Carl Bernstein
Bob Woodward
Todos os Homens do Presidente
Tradução de Tonie Thomson
2ª Edição
Livraria Francisco Alves Editora S.A.
AGRADECIMENTOS
Este livro, tal como foi a cobertura jornalística do caso
Watergate pelo Washington Post, é resultado de um trabalho
de equipe com nossos colegas executivos, redatores,
repórteres, bibliotecárias, telefonistas, estagiários. Desde o
dia 17 de junho de 1972, vimos contando com sua
colaboração, apoio e assistência. Algumas pessoas se
destacam. Nossa particular gratidão a Katharine Graham,
Benjamin C. Bradlee, Howard Simons, Harry M. Rosenfeld,
Barry Sussman, Leonard Downie Jr., Lawrence Meyer, Larry
Fox, Bill Brady, Douglas Feaver, Elisabeth Donovan, Philip
Geyelin, Meg Greenfield, Roger Wilkins e Maureen Joyce.
Outros contribuíram com seu tempo, energia e conselhos
para a preparação deste livro. Nossa dívida de gratidão para
com Taylor Branch, Màry Graham, Elizabeth Drew, Haynes
Johnson e David Obst por seu auxílio e atenção. A Nora
Ephron, Barbara Cohen e Richard Cohen, nosso carinho
especial e nosso muito obrigado.
Richard Snyder e a equipe de Simon & Schuster —
especialmente Chris Steinmetz, Elise Sachs, Harriet Ripinsky
e Sophie Sorkin, que prepararam o manuscrito para a
produção — foram incrivelmente tolerantes conosco
quando prazos de entrega eram ignorados, cronogramas de
produção alterados e complexos problemas técnicos
acomodados. A equipe — em especial Dan Green, Milly
Marmur, Helen English e Terry Mincieli — foi do começo
ao fim uma fonte inesgotável de entusiasmo e, o que é mais
importante, de amizade.
Este livro não seria uma realidade sem o trabalho de Robert
Fink, que nos assistiu nas pesquisas, emprestou-nos suas
idéias e gentilmente ofereceu-nos suas críticas.
E, acima de tudo, nosso respeito e gratidão a Alice Mayhew,
nossa editora, cujo carinho e orientação se refletem em cada
página.
CARL BERNSTEIN & BOB WOODWARD
Washington, D. C., fevereiro de 1974.
Aos outros homens e mulheres da Presidência, que, na Casa
Branca e em outros lugares, correram riscos para nos
fornecer informações confidenciais. Sem eles, a história do
Watergate não teria sido contada pelo Washington Post.
E à nossos pais.
DRAMATIS PERSONAE
O PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA
Richard M. Nixon
OS HOMENS DO PRESIDENTE
Alfred C. Baldwin III: Guarda de Segurança, Comitê para a
Reeleição do Presidente (CRP).
Alexander P. Butterfield: Vice-Assistente do Presidente,
assessor da equipe de H. R. Haldeman.
John J. Caulfield: Assessor da equipe de John Ehrlichman.
Dwight L. Chapin: Vice-Assistente do Presidente; secretário.
Kenneth W. Clawson: Vice-Diretor de Comunicações da
Casa Branca.
Charles W. Colson: Conselheiro Extraordinário do
Presidente.
Kenneth H. Dahlberg: Diretor financeiro do CRP Centro-
Oeste.
John W. Dean III: Conselheiro do Presidente.
John D. Ehrlichman: Assistente do Presidente para Assuntos
Internos.
L. Patrick Gray III: Diretor em Exercício do FBI.
E. Howard Hunt Jr.: Consultor da Casa Branca.
Herbert W. Kalmbach: Vice-Diretor financeiro do CRP;
advogado pessoal do Presidente.
Henry A. Kissinger: Assistente do Presidente para Assuntos
de Segurança Nacional.
Richard G. Kleindienst: Procurador Geral dos Estados Unidos
da América.
Egil Krogh Jr.: Vice-Assistente do Presidente para Assuntos
Internos; assessor de John D. Ehrlichman.
Frederick C. LaRue: Vice-Diretor do CRP; assessor de John
Mitchell.
G. Gordon Liddy: Conselheiro financeiro do CRP; ex-
assessor de equipe de John Ehrlichman.
Clark MacGregor: Diretor de Campanha do CRP.
Jeb Stuart Magruder: Vice-Diretor de Campanha do CRP; ex-
assessor de Haldeman e Vice-Diretor "de Comunicações da
Casa Branca.
Robert G. Mardian: Coordenador Político do CRP; ex-
Procurador Geral Assistente.
John N. Mitchell: Diretor de Campanha do CRP; ex-
Procurador Geral.
Powell Moore: Vice-Diretor de Imprensa do CRP; ex-
assessor de imprensa da Casa Branca.
Robert C. Odle Jr.: Diretor de Administração e Pessoal do
CRP; ex-assessor do staff da Casa Branca.
Kenneth W. Parkinson: Advogado do CRP.
Kenneth Rietz: Diretor da Seção Juvenil do CRP.
Herbert L. Porter: Diretor de Programação do CRP; ex-
assessor de Haldeman.
Donald H. Segretti: Advogado.
DeVan L. Shumway: Diretor de Assuntos Governamentais
do CRP; ex-assessor de imprensa da Casa Branca.
HughW. Sloan Jr.: Tesoureiro do CRP; ex-assessor de
Hajdeman.
Maurice H. Stans: Diretor financeiro do CRP; ex-Secretário
do Comércio.
Gordon C. Strachan: Assistente da equipe de Haldeman.
Gerald Warren: Vice-Secretário de Imprensa do Presidente.
David R. Young: Assistente do Conselho de Segurança
Nacional; assessor de Henry Kissinger e John Ehrlichman.
Ronald L. Ziegler: Secretário de Imprensa do Presidente.
OS ARROMBADORES
Bernard L. Barker
Virgílio R. Gonzalez
Eugênio R. Martinez
James W. McCord Jr.
Frank A. Sturgis
A ACUSAÇÃO
Henry E. Petersen: Procurador Geral Assistente.
Earl J. Silbert: Promotor Público do Distrito de Colúmbia —
Chefe da Acusação.
Donald E. Campbell: Promotor Público Federal.
Seymour Glanzer: Promotor Público Federal.
O JUIZ
John J. Sirica: Juiz-Presidente do Tribunal Federal do Distrito
de Colúmbia.
O WASHINGTON POST
Katharine Graham: Editora.
Benjamin C. Bradlee: Editor-Executivo.
Howard Simons: Editor-Gerente.
Harry Rosenfeld: Editor Metropolitano.
Barry Sussman: Editor do Distrito de Columbia.
O SENADOR
Sam J. Ervin Jr.: Presidente da Comissão do Senado para o
caso Watergate.
CAPÍTULO 1
17 de junho de 1972. Nove horas da manhã de sábado.
Muito cedo para o telefone tocar. Woodward tateou
sonolento à procura do aparelho, mas logo se sentiu
inteiramente desperto, pois quem estava na linha era o
editor de noticiário local do Washington Post. Cinco
homens haviam sido presos naquela madrugada quando
arrombavam a sede do Partido Democrático, e tinham em
seu poder equipamento fotográfico e instrumentos
eletrônicos. Será que ele podia cuidar da matéria?
Havia apenas nove meses que Woodward trabalhava no
Post, e estava sempre à procura de uma boa reportagem para
sábados, mas esta não parecia ser uma delas. Arrombamento
na sede local do Partido Democrático assemelhava-se demais
a outros assuntos de que se ocupara antes — restaurantes que
infringiam as leis sanitárias, corrupção policial em pequena
escala. Woodward pensava ter-se livrado dessa espécie de
trabalho. Não acabara ele de escrever uma série de
reportagens sobre o atentado ao governador do Alabama,
George Wallace? Agora, tudo levava a crer que estava de
volta à mesma velha rotina.
Woodward deixou seu apartamento conjugado no centro de
Washington e caminhou as seis quadras que o separavam da
redação do Post. A imensa sala de reportagens do jornal —
um quadrado com mais de cinqüenta metros de lado, filas de
mesas brilhantemente coloridas, um acre de tapete isolante
— é, nas manhãs de sábado, um lugar habitualmente
tranqüilo. Sábado é o dia de almoçar com calma, de tirar o
atraso do trabalho, de ler os suplementos dominicais.
Quando parou na porta da sala para recolher sua
correspondência e seus recados telefônicos, Woodward
percebeu uma atividade incomum à volta da mesa do editor
de noticiário local. Depois que este notou a sua presença,
ficou sabendo, surpreso, que os arrombadores não tinham
invadido a sede local dos democratas, mas a sede do Comitê
Nacional do Partido Democrático, no edifício Watergate, um
complexo comercial-residencial-hoteleiro.
Lugar inadequado para democratas. O opulento Watergate,
às margens do rio Potomac, no centro de Washington, era
um reduto dos republicanos, como se fosse o próprio clube
da Liga da União. Entre seus moradores incluíam-se o ex-
Procurador Geral dos Estados Unidos, John N. Mitchell,
atualmente diretor do Comitê para a Reeleição do
Presidente; o ex-Secretário do Comércio, Maurice H. Stans,
diretor financeiro da campanha do Presidente; o diretor
nacional do Partido Republicano, senador Robert Dole, do
Estado de Kansas; a secretária do Presidente Nixon, Rose
Mary Woods; e Anna Chen-nault, viúva do ás dos Tigres
Voadores, Claire Chennault, que também era uma das mais
célebres anfitriãs de Washington; e muitas outras figuras
proeminentes da administração Nixon.
O prédio de aspecto futurista, com suas balaustradas de
concreto armado parecendo dentes de serpente, e seus
preços igualmente ameaçadores (US$ 100.000 por um
apartamento de dois quartos, com atendimento de hotel),
tinha se tornado o símbolo da classe governante da
Washington de Richard Nixon. Dois anos antes, o Watergate
havia sido alvo de uma manifestação contra Nixon, na qual
haviam tomado parte mais de mil pessoas que, aos gritos de
"Porcos", "Fascistas" e "Sieg Heil", tinham tentado tomar de
assalto a cidadela dos republicanos. Os manifestantes
esbarraram numa sólida muralha de policiais que os
rechaçaram até o campus da Universidade George Washin-
gton à força de golpes de cassetetes e gás lacrimogêneo. De
suas sacadas, moradores do edifício Watergate assistiram
ansiosos ao confronto, e alguns deles chegaram a aplaudir e
fazer brindes quando a multidão foi repelida e o vento oeste
do Potomac dissipou a nuvem de gás para longe da fortaleza.
Entre os que tinham sido atirados ao chão, encontrava-se
Carl Bernstein, repórter do Washington Post. Na certa, o
policial que o derrubou não viu sua chapa de identificação
profissional, pendurada ao pescoço; é possível que tivesse re-
parado apenas nos seus cabelos compridos.
Quando Woodward começou a dar seus telefonemas, notou
que Bernstein, um dos dois repórteres políticos para o Estado
de Virgínia, também estava trabalhando na história do
arrombamento.
Ai, meu Deus, Bernstein, não! pensou Woodward,
relembrando umas histórias que circulavam pela redação
sobre a capacidade que Bernstein tinha de se intrometer
numa reportagem e abocanhar a autoria.
Naquela manhã, Bernstein, que havia tirado cópias xerox das
anotações dos repórteres presentes ao fato, informou ao
editor do noticiário local que ia fazer mais algumas
investigações.
O editor consentiu com um dar de ombros, e Bernstein deu
início a uma série de telefonemas para toda gente do
Watergate que conseguiu encontrar — funcionários de
escritório, mensageiros, camareiras do setor de serviços
domésticos, garçons do restaurante.
O olhar de Bernstein atravessou a sala de reportagens. Havia
uma coluna entre sua mesa e a de Woodward, a uns oito
metros de distância. Deu uns passos para trás. Pelo jeito,
Woodward também estava trabalhando na história. Era de
esperar, pensou Bernstein. Bob Woodward era uma
primadona que jogava alto na política do jornal.
Universidade de Yale. Veterano da Marinha, com patente de
oficial. Gramados, relva, cabinas de transatlânticos e quadras
de tênis, imaginou Bernstein, mas provavelmente pouco
terreno sólido para um bom trabalho de investigação.
Bernstein sabia que Woodward não escrevia bem. Segundo
uma fofoca da redação, o inglês não era a língua materna de
Woodward.
Bernstein não passara pela Universidade. Começara sua
carreira no Washington Star, aos dezesseis anos, como
estagiário; tornara-se repórter aos dezenove e trabalhava para
o Post desde 1966. De vez em quando fazia reportagens em
série; já cobrira os tribunais e a Prefeitura, e gostava de
escrever artigos longos e minuciosos sobre os habitantes e os
bairros da capital.
Woodward sabia que, às vezes, Bernstein escrevia sobre
música rock para o Poít. Nada de admirar. Mais difícil de
engolir foi saber que ocasionalmente também fazia crítica de
música erudita. Bernstein tinha o aspecto de um daqueles
jornalistas da contracultura, a quem Woodward desprezava.
Bernstein achava que a rápida ascensão de Woodward no
Post devia-se menos à sua capacidade profissional do que às
suas credenciais no Establishment.
Nunca tinham trabalhado juntos numa reportagem.
Woodward tinha vinte e nove anos de idade, Bernstein
vinte e oito.
A redação havia recebido os primeiros detalhes do incidente
de dentro do próprio Watergate, por intermédio de Alfred E.
Lewis, veterano jornalista com trinta e cinco anos de
reportagem policial para o Post. Lewis era uma figura
legendária no jornalismo de Washington — meio policial,
meio repórter, usando freqüentemente o suéter azul da
Polícia Metropolitana, abotoado na cintura sobre a fivela de
cobre com a estrela de David. Em trinta e cinco anos jamais
"escrevera" realmente uma reportagem; telefonava dando os
detalhes e outra pessoa reescrevia a história; há anos que o
Washington Post nem sequer possuía máquina de escrever
na central de polícia.
Os cinco homens presos às 2h30min da madrugada vestiam
ternos completos, e todos usavam luvas cirúrgicas de
borracha, marca Playtex. A polícia havia apreendido um
walkie-talkie, quarenta rolos de filme virgem, duas câmaras
fotográficas de 35 mm, gazuas, armas de gás lacrimogêneo
do tamanho de uma caneta e instrumentos transmissores
aparentemente capazes de interceptar tanto as conversas
telefônicas, como as que ocorressem no próprio recinto.
"Um dos homens levava US$ 814.00, outro US$ 800.00, o
terceiro US$ 215.00, o quarto USS 234.00 e o último USS
230.00", Lewis ditou. "As notas eram, em sua maioria, de
USS 100.00 numeradas em seqüência... Pareciam estar à
vontade; pelo menos um deles conhecia bem a disposição do
local. Tinham quartos nos segundo e terceiro andares do
hotel. Jantaram juntos na mesma mesa, naquela noite,
comeram lagosta. Um deles vestia um terno comprado na
loja Raleigh. Alguém conseguiu ver a etiqueta no bolso
interno."
Woodward foi informado por Lewis de que os suspeitos
compareceriam ao tribunal para uma audiência preliminar,
naquela tarde. Decidiu ir para lá.
Woodward já estivera no tribunal antes. O processamento da
audiência obedecia ao esquema institucionalizado do sistema
de rodízio da justiça local: um rápido comparecimento
perante um juiz, a quem competia determinar fiança para
cáftens, prostitutas e assaltantes — e nesse dia, para os cinco
indivíduos presos no edifício Watergate.
Vários advogados — conhecidos como "os causídicos da Rua
Cinco", devido à localização de seus escritórios, bem em
frente ao Palácio da Justiça — espalhavam-se pelos
corredores à espera de serem nomeados defensores públicos,
para réus indigentes. Dois dos mais assíduos — um deles, um
advogado alto e magro, num terno esgarçado de sarja, e o
outro, obeso e de meia-idade, e que já fora repreendido por
tentar angariar clientes nas celas do subsolo — resmungavam
desapontados. Haviam sido nomeados em caráter provisório
para representar os cinco arrumbadores do Watergate, e
foram posteriormente informados de que os réus tinham
contratado seu próprio advogado, o que era raro.
Woodward entrou na sala do tribunal. Uma pessoa se
destacava: na fileira do meio, estava sentado um jovem, de
cabelos longos como era moda, terno caro de lapelas
ligeiramente alargadas, queixo altivo, olhos que examinavam
a sala, como se estivesse em ambiente estranho.
Woodward sentou-se a seu lado e perguntou se estava ali por
causa das prisões no edifício Watergate.
— Talvez — respondeu o homem. — Não sou o advogado
da causa. Estou agindo por conta própria.
Informou que seu nome era Douglas Caddy, e apresentou
outro homem, mirrado e anêmico, sentado a seu lado, como
sendo Joseph Rafferty Jr., o advogado do processo. Este
parecia ter sido arrancado da cama: a barba estava por fazer e
os olhos semicerrados como se a luz o incomodasse. Os dois
advogados entravam e saíam da sala de julgamento, até que,
finalmente, Woodward encurralou Rafferty num corredor e
conseguiu os nomes e endereços dos cinco suspeitos. Quatro
eram de Miami, sendo três deles cubano-americanos.
Caddy não queria falar. — Por favor, não encare isto como
afronta pessoal — disse a Woodward. — Seria um erro seu.
É que simplesmente não tenho nada a dizer.
Woodward perguntou a Caddy sobre seus clientes.
— Não são meus clientes — respondeu.
Mas o senhor é advogado? — perguntou Woodward.
— Não quero conversar com você.
Caddy voltou para a sala do tribunal. Woodward o seguiu.
— Por favor, não tenho nada a dizer.
Os cinco homens poderiam pagar fiança? — quis saber
Woodward.
Depois de, repetidas vezes, recusar-se delicadamente a
responder, Caddy retrucou rapidamente que todos os
homens tinham empregos e famílias — fatores estes que
seriam levados em consideração pelo juiz ao determinar a
fiança. Caddy voltou para o corredor.
Woodward o seguiu: Então fale-me a seu respeito. Como
entrou no caso?
— Não estou no caso. Então, por que está aqui?
— Olhe — disse Caddy —, conheci um dos acusados,
Bernard Barker, numa reunião social.
Onde?
— No Distrito de Colúmbia. Num coquetel no Clube
Naval-Militar. Tivemos um bate-papo simpático... e isto é
tudo que tenho a dizer.
Como entrou no caso?
Caddy deu meia-volta e entrou na sala do tribunal. Depois de
meia hora tornou a sair.
Woodward perguntou como entrara no caso.
Desta vez, Caddy informou que recebera um telefonema da
esposa de Barker, pouco depois das três da madrugada. — Ela
me contou que Barker lhe havia dito para me procurar se ele
não telefonasse para ela até as três horas; isto poderia
significar que ele estava em apuros.
Caddy disse que ele possivelmente era o único advogado que
Barker conhecia em Washington, e ignorou as outras
perguntas, acrescentando que, provavelmente, já falara
demais.
Às três e meia da tarde, os cinco suspeitos, ainda com seus
ternos escuros, mas sem as gravatas e os cintos, foram
conduzidos à sala por um policial, sentaram-se em silêncio
no banco dos réus e, torcendo as mãos, ficaram olhando sem
expressão para a mesa do juiz. Pareciam nervosos, atentos e
obstinados.
Earl Silbert, o promotor público, levantou-se quando a sessão
foi declarada aberta pelo oficial de Justiça. Delgado,
compenetrado e lembrando uma coruja com seus óculos de
armação pesada e escura, recebera dos causídicos da Rua
Cinco o apelido de "A Pérola", por fazer uso de gestos melo-
dramáticos e discursos floreados. Argumentou que os cinco
suspeitos não deveriam ser soltos sob fiança. Haviam dado
nomes falsos, não cooperaram com a polícia, possuíam USS
2.300.00 em dinheiro vivo e aparentavam pretender viajar
para o exterior. Haviam sido presos num "arrombamento
profissional", com propósitos "clandestinos". Silbert
caprichou na palavra "clandestinos".
O juiz James E. Belsen inquiriu os homens quanto às suas
profissões. Um deles respondeu em nome de todos,
declarando que eram "anticomunistas", com o que os demais
concordaram com um movimento de cabeça. O juiz, apesar
de acostumado a ouvir bizarras descrições de ocupações,
pareceu ter ficado perplexo. Solicitou ao mais alto dos cinco
suspeitos, que havia dado o nome de James W. McCord Jr.,
que fosse lá à frente. McCord apresentava sinais de calvície,
tinha o nariz largo e achatado, queixo quadrado, dentes per-
feitos e uma expressão de bondade que contrastava
vivamente com seus traços grosseiros.
O juiz perguntou qual a sua profissão.
— Consultor de segurança — respondeu.
O juiz perguntou em que firma.
McCord, num sotaque suave, respondeu que havia
recentemente se aposentado do serviço público. Woodward
foi para a primeira fila da assistência e debruçou-se.
— Em que repartição do governo? — perguntou o juiz.
— CIA — murmurou McCord.
O juiz vacilou levemente.
Caramba! — exclamou Woodward à meia-voz. — CIA.
Voltou de táxi para a redação e reportou o depoimento de
McCord. Oito repórteres trabalhavam em conjunto para
compor a história sob a batuta de Alfred E. Lewis. Ao
aproximar-se o horário de fechamento da matéria, às
6h30min da tarde, o editor-gerente do Post, Howard
Simons, entrou na sala do editor local, situada no lado sul da
sala de reportagens. — Esta história é uma bomba — disse a
Barry Sussman, o editor local, e mandou que a reportagem
fosse publicada na primeira página da edição de domingo.
O primeiro parágrafo dizia: "Cinco homens, um dos quais
declarou ser ex-funcionário da Agência Central de
Inteligência, foram presos às 2h30min da madrugada de
ontem, quando praticavam uma ação que segundo as
autoridades era um plano minucioso e complexo para instalar
transmissores clandestinos nas salas do Comitê Nacional do
Partido Democrático, nesta cidade".
Já tinha sido anunciada uma investigação federal, mas,
mesmo assim, Simons era de opinião que ainda havia muitos
ângulos desconhecidos a explorar para que o arrombamento
pudesse se tornar matéria principal. — Pode ser que sejam
cubanos malucos — comentou.
De fato, achava pouco plausível que fosse obra dos
republicanos. No dia 17 de junho de 1972, a menos de um
mês da Convenção do Partido Democrático, o Presidente
mantinha-se, nas pesquisas de opinião pública, à frente de
todos os candidatos democratas anunciados, com, no
mínimo, 19 pontos de diferença. O sonho de Richard Nixon,
de uma incipiente maioria republicana dominando o último
quarto do século, tal como os democratas haviam dominado
as duas gerações anteriores, começava a parecer possível. A
confusão reinava no Partido Democrático quando a brutal
temporada das eleições primárias chegou ao fim. O senador
George McGovern, de Dakota do Sul, considerado tanto pelo
Partido Democrático quanto pela Casa Branca como o mais
fraco adversário de Nixon, surgia como o franco favorito à
indicação para candidato dos democratas à Presidência.
A reportagem salientava: "Não ficou explicado por que os
cinco suspeitos poderiam querer instalar microfones
clandestinos nos escritórios do Comitê Nacional do Partido
Democrático, nem se estavam ou não trabalhando por conta
de outras pessoas ou organizações".
Bernstein escrevera outra história sobre os cinco suspeitos
para a edição dominical. Quatro deles eram de Miami:
Bernard L. Barker, Frank A. Sturgis, Virgilio R. Gonzalez e
Eugênio R. Martinez. Telefonara para um repórter do Miami
Herald e obtivera uma extensa lista de líderes cubanos
exilados. Um repórter do Post, do grupo de jornalistas
credenciados junto ao Presidente, em Key Biscayne,
recebera ordens para investigar a comunidade cubana em
Miami. Os quatro suspeitos residentes naquela cidade haviam
todos tomado parte em atividades anticastristas e dizia-se
também que tinham ligações com a CIA (— Nunca fiquei
sabendo se ele trabalha ou não para a CIA — dissera a Sra.
Barker a Bernstein. — Os homens jamais comentam esses
assuntos com as mulheres). Sturgis, um mercenário
americano, e o único sem sangue cubano dentre eles,
estivera recrutando cubanos militantes para uma agitação
durante a Convenção Nacional dos democratas, segundo
vários depoimentos. Um líder cubano disse a Bernstein que
Sturgis e outros, a quem descreveu como "ex-tipos da CIA",
tencionavam usar agitadores profissionais para brigar com
manifestantes pacifistas nas ruas, durante as convenções
políticas nacionais.
Naquele sábado Woodward deixou a redação às oito da
noite. Sabia que deveria ter ficado mais tempo a seguir a pista
de James McCord. Nem ao menos verificara se o nome de
James McCord constava do catálogo telefônico de
Washington ou arredores.
A equipe do noticiário nacional do Washington Post
raramente faz a cobertura de fatos policiais. Assim, a pedido
de Sussman, tanto Bernstein como Woodward voltaram ao
jornal na manhã seguinte, um domingo de sol radioso, 18 de
junho, para dar prosseguimento ao trabalho. Um tópico no
teletipo da Associated Press tornou embaraçosamente claro
o motivo pelo qual McCord deveria ter merecido uma
investigação mais profunda. De acordo com registros
contábeis de despesas de campanha, arquivados em
repartição federal, James McCord era o coordenador de
segurança do Comitê para a Reeleição do Presidente (CRP).
Os dois repórteres, de pé no meio da sala de reportagens, se
entreolharam. — Que diabo quer dizer isto? — perguntou
Woodward. Bernstein não sabia.
Em Los Angeles, John Mitchell, ex-Procurador Geral dos
Estados Unidos e diretor de campanha do Presidente, fez
uma declaração: "O indivíduo em questão é proprietário de
uma agência particular de segurança, contratado há alguns
meses por nosso Comitê para nos assessorar na instalação de
nosso esquema de segurança. Ele tem, em nosso entender,
uma série de clientes e interesses comerciais, e nada
sabemos dessas relações. Queremos deixar bem claro que
este homem, bem como os outros implicados não estavam
agindo nem em nosso nome, nem com nosso
consentimento. Não há lugar em nossa campanha ou no
processo eleitoral para esse tipo de atividade, coisa que não
permitiremos nem toleraremos".
Em Washington, o diretor nacional do Partido Democrático,
Lawrence F. O'Brien, disse que a invasão de domicílio
"levantava a mais hedionda dúvida sobre a integridade do
processo político que jamais me foi dado encontrar no curso
de meus vinte e cinco anos de atividade política. Um simples
desmentido, por parte do diretor de campanha do Sr.
Richard Nixon, não será suficiente para dissipar tais dúvidas".
Podia-se contar com as agências telegráficas que haviam
transmitido as declarações de Mitchell e de O'Brien para a
coleta dos pronunciamentos oficiais dos políticos do país. Os
repórteres se devotariam exclusivamente aos arrombadores.
Do catálogo telefônico constava o número da agência de
consultoria de segurança dirigida por McCord. Ninguém
atendeu. Verificaram as listas cruzadas que fornecem os
números pelos endereços. Ninguém atendeu, nem da casa,
nem do escritório de McCord. O endereço da McCord
Associates, 414 Hungerford Drive, Rockville, Maryland, era
um grande edifício comercial, e a lista de Rockville dava os
nomes de seus ocupantes. Os dois repórteres dividiram os
nomes entre si e começaram a telefonar para a residência
deles. Um advogado lembrou-se de uma mocinha que havia
trabalhado para ele no verão anterior, em regime de meio-
expediente, e que conhecia McCord; ou talvez fosse o pai
dela que o conhecia. O advogado lembrava-se vagamente do
sobrenome — Westall ou qualquer coisa assim. Os
repórteres entraram em contato com cinco pessoas com
nomes parecidos com o que o advogado fornecera, até que,
afinal, Woodward encontrou Harlan A. Westrell, que
confirmou conhecer McCord.
Westrell, que evidentemente não tinha lido os jornais, quis
saber por que Woodward desejava informações sobre
McCord. Woodward respondeu simplesmente que estava
coletando dados para uma possível reportagem. Westrell
mostrou-se lisonjeado e forneceu algumas informações sobre
McCord, seus amigos e seu passado. Deu a Woodward os
nomes de algumas outras pessoas que poderia procurar.
Gradualmente, começou a se esboçar um perfil de McCord:
natural da r região do Panhadle, no Texas; profundamente
religioso, membro ativo da congregação da Primeira Igreja
Batista de Washington; pai de um cadete na Academia da
Aeronáutica e de uma filha retardada; ex-agente do FBI;
reservista; antigo chefe de segurança física da CIA; professor
de um curso de se-Igurança na Escola Secundária de
Montgomery; homem de família; extremamente
consciencioso; tranqüilo, digno de confiança. Não obstante
as palavras de John Mitchell, as pessoas que conheciam
McCord foram unânimes em dizer que ele trabalhava em
tempo integral para o Comitê de Reeleição do Presidente.
Várias pessoas fizeram referências à honradez de McCord,
seu caráter firme "como uma rocha". No entanto, havia mais
alguma coisa... Westrell e três outras pessoas descreveram
McCord como o tipo acabado do "servidor público" —
incapaz de agir por iniciativa própria, respeitador da
hierarquia de comando, cegamente obediente no
cumprimento de ordens.
Woodward datilografou os três primeiros parágrafos de uma
reportagem que identificava um dos arrombadores como
sendo coordenador assalariado de segurança do CRP,
entregando-a a um dos redatores que coordenavam o
noticiário local. Um minuto depois, Bernstein estava
espiando por cima do ombro do redator. Woodward ficou
observando. Depois, Bernstein voltou à sua mesa com a
primeira página da história e se pôs a bater à máquina.
"Woodward terminou a segunda folha e passou-a para o
redator. Bernstein prontamente a apanhou e voltou para sua
máquina. Woodward resolveu ir até lá para ver o que estava
acontecendo.
Bernstein estava reescrevendo a reportagem. Woodward leu
a segunda versão. Estava melhor.
Naquela noite, Woodward foi de carro até a residência de
McCord, um espaçoso sobrado de tijolos vermelhos, típica
construção de bairro, localizada numa rua sem saída, não
muito longe da Rodovia 70-S, a principal via de acesso a
Rockville. As luzes estavam acesas, mas ninguém atendeu a
porta.
Passava da meia-noite quando Woodward recebeu um
telefonema de Eugene Bachinski, repórter policial da equipe
noturna do Post. O turno da noite no setor policial é
considerado o pior trabalho do jornal. O horário é ruim —
vai das 6h30min da tarde às 2h30min da madrugada. Mas
Bachinski — alto, quieto e de cavanhaque — parecia gostar
do que fazia, ou, pelo menos, parecia se dar bem com os
tiras. Chegara a ficar conhecendo vários deles muito bem,
convivia socialmente com alguns e se movimentava com
facilidade, em suas rondas noturnas, pelos vários esquadrões
da polícia: homicídios, vícios (pomposamente chamado de
Delegacia de Costumes), tráfico, informantes, sexo, fraude,
roubo — o catálogo da vida urbana, do ponto de vista de um
policial.
Bachinski recebera uma informação de um de seus contatos
na polícia. Dois caderninhos de endereços, que pertenciam a
dois dos cubanos presos no Watergate, continham o nome e
o telefone de um tal Howard E. Hunt, com minúsculas
anotações "Casa B." e "C.B.". Woodward sentou-se numa
cadeira dura perto do telefone e procurou na lista telefônica.
Encontrou o nome de E. Howard Hunt Jr., em Potomac,
Maryland, o opulento bairro hípico do município de
Montgomery. Telefonou. Ninguém atendeu.
Na redação, na manhã do dia seguinte, Woodward fez um
rol de suas pistas. Um dos vizinhos de McCord dissera que
havia visto McCord com uniforme oficial da Força Aérea, e
outro havia dito que McCord era tenente-coronel da Reserva
da Força Aérea. Depois de meia dúzia de chamadas
telefônicas para o Pentágono, um oficial do Departamento
de Pessoal informou que McCord era um tenente-coronel
designado para uma unidade especial de reserva baseada em
Washington, ligada ao Escritório de Preparação para
Emergências. O oficial leu para o repórter a folha de oficiais
da unidade, que continha apenas quinze nomes. Woodward
começou os telefonemas. Na quarta tentativa, Philip Jones,
um recruta, mencionou fortuitamente que a tarefa da
unidade era fazer uma relação de nomes de políticos radicais
e auxiliar na elaboração de planos de emergência para a
censura dos meios de comunicação e do serviço postal
americano, em tempo de guerra.
Woodward pediu uma ligação para um certo James Grimm,
cujo nome e telefone em Miami Bachinski informara constar
do caderninho de endereços de Eugênio Martinez. O Sr.
Grimm identificou-se como funcionário residente da
Universidade de Miami, e disse que Martinez o havia
procurado umas duas semanas atrás para perguntar se a
Universidade poderia arranjar acomodações para 3.000
moços da Juventude Republicana durante a convenção
nacional do Partido Republicano em agosto. Woodward
ligou para o CRP, para a sede do Comitê Nacional do Partido
Republicano, e para vários funcionários do partido que
estavam trabalhando em Washington e em Mimi no
planejamento da convenção. Todos disseram que jamais
haviam ouvido falar de Martinez, ou de planos para usar a
Universidade como alojamento para a Juventude Repu-
blicana.
Todavia, a prioridade máxima daquela manhã foi Hunt. Os
pertences pessoais dos suspeitos de Miami estavam
discriminados numa relação confidencial da polícia, relação
essa que Bachinski conseguira obter. Havia dois pedaços de
papel de pauta amarela, um endereçado a "Prezado Amigo
Sr. Howard" e outro a "Prezado Sr. H. H.", e mais um
envelope, que não fora posto no correio, contendo um
cheque pessoal de Hunt na importância de USS 6.36 a favor
do Country Clube Lakewood, em Rockville, anexo a uma
fatura do mesmo valor.
Woodward fez uma ligação para um velho amigo e
informante ocasional, funcionário do Governo Federal e que
não gostava de receber telefonemas no escritório. Esse
amigo disse rapidamente que o caso do arrombamento ia
"esquentar", mas que não podia dar explicações, e desligou.
Eram quase três horas da tarde, horário em que os editores
do Post relacionam num "mapa de notícias" as reportagens
que esperam receber para a edição do dia seguinte.
Woodward, que fora incumbido de escrever a história do
Watergate para terça-feira, pegou o telefone e discou 456-
1414 — a Casa Branca. Perguntou por Howard Hunt. A
telefonista ligou para um ramal. Não houve resposta.
Woodward estava a ponto de desligar quando a telefonista
entrou novamente na linha. — Há um outro lugar onde eu
talvez possa encontrá-lo — disse ela —, a sala do Sr. Colson.
— O Sr. Hunt não está aqui no momento — a secretária
de Colson informou a Woodward e lhe forneceu o número
de uma firma de relações públicas de Washington, Robert R.
Mullen & Cia., onde disse que Hunt trabalhava como
redator.
Woodward atravessou a sala até a seção de noticiário
nacional na extremidade leste e perguntou a um dos
redatores assistentes, J. D. Alexander, quem era Colson.
Alexander, um sujeito atarracado, com uns trinta e tantos
anos e uma espessa barba, riu. Charles W. Colson,
conselheiro extraordinário do Presidente dos Estados
Unidos, era o "leão-de-chácara" da Casa Branca, informou.
Woodward tornou a telefonar para a Casa Branca e
perguntou a uma funcionária do departamento de pessoal se
Howard Hunt constava da folha de pagamentos. Ela
respondeu que ia verificar. Poucos minutos depois voltou in-
formando que Howard Hunt era consultor a serviço de
Colson.
Woodward fez uma ligação para a firma de relações públicas
Mullen e perguntou por Howard Hunt.
— Howard Hunt falando — disse a voz que atendeu.
Woodward se identificou.
— Sim? De que se trata? — a voz de Hunt parecia
impaciente.
Woodward perguntou a Hunt por que razão seu nome e
número telefônico estavam escritos nos caderninhos de
endereços de dois dos homens presos em Watergate.
— Puxa vida! — exclamou Howard Hunt.
Depois acrescentou com rapidez: — Já que foi instaurado
inquérito sobre o caso, nada tenho a comentar — e bateu o
telefone.
Woodward pensou que já tinha sua história. Ainda assim,
nome e número telefônico de qualquer pessoa podiam
figurar num caderno de endereços. A conta do clube
campestre parecia ser uma prova adicional da ligação entre
Hunt e os suspeitos. Mas, que ligação? Uma reportagem cuja
manchete fosse "Consultor da Casa Branca ligado aos
suspeitos do Watergate" poderia ser um erro grave, além de
capciosa e injusta para com Hunt.
Woodward chamou Ken W. Clawson, vice-diretor de
comunicações da Casa Branca, que trabalhara como repórter
do Post até janeiro daquele ano. Falou-lhe acerca do que
havia nos caderninhos de endereços e da relação con-
fidencial da polícia, e depois perguntou quais eram as
atribuições de Hunt na Casa Branca. Clawson respondeu que
ia verificar.
Uma hora mais tarde Clawson telefonou para informar que
Hunt havia trabalhado como consultor da Casa Branca na
liberação dos Documentos do Pentágono, e, mais
recentemente, em uma investigação confidencial sobre
tráficos de narcóticos. Hunt recebera seu último pagamento
como consultor no dia 29 de março, e desde então não
executara qualquer outro trabalho para a Casa Branca.
— Verifiquei o caso cuidadosamente, e estou convencido de
que nem o Sr. Colson nem qualquer outra pessoa ligada à
Casa Branca teve qualquer conhecimento ou participação do
deplorável incidente ocorrido no Comitê Nacional do
Partido Democrático — declarou Clawson.
Woodward não lhe solicitara qualquer comentário.
O repórter deu um telefonema para Robert F. Bennett,
presidente da Cia. Mullen de relações públicas, e pediu
informações sobre Hunt. Bennett, filho do senador
republicano Wallace F. Bennett, de Utah, respondeu: — Não
creio ser segredo que Howard já trabalhou na CIA.
Era segredo para Woodward. Ligou para a CIA, de onde um
porta-voz, informou que Hunt lá estivera de 1949 até 1970.
Woodward não sabia o que pensar. Fez outra ligação para
seu velho amigo no governo e pediu que o aconselhasse. Seu
amigo parecia nervoso. Em caráter extra-oficial informou a
Woodward que o FBI considerava Hunt o principal suspeito
no caso Watergate, por várias razões além das anotações nos
caderninhos de endereços e do cheque não remetido.
Woodward comprometeu-se a não usar essas informações na
reportagem, pois que haviam sido transmitidas extra-
oficialmente. Seu amigo, entretanto, assegurou-lhe que não
haveria nada demais se a história mencionasse os cadernos
de endereços e as ligações com o clube campestre. Mas tal
afirmação também não podia sair em letra de forma.
Barry Sussman, editor da cidade, ficou intrigado. Vasculhou
os arquivos de recortes do Post e sobre Colson e acabou por
encontrar uma reportagem de fevereiro de 1971, na qual
uma fonte anônima descrevia Colson como um dos "rapazes
que ficam na sala dos fundos... os corretores, os tipos que
dão um jeito nas coisas quando estas emperram e fazem o
trabalho sujo quando necessário". A história de Woodward
sobre Hunt, identificando-o como um consultor que já
estivera a serviço de Colson na Casa Branca, trazia essa
citação e observava que fora tirada de um perfil escrito por
"Ken W. Clawson, atual assistente da Casa Branca e até
pouco repórter (do Washington Post)".
O título da reportagem foi "Consultor da Casa Branca ligado
aos suspeitos de Watergate".
Naquela manhã, na residência presidencial da Flórida, em
Key Biscayne, o secretário de imprensa da Presidência,
Ronald L. Ziegler, respondeu brevemente a uma pergunta
sobre o arrombamento no edifício Watergate, observando:
— Certas pessoas talvez tentem levar o caso mais longe do
que realmente merece. — Ziegler descreveu o incidente
como "uma tentativa de furto de terceira classe" que não
fazia jus a futuros comentários por parte da Casa Branca.
No dia seguinte, o presidente do Partido Democrático,
O'Brien, entrou com uma ação por perdas e danos no valor
de um milhão de dólares contra o Comitê para a Reeleição
do Presidente. Usando como argumento "a participação em
potencial" de Colson no arrombamento, O'Brien sustentou
que os fatos indicavam "uma linha direta que vai até à Casa
Branca", e acrescentou: "Ficamos sabendo do atentado
apenas porque houve um erro. Quantos outros já se
perpetraram, e quem neles esteve envolvido? Creio que
estamos em vias de testemunhar o derradeiro teste desta
administração que, tão devotamente, se comprometeu, há
apenas quatro anos, a inaugurar uma nova era de ordem e de
justiça."
CAPÍTULO 2
Sussman dissera a Bernstein para tirar folga segunda e terça-
feira. Na quarta o repórter se dispôs a saber tudo o que
pudesse sobre Charles A. Colson. Telefonou para um antigo
funcionário da administração Nixon que talvez pudesse
fornecer-lhe alguns úteis dados biográficos. Em vez de dar
biografia, o homem disse a Bernstein: — Seja quem for o
responsável pela invasão do Watergate, tem de ser alguém
que não entende patavinas de política, mas pensa que
entende. Suponho que seja esta a razão pela qual o nome de
Colson foi mencionado... Gente que sabe das coisas não iria
lá procurar informações políticas. Procuraria outra coisa...
escândalos, boatos.
O homem conhecia o funcionamento interno da Casa
Branca, coisa que Bernstein e Woodward ignoravam quase
por completo, e, melhor ainda, mantinha-se em contato
com antigos colegas.
Bernstein perguntou se ele via alguma possibilidade de que o
Comitê de campanha do Presidente ou — menos
provavelmente — a Casa Branca houvessem patrocinado
uma missão imbecil como esse ataque ao Watergate. Berns-
tein contava com uma resposta negativa.
— Conheço o Presidente bastante bem para saber que, se ele
precisasse de que um trabalho desses fosse feito, não seria
um serviço de segunda classe — afirmou o ex-funcionário.
— Mas não era de todo inconcebível que o Presidente
desejasse que seus assessores de campanha tivessem em
mãos toda e qualquer informação política, bem como os
boatos que estivessem disponíveis. Lembrou que um
consultor político da Casa Branca "estava sempre falando de
walkie-talkies. Você falava de política e ele respondia
falando de instrumentos eletrônicos. Na Casa Branca havia
sempre uma profunda preocupação com toda essa besteira de
informações. Alguns deles são suficientemente burros para
achar que podiam conseguir alguma coisa no Watergate".
Esta descrição da Casa Branca contrastava gritantemente
com a imagem de máquina poderosa e bem lubrificada que
Bernstein costumava encontrar nos jornais — aqueles
guardas palacianos sempre cuidadosos, disciplinados,
parecidos entre si, invariavelmente chamados de "os
Homens do Presidente".
Bernstein perguntou sobre um deles, Robert Odle,
atualmente diretor do pessoal do CRP e antigo assessor da
Casa Branca. O Comitê havia indicado Odle como o homem
que contratara McCord para coordenador de segurança.
— Isso é besteira — replicou o ex-funcionário. —
Mitchell não abriria mão de uma decisão dessas. Mitchell é
quem decidiria, depois de aconselhar-se com alguém que
entendesse de segurança.
A contratação de McCord teria, com certeza, envolvido pelo
menos mais uma pessoa — o assessor de Mitchell, Fred
LaRue, a quem descreveu como sendo o braço-direito do ex-
Procurador Geral. Bernstein anotou o nome (escrevendo La
Roue), enquanto ouvia mais sobre ele.
— Acho que se os transmissores clandestinos estivessem
em atividade na ocasião do arrombamento, LaRue estaria
ciente disso.
O ex-funcionário ainda lhe deu mais o que pensar. Murray
Chotiner, velho amigo do Presidente e especialista em táticas
de campanha pouco recomendáveis desde os tempos das
campanhas de Nixon para o Congresso, contra Jerry Voorhis
e Helen Gahagan Douglas, era o encarregado de um setor
chamado "segurança eleitoral". Embora sem definição oficial,
o objetivo desse setor era impedir que os democratas
roubassem as eleições, como haviam feito, segundo
sustentavam o Presidente e seus seguidores (bem como
alguns democratas), em 1960.
Naquela tarde, David Broder, colunista e repórter de política
nacional do Post, deu a Bernstein o nome de um funcionário
do Comitê Nacional do Partido Republicano e sugeriu que o
contatassem. Broder o descreveu como "um sujeito muito
íntegro", que talvez soubesse de alguma coisa, pois estava
entre os encarregados dos preparativos dos planos de
segurança para a convenção do Partido. O CRP havia
informado que McCord trabalhara como consultor de
segurança da convenção.
— A verdade é que McCord jamais desempenhou
qualquer missão de segurança para a convenção — disse o
funcionário a Bernstein. — Penso que o que ele tem feito é
tomar conta da segurança do Comitê para a Reeleição. A
única coisa que interessa ao CRP é a pessoa de Richard M.
Nixon. Não ligam a mínima para o Partido Republicano. Se
pudessem, destruiriam o Partido.
E ele acreditava nas negativas de participação de John
Mitchell e do CRP?
O homem riu. — Bob Dole e eu estivemos conversando no
dia das prisões e chegamos à conclusão que o responsável
deve ser um daqueles generais de araque espalhados pelo
Comitê e pela Casa Branca. Chotiner ou Colson. Estes foram
os homens aventados.
Bernstein não esperava que alguém tão chegado à
administração Nixon pudesse se referir com tamanho
escárnio e desprezo aos homens que rodeavam o Presidente.
Atravessou a sala para falar com Sussman. O editor de cidade
achou interessante a informação. Em seguida, muito sem
graça, disse a Bernstein que o estava tirando do caso
Watergate, porque a seção do noticiário do Estado de
Virgínia não podia, em época de eleição, ficar sem um de
seus dois repórteres políticos.
Bernstein voltou para sua mesa fingindo indiferença, mas
num mau humor infame. O Post já lhe devia quase quatro
meses de férias. Até o dia do arrombamento, tencionara tirar
essas férias naquele verão para atravessar o país de bicicleta.
Decidiu fazer uma última tentativa para permanecer no caso
Watergate. Escreveu um memorando de cinco páginas
esboçando o que chamou de "Teoria Chotiner" e mandou
cópias para Sussman, Woodward e Harry M. Rosenfeld, o
editor metropolitano do Post.
"Não há dúvida de que a teoria parece ambiciosa", começava
o mesmo, "mas... Colson é o sucessor de Chotiner na Casa
Branca... Colson poderia muito bem estar envolvido com
Chotiner em alguns aspectos da 'segurança eleitoral". Isto
poderia redundar na avaliação de qualquer informação
apresentada por Chotiner."
No dia seguint*, Rosenfeld deu permissão a Bernstein para
desenvolver a "Teoria Chotiner" e ver o que conseguia
apurar.
Em entrevista à imprensa naquela mesma tarde, 22 de junho,
o Presidente Nixon fez o seu primeiro comentário público a
respeito de Watergate: — A Casa Branca não teve qualquer
participação neste incidente em particular — declarou.
Bernstein e Woodward ponderaram longamente sobre a
expressão "neste incidente em particular". As coincidências
já eram por demais numerosas para que pudessem ser postas
de lado assim tão sem cerimônia. Um advogado de
Washington afirmara que podia reconhecer Frank Sturgis
como um dos homens que haviam atacado Daniel EUsberg
— um dos réus no processo dos Documentos do Pentágono
— à saída do serviço fúnebre em memória do falecido
diretor do FBI, J. Edgar Hoover, no mês de maio. No
caderninho de endereços de um dos suspeitos havia uma
planta dos aposentos do hotel que seriam utilizados pelo
senador McGovern durante a convenção do Partido
Democrático. Em Miami, um arquiteto declarou que Bernard
Barker havia tentado conseguir uma planta-baixa do prédio
da convenção e do seu sistema de refrigeração. O chefe de
Hunt na Cia. Mullen, Robert Bennett, fora o organizador de
cerca de cem falsos comitês de campanha, usados para
carrear milhões de dólares em contribuições secretas para a
campanha de reeleição do Presidente Ao ser preso, McCord
tinha em seu poder um requerimento de credenciais do
grupo universitário de imprensa para assistir à convenção do
Partido Democrático. Viajara recentemente para Miami
Beach. Alguns dos arrombadores, gente de Miami, tinham
estado em Washington, três semanas antes de serem
efetuadas as prisões, na mesma ocasião em que foram assal-
tados os escritórios de alguns ilustres advogados democratas
no edifício Watergate.
Menos de uma hora depois do pronunciamento do
Presidente, Devan L. Shumway, diretor de relações públicas
do CRP, informou aos repórteres que John Mitchell havia
ordenado uma investigação interna a respeito da invasão da
sede dos democratas.
A 1.° de julho, nove dias depois da declaração do Presidente,
Mitchell se demitiu do cargo de diretor da campanha de
Nixon, explicando que assim procedia por insistência da
esposa.
Woodward perguntou aos vários integrantes da equipe
nacional do Post encarregada do caso se eles acreditavam
que a demissão de Mitchell nada tinha a ver com Watergate.
Acreditavam.
No dia seguinte, o editor metropolitano Harry Rosenfeld
franziu a testa e comentou com Woodward: — Um homem
como Mitchell não abre mão daquele poder todo só por
causa da mulher.
Pouco depois de Bernstein ter ouvido pela primeira vez o
nome de Charles Colson, um colega repórter lhe disse que,
certo dia, tinha saído com uma garota que trabalhava na Casa
Branca, ao que parece para Colson. Bernstein a localizou
pelo telefone. Trabalhara para um dos assistentes de Colson,
não para Colson, propriamente. Havia conhecido Howard
Hunt ligeiramente.
— Eu desconfiava daquela corja toda, especialmente de
Colson, porque era tão super protetor do Presidente, e estava
sempre numa atitude muito defensiva quanto a ele —
explicou a moça. — Estava sempre correndo de um lado para
outro com documentos, mas nunca se abria com ninguém.
— Hunt, por outro lado, "era muito bonzinho, agradável, de
boa aparência. Era um dos poucos que se davam ao trabalho
de fazer com que você se sentisse integrada naquele meio";
às vezes ele a convidava para almoçar. Embora empregado
como consultor, "ficava lá quase o dia inteiro. De vez em
quando pegava um avião e ia para a Flórida... e fazia viagens
para a Califórnia". Tudo isto acontecera durante o verão e em
princípios do outono de 1971. Hunt era tão fechado quanto
Colson, disse ele, "mas alguém no escritório me contou que
Howard estava trabalhando em vários serviços de
investigação, inclusive no caso dos Documentos do
Pentágono". Tivera a impressão de que não se tratava da
"liberação" de documentos, como a Casa Branca havia
declarado, mas sim de descobrir como o teor desses
documentos transpirara para a imprensa.
— Quase na mesma ocasião — continuou — reparei que em
sua escrivaninha havia um livro sobre Chappaquiddick, e
perguntei o que significava aquilo: também estava
investigando aquele caso — investigando Kennedy? Eles não
quiseram... bem, jamais me deram muitas explicações.
Quem lhe havia dito que Hunt estava investigando
Kennedy?
Uma outra secretária do escritório de Colson. Depois ela vira
na mesa de Hunt outros livros e documentos que também
tratavam do senador Kennedy e do acidente de carro em
Chappaquiddick. Lembrava-se de um livro de bolso, "um
título simples como Kennedy e Chappaquiddick". — Parte
do material fora retirada da biblioteca da Casa Branca, achava
ela. E um dos assessores de Colson — não se recordava qual
— também lhe havia dito que Hunt estava investigando
Kennedy. — Tudo foi verificado — acrescentou ela.
Bernstein telefonou para a Casa Branca e pediu para falar
com a bibliotecária. Ligaram para Jane F. Schleicher,
bibliotecária-assistente. Identificando-se como repórter,
Bernstein perguntou a ela se acaso se recordava do título do
livro sobre o senador Kennedy que o Sr. Hunt havia
retirado.
— Acho que me lembro de algo a respeito — respondeu a
bibliotecária. — Ele retirou um monte de material sobre esse
assunto do senador Kennedy e Chappaquiddick. — A Sra.
Schleicher disse ainda: — Acho que tenho isso aqui nas
minhas anotações — e pediu a Bernstein que telefonasse
mais tarde para que ela tivesse tempo de verificar nos
arquivos.
— Acho que o livro que o senhor tem em mente
provavelmente é o que foi escrito por Jack Olsen, A ponte
de Chappaquiddick — disse a Sra. Schleicher no segundo
telefonema. Bernstein perguntou quando Hunt requisitara o
livro. A Sra. Schleicher pediu que ele esperasse na linha.
Quando voltou ao telefone, poucos minutos depois, parecia
muito agitada. — Não tenho um cartão com lançamento de
retirada do livro pelo Sr. Hunt — disse ela. — Lembro-me
de ter entregue o livro a alguém, mas não existe cartão com
o nome do Sr. Hunt. — Não havia cartão algum; jamais havia
recebido requisições do Sr. Hunt. Disse a Bernstein que se
dirigisse ao pessoal da sala de imprensa. Não sabia quem era
Hunt.
Então foi a vez de Woodward ligar para ela e perguntar
sobre os livros referentes a Kennedy. — Não era da minha
conta ficar contando tudo (para Bernstein) — replicou ela.
Woodward discou novamente para a mesa telefônica da Casa
Branca e pediu para falar com um jovem auxiliar da
presidência, a quem havia, certa vez, conhecido em uma
festa. Falaram durante uma hora. Sob a garantia de que seu
nome permaneceria incógnito, o funcionário contou que
Hunt havia sido encarregado pela Casa Branca de realizar
uma pesquisa sobre a vida particular do senador Kennedy.
Não podia dizer de onde havia partido a ordem para essa
investigação, mas deu claramente a entender que Colson se
incluía entre os que estavam a par do assunto. Lembrava-se
de que Hunt recebera material sobre Kennedy, vindo da
Biblioteca do Congresso.
Bernstein e Woodward foram de táxi à Biblioteca do
Congresso, e acharam o departamento encarregado das
requisições de material de leitura vindas da Casa Branca.
Falando com os repórteres no corredor, em vez de usar o
escritório, um bibliotecário informou delicadamente que as
transações com a Casa Branca eram confidenciais. Insistindo,
os repórteres acabaram por encontrar um funcionário
disposto a colaborar, e passaram a tarde no salão de leitura,
consultando milhares de papeletas — todas as requisições,
desde julho de 1971, quando Hunt fora contratado pela Casa
Branca. Em nenhum dos papéis constava o nome de Hunt.
Woodward telefonou para Ken Clawson e transmitiu a
conversa de Bernstein com o bibliotecário. Quando Clawson
voltou a telefonar foi para dizer que havia falado com a Sra.
Schleicher. — Ela nega a conversa (com Bernstein). Disse
que das duas vezes sugeriu que você se dirigisse à sala de
imprensa. — Clawson informou que Hunt jamais recebera
ordens da Casa Branca para pesquisar Kennedy — Podia
estar fazendo investigações por conta própria — disse
Clawson. — Você sabe, ele escreveu quarenta e cinco livros.
— Howard Hunt escrevia livros de espionagem.
Bernstein fez uma ligação para o ex-funcionário da
administração e foi informado de que "a Casa Branca é
completamente neurótica no que se refere aos Kennedy". O
Presidente, o chefe do staff da Casa Branca, H. R. Haldeman,
e Colson têm verdadeira "obsessão" pela idéia de conseguir
informações capazes de prejudicar a candidatura de
Kennedy.
Bernstein e Woodward escreveram uma matéria relatando
que Hunt estivera investigando Kennedy à época em que era
empregado da Casa Branca. A importância da história, no
entender dos repórteres, residia no fato de Hunt não ser um
consultor comum da Casa Branca, mas um executor de
missões políticas.
Harry Rosenfeld ficou entusiasmado e levou a reportagem
para Benjamin C. Bradlee, editor-executivo do Post. Bradlee
saiu de sua toca envidraçada, lá na extremidade da sala de
reportagens, e veio sentar-se numa cadeira perto da
escrivaninha de Bernstein. Trazia na mão uma cópia da
reportagem e sacudia a cabeça. Era o primeiro encontro dos
repórteres com Bradlee sobre o caso Watergate. O Wall
Street Journal descrevera-o, certa vez, dizendo que tinha a
aparência de um ladrão de jóias internacional. Bradlee,
cinqüentão, fora amigo íntimo do Presidente Kennedy e era
muito sensível quanto a histórias sobre a família Kennedy.
Reclinando-se, disse Bradlee: — Vocês não conseguiram
nada. Uma bibliotecária e uma secretária dizem que esse tal
Hunt deu uma olhadela num livro. Só isso.
Woodward explicou que um informante fidedigno da Casa
Branca lhe dissera explicitamente que Hunt estava
conduzindo uma investigação nesses moldes.
A hora de fechamento se aproximava. Os outros repórteres
observavam a cena.
— Que grau tem ele na hierarquia? — perguntou Bradlee.
Woodward não sabia muito bem quais as normas que regiam
a revelação de fontes de informações a editores-executivos.
O senhor quer saber quem é o informante? Perguntou
Woodward, meio inseguro.
— Diga-me apenas se o nível dele é de Assistente do
Presidente — replicou Bradlee.
Woodward não entendia muito de títulos. Descreveu a
função do sujeito. Bradlee não se impressionou. Pegou a
caneta e começou a editar a reportagem, alterando o
primeiro parágrafo para dizer simplesmente que Hunt
"demonstrava um interesse especial" em Kennedy e no
acidente de Chappaquiddick. Eliminou todo um parágrafo
sobre a atitude da Casa Branca em relação a uma possível
candidatura Kennedy.
Rosenfeld perguntou a Bradlee se a reportagem podia sair na
primeira página.
Bradlee disse que não. — Arranjem fatos mais concretos da
próxima vez — aconselhou, enquanto se retirava.
Hunt não voltara a ser visto desde o dia em que falara
rapidamente com Woodward ao telefone. O FBI havia
designado 150 agentes para a busca. A 7 de julho, dia em que
a reportagem Hunt/Chappaquiddick apareceu no Post, Hunt
saiu repentinamente da obscuridade. Dias mais tarde,
Bernstein contatou um advogado de Washington que
conhecia William O. Bittman, advogado de Hunt.
Foi por ele informado de que Bittman recebera um envelope
com US$ 25.000 em dinheiro sonante para representar
Hunt. O homem estava confuso. Bittman era respeitadíssimo
entre seus colegas, sócio de uma firma jurídica de alto
prestígio, Hogan & Hartson; quando estivera no ministério
público, acusara com sucesso Jimmy Hoffa, o ex-presidente
da Teamster's.
— A informação é quente, eis tudo o que posso lhe dizer —
garantiu o informante. — E tinha mais: pelo menos US$
100.000 das verbas do CRP estavam destinados ao item
"Segurança da Convenção". — O dinheiro — afirmou — é a
chave da história.
Bernstein telefonou para Bittman, mas este se recusou a
informar como fora contratado.
Por acaso recebera US$ 25.000 dentro de um envelope? —
indagou Bernstein.
Bittman indicou que não estava em condições de discutir
qualquer aspecto de sua participação no caso, mas, para
surpresa de Bernstein, não fez nenhuma negativa
especificamente quanto a ele.
O certo, porém, é que Woodward e Bernstein não
conseguiam encontrar ninguém que tivesse ao menos
ouvido falar da história do dinheiro dentro de um envelope
pardo. Passaram horas e horas andando em círculos, sem
chegar a lugar algum, e não apenas quanto a este ângulo da
questão.
Era como se a ocupação dos altos funcionários da Casa
Branca e do CRP fosse lançar repórteres em pistas falsas.
Haviam transpirado informações de que o arrombamento de
Watergate era trabalho de cubanos anticastristas cuja
intenção seria provar que os democratas estavam recebendo
contribuições de Cuba.
A história do Watergate estava parada, talvez morta. Os
repórteres não conseguiam entender por quê. O informante
de Bernstein na administração, o ex-funcíonário, também
não foi capaz de conseguir qualquer informação útil e disse
em tom de brincadeira — pelo menos Bernstein assim o
entendeu — que a Casa Branca tinha "moitado".
Sob protesto, Bernstein voltou para a política do Estado de
Virgínia. Woodward resolveu tirar férias.
A 22 de julho, no dia em que Woodward embarcou para o
Lago Michigan, o Newsday, vespertino de Long Island,
informava que um ex-assessor da Casa Branca, G. Gordon
Liddy, que estivera trabalhando como advogado para o
comitê eleitoral de Nixon, fora despedido por Mitchell, em
junho, por ter-se recusado a responder perguntas sobre
Watergate formuladas pelo FBI.
Liddy, de quarenta e dois anos, fora da Casa Branca para o
cargo de conselheiro geral do CRP, em 11 de dezembro de
1971; passara a conselheiro financeiro e se dedicara à
consultoria jurídica sobre contribuições e finanças. Como
McCord, era também egresso do FBI, mas Devan Shumway,
porta-voz do comitê, declarou que as obrigações de Liddy
não tinham relação com a segurança nem com a coleta de
informações.
Na Casa Branca, Ken Clawson admitiu que, em fins de 1971,
Liddy trabalhara lá, na área dos problemas relacionados com
"cumprimento às leis", como membro da equipe de John D.
Ehrlichman, o principal assessor do Presidente para assuntos
internos.
Três dias depois, numa de suas folgas das batalhas políticas
do Estado de Virgínia, Bernstein estava em casa quando
recebeu um chamado de Barry Sussman. Podia ir à redação?
The New York Times publicara uma reportagem de primeira
página na qual se dizia que dos telefones de Barker, em
Miami, tinham sido pedidas pelo menos quinze ligações
interurbanas para o CRP. Mais da metade das ligações,
pedidas entre 15 de maio e 16 de junho, eram para o
telefone de um escritório que Liddy mantinha com outro
advogado.
Bernstein tinha vários informantes na Cia. Graham Bell. Mas
sempre relutava em utilizá-los como fontes de informações
sobre chamadas, porque isso implicava problemas éticos
relacionados com a quebra de sigilo dos registros telefônicos
individuais. Até então, não conseguira resolver mentalmente
o conflito. Por que, só por pertencer à imprensa, haveria de
ter acesso a registros pessoais e de natureza financeira,
quando tinha a convicção de que se sentiria ultrajado caso
fosse ele sujeito a essa espécie de devassa?
Sem se deter desta vez no problema, Bernstein ligou para um
dos seus informantes na companhia telefônica e pediu uma
relação das chamadas de Barker. Naquela mesma tarde, seu
contato discou de volta para confirmar que os telefonemas
referidos pelo Times haviam sido realmente feitos. Contudo,
acrescentou, não poderia conseguir uma relação mais
detalhada, pois o promotor do distrito de Miami havia
requisitado judicialmente os registros telefônicos de Barker.
Você quer dizer que o FBI, ou o Procurador Geral dos
Estados Unidos, não é?
— Não, a companhia telefônica em Miami disse que a
citação foi emitida pelo promotor público do distrito —
replicou o informante.
Por que estaria um promotor público interessado nesses
registros? Antes de retomar a história do Times, Bernstein
ligou para o Procurador da República em Miami, o qual
afirmou que jamais fizera tal requisição.
Bernstein começou, então, a telefonar para todos os
promotores públicos da região de Miami. Na terceira
chamada, localizou Richard E. Gerstein, promotor público
do distrito de Dade — área metropolitana de Miami. Soube,
então, que aquela promotoria tinha requisitado os registros e
estava tentando determinar se as leis estaduais da Flórida
haviam sido infringidas por participantes do arrombamento.
Gerstein não vira os registros, mas seu investigador-chefe,
Martin Dardis, sabia o que eles continham. Gerstein daria
instruções para que Dardis cooperasse com o Post, sob a
condição deste não divulgar os entendimentos mantidos
entre o jornal e seu distrito. Naquela mesma noite Bernstein
recebeu um telefonema de Dardis.
Dardis estava com pressa e não queria falar pelo telefone.
Tinha requisitado alguns dos registros telefônicos e extratos
bancários de Barker, e afirmou que Bernstein seria bem-
vindo a Miami se fosse até lá para discutirem o assunto.
Bernstein perguntou se ele conhecia a origem dos US$
89.000 que, segundo o Vice-Procurador Silbert, tinham sido
depositados e retirados da conta bancária de Barker em
Miami durante a primavera.
— É um pouco mais de US$ 89.000 — informou Dardis.
Mais por volta de US$ 100.000? — perguntou Bernstein.
— Um pouco mais.
De onde viera o dinheiro?
— Da Cidade do México — respondeu Dardis. — De um
executivo de lá, um advogado.
Não quis dar o nome, mas disse que falariam sobre isso
quando Bernstein fosse à Flórida. Como não estaria
disponível por alguns dias, concordaram em se encontrar na
segunda-feira, 31 de julho. Sussman aprovou a viagem.
Bernstein sempre chegava aos aeroportos em cima da hora
da decolagem. Na segunda-feira, enquanto corria para o
avião, apanhou às pressas, numa banca, um Post e um New
York Times, e disparou para o portão de embarque. O avião
já havia decolado quando leu o título de uma reportagem de
três colunas no Times: "Dinheiro do arrombamento na
Capital veio do México". Bernstein dedicou os seus mais
ferozes pensamentos a Gerstein e Dardis. A reportagem do
Times, assinada por Walter Rugaber, vinha datada da Cidade
do México. Bernstein estava convencido de que Rugaber
conseguira suas informações em Miami e, de lá, voara para o
México para enviar a matéria. Citava "fontes chegadas à
investigação", sem mencionar o FBI, o Governo federal ou o
Departamento de Justiça. Rugaber havia seguido a pista dos
USS 89.000 na conta de Barker até chegar a quatro cheques
avulsos do Banco Internacional para Manuel Ogarrio
Daguerre, conhecido advogado da Cidade do México.
Do aeroporto de Miami, Bernstein ligou para Sussman. Devia
seguir para a Cidade do México e deixar que Woodward, já
de volta de suas férias, se encarregasse de falar com Dardis
pelo telefone? Sussman achou melhor Bernstein ficar em
Miami pelo menos um dia.
Meia hora mais tarde, Bernstein se registrava no Sheraton
Four Ambassadors, o hotel mais caro de Miami. Perguntou
ao recepcionista o número do Sr. Walter Rugaber.
— O Sr. Rugaber deixou o hotel no fim de semana —
informou o recepcionista.
Os escritórios do promotor público estadual da comarca de
Dade, Flórida, ocupam o sexto andar do edifício do Palácio
da Justiça da cidade de Dade, em frente à prisão do distrito,
numa estreita avenida ladeada de palmeiras. Bernstein tomou
o elevador, entrou na sala de recepção e perguntou por
Dardis. A recepcionista informou que Dardis apresentava
suas desculpas, mas precisara se ausentar para tratar de um
caso. Ela não sabia dizer quando estaria de volta. Bernstein
começou a ler revistas.
Passou-se uma hora. Policiais uniformizados, detetives em
mangas de camisa, com seus revólveres trinta e oito metidos
no coldre, réus e acusadores desfilavam. Muitos paravam
para trocar algumas palavras com a recepcionista, cujo nome
era Ruby, e para perguntar como o "chefe" — Gerstein — ia
se saindo na campanha. Dez dias atrás, ele havia anunciado
que concorreria pela quinta vez ao cargo de promotor
estabelecendo um recorde.
Bernstein fez perguntas a Ruby sobre Gerstein. Era
democrata, tinha quarenta e oito anos de idade, fora piloto
de bombardeiro durante a Segunda Guerra Mundial, e era o
maior aliciador de votos da história da promotoria local. —
Todo mundo adora ele — informou Ruby.
Bernstein folheou um vespertino local. "Gerstein desmantela
quadrilha interestadual de comércio de bebês", dizia a
manchete. — Caramba! — murmurou Bernstein. As eleições
primárias do Partido Democrático estavam marcadas para o
dia 12 de setembro. Imaginou a manchete do dia 11:
"Gerstein elucida o caso Watergate".
Passou-se mais meia hora. Bernstein perguntou a Ruby se
seria possível falar com Dardis pelo rádio do carro.
— Ele não pode atender no momento — disse ela. — Mas
deve chamar logo.
Bernstein atravessou o saguão, até o cartório, onde pediu à
funcionária cópias de todas as requisições e citações emitidas
por Gerstein durante o mês de julho. Ela voltou com uma
pasta-sanfona, organizada cronologicamente pelos dias do
mês. Bernstein correu os dedos pelos papéis até que
encontrou uma citação à Southern Bell, a companhia
telefônica local, exigindo a entrega de todas as chamadas
interurbanas registradas em nome de Bernard Barker ou
Barker Associates, sua firma de imóveis. Havia outra citação,
dirigida ao Banco Nacional da República, requisitando os
extratos bancários de Barker. Havia ainda citações similares
para outros bancos e para a companhia telefônica,
solicitando a entrega de "todo e qualquer documento ou
comprovante" referente aos outros três suspeitos residentes
em Miami. Todos traziam o nome de Dardis. Bernstein fez
suas anotações sobre as citações que traziam o nome de
Dardis, e depois, de um telefone público, ligou para
Woodward.
Woodward não conseguira localizar Ogarrio e não pudera
confirmar a reportagem do Times em lugar algum.
Entretanto, no Capitolio, deparara com uma informação
interessante. Os suspeitos de Miami haviam comprado seu
equipamento fotográfico e haviam pago a revelação de
alguns filmes numa loja especializada no ramo, em um bairro
de cubanos, em Miami.
Bernstein sentou-se, tendo ao colo as Páginas Amarelas de
Miami, e começou a telefonar para todas as lojas de
equipamento fotográfico. Passou-se outra hora. Nada ainda
de Dardis. — A secretária dele está? — Ela foi com o Sr.
Dardis — respondeu a telefonista. Bernstein estava tentando
explicar a Ruby seus problemas de prazos a cumprir quando
Gerstein passou por eles, com uma comitiva de auxiliares.
Bernstein o reconheceu pela fotografia publicada no
vespertino.
Será que poderia, por favor, falar com o Sr. Gerstein? —
perguntou em tom meio de pedido, meio de exigência. Ruby
transmitiu o pedido e Bernstein foi escoltado à sala de espera
de Gerstein. A secretária explicou-lhe que o Sr. Gerstein
estava em reunião. Meia hora mais tarde a porta abriu-se e
Gerstein convidou Bernstein a entrar. O promotor estadual
tinha quase dois metros e dez de altura e usava um
imaculado terno de tropical.
— Diga-me como está o caso — começou Gerstein. —
Não consigo que o FBI me conte coisa alguma.
Bernstein explicou que apreciaria a oportunidade de passar
uma tarde inteira discutindo o caso Watergate com Gerstein,
mas já eram quase cinco horas e o horário de fechamento da
matéria do Post para a primeira edição encerrar-se-ia em
menos de duas horas. (Na realidade, ainda faltavam quase
três horas, mas Bernstein não pretendia correr mais nenhum
risco.) Se Bernstein conseguisse ficar livre da reportagem
para aquele dia, poderiam então conversar. Tinha viajado
para Miami contando com uma entrevista nas primeiras
horas da tarde e, esperava, com informações que levassem a
uma boa história. Em vez disso, como explicou a Gerstein, a
história já fora publicada no New York Times daquela
manhã, e o informante encontrava-se sabe Deus onde.
— Não estou a par do que Dardis sabe — disse Gerstein.
— Deixei Martin tomar conta do caso todo, porque tenho
estado ocupadíssimo. Sei da existência de alguns cheques,
mas não sei ao certo o que significam. Vou fazer com que
você se encontre com Dardis assim que tiver notícias dele.
Bernstein agradeceu. Quando ia saindo da sala, teve uma
idéia. A troca de informações com suas fontes era um
negócio delicado, só usado como último recurso, mas até
agora nào tivera resultados positivos com a dica de
Woodward sobre a loja de equipamento fotográfico. Passou a
informação para Gerstein.
Se surgir alguma novidade, que tal me chamar? — sugeriu
Bernstein.
— Lógico — disse Gerstein.
Mais quarenta e cinco minutos na sala de espera. Bernstein
ligou para Woodward do telefone público. Este lugar é
incrível — disse. — Fico esperando o dia inteiro, afinal
consigo ver Gerstein, e ele começa a fazer perguntas a mim!
Depois de desligar, dobrou um corredor, abriu uma porta
com a plaqueta de "ENTRADA PROIBIDA" e viu o nome de
Dardis em outra porta. Uma secretária falava ao telefone. —
Sim, Sr. Dardis — estava dizendo ela. — Está bem, vou levar
imediatamente.
Com a maior calma possível, Bernstein se apresentou e
explicou que estivera a tarde inteira esperando para falar com
o Sr. Dardis.
— O Sr. Dardis está em conferência — disse ela. —
Desculpe, mas sua presença aqui não é permitida. Se voltar
para a sala de espera, nós o chamaremos depois.
Bernstein agradeceu e voltou aos domínios de Ruby; já
estavam trancando as portas.
Voltou correndo, atravessou a sala de "ENTRADA
PROIBIDA", passou pelo escritório de Dardis, depois dobrou
um corredor e entrou na sala de Gerstein. Gerstein estava de
saída.
Olhe aqui — explodiu Bernstein. — Se havia alguma razão
pela qual a promotoria pública estadual não podia falar sobre
o que sabiam, ou se não podiam deixar o Post divulgar o que
sabiam, podiam dizer logo de uma vez. Mas ficarem nessa
brincadeira o dia inteiro! Dardis estava no escritório,
provavelmente está lá há horas e...
— Vou fazer com que você entre imediatamente — disse
Gerstein. — Não sei o que está acontecendo. Sinto muito. —
Parecia estar se desculpando sinceramente.
Por uma porta de comunicação, Bernstein voltou à sala de
espera já trancada. Momentos depois, Dardis apareceu. Era
baixo, de rosto vermelho e nariz mais vermelho ainda. Seu
velho blazer azul estava puído nos cotovelos.
Foi olhando para o relógio e exclamando: Meu Deus! tenho
um compromisso às sete horas. Tenho que sair às dez para as
sete. Não podemos deixar para falar amanhã? Oh, Santo
Deus!
Bernstein tentou manter a calma. Se pudesse tratar
rapidamente dos cheques, amanhã, então, poderiam passar
algum tempo e...
— Está bem, está bem — Dardis concordou com irritação.
— Eh, que história é essa dessa besteira do New York Times,
que você falou com Gerstein ? Está querendo me encrencar
com o meu chefe? Era para você falar comigo, não com ele.
Venha até aqui no escritório. Vamos terminar logo com isto.
Bernstein sentou-se em frente à escrivaninha de Dardis;
enquanto isso, o investigador-chefe abriu um arquivo de aço
com fechadura de segredo, tirou uma pasta e de dentro da
pasta puxou um maço de contas de telefone, grampeadas
juntas. Jogou-as na mesa na direção de Bernstein. — Vai
dando uma olhada nisso aí enquanto eu separo as coisas do
banco.
Bernstein começou a escrever freneticamente.
— Eh, um sujeito com quem eu trabalhei está agora no
serviço de campo do Bureau (FBI) em Washington —
comentou Dardis. — Talvez você o conheça. O nome é...
Bernstein continuou escrevendo, enquanto sacudia a cabeça
que não.
Dardis retirou os extratos bancários e olhou para eles como
um jogador avaliando as cartas que tem na mão. Começou a
ler em voz alta transcrições do que disse serem registros
bancários de Barker.
— Santo Deus, nunca que eu vou conseguir sair daqui às
dez para as sete — disse.
Olhe — perguntou Bernstein — vocês têm uma máquina
xerox?
Dardis respondeu que não podia arriscar-se a tirar cópias
xerox dos extratos de banco ou dos cheques. — Alguém
pode seguir a pista até mim — argumentou.
Está bem — propôs Bernstein — então você tira cópias do
resto dos comprovantes telefônicos e eu fico copiando os
cheques.
— Ótimo, mas, pelo amor de Deus, ande depressa —
pediu Dardis.
Os cheques mexicanos correspondiam fielmente à descrição
do Times — cada um pagável em um banco americano
diferente e endossado no anverso, com uma assinatura
ilegível sobre uma anotação datilografada: "Sr. Manuel
Ogarrio D. 99-026-10.
Mas havia um quinto cheque, este de US$ 25.000. Era um
pouco mais largo do que os outros e estava datado de 10 de
abril. Bernstein copiou-o, como fizera com os outros quatro,
como se estivesse desenhando um fac-símile. Era um
cheque avulso, pagável no First National Bank & Trust de
Boca Raton, Flórida, n.° 131138, à ordem de Kenneth H.
Dahlberg. Dardis voltou à sala quando Bernstein estava
acabando de fazer as cópias. Os US$ 25.000 haviam sido
depositados no dia 20 de abril, junto com os quatro cheques
mexicanos, perfazendo um depósito total de US$ 114.000.
Quatro dias mais tarde, Barker fizera uma retirada de US$
25.000. Os restantes US$ 89.000 haviam sido retirados em
parcelas.
— Nós ainda estamos tentando descobrir auem é esse tal
de Dahlberg — disse Dardis. — Já ouviu falar dele?
Bernstein respondeu que não.
Dardis entregou a Bernstein as cópias xerox dos
comprovantes telefônicos e disse: — Volte amanhã às nove,
e então conversaremos. Agora tenho que correr.
Obrigado — disse Bernstein. — Muito obrigado pela ajuda.
Bernstein atravessou o corredor, dobrou adiante e correu
para o elevador. Eram sete horas da noite. Tornou a ligar
para Woodward, de um telefone público no saguão, contou-
lhe sobre o quinto cheque e ditou todos os números e
demais detalhes. Voltou, depois, para o hotel a fim de
procurar Kenneth H. Dahlberg.
Do banco em Boca Raton não atenderam. A delegacia de
polícia forneceu-lhe o nome e número telefônico de um alto
funcionário do banco que podia ser localizado para
emergências. O banqueiro jamais ouvira falar de Dahlberg. O
cheque fora assinado por um outro executivo do banco, cujo
prenome era Thomas, sobrenome ilegível. Havia dois
Thomas no banco mas nenhum se lembrava da transação.
Bernstein pediu ao segundo Thomas o nome e endereço do
presidente do banco.
O presidente conhecia Dahlberg muito ligeiramente, na
qualidade de proprietário de uma casa de inverno em Boca
Raton, e diretor de um banco em Forte Lauderdale. O nome
do presidente desse banco era James Collins.
Sim, confirmou Collins, Dahlberg era um dos diretores do
banco. Enquanto descrevia os interesses comerciais de
Dahlberg, parou por um momento e disse: — Não sei
exatamente qual o seu título, mas, segundo me consta ele
liderou a campanha eleitoral do Presidente Nixon no centro-
oeste em 1968.
Bernstein pediu-lhe, por favor, que repetisse a última
declaração.
Eram nove horas da noite quando telefonou para
Woodward. Sussman atendeu e disse que Woodward estava
falando com Dahlberg. — Pelo amor de Deus — berrou
Bernstein — diga-lhe que Dahlberg foi líder da campanha de
Nixon no centro-oeste em 68.
— Acho que eleja sabe alguma coisa a respeito —
respondeu Sussman. — Chamo você em seguida.
Em Washingtoon, Woodward havia checado as informações
de Boca Ratón e encontrado o nome de Dahlberg no
catálogo. O telefone fora desligado. Ligou para a delegacia de
polícia e foi informado de que a casa de Dahlberg ficava
numa área com portões privativos e guardas particulares de
segurança. Woodward ligou para o guarda de plantão, que
não disse nada, a não ser que Dahlberg só costumava ficar lá
durante o inverno.
Woodward perguntou a uma bibliotecária do Post se havia
alguma coisa sobre Dahlberg nos arquivos de recortes. Não
havia. Sussman sugeriu uma verificação nos arquivos de
fotografias. Minutos depois, deixou cair uma desbotada
fotografia de jornal sobre a escrivaninha de Woodward. Era
uma foto do senador Hubert H. Humphrey, de pé, ao lado
de um homenzinho de sorriso radiante. O homem era
identificado na legenda como Kenneth H. Dahlberg.
Será que Dahlberg era democrata? A fotografia não tinha
data. Seguindo um palpite, Woodward chamou
"Informações" em Mineápolis, a maior cidade do estado natal
de Humphrey, e conseguiu um número telefônico de
Kenneth H. Dahlberg. Sem saber se era o Dahlberg que
estava procurando, Woodward fez a ligação. Quando
Dahlberg atendeu, Woodward disse que tentara localizá-lo
primeiro em sua casa na Flórida. Era uma residência de
inverno?
— Sim — respondeu Dahlberg.
Sobre o cheque de US$ 25.000, depositado num banco na
conta de um dos suspeitos do Watergate... Silêncio.
O cheque que, como o senhor sabe, tem seu nome...
Silêncio.
Estamos escrevendo uma reportagem e se quiser fazer
qualquer comentário...
Dahlberg o interrompeu, finalmente. — Não sei o que
aconteceu ao cheque. Não faço a mínima idéia... Entrego
todo meu dinheiro ao Comitê. O Comitê para a reeleição de
Nixon?
— Sim.
O FBI não lhe fez perguntas sobre como o seu cheque foi
parar na conta bancária de Barker?
— Sou um cidadão honesto; tudo que faço é honesto —
replicou Dahlberg. Sua voz estava tensa. Depois pareceu
descontrair-se por um momento e pediu a Woodward que o
desculpasse. — Acabei de passar por uma crise horrível —
explicou. — Uma amiga muito querida e minha vizinha,
Virginia Piper, foi seqüestrada e permaneceu desaparecida
por dois dias. Woodward perguntou novamente sobre o
cheque.
Dahlberg reconheceu que era dele, mas recusou-se a discutir
o assunto e desligou. Minutos mais tarde, telefonou.
Explicou que hesitara em responder porque não tinha
certeza se Woodward era mesmo repórter do Post. Fez uma
pausa; parecia estar pedindo perguntas.
De quem eram os US$ 25.000? — perguntou Woodward.
— Contribuições recebidas por mim, na minha qualidade
de diretor financeiro no centro-oeste.
Woodward ficou em silêncio. Tinha medo de parecer
ansioso demais.
— Sei que não devia contar-lhe isto — continuou
Dahlberg. Conte-me — pediu Woodward mentalmente. —
Por favor, conte-me.
— Está bem, vou contar. Em Washington, durante uma
reunião do Comitê (eleitoral), entreguei o cheque ou ao
tesoureiro do Comitê (Hugh W. Sloan Jr.) ou ao próprio
Maurice Stans.
Woodward mal podia esperar que a ligação acabasse. Stans
era o principal arrecadador de fundos para a campanha de
Nixon e o diretor financeiro do CRP.
Eram nove e meia da noite, faltava exatamente uma hora
para o fechamento da matéria destinada à segunda edição.
Woodward começou a bater o texto:
"Um cheque avulso no valor de US$ 25.000, aparentemente
destinado aos cofres da campanha do Presidente Nixon, foi
depositado, em abril, na conta bancária de Bernard L. Barker,
um dos cinco homens presos no arrombamento e alegada
instalação clandestina de transmissores na sede do Comitê
Nacional do Partido Democrático, fato ocorrido em 17 de
junho."
A última página da matéria chegou às mãos de Sussman em
cima da hora do fechamento. Sussman colocou caneta e
cachimbo sobre a mesa e virou-se para Woodward dizendo:
— Nunca tivemos uma história assim. Nunca mesmo.
CAPÍTULO 3
Agora, passadas seis semanas do pronunciamento inicial de
Mitchell proclamando a fidelidade do CRP às tradições do
processo eleitoral americano, ruíam os desmentidos do CRP
quanto à sua não-participação no caso Watergate.
Woodward telefonou para Clark MacGregor, o substituto de
Mitchell como diretor da campanha de Nixon, e lhe relatou
o que o Post descobrira.
— Não sei nada sobre isso — disse MacGregor. — Isso
tudo aconteceu antes que eu assumisse — continuou. —
Provavelmente Mitchell e Stans estarão a par. — Parecia
desgostoso, menos com Woodward do que com Mitchell e
Stans.
Pouco antes, naquela mesma noite, George McGovern
anunciara que seu companheiro de chapa, o senador Thomas
F. Eagleton, do Missouri, iria se retirar da chapa
Democrática, pois o seu quadro clínico havia criado um pro-
blema para a campanha. Mais do que nunca, a reeleição de
Richard Nixon parecia assegurada.
No dia seguinte, de manhã, Woodward contatou Dahlberg
outra vez.
— É óbvio que estou metido em alguma coisa... Mas, o
quê, não sei — disse Dahlberg. Estava certo agora de que
entregara o cheque de US$ 25.000 pessoalmente a Maurice
Stans, no dia 11 de abril.
A secretária de Stans informou a Woodward que o assunto
não merecia nenhum comentário imediato. Disse que Stans
estava "muito aflito com circunstâncias tão confusas", o que
tornava impossível para ele explicar o que realmente se
passara, e reafirmar, assim, sua própria integridade.
Da Casa Branca, Ron Ziegler disse que o Presidente
continuava a depositar plena confiança em Stans, e indicou o
CRP para futuras indagações sobre os US$ 25.000. A
declaração do Comitê, subscrita por Clark MacGregor, dizia
que quaisquer comentários seriam "inoportunos", pois a
matéria se achava em investigação.
Woodward telefonou para Philip S. Hughes, diretor da nova
Divisão Federal Eleitoral do Departamento Nacional de
Contabilidade — o órgão federal de auditoria.
Enquanto o Departamento de Justiça e o FBI fazem parte do
Poder Executivo, sob as ordens do Presidente, o DNC, por
outro lado, é um órgão de investigação do Congresso e,
portanto, funciona independentemente do Executivo.
Hughes disse que a reportagem do Post daquele dia revelara
"pela primeira vez (que) o incidente de espionagem
eletrônica se relacionava com a legislação que regula a
movimentação de fundos eleitorais... Não há nada nos
relatórios de Maury (Stans) que indique alguma coisa como
aquele cheque de Dahlberg".
Hughes, que já trabalhara no Bureau de Verbas durante a
administração Eisenhower, à época em que Stans era diretor
do mesmo Bureau, acrescentou: — Vamos providenciar uma
auditoria completa e descobrir o que há. — Essa auditoria
seria a primeira a ser executada desde que o Ato Federal de
Despesas Eleitorais entrara em vigor no dia 7 de abril. O Ato
estabelecia o controle mais rígido das doações para fins
eleitorais e exigia que todas as despesas fossem devidamente
lançadas.
Um investigador do DNC procurou Woodward naquela
tarde, pedindo detalhes sobre o cheque de US$ 25.000.
Woodward respondeu que ele e Bernstein haviam escrito
tudo que sabiam.
Antes de começar a redigir a matéria sobre a auditoria do
DNC, Woodward tentou falar com Hugh Sloan, tesoureiro
do CRP. Este, porém, já não trabalhava para o Comitê. Um
repórter da equipe metropolitana foi até a casa de Sloan, nos
subúrbios de Virgínia. Sloan era jovem, bem-educado, e
recusou-se a discutir o caso Watergate, exceto para dizer que
havia prestado plena cooperação ao FBI e ao grande júri.
Van Shumway informou a Woodward que Sloan havia
pedido demissão "por motivos de ordem pessoal" que nada
tinham a ver com o Watergate. "Estava com uma úlcera e
sua mulher está grávida."
Diariamente, Woodward procurava o investigador do DNC
para saber como estava caminhando a auditoria.
— Há centenas de milhares de dólares em quantias não
contabilizadas — disse um dia o investigador. — Uma
"caixinha" de dinheiro — disse depois. — Um ninho de ratos
por trás da capa de eficiência dos relatórios financeiros
computadorizados — disse da terceira vez. A cada dia que
passava sem que Woodward publicasse uma reportagem, o
investigador sentia-se mais à vontade para falar com ele.
Comparando essas informações com as que eram fornecidas
por outro investigador, Woodward ia se convencendo de
que o dinheiro da "caixinha" era o mesmo da "segurança da
convenção", do qual Bernstein ouvira falar no princípio de
julho. Segundo o investigador, as reservas, totalizando pelo
menos US$ 100.000, incluíam a importância lançada na
conta bancária de Barker obtida com o desconto do cheque
de Dahlberg.
Bernstein deu um de seus habituais telefonemas ao ex-
funcionário da Administração e recebeu a seguinte
informação: — Havia uma grande reserva monetária sob a
supervisão de Gordon Liddy... É isso, é a mesma. O plano
atual é fazer Liddy levar a culpa toda. Essa história que o
Comitê para a reeleição vai divulgar não tem nada a ver com
a verdade. Vao dizer que estavam preocupados demais com a
segurança da convenção e que por isso precisavam de amplas
reservas para evitar interferências. E essa a versão que vai
correr. Mitchell já disse para liberarem tal história. Havia
gente demais sabendo da existência da reserva secreta.
Os repórteres esperaram. Dias depois, em 16 de agosto, Clark
MacGregor reuniu um seleto grupo de repórteres
credenciados junto à Casa Branca e fez a primeira tentativa
pública de jogar a responsabilidade sobre Liddy. Enquanto
trabalhava como consultor financeiro do CRP — declarou
MacGregor — Liddy havia se utilizado, por iniciativa
própria, das verbas eleitorais "com o propósito de determinar
o que fazer no caso de malucos atacarem o Presidente",
durante a Convenção do Partido Republicano.
Mais tarde MacGregor não escondeu a zanga quando, pelo
telefone, Woodward tentou obter maiores esclarecimentos.
— Não tenho a mínima idéia por que o falecido Gordon
Liddy queria dinheiro — berrou MacGregor. — É impossível
dizer... Jamais conheci Liddy... Não sei o que está
acontecendo.
Woodward insinuou que MacGregor estava implicitamente
confessando não saber o que se passava na campanha que
deveria estar dirigindo.
— Se você publicar isto, corto relações com você —
exclamou MacGregor. E acrescentou: — Não estou fazendo
ameaças a você, estou simplesmente dizendo o que vai
acontecer. — Entre os executivos da Administração Nixon,
MacGregor era um dos poucos que recebiam a imprensa
amigavelmente.
A 22 de agosto, segundo dia da Convenção do Partido
Republicano em Miami, a primeira página do Post publicava
os resultados preliminares da auditoria do DNC. Baseada
principalmente nas conversas de Woodward com os
investigadores, a reportagem dizia que o DNC chegara à
conclusão de que o CRP havia desviado mais de US$
500.000 dos fundos eleitorais — inclusive, pelo menos, USS
100.000 aparentemente mantidos numa "reserva de seguran-
ça" ilegal.
Paul E. Barrick, que substituíra Hugh Sloan como tesoureiro,
respondeu em nome do CRP: — As afirmações do
Washington Post de que... o Comitê lançou incorretamente,
ou deixou de lançar, doações e despesas, como manda a lei,
são inteiramente falsas.
O ponto mais sensível atingido pelas primeiras descobertas
do DNC não foi, entretanto, o fato de que pelo menos meio
milhão de dólares haviam sido desviados, e sim a revelação
da existência de uma "reserva de segurança" no Comitê.
Durante mais de cinco semanas Van Shumway, ex-repórter
de uma agência de notícias, que saíra do staff da Casa Branca
para integrar o Comitê, vinha negando insistentemente a
existência de qualquer reserva de segurança.
Havia dito a Bernstein, em julho: — Coisa que jamais farei é
contar-lhe deliberadamente uma inverdade. — Agora
Shumway admitia que, depois de tudo, viera a saber que a tal
reserva de fato existia. — Temo que algumas pessoas aqui
dentro não estejam me dizendo a verdade — ajuntou.
O relatório do DNC ia ser liberado ao público naquete
mesmo dia. Uma hora antes do previsto para sua divulgação,
o DNC enviou mensagem aos veículos de divulgação,
informando que ia haver um atraso.
Woodward entrou em contato com o investigador. O que
aconteceu?
— Você não vai acreditar! Stans chamou Hughes e pediu-lhe
que fosse até Miami, na Convenção, para a coleta de mais
material... Lógico que (ele) foi. O que eles não queriam era
que o relatório saísse hoje. A gente não pode culpá-los.
Naquela noite, em Miami, Richard Nixon deveria ser
indicado pelo Partido Republicano para um segundo
mandato como Presidente dos Estados Unidos.
Também no mesmo dia, 22 de agosto, o Juiz da Corte
Distrital, Charles R. Richey — que presidia o processo civil
por perdas e danos no valor de um milhão de dólares, aberto
pelos democratas —, alterando sua decisão anterior, declarou
que todos os depoimentos prestados antes da sessão de
julgamento seriam mantidos confidenciais e não poderiam
ser dados à publicação até que os autos estivessem
completos. Isto significava que os depoimentos formais de
Mitchell, Stans e outros não seriam levados a público antes
das eleições. O fato extraordinário no caso era Richey ter
alterado sua própria decisão, sem que a isso fosse levado por
qualquer apelação dos advogados do CRP.
Declarou que havia agido assim em consideração aos direitos
constitucionais das pessoas sob investigação.
Horas depois dessa decisão, o juiz Richey telefonou para
Bernstein na redação do Post: — Só queria que você
entendesse o fundamento do despacho. — Explicou a
Bernstein os perigos que envolviam a liberação de
depoimentos num processo civil, antes de um julgamento
em corte criminal.
O próprio Richey levantou, então, uma questão que ainda
não havia passado pela cabeça de Bernstein: a possibilidade
de alguém ter abordado o juiz, a fim de pressioná-lo a dar
uma decisão favorável ao CRP. — Quero que fique bem
claro que jamais discuti o assunto fora do recinto do tribunal,
com quem quer que seja, e que considerações de ordem
política não influenciaram minha decisão.
Bernstein estava estarrecido. Nunca tinha visto o juiz
Richey. O telefonema era algo totalmente inesperado.
Até 1.° de agosto, quando saiu publicada a reportagem sobre
o cheque Dahlberg, o relacionamento entre Bernstein e
Woodward primava pelo espírito de competição. Cada um
temia que o outro ficasse sozinho com o resto da história. Se
um saía atrás de uma dica, fosse de noite ou num fim de
semana, o outro se sentia compelido a fazer o mesmo. A
reportagem de 1.° de agosto era assinada por ambos; no dia
seguinte, Woodward perguntou a Sussman se o nome de
Bernstein podia constar da sua série de reportagens (sobre as
investigações da auditoria), embora Bernstein ainda se
encontrasse em Miami e não houvesse trabalhado na
matéria. Desse dia em diante, qualquer reportagem sobre o
caso Watergate teria sempre a assinatura dos dois. Os colegas
da redação amalgamaram os nomes e de brincadeira
batizaram a dupla de "Woodstein".
Gradualmente, as suspeitas e desconfianças mútuas foram
desaparecendo. Eles entenderam todas as vantagens de um
trabalho em conjunto, principalmente por serem de
temperamentos tão diversos. A amplitude da matéria, os
riscos que implicava e a necessidade de cautela exigiam a
dedicação de — pelo menos — dois repórteres. Dividindo o
trabalho e somando as informações, eles ampliaram os seus
contatos.
Cada um conservava sua própria lista de telefones
importantes. Todos os números eram chamados pelo menos
duas vezes por semana (o simples fato de uma determinada
fonte não atender ao telefone, ou deixar de chamar mais tar-
de, freqüentemente era sinal de algum fato importante). A
soma do total de nomes constantes das listas chegou, em
certas ocasiões, a várias centenas, em-bor? menos de
cinqüenta fossem duplicatas. Inevitavelmente, às vezes os
seus caminhos se cruzavam. — Mas vocês não trabalham
juntos? — perguntou, certa vez, um advogado a Woodward.
— Acabei de falar com Carl, neste instante. — Em outra
ocasião, disse um assessor da Casa Branca: — Estamos
tentando descobrir por que razão uns de nós recebem
telefonemas de Bernstein e outros parecem fazer parte da
lista de Woodward. — Não havia motivo especial. Cada um
dos dois simplesmente procurava evitar, ao máximo, atra-
palhar o desempenho do outro. Preferiam, em geral, manter
seus contatos separadamente, porque assim os informantes
confidenciais sentir-se-iam mais à vontade, e sobrava mais
tempo para fortalecerem seu inter-relacionamento pessoal.
Para aqueles que se sentavam mais perto deles na sala de
reportagens, era evidente que nem sempre "Woodstein"
funcionava como uma bem lubrificada máquina jornalística.
Muitas vezes os dois discutiam abertamente. Havia ocasiões
em que guerreavam durante quinze minutos por causa de
uma palavra ou da construção de uma frase. As nuances
eram de capital importância; a ênfase devia ser dada na
medida justa. A busca do termo jornalístico apropriado se
processava freqüentemente a todo vapor, e não era raro ver
um afastar-se de cara fechada da mesa do outro. Mais cedo
ou mais tarde (quase sempre mais tarde), no entanto, a
história acabava por tomar a forma conveniente.
Cada um desenvolveu seu próprio sistema de arquivo; por
estranho que pareça, era Bernstein, sem sombra de dúvida o
mais desorganizado dos dois, quem mantinha arquivos
esmeradamente arrumados em envelopes pardos, com
etiquetas contendo os nomes de praticamente todas as
pessoas que haviam encontrado. Havia também arquivos da
própria matéria. O método de Woodward era bem mais
simples, mas os dois repórteres obedeciam a uma lei sagrada:
nada era posto fora e arquivavam todas as notas e minutas
preliminares das reportagens. Em pouco, tinham ocupado
todas as gavetas de quatro móveis de arquivo.
Habitualmente, Woodward — que escrevia mais rápido —
redigia a primeira minuta, reescrita depois por Bernstein.
Muitas vezes Bernstein só tinha tempo para revisar a
primeira parte de uma reportagem, deixando Woodward
com a segunda parte pendente como a língua de um cão
cansado. Essa faina, com freqüência, avançava noite adentro.
À proporção que aumentavam os números de pistas e de
personagens do caso Watergate, os repórteres iam se
tornando quase obcecados por ele. E, a princípio com certa
relutância, foram ficando amigos. Ambos eram livres para
empregar as 24 horas do seu dia. Woodward era divorciado
— Bernstein estava separado da mulher. Costumavam ficar
na redação até tarde da noite, confrontando informações,
lendo recortes, programando os próximos passos, discutindo
hipóteses. Algumas vezes, Sussman vinha juntar-se a eles.
Por fim, Sussman desligou-se de suas obrigações regulares
como editor local e lhe foi atribuída a responsabilidade de
dirigir a cobertura do caso Watergate pelo Post.
