na sua 4x4 estacionada bem em frente a loja "era Mark Finley"."O Mark Finley?" Darren perguntou.
"os meus olhos me enganaram ou ele tava te BEIJANDO?""Sim" eu disse "é, ele tava me beijando""parabéns, namorada" Darren disse "viu? você não acreditou em mim,
eu disse que você ia conseguir um acompanhante pro baile dos estudantes"e com isso, eu fui forçada a voltar pra realidade."Não" eu disse infeliz. "ele já tem
uma namorada"Os pásssaros ke tavam cantando ao redor da minha cabeça caíram no silêncio. A sensação de dormência nos meus lábios desapareceu.Era isso. Mark finley
tinha uma namorada. O que ele TAVA pensando, me beijando, de qualquer maneira?Ele disse que eu era tão atraente que ele não conseguira resistir.Mas... Ele não
parecia ter nenhum problema pra resistir a mim antes disso.Eu era realmente suposta a acreditar que ele não conseguiu resistir a mim, levando em conta eu ser tão
fofa - o que era a outra coisa que ele disse? Ah é - "legal"?No entanto, eu acho que, depois de Lauren, "Legal" provavelmente é um tipo de estado de paz.Mas
eu nunca imaginei Lauren agindo má perto de Mark. Eu sei que ela não agiu.Ela responsabiliza sua maldade em outras pessoas. Pessoas como Alyssa Kruger.Que estava
certa. Lauren tinha criado uma maneira de me por de volta no meu lugar.É por causa de Lauren que eu estou sentada aqui agora, escutando a batida da chuva no grande,
escuro, e vazio observatório, esperando para colocar todos para dentro.Então eles podem destruir isso. Tudo que meu avô trabalhou tão duro nesse ano que passou.Porque
não importa oque o Mark prometeu, era isso que iria acontecer. Agora que a tremedeira por causa do seu beijo foi embora - e eu voltei para a realidade - eu sabia
isso. Eles iriam destruir o lugar. Eles iriam rasgar em pedaços.Mas e tudo para o que eu tinha lutado tanto? E eu? Eu digo, finalmente consegui fazer com que as
pessoas parassem de falar de mim de uma forma má -Não dê uma de Steph Landry!- e começassem a falar de mim de uma forma boa... Até me beijarem, se acontecessem delas
serem Mark Finley... E agora eu iria largar tudo isso por que era uma pessoa prudente demais -uma aberração- (iria largar tudo isso por que) eu não podia suportar
a idéia de uma bando de colegas meus terem o que, de acordo com todos os livro e filmes que já li e vi, é uma experiência juvenil comum?Eu era tão boazinha assim?Eu
não era. Eu sabia que não era. Eu digo, eu joguei latas de soda vazia no chão do auditório da escola. Eu borrifei açúcar no cabelo da Lauren Moffat. Eu espiei meu
futuro alguma-coisa enquanto ele estava nu. Eu não era boazinha. Eu NÃO era.Então por que eu não podia fazer isso?Eu TINHA que fazer isso. Quando eles batessem
na porta, eu iria abri-la. Eu TINHA que. Eu não iria decepcioná-los. Eu não iria deixar as coisas voltarem a ser o que eram. Eu não iria dar uma de Steph Landry.Vovô
iria entender. Eu tinha dinheiro suficiente guardado, eu provavelmente poderia pagar pela maior parte dos danos eu mesma. Desde que isso não fosse mais do que poucos
mil dólares, já que eu tenho pouco porque "comprei" o Mark para a loja.Mas Kitty. E Kitty? Ela iria ficar magoada.Mas ainda. Eu aposto que ela fazia coisas assim
quando ela tinha minha idade. Vovô nunca fez - ele estava muito ocupado trabalhando em zilhões de empregos para ajudar sua família imigrante.Mas Kitty iria entender.
Afinal, ela tinha lido O Livro. Ela SABIA. Ela SABIA quão difícil isso era.Jason, porém.Oh, agora por que eu tinha que pensar nele? Eu não iria pensar nele.
Eu NÃO IRIA.Eu sabia que nós podíamos contar com você, Steph.Isso foi o que a Lauren disse.E o que o Jason disse também. Só que ele pensava algo completamente
diferente da Lauren.Bom, por que eu ligava para o Jason afinal? Eu digo, ele era quem estava beijando Becca no quarto. Não que eu me importe que ele beije outras
garotas. Eu nem mesmo gosto dele desse jeito.Além do mais, eu beijei outros garotos. Bom, um outro garotoAinda. Por que Becca? Por que ele tinha que beijar ELA?
Por que ele tinha que ir na dela?Oh Meu deus! Aqui eu de novo.Por que eu me importo? Por que eu me incomodo tanto? Eu digo, eu deveria estar feliz por eles.
Se, na verdade, eles FOSSEM um casal.Se eles fossem um casal, eu iria vomitar, como naquela vez no Kings Island depois que eu fui na montanha russa aquática.Não,
eu não iria. Eu iria estar felizes por eles. Eles eram meus melhores amigos. Eles mereciam uma felicidade romântica.Mas por que Jason tinha que escolher Becca?O
que tinha de errado comigo? Por que eu não conseguia parar de pensar no Jason? Eu acabei de beijar MARK FINLEY. Na boca. Eu vi fogos de artifício! Eu ouvi um coro
angelical!Era só que...E se não fosse só os hormônios? Como eu me senti quando eu e Jason brincamos, eu digo. Ou porque eu não conseguia parar de pensar nele.
E se isto fosse mais do que só uma curiosidade adolescente sobre o sexo oposto?Isso não podia ser. Isso NÃO PODIA ser. EU AMAVA MARK FINLEY. EU AMAVA ELE. Eu...Eu
não amava ele. Oh, Deus. Eu não achava que eu nem GOSTAVA dele mais. Porque que tipo de garoto fazia isso? Beijava uma garota enquanto namorava outra? Isso não
era certo. Isso era meio nojento, na verdade. Era completamente falso. Isso era totalmente contrário do jeito que O Livro dizia que os garotos populares deviam agir.
Garotos populares não deviam ter olhos safados. Eles deviam ser leais as suas namoradas.Eles não deviam beijar garotas em público.Eles não deviam beijar garotas
só pra elas fazerem o que eles querem.Eles deveriam ser legais. Eles deveriam ser divertidos. Eles deveriam ser amigso verdadeiros.Como Jason.Oh, Deus. O que
estava acontecendo comigo?
Não popular: adj .Amplamente não querido ou não apreciado; não adorado pelos conhecidos; não procurado como companhia.
Capítulo 31 SEXTA, 1 DE SETEMBRO, 23h00minEu não podia fazer isso.Eu não podia abrir a porta.Eu queria. Eu realmente queria. Ou ao menos, uma parte de mim
queria.Especialmente quando eu ouvi a voz de Mark dizer "Steph? Hey, Steph, você está ai dentro? Sou eu, Mark. Abre ai, ok? Está chovendo realmente forte aqui
fora.".Mas então eu ouvi Lauren dizer "Ai meu Deus, meu cabelo. Steph! Steph, rápido! A gente está ficando ensopado".E depois eu ouvi Todd dizer "Cara, esse
barril pesa uma tonelada".Eu fiquei aonde eu estava perto da porta. Eu não me levantei para a abrir. Eu não me movi.Eu só chamei "Hm, vocês?"."Steph?" Mark
socou a porta com os punhos fechados "É você ai? Vai abrir não?"."Yeah, sobre isso" Eu respirei fundo "Não posso"."Não pode o que?" Mark disse. "Descobrir como
abrir a porta?""Não" eu disse. "Eu sei fazer isso. Eu não posso deixar vocês entrarem. Desculpa. Eu mudei de idéia. Vocês não podem fazer a festa aqui."Isso
foi respondido com um silêncio mortal.Então Todd gritou "Muito engraçado, Landry. Abre a porra da porta. Nós estamos encharcados aqui"."Eu não acho que você
entendeu" Eu gritei. "Eu não estou deixando você entrar. Você vai ter que levar sua festa para outro lugar."Mais um silêncio mortal.Então todo mundo começou
a bater na porta de uma só vez.Eles tentaram a fechadura. Eles começaram a chuta a porta (esse foi Lauren, tenho certeza.). Eles espancaram a porta.Mas eu não
me movi.Nem mesmo quando eu ouvi Mark gritar em uma voz nada amigável que eu nunca tinha ouvi ele usar antes "Steph! Steph, qual é! A brincadeira acabou! Abra
a porta!"Nem quando eu ouvi Lauren berrar "Steph Landry! Abra a porra da porta agora!"Eu fechei meus olhos vovô eu pensei aqui está o meu presente de casamento
para você. Eu não vou deixar meus novos amigos berrantes estragarem seu observatório. Parabéns.Como um presente, eu realizei que isso era um tipo de peso. Mas
era o melhor que eu podia fazer, em meio às circunstancias.E a verdade era, eu estava fazendo um enorme sacrifício em apoio de vovô e Kitty. Mesmo que eles não
soubessem isso.Depois de um tempo, quando eu não destranquei a porta, as batidas pararam. E eu ouvi Todd dizer "Ela está furando com a gente! Eu não posso acreditar
nisso. A vadia está furando com a gente!""Talvez algo aconteceu com ela" Essa tinha que ter sido Darlene "Steph? Você está bem?""Eu vou te dizer o que" Lauren
disse, soando furiosa "Algo vai acontecer com ela na segunda. Eu vou fazer ela desejar nunca ter nascido. Isso é o que vai acontecer."Então, você sabe. Eu tinha
isso pra me preocupar também.E Mark não disse uma palavra pra me defender. Nem um simples palavra.Não que eu realmente pensei que ele gostasse de mim em primeiro
lugar. Não era sobre isso que aquele beijo tinha sido. Aquele beijo - eu sei agora - não foi porque ele pensou que eu era tão boa e bonita que ele não podia resistir
a mim. Aquele beijo foi para eu fazer o que ele queria que eu fizesse.Que, no caso, era abrir a porta.Muito mal pra ele que isso não havia funcionado. Esse é
o problema com fogos de artifício. Eles falham bem rápido.E eles finalmente funcionaram depois de tudo, Lauren reclamando do que a chuva estava fazendo com o seu
cabelo e Mark dizendo algo sobre algum calouro que havia dito que seus pais estariam na França durante o final de semana, então talvez eles pudessem ir todos pra
lá...Eu imaginei o que Lauren ia fazer comigo na segunda.Oh sim. Isso realmente não importava. Não podia ser pior do que eu tinha sido.Foi então que uma voz
vinda do escuro - de DENTRO do observatório - disse meu nome.E eu gritei."Whoa" Jason disse, pisando fora da sombra do píer do telescópio. "É só eu.""O que
VOCÊ está fazendo aqui?" Eu gritei."Tendo certeza que você havia feito à decisão certa?""Você quer dizer -" Eu não podia acreditar nisso. Meu coração estava
batendo tão forte, que eu pensei que ele fosse pular pra fora do meu peito. Eu não sei o que havia me surpreendido mais - ele saindo do escuro daquele jeito, ou
o fato dele estar lá o tempo todo. "Você estava aqui o tempo todo?"Jason deus os ombros "Eu entrei antes de você sair do trabalho.""E você só sentou ali" Eu
disse, em um tom que eu só posso descrever como uma imensa raiva sobre ele "no escuro comigo o tempo todo, e não disse nada?""Isso era algo que você tinha que
trabalhar por conta própria" Jason disse "Além do que. Eu sabia que você ia fazer a coisa certa.""Oh, certo" Eu disse. Eu queria jogar algo nele. Eu realmente
queria. "E se eu não tivesse feito?"Agora Jason sacudiu algo que ele estava segurando por de trás das costas. "Eu imaginei que a Grade Bertha aqui teria dirigido
eles pra longe" ele disse.Por alguma razão, essa frase mandou toda a raiva que eu tinha para longe. Eu só não podia ficar brava com ele nunca mais depois de ter
visto estúpido clube de golfe.Isso também pareceu levar pra longe todo o peso que eu tinha sobre meu joelhos. Eu desmoronei pela parede, então escorreguei até
estar sentada no novíssimo carpete industrial - o carpete que eu havia protegido de ser queimado com gasolina - com as mãos sobre a cara.Eu ouvi, antes de ver,
Jason sentar no chão ao meu lado."Anime-se, Crazytop" ele disse depois de alguns minutos. "Você teve uma boa corrida""Todo esse trabalho" Eu disse pros meu joelhos.
Eu não estava chorando. Eu não estava. Okay. Eu estava. "Tanto trabalho. E tudo pra nada."Eu senti a mão de Jason nas minhas costas, dando tapinhas de conforto.
Não como do jeito que ele me confortou quando eu vomitei na lixeira após sair da montanha russa."Não foi por nada" Jason disse "Você foi a garota mais popular
da escola - bem, praticamente - por uma semana. Não é muita gente que pode dizer isso.""Foi uma total perda de tempo e energia." Eu disse, ainda não olhando pra
cima. Meus jeans estavam fazendo um ótimo trabalho absorvendo todas as lagrimas."Não, não foi" Jason disse "Porque isso te mostrou que tudo aquilo que você estava
perdendo não era assim tão legal. Digo. Era legal?""Eu não sei. Eu estava trabalhando tanto pra ficar popular - e então continuar - que eu não tive realmente a
chance de curtir isso." Eu levantei a minha cabeça e olhei pra ele, nem mesmo me importando mais que ele visse que eu estava chorando. "Eu nem mesmo sei. Eu nem
mesmo sei se eu tinha gostado disso ou não""Hey," o Jason disse suavemente, enquanto olhava um pouco alarmado para minhas lágrimas. "Hey. Não vale chorar por causa
deles. Eles não valem, de qualquer maneira.""Eu sei," eu disse, enquanto arrastava a parte de trás de meu pulso por meus olhos. Elas tinham deixado de fluir, a
maior parte. O que era um alívio. Eu apoiei minha cabeça atrás e descansei isto contra a parede atrás de nós. "Deus. Eu não posso acreditar que eles na verdade esperavam
que eu os deixasse terem um do rachas estúpido deles aqui.""Bem, você me enganou. Eu realmente pensei que você ia os deixar entrar.""Eu não pude fazer isso com
vovô," eu disse. "Ou Kitty.""Não teria sido um presente de casamento muito agradável," o Jason concordou.O que era engraçado. Desde que isso é exatamente o que
eu tinha estado pensando."Eu não posso acreditar que eu ajeitei os meus cabelos diariamente para eles," eu disse. "Por uma semana .""Você fica melhor com ele
ondulado, de qualquer maneira," o Jason disse.Ele só estava sendo gentil. Devido ao fato de eu ter estado estado chorando, e tudo. Eu sabia isso. Eu sabia que
ele só estava sendo legal. Ele não disse isto porque ele gostava de mim, ou qualquer coisa. Como qualquer coisa mais do que um amigo, de qualquer maneira.Mas ainda.
Algo - que eu não tenho nenhuma idéia do que seja - me fez perguntar, completamente fora do assunto, "Jason, você está apaixonado por Becca?"O Jason endireitou
as costas na parede como se ele tivesse sido eletrocutado."O que?" Ele piscou para mim na semi-escuridão. "De onde você tirou essa idéia?""Bem," eu disse, enquanto
percebendo, retardadamente, a sepultura que eu tinha cavado para mim. O que eu estava fazendo? O que eu estava fazendo? E por que na terra verde de Deus eu estava
fazendo isto?"Você a comprou-""Eu já contei a você por que eu fiz isso," o Jason disse. "Porque eu não queria que ela se sentisse ruim.""Certo."Eu estava
como se minha boca estivesse desconectada do resto do meu corpo, ou algo assim, e estivesse andando em sua própria louca missão por si só. "Porque você a ama.""Eu
tenho que lembrar o que ela fez a meus sapatos para você?" Ele sustentou um pé volumoso para eu ver que as solas de seus sapatos ainda estavam cobertas com estrelas
roxas e unicórnios.Eu os encarei. Jason derrubou o pé dele."Geesh," ele disse.Mas não fez nada de bom. Minha boca só se manteve em andamento, apesar de meu
cérebro - e coração - continuassem, Se cale. Se cale. Se cale."Se você não a ama, então por que" - Se cale. Se cale. Se cale - "você a beijou ontem à noite em
seu quarto"SE CALE. Oh meu Deus. Eu sou o ser humano mais estúpido na face Terra.A boca de Jason caiu aberta. "Como você -""Eu posso ver seu quarto de nosso
banheiro," eu disse rapidamente. De repente, meu cérebro ajuda minha boca. Melhor tarde do que nunca, eu adivinho. "Não que eu olhe. Realmente. Muito. É só que ontem
à noite, eu estava lá, e aconteceu de eu olhar para fora, e eu a vi - você - ambos, vocês dois. E você estava beijando ela."Jason fechou a boca dele. Ele não estava
sorrindo."Becca não lhe falou?" ele perguntou finalmente."Ela não disse uma palavra," eu disse. "E eu não quis expor isto. Porque -""Porque você não queria
que ela a acusasse de ser uma fofoqueira."Oh, Deus. Mas ele tinha razão. Ele tinha razão. Eu ia para confissão na segunda-feira. Eu ia contar para o padre tudo.E
não me importaria se ele falasse para minha mãe, porque o Jason já sabe, agora."Eu não estava espionando," eu disse. "Exatamente. Eu quero dizer, Pete viu, também
-""Oh, grande! Seu irmão sabe?"Eu estava começando a sentir um calor me incomodar. Eu não tinha nenhuma idéia por que. O observatório tem realmente um grande
ar condicionado."Sim, Pete sabe" Eu disse "Quero dizer, vocês dois estavam indo nisso bem lá, em frente à janela." Indo nisso era um termo errado para se usar.
Eu não tinha idéia da onde tinha vindo. "Se você tivesse se incomodado em fechar as cortinas -""Eu não tenho cortinas lá ainda," Jason disse "Mas você pode ter
certeza que eu vou tê-las agora. O que mais você me viu fazendo lá?"Se vestir, eu quis dizer. Essa hora, de qualquer forma, minha boca atualmente fazia o que meu
cérebro mandava fazer, e então instantaneamente eu disse. "Nada. Eu juro." Perdoa-me Padre, por eu ter pecado. Havia sido - quanto tempo desde a minha ultima confissão?
Bem, isso não importa, porque há essa coisa que eu não te disse, e isso vem acontecendo a poucos meses agora, e -Oh, tanto faz, Deus vai entender."Então qual
é" Porque meu peito estava apertado. Eu tinha que saber. Eu só tinha que "O que está acontecendo com você e Becca?""Aw, geez" Jason bateu contra a parede, seus
olhos fechados. "Nada, certo? Ela pegou a idéia errada - exatamente como você vez - sobre eu comprar suas estúpidas aulas de recortes e colagens. Ela veio - só apareceu
de repente - e meu pai deixou ela entrar, porque, bem, ele é meu pai. Eu só estava deitado lá, lendo, quando ela veio entrando, e ela estava toda... você sabe."Eu
olhei para seu perfil. Seu nariz parecia maior e mais torto do que sempre. E por alguma razão, eu queria abaixar e beijar isso.Eu tinha ficado louca. Lauren Moffat
e aquele pessoal tinham finalmente me levado à insanidade. Desde quando eu venho querendo beijar o nariz de Jason Hollenbach?"Não" eu disse "eu não sei, Becca
estava toda... o que?""Toda melosa..." Jason disse, finalmente virando sua cabeça para olhar pra mim "Ela acha - Jesus. Ela acha que eu sou O Aquele. Aquele dela.
A lama gêmea dela. E para tirar a prova ela me beijou. Não o do outro jeito. Eu tive que dizer a ela - bem, eu tive que dizer a ela que ela estava arrancando a arvore
errada. Eu não sou o cara pra ela. Não importa o que talvez ela ache."Eu senti uma onda de alivio levar de mim o que estava tão tenso, eu atualmente estava fisicamente
fraca sobre isso.Porque? Porque eu me senti aliviada ao ouvir Jason dizer que ele não era o cara pra Becca?Porque ouvir que ela havia beijado ele, e não do outro
jeito, fez aquele coro angelical, aquele que eu me esforcei para ouvir quando Mark Finley tinha me beijado, e que eu sabia agora que não tinha sido a coisa real...
não ao todo - repentinamente ganhou vida na minha cabeça?"Oh" eu me ouvi dizer, estava difícil me ouvir no meio de toda cantoria."Porque você acha que eu estava
me escondendo na biblioteca hoje?" Jason perguntou "eu estava tentando evitar ela.""Oh" eu disse de novo. Pequenos pássaros estavam cantando nas minha orelhas,
e ninguém estava ao menos me beijando. Isso era loucura. Mas isso era a verdade."É tudo culpa do Stuckey" Jason resmungou."Stuckey?""Yeah. Ele foi aquele que
ficou me enchendo pra comprar ela.""Stuckey?"Eu estava certa de que eu não havia ouvido ele certa, com todos aqueles pássaros e corais."Yeah. Ele teria comprado
ela por ele mesmo, mas ele não tinha nenhum dinheiro.""Stuckey gosta de Becca?" Eu perguntei. O coral no meio do refrão de Hallelujah. Especialmente quando eu
lembrei de Stuckey falando de recortes e colagens durante todo o caminho para casa hoje. E aquele tour pela Assembléia que ele tinha oferecido a Becca."Eu acho"
Jason disse "Como eu vou saber?"'Bem, ele não te disse?"Jason me atirou um olhar muito sarcástico. Ordinariamente, quando o Jason faz isso, eu o atiro outro
olhar muito sarcástico. Agora, tudo em que eu poderia pensar era em como eu quis beijar o nariz dele."Os garotos não falam entre si sobre Aquele tipo de coisa,"
ele me informou."Oh," eu disse."Além do que," o Jason disse, "você comprou Mark Finley. Isso significa que você está apaixonada por ele?""Obviamente não,"
eu disse. Eu não pensei que era necessário mencionar que o Mark e eu tínhamos nos beijado, da mesma maneira que o Jason e Becca tiveram. Também que eu teria beijado
bastante o Jason. "Eu quero dizer, você me viu não o deixando entrar agora mesmo, certo?""Bem," o Jason disse, "você poderia ter me enganado.""O que, supostamente,
isso significa?" O coro e os pássaros se calaram abruptamente."Só que, para alguém que reivindica não ter estado apaixonada por um cara, você deu uma imitação
muito boa disto."Eu pensei nisso. De fato, era uma declaração justa dada as circunstâncias. Os olhos ouro-verdes de Mark...a voz funda dele...o modo que os meus
olhos
fitaram as calças jeans dele. Estas eram todas imagens muito constrangedoras.Mas isso, eu percebi, de repente, é tudo que elas eram. Imagens. O que eu sabia de
Mark como pessoa? Nada. Nada excluindo o que o Jason tinha dito...que ele era um clone mentalmente deficiente que só faz o que suas namoradas - ou qualquer um -
os
manda fazer. Ele era tão bobo, ele nem mesmo sabia que Lauren é que havia me escrito aquela nota. Ele, na verdade, acreditou quando ela lhe falou que ela gostava
de mim. Ele não pôde ver que a própria namorada dele era a pessoa mais falsa do mundo inteiro.E a verdade era, ele era um pouco falso também. Eu quero dizer, enquanto
me beijava, ele me falou então que ele tinha feito isto porque ele não pode resistir a minha fofura atraente? Quando realmente ele tinha feito isto para conseguir
que eu abrisse a porta.Assim, por que eu alguma vez tinha pensado que eu gostava dele?Eu sabia por que. Eu sabia perfeitamente bem por que, e não era um pensamento
agradável.Porque ele era popular.Mas isso era antes, eu me falei. Antes de eu saber o que realmente significar ser popular. Pelo menos na Escola secundária de
Bloomville.E isso não é ser você mesmo."Você nunca pensou que você estava apaixonado por alguém, " eu pedi a Jason, " depois perceber que você estava errado?""Não",
Jason disse curtamente."Nunca? E sobre a Kristen?""Eu não amo Kirsten," Jason disse, olhando para os seus sapatos e não para mim."Vamos lá. Nem um pouquinho?
Está dizendo que todas as poesias em sua honra eram só para diversão?""Exatamente," Jason disse, levantando-se e esfregando ineficazmente um dos unicórnios com
o polegar (acho que é um dos desenhos do tenis dele!) "Olha, é melhor nós irmos. O casamento é amanhã, lembre-se. Nós temos que acordar cedo para nos arrumarmos.
"Mas eu pus uma mão para pará-lo antes que ele pudesse se levantar."Sério" Eu disse, levantando meu pescoço para olhar pra ele. "Você está dizendo que você nunca
amou? Ninguém?"Jason sentou contra a parede.Então, ainda não olhando para mim, ele disse, "Lembra da quinta série quando eu ficava provocando você, e coisas
assim, e você disse que seu avô disse que eu estava fazendo isso porque eu estava um pouco apaixonado por você?""Lembro," eu disse rindo. "Você não falou comigo
por quase um ano depois disso. Até a coisa do Super Big Gulp""Isso porque o seu avô estava errado.""Um, isso estava bem óbvio, dado todo o tratamento silencioso.""Eu
não estava UM POUCO apaixonado por você," Jason disse finalmente olhando para mim. E os olhos dele, eu notei, pela primeira vez aquela noite, estavam da mesma cor
dos de Sirius, o cachorro estrela (isso foi um elogio? Haha). "Eu estava MUITO apaixonado por você. E eu não sabia lidar com isso. Eu ainda não sei."Eu mal podia
ouvir ele por causa dos cantos e pássaros que começaram a aparecer de novo dentro da minha cabeça. Era como Handel's Messiah (?)e uma viagem para Six Flags Wild
Safári tudo em um só."Espera," eu ouvi eu mesma -fracamente - dizendo. "Você acabou de dizer-"E um milhão de pensamentos malucos rodaram a minha cabeça. Eu lembrei
daquele dia na quinta série, quando eu disse aquilo sobre ele estar um pouco apaixonado por mim, e como a cara dele ficou vermelha - por causa da raiva, eu tinha
pensado. Eu lembrei dele me ignorando e como eu tinha ficado sozinha e miserável durante esse tempo - até o dia em que eu espirei aquela estúpida bebida na Lauren,
e a Lauren e todas a suas amigas inventaram o Não banque a Steph e não se sentaram comigo na cafeteria, e faziam graça de qualquer um que sentasse. Então ninguém
sentou.Ninguém exceto Jason, que pôs as suas coisas perto de mim e começou a me falar sobre um episódio do The Simpsons que ele tinha visto na noite anterior,
como se tivesse havido briga entre nós em primeiro lugar, e como se as pessoas nos corredores não acusassem ele de bancar a Steph.Mas ele não se importava.Eu
lembrei todas aquelas noites no The Wall, um fazendo o outro rir até que eu molhei as minhas calças (de novo), zoando as pessoas populares e comendo Blizzerds. E
aquelas noites na The Hill, deitados na grama verde, olhando para cima o céu, Jason apontando as constelações e meditando sobre a possibilidade de vida em outros
planetas, e pensando no que o que faríamos se um daqueles meteoros fosse uma espaçonave e pousasse bem do nosso lado.E eu pensei sobre quantas noites eu tinha
dito boa noite para ele, depois de passarmos o dia inteiro juntos no lago ou cinemas, e então ir para dentro da minha casa, só para sentar no escuro e olhar ele
no seu quarto, como se eu não tivesse o suficiente. De Jason.Jason. Jason.Deus. Eu devo ser a garota mais estúpida de todo o planeta."Você realmente acabou
de me dizer que você está apaixonado por mim?" eu perguntei para ele, só para ter certeza. Porque eu estava com medo que tudo tivesse sido um sonho e que eu iria
acordar sozinha no meu quarto.Jason fechou a boca dele. Depois abriu ela de novo e disse, "Bom. Eu acho que sim."E foi quando eu beijei ele.
Evite popularidade se você quer ter paz "- Abraham Lincon
Capítulo 32 Sábado, 2 de setembro.Ele me ama.Ele me ama.Ele me ama.Ele disse que sempre me amou. Ele disse que todas as coisas que ele disse antes, sobre
não acreditar em alma gêmea e como as pessoas não deveriam se apaixonar no colegial, era só para tentar convencer a si mesmo a não me amar demais, porque ele achava
que eu não me sentia do mesmo jeito em relação a ele. Ele não tinha idéia nenhuma, que do mesmo jeito que ele sempre me amou, eu sempre amei ele.Mesmo que eu só
tivesse percebido a pouco tempo atrás.Oh, bom. Ninguém é perfeito.Mas está tudo bem. Eu compensei totalmente o tempo perdido. Nós nos beijando bastante, de fato,
meus lábios estão um pouco inchados. Mas de um bom jeito.Eu falei para ele tudo -e eu disse TUDO - sobre eu achar que ele era gostoso desde a viagem na Europa
(ele alegou que me achava gostosa desde a segunda série); sobre eu espioná-lo (Ele não ficou bravo. De fato, eu acho que ele estava meio que lisonjeado. Embora ele
tenha dito que pegará cortinas amanhã); sobre como eu estava com ciúmes quando eu achava que ele amava a Becca ("Becca?" ele disse chocado. "Oh, Deus!"); sobre como
eu estava com ciúmes quando eu achei que ele tinha uma queda pela Kirsten, até o ponto de que os cotovelos dela me enojavam ("Os cotovelos dela?" ele repetiu incrédulo);
Eu até disse para ele sobre quando eu usei a cueca do Batman dele. E como eu meio que gostei disso.Eu guardei O Livro por último. Nós rimos bastante desse."Espera,"
Jason disse. "Me deixe entender isso direito. Você achou um livro velho da minha avó, e você pensou que ele era seu ticket para a popularidade?""Bom" eu disse.
Nós ainda estamos no mesmo ligar onde nos beijamos pela primeira vez. Só que agora minha cabeça está descansando no peito dele. Eu me sentia muito bem ali, como
se o peito de Jason tivesse sido feito exatamente para o formado da minha cabeça. "Isso funcionou, não funcionou?"Quando eu folheei alguns dos capítulos escolhidos,
ele riu tanto de mim, pulando [gingando] para cima e para baixo, que eu tive que sentar."Você ri," eu disse. "Mas esse livro me ensinou muito.""Oh, certo," o
Jason disse. "Como agir como uma grande falsa e ser insana com todos os seus amigos.""Não," eu disse. "Como ser melhor do que eu pudesse ser""Você já era melhor
do que você pudesse ser," o Jason disse, enquanto me puxava contra ele. "Você não precisou de qualquer livro para a ajudar com isso.""Eu precisei," eu disse à
camisa dele. "Porque se não fosse pelo o livro, eu nunca teria tentado ser popular, e se eu nunca tivesse tentado ser popular, eu nunca teria percebido como eu realmente
me sinto sobre você." E eu nunca teria descoberto que eu sou a menina que Stuckey estava dizendo que o Jason sempre esteve secretamente apaixonado."Bem," o Jason
disse, enquanto embrulhando os braços dele ao redor de mim, mais firmemente que antes, "então nós melhoraremos o que livro conseguiu com tudo isso."Ele estava
brincando, mas na verdade eu penso que ele tem razão. Eu devo tudo àquele livro. Até mesmo se, no final das contas, eu não consegui ser popular de fato.Eu consegui
algo muito, muito melhor, ao invés disso.
"Tudo que é popular está errado."- Oscar Wilde
Capítulo 33 SÁBADO, 2 DE SETEMBRO, 9 DA MANHÃ, Eu acordei ao som de alguém gritando meu nome. Quando eu ergui minha cabeça, eu não tinha nenhuma idéia de onde
eu estava. Também por que meu pescoço estava tão duro. Então eu ergui meus olhos e vi o Jason, dormindo próximo à mim.Então eu sentei tão rápido, que meu pescoço
- duro de dormir no tapete industrial - fez um som como se estivesse rachando. "Jason," eu disse, enquanto o cutucava. "Jason, acorde. Eu penso que nós estamos
com um grande problema."Por causa do curso que as coisas tinham tomado, nós tínhamos ficado acordados falando - e beijando - até tarde, e nós tínhamos dormido.
No observatório. No chão da coberta de observação, debaixo da rotunda.Eu estava morta [encrencada]. Embora claro que nós não tivéssemos de fato terminado qualquer
coisa. Além do beijo. Mas quem ia acreditar nisso? Meu avô, pelo visto. Quando ele entrou, depois de um segundo, deu uma olhada em nós, e se ligou de volta em
cima do ombro dele, "Está tudo certo, Margaret. Eles estão aqui."A próxima coisa que o Jason e eu soubemos, foi que minha mãe e Vovô estavam se levantando em cima
de nós, os dois gritando ao mesmo tempo. "Como você pôde?" minha mãe estava gritando para mim. "Você tem qualquer idéia de como preocupados nós ficamos? Por que
você não ligou? E Jason - seu pai passou a noite toda conferindo a emergência dos hospitais por toda Indiana. Ele pensou que você tivesse se metido em um acidente!"
"Você realmente deveria ter telefonado," o Vovô disse. "O que vocês dois estavam fazendo aqui, na Sam Hill [Colina de Sam]?" "Eu penso que é bem óbvio o que
eles estavam fazendo aqui, Pai," mamãe disse amargamente. O que era totalmente injusto, considerando que nós dois ainda estávamos usando todas nossas roupas. "Nós
só dormimos," o Jason disse. "Honestamente. Nós estávamos conversando, e -" "Mas por que vocês não ligaram?" mamãe quis saber. "Vocês têm qualquer idéia de como
nossas mentes ficaram preocupadas com vocês?" "Nós só esquecemos," eu disse. Eu me sentia tremendamente culpada. Eu não podia acreditar que eu não tinha pensado
em ligar e chamá-los. Mas eu não poderia chegar lar e dizer, Nós estávamos muito ocupados para pensar em ligar para casa, mãe. "Bem, você mocinha, está de castigo,"
minha mãe anunciou, puxando me com uma força surpreendente para uma mulher em estágio avançado de gravidez. "Talvez isso a ensine a não se esquecer de nos chamar"."Seus
pais estão muito decepcionados com você, filho," era tudo que vovô tinha a dizer a Jason, que nunca é punido por qualquer coisa. Seus pais apenas estavam decepcionados
com ele. "Sua avó pobrezinha ficou acordada a noite toda, e é hoje seu dia do seu casamento!" Casamento do vovô e de Kitty! Eu havia esquecido totalmente! "Oh,
vovô," Eu disse. "Eu sou uma pessoa horrível. Nós apenas não esquecemos as horas." "Mas o que vocês faziam aqui?" minha mãe quis saber. Eu tranquei minha respiração,
preparada para confessar tudo. Bem, não a parte pelo qual passei a noite toda fora com Jason. Mas a parte sobre o Mark Finley e o racha. Porque, contanto que consegui
ficar bem com o Jason, ficarei bem o todos também. Mas antes que eu começasse a explicar, Jason passou na frente e disse "Nós estávamos olhando as estrelas. E
eu suponho que acabamos adormecendo." "As estrelas?" Minha mãe olhou totalmente confusa. Então pareceu lembrar que nós estávamos em um observatório. "Oh. Claro."
"Vê, Margaret?" Vovô disse. "Eu falei. Está tudo bem. Estavam apenas olhando as estrelas e adormeceram. Nenhum dano feito." Então, para minha surpresa, o vovô
enrolou um braço em volta dos ombros da mamãe. E o que era mais surpreendente foi ela deixou. "Eu disse que este observatório era uma idéia boa," Vovô disse.
"Dar as crianças nesta cidade algo para fazer na noite, em vez de criar problemas."Jason e eu trocamos olhares. O vovô não tinha nenhuma idéia como seu observatório
tinha vindo a colocar muito das crianças dessa cidade no problema. Minha mãe agitou sua cabeça, dedos então levantados tremendo no seu rosto. "Deus, como eu desejo
poder tomar uma bebida," disse a sua barriga."Bem, talvez na recepção do casamento, alguém deslize uma taça do champanhe," Vovô disse, dando lhe um aperto. Isto
era mais chocante que o fato de o ter deixado a abraçar. Minha mãe estava indo no seu casamento após tudo? Estavam se falando outra vez? Quando isto aconteceu? "Oh,
Papai," Minha mãe disse. Jogou-o um olhar irritado. Mas debaixo da irritação, eu vi um estímulo - apenas um estímulo- de afeição. Então o segundo seguinte, o
olhar foi indo, e ela estava encarando. Me encarando. "Bem, venha mocinha," disse. "Vamos para o carro, cuido de você em casa." "Certo," Eu disse, jogando a vovô
um olhar perplexo. Que estava acontecendo? Como ele conseguiu voltar a ficar bem com a mamãe? O vovô viu meu olhar. Eu sei que viu. Mas apenas piscou, em seguir
coloca seu braço em volta de Jason. "Hey, Garoto," eu ouvi-o dizer enquanto ele e Jason nos seguiram para fora do edifício. "Já andou em um Rolls antes?"
"Evite a popularidade; ela tem muitas armadilhas, e nenhum benefício real."- William Penn
Capítulo 34 SÁBADO, 2 SETEMBRO, 6 P.M.O casamento estava bonito. A chuva havia passado, assim estava realmente agradável de se estar ao ar livre para uma mudança.
O sol brilhava em um céu azul - a mesma cor dos olhos de Jason (e Kitty) -que fazia parecer ser um daqueles dias glorioso de verão atrasado, ou dias adiantado do
outono que é perfeito para a colheita de maçã ou um passeio de barco no lago. Ou se casar.A noiva certamente não parecia como uma mulher que não havia dormido
a noite toda preocupada sumiço de seu neto de casa. Apareceu em um lindo vestido de noite frisado do marfim, parecendo elegante e ainda relaxada ao mesmo tempo.
Vovô, vendo-a vestida de noiva, ficou com os olhos lacrimejados.Ele me disse mais tarde que era apenas algo que tinha em seu olho. Mas eu sei a verdade. Como
somente ele sabe a verdade sobre o que Jason e eu estavamos fazendo realmente no observatório. Bem, não a parte sobre o racha. Mas a parte sobre não olhar as estrelas.
Mas isso esta tranqüilo. Tudo mais foi ótimo. Mamãe e papai - para surpresa de todos - apareceram com Sara no colo. Kitty ficou tão feliz ao vê-los, começou a
chorar. Então minha mãe, vendo que a Kitty estava chorando, começou chorar também. Então as duas se abraçaram, chorando, que fizeram com que Sara chorasse, porque
ninguém estava lhe dando atenção.Entrentanto, Robbie não perdeu as alianças, e Jason me olhou increvelment bonito em seu smoking, eu pensei que iria começar a
chorar. Embora isso pudesse ter sido devido à falta do sono. Eu evitei mesmo uma conversa com Becca sobre o garoto por quem ela tinha uma queda agora ser MEU.
Isso é porque Becca tinha um novo amor ao seu lado para mantê-la ocupada. O Taylors não foram colocados na mesma mesa que os Stuckeys, mas Becca tinha obviamente
alterado um pouco de lugar os cartões da pré-recepção, o tempo todo que andei pelo salão de jantar, ela estava lá com e John, cochichando sobre o a salada. Eu
andei até a eles e disse, "Desculpe-me. Becca, podemos conversar?" Ela seguiu-me, corando, até à fonte de champagne. "Não é o que você esta pensando," ela me disse
imediatamente. "Como você sabe o que eu estou pensando?" Eu perguntei. Porque na verdade o que eu estava pensando era "Como eu vou lhe contar sobre Jason e eu?"
"Eu não estou no fundo do poço," Becca disse. "O que eu sinto pelo John é totalmente diferente do que eu achava que sentia por Jason. E não apenas porque John
gosta realmente de mim também. Ele é O Certo, Steph. Essa é a verdade.""Eu não estava indo acusá-lo de estar na fossa," Eu disse. "Eu apenas vim dizer que eu estou
feliz por você." "Oh." Então Becca sorriu pra mim. "Bem, obrigada. Eu desejo apenas que você encontre com Aquele também. Hey... eu sei você pode achar que estou
ficando louca, mas você nunca pensou em convidar o Jason para sair?" Eu apenas olhei fixamente para ela. "É sério," Becca falou. "Porque eu acho que ele gosta
de você. A outra noite -bem, eu não lhe isso antes porque é embaraçoso. Mas depois que ele me comprou -você sabe, no leilão -eu fui na casa dele... bem, eu disse
a ele que gostava dele. Não ria." "Eu não estou rindo," I disse. "Obrigada. Em todo o caso, isso foi antes percebi que realmente eu amo o Stuckey. Mas, em todo
o caso, Jason me disse que sentia muito, mas ele não se sentia da mesma maneira sobre mim. E eu perguntei-lhe se fosse por causa da coisa do não-acreditar-em-almas-gemeas,
e ele me disse que tinha mentido quando disse aquilo. Me disse que acha que tinha encontrado sua alma gêmea, porém ele não sabia se ela sentia o mesmo, porque estava
apaixonada por um menino... e, bem, me chame de louca, mas eu acho que talvez Jason estivesse falando sobre você." "Uau," Eu disse. E mesmo que eu já soubesse
que Becca está certa, que tinha sido de mim que Jason estava falando, eu senti uma onda de prazer, apenas por ter ouvido mais uma vez. Isso era o quão envolvida
eu estava. "Obrigada porme dizer. Eu pensarei seriamente em convidá-lo para sair." "Você deve," Becca disse. "Porque, você sabe, eu perguntei a John, ele disse
que é possível - apenas possível - que a pessoa por quem Jason esteja secretamente apaixonado seja você. E se fosse, nos poderíamos sair os quatro! Eu e John, e
você e Jason! Não que seria divertido?" Eu disse que eu não poderia pensar em qualquer coisa de mais divertidoApós todos os brindes, a noiva e o noivo dançaram
sua primeira dança ao som de ""I've Got a Crush on You," Musica de Frank Sinatra favorita do vovô-então dançaram com seus filhos, e finalmente seus netos. Isso
foi quando eu tive finalmente a possibilidade perguntar a vovô como ele tinha conseguido fazer a mamãe perdoá-lo sobre o Super Sav-Marte e vir ao seu casamento.
"Bem," disse-me e me moveu em torno do salão de dança ao som de 'Embraceable You', "é vergonhoso dizer que eu me aproveitei do fato de que ela é uma mulher vulnerável
no oitavo mês de grávidez, e estava preocupada com sua filha mais velha e sérios problemas financeiros e baixei a guarda. Eu lhe contei que comprei o Hoosier Sweet
Shoppe, e estou montando um café lá dentro, e derrubando a parede entre a livraria e o meu café e, ou ela concordou com isso ou vai ter que aprender a viver com
isso. Seu pai fez um belo trabalho convencendo-a a conviver com a idéia." "Vovô!" Eu sorri pra ele. "Isso é tão maravilhoso!" "Nós ainda temos que encontrar
maneiras de ir consertando as coisas," vovô disse, inclinando a cabeça no sentido de mamãe e Kitty, que ainda estavam conversando afastada. "Mas é um bom começo.""Com
o café novo," eu disse, "e os anúncios que nós estamos indo fazer, com Mark Finley, eu aposto que a livraria não deixará de vender por causa do Super Sav-Mart."
"Esse é o plano," vovô disse. "Agora porque você não me diz o que você e Jason estava realmente fazendo no observatório a noite passada. E não diga que vendo as
estrelas, mocinha, porque - embora sua mãe não recorde, eu lembro que choveu muito a noite toda. Vocês não poderiam ter visto uma coisa através desse telescópio."
Oops. Assim eu disse tudo ao vovô. Não sobre o racha. Mas sobre Jason e eu. Eu considerei que todos iriam descobrir mais cedo ou mais tarde de qualquer maneira.
Especialmente desde que Jason já tinha me pedido a dança seguinte, e nenhum de nós era um dançarino muito bom, assim que estava óbvio que estávamos apenas a fim
estar perto um do outro. Vovô me ouviu com os sobrancelhas levantadas. Ele gosta de Jason, assim eu não estava preocupada que ele fosse desaprovar. Mas eu queria
que ele ficasse feliz por mim - como eu estava feliz por ele. "Bem, bem, bem," foi tudo ele que disse, quando eu terminei. "E o que é ele o planeja estudar na
faculdade?" "Eu não sei, vovô," eu disse com um riso. "Nós ainda temos um longo caminho até a faculdade." "Apenas certificar-se que é astronomia," vovô disse.
"Eu não quero ter gastado todo esse dinheiro naquele edifício para nada." Eu assegurei ao vovô que eu faria o que eu poderia. Então mais tarde, quando eu fui
ao banheiro, eu encontrei Kitty lá, ele estava retocando sua maquiagem, que foi borrada por causa de todo o choro entre ela e a minha mãe. Eu sabia que ela sabia
- Jason e eu- no minuto que ela viu meu reflexão no espelho e girou para pegar minha mão. "Stephanie," disse exitada, "eu estou tão feliz por vocês. Eu sempre
quis... mas eu pensei que vocês já tinham sido amigos por muito tempo para que desse certo." "Oh, está dando certo," eu assegurrei a ela. E então, por ela ser minha
nova vovó - bem, vovó postiça -E u senti que eu poderia adicionar, "E, você sabe, isso só foi possível por causa seu livro." "Meu livro?" A Kitty me olhou. "Você
sabe, o livro você me deixou pegar," eu a lembrei. "Estava na caixa que eu encontrei em seu sótão, quando nós estávamos limpando para que Jason se mudasse pra lá?
O livro de como ser popular? E, hm. Eu tomei seus conselhos. Eu pensei que se funcionou para você, ele poderia funcionar para mim. As coisas não saíram completamente
da maneira que eu planejei-mas agora eu estou feliz. E é toda por causa de você. Bem, do seu livro." "Um livro de como ser popular?" A Kitty olhou perplexa por
um momento. Então sua cara iluminada. "Oh meu bem. Aquela coisa velha? Alguém me deu ele como brincadeira. Eu nunca o li realmente." Eu realmente não soube o que
dizer naquele momento. Assim eu disse a única coisa que eu poderia pensar em dizer. Qual era, "Oh." "Bom." A Kitty ajustou seu véu curto, chique. "Como eu estou?"
"Linda," eu disse verdadeiramente. "Obrigado, minha querida," Kitty disse. "Eu apenas penso a mesma coisa sobre você. Bem, eu tenho que voltar lá para fora.
Sua mãe e eu estamos começando finalmente a nos entender, e eu não quero deixá-la esperando." Ela apertou minha bochecha antes de sair, radiante.Jason estava me
esperando para voltar à pista de dança."Hey," ele disse. "Parece que as coisas estão se acertando por aqui. Eu poderia aproveitar e tomar uma xícara de café. O
que você acha?" "Ótima idéia," eu disse. "Mas eu estou de castigo, lembra-se?" "Eu não acho que sua mãe vai lembrar." Eu olhei no sentido que ele apontava. Minha
mãe e Kitty estavam conversando animadamente, enquanto meu pai estava sentado lá com Sara dormindo em seus braços, parecendo entediado. E quando eu fui até eles
e disse, "Um, hey. Tudo bem se eu for pegar um café com Jason? Eu juro que eu vou direto pra casa depois," Minha mãe disse apenas, "Avise se você for chegar após
dez," e voltou para sua conversa. Wow. É espantoso o que um pequeno casamento pode fazer para melhorar a alma.
"A popularidade é a coisa a mais fácil no mundo para se ganhar, e a coisa a mais dificil para manter." -Will Rogers
Capítulo 35 SÁBADO, 2 SETEMBRO, 11 P.M. Eu realmente me esqueci sobre a coisa toda do racha até que Jason e eu fomos ao Coffee Pot- nos sentido bem e feliz pelo
casamento e pelo amor que sentíamos um pelo outro- e encontramos justo Mark Finley e Lauren Moffat, dirigindo para o ATM. Alyssa Krueger estava com eles. Assim
como Sean de Marco, Todd Rubin, e Darlene Staggs. O grupo inteiro, junto outra vez. Só que ninguém pareceu muito feliz sobre isso. Pelo menos, não sobre me ver.
"Bem, bem, bem," Lauren disse com sarcastico. "Se não é Steph Landry, a maior afundadora de festa do mundo."E a felicidade que eu vinha sentido o dia inteiro,
por saber que Jason me ama, escureceu. Apenas um pouquinho. Isso é o que o veneno de Lauren Moffat pode fazer com uma garota. Mesmo uma Garota recentemente apaixonada.
"Qual é, Lauren," Jason disse. "Não pega no pé dela. Vocês teriam destruido o lugar, e você sabe disso.""Um, eu estava falando com você, nariz grande?" Lauren
perguntou.Foi como se algo de repente se quebrasse dentro de mim. Apenas isso. Como se de repente eu me transportasse de volta à escola média de Bloomville e Lauren
tenha me acusado primeira vez de bancar a Steph. Só que agora ao invés de ser cordial como aos 12 anos, que apenas se pôs de pé e saiu, eu estava mais forte, independente
de estar com dezesseis, e não iria deixa Lauren fazer seu drama. "Quer saber, Lauren?" Eu disse, indo em direção a ela. E eu acho que ela deve ter sentido que
algo tinha mudado, porque ela deu um passo rápido para trás, como se achasse que eu fosse bater nela, ou algo assim. Como se ela não soubesse o processo que o pai
dela colocaria em mim."Eu sou cheia de você," Eu disse, com minha cara acima da dela. "Eu cometi um erro - derramei uma bebida em você - no qual eu me desculpei
profundamente E lhe dei uma saia nova, e você ainda usa isso contra mim. Por CINCO anos. Não só vem usando isso contra mim, como certificou-se que todos na escola,
também. E agora você quer me jogar para baixo outra vez? Muito bem. Mas eu estou te avisando, se vai fazer dessa vez? Então faça melhor. Porque há muito mais Steph
Landrys no mundo- pessoas que fazem coisas estúpidas em público, pessoas que não tem o cabelo perfeitamente no lugar o tempo todo, pessoas que não tem pais ricos
para comprar um carro novo a cada ano - e que não estarão escravas da beleza como você. E se você não começar a se dar vem com nós, seu egoísmo levará você a ficar
muito, muito solitária."Eu estava olhando fixamente para os olhos de Lauren. E assim eu o vi. Esteve lá somente por um instante. Mas definitivamente esteve lá.
Uma cintilação do medo. Então balançou seu cabelo dourado longo e disse, "Deus, sai do meu pé. Se eu sou uma pessoa tão terrível, como é que eu estou aqui com
muitos amigos, enquanto você só está aqui com" - ela olhou para Jason fixamente de cima para baixo "aquilo?"Certo, agora eu iria bater nela. Pelo que ela tinha
dito sobre Jason.Mas antes que eu pudesse pular em seu pescoço, Darlene parou entre nós, e disse, "Na verdade, Steph, eu estou contente em nós encontrarmos aqui.
Há um novo filme de Brittany Murphy na cidade, e eu queria saber se você quer ir ver amanhã comigo."Eu olhei fixamente para Darlene. Assim como Lauren também olhou.
E Alyssa e Mark e Sean e Todd. Mas Todd sempre olha fixamente para Darlene, então isso não era particularmente incomum. "Um," Eu disse, totalmente confusa sobre
o que estava acontecendo. "Sim. Certo. Ficarei feliz em ir.""Darlene," Lauren disse em uma voz gelada. "O que você esta fazendo?""Fazendo planos para ir ver
um filme com uma amiga," Darlene respondeu. Não havia nada diferente em seu tom de voz. "Você se importa?" Os olhos cheio de maquiagem de Lauren se estreitaram.Mas
antes que Lauren pudesse dizer alguma coisa, Alyssa andou para longe dela, até ficar ao meu lado. "Hey," Alyssa disse. "Tudo bem se eu for com vocês também pessoal?"
Darlene me olhou. Eu olhei para Darlene. E percebi que isso não era sobre ir ver o filme. Bem, era. Mas não era só isso, ao mesmo tempo. "Claro," Eu disse
a Alyssa. "Você pode vir." Então, recordando o conselho do livro, adicionei, "Quanto mais melhor.""Ótimo," Alyssa disse. E sorriu para mim. Era o primeiro sorriso
que eu tinha visto em sua cara há dias. "Certo," Lauren disse, soando impaciente. "O que está acontecendo aqui? Você tem cheirado cola?" Darlene a ignorou. "O
que vocês vão fazer agora?" perguntou a mim e a Jason. "Um," Jason disse, apontando a porta do café. "Nós estávamos indo tomar um café....""Oh, yum," Darlene disse.
"Eu poderia aproveitar e tomar café. E você, Alyssa?""Eu amo café," Alyssa disse. "Tudo bem se nos juntarmos a vocês?" Jason me olhou com suas sobrancelhas
levantadas. Eu dei de ombros. "Hm," Jason disse. "Claro?""Ótimo!" Alyssa empurrou a porta do café Pot - estabelecimento que ela certamente nunca antes tinha
colocado os pés na vida - e entrou, Darlene entrou logo em seguida....Entretanto Darlene girou e olhou para trás, para Sean e para Todd."E vocês vem?" ela perguntou
a eles. "Ou não?"Todd olhou de Darlene para Mark, e então olhou outra vez. Então disse a Mark, encolhendo os ombros, "Desculpe, cara." Então ele e Sean seguiram
Darlene para dentro. Jason e eu nos olhamos. Então ele abriu a porta para mim e disse, "Depois de você."Eu entrei. Darlene e Alyssa e Sean e Todd tinham sentado
na mesa sobre a janela. Acenaram para nós - como se não poderiamos encontrá-los já que eram eram as únicas pessoas no lugar inteiro, além de Kirsten, que disse,
"Ah, oi! O de sempre?" a nós."O de sempre," Jason disse. E adicionou então, "e nós estamos com eles," e apontado para a mesa que Darlene estava sentada. Kirsten
levantou suas sobrancelhas. "Amigos novos?" perguntou, parecendo impressionada. "E você tentou me dizer que você não é popular!" Então passou por nós para fpegar
os pedidos. Apenas isso.Apenas isso, ela supôs que estávamos sendo modestos sobre não ser popular. Foi quando eu disse a Jason, "Espere um minuto." E voltei
para fora. "Hey," Eu disse a Lauren e a Mark, que estavam andando lentamente. Lauren virou. E eu vi que algo que eu nunca esperei ver em minha vida. Ela estava
chorando. "O que é?" perguntou. "Eu só" eu engoli. "Eu só queria saber se vocês não querem se juntar a nós." "É você é completamente retar-"Mas antes que
Lauren podesse terminar, Mark colocando um braço nela nos ombros dela e disse, "Obrigado, Steph. Nós adoraríamos.""Mas" Lauren ganiu. Mas eu acho que Mark a
tenha dado um aperto realmente bom, porque tudo que ela disse foi, "Que seja."E me seguiram para o Pot. Que apenas serve para mostrar - não importa o que qualquer
um diz - que os conselhos do livro? Realmente funcionam.
Capítulo 36 DOMINGO, 3 SETEMBRO , 12 A.M. Mais tarde naquela noite, eu entrei no banheiro e olhei pela da janela - completamente como força do hábito. Eu NÃO
estava espionando ele - para ver o que Jason estava fazendo.Ele tinha coberto suas janelas com gigantes tiras de papel-pardo. Mas tudo bem. Porque nelas, ele
tinha escrito com estrelas que brilham no escuro:Boa noite, Crazytop.
PEDRO IVO

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PEDRO IVO








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2 e 3 -OS MAIAS (2 vols.), por Eça de Queiroz. 4 - A RELIQUIA, por Eça de Queiroz. 5 - O MANDARIM, por Eça de Queiroz.
6 - ROMANCES VELHOS EM PORTUGAL (Estudos sobre o Romanceiro Peninsular), por Carolina Michaëlis de Vasconcelos. 7 - EUSÉBIO MACÁRIO, por Camilo Castelo Branco. 8 - A CORJA, por Camilo Castelo Branco. 9 - A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES, por Eça de
Queiroz.
10 - O CRIME DO PADRE AMARO, por Eça de Queiroz. 11 -UMA CAMPANHA ALEGRE, por Eça de Queiroz.
12 e 13 - NOVELAS DO MINHO (2 vols.), por Camilo Castelo Branco. 14 - O PRIMO BASILIO, por Eça de Queiroz. 15 - A ILUSTRE CASA DE RAMIRES, por Eça de Queiroz. 16 -AMOR DE PERDIÇÃO, por Camilo Castelo Branco. 17 e 18 - PORTUGAL CONTEMPORÂNEO (2 vols.), por Oliveira Martins.
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21 e 22 -UM ANO NA CORTE (2 vols.), por Andrade Corvo. 23 - A HOLANDA, por Ramalho Ortigão. 24 - O BRASILEIRO SOARES, por Luís de Magalhães. 25 - CONTOS, por Fialho de Almeida. 26 - O BALIO DE LEÇA, por Arnaldo Gama. 27 - VULCÕES DE LAMA, por Camilo Castelo Branco. 28 - LENDAS E NARRATIVAS, por Alexandre Herculano.
29 - AS MINAS DE SALOMÃO, por Rider Haggard, tradução revista
por Eça de Queiroz.
30 - O CONDE D'ABRANHOS, por Eça de Queiroz. 31 - MARIO, por A. Silva Gaio. 32 -ALVES & Ce, por Eça de Queiroz. 33 - LIRICA, por Almeida Garrett.
34 - O PRATO DE ARROZ DOCE, por Teixeira de Vasconcelos. 35 - CAMPO DE FLORES, por João de Deus. 36 - HOMENS E DATAS, por Alberto Pimentel. 37 - CONTOS, por Pedro Ivo.
A publicar:
SONETOS, por Antero de Quental.
TESOURO POÉTICO DA INFÂNCIA, por Antero de Quental.






PEDRO IVO
CONTOS
LELLO & IRMÃO - EDITORES
PORTO
A meu pai






-O MILAGRE
CORRE a manhã de um domingo de Novembro, frio, triste e chuvoso.
Na única rua da aldeia, formada por meia dúzia de casas térreas, -separadas umas das outras pelos muros de vedação de algumas hortas, onde raros pés de couve, queimados pelas geadas, se erguem de entre as ervas parasitas, não transita viva alma.
As únicas criaturas, que vagueiam fora de telhas, são um porco e um frango: o primeiro, na sua marcha tortuosa e indecisa, vai roçando com o focinho quanto encontra no chão, soltando o monótono grunhido que, em língua suína, deve exprimir: "Serve-me", "Não me serve", e o segundo, caminhando em passo presumido, vai vasculhando no lixo o pão de cada dia.
Não se ouve outro ruído, que não seja o das gotas da chuva, que caem das beiras dos telhados.



8
Aberta, apenas se vê uma porta.
Entremos.
Eis-nos na tenda do Sr. José... da Tenda.
Não sei se os leitores se têm, como eu, recolhido algumas vezes numa tenda de aldeia, à espera que a chuva passe.
Se têm, conhecem decerto o desconsolo que causa a vista daquele solo composto da lama acarretada pelos tamancos de quatro gerações, o aspecto do balcão negro e ensebado, suando imundície por todos os poros da madeira, com o bordo polido pelo roçar dos fregueses, fartos de escutar pela vigésima vez a história de dois cruzados-novos e três moedas de doze falsos, e pregados ao mesmo balcão, como prova da pureza de alma do tendeiro e da perversidade dos homens que não são tendeiros.
E a forma patibular das balanças, cujo fiel, no dizer dos fregueses, prova contra a consciência Ido tendeiro?
E a grade de ripas, fixas ao cabo do balcão, por detrás da qual se vêem dois ou três destes copinhos, vulgarmente chamados meios netos, e outros tantos cálices da capacidade dum dedal, flanqueados por duas botijas de genebra e uma garrafa branca, onde se lê: "Licor de canela"?
E o tendeiro?...
E os fregueses?...
Falemos destes e daquele.
Principiemos pelo dono da casa; mas sem gastarmos muito tempo.



9
Façamos uma espécie de passaporte.
Alto, magro, olhos pequenos, mas vivos, barbas em forma de presilhas, lábios finos, nariz adunco, e, a animar todas estas feições, um raio do que quer que seja, a que talvez se deva chamar alma, que lhe dá um ar de refinado velhaco.
Tem na cabeça um boné tão lustroso de sebo, que parece feito de algum bocado de madeira, arrancada ao já descrito balcão.
O resto do corpo esconde-o ele debaixo de farto capote de dois cabeções, cujo forro, num ou noutro sítio, começa a mostrar-se indiscreto.
Com o queixo fincado no peito e os braços cruzados debaixo do capote, passeia vagaroso de um para outro lado da loja, separados dos fregueses pelo balcão.
Destes estavam, àquela hora, na tenda, apenas quatro.
Três eram, inquestionavelmente, pedreiros, a avaliar pelo sentido da conversa.
O quarto, que também já pela quarta vez fizera encher o cálice de genebra, pertencia com certeza à classe ultimamente vulgar dos contratadores de gado, raça atlética, cujo brio consiste em beber uma canada -de vinho verde dum trago ou em quebrar os dentes de um cristão com um murro; fanfarrões de feira, que põem o passo travado ido seu garrano de jornada acima das virtudes domésticas da mulher; que preferem às carícias dos filhos as cruas ferezas dos seus cães de fila; que os amigos da taberna alcunham de



10
francos e alegres, e que as mulheres, em casa, consideram déspotas e rabugentos.
Estava ele erguendo o cálice, para o levar aos lábios, quando o que parecia mais velho dos três pedreiros disse, voltando-se para o dono da casa:
- Então com que, Sr. José, o Manuel da Maria Rita parece que está a acabar?
-Parece que sim -respondeu o tendeiro. - Pelo menos o Senhor Cura já hoje o foi ungir.
-Pois olhe que era bom rapaz-tornou o pedreiro.
- Lá isso era! - entoaram os outros em coro.
- E bom oficial da nossa arte!
-Lá isso era! -repetiu o coro.
- E homem capaz -continuou o velho.
O coro ia proferir pela terceira vez o seu: "Lá isso era!" quando o contratador, que estivera calado até então, bradou, rubro de cólera e dando um murro sobre o balcão:
-Lá isso é que não era!... É um tratante... um caloteiro! Teve dinheiro para se tratar a galinha e para mandar vir o endireita do Porto, em vez de ir para o hospital, e não teve dinheiro para me pagar seis meses do aluguel!... Mas deixa estar! - prosseguiu ele. - Eu vou lá, e ou me paga ou leva-os o Diabo a ele e à mulher!
E arremeteu pela porta fora, brandindo o pau argolado.
os três companheiros do doente curvaram a




11
cabeça, aterrados provavelmente pela ideia do que um dia lhes viria a acontecer, se, por causa de uma prancha podre, tivessem a infelicidade de cair de um terceiro andar, sem terem a compensação de morrerem imediatamente.
O tendeiro foi o único que falou, rosnando por entre dentes:
- Judeu!...
E tinha razão o Sr. José... da Tenda. Aquilo não fazia ele.
Agora fazia!... Olha quem!.. Ele, que, ainda oito dias antes, tinha tomado contado cordão de ouro da mulher do enfermo, só para não ter o desgosto de lhe não continuar a vender... fiado!
II
À hora em que se passava a cena que acabamos de descrever, outra muito diversa tinha lugar numa casinha um pouco distante - a casa do infeliz pedreiro.
O leitor, naturalmente, não tem sofrido privações, nem imagina, decerto, sequer o martírio de quem ama e vê descer, lentamente, para o túmulo, quem até então lhe fora protector e ganha-pão.
O leitor, que, quando Deus lhe chama de novo a si um ser estremecido, sente um santo e orgulhoso alívio em dizer: "Ao menos não lhe faltou nada!" acaso conceberá os dolorosos transes

12
porque passa a desgraçada mártir que, para ocorrer às despesas de uma longa doença, vai vendendo, uns atrás de outros e a vil preço, o cordão de ouro economizado nas férias que o honrado marido entregava intactas aos sábados, as arrecadas devidas ao produto da roca, dessa ímproba tarefa dos serões, o bragal que a santa da mãe lhe deu quando casou, o anel que o padrinho de casamento, que o fora também de baptismo, lhe meteu no dedo no dia de noivado!?
Compreenderá, porventura, o que ela deve sofrer, quando, lançando os olhos em roda para fazer o inventário do que ainda pode vender, encontra, além da roupa que traz, o catre onde agoniza o marido, e o Cristo que agoniza na cruz dentro do santuário, que, transmitido como herança de pai a filho, chegou ao seu poder!?...
Basta!... O leitor nunca pensou nisto, mas compreende-o agora.
A morte antecipara-se e a notícia, contra o costume das aldeias, ainda não tinha chegado à loja do tendeiro.
De costas na modesta enxerga, com as mãos cruzadas sobre o peito, jazia o cadáver, a quem a mãe, santo e venerando tipo de velha, acabava de cerrar os olhos, depois de lhe amarrar os queixos com um lenço.
No rosto rígido do infeliz lia-se que a alma se ausentara, mais atribulada pela incerteza da sorte dos que deixava na terra do que pelo receio do que a aguardava além da campa.


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Do outro lado do leito, com as mãos convulsivamente enlaçadas, os lábios trémulos entreabertos, o olhar enxuto mas -desesperado, a esposa não retirava os olhos do rosto do cadáver, e balbuciava de vez em quando e como quem duvida:
- O meu Manuel!
Sentada num cepo, em que se rachava a lenha, estava uma vizinha ainda jovem, sustentando nos braços uma menina de três anos, ao passo que com o pé embalava uma canastra, berço improvisado, onde dormia uma criancinha ainda de peito.
A pobre jovem, contemplando o rosto risonho da criança que dormia a seus pés, apertava ainda mais carinhosamente ao seio a outra filhinha da vizinha, e sentia-se gelar de medo, só com lembrar-se ide que podia ser ela a viúva, de que podia ser órfão o seu próprio filho, travesso rapaz de dez anos, que, com a indiferença própria da idade, se indemnizava do silêncio forçado, recortando estampas e, colocando-as depois nos vidros da única janela do aposento.
A mãe acabou finalmente a sua piedosa tarefa.
Que tarefa!... a toilette dum morto!
Que de angústias, que de recordações de dias
felizes e tristes, de raios de sol e de tormentas!
Com que escrupuloso cuidado se examina,
peça por peça, o modesto linho do defunto! Não serve esta camisa por estar velha, aquela





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por ter uma nódoa do ferro, estoutra porque ele em vida não gostava dela, e este escrúpulo, esta santa vaidade repete-se a cada uma das diferentes peças do vestuário, e tudo isto entrecortado por frases saídas da alma, por suspiros filhos da mais pungente dor!
-Meu rico filho!... - murmura a mãe. - Meu Manuel!... Quem diria que havias de ir antes de mim!... Essas meias não, Maria... São muito velhas... Deixa ver as que fizeste o Verão passado...
- Meu querido homem!... Não foi para isto que eu tas fiz!... Tome lá, minha mãe... É a última despesa que se faz com ele, que nos amparava a nós!...
E as lágrimas irrompem, e o peito estala, e o cabelo encanece, e vivem-se anos em minutos,
e os braços cingem-se em frenético abraço ao corpo inanimado, e a dor redobra, e os lábios ardentes de febre colam-se aos lábios sem vida de quem era metade da nossa alma!
Lança a velha por fim a ponta do lençol sobre o rosto do finado.
A criancinha no berço acorda, soltando um queixume. É o sofrimento do-amanhecer da vida a contrastar com a derradeira dor do ocaso da existência!
A pobre viúva ergue a fronte; lembra-se, pela primeira vez, que é mãe; corre ao berço, ergue
o filho, devora-o com beijos e acaba por oferecer-lhe o peito.



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A criança, porém, não cessa de chorar, e a desgraçada, depois de lutar alguns instantes contra uma ideia horrível, empalidece e contempla o filho com olhos onde a demência transluz.
Pobre mulher!
A esposa tinha morto a mãe; a dor da viuvez secara-lhe no seio a sagrada fonte da vida; o leite transformara-se em pranto!
Não proferiu a triste uma palavra; a vizinha, porém, com o infalível tacto das mães, tudo adivinha, e, tirando-lhe dos braços com amorosa violência a criancinha, dá-lhe o peito, que ela já começava a pensar que estaria fazendo falta ao próprio filho, que ficara em casa, e diz apenas, com voz em que se revela a verdadeira fé:
-Maria, Deus é pai de misericórdia!
A pobre mãe cravou na amiga olhos em que a gratidão se ia de envolta com a inveja e, escondendo o rosto entre as mãos, balbuciou:
-Seja feita a sua vontade!
Ouvia-se apenas, naquele instante, no quarto,
o som da água benta, que o cura trouxera numa garrafa, a cair no copo, onde a velha a estava despejando, depois de lhe haver metido um ramo de alecrim.
E, como que a tornar mais carregado aquele quadro de dor, só se via indiferente e descuidado
E rapazito, que continuava a pregar estampas na janela.

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III
Dez minutos teriam decorrido num silêncio apenas cortado pelo sussurro das orações da velha, a quem as agonias de uma vida de sessenta anos já haviam ensinado a só procurar auxílio em Deus, quando a pedra, que calçava a porta, veio saltar ao meio do quarto, e esta se abriu deixando aparecer o vulto espadaúdo e o rosto afogueado do contratador de gado.
A viúva nem sequer se moveu; a mãe do finado, porém, alçou a cabeça e ao reconhecer o implacável senhorio revelou, pelo tremor dos lábios, o medo que a dominava.
Só a vizinha, menos directamente ameaçada pelo perigo, cobrindo o peito e aconchegando o lenço ao rosto da criança, perguntou com voz mal segura:
- Vossemecê que quer, Sr. Joaquim?...
-Quero que me paguem! - bradou o energúmeno. - Deixemo-nos de choradeiras!... Quem deve paga e eu só peço o que me devem. Esse senhor, que aí está a fingir que dorme, que responda, pois eu com mulheres não me entendo!
A velha ergueu-se, como obedecendo a oculta mola, e, levantando a ponta do lençol, mostrou com o dedo a face gelada do cadáver.
-Deus decerto o está ouvindo a ele no Céu; mas ele... já nos não ouve a nós! -disse ela.




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E, tornando a cobrir a cabeça do morto, sentou-se.
Que se passou nesse momento na alma do Sr. Joaquim?!... Assaltou-a o remorso?... Amoleceu-a a compaixão?...
Sentimos dizer que nenhum desses sentimentos a agitou.
E, note-se, não foi porque ele fosse mau e cruel.
Valha-nos Deus!... Não foi, porque o não era.
Recite o leitor uma poesia de Soares de Passos a qualquer que não tenha recebido instrução; conte uma acção do anónimo Y a um avarento; diga a um homem sanguíneo e vingativo que o Cristo manda oferecer a face esquerda a quem lhe esbofetear a direita... e nenhum destes o compreenderá.
A sensibilidade requer educação, como tudo o mais, e foi por isso que, quando a velha se calou e o Sr. Joaquim não pôde duvidar da morte do devedor, o seu primeiro movimento foi analisar a mesquinha mobília, derradeiro resto daquele naufrágio de uma vida inteira de trabalho, que veio despedaçar-se, impelida pelas vagas da desventura, nos cachopos fatais em que irremediavelmente vai a pique a barca do pobre, e que se chamam no mundo -miséria, doença e morte! - e no Céu - provações!
O olhar do Sr. Joaquim foi um verdadeiro balanço dos haveres do pobre pedreiro, e foi preciso um esforço sobrenatural para não exclamar: "Estou roubado!"
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E o caso é que, no íntimo da consciência, se considerava roubado.
Depois de breve silêncio, o Sr. Joaquim, que não podia esquecer a que viera, disse:
- Bem!... Está morto... acabou-se!... Não se lhe dá volta; é rezar-lhe por alma... Agora o que importa é saber como hei-de receber... E nada de choradeiras!... - continuou ele, atalhando um gesto suplicante da mãe do pedreiro.
A viúva ergueu então pela primeira vez a fronte, e, pondo nele os olhos angustiados, murmurou:
- Ó Sr. Joaquim... Eu como lhe hei-de pagar?!... Vossemecê bem vê o que aqui há... Aquela caixa de ferramenta que ali vê, essa mesma!... já nos não pertence... Emprestou-me sobre ela uma moeda o tio Zé Pedro...
- Pois daqui não sainada e que leve o Diabo G Zé Pedro!... O aluguel é a primeira coisa que se paga, e você, tia Maria, -depois de amanhã despeje-me a casa! -retorquiu o terrível credor.
- Ó Sr. Joaquim... pelas suas alminhas!... Pelas cinco chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo! -balbuciou a pobre vizinha, com os olhos rasos de água, imaginando que a sua intervenção seria bem aceite.
Bem depressa, porém, perdeu a ilusão, ouvindo o Sr. Joaquim gritar como um possesso:
-Quais chagas, nem meias chagas!... Nem que Jesus Cristo cá viesse pedir por eles!



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Ainda bem não tinha proferido a blasfémia, quando o roxo -da cólera se lhe mudou no rosto em lividez do medo; os olhos dilataram-se-lhe; erriçaram-se-lhe os cabelos, e, caindo primeiro de joelhos e em seguida de rosto no chão, bradou com assombro de todos:
-Perdão, Senhor, perdão!
Assim esteve alguns minutos, ao cabo dos quais, erguendo-se e apontando para o leito, onde jazia o cadáver, exclamou quase desvairado:
- Estava ali... não viram?... Estava ali... Estava, que eu bem o vi!...
E, voltando-se para a viúva, prosseguiu com unz suplicante:
- Perdoe, Sr a Maria!... Pague-me quando quiser... ou não me pague nunca... É o mesmo!... Sabe que mais?... Em precisando de lenha, ou de um bocado de fumeiro, ou de quaisquer seis vinténs para uma necessidade, mande lá a casa... Tome lá para os seus arranjos... - continuou ele, metendo na mão da viúva algum dinheiro. - É para si; não o gaste em missas... Quem tem o Senhor a pedir por si não precisa de missas!
E saiu como louco, deixando os espectadores desta cena indecisos sobre a verdadeira causa de semelhante proceder.
Dias depois, indo o Sr. Joaquim falar com o padre, confessou-lhe que, mal desafiara Cristo a vir interceder pela família do pedreiro, lhe aparecera







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a imagem do invocado sobre o peito do defunto.
O cura, conhecendo quanto este incidente, a que ele de si para si chamava visão do remorso, o podia auxiliar na difícil tarefa de reconduzir ao aprisco algumas ovelhas tresmalhadas, impôs-lhe, como penitência, publicar o ocorrido, sem ocultar circunstância alguma.
E assim se soube este milagre, que nós, mais vaidosos do que o cura e mais fiéis da aldeia, vamos explicar.
Lembram-se do rapazito da vizinha, que se distraía à janela recortando estampas e colocando-as nos vidros?
Como verdadeira criança, cansado do longo silêncio e já aborrecido do brinquedo, começou a esfaquear as estampas com uma pequena navalha.
Já apenas lhe restava uma-um exemplar grosseiramente colorido da cabeça do Redentor, representado, como no-lo pinta a tradição, quando Pilatos o mostrou ao povo, dizendo: Ecce
Homo!
O pequeno, vendo quase a acabar o divertimento, e inspirado pelo espírito de destruição, colou a estampa no vidro, e, em seguida, começou a golpear a imagem sistematicamente, isto é, seguiu com a ponta da navalha todas as linhas dos contornos; depois, requintando, arrancou-lhe o branco dos olhos, fendeu-lhe a boca, despegou-lhe o nariz das faces, e, prosseguindo





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sempre, acabou por fabricar com mão inconsciente o que todos conhecemos sob o nome de
sombrinhas.
Ao terminar esta horrível mutilação, proferia o Sr. Joaquim a sua cruel blasfémia; mas o sol, que até ali se conservara encoberto, raiou de repente e só o tempo bastante para operar o milagre, e, coando por entre os golpes e claros que o pequeno praticara na estampa, veio reflectir sobre o peito do cadáver a resignada e austera cabeça do Redentor, fulminando o insolente que ousara reptar a Divindade.
Ainda hoje, em duas léguas ao redor da aldeia, chama o povo a isto - o milagre!
E o leitor como lhe chama?
Eu, desprezando - neste caso - a sua opinião, seja ela qual for, dir-lhe-ei que, atendendo a que Deus pode tomar a forma que mais lhe aprouver para se manifestar, também lhe chamo - MILAGRE!




