domingo, 29 de maio de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> Agatha Christie 1

AGATHA CHRISTIE

UM PRESSENTIMENTO FUNESTO

Tradução de
MILTON PERSSON


EDITORA RECORD


1987


Sinopse

Envolver-se em tramas perigosas é uma especialidade do
casal de aventureiros Tommy e Tuppence Beresford. Desta
vez, durante uma visita a um asilo de senhoras, Tuppence vê
um quadro que retrata uma casa que não lhe parece
totalmente estranha. Lá, também conhece uma anciã que
lhe fala de um menino morto escondido em uma chaminé.
Pouco tempo depois, a velha senhora abandona o asilo sem
dar qualquer explicação. Disposta a descobrir o paradeiro
dela, Tuppence decide encontrar a casa misteriosa e acaba
deparando-se com um assassino perverso.

Dedico este romance aos inúmeros leitores ingleses e
estrangeiros que me escrevem constantemente
perguntando: "Que fim levaram Tommy e Tuppence? Que
estão fazendo agora?" Felicidades a todos. Faço votos que se
divirtam ao reencontrá-los, bastante mais velhos, porém
com o espírito indômito de sempre!
AGATHA CHRISTIE

Pelo comichar
Do meu polegar
Sei que deste lado
Vem vindo um malvado.
Abre-te porta:
A quem, não importa!
MACBETH
Sumário

Sinopse 2

PRIMEIRA PARTE - Sunny Ridge 6
1 - Tia Ada 7
2 - A coitadinha era sua filha? 12
3 - Um enterro 22
4 - O quadro da casa 25
5 - O desaparecimento da velhinha 35
6 - Tuppence na pista 42

SEGUNDA PARTE - A casa do canal 47
7 - A bruxa camarada 48
8 - Sutton Chancellor 59
9 - Uma manhã em Market Basing 78

TERCEIRA PARTE - A esposa desaparecida 86
10 - Uma conferência... e depois 87
11 - Bond Street e o Dr. Murray 95
12 - Tommy encontra um velho amigo 106
13 - Albert e o fio da meada 121

QUARTA PARTE - Passa passará, o de trás ficará a porteira
está aberta para quem quiser passar 132
14 - Um exercício de raciocínio 133
15 - Reunião no vicariato 141
16 - A manhã seguinte 152
17 - Mrs. Lancaster 158

PRIMEIRA PARTE
Sunny Ridge
1 - Tia Ada

MR. E MRS. BERESFORD estavam à mesa do café da manhã.
Formavam um par comum, semelhante a centenas de outros
casais maduros que faziam o mesmo na Inglaterra inteira
nesse dia idêntico aos demais. Talvez chovesse, mas por
enquanto o tempo se mostrava incerto.
Quando moço, Mr. Beresford tivera cabelos vermelhos.
Ainda conservavam um pouco da cor primitiva, embora a
maior parte adquirisse a tonalidade gris-arenosa que em geral
as pessoas ruivas ostentam na maturidade. Os de Mrs.
Beresford, em compensação, tinham sido pretos, bastos e
ondulados. Se agora apresentavam mechas grisalhas,
dispersas em artificiosa negligência, o efeito final resultava
atraente. Certa ocasião pensou em tingi-los, porém logo
desistiu, conformando-se com a ordem natural das coisas e
optando por um novo matiz de batom para se reanimar.
Um casal maduro, agradável e sem nada de especial,
tomando seu café da manhã, deduziria um observador
superficial. E se fosse jovem, acrescentaria: — Dois coroas
simpáticos, não resta dúvida, mas decerto uns chatos de
galocha, como todos os velhos.
Mr. e Mrs. Beresford, entretanto, ainda não haviam atingido
essa fase da vida em que as pessoas são consideradas
definitivamente velhas. Nem sonhavam que a exemplo de
tantos outros estivessem relegados à categoria de trastes
insípidos apenas devido à idade. Opinião de gente moça,
lógico. Ora, essa rapaziada — pensariam indulgentes — nem
sabe o que é viver. Até dá pena ver como se atribulam com
exames no colégio, relações sexuais, roupas extravagantes e
penteados exóticos para chamar maior atenção. Na opinião
de Mr. e Mrs. Beresford, ambos se encontravam em pleno
vigor dos anos. Satisfeitos consigo mesmos, gostavam-se
mutuamente e os dias transcorriam calmos, sem tropeços.
Havia exceções, é óbvio, tal como ocorre com todo mundo.
Mr. Beresford abriu um envelope, relanceou os olhos pelo
texto da carta e tornou a largá-la, em cima de um pequeno
maço à sua esquerda. Tomou outro, porém dessa vez
absteve-se de abri-lo. Ficou parado com ele na mão, fitando
distraído o prato de torradas. A esposa o observou em
silêncio durante certo tempo.
— Quê que há, Tommy?
— Hem? — fez, vago. — Quê que há?
— Foi o que eu perguntei — disse Mrs. Beresford.
— Nada — respondeu. — Que poderia haver?
— Você estava pensando em alguma coisa — afirmou
Tuppence, de modo acusador.
— Acho que não estava pensando em coisíssima nenhuma.
— Estava, sim. Que aconteceu?
— Nada, lógico. Que idéia. Chegou a conta do bombeiro —
explicou.
— Ah — fez Tuppence, com ar iluminado. — Mais do que
esperava, imagino.
— Claro. Sempre é.
— Não posso entender como não treinamos pra bombeiro.
Se ao menos você tivesse treinado, eu seria sua ajudante e
estaríamos ganhando rios de dinheiro.
— Que imprevidência nossa, não é?
— Era a conta do bombeiro que você estava examinando há
agorinha mesmo?
— Não, era um pedido de subscrição.
— Delinquentes juvenis?... Integração racial?
— Não. Apenas outro Asilo de Velhice em construção.
— Bem, ao menos isso é mais sensato. Só não entendo por
que fez uma cara tão preocupada.
— Não foi nisso que eu pensei.
— Ora, no quê, então?
— Creio que foi o que me veio à idéia — disse Mr.
Beresford.
— O quê? — perguntou Tuppence. — Você sabe que no fim
termina contando.
— De fato não era nada importante. Achei apenas que
talvez... bem, por causa de tia Ada.
— Ah, percebo — retrucou Tuppence, com compreensão
imediata. — É mesmo — acrescentou pensativa, num
murmúrio. — Tia Ada.
Seus olhares se cruzaram. A triste verdade é que hoje em dia
toda família que se preze tem um problema que poderia ser
cognominado de "tia Ada". Os nomes diferem — tia Amélia,
tia Susan, tia Cathy, tia Joan, — numa miscelânea que inclui
avós, primas velhas e tias-avós. O fato é que existem e
representam um impasse que requer solução. Precisa-se
tomar providências. Visitar e recolher informações
completas sobre instituições adequadas ao trato de pessoas
idosas. Pedir recomendações aos médicos ou amigos que já
passaram pela mesma experiência, cujas tias Adas tivessem
"vivido em meio ao maior conforto" até falecerem "Os
Loureiros" de Bexhill ou "Os Alegres Prados" em
Scarborough.
Já vai longe o tempo em que tia Elizabeth, tia Ada e
congêneres moravam felizes nas próprias casas que lhes
tinham servido de residência por décadas a fio, servidas por
antigos criados fiéis, embora por vezes tirânicos. Ambas as
partes então mostravam-se perfeitamente satisfeitas com a
situação. Havia também uma profusão de parentas pobres,
sobrinhas indigentes, primas solteironas apalermadas,
ansiosas por um bom lar, três ótimas refeições diárias e uma
cama bem cômoda. A oferta e a procura coincidiam e tudo
se encaixava. Mas atualmente a coisa mudou.
As tias Adas de hoje exigem precauções meticulosas e não
meramente destinadas a uma senhora idosa que, em virtude
de artrite e outras dificuldades reumáticas, não possa ficar
sozinha em casa sob perigo de cair da escada, sofra de
bronquite crônica ou brigue com a vizinhança e insulte os
fornecedores.
Lamentavelmente, essas tias Adas dão muito mais trabalho
do que o extremo oposto na escala de idade. Uma criança
ainda pode ser confiada a pais adotivos, impingida a parentes
ou entregue a colégios apropriados, onde passe até as férias e
haja possibilidade de excursões em burrinhos e
acampamentos, e, de modo geral, oferece pouca resistência a
esse tipo de solução. Já com as tias Adas o caso muda de
figura. Tuppence Beresford teve uma — a tia-avó Primrose
— que se notabilizou como encrenqueira. Impossível
contentá-la. Mal dava entrada numa instituição
garantidamente impecável em matéria de estada e conforto
para senhoras idosas, e após um punhado de cartas à
sobrinha, cumulando de elogios um determinado
estabelecimento dessa espécie, vinha a notícia de que se
retirara indignada, sem aviso.
— Abominável. Não podia ficar lá mais um segundo!
No período de um ano, tia Primrose ingressou e abandonou
onze instituições semelhantes. Um belo dia escreveu
dizendo que havia encontrado um moço muito simpático.
"De fato, o rapaz é um amor. Perdeu a mãe na infância e
precisa terrivelmente de alguém que cuide dele. Aluguei um
apartamento e ele vai morar comigo. A combinação é ideal
para nós dois. Temos afinidades naturais. Você não tem por
que se preocupar mais, minha querida Prudence. Meu futuro
está resolvido. Amanhã vou procurar meu advogado, pois
tenho de tomar certas providências em relação a Mervyn, na
eventualidade de que meu falecimento preceda o dele, o
que, afinal de contas, seria perfeitamente normal embora eu
esteja pronta a lhe garantir que nunca me senti melhor na
vida."
Tuppence correu ao norte (o incidente teve lugar em
Aberdeen). Acontece, porém, que a polícia foi mais rápida e
prendeu o maravilhoso Mervyn, procurado há algum tempo
sob a acusação de obter dinheiro sob falsos pretextos. Tia
Primrose ficou no auge da indignação, chamando aquilo de
perseguição, mas depois de acompanhar o processo no
tribunal (onde vinte e cinco casos do mesmo gênero foram
levados em consideração) viu-se forçada a mudar de opinião
a respeito do protegido.
— Creio que eu devia visitar tia Ada, sabe, Tuppence? —
disse Tom. — Já faz tempo que não vou lá.
— Pois é — retrucou Tuppence, sem entusiasmo. —
Quando foi a última vez?
— Há quase um ano — ponderou Tommy.
— Mais. Um ano é pouco.
— Puxa, como o tempo voa. Não parece tanto assim.
Contudo, creio que você tem razão, Tuppence. — Refletiu.
— É horrível como a gente esquece, não é? Sinto até a
consciência pesada.
— Não sei por quê. Afinal, a gente está sempre mandando
coisas e escrevendo pra ela.
— Sim, claro. Nesse sentido você se esmera como ninguém,
Tuppence. Porém, mesmo assim, às vezes se lêem coisas
bem alarmantes.
— Está pensando naquele livro hediondo que conseguimos
na biblioteca, e o horror que significou prós pobres
velhinhos. Como sofreram.
— Tenho a impressão de que foi verdade... tirado da vida
real.
— Não resta dúvida de que há lugares assim. E gente
profundamente infeliz, que não sabe viver de outro jeito.
Mas. o que é que se vai fazer, Tommy?
— O que todo mundo faz: tomar as máximas precauções.
Escolher com prudência, verificar cada detalhe e certificar-
se se existe um bom médico tratando dela.
— Você tem de reconhecer que não existe nenhum melhor
que o Dr. Murray.
— É — disse Tommy, perdendo a expressão preocupada. —
Murray é um sujeito de primeira. Delicado, paciente. Se
houvesse qualquer coisa errada, ele avisaria.
— Portanto acho desnecessária essa- sua inquietação. Com
que idade ela está agora?
— Oitenta e dois. Não, espere. Creio que oitenta e três —
acrescentou. — Deve ser bastante horrível sobreviver a
todos os parentes e amigos.
— Isso na nossa opinião. Eles não pensam assim.
— Como é que você pode afirmar?
— Ora, no caso de tia Ada posso até garantir. Não se lembra
do prazer com que contou o número de amigas que já
tinham morrido? Terminou dizendo: — "E quanto à Amy
Morgan, soube que não dura mais de seis meses. Vivia
falando que eu era tão magrinha e agora é quase certo que
vai antes pra cova. Com vários anos de antecedência." A
perspectiva deixou-a eufórica.
— Seja como for... — insistiu Tommy.
— Eu sei, eu sei. Seja como for, você julga que é seu dever
e, portanto irá.
— Não acha que estou certo?
— Está, sim. Certíssimo. Infelizmente. E eu também vou
junto — acrescentou, com um leve toque de heroísmo na
voz.
— Não — protestou Tommy. — Pra quê? Ela não é sua tia.
Deixe que eu vou.
— De forma alguma. Também gosto de sofrer. Nós dois
penaremos juntos. Você não se divertirá, eu não me
divertirei e não creio por um instante que tia Ada tampouco
se divertirá. No entanto compreendo perfeitamente que seja
uma dessas coisas que necessitam ser feitas.
— Mas eu não quero que vá. Afinal de contas, já esqueceu
como ela foi terrivelmente grosseira com você na última
vez?
— Ora, nem liguei — retrucou Tuppence. —
Provavelmente foi o único momento animado da visita pra
coitada. Não fiquei ressentida, não. Que esperança.
— Você é sempre boazinha com tia Ada, mesmo não
gostando muito dela.
— E quem é que algum dia gostou? Quer saber a minha
opinião? Ninguém.
— Não se pode deixar de sentir pena de quem envelhece.
— Eu posso — afirmou Tuppence. — Não sou tão bom
caráter que nem você.
— As mulheres são mais impiedosas.
— Creio que deve ser isso. Em última análise, só temos
tempo pra ser realistas. Quero dizer, eu sinto pena de gente
velha, doente ou coisa parecida, quando se trata de boa
pessoa. Do contrário, ora, há de reconhecer que não dá no
mesmo. Se alguém é ruim como cobra aos vinte, não
melhora nada aos quarenta, piora aos sessenta e se
transforma numa perfeita peste aos oitenta — bem,
francamente, não sei por que havia de me causar qualquer
comiseração apenas pelo fato de ter envelhecido. No fundo,
ninguém muda. Conheço autênticos anjos que estão com
setenta e oitenta anos. A velha Mrs. Beauchamp, Mary Carr
e a avó do padeiro, aquela adorável Mrs. Poplett, que sempre
vinha fazer a limpeza aqui em casa, são todas uns amores,
verdadeiras simpatias e eu faria tudo por elas.
— Está bem, está bem — disse Tommy, — seja realista. Mas
se quiser bancar a sublime e vir comigo...
— Eu quero ir. Que diabo, quando casei com você prometi
compartilhar os bons e os maus momentos. E tia Ada
pertence decididamente à segunda categoria. Portanto
iremos de braços dados, com um buque de flores, uma caixa
de bombons recheados e talvez algumas revistas. Seria bom
escrever pra tal fulana, prevenindo sobre a nossa visita.
— Um dia da semana que vem? Eu podia dar um jeito na
terça, se ficar bem pra você.
— Combinado. Como é o nome da mulher? Não consigo me
lembrar... a diretora, superintendente ou sei lá o que que ela
é. Começa por P.
— Miss Packard.
— Exato.
— Talvez desta vez seja diferente — disse Tommy.
— Diferente? Em que sentido?
— Ah, não sei. Pode ser que aconteça algo interessante.
— Quem sabe um desastre de trem no caminho? — sugeriu
Tuppence, entusiasmando-se um pouco.
— A troco de que você está com vontade de sofrer um
desastre de trem?
— Bem, no fundo eu não estou, claro. Foi apenas...
— Apenas o quê?
— Ora, seria uma espécie de aventura, não? Talvez se
pudesse salvar alguém ou fazer qualquer coisa útil. Útil e ao
mesmo tempo empolgante.
— Que idéia! — exclamou Mr. Beresford.
— Eu sei — concordou Tuppence. — Acontece que é o tipo
da idéia que às vezes ocorre pra gente.

2 - A coitadinha era sua filha?

SERIA DIFÍCIL explicar o motivo do nome de Sunny Ridge. O
terreno plano não apresentava nenhuma saliência que se
assemelhasse a um outeiro, mas convinha mais, sem dúvida,
às idosas pensionistas. O jardim, embora carecesse de
atrativos especiais, era amplo. A casa, uma mansão vitoriana
bastante espaçosa e em ótimo estado de conservação,
achava-se cercada por um punhado de árvores de sombra
amena. Uma videira virgem, cobrindo uma das paredes
laterais, e duas araucárias chilenas emprestavam um ar
exótico à cena. Havia diversos bancos colocados em pontos
estratégicos para apanhar sol, algumas preguiçosas esparsas e
uma varanda envidraçada, onde as velhinhas podiam sentar
ao abrigo dos ventos traiçoeiros.
Tommy tocou a campainha, sendo logo atendido, em
companhia de Tuppence, por uma moça em avental de
nylon com um jeito meio afobado. Levou-os a uma pequena
sala de visitas.
— Vou avisar Miss Packard — disse, levemente esbaforida.
— Já os está esperando e descerá em seguida. Não se
incomodam de aguardar um instante? É por causa da velha
Mrs. Carroway. Cismou de engolir o dedal outra vez, sabem
como é.
— Mas à saúde de que ela fez uma coisa dessas? —
perguntou Tuppence, surpresa.
— Pra se divertir — foi a explicação sucinta da empregada.
— Vive fazendo isso.
Saiu da sala e Tuppence sentou-se.
— Eu é que não gostaria de engolir um dedal — comentou
pensativa. — Já pensou no horror que seria ao descer pela
garganta?
Contudo, não tiveram de esperar muito. A porta se abriu e
Miss Packard entrou, cheia de desculpas. Era uma mulher
alta e ruiva, com cerca de cinquenta anos e aquele ar de
calma competência que Tommy sempre admirara.
— Perdoe a demora, Mr. Beresford. Como vai, Mrs.
Beresford? Que bom que também veio.
— Soubemos que alguém engoliu um dedal — falou
Tommy.
— Ah, Marlene contou? Sim, Mrs. Carroway. Passa o dia
inteiro engolindo coisas. Um verdadeiro problema. Não se
pode estar de olho a toda hora. Claro, a gente sabe que as
crianças fazem isso, mas numa pessoa velha um passatempo
desses fica até engraçado, não é mesmo? E ela não se
emenda, cada ano piora. O que vale é que não lhe faz mal.
— No mínimo o pai era engolidor de espadas — sugeriu
Tuppence.
— Eis aí uma ideia bem interessante, Mrs. Beresford. Assim
talvez se explicasse. Anunciei sua visita a Miss Fanshawe,
Mr. Beresford — prosseguiu. — Mas não garanto que tenha
entendido. Como sabe. nem sempre entende o que a gente
diz.
— Como vai ela ultimamente?
— Olhe, receio que bastante combalida — explicou Miss
Packard, adotando um tom consolador. — Nunca se
consegue descobrir até onde alcança sua compreensão.
Falei-lhe ontem à noite e ela afirmou que eu devia estar
enganada, porque era período letivo. Pelo jeito, pensa que o
senhor ainda vai à escola. As pobrezinhas às vezes
confundem tudo, principalmente em questão de tempo.
Apesar disso, hoje de manhã, ao abordar de novo o assunto,
limitou-se a comentar que era um completo absurdo, uma
vez que o senhor já havia morrido. Enfim — continuou,
alegremente, — espero que o reconheça quando o vir.
— E de saúde? Sempre na mesma?
— Bem, na medida do possível. Pra falar com franqueza,
creio que lhe resta pouco tempo de vida. Não sofre dor
nenhuma, porém seu estado cardíaco não apresenta
melhoras. Piorou, mesmo. Por isso acho preferível ficarem
de sobreaviso, pois se falecer repentinamente o abalo não
será tão grande.
— Trouxemos umas flores — disse Tuppence.
— E uma caixa de bombons — acrescentou Tommy.
— Ah, mas quanta gentileza. Ela vai ficar muito contente.
Vamos subir?
Tommy e Tuppence se levantaram, deixando a sala em
companhia de Miss Packard, que tomou a dianteira na ampla
escadaria. Ao cruzarem por um dos quartos do corredor do
andar de cima, a porta de repente se abriu e uma velha
baixinha, com pouco mais de metro e meio de altura, saiu
correndo num passo miudinho, aos berros:
— Quero meu chocolate! Quero meu chocolate! Onde está a
enfermeira Jane? Quero meu chocolate!
Uma mulher de uniforme irrompeu do quarto contíguo.
— Calma, calma, meu bem. Está tudo certo. Você já tomou
seu chocolate. Faz vinte minutos.
— Não tomei, não, enfermeira. É mentira. Ninguém me
deu. Estou com sede.
— Pois se quiser, pode tomar outra xícara.
— Como que vou tomar outra se ainda não tomei nenhuma?
Seguiram adiante e Miss Packard, depois de bater de leve
numa porta no fundo do corredor, abriu-a e todos entraram.
— Pronto, Miss Fanshawe — anunciou festiva. — Cá está
seu sobrinho pra visitá-la. Que bom, hem?
Numa cama perto da janela, uma senhora idosa soergueu-se
bruscamente dos travesseiros. Tinha o cabelo cor de cinza,
um rosto fino e enrugado, nariz grande e adunco, e um ar
geral de desaprovação. Tommy se aproximou.
— Olá, tia Ada. Como vai?
Em vez de lhe prestar atenção, tia Ada virou-se para Miss
Packard.
— Que negócio é esse de admitir cavalheiros no quarto de
uma senhora? — interpelou irritada. — Na minha época isso
não era considerado de bom tom! E ainda me vem essa
história de sobrinho! Quem é ele? Um bombeiro ou o
eletricista?
— Ora, vamos, que modos são esses? — recriminou Miss
Packard, conciliadora.
— Sou seu sobrinho, Thomas Beresford — explicou
Tommy, oferecendo a caixa de bombons. — Trouxe-lhe uns
chocolates.
— Não pense que assim me convence. Conheço sua laia. É
capaz de dizer qualquer coisa. Quem é esta mulher?
Encarou Mrs. Beresford com ar de desdém.
— Sou Prudence — respondeu Mrs. Beresford. — Sua
sobrinha Prudence.
— Que nome ridículo — retrucou tia Ada. — Digno de uma
copeira. Meu tio-avô Mathew tinha uma chamada Comfort.
A arrumadeira era Aleluia. Metodista. Mas minha tia-avó
Fanny acabou com a história. Disse que enquanto estivesse
trabalhando na casa dela se chamaria Rebecca.
— Trouxe umas rosas pra senhora — falou Tuppence.
— Não presta ter flores em quarto de doente. Absorvem
todo o oxigênio.
— Vou colocá-las num jarro — sugeriu Miss Packard.
— Não vai fazer nada disso. Já devia ter aprendido que quem
manda em mim sou eu.
— A senhora parece estar em plena forma, tia Ada —
comentou Mr. Beresford. — Vendendo saúde, pode-se
dizer.
— Mais que você, fique certo, Que negócio é esse de se
intitular meu sobrinho? Como é mesmo o seu nome?
Thomas?
— Sim. Thomas ou Tommy.
— Pra mim é novidade — afirmou. — Eu só tive um
sobrinho, chamado William, que morreu na última guerra.
Até foi bom. Se estivesse vivo não valeria nada. Estou
cansada — acrescentou, recostando-se nos travesseiros e
virando a cabeça para o lado de Miss Packard. — Leve essa
gente embora. Não devia trazer estranhos aqui.
— Julguei que uma visitinha talvez a animasse — replicou
Miss Packard, imperturbável.
Tia Ada emitiu um ronco surdo de regozijo escarninho.
— Muito bem — disse Tuppence, alegre. — Nós já vamos
então. As rosas ficam. Quem sabe a senhora muda de
opinião sobre elas. Venha, Tommy.
Voltou-se para a porta.
— Bem, até a vista, tia Ada. Pena que não se lembre de
mim.
Tia Ada permaneceu em silêncio até Tuppence sair, seguida
de Miss Packard e, finalmente, Tommy.
— Você fique — ordenou ela, levantando a voz. — Sei
perfeitamente quem é. Você é Thomas. Antes tinha o
cabelo vermelho. Cor de cenoura. Isso mesmo. Venha cá.
Vamos conversar. A mulher eu não quero., Não adianta ela
fingir que é sua esposa, a mim é que não engana. Não sei
como pode trazer uma sujeitinha dessas aqui. Sente-se nessa
cadeira e me conte como vai sua querida mãe. Dê o fora —
acenou, à guisa de pós-escrito, para Tuppence, que ficara
hesitante na soleira e então desapareceu imediatamente.
— Hoje ela está num de seus dias — opinou Miss Packard
com toda a calma ao descerem a escada. — Sabe, às vezes é
até simpática. Contando ninguém acredita.
Tommy sentou-se na cadeira indicada por tia Ada, frisando
delicadamente que não tinha muitas notícias a respeito de
sua mãe, pois morrera há quase quarenta anos. A declaração
não a perturbou.
— Imagine — disse, — já faz tanto assim? Puxa, como esse
tempo passa depressa. — Examinou-o de alto a baixo. — Por
que você não casa? Arrume uma boa mulher pra cuidar de
sua vida. Está na idade, sabe? Não precisaria andar com essas
pinóias por aí, posando de sua esposa.
— Estou vendo que da próxima vez que viermos terei de
pedir a Tuppence que traga a certidão de casamento.
— Ah, então a transformou em mulher honesta, hem?
— Estamos casados há mais de trinta anos — disse Tommy,
— temos um filho e uma filha, ambos também casados.
— O diabo — reclamou tia Ada, mudando rapidamente de
tática — é que ninguém nunca me diz nada. Se me tivessem
avisado a tempo...
Tommy achou melhor não discutir. Uma vez Tuppence lhe
fizera uma séria advertência: "Se alguém de mais de sessenta
e cinco anos recrimina a gente, é preferível não responder.
Nunca tente provar que tem razão. Desculpe-se logo,
dizendo que a culpa é unicamente sua, mostre-se sentido e
prometa que o erro não se repetirá."
Naquele momento, convenceu-se de que seria aconselhável
adotar essa linha com tia Ada, como aliás sempre fora.
— Que pena, tia Ada — disse. — Receio, sabe, que a
tendência da gente é ficar esquecido à medida que o tempo
passa. Não são todos — continuou descaradamente — que
possuem uma memória infalível como a senhora.
Tia Ada delirou. Não há outra palavra.
— Nesse ponto você tem razão — concordou. — Desculpe
a minha maneira um tanto brusca há pouco, mas é que
detesto ser importunada. Neste lugar, nunca se sabe.
Permitem a entrada de qualquer um. Não importa quem
seja. Se eu acreditasse em tudo o que dizem, acabaria
roubada e assassinada em minha própria cama.
— Ah, não creio que fosse possível.
— Nunca se sabe — repetiu. — As coisas que se lêem no
jornal. E que os outros vêm contar pra gente. Não que eu dê
crédito a qualquer boato. Mas fico de olho aberto. Calcule só
que outro dia me apareceu aqui um desconhecido — nunca
tinha visto mais gordo. Apresentou-se como o Dr. Williams,
dizendo que o Dr. Murray entrara em férias e era seu novo
sócio. Novo sócio! Como é que eu podia saber se não estava
mentindo?
— E ele era?
— Pois, pra falar a verdade — respondeu tia Ada, um tanto
chateada por ter que dar o braço a torcer, — de fato era. Mas
quem podia afirmar ao certo? Lá estava ele, com o carro à
porta, trazendo aquela espécie de maleta preta que os
médicos usam para tirar a pressão... todo aquele negócio. É
que nem a caixa mágica que viviam falando. De quem era
mesmo? Joana Southcott?
— Não — disse Tommy. — Acho que foi um pouco
diferente. Qualquer coisa que ver com profecia.
— Ah, sei. Bem, o que eu queria dizer é que um sujeito
pode entrar num lugar como este, inventar que é médico,
pra tudo quanto é enfermeira logo começar a fricotear,
cheias de risinhos e é só doutor pra cá, doutor pra lá, quase
em posição de sentido, essas moscas tontas! E quando a
gente jura que nunca viu o camarada antes, põem-se a
ralhar, dizendo que é falta de memória, puro esquecimento.
Eu nunca esqueço uma fisionomia — afirmou decidida. —
Jamais esqueci. Como vai sua tia Caroline? Faz tempo que
não recebo notícias. Tem falado com ela?
Tommy se desculpou, explicando que tia Caroline morrera
há quinze anos. Tia Ada não demonstrou nenhum
sentimento de pesar pelo falecimento. Afinal de contas, a
defunta não era sua irmã, apenas prima.
— Parece que todos estão morrendo — comentou, com
certo prazer. — Falta de histamina. O motivo é só esse.
Coração fraco, trombose coronária, pressão alta, bronquite
crônica, reumatismo articular... etc., etc. Uns fracalhões,
mais nada. E assim os médicos enriquecem. Receitando
caixas e mais caixas, vidros e mais vidros de comprimidos.
Amarelos, cor-de-rosa, verdes e até pretos, o que não me
admira. Brr! Enxofre com melaço era o que se usava no
tempo de minha avó. Aposto como fazia o mesmo efeito.
Quando a gente tem de escolher entre ficar bom ou tomar
enxofre com melaço, a cura é instantânea. Infalível. —
Sacudiu a cabeça, satisfeita. — Não se pode confiar em
médico, não é? Então quando se trata de assunto
profissional, nem se fala... uma nova moda, por exemplo...
soube que anda havendo uma porção de casos de
envenenamento. Pra conseguir corações pra transplante, me
contaram. Acho que não é verdade. Miss Packard nunca
toleraria uma coisa dessas.
No andar inferior, Miss Packard, com ar levemente
embaraçado, indicava uma sala perto do saguão.
— Lamento muito, Mrs. Beresford, mas espero que
compreenda como são as pessoas de idade. Simpatizam e
antipatizam gratuitamente e depois mostram-se irredutíveis.
— Deve ser muito difícil dirigir um lugar que nem este —
observou Tuppence.
— Oh, até que não — respondeu Miss Packard. — Eu bem
que gosto, sabe? E realmente tomo carinho por todas elas. A
gente se afeiçoa pelas pessoas que tem de cuidar. Quero
dizer, talvez tenham suas manias e rabugices, mas são
bastante fáceis de lidar, quando se descobre o jeito.
Tuppence refletiu que Miss Packard decerto sempre
descobria.
— No fundo, são meras crianças — prosseguiu,
condescendente. — Só que as crianças têm muito mais
lógica, o que às vezes dificulta um pouco. Ao passo que os
velhos não; contentam-se em ser tranqüilizados, ouvir a
confirmação do que querem acreditar. Então se alegram de
novo, durante certo tempo. A equipe que trabalha comigo é
muito boa. Elementos pacientes, sabe, de bom
temperamento e sem excesso de inteligência, senão logo
perderiam a calma. O que há, Miss Donovan? — perguntou,
virando-se para uma moça de pince-nez que descia a escada
correndo.
— É Mrs. Lockett outra vez, Miss Packard. Inventou que
está à morte e pediu pra chamar o médico de uma vez.
— Ah — fez Miss Packard, sem se impressionar. — De que
ela está morrendo desta vez?
— Diz que ontem havia cogumelo no picadinho, que devia
ter fungo, e ficou envenenada.
— Essa é nova — declarou Miss Packard. — É melhor eu ir
vê-la. Com licença, Mrs. Beresford. A senhora encontrará
revistas e jornais naquela sala ali.
— Oh, não se preocupe por mim — agradeceu Tuppence.
Entrou na peça indicada. Era um aposento agradável, com
portas envidraçadas que davam para o jardim. Havia
poltronas e mesas com vasos de flores. Uma parede tinha
uma estante onde se misturavam romances modernos e
livros de viagem, além do que se poderia chamar de velhos
clássicos que possivelmente a maioria das residentes gostaria
de reler. As revistas estavam em cima de uma mesa.
Naquele momento havia apenas uma pessoa na sala: uma
velha de cabelos brancos repuxados para trás, sentada numa
poltrona, olhando para um copo de leite na mão. Tinha um
rosto delicado, alvo e rosado. Sorriu amavelmente para
Tuppence.
— Bom dia — cumprimentou. — Vai morar conosco ou está
de visita?
— De visita — respondeu Tuppence. — Tenho uma tia aqui.
Meu marido está com ela agora. Achamos que duas pessoas
ao mesmo tempo talvez fosse demais.
— Foi muita consideração sua — retrucou a velha, provando
um pouco o leite com ar apreciativo. — Será que... não,
parece que está bom. Quer tomar alguma coisa? Chá ou
quem sabe café? Deixe-me tocar a campainha. São muito
atenciosos aqui.
— Não, obrigada — disse Tuppence, — realmente.
— Ou um copo de leite, talvez. Hoje não está envenenado.
— Não, não, nem isso sequer. Não vamos demorar.
— Bem, se tem certeza... mas não é incomodo nenhum,
ouviu? Aqui ninguém jamais se incomoda com coisa alguma.
A não ser, claro, que se peça algo completamente absurdo.
— Não nego que a tia que viemos visitar às vezes pede
coisas praticamente impossíveis. Chama-se Miss Fanshawe
— explicou.
— Ah, Miss Fanshawe — repetiu a velha. — Oh, sim.
Parecia coibida por um motivo qualquer, mas Tuppence logo
acrescentou animada:
— Devo reconhecer que ela é uma fera. Sempre foi.
— É, nem há dúvida que é. Também tive uma tia, sabe, que
era bem assim, principalmente depois que envelheceu. Mas
nós todas gostamos muito de Miss Fanshawe. Quando quer,
pode ser divertidíssima. A respeito dos outros, sabe?
— Sim, imagino — concordou Tuppence.
Ponderou durante alguns segundos, encarando tia Ada por
esse novo prisma.
— Muito cáustica — afirmou a velha. — A propósito, meu
nome é Lancaster. Mrs. Lancaster.
— O meu é Beresford.
— Receio, sabe, que um pouco de malícia de vez em
quando não faça mal a ninguém. O jeito com que descreve
algumas das outras hóspedes, e as coisas que diz sobre elas.
Bem, sabe como é, a gente, não deve, mas sempre termina
achando graça.
— A senhora mora aqui há muito tempo?
— Bastante. Espere, deixe-me ver, sete... oito anos. É, sim,
deve fazer mais de oito. — Suspirou. — Perde-se contato
com as coisas. E com as pessoas também. Todos os meus
parentes vivem no exterior.
— Deve ser um pouco triste.
— Não é não, realmente. Nunca gostei muito deles. Pra falar
a verdade, nem os conheço direito. Tive uma doença
grave... gravíssima, mesmo... e fiquei sozinha no mundo.
Então pensaram que pra mim seria melhor morar num lugar
que nem este. Considero uma sorte ter vindo pra cá. São tão
delicadas e solícitas. E os jardins são uma beleza. Eu própria
reconheço que não gostaria de viver sozinha porque às
vezes confundo tudo, sabe? Uma confusão danada. — Bateu
na testa. — Fico confusa aqui. Misturo as coisas. Nem
sempre me lembro bem do que já aconteceu.
— Que pena — disse Tuppence. — A gente sempre tem
alguma coisa pra atrapalhar, não é mesmo?
— Certas doenças são muito dolorosas. Aqui moram duas
pobres mulheres que têm reumatismo articular em grau
adiantado. Sofrem de uma maneira atroz. Por isso eu acho
que talvez não faça mal se a gente confunde um pouco o
passado, os lugares e as pessoas e tudo mais, sabe? Em todo
caso, pelo menos a dor não é física.
— É. Creio que talvez tenha razão.
A porta se abriu e uma moça de avental branco entrou,
trazendo uma pequena bandeja com o bule de café e um
prato com dois biscoitos, que colocou ao lado de Tuppence.
— Miss Packard se lembrou de que a senhora talvez quisesse
uma xícara de café.
— Oh, obrigada.
A moça saiu de novo.
— Pronto, está vendo? — disse Mrs. Lancaster. — Como são
solícitas, não é mesmo?
— De fato.
Tuppence serviu-se de café e começou a beber. As duas
mulheres conservaram-se em silêncio algum tempo.
Tuppence ofereceu o prato de biscoitos, porém a velha
sacudiu a cabeça.
— Não, obrigada, meu bem. Gosto de tomar leite puro.
Largou o copo vazio e reclinou-se na poltrona, com as
pálpebras entreabertas. Tuppence supôs que decerto era a
hora matutina em que costumava cochilar um pouco, por
isso continuou calada. De repente, entretanto, Mrs.
Lancaster pareceu despertar em sobressalto. Abriu os olhos,
fitou Tuppence e disse:
— Vejo que está olhando a lareira.
— Oh. É mesmo? — retrucou, um tanto atônita.
— Sim. Será que... — inclinou-se para a frente e baixou a
voz. — Desculpe, mas a coitadinha era sua filha?
Tuppence, colhida de surpresa, hesitou.
— Eu... não, creio que não — respondeu.
— Pensei. Imaginei que talvez tivesse vindo por causa disso.
Um dia alguém deve vir. Talvez venham. E depois, olhando
a lareira, do jeito que olhou. É lá que está, sabe? Ali atrás.
— Ah — exclamou Tuppence. — Ah. É mesmo?
— Sempre na mesma hora — continuou Mrs. Lancaster em
voz baixa. — Todos os dias. — Ergueu os olhos para o
relógio da prateleira. Tuppence fez o mesmo. — Onze e dez
— disse a velha. — Onze e dez. Sim, sempre na mesma
hora, todas as manhãs.
Deu um suspiro.
— As pessoas não compreendem... contei-lhes tudo o que
sabia... mas não acreditaram!
Para alívio de Tuppence, a porta se abriu e Tommy entrou.
Ela se levantou imediatamente.
— Cá estou. Já estava pronta. — Dirigiu-se a ele, virando a
cabeça para se despedir: — Adeus, Mrs. Lancaster.
— Como é que vocês se entenderam? — perguntou a
Tommy, ao chegarem ao saguão.
— Depois que você saiu, às mil maravilhas.
— Pelo visto eu exerço um péssimo efeito nela, não? —
disse Tuppence. — De certo modo, é até estimulante.
— Estimulante por quê?
— Ora, na minha idade — respondeu Tuppence — e com a
aparência bem arrumada, respeitável e levemente tediosa
que eu tenho, não deixa de ser lisonjeiro dar a impressão de
que sou uma mulher depravada de fatal atração sexual.
— Idiota — retrucou Tommy, beliscando-lhe
carinhosamente o braço. — Com quem você estava de
mexerico? Parecia uma velhota fofa muito simpática.
— E era mesmo — confirmou Tuppence. — Um encanto de
velhinha. Mas infelizmente tantã.
— Tantã?
— É. Pelo jeito pensou que havia uma criança morta atrás da
lareira ou coisa que o valha., Me perguntou se a coitadinha
era minha filha.
— Um pouco enervante — opinou Tommy. — No mínimo
há muita gente aqui ligeiramente maluca, assim como velhos
parentes perfeitamente normais, cujo único problema é a
idade. Seja como for, parecia simpática.
— Ah, nem há dúvida — concordou Tuppence. —
Simpática e um verdadeiro anjo. Gostaria de saber
exatamente porque tem essas fantasias.
Miss Packard reapareceu bruscamente.
— Adeus, Mrs. Beresford. Espero que lhe tenham levado o
café.
— Oh, sim, levaram, obrigada.
— Olhe, foi muita gentileza ter vindo, sabe? — afirmou. E
virando-se para Tommy: — E sei que Miss Fanshawe gostou
muito de sua visita. Pena que se tenha mostrado grosseira
com sua senhora.
— Acho que ela também se divertiu bastante com isso —
disse Tuppence.
— De fato, tem razão. Ela realmente gosta de ser rude com
os outros. Infelizmente possui um talento todo especial
nesse sentido.
— E assim pratica a arte com a maior frequência possível —
completou Tommy.
— São muito compreensivos — declarou Miss Packard.
— Aquela velha com quem estive conversando —
perguntou Tuppence, — Mrs. Lancaster, acho que foi esse o
nome que ela disse?
— Ah, sim. Mrs. Lancaster. Todo mundo gosta dela.
— É... um pouco excêntrica?
— Bem, tem suas esquisitices — explicou Miss Packard,
condescendente. — Há uma porção de gente aqui cheia de
manias. Inofensivas, claro. Mas, enfim, a situação é essa
mesma. Coisas que acreditam que lhes aconteceram. Ou
com outras pessoas. Fazemos tudo pra fingir que não
percebemos, pra não estimular ainda mais. Bancamos as
desentendidas. Eu de fato acredito que se trate meramente
de um exercício de imaginação, uma espécie de fantasia que
sentem prazer em viver. Qualquer coisa empolgante, ou
então triste e trágica. Não faz a menor diferença. Mas
nenhuma mania de perseguição, graças a Deus. Senão seria
insuportável.
— Bem, terminou — exclamou Tommy com um suspiro, ao
entrar no carro. — Não precisaremos voltar antes de seis
meses, no mínimo.
Porém não precisaram repetir a visita. Três semanas depois
tia Ada morreu dormindo.
3 - Um Enterro