Sussman tinha trinta e oito anos, maneiras suaves, peso um
pouco além da tabela, cabelos encaracolados e um
comportamento de homem erudito. Fora redator de um
jornal de província na área Virgínia-Tennessee, instrutor de
leitura dinâmica na Universidade de Nova Iorque, colunista
social, e depois editor suburbano do Post — enfim, um
jornalista que, sem rumo, partira de Nova Iorque biscateando
pelo caminho até parar em Washington.
Sussman tinha a capacidade de registrar os fatos e trancá-los
na memória, onde ficavam guardados até que se tornassem
necessários. Mais do que qualquer outro editor do Post, mais
do que Bernstein ou Woodward, Sussman transformou-se
num compêndio ambulante de informações sobre o
Watergate, um índice a ser consultado mesmo quando a
biblioteca falhava. Na hora "H" ele canalizava aqueles fatos
em fluxo constante para uma reportagem, fornecendo uma
estrutura de informações básicas destinada a sustentar o que,
de outro modo, seria apenas uma revelação medíocre. Na
mente de Sussman tudo tinha seu lugar certo. O caso
Watergate era um quebra-cabeças cujas peças ele ia
colecionando.
No âmago, Sussman era um teórico. Em outras eras teria sido
um sábio talmúdico. Cultivara um método socrático,
bombardeando os repórteres com perguntas em rápida
sucessão: Quem saiu do Departamento do Comércio para o
CRP junto com Stans? O que sabem da secretária de
Mitchell? Por que ninguém informa quando Liddy foi para a
Casa Branca, e com quem trabalhava lá? Mitchell e Stans,
juntos, controlavam o orçamento do Comitê, certo? O que
isto significa para vocês? Depois, então, puxava uma baforada
do cachimbo, com uma expressão satisfeita estampada no
rosto.
As duas grandes paixões de Sussman são a História e as
pesquisas de opinião pública. Seu herói é Jefferson, mas os
repórteres sempre acharam que George Gallup vinha em
segundo lugar, quase emparelhado com ele. Na maioria das
vezes em que houvera manifestações de rua na cidade,
durante o auge do movimento pacifista, Sussman enviara
equipes de repórteres para saber dos manifestantes: idades,
tendências políticas, cidades natais e de quantos outros
movimentos tinham participado. Cada vez mais ia chegando
a uma conclusão já deduzida pelos repórteres — o
movimento pacifista adquiria bases mais amplas e tornava-se
menos radical. Desde o arrombamento da sede do Partido
Democrático, Sussman vinha estudando o escândalo da
"Tampa do Bule" durante a administração Harding. Sua teoria
sobre o caso Watergate, que Bernstein e Woodward não
conseguiam entender muito claramente, tinha algo a ver
com determinismo histórico, ética americana de pós-guerra,
mercantilismo e Richard Nixon.
Sussman e os demais editores do Post eram de
temperamento informal. Os repórteres nunca foram
oficialmente designados para trabalhar em tempo integral no
caso Watergate. Pressentiam ambos que enquanto as
reportagens fossem saindo não haveria problema. Se a
produção decrescesse, tudo podia acontecer dentro do clima
competitivo da redação do jornal. Nas semanas que se
seguiram à história do cheque Dahlberg, Rosenfeld foi
ficando visivelmente irritado, enquanto que Simons e
Bradlee demonstravam interesse sempre crescente no
Watergate. A pergunta invariável, feita em tom meio
brincalhão pelos editores aos repórteres (e ia seguindo pela
ordem hierárquica acima) era: "Então, o que fez para mim
hoje?" A palavra "ontem" era para os livros de História, não
para um jornal.
Esta era a normal de trabalho imposta ao jornal quando Ben
Bradlee assumira o comando em 1965, primeiro como
redator-chefe, e depois, em 1967, como editor-executivo.
Bradlee trouxera para o Post a idéia de que o New York
Times não tinha por que exercer a absoluta soberania no
jornalismo americano.
Essa filosofia sofrera um revés quando o Times publicara os
Documentos do Pentágono. Embora o Post fosse a segunda
organização jornalística a obter cópia da análise secreta sobre
a guerra no Vietnã, Bradlee observou que "havia sangue em
cada palavra" das reportagens iniciais do Times. Bradlee
conseguia fazer suas opiniões serem sentidas com um único
olhar de desprezo a um repórter ou a um redator indolente.
Desde o seu regresso de Miami, Bernstein ficara obsedado
pelos US$ 89.000 em cheques mexicanos que haviam
passado pela conta bancária de Barker. Por que o México? De
acordo com o investigador do DNC, Maurice Stans declarara
que o dinheiro tivera origem no Texas, mas ninguém no
DNC conseguira entender por que US$ 89.000 em doações
para a campanha teriam sido remetidos via México.
Em meados de agosto, Bernstein começou a telefonar para
todos os funcionários do Comitê Texano para a Reeleição do
Presidente. Uma secretária da sede do Comitê em Houston
informou que o FBI já havia estado lá interrogando o
tesoureiro do Comitê, Emmett Moore.
— Eles me perguntaram como o dinheiro fora remetido para
o México — informou Moore. — Disseram que havia
indícios de que teria havido transferências de dinheiro de
para o México.
Moore imediatamente procurou esclarecer Bernstein de que
os agentes do FBI não estavam interessados em seus atos
pessoais, mas nos atos do presidente do Comitê Texano —
Robert H. Allen, também presidente da Gulf Resources and
Chemical Co., de Houston. Os agentes haviam demonstrado
particular interesse nas relações entre Allen e um advogado
da Cidade do México, Manuel Ogarrio Daguerre,
representante da Gulf Resources no México.
O elo mexicano. Qual o seu significado?
Moore, que declarou ter ficado tão estupefato com a visita do
FBI quanto com o telefonema de Bernstein, desconhecia as
razões pelas quais o dinheiro devera atravessar a fronteira.
Bernstein começou a deixar recados para Robert Allen na
residência e no escritório. Nenhum deles foi respondido.
Finalmente, no dia em que Maurice Stans pediu a presença
do investigador do DNC em Miami, Bernstein levantou-se às
seis da manhã — cinco horas no Texas — e ligou para a casa
de Allen em Houston. Allen, sonolento, recusou-se a falar
do assunto, "porque ainda não foi a júri".
Usando seus rudimentares conhecimentos da língua
espanhola, Bernstein intensificou o seu trabalho ao telefone,
à procura de Ógarrio e de qualquer esclarecimento sobre o
esquivo advogado mexicano. Aos poucos, esse trabalho
transformou-se em alvo de brincadeiras na redação. Em
espanhol, tudo o que Bernstein conseguia falar eram umas
poucas e desconexas frases no presente do indicativo. Ken
Ringle, repórter da equipe de Virgínia, e que se sentava ao
lado de Bernstein, gritava "Bernstein está falando espanhol
de novo", e repórteres e redatores logo se aproximavam para
fazer os comentários adequados. As ligações eram para
banqueiros, parentes de Ogarrio, antigos sócios da firma de
advocacia, seus clientes, representantes de bancos
mexicanos, repartições de polícia, faculdades de Direito.
Nada. Segundo uma piada em voga na redação, Bernstein
ouvira toda a história do Watergate em espanhol e não
conseguira entender coisa alguma.
Como era de esperar, o elo mexicano da campanha de Nixon
foi revelado mesmo em inglês.
No dia 24 de agosto, Bernstein telefonou para Dardis em
Miami. O investigador-chefe disse que estava conseguindo
informações muito boas sobre os cheques mexicanos, mas a
matéria era realmente tão tenebrosa que não queria falar pelo
telefone. Dardis garantiu que valia a pena Bernstein deslocar-
se de novo até Miami. Bernstein pegou o primeiro vôo
saindo de Washington na sexta-feira, 25 de agosto, e, de
novo,,passou a maior parte do dia nos domínios de Ruby.
Fervendo de raiva, saiu à procura da loja de material
fotográfico onde se supunha que os arrombadores haviam
adquirido seu equipamento.
Na estrada, um cartaz chamou sua atenção. Era a figura de
um homem louro, bonito, de seus trinta anos, que parecia
garoto-propaganda de marca de cigarros. "Vote em Neal
Sonnett, Promotor Estadual, Município de Dade." Foi então
que a raiva de Bernstein contra o investigador-chefe
transformou-se em fúria.
Poucas semanas antes, Dardis lhe pedira um favor. — É um
caso no qual estou trabalhando, sem relação alguma com o
Watergate — dissera ele a Bernstein. — Você deve ter
amigos no Pentágono ou em alguma repartição militar. Se
pudesse conseguir que alguém desse uma olhada nos
arquivos para você... — Pediu, então, qualquer informação
infamante — prisão, doença mental, homossexualismo —
sobre um certo Neal Sonnett.
Um coronel do Pentágono acedeu em tentar obter o
cadastro militar para Bernstein, e, pouco antes da Convenção
do Partido Republicano, Bernstein telefonou para dar a
notícia a Dardis. Felizmente, Dardis dissera que já não
precisava mais da informação.
Bernstein telefonou para Dardis antes das seis horas da
manhã seguinte, 26 de agosto. Sabia que o escritório eleitoral
de Gerstein abria às 7h30min. Dardis atendeu ao primeiro
toque. — Droga, Carl, vamos deixar para nos ver mais tarde;
agora eu tenho que correr. O assunto pode esperar algumas
horas.
Bernstein observou, então, como eram lindos os cartazes
que Neal Sonnett espalhara pela cidade inteira.
— Acho que não devia ter-lhe pedido aquilo — disse
Dardis embaraçado. Bernstein perguntou-lhe o que ficara
sabendo dos cheques mexicanos.
— O processo é chamado de "lavanderia". Você dispara
uma espécie de reação em cadeia com o dinheiro, de modo
que é impossível chegar à origem. A Máfia está sempre
fazendo isso. Nixon também, ou, pelo menos, é o que diz
aquele tal advogado de Robert Allen. Esse sujeito diz que foi
Stans quem montou todo o esquema. Foi idéia de Stans.
Fizeram a mesma coisa em outros lugares. Stans não queria
usar nenhum meio suscetível de levar alguém até a fonte
original do dinheiro.
Dardis disse ainda que ficara sabendo de tudo por intermédio
de Richard Haynes, advogado texano que representava
Allen. Eis como Haynes lhe havia descrito a operação
"lavanderia":
Pouco antes de 7 de abril, data em que entraria em vigor a
nova legislação sobre finanças eleitorais, e o último dia em
que podiam ainda ser legalmente aceitas contribuições
anônimas, Stans partira para o Sudeste numa derradeira
tournée de levantamento de fundos para a campanha.
Quando algum democrata parecia indeciso em contribuir
para a campanha de um candidato republicano, Stans lhe
assegurava que seu anonimato seria absolutamente
preservado, se necessário passando as doações para um
intermediário mexicano, cujos extratos bancários não
podiam ser requisitados pelas autoridades americanas. Tal
proteção permitia igualmente ao CRP receber doações: de
pessoas jurídicas — proibidas, por lei, de fazer doações para
candidaturas políticas; de executivos e líderes sindicais em
dificuldades com órgãos governamentais; e de grupos com
interesses especiais ou fontes ilegais de renda, como os
grandes cassinos da cidade de Las Vegas e certas
organizações sindicais de massa. A fim de garantir o
anonimato prometido, os "presentes" — em cheques,
certificados de garantia ou cautelas de ações — atravessariam
a fronteira com o México, seriam convertidos em moeda
corrente na Cidade do México através de depósito em conta
bancária no nome de um mexicano nato, sem qualquer
ligação conhecida com a campanha de Nixon, e só então
seria feita a remessa para Washington. O único registro da
transação ficaria zelosamente guardado com Stans, em
Washington, e mantido apenas para que o doador não fosse
esquecido se atravessasse qualquer dificuldade.
De Houston, Haynes confirmou a operação a Bernstein.
Habituado ao vale-tudo da política texana e às intqgas de
bastidores das grandes empresas, Haynes falou no estilo livre
e desabrido que lhe valera o apelido de "Cavalo de Corrida"
em todos os fóruns de Dallas a Austin.
— Ora merda! Há anos que Stans vem executando esta
operação para Nixon — disse ele. — Nada de realmente
errado com ela. É só um jeito de pagar o dízimo.
Robert Allen, organizador-chefe da campanha de Nixon no
Texas, era apenas o conduto pelo qual os fundos eram
encaminhados ao México, inclusive os USS 89.000
depositados na conta de Barker — explicou Haynes. Ogarrio
era o cambista, aquele que convertia em dólares americanos
os cheques e certificados a ele entregues por Allen, ora em
moeda corrente, ora sob a forma de saques em dólares da sua
conta no Banco Internacional.
Haynes calculava que USS 750.000, levantados por Stans e
seus dois principais auxiliares no Texas, teriam chegado ao
México nas últimas semanas que precederam o dia 7 de abril.
— Maury passou por aqui como uma locomotiva
desvairada — contou Haynes. — Queria mesmo acertar na
mosca. Ele dizia aos democratas, os donos do dinheiro, que
antes nunca haviam votado em um republicano: "Vocês
sabem que lá no leste estamos com aquele maluco do
Ruckelsaus*, que preferiria fechar a fábrica de vocês a deixar
uma chaminé arrotar. É um homem difícil de controlar e
não é o único em Washington. A gente precisa ter a quem
recorrer, para atravessar a burocracia, quando se tem um tipo
louco como esse às soltas. Agora, não me entendam mal: não
estamos prometendo nada; tudo que podemos fazer é sermos
acessíveis..."
Mas o sentido da mensagem já se tornara claríssimo — disse
Haynes. — De fato, Maury é um sujeito muito esperto.
Nunca ameaçaria abertamente um daqueles sujeitos. Depois,
fazia sua dança mexicana do chapéu, dizia-lhes que não
havia perigo de os democratas ou os concorrentes da
empresa descobrirem a doação feita, ia tudo se diluir no
México... Se um sujeito dizia que estava a zero, Maury
conseguia convencê-lo a entregar ações da companhia, ou
outras quaisquer. Falava em dez por cento, argumentando
que valia a pena dar esta percentagem da renda de uma
grande empresa para manter Richard Nixon em Washington
e para ter a quem recorrer.
Tudo isto se passou no sábado, 26 de agosto, três dias após a
indicação do Presidente à reeleição. Enquanto isto, em
Washington, Woodward recebia o relatório do DNC,
finalmente liberado para os jornais de domingo. Discri-
minava onze "aparentes e prováveis infrações" à nova lei e
enviava a matéria ao Departamento de Justiça para possível
acusação. Declarava também que Stans mantinha reservas
secretas numa "caixinha" em seu escritório, totalizando no
mínimo US$ 350.000. Em determinada ocasião, essa reserva
incluíra a importância correspondente ao cheque Dahlberg
de US$ 25.000 e os quatro cheques mexicanos somando
US$89.000.
Woodward redigiu a primeira parte de uma reportagem
guiando-se pelo relatório do DNC. De Miami, Bernstein
reportou pelo telefone a operação "lavanderia" mexicana e o
cálculo de Haynes de que US$ 750.000 e não US$ 89.000
teriam "flutuado" para além da fronteira com o México.
Depois de várias conversas longas, Bernstein e Woodward
resolveram não tocar nas outras táticas de Stans descritas por
Heynes. Ambos temiam o vigor do palavreado de Haynes.
Sua descrição do que apelidara "cruzeiro de extorsão de
Stans" foi arquivada para posterior averiguação. O
investigador do DNC confirmou a essência da operação
"lavanderia" mexicana.
29 de agosto, terça-feira, três dias depois. O Presidente
marcou uma entrevista à imprensa em sua residência à beira-
mar em San Clemente, Califórnia. Uma manhã de sol
radioso, os repórteres esperavam à sombra de palmeiras e
eucaliptos.
— Quanto ao assunto das reservas eleitorais — disse o
Presidente — temos uma nova lei, e infrações a ela foram
cometidas e estão sendo cometidas, aparentemente por
ambos os partidos.
Quais as infrações cometidas pelos democratas? —
perguntou um repórter.
— Acho que isto vai aparecer no balanço desta semana.
Vou deixar que os políticos falem sobre a questão, mas, no
meu entender, os dois lados cometeram infrações —
respondeu tranqüilo o Presidente.
Stans — declarou o Presidente — é "homem honesto e
muito meticuloso". De fato, Stans estava investigando o
problema — afirmou o Presidente — "com muito, muito
cuidado, porque ele não deseja que qualquer evidência fique
de modo algum pendente, indicando que não cumprimos a
lei".
O Presidente rejeitou insinuações de que um promotor
especial, independente do Departamento de Justiça, fosse
nomeado, e informou que seu advogado, John W. Dean
III,havia feito uma investigação do caso Watergate: — Posso
afirmar categoricamente que essa investigação indica que
ninguém do staff da Casa Branca, ninguém desta
Administração, atualmente empregado, participou desse
bizarro episódio. O que realmente magoa em assuntos desta
espécie não é o fato de acontecerem, pois pessoas
excessivamente zelosas cometem erros em campanhas
eleitorais; o que realmente magoa é que alguém tente
despistar o que fez.
Woodward, em Washington, escreveu sua reportagem
baseando-se nas transcrições da conferência à imprensa; fez
uma lista de alguns nomes que, como o Presidente fizera
tanta questão de observar, já não eram "atualmente
empregados" da Administração federal: Hunt, Liddy, Stans,
Sloan e Mitchell.
Bernstein ainda permanecia na Flórida, procurando pistas
dos quatro suspeitos de Miami. Naquela manhã, tivera uma
conversa com Enrique Valledor, presidente da Associação
de Corretores Imobiliários da Flórida, e ex-patrão de Barker.
Barker estava com medo de perder seu alvará de corretor de
imóveis, e viera visitá-lo depois do pagamento da fiança.
Valledor relatou parte do diálogo:
Eu disse: E esse processo (dos democratas) no valor de um
milhão de dólares? Não o preocupa?
— Não, não estou preocupado. Eles estão pagando meus
advogados — replicou Barker.
— Quem são eles?
— Não posso dizer.
Este incidente foi inserido na reportagem sobre a entrevista
do Presidente à imprensa. Foi a primeira insinuação pública
quanto a pagamentos diretos aos conspiradores.
Desde 17 de junho o CRP parecia inviolável, impenetrável
como uma agência super secreta de segurança nacional. Os
visitantes eram recebidos à porta por um guarda
uniformizado, liberados ou pela equipe de imprensa ou pela
de segurança, escoltados ao local de sua entrevista e levados
de volta até a porta da rua. A relação telefônica dos
executivos do Comitê de Campanha — uma única folha de
papel com mais de cem nomes — foi declarada documento
confidencial. Um repórter do Washington Post que
conseguiu uma cópia através de um amigo que trabalhava no
Comitê foi informado: — Você compreende, se eles
descobrirem, eu perco o meu emprego.
Os chefes das várias seções do segundo escalão do Comitê,
em geral desconhecidos tanto do público quanto da
imprensa, destacavam-se na relação telefônica porque
empregavam secretárias particulares cujos nomes vinham
logo abaixo dos seus. Ao lado de cada nome e do número do
ramal aparecia também o número do andar em que
trabalhavam; deste modo, podia-se concluir por aproximação
quem trabalhava perto de quem. E, verificando os números
de ramais na relação e colocando-os em seqüência numérica,
podia-se até determinar quem trabalhava para quem.
O estudo da relação telefônica transformou-se num exercício
de ciências ocultas, algo parecido com a leitura da sorte em
folhas de chá. Nenhuma das pessoas-chave dava informações
quando contatada pelo telefone. Escolhendo ao acaso nomes
constantes da lista, Woodward e Bernstein começaram, em
meados de agosto, a visitar o pessoal do CRP em suas
respectivas residências durante a noite. O fechamento da
primeira edição era às 19h45min, e toda noite, pouco depois,
eles saíam, às vezes cada um para seu lado, às vezes juntos
no Karmann Ghia 1970 de Woodward. Quando ia sozinho,
Bernstein usava um carro do jornal, ou pedalava sua
bicicleta.
A primeira pessoa a cuja porta Bernstein bateu, implorou-lhe
que fosse embora "antes que eles o vejam". O funcionário
tremia dos pés à cabeça. — Por favor, me deixe em paz. Eu
sei que você está apenas tentando cumprir seu dever, mas
você não imagina as pressões que estamos sofrendo.
Bernstein tentou puxar conversa, mas foi interrompido: —
Espero que entenda que não estou sendo grosseiro, mas, por
favor, vá embora — e fechou a porta. Outra pessoa disse: —
Eu quero ajudar — e começou a chorar. — Meu Deus, é
tudo tão horrível — disse, enquanto levava o repórter até a
porta da rua.
As visitas noturnas eram como expedições de caça. Havia,
entretanto, uma constante nessas visitas: dizia respeito a
Sally Harmony, secretária de Gordon Liddy no CRP.
Aparentemente, a Sra. Harmony omitira parte da verdade
em seu depoimento ao FBI e em seu testemunho perante o
grande júri. Bernstein ouvira o primeiro comentário a
respeito, em fins de agosto, de um repórter de outro jornal.
Anotou o boato nas costas de uma conta telefônica e a
arquivou na montanha de papéis, lixo e xícaras vazias de café
que se amontoavam sobre sua mesa. "... mentiu para
proteger JebMagruder... vice-gerente da campanha" — eis o
que ali escrevera.
Um procurador do Departamento de Justiça confirmou que
os promotores encarregados do caso Watergate suspeitavam
do depoimento de Sally Harmony mas declararam não
possuir provas para processá-la por perjúrio. A falta de
honestidade dessa senhora parecia ser voz corrente na sede
da campanha. Mas, ou ninguém sabia, ou ninguém queria
mencionar o ponto sobre o qual havia mentido; faziam vagas
referências ao fato de esfarela "protegendo outras pessoas".
Vários empregados do Comitê se referiram a uma destruição
em massa de documentos arquivados nos dias que se
seguiram ao arrombamento do Watergate, embora
admitissem ter ouvido o boato "de segunda mão", sem
conhecer pormenores.
Pessoas que podiam fornecer detalhes da operação de
instalação de microfones clandestinos, e que ocupavam
posições-chave, principalmente as secretárias, não foram
ouvidas pelo FBI. Este havia conduzido as entrevistas do
pessoal do Comitê nos escritórios da sede, em vez de
procurar as testemunhas em suas residências, onde se
sentiriam mais à vontade para falar; as entrevistas foram
todas assistidas por um advogado representando o Comitê,
ou na presença de Robert C. Mardian, coordenador político
do Comitê e antigo Assistente do Procurador Geral,
encarregado da Divisão Interna de Segurança do
Departamento de Justiça. Algumas pessoas afirmaram que
Mardian e outros lhe haviam dito para não oferecer qualquer
informação voluntária aos agentes, a não ser no caso de uma
pergunta específica a cuja resposta não pudessem se esquivar
— em especial quanto às finanças da campanha.
A esta altura, os repórteres só conseguiam informações
fragmentadas e incompletas, quase sempre de gente que não
queria discutir o assunto. O medo que demonstravam, mais
do que qualquer outro sintoma, persuadia Woodward e
Bernstein de que o jogo era bem mais violento do que a
princípio pensavam. Na verdade, eles próprios estavam
igualmente perturbados com as reações a suas visitas.
O que exigia habilidade era obter permissão para entrar na
casa ou apartamento de alguém. Uma vez lá dentro, o
diálogo podia se estabelecer, podiam ser feitos apelos à
consciência, os repórteres tinham chance de mostrar-se
como os seres humanos que eram. Identificavam-se sempre
imediatamente como repórteres do Washington Post, mas a
técnica de abordagem que parecia surtir melhor efeito era
um pouco menos limpa: Um amigo nosso no Comitê nos
disse que você está perturbado com algumas coisas que
testemunhou, que seria bom termos uma conversa com
você... que você é absolutamente íntegro e honesto e não
sabia exatamente o que devia fazer... entendemos bem seu
problema — você acredita no Presidente e não quer praticar
ato algum que pareça desleal.
Nessas conversas de envolvimento Woodward chegava a
afirmar que era republicano convicto; Bernstein confessava
sua antipatia pela política dos dois partidos.
Às vezes funcionava. As pessoas perguntavam quem do
Comitê lhes fornecera seu nome. O que vinha a calhar, pois
Woodward e Bernstein podiam, então, explicar a
necessidade de proteger fontes confidenciais, assegurando à
pessoa a quem estivessem falando que ele (ou ela) seria
igualmente protegido (a). Uma vez convidados a entrar, não
faziam uso de seus blocos de apontamentos.
Depois, começava o trabalho de jogar verde: ... Você foi
entrevistado pelo FBI? ("Não entendo por que, mas eles
nunca me procuraram.") As coisas melhoraram depois da
saída de John Mitchell? ("Saída? Pode ser que ele tenha
pedido demissão, mas três vezes por semana lá está ele
dizendo a Fred LaRue e Bob Mardian o que devem fazer.")
Fragmentos: "Jeb [Magruder] parece morto de medo, como
se o telhado estivesse prestes a desabar sobre sua cabeça"....
"Alguém me disse que MacGregor queria escrever um
relatório pondo tudo em pratos limpos, mas a Casa Branca
não permitiu"... "Os advogados da acusação ficaram o tempo
todo me perguntando se eu sabia de outras operações
clandestinas de instalação de microtransmissores, quem sabe,
na sede do comitê de McGovern"... "Cópia confidencial, era
uma expressão usada o tempo todo. Eu já ouvira qualquer
coisa sobre a tal cópia confidencial [das interceptações
clandestinas] sendo enviada para a Casa Branca?"... "O FBI
queria saber se vi alguém usando o incinerador". ... "Ouvi
alguém dizer que se eles vissem os livros tudo estaria
perdido, por isso queimaram tudo" ... "Sally [Harmony] disse
que Gordon iLiddy] jamais falaria: ela também não, pois sua
memória era péssima". ... "Pelo que ouço falar, eles estão
espionando todo mundo, seguindo todo mundo, o tempo
todo". ... "Por favor, nunca me telefone — meu Deus! —
especialmente para o escritório, e nem aqui para casa.
Ninguém sabe o que são capazes de fazer. Estão
desesperados".
Um ligeiro incidente em princípios de setembro convenceu
os repórteres de que os temores não eram infundados.
Eles haviam conseguido uma cópia do último relatório de
despesas do Comitê, do qual constava a relação de todos os
empregados assalariados. Bernstein encontrou lá o nome de
uma moça sua conhecida e a convidou para almoçarem
juntos. Sugeriu uma meia dúzia de restaurantes onde
poderiam se encontrar sem serem vistos, ela porém insistiu
em ir a uma lanchonete freqüentada por dezenas de
colaboradores de Nixon. Quando se sentaram, ela explicou:
— Estou sendo seguida. Aqui é tudo aberto e não fica
parecendo que estou escondendo alguma coisa. Ninguém
quer falar ao telefone. É horrível.
Bernstein pediu-lhe que se acalmasse. Pensou que estivesse
dramatizando.
— Quem dera que estivesse — respondeu a moça. — Eles
ficam sabendo de tudo no Comitê. Sabem que as acusações
serão formalizadas dentro de uma semana e que há somente
sete acusados. Olha, certa vez uma testemunha teve que.
prestar novo depoimento à Promotoria porque o FBI não lhe
fizera as perguntas certas. Naquela mesma noite, o chefe dela
já sabia de tudo. Havia uma instituição na qual eu sempre
confiei — o FBI. Acabou...
— Cumpri meus deveres de cidadã honesta. Eu também tive
que voltar à Procuradoria. Mas agora estou desiludida. Nunca
se vai conhecer a verdade. A gente nunca vai descobrir a
verdade. A gente nâo pode chegar à verdade através de
repórteres, falando só com gente decente. Eles já sabem que
vocês saem de noite para entrevistar as pessoas. Alguém da
seção de imprensa veio até a nossa sala hoje e disse: "Eu só
queria saber quem, dentro deste Comitê, é o contato de Carl
Bernstein e Bob Woodward".
— O FBI nem sequer me perguntou se eu estava no Comitê
durante o fim de semana em que ocorreu o arrombamento.
E eu tinha estado lá quase o tempo todo. Odle não disse a
eles tudo o que sabia. Ficou mudando os arquivos. Não sei se
os destruiu ou não. Ele disse para todo mundo sair da sala, e
trancou a porta. Depois saiu carregando pastas de arquivo.
— O resto que sei é só boato — continuou a moça. — Fiz o
meu dever, contei à Promotoria... A história toda está sendo
muito bem encoberta e jamais descobrirão o que aconteceu.
Disse que até a delegacia de polícia de um vilarejo qualquer
teria feito um trabalho melhor do que o do FBI, e ela não
queria mais saber de política presidencial. Pediu a Bernstein
que a acompanhasse até o escritório para evitar que
parecessem clandestinos. Enquanto esperavam o sinal abrir
para atravessar, na esquina da Rua 17 com Avenida
Pensilvânia, Maurice Stans encostou sua li-musine no meio-
fio defronte ao n.° 1701 da Avenida.
— Ele era um homem honesto antes disto tudo começar
— comentou ela.
— Agora ele também está mentindo.
Bernstein estudou Stans, do outro lado da rua, enquanto o
Secretário entrava no edifício.
— Está bem — disse ela. — Vou contar a você o que sei,
mas não vai adiantar nada. E nunca me telefone, nem me
procure para fazer perguntas sobre como fiquei sabendo.
LaRue, Portere Magruder. Todos eles sabiam da instalação de
microfones clandestinos, ou pelo menos mentiram no
grande júri sobre o que sabiam. E quanto a Mitchell... quanto
a Mitchell tudo não passa de pura especulação. Quanto aos
outros três, dou a minha palavra. Eu sei.
Frederick LaRue, Herbert L. Porter e Jeb Stuart tinham saído
do staff da Casa Branca para integrar o CRP.
Mais ou menos às cinco horas a moça ligou para Bernstein.
Estava quase histérica. — Estou falando de um telefone
público. Quando voltei do almoço fui chamada à sala de um
deles, e me jogaram na cara que eu fora vista conversando
com um repórter do Post. Queriam todos os detalhes.
Ordens superiores — é tudo que posso dizer. Eu o avisei de
que estava sendo seguida. Por favor, não me telefone mais,
nem venha me ver.
Mais tarde, naquela noite, Bernstein foi até o apartamento da
moça e bateu na porta.
— Vá embora — disse ela. — Bernstein e Woodward
tiveram então que ir baterem outras portas.
Mais ou menos na mesma hora, Clark MacGregor telefonou
ao editor-executivo do Post, Ben Bradlee, para se queixar das
visitas dos repórteres. Bradlee só falou disso aos rapazes
vários meses depois, mas recordava-se de que MacGregor
queria marcar uma entrevista com ele e com Katharine
Graham, editora do Post. O encontro, marcado para o dia
seguinte, foi cancelado por MacGregor. — Ele queria discutir
os excessos praticados por vocês. Cinco mulheres do CRP
haviam sido molestadas por vocês dois. E eu respondi:
Isso não parece coisa dos rapazes. — Então ele me deu os
nomes... Eu disse:
— Bem, e como foi que eles as molestaram? — E MacGregor
respondeu: — Ficaram batendo nas portas dos apartamentos
das moças e às vezes telefonando da portaria. — E eu disse:
— Essa foi a melhor coisa que ouvi a respeito de qualquer
um dos dois nestes últimos anos!
Na noite de 14 de setembro, Bernstein bateu à porta de uma
casinha num subúrbio de Washington. Desde que almoçara
com a moça do CRP havia pressentido que a dona desta casa
era a que tinha voltado a prestar depoimento. Bernstein
fizera perguntas sobre ela. E tinham lhe dito: "Ela sabe um
bocado". A mulher trabalhava para Maurice Evans.
Uma mulher abriu a porta e deixou Bernstein entrar. — Não
é a mim que está procurando, é a minha irmã — disse ela. A
irmã entrou na sala. Ele esperava ver uma cinqüentona,
provavelmente de cabelos grisalhos — esta era a imagem que
fazia de uma contadora, pois esta era a profissão da mulher.
Ela, porém, era muito mais jovem.
— Ai, meu Deus! — exclamou a contadora. — Você é do
Washington Post. Tem que sair daqui, sinto muito.
Bernstein começou a imaginar táticas para não perder
terreno. A irmã estava fumando e ele notou um maço de
cigarros sobre a mesa de jantar; pediu um cigarro. — Eu
apanho — disse quando a irmã quis ir até lá buscar o maço
— não se incomode. — A manobra fez com que
avançasse três metros pela casa adentro. Entendia que ela
sentisse medo; havia uma porção de outras pessoas no
Comitê que, como ela, tinham vontade de dizer a verdade,
mas os outros não lhes queriam dar ouvidos. Sabia que certas
pessoas tinham voltado à Promotoria e ao FBI para maiores
esclarecimentos... Hesitou.
— Afinal de contas, onde é que vocês repórteres
conseguem suas informações? É isso que ninguém no
Comitê consegue entender.
Bernstein perguntou se podia sentar-se para terminar de
fumar seu cigarro.
— Pode, mas depois você tem que ir embora; eu não
tenho nada a dizer.
— Ela estava tomando café e a irmã perguntou se
Bernstein gostaria de tomar uma xícara. A contadora franziu
as sobrancelhas, mas já era tarde. Bernstein pôs-se a tomar
vagarosamente o seu café, em goles bem pequeninos.
Ela estava curiosa. — Se você já sabia que tive que voltar à
Promotoria, é que alguém certamente está lhe passando boas
informações. — Em seguida disparou alguns nomes que
Bernstein tentou decorar. Se ela os estava mencionando
como possíveis fontes, devia se tratar ou de pessoas a par de
alguns fatos, ou decepcionadas com as coisas que vinham
acontecendo no Comitê.
Bernstein monologou a respeito de pessoas excelentes que
ele e Woodward haviam conhecido, que queriam ajudar mas
não possuíam fatos concretos, que só sabiam do que tinham
escutado de segunda ou terceira mão.
— Continuem a cavar — disse ela. — Vocês conseguiram
chegar bem pertinho.
Como sabia?
— Eu faço somas para as pessoas: Tenho uma máquina de
somar e as minhas mãos são habilidosas — disse em tom
meio brincalhão, como se tivesse consciência de que andava
assistindo demais ao filme Cidade Nua. Sacudiu a cabeça e riu
de si mesma. — Às vezes não sei se devo rir ou chorar. Sou
contabilista. E apolítica. Nunca fiz nada de errado. Mas sinto
que há algo de podre no reino da Dinamarca e estou metida
na podridão. — Depois, começou de novo a querer
adivinhar quem eram os informantes de Bernstein, que
nesse ínterim se esforçava para registrar na memória todos
os nomes citados na conversa. Ela fitava a xícara de café; ele,
para disfarçar sua tensão, pôs-se a brincar com o cachorro.
Ela parecia com vontade de falar sobre o que sabia. Mas logo
para Washington Post, o inimigo? Bernstein pressentia que,
ou seria posto porta a fora a qualquer momento, ou ficaria
para ouvir a história toda.
— Sou leal apenas a Maurice Stans, à reeleição do Presidente
e à verdade — declarou ela.
Bernstein sabia que a esposa de Stans estava doente e
hospitalizada. Perguntou como ela estava passando, e depois
se o Secretário ia acabar sendo o bode-expiatório de John
Mitchell.
— Se vocês conseguissem apanhar John Mitchell, ia ser uma
beleza. Mas simplesmente não tenho uma única prova
concreta, capaz de ser sustentada diante de um tribunal, de
que ele sabia de tudo. Acho que o bando dele perdeu a
cabeça, quero dizer, os homens mais chegados a ele.
— Que homens?
As mãos da moça tremiam. Interrogou a irmã com o olhar.
Esta deu de ombros, sem se comprometer. Bernstein achou
que ela era sua aliada. A irmã levantou-se para servir-se de
outra xícara de café. Bernstein tomou o último gole e
passou-lhe a sua. Ela tornou a servi-lo. Bernstein resolveu se
arriscar. Tirou o bloco e o lápis do bolso de dentro do paletó.
A contadora arregalou os olhos. Bernstein tranqüilizou-a;
possivelmente ela não diria nada que eleja não soubesse, e de
forma alguma sairia no jornal qualquer coisa que não pudesse
ser verificada em outra fonte.
— Há uma série de coisas erradas, uma série de coisas
ruins no Comitê — começou ela. — Compareci cedo demais
perante o grande júri, e ninguém sabia exatamente que
perguntas me fazer. Já haviam mentido para eles.
Sally Harmony?
— Ela e eu não discutimos o problema... Mas, Sally — e
outros — mentiram. — A contadora havia trabalhado com
Hugh Sloan, e depois que ele se demitiu fora promovida à
equipe de Stans. — Alguns de nós os preocupavam, e por
isso eles nos promoveram.
— Sloan é o cordeiro do sacrifício. A esposa ameaçou
abandoná-lo se ele não erguesse a cabeça e fizesse o que era
direito. Ele saiu por que percebeu o que estava acontecendo,
e não queria participar daquilo. Até 17 de junho nós não
sabíamos, mas no dia 19 de junho somamos dois mais dois e
o resultado foi um só.
Ela mudou de assunto. Dias antes, o Post indicara a
existência de outra personagem na conspiração do
Watergate, cuja identidade não fora revelada; que lhe
haviam conferido imunidade criminal e ela começara a falar.
A contadora especulou em voz alta: — Baldwin? Mas ele
nem consta de folha de pagamentos.
Tentou mais dois outros nomes.
Bernstein sacudiu a cabeça de fato, não tinha idéia de quem
fosse.
— Tem que ser um destes três — afirmou ela. — Tenho
quase certeza de que é Baldwin.
Bernstein perguntou se ela sabia quem recebera as
transcrições das conversas interceptadas.
— Não sei nada sobre o modo de operação da equipe de
espionagem. Sei apenas quem arranjava o dinheiro e quem
aprovava a distribuição das quantias. E, pelo que pude ver,
você já tem todos os nomes. Suba alguns degraus e esqueça-
se do comitê financeiro — aconselhou. — Foi o pessoal da
politica... Não vai fazer diferença alguma. Você tem que ter a
lei do seu lado se quiser conseguir alguma coisa. As malhas
da lei vão apanhar os sete e acabou-se. O poder político é
forte demais.
Quantas pessoas recebiam pagamento?
— Treze ou quatorze trabalham com as reservas, mas
apenas seis ou sete estão envolvidas. O júri nem sequer
perguntou se eram efetuados pagamentos ilegais.
Stans sabia quem recebia esses pagamentos?
— Ele sabia menos do que eu. Sou leal a Hugh e ao Sr.
Stans — fez questão de ressaltar. — Por alguma razão o Sr.
Stans acha que devemos agüentar o sufoco, por uns tempos.
— Falara com Stans naquela manhã e ele mencionara uma
notícia aparecida no New York Daily News, na qual se
insinuava que Sloan sabia da espionagem. — Eu lhe disse que
devia processar o jornal, mas ele respondeu: "Eu quero é cair
fora disso tudo". Acho que o grande júri também não lhe fez
as perguntas certas.
Quem sabia todas as perguntas?
— Liddy e Sally Harmony. Ela tem mais informações do
que eu. Mas nunca falou comigo acerca do que sabe. Insisti
muitas e muitas vezes para que fizesse o que era certo. Sally
também conseguiu uma promoção. Trabalhava agora para
Robert Odle.
Odle estava envolvido?
— Não no tocante à instalação clandestina dos
microfones. Ele é um office-boy de luxo. Menino de recados
de Magruder. Jeb está definitivamente implicado, é lógico.
Todo mundo sabe que tudo foi feito pelo setor político.
Todas as pessoas envolvidas pertencem ao comitê político,
não ao financeiro.
Além de Magruder, entretanto, ela não mencionou outros
nomes. Magruder era o segundo homem do Comitê.
Bernstein tentou adivinhar, arranjando mentalmente nomes
da lista do DNC, aqueles dos quais ia conseguindo se
lembrar. Lang Washburn? Esquecera-se de que Washburn
pertencia ao setor financeiro, não ao político.
— Você está brincando... Lang é tão burro que na
segunda-feira seguinte ao arrombamento reuniu todos os
funcionários do setor financeiro e declarou que nada tinha a
ver com aquilo. E depois pediu a Gordon que dirigisse al-
gumas palavras aos meninos. Então Gordon Liddy levantou-
se e fez um discurso dizendo que não se podia permitir que
aquele lobo em pele de cordeiro McCord, dizimasse todo o
rebanho.
Bernstein pediu mais uma xicara de café à irmã e sugeriu
outro nome.
— Nunca. A Casa Branca o pôs para fora porque ele não
gostava de fazer as coisas malucas que lhe pediam.
Quem?
— Logo abaixo de Mitchell — insinuou a contadora.
Bernstein tentou LaRue e Porter. Ela não respondeu. Fez
outra tentativa. Silêncio.
Que provas tinha ela de que os assessores de Mitchell
estavam implicados?
— Eu tinha as provas, mas os arquivos foram destruídos...
Não sei quem os destruiu, mas tenho certeza de que Gordon
rasgou alguns papéis.
Provas concretas?
— Não para demonstrar de modo irretorquível que eles
planejaram instalar os microfones; não ficariam
necessariamente implicados no caso, mas passaria raspando.
Como podia, neste caso, dizer que a ligação ficaria
estabelecida?
— Havia uma conta especial, até o dia 7 de abril. No meu
entender, até então eram quantias correspondentes a
despesas; eu não fazia a mínima idéia, a essa altura, de que se
tratava. Mas depois de 17 de junho ninguém precisava ser
gênio para juntar as peças. Eu conhecia as quantias e
conhecia as pessoas. E não havia recibos. — Liddy se
encontrava entre os que receberam dinheiro — disse ela. —
O problema de Gordon é sua lealdade ao Presidente. Ele não
vai nunca entregar os pontos. Vai agüentar toda a culpa.
A contadora voltara a fitar, pensativa, a xícara de Bernstein.
— Há gente demais me vigiando — disse. — Sabem que
tenho informações importantes e ficam me observando
como gaviões. — Estava convencida de que seu telefone
andava censurado.
Quanto dinheiro saiu?
— Muito.
Mais de meio milhão?
— Acertou na mosca.
Finalmente, deu um estalo na cabeça de Bernstein. Pensou
consigo que fora incrivelmente burro. Era o dinheiro da
"caixinha" no cofre de Stans.
— Até 17 de junho, nunca imaginei que aquele dinheiro
era uma "reserva de segurança" ou como quer que o
chamassem. Pensava que era uma reserva destinada à
campanha política em geral, sobre a qual não se comentava.
Uma espécie de gato que se podia servir como lebre. Mas
tudo estritamente legal.
USS 350.000? Como foram pagos?
— Não foi tudo de uma vez só. Sei o que aconteceu com
o dinheiro, eu somei as quantias. — Os lançamentos da
conta tinham sido feitos em uma única folha, e esta fora
destruída. O único registro! — Era uma folha pautada,
coberta de nomes até o meio. Eram mais ou menos uns
quinze nomes, e a quantia atribuída a cada pessoa vinha
lançada ao lado do nome respectivo. Eu a vi mais de uma vez
e as quantias eram cada vez maiores. — Sempre que havia
um desembolso, ela atualizava a folha. Sloan também
conhecia a história toda. Era ele quem distribuía o dinheiro.
Bernstein tornou a pedir os nomes. Estava confuso porque
havia cerca de quinze nomes na folha e, no entanto, ela
achava que só seis estavam implicados. Quem era os seis?
— Examine o relatório do DNC. Acho que todos
compareceram perante o grande júri. São fáceis de distinguir,
dois ou três já foram mencionados pela' imprensa, mas não
com relação a isto.
Como era feita a distribuição das reservas?
— Havia uma relação entre telefonemas e a maneira pela
qual o dinheiro era distribuído. Dos seis, apenas três
realmente receberam dinheiro. Os outros pareciam ter se
limitado a responder chamadas telefônicas.
Quem eram os seis — perguntou ele novamente.
— Os principais assessores de Mitchell... Primeiro
escalão. Magruder é um deles.
Ele começou a dizer os nomes. Não adiantou. Tentou só as
iniciais: se ela confirmasse as iniciais, poderia, sem mentir,
dizer que jamais fornecera nomes a Bernstein, e ele poderia
diminuir o círculo de suspeitos. No início da conversa, ela
não respondera quando Bernstein indagou se LaRue e Porter
estavam implicados. Tentou a letra L.
— LeMeP, e é tudo o que vou dizer — declarou a
contadora.
Bernstein terminou o café. Queria estar em condições de
voltar ali, e já havia feito pressão demais. Agradeceu e
perguntou quem no Comitê poderia saber de algo que
quisesse contar a ele. Ela deu o nome da moça que fora
seguida enquanto almoçava com Bernstein.
Quando alcançou a Beltway, Bernstein parou em um
telefone público e discou para a casa de Woodward. O bule
de café, a euforia do momento e as informações que tentava
reter na memória tinham dentado Bernstein excitadíssimo.
Também ele não queria dar muitos detalhes pelo telefone —
a paranóia era contagiante. Disse que num instante chegava
lá.
Woodward ia datilografando à medida que Bernstein ditava
suas anotações, preenchendo os claros. As implicações
pareciam óbvias. O dinheiro no cofre de Stans se relacionava
com a operação Watergate; Liddy recebera parte do
dinheiro; o mais importante, porém, era que os assessores de
Mitchell — inclusive Magruder — também tinham recebido
dinheiro e estavam a par da operação de espionagem.
Woodward botou o estéreo no volume máximo e
datilografou no alto da página: "Entrevista com X: 14 de
setembro".
Depois, entregando um pedaço de papel a Bernstein,
perguntou de quem recebera as informações. Bernstein
escreveu o nome da contadora.
No fim do dia seguinte, 15 de setembro, as acusações do
grande júri foram formalizadas. Como já se esperava, Hunt,
Liddy e os cinco homens presos no dia 17 de junho foram
indiciados. Os sete eram individualmente acusados de oito
diferentes infrações — todas relacionadas com conspiração,
arrombamentos, e com a lei federal que proíbe a
interceptação eletrônica da comunicação verbal. Em sua
reportagem, o Post observou que as acusações "não
mencionavam as questões centrais referentes aos propósitos
e aos patrocinadores da mencionada operação de
espionagem".
O Procurador Geral Richard Kleindienst disse que as
acusações culminavam "uma das mais intensas, objetivas e
detalhadas investigações levadas a efeito em muitos anos,
abrangendo cidades espalhadas por todo o país, e até mesmo
países estrangeiros".
No Post, Bernstein, Woodward e os editores iam perdendo
cada vez mais a crença na investigação federal. Por que os
US$ 89.000 em cheques mexicanos e os US$ 25.000 do
cheque Dahlberg e a "caixinha" de Stans não haviam sido
mencionados nas acusações? Por que fora a acusação tão
limitada, se o Governo possuía tantas informações quanto o
Post?
Bernstein telefonou ao seu amigo funcionário do
Departamento de Justiça, que já o ajudara ocasionalmente, e
perguntou de que maneira a acusação se enquadrava com o
depoimento da contadora. Tudo o que ela dissera não fora
confirmado por Stans? Certamente o Governo poderia ter
deduzido, por intermédio desses dois pelo menos, que a
"reserva" de Stans tinha relação com as interceptações e que
o dinheiro era controlado pelos assessores de Mitchell.
Seu informante mostrou-se, a princípio, apreensivo e
ambíguo. Depois, na defensiva, confirmou que as
informações estavam todas lá — inclusive as declarações de
Sloan e da contadora.
Bernstein perguntou, indignado, por que razão o Post não
podia publicar um artigo acusando o Governo Federal de
desprezar evidências. Havia provas de que o dinheiro da
"caixinha" no cofre de Stans se relacionava com a espiona-
gem, e também testemunhas que podiam apontar quais os
chefões do Comitê implicados no caso.
— Você está tirando péssimas conclusões. Passo a
acreditar em você se assinar uma reportagem afirmando que
há alguém pronto a dizer perante a Justiça que existia uma
"reserva" para financiar a operação Watergate.
Bernstein lembrou-se de que a contadora lhe dissera que
suas provas não demonstravam conclusivamente que o
dinheiro se destinava ao Watergate. Reformulou, pois, a
pergunta. Não havia um considerável conjunto de provas
indicando que terceiros estavam à par da operação e que a
"caixinha" era o foco da participação de outros?
O informante hesitou. — Se o que você diz é verdade,
acabará vindo à tona. As novidades só vão aparecer no
julgamento.
E as pessoas que haviam prestado novos depoimentos ao
FBI? E o grande júri?
— Acontece em qualquer investigação — disse o
funcionário. — E ajuntou: — Não há nada que você saiba
que também não seja do nosso conhecimento. Temos todos
os fatos. Você não está me contando nada de novo.
Então, isto era o fim?
— Pode-se dizer com segurança que a investigação está
por enquanto encerrada, em estado de repouso. Parece-me
altamente improvável que seja reaberta.
Bernstein ignorou o bom senso. — Talvez — sugeriu o
repórter — os Federais devessem pedir a Dick Gerstein e
àquele seu investigador bacana, Martin Danlis que viessem a
Washington dar uma ajuda.
— Estou cagando para o fato de Gerstein ser advogado —
disse o funcionário. — Nós temos os fatos — Gerstein não os
tem. Nem você.
CAPÍTULO 4
Woodward tinha um informante no Poder Executivo com
acesso a informações do CRP e da Casa Branca. Sua
identidade era completamente desconhecida de qualquer
outra pessoa, exceto Woodward. Só podia ser contatado em
circunstâncias muito importantes. Woodward dera sua
palavra de que jamais revelaria sua identidade ou posição. E
mais, concordara em jamais citá-lo, nem mesmo como fonte
confidencial. Suas conversas serviriam apenas para confirmar
informações obtidas de outra fonte e para dar a eles maior
perspectiva.
Em terminologia jornalística, isto significava que as
discussões entre ambos seriam "em profundidade".
Woodward chegou a explicar o acordo ao redator-gerente,
Howard Simons. Começou por se referir a seu informante
como "o meu amigo", mas Simons o apelidou del Deep
Throat, título de célebre filme pornográfico. O apelido
pegou.
De início, Woodward e Deep Throat se falavam pelo
telefone, mas à proporção que as tensões do caso Watergate
se intensificavam, o nervosismo de Deep Throat aumentava.
Não queria falar pelo telefone; disse, porém, que poderiam se
encontrar em algum lugar, se necessário.
Deep Throat não queria fazer uso do telefone nem para
marcarem os encontros. Sugeriu que Woodward deixasse as
cortinas do apartamento abertas, como sinal. Deep Throat
podia verificar diariamente. Se as cortinas estivessem
afastadas, encontrar-se-iam naquela noite. Woodward,
entretanto, gostava de deixar o sol entrar de vez em quando,
e sugeriu outro código.
Anos antes, Woodward encontrara jogada na rua uma
bandeirinha de pano vermelho, de uns 30 cm de largura e
presa a uma varinha; o tipo de bandeirinha usada por
caminhões para indicar carga muito longa que ultrapassa o
comprimento da carroceria. Woodward levara o trapinho
vermelho para seu apartamento e um de seus amigos o
fincara num vaso de plantas na sacada. Lá permanecera.
Quando Woodward se via às voltas com uma indagação
urgente, empurrava o vaso com a bandeirinha para o fundo
da sacada. No decorrer do dia,
Deep Throat verificava a posição do vaso de plantas. Se
tivesse mudado, encontrar-se-ia com Woodward às duas da
madrugada numa garagem subterrânea de estacionamento
público, lugar já determinado entre os dois. Woodward saía
de seu apartamento no sexto andar e descia pela escada de
serviço que dava para um beco.
Caminhando e tomando táxis alternadamente, até chegar à
garagem, podia ficar razoavelmente certo de que não fora
seguido. Uma vez no interior da garagem, podiam conversar
por mais de uma hora sem temor de serem vistos. Se os táxis
escasseavam, como freqüentemente acontecia altas horas da
noite, Woodward levava quase duas horas para chegar a pé
ao seu destino. Duas vezes o homem deixou de comparecer
ao encontro — experiência deprimente e assustadora,
Woodward esperando horas a fio, sozinho numa garagem
subterrânea, no meio da noite. Certa noite desconfiou que
estava sendo seguido — dois homens bem vestidos
caminharam atrás dele umas cinco ou seis quadras.
Escondera-se num beco escuro e não voltara a vê-los.
Se era Deep Throat quem queria um encontro — caso raro
— o sistema era outro. Todas as manhãs, Woodward
verificava a página 20 do New York Times, entregue a
domicílio antes das sete da manhã. Se Deep Throat queria
uma reunião, havia um círculo ao redor do número da
página e, num dos cantos inferiores, o desenho de um
mostrador de relógio com os ponteiros marcando a hora
desejada. Woodward jamais pôde entender como Deep
Throat conseguia rabiscar o jornal deixado em sua porta.
A posição do homem no Poder Executivo era extremamente
delicada. Jamais dera a Woodward uma informação
incorreta. Fora ele quem o informara, a 19 de junho, que
Hunt estava definitivamente implicado no caso Watergate.
Durante o verão dissera a Woodward que o FBI estava louco
para saber como o Post conseguia as informações. Temia que
Woodward e Bernstein pudessem ser seguidos, e os
aconselhou a terem cuidado quando usassem o telefone. A
Casa Branca, dissera ele no último encontro, considerava o
que estava em jogo no caso Watergate muito mais grave do
que o pessoal cá de fora pudesse imaginar. O informante,
todavia, se tornara deliberadamente vago quanto a este
ponto, fazendo referências veladas à CIA e à segurança
nacional. Woodward não conseguia entender tais
referências.
No dia seguinte ao da formalização das acusações,
Woodward quebrou a norma quanto a contatos telefônicos.
A voz de Deep Throat soou inquieta, mas ouviu atentamente
enquanto lhe era lida a minuta da reportagem. Dizia esta que
os investigadores federais hafiam recebido informações dos
empregados do Comitê de Nixon no sentido de que seus
executivos estavam implicados no financiamento da
operação Watergate.
— Brando demais — comentou Deep Throat. — Você pode
ser bem mais duro.
A contadora estava certa quanto ao dinheiro no cofre de
Stans. Fora usado para financiar o sistema de escuta
clandestina do Watergate e "para outras atividades de coleta
de informações", afirmou. Os principais assessores de John
Mitchell se encontravam apenas "entre aqueles" que
controlavam as reservas. Não quis dizer se o ex-Procurador
Geral tivera conhecimento prévio da tentativa de instalar
aparelhos clandestinos.
As transcrições das interceptações tinham chegado às mãos
de alguns desses mesmos assessores de Mitchell, que haviam
desembolsado o dinheiro para a espionagem — disse ele.
Em seguida à conversa, Woodward leu suas anotações para
Bernstein, que datilografou um novo lead:
"Os fundos para a operação de espionagem em Watergate
eram controlados por vários dos principais assessores de
John N. Mitchell, ex-diretor da campanha eleitoral de Nixon,
depositados numa conta especial do Comité para a Reeleição
do Presidente, segundo informaram ao Post."
A reportagem continuava: essa reserva secreta elevava-se a
mais de US$ 300.000 destinados a projetos políticos de
natureza muito delicada; Gordon Liddy eram um dos que
recebiam dinheiro destinado à reserva; os arquivos
referentes à conta especial haviam sido destruídos; a
demissão de Hugh Sloan se devera às suas suspeitas quanto
ao caso Watergate. Talvez mais importante do que os
detalhes específicos, fosse o amplo sentido da questão: as
acusações formais do caso Watergate não tinham ido ao
cerne da conspiração. E alguns funcionários do CRP
possuíam as respostas certas às perguntas que a Justiça
deixara de formular.
Aproximava-se o horário de fechamento da edição
dominical: 6h30min da tarde. Woodward telefonou a Van
Shumway pedindo a resposta do CRP. Meia hora depois
Shumway voltou com uma declaração.
"Sempre houve e ainda há reservas financeiras neste Comitê
para uso em vários propósitos legítimos, tais como
reembolso de despesas de adiantamentos de viagem.
Todavia, nenhum dos atuais funcionários deste Comitê
jamais fez uso de qualquer reserva (para finalidade) ilegal ou
imprópria."
Tomada ao pé da letra, a declaração não negava os termos da
reportagem.
Naquela tarde, George McGovern convocou uma entrevista
à imprensa e chamou a investigação do Watergate de
"mistificação... não se trata somente da vida política deste
país, mas da própria moralidade de seus líderes, numa época
em que os Estados Unidos precisam, desesperadamente,
revigorar seus padrões morais. E, por este motivo, irei até o
fim do caso, doa a quem doer".
No dia seguinte, 17 de setembro, os dois repórteres foram
juntos visitar a contadora. Era uma tarde de domingo, e ela
não queria falar com repórteres, ainda mais quando a
reportagem de primeira página do Post continha fatos
conhecidos apenas por ela e uns poucos outros funcionários
do Comitê de Nixon.
Entretanto, preferia que os repórteres não fossem vistos a tê-
los no batente da porta, de onde imploravam que pelo
menos ouvisse as informações que haviam trazido. Deixou-
os entrar. Queriam que ela lhes contasse quem eram
exatamente L, M e P. Liddy ou LaRue? McCord? Mitchell?
Magruder? Porter? Quais as quantias pagas? E quanto aos
outros da lista?
A contadora tinha medo, estava indecisa. Entretanto, dirigia-
se a Bernstein chamando-o pelo primeiro nome.
A princípio Woodward ficou em silêncio. Bernstein sugeria
quantias Parou em US$700.000.
— Pelo menos... ainda restam US$ 350.000 na reserva.
Quebrara-se o gelo. Liddy era L ou LaRue? Ou alguma outra
pessoa com a mesma inicial também havia recebido
dinheiro?
Ela não quis responder.
Então, eles disseram que sabiam ser Liddy o único L pago
pela "caixinha".
Ela confirmou.
Um acordo sem palavras estava tomando forma. Ela se
mostrava disposta a negar ou confirmar as declarações se os
repórteres se mantivessem à vontade, dando apenas a
impressão de que necessitavam de simples confirmações, e
não de informações inéditas. Se o povo precisava se
convencer de que Sloan e Stans eram inocentes — disseram-
lhe — era fundamental que as reportagens do Post fossem
exatas. Era por isso que precisavam de sua ajuda.
— O moral está baixíssimo no setor das finanças — disse
ela. — Os que conhecem os fatos reais estão cansados de ser
alvo de suspeitas. As piadinhas o tempo todo, como, por
exemplo: "O que fez com os US$25.000, minha senhora?"
Foi essa a quantia que Liddy recebeu?
Ela fez que não com a cabeça.
Mais de US$ 50.000? — perguntou Woodward.
Ela fez que sim.
Magruder também recebeu pelo menos isto, não recebeu?
De novo, ela fez que sim.
Magruder fora o único M a receber dinheiro, certo?
Sim, novamente. Contudo, havia mais coisas sobre
Magruder.
— Digamos apenas que não confio nem um pouco nele,
especialmente quando se trata de sua própria pele. Nada o
detém. Nestas últimas três semanas tem jogado todo o seu
charme para cima de mim, uma barbaridade.
E LaRue? Os repórteres disseram que sabiam que ele também
estava envolvido, embora não tivesse entrado no dinheiro.
— Ele é muito arisco; não deixa pistas — confirmou ela.
— Ele e Mitchell são assim — e enroscou os dedos. Mas não
falou sobre o que LaRue sabia.
P era Bart Porter, tinham certeza, disseram os repórteres.
— Ele recebeu um dinheirão. Em notas de cem dólares.
Aliás, todos receberam em notas de cem.
Bernstein lembrou uma piada que ela havia contado: "Somos
republicanos, sabe? Só lidamos com dinheiro graúdo". Porter
também recebera mais de US$ 50.000.
A contadora estava perplexa com a limitação das acusações.
— Fui até lá, com toda boa fé, testemunhei perante o grande
júri, e, já se viu, os resultados foram nulos. Acho que o FBI
entrega os depoimentos e eles vão lá para cima... Agora, tudo
o que quero é cair fora. Hugh Sloan foi quem tomou a
decisão mais acertada. Demitiu-se. O Sr. Stans me disse:
"Implorei para que ele ficasse, mas ele se recusou".
Ela ainda afirmou que algumas pessoas haviam se esquivado
às perguntas do grande júri.
— Rob Odle comentou comigo, depois que voltou do
tribunal: "Não parece que você passou por um espremedor?"
E eu respondi: Não, e você também não se sentiria tão mal
se tivesse contado toda a verdade.
Mas não entrou em detalhes quanto ao que Odle poderia ter
omitido.
— Desde o arrombamento a regra é esta: "Não tivemos
nada com o caso, mantenha a cabeça erguida" — disse aos
repórteres, quando estavam de saída.
De volta à redação, Woodward foi até o fundo da sala de
reportagens para telefonar a Deep Throat. Bernstein suspirou
de inveja. O único informante de suas relações com um
conhecimento assim tão preciso de seu campo era Mike
Schwering, proprietário da Loja de Ciclismo Georgetown.
Não havia coisa alguma sobre bicicletas — e, o que era mais
importante, sobre ladrões de bicicletas — que Schwering
não soubesse. Bernstein também sabia alguma coisa sobre
ladrões de bicicletas: na noite das acusações formais do caso
Watergate, alguém roubara sua Raleigh Dez Marchas da
garagem. Era esta a diferença entre ele e Woodward.
Woodward entrava numa garagem para encontrar-se com
um informante que lhe contaria o que os homens de Nixon
andavam tramando. Bernstein entrava numa garagem para
deparar com a corrente de quatro quilos lindamente cortada
ao meio e a bicicleta desaparecida.
O tom da conversa naquela tarde de domingo foi de mau
presságio. Ao ouvir a voz de Woodward, Deep Throat fez
uma longa pausa. Disse sem rodeios que aquela seria a última
vez que falavam pelo telefone. Tanto o FBI quanto a Casa
Branca estavam decididos a descobrir como o Post conseguia
suas informações e a pôr um paradeiro nessa atividade. A
situação era muito mais arriscada do que Woodward poderia
imaginar. A história sobre os assessores de Mitchell deixara a
Casa Branca enfurecida.
Era evidente que o telefonema fora um erro. Seu amigo
estava irritado, até zangado com ele. Mas o que mais
surpreendia Woodward era ver como Deep Throat parecia
amedrontado. O medo fora se avolumando, sem que
Woodward tivesse notado até então. E só parte desse medo
era pessoal, pois derivava principalmente da situação, dos
fatos, das implicações do que sabia. Jamais Woodward o vira
tão em guarda, tão grave. Durante o último encontro ele
parecera acabrunhado. Se Woodward de fato o conhecia
bem, algo estava terrivelmente errado.
Woodward falou-lhe do que a contadora dissera sobre
Magruder e Porter.
— Ambos estão implicados até o pescoço no Watergate
— confirmou Deep Throat, resignado, abatido.
Woodward pediu-lhe que fosse mais preciso.
— Watergate — repetiu ele. — Depois fez uma pausa e
acrescentou: — Na história toda.
Confirmou que Magruder e Porter haviam recebido, cada
um, mais de US$ 50.000 do cofre de Stans. E Woodward
podia ficar certo de que o dinheiro não fora usado para fins
legítimos — isto era um fato, não uma hipótese. Era tudo o
que podia dizer. Dali por diante, Woodward e Bernstein
teriam que agir sozinhos por uns tempos.
Depois, com um toque de seu antigo senso de humor: —
Digamos simplesmente que quando chegar a época eu terei
prazer em dar à situação que está desabrochando a
perspectiva certa. — Havia muita tristeza no modo como
falou.
Bernstein já estava brigando com a máquina. Woodward deu
uma olhada no parágrafo inicial:
"Dois dos principais executivos da campanha do Presidente
Nixon retiraram mais de US$ 50.000 cada um, de uma
reserva secreta que financiou a instalação de microfones
clandestinos na sede do Partido Democrático, segundo
fontes ligadas à investigação do caso Watergate".
Woodward entrou em contato com Powell Moore, vice-
diretor de imprensa do CRP, e contou-lhe em termos gerais
o teor da reportagem que o Post pretendia publicar na edição
de segunda-feira. Moore, homem brincalhão, era natural do
Estado da Geórgia, tinha trinta e quatro anos de idade e
trabalhara na sala de imprensa da Casa Branca antes do início
da campanha.
— Muito obrigado — respondeu Moore. — Era
justamente o que eu precisava para este domingo. — Tinha
certeza de que a história era falsa — os repórteres estavam
recebendo péssimas informações, não sabia de onde, mas
gostaria que eles abandonassem essa cruzada e verificassem
melhor os fatos antes de publicá-los.
Woodward pressentiu a oportunidade. Os repórteres
estavam certos dos fatos, afirmou a Moore. Tinham
confrontado informações de fontes diversas. Mas havia
sempre a possibilidade de uma explicação que lhes escapara.
Se Moore fizesse Magruder telefonar para Woodward a fim
de discutir objetivamente as acusações, o repórter
concordava em segurar a matéria até que Magruder se
explicasse. E se Magruder convencesse os repórteres de que
a história estava, em qualquer ponto, falha ou baseada em
algum mal-entendido, concordariam em deixá-la pendente
até que tudo fosse verificado.
Moore concordou. Era uma boa brecha, no pensar dos
repórteres: uma oportunidade para penetrar no emaranhado
de declarações anônimas e ambíguas. Magruder chamou
meia hora mais tarde e confirmou ser "absolutamente falso"
que tivesse recebido qualquer dinheiro de qualquer "reserva
secreta". — Só recebia meu salário e o reembolso de
despesas.
Então, como explicar que a investigação federal o acusasse
de ter recebido pelo menos US$ 50.000 da reserva no cofre
de Stans?
— Fui longamente interrogado sobre esse ponto... mas ele
foi abandonado. Todas as pessoas envolvidas afirmaram sua
falsidade. — O interrogatório do FBI fora extenso. — Ficou
pendente — acrescentou — como um pensamento tardio.
Woodward lembrou-lhe: ele sabia muito bem que, depois de
feita, uma declaração não podia ficar pendente. Magruder
atuara como vice do departamento de comunicações da Casa
Branca, antes de se tornar vice-presidente da campanha
eleitoral.
— Mas você tem que me ajudar — pediu Magruder. —
Vou ficar encrencado se vocês citarem minhas palavras.
Woodward replicou que podia pôr esta declaração em letra
de imprensa. Depois, a pedido de Magruder, examinaram as
circunstâncias. Woodward disse que o Post pretendia levar a
história adiante, a menos que Magruder desse uma razão
plausível em contrário. Magruder não discutiu, mas pediu a
Woodward que, em vez de FBI, escrevesse que "os
investigadores do governo" haviam informado sobre a
existência de acusações a Magruder. — Você tem que me
ajudar, pelo menos em parte.
Eram um ponto de pouca importância. Obviamente
Magruder pensava que uma alegação atribuída ao FBI era
mais grave do que a "investigadores do governo". O pedido
não parecia absurdo. Woodward concordou. O tom de voz
de Magruder causara impressão mais forte do que as palavras.
Ele era o segundo homem do CRP. Na Casa Branca sua tarefa
era lidar com a imprensa. Sua voz, entretanto, estava trêmula
ao falar com Woodward.
Uma parte da história dizia respeito a Hugh Sloan. Deep
Throat informara que Sloan não tivera conhecimento prévio
da espionagem, nem de como o dinheiro seria aplicado.
Havia se demitido de seu cargo de tesoureiro do CRP pouco
depois do arrombamento, porque "não queria participar do
que estava acontecendo". A reportagem transcrevia as
palavras da contadora sem mencionar a fonte. "Ele não
queria nada com aquilo. Sua esposa estava disposta a
abandoná-lo se ele não erguesse a cabeça e fizesse o que era
direito."
Havia um problema na redação da história. Deep Throat fora
bastante explícito ao afirmar que as retiradas haviam
financiado a operação Watergate. Mas a contadora —
embora desconfiasse — não pôde confirmar este ponto. Os
repórteres conferenciaram com Sussman e Rosenfeld e estes
decidiram usar de cautela e dizer que o dinheiro servira para
financiar "atividades de coleta de informações contra os
democratas". Gradualmente, ia-se estabelecendo uma norma
tácita: a menos que duas fontes distintas confirmassem uma
determinada informação sobre atividade que pudesse vir a
ser considerada criminosa, a acusação específica não sairia
publicada.
Na manhã seguinte, o New York Times não mencionou as
histórias sobre a reserva secreta. Na Casa Branca, Ron Ziegler
também não foi interrogado a esse respeito. As cadeias de
TV calaram-se sobre o assunto, e a maioria dos jornais
procedeu do mesmo modo. No Capitólio, o líder republicano
do Senado, Hugh Scott, da Pensilvânia, declarou, durante
uma entrevista informal à imprensa, na parte da manhã, que
o caso Watergate não dizia respeito ao eleitor comum, sendo
apenas do interesse "do senador McGovern e dos veículos de
divulgação". "Ninguém liga para o que vocês andam
escrevendo", afirmou. Na sala de reportagens, Bernstein e
Woodward esperavam a chegada da primeira edição
vespertina do Washington Star-News. A única notícia sobre
o Watergate era a de um catedrático de Direito da
Universidade George Washington que entrara com um
requerimento à corte federal, a fim de que um promotor
especial fosse designado para o caso.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Bernstein requisitou um
carro de jornal e foi até o subúrbio de McLean, na Virgínia,
para visitar Hugh Sloan, o ex-tesoureiro do CRP. A viagem,
que levava em média meia hora, prolongou-se por mais de
uma hora, em conseqüência da chuva. Sloan morava num
conjunto residencial e Bernstein custou a encontrar a casa.
O conjunto era todo de casas imitando o estilo Tudor,
enfileiradas ao longo de passeios gramados. O lugar fora, sem
dúvida, planejado para famílias com crianças; as zonas de
tráfego e as áreas de estacionamento ficavam isoladas, com
segurança, e quase todas as casas pareciam ter um triciclo ou
um cavalinho de madeira esquecido no jardim. Bernstein
ficou encharcado de chuva, enquanto procurava, a pé, a
residência de Sloan.
Foi a Sra. Sloan quem atendeu a porta. Era uma mulher
muito bonita e estava grávida. Bernstein apresentou-se e
perguntou por Sloan. Ele tinha ido ao centro e só estaria de
volta às 7h30min da noite. Tinha um jeito cordial e per-
guntou a Bernstein onde poderia ser encontrado. Bernstein
procurava um modo de ficar conversando com ela pelo
menos um pouco. Ela já trabalhara na Casa Branca como
secretária social e, o repórter sabia, fora o fator decisivo para
que seu marido se afastasse da campanha política de Nixon.
Bernstein calculou sua idade em uns trinta anos. Havia um
halo de suavidade em suas feições que refletiam bem a idéia
da maternidade próxima. Tinha grandes olhos castanhos.
Bernstein pensou que aqueles deviam ser dias horríveis para
os Sloan — um ex-assessor do staff presidencial,
desempregado e sob suspeita, sua mulher esperando o
primeiro filho. Num momento que deveria ser dos mais
felizes em sua vida, seus nomes apareciam todos os dias nos
jornais em geral associados aos de criminosos... ela passava
os dias esperando que o marido voltasse do tribunal...
agentes do FBI inquiriam amigos e vizinhos... repórteres
batiam à sua porta a qualquer hora do dia.
Compartilhando seus sentimentos, Bernstein procurou
dissociar-se dessa multidão.
Ela pressentiu seu mal-estar. Entendia que ele estava apenas
tentando cumprir o dever, disse. Como seu marido. — Esta é
uma casa íntegra. — Declaração firme, orgulhosa.
Havia lido a reportagem do Post? A Sra. Sloan fez um
meneio. Havia ficado contente; fora um alívio ver aquilo
tudo publicado, tudo que já sabia. Bernstein esclareceu que o
Post não tinha idéias preconcebidas. E havia gente que não
se preocupava com a verdade, acrescentou, e muito menos
com o que pudesse acontecer ao marido dela.
— Eu sei — respondeu ela. Com muita tristeza. Seu marido
fora abandonado pelas pessoas em quem confiava, pessoas
cujos princípios e padrões éticos ela e seu marido julgavam
ser iguais aos que possuíam. Mas, em muitas dessas pessoas,
os padrões éticos eram superficiais. Havia um traço de raiva
em suas palavras, mas havia, principalmente, consternação.
Bernstein tentava fugir às generalidades. Os dois tinham
estabelecido uma ponte filosófica de diálogo, e pareciam
apreciar-se mutuamente. Certamente, ele gostara dela.
Qual fora a reação de seu marido ao perceber a que se
destinava o dinheiro que lhe pediam para desembolsar?
Bernstein tentava cruzar a linha com cautela; mas a mulher
percebeu a manobra imediatamente.
Isso era algo que ele teria que discutir com o marido dela.
Não lhe parecia certo falar sobre o assunto. Pediu
novamente seu telefone e Bernstein escreveu o número
numa folha de bloco. Tinha outro compromisso em McLean
naquela noite, mentiu. Se terminasse cedo, poderia voltar
para falar com o Sr. Sloan?
Bernstein seria bem-vindo; todavia, não podia assegurar que
seu marido iria conversar com ele.
Quem sabe, ela poderia convencê-lo? Bernstein sorriu,
introduzindo o tom de uma conspiração amigável.
Ela riu. — Vamos ver — disse.
Havia uma boa loja de bicicletas em McLean, e Bernstein
para lá se dirigiu, com a intenção de matar o tempo durante
umas duas horas, procurando, sem muito entusiasmo, uma
bicicleta que substituísse a sua querida Raleigh roubada. Seus
pensamentos, no entanto, corriam para Jeb Magruder. Ficara
sabendo, naquele dia, de um fato que o deixara
profundamente confuso: Magruder era doido por bicicletas.
Bernstein não conseguia entender como um maníaco por
bicicletas podia, ao mesmo tempo, ser um dos inplicados no
Watergate. E Magruder era realmente um ciclista
credenciado, que chegava a ir todos os dias para a Casa
Branca pedalando a sua dez marchas. Ninguém roubaria a
bicicleta de Magruder — pelo menos, na Casa Branca.
Bernstein sabia disto porque já fora até lá no dia 14 de julho
— não na sua Raleigh, mas numa Holdsworth que mandara
fabricar em Londres — e quando passou pelo portão sabia
que ninguém sequer chegaria perto dela.
Assim, deixara sua bicicleta encostada na guarita da entrada,
sem se preocupar em trancá-la. Estava lá para ouvir o Vice-
Presidente Agnew sobre a limitação da burocracia com o fito
de apressar o socorro às vítimas da grande enchente
provocada pelo furacão Agnes. Então, dera de cara com Ken
Clawson no corredor.
— Vocês lá no Post vão acabar se dando mal com o caso
Watergate — dissera Clawson.
Poucas horas mais tarde, Hugh Sloan abriu a porta, com a
aparência de quem houvesse acabado de posar para o
Management Intern News. Ao redor dos trinta, esbelto, um
bom corte de cabelo no comprimento certo, blazer azul,
camisa neutra, gravata clássica, bonitão, talvez um pouco
magro demais.
— Minha mulher me disse que você provavelmente voltaria
— disse, e convidou Bernstein a sair da chuva e entrar no
vestíbulo. Deixou a porta aberta. — Como você sabe, não
tenho falado aos jornalistas — declarou em tom de desculpa.
— Era um bom sinal. Com um olho na porta aberta,
Bernstein resolveu arriscar uma aposta alta. A reportagem
daquela manhã alterava a situação, explicou. O povo agora
sabia que Sloan era inocente. Mas Sloan conhecia os
culpados, ou pelo menos sabia de fatos que podiam levar até
eles. Agora que esta parte da história já viera a público, Sloan
deveria contar o resto, limpar seu nome e permitir que a
verdade aparecesse. Talvez houvesse uma explicação
legítima para o dinheiro entregue aos assessores de Mitchell
e Lkldy. Se houvesse e a história acabasse ali, ótimo. Talvez
as coisas fossem ainda piores do que a reportagem sugerira.
Nesse caso...
— São piores — interrompeu Sloan. — Foi por isso que
desisti, porque suspeitei do pior. — Pareceu, de repente,
muito ferido. Não parecia ter nenhum sentimento de
vingança, só mágoa. Balançava a cabeça.
Então, por que não contar o que sabia? Agora. Publicamente.
Para evitar que outros também fossem atingidos. Afinal de
contas, argumentou Bernstein, acabaria ajudando Nixon, já
que o Presidente iria se expor muito se a mistificação se
prolongasse.
Sloan concordou. Gostaria de contar, afirmou. Realmente
gostaria. Mas seus advogados tinham aconselhado o
contrário; qualquer declaração pública poderia ser usada
contra ele em qualquer processo civil decorrente de seu
cargo como tesoureiro da campanha de Nixon.
Bernstein resistiu à tentação de dizer a Sloan que procurasse
um novo advogado; era o que faria se fosse inocente e
estivesse no lugar de Sloan — arranjava outro advogado e
processava o CRP.
Sloan também dera sua palavra à promotoria de que não faria
pronunciamentos públicos até que o caso Watergate fosse
levado a julgamento. Estava assim duplamente
comprometido a permanecer em silêncio.
Sloan tinha certeza de que os promotores estavam do lado
dele?
Ele achava que sim, mas também não tinha mais confiança
em ninguém.
Por que só sete pessoas haviam sido indiciadas?
— Em conseqüência da situação geral.
Bernstein lembrou a informação dada pela contadora de que
os advogados do CRP haviam comparecido a todas as
entrevistas entre o FBI e os funcionários do CRP.
— É verdade — confirmou Sloan.
Haviam eles orientado Sloan sobre o que deveria ter dito
para evitar determinados ângulos?
— Nunca nos disseram "Não fale" com todas as letras. Mas
a mensagem era cristalina. Diziam sempre: "Cerrem fileiras",
"Não deixem o barco afundar".
Isto significava mentir?
Sloan replicou que Bernstein podia tirar suas próprias
conclusões. Todavia, a suposição não era nada impossível.
Quem transmitira a mensagem? Os advogados? Mardian?
LaRue?
Bem, Mardian e LaRue tinham sido escolhidos por John
Mitchell para assessorar a defesa do CRP no caso Watergate.
Deviam, portanto, estar à par das instruções; eles haviam
"fundamentado a defesa".
Seria esta outra forma de dizer "despistar"?
— Decididamente, não era um plano para nos levar a nos
apresentarmos a fim de contarmos a verdade — disse Sloan.
Mitchell tivera conhecimento prévio da operação de
espionagem? E LaRue? E Mardian?
Mitchell tivera conhecimento prévio não só da operação
Watergate como de muitas outras coisas, disse Sloan,
acrescentando que, entretanto, não possuía prova concreta,
nada além do dinheiro, de informações de segunda mão, de
seu conhecimento das personalidades implicadas e do modo
de funcionamento do Comitê. — Mitchell tinha que estar a
par da reserva secreta. Você, simplesmente, não sai por aí
distribuindo dinheiro sem que o chefe da campanha saiba a
que se destina, especialmente se é o pessoal dele que está
recebendo a grana.
LaRué era o ajudante-de-campo de Mitchell, explicou Sloan.
Estava provavelmente implicado em tudo. Quanto a
Mardian, não tinha tanta certeza, pois viera do
Departamento de Justiça para o Comitê a 1.° de maio, depois
da distribuição do dinheiro. Depois de 17 de junho,
entretanto, não havia sombra de dúvida de que Mardian,
como coordenador do Comitê, já tinha aprendido tudo o que
devia aprender. A partir daí, ele e LaRue passaram a dirigir o
espetáculo em conluio com Mitchell.
Inclusive a destruição dos arquivos?
Fazia parte do jogo.
A contadora tinha insinuado que os registros da conta
secreta existente no cofre de Stans haviam sido destruídos
logo após a entrada em vigor da nova lei eleitoral, em 7 de
abril. Sloan, porém, disse que a destruição dos arquivos
tivera lugar em seguida às prisões efetuadas no edifício
Watergate, bem como a de uma porção de outros registros
contábeis, entre os quais seis ou sete livros de diário, com
meia polegada de espessura cada um, onde se encontravam
os lançamentos de todas as doações recebidas antes que a
nova lei entrasse em vigor. Tinham feito uma faxina geral,
depois do arrombamento.
Os dois ainda estavam de pé no vestíbulo. Sloan lançava
olhares para a porta aberta. Bernstein fingia não notar. Sloan
não estava muito à vontade. Ficava repetindo que já fora
mais longe com Bernstein do que desejava, sem ter tido
tempo de ponderar a questão.
Bernstein estava impressionado com os escrúpulos de Sloan.
Ele parecia estar convencido de que o Presidente, a quem
tanto queria ver reeleito, não sabia de nada quanto aos
acontecimentos anteriores a 17 de junho; mas, estava certo
de que Nixon fora mal assessorado pelos assistentes e estava,
desde então, correndo perigo cada vez maior. Sloan
acreditava na integridade dos promotores, homens dedicados
a descobrir a verdade, mas que haviam deparado com
obstáculos que não podiam transpor. Não sabia dizer se o FBI
fora simplesmente inepto, ou posto sob pressão para agir de
modo a impedir uma investigação eficiente. Achava que a
imprensa estava cumprindo o seu dever, mas, devido à falta
de honestidade do Comitê, os jornais estavam chegando a
conclusões injustas quanto a determinadas pessoas. Ele
próprio era o melhor exemplo. Não estava amargurado,
apenas desiludido. Tudo o que desejava agora era cumprir
seu dever legal — testemunhar no julgamento e no processo
civil — e sair de Washington para sempre. Estava
procurando uma colocação na indústria, em posição de
gerência, mas não era fácil. Seu nome aparecera com
freqüência nos jornais. Não voltaria a trabalhar para a Casa
Branca, mesmo que lhe pedissem. Gostaria de ser Bernstein,
gostaria de poder escrever. Talvez, então, pudesse expressar
o que se passava em sua mente. Não necessariamente os
fatos concretos, frios do Watergate — não era isso realmente
o que importava. Mas o que significava para os homens, de
ambos os sexos, virem para Washington por acreditarem em
algo e, de repente, se encontrarem dentro de um vórtice,
verem como a coisa funcionava e assistirem à desintegração
de seus próprios ideais.
Ele e a mulher não haviam perdido a fé naquilo em que
acreditavam antes de se mudarem para Washington. Muitos
de seus amigos na Casa Branca também não, mas os outros
haviam chegado à conclusão de que era possível conservar a
fé que possuíam e, mesmo assim, adaptar-se às
circunstâncias. Afinal, as metas continuavam as mesmas, nao
era? O pessoal da Casa Branca achava-se no direito de
proceder de forma diferente, quebrar normas, porque estava
cumprindo uma missão, e isto era o que importava — a
missão. Era muito fácil perder a perspectiva. Já vira isso
acontecer. Ele e a mulher queriam ir embora de Washington
antes que lhes acontecesse o mesmo.
Bernstein não podia crer que Sloan desabafasse desse modo a
menos que estivesse convencido de que a Casa Branca estava
envolvida na espionagem e na supressão da verdadeira
história.
— Não sei de nada concreto sobre o que aconteceu do outro
lado da rua (na Casa Branca) — disse Sloan. — Mas a julgar
pelos implicados que fazem parte do Comitê, nada me
surpreenderia.
De qualquer modo, a questão era principalmente semântica:
desde o arrombamento, a Casa Branca e o Presidente se
referiam ao CRP como se fosse uma empresa privada,
formada por seguidores de Nixon com o propósito de levá-lo
à reeleição, entregando sua campanha eleitoral a uma firma
de consultoria. Mas o Comitê para a Reeleição do Presidente
era a própria Casa Branca, gerado por ela, equipado por ela, e
somente a ela obediente.
Bernstein indagou se constavam nomes de pessoas ainda
ligadas à Casa Branca naquela única folha de papel usada para
os lançamentos das retiradas da reserva secreta do cofre de
Stans. Sloan se negou a responder. A "equipe de logística"
era formada por Liddy e Porter e não tinha havido retiradas
que pudessem ser comparadas às que os dois tinham feito.
Bernstein pensara, seguindo as indicações da contadora, que
Liddy e Porter haviam recebido, cada um, quantia
consideravelmente superior a USS 50.000, quantia esta que
representava simplesmente o que ela havia eliminado no
jogo de adivinhações.
Sloan confirmou as suspeitas do repórter. O total se
aproximava dos US$ 300.000. A reserva secreta existira por
mais de ano e meio, e representava contribuições em
dinheiro à campanha eleitoral de Nixon. Qualquer dinheiro
que entrasse na sede do Comitê era simplesmente enfiado no
cofre de Stans. Num dado momento, provavelmente houve
uns US$ 700.000 no cofre.
Antes de 17 de junho, acrescentou Sloan, ninguém lhe
dissera qual a finalidade específica da quantia guardada
naquele cofre.
E a "segurança da convenção"? E as "reservas para a
segurança"?
Antes do arrombamento, Sloan não ouvira uma única
palavra a respeito. Depois é que começaram a circular no
Comitê rumores de que as importâncias descontadas por
Liddy, Porter e Magruder se destinavam à segurança da con-
venção, e que Liddy havia desviado sua parte para financiar a
operação de espionagem. Mas, isso, para Sloan, não fazia
sentido. Todas as despesas legítimas com segurança eram
cuidadosamente planejadas no orçamento, pagas em cheque
e lançadas nos relatórios arquivados com o DNC. Se fosse o
propósito das retiradas, Sloan teria sido informado na época
em que haviam sido feitas. Afinal de contas, ele era o
tesoureiro.
Bernstein fez, então, a pergunta óbvia. Mas Sloan recusou-se
a responder quem dera a ordem para que se efetuassem os
pagamentos secretos. Queria mais tempo para analisar a
sugestão de Bernstein de trazer a público o que sabia.
Bernstein lhe disse que o Post lhe permitiria estabelecer as
regras básicas; o que achava de uma entrevista gravada em
fita? Se Sloan quisesse a presença de seu advogado, muito
bem, e Sloan poderia rever a transcrição e eliminar o que seu
advogado achasse aconselhável para não incriminá-lo,
contanto que não causasse distorção dos fatos.
Bernstein queria voltar na companhia de Woodward. Se
conseguissem que Sloan se relaxasse e confiasse neles, havia
uma boa chance de fazer que ele baixasse a guarda. Muito do
que Sloan já dissera era ambíguo e obscuro, mas insinuava
uma conspiração de dimensões muito mais amplas do que
ele se dispunha a discutir no momento.
Sloan pediu a Bernstein que lhe telefonasse no dia seguinte
— dar-lhe-ia, então, uma resposta quanto à entrevista. E se
ela não fosse possível, talvez os três pudessem se reunir em
condições diferentes.
Conversaram com naturalidade por mais alguns minutos,
sobre o bebê — estava para chegar a qualquer momento —,
a campanha, as empresas jornalísticas. Sloan queria saber se
os jornais eram um tanto hipócritas, estabelecendo um
critério para os outros e adotando critério diferente em seu
próprio caso; duvidava de que os repórteres pudessem avaliar
o desespero que uma única frase podia causar. Não estava
pensando em seu caso específico, mas na esposa, nos
parentes — havia sido muito duro para eles.
De volta à redação, Bernstein não deixava de pensar nas
palavras de Sloan naqueles últimos momentos. Woodward e
Bernstein já haviam discutido o problema. Suponhamos que
Magruder e Porter fossem apenas bodes expiatórios; que
alguém no Comitê ou na Casa Branca quisesse que aquela
reportagem saísse para poder atacar o Post? Ou, suponhamos
que Porter e Magruder tivessem sido incriminados para
acobertar outra pessoa?
Bernstein telefonou para um agente do FBI que trabalhava
no caso Watergate. Conhecia o homem muito pouco, e o
agente não pareceu muito feliz ao ouvir sua voz. As
reportagens dominicais sobre a reserva secreta, sobre Bart
Porter e Jeb Magruder haviam causado encrencas no Bureau,
disse ele. L. Patrick Gay III, diretor em exercício do FBI,
havia feito uma chamada pessoal ao chefe da agência em
Washington e dado ordens para que ele se assegurasse de
que o Post não estava conseguindo informações através de
seus agentes.
— Não sei como é que vocês estão agindo, mas
conseguiram acesso aos 302 — o agente disse. — E algumas
pessoas acham que foi por nosso intermédio.
Os formulários 302 do FBI eram os relatórios de entrevistas,
arquivados pelos agentes logo após a tomada dos
depoimentos.
— Agora, ligue para a telefonista, dê seu nome e peça para
falar comigo. Obrigado.
Bernstein sugeriu que ele anunciasse em voz alta que não
podia falar com repórteres e o chamasse de volta. Foi o que
fez.
Bernstein, então, leu para ele algumas de suas anotações:
Robert Odle retirara documentos durante o fim de semana
em que haviam sido feitas as prisões no Watergate,
destruindo-os, talvez. Alguém, não necessariamente Odle,
destruíra memorandos contendo textos de conversas
interceptadas entre dirigentes do Partido Democrático. A
partir de 19 de junho, Robert Mardian e Fred LaRue tinham
se encarregado da defesa do caso, e estavam a par da des-
truição dos arquivos: fazia parte da defesa. LaRue e Mardian
haviam instruído os funcionários do CRP no sentido de
evitarem certos ângulos do caso durante o interrogatório dos
investigadores — em particular no que se referisse a arquivos
que pudessem ter sido eliminados. Mitchell indicara Mardian
e LaRue para se encarregarem da defesa do CRP.
O agente ficou furioso. Só havia um lugar onde podiam ter
colhido essas informações — disse —, os formulários 302.
Era contra a lei Bernstein ter em mãos esses formulários; ou
cópias deles. E se o Post publicasse qualquer reportagem
com base tão evidente nos 302, o agente tentaria citar
Bernstein e Woodward judicialmente para que devolvessem
quaisquer documentos pertencentes ao governo.
Era uma estranha maneira de confirmar os fatos, mas era
nada mais nada menos do que uma confirmação.
Até que medida as alegações eram sólidas? O agente não quis
dizer.
Bernstein sabia que aí estava o problema dos 302. Eram
relatórios crus, sem análise, sem confirmação. Qualquer um
podia dizer o que bem entendesse ao FBI e tudo ia constar
do 302 — fatos, informações deformadas, suspeitas pessoais,
antipatias. Contar com um 302 como único fundamento para
uma reportagem era inconcebível.
A confirmação indireta do agente quanto a Odle, Mardian e
LaRue, e quanto à destruição de arquivos em geral,
significava apenas que o FBI havia recebido o mesmo tipo de
informações primárias fornecidas aos repórteres. Não
bastava.
Bernstein ligou para Sloan, mas este estava muito ocupado e
não poderia recebê-lo, nem mesmo falar ao telefone. Talvez
fosse melhor Bernstein chamá-lo mais tarde.
Enquanto Woodward se dedicava às ligações telefônicas
diárias, o que freqüentemente levava horas, Bernstein
começou a rascunhar uma história. Convencera-se de que
era possível coletar material tangível, com o que se provasse
a existência de um plano organizado para esconder os fatos
por trás do Watergate. Woodward era cético quanto a essa
possibilidade.
E não era o único. Rosenfeld chamara Woodward à sua sala,
poucos dias antes, para dizer que a imaginação de Bernstein
estava sempre um passo adiante dos fatos. Admitia Rosenfeld
que as hipóteses de Bernstein estavam quase sempre certas, e
não queria desencorajá-lo. — Mas você tem que cuidar para
que nada disso saia no jornal, a não ser que haja bases
bastante sólidas — implorou Rosenfeld.
A minuta escrita por Bernstein relatava que os principais
assessores de Mitchell no CRP, Mardian e LaRue, haviam
ordenado uma "faxina completa", durante a qual arquivos
inteiros tinham sido jogados fora; que os membros da equipe
tinham recebido ordens para "cerrar fileiras" na defesa dos
implicados na operação Watergate; e que a "faxina geral"
tivera lugar depois que Mitchell, em pessoa, escolhera
Mardian e LaRue para dirigirem a defesa do Comitê.
A minuta relatava fatos ocorridos no CRP nos dias que se
seguiram às prisões: a destruição em massa de documentos
— os textos das interceptações, a folha contábil da reserva
secreta (inclusive as retiradas de Porter, Magruder e Liddy) e
sete livros-caixa com os nomes das pessoas que haviam
contribuído para a campanha e quantias doadas antes de 7 de
abril. A busca de provas incriminatórias por Mardian e
LaRue começara a 19 de junho; quando o FBI deu início ao
exame dos arquivos do CRP, os registros importantes já não
existiam. Robert Odle passara o fim de semana seguinte ao
arrombamento do Watergate fazendo um levantamento dos
registros do CRP e eliminando pastas. Depois da destruição,
fora ele mesmo o indicado pelo CRP para fornecer ao FBI os
arquivos solicitados pelos investigadores.
Mais ainda: Mardian, LaRue e os advogados do Comitê
tinham advertido determinados funcionários "para que
evitassem certas áreas" quando fossem inquiridos pelo FBI,
pela Promotoria e pelo grande júri. Sloan foi citado
anonimamente: "nunca lhes haviam dito com todas as letras,
"não falem"... diziam sempre "cerrem fileiras" ou "não
deixem o barco afundar"; e ia ainda mais além: outros
funcionários tinham dito que seus superiores haviam
sugerido respostas específicas a determinadas perguntas que
os investigadores fariam. Os interrogatórios do FBI se
processavam sempre na presença do advogado do CRP ou de
Mardian. Muitos empregados com acesso a informações
incriminatórias foram subitamente promovidos nas semanas
que se seguiram às prisões de Watergate. Funcionários do
Comitê foram proibidos de falar à imprensa, sem ordem
expressa, até mesmo para informar o cargo que ocupavam.
Uma secretária dissera ter sido seguida enquanto almoçava
com um repórter, e mais tarde interrogada sobre o que
haviam conversado.
Depois de terminar, Bernstein telefonou a Sloan e leu para
ele o rascunho completo. Sloan confirmou, na prática, todo
o teor da história.
Bernstein acrescentou alguns detalhes, incluindo um relato
do discurso que Liddy fizera aos colegas sobre o "lobo em
pele de cordeiro", na segunda-feira posterior ao
arrombamento.
Woodward e Bernstein levaram a minuta a Rosenfeld. Com
quarenta e quatro anos de idade, Rosenfeld já fora editor
internacional do New York Herald Tribune e do
Washington Post. Ás vezes impetuoso e temperamental, é
extremamente hábil para captar falhas nas reportagens de
seus comandados. Desde a semana da invasão no Watergate,
Rosenfeld fora o artista exigente que persuadira Bradlee e os
outros editores mais graduados (depois de convencido
pessoalmente) de que os repórteres não haviam deixado
escapar nada em suas histórias. Desde o dia, no ano de 1970,
em que deixara a seção internacional para se tornar editor
metropolitano, seu objetivo era elevar o nível da equipe do
noticiário local, tirando-a de sua posição secundária no Post.
Agarrando-se ao potencial jornalístico de Watergate, lutara
para que o caso permanecesse sob a responsabilidade da
equipe metropolitana, e ganhara a batalha — resistindo aos
ataques dos editores do setor nacional que queriam se
apoderar da matéria.
Rosenfeld dirige a equipe metropolitana do Post, a mais
numerosa de todas, como um treinador profissional. Incita
seus jogadores, fazendo-os sentir que espera bons resultados;
implorando, gritando, lisonjeando, andando para lá e para cá,
refletindo na expressão do rosto o sentimento mais
conveniente no momento — raiva, prazer, preocupação.
Nascido em Berlim, na época anterior ao nazismo, veio para
Nova Iorque aos dez anos. Fez grande esforço para se
libertar da língua alemã e hoje fala inglês sem o mais leve
sotaque. Entrou para o Herald Tribune depois de diplomar-se
pela Universidade de Siracusa e sempre foi redator, nunca
repórter. Preocupava-se por achar que os repórteres da
equipe metropolitana eram na maioria uns incompetentes, e
pensava que mesmo os melhores só podiam ser salvos da
autodestruição graças à habilidade de um editor. Sua
desconfiança inata agravou-se ainda mais no caso do
Watergate, cujos riscos eram tremendos e no qual ele se
achava na difícil situação de ter que confiar em Bernstein e
Woodward, mais do que até então confiara em qualquer
repórter. Sabendo que grande parte da história estava fora de
seu controle, tentou exercer ao máximo o que lhe restava:
enquanto os repórteres batiam à máquina, ficava dando vol-
tas ao redor deles; fazia perguntas quando estavam ao
telefone falando com seus informantes, exigia que lhe
contassem tudo depois que desligavam ou voltavam de uma
entrevista. Agora, enquanto engolia comprimidos antiácidos,
Rosenfeld submetia Bernstein e Woodward a uma
verdadeira inquisição, afim de descobrir se era realmente
sólida esta última reportagem. A conversa entre Bernstein e
o agente do FBI deixou-o bem mais tranqüilo. Pelo menos, o
FBI tinha, preto no branco, as mesmas alegações. Rosenfeld
sempre se sentia melhor ao saber que em algum lugar, por
mais inacessível que fosse, havia um pedaço de papel
corroborando a veracidade de uma reportagem.
A história era perigosa. A bem da verdade, o Post estava
lançando suas próprias acusações — não apenas contra os
dirigentes da campanha, mas também contra as investigações
do FBI e do grande júri. E quanto a certos aspectos, as
imputações do Post eram bem mais graves do que as
acusações formais de quatro dias atrás.
Dando o interrogatório por encerrado, Rosenfeld aprovou a
história. Bernstein telefonou ao CRP para os comentários de
praxe. A observação "encaixar desmentido" foi inserida entre
os parágrafos dois e três — logo depois da caracterização de
Mardian e LaRue como "faxineiros-mor".
A sala de imprensa do Comitê deixou passar uma hora e meia
antes de voltar com a resposta. Os repórteres estavam
convencidos de que haveria, pelo menos, uma declaração no
sentido de que Mardian e LaRue tinham sido modelos de
probidade em seus esforços para reeleger o Presidente.
Bernstein alimentava um saudável receio de Mardian, por ter
durante vários anos feito a cobertura jornalística da Nova
Esquerda, de movimentos pró-paz, manifestações, tumultos,
anormais, o flower-power, viciados, loucos, radicais antigos
e recentes, no tempo em que Mardian era chefe da Divisão
de Segurança Interna do Departamento de Justiça.
A Divisão era encarregada da interceptação de mensagens
telefônicas. E Mardian havia supervisionado infrutíferas
acusações em muitos dos célebres julgamentos "políticos", ou
de conspirações na Administração, nos quais réus e
advogados tinham sido submetidos à vigilância clandestina,
eletrônica ou não.