A SENTENÇA DA TIA ANGÉLICA
I
QUEM quer ir comigo ao ribeiro?...
Venham daí, que não hão-de arrepender-se. A feia e a bonita, a filha do lavrador e a jornaleira, a velha e a moça-numa palavra... todas as mulheres da aldeia, reúnem-se ali.
As distinções terminam entre elas, desde que ajoelham, umas a par das outras, com as mangas arregaçadas, e as cabeças pendidas para a pedra lavrada, em que ensaboam a roupa.
Se a tenda é o club dos homens da aldeia, o ribeiro é, com certeza, a assembleia das mulheres do campo.
Vinde, pois, se quereis saber a razão por que o Manuel Tamanqueiro deu ontem à noite uma tareia na mulher; vinde, se desejais descobrir o nome da rapariga a quem o Senhor Abade se referia na última prática que fez, à missa do





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dia, no domingo passado; vinde, finalmente, para ficardes ao facto das importantíssimas -questões que se discutem neste ponto do globo, nesta pequena aldeia, assente numa baixa e encurralada entre montanhas.
Segui-me, pois conheço um atalho por onde se encurta metade do caminho.
Vamos lá!
Saltamos este pequeno muro, seguimos o carreiro traçado entre o trigo, levantamos o ferrolho daquele portelo, atravessamos o pequeno pinhal além, galgamos outra parede - cuidado com as silvas! -e estamos no monte, que vamos descendo até à presa, formada pelo ribeiro, de onde nos chega já o som das vozes das lavadeiras!
Eis~nos ao pé delas... Estão poucas hoje!... Uma... duas... cinco apenas.
Duas andam a estender a roupa; outras duas, mulheres entre trinta e quarenta anos, acabam de esticar pela terceira vez um lençol, que vão torcer; a quinta é uma simpática figura de velha, rastejando pelos setenta, curvada sobre a pedra em que apoia a mão esquerda, enquanto com a direita agita um pano dentro da água.
A última, indiferente até então ao palrar das duas que estão torcendo o lençol, parece que lá lhe chegou, por fim, aos ouvidos palavra que a incomodou, porque as feições lhe traíram doloroso espanto, e a mão parou de agitar a peça de roupa.
Escutemos, como ela.

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- Ó Maria!... Isso não pode ser... - diz uma delas.
-Acredita, Ana... Olha que é verdade!... Puseram-se de mal, e disse-me o António da Capela que o Sr. Joaquim já fora à vila falar com dois letrados!... -respondeu a outra.
- Vocês que estão aí a dizer, ó raparigas? - perguntou então a velha.
-Pois a tia Angélica não sabe?... Foi o Senhor Joaquim do Adro, que se arrenegou com o Sr. Manuel da Portela, por mor da água, e diz que ainda que gaste quanto tem, que há-de mostrar ao Sr. Manuel que ainda tem amigos...
- Ora veja a tia Angélica! - atalhou a outra. - Então aqueles, que eram amiguíssimos!... Para onde ia um, ia o outro; quando um tinha um filho, já se sabia quem eram os padrinhos... Estou varada!
- Isso não pode ser! - afirmou -a velha. - Não são homens que esqueçam que as mulheres são irmãs uma da outra! Nada; aí há coisa... Se aqueles dois se põem de mal, o que há-de ser da gente da terra?!... Os dois lavradores maiores... Tão amigos desde pequeninos... Nada; aí há coisa!...
E a velha, retirando a peça de roupa, torceu-a, acamou-a junta com outras dentro de um pequeno alguidar, ergueu-se, pô-lo à cabeça e retirou-se, dizendo às duas:
-Isso não pode ser... Aí há coisa!. Adeus, raparigas!

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- Adeus, tia Angélica - responderam as outras.
Quando a velha ia já a distância de as não poder ouvir, disse a Sr.a Maria:
-Coitada! a tia Angélica não gostou da notícia...
- Se te parece... - observou a Sr.a Ana. - Se a pobre de Cristo deve tantas obrigações a ambos...
-Não que eles também, quer uns quer outros, tudo aquilo é boa gente!... - redarguiu a Sr.a Maria.
-E, então, esmoleres... até ali - respondeu a Sr.a Ana.
Neste momento foram as duas interrompidas pela voz fresca e vibrante de uma das raparigas -que andavam a estender a roupa, cantando para amenizar o trabalho:
O sabão as nódoas tira,
Tudo se lava com água...
Nem um nem outra me tiram, Me lavam a minha mágoa.
II
O leitor decerto já percebeu que um acontecimento de vulto tinha vindo afinal quebrar a monotonia daquele plácido viver da aldeia.
O sol desaparecera havia pouco, quando a tia Angélica chegou ao povo.




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Os lavradores, entregues ao prazer da conversa, que corria em voz discreta, tão entretidos estavam, que só à segunda badalada das Ave-Marias é que tiraram os chapéus.
Agora, que eles se benzeram e trocaram os "Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo", acerquemo-nos dos diferentes grupos.
Não tem que ver; não se fala de outra coisa.
Ninguém quer acreditar que os dois maiores da terra estejam de mal; e, coisa notável!... ninguém se pronuncia por este ou por aquele! Não se ouve a voz do ódio, que exulta; não sibila a frecha ervada da inveja; não se nota o miserável prazer do mexerico!
Pelo contrário: conhece-se uma sincera consternação, causada pela desavença dos dois lavradores; vê-se que é real o desejo de reconciliação; não se ouve citar um facto que deslustre qualquer dos dois amigos tornados inimigos, ao passo que se apontam dúzias de boas acções, praticadas por ambos, quer individualmente, quer em comum.
e era merecida a justiça que lhes faziam.
Nascidos no mesmo ano, Joaquim, do Adro, e Manuel, da Portela, tinham crescido juntos, ligados sempre por, até então, jamais quebrantada amizade.
Na escola, se um apanhava meia dúzia de bolos, já o outro sabia a conta que tinha a receber pouco depois, porque o crime de um era sempre o crime do outro: ou não sabiam a lição






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por causa do mesmo ninho de melro, ou tinha cada um deles atirado a sua pedra tanto ao mesmo tempo e com tão igual certeza de pontaria, que -era impossível descobrir qual dos dois tinha quebrado as telhas do vizinho.
Mais tarde, no tempo das verduras de rapazes, bem precavido devia andar quem quisesse mal a qualquer deles, pois, quando apenas julgava encontrar um, achava com certeza dois marmeleiros, que consideravam a solidariedade como ponto de religião, tanto no ataque como na defesa.
O amor, finalmente, fez-se sentir em ambos ao mesmo tempo, e parece que Deus folgava com a aliança daquelas duas almas, porque de amigos, que eram, fez deles irmãos, guiando-lhes a escolha para duas irmãs, filhas de um abastado lavrador.
Igualmente honrados e ricos, sem segredos entre si, afeiçoados às cunhadas em quem viam irmãs, e aos sobrinhos, em quem, nos seus momentos de expansão, se compraziam a talhar futuros genros, que admira que a amizade da infância justificada pelo correr -dos anos, se transformasse em sentimento fraterno?
Bons e activos, eram eles a vida daquela aldeia; era a eles que os braços iam pedir trabalho e os corações conselho.
Não havia no povo quem lhes não devesse algum favor, e eram abençoadas as panelas daquelas duas casas, pois, por mais que fossem os




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pobres, nunca elas tinham deixado de ter no fundo uma tigela de caldo!
Não ficará suficientemente explicada a consternação dos habitantes da aldeia?!
É tempo, porém, de contarmos o que deu lugar à quebra daquela amizade de tantos anos, e para isso basta dizer em poucas palavras o que Madalena, mulher dde Joaquim do Adro, e Rosa, esposa de Manuel da Portela, contaram por entre lágrimas, e cada qual por sua banda, à tia Angélica, quando esta -em separado as interrogou.
Corria um Julho ardente, como os velhos de setenta anos se não lembravam de ter sentido; a água escasseava por toda a parte, e o milho abrasado pelo sol mirrava, pendendo para a terra, que expelia o calor por um sem-número de fendas, abertas como outras tantas bocas sequiosas.
Entre os campos, que mais estavam sofrendo, sobressaía um: a melhor peça dos bens de Manuel da Portela, o seu orgulho de lavrador!
Regado até então por abundante manancial, ou Deus lho secara na origem, querendo assim ver como o lavrador receberia uma provação, ou proprietário, arriscado a igual desgraça, lha desviarado curso natural.
Manuel da Portela, prevendo a última hipótese, caminhara um dia inteiro ao longo da veia, que lhe trazia o sangue da sua terra, e só parara quando aquela findou aos pés de um outeiro, base de outro monte mais elevado.




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Era ali, naquele monte, que nascia a sua água?...
Deus sabe os desejos que teve de revolver o seio do outeiro!
Quando regressou, vinha triste e pensativo, e, chegado que foi ao campo, pareceu-lhe que os pés do milho, como se lhe lessem no rosto a fatal sentença, se curvavam mais para o chão, e ficou-se ali a cismar!
De repente ergueu a fronte. O rosto revelava violenta luta...
Pouco tempo durou.
Chegou-se a um jornaleiro, que recolhia do trabalho, e disse-lhe bruscamente:
-Dá cá a enxada, ó Francisco,
O outro deu-lhe a enxada, e Manuel da Portela, caminhando para o lado oposto àquele por onde antigamente era regado o campo, entrou de cavar com ardor.
Horas depois, quem se lembrasse de atravessar o campo de Manuel da Portela, molhava com certeza os pés.
O lavrador acabava de cortar a água que ia fertilizar as terras do amigo.
Joaquim do Adro tinha o gozo daquela água por um número determinado de horas.
Vendo no dia seguinte que ela deixava de correr, estremeceu.
Fez o que o amigo fizera na véspera, com a diferença de não ter de ir tão longe.
Doeu-se do abuso e sobretudo da quebra de




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lealdade do amigo, que, por um pejo natural em quem tem a consciência de não ter obrado bem, lhe não dissera nada.
-Por isso tu não foste lá ontem à noite! - murmurou ele.
O rosto tingiu-se-lhe com o rubor da cólera, e Joaquim, obedecendo ao primeiro impulso, voou a casa do amigo.
- Tu cortaste-me a água!...
Tal foi a primeira frase que soltou.
O outro quis -desculpar-se; Joaquim do Adro azedou-se e alteou a voz; Manuel da Portela lembrou-se de justificar a acção; mas o ofendido falou nos seus direitos, e o ofensor, tornado injusto pela fraqueza da causa, replicou que Deus quando dava a água, a dava para todos, e que, uma vez que ela lhe passava primeiro à porta, se utilizava do favor de Deus.
Chegadas as coisas a estes termos, a discussão tornou-se violenta, e Joaquim do Adro declarou que as leis decidiriam entre eles, mas que estava rota a amizade que os ligava.
Joaquim do Adro saiu furioso.
Chegando a casa, a primeira cena que viu foi a mulher repartindo com escrupulosa igualdade um enorme bolo pelos filhos e sobrinhos.
- Isso!... - bradou ele -colérico. - Dá-lhes o pão a eles, já que o pai nos rouba o dos nossos!... Já daqui para fora, canalha! -continuou ele, dirigindo-se aos sobrinhos.
As pobres crianças, só afeitas às carícias de

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quem agora as maltratava, hesitaram, cravando no tio olhos de espanto e dúvida; mas, a um gesto expressivo dele, saíram às carreiras.
Pouco depois, ouvidas as explicações dadas pelo marido por entre impropérios contra o amigo, Madalena fazia o que Rosa não cessara de fazer desde o princípio da altercação - chorava!
No dia imediato, partiam para a vila, a horas desencontradas, e entravam em casa dos mesmos advogados Joaquim do Adro e Manuel da Portela.
Quem assistisse às consultas, pasmaria de ver que ambos tinham razão!
III
Nem os bons ofícios da tia Angélica, nem a transparente alusão, feita no domingo adiante pelo abade, que terminou por esperar que quem tinha obrigação de dar o exemplo de boa vizinhança o daria, nem as lágrimas das mulheres, e a tristeza dos filhos, privados dos companheiros de brinquedo, conseguiram abrandar a inimizade dos dois lavradores.
Pequenas misérias vieram ao contrário aumentá-la.
Ao sair da missa, por exemplo, vendo que o filho se aproximava sorrateiramente do primo, Joaquim do Adro exclamou com mau modo:
- Salta já para aqui, Manuel!




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E Manuel da Portela, em acto contínuo, deu um cachaço no filho, dizendo:
-Quem te mandou sair de ao pé de mim?
Dois dias depois, quando os moços de Joaquim ido Adro iam roçar um carro de mato, acharam tapada uma servidão, que Manuel da Portela, havia muitos anos, concedera ao amigo.
Tudo anunciava trágico desfecho, e pouco tardou o pretexto que o ia motivando.
Uma tarde, pelo escurecer, voltava do campo Manuel da Portela, quando avistou ao longe o concunhado em companhia de um outro lavrador, e, como não quisesse encontrar-se com eles, para não ter de saudar o outro vizinho, honrado velho que -ele respeitava, coseu-se com um muro, a esperar que eles passassem.
O Diabo, porém, que é tendeiro, fez com que parassem exactamente ao pé do muro, e Manuel da Portela, que estava pelo lado oposto, teve de ouvir, a par dos sãos conselhos que o bom do velho dava a Joaquim do Adro, para o acalmar, os insultos que este proferia, quando se referia a ele, que o estava ouvindo, e quase se descobre, para lhe tomar contas, quando ele terminou, dizendo e repetindo:
- Não ma tornou a cortar e tem sido a redenção dele!... Se ma corta, racho-o!... racho-o -de meio a meio!...
Ora, Manuel da Portela, na visita que fizera ao campo, achara o milho tão seco, tão seco, que estivera quase... quase a cometer de novo o
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delito por que ameaçavam rachá-lo de meio a meio.
Ouvindo a ameaça, o delito transformou-se em justo desagravo, e, dando uma volta, Manuel foi a correr cortar a água.
Joaquim do Adro, que levava a enxada ao ombro, viu, quando chegou ao campo, a repetição da repentina seca.
Agarrar a enxada pelo meio do cabo, correr perdido e louco e chegar arfando de furor e cansaço, pouco mais tempo lhe levou do que a mim a escrever isto.
A sua primeira ideia foi realizar a ameaça e rachar o outro de meio a meio; deteve-o... não sei o quê... a mulher, os filhos, o seu bom anjo, talvez!
Ficaram os dois frente a frente, mudos, separados pelo rego da água, Joaquim com os olhos brilhantes de cólera, Manuel com os dele animados por expressão de indomável azedume.
- Queres ou não queres pôr já essa pedra no seu lugar? - perguntou finalmente Joaquim, batendo com o olho da enxada na pedra, que o outro empregara, como dique, no rego que cavara.
- A pedra está bem onde está, e só vai para o seu lugar quando se acabar a rega. - respon-deu o outro em voz surda, mas firme.
- Põe a pedra, ou ponho-a eu... - bradou Joaquim.
- Nem tu, nem eu... - retorquiu Manuel.


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Pois espera que vais ver... - disse Joaquim, por entre os dentes cerrados.
E impeliu a pedra com a enxada para a boca do rego aberto por Manuel.
Este, sem dizer palavra, repeliu, também, com a enxada a pedra, mas com tal força, que ela, saindo do lugar onde Joaquim a colocara, veio encravar-se no rego antigo.
Joaquim do Adro deu um passo à retaguarda; Manuel fez o mesmo, e os dois miraram-se com espantosa energia, apertando com as mãos convulsas os cabos dos instrumentos de paz, tornados armas de guerra.
Eles conheciam-se bem e sabiam que não havia melhor jogador de pau do que qualquer deles, por todos aqueles arredores.
por fim, as enxadas ergueram-se e cruzaram-se.
-Ó homens, que vos deitais a perder!... Olhai ao menos para os pés, já que não olhais para o Céu!... -bradou -de repente voz pouco distante.
Os dois pararam maquinalmente e olharam.
era a tia Angélica, que voltava do monte, gememdo sob o peso de um molho de rama de pinheiro.
-Olhai para os pés, desatinados - continuou ela, aproveitando habilmente a pausa dos dois contendores.
- Olhai, olhai!... Vede se não é mesmo Deus Nosso Senhor, que vos está dizendo o que haveis de fazer!... Mas olhai para os pés, homens!
Notando a insistência da velha, os dois olharam

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e viram a água que, espraiando-se para ambos os lados, lhes estava molhando os pés.
A pedra, encravando-se no meio do rego primitivo, impedira a água de correr, e esta, não podendo vencer o obstáculo, crescera e trasbordara para os lados.
- Então?!... É por Deus ou não é?!... Não está Ele mesmo a dizer o -que haveis de fazer?... O que chega para um, bem repartido, chega para dois!... E isto não é novidade para nenhum de vós... Porque é que acabáveis sempre o serviço a tempo e horas?... Porque vos ajudáveis, toleirões! Quem criou a tua Joaquina, Manuel? Não foi a Madalena?... E quem passou quinze dias e quinze noites ao pé -da tua Madalena, sem se despir nem pregar olho, quando ela esteve com a febre maligna?... Não foi a Rosa, -dize, Joaquim? Apertem já essas mãos, seus mal-agradecidos!... Apertem, que é Deus quem manda!... Vós não vedes a água?!...
A pobre tia Angélica, que tinha atirado o molho ao chão, mostrava no rosto, nesse instante, uma expressão de tão irresistível autoridade, que os dois, não podendo afrontar-lhe a severidade do olhar, baixaram os olhos.
As palavras da tia Angélica, (que tão habilmente buscara o auxílio de Deus e fizera avivar a recordação dos recíprocos serviços, calaram finalmente no ânimo de ambos.
- É Deus quem manda... - disse finalmente Joaquim, estendendo a mão.





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- Perdoa-me, Joaquim! - respondeu o outro, apertando-lha.
E, cedendo à comoção, lançaram-se nos braços um do outro.
-Ora até que afinal! -bradou a tia Angélica, chorando de prazer. - Safa!... Cuidei que não tornavam a ter juízo!... Sempre se podem gabar de que tinham Deus por si!...
- Ó tia Angélica! - exclamou Manuel da Portela. - Nós como lhe havemos de agradecer?
-Não há nada mais fácil!... Ajudem-me a pôr outra vez o molho às costas - respondeu ela.
- Não consinto!... - atalhou Joaquim. - O molho levo-o eu.
- Eu... -disse Manuel, desviando o amigo e pegando no molho.
-Bonito! -interveio a velha, rindo - vejam lá se pegam agora por mor de mim!...
E rindo e chorando de prazer, lá seguiram os três direitos à povoação.
IV
Não é possível descrever a expressão de jubiloso espanto que iluminou o rosto de Madalena, quando viu entrar os dois, seguidos pela tia Angélica.
O primeiro pensamento foi para Deus, o segundo para a irmã.

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Apenas a emoção lhe consentiu falar, exclamou:
- Vai já chamar a tia Rosa, minha filha!... Corre, Joaquina!...
Imagine o leitor o quanto as duas irmãs choraram; o que disseram, as carícias que fizeram à tia Angélica!... Imagine, que eu não sei, não posso descrever-lho.
Passada a primeira explosão de sensibilidade, era encantador o quadro que formavam aquelas duas famílias.
As mulheres, sentadas uma defronte da outra, tinham trocado os filhos mais novos, e as pobres crianças, vendo-se novamente afagadas pelas -que consideravam segundas mães, brincavam agarradas ao pescoço das tias, cobrindo-lhes o rosto de beijos, que aquelas retribuíam com usura, mirando-as tão desvanecidas, que levavam a cegueira até quererem mutuamente convencer-se de que os sobrinhos haviam crescido sensivelmente, durante aquela separação de dias.
O filho mais velho de Joaquim brincava com a filhinha primogénita de Manuel, enquanto que os dois lavradores conversavam alegremente, e, dando de tempos a tempos uma palmada no ombro um do outro, diziam à porfia:
-Ora este Manuel!...
- Ora o diabo do Joaquim!...
E, sentada a um cantinho, contemplando-os a todos com o bondoso sorriso -de uma consciência



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satisfeita, via-se a tia Angélica, prestando inquieta atenção à conversa dos dois.
Bem convencida, por fim, de que era sincera a reconciliação, voltou-se para a dona da casa e disse-lhe em tom galhofeiro:
- Ó Madalena! Dá vinho a estes homens, pois a estes é a água que lhes sobe à cabeça... não é o vinho!
Madalena saiu, e voltou logo com uma enorme caneca, que entregou ao cunhado, e este erguendo-a exclamou:
- A saúde de quem nos aconselhou melhor do que todos os letrados, e decidiu como nenhum juiz era capaz de decidir!... Viva a tia Angélica!
- Viva a tia Angélica! - bradaram todos em coro.
- Viva Deus! filhos... - emendou a velhinha. - Viva Deus, que vos refrescou a cabeça... molhando-vos os pés!...
No dia seguinte, no ribeiro, as lavadeiras não falavam de outra coisa, que não fosse a reconciliação.




A BONECA
DE quantos espectáculos gratuitos é dado gozar a um homem do Porto, não há nenhum mais da minha paixão do que o das feiras do S. Miguel e S. Lázaro!
Se os feirantes pudessem adivinhar o bem que lhes quero, e os votos que faço, para que Deus lhes conceda bom tempo, não havia um só que deixasse de me dar o S. Miguel e o S. Lázaro!... Era o homem mais presenteado deste mundo!
Gosto daquelas feiras!... Delicia-me aquele barulho, faz-me rir aquele originalíssimo concerto ou desconcerto de assobios, tambores, trombetas e rebecas, que, soando de todos os lados, ensurdecem a gente, e nos irritam os nervos.
Gosto daquelas duas feiras, repito! mas dou a preferência à do S. Miguel.
Há maior espaço, mais desafogo, mais para onde uma costureira ingénua ou criada inocente




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se retire, para jurar em segredo ao namorado eterno amor, na esperança de lhe apanhar o S. Miguel.
O leitor acha talvez pueril o prazer que encontro naquele espectáculo...
É porque ainda não pensou no partido que dele pode tirar!
Dá margem a profundos estudos psicológicos!
Encoste-se a uma barraca, com sincera vontade de ver, de analisar, de estudar e verá como, ao cabo de meia hora, há-de saber muito segredo, muita aflição velada por um sorriso, muita lágrima represada, que uma palavra bastaria para fazer saltar dos olhos!
Imaginemos, por um pouco, que estamos numa barraca e analisemos.
Estudemos, por exemplo, este sujeito bem trajado, que contempla todas as quincalharias com olhos desanimados.
-Maldita seja a pequena!... Que diabo hei-de eu levar a uma criança daquela idade?!... Aquele serviço de chá?... São capazes de me levar um dinheirão por aquilo!... Se lhe desse uma boneca?... Ora adeus! Quando Deus quer, tem meia dúzia delas! E o pior não é isso!... O pior é ser preciso -dar-lhe alguma coisa... O pai ralhou-lhe; mas - afinal, quem meu filho beija, minha boca adoça... E é que não tenho remédio senão dar-lhe alguma coisa!... É o meu chefe!... Às vezes vê-se um pobre diabo preterido; quebra a cabeça para descobrir o motivo, e, afinal, prende


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a coisa numa sensaboria destas!... Mas... que lhe hei-de eu levar?!... Vejamos noutra barraca...
E o homem bem trajado retira-se, mas... deixá-lo ir; já -deu o que tinha a dar.
- Então, Sr. Sousa... Olhe que nos há-de dar o S. Miguel! - diz uma travessa menina de dezoito anos, falando por si e por duas amigas da mesma idade.
-Oh! minhas senhoras... Com o maior prazer!... O que V. Ex.as quiserem... - responde o Sr. Sousa, rapazote de vinte e três anos, com um destes sorrisos a que vulgarmente se chama amarelos.
Não façam caso do que ele diz! Olhem-lhe para a cor do sorriso, pois é ali que está o segredo!
Aquele sorriso... chora!
- E eu que só trago quinhentos e vinte!... - eis o que diz o sorriso.
Deixemos o mancebo, e aproveitemos esta família.
Oh! que horrível pequeno!... Que berreiro!...
-Eu quero aquele tambor... Eu quero uma espingarda, papá!... Eu quero aquela espada... mamã!... Eu quero aquele cavalo!...
-Está bom!... cale-se... O menino escusa de chorar... Vá... cale-se!... O papá vai dar-lhe o S. Miguel-diz a mamã, vexada pela triste figura que o filho está fazendo.
- Compra-lhe alguma coisa, Augusto... -diz timidamente a esposa.



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- Pronto!... vamos a isso!... - responde o papá, que não quer passar por avarento na opinião dos circunstantes.
O bom do homem compra uma espada; mas, como, feita a compra, o pequeno recomeça a ladainha dos queros, o chefe de família diz severamente: "O menino não tem querer!" e acrescenta em forma de satisfação às testemunhas daquela cena: "Isto de crianças é preciso não lhes fazer a vontade em tudo!"
Três passos adiante, -diz ele com mau modo à esposa:
- Aí está... Eu bem não queria -que trouxesses o pequeno!... Aí estão doze vinténs bem empregados!...
-Coitadinho!... - diz a mamã dando um beijo no filho. - Não querem que sejas criança...
- A senhora não sabe o que diz... -volve o marido impaciente.
A esposa fita-o indignada, leva em seguida o lenço aos olhos, trava da mão do filho e apressa o passo.
Ora Deus queira que aquela espada de lata não tenha dado o primeiro golpe no nó matrimonial!
Alto!... Isto é gente fina... Que perfeito cavaiheiro!... E a senhora?... e a menina?!...
Que elegância, que distinção de maneiras!... É pena que em tão aristocráticas feições se note tanta melancolia!
-Então, Júlia... escolhe!... Anda tu, filha...




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Vá!... Comprem o que quiserem!... Eu estou portudo... - diz ele.
A filha eleva os olhos tristes e interrogadores para os da mãe... Que lhe responderam os desta?... Não sei!... Soltando um suspiro e lançando um derradeiro olhar de resignada mágoa para todas aquelas tentações, a pobre menina responde:
-Hoje... não, papá... Outro dia...
-Bem... Quando quiseres...
iE elas aí vão com aquele perfeito cavalheiro, quando fora de portas, déspota grosseiro e egoísta abjecto quando o mundo o não pode ver!
Psiu!... Escutemos!... Aquele estudante parece altercar com aquela costureira!
- Eu já disse ao Sr. Maia que não é verdade!... - diz a rapariga quase a chorar. - Aqui a Ana que diga... Ó Ana, até que horas trabalhamos nós ontem?...
- Até às oito e meia...
-Combinação... - rosna o estudante, voltando as costas e dirigindo-se a um grupo de rapazes.
No rosto contrariado, mas resoluto, do mancebo lê-se: "S. Miguel não abichas tu... Ainda me não saí mal!..."
Os olhos da jovem, exprimindo dúvida e ternura, dizem claramente: "Se eu tivesse a certeza que foi só para me não dares o S. Miguel!.. "
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Como se lhe estivesse devassando a mente, exclama de repente a Ana, fazendo um gesto de desdém:
-Anda daí, tola... Teve medo que lhe pedisses cinco réis de anéis!
Aqui tem o leitor o que constitui, por assim dizer, para mim, o principal encanto das feiras de S. Miguel e S. Lázaro.
Deixe-me, agora, contar-lhe uma história - a história de uma boneca!
Não há muitos anos, mas ainda não era a Cordoaria o ameno jardim, onde a infância folga por entre maciços de flores e sob o sorriso do sol, sem que lhe enegreça o espírito a vista dos dois monumentos, que a meu ver simbolizam as duas mais horríveis calamidades que podem aniquilar um homem - o hospital e a cadeia! - ainda não há muitos anos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da feira, divertindo-me a meu modo.
Cansado das inúmeras figuras que tinha visto passar por aquela espécie de lanterna mágica, dispunha-me a dar por findo o espectáculo, quando novos personagens me chamaram a atenção.
Eram os meus vizinhos ricos.
Aqui é preciso uma rápida explicação.
Das famílias da minha vizinhança, só conheço três.
Uma vive na loja da casa que habito. É uma tribo de crianças, que fazem o martírio e a alegria


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da pobre mãe, e tem por chefe um honrado sapateiro.
Alguns deles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem anjos caídos do Céu sobre um monte de lama.
São os meus vizinhos pobres.
A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e ocupa a casa imediata.
É, como se costuma dizer, gente que vai muito bem com a sua vida.
A filha, que terá dez anos, tem destas faces rosadas, rijas e carnudas, cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à pressão.
São os meus vizinhos remediados.
A terceira é a dos meus vizinhos ricos.
Casa nobre, jardim espaçoso, cavalos, criados, nome inscrito nas listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do Estado -nada falta àquela ditosa gente!
Compõe-se igualmente de marido, mulher e filha.
Que formosa criança!... Terá oito anos.
Franzina e pálida, com os cabelos negros, os olhos grandes e cismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e esguios, terminados por unhas de uma -cor de rosa transparente, que não sinta antecipada inveja do feliz namorado- provavelmente ainda a crescer-que há-de um dia ter o direito de lhas cobrir de beijos.

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Qual destas três famílias será mais feliz?...
Pelo que tenho notado, não têm que invejar umas às outras.
São todas felizes; cada qual a seu modo.
Vi, pois, chegar os meus vizinhos ricos.
Parou o carro, o criado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu vizinho saltou, tomou nos braços a filhinha e depô-la no chão, e oferecendo, em seguida, a mão à esposa, para a ajudar a apear, dirigiu-se com ela e com a menina para a barraca onde eu estava.
Não havia ali segredo -a surpreender.
Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que parecia agradecer àquela formosa criança a manifestação de qualquer desejo.
No fim de meia hora possuía a minha pequena vizinha com que fazer afelicidade de dez crianças menos abastadas.
Tinha o necessário para montar completamente a casa de uma boneca... rica.
Faltava apenas a dona da casa-a boneca.
Todo risos e atenções, o lojista apresentou o que tinha de melhor.
Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar a mamã, a gentil criança acabou por escolher uma magnífica boneca de dois palmos de altura, cabelo em bandeaux e olhos azuis.
Uma boneca como as outras: cabeça e colo




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de massa, corpo de pelica recheada, braços e pernas de pau.
Feita a compra, o pai pagou, chamou o criado, e este mudou todas aquelas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do carro.
A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocrática criança.
Saí -dali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa veriadíssimas considerações, sugeridas pela quase indiferença com que aquela menina
recebera brinquedos, que representavam um par
de moedas.
Que contraste com os olhares de cobiça, com que outras raparigas da mesma idade namoravam uma destas bonecas de cabeça de pano, horrível artefacto português, em que os olhos são representados por dois pontos de linha azul, o nariz por um alinhavo de retrós cor-de-rosa, a boca por outro de fio vermelho, e os cabelos por flocos de lã preta!
Quando cheguei a casa, já na dos meus vizinhos remediados não havia luz.
Na dos meus vizinhos pobres, o pai batia a sola, cantando ao som de três assobios e duas campainhas de barro com que os anjos, por lavar, provocavam os ralhos da mãe.
Quando, no -dia seguinte, cheguei à janela, seriam onze horas da manhã.
Na rua agenciavam nova camada de imundície os filhos do sapateiro; na casa imediata não se via ninguém-estava a pequena na mestra;
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no palácio, sentada num tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda, divertia-se a minha pequena milionária fazendo rodar, com auxílio de uma linha, uma magnífica caleche descoberta, puxada por cavalos brancos.
Dentro da caleche pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.
-Aí está a tua caricatura, minha feiticeira!... - disse eu de mim para mim. - Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!... Estás a aprender a copiar... Sempre este mundo!...
Retirei-me da janela.
Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma cena.
A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se vestia três e quatro vezes!
Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a tratava!
Chamava-lhe Sr D. Luísa; dava-lhe excelência; sustentava finalmente com a boneca um destes diálogos de senhoras da alta sociedade, em que se fala de tudo, sem se dizer coisa alguma.
Um dia-estava eu de costas voltadas para a janela dos meus vizinhos ricos - ouvi um grito de susto.
Era devido a um acidente, a que está sujeito quem anda de carro.
Voltara-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janela.




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O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a vítima; vendo, porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e lembrando-se -de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra nova, agarrou-a pelos pés e ia atirá-la com despeito à rua, quando mais perto de mim bradou voz tímida e suplicante:
-Não atire!... Dê-ma...
Era a minha pequena vizinha da casa pegada, de quem eu não dera fé até então.
Assim invocada, a menina rica franziu levemente as sobrancelhas e lançou um olhar de rainha para o sítio de onde vinha a súplica.
Vendo uma criança pouco mais ou menos da sua idade, serenou e, encolhendo os ombros, respondeu:
-Já não presta!... Está esmurrada!...
- É o mesmo!... Dá-ma?... -bradou a outra,
cujos olhos brilhavam de cobiça.
- Dou... - volveu a rica, encolhendo nova
mente os ombros.
E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da vizinha, que tremia, receosa de que aquele tesouro fosse despedaçar-se nas lajes da rua.
Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a outra, para mostrar à mãe a que ela ainda não podia acreditar que fosse sua!
Por espaço de meses foi a boneca a principal ocupação da nova dona.



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A pobre perdera na troca. Ia longe o tempo em que ela se vestia quatro vezes em quatro horas!... Já lhe não davam Ex.a! Chamavam-lhe Sr.a D. Ana; falavam-lhe de arranjos domésticos, do desmazelo da criada, da missa das almas, de coisas, finalmente, completamente estranhas para ela!
E a desgraçada perdia as cores; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos azuis; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia se tornava mais escura: parecia uma nódoa, um estigma!
Nos primeiros tempos, enquanto durou o vestido que trouxera no corpo, ainda poderia enganar olhos pouco conhecedores.
Não tardou, porém, que arrebiques de mau gosto, fitas velhas, rendas amareladas, chapéus impossíveis viessem contrastar com a elegância do vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja de uma adeleira.
Mas o vestido foi-se tornando velho; desapareceu o brilho e, com ele, as ondulações do moire, até que, um belo dia, vi a boneca vestida de cassa -no Inverno! - xaile, e manta na cabeça.
Muito mal lhe ficava tudo aquilo!... Àquela boneca custava-lhe decerto o ver-se tão mal arranjada.
Eu retirei-me da janela soltando um suspiro, e balbuciei:
- É justo!... Cada qual segundo as suas posses.




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Por esse tempo, entrei em relações com o meu vizinho sapateiro.
O honrado homem soubera que eu me queixara da bulha que os filhos faziam logo ao amanhecer, e aproveitara a primeira ocasião para me pedir desculpa.
Vendo-me conversar com o pai, tinham-se os filhos animado a aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem grave risco de sofrer as consequências da sua travessa familiaridade.
Entre os filhos do sapateiro, porém, há uma pequenita de onze anos, com quem simpatizei logo à primeira vista.
Chama-se Maria.
Por um destes acasos da Providência, que parece às vezes comprazer-se em criar contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.
Acostumado às travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro, fiquei deveras pasmado quando o pai ma apresentou.
É bem verdade que ele conhecia o valor daquela criança, porque havia verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse:
- Esta é a minha Maria!
E tinha razão!
Não podia ser mais discreta do que já nesse tempo era.
- É quem vale à mãe!... - acrescentou o velho. -Ali, onde a vê, faz o serviço de uma mulher!.. Há seis meses, quando a minha santa esteve



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doente -bem pensei que não arribasse! - a pequena era quem cozinhava e olhava pelos irmãos!... E caridade como ela tem?!... Olhe que aquela pequena esteve três dias sem se deitar... ali... ao pé da mãe! Foi preciso eu obrigá-la, que ela não a queria deixar!...
E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lágrima, que, havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.
Fazia gosto ver aquela pequena com o seu vestidinho de chita escura e a cabeça coberta por um lenço branco.
Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais passei por defronte da porta da loja sem dar pelo menos os bons-dias à pequena.
Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas com uma boneca deitada nos joelhos.
- Eu conheço aquela boneca!... - disse eu de mim para mim.
E, não podendo resistir à curiosidade, bradei:
- Ó Maricas!... Quem te deu a boneca?...
-Foi ali a menina da vizinha! - respondeu a pequenita, corando -de prazer.
Era escusado dizer-mo.
Maria pegara na boneca, e voltara-a de face para mim. Não podia duvidar... Era ela; lá estava a mancha, o estigma cada vez mais visível na fronte.
De tempos a tempos, nas raras horas de descanso, Maria entretinha~se com ela.




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-Quem te viu e quem te vê! -pensava eu.
Às vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lha podiam apanhar, que tratos que sofria a desgraçada!
Roçada por aquelas mãos, -de que um carvoeiro se envergonharia, empregada como péla, submetida a torturas, era, aindaassim, singularíssimo o aspecto da triste!
Dava ares de uma duquesa que, por necessidade, houvesse sido levada a fraternizar com o povo.
A mísera mudara mais uma vez de nome!... De Sr.a D. Ana passara a ser Sr a Rosinha, e tratavam-na por vossemecê.
Trajava vestido de chita, capote velhode pano verde e lenço na cabeça.
Era um prazer para mim o escutar as conversas que Maria sustentava com a boneca.
Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria, encarregando-se de perguntar e responder por ela, obrigava a pobre boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta -de trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assuntos, finalmente, que mais familiares eram á pequena.
Outras vezes passava a boneca a ser criada de servir. Repreendiam-na, mandavam-na buscar água à fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e acabavam por a despedir.
Já o leitor vê que, apesar da bondade de Maria, deixara de ser feliz.





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Iam longe os bons tempos em que ela, rica, morava no palácio vizinho!
Desmaiada -de cores, quase perdido o cabelo, semiapagados os olhos, desfeito o carmim dos lábios, a boneca não prometia longa duração.
Foi este, pelo menos, o prognóstico que fiz a última vez que a vi, tentando em vão agradar à última dona, que o seu destino lhe dera.
Coitada!... Bem longe estava de lhe imaginar o fim!
Um dia - chovia a cântaros! - o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua, espadanava em cachão para cima dos passeios, arrastando na passagem mil imundícies.
Eu estava à porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava melancolicamente para a água negra, que corria. Nisto, ouvi um grito, que partia da loja do sapateiro. Voltei maquinalmente o rosto... Um objecto, arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço, voando, e foi cair no leito do enxurro...
Olhei... Era a boneca!...
A mísera, arrastada pela água, vogou rua abaixo até esbarrar numa pedra; mas o redemoinho envolveu-a e, depois de a fazer girar três ou quatro vezes, obrigou-a brigou-a a passar pelo estreito traçado entre a pedra e o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas profundezas da primeira boca-de-lobo que encontrou na passagem!
Será pieguice, será o que o leitor quiser; mas




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confesso-lhe que me impressionou o fim da pobre boneca.
Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado -à vidraça do sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:
- Porque deitaste fora a boneca, Maricas?! -Não fui eu... -balbuciou a pequena, chorando. -Foi ali o Joaquim!...
- E porque fizeste tu aquilo, Joaquim?...
-Ora!... - respondeu o garoto com enfado. -Ora!... Estava velha... e feia!...
Curvei a cabeça ante aquela razão e segui o meu caminho. Dez passos adiante dei com os olhos numa mulher, pobremente vestida, e pareceu-me que escondia o rosto no cabeção do capote, como que receando que eu a conhecesse.
Não foi, porém, tão rápido aquele movimento, que não lhe pudesse, ainda que de fugida, distinguir as feições.
-Conheço esta mulher!... - pensei eu.
E, parando, voltei-me para a seguir com a vista.
Ao chegar à esquina, não resistiu a voltar-se para trás, provavelmente com medo de que a seguisse.
Vendo-a então de frente, estremeci!
. .
A história da boneca era a história daquela mulher!
Caíra... e descera!
E eu.. que a conhecera, festejada no seio da

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opulência, e acabava de a ver passar, tentando encobrir nas dobras do capote o estigma que a vergonha lhe imprimira na fronte, cravei instintivamente os olhos na boca-de-lobo por onde vira desaparecer a boneca e murmurei, pensando na mulher:
- Velha e feia!...
Aquela... espera-a a vala comum!.. a boca-de-lobo em que se somem os pobres!...
-Pobre mulher!...
-Pobre boneca!._
.



A DOIDA DE TAGILDE
POUCAS serão, no Porto, as pessoas que não conheçam Vizela.
Disse mal... Poucas serão as que não tenham ido a Vizela; as que conhecem bem aquela formosa aldeia são raras.
Para a maior parte dos banhistas, Vizela é uma praça irregular, cercada de casas ainda mais irregulares, praça emendada numa outra, a que, por murada e cheia -de árvores, dão o nome de alameda os mais modestos, e de jardim os que tentam convencer-se de que é jardim aquele recinto, onde as galinhas ensinam as ninhadas a -dar os primeiros passos e a ganhar a vida, e onde o porco passeia sem vergonha e à vontade.
A tudo isto, dão indígenas e estrangeiros o nome -de Lameira e devem os porcos, que ali pascem, dar o de lameiro.
Dessa classe de banhistas, há um ou outro



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mais ousado, que estende a sua sede de ver mundo até à igreja de S. Miguel, ou mesmo até à ponte.
Pois dificilmente se encontrará tanta beleza em tão limitado espaço!
Ao leitor que tiver arremessado para longe as muletas, com que lá foi este ano, e puder para o seguinte dar o seu passeio a pé, sem se incomodar, poder-lhe-ia eu apontar tantos passeios, quantos forem os dias que tiver de demorar-se a banhos!
Há, porém, pontos de vista, que o não dispenso de gozar, se é que falo a um homem inteligente, a quem canseiras e anos não roubaram de todo o entusiasmo, que desperta em nós a contemplação do belo.
Por noites bem claras e tépidas de Julho, se a sua boa sorte o levar à antiga ponte de pedra, detenha-se o leitor em meio e espraie a vista para ambos os lados.
Se se encostar ao parapeito que dá para a povoação, enxergará, à luz do tapete de pirilampos, que a lua estende sobre as águas verde-negras do rio, enxergará, repito, a fita agitada do Vizela a serpear por entre pequenas ilhas, cobertas de ervas e arbustos, e ao fundo, despenhando cristais e pratas polidas, o açude -do Pisão, flanqueado de um lado por decrépito moinho, assombrado do outro por anosas carvalheiras.
Se, depois de cinco minutos passados na contemplação daquele quadro, a que as sombras caprichosas



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e fantásticas da noite dão um aspecto de selvagem e inexcedível poesia, o leitor não ouvir a voz da sua alma bradar-lhe: "É belo!.." então... vá para casa, que são horas de tomar banho.
Volvendo a vista para o lado oposto, a cena é totalmente diversa.
Sumindo-se silenciosamente e vencendo, sem esforço, as sinuosidades das margens, o Vizela escapa-se por entre choupos e salgueiros, cujas sombras vêm projectar-se no rio e encontrar-se no meio, reflectindo, num ou noutro ponto, a Lua, que parece respeitar aquele sossego.
Mais formoso do que o Vizela nesse espaço que se avista -da ponte, só o poético Mondego!
Se, estimulado por este espectáculo, quiser, no dia seguinte, subir ou descer o rio, juro-lhe que verá paga a fadiga.
Quer suba até à ponte velha, quer desça até à fábrica de papel, verá suceder o ameno ao selvagem, o horrível ao belo, mas sempre poético, sempre, deixe-me assim dizer, original.
Se subir pela margem direita, ao fim de um campo ou antes areal, encontrará uma descida, semeada de pedras brutas e informes até à beira do rio e poderá, caminhando por sobre as poldras, ir sentar-se junto à represa do moinho da Cascalheira.
O misantropo, o poeta que precise cerrar os ouvidos à voz do homem e procure a de Deus, que nos fala no sussurro do vento, no murmurar

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da linfa, no ciciar das folhas, ou no bramir da torrente, todos os que, ou por feridos no coração ou por aspirarem mais alto, se sentem pouco à larga entre os homens, não poderão decerto ver a Cascalheira, sem invejarem a sorte do pobre moleiro, a quem as pancadas das rodas tornam surdo para tudo, se é que algum dia ouviu.
Basta!... Estou satisfeito; era à Cascalheira que eu queria que, ou por gosto ou por condescendência, o leitor me acompanhasse.
Seguindo, para lá chegar, o caminho que descrevi há pouco, haverá bons vinte anos vi eu pela primeira vez aquele pitoresco local. Era ainda mais belo, se é possível, porque, de então para cá, a mão do homem, que estraga tudo quanto a natureza cria, operou ali umas transformações, que só serão toleráveis quando a água do Vizela e o trabalho do tempo tiverem impresso no que é moderno o cunho de velhice que distingue o resto.
Nesse tempo, pois, era aquele formoso assunto de aprazível quadro ainda mais pitoresco do que hoje, e, no dia em que pela primeira vez o vi, animavam-no dois seres, que me ficaram para sempre gravados na memória.
Ia eu a pôr o pé na primeira poldra, para atravessar o rio, quando, da outra margem, me chegaram estas palavras, cantadas numa toada melancólica, que ouvia pela vez primeira e nunca mais tornei a ouvir:


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Vagamos juntas no mundo, Que nada nos prende, nada! Eu guiada pela ovelha,
A ovelha por Deus guiada!...
Observando atentamente a margem fronteira, descobri, cerca de vinte passos abaixo do moinho, uma mulher sentada à beira do rio, e ao lado dela uma ovelha branca.
Era singular o aspecto daquela mulher, que se me apresentava acompanhada pela ovelha, como me prevenira a cantiga.
Teria trinta e cinco anos; a tez, que, a avaliar pelos olhos azuis, devia ter sido alva, estava queimada pelo sol e o tempo levara-lhe o viço, dando-lhe em troca uma ou outra ruga. O cabelo louro começava a branquear nas fontes.
O vestuário era pobre, mas atestava escrupulosa limpeza.
Ocupava-se naquele momento em introduzir por todas as costuras de um grosseiro chapéu de palha uma aluvião de flores silvestres, e parecia causar-lhe voluptuoso prazer a frescura da água, em que mergulhara os pés, provavelmente doridos de longa jornada.
Certo de que ela me não vira, retirei-me cautelosamente, e fui sentar-me um pouco mais longe.
Despertara-me a curiosidade aquela mulher.
Meia hora, seguramente, permaneceu ela ali,
entregue de alma e coração à sua tarefa, até que,
satisfeita provavelmente com o seu trabalho, mirou o chapéu
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por todos os lados e pondo-o, finalmente
na cabeça retirou os pés do rio e, ajoelhando sobre a margem, contemplou atentamente
a própria imagem, reflectida na água.
Em seguida, erguendo-se, voltou-se para a ovelha, dizendo:
- Anda, Menina... vamos esperar o Francisco.
!






E a Menina, levantando-se, correu, naquele passo trémulo e pretensioso das ovelhas, a colocar-se diante da dona, e lá seguiram as duas, como a mulher de novo cantava - esta guiada pela ovelha, a ovelha por Deus guiada!
Mas quem era aquela doida-pois já se vê
que o era - que assim ia, acompanhada por uma ovelha, como por um cão, em procura desse a quem chamara Francisco?!...
II
Não imaginem os leitores que estou improvisando!... Não!... Quem tiver ido a Vizela, haverá vinte anos, deve ter visto aquela mulher mais do que uma vez.
Curioso de descobrir quem era a pobre doida, logo às primeiras perguntas tive quem me dissesse: "Ah! já sei!... É a doida de Tagilde, ou da ovelha, como lhe chamamos por aqui."
-E sabe a história da pobre mulher?... - perguntei eu.
- Se sei!... Todo o mundo a sabe! - respondeu-me




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a minha senhoria, tia Miquelina, santa velha que morreu sem tomar um banho termal, por estar convencida de que aquela água, que assim jorrava, cheirando a enxofre, do seio da terra, era, como ela dizia - aquecida nas profundas do Inferno!
- Então, se sabe, conte-ma!...
- À noite... agora não; à noite!... -respondeu a boa da velha.
E o caso é que tive de esperar até à noite. Escusado é dizer que recolhi nessa noite mais cedo.
Se me não saíam da ideia a doida e a ovelha! Não nascera, infelizmente, a tia Miquelina, para contar casos.
Era uma ladainha monótona a narrativa, feita por ela, de forma que, sacrificando embora a cor local, tenho eu de contar a história a meu modo.
Dez anos antes da época a que me referi, isto é, haverá trinta anos, não havia em dez freguesias ao redor quem não conhecesse a formosa "loura de Tagilde" destinada mais tarde a ser a - doida de Tagilde.
Era uma destas criaturas perfeitas, encantadoras, sem senão, que Deus se compraz em soltar de sua mão, para justificar a mais alta lisonja feita pela tradição ao género humano: "Fez
Deus o homem à sua Imagem e semelhança! "
Seria impossível contar os jovens que se deixaram prender nos áureos fios daquelas bastas
tranças e aspiraram a ver raiar o sol da esperança
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no céu azul daqueles lânguidos e apaixonados olhos!
E assim correram anos, sem que as tranças da jovem se deixassem agarrar pelos que as perseguiam, sem que do céu daqueles olhos baixasse um raio de sol a iluminar de preferência o coração de qualquer deles.
Lá veio um dia por fim - e tinha Maria os seus vinte e três anos -e que numa romaria se encontrou com um gentil paz de Santa Eulália de Barrosas, e sentiu, pela primeira vez, palpitar o coração com desusada força.
Era Francisco, o mais guapo moço, jovial cantador ao desafio, destemido jogador de pau, e habilidoso carpinteiro, de todas aquelas cercanias.
Só tinha um defeito... Era um mãos largas - vintém ganho, vintém gasto!
Se Maria deu pela primeira vez atenção a um rapaz, desconhecida emoção deu também a perceber a Francisco quão efémeros tinham sido todos os seus amores até então.
Finda a romaria, retirou-se a jovem no meio de um rancho de companheiras, debaixo da protecção dos marmeleiros dos parentes, e seguiu-a a distância Francisco com um bando de mancebos.
As raparigas riam e cochichavam, lançando de vez em quando olhos maliciosos para os rapazes, ao passo que estes pesavam os prós do folguedo com as raparigas, e os contras, que podiam




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resultar da má vontade dos marmeleiros paternos.
De repente, uma cachopa morenita, de olhos negros e nariz arrebitado, a quem as goelas ardiam e a língua se perdia com cócegas, distribuiu dois murros pelas amigas que levava aos lados e que pareciam querer desviá-la de levar por diante uma resolução qualquer, arqueou os braços, fincou as mãos na cinta e cantou:
Quem nos segue, se é cão -ladre; Se homem é... então que fale! Se o cão que não ladra é falso Homem mudo é tal e quale!
Palmas e vivas das raparigas e dos guardiões
não havia no rancho quem, como o leitor, se escandalizasse por uma sílaba de mais - palmas e vivas, repito, acolheram o final da cantiga de Joana, que assim se chamava a azougada cantadeira.
- Ó Francisco!... Ó Francisco!... -instavam os rapazes. - Responde àquele diabo!... Olha que parece mal!...
- Esperai, homens!...
Seguiu-se profundo silêncio.
As jovens esperavam, curiosas, a réplica dos rapazes, ao passo que estes se impacientavam com a demora que Francisco punha na resposta.
Depois de visível esforço, cantou Francisco em voz trémula:


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Ao ver-vos perdi a fala,
E perdi o coração; Perdi-o por uma loura,
Que me trata como um cão!
Estrondosos gritos de alegria saíram do grupo dos rapazes, ao passo que as raparigas pisavam com os cotovelos os braços de Maria, dizendo-lhe maliciosamente: "Apanha!... Aquilo é contigo!...Olha que foi o Francisco, de Barrosas!... Responde-lhe tu agora, anda!.. "
De cantiga em cantiga se foram os dois grupos familiarizando, a ponto de, na primeira venda que encontraram, enquanto Francisco se aproximava sorrateiramente das raparigas, que no meio do caminho riam alegremente, torcendo os lenços de renda, que são os leques da aldeia, fraternizaram os dois grupos de homens entre enormes copos de vinho, trocadas as sacramentais palavras:
- Vá a virar!..
- Está em boa mão...
- Para melhor vai.
-Então lá vai à saúde de vossemecê.
E leva-se o copo à boca, põese-se em meio, limpa-se o bordo do copo com a anga da camisa, antes de o passar para a mão do outro, e aí está como se trava na aldeia um conhecimento, e muitas vezes amizade eterna!
Esgotados os copos, e findo o duelo de bizarrias para ver quem havia de pagar a despesa, seguiram os grupos, rindo e folgando confundidos.





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Mais do que um perdeu a liberdade do coração naquele passeio, e, entre esses, Francisco, que retirou doido de amor daquela primeira escaramuça, precursora de futuras e valentes batalhas.
Estava seriamente ferido, e, que o não estivesse, não era ele homem que deixasse em meio a disputada conquista do coração de Maria.
Domingos e dias santos, quantos vieram ao mundo, todos os passou ele em Tagilde desde então, e, mais -que uma vez por semana, ao despegar do trabalho, o levou lá o amor.
Correram dias e meses, e cada dia que passava não só enterrava mais fundo no coração do carpinteiro as raízes daquele afecto, mas também cada vez lho depurava mais.
Naquele coração volúvel, que até àquela data só conhecera do amor a parte vil, entraram de florescer respeitos e germinar escrúpulos, que lhe transformavam o peito em altar, onde sorria pura e imaculada a casta imagem da loura virgem de Tagilde.
Quanto ao que esta sentia, diz-se tudo dizendo-se que fora aquele o único homem que vira com os olhos da alma.
Bastante tempo correram aqueles amores, sem serem contrariados; lá veio, porém, um dia, em que o pai da jovem abriu os olhos e compreendeu a alegria da filha aos domingos, a contrastar com a tristeza que lhe anuviava o rosto pelo resto da semana adiante.


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José Francisco era o que se chama um bom chefe de família, e um homem honrado.
Afligiu-o a descoberta dos amores da filha, porque o carpinteiro tinha adquirido fama de estroina e de gastador, defeitos apenas compensados pela virtude do trabalho e pela justiça feita à sua probidade.
Depois de muito ruminar, um domingo, em que Francisco lhe passava pela vigésima vez à porta, desesperado por não ter podido falar com Maria, a quem a presença do pai não permitia sair, bradou-lhe o velho:
- Olé!... ó Sê Francisco!...
O leitor imaginará a pressa com que este acudiu ao reclame.
- Vai para diante? - perguntou o lavrador, trocadas as boas-tardes.
-Vou, sim senhor... - respondeu o mancebo.
- Então, se dá licença... acompanho-o até além...
- Com muito gosto... - replicou Francisco.
Em coisas indiferentes foram os dois falando, até chegarem fora da povoação.
À beira -de um campo, encostou-se o lavrador a um portelo, fez com o pau uma mossa no chão, e, metendo a extremidade superior debaixo do sovaco, perguntou com aspecto grave:
- Fale-me sério e verdade, como se falasse ao confessor!... Ora diga-me... vossemecê anda atrás da minha cachopa?... É escusado fazer-se



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vermelho, homem!... Nem sequer lhe progunto as suas tenções... Só lhe progunto uma coisa... Vossemecê sabe quantos filhos eu tenho?...
Francisco, de enleado, nem encontrou resposta.
-Tenho cinco; três -do primeiro casamento e dois do segundo. O que há pode-se dizer que é dos três mais velhos; os segundos nada e o que têm é a mesma coisa... Ora a cachopa é do segundo casamento... Já vê que nem tudo que luz é ouro!...
Francisco fez um gesto de abnegação e ia a falar; mas o velho interrompeu-o, dizendo:
-Bem sei, homem!... Bem sei o que me vai dizer!... Não é pelo dote?... Acredito... Mas eu é que sou pai... e progunto... Que posses tem vossemecê para manter mulher e filhos, se os vier a ter?.. Não olhe para os braços, homem!... São bons... bem sei... mas... braços quebra-os uma doença... e depois?... Numa palavra, Sê Francisco... Nem vossemecê nem ela têm; é preciso que cada qual arranje quem lho traga... Não servem um para o outro; e vossemecê, se é homem honrado, como me dizem que é, e eu acredito, vire as vistas para outra banda... Aquela não lhe serve.
Francisco ficou como fulminado. Mal pôde falar, o ardor da paixão tão eloquentemente o inspirou, que o lavrador chorava como uma criança, mas continuou a abanar a cabeça, dizendo com magoada voz:




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-Não pode ser, homem!... Não pode ser!... Era uma desgraça para os dois!
E o coração do velho, embora rudemente abalado, permaneceu sujeito aos austeros ditames daquela razão, robustecida pela sua previdência de pai.
Dizer o que Francisco sofreu desde Tagilde até Barrosas, contar os projectos que formou na noite de insónia que se seguiu àquela conversa, seria inútil tentá-lo!
Quando o dia, coando pelas fendas da janela o convidou a erguer-se do leito, onde se deitara vestido, só um dos mil projectos, que formara, se conservara de pé.
Mas de que cruel execução ele era!
O Brasil prometia-lhe um futuro; mas o presente... o presente iluminado pelos meigos olhos de Maria... quem lho havia de pagar?!...
Como havia ele viver anos sem a ver, se semana que a não visse lhe parecia uma eternidade?!...
Bem procurou o pobre rapaz outro meio, menos custoso... Não o encontrou!
Dias depois, quem passasse ao cair da tarde na extrema da aldeia de Tagilde, veria o carpinteiro conversando com o pai de Maria, e, se parasse, ouviria estas palavras, que eram naturalmente o resumo de quando haviam dito antes:
E vossemecê promete-me não obrigar a filha a casar com outro, se ela quiser esperar



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por mim?... -perguntava Francisco com pungente ansiedade.
-Prometo respondeu o velho em voz solene. - Vá, trabalhe, faça-se homem e, se ela quiser esperar por si.. não serei eu quem lhe negue o consentimento...
- Muito obrigado!... muito obrigado!... Deus Lhe pague tanta amizade, como a que vossemecê me mostra... Só tenho mais um pedido a fazer-lhe... - continuou Francisco, chorando. - Dá licença que me despeça dela?... Olhe que pode ser para sempre!...
Depois de breve hesitação, o velho respondeu em tom comovido:
-Vá lá!... Diga-lhe adeus!...
E o velho voltou o rosto para o lado, para encobrir as lágrimas.
-Venha daí!... -acrescentou o honrado lavrador.
Seguiu-o Francisco, cabisbaixo e com o coração golpeado.
-Que sina a minha! -pensava o pobre rapaz. - É a primeira vez que entro em casa dela, e talvez que seja a última!
Entraram os dois.
Maria, que já estava prevenida e havia muitos dias não fazia senão chorar, ao ver o rosto demudado do carpinteiro e a tristeza do pai, fez-se pálida como um cadáver e teve que se agarrar a uma cadeira para não cair.
-Maria... - disse o velho. - Está aqui o




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Francisco, que te vem dizer adeus. Tomo a Deus por testemunha, filha, que sinto hoje não ter bastante de meu, para te deixar seguir a tua inclinação. Mas o tempo depressa passa - continuou ele, esforçando-se por parecer alegre. - Oh! se passa! Verás, cachopa!... A vontade que ele leva de ser homem, têmo-lo cá para o ano rico como um porco!... Ora andem lá... conversem, mas nada de afligir!... leve o Diabo paixões!
E o velho, já para fugir a uma contagiosa cena de lágrimas, já por um movimento de instintiva
delicadeza, -deixou-os sós.
Há cenas que se não descrevem. O leitor que tiver passado por tão solene transe, como é o de uma despedida, quando a volta é incerta, lembra-se, sem dúvida, -de quanto sofreu!
O coração estorce-se; a mente compraz-se em enegrecer o futuro, tornando eterna uma separação, que a voz sempre viva da esperança nos aponta como temporária; os olhos estudam amorosamente as feições do ser que vamos deixar, como querendo gravá-las ainda mais fundo no íntimo do coração; as mãos estreitam-se sem se poderem desunir; os lábios emudecem, receosos da fatal palavra - Adeus! - e os pés como que se pregam ao solo amado, onde nos fica tudo quanto nos tornava risonha e fácil a existência!
- Hás-de escrever... Francisco!... sempre!... e muito!... - dizia a jovem, comprimindo convulsivamente as mãos do mancebo.






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- Sempre!... Maria... sempre! - respondia este soluçando.
- Para que te vi eu, Maria!... -continuou ele, estreitando nos braços a gentil menina.
!Estavam os dois assim, nos braços um do outro, e confundindo as lágrimas, quando soou, por detrás deles, comovi-da, a voz -do velho:
-Basta, filhos!... basta!... Então! é preciso
ter ânimo!.. Ora vá.. ora vá.. Então... Maria!... Vá... Francisco... Vá! Um homem é um homem!
o velho desuniu-os brandamente.
Francisco, doido de saudades, levou as mãos aos lábios e lançando à jovem um derradeiro beijo, bradou:
- Adeus! - e saiu desorientadamente.
- Francisco! -exclamou Maria num grito, que traduzia todas as dores que podem lacerar um coração de mulher.
O mancebo, porém, já a não ouviu, e a jovem, lançando os braços em volta do pescoço do pai, exclamou dolorosamente:
- Oh! meu pai!... vi-o pela última vez!
O velho empalideceu e não encontrou resposta, porque, como ele mais tarde confessava, pareceu-lhe ouvir dobrar afinados naquela frase angustiada da filha!
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III
Partiu Francisco para o Brasil. Nesse tempo, o país dos sonhos ambiciosos desses que vão colher areias de ouro em rios de lágrimas, era bem mais cruel exílio do que hoje!
Nesse tempo, quando dois corações se separavam, só ao cabo de muitos meses de amarguras e preces vinha uma carta, trazida por navio de vela, minorar ou aumentar as dores da ausência.
E, nos longos serões da aldeia, quando os corações guiavam a conversa para o chorado ausente, o saudoso chefe de família erguia-se e ia buscar ao escaninho da arca, onde estava guardada, a carta do filho, já rota nas dobras e ensebada das mãos, abria-a e, nesse instante solene, a mãe tirava a roca da cinta, o fuso calava-se na mãoda jornaleira, os pequenos apuravam olhos e -ouvidos, e lia-se pela centésima vez, em voz alta, a preciosa carta, como se houvesse ainda alguém em casa que a não soubesse de cor!
E assim se enganava a fome de notícias!... e assim procurava a gente convencer-se de que, quem estava bom havia seis meses, decerto estava ainda de perfeita saúde!
Seis meses depois da partida de Francisco, chegavam a Tagilde as primeiras notícias do saudoso namorado.
O pobre rapaz encontrara facilmente que fa77

zer, e, como as suas aspirações não iam além do preciso para comprar uma casinha, um campo, e pôr em reserva uns centos de mil-réis - o fruto que ia colhendo fazia-lhe antever a realização dos seus desejos dentro do curto espaço de dois anos.
O que o resto, ou antes toda a carta, seria, pode o leitor imaginá-lo!
Dizia o pai de Maria que esta, mal a ouvira ler, logo entrara a ganhar as boas cores que a saudade lhe roubara.
- Não saber eu ler!... - dizia a pobre moça, cobrindo o papel de lágrimas e beijos.
E a abençoada carta andava numa dança para dentro e fora do seio!
- Ó pai!... só esta vez!...
E o velho tirava do bolso os óculos de aros de prata, e lia mais uma vez.
E a jovem, tomando à risca a única aritmética, que o coração lhe aceitava, para contar o tempo, pensava quase alegre: "Faltam só tantos meses! "
Passados dois, chegou nova carta, mais própria ainda para alimentar esperanças.
A terceira... A terceira não era de Francisco!
O velho lavrador ao recebê-la, e ao ver a obreia preta, tornou-se branco como a parede a que se encostara, e deixou cair a fúnebre missiva, murmurando em voz estrangulada: "Minha pobre Maria! "
- Ó pai!... há carta?... - exclamou Maria,


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a quem a recoveira dissera que havia trazido uma.
O velho, vendo entrar a filha, quis apanhar do chão o fatal papel, mas a jovem, mais pronta do que ele, abaixou-se e ergueu-o.
- Deixa, filha!... Não é dele! -exclamou o velho.
Mas a jovem, se não sabia ler, sabia distinguir as cores e, vendo a obreia preta e as lágrimas do pai, tornou-se lívida, e com os olhos enxutos mas desvairados, os lábios brancos e trémulos, disse-lhe em voz que mal se ouvia:
- Leia!... leia!...
E com o corpo inclinado para diante e as mãos estendidas para o velho, que tremia mais do que ela, esperava que ele começasse.
O velho, lendo para si -a notícia da morte de Francisco, dada por um patrício dele, procurava traças para redigir o contrário do que lia, mas a filha, como se lhe fosse lendo no espírito o conteúdo, ia mostrando no rosto, e sobretudo no olhar, uma expressão horrível.
O pai, julgando-se certo do estratagema, ergueu os olhos e disse: "Ora ouve"; reparando, porém, na jovem, apertou-a nos braços, perguntando angustiado:
- Filha!... Maria!... tu que tens, minha filha?!...
Maria, desprendendo-se dos braços do pai, sacudiu as formosas tranças, e, voltando-se para ele com indescritível sorriso, tirou-lhe a carta da mão, dizendo:


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-Dê cá, que eu leio...
E, sentando-se no chão, sem mais se lembrar do pai, a pobre moça entrou de decifrar no papel uns dizeres, que eram o eco das duas primeiras cartas, terminando pela notícia da chegada de Francisco no dia seguinte.
-Chega amanhã!... - exclamou ela de repente. -Vou esperá-lo!
E, erguendo-se precipitadamente, saiu, correndo, na direcção da estrada.
Maria, a "Loura de Tagilde", passara a ser a "Doida de Tagilde"!
Seguiu-a o pai e pôde a muito custo trazê-la para casa; mas a cada instante erguia a jovem a fronte, como se ouvisse passos, e fugia, repetindo: "Vou esperá-lo!"
Prenderam-na em casa, e ela tornou-se furiosa.
Alma caritativa e inteligente convenceu o velho a que a deixasse andar sozinha.
Foi então que começaram as longas correrias, na companhia da ovelha, da "Menina", como ela lhe chamava.
O meigo animal, acostumado a comer na mãodela, seguira-a na primeira ocasião em que achara a porta aberta.
E assim começaram a vagar as duas no mundo, sem nada que as prendesse, uma guiada pela -ovelha, a outra por Deus guiada, como rezava a cantiga que um estudante compusera para a doida, e que esta retivera na memória.




Terminou aqui a narrativa da tia Miquelina, e começaram as minhas perguntas.
- E tratam-na bem?...
- Se a tratam bem!... Pois quem havia de a tratar mal?!... Olhe... Ela, à noite, quando não dorme debaixo das árvores, entra em casa de qualquer lavrador, vai direita à cozinha e pede pão. O primeiro bocado é para a "Menina". Depois de comer, pega na primeira roca que acha à mão e fia... fia... até lhe dizerem que se vá deitar. Por lá dorme no palheiro, ou onde a mandam dormir, e pela manhã, por muito que a gente da casa madrugue, já ela vai longe!
- Vai esperar o Francisco! - pensei eu, avaliando os tesouros de amor que teriam cabido àquele homem, se Deus o não houvesse chamado a si!
Antes de deixar Vizela, em vão procurei a doida; não a encontrei!
Sabe -Deus para onde ela se deixara guiar pela ovelha, que era quase sempre quem marcava o itinerário!...
CONCLUSÃO
No ano seguinte voltei a Vizela.
- Que é feito da doida de Tagilde, tia Miquelina?... - perguntei eu.
-Coitadinha!... Morreu!... sempre tivemos todos uma pena dela!... Coitadinha!... Uma morte assim!...




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Vou contar-lhes o triste fim de Maria. Fora rigoroso o Inverno.
A água dos córregos estava gelada, e os montes alvos de neve.
Por uma noite de Dezembro, uns pastores, que dormiam no monte, numa cabana de madeira, ouviram a espaços os balidos de uma ovelha, cujo som ora se afastava, ora se aproximava do sítio onde estavam.
Quem se levantaria por causa de uma ovelha tresmalhada, quando a neve caía silenciosa do céu e o vento sibiliva por entre as tábuas da cabana?
No dia seguinte, ao abrirem a porta, viram ao longe a ovelha, que se dirigia para eles, voltando a miúdo a cabeça para trás.
Chamaram-na -parou; caminharam para ela -começou a andar para donde viera, voltando-se como que convidando-os a segui-la.
Chegando a certa altura estacou, e começou a arredar a neve com o focinho.
Aproximaram-se...
De sob espessa camada de neve saía um braço; puxaram-no.
Era a doida de Tagilde!
Dera-lhe Deus ordem de recolher ao Céu, e surpreendera-a a morte sobre o monte, onde ela colhia as flores com que se adornava para agradar a Francisco, cobrindo-lhe o corpo com o lençol de neve, tecido nos céus, mortalha cândida como a alma dela!
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- E a ovelha?... - perguntei eu, disfarçando mal as lágrimas.
- A ovelha... pobre bichinho! A ovelha andou três dias com três noites a balir em volta da igreja, sem se deixar agarrar por ninguém... Ao quarto dia encontraram-na morta, no adro da igreja! Há certos animais, que parece mesmo que têm alma! - concluiu a tia Miquelina.
-Quem sabe?!... -pensei eu.
A dedicada criatura fizera bem em morrer; a dona, que ela guiava, tinha chegado ao seu destino!... Tinha afinal encontrado o seu Francisco!




MEIGO
I
TINHA eu vinte anos e não tinha vinte réis no bolso, quando me aconteceu o que lhes vou contar.
Andava no ano cirúrgico, a tombos com a anatomia; tinha segura a subsistência de um mês, que pagara adiantado; possuía, fora do alcance dos meus condiscípulos, duas libras de tabaco e quinze livros de mortalhas; as solas do meu único par de botas prometiam longos dias de vida; o sol como que se obrigara para comigo a não causar embaraço à roda-viva em que andavam de mim para a lavadeira e da lavadeira para mim duas camisas, que me restavam; o chapéu não estava ruço de mais, nem o casaco demasiado no fio-vivia feliz e sem cuidados.
Não tinha dinheiro, nem comodidades, nem cavalos, nem luxo; mas tinha vinte anos, um coração alegre, trinta e dois dentes afiados como




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navalhas de barba, um estômago que digeria os alimentos de... empreitada, que me forneciam pernas de ferro e saúde do mesmo metal... Que mais se pode querer aos vinte anos?
E, para cúmulo de felicidade, tinha a janela das águas-furtadas em que vivia, janela cujas portas já não sabiam fechar-se, porque os gonzos, por falta de exercício, tinham perdido o movimento.
Não sei se, mais tarde, alguém se lembrou de curar aquela paralisia dos gonzos; para mim seria isso impossível, pois nem três mesadas bastariam para comprar o azeite necessário a tal empresa.
Que mágica janela!
No Inverno, como que se alargava para deixar coar através dos vidros o luar das límpidas e formosas noites de Janeiro; no Verão, quando eu me esquecia de descer a vidraça, perfumava-me o quarto com os aromas do laranjal florido, que assombrava o jardim do palacete vizinho.
O dono do jardim, que não chegava à varanda e dormia com as janelas fechadas, estava convencido de que o jardim era realmente dele; eu, porém, que de dia lhe namorava as flores e à noite dormia com a janela aberta, para receber as saudades que elas me mandavam, entendia que o jardim era meu.
Que noites de Julho, passadas a essa janela, em mangas de camisa, com as costas obstinadamente voltadas para o candeeiro, que crepitava


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censuras, e para o compêndio, que adormecera aberto, desesperando de me fazer dormir a mim!
Por uma dessas noites, encostado ao peitoril, e emendando, por assim dizer, os cigarros uns aos outros, deixava eu errar a vista pela floresta de chaminés, que se destacavam no ar, sobre os telhados das casas que dali se viam, e corria-me à rédea solta a vagabunda, a folle du logis - a imaginação, enfim.
Quem, depois de duas horas de meditação, poderá narrar por ordem todas as loucuras que lhe atravessaram o cérebro?
Ao cabo de longo cismar, os meus olhos começaram a contaras luzes, que brilhavam como pirilampos, no fundo negro das casas.
Pouco e pouco essas luzes foram-se extinguindo uma a uma, e ficaram apenas duas, em pontos diametralmente opostos, e a enorme distância uma da outra.
A quem alumiarão?
Traçado este ponto de interrogação no espírito, a vagabunda, que eu, por assim dizer, travara, deu um salto e partiu a toda a brida, talando em todas as direcções o campo infinito do ideal.
" Serão costureiras, que terminam algum vestido?... Pobres pequenas! Avaliarão ao menos as meninas, para quem trabalham, quanto custa àqueles dedos de fada essa tarefa, que tem por fim torná-las a elas formosas?



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Será desgraçado poeta, tão alheio ao século, que ainda não descreu da ode ou mete ombros ao primeiro verso -da vigésima estrofe do sexto canto de épico poema?
Serão mães, que velam filhos enfermos; pobres velhas a braços com a asma; criminosos, a quem as trevas engrossam o remorso?"
-Serão... o que quiserem ser! -bradei eu de repente, agarrando a tresloucada, que parara a tomar fôlego para novas correrias.
Neste momento a luz do candeeiro começou a crepitar tão raivosa, que o pobre compêndio acordou e chamou-me.
- Não há remédio! -disse eu espreguiçando-me, e ia a retirar-me da janela, quando vi que uma das duas luzes se movia.
Soou a terceira das doze badaladas da meia-noite no relógio da Sé.
A luz continuou a mover-se e acabou por aparecer francamente à janela, a que assomara um vulto, que eu não podia distinguir se era de homem, se de mulher.
Lançando instintivamente os olhos para a outra janela, notei o mesmo manejo de luz e verifiquei a aparição de outro vulto!
Duas luzes, que brilham em face uma da outra e aparecem ao mesmo tempo à frente das janelas... meia-noite que soa...
Decididamente, aquelas duas janelas entendem-se!
Como se quisessem tirar-me de dúvidas, as



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luzes entraram de fazer movimentos combinados; dir-se-ia que se cumprimentavam.
Estava eu estudando aquela telegrafia, quando um ligeiro ruído me chamou a atenção.
Investiguei o espaço e vi um ponto negro, que se dirigia para mim.
- É um morcego, que vem esbarrar-se contra os vidros -pensei eu, sem me lembrar que o voo -do morcego é silencioso.
Ora é preciso dizer-lhes que eu tenho um horror instintivo do morcego.
Eu odeio o rato, que me não deixa dormir, entregue à sua obra de destruição, em que prossegue, apesar da bota que arremesso para o sítio de onde vem o ruído, e gelo ao aspecto desse rato alado, que tem a consciência de não merecer que o solo alumie; aborto condenado às trevas, sacrílego vampiro, que esvoaça às noites por entre as colunas e recôncavos do templo, profanando a alâmpada e extinguindo a luz, que se espelha nas lágrimas de sangue que correm ao longo da face angustiada do Cristo.
Receoso do repelente contacto, recuei, mas o vulto negro, em vez de bater nos vidros da janela, entrou por ela, esbarrou-se contra a parede fronteira e caiu de chofre sobre a minha cama.
- É um mocho! - exclamei eu aterrado, ao ver que, pelo tamanho, não podia ser morcego.
Ora é preciso dizer-lhes que o mocho me merece especial antipatia.
Além de ser, como o morcego, um parasita



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-de igreja, acho-lhe um certo ar refalsado, o que quer que é de beato fingido, de gato-pingado, com que embirro solenemente.
Se os outros animais são, como o homem, obrigados a exercer uma profissão, o mocho deve ter, com certeza, casa de prego e emprestar dinheiro a quatro e cinco leis.
Ora reparem bem nele, e verão que me não engano. Óculos enormes, nariz de cavalete, casaca arruçada pelo tempo, pernas curtas e fortes, unhas curvas e sujas -é um usurário chapado.
Eu detesto o mocho!
-Pois dou cabo dele! -disse eu, fechando a janela e agarrando a bengala.
Peguei no candeeiro, e erguendo o instrumento de morte, caminhei para o inimigo...
A luz espalhou-se sobre a cama, e a arma caiu-me da mão.
-Que lindo pombo preto!...
E era, realmente, um lindo pombo, destes que à luz do sol despedem do dorso reflexos metálicos, Ecambiantes.
E pobrezinho estava tão cansado, que se deixou agarrar sem reagir.
Pousei o candeeiro sobre a banca e pus-me a analisar a presa.
Nisto, os meus dedos, introduzindo-se por baixo de uma das asas, encontraram um corpo estranho; era um papel atado por uma linha.
O pombo defraudava a fazenda; era um carteiro de contrabando.