— Os ENTERROS são bem tristes, você não acha? —
comentou Tuppence.
Acabavam de voltar do sepultamento de tia Ada, que
acarretara uma longa e incômoda viagem de trem, pois fora
realizado na aldeia rural em Lincolnshire onde a maior parte
de sua família e antepassados estavam enterrados.
— O que é que você esperava? — retrucou Tommy com
justeza. — Uma cena de desvairada alegria?
— Ora, em certos lugares é — disse Tuppence. — Os
irlandeses, por exemplo, como apreciam um velório!
Primeiro se entregam às endechas e lamúrias, pra depois cair
na bebida e numa espécie de farra danada. Por falar em
bebida... — acrescentou, olhando significativamente para o
aparador. Tommy preparou-lhe um drinque apropriado à
ocasião — um White Lady.
— Ah, agora sim — aprovou Tuppence.
Tirou o chapéu fúnebre, jogando-o ao outro lado da sala
despiu o longo casaco preto.
— Detesto luto — falou. — Sempre cheira a naftalina de
tanto estar guardado no armário.
— Não há necessidade de usar. A gente bota apenas pra ir ao
enterro.
— Sim, claro, eu sei. Daqui a pouco vou lá em cima pôr uma
blusa vermelha só pra alegrar o ambiente. Me prepare outro
White Lady.
— Francamente, Tuppence, nunca pensei que um enterro
deixasse você tão festiva.
— Eu disse que eram tristes — repetiu ela, ao reaparecer
instantes após, num vestido berrante cor de cereja, com um
lagarto de rubi e brilhantes preso ao ombro, — porque esses
que nem o de tia Ada de fato são. Sabe como é: um defunto
velho e poucas flores: Quase ninguém aos prantos. Uma
criatura idosa e solitária que não fará muita falta.
— Pois eu supunha que seria bastante mais suportável pra
você que o meu, por exemplo.
— Quanto a isso está redondamente enganado — afirmou
Tuppence. — Nem quero imaginar o seu porque prefiro
morrer antes. Mas lógico que nesse caso, de qualquer modo,
se transformaria numa orgia de dor. Eu levaria pilhas de
lenços.
— Tarjados de preto?
— Olhe, não tinha me lembrado, mas a idéia é ótima. E o
serviço fúnebre, aliás, chega a ser lindo. Deixa a gente
inspirada. A- dor autêntica é real. A sensação pode ser
medonha, mas produz resultados. Quero dizer, evapora-se,
como a transpiração.
— Francamente, Tuppence, esses seus comentários sobre
minha morte e o efeito que terá em você me parecem de
extremo mau gosto. Eu não gosto. Mudemos de assunto.
— Concordo. Mudemos.
— A coitada se foi — disse Tommy, — de maneira tranqüila
e sem sofrimento. Portanto fiquemos por aí. Creio que é
melhor eu pôr tudo em ordem.
Dirigiu-se à escrivaninha e remexeu num maço de papéis.
— Ué, onde foi parar a carta de Mr. Rockbury?
— Quem é? Ah, o advogado que escreveu a você?
— Sim. Pra liquidar os negócios dela. Pelo jeito sou o único
sobrevivente da família.
— Pena que ela não tivesse uma fortuna pra lhe deixar —
lamentou Tuppence.
— Se tivesse, na certa deixaria pra aquele Asilo de Gatos. A
doação que lhes fez no testamento praticamente leva todo o
dinheiro que sobrou. Não vai me restar quase nada. Não que
afinal eu precise ou mesmo queira. — Ela gostava de gatos?
— Não sei. Imagino que sim. Nunca se referiu a eles na
minha frente. Tenho a impressão — continuou Tommy
pensativo, — de que se divertia feito louca prometendo às
amigas que iam visitá-la: — "Vou deixar uma coisinha pra
você em meu testamento, querida" ou "Este broche que
você tanto aprecia, será seu quando eu morrer." E no fim
não ficou nada pra ninguém, só prós gatos.
— Garanto que ela delirou com a idéia. Posso até ver a cena:
rodeada de amigas — pretensas, claro, porque não creio que
houvesse alguma pessoa de quem realmente gostasse.
Divertia-se apenas à custa delas. É preciso reconhecer que
foi um demônio, hem, Tommy? Mas não sei por que, de
uma maneira engraçada, isso a torna simpática. Conseguir
arrancar algum prazer da vida quando a gente está velha e
trancada num asilo não é brincadeira. Teremos de ir a Sunny
Ridge?
— Onde anda a outra carta, a de Miss Packard? Ah, sim, cá
está. Vou juntar com a de Rockbury. É, ela diz que há certas
coisas lá que presumivelmente agora me pertencem. Sabe,
quando tia Ada foi morar no Asilo levou uns móveis. E
decerto existem objetos de uso pessoal. Roupas e coisas
assim. Creio que alguém terá de examinar tudo. Cartas, etc.
Sou o executor testamentário, de modo que isso me
compete. Acho que não deve haver nada que nós
quiséssemos realmente conservar, não é? A não ser uma
pequena escrivaninha que
sempre me agradou. Parece que era de tio William.
— Pois fique com ela de lembrança — aconselhou
Tuppence. — Senão, penso eu, pode-se mandar tudo pra
leilão.
— Portanto você não precisa ir de fato até lá — disse
Tommy.
— Ah, mas eu acho que gostaria de ir.
— Você acha? Por quê? Será que não vai se chatear?
— O quê? De examinar as coisas dela? Que nada. Creio até
que estou um pouco curiosa. Velhas cartas e jóias de família
sempre são interessantes e acho que a gente deveria
examiná-las pessoalmente em vez de apenas mandar pra
leilão ou delegar o serviço a estranhos. Não, vamos olhar
tudo juntos, pra ver se há qualquer coisa que se queira
guardar ou então liquidar.
— Por que é mesmo que faz tanta questão de ir? O motivo é
outro, não é?
— Ah, meu Deus — suspirou Tuppence, — como é horrível
ser casada com alguém que conhece a gente bem demais.
— Quer dizer que há outro motivo.
— Não propriamente.
— Ora, Tuppence. Não me diga que você é louca por
remexer nas coisas alheias.
— Quanto a isso, considero um dever — respondeu, com
firmeza. — Não, o outro único motivo é...
— Ande. Desembuche logo.
— Acho que gostaria de encontrar de novo aquele... aquele
amor de velhinha.
— Qual? A que julgava que havia uma criança morta atrás da
lareira?
— É — disse Tuppence. — Gostaria de falar com ela
novamente. Eu só queria saber o que lhe passou pela cabeça
ao dizer aquilo. Teria se lembrado de alguma coisa ou foi
pura imaginação? Quanto mais penso, mais incrível me
parece. Será que é uma história que ela mesma inventou
ou... de fato houve alguma vez qualquer coisa em torno de
uma lareira e uma criança morta? Por que razão deduziu que
podia ser minha? Por acaso tenho jeito de quem perdeu uma
filha?
— Não sei que aspecto você supõe que tenha alguém nessa
hipótese — replicou Tommy. — Eu diria que não. Seja
como for, Tuppence, a nossa obrigação é ir. Se quiser
divertir-se com suas conjeturas macabras, não faça
cerimônia. Terá tempo de sobra. Então fica combinado.
Escreveremos a Miss Packard e marcaremos o dia.
4 - O quadro da casa

TUPPENCE SOLTOU um profundo suspiro.
— Tudo continua na mesma — disse. Achavam-se à porta
de entrada de Sunny Ridge.
— E por que não haveria de estar? — perguntou Tommy.
— Não sei. É apenas uma sensação que me dá... algo
relacionado com tempo. Ele passa de uma maneira diferente
em cada lugar. Tem alguns a que a gente volta e sente que
tudo andou numa pressa tremenda, e que uma porção de
coisas aconteceu... e mudou. Mas aqui... Tommy... você se
lembra de Ostende?
— Ostende? Estivemos lá na nossa lua-de-mel. Claro que me
lembro.
i- E recorda-se daquele aviso? TRAMSTILLSTAND... Caímos na
risada. Parecia tão ridículo.
— Acho que foi em Knocke... não Ostende.
— Tanto faz... você se lembra. Pois isto aqui é como aquela
palavra — Tramstillstand — uma fusão de termos. O-tempo-
não-se-mexe... aqui nada mudou. O tempo simplesmente
parou. Tudo continua na mesma. É que nem com os
fantasmas, só que no sentido oposto.
— Não entendo o que você está dizendo. Será que pretende
passar o dia inteiro aqui falando em tempo, sem ao menos
tocar a campainha?... Pra começo de conversa, tia Ada não
se encontra mais no Asilo. Já é uma diferença. Apertou o
botão.
— E vai ser a única. A minha velhinha estará tomando leite,
contando histórias de lareiras, Mrs.-não-sei-o-quê engolirá
um dedal ou uma colherinha de chá, uma baixinha
impagável sairá aos guinchos do quarto reclamando seu
chocolate, Miss Packard descerá as escadas é...
A porta se abriu. Uma moça de avental de nylon apareceu.
— Mr. e Mrs. Beresford? Miss Packard os está esperando.
Preparava-se para introduzi-los na mesma sala da ocasião
precedente quando Miss Packard desceu a escada para
recebê-los. Comportou-se de modo adequado, com menos
desenvoltura que de costume. Seus gestos eram lentos,
numa espécie de sentimento de condolência. Mas sem
exageros, que poderiam ser embaraçosos. Mostrava-se perita
na dosagem exata de pesar que seria aceitável.
Três vintenas de anos e uma década correspondiam à
duração de vida consagrada na Bíblia, e as mortes em sua
instituição raramente ocorriam em prazo inferior.
Constituíam uma fatalidade perfeitamente natural.
— Que bom que vieram. Já deixei tudo em ordem pra
examinarem. Foi ótimo virem logo porque na verdade tem
três ou quatro pessoas à espera de uma vaga. Tenho certeza
de que compreenderão. Não pensem de modo nenhum que
queira apressá-los.
— Oh não, evidente. Compreendemos muito bem —
afirmou Tommy.
— Está tudo ainda no quarto que Miss Fanshawe ocupava —
explicou Miss Packard.
Abriu a porta do dormitório onde tinha visto tia Ada pela
última vez. Apresentava aquele ar de abandono que sempre
existe quando a cama, coberta pela colcha, mostra os
contornos sob os lençóis dobrados e os travesseiros
arrumados.
O armário estava aberto e as roupas colocadas em cima do
leito, metodicamente empilhadas.
— O que costumam fazer... quero dizer, o que fazem às
pessoas geralmente com os vestidos e coisas assim? —
perguntou Tuppence.
Miss Packard, como sempre, foi competente e solícita.
— Posso fornecer o nome de duas ou três organizações de
caridade que recebem de muito bom grado donativos dessa
ordem. Ela possuía uma estola de pele e um casacão em
excelentes condições, porém suponho que não teriam
nenhuma serventia pra senhora. Quem sabe dispõe de
outros meios beneficentes a quem entregar?
Tuppence sacudiu a cabeça.
— Há jóias também — continuou Miss Packard. — Guardei-
as em lugar seguro. Estão na gaveta direita do toucador.
Coloquei ali pouco antes de chegarem.
— Muito obrigado — agradeceu Tommy, — por todos esses
incômodos.
Tuppence ficou contemplando um quadro pendurado em
cima da lareira. Era uma pequena pintura a óleo de uma casa
cor-de-rosa desbotada, adjacente a um canal cortado por
uma pontezinha em arco, por baixo da qual havia um barco
vazio desenhado contra a margem. Ao longe viam-se dois
choupos. Uma cena bucólica muito agradável de olhar, mas
apesar disso Tommy não logrou entender o motivo da
atenção fervorosa de Tuppence.
— Que engraçado — murmurou ela.
Tommy fitou-a intrigado. Sabia, de longa data, que às coisas
que Tuppence considerava engraçadas não se aplicava, de
jeito nenhum, semelhante qualificativo.
— O que você quer dizer, Tuppence?
— É engraçado. Nunca reparei neste quadro as outras vezes
que estive aqui. Mas o estranho é que já vi essa casa nalgum
lugar. Ou talvez fosse uma parecida. Lembro-me
perfeitamente... Engraçado que não posso me lembrar nem
quando nem onde.
— No mínimo reparou sem realmente notar que estivesse
reparando — sugeriu Tommy, com a impressão que a
escolha de palavras era um tanto inepta e quase tão
penosamente monótona quanto a reiteração do vocábulo
"engraçado" na boca de Tuppence.
— Você reparou, Tommy, quando viemos aqui antes?
— Não, mas decerto não olhei bem.
— Ah, aquele quadro — disse Miss Packard. — Não, creio
que não podiam tê-lo visto quando vieram aqui da última
vez porque tenho quase certeza de que não estava
pendurado em cima da lareira na ocasião. Realmente
pertencia a uma outra hóspede, que o deu de presente à sua
tia. Miss Fanshawe teve uma ou duas oportunidades de
manifestar admiração por ele e essa outra senhora lhe
ofereceu, insistindo que ficasse com a pintura.
— Ah bom — exclamou Tuppence, — então é evidente que
eu não podia tê-lo visto antes. Mas ainda acho que conheço
a casa. Você não, Tommy?
— Não — respondeu.
— Bem. Agora deixo-os a sós — anunciou Miss Packard
rapidamente. — Qualquer coisa que precisarem é só chamar.
Inclinou a cabeça de leve com um sorriso e saiu do quarto
fechando a porta.
— Acho que no fundo não vou com os dentes dessa mulher
— comentou Tuppence.
— Que têm eles de mal?
— O número excessivo. Ou o tamanho exagerado... "Pra
comer você melhor, minha netinha"... Que nem a avó do
Chapeuzinho Vermelho.
— Você hoje parece que está com toda a corda, hem,
Tuppence?
— Estou mesmo. Sempre considerei Miss Packard muito
simpática..., mas hoje, não sei por que, me causou uma
impressão sinistra. Nunca se sentiu assim?
— Não, nunca. Ande, vamos terminar logo com o que
viemos fazer aqui... examinar os "bens" da pobre tia Ada,
como dizem os advogados. Esta é a escrivaninha que lhe
falei... a do tio William. Gosta?
— Linda. Estilo regência, pelo jeito. Que bom que as pessoas
que se mudam pra cá podem trazer junto algumas de suas
coisas. Não faço questão das cadeiras de pano, mas gostaria
daquela mesa de costura. É exatamente o que faz falta
naquele recanto perto da janela onde pusemos aquela
estante simplesmente horrorosa.
— Muito bem — concordou Tommy. — Vou anotar as
duas.
— E ficaremos com o quadro da lareira. É uma pintura
tremendamente simpática e tenho absoluta certeza de que já
vi a casa em algum lugar. Agora vejamos as jóias.
Abriram a gaveta do toucador. Havia uma série de camafeus,
uma pulseira florentina com um jogo de brincos e um anel
encravado com diferentes pedras preciosas.
— Conheço esse tipo de anel — disse Tuppence. — Em
geral as iniciais das pedras formam uma palavra. Às vezes
"Dearest". Diamante, esmeralda, ametista, não, não é
"dearest". Nem podia ser mesmo. Sou incapaz de imaginar
alguém dando um anel que signifique "dearest" pra tia Ada.
Rubi, esmeralda... o problema é que nunca se sabe por onde
começar. Vou tentar de novo. Rubi, esmeralda, outro rubi,
não, acho que é uma granada, uma ametista e outra pedra
cor-de-rosa, desta vez deve ser um rubi, com um pequeno
diamante no centro. Ora, claro que é "Regard". Mas que
bonito, realmente. Tão conservador e sentimental.
Experimentou-o no dedo.
— Creio que Deborah gostaria de ficar com ele — disse, — e
o jogo florentino. Ela é completamente vidrada por coisas
vitorianas. Como muita gente hoje em dia. Agora me parece
que devíamos examinar as roupas, o que é sempre um tanto
mórbido. Ah, cá está a estola de pele. Bastante valiosa, pelo
jeito. Pra mim eu não quero. Será que não existe alguém
aqui... que tivesse sido especialmente boa pra tia Ada... ou
talvez uma amiga íntima entre as outras hóspedes...
moradoras, quero dizer. Reparei que são chamadas de
moradoras ou hóspedes. Nesse caso seria ótimo oferecer-lhe
a estola. É zibelina legítima. Perguntaremos a Miss Packard.
O resto pode ficar prós pobres. Então está tudo resolvido,
não é? Vamos procurá-la logo. Adeus, tia Ada — despediu-
se em voz alta, voltando os olhos para a cama. — Estou
contente por termos vindo aquela última vez. Pena que não
simpatizasse comigo, porém se essa falta de simpatia e as
grosserias que me dirigiu lhe deram prazer, não guardo
rancor. A senhora tinha que se divertir de algum modo. E
não a esqueceremos. Sempre nos lembraremos, toda a vez
que olharmos pra escrivaninha de tio William.
Saíram em busca de Miss Packard. Tommy explicou que
mandariam apanhar as duas mesas para serem levadas a seu
próprio endereço e combinariam com leiloeiros locais a
remoção do resto da mobília. Deixava a seu critério a
escolha das organizações de caridade dispostas a receber o
vestuário, caso não fosse incômoda.
— Não sei se há alguém aqui interessada na estola de
zibelina — disse Tuppence. — É muito bonita. Uma amiga
íntima, talvez? Ou quem sabe uma das enfermeiras que tra-
í?ram de Cia Ada com maior zelo?
— É uma idéia muito generosa, Mrs. Beresford. Receio que
Miss Fanshawe não contasse com amigas íntimas entre as
nossas moradoras, mas Miss O'Keefe, uma das enfermeiras,
fez bastante por ela, mostrando-se especialmente boa e
jeitosa. Tenho a impressão de que ficaria satisfeita e honrada
com o presente.
— E há o quadro da lareira — lembrou Tuppence. —
Gostaria de levá-lo..., contudo, talvez a proprietária, que o
deu pra ela, preferisse recebê-lo de volta. Não seria melhor
pedir-lhe...
— Ah, sinto muito, Mrs. Beresford — atalhou Miss Packard,
— mas infelizmente não vai ser possível. Quem o ofereceu a
Miss Fanshawe foi Mrs. Lancaster, que não mora mais
conosco.
— Não mora mais? — estranhou Tuppence. — Mrs.
Lancaster? Uma que eu vi a última vez que estive aqui... de
cabelo branco puxado pra trás? Encontrei-a lá embaixo,
tomando leite na sala de estar. A senhora diz que foi
embora?
— Sim. Tudo aconteceu de uma hora para outra. Mrs.
Johnson, uma parenta, levou-a faz uma semana. Quando
menos se esperava, voltou da África, onde passou quatro ou
cinco anos... Como ela e o marido vão viver na Inglaterra,
poderão cuidar de Mrs. Lancaster em seu próprio lar. Acho
que Mrs. Lancaster não estava com muita vontade de ir.
Ficou tão... acostumada conosco, dava-se otimamente com
todo mundo e era feliz. Mostrou-se bem abalada, quase caiu
em pranto... mas, o que se há de fazer? A opinião dela não
pesava na balança, naturalmente, porque os Johnsons
pagaram pela sua estada. Cheguei a sugerir que, uma vez que
morara tanto tempo no Asilo e sentira-se tão à vontade,
talvez fosse aconselhável deixá-la aqui...
— Quanto tempo fazia? — indagou Tuppence.
— Oh, quase seis anos, acho eu. Sim, mais ou menos. Por
isso decerto já se sentia em casa.
— É — concordou Tuppence. — É fácil de compreender.
Franziu a testa, olhou de relance para Tommy e depois
ergueu o queixo com ar resoluto.
— Lástima que tenha partido. Quando conversamos tive a
impressão de que a conhecera antes... o rosto parecia tão
familiar. Depois então me ocorreu que a tinha visto em
companhia de uma velha amiga minha, Mrs. Blenkinsop.
Pensei que ao tornar a visitar tia Ada pudesse certificar-me
disso. Mas naturalmente se ela foi morar com parentes muda
tudo.
— Compreendo perfeitamente, Mrs. Beresford. Se uma das
nossas moradoras consegue entrar em contato com velhas
amizades ou alguém que certa vez conheceu pessoas de suas
relações, faz uma grande diferença para elas. Não me
recordo de tê-la ouvido mencionar qualquer Mrs.
Blenkinsop, mas em todo caso não creio que houvesse
possibilidade disso acontecer.
— Podia me contar um pouco mais a respeito dela? Quem
eram esses parentes e como veio morar aqui?
— Não há muito pra contar, realmente. Como lhe disse, há
cerca de seis anos recebemos cartas de Mrs. Johnson
pedindo informações e depois ela veio pessoalmente ver o
Asilo. Falou que uma pessoa amiga dera boas referências de
Sunny Ridge, queria saber quais eram as condições e tudo
mais... e foi embora. Após uma ou duas semanas, um
escritório de procuradores de Londres nos escreveu
solicitando maiores detalhes, até que finalmente
comunicaram que gostariam de que aceitássemos Mrs.
Lancaster e que Mrs. Johnson a traria aqui ao cabo de sete
dias, no máximo, caso houvesse vaga. Como de fato havia,
Mrs. Johnson a trouxe e ela pareceu simpatizar com o lugar
e com o quarto reservado. Mrs. Johnson disse que Mrs.
Lancaster tinha vontade de trazer algumas de suas coisas.
Não fiz objeção, pois todas em geral trazem e ficam muito
mais felizes. De maneira que se combinou tudo de forma
satisfatória. Mrs. Johnson explicou que Mrs. Lancaster era
parenta afastada de seu marido, mas que se sentiam
preocupados com ela porque estavam de partida pra África...
pra Nigéria, creio eu, onde Mr. Johnson ia ocupar um cargo
e era provável que passassem alguns anos lá antes de
voltarem pra Inglaterra. Como não possuíam uma casa em
que Mrs. Lancaster pudesse ficar, queriam certificar-se de
que seria aceita num lugar que lhe contentasse. Pelas
referências que tinham daqui, estavam absolutamente certos
de que serviria. Portanto ficou tudo muito bem solucionado
e Mr. Lancaster instalou-se conosco tranquilamente.
— Compreendo.
— Todas gostavam muito dela. Era um pouco... bem, sabe
como é... distraída. Quero dizer, esquecida, confundindo as
coisas, sem conseguir lembrar-se, às vezes, de nomes e
endereços.
— Recebia muitas cartas? — perguntou Tuppence. —
Refiro-me à correspondência e pacotes do estrangeiro.
— Olhe, eu acho que Mrs. Johnson... ou o marido...
escreveu umas duas vezes da África, mas só durante o
primeiro ano. É uma pena, sabe, porém a gente se esquece.
Principalmente quando se muda pra um país novo, numa
vida diferente. E não penso que antes, tampouco, tivessem
muito contato com ela. Creio que era apenas uma parenta
afastada, uma responsabilidade da família, e resumia-se nisso.
Todas as providências foram tomadas pelo procurador, Mr.
Eccles, uma firma muito boa, de confiança. Pra dizer a
verdade, tínhamos feito algumas transações por intermédio
dele, de modo que já nos conhecíamos. Mas tenho a
impressão de que a maior parte dos amigos e relações de
Mrs. Lancaster eram falecidos e assim praticamente não
recebia notícias de ninguém. Acho até que jamais recebeu
qualquer visita aqui. Não, espere. Um cavalheiro muito
simpático apareceu um ano depois. Creio que não a
conhecia pessoalmente, porém era amigo de Mrs. Johnson e
também estivera trabalhando no exterior. Parece que veio
apenas averiguar se ia bem e se se sentia feliz.
— E a partir de então — disse Tuppence, — todo mundo se
esqueceu dela.
— Receio que sim — confirmou Miss Packard. — Que
tristeza, não é mesmo? Mas o contrário é que seria de
estranhar. Ainda bem que a maioria trava novas amizades
aqui.
Ficam amigas de alguém com quem combinem de gênio ou
que possua recordações em comum e assim tudo se resolve
da melhor maneira. Creio que quase todas esquecem boa
parte do passado.
— Imagino que algumas — disse Tommy — sejam um
pouco... — procurou a palavra — um pouco... — baixou
rapidamente a mão que se tinha aproximado, hesitante, da
testa. — Não quero me referir a...
— Oh, compreendo perfeitamente o que o senhor quer
dizer — retrucou Miss Packard. — Não aceitamos pacientes
mentais, sabe, mas de fato temos o que se podia chamar de
casos limítrofes. Isto é, pessoas um tanto senis... incapazes
de cuidar devidamente de si mesmas ou com certas fantasias
e imaginações. Às vezes se tomam por personagens
históricas. Da maneira mais inofensiva. Já tivemos duas
Marias Antonietas, uma das quais vivia falando num tal de
Petit Trianon e bebendo leite sem parar, algo que parecia
ligar uma coisa com a outra. E tivemos uma velhinha
comovente que insistia em que era Madame Curie e que
havia descoberto o rádio. Lia sempre os jornais com grande
interesse, sobretudo as notícias a respeito de bombas
atômicas ou descobertas científicas. Então explicava que fora
ela e o marido quem primeiro fizeram experiências nesse
sentido. Ilusões inócuas, que conseguem trazer felicidade na
velhice. E em geral não são ininterruptas, sabem? Ninguém
passa o dia inteiro bancando Maria Antonieta ou mesmo
Madame Curie. Costuma acontecer numa média de uma vez
por quinzena. Depois eu acho provável que fiquem cansadas
de manter a representação sem parar. Aliás, na maioria dos
casos, sofrem apenas de perda de memória. Não se lembram
muito bem da própria identidade. Ou então vivem repetindo
que se esqueceram de algo ultra-importante, que se ao
menos pudessem ter uma idéia... Esse tipo de coisas.
— Sei — disse Tuppence. Hesitou e afinal continuou: —
Mrs. Lancaster... ela se recordava sempre de episódios
relacionados exclusivamente com a lareira da sala de estar ou
era com qualquer uma?
Miss Packard arregalou os olhos.
— Lareira? Não entendo o que a senhora quer dizer.
— Foi uma coisa que ela falou e eu não compreendi... Talvez
fizesse uma associação desagradável com uma lareira ou lesse
alguma história que a assustasse.
— Provavelmente..
— Continuo um pouco preocupada com o quadro que ela
deu pra tia Ada — insistiu Tuppence.
— Francamente, acho que não há motivo, Mrs. Beresford.
No mínimo a esta altura já se esqueceu de tudo. Não julgo
que o prezasse de modo especial. Ficou simplesmente
contente com o entusiasmo de Miss Fanshawe e teve prazer
em dá-lo de presente. Estou certa de que gostaria que a
senhora ficasse com o quadro. Embora eu não entenda de
pintura, também me parece muito bonito.
— Olhe, farei o seguinte. Vou escrever a Mrs. Johnsons se
me der o endereço, só pra perguntar se não faz mal eu ficar
com ele.
— O único endereço que tenho é o do hotel em que iam se
hospedar em Londres... o Cleveland, acho eu. Sim, o Hotel
Cleveland, George Street, W. 1. Deviam passar quatro ou
cinco dias lá, e parece que depois seguiriam pra Escócia, pra
visitar uns parentes. O Cleveland certamente deve ter o
endereço posterior.
— Bem, obrigada... E agora, quanto a esta estola de pele de
tia Ada.
— Vou chamar Miss O'Keefe. Saiu do quarto.
— Você e suas Mrs. Blenkinsops — brincou Tommy.
Tuppence não se deu por achada.
— Uma de minhas melhores criações — afirmou. — Ainda
bem que me lembrei dela... estava quebrando a cabeça pra
descobrir um nome e de repente me veio Mrs. Blenkinsop.
Foi divertido, hem?
— Faz tanto tempo... Nada de espiões em época de guerra e
contra-espionagem pra nós.
— Pois é pena. Era divertido... morar naquela pensão...
inventar uma nova personalidade pra mim... realmente
cheguei a acreditar que era Mrs. Blenkinsop.
— Você teve sorte em escapar ilesa — disse Tommy, — e
na minha opinião, como certa vez já lhe falei, exagerou.
— Não exagerei coisa nenhuma. Estava perfeitamente
integrada no papel. Uma mulher simpática, um pouco tola,
que só vivia prós três filhos.
— É isso que eu quero dizer. Um seria mais que suficiente.
Três representavam uma carga excessiva.
— Tornaram-se completamente reais pra mim — afirmou
Tuppence. — Douglas, Andrew e... credo, me esqueci do
nome do terceiro! Sei exato a aparência que tinham, o
caráter, onde estavam servindo e comentava da maneira
mais indiscreta as cartas que me mandavam.
— Pois tudo já acabou — disse Tommy. — Não há nada pra
descobrir neste lugar... portanto, esqueça-se de Mrs.
Blenkinsop. Depois que eu estiver morto e enterrado, e você
houver respeitado um período decoroso de luto, indo residir
num asilo de velhice, no mínimo há de passar metade do
tempo pensando que é Mrs. Blenkinsop.
— Vou me entediar com uma só personagem pra interpretar
— retrucou Tuppence.
— Por que você acha que as velhas querem ser Maria
Antonieta e Madame Curie e não sei mais o quê? —
perguntou.
— Decerto porque se chateiam. É a coisa mais fácil de
acontecer. Tenho certeza de que você faria o mesmo se não
pudesse usar as pernas pra caminhar por aí, ou tivesse os
dedos duros demais pra tricotar. A gente procura
desesperadamente se divertir com qualquer coisa e então
experimenta alguma personagem célebre, pra ver a sensação
que dá. Entendo perfeitamente.
— Não duvido — disse Tommy. — Pobre do asilo que a
receber. No mínimo bancará Cleópatra quase o tempo todo.
— Não serei uma pessoa famosa — protestou Tuppence. —
Mas algo assim como uma copeira no castelo de Anne de
Cleves, espalhando uma porção de mexericos picantes que
ouvi.

A porta se abriu e Miss Packard entrou acompanhada por
uma moça alta e sardenta, vestida de enfermeira e com uma
basta cabeleira ruiva.
— Esta é Miss O'Keefe... Mr. e Mrs. Beresford. Querem falar
uma coisa com você. Com licença, sim? Uma das pacientes
está me chamando.
Tuppence entregou, como convinha, a estola de pele de tia
Ada e a enfermeira O'Keefe caiu em êxtase.
— Oh! Que beleza! Mas é muito luxuosa pra mim. A
senhora há de querer guardar...
— Não, realmente. Fica comprida demais pra minha altura.
É ideal pra uma moça alta como você. Tia Ada também era
alta.
— Ah! Uma verdadeira dama... devia ter sido linda na
juventude.
— Creio que sim — retrucou Tuppence com ar incrédulo.
— Mas garanto que foi uma fera pra quem cuidou dela.
— Ah, de fato foi. Porém tinha muita fibra. Nada conseguia
derrotá-la. E ninguém a fazia de boba. A senhora ficaria
surpresa com as coisas que ela sabia. Esperta que só vendo.
— Mas tinha um gênio...
— Não resta dúvida. No entanto o tipo lamuriento é o que
incomoda mais... cheias de queixas e gemidos. Miss
Fanshawe nunca foi insípida. Contava histórias fabulosas do
passado... Uma vez, quando era jovem, subiu a escadaria de
uma casa no campo a cavalo, pelo menos dizia... Será
verdade?
— Olhe, eu não me fiaria muito — observou Tommy.
— Aqui a gente nunca sabe no que acreditar. As coisas que
essas velhas inventam! Criminosas que identificaram...
Precisamos avisar a policia imediatamente... senão todas
correm perigo.
— A última vez que viemos cá, alguém estava sendo
envenenado — lembrou Tuppence.
— Ah! Era apenas Mrs. Lockett. A cena se repete todos os
dias. Mas não é a polícia que ela quer, é o doutor... é maluca
por médicos.
— E alguém... uma baixinha... reclamava o chocolate...
— Devia ser Mrs. Moody. Coitada, se foi.
— Foi embora, quer dizer... partiu?
— Não... uma trombose levou-a... de uma hora pra outra.
Era muito afeiçoada à sua tia... não que Miss Fanshawe
sempre tivesse paciência com ela... falava feito uma
matraca...
— Soube que Mrs. Lancaster não está morando mais aqui.
— Sim, a família veio buscá-la. Não queria ir nem por nada,
pobrezinha.
— Como era mesmo a história que ela me contou... a
respeito da lareira na sala de estar?
— Ah! Aquela vivia com uma porção de histórias... sobre
coisas que lhe tinham acontecido... e os segredos que sabia...
— Havia algo em relação a uma criança... raptada ou
assassinada.
— Inventam os negócios mais cabulosos. Tiram quase todas
essas idéias da televisão...
— Você não se cansa de trabalhar aqui com toda essa
velharia? Deve ser exaustivo.
— Oh não... eu gosto de gente velha... Foi por isso que me
dediquei à geriatria...
— Faz muito que está no Asilo?
— Um ano e meio... — houve uma pausa. — Mas vou-me
embora no mês que vem.
— Ah é? Por quê?
Pela primeira vez a enfermeira O'Keefe demonstrou certo
constrangimento.
— Bem, a senhora sabe, Mrs. Beresford, é bom mudar de
vez em quando...
— Mas continuará no mesmo tipo de serviço?
— Oh sim... — pegou a estola de pele. — Agradeço-lhe
muito -novamente... e fico contente, também, por guardar
uma recordação de Miss Fanshawe... Era uma verdadeira
dama... Hoje em dia são raras.
5 - O desaparecimento da velhinha

As COISAS de tia Ada chegaram no tempo previsto. A
escrivaninha foi instalada e admirada. A pequena mesa de
costura substituiu a estante, relegada a um canto escuro do
vestíbulo. E Tuppence pendurou o quadro da casa cor-de-
rosa desbotada à beira do canal em cima da lareira de seu
quarto de dormir, onde podia vê-lo todas as manhãs
enquanto tomava chá.
Sentindo a consciência ainda um pouco pesada, escreveu
uma carta explicando como a pintura viera parar em suas
mãos, mas que na hipótese de Mrs. Lancaster querê-la de
volta, bastava avisar. Endereçou o envelope aos cuidados de
Mrs. Johnson, Hotel Cleveland, George Street, Londres W.
1.
Não houve resposta, porém uma semana depois a carta foi
devolvida com a frase "Destinatário desconhecido no
endereço", rabiscada no verso.
— Que chato — comentou Tuppence.
— Talvez tivessem passado apenas uma ou duas noites —
sugeriu Tommy.
— Sim, mas seria de supor que deixassem o novo
endereço...
— Você não pôs "Favor encaminhar" no envelope?
— Pus, sim. Já sei, vou telefonar pra lá e perguntar... Devem
ter anotado um domicílio qualquer no livro de registro...
— Se eu fosse você, não me incomodava mais — opinou
Tommy. — Pra que tanto rebuliço? No mínimo, a velhinha
já esqueceu tudo a respeito do quadro.
— Não custa tentar.
Tuppence sentou-se ao lado do telefone e em breve
conseguia ligação com o Hotel Cleveland.
Minutos mais tarde reapareceu no gabinete de Tommy.
— Que coisa esquisita, Tommy... elas não estiveram lá. Nem
Mrs. Johnson... nem Mrs. Lancaster... nunca houve reservas
de acomodações nesses nomes... ou qualquer indício de que
tenham se hospedado ali antes.
— Vai ver que Miss Pakard se enganou de hotel. Anotou às
pressas... e depois talvez perdeu... ou lembrou-se errado.
Sabe como são essas coisas.
— Sim, mas não esperava que isso acontecesse em Sun-ny
Ridge. Miss Packard sempre foi a eficiência personificada.
— Quem sabe não reservaram com antecedência, o hotel
estava lotado, e por isso tiveram de procurar outro.
Encontrar lugar em Londres é difícil... Escute, você vai
insistir ainda?
Tuppence retirou-se. Dali a pouco voltou.
— Já sei o que vou fazer: telefonar pra Miss Packard e pedir
o endereço dos procuradores...
— Que procuradores?
— Não se lembra do que ela disse a respeito de uma firma
que se encarregou de todas as providências porque os
Johnsons estavam no exterior?
Tommy — entretido com o rascunho de um discurso que
teria de pronunciar numa conferência dentro de poucos
dias, a repetir baixinho: "... a solução adequada na hipótese
dessa contingência..." — perguntou:
— Como se soletra contingência, Tuppence?
— Você ouviu o que eu disse?
— Sim, a idéia é muito boa... ótima,.. excelente... faça
exatamente isso...
Tuppence saiu, mostrou a cabeça de novo e respondeu:
— C — o — n — s — i — s— t — ê — n — c — i— a.
— Não pode ser... você entendeu errado. — O que é que
está escrevendo aí?
— O ensaio que vou ler brevemente na U. I. S. A. e pelo
amor de Deus me deixe em paz.
— Desculpe. Tuppence desapareceu.
Tommy continuou redigindo e riscando frases. Sua
fisionomia recém-começava a se animar, à medida que o
ritmo da caligrafia aumentava... quando a porta se abriu
novamente.
— Cá está — anunciou Tuppence. — Partingdale, Harris,
Lockeridge & Partingdale, 32 Lincoln Terrace, W. C. 2,
fone: Holborn 051-386. O sócio ativo da firma é Mr. Eccles
— colocou uma folha de papel junto do cotovelo de
Tommy.
— Agora você assuma o comando.
— Não! — protestou Tommy com firmeza.
— Sim! Ela era sua tia.
— Que negócio de tia é esse? Mrs. Lancaster não é minha
tia.
— Mas trata-se de um escritório de advogados — insistiu
Tuppence. — E lidar com eles sempre foi assunto de
homem. Consideram as mulheres umas tontas desatentas...
— Opinião muito razoável, por sinal — retrucou Tommy.
— Ah! Tommy... ajude, por favor. Vá telefonar enquanto eu
trago o dicionário e verifico como se soletra contingência.
Tommy lançou-lhe um olhar, mas foi. Finalmente voltou.
— O assunto agora está encerrado, Tuppence — anunciou
inabalável.
— Falou com Mr. Eccles?
— Pra ser mais exato, falei com um tal de Mr. Wills, que
evidentemente é o mediador de um trio de advogados
incomunicáveis. Mas ele se mostrou bem informado e
gárrulo. Todas as cartas e comunicações seguem por
intermédio do Southern Counties Bank, agência
Hammersmith, que se encarrega de entregá-las aos
destinatários. E nesse ponto, Tuppence, é bom que você
saiba, acaba a pista. Os bancos podem servir de
intermediários... porém não cedem endereços a ninguém,
por mais que se insista. Possuem um regulamento e
cumprem-no ao pé da letra... Observam uma discrição tão
pomposa quanto a do Primeiro-Ministro.
— Muito bem. Mandarei uma carta aos cuidados do Banco.
— Então mande... e vá-se embora, pelo amor de Deus...
senão não termino nunca este discurso.
— Obrigada, querido. Não sei o que faria sem você. Beijou-
lhe os cabelos.
— Manteiga melhor não há — completou Tommy.
Foi só na noite da quinta-feira seguinte que Tommy
perguntou de repente:
— A propósito, você recebeu alguma resposta da carta que
enviou a Mrs. Johnson por intermédio do Banco?
— Que lembrança amável — comentou Tuppence,
sardônica. — Não recebi, não. — E acrescentou pensativa:
— E acho que tampouco receberei.
— Por quê?
— Você não está de fato interessado — retrucou friamente.
— Escute aqui, Tuppence... Sei que tenho andado um pouco
distraído... Tudo por causa dessa U. I. S. A.... Ainda bem que
é só uma vez por ano.
— Começa segunda-feira, não? Durante cinco dias...
— Quatro.
— E vão todos se reunir numa casa que ninguém sabe onde
fica, ultra-sigilosa, em pleno campo, pra fazer discursos, ler
ensaios e treinar gente moça pra missões super-secretas na
Europa e alhures. Esqueci o que significa U. I. S. A. Essa
mania de siglas que há hoje em dia...
— União Internacional de Segurança Aliada.
— Que pretensão! Chega a ser ridículo. E no mínimo o
lugar está cheio de microfones ocultos e todo mundo sabe
detalhes das conversas mais reservadas..
— É bem provável — admitiu Tommy sorrindo.
— E pelo visto você acha divertido?
— Pois de certo modo sim. A gente encontra uma porção de
velhos amigos.
— Praticamente gagas, imagino. E obtêm algum resultado?
— Puxa, que pergunta! Não creio que ninguém possa
responder com um mero Sim ou Não...
— E os elementos que tomam parte servem pra alguma
coisa?
— Eu diria que sim. Tem gente realmente muito boa.
— O velho Josh irá?
— Irá, sim.
— Como é que ele é atualmente?
— Surdo como uma porta, quase cego, atacado de
reumatismo... e você ficaria assombrada com as coisas que
não lhe escapam.
— Sei — disse Tuppence. Pensou um pouco. — Quem dera
que eu também pudesse ir.
Tommy fez um ar contrito.
— No mínimo encontrará algo pra fazer enquanto eu estiver
ausente.
— Sou bem capaz — falou Tuppence com ar distraído. O
marido olhou para ela com a vaga apreensão que Tuppence
sempre lhe causava.
— Tuppence... o que é que você está tramando?
— Até agora, nada... Por enquanto não passa de idéia.
— Sobre o quê?
— Sunny Ridge. E uma boa velhinha tomando leite e
falando de um jeito meio biruta a respeito de crianças mortas
e lareiras. Aquilo me intrigou. Na ocasião achei que devia
averiguar mais da próxima vez que fôssemos visitar tia Ada...
Mas não houve próxima vez porque ela morreu... E quando
voltamos a Sunny Ridge... Mrs. Lancaster tinha...
desaparecido!
— Você quer dizer, a família a tinha levado. Isso não é
desaparecimento. - é até normal.
— É desaparecimento sim... nenhum endereço que se possa
descobrir... cartas sem resposta... é um desaparecimento
planejado. Cada vez tenho mais certeza.
— Mas...
Tuppence atalhou logo esse "Mas".
— Escute, Tommy... suponhamos que tivesse ocorrido
realmente um crime... aparentemente seguro e encoberto...
Imagine então que alguém da família haja presenciado ou
saída de qualquer coisa... uma pessoa idosa e tagarela... com
mania de falar pra todo mundo... que de repente se revelasse
como um autêntico perigo... O que é que você faria?
— Arsênico na sopa? — sugeriu Tommy bem disposto. —
Uma pancada na cabeça... empurrar do alto da escada...?
— Seria exagero... Mortes súbitas chamam atenção. Havia de
procurar uma solução mais simples... e encontraria. Um
Asilo de Velhice respeitável e tranqüilo. Ia visitá-lo,
intitulando-se Mrs. Johnson ou Mrs. Robinson... ou
conseguiria um inocente útil pra tratar de tudo... Acertando
os detalhes financeiros através de uma firma de
procuradores da mais inteira confiança. Tendo já, talvez,
insinuado que essa parenta idosa sofre às vezes de fantasias e
ilusões inofensivas... como a maioria das velhas... Ninguém
acharia estranho... se ela começasse a matraquear sobre leite
envenenado, crianças mortas atrás de lareiras ou um rapto
sinistro: ninguém prestaria atenção. Pensariam apenas, chi,
lá vem a coitada da Mrs. Fulana de Tal de novo com suas
manias... ninguém daria a mínima bola.
— Exceto Mrs. Thomas Beresford — disse Tommy.
— Está bem, admito. Eu dei...
— Mas por quê?
— Não sei — respondeu Tuppence devagar. — É que nem
nos contos de fada. Pelo comichar/Do meu polegar /Sei que
deste lado/Vem vindo um malvado... de repente senti medo.
Sempre imaginara Sunny Ridge como um lugar tão
adequado, normal... e de uma hora pra outra fiquei na
dúvida... Não há outro modo de explicar. Queria descobrir
mais. E então a pobre da Mrs. Lancaster tinha desaparecido.
Alguém dera sumiço nela.
— Mas por que motivo?
— Só posso supor que estivesse piorando... do ponto de vista
deles... lembrando-se melhor, talvez, falando mais
abertamente, ou, quem sabe, houvesse reconhecido
alguém... ou tivesse sido identificada... ou viesse a saber de
algo que lhe deu novas idéias a respeito do que acontecera
anteriormente. Fosse qual fosse o motivo, convertera-se
num perigo iminente.
— Olhe aqui, Tuppence, essa história toda está cheia de
algos e alguéns. É apenas uma idéia que você imaginou. Não
vá querer se meter em coisas que não lhe dizem respeito...
— De acordo com sua dedução, não existe nada pra eu me
meter — retrucou Tuppence. — Portanto não precisa se
preocupar.
— Esqueça-se de Sunny Ridge.
— Não pretendo voltar lã. Creio que disseram tudo o que
sabiam. Acho que a velha gozou de perfeita segurança
enquanto morou no Asilo. Quero descobrir onde ela está
atualmente... pra chegar a tempo... antes que lhe suceda
alguma coisa.
— Que diabo você pensa que pode lhe suceder?
— Nem gosto de pensar. Porém estou na pista... vou ser
Prudence Beresford, Investigadora Particular. Lembra-se de
quando éramos os Argutos Investigadores de Blunt?
— Eu era — corrigiu Tommy. — Você era Miss Robinson,
minha secretária particular.
— Nem sempre. Em todo caso, é o que eu serei enquanto
você estiver brincando de Espionagem Internacional no
Solar Ultra-Secreto. Ficarei ocupada com a operação "Salvem
Mrs. Lancaster".
— E provavelmente há de encontrá-la sã e salva.
— Tomara que sim. Ninguém se alegraria mais do que eu.
— Por onde tenciona começar?
— Como lhe disse, primeiro tenho de pensar. Quem sabe
pondo no jornal uma espécie de anúncio? Não, seria um
erro.
— Bem, tome cuidado — aconselhou Tommy, meio
desajeitado.
Tuppence não se dignou a responder.