Finalmente, Van Shumway telefonou para dar a resposta do
CRP. — As fontes do Washington Post são na verdade
fontes de desinformação — declarou.
Bernstein esperou. Mas era só.
Já que as implicações da história contrariavam frontalmente
o teor dos despachos nas acusações formais, Bernstein e
Woodward esperavam receber um bocado de atenção. Mas,
na sua maior parte, os principais meios de divulgação do país
as ignoraram ou concentraram sua atenção nos desmentidos
de Mardian, que se recusava a falar ao Post.
O Los Angeles Times estampou a afirmação de Mardian de
que a reportagem do Post era "a maior cascata que já vi em
toda a minha vida". O Washington Star-News dedicou três
parágrafos finais de uma reportagem sobre o Watergate à
declaração de Mardian no sentido de que a história do Post
era "uma mentira". Mardian negava que ele ou qualquer
outro funcionário do CRP tivesse executado uma "faxina
geral" para destruir documentos.
Perante um auditório em New Hampshire, Clark MacGregor
considerou "importante que a imprensa não discutisse o caso
(Watergate) com tantos detalhes, para não influenciar o
julgamento.
No programa de televisão "Trinta minutos com...", Elizabeth
Drew, correspondente do Atlantic em Washington,
interrogou Richard Kleindienst sobre a reportagem do Post.
O Procurador Geral respondeu que nada sabia sobre a
destruição de arquivos; não conhecia nenhum motivo por
que alguém no CRP pudesse estar interessado em rasgar
documentos; se Mardian e LaRue haviam eliminado
registros, declarou ele, teria de fato ocorrido obstrução da
justiça.
CAPÍTULO 5
Bernstein e Woodward achavam que as pistas começavam a
apontar inexoravelmente na direção de John Mitchell, ex-
Procurador Geral dos Estados Unidos. Desde a sua primeira
declaração protestando a inocência do CRP, em 18 de junho,
Mitchell vinha sendo o alvo quase constante das indagações
dos repórteres, e eles sab,iam agora que a opinião
predominante no Comitê era a de que Mitchell estava
implicado.
Depois de se demitir do cargo de diretor da campanha
eleitoral de Nixon, Mitchell continuara a assessorar
diretamente as atividades da campanha. Um funcionário do
Comitê contara aos repórteres que Mitchell ajudava a redigir
os desmentidos que não desmentiam, divulgados em
resposta às reportagens. Mitchell fora interrogado pelo
grande júri.
Além disso, havia sua esposa a considerar. Desde 22 de
junho, quando ela telefonara a Helen Thomas da United
Press International (UPI) para dizer que "não agüentava mais
aquele negócio" e ameaçara abandonar o marido, as
declarações de Martha Mitchell se haviam transformado
num aspecto bizarro do caso Watergate. Três dias depois do
primeiro telefonema, ela fizera nova chamada, desta vez para
declarar que se sentia como uma prisioneira política: "Não
vou tolerar todas essas sujeiras que estão acontecendo. Se
você me visse, nem acreditaria... estou cheia de manchas
roxas".
Os Mitchell tinham voltado para Nova Iorque e estavam
hospedados no Essex House, Central Park. No dia 21 de
setembro, Woodward pegou o último vôo noturno para
aquela cidade, esperando encontrar Martha Mitchell em casa
na manhã seguinte, depois que o marido saísse para o
trabalho no escritório de advocacia de Mudge, Rose, Guthrie
& Alexander, do qual ele e Richard Nixon haviam sido
sócios.
Às nove da manhã, Woodward perguntou ao recepcionista o
número do quarto de J.N. Mitchell. Não havia ninguém
registrado com esse nome.
Foi até um telefone público e ligou para o Essex House. —
Me dá depressa o número do quarto dos Mitchell — disse.
— Quarto 710 — respondeu a telefonista, e ligou o ramal.
Uma voz de homem atendeu. Perguntou quem estava
falando e Woodward identificou-se como repórter do Post.
— A Sra. Mitchell não pode atender — disse o homem e
desligou.
Minutos depois, Woodward tomava o elevador para o sétimo
andar e seguia pelo corredor até o 710, a Suite Marriott,
segundo informava uma placa de metal na porta branca.
Bateu a uma porta no fim do corredor. Ninguém atendeu,
exatamente como esperava. Mas estava disposto a ficar
plantado lá o dia inteiro, se necessário, como se esperasse
que alguém viesse abrir.
Conversara uma vez com a Sra. Mitchell em 1971, quando
ela o havia chamado depois de ler uma reportagem dele
sobre a quantidade de fumaça que se desprendia das
chaminés de uma grande usina, poluindo o aristocrático ar
das imediações do Watergate. Verificando os arquivos
municipais, Woodward descobriu que entre as queixas
apresentadas contra a usina constava uma de Martha
Mitchell, residente no edifício Watergate. Tentara entrar em
contato com ela antes de escrever a reportagem, para
perguntar se ela sabia que aquela detestável fumaça provinha
das monstruosas máquinas que forneciam energia elétrica à
Casa Branca e ao Departamento de Justiça. Mas não consegui
encontrá-la. A Sra. Mitchell telefonou-lhe na manhã em que
saiu a reportagem. Woodward achou-a muito cheia de
espírito.
Meu bem — disse ela — não importa que John ou o Sr.
Presidente tenham de trabalhar à luz de velas. Ela havia
aprendido o suficiente em Pine Bluff, Arkansas, para saber
que seres humanos não deviam ser obrigados a suportar
diretamente os detritos de ninguém.
Isto se passara quase um ano antes. Em Washington, a Sra.
Mitchell criara a fama de dizer sempre a verdade, embora
fosse às vezes um pouco severa. Agora, pensou Woodward,
Martha Mitchell personificava o coro grego do drama de
Watergate — soando o alarma para quem quisesse ouvir.
Woodward já estava esperando há uns vinte minutos quando
o guarda de segurança dos Mitchell, um negro enorme, saiu
da suíte e desceu no elevador. Woodward foi até o telefone
do saguão do hotel e chamou o quarto 710. Martha Mitchell
atendeu. Sua voz soava jovial e feliz por ter com quem
conversar. Falaram de Washington, da política, das eleições
próximas, de Manhattan... A telefonista interrompeu para
informar que precisava depositar mais cinco cents se
quisesse continuar falando.
— Não quero que Katie Graham gaste nem mais um
níquel comigo — declarou Martha Mitchell.
Woodward colocou uma moeda de 25 cents no telefone.
Martha, no entanto, dava mostras de estar começando a ficar
nervosa, e disse que precisava desligar. Woodward tomou o
elevador de volta para o sétimo andar.
Depois de alguns minutos, algumas camareiras do hotel
bateram à porta da suíte 710. Martha Mitchell deixou-as
entrar. Woodward correu até lá e também bateu. Martha
Mitchell, provavelmente pensando que era outra camareira,
veio atender. Usava uma blusa estampada, calça azul e
sandália branca.
— Que vergonha — disse ela. — Você me pegou com o
rosto todo lambuzado de creme.
Durante um bate-papo de quinze minutos, tendo o ronco
dos aspiradores de pó como fundo musical, a Sra. Mitchell
disse que pretendia escrever um livro contando suas
experiências em Washington e que se sentia muito mais feliz
por ter "transformado minha família numa comunidade
apolítica". O assunto Watergate deixava-a visivelmente
agitada. Cada vez que Woodward levantava o problema, ela
se limitava a dizer "Não sei", "Não me diga!" ou "Isto eu vou
contar no meu livro". E então começou a mostrar sinais de
inquietação. Não quis voltar aos seus pronunciamentos
anteriores — feitos por telefone a repórteres, no meio da
noite — sobre "as sujeiras da política" e essa "história de
guardas-e-ladrões".
Estava, no entanto, disposta a falar das eleições que se
aproximavam. Predisse que o Presidente Nixon ganharia
"pela maior margem de votos na história deste país...
recebendo 99,9% da votação".
— Acho que não devia haver eleições. No meu entender, o
Presidente devia cumprir um mandato de sete anos e depois,
bum!, fora. Depois de dois anos no cargo eles se candidatam
de novo. E não estou fazendo distinção de partidos.
Woodward escreveu uma pequena reportagem para a seção
de "Elegância" do Post. Fora uma viagem perdida.
A filha de Sloan, Melissa Madison Sloan, nasceu no dia 25 de
setembro, no Hospital Georgetown de Washington.
Bernstein falou com Sloan, pelo telefone, no dia seguinte.
Parecia despreocupado, com a mente desligada dos
problemas do Watergate e do CRP. Há dias Bernstein vinha
tentando encontrar-se novamente com Sloan. Mas na
manhã seguinte ao nascimento da filha, a simples menção de
Watergate parecia um pecado. Conversaram um pouco sobre
o bebê, a mãe — compreensivelmente elevada, segundo
Sloan — e os avós, que chegariam na próxima semana.
Talvez Sloan pudesse conceder alguns minutos aos
repórteres, sugeriu Bernstein. Sloan disse que ia ver, e pediu
que Bernstein tornasse a chamá-lo dentro de alguns dias.
Naquela tarde Bernstein travou uma luta íntima; depois ligou
para uma florista e enviou flores ao Hospital Georgetown.
Tinha receio de que seu gesto fosse mal interpretado. Não se
podia negar que havia um pouco de interesse em seus
motivos, mas tinha também uma simpatia muito grande
pelos Sloan, principalmente pela Sra. Sloan. Ficou torcendo
para que as flores não chegassem numa hora em que
Maurice Stans ou um de seus amigos da Casa Branca se
encontrassem no hospital.
Dois dias mais tarde, Bernstein telefonou para Sloan. Talvez
tivesse um tempinho livre amanhã de manhã, mas não sabia
como poderia ser útil aos repórteres... Bem, se estavam de
posse de alguma informação que ele pudese confirmar, ou
aconselhar a deixarem de lado, então tudo bem. Não estaria
cometendo quebra de sigilo. Poderiam confirmar com ele
amanhã bem cedo?
Bernstein telefonou antes das oito.
Sloan disse que precisava limpar a casa antes da chegada dos
sogros, mas se desse para os repórteres virem bem depressa a
McLean, poderiam passar alguns minutos juntos.
Sloan estava de roupa esporte, e, se não fosse a vassoura na
mão, pareceria ainda o estudante de Princeton que fora um
dia.
Trocou um aperto de mão com Woodward, que
imediatamente se ofereceu para ajudar na faxina. Sloan
recusou o oferecimento e em troca ofereceu café. Um cartão
de Natal emoldurado, mostrando o Presidente e a Sra. Nixon
na intimidade da Casa Branca, estava pendurado perto da
porta da cozinha. Havia uma mensagem manuscrita do
Chefe e da Primeira Dama.
Havia mais souvernirs na sala de estar: outro cartão de Natal,
caixinhas de fósforos com o Selo Presidencial (Bernstein
acendeu um cigarro e embolsou uma caixinha), lembranças
da campanha de 1968.
Sloan sentou-se numa poltrona estofada de encosto alto,
batendo de leve com a colherinha na xícara de café
enquanto falava, tomando um gole de vez em quando, o
rosto sério. Era tímido.
Falaram do escritório de Maurice Stans — quem trabalhava
lá, a hierarquia de autoridade. Sloan era totalmente dedicado
a Stans. Ninguém que conhecesse realmente o Secretário,
poderia crer que fosse capaz de deliberadamente tomar parte
em espionagem política, afirmou. Stans estava angustiado.
Permitira que a imprensa o difamasse para proteger os
políticos. Jamais soubera a que se destinava o dinheiro
retirado por Liddy, Porter e Magruder.
Quer dizer que Stans sabia dos desembolsos com
antecedência?
Sloan hesitou. Estava tentando defender Stans, e no entanto
acabava de implicá-lo ainda mais.
A contadora se negara a dizer se Stans sabia das retiradas, na
ocasião em que as mesmas foram efetuadas. Bernstein tentou
representar o advogado do diabo, sugerindo que Stans teria
sido negligente se não exigisse informações sobre saques de
dinheiro de seu próprio cofre. Sloan concordou. Depois
disse que Stans aprovara as retiradas antes que Liddy, Porter
e Magruder fossem autorizados a sacar da reserva. Mas que
não havia dado sua autorização antes de os diretores
políticos da campanha confirmarem que, de fato, queriam o
dinheiro.
Quem eram esses diretores políticos?
Sloan não pareceu gostar da pergunta. Bastava saber que
Stans não agira por vonta própria, disse ele.
Woodward aproveitou a brecha. Em outras palavras, um
grupo de pessoas do setor político da campanha é que dava a
palavra final para a aprovação de desembolsos da reserva
secreta?
É isso aí — confirmou Sloan, mas não quis aprofundar a
questão.
Se conseguirmos esses nomes o assunto estará encerrado,
pensou Bernstein.
Sloan estava mais interessado em conversar sobre a história
de Mardian-LaRue e a faxina geral no CRP. Mostrou-se
interessado em saber como os repórteres conseguiam suas
informações. Batiam certo com suas próprias deduções, mas
achava incrível que uma pessoa em posição de conhecer os
fatos em primeira mão falasse tão abertamente.
No estômago de Bernstein começou uma lenta dança de
pânico. Tivera a impressão de que Sloan confirmaria a
história toda tendo por base "seu conhecimento pessoal dos
fatos, não deduções. Era verdade que outras fontes haviam
confirmado os fundamentos da história, mas em grande
parte esta se alicerçava principalmente nas afirmações de
Sloan, e agora, eis que ele parecia prestes a dar meia-volta
em sua posição. Analisaram novamente o texto da
reportagem, lamentando não a terem à mão. Na medida em
que procediam à análise, ponto por ponto, Woodward e
Bernstein iam se sentindo menos tensos. Muito pouco, ou
talvez nada do que dissera Sloan era dedução. Sloan não es-
tava muito certo de poder caracterizar todos os fatos
referidos pela reportagem como provas de uma "faxina
geral", mas isso ficava por conta dos repórteres. Não sabia
quase nada de Odle; isto, entretanto, era de somenos
importância, já que aquela informação partira de outra fonte.
Nada na história discordava do que lhe parecia ser verdade
— declarou finalmente Sloan.
A discussão se mantinha sempre no limiar da reserva secreta.
Quais as probabilidades de que esse dinheiro tivesse sido
destinado a atividades legais? Para projetos rotineiros de
coleta de informações, operações inocentes como a gravação
de discursos da oposição e a guarda de recortes de jornais? A
quase todas as perguntas referentes à reserva secreta, Sloan
respondia que as circunstâncias o haviam forçado a "pensar o
pior", e depois perguntava aos repórteres qual a opinião
deles. Sloan já trabalhara na Casa Branca, no CRP, participara
de campanhas anteriores, mas talvez os repórteres
soubessem de fatos que fizessem mudar seu modo de pensar.
Não sabiam. O lado político do Comitê, especialmente John
N. Mitchell, atraía seus pensamentos. Bernstein lembrou a
Sloan sua afirmação de que Mitchell certamente tivera
conhecimento dos desembolsos da "caixinha". Era Mitchell
uma das""pessoas autorizadas" a aprovar retiradas, a que
Sloan se referira há pouco?
— Evidentemente — respondeu Sloan. — Havia cinco
homens com autoridade sobre a reserva secreta, e Mitchell
era um deles. Stans era outro.
Tivera Mitchell conhecimento dos saques destinados a
Magruder, Porter e Liddy?
Sloan confirmou com um movimento de cabeça. Mas o fato
não constituía prova de que Mitchell estivesse implicado no
caso da espionagem no Watergate. Havia uma remota
possibilidade de que os três tivessem resolvido agir por conta
própria e usar o dinheiro em projetos clandestinos, mas
Sloan duvidava. Estava sendo cauteloso.
Como é que a coisa funcionava? Como havia Mitchell
exercido sua autoridade sobre a "caixinha"? Havia recibos?
Tudo era feito sem formalidade, e no contexto de uma
campanha com mais de 50 milhões de dólares de orçamento,
aquelas retiradas pareciam insignificantes, na ocasião.
Quando fora procurado pela primeira vez para retirar
dinheiro daquela conta, Sloan simplesmente pegara o
telefone e chamara Mitchell no Departamento de Justiça.
Tudo se resolveu em alguns segundos. Mitchell lhe dizia para
entregar o dinheiro. Tinha havido uma série de telefonemas
desses a partir de 1971.
Os repórteres evitaram trocar olhares. Enquanto ocupava o
cargo de Procurador Geral dos Estados Unidos, John
Mitchell autorizava o emprego de tunaos da campanha em
atividades aparentemente ilegais contra a oposição política.
Os repórteres queriam ter certeza de que haviam escutado
direito.
Haviam, sim. Não apenas Mitchell era um dos cinco homens
com poder para manejar a reserva secreta, como também
havia exercido tal poder abertamente. Na verdade, era o
único, a princípio, a autorizar retiradas. Com o passar do
tempo, esta autoridade fora delegada a outros, entre os quais
se encontrava Magruder, explicou Sloan.
O relato da contadora sobre a "caixinha" começava a fazer
sentido. Dissera ela que mais ou menos seis pessoas estavam
implicadas. Mas só sabia de três — Porter, Liddy e Magruder
— que haviam recebido dinheiro. As outras, dissera ela,
apenas recebiam telefonemas. Tudo começava a se encaixar.
Os outros nomes eram os daqueles que autorizavam os
pagamentos. Sloan entrava em contato com eles antes de
efetuar o desembolso. Inicialmente, Magruder recebia
dinheiro da reserva secreta por autorização de Mitchell. Mais
tarde, ele próprio havia adquirido poder para autorizar
pagamentos a outros.
Mitchell, Stans e Magruder — ainda ficavam faltando dois
com poderes para efetuar pagamentos, segundo as contas de
Sloan. Também faziam parte do setor político da campanha?
Não, nenhum dos dois restantes trabalhava no comitê para a
reeleição, disse Sloan, mas não quis falar mais nada.
Mesmo deixando de lado a questão dos nomes, os repórteres
não conseguiam entender a razão da existência da "caixinha".
Quem mais poderia ter recebido dinheiro do cofre de Stans?
Esses teriam forçosamente conhecimento da espionagem
política?
Sloan não tinha motivos para crer que outros recebedores
estivessem implicados, ou que o dinheiro recebido se
destinasse a financiar atos ilegais ou clandestinos. Apenas
Porter, Liddy e Magruder haviam recebido quantias vultosas.
Não havia termo de comparação com os outros pagamentos.
Como podia Sloan estar tão seguro de que as importâncias
retiradas por esses três teriam sido usadas para fins ilegais ou
escusos, de que o restante do dinheiro era utilizado
honestamente?
Também quanto a isto, Sloan admitiu que pensava o pior. E
não por simples intuição. Ouvira um bocado; testemunhara
outro tanto.
Woodward, que não participara dos outros encontros com
Sloan anteriormente, ficou impressionado com seu
escrúpulo e sua relutância em mencionar nomes de pessoas
que, no seu entender, poderiam não ter agido mal. As
credenciais de Sloan como informante eram impecáveis.
Devotara-se totalmente à reeleição de Nixon e parecia
convencido de que o Presidente ignorava as transgressões
cometidas por sua equipe eleitoral.
E parecia entender como tinham sido cometidas. Excesso de
zelo, de eficiência, desejo de não deixar fugir possibilidade
nenhuma no esforço de reeleger o Presidente — havia
presenciado tudo isso na Casa Branca. O ar que se respirava a
serviço do Presidente era rarefeito. E Sloan achava que a
Casa Branca podia estar implicada na instalação clandestina
de microfones.
Os outros dois autorizados a aprovar pagamentos eram
membros do staff da Casa Branca?
Só um deles, o outro não era funcionário nem do Comitê, -
nem da Administração; nem sequer residia em Washington.
Os repórteres insinuaram que, neste caso, só três elementos
da Casa Branca lhes pareciam prováveis: H.R. Haldeman,
Charles Colson e John Ehrlichman. Apostavam em Colson.
Sloan sacudiu a cabeça. Não era esse o método de Colson.
Chuck [Colson] era esperto demais, cuidadoso demais para se
expor ao perigo dessa maneira. Se tivesse sido Colson, ele
teria usado um intermediário. Não fora este o caso.
A única razão pela qual os repórteres tinham mencionado o
nome de John Ehrlichman era sua elevada posição na Casa
Branca. Se Stans e Mitchell tinham que ser consultados com
antecedência quanto a desembolsos do dinheiro, alguém na
Casa Branca, no mesmo nível, também deveria estar
envolvido. Ehrlichman, ao que sabiam, não desempenhava
papel preponderante na campanha. Haldeman, por ser
supervisor do CRP, e por sua reputação, parecia a escolha
mais lógica.
Haldeman, pouco conhecido dos repórteres, exceto pela sua
reputação de controlar autocraticamente o staff da Casa
Branca, era quem via e ouvia tudo para o Presidente, no
desenrolar da campanha, afirmou Sloan. Por intermédio de
seu assistente político, Gordon Strachan, Haldeman
mantinha-se informado de todas as decisões tomadas no
CRP. Magruder era o homem de Haldeman no Comitê, onde
fora colocado para garantir que John Mitchell não dirigisse o
Comitê sem o devido controle por parte da Casa Branca.
Ainda assim, Sloan não afirmava nem negava. Mas nada fez
para desviar de Haldeman a atenção dos repórteres, como
fizera com Colson. Estavam quase convencidos de que era
Haldeman.
Isso deixava só mais um nome — alguém que não trabalhava
nem na Casa Branca nem no CRP.
- Murray Chotiner?
- Não — disse Sloan.
Bernstein sugeriu um nome que Woodward nunca tinha
ouvido: Herbert Kalmbach, advogado particular de Richard
Nixon. Não passava de mera conjetura. Sloan não escondeu
sua surpresa.
Bernstein lembrava-se de haver lido uma notícia no New
York Times em fevereiro último, que se referia a Kalmbach
como "o advogado pessoal de Nixon na costa oeste", e dizia
que clientes em perspectiva, com negócios a tratar com o
governo, não conseguiam falar com ele por menos de USS
10.000. Relatava que sua clientela aumentava incrivelmente,
e que só perdia para Maurice Stans, na equipe nacional de
levantamento de fundos para a campanha presidencial.
Haldeman era secretário da Fundação Nixon, que estava
fazendo o projeto da Biblioteca Nixon. A notícia dizia ainda
que Kalmbach freqüentemente tomava parte em projetos
particulares para o Presidente e para a Casa Branca.
Sloan disse que não queria participar de um jogo de
adivinhações. E os repórteres não sabiam dizer se isso se
devia ao fato da escolha de Haldeman ser boa ou ridícula.
Mas isso podia esperar. O importante agora era Haldeman —
isto é, se Haldeman fosse o homem.
Os repórteres já estavam na terceira xícara de café. Sloan
olhava para o relógio e,lembrava que ainda tinha de limpar a
casa. A conversa tinha mais de duas horas. Não seria sensato
prolongar demais a visita tornando-se indesejáveis. Tentaram
Haldeman mais uma vez.
Se não era Haldeman, por que não dizer logo?
— Simplesmente não quero tocar nesse assunto — disse
Sloan, sem, no entanto, sugerir coisa alguma que abalasse a
crença dos repórteres de que estavam na pista certa.
Depois de mais alguns minutos de bate-papo sobre a
campanha, os três se dirigiram para a porta.
— Um dia destes você acaba sendo Presidente —
Woodward disse a Sloan.
Bernstein ficou surpreso pois a declaração não parecia ter
sido feita sem algum propósito. Woodward tencionara fazer
um elogio — mas havia um toque de respeito no modo
como falara. E mais — a esperança de que Sloan passasse
incólume pela crise.
Já passava do meio-dia quando chegaram à redação.
Woodward fez uma rápida ligação à sua fonte que trabalhava
na investigação federal. A essa altura, os repórteres entravam
regularmente em contato com uma meia dúzia de pessoas no
Departamento de Justiça e no FBI, pessoas que às vezes
confirmavam informações obtidas de outras fontes.
Raramente iam, além disso, às vezes nem ousavam mesmo
confirmar uma informação.
Woodward estava de sorte. Sloan contara toda a história da
"caixinha" aos investigadores; a contadora, idem. Mitchell,
Stans, Magruder. Correto. O informante negou-se a dizer os
nomes das duas outras pessoas que controlavam a reserva.
Era certo que o dinheiro se destinava à espionagem contra os
democratas; se fora usado para financiar a operação
Watergate, ainda não estava preto no branco, dependia da
sua confiança nas diversas versões correntes. Os detalhes da
operação da reserva conferiam com as descrições fornecidas
por Sloan e pela contadora.
Haldeman?
O informante não quis dizer.
Poucos minutos depois estavam reunidos com Bradlee,
Simons, Rosenfeld e Sussman, na sala de Bradlee, um
confortável aposento atapetado, com uma parede de vidro
dando para a sala de reportagens, uma moderna mesa oval de
pau-rosa em vez de escrivaninha e um sofá de couro preto.
Durante as palestras em sua sala, era comum Bradlee pegar
uma miniatura de bola de basquete, e da mesa fazer
arremessos contra um arco preso à parede de vidro por
ventosas de borracha. O gesto tanto podia indicar a pouca
atenção do editor, quanto a sua deliberada falta de
formalidade. Havia uma fascinante combinação de
aristocracia e de plebeu na personalidade de Bradlee: Boston
Brahmin, Harvard, a Marinha da II Guerra, adido de
imprensa da Embaixada americana em Paris, repórter
policial, repórter político de revistas e chefe do bureau do
Newsweek em Washington.
Simons, tão comedido quanto Bradlee era explosivo, gostava
de contar que viu Bradlee amassar a ponta do cigarro dentro
de uma xícara de café durante um jantar de gala. Bradlee era
dessas raras pessoas que podiam cometer um deslize social
dessa espécie e, ainda assim, depois de despedir-se, deixar
sua anfitriã comentando que era um homem encantador.
Consciente de sua personalidade, Bradlee chegava a cultivá-
la. Gostava dei exibir sua experiência de rua. Aconselhava o
repórter a levantar a bunda da cadeira e falar com policiais de
verdade, em vez de procurar tenentes e capitães, atrás de
escrivaninhas. No momento seguinte formalizava-se para
receber alguma ilustre figura do Le Monde ou do L'Express,
falando um francês impecável e culto.
Bradlee ouvia atentamente enquanto Woodward enumerava
os detalhes obtidos a respeito da reserva secreta, o controle
exercido por Mitchell e Stans, e a probabilidade de
Haldeman ser um dos que possuíam autoridade para a
movimentação do dinheiro. Bradlee concentrou-se em
Mitchell e no contexto dentro do qual Sloan descrevera a
ligação de Mitchell com a "caixinha".
Bernstein e Woodward achavam que estavam prestes a
descobrir os nomes de todas as cinco pessoas que
controlavam a reserva secreta e, quem sabe, mais alguma
coisa sobre cada transação. Depois, planejavam escrever o
que seria um relato final — quem controlava o dinheiro e de
que modo, precisamente, se relacionava com o caso
Watergate.
Começaram a explicar o plano a Bradlee e notaram que ele
estava rabiscando numa folha de papel — sinal de que estava
ficando impaciente. Interrompeu, com um gesto da mão, e
foi direto ao ponto.
— Ouçam, vocês dois; têm certeza quanto a Mitchell? —
Pausa. — Certeza absoluta? — Fitou cada um dos repórteres,
enquanto estes assentiam. — Estão em condições de
escrever a história, agora?
Hesitaram, depois disseram que sim. Os repórteres
compreendiam a filosofia de Bradlee: um jornal diário não
pode esperar pelo relato final dos acontecimentos.
Bradlee ficou de pé. — Bem, então, mãos à obra.
E — presumiu em voz alta — os repórteres conheciam as
implicações de uma história dessas, sabiam que John
Mitchell não era um joão-ninguém com quem se podia
brincar, que agora o jogo era pra valer? Bradlee não os inter-
rogava. Falava como quem estava prestando um juramento.
Ambos menearam as cabeças, conscientes de que estavam a
ponto de dar um passo muito importante, mais sério do que
qualquer outro até aquela ocasião.
— A história é boa, a história é boa — disse Simons,
repetindo um clichê do jargão da redação, e todos riram.
— Podem ir — disse Bradlee, mandando todo mundo
embora de sua sala.
Bernstein ficou com pena da reunião ter acabado. O editor
havia arregaçado a manga esquerda e Bernstein vislumbrara a
tatuagem de um galo em seu braço. Bernstein esqueceu-se
momentaneamente do Watergate. Bradlee, por quem
tinham um sentimento doentio e desequilibrado de respeito,
temor, raiva e autocomiseração (Bradlee não o compreendia,
havia chegado a tal conclusão há muito tempo), estava
sempre causando supresas a Bernstein. Gostaria de ter visto
melhor aquela tatuagem.
Surpreendentemente, levaram pouco tempo escrevendo a
história, que viajou da máquina de Bernstein para a de
Woodward, depois para Rosenfeld e Sussman e finalmente
para Bradlee e Simons. Apenas pequenas alterações. Às seis
da tarde estava na sala de composição.
John N. Mitchell, enquanto ocupava o cargo de Procurador
Geral dos Estados Unidos, controlava pessoalmente uma
reserva secreta republicana, utilizada para coletar
informações sobre os democratas, segundo fontes ligadas à
investigação do caso Watergate.
A partir da primavera de 1971, quase um ano antes de
demitir-se de seu cargo no Departamento de Justiça, para
tornar-se diretor da campanha eleitoral do Presidente Nixon,
a 1.° de março, Mitchell dava sua aprovação pessoal às
retiradas dessa reserva, informaram várias fontes fidedignas
ao Washington Post.
Além de Mitchell, outras quatro pessoas foram,
posteriormente, autorizadas a aprovar pagamentos sacados
dessa mesma reserva, informaram as fontes.
Duas dessas pessoas foram identificadas como sendo o ex-
Secretário de Comércio, Maurice H. Stans, atual diretor
financeiro da campanha do Presidente, e Jeb Stuart
Magruder, gerente da campanha de Nixon até Mitchell
assumir este cargo, e atual vice-diretor. As outras duas,
segundo as fontes, são um alto funcionário da Casa Branca
atualmente trabalhando na campanha, e um assessor que não
reside em Washington.
A reportagem seguia, descrevendo o funcionamento da
"caixinha": os telefonemas de Sloan para Mitchell, as
retiradas de Liddy, Portere Magruder, e a conclusão do DNC
de que até a própria existência da reserva constituía uma
irregularidade, já que não havia lançamentos. A investigação
do caso Watergate, pelo grande júri, "não chegou a
determinar se a reserva secreta para coleta de informações
havia financiado diretamente a interceptação clandestina",
dizia o artigo. "De acordo com fontes do Post, o principal
propósito da reserva era financiar operações de coleta de
informações contra os democratas."
Bernstein telefonou ao CRP para os desmentidos de praxe e
falou com Powell Moore. Meia hora mais tarde, Moore
voltou com a resposta do Comitê: — Acho que suas fontes
não são boas; estão fornecendo informações falsas. É o único
comentário que temos a fazer. — Não conseguiram levá-lo a
discutir pontos específicos.
Naquela noite, Bernstein permaneceu na redação do Post
para investigar a ligação de Haldeman e ler os recortes sobre
Herbert Kalmbach. Mais ou menos às 23 horas recebeu
novo telefonema de Moore, que havia entrado em contato
com Mitchell e tinha outro pronunciamento a fazer.
"Não há absolutamente verdade alguma nas acusações do
Post. Nem o Sr Mitchell nem o Sr. Stans tinham qualquer
conhecimento de qualquer retirada de uma suposta reserva
secreta descrita pelo mencionado jornal e nenhum desses
dois senhores jamais controlou qualquer dispêndio do
Comitê enquanto serviam no Governo."
Bernstein estudou a declaração e sublinhou os pontos falhos.
As acusações do Post. Que acusações? Retirada de uma
suposta reserva secreta descrita pelo mencionado jornal. Não
havia desmentido à existência da reserva, ou ao desembolso
de dinheiro, apenas ao modo como fora descrita. Nenhum
desses dois senhores jamais controlou qualquer dispêndio do
Comitê. Tecnicamente correto. Sloan controlava as despesas;
Mitchell e Stans apenas as aprovavam.
Era o desmentido mais inteligente que já haviam feito, disse
Bernstein a Moore, tentando analisar com ele o texto. Moore
recusou-se.
Esse novo pronunciamento seria devidamente registrado,
junto com a recusa de Moore de explicá-lo, avisou Bernstein.
Se o Comitê de Nixon não queria responder, talvez Mitchell
quisesse, acrescentou, dizendo a Moore que tentaria falar
com o Procurador Geral.
Redigiu uma inserção sobre o novo pronunciamento e
discou o número dc Essex House, em Nova Iorque. Pediu o
quarto 710. Mitchell atendeu. Bernstein reconheceu a voz e
começou a anotar. Queria tudo escrito no papel, inclusive
suas próprias perguntas. Momentos depois de terminada a
ligação, começou a datilografar. Nesse agitado estado de
espírito, era difícil acertar a.« teclas certas da máquina.
MITCHELL: — Alô.
BERNSTEIN (depois de identificar-se): — Senhor, sinto
muito incomodá-lo a esta hora, mas vamos publicar uma
reportagem na edição de amanhã dizendo que, com efeito, o
senhor controlava reservas secretas do Comitê enquanto
ocupava o cargo de Procurador Geral.
MITCHELL: — Puuuuuxxxaaa! Vocês disseram isso? O que é
que a reportagem diz?
BERNSTEIN: — Vou ler os primeiros parágrafos para o
senhor (chegou até o terceiro. Mitchell exclamava
"Puuuxxxaa" a cada instante).
MITCHELL: — Toda essa cascata, vocês vão dar no jornal?
Já foi tudo desmentido. Se isso for publicado, a teta de Katie
Graham vai ser decepada. Deus do Céu! É a coisa mais
nojenta que já ouvi!
BERNSTEIN: — Senhor, gostaria de lhe fazer algumas
perguntas sobre...
MITCHELL: — Que horas são?
BERNSTEIN: — Onze e meia. Não gostaria de chamá-lo tão
tarde.
MITCHELL: — Onze e meia do quê?
BERNSTEIN: — Onze e meia da noite.
MITCHELL: — Ahn...
BERNSTEIN: — O Comitê já emitiu pronunciamento sobre a
história, mas gostaria de fazer-lhe algumas perguntas sobre
pontos específicos do texto.
MITCHELL: — O Comitê deu sinal verde para a publicação
da história? Vocês vão se dar muito mal. Assim que
acabarem de pagar Ed Williams e o resto da cambada, nós
vamos escrever uma história sobre todos vocês.
BERNSTEIN: — Senhor, sobre a reportagem.
MITCHELL: — Ligue para o meu escritório de advocacia
amanhã de manhã.
Desligou.
No tocante a Bernstein, o principal fora aquele tipo de
reação que começara com o primeiro puuuxxxaa de Mitchell
— uma espécie de urro primevo. Enquanto o grito se
repetia, Bernstein percebera a intensidade da angústia
sentida por Mitchell. Por um momento, teve medo que
Mitchell morresse ali mesmo ao telefone, e, pela primeira
vez para ele, Mitchell fora um ser humano de carne, osso e
sangue, e não o diretor da campanha de Nixon, a sombra do
Estado de Kent, o guardião de Carswell, o sumo sacerdote da
Lei e da Ordem, o vilão de Watergate. Bernstein sentiu a
pele arrepiar-se. Mitchell escapara de uma acusação do
grande júri, o qual guardaria os seus segredos, os mesmos
segredos que os repórteres agora proclamavam em alta voz.
Empregando, embora, a linguagem neutra da profissão,
haviam dito que John Mitchell era um escroque. Bernstein
não saboreou o momento. O tom de Mitchell estava tão
repleto de ódio e repugnância que Bernstein sentiu-se amea-
çado. Chocara-se com sua linguagem, seu horror. O Comitê
deu sinal verde para a publicação da história? Nós vamos
escrever uma história sobre todos vocês. Mitchell dissera
"nós". Uma vez terminadas as eleições eles poderiam fazer o
que bem entendessem. Sem pagar nada.
Bernstein estava decidido a publicar os comentários de
Mitchell no jornal.
Quando acabou de datilografar, fez um resumo para Bill
Brady, o editor metropolitano do turno da noite, e propôs
uma inserção de dois parágrafos. Brady, que era redator do
antigo Washington Times-Herald quando este foi comprado
pelo Post em 1954, era provavelmente o sujeito mais
imperturbável da redação do Post. Mas nunca ouvira coisa
igual a esta, e perguntou se Bernstein tinha certeza de haver
falado mesmo com John Mitchell. Convencido, Brady
sacudiu a cabeça. Como Bernstein já esperava, Brady não ia
dar uma decisão sobre o que se devia fazer com os
comentários de Mitchell. Bernstein localizou Bradlee em
casa, já deitado.
O editor estava perplexo. — Sabe o que John Mitchell
acabou de dizer? — perguntou à esposa.
Mitchell estava bêbado? Bernstein respondeu que não sabia.
Não havia dúvida de que Bernstein se identificara
corretamente? Nenhuma.
Mitchell entendera que estava falando com um repórter?
Evidentemente.
E Bernstein tinha tudo bem anotado? Correto.
Bradlee pediu a Bernstein que lesse a inserção pela terceira
vez, enquanto ponderava se devia telefonar ou não para a
Sra. Graham. Decidiu que não era necessário.
— Deixe tudo como está, menos a teta — ordenou Bradlee.
— E diga ao editor que dei o meu OK. — Recusou um
tímido apelo de Bernstein para que a citação fosse publicada
na íntegra. — Todos iam entender — disse Bradlee.
O telefone tocou cinco minutos depois. Powell Moore
queria saber se o segundo pronunciamento do Comitê ia ser
publicado.
Bernstein disse que ia, assim como os comentários
suplementares de Mitchell sobre a matéria.
Moore pareceu preocupado. O que o Procurador Geral havia
dito?
Bernstein leu, e informou que já estava tudo na composição.
— Ah — disse Moore.
Bernstein foi para casa, com a cabeça cheia de visões
inquietantes. Mal acabara de chegar, o telefone tocou. Era
Moore. Bernstein começou a tomar notas.
MOORE: — Carl, você tem certeza de que não pegou o Sr.
Mitchell no momento errado?
BERNSTEIN: — Não sei.
MOORE: — Você o pegou de guarda baixa. Ele já foi
membro do Gabinete, etcétera e tal, não pode aparecer com
essa imagem em letra de imprensa.
BERNSTEIN: — Eu simplesmente relatei o que ele disse.
MOORE: — Se ele perdeu a compostura, você acha justo
responsabilizá-lo pelo que disse? Será que é justo? Ele
costuma dormir cedo. Não parecia sonolento?
BERNSTEIN: — Não sei dizer. Mas que vocês aí me
responsabilizam pelo que eu digo e pelo que eu escrevo.
Assim, não acho injusto esperar o mesmo do Sr. Mitchell.
Não é o seu primeiro contato com a imprensa.
MOORE: — Carl, não quero que saia nada publicado que
tenha sido dito num momento em que uma pessoa normal
não está completamente lúcida, tendo sido acordada no meio
da noite.
BERNSTEIN: — A que horas você falou com ele?
MOORE: — Há algum tempo atrás, aí pelas nove — Carl, é
mesmo tarde demais para tirar isso da edição?
BERNSTEIN: — Já está lá, acho. O único jeito seria falar com
meus editores. Foi decisão deles publicar a matéria e eu,
claro, concordo plenamente.
MOORE: — Com quem devo falar? Bill Brady está lá?
BERNSTEIN: — Não. Acho que para tirar alguma coisa
agora, só falando com Bradlee.
MOORE: — Bem, não posso tomar sozinho a decisão de
falar com Bradlee. Volto a falar com você.
Depois de cinco minutos tornou a ligar para Bernstein e
perguntou como fazer para falar com o editor. Bernstein
explicou que devia fazer uma ligação para a mesa telefônica
do Post. Em seguida, Bernstein telefonou para Bradlee e
disse-lhe que devia esperar a chamada de Moore.
Sempre o gentleman sulista que era, Moore telefonou mais
uma vez para Bernstein a fim de contar que Bradlee se
recusara a retirar a matéria.
Imitando o sotaque arrastado de Moore, Bradlee relembrou
depois que Moore lhe perguntara "se eu estava certo de estar
agindo bem, pois acordamos o Procurador Geral,
provavelmente alta madrugada, e ele não juntara as idéias
antes de responder". E lembro-me de ter dito, "a questão se
resume,
Sr. Moore, em saber se ele disse ou não, e se o repórter do
Washington Post identificou-se corretamente como tal, e, se
o fez, é tudo que me interessa".
Na manhã seguinte, na redação do Post, a Sra. Graham
perguntou a Bernstein se tinha mais algum recadinho para
ela.
Na noite de 4 de outubro, Woodward chegou em casa às
onze da noite. O telefone estava tocando quando entrou.
"Campeão", era Bill Brady. O editor da noite chama todos os
jovens repórteres de "Campeão". (Brady chamara Woodward
assim em seu segundo dia no Post, e durante horas Wood-
ward ficara inchado, até que o ouviu chamar um indivíduo
reconhecidamente incompetente pelo mesmo nome.)
— Campeão — disse Brady. — O Los Angeles Times está
publicando uma extensa entrevista com um sujeito chamado
Baldwin.
Woodward gemeu, e disse que ia já.
Alfred C. Baldwin III parecera durante algum tempo ser uma
das chaves do Watergate. Os repórteres tinham ouvido falar
dele enquanto faziam suas verificações de rotina. Haviam
dito a Bernstein que um ex-agente do FBI participara da
operação; que havia informado aos investigadores que os
transmissores clandestinos estavam funcionando há três
semanas quando as prisões foram efetuadas, e que haviam
sido enviadas para o CRP transcrições das conversas
interceptadas; disse também que se infiltrara entre os
veteranos do Vietnã Contra a Guerra, por ordem de McCord.
A 11 de setembro, Bernstein e Woodward haviam escrito
uma reportagem sobre a participação de um ex-agente do
FBI na operação Watergate.
Uma semana mais tarde, com a cooperação da contadora,
identificaram o agente como sendo Baldwin, diplomado em
Direito, com 35 anos de idade, que havia trabalhado como
chefe de segurança de uma frota de caminhões, antes de se
transferir para o CRP onde era pago em notas de US$ 100.
Baldwin era a testemunha-chave do governo — alguém de lá
de dentro que estava "pondo a boca no trombone". Parecia
estar de posse de segredos incríveis para contar, e os
repórteres faziam fila para ouvi-lo. Woodward entrou na fila,
e começou a dar telefonemas regulares ao advogado de
Baldwin, John Cassidento, deputado estadual democrata de
New Haven, no Estado de Connecticut.
— Temos centenas de pedidos para entrevistas, centenas
— disse Cassidento a Woodward. — Todo mundo quer falar
com Al. Há dois repórteres do Los Angeles Times
acampados lá fora. Al não consegue um minuto de paz. Está
sendo seguido... Vocês repórteres são uns escrotos. Ainda
bem que vocês não estão nos atormentando.
Entendendo a indireta, Woodward prometeu que ele e
Bernstein não se juntariam à turba.
— Ótimo — disse Cassidento amigavelmente. — Se Al
tiver alguma coisa a dizer, avisaremos vocês. Serão os
primeiros a saber.
Dias depois, Cassidento telefonou para Woodward. — Olha,
o Al está precisando de dinheiro... Todo mundo está fazendo
ofertas pela história. Achei que deviam saber caso queiram
fazer um lance. — Corriam rumores de que uma revista
oferecera US$ 5.000 pelo relato pessoal de Baldwin.
Woodward explicou que o Post jamais pagava por suas
notícias.
— OK, é pena, sinto muito que não estejam interessados
na história — disse Cassidento. — Temos outras ofertas.
Woodward começou a explicar que o Post estava muito
interessado na história, mas Cassidento já desligara.
Woodward e Bernstein falaram aos editores do convite para
o leilão da história de Baldwin. Bradlee fez um gesto obsceno
com os dedos e disse: — Eis o meu lance...
Duas semanas mais tarde, e sem pagar um centavo, o Los
Angeles Times conseguira a história que levou Woodward
correndo de volta à redação do Post, na noite de 4 de
outubro. O relato de Baldwin, contado na primeira pessoa do
singular ao repórter Jack Nelson, do Time, era a vívida
descrição de uma invasão à sede do Partido Democrático e
dos homens que participaram da operação.
Do Hotel Howard Johnson, em frente ao edifício Watergate,
Baldwin interceptara, através de monitores, as conversas
telefônicas dos democratas. McCord lhe disse que faria a
mesma coisa durante a Convenção do Partido em Miami.
Quando o empregaram, entregaram-lhe uma arma que
pertencia a LaRue. Falou de uma tentativa fracassada de
arrombar a sede de McGovern e instalar microfones; Liddy
chegara a sugerir que dessem um tiro na luz do poste para
facilitar a invasão. Baldwin se referiu a um breve período na
tarefa de montar guarda a Martha Mitchell, e descreveu o
pânico de Howard Hunt ao entrar correndo no Hotel
Howard Johnson, às 2h30min da madrugada de 17 de junho
vendo a polícia levar do edifício Watergate cinco de seus
empregados.
Bernstein e Woodward tinham perdido aquela rodada. A
reportagem do Los Angeles Times era uma oportunidade
única, não apenas pela grande quantidade de fatos novos,
mas também por tornar real toda a operação Watergate e o
cérebro que a planejara.
— Gostaria de ter conseguido esta história — comentou
Bradlee no dia seguinte. Não estava propriamente zangado,
mas de cara fechada, apertando os braços enquanto falava e
movendo-os rapidamente de um lado para o outro, como um
jogador de futebol americano em plena corrida.
Na entrevista gravada, com cinco horas de duração, que deu
ao repórter Jack Nelson, Baldwin não mencionou um único
nome de alguém que pudesse ter visto os memorandos
contendo as transcrições. Duas semanas antes, todavia, um
investigador do Partido Democrático informara a Bernstein e
Woodward que Baldwin indicara duas pessoas que poderiam
ter recebido as transcrições: Robert Odle, o super nervoso
ajudante-de-campo de Jeb Magruder, tanto na Casa Branca
como no CRP, e William E. Timmons, assessor do
Presidente para Assuntos de Relações com o Congresso, e
principal ligação entre a Casa Branca e o CRP para a
convenção nacional do Partido Republicano. Baldwin vira
McCord endereçar os memorandos.
Constava que Baldwin teria dito que havia ainda um terceiro
destinatário, alguém cujo primeiro nome parecia sobrenome.
Uma lista dos funcionários do CRP foi submetida a Baldwin
pelos investigadores federais, e ele selecionou o nome de J.
Glenn Sedam — o homem que tinha escritório junto com
Gordon Liddy. Entretanto, informaram a Bernstein, Baldwin
não tinha muita certeza a respeito de Sedam.
Bernstein sugeriu a Woodward que escrevessem uma
reportagem dizendo que Baldwin apontara Odle e Timmons,
e descrevendo a maneira como escolhera o nome de Sedam.
Bernstein telefonou a um de seus informantes no
Departamento de Justiça, que confirmou os detalhes.
Woodward concordou em tocar para a frente com a história.
A reportagem dava um bom passo além do relato do Los
Angeles Times. Foi publicada no dia 6 de outubro. Não
houve desmentidos por parte do CRP nem da Casa Branca.
Entretanto, a reportagem não estava correta, e a decisão
apressada de publicá-la foi um erro. Semanas mais tarde,
Woodward e Bernstein ficaram sabendo que o relatório
inicial do FBI não deixara bem claro se os papéis que
Baldwin vira eram realmente transcrições de interceptações
clandestinas, ou simples memorandos rotineiros de
segurança. Com o passar do tempo, os repórteres se
convenceram de que se tratava de correspondência de
rotina, sem qualquer ligação com interceptações
clandestinas.
Três homens haviam sido injustiçados. Haviam sofrido
acusações imerecidas na primeira página do Washington
Post, o jornal da cidade lido por suas famílias, seus vizinhos e
amigos. Odle queixou-se aos Promotores Públicos. — Estava
quase chorando — disse um deles mais tarde. — Carregava o
estigma do Watergate, é verdade que não apenas por causa
daquela reportagem, e não conseguia arranjar emprego. Em
1973 arranjou uma colocação como consultor no
Departamento de Agricultura, mas quando seu nome
continuou a figurar na investigação, foi logo despedido.
Timmons ficou desconsolado com as alegações do Post, e sua
mulher insistiu para que se demitisse do staff da Casa Branca.
Só depois de uma longa conversa com o Presidente foi que
resolveu continuar.
CAPÍTULO 6
Na noite de 28 de setembro, Bernstein ouvia as amáveis
queixas do copy-desk contra o seu hábito de, tarde da noite,
alterar e corrigir os textos que escrevia. Foi um alívio quando
o telefone interrompeu as lamúrias.
A pessoa do outro lado da linha identificou-se como
advogado do governo. Embora sem qualquer vínculo com a
investigação do Watergate, disse estar de posse de
informações que poderiam, ou não, ter ligação com as coisas
que Bernstein e Woodward andavam publicando.
Este tipo de telefonemas estava se tornando freqüente,
embora a maioria das dicas fossem sugestões para que o Post
investigasse novas hipóteses sobre as mortes de John
Kennedy, Mary Jo Kopechne, Martin Luther King e outros.
Quanto a pistas relacionadas ao Watergate, investigaram
dúzias delas, mas todas acabaram por se mostrar
inconseqüentes ou sem fundamento.
O advogado ao telefone dizia, agora, que um amigo seu "fora
convidado a trabalhar de forma bastante estranha na
campanha de Nixon".
Bernstein colocou uma folha de papel na máquina e
começou a bater suas notas.
A pessoa informou que o nome desse amigo era Alex
Shipley, promotor estadual do Tennessee, residente em
Nashville. No verão de 1971, fora convidado por um velho
companheiro do Exército a fazer parte da campanha de
reeleição do Presidente.
— Basicamente, a proposta era juntar-se a um grupo cujo
trabalho seria prejudicar a campanha dos democratas
durante as prévias eleitorais. O amigo de Shipley afirmou,
então, que para isso havia dinheiro que não acabava mais.
O advogado não se recordava do nome do homem que
abordara Shipley.
— Era um advogado. Os membros do grupo deviam viajar,
ir a determinadas cidades e esperar os acontecimentos. Um
exemplo de como deviam agir: se os democratas alugavam
um local para uma reunião pública, o trabalho do agente do
grupo seria telefonar para o proprietário do imóvel para dizer
que o comício fora transferido, causando assim a maior
bagunça na programação.
Shipley contara tudo "num bate-papo de bêbados durante
um piquenique", mas o homem não se lembrava de maiores
detalhes. Na ocasião, Shipley ainda não se desligara do
Exército e estava baseado em Washington. Falara com várias
pessoas que haviam trabalhado para Albert Gore, ex-senador
pelo Estado de Tennessee.
— Aconselharam-no a fazer o jogo do sujeito que o
convidara, enquanto tentavam descobrir o que estava
acontecendo. — O homem não sabia o que acontecera
depois disso.
Deu seu nome e telefone a Bernstein, com relutância e sob a
condição de jamais vir a ser identificado como fonte de
informações. Bernstein agradeceu e pediu que se mantivesse
em contato com ele.
O repórter conseguiu o número telefônico de Shipley
através do Serviço de Informações de Nashville. Ninguém
atendeu.
No dia seguinte, mostrou suas notas a Howard Simons e
disse estar convencido de que a informação — sem dúvida,
muito incompleta — era importante. Isolado, o caso da
espionagem do edifício Watergate não fazia sentido,
principalmente levando-se em conta que ocorrera no clímax
da campanha de Nixon. Mas — observou Bernstein — como
parte de um esquema mais amplo, poderia ter alguma
significação. E ali estavam as evidências de um amplo es-
quema, embora as informações fossem discrepantes. Entre
os fatos de seu conhecimento, estavam a tentativa de escuta
clandestina na sede do comitê de McGovern; a pesquisa de
Hunt sobre Edward Kennedy; a investigação de McCord
sobre Jack Anderson; a tentativa de Baldwin de infiltração
entre os Veteranos do Vietnã Contra a Guerra; as
investigações de Hunt para descobrir quem dava
informações aos meios de divulgação; e o fato de McCord ter
alugado um escritório vizinho à sede eleitoral de Muskie.
Talvez a Casa Branca estivesse empenhada em operações de
inteligência política muito mais amplas do que supunham,
inclusive quanto à sua duração. Quem sabe se a operação
Watergate não fora programada muito antes que as
perspectivas de reeleição de Nixon se tornassem tão
favoráveis, e se alguém tivesse esquecido de cancelá-la?
Simons mostrou-se interessado e pediu a Bernstein para que
se apressasse em encontrar Shipley. Como Bernstein, Simons
tinha o gosto pelos fatos ocultos atrás de informações vagas.
Em compensação, era muito cauteloso quanto ao que devia
ser publicado. Mais de uma vez aconselhara Bernstein e
Woodward a considerarem a possibilidade de reter uma
notícia, ou, em caso de dúvida, retirá-la à última hora.
— Não importa que seja uma única palavra, uma
expressão, uma sentença, um parágrafo, uma reportagem
inteira ou uma série de reportagens — dizia. — Na dúvida,
abstenham-se.
Repórter científico premiado no ano anterior, Simons se
tornara o editor número dois do Post. Homem sensível e
atento, de nariz largo, rosto fino e olhos fundos, parece um
daqueles assistentes de catedrático de Harvard, que andam
com uma régua de cálculo enfiada na cinta. Entretanto, é
hábil no tratamento de egos sensíveis, o perfeito
contraponto de Bradlee. Bradlee é mais parecido com
Woodward: impaciente com hipóteses, primeiro quer ver os
fatos concretos.
Bernstein tentou despertar o interesse de Woodward por
Shipley. Woodward permaneceu cético.
Naquela noite, Bernstein localizou Shipley em casa. Parecia
ser uma pessoa agradável e mostrou-se surpreso com o fato
de um repórter interessar-se pelo convite de que fora alvo.
— Ofereceram-me um serviço estranho — disse Shipley.
— Nós devíamos dizer que trabalhávamos para fulano-de-tal,
dos democratas, quando na verdade estávamos trabalhando
para Nixon. Digamos, por exemplo, que eu devesse
comparecer a um comício de Kennedy. Então, tinha de
dizer a um partidário de Kennedy: "Eu também estou com
vocês. Gostaríamos que você arranjasse um trabalho no
comitê de Muskie. Se você descobrir alguma coisa por lá,
conte para mim, que eu levo a informação a Kennedy".
Bernstein já ouvira falar de serviços desse tipo, executados
no exterior pela CIA. Eram referidos por uma grosseira
expressão de gíria, embora a CIA a chamasse de "Operação
Negra".
Shipley continuou:
— Teríamos todo o dinheiro de que precisássemos.
Prometeram-me mundos e fundos. Salário e despesas. E eu
trabalharia para ele. — Shipley não queria dar o nome do
homem até que se decidisse a contar a história toda.
— Já andei pensando em falar com alguém. Há uns seis
meses escrevi um memorando que guardo no escritório.
Tenho as datas anotadas. E lhe direi tudo de que conseguir
me lembrar.
Mas, antes disso, precisava pedir a permissão do chefe para
falar à imprensa. Achava que o chefe daria sua aprovação. O
Procurador Estadual do Tennessee era um democrata, como
Shipley. Na opinião de Shipley, talvez este fosse o aspecto
mais estranho da oferta.
— Quando recebi o convite, eu disse: "Olha, tenho uma
fotografia de Franklin Roosevelt pendurada na parede desde
os meus tempos de garoto. Por que eu?" E ele respondeu:
"Talvez puramente pelos seus interesses pessoais. Podemos
ajudá-lo muito". Sendo eu democrata, confesso que não
consegui entender.
Além da palavra do homem, Shipley não tinha provas de que
a proposta partira de responsáveis pela campanha de
reeleição de Nixon. Conhecera o homem na Marinha.
— Tinha a impressão de que ele não ia se sair muito bem
naquela transa de espião. Mas ele disse que estava
trabalhando para Richard Nixon.
Bernstein não quis forçar a confissão do nome do aliciador.
Ainda era cedo.
Telefonou para Shipley no dia seguinte, à noite. O
Procurador do Estado de Tennessee dissera a Shipley para
agir como achasse melhor e, em conseqüência, Shipley tinha
posto em ordem todas as suas anotações. O homem que o
havia procurado para fazer a proposta chamava-se Donald
Segretti.
— A primeira vez que me procurou deve ter sido a 26 de
junho de 1971. Telefonou para me dizer que estaria em
Washington, e acabou indo a uma festa em meu
apartamento nessa mesma data. Naquela noite não se tocou
no assunto. No dia 27, tomamos juntos o café da manhã. Foi
então que ele me perguntou se eu estaria interessado, já que
em breve iria deixar a Marinha. Aliás, tanto ele quanto eu
íamos nos desligar em pouco tempo. Éramos capitães na
Divisão Jurídica. Nenhum de nós tinha planos concretos. Ele
me disse que viera a Washington para uma entrevista no
Departamento do Tesouro.
Bernstein anotou: "Tesouro-Liddy". Gordon Liddy trabalhara
no Tesouro antes de ir para o staff da Casa Branca, naquela
mesma ocasião a que Shipley se referira. Shipley, no entanto,
disse que nunca ouvira o nome de Liddy antes do caso
Watergate.
Na manhã de 27 de junho, Shipley apanhou Segretti no
Georgetown Inn e levou-o de carro até o Aeroporto Dulles.
— No caminho ele me perguntou: "Que tal trabalhar numa
operaçãozinha de espionagem?" Eu disse: "Do que é que
você está falando?" Segretti me explicou: "Por exemplo,
vamos a um comício de Kennedy e nos aproximamos de um
de seus seguidores mais entusiastas. Daí, você diz que tam-
bém é partidário de Kennedy, mas trabalha nos bastidores;
então, sugere que ele procure serviço com Muskie —
envelopar cartas ou qualquer coisa do gênero — e que traga
essas informações para você, Ele conclui que estamos
trabalhando a favor de Kennedy contra Muskie, mas, na
verdade, as informações vão ser usadas para outros fins".
Aquilo me pareceu muito esquisito. Depois de percorrermos
mais da metade do caminho para o aeroporto, eu perguntei:
"Muito bem, mas para quem nós vamos estar trabalhando?"
Para Nixon, disse ele. Fiquei atordoado, porque todos os atos
que me descreveu teriam lugar nas prévias democráticas.
— A principal finalidade era impedir que os democratas
conseguissem se refazer das lutas internas, da desordem e da
morosidade, disse ele. "O que pretendemos é causar uma
confusão tão grande que eles não consigam sair dela." Eu
disse: "É, parece interessante, mas me dá um tempo para que
eu pense no assunto".
Na semana seguinte, Segretti telefonou a Shipley, de Fort
Ord, na Califórnia, para renovar a proposta.
— No dia 1.° de julho, quinta-feira — continuou a contar
Shipley — falei com um amigo que já havia trabalhado para
o assistente administrativo do senador Albert Gore e lhe
perguntei o que devia fazer. Disse-lhe que não estava
interessado, mas que talvez pudesse ajudar os democratas se
fingisse estar fazendo o jogo deles... ou ele achava que eu
devia esquecer o assunto? Ele me aconselhou: "Não se
arrisque, mas também não recuse; veja o que pode des-
cobrir".
— No dia 19 de julho, Segretti telefonou e me pediu que
pensasse no nome de cinco pessoas que eu pudesse procurar
(para trabalhar na tal operação). Não me lembro se cheguei a
dar algum nome. Na manhã de domingo, 25 de julho,
Segretti tornou a ligar, de Chicago, para me contar que havia
proposto a mesma coisa a um capitão, naquela cidade —
Roger Lee Nixt, baseado em Chicago, no Quartel-General do
5.° Exército, creio. Segretti me disse que estava com vontade
de tomar um avião para Washington, a fim de falar comigo...
Em essência, a conversa era "Você está comigo ou não?".
Perguntei-lhe o que queria que eu fizesse. Ele respondeu:
"Recrute gente, use a imaginação". Uma coisa fez questão de
ressaltar: eu devia escolher pessoas que pudessem viajar. E
disse também que estava contatando advogados, porque não
queria fazer nada que fosse ilegal. Não parecia uma operação
que exigisse força física. Podia até ser divertido para nós... Se
houver um comício marcado para as 19h num auditório
qualquer, "você telefona dizendo que é o chefe de operações
do candidato e que foi informado de que alguns agitadores,
ou hippies ou gente desse tipo, estão planejando armar
confusão. Daí, pede para transferir o comício para as 21h, de
forma que quando o candidato chegue encontre o auditório
trancado".
No dia 28 de julho, Segretti voltou a procurar Shipley,
pedindo-lhe que tomasse um avião para Atlanta, a fim de
ajudar no recrutamento de um outro capitão reformado,
Kenneth Griffiths. Shipley não foi.
A última vez que Shipley ouviu falar de Segretti foi a 23 de
outubro de 1971:
— Ele me telefonou da Califórnia para pedir que eu
investigasse as operações de Muskie no Tennessee... Sempre
que ele me fazia a proposta eu respondia "Lógico", mas
nunca fazia nada.
Será que Shipley sabia como entrar em contato com Segretti,
onde morava?
— Há mais ou menos umas duas semanas, tentei localizá-
lo em Los Angeles pelo telefone, mas seu nome não
constava da lista. Ele me havia dito que ia montar um
escritório de advocacia, Young & Segretti, mas que isso era
só fachada, pois ia mesmo era continuar se ocupando só de
serviços de natureza política.
Shipley chegara ao fim de suas anotações. Bernstein pediu-
lhe que tentasse se lembrar de mais detalhes das conversas
com Segretti.
— Certa ocasião Segretti me disse que talvez fosse bom
ter uma carteira de identidade falsa, para usar nas viagens;
que ficaria mais difícil de sermos apanhados. Disse que
estava com vontade de usar o pseudônimo de "Bill Mooney".
Como se fosse por acaso, falou: "Por que você não pensa
num bom nome e não tira também uma identidade falsa?"
Repliquei: "Não sou muito bom pra esse tipo de coisa".
Disse-me também que depois da reeleição de Nixon iam
cuidar bem dele. Teria um bom emprego no governo. E eu:
"Como é que eles vão poder cuidar da gente, se ninguém
sabe o que estamos fazendo?" Segretti respondeu: "Nixon
sabe que as coisas estão sendo feitas. É a velha história... se
você não contar, não sei de nada".
Shipley tinha certeza de que Segretti estava trabalhando para
a campanha de Nixon?
— Não sei dizer se terá trabalhado para Nixon — retrucou
Shipley. — Não tenho prova alguma. Pelo visto, podia até
estar trabalhando para Kennedy, Muskie ou Sam Yorty.
No entanto, em uma conversa com Shipley, Segretti dissera
que se permanecesse na operação teria um emprego
permanente na administração pública.
Bernstein perguntou se Shipley tinha conhecimento de
outras pessoas recrutadas por Segretti.
Peter Dixon, advogado em San Francisco.
— Todos aqueles que relacionei estiveram juntos no
Vietnã, com patente de Capitão na Divisão Jurídica, em 1968
e 69. Nixt está trabalhando numa firma de advocacia em
Denison, Iowa, acho eu. Griffiths continua em Atlanta.
Podia se lembrar de outros pormenores?
— Bem, Segretti me contou que fora contatado para a
operação por gente de Los Angeles. Talvez colegas da
faculdade de Direito ou amigos de família, não sei. Jamais
mencionou nomes. Disse que este era o modus operandi. Eu,
igualmente, não devia dizer-lhe quem trabalhava para mim...
Disse-me que sua intenção era agir pelo país inteiro.
Francamente, não creio que pudesse fazê-lo, pois ele não é
desse tipo de gente, não tem a personalidade adequada. É um
homem pequeno, sempre com um largo sorriso na cara,
ingênuo.
Bernstein pediu que Shipley lhe fizesse uma descrição física
de Segretti.
— Baixinho, cara de bebê, no máximo 1,60 m de altura,
uns 70 quilos quando muito.
Shipley não entendia bem a política de Segretti.
— Sempre tinha achado que ele era de tendência liberal.
Mas acho que nunca tive com ele uma única discussão sobre
política.
Segretti dissera que "seria uma espécie de coordenador geral
da operação em todo o país", mas nem tudo que se propunha
a fazer parecia ser assim tão prejudicial. Certa vez disse que
poderíamos arranjar uma caixa-postal em Massachusetts em
nome da Comissão Estadual de Segurança nas Estradas e
conferir uma medalha a Teddy Kennedy...
— Uma coisa que me impressionou: ele parecia estar
sempre com bastante dinheiro. Ia de avião de um lado para
outro do país. Dizia que dinheiro não era problema; o grupo
para o qual estava trabalhando esperava era bons resultados
pelo dinheiro que gastava.
Shipley havia insistido por mais detalhes, mas Segretti havia
dito: "Não me pergunte por nomes, porque não vou dar". —
Tive a impressão de se tratar de alguém que gastava muito,
mas não da área do governo.
Bernstein pediu que Shipley não passasse essas informações
para mais ninguém e depois telefonou para a casa de
Woodward. Estavam na pista certa. Podia levar alguns dias,
mas já podia ver a reportagem. Desta vez Woodward ficou
curioso.
Kenneth Griffiths, Roger Lee Nixt e Peter Dixon, todos
tinham seus nomes no catálogo telefônico.
Nixt não quis discutir o assunto.
— Tive apenas uma conversa com Don sobre isso. Ele é
meu amigo e não vou falar, em consideração a ele... Não fiz
nada... De fato, ele me propôs um trabalho secreto na
campanha de Nixon, mas não quero falar sobre isso.
Da casa de Griffiths, em Atlanta, ninguém respondeu o
telefone. Restava Dixon, em San Francisco. A secretária
informou que ele saíra para acampar e que devia ir a Reno,
Estado de Nevada, para visitar um amigo, Paul Bible.
— O filho do senador? — perguntou Bernstein.
— Sim.
Isto era ótimo. O senador Alan Bible, de Nevada, e sua
família tinham sido vizinhos da família Bernstein em Silver
Spring, Mariland, por mais de doze anos. Paul era alguns
anos mais velho do que Bernstein, mas, mesmo assim, se
conheciam e haviam jogado bola na rua. Lembrava-se de
quando Paul ganhara seu Chevrolet Impala-1958. Um carro
preto, baixo, cano de descarga duplo e dupla carburação. Na
época, Bernstein sentira inveja.
Telefonou para Bible, em Reno, e contou-lhe o problema.
Tinha certeza de que Bible o ajudaria.
Bible ficou perplexo. Segretti? Era inconcebível. Bible
também servira no Exército com Segretti, e Don não era o
tipo de se meter nessa espécie de sujeira. Faria com que
Dixon entrasse em contato com Bernstein e deu o nome de
outros oficiais que haviam servido na unidade de Segretti.
— Don me procurou e me perguntou se eu estaria
interessado em trabalhar para a reeleição do Presidente. Eu
respondi: "Ah, Don, eu não me interesso por política, e além
do mais não sou Republicano". Ele parou por aí.
Duas confirmações. Bernstein conseguiu falar com Griffiths
depois de mais duas tentativas. Griffiths não queria falar de
suas negociações com Segretti. Haviam almoçado juntos e
conversado sobre a campanha política. Segretti tentara
convencê-lo a fazer algo para o Presidente, e a palavra
"secreto" fora então mencionada. — Eu respondi que
embora quisesse muito fazer alguma coisa pelo Presidente,
não dispunha de tempo; tudo o que eu podia fazer era dar
uma contribuição.
Nos intervalos entre as chamadas, Bernstein tentava
descobrir o número telefônico de Don Segretti. Seu nome
não constava do catálogo de Los Angeles. Não havia um
escritório de advocacia com a denominação de "Young & Se-
gretti". Contudo, havia uma série de Segrettis na lista
telefônica. Depois de várias ligações, Bernstein conseguiu
localizar a Sra. A.H. Segretti, em Culver City. Ela disse que
era mãe de Don.
Bernstein não seguiu à risca as regras do jornal. Segundo uma
das mais rígidas normas do Post, seus repórteres não devem,
jamais, deixar de identificar-se corretamente. Bernstein não
contou à Sra. Segretti que trabalhava para o Washington
Post. Deixou o nome e os números telefônicos de sua casa e
da casa de Woodward. Bernstein esqueceu-se de comunicar
este telefonema a Woodward.
Woodward jogava cartas com um amigo quando o telefone
tocou naquela tarde.
— Carl Bernstein está?
Woodward informou que não e perguntou quem estava
falando.
— Don Segretti.
Woodward ficou gelado. Por que estaria Segretti procurando
Bernstein em sua casa? Bernsteim se limitara a mencionar os
pontos mais relevantes de sua conversa com Shipley.
Woodward não estava suficientemente a par dos detalhes
para forçar a questão.
Depois de uma longa pausa, disse:
— Ah...
— Quem é Carl Bernstein? — perguntou Segretti.
Woodward sentiu que estava sendo encurralado, e tentou se
recuperar. Eram ambos repórteres do Washington Post,
informou. E sem dar tempo a Segretti para pronunciar uma
palavra acrescentou que gostaria de fazer-lhe algumas
perguntas sobre graves acusações a respeito do trabalho
politico secreto que desenvolvera para a campanha de
Nixon.
— O Washington Post? — perguntou Segretti. Não sabia
do que Woodward estava falando. Além do mais, estava
muito ocupado. E desligou.
Woodward telefonou para Bernstein na redação e perguntou
que diabo estava acontecendo. Bernstein ficou furioso
consigo mesmo. Haviam perdido a vantagem.
Bernstein e Woodward estudaram os próximos passos. Um
dos dois, ou um terceiro repórter, teria que seguir a pista de
Segretti. Telefonaram para a casa de Sussman. Este sugeriu
que usassem o correspondente do Post na costa do Pacífico,
ou um autônomo indicado pelo editor nacional.
Robert Meyers, 29 anos, antigo "autônomo" do Newsweek
(o termo é empregado para definir o repórter contratado por
um jornal para trabalhos especiais, sendo pago na base de
reportagens escritas), seguiria Segretti. Meyers tinha mais a
aparência de um professor do que de um repórter: fumava
cachimbo, exibia um cavanhaque, e usava óculos sem aros.
Quando Bernstein o localizou por telefone, estava tomando
um bom banho de banheira. Acompanhara de perto a
cobertura do caso Watergate pelo Washington Post, e
Bernstein aproveitou para atualizá-lo quanto a Segretti.
Faltavam ainda mais duas ligações a fazer naquela tarde. Uma
mulher que trabalhava no Georgetown Inn foi convencida a
dar uma busca nos registros do hotel referentes à semana de
21 de junho de 1971, procurando o registro de Don Segretti
ou Bill Mooney. O outro telefonema era para a residência de
Gordon Liddy.
Bernstein entrou numa sala desocupada, perto da sala de
reportagens. Desta vez ia quebrar todas as normas do jornal,
não queria que Bradlee ou qualquer outra pessoa passasse por
perto de sua mesa e escutasse o que iria dizer. Além disto, a
segurança daquele telefone estava acima de qualquer sus-
peita.
Fechou a porta e ensaiou sua fala: "Gordon... aqui é Don
Segretti... Acho que estamos em apuros". Tudo que esperava
de volta era um sinal de reconhecimento, algo assim como
"Qual é o problema, Don?"
Infelizmente, Bernstein não ensaiou para o caso de ser
atendido pela esposa de Liddy e esta perguntar quem estava
falando. E foi exatamente o que aconteceu. A Sra. Liddy não
deu demonstração alguma de já ter ouvido falar de Don
Segretti. E se seu marido de fato o conhecesse,
provavelmente telefonaria para a Califórnia e ficaria sabendo
que o telefonema viera de um impostor — provavelmente
do Washington Post, de um daqueles repórteres que já
haviam contatado Segretti e sua família naquele mesmo dia.
Bernstein largou correndo o telefone.
Todos os telefonemas a fazer estavam feitos. Na tarde de
segunda-feira, uma ligação procedente do Georgetown Inn
confirmou que Don Segretti se havia registrado no hotel no
dia 25 de junho de 1971, permanecendo até o dia 27. Não
tinha registros das chamadas telefônicas que fizera.
Bernstein renovou um contato feito em'junho, quando
começara a traçar os movimentos dos cinco homens presos
no Watergate. Na ocasião, telefonara para um funcionário de
uma companhia de cartões de crédito que lhe disse poder
obter registros especiais se lhe fosse concedido completo
anonimato.
Um cartão de crédito sempre deixa uma trilha de contas de
hotéis, restaurantes e passagens aéreas, discriminando datas,
horários, lugares, despesas e transações. É a primeira coisa
que o FBI pesquisa, requisitando judicialmente esses
registros e verificando todos os pormenores.
Segretti, cujo nome significa "segredos" em italiano, havia
cruzado o país em todas as direções, mais de dez vezes
durante o segundo semestre de 1971, segundo se verificava
em seu cadastro na companhia de cartões de crédito.
Habitualmente não ficava mais de um ou dois dias em cada
cidade. As escalas incluíam Miami, Houston, Manchester
(em New Hampshire), Knoxville, Los Angeles, Chicago,
Portland, San Francisco, Nova Iorque, Fresno, Tucson, Al-
buquerque e — repetidas vezes — Washington. Muitas
dessas cidades se situavam em Estados politicamente
fundamentais para a campanha presidencial de 1972, em sua
maior parte Estados onde se realizariam as eleições primárias.
Em New Hampshire, na Flórida, no Illinois e, em especial,
na Califórnia, Segretti se movimentara de cidade em cidade,
deixando sua pista em áreas onde as prévias democráticas
seriam mais árduas. Os registros dessas viagens vinham dar
veracidade à narrativa de Shipley.
Bernstein passou todas as informações para Meyers, que a
essa altura já vigiava o apartamento de Segretti e conversava
com seus vizinhos. Marina Del Rey, onde Segretti morava,
ficava à beira do mar e, a julgar pela propaganda, oferecia o
que havia de mais sofisticado para quem levava vida de
solteiro: saunas, veleiros, duplas mistas de tênis, piscinas,
festas, luz de velas, copos de cristal, saladas excêntricas,
corpos bronzeados, pessoas entrelaçadas, duas, três, muitas,
em ambiente impregnado de sândalo.
Meyers subiu até à sacada do apartamento de Segretti e
espiou para dentro. Havia pratos sujos sobre a mesa. O
apartamento parecia confortável — carpetado de branco,
uma lareira a gás com toras falsas, um painel de equipamento
de som, livros, revistas e discos empilhados sobre as
mesinhas. Meyers distingiu ainda uma bicicleta dez- marchas
estacionada em um corredor que parecia levar ao quarto.
Dois vizinhos informaram que Segretti saíra às pressas no
seu Mercedes cupê-esporte branco, no sábado à tarde, e
avisara que provavelmente demoraria alguns dias. Não
sabiam nada de seu trabalho, exceto que era advogado e
parecia muito atarefado. Quase nunca falava em política.
A garagem no subsolo do edifício parecia um cruzamento de
salão de carros esporte com box de Fórmula Um. A qualquer
hora do dia ou da noite, parecia haver sempre alguém
consertando um carro. Meyers passava muito tempo na
garagem, esperando a 280-SL de Segretti, inspecionando a
vaga de seu carro à procura de manchas de óleo que
denunciassem um inesperado retorno. O chão permanecia
seco; a correspondência se acumulava na caixa do correio.
Na quinta-feira de manhã, Meyer achou no chão um
palitinho de fósforo que havia introduzido na fresta da porta
de Segretti. Contudo, ninguém o atendeu quando tocou a
campainha. E o carro de Segretti também não estava na
garagem. Meyers esperou. Segretti voltou à tarde, e desta vez
atendeu à porta. Meyers apresentou-se como repórter do
Post. O jornal havia recebido certas informações sobre um
determinado serviço que Segretti executara em nome de
Teddy Kennedy, ou, possivelmente, Hubert Humphrey.
Será que podiam conversar?
Segretti permaneceu em silêncio, parado no umbral da porta.
Aparentava ter menos do que os seus trinta e um anos; vinte
e poucos, dir-se-ia. Sua expressão era amável, embora séria.
Meyers perguntou se já tivera qualquer vínculo com
Kennedy ou Humphrey.
Não.
Meyers queria conversar. Disse que o Post estava de posse
de extensas informações sobre suas atividades nas prévias
democráticas. Segretti convidou-o a entrar.
Conhecia Alex Shipley?
— Por quê?
Porque o Post possuía informações ligando Segretti à
tentativa de recrutar Shipley para trabalhos políticos de
bastidor.
— Não acredito — declarou Segretti.
Honestamente, não tentara convencer Shipley — durante
uma corrida até o Aeroporto Dulles, no dia 27 de junho de
1971 — a tomar parte em certas operações relacionadas com
a campanha de Humphrey ou Muskie para as eleições
primárias?
— Não me lembro. Conhecia Alex Shipley?
— Sem comentários.
Quando se encontrava em Chicago, não telefonara para
Shipley dizendo que precisavam conversar sobre um
emprego?
— Não me lembro.
E, tempos depois, não voltara a telefonar a Shipley, pedindo-
lhe que tomasse um avião para Atlanta, com o propósito de
recrutar Kenneth Griffiths?
— Não me lembro.
Conhecia Alex Shipley, certo?
— Sem comentários.
A 23 de outubro, da Califórnia, não chamara para Shipley
para pedir-lhe que verificasse as operações de Muskie no
Estado do Tennessee? Segretti continuava calmo, quase
amável.
— Isto é ridículo — disse a Meyers. — Não sei de nada.
Parece romance de James Bond.
Meyers perguntou-lhe sobre Dixon, Nixt; quis saber se o
Departamento do Tesouro não pagara certas contas suas;
indagou sobre seu escritório de advocacia, suas viagens e,
novamente, sobre Shipley.
Segretti continuava impassível, um leve sorriso nos lábios.
E o nome "Bill Mooney", identidade falsa que, segundo
havia, talvez viesse a usar, acendia alguma luzinha?
— Ridículo.
Segretti levantou-se e andou em direção à porta.
Empunhando uma câmara de 35 mm que trazia escondida
embaixo da capa, Meyers disse que gostaria de bater uma
fotografia antes de sair, e se pôs a tirar instantâneos. Segretti
correu para o corredor, gritando:
— Fotografias, não!
Um minuto depois reapareceu. Meyers ajustou a lente,
focalizou o rosto de Segretti, apertou o botão. Só mais uma,
disse Meyers, tornando a ajustar a câmara. Segretti tentou
agarrar a máquina. Não conseguindo, segurou Meyers pelo
braço e o empurrou na direção da porta aberta, enquanto a
câmara continuava a ser acionada.
Meyers correu em busca de um telefone. Bernstein estava na
sala de Sussman, conversando com o editor. As coisas
começavam a vir à tona. Falando naquela manhã com um
funcionário do Departamento de Justiça, em mais um de
seus telefonemas de rotina, Bernstein lhe perguntara se já
ouvira falar de Donald Segretti. Uma pergunta solta, ao
acaso.
— Não posso responder à sua pergunta, pois ela consta do
inquérito — respondeu o funcionário.
Bernstein surpreendeu-se. Pensava que ele e Woodward
eram os únicos no encalço de Segretti.
Não podiam falar de Segretti, porque o seu nome constava
do inquérito, certo?
Certo, mas o funcionário não queria mais ouvir perguntas
sobre esse homem, Bernstein fez uma revisão de sua lista de
checagem, eliminando os itens, com a anotação "não" ou
"nada" à margem.
Herbert Kalmbach?
— Também consta do inquérito, portanto não posso falar
dele — disse o funcionário.
Sloan recusara-se a dizer se Kalmbach estava entre aqueles
que podiam aprovar retiradas do cofre de Maurice Stans.
Todavia, já que a reserva secreta se destinava a "coleta de
informações", era bem possível que Segretti recebesse seu
dinheiro pela "caixinha". Shipley achava que Segretti recebia
seus pagamentos de um "grande gastador" que não fazia parte
do governo. Kalmbach, advogado particular do Presidente
Nixon, preenchia todos os requisitos.
Haveria alguma ligação entre Segretti e Kalmbach? O
funcionário nada tinha a dizer.
Sussman e Bernstein estavam discutindo todas essas
possibilidades quando um auxiliar de redator entrou
correndo na sala do editor para dizer que Meyers estava na
linha e parecia sem fôlego.
— Puxa vida! quase levei uns pontapés no traseiro quando
tentava tirar fotografias — dizia Meyers a Bernstein. Parou
um pouco para respirar e narrou o episódio com mais
precisão.
Bernstein disse a Meyers que os Federais já sabiam da
existência de Segretti. Sussman veio falar com Meyers.
Concordaram em que devia voltar e entrar em contato com
qualquer pessoa que porventura conhecesse Segretti,
descobrir se seus amigos tinham sido procurados pelo FBI,
quais as perguntas feitas, tudo que pudessem informar sobre
o homem. Os lugares mais adequados para a pesquisa
pareciam ser a Universidade do Sul da Califórnia e a
Faculdade de Direito de Boalt Hall, em Bekerley, onde
Segretti estudara. No dia seguinte, Meyer telefonou dizendo
que, como universitário da USC, Segretti fora muito chegado
a várias pessoas que vieram mais tarde a fazer parte da
Administração de Nixon. Entre os diplomados pela USC,
encontravam-se Ron Ziegler, atual secretário de imprensa do
Presidente; Dwight Chapin, secretário da agenda
presidencial; Bart Porter, ex-membro da segurança da Casa
Branca e diretor de programação do CRP, um dos que
haviam recebido dinheiro da "caixinha"; Tim Elbourne,
assistente de imprensa de Ron Ziegler; Mike Guhin, membro
da equipe do Conselho de Segurança Nacional de Henry
Kissinger; e Gordon Strachan, assessor político de Haldeman
e homem de ligação entre a Casa Branca e o CRP.
Bernstein e Woodward espalharam batedores por toda a
redação do Post, à procura de alguém que tivesse tido um
contato mais profundo com membros do staff da Casa
Branca. As esperanças eram poucas, dado o relacionamento
entre a Administração Nixon e o Washington Post. Há
muito se acabara aquela idade de ouro, durante a qual os
repórteres se viam lado a lado com os homens do Presidente
Kennedy, mãos e ombros se tocando nos jogos de futebol e
nos pátios de Georgetown e Cleveland Park, à luz de velas.
Karlyn Barker, antiga repórter da UPI que entrara para a
equipe local do Post no mesmo dia em que Woodward, disse
que um amigo seu estudara na USC com os rapazes da Casa
Branca e continuara mantendo contatos com eles. Poucas
horas mais tarde, Barker entregou a Bernstein um memo
com a referência: "Observações sobre o Grupo da USC".
Seu amigo conhecia Segretti, Chapin e Tim Elbourne desde
os tempos da universidade, mencionara a "Máfia da USC" na
Casa Branca, e dissera que Segretti e Elbourne tinham sido
convidados pelos amiguinhos Dwight Chapin e Ron Ziegler
a tomarem parte na campanha pela reeleição de Nixon.
Todos tinham pertencido a um partido político da
Universidade, denominado os "Troianos por um Governo
Representativo". Os próprios troianos comparavam seu
método de ação politica a "mutirão de ratos". Violavam ur-
nas, infiltravam espiões nas fileiras da oposição, confundiam
os adversários com literatura eleitoral apócrifa. Ziegler e
Chapin se engajaram na campanha de Nixon de 1962 para
governador da Califórnia, dirigida por Bob Haldeman.
Depois de formados, Ziegler, Chapin e Elbourne entraram
para a agência de publicidade J. Walter Thompson, onde
Haldeman ocupava o cargo de vice-presidente. Segundo as
informações do amigo de Karlyn Barker, Segretti fora
chamado a Washington e treinado para operar em
campanhas presidenciais.
Bernstein tornou a telefonar para o funcionário do
Departamento de Justiça segundo o qual o nome de Segretti
constava da investigação. Era 7 de outubro. Sábado.
— Não, não posso falar sobre ele — repetiu o funcionário.
— É isso aí, embora ele não esteja diretamente ligado ao caso
Watergate, ao arrombamento... Evidentemente, topamos
com ele no curso da investigação... Sim, há uma relação
entre sabotagem política e Segretti. Já ouvi a expressão
"mutirão de ratos" no tocante à sabotagem. Há algumas
informações muito graves, principalmente se forem tornadas
públicas antes de 7 de novembro, dia das eleições.
Será que essas graves informações referem-se a Dwight
Chapin? Foi ele quem empregou Segretti? Ou teria sido
Ziegler? Ou...
— Não direi coisa alguma sobre Ziegler ou Chapin.
Bernstein achava que era Chapin. O funcionário disse que
não pretendia sugerir ao Post que se afastasse da pista que
estavam seguindo.
De acordo com o código tacitamente estabelecido, Bernstein
interpretou essas palavras como confirmação de uma ligação
entre Segretti e Chapin. Segretti tinha algo a ver com a Carta
Canuck?
O informante respondeu que também não podia tocar nesse
assunto. Fazia, igualmente, parte da investigação.
Bernstein tateou pela montanha, de papéis que atulhava sua
mesa e puxou um envelope pardo com a etiqueta
"Telefones". A partir de junho, começara a anotar todos os
números telefônicos das pessoas contatadas no decorrer das
reportagens, escrevendo-os em laudas da redação. Começou
a folheá-las, procurando gente que pudesse saber algo sobre
Segretti, "mutirão de ratos", Dwight Chapin, a Máfia da USC,
a Carta Canuck.
Bernstein havia examinado o noticiário sobre as eleições
primárias, procurando indícios de golpes sujos.
Finalmente, num telefonema, acertou no alvo.
— "Mutirão de ratos"? — um procurador do
Departamento de Justiça reagiu à expressão como se ao
toque de um nervo exposto. — Pode seguir essa pista até o
fim. Fiquei chocado quando soube. Não pude acreditar. E são
servidores públicos? Meu Deus! É um nojo. Você está
falando de gente que vem das melhores universidades do
país. Gente que dirige o governo!
Bernstein ficou pensando no que significaria "seguir até o
fim". Mas não teve tempo de perguntar. O procurador estava
em fúria.
— Se o Departamento de Justiça pudesse encontrar uma
lei contra isso, eles seriam sumariamente condenados por
um tribunal do júri. É absolutamente desprezível... Segretti?
Não existem palavras para descrever esse homem. Seria
muito bom se vocês escrevessem um artigo sobre esse tipo
de conduta. Fiquei chocadíssimo! Não pude entender. É tão
imoral! Essa gente toda... é inacreditável. Veja Hunt, por
exemplo... Não creio que esteja envolvido no "mutirão de
ratos". Mas é capaz de qualquer coisa. E tem entrada livre na
Casa Branca. A imprensa ainda não esclareceu o assunto.
Você imagina gente assim atuando em Dodge City, não na
capital dos Estados Unidos. Hunt levando armas para a Casa
Branca!
Bernstein ficou impressionado. Não pudera imaginar que o
procurador se sentisse tão revoltado.
A ligação Segretti-Chapin?
— Preste bem atenção para ver se os fatos estão corretos
— aconselhou o procurador.
A "caixinha" havia financiado o "mutirão de ratos"?
— É um campo muito fértil. — Pareceu ficar calmo por um
momento, depois enraiveceu-se de novo. — De que outro
modo poderiam ter tanto dinheiro? É um escândalo! Mas vai
ser tudo trazido à baila no julgamento...
A Carta Canuck?
— A carta de Muskie inclusive. Kalmbach?
— Não vou mencionar nomes. Mas são tantas as sujeiras
que nada mais me surpreenderia. Vai tudo aparecer no
julgamento, que é, afinal de contas, a melhor ocasião para
isso. Desse modo, todos saberão a verdade. Os promotores
têm a verdade. E querem uma oportunidade para exibi-la. Os
responsáveis serão levados à barra do tribunal.
John Mitchell?
— Mitchell? Não será intimado. Mas vai estar tudo lá. Não
poderá alegar ignorância, pois se tratava da estratégia —
estratégia da base ao alto. Até mesmo acima dele.
O procurador deu-se conta de ter ido longe demais. Acima
de Mitchell? Dwight Chapin era funcionário guarda-costas e
valet de luxo, lacaio de Richard Nixon e de H. R. Haldeman.
Haveria, no máximo, apenas três homens acima de John
Mitchell: John Ehrlichman (talvez), Haldeman e Richard
Nixon.
Estratégia da base até o alto: a frase paralisou Bernstein. Pela
primeira vez considerou a possibilidade de ser o Presidente
dos Estados Unidos o chefe da operação "Mutirão de Ratos".
"Quando eu for o candidato, eu dirigirei a campanha
eleitoral."; Richard Nixon pronunciara estas palavras depois
de seus assistentes terem perdido o controle das eleições
intermediárias de 1970. Ao recordá-las, sentado à sua mesa,
Bernstein desejou que Woodward estivesse presente, mas
seu amigo fora passar o fim de semana em Nova Iorque.
Depois de quase quatro meses de esforço conjunto,
desenvolvera-se entre os dois uma espécie de afinidade espi-
ritual. Na redação, às vezes brincavam com eles dizendo que
queriam apanhar o Presidente. E se os dois repórteres
tivessem que enfrentar esta situação? Não apanhar o
Presidente, mas obter provas convincentes de que o
Presidente estava envolvido?
Bernstein tentou raciocinar como se fosse Woodward. O
que sabia? Que três advogados tinham sido abordados por
Segretti. Sem provas, exceto a irada reação de um procurador
do Departamento de Justiça. Havia os registros de viagem —
prova circunstancial. Nenhuma evidência de infração a
qualquer lei.
Faltava substância ao que tinham — mas tinham o suficiente
para tentar escrever alguma coisa. A regra era: examine peça
por peça, escreva sobre o que você sabe ser um fato
concreto. O grande final pode esperar.
Bernstein tentou uma abertura:
"Três advogados disseram ao Washington Post que foram
convidados a participar de atos de espionagem e sabotagem
política, em nome do comitê para a reeleição do Presidente
Nixon, tendo sido a proposta feita por um homem
atualmente sob investigação do FBI no caso Watergate".
As palavras "espionagem" e "sabotagem" não podiam ser
empregadas levianamente. Bernstein e Woodward já haviam
discutido o assunto — o fato de a Casa Branca e o CRP
considerarem a campanha para a reeleição do Presidente
uma guerra santa.
Bernstein ficou escrevendo até tarde da noite; voltou
cedinho na manhã de domingo e ligou para a casa de
Sussman. A minuta estaria pronta ao meio-dia para a
apreciação do editor, que chegou às duas da tarde, leu-a, e
pelo telefone releu-a para Woodward em Nova Iorque.
Bernstein e Sussman eram favoráveis à publicação da
reportagem. Woodward argumentou que não eram muitos
os fatos conhecidos sobre as operações de sabotagem, e que
os propósitos e o alcance da mesma não se encontravam
bem definidos. Acrescente-se a isto que não se devia
insinuar as implicações do fato, sem informações mais
concretas.
Prevaleceu a opinião de Woodward. Tomaria o próximo
avião para Washington e tentaria uma entrevista com Deep
Throat.
Saiu de Nova Iorque pelo último avião da Eastern, na ponte-
aérea, e do Aeroporto Nacional telefonou para Deep Throat
em casa.
Haviam, recentemente, acertado um esquema pelo qual
Woodward podia telefonar sem identificar-se. Woodward
deixou sua valise num box do armazém de bagagem do
aeroporto e foi comer um sanduíche. Tomou um táxi até um
hotel no centro da cidade, esperou dez minutos, tomou
outro táxi, caminhou a última parte do percurso e chegou à
garagem à 1h30min da madrugada.
Deep Throat já estava à sua espera, fumando um cigarro.
Mostrou-se contente de ver Woodward e apertou-lhe a mão.
Woodward contou que ele e Bernstein precisavam de ajuda,
realmente precisavam de ajuda neste caso. A amizade de
Woodward por Deep Throat era espontânea e sincera, não
cultivada. Muito antes do caso Watergate, haviam passado
muitas noites falando de Washington, do governo, do poder.
Numa dessas noites, Deep Throat observara como a política
se havia infiltrado em todas as camadas governamentais — a
Casa Branca de Nixon se apossara com pulso forte de todas as
repartições do governo. Assistentes-júnior da Casa Branca
davam ordens nos mais altos níveis do serviço público. Certa
vez, Deep Throat se referira a isto como a "mentalidade do
aguilhão", e mencionara a disposição dos homens do
Presidente para jogar sujo, sem meios-termos, indiferentes
aos efeitos que uma política de retaliação pudesse ter sobre o
governo e sobre o país. Não havia amargura em seu tom de
voz. Woodward percebia nele a resignação de um homem
cujo vigor se esvaíra em muitas batalhas. Sempre dizia
menos do que sabia. Jamais tentava mostrar seus
conhecimentos ou exibir sua importância. Woodward
considerava-o um mestre de sabedoria. Era imparcial e
parecia esforçar-se sempre por encontrar a versão mais
aceitável da verdade. A Casa Branca de Nixon o preocupava.
— São todos desleais e impenetráveis — dissera repetidas
vezes. Tampouco acreditava na imprensa. — Não gosto de
jornais — dizia abertamente. Detestava inexatidão e
superficialidade.
Consciente de suas fraquezas, prontamente reconhecia as
próprias faltas. Paradoxalmente, era um fofoqueiro incurável,
cuidadoso na hora de dar o rótulo adequado aos boatos, mas
fascinado por eles. Conhecia literatura demais, bem demais,
deixando por isso que o deslumbramento do passado
prejudicasse a sua intuição. Podia beber em excesso, tornar-
se brigão, exagerar. Não sabia mascarar seus sentimentos,
fato que dificilmente ajudaria um homem em sua posição.
Ultimamente, havia expressado seu temor quanto ao futuro
do Poder Executivo, onde ocupava posição invejável para
observar os fatos. Os efeitos do caso Watergate começavam a
se fazer sentir. Parecia mais magro, mesmo na obscuridade
da garagem, e quando inalou a fumaça do cigarro,
Woodward notou que seus olhos estavam injetados.
Nessa noite, Deep Throat estava falando mais do que de
costume.
— Há um jeito de desatar o nó do Watergate — começou
ele. — Não devo e não vou fornecer novos nomes a você,
mas tudo parece apontar na direção de um troço chamado
"Segurança Ofensiva"... Pense, ninguém procede a 1.500.
interrogatórios, a menos que tenha nas mãos algo mais do
que um simples arrombamento. Mas, pelo amor de Deus,
não perca a cabeça, e mande averiguar tudo, pois muito do
trabalho de coleta de informações (do CRP) era pura rotina.
Como não são muito inteligentes, a coisa saiu fora dos eixos
— explicou Deep Throat. — Esta é a frase-chave, a
impressão de que tudo saiu fora dos eixos... Uma grande
parte da coleta de informações se referia aos próprios
doadores para a campanha, e um pouco à investigação dos
doadores democratas. Investigavam-se as pessoas e, caso se
descobrisse alguma coisa, fazia-se uma meia-chantagem...
Deep Throat tinha livre acesso a informações da Casa
Branca, do Departamento de Justiça, do FBI e do CRP. Seus
conhecimentos refletiam uma amálgama de informações
concretas, num constante fluxo de ida e vinda, de várias
origens. Não foi sem relutância que reconheceu que
Woodward e Bernstein estavam certos quanto à
responsabilidade de chefões no arrombamento do
Watergate, bem como em outras atividades ilegais.
Mitchell?
— Sim, Mitchell estava implicado. Em que medida?
— Só o Presidente e Mitchell é que sabem — respondeu
ele. — Mitchell conduziu sua própria investigação — ou o
que assim chamou — durante dez dias, depois do 17 de
junho. E quase ficou louco. Descobriu uma série de fatos
novos, surpreendentes até mesmo para ele. A certa altura,
Howard Hunt — suprema ironia — foi designado para ajudar
Mitchell a obter determinadas informações. Com a rapidez
de um raio, Mitchell foi afastado, demitido e mandado sair da
cidade para sempre, depois que limpasse sua mesa. Tal como
John Ehrlichman.
A reação de Woodward foi de choque e incredulidade, em
iguais proporções, Ehrlichman era o bom rapaz, o homem da
Casa Branca para questões de legislação, conceitos, crises
internas. A política era o campo de batalha de Haldeman e
de Mitchell. Woodward fez uma observação sobre a
seriedade da declaração de Deep Throat ao dizer que "só o
Presidente e Mitchell é que sabem". Contudo, Deep Throat
não quis explicá-la.
Woodward perguntou se o Watergate e a espionagem eram
fatos isolados, ou se faziam parte da operação que
congregava as outras atividades a que Deep Throat se
referira.
— Investigue cada pista — aconselhou Deep Throat. — A
operação cobre todo o mapa, e é muito importante. Vocês
poderiam escrever sobre isso reportagens sucessivas e
contínuas, de hoje até o Natal, ou até mais... Nenhum jogo
(palavra que usava para definir operações secretas) constituiu
fato independente. Isto é muito importante. Cada jogo tinha
seu lugar no conjunto.
Recusou-se, no entanto, a discutir especificamente as
atividades de Segretti. Woodward não conseguia entender a
razão.
— Lembre-se apenas do que acabei de dizer. Tudo fazia
parte da mesma operação, nada foi independente. Eu sei do
que estou falando.
"Mutirão de ratos"?
Já ouvira a expressão: significava traição, e no sentido usado
pelas hostes de Nixon queria dizer infiltração no seio dos
democratas. Deep Throat voltou, espontaneamente, a
Mitchell:
— A verdade é que aquele cara aprendeu alguma coisa
naqueles dez dias que se seguiram ao Watergate. Estava
enojado. Todo mundo andava dizendo que a ruína dele foi
causada pelo seu próprio pessoal, principalmente Mardian e
LaRue. Sem falar, é claro, dos acontecimentos na Casa
Branca. E Mitchell disse: "Se isto vier à tona pode arruinar a
Administração. Eu disse: arruinar. Mitchell sabia que,
pessoalmente, já estava acabado e tinha que dar o fora.
E a Casa Branca?
— Havia quatro grupos principais trabalhando nas
atividades secretas — contou Deep Throat. — O Grupo de
Novembro, encarregado da propaganda do CRP; o Grupo da
Convenção, que se encarregava da coleta de informações e
planos de sabotagem a serem executados tanto na convenção
dos democratas quanto na dos republicanos; o Grupo
Primário, que já fizera o mesmo nas primárias dos dois
partidos; e o grupo de Howard Hunt, que era o "time das
operações da pesada". O grupo de Howard Hunt estava
subordinado a Chuck Colson, que, talvez, não estivesse
especificamente a par da instalação clandestina no
Watergate. Não há provas, mas Colson recebia informações
e relatórios diários sobre essas atividades. — Deep Throat
balançou a cabeça. — Os boatos estão correndo pela cidade
toda. Investigue cada um. São todos bons.