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Apoderei-me do bilhete, apesar de duas picadelas que o fiel mensageiro me deu, em defesa do que ele, naturalmente, considerava depósito sagrado.
Soltei o pombo, que voou para a janela, onde se empoleirou, e abri o bilhete.
Eis o seu conteúdo:
"Elisa:
Foi mais um dia perdido!... Tudo se conspira contra nós, e começo a perder a esperança de conseguir o que tua mãe exige de mim, para consentir na nossa felicidade.
Que mais te hei-de eu dizer, se, no pouco que aí fica dito, te causo uma noite -de insónia e de lágrimas?!
Adeus!... O nosso confidente está quase a acabar a sua ração.
Adeus!... Amo-te.
Alberto."
-Quem será este Alberto?... E quem será aquela Elisa?... -perguntava eu, voltado para o pombo, que me mirava, espantado, com os seus grandes olhos orlados de encarnado. - Deixo partir o correio... não deixo... - comecei eu a dizer de mim para mim.
Acerquei-me da janela. Uma das luzes tinha desaparecido; a outra movia-se agitada por mão assustada e ansiosa.

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- Compreendo - rosnei eu. - O Sr. Alberto escreveu aquela choradeira, botou-a ao correio, fechou a janela, apagou a luz e está já a dormir como um porco, enquanto que -a pobre da rapariga está ali a mirrar-se, agitando o farol, na esperança de atrair o pombo transviado. Nada! Isto é negócio de consciência, um atentado contra o direito das gentes! Soltemos o pombo!... Anda cá, amor - continuei, ameigando a voz para não assustar a íris. -Anda cá, tolinho... Tu gostarás de pão, lambareiro?...
E, abrindo um armário de pinho, tirei um bocado de pão, que esfarelei. Lembrei-me de lhe oferecer cognac ou de lhe manufacturar um grog, pois para isto tinha eu sempre o preciso no quarto, mas tive medo que ele aceitasse e calei-me.
Parece que o pão não era alimentodesconhecido para ele, porque o pombo voou imediatamente para cima da banca, onde eu o tinha colocado, e começou a cervir-se sem cerimónia.
-Ora já basta, amigo -disse eu ao cabo de alguns minutos.
E, agarrando o trânsfuga, amarrei-lhe de novo o bilhete debaixo da asa, abria janela e soltei-o.
Passados instantes, a luz retirava-se e desaparecia.
A mala tinha chegado ao seu destino.




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II
Só muito para a madrugada consegui adormecer.
Quando acordei e vi o resto dos farelos de pão, saltei da cama e corri à janela; por mais que fiz, não pude dizer com certeza quais eram as casas em que vira brilhar as luzes.
Fiquei logo de mau humor. Vesti-me, almocei à pressa e fui às carreiras para a escola.
O lente chama-me, dou um estenderete formal e os condiscípulos cravaram em mim olhos de espanto, ouvindo-me dizer em tom raivoso:
-Leve o diabo o pombo!
Andei todo o dia de candeias às avessas.
À noite não saí, e pus-me à janela.
Parecia arte do Demónio!... Havia luz em todas as casas.
- Estes malvados não têm sono! -pensava eu, batendo de raiva com os pés no chão. - Ide deitar-vos, imbecis!... Olhai que são quase onze horas!.. Amanhã não há quem vos tire da cama!...
Afinal, como na véspera, as luzes foram-se sumindo uma a uma, mas muito mais vagarosamente, segundo me parecia, e ficaram apenas as duas.
-O pombo não vem... Foi um acaso, uma extravagância de pombo...-dizia eu por entre dentes, em resposta à voz secreta que me dizia


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o contrário. -Qual vem, nem meio vem!.. Foi uma vez aCascais e nunca mais!... Adeus... Não me importa... Queria ver a continuação da comédia, mas... acabou-se... não tenho ferro...
E tirava o relógio a cada instante e tinha um ferro por aí além!
Ecoou, finalmente, a primeira badalada da meia-noite; as luzes repetiram -a dança da véspera...
- E o pombo não vem... -murmurava eu, com despeito.
E o caluniado, agitando as asas, entrava sem hesitação, e voava direito às migalhas.
Eu tanto não esperava que ele viesse, que até... já tinha esfarelado o pão sobre a banca.
Dizia assim a resposta de Elisa:
"Alberto:
Não imaginas os transes por que me fez passar o nosso confidente!... Levou-lhe meia hora a chegar!..
Queres que te diga?.. Tenho hoje receio de te escrever com a franqueza do costume, porque, já pela demora, já pela maneira diferente por que vinha amarrado o teu bilhete, desconfio que o pombo foi detido na passagem... (Oh! com a breca! -exclamei eu, vendo-me descoberto.)
Coragem, Alberto!... Não desanimes!... A exigência de minha mãe é fundada num louvável sentimento de previdência...






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Pode levar tempo a realizar o nosso desejo; mas... não temos nós confiança bastante um no outro?... Valha-me Deus!... Se o pombo se desviasse outra vez... se alguém lesse isto...
Nem me atrevo a escrever mais...
Adeus! Amo-te!
Elisa."
Pobre rapariga!... compreendi o pudor daquela alma, ao saber-se devassada, mas... o mal estava feito.
Tornei a soltar o mensageiro.
No dia seguinte interceptei a seguinte carta:
"Elisa:
O pombo também na volta se demorou mais do que costuma.
Se é uma senhora quem se entrega ao mesquinho prazer de nos angustiar, espero que, ao ler estas linhas, se lembrará -de que despreza todos os ditames da delicadeza.
Se é um homem, dir-lhe-ei que é ridícula essa curiosidade, e criminosa, por ser satisfeita na sombra e com a certeza da impunidade.
Esta carta é mais para ser lida por quem interceptou as outras, do que escrita para ti.
Alberto. "
Pareceu-me quixotesca esta carta, o sangue tingiu-me as faces, a consciência aceitou a censura;

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mas o amor-próprio assanhou-se, os meus vinte anos riram contrafeitos e eu tive a cruel coragem de escrever na mesma carta de Alberto as seguintes palavras:
" Ex.ma Sr a:
Não sei se V. Ex.a gosta de pombo com ervilhas...
É o meu prato favorito.
Ou V. Ex.a convence o Sr. Alberto a contar-me o começo destes amores, a instruir-me sobre a educação dos pombos e a comunicar-me a exigência, de cuja realização depende o consentimento de sua Ex.ma mãe, ou, na volta do correio, depois de amanhã, mando comprar as ervilhas.
Creia-m e de V. Ex.a o mais humilde e desconhecido venerador."
No dia seguinte, o mensageiro reconduzia a
carta de Alberto, em que eu escrevera o que
acima fica, sem um único comento da jovem. Elisa deixava a Alberto a decisão de tão momentoso assunto.
À noite recebia eu a seguinte carta do pobre
namorado:
"Senhor:
Juro-lhe que dava anos de vida para conhecer quem assim se atravessa entre duas almas que, receosas da terra e dos homens, se comunicam


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por intermédio da inocência, e através dos espaços do céu.
OO senhor foi cruel!...
Eu fui talvez inconveniente; devia lembrar-me que quem tem a coragem de forçar um segredo, mal poderia sofrer a censura que por tal abuso lhe fizessem...
Andei mal; ando hoje pior em me mostrar independente, quando o amor e o sossego -de quem amo me aconselham o papel de suplicante.
Não posso!... Um sentimento, a que o senhor me parece alheio - a dignidade - não mo permite.
Quer conhecera história do meu amor... Vou contar-lha! Conto-lha para que, chegando ao fim, veja bem -o mal que me causa, e conheça - se há ainda um eco qualquer na sua consciência - que, embora o não confesse, são justas as minhas recriminações.
Leia.
Por uma amena tarde de Estio -haverá dois anos-estava eu no meu quarto, em convalescença de prolongada moléstia, quando pela janela entrou o pombo que o senhor conhece.
Aborrecido, e buscando, em vão distrair-me, atravessou-me uma ideia o cérebro.
Ergui-me, fechei a janela e escrevi numa folha de papel:
"Se na casa onde, a estas horas, choram talvez a tua ausência, há uma mulher jovem e bela,



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leva-lhe os votos de ventura -de um coração que ainda não amou!"
Agarrei o pombo e confiei-lhe a... pieguice, que acaba de ler.
No dia seguinte, com espanto meu, entrava o pombo, como na véspera, portador desta resposta:
"Uma mulher jovem, a quem ainda ninguém disse se era bela, agradece a restituição de `Meigo, cuja ausência lamentava, e retribui os votos de ventura.
Assim se travou uma correspondência, que durou cerca -de dois meses, sem que a palavra "amor" fosse empregada de parte a parte.
Ao cabo de dois meses, pedi à minha incógnita correspondente que me dissesse onde podia vê-la.
Depois de muitas cartas trocadas, em que eu insistia -e ela recusava, veio uma, em que me marcava a missa das onze, nos Congregados, no domingo seguinte, e me dava sinais certos para a reconhecer.
Fui.
Não posso descrever a ansiedade, que me torturava!...
Se era feia?!...
Era... é uma formosura!
Que dulcíssimo prazer me arrebatava a alma, vendo-a ali, de joelhos, estudando ansiosa o rosto de todos os mancebos, sem me poder ver a mim, que a estava observando, -encoberto pelo reposteiro!




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A missa acabou por fim; ela ergueu-se, e, ao passar junto de mim, murmurei em voz abafada: "Obrigado!..."
Elisa não pôde reter um pequeno grito; as faces tingiram-se-lhe com o rubor do pejo, e, lançando-me um olhar entre assustado e curioso, aconchegou-se à mãe, e saiu.
Escusado é dizer que a segui.
Começaram, desde então, a falar de amor as nossas cartas.
Eu era guarda-livros de uma casa respeitável e tinha um ordenado subido.
Entendi que não seria repelido, e encarreguei um amigo meu de pedir à mãe a mão de Elisa.
A mãe acolheu-me perfeitamente, e tratávamos já das mil pequeninas coisas, necessárias a quem põe casa, embora modesta, quando, haverá um ano, o negociante que eu servia morreu de repente.
Os herdeiros liquidaram o negócio, e eu fiquei... e estou desempregado.
No dia em que terminaram os meus trabalhos de liquidação, mandava a mãe retirar Elisa da sala em que estávamos reunidos e falava-me nestes termos:
"Alberto!... Sei que é um rapaz trabalhador e honrado, pois, se o não soubesse, não lhe daria minha filha.
Sabe que só à força de economia consigo sustentar a ela e a mim, com a modesta pensão que recebo do Estado?
7
98

Enquanto o Alberto não arranjar novo emprego, não é possível pensar em casamento... Procure!
E - continuou ela - perdoeme o mal que vou fazer-lhe, mas é preciso que o Alberto deixe de vir a minha casa.
Somos duas mulheres sós; o mundo é mau; pode este casamento não chegar a realizar-se... É preciso que deixe de vir aqui!"
Protestos, rogos, lágrimas, tudo tem sido baldado!
A mãe de Elisa é inabalável; eu bato em vão a todas as portas, e as minhas economias desapareceram, fazendo-me antever a miséria num futuro pouco distante.
Aí tem a minha história!
Faça -o que entender!
O pobre "Meigo" contraiu relações novas... Depende do senhor roubar a duas almas a única felicidade que lhes resta, fazendo desaparecer o único meio de comunicação que as liga.
Faça o que entender!
Não imploro, resigno-me; não torço, quebro; não vegeto, morro!
Alberto."
Não é possível explicar-lhes a vergonha que senti escaldar-me as faces, o remorso que me estorcia o coração!
Corri à banca e escrevi o seguinte:





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"Ex.ma Sr.a:
Perdão para os meus vinte anos, para a minha leviandade de rapaz!...
Não sou mau, sou louco!... Creia-me, por quem é!...
Juro-lhe que "Meigo" entrará no meu quarto e sairá dele sem que a minha mão torne a roçar-lhe as penas!
Peça a Alberto que me perdoe, como eu peço a Deus que lhes conceda a ventura de que tão dignos parecem!..."
No dia seguinte "Meigo" entrava no quarto, trazendo dois bilhetes, amarrados por fora das asas.
Um deles dizia: "Para o desconhecido." Abri-o e li esta única palavra: "Obrigado!" No dia imediato, o pombo trazia igualmente
dois bilhetes, presos da mesma maneira. Peguei no que me era dirigido e li:
"O senhor é bom... Enganei-me... Perdoe-me! Alberto. "
E o pombo continuou a vir todos os dias ao pão.




100
III
Correram meses, sem que peripécia nenhuma viesse apressar ou retardar a chegada ou partida do correio.
Fiel à minha palavra, nunca mais tentei devassar os segredos confiados ao voo possante do "Meigo", e só de tempos a tempos a oferta de uma flor ou uma palavra de gratidão vinham pagar-me a discrição.
Permita agora, leitor, que lhe diga de mim duas palavras, que facilitem o desenvolvimento desta narrativa.
Quando, no princípio da nossa conversa, me apresentei sem um vintém no bolso, não tinha eu em vista dar-me por necessitado, pois, pelo contrário, se não -tivesse cinco irmãos, como ainda, felizmente, tenho, seria um rapaz rico.
Filho de um abastado lavrador do Douro, recebia de meu pai uma mesada, que, bem dividida, me permitiria viver modestamente, pondo ainda -de parte, no fim de cada mês, alguns tostões, quando mais não fosse; infelizmente, porém, eu tinha um verdadeiro culto pelas tradições da vida de estudante, e raro era o mês em que no dia 8 o meu dinheiro não estivesse no fim, e em que, aí pelo dia 25 ou 26, eu não fosse fazer uma visita ao Sr. Samuel Gibson, honrado negociante inglês, a quem meu pai vendia o vinho que colhia.




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O velho inglês era deveras meu amigo, e se mais vezes me não aproveitava dos frequentes convites que me fazia, para ir jantar com ele e com Miss Alice, sua formosa filha, era porque o mau estado da minha roupa domingueira bradava alto contra o desregramento do meu viver.
Havia ainda outra razão, e era o receio de me enamorar seriamente de Miss Alice, que me honrava com uma amizade a que eu bem desejara poder dar outro nome.
No dia 25 de Outubro - lembra-me perfeitamente que era em Outubro-abria eu a porta, forrada de baeta verde, que separava o gabinete do Sr. Gibson do escritório onde trabalhavam os empregados, resolvido a fazer uma ligeira alteração no calendário, transformando 25 de outubro em 1 de Novembro, para receber a mesada.
O bom do velho, mal me viu entrar, disse-me com os olhos: "Já vejo a que vem... " e com os lábios: "Ora viva, senhor desertor!"
Balbuciei uma desculpa, falei na carestia das subsistências, no enorme custo dos livros, e acabei por pedir o adiantamento da mesada de Novembro.
Mr. Gibson ria maliciosamente, fazendo-me perder a tramontana, e, quando terminei o meu arrazoado, respondeu:
- Está servido... com uma condição. - E é?... -perguntei eu.
- Ir jantar amanhã comigo... É domingo... Ao domingo não se estuda.





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-Com muito gosto - respondi.
- Pois, nesse caso, diga lá fora ao caixa que lhe dê o dinheiro -replicou ele.
Agradeci e ia retirar-me, quando, chamando-me, perguntou:
- Olhe lá... Você nunca viu um enterro protestante?
Como lhe respondesse negativamente, continuou:
-Pois, se quiser, pode vê-lo hoje à tarde... Às quatro horas enterra-se o guarda-livros dos Srs. Norris & C.a.
Disse-lhe que não perderia aquela ocasião, e saí.
É escusado dizer ao leitor que não fui ao enterro.
À noite, estava eu no meu quarto a ver qual era a menos velha de três gravatas pretas que tinha, e acabava de escovar o fatinho com que tencionava apresentar-me em casa do inglês, quando o pombo entrou.
Chovia se Deus a dava, e o pobre "Meigo", antes de dar a primeira bicada no pão, sacudiu as penas três vezes, e pareceu agradecer-me o carinho com que o enxuguei com uma toalha.
Quando, passados minutos, o obriguei a partir, e vi as duas luzes, que brilhavam separadas, não pude deixar de dizer:
-Quanto tempo durará ainda aquele penar?... Não virá um dia, em que baste uma luz para ambos?... Pobres crianças!

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Nisto, ocorreu-me uma ideia, e, dando uma palmada na testa, exclamei:
-Oh! que lembrança!
E fui-me deitar, afagando a ideia que me desabrochara no espírito, e que ainda em sonhos continuou a sorrir-me.
Às 4 horas da tarde do dia seguinte, batia à porta do Sr. Gibson, que morava em Entre Quintas.
- O patrão está ali, em casa do vizinho; a menina anda no jardim - disse-me o criado.
Eu tinha com Miss Alice a familiaridade necessária para não ser tachado de importuno; dirigi-me, portanto, ao jardim.
A nossa conversa cifrava-se, quase sempre, num esgrimir de ironias, tendentes a demonstrar a vantagem que havia em ter nascido português ou inglês. Contanto que a discussão se não abalançasse a assuntos religiosos, era permitido procurar e atacar todos os pontos fracos.
O que, porém, era impossível encontrar em outra mulher era, a par da sólida e bem dirigida instrução, mais angélica pureza e mais subida elevação de sentimentos.
Apresentei-me a Miss Alice com desusada gravidade.
Notou-a ela, que era o que eu mais queria, pois contava com o seu auxílio para realizar a ideia que me ocorrera na véspera.
- O senhor que tem?... Tem hoje um aspecto

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sério... quase inglês! -perguntou ela, convidando-me ao combate.
- Estou triste - respondi eu.
- Triste!... o senhor?!... Ora deixe-se disso, que me não convence! - redarguiu a jovem.
-V. Ex.a quer ouvir um idílio, um conto de amores, um verdadeiro assunto de balada inglesa, um lied alemão? - perguntei eu bruscamente, ao cabo de alguns minutos de silêncio.
Miss Alice fez-se vermelha como uma romã, e flutuou-lhe entre os lábios o shocking tradicional, com que uma inglesa fulmina o desgraçado convicto do crime de inconveniência.
- Quer ouvir?... - insisti eu. - Escute-me, e conhecerá a causa da minha tristeza.
Aqui é que uma nova camada de carmim veio estender-se sobre a que já enrubescia as faces -da formosa Miss, receosa de que eu me atrevesse a uma declaração de amor, sem mais "tir-te nem guar-te!
- Escute-me - prossegui eu. - Ajude-me numa boa acção!
Os olhos de Miss Alice, até ali obstinadamente cravados no chão, ergueram-se radiantes, os lábios abriram-se e murmuraram simplesmente:
-. Diga!
Contei-lhe tudo o que o leitor já sabe.
Eram para ver as mil impressões diferentes que o rosto ia espelhando alternativamente; as frases, que traduziam o íntimo pensar, saíam-lhe



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espontâneas dos lábios, ora em inglês, ora em português, à medida que a narrativa se adiantava.
-Poor, dear, little thing!-dizia ela, referindo-se ao pombo. - Coitado! pobre rapaz!... Quem me dera conhecer Elisa!
Quando cheguei ao episódio do pombo com ervilhas, pensei que toda a poesia e acrisolada sensibilidade daquela alma de anjo, fundidas num gesto de suprema indignação, me condenavam a arrastar para todo o sempre o pesado grilhão do remorso, e valeu-me o meu procedimento posterior para não ficar perdido no conceito da encantadora jovem.
Quando terminei, Miss Alice chorava, mirando o céu, talvez na esperança de descobrir um pombo preto, que lhe trouxesse carta de algum anjo.
- Mas que quer agora fazer?... Em que posso auxiliá-lo?... Conte comigo! - disse ela por fim.
- Pode transformar dois infelizes em dois bem-aventurados!
- Como?... Fale! -replicou a inglesa, impaciente.
-Faça com que seu pai peça para Alberto o lugar do guarda-livros da casa Norris & C.a - respondi eu.
Oh! que feliz ideia! - exclamou Miss Alice, batendo as palmas com infantil alegria. - Vou já escrever a Betsy Norris! É uma das minhas melhores amigas... depois falarei a meu pai.



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E partiu a correr, ligeira como uma gazela e alegre como uma criança.
- Já escrevi! - disse-me ela, voltando passado um quarto de hora.
Três dias depois, amarrava eu com inexplicável prazer à asa de "Meigo" um bilhete, concebido nestes termos:
"Pode o Sr. Alberto apresentar-se aos Srs. Norris & C.a, por quem será admitido como guarda-livros, se as informações, que dele se colherem, satisfizerem os mesmos senhores."
Tenho pena de não ter aqui à mão as cartas que recebi de Alberto e de Elisa.
Eu era o seu anjo-da-guarda, a sua Providência, o seu benfeitor.
A carta em que Alberto me participava que tinha sido finalmente provido no lugar, terminava assim:
"Graças a si, meu desconhecido amigo, antevejo um futuro de felicidades sem conta!... Escrevi à mãe -de Elisa, e a boa senhora permite que eu vá hoje à noite tomar chá com elas, e fixar o dia para o nosso enlace.
Sou completamente feliz, meu amigo!... Completamente não! Pois não hei-de conhecê-lo?! Não hei-de poder beijar a mão que me socorre?!... Seja bom em tudo... Diga-me o seu nome!"
Fui mostrar esta carta a Miss Alice, e consultá-la sobre o que devia fazer, "na certeza - disse eu - que, se ele me quiser agradecer, eu digo-lhe que venha entender-se com V. Ex.a,,,. ".




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A minha gentil auxiliar era inglesa de lei, ou, por outra, possuía uma destas almas que encobrem nas dobras do mistério a modesta e fragrante flor da poesia.
Em toda a parte do mundo se chama a esta casta de mulheres - ser inteligente, poético, ideal, angélico! -Entre nós chama-se-lhes "românticas", o que, aplicado a uma senhora, importa o mesmo que chamar a um homem, que se estrema um pouco do vulgar, "visionário, mágico, habitante da Lua... finalmente - tolo! "
Proibiu-me que me desse a conhecer; agradava-lhe o mistério... Segui o conselho, e recusei satisfazer o justo desejo de Alberto e de Elisa.
Mr. Gibson, a pedido meu, proporcionou-me ocasião de ir ao escritório de Norris & C.a.
Perguntei pelo guarda-livros.
Era um moço elegante, uma fisionomia distinta e insinuante, um olhar inteligente e leal.
Retirei-me satisfeito com ele e comigo.
"Meigo", seja dito em louvor da gratidão dos dois namorados, afinal unidos, não deixou uma única noite de vir visitar-me, trazendo-me sempre palavras de reconhecimento.
Passado um ano, foi ele portador da seguinte carta:
"Meu bondoso protector:
Presenteou-nos Deus com uma filhinha, e eu fiz voto de que ficaria por baptizar, se o nosso



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anjo-da-guarda se recusasse a servir-lhe de padrinho.
Quer deixar a inocentinha fora do grémio da Igreja?... Quer obrigar uma pobre mãe a gemer sob o peso desse remorso?... E não o sentirá também?... Responda!
Elisa. "
Tornei a ir consultar o meu advogado, a formosa inglesa.
- E agora!?... -perguntei eu, depois de ler
a carta.
- Agora... não há remédio! - respondeu ela. "Meigo" foi portador do meu consentimento. No dia seguinte apresentava-me em casa de
Alberto e de Elisa.
A modéstia ordena-ine que cale tudo quanto
a gratidão lhes inspirou para me agradecerem. Oito dias depois, na igreja da Sé, perguntava
o abade:
-Alice! Vis baptisare?... E eu, padrinho, respondia: - Volo
E a avó, madrinha, e a parteira, e a criada
da parteira, e o sacristão, esses respondiam:
-Bolo!
E está acabada a história.
P. S.-"Meigo" foi durante dois anos portador dos convites que me fazia o meu compadre para ir jantar com ele. Numa dessas correrias


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chegou a casa atordoado, voou duas vezes à volta da sala e foi cair morto sobre o berço de Alice, penhor da felicidade dos pais, felicidade que só a ele era devida.
Até hoje, ainda aquela família não teve outro desgosto.






A QUINA DE ESPADAS
I
O filho das planícies que percorrer a montanhosa Trás-os-Montes, quando todos aqueles outeiros, sobrepondo-se uns aos outros, se apresentam vestidos dos pés à cabeça com a folhagem verde da vinha, deve conscienciosamente confessar que é bem mais imponente e pitoresca aquela paisagem, limitada ao fundo pelos colossos, que, em dias menos claros, se confundem com as nuvens, do que essas intermináveis extensões de terreno, em que a vista se perturba e perde, sem poder decidir onde finda a terra e principia o céu.
Se o acaso, porém, o lá conduzir quando a neve coroa o topo das montanhas, rasgadas de alto a baixo pelas torrentes do céu, quando as vinhas podadas de fresco erguem as varas negras e torcidas como esqueletos calcinados, quando as águas das nascentes, geladas em meio da







112
queda, pendem em estalactites das fendas de onde manam... no Inverno, finalmente, que anelos, que saudades devem então pungir o coração do filho das planícies!
Ante aquela cena de desolação, ante aquela luta da natureza, a mente deve reproduzir-lhe a viçosa relva dos prados, aljofarada de gotas de
1 orvalho, do seio de cada uma das quais se despede o brilho de um diamante, gerado pelos sorrisos do sol.
Era no Inverno. A chuva surpreendera-me a meio caminho; o chapéu, cedendo à água, deixara pouco e pouco pender as abas; o vasto capote, em que me embrulhava, pesava quintais; o vento frio dos montes cortava-me as faces, ferindo-me os olhos; o cavalo arquejava de cansaço e recebia as esporadas com a mansidão com que Job aceitava as provações; o arrieiro praguejava, e eu ia-me pouco e pouco persuadindo de que algum espírito travesso me triplicava a extensão das léguas.
Só quem tiver feito uma jornada em iguais condições, por caminhos a par dos quais os atalhos do Minho são estradas de primeira ordem, só esse poderá avaliar o prazer que eu senti ao avistar o primeiro casebre da povoação, onde me chamavam negócios.
Creiam que foi um dulcíssimo prazer!
Aquele miserável casebre era o oásis no deserto; era a roupa seca e perfumada ainda pelos aromas das flores do monte, onde estivera



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a corar; era o lume crepitando alegremente na lareira; era o sangue a desgelar pouco e pouco; era o traço de lombo de porco, que nos tantaliza, enquanto gira no espeto por cima do fogo brando e igual do borralho de vides secas; era o copo de vinho, que nos reanima; era, finalmente, o leito de lençóis alvíssimos e coberta de damasco, em que nos enovelamos e adormecemos, ao cabo de tudo isso, respondendo com uma gargalhada de escárnio às insolências do tufão, que se morde de raiva por lhe termos escapado.
E, efectivamente, um pouco adiante do casebre, na residência do abade, onde fui hospedar-me, vi realizadas todas as promessas que me fizera o mesquinho pardieiro.
Seriam nove horas da noite, estava eu gozando em toda a sua plenitude o bem-estar que acompanha o trabalho de uma fácil digestão.
Sentado num largo banco de castanho, móvel, que se encontra em duplicado em todas as cozinhas de Trás-os-Montes, sob o nome de preguiceiro, e em que cabem à vontade doze pessoas, analisava eu, com os pés pousados sobre a pedra do lar, todas as caprichosas evoluções da chama, que se enroscava em torno do tronco quase inteiro de decrépita oliveira, e ouvia distraído as problemáticas proezas venatórias de um morgado das vizinhanças, que não deixou em toda a noite de ter um cigarro ao canto da boca e outro entre os dedos.



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No outro preguiceiro, defronte de mim, o abade, velho de sessenta anos, com os cabelos e as sobrancelhas completamente brancos, olhos vivos, faces afogueadas, lábios grossos e entreabertos por um sorriso de benévola malícia, fingia, como eu, escutar o caçador.
Pouco e pouco enchera-se a cozinha de proprietários da freguesia, que, depois -de darem as boas-noites ao abade, se haviam sentado, uns nos preguiceiros, outros em pequenos escabelos, formando um círculo em volta do lar.
Reagindo contra a espécie de torpor que me enervava, retirei os pés da pedra do lar, aprumei-me, esfreguei os olhos, estendi os braços, e contemplei o quadro, de que eu próprio fazia parte.
Eram dignas do pincel de Rembrandt aquelas enérgicas cabeças de transmontanos.
As longas barbas negras, os rostos morenos e duros, os olhos escuros assombrados por espessas sobrancelhas, as frontes sulcadas de vincos fundos, davam àqueles homens a aparência de um bando de salteadores, em cujas mãos o abade e eu tivéssemos caído.
Já por mais de uma vez notara eu que o abade, sempre que se abria a porta, volvia para lá os olhos, que se retiravam com desconsolada expressão, depois de verem quem entrava.
Decididamente, esperava ou desejava alguém.
- O Augusto demora-se!...-disse ele por fim.
Como que por uma convenção tácita, pararam


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todos de conversar, trocando entre si olhares de inteligência.
O abade esmagou com o tacão uma brasa, que veio saltar-lhe aos pés, e murmurou: - Maldito vício!...
No meio daquele silêncio, que de repente viera substituir a loquacidade transmontana, abriu-se a porta e entrou um mancebo, que atirou consigo para cima do preguiceiro, balbuciando em voz sombria:
-Boas noites, tio... boas noites, vizinhos.
O abade rosnou "boas noites", sem olhar para o sobrinho, e os outros responderam em coro:
-Boas noites, Sr. Augusto!
O mancebo, como disse, atirara consigo para cima do banco, e, firmando os cotovelos nos joelhos, escondera o rosto nas mãos.
Tinham sido tão rápidos todos aqueles movimentos, que mal pude analisá-lo naquele instante, e só quando ele mudou de posição o consegui.
Teria, quando muito, vinte e três anos. Alto, delgado, olhos rasgados e negros, fronte espaçosa, a tez levemente tostada, bigode e cabelos negros - eram estes os sinais que fariam dele um formoso rapaz, se um olhar entre arrogante e angustiado não lhe transtornasse a harmonia das feições.
Era singularíssimo o aspecto daquela fisiono
mia, que a cada instante mudava de expressão.
Umas vezes, contraídas as sobrancelhas, cerrados os lábios, ardentes os olhos, o rosto do

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jovem exprimia a provocação, o desafio, um desejo veemente de lutar.
De repente distendiam-se-lhe os músculos, o olhar apagava-se, o lábio inferior caía, a expressão audaz transformava-se em mortal desalento, até que novo sentimento vinha agitar aquela inquieta alma, e então os olhos tornavam-se-lhe vagos e incertos, a fronte enrugava-se, e ao desalento sucedia um ar de terror e de aflição indescritíveis.
Depois da entrada do mancebo, parecia que uma involuntária tristeza se apoderara de todos.
As discussões haviam cessado, e só de espaço a espaço vinha quebrar o silêncio uma pergunta, que, as mais das vezes, ficava sem resposta.
- Ora diga-me, Senhor Abade. Passa por aqui uma vida muito monótona, não é verdade?... - perguntei eu, tentando reanimar a conversa.
Assim interpelado, o abade despertou do meditar a que se dera, e respondeu:
- Não, senhor... Já estou acostumado... De dia não me falta que fazer... À noite... À noite estes vizinhos têm a bondade de vir por aqui fazer-me companhia e... e assim se vai passando o tempo.
-Ainda assim... - insisti eu. - Por muito boa que seja a companhia, nem sempre há que dizer. Pensei que tivesse, pelo menos, a sua partida de voltarete ou...
- Nesta casa não entram cartas!... -acudiu o abade, não me deixando concluir a frase.



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O bom do padre pronunciou aquelas palavras com tanta energia, que eu fiquei tão enleado, como se ele me tivesse dirigido uma censura.
Parece que não passou desapercebido para o abade o efeito que em mim produziu a resposta, porque continuou, dirigindo-se principalmente a mim:
- Não pense que me quero mostrar intolerante!... Não o sou nem o quero parecer... Sei que os jogos de vaza servem de entretenimento... Não os censuro. Se nesta casa não entram cartas, é por ser preciso dar o exemplo, para poder dar o conselho. O jogo é uma das causas da decadência e das misérias desta província!... Joga o rico e o pobre, o proprietário e o jornaleiro todo o mundo joga!... Não imagina quantas casas tenho visto ir por água abaixo, por causa do maldito jogo!... É uma praga!... E ainda se perdessem só as casas!... Mas não! Atrás do dinheiro a honra!... Depois de rico... pobre; depois de pobre... ladrão!...
A voz do padre tremia ao proferir estas palavras, e os olhos cheios de lágrimas procuraram maquinalmente o sobrinho.
Este, à medida que o tio se fora animando, tinha erguido pouco e pouco a cabeça. O rosto primeiro exprimia desdém, em seguida impaciência, finalmente quando o velho terminou com as palavras "depois de pobre... ladrão" os olhos despediram raios, e o mancebo ergueu-se de salto.








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Os lábios trémulos chegaram a abrir-se, e bem receei -que deixassem escapar alguma frase desabrida; ele, porém, fazendo um violento esforço, passou a mão por entre os bastos cabelos negros e deixou-se de novo cair sobre o banco.
- É preciso não fazer as coisas mais feias do que elas são - observei eu, julgando deitar água na fervura.
- Tem razão - balbuciou o padre. - Às vezes as cartas roubam a vida em vez da honra.
- Bom!... Aí temos agora as cartas a matar... só me faltava esta!... -rosnou o mancebo em tom sarcástico.
Apesar de proferidas em voz sumida, ouviu o abade as palavras do sobrinho.
As faces tingiram-se=lhe com o rubor da cólera, e os olhos incendiaram-se-lhe de forma que logo compreendi não deverem as paixões ser menos fortes naquele coração de sessenta anos, do que no daquele rapaz de vinte.
Passados instantes de violenta luta, o abade serenou e, voltando-se para o sobrinho, disse-lhe singelamente:
-Vou contar-te a história de um homem morto por uma carta!... Talvez creias depois que as cartas podem matar!
Augusto encolheu os ombros e, encostando-se comodamente -ao espaldar do preguiceiro, cerrou os olhos, como que preparando-se para adormecer.


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II
Oabade, depois de breve silêncio, principiou com voz comovida a narrativa:
-Os vizinhos -disse ele relanceando as vistas para os circunstantes -sabem que não sou destes sítios. Há cerca de vinte e cinco anos que me considero filho desta província, mas sou minhoto.
"Dosque aqui estão -continuou ele, dirigindo-se a um homem que mostrava ser o mais idoso dos ouvintes -só ali o Sr. Albuquerque se pode lembrar da minha chegada.
Vim eu primeiro; chegaram, cerca de dois anos depois, meu irmão, minha cunhada e ali o Augusto.
Lembras-te ainda de teus pais, Augusto?... - perguntou o abade ao sobrinho."
-De minha mãe mal me lembro... De meu pai... parece-me que o estou ainda a ver-respondeu o mancebo, endireitando-se.
Passados instantes continuou o abade:
- Ia-me afastando do assunto... Haverá trinta anos, frequentava eu as aulas do Porto, e faltava-me apenas um ano para tomar ordens.
"Vivia nesse tempo na Rua Chã e tinha por companheiros de casa um rapaz da minha aldeia e outro da terra da Feira.
Andava o primeiro, que tinha apenas vinte anos, no segundo ano da Escola; o outro... esse,

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depois de se dedicar a todas as carreiras, sem perseverar em nenhuma, vivia ajoujado a estudantes, graças aos magros vinténs que a mãe lhe mandava às escondidas; e, sobretudo, aos minguados lucros que auferia do jogo.
Seria difícil encontrar duas criaturas mais diametralmente opostas, quer física, quer moralmente.
O primeiro, franzino, efeminado, formoso quase, talento pouco vulgar, alma nobilíssima, coração aberto a tudo quanto fosse elevado e puro -era inexorável em pontos de honra, e jogava a vida para se desafrontar.
O segundo, alto e encorpado, brutal, espírito e coração derrancados pela orgia, alma apenas susceptível de emoções à mesa de jogo, só conhecia uma lei - a da força.
Eu era, por assim dizer, o fiel da balança entre ambos.
O primeiro era o meu amigo, o meu confidente, o único ser, finalmente, que me falava da humilde casinha onde a minha família se sujeitava a privações, para fazer de mim... o que sou.
Ao segundo tolerava-o por uma espécie de compaixão e... francamente... também por medo.
quantas e quantas vezes consegui eu, com uma palavra, com um simples gesto, conter num a indignação, provocada pelo cinismo do outro!
Felizmente, até ao dia fatal, tinham corrido as coisas razoavelmente.
Uma noite... Foi a 23 de Fevereiro!... - balbuciou




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o velho com voz trémula, e enxugando uma lágrima. "
Faz hoje anos... nesse caso!...-observei eu. O abade fez com a cabeça um sinal de assentimento e continuou:
- Faz hoje anos... A chuva caía em torrentes... como hoje! O meu patrício fingia estudar. Digo que fingia, pois contrariava-o demasiado a presença do Almeida - chamava-se assim o -da terra da Feira -que, nessa ocasião, tocava tambor nos vidros da janela.
"Eu também estava morto por o ver pelas costas, e já por mais de uma vez os meus olhos se tinham encontrado com os do meu patrício, exprimindo o desejo de que o Almeida nos deixasse em paz.
Nisto, ouvimos o ruído de pessoas que subiam a íngreme escada; a porta da sala abriu-se, e entraram turbulentamente quatro condiscípulos meus.
Eram destes rapazes de quem com razão se diz: -Má cabeça, mas bom coração. Depois de muita algazarra, tomou um deles
a palavra e exclamou com cómica indignação:
-Que pouca-vergonha é esta?!... Quando é que se viu alguém estudar em vésperas de feriado?!... Fecha-me já esse livro, ó meu sangrador, que Deus fará!... -prosseguiu ele, dirigindo-se a meu... ao meu patrício. - E tu, ó inocente minorista - continuou o endiabrado, voltando-se para mim - arruma-me já esse compêndio!...



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Aqui ninguém mais estuda!... Há-de-se aqui fazer um barulho capaz de acordar todos os padres-mestres, e o próprio bispo! Vamos a isso, rapazes!...
Era tão franca, tão comunicativa a alegria daquele doido, que, depois de trocarmos um olhar, fechámos os livros e erguemo-nos.
Meia hora depois, a expensas de todos, estava uma ceia na mesa, corria o vinho nos copos, e fazia-se um barulho infernal.
Erguemo-nos da mesa quando o vinho acabou.
-Que se há-de agora fazer?... Vamos para a rua?...
- Está a chover... - observei eu, receoso do que poderiam fazer aquelas cabeças doidas, exaltadas pelo vinho.
- Se nós jogássemos?... - disse o Almeida.
- Não... isso não! - atalhei eu, que já nesse tempo professava o mesmo horror pelo jogo.
-Cala-te!... -bradou o mesmo rapaz que nos intimara para largarmos os livros. - Cala-te!... Tu aqui não mandas nada, porque estás em tua casa!... Não queres que joguemos?... Pois por isso mesmo é que se há-de jogar!... Venham as cartas e apareçam os cobres!...
- Eu não jogo - rosnei eu com mau modo.
-Nem eu -disse o meu patrício.
- Pois jogam os outros... Venham as cartas! Venham as cartas!... - insistiu o meu condiscípulo.







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Saiu o Almeida da sala e voltou, pouco depois, com dois baralhos -de cartas. Sentaram-se todos e começaram a jogar o monte.
Descontente e inquieto, fui buscar uma luz e sentei-me a outra mesa a ler.
O meu patrício, de pé, via jogar os outros.
Haveria meia hora que o jogo começara, quando ouvi dizer a um dos jogadores:
-Que diabo estás tu aí a fazer -de pé, feito estafermo?!... Vê-se-te mesmo nos olhos que estás a morrer por jogar!... Anda, toleirão!... Senta-te!... senta-te e joga... Anda, que ali o padre-mestre dá licença... - concluiu o tentador, apontando para mim.
- O menino tem medo de se perder, porque é pecado jogar... - disse ironicamente o Almeida; e, vendo que o meu patrício não respondia, continuou: - Assim, rapaz!... Um moço bem-comportado não joga... Jogar!?... Credo!... Não que o dinheiro é sangue!
-Bem sabes que não é por causa do dinheiro... Não jogo porque... não entra nos meus princípios... não quero! -..respondeu o provocado, com forçada serenidade.
- Oh! oh!... pois não!... Os seus princípios!... Os princípios ali do senhor?!... Quem não conhece os princípios daquele respeitável cidadão?!... Trinta e cinco em Janeiro com um pataco em Fevereiro- total quatro menos cinco, poupados em dois meses... Eis os princípios deste austero varão!...



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- Sai daí... dá cá as cartas -ouvi eu dizer ao meu patrício, com voz abafada pela cólera.
Ergui-me para o deter; era tarde!
Havia-se sentado- e batia as cartas com uma espécie de frenesi.
Aproximei-me da mesa e acompanhei com coração oprimido as peripécias do jogo.
-O meu pobre amigo sentara-se na esperança de perder; queria provar aos companheiros que não era o receio da perda que o continha.
A sorte, porém, como que teimava em o favorecer, e o brioso rapaz empalidecia e suava, porque lhe repugnava aquele dinheiro ganho contra vontade e por um modo que ele reprovava.
Vendo-o sentar-se à mesa, o Almeida começara, primeiro por bravata, depois por íntimo rancor, a apontar mais forte, e, à medida que perdia, o rosto tornava-se-lhe cada vez mais lívido, e os seus olhos injectados -de sangue cravavam-se no rosto do adversário com uma expressão satânica e sinistra.
Era, como já disse, o meu patrício quem fazia banca.
Estava na mesa uma quina e uma dama.
-O Almeida apontou à quina; o outro começou a tirar as cartas, até que apareceu uma dama.
De repente, fazendo com a mão voar as cartas, bradou o Almeida:
-És um ladrão!... Empalmaste uma quina!



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E, correndo para o meio da sala, apanhou as cartas e, aproximando-se da luz, começou a procurar, até que, aparecendo a quina de espadas, arremessou-a para a mesa, repetindo:
- És um ladrão!... Empalmaste esta quina!...
Era tão manifesta a repetição da fábula do "lobo e do cordeiro", que soltámos todos um brado de indignação!
De repente o meu patrício, que ficara como idiota, exclamou: - Miserável! - e, agarrando no castiçal, ia a arremessar-lho à cabeça, quando o outro, dando um salto e lançando-lhe as robustas mãos, o deitou por terra, pondo-lhe o pé na face.
Voltando a nós da surpresa, agarrámos o Almeida e pusemo-lo fora da porta, apesar da sua enérgicaresistência.
Quando voltámos para junto do ofendido, o rosto deste causava dó e medo a um tempo.
Pálido como um cadáver, insensível aos meus rogos e carinhos, o desgraçado nãodizia palavra e não desviava os olhos da quina -de espadas, que ficara sobre a mesa.
De repente, o olhar desvairado reassumiu uma expressão de inteligência, brilhando com inexcedível fulgor, duas rugas profundas vieram cavar-se-lhe entre os sobrolhos, os lábios entreabriram-se-lhe num sorriso indescritível e, caminhando para a mesa, pegou na carta, meteu-a no bolso, aspirou o ar com força, e, voltando-se para nós, disse-nos serenamente:




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- Vocês acreditam que eu empalmasse a carta?...
- Ora! - exclamámos todos, ofendidos pela pergunta.
- Basta!... Então não há que pasmar!.. O jogo tem destas coisas!... Adeus, rapazes!... Ide-vos deitar!... Adeus!
Depois de breve hesitação, saíram todos.
Apenas ficámos sós, corri para o abraçar e ia para abrir a boca, com tenção de lhe mitigar o sofrimento, que eu sabia ser cruel numa alma daquela têmpera, quando ele, detendo-me com um gesto, disse:
- Se és meu amigo, não me digas uma palavra sobre o que se passou aqui!
Calei-me."
E o velho, ao chegar a este ponto, calou-se, como que receoso de continuar. .
Possuía o abade a fundo a arte, ou antes o segredo, de prender às suas palavras a atenção dos ouvintes, de forma que, suspensas dos lábios dele, as nossas almas esperavam curiosas e trémulas o desfecho da narrativa.
Em nenhum, porém, pareciam produzir mais profunda impressão as palavras do velho do que em Augusto.
Desde que o tio apresentara os mancebos sentados à mesa do jogo, a atenção de Augusto tinha por assim dizer redobrado, e, quando o velho descreveu a acção do caluniador arremessando


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a carta sobre a mesa, o jovem ergueu-se agitado e o seu rosto, pálido e contraído por indescritível expressão, revelava um misto de terror, angústia e ódio.
A mão direita dirigiu-se-lhe maquinalmente ao coração, como que a comprimi-lo, ao passo que a esquerda se erguia a vendar os olhos.
Quando Augusto, finalmente, se deixou de novo cair sobre o banco, havia eu de jurar que via filtrar as lágrimas por entre os dedos da mão, que se erguera talvez para as ocultar.
Após minutos de lúgubre silêncio, passou o abade os dedos por entre os raros cabelos e continuou em voz sombria e mal segura:
- O meu companheiro dormia numa alcova e eu fora, na sala. Apesar de separados por uma porta envidraçada, ouvia-lhe o ruído dos movimentos agitados.
"Que noite horrível aquela!... O pobre rapaz estorcia-se em paroxismos de raiva, e eu pedia a Deus que acalmasse os sofrimentos daquele desventurado.
Quando no dia seguinte o encarei, recuei aterrado!
Parecia ter envelhecido dez anos! Pálido, com os olhos encovados brilhando com um fogo sinistro, os lábios brancos, a fronte enrugada... era a imagem viva do demónio da vingança!
Não tive mão em mim, e, cingindo-o com os braços, bradei-lhe louco de terror:



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- Jura-me por... por tua mãe, que não queres fazer uma desgraça!
Estremeceu, desprendeu-se de mim e sorrindo -que sorriso! -respondeu:
- Estás doido!... Que queres tu que eu faça?... Tens talvez medo que lhe bata?!... bem viste ontem que é ele o mais forte...
Havia tão dolorosa expressão de ironia na voz dele ao proferir as últimas palavras, que senti apertar-se-me ainda mais o coração, e balbuciei suplicante:
-Eu conheço-te... Tu não ficas assim!... Tu tens uma ideia diabólica a perseguir-te!... Faz-me o que te peço!... jura...
- Decididamente estás doido!... Quem te ouvir há-de imaginar-me uma fera!... - replicou ele, soltando uma gargalhada.
Era um rir de Demónio o dele!... ao ouvi-lo senti um frio de gelo, e prometi a mim próprio não o perder de vista.
Depois de almoçarmos em silêncio, o meu patrício ergueu=se, pôs o chapéu, pegou nos livros e disse-me serenamente:
-Adeus!... Vou para a Escola.
- Espera que vou contigo...
-Pois anda daí...
Fui com ele, e só o larguei depois de o ver entrar para a aula.
Como era feriado para mim, fui passear para a Cordoaria, à espera que saísse.
Apenas o avistei descendo as escadas da Escola,



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fui ter com ele, e viemos juntos para casa.
Ao jantar foi ele quem provocou a conversa, zombando dos meus receios.
Era tão forçada a sua alegria, que lho fiz notar.
- Se te parece! - respondeu singelamente. - Tens razão!... É forçada a minha alegria, e é o teu estúpido receio que me causou o triste trabalho de me mostrar alegre. Que diabo tens tu?.. Chamaram-me ladrão e pisaram-me aos pés... Custa... não é verdade?... Mesmo a um cobarde?... Custa, sim... Sabe Deus o que sofro!... Mas que queres tu que eu faça agora?... Nestes casos, quando um homem não mata imediatamente, acto contínuo, ali, como um cão, quem assim o insultou... traga o insulto e... e fica com o triste desafogo de ranger os dentes, como eu sem querer estou agora fazendo!... É um espinho que me fica para sempre cravado aqui, no coração; mas... adeus! não há volta a dar-lhe!
- Ó filho!... Por amor de Deus, vê se podes esquecer!... Lembra-te que todos te fizeram justiça!...
- Adeus, meu amigo!... - retorquiu ele com impaciência. - Isso é muito bom para ti, que queres ser padre... É um espinho... é uma ferida que nunca mais se fecha!
-Mas tu, então, prometes-me... juras-me que não tens uma ideia reservada?!... -perguntei eu com ansiedade.




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- Homem!... Pelo amor de Deus, não sejas asno!... Que lhe hei-de eu fazer agora, não me dirás? -respondeu ele com enfado.
Veio-me aos lábios a palavra vingança; mas retive-a, receoso de fazer brotar naquele espírito enfermo uma ideia, que talvez lá não tivesse ainda nascido.
Além disso, parecia-me tão verosímil aquela exposição, em que ele, ofendido, não ocultava o despeito de deixar impune o ofensor, que, apesar do conhecimento que tinha daquele carácter pundonoroso, sosseguei e apelei para o tempo, esse grande consolador das grandes mágoas, que infelizmente veio a ser para o meu pobre... amigo o implacável e incessante vingador de um grande crime!
Como o coração se esforça sempre por advogar o que deseja, entrei de convencer-me que a pendência ficaria por ali, e só iria além se qualquer circunstância imprevista, ou provocação acintosa, viesse exacerbar o ânimo dos dois inimigos, e esse perigo esperava eu poder evitá-lo, graças a tal ou qual influência que exercia sobre o Almeida.
Tanto me animaram os argumentos que a esperança me sugeria, que fiquei quase tranquilo, quando o meu patrício pegou no chapéu e saiu pretextando necessidade de falar com um condiscípulo.
Exausto pela insónia da noite anterior, deitei-me e adormeci.


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Seriam sete horas da tarde, quando acordei e acendi a vela.
Ergui-me e tentei estudar. O bater das oito horas no relógio da Sé veio recordar-me que o meu amigo se ia demorando de mais para o seu costume.
Desde que esta ideia me luziu no cérebro, assaltaram-me de novo os cruéis terrores de uma catástrofe.
Que horríveis horas aquelas!
Com a fronte colada contra os vidros da janela, em vão tentava enxergar nas trevas, que envolviam a rua, quem ali me tinha em transes mortais!
Combatido por mil sentimentos diversos, umas vezes lembrava-me de sair em procura do ausente; mas retinha-me a ideia de me -desencontrar dele; outras vezes afigurava-se-me ouvir o ruído de temerosa luta, e, dissipada a ilusão, amaldiçoava aquela cruel perversão dos sentidos.
E assim ouvi bater nove, dez, onze horas! Seriam onze e meia ouvi o estampido de um tiro...
Juro-lhes que o senti em cheio no peito!...
- É ilusão!... é o meu louco terror!... - dizia eu trémulo e angustiado.
E assim permaneci, dementado por pavoroso pensamento, sem poder tomar uma resolução qualquer.
Meia hora depois, o som de passos precipitados
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vinha arrancar-me daquele letargo, abria-se a porta com violência e entravam na sala os mesmos rapazes que tinham sido testemunhas da cena da véspera.
- Onde está ele?... - bradei eu.
Miraram-se os três, que vinham pálidos e aterrados.
Por fim um deles, fazendo um esforço, disse em voz trémula, depois de ir ver à porta que ninguém o podia ouvir:
-Mataram há pouco o Almeida!...
Durante o tempo que mediara entre a minha pergunta e esta notícia, havia-me eu preparado para o pior, e perguntei então, tentando parecer sossegado:
- Mataram?!... E como?... Alguma desordem?...
Era um santo rapaz o que se incumbira de falar.
Caminhando para mim de braços abertos, cingiu-me contra o peito, e, com o rosto banhado em pranto, fitou nos meus os seus olhos rasgados e leais e balbuciou:
-Não tenhas medo de nós!... Aqui não há traidores!...
E vendo que eu ia ainda tentar iludi-los, continuou:
-Sabes o que ali o Alberto viu na ferida quando lhe rasgámos a camisa, e que eu pude tirar e esconder sem ninguém dar por isso?!... esta quina de espadas!... - concluiu ele, tirando



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do bolso a carta chamuscada e tinta de sangue.
Ao vê-la, caí sem acordo no chão."
. . . . . . . . . . . . . . . . .
O abade, cuja voz se tinha pouco e pouco tornado mais trémula e abafada, escondeu o rosto nas mãos ao proferir as últimas palavras.
Ouvia-se nesse instante apenas o crepitar de uma ou outra lasca saltando como um pirilampo, ao desprender-se do tronco carbonizado da vetusta oliveira, que, como uma brasa enorme, jazia no lar, tingindo de cor sangrenta o rosto dos ouvintes.
Destes, principiando por mim, não havia ali um que não sentisse, naquele momento, esse misto de curiosidade e terror, que se apossa de nós na infância, quando velha criada nos envenena o coração e o espírito com a narrativa de cenas sanguinolentas, as primeiras que vêm toldar-nos a paz dos inocentes sonhos, em meio dos quais nossas mães costumam vir colher-nos num beijo o sorriso que nos brinca -nos lábios.
Ao cabo de alguns minutos, ergueu o velho a cabeça e prosseguiu, voltando-se para o sobrinho:
- Já acreditas que as cartas possam matar?...
E o velho calou-se, como que desejoso de terminar assim a narrativa.
Augusto nada respondeu; eu, porém, é que não pude refrear a curiosidade, e não tive mão em mim que lhe não perguntasse, como as crianças:
- E depois?...
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Passados poucos segundos, disse o abade com visível repugnância:
-Já vejo que é preciso contar-lhes tudo!... Se a recordação de tão dolorosas cenas já -de si me tortura, imaginem quanto me custará descrevê-las!...
"Como lhes disse, caí desmaiado ao ver a carta fatal...
Quando voltei a mim e me vi acompanhado pelos mesmos rapazes que me haviam trazido aquela horrível notícia, cheguei a imaginar que despertava de um destes sonhos horrorosos, que, ainda depois de dissipados, nos deixam sob a impressão do terror.
Não era sonho, não!... Volvendo os olhos, vi sobre uma cadeira a sinistra origem de um crime, a mísera quina de espadas que na véspera tentara roubar a honra a um homem, e acabava naquele dia de roubar a vida a um outro.
O meu espírito abrangeu então, de repente, todo o horror da situação, e a minha alma, assustada pelos perigos que esperavam o amigo estremecido, entrou de se reanimar para os combatér.
-Onde está ele?... -foi a minha primeira pergunta.
- Fugiu!...
- Fugiu... mas para onde?... Para onde fugiu?!... -exclamei, desesperado pelo receio de que o infeliz se tivesse lembrado de fugir para a nossa aldeia, o que seria a morte de... da santa





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da mãe, que com tanto amor o criara para melhor destino.
Mal acabara de fazer a pergunta, ouvi rumor na escada, e a porta abriu-se impelida pelo peso do corpo de um homem, que veio cair de bruços no meio do aposento, onde ficou como morto.
Logo que a surpresa mo permitiu, corri para ele, e, ajudado pelos outros rapazes, ergui-o e deitei-osobre a minha cama.
Era... o meu amigo, a vítima de um pundonor inexcedível!
E meia hora permaneceu desmaiado!...
Receando a impressão que a presença de outras testemunhas devia produzir naquele espírito sobreexcitado, estendi as mãos aos meus condiscípulos, fitando-os suplicante.
Compreenderam-me eles o olhar, porque, depois de ter consultado o rosto dos outros companheiros, disse-me com voz grave e comovida o que primeiro me comunicara a horrível desgraça:
- Descansa!... Se a justiça o não descobrir, nenhum de nós dirá o nome do assassino!... Juro-to por mim e julgo poder jurá-lo por estes também... Se, porém, me enganar- acrescentou ele com inexcedível energia-também te juro, que, se houver um traidor, haverá mais um assassino!... Mato-o!
Não era uma vã ameaça aquela; quem a proferiu era um destes homens que não prometem debalde.

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Saíram, finalmente.
Ninguém imagina - prosseguiu o abade - o que eu sofri diante daquele corpo inerte!
Enquanto lhe tirava a gravata e lhe desapertava o coleirinho, examinei-o atentamente por entre as lágrimas que me saltavam dos olhos.
Lívido como um cadáver, com os olhos semiabertos, o cabelo colado à fronte por um suor viscoso, os dentes cerrados, roxos os lábios tintos aos cantos por uma espuma sangrenta, o casaco enlameado, as calças gotas nos joelhos, resultado da queda durante a vertiginosa carreira -dir-se-ia, um homem fulminado na rua por uma apoplexia.
O único sinal de vida era uma ou outra crispação nervosa das faces, que vinha a espaços alterar a rigidez daquele rosto.
O que eu sofri!... o que eu pensei naquela meia hora!
Ao cabo -de torturar o espírito, sem encontrar remédio aos males que antevia, a minha alma acabou por desejar ardentemente, e como melhor solução, que o desgraçado não tornasse a sair daquele leito senão para o cemitério!
Como havia ele de ter a coragem de tornar a beijar a mão da mãe ou a estreitar a minha?! Aquela alma era demasiado nobre para poder escapar ao remorso... Que viver ia ser o seu?!...
E, ao pesar tudo isto, secreta voz bradava dentro -de mim: "Levai-o, meu Deus!... levai-o!"




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De repente feriu-me o ouvido o ruído da sua respiração opressa e difícil.
Acerquei-me dele... Voltou a cabeça, e fitou em mim os olhos horrivelmente dilatados.
Levando em seguida a mão à fronte, afastou os cabelos, lançou os olhos em volta, como quem procura orientar-se e, firmando-se por fim nas mãos, ergueu-se e sentou-se na beira da cama, coçando a cabeça como que buscando recordar-se.
Apalpou o pescoço e, notando, naturalmente, que tinha o coleirinho desapertado, mirou-se então atentamente.
Examinou o casaco enlameado, levou as mãos aos joelhos para verificar que tinha rasgado a calça, e balbuciou por fim, fitando-me espantado:
- Eu caí?!...
Aterrara-me por tal forma aquela espécie -de ressurreição, que lhe segui todos aqueles movimentos com o coração apertado, e não pude responder-lhe à pergunta.
não recebendo resposta, ergueu-se e entrou a examinar os objectos que o cercavam.
Os seus olhos, porém, fixaram-se de repente, como que fascinados, sobre um objecto que eu não podia distinguir, até que, tapando o rosto com uma das mãos, apontou com a outra para uma cadeira e caiu de novo, bradando:
-A quina de espadas!
E era ela, era!... Lá estava tinta de sangue,





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simbolizando o remorso do culpado e a vingança da vítima.
O meu primeiro cuidado, depois de deitar o infeliz de novo sobre a cama, foi queimar aquele terrível acusador à luz do candeeiro.
Sabe Deus a repugnância com que lhe toquei!... O cartão ardia lentamente, torcendo-se e enrolando-se sobre si, e a chama azulada estendia-se, mordendo a custo a parte intacta, e vinha lamber-me os dedos trémulos.
Parecia reagir contra a ideia que me levara a aniquilá-la, e, como último protesto, o rolo de cinza que aderia ainda ao bocado intacto que me restava entre os dedos, voou e foi pousar sobre o peito do criminoso!.. "
-Mistérios da Providência!... -balbuciou o abade, descansando a fronte entre as mãos.
Pouco depois, continuava ele:
-Que hei-de eu acrescentar?!... Por espaço de um mês esteve o desgraçado entre a vida e a morte, presa de horrível delírio.
"Imaginem o que eu sofreria vendo-o naquele estado, sem me atrever a chamar facultativo, com medo de que o enfermo, no meio do delírio, se traísse!
Foi Deus quem o curou!
Neste meio-tempo, em vão se esforçaram as autoridades por descobrir o culpado, e, quando este melhorou, já quase ninguém falava no crime.
Apenas o vi em circunstâncias de o poder




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transportar, conduzi-o à nossa terra, onde a santa mãe, que Deus lhe -dera, morria pouco depois, abençoando o filho, que o seu instinto materno lhe dizia infeliz, mas que jamais o suspeitou criminoso.
Só muito depois é que eu soube dele as peripécias daquele horrível desfecho.
Quando saíra, ia abalado pelas razões que ele próprio me dera para não procurar a desforra.
Infelizmente, a fatalidade quis que encontrasse o ofensor, que, ao passar por ele, soltara uma gargalhada de escárnio.
Doido de raiva, o desgraçado retrocedeu e, aproveitando o sono, a que eu não pudera resistir, abriu cautelosamente o armário, onde tinha uma antiga pistola de cavalaria, carregou-a, e, inspirado pelo demónio da vingança, utilizou como bucha a carta que na véspera guardara no bolso.
Sabia ele que o Almeida costumava passar as noites numa casa de jogo no Largo da Sé, e foi emboscar-se numa das portadas da igreja.
Horas esqueci-das ali se conservou à espera, até que, vendo-o sair, lhe disparou tão à queima-roupa o tiro, que eu ouvira, que a bala e a bucha tinham entrado juntas no peito da vítima, que caiu sem um grito.
Fugindo, depois do crime, em direcção oposta à nossa casa, não podia ele dizer as ruas que percorrera, até vir cair sem acordo quase a meus pés; apenas se lembrava de ter visto o rio e ter-lhe


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arremessado ao seio a pistola, que não largara da mão.
Nem sequer se lembrava de ter caído na rua! "
Calou-se o abade; mas eu, desejoso de ouvir o resto, perguntei:
-Ainda vive o desgraçado?!
- Morreu!... Morreu depois de uma vida de angústias e amarguras!... Causava dó vê-lo nos últimos tempos da sua vida!... Morreu ralado pelo remorso!... Era um cancro que o devorava!... Era a sua uma destas dores, que transformam o homem em autómato, que aniquilam os sentidos, que tornam quem as sofre insensível a tudo quanto não seja a causa que as alimenta!... E sabem-concluiu o abade-quais foram as últimas palavras do mísero?... Foram estas "Escondam-me aquela quina de espadas!... "
Depois de cinco minutos de profundo silêncio, ergueu-se o abade, dizendo com melancólico sorriso:
- O meu hóspede não deve levar boa ideia da hospedagem!.. Desculpem estas histórias de velhos, vizinhos!... E são horas! Vamo-nos deitar, que o meu hóspede deve estar cansado.
Pouco depois, via-me só no quarto que me fora destinado.



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III
-Vou passar uma noite de rosas!-pensei eu, dando volta à chave.
E, na verdade, era de esperar que assim acontecesse, graças ao cansaço da jornada e à boa qualidade da cama.
Enganei-me!... Mal havia aconchegado a roupa, de forma a proteger a orelha exposta ao ar, comecei a ouvir o som de passos lentos e cadenciados.
- Não me faltava mais nada!... Estou por baixo do quarto do abade... O velho ficou impressionado pela história que nos contou e, como não pode dormir, passeia... Conheço aquele desabafo... Pode durar uma hora e pode durar toda a noite... Depende dos nervos do velho... O pior é eu não poder dormir!...
No meio destes meus raciocínios, ouvi estalar um fósforo e dissiparam-se as trevas em que jazia.
Voltei a cabeça e vi que a luz vinha da bandeira de uma porta lateral. Pouco depois, senti o cheiro do fumo de cigarro, e concluí que, se o velho passeava por não poder dormir, o sobrinho fumava pela mesma razão.
Ora, como eu sei o que é o cigarro como distracção, perdi logo as esperanças de dormir.
-Não tem que ver!... - pensava eu. - Ficas aí a acender os cigarros uns nos outros até

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ser dia... Se tens fartura deles, não acabas enquanto não sentires a língua esfolada e a cabeça perdida... Decididamente, não durmo!
E, como sucede sempre que nos assalta o receio de uma noite de insónia, entrei de dar voltas na cama, e de fazer castelos no ar.
De repente, no pavimento superior, cessou o ruído dos passos e ouvi arrastar uma cadeira.
Pouco depois, a um som um pouco mais forte, dizia eu: "Lá tirou o velho uma bota..." e, como o ruído se repetisse, acrescentei: "Lá tirou a outra... O velho deita-se... Deus queira agora que o rapaz apague a luz!
Cerca de um quarto de hora depois, pareceu-me que ouvia passos no corredor; uma porta rangeu ao abrir-se e, como eu estava deitado de costas e com os olhos fitos na bandeira da porta, de onde vinha a luz, conheci, desenhada no tecto do quarto vizinho, a sombra do abade.
- Temos sermão de lágrimas!... - disse mentalmente. - Vem explicar ao rapaz a moral da história que lhe contou.
Curioso como um ponto de interrogação, impus silêncio ao bom senso que me ameaçava com uma pneumonia, e fui pé ante pé colar o ouvido à porta.
Depois de um expressivo: "psiu!" que provavelmente se referia a mim, que os podia ouvir, disse o abade em voz baixa e trémula:


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-Ouviste bem a história que contei, Augusto?... Não te lembras de ter ouvido, há já muito tempo, as palavras: "Escondam-me aquela quina de espadas?!
Em vez de palavras, ouvi soluços abafados. O jovem respondia chorando!...
- Era teu pai, Augusto!... Era!... Perdoa-me a dor que te causo, filho!... Por muito que sofras, é nada a par do que eu tenho sofrido, vendo-te presa de um vício que causou a desgraça de teu pai! E teu pai apenas jogou uma vez! Ó meu Deus! - exclamou o velho elevando a voz, sem se lembrar de mim, e como que falando só para si. - Será isto uma expiação?!... Querereis punir o pai no filho?!... Querereis castigar-me a mim por não ter tido a coragem de arrancar o infeliz daquela mesa na noite fatal?!
E a estas palavras seguiu-se um silêncio, cortado apenas pelos gemidos do mancebo.
- É preciso que te conte o resto, filho!... - continuou o abade. - É preciso que te exponha todas as consequências daquele crime!
"Depois da morte de nossa mãe-um ano depois, pouco mais-alcancei esta abadia.
Por mais que fiz, não pude resolver teu pai a acompanhar-me.
Carícias, rogos, considerações materiais e necessidades do coração -nada pôde movê-lo. Queria morrer ali - dizia ele - ali, de onde nunca devera ter saído!



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Como ele tinha abandonado os estudos em meio, e a nossa casa mal nos dava recursos para vivermos, aterrava-me o futuro!
Tremia por ele, por teu pai, a quem a infelicidade quebrara, por assim dizer, os braços, e perguntava a mim próprio que vida ia ser a daquele homem, incapaz de lutar e desapegado de todos os interesses da vida! Que havia de ser dele, faltando-lhe eu?!
Estive para renunciar a abadia, e só me deteve a esperança de me ser fácil arranjar uma troca que me aproximasse dali.
Depois de muito pensar, julguei ter encontrado um meio de lhe tornar menos sensível a minha falta.
Havia nas vizinhanças um honrado velho, antigo militar, que, com a modesta pensão da sua reforma, se sustenta a si e a uma filha.
É o homem que me convém! - pensei ao lembrar-me dele.
Fui procurá-lo e expus-lhe a minha aflição.
-Meu irmão - disse lhe eu -sofre, como V. S.a sabe, de uma melancolia incurável.
"Desgostos que o atribularam na sua carreira de estudante, e as consequências do ataque cerebral de que esteve a morrer, puseram-no naquele mísero estado...
Indiferente a tudo... ignorante das mais pequenas exigências da vida... incapaz quase de se governar, e sem forças para lutar... não sei o que há-de ser dele em lhe faltando eu!


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A nossa separação não será longa, espero... Ainda assim, atormenta-me a ideia de o deixar entregue a si próprio, nesse muito ou pouco tempo que ela durar...
Lembrei-me do senhor!... De tempos a tempos... uma vez por semana... quando puder... dê uma chegada lá a casa... Veja se aquele desgraçado precisa de alguma coisa... Se conseguir captar-lhe a confiança... aconselhe-o... Verá que lhe obedece... O que ele quer é que o não obriguem a pensar!"
Tudo isto lho disse eu, chorando, e, quando concluí, corriam também as lágrimas quatro a quatro ao longo das faces do velho.
-Vá descansado, vizinho!... Vá descansado! -balbuciou o honrado homem, abraçando-me. - Há-de fazer-se o que se puder fazer!... Os homens nasceram para se ajudarem uns aos outros... Vá descansado.
Agradeci-lhe do fundo da alma aquela bondade e retirei-me mais sossegado. Dias depois parti para aqui.
Não posso dizer-te o que sofriao deixar aquele desgraçado!... Ele pouco parecia sofrer... Absorto na dor que o minava, para nenhuma outra parecia haver lugar naquele coração!
Às repetidas cartas que lhe escrevia, vinha de tempos a tempos uma resposta dele, revelar-me a nenhuma acção do tempo sobre as feridas da sua alma.
Cerca de seis meses depois da minha partida



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recebi uma carta, em que pela primeira vez me falava com mostras de gratidão do nosso vizinho, que, pela sua parte, me escrevia a miúdo, lamentando-se pela inutilidade dos seus esforços.
Pareceu-me; aquilo um bom sinal!
Começaram as cartas de teu pai a amiudar-se, e julguei ver luzir um ténue raio de sol por entre as trevas, que ainda lhe enegreciam o estilo.
Exultei!
Foram chegando outras cada vez mais animadoras... Nesta participava-me que se resolvera a ir passar uma noite a casa do vizinho, onde se aborrecera menos do que receara; naquela fazia justiça ao bom senso do velho; noutra falava-me nas boas qualidades que descobria na filha do nosso velho amigo...
Finalmente... era um homem que ressuscitava, e eu de longe animava-o a distrair-se e chamava-lhe pouco e pouco o espírito para as alegrias -do mundo.
De repente o seu estilo mudou! Ora deixava voara imaginação por alturas impossíveis; ora parecia despenhar-se no antigo abismo, que o remorso lhe cavara na alma!
Nessas ocasiões enchia folhas e folhas de papel!... via-se que o dominava a febre de escrever!...
Em algumas cartas encadeavam-se mil preâmbulos, que faziam esperar uma confidência; mas, de repente, a chama ocultava-se debaixo de cinzas,



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e meia dúzia de banalidades vinham brutalmente terminar a carta!
E eu lia e relia, na esperança de descobrir o verdadeiro estado daquele espírito, quando uma carta dele veio iluminar o meu.
Era um grito de desespero!
"Amo-a!... - dizia ele. - Amo-a e não me atrevo a dizer-lho, porque seria horrível ligar um anjo a um assassino!"
E mais adiante acrescentava: "Diz-me o coração que só ela seria capaz de me curar!... só as preces dela podem fazer calar os gritos do remorso!"
Teu pai amava a filha do nosso vizinho... Era mais uma desgraça com que eu não contava!
Três dias depois batia eu à porta da casa onde nascera, e caía nos braços de meu irmão.
Não imaginas que triste noite passámos juntos!... Nessa, era com certeza ele quem mais sofria!
- E ela... ama-te?... - perguntei-lhe eu depois de lhe ouvir as confidências. - Julgo que sim.
- E vocês já... já falaram de amor?... - Nunca!..
-Ó filho!... então por nossa mãe... por ti!... foge!... Vem comigo!
-Não posso!... -bradou o desgraçado torcendo as mãos.
-Pelo teu crime!... pela memória do...
- Cala-te! - exclamou ele, detendo-me nos

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lábios a palavra assassinado. - Cala-te, ou... dou
cabo de mim! "
O abade calou-se, e os gemidos do jovem redobraram.
-No dia seguinte -prosseguiu o velho -fui procurar teu... teu avô.
"Depois de lhe exigir o juramento de jamais revelar o que ia dizer-lhe, contei-lhe tudo!
A cena da provocação, o crime e remorsos de teu pai, e finalmente o seu louco amor pela filha dele -tudo lhe contei, com as faces afogueadas de pejo e banhadas de pranto.
Ao contrário do que eu esperava, teu avô, militar e, por conseguinte, pundonoroso, depois de me ouvir atentamente, disse-me com gravidade:
-Seu irmão, Senhor Abade, fez o que eu faria... Se entre nós se usasse o duelo, seria ele o resultado natural de semelhante afronta... Como se não usa... o meio é aquele... Se alguém ainda hoje-prosseguiu energicamente o velho-me vier chamar ladrão, prego-lhe um tiro!... Tão certo como dois e dois serem quatro!... Não vejo na acção de seu irmão um crime... Acho-o lógico e naturalíssimo... E, se minha filha gostar dele, não serei eu quem lhe negue o meu consentimento.
Retirei-me atordoado!... Aquele modo de ver diferia tanto do meu; aquele culto da vingança contrastava tanto com as minhas doutrinas de



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perdão, que o meu espírito perdia-se entre aqueles dois caminhos desiguais!
Chegando a casa contei fielmente a meu irmão o que se passara entre mim e o velho.
A paixão sugeriu-lhe um sem-número de argumentos, que me venciam sem me convencerem, até que, dominado pela amizade que lhe tributava, cedi com a condição de que faria uma confissão franca e leal do seu crime à escolhida do seu coração.
- Se ela te aceitar depois disso - concluí eu - não te porei mais objecção alguma!
-Sê bom até ao fim!... - disse-me ele. - Diz-lho tu, que eu não tenho coragem para o fazer!
Tive ainda de ceder!
Fui procurar a jovem e disse-lhe tudo!
A pobrezinha, pálida e trémula, ouviu-me até
ao fim com as lágrimas a bailarem-lhe nos olhos... Terminei, dizendo:
-Aqui tem a causa da melancolia de meu irmão... Pense... e peça a Deus que a ilumine!... Estude-se, e veja se tem a força de alma precisa para partilhar o futuro de um homem que o há-de ver sempre escurecido pelas sombras do passado!... Lembre-se que tem a pedir ao seu coração a eloquência necessária para fazer emudecer na consciência dele a acusação de um crime!... Olhe que não há lágrimas que possam lavar uma gota de sangue, quando esse sangue nos acusa!.. Eu, como sacerdote, creio na eficácia do arrependimento;






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mas este, minha filha, se pode dar-nos a felicidade no outro mundo, não no-la pode dar neste!... Pense e... reze!... Pense bem! Bem basta que só ele seja infeliz!
Deixando fugir as lágrimas, que até então represara, respondeu-me a santa, que foi depois tua mãe:
-Já pensei, Senhor Abade... Pensei que esse desgraçado precisa de quem chore com ele, de quem lhe cure as feridas!... Não me disse que era bom, nobre e generoso?... Não me disse que é criminoso pôr excesso de brio?... Consinta que o meu amor lhe mitigue as torturas causadas pela falta cometida num momento em que o seu bom anjo o abandonou!... Seu irmão... para mim... não é um criminoso... é um desgraçado!... E... eu amo-o!... -terminou ela, apaixonadamente e debulhada em pranto.
A consciência, que me aplaudia por ter cumprido o meu dever, disse-me que tua mãe acabava de cumprir o dela.
Tive tentações de lhe cair aos pés!
Fitei-a, deixando correr livremente as lágrimas, e balbuciei:
- Deus a abençoe, minha querida irmã!... É uma santa!
Um mês depois estavam casados."
Após breve silêncio, continuou o venerando padre:
-Voltei para aqui.



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"Nos primeiros tempos correu tudo bem. Teu pai e tua mãe escreviam-me alternadamente, e nada encontrava nas cartas deles que me sobressaltasse.
Morreu teu avô, e a tristeza, naturalmente produzida por essa causa, decerto influiu no ânimo de teu pai, pois recebi uma carta de tua mãe, em que me anunciava que ele se debatia de noite em sonhos horríveis, de que despertava como que idiota.
Repetiram-se essas noites medonhas em que tua pobre mãe sofria atrozmente, e, nesse tempo, nasceste tu.
As alegrias de pai varreram, por algum tempo, daquela alma as visões que a agitavam; pouco tardou, porém, que elas voltassem.
Informado por tua mãe, regressei ao Minho e, auxiliado pelo médico, que asseverou ser a mudança de ares absolutamente necessária para tua mãe, consegui que teu pai viesse passar algum tempo aqui, de onde nunca mais saiu.
Foi então que eu pude avaliar até onde pode chegar a angélica bondade de uma mulher!
Tua mãe pedira aos anjos o sorriso, e aprendera dos mártires o segredo de guardar no peito as lágrimas, que pouco e pouco lhe iam dissolvendo o coração!
Que noites, meu Deus!... Que noites!...
O bruxulear da lamparina, um bocado de cal que caísse do tecto, uma golfada de vento que abanasse as janelas, um cão uivando na vizinhança...