Na segunda-feira de manhã, Albert, o principal esteio da
vida doméstica dos Beresford durante uma infinidade de
anos, desde que fora incitado a aderir às atividades anti-
criminosas de ambos na época em que não passava de um
jovem ascensorista ruivo, largou a bandeja do chá matinal na
mesa entre as duas camas, abriu as cortinas, anunciando que
fazia um belo dia e removeu sua atual forma corpulenta para
fora do quarto.
Tuppence bocejou, sentou-se, esfregou os olhos, serviu-se
de uma xícara de chá, colocando dentro uma fatia de limão,
e comentou que o dia, de fato, parecia lindo, apesar da
temeridade das previsões.
Tommy virou-se para o outro lado e resmungou.
— Acorde — disse Tuppence. — Lembre-se de que hoje
terá de ir ao tal lugar.
— Ai, Deus — suspirou Tommy. — É mesmo. Sentou-se
também e serviu-se de chá. Contemplou com admiração o
quadro em cima da lareira.
— Devo confessar, Tuppence que esse seu quadro é
realmente bonito.
— É a maneira com que o sol entra de lado na janela e o
ilumina.
— Tranqüilo — descreveu Tommy.
— Se ao menos me lembrasse de onde foi que o vi antes.
— Acho que não tem importância. Terminará se lembrando.
— Não adianta. Queria saber agora.
— Mas por quê?
— Não entende? Ê a única pista que tenho. Pertencia a Mrs.
Lancaster...
— Ora, de qualquer jeito uma coisa nada tem a ver com a
outra. Quero dizer, é fato que o quadro era dela. Porém
talvez tivesse comprado numa exposição, como, aliás
qualquer membro da família poderia ter feito o mesmo.
Quem sabe não ganhou de presente? Levou junto pra Sunny
Ridge porque era bonito. Não vejo motivo pra que estivesse
ligado pessoalmente a ela. Nesse caso, não teria dado pra tia
Ada.
— É a única pista que tenho — repetiu Tuppence.
— É uma casa agradável e tranqüila.
— Mesmo assim, acho que está vazia.
— Em que sentido?
— Não creio que more alguém nela. Tenho certeza de que
ninguém jamais sairá daquela porta, pra cruzar a ponte ou
desamarrar o barco e ir embora.
— Pelo amor de Deus, Tuppence. — Tommy olhou-a
fixamente. — O que há com você?
— Foi o que pensei a primeira vez que a vi — continuou
Tuppence. — Disse comigo mesma: — "Que bom seria
morar nessa casa". Mas logo achei: — "Vai ver com certeza
que ninguém mora aqui." Isso prova que já a conhecia.
Espere um pouco. Espere... Estou me lembrando. Estou,
sim.
Tommy arregalou os olhos.
— De uma janela — prosseguiu Tuppence, ofegante. —
Seria de um carro? Não, não, o ângulo estaria errado.
Percorrendo a margem do canal... e uma pontezinha em
arco e as paredes cor-de-rosa da casa, os dois choupos, mais
do que dois. Havia uma porção de choupos. Ah, meu Deus,
meu Deus, se eu pudesse...
— Ora, Tuppence, pare com isso.
— Hei de me lembrar.
— Santo Deus! — Tommy consultou o relógio de pulso. —
Tenho de correr. Você com seu quadro déjá vu.
Saltou da cama e correu ao banheiro. Tuppence recostou-se
nos travesseiros e fechou os olhos, tentando forçar uma
recordação que simplesmente se recusava, esquiva, a seu
alcance.
Tommy estava enchendo uma segunda xícara de café na sala
de refeições quando ela surgiu, vibrante de triunfo.
— Descobri... sei onde vi a casa. Foi da janela de um trem.
— Onde? Quando?
— Não sei. Vou ter de pensar. Lembro-me que disse comigo
mesma: — "Um dia hei de dar uma olhada naquela casa"... e
tentei verificar o nome da próxima parada. Mas sabe como
são as estradas de ferro hoje em dia. Derrubaram metade das
estações... e quando passamos pela seguinte, estava toda
destruída, coberta de grama em cima das plataformas e sem
placa com nome nem coisa nenhuma.
— Que diabo, onde está minha pasta? Albert!
Começou uma busca frenética.
Tommy voltou para dar um adeus esbaforido. Encontrou
Tuppence sentada, fitando pensativa um ovo frito.
— Até a volta — disse ele. — E pelo amor de Deus,
Tuppence, não vã meter o bedelho no que não é de sua
conta.
— Eu acho — respondeu ela, distraída — que o que eu vou
fazer mesmo é dar uns passeios de trem.
Tommy pareceu levemente aliviado.
— Boa ideia — aprovou, estimulando-a. — Compre um
carne de passagens. Há um plano qualquer pelo qual é
possível viajar mais de mil quilômetros por todas as Ilhas
Britânicas em troca de uma soma muito razoável, feito de
encomenda pra você, Tuppence. Pode andar em tudo
quanto é trem pra tudo quanto é lugar. Terá com que se
entreter até eu voltar.
— Dê lembranças ao Josh.
— Darei. — E acrescentou, olhando a esposa com ar
inquieto: — Pena que você não possa vir junto. Não... faça
nenhuma bobagem, hem?
— Fique descansado — respondeu Tuppence.

6 - Tuppence na pista

— AH, MEU DEUS — suspirou Tuppence.
Olhou em torno, desanimada. Confessou para si mesma que
jamais se sentira tão infeliz. Claro que sabia que sentina falta
de Tommy, mas não a tal ponto.
Durante todos aqueles anos de vida conjugal quase nunca
haviam ficado separados por qualquer lapso de tempo. Já
antes do casamento consideravam-se um casal de "jovens
aventureiros". Tinham enfrentado juntos várias dificuldades
e perigos, casaram, tiveram dois filhos e quando o mundo
começava justamente a ficar insípido e velho para ambos,
estourara a guerra e, de um modo que se lhes afigurava quase
miraculoso, viram-se novamente enredados nas malhas do
Serviço Secreto Britânico. Esse par algo heterodoxo fora
recrutado por um sujeito calmo e indefinível, que se
intitulava "Mr. Cárter", mas a cuja palavra todos pareciam
curvar-se. Praticaram façanhas, novamente juntos, o que
não constava, diga-se de passagem, dos planos de Mr. Carter.
Tommy tinha sido o único recrutado. Mas Tuppence,
recorrendo a seu manancial de expedientes, conseguiu
bisbilhotar de tal maneira que, ao chegar a uma pensão da
orla marítima caracterizado como um certo Mr. Meadows, a
primeira pessoa que Tommy encontrou foi uma senhora de
meia-idade brandindo agulhas de tricô, que ergueu uns olhos
inocentes para ele e a quem teve de cumprimentar como
Mrs. Blenkinsop. A partir de então agiram de parceria.
— Desta vez, contudo — pensou Tuppence — não posso
proceder assim.
Por mais que bisbilhotasse, recorresse a expedientes ou coisa
equivalente, nada a levaria aos recessos do Solar Ultra-
Secreto ou a participar das complexidades da U. I. S. A.
Idêntico a um Clube Exclusivamente Masculino, concluiu
ressentida. Sem Tommy, o apartamento ficava deserto, o
mundo era triste.
— Que diabo posso fazer sozinha? — imaginou.
Eis uma indagação puramente retórica, pois já tomara as
primeiras providências para pôr seu plano em ação. Desta
feita não se tratava de serviço secreto, contra-espionagem ou
operações congêneres. Nada em caráter oficial. "Prudence
Beresford, Investigadora Particular, essas são as minhas
credenciais" — disse consigo mesma.
Depois que os restos de um almoço frugal foram removidos
às pressas, a mesa da sala de refeições se viu semeada de
horários de ferrovias, indicadores, mapas e um punhado de
velhos diários que Tuppence lograra tirar do esquecimento.
Numa determinada ocasião dos últimos três anos (estava
certa que não fazia mais tempo) empreendera uma viagem
de trem, e olhando pela janela do vagão, reparara numa casa.
Mas que viagem teria sido?
À exemplo da maior parte das pessoas hoje em dia, os
Beresford viajavam quase sempre de carro. Era muito raro
tomarem um trem.
Para a Escócia, naturalmente, quando visitavam Deborah, a
filha casada — o percurso, porém, era feito à noite.
Penzance... durante os veraneios..., mas Tuppence conhecia
a linha de cor e salteado.
Não, havia sido uma viagem muito mais casual.
Com zelo e perseverança, organizou uma lista meticulosa de
todos os possíveis trajetos que percorrera e que pudessem
corresponder ao que estava em busca. Um ou dois
programas de regatas, uma visita a Northumberland, dois
lugares prováveis em Gales, um batizado, dois casamentos,
um leilão a que tinham assistido alguns cachorrinhos que
certa vez entregara, em nome de uma amiga que fazia
criação e se encontrava acamada com gripe. O ponto de
encontro ficava situado num entroncamento rural de
aspecto inóspito, cujo nome não conseguia recordar.
Deu um suspiro. Pelo visto, teria de adotar a solução
sugerida por Tommy... Comprar uma espécie de bilhete
circular e de fato percorrer os trechos mais prováveis da
rede ferroviária.
Por via das dúvidas, anotou numa pequena agenda todos os
fragmentos de lembranças esparsas... vagos lampejos de
memória.
Um chapéu, por exemplo... Sim, um chapéu que arremessara
à prateleira da cabina. Se usara um... então... só podia ser
casamento ou batizado... os cachorrinhos certamente não.
E... outro lampejo de memória... descalçando os sapatos...
por causa dos pés doloridos. Sim... não havia mais dúvida...
estava realmente olhando a casa... e tirara os sapatos porque
os pés doíam.
De modo que se dirigia ou regressava de uma festividade
social... Regressava, lógico... uma vez que os sapatos novos
lhe machucavam de tanto permanecer em pé... E que tipo
de chapéu? Porque isso ajudaria... florido... um casamento
no verão... ou de veludo, para inverno?
Tuppence atarefava-se em anotar pormenores dos horários
ferroviários de diferentes linhas quando Albert entrou,
perguntando se queria jantar... e se queria encomendar
alguma coisa do açougue e da mercearia.
— Acho que vou passar uns dias fora — anunciou
Tuppence. — Portanto não precisa comprar nada. Pretendo
fazer umas viagens de trem.
— Não quer levar junto uns sanduíches?
— Pode ser. Peça um pouco de presunto ou qualquer coisa.
— De ovo com queijo também? Ou quem sabe a lata de patê
que está na despensa há tanto tempo... seria bom comer de
uma vez.
A recomendação parecia um tanto sinistra, porém Tuppence
aceitou.
— Muito bem. Fica ótimo.
— Quer que lhe remeta a correspondência?
— Por enquanto ainda não sei pra onde vou — respondeu.
— Ah, bom.
Uma das peculiaridades simpáticas de Albert era aceitar tudo
com a maior naturalidade. Nunca necessitava que lhe
explicassem nada.
Ele se retirou da sala e Tuppence fixou-se em seu plano.
Tinha de se lembrar de um acontecimento social que
exigisse chapéu e sapatos de toalete. Infelizmente, os de sua
lista envolviam linhas ferroviárias diferentes... Um
casamento na rede meridional, o outro em East Anglia. E o
batizado fora ao norte de Bedford.
Se conseguisse recapitular um pouco mais a paisagem...
Viajara sentada do lado direito do trem. O que estivera
olhando antes do canal?... Bosques? Árvores? Plantações
agrícolas? Uma aldeia distante?
Puxando pela memória, com a testa franzida, ergueu os
olhos... — Albert tinha voltado. Naquele momento mal
podia imaginar que a presença dele ali, à espera de sua
atenção, significava nada mais nada menos que uma oração
atendida...
— Bem, Albert, o que é agora?
— Caso a senhora tencione passar todo o dia fora amanhã...
— E provavelmente depois de amanhã, também...
— Se importava que eu tirasse uma folga?
— Claro que não.
— É por causa de Elizabeth... está cheia de manchas no
rosto. Milly acha que é sarampo...
— Oh, meu Deus. — Milly era a mulher de Albert e
Elizabeth a filha caçula. — Então é lógico que ela queira que
você fique em casa.
Albert morava numa casinha modesta a dois quarteirões de
distância.
— Não é tanto por causa disso... Ela não gosta que eu
atrapalhe quando está cheia de serviço... acha que só faço
confusão... Mas são os outros garotos... Eu poderia sair com
eles e deixá-la mais sossegada.
— Naturalmente. Imagino que estejam todos de quarentena.
— Olhe, ate seria melhor que pegassem de uma vez e
acabassem logo com o problema. Charlie já teve e Jean
também. Quer dizer, então, que não há inconveniente?
Tuppence garantiu-lhe que não.
Algo se agitava no fundo do subconsciente... Um alegre
pressentimento... uma identificação... Sarampo... Sim,
sarampo. Qualquer coisa relacionada com sarampo.
Mas que teria a casa do canal a ver com sarampo...?
Claro! Anthea. Anthea era a afilhada de Tuppence... e Jane, a
filha dela, já ia ao colégio... no primeiro ano... e era Festa de
Encerramento e Anthea lhe telefonara... as duas filhas
menores estavam com sarampo, não dispunha de ninguém
para ajudar em casa e Jane ficaria tremendamente
decepcionada se não aparecesse nenhum convidado... Será
que Tuppence não podia?...
Tuppence evidentemente aceitou... Não tinha nada especial
para fazer... iria ao colégio, sairia com Jane para almoçar
fora, voltando depois a fim de assistir às competições
esportivas e às demais festividades. Havia um trem especial
para a escola.
Tudo lhe veio à lembrança com nitidez assombrosa... até o
próprio vestido que usara... um estampado leve com
centáureas azuis!
Enxergara a casa durante a volta.
Na viagem de ida ficara absorta na leitura de uma revista que
havia comprado, mas no retorno não tinha nada para ler e
ficou olhando pela janela até que, exausta das atividades do
dia e dos sapatos apertados, pegou no sono.
Ao despertar, o trem corria à beira de um canal. A região era
parcialmente arborizada, com alguma ponte de vez em
quando, uma vereda tortuosa ou uma estrada menos
importante... uma granja ao longe... nenhuma aldeia.
O trem começou a diminuir a marcha. Devia haver uma
sinaleira à frente. Parou com um solavanco ao lado de uma
pequena ponte em arco que cortava um canal que
provavelmente não possuía nenhuma serventia. Na margem
oposta, perto da água, havia uma casa... que logo pareceu a
Tuppence uma das mais simpáticas que já vira... tranqüila,
imperturbável, iluminada pela luz dourada do crepúsculo.
Não se via nenhum ser humano nas imediações... nem cães
ou outros animais domésticos. No entanto, as venezianas
verdes não estavam fechadas. Era, sem dúvida, habitada,
embora de momento parecesse deserta.
— Preciso verificar essa casa — refletiu Tuppence. — Um
dia hei de voltar aqui e dar uma olhada. É o tipo do lugar em
que eu gostaria de morar.
Com outro solavanco, o trem recomeçou a mover-se
vagarosamente.
— Vou cuidar o nome da próxima parada... assim saberei
onde fica.
Só que a parada não apareceu nunca. Era na época em que as
ferrovias passaram a sofrer transformações... estações
modestas fechadas, e até derrubadas, grama brotando nas
plataformas em ruínas. O trem andou vinte minutos... meia
hora.. sem que se avistasse nada identificável. Num
determinado momento, além dos campos, bem longe,
Tuppence enxergou o alto de um campanário.
Depois surgiu um complexo industrial... grandes chaminés...
uma fileira de casas pré-fabricadas. E de novo o campo
aberto.
Tuppence pensou consigo mesma... Aquela casa era quase
um sonho! Talvez fosse... Creio que nunca hei de voltar para
vê-la melhor... é muito difícil. Pena. Aliás, quem sabe...
Um dia, talvez, eu a encontre por acaso!
E assim... esquecera-se por completo... até que um quadro
pendurado na parede reavivara uma lembrança adormecida.
E agora, graças a uma palavra pronunciada
inconscientemente por Albert, terminava a busca.
Ou, para ser mais exato, começava.
Tuppence separou três mapas, um guia de viagem e vários
outros acessórios.
Já sabia mais ou menos a região que teria de investigar.
Marcou o colégio de Jane com uma cruz grande... o ramal da
rede ferroviária, que desembocava na linha principal de
Londres... o lapso de tempo em que adormecera.
O âmbito visado abrangia um território considerável... ao
norte de Medchester, a sudeste de Market Basing que,
embora fosse uma cidade pequena, constituía um
importante entroncamento de via férrea e provavelmente a
oeste de Shaleborough.
Levaria o carro, partindo de manhã cedo no dia seguinte.
Levantou-se, foi até o quarto e analisou o quadro em cima da
lareira.
Sim, não havia dúvida. Aquela era a casa que tinha visto do
trem há três anos. A casa que prometera visitar um dia...
Esse dia chegara... Seria amanhã.
SEGUNDA PARTE - A casa do canal
7 - A bruxa camarada

ANTES DE partir na manhã seguinte, Tuppence examinou
cuidadosamente pela última vez o quadro pendurado no
quarto, não tanto para gravar os detalhes na lembrança como
para memorizar sua posição na paisagem. Desta vez não a
enxergaria da janela de um trem, mas de uma estrada. O
ângulo de visão seria bem diferente. Talvez houvesse várias
pontes em arco, muitos canais sem serventia parecidos... e
até outras casas semelhantes — mas isso ela se recusava a
acreditar.
— A pintura estava assinada, porém o nome do artista era
ilegível... Tudo o que se podia perceber é que começava por
B.
Afastando-se do quadro, Tuppence passou em revista o que
pretendia levar junto: um guia A. B. C, com o respectivo
mapa ferroviário, uma seleção de mapas topográficos, nomes
prováveis de localidades... Medchester, Westleigh... Market
Basing... Middlesham... Inchwell... Entre si, encerravam o
triângulo que decidira examinar. Como bagagem, uma
pequena valise de viagem, pois demoraria três horas até
chegar à região escolhida e depois, segundo seus cálculos,
teria de percorrer devagar um vasto complexo de estradas e
sendas rurais à procura de prováveis canais.
Parando em Medchester para fazer um lanche, tomou um
caminho secundário, adjacente à linha férrea, e que passava
por campos arborizados cortados por arroios.
Como na maioria dos distritos rurais ingleses, havia uma
profusão de placas indicadoras, com nomes que Tuppence
jamais ouvira e que raramente conduziam ao lugar em
questão. Parecia realmente existir uma certa astúcia nessa
parte do sistema rodoviário inglês. A estrada se afastava do
canal, e quando o carro zarpava na esperança de encontrá-lo
de novo, não achava nem rastro. Se tomasse a direção de
Great Michelden, o próximo indicador que vinha pela frente
oferecia uma escolha de duas estradas, uma para Pennington
Sparrow e outra para Farlingford. Optando pela última, de
fato chegava-se ao destino, mas logo em seguida uma nova
placa fazia retroceder firmemente a Medchester, de maneira
que se voltava praticamente ao ponto de partida. Na verdade
Tuppence nunca conseguiu encontrar Great Michelden e
durante muito tempo foi incapaz de retomar o canal
perdido. Teria sido bastante mais fácil se ao menos tivesse
alguma idéia da aldeia que estava procurando. Localizar
canais em mapas resultava simplesmente um enigma. De vez
em quando deparava com a estrada de ferro e se animava,
arremetendo com otimismo na direção de Bees Hill, South
Winterton e Farrell St. Edmund, que outrora possuíra uma
estação, cancelada já há algum tempo! "Se ao menos —
pensou, — houvesse uma estrada bem comportada ao longo
de um canal ou dos trilhos do trem, tudo se tornaria mais
fácil!"
O dia foi passando e Tuppence sentia-se cada vez mais
frustrada. Ocasionalmente encontrava uma granja contígua a
um cana], porém a estrada daí por diante insistia em se
disassociar por completo do curso da água, subindo uma
colina e chegando numa coisa chamada Westpenfold, onde
existia uma igreja de torre quadrada que de nada adiantava.
A essa altura, quando prosseguia desolada por um caminho
sulcado que parecia a única saída de Westpenfold e que para
seu senso de direção (no qual não mais confiava) se afigurava
o lado oposto de qualquer rumo que pretendesse tomar,
repentinamente desembocou num lugar onde duas veredas
se bifurcavam à direita e à esquerda. Havia os destroços de
uma placa de trânsito entre ambas, com ambos os suportes
quebrados.
— E agora? — disse Tuppence. — Que faço? Optou pela
esquerda.
O caminho serpenteava sem parar. Finalmente, após uma
curva, se alargava e subia um morro, saindo do meio das
árvores numa clareira em declive. Tendo atingido o topo,
descia uma ladeira íngreme. Não muito distante, ouviu-se
um uivo queixoso...
— Parece um irem — pensou Tuppence, com súbita
esperança.
E era... Logo abaixo avistou a via férrea, por cujos trilhos
corria um expresso de víveres apitando aflito à medida que
avançava resfolegante. E do outro lado estava o canal, em
cuja margem oposta Tuppence reconheceu a casa, perto da
ponte em arco de tijolos cor-de-rosa. A estrada mergulhava
por baixo da ferrovia, subia de novo e passava por cima da
ponte. Tuppence cruzou-a lentamente. Do outro lado,
seguia adiante, tendo a casa à direita. Procurou uma entrada,
mas parecia não haver nenhuma. Um muro relativamente
alto protegia-a.
Parou o carro e caminhou de volta até a ponte, tentando
obter uma visão maior da casa.
Quase todas as grandes janelas estavam fechadas por
venezianas verdes. Possuía um aspecto muito tranqüilo e
deserto. À luz do pôr do sol, reinava uma calma acolhedora.
Nada indicava que fosse habitada. Entrou novamente no
carro e andou mais um pouco. O muro, de altura moderada,
ficava à sua direita. Do lado esquerdo, apenas uma sebe
separava a estrada dos campos verdes.
Finalmente descobriu um portão de ferro batido. Estacionou
o carro à beira do caminho, desceu e aproximou-se para dar
uma espiada no interior das grades. Só conseguiu ficando na
ponta dos pés. Lá dentro havia um 'jardim. Sem dúvida o
local agora não era uma granja, embora pudesse ter sido
antigamente. Era provável que confinasse com um prado
nos fundos. O jardim era bem cuidado. Não que estivesse
especialmente cultivado,, porém dava a impressão de que
alguém se esforçava, com parcos resultados, por mantê-lo
em ordem.
Uma senda circular partia do portão de ferro, contornando
os canteiros, até à entrada, que devia ser por ali, embora não
desse essa impressão. A porta, evidentemente grossa, não
chamava a atenção — uma porta traseira. Visto desse lado, o
aspecto era muito diferente. Para começar, a casa não estava
desabitada. Havia moradores. As janelas se achavam abertas,
com cortinas esvoaçantes, uma lata de lixo encostada à
soleira. No fundo do jardim Tuppence avistou um homem
corpulento cavando a terra. Era alto, idoso e trabalhava
devagar e com persistência. Não havia dúvida de que desse
ângulo a casa não oferecia nenhum atrativo e seria pouco
provável que um pintor a tomasse como tema de um
quadro. Não passava de uma moradia como outra qualquer.
Tuppence ficou pensando. Hesitou. Quem sabe não era
melhor ir-se embora e desistir por completo? Ora, que idéia
mais absurda depois de tanto incômoda. Que horas eram?
Consultou o relógio, mas estava parado. Ouviu o rangido de
uma porta lá dentro. Espiou de novo pela grade.
A porta da casa se abriu e uma mulher apareceu. Largou no
chão uma garrafa de leite e depois, endireitando o corpo,
olhou para o portão. Enxergou Tuppence, vacilou um
instante e por fim, tomando uma decisão, veio descendo a
senda. "Ué — disse Tuppence consigo mesma — mas é uma
bruxa camarada!"
Teria uns cinqüenta anos, mais ou menos. Os cabelos,
compridos e desgrenhados, ondulavam ao vento. Lembrava
vagamente um quadro (de Nevinson?) de uma bruxa jovem
num cabo de vassoura. Talvez por isso lhe ocorrera a
comparação. Mas não havia nada de juventude ou beleza
nessa mulher. Era uma velha de rosto enrugado e vestida de
modo um tanto relaxado. Usava uma espécie de chapéu
pontiagudo e o nariz e o queixo convergiam. Como
descrição, talvez parecesse sinistra, mas não era essa a
impressão que causava. Irradiava uma boa vontade ilimitada.
"Sim — pensou Tuppence — é exatamente que nem uma
bruxa, porém uma bruxa camarada. Vai ver que pratica
magia "branca".
A mulher se aproximou do portão com um jeito hesitante e
começou a falar numa voz agradável que traía um leve
sotaque rural.
— Deseja alguma coisa? — perguntou.
— Desculpe — disse Tuppence, — deve julgar uma falta de
educação minha ficar espiando seu jardim deste modo,
mas... eu estava admirando a casa.
— Não quer entrar pra ver melhor? — convidou a bruxa
camarada.
— Ué... bem... obrigada, mas não quero estorvar.
— Ora, não é estorvo nenhum. Estou sem nada pra fazer.
Que linda tarde, não?
— É, de fato — concordou Tuppence.
— Pensei que talvez estivesse perdida — disse a bruxa
camarada. — Isso às vezes acontece.
— Apenas achei a casa muito simpática quando vinha
descendo a ladeira do outro lado da ponte.
— Daquele lado é mais bonita. De vez em quando aparecem
pintores e ficam copiando... ou pelo menos apareciam...
antigamente.
— Sim — retrucou Tuppence — imagino. Creio que... vi um
quadro em alguma exposição — acrescentou logo. — Uma
casa igualzinha. Talvez até fosse a mesma.
— Ah, é bem capaz. Engraçado, sabe, os pintores vêm e
pintam um quadro. E depois parece que outros também vêm
atrás. É que nem todos os anos quando organizam a
exposição aqui na aldeia. Parece que cada artista escolhe
sempre o mesmo lugar. Não sei por que. Sabe como é, um
trecho do campo com um riacho, ou um determinado
carvalho, ou um grupo de salgueiros, ou a eterna paisagem
da igreja normanda. Cinco ou seis quadros da mesma coisa, a
maioria bem ruim na minha opinião. Só que, afinal, eu não
entendo nada do assunto. Entre, por favor.
— É muito amável — agradeceu Tuppence. — Tem um
jardim bonito.
— Ah, não é dos piores. Dá algumas flores, verduras, etc.
Mas meu marido não pode trabalhar muito ultimamente e eu
não tenho tempo com uma coisa e outra.
— Vi esta casa uma vez do trem — explicou Tuppence. —
Ele diminuiu a marcha, eu a enxerguei e fique pensando se
algum dia chegaria a revê-la. Já faz bastante tempo.
— E agora, de repente, desce o morro de carro e cá está eia
— disse a mulher. — Curioso como as coisas acontecem,
não é mesmo?
— "Graças a Deus — pensou Tuppence — esta mulher
facilita imensamente a conversa. A gente mal precisa
imaginar uma justificativa. Pode-se quase dizer a primeira
coisa que vem à cabeça."
— Quer visitar a casa? — perguntou a bruxa camarada. —
Estou vendo que lhe interessa. É bastante velha, sabe? Quero
dizer, do fim da era georgiana ou troço parecido. Parece que
depois foi aumentada. Nós, naturalmente, ocupamos apenas
a metade.
— Ah bom. É dividida ao meio, então?
— Aqui, de fato, são os fundos. A frente fica do lado que se
enxerga da ponte. No meu entender é uma repartição
esquisita. Suponho que seria mais simples fazê-la de outro
jeito. Sabe como é, direita e esquerda, por assim dizer. Não
frente e fundos. Isto tudo aqui realmente é a parte de irás.
— Faz tempo que se mudaram pra cá? — perguntou
Tuppence.
— Três anos. Depois que meu marido se aposentou,
queríamos um cantinho sossegado no campo. E barato,
lógico. O preço deste era acessível por ser, naturalmente,
muito isolado. Não há nenhuma aldeia nem nada nos
arredores.
— Vi um campanário ao longe.
— Ah, é Sutton Chancellor. Dista quatro quilômetros daqui.
Pertencemos à paróquia, claro, mas não há outra casa antes
de chegar lá. Também é uma aldeiazinha de nada. Aceita
uma xícara de chá? — perguntou. — Não fazia dois minutos
que tinha botado a chaleira no fogo quando a avistei no
portão. — Ergueu as mãos à boca e chamou: — Amos!
Amos!
O homem alto no fundo do jardim virou a cabeça.
— Chá daqui a dez minutos! — gritou.
Ele, em resposta, acenou. A bruxa camarada abriu então a
porta e convidou Tuppence a entrar.
— Meu nome é Perry — disse numa voz cordial — Alice
Perry.
— O meu é Beresford — retribuiu Tuppence. — Mrs.
Beresford.
— Passe, Mrs. Beresford, a casa é sua.
Tuppence hesitou um segundo. "Até me sinto um pouco
como Joãozinho e Maria. A bruxa pede pra gente entrar na
casa. Talvez seja feita de pão-de-ló... Pelo menos devia ser."
Depois olhou de novo para Alice Perry e achou que não era
a bruxa da casa de pão-de-ló de Joãozinho e Maria. Tratava-
se de uma mulher perfeitamente comum. Não, comum não.
Irradiava um estranho ar de veemente cordialidade.
"Garanto que é capaz de feitiços — pensou Tuppence, —
mas tenho certeza de que só pra fazer o bem." Inclinou um
pouco a cabeça e cruzou o limiar da residência da bruxa.
O interior estava bastante escuro. Os corredores eram
estreitos. Mrs. Perry conduziu-a através da cozinha até uma
sala de visitas espaçosa, dividida ao meio por um arco. A
moradia não apresentava nenhum traço especial. Tuppence
deduziu que constituía uma ampliação da parte principal,
construída no fim da era vitoriana. No sentido horizontal,
era exígua. Parecia consistir num corredor plano, um tanto
escuro, que ligava uma fileira de peças. Pensou que de fato
era um modo um pouco esquisito de dividir uma casa.
— Sente-se. Vou buscar o chá — disse Mrs. Perry.
— Deixe que eu ajudo.
— Oh, não se preocupe, é coisa rápida. Está tudo pronto na
bandeja.
Ouviu-se um assobio na cozinha. A chaleira atingira
evidentemente o fim de seu período de repouso. Mrs. Perry
saiu e voltou dois minutos depois com a bandeja de chá, um
prato de pães de minuto, um pote de geléia e três xícaras
com pires.
— Decerto ficou decepcionada com o interior da casa —
disse.
Era uma observação perspicaz e bem próxima da verdade.
— Oh não — protestou Tuppence.
— Pois no seu caso eu ficaria. Não há que negar que uma
coisa não combina com a outra. Quero dizer, a frente e os
fundos. Mas pra viver é confortável. Não há muitas peças,
não é muito iluminada, porém é baratíssima.
— Quem se lembrou de dividir a casa?
— Ah, foi há muitos anos. No mínimo o dono achou que
era grande ou inconveniente demais. Queria apenas um
lugar pra passar fins-de-semana ou coisa que o valha.
Portanto ficaram com os melhores cômodos, o refeitório e a
sala de visitas, transformando um pequeno gabinete em
cozinha e mais uns dois dormitórios e banheiro no andar de
cima, e depois levantaram uma parede, alugando a parte que
antes era a cozinha, a copa antiquada e coisas assim. E
reformaram um pouco.
— Quem mora na frente? Alguém que só vem nos fins-de-
semana?
— De momento não há inquilinos — explicou Mrs. Perry.
— Tire outro pãozinho, meu bem.
— Obrigada.
— Pelo menos faz dois anos que ninguém aparece. Nem sei
mesmo quem é o atual proprietário.
— Mas quando vieram de muda pra cá?
— Havia uma moça que costumava vir... consta que era
atriz. Pelo menos corria o boato. Nunca a vimos bem de
fato. Apenas de relance, uma ou outra vez. Aparecia sempre
sábados à noite, depois do espetáculo. presumo. E ia embora
no fim do domingo.
— Um verdadeiro mistério, hem? — comentou Tuppence,
incentivando.
— Sabe, era justamente assim que eu a imaginava. Vivia
inventando histórias a respeito dela. As vezes pensava que
era uma espécie de Greta Garbo. Também, pudera, do jeito
que ela andava sempre de óculos escuros e chapéus puxados
pra baixo. Credo, não é que agora fui eu que me esqueci de
tirar o meu?
Tirou o chapéu de bruxa e deu uma risada.
— É pra uma peça que vamos montar no salão paroquial em
Sutton Chancellor. Sabe como é... uma espécie de conto de
fadas quase só pra crianças. Eu faço a bruxa.
— Oh — exclamou Tuppence, colhida um pouco de
surpresa, acrescentando logo: — Que divertido.
— Não é mesmo? Sirvo direitinho pro papel de bruxa, não é?
— Bateu no queixo com uma gargalhada. — Veja. Até a
cara. Só espero que não fiquem com idéias estranhas a meu
respeito. São capazes de pensar que tenho mau-olhado.
— Acho que não vão pensar, não — disse Tuppence. —
Estou certa de que é uma bruxa benfazeja.
— Ainda bem que causo essa impressão. Como eu ia
dizendo, essa atriz... de momento não me lembro do nome
dela... Miss Marchment, parece que era, mas talvez fosse
outro... nem imagina as coisas que eu fantasiava a respeito
dela. Francamente, tenho quase certeza de que mal vi ou
falei com ela. Às vezes eu acho que era apenas
incrivelmente tímida e neurótica. Sempre vinham jornalistas
à procura de uma entrevista ou que o valha, mas nunca os
recebia. Noutras ocasiões, me ocorriam... olhe, vai-me achar
idiota... umas idéias bastante sinistras. Que tinha medo de
ser reconhecida, por exemplo. Talvez nem fosse atriz.
Talvez a polícia andasse atrás dela. Talvez fosse uma espécie
de criminosa. Às vezes é emocionante inventar coisas na
imaginação. Principalmente quando a gente não vê... bem...
quase ninguém. — Nunca apareciam outras pessoas junto
com ela?
— Pra falar a verdade, não tenho certeza. Claro que essas
paredes divisórias, sabe, colocadas quando repartiram a casa
pelo meio, bem, são muito finas e às vezes ouviam-se vozes
e coisas assim. Creio que ela trazia ocasionalmente alguém
pra passar o fim-de-semana. — Aquiesceu com a cabeça. —
Um homem qualquer. Podia ser esse o motivo de preferirem
um lugar tranqüilo que nem este.
— Um homem casado — sugeriu Tuppence, aderindo ao
espírito de fantasia.
— É, devia ser, não é mesmo? — retrucou Mrs. Perry.
— Talvez fosse o próprio marido. Escolheu este lugar no
campo porque queria assassiná-la. Quem sabe enterrou-a no
jardim?
— Nossa! — exclamou Mrs. Perry. — Que imaginação que a
senhora tem! Essa nunca tinha me passado pela cabeça.
— Ah, mas alguém devia estar informado de tudo sobre ela.
Uma imobiliária, por exemplo.
— Sim, é possível. Entretanto, prefiro não saber. Se é que
me entende.
— Claro — concordou Tuppence. — Entendo
perfeitamente.
— Sabe, esta casa possui uma atmosfera toda especial. A
gente tem a sensação de que podia ter acontecido qualquer
coisa nela.
— Não vinha alguém fazer a limpeza ou algo semelhante?
— Aqui é difícil de conseguir empregada. Não mora
ninguém na vizinhança.
A porta se abriu, dando entrada ao homenzarrão que
estivera cavoucando no jardim. Dirigiu-se à pia da copa,
evidentemente para lavar as mãos, e depois veio até a sala.
— Meu marido — apresentou Mrs. Perry. — Amos, temos
uma visita. Esta é Mrs. Beresford.
— Como vai? — cumprimentou Tuppence.
Amos Perry era um sujeito alto e desajeitado. Bem maior e
mais forte do que Tuppence supusera antes. Embora andasse
de maneira trôpega e lenta, demonstrava ser dono de
impressionante musculatura.
— Prazer em conhecê-la, Mrs. Beresford — respondeu.
Tinha voz simpática e sorria. Por um breve instante, porém,
Tuppence ficou com a impressão de que não poderia
afirmar, com absoluta certeza, que "regulasse bem". Havia
uma espécie de ingenuidade atônita em seu olhar. Será que
Mrs. Perry decidira morar num lugar retirado por causa de
alguma deficiência mental do marido?
— Amos gosta imensamente de trabalhar no jardim —
explicou a esposa.
Com a chegada dele, o assunto esfriou. Mrs. Perry
continuou conversando, mas sua personalidade parecia ter
mudado. Falava com um pouco de nervosismo e dando
atenção especial ao marido. Incentivando-o, achou
Tuppence, à semelhança de uma mãe que forçasse um filho
tímido a participar de conversa para brilhar na frente da
visita e receasse que se mostrasse insuficiente. Tuppence
terminou c chá e levantou-se.
— Preciso ir — disse. — Muito obrigada pela hospitalidade,
Mrs. Perry.
— Não quer olhar o jardim antes? — sugeriu Mr. Perry,
pondo-se em pé. — Venha, vou lhe mostrar.
Saiu em companhia dele. Levou-a ao recanto onde estivera
cavando a terra.
— Bonitas flores, não? — perguntou. — Tem umas rosas
aqui que nem se plantam mais... Veja esta, raiada de
vermelho e branco.
— Comandante Beaurepaire — classificou Tuppence.
— A gente por essas bandas chama de "York e Lancaster" —
explicou Perry. — A Guerra das Rosas. Que perfume bom,
não é?
— Maravilhoso.
— Melhor que o dessas rosas-chá que andam por aí. De
certo modo, o jardim chegava a ser comovente. As ervas
daninhas invadiam os canteiros, mas as flores estavam
cuidadosamente arrumadas, de uma maneira mal feita.
— Cores alegres — continuou Mr. Perry. — Eu gosto de
cores vivas. Às vezes vem gente pra ver nosso jardim. Fiquei
contente com sua visita.
— Muito obrigada — agradeceu Tuppence. — Acho o
jardim e a casa de fato lindos.
— Devia ver a parte da frente.
— Está por alugar ou à venda? Sua esposa disse que não tem
inquilinos atualmente.
— Não se sabe. A gente nunca vê ninguém, não botaram
placa de anúncio e não aparecem pretendentes.
— Creio que seria uma ótima moradia.
— Está procurando casa?
— Estou — respondeu Tuppence, numa decisão instantânea.
— Sim, pra ser franca, andamos atrás de um lugarzinho no
interior, pra quando meu marido se aposentar. Será no
próximo ano, provavelmente, mas preferimos procurar com
bastante antecedência.
— Pra quem gosta de sossego, é ideal.
— Talvez eu pudesse me informar nas imobiliárias locais.
Foi assim que conseguiram esta?
— Primeiro vimos o anúncio no jornal. Depois é que fomos
falar na imobiliária.
— Onde era... em Sutton Chancellor?" É a aldeia mais
próxima, não é?
— Sutton Chancellor? Não. O escritório fica em Market
Basing. Chama-se Russell & Thompson. Pode ir lá se
informar.
— Sim, boa ideia — disse Tuppence. — Qual é a distância
daqui até Market Basing?
— Três quilômetros até Sutton Chancellor e de lá até Market
Basing são mais dez. Entre as duas tem uma estrada boa, mas
daqui até Sutton Chancellor é tudo ruim.
— Compreendo — retrucou Tuppence. — Bem. adeus, Mr.
Perry e muito obrigada por ter mostrado o jardim.
— Espere aí.
Abaixou-se, colheu uma imensa peônia e segurando
Tuppence pela lapela do casaco, enfiou-a na botoeira.
— Pronto. Agora sim. Ficou bonito.
Por um momento, Tuppence sentiu um pânico repentino.
Aquele homenzarrão desajeitado e bem intencionado de
repente causou-lhe medo. Olhava-a sorridente, para baixo,
de uma maneira meio louca, quase lasciva.
— Ficou bonito — repetiu. — Bonito.
— "Ainda bem que não sou moça... — refletiu Tuppence. —
Se fosse, acho que não gostaria de que ele pusesse uma flor
em mim."
Despediu-se de novo e afastou-se às pressas.
Abriu a porta da casa e entrou para dizer adeus a Mrs. Perry.
Estava na cozinha, lavando as coisas do chá e Tuppence,
num reflexo maquinal, tirou um pano da prateleira e
começou a enxugar a louça.
— Agradeço muito à senhora e a seu marido — disse.
— Foram tão gentis e hospitaleiros comigo... Que foi isso?
Da parede da cozinha, ou melhor, de trás da parede, no lugar
onde outrora ficava um fogão antigo, veio um grito agudo,
seguido de um grasnido e de um barulho de arranhões,
também.
— Deve ser uma gralha — informou Mrs. Perry, — que caiu
pela chaminé da casa da frente. Sempre acontece nesta
época do ano. Na semana passada caiu uma na nossa. Elas
fazem ninhos nas chaminés, sabe?
— O quê... na outra casa?
— É sim, ouça só.
Escutou-se novamente os guinchos e os gemidos de um
pássaro aflito.
— Lá não tem ninguém pra acudir — disse Mrs. Perry.
— As chaminés precisavam ser limpas e tudo mais.
O barulho das garras debatendo-se contra os muros
continuava.
— Pobre bicho — comentou Tuppence.
— Eu sei. Não poderá erguer-se de novo.
— Quer dizer que vai simplesmente morrer ali dentro?
— Ah é. A que desceu pela nossa, como eu disse, duas aliás,
uma era filhote, não se machucou. Soltamos e saiu voando.
A outra estava morta.
A luta frenética e os guinchos prosseguiram.
— Oh — exclamou Tuppence — quem dera que se pudesse
fazer alguma coisa.
Mr. Perry apareceu na porta.
— Que foi que houve? — perguntou, olhando para as duas
mulheres.
— É uma gralha. Amos. Deve estar na chaminé da sala de
visitas do vizinho. Ouviu?
— É, caiu do ninho lá em cima.
— Será que não dá pra fazer nada? — perguntou Mrs. Perry.
— Não dá, não. Só com o susto elas já morrem.
— Mas e depois, o fedor? — retrucou.
— Não vem até cá. Vocês têm o coração mole —
acrescentou, olhando para ambas — como todas as
mulheres. Se quiserem, posso ir ver.
— Como, há alguma janela aberta?
— A gente passa pela porta.
— Qual?
— Uma que existe aí no pátio. A chave está pendurada lá
fora.
Saiu e encaminhou-se a uma porta pequena num canto da
parede. Abriu-a. Comunicava com uma espécie de estufa,
por onde havia acesso à outra parte da casa. Pendurado num
prego, havia um molhe de seis ou sete chaves enferrujadas.
— Esta serve — disse Mr. Perry.
Apanhou uma e enfiou na fechadura. À custa de muito
esforço e persuasão, girou com um rangido.
— Já entrei antes — explicou, — quando escutei água
correndo. Alguém tinha esquecido de fechar bem a torneira.
As duas mulheres foram atrás dele. A porta conduzia a um
quartinho que ainda continha uma pia e vários vasos de
flores numa prateleira.
— Aqui, no mínimo, costumavam arrumar as flores. Viram?
Deixaram uma porção de vasos ainda.
A porta desse quartinho nem sequer estava trancada. , Ele a
abriu e entraram. Tuppence teve a sensação de estar
penetrando em outro mundo. Havia um tapete de pêlo no
chão do corredor. Pouco mais adiante via-se uma passagem
entreaberta, de onde vinham os sons de asas esvoaçantes.
Amos empurrou a porta e Mrs. Perry e Tuppence seguiram-
no.
Apesar das janelas se acharem fechadas, um lado de
veneziana pendia solto, deixando passar a claridade. Com
toda a penumbra, distinguia-se um tapete desbotado, mas
ainda bonito, de uma cor verde-garrafa. Uma estante de
livros na parede. Não havia nenhuma mesa nem cadeiras.
Sem dúvida a mobília fora removida, ficando as cortinas e
tapeçarias como acessórios a serem entregues ao próximo
inquilino.
Mrs. Perry aproximou-se da lareira. Um pássaro se debatia
na grade, emitindo guinchos agudos de aflição. Abaixou-se,
apanhou-o e disse:
— Veja se dá pra abrir a janela, Amos.
Amos afastou a veneziana para um lado, desprendeu a outra
metade e depois forçou o trinco da vidraça. Levantou o
caixilho inferior com um ruído áspero. Mal conseguiu abrir,
Mrs. Perry curvou-se para fora e soltou a gralha. Caiu
pesadamente na relva e ensaiou alguns passos.
— É melhor matar — sugeriu Perry. — Está ferida.
— Espere um pouco — retrucou a esposa. — Nunca se sabe.
Os pássaros se recuperam muito depressa. É o medo que os
deixa com esse ar de paralíticos.
Dito e feito. Momentos após, a gralha, num derradeiro
esforço, um guincho e um bater de asas, erguia vôo.
— Faço votos — disse Alice Perry, — que não caia outra
vez pela chaminé. Esses bichos têm espírito de contradição.
Não sabem o que lhes convém. Entram numa sala de onde
nunca mais conseguem sair. Oh — exclamou, — que
porcaria!
Ela, Tuppence e Mr.. Perry olharam todos para a lareira.
Desabara uma nuvem de fuligem, restos de entulho e tijolos
quebrados. Obviamente estava em mau estado há muito
tempo.
— Alguém precisava vir morar aqui — comentou Mrs.
Perry, olhando ao redor.
— Ou cuidar da casa — concordou Tuppence. — Algum
construtor devia examiná-la ou fazer qualquer coisa antes
que venha tudo abaixo.
— Provavelmente passa água pelo telhado nos quartos lá em
cima. Sim, olhem só o teto. Infiltrou-se por ali.
— Oh, que lástima — disse Tuppence — arruinar uma casa
tão bonita... é realmente uma sala linda, não?
Ela e Mrs. Perry giraram os olhos em torno, com apreciação.
Construída por volta de 1790, possuía toda a graciosidade de
uma residência da época. Ainda se enxergavam as folhas de
salgueiro que tinham decorado primitivamente o papel da
parede.
— Agora está um escombro — declarou Mr. Perry.
Tuppence remexeu nos detritos da lareira.
— Seria melhor varrer — achou Mrs. Perry.
— Ora, pra que se incomodar com uma casa que não é sua?
— retrucou o marido. — Deixe como está, mulher. Amanhã
de manhã ficará tudo sujo de novo do mesmo jeito.
Tuppence empurrou os tijolos para um lado com o pé.
— Oh — exclamou, repugnada.
Havia dois pássaros mortos caídos no chão. Pelo aspecto, já
tinham morrido há algum tempo.
— Foi o ninho que desmoronou faz uma porção de semanas.
É de admirar que o fedor não seja maior — opinou Perry.
— Que coisa é essa? — perguntou Tuppence.
Tocou o sapato em algo meio escondido pelo entulho.
Depois abaixou-se e pegou com a mão.
— Não toque num pássaro morto — preveniu Mrs. Perry.
— Não é pássaro — respondeu Tuppence. — Caiu outra
coisa pela chaminé. Ora, já se viu — acrescentou, de olhos
arregalados. — É uma boneca. Uma boneca de criança.
Todos se aproximaram. Rasgada, em farrapos, com a roupa
estraçalhada, a cabeça pendida dos ombros, era o que
sobrava de uma boneca. Um olho de vidro saltou. Tuppence
ficou com ela na mão.
— Eu só queria saber — disse — como é que foi parar
dentro da chaminé. Que coisa extraordinária.
8 - Sutton Chancellor