E Martha Mitchell?
— Aparentemente não sabe de nada, o que não significa
que vá ficar calada. — Não riu.
Deep Throat dissera que os "jogos" ocorriam em todos os
pontos do mapa. Por exemplo?
— Sei de coleta de informações e jogos em Illinois, Nova
Iorque, New Hampshire, Massachusetts, Califórnia, Texas,
Flórida e no Distrito de Colúmbia. — As forças do
Presidente tinham saído a campo para desmantelar as
campanhas eleitorais dos democratas e também as dos
adversários de Nixon dentro de seu próprio partido:
deputados Paul McCloskey, da Califórnia, e John Ashbruck,
de Ohio.
Woodward perguntou sobre Howard Hunt e a interrupção
das inconfidências na Casa Branca.
— Aquela operação não foi realizada apenas para parar
com a saída de informações para a imprensa;
freqüentemente, serviu também para forjar notícias
destinadas aos jornais. Foi uma típica operação Colson/Hunt.
Entre os destinatários incluem-se todos vocês — Jack
Anderson, Evans e Novak, o Post e o New York Times, o
Chicago Tribune. Pelo que sei, aquela história do registro no
prontuário de Eagleton por dirigir embriagado e seu quadro
clínico de algum modo envolve a Casa Branca e Hunt.
Controle total — este era o objetivo. Todo mundo, mais
cedo ou mais tarde, fazendo o que mandassem. Inclusive a
imprensa.
Deep Throat vinha confirmar o que seus outros informantes
já haviam insinuado. As investigações do FBI e do grande
júri haviam-se limitado à operação Watergate, ignorando
outras atividades de espionagem e sabotagem.
— Nenhum dos outros jogos foi investigado — disse ele.
— Se não tivessem se limitado ao Watergate, jamais
poderiam concluir a investigação, acredite-me. Houve
testemunhos conflitantes perante o grande júri, levando
todo mundo à loucura. Perjúrio, na certa.
Sally Harmony? Sally e outros.
Foi então que Deep Throat fez um aviso explícito — eles
estão atrás do Post. Querem ir aos tribunais e saber quem são
os seus informantes.
Eram três horas da madrugada. Havia ainda generalidades a
discutir sobre a Casa Branca, o clima, a atmosfera de guerra.
Woodward e Deep Throat sentaram-se no chão da garagem.
Nenhum dos dois queria dar a conversa por encerrada. As
cabeças e as costas descansavam contra a parede. A exaustão
os desinibiu. Woodward confessou que ele e Bernstein não
podiam avançar mais, os fatos que tinham eram muito vagos.
O caso Watergate não ia revelar o que a Casa Branca fizera
— a menos que houvesse informações mais específicas.
Mais uma vez, Deep Throat aconselhou Woodward a
concentrar-se nos outros jogos, deixando de lado o
arrombamento da sede democrática.
Ainda assim precisavam de auxílio, explicou Woodward.
Podiam dizer, com segurança, que os jogos haviam sido
patrocinados pela Casa Branca?
— Claro, claro. Você não me entendeu? — Deep Throat
parecia exasperado. Levantou-se.
Que jogos? Woodward perguntou. Não se pode publicar
reportagens baseadas em vagas referências a chefões, em
informações que talvez tivessem sido passadas para a
imprensa por Howard Hunt; em declarações de que os
registros de Eagleton "de algum modo envolvem a Casa
Branca e Hunt".
— Não há mais nada que eu possa dizer — replicou Deep
Throat, enquanto saía.
Woodward insistiu, ele e Bernstein precisavam de mais, algo
mais que generalidades. E a Carta Canuck?
Deep Throat parou e deu meia-volta.
— Foi uma operação da Casa Branca — executada dentro
dos muros que cercam a Casa Branca e o edifício do Poder
Executivo. Isto chega?
Não, não chega. Precisavam saber a extensão da coleta de
informações dos jogos. A maioria fora executada, ou apenas
ficara no planejamento? Woodward agarrou o braço de Deep
Throat. Chegara a hora de pressioná-lo até as últimas
conseqüências. Woodward disse a Deep Throat que os dois
estavam fazendo uma brincadeira idiota — Deep Throat
querendo convencer-se de que jamais fornecera
informações inéditas a Woodward — e Woodward roendo
migalhas como um camundongo embaixo da mesa de
piquenique, sem peito para avançar no prato de resistência.
Deep Throat estava igualmente zangado, mas não com
Woodward.
— OK — disse com brandura. — Isto é muito sério. Você
pode dizer com segurança que cinqüenta pessoas
trabalharam para a Casa Branca e para o CRP nos jogos e na
sabotagem e na espionagem e na coleta de informações. Al-
guns fatos são inconcebíveis, por tentarem atingir a oposição
com toda sorte de golpes baixos imagináveis. Você já sabe
um pouco a este respeito...
Deep Throat foi confirmando com movimentos de cabeça,
enquanto Woodward ia enumerando os itens de uma lista de
táticas que — segundo tinham dito a ele e Bernstein — eram
usadas contra os adversários políticos: escuta clandestina,
vigilância de pessoas, emissão de notícias falsas para a im-
prensa, cartas fraudulentas, cancelamento de comícios,
pesquisa da vida privada de operadores das campanhas
eleitorais, infiltração de espiões, roubo de documentos,
infiltração de arruaceiros em manifestações políticas.
— Está tudo nos arquivos — informou Deep Throat. — O
departamento de Justiça e o FBI sabem de tudo, mesmo não
tendo se aprofundado nos fatos.
Woodward estava estarrecido. Cinqüenta pessoas, dirigidas
pela Casa Branca e pelo CRP para destruir a oposição, sem
limite de ação? Deep Throat meneou a cabeça, confirmando.
A Casa Branca se dispunha a subverter — era esta a palavra
adequada? — todo o processo eleitoral? Alguém realmente
foi e tentou fazê-lo? Outra confirmação. Deep Throat parecia
nauseado. E empregaram cinqüenta agentes?
— Você pode, seguramente, dizer mais de cinqüenta —
falou Deep Throat. Depois, voltou-se, subiu a rampa e saiu.
Eram quase seis horas da manhã.
CAPÍTULO 7
Woodward chegou à redação quatro horas depois, e
datilografou as anotações de sua conversa com Deep Throat.
Havia uma folha de papel carbono sobre a máquina de
Bernstein quando este apareceu meia hora mais tarde.
Woodward, Bernstein, Sussman e Rosenfeld fizeram uma
rápida reunião. Seriam escritas três reportagens: uma
principal, por Bernstein e Woodward, esboçando o
programa geral do "mutirão de ratos", da espionagem e da
sabotagem levadas a efeito por cinqüenta agentes, pelo
menos; a história de Bernstein sobre Sagretti; e o relato de
Woodward sobre o envolvimento da Casa Branca no
episódio da Carta Canuck.
Enquanto Woodward redigia a reportagem sobre a Carta
Canuck, Bernstein se embaraçava tentanto delinear um
quadro geral das operações de espionagem e sabotagem
controladas pela Casa Branca. Havia generalizações em
excesso, todos os detalhes suculentos pertenciam aos outros
dois trabalhos.
Como sempre fazia quando estava encontrando dificuldades
na redação de uma história, Bernstein atravessou a sala de
reportagens até o bebedouro de água gelada. Marilyn Berger,
repórter da equipe de noticiário nacional, encarregada de
cobrir o Departamento de Estado, aproximou-se de
Bernstein enquanto ele dava uma olhada no quadro de
avisos. Marilyn perguntou se ele e Woodward sabiam de
alguma coisa sobre a Carta Canuck.
Lógico, respondeu ele, estavam escrevendo sobre ela para a
edição do dia seguinte.
Tomou mais um gole de água antes de se dar conta da
singularidade da pergunta. Woodward acabara de descobrir,
às seis da manhã daquele dia, as peculiaridades da Carta
Canuck. Na redação tinham sempre o cuidado de não fazer
comentários sobre o assunto em que estavam trabalhando.
As únicas pessoas a quem Bernstein e Woodward haviam
mencionado a carta eram Sussman, Rosenfeld, Simons,
Bradleee David Broder, repórter político sênior doPost.
Como é que Marylyn soubera da carta?
— Dave Broder não lhes contou? — ela perguntou.
Contou-nos o quê?
— Que Ken Clawson escreveu a Carta Canuck — disse ela.
A reação de Bernstein foi expressa em voz tão elevada que
várias cabeças se voltaram em sua direção naquele canto da
sala de reportagens.
Berger explicou que Clawson, antigo colega do Post, lhe
contara tranqüilamente enquanto tomava um drinque, que
fora ele quem escrevera a Carta Canuck. Dissera a mesma
coisa várias vezes.
Era coincidência demais. Bernstein suspeitou de uma
armadilha. Na mesma manhã em que ficam sabendo que a
Casa Branca é a responsável pela Carta Canuck, Marilyn
entra sambando na sala e declara que Ken Clawson é o autor
da carta?
No entanto, Berger afirmou que Clawson lhe contara a
história da carta havia mais de duas semanas — antes que
Bernstein sequer tivesse ouvido falar da existência de
Segretti. Além disso, pensou, Clawson era exatamente o tipo
de gente que não se importaria em dar um golpe dessa
espécie.
Bernstein puxou Berger pelo braço e pediu-lhe que repetisse
para Woodward o que acabara de dizer. Woodward
duvidava que Clawson tivesse começado a se envolver nas
sujeiras da Casa Branca tão pouco tempo depois de ter
deixado o Post para integrar o staff presidencial. A Carta
Canuck fora publicada menos de três semanas depois que
Clawson entrara para a Administração. Woodward levantou
a questão. Depois lembrou-se: um amigo seu, trabalhando na
Casa Branca, havia lhe falado do ritual de iniciação pelo qual
passavam os "noviços" do staff do Presidente, os quais, para
provarem sua têmpera, deviam arruinar um inimigo da Casa
Branca. Talvez a Carta Canuck tivesse sido o objeto da
iniciação de Clawson, fazendo-o, assim, merecedor do
distintivo da fraternidade com o Selo Presidencial, ofertado
por seus confrades da Máfia da USC.
Bradlee, Simons, Rosenfeld e Sussman entraram na discussão
ao redor da mesa de Woodward. A segurança foi esquecida e
a notícia se espalhou pela redação: Clawson escrevera a Carta
Canuck e ia sair um monte de reportagens que cairiam sobre
a Casa Branca como uma bomba. Ficou decidido que Berger
tentaria almoçar com Clawson naquela tarde, para ver se ele
repetiria a história.
Enquanto esperava a hora ela preparou um memorando
descrevendo sua conversa com Clawson.
"Memo de M. Berger (Pessoal): Na noite de 25 de setembro
de 1972, às 8h30min aproximadamente, Ken Clawson
telefonou para o meu apartamento, convidando-me para
sairmos e tomarmos um drinque. Disse-lhe que há havia
jantado, estava muito cansada, mas se ele quisesse vir tomar
alguma coisa em minha casa, podia vir. Convidei-o porque
nas semanas anteriores ele já me havia convidado duas vezes
e em ambas as ocasiões minha resposta tinha sido negativa.
Aceitou um uísque, não me lembro se com água ou com
soda, mas sei que pediu gelo. Sentamo-nos para conversar.
Tomei café instantâneo. No decorrer do bate-papo (durante
os dez primeiros minutos, creio) começamos a falar da
diferença entre ser repórter e ser funcionário do governo.
Ele comentou que nós, repórteres, só ficamos sabendo de
uma fração da verdade. Perguntei-lhe se, fazendo agora parte
da Casa Branca, seria um repórter melhor quando saísse de
lá. Respondeu que já fizera cobertura jornalística da Casa
Branca anteriormente, mas que agora poderia, realmente,
fazer um bom trabalho. Falou qualquer coisa sobre saber
onde os cadáveres estão enterrados, mas não estou
absolutamente certa.
Foi então que disse: "Eu escrevi aquela carta..." Acho que
disse Carta Canuck, mas, de qualquer modo, pronunciou
claramente que escrevera aquela carta (a Muskie). O choque
foi tão grande que me senti enjoada. Perguntei-lhe por que o
tinha feito. Redarguiu que Muskie era o mais forte candidato
da oposição e queriam-no fora do páreo. Quando comentei
que a reação de Muskie fora além de qualquer expectativa,
ele fez sinal que "sim".
Perguntei-lhe, então, se já fizera essa espécie de trabalho em
seu tempo de repórter — isto é, essa espécie de trabalho
sujo. Ele disse que "não", que fora um repórter honesto e
limpo. Perguntei-lhe como podia ter feito uma coisa dessas,
escrevendo aquela carta, e foi então que ele disse que
política era isso, que assim é que as coisas são. Durante a
conversa daquela noite falou muito bem de Nixon, dizendo
principalmente que grande sujeito ele era, muito humano,
brincalhão, e de como o Presidente está sempre dizendo a
ele e a John Scali (atualmente nosso embaixador nas Nações
Unidas) para se comportarem bem...
Esta é a parte da conversa em que falamos sobre a Carta
Canuck e assuntos afins. Naturalmente, falamos de muitas
outras coisas."
Berger, trinta e sete anos, ex-repórter do Newsday,
especializara-se em jornalismo diplomático. Sabia que estava
prestes a se tornar personagem da história — circunstância
intrinsecamente penosa para um repórter —, mas reagiu
com galhardia à sua súbita entrada no meio da agitação do
Watergate.
Clawson aceitou o convite para almoçarem juntos à uma da
tarde. Por volta das três, Berger voltou para a redação e
preparou outro memorando.
"Almoço no Sans Souci (pago por ele). Contei a Ken que
Woodward e Bernstein estavam atrás de uma boa
reportagem na qual entraria a Carta Canuck; que tinham
seguido a sua pista até a Casa Branca e que eu dissera — "Isto
não é novidade, Ken me disse que foi ele quem a escreveu".
Ken ficou muito sério, e assim permaneceu durante todo o
almoço. O Dr. Lubash (médico do Presidente Nixon) lhe
tinha dito poucos dias antes que sua pressão arterial estava
alta e que precisava tomar cuidado com a dieta e com a
comida. Ken agia como se estivesse determinado a parar
completamente de beber e perder peso. Encomendou uma
salada César, mas não comeu tudo.
Também disse que lhe custa muito quando tem que
'bronquear' com outros funcionários, principalmente os do
Gabinete. Perguntei-lhe se de fato 'bronqueava' com chefes
de Gabinete e ele me respondeu afirmativamente. Com
referência à Carta Canuck, disse que gostaria que eu não
tivesse contado nada aos rapazes. Eu respondi que não sabia
que se tratava de um segredo. Ele disse que Woodward e
Bernstein não poderiam ter seguido a pista até a Casa Branca,
ou que a pista não poderia ter sido seguida até a Casa Branca.
Declarou-me que negaria tudo, com a mão sobre uma pilha
de Bíblias, em cima do túmulo de sua mãe. Abandonou o
assunto, e depois voltou a ele, para perguntar o que sabiam
os rapazes. Contei-lhe que não tinha plena certeza, mas que
no tocante à carta haviam descoberto um sujeito na Nova
Inglaterra que fora à Flórida para o troço de Muskie, etc.
Tentei fornecer dados bem vagos. Ele repetiu que negaria
tudo.
Mais tarde retomou o assunto e perguntou se eu gostaria de
anotar o que tinha a dizer, ou se preferia que eles
(Woodward e Bernstein) lhe telefonassem. Depois achou
melhor deixar que eles telefonassem.
Bradlee, os outros editores e Bernstein e Woodward
analisaram o memorando de Berger. Clawson não havia
desmentido ser o autor da carta. Woodward telefonou para
ele na Casa Branca. Clawson, então, declarou em primeiro
lugar não ter admitido a autoria da carta, acrescentando que
tudo não passara de um grande mal-entendido.
Woodward disse que os editores acreditavam em Berger e
que o Post ia usar as informações dela.
Clawson respondeu: — Isto é um direito de vocês. Espero
apenas que incluam meu desmentido. Marilyn entendeu
mal. É uma profissional e não agiu deliberadamente de forma
anti-profissional. Estávamos apenas trocando idéias sobre as
eleições. A conversa não tinha o caráter de entrevista.
Woodward aproveitou para perguntar onde toda essa troca
de idéias tivera lugar. Clawson respondeu que não se
lembrava.
Woodward perguntou a Clawson se, ao que sabia, Berger,
em alguma ocasião, não entendera direito ou citara alguém
erroneamente. Clawson, cada vez mais irritado, gritou:
— Não me venha com uma pergunta estúpida dessas. Não
me venha com toda essa besteira. Parece coisa saída de
Wichita, Kansas. Ela trabalha na área das relações exteriores
e eu não leio quase nada do assunto. Não sei como res-
ponder.
Clawson sustentou que nunca tinha ouvido nada sobre a
Carta Canuck, até vê-la "na televisão", em seguida à
apresentação de Muskie, no dia 26 de fevereiro. Fora isto
"não sei de nada", insistiu.
Pouco depois da conversa com Clawson, Berger veio
correndo até a mesa de Woodward.
— Ken Clawson está na linha. Que é que devo fazer
agora?
Wooward achava que, possivelmente, Clawson iria fazer um
apelo pessoal a Marilyn. Ninguém no Post duvidava que
Clawson houvesse confessado a Berger que escrevera a carta,
mas todos estavam inclinados a crer que na ocasião ele se
vangloriava ou encarava o fato com demasiada simplicidade.
Era provável que, tendo apenas tomado parte no episódio,
quisesse então ficar com todo o crédito. As duas hipóteses
pareciam plausíveis. Quando ainda pertencia à equipe do
Post, Clawson tinha por hábito esquecer-se de colocar a co-
autoria de outros repórteres que, ocasionalmente,
trabalhavam em conjunto com ele.
Enquanto Berger deixava Clawson esperando na linha, uma
secretária pegou uma extensão do telefone para anotar o
diálogo.
Clawson parecia menos preocupado com a Carta Canuck do
que com as circunstâncias em que ele e Berger haviam
discutido a questão.
— Acaba de me ocorrer... onde estávamos quando esta
suposta conversa aconteceu? — Clawson perguntou a
Berger.
— Suposta conversa? Você nega que...
— Olhe, eu disse que foi um mal-entendido. Disse que
achava você uma excelente repórter e que, provavelmente,
houve um equívoco.
Berger fez menção a um drinque.
— Não foi num restaurante? — perguntou Clawson.
— Não — respondeu Berger — foi no meu apartamento.
— Você está brincando! Não. Puxa vida! E você vai contar a
eles?
— Já contei.
— Você contou isto a eles?
— Ué! Você, de fato, foi lá tomar um drinque.
— Pelo amor de Deus!
— O que é que tem demais?
— Você está brincando!
— Não — disse ela —, não estou.
— Você já contou isto a eles? — perguntou Clawson. — Puxa
vida! É... você acaba de me arruinar. Se aparece no jornal
que estive em sua casa tomando drinques... você sabe o que
acontece?
— Não sei por quê...
— Não sabe?
— Não. Tenho a consciência tranqüila.
— Meus Deus! Pra quem você contou?
— Pra eles.
— É incrível... Verdadeiramente incrível — repetiu ele.
— Não vejo nada de tão errado nisso.
— Marily, eu tenho mulher e filhos, gato e cachorro.
— E daí? Vem uma porção de gente ao meu apartamento
para tomar um drinque.
— Nossa! Isto é que foi o pior.
— Mas não há mal nenhum nisto.
— Lógico que há!
— Pois não devia haver — teimou Berger.
— Incrível. Incrível.
— Incrível é que você esteja tão nervoso com o caso,
enquanto aquele outro assunto é muito mais importante —
disse Berger.
Houve um longo silêncio.
— OK. Espantoso...
— Não tenho nada de que me envergonhar — afirmou
Berger.
— Pois é, isto é que é o pior. — E Clawson desligou.
Minutos depois, Clawson telefonou a Bradlee pedindo que o
Post não divulgasse que ele se encontrava no apartamento de
Marilyn quando a conversa ocorreu.
Bradlee não tinha interesse algum quanto ao local onde se
passara a conversa, exceto pelo fato de que isto lhe dava uma
vantagem sobre Clawson. Não tinha intenção sequer de
insinuar, em letra de forma, as circunstâncias da conversa.
Clawson negou também a Bradlee que houvesse assumido a
autoria da Carta Canuck ou tido algo a ver com a história
toda.
Por volta das seis da tarde, os editores, Bernstein e
Woodward tiveram uma reunião definitiva sobre a história.
— O que sabem vocês? E como escreveram? — perguntou
Bradlee.
Os repórteres haviam abandonado o plano original de três
reportagens. Em vez disso, Woodward estava escrevendo
sobre a Carta Canuck, incluindo o papel supostamente
desempenhado por Clawson, enquanto Bernstein fazia o
relato sobre Segretti-espionagem-sabotagem. Cópias das
reportagens quase terminadas foram entregues a Bradlee.
Puxando a cadeira para bem perto da mesa oval, levantou a
mão no ar pedindo silêncio e começou a ler. Simons lia a
cópia-carbono. Rosenfeld virava sua cadeira giratória para a
esquerda e para a direita. De vez em quando, trocavam-se
comentários em voz baixa. Sussman sentava-se quieto, as
pernas cruzadas.
— Caras — disse Bradlee quebrando o silêncio — vocês
têm aqui uma boa reportagem. Façam um único texto,
juntem as duas histórias. Tudo faz parte da mesma história.
Deu um giro de 180 graus com sua cadeira, ficou de frente
para a máquina de escrever, atrás da mesa oval, abriu uma
gaveta e tirou de lá uma folha dupla de papel.
— Esqueçam os parágrafos iniciais — Bradlee aconselhou.
— Trabalhem nisto aqui. — Começou a ler um trecho que
fazia referência a Clawson e acarta. Eliminou dois parágrafos
e jogou a folha para Woodward. Bernstein foi para sua mesa
e escreveu:
"Agentes do FBI chegaram à conclusão de que o incidente
do edifício Watergate faz parte de uma maciça operação de
sabotagem e espionagem, executada em favor da reeleição do
Presidente Nixon e controlada por funcionários da Casa
Branca e do Comitê para a Reeleição do Presidente. Tais
atividades, segundo dados existentes nos arquivos do FBI e
do Departamento de Justiça, tinham por alvo os principais
adversários de Nixon, e representavam, desde 1971, a
estratégia de base da campanha de reeleição de Nixon".
Bernstein passou adiante o rascunho, entregando-o primeiro
a Woodward e em seguida aos editores que rodeavam sua
mesa. Todos concordaram. Nem uma vírgula foi mudada,
caso raro em se tratando de assunto tão delicado e levando-
se em conta o número de editores envolvidos.
Woodward acrescentou um terceiro parágrafo:
"Durante a investigação do Watergate, os agentes do FBI
conseguiram saber que dezenas de milhares de dólares
correspondentes a contribuições para a campanha de Nixon
haviam sido desviados para financiar um amplo programa de
natureza secreta, cujo objetivo era desacreditar, de modo
pessoal, os candidatos democratas à presidência, bem como
arruinar suas campanhas eleitorais".
E, a partir de sugestões de Sussman, um quarto parágrafo:
"Trabalho confidencial é fato corriqueiro no curso de uma
campanha política e diz-se que ambos os partidos se dedicam
a esta atividade. Todavia, os investigadores federais afirmam
que o que está sendo levado a efeito pelas hostes de Nixon
não tem precedentes em amplitude e intensidade".
Não obstante a falta de elementos concretos, os cruciais
quinto e sexto parágrafos relatavam que a espionagem e
sabotagem incluíam:
"Vigiar membros das famílias dos candidatos democratas;
compilar dossiês de suas vidas particulares; forjar cartas e
divulgá-las em papel timbrado dos candidatos; passar à
imprensa notícias falsas e fabricadas; atrapalhar a
programação política dos candidatos; apoderar-se de ar-
quivos confidenciais e investigar a vida de dezenas de
colaboradores da campanha dos democratas.
Além disso, disseram os investigadores que as atividades
incluíam ainda a infiltração de provocadores nas fileiras das
organizações encarregadas de manifestações públicas nas
convenções dos dois partidos, e a investigação sobre a vida
de doadores em potencial antes de aceitas suas contribuições
para a campanha de Nixon".
Woodward telefonou para Shumway, porta-voz oficial do
CRP, leu os primeiros parágrafos e fez um resumo do que a
reportagem dizia sobre Segretti, bem como sobre Clawson e
a carta.
— Agora me leia isso de novo — pediu Shumway,
aparentemente estupefato.
Woodward repetiu.
— Bem, essa é uma daquelas reportagens sobre a qual
volto a falar com você depois — disse Shumway. — Agora,
deixe-me ver se entendi direito. Isso é para amanhã? Esse
negócio não pára de me aborrecer.
Shumway telefonou uma hora depois:
— Pronto? Temos uma declaração: "A reportagem do Post
não é apenas um trabalho de ficção; é uma série de
absurdos".
Woodward aguardou.
— É tudo — disse Shumway.
Woodward pôs-se a fazer perguntas sobre determinados
itens.
— Não adianta, Robert — disse Shumway. — Isto é tudo
que vamos comentar. O caso está inteiramente nas mãos das
autoridades.
A Woodward e Bernstein parecia que o último não-
desmentido vinha confirmar sua narração.
Os dois parágrafos principais, com a avalancha de afirmações
sobre espionagem e sabotagem maciças, dirigidas pela Casa
Branca, como parte da estratégia básica para a reeleição,
eram essencialmente interpretativos e, portanto, constituíam
um risco. Nenhuma fonte dissera claramente que a
substância da notícia representava as conclusões definitivas
dos investigadores federais. Mas os repórteres sabiam que
havia informações suficientes nos arquivos do FBI e do
Departamento de Justiça para apoiar as conclusões a que
haviam chegado. A reportagem fundamentava-se em
fragmentos de prova, em depoimentos de diversas fontes,
em deduções, no conhecimento parcial das manobras da
Casa Branca, na familiaridade dos repórteres com a "mentali-
dade de aguilhão" dos homens do Presidente, e em peças
isoladas de informações que os dois vinham colecionando há
meses. Os da Casa Branca talvez discordassem da
interpretação dada ao parágrafo de abertura — substituindo
"Espionagem e sabotagem política" por "Coleta de
informações políticas" e "ardis" —, mas os fatos vinham em
apoio da agressiva linguagem usada pelos repórteres.
Faltavam exemplos concretos de algumas das táticas
enumeradas nos parágrafos cinco e seis, mas havia sólidas
evidências na Carta Canuck e nas atividades de Segretti. Eles
esperavam que a reportagem forçasse tais exemplos a
aparecerem.
O desmentido de Shumway passou a constar do sétimo
parágrafo, acompanhado da recusa da Casa Branca em
comentar a matéria. Os dez parágrafos seguintes tratavam da
Carta Canuck. Relatavam que Ken Clawson declarara a
Marilyn Berger, em 25 de setembro, ser o responsável pela
Carta, e registravam o desmentido de Clawson.
As descobertas sobre Segretti só eram mencionadas a partir
do 18.° parágrafo, ponto em que o resto da reportagem
passava para uma página interna do jornal.
O envolvimento de "pelo menos cinqüenta espiões, que a
mando de Nixon viajavam por todo o país tentando arruinar
e espionar as campanhas eleitorais dos democratas", só foi
mencionado no 19.° parágrafo. E o texto restante da
reportagem, 65 parágrafos ao todo, tratava das viagens de
Segretti, do recrutamento para os trabalhos clandestinos, de
sua conversa com Bob Meyers e dos dados de sua biografia.
O título em duas linhas, abrangendo quatro colunas no alto
da primeira página, dizia:
"FBI Descobre que Auxiliares de Nixon Sabotaram os
Democratas".
Às 7h30min da noite a reportagem foi distribuída pela
agência de notícias do Washington Post-Los Angeles Times.
Mais da metade dos 220 jornais assinantes do serviço no país
aproveitaram a história, alguns na primeira página. A
informação também foi amplamente utilizada por órgãos de
imprensa não assinantes dos serviços do Post.
Na redação da sucursal do New York Times em Washington,
a menos de cinco quadras do Post, o editor da noite deu
início a uma série de apressados telefonemas aos editores-
chefes de Nova Iorque e a membros de sua equipe ali
mesmo na capital. Duas horas mais tarde, o Times havia
entrado em contato com Shipley, Dixon e Nixt. Todos
confirmaram a manobra de Segretti. A última edição local do
Times, no dia 10 de outubro, inseria no pé da primeira
página uma nota que começava com a narração de Shipley, e
a seguir resumia as afirmações do Post sobre uma campanha
de espionagem e sabotagem, dirigida pela Casa Branca e pelo
CRP, cobrindo todo o território nacional.
Ao meio-dia, na Casa Branca, Ron Ziegler enfrentou um
grupo de repórteres, cada vez mais céticos e dispostos a
desafiar a recusa do Governo em discutir objetivamente o
caso Watergate. Durante os 30 minutos da entrevista, o
secretário de imprensa do Presidente, visivelmente
embaraçado, eximiu-se vinte e nove vezes de discutir a
reportagem do Post. Sua resposta era que o CRP já havia
refutado "adequadamente" as acusações, não restando à Casa
Branca nada a comentar.
Enquanto Ziegler esquivava-se às perguntas agressivas na Ala
Oeste da Casa Branca, Bradlee, na redação do Post, ia até a
mesa de Woodward, sentava-se numa cadeira e dizia.
— Ei, você, Carl e eu temos que almoçar juntos hoje para
uma conversinha.
Bernstein, no entanto, tinha se ausentado da cidade para
comparecer ao enterro de uma amiga, esposa de seu ex-
chefe.
— Então, só você — Bradlee decidiu. — Temos que
conversar.
Atravessaram a Rua Quinze até o Hotel Madison, em cujo
Salão Montpelier havia um ótimo restaurante francês.
Bradlee pediu uma mesa de canto e começou:
— É melhor você me atualizar porque... — Virou-se, pediu o
almoço em um francês impecável, e depois voltou-se
novamente para Woodward.
— ... estamos com a corda no pescoço e quero saber mais
sobre isso tudo. — Bradlee tinha uma idéia geral sobre os
informantes dos repórteres.
— Mas tudo o que eu tenho é informação de segunda mão,
vinda através de Sussman e Rosenfeld. Gostaria de saber
agora — direto da fonte — como ajustaram as histórias e de
onde vêm elas. — Bradlee era repórter por instinto e
formação; compreendia que um repórter relutasse em
discutir a identidade de seus informantes com quem quer
que fosse, inclusive o editor.
— Conte-me apenas o que acha que pode — pediu ele. —
Diga-me só as posições que ocupam. Fale-me outra vez
daquilo que você tem certeza e daquilo que Bernstein tem
certeza. Garanta-me que essa gente não está apenas
utilizando a primeira página do Post para ajustar velhas
contas.
Bradlee não conseguia ficar quieto na cadeira. Ele e
Woodward discutiram a cobertura dos fatos, o
relacionamento entre os repórteres e suas fontes, as
circunstâncias em que se haviam encontrado e comunicado.
Só terminaram no ponto em que Bradlee deu por satisfeitos
seus instintos de repórteres e suas responsabilidades de
editor, recebendo a promessa de Woodward e Bernstein
(embora ausente) de preservarem o anonimato de seus
informantes. Passou-se mais de uma hora de conversa antes
que Bradlee dissesse:
— OK, estou satisfeito. E agora, o que é que vocês têm
para amanhã? — Bradlee não gostava de diminuir a pressão.
Estavam trabalhando em duas áreas importantes, disse
Woodward: uma ligação entre Segretti e a Casa Branca, e o
catálogo completo das sujeiras que haviam terminado por
arruinar a carreira de Muskie. Nenhum dos dois trabalhos,
entretanto, estaria pronto para o dia seguinte.
Às três da tarde, quando os editores entraram na sala de
Bradlee para a conferência diária sobre a matéria a ser
publicada, levaram em consideração dois tópicos como
possíveis suítes para a primeira página: a reação (ou sua falta)
da Casa Branca, expressa por Ron Ziegler, e a exigência do
senador Muskie de que o Presidente Nixon respondesse
pessoalmente às notícias sobre os delitos dos membros do
staff da Casa Branca, dada a seriedade das acusações. Muskie
insistira para que qualquer investigação do fato fosse levada a
efeito independentemente do Departamento de Justiça,
argumentando ser inacreditável que "os advogados do
Presidente" pudessem investigar objetivamente um caso de
corrupção do staff presidencial.
Nenhum dos itens gerou muito entusiasmo. Rosenfeld
confessou a Woodward a preocupação dos editores do Post:
a falta de uma vigorosa suíte podia dar impressão de recuo do
Post. Instou com Woodward para que continuasse ciscando
o assunto.
Por volta das seis, Frank Mankiewicz, o astuto dirigente da
Campanha de McGovem, telefonou para Woodward. Tinha
uma lista de dez atos de suposta sabotagem contra
McGovern, atos "tão bem engendrados que devem ser coisa
dos republicanos".
Os atos iam do grave (alguém que se fez passar por um dos
mais altos assessores de McGovern, tentou marcar um
encontro fictício entre o candidato e George Meany,
presidente da AFL-CIO) ao corriqueiro (telefonemas
anônimos recebidos na mesa telefônica da sede de campanha
de McGovern).
Woodward perguntou se havia alguma prova vinculando os
atos à Casa Branca ou ao comitê para a reeleição. Não,
respondeu Mankiewicz, mas tudo indicava que faziam parte
da mesma operação a que se referira o Post em sua edição
matutina.
Rosenfeld queria primeira página para as acusações de
Mankiewicz. Woodward argumentou calorosamente que
não havia prova de que tais incidentes fizessem parte da
ampla operação do CRP. Preocupava-se com a possibilidade
de virem os leitores a concluir — com justiça, diga-se de
passagem — que a campanha de McGovern estava tirando
partido da sabotagem. A reação de Ziegler daria uma
reportagem muito mais legítima. Woodward foi voto ven-
cido contra Rosenfeld e os outros editores.
Woodward continuou seus protestos mesmo depois de ter
redigido o texto, no qual dizia claramente que Mankiewicz
não fornecera evidência alguma capaz de estabelecer um elo
entre os fatos narrados e a campanha presidencial.
O título era "Democratas Fazem Acusações de Sabotagem". E
serviria apenas para ajudar a Casa Branca em suas acusações
sobre uma conspiração do Post e de McGovern naqueles
últimos e desesperados dias da campanha dos democratas.
Em certa ocasião, segundo Mankiewicz, alguém, dizendo ser
ele próprio, telefonou para Walter Cronkite na CBS-TV e fez
referência a um acordo pelo qual, supostamente, Cronkite
cedera 80% da cobertura do noticioso noturno a McGovern,
e os restantes 20% a Nixon. O imitador de Mankiewicz disse
a Cronkite (que confirmou o telefonema): "Todo mundo está
desconfiado, é melhor ceder mais tempo a Nixon".
Mankiewiez afirmou que, mais tarde, Cronkite comentara:
"O sujeito não era um doido qualquer. Foi uma imitação
muito boa".
Bernstein, que chegou a Washington quando a discussão
entre Woodward e os editores estava no auge, ficou
duplamente confuso. Ele ainda precisava de alguns
telefonemas para confirmar o último ato de uma extensa lista
de tentativas de sabotagem levadas a efeito contra a
campanha de Muskie.
Um dia depois de ter falado com Alex Shipley, Bernstein
começara a telefonar para os responsáveis pela campanha de
Muskie. Todos eles haviam contado horríveis histórias sobre
como sua campanha fora vítima constante de inexplicáveis
acidentes, que só podiam resultar de um esforço organizado:
documentos roubados, propaganda espúria, comícios
cancelados, telefonemas insultantes a eleitores em nome dos
colaboradores de Muskie, interrupções da programação, e —
evidentemente — a Carta Canuck.
Não obstante, quase todos concordavam, a campanha
eleitoral de Muskie se autodestruíra devido à hesitação do
candidato frente a diversos problemas, e também ao que
consideravam sua inaptidão. Não sabiam quem eram os res-
ponsáveis pelos fatos maléficos que continuavam a
acontecer; fosse quem fosse, no entanto, era culpado de falta
muito grave; alguns achavam que se tratava de partidários de
Hubert Humphrey, outros de partidários de George Wallace.
Na condição de repórter, Bernstein acompanhara Muskie
uma semana no curso da campanha de 1968, quando o
senador era o candidato do Partido Democrático à vice-
presidência, e, assim, conhecia-o um pouco. Queria entrar
em contato com Muskie antes que o Post publicasse
qualquer notícia que pudesse culpar à sabotagem o resultado
de sua candidatura à presidência.
Roger Wilkins, editorialista do Post*, dissera a Woodward
que Muskie procurara orientação jurídica durante a
campanha, ao suspeitar que membros de sua família estavam
sendo seguidos e investigados. Wilkins, antigo diretor do
Serviço de Relações Comunitárias do Departamento de
Justiça, subordinado ao Procurador Geral Ramsey Clark e
sobrinho de Roy Wilkins, presidente da Associação Nacional
pelo Progresso das Pessoas de Cor, dissera:
— Muskie procurou advogado porque um de seus filhos
estava sendo seguido e porque andavam fazendo perguntas
sobre ele na escola em que estudava.
O encontro entre Bernstein e Muskie no Capitólio durou
mais de uma hora. Sem que Bernstein precisasse insistir,
Muskie revelou que há muito suspeitava que as forças de
Nixon estavam por trás "da sistemática campanha de
sabotagem" que tanto prejudicara sua campanha.
— Nossa campanha eleitoral foi constantemente
prejudicada por falsidades? interrupções e confusões —
afirmou Muskie. — Mas jamais conseguimos descobrir o
responsável... Alguém estava preparando emboscadas contra
nós. Presumimos que se tratava de Nixon, por ser este o
método adotado por sua Administração. Quando se trata'de
política, eles não têm a mínima decência, nem respeito pela
privacidade das pessoas. Mas não temos provas contra eles.
Muskie descreveu mais de uma dúzia de acidentes que
suspeitava resultantes de atos de sabotagem, dizendo mais ou
menos as mesmas coisas que os membros de sua equipe já
haviam contado. Souberam que agentes do FBI haviam sido
designados para fazer relatórios sobre um discurso que
pronunciara a propósito do feriado de 22 de abril, Dia da
Terra, em 1970.
— Conclui então — disse o Senador — que estava sendo
vigiado pelos republicanos.
Haviam seguido os membros de sua família?
— Achamos que sim, mas nunca pudemos estabelecer um
elo entre isso e a espionagem dos republicanos. — O senador
recusou-se a entrar em detalhes ou narrar o que acontecera a
um de seus filhos. — O que ocorreu com pessoas de minha
família é assunto particular — disse ele.
Seu tom de voz, irado e insistente, denotava uma real
amargura. Bernstein continuava tentando descobrir o que se
escondia por trás disso. Perguntou a Muskie se alguém
tentara saber algo específico sobre algum dos seus filhos; por
exemplo, se usavam tóxicos.
— Não vou falar sobre isso — respondeu Muskie.
A 12 de outubro, Bernstein escreveu uma reportagem sobre
a sabotagem a Muskie, baseada em entrevistas e
memorandos entregues pelo Senador e sua equipe antes que
a reportagem do dia 10 fosse publicada. Bernstein pudera
confirmar que:
Em julho de 1971, fac-símiles do papel timbrado de Muskie
no Senado foram usados para remeter a membros do
Congresso uma reprodução do trabalho da Harris Poli a
respeito do senador Kennedy e o acidente em
Chappaquiddick, do que resultaram acusações a Muskie por
falta de ética na conduta politica.
A 17 de abril de 1972, o jantar realizado no Washington-
Hilton Hotel com o fim de levantar fundos para a campanha
eleitoral de Muskie foi perturbado devido à inesperada
exigência de pagamento à vista das bebidas, flores, pizzas,
bolos e artistas contratados.
Vários dias antes das primárias na Flórida, foram distribuídos
volantes impressos em papel com timbre falso de Muskie,
acusando o senador Humphrey e o senador Henry Jackson
de conduta sexual indecente.
Durante a campanha para as primárias de New Hampshire,
eleitores foram acordados no meio da noite para atender a
telefonemas de pessoas que se diziam vindas do Harlem a
fim de angariar votos para Muskie, "porque ele era tão bom
para o homem de cor''.
Em 1971, dados básicos de pesquisa de opinião
desapareceram da mesa do especialista em pesquisas da
equipe de Muskie. O fato convenceu Muskie de que havia
um espião no escalão intermediário. E membros da equipe
afirmaram terem sido depois avisados pelo colunista
Rowland Evans de que havia um espião em seu meio.
Na manhã de 12 de outubro Woodward estava lendo a
reportagem sobre Muskie publicada na edição daquele dia,
quando Robert Meyers telefonou de Los Angeles. Tinha
encontrado Larry Young. Este e Segretti haviam pertencido
ao mesmo grupo durante os anos de faculdade na USC.
Young era, provavelmente, a outra metade da firma Young
& Segretti. Segretti havia relatado a Young muitos fatos
relativos às suas ligações com a campanha de Nixon.
Woodward começou a datilografar.
"Segretti contou [a Young] que o FBI o descobrira através
das contas telefônicas de E. Howard Hunt; uma série de
telefonemas 'mão única', todos de Hunt para Segretti... Hunt
dava instruções a Segretti, mas Young não sabia a quais
eventos essas instruções diziam respeito... não foi o caso de
instalação de microfones clandestinos..."
Woodward ficou surpreso. Jamais ocorrera aos repórteres
que as atividades de Segretti estivessem ligadas aos planos de
Hunt.
"Segretti disse a Young: — Estou ligado a um rico advogado
republicano da Califórnia com contatos por todo o país, e
recebo meus pagamentos através de um advogado
especialmente encarregado de gerir o fundo".
Kalmbach. Woodward perguntou se Meyers mencionara a
Young o nome do advogado particular do Presidente.
Meyers respondeu que Young não sabia quem era
Kalmbach.
— Young está convencido de que Segretti encontrou-se
com Dwight Chapin e Hunt. Segretti falou em ir a Miami
para encontrar-se com todas as "pessoas-chave" com as quais
falara sempre pelo telefone. E já dissera que um deles era
Hunt e que Chapin era o organizador geral. Segretti vivia
dizendo: "Tenho que falar com DC", ou "Tenho que ver
DC". A princípio, Young pensou tratar-se de Dwight
Chapin... Dizem que Young também foi amigo da Máfia
Republicana da USC e que se mantinha em contato com
todos eles... Young acha que, em Miami, Segretti encontrou-
se com Chapin e Hunt. Alguém pediu — não sei quem —
que Segretti recrutasse e organizasse cubanos para invadir o
Hotel Dora Beach, fazendo com que a ação parecesse coisa
de McGovern. Segretti recusou-se porque achou que seria
uma ação flagrantemente ilegal e violenta.
Durante meses, os repórteres haviam colecionado
informações no sentido de que as forças de Nixon faziam uso
rotineiro da infiltração de provocadores em manifestações
públicas, e que ações semelhantes estavam programadas para
as convenções. Mas supunham que depois do Watergate
tudo fora cancelado. Contudo, o Hotel Dora Beach fora
vítima de um ataque e havia indícios de que provocadores se
haviam misturado à turba. Woodward lembrou-se das
palavras de Deep Throat quatro noites antes: "Não são muito
inteligentes". De certo modo, o fato servia para mostrar até
que ponto as hostes de Nixon estavam dispostas a avançar
para conseguir seus objetivos. Até onde teriam ido seus
esforços se os airombadores do Watergate não tivessem sido
tão incrivelmente burros a ponto de substituir os fios das
portas do poço da escada, em 17 de junho, fazendo com que
o guarda de segurança chamasse a polícia? Ou se Howard
Hunt, o suposto super espião, usasse telefones públicos?
Woodward foi à sala de Sussman. O editor local e Bernstein
suavam frio ante a possibilidade de estarem tão perto —
suplício de tântalo — de descobrir o elo entre Segretti e
Chapin. As informações de Meyers com referência a Young
estabeleciam a ligação que procuravam. Young, todavia,
ainda não estava pronto para se pronunciar oficialmente.
Analisaram as notas de Woodward.
Naquela tarde, Bernstein localizou Young em seu escritório
de Los Angeles. Falaram por mais de uma hora. Young
contou:
— Segretti me telefonou em agosto. Estava em pânico.
Faltavam duas semanas para a convenção republicana. Disse-
me que o FBI acabara de lhe fazer uma visita, e queria falar
comigo urgentemente. Estava preocupado por não ter
recebido aviso algum de que o FBI iria procurá-lo. Achava
que deviam tê-lo avisado e instruído sobre o que dizer. Não
quis dizer de quem partiriam as instruções, só que era
alguém do grupo para o qual trabalhava. Estava com medo de
ser abandonado, sacrificado sem receber proteção ou apoio.
Pediu-me conselhos sobre o que fazer... Don me disse que
seus pagamentos eram feitos sob a forma de retiradas de uma
conta em nome de um advogado. Esse advogado,
acrescentou, era amigo de confiança do Presidente e seu
nome devia ser zelosamente salvaguardado... Não devia
jamais divulgar nomes.
Bernstein insistiu para que Young tentasse lembrar qualquer
detalhe sobre o advogado. Young pensou um pouco.
— Ah, sim, certa ocasião ele me disse que esse advogado
era da área de Newport Beach.
Era onde Kalmbach morava e tinha seu escritório.
Amigo de confiança do Presidente — advogado — Newport
Beach...
Como descrevera Segretti suas atividades?
— Segretti me disse que estava engajado em "ardis
políticos", foi este o nome que deu às suas atividades. Disse
que isto fazia parte do movimento para a reeleição do
Presidente, que o propósito era criar encrencas e problemas
para os candidatos democratas... Depois de intimado a
comparecer perante o grande júri, tentou entrar em contato
com seu pessoal (que estava) em Miami Beach (para a
Convenção). Estava em completo pânico, ainda mais
atemorizado do que após a primeira visita do FBI. Achava
que deviam tê-lo prevenido com antecedência. Estava
tentando falar com Chapin. Perguntei: "Já conversou com
Chapin sobre isto?" Respondeu com evasivas e disse que não
conseguia localizar ninguém. Estava preocupado com o
nome de Dwight... Depois, telefonou-me aí pela meia-noite,
dizendo que estava a caminho de Miami, que havia
conseguido falar não disse com quem e que lhe haviam dito
para ir a Miami. Disse depois que em Miami lhe haviam
mostrado um relatório do FBI sobre seu interrogatório —
sobre os dois interrogatórios... E lhe deram ordem para dizer
a verdade (perante o grande júri), não cometer perjúrio e
não se preocupar.
Young continuou seu relato:
— Segretti foi instruído a sustentar exatamente o que
dissera ao FBI, uma vez que em seu depoimento não havia
nada de prejudicial. Falava simplesmente dos telefonemas de
Hunt, dos trabalhinhos que fizera, coisas inofensivas como
tomar parte em atividades de campanha, nada que mais tarde
merecesse ser publicado. Quando se apresentou — sei lá
onde as pessoas têm que se apresentar —, o Promotor o
interrogou antes da audiência, em sala fechada, mostrando
que tinha verificado tudo. Todavia, perante o grande júri as
perguntas seguiram uma linha muito suave: referiam apenas
a fatos inócuos, alguns foram sobre Hunt. Então, um dos
jurados, uma mulher, quis saber de quem recebia seu
pagamento e se conhecia alguém do staff da Casa Branca.
Daí, disse ele, os nomes saíram, a começar pelo de Dwight
Chapin. Nao mencionou outros nomes (quando contou a
história para Young)". Afirmou que, de k fato, dera ao grande
júri o nome do advogado da Costa do Pacífico de quem
recebia os pagamentos.
Agora, era definitivo. O Departamento de Justiça possuía a
informação de que tanto o secretário do Presidente como
seu advogado pessoal estavam implicados, e nada fizera para
dar prosseguimento à investigação. Mais uma vez Bernstein
se perguntou como poderiam os promotores ter-se deixado
manipular a ponto de aceitar tal decisão. "Ele disse tudo o
que sabia aos promotores, sem faltar com a verdade",
afirmara Young. Bernstein pediu a Young que lhe desse
detalhes mais concretos.
— Segretti mencionou uma carta ou panfleto enviado pelo
correio a todos os membros do Comitê Central Estadual
Democrático na Califórnia, contendo um vergonhoso ataque
a Humphrey, culpando-o pela guerra, xingando-o de
perdedor inveterado. Fizeram com que parecesse coisa de
McGovern. Disse-me que outros estavam agindo da mesma
forma. Declarou, "eu sou fichinha, uma peça ínfima da
engrenagem, um entre muitos que fazem a mesma coisa".
E Chapin?
— Tenho a impressão de que Don e Dwight são muito
ligados. Tão íntimos quanto podem ser dois amigos. Não se
perderam de vista com o passar dos anos. Segretti disse que
telefonara à casa de Dwight para falar sobre isso tudo. Mas
não se abriu muito comigo.
O que dissera de Howard Hunt?
— Quando Segretti foi procurado pelo FBI pela primeira
vez, ficou sabendo que o número de seu telefone constava
da conta telefônica de um indivíduo chamado Howard
Hunt. Disse que conhecia Hunt por outro nome — um
nome falso, um pseudônimo —, mas que sabia tratar-se de
Hunt. Este falava sempre sussurrando, com voz de
conspirador — contou ele — e achava Hunt muito esquisito.
Parecia que Hunt ampliava a intriga já existente.
Essas declarações eram confidenciais. Entretanto, Young
prometeu que iria pensar em torná-las oficiais, depois que
recebesse orientação jurídica de que não haveria, no caso,
quebra de sigilo profissional no relacionamento
advogado/cliente. Segretti não havia contratado seus
serviços, procurara-o apenas como amigo, afirmou. Ele,
Bernstein, Woodward e Meyers se manteriam em contato
diário.
A 13 de outubro, sexta-feira, Young concordou em
oficializar sua narração. Woodward e ele procederam a uma
última análise dos pormenores, Woodward insistindo para
saber se havia alguma possibilidade de Young estar
enganado, ou exagerando os vínculos de Segretti com Hunt
e Chapin. A resposta foi negativa.
Despacharam Meyers para obter um depoimento
juramentado de Young, afirmando que o teor de suas
entrevistas com Meyers, Bernstein e Woodward refletia a
verdade exata do que lhe fora dito por Segretti.
Iam, finalmente, publicar uma reportagem baseada quase que
completamente em declarações oficiais que não poderiam
ser desmentidas pela Casa Branca sob pretexto de terem
partido de fontes anônimas.
Durante dois dias Woodward vinha tentando falar com
Chapin pelo telefone de seu escritório na Casa Branca, a
poucos passos da Sala Oval do Presidente. Pela primeira vez,
as ligações de Woodward ficaram presas na mesa telefônica,
enquanto perguntavam quem queria falar e qual o número
de seu telefone. Depois de uns vinte segundos completavam
as ligações, mas quando estas chegavam a ser transferidas
para a sala de Chapin, uma secretária informava que Chapin
não podia atender no momento e perguntava se queria
deixar recado. Não houve resposta a nenhum dos seus
chamados.
Restava ainda um sério obstáculo: fvíeyers descrevera Larry
Young como defensor "de radicais e de assassinos de
policiais". A frase fez com que Harry Rosenfeld acendesse
imediatamente o sinal vermelho. O editor metropolitano
disse, sem preâmbulos, que não iria arriscar sua reputação
nem a do Washington Post por causa das declarações de "um
advogado hippie qualquer".
Felizmente, as credenciais de Larry Young estavam em
ordem. Woodward fez uma dúzia de chamadas telefônicas
para a costa do Pacífico e ficou horas falando com dignos e
respeitáveis advogados daquela área, através dos quais ficou
sabendo que profissionalmente nada havia de errado com
Young. Woodward chegou até a descobrir o estilo das
roupas de Young (moderno, mas de bom gosto) e o
comprimento de seus cabelos (mais curtos que os de
Bernstein). Rosenfeld deu-se por satisfeito.
Bernstein deu início à reportagem e Woodward ausentou-se
da redação para uma ronda de visitas pelo Departamento de
Justiça. Depois de várias investidas, encontrou um advogado
a par do assunto, sozinho em sua sala. Woodward foi
convidado a entrar e sentar-se. Prevalecia aquele ambiente
informal das tardes de sexta-feira. Bateram papo sobre a
reportagem de terça-feira: a espionagem e sabotagem levadas
a efeito durante as eleições primárias.
— De fato, chegamos a Segretti através das chamadas
telefônicas de Hunt — disse o advogado. — O FBI
investigou, ao acaso, uma grande parte dos telefonemas de
Hunt. Juntando todos, somavam mais de setecentos. Uma
dessas ligações fora para o tal de Segretti. Quero esclarecer
que alguns daqueles golpes sujos provavelmente não
poderiam ser considerados ilegais e aqui no Departamento
estamos nos concentrando na investigação do caso
Watergate... Mas o fato me preocupa. O Bureau (FBI) está
agindo de modo muito estranho... Alguém lá em cima se
interessa pelo caso... — Não quis dizer onde era "lá em
cima".
Agora, mais do que nunca, tornava-se evidente o motivo
pelo qual a investigação fora tão limitada, a ponto de os
promotores se desinteressarem de chegar a crimes — não
importa quão óbvios — que não estivessem diretamente
ligados ao Watergate.
Woodward leu em voz alta algumas anotações sobre o
vínculo Chapin/Segretti e insinuou que talvez isto explicasse
o interesse de alto nível. Não sabia se o advogado ficaria ou
não surpreso.
Depois de uma ligeira hesitação, o advogado disse:
— Foi basicamente isto que nos contaram.
Woodward confessou estar com um certo receio da
reportagem, pois ela levava direto à Casa Branca — ao
guardião da Sala Oval, uma das funções exercidas por
Chapin.
O advogado sorriu.
— Muitas vezes fiquei pensando no motivo de sua
exagerada preocupação quanto a Chapin, já que a posição
dele é muito inferior à de Mitchell ou à de Stans. O que foi
dito a vocês sobre Segretti e Chapin também foi dito a nós.
Posso falar sobre a questão com um pouco mais de liberdade,
porque não tem nada a ver com o Watergate. Constava da
investigação, tecnicamente ainda consta, mas é caso isolado
que não estamos averiguando...
Às cinco da tarde, os editores e os dois repórteres se
reuniram para discutir a reportagem sobre Chapin. Era longa
demais para ser concluída em poucas horas; queriam retê-la
para a edição de domingo. O Departamento de Justiça
deixara de investigar a verdadeira conspiração por trás do
Watergate — concentrara-se no arrombamento e na
instalação de transmissores clandestinos na sede democrática
—, a ICO (Interceptação de Comunicações Orais), como era
chamada pelos Federais —, e desprezara a grande
conspiração dirigida pelos homens do Presidente, destinada a
subverter o processo eleitoral.
Woodward telefonou para um de seus conhecidos na Casa
Branca, a fim de se informar sobre Chapin.
— Ele pertence à categoria de Haldeman e Pat Buchanan
(um dos redatores de discursos do Presidente e autor dos
resumos diários da Casa Branca), que pegou o bonde do
Velho logo no princípio e agüentou todos os trancos desde
então — disse o homem a Woodward. — Durante a
campanha eleitoral, Chapin era o encarregado de
providenciar para que o terno do Velho fosse entregue a
tempo pela lavanderia do hotel. Assegurava-se de que todos
fossem servidos de café e apresentava as desculpas do
Presidente quando este se atrasava, inclusive telefonando
para a Sra. Nixon e as meninas. Se Nixon necessitou, é
provável até que lhe tenha massageado as costas, alguma vez
durante a campanha de 1968... Dwight é gentil com todo
mundo... sempre dá um "alô".
A decisão de adiar a reportagem para a edição de domingo
foi tomada depois de Woodward telefonar à Casa Branca
para os comentários de praxe. Às oito da noite, três horas
depois de tomar conhecimento do texto, Gerald Warren,
vice-secretário de imprensa da Casa Branca, telefonou para o
Post.
— Tenho aqui uma declaração de Dwight Chapin:
"Do modo como foi escrita pelo repórter do Washington
Post, a reportagem se baseia inteiramente em boatos e é
fundamentalmente inexata. Por exemplo, não conheço,
jamais conheci, vi ou falei com E. Howard Hunt. Conheço
Donald Segretti desde os nossos tempos de universidade,
mas não nos encontramos na Flórida, como insinua a
reportagem, e certamente jamais discuti com ele qualquer
fase da investigação levada a efeito pelo grande júri do caso
Watergate. Não tenciono emitir quaisquer outros
comentários".
Apressando-se em rebater acusações que não lhe eram feitas,
Chapin omitira o ponto crucial: o de que era o contato de
Segretti. "Fundamentalmente inexata" correspondia bem à
"série de absurdos" usada para definir a reportagem inicial
sobre as atividades de espionagem/sabotagem de Segretti. E
depois vinha a velha acusação de que a reportagem se
baseava em "boato".
A palavra "boato" irritou os editores. O Post estava de posse
de uma declaração de Larry Young, prestada sob juramento.
Às nove da noite, quando Bernstein se sentou para escrever,
tinha em mãos três versões diferentes das entrevistas de
Young — a sua, a de Woodward e a de Meyers. Como a
bagunça em sua mesa era irrecuperável, ele ocupou três
mesas vazias nas imediações e espalhou cinco metros de
anotações. Às 7 da manhã estava com 15 laudas batidas, nas
quais Young era longamente citado. Faltava apenas escrever
os dados biográficos de Chapin.
Deixou-se cair num sofá da editoria de esportes e dormiu um
sono agitado, antes de ser acordado duas horas depois por
um estagiário. Bernstein queria completar a história bem
cedo, para que ela pudesse ser revisada por Rosenfeld,
Simons e Bradlee sem correrias de última hora. Pesquisara a
biblioteca à procura de mais detalhes sobre Chapin.
Encontrara apenas uma papeleta de meia página, impressa
pela organização da campanha de Nixon em 1968. Dizia que
Chapin se diplomara pela USC e que trabalhara para
Haldeman na agência de publicidade J. Walter Thompson.
Bernstein acrescentou pormenores tirados das notas de
Meyers.
Cerca de 9h30min da manhã telefonou para o antigo
funcionário da Administração com quem falara uma semana
depois das prisões no Watergate. O homem conhecia
Dwight Chapin muito bem.
— Se Dwight está metido nisso, é coisa de Haldeman —
declarou. Chapin não tinha iniciativa. — Ele faz aquilo que
duas pessoas mandam: Haldeman e o Presidente.
Naquele sábado, Woodward e Sussman chegaram à redação
às dez horas, e começaram a ler o texto de Bernstein.
Quanto ao parágrafo inicial não havia problema. Era o que
havia sido lido para a Casa Branca.,
"O secretário da agenda presidencial e um ex-auxiliar da Casa
Branca, acusados no caso de espionagem do Watergate,
foram "contatos" nas operações de espionagem e sabotagem
contra os democratas, declarou sob juramento um advogado
da Califórnia."
Sussman achava que o preâmbulo da reportagem não definia
com clareza a posição de Chapin na Casa Branca; dava a
impressão de que Chapin era apenas um vigia do calendário,
que de vez em quando saltava de dentro de um armário
embutido.
Datilografou um segundo parágrafo:
"O secretário da agenda presidencial, Dwight L. Chapin, 31
anos, encontra-se quase todos os dias com o Presidente.
Como encarregado dos horários e compromissos do Sr.
Nixon, inclusive a coordenação geral das viagens, Chapin faz
parte de um fechado grupo de membros do staff da Casa
Branca com livre acesso ao Presidente".
O aditamento agradou a Bernstein. Todavia, lançou seu
protesto quando foi eliminado o parágrafo seguinte, no qual
descrevia Chapin como um funcionário que acatava as
ordens de Haldeman.
A raiva transformou-se em angústia ao ser retirado também
o parágrafo posterior, no qual observava que a descrição feita
por Larry Young do advogado de Newport Beach, que
supostamente pagava a Segretti, "parece enquadrar-se com
Herbert W. Kalmbach, o advogado particular do Presidente
e antigo vice-presidente financeiro da campanha de Nixon".
Woodward tentara comunicar-se com Kalmbach na sexta-
feira, mas a secretária do advogado lhe dissera que nenhum
membro da firma faria qualquer declaração a repórteres.
Bernstein estava pronto para discutir vigorosamente, mas
Woodward tomou o partido dos editores e disse que preferia
abandonar o parágrafo até que Kalmbach pudesse ser
contatado, ou até que alguma outra fonte o identificasse
peremptoriamente como o homem que pagava a Segretti.
Bernstein reconheceu que deviam ser capazes de confirmar
o elo entre Kalmbach e Segretti dentro de poucos dias, bem
como de apontar o advogado do Presidente como uma das
cinco pessoas com autoridade para controlar a reserva
secreta que havia financiado os atos de sabotagem e espio-
nagem.
Foi incluído um novo parágrafo que repetia as palavras de
Young no sentido de que o dinheiro para as atividades de
Segretti, inclusive o salário anual de US$ 20.000, era retirado
de "uma conta de crédito em nome de um advogado... amigo
de confiança do Presidente e (que Segretti) tinha instruções
de salvaguardar seu nome".
Apesar dos cortes, a reportagem — intitulada "Assistente-
chave de Nixon apontado como contato de sabotagem" —
cruzava uma nova fronteira. Quase quatro meses depois do
arrombamento à sede do Partido Democrático, a alastradora
nódoa do Watergate atingia finalmente a Casa Branca.
CAPÍTULO 8
Bernstein deixou Washington sábado à noite, para gozar o
fim de semana andando a cavalo na zona rural de Virgínia.
Quando Woodward acordou no domingo, o noticiário do
rádio estava transmitindo a reportagem do Post e um artigo
da revista Time sobre o vinculo Segretti/Chapin: sob alguns
aspectos, a história do Time era superior à do Post. Embora
com base em fontes anônimas e sem contar com relatos
pessoais como o de Young, trazia alguns pormenores
complementares: Chapin dera o emprego a Segretti, não
servira simplesmente como seu "contato". Outro ex-
universitário da USC, Gordon St racha n, assistente politico
de Haldemàn, também tivera participação no recrutamento
do antigo colega. Segretti recebera mais de USS 35.000 de
Herbert W. Kalmbach, o advogado do Presidente.
Woodward, com seu domingo arruinado pelo Time — e não
era a primeira nem seria a última vez, tinha certeza — foi
para a redação e começou uma série de telefonemas.
No fim da tarde conseguiu falar com um advogado do
Departamento de Justiça, que só parecia interessado em
voltar para sua cadeira diante da TV e assistir à partida de
futebol americano que era transmitida. Confirmou apres-
sadamente que Kalmbach era, de fato, o pagador de Segretti,
pelas atividades secretas deste último. Woodward nem
sequer teve tempo de perguntar sobre Gordon Strachan.
Woodward telefonou para Hugh Sloan. Tangenciando o
assunto, os dois falaram durante alguns minutos sobre o
papel de Kalmbach na campanha. Kalmbach demitira-se de
seu cargo de vice-presidente financeiro no dia 7 de abril,
data em que a nova lei sobre financiamento de campanhas
eleitorais entrara em vigor. Até Maurice Stans demitir-se do
cargo de Secretário de Comércio, era Kalmbach quem se
encarregava de levantar fundos para a reeleição do
Presidente, embora Stans tratasse de assuntos políticos
mesmo quando ainda ocupava a pasta do Comércio. Mesmo
depois de se ter demitido, havia muito pouco no campo
financeiro da campanha de Nixon que Kalmbach ignorasse
— contou Sloan.
Nesse caso, sugeriu Woodward, Kalmbach tinha que ser um
dos cinco com autoridade para aprovar desembolsos da
"caixinha" do cofre de Stans.
— Bem, acho que sim — concordou Sloan. — Mas estava
com uma parte do dinheiro na Califórnia,
Dinheiro do cofre de Stans?
Tudo era, na verdade, uma única reserva, estivesse o
dinheiro em Washington ou na Califórnia; estava tudo
lançado nos mesmos livros contábeis que haviam sido
queimados. Era uma reserva para "Projetos Especiais".
Para sabotagem politica e espionagem?
— Era exatamente isto, sò que na ocasião eu não sabia —
disse Sloan. Respondeu com resignação, sem nenhum
espalhafato — como um paciente contando ao seu analista,
pela quarta vez, o mesmo pesadelo.
Kalmbach distribuíra outras quantias retiradas da reserva,
muito maiores do que as que haviam sido entregues a
Segretti — acrescentou Sloan. Entretanto, não disse quanto,
nem a quem.
—Parece que a "caixinha" é o centro de tudo — comentou
Sloan com moderação.
Woodward telefonou para Bernstein no campo e pôs o
amigo a par da situação. Bernstein concordou que o controle
de Kalmbach sobre a "caixinha" era um ponto mais
importante do que os pagamentos a Segretti; o tópico devia
merecer a primazia na reportagem que Woodward ia
escrever. Incluiria igualmente a matéria do Time sobre
Strachan, que Woodward não conseguira confirmar.
Desta vez a Casa Branca não se deu ao trabalho de fazer
comentários, e no dia seguinte o Post publicou na primeira
página um título de duas colunas sobre a fotografia de
Herbert Kalmbach: "Advogado de Nixon Acusado de Ter
Utilizado o Fundo de Espionagem do Partido Republicano".
Woodward reservou parte de seu tempo para ver John
Ehrlichman no programa "Problemas e Respostas", do Canal
ABC-TV. Na televisão, John D. Ehrlichman parecia uma
ameixa seca, pensou Woodward. Tinha uma sobrancelha no
meio da testa, a outra no nível normal. Estava dizendo que
tudo que saía nos jornais sobre a espionagem e sabotagem
políticas da campanha de Nixon envolvia "uma série de
acusações, mas poucas provas, nenhuma prova..." Insinuou
que, de certo modo, a campanha eleitoral de McGovern era
responsável pelas denúncias que o povo andava lendo nos
jornais e vendo na televisão.
Lembrando aos telespectadores que faltavam somente três
semanas para as eleições, Ehrlichman disse que aquele seria
o "mês da lama", durante o qual acusações politicas seriam
feitas de parte a parte. Ele, pessoalmente, não tinha
conhecimento de qualquer campanha de espionagem
política montada pelos republicanos dentro ou fora da
Administração; certamente, ninguém na Casa Branca
soubera com antecedência de coisa alguma sobre o
Watergate. Não se achava em condições de "confirmar ou
negar" a acusação de que Chapin estaria envolvido com
Segretti. Entretanto, acrescentou, era fundamental que se
fizesse distinção entre a instalação de transmissores no
Watergate, "que define um crime", e atividades tais como
"descobrir qual é a programação do adversário". Senão me
engano, disse Ehrlichman, artimanhas políticas, esse tipo de
coisa, "sempre existiu na política americana".
Woodward e Bernstein chegaram à conclusão de que talvez
Ehrlichman fosse o único assessor da Casa Branca
suficientemente limpo quanto ao Watergate para enfrentar
as câmaras de televisão. Tão certo quanto dois e dois são
quatro, Haldeman não podia fazê-lo, pelo menos depois da
reportagem sobre Chapin. Estavam ambos, Woodward e
Bernstein, certos de que a presença de Ehrlichman na
televisão era indício de sua inocência. Talvez Deep Throat se
enganasse ao dizer que Ehrlichman expulsara Howard Hunt
da cidade.
As palavras de Ehrlichman frente às câmaras não passaram
de um ameno prelúdio. A conexão de Chapin levava o caso
Watergate às portas da Sala Oval. Nesse instante, a Casa
Branca se preparava para contra-atacar. Embora a revista
Time houvesse publicado matéria tão destrutiva quanto a do
Washington Post, foi o jornal o escolhido para alvo do
contra-ataque.
Começou com a entrevista de Ron Ziegler, na manhã
seguinte, 16 de outubro.
— O Sr. Chapin já fez seus comentários a respeito deste
assunto e nada tenho a acrescentar — respondeu Ziegler à
primeira pergunta sobre ligação Chapin.
PERGUNTA — O Presidente está preocupado com as
reportagens?
ZIEGLER — O Presidente está preocupado com a tática
empregada pela oposição nas reportagens. Eu diria que o Sr.
Nixon concentra sua preocupação no fato de as reportagens
que estão sendo publicadas se basearem em boatos,
insinuações e culpa por associação.
PERGUNTA — Quem é a oposição?
ZIEGLER — Bem, eu acho que isto está bastante claro.
Vocês sabem, desde que o caso Watergate estourou, vêm
tentando ligar o episódio à Casa Branca... e nenhum elo foi
estabelecido... porque não existe elo algum. Desde aquela
época a oposição vem fazendo acusações que não se
consubstanciam, vêm aparecendo reportagens que não se
consubstanciam, reportagens fundamentadas em boatos e
em fontes que se escondem no anonimato, e tudo isto se
junta na acusação de que esta Administração, como diz a
oposição, é corrupta. .. É a isto que me refiro, e não
pretendo comentar este tipo de reportagem.
PERGUNTA — Por que não desmente as acusações?
ZIEGLER — Não vou dar a eles o gosto de ver comentado
esse tipo de reportagem... não é necessário dizer que esta
Administração não tolera sabotagem, ou espionagem, ou
vigilância de pessoas, como não tolera igualmente
insinuações ou histórias de fonte desconhecida que fazem
alusões altamente desairosas ao caráter de outras pessoas.
A Casa Branca decidira que o que se discutia era o
comportamento da imprensa, não a conduta dos homens do
Presidente.
— O Presidente confia no Sr. Chapin — concluiu Ziegler.
Falando a uma audiência de negros republicanos, em um
hotel do centro de Washington, naquela mesma tarde, o
senador Bob Dole, presidente nacional do partido, leu três
páginas de declarações preparadas com o fito de ligar os
trabalhos de investigação do Post com o inglório destino da
campanha de McGovern. Menos controlado do que Ziegler,
Dole foi direto ao ponto:
"No curso da última semana, o Partido Republicano foi
vítima de uma barragem de acusações infundadas e carentes
de confirmação, disparada por George McGovern e seu
parceiro na arte de enlamear, o Washington Post. Dadas as
dificuldades que a campanha de McGovern atravessa
atualmente, o candidato parece ter transferido a franquia das
armas de sua campanha de ataque aos editores do
Washington Post, que se mostraram tão capazes de descer ao
baixo nível quanto o próprio candidato.
Enquanto se acumulavam os telegramas sobre os
pronunciamentos de Dole e de Ziegler, os repórteres eram
informados de que Clark MacGregor, sucessor de Mitchell
na direção da campanha de Nixon, havia marcado uma
entrevista coletiva à imprensa para as cinco da tarde, a fim
de discutir as últimas acusações de espionagem política e
sabotagem. Os dois repórteres detestavam entrevistas
coletivas, mas Bernstein decidiu comparecer. Nunca tinha
visto MacGregor e queria descobrir se ele fazia jus à sua
reputação de franqueza com o pessoal da imprensa. Quando
Bernstein chegou à espaçosa sala de conferências na sede do
CRP, pouco antes das cinco, um grupo extraordinariamente
numeroso de mais ou menos cem jornalistas já se encontrava
no local.
MacGregor entrou pela porta dos fundos e caminhou até a
passagem entre as poltronas. Um homenzarrão, com quase
1,90 m de altura, uns 105 quilos de peso. Chegando ao
palanque, segurou firmemente cada lado da tribuna e deu um
sorriso meio desanimado. Devido aos "singulares
acontecimentos des-* tes últimos dias", disse MacGregor, não
estaria em condições de responder a nenhuma pergunta dos
repórteres.
Clark Möllenhoff, 1,95 me 110 quilos, chefe da sucursal do
Dei Moines Register e Tribune Syndicate em Washington,
levantou-se, o rosto contorcido de raiva. Prêmio Pulitzer de
jornalismo de pesquisa, Möllenhoff servira por um breve
período na Casa Branca como ombudsman residente,
encarregado de manter tudo na linha. MacGregor e
Möllenhoff: dois gigantes prontos a se enfrentarem com suas
clavas.
— Você merece crédito? — gritou Möllenhoff. Sua voz
ressoou como um trovão, e os outros repórteres silenciaram.
— Que documentos viu? — quis saber Möllenhoff. — Se
não pode nos dizer, você não é digno de ocupar a tribuna.
Antes de MacGregor fazer sua entrada na sala, cópias de suas
declarações haviam sido distribuídas, de modo que os
repórteres sabiam o que esperar. Agora, outros jornalistas
gritavam para ele, embora nenhum com o vigor de
Möllenhoff.
— Por que devemos ficar aqui sentados e ouvi-lo? Por que
devemos publicar uma única palavra do que disser? —
insistiu Möllenhoff.
— Isto você tem que discutir com seus editores — respondeu
MacGregor. Depois, fitando as cameras de televisão,
começou a ler.
"De acordo com as pesquisas de opinião realizadas pelas
organizações Gallup, Harris, Sindliger e Yankelovich, o
movimento político elitista conhecido como mcgovernismo
está prestes a ser espetacularmente repudiado pelo povo
americano. Como, aliás, deve ser. Sentindo-se frustrado,
com 26 pontos a menos nas pesquisas, George McGovern e
seus partidários se empenham agora em uma 'política de
desespero'. Estamos testemunhando o emprego de algumas
das mais sórdidas táticas, e ouvindo linguagem das mais
insultuosas já utilizadas em uma campanha presidencial
americana.
Atacando a torto e a direito, George McGovern comparou o
Presidente dos Estados Unidos a Adolf Hitler, o Partido
Republicano à Ku-Klux-Klan, e o Governo Americano ao
Terceiro Reich da Alemanha nazista... E a credibilidade do
Washington Post desce, hoje, ainda mais baixo do que a do
próprio George McGovern.
Fazendo uso de insinuações, informações 'por ouvir dizer' e
acusações sem base, fontes anônimas e manchetes
assustadoras, o Post, maliciosamente, sugere a existência de
uma ligação direta entre a Casa Branca e o Watergate —
acusação esta que, como o Post sabe, foi declarada falsa por
meia dúzia de investigações.
A campanha do JPosí é marcada pela hipocrisia, e seu
célebre "duplo critério de julgamento" é hoje evidente a
todos. Às acusações sem prova dos assessores de McGovern,
ou do senador Muskie, sobre supostas sabotagens eleitorais
ocorridas há mais de seis meses, o jornal dá um tratamento
prioritário que em geral só se concede às declarações de
guerra — enquanto comprovadas provocações de oposição à
campanha do Presidente ficam enterradas nos fundos das
gavetas do jornal. Quando a sede de McGovern na Califórnia
foi usada como sala de caldeira para açular grosseiros
militantes pacifistas a desafiar o Presidente, o fato não
mereceu maior atenção por parte de um jornal que, no
entanto, despacha um esquadrão de repórteres para
investigar acusações de que alguém enviara duzentas pizzas a
um comício de Muskie na primavera passada."
Bernstein gemeu. Pela segunda vez, no mesmo dia,
representantes do Presidente mencionavam as pizzas. Ele e
Woodward haviam pensado em excluir este tópico da
reportagem que havia escrito descrevendo as perturbações
sofridas por Muskie, por acharem-na trivial. Mas acabaram
por deixá-la constar da lista de incidentes planejados para
desnortear a reunião para levantamentos de fundos da
campanha de Muskie, tais como enviar uma série de
encomendas para pagamento contra entrega, de modo a que
chegassem durante a função.
Insinuando a responsabilidade dos dirigentes da campanha
de McGovern, MacGregor queria saber agora por que o Post
não investigara:
"O coquetel Molotov descoberto a 8 de outubro na porta do
Newhall, Califórnia, sede do comitê de Nixon?
Os graves danos causados peio incendio que lavrara na sede
do comitê Nixon em Hollywood, Califórnia, a 17 de
setembro? O incêndio provocado na sede do comitê Nixon
em Fénix, Arizona, que causara prejuízo superiora USS
100.000?
A quebra de vidraças e outras bagatelas ocorridas em Nova
Iorque, em Arlington (Massachusetts) e em Los Angeles, no
decorrer do outono"*.
Colérico, MacGregor prosseguiu por mais alguns minutos,
referindo-se ao encorajamento dado por McGovern a
"Daniel Ellsberg para praticar um ato pelo qual agora
enfrenta a possibilidade de ser condenado a 115 anos de
prisão na Penitenciária Federal", e à hipocrisia do Post.
Quando terminou estava rubro e fremente.
Tornou a falar das "circunstâncias extraordinárias" que o
impediam de responder perguntas, e retirou-se da sala.
Alguns repórteres mais inflamados vociferaram perguntas, e,
menos calmo do que quando entrara, Bernstein juntou-se ao
coro de vozes zangadas. Quando MacGregor passou por ele,
Bernstein gritou:
— Está disposto a desmentir a reportagem sobre Chapin? —
MacGregor, porém, limitou-se a fitá-lo sem expressão
enquanto passava.
Quando Bernstein voltou à redação, Ben Bradlee estava
examinando os pronunciamentos de Ziegler, Dole e
MacGregor, observando que todos tinham usado linguagem
semelhante e enfatizado os mesmos pontos. Eram poucas as
dúvidas do Post de que os ataques eram coordenados, se não
ordenados, pelo Presidente, e executados com seu
conhecimento e aprovação.
Repórteres de outras empresas jornalísticas telefonavam
pedindo a réplica de Bradlee. Colocando uma folha dupla de
papel na máquina, ele bateu uma declaração:
"O tempo será juiz entre o comunicado de MacGregor à
imprensa e os relatos do Post quanto às várias atividades do
CRP. Por enquanto, basta dizer que nem um único fato
constante da pesquisa jornalística do Washington Post foi
contestado com sucesso. MacGregor, como os outros altos
funcionários da Administração, alcunharam as nossas
reportagens de 'uma série de absurdos', mas os fatos
permanecem, sem serem afastados por qualquer prova em
contrário".
Bradlee estava pronto para a batalha. Sentia que "os
desmentidos estavam furados". Semanas antes, havia dito a
Bernstein e Woodward que não pretendia ficar na defensiva
e instara com os repórteres para que usassem de cautela.
Agora, em seu escritório, mostrava-lhes o que acabara de
escrever e lhes dava mais alguns conselhos.
— Fui muito moderado até agora — comentou ele. — Está é
a mais árdua peleja já disputada nesta cidade. Temos que nos
precaver, dentro e fora da redação. Não quero ficar sabendo
nada a respeito da vida particular de vocês dois, isso é da
conta de cada um. — Mas se os repórteres estavam metidos
em alguma coisa que não queriam que ninguém ficasse
sabendo, acabassem com isso — aconselhou Bradlee. —
Tenham cuidado com quem falam; com quem são vistos;
cautela no telefone; comecem a guardar os recibos para a
declaração de imposto de renda e arranjem um advogado
para tratar de seus problemas fiscais; assegurem-se de que
ninguém leve tóxicos para a casa de vocês; controlem suas
palavras quando falarem com outras pessoas sobre o
Presidente e a Administração.
Bradlee não dizia nada que os dois já não tivessem discutido.
As precauções estavam devidamente tomadas,
— Entendido, rapazes? — perguntou Bradlee
eloqüentemente. Depois fechou o punho, descreveu no ar
um rapidíssimo uppercut e acompanhando o movimento do
soco apertou com a mão esquerda o bíceps do braço direito.
Do lado de fora, Rosenfeld andava nervoso pela redação.
Bernstein e Woodward foram escalados para escrever
matéria de primeira página sobre os ataques sofridos. Poucas
reportagens causam maior angústia aos editores do que
aquelas em que o jornal e seus repórteres são os principais
protagonistas. Rosenfeld queria ter certeza de que a
reportagem seria absolutamente justa para com a
Administração. Era este também o desejo de Bernstein e
Woodward, embora insistissem para que a matéria fizesse
justiça às suas reportagens.
Escreveram que os ataques ao jornal não desmentiam as
acusações formuladas. Rosenfeld eliminou o parágrafo por
achá-lo "argumentativo". Uma coisa era ser justo com a Casa
Branca, defenderam-se os repórteres, mas Rosenfeld estava
sendo injusto com o jornal e com o trabalho desenvolvido
pelos dois. Rosenfeld teimou, sustentando que o parágrafo
inconveniente podia dar a impressão de parcialidade. Estava
começando a ficar zangado.
A reportagem da primeira edição ficou muito pequena em
conseqüência das discussões. Ao escrever para a segunda
edição, Bernstein e Woodward reacenderam o debate,
insistindo em que Dole, Ziegler e MacGregor não haviam
respondido à essência das alegações do Post.
Bernstein terminou a matéria em cima da hora de
fechamento. Woodward e Rosenfeld esbravejavam com ele.
Bernstein continuava corrigindo os erros ortográficos do
texto escrito por Woodward e aprovado por Rosenfeld,
deixando todos os outros com os nervos à flor da pele.
Levou quase quatro horas para que a reportagem chegasse a
ficar pelo menos passável — um monstro de mais de um
metro de papel, que fazia citações intermináveis e pouco
ajudava o leitor a entender os ataques e contra-ataques. Uma
noite desastrosa.
Por todo o país, os jornais do dia seguinte falaram da cólera
dos homens do Presidente. A Casa Branca opunha sua
credibilidade à do Washington Post e assim procedendo
dava maior veracidade às denúncias do jornal.
No dia 18 de outubro, o New York Times publicou um
artigo que solapou seriamente a posição da Casa Branca. O
Times obtivera registros telefônicos que evidenciavam ter
sido o telefone de Segretti — bem como seu cartão de
crédito — usado para no mínimo meia dúzia de telefonemas
para a Casa Branca e a residência de Chapin em Bethesda,
Mariland. Além disso, tanto o telefone quanto o cartão de
crédito de Segretti tinham sido utilizados para vinte e uma
ligações telefônicas para o escritório e a residência de
Howard Hunt.
Não seria possível à Casa Branca desprezar essa
documentação sob o pretexto de tratar-se de simples boato,
alusão, ou fonte de informações falsas. Bernstein e
Woodward se encontravam na sala de reportagens do Post às
onze da noite de 17 de outubro, quando a imagem da
primeira página do Times chegou pela UPI. Ficaram em
êxtase, a gratidão fazendo com que esquecessem seu espírito
de competição.
Ao meio-dia de 18 de outubro, na Casa Branca, Ron Ziegler
enfrentou um grupo agressivo e hostil de jornalistas.
Solicitado com insistência a negar especificamente as
alegações e provas que vinham sendo citadas desde 10 de
outubro, pelo Post, pelo Times e pela revista Time, Ziegler
recuava, avançava e driblava, voltando sempre ao
arrombamento do Watergate.
— O que observei na matéria (do New York Times),
quando a li, é que correlaciona o Sr. Chapin, por simples
sugestão, ao caso Watergate... Reitero hoje, mais uma vez,
que ninguém, atualmente a serviço da Casa Branca, envol-
veu-se, ou teve conhecimento ou associou-se de qualquer
forma ao caso Watergate.
O que tinha a dizer sobre espionagem e sabotagem políticas,
além do arrombamento de 17 de junho?
— Nas entrevistas de ontem e de antes de ontem deixei
bem claro que ninguém da Casa Branca, em qualquer
ocasião, dirigiu atividades de sabotagem, espionagem,
vigilância ou ações que implicassem seguir pessoas, compilar
dossiês de suas vidas, ou outras coisas do mesmo estilo...
Os repórteres tentaram definir melhor as perguntas a fim de
receberem uma resposta direta. Ziegler dava sempre a
mesma resposta, empregando cuidadosamente o verbo
"dirigir" e evitando o verbo "envolver-se".
Um jornalista teimoso tentou encurralar o Secretário:
— O senhor disse "dirigiu". Estariam eles a par do que estava
acontecendo?
— Penso que "dirigiu" é bastante claro. Como já disse,
alguém que se tivesse envolvido em tais atividades não
estaria por aqui hoje.
— Neste caso, está o senhor asseverando que ninguém da
Casa Branca estava envolvido?
— Estou dizendo que se alguém se tivesse envolvido nesse
tipo de atividade a que me referi, não estaria trabalhando
aqui.
Envolvidos em quê? Alguns dos jornalistas recordaram-se de
que o talento de Ziegler no campo da comunicação fora
testado, pela primeira vez, quando
Diariamente, às 11 da noite, o Post recebe uma telefoto da
primeira página da edição do Times para o dia seguinte.
se empregara como guia da Disneylândia durante as férias de
verão da Universidade, levando turistas ao Passeio na Selva.
"Bem-vindos a bordo, amigos. Meu nome é Ron. Sou o
capitão e guia de todos voces nesta viagem pelo Rio da
Aventura... Vejam os jacarés. Por favor, mantenham as mãos
para dentro do barco. Esses bichinhos ficam esperando que
algum turista desavisado ponha a mão para fora. Agora
olhem as docas... talvez as estejam vendo pela última vez.
Notem os nativos nas margens, estão sempre procurando
caçar uma cabeça."
Agora, Ziegler era o guia turístico do Passeio pela Selva
Presidencial... Estava o Sr. Nixon preocupado com as
acusações feitas contra seus assessores?
— Ele está preocupado é com o fato de que as reportagens
publicadas se baseiam em boatos, insinuações, culpa por
associação. — Etc... Etc...
A resposta de Ziegler e as descobertas do Times sobre os
telefonemas de Segretti mereceram a primeira página do
Washington Post.
Poupado ao impetuoso ataque da Casa Branca, o Times
forneceu, em complemento, uma análise do comportamento
da Casa Branca, análise esta elaborada por Robert B. Semple
Jr., correspondente do Times na Casa Branca àquela época:
"A essência do contra-ataque da Administração às denúncias
de que alguns assessores do Presidente Nixon criaram, ou
pelo menos toleraram, uma rede de espionagem política e
perturbações da ordem, foi acusar os jornais que publicaram
tais alegações. No entanto, omitiu-se a Casa Branca de
discuti-las abertamente. Por trás dessa estratégia escondem-
se dois pressupostos, ambos eloqüentes quanto à maneira
como a Administração vê os eleitores e os jornais que os
informam. A julgar pelas recentes entrevistas dos assessores
do Sr. Nixon, tais pressupostos parecem amplamente aceitos
no seu reduzido círculo. Primeiro, a Casa Branca sente que,
no momento, a alegada conspiração é aceita pela maior parte
do público como uma intriga amadorística, engendrada
longe da Sala Oval, e a esta altura um desmentido, ou até
mesmo a mera discussão das acusações, por parte da Casa
Branca, lhes daria uma imerecida credibilidade e veracidade.
O segundo pressuposto, é o de que o público — amaciado
por três anos de discursos do Vice-Presidente Agnew — não
chega a crer totalmente que as coisas que lê e escuta,
particularmente através dos veículos do assim chamado
Establishment da Costa Leste, sejam verdadeiras e íntegras e
não distorcidas pelo preconceito político. Daí resultam os
ataques da Casa Branca ao Washington Post, jornal que vem
dando às acusações de corrupção tratamento de primeira
página ...Repetidas solicitações aos assessores graduados da
Casa Branca para que a história fosse toda contada foram,
segundo o jornal, ignoradas. O campo é reservado, então, a
Ron Ziegler, que parece ficar cada vez mais irritado com as
perguntas sobre o Sr. Chapin e o Sr. Segretti.
— Sabe por que não estamos preocupados com a
imprensa e esse negócio de espionagem? — perguntou
retoricamente um assessor da Casa Branca, que não era o Sr.
Ziegler. — Porque o povo acredita que a imprensa do Leste
é exatamente o que Sr. Agnew descreveu: elitista, anti-
Nixon e, no final das contas, mcgovernista".
CAPÍTULO 9
Os repórteres sabiam, pelas declarações de Hugh Sloan, que
o quinto homem com controle sobre a "caixinha" era
funcionário da Casa Branca. Havia razões de sobra para se
crer que fosse H.R. Haldeman, chefe do staff presidencial.
Na verdade, havia razões para se suspeitar que, por trás do
Watergate, pairava a sombra de Harry Robbins Haldeman.
Em boa forma física, cabelo cortado rente, vigoroso, 46 anos
de idade, Haldeman saíra da direção da filial da J. Walter
Thompson em Los Angeles para a direção dos negócios do
Presidente dos Estados Unidos.
Embora John Mitchell tivesse sido o administrador da
campanha de Nixon em 1972, o CRP era criação inconteste
de Bob Haldeman. Na Casa Branca, era ele o diretor
executivo do Comitê. Quando o CRP foi fundado em 1971,
Haldeman chamou Jeb Magruder e Hugh Sloan para se
encarregarem das tarefas políticas e financeiras de rotina.
Ambos tinham sido membros da "Patrulha dos Castores",
composta de jovens muito inteligentes e denodadamente
leais que Haldeman recrutara para a Casa Branca, no mundo
da publicidade e do marketing.
Dwight Chapin era o mais leal entre os ativos castores de
Haldeman. Gordon Strachan, que também tomara parte no
recrutamento de Segretti, era o castor que servia de
intermediário entre Haldeman e o CRP. Bart Porter, outro
membro da Patrulha, deixara sua posição na Casa Branca para
tornar-se chefe da guarda-avançada do CRP.
Com exceção de John Mitchell e seus dois lugar-tenentes —
Fred LaRue e Robert Mardian — os outros homens do
Presidente que até o momento figuravam nas descobertas do
Watergate, devotavam sua lealdade apenas ao Presidente e a
Haldeman (Maurice Stans, em geral, só se sujeitava ao Presi-
dente, mas havia trabalhado com Haldeman nas campanhas
anteriores de Nixon).
Herbert W. Kalmbach fora apresentado por Haldeman, na
década de 50, ao então Vice-Presidente Richard Nixon.
Cuidando dos problemas jurídicos pessoais do Presidente,
bem como do levantamento de fundos para a campanha,
Kalmbach fazia suas comunicações principalmente por
intermédio de Haldeman.
Charles B. Colson começou sua carreira em 1969, com 37
anos de idade. Subordinava-se ao Presidente e a Haldeman,
em sua condição de elo de ligação com grupos políticos e de
interesse especial alheios à Casa Branca, como executante-
residente da Casa Branca de sub-reptícias artimanhas
políticas.
Vários membros do escalão médio da Casa Branca tinham
afirmado a Woodward e Bernstein serem poucas as dúvidas
de que a operação Chapin/Segretti recebera a aprovação de
Haldeman.
Durante semanas, Sloan recusara-se firmemente a identificar
o quinto homem a ter controle sobre a "caixinha", repetindo,
sempre que se mencionava o assunto, que isto fazia parte de
seus motivos para "suspeitar do pior":
Haldeman era profundamente respeitado por toda a
Administração. À simples menção de seu nome, oficiais de
Gabinete ficavam silenciosos e amedrontados. Os poucos
que ousavam falar sobre ele com certo conhecimento de
causa, diziam que poderiam perder seus empregos se ele
ficasse sabendo... Duro... pragmático... impiedoso...
devotado exclusivamente a Nixon... vencia qualquer
obstáculo... As descrições eram sempre coincidentes e
muitos citavam a célebre auto-definição de Haldeman: "Eu
sou o filho da puta do Presidente". Todavia, Haldeman era
muito mais complexo do que tais descrições poderiam levar
a crer.
As reações de Haldeman lembravam a Woodward os
antecedentes militares e navais do homem. Era o imediato
do navio, segundo em comando, sempre o fanático
ambicioso e exigente disposto a tudo pelo seu capitão.
Um dos métodos de operação de Haldeman, sabiam os
repórteres, era sua "negatibilidade". Era o artifício que usava
para furtar-se de decisões controvertidas, deixando que
outros a tomassem, de modo que, mais tarde, pudesse negar
sua participação no caso. Por este motivo, os dois jornalistas
estavam convictos de que Haldeman jamais empregaria um
Howard Hunt como consultor da Casa Branca.
Daria um jeito para que outro — Colson ou Ehrlichman —
constasse oficialmente como empregador. Se Haldeman era
a eminência parda da operação Segretti, este não teria tido
contato direto com ele.
Por informações de Sloan e outros, Woodward e Bernstein
sabiam que só de raro em raro Haldeman lidava diretamente
com o CRP. Isto era trabalho para Strachan. "Negatibilidade"
era a regra do sistema do staff da Casa Branca. Os chefões se
protegiam atrás da intransponível barragem levantada pelos
"castores". Se era Haldeman o responsável pelo Watergate,
dificilmente ele teria deixado qualquer pista. Não era do seu
estilo manter controle direto de reservas destinadas a
operações clandestinas. Na verdade, se Haldeman tivesse
mantido tal controle, ninguém seria doido para abrir a boca.
Ainda assim, fontes do Departamento de Justiça e do FBI
não negavam o fato. Com base em experiências passadas,
Bernstein e Woodward interpretavam seu silêncio como
confirmação de suas suspeitas.
No dia 19 de outubro, Woodward removeu o vaso de plantas
da sacada para a posição de aviso a Deep Throat. E mais ou
menos à uma da madrugada saiu de seu apartamento para a
longa jornada até a garagem subterrânea. Chegou lá às
2h30min. Deep Throat ainda não chegara. Quinze minutos
se passaram... meia hora. Uma hora. Woodward começou a
ficar nervoso.
Deep Throat nüo costumava faltar aos encontros. Na fria e
escura garagem, Woodward pôs-se a imaginar o
inimaginável. Não teria sido difícil para Haldeman descobrir
que os repórteres andavam fazendo perguntas sobre ele. Será
que Deep Throat fora descoberto? Woodward seguido?
Gente que empregava sujeitos como Gordon Liddy e
Howard Hunt era bastante louca para outros vôos.
Woodward irritou-se por não estar sendo racional, tentou
tirar da cabeça a visão de Deep Throat sendo aterrorizado
por um "esquadrão do medo". Deixariam uma luva preta
atravessada por uma adaga no carro de Deep Throat?
Woodward saiu um pouco para dar uma olhada e depois tor-
nou a descer a rampa escura. Decorreu mais meia hora.
Woodward ia ficando cada vez mais horrorizado — sem
saber exatamente com quê. Por fim saiu correndo da
garagem e correu quase todo o caminho até sua casa. Mais
tarde contou a Bernstein que Deep Throat não comparecera.
Havia uma centena de explicações plausíveis, mas os dois
repórteres não conseguiam controlar a aflição.
No dia seguinte, o Times entregue na porta de Woodward
trazia o círculo na página 20, e um relógio marcando um
encontro para as três da madrugada. Tomou o caminho
habitual, chegou quinze minutos antes da hora e lá estava
Deep Throat fumando um cigarro. Woodward sentiu raiva e
alívio ao mesmo tempo, e disse que não gostara da angústia
por que passara na noite anterior. Deep Throat explicou que
não tivera chance de verificar a sacada naquela noite e que
não havia telefonado porque as coisas estavam ficando
pretas. Woodward gemeu um pouquinho mais do que o
necessário, esperando que o truque o ajudasse a extrair
algumas informações de Deep Throat sobre Haldeman.
Faltando à verdade, Woodward contou a Deep Throat que
ele e Bernstein estavam preparando uma reportagem para a
próxima semana, denunciando Haldeman como o quinto
homem a controlar os desembolsos da reserva secreta.
— Vocês vão ter que fazer isso sozinhos — disse Deep
Throat.
Woodward tentou outro ângulo. Perguntou se Deep Throat
se sentiria na obrigação de avisá-lo caso a informação que
tinha fosse falsa. Deep Throat respondeu que sim.
Então, está confirmando que Haldeman controlava a
"caixinha"? perguntou. Woodward.
— Não. E isso vocês vão ter que fazer sozinhos. A
diferença era sutilíssima.
— Você não vai me usar como fonte — declarou Deep
Throat. — Não vou servir de informante para reportagens
sobre Haldeman. — Como sempre, uma vez mencionado o
nome de Haldeman os riscos se quadruplicavam.
— Chapin escapou por pouco e a tensão é terrível —
explicou Deep Throat. — Isso, sendo otimista... Há uma
tensa vibração ao redor de Haldeman. Tenham cuidado.
Woodward perguntou se estavam encrencados com
Haldeman.
— Eu vou proteger vocês — disse Deep Throat.
Já que Deep Throat não os desaconselhara a continuar,
estava, efetivamente, confirmando a história. Woodward
deixou bem claro que esperava um sinal do amigo se
houvesse qualquer motivo para desistirem.
Deep Throat respondeu que deixar de avisar Woodward
sobre uma história espúria "seria interpretar muito mal nossa
amizade".
Sem referir-se diretamente ao nome de Haldeman, apertou a
mão de Woodward e saiu. Woodward sentia-se agora mais
certo de duas coisas: Haldeman era o nome correto; e
Haldeman adquirira um poder assustador. Deep Throat não
se deixava amedrontar com facilidade.
Na segunda-feira, 23 de outubro, Woodward reconstituiu o
encontro para Bernstein. Bernstein não gostou da
"confirmação". Teria sido mesmo uma confirmação
definitiva? Sim e não, disse Woodward.
Naquela noite os repórteres foram visitar Hugh Sloan. Caía
uma chuvinha fina quando chegaram à sua casa. Woodward
bateu a enorme aldraba de bronze duas ou três vezes. Sloan
veio atender e ficou com eles do lado de fora.
— Não podemos conversar hoje — seu tom de voz era
brando e amistoso.
Os repórteres explicaram que tinham somente algumas
perguntas sobre informações recebidas, e que Sloan talvez
pudesse confirmar. Sabiam que estavam contando com a boa
educação de Sloan, incapaz de recusar-se a atender alguém.
Mas Haldeman era importante.
Recapitularam os pormenores da reserva secreta e a
insistente negativa de Sloan em falar das quantias
desembolsadas. Havia cinco pessoas com autoridade para
aprovar os pagamentos, certo? perguntou Bernstein.
— É, eu diria que eram cinco — respondeu Sloan.
Magruder, Stans, Mitchell, Kalmbach e alguém na Casa
Branca, enumerou Woodward.
— É isso — disse Sloan, que se recostara no batente da
porta.
Você mencionou os nomes perante o grande júri? perguntou
Woodward. Sloan ponderou por alguns segundos.
— Sim — disse ele.
Nós sabemos que é Haldeman, disse Bernstein. Disse-o de
modo a transmitir a urgência e a inexorabilidade do fato.
Queria que Sloan sentisse que, ao dar sua confirmação, não
estaria revelando nada. Haldeman, certo? insistiu Bernstein.