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era o bastante para dementar o desgraçado!
E a pobre mártir erguia-se, acendia a vela, provava-lhe à evidência a verdadeira causa do ruído ou sombra, e, voltando para junto dele, passava-lhe a mão pela fronte e dizia-lhe como a uma criança: "Dorme!..." e o infeliz sorria e adormecia, para daí por um instante despertar a braços com novos terrores!
Era uma santa!
Presumira a triste de mais do vigor da sua alma, ou antes, não havia quem resistisse àquela luta de todos os instantes...
A vida foi-se-lhe finando entre aquelas agonias de quatro anos, até que me ficou nos braços... As suas últimas palavras foram para ti e para ele!...
-Meu querido filho!... Quem há-de olhar pelo pai!...
Os seus olhos, porém, encontraram os meus, e a expressão angustiada cedeu o lugar ao angélico sorriso com que aquela alma se foi apresentar a Deus.
Aquele sorriso queria dizer: "Achei um pai para meu filho... um enfermeiro para meu marido."
Ainda hoje - continuou o abade, depois de breve silêncio - ainda hoje me custa a conceber como teu pai resistiu àquela perda, e viveu ainda quatro anos, se se pode chamar aquilo viver!



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Lembras-te dele, Augusto?... Daquele rosto cadavérico, daquele olhar sombrio?... Pobre irmão!
Tu viste-lhe a agonia, filho! Eras uma criança, mas não a esqueceste!
Não a esqueceste, não, que eu notei a im
pressão que te causou o ouvir-mo repetir as úl
ti mas palavras de teu pai: "Escondam-me aquela quina de espadas!""
. . . . . . . . . . . . . . . .
Se os dois choravam, eu posso asseverar que me corriam as lágrimas, ouvindo aquela triste narrativa, que me prendia ali, indiferente ao frio de uma noite de Fevereiro e ao cansaço da jornada.
Ergueu-se de novo a voz do velho; mas, desta vez, solene e austera como a -de um juiz:
-Compreendes o que eu devo ter sofrido, sabendo que jogas por vício, tu, filho de um homem criminoso, por se ter sentado uma única vez a uma mesa de jogo?!...
"Tu vais jurar-me pelo homem que morreu às mãos de teu pai!... por tua mãe, que sucumbiu ao peso da cruz que voluntariamente tomou!... por teu pai, que morreu ralado, idiota pelo remorso de um crime originado pelo jogo!... por mim, que te adoptei e que Deus fez resistir a tantos golpes, para te fazer parar a tempo!... por ti, finalmente, se és homem, se és filho, se és cristão!... vais jurar-me que não tornas a pegar numas cartas!..."




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Completamente esquecido de mim, o jovem soltou um brado de angústia e exclamou:
- Meu Deus! meu Deus!... Tão miserável me crê, que ainda me pede que jure, depois do que ouvi!
- Perdoa, filho. Perdoa!... - ouvi então dizer ao abade.
Pouco depois retirava-se este do quarto e recolhia eu à cama, literalmente transido de frio.
No dia seguinte, quando me apresentei ao almoço, perguntou-me o abade, estudando-me ansiosamente o rosto:
-Então... deixaram-no dormir?!...
- Se lhe parece!... - respondi jovialmente. - Nem os sete dormentes dormiam melhor!
Nesse mesmo dia, despedi-me do abade. O sobrinho tinha saído.
IV
Anos depois, por um formoso -dia de Setembro, cavalgava eu direito a Vila Flor, e levava
por arrieiro um rapaz que tinha cara de esperto. -Tu de onde és, ó rapaz?... - Sou de... - (a terra do abade). - Diz-me uma coisa... O abade ainda é o Sr. F...?
- Saiba V. S.a que sim.
- E o sobrinho dele?... O Sr. Augusto?...
Também o conheces?...




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- Ora, se conheço!... Como as minhas mãos!...
Aquilo é que saiu um rapaz às direitas! -Então ele que faz por lá?... - É administrador...
-Administrador -do concelho?... -perguntei eu com certo espanto.
-Saberá V. S.a que sim.
- E então... que tal?...
-Ainda lá não houve outro como ele!... serviçal até ali!... Seja rico, seja pobre-é amigo de todos... De todos, não... Há alguém a quem ele não perdoa...
- Então a quem é?!..
-É aos jogadores!... Em ele lhes podendo fazer a cama, estão prontos!.. Dantes todo o mundo jogava... Hoje é raro!...
Ouvindo isto, convenci.me de que ofilho não morre como o pai, pedindo que lhe escondam A QUINA DE ESPADAS.







A FIGA DE AZEVICHE
I
TOME fôlego, leitor!... Olhe que ainda temos a subir mais dois lanços de escada. Até que afinal!... Faça favor de entrar.
Não se canse; estãoà vista todas as riquezas do inquilino. Ora diga: não é verdade estar lá por dentro a perguntar: "Como Ese pode viver aqui?!.. "
Pois pode, sim senhor. Vive-se aqui; vive-se ainda em muito pior morada! A míngua que nota, seria o supérfluo para milhares de famílias.
Analisemos estas águas-furtadas.
Quatro paredes mal caiadas, tendo por únicos adornos uma imagem colorida da Senhora das Dores, a vera efígie do Senhor Jesus de Matosinhos e a patente que prova ser Maria Rosa da Silva irmã da Celestial Ordem Terceira da Santíssima Trindade-todas três em caixilhos de vinhático, com cantos de pau-preto. Além destes




158
caixilhos, não se vêem senão pregos, muitos pregos: são os guarda-roupas dos pobres. A um canto, uma cama de ferro; aos pés da cama uma cadeira; entre esta e o canto fronteiro um lavatório, também de ferro, com uma bacia rachada e um jarro esbeiçado. Daquele lado nada mais se vê, nem há espaço para mais coisa alguma.
Do lado oposto ocupa o centro uma cómoda, entre duas cadeiras. Depois de abertas as gavetas daquela cómoda, não há memória de terem elas consentido que as fechassem, sem oporem vigorosa resistência! Felizmente, as donas já lhes conhecem a balda, que não passa de rabugem da idade, e sabem que é preciso empurrá-las, primeiro de um lado e depois do outro. Praticando-se esta operação três ou quatro vezes, é raro não se deixarem convencer.
Junte-se a isto uma mesa de pinho, com uma gaveta que contém uma velha toalha de mesa, alguns garfos e facas, com os cabos amarelos e rachados, quatro ou cinco côdeas e muitas migalhas de broa; veja-se o que encerra aquele armário encravado na parede e caiado de branco -porém, quase que posso afirmar que encerra meia dúzia de pratos, dois ou três copos de quarteirão e duas canecas de quartilho - e está feito o inventário deste pequeno aposento, alumiado por um postigo que dá sobre o telhado, e pela luz que côa por entre as telhas, que, além da luz, dão passagem ao calor no Verão, às nortadas no Inverno, à água sempre que chove.



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Não há mais nada?... vejamos bem... Decididamente, não há.
Passemos da morada aos moradores.
Ela aqui está, a Sr.a Maria Rosa da Silva, viúva de um honrado municipal vítima das consequências do serviço de patrulha, feito numa noite de Dezembro na Rua do Wellesley.
A Sr.a Maria tem uma destas caras que não enganam; é uma santa! Solteira-era o descanso dos pais e a segunda mãe dos irmãos; casada -era a confidente e a enfermeira do marido; viúva - é o anjo que vela pela filha. Pode escrever-se-lhe a vida em duas palavras: abnegação e sofrimento. A Sr." Maria, enquanto pôde, nunca consentiu que a filha fosse sozinha para casa da modista; infelizmente, há um ano, quebrou uma perna, tem dificuldade em andar e é isso hoje, talvez, o que mais a amofina. Não que ele, também, por esse mundo, há cada malvado mais atrevido!... E depois, a sua Rosa é... é tão bonita!
-Valha-me Deus!... - diz a pobre velha, quando pensa nisso.
E a Rosa?... Que é dela, a Rosa!... Escute...
Ela aí sobe a escada; ela aí está! - A sua bênção, minha mãe. - Deus te abençoe, filha.
Que formosa rapariga! Eu, por mim, não sou dos tais malvados atrevidos, mas confesso que por um olhar daquelas duas amostras do céu, era capaz de fazer asneiras como qualquer rapaz de vinte anos!




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Não que eu nunca vi coisa assim! Se ela até aos doze anos nunca deixou de ir de anjinho em todas as procissões!...
Já se viu cabelo louro como aquele?... Onde há outros olhos como os dela?... E aquelas duas covinhas das faces, onde os risos e os amores jogam às escondidas?... E a cinta, capaz de fazer morrer de inveja a vespa mais espartilhada?!... E... Basta ou fico até amanhã a enumerar-lhe as perfeições.
A Rosa, porém, tem hoje um não sei quê, que a torna menos bonita. Que será?... Sigamos o olhar da mãe, que logo descobrirá o que é. É a ligeira ruga traçada entre as sobrancelhas; é uma vaga expressão de luta interna; é um certo ar de desassossego, que lhe não é próprio!
Rosa dobrou e pousou a capa sobre a cama; tirou a manta azul da cabeça; alisou o formoso cabelo diante de um mesquinho espelho, destes espelhos de papelão, forrado de papel encarnado, e sentou-se, deixando pender os braços com gesto de desânimo. A Sr.a Maria, depois de lhe interrogar debalde o rosto, aproximou-se dela, agarrou-lhe a cabeça com as mãos, e, cravando os olhos nos -de Rosa, perguntou-lhe com uma destas inflexões de voz, que são segredo privativo das mães:
- Tu que tens?... Tu andas doente?
-A mãe está a brincar! respondeu a filha, desviando os olhos. - Eu que hei-de ter?... A mim que me falta?








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Havia tanta amargura envolta nesta última frase, e tão manifesta, apesar do sorriso que a acompanhou, que a velha não pôde reprimir um gesto de aflição.
- Não!... Tu tens alguma coisa que te aflige!... Ora diz-me o que tens, Rosa! -insistiu a pobre mãe, ajoelhando, para melhor ver o rosto da jovem.
- Olhem que cisma!... -respondeu esta, forçando os lábios a sorrir. -Eu que hei-de ter?... Se me calo cinco minutos, logo a mãe começa a imaginar que estou doente!... Não tenho nada... Acredite... - continuou ela.
- Bem... Não tens confiança em mim... Paciência! - replicou a mãe, erguendo-se.
- E a mãe a dar-lhe! - observou Rosa, com visível impaciência.
Aqui para nós, o maior defeito da rapariga era estar perdidinha com mimo. Mas, como não havia ela de o ter, se a mãe não tinha outra e ela... era tão bonita?!...
II
Duas horas depois, descia Rosa a Calçada dos Clérigos e dava lugar ao seguinte diálogo:
- Acredite, Senhor Conselheiro. V. Ex.a não tem estudado, como eu, o viver desta gente. São felizes, creia... Mais felizes do que eu, mais felizes do que V. Ex.a!... Ora veja aquela pequena





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que ali vai... Veja que riso aquele, que alegria!... Uma manta, uma capa, um vestidinho de chita, uma botinha que lhe estreita o pé, um conversado... Aí tem o necessário para ela viver mais feliz, com oito vinténs por dia, do que a filha de V. Ex.a, a quem sobejam todas as comodidades da vida!... Não tenha pena desta gente, Senhor Conselheiro!... São felizes, creia!
Isto dizia um sujeito grave, que se penteia para ser deputado, a outro que já o foi, e que, julgando-se ainda na câmara, lamentava, da boca para fora, que se não pudesse melhorar o viver das camadas inferiores, bordão estafado de quase todas essas velhas raposas, que a indiferença dos eleitores parece mandar a cortes... justificar essa indiferença.
Se não causasse nojo, faria morrer de riso a filosofia rançosa destes vendedores de água chilra.
Então com que, é feliz aquela rapariga? Tem a manta, a capa, o vestido, os oito vinténs, o conversado talvez... logo é feliz?!... É feliz, hem?... Então ali não há aspirações, não há faculdade de comparar, não há inveja; há apenas a necessidade do pão de cada dia, o desejo de que hoje seja igual a ontem e amanhã igual a hoje?!... Valha-te Deus, homem!... Que círculo te escolherá para o representares?!...
Há tudo isso, míope! E como poderia deixar de haver? Como, se tu, homem grave por fora, mas corrupto por dentro, és o primeiro a dizer-lhe, quando ninguém te pode ouvir, que Deus



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a talhou para duquesa, que não há pele mais fina, mão mais aristocrática, pé mais distinto, do que a pele, a mão e o pé que fazem o desespero de todas as outras mulheres?... Como, se, além de ti, lho dizem o janota, o estudante travesso, o sargento hiperbólico e - o mais perigoso de todos! -o caixeiro que lhe vende o retrós, esse Lovelace de chinelo de liga e pena na orelha, que lhe deslumbra a vista com um arco-íris de peças de seda e lhe ajuda a combinar a cor que melhor se aliaria ao preto ou ao louro dos cabelos, se ela pudesse trajar sedas?!...
Ora anda cá, psicologista de lareira... Fala-me sério!... Crês que entre essa aluvião de raparigas pobres, que trabalham para raparigas ricas, haverá uma tão indiferente à vaidade, tão despida de curiosidade, que, ao ver-se só entre as quatro paredes do seu quarto, depois de dar o último ponto num vestido de seda, tenha resistido à tentação de experimentar em si esse vestido?!... E, se a sua boa ou má sorte quis que ela fosse bela e o espelho lhe disser que, assim vestida, é mil vezes mais bonita, será para estranhar que a pobre criança diga: "Assim... quem não há-de ser amada, quem não há-de ser formosa?!" Custará a compreender que ao enfiar de novo o modesto vestido de chita, o suspiro, que não pode conter, seja a primeira manifestação de uma surda inveja, o gérmen de outras paixões más, produzidas por aquela?!... Valha-nos Deus! Compreende-se...




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Mas... ainda eu agora reparo!... Eu estou pior do que o tal candidato a deputado!... Olha que maçada eu preguei ao leitor!
Perdão, amigo... Era preciso. Eu só tive em vista i-lo guiando, insensivelmente, para onde me convém. Sem este longo aranzel, ficávamos ambos como a Sr.a Maria, pasmados diante da Rosita, sem sabermos o mal de que ela sofre, e tentando em vão descobri-lo.
A Rosa sofria de - que nome tão feio! - sofria de... inveja!... Perdão! Não era bem inveja o mal dela; era um desejo irresistível de ir passear às tardes, reclinada nas almofadas de um landau, encadernada em moire e veludo, e ver, com os seus olhos, se o Teatro de S. João, mirado de um camarote da segunda ordem, produzia melhor efeito do que visto das varandas, de onde ela se lembrava vagamente de o ter visto, havia muito tempo, uma vez que o pai estava de guarda ao teatro, e a levara a ela e à mãe a ver "A Degolação dos Inocentes".
Este desejo, este aspirar ao impossível, não poderia ela explicar como germinara. Tinha aparecido espontaneamente, a contrastar com a candura e modéstia que lhe ornavam a alma, como estas parasitas que o zéfiro maldoso se compraz em deixar cair, na passagem, entre as mimosas plantas dos vergéis e que fazem raivar o horticultor.
O caso era que Rosa sentia em si o fermento de um mal, que tem feito tropeçar e cair milhares



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de anjos cândidos e puros, como ela. Havia cerca de um mês, começara a perder as cores e a alegria, e visões, a um tempo tristes e risonhas, a perseguiam em sonhos, que lhe traziam aos lábios palavras sem nexo, em que o ouvido atento da mãe buscava em vão descobrir o segredo da filha.
A leitora, a quem a sua posição independente torna, por assim dizer, fácil a santa tarefa materna, e que, apesar disso, estremece ao notar a insistência com que qualquer mancebo lhe contempla as janelas e a segue, quando sai em companhia de uma filha jovem e formosa, compreende decerto as torturas da pobre mulher, obrigada a afastar de si e a entregar ao próprio arbítrio uma filha, diante da qual surgem, a cada passo, todas as tentações do luxo, todas as ciladas de um amor que o coração, aos dezassete anos, considera sempre puro e sincero.
Rosa, além das aspirações que já lhe conhecemos, tinha encontrado um tentador perigoso na pessoa do Sr. Augusto, caixeiro de uma loja de objectos da moda, mimoso alfenim dos arredores de Braga, proprietário de duas rosadas faces e senhor de luxuriante floresta de cabelos pretos, atravessada por um carreiro, aberto a pente, a começar na testa e a findar na cova-do-ladrão.
Não havia em toda a rua outro caixeiro, que lhe botasse água às mãos na meiguice do gesto, na elegância com que cortava uma peça de seda,



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ameaçando cortar também os dedos mimosos da freguesa. No que ele então era inexcedível, era no rolar dos olhos e nas lisonjas alambicadas, a que o uso do v dava subido realce. Rosa - e mais uma dúzia de Rosas -era capaz de se esquecer horas inteiras a ouvi-lo, e posso asseverar que nenhum bem lhe vinha de tão agradável conversa.
No dia em que o leitor me acompanhou a casa da Sr.a Maria, não sei o que se tinha passado entre ela e o Sr. Augusto; o que sei é que a rapariga trazia o ânimo em rija peleja entre a indignação e a vontade de perdoar. Conhecia-se que lhe faltava o ar, que lhe tardava ver-se outra vez longe daquele ninho de amor materno, cujo sossego não convinha ao agitado espírito da rapariga. Engoliu o bocado à pressa, como se costuma dizer, pretextou umas compras de que a incumbira a mestra, e saiu deixando a pobre velha a braços com a incerteza e o receio.
III
São nove horas da noite. Rosa, sentada ao pé do pequeno postigo das águas-furtadas, com os formosos cabelos louros soltos em vagas pelas costas abaixo, contempla, cismando, a Lua e as estrelas. O vinco entre as sobrancelhas, de fundo que está, ~dá-lhe ao rosto uma expressão de desafio ao mundo, à sorte, ao Criador talvez, daqueles


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mundos de luz que rolam no espaço; o peito arfa agitado; as asas do nariz fremem e dilatam-se; os lábios cerram-se teimosos, desenhando aos cantos duas rugas de supremo desdém e íntima amargura. Rosa sofre, escutando assustada
E ao mesmo tempo curiosa a voz irónica e incisiva do espírito do mal, que lhe está pintando em ridícula caricatura o porvir que a espera, sob a forma resignada e prosaica da santa da mãe, que vai erguendo preces a Deus e deixando cair as malhas da meia de algodão azul que está fazendo.
- Olha, olha para tua mãe - diz o delegado do Inferno. -Olha para ela!... Não procures a tua estrela no espaço,!... Os pobres não têm estrela; têm sina... Tira os olhos do céu, volve-mos para ali, que só ali acharás resposta à pergunta. Estuda bem tua mãe e ficarás conhecendo o futuro: miséria, um marido que talvez te maltrate, filhos que te peçam pão, Primavera sem flores, Verão sem fruto, Outono sem folhas, Inverno sem calor!... Trabalha, sofre, sacrifica-te
e morre!... Anda, rapariga!... A quem assim faz não recusa Deus, ao cabo de uma vida despida de alegrias, um lugar na vala comum e... talvez que um cantinho no Céu!..
E o monstro ria, revolvendo o coração da popre criança!
O calor, que tornava quase inabitável o aposento, o ruído das ruas que o vento lhe trazia,
e a luta íntima actuaram, finalmente, tão de chofre

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nos nervos de Rosa, que as lágrimas saltaram-lhe, ardentes, dos olhos abrasados, e toda aquela ânsia do seio se exalou em soluços.
A Sr.a Maria, dando fé do estado da filha, interrompeu um padre-nosso, tirou apressadamente a linha do gancho, pousou a meia sem se dar ao trabalho de espetar as agulhas no novelo, e correu -coitada! nem correr podia! - para junto da filha.
-Rosa, Rosa! - dizia ela, sacudindo carinhosamente o braço da jovem. -Rosa, tu que tens?... Ora fala, anda!... diz-me o que tens! - insistia ela, que já então chorava tanto como a filha. - Diz-me o que sentes, Rosinha!... Ora não sejas ruim!... Fala, menina... Então?...
Rosa continuou a chorar sem proferir palavra. A mãe, reconhecendo a inutilidade -dos seus rogos, contemplava-a, chorando, com as mãos apertadas uma na outra, o olhar assustado, e a mente cheia de sinistras hipóteses.
Pouco a pouco a jovem foi -sossegando, e àquela intempestiva explosão de pranto sucedeu o enleio, filho da necessidade de a explicar à mãe.
- Estás melhor? - perguntou esta, vendo-a mais sossegada.
-Eu não sinto nada-balbuciou a jovem.
-Então porque choravas?
-Eu sei lá, minha mãe! -replicou a filha. -Acho que adormeci... e sonhei... e acordei a chorar...


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- Havia de ser isso... Foi talvez o ar da noite... -disse a Sr.a Maria, fingindo acreditar a desculpa. - É melhor ires-te deitar... Vai-te deitar, vai... - continuou ela.
Rosa deu-lhe um beijo, despiu-se e deitou-se. A mãe, que se sentara denovo a trabalhar, ouviu-lhe ainda os suspiros por mais de uma hora, até que, chegando-se à cama, pé ante pé, conheceu que ela adormecera e veio sentar-se outra vez a fazer meia.
Nunca o padre-nosso foi rezado com mais unção, embora cortado pelas perguntas que aquele atribulado coração materno formulava mentalmente!
-Que terá ela?... Alguma zanga com a mestra?... Se fosse isso, tinha-mo dito... Algum mexerico das companheiras?... Também mo dizia... Andará a chocar alguma doença?... Mas ela não se queixa... Será namorico?
A esta última pergunta, a santa mulher ficou sem pinga de sangue.
-Pois não é outra coisa!... Mas com quem será?... Valha-me Deus!... E esta minha perna, que me não deixa sair!... Ó minha Mãe Santíssima! Pela vossa dor vos peço que não desampareis a minha rica filha!...
E a salve-rainha foi imediatamente recitada pela aflita velhinha. Ainda não tinha acabado a oração, quando ouviu palavras entrecortadas, proferidas em sonho pela filha. Ergueu-se, e, caminhando sem fazer barulho, sentou-se na beira



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da cama com o ouvido atento e o coração a bater apressado.
Ao cabo de alguns instantes, a jovem mexeu os braços e murmurou:
-Cale-se, Sr. Augusto!... Não torne a dizer isso!... Se a minha mãe soubesse...
E calou-se. Pouco depois continuou:
-Não quero, não preciso dos seus favores!
Bem se demorou a mãe à espera de mais alguma revelação; Rosa, porém, nada mais proferiu. Não havia, contudo, que duvidar. Aquele Sr. Augusto, que dizia coisas que não eram para repetir e que uma mãe não devia saber... a recusa de favores oferecidos, e, sobretudo, a indignação com que palavras e obras eram repelidas pela jovem, eram indícios mais que suficientes.
A Sr.a Maria voltou para o seu lugar; mas, em vez de pegar na meia, escondeu o rosto nas mãos e entrou a chorar.
Lastimai-a, mães!... Lastimai-a vós que sabeis os cuidados que dá uma filha!
Largo espaço de tempo se conservou a boa mulher naquela posição, entregue a dolorosas meditações. Erguendo-se por fim, ajoelhou, pôs as mãos e cravou os olhos na imagem da Senhora das Dores, como que a pedir-lhe conselho. Parece que lho não recusou a Mãe de Deus, porque, quando a Sr.a Maria se ergueu do chão, lia-se-lhe no rosto que tomara uma resolução qualquer.

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Caminhando nos bicos dos pés, dirigiu-se para a cómoda, abriu cautelosamente uma das gavetas pequenas e tirou de lá um objecto. Em seguida, erguendo a tampa de um cesto, tirou um novelo de cordão branco, do qual cortou um pedaço com uma tesoura. Enfiando o objecto, que tirara da gaveta, dirigiu-se para a cama, passou com mão subtil uma das pontas do cordão por baixo do pescoço da filha, deu um nó e assim deixou um ponto negro pousado sobre o colo alvíssimo de Rosa. O objecto era... uma figa de azeviche!
. . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Quando Rosa acordou, ia alto o sol. Procurou a mãe com os olhos: não estava no quarto.
A Sr.a Maria não tinha querido presenciar o enleio da filha, ao descobrir a figa de azeviche, símbolo quase tão eficaz contra as tentações do inimigo, como o da cruz onde foi remida a cristandade.
Rosa levou finalmente a mão ao pescoço, e achou o milagroso esconjuro. Reconhecendo a égide, que, enquanto criança, nunca deixara de usar, sentou-se de salto na cama, com as faces rubras de pejo, e exclamou, desatando a chorar:
-Jesus, que vergonha!
A jovem compreendera a tácita censura e amorável previdência da mãe.
Ia-se fazendo tarde e a jovem não saía daquela posição, nem cessava de chorar. Afinal





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assaltou-a o receio das observações maternas; ergueu-se, vestiu-se e saiu, sem ao menos se lembrar de almoçar.
Quando voltou para jantar, mãe e filha apenas trocariam meia dúzia de palavras. À noite Rosa não se atrevia a encontrar os olhos da mãe, ao passo que esta, aparentando indiferença, prestava os seus sete sentidos ao revesilho da meia azul. Opressa por aquele silêncio, a jovem levantou-se, deu um beijo na fronte da mãe e disse:
- Vou-me deitar.
-Pois vai, filha... Deus te abençoe! - respondeu a Sr.a Maria.
Rosa deitou-se, mas movimentos agitados e suspiros, provavam que chamava em vão o sono.
A Sr.a Maria, que mais de cem vezes volvera os olhos para a cama, levantou-se, e, acercando-se da filha, deu-lhe um beijo e murmurou-lhe ao ouvido:
-Dorme, filha... Lembra-te de mim e pede a Nossa Senhora que te dê juízo...
Rosa, cedendo a um impulso irresistível, voltou-se, e, lançando-lhe os braços em roda do pescoço, puxou para si a cabeça encanecida da santa que lhe dera o ser, e quedou-se assim a chorar. A mãe, não menos comovida, deixou passar aquela explosão de lágrimas, salutar aguaceiro que nos minora o sofrer da alma calcinada pela dor, desprendeu-se brandamente dos braços da filha, e, afagando-lhe o cabelo, murmurou:

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- Está bem, está bem!... Reza e dorme... Dorme, filha!...
Rosa andou alguns dias triste e enleada, mas ganhou juízo. O Sr. Augusto perdeu a freguesa e só teve, em troca, as graçolas pesadas -dos companheiros.
Entre a mãe e a filha nunca houve a mínima alusão ao passado. Para que serviriam alusões, se, para aquela, era indício seguro da cura a alegria da filha, se esta tinha severo censor na figa de azeviche, que nunca mais deixou de trazer ao pescoço?...
A mãe, quando pensava em tal incidente, nunca deixava de volver olhos de gratidão para a Imagem da Senhora das Dores, e dizia mentalmente:
-Foste tu, minha Mãe Santíssima!...
A filha, quando se lembrava do -que sofrera,
levava a mão ao pescoço e murmurava: -Se não fosse a figa!...
E assim se dissipou a nuvem que ameaçava trazer consigo medonha tempestade.
IV
Haverá coisa de quinze dias, entrava eu na loja do Sr. Manuel Francisco, acreditado sapateiro desta cidade, para ver se, interpondo o seu valimento, conseguíamos chamar a uma conciliação - para evitarmos demandas - as botas,




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que ele me fazia, e os calos que vão começando a apoquentar-me.
Tudo apoquenta os velhos!
O Sr. Manuel Francisco não estava em casa; guardava a loja naquele momento uma velhinha, muito velha, que me disse ser sogra dele. Neste momento entrou na loja, beijando um pequerrucho de dois anos, que trazia ao colo, uma formosa mocetona de vinte e cinco anos.
Sabem quem eram aquelas duas mulheres?... Eram as nossas conhecidas... a Sr.a Maria e a loura Rosa!
Esta parecia, se é possível, mais bonita e fresca do que quando pela primeira vez a vimos! As alegrias da maternidade fazem às vezes destes milagres!
Estava eu esperando pacientemente a vinda -do dono da casa, quando se abriu a porta envidraçada, ao fundo da loja, e apareceu uma linda rapariga de dezasseis anos, que trazia os olhos vermelhos de chorar.
-Até logo, Sr.a Rosa... Boas tardes, Sr.a Maria -disse ela e saiu.
-Até logo, Julita -responderam as duas.
- Tu ralhaste com a Julita? - perguntou a Sr.a Maria à filha, mal a gaspeadeira saiu.
-Ralhei -respondeu Rosa.
-Então ela que fez?-insistiu a velha.
-Não fez nada-retorquiu a jovem.
- Essa agora!... Não fez nada... e tu ralhaste-lhe?...



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-Sabe o que é? -redarguiu Rosa, fazendo-se corada. - Precisa que a mãe lhe dê uma figa!... Aí tem o que é!
Eu abri olhos curiosos e perguntei pela causa de tão extravagante necessidade. Da explicação que a Sr.a Maria me deu, nasceu este conto.






O embarcadiço
I
QUEM tiver vivido algum tempo à beira-mar, -deve lembrar-se de uns tipos, que, de manhã cedo e sobretudo ao fim da tarde, são certos na praia, sós ou em grupos.
Antes de ir mais longe, seja-me permitido dizer duas palavras acerca do termo tipos, que empreguei.
Hoje quem diz tipo-diz tudo e... não diz nada.
De tempos a tempos, dá-se com certas expressões o mesmo que com certas músicas, que, pelo seu mimo ou incontestável merecimento, se tornam populares.
Estas... tocam-nas as bandas dos regimentos; estropiam-nas as meninas no piano; moem-nas os realejos; levam-nas os cegos consigo pelos caminhos da cidade às aldeias; assobiam-nas os garotos; trauteia-as, bem ou mal, toda a gente;




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até que, por uma espécie de reacção, caem no desagrado de todos e fogem espavoridas mal soam as primeiras notas da moda ou cantiga que vem substitui-las, para cair mais tarde no mesmo esquecimento.
Da mesma maneira, de longe a longe, sai dos bancos das escolas ou da mesa de um botequim, um termo que tinha, no momento em que foi empregado, tal ou qual propriedade e, por conseguinte, razão de ser; passa de boca em boca; fere-nos o ouvido dúzias de vezes ao dia, a pretexto de tudo, tolamente, até que desaparece, depois de estafado, cedendo a vez a outro tão bom como ele.
Hoje o termo da moda é a palavra - tipo.
Tipo é -tudo!
Tipo é Fulano, é pronome, é o leitor, sou eu, é... tudo, já disse.
Desculpem-me este desabafo. Eu precisava de protestar contra o abuso daquela palavra.
O leitor deve, repito, ter visto aqueles tipos, e tem decerto notado que há neles, como nos padres e nos militares, um não sei quê que os distingue do comum dos homens, que os faz classificar por um nome genérico, e, com a sua natural perspicácia, já adivinhou que lhe estou a falar dos marítimos ou embarcadiços, como geralmente se diz.
Descrever um - é descrevê-los a todos.
Rosto queimado pelo sol de todas as latitudes - olhos cerrados por uma espécie de precaução,

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que lhes faz poupar toda a sua faculdade visual para as grandes ocasiões -feições duras mas não repelentes -na testa um labirinto de rugas, cada uma das quais tem a sua história desconhecida.
A primeira... traçou-a o último beijo dado na esposa em vésperas de ser mãe, e que o não terá a seu lado para a animar, porque o dever o obriga a partir; outra representa uma noite de temporal, que rendeu uma vela ao Senhor de Matosinhos; a terceira abriu-lha na fronte o terrível grito "fogo a bordo", quando centos de vidas estavam confiadas ao seu cuidado; a quarta...
Basta! cada uma dessas rugas, repito, tem a sua história desconhecida.
Olhemos bem para eles... É o mesmo chapéu, embreado no Inverno, de palha no Verão; o mesmo casaco de pano piloto forrado de baeta; a mesma calça, que nunca passa abaixo do tornozelo para se não molhar quando se anda a lavar o convés.
Estudemos-lhes agora os modos. Porque será que em qualquer ponto da praia que escolham para passear, traçam maquinalmente duas linhas imaginárias, entre as quais passeiam, não as ultrapassando jamais?
Quem medir o espaço limitado por essas -duas linhas, achará o comprimento regular do convés de qualquer navio.
Pois pensam que esses homens estão a passear em terra?!...




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Como se enganam!... Em espírito... estão a bordo!
Aproximemo-nos e escutemo-los...
Não notam a concisão das perguntas e o monossilábico das respostas?...
É o costume de dar ordens; se, para mandar ferrar uma vela, algum deles se lembrasse de fazer um discurso, quando este fosse em meio, há muito que a vela iria pelos ares.
Vejamos agora o moral, uma vez que lhes analisámos o físico...
Poucas ideias, mas essas bem claras - indomável energia - crenças firmes - muito senso prático e nenhuma instrução - uma filosofia especial para o grande problema de viver ou morrer - e, em geral, simplicidade infantil e infinita bondade, ocultas debaixo de uma capa de rudeza, que não engana quem os observar atentamente.
Como julgo que já disse, quem descreve um, descreve-os a todos; fico, portanto, dispensado de pintar o Sr. Matos, ex-capitão de longo curso, velho marinheiro, alma anfíbia fixa à terra pelo amor que tem à sua única filha, à sua Carolina, e ligada ao mar pelo passado, pela recordação da vida activa, pelos devaneios do quarto da madrugada, pelo próprio perigo, quem sabe!
Do que eu, porém, me não julgo dispensado é de dizer quatro coisas a respeito da vida dele.
Filho de marinheiro, quando o pai, no dia em que ele completou treze anos, lhe perguntou o

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modo de vida que queria abraçar, arregalou os olhos como se não tivesse compreendido a pergunta, e, ao ouvi-la repetir, olhou para ele meio receoso de que o autor dos seus dias não estivesse em seu perfeito juízo.
E o caso é que tinha razão. Pois havia outra vida que não fosse a do mar, e outro modo de a levar que não fosse embarcado?!...
E, além disso, não estava ele ali, ao pé da porta, o mar; essa ama, cuja voz ouvia quando o embalavam no berço; esse companheiro dos seus brinquedos; essa providência, que fornecia à família o pão de cada dia; esse tentador, que lhe prometia aventuras; esse amigo, que se deixava rasgar quando ele se lembrava de ir arrancar-lhe a concha que luzia, ou a alga que vegetava em seu seio, e que, longe de punir o roubo, lhe oferecia o dorso para o reconduzir à praia?
É claro que a pergunta não tinha senso comum.
À vista disto, seria supérfluo dizer que embarcou como moço aos catorze anos e que, até vir a ser capitão, sofreu quanto se costuma sofrer antes de chegar a tais alturas.
No ano seguinte àquele em que houve quem lhe confiasse o comando de um navio, casou por amor com uma jovem, filha de um proprietário, que jurara mais de um milhão de vezes que antes a queria ver morta do que entregá-la a um embarcadiço, e que teve por fim de sujeitar-se à velha e sempre verdadeira máxima: "Casamento
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e mortalha no Céu se talha", máxima em que a gramática é sacrificada à rima.
Quando começa a nossa história, havia dois anos que Deus lhe levara a esposa, e, desde então, para não deixar só a única filha que tinha, havia renunciado à vida do mar.
ora é chegada a ocasião de travarmos mais íntimas relações com o nosso honrado capitão.
Aproveitemos o tempo, enquanto ele não entra, para lhe analisarmos a sala de visitas.
Graças à situação da casa, a sala recebe a luz por duas rasgadas janelas -de peitoril, de onde se avista o oceano.
Em noite amena de Estio, quando a Lua brilha no céu, recamado de estrelas, e o acre perfume da maresia satura, por assim dizer, a atmosfera, devem ser horas de vago e dulcíssimo prazer as passadas a uma dessas janelas, quando o único som que se ouve é o das vagas, cuja vista nos guia insensivelmente a alma para um mundo de ideias vastas e elevadas.
Haverá aí quem não tenha passado uma hora dessas tão formosas noites, embevecido na contemplação do mar e do céu, essas, a meu ver, mais grandiosas manifestações da Omnipotência Divina, sem sentir que uma espécie de véu de melancolia lhe vem envolver o espírito, sem contudo lho entenebrecer?
Parece que a vista do mar faz, nesse instante, surgir desse outro oceano - o passado-todas, as formosas visões que no-lo fazem tão querido.

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As cenas da vida passam-nos, então, diante dos olhos da alma, arrancando-nos agora uma lágrima de saudade, logo um suspiro de dor, já desenhando-nos de novo na fronte uma ruga, que a mão do tempo desfizera, para em seguida nos escaldar as faces com o fogo do pejo.
E o nobre e o vil, o prazer e a dor, a ilusão e o desengano, todas as cores, enfim, que misturámos na palheta da alma e com que pintámos a existência, vêem-se ali, como planos secundários ao fundo da tela, a contrastar no vigor e beleza com a aridez e completa ausência de cunho, que se nota no plano principal -do último quadro do homem - o presente!
porque o artista, ao contornar o presente, já não tem a ajudá-lo a inesgotável inspiração da juventude!
Apesar do encanto que descobrimos nessas janelas, raras vezes se vê a qualquer delas o vulto do capitão.
O seu lugar predilecto na sala, ei-lo ali indicado por aquela cadeira de bambu, encostada à mesa que ocupa o centro.
E não adivinham porquê? É porque dali vê o mar sem ver a praia, e o pobre homem, graças aos diferentes objectos que o rodeiam, chega às vezes a imaginar-se a bordo, na câmara do seu navio!
Esses momentos de ilusão, em que o espírito lhe foge da terra firme para o elemento querido, são hoje os mais felizes para ele.






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Do lado da sala, fronteiro às janelas, vê-se um modesto sofá de palhinha, tendo aos pés o tapete de rigor, e a cada lado três cadeiras.
Por cima do sofá pende uma gravura representando a morte de Nelson, entre dois quadros bordados a canotilho pela filha do dono da casa. Um deles quer ser S. Joaquim, patrono do capitão; no outro, depois de aturada atenção, distingue-se um pintassilgo de todas as cores, pousado sobre um ramo cor de canela e verde, mostrando o bico aberto a uma borboleta preta com pintas brancas.
Lê-se em ambos o seguinte dístico:
CAROLINA MATOS
1854
No espaço de parede, que divide as duas janelas, vê-se: em cima, um caixilho de pau-preto com os cantos ornados por placas de metal amarelo, emoldurando um quadro em que se notam, pintados com as cores das diferentes nacionalidades, os pavilhões, sinais e galhardetes pertencentes a todos os povos do globo; logo por baixo, um mapa-múndi com o verniz estalado em diferentes pontos, e contra o qual encostam os bicos um tucano e um araçari empalhados, que pousam sobre uma pequena mesa de jogo, condenada a não sair do seu lugar por absoluta falta de equilíbrio.



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Entre esses dois pássaros move-se a pêndula de um velho relógio de jaspe com colunatas de cristal. Das duas paredes laterais pendem - uma vista da cidade do Rio de Janeiro e outra da cidade da Baía de São Salvador.
Sobre a mesa do centro estão colocados, com rigorosa simetria, dois magníficos ramos de coral e cerca de duas dúzias de conchas de todos os feitios e tamanhos.
Juntem-se a isto as cadeiras necessárias, e está descrita a sala, cujas paredes bem caiadas e bem lavado soalho dizem claramente que é a limpeza o luxo principal daquela vivenda.
E não me ia esquecendo o adorno principal?!...
Suspensa por quatro cordões de seda vermelha, presos a um gancho, cravado no centro do tecto, veleira barca fende os ares, com galhardia igual àquela com que sulcava os mares o "Argonauta" em ponto grande, que ela em ponto pequeno representa.
É tempo, porém, de fazermos entrar em cena os actores.
Com aspecto carrancudo se nos apresenta o Sr. Matos.
A violência com que abriu a porta da sala - o gesto de impaciência, que não soube ou não quis reprimir, quando, aproximando-se da janela, olhou para a praia - o arremesso com que se sentou na sua cadeira favorita - a espécie de desabafo que parecia causar-lhe o estalar das articulações



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dos dedos, tudo isso denunciava tal ou qual descontentamento.
Haveria cinco minutos que ali estava, quando a filha entrou.
Era uma formosa menina de dezoito anos, de estatura mais que mediana, com a tez levemente tostada pelas brisas do mar, lábios rosados, dentes alvíssimos, cabelo negro e um par destes olhos cheios de vida, a que Deus concede longas pestanas, só com o fim de lhes amortecer um pouco o fulgor.
Na ocasião em que a estamos analisando, há no olhar dela um misto de temor e de enleio, que lhe dá à fisionomia um certo ar de ansiedade.
Se não foi direita à janela quando entrou, lançou, como o pai, intencionalmente as vistas para a praia.
Em vez do descontentamento que este sentira, veio reflectir-se-lhe no rosto a expressão de íntimo prazer, logo substituído pelo rubor do pejo, ao ver que ele a estava observando atentamente.
Parece que o nosso honrado capitão não achou nas rápidas mudanças, que se iam operando no rosto da filha, motivo para grandes regozijos.
As rugas da testa, por efeito de violenta contracção, transformaram-se-lhe em profundos sulcos, as mãos desuniram-se-lhe e foram apoiar-se vigorosamente nos braços da cadeira.
Em seguida, erguendo-se, meteu a mão esquerda no bolso da calça, enquanto que a direita

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torcia distraidamente a espessa barba grisalha, e começou a passear silencioso.
Na atitude composta e modesta da filha, que se sentara a abainhar um lenço, no vinco traçado entre as sobrancelhas, nos lábios colados um ao outro e, sobretudo, no afã com que trabalhava, lia-se o mal-estar de quem se prepara para resistir a uma agressão.
A situação, porém, começava a tornar-se intolerável para ambos.
O pai estava a tremer que, não podendo conter-se por mais tempo, se lhe expandisse a cólera numa daquelas rajadas com que dominava o sussurro do mar e fazia tremer a bordo uma tripulação de homens afeitos a lutar com o perigo; a filha, pelo contrário, conhecia, pelo arfar do seio e pelo temor de que se ia tomando, que a sua coragem estava por um fio e que, mau grado seu, as lágrimas, essa força e fraqueza da mulher, iam rebentar-lhe dos olhos.
O capitão pareceu ter, por fim, tomado uma resolução, porque, acercando-se da janela e contemplando a praia, voltou-se para a filha e perguntou com voz afectadamente serena:
- Quem diabo é aquele guarda-costas, que há meses não sai aqui destas águas?... Vê lá se o conheces, ó Carolina...
O nosso capitão, força é confessá-lo, era o mais inocente dos capitães.
Se ele queria fazer-se de novas, para que mudava de caminho todas as vezes que descobria
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atrás de si, quando saía com a filha, o guarda-costas, que, como ele de si para si dizia, lhe andava sempre na esteira?...
Para que terminava de repente o passeio, e voltava para casa?...
Porque tratava ultimamente, de vez em quando, a filha por senhora, em lugar de a tratar por tu?...
Porque sorria com irónica amargura, quando ela lhe fazia alguma carícia?
E, sobretudo, porque tinha ele despedido na véspera a criada, depois de lhe ter quase arrancado uma carta que ela trazia à filha, não consentindo que lhe dissesse adeus, antes de ir embora?...
Ó inocente capitão! se tu fazias todas essas coisas, para que te fazias de novas?
Pois não era melhor falar francamente com a rapariga?!...
Pois não pensaste que o primeiro cuidado da criada foi ir contar o acontecido ao tal guarda-costas?!...
Valha-te Deus, capitão (
Carolina, vendo-se assim interpelada, fez-se
vermelha como uma romã e balbuciou um destes "não sei... " que nos vêm aos lábios quando
não queremos dizer o que sabemos.
- Não sabes?!... - continuou o Sr. Matos. Pois se tu nem sequer te deste ao trabalho de
ver quem é, como hás-de saber se o conheces ou
não?... Olha bem... É aquele mandrião que está

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sentado, acolá, naquela pedra... Vê lá se o conheces...
A pobre rapariga, como se costuma dizer, já não sabia de que freguesia era.
O sangue tingia-lhe as faces, a garganta estreitava-se-lhe, até que as lágrimas irromperam por fim, apesar dos esforços que fazia para as reter.
O capitão, não recebendo resposta, fingiu que lhe não via o pranto, dirigiu-se para a porta da sala e, abrindo-a, acrescentou antes de sair:
- Bem... Uma vez que o não conheces, vou perguntar-lho a ele.
* saiu.
Carolina, que conhecia o génio irascível do velho, correu à janela e fez sinal ao tal mandrião para que se ausentasse.
No mesmo instante em que o Sr. Matos chegava à porta da rua para a abrir, alguém batia da parte de fora.
A chave girou na fechadura, e a jovem ouviu com inexplicável prazer a voz do pai, que dizia: -És tu, doutor!... Entra.
Mal sabia o velho doutor que um coração de dezoito anos lhe tributava, naquele momento, sentida gratidão!


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II
O leitor está farto de saber que anda aqui história de amores, mal apreciados pelo nosso herói.
Efectivamente - anda.
Como estes amores começaram, não lho sei eu dizer, porque a própria Carolina já, por mais de uma vez, se tem consultado a tal respeito e não pode explicá-lo.
Há mais!... Se havia rapaz com quem ela embirrasse, antes -de conhecer que o amava, era aquele, o seu Eduardo!
Embirrava, sim; não o podia ver!...
Ora, expliquem lá isto!
E não era porque ele fosse feio...
Valha-nos Deus, não era; e a prova é que hoje, que ela o ama, bem vê que não há rapaz mais bonito do que ele.
Não -sabe; ela não sabe dizer porque era; mas não gostava dele!
Daqui para diante é que a memória lhe falha; só se lembra, que, uma noite em casa de uma prima dela, casada, e por ocasião de um baptizado, dançara com ele quatro vezes - ainda hoje a censuram as velhas! - e depois, no dia seguinte, que era um sábado, o vira na praia, e o tornara a ver todos os dias à mesma hora, até que, no domingo adiante, passara a tarde a chorar no seu quarto, por ele não ter aparecido, e



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foi então que descobriu que já não antipatizava com ele.
Agora, duas palavras a respeito de Eduardo.
o leitor queria, talvez, que eu lhe fizesse do rapaz um artista distinto, um médico hábil, um advogado talentoso, ou, finalmente, um poeta inspirado...
Reconheço que o meu Eduardo seria mais interessante se fosse qualquer dessas coisas; tornaria até menos monótona esta narração, se pudesse apresentá-lo como o leitor deseja, mas... não é possível.
Eduardo era... o que não podia deixar de ser, tendo nascido à beira-mar; era embarcadiço como todos os seus patrícios, e no número dos mais felizes se devia ele contar, por ser capitão de navio aos vinte oito anos.
O leitor, se se quiser dar ao trabalho de pensar, há-de achar naturalíssimo que ele tivesse abraçado a vida marítima, porque nas pequenas povoações da beira-mar, onde vegetam - sabe Deus como! -um padre, um facultativo, um boticário-quando há botica!-um tendeiro, que acumula as funções de director do correio, e um mestre-escola, é impossível a concorrência, e as vistas, por conseguinte, forçadas a desviar-se da terra, voltam-se para o infinito dos mares e pedem-lhe o trabalho.
Eduardo ficara órfão de pai aos dez anos. Graças à previdência paterna, pôde educá-lo sem sacrifício a santa da mãe, cuja alma tinha




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ido juntar-se, anos depois, à do marido, consolada pela certeza de deixar na terra um homem de bem e capaz de tornar ainda mais respeitável o nome limpo -e estimada, que herdara de seu pai.
O velho capitão sabia tudo isto e, mais do que uma vez, fizera a devida justiça ao seu jovem colega; infelizmente este lembrou-se de se lhe namorar da filha, e o velho começou a vê-lo com maus olhos, a ponto de fingir que o não conhecia, como há pouco vimos.
Eduardo adoecera durante a última viagem, e as prescrições do facultativo haviam-no obrigado a deixar partir o navio de seu comando confiado a outrem.
Aí tem o leitor a razão porque ele estava ali, feito mandrião, sentado na pedra da praia.
III
-És tu, doutor... Entra.
Isto disse o Sr. Matos, quando, ao abrir a porta, se achou cara a cara com a pessoa que vinha visitá-lo.
-Tu ias sair? -atalhou o visitante.
- Ia... mas já não saio - respondeu distraidamente o capitão, seguindo com os olhos o nosso Eduardo, que se ia afastando devagar.
- Que diabo tens tu?... Tu estás doente? - perguntou com sincero interesse o doutor, estendendo



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instintivamente a mão para lhe tomar o pulso.
O capitão, ouvindo a pergunta, fez um esforço, desenrugou a fronte e retorquiu com amigável ironia:
-Sossega, que me não matas tão cedo. -Tu para cá virás... -redarguiu, rindo, o velho facultativo.
Não havia amizade mais leal do que a destes dois homens, que, educados juntos quando crianças, se tinham conservado fiéis um ao outro, apesar das longas ausências, da diversidade de temperamentos e desigualdade de instrução.
As tardes, quem fosse a casa de qualquer deles e o não encontrasse, podia ir procurá-lo a casa do outro, com a certeza de os achar reunidos.
A conversa era sempre um duelo de remoques, que tanto faziam rir o agressor como o agredido.
- Entras, ou não entras? - insistiu o capitão.
- Se te fosse isso indiferente - respondeu o doutor - íamos dar um passeio, e, de caminho, conversávamos, pois tenho assunto de importância a comunicar-te.
- Também eu tenho que te dizer... - replicou o marítimo, enrugando de novo a testa.Trago aqui-continuou ele, pondo a mão sobre o coração-coisa que me incomoda, e em que não tenho querido falar-te... Vamos lá... vamos passear!...



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O doutor cravou no rosto do amigo os olhos, que, nesse instante, traíam tanta malícia como inteligência, e repetiu: "Vamos passear."
Foram os dois andando algum tempo em silêncio.
A testa do embarcadiço cada vez se anuviava mais, e nos olhares, que de tempos a tempos lhe deitava o doutor, redobrava a malícia.
O capitão por fim, depois de ter feito estalar os dedos duas ou três vezes, disse, sem olhar para o amigo:
- A Carolina tem um namoro...
- E então?... - perguntou o doutor sossegadamente.
- E então-retorquiu o outro, ferido pela aparente indiferença do amigo. - E então... não quero!
- Não queres o quê?!... - replicou o médico com afectado espanto.
-Não quero... não quero que ela namore!... -respondeu o capitão em tom desabrido.
- Ó Matos! diz-me uma coisa... Tu não terás pena de ser assim? - perguntou o doutor com cómica seriedade. - Não queres que a rapariga namore - continuou ele, atalhando a resposta do amigo. - Que diabo queres tu que ela faça aos dezoito anos?!... Aposto que -a queres para freira?
-Não sei para que a quero! -vociferou o embarcadiço tão desabridamente, que o doutor lançou os olhos em volta, receoso de que alguém




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os pudesse ouvir. -Não quero que lhe chamem namoradeira... Aí tens!... -prosseguiu ele.
O doutor compreendeu a necessidade de não atacar de frente aquela enérgica natureza e, depois de dar alguns passos sem dizer palavra, reatou o diálogo:
- É justo - disse ele. - Compreendo a tua susceptibilidade, mas... Tu sabes que sou teu amigo?...
-Sei -respondeu o capitão.
-E sabes que talvez seja ainda mais amigo
da pequena do que de ti-continuou o doutor. - Não sei, mas... talvez sejas - replicou o
outro, comovido.
-Então hás-de confessar que teria tanto desgosto como tu, se um dia a tivessem na mesma conta em que são tidas muitas outras por aí... Confessas... Bem!... Mas... nota, meu velho. - continuou o doutor-nota... que uma coisa é namorar por namorar, e outra coisa é dar atenção a um homem que se ama deveras, e em quem se reconhecem as condições necessárias para fazer a felicidade de uma mulher... É verdade... - atalhou o doutor. - Tu ainda me não disseste quem é o rapaz...
- É o Eduardo, da "Veloz"- respondeu o capitão, juntando ao nome do namorado o nome do navio.
- E tu que tens que dizer ao Eduardo?... - perguntou o doutor, com pronunciado assombro.




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- Que não quero... - redarguiu o velho marítimo, -com manifesta teimosia.
- O rapaz é honrado... é trabalhador... tem amigos... não se pode chamar pobre... foi bom filho... Que mais queres tu, ó Matos?!... - retorquiu o doutor com modo impaciente.
- E que te importa a ti o rapaz?... Para que estás tu a tomar as dores por ele?... - replicou o capitão encolerizado.
- O que me importa?!... Importa-me muito!... Sempre pensei que terias mais amizade à pequena do que eu; mas vejo que me enganei - respondeu o médico, igualmente irritado. - O que me importa?!... - continuou ele, erguendo gradualmente a voz. - Tu estás velho, tens uma filha nova e bonita, aparece-te uma ocasião de a arrumar bem, de a entregar a um rapaz honrado e trabalhador, e pões-te a cuspir, como se ele não prestasse?!... És um bruto, é o que és!... O que me importa!... Se me não importasse, não tinha prometido ao rapaz que me metia nisto!... - terminou o doutor, quase sem fôlego, deixando assim escapar o assunto importante que tinha a tratar com o capitão, quando o convidara para passear.
- Ah! ele é isso!... - exclamou o capitão. - Tu andas feito com ele?...
-Eu não ando feito com ninguém, Matos!... Não sejas injusto-bradou o doutor, ferido pela censura.
- Então, tu... pensas que eu... ando uma




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vida inteira a educar uma filha... a única que me ficou... o retrato vivo da mãe... o sol que me aquece a alma e... agora... agora que ela me não dá canseira, agora que me está pagando o que eu fiz por ela, aparece um menino bonito que lhe mete quatro teias de aranha na cabeça, e eu... pego... e entrego-lha, assim, sem mais nem menos, como se lhe não tivesse amor, como se fosse uma coisa... Tu estás a ler!... Então, tu... não sabes... Não sabes, não... - prosseguiu o capitão com voz cheia de lágrimas. - Não sabes que, de cada vez que chegava a casa, e que, com o resto da soldada, comprava uma leira de terra ou uma inscrição, só pensava nela, pois cá eu... enquanto o mar tiver água, não me há-de faltar de comer e... quando chegar a minha hora, em eu tendo em regra o diário náutico - continuou o pobre pai, pondo a mão no peito para indicar a consciência -adeus... boa viagem!... acabou-se tudo?... Não lha dou; não ma rouba assim à má cara... -terminou ele, batendo com o pé no chão.
O doutor ficara mudo e atónito diante daquela explosão de santo e desculpável ciúme paterno.
A cólera dissipou-se no coração do velho médico, dando lugar a terna compaixão.
-Amigo... -disse ele, enfim, sinceramente comovido. - Conheço que é um sacrifício grande, mas... que queres?... Todos os pais passam por essas amarguras, e bem felizes são aqueles, que,




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desapossando-se das filhas, as não vêem entregues a um miserável, que lhas torne desgraçadas... Não falemos, hoje, mais nisto... Dorme sobre o caso...
- Não tenho que pensar nem que dormir - redarguiu o capitão. - Não lha dou... nem a ele... nem a outro... Arrumou!
- Bem... Não falemos mais nisto, por hoje... Tu és bom pai, e não queres fazer sofrer a pequena... Olha que se não morre só de bexigas ou de uma febre; também se morre de amor... Pensa, pensa melhor e... Adeus! Até amanhã...
-Tu não vens até lá?... -perguntou o capitão.
-Não; hoje não... Tenho que fazer... - respondeu o doutor, que entendeu que seria melhor deixar o amigo entregue a si próprio.
- Então, adeus... - replicou o capitão.
- Adeus... - repetiu o outro - e... olha lá... não me faças chorar a rapariga...
- Eu, sim! - protestou o pobre pai, encolhendo os ombros.
Era noite quando o capitão chegou a casa.
O mau humor, que a reflexão dissipara, tinha-o de novo assaltado, por lhe parecer que vira afastar-se um vulto de ao pé da janela.
Entrou na sala.
Carolina trabalhava perto da mesa do centro, à luz -de um candeeiro de azeite.
Via-se que a pobre rapariga tinha levado a tarde a chorar.



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IV
Não se enganara o nosso capitão, julgando perceber um vulto, que se ausentou de ao pé da janela, avistando-o ao longe.
Se, em vez de ir passear com o doutor se houvesse escondido em sítio de onde pudesse ouvir, teria escutado o seguinte diálogo:
- Sempre um susto assim!... Ó Eduardo!... E se não vem o doutor, e meu pai vai ter contigo?...
- Paciência!... - replicou o mancebo.
- Olha que era capaz de te fazer alguma desfeita!...
Como Eduardo nada respondesse a esta desagradável hipótese, Carolina prosseguiu com voz trémula:
- Ó Eduardo!... Por tudo quanto há, te peço que tenhas paciência, se ele te não tratar bem...
- Nem pensar nisso é bom!... -replicou o mancebo.-Pois eu esquecia lá a idade dele... e demais a mais sendo teu pai!... O que eu não posso levar avante é que ele me tenha tanta zanga, sem eu ter dado causa a isso!... Dou-te a minha palavra, que passo às vezes horas a cismar, a perguntar a mim mesmo se lhe fiz coisa que o desgostasse, ou se alguém lhe terá dito mal de mim...
- Valha-te Deus!... Não é nada disso... É uma






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cisma... Aquilo passa-lhe... Verás!... Acredita que não há coração melhor do que o dele...
- Pois sim, sim... - balbuciou o mancebo - mas, enquanto a mania lhe não passa, traz-me aqui consumido e ralado, que nem eu te posso dizer como ando com este coração cá por dentro...
- Então eu... ando muito alegre e... não sofro nada?... - perguntou, com expressão de meiga censura, a nossa Carolina.
-Desculpa!... - respondeu carinhosamente Eduardo. - Desculpa!... sou um egoísta. Não penso senão em mim!... Mas tu que queres, se eu quase que perco o juízo, quando me lembro que este nosso penar ainda pode durar anos, pois nem tu és capaz de...
- Não, isso não!... - atalhou a jovem, não deixando concluir a frase. - Contra vontade dele não caso!... Isso não!...
- Não me deixaste acabar, filha!... Queria dizer que nem tu eras capaz de casar contra a vontade dele, nem eu consentiria nunca que alguém, vendo-me passar contigo, pudesse dizer que foste má filha!... Tudo, menos isso!...
- É assim, Eduardo!... É assim que eu gosto de te ouvir falar... Sabes do que nós precisávamos?... Bastava que meu pai ouvisse o que tu acabas de dizer.
- Ó Carolina!... E se o doutor... se o teu padrinho fazia o milagre de o convencer?!...
-Pois tu pediste ao padrinho?!...




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-Pedi e prometeu-me que ainda hoje falava a teu pai...
- Jesus Senhor!... Pois tu pediste ao padrinho... e não me dizias nada?!... Devias ter-me prevenido!... Fizeste mal!...
-Olha, Carolina... Eu não to disse porque já esperava esses mesmos receios... Tem paciência! A carta está jogada; para trás é que já se não volta!... O que te digo é que, se o doutor o não convence, perco a esperança de todo!...
-Ora tu ires falar ao padrinho, sem me... Vai-te embora! Adeus! Adeus! Lá vem meu pai, além... Adeus! - disse precipitadamente a jovem, retirando-se da janela.
Foi neste momento que Eduardo se afastou; mas não tão depressa que, como notámos, não fosse visto pelo velho.
Os leitores, que têm passado pelo horrível martírio de esperar alguém, em cujo rosto haja a ler a palavra "esperança" ou a perda das mais queridas ilusões, devem compreender a ansiedade com que a nossa Carolina ficou aguardando a chegada do pai.
"Como virá ele?! ... Como receberia a intervenção do doutor?... Diria que sim?... Pediria espera?... Responderia terminantemente que não?... Ele respeita tanto o padrinho!... O padrinho sabe-o tão bem levar quando quer! ... mas aquela birra que ele ganhou ao Eduardo... E então porquê?!... sabe-o ele!... Também é de mais!... Tão bom rapaz... tão amigo de fazer





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a vontade!... Pobre Eduardo!... Mas como virá o pai?!..."
No cérebro estas e mil outras perguntas; no coração uma ansiedade, um peso indescritíveltal era o estado da desconsolada rapariga, naquele momento.
O capitão recebeu com frieza o beijo que ela lhe deu na face.
Carolina, que para isso se erguera de onde estava, voltou para o seu lugar, e o capitão foi sentar-se no vão da janela.
A Lua brilhava majestosa e serena no espaço; o mar rolava, gemendo, essas vagas que se formam ao largo e que, depois de se erguerem ameaçadoras, perdem a força a meio caminho, e vêm morrer na praia, produzindo, ao retirar, um cicio cheio de mistérios; num ou noutro ponto mais culminante da vaga luzia, de vez em quando, o brilho prateado da fosforescência, e, na praia, projectavam as rochas gigantescas sombras.
O velho capitão mirou, durante alguns minutos, aquele quadro; depois, voltou a cabeça e contemplou a furto a filha.
Vendo que esta não erguia os olhos, e não podia portanto surpreendê-lo, esqueceu o céu, o mar, o mundo, tudo, e começou a estudar o ser estremecido, que era a sua vida.
Que mundo de ideias nascidas dessa contemplação!
Ali estava ela, a sua filha, a sua Carolina, o



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sol - como ele dissera - que lhe aquecia o coração; estava ali... e tinha a alma longe dali!
Não era por ele, que a estava devorando com os olhos, que aquele coração batia!... Não era nele que aquele cérebro pensava, quando ele só dela cuidava!
Para ele... era o receio que a fizera chorar; era o vinco traçado entre as sobrancelhas; era a censura oculta no coração; a ideia de rebelião, que o amor contrariado lhe estava, talvez, sugerindo naquele instante!
Para cúmulo de martírio, vieram-lhe à mente as palavras do amigo: "Também se morre de amor! "
Morrer!... ela!...
O pobre pai estremeceu.
-Se ela morre... abre-se-me um rombo na alma e vou a pique!...-pensou ele.-Por mim... pouco se me dá... mas ela... uma criança!... tão linda!... tão meiga!...
E o velho ergueu-se, para repelir tão sinistra ideia, e começou a passear.
O sussurro do mar, a luz melancólica do candeeiro, o silêncio resignado da filha e o som monótono dos próprios passos, tudo contribuía para enegrecer o espírito do capitão.
Faltava-lhe o ar, entumecia-se-lhe o coração, parecia-lhe que sobre o peito lhe pesava a pedra de um túmulo, sentia uma horrível necessidade de chorar e tremia que as torturas da alma buscassem de repente a expansão num destes brados





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de dor, grito de leoa ferida ou de mãe que perde um filho!...
Beijou a jovem na fronte e saiu da sala.
A filha ficou, em posição de quem escuta, a contar-lhe os passos e, mal ouviu o ruído da chave girando na fechadura do quarto do pai, ergueu-se, fechou as janelas, pegou no candeeiro, e saiu também.
Nem um nem outro tinham proferido uma palavra!
Depois da noite em que morrera a esposa do capitão, era aquela a de mais cruel agonia que pai e filha tinham passado juntos!
V
Apenas fechou a porta e se viu ali na solidão do seu quarto, longe dos olhos da filha, o ancião deu livre curso ao pranto.
Sentimentos opostos escolheram aquele magoado coração de pai para campo de batalha, rasgando-lho e esmagando-lho ao mesmo tempo.
O egoísmo predominou por fim, e o velho exclamou, como se alguém o estivesse interrogando: "Não consinto... É muito nova... Veremos... mais tarde... "
Tentou distrair-se, libertar-se daquele pesadelo.
Mexeu nuns papéis que tinha sobre a banca; colocou no seu lugar duas cadeiras, que estavam



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no meio do aposento; deu duas voltas à roda do quarto e, chegando -ao pé da janela, abriu-a e consultou os astros; deu mais duas voltas e foi fechar a janela; entreteve-se algum tempo a espevitar o candeeiro; deu corda ao relógio de parede; desfez um óculo de alcance e limpou-lhe cuidadosamente os vidros um por um, mas esqueceu-se de atarraxar de novo as diferentes peças; pegando, em seguida, numas tesouras cortou duas unhas da mão esquerda e parou naquele trabalho, entregue à ideia fixa; sacudindo, finalmente, a cabeça, arremessou as tesouras, acabou de arranjar o óculo e foi pô-lo no seu lugar.
Feito isto, veio sentar-se à banca e entrou a morder as pontas da suíça. Passado tempo, ergueu-se da cadeira e deitou-se vestido sobre a cama, com os olhos fitos no tecto, e fazendo estalar ruidosamente os dedos das mãos, enlaçadas sobre o peito.
Erguendo-se por fim, sentou-se na beira da cama, coçou a cabeça, estirou -os braços, e, encolhendo os ombros, pôs-se de pé, despiu-se, deitou-se e apagou a luz. Horas depois, sonhando, dava o capitão um murro na parede e exclamava em tom irado: "Já te disse que é muito nova!... Não consinto!... Arrumou! "
Pobre pai!
Nessa mesma noite, quem tivesse ido a casa do doutor, teria ouvido o nosso amigo Eduardo, completamente cego para os bocejos que o médico




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já não podia reprimir, e não menos surdo para os repetidos "homem, já te disse que não!..." proferidos pelo velho, tê-lo-ia ouvido, repito, perguntar pela milésima vez:
- Mas -então, doutor... Não lhe deu esperança nenhuma... nenhuma?...
- Homem, já te disse que não(...
-Mas então, doutor...
-Mas então, já te disse e tornei a dizer, que se não vai a Roma num dia!... Tem paciência, homem!... O velho é cabeçudo, mas bom como poucos. Aquilo é ouro mal lavrado, mas de lei... Vai-te com esta, que to digo eu, que o conheço! Como aquele... há poucos!
- Mas...
- E tu a dares-lhe!... sabes tu que mais?... Vai-te embora, que eu não estou namorado e estou a cair com sono.
Não teve Eduardo remédio senão retirar-se.
Por alta noite perguntava o pobre rapaz, pela centésima vez à consciência, que lhe não podia responder: "Mas porque embirra o Matos comigo? "
E Carolina?... Essa rezou mais nessa noite... do que as leitoras rezam numa semana!
Dos três, a sofrer pela mesma causa, era ela quem melhor bálsamo escolhia!



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VI
Foram-se seguindo os dias sem que incidente algum viesse modificar o horrível constrangimento em que viviam os actores deste singelo drama de família.
Carolina passava o melhor do seu tempo a chorar e a rezar, enquanto que o pai se debatia na luta travada entre a consciência, que o acusava de egoísmo, e esse mesmo egoísmo, que o não deixava conformar-se com a ideia de ocupar o segundo lugar no coração da filha, e ter de separar-se dela.
Eram cruéis os sofrimentos de ambos!
Iam longe as horas de jovial expansão, e longe o encanto dos serões de Inverno, em que ao som das vagas que bramiam e vinham quebrar-se nas rochas; ao estalar da chuva nas vidraças quando impelida pelas lufadas do sul, que, na sua desesperada correria, encrespava -as águas do mar e rugia de furor, vendo-se detido na passagem; iam longe, dizia, essas noites, em que às vozes da natureza irritada respondia a alegre canção da jovem ou o franco riso do velho, celebrando os agudos ditos da filha.
Ia longe tudo isso!
Agora tudo estava mudado; as alegres horas da noite viam-nas eles aproximar-se com secreto receio.
Eu não conheço nada mais cruel do que a




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convivência de dois corações -que se apreciam e respeitam, que se estremecem e sentem, por assim dizer, um pelo outro -quando, por acaso, um segredo, uma divergência, um nada os separa de repente; os põem a bater cada qual para seu lado, finalmente os desacorda, quando estavam acostumados a ser afinados pelo mesmo som.
Os leitores devem ter passado por estes transes.
Ao cabo de aturado silêncio, acontece às vezes que o coração recebe um choque eléctrico, freme, ferve e parece querer escapar-se do peito e voar para aquele de quem anda divorciado, bradando-lhe: "Crê-me!... sou o mesmo! sempre o mesmo!... sê injusto, esmaga-me, fere-me... mas crê-me! sou o mesmo!... Estimo-te... dedico-te o mesmo afecto!... Não queres o que eu quero?... Embora!... Não te feches quando me abro."
e, quantas vezes, esse choque eléctrico se faz sentir nos dois a um tempo!... Quantas vezes, vencido um falso pejo, um louco receio, se ambos se aproximassem seguindo o mesmo impulso... se ambos obedecessem ao som vibrado nas mesmas cordas... quantas vezes se diluiria o ponto negro nas dulcíssimas lágrimas da reconciliação!... quantas vezes o gelo da discórdia se fundiria ao calor do ósculo de paz!... quantas vezes a névoa, que os encobria, se dissiparia à luz do sorriso, esse arco-íris da alma, festivo núncio de bonança!
A filha, vendo o pai melancólico e pensativo;

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não enxergando o terno sorriso, que, por assim dizer, a cobria como uma bênção; não sentindo na fronte o beijo, que era, para ela, o eco da própria consciência, que a aprovava; deserdada, enfim, de tudo o que até ali constituíra o alimento do seu coração-sentia quase remorsos daquele amor, que era, ainda assim, a compensação do que sofria.
O pai... coitado!... O pai, vendo-a ali perto dele, com a fronte pendida sobre a costura, enxugando à pressa alguma lágrima rebelde, insurgia-se, umas vezes contra o frenético desejo de a enlaçar nos braços, de a devorar com beijos, de lhe pedir perdão para o seu egoísmo, e sentia, outras vezes, satânicas tentações de destruir quem lhe roubara o coração, O amor daquela filha, que era tão dele, que lhe recordava a esposa que tanto amara; aquela filha que se tornara para ele o único pretexto para viver, o único ser, que, para ele, povoava o mundo.
O doutor, além da parte que tomava no sofrer daqueles dois entes, que se acostumara a considerar como família própria, tinha amarguras especiais.
Tinha a animar o pobre Eduardo, que ora se expandia em queixumes contra o pai de Carolina e contra a crueldade do destino, ora caía num desalento, numa atonia, que inspiravam ainda mais cuidado ao santo velho do que as violências da idade e do sentimento que lhes dava causa.








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A "Veloz" chegara, e o infeliz namorado via-se, por necessidade e dever, obrigado a partir, sem levar consigo um raio de esperança para lhe iluminar as trevas da ausência.
E, infelizmente, o doutor, que entendia das moléstias de alma mais, talvez, do que das do corpo, sondara o coração do velho amigo, e conhecera que era cedo para poder extirpar o cancro que o roía.
Uma noite, tenebrosa e medonha, achavam-se pai e filha sós na sala que já conhecemos.
Nenhum deles se atrevia a quebrar o silêncio.
O velho ergueu-se por fim, aproximou-se da mesa, pegou no castiçal e ia a aproximar a vela da chama do candeeiro, a cuja luz a filha trabalhava, quando, de repente, o pousou e pôs-se como que a escutar algum ruído que vinha da praia.
Parece que a filha também algum ouvira, porque parou de trabalhar e imitou a acção do pai.
Pouco tardou que ouvissem gritos de socorro.
O capitão correu à janela e abriu-a.
A praia formigava de gente, brandindo archotes, e do centro da multidão erguiam-se, plangentes, os gritos aflitivos das mulheres.
Era uma noite horrenda! O vento soprava irado; o trovão estalava nos ares, como a gargalhada irónica e jubilosa do génio do mal, esperando breve a aniquilação do mundo; a luz alvacenta do raio, serpeando no espaço, iluminava o mar, transformado em montanhas de água e

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abismos sem fundo e, ora despenhando-se do cimo dessas montanhas no fundo desses abismos, ora arremessado das profundezas destes para o topo daquelas, distinguia-se um casco de navio, troncados os mastros e perdido o leme, mísera péla daquele jogo de invisíveis Titãs!
E quando o vento amainava e o mar se retraía, como que suspendendo a respiração, para poder de novo resfolegar com mais força, ouvia-se ténue, como o chorar de uma criança, entre aqueles rumores dos elementos, o brado angustiado de vinte homens!
Carolina, -que seguira o pai à janela, retirou deslumbrada pelo raio, e caiu de joelhos, implorando a Deus a vida daqueles desgraçados.
O pai, ágil como se tivera vinte anos, pegou no chapéu e correu para a praia.
Era ainda mais horrível o quadro, quando o embarcadiço chegou junto da multidão, que se agitava condoída e aflita.
As mulheres gritavam e carpiam-se; os moços mordiam os lábios, tentando cerrar os ouvidos à voz íntima que os incitava ao perigo; os velhos abanavam a cabeça, como quem julgava inútil qualquer temeridade.
De repente, um relâmpago mais vivo iluminou os ares e o pélago, e ouviu-se uma voz enérgica bradar:
- Eia, filhos!... O casco -deu no banco!... Ainda é possível valer-lhes!...
Era o nosso velho amigo quem assim falava.




212
Nem uma voz respondeu ao convite!
À luz trémula e fantástica dos archotes, distinguiam-se, é verdade, ardentes olhares, que animavam rostos ainda jovens e se cruzavam, para logo se evitarem, como que receosos de se compreenderem.
Ainda assim ninguém falou, ou se alguém o fez, foi-lhe a voz abafada pelos brados de horror, vibrados por cem lábios de mulher, como um protesto contra a tentação oferecida aos maridos e aos filhos.
Não era o nosso capitão homem que se deixasse turbar por aqueles gritos, sobretudo agora, que havia uma probabilidade de resgatar a vida àqueles desgraçados.
Reforçando a voz e adaptando o gesto ao dizer, era realmente belo, naquele momento, o vulto do velho!
Com os olhos competindo em fulgores com os relâmpagos que rasgavam o céu; com o rosto, já de si rubro de indignação, incendiado pelo clarão avermelhado dos archotes, parecia que aquele ousado coração de marinheiro tentava comunicar o seu ardor aos corações que o cercavam, e dos quais raros se poderiam, com justiça, denominar cobardes!
-Já vejo -exclamou ele por fim com uma inflexão, em que a cólera e o desprezo iam de meias - já vejo que não há um homem!... Já não há marinheiros!... Os que existem... estão, como eu, desarvorados e metem água por todos





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os lados!... Fomos os últimos marinheiros desta costa! ... Não há um que deixe um filho que saia a ele!...
Dando, em seguida, à voz a intonação do trovão e o acento de irresistível apelo, prosseguiu:
- Vamos nós a eles, meus velhos!... Anda daí, Pedro!... Anda tu, Francisco!... Piores as passaram vocês comigo, rapazes!... Vá, Manuel!... Vamos a -eles, meus velhos! Vamos mostrar a esses maricas o que eram os marinheiros do nosso tempo!...
Era para ver como aqueles rostos, sulcados de rugas e curtidos pela água de todos os mares, se transformavam pouco e pouco, deixando ver, em vez da expressão de resignado desalento, a luz do mal extinto fogo da juventude!
Todos aqueles lábios iam a descerrar-se, uníssonos, num brado de unânime assentimento, quando uma voz vibrante e varonil bradou de entre a turba:
-Alto! que isso é connosco!... Ainda aqui há gente!
E a multidão afastou-se cedendo passagem a um homem, que não tardou a achar-se em frente do capitão.
Era uma destas simpáticas figuras de marinheiro, como há tantas nas nossas povoações da costa.
Alto e robusto, com os crespos cabelos negros, sujeitos por uma carapuça vermelha, lia-se-lhe nos olhos a suprema audácia que dá a



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consciência da própria força e que, no momento do perigo, transforma o homem em herói.
A camisa, alagada pela chuva, colava-se-lhe ao corpo, desenhando-lhe uns músculos que dariam que pensar a Hércules.
Ao chegar em frente -do nosso velho amigo, tirou a carapuça e exclamou em voz que se esforçava por tornar serena:
- Não é preciso chamar os velhos, Senhor Capitão!... graças a Deus ainda há rapazes, e aqui está um!... -prosseguiu ele, batendo com força no peito. - E como eu são todos!... Não é verdade, rapazes?... Vamos a eles, marinheiros!... Quem sabe?... Hoje por vós, amanhã por nós!... Vamos lá, rapazes!
- Vamos lá! -bradaram em coro vinte vozes fortes e entusiásticas.
O capitão cingiu nos braços o corpo do marinheiro, e exclamou:
- Bravo! rapazes!
Voltando-se em seguida para os jovens marítimos, continuou:
- À catraia, filhos!... à catraia!
E já se dirigia para o mar, quando o marinheiro que desafrontara os camaradas lhe travou do braço, dizendo:
- Alto!... Nós vamos, mas o Senhor Capitão fica.
O velho recuou e, cravando no mancebo olhos de desafio, perguntou:
-Quem diz que fico?