SAINDO DA CASA do canal, Tuppence partiu de carro
lentamente pela estreita senda sinuosa que lhe asseguraram
que levava à aldeia de Sutton Chancellor. Era um caminho
isolado. Não se viam casas de lado nenhum... apenas
porteiras por onde seguiam trilhas lamacentas. Pouquíssimo
tráfego... encontrou um trator e um caminhão anunciando
ufano que transportava O Prazer de Mamãe, com o desenho
de um pão descomunal e insólito. O campanário de igreja
que avistara à distância parecia ter sumido como por
encanto. Finalmente reapareceu, bem perto, após uma curva
repentina e fechada ao redor de um cinturão de árvores.
Tuppence olhou de relance o velocímetro e verificou que
andara três quilômetros desde a casa do canal.
Era um bonito templo antigo, erigido no centro de um
cemitério bastante grande, com um teixo solitário ao lado do
pórtico de entrada.
Tuppence deixou o carro do lado de fora do portão
alpendrado, cruzou o limiar e ficou alguns instantes imóvel,
examinando a igreja e os arredores. Depois aproximou-se,
passando pelo arco normando e erguendo a pesada
maçaneta, que não estava trancada.
O interior não apresentava nenhum atrativo. Era um templo
antigo, incontestavelmente, porém sofrera uma reforma
rigorosa na era vitoriana. Os bancos pretos de pinho e os
berrantes vitrais vermelho e azul haviam arruinado todo o
encanto arcaico que outrora possuíra. Uma mulher de meia-
idade, vestida com um costume de mescla, arranjava flores
nos vasos de metal em torno do púlpito. Já aprontara o altar.
Virou-se com um vivo olhar de curiosidade para Tuppence,
que perambulava pelo corredor a contemplar as tabuletas
comemorativas nas paredes. Uma família de nome
Warrender parecia figurar com enorme destaque nos
primeiros anos. Todos do Priorado, Sutton Chancellor.
Capitão Warrender, Major Warrender, Sarah Elisabeth
Warrender, extremada esposa de George Warrender. Uma
placa mais recente registrava o falecimento de Júlia Starke
(outra esposa extremada) de Philip Starke, também do
Priorado, Sutton Chancellor... o que provavelmente indicava
que os Warrenders não tinham deixado descendentes.
Nenhum oferecia sugestão ou interesse especial. Tuppence
tornou a sair da igreja, percorrendo-a pelo lado externo.
Achou a parte de fora muito mais bonita. "Gótico
Perpendicular e Decorado",* disse para si mesma,
familiarizada com os termos da arquitetura eclesiástica. Não
sentia o menor entusiasmo pelo começo do período
perpendicular.
Era um templo relativamente grande e imaginou que a aldeia
de Sutton Chancellor devia ter sido outrora um centro de
vida rural bem mais importante do que atualmente.
Abandonou o carro estacionado no lugar e dirigiu-se ao
povoado. Havia uma loja, uma agência de correio e cerca de
uma dúzia de pequenas casas ou chalés. Um ou outro
possuía telhado de colmo, mas os demais eram simples e
corriqueiros. No fim da rua enfileiravam-se seis moradias
municipais, com um ar ligeiramente constrangido. Uma
placa de metal numa das portas anunciava "Arthur Thomas,
Limpador de Chaminés".
Tuppence teria curiosidade de saber se alguma imobiliária
criteriosa contrataria os serviços dele para a casa do canal,
que certamente estava precisando. Como fora burra, pensou,
em não perguntar o nome que tinha.
Voltou devagar à igreja e ao carro, parando para examinar os
arredores mais detidamente. Gostou do cemitério. Existiam
pouquíssimos túmulos recentes. A maioria das lápides
assinalava sepulturas vitorianas e outras ainda mais antigas...
semidestruídas pela ação corrosiva do líquen e do tempo. As
velhas pedras eram lindas. Algumas se resumiam em chapas
verticais, encimadas por querubins e com coroas ao redor.
Andou ao léu, lendo os dizeres. Warrenders novamente.
Mary Warrender, de 47 anos de idade, Alice Warrender, de
33, o Coronel John Warrender, morto no Afeganistão.
Várias crianças pertencentes à família... saudades eternas... e
versos eloquentes de otimismo religioso. Viveria ainda
algum Warrender? Pelo visto, não eram mais enterrados ali.
Os últimos túmulos datavam de 1843. Contornando o
grande teixo, deparou com um velho sacerdote, curvado
sobre uma fileira de lápides antigas perto de um muro atrás
da igreja. Quando ela se aproximou, o ancião endireitou o
corpo e virou-se.
— Boa tarde — cumprimentou afável.
— Boa tarde — respondeu Tuppence, explicando: — Estive
admirando a igreja.
— Arruinada pela restauração vitoriana — afirmou o pastor.
A voz era agradável e o sorriso simpático. Aparentava
setenta anos, mas Tuppence presumiu que não devia ser tão
velho assim, embora estivesse certamente reumático e um
pouco trêmulo nas pernas.
— O dinheiro corria a rodo na época — comentou com
tristeza. — Manufatores de ferro em demasia. Eram devotos
mas infelizmente não possuíam o menor senso artístico.
Nenhum gosto. Viu a ala leste? — perguntou, estremecendo.
— Vi — disse Tuppence. — Horrível.
— Tem toda a razão. Sou o ministro — acrescentou, embora
fosse óbvio.
— Achei que era — disse Tuppence, cortês. — Faz muito
que oficia aqui?
— Dez anos, minha cara. É uma boa paróquia. As poucas
pessoas que existem são simpáticas. Não gostam muito de
meus sermões — explicou, pesaroso. — Faço o possível, mas
é claro que não consigo fingir que seja realmente moderno.
Sente-se — convidou, hospitaleiro, acenando para uma
sepultura vizinha.
Tuppence aceitou, grata pela idéia, e o pastor fez o mesmo
noutra ao lado.
— Não posso ficar muito tempo em pé — desculpou-se. —
Desejava alguma coisa ou está apenas de passagem?
— Olhe, pra ser franca, apenas de passagem — respondeu
Tuppence. — Resolvi dar somente uma olhada na igreja. Me
perdi um pouco andando de carro por essas estradas.
— Ah é. Difícil à beça pra gente se orientar nesta região.
Uma porção de postes indicadores estragou, sabe, e o
município não trata de consertar. Em geral, quem passa de
carro por aqui não pretende ir a nenhum lugar certo. Do
contrário não sairia das rodovias principais. Horrível —
acentuou de novo. — Especialmente a nova auto-pista. Pelo
menos na minha opinião. O barulho, a velocidade e os
motoristas imprudentes. Mas, ora! Não preste atenção ao que
digo. Sou um velho ranzinza.
— Notei que estava examinando alguns túmulos — disse
Tuppence. — Houve atos de vandalismo? Adolescentes
quebrando pedaços?
— Não. Fica-se de fato pensando nisso hoje em dia, com
tantas cabines telefônicas destruídas e todas essas outras
coisas que esses vândalos cometem. Pobres crianças,
suponho que não saibam o que fazem. São incapazes de
encontrar melhor divertimento que destroça tudo pela
frente. Uma tristeza, não é mesmo? Realmente. Não —
prosseguiu, — não houve danos dessa espécie por aqui. Os
rapazes da localidade, de modo geral, são ajuizados. Não,
estou apenas procurando a sepultura de uma criança.
Tuppence agitou-se no túmulo.
— De uma criança? — perguntou.
— Sim. Recebi uma carta de um tal Major Waters,
indagando se por acaso não tinha sido enterrada neste
cemitério. Verifiquei no registro paroquial, lógico, mas não
hã ninguém com esse nome. Mesmo assim, vim até cá dar
uma olhada nas lápides. Julguei, sabe, que talvez houvesse
equívoco de nome ou então um puro e simples engano.
— Qual era o nome de batismo? — perguntou Tuppence.
— Não sabia. Talvez Júlia, por causa da mãe.
— Que idade tinha?
— Também não sabia ao certo... Um tanto vaga, a história
toda. Creio que o sujeito deve ter-se enganado inclusive de
aldeia. Não me lembro de nenhum Waters que jamais tenha
morado aqui, nem sequer de referência.
— E o que me diz dos Warrenders? A igreja parece repleta
de placas deles, sem falar na maioria das sepulturas aqui fora.
— Ah, essa família já desapareceu por completo. Possuíam
uma magnífica propriedade, um velho Priorado do século
XIV. Houve um incêndio... oh, há quase cem anos, de modo
que imagino que os Warrenders que sobreviveram foram
embora e nunca mais voltaram. Um rico proprietário da era
vitoriana, chamado Starke, construiu uma casa nova no
local. Feia, porém confortável, dizem. Muito confortável.
Com banheiros, sabe, e tudo mais. Presumo que essa espécie
de coisa seja importante.
— Parece de fato estranho que alguém lhe escrevesse a fim
de indagar sobre o túmulo de uma criança. Quem era...
algum parente?
— O pai da menina explicou o pastor. — Uma dessas
tragédias da guerra, imagino. Um casamento que fracassou
enquanto o marido estava servindo no exterior, A esposa
jovem fugiu com outro homem durante a ausência do chefe
da casa. Havia uma filha, que ele nem chegou a conhecer. Se
ainda estivesse viva, hoje seria uma moça feita, acho eu.
Deve fazer mais de vinte anos.
— Não lhe parece que ele esperou muito tempo pra
procurá-la?
— Pelo visto só soube da sua existência recentemente. Teve
a informação por mera casualidade. A história toda é bem
curiosa.
— Por que é que ele pensa que estivesse enterrada aqui?
— Eu entendi que alguém, que encontrou a esposa na época
da guerra, lhe contou que ela vivia em Sutton Chancellor.
Essas coisas acontecem, sabe? A gente depara com um
amigo ou conhecido que não vê há séculos e às vezes recebe
notícias que nunca ficaria sabendo por outro meio qualquer.
O que é certo, porém, é que ela não mora mais na
localidade. Jamais houve uma pessoa com esse nome por
aqui... pelo menos desde que vim pra cá. E ao que eu saiba,
tampouco nas redondezas. Claro que a mãe podia ter
adotado outra identidade. Em todo caso, parece que o pai
recorreu a procuradores, agentes de sindicância e coisas
assim, que provavelmente conseguirão algum resultado no
fim. Levará tempo... — A coitadinha era sua filha? —
murmurou Tuppence.
— Como disse, minha cara?
— Nada — respondeu. — Algo que uma pessoa me falou
outro dia. A coitadinha era sua filha? É assombroso ouvir
uma pergunta dessas de repente. Mas eu francamente não
acho que a velhinha que disse isso soubesse o que estava
dizendo.
— Sei. Sei. Comigo sucede o mesmo. Digo coisas realmente
sem nexo. Um vexame.
— Imagino que saiba tudo a respeito das pessoas que vivem
atualmente aqui.
— Bem, certamente não são muitas. Sei, sim. Por quê?
Queria alguma informação?
— Gostaria de saber se uma tal de Mrs. Lancaster nunca
morou em Sutton Chancellor.
— Lancaster? Não, não me lembro desse nome.
— E havia uma casa... eu hoje estava andando de carro a
esmo... sem me preocupar muito aonde ia parar, só tomando
estradas...
— Sei. As desta região são agradáveis. E a gente encontra
espécimes raros. Botânicos, quero dizer. Aí pelas cercas.
Ninguém colhe as flores. Nunca aparece um turista ou coisa
parecida. Sim, já achei alguns exemplares bem raros, às
vezes. Certos tipos de campânulas, por exemplo...
— Havia uma casa à beira de um canal — continuou
Tuppence, recusando-se a mudar de assunto. — Perto de
uma pontezinha em arco. A uns três quilômetros daqui.
Gostaria de saber como se chama.
— Deixe eu ver. Canal... ponte em arco. Bem... há várias
desse tipo. A Granja Merricot.
— Não era granja.
— Ah, espere, deve ser a dos Perrys... Amos e Alice Perry.
— Isso mesmo — disse Tuppence. — Mr. e Mrs. Perry.
— Mulher interessante, não acha? Sempre me pareceu. Tem
uma cara inesquecível. Medieval, pode-se dizer. Vai fazer o
papel da bruxa na peça que estamos ensaiando. O colégio
primário, sabe? Ela lembra mesmo uma bruxa, não é?
— Sim — concordou Tuppence. — Uma bruxa camarada.
— Acertou em cheio, minha cara. De fato, uma bruxa
camarada.
— Mas ele...
— Sim, coitado — disse o ministro. — Não é de todo
compôs mentis..., porém inofensivo.
— São muito simpáticos. Me convidaram pra tomar chá. No
entanto, o que eu queria saber era o nome da casa. Esqueci
de lhes perguntar. Eles ocupam apenas a metade, não?
— Sim, realmente. A que costumava pertencer à antiga
cozinha. Chamam-na de "Waterside", acho eu, embora creia
que antes fosse "Watermead". Era mais bonito, na minha
opinião.
— A quem pertence a outra parte?
— Bem, a casa toda era propriedade dos Bradleys. Mas isso
foi há muito tempo. Sim, eu diria uns trinta ou quarenta
anos, no mínimo. Depois venderam, uma, duas vezes e aí
permaneceu desocupada durante um período enorme.
Quando cheguei aqui estava sendo usada somente como
uma espécie de lugar pra passar o fim-de-semana. Por uma
atriz... Miss Margrave, parece. Não era vista com muita
freqüência por lá. Costumava vir apenas de vez em quando.
Nunca a conheci. Jamais apareceu na igreja. Houve ocasiões
em que a enxerguei de longe. Bonita mulher. Realmente
linda.
— Quem é o dono atual? — insistiu Tuppence.
— Não tenho idéia. É provável que ainda seja ela. O lado em
que os Perry moram é só alugado.
— Eu reconheci a casa logo, sabe? Havia um quadro em que
ela aparecia.
— Ah é? Decerto foi pintado por Boscombe. Ou será que era
Boscobel? Não me lembro direito do nome dele. Algo
semelhante. Nascido na Cornualha, pintor bem famoso,
creio eu. Calculo que hoje seja morto. Sim, costumava vir
bastante seguido por aqui. Desenhava tudo que encontrava
na região. Pintava a óleo, também. Paisagens realmente
bonitas.
— Este quadro que eu tenho — explicou Tuppence, — foi
dado de presente a uma velha tia minha, que faleceu há
cerca de um mês, por uma tal de Mrs. Lancaster. Por isso
perguntei se o senhor a conhecia.
O ministro, porém, tornou a sacudir a cabeça.
— Lancaster? Lancaster. Não, não consigo me lembrar. Ah!
Mas tem alguém que deve saber. Nossa querida Miss Bligh.
Vive correndo de um lado pro outro, conhece a paróquia de
ponta à ponta. Dirige tudo. O Instituto Feminino, os
Escoteiros, os Guias — tudo enfim. Pergunte a e/a. É muito
ativa, muito diligente, mesmo.
Deu um suspiro. A atividade de Miss Bligh parecia inquietá-
lo.
— Na aldeia, todos a chamam de Nellie Bligh. Os garotos, às
vezes, saem cantando atrás: Nellie Bligh, Nellie Bligh. Mas
não é o nome dela. Deve ser algo assim como Gertrude ou
Geraldine.
Miss Bligh, que era a mulher trajada de mescla que
Tuppence tinha visto na igreja, aproximava-se deles num
passo rápido, ainda carregando um pequeno regador. Olhou
a forasteira com grande curiosidade, apressando-se mais e
começando a conversa antes de chegar perto.
— Ufa, terminei o trabalho — anunciou risonha. — Hoje foi
um pouco na correria. Ah, como me afobei. Claro, o senhor
sabe, ministro, geralmente apronto a igreja de manhã. Mas
hoje tivemos uma reunião de emergência no salão paroquial
e nem é capaz de imaginar o tempo que demorou! Tanta
discussão! Só vendo. Às vezes realmente acho que as pessoas
fazem objeções apenas pra se divertirem. Mrs. Fartington
estava especialmente irritante. Queria esmiuçar cada
questão, sabe como é, e apurar se a gente havia aberto
concorrência entre diversas firmas. Ora, afinal de contas, a
história toda vai custar tão pouco que uma diferença de
alguns xelins aqui ou ali quase não altera nada. E a
Burkenheads sempre foi de inteira confiança. Olhe,
ministro, eu acho que o senhor não devia sentar de jeito
nenhum nesse túmulo.
— Por respeito, talvez? — sugeriu ele.
— Oh, não, não, claro que não me referia a isso, de modo
algum, ministro. Mas é a pedra, sabe, a umidade que
transmite e com seu reumatismo...
Olhou de esguelha para Tuppence, com uma expressão
interrogativa.
— Deixe-me apresentar-lhe Miss Bligh — disse o clérigo. —
Esta é... esta é... — hesitou.
— Mrs. Beresford — esclareceu Tuppence.
— Ah sim — respondeu Miss Bligh. — Enxerguei-a há
pouco na igreja, não foi, enquanto dava uma olhada? Se não
estivesse tão apressada pra terminar o trabalho, teria puxado
conversa, chamando sua atenção pra alguns detalhes
interessantes.
— Eu é que devia ter-me oferecido pra ajudá-la — protestou
Tuppence, no seu tom mais simpático. — Mas não ia
adiantar grande coisa, não é mesmo? Logo vi que sabia o
lugar exato de cada flor.
— Olhe, é muita bondade sua dizer isso, porém de fato tem
razão. Arrumo as flores na igreja há... oh, nem sei há
quantos anos já! Nós deixamos as crianças da escola
enfeitarem as festas com seus próprios vasos d'e flores
silvestres, embora naturalmente os pobrezinhos não tenham
a mínima idéia. Eu acho que com um pouco de orientação...
mas Mrs. Peak nem quer ouvir falar. É tão escrupulosa. Diz
que prejudica o espírito de iniciativa. Está hospedada por
aqui? — perguntou.
— Pretendia ir a Market Basing — respondeu Tuppence. —
Talvez pudesse me indicar um bom hotel sossegado lá?
— Bem, creio que se decepcionará um pouco.. É apenas um
pequeno centro de comércio, sabe? Não estimula a
curiosidade dos automobilistas. O "Dragão Azul" pertence à
categoria de duas estrelas, embora eu realmente não julgue
que esse sistema de classificação às vezes signifique coisa
alguma. Acho que há de preferir "O Cordeiro". Mais
tranqüilo, compreende? Pretende demorar-se muito?
— Oh não — disse Tuppence, — somente um dia ou dois,
enquanto dou uma olhada pelos arredores.
— Não há muita coisa pra ver, tenho a impressão. Nenhuma
antiguidade interessante ou algo no gênero. Constituímos
um distrito puramente rural e' agrícola — explicou o
ministro. — Mas calmo, sabe, muito calmo. Como lhe disse,
por aqui há flores silvestres bastante raras.
— Ah é— concordou Tuppence. — Ouvi falar e estou
ansiosa pra colher certos exemplares enquanto procuro uma
casa pra morar — acrescentou.
— Oh, mas que interessante — exclamou Miss Bligh. —
Tenciona morar por aqui?
— Bem, meu marido e eu não nos decidimos precisamente
por nenhuma região especial. Não temos pressa. Ele só vai se
aposentar dentro de um ano e meio. Mas acho sempre bom
já ir procurando. Pessoalmente, o que eu gosto de fazer é
ficar num distrito durante quatro ou cinco dias, organizar
uma lista de pequenas propriedades adequadas e visitá-las de
carro. Vir especialmente de Londres, por apenas vinte e
quatro horas, pra ver uma casa determinada me parece
muito cansativo.
— Ah, claro. Veio de carro, então?
— Sim — respondeu Tuppence. — Tenho de falar com um
corretor de imóveis amanhã de manhã em Market Basing.
Aqui na aldeia não existe lugar nenhum, suponho, em que
pudesse me hospedar, não?
— Bem, tem Mrs. Copleigh — disse Miss Bligh. — Ela aceita
pessoas nas férias, sabe? Veranistas. Uma beleza de higiene.
Todos os quartos são muito limpos. Naturalmente só dá
cama e café pela manhã, no máximo uma ligeira refeição à
noite. Porém não creio que hospede ninguém antes de
agosto ou julho, no máximo.
— Quem sabe não seria melhor eu ir vê-la? — sugeriu
Tuppence.
— É uma mulher incrível — avisou o pastor. — Tagarela
que só vendo. Nunca pára de falar, nem um minuto.
— Nesses lugarejos pequenos sempre há muito mexerico e
bisbilhotice — disse Miss Bligh. — Acho que seria uma boa
idéia se eu auxiliasse Mrs. Beresford. Posso levá-la até Mrs.
Copleigh pra verificar as possibilidades.
— É muita bondade sua — agradeceu Tuppence.
— Então vamos de uma vez —. decidiu Miss Bligh animada.
— Até logo, ministro. Ainda à procura? Uma triste
incumbência e tão improvável de obter êxito. Continuo
achando que foi um pedido extremamente despropositado
que lhe fizeram.
Tuppence despediu-se do pastor, declarando que teria muito
prazer em ajudá-lo se pudesse.
— Posso passar facilmente uma hora ou duas examinando
estes túmulos. Tenho visão muito boa para minha idade. É
apenas o nome Waters que lhe interessa?
— Não propriamente — respondeu. — É a idade que
importa mais, creio eu. Seria, talvez, uma criança de sete
anos. Uma menina. O Major Waters acha que a esposa
talvez tivesse trocado de nome e que a filha provavelmente
havia de ser conhecida pelo novo que adotara. E como ele
não sabe qual seja, torna tudo muito difícil.
— Na minha opinião, a história toda é absurda — afirmou
Miss Bligh. — Nunca devia ter aceito uma coisa dessas,
ministro. É uma monstruosidade sugerir algo desse tipo.
— O pobre coitado parece tão transtornado — disse o
pastor. — Pelo que pude deduzir, a situação é realmente
triste. Mas fica pra outra ocasião.
Enquanto caminhavam juntas, Tuppence pensou consigo
mesma que, por pior que fosse a reputação de faladeira de
Mrs. Copleigh, dificilmente conseguiria superar Miss Bligh.
A mulher era uma verdadeira torrente de afirmações rápidas
e ditatoriais.
O bangalô de Mrs. Copleigh resultou agradável e espaçoso,
afastado da rua da aldeia por um jardim florido e bem
cuidado na frente, uma entrada toda branca e uma maçaneta
de metal de brilho imaculado. A própria Mrs. Copleigh dava
a impressão de ter saído das páginas de Dickens. Baixinha e
roliça, rolava na direção da gente que nem uma bola de
borracha. Tinha olhinhos cintilantes, cabelo louro enrolado
em cachos que lembravam salsichas no alto do crânio e um
ar de tremenda energia. Depois de revelar uma certa dúvida
de inicio... "Bem, geralmente não aceito, sabe? Não. Meu
marido e eu dizemos veranistas, é diferente. Quem pode,
hoje em dia faz o mesmo. São até obrigados, tenho certeza.
Mas não nesta época do ano. Ah, não. Não antes de julho.
Em todo caso, se for só por uns dias e a senhora não reparar
na desordem, talvez..."
Tuppence afirmou que não reparava, não e Mrs. Copleigh,
depois de examiná-la detidamente, sem interromper a
fluência da conversa, convidou-a a subir para olhar o quarto,
pois, quem sabe pudesse dar-se um jeito...
A essa altura, Miss Bligh retirou-se com certo pesar por não
ter conseguido arrancar de Tuppence todas as informações
que queria; por exemplo: de onde viera, o que o marido
fazia, que idade tinha, se possuíam filhos e outras questões
de interesse. Mas pelo jeito teria de presidir uma reunião em
sua casa, e parecia atemorizada ante o risco de que alguém
pudesse arrebatar-lhe a cobiçada posição.
— Ficará muito bem com Mrs. Copleigh — garantiu a
Tuppence, — tenho certeza de que há de cuidar bem da
senhora. E que pretende fazer com o carro?
— Oh, depois eu busco — respondeu Tuppence. — Mrs.
Copleigh me dirá onde convém deixá-lo. Acho que não faz
mal aqui na frente. A rua não é muito estreita, não é
mesmo?
— Ora, meu marido arranja uma solução melhor —
prometeu Mrs. Copleigh. — Ele leva até o campo, logo
depois deste lado da rua. Lá fica ótimo. Pode ser guardado
num galpão que existe perto.
Combinou-se tudo cordialmente nessa base e Miss Bligh -
saiu apressada para atender seu compromisso. O problema
seguinte foi o jantar. Tuppence indagou se havia uma
taverna na aldeia.
— Ah, não temos nenhuma que uma senhora possa
freqüentar — explicou Mrs. Copleigh, — mas se se
contentar com dois ovos, uma fatia de presunto e talvez um
pouco de geléia feita em casa com pão...
Tuppence disse que seria esplêndido. O quarto era pequeno,
porém alegre e simpático, revestido de papel de parede com
botões de rosa, uma cama de aspecto confortável e um ar
geral de perfeita limpeza.
— Sim, o papel da parede é lindo, moça — declarou Mrs.
Copleigh, pelo visto resolvida a atribuir a Tuppence a
condição de celibatária. — Escolhemos com a idéia nos
pares recém-casados que viriam passar a lua-de-mel aqui.
Romântico, se sabe o que eu quero dizer.
Tuppence concordou que romance era uma coisa muito
desejável.
— Quem casa atualmente nunca tem muito dinheiro pra
gastar. Antes era diferente. A maioria, compreende,
economiza pra comprar uma casa, quando já não pagaram
uma entrada. Ou precisam adquirir a mobília a crédito e não
sobra nada pra uma lua-de-mel extravagante ou qualquer
coisa no gênero. Essa gente moça, sabe, é quase toda muito
previdente. Não bota dinheiro fora.
Desceu a escada de novo com estrépito, continuando a falar
com a mesma animação. Tuppence deitou-se na cama para
dormir meia hora após um dia bastante exaustivo.
Depositava, porém, grandes esperanças em Mrs. Copleigh,
sentindo que, uma vez recuperada por completo,
conseguiria levar a conversa para assuntos mais produtivos.
Estava certa de que descobriria tudo o que lhe interessava a
respeito da casa do canal: quem residira lá, quem gozava de
má ou boa reputação na região, quais os escândalos que
havia e outros tópicos semelhantes. Ficou mais convencida
disso do que nunca ao ser apresentada a Mr. Copleigh,
homem que mal abria a boca para falar. Sua palestra se
resumia em resmungos corteses, em geral indicando
anuência. E às vezes, num rumor mais discreto,
discordância.
A julgar pelas aparências, satisfazia-se em deixar a conversa a
cargo da esposa. Manteve-se quase todo o tempo distraído,
em parte ocupado com planos para o dia seguinte, que
parecia ser de feira.
Em relação a Tuppence, o êxito foi total. Podia ser
sintetizado num lema: "Se o que quer é informação, não
precisa mais procurar". Mrs. Copleigh funcionava tão bem
quanto um aparelho de rádio ou televisão. Bastava
comprimir o botão e as palavras jorravam, acompanhadas de
gestos e uma infinidade de expressões fisionômicas. Não só o
corpo lembrava uma bola infantil: o rosto oferecia a
mobilidade da borracha. As diversas pessoas sobre quem se
referia surgiam quase como caricaturas vivas diante dos
olhos da interlocutora.
Tuppence comeu bacon com ovos, fatias de pão repletas de
manteiga, elogiou a geléia de amoras feita em casa, "minha
predileta", proclamou com sinceridade, e fez o máximo para
assimilar o dilúvio de informações para depois anotar tudo
em sua agenda. Um panorama completo do passado daquele
distrito do interior parecia aberto à sua frente.
Mrs. Copleigh não obedecia à seqüência cronológica, o que
eventualmente dificultava a compreensão. Saltava de três '
lustros atrás a dois anos recentes ou ao mês precedente,
voltando logo a uma data qualquer da década dos vinte. O
conjunto exigiria uma seleção rigorosa. E Tuppence
imaginava se no fim chegaria a alguma conclusão.
O primeiro botão que apertou não produziu nenhum
resultado: uma referência a Mrs. Lancaster.
— Acho que ela morou por aqui — insinuou, emprestando
uma certa vagueza à voz. — Possuía um quadro... muito
bonito, feito por um pintor que me parece que era
conhecido na aldeia.
— Como é que ela se chamava mesmo?
— Mrs. Lancaster.
— Não, não me lembro de nenhum Lancaster nessa região.
Lancaster. Lancaster. Houve um acidente de carro com um
homem. Não, é no carro que estou pensando. Um
Lanchester, isto mesmo. Mrs. Lancaster? Não. Não seria
Miss Bolton, por acaso? Hoje teria uns setenta anos, mais ou
menos. Talvez tivesse casado com algum Mr. Lancaster. Ela
foi-se embora, viajou pelo exterior e de fato soube que havia
casado.
— O quadro que minha tia ganhou de presente era de um
pintor chamado Boscobel... creio eu — disse Tuppence. —
Que delícia de geléia.
— É que não misturo com maçã, como quase todo mundo
faz. Deixa mais consistente, dizem, mas tira praticamente o
sabor.
— Sim, tem toda a razão. De fato tira.
— Como era mesmo o nome do pintor? Começava por B,
porém não entendi direito.
— Boscobel, acho eu.
— Oh, me lembro bem de Mr. Boscowan. Espere um
pouco. Já deve fazer... quinze anos, no mínimo, que ele
apareceu por aqui. Veio vários anos consecutivos. É sim.
Gostou do lugar. Chegou a alugar um chalé. Era uma das
casas do granjeiro Hart, que ele mantinha prós empregados.
Só que o município construiu uma nova, sabe? Quatro, pra
falar a verdade, especialmente prós trabalhadores.
— Mr. B. era um verdadeiro artista — prosseguiu Mrs.
Copleigh. — Andava sempre com um paletó engraçado.
Uma espécie de veludo ou cotelê. Tinha buracos nos
cotovelos e ele usava camisas verdes e amarelas. Sério. Uma
vez fez uma exposição. Perto do Natal, me parece. Não,
claro que não, deve ter sido no verão. Não passava o inverno
aqui. Sim, muito bonita. Não que fosse do outro planeta,
sabe como é. Apenas uma casa com um par de árvores ou
duas vacas olhando de uma cerca. Mas tudo muito distinto,
discreto, com cores lindas. Não que nem esses caras moços
de hoje em dia.
— Aparecem sempre pintores por aqui?
— Realmente não. Nada que valha a pena mencionar. Uma
ou duas mulheres costumam vir no verão pra desenhar um
pouco, mas não me agradam de jeito nenhum. Tivemos um
rapaz no ano passado que se intitulava pintor. Não se
barbeava direito. Não posso dizer que gostasse dos quadros
dele. Umas cores esquisitas, tudo numa confusão, pra cá e
pra lá. Não dava pra identificar nada. Vendeu uma porção,
não há dúvida. E não custavam barato, note-se.
— Deviam custar cinco libras — opinou Mr. Copleigh,
entrando na conversa pela primeira vez, de modo tão
repentino que Tuppence levou um susto.
— O que o meu marido quer dizer — declarou Mrs.
Copleigh reassumindo sua função de intérprete conjugal, —
é que ele acha que nenhum quadro deveria custar mais que
cinco libras. As tintas não custam tanto assim. Não era isso
que você queria dizer, George?
— Hãhã — resmungou ele.
— Mr. Boscowan pintou uma paisagem da casa perto da
ponte e do canal... Waterside ou Watermead, não é como a
chamam? Passei por lá hoje.
— Ah, veio por aquela estrada, então? Não é muito boa, não
é mesmo? Estreita demais. Sempre achei triste aquela casa.
Eu é que não gostaria de morar lá. Muito solitária. Não
concorda, George?
George emitiu um grunhido que expressava leve
discordância e provavelmente desprezo pela covardia
feminina.
— É onde Alice Perry mora, por sinal — lembrou Mrs.
Copleigh.
Tuppence teve de abandonar suas pesquisas sobre Mr.
Boscowan para ouvir uma opinião sobre os Perrys. Já notara
que era sempre preferível acompanhar o fio de Mrs.
Copleigh, que mudava de assunto a todo instante.
— Casal esquisito aquele — sentenciou. George emitiu o seu
som de anuência.
— Vivem só pra si. Não convivem com ninguém, como se
diz. E ela anda por aí feito um espantalho, a Alice Perry.
— Louca — decretou Mr. Copleigh.
— Bem, não sei se chegaria a tanto. Ela parece louca, sem
dúvida. Com aquele cabelo desgrenhado. E usa quase sempre
casacos de homem e grandes botas de borracha. Diz coisas
estranhas e às vezes não responde quando a gente lhe faz
alguma pergunta. Mas eu não diria que seja louca.
Excêntrica, sim.
— Os outros gostam dela?
— Ninguém a conhece direito, embora morem ali há muitos
anos. Corre toda a espécie de boatos a respeito dela, mas
isso, afinal, é o que não falta.
— Que boatos?
Mrs. Copleigh nunca se incomodava com perguntas diretas:
acolhia-as com a solicitude de quem estivesse ansiosa por
responder.
— Consta que conjura espíritos à noite. Sentados ao redor da
mesa. E há histórias de luzes que andam pela casa quando já
está escuro. Dizem também que lê uma porção de livros
inteligentes. Com coisas desenhadas neles... círculos e
estrelas. Na minha opinião, quem não regula bem é Amos
Perry.
— É apenas bronco — comentou Mr. Copleigh com
tolerância.
— Bem, talvez você tenha razão. Mas já houve boatos sobre
ele. Gosta muito de jardinagem, embora seja ignorante.
— Ocupam só metade da casa, não é? — perguntou
Tuppence. — Mrs. Perry me convidou pra entrar. Muito
gentil.
— Convidou? De fato? Não sei se gostaria de entrar naquela
casa — disse Mrs. Copleigh.
— A parte em que eles moram é boa — opinou Mr.
Copleigh.
— E a outra não? — perguntou Tuppence. — A dá frente,
que dá pro canal?
— Olhe, corriam muitas histórias sobre ela. Naturalmente,
há anos que ninguém mora lá. Dizem que havia qualquer
coisa suspeita no lugar. Uma porção de rumores. Mas
quando a gente vai ver, tudo aconteceu muito antes dos que
hoje vivem aqui. Séculos atrás. Foi construída há mais de
cem anos, sabe? Falam que primeiro uma bela dama a
ocupou, tendo sido feita por um fidalgo da Corte.
— Da Rainha Vitória? — indagou Tuppence, interessada.
— Não creio. A velha Rainha era muito exigente. Não, acho
que foi antes. Na época de um daqueles Georges. O tal
fidalgo vinha vê-la aqui e dizem que tiveram uma briga e
uma noite ele cortou o pescoço da amante.
— Que horror! — exclamou Tuppence. — Não foi
enforcado?
— Não. Oh, não, nada disso. Segundo consta, imagine, teve
de se livrar do cadáver e então emparedou-a na lareira.
— Na lareira!
— De acordo com algumas versões, era freira e fugira do
convento. Por isso tinha de ser emparedada. É assim que
fazem nos conventos.
— Só que não foram freiras que a emparedaram.
— Não, não. Foi ele. O amante. E cobriu a lareira toda com
tijolos, dizem, e pregou uma grande chapa de ferro por
cima. Seja como for, a infeliz nunca mais foi vista, em lugar
nenhum, com seus lindos vestidos. Há quem pretenda,
lógico, que tenham ido embora juntos. Pra morar na cidade
ou voltar pra outro lugar qualquer. As pessoas costumavam
escutar ruídos e ver luzes na casa. Muita gente até hoje não
chega perto depois que escurece.
— Mas, o que aconteceu depois? — perguntou Tuppence,
achando que um período anterior ao reinado de Vitória
parecia demasiado remoto para o que lhe interessava.
— Bem, hão sei direito se houve muita coisa mais. Um
agricultor chamado Blodgick arrematou-a quando foi posta
em leilão, creio eu. Não ficou bastante tempo, tampouco.
Era uma espécie de fazendeiro. Por isso gostou da casa, no
mínimo, mas a terra da lavoura não tinha muita serventia
pra ele e não soube o que fazer com ela. Então revendeu-a.
Depois mudou tantas vezes de dono... Sempre chegavam
construtores e faziam reformas... novos banheiros... esse
tipo de coisas... Uma ocasião, acho que morou lá um casal
que criava galinhas. No entanto pegou fama, sabe, de dar
azar. Mas tudo isso aconteceu um pouco antes do meu
tempo. Me parece que o próprio Mr. Boscowan pensou em
comprá-la. Foi quando pintou aquele quadro.
— Que idade ele tinha quando apareceu por aqui?
— Eu diria uns quarenta, talvez mais. De certo modo, era
um homem bonito. Engordou um bocado, mais tarde.
Vivia atrás de mulheres, quanto a isso não há dúvida.
— Hã — resmungou Mr. Copleigh, dessa vez como
advertência.
— Ora essa, quem não sabe como são os pintores? —
retrucou a esposa, incluindo Tuppence nesse número. —
Viajam muito pra França, sabe, e pegam costumes franceses,
claro.
— Não era casado?
— Na época não. Pelo menos na primeira vez que surgiu por
aqui. Tinha um fraco pela filha de Mrs. Charrington, mas
não deu em nada. Era uma moça linda, entretanto, embora
jovem demais pra ele. Não devia ter mais que vinte e cinco
anos.
— Quem era Mrs. Charrington? — indagou Tuppence,
perplexa com tantas personagens novas em cena.
— "Que diabo estou fazendo aqui, afinal? — pensou de
repente, invadida por uma onda de cansaço. — Apenas
ouvindo uma porção de mexericos e imaginando como
crime coisas que não têm o menor fundamento. Agora
entendo... Tudo começou quando uma velhinha simpática,-
mas pateta, ficou um tanto confusa e se pôs a recordar
histórias sobre o tal Mr. Boscowan, ou alguém que nem ele
que talvez lhe desse o quadro de presente, falasse na casa e
nas lendas em torno de uma infeliz emparedada numa lareira
e que, por um motivo ou outro, julgou que fosse uma
criança. E cá estou eu, metida neste logro. Tommy me
chamou de idiota e tinha toda a razão... é exatamente o que
eu sou."
Aguardou uma interrupção na torrente contínua de falatório
de Mrs. Copleigh para poder levantar-se, dar boa noite
cortesmente e subir para ir dormir em seu quarto.
Porém o jorro de Mrs. Copleigh parecia positivamente
inesgotável.
— Mrs. Charrington? Oh, ela morou durante algum tempo
em Watermead — disse. — Mrs. Charrington e a filha. Era
uma senhora simpática. Viúva de um oficial do Exército,
creio eu. Em péssima situação financeira, mas o aluguel da
casa era barato. Dedicava-se muito à jardinagem. Gostava
mesmo. Só que não valia grande coisa em matéria de
limpeza de casa. Fui uma ou duas vezes até lá, pra fazer a
faxina, mas não deu pra continuar. Tinha de ir de bicicleta,
sabe, e são mais de três quilômetros. Não havia ônibus
naquela estrada.
— Ela morou muito tempo lá?
— Não mais de dois ou três anos, acho eu. No mínimo levou
um susto com as encrencas que surgiram. E depois teve suas
próprias complicações com a filha, também. Lilian, creio
que era o nome dela.
Tuppence tomou um gole do chá forte que reforçava a
comida e resolveu terminar o assunto de Mrs. Charrington
antes de ir se deitar.
— Que complicação com a filha? Mr. Boscowan?
— Não, não foi Mr. Boscowan que arranjou complicação pra
ela. Nunca hei de acreditar nisso. Foi o outro.
— Que outro? — perguntou Tuppence. — Alguém que
morava por aqui?
— Não creio que fosse alguém da aldeia. Decerto tinha
conhecido em Londres. Ela esteve lá estudando bale, parece.
Ou seria pintura? Mr. Boscowan arrumou pra ela entrar pra
uma.escola na capital. Me parece que o nome era Slate.
— Slade? — sugeriu Tuppence.
— Talvez fosse. Um nome assim. Seja como for, costumava
ir lá e foi assim que conheceu o tal cara. que não sei quem é.
A mãe não gostou. Proibiu-a de se encontrar com ele.
Imagine se adiantou alguma coisa... Era uma mulher muito
tola sob vários aspectos. Que nem uma porção dessas esposas
de oficiais, sabe? Pensava que as filhas obedeciam ao pé da
letra. Retrógrada, em suma. Tinha estado na Índia e lugares
assim, mas quando se trata de um rapaz bonito qualquer e a
moça não se acha sob os olhos da mãe, pode ficar certa de
que ela não fará o que lhe mandaram. Pois sim. De vez em
quando o tal sujeito vinha até cá e os dois se encontravam
pelos arredores.
— E então ela arranjou complicação, não foi? — comentou
Tuppence, empregando o clássico eufemismo, na esperança
de que a expressão não ferisse o senso de decoro de Mr.
Copleigh.
— Deve ter sido ele, na certa. Em todo caso, não podia ser
mais óbvio. Percebi logo a situação, muito antes que a mãe.
Era uma criatura linda, se era. Grande, alta e bela, Mas sabe,
tenho a impressão de que não era do tipo que resiste a
infortúnios. Sofreu um colapso, entende? Andava, por aí,
feito louca, falando sozinha. Na minha opinião, o tal cara
tratou-a muito mal. Quando descobriu o que se estava
passando, foi embora e abandonou-a. Naturalmente,
qualquer mãe que se preze teria ido atrás pra falar com ele e
obrigá-lo a cumprir o seu dever, porém Mrs. Charrington
jamais teria ânimo pra tanto. Ainda bem que teve juízo e
levou-a pra fora. Fechou a casa, sério, e depois pôs à venda.
Voltaram pra levar os, móveis, creio eu, mas nunca vieram
até a aldeia ou trocaram uma só palavra com alguém. Jamais
reapareceram. Espalharam-se boatos. Eu nunca soube se
tinham fundamento.
— Há gente capaz de inventar qualquer coisa — comentou
Mr. Copleigh inesperadamente.
— Olhe, nisso você tem razão, George. Contudo, podia ter
sido verdade. Essas coisas acontecem. E como se diz, aquela
moça não me parecia regular bem.
— Que boatos? — perguntou Tuppence.
— Olhe, de fato, nem gosto de repetir. Já passou muito
tempo e não me agradaria falar sobre algo de que não tenho
certeza. Quem espalhou foi a Louise de Mrs. Badcock, que é
uma mentirosa de marca maior. As coisas que aquela menina
diz. É capaz de tudo pra inventar uma boa história.
— Mas qual? — insistiu Tuppence.
— Contou que essa moça Charrington tinha matado o bebê
e depois se suicidou. Que a mãe ficou quase doida de pesar e
os parentes tiveram que mandá-la pra uma casa de saúde.
Tuppence sentiu de novo a cabeça confusa. Parecia estar
flutuando na cadeira. Mrs. Lancaster seria Mrs. Charrington?
Trocara de nome e ficara um pouco desequilibrada,
obcecada pelo infortúnio da filha. A voz de Mrs. Copleigh
prosseguia, implacável.
— Nunca acreditei numa só palavra. Aquela Louise Badcock
diria não importa o quê. Na ocasião não prestamos atenção
ao diz-que-diz-que e boatos. Todo mundo andava
apavorado, morto de medo com as coisas que estavam
acontecendo... coisas REAIS...
— Per quê? O que havia acontecido? — perguntou
Tuppence, assombrada com as coisas que pareciam
acontecer e girar em terno de uma aldeia de aspecto tão
pacato como Sutton Chanceller.
— Decerto leu nos jornais da época. Vejamos, é bem
possível que já faça vinte anos. Com toda a certeza leu.
Infanticídios. Primeiro uma menina de nove anos que um
dia não voltou da escola. A vizinhança em peso saiu à
procura. Foi encontrada em Dingley Copse. Estrangulada. Só
de me lembrar, sinto um arrepio. Bem, começou com ela.
Depois, cerca de três semanas mais tarde, outra. No outro
lado de Market Basing... isso mesmo. Mas dentro do distrito,
pode-se dizer. Um homem que tivesse carro não encontraria
o menor problema pra cometer aquela monstruosidade. E a
partir de então houve outros. Às vezes passava um mês ou
dois. E então corria um novo crime. Teve um a poucos
quilômetros daqui; quase na aldeia, praticamente.
— Mas e a polícia? Ninguém descobriu o criminoso?
— Não há dúvida de que se esforçaram — respondeu Mrs.
Copleigh. — Prenderam logo um homem, lá isso fizeram.
Alguém do outro lado de Market Basing. Disse que estava
ajudando as investigações. Sabe o que isso sempre significa.
Pensaram que tinham-no agarrado. E assim foi: primeiro
um, depois outro, mas cada vinte e quatro horas mais tarde
eram obrigados a soltar novamente. Seja porque não podia
ser ele, andava noutras paragens ou alguém lhe fornecia um
álibi.
— Você não pode afirmar isso, Liz — interveio Mr.
Copleigh. — É possível que soubessem quem era o
assassino. Eu diria que eles sabiam. Ouvi dizer que é bem
comum. A polícia descobre quem cometeu o crime, mas
não possui provas.
— Ah, são as esposas, isso sim — continuou Mrs. Copleigh.
— As esposas ou então as mães e até mesmo os pais. A
própria polícia não consegue fazer nada, por mais que
suspeitem. Uma mãe diz: — "meu filho jantou comigo
naquela noite" ou a namorada afirma que foi ao cinema com
ele e passou o tempo todo em sua companhia ou um pai diz
que andou com o rapaz pelo campo, fazendo juntos
qualquer coisa... aí não há nada que prove o contrário.
Podem desconfiar de que o pai, a mãe ou a garota estejam
mentindo, mas a menos que alguém apareça jurando ter
visto o rapaz, o homem, ou seja lá quem for, nalgum outro
lugar, não conseguem fazer nada. Foi uma época medonha.
Todo mundo andava em polvorosa pelas redondezas.
Quando se ouvia falar que outra criança tinha desaparecido,
organizavam-se expedições.
— É, foi mesmo — concordou Mr. Copleigh.
— Depois de reunidos, saíam à procura. Às vezes
encontravam logo, outras levavam semanas dando buscas.
Podia estar bem perto de casa, num recanto que já se
pensava ter revistado. Coisa de tarado, na minha opinião. É
horrível — continuou, adotando um ar virtuoso, — que haja
homens assim. Deviam ser fuzilados. Enforcados. E se
deixassem, eu mesma me encarregava da execução. Todo
homem que mata crianças e as estupra. De que adianta
trancá-los em asilos, onde recebem os confortos de um lar e
vivem na moleza? E depois, cedo ou tarde, soltam-nos outra
vez, dizendo que estão curados e mandando-os pra casa.
Aconteceu coisa semelhante em Norfolk. Quem me contou
foi minha irmã, que mora lá. O sujeito voltou pra casa e dois
dias mais tarde cometia novo crime. Alguns desses médicos
têm de ser loucos, dizendo que esses homens estão curados
quando não estão.
— E ninguém por aqui tem idéia de quem possa ter sido? —
perguntou Tuppence. — Acham realmente que foi um
forasteiro?
— Podia ser forasteiro na aldeia. Mas deve ter sido alguém
que morava... oh! Eu diria num raio de trinta quilômetros
quadrados. Não precisava que fosse daqui.
— Você sempre achou que era, Liz.
— Porque andava alarmada — retrucou Mrs. Copleigh. — A
gente fica certa de que tem de ser alguém da própria
vizinhança por puro medo, creio eu. Vivia-se examinando
os outros. Você também, George. A gente se perguntava: —
"Será que não é esse camarada? Ele ultimamente anda meio
esquisito." Coisas desse tipo.
— Imagino que o criminoso não tivesse nada de esquisito —
insinuou Tuppence. — Provavelmente tinha aspecto
normal.
— Pois é, é bem capaz que tenha razão. Já me disseram que
a gente nem percebe e, seja ele quem for, nunca dá sinal de
loucura nenhuma. Mas outros garantem que há sempre um
brilho hediondo nos olhos deles.
— Jeffreys, aquele que era sargento da polícia na época —
disse Mr. Copleigh, — costumava dizer que tinha um palpite
certo, mas que de nada adiantaria.
— Nunca prenderam o homem?
— Não. Durou mais de seis meses, quase um ano. De
repente o negócio todo parou. E nunca mais se ouviu falar
em nada desse gênero por aqui. Não, eu acho que ele deve
ter ido embora. Sumiu por completo. É por isso que muita
gente pensa que talvez soubesse quem foi.
— Quer dizer, por causa de pessoas que realmente deixaram
o distrito?
— Bem, é natural, sabe? Chama atenção. Achavam que
podia ter sido esse ou aquele fulano.
Tuppence hesitou antes de formular a pergunta seguinte,
porém sentiu que não fazia mal nenhum, dada a paixão de
Mrs. Copleigh em falar.
— E quem a senhora crê que era?
— Olhe, já faz tanto tempo que nem gostaria de comentar.
No entanto certos nomes foram mencionados. Gente que
era objeto de boatos e olhados com desconfiança, sabe?
Muitos julgavam que fosse Mr. Boscowan.
— É mesmo?
— Sim, porque era um artista. Todos eles são estranhos. É o
que dizem. Porém não creio que fosse!
— Falava-se mais em Amos Perry — lembrou Mr. Copleigh.
— O marido de Mrs. Perry?
— É. Ele tem umas esquisitices, entende? Meio bronco. É o
tipo do sujeito que podia ter sido.
— Os Perrys já moravam aqui na época?
— Sim, mas não em Watermead. Tinham um chalé a uns
seis ou sete quilômetros de distância. A polícia andava de
olho nele, tenho certeza.
— Mas não conseguiram arrancar nada — rematou Mrs.
Copleigh. — A esposa sempre o defendeu. Passava a noite
?em casa com ela, dizia. Sem exceção. Aos sábados, às vezes
ia à taverna, porém nenhum dos crimes ocorreu em noite de
sábado, portanto não provava nada. Além disso, Alice Perry
era o tipo da pessoa em quem se tinha de acreditar quando
prestava testemunho. Jamais cedia ou recuava. Ninguém a
intimidava. Em todo caso, ele é que não foi. Nunca achei
que fosse. Eu sei que não disponho de nada pra corroborar
esta afirmação, no entanto tenho uma espécie de sensação
de que, se tivesse de apontar alguém, seria Sir Philip.
— Sir Philip?
A cabeça de Tuppence pôs-se a rodar de novo. Mais outra
personagem em cena. Sir Philip.
— Quem é?
— Sir Philip Starke... Mora no Solar dos Warrenders.
Antigamente chamava-se o Velho Priorado, quando os
Warrenders viviam lá... antes do incêndio. Pode ver os
túmulos da família no cemitério e também as placas na
igreja. Sempre existiram Warrenders aqui, praticamente
desde o tempo do Rei James.
— Sir Philip é parente deles?
— Não. Parece que fez grande fortuna ou herdou do pai.
Fundições de aço ou troço parecido. Tipo muito esquisito.
As fábricas ficavam num lugar lá pelo norte, mas ele morava
aqui. Nunca era visto em parte alguma. O que a gente chama
de re... rec... rec... sei lá!
— Recluso — sugeriu Tuppence.
— Era essa a palavra que eu procurava. Pálido, sabe, magro e
ossudo. Louco por flores. Botânico. Andava sempre
colhendo tudo quanto é espécie de florzinha silvestre boba,
dessas que ninguém olha duas vezes. Acho até que escreveu
um livro sobre elas. Ah, mas muito inteligente, muito
mesmo. A esposa era uma senhora simpática, bonita que só
vendo. Porém parecia triste. Sempre tive essa impressão.
Mr. Copleigh emitiu um de seus grunhidos.
— Você está maluca — disse. — Pensar que poderia I ter
sido Sir Philip. Ele gostava de crianças, ora. Vivia
oferecendo festas pra elas.
— Sim, eu sei. Sempre organizando quermesses, com lindos
prêmios pra garotada. Corridas de ovo na colher... todos
aqueles chás com sorvetes de creme e morango que dava.
Não tinha filhos, compreende? Às vezes parava na estrada
pra distribuir doces às crianças ou moedas de seis pence pra
que pudessem comprá-los. Mas não sei, não. Eu acho que
exagerava. Era um homem esquisito. Creio que houve
qualquer coisa errada quando a esposa de repente foi embora
e o abandonou.
— Quando foi isso?
— Deve ter sido uns seis meses depois que toda aquela
desgraça começou. A essa altura três crianças ;á haviam sido
mortas. Lady Starke partiu repentinamente pro sul da França
e nunca mais voltou. A gente diria que ela não era o tipo
capai de fazer uma coisa dessas. Uma senhora discreta, de
respeito. Não é possível que o tivesse deixado pra fugir com
outro homem. Não era desse tipo, não. Então por que foi
embora? Eu sempre digo que é porque ela sabia de algo...
descobrira alguma coisa...
— Ele ainda mora aqui?
— Não de maneira efetiva. Vem uma ou duas vezes por ano,
porém a casa fica fechada a maior parte do tempo. Tem um
zelador. Miss Bligh... era a secretária dele... ela trata dos
negócios de Sir Philip na aldeia.
— E a esposa?
— Morreu, coitada. Pouco depois que chegou no
estrangeiro. Na igreja tem uma placa de lembrança. Decerto
foi medonho pra ela. Talvez a princípio não tivesse certeza,
depois no mínimo começou a desconfiar do marido e então
não teve mais dúvida. Não pôde suportar e fugiu.
— As coisas que as mulheres imaginam — comentou Mr.
Copleigh.
— Eu apenas digo que havia algo duvidoso em torno de Sir
Philip. Gostava demais de crianças, acho eu, e de um modo
que não era normal.
— Fantasias femininas — decretou Mr. Copleigh.
A dona de casa levantou-se e começou a tirar as coisas da
mesa.
— Até que enfim — disse o marido. — Você ainda termina
causando pesadelos a essa senhora se continuar falando
como as coisas eram no passado e que hoje não têm mais
nada que ver com o pessoal que mora aqui.
— Ah, foi tão interessante — protestou Tuppence. — Mas
estou com muito sono. Creio que agora seria melhor me
recolher.
— De fato, em geral vamos cedo pra cama — declarou Mrs.
Copleigh, — e a senhora deve estar cansada depois do dia
cheio que teve.
— Estou mesmo. Quase dormindo em pé. — Tuppence
soltou um enorme bocejo. — Bem, boa noite e obrigada por
tudo.
— Quer que lhe acorde de manhã com uma xícara de chá?
Oito horas é cedo demais?
— Não, fica ótimo — afirmou Tuppence. — Mas não vá se
incomodar por minha causa.
— Que incômodo qual nada.
Tuppence subiu penosamente a escada. Abriu a mala, tirou
as poucas coisas de que precisava, despiu-se, lavou-se e
atirou-se na cama. O que tinha dito a Mrs. Copleigh era a
pura. verdade. Sentia-se mortalmente cansada. Tudo o que
ouvira passava-lhe pela cabeça como uma espécie de
calidoscópio de figuras em movimento, cercadas pelas
imaginações mais aterrorizantes. Crianças assassinadas... uma
infinidade de cadáveres em tenra idade. Tuppence procurava
apenas uma, atrás de uma lareira, talvez ligada a Waterside.
A boneca da menina. Uma menina que tinha sido morta por
uma moça demente, cujo frágil cérebro enlouquecera diante
do abandono do amante. Oh meu Deus, que linguagem
melodramática estou usando, pensou Tuppence. Numa
confusão dessas... com a cronologia toda misturada... não se
pode ter certeza da época em que isso aconteceu.
Adormeceu e sonhou. Havia uma espécie de Dama de
Shalott espiando pela janela da casa. Barulho de arranhões na
chaminé. Ouviram-se batidas atrás de uma grande chapa de
ferro pregada ali. Pancadas ressonantes de martelo. Pam,
pam, pam. Tuppence acordou. Era Mrs. Copleigh batendo à
porta. Entrou esfuziante, colocou o chá ao lado da cabeceira
da cama, puxou as cortinas, fazendo votos que Tuppence
tivesse dormido bem. Pelo visto, ninguém jamais se sentira
tão alegre quanto Mrs. Copleigh. Ela não tivera pesadelos!