Sloan deu de ombros.
— Pode ser, mas não vou ser seu informante quanto a
este assunto. Tudo o que precisavam era de uma
confirmação, insistiu Bernstein. O nome não precisava
sequer ser pronunciado. Apenas "sim".
— Aqui não — respondeu Sloan. Woodward perguntou se
era John Ehrlichman.
— Não — disse Sloan. — Posso afirmar que não se trata de
Ehrlichman. Colson? perguntou Bernstein.
— Não — disse Sloan.
A menos que estivessem numa pista completamente errada,
restavam apenas Haldeman e o Presidente, deduziu
Bernstein. Certamente não podia ser o Presidente.
— Não, o Presidente não — disse Sloan.
Então, tem que ser Haldeman, repetiu Bernstein. Olhe, disse
o repórter, nós vamos escrever a reportagem e precisamos
que nos ajude se houver algo errado nela.
Sloan fez uma pausa.
— Então, vou dizer da seguinte maneira: não tenho nada
a opor se quiserem escrever a reportagem dessa forma.
Então, ela está correta? perguntou Woodward.
— Está — respondeu Sloan.
Os repórteres mal conseguiam disfarçar sua excitação.
Fizeram algumas perguntas pró-forma e quase nem ouviram
as respostas. Trocaram apertos de mão com Sloan e foram
para o carro de Woodward.
Isto já é quase o bastante, comentou Bernstein. Entretanto,
ainda estava apreensivo. Woodward se mostrava mais
confiante, mas concordou que deviam tentar outra
confirmação.
Às dez da noite estavam de volta à redação. Organizaram
uma lista de pessoas em condição de poder negar ou
confirmar que Haldeman era o último nome que faltava. Só
não haviam entrado em contato com duas pessoas.
Uma destas era um agente do FBI com quem Bernstein
conversara na primeira semana de outubro. Fora um
estranho encontro. O agente havia batido o telefone depois
de dizer que não tinha nada a comentar com a imprensa.
Passados dez minutos, no entanto, telefonou para Bernstein
dizendo que se encontraria com ele numa lanchonete
distante do Post umas oito quadras. Estaria no balcão lendo
um jornal
Bernstein sentou-se ao seu lado. O agente fez alguns
comentários banais sobre a bolsa de valores, depois terminou
de beber o seu café.
— Está na hora de irmos andando. — Saíram ambos da
lanchonete e caminharam na direção leste.
— Vocês estão nos dando um bocado de trabalho — falou o
agente. — Nossos relatórios estão aparecendo no seu jornal
quase letra por letra.
Bernstein sentiu-se encorajado. Nem sempre ele e
Woodward podiam ter certeza de que suas informações
coincidiam com as que o FBI possuía, embora a opinião geral
apontasse o Bureau como fonte de informação dos
repórteres.
— Você acertou na mosca — exceto quanto a Mitchell.
Não sabíamos daquilo, que ele também controlava a reserva
secreta. Talvez viesse tudo à tona no grande júri. Se foi o que
aconteceu, não chegamos a investigar... Vamos fazer um
retrospecto para ver se deixamos escapar alguma coisa.
Bernstein ficou confuso. Ele e Woodward tinham quase
certeza de que o FBI sabia. Achavam que as informações
sobre Mitchell constavam todas do arquivo.
— Pois é exatamente isto que nos preocupa — respondeu
o agente. — Não sabemos se estamos recebendo todos os
arquivos. Os agentes estão se esfolando, mas talvez não
estejam recebendo tudo o que deve ser investigado.
O agente do FBI continuou a fazer perguntas. Bernstein não
entendia suas intenções. O agente alternadamente o
interrogava, depois exprimia suas dúvidas sobre as
investigações realizadas pelo Bureau ("Ninguém acredita que
o caso esteja encerrado com aqueles sete indiciamentos. A
questão é saber por que pararam ali"), e em seguida zangava-
se com os repórteres.
Caminhava na direção da Casa Branca.
— Olha, a única pessoa qua sabe que estou com você é o
meu chefe. Gostamos dos nossos empregos e não queremos
ser transferidos. Não é justo chegar no Bureau de manhã e
dar de cara com nosso relatório publicado inteirinho no seu
jornal.
Depois confirmou que o Bureau topara com informações
sobre sabotagem e espionagem políticas e não fizera coisa
alguma.
— Você vai ter que procurar o Departamento de Justiça.
Foi tudo encaminhado ao Departamento pelos canais
competentes e jamais nos foi devolvido.
Viraram para o norte na Avenida do Executivo-Leste,
andando pela calçada onde se localizava o Tesouro Nacional,
do outro lado da rua, defronte à Ala Leste da Casa Branca. O
agente parou para amarrar os cordões do sapato, levantando
o pé contra a cerca do edifício do Tesouro para equilibrar-se.
Bernstein olhou ao seu redor. Havia uma extensa fila de
turistas, muitos com máquinas fotográficas, esperando a vez
para visitar a Casa Branca. O agente endireitou o laço do
outro sapato. Bernstein talvez estivesse ficando neurótico,
mas começava a desconfiar de que haviam parado de
propósito para que pudesse ser fotografado. O lugar era
perfeito — aquela multidão de turistas, todos com suas
câmaras —, mas para que tanto incômodo? Qualquer um
podia conseguir sua fotografia nos arquivos do Post. O
estranho comportamento do agente aumentava suas dúvidas.
Continuou parado por mais meio minuto, fazendo perguntas
sobre Mitchell, enquanto segurava a cerca com a mão, num
gesto casual. Finalmente, retomaram o passeio na direção da
Praça Laffayette e sentaram-se num banco onde
conversaram por mais alguns minutos antes de se separarem.
Agora, Woodward pegava uma extensão enquanto Bernstein
ligava para o tal agente no subúrbio, a fim de indagar sobre
Haldeman.
Bernstein sabia que jamais conseguiria a informação com
simples perguntas. Tentaria fazer com que o Federal se
irasse, usando o recurso de contar que estavam escrevendo
sobre a porcaria de serviço executado pelo FBI. Talvez
houvesse uma explicação e era por isso que Bernstein estava
telefonando, explicou ele.
Woodward, na extensão, tomava notas.
AGENTE — Deixamos passar pouca coisa.
BERNSTEIN — Então chegou ao nome de Haldeman com
relação ao controle da "caixinha"?
AGENTE — Falou.
BERNSTEIN — E isso apareceu na investigação do grande
júri?
AGENTE — Claro!
BERNSTEIN — Então saiu tanto na entrevista do FBI com
Sloan como perante o grande júri?
AGENTE - Sim.
BERNSTEIN — Eu só queria ter certeza, porque nos
informaram de que saiu só perante o grande júri, e que vocês
do FBI melaram a coisa toda.
AGENTE — Nós também temos a informação. Consultamos
todo mundo implicado na transa da "caixinha"!., sabemos,
inclusive, que noventa por cento das suas informações saem
dos arquivos do FBI. Ou vocês têm acesso a esses arquivos
ou alguém daqui lê tudo pra vocês pelo telefone.
Bernstein disse que nãô discutiria suas fontes com o agente.
Voltou ao problema de Haldeman e tornou a perguntar se
Haldeman era o quinto homem com controle sobre a
reserva secreta.
— Falou. Haldeman, John Haldeman — confirmou o
agente. Bernstein encerrou a conversa e fez sinal com o
polegar direito levantado
para Woodward. De repente, deu-se conta de que o.agente
dissera John e não Bob Haldeman.
Em Washington, tinha-se às vezes a impressão de que todo
mundo confundia Bob Haldeman e John Ehrlichman. "Os
pastores alemães", "Os prussianos", o "Muro de Berlim",
como eram chamados. Os repórteres não podiam permitir
que a confusão continuasse. Bernstein telefonou novamente
para o agente.
— Sim, é isso, Haldeman, Bob Haldeman — replicou ele.
— Nunca me lembro dos nomes das pessoas.
Deep Throat, Sloan, o agente do FBI. Os dois jornalistas
concluíram que a reportagem já estava firme em suas mãos.
Sentindo-se seguros, foram para casa antes da meia-noite.
Na manhã seguinte contaram a Sussman o que tinham
conseguido, sem esconder seu contentamento. A
reportagem seria diferente de tudo que já haviam escrito
sobre a "caixinha". Em vez de fontes anônimas, falariam no
depoimento secreto de Hugh Sloan perante o grande júri;
Sloan, ex-tesoureiro do CRP, ex-assistente de H.R.
Haldeman na Casa Branca.
Durante meses, os lances no jogo do Watergate tinham-se
elevado pouco a pouco. Com a entrada de Haldeman, as
apostas cresciam assustadoramente. H.R. Haldeman era o
principal delegado do Presidente dos Estados Unidos. Não
parecia provável que Haldeman, tendo em vista seu
relacionamento com Richard M. Nixon, se deixasse envolver
em movimentos escusos para financiar operações
clandestinas, sem a aprovação — implícita ou explícita — do
Presidente. Especialmente se tais operações representassem
a estratégia de base para a campanha de reeleição de Nixon.
Bernstein passou quase a noite toda sem conseguir conciliar
o sono, cogitando nas conseqüências do que haviam escrito
e do que estavam prestes a escrever. E se estivessem sendo
injustos com o Presidente, lesando não apenas o homem,
mas a instituição que ele representava? E, por extensão, o
país? E se as suposições dos repórteres estivessem erradas?
Se, de algum modo, tivessem sido horrivelmente enganados?
O que aconteceria a dois repórteres desonestos que levassem
o país a um passeio maluco numa montanha russa? Não
poderia ocorrer que os maços de notas no cofre de Stans
fossem apenas uma reserva específica, mal utilizada por uns
poucos subalternos excessivamente zelosos? É se os
repórteres e seus informantes se tivessem mutuamente
alimentado de suas próprias suspeitas e suposições? Mais
terrível ainda: se fosse tudo uma armadilha para os dois? Se a
Casa Branca tivesse agarrado a oportunidade para arruinar o
Washington Post e solapar ainda mais a credibilidade da
imprensa? Se Haldeman nunca tivesse tido autoridade sobre
a reserva, ou, tendo-a, jamais a tivesse exercido?
Talvez seus temores fossem irracionais e exagerados. Talvez
Nixon nem sequer lesse o maldito jornal. Talvez ninguém
lhes prestasse atenção alguma (às vezes, era quase um alívio
quando as pesquisas de opinião pública demonstravam que o
impacto do Watergate não era muito forte).
Bernstein estava um trapo quando chegou à redação na
manhã seguinte — morto de sono, cheio de dúvidas,
corroído de temores. Fez suas confidências a Woodward.
Não era a primeira vez que um dos dois se acovardava.
Freqüentemente invertiam os papéis. Dos dois, Woodward
era o mais prudente, o mais conservador. Ou, pelo menos,
assim era quando o caso Watergate tinha estourado. Com o
passar dos meses, cada um começara a agir como contrapeso
do outro. Se um deles mostrava qualquer dúvida, diziam aos
editores que tinham concordado em suspender a reportagem
temporariamente, não importava a medida do desacordo
entre si. Ou simplesmente retinham a história sem dar
satisfações aos editores.
Woodward também sofria crises de apreensão, sem saber se
os fundamentos da reportagem — quase sempre
despercebidos ao leitor — eram suficientemente fortes para
apoiar as implicações óbvias. Antes de informar a Sussman
que haviam estabelecido solidamente a ligação de Haldeman,
os repórteres fizeram uma nova revisão das bases da história.
O exercício foi estimulante, proporcionou-lhes aquela
espécie de sentimento que deve experimentar um astronauta
quando checa os sistemas do painel antes da partida do
foguete e vê as luzinhas verdes se acendendo uma a uma.
Na tarde de 24 de outubro escreveram a reportagem sobre
Haldeman. Essencialmente, continha um único fato novo:
que o quinto homem com autoridade para movimentar a
reserva destinada a espionagem e sabotagem políticas era o
chefe do staff do Presidente.
Bradlee comentou que "as implicações estavam se tornando
terrivelmente graves, terrivelmente graves". Era uma grande
escalada. Chamou Simons, Rosenfeld, Sussman, Bernstein e
Woodward a sua sala.
— Eu estava mentalmente convencido de que nada
daquilo podia ter acontecido sem Haldeman — disse Bradlee
tempos mais tarde. — Mas queria fazer o máximo para
assegurar-me de que não iríamos tentar cortar as asas de
Haldeman antes de tê-lo bem preso nas mãos. Sentia que
estávamos indo longe demais e suspeitava que vocês,
rapazes, o tinham na mira muito cedo. Que talvez
soubessem, mas não pudessem provar. Eu estava decidido a
não deixar sair nada no jornal até que vocês me
apresentassem provas.
Durante a reunião das sete da noite, quase na hora do
fechamento da matéria, Bradlee desempenhava o papel de
promotor público, querendo saber exatamente o que cada
fonte informara.
— O que disse o sujeito do FBI? — perguntou Bradlee. Os
repórteres fizeram um breve resumo.
— Não — disse Bradlee. — Quero ouvir as perguntas exatas
que foram feitas e cada resposta exata.
Procedeu do mesmo modo com relação a Deep Throat e
com a entrevista junto à porta de frente da casa de Sloan.
— Recomendo a publicação — declarou Rosenfeld.
Sussman concordou.
Simons assentiu com um gesto de cabeça.
— Publiquem — disse Bradlee.
Na saída, Simons comentou com os repórteres que se
sentiria melhor se tivessem ainda uma quarta fonte. Passava
das 7h30min. Depois das 7h50min não haveria tempo para a
reportagem sair. Bernstein disse que ainda havia uma
possibilidade, um advogado do Departamento de Justiça que
talvez se dispusesse a confirmar. Foi até o telefone perto da
sala de Rosenfeld e fez a ligação. Woodward, Simons e
Sussman repassavam o texto pela última vez.
Bernstein perguntou à queima-roupa se Haldeman era o
quinto homem com autoridade sobre a "caixinha", o nome
que faltava na lista de Hugh Sloan.
O advogado recusou-se a confirmar.
Bernstein explicou que iam publicar a história; que já tinham
confirmação de três fontes; que sabiam do que Sloan tinha
contado ao grande júri. Tudo o que queremos é que nos
avise se devemos reter a reportagem.
— Eu gostaria de ajudá-los, sinceramente gostaria, mas
não posso dizer nada.
Bernstein pensou um pouco e disse depois que podiam
entender suas razões em não querer dizer nada. Iam tentar
um jogo: Bernstein contaria até 10. Se houvesse qualquer
impedimento para a publicação da reportagem o advogado
deveria desligar antes de chegar ao 10. Se não desligasse, era
porque" estava tudo certo.
— Devo desligar, não é? — perguntou o advogado.
Isso mesmo, disse Bernstein, e começou a contagem.
Chegou ao 10. OK, disse Bernstein, e agradeceu
efusivamente.
— Entendeu tudo agora? — perguntou o advogado. Tudo
certo. Bernstein tornou a agradecer e desligou.
Disse aos editores e a Woodward que conseguira obter uma
quarta confirmação. E se julgou muito esperto.
Simons continuava nervoso. Fumando, atravessou a sala de
reportagem e foi sentar-se defronte à máquina de
Woodward.
— O que acha você? — perguntou. — Sempre podemos
reter a reportagem por mais um dia se houver motivo...
Woodward disse a Simons que tinha certeza de que a
história era boa.
Em seguida, foi a vez de Rosenfeld aproximar-se da mesa de
Woodward e perguntar se o repórter tinha alguma dúvida.
Nenhuma.
Rosenfeld sugeriu uma alteração no parágrafo inicial. Queria
atribuir as informações sobre Haldeman não apenas "a
depoimentos prestados sob juramento perante o grande júri
encarregado do Watergate", mas também a investigadores
federais. Woodward concordou. O agente do FBI havia
confirmado e Deep Throat deixara igualmente claro que os
investigadores estavam à par dos fatos. A alteração foi feita.
As mesmas duas fontes serviram de base para o
complemento, no qual se dizia que os cinco homens presos
no Watergate tinham sido interrogados pelo FBI.
Faltando apenas uns poucos minutos para o fechamento, a
reportagem foi para a composição. Ficaria o espaço para o
desmentido de praxe da Casa Branca.
Woodward telefonou para a secretaria de imprensa da Casa
Branca e leu o texto para o vice-secretário Gerald Warren,
perguntando, em seguida, se ele a desmentia ou confirmava.
Warren.voltou uma hora mais tarde.
— Suas investigações se baseiam em informações de má
qualidade, pois a referência a Haldeman é falsa.
Que significa isto?
— É tudo o que temos a comentar — replicou Warren.
Woodward e Bernstein examinaram a declaração durante
algum tempo. Concluíram que seus termos eram fracos e
sem convicção. Incluíram-na na reportagem.
Pouco antes das nove horas, Woodward recebeu um
telefonema de Kirby Jones, secretário de imprensa da
campanha eleitoral de McGovern.
— Ouvi dizer que vocês têm aí uma boa reportagem para
amanhã. Que tal me mandar uma cópia?
Woodward explodiu e disse que as reportagens do Post sobre
o Watergate não eram escritas para o benefício dos
democratas, de McGovern, ou de quem quer que fossem, e
que achava o pedido insultante. Jones parecia perplexo. Não
via nada demais no pedido, ainda mais quando se sabia que o
jornal estaria nas ruas dentro de poucas horas.
Woodward disse que ele e Bernstein já estavam tendo
encrencas suficientes com as acusações de conluio que
vinham recebendo. Disse a Jones que comprasse o jornal
numa banca, como todo mundo, e desligou o telefone com
violência.
Antes que saíssem o editor de subúrbio mostrou-lhes um
extenso telegrama da AP, procedente de Maryland. O
senador Robert Doles fizera um discurso de vinte minutos
contra o Post perante membros do Comitê Central
(Republicano) do Estado de Maryland, com sede em
Baltimore. O discurso continha 57 referências ao Post.
Conseguiram, afinal, sair da redação, esquecendo-se de fazer
uma chamada de cortesia a Hugh Sloan, para avisá-lo de quê
a história sairia no dia seguinte. Sloan seria assaltado por um
enxame de repórteres e deviam tê-lo prevenido para ficar
sabendo o que esperar. Mas ainda tinham que preparar o
esboço de um livro sobre o caso Watergate. O esboço
deveria ser submetido a apreciação da editora no dia
seguinte, à hora do almoço.
Passaram a madrugada escrevendo, e voltaram a se encontrar
às 9h da manhã no salão de café do Hotel Madison. Durante
o desjejum passaram os olhos pela reportagem do Post sobre
Haldeman. Mais ou menos às 10h30min atravessaram a Rua
Quinze em direção ao Post e entraram na sala de Sussman
para conversar em termos gerais acerca da suite da
reportagem sobre Haldeman. Foi uma reunião descontraída.
Desta vez tinham a Casa Branca nas mãos. A referência ao
depoimento de Sloan perante o grande júri era algo que
Ziegler não conseguiria driblar. Não poderia alegar que era
boato. Hugh Sloan era o homem que havia mexido no
dinheiro, e prestara juramento para dar seu testemunho.
De volta à redação, Bernstein e Woodward verificavam suas
notas para decidirem a quem iriam visitar naquela tarde. Eric
Wentworth, repórter do setor educacional, aproximou-se de
Woodward.
— Eh — disse Wentworth —, você escutou o que o
advogado de Sloan disse?
Não, respondeu Woodward.
— O advogado de Sloan disse que ele não mencionou o
nome de Haldeman perante o grande júri. Disse isso
explicitamente.
Woodward ficou atordoado.
Wentworth repetiu as palavras, depois foi até sua mesa onde
datilografou tudo que conseguiu lembrar-se da notícia dada
pela CBS-TV, que ouvira a caminho do trabalho. Woodward
acompanhou-o. Wentworth estendeu a folha de papel e
Woodward a apanhou. Voltou para sua mesa. Precisava
sentar-se.
Telefonou para a casa de Sloan. Ninguém atendeu. Tentou o
advogado de Sloan, James Stoner. Não estava no escritório.
Woodward pediu à secretária que assim que conseguisse
falar com Stoner dissesse a ele que ligasse com urgência para
o repórter.
Woodward foi até a escrivaninha de Bernstein e deu-lhe um
tapinha no ombro. Acho que temos um problema, disse com
brandura, entregando a Bernstein a nota de Wentworth.
Uma pavorosa sensação de náusea invadiu
Bernstein, e ele pensou que ia vomitar. Com o rosto
afogueado, sentou-se na cadeira até sentir-se mais calmo.
Bernstein e Woodward entraram na sala de Sussman e lhe
entregaram a nota. Dali, seguiram os três até a sala de
Rosenfeld e ligaram a televisão. Os momentos seguintes
ficariam para sempre em suas memórias. Sloan e seu
advogado, Stoner, estavam entrando em um escritório onde
Sloan iria prestar um depoimento. Daniel Schorr, o veterano
correspondente da CBS, já estava à espera com uma equipe
de TV. Aproximando-se de Sloan, Schorr perguntou o que
achara da narração feita pelo Post sobre o seu depoimento
perante o grande júri. Sloan respondeu que seu advogado iria
comentar o assunto. Schorr levou o microfone para Stoner.
— Nossa resposta à sua pergunta é um enfático "Não" —
respondeu ele. — Nós... o Sr. Sloan não mencionou, de
modo algum, o nome do Sr. Haldeman em seu testemunho.
Sussman, Woodward e Bernstein se entreolharam. O que
havia saído errado? Eles estavam tão seguros!
Poucos minutos depois, Bernstein, Woodward, Sussman,
Rosenfeld e Simons se reuniam na sala de Bradlee. Bradlee
tinha assistido à entrevista da CBS.
Mais tarde recordaria:
— Vocês querem saber qual foi o meu pior momento no
caso Watergate? Foi ver Dan Schorr meter um microfone na
frente de Sloan e depois na frente de seu advogado, na
manhã seguinte, dizendo que o Washington Post publicara
que "você havia dito ao grande júri que Haldeman
controlava a reserva", se era verdade, e tudo o mais, e o
advogado dizendo que não... Aqueles filhos da mãe da
televisão descendo à rua, virando à direita no pátio, e lá
estava Dan, o grande e perigoso Dan Schorr, a quem
conheço há apenas trinta anos, embrulhando os dois
direitinho e acabando por nos embrulhar também.
Bernstein e Woodward resolveram não cancelar o almoço
com Dick Snyder, que ia editar o livro dos dois. Ao
contrário, apressaram-se. Enquanto se dirigiam para o Hotel
Hay-Adams, começaram a despertar para a enormidade do
que estava em jogo. Haviam cometido um erro gravíssimo
— Hugh Sloan jamais mentiria. Mas como? E qual tinha sido
o erro? Não havia dúvida de que Sloan confirmara Haldeman
como o quinto homem. O FBI também. E Deep Throat.
Tinha que ser alguma coisa relacionada com a maneira como
tinham mencionado o depoimento de Sloan perante o
grande júri. Fora nesse ponto que eles haviam errado
deploravelmente. Consideraram as possibilidades enquanto
venciam as quatro quadras que os separavam do histórico
Hotel Hay-Adams, do outro lado da Casa Branca,
atravessando-se a Praça Laffayette.
Nessa mesma hora, Ron Ziegler dava início à sua entrevista
diária com a imprensa, na sede do Executivo. Começou às
11h48min. Depois de dez minutos de comentários e noticias
sobre a campanha do Presidente e da programação dos
discursos, um repórter perguntou:
— Ron, o FBI ouviu Haldeman sobre o papel que
desempenhou no alegado controle da "caixinha" para
sabotagem política?
E assim começou uma acusação catilinária de 30 minutos
contra o Post.
ZIEGLER — A resposta à sua pergunta é não, não ouviu...
De minha parte, acho que isso é sensacionalismo do
Washington Post... Acho que o empenho do Post está
chegando a um ponto realmente absurdo... Tanto a repor-
tagem como o seu título ("Depoimento Liga Alto Assessor
de Nixon à Reserva Secreta") referem-se a uma "caixinha",
termo empregado exclusivamente — e repito,
exclusivamente — pelo Washington Post, mais uma vez
com base em boatos, mais uma vez baseando-se em
informações obtidas de um indivíduo cuja identidade se
negam a revelar, fontes anônimas. Fui informado (por John
W. Dean III) que tal "caixinha" não existe... a história foi
desmentida, mas assim mesmo a publicaram como matéria
principal da edição de hoje, com um título de sentido
distorcido, totalmente baseada em boatos e insinuações... £
uma escandalosa tentativa de destruição de pessoas. Não
creio ter visto coisa igual, há muito tempo, em nosso
processo político.
Ziegler continuou:
— Não estou de forma alguma atacando a imprensa.
Jamais o fiz na posição que ocupo; estou fazendo
observações diretas contra o Washington Post e sugerindo
que... afirmando que esta é uma bem elaborada e bem coor-
denada iniciativa política do Washington Post com o fito de
desacreditar a atual Administração e os que dela fazem
parte... Bem, já é longa a série de tais reportagens publicadas
por esse jornal em particular, um jornal que já foi chamado
grande... mas, como disse antes, reafirmo que a tática
jornalística empregada neste caso é vulgar e sórdida, é um
uso abusivo do jornalismo... Não pretendo, de modo algum,
responder a essa espécie de histórias, a não ser como as
tenho respondido até agora, isto é, com um enfático
desmentido das denúncias publicadas.
Ziegler jamais proferira desmentido tão inequívoco a uma
reportagem do Post sobre o caso Watergate, comentou um
repórter, acrescentando:
— Acho que ele acaba de emitir o mais longo comentário
jamais feito por um secretário da Casa Branca acerca de uma
reportagem.
PERGUNTA — Se todos eles — Haldeman, Chapin e Colson
—são puros e inocentes, por que motivo não se apresentam
para responder às perguntas? Quando nos dirigimos ao
senhor com perguntas concretas sobre eles, não recebemos
resposta direta.
ZIEGLER — Não vamos permitir que o Post nos maneje,
não pretendemos fazer o jogo deles...
PERGUNTA — Alguns desmentidos foram bastante vagos.
No caso do Sr. Chapin, usou-se as expressões "basicamente,
fundamentalmente incorreto". Mas, se há alguma coisa que
deva ser dita para, do seu ponto de vista, deixar tudo claro,
por que não o faz?
ZIEGLER — Acho que foi o que fizemos esta manhã.
PERGUNTA — Falando nisso, o Sr. Donald Segretti foi
recrutado para executar espionagem política pela Casa
Branca ou pelo Comitê? Dwight Chapin era seu contato?
ZIEGLER — Acho que já me antecipei a esta pergunta hoje
de manhã.
PERGUNTA — Mas não a respondeu.
ZIEGLER: — Se eu recomeçasse o exame de todas as
informações, todos os boatos, e se me pusesse a analisar cada
um deles em particular, isto seria um esforço inútil, pois é
difícil chegar ao âmago de um acontecimento que foi
deturpado e se tornou confuso. Não vale a pena, pois... o
tipo de técnica jornalística utilizada...
PERGUNTA — Ron, a revista Time e o New York Times
também publicaram vários artigos sobre os incidentes que
supostamente aconteceram. Você os inclui em sua
condenação geral ao jornalismo barato?
ZIEGLER — Honestamente, não colocaria essas publicações
ao nível do Post... Não acho que...
Nesse momento perguntaram a Ziegler qual a motivação do
Post para publicar aquelas reportagens.
ZIEGLER — Ignoro. Tenho minha própria opinião quanto
ao que possa ser. Vocês conhecem aquele homem que é
editor lá do Post, Ben Bradlee. Penso que se alguém se desse
ao trabalho de investigar suas tendências políticas, chegaria
rapidamente à conclusão de que ele não é um partidário de
Nixon. Li outro dia que o Sr. Bradlee fez um discurso no qual
dizia que a Administração Nixon se dedica à nossa destruição
— referia-se à imprensa —, que esta Administração se
dedica à destruição da liberdade de imprensa. Desde que faço
parte desta Administração, nada houve que nos envolvesse
em um programa de destruição da liberdade de imprensa.
Nós respeitamos a imprensa. Eu a respeito. Não respeito é o
tipo de jornalismo sórdido que vem sendo praticado pelo
Washington Post, e já transmiti a vocês o meu ponto de
vista sobre isso.
O almoço foi constrangedor e penoso. Woodward e
Bernstein estavam preocupados demais para discutir
qualquer coisa coerentemente, muito menos a elaboração de
um livro. Se a situação estivesse se deteriorando na medida
que imaginavam, provavelmente teriam que entregar seus
pedidos de demissão ao jornal. E é pequena a procura de
repórteres desacreditados, tanto no jornalismo quanto na
editoração de livros. Mal tocaram na refeição, mas se en-
charcaram com xícaras e xícaras de café.
Quando o encontro terminou, entraram no velho elevador
do hotel, forrado de painéis de carvalho. Herbert Klein,
diretor de comunicações da Casa Branca, estava lá dentro.
Ficaram os três olhando em silêncio para o chão enquanto o
elevador descia. Chegando ao térreo, Klein saiu
apressadamente e se dirigiu ao carro oficial à sua espera na
entrada.
Woodward e Bernstein se protegeram da chuva cobrindo a
cabeça com exemplares do Post enquanto corriam para a
redação. Encontraram em suas máquinas sumários da
entrevista de Ziegler, enviados à redação pelo teletipo. A
autoconfiança e a ferociadade do ataque de Ziegler e o fato
de ter negado abertamente a reportagem sobre Haldeman
eram fortes indícios de que alguma coisa saíra horrivelmente
errada.
Os repórteres não estavam em condição física ou mental de
enfrentar a crise. Estavam exaustos, confusos e
atemorizados.
Molhado até os ossos e com arrepios percorrendo-lhe o
corpo, Woodward telefonou novamente para o advogado de
Sloan. Desta vez conseguiu falar com ele e pediu-lhe para
explicar o que significava aquela negativa.
— Sua reportagem está toda errada — Stoner respondeu
friamente. — Errada quanto ao grande júri.
Woodward se encontrava em desvantagem. Não podia trair a
confiança de Sloan e dizer a Stoner que seu próprio cliente
fora um dos informantes.
Stoner estava certo de que Sloan não tinha mencionado o
nome de Haldeman perante o grande júri? Woodward
tentou fazer com que parecesse mais uma sugestão do que
uma pergunta.
— Estou — respondeu Stoner. — Absolutamente certo. — E,
antecipando-se à próxima pergunta:
— O desmentido é especificamente dirigido à sua
reportagem. Não, nada declarou ao FBI. Não, nada declarou
aos investigadores federais.
Woodward começou a suar frio. Será que tudo não passara
de uma armadilha? Jamais poderia esperar antagonismo por
parte do advogado de Sloan.
Tentou outro ângulo. Deixando de lado a questão de quem
ouvira o testemunho de Sloan, o fato básico da história era
verdadeiro? Haldeman, de fato, controlava a reserva?
— Sem comentários.
Mas não era este o ponto vital?
— Sem comentários. Simplesmente não pretendo discutir
informações que meu cliente possa ou não ter divulgado.
Contorcendo-se na cadeira, Woodward considerou a
dificuldade em que se encontrava. Puxa! o que iriam fazer?
Perguntou a Stoner se poderia oferecer qualquer orientação
para a solução do impasse. Stoner se manteve impassível.
Woodward chamou sua atenção para o fato de que o Post
havia constantemente reiterado que Sloan não estava
criminalmente implicado no caso Watergate. Fora o
primeiro jornal a divulgar o fato. Havia explicitamente in-
formado que Sloan abandonara o cargo por ser visceralmente
honesto.
Stoner replicou que apreciava o gesto, mas Woodward sentia
que o advogado estava ficando impaciente. Woodward
precisava de tempo para pensar. Contemporizou.
Deveria o Post apresentar desculpas públicas a seu cliente
por haver deturpado o teor de suas declarações perante o
grande júri? Stoner respondeu que dispensava as desculpas.
Woodward fez uma pausa. Talvez devesse perguntar se
Haldeman merecia um pedido de desculpas... E se Stoner
concordasse? Provavelmente exigiria que o pedido de
desculpas aparecesse nas páginas do jornal. A idéia era
insuportável.
Embora a resposta pudesse ser penosa, Woodward não
deixou de fazer a pergunta. Não lhe ocorreu indagar outra
coisa. Sem comentários.
Woodward argumentou que o Post tinha a obrigação de
corrigir um erro. Sem comentários.
Se desculpas fossem necessárias, seriam apresentadas. Sem
comentários.
Woodward levantou a voz para explicar a seriedade da
situação quando um jornal cometia um engano.
Finalmente, Stoner disse que não recomendava qualquer
pedido de desculpas a Bob Haldeman.
Pela primeira vez, desde a narração radiofônica do
desmentido do advogado de Sloan, Woodward relaxou um
pouco.
Perguntou se o grande júri ou os investigadores haviam
perguntado a Sloan se Haldeman controlava a "caixinha".
Sem comentários.
Será que a investigação do FBI fora tão inepta, e o
interrogatório do grande júri tão inadequado — pensou em
voz alta — a ponto de jamais terem feito a Sloan uma
pergunta sobre Haldeman? Sem comentários.
Isso nos deixa na corda bamba, disse Woodward.
Stoner respondeu que sentia muito a posição precária em
que se encontravam.
Woodward não encontrou argumentos. Nada mais restava a
dizer.
Os dois repórteres estavam começando a perder o
autocontrole. No mínimo até a noite, Woodward não
poderia entrar em contato com Deep Throat. Bernstein não
conseguia localizar Sloan. A redação inteira se encontrava
em estado letárgico, como se um denso nevoeiro pairasse
sobre a sala da reportagem. Os outros repórteres observavam
a tensão que se ia avolumando. Bradlee e Simons saíam vez
por outra de suas salas para dizer aos dois que mantivessem o
sangue-frio, que não entregassem os pontos. Sussman
parecia angustiado. Rosenfeld fazia uma ponte entre sua sala
e as mesas dos repórteres, indo e vindo, querendo ser
avisado de todas as nuances porventura encontradas na
revisão que Woodward e Bernstein estavam fazendo das
conversas com suas fontes.
Às três da tarde, Woodward e Bernstein saíram da redação a
fim de procurar o agente do FBI que, há dois dias,
confirmara a história de Haldeman. Encontraram-no no
corredor, do lado de fora de sua sala. Bernstein aproximou-se
e tentou perguntar se tinha havido um mal-entendido.
— Não falo com vocês — respondeu o agente, dando-
lhes as costas.
Bernstein seguiu o agente, que ia andando pelo corredor. Por
incrível que fosse, o agente parecia estar sorrindo
disfarçadamente. Isto não é uma piada suja, disse-lhe
Bernstein. Voltando-se, o agente caminhou depressa até o
fim do corredor, onde virou para outro corredor.
Bernstein e Woodward já haviam decidido seu curso de
ação. Se o agente se negasse a confirmar suas palavras, iriam
ao seu chefe exigir uma explicação. Parecia evidente agora
que Sloan não contara, quer ao FBI, quer ao grande júri,
coisa alguma sobre Haldeman.
Bernstein esperou um pouco, depois correu atrás do agente e
o encurralou no hall. Este caso é gravíssimo, explicou-lhe,
não é a versão de um G-man sobre uma brincadeirinha de
esconde-esconde. Queriam respostas, já. Woodward
aproximou-se e entrou na conversa. Segurava um maço de
papéis contendo as anotações do diálogo entre Bernstein e o
agente. Já era tempo de ouvirem algumas respostas diretas ou
o assunto seria levado à seu chefe, preveniu Woodward.
O agente já não sorria. Parecia em pânico.
— De que é que você está falando? Eu vou negar tudo. Eu
vou negar tudo.
Woodward desdobrou sua cópia dos apontamentos e
mostrou ao homem. Não queriam meter ninguém em
apuros. Queriam apenas descobrir o erro que haviam
cometido, se é que havia erro. E queriam saber agora.
— Não vou falar com vocês, nem sobre Haldeman nem
sobre qualquer outra coisa — disse o agente. — A rigor, não
devia nem ser visto na companhia de vocês, seus filhos da
mãe.
Bernstein tentou acalmá-lo. Alguma coisa saíra dos eixos e
eles precisavam saber o quê; não havia razão para ficarem se
suspeitando mutuamente de deslealdade e má-fé.
O agente suava, suas mãos tremiam.
— Fodam-se! — disse ele. E entrou na sala.
Os repórteres divisaram no hall um dos superiores do agente.
O próximo movimento dos dois seria a sua mais difícil
decisão profissional até então — a bem da verdade, não seria
uma decisão profissional. Iam identificar um informante
confidencial. Nenhum deles jamais fizera tal coisa. Ambos
sabiam instintivamente que estavam errados. Mas havia
justificativa para o ato. Suspeitavam de que haviam caído
numa armadilha; sua raiva era compreensível, sua auto-
preservação estava em jogo. Pelo menos tentavam se
convencer disso.
Bernstein e Woodward aproximaram-se do chefe e trocaram
apertos de mão. Os três precisavam ir a algum lugar onde
pudessem conversar, explicou Woodward.
Qual era o problema?
Os repórteres repetiram sua conversa telefônica com o
agente sobre Haldeman. E ambos haviam escutado usando
uma extensão. Woodward lhe mostrou as notas
datilografadas.
O chefe as leu rapidamente. Sua cólera ia aumentando.
— Vocês sabem que constitui infração ouvir conversa
telefônica que envolva uma dependência governamental —
disse ele.
Os dois responderam que estavam prontos a enfrentar as
conseqüências de qualquer violação às leis porventura
cometida. Mas a questão imediata era Haldeman e a
possibilidade de terem cometido um erro.
O superior se afastou sem uma única palavra.
Decorridos alguns minutos, o agente veio disparado na
direção dos repórteres.
— Estou ordenando que vocês permaneçam no recinto
— disse ele, apontando e agitando o dedo no ar. — Não
podem ir embora.
Enquanto o agente voltava correndo, Bernstein e Woodward
concordaram que ele não tinha autoridade para retê-los no
prédio, a menos que lhes desse voz de prisão. Woodward
achava que seria uma boa idéia pedir a um advogado que
viesse juntar-se a eles.
Saíram do edifício e atravessaram a rua até uma cabina
telefônica de onde chamaram Sussman. Este os aconselhou a
voltarem à redação, era absurdo acatarem as ordens do
agente.
— Ele deu voz de prisão? — perguntou Sussman.
Bernstein respondeu que não. Rosenfeld estava na extensão,
desfiando uma série de nomes feios contra o agente e
dizendo que iriam ensiná-lo a não brincar com o
Washington Post.
Os repórteres decidiram ignorar o conselho e voltaram para
o chefe do agente. Talvez ainda houvesse um jeito de
endireitar as coisas. O chefe estava em sua sala. Admitidos
imediatamente pela secretária viram-no sentado atrás de uma
espaçosa mesa, o agente de pé, ao seu lado. Seu superior
mandou que se retirasse.
— Pois bem, o que significa tudo isto? — perguntou,
quando a porta se fechou.
A menos que pudessem determinar a exatidão ou inexatidão
da história de Haldeman, talvez tivessem que dizer o nome
de algum informante que, deliberadamente, os houvesse
enganado. Precisavam defender-se. Queriam saber se o
agente havia passado informações falsas propositadamente.
Mais importante ainda, frisou Bernstein, tinham que saber
como haviam cometido esse erro. Ainda não haviam
conseguido entender. Haldeman seria ou não um dos cinco?
Teria Sloan dito ou não que ele era? Achavam que o
problema residia não na substância da matéria mas no
depoimento de Sloan perante o grande júri.
— Não vamos discutir o caso — disse o chefe.
Os repórteres tentaram novamente. Se estavam errados,
tinham que corrigir o erro e apresentar desculpas. Com
quem deviam desculpar-se? O que deviam dizer?
— Não é aqui que vão conseguir a resposta — disse o
chefe.
Meia hora mais tarde estavam de volta na sala de Bradlee,
com Sussman, Rosenfeld e Simons.
— O que aconteceu? — perguntou Bradlee, inclinando-se
sobre a mesa e estendendo as mãos espalmadas para
Bernstein e Woodward. Os dois tentaram explicar que ainda
não sabiam.
Woodward observou que ainda lhes restava a opção de
identificar suas fontes visto que qualquer acordo com um
informante era dado por findo no momento em que
recebessem informações falsas. Rosenfeld hesitava. Berns-
tein era contra.
Bradlee fez sinal pedindo silêncio.
— Vocês nem sequer sabem se estão certos ou errados. —
Estava agitado, mas não demonstrava raiva. — Suponhamos
que delatem suas fontes — eles vão negar, e daí? Como é
que vocês ficam? Olhem, amigos, não é costume nosso
mencionar fontes. Não é agora que vamos mudar.
Bernstein sentiu-se aliviado. Rosenfeld parecia desanimado,
mas permaneceu tranqüilo. Sugeriu que os informantes
fossem procurados, um a um, Deep Throat, Sloan, todos os
outros com que pudessem falar. Então, em um ou dois dias
poderiam definir melhor a situação.
Os repórteres disseram que estavam praticamente
convencidos de que Sloan não prestara testemunho sobre
Haldeman perante o grande júri. Woodward sugeriu que
publicassem ao menos isto, ao mesmo tempo em que
confessavam seu erro.
Bradlee franziu o rosto.
— Vocês ainda não sabem em que pé estão as coisas. Não
estão de posse dos fatos. Agüentem as pontas mais um
pouco. Não sei, mesmo agora, se devemos dar crédito ao
advogado de Sloan. Vamos aguardar para ver como é que as
coisas ficam.
Bradlee virou-se para sua máquina a fim de escrever uma
declaração a ser distribuída a todos os veículos de
informação — que não haviam parado de telefonar pedindo
um comentário. A lauda voou por cima da máquina e caiu
no chão, como numa cena absurda de algum dos velhos
filmes dos Irmãos Marx. Depois de jogar fora vários textos
emitiu finalmente o seguinte pronunciamento: "Sustentamos
a nossa reportagem".
Bernstein e Woodward agüentaram firmes, e não
escreveram reportagem alguma para o dia seguinte. Outros,
no entanto, o fizeram. Vários jornais, que não haviam
publicado a matéria sobre Haldeman, deram destaque ao
desmentido da Casa Branca. Ben Bagdikian escreveu mais
tarde na Columbian Jour-nalism Review: "A primeira notícia
que os leitores do Chicago Tribune tiveram sobre a matéria
do Post acerca de Haldeman não foi na manhã em que esta
estourou... mas no dia seguinte, na página 7, sob o título:
'Ziegler denuncia as reportagens do Post sobre espionagem e
nega qualquer ligação'".
Peter Osnos, que voltara recentemente a Washington, ao
término de uma missão como correspondente do Post no
Vietnã, escreveu matéria de primeira página sobre as
declarações do advogado de Sloan e o desmentido da Casa
Branca.
Às 8h45min da noite, Bernstein finalmente localizou Sloan
pelo telefone. Bernstein explicou o dilema: sabiam que
estavam errados, mas não sabiam onde estava o erro.
Sloan mostrou-se afável:
— O problema é que não concordo com a maneira como
vocês apresentaram as suas conclusões.
Haldeman, de fato, tivera controle da caixinha, mas o
assunto não fora ventilado no grande júri, certo?
— O nome de Haldeman jamais foi pronunciado em
minhas audiências no grande júri. Nosso desmentido se
restringe exclusivamente à sua reportagem. Ela não é
fatualmente verdadeira. Nunca toquei no assunto perante o
grande júri. Jamais me perguntaram sobre ele. Não estou
tentando influenciá-lo a desistir da pesquisa. O desmentido
foi estritamente limitado, propositadamente restrito.
A mensagem de Sloan era clara, embora não explícita.
Haldeman tivera autoridade sobre a reserva; o assunto não
fora debatido perante o grande júri. De duas, uma: ou os
repórteres não haviam entendido o que Sloan dissera sobre o
grande júri no princípio da semana, ou Sloan não entendera
direito a pergunta que tinham feito.
A conversa telefônica com Sloan, pelo menos, era um aceno
de esperança; se eles conseguissem comprovar, sem sombra
de dúvida, que Haldeman controlara a caixinha, e explicar o
erro cometido na reportagem, sua credibilidade
Mais tarde, recordaria: — Emiti dois pronunciamentos
naquele ano — ambos sobre o Watergate. .. Qual a minha
opção? Àquela altura, eu já estava no mesmo barco com os
dois repórteres. Ainda me lembro de sentar-me à máquina e
datilografar umas trinta declarações, e depois dizer mais ou
menos assim: "Porra, nós vamos ficar do lado dos nossos
rapazes".
talvez não acabasse inteiramente destruída. Bernstein e
Woodward estavam esgotados. Tentaram analisar todos os
passos que os haviam levado àquele monumental desastre.
Tinham se excedido em deduções. Convencidos, tanto por
seus informantes como por suas próprias conclusões, de que
a sombra de Haldeman movia-se sobre o Watergate, tinham
se agarrado a um fio excessivamente frágil — a "caixinha". A
decisão não fora de todo injustificada. Afinal dinheiro da
campanha de Nixon era a chave que lhes permitira penetrar
na área das atividades secretas. Todavia, uma vez
convencidos de que Haldeman era o quinto homem, haviam
tomado alguns atalhos perigosos. Ouviram o que queriam
ouvir. Na noite em que Sloan confirmou que Haldeman era
um dos cinco, nem sequer indagaram se ele havia exercido
sua autoridade, se na realidade aprovara qualquer
desembolso. Não haviam especificamente perguntado a
Sloan qual o teor exato das questões formuladas pelo grande
júri, e quais tinham sido suas respostas. Uma vez proferidas
as palavras mágicas por Sloan, tinham ido embora e lá não
voltaram. Não pediram a Sloan para repetir os fatos, a fim de
se assegurarem que se haviam entendido mutuamente. Ao
tratar com o agente do FBI, multiplicaram os erros. O
interrogatório de Bernstein fora superficial. Deveria ter
tentado fazer com que o agente mencionasse o nome
espontaneamente, em seu próprio contexto. Se o igente não
o fizesse, então a marcha da confirmação teria seguido um
caminho mais aceitável. A confusão Haldeman/Ehrlichman
deveria ter valido como um alarma de que o agente estava
falando mais do que sabia. A manobra de Bernstein,
acusando o FBI de inépcia, fora uma falha de julgamento.
Bernstein não conhecia o agente bastante bem para saber se
era ou não digno de confiança ou para analisar suas reações.
Deram-se conta de que o confronto com o chefe do agente
feria a ética profissional. Haviam postos em risco a carreira
do agente, atraiçoado sua confiança. E com isso tinham
arriscado a própria reputação junto a outras fontes.
Houve outros erros de cálculo. Bernstein não devia ter usado
aquele método silencioso do "confirme ou desligue" com o
advogado do Departamento de Justiça. As instruções tinham
sido confusas. (De fato, ficaram sabendo depois que o
advogado entendera tudo ao contrário, e pretendera avisá-los
a não prosseguir com a história.) Quanto a Deep Throat,
Woodward confiara em excesso no código de confirmação,
ao invés de pedir uma declaração cristalina.
Na tarde do dia seguinte, 26 de outubro, várias horas depois
do encontro de Henry Kissinger com a imprensa na Casa
Branca, a fim de anunciar que "a paz estava próxima" no
Sudeste asiático, Clark MacGregor entrava no estúdio local
do Centro Nacional de Assuntos Públicos para a Televisão,
para ser entrevistado. Do ponto de vista da Administração, a
oportunidade era perfeita para ajustar sua imagem pública às
árduas realidades, e corrigir alguns mal-entendidos que
poderiam, posteriormente, assombrar a Casa Branca como
fantasmas, particularmente tendo em vista que as
declarações de Kissinger ofuscariam qualquer
pronunciamento de MacGregor.
MacGregor confirmou a existência de uma reserva do CRP
para atividades clandestinas, embora questionasse o adjetivo
"secreta" e insistisse em que as retiradas não tinham sido
intencionalmente empregadas em operações ilegais.
Sustentou que o dinheiro no cofre de Stans fora utilizado
para descobrir se havia trabalho organizado de sabotagem
contra a campanha de Nixon para as eleições primárias. Deu
o nome de cinco pessoas que haviam autorizado ou recebido
pagamentos: Mitchell, Stans, Magruder, Porter e Liddy.
As declarações de MacGregor pareciam restaurar um pouco
da credibilidade que os repórteres haviam perdido na derrota
perante Haldeman: na véspera, Ziegler negara a existência da
reserva.
Bradlee não quis editar a fala de MacGregor na primeira
página, que já continha outra reportagem sobre o Watergate.
— Vai parecer que estamos remexendo na ferida, justo no
dia em que anunciam a paz — explicou Bradlee a
Woodward, que teimava pela primeira página.
O New York Times publicou o pronunciamento de
MacGregor justamente na primeira página, acrescentando
um fato de grande significado. Depoimentos prestados sob
juramento por pessoas ligadas ao Comitê demonstravam que
as retiradas da "caixinha" ascendiam a US$ 900.000,00.
Naquela manhã, Woodward colocou o vaso de plantas com a
bandeirinha vermelha na posição combinada para um
encontro: sabia que esta seria sua mais sombria reunião com
Deep Throat.
Quando chegou em casa, às nove da noite, Woodward
preparou um milk-shake de "Ovomaltine" e dormiu
enquanto lia. Só acordou à lh30min da madrugada. Zangado
por ter perdido a hora, pensou em ir de carro, depois
abandonou a idéia por considerá-la muito arriscada. Ele e
Bernstein já haviam ultrapassado os limites da imprudência.
Vestiu roupas quentes e desceu correndo as escadas de
serviço até o beco. Caminhou quinze quadras, encontrou um
táxi e chegou à garagem pouco antes das três. Deep Throat já
estava esperando, num canto escuro, encolhido contra a
parede.
Precisavam desesperadamente de ajuda, confessou
Woodward, e deu vazão a todos os seus sentimentos de
incerteza, confusão, arrependimento e raiva. Falou durante
quase vinte minutos.
Deep Throat fazia uma ou outra pergunta, e parecia estar
profundamente preocupado — mais compungido do que
arrependido. Woodward queria que entendesse quão
desesperada era a situação em que se encontravam, ele e
Bernstein. Acreditava que o erro cometido tinha posto em
risco todo o trabalho anterior. As reportagens estavam
crescendo... No final, a Casa Branca tinha que acabar
cedendo. Agora, a pressão sobre a Casa Branca afrouxava e a
obrigação de apresentar provas revertera o Post.
— Bem, Haldeman conseguiu escapar de vocês —
observou Deep Throat. Batia com o salto do sapato na parede
da garagem, sem se importar em esconder seu
desapontamento. Agora, a verdadeira história não poderia
mais ser conhecida — o erro com Haldeman encerrara o
assunto.
Deep Throat chegou mais perto de Woodward.
— Deixe-me explicar uma coisa — disse ele. — Quando
você fecha o cerco ao redor de um sujeito como Haldeman,
tem que se certificar de estar pisando terreno muito firme.
Merda, que confusão dos diabos!
Aproximou-se ainda mais, falando num sussurro.
— Provavelmente não estou contando nada de novo, mas
os fatos básicos estão corretos. Do princípio ao fim, esse
negócio todo é uma operação de Haldeman. Ele controlava o
dinheiro. Ficava protegido pelos funcionários que o
rodeavam. E agora, como chegar lá?
Deep Throat descreveu a operação Haldeman.
— Ele é inteligente e pode ser muito fino quando
necessário... só que na maior parte do tempo ele não é fino.
Ele é o "Presidente Assistente" e todo mundo só tem acesso
ao Presidente se ele quiser. Ele dá as ordens, e pode ser
muito rude.
Haldeman tinha quatro assessores principais a quem
delegava ordens, mas não responsabilidades: Lawrence
Higby — "um ingênuo joão-ninguém que faz o que lhe
mandam"; Chapin — "mais inteligente e sofisticado do que
Higby, mas um homem igualmente dedicado que não
discute ordens"; Strachan — "com jeito de militar, um
sujeito capaz"; e Alexander Butterfield — "um ex-coronel da
Força Aérea que sabe manejar documentos e pessoas". Todo
mundo se apavora depois que alguém comete um erro como
o que vocês cometeram — continuou Deep Throat. —
Contribui para fortalecer o mito de invencibilidade de
Haldeman; é mais uma pedra no muro da fortaleza. Parece
que ele esfregou tudo no nariz de vocês, manipulando tudo
secretamente para que até o Post metesse os pés pelas mãos.
A reportagem tinha sido "o pior fiasco possível. Vocês
conseguiram fazer com que as pessoas sentissem pena de
Haldeman. Não pensei que isso fosse possível".
Deep Throat bateu o pé.
— Uma conspiração assim... uma investigação de
conspiração... a corda tem que ir se apertando devagarinho
ao redor do pescoço de todo mundo... Você parte do círculo
exterior, pondo pedra sobre pedra, convincentemente, em
direção do centro; arranja dez vezes mais provas do que as
necessárias contra os Hunts e os Liddys. Eles se sentem
acabados, sem esperanças — não podem abrir a boca
imediatamente, mas sentem a pressão... Então você avança
para o círculo interior seguinte e procede do mesmo modo...
Se você atira alto demais e não acerta o alvo, então todo
mundo começa a se sentir mais seguro. Ê assim que os
advogados trabalham. E os repórteres espertos também.
Vocês conseguiram atrasar meses de investigação. Fica todo
mundo na defensiva — editores, agentes do FBI, todo
mundo na encolha depois de uma coisa destas.
Woodward engoliu em seco. A reprimenda era merecida.
Na tarde do dia seguinte, Woodward contou a Bernstein o
que lhe dissera Deep Throat. Concordaram que deviam
escrever uma reportagem dizendo que Haldeman não tinha
sido apontado por Sloan no grande júri, mas reiterando que
fontes fidedignas haviam reconfirmado a autoridade de
Haldeman sobre a reserva secreta.
Bradlee e os outros editores foram contra. O fogo estava
diminuindo; não queriam reacendê-lo.
No domingo, o senador McGovern apareceu no programa
"Encontro com a Imprensa", transmitido pela NBC, e
aproveitou bem a oportunidade para divulgar sua mensagem
sobre o Watergate. Era tudo verdade, disse McGovern, já
que as afirmações tinham partido de dois repórteres do
Washington Post, dignos de respeito.
Na mesma tarde, Spiro Agnew, no programa "Problemas e
Respostas", da ABC, deu opinião diferente. "Repreensível do
ponto de vista jornalístico", foi o seu comentário sobre a
cobertura do Post em geral. E definiu o relato sobre
Haldeman como "uma história inventada, baseada em duas
falsidades, e por objetivo relacionou o caso ao Presidente".
Minutos depois dos dois pronunciamentos, Simons estava
com Rosenfeld ao telefone. O jornal não tinha alternativa
senão corrigir a notícia sobre Haldeman. Era intolerável que
o candidato democrata à presidência corresse o país citando
informações inexatas do Washington Post.
Bernstein e Woodward receberam ordens de redigir uma
explicação que esclarecesse a controvérsia. Sentavam-se
ambos à mesa de Bernstein quando um auxiliar da seção de
teletipo lhes trouxe um artigo da revista Time.
Dizia o artigo que a revista havia obtido informações dos
arquivos do FBI que demonstravam haver Dwight Chapin
"admitido aos agentes do FBI ter contratado" Donald Segretti
para arruinar a campanha dos democratas; que "Chapin
admitira ainda ao FBI que os pagamentos a Segretti eram
efetuados pelo advogado pessoal de Nixon na Califórnia,
Herbert Kalmbach". E que o advogado confessara ter feito os
pagamentos a Segretti.
Mas — continuava o artigo — "não se conseguiu evidência
concreta para apoiar a denúncia do Washington Post de que
H.R. Haldeman, chefe do staff da Casa Branca era um dos
que possuíam o controle de uma reserva secreta destinada a
financiar espionagem e sabotagem".
Woodward e Bernstein sabiam que ninguém duvidava de
que a revista Time tinha livre acesso aos arquivos do FBI,
Escreveram, então, uma reportagem rotineira, guiando-se
pelas informações sobre Chapin-Kalmbach contidas no
mencionado artigo e as conclusões sobre Haldeman.
Continuaram, dizendo que o Post havia perguntado a Sloan
se Haldeman era um dos cinco — mesmo que esta
informação não tivesse sido por ele transmitida ao grande
júri. Citavam Sloan: "nosso desmentido foi estritamente
limitado". E acrescentavam:
"Os repórteres do Post voltaram, então, às suas fontes na área
federal e foram informados de que a reportagem do Post
faltara à verdade ao identificar o depoimento de Sloan
perante o grande júri como fonte da informação que
vinculava Haldeman à reserva secreta.
No entanto, essas mesmas fontes, que forneceram
informações pormenorizadas sobre a investigação do caso
Watergate, confirmaram, mais uma vez, que Haldeman
estava autorizado a efetuar retiradas da mencionada reserva.
Uma de nossas fontes chegou a dizer que "esta é uma típica
operação Haldeman e que este se havia insulado, manejando
a reserva através de um intermediário".
CAPÍTULO 10
Nas últimas semanas, Bernstein e Woodward vinham
esperando com certa ansiedade o Dia das Eleições. O
período final da campanha foi para eles o mais frustrante
desde 17 de junho. Além do fracasso com Haldeman,
vinham encontrando muralha atrás de muralha. Depois da
auto-satisfação e do entusiasmo provocados pelas primeiras
reportagens sobre as atividades de Segretti e as ligações
Chapin-Kalmbach, o Post havia montado um imenso
esquema de investigação, sob o comando de Sussman. Mais
de uma dúzia de repórteres se revezavam no trabalho,
pesquisando, analisando os acontecimentos políticos,
redigindo esboços biográficos dos principais personagens,
acompanhando os acontecimentos nos tribunais, no
Capitólio (Congresso) e na Casa Branca. Foram poucos os
fatos novos que vieram à luz: alguns contatos de Segretti,
ações isoladas de sabotagem pelas forças de Nixon,
evidências suplementares da limitação das investigações
realizadas pelo FBI e pelos promotores federais.
Bernstein e Woodward haviam recomeçado suas visitas
noturnas. Nada. A eleição estava às portas. Algumas pessoas
deram a entender que talvez começassem a falar mais
abertamente depois da vitória de Nixon.
A esperança de acesso mais fácil às informações, depois do 7
de novembro, não era o único motivo pelo qual os
repórteres ansiavam pelas eleições; com a reeleição de
Nixon, a Casa Branca ver-se-ia forçada a abandonar o ar-
gumento de que o Post estava trabalhando para a vitória de
McGovern.
Woodward passou o dia das eleições na redação, sem nada
fazer, divertindo-se às vezes em observar o fascínio que
qualquer espécie de pesquisa de opinião exercia sobre
Sussman. Tirando baforadas do cachimbo, Sussman tentava
calcular se havia algum jeito da contagem estar errada,
avaliando quantos milhões de votos McGovern precisaria
para vencer. Sua mesa estava literalmente ocupada pelos
telegramas que traziam os últimos dados da apuração, além
de folhas e mais folhas cobertas de longas divisões,
multiplicações, adições, símbolos que só o próprio Sussman
conseguiria entender. Assim, ele chegou à conclusão de que
era matematicamente impossível para Nixon perder as
eleições.
Embora republicano registrado no partido, Woodward
absteve-se de votar, indeciso entre a desorganização e o
idealismo ingênuo da campanha de McGovern e a conduta
de Richard Nixon. Além do mais, acreditava que, abstendo-
se de votar, ficaria mais apto a escrever objetivamente sobre
o Watergate, ponto de vista que Bernstein tachava de idiota.
Bernstein votou em McGovern, sem entusiasmo mas
também sem vacilação. De volta, entrou no "bolo" de apostas
do pessoal da redação, dando a. Nixon uma vitória com 54%
dos votos.
No dia seguinte ao das eleições, Bradlee e Simons pediram a
Sussman que lhes escrevesse um memorando informando de
que modo Bernstein e Woodward pretendiam dar
continuidade à investigação e discriminando as áreas nas
quais tinham intenção de se concentrar. Sussman disse aos
repórteres que notara pressão bastante forte para que uma
reportagem fosse escrita — qualquer reportagem, contanto
que fosse boa. Algo que afastasse um pouco a atenção do
Post e descartasse a idéia de que o jornal se empenhara na
campanha de McGovern.
Woodward ficou manifestamente zangado com a solicitação.
E, não sem arrogância, Bernstein e Woodward disseram a
Sussman que escrevesse aos editores um memorando
contendo qualquer porcaria que lhe ocorresse.
Sussman escreveu uma página de memorando, concluindo:
"Woodward e Bernstein vão voltar virtualmente a todas as
suas antigas fontes, como também procurar alguns novos
informantes que demonstraram interesse em falar mais
abertamente, agora que as eleições estão terminadas.
Algumas de nossas melhores histórias, até o presente, foram,
por assim dizer, bastante inesperadas, sem que se partisse de
uma linha especial de investigação, e, muito provavelmente,
acontecerá o mesmo agora".
Às cinco horas da manhã de 11 de novembro, uma das
telefonistas doPosr conseguiu localizar Bernstein na casa de
uma amiga. Disse ela que havia telefonado para a cidade
inteira à sua procura.
— Ótimo — disse Bernstein, perguntando-se em voz alta
como teria ela conseguido encontrá-lo e a quem mais teria
telefonado.
— Nós nunca denunciamos nossas fontes, queridinho —
respondeu ela. Bernstein devia telefonar imediatamente para
Sussman. Em sua carreira, ele já havia recebido outros
telefonemas da redação no meio da noite, e sabia que em
geral vaticinavam calamidade ou tragédia — o assassinato de
Robert Kennedy, bombas no Pentágono, confusão no
Congresso.
Sussman falou do outro lado da linha:
— Segretti voltou para casa. Bob Meyers teve uma rápida
conversa com ele.
Sussman queria que Bernstein tomasse o próximo avião para
Los Angeles e falasse com Segretti — se Segretti falasse...
Donald Segretti havia desaparecido do mapa logo após a
reportagem de 10 de outubro.
Bernstein chegou ao aeroporto Dulles cinco minutos antes
da decolagem e com menos de vinte dólares na carteira.
Meyers veio ao seu encontro no aeroporto de Los Angeles e
juntos se dirigiram para a casa de Segretti, em Marina Del
Rey, uma corrida de mais ou menos vinte minutos. Segretti
não estava, e Meyers usou o truque do palitinho no vão
lateral da porta.
No fim da tarde, Bernstein conseguiu falar com Segretti pelo
telefone.
— Alô, Carol — respondeu ele. — Eu já tinha pensado
que a gente havia de se encontrar de novo. — Seu tom de
voz era alegre, animado, e sem nada de petulante. Consentiu
em receber Bernstein e Meyers.
— Mas não vou discutir detalhes e tem que ser tu do
extra-oficial. Segretti vestia calças de veludo cotelê e um
suétcr de malha escandinava.
Sorriu quando entraram. Trocou um caloroso aperto de mão
com Bernstein.
— Como tem passado? — perguntou. Bernstein ficou
admirado ao constatar que Segretti tinha apenas 1,60 m de
altura. Então, era este o superespião? O agente secreto
portador do distintivo da Casa Branca? Segretti tinha cara de
bebê, um sorriso levemente dentuço e vestígios de um
topete no cabelo.
Convidou-os a sentarem-se no sofá e discursou durante
alguns minutos sobre sua aparelhagem de som.
— O fato é que estou quase sem dinheiro — disse, pouco
depois. — Sem emprego, pagando o carro e devendo os
honorários do advogado.
Segretti confessou estar confuso, com medo, zangado e sem
amigos. Bernstein gostou dele e achou sua situação patética.
— Sinceramente, quero contar a história toda e acabar
com tudo isso de uma vez — disse Segretti. — Não sei como
fui deixar que tudo isso me acontecesse. Não tinha noção de
que se tratava. Eles nunca me explicaram nada, exceto o
papel que eu devia desempenhar. Tinha que ler os jornais
para ficar sabendo das coisas.
Eles?
— A Casa Branca.
Segretti ficara nervoso quando as investigações feitas pela
imprensa e pelo pessoal da Subcomissão do senador Edward
Kennedy haviam atingido sua família, seus amigos e
conhecidos.
— Kennedy quer vingança e quem vai pagar o pato sou eu
— disse Segretti. — Kennedy vai me cortar em pedacinhos.
Já chegaram a perguntar a meus amigos se eu conhecia
Arthur Bremer. Os olhos de Segretti se inundaram de
lágrimas — Como é que alguém pode fazer uma pergunta
dessas? É horrível! É terrível! Eu não mereço. O que é que
pensam que eu sou? Diante dessa gente do Kennedy, a
vontade que eu tenho é de mandá-los todos à puta que pariu,
dar as costas e deixar que me ponham atrás das grades... Fui
arrastado na lama, tripudiado, como se eu andasse fabricando
bombas, isso aí... Não fiz nada ilegal, nada assim tão ruim.
Meus pais foram molestados, meus amigos, minhas
namoradas; minha privacidade foi violada; meu telefone
censurado, fica o tempo todo fazendo aquele barulhinho
"clique-clique"; deve ter gente me seguindo; enchem o saco
de todo mundo pra quem eu telefone.
A ingenuidade de Segretti era de desarmar qualquer um.
Acusou a imprensa pela maioria dos seus problemas. Estava
particularmente furioso com o New York Times e o
Newsweek por terem conseguido seus registros telefônicos e
molestado sua família. Assim, Bernstein e Meyers
abandonaram deliberadamente a atitude de antagonismo em
relação a ele.
A entrevista foi de uma lentidão irritante. Segretti nada
informava voluntariamente, tinha que ser incitado, e
recusava-se a discutir suas atividades, exceto em termos
gerais.
— O que eu fazia era milho pra pinto — disse ele. — De
vez em quando me davam um pouco de ração.
Admitiu, finalmente, ter sido contratado por Chapin.
Também Strachan discutira o emprego com ele. Kalmbach
fazia os pagamentos. A iniciativa partira de Chapin, não de
Segretti.
— Eu não fui procurar emprego — observou com
amargura. — Ponha-se no meu lugar: você está saindo do
Exército, longe do mundo há quatro anos, não sabe a que
ramo da advocacia vai dedicar-se, e de repente recebe um
chamado para trabalhar com o Presidente dos Estados
Unidos. O que faria você? Se essas coisas sinistras
aconteceram mesmo, duvido que Chapin estivesse por
dentro — disse Segretti. — Ele só fazia o que mandavam.
Quem mandava?
— Bem — disse ele em tom sugestivo — eu gostaria de
conhecer Hal-deman.
Tinha qualquer prova concreta de que era Haldeman?
Chapin chegara a lhe falar dele?
— Não, mas pelo que sei, Chapin em geral recebia todas as
suas ordens de Haldeman.
Segretti confirmou ter-se encontrado com Howard Hunt e
um outro homem que julgou ser Liddy, em Miami. Hunt lhe
pedira que organizasse uma manifestação anti-Nixon a fim
de deixar McGovern em situação embaraçosa. Não quis dizer
em que consistia o plano, mas acrescentou:
— Para mim, parecia ilegal, e eu não queria me meter em
nada que fosse violência ou infringisse a lei.
Depois de cada visita do FBI, Segretti telefonava para Chapin
pedindo conselhos, mas recusou-se a dizer quem o havia
instruído às vésperas de apresentar-se perante o grande júri.
Negou que seu depoimento tivesse sido forçado ou ensaiado,
ou que lhe tivessem mostrado relatórios do FBI.
— Isso é um exemplo das mentiras e invenções que têm
sido publicadas — disse ele. — Um depoimento assim seria
uma coisa tão ruim quanto os transmissores no Watergate.
— Ele havia "discutido" seu próximo depoimento com
alguém da Casa Branca. Haviam concordado que responderia
com veracidade a qualquer pergunta formulada pelo grande
júri. Bernstein teve a impressão de que a "discussão" estivera
a cargo de John Dean. Segretti disse que fora entrevistado
para o que supôs ser a "investigação de Dean". Mas não quis
dizer se a entrevista fora conduzida pelo próprio Dean ou
um membro de sua equipe, ou se ocorrera quase na hora de
comparecer perante o grande júri.
— Não vou falar de John Dean — disse Segretti, e
recusou-se a responder se já o conhecia.
Disse, em seguida, que não queria mais ser um peão da Casa
Branca.
— Eles vão ter que arrebentar a minha porta e me
arrastarem daqui pra fora à força, se quiserem que eu saia de
novo. Tudo o que eu quero agora é pôr minha vida
novamente em ordem. Acho que o pior momento foi
quando a mãe de uma velha amiga minha me disse que não
queria que sua filha tornasse a me ver. As pessoas podem ser
muito cruéis...
Os olhos de Segretti tornaram a se enevoar e a encher-se de
lágrimas.
— Todo mundo está querendo me esquartejar e me
crucificar: Kennedy, a Casa Branca, a imprensa. Eu só quero
é ficar aqui e me divertir um pouco, velejar, nadar, tomar
sol, sair com algumas garotas.
No decorrer da visita, que se prolongou por várias horas,
Segretti parecia tão curioso em descobrir o que Bernstein
sabia, quanto este em descobrir o que Segretti sabia. Não vai
faltar ocasião, falou Bernstein. E sem usar de meias palavras,
preveniu Segretti de que poderia ser engolido se não
oficializasse logo sua história. Ao contrário de seus
superiores, faltava-lhe a proteção do manto da alta posição.
Segretti concordou, mas queria um pouco mais de tempo.
Voltariam a falar no dia seguinte.
Do seu hotelzinho, Bernstein telefonou para a redação.
Woodward, Rosenfeld, Sussman e Bradlee estavam todos
pendurados nas extensões.
— Pelo amor de Deus, faça com que ele torne isso tudo
oficial — disse Bradlee. Embora poucas, as informações de
Segretti eram o suficiente para desafiar a sério os protestos de
inocência da Casa Branca.
Bernstein passou mais cinco dias em Marina Del Rey,
convencendo seus colegas do Post — e a si mesmo — de
que Segretti logo se "converteria" e diria tudo oficialmente.
Mas não adiantou nada.
— Bem, menino, esta não deu certo — foi a resposta de
Bradlee quando Bernstein voltou à redação. Bernstein havia
batido um memorando de 12 páginas, em espaço simples,
descrevendo cada detalhe de suas negociações com Segretti.
Depois de passar os olhos pelo memorando, Bradlee fez um
gesto com a mão espalmada, agitando o braço.
— Pare de se martirizar, menino — disse a Bernstein —, e
consiga algumas informações.
A frustração de Bradlee era compreensível. As eleições não
haviam acalmado o fogo de artilharia da Casa Branca. O
espírito de autoconfiança gerado pelo triunfo eleitoral
tornara ainda mais ousados os homens do Presidente. A
ofensiva pós-eleição era liderada por Charles Wendell
Colson, capitão dos Fuzileiros Navais, de 41 anos de idade, e
comandante da guerra política da Casa Branca.
Pouco mais de uma semana após as eleições, Colson viajou
para Kennebunkport, no Estado do Maine — bem perto da
casa de veraneio de Edmund
Muskie —, para uma palestra na Sociedade dos Editores
Jornalísticos da Nova Inglaterra. Começou o discurso
dizendo que seu Estado natal, Massachusetts, fora o único
pró-George McGovern. O Presidente, disse Colson
brincando! decidira consertar algumas cercas e construir
uma nova instalação federal em Massachusetts — um centro
de depósito de resíduos atômicos — em Harvard Square.
Assegurando à sua platéia que a l.a Emenda Constitucional
continuava viva e passando bem obrigado em Washington,
acusou o Post de macarthismo e chamou Bradlee de líder
autodesignado daquilo que Teddy White, de Boston, um dia
definira como sendo "aquela minúscula faixa de elitistas
arrogantes que pretendem representar a vigorosa corrente
do jornalismo americano, com suas estranhas opiniões sobre
o mundo..."
E continuou:
— Se Bradlee algum dia saísse do circuito de coquetéis de
Georgetown, onde ele e seus amigos se servem de
informações deturpadas, mexericos e rumores, talvez viesse
a descobrir a verdadeira América aqui fora. E talvez acabasse
aprendendo que toda a verdade, todo o conhecimento e toda
a sabedoria não dimanam exclusivamente daquele diminuto
círculo em Georgetown, e que o resto do país não fica
sentado aqui do lado de fora à espera de ser instruído sobre o
que deve pensar.
Bradlee leu o discurso de Colson e foi até a mesa de
Woodward.
— Eles estão mesmo me provocando — comentou. —
Esta merda é bem pessoal.
Woodward sentiu que Bradlee estava irritado.
— Eu sei que tem coisa lá... — disse Bradlee.
Woodward percebeu que era um aviso para cavarem mais
fundo.
— Eu sei que tem coisa lá — repetiu Bradlee. Tempos
depois Bradlee diria a um entrevistador:
— Eu estava pronto a pegar as cabeças de Woodward e
Bernstein e enfiá-las num balde cheio de água até que eles
me apresentassem outra história. Aquela seca de notícias era
angustiante. Estava me matando...
Nas quatro semanas que se seguiram às eleições, os
repórteres saíram à cata de informações, como se suas
cabeças estivessem de fato enfiadas num balde cheio de
água. Ficavam sabendo de muitas coisas, mas nada que os
pusesse em condições de escrever algo de concreto com
base nas informações obtidas... A secretária de Magruder
confidenciou a Bernstein que não entendia por que não fora
entrevistada pelo FBI... John Dean estivera presente a todas
as entrevistas do FBI com funcionários da Casa Branca,
segundo um advogado do Departamento de Justiça, e os
promotores se mostraram irritados com o fato. Dean
também recebera cópias dos relatórios do FBI sobre o caso
Water-gate... Uma secretária da Companhia Mullen contou a
Woodward que Dorothy Hunt, esposa de Howard Hunt,
andava espalhando que "Howard está sendo o bode
expiatório"... Um funcionário do segundo escalão da Casa
Branca disse: "Dwight Chapin fica vagando como se tivesse
acabado de fazer asmalas"... Ninguém abria a boca para falar
da grande vitória eleitoral, observavam outros auxiliares da
Casa Branca, acrescentando que para o Presidente,
Haldeman, Ehrlichman e Colson, o caso Watergate
continuava como prioridade máxima... Alguns assistentes
presidenciais, normalmente admitidos no círculo fechado da
Casa Branca, sussurravam que não sabiam o que estava
acontecendo...
Discutira-se na Casa Branca a idéia de liberar-se um relatório
sobre Watergate, um "Relatório Governamental"
apresentando os fatos; idéia que não fora aceita por parecer
muito arriscada... Um preeminente advogado de
Washington, que mantinha contatos políticos de alto nível,
disse a Woodward:
— Pelo que sei, alguém está tomando conta de Hunt e de
McCord, por intermédio ou do CRP ou da Casa Branca;
alguém da Casa Branca conseguiu chegar até o juiz Richey e
o convenceu a ajudar a Administração; um governador
republicano se ofereceu para falar com o juiz Richey e lhe
diseram que não era preciso; já haviam conseguido... Um
amigo íntimo de John Mitchell descreveu o ex-Procurador
Geral como "um homem essencialmente decente, que não
se prestava às loucuras que Haldeman, Colson e os outros
andavam planejando"... Um dos mais altos assessores de
Nixon comentou que Haldeman "teria sido criminoso" se
não tivesse montado um esquema de ação destinado à coleta
de informações politicas para o Presidente... Um alto fun-
cionário do Departamento de Justiça comentou:
— Pelo que me foi dado ouvir, alguns dos meus melhores
amigos deveriam estar na cadeia...
Pelo menos uma dúzia de pessoas disse que Jeb Magruder
estava acabado, não conseguiria na Administração um posto
que dependesse da aprovação do Senado... Um promotor
federal estava convencido de que a investigação de Dean era
"uma fraude, uma saída para Haldeman"... Um amigo íntimo
da Sra. Graham, que tinha ligações com a Administração,
avisou-a de que os telefones de vários repórteres e editores
do Post estavam sendo censurados. Uma inspeção realizada
por especialistas em eletrônica, que cobraram U$ 5.000 de
honorários, teve resultado negativo... O governo deixara,
inexplicavelmente, de emitir mandados de busca e apreensão
nas casas dos cinco arrombadores do Watergate... Um ex-
funcionário do Departamento do Imposto de Renda revelou
o agudo interesse da Casa Branca por algumas averiguações
fiscais envolvendo amigos do Presidente:
— Nada que se pudesse, realmente denunciar, mas dava
para entender. ..
Desiludidos funcionários do CRP referiam-se a uma "história
da carochinha" contada aos promotores... Hunt e Liddy
haviam sido membros dos "Encanadores", um grupo secreto
de investigação da Casa Branca cuja tarefa era descobrir os
"canais" por onde transpiravam as notícias para os meios de
divulgação. (A Casa Branca não fez qualquer comentário
quando, no verão, a revista Time tornou pública a existência
do grupo.)
Tarde da noite de um sábado de novembro, um editor do
Post pediu uma palavrinha com Woodward, num canto
deserto da redação. Um de seus vizinhos lhe havia contado
que a tia era jurada em um dos grandes júris. O vizinho
acreditava tratar-se do grande júri encarregado do
Watergate. Ela dera a entender que sabia tudo sobre o caso.
— Ela é republicana, mas diz que agora realmente detesta
Nixon. Meu vizinho acha que ela quer contar o que sabe.
Poucos dias mais tarde, o editor entregou a Woodward um
pedaço de papel com o nome e endereço da mulher.
Bernstein e Woodward foram falar com Rosenfeld, que
pareceu gostar da idéia da visita, mas antes de decidir
resolveu consultar Bradlee.
Bradlee pediu o parecer dos advogados do Post.
Bernstein e Woodward compulsaram a cópia dos
"Regulamentos Federais de Procedimentos Criminais"
existente na biblioteca do jornal. Os membros do grande júri
prestavam juramento de manter em segredo suas
deliberações e os depoimentos prestados; parecia,
entretanto, que o compromisso de guardar segredo ficava a
cargo do jurado. Não parecia estar previsto em lei qualquer
proibição de se fazer perguntas aos jurados. Os advogados
concordaram, mas recomendaram extrema cautela aos
repórterees, aconselhando-os a simplesmente perguntar à
mulher se ela desejava falar.
Bradlee estava nervoso.
— Nada de ficar martelando na cabeça de ninguém, nada
de pressões, nada daquelas adulações — instruiu Bradlee.
Levantou-se da poltrona, dedo em riste: — Estou falando
sério. Você, principalmente, Bernstein, seja sutil ao menos
uma vez na vida.
Fez recomendações para que o chamassem assim que a visita
terminasse.
— Vão até uma cabina telefônica e me chamem, não
importa o que aconteça.
Foram de carro até a casa da mulher. Ela não estava.
Woodward telefonou para Sussman na redação e pediu-lhe
que transmitisse a notícia a Bradlee.
Na manhã seguinte, os repórteres atravessaram a cidade,
bateram à porta da casa da mulher e se identificaram. Ela os
convidou a entrar. Eles não mencionaram o grande júri,
dizendo simplesmente que tinham ouvido dizer que ela sabia
de fatos ligados ao caso Watergate.
— É uma bagunça, eu sei — disse ela. — Mas como é que
eu podia saber de alguma coisa, senão o que lia nos jornais?
Passaram-se dez minutos até entenderem que a mulher era
realmente membro de uma grande júri, mas não o do
Watergate. Apresentaram seus agradecimentos e foram
embora.
O episódio lhes despertara o interesse. Já tinham uma idéia
das informações de que precisavam. Faltavam-lhes os
detalhes que um membro do grande júri, disposto a
colaborar, poderia fornecer. Naquela tarde, Bernstein
chamou o Presidente da Promotoria, Earl Silbert, e pediu
uma lista de vinte e três jurados. Silbert recusou
terminantemente, rejeitando o argumento de Bernstein de
que os nomes de membros do júri eram matéria de
conhecimento público.
Woodward indagou de um amigo, que trabalhava na
Secretaria do Tribunal, se seria possível conseguir os nomes
dos grandes-jurados do caso Watergate.
— De maneira alguma — foi informado. — Os nomes são
secretos.
Na manhã seguinte, Woodward pegou um táxi que o levou
até o Palácio .da Justiça.
A Secretaria empregava cerca de noventa pessoas.
Woodward começou por uma das extremidades da fileira de
salas de arquivo até que, depois de meia hora, encontrou
alguém com boa vontade que o encaminhou a um remoto
canto da área principal de arquivamento, onde eram
guardadas as relações de julgamentos e de grandes júris.
Identificou-se ao funcionário como repórter do Post e disse
que gostaria de olhar os arquivos. O funcionário olhou
desconfiado para Woodward.
— OK — disse ele — mas você não pode copiar nada. Não
pode anotar nomes. Nada de anotações. Vou ficar de olho
em você.
Woodward começou a pesquisar o arquivo até que
encontrou a lista-mestra dos grandes júris de 1972. Dois
deles haviam iniciado seus trabalhos em 5 de junho.
Lembrou-se de que o primeiro-jurado (representante do
corpo de jurados) tinha um nome europeu-oriental e
trabalhava para o Governo como economista, ou qualquer
coisa assim. Achou o nome que procurava no Primeiro
Grande Júri, aberto em 5 de junho de 1972.
Cada jurado havia preenchido um cartão cor de laranja
dando nome, idade, profissão, endereço e número telefônico
comercial e residencial. Woodward começou a manusear os
cartões, e deu uma olhadela por cima do ombro. A uns
metros de distância, sentado à sua mesa, o funcionário
olhava fixo para ele. Woodward pegou os primeiros quatro
cartões e os deitou no fundo da gaveta, virados para cima.
Começou a estudar os nomes, idades, endereços, números
de telefone e profissões. Levou dez minutos até decorar
todos os dados. Perguntou ao servidor onde ficava o
banheiro dos homens.
Uma vez lá, entrou num dos compartimentos, pegou o bloco
de dentro do bolso do paletó e escreveu o que havia
conseguido memorizar. Priscillu L. Woodruff, idade — 2H
anos, prendas domésticas. Tentando visualizar a aparência de
cada jurado ajudava a lembrar a identificação. Naomi R.
Williams, 56 anos, professora aposentada e ascensorista.
Julián L. White, 37 anos. monitor da Universidade George
Washington.
Woodward foi buscar no fundo da memória um brasão
d'armas e o nome de Haldeman gravado sob um par de
adagas cruzadas guardando um trono:
George W. Stockton, Instituto de Heráldica —
Departamento do Exército, 53 anos. Deu um puxão nas
calças. Menos quatro — faltavam dezenove.
Woodward decorou os cinco nomes seguintes. Fazendo
esforço para não parecer culpado, perguntou ao funcionário
onde ficava a sala do juiz-presidente.
O homem franziu as sobrancelhas.
— Sabe, você está gastando tempo à beça com estes
arquivos. Não estou muito certo se é permitido sequer que
você fique aí vendo tudo.
Woodward disse que voltaria — assim que tivesse checado
um detalhe com o juiz-presidente. No andar superior, num
banheiro do terceiro pavimento, tomou nota dos cinco
nomes e respectivos dados. Faltavam quatorze. Do jeito que
ia, o serviço levaria a manhã inteira.
Na terceira tentativa memorizou seis nomes. Voltando do
lavatório para a sala de arquivos, perguntou ao funcionário a
que horas saía para o almoço.
— Eu não costumo sair para almoçar — respondeu
secamente.
O perfeito funcionário, pensou Woodward, com certo
remorso: não deixa sua mesa nem para almoçar... Precisava
acabar desta vez, pois o rapaz já dava sinais de impaciência.
Levou quarenta e cinco minutos para decorar os últimos oito
nomes e as informações que os acompanhavam.
Na redação, datilografou uma relação dos jurados e os
respectivos elementos de identificação. Na sala de Bradlee,
os editores e Bernstein e Woodward eliminaram quase
metade dos nomes da lista por representarem risco muito
grande. Servidores civis de nível inferior — em especial os
mais velhos — estavam acostumados a obedecer à risca as
normas burocráticas, dirigiam-se sempre aos seus superiores,
raramente confiavam em seu próprio julgamento. Militares
eram a mesma coisa. O pessoal do Post estava à procura dos
poucos que talvez não informassem a visita dos repórteres
aos promotores. O candidato deveria ser suficientemente
inteligente para suspeitar que o sistema do grande júri se
desintegrara no caso Watergate e para ter percebido as
nuances das provas apresentadas.
O jurado ideal deveria ser capaz de afrontar a Casa Branca ou
os promotores, ou ambos. Alguém acostumado a quebrar
regras, o tipo de pessoa que dava mais valor à prática do que
à teoria. O exercício continuou, com Bernstein, Woodward
e os chefes tentando construir a psicologia de pessoas
estranhas, com base apenas em nomes, endereços, idades,
profissões, antecedentes étnicos, religiões, rendimentos. A
escolha final ficaria a cargo dos repórteres.
Todos na sala alimentavam secretas dúvidas quanto aos
resultados de tal loteria. Desesperado por uma boa história e
tranqüilizado pelos advogados, Bradlee superou seus
escrúpulos.
Simons questionou em alta voz a retidão do procedimento e
demonstrou preocupação com o jornal. Rosenfeld estava
mais interessado nas táticas a serem empregadas pelos
repórteres para não serem apanhados. Sussman temia que
um deles, Bernstein provavelmente, exercesse excessiva
pressão e acabasse violando a lei. Woodward quis saber qual
a justificativa para um repórter que instiga alguém a
atravessar o limite do que é lícito, enquanto ele próprio se
mantém prudentemente dentro da legalidade. Bernstein, que
de um modo bastante vago aprovava uma certa
desobediência civil seletiva, não estava se preocupando com
abstratas infrações legais. A questão era determinar qual a
infração e ele acreditava que os autos dos grandes júris eram
invioláveis. Apesar de tudo, quase não falou de suas dúvidas.
O comportamento dos repórteres seria: apresentar suas
credenciais; dizer ao jurado que haviam sido informados, por
um amigo comum, de que ele (ou ela) estava a par de fatos
sobre o Watergate; perguntar se estava disposto (ou disposta)
a discutir a questão. Deveriam sair, a menos que o jurado,
sem sofrer qualquer indução, oferecesse voluntariamente
alguma informação. Nada seria dito sobre o grande júri, a não
ser que o próprio jurado o mencionasse.
Dirigindo-se aos repórteres para instruções finais pouco
antes de levantarem acampamento, Bradlee repetiu as
ordens:
— Nada de táticas de artilharia, meninos. Certo?
Trabalhando cada um para o seu lado, no primeiro fim de
semana de dezembro, Woodward e Bernstein tentaram o
desajeitado jogo com meia dúzia de jurados. Voltaram sem
informação alguma e com a firme convicção de que os
promotores tinham prevenido os jurados para ficarem de
sobreaviso contra farsantes com identificação de jornalistas.
Apenas um deles disse voluntariamente que era membro do
grande júri, e explicou a Woodward que só havia prestado
dois juramentos em sua vida, como "Elk" e como grande-
jurado, e considerava sagrados esses dois compromissos. Os
outros limitaram-se a dizer que nada sabiam do Watergate a
não ser pelas notícias divulgadas. Um deles chegou a
comentar com Bernstein:
— Watergate? Ah, sim, aquele prédio de luxo. Ouvi falar
nisso pela televisão, aquele negócio todo de arrombamento e
tudo o mais. Não há mais nenhum lugar seguro nesta
cidade...
Até ouvir a referência aos "Elks", Bernstein temera que seu
parceiro de fantástica memória a tivesse desperdiçado com a
lista errada.
Na segunda-feira, Bradlee chamou os repórteres à sua sala
para uma reunião de emergência. Fechou a porta, o que em
geral só fazia quando se tratava de delicados assuntos-de-
estado, como, por exemplo, despedir um empregado.
— A bomba estourou — disse Bradlee. Pelo menos um
dos grandes-jurados havia contado aos promotores ter sido
procurado por um repórter do Washington Post. E um dos
promotores entrara em contato com Edward Bennett
Williams, principal advogado do Post. Os promotores
haviam ido ao juiz Sirica com a queixa do jurado e Williams
advertira Bradlee para manter seus repórteres na linha.
Perguntaram a Bradlee o que Williams pensava da encrenca
em que se haviam metido.
— Não esperem receber um premio — disse Bradlee. —
Williams disse que depende do juiz. — Mas estava muito
preocupado. John Sirica, juiz-presidente do Tribunal Federal
do Distrito de Colúmbia, era conhecido como "Máximum
John" pelas severas penalidades que aplicava.
No fim da tarde, Bradlee avisou aos repórteres para
comparecerem ao escritório de Williams, no dia seguinte às
nove da manhã.
— As coisas estão melhorando — disse ele. — Williams
conversou com Sirica e os promotores. Ele acha que pode
salvar vocês da descompostura.
Na manhã seguinte, Williams andava nervoso pela luxuosa
sala.
— John Sirica está uma fera com vocês dois — disse
Williams. — Tivemos um trabalhão para convencê-lo a não
pôr vocês dois no xadrez. — Williams havia dado sua palavra
de que o Post se absteria de procurar jurados. Os promotores
haviam intercedido a favor dos repórteres, recomendando a
Sirica que não levasse o caso adiante, já que nenhum dos
jurados havia deixado escapar qualquer informação. Sirica,
todavia, ainda estava furioso — contou Williams.
— No mínimo, lhes passaria uma boa repreensão.
— Fiquem em contato comigo e não metam o nariz em nada
— recomendou. O juiz Sirica podia ser muito imprevisível.
Os repórteres voltaram às suas fontes mais convencionais.
Poucas noites depois, Bernstein requisitou um carro do Post
e foi até um apartamento, distante várias milhas. Eram quase
oito horas quando tocou a campainha da porta. Quem
atendeu foi a mulher que ele procurava, mas quando se
apresentou dando seu nome, ela não se atreveu a abrir a
porta. Passou um pedaço de papel pela fresta, onde se achava
escrito o número de seu telefone não-catalogado.
— Ligue mais tarde — disse ela, acrescentando em
seguida: — Suas reportagens são excelentes.
A mulher estava em situação de ter considerável
conhecimento das atividades secretas da Casa Branca e do
CRP. Bernstein já tentara, anteriormente, um contato com
ela, mas todas as suas investidas tinham sido em vão. Voltou
para a redação e discou o número. A voz da mulher soava
nervosa e insegura.
— A esta altura, já não confio em ninguém — disse ela. —
Mas respeito sua posição. — Perguntou se Bernstein estava
usando um telefone seguro. Ele achava que sim. Estava
falando da mesa de um repórter da equipe de Mariland.
— Sou forçada a concordar com Bradlee cem por cento. A
verdade ainda não foi contada — disse ela.
Bernstein escreveu a letra Z no alto da página de um bloco
azul de memorandos. X fora demitida com a contadora.
— Meu chefe chama isso de "caiação" — disse Z. — Há
dois anos eu não teria acreditado numa coisa destas, mas os
fatos são assustadores. — Aconselhou-o a reler todas as
reportagens que eles próprios haviam escrito. — Há muitas
verdades ali, das quais vocês não se deram conta — muitas
pistas que deixaram passar. Vocês estão indo muito bem, mas
podiam ir melhor ainda. É só questão de aumentar a pressão.
Negou-se a responder a perguntas, e apresentou as regras
básicas: indicaria aos repórteres a direção certa para ajudá-los
a preencher os nomes certos nos espaços certos: algumas
dicas, rumos importantes a seguir. Só responderia a questões
de ordem geral, se chegasse a responder a alguma coisa. Mui-
to de sua "mensagem" pareceria vago, em parte porque
mesmo ela não entendia tudo completamente, e em parte
porque era difícil selecionar as informações.
— A perseverança de vocês tem sido algo de admirável —
disse ela. — Apliquem-na ao que lhe disse.
Bernstein, sem saber o que esperar, achou que ela falava
como se fosse uma espécie de mística.
A mulher começou por Haldeman:
— Alguém tinha que dirigir o espetáculo... Vocês não são
os únicos apensar que é Haldeman... John Dean é um caso
muito curioso. Seria interessante descobrir em que se
resumira verdadeiramente a investigação Dean. Ele estava
implicado e não era só nisso...
Magruder e Mitchell estão definitivamente envolvidos...
Mitchell exige mais persistência da parte de vocês.
Bernstein já tinha feito várias interrupções; todavia, ela se
recusava a ser mais clara. Envolvidos em quê? Golpes sujos?
Escuta clandestina?
Ela recomendou-lhe que considerasse Haldeman,
Ehrlichman, Colson e Mardian como um grupo.
— O que os une é o medo da inconfidência... Sim, da
escuta clandestina. Queria ela dizer que eles haviam recebido
informações pelos transmissores
plantados no Watergate?
— Inconfidência — repetiu ela — é o medo comum a
todos eles. Quando alguém tem um alto cargo em perigo, faz
qualquer coisa para conservá-lo. Lá dentro, a regra geral
continua esta: "Não deixem a coisa estourar". Eles estão
melhor organizados agora do que antes de 17 de junho. São
bons organizadores, mas, sob determinados aspectos, muito
descuidados. O meio mais indicado para se chegar à saber
quem está envolvido, é examinar as finanças. Procure outros
Segrettis. Kalmbach era o grão-pagador. Muitas atividades
secretas começaram com o grupo dos "Encanadores", que é
muito anterior aos Documentos do Pentágono. Os
"Encanadores" são muito importantes — dois deles foram
indiciados. Eu gostaria muito de saber quantos "Encanado-
res" existem além deles.
Bernstein esforçou-se para saber mais.
Z disse que outras mensagens viriam, e proibiu Bernstein de
procurá-la.
Na noite seguinte, Woodward e Bernstein tomaram a rota
familiar que os levaria à casa de Hugh Sloan. Talvez ele
pudesse ajudar a decifrar a mensagem de Z. Já sabendo que
Sloan nunca se mostrava ansioso para vê-los, deixaram de
telefonar antes.
Como sempre, foi bem-educado demais para fechar a porta
no nariz dos repórteres. Estava pálido e parecia derrotado.
Perdera peso. Convidou-os a entrar. A procura de emprego
ia mal, disse ele. Era o estigma de Watergate. Igualmente
terrível era o fato de que os julgamentos, processos civis e
depoimentos não pareciam ter fim. Sentia-se como uma
testemunha profissional à base US$20 diários. Não souberam
o que responder... Quando visitavam Sloan sentiam-se
sempre como se fossem abutres.
Os repórteres resumiram o que lhes fora dito por Z. Sloan
disse que, como eles, não sabia o que pensar. Em seguida
desculpou-se pelo fracasso do caso Haldeman. Finalmente,
tudo o que se passara naquela noite chuvosa ficou es-
clarecido. Sloan disse que não entendera a pergunta de
Woodward; pensara que este tinha indagado se Sloan teria
indicado Haldeman perante o grande júri, caso o júri lhe
houvesse perguntado sobre Haldeman.
Sloan podia agora esclarecer melhor a relação de Haldeman
com a "caixinha" e com o CRP.
— Bob controlava o Comitê através de Magruder, até que
Mitchell e o Secretário Stans assumiram no início de 1972.
Foi Jeb quem autorizou os primeiros pagamentos a Liddy.
Acho que Liddv ainda trabalhava para a Casa Branca naquela
ocasião, no verão de 1971. Na verdade, Haldeman estava por
trás dos quatro que receberam pagamentos vultosos:
Kalmbach, Liddy, Magruder e Porter.
Haldeman mantinha uma certa distância da reserva secreta.
Magruder, Kalmbach, Stans e até mesmo Mitchell tinham
agido eficazmente em seu nome, explicou Sloan. Haldeman
jamais dera ordens pessoais a Sloan para efetuar retiradas.
Mas o dispêndio de dinheiro era prerrogativa do chefe da
Casa Branca.
— Maury (Stans) vivia se queixando de que estava saindo
muito dinheiro (da reserva).
Woodward fez mais perguntas sobre a infra-estrutura da
equipe de Haldeman. Chapin era o secretário da agenda
presidencial; Strachan, o lugar-tenente político; Larry Higby,
gerente e mordomo; e Alexander Butterfield supervisionava
"a segurança interna e o fluxo de papéis para o Presidente".
Ao datilografar suas anotações naquela noite, Woodward
sublinhou "segurança interna". Era este o nome da divisão do
Departamento de Justiça encarregado das interceptações
eletrônicas, anteriormente chefiada por Robert Mardian.
Enquanto Woodward datilografava suas notas, Bernstein
tirou do arquivo uma pasta de 8 cm de espessura marcada
"Para Averiguação".
Dias antes, Lawrence Meyer, repórter da equipe local, ao
fazer sua ronda pelos tribunais, conseguira por baixo do pano
uma cópia de um acordo jurídico de rotina entre promotores
e advogados dos sete réus do caso Watergate, cujo
julgamento teria início em 8 de janeiro. Bernstein leu as
doze páginas das "Cláusulas". Discriminavam registros
telefônicos, bancários e de viagens, os quais tanto a
promotoria como a defesa haviam concordado serem exatos.
A maior parte das informações já era conhecida dos
repórteres. Dois tópicos, no entanto, deixaram-nos
intrigados. Havia prova de que Gordon Liddy e Howard
Hunt tinham viajado juntos para Los Angeles, sob nomes
falsos, nos dias 14 de setembro de 1971, 7 de janeiro de
1972 e 17 de fevereiro de 1972.
As viagens tinham ocorrido quando ambos ainda
trabalhavam na Casa Branca, meses antes do arrombamento
do Watergate. Encontraram também uma observação de que
um telefone fora instalado "no dia 16 de agosto de 1971, na
sala 16 do edifício situado na esquina da Rua 17 com
Avenida Pensilvânia-N.O., em Washington, D.C... e
desligado no dia 15 de março de 1972".
Fora registrado no nome e endereço residencial de Kathleen
Chenow, na cidade de Alexandria, Estado da Virgínia.
No catálogo não constava ninguém com este nome, mas
recorrendo à sua lista de endereços, Bernstein acabou por
encontrar uma antiga companheira de quarto da moça, a
qual informou que a Srt. Chenow havia se mudado para
Milwaukee. Foi lá que Bernstein conseguiu localizá-la. Em
poucos minutos ele descobriu que a Srt. Chenow fora
secretária dos "Encanadores". Ela parecia falar sem qualquer
hesitação. Bernstein, que mal conseguia lembrar-se da última
vez em que encontrara um informante de boa vontade, nem
sabia por onde começar. Afinal, perguntou quem e o que
eram os "Encanadores". Ela respondeu de forma direta: os
"Encanadores" eram Howard Hunt, Gordon Liddy, David
Young e Egil (Bud) Krogh. Investigavam "vazamentos" de
informações para os meios de divulgação e estavam
subordinados a John Ehrlichman. Seus escritórios ficavam
no subsolo do Edifício do Poder Executivo, defronte à Casa
Branca. Tecnicamente, fora secretária de David Young,
emprestado à equipe de Ehrlichman pelo escritório do Dr.