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- Digo eu... - respondeu o outro com voz firme. - Connosco vai quem primeiro se ofereceu... ainda o navio não estava onde está... Connosco vai o capitão da "Veloz", que é rapaz também.
A semelhante resposta, o embarcadiço soltou uma imprecação de raiva suprema, e ia, talvez, arremessar-se num ímpeto de furor sobre o marinheiro, quando se sentiu cingir pelo pescoço, e ouviu a meiga voz da filha, que lhe dizia:
-Meu pai!
Este desligou-se dos braços da filha, quase sufocado pela cólera.
Ninguém imagina a luta que se lhe travara na alma! Sempre aquele homem!... sempre! No coração da filha, como no ânimo daqueles valentes, via-se suplantado por ele!
Enquanto o capitão se debatia, gritavam os voluntários daquela perigosa empresa:
-Ó da "Veloz"!... Ó Sr. Eduardo!
-Pronto! - exclamou ao longe uma voz.
E, pouco depois, chegava Eduardo arfando de cansaço e trazendo ao ombro um molho de cordas e croques de ferro.
Ao vê-lo assim carregado o velho sentiu-se corar de pejo. Eduardo não se esquecera de quanto era preciso para assegurar o êxito da empresa. O ancião era mais uma vez vencido pelo jovem - em prudência!
-Pronto, rapazes!... - exclamou de novo Eduardo.
De repente, porém, vendo Carolina trémula



216
e pálida agarrada ao braço do pai, o mancebo hesitou e fitou na pobre menina olhos de cruel angústia.
Só então conhecera a extensão do sacrifício que ia fazer!
Se a não tornava a ver?... Se a sua morte ia causar a morte dela?!...
O velho percebeu-lhe a hesitação, e, atravessando-lhe ao mesmo tempo o espírito o receio de que a filha não resistiria à morte do mancebo, desprendeu-se dela e dirigindo-se em voz suplicante -aos marinheiros, balbuciou:
-Perdoem, rapazes!... Eu não os quis desfeitear... Mal por mal, morra quem já para pouco serve... Vou eu com vocês, filhos!
Ouvindo estas palavras, Eduardo lançou um derradeiro olhar à jovem, e correu para a catraia, gritando:
- Vamos, rapazes!...
Os marinheiros seguiram-no e ia a imitá-los o velho, soltando uma blasfémia, quando ouviu bradar:
- Olha que matas a filha, desalmado!
O pobre pai estacou no meio da carreira e, voltando-se, viu a filha sem acordo nos braços do doutor.
Correndo para o grupo, o capitão respondeu ao amigo em voz de inexcedível aflição:
-Não sou eu que a mato, não!... É ele! - e, erguendo a filha nos braços, deitou a correr para casa.



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A cena que o leitor acaba de ler, passou-se em menos tempo do que o preciso para lha narrar.
VII
São passadas vinte e quatro horas depois da cena aflitiva da praia.
É noite.
Num pequeno quarto forrado de papel, representando flores, com a janela resguardada por uma cortina de cassa branca, jaz sobre o leito a pobre Carolina, que parece nesse instante descansar.
O candeeiro derrama ténue luz, dando melancólico aspecto ao pequeno recinto, testemunha das passadas alegrias e recentes aflições da jovem.
Sentado numa cadeira ao pé do leito, com a face encostada à mão esquerda, ao passo que com a direita lhe consulta o pulso, vê-se o nosso doutor, vigilante enfermeiro da afilhada.
De pé, no vão da janela, e meio encoberto pelas cortinas, o angustiado pai espera que o doutor erga a cabeça, para lhe ler no rosto o estado da filha.
Levantando-se por fim, o doutor dirigiu-se nas pontas dos pés para o capitão e balbuciou:
- Está sossegadita... Isto vai bem... vai bem!...
E, levando o dedo aos lábios como que a recomendar-lhe



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o máximo silêncio, o doutor fez sinal ao amigo para que o seguisse e, caminhando sempre cautelosamente, saíram os dois do quarto para -a sala próxima.
Deixando a porta entreaberta para poder ouvir o mínimo rumor que partisse do quarto da doente, o doutor sentou-se e, fazendo sinal ao amigo para que fizesse o mesmo, tirou a caixa de rapé e tomou uma extenssíssima pitada.
Ao cabo de alguns minutos, e vendo que o doutor se não resolvia a falar, perguntou-lhe o capitão em voz trémula:
- Então?... Estará livre de perigo?...
- Está... - respondeu, sem hesitar, o médico.
- Mas isto afinal que é?!... Tanto tempo sem sentidos!... -insistiu o pai.
-Foi uma crise nervosa... forte!...
- E isto voltará?... - perguntou o capitão a medo.
- Hum!... Havendo cautela... Não se afligindo... Nestas coisas o -que é preciso é sossego... muito sossego! Andando o espírito tranquilo... Não havendo coisa que a mortifique, que a traga sobressaltada... estou que não haverá novidade!... Que este ataque foi de respeito!... Poucos tenho visto assim!... - continuou o médico.
E, tirando o relógio, viu as horas que eram, entrou no quarto da doente, curvou-se para ela, e, reconhecendo que continuava a dormir sossegada, veio ter com o amigo e disse-lhe:

219
- Eu vou-me deitar na tua cama... Se for preciso alguma coisa, chama-me... Em todo o caso deixa-a dormir quanto ela quiser!...
O capitão fez um gesto de assentimento e, metendo a cabeça entre as mãos, ficou-se ali a cismar.
Passado tempo, parecendo-lhe que ouvira gemer a filha, foi pé ante pé verificar se ela dormia, e, vendo-a sossegada, sentou-se aos pés do leito, com os olhos rasos de água, fitos no rosto da jovem.
Tempo esquecido a esteve ele assim contemplando, até que ela, abrindo os olhos, os lançou em roda, e, vendo o pai, perguntou ansiosamente:
-O Eduardo?!...
O capitão levou as mãos ao peito, ergueu-se e, beijando a filha, fez um esforço e murmurou:
- Está salvo e bom... Dorme, filha... sossega, que está salvo!
Duas grossas lágrimas, saltando dos olhos do pai, caíram sobre o rosto da filha, e esta, conhecendo só então quem lhe dissipara o terror, balbuciou a palavra - perdão - e, voltando-se para a parede, escondeu o rosto nas dobras da roupa.
O ancião ergueu as mãos e os olhos para o céu com expressão de infindo reconhecimento por aquele indício das melhoras da filha, e tornou a sentar-se aos pés da cama.
Foi nessa posição que primeiro o dia e depois o doutor o vieram encontrar.





220
VIII
Quando o médico saiu de casa do capitão, a primeira pessoa que encontrou ao dobrar uma esquina, foi Eduardo.
Minto, não foi ele; foi, ao parecer, a sombra dele, tão desmaiado estava.
O mancebo trazia o braço esquerdo ao peito, mas não era isso, nem a fadiga da noite anterior àquela, que assim lhe havia desfeito o semblante e cavado os olhos.
Não!... O que lhe dava aquele aspecto era a horrível ansiedade que o minava, era a cruel incerteza em que vivia, do estado de Carolina.
A todas as hipóteses que lhe pululavam no cérebro febricitante, o mancebo só encontrava em si uma solução: "Se morre, mato-me!"
Desde que voltara da sua perigosa expedição e soubera da doença da jovem, Eduardo vivia alheio a tudo!
os louvores unânimes dos companheiros da empresa, as bênçãos dos náufragos, que à perícia dele deviam a vida, o respeito dos colegas e o conceito dos velhos, encontravam-no indiferente!
Trinta horas antes-arriscara a vida e partira um braço para salvar desconhecidos... Imagine-se, por isto, do que seria capaz para prolongar, por uma hora que fosse, a vida daquela para quem queria viver!



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O doutor compreendeu imediatamente que Eduardo passara a noite a vigiar a casa do capitão e sentiu-se comovido.
Assoando-se ruidosamente, para encobrir com o lenço duas lágrimas de enternecimento, e engrossando a voz, aparentemente por irado, mas realmente para desfazer o nó que se lhe formara na garganta, o velho exclamou, dirigindo-se ao mancebo:
-Tu que andas por aqui a fazer, grandessíssimo pedaço-de-asno?!... Eu não te disse que não mexesses com esse braço, e que não saísses da cama?... Hem?...
-Não falemos nisso... - atalhou Eduardo, com um gesto de indiferença. - Diga-me... como está ela?...
-Falemos, sim... -disse o doutor.
Não prosseguiu, porém, porque o mancebo o interrompeu com voz de amolecer pedras:
-Fale-me dela, doutor!... Por quem é! ... Deixe-se do mais!... Diga-me como ela está!...
Era preciso ser mau para ficar surdo àquela voz, e o nosso doutor era a bondade em pessoa.
Dali até casa -de Eduardo, onde o doutor entrou e ficou até o ver despido e deitado na cama, teve o velho de repetir dúzias de vezes quanto se passara, os cuidados que o estado de Carolina lhe havia dado, o como estava livre de perigo, o tempo que seria preciso para completo restabelecimento e, sobretudo, a certeza de que o ataque se não repetiria!
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Decididamente o doutor era o bode expiatório daqueles amores!
Arrostava os maus humores do amigo, sofria dos sofrimentos da afilhada e aturava, a pé firme, a chuva de perguntas e as confidências do namorado!
Pois acreditem os leitores... Eu quero ouvir, no Parlamento, um discurso de quatro horas acerca de finanças, bem recheado de dados estatísticos, e apimentado por lugares-comuns a respeito da necessidade da reforma das pautas, e não quero aturar dez minutos um namorado bem namorado, em ele entrando a enumerar as perfeições, e a exaltar a inteligência DELA!
Pois se ele tem com a gente a confiança precisa para apoiar as asserções com documentos, e tira do bolso o maço de cartas, que o não larga nunca?!...
Isso então é que são elas!... Atura um homem ali, a pé quedo, a leitura daquele volume inédito, interrompido, apenas, pelas anotações que o leitor julga precisas, para melhor compreensão de algum ponto menos claro, e que prende, quase sempre, com algum facto unicamente sabido dos interessados -atura-se tudo isso e... não é sequer permitido o desafogo de lhe dizer no fim: "Essa mulher é tola!" quando é isso o que, muitas vezes, se depreende da leitura!
Há, entre outros, três assuntos, dos quais eu peço sempre a Deus que me livre, e são: batalhas contadas por veterano que já se não lembra




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delas -proezas de caçadores e, sobretudo -confidências de namorados.
Deixemos, porém, divagações mal cabidas.
Oito dias depois destes acontecimentos, exigia o doutor que Carolina se levantasse da cama para ensaiar forças, e obrigava o pai da doente a acompanhá-lo num curto passeio ao ar livre, que aquela reclusão forçada tornara necessário.
só depois de mil objecções, e de um sem-número de recomendações à criada para que nem um só instante abandonasse a doente, consentiu o capitão em fazer a vontade ao amigo.
O acaso, ou a malícia do doutor, fez com que eles seguissem exactamente o mesmo caminho que haviam tomado no dia em que o capitão manifestara terminantemente a sua oposição aos amores da filha.
O capitão, porém, é que não era o mesmo homem.
Aquela angustiosa noite em que ele julgara a filha perdida, as meditações profundas em que gastara as longas horas de vigília durante as noites seguintes, e o receio da repetição dos ataques, possível, no dizer do médico, se provocada por qualquer sofrimento moral, tudo isso tinha contribuído para acabrunhar aquela natureza de ferro.
O cabelo tinha-se-lhe quase todo embranquecido, o profundo vinco traçado entre os sobrolhos e que, em geral, exprime a força de vontade, estava quase desfeito, ao passo que as rugas horizontais,





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cavadas, quase sempre, pelo trabalho do cérebro, quando pesa os prós e os contras de uma ideia e lhe procura a solução, se desenhavam fundas na testa.
Nas faces pendentes, na boca entreaberta e deprimida aos cantos, nos olhos amortecidos, no andar lento e incerto, em vão se procuraria o vigor e a vida que faziam do honrado marítimo
E tipo enérgico e dominador, que na horrível cena da praia achara em si o calor preciso para incendiar as almas de jovens e velhos que o ouviam, a ponto de os forçara desprezarem a morte.
Caminharam calados os dois amigos.
O capitão mirava a areia da praia, e o médico estudava-o a ele com aqueles olhinhos finos e maliciosos que lhe conhecemos.
Eram uns olhos como não há outros, os daquele doutor.
O marítimo a esconder o que lhe ia lá dentro,
e ele a ler tudo como em livro aberto!
O capitão a não querer começar o diálogo, e o médico, seguindo velha táctica, à espera que ele se pronunciasse!
Não era o primeiro para competir em malícia com o segundo... Cedeu.
- Então... decididamente... o ataque não se repete!...
- Homem... Quem sabe?!... - respondeu o doutor.
-Mas então... a ti parece-te?... - continuou
o marítimo.

225
-A mim não me parece nada... -acudiu o outro. - Aquilo às vezes é o diabo!... Volta quando menos se espera.
Estabeleceu-se de novo o silêncio entre os dois.
Passado tempo balbuciou o marítimo:
-Dizias tu o outro dia, doutor, que aquilo o que queria... era... descanso... sossego...
-De espírito -.acrescentou o médico, acentuando as sílabas, e fazendo com a cabeça um sinal de assentimento.
Houve novo intervalo, após o qual disse o capitão:
-É o diabo!... Sossego!... Uma zanga, uma aflição... qualquer nada as causa!... Vá lá a gente evitar uma destas!...
-Evita-se o mais que se pode-redarguiu o doutor, acentuando de novo as palavras.
- Evita-se!... Evita-se!... Lá vem um dia em que se não pode evitar! -respondeu o outro.
O doutor teve pena do amigo. Conheceu que se o não auxiliasse, nunca ele teria a coragem precisa para se abrir com ele; deteve-o pelo braço e, obrigando-o a fitá-lo em cheio, disse-lhe brandamente:
- Ora anda, Matos!... Desembucha, homem!... Diz para aí o que te está a ralar lá por dentro, senão digo eu!... Queres que diga?... Vá lá!... O que tu estás a pensar é que a pequena não sossega enquanto não casar com o Eduardo... Ora diz, não é isto?...
226
Por única resposta, o velho marinheiro abraçou-se no amigo e assim quedou, chorando, por largo espaço.
O médico, igualmente comovido a lágrimas, sentia-se presa de uma tosse seca, que o acometia sempre em semelhantes lances, e dizia apenas de tempos a tempos:
-. Então, Matos... então!... Está bem, homem!... Basta!... Então! casar não é morrer!
- Morro eu, Francisco!... - respondeu o marítimo, largando o amigo. -Morro eu, ali - continuou ele, apontando com a mão para a casa, que se avistava ao longe.-Ali... só... como um cão!...
-Mas para que hás-de tu ficar só, homem de Deus?!... Vai viver com eles!
- Nada!... Isso não!... Quem casa, quer casa... -replicou o velho, fiel às antigas usanças.
- É uma tolice!... -observou o médico, encolhendo os ombros.
-Será, mas isso... não!... Lá viver com eles... não! -insistiu o outro.
Calaram-se os dois e retrocederam para casa do capitão.
Eram bem diferentes, naquele momento, as ideias que povoavam a mente de cada um deles!
Se o marítimo proferisse o que ia pensando, ouvir-se-ia:
"Arrumou!... É preciso!... Os pais para que vêm a este mundo?... Para sofrerem pelos filhos!...

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E para mais nada!... Anda a gente a criá-los... a enfeitá-los... a matar-se por eles e... lá vem um dia... e... adeus!... Passa por lá muito bem!... Se é rapaz... vai para o Brasil e por lá fica, ou... assenta praça e quando volta... está o pai na cova, ou casa e... não faz caso do pai!...
Se é rapariga... é o mesmo! Cuida um homem que tem quem o trate e lhe feche os olhos e... aparece um boneco... um diabo... um fraca-roupa, e leva-lha e... aí fica o pobre velho só!
Vá lá! ... Tem de ser... E enfim... podia escolher pior!... O rapaz é... um marinheiro às -direitas!... Arrumou!... Tem de ser... seja!... Não digo já ... mais tarde... daqui por um ano... ou dois... "
Pelo seu lado, o doutor regozijava-se, esperando que estavam vencidas as dificuldades, e ficou, portanto, de orelha baixa, quando, chegando à porta e perguntando ao amigo se podia dar esperanças ao rapaz, só recebeu em resposta um breve: "Por ora... não!"
IX
Já vimos em que disposição de espírito estava o capitão, entrando em casa. A muito rogar da filha, consentiu ele em ir descansar!... Coitado!
Prevendo que não poderia adormecer, sentou-se




228
à banca. Era uma destas secretárias antigas, cheias de gavetas e escaninhos.
Estavam ali arquivados todos os documentos precisos para escrever a história do laborioso e honrado marinheiro!
Recibos, títulos de dívida, velhos livros de carga, cartas de fretamento, carteiras de lembranças, conhecimentos, maços de cartas devidamente cotadas -tudo ali tinha o seu lugar reservado, especial.
O capitão percorreu com a vista todas essas velhas testemunhas do seu passado; puxou para si alguns papéis, que procurava, para de novo os afastar, e continuou a olhar indeciso, alheio a tudo, para todos aqueles objectos, sem se resolver a começar tarefa.
A mão, por fim, ergueu-se de novo, o dedo indicador carregou numa pequena mola de segredo e uma tabuinha, embutida entre duas gavetas, cedeu, deixando ver um falso cheio de papéis.
Era o segredo do capitão. A mão introduziu-se na cavidade e retirou-se, apertando entre os dedos um maço de cartas e uma caixinha de veludo encarnado.
O velho contemplou aqueles objectos com inexprimível melancolia, e duas grossas lágrimas, desprendendo-se, rolaram-lhe vagarosamente pelas faces e vieram esconder-se na espessa barba.
Depois de visível hesitação, abriu a caixa e, colocando-a sobre a secretária, encostou a cabeça à mão direita e permaneceu absorto a contemplar

229
as feições de uma miniatura pintada sobre marfim.
Era o retrato dela, da esposa que Deus lhe levara, da mãe dessa filha adorada que queria agora deixá-lo.
Ao cabo de longo espaço de tempo, a mão desatou a fita verde que ligava o maço das cartas, e, pegando numa destas, desdobrou-a.
O capitão leu-a, maquinalmente ao princípio, com visível interesse à medida que ia continuando.
Lida essa, passou a outra e em seguida ao resto.
Quando terminou tinha o rosto banhado em pranto.
- É sempre assim!... - murmurou ele, e, apoiando os cotovelos no bordo da secretária, enlaçou as mãos e descansou nelas a cabeça, povoada por mil ideias diversas.
Passado um quarto de hora, quando se arrancou àquele íntimo e doloroso meditar, lia-se-lhe no rosto uma resolução irrevogável.
Abriu uma pasta, de onde tirou uma folha de papel, em que escreveu apenas uma linha; em seguida dobrou-a e fechou-a junto com o maço de cartas, que de novo atara dentro de outra folha de papel almaço e lacrou o embrulho. . .
. Meia hora depois, quem colasse o ouvido à porta do quarto, onde já se não via luz, ouviria, de vez em quando, o som de um suspiro.



230 Feliz quem não conhece as torturas de uma noite de insónias, causada por horríveis tormentos morais.
O sol da manhã seguinte veio achar fora da cama o matinal embarcadiço.
À hora do almoço, -a filha, que pela primeira vez voltava à mesa, parou assustada, quando, ao entrar na sala, examinou -o rosto demudado do pai.
Pareceu-lhe que havia nos olhos deste tão desusada expressão de resignada dor, havia tanta ternura e bondade na voz do velho, quando lhe disse: "Deus te abençoe" que sentiu uma espécie de remorso, lembrando-se que era ela a causa dos sofrimentos do pai.
Ao levantar-se da mesa, o velho tirou do bolso o embrulho, que de véspera o vimos lacrar, e disse, entregando-o à filha:
-Manda isso ao padrinho.
Duas horas depois desta cena, batia este à porta.
Mal entrou, foi direito ao amigo e, abraçando-o, balbuciou com voz profundamente comovida:
-Tu tens uma nobre alma, filho!...
Depondo, em seguida, sobre a mesa as cartas que o capitão lhe mandara, tornou a sair, enxugando os olhos marejados de pranto.
As cartas que o capitão enviara ao doutor, eram as que recebera da esposa antes do seu casamento.




231
Leu-as o médico, e tudo compreendeu.
As primeiras eram alegres e descuidadas; a essas seguiam-se outras, que exprimiam o receio da oposição paterna; vinham por fim as últimas, acusando o pai de desamor e crueldade...
Quando chegara à última, o capitão ficara, como dissemos, entregue a profundas meditações, até que, tomando uma resolução, escrevera apenas ao amigo: "O rapaz que venha quando quiser... " e enviara o bilhete junto com as cartas da esposa, deixando à penetração do doutor o descobrir a causa da mudança do seu modo de pensar.
O pobre pai sujeitava-se a tudo, menos... às acusações da filha!
compreendera o império do amor, a justiça da sentença: "pelo escolhido do teu coração, deixarás pai e mãe", e por isso o ouvimos dizer: "É sempre assim!"
Quando o capitão desembrulhou as cartas, feriram-lhe a vista estas palavras que o doutor traçara num bocado de papel e juntara ao maço,
em forma de rótulo: "LIÇÕES DO PASSADO!"
X
Os leitores, casados, lembram-se da noite em que pela primeira vez lhes foi permitido apresentarem-se, como pretendentes, em casa da escolhida do seu coração?
Se se lembram hão-de confessar que não têm





232
tido outra !de tão intenso prazer, mas também de tão profundo enleio.
O coração a transbordar de amor, a mente a fantasiar futuros, os olhos a enxergarem tudo cor-de-rosa, os lábios retendo a custo tudo quanto desejariam dizer-lhe a ela, que está ali, de olhos baixos, com as faces rubras de pejo e o coração a arfar entre assustado e jubiloso e... a dois passos, o futuro sogro conversando com algum amigo em tom constrangido, que procura tornar natural, parecendo não ver nem ouvir coisa alguma, mas vendo e ouvindo tudo... Ora digam... Haverá coisa que possa tornar a posição de qualquer mais agradável e ao mesmo tempo mais incómoda?!...
Há novidade em casa -do Senhor Capitão Matos!...
As janelas traem desusado luxo de iluminação.
Se entrássemos!... Entremos!
Sentada no sofá a nossa simpática Carolina escuta, mirando o chão, e sem saber o uso que há-de fazer das mãos, as frases entrecortadas de Eduardo.
Este... vê-se que quer falar e não pode; mas, se os lábios perderam a eloquência, que verbosidade no olhar!
Animados e brilhantes os olhos de Eduardo riem, choram, pedem, prometem, juram e agradecem; os de Carolina permanecem baixos.

233
É um diálogo em que Eduardo pergunta com a vista, e em que as faces de Carolina respondem com sorrisos e rubores.
No vão de uma das janelas conversam, de costas para a praia, o capitão e o doutor.
O primeiro escuta distraído, o segundo fala com desusada volubilidade, recheando os dizeres de perguntas e argumentos, fatalmente terminados por um: "Percebes?"
Vê-se que o fim do doutor é chamar para si toda a atenção do amigo, e fazer persuadir os jovens de que ninguém dá fé do que eles estão dizendo.
Era um santo aquele doutor!
-Mas que diabo tens tu ido fazer á cidade? -perguntou o médico, agarrando um botão do casaco do velho marinheiro.
-Tinha umas voltas a dar... -respondeu este distraidamente.
E, tirando o relógio, acrescentou baixinho: -Olha que são onze horas!
-Ora adeus!... Não pode ser! Isso anda
adiantado por força!... Pergunta ali àqueles se
já pode ser tão tarde!
-Pois é por isso mesmo... -acrescentou o outro no mesmo tom.-Se lhes não lembrarem que são horas de retirar, ficam-se ali pasmados até amanhã... Dá tu o sinal, anda... - continuou ele por entre dentes.
O doutor murmurou: "Vá lá! ... " e, voltando-se para os dois, exclamou jovialmente:

234

- Olé! ó senhores namorados!... Não sei se sabem que já são onze horas!... Ora pois!... Deixem ficar alguma coisa para amanhã!... Lembrem-se que têm toda a vida adiante de si para conversar!...
Carolina ainda mais vermelha se tornou, e Eduardo, erguendo-se, respondeu com sincero espanto:
- Já onze horas!... Não pensei que fosse tão tarde!
-Nem eu... - disse Carolina timidamente.
O doutor, voltando-se então para o amigo, exclamou, soltando estrondosa gargalhada:
- Ouves, Matos?... Eu não -to disse?!... Vê lá se eles achavam tarde!
Minutos depois, despedia-se o doutor na companhia de Eduardo.
Desde casa do capitão até à do médico, teve este que responder mais de vinte vezes à seguinte pergunta do mancebo:
- Amanhã vamos mais cedinho, sim, doutor?!
E sabe o leitor o que Eduardo foi fazer depois que o médico fechou a porta e o deixou na rua?...
Voltou para defronte da casa de Carolina!
Parecia-lhe impossível que ela não tornasse a abrir a janela e, nessa doce esperança, vagueou inutilmente por aqueles sítios ainda mais de uma hora!
Decorreram quinze dias, ou antes quinze noites, pois os nossos namorados só consideravam




235
tempo útil, propriamente dito, as horas que passavam juntos.
Em particular, já por mais de uma vez quisera o doutor que o amigo pesasse com ele os prós e os contras de se efectuar o casamento antes ou depois da viagem da "Veloz", que pouco podia já demorar-se no porto; o capitão, porém, tinha-se sempre esquivado à resposta.
o pobre Eduardo é que vivia, por assim dizer, suspenso.
Atormentava-se com a ideia de adiar o casamento para depois da sua volta, e apertava-se-lhe o coração, lembrando-se que, logo dias depois de casado, se veria forçado a despedir-se da esposa.
Carolina não emitia opinião; ao primeiro alvitre... anuviava-se-lhe o rosto, ao segundo!... arrasavam-se-lhe os olhos de pranto.
Quanto ao doutor, era de voto que o casamento se realizasse depois da viagem.
No que todos concordavam era que Eduardo não podia, sem quebra do cumprimento dos seus deveres, deixar de ir no navio como capitão.
O nosso herói, o único capaz de cortar aquele nó górdio, esse não dizia palavra, o que mais delicada e crítica tornava a decisão.
Esta abstenção do velho marítimo tornou necessária uma conspiração entre os três.
Resolveu-se que, na presença dos dois interessados, fosse ele directamente interpelado pelo doutor e forçado a responder categoricamente.




236
Uma noite, pois, estando todos quatro reunidos, e tendo os três conspiradores trocado entre si um olhar de inteligência, perguntou o doutor, aparentando indiferença:
- É verdade, ó Eduardo... Quando sai a "Veloz?"
-Deve sair daqui por quinze dias... - respondeu o mancebo - Já!... Pensei que se demorasse mais...
E, voltando-se para o amigo, continuou:
-Ouves, ó Matos?... Vê lá, que é preciso decidir por uma vez quando hás-de amarrar estas duas crianças!
O velho retorceu a suíça, tirou o lenço do bolso, assoou-se e respondeu em voz que traía mal disfarçada emoção:
Pode-se tratar disso...
-Então vê lá!... Vê lá ... se há-de ser antes ou depois da viagem da "Veloz"... que a mim parece-me...
O velho não concluiu, porque pé de Eduardo, adiantando-se um pouco, foi ferir um calo, que era o martírio do infeliz senhorio de tão incómodo inquilino.
Eduardo sabia que o doutor opinava pelo adiamento.
Imagine-se, porém, o espanto de todos, quando o capitão, erguendo-se, respondeu sem hesitar:
- Há-de ser antes... Os papéis de Carolina estão prontos, e já arranjei dispensa dos banhos.
Depois de alguns instantes concedidos ao espanto


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causado por tão inesperada revelação, o doutor ergueu-se igualmente e exclamou:
- Sim, senhor!... Aí está o que eu chamo um homem expedito!... Pão pão, queijo queijo!... Mas-continuou ele, pondo o calo fora do alcance do pé de Eduardo-não seria melhor deixar isso para depois... para a volta?... Não sei que me parece casarem eles, por exemplo, hoje, para se separarem logo no dia seguinte! Pensem bem!... -acrescentou o doutor, relanceando os olhos para os três.
-Neste mundo tudo se remedeia - observou filosoficamente o capitão, entrando a passear com as mãos atrás das costas.
Novo pasmo dos ouvintes! O médico, não sabendo que pensar de tão súbita resolução, sentia tentações de tomar o pulso ao amigo com receio de que este estivesse doente.
-Essa agora!... - disse o doutor, estendendo o lábio inferior e encolhendo os ombros, como quem não compreende. - Tu, decerto, não queres que a pequena vá de piloto?...
- Não, decerto... - respondeu o embarcadiço, que não pôde reprimir um sorriso.
- E não queres também, decerto, que o Eduardo torne a deixar sair o navio sem ir nele?-perguntou o doutor num tom de quem não esperava que o velho admitisse semelhante hipótese.
-Se isso partisse dele, não aprovava, mas... O caso é outro... A "Veloz" tem capitão novo.









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Eduardo ergueu-se de um salto, como se fora mordido.
Com os olhos cintilantes e as faces rubras de indignação, o mancebo perguntou com mal contida explosão de cólera:
-Tem capitão novo?... Por que fui eu demitido sem ao menos mo dizerem?!... E... e... quem
vai de capitão?...
- Vou eu - respondeu singelamente o velho embarcadiço, sem interromper o passeio.
- Vai... vai o senhor?!... o senhor!... Ó meu pai! - exclamou Eduardo, abraçando o velho.
Não é possível descrever a cena que se seguiu.
Carolina, envergonhada do seu primeiro movimento, que foi de prazer egoísta, correu para o pai, formando com ele e Eduardo um grupo, em que sobressaía a cabeça grisalha do velho, mostrando no rosto a impaciência e comoção que lhe causava aquele duplo abraço.
Ouvindo a frase: " Ó meu pai! " proferida pelo mancebo num rapto de sentida gratidão, o dedicado marítimo sentira violenta luta dentro do peito.
O coração era-lhe, a um tempo, presa da má vontade, que ainda de todo não fora senhor de vencer, e de um sentimento de inexplicável prazer, causado pela certeza de que o mancebo lhe dedicava, naquele instante, verdadeiro amor de filho.
Quem, contudo, metia dó, era o doutor!
O bom do homem em vão se assoava ruidosamente,

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e tentava livrar-se do maldito pigarro que o incomodava!... em vão!...
Os olhos davam-lhe lágrimas, que ele não queria, e os lábios negavam-lhe as palavras que ele procurava!
O santo homem bem desejava parecer mau, bem se esforçava para ralhar!
Vendo que não conseguia o seu intento, deixou correr as lágrimas, e, lançando os braços em volta do pescoço do companheiro de infância, balbuciou:
- Não pode ser, meu velho!... Não consinto!... Não pode ser!
- Cala-te, homem! - murmurou o capitão ao ouvido do doutor. - Cala-te!... É melhor assim!... Só o mar me pode minorar a falta da filha!... Deixa-me ir que é melhor!
O médico ainda quis protestar, Eduardo também tentou reagir, Carolina, chorosa e contristada, beijava as mãos do pai, balbuciando a custo:
-Isso não, meu pai!... Isso não!...
O capitão, porém, foi inabalável.
- Está decidido! - disse ele em tom que não admitia réplica. - O capitão da "Veloz" sou eu! ... Então vocês que querem?... sou um egoísta! ... Tinha saudades do mar... Andava com minhas cócegas de fazer uma viagem antes de dar à costa... Sozinha... não te deixava - continuou ele, dirigindo-se à filha.-Vais casar... não te faço falta... chegou a ocasião... mato as saudades!...
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Ora aí está!... O capitão da "Veloz" sou eu!
-Então -perguntou o doutor-papéis... e dispensas de banhos... e substituição de capitão... era isso que te fazia ir tantas vezes à cidade?...
-Nem mais, meu velho! -exclamou quase alegremente o embarcadiço, erguendo o médico nos robustos braços e tornando a depô-lo no chão.
E o doutor, voltando o rosto para esconder as teimosas lágrimas, murmurava baixinho, apertando convulsivamente as mãos:
-Pobre pai!... pobre velho!...
A que vinham as lamentações do doutor?!... Não ouviu dizer ao capitão que era um egoísta... que andava morto por matar as saudades que tinha do mar?!...
Tudo aquilo era egoísmo!... Bem se conhecia e... bem o disse ele!...
Pobre pai!... pobre velho!
XI
Eu não quero obrigar os leitores a acompanhar-me, passo a passo, até à realização do casamento de Carolina e Eduardo.
Era um verdadeiro casamento de amor; faltavam-lhe portanto as ridículas e repugnantíssimas cenas, inseparáveis destas escrituras, em que






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as partes contratantes se esquecem de que vão unir para todo o sempre a existência e se entrincheiram, cada qual sobre si, por detrás das argúcias e seguranças das leis.
Não havia nada disso!
Por parte de Carolina - havia o pai, que dava tudo quanto devia ao seu trabalho e quanto a esposa trouxera para o casal; por parte de Eduardo - entrava tudo quanto herdara de seus pais e quanto esperava auferir do trabalho.
Nada mais simples e que menos pudesse dar lugar a negociações.
Ao casamento assistiram apenas o embarcadiço e o doutor.
Quando, terminada a cerimónia, a filha lhe veio beijar a mão, o pai conservou-a estreitada contra o seio, por largo espaço de tempo, balbuciando a custo por entre lágrimas:
-Deus te abençoe!... Sê como esposa, o que tens sido como filha!
Apertando, em seguida, energicamente, a mão do genro, o velho disse-lhe em voz grave e solene:
- Lembre-se do que acaba de prometer!... Faça-a feliz!... Faça com que ela nunca tenha saudades da casa do pai!
Carolina acompanhou o marido; o capitão foi caminho de casa com o doutor; mas, chegando à porta, abraçou-se no amigo e exclamou, chorando como uma criança:
-Não posso! ... Não entro!... Não fico aqui só!... Não quero!...
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- Ó homem! - observou o médico. - Não seja essa a dúvida!... Anda para minha casa... anda!... Anda daí, homem!
O capitão seguiu-o sem dizer palavra.
Até alta noite se conservaram os dois velhos amigos, juntos, no quarto de trabalho do médico.
Este fingia ler, fazendo esforços sobre-humanos para afugentar o sono, enquanto que o marítimo passeava cabisbaixo, torcendo, segundo o costume, a suíça espessa e grisalha.
Horas depois, antes de amanhecer, saía o capitão de casa do amigo sem o acordar e dirigia-se à cidade.
Seriam nove horas da manhã, diziam na praia os velhos embarcadiços depois de terem passado o óculo de mão em mão:
- Decididamente... aquela é a "Veloz"!...
A notícia correu de boca em boca, e, minutos depois, à janela da casa de Eduardo, via-se Carolina, ora agitando o lenço, ora enxugando a ele as lágrimas, com a fronte pousada sobre o ombro do marido, corresponder assim às ondulações de um outro lenço que lhe acenava do mar.
E, por detrás dos dois noivos, o nosso amigo doutor fazia prodígios para parecer zangado e murmurava:
- Enganou-me... a mim!... Pobre velho!... pobre Matos!
O capitão conseguira do armador que a "Veloz"
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saísse três dias antes do anunciado para a partida.
Duvidara da sua coragem e conseguira assim furtar-se às cruelíssimas emoções da despedida.
Deixemos, por pouco, os felizes noivos, que têm, para lhes adoçar as agruras da saudade, o dulcíssimo mel da esplêndida lua que ilumina os primeiros tempos que se seguem ao casamento, e acompanhemos o nosso herói no seu voluntário exílio.
Quando a terra e as casas começaram a tornar-se pequenas, a ponto de mal se distinguirem; quando os olhos do capitão se negaram a reconhecer a modesta morada, onde vira raiar tantos dias de felicidade e desventura, o velho deixou-se cair sobre um banco com a fronte pendida sobre o peito.
Enquanto pudera ver o lenço branco da filha, voando nos ares como um mensageiro de saudades, concentrara no alvo e franzino retalho de cambraia todas as suas atenções.
Aquele (lenço era a casa paterna, que lhe dizia: "Espero-te!"; era a voz da filha, que lhe bradava: "Amo-te!"; era a pátria, que lhe gritava: "Volta!"; era tudo quanto o solitário velho amava, que lhe dizia: "Choramos-te!"
Afinal, o abençoado lenço confundira-se com o ar, a terra tornara-se névoa, e o ancião, investigando com o seu olhar de marinheiro o espaço, acabara por ver apenas o céu, onde o sol parecia rir das miseráveis dores dos homens, e o



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mar, que repelia de si a chuva de diamantes, que o mesmo sol lhe atirava.
Ali ficaria o embarcadiço entregue às suas cogitações, se não viesse arrancá-lo a elas a voz submissa do piloto, que vinha reclamar as ordens do chefe.
Vexado por ter sido chamado ao cumprimento dos seus deveres, o capitão, sacudindo a fronte, como se pudesse arremessar do cérebro os pensamentos que o perseguiam, ergueu-se e, desde então, nunca mais pôde alguém ver nele outro que não fosse o verdadeiro homem do mar, o pai e juiz dos seus marinheiros, o amigo e protector dos passageiros entregues à sua prudência.
Se o vissem, porém, sozinho, fazendo o quarto da meia-noite, bem outro o -teriam visto!
Abraçando o céu com a vista, o velho perguntava às estrelas em qual delas os seus olhos se poderiam encontrar com os da filha!
Se o vento soprava do norte, lembrava-se o velho -de que talvez ele tivesse roçado, na passagem, os formosos cabelos da jovem, e talvez mesmo que a gota de água que lhe caíra na face, fosse uma lágrima bebida nos olhos da sua Carolina.
E, se o trovão bramia, se o raio rasgava o espaço, se o vento em furor fazia ranger os mastros e sibilava nos cabos, se o mar, galgando de salto a proa, se retirava de novo, fugindo por todas as saídas que encontrava, enquanto os passageiros oravam e os marinheiros se calavam,

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um sorriso, quase alegre, vinha iluminar o rosto do embarcadiço, ao lembrar-se de que, nessas noites, era ele, e só ele, quem ocupava o coração e o espírito da filha!
Quem há aí que, tendo embarcado, não tenha passado uma noite no convés, com o coração todo saudades, a mente toda perguntas!? ...
"Que estarão eles a fazer a esta hora? ... Estarão a falar de mim?!... Minha mãe... essa está com certeza a pedir a Deus que me proteja!... A estas horas... que estarão eles a fazer? ... "
E as perguntas sucedem-se no espírito, e a memória começa a construir o viver íntimo, os hábitos do lar paterno, o emprego das horas passadas em família, tudo quanto nos é indiferente, quando o gozamos, e por que tanto choramos quando ausentes.
Aos leitores, que conhecem o exclusivismo daquele amor de pai, -de que por assim dizer vivia o capitão, escusado é dizer que eram estes os seus devaneios de todos os instantes.
Quando resolvera fazer aquela viagem, imaginara que seria apenas de ida e volta, e empreendera-a para se acostumar a não ver constantemente a filha; era, por assim dizer, um remédio heróico contra as saudades.
Infelizmente, porém, se o homem põe, Deus dispõe; e foi isso o que aconteceu.
Escrupuloso no cumprimento dos seus deveres, e julgando do seu brio e dignidade não ceder o comando do navio senão nas mãos do armador
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e no porto de onde saíra, o capitão viu, por uma série de fretamentos sucessivos, prolongada por perto de três anos a ausência que êle sempre calculara de quatro ou, o máximo, de cinco meses.
Junte-se a isto a irregularidade e demora das notícias, e imagine-se o sofrimento do honrado marítimo.
Quando ele, porém, cuidou de endoidecer e esteve a ponto de transigir com a voz que o chamava de casa, foi quando recebeu em New York a notícia de que tinha mais um ser a amar, de que tinha um neto!
Ter um neto e não o conhecer, não o poder abraçar, beijar, estragar com mimos!... Haverá destino mais cruel?!...
Desde então tomaram novo rumo as ideias do capitão.
O embarcadiço encurtava as horas de quarto, talhando por mil formas o porvir do neto.
Um dia - dia feliz! - recebeu por fim o capitão ordem de carregar com direcção à pátria.
Nunca a viagem lhe pareceu tão longa!... Quando o vento, retesando as velas, ameaçava arrebatá-las, parecia-lhe a ele que estava em calmaria podre e mandava largar mais pano!
Surgiu, finalmente, a seus olhos a terra da promissão, e o pobre velho parecia doido de contente!
Lá estava ela... a sua casinha, com as janelas abertas.





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- O óculo... venha o óculo depressa!... Ó coração, que te partes!... são eles!... E eles lá estão!... são eles!... Lá estão os lenços!... É o Eduardo!... É o doutor!... Mas ela!... a minha filha!... porque se retirou?... onde foi?... Ah! ela aí vem!... Foi buscar o filho... o meu neto!... o meu querido neto!
E o velho chorava, e corria a abraçar os passageiros, e volvia a fitar a casa, de onde tudo lhe sorria e o chamava!
Horas depois, gozava o maior prazer que é dado aos homens experimentar -apertava contra o peito os seres que amava.
Quando o velho, porém, cuidou morrer de alegria, foi quando, erguendo o neto, este lhe cingiu o pescoço com os bracinhos e lhe chamou "avô" entre dois beijos!
XII
São passados dois anos.
O sol tinge o céu de todas as cores do prisma, e o oceano parece dormir, sussurrando em sonhos promessas e ameaças.
Nos degraus da porta de uma modesta casinha, vê-se um grupo de pessoas. São todas conhecidas; estamos em terra de amigos!
Sentada na pedra, Carolina provoca o sorriso de uma menina de seis meses, roçando-lhe os lábios com o dedo.



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No degrau abaixo Eduardo e o doutor, também sentados, conversam sorrindo e analisando o velho embarcadiço, que tenta reprimir a impaciência do neto; o pequeno não pode compreender que o avô precise de tanto tempo para acabar o escaler que está talhando.
- Ó Matos! - disse de repente o doutor. - Quantos botes tens tu feito já esta semana?!...
- Quatro! - gritou o pequeno, respondendo pelo avô.
- É isso, é!... são quatro- confirmou este. - Mas olha que este é o último!... vê lá se o quebras!
-Já faz hoje cinco anos que casámos!... - disse Carolina, sorrindo amorosamente para o marido.
- É verdade! - exclamaram todos - cinco anos!...
- Olhe lá... ó pai! - disse jovialmente Eduardo. - Nunca lho quis perguntar; mas... agora que estamos todos juntos, diga-me... porque embirrava o pai comigo?!...
O capitão corou e não respondeu.
- Digo-to eu! - exclamou, rindo, o doutor. - Embirrava contigo e ainda hoje embirraria, se não fosse aquele traquinas! - acrescentou ele, apontando para o pequeno, que estava experimentando o bote numa poça. - Teu sogro... tinha ciúmes!... e... para ciúmes de pai... só cegueiras de avô!

O CRUZEIRO DA VIA-SACRA
I
QUEM hoje percorrer Portugal, e muito especialmente a nossa província do Minho, poderá presenciar milhares de cenas idênticas à que vamos descrever, se bem que esta há bons vinte anos que se passava numa das aldeias vizinhas de Braga.
Então, como hoje, rara seria a família que não chorasse a ausência de um filho levado ao Brasil pela ambição, ou antes, pela vista dessas casas forradas de azulejos, que hoje se contam por centenas, já orlando as estradas do Minho, já olhando para elas -do alto de uma rua ensaibrada, coberta pela folha verde da viçosa parreira, através das grades de vistoso portão de ferro.
Então, como hoje, no Brasil, nesse país a um tempo Capitólio e Tarpeia, deserto e terra da promissão, mãe e madrasta de tantos felizes, e
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ainda de maior número de infelizes, filhos desta velha terra portuguesa, então, como hoje, repito, grassava com cruelíssimo furor a febre-amarela, terrível nivelador, que não conhece jerarquias e vai ferindo às cegas.
Quem então, como hoje, nos serões de Inverno, colasse o ouvido à porta de qualquer das modestas casas em que se visse brilhar a mortiça luz da candeia, ouviria, depois da coroa, botada pela voz sonora do lavrador e rezada em coro pelo resto da família, uma enfiada de orações por vivos e falecidos, e por "tôdolos que andam por soblas águas do mar", e o que, com toda a certeza, havia de ouvir era a salve-rainha, que a voz do lavrador gradualmente tornada mais trémula oferecia "à Virgem Mãe Santíssima, para que pedisse ao seu divino e amado Filho que desse vida e saúde" ao Manuel, Pedro, Paulo, Sancho ou Martinho, por quem sangravam os corações ali reunidos. Deixemos, porém, estas divagações e descrevamos o quadro, tal qual nos lembrámos de o ter visto.
Estamos em casa de um modesto lavrador. A dona da casa, mulher dos seus quarenta anos, que os cuidados e trabalhos fazem parecer mais velha, tenta, agachada sobre o lar, acender um punhado de carqueja, e sopra inutilmente sobre algumas brasas quase extintas. A carqueja vai ardendo; mas, em vez de chama, apenas produz fumo, que obriga a pobre mulher a enxugar os olhos a miúdo.
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Sentado no chão e quase nu, um pequenito de onze meses, que, se não tivesse a carita tão suja, faria lembrar os anjos louros e carnudos de Rubens, ri e baba-se de gosto, puxando os cabelos emaranhados de outro diabrete de nove anos, que, deitado de bruços no chão, em frente dele, lhe está fazendo cócegas nas pernas.
A um canto, numa cadeira, a que serraram os pés, metida entre uma arca enorme e a parede, vê-se uma pobre velha cega e surda. Se não fora um sorriso travesso, filho destes sonhos que iluminam de repente, como ténue raio de sol, o cérebro dos velhos e o das crianças, e vêem, de espaço a espaço, reflectir-se-lhes no rosto, julgá-la-ia morta.
Via-se que a dona da casa, em que já falámos, além da impaciência que lhe causava a má vontade -do lume, tinha alguma ideia que a afligia.
-Vai ver se teu pai vem, Joaquim-disse ela, erguendo a cabeça, ao ver por fim brotar a chama, e introduzir-se, brincando, por entre a carqueja.
-Já com esta faz quatro vezes! -rosnou o pequeno, levantando-se, pouco satisfeito, de ao pé do irmãozito.
Mal tinha, porém, transposto a porta, voltou-se para dentro, dizendo:
- Ele lá vem, minha mãe!
Viu-se que o primeiro impulso desta foi correr; de repente, porém, parou; em seguida caminhou
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a passos lentos para a porta e encostou-se à umbreira.
Não é possível descrever as mil sensações que vinham espeolhar-se-lhe no rosto!... Esperança e medo, ansiedade e desânimo, tudo isso traíam à porfia os olhos, que brilhavam para logo se empanarem de lágrimas, as rugas que o medo traçara na fronte e que a esperança desfazia, os lábios, que ora tremiam, ora se cerravam, como que obedecendo a uma resolução tomada mentalmente. Apenas o marido chegou a alcance da voz, bradou-lhe ela:
- Não há nada?
Mas como ela disse aquilo! Não sabia a gente se era pergunta, se dúvida, se afirmativa. Havia de tudo isso na inflexão.
-Há, há, mulher! Descansa; não traz obreia preta! - respondeu-lhe o marido, dissipando desta forma o receio principal que havia tanto tempo os trazia com a morte na alma.
A pobre mãe levou primeiro as mãos ao peito, como que receosa de que o coração lhe estalasse; depois, erguendo-as e cravando no céu olhos de inexcedível gratidão, exclamou:
-Louvado seja o Senhor.
E as lágrimas, esse sangue destilado que mana de uma chaga sempre viva no coração das mães, rolavam-lhe quatro a quatro pelas faces, zombando da ponta do avental com -que ela tentava estancá-las.
A nossa gente do campo é, em geral, para
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poucas expansões. Sentem bem, mas exprimem mal. Ainda assim, quando o marido chegou à porta, a mulher não teve mão em si que lhe não lançasse os braços em volta do pescoço, dando então livre curso ao pranto.
- Então que é isso... que é lá isso, mulher?... Tens-me andado sempre a animar, e hoje, que a obreia vermelha nos diz que o rapaz está fero e de saúde, pões-te para aí a chorar como uma criança!... Cara alegre, mulher!... Bota-me esse coração ao largo!... Jesus, Senhor!... - continuou ele, tirando-se dos braços da mulher. - Lembrar-me eu que meu pai-Deus te tenha lá! -me não mandou aprender a ler, e que, por isso, trago eu aqui uma carta de meu filho e tanto faz isso como nada, pois, se não fosse o bocadinho da hóstia vermelha, ainda agora estaria para saber se o meu António ,é vivo ou morto!... Anda cá, ó Joaquim, anda cá ler esta carta, meu homem!...
Lembrando-se, porém, de repente da ceguinha, chegou-se a ela, tirou o chapéu, e, beijando-lhe a mão, gritou-lhe ao ouvido:
- A sua bênção, minha mãe... Temos aqui uma carta do seu neto, do nosso António!...
-Está bem, está bem... -respondeu a velha, de cujo coração a esponja do tempo tinha apagado todas as imagens.
-Vamos a isto, Joaquim, vamos a isto!exclamou por fim o lavrador, febril de ansiedade.




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II
Acabava o feliz pai de dizer isto, quando, do lado da porta, se ouviu uma voz que dizia:
-Ora louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo... Dá licença, vizinho?
O lavrador voltou-se, meio contrariado; reconhecendo, porém, o recém-chegado, reprimiu o gesto de impaciência e respondeu:
- É vossemecê, Sr. José? Pode entrar... Trouxe da cidade carta do nosso António, e íamos ver o que ele diz... E o seu Francisco?... Não escreveu?...
-Não - redarguiu o outro com voz sombria.
- Pois então... escute -disse o dono da casa, que compreendeu imediatamente os tormentos que ralavam, naquele instante, o coração do vizinho. - Escute... Os rapazes foram no mesmo navio e recomendados à mesma pessoa, e então... pode ser que o meu António fale no seu Francisco.
A cena que eu vou desenhar, faria a felicidade de um pintor!
No seu cantinho e indiferente a tudo, a cega; sentada numa rasa de medir o milho, curvada para diante, com as mãos apertadas entre os joelhos, toda ouvidos, toda lágrimas e risos, a mãe do ausente; sentada na arca, com as mãos fincadas nas costas de uma cadeira de pinho, pálida
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de comoção, com os olhos cerrados para esconder o pranto, o lavrador; encostado à umbreira da porta, triste e sombrio, indiferente aos sentimentos dos outros, e quase que acusando o filho do lavrador por não falar do dele, que nem sequer pedira a alguém para lhe escrever, o vizinho; e, formando centro, alvo de todos os olhos, encanto de todos os ouvidos, senhor de distribuir o sol ou a chuva a todos aqueles corações, o pequeno, que, ora só sobre um pé, ora coçando a cabeça, lá vai silabando a preciosa mensageira de boas novas.
Dizia a carta... o que dizem todas as primeiras cartas de uma criança que se vê longe dos seus. Contava que tinha chegado a salvamento; que o Senhor Capitão o tratara muito bem; que tinha sido perfeitamente recebido ~e que o senhor da casa, onde estava, lhe tinha dito que ficava com ele. Acrescentava que estranhara muito as comidas; que não se podia acostumar a ver tantos pretos; e aqui começavam as letras apagadas a denunciar as lágrimas de quem as traçara, porque, logo em seguida, principiava o rosário das saudades e das recordações, os beijos para a mãe e para a avó, o pedido da bênção do pai, as recomendações ao Joaquim para não bater no Pastor, cão de guarda da casa, todas estas pequeninas coisas, em que o coração se deleita, quando a saudade o estorce. Afinal em "post-scriptum" lá vinha que o patrão não sabia como havia de arrumar o Francisco, por ele




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não saber ler, e acrescentava que este lhe pedira para escrever por ele, mas que não tivera tempo para isso, e, portanto, que dissesse o pai ao Sr. José que o filho estava com saúde e lhe mandava muitas lembranças.
Quando se chegou a este período, o vizinho franziu o sobrolho e disse:
-Teve que fazer!... teve preguiça... é o que foi.
- Pode ser-retorquiu o lavrador, ferido no seu orgulho de pai. - Pode ser, mas... a culpa é sua, Sr. José. Se vossemecê tivesse feito como eu e mandasse o Francisco à lição, já ele não precisava do meu filho.
-Melhor sorte lhe dará Deus!... nem nós lá vamos tão depressa!... -respondeu o outro. -Lá porque o seu António sabe ler, não se segue que o meu Francisco venha a precisar das sopas dele! -insistiu o pai, despeitado, envenenando de propósito o sentido das palavras do vizinho. - E, demais - prosseguiu ele - as mãos não servem só para escrever!... Haja saúde e vontade de trabalhar, que aqui estamos nós, que temos ganho a nossa vida sem ter aprendido a ler!
- Não me torça o bico ao prego, Sr. José!... Vossemecê não seja ruim!... Ninguém lhe disse que o seu Francisco viesse a precisar das sopas do meu António!... Isso é vontade de pegar! - redarguiu o lavrador, reagindo contra a má interpretação do que dissera.
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- Está bom, está bom! - atalhou a mulher, assustada pelo aspecto que a conversa ia tomando.
-Não é com essas! -insistiu o vizinho. - Eu bem sei onde vossemecê quer chegar... Tem graça!... Lá porque o menino sabe ler, já aí há-de vir para o ano, feito brasileiro, e, quando Deus quer, traz o meu Francisco como criado dele!... Tem graça!
- Bem, bem... Vossemecê tem desculpa... Não teve carta do rapaz... entende que o meu António tinha obrigação de escrever... não dá desconto às coisas... Acabou-se!... Pense lá o que quiser! - replicou o lavrador, encolhendo os ombros, mas visivelmente impaciente.
- Penso, sim senhor! - retorquiu o Sr. José, irritado pela afectada bonomia do vizinho. - Penso que a racha sai a acha!
- Vossemecê que quer dizer? -perguntou o lavrador, apertando convulsivamente a cadeira a que estava fincado.
-Quero dizer, que filho de peixe sabe nadar!
-Mas que quer dizer isso? - perguntou o
lavrador, saltando abaixo da arca.
- Quer dizer que, neste mundo, é preciso saber levar a água ao seu moinho... Ora o meu Francisco... não sabe... não sabe fazer mesuras; só sabe trabalhar... Aí está o que lhe faz falta... mais do que não saber ler nem escrever... Já ao pai lhe tem sucedido o mesmo... O António teve
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melhor mestre... Lá isso teve! -acrescentou o Sr. José, dirigindo-se para a porta.
-Alto! - bradou o lavrador, estorvando-lhe a passagem. - Vossemecê não sai daqui sem explicar o que quer dizer na sua!
- Quero dizer - replicou o outro, dando largas à bílis - quero dizer que foi vossemecê quem, pela feira de Março, ficou com os bois que eu já tinha apalavrados!
-Sr. José, eu já lhe disse que não sabia que vossemecê queria os bois, e logo então lhos ofereci pelo custo! -exclamou o lavrador, dorido da injustiça.
-Nem que eles fossem de ouro!... - replicou -o Sr. José desdenhosamente. - Eu não preciso das migalhas de ninguém!... Mas é melhor calar-me... -continuou, dirigindo-se para a porta. - Ainda há mais do que isso...
- Então que mais há? - exclamou arrebatadamente o acusado.
-Quem traz hoje de renda o campo da Valeira?... E quem o trazia antes?... Não é vossemecê?... Não era eu? - perguntou, rubro de cólera, o acusador.
- Sr. José - redarguiu o lavrador, exasperado - vossemecê bem sabe que foi pelos dares e tomares que teve com o António da Quinta, que este lhe não tornou a arrendar o campo... Que mal havia em que eu o arrendasse, uma vez que lho não arrendavam a si?... Tenha vergonha!... Não seja invejoso!
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-Pois não seja vossemecê intriguista! - replicou o outro violentamente.
- Vossemecê não me faça perder a cabeça! -vociferou o lavrador, agarrando maquinalmente a cadeira e mexendo-a com mão nervosa.
- Perder a cabeça, o quê?... - perguntou o Sr. José, entre irónico e ameaçador. - Esteja quedo com a cadeira, homem!... Olhe que eu nunca morri de medo, nem vossemecê é homem que me meta medo, louvado Deus!
- Saia! - exclamou o dono da casa, brandindo a cadeira.
A mulher agarrou-se-lhe ao braço, sem se importar com as vozes de "deixa-me, mulher! deixa- me!", a que ela respondia pedindo ao marido que se não deitasse a perder.
Neste meio-tempo o outro saíra, e desafiava o vizinho a que fosse, lá fora, dar-lhe com a cadeira. A mulher correu então à porta e fechou-a; mas ficou aterrada, por o vizinho rosnar, ao retirar-se:
-Deixa que tu paga-las todas juntas!
E assim se anuviaram tantas alegrias!
O lavrador passeava agitado, com a testa franzida e as mãos atrás -das costas; a mulher lidava nos arranjos do jantar, lançando de vez em quando olhares furtivos para o marido, enquanto que o pequeno, que lera a carta, calado e quieto, pela primeira vez na sua vida interrogava alternativamente o rosto do pai e o da mãe, perguntando a si próprio se teria por acaso




alguma culpa em tudo aquilo. E, alheios ao que se passava, o pequenito, com um dedo na boca, tentava pôr-se a pé, agarrando-se -com a mão livre à saia da cega, ao passo que esta continuava a perseguir em sonho uma recordação do passado ou visão do futuro, pois o presente nada lhe dizia já.
III
Ao leitor, bondoso e bem-intencionado, deve ter-lhe custado -a compreender que um homem -um pai! - angustiado pela incerteza, pelo receio do flagelo que semeara o luto no seio de tantas famílias, só encontrasse ironias, ouvindo ler uma carta que lhe retirava de sobre o peito o enorme peso da dúvida... Aí vai a explicação:
Se, quando ouvimos uma frase que nos ofende, pudéssemos ler no coração de quem a profere, veríamos muitas vezes lá dentro tanta amargura e tão intenso sofrer, lutas tão tremendas, chagas tão vivas e fundas, tão dolorosas contusões de amor-próprio e mal fechadas cicatrizes de reais ou supostos agravos, que, longe de repelirmos a frase com aspereza, talvez só encontrássemos em nós profunda e sincera compaixão pelo ofensor! E, demais, quem pode prever o alcance da primeira palavra que nos sai dos lábios?!... Haverá quem não conheça o efeito dessa embriaguez da palavra, embriaguez mais poderosa, exaltada
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e terrível em seus efeitos do que a causada por outro qualquer agente?!... O som da própria voz é uma espécie de aguilhão, que nos excita, que nos arrasta, que nos aplaude, que nos grita aos ouvidos:
"Bem, muito bem! Continua! ... "
O mau é soltar a primeira palavra; solta ela, vem a necessidade da justificação, a recordação de todos os pecados velhos, a ânsia da desforra, o choque violento das más paixões, o obscurecimento da razão, e - vai-se sempre mais longe do que se queria ir.
~O Sr. José, mestre carpinteiro, não era o que vulgarmente se chama um homem de maus fígados. Não era! tinha apenas essas fumaças de valente, desgraçada mania da nossa gente do Minho, que tanto tem dado que fazer aos cirurgiões e sobretudo aos endireitas.
O pior defeito, porém, do mestre carpinteiro era o espírito de contradição, que quase se poderia dizer que se havia encarnado nele. Em alguém dizendo: "Acolá vai um gato branco", era contar que ele só via um gato preto! E era contar que o gato nunca mais se tornava a lavar e ficava preto para todo o sempre, pois ali estava ele, o Sr. José, pronto para sustentar a murro, a pau e a tiro, entre as paredes de uma cadeia ou pregado numa cruz, que era preto o gato e não branco, como toda a gente dizia. Este desgraçado vício tinha-lhe sido causa de um sem-número de desgostos, o mais severo dos




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quais vamos contar, por prender directamente com esta narração.
António, o filho do lavrador, era cerca de um ano mais velho do que Francisco, filho do carpinteiro. Inteligente e estudioso, no fim de um ano de escola, não havia aí livro impresso, nem, o que mais era, sentença manuscrita, que o pequeno não lesse, como se costuma dizer, de fio a pavio. Uma noite em que o carpinteiro estava em casa do lavrador, este, com a santa e respeitável vaidade dos pais, chamou o filho e fê-lo ler meia dúzia de páginas do Catecismo, para o vizinho ouvir. Durante a leitura entrou o Francisco e foi sentar-se ao pé do pai. Quando o rapazito acabou de ler, virou-se o dono da casa para o vizinho e perguntou-lhe:
-Que lhe parece?... Olhe que, a não ser o Senhor Abade e o mestre-escola, não há aí quem leia melhor do que ele!
O Sr. José, por deferência para com a mania querida, esteve quase a dizer que o rapaz não sabia ler; conteve-se, porém, e rosnou um "lê bem" pouco animador. O lavrador, agarrando então uma das orelhas do filho do carpinteiro, perguntou-lhe, .gracejando:
- E tu, meu rapagão, não queres saber ler como o António?... Diz ao teu pai que te mande à lição, meu rapaz... Olha que candeia que vai adiante, alumia duas vezes, e, quanto mais depressa souberes, melhor será para ti.
Aqui entendeu o Sr. José que era chegada a
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ocasião de satisfazer o seu gostinho, e declarou, portanto, que não havia doutorices, como ele chamava ao saber, que valessem um bom par de braços.
Como é fácil de prever, travou-se a discussão, e tanto se deixou ir o Sr. José atrás da paixão de contradizer que, depois de negar as vantagens da instrução, acabou por declarar que filho seu não aprendia a ler.
E se bem o disse, melhor o executou!...
Executou; mas, como não há argumentos de amor-próprio que destruam a rigorosa lógica da razão, que severa punição lhe era, agora que o filho estava longe, pensar que entre eles não poderia haver segredo em que não tivesse parte um terceiro, carícia que não fosse feita por mão de outrem, abraço que recebesse, a não ser por procuração!
Duro castigo!
Quando regressara da cidade sem carta do filho, todas estas ideias lhe haviam lanceado por tal forma o espírito, que, quando chegara a casa do vizinho, já ele mentalmente o tornava culpado do seu infortúnio, e, ao ouvir ler a carta, cujo post-scriptum afirmava que, por causa do signatário dela, ficava ele sem notícias mais íntimas do filho, operou-se-lhe no cérebro uma revolução singularíssima!
O egoísmo teve traças para o convencer de que em virtude da suposta culpa do pai, o filho do vizinho tinha obrigação de ler e escrever pelo
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dele. Pertencia-lhe metade daquela aptidão; tinha direito a ela; não compreendia que António se recusasse a satisfazer o desejo de Francisco, sem o lesar na sua metade de saber!
Juntem a isto o caso dos bois, e o do campo, e aí está dada a explicação, que consumiu mais tempo e papel do que merecia.
IV
Tinham passado quinze dias depois da ruptura que se dera entre os dois vizinhos. O Sr. José, contra o seu costume, não tinha dado mostras de querer confiar ao marmeleiro, seu advogado usual, a vitória da sua causa, e a mulher do lavrador, a quem as últimas palavras do carpinteiro "deixa que tu paga-las" tinham feito perder o sono, começava a respirar mais livremente, confiando em Deus, que tudo faria pelo melhor.
Amanheceu afinal um dia formoso, e ela, que até ali, já com um pretexto, já com outro, pudera obrigar o homem a não se afastar da aldeia, não pôde achar razões convincentes para o impedir de ir à cidade. E lá foi ele, mas não sem prometer um bom centro de vezes que não voltaria de noite.
Só quem as tem sentido pode avaliar as angústias de quem espera, com a mente povoada de sinistros pressentimentos, a chegada de um

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ser estremecido, quando paira sobre ele uma ameaça de perigo!
O assobio, que se ouve ao longe, é dele; os passos, que fazem estalar lá fora as folhas secas, são dele; o mocho que pia no campanário da aldeia, o cão da casa uivando dão-no em perigo!
E ninguém com quem desabafar! De um lado a cega imóvel e indiferente, do outro os filhos sorrindo sem preverem nem o perigo nem o alcance dele! E então vêm as razões com que procuramos conjurar o fantasma do terror, restituindo a tranquilidade à nossa alma:
"Teve que fazer na cidade... O carpinteiro é assomado, mas não é mau... Já lhe passou... A estas horas está ele a cear ou... talvez a dormir... "
E aí se vai à porta pela milésima vez; e a vista perturba-se, tentando penetrar as trevas, e começa a ver assassinos escondidos atrás de cada tronco de árvore; e os ouvidos, cansados da aturada atenção, entram -de obedecer à voz interior e distinguem o som de passos precipitados, vozes irritadas, chegando às vezes a inventar gritos de socorro!
Como sofre quem espera sob a influência do terror!
V
Serão oito horas da noite. O céu está recamado de estrelas, mas os corpos não projectam sombras, porque o luar só aparece às nove horas.





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O sítio incute respeito: é o monte da via-sacra. Se fosse de dia ou o luar brilhasse, poder-se-iam contar as cruzes que a partir da capela, erecta no cimo do outeiro, se erguem pelo monte abaixo, numa distância de vinte passos de umas às outras.
Numa pequena elevação, sobranceira ao caminho, a cerca de trinta passos do primeiro cruzeiro da via-sacra, guiada a vista pelo brilho do lume de um cigarro, acabava-se por distinguir o vulto de um homem, sentado, como pau traçado sobre os joelhos. Era o mestre carpinteiro que esperava ali o vizinho, para lhe provar a justiça da sua causa.
Quem lhe pudesse ler no cérebro acharia isto:
"Muito mal... não... Quinze dias de cama é nada mais... Há-de levar a sua dose para não tornar a ter o atrevimento de levantar uma cadeira para mim!"
E tão certo estava de si, que continuava filosoficamente a fumar o cigarro, esperando o lavrador com a pachorra com que um pescador de profissão espera horas até que uma truta se lembre de vir brincar com o anzol.
Por fim, lá lhe pareceu que ouvia ruído de passos, e ergueu-se. Não se enganara: era o lavrador. Subia este a ladeira apressadamente, estimulado pela lembrança do susto com que a mulher o estava esperando, quando o carpinteiro, de um salto, se achou defronte dele. O lavrador reconheceu-o imediatamente, mas não se deu

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por achado, e perguntou com voz cuja afectada segurança traía o sobressalto interior: -Quem temos por aqui?
O outro, rindo sarcasticamente, respondeu: - Alguém que vem ver-se você é homem para outro!
- É vossemecê, Sr. José? -redarguiu o lavrador, buscando ganhar tempo para achar saída àquele aperto.
-Um seu criado, para o servir com umas asas de pau!... Pode mandar dizer isto ao seu doutor, a ver o que ele de lá responde! - prosseguiu o carpinteiro.
-Ele que há-de dizer? -retorquiu o lavrador, tentando levá-lo pelo brio. - Há-de dizer que nunca pensou que o Sr. José viesse esperar um homem que nunca lhe fez mal, e que nem sequer traz um pau, como esse, para se defender.
-Pois dirá... dirá, sim senhor, mas... enganou-se!... Não traz pau?... Faz mal, se bem que nessas mãos, de pouco valia!... Mas leva rumor e acabemos com isto, que eu não vim cá para conversar!
E, fincando um pé um pouco mais atrás, ergueu o pau. O lavrador compreendeu que não havia compaixão a esperar, e, confiando com razão no vigor dos próprios músculos, deu um salto para diante, ao tempo que o adversário erguia o terrível marmeleiro, e estreitou-lhe o corpo com os braços. O carpinteiro, vendo-se abraçado, deixou cair o pau, já agora inútil, e




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arcou com o vizinho, murmurando apenas por entre -os dentes cerrados:
-Ah! cão, que me embaçaste!
Começou então uma luta horrível entre aqueles dois homens, ambos ainda jovens, ambos vigorosos. Depois de alguns minutos de esforços inauditos, para ver qual deles subjugaria o outro, o pé do carpinteiro encontrou uma velha raiz de árvore, que o fez cair de costas, arrastando na queda o seu contrário. Este, aproveitando a vantagem, desprendeu um dos braços e apertou vigorosamente o pescoço do inimigo, que espumava de furor, sem exalar um queixume. Não tardou, porém, que uma ideia horrível viesse paralisar o esforço do lavrador. Pareceu-lhe que o vencido tentava meter a mão no bolso, viu-se esfaqueado, passou-lhe diante dos olhos a imagem da mulher e a orfandade dos filhos, ergueu-se e fugiu.
Não se enganara. O carpinteiro lembrara-se, de repente, que trazia uma navalha no bolso, e, cego de furor, parecia-lhe ainda pequena vingança a morte daquele homem, que o estava ali estrangulando. Mal o lavrador largou a fugir, levantou-se também e correu atrás dele com a navalha aberta na mão.
Era horrível aquela corrida, a que um era estimulado pelo medo e o outro pelo ódio. O lavrador, porém, além de se ter ferido num joelho, quando rolara por terra abraçado com o carpinteiro, era também mais pesado do que este.
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Ouvindo atrás de si os passos do inimigo e sentindo-se quase impossibilitado -de tomar fôlego, abandonou-o de todo a energia, e, correndo para o primeiro cruzeiro da via-sacra, abraçou-se com ele, e, voltando o rosto para trás, bradou:
- Pela cruz em que morreu Nosso Senhor, não me mate!
-Também nela morreu o mau ladrão, maroto!... -bramiu o carpinteiro, com os lábios quase colados ao ouvido do desgraçado, e comprimindo-o com a mão esquerda contra a cruz, ao passo que, com a direita, buscava cravar a navalha.
. .
A mão, que se dispunha a embeber o ferro, caiu inerte, e o lavrador, sentindo afrouxar a presa do contrário, deu um salto para o lado, viu-o dar um passo para trás, cambalear e cair de bruços no chão, como atordoado. Depois -de o contemplar um instante, como quem não compreende, lembrou-se da mulher e, como se tivesse criado novas forças, correu em direcção a casa, que ainda ficava a bons vinte minutos dali.
VI
Como o honrado lavrador o conta ainda hoje, nunca o caminho até casa lhe pareceu tão longo nem ele o andou em menos tempo! Quando chegou, ia por tal forma impressionado pelas diferentes

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peripécias, mas sobretudo pelo desfecho da luta, que, mal entrou, fechou instintivamente a porta da rua à chave e deixou-se cair ofegante numa cadeira.
A mulher, pensando naturalmente que alguém o perseguia, esteve quase a gritar por socorro; deteve-a, porém, a reflexão, e ficou extática e trémula, toda curiosidade e medo, com os olhos cravados no marido, à espera que este se explicasse.
Dominada, por fim, a emoção, correu o lavrador para os filhos, beijando-os freneticamente, e, apertando em seguida a mulher contra o peito, num destes abraços mudos, que tanto dizem, que traem o receio de uma separação eterna, desfeito pelo prazer de tornarmos a ver quem já considerávamos perdido para nós, contou-lhe, afinal, o perigo de que se vira livre por modo tão sobrenatural.
-Olha que foi castigo do Senhor, por ele não respeitar a cruz, quando lhe pediste por ela!... Olha que foi, João!... - exclamou a mulher, ouvindo como o carpinteiro caíra fulminado.
-Foi, mulher... decerto foi... - concordou ele. - E louvado seja Ele, que se lembrou que eu tinha filhos para criar e uma santa, como tu, para me ajudar nesta tarefa!
A mulher, obrigando então o filho mais velho a ajoelhar diante do modesto crucifixo, aos pés do qual ardia a luz -de uma lamparina, elevou

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a Deus uma destas preces, em acção de graças, mais imponentes na santa singeleza e mudez com que sobem do coração aos lábios, do que o pomposo "Te-Deum" com que a ostentação vaidosa dos grandes costuma julga retribuir qualquer benefício recebido.
Nessa noite, a não ser o pequeno, ninguém tocou na ceia; havia, contudo, o que quer que fosse que embargava a fala dos dois cônjuges e os não deixava erguer da mesa. Conhecia-se que tinham medo de se ir deitar. De tempos a tempos, os olhares de ambos encontravam-se, para logo se esquivarem, como receosos de traírem o que os corações sentiam. Aquele silêncio, porém, aquele constrangimento desusado entre eles, pesava-lhes!
Afinal, a mulher, dando a conhecer o pensamento secreto, balbuciou com voz trémula:
-Mas porque cairia ele?!... Ó João, e se ele está morto ou... para morrer?!...
o marido, fazendo um violento esforço para sair daquela espécie de adormecimento moral, ergueu-se e entrou de passear silencioso.
Após alguns instantes, a mulher, vencendo a natural timidez, perguntou, hesitando:
- Ó João, e... e se tu fosses pedir conselho ao Senhor Abade?... Ele é tão bom homem!...
-Tiveste a minha ideia, mulher!... Vou lá de caminho! - respondeu o lavrador.
E, pegando na espingarda que estava pendurada a um canto, fora do alcance dos filhos,



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abriu cautelosamente a porta, sondou com a vista as vizinhanças da casa, e partiu, com pé ligeiro e coração pesado, em direcção ao passal.
Seriam dez horas, quando João bateu à porta da casa do abade. Já tudo dormia, de forma que teve de repetir a pancada.
Depois de alguns instantes de espera - os precisos para acender a vela e lançar um capote aos ombros - ergueu-se a meia vidraça da janela e apareceu a cabeça do padre, que perguntava em tom comovido:
- Quem é? Está alguém doente?
-Sou eu, Senhor Abade... e preciso muito falar-lhe... agora mesmo - respondeu o lavrador.
-Pois és tu, João!? -redarguiu o outro com manifesto espanto, reconhecendo a voz do freguês. - Que me queres, homem de Deus?!
-Abra, pelas almas, Senhor Abade! - insistiu João.
-Está bem, filho, está bem... Espera um instantinho que eu vou já abrir-disse o velho, que logo viu -que o assunto era grave.
A porta abriu-se e João entrou. Instantes depois sabia o abade tudo.
Bastava ver o padre uma vez, para se ficar com a certeza de que era um destes justos, que servem para afirmar a existência da virtude na terra, um destes sacerdotes que são uma espécie de bênção para o rebanho confiado ao seu cuidado; não admira, pois, que mulher e marido tivessem tido a mesma ideia. Aquele... era o
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padre como eu o concebo, e como Deus decerto os ama - pai e juiz, cireneu e confidente.
-Foi a cruz, filho!... Não foi outra coisa! -exclamou ele.-Mas é preciso lá ir, João... Vamos lá ambos... - prosseguiu o velho, a quem assaltara a ideia de que o carpinteiro fora vítima de uma apoplexia causada pela excitação, senão filha da rude carícia da mão do lavrador, quando lhe cingira o pescoço. - Vamos lá, homem... - continuou ele. - Mas, primeiro, põe-me já ali a espingarda naquele canto... Não é precisa...
O abade acabou de vestir-se, e, apoiado a um cajado, pôs-se a caminho, precedido pelo lavrador, a quem entregara um lampião.
Cantavam os galos quando os dois chegaram ao pé do cruzeiro onde caíra -o infeliz adversário do lavrador. Aterrado, e vendando os olhos com a mão esquerda, João estendeu a dextra, que sustentava o lampião, para alumiar o sítio fatal, onde devia jazer o carpinteiro.
Oh! que alívio sentiu, quando o abade, depois de olhar, exclamou:
- Cá não está ninguém!... Tu sonhaste, João! Só então se atreveu este a retirar a mão dos olhos e a fitá-los no chão.
Não tardou que o abade, pegando no lampião para observar o solo, se convencesse de que o seu paroquiano não fora vítima de um sonho.
A primeira coisa que lhe feriu a vista, foi


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uma poça de sangue coagulad, rente ao tosco
degrau que servia de base ao mal lavrado pedestal do cruzeiro. No meio do sangue jazia uma pedra.
O padre olhou atentamente para ela, e, erguendo em seguida o lampião, viu que o cruzeiro não era, então, mais do que um enorme T de pedra.
Baixando lentamente o braço, o sacerdote murmurou com voz contrita:
-O dedo de Deus!
E ficou por alguns instantes com a fronte pendida sobre o peito.
Saindo, afinal, daquele íntimo cogitar, voltou-se para o lavrador, dizendo:
- Vamos embora, João... Tu vais para casa, e eu, -de lá, vou ver se o infeliz precisa de mim.
- VII
Vejamos agora o que foi feito do carpinteiro.
Quando recuperou os sentidos, não poderia
dizer quanto tempo lhe durara o delíquo. O seu
primeiro movimento foi acudir com a mão à ca
beça e viu que estava ferido. Sentou-se por terra,
diante da cruz, e começou a coordenar as ideias.
Passaram-lhe então, diante dos olhos, todos os
episódios da briga até ao momento em que intervenção estranha o prostrara por terra. Ecoaram-lhe nos ouvidos as preces de piedade, soltas
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com voz de indizível agonia pelo seu contendor, e acudiu-lhe à mente o cruel sarcasmo com que lhas abafara. Ao chegar a este ponto, ergueu-se, aterrado, e bradou:
-Foi a cruz!... Estou perdido!
Ninguém imagina os tormentos que abalaram então aquela robusta natureza, enérgica no bem como no mal, fiel na crença de Deus e de um mundo futuro, dividido em dois campos -Céu e Inferno!... E o desgraçado viu-se abismado no último pelo insulto feito ao símbolo que dá entrada no primeiro!... Quis rezar e não pôde! Perseguido por uma ideia fixa, com o cérebro enfraquecido pelo sangue que perdera, pôs-se a caminho para casa, mas uma singular coincidência veio reddbrar1lhe o martírio!
Ia alta a Lua a essa hora, de forma que ao longo do caminho que tinha a percorrer até vencer o outeiro da via-sacra, os seus olhos só encontravam cruzes!... Se os erguia... via-as a prumo de vinte em vinte passos; se os baixava... lá estavam traçadas na terra pela projecção da sombra!
O que faz essa outra mais pesada de todas as cruzes - a cruz do remorso!... Que via-sacra!... que horrível subida do Calvário!
Deixara ele, finalmente, atrás de si o outeiro, quando avistou ao longe o lampião dos dois que vinham procurá-lo. Escondeu-se atrás de uma árvore e esperou que passassem.
Que recrudescer de remorso!