9 - Uma manhã em Market Basing

— BOM — DISSE Mrs. Copleigh, saindo afobada do quarto.
— Mais outro dia. É o que sempre digo quando acordo.
— "Outro dia? — pensou Tuppence, provando o forte chá
preto. — Quem sabe não estou bancando a idiota?... Pode
ser... Tomara que Tommy estivesse aqui pra conversar. A
noite de ontem me deixou toda confusa."
Antes de descer, Tuppence registrou na agenda os vários
fatos e nomes que conhecera na véspera. Achava-se cansada
demais pra tomar nota na hora de dormir. Histórias
melodramáticas do passado, contendo talvez pitadas de
verdade aqui e ali, mas na maioria diz-que-diz-que,
malevolência, mexerico, imaginação romântica.
— "De fato — refletiu, — estou começando a saber da vida
amorosa de uma quantidade de gente desde o século XVIII,
creio eu. Mas de que adianta isso? E o que é que estou
procurando? Já nem sei mais. O pior é que me envolvi no
caso e não posso parar."
Tremendamente desconfiada de que a primeira coisa que
devia evitar era qualquer intimidade com Miss Bligh, que na
sua opinião encarnava a ameaça global de Sutton Chancellor,
Tuppence recusou todas as generosas ofertas de auxílio
partindo rápido de carro para Market Basing, apenas freando
quando Miss Bligh, aos gritos estridentes, abordou-a para
explicar que tinha um compromisso urgente... A que horas
pretendia voltar? Tuppence mostrou-se vaga... Não queria
almoçar com ela?... O convite era muito gentil, porém
receava que...
— Pro chá, então. Espero-a às quatro e meia; Parecia quase
uma ordem real. Tuppence sorriu, aquiesceu, soltou a
embreagem e partiu.
Provavelmente — pensou, — se obtivesse alguma
informação interessante dos corretores de imóveis em
Market Basing, Nellie Bligh poderia fornecer-lhe
pormenores muito úteis. Era o tipo da mulher que se
orgulha em conhecer a vida íntima de todo mundo. O
problema é que estaria decidida a descobrir tudo a respeito
de Tuppence. Tomara que à tarde, já suficientemente
restabelecida, voltasse a ter idéias luminosas!
— Lembre-se de Mrs. Blenkinsop — disse para si mesma,
desviando o carro abruptamente para o lado e espremendo-
se contra uma cerca para não ser esmagada por um enorme
trator despreocupado.
Chegando a Market Basing, estacionou na praça principal e
foi a pé ao correio, entrando numa cabine telefônica que
estava livre.
A voz de Albert atendeu... com a resposta de praxe... um
"alô" pronunciado com desconfiança.
— Escute, Albert... chegarei amanhã. A tempo de jantar, em
todo caso... talvez antes. Mr. Beresford também, a não ser
que telefone. Compre alguma coisa... galinha, acho.
— Certo, patroa. Onde é que a senhora... Tuppence, porém,
já tinha desligado.
A vida de Market Basing parecia concentrada em torno da
importante praça principal... Tuppence verificara no
catálogo classificado, antes de sair do correio, que três das
quatro imobiliárias locais ficavam situadas ali... e a quarta em
George Street.
Rabiscou os nomes e pôs-se à procura dos endereços.
Começou pela firma Lovebody & Slicker, que aparentava ser
a mais imponente.
Uma moça com manchas no rosto atendeu-a.
— Desejava informações sobre uma casa.
O pedido não despertou o menor interesse na funcionária.
Tuppence poderia ter indagado a respeito de qualquer
espécie rara de animal que a reação seria a mesma.
— Olhe, eu não sei, espere aí — retrucou a moça,
certificando-se se não havia nenhum colega por perto a
quem pudesse passar Tuppence...
— Uma casa — insistiu Tuppence. — Vocês são corretores
de imóveis, não são?
— Corretores e leiloeiros. Caso esteja interessada, o leilão de
Cranberry Court será na quarta-feira. O catálogo custa dois
xelins.
— Não estou interessada em leilões. Quero perguntar a
respeito de uma casa.
— Mobiliada?
— Não, sem móveis... Pra comprar... ou alugar.
"Manchas" se animou um pouco.
— Acho que seria melhor falar com Mr. Slicker.
A solução não podia agradar mais Tuppence. Viu-se logo
sentada num pequeno escritório, diante de um rapaz em
terno de mescla xadrez marrom, que começou a apresentar
um grande número de especificações de residências
vantajosas — murmurando comentários para si mesmo...
— Mandeville Road, 8... ótima construção, três dormitórios,
cozinha americana... Oh, não, já foi tomada... Amabel
Lodge... moradia pitoresca, 16.000 m2... preço reduzido para
venda imediata...
Tuppence forçou-o a interromper-se.
— Vi uma casa de que gostei muito... Em Sutton
Chancellor... ou melhor, perto de lá... à beira de um canal...
— Sutton Chancellor — repetiu Mr. Slicker, dubitativo. —
Acho que não temos nenhuma propriedade em nossos livros
atualmente. Como se chama?
— Parece que não tem nada escrito... Talvez Waterside.
Rivermead... uma vez foi a Casa da Ponte. Creio — explicou
Tuppence, — que é dividida em duas. Uma metade está
alugada, mas o inquilino não soube me dizer nada sobre a
outra, que fica de frente pro canal e que é a que me
interessa. Pelo jeito ninguém mora lá.
Mr. Slicker declarou, num tom indiferente, que receava não
poder ajudá-la, porém dignou-se a informar que
provavelmente Blodget & Burgess talvez se encontrassem
em condições de fazê-lo. O tom de voz sugeria que se
tratava de uma firma muito inferior.
Tuppence atravessou a praça e deparou com um prédio que
lembrava uma réplica quase exata de Lovebody & Slicker: o
mesmo tipo de anúncios de vendas e próximos leilões nas
vitrinas um pouco encardidas. A porta de entrada tinha sido
pintada recentemente de uma tonalidade de verde bastante
biliosa, o que não se podia considerar propriamente como
mérito.
A maneira com que a receberam tampouco foi estimulante.
Viu-se entregue à atenção de um tal Mr. Sprig, homem
idoso de disposição aparentemente desanimada. Repetiu
mais uma vez seus requisitos e condições.
Mr. Sprig confessou que sabia da existência da moradia em
questão, mas não deu esperanças nem, pelo que Tuppence
pôde observar, revelou muito interesse.
— Lamento, porém não se acha à venda. O proprietário não
quer se desfazer dela.
— Quem é o proprietário?
— Realmente acho que não sei. Mudou de dono com
bastante frequência... uma ocasião falou-se que seria
desapropriada.
— Por que motivo uma administração local precisaria dela?
— Francamente, Mrs... (olhou de relance para o nome
rabiscado às pressas na folha de mata-borrão)... Mrs.
Beresford, se a senhora fosse capaz de me dar a resposta a
essa pergunta, seria mais sensata que a maioria dos incautos
hoje em dia. Os desígnios dos conselhos municipais e das
sociedades de planejamentos estão sempre envoltos em
mistérios. A parte dos fundos da casa sofreu algumas
reformas indispensáveis e foi alugada a um preço
extremamente barato a um... como é mesmo?... ah, sim, a
um casal, Mr. e Mrs. Perry. Quanto ao proprietário atual, o
cavalheiro em questão vive no exterior e parece ter perdido
todo interesse pelo lugar. Creio que houve um problema
qualquer em torno da herança de um menor e foi
administrada por executores testamentários. Surgiram certas
dificuldades legais... a lei tende a ser dispendiosa, Mrs.
Beresford... imagino que o dono ficaria muito contente se a
casa desmoronasse... e a única parte reformada foi a habitada
pelos Perrys. Lógico que a terra, em si, pode sempre
valorizar no futuro... O conserto de residências em
escombros raramente traz lucro. Se estiver interessada numa
propriedade desse tipo, tenho certeza de que podemos
oferecer-lhe algo muito mais valioso. Desculpe a pergunta,
mas o que a atraiu especialmente naquela casa?
— Gostei do aspecto — respondeu Tuppence. — É muito
bonita... Via-a pela primeira vez do trem...
— Ah, entendo... — Mr. Sprig dissimulou da melhor
maneira possível uma expressão que diria: "a insensatez das
mulheres é incrível", e aconselhou suavemente: — Se eu
fosse a senhora, esqueceria o assunto por completo.
— Suponho que poderiam escrever ao proprietário,
perguntando se não quer vendê-la... a menos que prefiram
me dar o endereço dele... ou deles....
— Já que insiste, entraremos em contato com os
procuradores..., mas não lhe posso prometer nada.
— É incrível como a gente tem de recorrer a procuradores
pra tudo hoje em dia — Tuppence procurou demonstrar ao
mesmo tempo frivolidade e impaciência... — E os advogados
demoram tanto pra resolver qualquer coisa.
— Ah é... a lei é pródiga em delongas...
— E os bancos, então... são piores!
— Bancos... — Mr. Sprig pareceu um pouco surpreso.
— Há muita gente com mania de dar um banco como
endereço. É irritante, também.
— Sim... sim... ê como a senhora diz... Mas as pessoas são
tão instáveis nos dias que correm, mudam-se com tanta
frequência... morando no exterior e tudo mais. — Abriu
uma gaveta da escrivaninha. — Olhe, eu tenho uma
propriedade aqui, Crossgates... a três quilômetros de Market
Basing... em ótimas condições... lindo jardim...
Tuppence pôs-se em pé.
— Não, obrigada.
Despediu-se de Mr. Sprig com firmeza e saiu na praça.
Fez uma rápida visita à terceira firma, que parecia ocupar-se
quase que exclusivamente de vendas de gato, granjas de
galinha e chácaras, em geral em condições de abandono.
Deixou por último Roberts & Wiley, em George Street...
uma empresa pequena, mas pelo visto dinâmica e solícita...
embora praticamente desinteressada e ignorante sobre tudo
que se referisse a Sutton Chancellor e ansiosa por vender
residências em fase de construção por preços ridiculamente
exorbitantes... a ilustração de um exemplo provocou um
calafrio de horror em Tuppence. O ávido rapaz, vendo a
possível cliente disposta a partir, admitiu de má vontade a
existência de um lugar chamado Sutton Chancellor.
— A senhora disse Sutton Chancellor? É melhor tentar
Blodget & Burgess, na praça. Eles administram uma
propriedade por aqueles lados... mas tudo está em péssimas
condições... em escombros...
— Há uma casa linda por lá, perto de uma ponte no canal...
eu enxerguei do trem. Por que ninguém quer morar nela?
— Oh! Conheço o lugar, essa... Riverbank... Ninguém quer
ficar ali, nem por nada....Tem fama de mal-assombrada.
— Fantasmas... quer dizer?
— É o que consta... Há uma porção de histórias em torno.
Barulhos à noite. E gemidos, Na minha opinião, garanto que
não passam de baratas.
— Oh, meu Deus — lamentou Tuppence. — Me parecia tão
simpática e isolada.
— Isolada demais, na opinião da maioria. Enchentes no
inverno... pense só nisso.
— Vejo que há muita coisa em que pensar — retrucou
Tuppence, mordaz.
Saiu murmurando sozinha, dirigindo-se ao "Cordeiro e
Estandarte", onde tencionava se reanimar com um bom
almoço.
— Uma porção de coisas em que pensar... inundações,
insetos, fantasmas, correntes estrepitosas, proprietários e
locadores ausentes, procuradores, bancos... uma casa que
ninguém quer nem gosta... exceto eu, talvez... Ora bolas, o
que eu quero agora é COMER.
A comida no "Cordeiro e Estandarte" era ótima e farta...
pratos substanciosos para lavradores, em vez de falazes
cardápios franceses para atrair turistas... Sopa grossa picante,
pernil com molho de maçã, queijo Stilton... ou ameixas com
creme, para quem preferisse... o que não era seu caso...
Depois de andar um pouco a esmo, Tuppence foi buscar o
carro e regressou a Sutton Chancellor... incapaz de
considerar a excursão frutífera.
Quando dobrou a última curva e a igreja da aldeia ficou à
vista, enxergou o pastor saindo do cemitério. Caminhava
com um passo cansado. Parou o automóvel ao lado dele.
— Ainda à procura do tal túmulo? — perguntou. O clérigo
apoiava a mão aos rins.
— Ah, meu Deus — exclamou, — meus olhos não andam
muito bons. Há tantas inscrições praticamente apagadas. As
costas me doem, também. A maioria das lápides fica deitada
no chão. Francamente, às vezes, quando me curvo, tenho
medo de não poder voltar à posição normal.
— Se eu fosse o senhor, desistia — aconselhou. — Se já
procurou no registro da paróquia e tudo mais, fez o máximo
possível.
— Eu sei, mas o pobre coitado parecia tão ansioso, tão
empenhado. Tenho absoluta certeza de que é trabalho
perdido. No entanto, realmente achei que era meu dever.
Tem ainda um pequeno trecho que não examinei, ali
adiante, atrás do teixo, até o muro oposto... embora quase
todas as lápides sejam do século XVIII. Porém gostaria de
sentir que terminei minha tarefa como devia. Então não
teria nada a me recriminar. Seja como for, deixarei pra
amanhã.
— Isso mesmo — apoiou Tuppence. — Não é preciso fazer
tudo de uma só vez. Olhe, tive uma idéia — acrescentou. —
Depois de tomar chá com Miss Bligh, eu mesma vou dar
uma olhada. Do teixo até o muro, o senhor diz?
— Oh, mas eu não posso permitir, de maneira nenhuma...
— Fique tranqüilo. Acho que vai ser divertido. Gosto muito
de passear em cemitério. Sabe como é, as inscrições mais
antigas proporcionam uma espécie de quadro das pessoas
que viveram aqui e toda essa espécie de coisa. Vou até
gostar, é sério. Por favor, vá pra casa descansar.
— Bem, naturalmente eu devo preparar um pouco o meu
sermão de logo mais, nem há dúvida. A senhora me parece
uma pessoa muito prestativa. Uma verdadeira amiga.
Sorriu-lhe e foi-se embora para a casa paroquial. Tuppence
consultou o relógio de pulso. Dirigiu-se à residência de Miss
Bligh: "É melhor terminar logo com isso", pensou. A porta
da frente estava aberta e encontrou-a carregando um prato
de pães de minuto recém-tirados do forno, entre o corredor
e a sala de visitas.
— Oh! Ei-la finalmente, cara Mrs. Beresford. Estou tão
contente em vê-la. O chá já está quase pronto. Botei a
chaleira no fogo. Só falta encher o bule. Espero que tenha
feito todas as compras — acrescentou, olhando de maneira
um tanto ostensiva para a sacola vazia que Tuppence trazia
no braço.
— Olhe, pra ser franca não tive muita sorte — retrucou,
com a melhor cara que pôde. — Sabe como é às vezes... um
desses dias em que a gente não consegue a cor ou o tipo de
coisa exata que se procura. Mas eu sempre gosto de dar uma
olhada por um lugar novo, ainda que não apresente grande
interesse.
A chaleira deixou escapar um assobio estridente e Miss Bligh
se precipitou à cozinha para atendê-la, espalhando uma pilha
de cartas por remeter que estavam sobre a mesa do
vestíbulo.
Tuppence abaixou-se para apanhá-las, reparando, antes de
colocá-las no lugar que a de cima era endereçada a uma certa
Mrs. York, Rosetrellis Court para Senhoras Idosas... numa
determinada localidade em Cumberland.
— Puxa — pensou, — estou começando a pensar que neste
país só existem Asilos de Velhice! Garanto remo não demora
muito pra que Tommy e eu também ingressemos num!
Pouco tempo antes, um amigo todo solícito lhes escrevera,
recomendando um ótimo estabelecimento em Devon... para
casais... na maioria, funcionários públicos aposentados.
Comida de boa qualidade... Levava-se a própria mobília e
objetos de uso pessoal.
Miss Bligh reapareceu com o bule e as duas sentaram-se para
tomar chá.
A conversa da dona da casa era menos melodramática e
colorida que a de Mrs. Copleigh e preocupava-se mais em
obter informações do que em fornecê-las.
Tuppence comentou vagamente os anos passados no serviço
diplomático no estrangeiro... as dificuldades da vida
doméstica na Inglaterra, entrando em detalhes sobre um
filho e uma filha, ambos casados e com prole, e desviou o
assunto delicadamente para as múltiplas atividades de Miss
Bligh em Sutton Chancellor... o Instituto Feminino, Guias,
Escoteiros, a União Conservadora das Mulheres,
Conferências, Arte Grega, Fabricação de Geléias,
Ornamentação de Flores, o Clube do Desenho, a Sociedade
de Arqueologia... A saúde do pastor, a necessidade de
persuadi-lo a cuidar um pouco de si mesmo, sua distração...
As lamentáveis diferenças de opinião entre os zeladores da
Igreja...
Tuppence elogiou os pãezinhos, agradeceu a hospitalidade e
levantou-se para ir embora.
— A senhora possui uma vitalidade maravilhosa, Miss Bligh
— felicitou-a. — Não sei como consegue se ocupar de tanta
coisa ao mesmo tempo. Devo confessar que após um dia de
excursão e compras gosto de descansar um pouco em minha
cama... apenas meia hora, mais ou menos, de olho fechado...
Numa cama bem cômoda, lógico. Tenho de lhe agradecer
muito por me recomendar a Mrs. Copleigh...
— Uma mulher de toda a confiança, embora não há que
negar que fale demais...
— Oh! Achei extremamente divertidas as histórias que me
contou dos moradores locais.
— A maior parte do tempo ela nem sabe do que está
falando! Pretende demorar-se alguns dias?
— Oh, não... Vou-me embora amanhã. Fiquei
decepcionada. Não encontrei nenhuma pequena
propriedade conveniente... Tinha esperança naquela casa tão
pitoresca à beira do canal...
— A vantagem foi sua. Está em péssimo estado de
conservação... Locadores ausentes... é uma pena.,.
— Nem consegui descobrir a quem pertence. Vai ver que a
senhora sabe. Parece conhecer tudo por aqui...
— Nunca me interessei muito por aquela casa. Sempre muda
de dono... Não dá pra acompanhar o andamento. Os Perrys
ocupam a metade..., enquanto a outra parte simplesmente se
estraga e arruína.
Tuppence tornou a se despedir e partiu para a residência de
Mrs. Copleigh. Encontrou tudo quieto e aparentemente
deserto. Subiu ao quarto, largou a sacola de compras vazia,
lavou o rosto, empoou o nariz, saiu de novo na ponta dos
pés, observou a rua em ambas as direções e depois, deixando
o carro onde estava, dobrou rapidamente a esquina e tomou
um atalho que cruzava o campo atrás da aldeia e ia dar,
eventualmente, num torniquete que comunicava com o
cemitério.
Tuppence entrou e, conforme prometera, pôs-se a examinar
as lápides. Era a hora do crepúsculo e reinava uma grande
tranqüilidade no local. Não tinha realmente nenhum motivo
oculto para proceder àquela busca. Não havia nada ali que
esperasse descobrir. Tratava-se, de fato, de mera delicadeza
de sua parte. O velho pastor era um encanto de pessoa e
Tuppence gostaria de que ele se sentisse inteiramente em
paz com a própria consciência. Levara uma agenda e um
lápis para a eventualidade de achar qualquer coisa digna de
anotar para ele. Presumia que devia apenas procurar uma
provável sepultura que assinalasse o lugar onde estava
enterrada uma criança da idade indicada. Não viu nenhuma
que fosse tão recente. A maioria apresentava restrito
interesse, não tendo suficiente antigüidade para despertar
curiosidade ou mostrar inscrições comoventes ou ternas.
Eram quase todas de pessoas relativamente idosas. Mesmo
assim demorou-se um pouco a contemplá-las, compondo
quadros na imaginação. Jane Elwood, falecida a 6 de janeiro,
na idade de 45 anos. William Marl, falecido a 5 de janeiro,
"saudades eternas". Mary Treves, com cinco anos apenas. 14
de março de 1835. Há mais de um século. "Em tua presença,
a plenitude da alegria." Feliz Mary Treves!
Chegou bem perto do muro. As sepulturas naquele recanto
estavam abandonadas e cobertas de hera. Ninguém parecia
cuidar desse pedaço do cemitério. Várias lápides já nem se
achavam mais em posição vertical, espalhadas pelo chão. O
muro estava danificado e desmoronando. Havia lugares em
que se desfizera por completo.
Ficando escondido pela igreja, não podia ser enxergado da
estrada... e sem dúvida os moleques vinham fazer todo o
estrago que podiam. Tuppence curvou-se sobre uma das
lajes... Os dizeres originais estavam gastos e ilegíveis... Mas
erguendo-a de lado, Tuppence distinguiu algumas letras e
palavras rabiscadas toscamente, agora também em parte
cobertas pela vegetação.
Abaixou-se para traçá-las com o indicador e decifrou
palavras isoladas...
Ai de quem... escandalizar... inocentes...
Mó... Mó... Mó... e embaixo.. , num entalhe malfeito:
Aqui jaz Lily Waters.
Tuppence, de espanto, reteve o fôlego... Percebeu que havia
uma sombra às suas costas, mas antes que pudesse se virar...
sentiu uma violenta pancada na nuca e caiu de bruços sobre
o túmulo, mergulhando na dor e nas trevas.