Henry Kissinger. Young fizera relatórios regulares a
Ehrlichman sobre o progresso das investigações dos
"Encanadores". Krogh era um dos principais representantes
de Ehrlichman.
— Inicialmente, o que a Administração queria saber era
quão próxima dos documentos verdadeiros fora a versão do
New York Times sobre os Documentos do Pentágono —
explicou ela. — Depois, tentaram determinar de que modo
poderiam ter saído os Documentos do Pentágono. Foi assim
que tudo começou, pela procura dos canais por onde
notícias transpiravam. Durante algum tempo, eles analisaram
o Departamento de Estado. Pesquisaram telegramas das
embaixadas e tentaram descobrir de quem partiam os
mesmos. Quase todo o serviço do Sr. Hunt, pelo que pude
observar, foi uma revisão dos telegramas do Departamento
de Estado relacionados com os Documentos do Pentágono.
Bernstein perguntou se ela se lembrava de algum caso
concreto de saída não autorizada de informações.
— Em primeiro lugar, os Documentos do Pentágono, é
claro. Depois, houve uma ocasião em que Jack Anderson
estava publicando artigos sobre a Administração, em
dezembro. Começaram a analisar os artigos, à procura de
possíveis informações inconfidentes. Nessa época, o Sr.
Mardian, do Departamento de Justiça, visitou o subsolo duas
a três vezes por semana. Houve ainda uma outra ocasião,
quando o Sr. Mardian estava numa grande reunião na sala do
Sr. Krogh, com Liddy, Hunt e três ou quatro outras pessoas
que não reconheci. David (Young) costumava falar com o Sr.
Mitchell... Não sei sobre o quê, e não sei com que
freqüência.
Bernstein indagou do telefone mencionado nas "Cláusulas":
— Era o telefone do Sr. Hunt. Foi instalado para que eu o
atendesse e anotasse mensagens para o Sr. Hunt. O Sr.
Barker sempre chamava para aquele número, e era quase o
único a fazer uso daquele telefone. Tocava em média uma
vez por semana, embora, às vezes, chegasse a telefonar duas
ou três vezes nesse mesmo período. — Hunt e Bernard
Barker pareciam muito íntimos, pelo telefone. O Sr. Hunt
em geral dizia: "Tudo bem? O que anda fazendo?"... Às
vezes, quando conversava com o Sr. Barker, falava em es-
panhol; por alguma razão, parecia gostar de falar espanhol...
Não, não conheço o idioma... Lembro-me de ter ouvido o
Sr. Hunt telefonar para Barker e sua (de Barker) esposa; mais
ninguém... Talvez o Sr. Liddy também tenha usado o
telefone para falar com alguém, ligação pedida pelo Sr. Hunt.
Acho que para o Sr. Barker. A maioria dos telefonemas
ocorreu entre agosto e novembro. O telefone foi retirado no
dia 15 de março. Já não era usado há séculos.
Bernstein perguntou o óbvio. Por que um telefone instalado
no complexo da Casa Branca, que se beneficiava do mais
sofisticado sistema de comunicações do mundo, precisava
constar da lista telefônica no nome e endereço de um
habitante de Alexandria?
— Boa pergunta — respondeu ela. — Penso que queriam
o telefone em meu nome para que não aparecesse qualquer
ligação entre ele e a Casa Branca. Por quê, não sei.
As contas telefônicas eram enviadas para sua residência, e ela
as encaminhava posteriormente a outro representante de
Ehrlichman, John Campbell.
— ...para que a Casa Branca se encarregasse de pagá-la.
Pelo jeito tudo fora combinado entre o Sr. Hunt, o Sr.
Young e o Sr. Liddy. Haviam falado com o Sr. Campbell e
este tomara conta de tudo.
Chenow se desligara da equipe da Casa Branca a 30 de março
de 1972. Estava viajando pela Europa à época das prisões do
Watergate. Duas semanas depois, foi localizada em
Birmingham, Inglaterra, por Fred Fielding, assistente de
John Dean.
— Ele voou para a Europa para me apanhar — contou ela.
— Disse que a Casa Branca estava em conversações com o
FBI e que ambos — a Casa Branca e o FBI — iam abrir um
inquérito. Aparentemente o FBI pedira ao Sr. Dean que me
encontrasse. O Sr. Fielding pediu-me que voltasse e disse
que eu devia recordar apenas o meu trabalho; que me fariam
perguntas sobre o telefone e me pediriam para tentar
lembrar-me... Durante a viagem de volta, o Sr. Fielding me
deu uma revista Time e tentou me atualizar. Perguntou-me:
"Você conhece alguém cujo nome aparece nesses artigos?
(Sobre os arrombamentos)" e eu respondi: "Lógico, o Sr.
Hunt".
Ela se apresentara no escritório de John Dean, às 8h45min,
um dia depois de sua volta. Isto ocorreu na primeira semana
de julho. Fielding e David Young também estavam
presentes.
— O Sr. Dean disse que eu seria inquirida pelo FBI às
nove horas, e que me perguntariam sobre o meu trabalho; se
eu estava a par das instalações; e que eu desse respostas
diretas, o melhor que me fosse possível.
A entrevista durara cerca de quarenta minutos, na presença
de Dean, Fielding e Young, sentados em silêncio.
— O Sr. Dean não fez perguntas nem tomou notas.
Depois, conversara brevemente com Young.
— Ele parecia admirado de que uma coisa como aquela (a
instalação dos transmissores) pudesse acontecer. Sabia que o
telefone fazia parte da história. Acho que depois de vir tudo
à tona, ele tirou suas conclusões. — Na mesma semana
Chenow apresentou-se aos promotores e prestou
depoimento perante o grande júri do Watergate.
— Silbert jamais me interrogou sobre Ehrlichman — disse
ela. — Apenas sobre Colson, Hunt, Liddy e Young. — A
conversa de Bernstein com Chenow prolongou-se por mais
de hora e meia.
Na manhã seguinte, aniversário de Pearl Harbor, Woodward
telefonou para Jack Harrington, da Cia. Telefônica
Chesapeake & Potomac, encarregado da prestação de
serviços telefônicos à Casa Branca, e este confirmou que o
departamento de Ehrlichman havia encomendado o telefone
e combinado aquele original sistema de pagamento: o
primeiro desse tipo que ele vira em 25 anos de profissão.
Nesse meio tempo, os dois repórteres foram informados, por
fontes da Casa Branca, de que John Campbell era o
administrador do escritório de Ehrlichman. Não havia meio
de o telefone ter sido instalado sem a aprovação de
Ehrlichman, disseram as fontes.
No final da tarde, Bernstein tinha escrito uma reportagem de
2.000 palavras sobre a instalação do telefone secreto, o
depoimento de Chenow sobre os "Encanadores" e sobre a
entrevista com John Dean. Gerald Warren, vice-secretário
de imprensa da presidência, disse a Woodward que a Casa
Branca não faria comentários sobre a reportagem, porque
isto poderia influenciar o julgamento próximo a realizar-se.
"Negando-se a fazer qualquer comentário", escreveu
Bernstein no quinto parágrafo, "a Casa Branca deixou sem
resposta as perguntas sobre como poderiam as funções
oficiais de Hunt exigir a catalogação camuflada de um
telefone, e por que motivo o escritório de Ehrlichman teria
aprovado essa espécie de serviço telefônico.
Para seu desapontamento, Bernstein foi o único na redação a
entusiasmar-se com a matéria. Pela primeira vez, alguém
confirmava oficialmente que os "Encanadores" existiam; que
o departamento de Ehrlichman estava envolvido nas
atividades desse grupo, e que Hunt e outros assessores
presidenciais haviam investigado "saída não autorizada de
informações".
Rosenfeld não pareceu muito interessado na reportagem e
passou-a para Sussman. Sussman e Woodward ficaram
neutros e comentaram que ela "nada provava". A expressão
de Bradlee foi mais de alívio do que de qualquer outro
sentimento: apesar das deficiências, era a primeira boa
reportagem do Post sobre o caso Watergate desde a
publicação da história de Haldeman. O conceito do trabalho
deveria ser "Regular", mas somou alguns pontos, levando em
consideração a menção do nome do informante. A Casa
Branca poderia discutir o significado mas não os fatos. Queria
a matéria na primeira página, pelo menos para demonstrar
que cinco semanas após a derrota de McGovern o Post
continuava firme no caso Watergate.
Naquela noite, Bernstein e Woodward tomaram um Boeing
747 para Los Angeles, na esperança de que a sorte os
ajudasse e Segretti se mostrasse mais aberto do que por
ocasião da última visita de Bernstein. Levavam em suas
maletas cópias dos registros de viagens de Hunte de Liddy,
Woodward conversara com uma secretária da firma jurídica
de Herbert Kalmbach, e ela parecera ser bastante amável.
Durante a viagem, Bernstein entrou num jogo de pôquer de
apostas altas, no salão de estar do avião. Estava ganhando
cerca de US$30,00 quando Woodward se aproximou e foi
convidado a participar, fato que despertou os instintos
protetores de Bernstein. De vez em quando Bernstein se
preocupava com o amigo, por achá-lo puro demais para não
acabar se metendo em encrencas. (Woodward, por seu lado,
freqüentemente se afligia ao pensar que Bernstein parecia
sentir-se muito à vontade no convívio de companhias
duvidosas...) Entretanto, Woodward galhardamente
enfrentou os jogadores, não ganhou nem perdeu. Bernstein
acabou com um lucro de US$35,00 num pôquer cuja base
"para ir no jogo" era de US$5,00. (Bernstein ignorava, mas
Woodward já passara muitos fins de semana em Las Vegas,
capital do jogo, quando estava aquartelado na Base Naval de
San Diego.) Passaram a noite num hotel turístico em Marina
Del Rey, que cobrava US$9,00 de diária. Todos os hotéis na
sofisticada vila marítima onde Donald Segretti morava
estavam lotados. E Segretti estava ausente.
No dia seguinte, foram para o Hotel Beverly Wilshire, um
elefante em mármore e veludo vermelho, situado em
Beverly Hills, no qual Hunt e Liddy tinham se hospedado
em setembro de 1971.
Bateram um papo com o chefe de segurança do hotel, um
idoso ex-capitão da força policial que não fazia a mínima
idéia de onde eram guardados os registros telefônicos da
casa. O contador-chefe do hotel, que poderia ter recebido
seu diploma de ciências contábeis e a sombra verde nas
pálpebras em algum estúdio cinematográfico do outro lado
do Boulevard Santa Mônica, também pouco ajudou. Rodeado
de contas e relatórios financeiros, em sua sala de fundos
completamente desarrumada, o contador informou aos
repórteres ter dado sua palavra ao FBI de que jamais falaria
da visita de Hunt e Liddy. Num dos corredores, Bernstein
convidou a secretária do contador para um drinque no bar
do hotel, agora ou mais tarde.
— Você está brincando — disse ela, afastando-se
vagarosamente. Bernstein disse que não estava brincando.
— Pois devia estar — foi sua resposta.
Mais tarde, Woodward localizou um dos supostos contatos
de Segretti e sugeriu ir visitá-lo.
— Se vier até aqui, você leva um tiro — respondeu ele.
Woodward guiou para a zona sul, até o escritório jurídico de
Kalmbach, em Newport Beach. O advogado particular do
Presidente não estava na cidade. A secretária, aquela com
quem Woodward tinha falado pelo telefone, serviu-lhe uma
xícara de café e deu-lhe também sua opinião:
— O Sr. Kalmbach é um dos melhores homens que
conheço. É um homem honesto. Quando tudo isso acabar,
você vai entender. — Não quis dizer mais nada.
Na residência de Kalmbach, Woodward foi atendido por
uma mulher.
— De modo nenhum — disse ela quando Woodward lhe
pediu um minuto de atenção. Escoltou-o através do pátio
interno até o portão de saída, que foi batido vigorosamente
em seus calcanhares.
Os repórteres almoçaram com o ex-amigo de Segretti, Larry
Young, que tanto os ajudara em outubro. Infelizmente,
desde então não ficara sabendo nada de novo. Depois de
quatro dias, conseguiram finalmente localizar Segretti por
telefone, e este concordou em encontrá-los numa das
lanchonetes Howard Johnson'das redondezas. Falaram
durante uma hora, enquanto devoravam milk-shakes e
banana-splits. Segretti negou-se terminantemente a fazer
uma declaração oficial em futuro próximo,
Bernstein e Woodward voltaram para Washington na noite
de 11 de dezembro. Na segunda-feira seguinte, durante a
entrevista diária à imprensa, Ron Ziegler, pressionado
quanto ao assunto do telefone secreto de Howard Hunt e
quanto aos "Encanadores", foi forçado a fazer a primeira
confissão da Casa Branca de que os "Encanadores" tinham
investigado a saída não autorizada de informações
confidenciais para os veículos de comunicação. Tentou
negar a participação de Howard Hunt ou Gordon Liddy no
grupo. "Ao que sei", Liddy jamais fizera parte dos
"Encanadores". Hunt? "Não, não acredito."
Nem Bernstein nem Woodward estiveram presentes à
entrevista de Ziegler. Convencidos de que poderiam
descobrir mais fatos em outros lugares, e temerosos de que
sua presença ocasionasse respostas mais pessoais por parte de
Ziegler, evitavam de modo geral comparecer à sala de
imprensa da Casa Branca.
Foi por essa época que a Casa Branca começou a proibir o
Post de fazer a cobertura de acontecimentos sociais no
Poder Executivo: primeiro, um banquete aos republicanos;
depois, um jantar em homenagem a todos os chefes de
Gabinete, presentes, passados e recém-designados; em
seguida, o serviço religioso dominical; finalmente, uma festa
de Natal para os filhos de diplomatas estrangeiros. O alvo
seguinte foi a repórter Dorothy McCardle, suave figura de
avó, com seus sessenta e oito anos, do corpo de repórteres
do Washington Post, e que vinha fazendo a cobertura dos
acontecimentos sociais da Casa Branca há cinco
Administrações.
No mesmo dia em que barraram a entrada de McCardle para
o culto religioso da Casa Branca, Bernstein jantou com um
grupo de amigos, entre os quais se encontrava um repórter
do Washington Star.
Contou este a Bernstein um episódio muito interessante
ocorrido durante um bate-papo que tivera com Colson
pouco antes de 7 de novembro:
— Assim que as eleições estiverem encerradas, nós vamos
enfiar no Post pra valer — foram, segundo o amigo, as
palavras de Colson. E mais:
— Não estudamos ainda todos os detalhes, mas as decisões
básicas já foram tomadas, numa reunião com o Presidente.
Colson aconselhou o repórter do Washington Star a "trazer
um cesto grande"; "vamos enchê-lo de novidades", que
tornarão indispensável a leitura diária do Star, enquanto o
Post será boicotado. "E isso é só o começo. A coisa vai ficar
preta pra valer. Lá na Rua L (endereço do Post) eles vão
desejar nunca terem ouvido falar no Watergate".
Logo depois, foram apresentadas à Comissão Federal de
Comunicações queixas contra a posse, pelo Post, de dois
canais de televisão na Flórida. O valor das ações doPosf na
Bolsa de Valores caiu quase 50%. Entre os queixosos — que
formavam os grupos de "cidadãos" empenhados em receber
as novas licenças da CFC — encontravam-se diversas pessoas
há muito tempo ligadas ao Presidente.
CAPÍTULO 11
O juiz Sirica ordenou o comparecimento de Bernstein e
Woodward na sala do tribunal às 10 da manhã de 19 de
dezembro.
Havia outra audiência marcada para a mesma data,
envolvendo a imprensa: um requerimento solicitando que o
Los Angeles Times fizesse a entrega das gravações e das
notas tomadas durante a entrevista com Alfred C. Baldwin.
Os repórteres se vestiram a caráter para a ocasião.
Woodward aparou o cabelo. A sala do tribunal se encontrava
lotada, principalmente de representantes da imprensa, com o
intuito de testemunhar a audiência sobre as fitas gravadas.
Bernstein e Woodward sentaram-se na segunda fila.
Às 10 horas, nem um minuto a mais nem a menos, os dois
descobriram que o juiz Sirica era capaz de expressar todo o
seu descontentamento com uma carranca tão alarmante, de
forma a não deixar dúvida alguma quanto à sua reputação de
homem severo. Resolvera que os dois repórteres seriam seu
ponto um na ordem do dia... Os grandes-jurados fizeram sua
entrada no tribunal. O auditório obedeceu à ordem de
"Todos de pé". A carranca do juiz tornou-se ainda mais
assustadora. "Epa!", cochichou Woodward para Bernstein,
arqueando os pés de forma a apoiar-se nos artelhos, e
prendendo a respiração, fazendo assim com que a palavra
soasse como se estivesse tentando fazer um cavalo parar.
Bernstein estava indeciso quanto à sorte que preferia: a igno-
mínia de ser reduzido a zero na presença de seus colegas,
por conduta duvidosa, ou a consoladora honra de ser julgado
por "Máximum John".
— Chegou recentemente ao meu conhecimento... — E
Sirica pôs-se a relatar os fatos: membros do grande júri
tinham sido abordados, durante o primeiro fim de semana de
dezembro, com o intuito de obtenção de informações;
todavia, a julgar pelas transcrições das posteriores discussões
do assunto entre a promotoria e o corpo de jurados,
nenhuma informação chegara a ser transmitida;
conseqüentemente, a investigação não sofrera prejuízos. Os
jurados mereciam um voto de louvor por seu silêncio. A
resolução demonstrada pelos jurados só poderia fortalecer-se
pela repetição do juramento de que suas deliberações seriam
consideradas "sagradas e secretas".
O juiz fitou o auditório.
— Quero advertir à pessoa que se aproximou dos
membros deste grande júri que esta corte considera tal ato
extremamente grave.
Os repórteres bebiam cada palavra do juiz, menos seguros
agora do que antes, de que os argumentos apresentados por
Ed Williams e pelos promotores haviam sido convincentes.
Sirica estava bravo. Observou ponderadamente que a pessoa
que tentara subverter a honra do procedimento jurídico do
grande júri, não se qualificava quer como réu quer como
advogado de defesa do caso, mas... "era um representante da
classe jornalística". Um murmúrio percorreu o corpo de
imprensa presente à audiência. Quem dentre eles? Bernstein
e Woodward estavam à espera de serem desmascarados pelo
juiz. E, quem sabe, não iriam lhes perguntar se desejavam
apelar para a piedade da corte.
Antes, entretanto, o juiz desejava apontar os aspectos legais
da matéria e lembrar aos presentes que a tentativa de obter
informações de um grande-jurado constitui — "pelo menos
potencialmente" — delito de ofensa grave. Em seguida,
dispensou o corpo de jurados e saiu majestosamente da sala
do tribunal. O escrivão declarou encerrada a sessão.
Os repórteres levaram alguns minutos até entenderem que
estava tudo terminado. Estavam livres.
Bernstein e Woodward fingiram indiferença quando seus
colegas lhes perguntaram quem, na opinião deles, era o
culpado. Disseram que não pretendiam fazer conjecturas.
Dan Schorr, da CBS, de aguçado faro para qualquer embuste,
foi o primeiro a insinuar que os culpados eram Woodward e
Bernstein. Este lançou veementes protestos, alegando danos
morais, calúnia etc. Schorr limitou-se a sorrir astutamente.
Durante a apressada corrida para o saguão do Palácio da
Justiça, os repórteres, relutantemente, combinaram que só
em último recurso negariam frontalmente a acusação. Talvez
conseguissem se safar com demonstrações de fingida
indignação e a cuidadosa afirmação de que também estavam
investigando o caso.
A balbúrdia no saguão não favorecia a coordenação de
pensamentos. Mais de duas dezenas de repórteres berravam
suas hipóteses e se emulavam na caça ao criminoso. Quando
um dedo acusador levantou-se novamente contra ele,
Woodward disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça: os
contatos com o grande júri haviam ocorrido na primeira
semana de dezembro. Seis semanas, portanto, depois que ele
e Bernstein tinham publicado uma de suas principais
reportagens. Incompreensivelmente, o ilógico silogismo foi
aceito. Enquanto isto, Bernstein ouvia fascinado outro
repórter explicar por que o culpado deveria ser um repórter
de rádio ou de televisão e não de jornal.
— Sirica mencionou expressamente "um representante da
classe jornalística". Ele sempre emprega este termo quando
quer se referir a repórteres de rádio e televisão. Quando quer
falar dos repórteres de jornal, ele diz "a imprensa".
— Tem razão — disse Bernstein. — Acho que também
reparei nisso.
Woodward e Bernstein tentavam evitar um colega que pedia
a opinião dos outros jornalistas sobre a sessão presidida pelo
juiz Sirica. Perto do elevador, conseguiu encurralar
Woodward e perguntou sem preâmbulos se as palavras do
juiz eram dirigidas a ele e Bernstein.
— Sai dessa, ô cara, o que é que você está pensando? —
respondeu Woodward zangado.
O homem insistiu. Pois bem, era um dos dois, não era? Sim
ou não.
— Olha — rebateu Woodward. — Você quer uma
declaração completa? É oficial? Quero dizer, você está
falando sério? Porque, se está, eu declaro: sim.
O repórter ficou estupefato.
— Desculpe, Bob. Nem me passou pela cabeça que você
me levasse a sério — disse ele a Wodward.
O perigo passara. Aquele pesadelo que os perseguira o dia
inteiro — Ron Ziegler, na tribuna, exigindo um inquérito
federal contra os dois, ou outra medida qualquer do mesmo
estilo — dissipara-se. Tentaram imaginar as frases que
Ziegler empregaria ("corrupção do júri"?), e viram que não
podiam suportar a idéia. AO visitar os membros do grande
júri não tinham cometido qualquer infração, isto era ponto
pacífico. Tinham, no entanto, dado mil voltas e exposto ao
perigo várias pessoas inocentes. Tendo que escolher entre
seus princípios e à oportunidade, ficaram com a última;
apanhados em flagrante, tinham recebido proteção. Haviam
usado de esquivas, evasões, embustes; haviam usado de
insinuações e intimidações, ainda que não tivessem
recorrido a mentiras diretas.
Naquela tarde, Woodward voltou à corte do juiz Sirica para a
audiência sobre as gravações de Baldwin para o Los Angeles
Times. Os advogados dos réus do caso Watergate haviam
requerido à corte que ordenasse a entrega das notas, fitas
gravadas e outros documentos em poder dos repórteres Jack
Nelson e Ronald Ostrow.
A entrevista do L.A. Times com Baldwin constituíra a mais
brilhante peça de jornalismo em toda a saga do Watergate,
configurando, de maneira categórica, a diferença entre "uma
tentativa de arrombamento de terceira classe" e a marca da
guerrilha política praticada pelos homens do Presidente.
Recordando-se de suas próprias experiências com os
advogados de Baldwin, Woodward duvidava que tivesse
havido uma entrevista, sem promessas de que notas e
gravações permaneceriam em poder do Times. Certamente,
as reportagens feitas por ele e Bernstein não poderiam ter
sido escritas sem tais garantias.
O juiz ordenou que John F. Lawrence, chefe da agência do
Los Angeles Times em Washington, fizesse a entrega das
gravações deixadas sob sua custódia pelo jornal.
— Excelência, devo, respeitosamente, recusar-me —
respondeu Lawrence, um homem magro, perto dos
quarenta.
Sirica contemplou-o com desprezo e ordenou sua prisão.
O advogado de Lawrence apresentou sua defesa,
argumentando ardorosamente que, enquanto a Primeira
Emenda estivesse sendo considerada em caso de apelação, de
nada adiantaria dar ordem de prisão a seu cliente.
Aproveitou para lembrar que era época de Natal e o Sr.
Lawrence tinha mulhere filhos pequenos. Sirica se manteve
irredutível e Lawrence foi levado para a prisão por dois
policiais, não lhe sendo permitido sequer despedir-se da
esposa.
Bernstein raramente vira Woodward tão chocado. Estavam
ambos dolorosamente conscientes do contraste. Lawrence,
cuja única culpa fora obedecí aos ditames de sua consciência
e agir segundo a melhor ética profissional, estava na cadeia.
E os dois... tinham se safado com uma repreensão e seu
segredo intacto.
A aventura com o grande júri não foi o último encontro dos
repórteres com o juiz Sirica ou com a promotoria.
Dias depois de se apresentarem no tribunal, Woodward
telefonou a uma ex-secretária do escritório de Morton B.
Jackson, advogado de Los Angeles com quem Hunt se
hospedara na semana seguinte ao arrombamento do
Watergate. Woodward apresentou suas credenciais e
explicou que soubera que ela fora entrevistada pelo FBI.
— Por favor, me deixe em paz — disse ela. —-Quero
viver minha vida. Já não agüento mais. Por que você vem
me aborrecer?
Woodward explicou que estava verificando informações que
indicavam estar ela a par da finalidade das viagens de
Howard Hunt e Gordon Liddy à costa do Pacífico.
— Eu não tenho importância nenhuma... nenhuma.
Deixe-me em paz.
Chorava. Woodward deu a conversa por encerrada.
No dia seguinte, Bradlee chamou Woodward e Bernstein à
sua sala.
— Williams recebeu outro telefonema" da promotoria...
Uma mulher telefonou lá da Califórnia e se queixou de que
um de vocês a procurou pelo telefone fazendo-se passar por
agente do FBI.
Bernstein caiu na gargalhada ao imaginar Woodward na pele
de um agente do FBI. Mas Bradlee falava sério. Durante a
audiência referente aos tapes de Baldwin, Sirica instruíra
todas as testemunhas em potencial do caso a não falarem
com repórteres até que o julgamento estivesse terminado.
— Agora, vamos ter que enfrentar Sirica novamente —
comentou Bradlee. — Os promotores tiveram que ir ao juiz.
Não acreditam que você se fizesse passar por um agente do
FBI, mas temem que talvez possa ter violado o regulamento
das testemunhas.
Bradlee disse que Williams ia procurar Sirica. Bernstein
reclamou que não seria possível dar prosseguimento à
investigação se ele e Woodward ficassem privados de falar
com testemunhas. Bradlee concordou.
— Mas até que fique tudo esclarecido — disse ele —,
quero vocês longe das testemunhas.
Os repórteres quiseram saber de que jeito iriam adivinhar
quem era testemunha do caso.
— Não há jeito — disse Bradlee. — Por isso vocês vão ter
que parar com as reportagens, isto é, parar de cavucar em
terreno desconhecido, até que fique tudo acertado.
Pela primeira vez, em seis meses, Bernstein e Woodward
recebiam ordem de parar.
Dois dias mais tarde, Bradlee estabeleceu novas regras básicas
por escrito. Cópia para Rosenfeld, Sussman, Woodward e
Bernstein: "Williams falou com Sirica hoje de manhã. Está
OK falarmos com testemunhas... Desde que, a partir do
instante em que uma testemunha nos informe ter sido
proibida pelo tribunal de falar conosco, encerremos o
assunto. Literalmente no instante em que nos informem. Em
outras palavras, não podemos tentar fazer uma testemunha
nos dar informações se esta der a entender que não o deseja.
Devemos nos adaptar à letra e à essência desta regra básica".
No curso daquela semana deram um pulo ao escritório de
Earl Silbert a fim de discutirem as diretrizes. Eram mais ou
menos 9 horas da noite e o Palácio da Justiça estava quase
deserto. Silbert parecia de bom humor. Como de hábito,
evitou discutir o caso objetivamente, e começaram todos a
comentar as eleições. O promotor era democrata registrado
no partido e sua esposa, uma artista, participara como
voluntária na campanha de McGovern. Usara seu nome de
solteira, a fim de evitar ligações entre suas atividades
politicas e a acusação do casoWatergate.
Como quase tudo o mais em sua vida, o escritório de Silbert
era meticulosamente arrumado. (Certa vez, sua mãe disse a
um jornalista que Earl, de tão exigente, chegava ao cúmulo
de alinhar os saltos de todos os sapatos guardados no
armário.) As pastas do arquivo e os papéis que cobriam
praticamente cada centímetro de espaço disponível da sala
estavam arrumados em perfeitas pilhas. Woodward notou
uma carta sobre a mesa de Silbert e reconheceu o timbre —
The Watkins Johnson Company, de Rockville, Mariland.
Sabia que era a firma na qual McCord adquirira parte do
equipamento usado para plantar os transmissores no
Watergate.
Mencionou o fato a Bernstein enquanto tomavam um táxi de
volta ao Post. E dai? — perguntou Bernstein. Woodward não
sabia, mas no dia seguinte de manhã telefonou para a
companhia, e ficou sabendo que McCord tinha deixado seu
cartão de visita do CRP ao adquirir o equipamento e que
pagara por ele 35 notas de US$ 100,00.
Woodward redigiu uma pequena nota sobre a transação, que
saiu publicada em página interna, no dia 23 de dezembro.
Na segunda-feira, Bernstein recebeu um telefonema de
Silbert pedindo que os dois repórteres fossem imediatamente
ao seu escritório. Bernstein não conseguia adivinhar o que
Silbert tinha em mente. Woodward calculava que Silbert
havia juntado o fato da notícia sobre os US$3.500,00 de
equipamento com o fato dos dois terem visto a carta em sua
mesa. Bernstein achava inconcebível que Silbert os
chamasse por coisa de tão pouca monta, principalmente
levando-se em conta que a dupla já possuía alguns
documentos referentes às compras de McCord.
Quando chegaram, Silbert e seu companheiro de
promotoria, Seymour Glanzer, fizeram caras muito zangadas.
Silbert quis saber a fonte da notícia. A carta continuava na
mesma posição, no canto esquerdo da mesa, facilmente ao
alcance da vista de quem se sentasse no lugar agora ocupado
por Woodward. Este disse francamente que vira a carta e
decidira telefonar à firma Watkins Johnson para saber se
havia mais alguma novidade sobre o equipamento desde a
última vez em que os repórteres tinham falado com eles.
— Para que eu possa crer nessa história — declarou Silbert
—, vocês vão ter que me dizer a fonte.
Os dois recusaram.
Silbert convenceu-se de que realmente as informações se
haviam originado da carta, e unicamente dela. Ameaçou
fazer circular um memorando por toda a promotoria,
relatando o episódio e recomendando que ninguém mais
falasse com Bernstein e Woodward. Estava pensando em
abrir processo contra os dois. Se deixasse escapar algum
detalhe durante uma conversa, Silbert acrescentou, era
perfeitamente lícito que os repórteres divulgassem o que
tinham ouvido, mas se aproveitarem de informações que
jaziam na mesa de alguém era "ato furtivo e insultante".
Glanzer disse que era desonestidade.
Silbert disse ainda que não sabia se poderia voltar a confiar
nos repórteres.
Se a promotoria tomou qualquer providência quanto ao
incidente, Bernstein e Woodward não ficaram sabendo.
Em dezembro, poucas semanas antes do início do
julgamento dos sete do Watergate, Woodward foi almoçar
em companhia de Rosenfeld e Sussman no Hotel Jefferson.
Os editores — fraternal mas insistentemente — queriam
saber qual a direção que a cobertura do caso Watergate pelo
Post estava tomando.
Woodward alimentava suas fantasias quanto ao desfecho do
caso Watergate — sonhava que Gordon Liddy convidava
Bernstein e Woodward para irem a sua casa, servia drinques
e passava o resto da noite contando a história completa do
caso, enquanto os dois iam gravando tudo.
Os editores não se mostraram muito interessados em suas
fantasias. Queriam mais ação. Woodward indagou quem faria
a cobertura do julgamento. Rosenfeld disse que ainda não se
decidira. Woodward achava que cabia a ele e Bernstein esse
trabalho. Rosenfeld discordou. Mais do que nunca, era
fundamental que a matéria do Post fosse impecavelmente
objetiva. Deveriam designar repórteres que nada tivessem a
ver com as reportagens anteriores. Woodward argumentou
que a dupla merecia a oportunidade. Rosenfeld olhou o
irritado e disse que a decisão ainda não tinha sido tomada.
Dias depois, Rosenfeld chamou os dois e comunicou que o
escolhido fora Lawrence Meyer, o repórter regular dos
tribunais federais. Woodward e Bernstein deveriam
continuar com as pesquisas. Cada dia, um deles compareceria
ao tribunal, em busca de pistas que porventura aparecessem
no decorrer dos depoimentos.
Rosenfeld tinha razão, mesmo que à época os repórteres não
pudessem entendê-lo. Estavam ressentidos — o caso
caminhava para uma nova fase.
Temiam que o Post passasse a considerar os trabalhos
anteriores como excessos da juventude.
Seus temores aumentaram quando, às vésperas do
julgamento, Bernstein e Woodward rascunharam uma longa
"análise das reportagens". Baseada nos dias de pesquisa,
inclusive as demoradas entrevistas com oficiais do Depar-
tamento de Justiça, a essência da matéria era a de que a
promotoria deixaria sem resposta a quase totalidade das
perguntas referentes ao financiamento e patrocínio da
operação Watergate, e ignoraria a ampla campanha de espio-
nagem e sabotagem políticas. Rosenfeld rejeitou o trabalho:
— Vamos esperar para ver o que acontece. Depois
publicamos.
Dois dias antes do início do julgamento, Bernstein ficou
sabendo que os homens de Miami se encontravam
hospedados num prédio de apartamentos em Arlington,
Estado da Virgínia, com suas famílias e seus advogados. Na-
quela mesma noite, Bernstein visitou um dos homens e foi
informado sobre a defesa que pretendiam apresentar em
apoio de suas declarações de inocência. Iriam argumentar
que tinham sido assegurados de que a operação Watergate
contava com a aprovação de gente da mais alta esfera
governamental e que, assim, estavam trabalhando
clandestinamente em missão autorizada. Só havia uma
dificuldade: embora desejasse uma defesa unificada, Howard
Hunt se opunha tenazmente a qualquer estratégia jurídica
capaz de sugerir que a conspiração não se limitava aos sete
réus.
Na manhã de 8 de janeiro, data de início do julgamento,
Hunt apareceu no Tribunal, macilento e sombrio, vestindo
um sobretudo de gola de pele, aristocrático e discreto,
embora um pouco puído. Tirava baforadas do cachimbo e
vagueava pelos corredores, sussurrando freqüentemente para
seu companheiro, Gordon Liddy. Os dois iam falando
corredor abaixo. Hunt, que perdera a esposa poucas semanas
atrás num desastre de aviação, descansava c braço no
pescoço de Liddy, como se estivesse à procura de apoio.
Liddy havia chegado fumando um charuto imenso, sorrindo,
acenando e andando confiantemente empertigado. Mais
tarde, ao ser apresentado aos possíveis jurados, levantou-se e
agitou sua mão direita como um político saudando a
multidão. Os quatro réus de Miami, muito tensos, chegaram
na companhia de seu advogado, Henry B. Rothblatt, que
usava peruca e ostentava um bigode cuja cor parecia
acentuada com lápis de sobrancelha. McCord, preocupado,
apareceu pouco depois. Esquivou-se dos repórteres com a
declaração de praxe: "Sem comentários".
Os membros da promotoria — Earl Silbert, 36 anos;
Seymour Glanzer, 46 anos; Donald E. Campbell, 35 anos —
apresentaram-se muito arrumados e elegantemente vestidos.
Cada qual carregava uma pilha de pastas, com mais de 30cm
de espessura. Ao saírem do elevador, viram-se rodeados por
um enxame de repórteres.
— Todas as perguntas serão respondidas — falou Glanzer.
— Peço apenas que esperem um pouco.
John Sirica, Juiz-Presidente da Corte Distrital, que se
autonomeara para presidir o caso, ocupou seu lugar, o
ondeado cabelo preto fazendo-o parecer mais jovem do que
realmente era: tinha então 68 anos. Durante uma audiência
preliminar, em dezembro, expressara sua intenção:
— O júri vai querer descobrir: com que propósito estes
homens arrombaram a sede democrática? Seria espionagem
política seu único motivo? Houve ganho financeiro? Quem
os contratou? Quem começou isto tudo?
Os críticos de Sirica — e havia muitos nos círculos jurídicos,
inclusive na promotoria — sustentavam que um julgamento
não era o lugar mais adequado para conduzir tal investigação.
A tarefa pertencia propriamente ao grande júri.
Woodward e Bernstein compareceram ambos no primeiro
dia dos trabalhos, e ouviram Silbert proferir seu discurso
introdutório, que durou duas horas. O chefe da promotoria
pareceu bastante irritado ao declarar que só encontrava
explicação para US$50.000,00 dos US$235.000,00
correspondentes aos fundos financeiros da campanha
presidencial e que tinham sido entregues a Gordon Liddy em
notas de US$100,00. Fundamentando sua teoria principal-
mente nos depoimentos de Jeb Magruder e Herbert L.
Porter, Silbert argumentou que Liddy recebera o dinheiro
para executar operações lícitas de coleta rotineira de
informações. Liddy, acusou Silbert, decidira agir por conta
própria, arquitetando e executando a operação criminosa do
Watergate. Silbert estava repetindo a esfarrapada história do
CRP, contada aos repórteres meses antes, durante suas visitas
noturnas.
Enquanto Silbert desfiava sua narrativa de reles conspiração,
Woodward, no meio dos outros jornalistas, escrevia
freneticamente suas anotações. Não estava lá para escrever
uma reportagem, por isso podia dar-se ao luxo de ficar
simplesmente analisando as palavras de Silbert.
Lembrou-se de uma lição aprendida na sua época de calouro
em Yale. O catedrático tinha mandado que os alunos lessem
certos documentos medievais que historiavam de maneira
bastante conflitante a célebre visita de Henrique IV a
Canossa, em 1077, com o propósito de solicitar o perdão do
Papa Gregório. Segundo todos os documentos, o rei havia
esperado, descalço, enquanto a neve caía, durante vários dias
do lado de fora do Vaticano. Woodward dedicou-se ao
estudo dos papéis e redigiu seu trabalho baseando-se nos
fatos concordes. As testemunhas eram unânimes em afirmar
que Henrique IV ficara vários dias com os pés descalços na
neve, à espera de ser recebido pelo Papa. O professor
rejeitou o trabalho de Woodward, dizendo que este não
tinha usado de bom senso. Nenhum ser humano poderia
ficar descalço na neve durante dias seguidos, sem que seus
pés se congelassem até cair, foi o comentário do mestre.
— O direito divino dos reis não podia chegar ao ponto de
anular as leis naturais e o bom senso.
Enquanto Silbert ia deixando sua indignação avolumar-se
contra Gordon Liddy — o cabeça de toda a operação,
segundo o promotor —, Woodward perguntou-se se acaso
Silbert teria tido um bom curso de história em Harvard.
Silbert — um "phi betha kappa" — estava de posse de todas
as provas. Sessenta testemunhas. Um caso cristalino. Só uma
falha: não fazia sentido. O CRP não gastaria US$ 235.000,00
em informações inconseqüentes, às quais poderia facilmente
ter acesso por intermédio do FBI ou da polícia local. Os
administradores do CRP iriam querer saber os exatos
propósitos dos desembolsos e os precisos resultados obtidos.
Silbert havia dito a Woodward e Bernstein que não
pretendia agradar a ninguém com o inquérito sobre o
Watergate. Pelo jeito, era exatamente isto que iria acontecer.
O promotor frisou repetidamente não haver provas para que
outros, além dos sete réus, fossem indiciados.
— Há uma tradição no Departamento de Justiça — quanto
mais alto for o vôo dos pássaros, mais forte você tem que
segurá-los. E eu acho que é uma boa regra.
Findo o discurso inicial da promotoria, Howard Hunt
declarou-se culpado, abandonando sua anterior declaração
de inocência. Na saída da sala do tribunal, disse aos
repórteres que nenhum dos maiores estava implicado na
conspiração, "pelo que sei pessoalmente".
Um dos participantes do grupo de Miami tinha dito a
Bernstein, na véspera, que se Howard Hunt se declarasse
culpado, os homens da Flórida fariam o mesmo. Os rumores
corriam. Na sexta-feira à tarde, quando a sessão foi en-
cerrada, Bernstein e Woodward se achavam parados na porta
do Palácio da Justiça com o colunista Nicholas von Hoffman
e o editorialista Roger Wilkins, ambos do Post. Nesse
instante, viram Henry Rothblatt, o advogado dos réus de
Miami, na companhia de seus clientes, parados na esquina
esperando um táxi.
Vamos perdê-los! gritou Bernstein, a menos que um de nós
vá lá. Woodward concordou. Bernstein disse que queria ir.
Woodward deu-lhe US$20,00.
Rothblatt e seus clientes já haviam encontrado um táxi
quando Bernstein disparou para cima deles. O advogado, o
atarracado Frank Sturgis, e os outros três réus lotavam o táxi,
mas Bernstein, sem se dar por achado e sem ser convidado,
embarafustou táxi adentro, jogando-se por cima deles
enquanto a porta se fechava. Von Hoffman e Wilkins quase
caíram do meio-fio às gargalhadas. Woodward calmamente
anotou que Bernstein lhe devia US$ 20,00.
Bernstein apareceu na redação no fim do sábado, olhos
inchados e todo amarrotado. Tinha ido até o aeroporto com
Rothblatt e os réus. Comprara passagem para o mesmo vôo
em que um dos homens viajaria, abrindo caminho até ele
com o expediente de se oferecer para carregar uma das
malas. Enquanto conversavam amigavelmente, escorregou
para a poltrona ao lado da ocupada pelo réu. Bernstein, na
verdade, não precisara exercer pressão muito forte para que a
conversa girasse em torno do julgamento. A história foi
emergindo num tranqüilo fluxo de conversação, enquanto os
motores do avião roncavam pacificamente. A entrevista,
pensou Bernstein, estava custando ao Post mais de um dólar
por minuto.
Segundo seu companheiro de viagem, Hunt tinha visitado os
homens de Miami durante uma semana, insistindo para que
se declarassem culpados; em troca, proveriam suas famílias
financeiramente; e assegurara que podiam contar com
clemência depois de alguns meses de encarceramento.
Fazendo uso dos métodos empregados pela CIA, o
experimentado Hunt estava novamente emitindo ordens a
seus subordinados. Por mais de uma década, aqueles homens
tinham depositado total confiança em Hunt, mesmo após ter
ele supervisionado sua participação na fracassada invasão de
baía dos Porcos. Hunt era o líder, o elo entre seus projetos
pessoais e a causa do patriotismo. Rothblatt, Bernstein ficou
sabendo, estava furioso e aconselhara seus clientes a "se afas-
tarem daquele filho da mãe do Hunt", mas já era tarde
demais. As confissões de culpa dariam entrada na próxima
semana.
Falando pelo telefone com Woodward, o advogado de Hunt,
Williams Bittman, negou que seu cliente tivesse exercido
qualquer influência sobre os homens de Miami:
— Eu diria que tal sugestão é absurda... Não consigo
acreditar.
Os repórteres e o editor-gerente Howard Simons discutiram
a história. Tinham medo de publicá-la. O juiz Sirica poderia
intimá-los mais uma vez a comparecerem perante a corte,
desta feita para desvendar suas fontes e abrir inquérito sobre
o que poderia parecer um caso de obstrução da justiça.
Simons consultou os advogados do Post sobre as
possiblidades do juiz exigir a identidade dos informantes. As
opiniões se dividiam. A hora de fechamento da edição se
aproximava.
Prevaleceu o excesso de prudência e a reportagem sobre
Hunt foi suspensa à espera de outras considerações no dia
seguinte. Uma coisa era certa: se chegasse a ser publicada,
levaria a assinatura de um único repórter. Se o juiz Sirica
exigisse a identificação das fontes, só um deles iria para a
cadeia por recusar-se a cumprir a ordem da corte.
Naquela noite, tanto Bernstein como Woodward receberam
telefonemas em suas casas. Uma reportagem do New York
Times dizia que os quatro réus de Miami continuavam a
receber pagamentos de pessoas que ainda continuavam
incógnitas. A reportagem, assinada por Seymour M. Hersh,
dizia ainda que Sturgis, um dos arrombadores do Watergate,
tinha confessado saber que John Mitchell estivera a par de
toda a operação e chegara mesmo a encorajar o grupo. No
dia seguinte, a revista Time distribuiu uma nota sobre uma
futura reportagem na qual divulgaria que aos quatro réus de
Miami fora prometido que receberiam até US$1.000,00 por
mês que passassem na cadeia. Um artigo de Jack Anderson
levava o caso mais longe: "A maior parte do dinheiro para os
réus era canalizada por Hunt, que entregava parte dele a Ber-
nard Barker", dizia o colunista.
As reportagens diminuíram os escrúpulos de Simons.
— Sirica vai ter que jogar os repórteres do Time, do New
York Times e Jack Anderson no xadrez junto com vocês,
meninos.
No dia seguinte, segunda-feira de manhã, a reportagem sobre
as manobras de Hunt foi publicada pelo Post. No tribunal, os
réus de Miami dispensaram Rothblatt e outro advogado foi
nomeado. Este deu entrada imediata nas confissões de culpa.
Sirica fervia de indignação. Depois de aceitar as novas
declarações, chamou os quatro réus à sua presença. Os
quatro entraram e ficaram de pé, perante o juiz.
Barker balançava-se para diante e para trás, torcendo
nervosamente as mãos cruzadas nas costas. Aparentemente
desnorteado pela ansiedade do momento, executou uma
completa flexão de pernas. Ao responder as perguntas do
Juiz, sua cabeça balançava para cima e para baixo, ou de um
lado para outro, como se tivesse o pescoço feito de borracha.
O juiz Sirica perguntou sobre "essas notas de US$100,00 que
estão flutuando por aí como se fossem balões de gás".
Barker respondeu que não sabia de onde vinham. Os outros
concordaram com um movimento de cabeça.
— Recebi o dinheiro pelo correio, dentro de um envelope
em branco — explicou ele.
— Pois bem, sinto muito — replicou Sirica — mas não
acredito.
O interrogatório de Sirica prolongou-se por uma hora. Os
homens pareciam marionetes cujas cabeças estivessem todas
presas no mesmo fio. Me-neavam-nas em uníssono. Sim,
disseram, a decisão de se confessarem culpados fora
voluntária, sem qualquer influência estranha. Não,
Excelência, responderam, quando o juiz perguntou se
tinham ouvido falar de clemência.
A carranca do juiz ficou ainda mais fechada. Algum deles já
trabalhara para a CIA?
— Não que eu saiba — respondeu o réu Martinez, que
recebera US$100,00 mensais da CIA, até o dia seguinte ao de
sua prisão no Watergate. Entre os que riram alto encontrava-
se Gordon Liddy, que acordou de um ligeiro cochilo quando
Sirica começou a interrogar ds homens.
Por que arrombaram o Watergate? perguntou Sirica.
— Por causa da situação em Cuba — explicou Martinez.
— Quando se trata de Cuba e quando se trata de
conspirações comunistas contra os Estados Unidos, sou
capaz de qualquer coisa para defender este país das
conspirações comunistas.
Sirica, incrédulo, revirou os olhos... O que, perguntou ele, a
sede dos democratas tem a ver com Cuba ou com
conspirações comunistas?
— Eu não sei — declarou Martinez, acrescentando que
Hunt e Barker é que lhe tinham dito.
Todos os quatro negaram ter recebido dinheiro.
— Estes não são homens de se venderem por dinheiro —
disse Barker com orgulho.
— Vocês estavam trabalhando sob a orientação do Sr. Hunt
quando este trabalho foi realizado? — perguntou Sirica a
Barker.
— Eu estava trabalhando com o Sr. Hunt e desejo declarar
que me sentia totalmente identificado com ele... É uma
grande honra para mim poder destacá-lo — disse Barker.
Enquanto Sirica prosseguia com a inquirição, o chefe da
acusação, Silbert, sacudia a cabeça, desgostoso, e fitava o
bloco denotas à sua frente. Glan-zer, recostado na poltrona,
esfregava uma das faces. As afirmações da promotoria de que
tudo viria à tona durante o julgamento dissolviam-se em
nada. Os réus se perdiam no labirinto de suas confissões de
culpa.
Sirica perguntou a Barker sobre os US$114.000,00 em
cheques da campanha de Nixon, depositados em sua conta
bancária em Miami.
Barker respondeu que não sabia de onde tinha vindo o
dinheiro.
Mas isto não é estranho? Sirica indagou.
— Não vejo nada de estranho, Excelência — respondeu
Barker.
— Antes deste episódio já me envolvi em outras operações
tão estranhas que, no que me diz respeito, isto não é nada.
O juiz mandou os quatro para o xadrez.
Ao meio-dia, Woodward tomou um táxi de volta para a
redação. Ia almoçar com Katharine Graham e Howard
Simons.
— Katharine quer fazer uma revisão de algumas das
reportagens e conversar sobre os informantes — explicou
Simons.
A Sra. Graham, editora-proprietária do Post, era filha de
Eugene Meyer, que comprara o jornal em 1933. Depois do
suicídio de seu marido em 1963, Katharine assumira o
controle.
Woodward estava contente com o fato da Sra. Graham ter
esperado que passasse o período intenso das principais
reportagens de pesquisas e o contra-ataque da Casa Branca
durante o outono, antes de convocar uma reunião. O
repórter tomou o elevador até o oitavo andar e passou pelas
portas duplas de vidro, pisando no grosso tapete branco que
levava ao escritório. Simons já se encontrava lá, copo na
mão, e os três foram sentar-se num canto da sala.
— O que é que está acontecendo hoje no tribunal? —
perguntou ela.
Woodward falou das confissões de culpa dos quatro réus e
do interrogatório de Sirica. O julgamento estava se tornando
cada vez mais ridículo, comentou Woodward, e descreveu a
cena dos quatro réus falando e sacudindo as cabeças como se
estivessem ensaiados.
A Sra. Graham fez várias perguntas sobre o significado de
tudo aquilo e onde iria acabar.
— Vai mesmo ficar tudo esclarecido? — perguntou
apreensiva. — Quero dizer, algum dia vamos ficar sabendo
toda a verdade do caso?
Woodward pensou que não podia haver jeito mais gentil de
perguntar: "O que é que vocês, meninos, estão fazendo com
o meu jornal?". Respondeu que nem ele nem Bernstein
tinham muita certeza se algum dia iam ficar sabendo de
tudo.
O rosto dela pareceu refletir sua decepção. Meneou a cabeça.
— Nunca? — perguntou. — Não me diga nunca. — Riu,
jogando a cabeça para trás, um sorriso luminoso nos lábios.
— Vamos almoçar — disse ela, levantando-se e levando os
dois para a sala de refeições, pegada ao escritório.
Uma mulher, no tradicional uniforme branco e preto, serviu
ovos à benedictine. Howard Simons delineou a finalidade
daquele almoço: uma discussão confidencial das fontes
ligadas às reportagens sobre o Watergate.
Meses depois, Howard Simons fez um resumo do que
pessoalmente sentia sobre a situação do Post durante o
julgamento.
— Eu tinha aquela incômoda impressão de que o Watergate
poderia transformar-se em algo assim como o incêndio do
Reichstag. Você sabe, daqui a quarenta anos, a gente ainda
vai estar perguntando se o homem ateou mesmo aquele
fogo, se ele era alemão, ou apenas um doido qualquer?... Vou
te contar, era como estar dentro de uma banheira onde,
cientificamente, você sabe, vai-se gradualmente pondo água
cada vez mais quente e você se cozinha até morrer sem se
dar conta, porque os aumentos de temperatura são tão
pequenos que o corpo não sente nem reage...
Esta é a diferença entre o Watergate e os Documentos do
Pentágono. Neste último caso, você estava com os
advogados em ação logo no primeiro dia... pedindo
orientação, e Katharine tomando a decisão de publicar. Nada
disto aconteceu com o Watergate. Nunca chamamos os
advogados e perguntamos: "Está tudo bem? Qual o ponto de
vista jurídico?"
Acho que nos deixamos levar. Foi gradual.
Woodward conseguira engolir dois bocados dos ovos à
benedictine, e agora chegara a hora de apresentar seu
monólogo. Contou a ela seus contatos com Martin Dardis na
Flórida, vários advogados do Departamento de Justiça, um
agente do FBI, um assistente da Casa Branca, a contadora,
Hugh Sloan. A Sra. Graham interrompeu para dizer que
estava mais interessada nas posições que ocupavam do que
em seus nomes.
Woodward disse que jamais revelara a quem quer que fosse
o nome de Deep Throat.
A Sra. Graham fez uma pausa.
— Conte a mim — pediu ela.
Woodward gelou. Disse que se ela realmente quisesse ele lhe
diria. Rezou para que ela não insistisse. A Sra. Graham riu,
tocou-lhe o braço, e disse que estava só brincando. Na
verdade, não queria carregar esse peso com ela. Woodward
serviu-se de mais um pouco dos ovos, mas já estavam frios.
— E agora, a transa de Haldeman — disse a Sra. Graham,
como se não estivesse muito certa de querer ouvi-la.
Woodward descansou o garfo, e contou-lhe o erro que ele e
Bernstein haviam cometido quanto ao testemunho de Sloan
perante o grande júri.
— Mas você tem certeza absoluta de que temos razão? — a
pergunta refletia um grau de intensidade que não se fizera
notar na conversa anterior. — Lembro-me de falar com
Henry Kissinger — continuou ela.
— E ele chegou e disse: "O que que há? Você acha que não
vamos ser reeleitos? Vocês erraram com referência a
Haldeman". E parecia muito nervoso, dizendo que era tudo
horrivelmente injusto.
Se há alguém que não foi injustiçado, disse Woodward, esse
alguém é Haldeman. Foi a mais sólida afirmação feita por
Woodward durante o almoço.
— É mesmo? — perguntou a Sra. Graham. — Pois fico
contente que tenha dito isto. Estava preocupada. — Fez uma
pausa. — Você me deu segurança. Juro que deu.
Fitou Woodward. Seu rosto dizia: "Faça melhor".
O julgamento prolongou-se por mais duas semanas.
Woodward e Bernstein continuaram a comparecer ao
tribunal, examinando documentos e provas constantes dos
autos. Woodward anotou os telefones relacionados nos
caderninhos dos réus, apresentados como prova, e uma noite
discou para alguns dos números.
— O FBI? — um homem perguntou. — Eles nunca, mas
nunca mesmo me procuraram. Jamais falei com eles.
Woodward bateu o telefone. Na mais completa, na mais
extensa investigação realizada desde o assassinato do
Presidente Kennedy, o FBI nem sequer telefonara para
aqueles números?
Enquanto percorria a lista de testemunhas, Woodward
encontrou um homem que conhecia Hunt bastante bem.
Convidou-o a vir até a redação e perguntou-lhe sobre o que
iria testemunhar. O homem respondeu:
— Vou contar sobre o que eu poderia depor, só que
Silbert não faz as perguntas. Se o juiz ou outro promotor
fizer, eu respondo.
Woodward sentou-se ereto na larga poltrona azul de sua
mesa e perguntou o que seu depoimento incluiria.
— Howard sempre se referia a "eles" ou à "Casa Branca"
quando falava de suas atividades. Um dia, porém, estava se
queixando de Ehrlichman e dizendo que Ehrlichman era um
amador, porque Ehrlichman opunha uma série de obstáculos
a uma porção de coisas que Howard andava fazendo, aquelas
coisas secretas, da Inteligência. A operação atrasou-se umas
duas ou três semanas porque Ehrlichman não soltava a
verba.
Ehrlichman. Woodward quebrou um lápis entre os dedos.
— E Howard dizia que era por isso que ele gostava de
Colson, porque Colson entendia que essas coisas eram
necessárias. Colson era um executivo e deu aprovação
imediata. Fez com que liberassem a verba.
Colson — isso fazia sentido... mas Ehrlichman? Woodward
ia alinhando os clipes em fileiras certinhas sobre a mesa,
enquanto a testemunha prosseguia.
— Pelos comentários de Howard, era evidente que John
Mitchell recebia relatórios datilografados das interceptações.
Muito bem, pensou Woodward, isto também fazia sentido.
— Depois das prisões do Watergate, quando Howard
sumiu da cidade para se esconder, e precisava de um
advogado, estava à procura de John Dean. Ele disse: "Deixe
que ele me arranje um advogado".
A mão de Woodward passou pelos clipes, num gesto brusco,
destruindo a simetria.
— John Dean? — perguntou Woodward.
— Foi exatamente essa a expressão de Silbert quando contei a
ele — comentou a testemunha. — Ele disse: "É a primeira
vez que a pista dele aparece no caso".
Woodward pegou um clipe gigante e o entortou até
transformá-lo num L, e começou a girá-lo na ponta do dedo
enquanto ia lendo suas notas. Neste momento, Bradlee
passou por sua mesa e perguntou o que estava acontecendo.
Talvez uma porção de coisas, talvez nada, foi a resposta do
repórter, mas havia pelo menos uma testemunha que podia
dar um bocado de trabalho a Mitchell, Colson, Ehrlichman e
John Dean. Os olhos de Bradlee faiscaram. Deu uns passos
de alguma esquisita dança espanhola, como se segurasse um
pano no traseiro e o puxasse de um lado para outro. Depois
foi embora.
Woodward pensou vagamente em contatar o juiz Sirica ou
um de seus assistentes jurídicos e informá-los de que essa
testemunha poderia responder a umas perguntas bem
interessantes. Rejeitou a idéia.
As perguntas jamais chegaram a ser feitas, mas tempos
depois a testemunha explicou a Woodward por que Hunt
manteve-se em silêncio sobre o envolvimento de seus
superiores.
— Segundo sua escala de valores, Howard estava
realizando um ato heróico. Ele é como um monge medieval,
que vai meditar nas altas colinas, na esperança de ganhar o
Paraíso... Seu sonho é tornar-se o Alger Hiss da Justiça.
O julgamento se arrastava. Quando a corte entrava em
recesso, Liddy e McCord podiam ser vistos pelos corredores,
às vezes conversando animadamente com jornalistas. Liddy
deleitava-se em contar piadinhas como aquela do avião
militar que sem querer deixara cair uma bomba na "zona" de
uma cidade da fronteira mexicana.
— Daí, os representantes da cidade foram até a base
militar e fizeram uma proposta ao comandante: se ele parasse
de bombardear os bordéis, a cidade prometia fechar todos
eles. — Liddy riu tanto e tão convulsivamente da própria
anedota que seu rosto ficou rubro.
A certa altura, quando mais uma das freqüentes objeções de
Peter Maroulis (advogado de Liddy) foi rejeitada por Sirica,
Liddy levou Woodward para um canto do corredor.
— Você sabe jogar xadrez? — Liddy perguntou em tom
conspirativo. Woodward disse que sabia.
— Pois bem, Peter acaba de comer a rainha deles — disse
Liddy.
— O que você quer dizer? — perguntou Woodward.
— Olhe, só posso dizer isto, ele comeu a rainha deles.
Woodward perguntou se isto significava que o juiz tinha
cometido um erro capaz de forçar os Tribunais superiores a
alterarem qualquer sentença condenatória.
— Você é um bom jogador de xadrez — comentou Liddy,
radiante e se balançando de leve, com as mãos nos bolsos.
No dia 23 de janeiro, foram chamadas para depor as únicas
testemunhas do Comitê de Nixon: Jeb Magruder, Bart
Porter, Rob Odle e Hugh Sloan. Woodward divisou
Magruder andando pelos corredores. O ex-comerciante de
cosméticos, lenços de papel e meias femininas, alto, com 38
anos de idade, trazia uma minúscula bandeira americana na
lapela do terno de corte tradicional. Magruder olhou para o
relógio e aproximou-se de Silbert.
— Earl, quanto tempo ainda vou ter que esperar?
Silbert sorriu com deferência e murmurou qualquer coisa
sobre o fato de os tribunais não organizarem seus horários
para satisfazer testemunhas. Magruder estava exasperado.
Nesse momento, Liddy passou por ele e bateu continência,
um sorriso largo no rosto. Os repórteres presentes riram.
Magruder ficou ainda mais colérico. Virou-se e andou
corredor abaixo.
Woodward resolveu que já era tempo de ficar conhecendo
Magruder. Aproximou-se e apresentou-se. Magruder
mostrou-se mais amável do que Woodward esperava.
— Tenho apenas uma objeção ao que você e o tal de
Bernstein fizeram. Isto é, aquelas visitas ao meu pessoal, altas
horas da noite, batendo com estardalhaço às suas portas e
não se identificando.
Woodward explicou que ele e Bernstein sempre se
identificaram corretamente e sempre agiram de maneira
cortês.
— Informação porca — comentou Magruder. — Bem,
pode ser que você não, mas Bernstein fez. Eu sei.
Sempre o político, pensou Woodward: Magruder não podia
enfrentá-lo, por isso jogava a culpa em Bernstein que estava
ausente. Woodward esclareceu que três visitas altas horas da
noite não era sujeira nenhuma, fora uma necessidade gerada
pela falta de disposição de Magruder e dúzias de outras
pessoas de responderem perguntas sobre o Watergate.
Magruder girou nos calcanhares para se afastar, depois olhou
para trás, para Woodward.
— Porque não é da sua conta — disse ele, resumindo
assim todo o ponto de vista do CRP.
Silbert submeteu Magruder a 33 minutos de interrogatório
dócil e respeitoso. Magruder testemunhou que, como
principal assistente de John Mitchell, mantinha-se tão
ocupado supervisionando o trabalho de 25 chefes de divisão
de campanha e 250 funcionários de tempo integral, gastando
de US$30 a US$35 milhões, que simplesmente não podia
dedicar toda a sua atenção a Gordon Liddy. Magruder disse
que nem sequer se dava bem com Liddy.
O estilo de administrar de Liddy era diferente do seu. Disse-
o como se uma divergência de estilos fosse a coisa mais
grave que pudesse acontecer a duas pessoas, como se Liddy
o tivesse ameaçado de morte. Liddy balançava-se na cadeira,
para frente e para trás, enquanto Magruder prestava seu
depoimento.
Hugh Sloan, ex-tesoureiro da campanha de Nixon, entrou
nervoso na sala do tribunal e foi para o banco das
testemunhas. Parecia ainda mais magro.
— Ele está pele e ossos — declarou sua mãe a um repórter
do New York Times.
O interrogatório de Silbert foi superficial, frio e distante.
Sloan declarou que pagara US$119.000,00 em dinheiro a
Liddy. Silbert não perguntou de quem Sloan recebera ordens
para desembolsar o dinheiro.
Quando Silbert deu por encerrada sua inquirição, o juiz
Sirica dispensou o corpo de jurados, e depois fez 41
perguntas a Sloan. A uma delas, Sloan respondeu que se
preocupara com os vultosos pagamentos a Liddy. Por isso,
consultara Maurice Stans, que por sua vez verificara os
desembolsos com John Mitchell, o que aprovara a entrega do
dinheiro a Liddy.
— O senhor verificou com quem? — Sirica perguntou.
Sloan repetiu sua resposta.
Antes de completar seu interrogatório, o juiz Sirica
esclareceu que não acreditava no depoimento de Sloan de
que entregara tanto dinheiro sem perguntar a que se
destinava. Surpreso com a aparente ingenuidade de Sloan,
Sirica perguntou:
— O senhor tem diploma universitário, não tem*?
Durante a exposição final de Silbert, Liddy continuou
balançando-se lentamente na cadeira, um sorriso no rosto,
enquanto o promotor o acusava de ser o "Sr. Chefão" do
Watergate — o ex-agente do FBI, o ex-promotor que tinha
feito carreira no jogo de polícia-ladrão. Desta vez, o polícia
virara ladrão. Silbert fez uma pausa, obviamente gozando o
som de suas próprias palavras.
Semanas mais tarde, durante uma audiência complementar,
Sirica declarou abertamente que não tinha acreditado que o
depoimento de Sloan fosse verdadeiro. No entanto,
escolhera a pessoa errada. Sloan íoi o único, dentre as
testemunhas do CRP, a cooperar plenamente com o in-
quérito. Sirica não fizera uma única pergunta a Magruder ou
a Bart Porter, o diretor de programação do CRP. Ambos
confessariam, depois, ter cometido perjúrio.
Liddy acenou rápida e animadamente para os jurados,
exatamente como fizera no primeiro dia de julgamento.
O júri não levou 90 minutos para considerar Liddy e
McCord culpados de todas as acusações. Liddy permaneceu
impassível, os braços desafiadoramente cruzados, enquanto
o escrivão lia o veredicto do júri, repetindo a palavra "cul-
pado" seis vezes. McCord manteve uma atitude estóica
enquanto a mesma palavra era pronunciada oito vezes para
ele, uma para cada acusação. Sirica ordenou a prisão de
ambos, sem direito a fiança. Antes de ser levado para fora do
tribunal, Liddy abraçou seu advogado Peter Maroulis,
calorosamente, deu-lhe uma palmadinha afetuosa nas costas,
e acenou pela última vez aos espectadores e à imprensa antes
de ser levado.
Bernstein e VVoodward redigiram uma longa análise
resumindo o julgamento. Título: "O segredo continua: Quem
contratava os espiões e por quê?". Observaram çue o
julgamento de 16 dias foi marcado por perguntas que não
chegaram a ser formuladas, respostas que não foram
proferidas, testemunhas que não foram chamadas a depor, e
lapsos de memória por parte das que foram arroladas.
Os repórteres estavam convencidos de que a promotoria não
se interessara pelo caso. Mais provável era que tivesse
ouvido mentiras, que fosse vítima de sutis influências
exercidas pela Casa Branca e pelo Departamento de Justiça. E
acima de tudo, não tinham conseguido entender as
manobras do CRP e da Casa Branca, nem o estilo dos
homens do Presidente.
Três dias depois do veredicto, o juiz Sirica convocou uma
audiência em sua corte e determinou uma fiança de US$
100.000,00 para Liddy e outro tanto para McCord. Criticou
Silbert severamente.
— Não fiquei satisfeito e ainda não estou satisfeito. Não
acredito que todos os fatos pertinentes, aqueles que
poderiam ser úteis — eu disse, que poderiam ser úteis —
tenham sido de fato apresentados perante o júri.
Em defesa de sua própria conduta, disse:
— Não creio que devêssemos nos comportar como
simplórios. Em outras palavras: tenho sérias dúvidas de que o
Sr. Sloan nos tenha dito toda a verdade sobre o caso. Digo-o
agora, como já havia dito durante o julgamento. Tenho a
impressão de que ninguém — nem a acusação, nem a defesa
— fez quaisquer perguntas ao Sr. Sloan. Eu tinha o direito de
interrogá-lo para certificar-me de que todos os fatos viessem
à tona. Todos sabem que haverá uma investigação do
Congresso sobre este caso. Sinceramente espero, não
somente como juiz mas também como cidadão deste grande
país, como um dos milhões de americanos que procuram
determinadas respostas, espero que a Comissão do Senado
receba do Congresso, através de resolução suficientemente
plena, poderes bastantes para tentar chegar ao fundo dos
acontecimentos que dizem respeito a este caso. É o que
espero. É tudo o que tenho a dizer.
CAPÍTULO 12
Woodward precisava agora dar o sinal a Deep Throat para
uni encontro. Pouco depois das eleições, tinha se mudado de
seu eficaz e acanhado apartamento para um outro, de dois
quartos, a apenas duas quadras do Posi. Avisara a Deep
Throat durante sua última reunião que na nova casa não
havia sacada onde pudesse colocar o vaso de plantas com a
bandeirinha vermelha. H, pior ainda, os novos vizinhos lhe
haviam contado que os jornais volta e meia desapareciam de
suas portas. Woodward só tinha ficado com o apartamento
depois de inspecionar as vantagens menos óbvias do prédio:
escada de sen iço nos fundos, saídas de emergência em caso
de incêndio e peitoris nas janelas. Um novo sistema de sinais
foi combinado, ao fim daquele infeliz último encontro em
que falaram de Haldeman. Era um sistema unilateral de
comunicação, a ser inaugurado por Woodward que colocaria
sua lata amarela de lixo de boca para baixo na saída de
incêndio.
O método não chegara sequer a ser experimentado e sérias
dificuldades surgiram. Os vizinhos do andar superior
gostavam de dançar — freqüentemente entre uma e quatro
da madrugada. Woodward bateu no teto com um cabo de
vassoura e pediu-lhes que ao menos considerassem a
possibilidade de dançarem descalços, mas isto só serviu para
animar ainda mais os dançarinos. Woodward não era
supersticioso, mas acreditava que havia ciclos negativos na
vida das pessoas, aos quais era preciso enfrentar com
coragem. A sua maré baixa começara com o caso Haldeman.
As frustrações foram se acumulando em novembro e
dezembro. Melhor seria mudar-se do que continuar
provocando a sorte. E, deste modo. a única vez em que se
utilizou do expediente da lata de lixo foi para avisar a Deep
Throat que estava novamente de mudança. Deep Throat
manteve-se pouco comunicativo durante o breve encontro,
aconselhando-o a agüentar as pontas e esperar para ver como
evoluía o julgamento do caso Watergate.
Woodward encontrou um novo apartamento no último
andar de um edifício, com todo o luxo de fórmica-e-
parquete. na zona sudoeste de Washington, perto do rio
Potomac. Arranjou um novo vaso de plantas e voltou à ati-
vidade.
Reinaugurou o sistema a 24 de janeiro, depois de várias
noites deliciosas gozando do silêncio de suas novas
acomodações. Lembrando-se das recomendações da Sra.
Graham quanto a ser vigiado, e levando em conta a
crescente apreensão de Deep Throat, passou pela entrada do
subsolo, atravessou um pátio interno e pulou um muro que
dava para uma rua lateral. Esperou quase meia hora até que
aparecesse um táxi e, quando desceu a uns 800m da ga-
ragem, o motorista não tinha troco para a sua nota de
US$10,00. Irritado, disse a ele que ficasse com a nota.
Deep Throat estava esperando. Parecia cansado, mas sorriu.
— Qual é o problema? — perguntou em tom de
brincadeira, puxando uma tragada do cigarro. Por uma vez
ao menos — pensou Woodward como se rezasse — tomara
que Deep Throat diga o que realmente está acontecendo;
tudo, sem que eu precise fazer perguntas, sem confronto de
forças, um relatório completo. Os repórteres tinham
explorado as razões das fragmentadas informações fornecidas
por Deep Throat. Arquitetaram várias hipóteses. Se Deep
Throat contasse tudo o que sabia de uma só vez, um bom
"Encanador" poderia encontrar sua pista. Fazendo com que
os repórteres fossem a outras fontes para preencher os claros
nos dados que transmitia, diminuía seus próprios riscos.
Talvez. Era igualmente possível que achasse que o efeito de
uma ou duas grandes reportagens, não importa quão
devastadoras, pudesse ser neutralizado pela Casa Branca. Ou,
ainda, que elevando as apostas pouco a pouco, tornasse o
jogo mais interessante. A tendência dos repórteres era a de
duvidar que alguém na posição de Deep Throat pudesse ser
tão cavalheiro quanto aos assuntos que diziam respeito a
Nixon ou à Presidência. Mais provavelmente, pensavam,
Deep Throat estava tentando proteger o poder, procurando
uma mudança de rumo antes que tudo estivesse perdido.
Sempre que Woodward tocava no assunto, Deep Throat
respondia:
— Tenho que agir à minha própria maneira.
Naquela noite, o quadro habitual repetiu-se. Limitar-se-ia a
responder a informações novas. Não seria arrastado a uma
caça às bruxas quanto aos "Encanadores", às confissões de
culpa e às charadas de Z.
Com medo de sair da garagem de mãos vazias. Woodward
virou a conversa para o assunto sobre o qual ele e Bernstein
estavam preparando uma reportagem: Mitchell e Colson.
Passou rapidamente em revista as séries de incidentes
circunstanciais que pareciam trazer os dois homens para
dentro do círculo da conspiração.
Deep Throat pareceu impressionado com o trabalho de
pesquisa desenvolvido pela dupla. Inesperadamente, foi até a
frente de um dos carros e, empertigando-se. colocou
majestosamente as mãos enluvadas na capota do automóvel
como se estivesse em um púlpito.
— Desta tribuna, estou pronto a denunciar esse tipo de
pergunta sobre o gentil Colson e o nobre Mitchell, como
sendo boato, insinuação, calúnia, trabalho de imprensa
marrom. As perguntas em si são fabricadas, trabalho de
ficção e um apanhado de absurdos que se originam de fontes
mal-informadas.
Apesar de muito cansado, Woodward desandou a rir sem
poder parar. Deep Throat "Ziegler" continuou a denúncia:
— Aquele diminuto e fechado círculo de Georgetown,
aqueles autono-meados guardiães da desconfiança pública,
que procuram a destruição da vontade do povo...
Um ruído interrompeu a brincadeira. Deep Throat
mergulhou atrás de um carro. Woodward subiu a rampa
cautelosamente. Era um convincente bêbado que se apoiava
contra a parede, tremendo. Woodward certificou-se de que
o velho era realmente o que parecia ser, deu-lhe uma nota
de US$ 10,00 e recomendou que procurasse um quarto de
hotel. Depois tornou a descer a rampa.
O incidente deixara Deep Throat desalentado.
— Colson e Mitchell estavam por trás da operação
Watergate — disse depressa. — Todo mundo no FBI já está
convencido disto, inclusive Gray (L. Patrick Gray, diretor
em exercício do FBI). O papel de Colson era ativo. A posição
de Mitchell, de natureza mais "amoral", era passiva:
concordando, mas sem tomar parte na esquematização. Não
há nada em que se apoiar, a não ser como fraquíssima prova
circunstancial. Por outro lado, não resta a menor dúvida.
"Distanciamento" é a palavra-chave para entender o porquê
da falta de provas.
Delineou quatro fitores que poderiam levar à "inevitável
conclusão" de que Mitchell e Colson faziam parte dos
conspiradores.
— Primeiro: a personalidade e os antecedentes de ambos.
Este meio de vida não lhes era estranho. Segundo: a
existência de reuniões e telefonemas nos momentos cruciais,
e o fato de Colson e Mitchell insistirem em que não tinham
nada a ver com o caso. Terceiro: o rígido controle exercido
sobre o dinheiro, principalmente por Mitchell, que chegava
ao ponto de receber detalhes sobre os gastos com lápis e
borrachas. Quarto: o fato indiscutível de os sete réus
acreditarem que não serão abandonados à própria sorte. Isto
só poderia ter sido dito de maneira convincente por alguém
do mais alto escalão. E, convenhamos, foi dito de modo
convincente.
Em que medida era profunda a sua impressão de que Colson
e Mitchell estavam implicados?
— Todos concordam — respondeu Deep Throat. — A
Casa Branca sabe disso, os chefes do FBI também. —
Esfregou o pescoço e levou a palma da mão até o queixo
onde já despontava a barba por fazer. — Implicados até aqui
— e levantou ainda mais a mão. — Mas faltam as provas. Se
o FBI não consegui-las, duvido que o Post consiga. O fato
que indica claramente a presença da mão de Mitchell-Colson
é a contratação de Liddy e Hunt. Eis aí a chave. Mitchell e
Colson eram seus respectivos padrinhos. E se você pesquisar
com cuidado vai verificar que as reputações de Liddy e Hunt
estão abaixo da crítica. No zero absoluto. Contratar esses dois
aí foi uma imoralidade. Receberam exatamente o que
queriam. Todo mundo sabia que Liddy queria censurar os
telefones do New York Times. E nem todo mundo riu da
idéia. Mitchell, entre outros, a aprovou.
Deep Throat ficou pensativo.
— Liddy e McCord deviam se dar conta de que ninguém
pode ajudá-los agora, porque seria o óbvio ululante.
Qualquer investigação do Congresso vai deparar com um
obstáculo enorme, a menos que consigam alguém de dentro
que dê o serviço. Sem isso, você encontra apenas um monte
de dinheiro e planos de golpes sujos, mas nenhum
depoimento pessoal ou descrição dos acontecimentos na
esfera mais alta.
Disse ainda que a Casa Branca já estudava planos para evitar
que a investigação do Congresso tivesse qualquer sucesso.
Parte da estratégia envolvia o requerimento do privilégio de
imunidade parlamentar, o que impediria os investigadores de
exigir judicialmente a entrega de arquivos e registros da Casa
Branca e do Departamento de Justiça.
E a manipulação da primeira investigação?
— As tentativas de separar o caso Watergate das
operações de sabotagem-espionagem é pura safadeza —
comentou Deep Throat. — São uma e a mesma coisa. Se as
outras pistas (como Segretti) tivessem sido seguidas, eles
iriam encontrar uma série de atos ilegais.
Woodward perguntou se Deep Throat achava que os
repórteres tinham dados suficientes para uma reportagem
sobre Mitchell e Colson.
— Quem deve decidir isso é o jornal, não eu — disse
Deep Throat. — Mas se essa reportagem tem que ser feita,
que seja logo. Quanto mais tempo vocês esperarem, mais
confiantes eles ficarão de que podem atacar sem medo.
O resultado desse encontro com Deep Throat foi a mais séria
discussão entre Woodward e Bernstein desde que haviam
começado a trabalhar juntos, sete meses atrás. O pivô da
briga era saber se poderiam redigir uma reportagem
convincente e bem documentada sobre as atividades de
Mitchell e Colson. Woodward alinhavou o trabalho
baseando-se no seguinte parágrafo:
"Investigadores federais concluíram que o antigo Procurador
Geral, John N. Mitchell, e Charles Colson, conselheiro
extraordinário do Presidente, tinham ambos total
conhecimento direto da operação de espionagem política
realizada pelos réus do caso Watergate, segundo fomos
informados por fonte fidedigna''.
Bernstein refez a reportagem três vezes, dando virtualmente
todos os detalhes que tinham colecionado durante sete
meses sobre Mitchell, Colson e a natureza da investigação
federal. O foco de ataque era o fato de o ex-Procurador Geral
e o conselheiro do Presidente haverem escapado à acusação
de conspiração pela maneira eficaz como se acobertavam, e
porque a investigação fora conduzida de modo a limitar-se
aos termos mais estritos.
Sempre que Bernstein acabava uma nova versão, Woodward
comentava que achava prematuro publicá-la até que
obtivessem provas mais sólidas. Bernstein argumentou que a
história era legítima, que o jornal não precisava oferecer
provas concretas, mas que, neste caso particular, poderia
divulgar as conclusões dos investigadores até chegarem a L.
Patrick Gray.
A discussão tornou-se violenta; de vez em quando, os dois
iam à sala de serviços automáticos (balas, cigarros, café) e
berravam um para o outro. Bernstein acusou Woodward de
estar fazendo o jogo da Casa Branca ao reter a reportagem.
Woodward retribuiu a acusação: Bernstein queria publicar
uma reportagem cujo resultado só poderia ser um contra-
ataque devastador por parte da Casa Branca. Afinal, a velha
regra foi obedecida: se qualquer um dos dois fizesse
objeções, a matéria não seria publicada.
Pouco depois de seu encontro com Deep Throat, Woodward
recebeu um telefonema dos escritórios do senador Sam J.
Ervin, representante da Carolina do Norte, um erudito
constitucionalista de 76 anos de idade, cujo poder no
Capitólio era avassalador. Um de seus assistentes informou
ao repórter que o senador queria conversar sobre o
Watergate.
No dia 11 de janeiro, Ervin tinha acedido a solicitação do
líder da Maioria no Senado para presidir a uma meticulosa
investigação do Congresso sobre o Watergate e a campanha
presidencial de 1972. O acordo parecia indicar que um
esquema de investigação seria montado no congresso, além
do inquérito preliminar que a Subcomissão Judicial de
Prática Administrativa do senador Kennedy vinha realizando
desde outubro de 1972.
A menos que uma subcomissão do Congresso exercesse
expeditamente seu poder de exigir a entrega de arquivos,
registros e documentos em áreas aparentemente ignoradas
pelos investigadores, através de notificaçãojudicial, dissera
Kennedy a Bernstein em entrevista concedida logo apôs a
publicação das reportagens sobre Segretti, a oportunidade de
se realizar uma investigação verdadeiramente lúcida "entraria
por um cano deslumbrante". Kennedy decidira levar a cabo
o inquérito. O senador confessou saber muito pouco, se é
que sabia algo, além do que tinha lido nos jornais.
— Mas conheço o tipo de gente que rodeia Nixon. São
todos uns criminosos.
A Casa Branca andava fazendo circular o boato de que a
intenção de Kennedy era ajustar velhas contas e lançar as
bases para a sua candidatura em 1976. Kennedy, o rosto
bronzeado, jogou para trás com um movimento da cabeça o
cabelo que cobria levemente o colarinho. A investigação
seria uma "ação de retenção". O inquérito preliminar seria
conduzido a portas fechadas, pelas equipes tanto da maioria
como da minoria. Isto evitaria insinuações de que se tratava
de uma caça às bruxas ou de uma Cruzada Kennedy. Não lhe
cabia mérito algum, Kennedy afirmou; a Casa Branca tentaria
o que pudesse para sujar seu nome. Chappaquidick seria
lembrado sem interrupção. Tinha certeza de que os homens
do Presidente possuíam um novo estoque de informações
sobre ele.
— Tudo conversa fiada, realmente — disse meio
incomodado. — Não apareceram com nada original.
Quando a subcomissão de Kennedy iniciou oficialmente seus
trabalhos, os repórteres tentaram manter-se em constante
contato com os senadores e suas equipes. Mas o barco de
Kennedy não fez água, nada transpirou. A dupla ficou no
escuro.
Woodward esperava sair-se melhor com o senador Ervin,
mas o interesse deste era ouvir o que Woodward e Bernstein
sabiam-
A caminho da sala de Ervin, Woodward notou uma folha
datilografada sobre a mesa de uma secretária. Era a lista dos
compromissos do dia do senador. Sy Hersch, do New York
Times, lá estivera horas antes. Woodward imaginou como
teria Hersch enfrentado a situação. Como se justificaria um
repórter ao passar informações a uma comissão de inquérito?
Ou ao aconselhar um senador? Se um jornalista tivesse
certeza de que não poderia usar uma determinada
informação valiosa, seria lícito fazer uma troca?
Ele e Bernstein já estavam quase sem fôlego. Será que seus
conhecimentos poderiam ajudar outros na busca?
O senador estava sentado, atrás de uma pesada mesa de
madeira no centro da sala; era uma figura desajeitada,
amarrotada, com um rosto de presunto gordo. Suas maneiras
levavam a crer que se sentiria muito mais à vontade
escarrapachado numa cadeira de balanço na varanda de sua
casa, do que naquela cadeira giratória bege, tamanho padrão,
que mal comportava seu corpanzil. Pilhas de papel
espalhavam-se caóticamente pela mesa. Reclinou-se na
cadeira, começou a falar, agitando a cabeça com gestos
bruscos, mexendo os maxilares, franzindo as grossas
sobrancelhas, como uma imensa ave de rapina que quisesse
alçar vôo sem espantar sua presa.
O momento da verdade chegou, depois de alguns minutos
de gentis banalidades.
— Ficaríamos profundamente agradecidos por qualquer
pista ou fonte de informações que estivesse disposto a nos
ceder, e o mais estrito segredo seria mantido. Dou a minha
palavra. Agradeceríamos muito o auxílio que pudesse
prestar-nos.
Woodward ponderou que as informações de Deep Throat e
de Z e algumas outras pistas e miudezas talvez ajudassem na
investigação, quem sabe até mesmo os colocassem na trilha
certa. Mas não podia fornecê-las. O melhor que podia fazer
era sugerir algumas linhas de pesquisa.
Informou ao senador que, de maneira alguma, poderia
identificar suas fontes. Havia uma pessoa — não
necessariamente um informante — que lhe garantira estar
disposta a cooperar com qualquer investigação honesta:
Hugh Sloan. Um membro da equipe do senador anotou o
nome. As reportagens da dupla, continuou Woodward,
continham muitos nomes e episódios que mereciam
averiguação mais profunda. A chave, naturalmente, era a
"caixinha" da campanha eleitoral, e devia ser investigada a
fundo. Tudo indicava que o arrombamento do Watergate e
os ardis políticos das primárias de 1972 eram apenas parte de
uma maciça operação secreta liderada por Haldeman; a
menos que um dos sete réus indiciados se resolvesse a
cooperar, nada que sequer lembrasse a verdadeira história
jamais viria à tona; as próprias reportagens de Woodward e
Bernstein não se haviam aprofundado; não conseguiam
entender completamente o que tinha acontecido e o que
ainda estava acontecendo, mas a enormidade dos atos dos
homens do Presidente era algo de aterrador.
— Se descobrirmos o papel de Magruder, já nos daremos
por satisfeitos — disse o senador, desanimado. Ervin era
especialista no assunto dos vandalismos cometidos pelo
governo contra os direitos do povo, especialmente o direito
de preservação da intimidade.
O senador começou a falar em separação de poderes, na sua
crença de que um determinado artigo de uma determinada
cláusula da Constituição devia ser interpretado literalmente
no que dizia respeito aos poderes do Congresso. Era assim,
disse ele, que tencionava investigar o Watergate: através da
obtenção de uma resolução em que o Congresso conferisse a
uma seleta comissão os mais amplos poderes possíveis para
notificarem judicialmente as pessoas e exigirem a entrega de
documentos que julgassem necessários, no Poder Executivo
e em qualquer outra parte.
Quem, por exemplo? perguntou Woodward.
— Bem, acho que a todos os que foram mencionados nas
reportagens de sua autoria e do Sr. Bernstein, deve ser dada a
oportunidade de se apresentarem e se defenderem —
explicou Ervin. — E, na hipótese de se recusarem,
entraremos com uma notificação para garantir que tenham a
chance de limpar seu nome.
Mesmo a CIA?
Com os cotovelos descansando nos braços da poltrona, Ervin
fez um grande sinal afirmativo.
E a Casa Branca? Haldeman? Seria um fato antológico se
conseguissem forçar o chefe do staff da Casa Branca a
apresentar-se perante o Congresso a quem ele devotava
tanto desprezo.
— O Sr. Haldeman ou o Sr. Sicrano — Ervin afirmou. —
Qualquer um, exceto o Presidente.
Falava sério. Woodward sabia que a Casa Branca igualmente
falava sério. O primeiro obstáculo seria fazer a resolução
passar pelo Congresso. Ervin achava possível. Woodward
perguntou se poderia reportar que o senador pretendia
notificar alguns dos altos assessores do Presidente.
— Contanto que não mencione nomes e diga apenas
minha intenção, não tenho objeções. Só não faça uma
citação literal*.
Woodward escreveu uma reportagem esboçando o propósito
de Ervin de convocar os homens do Presidente e desafiar a
objeção de imunidade parlamentar. As linhas de batalha
começavam a se formar.
A 5 de fevereiro, o senador Ervin apresentou ao Congresso
uma resolução que aprovava o orçamento de US$
500.000,00 destinado ao funcionamento de uma Comissão
Especial do Senado para as Atividades da Campanha
Presidencial, com a finalidade de Investigar o arrombamento
do edifício Watergate e acusações correlatas. A poderosa
Comissão de Política Democrática do Senado havia dado seu
apoio incondicional à resolução e o único obstáculo agora
seria uma inesperada manobra republicana-Casa Branca. No
dia da votação, 7 de fevereiro, Woodward chegou ao
Capitólio às 8h30min da manhã para ver se na via alguma
coisa no ar. Na cantina do Senado, bateu um papo com o
assistente administrativo de um senador republicano.
Qual vai ser a estratégia da Casa Branca? perguntou
Woodward.
— O que o faz pensar que existe uma estratégia? Não sei
de onde partiu essa idéia — disse ele —, mas vai haver uma
emenda estendendo a resolução, de forma a que a
investigação possa abranger também as campanhas de 1964 e
68.
Fazia sentido. "Política, como sempre", e não seria a primeira
vez que a Casa Branca dava a mesma resposta.
— Estão fazendo o máximo — disse um outro assistente.
— Chegou ordem para tentarem até o fim.
Woodward telefonou para a Casa Branca, de uma cabina
instalada na galeria da imprensa.
— Claro que estamos — foi a resposta de sua fonte. —
Esses imbecis do Capitólio deviam ser capazes de tratar disso
sozinhos, mas sem nossa ajuda não encontram sequer o
caminho para a privada. Haldeman já está com a metade do
staff aqui esquentando os motores. É a ordem do dia.
Devemos todos telefonar pra todo mundo que conhecemos
no Senado.
Hugh Scott, da Pensilvânia, líder da minoria, levantou-se
para declarar que Ervin "apresentara a mais ampla resolução
de que tenho conhecimento". Qualificou a outorga de
poderes como "louca, inacreditável", e disse que uma tal
resolução poderia levar a uma "chantagem" praticada pelos
membros da equipe da Comissão do Senado para o caso
Watergate. "Houve evidência maciça de interceptações
realizadas contra os republicanos" na campanha de 1968,
acusou Scott, sem, no entanto, citar um fato concreto. John
Tower, do Texas, e Barry Goldwater, do Arizona, juntaram-
se a ele, mas nenhum foi capaz de apresentar um único
sólido exemplo ou uma acusação específica.
Os democratas fizeram cair todas as emendas à resolução de
Ervin propostas pela minoria. Quando se fez a chamada para
a votação final, os republicanos uniram-se aos colegas
democratas e a resolução passou por unanimidade: 77 a 0. Os
repórteres veteranos do Senado disseram a Woodward que a
unanimidade significava apenas o reconhecimento, pelos
republicanos, do poder da maioria democrática. Woodward
estava indeciso. Mas os homens eram astutos intérpretes dos
ventos políticos que sopravam sobre o Senado.
Woodward sentiu-se radiante. O sistema começava a dar
sinais de que funcionava. Ao deixar o Capitólio, perguntou a
um senador republicano quem era o homem que ficara perto
da tribuna durante aqueles momentos cruciais em que as
emendas estavam em discussão.
— Ah — disse o senador. — Aquele era o advogado do
Departamento de Justiça, que a Casa Branca enviou para
redigir a minuta das emendas.
O julgamento, as declarações de Z e o último encontro com
Deep Throat remetiam Woodward e Bernstein de volta ao
ponto de partida: Liddy e Hunt. Se pudessem descobrir qual
o trabalho desses dois na Casa Branca e o que exatamente
exigia a missão dos "Encanadores", talvez chegassem a
entender a disposição de Liddy e Hunt de serem
encarcerados.
Vários dias depois da votação da resolução pelo Senado,
Woodward foi ao Hotel Hay-Adams para almoçar com um
amigo de Howard Hunt. Encontraram-se no saguão e se
dirigiram ao salão de refeições. Woodward vinha tentando
há meses convidar o homem para almoçar. Agora que
conseguira, não queria ultrapassar os limites. Como
informante, o valor do homem era incalculável.
Woodward pediu uma cerveja e um hamburger.
Os personagens dos livros de Hunt estavam sempre pedindo
pratos dos quais Woodward jamais ouvira falar, e sempre
ensinavam ao chef como prepará-los. O amigo de Hunt, que
parecia compartilhar desses gostos de gourmet, perguntou ao
garçom como se preparavam as omeletes no Hotel Hay-
Adams. Woodward resistiu ao impulso de informar: "Com
ovos". O garçom foi verificar na cozinha e a resposta que
trouxe não foi satisfatória. O homem encomendou guisado
de cordeiro e brócolis com molho hollandaise — se es-
tivessem ambos frescos.
Em seguida, prosseguiu dizendo que achava Howard Hunt
ridículo.
— Certa vez, durante as prévias na Flórida, Howard
mandou imprimir volantes dizendo que o prefeito (John V.)
Lindsay de Nova Iorque estava fazendo um comício e que
haveria distribuição grátis de cerveja. Howard distribuiu os
volantes nos bairros de negros e, é claro, não havia nem
comício nem cerveja. Então, os negros viriam para beber
cerveja e iriam embora detestando Lindsay. Howard achava
que esta era a maior invenção do mundo desde o xadrez
pelos chineses.
O guisado de cordeiro foi servido e aprovado.
— Agora sabemos como era de verdade o esquadrão
clandestino de Hunt. Uma corja de amadores. Pois bem, ele
me contou ter formado um time realmente da pesada, que
podia operar interceptadores eletrônicos; disse que podiam
plantar transmissores indetectáveis, e que se ativavam ao
som da voz, com alcance de 100 metros. Você sabe, os
transmissores do Watergate eram unidades a cristal, que
funcionavam a pilha; time da pesada é a vovozinha. Este
molho hollandaise não está fresco. — Jogou colérico o garfo
sobre a mesa e gesticulou para o garçom.
— Desde 17 de junho, Howard sempre diz "eles" quando se
refere à Casa Branca ou ao Watergate. "Eles me mandaram
sair da cidade"; "Eles querem este projeto"; "Eles me
mandaram voltar"; etc... Howard aceitava tudo. Mas
Dorothy (a falecida esposa de Hunt) ficava furiosa e estava
sempre dizendo: "Eles mandaram que fizesse o que fez e é
errado que agora o acusem".
Quais os projetos em que Hunt trabalhara para a Casa
Branca? perguntou Woodward.
— Fora o Watergate? Bem, certa vez referiu-se vagamente a
ter que ir até... onde era mesmo? para onde aquela mulher
do caso da ITT foi? Dita Beard, para onde é que ela foi?
— É isso, Denver. Howard foi a Denver. Fazia parte do
projeto da Casa Branca provar que o memorando da ITT era
forjado. Dita Beard estava internada num hospital lá de
Denver, e Howard foi lá falar com ela.
Que outros projetos?
— Não muito tempo depois de ter ido trabalhar para a
Casa Branca, Howard disse que Colson e mais outros tinham
grandes planos para tirar Ed Muskie do páreo e que também
ia trabalhar nesse projeto.
O amigo de Hunt começava a dar mostras de nervosismo.
Deu a entender que seria bom se conhecerem melhor antes
de falar mais abertamente.
E a pesquisa sobre Teddy Kennedy? perguntou Woodward.
Os repórteres já haviam escrito sobre o assunto em julho.
— Certo. Howard me contou que assim que foi trabalhar
para a Casa Branca, viajou para Massachusetts — na região de
Boston, creio — para visitar um homem que supostamente
sabia coisas de Kennedy. Não consigo me lembrar do nome
do sujeito: Howard foi até lá e parece que esse tal sujeito
sabia de algumas das aventuras sexuais de Kennedy. Howard
usou seu pseudônimo, Ed Warren, disto eu me lembro, e
gravou em fita e entrevista com o tal camarada.
O homem pediu um pudim de sobremesa, e quando
devolveu o cardápio ao garçom derrubou seu copo de água.
Olhou faiscando para o garçom, como se a culpa fosse dele, e
disse-lhe o que é que o Hay Adams podia fazer com o molho
hollandaise.
— Enquanto tomavam o café, estalou os dedos.
— Cliff DeMotte — disse ele. — Era este o nome do
sujeito que Howard foi ver em Boston. Trabalha para o
Governo federal, uma repartição qualquer. D-E-M-O-T-T-E.
De volta à redação, Woodward passou duas horas ao
telefone, tentando localizar Cliff DeMotte. Fez com que as
telefonistas de Boston checassem duas vezes os catálogos.
Começou, então, a telefonar para os chefes de pessoal das
repartições federais, até que uma mulher do Departamento
de Pessoal da Agência de Serviços Gerais encontrou: Cliffton
DeMotte, GS-12, designado para o centro de divisão de
construção da Marinha em Davisville, Rhode Island.
Woodward localizou DeMotte logo de manhã cedo no
trabalho. Como já supunha, o FBI tinha procurado DeMotte
depois de encontrar seu número nas contas telefônicas de
Hunt.
— O que vou dizer é confidencial — avisou DeMotte,
parecendo apreensivo. — Não devo falar com a imprensa.
Woodward explicou que já estava de posse de quase todas as
informações e pretendia apenas revisá-las, porque o FBI
embananava tudo com muita freqüência.
— Na ocasião, eu não sabia que se tratava de Hunt —
informou DeMotte. — Ele usou o nome de Ed Warren. Eu
não soube que era Hunt até que o FBI veio e me mostrou as
fotografias e lá estava Ed Warren, só que eles disseram que
era Hunt. — DeMotte, 41 anos de idade, tinha sido diretor
de relações públicas do Yatchsman Motor Inn em Hyannis
Port, 1960, quando o candidato John Kennedy usara o hotel
como sede de equipe e de imprensa para a campanha
presidencial.
— Hunt queria saber se eu tinha ouvido histórias de
aventuras dos irmãos Kennedy com mulheres... Se eu tinha
ouvido coisas escandalosas. Queria que eu me concentrasse
em Chappaquidick. Deu-me um livro, pediu-me que eu o
lesse, para ver se ajudava minha memória. Não adiantou. —
O livro era. A ponte do Chappaquidick, de Jack Olsen, o
mesmo livro que Hunt requisitara da biblioteca da Casa
Branca. Hunt visitara DeMotte em julho de 1971, uma ou
duas semanas depois de ter entrado para a Casa Branca.
DeMotte tinha fornecido a Hunt informações, "estritamente
por ouvir dizer", sobre as farras dos membros da equipe de
Kennedy.
— Coisa antiga, dos idos de 1956 — explicou DeMotte. —
(John) Kennedy deu algumas festas "quentes" e usou carros
da polícia estadual para transportar os convidados. Uma vez
mandaram um carro de polícia comprar um novo estoque de
bebida.
— Tentei persuadir Hunt de que era perda de tempo... Ele
me respondeu que representava um determinado grupo
sobre o qual não podia falar. Disse que era escritor. Pensei
que fosse qualquer coisa assim como James Bond... Ceamos
juntos e tomamos um drinque num hotel... Pareceu-me que
perseguia algum objetivo... por dedicação ao país, algum
grupo... ou sei lá, por interesse próprio... Passei uma noite
agitada e tentei encontrá-lo de manhã para tomarmos café
juntos, mas Hunt já tinha ido embora.
As edições do Post de 10 de fevereiro divulgaram uma
reportagem que dizia ter Howard Hunt pesquisado a vida
íntima de Edward Kennedy durante o período em que a
Casa Branca mais temia a possibilidade de sua candidatura.
Desta vez, Bradlee não hesitou em pôr a matéria na primeira
página.
A narrativa de DeMotte era um pequeno degrau na escalada
para determinar o que Hunt e Liddy haviam feito na Casa
Branca. A dupla de repórteres estava mais interessada na
viagem de Hunt a Denver para visitar Dita Beard. Era ela a
autora do célebre memorando que estabelecia a ligação entre
a promessa da ITT de doar várias centenas de milhares de
dólares para a campanha republicana em troca de um
amaciado acordo antitruste.