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o seu adversário, o homem que ele duas horas antes quisera matar, em vez de se fazer acompanhar pelo homem da lei, fora bater à porta do homem de Deus; em vez da vingança - o perdão; em vez do -castigo-a absolvição!
Quando chegou a casa e olhou para dentro de si, teve horror de si próprio e caiu de novo sem acordo. O padre, na volta, foi encontrá-lo a debater-se contra os fantasmas que a febre lhe criava e fazia surgir ante os olhos da alma.
VIII
Dois meses teriam decorrido, depois destes acontecimentos. O carpinteiro já se erguia da cama, mas ;ainda não saía à rua, e em casa do lavrador reinava a paz. Um domingo, depois da missa, quando João já ia a retirar-se -com a mulher e o filho, assomou o abade à porta da sacristia e disse com risonho semblante:
- Ó João!... Deixa ir a mulher, mas espera tu, pois preciso de te falar.
A mulher foi indo adiante e ele ficou. Saiu, por fim, o padre e, travando-lhe amigavelmente do braço, disse-lhe:
-Mal tu sabes onde eu te vou levar!
-Eu com o Senhor Abade vou até ao... fim do mundo! -respondeu o lavrador, que se conteve a tempo de não acompanhar o padre ao Inferno.

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O ancião sorriu com bondosa malícia, por perceber a emenda, e continuou:
-Vá lá! Vou-to dizer!... Nós vamos em romaria à cruz da via-sacra!... Que dizes?
Ao lavrador arrasaram-se-lhe os olhos de água, e por única resposta, apesar da resistência do santo velho, beijou-lhe a mão.
E lá foram os dois.
Imagine, porém, o leitor qual seria a admiração do honrado homem, quando, ao chegar perto do cruzeiro, viu o seu inimigo, o Sr. José em pessoa, de chapéu na mão, contemplando melancolicamente o degrau da cruz onde batera com a cabeça?!...
O rosto pálido e emagrecido mostrava bem os sofrimentos que lhe haviam minado a alma, ainda mais do que o corpo, e o lenço vermelho, que lhe cingia a fronte, indicava que a cicatriz ainda não estava completamente fechada.
João, ao ver o carpinteiro, hesitou, mas a um olhar do padre continuou a andar. Chegados ao teatro da briga, os dois contendores miraram-se em silêncio: da parte do lavrador havia enleio, no carpinteiro percebia-se sincera comoção.
-Então, José!... -disse o padre, dirigindo-se ao último.-Foi para isto que me pediste que trouxesse cá o João?
-Esteja descansado, Senhor Abade... - respondeu o carpinteiro.
E, voltando-se em seguida para o lavrador, disse-lhe:


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-Vizinho, vossemecê é melhor do que eu... Conheço-o, tenho certeza disso... Quem vai buscar este santo homem, em lugar de trazer o regedor, para levantar do chão quem o quis matar, não é capaz de negar a sua mão a quem lhe pede, por esta cruz que o salvou, que lhe perdoe!...
O lavrador precisou de respirar para poder responder, tanto a emoção lhe tolhia a voz. Apenas, porém, pôde falar, estendeu francamente a mão ao arrependido, dizendo-lhe:
-Não falemos mais nisso, vizinho... O que lá vai, lá vai... Está perdoado!... Se o merecia, bem castigado foi!... Não falemos mais nisso, se é meu amigo!
-Fui castigado e ainda o estou a ser!... - redarguiu o outro, que, entregando uma carta ao padre, continuou: - Senhor Abade, faça favor de ler essa carta do meu Francisco outra vez, mas alto...
Dizia a carta que ele, Francisco, tinha tido a febre-amarela, e que, se escapara, o devia aos cuidados do seu amigo António. Acrescentava ainda que este se recusara desta vez a escrever, dando como desculpa não querer fazer elogios a si próprio, sendo por isso escrita por outro companheiro, e terminava por anunciar ao pai que, como se fora pouco o que por ele fizera, o filho do lavrador o andava ensinando a ler.
Terminada a leitura, o carpinteiro, que se tinha sentado no degrau da cruz com o rosto metido



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entre as mãos, ergueu-se e disse, com as faces húmidas de pranto:
-Já vê, Sr. João, que o castigo continua!... Cada benefício, que me vem de si ou dos seus, torna mais feia a minha má acção!
-Ainda podia ser pior! - interrompeu o padre.
E, apontando para a cruz derrocada, prosseguiu:
- Dá graças àquela, que não quis que tu fosses a esta hora um assassino!
Ix
O leitor está sentindo lá por dentro um malicioso prazer, imaginando que eu tenho andado a fugir à explicação do mistério-pois é, por enquanto, um mistério a intervenção da cruz na pendência; nem essa intervenção lhe parece ter explicação possível...
Ora enganou-se o leitor!... O verdadeiro, o real explica-se sempre, e este é um conto... que não é um conto: é um facto verdadeiro e acontecido, que o santo abade me explicou com toda a clareza, como vai ver.
A cruz, assente sobre o tosco pedestal, de que já falámos, era formada de três peças: a haste, os braços e o topo.
Em noite de medonho temporal, o fogo do céu baixara-quem sabe se já intencionalmente!...

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-e, lanhando o resto, cortara o topo da cruz em duas metades desiguais, ficando uma destas inclinada para diante, segura apenas pelas garras de vigorosa hera. Quando o carpinteiro comprimia o inimigo contra a cruz e apontava o ferro para lho cravar, o lavrador, por um movimento convulsivo, puxou com as mãos os ramos da hera, e estes, crestados pelo raio e mortos, cederam, estalando e fazendo cair, uma para cada lado, ias duas metades da pedra que formava o topo da cruz. A metade que pendia amparada pelos ramos, como já anteriormente dissemos, veio então bater na cabeça do carpinteiro, quando este proferia ao ouvido do adversário a sua feroz ironia:
- Também nela morreu o mau ladrão!
. .
Eu estou -daqui a ver o leitor enleado por não saber dar um nome a esta intervenção da modesta cruz da via-sacra... Faça como o padre... e como eu... chame-lhe: O DEDO DE DEUS!


O BERÇO
QUEM é que, depois de quinze dias de chuva, deixa de aproveitar uma formosa manhã de sol?!...
Ninguém!
Ao cabo de uma semana de rigoroso Inverno, atormentava-me a necessidade de movimento, luz, ar, alegria e vida, e saí, por isso, para a rua, logo às primeiras negaças -que o sol se lembrou de me fazer.
O meu espírito - e, neste ponto, julgo-o de acordo com todos os espíritos -acompanha fielmente o barómetro.
Chove e faz frio?... Veste-sede negro, assume
um ar grave, que lhe não é natural, e torna-se
apto para afrontar os encargos mais fastidiosos.
Nessas disposições, não há tarefa árida que
lhe meta medo; folheia autos, digere o código
civil, executa com facilidade e exactidão as quatro operações aritméticas, e não o assusta a obrigação
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de ler os papéis velhos, que enchem umas poucas de gavetas, até dar com o recibo de uma conta, que inocentemente se lembram de querer cobrar de mim pela segunda vez.
Sobe o barómetro, e ri o sol lá de cima?... Adeus!... Não há meio de me obrigar a prestar atenção a coisa alguma.
Um "sim" ou um "não", se me forçarem a reflectir para o pronunciar, é, naquele estado do meu espírito, a maior das dificuldades.
Eu sei lá se "sim" se "não"!... O que sei é... que o sol está lá fora à minha espera.
O tamanco da aldeã estalando na calçada, o assobio do garoto, o chilrear cínico do pardal -são outras tantas vozes que me chamam, que me anunciam o azul do céu e o calor do sol, e eu não sou homem que resista a tais convites, e saio, e rio, e salto como colegial em férias, e deixo-me guiar pelo acaso, sem destino, para onde as pernas me levam, e só recolho a casa quando o sol me dá as boas-noites -antes é que não!
Depois destas explicações, dizendo eu que andava na rua, já os leitores sabem como o tempo estava.
Era uma destas manhãs de Inverno em que o sol fulge radiante e esplêndido, depois de longa reclusão, como que para convencer os incrédulos de que é dele que nos vem o calor e a luz!
O que eu, porém, ainda não disse, é que apesar



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de um sem-número de pirraças e traições, creio no sol como na morte!
Quando o feiticeiro me aparece, julgo impossível que me torne a fugir, entrego-me a ele com cega confiança, e, se razão mais prudente do que a minha me aconselha que leve um guarda-sol, indigno-me de que me suponham capaz de repelir um amigo!
O que me tem acontecido mil vezes, graças à minha delicadeza, é ver-me abandonado pelo amigo, quando menos o espero, e acossado pela chuva.
Ora foi isto o que mais uma vez me sucedeu nessa formosa manhã.
Saíra de casa alegre e sem receios e, em meio do caminho, o meu inconstante amigo despediu-se sem cerimónia, puxando para os olhos a gola de um espesso e negro capote de nuvens, e este, que vinha malhado de longa jornada, começou a escorrer sobre a terra.
Passava eu na Rua do Almada, perto do Campo de Santo Ovídio, quando as primeiras gotas começaram a cair.
Não ver o sol e ver a chuva -foi o bastante para se me virar o espírito do avesso.
"Pois apanho-a!... - concluí eu mentalmente. -Onde diabo me hei-de eu meter? ... "
Mandei os olhos adiante em procura de um portal cómodo, e eles, depois de correrem um pouco, estacaram diante de uma casa, a cuja janela flutuava uma bandeira vermelha com a inscrição em letras brancas: "LEILÃO."




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Hesitei antes de entrar; mas entrei.
Vou agora dizer-lhes porque hesitei.
Hesitei, porque as peripécias de um leilão produzem em mim o mesmo efeito que produzem o cheiro da pólvora e o ardor da refrega no ânimo do recruta. À vista do combate, ou, para melhor dizer, teima dos licitantes, animo-me, impaciento-me, encarno-me num dos contendores, sofro e odeio com ele e estou numa tortura, se noto que o objecto da minha simpatia começa a fraquear!
Chegado a este ponto, se o meu homem cede, abafo um rugido de cólera e, lançando um olhar odiento ao que se julga senhor do campo, murmuro por entre dentes:
"Pois não a levas barata... Deixa estar que eu arranjo-te!..."
E aí começo eu então a fazer tolices, a debater-me como um furioso, até que o leiloeiro deixa cair o martelo e me pergunta com irónica amabilidade:
"O nome do senhor?..."
Dado este primeiro passo, se alguém, consciencioso, se lembra de me fazer notar a asneira, desnorteio, vou para diante e... é contar que, no dia seguinte, tenho em casa, por preço fabuloso, uma feira de objectos, a que não tenho destino a dar!
lá vêem que um homem assim organizado deve fugir de leilões.
Mas... a chuva caía... entrei, depois de exigir

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de mim próprio a promessa de não comprar coisa alguma!
Subi.
O leilão ainda não tinha começado.
Não sei se o leitor terá assistido, unicamente como espectador, por não ter que fazer, a um leilão?...
Este, que eu presenciei, por assim dizer, contra vontade, era o da mobília de uma casa de gente rica.
Peguei num catálogo...
Era feito o leilão a requerimento dos credores à massa falida de um homem, que morrera, havia pouco, deixando os seus negócios num estado deplorável.
A casa estava atulhada de gente.
Havia de tudo naquela multidão!
No primeiro plano os adeleiros-raça mal
estudada e pouco conhecida-que farejam um
espólio, como os corvos, de longe, as exalações
do cadáver.
Palavreado cínico, olhos -de cobiça, dedos queimados pelo cigarro, com as unhas orladas de negro, uma espécie de instinto, que, à falta de conhecimentos, lhes faz descobrir o quadro de mestre e rejeitara cópia sem valor, o livro clássico entre os apreciáveis como papel de embrulho - eis, em geral, o adeleiro do Porto.
A par destes, via-se, afectando indiferença, o verdadeiro amador, o que, no fim de vinte anos de fadigas e decepções, encontra o que deseja e
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vê em cada um dos circunstantes um adversário, um maníaco como ele.
Analisando miudamente, com escrúpulo, cruzavam-se os chefes de família, procurando um móvel que as esposas lhes pedem vai em dois anos, e folgavam com a ideia da agradável surpresa que lhes iam causar.
Consultando os magros haveres, mudando de cor a cada instante, noivo simpático, pássaro ansioso por perder a sua liberdade de solteiro, espera -pois está na quadra em que tudo é esperança! - espera que a sua estrela lhe fará ali encontrar parte do que precisa, para guarnecer um Linho digno dos seus amores.
Juntem a todos esses, e a quantos ali estavam para um ou outro fim, os que entraram para ver, por ócio, para fugir, como eu, da chuva, e farão os leitores ideia da gente que ali encontrei.
Em má hora subi!
Tristemente impressionado pela deserção do sol, o meu espírito enegrecera-se, e começara de analisar aquela gente com olhos de má vontade.
O que via... irritava-me, afligia-me, transtornava-me a harmonia dos nervos, obrigava-me a reparos e reflexões, que até então jamais me lembrara de fazer.
Pouco e pouco apoderou-se de mim profunda melancolia, e acabei por considerar aquela casa um templo e aqueles homens outros tantos profanadores!
E era um templo, era!...



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e eram profanadores!...
É templo, sim, o lar doméstico, onde sob as vistas de Deus, respeitando o próximo, aplaudido pela sua consciência, o chefe de família com a alma cortada de amarguras, com a mente povoada de cuidados, encontra na virilidade do seu coração o sorriso aprovador, que diz ostensivamente à esposa: "És uma boa mãe!", que alenta os filhos na luta da vida; mas que serve, sobretudo, para encobrir uma prece: "Conservai-me, meu Deus, para esta gente, que só me tem a mim para os amparar!
E eram profanadores aqueles homens que calcavam as alcatifas; que pisavam e avaliavam num segundo o que o mísero juntara ao cabo de longos anos de trabalho!
A minha casa!... Quem há aí que não sinta um dulcíssimo prazer ao proferir estas palavras?!
A minha casa!... O cofre onde encerramos quanto nos torna aprazível a existência!
A minha casa!... O lugar onde, se somos solteiros, temos a certeza de encontrar o conselho de um pai, as carícias de nossa mãe, o ouvido de nossos irmãos atentos às nossas confidências, uns poucos de corações animados por um único desejo-a nossa felicidade!
A minha casa!... O reino onde, se casados, exercemos o poder absoluto, mas baseado no amor; onde a esposa nos exige a sua parte de dor em troca das alegrias que nos dá; onde os anjos louros, em que nos vemos renascer, nos



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dão um pretexto para vivermos, e enchem, com a voz e com o riso, o lar doméstico de cânticos e luz!
A minha casa! - Não!... Esta frase não é vã para ninguém!
O homem que nunca teve família, o solteirão, vê na sua casa o único refúgio onde está à vontade; onde o seu desculpável egoísmo se sente bem; onde não vem procurá-lo o ruído dos males alheios, a ele que neste mundo só julga dignos de lástima os próprios males!
O solitário, o desgraçado que teve família e a viu desaparecer pouco e pouco, esse mesmo! -só está bem em sua casa!
Não há canto, móvel, livro, quadro, que lhe não conte uma história, que lhe não traga aos olhos uma lágrima, filha de um sorriso de outras eras!
Oh! sim!... Eram profanadores aqueles homens que atiravam a ponta -do -cigarro para cima dos tapetes da sala, onde a esposa sabia, com um sorriso, proibir ao marido que fumasse; que maculavam com os dedos sujos aquelas cortinas, que nunca a lavadeira conseguira trazer de forma a satisfazer a senhora; que faziam gemer as molas do sofá, até então escrupulosamente coberto pela sua capa de lona!
Revoltava-me sobretudo a linguagem deles!
Causavam-me asco os ditos cínicos, os olhares estupidamente maliciosos, inspirados pela vista de certos objectos; mas o que sobretudo






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me repugnava, era a sua presença no quarto nupcial, onde o retrato da dona da casa, que se haviam esquecido de retirar, parecia contemplar com humilhado assombro toda aquela gente, que assim estava viciando a atmosfera, em que o ser, que representava, vivera até então ali, naquele santuário de virtudes domésticas!
Contristado por estas ideias, ia retirar-me, quando prolongado rumor e duas pancadas me anunciaram que ia começar o leilão.
-Vamos, meus senhores!... Vamos a isto!... Há poucas pechinchas destas!...
Senti uma dolorosa impressão, ouvindo esta primeira amostra do espírito brutal e soez do leiloeiro.
- Já era tempo!... Minha rica filha!... Vamos a ver como isto corre... -disse de repente alguém a meu lado.
Voltei-me.
Era uma mulher de cinquenta anos, aproximadamente.
Trajava de luto. O rosto emoldurado no lenço de seda preta, de sob o qual se escapavam dois ou três anéis de cabelos grisalhos, era uma destas fisionomias enérgicas, resolutas, de feições pronunciadas, que revelam uma alma rijamente temperada.
Há mais destas fisionomias entre as mulheres
do povo, e sobretudo do povo das aldeias, do
que entre as de outra qualquer posição social.
Almas tais, sejam quais forem as tormentas







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que lhes agitam o oceano da vida, sobrenadam sempre à superfície.
Sustenta-as uma vontade superior, um fatalismo sublime que não é da terra, que é o fio invisível que as prende ao céu e que tem por divisa: "Deus o quer!... seja feita a sua vontade! ... "
Arde-lhes o lar?... Morre-lhes um filho?... Leva-lhes Deus o marido, o guia, o ganha-pão?...
Paciência!... Deus assim o quis!... Seja feita a sua vontade!... Era ele quem trabalhava para os filhos?... Trabalhará ela agora.
E o que se concebeu, assim, no meio da -dor, sem hesitar - põe-se em prática no dia seguinte, naturalmente, sem sacrifício, por devoção ainda mais do que por dever!
E os olhos que até ontem procuravam incertos e receosos os do marido, para saber o que se devia fazer, contemplam confiadamente o futuro e se, por acaso, uma nuvem negra surge no horizonte, cravam-se no céu e a consciência murmura, resignada e quase alegre: "Será o que Deus quiser!... seja feita a sua vontade!..."
Estas almas, repito, resistem a todas as tempestades, porque as escora a crença!
Hoje como ontem, amanhã como hoje, desde o berço até à campa, em tudo, por tudo e para tudo - Deus!
A boa mulher enxugava apressadamente os olhos, quando me voltei ao ouvir-lhe a voz.
- Vossemecê era cá de casa?... -perguntei eu.

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-Era e sou... sou criada daquela santa!... - respondeu a velha, apontando para o retrato, e enxugando mais duas lágrimas.
Receoso de aumentar aquela comoção, calei-me.
- Cinco mil e seiscentos!... e seiscentos!... e seiscentos!... Vá, meus senhores!... Mais... vale a pedra!... - dizia nesse instante o leiloeiro.
- O que é que está agora, meu senhor?... - perguntou-me a criada, que em vão tentava, pondo-se em bicos de pés, ver o objecto em praça.
- É o lavatório... -disse eu, depois de verificar.
-Cinco mil e seiscentos!... O lavatório!... corja de tratantes!... - rosnou a velha, chorando.
- Um par de jarras, meus senhores! ... Quanto oferecem V. S.as por um par de jarras? ... Quanto oferecem? - bradou o leiloeiro.
- Ora espera... - acudiu a velha - sempre quero ver por quanto vão as jarras...
- Dez tostões!... - exclamou uma voz de entre a multidão.
- Grandessíssimo judeu!... Dez tostões!... - continuou a boa da criada.
-Dez tostões!... Dez tostões!... Há quem dê mais? Dez tostões!... Dez tostões - duas... Dez tostões!... três... Ali ao senhor... Como se chama V. S.a?... -perguntou o leiloeiro.
- Costa...
-Ali ao Sr. Costa!...




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-Desalmados!... súcia de marotos!... - murmurou a mulher indignada. -Dez tostões por aquelas jarras!... Olhe que fui eu mesmo que as fui pagar ao João Pinto... Custaram sete mil e duzentos, meu senhor!... cega seja eu, se isto não é verdade!...
-Então... vossemecê que quer, minha santa?... - disse eu, na ideia de a consolar.
- O que quero?... Quero que esta gente tenha mais consciência!... Se assim continua, hão-de ser boas as sobras!... Minha querida senhora!... -atalhou a velha.
- Parece-me muito amiga dela... -observei.
-De quem?... Da minha senhora?... Quem lhe havia de querer mais do que eu, se fui eu que a criei, àquela rica filha!... exclamou a triste, indicando-me de novo o retrato.-Desde que ela nasceu, nunca mais a larguei... Não há duas como aquela!... E quem Deus levou... o Sr. Magalhães?... Aquilo é que era um santo!
- E ficaram filhos? - perguntei.
- Um, meu senhor!... Chama-se Zezinho... Meu rico anjinho! A estas horas já tens chamado mais de vinte vezes pela tua Rita!...
-Ah! vossemecê chama-se Rita?...
- Uma sua criada, meu senhor!... O senhor parece-me pessoa de bem; logo engracei com o senhor!... Tenho pena que não conheça o Sr. Zezinho!... Aquilo é que é mesmo uma feitiçaria!... Que, também, se V. S.a já o viu alguma vez, decerto se lembra dele!... Ele muito gordinho, com

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os olhinhos muito azuis, a boquinha muito pequenina, o cabelo... E o cabelo!?... O cabelo muito lourinho, aqui... pelos ombros... todo aos caracóis... Eu nunca vi coisa assim!... E é que, de não estar acostumada a ver-me tanto tempo sem ele, parece-me que já não estou boa cá de dentro!
E os olhos daquela santa criatura choravam
E riam a um tempo, fazendo-me a descrição da criança, a quem ela respeitosamente chamava o Sr. Zezinho!
- E então... a sua senhora... o que faz agora?... ficou em más circunstâncias?... - perguntei eu.
-Coitadinha! ... Olhe, meu senhor... Ela, quando casou, pouco tinha de seu... Que o pai dela, o Sr. Morais - Deus te tenha lá! - teve sempre a sua casinha muito farta; mas... isto de empregados... V. S.a bem sabe... afinal, como
E outro que diz, se bem o ganham bem o gastam. Ora... - continuou -a velha - o Sr. Magalhães tinha bastante, e ia muito bem com a sua vida; mas... parece que lá uns amigos dele, do Brasil, quebraram... ou fugiram... Eu nunca entendi bem como aquilo foi... O que sei é que ele parece que perdeu muito dinheiro com eles, e foi isso que o matou!... Entrou a apaixonar-se muito... a secar, a secar, a secar... sempre triste
* por fim... acamou e... morreu!...
A voz da velha mal se ouvia ao proferir as últimas palavras.

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- E onde está agora a viúva?... -indaguei com sentido interesse.
-Está com a irmã, meu senhor!... Mas... coitadinha!... A Sr.a D. Amelinha é muito amiga dela, mas... não pode!... O homem está estabelecido há pouco tempo, de maneira que... é muito... é muito peso para eles!... Vontade não lhes falta; mas... Coitados! não podem!... E é isso o que mais mortifica a minha rica filha!... Eles, vai em cinco meses que escreveram para o Brasil, ao Sr. Antoninho, e estamos todos os dias à espera da resposta... A resposta vem... Lá isso vem!... Ele era muito bom menino ... e muito, amigo das irmãs, de maneira que, qualquer dia, não deixa de vir por aí carta e mesmo dinheiro... Ah! Lá disso estou eu certa!
Neste meio-tempo fora continuando a venda, sem que a criada e eu lhe prestássemos atenção.
- Mas... vossemecê deve estar aqui a afligir-se muito - observei eu. -Há-de, com certeza, ter muita pena de ver ir tudo isto, uma coisa para cada lado?...
-Tenho, tenho, meu senhor!... -respondeu a Sr.a Rita, levando de novo o lenço aos olhos.
-Então, porque não vai para casa?... Olhe que, por estar aqui, não vão as coisas mais bem vendidas...
-Isso sei eu, meu senhor... Isso sei eu!... E olhe que tenho bem que fazer em casa... e está lá o Sr. Zezinho sem mim, que é o que mais




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me custa... É o mesmo!... É mais meia hora!... Quero ver se levo a minha avante! É cá uma coisa... uma lembrança que eu tive...-acrescentou a velha, em resposta à curiosidade que me leu nos olhos.
- Basta!... Olhe que eu não quero saber os seus segredos! - acudi eu, sorrindo.
-Não é segredo... é uma lembrança! ... O senhor verá... se se demorar, há-de ver o que é...
"Não... embora já eu não vou, sem saber o que te prende aqui"-disse de mim para mim.
E esperei, ralado de impaciência, o momento de descobrir a intenção daquela santa criatura.
Mais de uma hora durou ainda aquele meu martírio.
A delicadeza dizia-me que não devia ser indiscreto, ao passo que a curiosidade me impelia a surpreender o segredo da criada.
Poucos objectos restavam já por vender, e, à medida que o leilão se aproximava do seu termo, os olhos da venda ora brilhavam febris de ansiedade, ora desmaiavam desalentados.
-Um berço de vinhático!... Está em praça o berço!... Quanto oferecem pelo berço?!... - bradou o leiloeiro.
-Ele não vale dez réis!... Está bom para o lume!... - disse uma voz.
-Pois estará... - continuou o leiloeiro. Mas quanto oferecem V. S.as pelo berço?... -Ponha lá... dois tostões... -exclamou um
adeleiro, depois de breve hesitação.

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-Doze vinténs!... - gritou alguém a meu lado.
Era a velha!... O berço era a coisa... a lembrança inspirada pela sublime delicadeza daquele coração de mulher!
Ou porque embirrasse com a voz da criada, ou porque tivesse aplicação a dar ao berço, o adeleiro cobriu a oferta e, animando-se pouco e pouco, transformou o modesto berço em verdadeiro casus belli.
Eram tão francas e pronunciadas as impressões que a cada instante se desenhavam no rosto da boa mulher, que eu lia nela como em livro aberto.
Com a mão direita metida no bolso do vestido, os olhos ansiosos, os lábios trémulos, via-se que a triste contava, apalpando-o, o dinheiro que tinha reservado para aquela aplicação, ao passo que mentalmente dizia: "Está aqui... está a não chegar!... "
- Dezanove tostões!... - clamou o pregoeiro.
- E um vintém... - disse em voz trémula a Sr Rita.
- Mil novecentos e vinte!... - confirmou ele.
-Ponha lá... dois mil-réis!... - disse o adeleiro.
- E um vintém... -volveu a mulher.
-Meia libra!... - exclamou, irado, o contendor.
-Meia libra!... meia libra!... Olhe que está em meia libra, minha senhora!... - disse o leiloeiro.



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- Meia libra!... uma; meia libra!... duas; meia libra!...
-Três mil-réis!... - exclamei. (Chegara-me o cheiro da pólvora.)
- Três mil-réis!... três mil-réis... Que diz, senhor?... Olhe que são três mil-réis... - insistiu o leiloeiro, voltando-se para o meu antagonista.
- Deixe-o ser!... Que o leve o diabo e leva um bom mono! - respondeu o adeleiro com mau modo.
A velha, apenas o lanço cobrira o valor da soma que trazia, havia-se deixado cair sobre uma cadeira, escondendo o rosto nas mãos.
- A quem devo lançar o berço?... - perguntou o escrevente do leiloeiro.
-Ali à Sr.a Rita!... - respondi.
Em vão tentei evitar os agradecimentos da boa mulher.
Ouvindo a minha resposta, ergueu-se de repente e procurou beijar-me as mãos à força.
-Não consinto, meu senhor!... Três mil-réis... é muito!... Eu sou uma pobre... e não me envergonho de receber uma esmola... mas... aceite o senhor a meia libra que eu trazia... bem basta o resto!... Ora receba, meu senhor!
-Deixe-se disso, Sr a Rita!... Deixe-se disso!... - atalhei comovido. - Guarde isso para um saiote!... Tem o berço, não tem?... Vá-se embora, santinha!... Vá-se embora!... Olhe que está o Sr. Zezinho à espera!...


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-Está bem, meu senhor!... seja pelo divino amor de Deus!... Se V. S.a soubesse!... Aquele bercinho... antes de ser do menino... foi da senhora!... da minha rica filha!... Veja o senhor se eu lhe terei amor!...
E a velha, pondo o berço à cabeça, desceu rindo e chorando a escada daquela casa onde vivera feliz!
Desde então, escondo-me todas as vezes que a vejo, porque me incomodam os francos protestos do seu reconhecimento!
Possa o anjo louro, que hoje ocupa o principal lugar naquele coração, conservar eternamente as asas cândidas e abrigar debaixo delas os derradeiros dias da santa mulher, que o ama como filho!
FIM
ÍNDICE
Págs.
O Milagre 7
A Sentença da Tia Angélica 23
A Boneca 41
A Doida de Tagilde 59
Meigo 83
A Quina de Espadas 111
A Figa de Azeviche 157
O Embarcadiço 177
O Cruzeiro da Via-Sacra 249
O Berço 281

ERVING GOFFMAN
ESTIGMA - NOTAS SOBRE A MANIPULAÇÃO DA IDENTIDADE DETERIORADA
ZAHAR EDITORES
RIO DE JANEIRO
1975

Título original:
Stigma - Notes on the Management of Spoiled Identity, publicado
por Prentice-Hali, mc., Englewood Cliffs, Nova Jersey, EUA.
Copyright (c) 1963 by Prentice-Hali, me.
Capa de
É aiCO
1975
Direitos para a língua portuguesa adquiridos por
ZAHAR EDITORES
Caixa Postal 207, ZC-00, Rio
que se reservam a propriedade desta versão
Impresso no Brasil

ESTIGMA E IDENTIDADE SOCIAL .
Noções Preliminares
O Igual e o "Informado"
A Carreira Moral
CONTROLE DE INFORMAÇÃO E IDENTIDADE PESSOAL
O Desacreditado e o Desacreditável
A Informação Social
Visibilidade
A Identidade Pessoal
Biografia
Os Outros como Biógrafos
O Encobrimento
Técnicas de Controle de Informação
O Acobertamento
ALINHAMENTO GRUPAL E IDENTIDADE DO Eu
Ambivalência
As Apresentações Profissionais
Alinhamentos Intragrupais
Alinhamentos Eccogncpais
A Política de Identidade
O Eu E SEU Ouwo
Desvios e Normas
O Desviante Normal
Estigma e Realidade
PREFÁCIO
Há mais de uma década vem sendo apresentada uma quantidade razoável de trabalhos sobre estigma - a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena.1 A este trabalho foram acrescentados, vez por outra, estudos clínicos úteis2 e seu quadro de referência aludiu, continuamente, a novas categorias de pessoas.3
Neste ensaio4 desejo rever alguns trabalhos sobre
o estigma, especialmente alguns trabalhos populares, para
ver o que. eles podem fornecer à sociologia. Será realizado um exercício no sentido de separar o material sobre
o estigma de fatos vizinhos, de mostrar como este mate-
rial pode ser descrito, de uma forma econômica no inte
Mais especialmente entre os sociólogos, E. Lemert; entre os psicólogos, K. Lewin, F. Heider, T. Dembo, R. Baker e B. Wright. Ver especialmente B. Wright, Phsica1 Disability - A Psychological Approach (Nova York, Harper & Row, 1960), que me forneceu várias indicações para citação e muitas referências úteis.
2 Por exemplo, F. Macgregor et ai., Facial De! ormitie and
Platic Surgery (Springfield, III.: Charles C. Thomas, 1953).
3 Por exemplo, C. Orbach, M. Bard e A. Sutherland, "Fears
nd Defensive Adaptations to the Loss of Anal Sphincter Control",
Psychoanalitical Review, XLIV (1957), 121-175.
Uma versão resumida pode ser encontrada em M. Greeablatt,
D. Levinson e R. Williams, The Patient and the Mental Hospital (Nova York: Free Press of Glencoe, 1957), pp. 507-510. Uma versão posterior foi apresentada na Maciver Lecture pronunciada na Southern Sociological Societ'y, Louisville, Kentucky, em 13 de abril de 1962. O auxílio para a versão atual foi recebido do Center for the Study of Law and Society, Universidade da Califórnia, Berkeley, sob a forma de um grant do Presideut's Committee ou Juvenile Delin-. uency.
8 ESTIGMA
nor de um único esquema conceptual, e de esclarecer a relação do estigma com a questão do desvio. Essa tarefa me permitirá utilizar um conjunto específico de conceitos: aqueles relacionados à "informação social", a informação que o indivíduo transmite diretamente sobre si.
Querida Senhorita Lonelyhearts : *
Tenho 16 anos e não sei como agir. Gostaria muito que a senhora me aconselhasse. Quando eu era criança não era muito ruim porque me acostumei com os meninos do quarteirão que caçoavam de mim, mas agora eu gostaria de ter namorados como as outras meninas e sair nas noites de sábado, mas nenhum rapaz sairá comigo porque nasci sem nariz - embora eu dance bem, tenha um tipo bonito e meu pai me compre lindas roupas.
Passo o dia inteiro sentada, me olhando e chorando. Tenho um grande buraco no meio do meu rosto que amedronta as pessoas e a mim mesma, e não posso, portanto, culpar os rapazes por não quererem sair comigo. Minha mãe me ama muito, mas chora muito quando olha para mim.
Que fiz eu para merecer um destino tão terrível? Mesmo que eu tivesse feito algumas coisas ruins, não as fiz antes de ter um ano de idade, e eu nasci assim. Perguntei a papai e ele disse que não sabe, mas que pode ser que eu tenha feito algo no outro mundo, antes de nascer, ou que eu esteja sendo punida pelos pecados dele. Não acredito nisto porque ele é um homem muito bom. Devo me suicidar?
Sinceramente,
Desesperada
(Extraído de Miss Lonelyhearts, de Nathanael West pp. 14-15. Copyright 1962 por New Directions. Reimpresso por permissão de New Directions, Publishers).
(*) N. do T. - Corações Solitários.