TERCEIRA PARTE - A esposa desaparecida
10 - Uma conferência... e depois

— ENTÃO, BERESFORD — perguntou o Major-General Sir
Josiah Penn, K.M.G., C.B., D.S.O., com a solenidade
apropriada à profusão impressiva de letras que
acompanhavam seu nome, — que me diz de todo esse lero-
lero?
Por essa observação Tommy deduziu que o Velho Josh,
como era irreverentemente apelidado pelas costas, não
estava impressionado com o resultado do andamento das
conferências de que participavam.
— Conversa fiada não resolve nada — prosseguiu Sir Josiah.
— Muita fumaça e pouco fogo. E se alguém sugere uma
medida sensata, na mesma hora quatro gênios se levantam
pra protestar. Francamente, não sei por que essa gente toda
vem aqui. Isto é, no fundo eu sei. Pelo menos no meu caso.
Os outros é que não sabem. Se eu não viesse, teria de ficar
em casa. E sabe o que acontece lá? Sou tiranizado, Beresford.
Pela governanta, pelo jardineiro. É um velho escocês que
nem sequer me deixa tocar em meus próprios pêssegos. Por
isso venho pra cá, me mexo de um lado pro outro e finjo
que estou exercendo uma função útil, garantindo a
segurança da pátria! Que rematada tolice! Mas, e você?
Ainda é relativamente moço. Por que desperdiça seu tempo
com um troço desses? Ninguém lhe prestará atenção,
mesmo que diga coisas que valham a pena ouvir.
Tommy, ligeiramente divertido com o fato de que, apesar de
se considerar em idade avançada fosse julgado jovem por Sir
Josiah Penn, sacudiu a cabeça. Pelos seus cálculos, o Major-
General devia estar com muito mais de oitenta anos, mas
embora estivesse um pouco surdo e sofresse de bronquite
crônica, ninguém o fazia de tolo.
— Se o senhor não viesse — afirmou — não se chegaria a
nenhum resultado.
— Também acho — disse o General. — Sou um velho
buldogue desdentado..., mas ainda posso latir. Como vai
Mrs. Tommy? Faz tempo que não nos vemos.
Tommy informou que Tuppence ia bem e andava sempre
ativa.
— Ela sempre foi. Às vezes até parecia ter o diabo no corpo.
Agarrava-se a um pressentimento aparentemente absurdo
que lhe vinha à idéia e depois descobria-se que não era tão
absurdo assim. Muito divertida! — comentou, com ar de
aprovação. — Não simpatizo com essas mulheres sérias de
meia-idade que a gente encontra hoje em dia, todas
empenhadas numa Causa com C maiúsculo. E quanto às
moças... — sacudiu a cabeça. — Não são como as do meu
tempo. Como eram lindas! Aqueles vestidos de musselina! E
os chapéus cloche que usaram certa época! Você se recorda?
Não, imagino que estaria na escola. Precisava-se espiar por
baixo da aba pra enxergar o rosto. Uma coisa tantalizante, e
elas sabiam! Agora me lembrei... espere... era uma parenta
sua... uma tia, não é mesmo?... Ada. Ada Fanshawe...
— Tia Ada?
— A moça mais bonita que vi em toda a minha vida.
Tommy mal conseguiu disfarçar sua surpresa. Parecia-
lhe inacreditável que tia Ada pudesse ter sido considerada
um paradigma de beleza. O Velho Josh continuava, todo
agitado.
— Sim, parecia uma pintura. E como era viva! Alegre!
Provocante como só ela. Ainda me lembro a última vez que
nos vimos. Eu era um subalterno, de partida pra índia.
Fomos a um piquenique na praia, em noite de luar... Nos
afastamos do grupo e sentamos num rochedo, olhando o
mar.
Tommy fitou-o com grande interesse. Aquela papada, a
cabeça careca, as sobrancelhas hirsutas e a enorme barriga.
Imaginou tia Ada: o buço incipiente, o sorriso malévolo, os
cabelos grisalhos, cor de ferro, o olhar malicioso. O que o
tempo faz com as pessoas! Tentou visualizar um belo jovem
subalterno e uma linda moça ao luar. Desistiu.
— Fabuloso — disse Sir Josiah Penn com profundo suspiro.
— Ah sim, fabuloso. Queria pedi-la em casamento naquela
mesma noite, mas de que jeito se era apenas um subalterno
que ganhava um soldo irrisório? Teríamos de esperar cinco
anos, no mínimo pra casar. Era um noivado longo demais
pra uma moça aceitar. Enfim! Sabe como são essas coisas.
Fui pra Índia e passou-se muito tempo antes que pudesse
obter uma licença. Trocamos algumas cartas, mas depois a
correspondência cessou. Como geralmente acontece. Jamais
a revi. E, no entanto, sabe, nunca consegui esquecê-la.
Pensava nela com freqüência. Lembro-me de que certa vez,
anos mais tarde, quase lhe escrevi. Soube que se achava nas
imediações de uma casa onde eu estava hospedado. Quis ir
procurá-la, perguntar se podia visitá-la. Aí então disse
comigo mesmo: — "Não seja idiota. Vai ver que
provavelmente mudou muito." Passados mais alguns anos,
escutei um sujeito dizer que ela era uma das mulheres mais
feias que já tinha visto. Mal pude acreditar nos meus
ouvidos, mas de fato creio que foi uma sorte nunca tê-la
encontrado de novo. Por onde anda agora? Continua viva?
— Não. Faleceu há cerca de duas ou três semanas, pra falar a
verdade — respondeu Tommy.
— Realmente? Não diga! É, suponho que estaria com...
quanto mesmo? Setenta e cinco ou setenta e seis? Até um
pouco mais velha, talvez.
— Tinha oitenta.
— Imagine só. A morena e vivaz Ada. Onde morreu? Estava
numa casa de saúde ou morava com alguém?... Nunca se
casou, não foi?
— Não — confirmou Tommy — nunca. Estava num asilo de
velhice. Muito bom, por sinal. Chamado Sunny Ridge.
— Ah, conheço de nome. Sunny Ridge. Creio que minha
irmã conhecia uma senhora internada lá. Uma tal Mrs... ora,
como era mesmo?... Mrs. Carstairs. Chegou a encontrá-la?
— Não. Não cheguei a ver muita gente lá. A gente
costumava apenas visitar tia Ada.
— Deve ser um negócio difícil, também. Quero dizer,
nunca se sabe o que conversar.
— Com titia, então, era um problema. Uma verdadeira fera,
sabe?
— Não duvido. — O General riu. — Sabia ser um autêntico
demônio quando queria, no tempo de moça.
Deu um suspiro.
— Essa coisa de envelhecer é terrível. Uma das amigas de
minha irmã sofria de manias, coitada. Vivia dizendo que
tinha matado alguém.
— Santo Deus — exclamou Tommy. — E tinha mesmo?
— Oh, acho que não. Parece que ninguém acreditava. Eu
creio — continuou o General, pensativo — que talvez
tivesse, sabe? Quando a gente começa a espalhar coisas desse
tipo com o ar mais alegre deste mundo, ninguém acredita,
não é mesmo? Que tal a idéia, hem?
— Quem é que ela julgava ter assassinado?
— Sei lá. O marido? Nunca soube o que ele fazia nem como
era. Quando viemos a- conhecê-la, já estava viúva. Olhe —
acrescentou com um suspiro, — lamento a notícia da morte
de Ada. Não li no jornal. Senão, teria enviado flores ou
qualquer coisa. Um buque de rosas ou algo parecido. Na
época era o que as moças usavam nos vestidos de gala.
Ficava tão bonito. Lembro-me de que Ada tinha um... cor
de hortênsia, uma espécie de malva. Todo azulado, com
botões de rosa no peito. Uma vez me deu um. Não
verdadeiro, lógico. Artificial. Guardei durante muito
tempo... anos. Eu sei — disse, percebendo o olhar de
Tommy, — que dá vontade de rir, não é? Ouça o que lhe
digo, rapaz, quando a gente fica realmente velho e gaga que
nem eu, volta a ser sentimental de novo. Bem, acho melhor
ir andando pra assistir ao último ato deste ridículo
espetáculo. Dê lembranças a Mrs. T. quando chegar em casa.
No dia seguinte, no trem, Tommy recapitulou essa conversa,
sorrindo consigo mesmo e tentando outra vez imaginar a
terrível tia e o ardente Major-General em seus dias de
juventude.
— Preciso contar pra Tuppence. Ela vai achar graça. O que
será que andou fazendo durante minha ausência?
Tornou a sorrir.

O fiel Albert abriu a porta de entrada com. radiante acolhida.
— Que bom que o senhor está de volta.
— Eu que o diga... — Tommy entregou-lhe a mala. — Onde
está Mrs. Beresford?
— Ainda não chegou, patrão.
— Quer dizer que ela foi pra fora?
— Há três ou quatro dias. Mas virá pro jantar. Telefonou
ontem avisando.
— O que é que ela anda tramando, Albert?
— Francamente, não sei. Foi de carro, mas levou junto uma
porção de guias ferroviários. Pode estar em qualquer lugar,
por assim dizer.
— Sim, sem dúvida — retrucou Tommy com convicção. —
Onde o diabo perdeu as botas... ou no fim do mundo... e
decerto na volta perdeu a conexão num brejo qualquer. Que
Deus proteja as Ferrovias Britânicas! Ela telefonou ontem,
então? Não disse em que lugar estava?
— Não.
— A que horas foi isso?
— De manhã. Antes do almoço. Disse apenas que estava
tudo bem. Não tinha certeza da hora em que ia chegar, mas
achava que seria muito antes do jantar e sugeriu uma
galinha. Fica bem pro senhor também?
— Fica — respondeu Tommy, consultando o relógio de
pulso, — só que ela vai ter de se apressar.
— Eu controlo a galinha no forno — prometeu Albert.
Tommy sorriu.
— Isso mesmo. Segure-a pelo rabo. Como vai você, Albert?
Tudo em ordem em casa?
— Houve um susto com sarampo... Mas não foi nada. O
doutor disse que é benigno.
— Ótimo.
Tommy subiu a escada assobiando alegremente. Entrou no
banheiro, fez a barba, lavou-se, passou ao quarto de dormir e
olhou em torno. Apresentava aquele curioso ar de abandono
que certos dormitórios têm quando os ocupantes se
ausentam. Frio e inóspito. Estava tudo escrupulosamente
arrumado e limpo. Sentiu uma sensação de tristeza como a
que ocorreria a um cão fiel, por exemplo. Percorrendo-o
com o olhar, parecia-lhe que Tuppence nunca existira.
Nenhum talco esparramado, nenhum livro virado para
baixo, de capa aberta, marcando a página.
— Patrão.
Era Albert, parado na soleira da porta.
— Que é?
— Estou ficando preocupado com a galinha.
— Ora, a galinha que vá pro inferno — exclamou. — Você
parece que não tem outra coisa na cabeça.
— Ué, eu pensei que o senhor e a patroa chegariam o mais
tardar às oito. Quero dizer, estariam à mesa no máximo a
essa hora.
— Foi o que eu também pensei — disse Tommy, olhando o
relógio. — Santo Deus, já faltam vinte e cinco pras nove?
— Exatamente, patrão. E a galinha...
— Ora essa — atalhou Tommy, — tire-a do forno e vamos
comê-la de uma vez. Bem feito pra Tuppence! "Vou voltar
muito antes do jantar". Pois sim!
— Claro que algumas pessoas jantam tarde — comentou
Albert. — Uma vez estive na Espanha e, acredite, nunca se
conseguia comer antes das dez. Da noite. Veja só! Pagãos!
— Está bem — retrucou Tommy distraído. — A propósito,
não sabe onde ela andou este tempo todo?
— O senhor se refere à patroa? Não sei, não. Correndo por
aí, acho eu. Pelo que pude entender, a primeira coisa que ela
pensou foi viajar de trem. Estava sempre consultando o A.
B. C., com os horários e tudo mais.
— É, imagino que cada um se diverte como pode. Ela, pelo
jeito, tem um fraco por viajar de trem. Mesmo assim,
gostaria de saber onde está. Decerto sentada na Sala de
Espera da estação de um brejo qualquer.
— Ela sabia que o senhor ia chegar hoje, não sabia, patrão?
Não se preocupe que ela acaba aparecendo. Tenho certeza.
Tommy percebeu que estava recebendo um penhor de
lealdade. Ele e Albert se achavam solidários em censurar
uma Tuppence que, durante seu idílio com as Ferrovias
Britânicas, negligenciava a pontualidade de receber o marido
com um acolhimento condigno.
Albert retirou-se para livrar a galinha da possível desgraça de
ser cremada no forno.
Tommy, que esboçara um gesto para acompanhá-lo, deteve-
se e olhou a lareira. Aproximou-se lentamente e contemplou
o quadro ali pendurado. Estranho que ela tivesse tanta
certeza de ter visto antes aquela casa. Tommy estava
absolutamente seguro de que nunca a vira. Em todo caso,
parecia-lhe uma casa comum. Devia haver uma porção,
iguais.
Espichou-se o máximo que pôde e como ainda assim não
lograsse enxergar bem, tirou-o do gancho e levou-o para
perto da lâmpada. Uma residência tranqüila e simpática.
Trazia a assinatura do pintor. O nome começava por B,
embora não desse para entender exatamente. Bosworth...
Bouchier... Conseguiria Uma lente de aumento para
examinar melhor. Um alegre repique de cincerros veio do
vestíbulo. Albert se encantara com os cincerros suíços que
Tommy e Tuppence compraram certa vez em Grindelwald.
Tornara-se um virtuoso em manejá-los. O jantar estava na
mesa. Tommy se encaminhou à sala de refeições. Achava
esquisito que Tuppence ainda não houvesse chegado.
Mesmo que tivesse furado um pneu, o que era mais que
provável, admirava-se de que não telefonasse para explicar
ou se desculpar pelo atraso.
— Podia adivinhar que eu ficaria preocupado — disse
consigo mesmo.
Não, naturalmente, que algum dia tivesse ficado... não com
Tuppence. Sempre saía-se bem em tudo. Albert contrariou
essa disposição.
— Tomara que não tenha sofrido um acidente — observou,
oferecendo-lhe um prato de repolho e sacudindo a cabeça
de modo lúgubre.
— Tire isso daqui. Você sabe que eu detesto repolho —
disse Tommy. — À saúde de que sofreria um acidente? São
apenas nove e meia.
— Andar de carro na estrada hoje em dia é um verdadeiro
suicídio — afirmou Albert. — Qualquer pessoa pode sofrer
um desastre.
A campainha do telefone tocou.
— É ela — exclamou Albert.
Largando logo o prato de repolho no aparador, saiu às
pressas da sala. Tommy se levantou, abandonando a galinha,
e seguiu-o. Já estava dizendo: — "Deixe que eu atendo",
quando Albert falou.
— Alô! Sim, Mr. Beresford está. Vai atender. — Virou-se
para Tommy. — Um tal de Dr. Murray quer falar com o
senhor.
— Dr. Murray? Tommy pensou um instante. O nome
parecia familiar, mas de momento não podia saber quem era.
Se Tuppence tivesse sofrido um acidente... e então, com um
suspiro de alívio, lembrou-se de que o Dr. Murray era o
médico que atendia as velhas em Sunny Ridge. Talvez fosse
algo relacionado com os formulários de óbito de tia Ada.
Autêntico filho de nossos dias, Tommy imediatamente
supôs que se tratava de um problema burocrático qualquer...
alguma coisa que deveria ter assinado ou que o Dr. Murray
se esquecera de assinar.
— Pronto — atendeu, — aqui é Beresford.
— Ah, que bom que o encontrei em casa. Espero que se
recorde de mim. Tratei de sua tia, Miss Fanshawe.
— Me lembro perfeitamente, sim. Desejava alguma coisa?
— Precisava muito ter uma conversa com o senhor qualquer
dia desses. Que tal se marcássemos um encontro na cidade,
talvez?
— Sim, por que não? Perfeitamente. Mas... hum... o assunto
não pode ser tratado pelo telefone?
— Preferia que não. Não há tanta urgência. Não vou dizer
que haja... porém gostaria de ter uma conversa com o
senhor.
— Alguma coisa errada? — perguntou Tommy, surpreso por
se expressar dessa maneira. Por que haveria alguma coisa
errada?
— De fato não. Talvez eu esteja fazendo tempestade em
copo d'água. Provavelmente estou. Porém ocorreram certos
acontecimentos bastante curiosos em Sunny Ridge nesses
últimos tempos.
— Nada em relação à Mrs. Lancaster, não é? — perguntou
Tommy.
— Mrs. Lancaster? — O médico pareceu surpreso. — Oh,
não. Ela foi-se embora já há algum tempo. Creio mesmo
que... antes da morte de sua tia. Trata-se de algo bem
diferente.
— Estive pra fora... recém-acabo de chegar. Quem sabe não
seria melhor eu ligar pro senhor amanhã de manhã... então
combinaríamos.
— Perfeito. Deixo-lhe meu telefone. Estarei na clínica até às
dez.
— Más notícias? — indagou Albert quando Tommy voltou à
sala de refeições.
— Pelo amor de Deus, Albert, pare de bancar a ave de mau
agouro! — retrucou Tommy irritado. — Não... claro que não
foram más notícias.
— Pensei talvez que a patroa...
— Ela está muito bem — garantiu Tommy. — Sempre
esteve. Provavelmente correndo feito lebre atrás de alguma
pista duvidosa qualquer... Sabe como ela é. Não vou me
preocupar mais. Tire daqui este prato de galinha... Você o
deixou no forno aceso e está intragável. Me dê um pouco de
café. Depois vou dormir.
— Amanhã decerto virá carta. Entregue com atraso... o
senhor sabe como é o correio... ou então um telegrama...
um telefonema.
No dia seguinte, porém, não houve carta nem telefonema
nem telegrama.
Albert olhou para Tommy, abriu e fechou a boca várias
vezes, julgando com toda a razão que previsões sombrias de
sua parte não seriam bem recebidas.
Finalmente Tommy se compadeceu dele. Engoliu um último
naco de torrada, coberto de geléia de laranja e misturado
com um pouco de café, e disse:
— Está bem, Albert, deixe que a pergunta parta de mim:
onde anda ela? O que lhe aconteceu? E o que devemos
fazer?
— Chamar a polícia, patrão?
— Não tenho certeza. Escute... Fez uma pausa.
— Se ela sofreu um desastre...
— Mas tinha a carteira de motorista... e uma porção de
documentos de identidade... Os hospitais são muito rápidos
pra comunicar essas coisas... entrar em contato com
parentes... e tudo mais. Não quero me precipitar... ela... ela...
talvez não queira. Você não tem nenhuma idéia... nenhuma
mesmo, Albert, pra onde ela tencionava ir?... Nada que
tenha dito? Um lugar... uma região especial? Nem uma
referência a um nome qualquer?
Albert sacudiu a cabeça.
— Como era o jeito dela? Alegre? Agitada? Triste? Inquieta?
A resposta de Albert foi instantânea.
— Feliz da vida... Estourando de contentamento.
— Que nem um perdigueiro no rastro — disse Tommy.
— Isso mesmo, patrão... o senhor sabe como ela fica...
— Atrás de alguma pista... Só queria saber...
Parou para refletir.
Alguma coisa acontecera e, tal como acabava de dizer a
Albert, Tuppence saíra correndo como um perdigueiro de
bom faro. Anteontem telefonara, avisando que ia chegar.
Por que, então, não voltara? Talvez neste momento, pensou
Tommy, esteja sentada nalgum lugar, pregando mentiras
com tanto prazer que se esqueceu do resto!
Se andava empenhada nalguma busca, ficaria extremamente
aborrecida se ele se abalasse a avisar a polícia, balindo feito
um carneiro, que a esposa tinha desaparecido... Parecia ouvi-
la: "Como é que você pôde ser tão boboca pra fazer uma
coisa dessas! Sou perfeitamente capaz de cuidar de mim
mesma. Já era tempo que soubesse disso! (Mas seria, de fato,
capaz?)
Nunca se podia saber com certeza aonde a imaginação de
Tuppence a levaria.
A algum risco? Por enquanto não se manifestara nenhuma
evidência de perigo nessa história... Exceto, conforme se
observou há pouco, na própria imaginação de Tuppence.
Se fosse à policia, declarando que a esposa não viera pra casa
como pretendia... Haviam de ficar sentados, muito
comedidos, porém no mínimo rindo à socapa, e depois, com
absoluta certeza e sempre guardando o maior tato,
perguntariam quem eram os amigos dela...
— Tenho de encontrá-la sozinho — disse Tommy. — Há de
estar nalgum lugar. Seja norte, sul, leste ou oeste, pouco se
me dá... só sei que foi uma verdadeira biruta em não deixar
uma indicação qualquer sobre onde se achava, quando
telefonou.
— Talvez caísse nas mãos de uma quadrilha — sugeriu
Albert.
— Ora, deixe de criancices, Albert! Você já está taludo
demais pra esse tipo de brincadeira!
— Que tenciona fazer, patrão?
— Irei a Londres — declarou Tommy, consultando o
relógio. — Primeiro vou almoçar no clube com o Dr.
Murray, que chamou pra cá ontem à noite e quer me falar
qualquer coisa relacionada com os negócios de minha
falecida tia... É possível que me dê algum palpite
aproveitável... Afinal de contas, a história toda começou em
Sunny Ridge. Também pretendo levar junto aquele quadro
pendurado em cima da lareira do nosso quarto...
— Quer dizer que vai levá-lo à Scotland Yard?
— Não — respondeu Tommy. — Vou levá-lo a Bond Street.

11 - Bond Street e o Dr. Murray

TOMMY SALTOU do táxi, pagou a corrida e curvou-se de novo
para retirar do interior um pacote mal feito que continha
obviamente um quadro. Sobraçando-o da melhor forma que
pôde, entrou na New Athenian Galleries, uma das mais
tradicionais e importantes galerias de pintura em Londres.
Tommy não era um grande comprador de quadros, porém
viera à New Athenian porque um amigo oficiava ali.
"Oficiava" era bem o termo, devido ao seu ar de interesse
solícito, a voz abafada, o sorriso conciliatório, tudo
extremamente eclesiástico.
Um rapaz louro abandonou o que estava fazendo e
aproximou-se, iluminado por um sorriso de
reconhecimento.
— Olá, Tommy — disse. — Há quanto tempo não nos
vemos. Que é isto que você traz debaixo do braço? Não me
diga que resolveu dedicar-se à pintura depois de velho!
Muita gente inventa de fazer o mesmo... com resultados
geralmente deploráveis.
— Duvido que a pintura criativa alguma vez tenha sido o
meu forte — retrucou Tommy. — Embora deva confessar
que ainda outro dia me senti fortemente atraído por um
livrinho que ensinava, nos termos mais simples, como uma
criança de cinco anos podia pintar à aquarela.
— Deus nos livre que você comece isso. Vovó Moses ao
inverso.
— Pra ser franco. Robert. queria apenas consultar sua
opinião de técnico em pintura. Diga o que acha ''isto.
Robert tomou jeitosamente o quadro da« mãos de Tommy e
desembrulhou com perícia o pacote mal feito, revelando a
habilidade de um homem acostumado a lidar com qualquer
tipo de embalagem de obras de arte dos tamanhos mais
diversos. Retirou o quadro e colocou-o numa cadeira,
curvando-se para examiná-lo bem. e depois recuou cinco ou
seis passos. Olhou para Tommy.
— Então? — perguntou. — Qual é o problema? O que é que
você quer saber? Pretende vendê-lo, por acaso?
— Não — respondeu Tommy. — Não pretendo, não.
Robert. Quero apenas uma informação. Pra começar, quem
é o pintor?
— Pois olhe, se quiser vendê-lo, a ocasião não podia ser
melhor. Há dez anos seria diferente. Mas hoje a pintura de
Boscowan está de novo em moda.
— Boscowan? — Tommy fez um ar interrogativo. — É esse
o nome dele? Notei que a assinatura começava por B, mas
não consegui decifrar.
— Ah, nem há dúvida de que é dele. Teve grande voga há
cerca de vinte e cinco anos. Vendia bem, fez uma porção de
exposições. E todo mundo comprava. Tecnicamente, tinha
um estilo perfeito. Depois, como sempre acontece, a febre
passou, e mal conseguia vender um quadro. Ultimamente,
porém, recuperou a popularidade. Ele, Stichwort e Fondella.
Estão todos voltando.
— Boscowan — repetiu Tommy.
— B-o-s-c-o-w-a-n — escandiu Robert, prestativo.
— Continua pintando?
— Não. Morreu. Faz alguns anos. Já era bem velho. Creio
que devia ter uns sessenta e cinco quando faleceu. Muito
prolífico, sabe? Deixou uma infinidade de telas. Pra dizer a
verdade, estamos pensando em organizar uma mostra da
obra dele aqui na loja dentro de uns quatro ou cinco meses.
Acho que será um bom negócio. Por que todo esse interesse
por ele?
— Seria uma história muito longa pra contar — respondeu
Tommy. — Qualquer dia destes eu convido você pra
almoçar e esclareço tudo desde o início. É muito comprida,
complicada e realmente bastante asnática. Eu somente
queria saber quem era esse Boscowan e se por acaso não
podia me informar onde fica a casa deste quadro.
— Quanto a isso, não tenho a menor idéia. É o tipo de coisa
que ele gostava de pintar, sabe? Pequenas casas rurais,
geralmente situadas em locais solitários, às vezes uma granja,
outras com um par de vacas por perto. Se incluía alguma
carroça, via-se apenas de longe. Calmas cenas bucólicas.
Nada de esboços ou borrões. Certas ocasiões a superfície do
quadro parece quase de esmalte. Era uma técnica sui generis,
muito apreciada. Grande parte dos temas que pintou foram
feitos na França, a maioria na Normandia. Existe uma tela
dele atualmente aqui na galeria. Espere um instante que eu
busco.
Chegou à beira da escada e chamou alguém lá em baixo. Não
demorou muito, voltou com um pequeno quadro na mão e
colocou em cima de outra cadeira.
— Pronto, cá está — disse. — Igreja na Normandia.
— Sim — concordou Tommy, — percebo. O mesmo tipo de
coisa. Minha mulher diz que ninguém jamais morou naquela
casa... a do quadro que eu trouxe. Agora entendo ao que ela
se referia. Duvido que alguém tivesse assistido ou venha a
assistir missa nesta igreja.
— É, provavelmente tem razão. Moradas tranqüilas,
pacíficas, sem nenhum morador, Ele quase não pintava
gente, sabe? Às vezes surge uma que outra figura na
paisagem, mas é muito raro. De certo modo, acho que lhes
dá um encanto especial. Uma espécie de sensação de
isolamento. Era como se ele removesse todos os seres
humanos e a paz dos campos ficasse muito melhor sem eles.
Pensando bem, talvez seja por isso que o gosto do público se
inclinasse de novo por ele. Hoje em dia há gente demais,
carros, barulho nas ruas, um excesso de ruídos e agitação.
Paz. Uma paz inalterável. Tudo entregue à natureza.
— Sim, não me admiro. Que tipo de homem foi ele?
— Não o conheci pessoalmente. Não é do meu tempo.
Presumido, segundo dizem. No mínimo se julgava melhor
pintor do que de fato era. O protótipo do garganta. Afável,
bastante simpático. Mulherengo.
— E não faz nenhuma idéia de onde fica esta região? Porque
é na Inglaterra, suponho.
— Sim, creio que é. Quer que eu descubra pra você?
— Acha possível?
— Provavelmente a melhor coisa a fazer seria perguntar à
mulher dele, isto é, à viúva. Era casado com Emma Wing, a
escultora. Famosa. Não muito produtiva. Tem uma obra
realmente vigorosa. Você poderia procurá-la. Mora em
Hampstead. Se quiser, dou-lhe o endereço. Trocamos
bastante correspondência ultimamente a respeito dessa
exposição dos trabalhos do marido que está programada.
Vamos aproveitar pra incluir algumas peças menores de suas
esculturas. Vou buscar o endereço pra você.
Foi à escrivaninha, folheou um livro-razão, rabiscou
qualquer coisa num cartão e trouxe de volta.
— Pronto, Tommy — disse. — Não sei que mistério
insondável é esse. Você sempre foi dado a enigmas, não?
Tem ai um belo exemplar da obra do homem. Talvez
pudéssemos usá-lo na exposição. Quando chegar perto da
data eu lhe escrevo, pra lembrar.
— Não conhece uma tal de Mrs. Lancaster, por acaso?
— Olhe, assim de momento, creio que não. É pintora ou
troço parecido?
— Não me consta que seja. É apenas uma senhora idosa
vivendo seus derradeiros anos num asilo de velhice. Ela
entra na história porque este quadro lhe pertencia antes de
dá-lo de presente a uma tia minha.
— Pois não posso dizer que o nome signifique alguma coisa
pra mim. É melhor você falar com Mrs. Boscowan.
— Como é ela?
— Era um bocado mais moça que o marido, acho eu. Uma
personalidade e tanto. — Sacudiu a cabeça umas duas vezes.
— Sim, uma personalidade e tanto. Como no mínimo você
verá.
Pegou o quadro e entregou-o do alto da escada, pedindo a
alguém no andar térreo para embrulhá-lo de novo.
— Que bom pra você, ter tantos lacaios à sua disposição —
ironizou Tommy.
Olhou ao redor, reparando pela primeira vez no ambiente.
— Que negócio é aquele pendurado ali? — perguntou com
repugnância.
— Paul Jaggerowski... Um jovem eslavo interessante. Consta
que produz todas as suas obras sob a influência de drogas...
Não gosta?
Tommy concentrou o olhar numa grande sacola de corda
que parecia ter-se emaranhado num campo verde metálico
cheio de vacas deformadas.
— Francamente, não.
— Filisteu — retrucou Robert. — Venha, vamos almoçar
juntos.
— Não posso. Marquei encontro com um médico no clube.
— Você não está doente, está?
— Estou ótimo. Minha pressão é tão boa que decepciona
cada doutor que eu consulto.
— Então por que precisa falar com ele?
— Ora — disse Tommy alegremente. — É só por causa de
um cadáver. Obrigado pelo auxílio. Até à vista.

Tommy cumprimentou o Dr. Murray com certa
curiosidade... Presumia que se tratasse de alguma
formalidade relacionada com a morte de tia Ada, mas não
conseguia imaginar por que diabo o médico não queria nem
sequer tocar no assunto pelo telefone.
— Desculpe o atraso — disse o Dr. Murray, apertando-lhe a
mão, — mas o trânsito estava um caso sério e eu não tinha
muita certeza da localização. Não conheço bem esta parte de
Londres.
— Pois é uma pena que tivesse de vir até aqui — replicou
Tommy. — Podíamos ter marcado encontro num ponto
mais conveniente.
— Quer dizer, então, que de momento está disponível?
— De momento, sim. Estive ausente na semana passada.
— Ah é, creio que alguém me disse quando liguei pra sua
casa.
Tommy indicou uma poltrona, sugeriu um drinque e
colocou cigarros e fósforos ao lado do Dr. Murray. Depois
que ambos se instalaram à vontade, o médico começou a
falar.
— Tenho certeza de que lhe despertei a curiosidade, mas,
pra ser franco, houve uni transtorno em Sunny Ridge. Trata-
se de um problema difícil e intrincado, que, por um lado,
nada tem a ver com o senhor. Não possuo o mínimo direito
de aborrecê-lo com isso, porém há uma leve probabilidade
de que talvez saiba alguma coisa que possa me ajudar.
— Bem, claro que farei tudo que estiver a meu alcance.
Trata-se de algo relacionado com minha tia, Miss Fanshawe?
— Não de modo direto. No entanto, de certa forma, diz
respeito também a ela. Posso falar-lhe confidencialmente,
não posso, Mr. Beresford?
— Naturalmente que sim.
— Pra dizer a verdade, outro dia estive conversando com
um amigo comum e ele me contou algumas coisas a seu
respeito. Soube que durante a última guerra teve uma missão
bastante melindrosa.
— Eu não diria que fosse tão séria assim — retrucou
Tommy, da maneira mais neutra possível.
— Oh não, compreendo perfeitamente que é uma coisa que
não se pode comentar.
— Acho que hoje de fato não tem mais importância. A
guerra aconteceu há muito tempo. Minha esposa e eu
éramos jovens na época.
— Em todo caso, nada tem a ver com o motivo por que
quero falar-lhe. Mas assim ao menos sinto que posso fazê-lo
com franqueza, confiante de que não repetirá o que lhe
estou dizendo, embora seja possível que mais tarde tudo
venha a público.
— Houve um transtorno em Sunny Ridge, pelo que
entendi?
— Sim. Há pouco tempo, uma de nossas pacientes faleceu.
Uma tal de Mrs. Moody. Não sei se chegou a conhecê-la ou
se sua tia alguma vez a mencionou.
— Mrs. Moody? — Tommy refletiu. — Não, tenho a
impressão de que não. Seja como for, não me lembro.
— Não era das mais velhas. Tinha pouco mais de setenta e
não sofria de nenhuma espécie de moléstia grave. Tratava-se
apenas de uma mulher sem parentes próximos, que não
dispunha de ninguém pra cuidar dela na vida doméstica.
Pertencia à categoria que eu chamo de irrequieta. Criaturas
que, à medida que envelhecem, ficam cada vez mais
parecidas com galinhas. Cacarejam. Esquecem coisas.
Arrumam dificuldades e depois se preocupam. Atrapalham-
se todas sem o menor motivo. Não há praticamente nada
errado com elas. Rigorosamente falando, não sofrem de
distúrbios mentais.
— Porém não param de cacarejar — sugeriu Tommy.
— Justamente. Mis. Moody era assim. Provocava grande
confusão entre as enfermeiras, apesar de simpatizarem com
ela. Tinha o hábito de esquecer que já havia comido,
fazendo um estardalhaço por não ter recebido a refeição
quando, na verdade, acabara realmente de devorar um lauto
jantar.
— Ah — exclamou Tommy. lembrando-se. — Dona
Chocolate.
— Como disse?
— Desculpe — pediu Tommy, — é o apelido que minha
mulher e eu lhe tínhamos dado. Um dia, quando passamos
pelo corredor, ela saiu aos berros, chamando a enfermeira
Jane pra reclamar que não havia ganho seu chocolate. Uma
mulherzinha desmiolada muito simpática. Caímos na risada
e pegamos o costume de chamá-la de Dona Chocolate. Quer
dizer, então, que morreu?
— Não fiquei especialmente surpreso com seu falecimento
— prosseguiu o Dr. Murray. — É praticamente impossível
profetizar com exatidão a época em que uma senhora idosa
há de morrer. Algumas, cuja saúde se encontra seriamente
afetada e que após o resultado de um exame físico a gente
acha que mal resistirão até o fim do ano, duram às vezes
mais de dez. Agarram-se à vida com tal empenho que uma
simples deficiência física não é capaz de derrotá-las. Em
compensação, há outras, de saúde relativamente boa e que
dão a impressão de que se transformarão em macróbias: de
repente, pegam uma bronquite, ou gripe, demonstram falta
da histamina indispensável ao pronto restabelecimento, e
morrem com espantosa facilidade. Portanto, como eu estava
dizendo, na qualidade de médico de um asilo de senhoras
idosas, não me sinto surpreso quando ocorre o que se pode
denominar de uma morte mais ou menos imprevista. No
caso de Mrs. Moody, contudo, foi um pouco diferente.
Faleceu durante o sono sem ter acusado nenhum sintoma de
moléstia e não tive outro remédio senão considerar sua
morte como inesperada. Empregarei a frase que sempre me
intrigou no Macbeth, de Shakespeare. Só queria o que ele
quis dizer ao se referir à esposa: — "Ela devia ter morrido
mais adiante."
— De fato, lembro-me de que também fiquei pensando na
intenção de Shakespeare — concordou Tommy. — Esqueci
de quem era a encenação e qual o ator que interpretava
Macbeth, mas havia uma forte sugestão na montagem e
Macbeth certamente fazia tudo pra dar a impressão de que
estava insinuando ao médico que Lady Macbeth precisava
ser eliminada. É de presumir que o médico tenha
compreendido. Foi então que Macbeth, sentindo-se seguro
após a morte da esposa, sabendo que ela não poderia mais
prejudicá-lo com suas indiscrições ou seu cérebro
rapidamente em declínio, exprime autêntica afeição e pesar.
"Ela devia ter morrido mais adiante."
— Exatamente — retrucou o Dr. Murray. — Assim me senti
eu em relação à Mrs. Moody. Achei que devia ter morrido
mais tarde. Não há três semanas, sem motivo aparente...
Tommy não respondeu. Contentou-se em fitar o médico
com um olhar de expectativa.
— A nossa profissão oferece certos problemas. Quando se
fica perplexo com a causa mortis de um paciente, só existe
uma maneira de certificar-se. Através da autópsia. Os
parentes da pessoa falecida não gostam, mas se um médico
exige e o resultado for, como pode perfeitamente acontecer,
um caso de morte natural ou de alguma doença ou mal que
nem sempre apresentam sinais externos ou sintomas, então
a sua carreira profissional se expõe a ficar seriamente
comprometida por ter emitido um diagnóstico duvidoso...
— Percebo que há de ter sido delicado.
— Os parentes em questão são primos distantes. Por isso me
encarreguei de obter o consentimento deles, uma vez que
apurar a causa da morte constituía matéria de interesse
científico. Se um paciente sucumbe durante o sono, é
aconselhável aumentar os conhecimentos médicos da gente.
Dissimulei um pouco, note-se, não tornei a coisa demasiado
formal. Felizmente nem se importaram. Fiquei com o
espírito bem aliviado. Quando, após a autópsia, encontrasse
tudo em ordem, podia dar um atestado de óbito sem o
menor receio. Qualquer pessoa é capaz de morrer do que se
denomina vulgarmente colapso cardíaco, cujas causas
podem ser as mais diversas. Pra falar a verdade, o coração de
Mrs. Moody estava de fato em condições excelentes pra
idade que tinha. Sofria de artrite e reumatismo, além de
distúrbios ocasionais do fígado, porém nenhuma dessas
coisas parecia responsável pelo seu falecimento durante o
sono.
O Dr. Murray fez uma pausa. Tommy abriu a boca e tornou
a fechá-la. O médico sacudiu a cabeça.
— Sim, Mr. Beresford. Vejo que entendeu aonde pretendo
chegar. A morte fora conseqüência de uma dose excessiva
de morfina.
— Santo Deus!
A exclamação lhe escapou, enquanto os olhos se
arregalavam.
— É. Parece incrível, mas a análise provou de maneira
irrefutável. Surgiu a dúvida: como teria sido administrada?
Ela não tomava morfina. Não era uma paciente que sofresse
dores. Restavam três explicações, evidentemente. Talvez
tivesse tomado por acaso. É implausível. Podia também ter-
se apossado; por engano, do remédio destinado a outra
doente, porém essa hipótese é inverossímil. Ninguém deixa
um estoque de morfina nas mãos de um paciente e o asilo
não admite pessoas viciadas que possam dispor de um
abastecimento de uma coisa dessas em seu poder. Se se
tratasse de um suicídio premeditado, eu me surpreenderia
bastante. Mrs. Moody, embora se preocupasse à toa com
ninharias, gozava de uma disposição perfeitamente alegre e
estou certo de que nunca pensou em terminar com a própria
vida. A terceira explicação é que a dose fatal lhe fosse
administrada de modo proposital. Mas por quem, e por quê?
Naturalmente que Miss Packard, em sua qualidade de
enfermeira hospitalar diplomada e superintendente, está
perfeitamente autorizada a ter estoques de morfina e outros
entorpecentes em seu poder e que guarda num armário,
trancados à chave. Em tais casos como ciática e artrite
reumática, pode ocorrer uma dor tão aguda e desesperada
que de vez em quando torna-se indispensável ò uso da
droga. Tínhamos esperança de descobrir alguma
circunstância em que Mrs. Moody pudesse ter recebido
qualquer quantidade perigosa de morfina por engano ou que
ela própria tivesse tomado, na ilusão de que curasse
indigestão ou insônia. Porém não logramos apurar a menor
possibilidade. Decidimos então, por sugestão de Miss
Packard e concordância minha, examinar cuidadosamente o
registro de mortes em situações semelhantes que ocorreram
em Sunny Ridge durante os últimos dois anos. Ainda bem
que foram raras. Ao todo, creio que sete, o que representa
uma média razoável pras pessoas pertencentes a esse grupo
de idade. Dois casos de bronquite, absolutamente normais,
dois de gripe, quase sempre fatais nos meses de inverno, em
virtude da pouca resistência oferecida por mulheres frágeis e
idosas. E mais três.
Hesitou alguns segundos e depois continuou:
— Mr. Beresford, não me sinto satisfeito a respeito desses
últimos, pelo menos decididamente em relação a dois óbitos.
Eram perfeitamente prováveis, nada imprevistos, porém eu
me atreveria a afirmar que são implausíveis. Não se trata de
casos que, examinados em retrospecto, à luz da reflexão e
pesquisa, me deixem inteiramente convencido. Por incrível
que pareça, tem-se de aceitar a possibilidade de que existe
alguém em Sunny Ridge que é, talvez por motivos mentais,
um assassino. Um criminoso de quem ninguém desconfia.
Fez-se silêncio durante um certo momento. Tommy deu um
suspiro.
— Não duvido do que me contou — disse, — mas mesmo
assim, francamente, parece inacreditável. Essas coisas...
certamente não podem acontecer.
— Nisso o senhor se engana — retrucou implacável o Dr.
Murray, — acontecem sim. Tomemos, por exemplo, certos
casos patológicos. Uma mulher que fazia serviço doméstico.
Trabalhou como cozinheira em diversas casas de família. Era
simpática, bondosa, aparentemente agradável, fiel aos
patrões, cozinhando bem, gostando de estar em sua
companhia. No entanto, cedo ou tarde, aconteciam coisas.
Em geral um prato de sanduíches. Às vezes, farnéis de
piquenique. Sem o mínimo motivo, continham arsênico.
Numa pilha de sanduíches, apenas dois ou três estavam
envenenados. Pelo visto, somente o acaso determinava
quem os comeria. Parecia não existir maldade pessoal. De
vez em quando, evitava-se a tragédia. A mesma mulher
ficava três ou quatro meses num emprego, sem que se
registrasse o menor vestígio de doença. Nada. De repente
mudava de casa e, num prazo de três semanas, dois
membros da família morriam depois de comer bacon no
café da manhã. O fato de que todas essas coisas sucedessem
em diferentes regiões da Inglaterra e a intervalos regulares
fez com que a polícia demorasse algum tempo pra achar a
pista. Claro que ela sempre trocava de nome. Mas há tantas
mulheres de meia-idade simpáticas, eficientes e que sabem
cozinhar que foi difícil encontrar a que estavam procurando.
— Por que ela fazia isso?
— Não creio que alguém tenha realmente descoberto.
Houve várias teorias contraditórias, sobretudo de psicólogos,
é óbvio. Era uma espécie de fanática religiosa e é provável
que uma determinada forma de loucura mística lhe desse a
sensação de que possuía uma missão divina pra livrar o
mundo de certas pessoas, pois não consta que lhes devotasse
qualquer animosidade especial. Depois surgiu também
aquela francesa, Jeanne Gebron, que se intitulava o Anjo da
Piedade. Ficava tão preocupada quando adoecia o filho de
algum vizinho que corria pra cuidar da criança. Zelava noite
e dia à cabeceira. Nesse caso também levou certo tempo até
descobrirem que os objetos de sua solicitude nunca se
restabeleciam. Em vez disso, todos morriam. De novo, por
quê? É verdade que perdera o próprio filho quando moça. Â
desgraça a deixou prostrada de dor. Talvez fosse a causa de
sua carreira criminosa. Se o filho dela tinha morrido, todos
os outros também deviam morrer. Ou, conforme alguns
pensaram, talvez o próprio filho também tivesse sido uma
das vítimas.
— Estou sentindo um calafrio na espinha — disse Tommy.
— Citei os exemplos mais melodramáticos — retrucou o
médico. — Pode tratar-se de algo bem mais simples.
Lembra-se do caso Armstrong? Qualquer pessoa que o
ofendesse ou insultasse — às vezes bastava ele pensar que
tivesse sido insultado. — via-se logo convidada a tomar chá
com sanduíches de arsênico. Uma espécie de suscetibilidade
em último grau. Seus primeiros crimes foram obviamente
meros homicídios pra obter vantagens pessoais. Heranças A
eliminação da esposa pra se casar com outra. Houve também
o caso da enfermeira Warriner, que mantinha um asilo.
Todos lhe confiavam os bens que possuíam em troca da
garantia de uma velhice confortável pelo resto da vida... que
nunca era muito longa. Aplicava-lhes morfina, também...
uma mulher incrivelmente bondosa, mas totalmente
destituída de escrúpulos... creio que se considerava uma
benfeitora.
— Se sua suposição sobre essas mortes é válida, não tem
nenhuma idéia de quem possa ser?
— Não. Parece não haver indicação de espécie alguma.
Admitindo-se a hipótese de que o assassino sofra
provavelmente das faculdades mentais, a loucura é uma
coisa muito difícil de reconhecer em determinadas
manifestações. Será alguém, digamos, que detesta gente
velha, que teve a vida prejudicada ou arruinada, pelo menos
na sua opinião, por alguma pessoa idosa? Ou se trata, talvez,
de alguém que tem uma concepção própria da eutanásia e
acha que todo mundo com mais de sessenta anos de idade
deve ser exterminado sem dor? Podia ser qualquer um,
naturalmente. Uma paciente? Ou um membro da equipe...
uma enfermeira ou uma empregada doméstica? Discuti o
assunto longamente com Millicent Packard, a
administradora do estabelecimento. É uma mulher muito
competente, sagaz, prática, com absoluto controle tanto das
hóspedes como das subalternas. Ela insiste que não possui a
menor suspeita ou indício de qualquer espécie e eu tenho
certeza de que é a pura verdade.
— Mas por que me procurou? Que posso fazer?
— Sua tia, Miss Fanshawe, morou lá alguns anos... era uma
criatura de apreciável inteligência, embora muitas vezes
fingisse ser o contrário. Dispunha de recursos nada
convencionais pra se divertir, adorando ares senis. Quando
na realidade tinha a cabeça bem no lugar... O que eu gostaria
que o senhor fizesse, Mr. Beresford, é procurar lembrar-se
com exatidão... e sua esposa, também... Existe algo que se
recorde de ter ouvido Miss Fanshawe comentar ou insinuar,
que nos fornecesse uma pista?... Algo que ela tivesse visto
ou notado, que alguém lhe contasse e que julgasse esquisito?
As velhas enxergam e reparam numa série de coisas, e uma
pessoa realmente perspicaz que nem Miss Fanshawe deveria
estar a par de tudo que se passasse num lugar como Sunny
Ridge. Vivem desocupadas, compreende? Com todo o
tempo disponível pra olhar em torno e tirar deduções... e até
conclusões precipitadas... que podem parecei fantásticas,
mas às vezes resultam assombrosa e completamente
acertadas.
Tommy sacudiu a cabeça.
— Sei o que quer dizer... Porém não me recordo de nada
desse gênero.
— Soube que sua esposa está viajando. Não julga que ela
talvez se lembre de algo que não lhe tenha chamado a
atenção?
— Posso perguntar... mas duvido. — Hesitou, depois se
decidiu. — Escute aqui, havia uma coisa que intrigava minha
mulher... a respeito de uma das velhas, uma tal de Mrs.
Lancaster.
— Mrs. Lancaster? Sim?
— Minha esposa meteu na cabeça que Mrs. Lancaster tinha
sido retirada do Asilo por alguns supostos parentes de um
modo brusco demais. Pra dizer a verdade, Mrs. Lancaster
deu um quadro de presente à minha tia, e minha mulher
achou que devia se oferecer pra devolvê-lo e então tentou
entrar em contato com ela, pra saber se não gostaria de
recebê-lo de volta.
— Bem, não resta dúvida de que foi uma atitude muito
correta da parte de Mrs. Beresford.
— Acontece, porém, que não houve meios de localizá-la.
Conseguiu-se o endereço do hotel onde constava que se
teriam hospedado... Mrs. Lancaster e os parentes..., mas
ninguém com esse" nome estivera lá ou sequer fizera
reserva de quartos.
— É mesmo? Que estranho.
— Sim. Tuppence também achou. Em Sunny Ridge não
deixaram nenhum outro endereço. De fato, fizemos
inúmeras tentativas pra entrar em contato com Mrs.
Lancaster ou com a tal Mrs... Johnson, creio que se
chamava... sem obter qualquer resultado. Havia um
procurador que, segundo creio, pagava todas as contas... e
tomou as providências necessárias com Miss Packard. Nós o
procuramos. A única coisa que pôde fazer foi me dar o
endereço de um banco. E os bancos — acrescentou Tommy
friamente — não fornecem informação de espécie alguma.
— Especialmente se os clientes dão recomendação nesse
sentido. Tem razão.
— Minha mulher escreveu a Mrs. Lancaster por intermédio
do banco, e a Mrs. Johnson também. Porém nunca recebeu
resposta.
— Isso parece um pouco fora do comum. Contudo, as
pessoas nem sempre respondem as cartas que recebem.
Talvez tenham viajado pro exterior.
— Exatamente... por isso não me preocupei. Mas com
minha mulher foi diferente. Parece convicta de que
aconteceu qualquer coisa com Mrs. Lancaster. Pra ser
franco, durante o tempo em que estive fora de casa, ela disse
que ia investigar mais... não sei precisamente o que queria
insinuar com isso. Talvez ir em pessoa ao hotel, ou ao
banco, ou mesmo ao procurador. Seja como for, disse que
pretendia tentar obter maiores informações.
O Dr. Murray, embora acompanhasse a conversa
cortesmente, denotava traços de um tédio paciente no
comportamento.
— Em resumo, o que é que ela julgava...?
— Que Mrs. Lancaster estivesse correndo um risco
qualquer.... inclusive que alguma coisa já podia ter-lhe
acontecido.
O médico arqueou as sobrancelhas.
— Ora, francamente, nem sou capaz de imaginar que...
— Talvez tudo lhe pareça uma perfeita idiotice —
prosseguiu Tommy, — no entanto, minha esposa telefonou
avisando que voltaria ontem à noite... e... não voltou.
— Ela disse expressamente que pretendia voltar?
— Disse. Sabia que eu ia chegar, entende, de uma
conferência a que tive de comparecer. De modo que ligou
pro nosso empregado. Albert, prevenindo que estaria em
casa à hora do jantar.
— E isso lhe parece uma atitude incomum nela? —
perguntou Murray. Agora fitava Tommy com certo
interesse.
— Sim — respondeu. — Não parece coisa de Tuppence. Se
fosse chegar tarde ou mudasse de plano, telefonaria
novamente ou mandava um telegrama.
— E está preocupado por causa dela?
— Estou, sim — afirmou.
— Hum! Procurou a polícia?
— Não. Que haviam de pensar? Não que eu tenha motivo
pra acreditar que ela esteja metida numa enrascada, num
perigo ou qualquer coisa do gênero. Quero dizer, se tivesse
sofrido um acidente ou estivesse num hospital, fosse como
fosse, alguém me notificaria logo, não é mesmo?
— Também me parece... sim... se levasse junto algum meio
de identificação.
— Tinha a carteira de motorista. E provavelmente cartas e
várias outras coisas.
O Dr. Murray franziu a testa. Tommy continuou logo:
— E agora o senhor me aparece... com esse negócio sobre
Sunny Ridge... Pessoas que morreram quando não deviam.
Suponhamos que a velhota houvesse descoberto algo... visto
alguma coisa, ou desconfiado... e se pusesse a falar pra todo
mundo... Teria de ser silenciada de qualquer maneira e por
isso a levaram logo embora pra um lugar onde não pudesse
ser encontrada. É inevitável imaginar que tudo faz parte da
mesma trama...
— É esquisito... não há a menor sombra de dúvida... Que
tenciona fazer agora?
— Vou também começar a investigar por conta própria...
Em primeiro lugar, falar com os tais procuradores... Talvez
não sejam nada suspeitos, mas em todo caso gostaria de dar
uma olhada e tirar minhas próprias conclusões.
12 - Tommy encontra um velho amigo