Dias depois do almoço com o amigo de Hunt, Woodward foi
até o Departamento de Justiça para um cafezinho e um bate-
papo sobre o Watergate. Passada uma hora, Woodward
perguntou sobre a viagem de Hunt a Denver. O terreno já
estava preparado. O jornal Newsday, de Long Island, acabara
de noticiar que Chuck Colson mandara Hunt visitar a Sra.
Beard num hospital de Denver quando ia no auge o
escândalo da ITT em 1972. O Newsday não tinha
explicações para a viagem.
O oficial do Departamento de Justiça atravessou a sala para ir
até o arquivo de aço de onde tirou uma pasta. Abriu-a e
começou a ler. Sob juramento, Colson confessara à
promotoria do caso Watergate que enviara Hunt a Denver,
pouco antes de 17 de março de 1972, com o propósito de
avistar-se com Dita Beard. O funcionário lia o texto do
depoimento de Colson, prestado em audiência privada aos
promotores — para poupar ao conselheiro do Presidente o
embaraço de comparecer perante o grande júri, explicou.
Woodward tentou disfarçar sua surpresa. Felizmente, o
funcionário estava entretido com outro trecho do
depoimento. Levantou humildemente os olhos para
Woodward:
— Jamais perguntaram a Colson a razão de ter mandado
Hunt visitá-la. Ele disse que o caso nada tinha a ver com o
Watergate, e o assunto foi posto de lado... Hunt, no entanto,
usou, quando foi visitá-la, o mesmo pseudônimo que mais
tarde usaria no Watergate: Edward Hamilton. E você não vai
acreditar... — o funcionário deu uma risadinha divertida —,
ele usava uma dessas perucas baratas que se compra em lojas
de departamentos. A peruca era cor de cenoura. Pelo jeito
era a mesma peruca encontrada no Hotel Watergate no dia
seguinte às prisões.
Naquela noite, na redação, Woodward analisou todos os
recortes sobre o caso ITT. Em 29 de fevereiro de 1972, Jack
Anderson publicou o memorando de Dita Beard, enviando
ondas de choque político para a Casa Branca. Nixon estava
em visita à China. No dia 17 de março, logo depois de
Colson ter despachado Hunt para Denver, a Sra. Beard. em
seu leito no Hospital Osteopático Rocky Mountain, em
Denver, fez um pronunciamento no qual negava a autoria do
memorando, chamando-o de "fraude" e "embuste". Sua
declaração foi o primeiro indício de que o memorando não
era genuíno, mas não havia explicação para o fato de ela ter
esperado quase três semanas para repudiá-lo, quando a
designação de Richard Kleindienst para Procurador Geral
começava a ser posta em dúvida. Anteriormente, a Sra.
Beard confirmara a Brit Hume, assistente de Anderson, ter
redigido o documento palavra por palavra.
Woodward encontrou três pessoas que colocaram o
desmentido da Sra. Beard sob um novo ângulo: um
funcionário da Casa Branca, um político republicano
profundamente ligado à Casa Branca e um executivo da
Agência
Intertel de investigadores particulares. Os três contaram
basicamente a mesma história:
Colson fora o coordenador da manobra conjunta Casa
Branca-ITT. De inicio, tanto a Administração presidencial
como a empresa tentaram dar à Sra. Beard a imagem de uma
alcoólatra demente, e procuraram desacreditar Jack
Anderson. A tentativa fracassou. A ITT contratou os
serviços da Intertel, que também servia à organização de
Howard Hughes, para procederem a uma minuciosa análise
técnica do memorando. A Intertel concluiu que o
memorando, muito provavelmente, fora escrito em uma
máquina do escritório da Sra. Beard no centro de
Washington, mas que seria quase impossível provar o fato.
Robert Bennett, representante dos interesses de Howard
Hughes em Washington, passou a informação a seu
empregado, Howard Hunt, que, por sua vez, a transmitiu a
Colson.
Era a velha estória do "distanciamento". A descoberta da
Intertel abrira caminho para que se declarasse que o
memorando era uma fraude. Colson, outro dos
empregadores de Hunt, mandou-o a Denver. Foi quando a
Sra. Beard divulgou seu comunicado ("Eu — e, de certo
modo, todo o governo americano — estamos sendo vítimas
de uma cruel fraude"). Suas palavras chegaram até a Casa
Branca de Hunt para Bennett, deste para Colson. Como a
brincadeira infantil do "telégrafo-sem-fio". Colson deu as
boas-novas a Hugh Scott que, naquele mesmo dia, leu — da
tribuna do Senado — o desmentido da Sra. Beard.
Havia ainda uma outra pessoa que talvez contasse mais
detalhes da história a Woodward. Mas a Sra. Beard
desaparecera. Woodward falou com seu advogado, que
prometeu transmitir as perguntas a ela. Poucas horas depois
o advogado ligou para Woodward explicando que a Sra.
Beard sofrera uma "recaída" da moléstia cardíaca que
ocasionara sua internação no hospital, no apogeu do caso
ITT. Woodward lembrou-se de que ela sofrera ainda outra
recaída, antes que o interrogatório dos senadores da
Comissão Judiciária do Senado se completasse, em 1972.
Pouco antes do telefonema do advogado, Woodward
conseguira localizar em Denver o filho da Sra. Beard, Robert,
de 24 anos. Woodward perguntou-lhe se conseguia lembrar-
se da visita de Hunt a sua mãe. Robert Beard respondeu que
um homem "misterioso", usando maquilagem e uma peruca
horrível, visitara sua mãe no hospital, pouco antes que ela
fizesse sua declaração.
— Pelas fotografias que vi, poderia ter sido Howard Hunt,
mas não posso jurar. O homem recusou-se a mostrar sua
identidade. Parecia estar por dentro do assunto e saber o que
ia acontecer em seguida... Tinha uma aparência sinistra,
usava de fato uma peruca ruiva, toda torta, como se a tivesse
colocado num carro escuro. Eu não reconheceria nem
minha própria mãe com um disfarce daqueles. — Beard
prometeu pedir a sua mãe que telefonasse para Woodward.
Se Robert tivera notícia de qualquer recaída, nada falou.
Pouco antes do fechamento da matéria do dia seguinte,
Woodward leu para Gerald Warren o texto de uma notícia
de duas colunas, na qual reanalisava o caso da Sra. Beard à
luz das novas informações. A reabertura da controvérsia da
ITT, tanto tempo depois de a Casa Branca ter dado o caso por
encerrado, deixou os homens do Presidente
excepcionalmente calados. Warren levou três horas para
responder: "Sem comentários". Colson encontrava-se na
Rússia, em missão comercial. No dia seguinte, o
correspondente do Post em Moscou, Robert G. Kaiser,
encontrou Colson e falou-lhe sobre a reportagem. Colson
sorriu e afastou-se dizendo: — Essa história é boa.
Se os repórteres pretendiam se aprofundar nas atividades de
Hunt e Liddy na Casa Branca, precisavam saber mais sobre
os "Encanadores". O primeiro passo era estudar Egil (Bud)
Krogh. Bernstein o encontrara uma vez, numa cerimônia de
inauguração. Fazia o seu "cooper" todas as manhãs ao redor
de uma das dependências da Casa Branca, num suéter, antes
de ir para o trabalho. Bernstein perguntou-lhe por que a
Administração não destinava verbas para a construção de
pista para bicicletas e caminhadas. Krogh deu uma simpática
resposta burocrática, referindo-se a "prioridades". Parecia um
homem muito agradável. Gentil, pensou Bernstein.
"Bonzinho" não chegava a descrevê-lo bem. Foi o que os
repórteres descobriram enquanto tentavam descobrir por
que alguém como Krogh se misturava a gente do tipo de
Hunt e Liddy. Egil Krogh era o "Sr. Pureza" da Casa Branca,
tão íntegro que seus amigos, de brincadeira, o apelidaram de
"Malvadeza Krogh". Fora membro da firma jurídica de
Ehrlichman em Seattle, depois trabalhara no Conselho do
Interior da Casa Branca e coordenara a batalha mundial
travada pela administração Nixon contra o tráfico de
entorpecentes. Aos 33 anos tornara-se o mais jovem
subsecretário do gabinete Nixon — nomeado em fevereiro
de 1973 para a Secretaria dos Transportes.
Woodward pediu uma ligação para o Capitólio, com o
propósito de descobrir se nos autos da sessão do Senado que
confirmara sua indicação haveria alguma pista. Não havia.
Mas um investigador do Congresso que trabalhara na sessão
deu a Woodward o nome de alguns amigos e conhecidos de
Krogh.
A dupla começou os telefonemas. Logo surgiu uma boa
chance.
— Bud comentou... que interceptações de informações
por órgãos de segurança nacional estavam sendo
encaminhadas a Hunt e Liddy — disseram a Woodward. O
amigo de Krogh não se lembrava de detalhes. Krogh
mencionara o fato pouco depois do indiciamento de Hunt e
Liddy.
Seguindo um catálogo telefônico da Casa Branca de 1972, os
repórteres começaram a telefonar às pessoas subordinadas a
Ehrlichman. Um membro do antigo e outro do atual staff da
Casa Branca forneceram versões idênticas do próximo elo da
corrente. David Young, ex-secretário de agenda do Dr.
Henry Kissinger e representante de Krogh junto aos
"Encanadores", havia regularmente enviado transcrições de
conversas interceptadas para Hunt e Liddy, em 1971 e 1972.
As duas fontes acreditavam que tanto os repórteres, como os
suspeitos de transmitirem a estes informações confidenciais
estavam com seus telefones sob censura.
Woodward telefonou para Kathleen Chenow, a ex-secretária
dos "Encanadores", e fez perguntas a respeito dos dados
interceptados e entregues a Hunt e Liddy.
— Não posso falar sobre o assunto — disse ela desta vez.
As atividades de interceptação — tanto as verdadeiras como
as supostas — da Administração Nixon tinham sido sempre
motivo de controvérsia. Com a política de "segurança
nacional" que empregava a censura clandestina adotada pela
Administração Nixon, política esta alcunhada de "Doutrina
Mitchell", os homens do Presidente adquiriram uma
autoridade sem precedentes no que dizia respeito a vigilância
eletrônica. Até que a Suprema Corte, em 19 de junho de
1972, declarasse ilícito este tipo de atividade — dois dias
após as prisões do Watergate —, o Departamento de Justiça
fizera uso irrestrito dos meios eletrônicos, sem autorização
judicial, para censurar todos aqueles suspeitos de atividades
"subversivas" internas. Radicais e defensores dos direitos
civis há muito insistiam que o termo "subversivo" não
passava de um eufemismo da Casa Branca usado contra
aqueles que discordavam com maior vigor das políticas da
Administração Nixon. Agora, os repórteres desejavam saber
se seus colegas dos meios de comunicação se encontravam
entre os "subversivos" que o Departamento de Justiça se
considerava no direito de espionar eletronicamente.
A julgar pela maneira como eram recebidas suas perguntas,
os dois começaram a achar que estavam na pista certa: as
negativas de alguns funcionários nada tinham de
convincentes; outros recusavam-se a discutir o assunto; e
terceiros admitiam ter suspeitas idênticas às dos repórteres.
A dupla foi parar num beco sem saída.
Woodward minutou uma reportagem baseada nos ínfimos
pormenores que colhera. Dizia que Hunt e Liddy tinham
recebido transcrições de interceptações realizadas pelos
órgãos de segurança nacional; que estas lhes eram enviadas
por David Young, um dos "Encanadores" e assistente do Dr.
Henry Kissinger. A reportagem frisava que os "Encanadores"
se dedicavam à investigação sobre a fuga de informações
confidenciais. Os leitores que tirassem suas próprias
conclusões...
Também desta vez, Gerald Warren levou algumas horas
antes de voltar com o desmentido da Casa Branca, resumido
em uma única frase:
— Depois de uma análise completa, não vemos base
alguma para a reportagem.
Cansando-se do jogo, Woodward perguntou se isto era um
desmentido total.
Warren, que nessas ocasiões tornava-se distante e formal,
replicou:
— Não posso dizer mais nada — e fez um apelo à
compreensão do repórter. A reportagem destacou que
Warren se furtara a um desmentido claro.
Duas semanas mais tarde, a revista Time publicou a primeira
reportagem detalhada sobre a zelosa campanha da
Administração para vasculhar a saída de informações não
autorizadas através da censura de telefones de repórteres e
de funcionários do governo. Segundo a narrativa do Time, os
telefones de uma meia dúzia de repórteres e duas vezes
outro tanto de funcionários da Casa Branca e do Governo
tinham sido postos sob censura pelo FBI por motivos de
"segurança" interna. As censuras tiveram início em 1969,
apesar da relutância de J. Edgar Hoover (ex-diretor do FBI), e
continuaram com seu sucessor L. Patrick Gray III, até a
decisão da Suprema Corte de 19 de junho de 1972. Segundo
o Time, Hoover apenas permitira que seus agentes
instalassem os aparelhos de censura telefônica e só depois de
receber autorização por escrito de John Mitchell para cada
telefone a ser censurado. Em 1971, quando a Administração
tentara forçar Hoover a demitir-se, dizia o Time, o velho
diretor com cara de buldogue conseguira se mostrar firme,
ameaçando divulgar os pormenores da campanha de censura
telefônica.
A 26 de fevereiro, quando a edição do Time chegou às
bancas, Bernstein passou a manhã inteira no Departamento
de Justiça, tentando confirmar os detalhes. Correr de um
lado para o outro, ir de sala em sala, depois do furo do Time,
não era nada engraçado. Não conseguindo coisa alguma,
tomou um táxi de volta para a redação. Desanimado, ia
entrando no elevador no saguão do edifício do Post quando
subitamente se sentiu agarrado pelo braço e puxado para fora
do elevador, de volta ao saguão. Tentou desvencilhar-se e
então ouviu uma voz feminina.
— Menino, que bom te encontrar! — era Laura Kiernan,
jovem estagiária recentemente promovida a repórter da
equipe de notícias locais.
— Tem um sujeito lá em cima, na redação, com uma
intimação para você entregar suas anotações. Bradlee não
quer que você suba agora. Quer você fora daqui, e depressa.
Bernstein disparou para a escada ao fundo do saguão e subiu
correndo sete lances até o departamento de contabilidade.
Fechando a porta de uma sala em cujo interior se encontrava
uma mesa com uma máquina de cálculos, discou o número
da extensão de Bradlee. Woodward estava passando uns dias
no Caribe. Contudo, há muito haviam tomado precauções
para a eventualidade de receberem intimações judiciais.
Entregar suas anotações ou identificar suas fontes, quer
perante um grande júri quer em audiência, estava fora de
qualquer cogitação. Haveria tempo de sobra para discutirem
o assunto nos tribunais. A primeira providência a ser tomada
era colocar os arquivos em lugar seguro. Bernstein contou a
Bradlee onde estavam. Podiam ser removidos
imediatamente.
O CRP requerera a intimação de cinco pessoas do Post:
Bernstein, Woodward, Jim Mann (que trabalhara em
algumas das reportagens iniciais do Watergate), Howard
Simons e Katharine Graham. Também outros repórteres, do
Star-News, do New York Times e do Time, foram intimados.
Os únicos que não eram repórteres, Simons e a Sra. Graham,
já tinham recebido a intimação. Estas exigiam que os citados
prestassem depoimento no processo civil aberto pelo CRP e
que apresentassem todas as anotações, gravações e minutas
de reportagens em seu poder, que se relacionassem ao
Watergate. Bradlee disse a Bernstein que ainda não
conseguira entrar em contato com os advogados do Post e
não queria que Bernstein recebesse a intimação até que
Bradlee tivesse orientação legal sobre o assunto.
— Dê o fora do prédio — disse Bradlee. — Vá a um
cinema e me telefone às cinco horas.
Bernstein foi ver Deep Throat — o filme pornográfico, não o
informante. Quando telefonou, às cinco horas, Bradlee lhe
disse para voltar à redação. Então explicou-lhe a manobra.
Bernstein receberia a intimação. A custódia de pelo menos
parte dos documentos e anotações dos repórteres passaria à
Sra. Graham.
— Ê claro que vamos batalhar até às últimas
conseqüências, e se o juiz quiser mandar alguém para o
xadrez, vai ser a Sra. Granam. E, acredite se quiser, ela diz
que vai! Dai, o juiz que fique com esse peso na consciência.
Você pode imaginar a fotografia de sua limusine
estacionando diante do Centro de Detenção de Mulheres e a
nossa garota saindo do carro e entrando na cadeia em defesa
da Primeira Emenda? A fotografia iria aparecer em todos os
jornais do mundo. Era até capaz de acabar em revolução!
Naquela noite, Bernstein estava calmamente batendo à
máquina em sua mesa quando viu um mensageiro do CRP
correndo pela passagem central, o braço estendido.
Bernstein continuou a datilografar.
— Carl Bernstein?
Cabeça baixa, Bernstein levantou a mão e pegou a intimação.
O mensageiro continuou lá, em silêncio. Afinal, Bernstein
levantou os olhos. O rapaz aparentava uns 21 anos, cabelo
loiro despenteado, suéter com decote em V, jeito de
estudante.
— Olha, eu acho isto tudo muito chato — desculpou-se
—, mas me escolheram porque pensaram que alguém com
jeito de colegial ia conseguir chegar até aqui com mais
facilidade.
Era estudante de Direito e trabalhava meio-expediente no
escritório jurídico de Kenneth Wells Parkinson, advogado
do CRP. Prometeu ficar alerta quanto a qualquer informação
que pudesse ser útil ao Post e deu a Bernstein o número do
telefone de sua casa.
CAPÍTULO 13
Quando Woodward voltou do Caribe, no meio da semana,
um jovem baixo, vigoroso, com uma barba rala emoldurando
o rosto e usando óculos pequenos de lentes grossas, postou-
se à frente de sua mesa.
— Tim Butz — apresentou-se, com jeito de conspirador. Já
tinha servido no Serviço de Inteligência do Exército.
Trabalhava agora com um grupo de voluntários composto de
ex-membros de Inteligência que investigava gente metida
em atividades de espionagem interna.
— Acho que encontramos um aluno da Universidade George
Washington que fazia espionagem para o CRP — disse Butz.
— Mas ainda vamos ter algum trabalho. — Contou a
Woodward uma história desconjuntada. Woodward o
incentivou a continuar com suas pesquisas e nos dias que se
seguiram recebeu quase uma dúzia de telefonemas com
relatórios dos progressos feitos pelo rapaz. Depois de uma
semana, Butz telefonou para informar que encontrara um
membro da fraternidade universitária a que também
pertencia o espião-estudante, e que esse membro estava
disposto a contar tudo que sabia. Ficou combinado que se
encontrariam para jantar no salão de chá do Hotel Madison.
Quando Woodward chegou, Butz estava andando de um
lado para o outro do saguão na companhia de um rapaz que
foi apresentado como sua "fonte" — um estudante alto e
nervoso, chamado Craig Hillegass. Sentaram-se os três num
compartimento reservado.
Hillegass descreveu em vibrantes detalhes o que Theodore F.
Brill, seu colega da fraternidade Kappa Sigma, lhe contara
sobre como recebera US$ 150,00 por semana do CRP para
fazer infiltração no grupo de Quakers que, durante meses,
permanecera em vigília permanente diante da Casa Branca.
A tarefa de Brill era fazer relatórios regulares ao CRP sobre as
vidas privadas e os planos dos manifestantes, e depois ajeitar
as coisas para que fossem presos sob acusação de uso de
tóxico. A polícia de Washington acabou por realizar uma
batida, mas nada foi encontrado.
Brill, vinte anos, era presidente da Juventude Republicana da
Universidade George Washington. Seu trabalho no CRP
encerrou-se dois dias depois das prisões do Watergate.
— O plano — explicou Butz, batendo excitadamente com
seu copo d'água na mesa — era criar embaraços aos
democratas, porque qualquer confusão nos grupos de
radicais seria causa de transtorno à política liberal e ao
senador McGovern.
Com incontido entusiasmo, descreveu o modo à James Bond
pelo qual Brill recebia seus pagamentos.
— Ted me contou que certa vez lhe disseram para ir ao
encontro de uma mulher vestida de vermelho, com um
cravo na gola, e carregando um jornal. Fizeram uma troca:
ele entregou o relatório escrito e ela passou às mãos dele um
envelope contendo seu pagamento. De outra feita, Ted me
contou, foi até uma livraria na esquina da Rua 17 com
(Avenida) Pensilvânia e lhe entregaram um livro e o
dinheiro estava dentro dele. Mas tudo fazia parte de um
trabalho maior. Ted disse que havia pelo menos uns vinte e
cinco outros, e as informações iam todas para um chefão lá
no CRP.
Woodward lembrou-se dos contínuos pedidos de Rosenfeld
para que encontrasse os 50 espiões mencionados na
reportagem de Segretti, publicada em 20 de outubro.
— Onde estão os outros quarenta e nove? — Rosenfeld
perguntava a cada uma ou duas semanas, embora uns 25
deles já tivessem aparecido. Theodore Brill não parecia ser
um dos grandes operadores do projeto, mas — se seu colega
estivesse dizendo a verdade — enquadrava-se no esquema.
A Universidade George Washington, a cinco quadras da Casa
Branca, estava em férias de primavera. Na noite seguinte,
Woodward localizou Theodore Brill em sua casa, em River
Edge, Nova Jersey. Woodward não se sentia bem bancando
o durão com um estudante de História de 20 anos, mas Brill
parecia ser uma dessas inesperadas aberturas para um
objetivo maior. No final, Brill confirmou as declarações de
Butz, acrescentando outros detalhes. Tinha sido contratado e
pago por George K. Gorton, 25 anos, diretor estudantil do
CRP.
— Recebi pagamentos durante cinco semanas, de maio a
junho — uma vez em dinheiro, e as outras em cheques
pessoais de Gorton. Mais tarde fiquei sabendo que fora um
erro me pagarem em cheque, pois não devia constar pista
alguma da transação. Gorton deu a entender que havia mais
gente, em outros lugares, fazendo o mesmo serviço... e
Gorton disse que havia um chefão sabendo de tudo. Eu devia
ir a Miami durante a convenção e fazer o mesmo jogo lá
com os grupos de radicais.
Por que você não foi? perguntou Woodward.
— Meu emprego terminou dois dias depois que o
Watergate foi arrombado. Gorton me levou para almoçar e
me disse que eu tinha de parar por causa do Watergate. Disse
que aquela operação devia ser considerada super-secreta. O
pessoal da Casa Branca estava descontrolado — disse Brill,
derrubando competentemente a alegação da Casa
Branca/CRP de que ninguém, nos dois locais, havia
desconfiado de uma relação entre o Watergate e outras
atividades de espionagem e sabotagem.
Brill parara alguma vez para pensar na ética de seu
procedimento?
— Ética? — repetiu Brill. Mostrou-se surpreso com a
pergunta. — É... não havia nada ilegal, mas talvez não fosse
muito ético.
Woodward, sentindo-se como um beato, agradeceu e
desligou. Achou o telefone residencial de Gorton e discou.
Um rock servia de música de fundo e a voz de um rapaz
informou que Gorton não estava. Depois de chegar em casa,
Woodward voltou a telefonar. Era quase uma da madrugada.
Mais música de rock. Gorton atendeu o telefone e
Woodward explicou a situação.
— Você está louco? — gritou Gorton. — Nenhum
repórter do Post ia telefonar a esta hora da madrugada.
Woodward sentiu-se magoado. Por que ninguém dizia o
mesmo para Bernstein quando ele telefonava a qualquer hora
da madrugada? Woodward soletrou seu nome e forneceu a
Gorton os números de sua casa e da redação.
— Vamos ver — berrou Gorton. — Estou com uma
garota aqui. — Bateu o telefone.
Woodward sentou-se à sua mesa olhando as luzes da capital
pela janela do nono andar. "Macabras", fora como as
descrevera o colunista iconoclasta do Post, Nicholas von
Hoffman. Woodward continuou contemplando a cidade
iluminada até sentir sua raiva diminuir.
Na manhã seguinte, foi acordado pelo tilintar do telefone.
— George Gorton — disse a voz. — Eu simplesmente não
pude acreditar que fosse você mesmo, telefonando no meio
da noite.
Woodward fez-lhe algumas perguntas.
— Ah, sim, Ted Brill fez alguns servicinhos para mim...
Espionagem soa meio esquisito. Minha instrução a Brill era
apenas para que descobrisse o que os radicais andavam
tramando. Fazia parte do meu trabalho saber o que toda a
juventude andava pensando.
Bela maneira, pensou Woodward, de realizar pesquisa
sociológica: infiltrando um espião, na prática um agente-
provocador.
Gorton negou que Brill tivesse arranjado a batida contra os
Quakers e insistiu em que o emprego de Brill encerrara-se
por "coincidência" dois dias depois do arrombamento do
Watergate.
Em seguida, Gorton — que organizara o Baile da Juventude
para a posse do Presidente — declarou com orgulho que
tinha gente coletando informações sobre os radicais em 38
Estados.
— Idéia minha — disse Gorton, mas sem muita convicção.
Era subordinado a Kenneth Rietz, da Divisão de Votos da
Juventude do CRP.
— Rietz sabia que podia dar informações sobre as opiniões
dos radicais. Eu fornecia os dados, e Rietz não perguntava
onde eu os conseguia.
Depois mudou o teor da história, declarando que Brill fora
seu único operador.
Ken Rietz, 32 anos, era o escolhido de Haldeman para a
presidência nacional do Partido Republicano. Tinha deixado
o CRP em 1974 a fim de liderar as campanhas republicanas
para o Congresso.
O salário semanal de USS 150,00 pago a Brill não fora
reportado em obediência à nova lei eleitoral. Depois de
divulgada a história de Brill, o Departamento Geral de
Contabilidade fez nova auditoria nos livros do CRP, que
ajudou a esclarecer ter Rietz liderado uma "Brigada Juvenil"
de moços que praticavam espionagem para o Presidente.
Por essa época, Woodward foi visitar um funcionário bem
colocado no CRP. O homen não tinha afetações, parecia
desiludido com a Casa Branca e com as táticas empregadas
para a reeleição do Presidente.
— Se houvesse duas maneiras de se fazer a mesma coisa,
uma honesta e outra desonesta — disse ele —, e se ambas
chegassem ao mesmo resultado, nós escolhíamos a maneira
desonesta... Agora me diga, por que alguém agiria assim?
Por exemplo?
— É difícil pensar num caso concreto — disse o homem
do CRP. Pensou um pouco. — Lembra-se da decisão de
minar a área de Haiphong, uns cinco meses antes das
eleições? Alguns de nós achávamos que aquela decisão re-
presentava o "ou vai ou racha" do Presidente. Gastamos US$
8.400,00 em telegramas falsos e em propaganda para
conseguir apoio de mentira para a decisão do Presidente.
Empregou-se dinheiro para pagar telegramas remetidos à
Casa Branca, dizendo que era uma ótima manobra, de modo
que Ziegler pudesse anunciar que a quantidade de telegramas
recebidos era um importante fator de apoio à decisão do
Presidente. Também se gastou dinheiro para inserir
propaganda falsa no New York Times.
Tirou uma cópia do anúncio de dentro da gaveta da
escrivaninha e entregou a Woodward. Intitulava-se "O Povo
X New York Times" e criticava um editorial em que o Time
se opunha à decisão presidencial.
— Observe — disse o homem do CRP — que está
assinado por dez pessoas supostamente independentes,
dando a impressão de que os americanos estão em pé-de-
guerra por causa do editorial e desejosos de contribuir com
milhares de dólares de seus próprios bolsos para expressarem
sua opinião. Nada disso. A propaganda foi paga pelo CRP
com quarenta daquelas famosas notas de US$ 100,00
empilhadas no cofre de Stans.
Uma determinada linha do anúncio perguntava:
"Em quem você acredita? — No New York Times ou no
Povo Americano?"
De volta à redação, Woodward telefonou para outro
funcionário do CRP. Este disse que a tentativa de forjar apoio
para a decisão de minar a área de Haiphong "Deixou a equipe
toda sobrecarregada durante duas semanas... O trabalho
incluía petições, organização de passeatas, transporte das
pessoas para Washington, visitas à Casa Branca, pedidos aos
eleitores para que telefonassem aos seus representantes no
Congresso".
Bernstein recordou-se de um fato que parecia relacionar-se
com essa informação. Em maio de 1972, Barker e Sturgis
apareceram, sem serem convidados, numa reunião de
exilados cubanos e tentaram traçar planos para uma
manifestação de apoio à decisão. Sturgis guiou o caminhão-
chefe da parada de apoio que se seguiu.
Sussman aconselhou aos repórteres que escrevessem uma
reportagem acerca da campanha fraudulenta sobre a questão
de Haiphong.
— Isto acerta bem no alvo — disse ele. — O povo
entende bem quando se trata de enganar a opinião pública.
No dia em que a matéria foi publicada, James Dooley, antigo
chefe da seção de correspondência do CRP, veio até a
redação e disse que precisava falar com alguém sobre as
minas de Haiphong. Woodward o levou à sala de Sussman.
— Vocês não estão sabendo de tudo sobre Haiphong —
disse Dooley. — Nós "carregamos" a pesquisa de opinião
pública da WTTG, que investigou se o povo era a favor ou
contra decisão do Presidente.
A estação local da TV Metromedia pediu a seus
telespectadores que enviassem um cartão indicando se
concordavam ou discordavam do Presidente. Exemplares
dos votos foram publicados no Post e no Star.
— O escritório de imprensa liderou o projeto — contou
Dooley. — E o trabalho foi exaustivo. Cada um teve que
preencher quinze cartões. Dez pessoas trabalharam dias
seguidos comprando selos diferentes, cartões, treinando
caligrafias diferentes para falsificar as respostas... Milhares de
jornais foram comprados nas bancas e os votos recortados e
enviados.
Dooley disse que no mínimo 4.000 votos tinham sido
enviados pelo CRP apoiando a decisão presidencial. A
WTTG informou que a decisão recebera 5.157 votos
favoráveis e 1.158 desfavoráveis. Se os votos do CRP não
tivessem sido contados, o Presidente teria, na melhor das
hipóteses, perdido por um voto: 1.157 a 1.158.
— Depois de recortarem os votos — continuou Dooley —
ficaram com medo de que os jornais mutilados pudessem ser
encontrados, e alguém sugeriu que "era melhor destruí-los".
McCord estava encarregado do triturador de papéis e ficou
nervoso com a idéia de ter uma tonelada de jornais espalhada
pela sala..., mas todos os jornais foram destruídos conforme
as instruções.
Woodward fez uma ligação para Devan Shumway, o porta-
voz do CRP, e perguntou se a pesquisa tinha sido mesmo
adulterada.
— Olha, quando se está metido numa eleição, a gente faz
o que pode — respondeu Shumway. — Achamos que o
outro lado ia fazer a mesma coisa. Por isso fomos em frente.
Não sei se o outro lado procedeu do mesmo modo.
Woodward perguntou se "o outro lado" a que Shumway se
referia era o Vietnã do Norte.
Não, respondeu Shumway, ele se referia às forças de
McGovern.
Seguindo a pista até o fim, Woodward telefonou para Frank
Mankiewicz, o antigo assistente de campanha de McGovern.
— Não fizemos nada parecido — ele respondeu meio
incrédulo. — Nem sequer nos ocorreu a idéia, creia. Eles são
mesmo o fim. Acham que temos a mesma ética medíocre.
Nenhuma decisão presidencial relacionada ao Watergate
parecia tão imprudente, ou poderia deixar os repórteres mais
perplexos, do que o comunicado da Casa Branca, em
fevereiro, declarando que o nome de L. Patrick Gray III
seria submetido à confirmação pelo Senado, como sucessor
permanente de J. Edgar Hoover. Gray já era diretor em
exercício do FBI — por que arriscar as possíveis
conseqüências de uma caça às bruxas senatorial, para tornar
seu título definitivo? Os funcionários da Administração a
quem os repórteres fizeram esta pergunta pareciam
igualmente atônitos. Alguns, mais a par da situação, con-
fessaram saber apenas que tinha havido uma discussão dos
diabos no círculo mais fechado da Administração Nixon.
Dizia-se que John Ehrlichman se opusera veementemente à
nomeação, mas o Presidente, em última instância, rejeitara
seu ponto de vista. Ninguém perguntou se a indicação de
Gray se devia à sua capacidade, ou se a Casa Branca
considerava as audiências uma excelente oportunidade para
esclarecer o caso Watergate.
Pouco antes do início das sessões, a dupla decidiu que já era
tempo de Woodward trocar o vaso de plantas de sua sacada
para o lugar de código. Naquela noite, andou a pé e tomou
um táxi até a garagem. Deep Throat não estava lá. Deep
Throat combinara que, quando não pudesse comparecer,
deixaria uma mensagem numa determinada saliência da
parede. Woodward, com seus l,74m de altura, não alcançava
o lugar. Achou um velho pedaço de cano e tateou a
superfície da saliência.
Encontrou um pedacinho de papel no qual Deep Throat
datilografara instruções para que Woodward o encontrasse,
na noite seguinte, num bar do qual jamais ouvira falar. Um
bar? Será que Deep Throat tinha enlouquecido? Woodward
ponderou. Havia alguma coisa errada. Quando chegou em
casa, procurou o nome do bar na lista telefônica. Não
constava. De um telefone público no saguão de seu edifício
discou para "Informações". A telefonista lhe deu o número e
o endereço; ficava nos arrabaldes da cidade.
Às nove da noite seguinte, Woodward andou algumas
quadras antes de tomar um táxi para a direção oposta à do
bar. Caminhou durante uns quinze minutos e tomou outro
táxi que o levou a pequena distância do lugar combinado.
Tratava-se, na verdade, de uma taverna, uma velha casa de
madeira convertida em bar para motoristas de caminhão e
operários de construção civil. Woodward, vestido
informalmente, entrou. Ninguém pareceu prestar-lhe a
mínima atenção. Divisou Deep Throat sentado sozinho
numa mesa lateral e sentou-se à sua frente, muito nervoso.
Por que aqui? Perguntou.
— Pra variar — respondeu Deep Throat. — Nenhum dos
meus amigos, nenhum dos seus amigos viria aqui. É um
barzinho escuro e sonolento. — Um garçom se aproximou.
Os dois pediram uísque.
Tem que haver mais alguma coisa com este lugar, comentou
Woodward.
— É um ambiente com um pouco mais de classe —
respondeu Deep Throat. — Nenhuma chance de você ter
sido seguido? Dois táxis e tudo o mais?
Woodward confirmou.
— O Post gostou das intimações? Formidável, disse
Woodward.
— Isto é só o princípio. Nosso Presidente está subindo
pelas paredes com a fuga de informações confidenciais sobre
o Watergate. Já disse a quem de direito: "Façam tudo" para
detê-los. Quando ele diz isto, significa encrenca.
Investigações internas, e ainda por cima, quer recorrer aos
tribunais. Já houve discussão sobre se deviam abrir processo
criminal ou civil, preliminarmente. Durante uma reunião,
Nixon disse que o dinheiro sobrado da campanha, uns 5
milhões mais ou menos, podia bem ser usado para fazer o
Washington Post descer de cotação. Daí, as intimações, a
você e aos outros. Parte da discussão se referia à abertura de
uma investigação de grande júri, mas isso vai ficar pra
depois.
— Nixon estava louco, gritando e uivando que "não
podemos tolerar isto e vamos parar já com isto, custe o que
custar". Seu ponto de vista é o de que os meios de
comunicação já foram longe demais e a tendência tem que
ser cortada; é quase como se estivesse falando das verbas
federais. Ele está com idéia fixa e não se importa com o
tempo que possa levar, quer ver tudo feito. Para ele, a
questão é, nada mais nada menos, do que a própria
integridade do governo e um caso de lealdade básica. Ele
acha que a imprensa o está perseguindo e, portanto, é
desleal. As pessoas que falam com a imprensa são piores
ainda — o inimigo escondido, ou qualquer coisa assim.
Woodward respirou fundo. Deep Throat tomou
cuidadosamente um gole de seu uísque, e depois, num gesto
deselegante, enxugou a boca com as costas da mão.
Estava muito preocupado?
— Preocupado? — Deep Throat reclinou-se e jogou o
braço por cima do encosto da cadeira. — Não pode
funcionar. Nunca vão pegar ninguém. Nunca pegaram.
Escondem coisas que vão acabar aparecendo e que acabarão
por desacreditar a guerra contra a fuga de informações. Estou
dizendo: é o dilúvio... A Casa Branca decide devorar o
Washington Post, e daí? Vai ser cansativo para vocês, mas já
se pode prever o fim. Está se avolumando, e eles sabem disso
e sabem também que não podem impedir que a verdadeira
história surja. Por isso é que estão desesperados. Sejam
cuidadosos, vocês dois e o jornal, e esperem que eles saiam
primeiro. Não pulem depressa demais. Tenham cuidados e
não se deixem vencer pela aflição.
Woodward não se sentiu nem um pouco tranqüilizado com
a avaliação dos fatos feita pelo amigo. Disse que se ia contar
aos outros no Post que estavam todos no cardápio, mas não
iam ser saboreados, precisava de mais detalhes. Deep Throat
sacudiu a cabeça indicando que não podia dizer mais.
E a nomeação de Gray? perguntou Woodward. Não fazia
sentido algum.
Ao contrário, explicou Deep Throat, era a coisa mais
razoável do mundo, embora representasse um risco muito
grande.
— Em princípio de fevereiro, Gray foi até a Casa Branca e
disse sem preâmbulos: "Estou levando a culpa do caso
Watergate". Estava muito zangado e disse que tinha
cumprido o seu dever e restringido a investigação sen-
satamente, que não era justo ter sido apontado para levar a
culpa. Deu a entender que poderia ser o fim do mundo se
não pudesse ficar permanentemente e conservar tudo a sete
chaves. Nixon poderia ter pensado tratar-se de uma ameaça,
embora Gray não seja esse tipo de gente. Qualquer que tenha
sido a razão, o Presidente concordou correndo, e enviou o
nome de Gray ao Senado imediatamente. Alguns dos
membros mais altos dos que eram frontalmente contra, mas
não conseguiram convencer o Presidente.
Então o afável Gray chantageara o Presidente...
— Eu não falei isso — Deep Throat disse rindo. Levantou
os olhos, a inocência personificada.
E a reportagem da revista Time? Gray tivera conhecimento
da censura aos telefones de repórteres de jornais e
funcionários da Casa Branca?
— Afirmativo — disse Deep Throat, prevenindo que nem
mesmo ele ficara sabendo de tudo o que havia por trás do
projeto.
— Havia um grupo extra-oficial de vigilantes que se
encarregou da instalação. Hedrick Smith e Neil Sheehan do
New York Times, inclusive, foram censurados, depois da
divulgação dos Documentos do Pentágono. Supõe-se que
todos os arquivos foram destruídos. — Explicou que a
instalação dos aparelhos de censura tinha sido realizada por
ex-agentes do FBI e da CIA, contratados por fora dos canais
competentes. No Departamento de Justiça, Mardian tomava
conta da operação para a Casa Branca. Watergate não
constituiu novidade alguma para esta Administração,
prosseguiu Deep Throat.
Tinha havido uma reunião para discutir a estratégia da
eleição durante a qual Haldeman forçava Mitchell a montar
uma operação de censura telefônica. Mitchell se mostrou
relutante, mas Haldeman insistiu. Mitchell recebeu ins-
truções do chefe do staff da Casa Branca para deslocar para a
campanha parte do pessoal da operação de vigilância. Isto
significava Hunt e Liddy.
— Em 1969, os primeiros alvos da operação-censura
foram os repórteres e aqueles considerados suspeitos de
deslealdade à Administração — relatou Deep Throat. —
Depois o foco transferiu-se para a oposição política radical
durante as manifestações pacifistas. Quando as eleições
estavam próximas, a coisa mais natural do mundo foi
censurar os telefones dos democratas. As prisões do
Watergate deixaram todos desorientados, porque podiam
levar à descoberta do projeto inteiro.
Deep Throat e Woodward pediram mais um uísque,
deleitando-se com o conforto a que não estavam
acostumados em seus encontros. Woodward imaginou se
seu amigo não estava intencionalmente cortejando o perigo
de ser descoberto. Será que Deep Throat queria ser apanhado
para ter liberdade de falar publicamente? Será que haveria
um conflito de amor-ódio em seu trabalho governamental?
Woodward começou a fazer a pergunta, mas vacilou. Bastava
saber que Deep Throat jamais se comportaria hipocritamente
com ele. Algum dia, tudo seria explicado.
Os drinques eram baratos. Woodward colocou US$ 5,00
sobre a mesa e foi o primeiro a sair.
Na manhã seguinte, os repórteres analisaram as anotações de
Woodward. Estavam agora pensando em termos de uma
reportagem que, como a matéria de 10 de outubro sobre a
maciça campanha de espionagem-sabotagem, tentasse pôr o
caso Watergate na perspectiva certa. Assim como o
arrombamento fora uma parte ínfima de uma sólida
campanha de espionagem e sabotagem, em ano de eleição,
todo o trabalho clandestino para reeleger o Presidente era,
por sua vez, parte de um programa mais vasto, dirigido pelos
homens de Nixon, quase que desde o princípio, contra
aqueles que, a seu ver, ameaçavam a Administração.
Todavia, os repórteres precisavam de algo mais: detalhes,
exemplos, outras testemunhas que confirmassem os fatos.
As sessões do Congresso que confirmariam ou não Pat Gray
tinham seu início marcado para 28 de fevereiro.
Na véspera, Bernstein conversou com Tom Hart, jovem
assistente do senador Robert Bird, "chicote"* do Partido
Democrático no Senado e membro da Comissão Judiciária.
Hart havia organizado um índice das reportagens e artigos
publicados em jornais e revistas, e, partindo desse índice,
colecionara em uma pasta listas de contradições e questões
sem resposta relacionadas ao Watergate.
Essas questões circularam entre membros escolhidos da
Comissão. Até que fossem respondidas, e apoiadas por
provas oriundas dos arquivos do FBI, Gray permaneceria no
banco das testemunhas, informou Hart. Mesmo que a
Comissão Judiciária emitisse recomendação favorável, Byrd
usaria sua considerável influência para organizar uma
oposição que faria uso da tribuna do Senado caso as
contradições não ficassem esclarecidas.
As sessões começaram a 28 de fevereiro, com a presença de
Gray chupando pastilhas para a garganta e sustentando que a
investigação do Watergate fora "particularmente
consistente", "de pressão integral", sem "limites impostos".
Em seguida, sem que lhe fosse perguntado, informou
espontaneamente ter entregue os arquivos da investigação a
John Dean e não podia garantir que este não os tivesse
exibido a Donald Segretti.
O senadores ficaram estarrecidos. Woodward deu graças a
Deus pelo fato de Bernstein estar ausente e não poder ouvir
o depoimento de Gray. Há tempos que Bernstein vinha
insistindo para que escrevessem uma reportagem sobre a
entrega dos arquivos a Dean. Woodward não julgara o fato
importante — e era exatamente isso o que Gray estava
tentando fazer agora, sem muito sucesso. Estava pondo os
arquivos do FBI à disposição dos senadores. Mas a impressão
de que Pat Gray agira como lacaio de John Dean, vinte anos
mais jovem do que ele, já penetrara na mente dos senadores.
As sessões sobre Gray seriam igualmente as sessões sobre
Dean. Isto era óbvio.
No dia seguinte, quinta-feira, Bernstein leu seu arquivo sobre
John Dean. Dean, que ficara de posse do conteúdo do cofre
de Howard Hunt, a partir de 17 de junho, esperara pelo
menos sete dias antes de entregá-lo ao FBI. Uma anotação
indicava que dois cadernos de propriedade de Hunt não
tinham sido relacionados na lista de Dean. Um advogado do
Departamento de Justiça contara a Bernstein que a
promotoria viera a saber da existência desses cadernos no dia
11 de outubro, quando Hunt entrara com uma petição para
reaver seus pertences, deixados no escritório.
— A Casa Branca declarou jamais ter visto os cadernos —
Bernstein foi informado. — Não sabíamos o que pensar. Na
verdade, ainda não sabemos.
Bernstein telefonou para William Bittman, advogado de
Hunt. Bittman confirmou, e disse a Bernstein que os
cadernos continham nomes e endereços que podiam levar a
outras pessoas envolvidas na conspiração do Watergate,
segundo lhe havia sido dito pela promotoria.
— Pensávamos que estavam sob custódia do FBI e que
haviam sido utilizados no decorrer da investigação. Eu ia
argumentar que o caso da promotoria estava prejudicado,
pois suas informações se baseavam em material (os cadernos)
obtidos em busca ilegal. Ia telefonar para Dean e alguns
outros da Casa Branca para provar que em junho Hunt ainda
usava sua sala na Casa Branca e não abandonara o que lhe
pertencia em seu escritório. Quando descobrimos que o FBI
nunca recebera os cadernos, a questão tornou-se dúbia —
disse Bittman. — Tudo que posso dizer é... que foi tudo
muito estranho. Não sei onde os cadernos foram parar.
Bernstein perguntou se Hunt achava que os cadernos seriam
úteis na eventualidade de um procedimento jurídico contra
os cabeças.
— Adivinhão!... Valiosos a ponto de alguém querer que
desaparecessem.
Na sexta-feira, 2 de março, durante uma improvisada
entrevista à imprensa, o Presidente Nixon anunciou que iria
requerer imunidade parlamentar contra qualquer exigência
para que Dean prestasse depoimento nas sessões destinadas à
confirmação de Gray. A reportagem sobre os cadernos
desaparecidos e o papel desempenhado por John Dean na
entrega do conteúdo do cofre de Hunt foi divulgada
juntamente com um relato das declarações do Presidente.
Quatro dias mais tarde, Gray informou aos senadores estar
"firmemente convencido" de que Dean não se apossara de
nada que estivesse no cofre de Hunt. Quase
simultaneamente, a Casa Branca divulgou um comunicado
afirmando que Dean procedera devidamente à entrega de
todo o material guardado no cofre de Hunt.
Naquela tarde, um grupo de repórteres, Woodward
inclusive, desfilou pela sala de espera de Tom Hart para
receber cópias de documentos fornecidos por Gray, em
resposta a algumas das perguntas preliminares do senador.
Um dos documentos tinha por título: "Entrevista com
Herbert W. Kalmbach".
"O Sr. Kalmbach declarou que em agosto ou setembro de
1971, foi procurado por Dwight Chapin, o qual lhe contou
que o Capitão Donald H. Segretti estava prestes a desligar-se
do Exército e que talvez pudesse vir a ser útil ao Partido
Republicano."
Estava tudo ali. Kalmbach admitira, nessa entrevista, ter
efetuado pagamentos a Segretti, segundo instruções de
Chapin, por atividades secretas. Com um único e irreparável
passo, Patrick Gray solapou a alegação de inocência da Casa
Branca. E, com isso, ajudou a reafirmar a credibilidade do
Washington Post.
Bernstein e Woodwarci estavam encontrando dificuldade
em terminar a reportagem antes da hora de fechamento da
matéria. Jornais, agências de notícias, rádio e estações de TV
telefonavam pedindo comentários sobre o "desagravo" do
Post. Quase sem exceção, todos usaram a mesma palavra.
A reportagem de Bernstein e Woodward refletiu bem os dez
meses de raiva e frustrações represadas. Lançaram ao rosto
dos homens do Presidente citação após citação dos
desmentidos da Casa Branca. A matéria, entretanto, foi in-
conscientemente montada sem finura. Ocupando três
colunas, sob o título: "O Chefe do FBI Diz: Assessores de
Nixon/Pagavam Segretti". Seguia-se o texto com fotografias
ampliadas de Chapin, Kalmbach e Segretti. A infeliz com-
binação da montagem das fotografias, correndo no sentido
vertical ao longo do corpo da reportagem, com as legendas
"Chapin: informou que Segretti se achava em
disponibilidade"... "Kalmbach: o agente pagador"... "Segretti:
ligado ao staff presidencial"... fez com que ficassem
parecendo criminosos cujas fotos tinham sido enviadas pela
Divisão de Homicídios. Com a euforia reinante no Post,
ninguém se deu conta do efeito negativo. O mesmo não
aconteceu na Casa Branca. Funcionários do governo, tanto
na Casa Branca como em outras repartições federais,
disseram aos repórteres que o tratamento dado à matéria não
gerara senão uma verdadeira onda de ódio contra oPost.
Bradlee, em geral extremamente sensível a tais detalhes,
estava tão feliz com os acontecimentos do dia que a
montagem da reportagem lhe passara despercebida.
Entre um e outro telefonema solicitando entrevistas, andava
pela redação, ora dando uma palmadinha no ombro de
Rosenfeld, ora apertando a mão de Sussman (que quase
perdeu o cachimbo), e proclamando que Pat Gray resgatara a
liberdade de imprensa.
No decorrer das duas semanas que se seguiram, os repórteres
observaram com crescente surpresa que, dia a dia, Gray
atestava a inécia — senão a negligência criminosa — de sua
supervisão à frente da investigação realizada pelo FBI. A
insinuação implícita de Deep Throat, no sentido de que
Nixon nomeara Gray por puro medo, foi se tornando cada
vez mais plausível à proporção em que este ia demonstrando
uma perigosa franqueza.
No dia 22 de março, Gray testemunhou que John Dean
"provavelmente" mentira ao dizer ao FBI, em 22 de junho,
não ter conhecimento de que Hunt ocupava uma sala na
Casa Branca. Esta imediatamente expediu comunicado
negando "enfaticamente" a denúncia de Gray, enquanto
Dean exigia uma "correção".
Na véspera, o tribunal rejeitara o requerimento de
intimações apresentado pelo CRP e destinadas aos repórteres
e editores do Post.
CAPÍTULO 14
Na manhã seguinte, 23 de março, Woodward vinha andando
por um corredor ao longo das salas dos editores quando
Herblock, o desenhista de histórias em quadrinhos do Post,
o fez parar.
— Eh, você já ouviu falar da carta que McCord escreveu
ao juiz? Escutei a notícia no rádio.
Da última vez em que alguém lhe contara novidades do
Watergate ouvidas no rádio, dera naquele fiasco da história
de Haldeman. Não, não tinha escutado, disse ele, e ficou
esperando.
Pois é, McCord está dizendo que houve perjúrio e pressões
para que ficasse calado, e tem outros metidos na encrenca.
Quando Woodward invadiu a sala da reportagem, Howard
Simons estava de pé agitando uma cópia de telegrama e
gritando perto da seção de noticiário nacional. Era o texto da
carta de McCord ao juiz:
"Membros de minha família expressaram temor pela minha
vida, caso eu venha a revelar o que sei sobre os fatos
relacionados ao assunto... No interesse da justiça... para que
se restaure a confiança no sistema judiciário criminal..."
McCord se propunha a dizer o que sabia. Woodward
analisou as denúncias contidas na carta: pressão política fora
exercida sobre o réu para que confessasse a culpa e ficasse
calado. Perjúrio fora cometido durante o julgamento.
Terceiros envolvidos no caso Watergate não chegaram a ser
identificados nos depoimentos.
McCord solicitava uma audiência com Sirica, depois de
declarar: "... já que não tenho confiança para falar com um
agente do FBI, ou para testemunhar perante um grande júri
cujos promotores trabalham para o Departamento de Justiça,
ou para conversar com outros representantes do governo."
Woodward gostaria de saber se McCord poderia provar suas
acusações. A imagem de Mitchell sendo levado por policiais
cruzou sua mente.
Simons, exultante, disse a Woodward:
— Descubra de que diabos ele está falando — quem
cometeu perjúrio, quem mais está implicado, quem exerceu
pressão. — Telefonou para a Sra. Graham, que se encontrava
em Cingapura.
— Nomes, meus amigos, queremos nomes — disse ele.
No domingo, a dupla se achava na redação, descobrindo aos
poucos que as instruções de Simons eram difíceis de ser
cumpridas. Se McCord já contara a alguém o que tinha em
mente quando resolveu desabafar, o segredo estava sendo
bem guardado. Os promotores duvidavam de que McCord
estivesse a par de muitos fatos. A Casa Branca fechou-se
como uma ostra. Os poucos assistentes que responderam aos
recados dos repórteres não sabiam de nada. Telefonaram
porque esperavam ficar sabendo de alguma coisa por
intermédio deles.
No meio da tarde, informaram a Woodward que o
presidente da Comissão do Senado sobre o Watergate,
Samuel Dash, convocara uma conferência de imprensa para
dentro de uma hora. Bernstein tomou um táxi para o
Capitólio. Dash estava sentado em sua sala, atrás de uma
mesa de aço, esperando que os câmaras de TV terminassem
seus retoques finais. Orientando-se pelas anotações que
fizera, declarou que entrevistara McCord durante o fim de
semana, em duas longas sessões gravadas em fita. McCord
"dera nomes" e começara "uma explanação completa e
honesta" da operação Watergate. Bernstein não conseguia
entender o motivo daquela entrevista à imprensa. Não estava
fornecendo dados concretos, simplesmente arquitetando
conjeturas sobre o que ouvira de McCord. Haveria
audiências públicas da Comissão do Watergate, durante as
quais McCord certamente deporia. A imprensa podia arrasar
com a investigação da Comissão caso as denúncias de
McCord transpirassem e não pudessem ser provadas.
Voltou para a redação e começou a verificar se haveria na
Comissão um informante que pudesse lhe esclarecer o teor
da narrativa de McCord. Já dera meia dúzia de telefonemas
sem sucesso, quando a notícia chegou à redação pelo fio do
Los Angeles Times. McCord dissera a Dash que Jeb
Magruder e John Dean tinham tido prévio conhecimento da
operação Watergate e estavam envolvidos em seu
planejamento. A reportagem estava assinada por Ron Os-
trow e Robert Jackson. Bernstein sabia que esses dois
repórteres não se deixariam convencer a menos que a fonte
fosse inteiramente digna de confiança.
A informação sobre Magruder não constituía surpresa;
todavia, até então, não tinha havido qualquer insinuação de
que Dean pudesse ter participado do projeto. Se o homem
indicado pelo Presidente para investigar a atividade
clandestina fora um dos que a tinham elaborado, as
conseqüências tornavam-se incalculáveis. A Casa Branca já
se apressara em divulgar um comunicado negando
categoricamente as acusações a John Dean. Omitiram-se de
mencionar Magruder: os homens de Nixon o haviam
desligado.
Simons chegou à redação calçando coturnos. Desde que
recebera a primeira notícia sobre o arrombamento do
Watergate, em 17 de junho, era ele o editor mais
comprometido com o progresso diário da história.
Quando a noite chegou, Bernstein já tinha telefonado para
mais de quarenta pessoas, entre senadores, membros da
Comissão do Senado, advogados, informantes no CRP e na
Casa Branca, funcionários do Departamento de Justiça,
amigos de McCord, e até para o ministro da Igreja do réu.
Nada.
Ele e Simons decidiram que Bernstein escreveria uma
reportagem citando o Times e observando que não fora
possível ao Post confirmar se McCord realmente fizera tais
denúncias. Depois, Simons recebeu uma chamada telefônica
de um advogado que dizia representar John Dean. Ameaçou
processar o Post por calúnia caso o jornal publicasse as
acusações feitas a Dean. Simons instruiu Bernstein para que
citasse a ameaça e desse o nome do advogado.
Simons sentia a frustração de Bernstein quanto aos
acontecimentos daquele dia. Disse-lhe que precisava
acostumar-se à idéia de, às vezes, alguém passar-lhe a perna
em furos de reportagem. Os dias durante os quais o Post
exercera completo domínio sobre o caso Watergate estavam
findos.
Na manhã seguinte, Bernstein e Woodward procuraram
freneticamente uma confirmação de relato do Times e,
finalmente, depararam com três pessoas no Capitólio que
lhes disseram ser a história verdadeira. Uma dessas pessoas,
um político republicano, declarou que as alegações de
McCord eram "convincentes, inquietantese bastante
documentadas".
Na Casa Branca, Ziegler anunciou que o Presidente havia
pessoalmente telefonado a Dean e expressado "sua total e
absoluta confiança".
O caso Watergate, como uma represa, estava a ponto de
romper-se. As denúncias de McCord eram apenas parte da
caudal de pressões exercidas contra a barragem a que Deep
Throat se referira. A força da torrente ainda estava distante,
mas já se pressentia sua aproximação: Dean, Magruder,
Mardian, Mitchell e — o mais importante — H. R.
Haldeman seriam provavelmente arrastados na inundação.
Woodward resolveu solicitar ao subsecretário de imprensa
da Casa Branca, Gerald Warren, uma entrevista com o
Presidente. Era um tiro de longo alcance, mas Woodward
jamais deixara de se surpreender com a atração que o
inesperado exercia sobre Nixon. Se o Presidente podia abrir
negociações com a China Comunista, por que não com o
Washington Post?
Woodward telefonou a Warren e perguntou se podia dar um
pulo até a Casa Branca para um bate-papo. Warren hesitou e
disse em seguida:
— Lógico.
Woodward não possuía passe de jornalista para a Casa
Branca. Warren respondeu que deixaria seu nome com a
guarda do portão.
27 de março foi um dia de sol e muito calor e Woodward
chegou ao ponto de transpirar caminhando as cinco quadras
que o separavam da Casa Branca. A sala de imprensa na Ala
Oeste estava deserta. Esperou sentado numa cadeira de
encosto duro. Passados uns dez minutos, Warren apareceu,
vindo de um comprido corredor, e levou Woodward para
sua sala. Pouco maior que um armário embutido, só havia
espaço para sua mesa, sua poltrona e uma cadeira para os
visitantes. Warren, alto, bem vestido, de óculos, tem
aparência e maneiras de erudito.
— Incomoda-se se eu tomar algumas notas? — perguntou
Warren, ajustando os óculos e procurando uma página limpa
em seu bloco de apontamentos.
Claro que Woodward não se incomodava. Explicou que ele e
Bernstein tinham recebido informações indicando ser o
Watergate uma conspiração muito mais vasta do que alguém
jamais mencionara publicamente. A informação seria
divulgada, disse Woodward, e o Post não seria o único
veículo a revelá-la. Talvez a Casa Branca estivesse de posse
de fatos que possivelmente conseguiriam mitigar o efeito. O
Post pretendia explorar esses fatores. A situação atingira um
nível de gravidade tal que somente respostas diretas do
Presidente poderiam diminuir os danos.
Ocasionalmente, Warren levantava os olhos e pedia fatos
concretos. Woodward explicou que ele e Bernstein só os
dariam ao próprio Presidente e esperava que Warren
considerasse a presente visita como um pedido formal para
uma entrevista com o Presidente. Warren replicou que
transmitiria o pedido, mas acreditava que seria rejeitado.
— Posso adiantar que esta é uma decisão que não
pretendo tomar. Mas vou encaminhar sua solicitação.
Woodward calculou que seu pedido encalharia em Ron
Ziegler, a quem havia evitado de propósito. Tentou
novamente.
A julgar pelas informações, disse Woodward, o Presidente
logo vai ter que abandonar o barco do Watergate. O Post
esperava discutir os fatos concretos antes que tal
acontecesse. Woodward disse que tinham em mãos dados
sobre escuta clandestina, arrombamentos e operações
secretas adicionais, e que tudo seria, eventualmente,
revelado.
Warren franziu de leve as sobrancelhas e lançou-lhe um
olhar desconfiado.
— Se você pudesse ser mais claro, acho que ajudaria.
Woodward repetiu que, no momento, não apresentaria
exemplos concretos, mas se o Presidente concordasse em
conceder-lhe uma entrevista, forneceria as perguntas de
antemão. Não haveria tentativa de pegá-lo desprevenido.
Woodward sentiu-se invadido por uma onda de nervosismo.
A coisa não estava funcionando, pensou. Sentia-se também
tomado pelo seu inerente respeito à Presidência. E
compreendeu que esse respeito era uma das razões pelas
quais se encontrava ali, sentado naquele cubículo. Era como
um aviso. Warren também compreendia. Woodward queria
deixar bem claro que não se tratava de um aviso ameaçador,
ao contrário, de um modo singular, era amigável, deveria
transmitir a sensação de reverência para com o mais alto
cargo da nação e a possibilidade de um escape. Woodward
tentava ajustar a situação. Queria que o jornal persuadisse
com fatos e bons trabalhos de reportagens. Contudo, não
queria que uma muralha de hostilidade se levantasse.
Warren sorriu como se dissesse: não é assim que a coisa
funciona. Ou você tem os fatos e dá o serviço, ou não. Mas,
às vezes, sua expressão se suavizava, como se tivesse ímpeto
de passar o braço estendido pela mesa deixando-a limpa de
papéis, e dizer: certo, vamos falar sobre o assunto... Mas
talvez tudo não fosse mais que fruto da imaginação de
Woodward e da natural gentileza de Warren.
Quando Woodward terminou sua explicação, Warren
colocou delicadamente a caneta sobre o bloco e estendeu a
mão.
— Eu volto a me comunicar com você — disse ele.
Woodward respondeu que não havia pressa e encolheu os
ombros como se dissesse que já sabia qual ia ser a resposta.
Quando saiu da saleta e alcançou a luz do sol, sentiu-se leve.
Tinha tentado.
Bernstein e ele bem sabiam que agora sua participação nos
acontecimentos seria bem menor do que antes. Forças muito
mais poderosas tinham assumido o controle. As
investigações governamentais estavam em curso, e o instinto
de preservação poderia forçar os homens do Presidente a se
tornarem informantes.
Na quarta-feira, 28 de março, McCord estava escalado para
prestar seu primeiro depoimento sob juramento, a portas
fechadas, perante os sete senadores que integravam a
Comissão do Watergate. Bernstein juntou-se às dúzias de
outros repórteres que se acotovelavam à porta da sala de
audiências. Os jornalistas discutiam os fatos que,
forçosamente, seriam revelados, e concordavam sobre os
riscos de tentar reportar o que aconteceria lá dentro. Já não
era mais o caso de reportagens "de pesquisa"; era a hora de
pesar cada informação, juntar as peças do quebra-cabeças,
esclarecer os fatos obscuros. De outro modo, estariam
simplesmente tentando antecipar depoimentos de pessoas
que poderiam vir a ocupar publicamente o banco das
testemunhas. Julgar quais as acusações que deveriam ser
consideradas simples "boatos", quais as que eram de próprio
conhecimento e colocá-las no contexto adequado era tarefa
das mais trabalhosas. Acusações sensacionalistas e revelações
deliberadas por partes interessadas seriam difíceis de ser
corretamente avaliadas. Se alguns jornais e redes de TV se
dispusessem a procurar informações por baixo do pano,
todos os repórteres ver-se-iam forçados a entrar na
competição.
A sessão da Comissão com McCord prolongou-se por quatro
horas e meia. Depois, o senador do Tennessee, Howard
Baker, vice-presidente da Comissão, declarou que McCord
tinha fornecido "relevantes informações... abrangendo um
vasto campo".
Bernstein e Woodward começaram os telefonemas de praxe,
a começar pelos senadores.
— Está bem, vou ajudar você quanto a este caso — disse
um deles a Woodward. — McCord testemunhou que Liddy
lhe contara sobre os planos e verbas da operação Watergate,
dizendo que tinham sido aprovados por Mitchell em
fevereiro, quando ainda ocupava o cargo de Procurador
Geral. Disse também que Colson tivera conhecimento
antecipado do projeto.
Contudo, respondendo às perguntas de Woodward,
acrescentou que McCord só possuía informações de segunda
mão para suas denúncias, bem como para suas acusações
anteriores de que John Dean e Magruder tinham ambos
ciência prévia do projeto.
— No entanto — disse o senador —, ele foi muito
convincente.
Bradlee conseguiu que um outro senador corroborasse o
relato, e Bernstein recebeu idêntica versão de um membro
da equipe.
A reportagem do dia seguinte, ressalvando a natureza do
testemunho de McCord como "por ouvir dizer", citava
incognitamente as apreciações do senador.
Continuava a chuva de reportagens sobre o que "McCord
declarou". McCord compareceu novamente na quinta-feira,
e os repórteres repetiram o exercício. McCord declarou ter
sido informado por Liddy que os mapas delineando a
operação Watergate haviam sido exibidos a Mitchell em
fevereiro. Três fontes diferentes forneceram versões iguais
do depoimento.
A esta altura, o secretário de imprensa Ron Ziegler declarou
que o Presidente, na tentativa de "dissipar o mito... de que
estamos procurando despistar", havia dado ordens a
membros de sua equipe para que se apresentassem perante o
grande júri para prestar depoimento, caso fossem chamados.
O Star-News interpretou o fato como uma reviravolta da
política da Casa Branca e disse que "parecia ser um
importante relaxamento da rígida política de Nixon da
proteção ao seu staff através da doutrina da imunidade
parlamentar".
Temendo que o Post cometesse o mesmo erro, Bernstein e
Woodward dirigiram-se a Dick Harwood, o editor nacional.
O próprio Ziegler afirmara que essa política não constituía
novidade. Vários assistentes da Casa Branca já haviam
testemunhado e prestado juramento para depor perante o
grande júri. O Presidente não solicitara imunidade para os
mesmos com relação a inquéritos criminais, mas apenas para
as sessões do Congresso.
A dupla sugeriu veementemente a Lon Cannon, repórter da
equipe nacional do Post e autor da reportagem, que a mais
recente declaração de Ziegler não representava uma
mudança de politica. Cannon possuía considerável número
de informantes republicanos, e escrevera alguns dos
melhores trabalhos do Post a respeito dos efeitos do
Watergate sobre a Casa Branca e o Partido Republicano.
Agora, estava furioso. Havia discutido o assunto com os mais
experientes membros do corpo de imprensa da Casa Branca,
e todos tinham concordado em afirmar que a atitude do
Presidente indicava um relaxamento de sua posição quanto à
imunidade parlamentar.
O Watergate se tornara, com o passar dos meses, um ponto
nevrálgico nas relações nunca muito amistosas entre a
equipe local e a equipe nacional do Post. Bernstein e
Woodward ficaram horrorizados tanto com o caráter da
reportagem de Cannon quanto com sua posição de matéria
principal da edição do dia seguinte.
Nesse dia, suas fontes na Casa Branca confirmaram que o
comunicado de Ziegler não passara de um procedimento de
relações-públicas. Todavia, a Comissão e a equipe do Senado
frisaram, com mais ênfase, que a intenção fora desviar a
atenção do pedido de imunidade parlamentar para a
investigação do Senado. As fontes do Congresso sugeriam
uma razão adicional para a vontade do Presidente em
cooperar com um dos inquéritos e não com o outro: o
processo do grande júri seria secreto e sob a supervisão da
própria administração do Departamento de Justiça. As
sessões do Senado seriam públicas e independentes do Poder
Executivo.
Nove meses depois do Watergate, a Casa Branca
demonstrava mais uma vez que entendia mais de imprensa
do que a imprensa entendia da Casa Branca.
Se houvesse em Washington um repórter a não se deixar
enganar pelas manobras da Casa Branca, Bernstein e
Woodward achavam que este seria Seymour Hersch do New
York Times. Um amigo comum arranjou para que a dupla
jantasse com Hersch na noite de 8 de abril.
Hersch, 36 anos, óculos de armação pesada e um pouco
atarracado, apareceu para o compromisso vestido numa
esgarçada camisa listrada — provavelmente a melhor que
adquirira em seu primeiro ano na universidade —, calças
caqui desbotadas e amarrotadas e um par de velhos tênis. Era
diferente de qualquer outro repórter que tivessem
conhecido. Não hesitava em proclamar publicamente que
Henry Kissinger era um criminoso de guerra e abertamente
confessava que o poder do New York Times o repelia e
atraía ao mesmo tempo. Hersch denunciara o massacre de
My Lai e passara anos escrevendo sobre a burocracia militar
e de segurança nacional. Encontrava-se singularmente
qualificado para entender os meandros do caso Watergate.
— Eu conheço essa gente — disse Hersch. — A
característica predominante desta Administração é a
mentira.
E podia ser igualmente rude com o New York Times:
"Mentiras, mentiras, mentiras", foi seu comentário sobre a
reportagem de um colega.
Durante o jantar, Bernstein e Woodward mencionaram o
nome de um dos homens do Presidente sob suspeita no caso
Watergate.
— Eu adoraria agarrar aquele filho da mãe. Já o conheço
de muito antes do Watergate — comentou Hersch. — Mas
não vai receber alfinetadas de mim. Ou eu o apanho no
duro, com fatos, dados concretos, provas, a verdade, enfim,
ou então nem toco nele.
Os três trocaram idéias sobre sua impressão de que algumas
das testemunhas e principais figuras do Watergate estavam
tendo cuidado para não mostrarem seus trunfos. Pouco
depois, Bernstein perguntou a Hersch em tom de
brincadeira qual a matéria sobre Watergate que ele iria
descarregar quando a primeira página do New York Times
chegasse à redação do Post.
— Uma coisinha à-toa — respondeu Hersch.
Bernstein e Woodward não saberiam dizer se ele estava
brincando. Woodward telefonou para a redação. Hersch não
estava brincando. A "coisinha à-toa" era a primeira
reportagem na qual se divulgava que McCord testemunhara
que os pagamentos em dinheiro feitos aos conspiradores do
Watergate haviam saído diretamente do CRP. Esse era o elo
pelo qual tinham todos esperado. Desde janeiro, todo mundo
vinha presumindo que o CRP comprara o silêncio dos
conspiradores, mas, agora, finalmente, alguém do círculo
interno dizia o mesmo.
Meses antes, Hugh Sloan dissera aos repórteres que a famosa
caixinha jamais deixara de existir, mesmo depois das prisões
do Watergate. Bernstein e Woodward tinham, então, ficado
atônitos. Sloan lhes contara que o dinheiro fora transferido
do cofre de Stans para Fred LaRue. Nada tinham divulgado,
por falta de confirmação e por não saberem como fora gasto
o dinheiro. Sloan recusara-se a mencionar a quantia em
questão. Parecia plausível, agora, que o dinheiro se
destinasse à compra do silêncio dos conspiradores. LaRue
fora vice de Mitchell e co-diretor da faxina do Watergate.
Ele e Mardian tinham sido os dois executivos do CRP a
supervisionar Kenneth Parkinson e os outros advogados do
Comitê. O depoimento de McCord acusava Parkinson e a fa-
lecida Dorothy Hunt, esposa de Howard Hunt, de
intermediários nos pagamentos aos conspiradores.
Woodward telefonou para um funcionário do CRP que se
mostrara amável, mas pouco propenso a discutir fatos
concretos. O homem explodiu, ao telefone, sobre o terrível
estado de coisas que se seguira às declarações de McCord.
— John Mitchell continua lá, sentado, fumando seu
cachimbo, quase sem falar... Eu costumava pensar que era
sinal de sabedoria... você sabe, ficar de boca fechada. Agora
vejo que é pura ignorância... Meu Deus, nunca pensei que
algum dia diria a vocês que não odiei o que fizeram. O jeito
como a Casa Branca tratou desta confusão toda é que
arruinou a Presidência... Tenho amigos que olham para mim
agora e perguntam: "Como é que você pode querer se dar ao
respeito e continuar trabalhando para o CRP?" Não agüento
mais.
Aproveitando aquela oportunidade única, Woodward disse
que ele e Bernstein sabiam que LaRue estava metido no
pagamento dos conspiradores. Woodward só conhecia
LaRue por fotografia. Era um homenzinho careca, com
óculos redondos, antigo dono de um cassino de Las Vegas e
milionário do petróleo — o perfeito caixa, pensou
Woodward.
— Não posso responder a perguntas, mas vou dizer uma
coisa em que você não vai acreditar — disse o homem do
CRP. — Fred LaRue não vai cometer perjúrio. Se lhe
perguntarem, ele vai dizer que ajudou a pagar os homens.
Woodward telefonou para Hugh Sloan. LaRue pagara os
rapazes, anunciou-lhe Woodward, e deu-se conta de como
devia estar soando ridículo. Sloan não se surpreendeu com o
que ouviu. Sempre suspeitara o pior, fosse o que fosse.
Quanto dinheiro tinha sido transferido da caixinha?
Woodward procurava números redondos.
Sloan recusou-se a dizer.
Continuaram o velho jogo, com dois lutadores se estudando
depois de algum tempo sem subirem ao rinque. Mais de US$
100.000,00? Mais de US$ 50.000,00? Entre US$ 50.000,00 e
US$ 100.000,00? Acima ou abaixo de US$75.000,00?
— Uma diferença de US$ 5.000,00 — disse Sloan.
Já era alguma coisa... Provavelmente US$80.000,00, mas os
repórteres mencionariam US$ 70.000,00.
Como pôde o CRP continuar com a caixinha impunemente,
depois das prisões do Watergate?
— A transferência foi feita em julho — explicou Sloan. —
Ainda não tinha surgido nada com relação ao dinheiro e o
secretário Stans a aprovou. Ter o dinheiro à mão era um jeito
de continuarem atividade. — Sloan achava que alguém
aconselhara Stans a proceder assim, mas não sabia quem.
Também quanto a isto, suspeitava o pior.
Os promotores sabem desta história? perguntou Woodward.
— Acho que nao — respondeu Sloan. — Nunca me
perguntaram*. Woodward telefonou para um funcionário do
Departamento de Justiça.
Estavam os promotores procurando determinar se os
conspiradores tinham sido pagos com os US$ 70.000,00 que
LaRue retirara do cofre de Stans, depois do Watergate?
— Os promotores estão procurando cada centavo do
dinheiro do Comitê para poderem determinar se esse
dinheiro se destinou a tais pagamentos; cada centavo que
puderem encontrar.
Inclusive o dinheiro do cofre de Stans?
— Certo.
Isso encerrava o caso. A reserva secreta fizera os repórteres
fecharem o círculo — primeiro a operação secreta e agora o
acobertamento.
O jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa
Branca é um acontecimento social formal, badalado, regado a
álcool, com a presença de todos que detêm — ou gostariam
de deter — o poder, no governo e nos veículos de
comunicação. Teve lugar no dia 14 de abril, no Washington
Hilton, e entre os que lá passaram a noite, entrecortada por
grosseiras anedotas sobre o Watergate, encontravam-se
Haldeman, Ehrlichman, Kissinger e o Presidente (que
chegou acompanhado de uma comitiva de ex-prisioneiros de
guerra).
Bernstein e Woodward foram convidados porque tinham
recebido dois prêmios de jornalismo. Passaram uma boa
parte da noite fingindo não conhecerem uma porção de
funcionários da Administração que eram seus informantes.
Agora, um bom grupo deles já não mais era admitido no
círculo interno, procuravam os repórteres para saber o que
se passava, e perguntavam:
— O que está acontecendo?
— A coisa vai mal?
— O que é que vocês acham que o Presidente devia fazer?
No salão, depois do jantar, os dois viram o Procurador Geral
Kleindienst reinando sobre uma pequena corte. As
declarações públicas de Kleindienst tinham sido a viga-
mestra da defesa da investigação da Administração. Wood-
ward e Bernstein jamais tinham conseguido se aproximar
dele. Foram até lá e se apresentaram.
— Vocês dois têm a coragem das suas convicções —
observou Kleindienst. O que está acontecendo? perguntou
Woodward.
— O caso Watergate vai estourar — respondeu ele com
simplicidade. Woodward disse que precisavam conversar.
Que tal amanhã, domingo?
— Amanhã eu vou à Igreja — respondeu ele.
Bernstein e Woodward explicaram sua ansiedade em falar
com ele.
Sloan, de fato, confirmou que perguntas relevantes sobre a
reserva secreta lhe haviam sido feitas, algumas semanas atrás,
quando prestara depoimento para um grande júri em Nova
Iorque, que investigava a doação em dinheiro feita ao CRP
por Robert L. Vesco, economista internacional e trapaceiro.
O presente de USS 200.000,00, de Vesco, em notas de USS
100,00, fora entregue ao CRP em uma maleta preta. A
quantia fora somada à reserva do cofre de Stans, e ajudara a
financiar a operação Watergate e outras atividades secretas.
— Muito bem — respondeu Kleindienst. — Vocês dois
vao à Igreja comigo amanhã e depois iremos a minha casa
para tomarmos café juntos.
Algumas empresas jornalísticas haviam alugado suites de
recepção onde foram servidas bebidas até quase o
amanhecer. Woodward chegou à festa do Wall Street
Journal mais ou menos às duas da madrugada. Umas vinte
pessoas, todas de copo na mão, estavam reunidas a um canto,
e uma voz conhecida elevou-se do centro do grupo.
— Seu filho da puta! Bradlee, sem dúvida.
Estava discutindo com seu antigo empregado e atual
assistente da Casa Branca, Ken Clawson. O assunto girava em
torno da suposta declaração de Clawson admitindo a autoria
da Carta Canuck. Mas o debate abrangia velhas batalhas:
imprensa versus governo; Washington Post versus
Presidente Nixon. Clawson dissera certa vez a seus amigos
que o homem a quem mais admirava era Bradlee. Agora,
passara a odiá-lo, e o considerava pessoalmente responsável
pela reportagem sobre a Carta Canuck.
Alimentada pela bebida, a altercação ia se tornando mais
violenta e pessoal. Os dois homens, vestidos a rigor,
afastavam qualquer pessoa que tentasse intervir.
Afinal, numa ridícula tentativa de parecerem mais discretos,
retiraram-se para um quarto, deixando a porta aberta.
— Eles já saíram no tapa? — perguntou uma senhora,
morrendo de curiosidade.
No bar, outro bate-boca por causa do Watergate: Edward
Bennett Williams, advogado do Post e presidente dos
Washington Redskins, time favorito do Presidente Nixon,
enfrentava Patrick J. Buchanan, um dos redatores de dis-
cursos da Casa Branca. O escritório de advocacia de Williams
contava com o Partido Democrático entre seus clientes.
Agora ele comentava acremente as eleições de 1972.
— Você é um mau perdedor — dizia Buchanan.
— Mas vocês jogaram sujo, Pat — respondeu Williams,
inclinando o corpanzil para um lado. — Vocês tinham que
fazer sujeira. Vocês ganharam, 'tá certo, mas tinham que
fazer trapaça.
— Tudo o que vocês tinham era o Watergate — redarguiu
Buchanan. — Um punhado de cubanos que foram espiar a
correspondência de O'Brien... Vocês armaram uma
tempestade em um copo d'água.
— Sujeira, Pat, sujeira — repetiu Williams. — Você não se
envergonha? Você, um conservador... e todas essas infrações
criminais. E o Washington Post enfiando tudo em vocês.
Ah, isso é que deve ter doído mais. — Passou o braço pelo
ombro de Woodward.
— O Washington Post enfiando tudo no traseiro de
vocês.
— Sessenta e um por cento, Ed — retrucou Buchanan. —
Sessenta e um por cento. A maior margem de diferença dos
últimos tempos, e se não fosse o Watergate, podia ter sido
maior ainda.
— Vocês fizeram sujeira.
— Um pouquinho de espionagem, Ed. Mas faz parte da
política. Aposto que vocês também estavam ligados no Shula
(treinador dos Miami Dolphins) lá no estádio Super Bowl.
Todos vocês de binóculos pelo estádio inteiro e nem assim
conseguiram ganhar.
— Vocês ganharam, Pat, 'tá certo, e agora todo mundo está
sentindo o fedor — Williams vacilou levemente e segurou o
copo com as duas mãos.
— E quanto a alguns dos seus clientes, hein, Ed? —
respondeu Buchanan, provavelmente referindo-se ao antigo
presidente do time, James Hoffa, e a Bobby Baker, ex-
assistente do Senado. — Você também andou lidando com
gente muito fina.
— Pat — disse Williams, movendo-se e postando o pesado
corpo na frente de Buchanan. — Você me surpreende, Pat.
Há uma grande diferença...
— E alguns daqueles ladrões que você defendeu? —
escarneceu Buchanan.
— Há uma grande diferença — estourou Williams. — Uma
diferença tão grande...
Abaixando a cabeça, encostou-se no bar e levantou os olhos.
— E qual é essa grande diferença, Ed?
— Eu não fiz nenhum dos meus clientes concorrer à
Presidência.
Na manhã seguinte, Woodward e Bernstein dormiram
durante o serviço religioso e depois foram para o Estado de
Virgírnia, até a casa de Kleindienst, a fim de tomar o café
que lhes fora prometido.
A Sra. Kleindienst atendeu a porta.
— Ele foi chamado à Casa Branca e não pode discutir o caso
Watergate com vocês — explicou ela. — Foi até lá e teve
que ficar para uma reunião. Ficou com muita pena.
Na tarde daquele domingo, ao crepúsculo, Woodward e um
amigo se achavam sentados no cimo de um outeiro gramado,
no Parque Montrose, em Georgetown. A pouca distância de
onde se encontravam, Woodward viu um casal caminhando
em sua direção e conversando animadamente.
— Aquele é Haldeman — disse o amigo de Woodward.
Era Haldeman, de fato. Vestia calças esporte, jaqueta e
sandálias. Andava devagar, com as mãos enfiadas nos bolsos.
Sua esposa, também vestida esportivamente, falava-lhe com
emoção e convicção evidentes. Haldeman mantinha
silêncio, virando a cabeça de vez em quando para fitá-la. O
sol se punha.
Woodward viu sua chance de transpor a muralha. Aqui,
num parque público, sem guardas, sem policiais, sem
limusinas da Casa Branca à espera, Haldeman parecia
subjugado. Woodward fez menção de levantar-se, tentando
imaginar se Haldeman o agrediria quando se apresentasse.
— Deixe-o em paz — disse-lhe baixinho o amigo. O casal
passou por eles, absorvido na conversa. Woodward não se
mexeu.
Kleindienst telefonou para os repórteres na manhã de
segunda-feira, des-culpando-se pelo encontro cancelado.
Tinha havido uma reunião de emergência na Casa Branca,
explicou enigmaticamente. Ia tudo vir a público nos
próximos dias.
Naquela noite, o editor local de plantão telefonou para a casa
de Woodward. Na primeira página, o Los Angeles Times
predizia que a Casa Branca admitiria dramaticamente dentro
de poucos dias a responsabilidade pelo Watergate: um ou
mais dentre os membros do primeiro escalão, não identi-
ficados na reportagem, seriam apontados como tendo
tolerado ou até dirigido atividades de espionagem política e
de sabotagem, sem a aprovação do Presidente.
Woodward deu um telefonema de emergência para Deep
Throat. O complicado processo envolvia fazer a chamada de
uma cabina telefônica predeterminada, esperar dez segundos
em completo silêncio e desligar. Woodward teve que
esperar quase uma hora ao lado da cabina antes que Deep
Throat ligasse de volta.
Não era possível um encontro para aquela noite.
— Você nem precisa me dizer por que telefonou.
A cidade está ficando louca, o que está acontecendo?
perguntou Woodward.
— Agora segure-se — disse Deep Throat. — Dean e
Haldeman estão fora com certeza.
Fora? Woodward perguntou incrédulo.
— Fora. Vão pedir demissão. Não há jeito de o Presidente
evitar. O Post podia publicar a notícia?
— Pode. É fato consumado — respondeu Deep Throat. O
que devemos fazer? perguntou Woodward.
— Alguém está começando a falar, muitos estão
começando a falar. Vá e tente descobrir. Tenho que ir. É pra
valer, descubra. — Deep Throat desligou.
Quando Woodward chegou à redação mais ou menos às
onze da manhã do dia seguinte, 17 de abril, Bernstein,
Sussman, Rosenfeld, Simons e Bradlee se achavam no
escritório de Bradlee tentando planejar o próximo passo.
Bernstein acabara de falar com um funcionário da Casa
Branca e esse informara que lá o caos era completo, mas que
ninguém parecia saber o que ia acontecer... ou quando.
Woodward embarafustou pela sala de Bradlee, e
precipitadamente contou a história de Deep Throat. Os
outros ficaram assombrados.
Era fato consumado, disse Woodward. Deep Throat dissera
que tinha certeza. Todos entenderam que o castelo de cartas
começava a desmoronar.
— Podemos publicar? — perguntou Bradlee, olhando para
fora da janela. Podemos, confirmou Woodward, mas estava
preocupado, pois a reportagem poderia retardar as
demissões.
Bernstein, por seu lado, temia que uma reportagem do Post
pudesse até mesmo fazer com que as demissões fossem
canceladas.
Rosenfeld sugeriu delicadamente que talvez os repórteres e o
próprio Post estivessem se dando uma importância
exagerada. Se Haldeman e Dean deviam sair, o Presidente
tinha mais com o que se preocupar do que com o fato de o
Post ser o primeiro a dar a notícia.
Bradlee estava se recordando de uma ocasião em que se saíra
muito mal com uma reportagem sobre demissões, e a
experiência o deixara com um forte temor desse gênero de
matéria.
— Escrevi a matéria de capa do Newsweek sobre J. Edgar
Hoover, dizendo que, finalmente, a procura de seu
substituto para o FBI estava em curso — contou Bradlee. —
Moyers (Bill D. Moyers, secretário de imprensa de Lyndon
Johnson) disse: "Pegamos esse bastardo. Lyndon me deu
ordem para procurar um substituto", E esse foi o lead, sem
mencionar o nome de Moyers: "Finalmente, tem início a
busca ao substituto de J. Edgar Hoover". Johnson, no dia
seguinte, creio, convocou a imprensa e declarou que tinha
nomeado Hoover diretor vitalício do FBI. E quando ia
enfrentar as câmaras de TV, virou-se para Moyers e disse:
"Agora, telefone para o Bradlee e diga a ele que se foda". Pois
bem, durante anos me disseram: "A culpa é sua, Bradlee. A
culpa é sua, você deu-lhe o cargo vitaliciamente".
Bradlee confessou que não sabia o que fazer com a notícia
sobre Haldeman e Dean. Queria publicar, mas tinha medo.
Não precisou tomar a decisão, no momento. Alguém trouxe-
lhe a cópia de um telegrama. O Presidente marcara um
pronunciamento para aquela tarde, na sala de imprensa da
Casa Branca.
Os repórteres decidiram que quem devia ir era Bernstein,
caso o Presidente se dispusesse a responder perguntas da
tribuna. O repórter telefonou para o escritório de Ziegler —
como Woodward, também não tinha passe de imprensa para
a Casa Branca.
Quando chegou, a sala já estava lotada. Bernstein
surpreendeu-se com o que achou ser uma atitude muito
diferente dos jornalistas credenciados junto à Casa Branca,
tanto jovens como veteranos. Havia gente muito zangada
naquela sala. Humor negro era a ordem do dia. O Presidente
se atrasava.
— Ele está procurando um cocker spaniel e um casaco para
Pat — disse um dos mais velhos.
— Nixon vai renunciar à imunidade parlamentar do Manolo
e jogá-lo às feras — disse outro. Manolo era o criado de
quarto do Presidente.
Alguém levantou a hipótese de que estavam prestes a ouvir
uma mensagem sobre a reforma do sistema presidiário.
— É — disse outro. — Vão transferir a Casa Branca para
Leavenworth. Alguns jornalistas, inclusive Helen Thomas,
da UPI, achavam que o
Presidente anunciaria a demissão de Bob Haldeman. Passou-
se uma hora e os refletores das câmaras foram apagados.
Gerry Warren apareceu e disse que o Presidente viria logo
que possível. A expressão de Warren era sombria.
Discutiu-se se a presença de Warren significaria que Ziegler
estava acabado e seria substituído. Se o Presidente admitisse
a ligação entre a Casa Branca e o Watergate, alguém
comentou, Ziegler merecia estar acabado. Ele merecia estar
acabado não importa qual o motivo, alguém acrescentou, e
houve muitas gargalhadas.
Helen Thomas achava que o Presidente estava tão aturdido
emocionalmente que iria anunciar não estar em condições
de prosseguir com a entrevista. Isto explicaria a demora,
disse ela.
Warren apareceu de novo e disse que faltava pouco. As luzes
voltaram a acender-se.
Às 4h40min, Ziegler, com expressão ainda mais carrancuda
do que Warren, apareceu no corredor da Ala Oeste.
— Senhoras e Senhores, o Presidente dos Estados Unidos.
Apesar do bronzeado, o Presidente parecia mais velho do
que nas fotografias. Bernstein notou que suas mãos tremiam.
— No dia 21 de março — disse o Presidente —, como
resultado de graves denúncias que chegaram ao meu
conhecimento, algumas das quais vieram a se tornar
públicas, dei início a intensos interrogatórios, com o
propósito de investigar toda a questão... Posso hoje afirmar
que houve importantes progressos relativos ao caso, cujos
detalhes não seria conveniente enumerar agora, exceto para
dizer que tivemos resultados altamente positivos para
chegarmos à verdade.
Não haveria demissões naquele dia. Em vez disso, o
Presidente anunciou que suspenderia "qualquer pessoa do
Poder Executivo ou do Governo" que viesse a ser indiciada
no caso.
O Presidente se arrogava o papel de investigador, faria justiça
onde outros tinham fracassado. Eram estes os muito
comentados "grandes progressos". No domingo, Nixon tivera
uma reunião com o Procurador Geral Kleindienst e o Vice-
Procurador Henry E. Petersen "para analisar os fatos que
chegaram até mim, durante minha investigação, como
também para fazer um levantamento da investigação
realizada pelo Departamento de Justiça". Então... era por isso
que Kleindienst não cumprira o compromisso com os
repórteres no domingo de manhã.
Richard Nixon era agora o promotor, e expressara sua
"opinião às autoridades competentes de que nenhum
vínculo pessoal, presente ou passado, ou posição de
relevante importância na Administração, dava imunidade
contra procedimento judicial".
Abandonando sua posição anterior, o Presidente concordava
agora que seus auxiliares prestassem depoimento sob
juramento perante a Comissão do Senado do caso Watergate.
Embora pudessem ainda solicitar imunidade quanto a
determinadas perguntas. John Ehrlichman estudava os
detalhes com a Comissão.
O comunicado do Presidente não chegou a durar três
minutos. Suas mãos não pararam de tremer. Quase o tempo
todo ficou olhando para além dos jornalistas, os olhos fixos
nas câmaras de TV montadas numa plataforma ao fundo da
sala, ou lendo as anotações que trouxera.
Depois forçou um sorriso — que parecia uma máscara — e
saiu da sala apressadamente. Bernstein perguntou aos outros
repórteres mais assíduos se as mãos do Presidente sempre
tremiam daquela maneira. Era um fato recente,
responderam.
O ambiente na sala de imprensa ficou feio depois da saída do
Presidente. Os repórteres iam surrar e flagelar Ziegler até
reduzi-lo à submissão.
A princípio, a resistência de Ziegler foi irredutível. Não
havia contradições entre as últimas declarações do
Presidente e o que fora dito antes, insistia Ziegler. Os
comunicados precedentes da Casa Branca se haviam baseado
em "investigações prévias à ação do Presidente", na
"investigação anterior" e nas "informações disponíveis à
época". Agora, "fatos novos" tinham levado à última
"declaração de tomada de posição".
Mas os repórteres não estavam satisfeitos. No décimo oitavo
assalto, Ziegler capitulou.
— Este é o comunicado prático — disse ele. — Os outros são
teóricos. — Por um momento fez-se um extraordinário
silêncio.
Já passava das seis quando Bernstein voltou à redação e
começou a escrever. Qualquer reportagem sobre as
demissões de Haldeman e de John Dean teria que esperar
confirmação. Ziegler enchera páginas de citações ao fugir à
questão. Woodward, no entanto, já redigira um texto
complementar que ajudava a colocar o comunicado do
Presidente em perspectiva. Fora informado por funcionários
do Departamento de Justiça e da Casa Branca de que vários
auxiliares do Presidente seriam brevemente indiciados pelo
grande júri de Watergate: Mitchell, Magruder e Dean eram
os candidatos mais prováveis. Seus nomes não saíram na
reportagem.
Quando leu a matéria, Rosenfeld olhou bem-humorado para
Woodward, como se dissesse: "Você já devia saber como é",
e eliminou a referência às mãos trêmulas do Presidente.
Os dois repórteres começaram a pesquisar as razões da súbita
mudança de atitude do Presidente. Na manhã seguinte, 18
de abril, Woodward telefonou para um homem do CRP e
perguntou-lhe quem estava falando com os promotores.
— Por que você não dá um pulinho até aqui, aí pelas
quatro da tarde? Talvez eu tenha alguma coisa para você.
Foi uma caminhada longa e calorenta, muito pouco
agradável, pois as construções do metrô tinham arrebentado
as ruas e as calçadas pelo seu percurso. O barulho das
britadeiras e bate-estacas era ensurdecedor. Woodward ainda
ouvia o ruído lá de fora quando se sentou na poltrona,
defronte ao homem do CRP.
— Magruder vai ser o próximo McCord — informou ele.
— Procurou os promotores no sábado passado (14 de abril) e
deu o serviço sobre Dean e Mitchell.
Woodward admirou-se. Considerava Magruder o super leal.
As coisas devem ter ficado muito pretas, comentou.
— Pretas, uma pinóia — disse o homem. — 'Tava tudo
caindo em cima dele: ia ficar soterrado. — Lançou os braços
à frente cobrindo o rosto, dando ênfase ao que dizia.
Woodward perguntou quais as acusações de Magruder a
Dean e Mitchell.
— Acusou-os da merda toda... Os planos dos
transmissores clandestinos e o esquema de pagamentos...
Aquelas reuniões, ou no mínimo uma reunião, na sala de
Mitchell, quando todos os detalhes antes do arrombamento
foram discutidos com Liddy.
Woodward tomou um táxi de volta à redação e telefonou
para um funcionário da Casa Branca.
Sabemos que Magruder abriu o bico, disse Woodward.
— Então vocês têm informações muito boas — respondeu
o funcionário. Ele contou muita coisa aos promotores?
— Deu o serviço todo, todos os planos, os mapas, os
pagamentos... Não "por ouvir dizer" como McCord. Isso vai
mandar Dean e Haldeman pra trás das grades.
Woodward telefonou para o advogado de Magruder, James J.
Bierbower, e lhe disse que o Post sabia que seu cliente fora
aos promotores.
— Espere um pouco, espere um pouco... — falou
Bierbower. — Eu não estou nem confirmando que ele seja
meu cliente.
Woodward informou que o Post ia divulgar que Magruder
acusara Dean e Mitchell tanto da instalação dos aparelhos
eletrônicos como do posterior arrombamento.
— Olhe, eu telefono de volta em quinze minutos — disse
Bierbower. Woodward ligou para um funcionário do
Departamento de Justiça e contou-lhe o que sabia.
— Isso não é tudo — o timbre do funcionário era
decididamente impertinente. — Outras pessoas vão
testemunhar que Mitchell e Dean estavam metidos no
sistema de pagamentos.
Bernstein localizou um informante da Casa Branca que
confirmou a informação de Deep Throat de que Haldeman e
Dean estavam acabados. A demissão de Dean já estava
pronta e a de Haldeman estava sendo preparada.
Woodward estava verminando a primeira página da
resportagem quando Bradlee veio até sua mesa. Trazia uma
das suas típicas folhas duplas de papel e sentou-se numa
máquina de escrever atrás de Woodward. Estavam de costas
um para o outro. Woodward ouviu-o murmurar qualquer
coisa sobre "a reportagem pela qual esperei". Então
Woodward ouviu o ruído da máquina. O primeiro parágrafo
de Bradlee ficou pronto em um minuto cravado e ele pediu a
Woodward que se virasse e desse uma olhada.
Woodward lançou um tímido protesto pelo fato de Bradlee
não fazer menção a qualquer fonte. Era como se as acusações
de Magruder, saindo do nada, caíssem no colo do
Washington Post.
Bradlee não se deu por achado.
— Isso fica para depois — disse ele, e recomeçou a
datilografar. Quando terminou o terceiro parágrafo, havia
solucionado, em termos, o problema dos informantes, e
acabado a folha dupla de papel.
A exceção de algumas palavras, o lead de três parágrafos era
da autoria de Bradlee.
"O ex-Procurador Geral, John N. Mitchell, e o Conselheiro
da Casa Branca, John W. Dean III, aprovaram e prestaram
seu auxílio no planejamento da operação Watergate,
segundo o assessor especial do Presidente, Jeb Stuart
Magruder.
Mais tarde, acrescentou Magruder, Dean e Mitchell tomaram
providências para comprar o silêncio dos sete conspiradores
condenados. Magruder, vice-diretor da campanha para a
reeleição do Presidente, fez estas declarações no sábado,
perante os promotores federais, segundo três fontes da Casa
Branca e do Comitê para a Reeleição do Presidente."
A matéria inteira tomava metade da primeira página do Post,
o maior espaço jamais dedicado a uma reportagem sobre
Watergate.
A edição do New York Times da mesma data, 19 de abril,
trazia um título de cinco colunas sobre o Watergate. O
Procurador Geral Kleindienst considerara-se prejudicado
para dirigir os trabalhos relacionados com o caso, tendo em
vista "os rumores persistentes" de que três ou mais de seus
colegas seriam indiciados. Sy Hersch escrevera que o
inquérito do grande júri deslocara a atenção do
arrombamento em si para a obstrução da justiça provocada
por funcionários da Administração que, acreditava, estariam
envolvidos no acobertamento da operação. Dizia-se que
John Dean, caso indiciado, não hesitaria em apontar outros
responsáveis.
Naquela manhã, Bernstein telefonou para o escritório de
John Dean. A secretária estava em prantos. Não sabia onde
se encontrava seu chefe, nem mesmo se ainda trabalhava
para a Casa Branca. Deu a Bernstein os nomes de alguns
amigos, associados e companheiros de John Dean que talvez
pudessem ser úteis. Todos inacessíveis.
CAPÍTULO 15
No fim da manhã, quando a secretária de John Dean se
recuperou, voltou a telefonar para Bernstein e leu uma
declaração emitida em nome de John Dean:
"Até a presente data, furtei-me sempre a fazer qualquer
comentário público quanto ao caso Watergate. Procederei
do mesmo modo no futuro... Contudo, espero que aqueles
verdadeiramente interessados em providenciar... para que
seja feita justiça, sejam prudentes ao tirar suas conclusões
quanto à culpa ou responsabilidade de qualquer pessoa...
Finalmente, podem alguns esperar ou pensar que eu venha a
ser o bode expiatório do caso Watergate. Quem quer que
assim creia, não me conhece, não conhece os verdadeiros
fatos, e não conhece o nosso sistema judiciário".
Bernstein leu e releu a declaração. Um John Dean
ameaçador e desafiador era novidade. Telefonou para o
escritório de imprensa da Casa Branca pedindo confirmação.
A Casa Branca recusava-se a comentar declarações "não-
autorizadas" de John Dean.