1. ESTIGMA e IDENTIDADE SOCIAL
Os gregos, que tinham bastante conhecimento de recursos visuais, criaram o termo estigma para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um escravo, um criminoso ou traidor - uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que devia ser evitada, especialmente em lugares públicos. Mais tarde, na Era Cristã, dois níveis de metáfora foram acrescentados ao termo: o primeiro deles referia-se a sinais corporais de graça divina que tomavam a forma de flores em erupção sobre a pele; o segundo, uma alusão médica a essa alusão religiosa, referia-se a sinais corporais de distúrbio físico. Atualmente, o termo é amplamente usado de maneira um tanto semelhante ao sentido literal original, porém é mais aplicado à própria desgraça do que à sua evidência corporal. Além disso, houve alterações nos tipos de desgraças que causam preocupação. Os estudiosos, entretanto, não fizeram muito esforço para descrever as precondições estruturais do estigma, ou mesmo para fornecer uma definição do próprio conceito. Parece necessário, portanto, tentar inicialmente resumir algumas afirmativas e definições muito gerais.
.7') oções Preliminares
A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias. Os ambientes sociais estabelecem as categorias de
12 ESTIGMA
ESTIGMA E IDENTIDADE SocIAl. 13
pessoas que têm probabilidade de serem neles encontradas. As rotinas de relação social em ambientes estabelecidos nos permitem um relacionamento com "outras pessoas" previstas sem atenção ou reflexão particular. Então, quando um estranho nos é apresentado, os primeiros aspectos nos permitem prever a sua categoria e os seus atributos, a sua "identidade social" - para usar um termo melhor do que "status social", já que nele se incluem atributos como "honestidade", da mesma forma que atributos estruturais, como "ocupação".
Baseando-nos nessas preconcepções, nós as transformamos em expectativas normativas, em exigências apresentadas de modo rigoroso.
Caracteristicamente, ignoramos que fizemos tais exigências ou o que elas significam até que surge uma questão efetiva. Essas exigências são preenchidas? nesse ponto, provavelmente, que percebemos que durante todo o tempo estivemos fazendo algumas afirmativas em relação ãquilo que o indivíduo que está à nossa frente deveria ser. Assim, as exigências que fazemos poderiam ser mais adequadamente denominadas de demandas feitas "efetivamente", e o caráter que imputamos ao indivíduo poderia ser encarado mais como uma imputação feita por um retrospecto em potencial - uma caracterização "efetiva", uma identidade social virtual. A categoria e- os atributos que ele, na realidade, prova possuir, serão chamados de sua identidade social real.
Enquanto o estranho está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele tem um atributo que o torna diferente de outros que se encontram numa categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até, de uma espécie menos desejável - num caso extremo, uma pessoa completamente má, perigosa ou fraca. Assim, deixamos de considerá-lo criatura comum e total, reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída. Tal característica é um estigma, especialmente quando o seu efeito de descrédito é muito grande - algumas vezes ele também é considerado um defeito, uma fraqueza, uma desvantagem - e constitui uma discrepância específica entre a identidade social virtual e a identidade social real. Observe-se que há outros tipos de discrepância entre a identidade social real e a virtual como, por exemplo, a que nos leva a reclassificar um indivíduo antes situado numa categoria socialmente prevista, colocando-o numa categoria dife rent
mas igualmente prevista e que nos faz alterar positivamente a nossa avaliação. Observe-se, também, que nem todos os atributos indesejáveis estão em questão, mas somente os que são incongruentes com o estereótipo que criamos para um determinado tipo de indivíduo.
O termo estigma, portanto, será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele não é, em si mesmo, nem honroso nem desonroso. Por exemplo, alguns cargos na América obrigam os seus ocupantes que não tenham a educação universitária esperada a esconderem isso; outros cargos, entretanto, podem levar os que os ocupam e que possuem uma educação superior a manter isso em segredo para não serem considerados fracassados ou estranhos.,'De modo semelhante, um garoto de classe média pode não ter escrúpulos de ser visto entrando numa biblioteca; entretanto, um criminoso profissional escreve:
"Lembro-me de que, mais de uma vez, por exemplo, ao entrar numa biblioteca pública perto de onde eu morava, olhei em torno duas vezes antes de realmente entrar, para me certificar que nenhum de meus conhecidos estava me vendo." 1
Assim, também, um indivíduo que deseja lutar por seu país pode esconder um defeito físico por recear que o seu estado físico seja desacreditado. Posteriormente, ele mesmo, amargurado e tentando sair do Exército, pode conseguir admissão no hospital militar, onde se exporia ao descrédito se descobrissem que não tem realmente qualquer doença grave? 'Um estigma é, então, na realidade, um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo, embora eu proponha a modificação desse conceito, em parte porque há importantes atributos que em quase toda a nossa sociedade levam ao descrédito.'
1 T. Parker e R. Alierton, The Courage of His Convietion.s (Londres, Hutchinson & Co., 1962), p. 109.
2 Em relação a esse ponto, ver a crítica feita por M. Meltzer, "Countermanipulation through Malingering", em A. Biderman e
H. Zimmer, eds., The Manipulation of Human Behaviour (Nova
York: John Wiley & Sons, 1961), pp. 277-304.
14 ESTIGMA
ESTIGMA E IDENTIDADE SOCIAl.. 15
O termo estigma e seus sinônimos ocultam uma dupla perspectiva: Assume o estigmatizado que a sua característica distintiva já é conhecida ou é imediatamente evidente ou então que ela não é nem conhecida pelos presentes e nem imediatamente perceptível por eles? No_o prie meiro caso, está-se lidando com a condição do desacreditado, no segundo com a do clesacreditável. Esta é uma diferença importante, mesmo que um indivíduo estigmatizado em particular tenha, provavelmente, experimentado ambas as situações. Começarei com a situação do desacreditado e passarei, em seguida, à do desacreclitável, mas nem sempre separarei as duas.
Podem-se mencionar três tipos de estigma nitidamente diferente. E p_rimeir lugar, há as abominações do corpo - as várias deformidades físicas. as culpas de caráter individual, percebidas corno - vontade fraca, paixões tirânicas ou não naturais. crenças falsas e rígidas,' desonestidade, sendo essas inferidas a partir de relatos conhecidos de, por exemplo, distúrbio mental, prisão, vício, alcoolismo, homossexualismo, desemprego, tentativas de suicídio e comportamento político radical. Finalmente, há os estigmas tribais de raça, nação e relijTào, jiie podéiii ser transmitidos através de linhagem e contaminar por igual todos os membros da üma família.3 Em todos esses exemplos de estigma, entretanto, inclusive aqueles que os gregos tinham em mente, encontram-se
as mesmas características sociológicas: um individuo gue poderia ter sido facilmente recebido fi reação social quotidiana possui um traço que pode-se impor à atenção e afastar aqueles que ele encontra, destruindo a possibilidade de atenção para outros atributos seus.possi gUg'n2a i,una característica diferente da que havíamos previsto. Nós e os que não se afastam negativamente das expectativas particulares em questão serão por mim chamados de normais. .
As atitudes que nós, normais, temos com uma pessoa com um estigma, e os atos que empreendemos em relação a ela são bem conhecidos na medida em que são ai
a Na história recente, especialmente na Inglaterra, o status de classe baixa funcionava como um importante estigma tribal. O pecado dos pais, ou pelo menos seu ambiente, eram pagos pela criança se ela ultrapassava, de maneira inadequada, a sua condição social inicial. A manipulação do estigma de classe é, naturalmente, um tema central do romance inglês.
respostas que a ação social benevolente tenta súavizar e melhorar. Por definição, é claro, acieditanosqua a1gu com um estigna não seja completamente humano. Com base nisso, fazemos váriosti de discriminações, atravês das quais efétivamente, e muitas vezes sem pensar, reduzimos suas chances de vida. Construímos uma teoria do estigma, uma ideologia para explicar a sua inferioridade e dar conta do perigo que ela representa, racionalizando algumas vezes uma animosidade baseada em outras diferenças, tais como as de classe socia1.'Utiliza- mos termos específicos de estigma como aleijado, bastardo, retardado, em nosso discurso diário como fonte de metáfora e representação, de maneira característica, sem pensar no seu significado original.5
Tendemos a inferir uma série de imperfeições a partir da imperfeição original 6 e, ao mesmo tempo, a imputar ao interessado alguns atributos desejáveis mas não desejados, freqüentemente de aspecto sobrenatural, tais como "sexto sentido" ou "percepção" :
"Alguns podem hesitar em tocar ou guiar o cego, enquanto que outros generalizam a deficiência de visão sob a forma de uma gestalt de incapacidade, de tal modo que o indivíduo grita com o cego como se ele fosse surdo ou tenta erguê-lo como se ele fosse aleijado. Aqueles que estão diante de um cego podem ter uma gama enorme de crenças ligadas ao estereótipo. Por exemplo, podem pensar que estão sujeitos a um tipo únco de avaliação, supondo nue o indivíduo cego recorre a canais específicos de informação não disponíveis para os outros." 8
Além disso podemos perceber a sua resposta defensiva a tal situação como uma expressão direta de seu defeito e, então, considerar os dois, defeito e resposta,
D. Riesman, "Some Observations Concerning Marginality", Phylon, Segundo Trimestre, 1951, 122.
O caso em relação aos pacientes mentais é apresentado por T. J. Scheff num trabalho a ser lançado.
6 Em relação aos cegos, ver E. Henrich e L. Kriegel, eds., Experime'nts in Survival (Nova York: Association for the Aid of Crippled Children, 1961), pp. 152 e 186; e H. Chevigny, My Eyes Have a Colci Nose (New Have, Conn.: Yale University Press, paperbound, 1962), p. 201.
Segundo uma mulher cega, "fui solicitada a examinar uns perfume, presumivelmente porque, sendo cega, meu olfato era super- aguçado". Ver T. Keitlen (com N. Lobsenz), Farewell te Fear (Nova
York: Avon, 1962), p. 10.
8 A. G. Gowman, The War Blind iii American Social Structu're (Nova York: American Foundation for the Blind, 1957), p. 198.
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apenas como retribuição de algo que ele, seus pais ou sua tribo fizeram, e, conseqüentemente, uma justificativa da maneira como o tratamos.9
gora passemos do normal à pessoa em relação à qual ele é normal. Parece, em geral, verdade que os membros de uma categoria social podem dar muito apoio a um padrão de julgamento que, eles e outros concordam, não se aplica diretamente a eles. Assim, um homem de negócios pode exigir das mulheres um comportamento feminino ou um procedimento ascético por parte dos monges, e não conceber a si próprio como pessoa que devesse seguir qualquer um desses estilos de conduta. A distinção reside entre o cumprir uma norma e o simplesmente apoiá-la. A questão do estigma não surge aqui, mas só onde há alguma expectativa, de todos os lados, de que aqueles que se encontram numa certa categoria não deveriam apenas apoiar uma norma, mas também cumpri-la.
*Parece também possível que um indivíduo não consiga viver de acordo com o que foi efetivamente exigido dele e, ainda assim, permanecer relativamente indiferente ao seu fracasso; isolado por sua alienação, protegido por crenças de identidade próprias, ele sente que é um ser humano completamente normal e que nós é que não somos suficientemente humanos.4Ele carrega um estigma, mas não parece impressionado ou arrependido por fazê.lo. Essa possibilidade é celebrada em lendas exemplares sobre os menonitas, os ciganos, os canalhas impunes e os judeus muito ortodoxos.
Na América atual, entretanto, os sistemas de honra separados parecem estar decadentes. O indivíduo estigmatizado tende a ter as mesmas crenças sobre identidade que nós temos; isso é um fato central. Seus sentimentos mais profundos sobre o que ele é podem confundir a sua sensação de ser uma "pessoa normal", um ser humano como qualquer outro, uma criatura, portanto, que merece um destino agradável e uma oportunidade legítima. 1° (Na realidade, não obstante a forma em que se
9 Para exemplos, ver Macgregor e outros; op. cit., do começo ao fim.
lo A noção de "ser humano normal" pode ter sua origem
na abordagem médica da humanidade, ou nas tendências das organizações burocráticas em grande escala, como a Nação-Estado, de tratar todos os seus membros como iguais em alguns aspectos. Quaisquer que sejam suas origens, ela parece fornecer a repre expresse
ele baseia suas reivindicações não no que acredita seja devido a todas as pessoas, mas apenas a todas as pessoas de uma categoria social escolhida dentro da qual ele inquestionavelmente está incluído, como, por exemplo, qualquer indivíduo de sua idade, sexo, profissão etc.). Além disso ainda pode perceber geralmente de maneira bastante correta que, não importa o que os outros admitam, eles na verdade não o aceitam e não estão dispostos a manter com ele um contato em "bases iguais".'1 Ademais, os padrões que ele incorporou da sociedade maior tornam-no intimamente suscetível ao que os outros vêem como seu defeito, levando-o inevitavelmente, mesmo que em alguns poucos momentos, a concordar que, na verdade, ele ficou abaixo do que realmente deveria ser. A vergonha se torna uma possibilidade central, que surge quando o indivíduo percebe que um de seus próprios atributos é impuro e pode imaginar-se como um não-portador dele.
A presença próxima de normais provavelmente reforçará a revisão entre auto-exigências e ego, mas na verdade o auto-ódio e a autodepreciação podem ocorrer quando somente ele e um espelho estão frente a frente:
"Quando finalmente me levantei ... e aprendi a caminhar novamente, apanhei um espelho e me dirigi a um outro maior, fixo, para me olhar, sozinha. Eu não queria que ninguém soubesse como me sentia ao me ver pela primeira vez. Mas não houve barulho nem choro; não gritei de raiva quando me vi. Simplesmente fiquei estarrecida. Aquela pessoa no espelho não pocleriu ser eu. Eu me sentia por dentro como uma pessoa comum, feliz, saudável - não como aquela que eu via! Ainda assim, quando virei o rosto para o espelho, lá estavam meus préprios olhos olhando para trás, ardentes de vergonha... quando não chorei nem tampouco fiz qualquer barulho, tornou-se impossível para mim falar sobre isto com alguém, e a confusão e o pânico provocados por minha descoberta foram trancados dentrõ de mim para encará-los sozinha, durante muito tempo ainda." 12
sentação básica por meio da qual os leigos usualmente se concebem. De maneira interessante, parece ter surgido uma convenção na literatura popular segundo a qual uma pessoa de reputação duvidosa proclama o seu direito de normalidade citando o fato de ter-se casado e ter filhos e, muito estranho, declarando ter passado o Natal e a Ação de Graças com eles.
11 Uma perspectiva de um criminoso sobre esta não-aceitação é apresentada em Parker e Allerton, op. cit., pp. 110-111.
12 K. B. Hathaway, The Little Locksmith (Nova York: CowardMcCann, 1943) p. 41, em Wright, op. cit., p. 157.
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"Aos poucos esqueci o que havia visto no esp&ho. AquiI não podia penetrar no interior de minha mente e converter-me em parte integral de mim. Sentia-me como se não houvesse nada comigo; era apenas um disfarce. Mas não era o tipo de disfarce que é voluntariamente colocado pela pessoa que a usa com o objetivo de confundir os outros sobre sua identidade. Meu disfarce foi posto em mim sem o meu consentimento ou conhecimento, como ocorre nos contos de fadas e foi a mim mesma que ele confundiu quanto a minha própria identidade. Eu me olhava no espelho e era tomada de horror porque não me reconhecia. No lugar em que me encontrava, com aquela exaltação romântica persistente em mim, como se eu fosse uma pessoa favorecida e afortunada para quem tudo era possível, eu via uma figura estranha, pequena, lastimável, horrenda e um rosto que se tornava, quando eu o olhava fixamente, doloroso e vermelho de vergonha. Era só um disfarce mas estava em mim para o resto da vida. Estava lá, estava lá, era real. Cada um desses encontros era como uma espécie de explosão na cabeça. Eles deixavam-me sempre entorpecida, muda e insensível até que, aos poucos, obstinadamente, a forte ilusão de bem-estar e beleza pessoal voltava a me invadir: eu esquecia a irrelevante realidade e ficava despreparada e vulnerável novamente." i
A característica central da situação de vida do indivíduo estigmatizado pode, agora, ser explicada. uma questão do que é com freqüência, embora vagamente, chamado de "aceitação". Aqueles que têm relações com ele não conseguem lhe dar o respeito e a consideração que os aspectos não contaminados de sua identidade social os haviam levado a prever e que ele havia previsto receber; ele faz eco a essa negativa descobrindo que alguns de seus atributos a garantem.
Como a pessoa estigmatizada responde a tal situação? Em alguns casos lhe seria possível tentar corrigir diretamente o que considera a base objetiva de seu defeito, tal como quando uma pessoa fisicamente deformada se submete a uma cirurgia plástica, uma pessoa cega a um tratamento ocular, um analfabeto corrige sua educação e um homossexual faz psicoterapia. (Onde tal conserto é possível, o que freqüentemente ocorre não é a aquisição de um status completamente normal, mas uma transformação do ego: alguém que tinha um defeito particular se transforma em alguém que tem provas de tê-lo corri' Ibid., pp. 46-47. Para tratamentos gerais dos sentimentos
de auto-rejeição, ver K. Lewin, Resolving Social Conflicte, parte III
(Nova York, Harper & Row, 1948); A. Kardiner e L. Ovesey
The Mark of Oppression: A Psychosocictl Study of the American
Negro (Nova York: W. W. Norton & C., 1951); e E. H. Erikson,
Childhood and Soei ety (Nova York, W. W. Nort,on & Co., 1950).
gido.) Aqui, deve-se mencionar a predisposição à "vitimização" como um resultado da exposiçao da pessoa estigmatizada a servidores que vendem meios para corri gir a fala, para clarear a cor da pele, para esticar o corpo, para restaurar a juventude (como no rejuvenescimento através do tratamento com gema de ovo fertilizada), curas pela fé e meios para se obter fluencia na conversação. Quer se trate de uma técnica prática ou de fraude, a pesquisa, freqüentemente secreta, dela resultante, revela, de maneira específica, os extremos a que os estigmatizados estão dispostos a chegar e, portanto, a angústia da situação que os leva a tais extremos. Pode-se citar um exemplo:
"Mias Peck (uma assistente social de Nova York, pioneira de trabalhos em benefício de pessoas com d.ficuldades auditivas) disse que outrora eram muitos os curandeiros e charlatães que, desejosos de enriquecer rapidamente, viam na Liga (para os que tinham dificuldades de audição) um frutífero campo de caça, ideal para promoção de gorros magnéticos, vibradores miraculosos, tímpanos artificiais, sopradores, inaladores, massageadores, óleos mágicos, bálsamos e outros remédios que curam tudo, garantidos, positivos, à prova de incêndio, e permanentes para a surdez incurável. Anúncios de tais artifícios (até a década de 20, quando a Associação Médica Americana d3cidiu promover uma campanha de investigação) atacavam os que tinham dificuldades de audição, pelas páginas da imprensa diária, inclusive revistas bem conceituadas." 14
O indivíduo estigmatizado pode, também, tentar corrigir a sua condição de maneira indireta, dedicando um grande esforço individual ao domínio de áreas de atividade consideradas, geralmente, como fechadas, por motivos físicos e circunstanciais, a pessoas com o seu defeito. Isso é ilustrado pelo aleijado que aprende ou reaprende a nadar, montar, jogar tênis ou pilotar aviões, ou pelo cego que se torna perito em esquiar ou em escalar montanhas.' O aprendizado torturado pode estar associado, é claro, com o mau desempenho do que se aprendeu, como quando um indivíduo, confinado a uma cadeira de rodas, consegue levar uma jovem ao salão,
14 F. Warfield, Keep Listening (Nova York: The Viclcing Press.
1957), p. 76. Ver também H. von Hentig, The Criminal and His Victim (New Haven, Conn.: Yale University Press, 1948), p. 101.
15 Keitlen, op. cit., Cap. 12, pp. 117-129 e Cap. 14, pp. 137-149. Ver também Chevigny, op. cit., pp. 85-86.
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numa espécie de arremedo de dança.1° Finalmente, a pessoa com um atributo diferencial vergonhoso pode romper com aquilo que é chamado de realidade, e tentar obstinadamente empregar uma interpretação não convencional do caráter de sua identidade social.
A criatura estigmatizada usará, provavelmente, o seu estigma para "ganhos secundários", como desculpa pelo fracasso a que chegou por outras razões :
"Durante anos, a cicatriz, o lábio leporino ou o nariz disforme foram considerados como uma desvantagem, e sua importância nos ajustamentos social e emocional inconscientemente abarcava tudo. Essa desvantagem era o "cabide" no qual o paciente pendurava todas as insuficiências, todas as insatisfações, todas as protelações e todas as obrigações desagradáveis da vida social, e do qual veio a depender não somente como forma de libertação racional da competição mas ainda como forma de proteção contra a responsabilidade social.
"Quando esse fator é removido por cirurgia, o paciente perde a proteção emocional mais ou menos aceitável que ele oferecia e logo descobre, par.a sua surpresa e inquietação, que a vida não é fácil de ser levada, mesmo pelas pessoas que têm rostos "comuns", sem máculas. Ele está despreparado para lidar com essa situação sem o apoio de uma "desvantagem", e pode-se voltar para a proteção menos simples, mas semelhante, de padrões de comportamento de neurastenia, conversão histérica, hipocondria ou estados de ansiedade aguda." 17
O estigmatizado pode, também, ver as privações que sofreu como uma bênção secreta, especialmente devido à crença de que o sofrimento muito pode ensinar a uma pessoa sobre a vida e sobre as outras pessoas:
"Mas agora, distante da experiência do hospital, posso avaliar o que aprendi. (Escreve uma mãe permanentemente inválida devido à poliomielite.) Porque aquilo não foi somente sofrimento: foi também um aprendizado através dele. Sei que a minha consciência das pessoas aumentou e se aprofundou, que todos os que estão perto de mim podem contar com minha mente, meu coração e minha atenção para os seus problemas. Eu não poderia ter descoberto isso correndo numa quadra de tênis." 18
16 Henrich e Kriegel, dp. cit., p. 49.
17 W. Y. Baker e L. H. Smith, "Facial Disfigurement and Personality", Journai of the American Medical Association, CXII (1939), 303. Macgregor et ai., op. cit., pp. 57 e segs., nos fornece um exemplo de um homem que usava como apoio seu grande nariz vermelho.
18 Henrich e Kriegel, op. cit., p. 19.
De maneira semelhante, ele pode vir a reafirmar as limitações dos normais, como sugere um esclerótico múltiplo:
"Tanto as mentes quanto os corpos saudáveis podem estar alei jados. O fato de que pessoas "normais" possam andar, ver e ouvir não significa que elas estejam realmente vendo ou ouvindo. Elas podem estar completamente cegas para as coisas que estragam sua felicidade, totalmente surdas aos apelos de bondade de outras pessoas; quando penso nelas não me sinto mais aleijado ou incapacitado do que elas. Talvez, num certo sentido, eu possa ser um meio de abrir os seus olhos para as belezas que estão à nossa volta: coisas como um aperto de mão afetuoso, uma voz que está ansiosa por conforto, uma brisa de primavera, certa música, uma saudação amistosa. Essas pessoas são importantes para mim e eu gosto de sentir que posso ajudá-las." 19
E um cego escreve:
, "Isso levaria imediatamente a se pensar que há muitos aconteci mento que podem diminuir a satisfação de viver de maneira muito mais efetiva do que a cegueira. Esse pensamento é inteiramente saudável. Desse ponto de vista, podemos perceber, por exemplo, que um defeito como a incapacidade de aceitar amor humano, que pode diminuir o prazer de viver até quase esgotá-lo, é muito mais trágico do que a cegueira. Mas é pouco comum que o homem com tal doença chegue a aperceber-se dela e, portanto, a ter pena de si mesmo." 0
Escreve um aleijado:
À proporção que a vida continuava, eu soube de muitos, muitos tipos diferentes de desvantagens, não apenas físicas, e comecei a perceber que as palavras da garota aleijada no excerto acima (palavras de amargura) bem poderiam ter sido pronunciadas por jovens mulheres que se sentiam inferiores e diferentes por sua feiúra, incapacidade de ter filhos, impossibilidade de relacionamento com outras pessoas, ou muitas outras razões."
As respostas dos normais e dos estigmatizados que foram consideradas até aqui são as que podem ocorrer em períodos prolongados de tempo e quando não há um contato corrente entre eles.22 Este livro, entretanto,
19 Ibid., p. 35.
20 Chevigny, op. cit., p. 154.
21 F. Carling, And Yet We Are Humon (Londres: Chatto & Windus, 1962), pp. 23-24.
22 Para uma resenha, ver G. W. Allport, The Nature of Prejudice (Nova York: Anchor Books, 1958).
22 ESTIGMA
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ocupa-se especificamente com a questão dos "contatos mistos" - os momentos em que os estigmatizados e os normais estão na mesma "situação social", ou seja, na presença física imediata um do outro, quer durante uma conversa, quer na mera presença simultânea em uma reunião informal.
A simples previsão de tais contatos pode, é claro, levar os normais e os estigmatizados a esquematizar a vida de forma a evitá-los. Presumivelmente, isso terá maiores conseaüências para os estigmatizados, à medida que uma esquematização maior de sua parte será sempre necessária:
"Antes de seu desfiguramento (amputação da metade inferior de seu nariz), Mrs. Dover, que vivia com uma de suas duas filhas casadas, era uma mulher independente, afetuosa e amável que gostava de viajar, fazer compras e visitar os seus vários parentes, O desfiguramento de seu rosto, entretanto, teve como resultado uma alteração definitiva de seu estilo de vida. Nos dois ou três pri meiros anos, ela raramente deixava a casa de sua filha, preferindo permanecer em seu quarto ou sentar-se no quintal. 'Eu estava infeliz', disse ela; 'não havia mais horizontes em minha vida.' "23
Faltando o feeclback saudável do intercâmbio social quotidiano com os outros, a pessoa que se auto-isola possivelmente torna-se desconfiada, deprimida, hostil, ansiosa e confusa. Pode-se citar uma versão de Suilivan:
"Ter consciência da inferioridade significa que a pessoa não pode afastar do pensamento a formulação de uma espéce de sentimento crônico do pior tipo de insegurança que conduz à ansiedade e, talvez a algo ainda pior, no caso de se considerar a inveja como realmente pior do que a ansiedade. O medo de que os outros possam desrespeitá-la por algo que ela exiba significa que ela sempre se sente insegura em seu contat om os outros; essa insegurança surge, não de fontes misteriosas e um tanto desconhecidas como uma grande parte de nossas ansiedades, mas de algo que ela não pode determinar. Isso representa uma deficiência quase fatal do sistema do "eu" na medida em que este não consegue disfarçar ou afastar uma formulação definida que diz 'Eu sou inferior, portanto as pessoas não gostarão de mim e eu não poderei sentir-me seguro com elas'" '24
23 Macgregor et ai., op. cit., pp. 91-92.
24 De Clinical Stuciies in Psychiatry, H. S. Perry, M. L. Gawel e M. Gibbon, eds. (Nova York: W. W. Norton & Company, 1956), p. 145.
• Quando normais e estigmatizados realmente se encontram na presença imediata uns dos outros, especialmente quando tentam manter uma conversação, ocorre uma das cenas fundamentais da sociologia porque, em muitos casos, esses momentos serão aqueles em que ambos os lados enfrentarão diretamente as causas e efeitos do estigma.
O indivíduo estigmatizado pode descobrrir que se sente inseguro em relação à maneira como os normais o identificarão e o receberão.25 Pode-se citar um exemplo extraído de um pesquisador da incapacidade física:
"Para a pessoa inabilitada, a incerteza quanto ao sta,tus, somada à insegurança em re'ação ao emprego, prevalece sobre uma ampla gama de interações sociais. O cego, o doente, o surdo, o aleijado iunca podem estar seguros sobre qual será a atitude de um novo conhecido, se ele será receptivo ou não, até que se estabeleça o contato. É exatamente essa a posição do adolescente, do negro de pele clara, do imigrante de segunda geração, da pessoa em situação de mobilidade social e da mulher que entrou numa ocupação predominantemente masculina." 2.6
Essa incerteza é ocasionada não só porque o indivíduo não sabe em qual das várias categorias ele será colocado mas também, quando a colocação é favorável, pelo fato de que, intimamente, os outros possam defini-lo em termos de seu estigma:
"E eu sempre sinto isso em relação a pessoas direitas: embora elas sejam boas e gentis, para mim, realmente, no íntimo, o tempo todo, estão apenas me vendo como um criminoso e nada mais. Agora é muito tarde para que eu seja dferente do que sou, mas ainda sinto isso urofundamente: que esse é o seu único modo de se aproximar de mim e que eles são absolutameriAe incapazes de me aceitar como qua1quer outra coisa." 27
Assim, surge no estigmatizado a sensação de não saber aquilo que os outros estão "realmente" pensando dele.
25 R. Barker, "The Social Psychology of Physical Disability", Jowmal of Social Issues, IV (1948), 34, sugere que as pessoas estigmatizadas "vivem numa fronteira sociopsicológica", encarando constantemente novas situações. Ver também Macgregor et ei., op. cit., p. 87, onde se sugere que os mais visivelmente deformados precisam ter menos dúvidas sobre sua recepção na interação do que os menos visivelmente deformados.
26 Barker, op. cit., p. 33.
7 Parker e Alierton, op. cit., p. 111.
24 ESTIGMA
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Além disso, durante os contatos mistos, é provável que o indivíduo estigmatizado sinta que está "em exibição", 28 e leve sua autoconsciência e controle sobre a impressão que está causando a extremos e áreas de conduta que supõe que os demais não alcançam.
Ele também pode sentir que o esquema usual que utilizava para a interpretação de acontecimentos diários está enfraquecido. Seus menores atos, ele sente, podem ser avaliados como sinais de capacidades notáveis e extraordinárias nessas circunstâncias. Um criminoso profissional fornece um exemplo:
"Sabe, é realmente impressionante que você leia livros como este, estou surpreso. Pensei que você lesse novelas em brochura, coisas com capas sensacionalistas, livros assim. E aí está você com Claude Cockburn, Hugh Klare, Simone de Beauvoir e Lawrence Durreil!"
Ele não achava que esta observação era um insulto: na verdade, acho que pensava que estava sendo honesto ao me dizer o quanto ele estava enganado. E é exatamente esse tipo de condescendência que se recebe de pessoas honestas quando se é um criminoso. 'Imagine só!', dizem elas. 'Em certos aspectos você é igual a um ser humano!' Não estou brincando, me dá vontade de acabar com elas." 29
Uma pessoa cega nos fornece um outro exemplo:
"Seus atos mais usuais de outrora - andar indiferentemente na rua, colocar ervilhas no prato, acender um cigarro - não são mais comuns. Ele torna-se uma pessoa diferente. Se ele os desempenha com destreza e segurança, provocam o mesmo tTpo de admiração inspirado por um mágico que tira coelhos de cartolas." 30
Ao mesmo tempo, erros menores ou enganos incidentais podem, sente ele, ser interpretados como uma expressão direta de seu atributo diferencial estigmatizado. Ex-pacientes mentais, por exemplo, às vezes receiam uma discussão acalorada com a esposa ou o empregador por medo da interoretação errônea de suas emoções. Pes. soas com deficiêpcias mentais enfrentam situações semelhantes:
8 Esse tipo' especial de autoconsciência é analisado em 5. Messinger et ai., "Life as Theater: Some Notes on the Dramaturgie Approach to Social Reality", Sociometry, XXV (1962), 98-110.
29 Parker e Alierton, op. cit., p. 111.
° Chevigny, op. cit., p. 140.
"Ocorre também que se uma pessoa de baixa capacdade intelectual tem algum tipo de problema, a dificuldade é mais ou menos automaticamente atribuída a um defeito mental", enquanto que se uma outra de "inteligência normal" tem dificuldade semelhante, esta não é considerada como sintoma de qualquer coisa particular." 31
Uma garota que só tinha uma perna, relembrando sua experiência nos esportes, fornece outros exemplos:
"Quando eu caía, uma grande quantidade de mulheres corria, cacarejando e se lamentando como um grupo de galinhas-mães (lesoladas. Era muita gentileza, e agora eu aprecio essa solicitude mas,. na época, eu ficava ressentida e muito embaraçada com tal interf erência. Por que elas partiam do pressuposto de que nenhum acontecimento rotineiro quando se anda de patins - um graveto ou uma pedra - teria se colocado entre as rodas dos meus. A conclusão era inevitável: Eu caía porque era uma pobre e impotente aleijada. 32
Nenhuma delas gritava com raiva "aquele perigoso cavalo selvagem a derrubou!" - o que, Deus o perdoe, era verdade. Foi como uma horrível visitação fantasmagórica aos meus velhos dias de patins. Todas as pessoas lamentavam em coro: 'Aquela pobre menina caiu!' "S3
Quando o defeito da pessoa estigmatizada pode ser percebido só ao se lhe dirigir a atenção (geralmente visual) - quando, em resumo, é uma pessoa desacreditada, e não desacreditável - é provável que ela sinta que estar presente entre normais a expõe cruamente a invasões de privacidade,34 mais agudamente experimentadas, talvez, quando crianças a observam fixamente.35 Esse desagrado em se expor pode ser aumentado por estranhos que se sentem livres para entabular conversas nas quais expressam o que ela considera uma curiosidade'
31 L. A. Dexter, "A social Theory of Mental Deficiency", American Jouimai of Mental Deficiency, LXII (1958), 923. Para outro estudo sobre a estigmatização de pessoas com defeitos mentais, ver 5. E. Perry, "Some Theoretical Problems of Mental Deficiency nnd Their Action Implications", Ps-ychiatry, XVII (1954),.
45-73.
32 Baker, Oul on a Limb (Nova York: McGraw-Hill Book Company, s/d), p. 22.
33 Ibid., p. 73.
Este tema é bem tratado em R. K. White, B. A. Wright e T. Dembo, "Studies in Adjustment to Visible Injuries: Evaluation of Curiosity by the Injured", Journal of Abnormal and Social Psycholo y, XLIII (1948), 13-28.
3 Por exemplo, Henrich e Kriegel, op. cit., p. 184.
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mórbida sobre a sua condição, ou quando eles oferecem uma ajuda que não é necessária ou não é desejada.°6 Pode-se acrescentar que há certas fórmulas clássicas para esses tipos de conversas: "Minha querida, como você conseguiu seu aparelho de surdez"; "Meu tio-avô tinha um, então acho que sei tudo sobre o seu problema"; "Sabe, eu sempre disse que esses aparelhos são amigos excelentes e solícitos"; "Diga-me, como você consegue tomar banho com seu audiofone?" Por isso se infere que o indivíduo estigmatizado pode ser abordado à vontade por estranhos, desde que eles sejam simpáticos à sua situação.
Considerando o que pode enfrentar ao entrar numa situação social mista, o indivíduo estigmatizado pode responder antecipadamente através de uma capa defensiva. Isso pode ser ilustrado por um estudo antigo sobre alguns alemães desempregados durante a Depressão. Conta um pedreiro de 43 anos:
"Como é duro e humilhante carregar a fama de um homem desempregado! Quando saio, baixo os olhos porque me sinto totalmente inferior. Quando ando na rua, parece-me que não posso ser comparado .a um cidadão comum, que todo mundo está me apontando. Instintivamente evito encontrar qualquer pessoa. Conhecidos e amigos antigos de melhores épocas não são mais tão cordia:s. Quando nos encontramos, eles me saúdam com indiferença. Não me oferecem mais cigarros e seus olhos parecem dizer 'Você não tem valor, você não trabalha'." 37
Uma garota aleijada fornece uma análise ilustrativa:
"Quando ... comecei a andar sozinha nas ruas de nossa cidade
descobri que toda vez que passava por três ou quatro crianças juntas na calçada elas gritavam para mim, ... Algumas vezes elas chegavam mesmo a correr atrás de mim, gritando e zombando. Isto era algo que eu não sabia enfrentar, nem suportar
Por algum tempo esses encontros na rua me encheram coni um frio pavor de todas as crianças desconhecidas.
Um dia, subitamente, descobri que eu tinha tanta consciência de mim e tanto medo de todas as crianças desconhecidas que, como os animais, elas sabiam disso, de modo que mesmo a mais meiga e amável era levada ao escárnio por meu próprio retraimento e medo." 38
36 Ver Wright, op. cit., "The Problem of Sympathy", pp. 233-237.
37 5. Zawadski e P. Lazarsfeld, "The Psychological Consequences of Unemployment", Journai of Social Ps'ychology, VI (1935), 239.
38 Hathaway, op. cit., pp. 155-157, em S. Richardson, "The Social Psychological Consequences of Handicapping", trabalho não publicado, apresentado na Convenção da Associação Sociológica Americana em 1962, Washington, DC, 7-8.
- Em vez de se retrair, o indivíduo estigmatizado pode tentar aproximar-se de contatos mistos com agressividade, mas isso pode provocar nos outros uma série de respostas desagradáveis. Pode-se acrescentar que a pessoa estigmatizada algumas vezes vacila entre o retraimento e a agressividade, correndo de um para a outra, tornando manifesta, assim, uma modalidade fundamental na qual a interação face-to-face pode tornar-se muito violenta.
Sugiro, então, que o indivíduo estigmatizado - pelo menos o "visivelmente" estigmatizado - terá motivos especiais para sentir que as situações sociais mistas provam uma interação angustiada. Assim, deve-se suspeitar que nós, normais, também acharemos essas situações angustiantes. Sentiremos que o indivíduo estigmatizado ou é muito agressivo ou é muito tímido e que, em ambos os casos, está pronto a ler significados não intencionais em nossas ações. Nós próprios podemos sentir que, se mostramos sensibilidade e interesse diretos por sua situação, estamos nos excedendo, ou que se, na realidade, esquecemos que ele tem um defeito, far-lhe-emos, provavelmente, exigências impossíveis de serem cumpridas ou, inadvertidamente, depreciaremos seus companheiros de sofrimento.
Sentimos que o estigmatizado percebe cada fonte potencial de mal-estar na interação, que sabe que nós também a percebemos e, inclusive, que não ignoramos que ele a percebe. Estão dadas, portanto, as condições para o eterno retorno da consideração mútua que a psicologia social de Mead nos diz como começar mas
•não como terminar.
-. Uma vez que tanto o estigmatizado quanto nós, os ncrmais, nos introduzimos nas situações sociais mistas, é compreensível que nem todas as coisas caminhem suavemente. Provavelmente tentaremos proceder como se, de fato, esse indivíduo correspondesse inteiramente a um dos tipos de pessoas que nos são naturalmente acessíveis em tal situação. quer isso signifique tratá-lo como se el fosse alguém melhor do que achamos que seja, ou alguém pior do que achamos que ele provavelmente é. Se nenhuma dessas condutas for possível, tentaremos, então, agir como se ele fosse uma "não-pessoa" e não existisse, para nós, como um indivíduo digno de atenção ritual. Ele, por sua vez, provavelmente continuará com os mesmos artifícios, pelo menos no início.
28 ESTIGMA
Conseqüentemente, a atenção será furtivamente desviada de seus alvos obrigatórios, dando lugar à consciência do "eu" e à "consciência do outro", expressa na patologia da interação - inquietação.39 No caso dos indivíduos que têm deficiências físicas, ela pode ser expressa assim:
"Quer se reaja abertamente e sem tato ante a desvantagem como tal ou, o que é mais comum, não se faça referência explícita a ela, a condição básica de intensificação e limitação da percepção leva a interação a articular-se de forma demasiadamente exclusiva, em seus próprios termos. Isso, como o descrevem os meus informantes, é freqüentemente acompanhado por um ou mais dos sinais familiares de desconforto e embaraço: as referências cuidadosas, as palavras comuns da vida quotidiana que de repente se transformam em tabu, o olhar vago, a ligeireza artificial, a loquacidade compulsiva, a seriedade embaraçosa." 40
provável que, em situações sociais onde há um indivíduo cujo estigma conhecemos ou percebemos, empreguemos categorizações inadequadas e que tanto nós como ele nos sintamos pouco à vontade. Há, é claro, freqüentemente, mudanças significativas a partir dessa situação inicial. E, como a pessoa estigmatizada tem mais probabilidades do que nós de se defrontar com tais situações é provável que ela tenha mais habilidade para lidar com elas.
O Igual e o "Informado"
Sugeriu-se inicialmente que poderia haver uma discrepância entre a identidade virtual e a identidade real de um indivíduo. Quando conhecida ou manifesta, essa discrepância estraga a sua identidade social; ela tem como efeito afastar o indivíduo da sociedade e de si mesmo de tal modo que ele acaba por ser uma pessoa desacreditada frente a um mundo não receptivo. Em alguns casos, como no do indivíduo que nasceu sem nariz, ele pode continuar, durante o resto da sua vida, a achar que é o único de
9 Para uma abordagem geral, ver E. Goffman, "Alienation from Interaction", Human Relations, X (1957), 47-60.
40 F. Davis, "Deviance Disavowal: The Management of Strained Interaction by the Visibly Handicapped", Social Problems, IX (1961), 123. Ver também White, Wright e Dembo, op. cit., pp. 26-27.
ESTIGMA E IDENTIDADE SOCIAL 29
sua espécie e que o mundo inteiro está contra ele. Na maioria dos casos, entretanto, ele descobrirá que há pessoas compassivas, dispostas a adotar seu ponto de vista no mundo e a compartilhar o sentimento de que ele é humano e "essencialmente" normal apesar das aparências
•e a despeito de suas próprias dúvidas. Nesse caso, devem-se considerar duas categorias, O primeiro grupo de pessoas benévolas é, é claro, o daquelas que compartilham o seu estigma. Sabendo por experiência própria o que se sente quando se tem este estigma em particular, algumas delas podem instruí-lo quanto aos artifícios da relação e fornecer-lhe um círculo de lamentação no qual ele possa refugiar-se em busca de apoio moral e do conforto de sentir-se em sua casa, em seu ambiente, aceito como uma criatura que realmente é igual a qualquer outra normal. Pode-se citar um exemplo extraído de um estudo sobre analfabetos:
"A existência de um sistema de valores freqüentes entre estas
pessoas é evidenciado pelo caráter comunitário do comportamento dos
analfabetos entre si. Eles não só passam de indivíduos inexpressivos
e confusos, como freqüentemente aparecem na sociedade mais ampla,
a pessoas expressivas e inteligentes dentro de seu próprio grupo mas,
além disso, expressam-se em termos institucionais. Têm, entre si, um
uiriverso de respostas. Formam e reconhecem símbolos de prestígio
e desonra; avaliam situações relevantes em termos de suas próprias
normas e seu próprio idioma e, em suas relações mútuas, deixam cair
a máscara de ajuste acomodativo." 41
Outro exemplo, o daqueles que têm dificuldades de audição:
"Lembrava-me de como era tranqüilizador, na Escola Nitchie, estar com pessoas que admitiam a existência de dificuldades auditivas. Gostaria de conhecer pessoas que aceitassem os aparelhos de audição. Como gostaria de poder ajustar o controle de meu transmissor sem me preocupar com alguém que esteja me olhando. Poder deixar de pensar, por um momento, se o cordão que passa atrás de meu pescoço está à mostra. Que delícia gritar para alguém: 'Santo Deus, minha bateria está descarregada!"42
Entre seus iguais, o indivíduo estigmatizado pode ntilizar sua desvantagem como uma base para organizar
41 H. Freeman e G. Kasenbaum, "The Illiterate ia America", Social Forces, XXXIV (1956), p. 374.
42 Warfield, op. cit., p. 60.
w
30 ESTIGMA
ESTIGMA E IDENTIDADE SOCIAL 3t1
sua vida, mas para consegui-lo deve-se resignar a viver num mundo incompleto. Neste, poderá desenvolver até o último ponto a triste história que relata a possessão do estigma. As explicações que os deficientes mentais dão para a sua entrada na instituição correspondente forne cem um exemplo:
(1) "Me misturei com uma quadrilha. Uma noite estávamos roubando um posto de gasolina e a polícia me apanhou. Não pertenço'
a este lugar." (2) "Olhe, eu não deveria estar aqui. Sou epiléptico,,
não tenho nada a ver com esta gente." (3) "Meus pais me odeiam
e me puseram aqui dentro." (4) "Dizem que sou louco. Não sou louco,
mas mesmo que o fosse não deveria estar aqui com estes subdotados."
Por outro lado, ele pode descobrir que os relatos de seus companheiros de sofrimento o aborrecem e tudo o que implique centrar-se em histórias de atrocidades, na superioridade do grupo, ou em histórias de embusteiros, em suma, no "problema", é um dos maiores castigos por ter um estigma. Por trás dessa focalização do problema há, é claro, uma perspectiva não muito diferente da dos normais à medida que está especializada em um setor:
"Todos parecemos propensos a identificar as pessoas com as características que para nós são importantes, ou que consideramos como de importância geral. Se se perguntar a alguém quem era Franklin D. Roosevelt, a resposta provavelmente será que ele foi o trigésimo segundo presidente dos Estados Unidos e não que ele era um homem que sofria de poliomielite, embora muitas pessoas, é claro, pudessem mencionar a poliomielite como informação suplementar, considerando interessante o fato de que ele tenha conseguido abrir caminho até a Casa Branca a despeito de sua desvantagem. O aleijado, entretanto provavelmente pensará na poliomielite do Sr. Roosevelt logo que ouvir o seu nome."
No estudo sociológico das pessoas estigmatizadas,
o interesse está geralmente voltado para o tipo de vida coletiva, quando esta existe, que levam aqueles que pertencem a uma categoria particular. Aqui, certamente, se
R. Edgerton e G. Sabagh, "From Mortification to Aggrandizement: Changing Self-Concepts in the Careers of Mentally Re-. tarded", Psychiatr'y, XXV (1962), 268. Para comentários adicionais sobre relatos tristes, ver E. Goffman, "The Moral Career of the Mental Patient", Psychiatry, XXII (1959), 133-134.
Carling, op. cit., pp. 18-19.
encontra um catálogo completo dos tipos de formação de grupo e de função de grupo. Há pessoas que possuem deficiências de fala cuja peculiaridade aparentemente desencoraja qualquer tentativa de formação grupal ou algo semelhante.45 Nos limites do desejo de se unir estão ex-pacientes mentais - apenas um número relativamente pequeno deles está, em geral, disposto a sustentar clubes de saúde, apesar dos rótulos inócuos que permitem que seus membros se agrupem sob um título comum.4° Além disso há os clubes de ajuda mútua para os divorciados, os velhos, os obesos, os que se encontram em situação de desvantagem física,47 os que sofreram uma ileostomia ou uma colostomia.48 Há clubes residenciais, subvencionados por contribuições voluntárias de diversos graus, formados para ex-alcoólatras e ex-viciados. Há associações nacionais como a AA* que fornecem a seus membros uma doutrina completa e quase que um estilo de vida. Essas associações são, quase sempre, o ponto máximo de anos. de esforço por parte de pes3as e grupos situados em diversas posições e constituem um objeto de estudo exemplar enquanto movimentos sociais.49 Existem redes de
45 E. Lemert, Social Pathology (Nova York, McGraw-HiIl Book Company), 1951, p. 151.
40 II. Wechsler nos fornece um exame geral, em "The Expatient
Organization: A Survey", Joumal of Social Issues, XVI, 1960,
47-53. Os títulos incluem: Recuperação Inc., Busca, Clube 103,
Fundação Casa da Fonte, Clube de Confraternização São Francisco,
Clube Central. Para um estudo de uns desses clubes, ver D. Landy
e S. Singer, "The Social Organization and Culture of a Club for
Former Mental Patients", Human Relations, XIV (1961), 31-41.
Ver também M. B. Palmer, "Social Rehabilitation for Mental
Patients", Mental Hygiene, XLII (1958), 24-28. 47 Ver Baker, op. cit., pp. 158-159.
48 D. R. White, "Tenho uma ileostomia.... Quisera não tê-la. Mas aprendi a Aceitá-la e Viver uma Vida Normal e Completa", American Journctl of Nursing, LXI (1961), 52: "Nesse momento existem clubes de ileostomia e colostomia em 16 estados e no Distrito de Colúmbia, assim como na Austrália, Canadá, Inglaterra e África do Sul".
(*) Alcoólatras Anônimos. (N. do T.)
Warfield, op. cit., pp. 135-136, descreve uma comemoração realizada em 1950, cm Nova York, pelo movimento das pessoas com dificuldades auditivas, no qual estavam presentes todas as gerações sucessivas de dirigentes, assim como representantes de cada uma das organizações originalmente separadas. Uma recapitulação completa da história do movimento pôde, assim, ser obtida. Para observações sobre a história internacional do movimento, ver
32 ESTIGMA
ESTIGMA E IDENTIDADE SOCIAL 33
ajuda mútua formadas por ex-presidiários de um mesmo reformatório ou prisão, das quais um exemplo é a sociedade tácita de foragidos do sistema penal francês da Guiana Francesa que se diz existir na América do Sul; 50 mais tradicionalmente, há redes de relações, compostas de indivíduos que se conhecem (ou que estão indiretamente relacionados), a que parecem pertencer alguns criminosos e homossexuais. Há também meios urbanos que possuem um núcleo de instituições de serviço que fornecem base territorial para prostitutas, viciados, hornossexuais, alcoólatras e outros grupos desacreditados, sendo esses estabelecimentos, algumas vezes, compartiihados por várias classes de proscritos e, outras vezes, não. Finalmente, dentro da cidade, existem comunidades residenciais desenvolvidas, étnicas, raciais ou religiosas, com uma alta concentração de pessoas tribalmente estigmatizadas e (diferentemente de muitas outras formações de grupos entre os estigmatizados) tendo a família, e não o indivíduo, como unidade básica de organização.
Aqui, é claro, há uma confusão conceitual muito comum. O termo "categoria" é perfeitamente abstrato e pode ser aplicado a qualquer agregado, nesse caso a pessoas com um estigma particular. Grande parte daqueles que se incluem em determinada categoria de estigma podem-se referir à totalidade dos membros pelo termo "grupo" ou um equivalente, como "nós" ou "nossa gente". Da mesma forma, os que estão fora da categoria podem designar os que estão dentro dela em termos grupais. Em tais casos, entretanto, é muito comum que o conjunto total de membros não constitua parte de um único grupo em sentido estrito, já que não tem capacidade para a ação coletiva nem um padrão estável e totalizador de interação mútua. O que se sabe é que os membros de uma categoria de estigma particular tendem a reunir-se em pequenos grupos sociais cujos membros derivam todos da mesma categoria, estando esses próprios grupos sujeitos a uma organização que os engloba em maior ou menor medida. E observa-se também que quando ocorre que um membro da categoria entra em contato com
X. W. Hodgson, The Deaj cnd their Problems (Nova York: Philosophical Library, 1954), p. 352.
50 Relatado em F. Poli, Gentiemen Convicts (Londres: Rupert Eart-Davis, 1960).
outro, ambos podem dispor-se a modificar o seu trato
mútuo, devido à crença de que pertencem ao mesmo
"grupo". Além disso, fazendo parte da categoria um
indivíduo pode ter uma probabilidade cada vez maior de
entrar em contato com qualquer outro membro e, mesmo,
• de entrar em relação com ele, como resultado. Uma ca tegoria então, pode funcionar no sentido de favorecer
entre seus membros as relações e formação de grupo mas
sem que seu conjunto total de membros constitua um
grupo - sutileza conceitual que daqui em diante nem
sempre será observada neste livro.
Quer as pessoas que têm um estigma particular forneçam ou não a base de recrutamento para uma comunidade ecologicamente consolidada de alguma maneira, elas provavelmente subvencionarão agentes e agências que as apresentem. ( interessante que não tenhamos uma palavra para designar, de maneira precisa, os componentes, seguidores, partidários, subordinados ou defensores de tais representantes.) Os membros podem, por exemplo, ter um escritório ou uma antecâmara da qual promovem seus casos frente ao governo ou à imprensa; a diferença é estabelecida pelo indivíduo colocado à frente da mesma: uma pessoa igual a eles, um "nativo" que está realmente a par das coisas, como ocorre com os cegos, os surdos, os alcoólatras e os judeus, ou alguém que pertence ao outro lado, como fazem os presidiários ou os deficientes mentais.51 (Os grupos de ação que servem à mesma categoria de pessoas estigmatizadas podem, s vezes, estar em ligeira oposição uns em relação aos outros e essa oposição freqüentemente reflete uma diferença entre a direção a cargo dos "nativos" e a direção a cargo dos normais.) Uma tarefa característica desses representantes é convencer o público a usar um rótulo social mais flexível à categoria em questão:
"Atuando segundo essa crença, o corpo de membros da Liga (Liga Nova-lorquina para as Pessoas com Dificuldades de Audição) concordou em só usar certos termos, como pessoa com dificuldades de audição, com audição reduzida ou com perda de audição, e em eliminar a palavra surdo de suas conversas, correspondência e outros escritos, de seu trabalho de ensino e de seus discursos em público. O
51 Por exemplo, ver Chevigny, op. cit., Cap. 5, onde a situação é apresentada em referência aos cegos.
34 ESTIGMA
ESTIGMA E IDENTIDADE SOCIAL 35
procedimento deu resultado. A cidade de Nova York em geral comaçou gradualmente a usar o novo vocabulário. Uma apreciação objetiva estava a caminho. 52
Outra de suas tarefas usuais é a de aparecerem como "oradores" perante diversas platéias de normais e estigmatizados; elas apresentam o caso em nome dos estigmatizados e, quando elas próprias são "nativas" do grupo, fornecem um modelo vivido de uma realização plenamente normal; são heróis da adaptação, sujeitos a recompensas públicas por provar que um indivíduo desse tipo pode ser uma boa pessoa.
Freqüentemente, as pessoas que têm um estigma particular patrocinam algum tipo de publicação que expressa sentimentos compartilhados, consolidando e estabilizando para o leitor a sensação da existência real de "seu" grupo e sua vinculação a ele. Nestas publicações a ideologia dos membros é formulada - suas queixas, suas aspirações, sua política. São citados os nomes de amigos e inimigos conhecidos do grupo, junto com informações que confirmam a bondade ou a maldade dessas pessoas. Publicam-se histórias de sucesso, lendas de heróis de assimilação que penetraram em novas áreas de aceitação dos normais. São recordados contos de horror, antigos e modernos, que mostram a que extremos podem chegar os abusos cometidos pelos normais. São publicados, como exemplo, histórias de fundo moral sob a forma de biografias ou autobiografias que ilustram um código desejável de conduta para os estigmatizados. A publicação serve ainda como um tribunal onde se apresentam opiniões divergentes quanto à maneira mais adequada de se manipular a situação dos estigmatizados. Se o defeito do indivíduo requer um equipamento especial, é aqui que ele é anunciado e analisado. Os leitores de tais publicações constituem um mercado para livros e panfletos que apresentam linha semelhante.
Ë importante enfatizar que, na América pelo menos, não importa se uma categoria particular de estigmatizados é pequena ou está em má situação: o ponto de vista de seus membros terá provavelmente algum tipo de representação pública. Pode-se, então, afirmar que os americanos estigmatizados tendem a viver num mundo
2 Warfield, op. ct., p. 78.
definido literariamente por menos cultos que sejam. Se eles não lêem livros sobre a situação de pessoas como eles próprios, pelo menos lêem revistas e vêem filmes; e, quando não podem fazê-lo, escutam os membros do grupo, porta-vozes do problema, em sua localidade. Uma versão intelectualmente elaborada de sua perspectiva é, assim, acessível à maioria das pessoas estigmatizadas.
Ë necessária aqui uma explicação sobre aqueles que vêm a atuar como representantes de uma categoria estigmatizada. São pessoas com estigma que têm, de início, um pouco mais de oportunidades de se expressar, são um pouco mais conhecidas ou mais relacionadas do que os seus companheiros de sofrimento e que, depois de um certo tempo, podem descobrir que o "movimento" absorve todo o seu dia e que se converteram em profissionais. Esse ponto é exemplificado por um indivíduo com dificuldade de audição:
"Em 1942 eu passava quase todos os dias na Liga. Às segundas-feiras eu costurava com a Unidade da Cruz Vermelha. Às terças. trabalhava no escritório, batendo à máquina e manipulando arquivo, operando a mesa telefônica quando necessário. Nas tardes de quarta-feira eu ajudava o médico na clínica de prevenção da surdez pertencente à Liga, no Hospital de Olhos e Ouvidos de Manhattan, uma tarefa que me agradava particularmente: tratava-se de escrever as histórias das crianças que, devido a resfriados, otites, infecções e doenças infantis - cujos efeitos posteriores eram potencialmente prejudiciais para a audição - obtinham benefícios de novos conhecimentos, novos remédios e novas técnicas otológicas, o que lhes permitiria provavelmente crescer sem algodões nos ouvidos. Nas tardes de quinta-feira, eu assistia às aulas de leitura labial para os adultos, e depois todos nós jogávamos baralho e tomávamos chá. Às sextasfeiras, eu trabalhava no Boletim. Aos sábados eu fazia chocolate e sanduíches de salada de ovo. Uma vez por mês eu assistia ao encontro das Senhoras Auxiliares, um grupo voluntário organizado em 1921 pela Senhora Wendell Phillips e outras esposas de otólogos interessados em arrecadar fundos, aumentar o número de sócios e representar a Liga socialmente. Organizava a Festa de Todos os Santos para as crianças de seis anos e ajudava a servir a ceia no Dia de Ação de Graças dos Veteranos. Na época de Natal redigia pedidos de contribuição, ajudava a sobrescritar os envelopes e a colar os selos. Colocava as cortinas novas e consertava a velha mesa de pingue-pongue; acompanhava os jovens ao baile de São Valentim e ficava encarregada de uma barraca de vendas durante a Feira da Páscoa."
Warfield, op. cit., pp. 73-74; ver também Cap. 9, pp. 129-158, onde aparece uma espécie de confissão relativa à vida profissional. Para a descrição da vida de um mutilado profissional, ver H. Russeil, Vzctory in My Hands (Nova York, Creative Age Press, 1949).
36 ESTIGMA
Pode-se acrescentar que desde que uma pessoa com um estigma particular alcança uma alta posição financeira, política ou ocupacional - dependendo a sua importância do grupo estigmatizado em questão - é possível que a ela seja confiada uma nova carreira: a de representar a sua categoria. Ela encontra-se numa posição muito eminente para evitar ser apresentada por seus iguais como um exemplo deles próprios. (A fraqueza de um estigma pode, assim, ser medida pela forma pela qual um membro da categoria, por mais importante que seja, consegue evitar estas pressões.)
Sobre esse tipo de profissionalização são, em geral, formuladas duas observações. Em primeiro lugar, ao fazer de seu estigma uma profissão, os líderes "nativos" são obrigados a lidar com representantes de outras categorias, descobrindo, assim, que estão rompendo o círculo fechado de seus iguais. Em vez de se apoiar em suas muletas, utilizam-nas para jogar golfe, deixando de ser, em termos de participação social, os agentes das pessoas que eles representam.e4
Em segundo lugar, os que apresentam profissional- mente a opinião de sua categoria podem introduzir certas parcialidades sistemáticas em sua exposição apenas porque estão demasiadamente envolvidos no problema para poderem escrever sobre ele. Embora qualquer categoria possa ter profissionais que seguem linhas diversas, e mesmo subvencionar publicações que defendem programas diferentes, há um acordo tácito uniforme de que a situação do indivíduo com esse estigma particular merece atenção. Quer um escritor leve um estigma muito a sério ou o considere não muito importante, deve defini-lo como algo sobre o que vale a pena escrever. Esse acordo mínimo, mesmo quando não há outros, serve para consolidar a crença no estigma como uma base para a autocompreensão. Nesse caso, novamente, os representantes não são representativos, porque a representação nunca vem dos que não dão atenção a seu estigma ou que são relativamente analfabetos.
5 Desde o início tais líderes podem ser recrutados entre os membros das categorias que ambicionam deixar de viver como seus iguais e que são relativamente capazes de fazê-lo, dando lugar ao que Lewin (ou. cit., pp. 195-196) chamou de "Liderança da Periferia".
ESTIGMA E IDENTIDADE Soci 37
Não pretendo sugerir com isso que os profissionais são o único recurso público que os estigmatizados têm para denunciar a sua situação de vida; há outros recursos. Cada vez que alguma pessoa que tem um estigma particular alcança notoriedade, seja por infringir a lei, ganhar um prêmio ou ser o primeiro em sua categoria, pode-se tornar o principal motivo de tagarelice de uma comunidade local; esses acontecimentos podem até mesmo ser notícia nos meios de comunicação da sociedade mais ampla. De qualquer forma, todos os que compartilham o estigma da pessoa em questão tornam-se subitamente acessíveis para os normais que estão mais imedia tamente próximos e tornam-se sujeitos a uma ligeira transferência de crédito ou descrédito. Dessa maneira, sua situação leva-os facilmente a viver num mundo de heróis e vilãos de sua própria espécie, sendo a sua relação com esse mundo sublinhada por pessoas próximas, normais ou não, que lhes trazem notícias do desempenho de indivíduos de sua categoria.
Considerei que há um conjunto de indivíduos dos quais o estigmatizado pode esperar algum apoio: aqueles que compartilham seu estigma e, em virtude disto, são definidos e se definem como seus iguais. O segundo conjunto é composto - tomando de empréstimo um termo utilizado por homossexuais - pelos "informados", ou seja, os que são normais mas cuja situação especial levou a privar intimamente da vida secreta do indivíduo estigmatizado e a simpatizar com ela, e que gozam, ao mesmo tempo, de uma certa aceitação, uma certa pertinência cortês ao clã. Os "informados" são os homens marginais diante dos quais o indivíduo que tem um defeito não precisa se envergonhar neni se autocontrolar, porque sabe que será considerado como uma pessoa comum. Pode-se citar um exemplo tomado do mundo das prostitutas:
"Embora despreze a respeitabilidade, a prostituta, particularmente a cail giri, é aUamente sensível à sociedade bem-educada e procura refugiar-se, em suas horas vagas, no seio de artistas, escritores, atores e pseudo-intelectuais boêmios, onde é aceita como uma personalidade não convencional, sem ser uma curiosidade." 55
5 J. Stearn, Sisters of the Night (Nova York: Popular Library, 1961), p. 181.
38 ESTIGMA
ESTIGMA E IDENTIDADE SocIAL 39
Antes de adotar o ponto de vista daqueles que têm um estigma particular, a pessoa normal que está se convertendo em "informada" tem, primeiramente, que passar por uma experiência pessoal de arrependimento sobre a qual existem numerosos registros literários.56 E depois que o simpatizante normal coloca-se à disposição dos estigmatizados deverá aguardar, com certa freqüência, a sua validação como membro aceito. A pessoa não deve apenas se oferecer mas deve, também, ser aceita. Algumas vezes, é claro, a iniciativa do último passo parece ser tomada pelo normal; o que se segue é um exemplo deste ponto.
"Não sei se posso fazê-lo ou não, mas deixem-me contar um incidente. Certa vez fui admitido em um grupo de meninos negros que tinham aproximadamente a minha idade e com os quais eu costumava ir pescar. Quando comecei a sair com eles, o termo "negro' era cuidadosamente utilizado em minha presença. Aos poucos, na medi6la em que saíamos juntos para pescar com cada vez maior freqüência, eles começaram a brincar entre si e a chamar uns aos outros de "preto". * A mudança real estava na utilização que eles faziam da palavra "preto" quando brincavam, palavra que anteriormente nem sequer era mencionada.
Um dia, quando estávamos nadando, um menino me empurrou, fingindo violência e eu lhe disse: 'Não me venha com essa, papo de preto.' Ele respondeu: 'Filho da Mãe' com um grande sorriso. A partir desse momento, todos podíamos empregar a palavra "preto", mas as velhas categorias haviam mudado totalmente, Nunca esquc-cerei, enquanto viver, a sensação de meu estômago após haver usado a palavra "preto" sem qualquer restrição." 5
Um tipo de pessoa "informada" é aquele cuja informação vem de seu trabalho num lugar que cuida não só
6 N. Mailer, "The Homossexual Villain", em Advertisements for Myself (Nova York, Signet Book, 1960), pp. 200-205, nos dú um modelo de confissão detalhando o ciclo básico de intolerância, experiência esclarecedora e, finalmente, retratação do preconceito através da confissão pública. Ver também a introdução de Angus Wilson a Carling, op. cit., para uma história confessional da redefinição que Wilson faz dos inválidos.
* A diferenciação feita no original é entre "negro" e "nigger", que traduzi respectivamente por "negro" e "preto". Em inglês a palavra "nigger" tem um sentido altamente depreciativo quando usada por brancos em referência a negros, mas não tem necessariamente esse sentido quando usada entre negros. (N. do T.)
Ray Birdwhistell, em B. Schaffner, ed., Group Processes, Transactions of the Second (1955) Conference (Nova York: Josiah Macy, Jr. Foundation, 1956), p. 171.
das necessidades daqueles que têm um estigma particular quanto das ações empreendidas pela sociedade em relação a eles. Por exemplo, as enfermeiras e os terapeutas podem ser "informados"; eles podem vir a saber mais sobre um determinado tipo de equipamento de prótese do que o paciente que deve utilizá-lo para minimizar sua deformação. Os empregados atenciosos de lojas de doces e balas freqüentemente SãO "informados", assim como o são os garçons de bares de homossexuais e as empregadas das prostitutas de Mayfair.58 A polícia, devido ao fato de ter que lidar constantemente com criminosos, pode se tornar "informada" em relação a eles, levando um profissional a declarar que "... de fato os policiais são as únicas pessoas que, além de outros criminosos, o aceitam pelo que ele é".5°
Um segundo tipo de pessoa "informada" é o indivíduo que se relaciona com um indivíduo estigmatizado através da estrutura social - uma relação que leva a sociedade mais ampla a considerar ambos como uma só pessoa. Assim, a mulher fiel do paciente mental, a filha do ex-presidiário, o pai do aleijado, o amigo do cego, a família do carrasco,6° todos estão obrigados a compartilhar um pouco o descrédito do estigmatizado com o qual eles se relacionam. Uma resposta a esse destino é abraçá-lo e viver dentro do mundo do familiar ou amigo do estigmatizado. Dever-se-ia acrescentar que as pessoas que adquirem desse modo um certo grau de estigma podem, por sua vez, relacionar-se com outras que adquirem algo da enfermidade de maneira indireta. Os problemas enfrentados por uma pessoa estigmatizada espalham-se em ondas de intensidade decrescente. Pode-se verificar isto por uma coluna de conselhos de um jornal:
"Querida Ana Landers:
Sou uma menina de 12 anos que é excluída de toda atividade social porque meu pai é um ex-presidiário. Tento ser amável e simpática com todo mundo mas não adianta. Minhas colegas de escola me disseram que suas mães não querem que elas andem comigo pois isso não seria bom para a sua reputação. Os jornais fizeram publici58 e. H. Rolph, ed., Women of the Streets (Londres, Secker
& Warburg, 1955), pp. 78-9.
59 Parker e ,Ailerton, op. cit., p. 150.
60 J. Atholl, The Reluctant Hangman (Londres: John Long
Ltd., 1956), p. 61.
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dade negativa de meu pai e apesar de ele ter cumprido sua pena ninguém esquecerá do fato.
Há algo que eu possa fazer? Estou muito triste porque não gosto de estar sempre sozinha. Minha mãe procura fazer com que eu saia com ela, mas quero a companhia de pessoas da minha idade Por favor, dê-me algum conselho.
UMA PROSCRITA."Cl
Em geral, a tendência para a difusão de um estigma do indivíduo marcado para as suas relações mais próximas explica por que tais relações tendem a ser evitadas ou a terminar, caso já existam.
As pessoas que têm um estigma aceito fornecem um modelo de "normalização" 62 que mostra até que ponto podem chegar os normais quando tratam uma pessoa estigmatizada como se ela fosse um igual. (A normalização deve ser diferençada da "normificação", ou seja, o esforço, por parte de um indivíduo estigmatizado, em se apresentar como uma pessoa comum, ainda que não esconda necessariamente o seu defeito.) Além disso, pode ocorrer um culto do estigmatizado, sendo a resposta estigmafóbica dos normais neutralizada pela resposta estigmáfila dos "informados". As pessoas que têm um estigma aceito podem colocar tanto o estigmatizado quanto o normal numa posição desconfortável: estando sempre prontos a suportar a carga do que não é "realmente seu", podem colocar os demais frente a uma moralidade excessiva; tratando o estigma como uma questão neutra, que deve ser encarada diretamente e sem rodeios, expõem a si mesmos e aos estigmatizados a uma interpretação errônea, já que os normais podem notar uma certa agressividade neste comportamento.63
A relação entre o estigmatizado e seu aliado pode ser difícil. A pessoa que tem um defeito pode sentir que a qualquer momento pode haver uma volta ao estado anterior, sobretudo quando as defesas diminuem e a dependência aumenta. Nas palavras de uma prostituta:
6.1 Bei-keley Dctily Gazette, 12 de abril de 1961.
2 Esta idéia deriva de C. G. Schwartz, "Perspectives on Deviance Wives' Definjtjons of their Husbands' Mental Illness", Psychiatrij, XX (1957), 275-291.
63 Para um exemplo em relação aos cegos, ver A. Gowman, "Blindness and the Role of the Conanion", Social Problems, 1V (1956), 68-75.
"Bem, eu queria ver o que aconteceria se eu nis adiantasse aos fatos. Expliquei a ele que se estivéssemos casados e brigássemos, ele colocaria a culpa em mim. Ele disse que não, mas os homens são assim mesmo." 64
Por outro lado, o indivíduo que tem um estigma de cortesia pode descobrir que deve sofrer da taior parte das privações típicas do grupo que assumiu e, ainda. assim, que não pode desfrutar a auto-exaltação que é a defesa comum frente a tal tratamento. Além disso, de maneira semelhante à que ocorre com o estigmatizado em relação a ele, pode duvidar de que, em última anuse, seja realmente "aceito" pelo grupo.65
A Carreira Moral
As pessoas que têm um estigma particular tendem a ter experiências semelhantcs de aprendizagem relativa à sua condição e a sofrer mudanças semelhantes na concepção do eu - uma "carreira moral" semelhante, que. é não só causa como efeito do compromisso com uma seqüência semelhante de ajustamentos pessoais. (A história natural de uma categoria de pessoas com um estigma deve ser claramente diferençada da história natural do próprio estigma - a história das origens, difusão e de clínio da capacidade de um atributo servir como estigma numa sociedade particular, por exemplo, o divórcio na classe rndia alta da sociedade americana.) Uma das fases desse processo de socialização é aquela na qual a pessoa estigmatizada aprende e incorpora o ponto de vista dos normais, adquirindo, portanto, as crenças da sociedade mais ampla em relação à identidade e uma idéia geral do que significa possuir um estigma particular. Uma outra fase é aquela na qual ela aprende que possui um estigma particular e, dessa vez detalhadamente, as conseqüências de possuí-lo. A sincronização e interação dessas duas fases iniciais da carreira moral formam modelos importantes, estabelecendo as bases para um desenvolvimento posterior, e fornecendo meios de distinguir entre
Stearn, op. çit., p. 99.
6 A gama de possibilidades é muito bem explorada em C. Brossard, "Plaint of a Gentile Inteilectual", em Brossard, ed., The Scene Bel ore You (Nova York: Holt, Rinehart & Winston, 195), pp. 87-91
42 ESTIGMA
ESTIGMA E IDENTIDADE SOCIAL 43
as carreiras morais disponíveis para os estigmatizados. Podem-se mencionar quatro desses modelos.
Um deles envolve os que possuem um estigma congênito e que são socializados dentro de sua situação de desvantagem, mesmo quando estão aprendendo e incorporando os padrões frente aos quais fracassam.'36 Por exemplo, um órfão aprende que é natural e normal que as crianças tenham pais e aprende, ao mesmo tempo, o que significa não tê-lo. Depois de passar os primeiros 16 anos de sua vida na instituição ele pode sentir ainda, mais tarde, que sabe a significação de um pai para seu filho.
Um segundo modelo deriva da capacidade de uma família e, em menor grau, da vizinhança local,, em se constituir numa cápsula protetora para seu jovem membro. Dentro de tal cápsula, uma criança estigmatizada desde o seu nascimento pode ser cuidadosamente protegida pelo controle de informação. Nesse círculo encantado, impede-se que entrem definições que o diminuam, enquanto se dá amplo acesso a outras concepções da sociedade mais ampla, concepções que levam a criança encapsulada a se considerar um ser humano inteiramente qualificado que possui uma identidade normal quanto a questões básicas como sexo e idade.
O momento crítico na vida do indivíduo protegido, aquele em que o círculo doméstico não pode mais protegê-lo, varia segundo a classe social, lugar de residência e tipo de estigma mas, em cada caso, a sua aparição dará origem a uma experiência moral. Assim, freqüentemente se assinala o ingresso na escola pública como a ocasião para a aprendizagem do estigma, experiência que às vezes se produz de maneira bastante precipitada no primeiro dia de aula, com insultos, caçoadas, ostracismo e brigas.°'
interessante notar que, quanto maiores as "desvantagens" da criança, mais provável é que ela seja enviada para uma escola de pessoas de sua espécie e que conheça mais rapidamente a opinião que o público em geral tem
66 Para uma discussão deste modelo, ver A. R. Lindesmith e
A. L. Strauss, Social Psychologv, ed. revista (Nova York: Holt, Rinehart & Winston, 1956), pp. 180-183.
67 Pode-se encontrar um exemplo da experiência de uma pessoa cega em R. Criddle, Love Is Not Blind (Nova York: W. W. Norton & Co., 1953), p. 21; a experiência de uma pessoa anã é relatada em H. Viscardi, Jr., A Man'8 Stctture (Nova York, The John Day Co., 1952), pp. 1344.
dela. Dir-lhe-ão que junto a "seus iguais" se sentirá melhor, e assim aprenderá que aquilo que considerava como o universo de seus iguais estava errado e que o mundo que é realmente o seu é bem menor. Deve-se acrescentar que quando, na infância, o estigmatizado consegue atravessar seus anos de escola ainda com algumas ilusões, o estabelecimento de relações ou a procura de trabalho o colocarão, amiúde, frente ao momento da verdade. Em alguns casos, o que ocorre é uma crescente probabilidade de revelação incidental:
"Creio que a primeira vez que realmente me dei conta de minha situação e a primeira dor profunda que ela me causou foi num dia, casualmente, quando estava na praia com o meu grupo de amigos d, início da adolescência. Eu estava deitada na areia e acho qu os rapazes e moças pensaram que eu estivesse dormindo. Um deles disse, então: 'Gosto muito de Domenica, mas nunca sairia com uma garota cega.' Não conheço nenhum preconceito que rejeite uma pessoa de maneira tão absoluta." 68
Em outros casos, o que está envolvido é uma sistemática exposição ao perigo, como sugere uma vítima de paralisia cerebral:
"Com uma exceção extremamente dolorosa, durante o período em que estive sob a custódia protetora da vida familiar ou dos programas da Universidade e vivi sem exercer meus direitos como um cidadão adulto, as forças da sociedade foram cordiais e benévolas. Foi após ter saído da Universidade e da Escola de Comércio e depois de haver realizado um esforço incalculável como trabalhador voluntário em programas comunitários, que mergulhei nas superstições e preconceitos medievais do mundo dos negócios. Procurar trabalho era semelhante a estar frente a um pelotão de fuzilamento. Os empregadores ficavam chocados com meu descaramento em procurar emprego." 69
Um terceiro modelo de socialização é exemplificado pelos que se tornam estigmatizados numa fase avançada da vida ou aprendem muito tarde que sempre foram desacreditáveis - o primeiro caso não envolve uma reorganização radical da visão de seu passado, mas o segundo sim. Tais indivíduos ouviram tudo sobre normais e estigmatizados muito antes de serem obrigados a considerar a si próprios como deficientes. Ë provável que tenham um
68 Henrich e Kriegel, op. cit., p. 186.
69 Ibid., p. 156.
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ESTIGMA E IDENTIDADE SOCIAL 45
problema todo especial em identificar-se e uma grande facilidade para se autocensurarem:
"Antes da colostomia, todas as vezes em que eu percebia um cheiro no onibus ou no metrô, ficava muito aborrecido. Eu achava que as pessoas eram horríveis, que não tomavam banho ou que deveriam ter ido ao banheiro antes de viajar. Costumava pensar que a causa do jheiro estava nos alimentos que elas ingeriam e me sentia profundamente enojado. Para mim elas eram pessoas sujas, imundas. È lógico que na primeira oportunidade mudava de lugar ou, se isto não era possível, mostrava toda a minha repugnância. 1or isso, acredito que as pessoas mais jovens sintam em relação ao meu cheiro a mesma coisa que eu sentia." 70
Embora haja alguns casos de indivíduos que só na vida adulta descobrem que pertencem a um grupo tribal estigmatizado ou que seus pais possuem um defeito moral contagioso, o mais comum é o de desvantagens físicas. que "surgem inesperadamente" quando se é mais velho:
"Mas, de repente, acordei uma manhã e descobri que não conseguia ficar de pé. Eu tinha poliomielite e a poliomielite é simplesmente assim. Sentia-me como uma criança pequena que é jogada dentro de enorme poço negro, e a única coisa de que tinha certeza era que eu não poderia me levantar a não ser que alguém me ajudasse. Parece que a educação, as aulas e os ensinamentos de meus pais que recebi durante 24 anos não me tornaram uma pessoa capaz de ajudar-se a si mesma. Eu era uma pessoa igual a qualquer outra
- normal, combativa, alegre, cheia de projetos - e, de repente, aconteceu alguma coisa! Aconteceu e eu tornei-me um estranho. Muito mais estranho para mim mesmo do que para os demais. Nem meus sonhos me conheciam, não sabiam o que podiam me deixar fazer - quando contava que ia a festas ou bailes, havia sempre uma estranha condição ou limitação, sempre a mesma, não exnlicitada nem mencionada. Tive imediatamente o mesmo enorme conflito mental e emocional de uma mulher que leva vida dupla. Tudo isso era irreal e me deixava muito confuso mas eu não podia deixar de dar-lhe importância." 71
Nesse caso, é provável que os médicos sejam as pessoas mais indicadas para informar ao doente sobre sua situação futura.
Um quarto modelo é ilustrado por aqueles que, micialmente, são socializados numa comunidade diferente, dentro ou fora das fronteiras geográficas da sociedade
70 Orbach et ai., op. cit., p. 165.
71 N. Linduska, My Poiio Past (Chicago: Pellegrini & Cudahy,
1947), p. 177.
normal, e que devem, portanto, aprender uma segunda maneira de ser, ou melhor, aquela que as pessoas à sua volta consideram real e válida.
Deve-se acrescentar que quando um indivíduo adquire tarde um novo ego estigmatizado, as dificuldades que sente para estabelecer novas relações podem, aos poucos, estender-se às antigas. As pessoas com as quais ele passou a se relacionar depois do estigma podem vê-lo simplesmente como uma pessoa que tem um defeito; as amizades anteriores, à medida que estão ligadas a uma concepção do que ele foi, podem não conseguir tratá-lo, nem com um tato formal nem com uma aceitação familiar total:
"A minha tarefa (como escritor cego que entrevista futuros clientes de sua produção literária) consistia em fazer com que os homens que eu ia visitar se sentissem à vontade .- o inverso da situação habitual, O curioso é que eu achava esse procedimento muito mais fácil com homens que eu não havia conhecido antes. Talvez se devesse ao fato de que, com os estranhos, não havia recordações a ocultar antes de se tratar dos negócios e não havia, portanto, um desagradável contraste com o presente." 72
Sem considerar o modelo geral ilustrado pela carreira moral do indivíduo estigmatizado, é interessante considerar-se a fase de experiência durante a qual ele aprende que é portador de um estigma, porque é provável que nesse momento ele estabeleça uma nova relação com os outros estigmatizados.
Em alguns casos, o único contato que o indivíduo terá com os seus iguais é muito rápido, mas suficiente para mostrar-lhe que existem outras pessoas iguais a ele:
"Quando Tommy chegou na clínica pela primeira vez, havia ali dois meninos, ambos sem uma das orelhas por um defeto congênito. Quando Tommy os viu, levou vagarosamente a mão direita à sua orelha defeituosa e, com os olhos muito abertos, disse a seu pai:
Há outro menino com uma orelha igual à minha'." 3
No caso do indivíduo cuja desvantagem física é recente, seus companheiros de sofrimento que estão mais avançados do que ele na manipulação do defeito far-lhe-ão
72 Chevigny, op. cit., p. 136.
73 Macgregor et ai., op. cit., pp. 19-20.
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ESTIGMA E IDENTIDADE SOCIAL 47
provavelmente uma série de visitas para dar-lhe as boas vindas ao clube e para instruí-lo sobre o modo de adaptar-se física e psiquicamente:
"Na realidade, a primeira vez que tomei conhecimento de que há mecanismos de adaptação foi ao comparar dois companheiros meus, também pacientes do Hospital de Olhos e Ouvidos. Eles costumavam visitar-me quando estava deitado e cheguei a conhecê-los bastante bem. Ambos eram cegos há sete anos. Eles tinham mais ou menos a mesma idade - pouco mais de 30 anos - e haviam feito unversidade." 4
Nos muitos casos em que a estigmatização do indivíduo está associada com sua admissão a uma instituição de custódia, como uma prisão, um sanatório ou um orfanato, a maior parte do que ele aprende sobre o seu estigma ser-lhe-á transmitida durante o prolongado contato íntimo com aqueles que irão transformar-se em seus companheiros de infortúnio.
Como já se sugeriu, quando o indivíduo compreende pela primeira vez quem são aqueles que de agora em diante ele deve aceitar como seus iguais. ele sentirá, pelo menos, uma certa ambivalência porque estes não só serão pessoas nitidamente estigmatizadas e, portanto, diferentes da pessoa normal que ele acredita ser, mas também poderão ter outros atributos que, segundo a sua opinião, dificilmente podem ser associados ao seu caso. O que pode terminar como maçonaria, pode começar com um estremecimento. Uma garota que havia ficado cega recentemente, visita a Casa da Luz imediatamente após deixar o hospital:
"Minhas perguntas sobre um cachorro-guia foram polidamente deixadas de lado. Outro assistente social cego encarregou-se de me mostrar o lugar. Visitamos a biblioteca Brailie, as salas de aula, os saões do clube onde se reuniam os membros cegos dos grupos de música e teatro; a sala da recreação onde, em ocasiões festivas, os cegos dançavam, as quadras de jogos onde eles jogavam, o restaurante onde todos se reuniam para comer, as enormes oficinas onde trabalhavam para a subsistência fazendo panos de chão e escovas, tapetes, ou empalhando cadeiras. À medida que passávamos de um côm'-'do a outro, eu podia ouvir o barulho de pés que se arrastavam, vozes em surdina e toque-toque de bengalas. Aqui estava o mundo seguro e segregado dos que não enxergavam - um mundo comple tament
diferente, segundo me afirmou o assistente social, do que eu acabava de deixar...
Esperavam que eu integrasse esse mundo, que desistisse de minha profissão e ganhasse a vida fazendo panos de chão. A Casa da Luz ficaria muito feliz em me ensinar a fazê-los. Meu destino era passar o resto de minha vida fazendo panos de chão com outras pessoas cegas, comendo com outras pessoas cegas e dançando com outros cegos. Na medida em que esta imagem crescia em minha mente, o medo me dava ráuseas. Eu nunca havia deparado com uma segregação tão destrutiva." 75
Dada a ambivalência da vinculação do indivíduo com a sua categoria estigmatizada, é compreensível que ocorram oscilações no apoio, identificação e participação que tem entre seus iguais. Haverá "ciclos de incorporação" através dos quais ele vem a aceitar as oportunidades especiais de participação intragrupal ou a rejeitá-las depois de havê-las aceito anteriormente.76 Haverá oscilações correspondentes nas crenças sobre a natureza do- próprio grupo e sobre a natureza dos normais. Por exem p10, a adolescência (e o grupo de companheiros da escola secundária) pode acarretar um declínio acentuado da identificação intragrupal e um nítido aumento na identi ficação com os normais.77 As fases posteriores da carreira moral do indivíduo devem ser buscadas nessas mudanças de participação e crença. A relação do estigmatizado com a comunidade informal e as organizações formais a que ele pertence em função de seu estigma é, então, crucial. Essa relação, por exemplo, estabelecerá grande distância entre aqueles cuja diferença cria muito pouco de um novo "nós" e aqueles, como os membros de grupos minoritários, que se consideram parte de
Keitlen, op. cit., pp. 37-38. Liduska, op. cit., pp. 159-165, fornece uma descrição das primeiras vicissitudes da identificação que um paciente de poliomielite, hospitalizado, estabelece com outros aleijados. J. W. Johnson, em The Autobiography of an Er-Coloured Man (ed. rev., Nova York, Hili & Wang, American Century Series, 1960), pp. 22-23, oferece um relato, em forma de ficção, de uma reidentificação racial.
76 Pode-se encontrar um enunciado geral em dois trabalhos de
E. C. Hughes, "Social Change and Status Protest", Phylon, Primeiro
Trimestre, 1949, 58-65, e "Cycles and Turning Points", em Men and'
Their Work (Nova York: Free Prees of Glencoe, 1958).
77 M. Yarrow, "Personality Development and Minority Group Membership", em M. Sklare, The Jews (Nova York: Free Press of Glencoe, 1960), pp. 468-470.
74 op. cit., p. 35.
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uma comunidade bem organizada com tradições estabelecidas - uma comunidade que formula consideráveis exigências de renda e lealdade, que define o membro como alguém que se deve orgulhar de sua doença e não buscar melhora. De qualquer forma, quer o grupo estigmatizado esteja ou não estabelecido, é, em grande parte, em relação a esse grupo-de-iguais que é possível discutir a história natural e a carreira moral do indivíduo estigmatizado.
Ao rever a sua própria carreira moral, o estigmatizado pode escolher e elaborar retrospectivamente as experiências que lhe permitem explicar a origem das crenças e práticas que ele agora adota em relação a seus iguais e aos normais. Um acontecimento em sua vida pode, assim, ter um duplo significado na carreira moral, em primeiro lugar-como causa objetiva imediata de uma crise real, e depois (e mais facilmente demonstrável), como meio para explicar uma posição comumente tomada. Uma ex •periênci selecionada quase sempre para esse último objetivo é aquela em que o indivíduo recentemente estigmatizado aprende que os membros mais antigos do grupo se parecem bastante com seres humanos comuns:
"Quando eu (uma jovem iniciante na prostitução e que ia se encontrar pela primeira vez com sua Madame) dobrei na Rua 4, tornei a perder a coragem e estava quase batendo em retirada quando Mamie sau de um restaurante, atravessou a rua e me cumprimentou afetuosamente, O porteiro, que veio abrir a porta quando tocamos a campainha, dsse que a Dona Laura estava em seu quarto e nos mostrou p caminho. Vi-me frente a uma mulher de boa aparência e de meia-idade que não tinha nada da criatura horrível que eu havia imaginado. Deu-me boas-vindas com uma voz suave e educada. Tudo nela evidenciava eloqüentemente as suas potencialidades para a maternidade que, instintivamente, procurei as crianças que deveriam estar penduradas em suas saias." 78
Outro exemplo é o de um homossexual que se refere .à sua mudança:
"Enconrtei um homem que havia sido meu colega de escola... Ele, é claro, era homossexual e tomou como certo que eu o era também. Eu estava surpreso e bastante impressionado. Ele não se parecia nem um pouco com a imagem popular de um homossexual,
78 Madeleine, an Autobiography (Nova York: Pyramid Books, ;1961), pp. 36-37.
pois era de boa compleição, viril e estava sobriamente vestido. Isso era algo de novo para mim. Embora eu estivesse perfeitamente preparado para admitir que poderia haver amor entre homens, sempre senti uma repulsa pelos homossexuais declarados que havia encontrado, devido à sua futilidade, sua maneira afetada e sua tagarelice sem fim. Compreendi, então, que esses formavam somente urna pequena parte do mundo homossexual, embora a mais fácil de ser percebida. . . "
Um aleijado nos fornece uma afirmação semelhante:
"Se eu tivesse de escolher um conjunto de experiências que finalniente me convenceram da importância desse problema (auto-imagem) e de que eu devia travar minhas próprias batalhas de identficação, esse conjunto englobaria os incidentes que me fizeram compreender profundamente que os aleijados podem ser identificados com outra características que não a sua desvantagem física. Dei-me conta de que os aleijados poderiam ser como qualquer outra pcssoa, de boa aparência, encantadores, feios, adoráveis, estúpidos, brilhantes, e descobri que eu poderia amar ou odiar um aleijado a despeito de sua &ficiência." 80
Deve-se acrescentar que ao refletir sobre o momento em que descobriu que as pessoas que têm o seu estigma são pessoas iguais a qualquer outra, o estigmatizado pode chegar a tolerar que os amigos que tinha antes do estigma considerem desumanos aqueles a quem ele aprendeu a ver como pessoas tão completas quanto ele. Assim, ao rever a sua experiência num circo, uma jovem percebe em primeiro lugar que ela aprendeu que seus companheiros de trabalho não são monstros e, em segundo lugar, que seus amigos anteriores ao circo tinham medo de que ela viajasse sozinha de ônibus junto com outros membros da troupe." 81
Uma outra crise - considerada retrospectivamente,
se não originalmente - é a experiência do isolamento
e da falta de habilitação, geralmente um período de hospitalização que mais tarde vem a ser considerado como
a época em que o indivíduo podia pensar em seu problema, aprender sobre si mesmo, adaptar-se à sua situa.
79 P. Wildeblood, Against the Lcew (Nova York: Julian Messner,
1959), pp. 23-24.
80 Carling, op. eit., p. 21.
81 C. Clausen, 1 Love You Honey But the Season's Over (Nova
York: Holt, Rineheart & Winston, 1961), p. 217.
ção e alcançar uma nova compreensão daquilo que È importante e merece ser buscado na vida.
Deve-se acrescentar que não só as experiências da pessoas são identificadas retrospectivamente com mo mentos decisivos, mas também as que já foram supe radas podem ser empregadas assim. Por exemplo, a lei tura da literatura do grupo pode dar uma e*periênci que é sentida e que se pretende que seja reorganizadora
"Não creio que seja muita pretensão dizer que Unelc Tom's CabiE era um panorama leal e verdadeiro da escravidão; seja como for esse livro abriu meus olhos em relação a quem e o que eu era E o que o meu país me considerava; na verdade, deu-me uma orien tação." 82
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Johnson, op. cit., p. 42. A novela de Johnson, como outra novelas desse tipo, fornece um bom exemplo da elaboração de mitos organizando literariamente muitas das experiências morais cruciai e mudanças também cruciais a que estão sujeitos, retrospectivamente aqueles que estão numa categoria estigmatizada.
1-