PARADO NA calçada oposta, Tommy examinou o prédio o
escritório de Partingdale, Harris, Lockeridge e Partingdale.
Parecia uma firma eminentemente respeitável e antiquada.
A placa de metal estava bem gasta, mas com um brilho
impecável. Atravessou a rua e cruzou as portas giratórias
para ser saudado pelo ruído surdo de máquinas datilográficas
à toda a velocidade.
Dirigiu-se a um guichê aberto na parede de mogno à direita,
onde se lia o avise INFORMAÇÕES.
Dentro havia uma pequena sala. Três funcionárias batiam à
máquina e dois escriturários se achavam debruçados sobre
suas escrivaninhas, copiando documentos.
A atmosfera era sufocante e cediça, com cheiro
positivamente jurídico.
Uma mulher de cerca de trinta e cinco anos, de ar austero,
cabelo louro desbotado e pince-nez, levantou-se da máquina
e aproximou-se do guichê.
— Deseja alguma coisa?
— Queria falar com Mr. Eccles. Seu ar de severidade
aumentou.
— Tem hora marcada? — Receio que não. Vim a Londres
apenas por um dia. Estou de passagem.
— Acho que Mr. Eccles anda muito ocupado hoje de
manhã. Quem sabe outro membro da firma...
— Desejava falar com Mr. Eccles mesmo. Já me correspondi
algumas vezes com ele.
— Ah, sei. Qual é o seu nome, por favor?
Tommy disse quem era, deu o endereço e a loura retirou-se
para confabular pelo telefone da escrivaninha. Depois de
uma série de murmúrios, voltou.
— O rapaz vai-lhe mostrar onde fica a sala de espera. Mr.
Eccles o receberá daqui a uns dez minutos.
Tommy foi conduzido a uma sala de espera onde havia uma
estante de volumes jurídicos bastante antigos e de aspecto
maciço, e uma mesa redonda, repleta de vários jornais
financeiros. Sentou-se e recapitulou mentalmente o plano
que traçara para entrar no assunto. Imaginou como seria Mr.
Eccles. Quando se viu finalmente diante do procurador, que
se levantou de uma escrivaninha para recebê-lo, viu logo
que embora não dispusesse de nenhum motivo especial
nesse sentido, positivamente não simpatizava com o tal Mr.
Eccles. Bem que gostaria de saber por quê. Aquela súbita
antipatia não podia ser mais gratuita. Era um homem que
oscilava entre os quarenta e os cinqüenta anos, de cabelo
grisalho um pouco ralo nas têmporas. Possuía um rosto
comprido, de aspecto um tanto melancólico, com uma
expressão particularmente rígida, olhos argutos e um sorriso
até simpático que de vez em quando, de modo inesperado,
quebrava a tristeza natural do semblante.
— Mr. Beresford?
— Sim. Realmente trata-se de uma questão insignificante,
mas que tem deixado minha senhora inquieta. Creio que ela
lhe escreveu ou provavelmente telefonou, pra saber se
poderia dar-lhe o endereço de uma certa Mrs. Lancaster.
— Mrs. Lancaster — repetiu Mr. Eccles, mantendo uma cara
impassível. Não chegava a ser uma pergunta. Apenas deixou
o nome pairando no ar.
"Sujeito prudente — pensou Tommy, — mas afinal isso
constitui uma segunda natureza em advogados. De fato,
quem não prefere os serviços de um causídico cauteloso?"
— Até recentemente — prosseguiu, — ela morava num
lugar chamado Sunny Ridge, um estabelecimento... muito
bom, por sinal... pra senhoras idosas. Na realidade, uma tia
minha esteve lá, sentindo-se extremamente contente e a
gosto.
— Ah, sim, sim. Agora me lembro. Mrs. Lancaster. Segundo
parece, não mora mais lá, não?
— Isso mesmo — confirmou Tommy.
— De momento não me recordo com exatidão... —
estendeu a mão para o telefone — vou só refrescar a
memória...
— Posso explicar-lhe em poucas palavras — disse Tommy.
— Minha esposa precisava do endereço porque acontece
que ela entrou em poder de um objeto que antes pertencia a
essa senhora. Um quadro, pra ser mais preciso. Mrs.
Lancaster o deu de presente à minha tia, Miss Fanshawe,
que morreu faz pouco tempo, tendo seus parcos bens
passado às nossas mãos. Inclusive a pintura dada por Mrs.
Lancaster. Embora minha mulher a aprecie muito, sente
uma espécie de complexo de culpa por ter ficado com ela.
Pensa que talvez seja um quadro ao qual Mrs. Lancaster
empreste grande valor e nesse caso acha que devia oferecer-
se para devolvê-lo à ex-dona.
— Ah, compreendo — disse Mr. Eccles. — Não há dúvida,
sua esposa é muito conscienciosa.
— Nunca se sabe — continuou Tommy, sorrindo
cordialmente, — a opinião que as pessoas de idade podem
ter a respeito de seus bens. Quem sabe ela sentisse prazer
em presentear minha tia movida pela admiração
testemunhada pelo quadro, mas como minha tia morreu
logo após o recebimento da dádiva, parece, talvez, um
pouco injusto que passasse a mãos de estranhos. A pintura
não tem nenhum título especial. Mostra uma casa num
ponto qualquer do interior do país. Pode muito bem ser
alguma residência de família relacionada com Mrs.
Lancaster.
— Perfeitamente, de acordo — declarou Mr. Eccles, —
porém não creio...
Alguém bateu e a porta se abriu, dando passagem a um
empregado que entregou uma folha de papel a Mr. Eccles. O
advogado examinou-a.
— Ah, sim, de fato, agora me lembro. É, creio que Mrs.... —
olhou de relance para o cartão de Tommy em cima da
escrivaninha — Beresford ligou pra cá e trocou algumas
palavras comigo. Aconselhei-a a entrar em contato com o
Southern Counties Bank, agência Hammersmith. É o único
endereço que possuo. Toda correspondência dirigida ao
banco, aos cuidados de Mrs. Richard Johnson, será entregue
à destinatária. A meu ver, Mrs. Johnson é sobrinha ou prima
afastada, de Mrs. Lancaster e foi ela quem tomou as
providências indispensáveis comigo pra entrada de Mrs.
Lancaster em Sunny Ridge. Pediu-me pra recolher todas as
informações a respeito do estabelecimento, pois só dispunha
de dados superficiais, fornecidos por uma amiga. Foi o que
fizemos, posso assegurar-lhe, com o maior cuidado. Resultou
que se tratava de uma instituição de primeira ordem e,
segundo me parece, a parenta de Mrs. Johnson, Mrs.
Lancaster passou lá vários anos perfeitamente satisfeita.
— No entanto partiu um tanto abruptamente — insinuou
Tommy.
— É. De fato, creio que sim. Mrs. Johnson, pelo visto,
regressou há pouco tempo de maneira bastante imprevista
da África Oriental... como muita gente, aliás! Consta que
residiu vários anos em Quênia com o marido. Estavam
tomando uma série de novos preparativos e julgaram-se
aptos a cuidar pessoalmente da parenta mais velha. Receio
não ter a menor idéia do paradeiro atual de Mrs. Johnson.
Recebi carta dela, agradecendo e liquidando contas que
tinham ficado abertas, e dizendo que se houvesse qualquer
necessidade de me comunicar com ela, deveria remeter a
correspondência aos cuidados do banco, pois ainda não
decidira onde residiria com o marido. Lamento. Mr.
Beresford, mas é só o que lhe posso informar.
Sua maneira era delicada, porém firme. Não demonstrava
nenhuma espécie de constrangimento ou nervosismo. A
determinação da voz, porém, estava bem definida. Depois se
distendeu e seus modos se atenuaram um pouco.
— Escute, Mr. Beresford, não vejo motivo pra preocupações
— afirmou, num tom tranqüilizador. — Ou melhor, não há
motivo pra sua esposa se preocupar. Mrs. Lancaster, creio
eu, é uma pessoa bastante idosa e propensa a esquecimentos.
Provavelmente nem se lembra mais do quadro que deu.
Segundo penso, deve andar aí pelos setenta e cinco ou
setenta e seis anos. E nessa idade, como o senhor sabe, a
gente se esquece com facilidade.
— Conheceu-a pessoalmente?
— Não, pra ser franco, nunca a vi.
— E Mrs. Johnson?
— Encontrei-a quando vinha aqui ocasionalmente, a fim de
me consultar sobre os preparativos. Parecia uma mulher
agradável, prática. Muito competente nas providências que
estava tomando. — Ergueu-se e disse: — Sinto imensamente
não poder auxiliá-lo, Mr. Beresford.
De maneira cortês, mas decidida, indicava o fim da
entrevista.
Tommy saiu do prédio e procurou um táxi em ambas as
direções de Bloomsbury Street. O embrulho que carregava,
embora não fosse pesado, tinha um tamanho relativamente
incômodo. Contemplou um instante a casa de onde saíra.
Eminentemente respeitável, fundada há longa data. Nada
que se pudesse objetar, nada aparentemente errado em
relação à firma Partingdale, Harris, Lockeridge &
Partingdale, nada errado com Mr. Eccles, nenhum sinal de
apreensão ou abatimento, nenhuma vacilação ou
desassossego. Num romance, pensou Tommy de mau
humor, qualquer referência a Mrs. Lancaster ou Mrs.
Johnson provocaria um sobressalto culpado ou um olhar
solerte. Algo que revelasse que aqueles nomes tinham um
significado especial, que nem tudo corria tão bem assim.
Pelo jeito, não era desse modo que as coisas aconteciam na
vida real. O máximo que Mr. Eccles deixara transparecer é
que era um cavalheiro muito educado para se exasperar com
o tempo desperdiçado numa consulta como a que Tommy
acabava de lhe fazer.
Mas em todo caso, pensou consigo mesmo, não simpatizei
com ele. Recordou-se de vagas lembranças do passado, de
certas pessoas que, por um motivo qualquer, não gostara. Na
maioria das vezes esses pressentimentos — pois não se
tratava de outra coisa — tinham sido proféticos. Porém
talvez fosse mais banal do que parecia. Depois de privar
durante muito tempo com uma série de personalidades,
desenvolve-se uma espécie de sexto sentido, tal como um
negociante com prática de antigüidades reconhece
instintivamente o gosto, o aspecto e o tato de uma
falsificação antes de passar aos testes e exames de perícia. Há
qualquer coisa simplesmente errada. O mesmo acontece
com quadros. E também, provavelmente, com os caixas de
um banco ao receberem uma cédula espúria de primeira
ordem.
— Ele diz as coisas certas — refletiu Tommy. — Tem uma
aparência acima de suspeitas, exprime-se com a maior
correção, e, no entanto... — Acenou freneticamente para
um táxi, cujo motorista olhou friamente na sua direção,
aumentou a velocidade e seguiu adiante. — Cretino —
resmungou Tommy.
Percorreu a rua de cima a baixo com a vista, em busca de um
carro mais solícito. Uma boa quantidade de gente caminhava
pela calçada. Uns às pressas, outros meramente passeando.
Do outro lado, um homem contemplava fixamente uma
placa de metal. Depois de examinar bem, virou-se de frente
e os olhos de Tommy se arregalaram.. Conhecia aquele
rosto. Observou-o ir até a extremidade da rua, parar, voltar-
se e fazer o mesmo percurso de retorno. Alguém saiu do
prédio às costas de Tommy e nesse momento o sujeito na
calçada oposta apressou um pouco o passo, continuando
sempre do mesmo lado, porém acompanhando o homem
que acabava de sair. Acontece que esse último, que viera do
escritório de Partingdale, Harris, Lockeridge e Partingdale,
segundo Tommy pôde perceber enquanto se afastava
rapidamente, tratava-se quase certamente de Mr. Eccles. No
mesmo instante surgiu lentamente um táxi à procura de
passageiros. Tommy ergueu a mão e o carro encostou no
meio-fio. Abriu a porta e entrou.
— Pra aonde?
Tommy hesitou um momento, olhando para o pacote.
Quando ia dar o endereço, mudou de idéia e disse:
— 14, Lyon Street.
Quinze minutos depois chegava ao destino. Pagou a corrida,
tocou a campainha e perguntou por Mr. Ivor Smith. Ao
penetrar numa sala do segundo andar, um homem sentado a
uma mesa diante da janela voltou-se e exclamou com leve
surpresa:
— Olá, Tommy! Que milagre foi esse? Há quanto tempo!
Que veio fazer aqui? Apenas dar uma volta, visitando os
velhos amigos?
— A idéia não é tão simpática assim, Ivor.
— Suponho que esteja a caminho de casa após a
conferência?
— Sim.
— No mínimo o mesmo blá-blá-blá de costume, não?
Nenhuma conclusão a chegar e nada de aproveitável a dizer.
— Exato. Um puro desperdício de tempo.
— Calculo que principalmente escutando o gagá do Bogie
Waddock a berrar a plenos pulmões. Um chato de lascar.
Cada ano fica pior.
— Oh! Enfim...
Tommy sentou-se na cadeira oferecida, aceitou um cigarro e
entrou no assunto.
— Estive imaginando... olhe que é mero palpite, hem?... se
por acaso você não sabe alguma coisa de caráter desairoso a
propósito de um tal Eccles, procurador da firma Partingdale,
Harris, Lockeridge & Partingdale?
— Ora, veja só — retrucou o homem chamado Ivor Smith,
arqueando sobrancelhas muito convenientes para serem
arqueadas. O começo delas, perto do nariz, retorcia-se para o
alto e as pontas se prolongavam numa extensão quase
assombrosa. À menor provocação, davam-lhe o aspecto de
uma pessoa que tivesse recebido um choque tremendo,
embora no fundo fosse uma reação normal. — Esbarrou
com o Eccles nalgum lugar, hem?
— O problema — contestou Tommy, — é que nada sei a
respeito dele.
— E quer ficar sabendo?
— Sim.
— Hum. Como se lembrou de me procurar?
— Vi Anderson na calçada. Faz muito tempo que não o
vejo, mas reconheci em seguida. Andava vigiando alguém.
Fosse quem fosse, era no prédio do qual eu acabava de sair,
onde existem duas firmas de advogados e uma de
contabilidade. Claro que podia ser qualquer uma delas ou
qualquer funcionário de uma delas. Mas um homem
descendo a rua me pareceu ser Eccles. E então fiquei
imaginando se por um feliz acaso não seria a ele que
Anderson estava seguindo.
— Hum — fez Ivor Smith. — Bem, Tommy, você sempre
teve bom faro.
— Quem é Eccles?
— Não sabe? Não tem a menor idéia?
— Nenhuma — respondeu Tommy. — Pra resumir uma
história muito longa, fui procurá-lo pra obter informação a
respeito de uma senhora que saiu recentemente de um asilo
de velhice. O procurador encarregado de tomar todas as
providências pra ela era Mr. Eccles. Parece que agiu com
perfeito decoro e eficiência. Eu precisava do endereço atual
da velha. Diz ele que não tem. É possível..., mas não sei,
não. É a única pista que possuo do paradeiro dela.
— E quer encontrá-la?
— Sim.
— Pelo jeito, não creio que lhe possa ser muito útil. Eccles é
um procurador de todo respeito, judicioso, que dispõe de
uma grande renda, com uma infinidade de clientes
impecáveis. Trabalha pra pequena nobreza rural, classes
profissionais, soldados e marinheiros aposentados, generais e
almirantes, e por aí afora. Personifica o supra-sumo da
correção. Pelo que você me diz, deduzo que se manteve
estritamente dentro dos limites de suas atividades legais.
— Porém vocês estão... interessados nele — insinuou
Tommy.
— Sim, de fato estamos. — Suspirou. — Andamos
interessados nele há seis anos, no mínimo. E não fizemos
grandes progressos.
— Muito interessante — disse Tommy. — Torno a lhe fazer
a mesma pergunta. Quem é exatamente Mr. Eccles?
— Quer dizer, de que o suspeitamos? Olhe, pra resumir
numa frase, desconfiamos de que seja um dos cérebros mais
bem organizados da atividade criminosa neste país.
— Atividade criminosa?
Tommy parecia surpreso.
— Isso mesmo. Nada de capa e espada. Nada de espionagem
ou contra-espionagem. Não, pura e simples atividade
criminosa. Trata-se de um sujeito que até hoje, pelo que
pudemos apurar, jamais cometeu um crime em sua vida.
Nunca roubou nada, falsificou ou se apossou de quaisquer
bens ilicitamente. Não há nenhuma espécie de prova que se
possa apresentar contra ele. Mas apesar disso, onde quer que
ocorra um assalto minuciosamente planejado, sempre se
encontra, num canto dos bastidores, Mr. faceies levando
uma vida inatacável.
— Seis anos — repetiu Tommy pensativo.
— Talvez até mais. Levou certo tempo pra se compreender
qual era o esquema. Roubos bancários, saques de jóias
particulares, toda espécie de coisas relacionadas com grandes
somas monetárias. Cada um desses trabalhos obedecia a um
plano comum. A conclusão inevitável é que haviam sido
idealizados pelo mesmo cérebro. As pessoas que os
orientavam e punham em prática jamais tiveram de se
preocupar com a parte teórica. Iam aonde eram mandados,
cumpriam as ordens recebidas e nunca precisavam
raciocinar. Alguém se incumbia disso.
— E como foram parar em Eccles? Ivor Smith sacudiu a
cabeça, pensativo.
— Demoraria muito tempo pra contar. É um homem que
possui uma porção de relações, uma infinidade de amigos.
Gente com quem joga golfe, que utiliza seu carro, firmas de
corretores da Bolsa que operam pra ele. Há companhias
fazendo negócios irreprocháveis, nas quais ele tem interesse.
O esquema cada vez fica mais nítido, porém a parte que lhe
cabe continua obscura, a não ser que se ausenta de um modo
conspícuo em determinadas ocasiões. Um grande assalto
bancário, inteligentemente planejado (e sem olhar despesas,
note-se), com uma fuga bem preparada e tudo mais e onde é
que anda Mr. Eccles quando isso acontece? Em Monte
Cario, Zurique ou até mesmo pescando salmão na Noruega.
Pode-se ficar absolutamente certo de que nunca será
encontrado num raio de cento e cinqüenta quilômetros
quadrados do local do crime.
— E, no entanto desconfiam dele?
— Ah claro. Eu, por exemplo, não tenho a menor dúvida.
Agora, conseguir pegá-lo é assunto inteiramente diverso. O
camarada que escavou o túnel que desemboca no soalho de
um banco, o que deixou desacordado o guarda-noturno, o
caixa incriminado desde o início, o gerente que forneceu as
informações, nenhum deles conhece Eccles e
provavelmente jamais o viu. Existe uma longa cadeia a
perder de vista... e parece que ninguém sabe mais do que o
elo seguinte.
— O velho plano infalível da célula?
— Sim, mais ou menos. Mas há algum raciocínio inicial. Um
dia surgirá uma oportunidade. Alguém que não deveria saber
de nada, saberá alguma coisa. Um pormenor bobo e sem
importância, talvez, mas que, por estranho que pareça,
fornecerá afinal a prova.
— Ele é casado... tem família?
— Não, nunca assume riscos desse gênero. Mora sozinho,
com governanta, jardineiro e mordomo. Dá festas de uma
maneira moderada e agradável, e eu seria capaz de jurar que
toda pessoa que entra como convidada -m sua casa está
acima de qualquer suspeita.
— E ninguém enriquece?
— Eis aí uma observação inteligente, Thomas. Alguém devia
estar enriquecendo. Só que essa parte está organizada de um
modo incrivelmente esperto. Grandes vitórias em corridas
de cavalos, investimentos em capitais e ações, tudo
perfeitamente normal, apenas com a margem de risco
suficiente pra render muito dinheiro e, em conjunto,
transações aparentemente legitimas. Há grandes somas
depositadas no exterior, em países e cidades diferentes. É
uma vasta e imensa sociedade com fins lucrativos... e o
capital nunca fica parado... muda constantemente de lugar.
— Então — disse Tommy, — felicidades pra vocês. Espero
que agarrem o homem.
— Acho que um dia conseguiremos, sabe? Talvez houvesse
um jeito, se a gente pudesse arrancá-lo da rotina.
— Com o quê?
— Fazendo-o sentir-se em perigo — respondeu Ivor. —
Deixando-o perceber que alguém encontrou a pista.
Tornando-o nervoso. Quando se consegue isso, um sujeito é
capaz de qualquer tolice. Pode cometer um erro. É assim
que se pega o camarada com a boca na botija, compreende?
Tome, por exemplo, o homem mais inteligente que exista,
que planeja brilhantemente um golpe e nunca dá um passo
em falso. Atordoe o cara com qualquer ninharia e ele
escorrega. É por isso que tenho esperanças. Agora me conte
sua história. Você deve saber algo que talvez seja útil.
— Nada com relação a crime, receio eu... Completamente
insignificante.
— Mesmo assim, conte.
Tommy relatou a história toda sem exagerar as desculpas
pela sua trivialidade. Sabia que Ivor não era homem de
desprezar bagatelas. E realmente não fez cerimônia em
abordar logo o ponto nevrálgico que trouxera Tommy ali.
— E sua esposa, então, desapareceu?
— Ela não costuma fazer isso.
— O caso é sério.
— Pra mim de fato é.
— Posso avaliar. Encontrei-a apenas uma vez. Ela é viva.
— Quando sai atrás de alguma coisa é pior que um
perdigueiro no rastro — afiançou Tommy.
— Já comunicou à polícia?
— Não.
— Por quê?
— Ora, em primeiro lugar porque não posso acreditar que
ela não esteja bem. Tuppence sempre está. Só que tem a
mania de correr no encalço da primeira lebre que lhe
apareça pela frente. Talvez não tivesse tempo de avisar.
— Hum. Isso não me agrada muito. Você diz que ela anda à
cata de uma casa? Eis um detalhe que pode ser interessante,
pois entre os vários indícios soltos que seguimos, que, diga-
se de passagem, não levaram a grandes resultados, há uma
espécie de cadeia de corretores de imóveis.
— Corretores de imóveis? — retrucou Tommy surpreso.
— É. Imobiliárias honestas, comuns e quase sem projeção
em pequenas cidades do interior em diversas regiões da
Inglaterra, porém nenhuma muito distante de Londres. A
firma de Mr. Eccles faz uma porção de transações com elas.
Às vezes ele funciona como advogado dos compradores,
outras dos vendedores, e utiliza várias agências imobiliárias,
em nome dos clientes. Bem que gostaríamos de saber o
motivo. Nenhuma delas parece muito lucrativa, entende?...
— Mas julgam que talvez significasse alguma coisa ou
conduzisse a uma pista?
— Olhe, se você se lembra do grande assalto ao London
Southern Bank de alguns anos atrás, havia uma casa no
interior... completamente isolada. Servia como ponto de
encontro dos ladrões. Não chamavam a atenção de
ninguém, mas era lá que escondiam o produto do roubo. Os
moradores dos arredores começaram a desconfiar
perguntando-se que gente era essa que chegava e partia em
horas tão estranhas. Surgiam diferentes espécies de carros
em plena noite e tornavam a ir embora. Os habitantes da
província são curiosos sobre a vida dos vizinhos. E, com
efeito, a polícia deu uma batida na casa, recuperou parte do
roubo e prendeu três sujeitos, inclusive um que foi
reconhecido e identificado.
— Bem, e isso não forneceu nenhuma pista?
— De fato não. Os homens se recusaram a falar,
conseguiram bons advogados e, apesar de condenados a
longos anos de cárcere, dentro de um ano e meio estavam
todos em liberdade de novo. Fugas muito inteligentes.
— Creio que me recordo de ter lido qualquer coisa a
respeito. Um deles desapareceu do pátio interno da prisão,
aonde fora levado por dois carcereiros.
— Justamente. Tudo muito bem planejado e gastando uma
enorme soma de dinheiro na fuga. Na nossa opinião, porém,
fosse quem fosse o responsável pela organização geral, deve
ter compreendido o erro que cometera em manter uma casa
por tanto tempo, a ponto de despertar o interesse dos
vizinhos. Alguém, talvez, achou que seria melhor ideia
arrumar auxiliares que residissem, digamos, em cerca de
trinta casas em lugares diferentes. As pessoas chegam e
ocupam um prédio, mãe e filha, por exemplo, uma viúva, ou
um militar aposentado em companhia da esposa. Gente
pacata, simpática. Fazem algumas reformas, contratam um
construtor local, melhoram o encanamento e até mesmo
combinam o trabalho com qualquer firma de decoração de
Londres, e aí então, depois de um ou dois anos, surgem
novas circunstâncias e os ocupantes vendem a casa e vão
morar no estrangeiro. Uma coisa mais ou menos parecida.
Tudo perfeitamente natural e sem incidentes. Durante a
locação, talvez tenha sido usada para finalidades um pouco
insólitas! E, no entanto ninguém suspeitou. De quando em
quando, recebiam visitas de amigos. Mas só de raro em raro.
Uma noite, talvez, uma espécie de festa de aniversário pra
uma pessoa de meia-idade ou um casal de velhos; ou então
pra festejar alguma maioridade. Uma porção de carros
entrando e saindo. Digamos que ocorram cinco grandes
roubos num período de seis meses e que cada vez o produto
da pilhagem fique escondido não em apenas uma das casas,
mas passe por cinco diferentes, em outras tantas regiões do
interior. Por enquanto trata-se apenas de uma conjetura,
meu caro Tommy, porém estamos estudando-a. Digamos
que a tal velhinha se desfaça de um quadro de uma certa
casa e suponhamos que se trate de um lugar significativo.
Sua esposa reconhece um recanto qualquer e lança-se em
campo, a fim de investigar. E que alguém não queira
justamente que essa casa seja identificada... Tudo pode ter
ligação, sabe?
— É uma hipótese muito fantasiosa.
— Oh, sim... concordo. Mas na época em que vivemos é
exatamente assim... Acontecem coisas incríveis neste
mundo.