O repórter do Post na Casa Branca, Carroll Kilpatrick,
telefonou para Bernstein da sala de imprensa da Casa Branca.
Na sua entrevista diária à imprensa, Ziegler não fez qualquer
esforço para defender John Dean. O conselheiro do
Presidente achava-se "em sua sala... tratando de assuntos de
qualquer natureza". O Presidente procurava "a verdade, não
bodes expiatórios".
Bernstein localizou um amigo de John Dean, com quem
havia falado apenas uma vez. Seu encontro, breve e hostil,
parecia ter sido esquecido. Agora, ele dizia a Bernstein:
— A verdade do caso é vasta, alcança vários níveis, altos e
baixos. Não se pode dizer... que foram apenas John Mitchell
e John Dean. Jeb está dizendo que John Dean tinha prévio
conhecimento da operação, mas a história de Dean é bem
diferente. John gostou da oportunidade de contar sua versão
dos fatos ao grande júri. Ele não pretende se jogar no fogo
por causa das atividades de outros.
O amigo não disse quem eram os outros. Mas a mensagem
confirmava alta e claramente que aqueles que tinham
servido Nixon como se fossem um único homem, e que
haviam forjado a superestrutura da rígida disciplina e
autocontrole da Casa Branca, estavam em luta aberta uns
contra os outros.
Bernstein localizou um dos companheiros cujo nome fora
sugerido pela secretária de John Dean. O homem pareceu
cordial quando Bernstein se apresentou. Bernstein decidiu
fazer uma proposta.
O Post tinha sido muito violento com John Dean, disse ele,
mas os fatos justificavam aquela atitude. Agora o caso estava
mudando de figura. Dean se encontrava em posição
invejável para compreender o todo do Watergate. Outros,
dentro e fora da Casa Branca, tinham suas armas assestadas
contra ele - hoje, Ziegler; ontem Magruder — e tentariam
desacreditá-lo antes que viesse a causar maiores prejuízos. Se
o Post soubesse o que John Dean tinha a dizer - se ele
consentisse em falar aos repórteres e estes sentissem que
dizia a verdade —, o jornal retrairia seus ataques. Mas apenas
à base de fatos. Os repórteres tinham fontes suficientes para
checar as informações e consubstanciá-las. Seria uma
vantagem para Dean. A menos que ele mentisse.
O companheiro disse que John Dean respeitava a cobertura
dada pelo Post ao caso Watergate. Era só o que faltava,
Bernstein pensou, um endosso por parte de John Dean.
— (Dean) não acha que vocês tenham sido injustos. Não
havia motivo para que ele pensasse tratar-se de algo pessoal.
Que diabo, ele não deu um passo sem que alguém lhe
dissesse o que fazer naquele troço. Não foi dele que partiu a
decisão de dobrar vocês. Ele era contra. O que ele queria
mesmo era sentar-se com vocês e contar tudo. Mas não é
disso que ele precisa agora. Se chegar a prestar depoimento,
tem que estar capacitado a dizer sob juramento que não se
comunicou com a imprensa. Isto não significa que eu e
vocês não possamos nos fazer umas visitinhas de vez em
quando. Depois que vocês averiguarem alguns fatos e houver
um pouco mais de confiança mútua entre nós, vamos saber
melhor como agir.
Sem saber o que esperar, Bernstein perguntou por onde ele
achava que os repórteres deveriam começar.
— Um bom começo seria o comunicado do P — disse o
amigo de John Dean. (Bernstein levou um momento para
entender que P era o Presidente.) — Descubram o que
aconteceu a 21 de março, quem foi que trouxe aquelas
"sérias denúncias" ao conhecimento do P.
John Dean?
— Bem, não vou dizer quem foi, mas vocês estão na pista
certa. Verifiquem. Com certeza não foi John Ehrlichman
quem entrou na Sala Oval, naquele dia, e de fato disse:
"Houve um acobertamento e é pior do que o senhor
imagina, Sr. Presidente". Parece-me uma boa razão para
arranjar um bode expiatório se você fosse, digamos, H, não
acha?
Haldeman?
— E outros mais. A partir de 17 de junho, John Dean não
levantou um dedo sem que H ou alguém mais lhe dissesse
primeiro o que devia fazer, inclusive as providências quanto
à caixinha.
Quem mais?
— Vamos ver primeiro como é que vocês se saem
averiguando estes fatos. E antes de 17 de junho?
— John Dean diria ao grande júri que, sim — ele
comparecera a uma reunião durante a qual a operação foi
discutida, e ele disse na ocasião que não queria fazer parte
daquilo, e disse que quem fizesse aquilo era doido varrido.
John Dean parecia ter respostas para tudo. Se estivera
presente àquela reunião, como se explicava o "Relatório
Dean"? E a garantia do Presidente de que John Dean e seu
relatório tinham convencido a Presidência de que seus as-
sessores diretos não tinham tido ciência prévia da operação?
— O assim chamado relatório da investigação foi um
trabalho de ficção, um conceito, ou uma teoria, passado às
mãos de P.
Por quem?
— Não por John Dean. A partir de 29 de agosto, ele nem
sequer discutiu o caso Watergate com P.
Nesse caso, o que era o tal relatório?
— Nossa Senhora! eu pensei que vocês fossem espertos!
— riu o outro. — Nunca existiu nenhum relatório. Pediram
a Dean que coletasse certos fatos. Esses mesmos fatos foram
distorcidos para apoiarem determinadas pessoas acima dele.
E agora, esses caras pretendem diminuir suas perdas e se
defenderem acusando John Mitchell e John Dean. É ilusão
deles pensarem que vão conseguir escapar dessa maneira.
Por que Dean não tornou tudo público imediatamente, se
estava tão interessado na verdade?
— Primeiro, porque ninguém acreditaria nele se saísse
hoje dizendo tudo o que sabe. A coisa não começou com o
Watergate. Era o próprio estilo de vida da Casa Branca. Ele
tem que permitir primeiro que gradualmente todos se
assegurem de que podem confiar nele, e que não mentirá.
Porque ele sabe de coisas que ninguém mais vai estar
disposto a revelar. Quase tudo pode ser confirmado. Antes
que venha pessoalmente a público, ele tem que convencer
meio mundo — a promotoria, a imprensa e o pessoal do
Senado — de que está dizendo a verdade. De outro modo, a
Casa Branca o crucifica antes que tenha uma chance.
Razão pela qual John Dean estava disposto a entrar em
negociações com o Washington Post, certo?
— Olhe, você me fez as perguntas certas e eu lhe dei
algumas pistas. Não acredito que o Washington Post
enfrente riscos por causa de John Dean. Verifique, e amanhã
nos veremos de novo.
Bernstein não sabia o que pensar. De todas as figuras
principais do Watergate, John Dean era provavelmente
aquele por quem nutria menos sentimentos. John Mitchell,
pelo menos, era dono de seu nariz. O intelecto de Colson era
de primeira água, adversário digno de respeito num jogo de
pôquer, independentemente de sua opinião sobre ele.
Haldeman era um enigma: brilhante às vezes, noutras
parecia usar viseiras, freqüentemente era cruel, às vezes
atraentemente humano. Dean, entretanto, não parecia ter
substância alguma, alguém que nem sequer aparentava ter
usado a imaginação para chegar ao topo. Por outro lado, era
o tipo de homem em quem Haldeman confiaria para
abandonar depois. Dean tinha que saber um bocado de
coisas.
Bernstein tornou a telefonar para o companheiro de Dean. O
que estava prestes a perguntar era algo inteiramente fora do
comum, mas poderia ser um bom teste para saber quão
honesto o homem iria ser. Bernstein perguntou-lhe por que
deveria confiar nele: quem eram seus amigos, com quem
trabalhara, qual era sua política pessoal, como viera a
conhecer John Dean, por que estava convencido de que
John Dean dizia a verdade, quem não gostava dele, até mes-
mo o que fazia em suas horas de folga.
Falaram por mais de trinta minutos, e de repente Bernstein
deu-se conta de que estava respondendo algumas perguntas a
seu próprio respeito. O homem parecia ser alguém a quem
Bernstein se afeiçoaria. E acabaram por encontrar um amigo
comum, alguém cujo discernimento Bernstein respeitava.
Telefonou para esse amigo comum. O companheiro de John
Dean recebeu as mais altas recomendações, principalmente
quanto à sua honestidade e integridade de caráter.
Bernstein sentiu-se um pouco ridículo, mas aliviado, ao
comportar-se como um chefe de escoteiros. Se ele ou
Woodward pudessem encontrar mais alguém a quem Dean
tivesse feito as mesmas confissões, poderiam escrever a
reportagem.
Woodward chamou o homem do CRP.
Não apenas Dean lhe contara os mesmos fatos, mas estava
igualmente a par de outras alegações.
— Nunca houve nenhuma "investigação" realizada pelo
Presidente, até que John Dean lhe contasse tudo naquele dia
(21 de março). — Dean fora "apenas um mensageiro" no
acobertamento. Não havia virtualmente nada sobre o
acobertamento, inclusive os pagamentos, que Haldeman não
tivesse aprovado. E Dean estava disposto a contar tudo ao
grande júri se pudesse entrar em acordo com a promotoria.
Bernstein voltou a telefonar para o primeiro amigo de Dean,
com quem falara rapidamente no início da tarde. Dean lhe
havia contado a mesma história.
Bradlee demonstrou apreensão em publicar declarações que
John Dean não queria tornar públicas ou confirmar
pessoalmente. Os repórteres, apoiados por Rosenfeld e
Sussman, tentaram convencê-lo de que estas eram
importantes demais para serem ignoradas. De outro modo, a
alegação de Dean quanto a ser o "bode expiatório" perdia o
sentido. Revisaram as precauções tomadas.
Mas a decisão final de Bradlee baseou-se fundamentalmente
num fato que todos haviam esquecido: o telefonema de
Deep Throat para Woodward. Se Haldeman estava fora,
Bradlee calculou, tinha que estar numa encrenca tão grande
que o Presidente não mais podia se dar ao luxo de protegê-
lo.
— OK — disse Bradlee.
Na mesma manhã em que o Post publicava as denúncias de
John Dean, a manchete do New York Times indicava que os
joviais desmentidos de Mitchell quanto à sua própria
cumplicidade haviam cessado. Poucos dias antes, quando as
acusações de Jeb Magruder apareceram no Post, Mitchell
comentara:
— O caso vai ficando cada vez mais ridículo, à proporção
que avança, não é mesmo? Passei uma noite muito boa e não
ouvi nenhuma dessas tolices.
E agora o Times relatava que Mitchell dissera a alguns
"amigos" que, em três reuniões no decorrer do ano de 1972,
tinha escutado propostas para a instalação de transmissores
clandestinos para escutar os democratas e recusara os planos
em todas as ocasiões. Dean também rejeitara a idéia,
comentou Mitchell com os mesmos "amigos". Mas tivera
suas dúvidas quanto a Jeb Magruder.
Para a imprensa, o novo jogo consistia em tentar encontrar
um sócio ou amigo de um dos parceiros do Watergate, que
revelasse anonimamente a versão dos fatos dada por seu
"constituinte". Naquela manhã Bernstein encontrou um
"associado" de Mitchell que confirmou o relato do Times.
Mitchell devia comparecer perante o grande júri do
Watergate às 12h30min. Bernstein perguntou qual o seu
estado emocional.
— Para um homem arrasado, ele está se comportando
muito bem — disse o "sócio". — Está resignado com a idéia
de ser preso. Ele não pode sair por causa da imprensa, este é
o maior problema. Fica trancado no apartamento vendo
televisão ou trabalhando em sua defesa. De vez em quando
perde as estribeiras, mas nada sério. Ainda conserva o
discernimento. Martha fica gritando com ele o tempo todo,
dizendo que ele devia levar todo mundo com ele, inclusive
Nixon. Mas se ele sabe de alguma coisa sobre o
envolvimento do Presidente, não está dizendo nada. Diz que
a resposta é não, não sabe. Mas só podia responder isto
mesmo, de qualquer jeito. Ele é orgulhoso demais até para
chamar Nixon, quanto mais para pedir-lhe conselho ou
orientação. "Isto fica para Haldeman e Ehrlichman", é o que
ele diz. Vai conservar a lealdade, custe o que custar a ele,
apesar do muito que detesta os outros.
Que outros?
— Ehrlichman, mais que qualquer um. Haldeman. E Colson
também, mas é diferente. Ele acha que Colson é doido, com
aqueles planos todos de tocaiar qualquer um que aparecesse
no noticiário noturno criticando Nixon.
— Quanto a Ehrlichman e Haldeman, ele os odeia mais que
aos outros, mas por motivos diversos. Acha que esses dois
arruinaram o Presidente, envenenaram sua mente,
principalmente Ehrlichman. Uma boa parte do ódio é
bastante pessoal, pois conseguiram afastá-lo de Nixon.
Sustenta que há muito tempo queriam apanhá-lo e usaram o
Watergate como desculpa, sem falar de Martha. De algum
modo, Pat (Nixon) também entrou na cirandinha, diz ele,
em janeiro passado quando, numa cerimônia, ela sentiu
cheiro de bebida em seu hálito. Hans e Fritz (Haldeman e
Ehrlichman) ficaram sabendo, e os três começaram a
persegui-lo, convencendo o Presidente de que Mitchell
devia ir embora.
Mitchell, mais magro é mais encanecido, deixou a sala do
grande júri pouco depois das três e, fora do Palácio da
Justiça, encontrou-se com os repórteres. Pela primeira vez
reconhecia publicamente ter comparecido a reuniões nas
quais foram discutidos planos para instalar aparelhos secretos
contra os democratas, quando ainda ocupava o cargo de
Procurador Geral.
— Ouvi as discussões desses planos. Rejeitei-os todas as
vezes, e eu gostaria de saber quem é que sempre os trazia à
baila, sempre de volta... A vigilância eletrônica foi recusada,
e recusada novamente, e depois foi tudo liquidado. — Havia
aprovado um "programa global de coleta de informações"
cujo objetivo era obter "cada tiquinho de informação que
pudesse, sobre os candidatos adversários e suas operações".
Através de censura telefônica? perguntaram-lhe novamente.
— Não, não, não, não... Censura telefônica é ilegal, como
você sabe, e certamente não daríamos autorização para essa
espécie de atividade.
Woodward telefonou para outro "associado" de Mitchell, em
quem sabia poder confiar. O homem informou que Mitchell
dissera ao grande júri ter aprovado o pagamento aos sete
conspiradores originais do Watergate, através das verbas do
Comitê. No entanto, sustentara sob juramento que o
dinheiro se destinava a honorários advocatícios e não para
comprar o silêncio dos réus. Testemunhara que tinha vetado
a proposta da operação clandestina pela terceira e última vez
durante uma reunião com Magruder em Key Biscayne.
Acreditava que Magruder passara por cima de sua autoridade
e obtivera o consentimento para a operação Watergate
diretamente de alguém na Casa Branca.
- Quem?
— Ele acha que foi Colson, mas não mencionou nomes
ao grande júri. Ele não tem provas concretas.
Bernstein ainda estava no rastro de Dean. O sócio de Dean
disse ao telefone que John Dean tinha guardado uma "prova
documental" que, entre outras coisas, evidenciava o
envolvimento de seus superiores tanto nas instalações
clandestinas quanto no posterior acobertamento dos fatos.
— Até agora, John Dean tem sido o soldado fiel da Casa
Branca, e a Casa Branca acaba de decidir que pode mandá-lo
na vanguarda por ser um bom soldado. Pois bem, ele vai
levar alguns tenentes e capitães junto com ele.
Um advogado com interesse na causa disse a Bernstein ter
visto Chuck Colson na sala do promotor naquela mesma
tarde, sexta-feira. Woodward conseguiu confirmar que
Colson entregara documentos de seus arquivos que im-
plicavam John Dean no acobertamento. As coisas estavam
começando a acontecer depressa. Entregaram a Bernstein o
artigo de Jack Anderson do último domingo. Anderson
estava conseguindo transcrições do grande júri, das quais
publicava excertos literais. Gordon Strachan, assistente
político de Haldeman, depusera que, imediatamente depois
das eleições, Haldeman lhe dera ordem para entregar US$
350.000,00 das reservas do CRP a Fred LaRue — quantia
que, desde abril, achava-se depositada na caixa-forte de um
banco da Virgínia.
Agora, Woodward encontrava um "associado" de LaRue. Era
dinheiro de pagamento, disse o homem, somado aos US$
80.000,00 originais que LaRue recebera de Sloan e canalizara
para os conspiradores. Um funcionário do Departamento de
Justiça confirmou a Bernstein que o grande júri estava agin-
do na presunção de que tanto o pacote de US$ 350.000,00
como o de USS 80.000,00 tinham sido usados para pagar aos
conspiradores.
Haldeman foi encurralado à saída de sua casa, pela ABC, que
lhe pediu para confirmar ou negar os rumores de que se
demitira.
— Estou em condições de negar os rumores.
Completamente?
— Sim senhor.
Retribuindo um telefonema da noite anterior, um
funcionário do escalão intermediário da Casa Branca
descreveu a situação para Woodward: velhas lealdades
destruídas, pouco trabalho sendo feito, o maior sururu
quanto a quem do staff seria indiciado, quem deu quais
ordens e quem mandou em quem, quem se demitiria e quem
se safaria.
— Está na base do cada um por si... arranjar um advogado
e culpar todos os outros.
O Presidente convocou uma reunião do gabinete.
— Já tivemos os nossos Cambódias antes — disse Nixon.
Em seguida, na companhia apenas de Ziegler, voou para Key
Biscayne.
Bernstein e Woodward precisavam pôr o sono em dia; por
isso, naquele domingo, só chegaram à redação no princípio
da tarde. A sala da reportagem estava calma, com apenas uns
doze repórteres presentes. Tranqüilizante... Leram os jornais
de domingo. Hersh também admitia que o grande júri
estivesse investigando a transferência de dinheiro de
Haldeman-Strachan-LaRue, assim como a possibilidade de
que Haldeman tivesse recebido transcrições das
interceptações. Bernstein e Woodward tinham escrito sobre
a mais recente denúncia do "associado" de John Dean — de
que Ehrlichman estaria implicado no acobertamento da
operação (dissera que "E era o comandante, não H").
Haldeman e Ehrlichman tinham contratado o mesmo
advogado, que também estava tendo reuniões com o
Presidente. Notícias que poucas semanas antes teriam
ocasionado manchetes notáveis eram agora mencionadas
dentro de um contexto mais amplo: Gordon Strachan
prestara testemunho de que Haldeman aprovara a
contratação de Donald Segretti — e sobre o fato eles tinham
escrito apenas um parágrafo.
Os repórteres começaram a telefonar para todo mundo na
cidade, à procura de "associados" dos três personagens
principais que, até o momento, se mantinham em silêncio:
Colson, Haldeman e Ehrlichman. Woodward encontrou um
porta-voz de Colson que parecia ansioso para falar. Estava
visivelmente preocupado.
— John Dean deu um show para Sam Ervin e a
promotoria a nossas custas. Entre outras coisas, disse que
entregaria Colson, caso eles percam a imunidade.
O que John Dean dissera de Colson? perguntou Woodward.
— Quem sabe? Eu não sou idiota, não vou convencer
você de que Chuck Colson é uma donzela. Ele não é
nenhum santo, mas isto aqui também não é a Capela Sistina.
Mas aquele homem não infringiria a lei.
Em vez de tentar encobrir o Watergate, insistiu o homem,
Colson tentara chegar à verdade. E então soara o alarma.
— Colson foi direto ao Presidente, isso ainda em
dezembro, e pôs as cartas na mesa: avisou Richard Nixon
que alguns dos seus homens eram parte importante do caso
Watergate e tinham organizado um esquema de acoberta-
mento. Preveniu-o acerca de Dean e Mitchell. O Presidente
disse: "O homem (Mitchell) negou tudo; dê-me uma prova".
E há duas outras pessoas que foram a Tricky e disseram
"Afaste-se de Dean e Mitchell". Tricky não fez nada... E é
uma droga deixar o Presidente em má situação. Disseram a
ele que estava sendo traído por Dean e Mitchell.
Woodward telefonou para um informante da Casa Branca.
Em pelo menos três diferentes ocasiões durante aquele
inverno, Colson aconselhara o Presidente a "livrar-se de
determinadas pessoas" implicadas no caso Watergate. Outros
fizeram o mesmo. A maioria dos avisos referia-se a Dean e
Mitchell, informou a fonte.
Woodward telefonou para Colson. Este negou ter "avisado"
o Presidente a respeito de Dean ou Mitchell ou sobre o
acobertamento.
Qual fora então o teor de sua conversa com o Presidente em
relação ao assunto?
— Não vou discutir conversas particulares entre mim e o
Presidente — respondeu Colson. — Com ninguém, você, a
imprensa em geral, o grande júri ou a Comissão do Senado.
Minutos depois, Woodward recebeu uma chamada
telefônica de um outro "associado" de Colson.
— Não ligue para o desmentido de Colson — aconselhou
ele. E confirmou que Colson dissera claramente a Nixon
haver evidências de que os homens do Presidente estavam
envolvidos tanto na operação como no acobertamento. O
"associado" disse que havia duas razões para o desmentido de
Colson: evitar que se tornasse conhecido o fato de o
Presidente ter tido ciência prévia de tudo; e o medo de que
John Dean recorresse a "retaliações", acusando Colson
perante o grande júri.
A Casa Branca não fez comentários sobre a reportagem
principal do Post para a segunda-feira: "Nixon Prevenido em
Dezembro sobre Acobertamento".
No princípio da tarde da quinta-feira seguinte, 26 de abril,
Bernstein deu seu telefonema diário ao principal associado
de John Dean. Mais uma vez, Bernstein falou acerca do que
acontecera no período entre a reunião de Dean com o
Presidente, a 21 de março, e o pronunciamento do
Presidente a 17 de abril.
— Acho que perdemos o mais pesado jogo de pôquer da
história da cidade — disse o homem.
Bernstein adivinhou, em voz alta, que o Presidente apostara
em Haldeman e Ehrlichman contra John Dean.
— Pelo menos é o que parece, agora. Mas ninguém lhe
diz nada com segurança. Ele é como um prisioneiro...
Durante algum tempo, John sentiu-se muito contente, pois
achava que todos iriam agir com correção. Sua opinião era a
de que tinham chegado a um acordo. Depois, entrou tudo
em colapso porque os "pastores alemães" disseram que não
queriam ir para o "canil" junto com John Dean.
Haldeman e Ehrlichman não pensaram que...?
— ... tinham que ser indiciados para salvarem a situação.
O que, exatamente, dissera Dean ao Presidente no dia 21?
— John entrou na sala e disse: "Sr. Presidente, existe um
tumor canceroso em crescimento nesta Administração, e
tem que ser extirpado. A fim de salvar a Presidência,
Haldeman, Ehrlichman e eu Vamos contar tudo aos
promotores e enfrentar as conseqüências de sermos presos".
Isto foi, em essência, o que ele disse. O Presidente sentou-se
na poltrona, atordoado, como se alguém tivesse acertado sua
cabeça com um porrete.
E então, o que aconteceu?
— John contou tudo. Chegou a dar-lhe uma lista das
pessoas que provavelmente teriam de ir para a cadeia. Era
uma lista imensa. John disse que os "pastores alemães"
sabiam da história toda desde o começo, que os mantivera
informados de todos os passos, e cumprido todas as suas
ordens, e que, desde o princípio, os dois tinham dito a John
para não discutir coisa alguma com o Presidente, que eles
próprios se encarregariam dessa parte.
Qual foi a reação do Presidente?
— Ficou ouvindo, principalmente. Depois disse que John
devia estar sofrendo intensa pressão. Por isso mandou que
ele fosse para Mountaintop, para pôr os pensamentos em
ordem e relatar todos os fatos por escrito... John voltou de
Camp David crente de que todos iriam se levantar e dizer
"Sim, fui eu o responsável, e o Presidente ignorava tudo.
Estamos preparados para sofrer as conseqüências e prontos a
cooperar com a investigação do grande júri".
— Mas quando John voltou para a Casa Branca, tornou-se
óbvio que o Presidente se deixara persuadir pelos "pastores
alemães" a manter suas perdas no nível mais baixo possível...
sacrificando John enquanto tentava salvar Haldeman e
Ehrlichman de um indiciamento. Em vez de cooperar,
continuam dizendo ao Presidente que John deve subir ao
cadafalso e ser executado pelo bem geral. O P está pronto a
puxar a corda que vai enforcar John.
Bernstein perguntou se Dean acreditava agora que o próprio
Presidente estivesse implicado no acobertamento.
— Verifique primeiro o que outros pensam sobre o que
acabei de dizer — respondeu ele. — Depois voltamos a nos
ver.
Woodward ligou para seu informante do CRP.
— Em março, Dean disse que tinha vontade de divulgar
tudo. Dean tentou ser honesto, mas tinha que aceitar ordens
de Haldeman e de Ehrlichman. Honestidade e cumprimento
daquelas ordens eram duas coisas conflitantes, e John Dean
entregou os pontos.
A dupla de repórteres começou outra série de telefonemas
para a Casa Branca. A versão de Dean para os
acontecimentos a partir de 21 de março foi
surpreendentemente fácil de confirmar. O sentimento de
pavor que Haldeman e Ehrlichman costumavam inspirar
parecia ter-se dissipado. Haldeman e Ehrlichman tinham
confessado a alguns de seus pares na Casa Branca que haviam
autorizado atividades secretas muito amplas e que sabiam dos
pagamentos aos conspiradores condenados, mas
continuavam sustentando que jamais tinham,
explicitamente, aprovado ou mandado que fosse executada
qualquer operação ilegal.
Às 7h45min daquela mesma noite, Woodward recebeu um
telefonema de sua fonte no Capitólio, que lhe deu uma
notícia ainda mais sensacional: o New York Daily News
estaria nas ruas dentro de poucos minutos, disse ele, in-
formando que o diretor em exercício do FBI, Pat Gray, tinha
destruído documentos tirados do cofre de Howard Hunt na
Casa Branca. Ao que constava, os documentos destruídos
encontravam-se em duas pastas. Uma delas continha
telegramas falsos do Departamento de Justiça, elaborados por
Howard Hunt, com o intuito de implicar o Presidente John
F. Kennedy no assassinato de Ngo Dinh Diem, Presidente do
Vietnã do Sul, em 1963. A segunda pasta constituía um
dossiê cheio de informações coligidas por Hunt sobre o
senador Edward Kennedy. O informante disse que a
reportagem do News era um trabalho que primava pela
exatidão.
Woodward telefonou para um assistente do Senado,
integrante da Comissão do Watergate. Este confirmou a
narrativa do News. John Dean já dissera o mesmo ao Vice-
Procurador Geral Henry Petersen, mais ou menos uns dez
dias atrás.
Aí pelas 9h30min o telefone da mesa de Woodward tocou.
— Dê-me um número para onde eu possa chamar você.
— Era a voz de Deep Throat.
Woodward forneceu o número de um dos telefones da
editoria local. A chamada veio imediatamente.
— Você já ouviu a história de Gray? — perguntou Deep
Throat. — Pois bem, é tudo verdade. No dia 28 de junho,
durante uma reunião com Ehrlich-man e Dean, disseram a
Gray que aquelas pastas eram — aspas — "dinamite política"
— aspas — e não deviam — aspas — "jamais ver a luz do
dia" — fecha aspas. Disseram a ele — aspas — "que aquelas
pastas podiam causar uma confusão maior do que a operação
Watergate" — fecha aspas. Na verdade, Ehrlichman tinha
dito a Dean, um pouco antes: "Você atravessa o rio
(Potomac) todos os dias, John. Por que não joga a porra
destas pastas no fundo do rio?". Gray guardou as pastas
durante uma semana e disse depois que acabara por jogar
tudo no incinerador de seu escritório. Disse que não foi ex-
pressamente instruído a destruir os documentos, mas que
achou claro que era isto o que Dean e Ehrlichman queriam.
Bernstein localizou o associado de John Dean.
— Você já ouviu a expressão Deep Six? — perguntou ele.
— Pois era isso que Ehrlichman queria que se fizesse com
aquelas pastas, que elas fossem parar no lugar mais fundo que
havia.
A história era sólida. Howard Simons deu ordens para que a
primeira página da segunda edição fosse refeita.
Desde 17 de junho, aquele foi o fato que mais abalou
Bernstein. O que mais o perturbava era a linguagem e o
contexto em que Ehrlichman fizera suas observações. Como
se fossem dois mafiosos dialogando num restaurante... O
segundo homem do Presidente dissera ao consigliere do
Presidente: Mache, Joe, nossa obrigazione é jogar tudo no
rio antes que o chefe se machuca.
Howard Simons esparramou-se na poltrona, tragando fundo
a fumaça do cigarro, o rosto empalidecendo.
— Um diretor do FBI destruindo provas? Nunca pensei
que isto pudesse acontecer — disse baixinho.
No fim da tarde de 27 de abril, Bernstein e Woodward foram
chamados por um dos editores para que vissem uma notícia
que acabara de chegar em forma de boletim da Associated
Press.
Mais uma sobre o Watergate. Em Los Angeles, durante o
julgamento de Daniel EUsberg, o juiz Matthew Byrne
anunciara ter sabido pelos promotores do caso Watergate
que Liddy e Hunt tinham supervisionado o arrombamento
do consultório do psiquiatra de Ellsberg, em 1971.
Bernstein telefonou ao "associado" de John Dean para a
conversinha diária.
— Carl, como é que você pensa que eles ficaram sabendo
deste servicinho lá na costa do Pacífico? — perguntou o
"associado".
Dean novamente?
— Pergunte à promotoria quem lhes contou sobre isto...
John tem algumas histórias formidáveis para contar.
Pergunte-lhes sobre a credibilidade de John. Tudo que ele
lhes contou foi verificado... E tem muita coisa ainda que
John não disse e que eles gostariam muito de ficar sabendo.
Não se esqueça: John Dean ficou lá na Casa Branca um
tempão, e havia projetos de todos os tipos. John tem
conhecimento de atividades ilegais que começaram há
muito, muito tempo.
Há quanto tempo?
— Muito tempo... desde o princípio. Mais interceptações
clandestinas?
— Eu não diria que não. Arrombamentos?
— Diga-me, você manteria um grupo de arrombadores
em casa, durante anos, se os quisesse apenas para um ou dois
trabalhos?... Eles já estão nervosos com o que veio à tona até
agora. Existem certos documentos...
Sobre arrombamentos?
— Sobre uma porção de coisas. Pense na história de Gray
destruindo aquelas pastas... Só há uma maneira dessa história
tornar-se conhecida... Você não viu E correr para os
promotores e contar-lhes como tinha infringido a lei, viu?...
Haldeman procurou a promotoria? Ninguém espera ver o P
descendo a Avenida Pensilvânia e entrando no Palácio de
Justiça. E isto faz com que reste apenas uma pessoa: John
Dean novamente... Estamos lançando alicerces para nos
protegermos.
— Haldeman e Ehrlichman estão convencendo John a
mergulhar de cabeça, e estão tentando persuadir P de que é
sua obrigação salvar suas peles às custas de John. P
concordou.
Dean pretende acusar P?
— Houve uma série de reuniões... P esteve presente.
Discutiram o acobertamento.
Na manhã seguinte, Woodward foi até a Casa Branca. Pedira
uma entrevista com um dos principais assistentes do
Presidente para falarem sobre John Dean. Woodward
sentou-se em uma das salas decoradas em cores profusas, no
velho Edifício do Poder Executivo, e tomou café numa
xícara ostentando o Selo Presidencial.
Haldeman e Ehrlichman estavam acabados, disse o homem.
Sim, a inundação estava chegando... John Dean logo acusaria
o Presidente de estar implicado no acobertamento. A
expressão do rosto do assistente era de tormento.
O que é que Dean pode fazer?
— Não tenho certeza. Não sei se ele tem provas... O
antigo advogado do Presidente vai dizer que o Presidente é...
bem... que ele é um traidor. — Seu rosto estremeceu. Pediu
a Woodward que se retirasse.
CAPÍTULO 16
Na redação, Bernstein e Woodward discutiram as
declarações dos dois homens. Estavam ambos convencidos
de que John Dean acusaria o Presidente. Bradlee e Simons
achavam prematuro publicar esta conclusão. Queriam fatos
concretos, uma vista dos documentos que alegavam estar em
poder de John Dean, trechos de conversas mantidas com o
Presidente, das quais John Dean se recordasse — qualquer
coisa que os tornasse capazes de julgar se Dean estava
dizendo a verdade.
Em vez do relato de John Dean sobre o Presidente, os
repórteres decidiram encaixar uma reportagem de domingo,
na qual diziam que assistentes graduados da Casa Branca
tinham chegado à conclusão de que Haldeman e Ehrlichman
estavam implicados no acobertamento.
Na manhã seguinte, 30 de abril, as notícias começaram a
pingar devagarinho. Um telefonema do Capitólio. Depois,
um ensaio de confirmação, por parte de um repórter da Casa
Branca. Bradlee saiu de sua sala para dizer a Woodward: "É
hoje que vai acontecer". Quatro dos homens do Presidente:
Haldeman e Ehrlichman tinham pedido demissão; Dean
tinha sido sumariamente demitido; Kleindienst também se
demitira. Elliot Richardson estava saindo do Departamento
de Justiça para ser o novo Procurador Geral. Bernstein
chegou pouco depois e Simons lhe contou as novidades. Foi
para sua mesa e sentou-se. James McCartney,
correspondente nacional dos Knight News-papers, que por
acaso se encontrava na redação escrevendo um artigo sobre
o Post para a Columbio Journalism Review, aproximou-se
para falar com Bernstein. Bernstein respondeu que no
momento não estava com disposição para conversar.
Pouco antes do meio-dia, a Casa Branca emitiu um
comunicado, e as cartas de demissão chegaram à redação,
onde foram copiadas em xerox. Aquilo as tornava reais. A
carta de demissão de Haldeman fazia referências a "várias
alegações e insinuações" e "a torrente de histórias" que
tornavam "virtualmente impossível" para ele, nas
circunstâncias, "executar minhas obrigações regulares na
Casa Branca". Ehrlichman dizia que "não obstante os verda-
deiros fatos, transformei-me no alvo do ataque público...
rumores insistentes, acusações e implicações sem
fundamento, e tudo o mais que os meios de comunicação se
dão ao trabalho de divulgar".
O artigo de McCartney, que apareceu na edição de julho-
agosto de 1973 da Columbia Journalism Review, registrava a
reação de Bradlee às notícias oficiais:
"Eram 11h55min da manhã do dia 30 de abril, quando
Benjamin Crowningshield Bradlee, 51 anos, editor-executivo
do Washington Post, conversava com um visitante, pés
descansando sobre a mesa, tentando preguiçosamente
acertar uma bolinha de plástico em uma cesta armada na
parede de vidro da sala, a uns cinco metros de distância. O
assunto era, inevitavelmente, o Watergate. Howard Simons,
editor-gerente do Post, entrou na sala e interrompeu a
conversa: 'Nixon acaba de aceitar as demissões de
Ehrlichman, Haldeman e John Dean. Kleindienst está fora e
Richardson é o novo Procurador Geral'.
Por uma fração de segundo Bradlee ficou de boca aberta,
com expressão de puro extase. Em seguida, repousando a
face sobre a mesa, olhos fechados, bateu repetidamente no
tampo da mesa com o punho cerrado. Em um momento
recuperou-se. 'Que tal, gostou?' perguntou a Simons, que
sorria. 'Nada mal para começar.' Bradlee não conseguiu
controlar-se. Foi para o meio da sala de reportagens e gritou,
sua voz ecoando pelas fileiras de escrivaninhas... para
Woodward... 'Nada mal, Bob. Nada mal, mesmo!' Uma nota
de prudência foi introduzida por Simons: 'Não exulte, Ben',
murmurou, enquanto os membros da equipe do Post
começaram a juntar-se ao seu redor. 'Não podemos nos dar
ao luxo de demonstrar nosso júbilo'."
Bradlee atravessou a sala de reportagem aos brados.
— Nunca! — dizia. — Nunca, nunca, nunca, nunca,
nunca. Bernstein e Woodward estavam sentados.
Woodward sugeriu que batessem um papo.
Naquela noite, às nove horas, o Presidente se dirigiu à nação
pelas redes de TV. Bernstein e Woodward foram para a sala
de Simons a fim de escutar o discurso na companhia deste e
da Sra. Graham.
— O Presidente dos Estados Unidos — anunciou
solenemente o apresentador.
Nixon estava sentado à sua mesa, uma fotografia da família
de um lado, o busto de Abraham Lincoln do outro.
— Meu Deus! — murmurou a Sra. Graham. — Isto é
demais. O Presidente começou:
— Hoje, desejo falar a vocês com toda a sinceridade...
Houve esforços para esconder determinados fatos do
público, de vocês e de mim... Eu queria ser justo... Hoje,
numa das decisões mais difíceis da minha presidência, aceitei
as demissões de dois dos meus mais chegados
colaboradores... Bob Haldeman e John Ehrlichman — dois
dos mais excelentes servidores públicos de quantos tive o
privilégio de conhecer... O curso mais fácil para mim teria
sido culpar aqueles a quem deleguei autoridade para dirigir a
campanha. Mas proceder assim teria sido um ato de
covardia... Em qualquer organização, o exemplo deve
sempre vir de cima. Portanto, cabe a mim a
responsabilidade. Eu a aceito... O sistema trouxe os fatos a
público... um sistema que, no caso, incluiu um grande júri
decidido, promotores honestos, um juiz corajoso, John
Sirica, e um vigoroso grupo de jornalistas... Devo agora
devotar minha atenção, mais uma vez, às graves obrigações
que meu cargo acarreta. E meu dever para com o nobre
cargo que ocupo. É meu dever perante vocês — perante
nosso país.
... Não há de haver na Casa Branca "sepulcros caiados de
branco"... Dois erros não fazem um acerto... Amo a
América... Deus salve a América e Deus abençoe cada um e
todos vocês.
No dia seguinte ao do discurso do Presidente, Bernstein
estava na sua escrivaninha lendo o New York Times e o
Washington Star. Um funcionário passou-lhe a cópia de uma
reportagem da UPI:
"O Secretário de Imprensa da Casa Branca, Ron Ziegler,
apresentou hoje duas desculpas públicas: ao Washington
Post e a dois de seus repórteres, por suas críticas anteriores
ao trabalho jornalístico de pesquisa que denunciou a
conspiração do Watergate.
Durante a entrevista na Casa Branca, um repórter perguntou
se Ziegler não achava que a Casa Branca devia desculpas ao
Washington Post.
— Recordando tudo neste momento, minha resposta é
sim — disse Ziegler. — Devo me desculpar com o Post, e
também devo me desculpar com o Sr. Woodward e o Sr.
Bernstein... Deveríamos todos dizer que enganos foram
cometidos em termos de comentários. Entusiasmei-me em
excesso nas minhas críticas ao Post, principalmente se as
examinarmos no contexto da evolução dos fatos que
ocorreram... Quando estamos errados, estamos errados... e,
neste caso, estávamos errados.
Depois de terminar, Ziegler fez menção de continuar,
dizendo:
— Mas... — Foi interrompido por um repórter que disse:
— Agora não volte atrás, Ron."
Bernstein pegou a cópia e levou-a até a mesa de Woodward.
Mais tarde, Woodward telefonou a Ziegler para agradecer-
lhe.
— Todos nós temos as nossas obrigações — foi a resposta
de Ziegler.
Há uma semana Bernstein e Woodward vinham cozinhando
a reportagem sobre John Dean. Não tinham conseguido
informações concretas sobre o que John Dean iria dizer
exatamente acerca do envolvimento do Presidente no
acobertamento. No sábado, 5 de maio, tinham acabado de
redigir uma reportagem sobre o ambiente de incerteza e falta
de segurança que reinava na Casa Branca, quando chegou
uma longa mensagem pelo teletipo: um comunicado do
Newsweek. Woodward esperou pelo pior — as revistas
noticiosas só liberavam comunicados nas noites de sábado
quando tinham uma novidade excepcionalmente
importante.
A notícia do Newsweek divulgava que Dean estava
preparado para descrever dois incidentes ocorridos no ano
passado, os quais o haviam levado a concluir que Nixon
estava a par do acobertamento do caso Watergate. O
primeiro teve lugar em setembro de 1972, depois que os
indiciamentos dos réus do Watergate foram formalizados,
sem conseguir ir além de Liddy. Dean fora chamado à Sala
Oval por Haldeman, encontrando o Presidente e o seu Chefe
de staff "todos sorrisos". Dean citou o Presidente: "Bom
trabalho, John, Bob me contou que excelente trabalho você
vem desenvolvendo". O segundo incidente ocorrera em
dezembro, disse Dean, quando Ehrlichman lhe contou que o
Presidente havia, de fato, aprovado que fosse concedida
clemência a Howard Hunt.
Simons, Rosenfeld, Sussman e Woodward fizeram uma
reunião ao redor da mesa de Woodward. Bernstein estava
ausente. Woodward disse que poderia facilmente confirmar
a notícia. Telefonou para um veterano assistente da Casa
Branca. Com alguma relutância, o assistente confessou ter
Dean lhe contado substancialmente a mesma história. Pouco
depois, um assistente da Comissão do Senado disse a
Woodward:
— Esta é a história que Dean está contando. Ou parte dela.
A revelação de que Hunt e Liddy tinham supervisionado o
arrombamento do consultório do psiquiatra de Daniel
Ellsberg vinculava inextricavelmente Watergate ao
julgamento de Ellsberg em Los Angeles. Na redação
referiam-se agora às duas histórias como "O Watergate
Leste" e "O Watergate Oeste". Em princípios de maio,
Bernstein e Woodward tinham decidido escrever uma
reportagem dizendo que os telefones dos repórteres do New
York Times tinham sido censurados como parte da
investigação sobre os Documentos do Pentágono. Meses
antes, Deep Throat já revelara a Woodward os nomes —
Neil Sheehan e Hedrick Smith —, mas até então os dois
repórteres não tinham conseguido um segundo informante,
e os nomes dos dois jornalistas do Times não foram
mencionados. Descobriram, entretanto, que havia uma
possibilidade de que tivessem ouvido Ellsberg clan-
destinamente. Isso fazia sentido, já que Ellsberg passara as
notícias para os jornais através de Sheehan.
No julgamento de Ellsberg, a promotoria tinha insistido em
que não houvera escuta clandestina do réu. Agora, o juiz
Matthew Byrne pediu novamente ao governo para buscar
em seus arquivos provas de que Ellsberg poderia ter sido
vigiado pelo telefone.
O novo diretor em exercício do FBI, William D.
Ruckelshaus, encontrou uma prova. Os registros estavam
desaparecidos, mas Ruckelshaus fora informado por um de
seus assistentes de que Ellsberg tinha sido interceptado pelo
menos em uma ocasião, não quando falava com Sheehan,
como seria de esperar, mas para o telefone da residência de
Morton Halperin, antigo membro da equipe do Conselho de
Segurança Nacional do Dr. Henry Kissinger. A declaração de
Ruckelshaus de que o telefone de Halperin fora censurado
por um período de 21 meses constituiu a primeira
confirmação de que a Administração empregara censura
telefônica para investigar novas saídas de informações
confidenciais. Ainda mais. estabelecia o fato de que o
governo se omitira ilegalmente de revelar o resultado das
interceptações aos advogados de defesa de Ellsberg,
Dias depois, a 11 de maio, o juiz Byrne rejeitou todas as
denúncias apresentadas contra El'sberg. A conduta imprópria
do governo, declarou o juiz, tinha "contagiado
incuravelmente a promotoria".
Na segunda-feira, 14 de maio. Ruckelshaus anunciou que,
como resultado da busca realizada pela Administração para
encontrar novas fontes de vazamento de informações. 17
censuras telefônicas tinham sido autorizadas entre 1969 e
1971. Os arquivos desaparecidos tinham sido encontrados
no cofre de John Ehrliehman, na sala que ocupava na Casa
Branca. Ruckelshaus não revelou os nomes dos 13
funcionários do governo e quatro repórteres cujos telefones
tinham estado sob censura. Mas a questão era: quem
autorizara a operação?
Woodward pediu ligação direta para um alto funcionário do
FBI. Este não foi ambíguo: algumas das autorizações tinham
chegado ao FBI através de cartas ou comunicações verbais de
Henry Kissinger.
— Sei que Kissinger deu algumas dessas autorizações —
respondeu o homem do FBI.
A mesa telefônica da Casa Branca transferiu a ligação de
Woodward diretamente para os escritórios de Henry
Kissinger. Eram mais ou menos seis da tarde.
— Alô — disse a conhecida voz de Kissinger, com seu
forte sotaque alemão.
Woodward explicou que tinha informações de duas fontes
do FBI de que Kissinger teria autorizado a censura telefônica
de seus próprios assistentes.
Kissinger fez uma pausa.
— Talvez tenha sido o Sr. Haldeman quem autorizou essas
censuras. E Kissinger? perguntou Woodward.
— Não creio que seja verdade — declarou ele. É um
desmentido?
Outra pausa.
— Honestamente, não me lembro.
Talvez tivesse fornecido ao FBI os nomes das pessoas que
tinham visto ou manuseado certos documentos.
— E bem possível que o FBI tenha entendido tratar-se de
uma autorização.. Em alguns casos, talvez eu tenha indicado
quem manuseou quais documentos à meu Vice (General
Alexander Haig) que, por sua vez, passou a informação ao
FBI.
Woodward insistiu: duas fontes tinham dito de maneira bem
clara que Kissinger autorizara pessoalmente as censuras.
Breve pausa.
— Quase nunca — respondeu ele.
Woouward sugeriu que "quase nunca" poderia significar "às
vezes". Kissinger, então, levantou a voz colericamente:
— Não tenho que me submeter a um interrogatório
policial desta natureza. — Acalmando-se, continuou: — Se é
possível, se aconteceu, então admito a responsabilidade pelo
fato... Sou o responsável por este cargo.
O senhor admite? perguntou Woodward.
— Você não vai citar minhas palavras no jornal, vai? —
perguntou Kissinger.
Lógico que ia, Woodward respondeu.
— O quê?! — gritou Kissinger. — Estou lhe dizendo que o
que ouviu de mim era não-oficial.
Woodward argumentou que não tinham feito qualquer
acordo quando a isto.
— Tentei ser honesto com você, e agora você vai querer
me criar problemas — defendeu-se Kissinger.
Não tinha essa intenção, replicou Woodward, mas não podia
aceitar retroação em declarações não-oficiais.
— Em cinco anos de Washington — disse Kissinger —
jamais caí em uma cilada para falar, como esta agora.
Woodward sentiu curiosidade em saber de que modo
Kissinger estava acostumado a ser tratado pela imprensa.
Kissinger sabia passar habilmente da raiva para a calma e
vice-versa.
— Falei com a intenção de ser útil — disse a seguir. E
depois, novamente irado: — Que motivo teria eu para
conceder-lhe uma entrevista?
Woodward disse que verificaria com os repórteres
diplomáticos do Post se regras diferentes se aplicavam a
conversas oficiais e não-oficiais.
— Você acaba de quebrar todas as regras de minha
comunicação com os repórteres — declarou Kissinger, e
despediu-se.
Woodward consultou Murrey Marder, chefe dos repórteres
diplomáticos do Post. Por acaso os repórteres costumavam
permitir que Kissinger decidisse, depois de uma entrevista,
se esta iria ser oficial ou extra-oficial ou não-oficial?
Bem, sim e não, explicou Marder. Tecnicamente,
Woodward tinha razão, mas a maioria dos repórteres que
faziam a cobertura de Kissinger costumava permitir que
"Henry" fizesse declarações não-oficiais depois de dar a
entrevista por terminada. Meia hora mais tarde, Marder veio
à mesa de Woodward para dizer que Henry tinha telefonado
queixando-se amargamente de sua entrevista com
Woodward. Marder, Bernstein e Woodward foram à sala de
Howard Simons discutir o incidente.
Marder tomou uma posição intermediária, fazendo
brincadeira:
— Henry pode nos culpar pelo colapso das negociações
em Paris.
O telefone de Simons tocou. Ele atendeu, soltou uns
grunhidos e apertou o botão do alto-falante para que todos
pudessem escutar.
— Pode transmitir para a turba, Bennie — disse Simons.
Era Bradlee, ralando de sua casa e imitando um certo sotaque
alemão muito conhecido:
— O que é que vocês ai andam fazendo? Acabo de
receber um telefonema de Henry. Ele está furioso.
Simons explicou a situação.
— Vocês decidem o que fazer — respondeu Bradlee. —
Vou brincar de repórter e ler para vocês o que Henry disse,
e podem usar a informação, se ela servir de alguma coisa a
vocês.
Simons sorriu.
— É oficial, extra-oficial ou não-oficial?
Kissinger, avançando a linha hierárquica de Marder para
Bradlee, estava fazendo aquilo que em diplomacia se chama
"consolidar sua posição". Sua declaração a Bradlee, dizia ser
"quase inconcebível" que ele pudesse ter autorizado as
censuras telefônicas.
"Quase inconcebível" não constitui desmentido, observou
Woodward, defendendo a reportagem.
Mas já eram quase oito horas, tarde demais para as primeiras
edições. Simons decidiu reter a matéria por mais um dia.
Woodward zangou-se. Sentiu que os editores tinham se
acovardado ante a posição de Kissinger. Bernstein discordou.
A informação das fontes do FBI tinha vindo tão facilmente
que talvez fosse parte de um esquema para transferir as
responsabilidades de Haldeman e Ehrlichman para os
ombros de Kissinger. Valia a pena esperar mais um dia para
que pudessem descobrir.
Aconteceu, no entanto, que a reportagem não pôde esperar
mais um dia. Sy Hersh também tinha a mesma história. No
dia seguinte, publicou no Times que Kissinger tinha
representado seu papel na indicação de alguns de seus
próprios assistentes como possíveis fontes. Marder escreveu
a reportagem do Post com um dia de atraso.
Quase todos os que no Post estavam envolvidos com as
reportagens sobre o Watergate tinham atingido o ponto de
completa exaustão. Ninguém conseguira demonstrar
entusiasmo por uma matéria que levaria uma noite inteira
para coordenar e redigir.
No dia 17 de maio, começariam as audiências sobre
Watergate. Durante a semana anterior, os repórteres
alinhavaram uma longa reportagem incluindo detalhes que
vinham colecionando há meses. A revelação das 17 censuras
telefônicas e o arrombamento do consultório do psiquiatra
de Ellsberg eram mais dois incidentes reveladores do método
seguido nas atividades de vigilância da Casa Branca, a que
Deep Throat se referira.
O trabalho secreto remontava a 1969, e incluía as seguintes
operações: o Serviço Secreto enviara à Casa Branca
informações sobre a vida particular de um candidato
democrata à Presidência; o quadro clínico do senador
Eagleton chegara às mãos de John Ehrlichman antes que a
imprensa dele tomasse conhecimento; em 1971, Haldeman
em pessoa ordenara uma investigação do FBI sobre o
correspondente da CBS, Daniel Schorr. Tudo se somava a
uma ampla campanha de operações ilegais e paralegais. O
relato foi publicado no dia 17 de maio.
Na noite de 16 de maio, às vésperas do início das audiências,
Woodward partiu para um de seus encontros com Deep
Throat. Seria o primeiro depois das demissões de Haldeman
e Ehrlichman, e Woodward esperava que seu amigo
estivesse de bom humor. No último encontro, Deep Throat
dissera que poderiam encontrar-se mais cedo, aí pelas onze
da noite.
Era mais fácil encontrar táxi a essa hora, e a viagem não
levou o tempo costumeiro, mas Deep Throat já se achava na
garagem quando Woodward chegou. Andava de um lado
para outro, demonstrando grande nervosismo. Seu queixo
parecia estar tremendo. Deep Throat começou a falar, quase
monologando. Tinha apenas poucos minutos disponíveis.
Deu uma série de breves declarações. Woodward escutou,
atenta e obedientemente. Woodward tinha dezenas de
perguntas, mas Deep Throat levantou a mão, pedindo
silêncio.
— A situação é esta — disse ele quando terminou. —
Preciso ir neste instante. Você entende... Seja — bem, vou
dizer — cuidadoso.
Afastou-se e saiu rapidamente da garagem.
Woodward pousou seu bloco de apontamentos e anotou
tudo. De volta ao seu apartamento, telefonou para Bernstein.
Passava da meia-noite. Você pode vir até aqui? perguntou
Woodward.
— Claro, respondeu Bernstein. Na frente do prédio de
Woodward, tocou a campainha. Woodward veio ao seu
encontro no elevador.
Que é que há? perguntou Bernstein.
Woodward pousou o dedo sobre os lábios, pedindo silêncio.
Bernstein pensou, por um momento, que seu amigo
enlouquecera, ou que tudo não passava de uma brincadeira.
Andaram pelo corredor até o apartamento de Woodward.
Uma vez lá dentro, Woodward pôs um disco na vitrola. Um
concerto para piano de Rachmaninoff. Bernstein pensou no
gosto execrável de Woodward para música clássica. Depois,
Woodward correu as cortinas sobre as amplas janelas que se
abriam para a zona leste da cidade. Na mesa de jantar,
Woodward datilografou uma nota que passou para Bernstein.
Todos estão correndo perigo de vida.
Bernstein levantou os olhos. Seu amigo enlouquecera?
perguntou.
Woodward sacudiu rapidamente a cabeça, fazendo sinal para
que Bernstein não falasse. Datilografou outra nota.
Deep Throat contou-me que a vigilância eletrônica está
sendo usada e que é melhor nos precavermos.
Bernstein fez um gesto indicando que queria alguma coisa
com que pudesse escrever. Woodward passou-lhe uma
caneta.
Quem está fazendo isto? escreveu Bernstein.
C-I-A, Woodward moveu os lábios formando as letras
silenciosamente. Bernstein não conseguia acreditar.
Enquanto continuava o concerto, Woodward começou a
bater à máquina, Bernstein lia, por cima de seu ombro:
"Dean conversou com o senador Baker depois que foi
formada a Comissão do Watergate e Baker está no papo da
Casa Branca, para onde transmite diretamente tudo o que
acontece. O Presidente fez ameaças pessoais a Dean,
dizendo que, se ele revelasse atividades relacionadas com a
segurança nacional, tomaria providências para que fosse
parar na cadeia.
Mitchell andou metido em transas secretas nacionais e
internacionais e acabou envolvendo todo mundo. A lista de
responsáveis é maior do que se possa imaginar.
Caulfield procurou McCord e disse-lhe que o Presidente sabe
que estamos nos encontrando, lhe oferece clemência, e você
só vai passar 11 meses encarcerado.
Caulfield ameaçou McCord dizendo que 'sua vida não vai
valer um tostão neste país se você não cooperar...'
As atividades secretas abrangem todos os órgãos de
informação do país e são inacreditáveis. Deep Throat
recusou-se a dar detalhes concretos, porque é contra a lei.
O acobertamento tinha muito pouco a ver com o Watergate
em si, mas seria principalmente para proteger as operações
secretas. O próprio Presidente foi vítima de chantagem.
Quando Hunt se viu envolvido, decidiu que a conspiração
podia render algum dinheiro. Hunt armou uma rede de
"extorsão" da pior espécie.
O custo do acobertamento eleva-se a um milhão de dólares.
Todo mundo está metido — Haldeman, Ehrlichman, o
Presidente, Dean, Mardian, Caulfield e Mitchell. Todos
tiveram problemas para conseguir o dinheiro e não podiam
confiar em ninguém, por isso começaram a levantar fundos
e a depositá-los em suas contas particulares. Mitchell não
preencheu sua quota e ... abandonaram Mitchell... O pessoal
da CIA pode testemunhar que Haldeman e Ehrlichman
disseram que o Presidente mandou vocês fazerem isto,
referindo-se ao acobertamento do Watergate... Walters e
Helms e talvez outros. Embora não esteja tudo muito claro,
parece que esses caras da Casa Branca saíram em campo para
conseguir dinheiro e alguns se descontrolaram na tentativa.
Dean agia como intermediário entre Haldeman-Ehrlichman
e Mitchell-La Rue.
Os documentos em poder de John Dean são muito mais
importantes do que se podia imaginar e bastante detalhados.
Liddy disse a Dean que eles poderiam matá-lo a tiros e/ou
fazer com que se matasse, mas esperavam que jamais abrisse
a boca e permanecesse um soldado fiel.
Hunt foi a chave de muitas das loucuras cometidas e usou as
prisões do Watergate para lazer dinheiro... primeiro US$
100.000,00, e depois voltava sempre para pedir mais.
Atmosfera tenebrosa na Casa Branca — cada um pensando
que ou desce o pano, ou é melhor rir de tudo e continuar
trabalhando. O Presidente tem sido vítima de perigosas
"crises de depressão".
Bernstein sentou-se junto da mesa, fumando um cigarro. Um
de seus informantes no Departamento de Justiça dissera-lhe
para que tomasse cuidado com a "vigilância" eletrônica. Ele e
Woodward se entenderam por sinais: deviam sair do
apartamento, dar uma volta. No hall do apartamento pararam
e decidiram que deviam contar os fatos a alguém.
Quem? perguntou Woodward.
Bernstein disse que o melhor era irem direto a Bradlee. Já,
disse Bernstein. Eram duas horas da madrugada.
Entraram no carro de Woodward. Decidiram que não
deviam falar dentro do carro. Várias quadras antes do
endereço de Bradlee, telefonaram ao editor, usando uma
cabina telefônica. Ele disse para irmos até lá, informou
Bernstein.
Os rapazes nunca tinham ido à casa de Bradlee, e ficavam
muitas vezes imaginando como seria a vida doméstica do
chefe. As luzes da rua criavam uma atmosfera de semi-
obscuridade. Quando se aproximaram do alpendre, um
cachorro avançou para eles latindo. Um homem saiu das
sombras. Era Bradlee, cabelo bem penteado, voz e olhos
sonolentos.
— Entrem — disse ele, e os três passaram para uma
confortável sala de estar, com livros e antiguidades rústicas.
Woodward passou uma cópia do memorando que acabara de
escrever a Bradlee. Este começou a ler e fez menção de fazer
uma pergunta. Os repórteres o interromperam e pediram
que primeiro acabasse de ler.
Bradlee terminou e levantou o olhar.
Vamos andar lá fora, Bernstein sugeriu.
Bradlee, intrigado, correu o olhar pelo seu living-room, e
depois, levan-tando-se, caminhou para a porta da frente. Os
três foram até o centro do pequeno pátio. O frio era intenso.
Nenhum vestia paletó ou suéter.
Bradlee manifestou, com um toque de humor, a dúvida de
que houvesse uma instalação clandestina em seu jardim.
— E que diabos vamos fazer agora? — perguntou ele.
Bernstein sugeriu que mobilizassem um grupo de repórteres
para verificar cada item do memorando. Woodward sugeriu
que o Posi contratasse investigadores particulares para
ajudar. Passaram meia hora no jardim, mexendo-se sempre
para conservar o calor, analisando as declarações de Deep
Throat. Bradlee comentou que jamais vira coisa igual.
Incrédulo, mas perturbado, disse que o problema
ultrapassava as fronteiras do jornalismo. Referiu-se ao estado
e ao futuro do país. Disse que convocaria uma reunião dos
editores-chave e dos repórteres para a manhã seguinte.
Era Bradlee quem prolongava o encontro, repetindo-se e
fazendo com que os repórteres se repetissem. Não
demonstrou sua habitual impaciência.
— OK — disse ele finalmente, fitando Woodward.
Quando os repórteres saíram eram quatro horas da
madrugada. Não sabiam se Bradlee achara necessária a visita
noturna.
Na manhã seguinte, na redação, Woodward e Bernstein
passaram cópia do memorando para Simons, Rosenfeld e
Sussman, gesticulando para que não discutissem nada na
redação.
Pouco antes do meio-dia, Bradlee convocou uma reunião no
jardim de cobertura do Post, ao lado da sala da Sra. Graham.
Bradlee, Simons, Rosenfeld, Sussman, o editor nacional
Richard Harwood, Bernstein e Woodward sentaram-se ao
redor de uma mesa de ferro lavrado, à sombra de um guarda-
sol. Harwood achou a história toda implausível. Suas
perguntas indicavam a preocupação de que o pessoal do Post
estivesse à beira da -loucura.
Bradlee respondeu que não estava interessado na lógica da
matéria.
— Tivemos oportunidade de presenciar algumas coisas
bem ilógicas no ano passado. — Pretendia apenas descobrir
qual era a verdade de tudo aquilo.
A reunião encerrou-se sem resultados concretos. Bernstein e
Woodward tinham um compromisso para almoçar com um
dos "associados" de John Dean que, pensavam eles, poderia
saber algo sobre as informações que tinham recebido.
Encontraram-no num restaurante relativamente longe e, no
decorrer de um almoço bastante longo e descansado, ele
confirmou todos os pontos principais do memorando Deep
Throat.
Segundo os apontamentos datilografados da discussão, o
informante não achava que "RMN (Nixon) tivesse usado a
palavra 'cadeia' quando ameaçou Dean por causa da
segurança nacional, mas confirmou que a conversa ocorreu e
que o Presidente deixara bem claro, 'em termos vigorosos',
que não toleraria que Dean tivesse revelações sobre
atividades secretas. Dean ficou bastante perturbado depois
daquela reunião".
Confirmou que o senador Baker estava conluiado e ajudava a
Casa Branca, e que Hunt fazia chantagem contra a Casa
Branca.
— A partir de fevereiro, RMN começou a tratar
diretamente com Dean. Por essa época, a chantagem estava a
pleno vapor e os preços subiam. RMN pergunta a Dean
durante uma reunião qual será o preço total do silêncio, pede
uma estimativa. Dean responde US$ 1 milhão e o Presidente
diz que isto pode ser obtido, que não deve haver problema
para conseguir a quantia... não pensa que US$1 milhão já
saiu, e que esta é a quantia total.
Bradlee convocou outra reunião numa ampla sala vazia, na
parte antiga e remodelada do edifício do Post. O mesmo
grupo se reuniu atrás de um painel de vidro que dava para as
mesas da seção de moda do jornal.
Os editores e repórteres ficavam andando de um lado para
outro, enquanto Bernstein e Woodward descreviam o que
tinham conseguido descobrir durante o almoço. Era, até o
momento, a mais sólida prova que tinham de que o
Presidente tivera ciência de acobertamento e era um par-
ticipante voluntário do mesmo.
Harwood deu marcha à ré em sua opinião. Achou que a
matéria era importante e devia ser publicada. Bradlee e
Simons estavam nervosos,
— Era novidade para nós — Simons comentou tempos
depois. — Fomos informados de que em nossos escritórios
talvez houvessem instalado transmissores clandestinos, que
vidas poderiam estar correndo perigo. E quem quer que
fosse capaz disto, era também capaz de arquitetar uma his-
toria para nos fazer uma emboscada. Não havia motivos para
correria.
Passar-se-iam duas semanas até que Bernstein e Woodward
escrevessem sobre a acusação de John Dean com relação ao
envolvimento do Presidente na estimativa de US$ 1 milhão
para o acobertamento, e outras duas semanas antes que
pudessem confirmar e redigir a reportagem sobre Howard
Hunt e a chantagem contra a Casa Branca. Mas nos meses
que se seguiram quase todos os tópicos do memorando Deep
Throat chegaram ao conhecimento público, em
conseqüência do trabalho de novas organizações, da
Comissão do Senado e de declarações da Casa Branca.
Durante vários dias, depois do encontro entre Woodward e
Deep Throat, Bernstein e Woodward agiram com extrema
cautela. Faziam suas conferências pelas esquinas, passavam-
se notas na redação, evitavam comunicações telefônicas.
Com o tempo, tudo começou a parecer bastante tolo e
melodramático, e aos poucos foram voltando à velha rotina.
Jamais chegaram a descobrir se seus telefones estavam
censurados ou se a vida de alguém correra perigo.
Durante o julgamento, em janeiro último, o Departamento
de Justiça sustentara que os funcionários do baixo escalão,
como Gordon Liddy, tinham sido a força impulsionadora do
complô do Watergate. O primeiro indício de que o
Departamento de Justiça passara a considerar possível o en-
volvimento do Presidente foi percebido durante um almoço
que os repórteres tiveram, em maio, com um alto
funcionário do Departamento.
Na semana que precedeu o comunicado presidencial de 17
de abril — disse o funcionário a Bernstein — os promotores
informaram ao Vice-Procurador Geral Petersen que estavam
prestes a indiciar vários dos mais chegados assessores do
Presidente, no cargo ou já ausentes da Casa Branca. A
promotoria insistiu para que o Presidente fosse pessoalmente
informado dos iminentes indiciamentos. Petersen assim o
fez. Os promotores esperavam que o Presidente anunciasse,
de imediato, as demissões de Ehrlichman e Haldeman. Ao
invés de fazê-lo, ele resistiu durante quase duas semanas.
Pediram-lhe que exigisse a cooperação dos membros de seu
staff. Isto jamais aconteceu. Os promotores sentiram-se, a
partir de então, confusos e atordoados com os atos do
Presidente.
Em fins de maio, Bernstein tocou no assunto, pelo telefone,
com um outro advogado do Departamento de Justiça.
Decidira que o melhor meio para chegar ao fundo da questão
era insinuar que o Departamento estava conduzindo a
investigação pelo caminho mais fácil. Por que não tratavam
das alegações contra o Presidente?
— O que o fez pensar que não estamos fazendo nada? —
o advogado perguntou zangado.
Sabemos que sua opinião sobre o caso é a de que se tratava
de uma conspiração fechada, terminando em Haldeman,
retrucou Bernstein.
— Você acaba de me provar que não está sabendo dos
fatos — redarguiu o advogado. Fez uma pausa. — Se você
está tomando notas, o que eu disse não significa nem uma
coisa nem outra.
Então, vocês estão investigando o Presidente?
— Vem cá, você não acha que eu vá responder, não é?
Bernstein enumerou algumas das evidências contra o
Presidente.
— Você não sabe do que está falando — disse o advogado
com impaciência. — Provas não têm nada a ver com o caso.
Converse com alguns advogados. Descubra o que a
Constituição diz sobre a figura do Presidente. Pense sobre o
assunto. Pode ele ser indiciado? Mesmo havendo prova de
que é culpado de obstrução da justiça?
Bernstein perguntou por que os promotores não pareciam
dispostos a notificar o Presidente para que comparecesse
perante o grande júri.
— Quem disse que não?
Você não disse, Bernstein observou.
— Converse com os advogados — respondeu o homem,
desgostoso.
Foi exatamente o que Bernstein fez, e quando terminou esse
ciclo de conversas entendeu o que tinha acontecido. O
problema do envolvimento do Presidente fora discutido em
profundidade pelo Departamento de Justiça. Pesquisando a
questão, os advogados acabaram por concluir que a
Constituição não permitia a denúncia de um Presidente em
exercício do cargo. Se um Presidente não pode ser indiciado,
raciocinavam os advogados, não pode ser convocado pelo
grande júri.
Bernstein dirigiu-se a um informante muito bem colocado,
que disse:
— Não há nenhuma bomba escondida. O que existe é
uma série de evidências... as quais geram indagações sobre o
comportamento do Presidente.
Bernstein insinuou a outro advogado do Departamento que,
se se tratasse de alguém que não o Presidente, tais evidências
justificariam sua notificação para que prestasse depoimento
perante o grande júri. O advogado concordou.
Usando uma lista telefônica do Departamento de Justiça,
Woodward encontrou um advogado da Divisão Criminal que
disse:
— A investigação do Watergate chocou-se de frente
contra a Constituição. Precisamos agora resolver o problema
de como levar a investigação até o Presidente.
Bernstein procurou o advogado zangado, o que primeiro llie
acenara com o problema constitucional.
— Claro que o Presidente não pode ser notificado —
declarou ele. — E claro que seria uma medida justificada. —-
Esta era igualmente a opinião da promotoria.
O título da reportagem foi: ''Promotores Dizem que
Interrogar Nixon Seria Medida Justificada". A Casa Branca
sentiu-se ultrajada. Ziegler declarou que o Presidente não
deporia perante um grande júri ou uma Comissão do Senado
porque seria "constitucionalmente inadequado, um atentado
à independência dos poderes". A reportagem do Post.
declarou Ziegler, revelava "um abuso de autoridade,
insultante e irresponsável, por parte dos promotores federais.
Procedimento de grande júri é, pela letra da lei.
procedimento secreto". A Casa Branca solicitou ao
Procurador Geral Richardson e ao catedrático de Direito de
Harvard, Prof. Archibald Cox, nomeado promotor
extraordinário em maio, que descobrissem o informante da
reportagem. Se alguma investigação foi realizada com esse
fim, fracassou; as fontes nunca foram identificadas.
Na primeira semana de junho, Bernstein estava falando com
uma fonte que não contatava há várias semanas. Perguntou
se tinha havido outros arrombamentos.
— Houve a proposta de um... mas não creio que tenha
sido levado a efeito. O alvo era a Instituição Brookings. John
Dean cancelou-o.
Bernstein telefonou para o "associado" de Dean.
— Acho que não entendeu bem, meu amigo — disse ele.
— Alguém não se fez entender direito. Chuck Colson queria
esfregar dois pedacinhos de pau.
Bernstein pensou que talvez seu raciocínio estivesse
trabalhando aos trancos. Colson queria causar um incêndio?
— É, não deixa de ser um jeito de dizer. Não pode ter sido
a sério, disse Bernstein.
— Sério o suficiente para que Caulfield saísse correndo do
escritório de Colson em completo pânico. Foi direto a John
Dean, dizendo que nunca mais queria falar com aquele tal de
Colson, que o homem era completamente maluco. E que era
melhor que Dean fizesse alguma coisa antes que fosse tarde
demais. John pegou o primeiro correio aéreo para San
Clemente a fim de conferenciar com Ehrlichman. Foi um
caso muito sério.
Por que Ehrlichman?
— Porque era o único com influência suficiente para fazer
as coisas pararem naquele ponto. E garanto que não ficou
contente em ver John Dean. Não era para John ficar por
dentro do assunto. Mas já que Dean tinha voado para lá e
armado aquela confusão, E não tinha outra escolha senão
cancelar tudo. John permaneceu na sala enquanto E
telefonava para Colson. O tempo todo, E o fitava como se
fosse um traidor.
O "associado" de Dean explicou a Bernstein a finalidade da
operação: acreditava-se que Halperin, amigo de Daniel
Ellsberg, cujo telefone constava da lista de "censuras de
Kissinger", guardara certos documentos confidenciais ao se
desligar da equipe de Kissinger para tornar-se membro da
Instituição Brookings (um centro de estudos de problemas
de política administrativa). A Casa Branca queria esses
documentos de volta, e já que o esquema de segurança da
Instituição era rígido demais para arriscarem um simples
arrombamento, ponderou-se que um incêndio despistaria a
invasão do escritório de Halperin,
Bernstein conseguiu localizar alguém que ouvira de Caulfield
a história inteira.
— Não apenas um simples incêndio, mas bombas
incendiárias — o homem explicou. — Era isso o que. na
opinião de Colson, iria ajeitar as coisas. Caulfield disse "Isto
já foi longe demais" e (que) nunca mais em sua vida queria
ter nada a ver com Colson. Tanto Dean como Caulfield con-
taram a história aos investigadores.
Woodward teve medo de que se tratasse de uma armadilha.
Bernstein voltou a checar suas fontes e os investigadores.
Absolutamente concreto, disse ele a Woodward. Bombas
incendiárias. Woodward, então, telefonou para Colson.
— Não há dúvida nenhuma quanto ao fato — disse
Colson. — Salvo um pequeno engano... Não era a Instituição
Brookings. Era o Washington Post. Eu lhes disse também
para alugarem equipamento de demolição e irem até lá e
demolirem o prédio, e o Newsweek também.
Woodward ponderou que estava falando sério, que o assunto
era mortalmente grave e não uma piada.
— Era pra ser o Washington Post. estou dizendo. Ele deu
ordens explícitas para que o Washington Post fosse arrasado.
— Colson respondeu sem um tremor na voz. — Eu queria
ver o Washington Post destruído.
Woodward não duvidava, mas disse que a acusação sobre a
Instituição Brookings ia sair no jornal.
— Pois então — respondeu Colson — diga-lhe que tudo
não passa de uma besteira. Não fiz jamais tal declaração, nem
sugeri coisa nenhuma no gênero. É ridículo. A história que
você acaba de me contar é pura fantasia, o limite final da
fantasia, isto já foi longe demais.
Horas mais tarde, tornou a telefonar para Woodward.
— Você estava falando sério sobre aquela história?
Woodward respondeu que sim.
Agora, o timbre da voz de Colson estava alterado.
— Fui interrogado sobre isso pelos promotores federais.
Sabia que tinha havido uma discussão sobre como se
recuperar documentos altamente confidenciais... Sempre
existe a possibilidade de que eu tenha mencionado aquilo... é
típico do meu temperamento... Mas, certamente, nunca fiz
tal referência ou tencionei fazê-la.
A reportagem saiu no dia 9 de junho.
Uma semana antes de John Dean prestar depoimento
perante a Comissão do Senado, em junho de 1973,
Woodward estava conversando sobre Howard Hunt com
um advogado do Senado. Este achava que Hunt fora trazido
da prisão para o Senado para longas entrevistas. E revelou
uma instrução que recebera de Colson, mais ou menos uma
hora depois de o governador Wallace ter sido alvejado.
— Hunt revelou que Colson queria que ele voasse
imediatamente para Milwaukee e arrombasse o apartamento
de Arthur Bremer — relatou o advogado — e trouxesse de
volta qualquer coisa que pudesse ajudar a vincular Bremer às
causas políticas da esquerda.
Bremer atirara em Wallace num shopping-center de
Maryland, no dia 15 de maio de 1972, cerca das quatro horas
da tarde. Às 6h30min, através de Ken Clawson, da Casa
Branca, um editor do Post ficara sabendo o nome do quase-
assassino. Clawson dissera ser evidente, pela literatura
encontrada no sórdido apartamento de Bremer em
Milwaukee, que o assassino estava ligado a movimentos
esquerdistas, possivelmente a campanha do senador George
McGovern. Woodward estava trabalhando na matéria;
rejeitou a idéia. Havia, de fato, tanto propaganda esquerdista
quanto direitista no apartamento de Bremer. No entanto,
segundo contaram, vários repórteresde Milwaukee tinham
tido permissão para entrar na casa de Bremer durante os
primeiros 90 minutos que se seguiram ao tiroteio de
Maryland. Muitos jornalistas tinham levado documentos e
outros objetos. Dois repórteres de jornais de Milwaukee
disseram a Woodward que haviam entrado no apartamento
de Bremer depois que os agentes tinham estado lá e partido.
Uma hora e meia mais tarde os agentes chegaram e selaram o
lugar. O FBI jamais explicou por que deixara que os
pertences de Bremer fossem saqueados.
Em fins de 1972, antes do primeiro julgamento do caso
Watergate, Howard Simons chamara alguns dos editores e
Bernstein e Woodward à sua sala.
— Querem saber de uma coisa? Existe algo sobre o qual
devemos pensar — disse ele. — A sujeira das sujeiras.
Bernstein e Woodward tinham, por mais de uma vez, usado
essas mesmas palavras em suas conversas sobre o assunto.
Woodward recebera um telefonema anônimo dizendo que
um dos suspeitos do Watergate viajara para Milwaukee para
encontrar-se com Arthur Bremer. E corriam rumores de que
Bremer trazia consigo notas de US$ 100,00 enquanto
espreitava Wallace, Simons queria que os rumores fossem
verificados.
Woodward e Bernstein tinham se mostrado céticos e Simons
acabara por concordar. Mas, observava agora, muitas coisas
já consideradas inconcebíveis tinham acabado por
acontecer.
Os repórteres jamais encontraram qualquer prova que
consubstanciasse uma ligação entre Bremer e os suspeitos.
Meses mais tarde, um repórter foi a Milwaukee, mas também
voltou de mãos vazias.
Agora, vinham dizer a Woodward que Colson dera ordens a
Hunt para que arrombasse o apartamento de Bremer. Na
manhã seguinte, telefonou para o advogado de Hunt,
William O. Bittman.
— Não há dúvida de que houve um depoimento neste
sentido — disse Bittman.,— Colson pediu-lhe (a Hunt) que
fosse a Milwaukee e entrasse no apartamento de Bremer...
Não me lembro com muita clareza do motivo por que foi
mandado lá. Não me recordo de que a palavra
"arrombamento" tenha chegado a ser dita.
Cerca das quatro daquela tarde, 19 de junho de 1973,
Woodward foi ao escritório de advocacia de Colson procurar
David Shapiro, sócio da firma de Colson e seu principal
consultor jurídico nos assuntos ligados ao Watergate. A nova
firma Colson & Shapiro situava-se em um moderno prédio
comercial a poucas quadras da Casa Branca. Shapiro
cumprimentou Woodward efusivamente, oferecendo-lhe a
mão gorda e balofa, e uma poltrona de couro marrom-claro
excessivamente estofada. Era ridículo, disse Shapiro, sequer
imaginar que Colson fosse capaz de coisa tão maluca. Um
jovem advogado da firma, cujo nome era Judah Best, foi
apresentado por Shapiro a Woodward. Disse-lhe que seria
injusto escrever uma reportagem na qual pelo menos
insinuasse tão frágil acusação. Mexendo muito as mãos, Best
franzia o rosto e fazia caretas enquanto sustentava que
Howard Hunt sofrera violenta pressão e se encontrava
obviamente inseguro. Shapiro e Best se devotaram à tarefa
de convencer Woodward, durante uns quarenta e cinco
minutos, tentando plantar as sementes da dúvida em sua
mente. Em seguida, Shapiro foi até sua mesa, chamou a
secretária e pediu-lhe que dissesse a "ele" para entrar.
Momentos depois, a porta abriu-se e Colson entrou, usando
calças de flanela listrada, camisa azul-escura e uma gravata
azul de bolinhas. Tinha uma barriga gigantesca. Parecia
magoado e cansado ao trocar um aperto de mão com
Woodward. Quase não falou, limitando-se a fitar
Woodward.
— Você não pode fazer isto com este homem — disse
Shapiro, pondo-se de pé atrás de sua mesa. Colson nada
falou. Parecia estar prestes a chorar. Sua prepotência tinha
desaparecido.
— Você está querendo destruí-lo — disse Shapiro.
Woodward respondeu que não pretendia destruir ninguém.
— Claro, é isso o que você está querendo — disse Shapiro.
Os advogados argumentaram ser absurdo que Colson
mandasse Hunt arrombar o apartamento de Bremer, já que
Colson estivera em constante contato com o FBI naquela
noite. Disseram que Colson pedira ao FBI para realizar uma
rápida e meticulosa inspeção do lugar.
— Seria coerente eu apressar o FBI e ao mesmo tempo
mandar Hunt para Milwaukee? — perguntou Colson.
Woodward calculou que devia haver um gravador
funcionando e escolheu cuidadosamente suas palavras.
Comentou que o caso Watergate pululava de incoerências.
— A denúncia é absolutamente falsa, e sob juramento
afirmarei que é falsa — disse Colson.
Colson parecia ferido com a má-vontade de Woodward em
aceitar a sua declaração como prova definitiva.
Woodward registrou o desmentido de Colson em seu bloco
de notas.
Shapiro, então, apresentou cópias do relatório de um teste
com detector de mentiras a que Colson se submetera
voluntariamente e que o liberava de qualquer cumplicidade
na operação Watergate. Woodward recebeu também um
"Memorando para Arquivo", de 20 de junho de 1972, data
em que pela primeira vez o Pust identificara Howard Hunt
como um dos suspeitos. Memorandos para arquivo são
freqüentemente chamados de "memorandos para a proteção
do próprio traseiro". O que foi entregue a Woodward, tendo
como referência "Howard Hunt". dizia em parte: "Falei com
ele (Hunt) pelo telefone, na noite em que o governador
Wallace foi baleado, simplesmente para perguntar-lhe quais,
em sua opinião, as causas que poderiam ter ocasionado o
atentado. Quando servia à*ClA, Hunt era considerado algo
assim como um especialista em motivações à guerra
psicológica". Em memorando complementar, no entanto,
Colson observava: "Não posso ter certeza quanto à exatidão
de minha memória".
Shapiro deu a Woodward mais dois memorandos sem
relação alguma com a história de Colson-Hunt-Bremer. Um,
datado de 11 de outubro de 1972, oia imediato ao da
reportagem de Bernstein e Woodward sobre espionagem-
sabotagem. Este memo fora escrito por Ken Clawson e
dirigido a Colson. Referindo-se à menção feita a seu nome
em conexão com a Carta Muskie-Canuck, Clawson escrevera
que passaria todo o segundo mandato de Nixon tentando
"dar o troco ao Washington Post". O outro memorando dizia
que Haldeman tentara culpar Colson, não Clawson, pela
autoria da carta.
Woodward pediu cópias dos dois memorandos que se
referiam à Carta Canuck.
Houve um longo silêncio. Woodward repetiu sua solicitação.
Outro silêncio. Então, um dos advogados disse alguma coisa
sobre a possibilidade de se chegar a um entendimento; neste
caso, Woodward poderia receber suas cópias dentro de
pouco tempo.
Estariam propondo um acordo? Não claramente, mas ficara
no ar uma sugestão de troca. O que aconteceria se
Woodward dissesse que não haveria reportagens sobre as
acusações no caso Bremer? Iria um dos advogados dizer en-
tão, que talvez fosse possível emprestar-lhe as cópias? Talvez
Woodward esperasse ouvir algo assim, porque sabia que
Colson operava nestes moldes. Woodward tinha vontade de
negar-se a ouvir qualquer sugestão Parecia, disse ele, que
acabavam de lhe oferecer alguma coisa, mas não sabia do
que se tratava.
Os três começaram a falar ao mesmo tempo. Claro que nem
pensariam nisso. Jamais fariam tal coisa, seria um insulto
pensar, sequer imaginar algo dessa natureza.
Foi assim que Woodward entendeu como operavam. Se não
tivesse estado atento, não teria percebido que um negócio
lhe fora proposto. É assim que devem funcionar os subornos,
pensou Woodward, de modo que só ouça a proposta alguém
que esteja prestando atenção. Mas não podia dar-se ao luxo
de testar a situação. Se chegasse muito perto, eles o
destruiriam.
Shapiro e Colson recomeçaram a martelar Woodward. Era o
tributo que devia pagar, pensou resignado. Tinha que estar
atento — talvez houvesse uma razão, talvez ele se deixasse
convencer. De vez em quando conseguia intercalar uma
pergunta. Por que você se manteve sempre em contato com
o FBI? perguntou a Colson.
— O Presidente estava muito agitado e desejava saber os
antecedentes políticos de Bremer — explicou Colson.
Informado do atentado, o Presidente ficou perturbado e, de
imediato, disse temer que o criminoso pudesse estar ligado
ao Partido Republicano ou, o que ainda seria pior, ao Comitê
para a Reeleição do Presidente. Se fosse este o caso,
observou Colson, poderia custar a eleição do Presidente.
A reunião com Shapiro e Colson levara quase duas horas, e já
não havia tempo para inserir a reportagem na edição do dia.
Quase na hora do fechamento, na noite seguinte, Woodward
telefonou para Shapiro e o informou de que a reportagem ia
sair. Woodward prometera avisá-lo.
Mais tarde, naquela mesma noite, Colson telefonou para
Bernstein protestando. A acusação era "absolutamente
absurda", insistiu, acrescentando que "não acreditava que
pudesse ser um relato preciso de qualquer depoimento que a
Comissão do Senado tivesse recebido".
Bernstein afirmou-lhe que era exato.
Mesmo que refletisse com precisão o depoimento de Hunt,
Colson argumentou, seria uma irresponsabilidade publicá-la,
pois Hunt se encontrava sob "forte tensão" quando
comparecera perante a Comissão do Senado.
Bernstein respondeu que incluiria os protestos de Colson na
reportagem.
Colson apelou vigorosamente para o Bernstein combatente
pelas liberdades civis, implorando-lhe que retivesse a
reportagem. Quando Bernstein se negou, Colson chamou-o
de "hipócrita corrupto".
Desde 17 de junho de 1972, os repórteres vinham
guardando todas as anotações e memorandos, fazendo
levantamentos periódicos a fim de relacionar pistas que não
tinham sido seguidas. Muitos dos itens dessas listas referiam-
se a pessoal do CRP e da Casa Branca de quem os repórteres
esperavam conseguir informações úteis. Quando se abriram
as audiências do Senado, em 17 de maio de 1973, Bernstein
e Woodward estavam num período de preguiça. Suas visitas
noturnas tinham escasseado, e cada vez mais vinham
contando com o relativamente fácil acesso aos
investigadores e advogados da equipe da Comissão do
Senado. Uma pessoa, entretanto, cujo nome constava das
listas de ambos, não tinha sido investigada — o assistente
presidencial Alexander P. Butterfield. Tanto Deep Throat
como Hugh Sloan haviam mencionado seu nome, e Sloan
dissera, quase casualmente, que ele era o encarregado da
"segurança interna". Em janeiro, Woodward fora à casa de
Butterfield num bairro de Virgínia. Ninguém atendera à por-
ta.
Em maio, Woodward perguntara a um membro da equipe da
Comissão se Butterfield tinha sido interrogado.
— Não, estamos ocupados demais.
Algumas semanas mais tarde, perguntara a outro membro da
equipe se a Comissão sabia a razão pela qual o cargo de
Butterfield na equipe de Haldeman era de "segurança
interna".
O homem respondeu que a Comissão ignorava, e que talvez
fosse uma boa idéia interrogar Butterfield. Falaria com o
presidente jurídico da Comissão, Sam Dash. Dash protelou o
assunto. Q membro da equipe disse a Woodward que
tornaria a dar um empurrão em Dash. Finalmente, Dash
aprovou uma entrevista com Butterfield para sexta-feira, 13
de julho de 1973.
No sábado, 14 de julho, Woodward recebeu em sua casa o
telefonema de um membro graduado da equipe de
investigação da Comissão.
— Parabéns! — disse ele. — Entrevistamos Butterfield e
ele nos contou a história toda.
Que história toda?
— Nixon instalou aparelhos eletrônicos contra ele
mesmo.
Contou a Woodward que apenas membros menos graduados
da Comissão tinham estado presentes à entrevista, e que
alguém lera um trecho do depoimento de John Dean sobre
sua reunião de 15 de abril com o Presidente. Eis a citação:
"O mais interessante da conversa aconteceu quase no fim,
dissera Dean. Ele (Nixon) levantou-se de sua poltrona e,
passando por trás dela, foi até a um canto da sala do Poder
Executivo, e num timbre quase inaudível disse-me que
provavelmente fora muito tolo em discutir com Colson a
clemência a Hunt. Ocorreu a Dean o pensamento de que na
sala poderia haver, ocultos, aparelhos de escuta".
Butterfield foi uma testemunha relutante. O fato acima
referido, disse ele, seria provavelmente o único que o
Presidente não desejaria ter revelado. Os interrogadores
fizeram pressão e saiu uma história que iria confundir o
universo presidencial mais do que qualquer outra.
A existência de um sistema de gravação que registrava as
conversas do Presidente era conhecida apenas pelo próprio
Presidente, Haldeman, Larry Higby, Alexander Haig,
Butterfield e os vários agentes do Serviço Secreto
encarregados de sua manutenção. Por enquanto, a
informação era estritamente não-oficial.
Os repórteres novamente temeram a possibilidade de um
embuste arquitetado pela Casa Branca. Um sistema de
gravação era descoberto, raciocinaram, e então o Presidente
poderia apresentar fitas fabricadas e mutiladas, com a
finalidade de exculpar a si mesmo e aos seus homens. Ou,
sabendo que os gravadores estavam ligados, induzir Dean —
ou qualquer outra pessoa — a se incriminar, fingindo
ignorância depois. A dupla decidiu não seguir com a história,
por enquanto.
Durante toda a noite de sábado, o assunto corroeu a mente
de Woodward. Butterfield dissera que mesmo Kissinger e
Ehrlichman ignoravam a existência desse sistema de
gravação. A Comissão do Senado e o promotor especial
certamente tentariam obter as fitas, talvez mesmo através de
notificação judicial.
Kissinger não sabe, refletiu Woodward. E pensou, Kissinger
sabe de quase tudo e não apreciaria a idéia de sistemas
secretos de gravação registrando suas sóbrias palavras e
conselhos, fosse para a posteridade ou para serem
apresentadas a algum grande júri. O que sentiriam os líderes
estrangeiros ao saberem da existência de microfones
secretos? Woodward divertiu-se com a idéia de saber algo
que Kissinger desconhecia. Ziegler parecia estar igualmente
no escuro.
Woodward telefonou para Bradlee. Eram cerca de 9h30min
da noite. Parecia que Bradlee já se havia recolhido.
Woodward esboçou as revelações de Butterfield. Enquanto
lia, sua voz tropeçou várias vezes. Talvez sua reação fosse
exagerada. Bradlee escutava em silêncio.
— Só queria que você ficasse sabendo — disse
Woodward. — Porque me parece muito importante. Vamos
trabalhar nisto, se você quiser.
— Bem, não sei — disse Bradlee, levemente irritado.
— Que conceito escolar daria à história? — perguntou
Woodward.
— B (bom) — Bradlee respondeu sem hesitação. B,
pensou Woodward. Ora, não é muito.
— Veja se consegue descobrir mais alguma coisa, mas eu
não me arriscaria muito com isto — aconselhou Bradlee.
Woodward desculpou-se por telefonar numa noite de
sábado.
— Está tudo bem — disse Bradlee alegremente. — Gosto
de ficar sabendo das coisas.
Desligaram, Woodward chegou à conclusão de que estava
aflito demais.
A comissão do Senado agiu com rapidez. Na segunda-feira,
perante a comissão do Senado e milhões de americanos que
o viam pela TV, Butterfield narrou, relutantemente, toda a
história das fitas gravadas.
— Está bem — concedeu Bradlee na manhã seguinte. —
O conceito vai além de B.
CAPÍTULO 17
Na primeira semana de novembro, Woodward colocou o
vaso de plantas na posição combinada, e foi até a garagem
subterrânea. Duas semanas antes, o Presidente demitira o
promotor .especial do Watergate, Archibald Cox, que
exigira, através de notificação, a entrega de nove fitas
presidenciais. O Procurador Geral Elliot Richardson e
William Ruckelshaus, Vice-Procurador, tinham ambos
pedido demissão. No círculo desbaratado da Casa Branca, os
assessores do Presidente diziam que o promotor especial fora
demitido porque o Presidente temia ser processado por Cox.
Então, com Cox fora da jogada, o Presidente curvou-se à
opinião pública e à ordem judicial e entregou sete fitas. As
duas outras jamais tinham existido, explicaram seus
advogados.
A explicação de Deep Throat foi rápida e direta: uma ou
algumas das fitas continham cortes propositais.
Bernstein começou a telefonar para seus informantes da Casa
Branca. Quatro deles disseram que as fitas eram de má
qualidade, que havia lapsos nas conversas. Mas não sabiam se
tais lapsos tinham sido causados por rasuras. Ron Ziegler
disse a Bernstein que não havia corte nenhum nas fitas.
Qualquer história em contrário seria "inexata". Bernstein
propôs que Ziegler desse sua palavra de honra quanto a esse
fato. Se o fizesse, reteria a reportagem.
— Nós lidamos com fatos, não com honra — retrucou
Ziegler.
A reportagem saiu, citando anonimamente a declaração de
Deep Throat de que havia cortes de "natureza suspeita", os
quais "poderiam levar à conclusão de que as fitas tinham sido
adulteradas".
Na tarde de 21 de novembro, Ziegler telefonou de volta para
Bernstein. Os advogados do Presidente tinham dito no
tribunal do juiz Sirica que uma das fitas continha um lapso
de 18 minutos e meio.
— Dou-lhe minha palavra de que não sabia de nada sobre
isto quando conversamos.
Bernstein e Woodward acreditaram. Vários informantes da
Casa Branca lhes tinham dito que há meses o Presidente
vinha se recusando a permitir que seus assessores ouvissem
todas as fitas — mesmo enquanto proclamava que sua
completa revelação o desagravaria.
Richard Nixon, comentavam seus subordinados, tornara-se
prisioneiro em sua própria casa — reticente e desconfiado
mesmo daqueles que tentavam defender sua causa, agressivo,
insone. Um dos homens que lhe fora mais chegado desde
sua entrada na Casa Branca dissera a Woodward em tom
desconsolado:
— As únicas pessoas com quem ele fala sem reservas
sobre Watergate são Bebe Rebozo e Bob Abolanalo, dois
milionários, amigos seus de longa data.
Em Disneyworld, na Flórida, o Presidente declarou a uma
platéia de editores de TV:
— Não sou um criminoso.
No dia 28 de dezembro, o General Alexander Haig, Chefe do
staff da Casa Branca, localizou Katharine Graham, pelo
telefone, em um restaurante de Washington. Estava
telefonando de San Clemente, para discutir duas reportagens
de Woodward e Bernstein publicadas na primeira página do
Post daquela manhã. Uma delas dizia que a "Operação
Inocência" — nome dado pelo Presidente à campanha em
sua defesa — fora cancelada, e que dois dos mais leais
consultores do Presidente, que tinham sustentado
firmemente essa inocência, já não se achavam muito seguros
dela. A segunda dizia que os advogados do Presidente
vinham fornecendo aos advogados de H. R. Haldeman e
John D. Ehrlichman cópias de documentos e outras provas
que a Casa Branca submetia à apreciação da promotoria
especial.
Haig classificava as reportagens de "indecentes", acusava o
Post de um "desserviço à nação" e apelava à Sra. Graham
para que deixasse de publicar tais relatos.
O próprio Haig, os repórteres logo descobriram, já duvidava
de que o Presidente estivesse tomando o curso mais sábio.
Por mais de seis meses, ele e Henry Kissinger vinham
instando com o Presidente para que se afastasse dos três
antigos assessores que lhe tinham sido mais chegados, e
eram agora alvo principal da investigação do promotor
especial: Haldeman, Ehrlichman eColson.
Ao invés de ouvir tais conselhos, o Presidente elaborara sua
defesa legal em conjunto com os três, e continuara a se
encontrar com eles e a falar-lhes pelo telefone. Durante o
verão de 1973, Kissinger tentara persuadir o Presidente a
repudiar publicamente seus antigos assessores e aceitar, até
certo ponto, a responsabilidade pelo Watergate. A sugestão
fora furiosamente rejeitada por Ron Ziegler.
— Ato de contrição porra nenhuma — respondera ao
redator de discursos presidenciais que lhe transmitira a
recomendação de Kissinger.
Em fins de fevereiro de 1974, a promotoria especial do
Watergate obteve confissões de culpa de Jeb Magruder, Bart
Porter, Donald Segretti, Herbert Kalmbach, Fred LaRue, Egil
Krogh e John Dean III. Oito empresas e seus executivos
admitiram ter feito contribuições ilegais ao CRP. Em
Washington, Dwight Chapin seria indiciado por perjúrio.
Em Nova Yorque, John Mitchell e Maurice Stans estavam
em julgamento, acusados de obstrução da Justiça e perjurio.
A 1º de março, o grande júri de Washington que tinha
acusado os conspiradores e arrumbadores originais da sede
nacional do Partido Democrático, em 1972, passou às
acusações de acobertamento da operação Watergate.
Acusava sete dos antigos assistentes da Casa Branca e do
Comitê do Presidente de conspiração visando à obstrução da
Justiça: Haldeman, Ehrlichman, Colson, Mitchell, Strachan,
Mardian e o advogado Kenneth Parkinson.
Uma semana depois, um segundo grande júri de Washington
homologava o indiciamento pela conspiração para arrombar
o consultorio do psiquiatra de Daniel Elisberg. Os acusados
eram Ehrlichman, Colson, Liddy e três cubano-americanos,
inclusive Bernard Barker e Eugenio Martinez, que se
encontravam entre os réus do arrombamento do Watergate.
Em nome da Casa dos Representantes, a quem "unicamente
é dado o poder de depor um Presidente", a Comissão
Judiciária da Casa deu início à primeira investigação, em mais
de cem anos, para a possível ação contra um Presidente dos
Estados Unidos. O principal grande júri entregou ao juiz
Sirica, além dos sete indiciamentos, uma pasta contendo um
relatório e as provas do que Deep Throat, entre outros, disse
ser um assombroso caso contra o Presidente. Já que os
promotores haviam energicamente argüido que a
Constituição proibia a possibilidade de se indiciar um
Presidente em exercício, o grande júri recomendava que
todos os documentos fossem entregues à Comissão da Casa.
No dia 30 de janeiro, o Presidente fez seu discurso anual
sobre o Estado da União, perante os membros das casas do
Congresso, os juízes da Suprema Corte, os ministros
convidados e a audiência dos canais de televisão.
— Um ano de Watergate é suficiente — declarou ao fim
do discurso, implorando ao país e ao Congresso que se
dedicassem a outros assuntos mais urgentes.
Àqueles que decidiriam se deveria ser julgado por "ofensas
graves e conduta imprópria": os membros da Casa dos
Representantes...
Àqueles que julgariam a decisão da Casa nesse sentido: o
Senado...
Ao homem que presidiria o processo de deposição: o
Presidente da Suprema Corte dos Estados Unidos, Warren
Burger...
E à nação...
O Presidente declarou:
— Quero que saibam que não pretendo, de maneira
alguma, afastar-me da tarefa para a qual o povo americano
me elegeu, a fim de que eu a levasse a cabo para o povo dos
Estados Unidos.
| Lançamento Gênesis do Conhecimento Todos os Homens do Presidente - Carl Bernstein & Bob Woodward links ao final da mensagem digitalização - Vitório formatação e revisão - Lucia Garcia Sinopse: Como foi que todos ficaram sabendo do caso Watergate? Na mais devastadora história de investigação política do século, dois jovens repórteres do Washington Post, cujo brilhante trabalho de pesquisa jornalística elucidou o escândalo de Watergate, narram neste livro todo o drama de bastidores dos fatos, como realmente ocorreram. Esta é sua surpreendente história, desde os primeiros indícios suspeitos, pelos meandros de pistas falsas, mentiras, segredos e alta pressão, até os momentos finais, quando juntaram todas as peças do quebra-cabeças e escreveram a série de reportagens que conferiu ao Post o prêmio Pulitzer. Não só por sua trama verdadeiramente detetivesca como por suas excelentes qualidades novelísticas, este livro manteve-se por tempo incomum em primeiro lugar na lista de best-sellers dos Estados Unidos.
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