2. CONTROLE DE INFORMAÇÃO e IDENTIDADE PESSOAL

O Desacreditado e o Desacreditável
Quando há uma discrepância entre a identidade social real de um indivíduo e sua identidade virtual, é possível que nós, normais, tenhamos conhecimento desse fato antes de entrarmos em contato com ele ou, então, que essa discrepância se torne evidente no momento em que ele nos é apresentados Esse indivíduo é uma pessoa desacreditada e foi dele, fundamentalmente, que me ocupei até agora. Como foi sugerido, é provável que não reconheçamos logo aquilo que o torna desacreditado e enquanto se mantém essa atitude de cuidadosa indiferença a situação pode-se tornar tensa, incerta e ambígua para todos os participantes, sobretudo a pessoa estigmatizada.
)' Uma possibilidade fundamental na vida da pessoa estigmatizada é a colaboração que presta aos normais no sentido de atuar como se a sua qualidade diferencial manifesta não tivesse importância nem merecesse atenção especial. Entretanto, quando a diferença não está imediatamente aparente e não se tem dela um conhecimento prévio (ou, pelo menos, ela não sabe que os outros a conhecem), quando, na verdade, ela é uma pessoa desacreditável, e não desacreditada, nesse momento é que aparece a segunda possibilidade fundamental em sua vida. A questão que se coloca não é a da manipulação da tensão gerada durante os contatos sociais e. sim, da manipulação de informação sobre o seu defeito. Exibi-lo ou ocultá-lo; contá-lo ou não contá-lo; revelá-lo ou escondê-lo; mentir ou não mentir; e, em cada caso, para quem, como, quando e onde. Por exemplo, quando o paciente mental está no sanatório, e quando se encontra com mem -4
52 ESTIGMA
CONTROLE DE INFORMAÇÃO E IDENTIDADE PESSOAL 53
bros adultos de sua família ele é tratado com tato, como se fosse sadio quando, na realidade, há dúvidas sobre isso, mesmo que não de sua parte ou, então, ele é tratado como insano quando sabe que isso não é justo. Mas para o ex-paciente mental, o problema pode ser bem diferente; ao invés de encarar o preconceito contra si mesmo, ele deve considerar a sua aceitação involuntária pelos indivíduos que têm preconceitos contra o tipo de pessoa que ele pode revelar ser. Onde quer que ele vá, seu compor. tamento confirmará, falsamente, para as outras pessoas o fato de que eles estão em companhia do que eles na verdade esperam. Mas podem descobrir, na realidade, que isso não ocorre, ou seja, não se trata de uma pessoa mentalmente sadia como eles próprios. Deliberadamente ou não, o ex-paciente mental esconde informações sobre sua identidade social verdadeira, recebendo e aceitando um tratamento baseado em falsas suposições a seu respeito. A manipulação da informação oculta que desacredita o eu, ou seja, o "encobrimento", é o segundo problema geral que desejo focalizar nestas notas. Existe também o ocultamento de fatos positivos - encobrimento inverso - mas esse fato não é relevante para nós.1
A Informação Social
No estudo do estigma, a informação mais relevante tem determinadas propriedades. uma informação sobre um indivíduo, sobre suas características mais ou menos permanentes, em oposição a estados de espírito, sentimentos ou intenções que ele poderia ter num certo mo1 Para um exemplo de encobrimento invertido, ver "H. E. R.
Cules", "Ghost-Writer and Failure", em P. Toynbee, cd., Underdogs (Londres: Weidenfeld & Nicolson, 1961), Cap. 2, pp. 30-39. Ha muitos outros exemplos. Conheci uma médica que evitava usar sImbolos externos de seu statas, tal como plásticos de identificação no carro. O único lugar onde havia referência à sua profissão era num cartão de identificação que carregava em sua carteira. Quando se encontrava frente a um acidente na rua no qual a vítima já havia recebido socorro médico ou quando tal socorro era inútil, ela, depois de examinar a vítima a distância, do meio do círculo de pessoas que a rodeavam, seguia tranqüilamente o seu caminho sem mencionar a sua condição. Nessas situações ela era o que se pode chamar de uma "personificadora".
mento.2 Essa informação, assim como o signo que a transmite, é reflexiva e corporificada, ou seja, é transmitida pela própria pessoa a quem se refere, através da expressao corporal na presença imediata daqueles que a recebem. Aqui, chamarei de "social" à informação que possui todas essas propriedades. Alguns signos que transmicem informação social podem ser acessíveis de forma freqüente e regular, e buscados e recebidos habitualmente; esses signos podem ser chamados de "simbolos".
> A informação social transmitida por qualquer símbolo particular pode simplesmente confirmar aquilo que outros signos nos dizem sobre o indivíduo, completando a imagem que temos dele de forma redundante e segura.' Exemplos disso são os distintivos na lapela que atestam a participação em um clube social e, em alguns contextos, a aliança que um homem tem em sua mão. Entretanto, a informação social transmitida por um símbolo pode estabelecer uma pretensão especial a prestígio, honra ou posição de classe desejável - uma pretensão que não poderia ter sido apresentada de outra maneira ou, caso o fosse, não poderia ser logo aceita. Tal signo é popularmente chamado de "símbolo de status", embora a expressão "símbolo de prestígio" possa ser mais exata, já que o primeiro termo é empregado de modo mais adequado quando o referente é uma determinada posição social bem organizada. Símbolos de prestígio podem ser contrapostos a simbolos de estigma, ou seja, signos que são especialmente efetivos para despertar a atenção sobre uma degradante discrepância de identidade que quebra o que poderia, de outra forma, ser um retrato global coerente, com uma redução conseqüente em nossa valorização do indivíduo. A cabeça raspada das colaboracionistas na Segunda Guerra Mundial, assim como certos solecismos usuais, através dos quais uma pessoa que quer imitar as maneiras e as roupas da classe média repete erradamente uma palavra ou a pronuncia várias vezes de maneirra incorreta, são exemplos disto.
2 A diferença entre informação relativa a estados de espírito e outros tipos de informação é tratada em G. Stone, "Appearance and the Self", em A. Rose, Human Behavior and Social Processes (Boston: Houghton Mifflin, 1962), pp. 86-118. Ver também E. Goffman, The Presentation of Sei! in Ever'yday Lif e (Nova York: Doubleday & Co., Anchor Books, 1959), pp. 24-25.
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CONTROLE DE INFORMAÇÃO E IDENTmADE PESSOAL 55
Além dos simbolos de prestígio e dos simbolos de estigma, pode-se achar uma outra possibilidade, ou seja, um signo que tende - real ou ilusoriamente - a quebrar uma imagem, de outra forma coerente, mas nesse caso numa direção positiva desejada pelo ator, buscando não só estabelecer uma nova pretensão mas lançar sérias dúvidas sobre a validade da identidade virtual. Referir-me-ei aqui aos desidentificaclores. Um exemplo é o 'inglês correto' de um educado negro do Norte que visita o Sul; outro é o turbante e o bigode, usados por alguns negros de classe baixa urbana.4 Um estudo sobre analfabetos nos dá outro exemplo:
"Portanto, quando as metas têm uma orientação pronunciada ou imperativa e existe uma grande probabilidade de que ser definido como analfabeto constitui uma barreira para a consecução do objetivo, é provável que o analfabeto tente "passar por" alfabetizado * ... A popularidade que gozavam no grupo estudado de lentes de vidro com pesadas armações de osso (os chamados "bop glasses") pode ser considerada como uma tentativa de se igualar ao estereótipo do homem de negócios, professor, jovem intelectual e, especialmente, o músico de jazz de alto statu&"
Um especialista nova-iorquino nas artes da vadiagem nos dá outro exemplo:
"Para ler uni livro depois das sete e meia da noite no Grand Central ou na Penn Station urna pessoa deve usar óculos com armações de osso ou então aparentar ser excepcionalmente próspera. Caso contrário, estará sujeita a ser espreitada. Por outro lado, os leitores de jornal nunca parecem chamar a atenção e, mesmo o mais maltrapilho vagabundo pode sentar-se no Grand Central durante a noite inteira sem ser molestado se continuar a ler um jornal."
Deve-se observar que nessa discussão sobre símbolos de prestígio, símbolos de estigma e desidentificadores, foram considerados os signos que comumente transmitem
3 G.J.Fleming, "My Most I{umiliating Jim Crow Experience", Negro Digest (junho, 1954), 67-68.
4 B. Wolfe, "Ecstatic in Blackface", Modern Review, III (1950),
204.
* Em inglês try to "pass" as literate. Daí passing ser a palavra em inglês para o que traduzimos por "encobrimento". (N. do T.)
° Freeman e Kasenbaum, op. eU., p. 372.
O E. Love, Subways Are for Sleeping (Nova York: Harcourt, Brace & World, 1957), p. 28.
informação social. Esses símbolos devem ser diferençados dos símbolos efêmeros que não foram institucionalizados como canais de informação. Quando tais signos são reivindicações de prestígio, eles podem ser chamados "pontos"; quando desacreditam reivindicações tácitas ,"errros".
Alguns signos que trazem informação social, cuja presença, inicialmente, se deve a outras razões, têm apenas uma função informativa superficial. Há simbolos de estigma que nos dão exemplos desse ponto: as marcas no pulso que revelam que um indivíduo tentou o suicídio; as marcas no braço do viciado em drogas; os punhos algemados dos prisioneiros em trânsito; ou mulheres que aparecem em público com um olho roxo como o sugere um autor que escreve sobre prostituição:
"Fora daqui (da prisão em que ela está atualmente), me vi em apuros. Sabe como é, a polícia vê uma garota com o olho roxo e imagina que eia está tramando alguma coisa, que está, provavelmente, ra 'vida, O próximo passo é segui-la. Aí, então, talvez, 'cana' de novo." 8
Outros sinais, como a insígnia da patente militar, são destinados ao único objetivo de transmitir informação social. Deve-se acrescentar que o significado da base de um signo pode, ao longo do tempo, ser reduzido, tornando-se, finalmente, só um vestígio, mesmo quando a função de informação da atividade permaneça constante ou cresça em importância. Além disso, um signo que parece existir por motivos não informativos pode, algumas vezes, ser fabricado premeditadamente apenas devido sua função informativa, como ocorria quando as cicatrizgs de um duelo eram cuidadosamente planejadas e
infligidas.
Os signos que transmitem a informação social variam em função de serem, ou não, congênitos e, se não o são, em função de, uma vez empregados, tornarem-se, ou não, uma parte permanente. (A cor da pele é congênita; a marca de uma queimadura ou mutilação é permanente mas não congênita; a cabeça raspada de um presidiário não é nem uma coisa nem outra.) Mais importante ainda,
7 A. Heckstall-Smith, Eighteen Months (Londres: Allan Wingate, 1954), p. 43.
8 T. Rubin, In the Life (Nova York: The Macmillan Company,
1961), p. 69.
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CONTROLE DE INFORMAÇÃO E IDENTIDADE PESSOAL 57
deve-se assinalar que os signos não permanentes, usados apenas para transmitir informação social, podem ou não ser empregados contra a vontade do informante; quando o são, tendem a ser símbolos de estigma.9 Mais tarde será necessário considerar os simbolos de estigma voluntariamente empregados.
possível que haja signos cujo significado varie de um grupo para outro, ou seja, que a mesma categoria seja diferentemente caracterizada. Por exemplo, as ombreiras que os funcionários da prisão exigem que os presidiários que desconfiam que tendem a fugir usem ' podem ter um significado, em geral negativo, para os guardas e, ao mesmo tempo, serem para o portador um sinal de orgulho frente a seus companheiros de prisão.
O uniforme pode ser motivo de brio para um oficial, para ser usado em toda ocasião possível; para outros,
Na obra Anerican Notes escrita com base na sua viagem de 1842, Dickens registra em seu capítulo sobre escravidão alguns exemplos de jornais locais que informavam sobre escravos perdidos e encontrados. As identificações contidas nesses anúncios fornecem uma gama completa de signos de identificação. Em primeiro lugar, há características relativamente estáveis do corpo que, no contexto, podem, conseqüentemente, fornecer uma identificação positiva parcial ou completa: idade, sexo e cicatrizes (resultantes de ferimentos a bala ou a faca, de acidentes e de açoite). Também se dá o nome reconhecido pelo escravo, embora geralmente, é claro, só o primeiro nome. Por fim, são freqüentemente citados símbolos de estigma, notadamente as iniciais gravadas a fogo e a falta de orelhas. Esses símbolos comunicam a identidade social do escravo mas, ao contrário dos grilhões de ferro em torno do pescoço ou da perna, comunicam, também, algo mais que isso, ou seja, a posse por um senhor em especial. As autoridades têm, então, duas preocupações em relação a um negro apreendido: saber se ele era ou não um escravo fugido e, se o fosse, saber a quem pertencia.
10 Ver O. Dendrickson e F. Thomas, The Truth About Dartmoor (Londres: Victor Gollancz, 1954), p. 55, e F. Norman, Bang te Rights (Londres: Secker & Warburg, 1958), p. 125. O uso desse tipo de símbolo está bem colocado em E. Kogon, The Theo'ry and' Practice of Heli (Nova York: Berkley Publishing Corp., s/d), pp. 41-2, onde ele especifica as marcas usadas nos campos de concentração para identificar diferencialmente prisioneiros políticos, transgressores secundários, criminosos, Testemunhas de Jeová, "elewentos inúteis", ciganos, judeus, "profanadores da raça", estrangeiros (segundo a nação), débeis mentais, e assim por diante. Os escravos no mercado romano de escravos também eram freqüentemente marcados segundo a sua nacionalidade; ver M. Gordon, "The Nationality of Slaves Under the Early Roman Empire", em M. 1. Finley, ed., Slavery in Clctssicat Antiquity (Cambridge: Heffer, 1960), p. 171.
entretanto, os fins de semana podem representar o momento de pôr em prItica as suas preferências e usar trajes paisana, passando por civis. De maneira semelhante, embora a obrigação de usar a boina da escola
quando estão na cidade possa ser considerada por alguns rapazes como um privilégio, assim como o seria para alguns soldados a obrigação de usar o uniforme quando em licença, outros sentem que a informação social transmitida dessa forma é um meio de garantir a disciplina e o controle sobre eles quando estão fora do serviço ou fora da escola.'1 Assim, também, durante o século XIX na Califórnia, a ausência da trança num homem chinês significava, para os ocjdentais, um certo grau de aculturação enquanto os outros chineses levantavam uma dúvida no que se refere à sua respeitabilidade - em termos específicos, se o indivíduo em questão tinha ou não passado algum tempo na prisão, onde o corte da trança era obrigatório, motivo por que, durante um certo tempo, houve alguma resistência ao seu corte.'2
Os signos portadores de informação social variam, é claro, no que se refere à sua confiabilidade. Vasos capilares dilatados no rosto e no nariz, algumas vezes chamados de "estigmas venosos" com maior propriedade do que se acredita, podem ser, e o são, tomados como indicadores de excessos alcoólicos. Entretanto, os abstêmios também podem exibir o mesmo símbolo por outras razões fisiológicas dando, assim, lugar a suspeitas injustificadas sobre si mesmos mas que, apesar disso, eles devem enfrentar.
Deve ser levantado um último ponto no que se refere à informação social, ponto esse que se refere ao caráter informativo que tem o relacionamento "com" alguém em nossa sociedade. Estar "com" alguém é chegar em alguma ocasião social em sua companhia, caminhar com ele na rua, fazer parte de sua mesa em um restaurante, e assim por diante. A questão é que, em certas circunstâncias, a identidade social daqueles com quem o individu& está acompanhado pode ser usada como fonte de informação sobre a sua própria identidade social, supondo-se
11 T. H. Pear, Personality, Áppearance and Speech (Londres:
George Alien and Unwin, 1957), p. 58.
12 A. MacLeod. Pigtails and Gold Dust (Caldwell, Idaho:
Caxton Printers, 1947), p. 28. Às vezes o uso da trança também'
tinha um significado histórico-religioso; ver ibid., p. 204.
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que ele é o que os outros são. O caso extremo, talvez, seja a situação em círculos de criminosos: uma pessoa 'com ordem de prisão pode contaminar legalmente qualquer um que seja visto em sua companhia, expondo-o à prisão como suspeito. (Diz-se, então, de uma pessoa que está com ordem de prisão que "ela está com varíola" 'e que sua doença criminosa "pega".)13 De qualquer for •ma uma análise da manipulação que as pessoas fazem 'sobre as informações transmitidas sobre si próprias terá de considerar a maneira através da qual elas enfrentam as contingências de serem vistas na companhia de outros em particular.
Visibilidade
Tradicionalmente, a questão do encobrimento levantou o problema da "visibilidade" de um estigma particular, ou seja, até que ponto o estigma está adaptado para fornecer meios de comunicar que um individuo o possui. Por exemplo, ex-pacientes mentais e pais solteiros que esperam um filho compartilham um defeito que 'não é imediatamente visível; os cegos, entretanto, são facilmente notados. A visibilidade é, obviamente, um fator crucial. O que pode ser dito sobre a identidade social de um indivíduo em sua rotina diária e por todas as pessoas que ele encontra nela será de grande importância para ele. As conseqüências de uma apresentação compulsória em público serão pequenas em contatos particulares, mas em cada contato haverá algumas conseqüências que, tomadas em conjunto, podem ser imensas. Além 'disso, a informação quotidiana disponível sobre ele é a base da qual ele deve partir ao decidir qual o plano de ação a empreender quanto ao estigma que possui. Assim, qualquer mudança na maneira em que deve se apresentar sempre e em toda a parte terá, por esses mesmos motivos, resultados fatais - foi isto, possivelmente, que originou, entre os gregos, a idéia de estigma.
Já que é através de nossa visão que o estigma dos outros se torna evidente com maior freqüência, talvez o termo visibilidade não crie muita distorção. Na ver-
13 Ver D. Maurer, The Big Con (Nova York: Pocket Books,
1949), p. 298.
dade, o termo mais geral "perceptibilidade" seria mais preciso, e "evidenciabilidade" mais preciso ainda. Além disso, a gagueira é um defeito muito "visível" mas, em princípio, porque é ouvido e não visto. Antes que o conceito de visibilidade possa ser usado com segurança mesmo nessa versão correta, entretanto, ele deve ser diferençado de três outras noções que são, com freqüência, con'fundidas com ele.
Em primeiro lugar, a visibilidade de um estigma deve er diferençada de sua "possibilidade de ser conhecido". Quando um estigma de um indivíduo é muito visível, o simples fato de que ele entre em contato com outros 'evará o seu estigma a ser conhecido. Mas se outras pessoas conhecem ou não o estigma de um indivíduo depende de um outro fator além de sua visibilidade cor- 'rente, ou seja, de que elas conheçam, ou não, previa- mente o indivíduo estigmatizado - e esse conhecimento pode estar baseado em mexericos sobre ele ou num contato anterior com ele durante o qual o estigma mostrou-se visível.
Em segundo lugar, a visibilidade deve ser diferençada de outra de suas bases específicas, a saber, a intrusibilidade. Quando um estigma é imediatamente perceptível, permanece a questão de se saber até que ponto ele interfere com o fluxo da interação. Por exemplo, numa reunião de negócios ninguém que estela sentado numa cadeira de rodas passará despercebido. Ao redor da mesa de conferência, entretanto, seu defeito pode ser relativamente ignorado, Por outro lado, um participante que tenha dificuldades de fala, o que, de um certo modo, é uma situação muito menos desvantajosa do que a de uma pessoa presa a uma cadeira de rodas, dificilmente poderá abrir a boca sem destruir a indiferença que seu defeito poderia suscitar e, toda a vez que o fizer, causará um certo mal-estar nos demais. A simples mecânica de encontros verbais redirige constantemente a atenção para o defeito, exigindo, a todo o momento, mensagens claras e rápidas, o que não pode ser cumprido. Pode-se acrescentar que o mesmo defeito pode ter diferentes exrressões, cada urna delas com um grau diferente de intrusibiliriade. Por exemplo, uma pessoa cega com uma bengala branca dá uma prova bastante visível de que é cega; mas esse símbolo de estigma, uma vez notado, pode algumas vezes ser ignorado, junto com o que significa. Mas
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o fato de que a pessoa cega não consiga voltar o rosto para os olhos dos co-participantes é um acontecimento que repetidamente viola a etiqueta da comunicação, e repetidamente desorganiza os mecanismos de realimentação da interação falada.
Em terceiro lugar, a visibilidade de um estigma (assim como a sua intrusibilidade) deve ser dissociada de certas contingências do que pode ser chamado de seu "foco de percepção". Nós, normais, desenvolvemos concepções, fundamentadas objetivamente ou não, referentes à esfera de atividade vital, que desqualificam primeiro o portador de um determinado estigma. A feiúra, por exemplo, tem seu efeito primário e inicial durante situações sociais, ameaçando o prazer que, de outra forma, poderíamos ter em companhia da pessoa que possui esse atributo. Percebemos, entretanto, que sua condição não deve ter efeitos sobre a sua competência para realizar tarefas solitárias embora, é claro, só possamos discriminá-la devido ao que sentimos quando olhamos para ela. A feiúra, então, é um estigma que é focalizado em situações sociais. Outros estigmas, como o fato de ser diabético,'4 parecem não ter nenhum efeito inicial sobre as qualificações para a interação face-a-face; esses estigmas nos levam, em primeiro- lugar, à discriminação em questões como a designação para empregos, e afetam a interação social imediata somente, por exemplo, porque o indivíduo estigmatizado pode ter tentado manter o seu atributo diferencial em segredo e sente-se inseguro sobre a sua capacidade de fazê-lo, ou porque as outras pessoas presentes conhecem a sua condição e tentam penosamente não fazer alusão a ela. Muitos outros estigmas encontram-se, no que se refere ao foco, entre esses dois extremos, e são percebidos como tendo um amplo efeito inicial em muitas áreas diferentes de vida. Por exemplo, uma pessoa que sofre de paralisia cerebral pode não só ser vista como incômoda numa situacão face-a-face mas também induzir a sensação de que ela não é eficiente ao desempenhar tarefas solitárias.
A questão da visibilidade, então, deve ser diferençada de alguns outros pontos: a "possibilidade de conhecimento" de um atributo, sua "intrusibilidade" e seu "foco de
14 "A Reluctant Pensioner", "Unemployed Diabetic", em Toynbee,
op. cit., Cap. 9, pp. 132-146.
percepção". Isso ainda deixa de lado a afirmativa tácita de que, de alguma forma, o público em geral está comprometido com aquilo que ele observa. Mas, como veremos, também os especialistas em revelar a identidade podem estar envolvidos, e o seu treinamento pode lhes permitir a descoberta imediata de algo invisível para os leigos. Um médico que encontra na rua um homem que apresenta manchas de um vermelho apagado na córnea e dentes angulosos e irregulares está encontrando alguém que exibe claramente dois signos de mal de Hutchinson e que provavelmente sofre de sífilis. Entretanto, outros observadores, não verão nada de mal no indivíduo. Em geral, então, antes que se possa falar de graus de visibilidade, deve-se especificar a capacidade decodificadora da audiência.
A Identidade Pessoal
Para que se possa considerar de maneira sistemática a situação da pessoa desacreditável e o seu problema de ocultamento e revelação, foi necessário, em primeiro lugar, examinar o caráter da informação social e da visibilidade. Antes de continuar, será preciso considerar seriamente um outro fator, a identificação, no sentido criminológico e não psicológico.
Até aqui, a análise da interação social entre os estigmatizados e os normais não exigiu que os indivíduos envolvidos no contato misto se conhecessem "pessoal- mente" antes de a interação se iniciar. Isso parece ra zoável. A manipulação do estigma é uma ramificação de algo básico na sociedade, ou seja, a estereotipia ou o "perfil" de nossas expectativas normativas em relação à conduta e ao caráter; a estereotipia está classicamente reservada para fregueses, orientais e motoristas, ou seja, pessoas que caem em categorias muito amplas e que podem ser estranhas para nós. Há uma idéia popular de que embora contatos impessoais entre estranhos estejam particularmente sujeitos a respostas estereotípicas, na medida em que as pessoas relacionam-se mais intima- mente essa aproximação categórica cede, pouco a pouco, à simpatia, compreensão e à avaliação realística de qualidades pessoais.'5 Embora um defeito como a desfiguração
15 Uma apresentação tradicional deste tema pode ser encontrada em N. S. Shaler, The Neighbo,- (Boston: Houghton Mifflin, 1904).
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racial possa repelir um estranho, as pessoas íntimas presumivelmente não seriam afastadas por tal motivo. A área de manipulação do estigma, então, pode ser considerada como algo que pertence fundamentalmente à vida pública, ao contato entre estranhos ou simples conhecidos, colocando-se no extremo de um continuum cujo pólo oposto é a intimidade.
A idéia de tal continuum, sem dúvida, tem alguma validade. Por exemplo, demonstrou-se que, além das técnicas que utilizam para lidar com estranhos, as pessoas que possuem desvantagens físicas podem desenvolver métodos especiais para eliminar a distância e o tratamento cauteloso que provavelmente receberão; elas podem tentar chegar a um plano mais "pessoal" onde, de fato, o seu defeito deixará de ser um fator crucial - um processo árduo que Fred Davis chama de "abrir caminho".' 5 Além disso, aqueles que têm um estigma corporal contam que, dentro de certos limites, as pessoas normais com as quais têm uma relação freqüente aos poucos chegarão a ser menos evasivas em relação à sua incapacidade, de tal maneira que algo semelhante a uma rotina diária de normalização pode-se desenvolver. Pode-se citar como exemplo a vida quotidiana de uma pessoa cega:
"Há atualmente barbearias onde sou recebido com a mesma tranqüilidade de antigamente, é claro, e hotéis, restaurantes e edifícios públicos onde posso entrar sem provocar a sensação de que algo está para acontecer; alguns motorneiros, e motoristas de ônibus, agora, simplesmente me dão bom dia quando subo com o meu cachorro e alguns garçons que conheço me servem com tradicional indiferença. Naturalmente, o círculo imediato de minha família há muito tempo deixou de se preocupar comigo sem necessidade e o mesmo ocorreu com meus amigos íntimos. Neste ponto, abri uma brecha na educação do mundo."17
É provável que categorias inteiras de estigmatizados achem uma proteção semelhante: as lojas algumas vezes localizadas próximo de hospitais psiquiátricos podem-se transformar em lugares onde as condutas psicóticas são muito toleradas. As vizinhanças de alguns hospitais desenvolvem uma capacidade para tratar com calma pessoas desfiguradas na face que estão se submetendo a enxertos
16 Davis, op. cit., pp. 127-128.
' Chevigny, op. cit., pp. 75-76.
cutâneos; a cidade que tem uma escola de treinamento de cegos aprende a olhar com aprovação os estudantes que seguram um arreio atado a um instrutor humano enquanto dirigem a este palavras de estímulo semelhantes. às que se costuma empregar para um CO.l8
A despeito dessas provas de crenças diárias sobre o estigma e a familiaridade, deve-se continuar a ver que a familiaridade não reduz necessariamente o menosprezo.' 9 Por exemplo, as pessoas normais que vivem. próximo de colônias constituídas de grupos tribalmente estigmatizados conseguem, com bastante habilidade, man ter os seus preconceitos. É mais importante aqui, entretanto, ver que as várias conseqüências de uma ordenação completa de suposições virtuais sobre um indivíduo podem estar nitidamente presentes em nosso trato com pessoas com as quais mantivemos uma relação duradoura, íntima e exclusiva. Em nossa sociedade, falar de uma mulher como esposa de alguém é colocar essa pessoa numa categoria que não pode ter mais que um membro; entretanto,. há toda uma categoria implícita da qual ela é somente um membro. É provável que características singulares, historicamente imbricadas, tinjam as margens de nossa relação com essa pessoa; ainda assim, há no âmago um ordenamento completo de previsões socialmente padronizadas que temos quanto à sua conduta e natureza como um modelo da categoria "esposa", por exemplo, de que ela cuidará da casa, receberá nossos amigos e terá filhos. Ela será uma boa ou má esposa, sendo isto colocado relativamente a expectativas padronizadas que outros maridos de nosso grupo têm, também, em relação a suas esposas. (Sem dúvida é escandaloso falar de casamento como uma relação particularizada.) Assim, quer esteja-. mos em interação com pessoas íntimas ou com estranhos, acabaremos por descobrir que as marcas da sociedade ficam claramente impressas nesses contatos, colocando-nos, mesmo nesse caso, em nosso lugar.
Haverá, sem dúvida, casos em que os que não são solicitados a compartilhar o estigma de um indivíduo ou a passar grande parte do tempo usando de tato e
18 Keitlen, op. cit., p. 85.
9 Para uma prova de que as crianças normais numa colônia de férias não aceitam mais facilmente, no decorrer do tempo, os seus. companheiros fisicamente incapacitados, ver Richardson, op. cit., p. 7.
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cuidado em relação a ele podem achar mais fácil aceitá-lo, precisamente por isso, do que aqueles que são obrigados a ter com ele um contato de tempo integral.
Quando passamos de uma consideração sobre pessoas desacreditadas para uma outra sobre pessoas desacreditáveis, encontramos muitas provas adicionais de que não só as pessoas íntimas daquele indivíduo como os estranhos serão afastados por seu estigma. Em primeiro lugar, as pessoas íntimas podem-se tornar aquelas em relação às quais ele mais se preocupa em esconder algo vergonhoso; a situação dos homossexuais nos fornece um exemplo:
Embora seja comum que um homossexual declare que seu desvio não é urna doença, é interessante o fato de que, quando resolve consultar alguém, a pessoa escolhida quase sempre seja um médico. Mas é pouco provável que este seja o médico de sua família. A maioria das pessoas cem quem conversamos desejavam ardentemente esconder o homossexualismo de sua família. Mesmo alguns daqueles que procediam em público de maneira bastante aberta, eram bastante cuida.. dosos no sentido de evitar que se levantassem suspeitas no círculo familiar." 20
Além disso, quando, numa família, um dos pais pode compartilhar um segredo profundo sobre, e com, o outro, podem-se considerar as crianças da casa não só como perigosos receptáculos da informação mas, também, como tendo uma natureza tão frágil que tal conneci mento poderia afetá-lo seriamente. O caso de pais hospi• talizados por doenças mentais é um exemplo disto:
"Quando têm que contar a doença do pai para as crianças, quase
todas as mães escolhem o caminho do encobrimento. Diz-se à criança ou que seu pai está no hospital (sem maiores explicações) ou que ele está no hospital por ter uma doença física (dor de dentes, um problema nas pernas, dor de barriga ou dor de cabeça) " 21
(A mulher de um doente mental" "vivo presa de terror - verdadeiro terror - de que alguém possa contar tudo a Jim (o
filho) 22
20 G. Westwood, A Minority (Londres: Longmans, Green & Company, 1960), p. 40.
22 M. R. Yarrow, J. A. Clausen e P. R. Robbins, "The Social Meaning of Mental Illness", Journa.l of Social Issues, XI (1955),
40-41. Esse trabalho fornece uns material muito útil sobre a manipulação do estigma.
22 Ibid., p. 34.
Pode-se acrescentar que há certos estigmas tão fáceis de esconder que raramente figuram na relação do indivíduo com estranhos ou simples conhecidos, tendo efeito principalmente com pessoas íntimas - frigidez, impotência e esterilidade são alguns exemplos desse tipo. Assim, ao tentar explicar por que o alcoolismo não parece desqualificar um homem para o casamento, um estudioso sugere que:
"É possível também que as circunstâncias do namoro ou os padrões sobre a bebida diminuam tanto a visibilidade do alcoolismo que ele não seja um fator importante na escolha do parceiro. A interação mais íntima do casamento pode, então, trazer à tona o prob ema de uma forma reconhecível para a esposa."
Por outro lado, as pessoas íntimas podem vir a desempenhar um papel especial na manipulação de situações sociais por parte do desacreditável, de tal maneira que quando a sua aceitação dela não for influenciada por seu estigma, as suas obrigações o serão.
Ao invés, então, de pensar num continuum de re lações, com o tratamento categórico e encobridor num extremo da escala e o tratamento particularístico e aberto no outro, talvez seja melhor pensar em várias estruturas nas quais os contatos se produzem e se estabilizam - rua com pessoas estranhas, as relações de serviço superficiais, o lugar de trabalho, a vizinhança, o cenário doméstico - e ver que, em cada caso, é provável que ocorram discrepâncias características entre a identidade social virtual e a identidade social real, e que se realizem esforços, também característicos, para manipular a situação.
Entretanto, todo o problema da manipulação do estigma é influenciado pelo fato de conhecermos, ou não, pessoalmente o indivíduo estigmatizado. Tentar descrever exatamente o que significa essa influência exige, entretanto, a formulação clara de um conceito adicional, o de identidade pessoal.24
23 E. Lemert, "The Ocurrence and Sequence of Events in the Adjustment of Families to Alcoholism", Quarterly Journal o! Studies on Alcohol, XXI (1960), 683.
24 Uma distinção entre as identidades pessoal e de papel está claramente apresentada em R. Sommer, H. Osmond e L. Pancyr, "Problems of Recognition and Identity", Interncttional Journal of Parapsychology, II (1960), 99-119, onde se coloca o problema de
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Acredita-se que em círculos sociais pequenos e exis tentes há certo tempo, cada membro venha a ser conhecido pelos outros como uma pessoa "única", O termo "único" é sujeito a pressões de cientistas sociais amadores que gostariam de lhe dar um conteúdo mais caloroso e criativo, algo que não o fizesse correr o risco de ser derrubado, pelo menos por sociólogos; não obstante, o termo envolve algumas idéias relevantes.
Uma idéia implícita na noção de "unicidade" de um- indivíduo é a de "marca positiva" ou "apoio de identidade", por exemplo, a imagem fotográfica do indivíduo na mente dos outros ou o conhecimento de seu lugar específico em determinada rede de parentesco. Um caso comparativo interessante é o dos Tuareg da África Ocidental, onde os homens cobrem o rosto deixando apenas um pequeno pedaço de fora por meio do qual podem enxergar; aqui, aparentemente, o rosto como um apoio para a identificação pessoal é substituído pela aparência do corpo e pelo estilo físico.25 Somente uma pessoa de cada vez pode encaixar-se na imagem que discuto aqui, e aquela que preencheu os requisitos no passado é a mesma que os preenche no presente e os preencherá no futuro. Observe-se que itens, como impressão digital, que são os meios mais eficazes de tornar os indivíduos diferentes mediante a identificação são também itens em função dos quais estes mesmos indivíduos são essencial- mente similares.
Uma segunda idéia é de que, embora muitos fatos particulares sobre um indivíduo sejam também verdadeiros para outros, o conjunto completo de fatos conhecidos sobre uma pessoa íntima não se encontra combinado em nenhuma outra pessoa no mundo, sendo este um recurso adicional para diferençá-la positivamente de qualquer
como se demonstra ou refuta uma ou outra. Ver também Goffman, The Presentation of Self in Everyday Lif e, op. cit., p. 60. A idéia de identidade pessoal também é usada em C. Rolph, Personal Identity (Londres: Michael Joseph, 1957), e por E. Schachtel, "On Alienated Concepts of Identity", American Journal of Prychoanalysis, XXI (1961), 120-121, sob o rótulo de "identidade de papel". O conceito de identidade legal ou jural corresponde intimamente ao de identidade pessoal, exceto pelo fato de que (como me informou Harvey Sacks) há algumas situações, como em adoções, em que a identidade lega! de um indivíduo pode ser mudada.
25 Agradeço aqui a Robert Murphy por seu trabalho ainda não publicado "On Social Distance and the Veil".
outra pessoa. Algumas vezes esse complexo de informações está vinculado ao nome da pessoa, como ocorre no dossiê policial; outras vezes está vinculado ao corpo, como quando chegamos a conhecer os padrões de conduta de uma pessoa que conhecemos de vista mas cujo nome ignoramos; freqüentemente essa informação está vinculada tanto ao nome quanto ao corpo.
Uma terceira idéia implícita na noção de "unicidade" é a que diferencia um indivíduo de todos os outros na essência de seu ser, um aspecto geral e central dele, que o torna bem diferente, não só no que se refere à sua identificação, daqueles que são muito parecidos com ele.
Ao usar o termo "identidade pessoal" pretendo referir-me somente às duas primeiras idéias - marcas positivas ou apoio de identidade e a combinação única de itens da história de vida que são incorporados ao indivíduo com o auxílio desses apoios para a sua identidade. A identidade pessoal, então, está relacionada com a pressuposição de que ele pode ser diferençado de todos os outros e que, em torno desses meios de diferenciação, podem-se apegar e entrelaçar, como açúcar cristalizado, criando uma história contínua e única de fatos sociais que se torna, então, a substância pegajosa à qual vêm-se agregar outros fatos biográficos. O que é difícil de perceber é que a identidade pessoal pode desempenhar, e desempenha, um papel estruturado, rotineiro e padronizado na organização social justamente devido à sua uni- cidade.
O processo de identificação pessoal pode ser observado claramente em ação se se toma como ponto de referência não um pequeno grupo, mas uma grande organização impessoal, como o governo de um Estado. atualmente uma prática organizacional padronizada que se registrem de maneira oficial todos os elementos que servem para identificação positiva do indivíduo, ou seja, utiliza-se um conjunto de marcas para diferençar a pessoa assim marcada de todos os outros indivíduos. Como se sugeriu, a escolha da marca é, em si mesma, bastante padronizada: atributos biológicos imutáveis, como a caligrafia ou a aparência fotograficamente comprovada; itens que são registrados de maneira permanente, como certidão de nascimento, nome e número da carteira de identidade. Recentemente, através da utilização da análise de
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computadores, foi feito um grande progresso experimental no uso das qualificações da caligrafia ou da fala como apoios de identidade, explorando assim uma característica expressiva menor de comportamento, semelhante à dos especialistas em "autenticação" de quadros. Mais impor. tante ainda, o Social Security Act * de 1935 nos Estados Unidos garante praticamente a todos os empregados um único número de registro ao qual pode ser anexada toda a história de vida empregatícia do indivíduo, um esquema de identificação que colocou em apuros consideráveis as nossas classes criminosas. De qualquer forma, uma vez que um apoio de identidade tenha sido preparado, materializado, e se torne disponível, podemos nos agarrar a ele; pode-se desenvolver um dossiê que normalmente fique contido e arquivado numa pasta de papéis manilha. Pode-se esperar que cresça a identificação pessoal dos cidadãos pelo Estado à medida que se refinam os dispositivos que tornam a história de um indivíduo particular mais acessível a pessoas autorizadas e ainda mais inclusiva de fatos sociais referentes a ele, como, por exemplo, recibos de pagamento de dividendos.
Há um interesse popular considerável nos esforços de pessoas perseguidas em adquirir uma identidade pessoal que não seja a "sua" ou em se desvincular de sua identidade original, como nos esforços em marcar com cicatrizes as pontas dos dedos ou em destruir certidões de nascimento. Em casos reais, procura-se mudar o nome próprio porque, de todos os apoios de identidade, este parece ser geralmente o mais empregado e, de certo modo, o mais fácil de ser alterado. A maneira respeitável e legalmente apropriada de se trocar de nome é através de um ato documentado cujo registro fica disponível num arquivo público. Uma continuidade singular fica assim preservada, a despeito da aparente diversidade.26 Ë o que ocorre quando, por exemplo, uma mulher troca seu último nome devido ao casamento. No mundo das diversões, é comum que um artista troque seu nome mas aqui, novamente, é possível o acesso ao registro de seu nome verdadeiro que, inclusive pode ser amplamente conhecido, como ocorre com autores que utilizam pseudônimo. Ocupações onde pode ocorrer uma mudança de nome que
* Lei de Segurança Social (N. do T.).
26 Ver Rolph, Personal Identity, op. cit., pp. 14-16.
não esteja oficialmente registrada, como as de prostituta, criminoso e revolucionário não são ocupações "legítimas". Um caso residual é o das ordens religiosas católicas. Sempre que uma ocupação traga em seu bojo uma mudança no nome, registrada ou não, pode-se ficar certo de que nela está implícita uma importante ruptura entre o indivíduo e seu velho mundo.
Deve-se assinalar que algumas mudanças de nome, como a de desertores do serviço militar e hóspedes de motéis, estão orientadas especificamente para os aspectos legais de identificação pessoal, enquanto outras, como as que ocorrem por motivos étnicos, estão orientadas para a questão da identidade social. Um autor que estudou a questão assinala que certos tipos de artistas profissionais têm como característica encontrarem-se em ambas as situações:
"A corista típica muda de nome quase tão freqüentemente quanto de penteado para estar em dia com a popularidade teatral corrente, com as superstições do mundo dos espetáculos ou, em alguns casos, para evitar o pagamento de impostos." 27
Posso acrescentar que os criminosos profissionais utilizam dois tipos especiais de nomes falsos: apelidos, usados temporariamente, embora repetidos com freqüência, para evitar a identificação pessoal; alcunhas, recebidas na comunidade criminal e conservadas por toda a vida, mas usadas apenas pelos e para os membros da comunidade ou pelos "informados".
Um nome, então, é um modo muito comum mas não muito confiável de fixar a identidade. Quando num tribunal de justiça se encontra uma pessoa que, por muitos motivos, esconde sua identidade, é compreensível que se procurem outras marcas positivas. Pode-se citar o caso inglês:
a identidade pessoal é provada em tribunais de justiça nao pela referência a nomes e nem sequer por testemunhos diretos, mas "presumivelniente" por provas de semelhanças e diferenças nas características pessoais." 28
27 A. Hartman, "Criminal Aliases: A Psychological Study", Journal of Psijchologij, XXXII (1951), 53.
28 Rolph, Personal Identity, op. eit., p. 18.
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A questão da informação social deve ser levantada agora novamente. Os sinais corporificados já considerados, quer de prestígio ou de estigma, pertencem à identidade social. Ë claro que todos eles devem ser diferençados da documentação que os indivíduos trazem consigo com o objetivo de estabelecer a sua identidade pessoal. Esses documentos vieram a ser largamente empregados na Inglaterra e nos Estados Unidos tanto por nativos quanto por estrangeiros. Carteiras de identidade e carteiras de motorista (que contêm impressões digitais, assinaturas e, algumas vezes, fotografias) são consideradas necessárias?9 Junto com essas identificações pessoais, a pessoa pode trazer documentação de idade (no caso de jovens que desejam freqüentar casas de jogo ou estabelecimentos que servem bebidas alcoólicas), uma permissão para empregar-se em atividades protegidas ou perigosas, permissão para estar fora do quartel, e assim por diante. Freqüentemente essa informação é completada por retratos familiares, prova de quitação com o serviço militar, e mesmo cópias fotostáticas de certificados escolares. Recentemente, surgiram os documentos que informam sobre o estado de saúde do portador, e o seu uso geral é defendido:
"Os cartões de identidade médica estão sendo estudados pelo Ministério da Saúde. A recomendação seria de que as pessoas os trouxessem sempre consigo.
O cartão conteria detalhes como vacinas tomadas, grupo sangüíneo e informações sobre qualquer doença, como a hemofilia, que deveria ser imediatamente conhecida em caso de acidente.
Um dos objetivos do cartão é facilitar o tratamento rápido em caso de emergência e evitar o perigo de injetar vacinas em determipadas pessoas, às quais elas poderiam ser alérgicas." 30
Deve-se acrescentar que parece haver um número cada vez maior de estabelecimentos que exigem que os seus empregados usem ou tenham à mão um cartão de identificação pessoal com fotografia.
29 Atualmente, na Inglaterra, os cidadãos não são obrigados a trazer consigo documentos de identificação, embora estrangeiros e motoristas o sejam; em certas circunstâncias, também, os cidadãos britânicos podem-se negar a revelar a sua identidade aos policiais. Ver ibid., pp. 12-13.
30 Relatado em The San Francisco Chronicle, 14 de abril de
1963, e atribuído ao The London Times.
O ponto comum desses vários recursos de identificaçao é, obviamente, que eles não permitem equívocos inocentes ou qualquer ambigüidade, transformando o que seria simplesmente um uso duvidoso de simbolos de informação social em falsificação evidente ou posse ilegal; portanto, o termo documento de identidade deveria ser mais preciso do que símbolo de identidade. (Compare-se, por exemplo, a base relativamente fraca de identificação da identidade dos judeus através da aparência, gestos ou voz.)31 Incidentalmente, essa documentação e os fatos sociais ligados a ela são quase sempre apresentados apenas em situações especiais a pessoas particularmente autorizadas a controlar a identidade, ao contrário do que ocorre com símbolos de prestígio e de estigma, que estão mais amiúde ao alcance do público em geral.
Como a informação sobre a identidade pessoal é em geral de um tipo que pode ser estritamente documentado, ela pode ser usada como proteção contra falsificações potenciais da identidade social. Assim, pode-se exigir que o pessoal do exército traga consigo documentos de identidade que validem o seu uniforme e a sua insígnia, potencialmente falsos. A identificação pessoal do estu. dante pode garantir ao bibliotecário que ele tem o direito de apanhar livros emprestados na biblioteca ou de entrar nas salas de leitura, e a carteira de motorista pode comprovar que o indivíduo tem idade legal para beber em estabelecimentos comerciais. Assim, também, os cartões de crédito atestam superficialmente a identidade pessoal, útil na decisão de se dar ou não crédito ao indivíduo, mas, além disso, atestam que ele pertence a uma categoria social que garante tal crédito. Um homem prova que é o Dr. Hiram Smith para confirmar que é um médico, mas raramente confirma que é um médico para provar que é o doutor Hiram Smith. De maneira semelhante, indivíduos rejeitados em determinados hotéis por razões étnicas podem ter sido etnicamente identificados devido a seus nomes, de tal modo que, também aqui, é explorado um item da biografia pessoal por motivos categóricos.
Em geral, então, a biografia ligada à identidade documentada pode colocar nítidas limitações à maneira que
- 31 L. Savitz e R. Tomasson, "The Identifiability of Jews", American Journol o! Sociology, LXIV (1959), 468-475.
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um indivíduo pode escolher para se apresentar; a situação de alguns ex-pacientes mentais ingleses que não são aceitos como aspirantes a tarefas ordinárias na Bolsa de Trabalho porque seus cartões da Segurança Nacional têm espaços sem selo, é um exemplo do que acabei de expor.32 Posso acrescentar que o ato de escolher a identidade pessoal pode encerrar implicações referentes à categoria social: os óculos escuros que as celebridades usam para esconder sua identidade pessoal presumivelmente revelam, ou revelaram durante algum tempo, uma categorização social de alguém que deseja ficar incógnito e que, de outra forma, seria reconhecido.
Uma vez que a diferença entre os símbolos sociais e os documentos de identidade é percebida, pode-se passar ao exame da posição específica de declarações orais que atestam lingüisticamente, e não só expressivamente, a identidade social e pessoal. Quando o indivíduo possui uma documentação insuficiente para receber um serviço desejado, pode-se ver que ele tenta empregar, em substituição, alegações orais. Os grupos e sociedades diferem, é claro, no que se refere a suas crenças sobre a quantidade de informação de identidade considerada conveniente em situações sociais aproximadamente equivalentes. Assim, sugere um escritor indiano:
"Em nossa sociedade, um homem é sempre aquilo que a sua designação indica, por isso somos muito meticulosos ao fornecê-la. Em Deli vi que, em algumas reuniões, certas pessoas diziam, elas mesmas, seus títulos, quando os encarregados de apresentá-las os omiarn. Um dia na casa de um diplomata estrangeiro em Deli, um rapaz me foi apresentado sem que sua posição oficial fos mencionada. Imediatamente ele me saudou e acrescentou: "Do Ministério X. E você, a que Departamento pertence?" Quando respondi que não pertencia a nenhum, ele pareceu bastante surpreendido tanto pelo fato de que eu tivesse siclo convidado para a reunião quanto porque eu não tinha nenhum título." 33
Biografia
Quer a linha biográfica de um indivíduo esteja registrada nas mentes de seus amigos íntimos ou nos arqui32 E. Milis, Living with Mcntal Illness: A Study in East London
(Londres: Routledge and Kegan Paul Ltd., 1962), p. 112.
33 C. Chaudhuri, A Passage to England (Londres: Macmillan & Company, 1959), p. 92.
vos de pessoal de uma organização, e quer ele porte a documentação sobre sua identidade pessoal ou esta documentação esteja armazenada em arquivos, ele é uma entidade sobre a qual se pode estruturar uma história - há um caderno a sua espera pronto para ser preenchido. Ele é, certamente, um objeto para biografia.34
Embora a biografia tenha sido empregada por cientistas sociais, sobretudo sob a forma de uma história de vida profissional, pouca atenção foi dispensada às propriedades gerais do conceito, exceto para observar que as biografias estão muito sujeitas à construção retrospectiva. O papel social como um conceito e um elemento formal da organização social foi amplamente examinado,, o que não ocorreu com a biografia.
O primeiro ponto a ser considerado no que se refere a biografias é que assumimos que um indivíduo só pode realmente, ter uma, o que é garantido muito mais pelas leis da física do que da sociedade. Entende-se que tudo o que alguém fez e pode, realmente, fazer, é passível de ser incluído em sua biografia como o ilustra o tema relativo a Jekyll e Hyde, mesmo que tenhamos que contratar os serviços de um especialista em biografias ou um detetive particular, para completar os fatos que estão faltando e fazer as relações entre os que já foram desco bertos. Por mais patife que seja um homem, por mais falsa, clandestina ou desarticulada que seja a sua existência, por mais que esta seja governada por adaptações, impulsos e reviravoltas, os verdadeiros fatos de sua atividade não podem ser contraditórios ou desarticulados. Note-se que essa unicidade inclusiva da linha de vida está em flagrante contraste com a multiplicidade de "eus" que se descobrem no indivíduo ao encará-lo sob a perspectiva do papel social onde, no caso de a segregação entre papel e audiência estar bem manipulada, ele poderá sustentar com bastante facilidade egos bem diversos e, até certo ponto, pretender que não é mais algo que já foi.
Dadas essas pressuposições sobre a natureza da identidade pessoal, surge um fator que será relevante para este relatório: grau de "conexão informacional". Considerando os fatos sociais importantes sobre uma pessoa, o tipo de fatos relatados em seu necrológio, qual o grau
34 Agradeço muito a Harold Garfinkel, que me mostrou o termo "biografia" no sentido em que é utilizado neste livro.
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de proximidade ou distância que há entre dois fatos quaisquer, se medido pela freqüência com a qual aqueles que conhecem um dos fatos podem também conhecer o outro? Falando de maneira mais geral, dado o número de importantes fatos sociais sobre o indivíduo, em que medida aqueles que conhecem alguns deles conhecem muitos?
A falsa informação social deve ser diferençada da falsa informação pessoal. Um homem de negócios da classe média alta que sai por um fim de semana de seu local de trabalho vestido com roupas de uma classe inferior à sua e que escolhe um local de veraneio barato está se representando falsamente no que se refere à informação social; quando ele se registra num motel com o nome de Mr. Smith, ele está se apresentando falsamente no segundo sentido. E quer esteja envolvida a identidade social ou a identidade pessoal, pode-se diferençar a representação que tem como objetivo provar que uma pessoa é o que não é, da representação que objetiva provar que uma pessoa não é o que é.
Em geral, as normas relativas à identidade social, como já ficou implícito, referem-se aos tipos de repertórios de papéis ou perfis que consideramos que qualquer indivíduo pode sustentar - "personalidade social", como costumava dizer Lloyd Warner.35 Não esperamos que um jogador de bilhar seja nem uma mulher nem um classicista, mas não ficamos surpresos nem embaraçados pelo fato de que ele seja um operário italiano ou um negro urbano. Normas relativas à identidade pessoal, entretanto, pertencem não a esferas de combinações permissíveis de fatos sociais mas ao tipo de controle de informação que o indivíduo pode exercer com propriedade. Para uma pessoa, ter tido o que se chama de um passado sombrio é uma questão relativa à sua identidade social; a maneira pela qual ele manipula a informação sobre esse passado é uma questão de identificação pessoal. A posse de um passado estranho (não estranho em si, é claro, mas estranho para alguém que pertence à identidade social presente do indivíduo) é um tipo de impropriedade; para o possuidor, viver toda uma vida diante daqueles que ignoram esse passado e não estão
35 W. L. Warner, "The Society, the Individual and His Mental Disorder", Americcin Journal of Psijchiatr-y, XCIV (1937), 278-279.
informados sobre ele pode ser um tipo muito diferente 'ie impropriedade. A primeira refere-se a nossas rer relativas à identidade social, a segunda às regras relativas à identidade pessoal.
Aparentemente, nos círculos atuais de classe média, quanto mais um indivíduo se desvia, de uma maneira indesejável, do que na verdade se espera dele, mais obrigado fica a dar voluntariamente informações sobre si mesmo mesmo quando o preço que deve pagar por sua sinceridade possa ter crescido proporcionalmente. (Por outro lado, o encobrimento por parte de um indivíduo de algo que ele deveria ter revelado sobre si não nos dá o direito de lhe perguntar o tipo de questão que o forçará a divulgar os fatos ou a dizer, habilmente, uma mentira. Quando fazemos tal pergunta, o resultado é um duplo embaraço, nosso por termos sido sem tato, e dele pelo que ocultou. Ele também pode sentir-se mal por nos ter colocado numa posição em que nos sentimos culpados por havê-lo embaraçado.) Nesse ponto, o direito à discrição parece ter sido ganho somente por não se ter nada a esconder.36 Parece também que com o objetivo de manipular a sua identidade pessoal será necessário que o indivíduo saiba a quem ele deve muita informação e a quem ele deve pouca - mesmo que em todos esses casos ele deva abster-se de contar uma mentira direta. Isso implica que também será necessário que ele tenha
-uma "memória", ou seja, nesse caso, uma avaliação precisa e imediata dos fatos de seu passado e de seu presente que ele deve dar aos demais.37
Devemos agora considerar a relação entre a identificação pessoal e a identificação social, e proceder à elucidação de alguns de seus entrelaçamentos mais aparentes.
É evidente que para construir uma identificação pessoal de um indivíduo utilizamos aspectos de sua identi 36 Para um marcante contraste, comparar o código no velho Oeste, onde aparentemente o passado de alguém e seu nome original
eram definidos como direito privado de propriedade. Ver, por exemplo, R. Adams, The Olci-Time Cowboy (Nova York, The Maemillan Company, 1961), p. 60.
3 Sobre o quadro de referência social da memória em geral, ver F. C. Bartlett, Remembering (Cambridge: Cambridge University Press, 1961).
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dade social - junto com tudo o mais que possa estar associado a ele. Ë claro ainda que o fato de ser capaz de identificar pessoalmente um indivíduo nos dá um recurso de memória para organizar e consolidar a informação referente à sua identidade social - um processo que pode alterar sutilmente o significado das características sociais que lhe imputamos.
Pode-se supor que a posse de um defeito secreto desacreditável adquire um significado mais profundo quando as pessoas para quem o indivíduo ainda não se revelou não são estranhas para ele, mas sim suas amigas. A descoberta prejudica não só a situação social corrente mas ainda as relações sociais estabelecidas; não apenas a imagem corrente que as outras pessoas têm dele mas também a que terão no futuro; não só as aparências, mas ainda a reputação. O estigma e o esforço para escondê-lo ou consertá-lo fixam-se como parte da identidade pessoal. Daí o crescente desejo de um comportamento inadequado quando se usa uma máscara,38 ou quando se está longe de casa; daí a vontade que algumas pessoas têm de publicar um material revelador de maneira anônima ou de aparecer publicamente diante de uma audiência privada, já que a suposição subjacente é de que
o público em geral não estabelecerá uma relação entre eles e o que se tenha feito. Um exemplo instrutivo sobre este último ponto foi relatado recentemente e refere-se à Sociedade Mattachine, uma organização que se dedica a apresentar e melhorar a situação de homossexuais e que, como parte desta tarefa, publica um jornal. Aparentemente, urna sucursal de escritório num edifício comercial pode-se ocupar com esforços orientados para o público enquanto, por outro lado, os empregados se conduzem de tal forma que o resto dos inquilinos ignora o que se faz lá e quem o faz.9
38 Não são apenas os bandidos e os membros da Klu Klux Klan que usam máscaras para evitar que sejam reconhecidos. Recentemente, durante as audiências de uma investigação criminal no Estado de Washington, foi permitido que ex-viciados em drogas prestassem declarações com a cabeça coberta por um lençol, não só para evitar uma identificação pública, mas também para evitar retaliações.
39 J. Stearn, The Sixth Man (Nova York: McFadden Books,.
1962), pp. 154-155.
Os Outros como Biógrafos
A identidade pessoal, assim como a identidade social, estabelece uma separação, para o indivíduo, no mundo individual das outras pessoas. A divisão ocorre, em primeiro lugar, entre os que conhecem e os que não conhecem. Os que conhecem são aqueles que têm urna identificação pessoal do indivíduo; eles só precisam vê-lo ou ouvir o seu nome para trazer à cena essa informação. Os que não conhecem são aqueles para quem o indivíduo um perfeito estranho, alguém cuja biografia pessoal não foi iniciada.
O indivíduo que é conhecido por outros pode ter ou não conhecimento desse fato; as pessoas que o conhecem, por sua vez, podem saber ou não que o indivíduo conhece ou ignora tal fato. Por outro lado, entretanto, embora acredite que os outros não o conhecem, ele nunca tem absoluta certeza disto. Além disso, sabendo que o conhecem, ele deve, pelo menos até certo ponto, conhecer algo sobre eles; mas em caso contrário poderá ou não conhecê-los em relação a outros aspectos.
Deixando de lado quanto se sabe ou se ignora, tudo isso é relevante, na medida em que o problema do indivíduo, no que se refere à manipulação de sua identidade pessoal e social, variará muito segundo o conhecimento ou desconhecimento que as pessoas em sua presença têm dele e, em caso positivo, segundo o seu próprio conhecimento do fato.
Quando um indivíduo está entre pessoas para as quais ele é um estranho completo e só é significativo em termos de sua identidade social aparente imediata, uma grande possibilidade com a qual ele deve se defrontar de que essas pessoas comecem ou não a elaborar uma identificação pessoal para ele (pelo menos a recordação de tê-lo visto em certo contexto conduzindo-se de uma determinada forma) ou de que elas abstenham-se total. mente de organizar e estocar o conhecimento sobre ele em torno de uma identificação pessoal, sendo esse último ponto uma característica da situação completam Dnte anônima. Observe-se que, embora as ruas das grandes cidades forneçam situações anônimas para os que se comportam de maneira correta, essa anonimidade é biográfica; é difícil encontrar algo semelhante ao anonimato
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completo que se aplique à identidade social. Pode-se acrescentar que todas as vezes qüe um indivíduo entra numa organização ou numa comunidade, ocorre mudança marcada na estrutura do conhecimento sobre ele - sua distribuição e seu caráter - e, portanto, mudança nas contingências do controle de informação.40 Por exemplo, todo ex-doente mental deve encarar a situação de ter que cumprimentar, fora do hospital, alguém que conheceu lá dentro, dando margem a que uma terceira pessoa pergunte, "Quem era ele?". Talvez mais importante ainda seja o fato de ter que enfrentar o desconhecimento sobre o que as outras pessoas conhecem dele, isto é, pessoas que podem identificá-lo pessoalmente e que, sem que ele o saiba, saberão que ele "realmente" é um ex-doente mental.
Usando o termo reconhecimento cognitivo referir-
-me-ei ao ato perceptual de "colocar" um indivíduo ou como possuidor de uma identidade social particular ou de uma identidade pessoal particular. O reconhecimento de identidades sociais é uma conhecida função de porteiro que muitos servidores cumprem. É menos conhecido o fato de que o reconhecimento de identidades pessoais é uma função formal em algumas organizações. Em bancos, por exemplo, espera-se que os caixas adquiram esse tipo de capacidade em relação aos clientes. Nos círculos criminais ingleses há, aparentemente, uma ocupação chamada de "homem de esquina", cujo ocupante escolhe um posto na rua próxima à entrada de um negócio ilícito e, na medida em que conhece a identidade pessoal de quase todas as pessoas que passam, pode avisar a aproximação de alguém suspeito.4'
Dentro do círculo de pessoas que têm uma informação biográfica sobre alguém - que sabem coisas sobre ele - haverá um círculo menor daqueles que mantêm com ele um vínculo "social", quer superficial ou íntimo, e quer como igual ou não. Conforme dissemos, eles não só sabem "de" ou "sobre" ele, como também o conhe 40 Para um estudo de caso sobre o controle de informação do eu, ver J. Henry, "The Formal Structure of a Psychiatric Hospital", Ps-ychiatry, XVII (1954), 139-152, especialmente 149-150.
41 Uma descrição das funções do "homem de esquina" pode ser encontrada em J. Phelan, The Underworld (Londres: George G. Harrap & Company, 1953), Cap. 16, pp. 175-186.
cem "pessoalmente". Eles terão o direito e a obrigação de trocar um cumprimento, uma saudação e "bater um papo" com ele quando se encontram na mesma situação social, e isso constitui o reconhecimento social. É claro que haverá épocas em que um indivíduo estenderá o reconhecimento social a, ou o receberá de, um outro que ele não conhece pessoalmente. De qualquer forma, deve ficar claro que o reconhecimento cognitivo é apenas um. ato de percepção, enquanto que o reconhecimento social. é a parte desempenhada por um indivíduo numa cerimônia de comunicação.
A relação social ou o conhecimento pessoal é, necessariamente, recíproca, embora, é claro, uma ou mesmo ambas as pessoas que estão na relação possam temporariamente esquecer que são conhecidas, assim como uma delas ou mesmo ambas podem estar cônscias dessa relação mas ter esquecido, temporariamente, tudo sobre a identidade pessoal da outra.42
Para o indivíduo que leva uma existência típica de aldeia, quer numa pequena ou numa grande cidade, haverá poucas pessoas que só o conhecem de nome; aqueles. que sabem coisas sobre ele talvez o conhecerão pessoal- mente. De maneira contrastante, com o termo "fama" parece que nos referimos à possibilidade de que o círculo de pessoas que sabe coisas sobre um determinado indivíduo, em especial referentes a uma conquista ou posse desejada e rara, se torne muito amplo e, ao mesmo tempo,. muito mais amplo do que o círculo daqueles que o conhecem pessoalmente.
O tratamento que é dispensado a alguém tendo como base a sua identidade social freqüentemente é dado com deferência e indulgência adicionais a uma pessoa famosa em virtude da sua identidade pessoal. Como um residente de cidade pequena, ele sempre estará fazendo compras onde é conhecido. O simples fato de ser cognitivamentereconhecido em lugares públicos por estranhos também. pode ser uma fonte de satisfação, como o sugere um. jovem ator:
42 Maiores observações sobre as relações e tipos de reconhecimento podem ser encontradas em Ervirig Goffman, Behaviour in Publie Places (Nova York: Free Press of Glencoe, 1963), Cap. 7,. pp. 112-123.
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"Quando comecei a adquirir urna certa notoriedade e tinha dias ern quë nie sentia depriniiuo, d za a mim mesmo: 'Bem, acho que vou dar urna volta e ser reconhecido'."
Esse tipo de aclamação secundárria e indiscriminada é, presumivelmente, um dos motivos pelos quais a fama é procurada e sugere também porque a fama, uma vez obtida, é escondida. A questão não é apenas o aborrecimento de ser perseguido por repórteres, caçadores de autógrafos e fãs, mas também o fato de que são cada vez mais numerosos os atos assimiláveis à biografia como acontecimentos dignos de atenção. Para uma pessoa famosa, "fugir" para um lugar onde ela possa "ser ela mesma" pode significar, talvez, encontrar uma comunidade onde não exista uma biografia sua; aqui, a sua conduta, refletida só em sua identidade social, pode, talvez, não interessar a ninguém. Inversamente, um dos aspectos de estar "comprometido" é conduzir-se de maneira destinada a controlar as implicações sobre a biografia, mas em áreas de vida que, em geral, não são criadoras de biografia.
Na vida quotidiana de uma pessoa média, haverá longos espaços de tempo nos quais ela será protagonista de acontecimentos que não têm interesse para ninguém e que serão uma parte técnica, mas não ativa, de sua biografia. Só um acidente pessoal sério ou o fato de testemunhar um assassinato criarão, durante esses períodos mortos, momentos que terão um lugar nas retrospectivas que ela e outras virão a fazer de seu passado. (Um "alibi", na verdade, é uma parte da biografia que é apresentada e que, comumente não viria, em absoluto, a fazer r)arte da biografia ativa de alguém.) Por outro lado, ce1ebridades que vieram a ter suas biografias extensa- mente documentadas, em especial os membros da realeza que se sabe que terão essa sorte desde o seu nascimento, descobrirão que, ao longo de sua vida, experimentaram poucos momentos mortos, ou seja, inativos do ponto de vista de sua biografia.
Ao se considerar a fama, pode ser útil e conveniente considerar a má reputação ou infâmia que surgem quando há um círculo de pessoas que têm um mau conceito do indivíduo sem conhecê-lo pessoalmente. A função óbvia
43 Anthony Perkins, em L. Ross, "The Player - III", The New Yorker (4 de novembro de 1961), p. 88.
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da má reputação é a de controle social, do qual devem ser mencionadas duas possibilidades distintas:
A primeira delas é o controle social formal. Há funcionários e círculos de funcionários cuja ocupação é examinar com cuidado vários tipos de público em busca da presença de individuos identificáveis cujos antecedentes e reputação o tornaram suspeito, ou mesmo "procurado" pela justiça. Por exemplo, durante um estudo num hospital de doentes mentais, conheci um paciente que estava em "liberdade vigiada" e do qual havia informações de haver molestado muitas meninas. Sempre que ele entrava em qualquer cinema da localidade, o gerente o procurava com a lanterna acesa e o obrigava a retirar-se. Em resumo, ele tinha uma reputação muito ruim para poder ir aos cinemas próximos. Criminosos famosos também têm o mesmo problema mas numa proporção muito maior do que aquela que gerentes de casas de espetáculo poderiam causar.
É aqui que lidamos com mais exemplos de ocupação de fazer identificações pessoais. Chefes de seções de venda em grandes lojas, por exemplo, algumas vezes têm extensas informações sobre a aparência de ladrões de loja profissionais em combinação com o apoio de identidade chamado de moclus operandi. A produção da identificação pessoal pode, de fato, ter uma oportunidade social própria, como nas investigações policiais. Dickens, ao descrever a mistura social de prisioneiros e visitantes numa cadeia da Inglaterra, nos dá outro exemplo, chamado de "posando para retrato", por meio do qual um novo prisioneiro era obrigado a sentar numa cadeira enquanto os guardas se reuniam e o observavam, gravando a sua imagem em suas mentes com o objetivo de poder identificá-lo depois
Funcionários cuja tarefa é controlar a possível presença de pessoas de má reputação podem operar no meio do público em geral em vez de atuar em estabelecimentos sociais particulares, como é o caso de detetives de polícia que se espalham por toda a cidade mas não constituem, em si mesmos, público. É-se levado a considerar um segundo tipo de controle social baseado na má reputação mas, que, dessa vez, têm características informais que envolvem o público em geral; e, nesse ponto, tanto a
Pickwic* Papers, vol. III, Cap. 2.
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pessoa que tem boa reputação quanto a que tem má podem ser consideradas em posição muito semelhante.
É possível que o círculo daqueles que conhecem um indivíduo (mas que não são conhecidos por ele) inclua o público em geral e não apenas as pessoas cuja ocupação é fazer identificações. (Na verdade, os termos "fama" e "má reputação" implicam que a massa de cidadãos deve possuir uma imagem do indivíduo). Não há dúvida de que os meios de comunicação de massa desempenham, aqui, um papel central, tornando possível que uma pessoa "privada" seja transformada em figura "pública".
Parece que a imagem pública de um indivíduo, ou seja, a sua imagem disponível para aqueles que não o conhecem pessoalmente, será, necessariamente, um tanto diversa da imagem que ele projeta através do trato direto com aqueles que o conhecem pessoalmente. Quando o indivíduo tem uma imagem pública, ela parece estar constituída a partir de uma pequena seleção de fatos sobre ele que podem ser verdadeiros e que se expandem até adquirir uma aparência dramática e digna de atenção, sendo, posteriormente, usados como um retrato global. Como conseqüência, pode ocorrer um tipo especial de estigmatização. A figura que o indivíduo apresenta na vida diária perante aqueles com quem ele tem relações habituais será, provavelmente, reduzida e estragada por demandas virtuais (quer favoráveis ou desfavoráveis), criadas por sua imagem pública. Isso parece ocorrer sobretudo quando não se está mais engajado em acontecimentos que mereçam atenção e deve encarar, em todos os lugares, o fato de ser recebido como alguém que não é mais o que era; parece ainda provável que ocorra isso quando a notoriedade é alcançada devido a um acontecimento acidental, rápido e não característico que expõe a pessoa à identificação pública sem lhe dar nenhum direito que compense os atributos desejados.45
Uma das implicações dessas observações é que o indivíduo famoso e o de má reputação parecem ter muito mais coisas em comum entre si do que com o que os "maitres" e colunistas sociais chamam de "joão-ninguém",
Para a lei, os esforços de um indivíduo para continuar sendo um cidadão privado ou para retomar tal status vieram a formar parte do problema da privacidade. Uma resenha útil pode ser encontrada em M. Ernst e A. Schwartz, Privacy: The Right to Be Let Alone (Nova York: The Macmillan Company, 1962).
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porque quando uma multidão deseja mostrar amor ou ódio por alguém pode ocorrer um tipo semelhante de desorganização de seus movimentos habituais. (Esse tipo de falta de anonimidade deve ser contrastado com o que é baseado na identidade social, como no caso do indivíduo que tem uma deformidade física e que sente que está sendo constantemente observado.) Verdugos infames e atores famosos descobriram a conveniência de subir no trem na estação anterior ou de usar um disfarce;46 os indivíduos podem mesmo se descobrir utilizando estratagemas para fugir da atenção hostil do público, ardis que eles também empregaram em épocas anteriores de sua história para fugir de uma atenção aduladora. De qualquer forma, a informação prontamente disponível sobre a manipulação da identidade pessoal deve ser buscada nas biografias e autobiografias de pessoas famosas ou de má reputação.
Um indivíduo, portanto, pode ser considerado como o ponto central numa distribuição de pessoas que ou só o conhecem de nome ou o conhecem pessoalmente, podendo todas essas pessoas ter um conjunto um pouco diferente de informações sobre ele. Repito que embora o indivíduo, em seus contatos diários, seja, rotineiramente posto em contato com outros que o conhecem diferentemente, essas diferenças em geral não serão incompativeis; na verdade, algum tipo de estrutura biográfica única será mantido. A relação de um homem com o seu chefe, e sua relação com seu filho podem ser radicalmente diversas, de tal forma que ele não poderá desempenhar com facilidade o papel de empregado ao mesmo tempo em que desempenha o papel de pai, mas se esse homem, quando passeia com o seu filho, encontra com seu chefe, é possível haver um cumprimento e uma apresentação sem que nem a criança nem o chefe reorganizem a sua identificação pessoal do homem - tendo ambos conhecimento da existência e do papel do outro. A etiqueta da "apresentação da cortesia", de fato, assume que a pessoa com quem temos uma relação de papel tenha, de ma Ve J. Atholl, op. cit., Cap. 5, "The Public and the Press". Sobre as pessoas famosas que evitam contatos, ver J. Bainbridge, Garbo (Nova York: Deli, 1961), especialmente pp. 205-6. Sobre uma técnica corrente - o uso de perucas por estrelas de cinema que têm seu próprio cabelo - ver L. Lieber, "Hollywood's Going Wig Wacky", Thi8 Week, 18 de fevereiro de 1962.
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neira adequada, com outros tipos de pessoas, outros tipos de relações. Dou por estabelecido, então, que os contatos aparentemente casuais da vida quotidiana podem, ainda assim, constituir algum tipo de estrutura que prende o indivíduo a uma biografia, e isso a despeito da multiplicidade de "eus" que o papel e a segregação de audiências lhe permitem.
O Encobrimento
evidente que se ninguém conhece a existência de um mal estigmatizante que aflige um indivíduo, ou nem ele mesmo, como ocorre, digamos, com a lepra não diagnosticada ou de ataques de petit mal não reconhecidos, o sociólogo não tem interesse nele, exceto como um recurso de controle para aprender as implicações "primárias" ou objetivas do estigma. Onde o estigma é escrupulosamente invisível e conhecido só pela pessoa que o possui, que não conta nada sobre ele a ninguém, esta é, outra vez, uma questão de importância menor para o estudo do encobrimento. A extensão em que essas duas possibilidades existem é, logicamente, difícil de ser determinada.
De maneira semelhante, deve ficar claro que se um estigma fosse sempre aparente de imediato para qualquer uma das pessoas com as quais um indivíduo tem contato, então o interesse por ele também seria limitado, embora houvesse algum interesse na questão de até que ponto uma pessoa pode-se isolar de contato e, mesmo assim, funcionar livremente na sociedade, na questão do tato e de sua quebra, e na questão do autodesprezo.
Evidentemente, entretanto, esses dois extremos, onde ninguém conhece o estigma e onde todos o conhecem, não conseguem abranger uma amplitude de casos muito grande. Em primeiro lugar, há estigmas importantes, como o das prostitutas, homossexuais, mendigos e viciados em drogas, que exigem que o indivíduo seja cuidadosamente reservado em relação a seu defeito com uma classe de pessoas, a polícia, ao mesmo tempo em que se expõe sistematicamente a outras classes, ou seja, clien N sentido introduzido por Lemert, Social Pathologj, op. cit., pp. 75 e segs.
tes, cúmplices, contatos, receptadores de objetos roubados, etc.45 Assim, não importa o papel que as vagabundas assumam na presença da polícia, elas freqüentemente têm que se revelar às donas-de-casa com o objetivo de obter uma refeição de graça e podem até mesmo ter que expor seu status aos transeuntes, uma vez que são servidas, nas portas dos fundos, daquilo que elas compreensivelmente chamam de "refeições de exibição".49
Em segundo lugar, mesmo quando alguém pode manter em segredo um estigma, ele descobrirá que as relações íntimas com outras pessoas, ratificadas em nossa sociedade pela confissão mútua de defeitos invisíveis, levá-lo-ão ou a admitir a sua situação perante a pessoa íntima, ou a se sentir culpado por não fazê-lo. De qualquer maneira, quase todas as questões muito secretas são, mesmo assim, conhecidas por alguém e, portanto, lançam sombras sobre o indivíduo.
De modo semelhante, há muitos casos em que parece que o estigma de um indivíduo sempre será aparente mas em que isso não ocorre; se fizermos um exame, descobriremos que, ocasionalmente, ele terá que optar por ocultar informações cruciais sobre sua pessoa. Por exemplo, embora um rapaz coxo possa parecer que vai sempre se apresentar como tal, pessoas estranhas podem supor, de repente, que ele está temporariamente incapacitado devido a um acidente,5° assim como uma pessoa cega que entra num táxi escuro com alguém pode descobrir que, por um momento, lhe foi atribuída a capacidade de ver,5' ou um homem cego, de óculos escuros, sentado num bar escuro, pode ser tomado, por um recém-chegado, por alguém que enxerga,52 ou um homem, cujas duas mãos foram amputadas e substituídas por ganchos, que assiste a um filme pode levar uma mulher sexualmente ousada que esteja sentada a seu lado a gritar de pavor pelo que
48 Ver T. Hirshi, "The Professional Prostitute", Berkeley Journal of Sociology, VII (1962), 36.
E. Kane, "The Jargon of the Underworld, Dutlect Notes, V (1927), 445.
5° F. Davis, "Polio in the Family: A Study in Crisis and Family Process", Dissertação de Doutorado em Filosofia (Ph.D.), Universidade de Chicago, 1958, p. 236.
1 Davis, "Deviance Disavowal", op. cit., p. 124.
52 S. Rigman, Second Sight (Nova York: David McKay, 1959),
p. 101.
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sua mão encontrou de repente. De maneira semelhante, negros de pele muito escura que nunca passaram publicamente despercebidos, podem-se encontrar projetando, por telefone ou por carta, uma imagem de sua pessoa que está sujeita a um descrédito posterior.
Dadas essas várias possibilidades encontradas entre os extremos de completo segredo, por um lado, e informação completa, por outro, parece que os problemas daqueles que fazem esforços conjuntos e organizados para passar despercebidos são os problemas que um grande número de pessoas enfrentará mais cedo ou mais tarde. Devido às grandes gratificações trazidas pelo fato de ser normal, quase todos os que estão numa posição em que o encobrimento é necessário, tentarão fazê-lo em alguma ocasião. Mais ainda, o estigma do indivíduo pode estar relacionado a questões que não convém divulgar a estranhos. Um ex-przidiário, por exemplo, só pode revelar amplamente o seu estigma, prevalecendo-se de maneira imprópria de meros conhecidos, contando-lhes fatos pessoais que vão além do que a relação realmente justifica. Um conflito entre a sinceridade e o decoro será, quase sempre, resolvido em favor desse último. Finalmente, quando o estigma está relacionado a partes do corpo que os normais devem esconder em público, o encobrimento é inevitável, quer desejado ou não. Uma mulher que tenha sofrido uma mastectomia ou um delinqüente sexual norueguês cuja pena tenha sido a castração estão obrigados a apresentar-se falsamente em quase todas as situações, devendo esconder seus segredos não convencionais porque os demais ocultam os convencionais.
Quando uma pessoa, efetiva ou intencionalmente, consegue realizar o encobrimento, é possível que haja um descrédito em virtude do que se torna aparente sobre ele, aparente mesmo para os que só o identificam social- mente com base no que está acessível a qualquer estranho naquela situação social. (Assim surge uma grande variedade daquilo que é chamado de "um incidente embaraçoso".) Mas esse tipo de ameaça à identidade social virtual não é, com certeza, o único tipo. Além do fato de que as ações habituais de um indivíduo podem desacreditar suas pretensões habituais, uma das contingências básicas do encobrimento é de que ele será desco bert
por todos os que podem identificá-lo pessoalmente e que incluem entre seus antecedentes biográficos fatos não manifestos e que são incompatíveis com suas pretensões atuais.  então, incidentalmente, que a identificação pessoal relaciona-se estreitamente com a identidade social.
E esta, por conseguinte, a base das variedades de chantagens. Há a trama, que consiste em engendrar, agora, um acontecimento que poderá, em breve, ser usado como base para uma chantagem. (A trama deve ser diferençada da cilada, um artifício empregado pelos detetíves para levar os criminosos a revelarem suas práticas criminais comuns e, assim, sua identidade criminal.) Há a "pré-chantagem", onde a vítima é forçada a continuar num determinado curso de ação devido a um aviso do chantagista de que qualquer mudança o levará a revelar fatos que tornarão a mudança insustentável. W. 1. Thomas cita um caso real no qual um policial força uma prostituta a permanecer em sua lucrativa profissão, desacreditando sistematicamente suas tentativas para obter um emprego como uma jovem de boa reputação. Existe a "chantagem de autoconservação", talvez o mais importante tipo, onde o chantagista, intencional ou efetivamente, evita o pagamento de uma sanção recebida porque obrigá-lo a isso resultaria no descrédito do credor.
"A 'presunção de inocência até que a culpa seja provada' dá menos proteção à mãe solteira do que ao pai solteiro. A culpa da mãe é evidenciada por um perfil protuberante - evidência difícil de ser escondida. Ele (o pai) não exibe nenhum sinal exterior, e seu papel acessório deve ser provado. Mas para fornecer tal prova, quando o Estado não assume a iniciativa de estabelecer a paternidade, a mãe solteira deve revelar sua identidade e seu mau comportamento sexual perante uma audiência numerosa. Sua relútância em fazê-lo torna fácil a seu cúmplice a manutenção de seu anonimato e de sua inocência ostensiva, se ele assim o desejar." 5
Finalmente, há a chantagem "completa", ou clássica, na qual o ehantagsta recebe dinheiro através da ameaça de revelar fatos sobre o passado ou o presente do indivíduo que poderiam desacreditar por completo a identii4 Thc Unacljusted Giri (Boston: Little, Brown & Company,
1923), pp. 144-5.
5 E. Clark, Unmcirriect Mothers (Nova York: Free Press of Glencoe, 1961), p. 4.
Russeil, op. cit., p. 124.
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dade que ele sustenta no momento. Deve-se observar que toda a chantagem completa inclui o tipo que chamamos de "chantagem de autoconservação", já que o chantagista bem sucedido, além de obter o que desejava, evita também a penalidade imposta à chantagem.
Falando em termos sociológicos, a chantagem, em si, pode não ser tão importante;° é mais importante considerar os tipos de relações que uma pessoa pode ter com aqueles que poderiam, se quisessem, chantageá-la. Ë aqui que se observa que uma pessoa que tenta encobrir coisas leva uma vida dupla e que o encadeamento lógico informacional da biografia pode dar lugar a diferentes formas de vida dupla.
Quando o fato desacreditável da vida de um indivíduo ocorreu em seu passado, ele ficará preocupado não tanto com as fontes originais de prova e informação, mas com as pessoas que podem retransmitir o que já recolheram. Quando o fato desacreditável é parte da vida atual, nesse caso então, ele deverá prevenir-se contra algo mais que a informação transmitida; ele deve prevenir-se para não ser apanhado em flagrante, como o sugere uma cail giri:
"Era possível expor-se sem perigo de prisão, mas isso não deixava de ser igualmente embaraçoso. 'Quando vou a uma festa sempre dou uma olhada no ambiente' - disse ela. - 'Nunca se sabe. Uma vez dei de cara com dois primos. Eles estavam com duas ca,ll girl e nem me cumprimentaram. Fiquei lá - esperando que eles estivessem muito ocupados pensando em si mesmos para se preocuparem comigo. Sempre pensei no que faria se desse de cara com meu pai, já que ele estava acostumado a andar por esses lugares." 57
Se há algo de desacreditável sobre o passado de um indivíduo, ou sobre o seu presente, a precariedade de sua posição parece variar diretamente em função do número de pessoas que sabem do segredo; quanto mais numero-
56 Dada a profusão de coisas que as pessoas costumam ocultar, é uma surpresa que a chantagem completa não seja mais freqüente. A sanção legal, é claro, é alta, o que torna a prática, em alguns casos, pouco competitiva, mas ainda assim deve-se explicar por que a sanção legal é tão alta. Talvez o excepcional do ato e a forte sanção contra ele sejam, ambos, expressão do desgosto que sentimos pelo trabalho que nos obriga a enfrentar outras pessoas com fatos que as desacreditam enormemente, servindo esse conhecimento de pressão contra os seus interesses.
Stearn, Si8ters of the Night, op. cit., pp. 96-97.
sos os que conhecerem o seu lado obscuro, mais incerta é a sua situação. Para um caixa de banco, é mais seguro flertar com a amiga de sua mulher do que ir à corrida de cavalos.
Quer as pessoas que saibam sejam poucas ou muitas, há, aqui, uma vida dupla simples, que abrange aqueles que pensam que conhecem aquele homem totalmente e aqueles que "realmente" o conhecem. Essa possibilidade deve ser contrastada com a situação do indivíduo que vive uma dupla vida dupla, movendo-se em dois círculos, cada um dos quais desconhece a existência do outro e possui a sua própria biografia do indivíduo. Um homem que tem um caso, que é, talvez, conhecido por um pequeno número de indivíduos que podem, inclusive, estar relacionados com o casal ilícito, está levando uma vida dupla simples. Entretanto, se o casal ilícito começa a fazer amigos que ignoram que ele não é realmente um casal, começa a emergir uma dupla vida dupla. O perigo no primeiro tipo de vida dupla é o da chantagem ou revelação maliciosa; o perigo no segundo tipo, talvez o maior, é o da revelação inadvertida, já que nenhuma das pessoas que conhece o casal está orientada no sentido de manter o segredo que não conhecem como tal.
Considerei até aqui uma existência sem descontinuidades que é ameaçada pelo que outras pessoas sabem sobre o passado do indivíduo ou sobre partes obscuras de seu presente. Agora devemos considerar uma outra perspectiva sobre a vida dupla.
Quando um indivíduo deixa uma comunidade após haver residido nela por alguns anos, ele deixa atrás de si uma identificação pessoal, não raro presa a uma biografia bem circunstanciada que inclui suposições sobre como ele provavelmente "acabará". Em sua comunidade atual, o indivíduo dará margem, também, a que outros componham uma biografia sua, um retrato completo que inclui uma versão do tipo de pessoa que ele era e do meio ambiente do qual ele saiu. Evidentemente podem surgir discrepâncias entre esses dois conjuntos de conhecimentos sobre ele; pode-se desenvolver algo semelhante a uma dupla biografia, à medida que aqueles que o conheceram e os que o conhecem agora pensam conhecer o homem em sua totalidade.
Freqüentemente, essa descontinuidade biográfica é superada quando o indivíduo fornece uma informação'
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precisa e adequada sobre o seu passado àqueles que compõem seu mundo atual e quando todos os que o conheceram no passado atualizam as biografias que fizeram dele através de notícias e mexericos. Essa superação é facilitada quando o indivíduo se converteu em alguém que não desacredita sua vida anterior e quando o que le foi não desacredita muito aquilo em que se transfor.mou, o que, é claro, ocorre na maioria dos casos. Em resumo, haverá descontinuidades em sua biografia, mas elas não serão desacreditadoras.
Embora os estudiosos tenham prestado bastante atenção aos efeitos de um passado censurável sobre a vida atual de alguém, não se deu muito apreço aos €feitos de um presente censurável sobre os primeiros biógrafos. Não se tem apreciado suficientemente a importância que tem para um indivíduo a preservação de uma boa recordação de si por parte daquelas pessoas com as quais já não vive mais, embora esse fato se encaixe perfeitamente dentro do que é chamado de "teoria dos grupos de referência". Aqui, o caso clássico é o da prostituta que, embora ajustada ao meio urbano e aos contatos rotineiros que tem nele, receia "topar" com um homem de sua cidade natal que, é claro, poderá perceber seus atributos sociais presentes e levar essa notícia quando retornar à sua cidade.55 Nesse caso, o seu closet é .tão .grande quanto o seu campo de ação e ela própria é o esqueleto que mora nele.* Essa preocupação sentimental com aqueles com quem não temos mais um contato efetivo nos mostra um dos castigos que merece uma ocupação imoral, ilustrado no comentário de Park de que são os malandros, e não os banqueiros, que não querem ter
Ver, por exemplo, Street-Walker (Nova York: Deli, 1961), pp. 194-6. Embora haja muito material de ficção e mesmo histórias reais, sobre prostitutas, há muito pouco material de qualquer tipo sobre os gigolôs. (Mas ver, por exemplo, C. Maclnnes, Mr. Love ctnd .Justice (Londres: The New English Library, 1962); e J. Murtagh e
5. Harris, CasL Lhe Pirst Stone [Nova York: Pocket Books, 1958}, Caps. 8 e 9). Isto é lamentável, na medida em que talvez não exista uma ocupação masculina em que os membros sejam tão esquivos. A rotina diária do gigolô deve estar cheia de artifícios encobridores ainda não registrados. Mais ainda, é com a maior dificuldade que 'os gigolôs podem ouvir frente a frente em que consiste a sua ocupação. Essa é uma boa oportunidade, então, para se colher material sobre a situação tanto dos desacreditados quantos dos desacreditáveis.
* Expressão coloquial "Hctve skeletons in one's closet" - 7er algo & esconder. Ter segredos, etc. (N. do T.)
suas fotografias no jornal, modéstia que se deve ao medo de ser reconhecido por alguém de sua terra natal.
Há, na literatura, algumas indicações referentes a um ciclo natural do encobrimento.5 O ciclo pode começar com um encobrimento inconsciente que o interessado pode não descobrir nunca; daí, passa-se a um encobrimento involuntário que o encobridor percebe, com surpresa, no meio do caminho; em seguida, há o encobrimento "de brincadeira"; o encobrimento em momentos não rotineiros da vida social, como férias em viagens; a seguir, vem o encobrimento em ocasiões rotineiras da vida diária, como no trabalho e em instituições de serviço; finalmente, há o desaparecimento - o encobrimento completo em todas as áreas de vida, segredo que só é conhecido pelo encobridor. Observe-se que quando se tenta o encobrimento quase completo, o indivíduo algumas vezes, conscientemente, organiza seu próprio rito de passagem indo para outra cidade, escondendo-se num quarto por alguns dias com roupas e cosméticos previa- mente escolhidos e trazidos por ele, e então, como uma borboleta, emergindo para provar suas novas asas.60 Em qualquer fase, é, claro, pode haver uma quebra no ciclo e um retorno ao invólucro.
Já que ainda não podemos falar de tal ciclo com alguma segurança e, se necessário, sugerir que certos atributos desacreditáveis impedem o desenvolvimento de suas fases finais, é, pelo menos, possível, procurar vários pontos de estabilidade na penetração do encobrimento; é, certamente, exeqüível observar que a extensão do encobrimento pode variar, de um encobrimento involuntário e momentâneo, num extremo, ao clássico tipo de encobrimento total, no outro.
Anteriormente foram sugeridas duas fases no processo de aprendizagem da pessoa estigmatizada: a aprendizagem do ponto de vista dos normais e a aprendizagem de que, segundo ele, ela está desqualificada. Presume-se que a próxima fase consista na aprendizagem de como
9 VerH. Cayton e S. Drake, Bktck Metropolis (Londres: Jonathan Cape, 1946), "A Rose by Any Other Name", pp. 159-171. Agradeço aqui a um trabalho não publicado de Gary Marx.
0 Sobre o negro que se faz passar por branco, ver R. Lee, 1 Passed for White (Nova York: David McKay, 1955), pp. 89-92; sobre o branco que se faz passar por negro, ver J. H. Griffin, Black Like Me (Boston: Houghton Mifflin, 1960), pp. 6-13.
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lidar com o tratamento que os outros dão ao tipo de pessoas que ele demonstra ser. Minha preocupação, agora, é com uma fase mais posterior, ou seja, a aprendizagem do encobrimento.
Quando um atributo diferencial é relativamente imperceptível, o indivíduo deve aprender que, na verdade, pode ser discreto, O ponto de vista que outros observadores têm sobre ele deve ser cuidadosamente registrado e não sustentado com uma ansiedade maior que a dos próprios observadores. Começando com um sentimento de que tudo o que é conhecido por ele é conhecido pelos outros, freqüentemente elabora uma apreciação realística de que não é isso o que ocorre. Por exemplo, conta-se que os fumadores de marijuana aprendem lentamente que podem atuar sob seus efeitos na presença de pessoas que os conhecem bem sem que elas percebam nada de anormal - uma aprendizagem que aparentemente ajuda a transformar um fumante ocasional em fumante regular.°' De maneira semelhante, há registros de moças que, logo que perdem a virgindade, examinam-se no espelho para ver se o estigma se apresenta, e só aos poucos começam a acreditar que sua aparência atual não é diferente da anterior.62 Pode-se dar um exemplo paralelo de um homem após sua primeira experiência homossexual:
"(Sua primeira experiência homossexual) lhe trouxe algum transtorno posteriormente?", perguntei.
"Oh! Não. Só fiquei preocupado de alguém descobrir. Tinha medo de que minha mãe e meu pai pudessem dizê-lo só de me olhar. Mas eles agiram como de costume e comecei a me sentir confiante e seguro novamente." 63
Pode-se indicar que, devido à identidade social, o indivíduo que tem um atributo diferencial secreto encontrar-se-á durante a rotina diária e semanal em três tipos possíveis de lugar. Haverá lugares proibidos ou inacessíveis, onde pessoas de seu tipo estão proibidas de ir, e onde a exposição significa expulsão - uma eventualidade freqüentemente tão desagradável para ambas as partes que se estabelece, às vezes, uma cooperação tácita para
61 H. Becker, "Marihuana Use and Social Control", Social Problems, III (1955), p. 40.
62 H. M. Hughes, ed., The Fanta.stic Lodge (Boston: Houghton Mifflin, 1961), p. 40.
Stearn, The Sixth Man, op. cit., p 150.
evitá-la; o intruso usa um disfarce e a pessoa que tem direito a estar presente o aceita, embora ambos tenham conhecimento da intromissão. Há lugares públicos nos quais pessoas desse tipo são tratadas cuidadosamente e, às vezes, penosamente, como se não estivessem desqualificadas para uma aceitação rotineira quando, na verdade, de uma certa maneira, o estão. Finalmente, há lugares retirados onde pessoas desse tipo podem-se expor e perceber que não precisam esconder o seu estigma e nem se preocupar com tentativas feitas cooperativamente para não prestar atenção a ele. Em alguns casos, essa liberdade de ação é conseqüência da escolha da companhia de pessoas que têm estigmas iguais ou semelhantes. Por exemplo, diz-se que o carnaval fornece às pessoas com deficiências físicas uma ocasião na qual o seu estigma é uma questão relativamente pequena.64 Em outros casos, o lugar retirado pode ser involuntariamente criado como resultado do agrupamento administrativo de indivíduos, contra a sua vontade, em função de um estigma comum. Pode-se acrescentar que mesmo que alguém entre num lugar retirado voluntária ou involuntariamente, é provável que ali se lhe ofereça uma atmosfera de sabor especial. O indivíduo estará à vontade entre seus companheiros e também descobrirá que pessoas conhecidas, que ele não considerava suas iguais, na verdade o são. Entretanto, como indica a citação seguinte, ele correrá ainda o risco de ser facilmente desacreditado se uma pessoa normal que ele conheceu em outro lugar entrar aí.
"Um rapaz de 17 anos, de origem mexicana, foi enviado, por ser considerado pelo tribunal como doente mental, a um sanatório. Ele rejeitou violentamente essa definição, sustentando que não havia nada de errado com ele e que ele desejava ir para um centro de detenção de delinqüentes juvenis mais respeitável. No domingo pela manhã, ilguns dias após haver chegado ao hospital, foi levado à igreja junto com outros pacientes. Por uma infeliz circunstância, sua namorada veio ao sanatório naquela manhã com uma amiga cujo irmão menor estava internado, e se encaminhou em sua direção. Quando ele a viu, ela ainda não o havia notado, e ele desejou evitá-lo. Deu meia volta e fugiu, tão depressa quanto podia, até que foi alcançado pelos empregados que pensaram que ele havia enlouquecido. Quando foi interrogado por seu comportamento, explicou que sua namorada não sabia que ele estava "nesse lugar para patetas" e que ele não conseguiria suportar a humilhação de ser visto no hospital como paciente." 65
- H.Viscardi, Jr., A Laughter in the Lonely Night (Nova York: Paul S. Eriksson, mc., 1961), p. 309.
65 Edgerton e Sabagh, op. cit., p. 267.
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A ronda de uma prostituta constitui, para ela, o mesmo tipo de ameaça:
"Foi esse aspecto de tal situação social que experimentei quando visitei as alamedas de carruagem do Hyde Park (afirma uma pesquisadora social). A aparência deserta dos caminhos e a intenção aparente de qualquer mulher que por ali caminhasse não só eram suficientes para anunciar meu propósito ao público, mas também obrigaram-me a considerar de que essa área estava reservada a. prostitutas - era um lugar delimitado para elas e que emprestava seu colorido a qualquer pessoa que resolvesse entrar ali.. "6
Essa divisão do mundo do indivíduo em lugares públicos, proibidos, e lugares retirados, estabelece o preço que se paga pela revelação ou pelo ocultamento e o significado que tem o fato de o estigma ser conhecido ou não, quaisquer que sejam as estratégias de informação escolhidas.
Assim como o mundo de alguém está espacialmente dividido por sua identidade social, ele também está por sua identidade pessoal. Há lugares em que, como se diz, ele é conhecido pessoalmente, quer por alguns dos presentes, quer pelo indivíduo encarregado da área (hospedeiro, "maitre", taberneiro, etc.); tanto uns como outros asseguram que sua presença no local poderá ser demonstrada posteriormente. Em segundo lugar, há lugares onde ele pode ter certeza de que não "dará de cara" com ninguém que o conheça pessoalmente, e onde (excetuando-se as contingências especiais com que se defrontam as pessoas famosas ou de má reputação, a quem muitas pessoas conhecem de nome sem nunca terem visto pessoalmente) poderá permanecer no anonimato, sem despertar a atenção de ninguém. O fato de ser ou não embaraçoso para sua identidade pessoal estar num lugar em que, por incidente, ele é pessoalmente conhecido, é algo que irá variar, é claro, segundo as circunstâncias, sobretudo segundo a pessoa que o acompanha.
Considerando o fato de que o mundo espacial do indivíduo estará dividido em várias regiões, segundo as contingências nelas contidas para a manipulação da identidade social e pessoal, pode-se continuar a considerar alguns dos problemas e conseqüências do encobrimento. Essa consideração coincidirá, em parte, com a sabedoria
popular; os relatos que advertem sobre as contingências do encobrimento são parte da moralidade que empregamos para manter as pessoas em seus lugares.
O indivíduo que se encobre tem necessidades não previstas que o obrigam a dar uma informação que o desacredita; é o que ocorre, por exemplo, quando a mulher de um doente mental tenta receber o seguro de desemprego de seu marido, ou quando um homossexual "casado" tentar fazer um seguro de sua casa e percebe. que tem que explicar a escolha singular de seu beneficiário. 67 Ele sofre também de "aprofundamento de pressão", ou seja, pressão para elaborar mentiras, uma atrás da outra, para evitar uma revelação.68 Suas técnicas adaptativas podem, elas próprias, ferir sentimentos e dar lugar a mal-entendidos por parte de outras pessoas.69 Seus esforços para esconder certas incapacidades o levam a. revelar outras ou a dar a impressão de fazê-lo: relaxamento, como quando uma pessoa quase cega que finge ver tropeça num banquinho ou derrama bebida na camisa; falta de atenção, teimosia, acanhamento, ou distância, como quando uma pessoa que não escuta não responde a alguma observação feita por alguém que ignora a sua deficiência; sonolência, como quando um professor atribui um ataque epiléptico de petit mal num aluno a um devaneio momentâneo.7 Embriaguez, como quando um homem que sofre de paralisia cerebral descobre que sua maneira de andar é sempre mal interpretada.7' Mais ainda, aquele que se encobre está sempre atento para ouvir o que os outros "realmente" pensam sobre o tipo de pessoas a que ele pertence, tanto que quando os que ignoram estar em contato com alguém dessa espécie começam a relação sem sab&lo, mudam nitidamente a sua conversa assim que tomam conhecimento do fato. Não saber até que ponto vai a informação que os outros têm de si constitui um problema sempre que o seu chefe ou
Sugerido por Evelyn Hooker numa conversa.
68 Em relação ao ocultamento da internação da esposa, ver Yarrow, Clausen e Robbins, op. cit., p. 42.
9 Sobre a falta de tato e o esnobismo inconsciente do surdo. ver R. G. Barker et ai., Adjustment to Physicai Hand7cap and Illness (Nova York: Social Science Research Council Bulletin, a.° 55, revisto, 1953), pp. 193-4.
70 S. Livingston, Liuing with Epileptic Seizures (Springfield:
Charles C. Thomas, W63), p. 32.
' Henrich e Kriegel, op. cit., p. 101; ver também página 157
Rolph, Women o! the Streets, op. it., pp. 56-7.
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professor está devidamente informado de seu estigma mas os outros não. Como foi sugerido ele pode-se tornar sujeito a vários tipos de chantagem por parte de quem conhece o seu segredo e não tem nenhum bom motivo para guardar silêncio sobre ele.
O indivíduo que se encobre pode também sofrer a experiência clássica e fundamental de ter que se expor durante uma interação face-a-face, traído pela própria fraqueza que ele tenta esconder, pelos outros presentes ou por circunstâncias impessoais. A situação do gago é um exemplo:
"Nós, que somos gagos, falamos somente quando necessário. Escondemos nosso defeito, às vezes tão bem, que as pessoas íntimas se surpreendem quando, num momento de descuido, uma palavra nos escapa da língua e falamos bruscamente, gritamos, fazemos careta e ficamos asfixiados, até que finalmente o espasmo termina e abrimos nossos olhos para observar o desastre." 72
O epiléptico sujeito a ataques do graná mal é um caso mais extremo; quando recobra a consciência, pode descobrir que está deitado na rua, com incontinência, gemendo e sacudindo-se convulsivamente - um descrédito para a sanidade mental que só é atenuado pelo fato de ele não estar consciente durante parte do episódio.73 Devo acrescentar que cada grupo de estigmatizados parece ter seu repertório próprio de relatos de advertência sobre uma exibição embaraçosa e que a maior parte de seus membros pode dar exemplos de sua própria experiência.
Finalmente, a pessoa que se encobre pode ser forçada a se revelar a outras que acabaram por descobrir
o seu segredo e devem colocá-la frente ao fato de haver
mentido. Essa possibilidade pode mesmo ser formalmente
instituída, como em interrogatórios sobre saúde mental
e no que se segue:
"Doreen, uma garota de Mayfair, diz que o comparecimento ao tribunal 'é a pior parte' de tudo (i.e., da prostituição). Quando se entra por aquela porta todo mundo está esperando por você e observa. Fico de cabeça baixa e nunca olho para os lados. Em seguida eles dizem aquelas palavras horríveis: "Tratando-se de uma prostituta
72 C. Van Riper, Do You Sttter? (Nova York: Harper & Row,
1939), p. 601, em von Hentig, op. cit., p. 100.
73 Livingston, op. cit., pp. 30 e segs.
vulgar. . ." e a gente sente-se muito mal, sem saber durante todo aquele tempo quem está observando da parte de trás do tribunal. Diz-se 'culpada' e sai-se tão depressa quanto se pode." "
A presença de companheiros de sofrimento (ou de 'informados") introduz um conjunto