Tommy desceu um tanto cansado do quarto táxi que usava
no mesmo dia e olhou os arredores de uma maneira
avaliativa. O motorista o deixara num pequeno beco sem
saída, dissimulado timidamente sob uma das protuberâncias
de Hampstead Heath, e que parecia ter sido exposto a
"melhoramentos" artísticos. Cada moradia era
completamente diferente da contígua. A que ele procurava
aparentava ser constituída por um amplo estúdio coberto
por clarabóias e ligado (como se fosse um abscesso) a uma
espécie de minúsculo conjunto de três peças. Uma escada
pintada de verde claro subia pelo exterior da construção.
Tommy abriu o portãozinho, percorreu uma trilha
ascendente e não vendo campainha bateu com a aldrava.
Como não atendessem, esperou alguns instantes e depois
recomeçou a sacudir a argola, dessa vez um pouco mais
forte.
A porta se abriu com tal brusquidão que ele quase caiu de
costas. No umbral apareceu uma mulher. À primeira vista,
Tommy teve a impressão de que era uma das mais feias que
jamais vira. Tinha um rosto largo e achatado, semelhante a
uma panqueca, com dois olhos imensos que pareciam de
cores absurdamente díspares, um verde e o outro castanho.
A testa nobre era coroada por um tufo de cabelos eriçados,
na maior desordem. Usava um macacão roxo, com nódoas
de argila, e Tommy reparou que a mão que segurava a porta
aberta possuía uma estrutura de extraordinária beleza.
— Oh — exclamou ela, numa voz grossa e bastante
sedutora. — O que é? Estou ocupada.
— Mrs. Boscowan?
— Sim. Que deseja?
— Meu nome é Beresford. Gostaria de saber se poderia falar
um instante com a senhora.
— Não sei. Precisa mesmo? De que se trata... à respeito de
algum quadro?
O olhar dela se fixou no embrulho que ele sobraçava.
— É. Uma coisa relacionada com um dos quadros de seu
esposo.
— Pra vender? Tenho uma porção de quadros dele. Não
tenciono comprar mais nenhum. Leve a uma dessas galerias
ou troço parecido. Estão tendo grande procura atualmente.
O senhor não tem aspecto de quem necessite vender
quadros.
— Oh não, não quero vender coisa nenhuma.
Tommy sentia uma dificuldade extraordinária em conversar
com a mulher. Seus olhos, embora diferentes, eram
magníficos e agora fitavam a rua por cima do ombro dele
com um ar de interesse um tanto bizarro num ponto
qualquer do horizonte.
— Por favor — pediu Tommy. — Gostaria que me deixasse
entrar. É tão difícil de explicar.
— Se é um pintor, não quero conversa — replicou Mrs.
Boscowan. — Sempre acho uma classe de gente muito
chata.
— Não sou pintor.
— Bem, não há dúvida de que não parece mesmo. —
Esquadrinhou-o de alto a baixo. — Tem mais cara de
funcionário público — sentenciou taxativa.
— Posso entrar, Mrs. Boscowan?
— Não tenho certeza. Espere aí.
Fechou a porta um pouco bruscamente. Tommy aguardou.
Depois de quatro minutos, mais ou menos, tornou a abrir.
— Muito bem — disse ela. — Agora entre.
Foi na frente, subindo uma escada estreita até chegar no
grande estúdio. Num canto havia um bloco de escultura com
várias ferramentas ao lado. Martelos e cinzéis. Via-se
também uma cabeça de argila. O lugar inteiro dava a
aparência de ter sido devastado recentemente por um bando
de desordeiros.
— Aqui nunca há espaço pra gente sentar — preveniu Mrs.
Boscowan.
Jogou longe uma porção de coisas que estavam em cima de
um banquinho de madeira e empurrou-o na direção dele.
— Pronto. Sente-se aí e diga o que deseja.
— Foi muito amável em me deixar entrar.
— Tem toda a razão, mas achei-o tão preocupado. O senhor
está preocupado com alguma coisa, não está?
— Estou, sim.
— Foi o que pensei. Por quê?
— Minha esposa — explicou Tommy, surpreendendo-se
com a própria resposta.
— Ah, preocupado com a esposa? Bem, não há nada de
anormal nisso. Os homens vivem se preocupando por causa
das mulheres. Que foi que houve... fugiu com alguém ou
caiu na gandaia?
— Não. Não é nada disso.
— Moribunda? Câncer?
— Não — protestou Tommy. — Apenas não sei onde anda.
— E por acaso julga que eu saiba? Olhe, é melhor me dizer o
nome dela e mais algumas coisas se me acha capaz de
encontrá-la. Mas não garanto, note bem — advertiu Mrs.
Boscowan, — que eu esteja disposta a fazer isso. Fique
prevenido.
— Graças a Deus — exclamou Tommy, — que a senhora é
mais fácil de abordar do que eu esperava.
— O que é que o quadro tem a ver com isso tudo? Porque é
um quadro, não?.... Tem de ser, pelo formato.
Tommy desmanchou o embrulho.
— Foi pintado por seu marido — disse. — Queria que me
contasse tudo o que sabe a respeito dele.
— Compreendo. O que é que desejava saber exatamente?
— Quando foi feito e onde fica.
Mrs. Boscowan olhou para ele e pela primeira vez houve
uma leve centelha de interesse em seus olhos.
— Bem, isso não é difícil — declarou. — Sim, posso dizer-
lhe tudo o que sei a respeito. Foi pintado há cerca de quinze
anos... não, há muito mais tempo, acho eu. Pertence à
primeira fase. Vinte anos, diria.
— Sabe onde fica... o lugar, quero dizer.
— Oh sim, lembro-me perfeitamente. Bonito quadro.
Sempre gostei dele.' Essa é a pequena ponte em arco, com a
casa, e o nome do lugar é Sutton Chancellor. Dista uns dez a
doze quilômetros de Market Basing. A casa fica mais ou
menos a uns três quilômetros de Sutton Chancellor. Lindo
recanto. Retirado.
Aproximou-se do quadro, curvou-se e examinou-o bem de
perto.
— Engraçado — comentou. — Sim, que coisa estranha. Esta
é boa.
Tommy não prestou muita atenção..
— Qual é o nome da casa? — perguntou.
— Realmente não me lembro. Trocaram várias vezes, sabe?
Não sei o que tinha ela. Tenho a impressão de que
aconteceram algumas coisas um pouco trágicas por lá.
Depois a gente que se mudou pra lá mudou o nome.
Chamou-se uma vez a Casa do Canal, ou à Beira do Canal.
Também foi apelidada de Casa da Ponte, Meadowside... ou
Riverside, sei lá.
— Quem eram... ou quem são os moradores? A senhora
sabe?
— Ninguém sabe. Quando a vi pela primeira vez, um
homem e uma moça tinham-na alugado. Passavam os fins-
de-semana nela. Não creio que fossem casados. A moça era
bailarina. Talvez uma atriz... não, acho que era bailarina
mesmo. Dançava bale. Linda, mas muito burra. Deficiente,
quase retardada. Me lembro que William tinha um fraco
especial por ela.
— Pintou-a?
— Não. Não costumava pintar retratos. De vez em quando
dizia que queria desenhar certas pessoas, mas nunca chegou
a fazê-lo. Sempre foi bobo por garotas.
— Eram eles que moravam na casa quando seu marido
pintou o quadro?
— Sim, creio que sim. Em todo caso, não o tempo todo. Só
vinham nos fins-de-semana. Depois houve uma espécie de
rompimento. Tiveram uma briga, me parece, ou ele foi-se
embora e deixou a moça ou então vice-versa. Eu não estava
lá na ocasião. Tinha ido pra Conventry, esculpir um grupo.
Acho que mais tarde havia apenas uma governanta na casa e
a criança. Não sei de quem era filha nem de onde veio,
porém imagino que a mulher estivesse cuidando dela.
Depois, tenho a impressão de que aconteceu algo com a
menina. A governanta levou-a embora pra algum lugar ou
talvez tenha morrido. Por que quer saber a respeito de gente
que viveu naquela casa há vinte anos? Me parece uma
asneira.
— Quero que me conte tudo o que puder sobre a casa —
afirmou Tommy. — A senhora entende, minha mulher saiu
à procura dela. Disse que a viu num lugar qualquer, da janela
de um trem.
— E tem toda a razão — retrucou Mrs. Boscowan, — a linha
férrea passa logo do outro lado da ponte. Creio que se avista
perfeitamente dali. — E então perguntou: — Por que ela
insiste em encontrar a casa?
Tommy deu uma explicação muito resumida. A escultora
olhou-o desconfiada.
— O senhor não saiu de um hospital de alienados ou troço
parecido, não? De licença ou algo semelhante, sei lá como
dizem.
— Vai ver que é essa a impressão que eu dou, mas no fundo
é até bem simples. Minha mulher queria descobrir onde fica
a tal casa e por isso empreendeu uma série de viagens de
trem pra encontrar o lugar. E eu acho que localizou. Tenho
certeza de que ela chegou em... não-sei-o-que Chancellor?
— Sutton Chancellor, é. Uma aldeiazinha de nada. Claro que
hoje pode estar muito desenvolvida ou mesmo transformada
numa dessas novas cidades residenciais.
— Tudo é possível — disse Tommy. — Ela telefonou pra
avisar que ia voltar, mas não voltou. E eu quero saber o que
lhe aconteceu. Creio que começou a investigar a respeito da
casa e talvez... talvez esteja correndo perigo.
— Mas que perigo podia haver?
— Não sei — respondeu Tommy. — Nenhum de nós dois
sabia. Nem me passou pela idéia que pudesse correr qualquer
risco, embora minha esposa tivesse um pressentimento
contrário.
— Ela tem faculdades premonitórias?
— Provavelmente. É um pouco assim. Anda sempre com
palpites. A senhora nunca ouviu falar ou conheceu uma tal
de Mrs. Lancaster há vinte anos ou em qualquer época até
um mês atrás?
— Mrs. Lancaster? Não, acho que não. É o tipo do nome
que a gente não esquece. Não. Que tem ela?
— Era a dona deste quadro. Deu-o num gesto de amizade a
uma tia minha. Depois foi-se embora de um asilo de velhice
um tanto precipitadamente. Levada por parentes. Tentei
localizá-la, mas não é fácil.
— Qual dos dois tem mais imaginação, o senhor ou sua
esposa? Parece que andou supondo uma porção de coisas
que o deixaram um pouco nervoso, se me permite a
expressão.
— Oh sim, não levo a mal. Um pouco nervoso e tudo a
troco de nada. É o que a senhora quer dizer, não? Acho que
também tem razão.
— Não — retrucou Mrs. Boscowan, num tom de voz
ligeiramente alterado. — Eu não diria que seja a troco de
nada.
Tommy fitou-a com curiosidade.
— Há uma coisa estranha neste quadro — continuou Mrs.
Boscowan. — Muito estranha. Eu me lembro perfeitamente
dele, entende? Acontece o mesmo com a maioria da obra de
William, embora tenha pintado tantos.
— Não se recorda de quem o comprou, se é que foi
vendido?
— Não, disso eu não me lembro. Mas creio que foi sim. Ele
vendeu aos montes numa das exposições. Tiveram muita
procura três ou quatro anos antes deste e mais uns dois anos
depois. Compraram uma porção. Quase todos. Mas já não
me lembro de quem comprou este aqui. É pedir demais.
— Estou muito grato por tudo que a senhora lembrou.
— Não vai me perguntar por que eu disse que havia uma
coisa estranha neste quadro?
— Quer dizer que não é de seu marido... uma outra pessoa o
pintou?
— Oh não. É o quadro que William pintou, sim. "Casa num
Canal", acho que era o título no catálogo. Mas não está mais
igual. Compreende? Tem uma coisa errada nele.
— Qual?
Mrs. Boscowan apontou com o dedo sujo de argila para um
ponto logo abaixo da ponte que cruzava o canal.
— Ali — disse. — Está vendo? Há um barco atracado sob a
ponte, não há?
— Sim — confirmou Tommy intrigado.
— Pois não havia, pelo menos na última vez que vi o
quadro. William nunca pintou isso. Quando foi exposto, não
existia barco de espécie alguma.
— Quer dizer que alguém que não foi o seu marido pintou
isso mais tarde?
— Exatamente. Estranho, não? Só queria saber por quê.
Logo de saída fiquei surpreendida de vê-lo ali, num lugar
onde não havia nenhum. Deppis percebi nitidamente que
não tinha sido pintado por William. Não foi ele quem o
colocou ali, em época alguma. Deve ter sido outra pessoa.
Mas quem?
Olhou para Tommy.
— E por quê?
Tommy não dispunha de nenhuma solução para oferecer.
Fitou-a. Tia Ada teria definido Mrs. Boscowan como biruta,
mas ele não tinha a mesma opinião. Era vaga, com um jeito
abrupto de mudar de assunto. As coisas que falava pareciam
ter pouquíssima relação com o que dissera no minuto
anterior. Tommy achava que era o tipo da pessoa que guarda
para si a maior parte de suas observações. Amara o marido,
sentira ciúmes dele ou simplesmente o desprezara? De fato,
não deixava transparecer o menor indício em sua conduta
ou muito menos em suas palavras. Porém teve a impressão
de que aquele pequeno barco atracado debaixo da ponte lhe
provocara apreensão. Não gostara de vê-lo ali. De repente
ficou imaginando se o que ela dissera seria verdade. Poderia
realmente lembrar-se de tantos anos atrás para afirmar com
certeza se Boscowan tinha ou não tinha pintado o barco na
ponte? Afinal, era um detalhe tão insignificante. Se tivesse
visto o quadro pela última vez há apenas um ano, vá lá...,
mas pelo jeito, fazia muito mais tempo. E a deixara
apreensiva. Fitou-a novamente e reparou que ela fazia o
mesmo com ele. Aqueles olhos curiosos estavam pousados
nele, não com ar de desafio, somente pensativos. Imersos na
mais profunda reflexão.
— Que pretende fazer agora? — perguntou.
Isso pelo menos era fácil. Tommy não teve dificuldade em
explicar o que tencionava fazer.
— Vou voltar pra casa logo mais... ver se há qualquer notícia
de minha mulher... qualquer recado. Caso contrário, amanhã
irei a esse lugar — disse. — Sutton Chancellor. Espero que
ela esteja lá.
— Depende — retrucou Mrs. Boscowan.
— Do quê? — perguntou Tommy abruptamente.
Mrs. Boscowan franziu o cenho. E depois murmurou,
aparentemente consigo mesma:
— Gostaria de saber onde ela anda...
— Ela quem?
Mrs. Boscowan desviara o olhar. De repente fitou-o de
novo.
— Oh — exclamou. — Referia-me à sua esposa. — E
acrescentou: — Tomara que esteja bem.
— Por que não haveria de estar? Diga-me uma coisa, Mrs.
Boscowan, há qualquer negócio errado com esse lugar...
com Sutton Chancellor?
— Com Sutton Chancellor? Com o lugar? — pensou um
pouco. — Não, creio que não. Não com o lugar.
— Acho que me referi à casa — insistiu. — Essa casa do
canal. Não à aldeia.
— Ah, a casa — disse Mrs. Boscowan. — Era realmente uma
boa casa. Ideal pra amantes, sabe?
— Algum casal morou lá?
— As vezes. Porém não com a suficiente freqüência.
Quando uma casa foi construída pra amantes, só devia ser
habitada por eles.
— E não destinada a outras finalidades.
— O senhor é muito ágil — disse Mrs. Boscowan. —
Entendeu logo o que eu quis dizer, não? A gente não deve
usar uma casa pra uma finalidade que nunca teve. Do
contrário sai tudo errado.
— Sabe alguma coisa sobre as pessoas que moraram lá
durante os últimos anos?
Sacudiu a cabeça.
— Não. Não sei absolutamente nada a respeito da casa.
Nunca foi importante pra mim, entende?
— Porém não está pensando em algo?... Em alguém?
— Sim — respondeu Mrs. Boscowan. — Acho que nesse
ponto o senhor tem razão. Estava pensando em... alguém.
— E não pode revelar quem seja?
— Não há realmente nada pra revelar. Às vezes, sabe, a
gente apenas fica imaginando onde andará uma determinada
pessoa. O que aconteceu com ela ou que tipo de evolução...
sofreu. Há uma espécie de sensação... — agitou as mãos. —
Quer um arenque? — perguntou inesperadamente.
— Um arenque? — repetiu Tommy assombrado.
— Bem, é que eu tenho dois ou três aqui. Achei que talvez
devia comer alguma coisa antes de pegar o trem. A estação é
a de Waterloo — informou..— Pra Sutton Chancellor, quero
dizer. Antigamente tinha-se de fazer baldeação em Market
Basing. Decerto não mudou.
Era uma indireta para encerrar a visita. Tommy entendeu e
despediu-se.
13 - Albert e o fio da meada

TUPPENCE Piscou os olhos. A visão parecia um pouco
embaralhada. Experimentou soerguer a cabeça, mas
estremeceu com uma dor tão violenta que a deixou cair de
novo no travesseiro. Fechou as pálpebras. Dali a pouco
tornou a abri-las e pestanejou outra vez.
Com uma sensação de triunfo, reconheceu o ambiente.
"Estou numa sala de hospital" — pensou. Satisfeita com o
progresso mental provisório, desistiu de novas deduções
inteligentes. Encontrava-se numa sala de hospital e a cabeça
lhe doía. Por que essa dor, que hospital era aquele, não
saberia responder. "Acidente?" — pensou.
Havia enfermeiras se movendo entre as camas. O que afinal
era perfeitamente normal. Cerrou os olhos e tentou um
breve raciocínio cauteloso. A tênue visão de uma silhueta
idosa em roupas clericais cruzou-lhe pela mente. — "Papai?"
— perguntou Tuppence desconfiada. — "É o senhor?" Não
podia realmente se lembrar. Supôs que fosse.
— Mas que estou fazendo na cama hum hospital? —
indagou a si mesma. — Quero dizer, trabalho de enfermeira
num hospital, portanto devia vestir uniforme. Com a farda
de V.A.D. Ah, meu Deus!
De repente uma figura de enfermeira se materializou perto
do leito.
— Sente-se melhor agora, meu bem? — perguntou, com
uma espécie de falsa jovialidade. — Que bom, não é?
Tuppence não tinha muita certeza de que fosse bota. A
mulher disse qualquer coisa a propósito de uma boa xícara
de chá.
— "Parece que sou uma paciente" — deduzia Tuppence um
tanto contrariada. Permaneceu imóvel, ressuscitando na
lembrança várias ideias e palavras esparsas.
— Soldados — disse Tuppence. — V.A.D.s. Claro que é isso.
Sou uma V.A.D.
A enfermeira trouxe-lhe um pouco de chá numa espécie de
mamadeira e ficou segurando enquanto ela tomava. Sentiu
de novo uma dor na cabeça.
— Uma V.A.D. — falou em voz alta, — é isso que eu sou.
A enfermeira olhou para ela como se não compreendesse.
— Minha cabeça dói — queixou-se, constatando um fato
irrefutável.
— Logo há de melhorar — prometeu a enfermeira. Levou a
mamadeira, comunicando a uma Irmã enquanto
se retirava:
— A número 14 acordou. Mas acho que está um pouco
confusa.
— Ela falou alguma coisa?
— Disse que era uma V.I.P. — respondeu.
A Irmã emitiu um som que indicava sua opinião a respeito
de pacientes anônimos que se proclamavam V.I.P.s.
— Depois tiraremos isso a limpo — disse. — Ande de uma
vez, enfermeira, não fique aí parada o dia inteiro com essa
mamadeira.
Tuppence permaneceu meio sonolenta nos travesseiros.
Ainda não havia entrado na fase em que ás idéias pudessem
se filtrar no espírito numa procissão um tanto desordenada.
Sentia a falta de alguém que deveria estar ali, uma pessoa que
conhecia intimamente. Havia qualquer coisa errada nesse
hospital. Não era o mesmo de que se lembrava. Não tinha
sido ali que trabalhara. — "Estava cheio de soldados, isso
sim. O pavilhão de cirurgia. As fileiras A e B eram as
minhas." Abriu as pálpebras e deu uma olhada ao redor.
Chegou à conclusão de que não só nunca tinha visto antes
aquele hospital como tampouco tinha qualquer coisa a ver
com casos cirúrgicos, militares ou não.
— Só queria saber onde estou — disse Tuppence. — Em que
lugar?
Tentou pensar nalgum nome. Os únicos que lhe vieram à
memória foram Londres e Southampton. A Irmã se
aproximou.
— Sentindo-se melhor, espero.
— Estou perfeitamente bem — respondeu. — Que foi que
houve comigo?
— Feriu a cabeça. No mínimo deve estar doendo, não?
— Está sim. Que lugar é este?
— O Hospital Público de Market Basing. Tuppence refletiu
sobre a informação. Não lhe significava absolutamente nada.
— Um velho pastor — murmurou.
— Como disse?
— Nada de especial. Eu...
— Ainda não conseguimos escrever o seu nome na folha de
controle.
Ficou de caneta esferográfica na mão, na expectativa.
— O meu nome?
— Sim — respondeu a Irmã. — Pro registro — acrescentou
à guisa de explicação.
Tuppence conservou-se em silêncio, pensando. Seu nome.
Como era mesmo? "Que asneira — disse consigo mesma, —
parece que me esqueci. E no entanto é lógico que devo ter
um." De repente uma leve sensação de alívio tomou conta
dela. Lembrou-se bruscamente do rosto do velho pastor.
— Ora, claro — afirmou decidida. — Prudence.
— P-r-u-d-e-n-c-e?
— Exato.
— Esse é o prenome. E o sobrenome?
— Cowley. C-o-w-l-e-y.
— Ainda bem que esclarecemos — disse a Irmã, afastando-
se novamente com o ar de alguém cujos registros já não
constituíam matéria de preocupação.
Tuppence sentiu-se levemente eufórica. Prudence Cowley.
Prudence Cowley no V.A.D. e seu pai era um pastor em...
em um vicariato qualquer, era tempo de guerra e... — Que
engraçado — falou para si mesma. — Parece que estou
confundindo tudo. Dir-se-ia que isso aconteceu há muito
tempo. — Murmurou baixinho: — "A coitadinha era sua
filha?" — Ficou matutando. Fora ela quem tinha dito aquilo
há pouco ou ouvira a frase na boca de outra pessoa?
A Irmã reapareceu.
— Seu endereço — pediu. — Miss... Cowley, ou é Mrs.
Cowley? Perguntou por uma criança?
— A coitadinha era sua filha? Alguém me disse isso ou sou
eu quem está dizendo?
— Acho que se eu fosse você, meu bem, trataria de dormir
um pouco — recomendou a Irmã.
Foi-se embora, para transmitir a informação obtida ao lugar
adequado.
— Parece que ela recobrou os sentidos, doutor — observou,
— e diz que se chama Prudence Cowley. Mas, pelo visto,
não se recorda de onde mora. Falou qualquer coisa a respeito
de uma criança.
— Muito bem — retrucou o médico, com ar despreocupado
habitual, — vamos dar-lhe mais vinte e quatro horas. Está-se
recobrando rapidamente do choque.
Tommy remexeu com a chave. Antes que pudesse usá-la, a
porta se abriu e Albert apareceu no limiar.
— Então — perguntou Tommy, — ela voltou? Albert
sacudiu lentamente a cabeça.
— Nenhuma notícia dela, nenhum recado telefônico,
carta... ou telegrama?
— Nada, patrão, estou-lhe dizendo. De espécie alguma. E de
ninguém mais, tampouco. Eles estão na moita..., mas estão
com ela. Essa é a minha opinião. Eles estão com ela.
— Que diabo você quer dizer... eles estão com ela? _
perguntou Tommy. — Ás coisas que você lê. Quem está
com ela?
— Ora, o senhor bem sabe. A quadrilha.
— Que quadrilha?
— Uma dessas quadrilhas de assaltantes, talvez. Ou uma
internacional.
— Pare de dizer besteira — retrucou Tommy. — Sabe o que
eu acho?
Albert fez uma cara de curiosidade.
— Acho que é uma completa falta de consideração dela não
mandar avisar nada — disse Tommy.
— Oh — exclamou Albert, — bem, compreendo o que o
senhor quer dizer. Imagino que se possa encarar a coisa
dessa maneira. Se assim lhe agrada mais — acrescentou, um
pouco desastrosamente. Retirou o embrulho dos braços de
Tommy. — Vejo que trouxe o quadro de volta.
— Sim, trouxe essa maldita droga de volta. Não serviu pra
coisa nenhuma.
— Não conseguiu alguma informação com ele?
— Assim também já é exagero. Conseguir, consegui. Mas se
vai adiantar é o que não sei. O Dr. Murray decerto não
telefonou, não é? Nem Miss Packard da Casa de Saúde
Sunny Ridge? Nada nesse sentido?
— Ninguém telefonou, a não ser o homem da quitanda, pra
dizer que chegaram umas berinjelas ótimas. Ele sabe que a
patroa gosta muito de berinjelas. Sempre avisa quando tem.
Então eu respondi que de momento ela não estava. —
Acrescentou: — Fiz galinha pro jantar.
— É espantoso como você nunca se lembra de outra coisa
que não seja galinha — comentou Tommy com maldade.
— Desta vez é apenas um franguinho — explicou Albert. —
O que chamam de galeto.
— Está bem.
O telefone tocou. Tommy saltou da cadeira como um
relâmpago e correu a atender.
— Alô... alô?
Uma voz fraca e distante perguntou:
— Mr. Thomas Beresford?
— Sim.
— Ligação interurbana. De Invergashly. Aguarde na linha,
por favor.
Tommy aguardou. Sua agitação começou a arrefecer, Teve
de esperar certo tempo. Depois uma voz conhecida, firme e
decidida, veio no telefone. Era sua filha. — Alô, é você.
Papai?
— Deborah!
— Sim. Por que está tão ofegante? Andou correndo?
Ah, as filhas, pensou. Sempre críticas.
— Dei pra chiar um pouco depois de velho — respondeu.
— Como vai, Deborah?
— Ah, eu vou bem. Escute aqui, Papai, vi um negócio no
jornal. Talvez também tenha visto. Me deixou pensando.
Um troço a respeito de alguém que sofreu um acidente e
estava no hospital.
— E daí? Tenho a impressão de que não vi nada disso.
Quero dizer, nenhuma notícia dessa espécie. Por quê?
— Bem, não... não parecia coisa grave. Creio que se tratava
de um desastre de automóvel ou algo no gênero.
Mencionava que a mulher, seja lá quem fosse... uma senhora
de idade... tinha dado o nome de Prudence Cowley, mas que
não fora possível obter o endereço dela...
— Prudence Cowley? Você se refere...
— Pois é. Eu só... bem... eu só fiquei pensando. É o nome de
Mamãe, não é? Quero dizer, era.
— Claro.
— Sempre esqueço que é Prudence, Nenhum de nós, seja
você, eu, ou tampouco Derek, se lembra de que ela se
chama assim.
— De fato — concordou Tommy. — Não é o tipo do nome
de batismo que combine muito com sua mãe.
— Não, eu sei que não. Apenas pensei que era... um pouco
esquisito. Acha que talvez possa ser alguma parenta?
— É bem capaz. Onde é que foi isso?
— Hospital de Market Basing, me parece que dizia a nota.
Tive a impressão de que queriam maiores informações sobre
ela. Fiquei apenas pensando... ora, eu sei que é uma
completa bobagem, deve haver uma infinidade de gente que
se chama Cowley e ainda mais Prudence. Mas resolvi
telefonar pra saber. Quero dizer, verificar se Mamãe esta em
casa, sem ter sofrido nenhum acidente e todo o resto.
— Compreendo — disse Tommy. — Compreendo, sim.
— Então? Como é, Papai? Ela está em casa?
— Não — respondeu, — não esta, não. E tampouco sei se
sofreu algum desastre ou não.
— Mas como? O que é que ela anda fazendo? No mínimo
você esteve em Londres com aquela besteira sigilosa que
cercam de tanto mistério, uma tolice remanescente do
passado, batendo papo com todos aqueles velhotes.
— Acertou em cheio. Voltei de lá ontem à noite.
— E descobriu que Mamãe não estava em casa... ou já sabia
que ela não estaria? Vamos, Papai, conte tudo de uma vez.
Você está preocupado. Eu logo noto quando está. O que é
que Mamãe anda fazendo? No mínimo tramando uma das
dela, não? Gostaria de que nessa idade aprendesse a ficar
quieta e não se metesse onde não é chamada.
— Ela andava inquieta — explicou Tommy. — Por causa de
uma coisa que aconteceu, relacionada com a morte de sua
tia-avó Ada,
— Que espécie de coisa?
— Ora, algo que uma das pacientes da casa de saúde contou
pra ela. Tuppence ficou preocupada com a velha, que
começou a falar pelos cotovelos e sua mãe achou estranho
certas coisas que ela disse. E então, quando fomos examinar
os pertences de tia Ada, lembramo-nos de perguntar pela tal
velha e pelo visto tinha ido embora sem mais nem menos.
— Ué, isso parece perfeitamente natural, não?
— Uns parentes tinham ido buscá-la.
— Continuo achando muito normal — afirmou Deborah. —
Por que Mamãe se alarmou?
— Porque meteu na cabeça que devia ter acontecido
qualquer coisa com a velha.
— Ah.
— Pra não andar com rodeios, como se diz, parece que a
velha desapareceu. Tudo da maneira mais natural. Isto é,
garantida por advogados, bancos, etc. e tal. Só que... não
conseguimos descobrir seu paradeiro.
— Quer dizer que Mamãe saiu por aí à procura dela?
— Sim. E não voltou na data prometida, dois dias atrás.
— E não mandou notícias;
— Nenhuma.
— Bem que podia cuidar melhor dela, Papai — censurou
Deborah.
— Jamais houve alguém capaz dessa façanha — protestou
Tommy. — Nem mesmo você. Deborah, já que tocou no
assunto. Foi exatamente o que aconteceu durante a guerra,
quando ela se meteu numa porção de coisas que não eram
de seu bedelho.
— Mas agora é diferente. Quero dizer, ela está bastante
velha. Devia ficar sentada em casa e cuidar de si mesma.
Garanto que foi de puro tédio. No fundo é isso mesmo.
— Hospital de Market Basing, você disse? — perguntou
Tommy.
— Melfordshire. Dista mais ou menos uma hora e meia de
trem de Londres, acho eu.
— Exato — confirmou Tommy. — E há uma aldeia perto de
Market Basing chamada Sutton Chancellor.
— Que tem isso que ver? — retrucou Deborah.
— É muito comprido pra explicar agora. Tem que ver com a
pintura de uma casa perto de uma ponte à beira de um canal.
— Tenho a impressão de que não estou ouvindo você muito
bem — disse Deborah. — Que negócio é esse que está
falando?
— Não tem importância — respondeu Tommy. — Vou ligar
pro Hospital de Market Basing e averiguar um bocado de
coisas. Tenho a sensação de que se trata de sua mãe, sim.
Você sabe que ao sofrer um choque as pessoas se lembram
primeiro do que lhes aconteceu na infância e só aos poucos
é que voltam à realidade. Ela se lembrou do nome de
solteira. Talvez tenha sofrido um acidente de automóvel,
mas eu não me surpreenderia se tivesse levado uma pancada
na cabeça. É o tipo da coisa que acontece com sua mãe.
Mete-se em tudo. Assim que eu souber de alguma coisa lhe
aviso.
Quarenta minutos depois, Tommy Beresford consultou o
relógio de pulso e soltou um suspiro de extrema exaustão,
tornando a pendurar o fone no gancho com uma batida
final. Albert reapareceu.
— Como é que vai ser com o jantar, patrão? — perguntou.
— O senhor ainda não comeu nada, e a galinha, sinto muito
dizer, eu me esqueci... queimou toda.
— Não quero comer coisa nenhuma — respondeu Tommy.
— O que eu quero é um drinque. Me traga um uísque duplo.
— Em seguida, patrão.
Poucos momentos depois, trazia a bebida solicitada ao
recanto onde Tommy se jogara: uma poltrona gasta, mas
confortável, reservada ao seu uso especial.
— E agora — disse Tommy, — imagino que você queira
saber o que aconteceu.
— Pra ser franco, patrão — replicou Albert num tom de
quem pede desculpas, — já sei quase tudo. Vendo que era a
respeito da patroa e tudo mais, tomei a liberdade de escutar
na extensão do quarto de dormir. Achei que o senhor não se
importaria.
— Compreendo perfeitamente — respondeu Tommy. — E
no fundo até agradeço. Se eu tivesse que começar a
explicar...
— Chamou todo mundo, não foi? O hospital, o médico e a
enfermeira-chefe.
— Não há necessidade de recapitular tudo de novo.
— Hospital de Market Basing — comentou Albert. — Ela
nunca mencionou nada. Nem sequer deixou o endereço ou
qualquer coisa assim.
— Ela não imaginou que ia ser um endereço — disse
Tommy. — Pelo que entendi, provavelmente recebeu uma
pancada na cabeça nalgum lugar remoto. Alguém então
levou-a de carro e largou-a à beira da estrada, num ponto
qualquer, pra ser encontrada como vítima de algum
motorista irresponsável. — Acrescentou: — Me chame às
seis e meia, amanhã de manhã. Quero partir bem cedo.
— Desculpe a galinha queimada de novo no forno. Só botei
lá pra ficar quente e terminei esquecendo.
— Deixe as galinhas pra lá. Sempre achei que eram umas
idiotas, correndo debaixo dos automóveis e cacarejando por
aí. Enterre o cadáver amanhã de manhã e organize um bom
enterro.
— Ela não está às portas da morte ou troço parecido, não é,
patrão? — indagou Albert.
— Controle suas tendências melodramáticas — replicou
Tommy. — Se você tivesse escutado direito, saberia que já
recobrou completamente os sentidos, sabe quem é ou era,
onde está e que eles me juraram que vão prendê-la na cama
até que eu chegue pra me encarregar dela outra vez. Sob
hipótese alguma poderá sair do hospital pra andar metida
feito boba em trabalho de detetive.
— Por falar em trabalho de detetive — disse Albert,
hesitando e pigarreando de leve.
— Não estou nada disposto a entrar nesse assunto —
advertiu Tommy. — Esqueça-se disso, Albert. Aprenda
contabilidade, dedique-se à jardinagem, faça o que quiser.
— Bem, apenas pensei... quero dizer, em matéria de pistas...
— Sim, o que tem isso?
— Estive pensando.
— É de onde se originam todos os problemas da vida.
Pensar.
— Pistas — repetiu Albert. — Aquele quadro, por exemplo,
é uma, não é?
Tommy reparou que Albert tinha pendurado na parede a
pintura da casa do canal.
— Se o quadro serve de pista a alguma coisa, que espécie de
pista o senhor acha que é? — Encabulou um pouco com a
deselegância da frase. — Quero dizer... a que se refere?
Devia significar alguma coisa. O que eu estava pensando —
continuou Albert, — se me permite insistir...
— Desembuche logo, Albert.
— O que eu estava pensando era na escrivaninha.
— Escrivaninha?
— Sim. A que veio no caminhão de mudança junto com a
pequena mesa, as duas cadeiras e as outras coisas. O senhor
disse que eram bens de família, não foi?
— Pertenciam a minha tia Ada - explicou Tommy.
— Pois é isso que eu quero dizer, patrão. É o tipo do lugar
onde a gente descobre pistas. Em escrivaninhas velhas.
Antiguidades.
— Possivelmente — concordou Tommy.
— Não era da minha conta, eu sei, e creio que realmente
não devia andar remexendo nela, mas enquanto o senhor
esteve fora, não resisti. Tive de dar uma olhada.
— Onde? Dentro da escrivaninha?
— Sim, só pra ver se não continha alguma pista. O senhor
sabe, escrivaninhas como aquela costumam ter gavetas
secretas.
— Pode ser — retrucou Tommy.
— Pois então. Talvez haja uma pista escondida lá dentro.
Encerrada na gaveta secreta.
— A idéia não é má — disse Tommy. — Porém não
conheço nenhum motivo que levasse tia Ada a esconder
coisas em gavetas secretas.
— Com gente velha, nunca se sabe. Gostam de guardar
coisas. São que nem uma espécie de passarinho que não me
lembro bem do nome. Talvez haja um testamento secreto ali
dentro ou qualquer coisa escrita com tinta invisível. Algum
tesouro. O tipo de lugar pra se encontrar um tesouro oculto.
— Desculpe, Albert, mas acho que vou ter de decepcioná-
lo. Tenho certeza absoluta de que não existe nada dessa
espécie naquela simpática escrivaninha velha de família que
antigamente pertencia ao tio Wiliam, outro que ficou
rabugento na velhice, além de ser surdo como uma porta e
ter um mau gênio danado.
— O que eu pensei foi que não faria mal nenhum em dar
uma olhada, não é mesmo? — disse Albert. — Seja como
for, estava precisando de uma limpeza. O senhor sabe como
são as senhoras idosas com coisas velhas. Nunca se lembram
de remexer nelas... principalmente se sofrem de reumatismo
e têm problema pra se locomover.
Tommy ficou calado um instante. Recordava-se de que
Tuppence e ele tinham examinado rapidamente as gavetas
da escrivaninha, guardando o conteúdo em dois envelopes
grandes e retirando um punhado de meadas de lã, dois
casaquinhos de malha, uma estola de veludo preto e três
fronhas de travesseiro em excelente estado das gavetas de
baixo, que juntaram com outras peças de roupa e bugigangas
para entregar a alguma instituição de caridade. E depois de
chegarem em casa também haviam revistado os papéis que
se encontravam dentro dos envelopes. Não continham nada
de interesse especial.
— Já examinamos tudo, Albert — disse. — Até passamos
duas noites fazendo isso. Uma ou duas cartas antigas bastante
curiosas, algumas receitas de como preparar presunto, outras
de conserva de frutas, um punhado de talões de
racionamento e cupões, ainda do tempo da guerra. Nada de
interesse.
— Ah, aquilo — retrucou Albert, — mas são só papéis e
coisas, pode-se dizer. O tipo do troço que todo mundo
guarda trancado em escrivaninhas e gavetas. Eu me refiro a
um negócio de fato secreto. Quando eu era garoto, sabe,
trabalhei seis meses com um antiquário... a maior parte do
tempo ajudando a falsificar coisas. Mas foi assim que aprendi
sobre gavetas secretas. Em geral sempre usam o mesmo tipo
de esconderijo. Três ou quatro espécies bem conhecidas e
de vez em quando variam. O senhor não acha, patrão, que
devia dar uma espiada? Olhe, eu não quis fazer nada sem que
estivesse junto comigo. Seria muita ousadia.
Fitava Tommy com ar de cão suplicante.
— Venha, Albert — respondeu Tommy, cedendo. —
Vamos ousar de uma vez.
— Móvel muito bonito — comentou, parado ao lado de
Albert, observando aquele exemplar da herança de tia Ada.
— Bem conservado, com belo verniz antigo, demonstrando
o acabamento e a perícia de uma época passada. Então,
Albert — disse, — mãos à obra. Divirta-se à vontade. Mas
não vá forçar nada.
— Oh, tive o máximo cuidado. Não fiz nenhuma racha, nem
enfiei facas ou qualquer coisa parecida. Antes de mais nada,
deixa-se cair a tampa, prendendo estas duas chapinhas que
ficam salientes. Assim, oh, está vendo? A tampa desce por
aqui e abre lugar pra mesa onde a velha costumava sentar.
Bonito estojinho de madrepérola pra mata-borrões que sua
tia Ada tinha. Estava na gaveta do lado esquerdo.
— E essas duas coisas? — perguntou Tommy. Puxou duas
delicadas gavetas verticais, rasas e em forma de pilastra.
— Ah, essas, patrão. A gente pode guardar papéis nelas, mas
não têm nada de secretas. O lugar mais indicado é abrir o
armariozinho do meio... e depois, no fundo, geralmente tem
uma pequena depressão, que a gente faz correr pro lado e
encontra um espaço. Porém há outros modos e lugares. Esta
escrivaninha é daquelas que possuem uma espécie de vão
por baixo.
— Não me parece tampouco muito secreto, hem? Basta
correr pro lado um caixilho...
— O importante é que aparenta não conter mais nada do
que a gente vê. Recua-se o caixilho, lá está a cavidade é
pode-se esconder uma porção de coisas se não se quer que
sejam manuseadas e tudo mais. Mas não fica só nisso, como
vê. Porque, olhe aqui, tem este pedacinho de madeira na
frente, que nem uma pequena saliência. E se a gente quiser,
levanta. Viu?
— Sim — disse Tommy, — estou vendo. Basta levantar.
— E surge uma cavidade secreta aqui, logo atrás da
fechadura do meio.
— Mas aí não tem nada.
— Não — concordou Albert, — parece, decepcionante. Mas
quando se enfia a mão nessa cavidade e se mexe lá dentro,
tanto pra esquerda como pra direita, encontram-se duas
gavetinhas minúsculas, uma de cada lado. Há um pequeno
semicírculo recortado por cima e pode-se enganchar o dedo
por ali... e puxar devagarinho... — Durante esses
comentários, Albert dava a impressão de colocar o pulso
numa posição quase de contorcionista. — Às vezes
emperram um pouco. Espere... espere... está saindo.
O dedo indicador de Albert retirava qualquer coisa do
interior. Prendeu-a delicadamente até que a gavetinha
estreita apareceu na abertura. Tirou-a e colocou diante de
Tommy, com o ar de um cão que traz o osso ao dono.
— Agora espere um instante, patrão. Aqui tem uma coisa
embrulhada num envelope fino e comprido. Vamos
examinar o outro lado.
Trocou de mão e recomeçou os movimentos de
contorcionista. Dali a pouco saía uma segunda gaveta, que
foi colocada ao lado da primeira.
— Aqui tem qualquer coisa também — anunciou Albert. —
Outro envelope lacrado que alguém escondeu numa
determinada ocasião. Não tentei abrir nenhum dos dois...
não faria uma coisa dessas. — Adotara uma Voz
extremamente virtuosa. — Deixei isso pro senhor... Mas é
como eu digo... podem ser pistas...
Juntos, ele e Tommy retiraram o conteúdo das gavetas
empoeiradas. Tommy pegou um envelope lacrado, enrolado
pelo comprido, preso por um elástico que rebentou ao
primeiro contato.
— Parece importante — comentou Albert.
Tommy examinou o envelope. - O cabeçalho dizia
"Confidencial".
— Está vendo? — disse Albert. — "Confidencial". É uma
pista.
Tommy abriu o envelope. Havia meia folha de papel,
coberta por uma caligrafia desbotada, e muito irregular por
sinal. Tommy virou-a de ambos os. lados, enquanto Albert,
inclinado sobre seu ombro, respirava ofegante.
— Receita para Creme de Salmão de Mrs. MacDonald — leu
Tommy. — Recebida por deferência toda especial. Toma-se
um quilo de salmão cortado em fatias, meio litro de leite, um
cálice de conhaque e um pepino cru — interrompeu a
leitura: — Desculpe, Albert, mas esta pista sem dúvida
alguma só nos pode levar à cozinha.
Albert dava sonoras demonstrações de desagrado e
decepção.
— Não faz mal — disse Tommy. — Vejamos a outra.
O segundo envelope lacrado não parecia tão antigo quanto o
primeiro. Tinha dois sinetes de cera cinza clara, cada um
representando uma rosa silvestre.
— Bonito — comentou Tommy, — mas um tanto
extravagante pra tia Ada. No mínimo é a receita de algum
bolo de carne.
Rasgou a ponta do envelope. Arqueou as sobrancelhas.
Caíram do interior dez notas de cinco libras cuidadosamente
dobradas.
— Dinheiro ainda do tempo do papel bom — observou. —
São cédulas antigas. Sabe, do tipo que havia durante a guerra.
Papel decente. Provavelmente hoje em dia não vale mais
nada.
— Dinheiro! — exclamou Albert. — Pra quê que ela queria
todo esse dinheiro?
— Ora, é um pé-de-meia de velha — explicou Tommy. —
Tia Ada sempre teve um. Anos atrás ela me disse que toda
mulher devia sempre ter cinqüenta libras em notas de cinco
pra qualquer emergência.
— Bem, calculo que ainda possam ser úteis — aprovou
Albert.
— É, não creio que estejam completamente obsoletas. Acho
que se pode dar um jeito de trocá-las num banco.
— Tem mais um — preveniu Albert. — O que estava na
outra gaveta...
Esse era mais volumoso. Parecia conter muito mais coisas e
ostentava três grandes lacres vermelhos de aspecto solene.
Por fora, com a mesma caligrafia desigual, dizia: "Na
eventualidade de minha morte, este envelope deverá ser
remetido fechado como está ao meu advogado, Mr.
Rockbury, da firma Rockbury e Tomkins, ou ao meu
sobrinho Thomas Beresford. Não poderá ser aberto por
nenhuma pessoa desautorizada."
Havia diversas folhas de papel escritas de maneira compacta.
A caligrafia era ruim, muito desparelha e, em certos trechos,
bastante ilegível. Tommy teve um pouco de dificuldade para
decifrar o texto em voz alta.
"Eu, Ada Maria Fanshawe, deixo aqui por escrito certos
assuntos que chegaram ao meu conhecimento e que me
foram relatados por pessoas que estão residindo nesta casa de
saúde chamada Sunny Ridge. Não posso afiançar que
qualquer parte desta informação seja correta, mas tudo leva a
crer que atividades suspeitas — e provavelmente criminosas
— estejam ocorrendo ou tenham ocorrido neste asilo.
Elizabeth Moody, uma mulher néscia, mas que não creio
que seja mentirosa, declara que reconheceu uma famosa
figura criminosa nesta instituição. Pode ser que exista
alguém administrando veneno entre nós. Prefiro guardar a
calma, porém me conservarei vigilante. Proponho-me
registrar quaisquer fatos que cheguem ao meu
conhecimento. Tudo talvez não passe de confusão. Seja
como for, solicito que meu advogado ou meu sobrinho
Thomas Beresford providenciem as devidas sindicâncias."
— Está vendo! — exclamou Albert triunfante. — Eu não
disse? É uma PISTA!
QUARTA PARTE - Passa passará, o de trás
ficará a porteira está aberta para quem quiser
passar
14 - Um exercício de raciocínio

— ACHO QUE o que nós deveríamos fazer era pensar — disse
Tuppence.
Após a alegre reunião no hospital, terminara recebendo alta
condignamente. O inseparável casal agora trocava
impressões na sala de estar do melhor apartamento do
"Cordeiro e Estandarte" em Market Basing.
— Nada disso — retrucou Tommy. — Você sabe o que o
médico disse antes de sair do hospital. Nenhuma
preocupação, nenhuma fadiga mental, pouquíssima atividade
física... levar tudo na calma.
— E o que é que eu estou fazendo neste momento? —
perguntou Tuppence. — De pernas pra cima e com a cabeça
em duas almofadas? E quanto a pensar, não se trata
obrigatoriamente de esforço cerebral. Não estou estudando
matemática e economia, nem somando contas domésticas.
Pensar consiste apenas num confortável repouso enquanto o
espírito mantém as antenas abertas pra eventualidade de
captar algo de interesse ou importância flutuando no ar. Seja
como for, não prefere que eu fique aqui matutando de
pernas pra cima e com a cabeça em almofadas do que andar
por aí de novo à cata de ação?
— Quanto a isso, nem se discute — concordou Tommy. —
Está fora de cogitação, ouviu? Fisicamente, Tuppence, você
vai ficar quietinha. Se possível, não te perderei de vista, pois
não confio em você.
— Muito bem. Fim da preleção. Agora pensemos. Juntos,
hem? Não ligue pro que o doutor disse. Se você soubesse o
que eu sei sobre os médicos...
— Não se preocupe com eles. Faça o que eu lhe digo.
— Está bem. De momento não tenho a mínima vontade de
entrar em atividade física, posso garantir. O problema é que
precisamos conversar. Descobrimos uma porção de coisas.
Esse negócio está mais confuso que dia de feira na roça.
— O que é que você quer dizer com "coisas"?
— Fatos, ora. De tudo quanto é espécie. Em profusão. E não
só fatos... Diz-que-diz-que, insinuações, lendas, falatório. O
conjunto se assemelha a um balde de farelo cheio de
embrulhos de todo tipo, enfiados na serragem.
— Serragem é a palavra — anuiu Tommy.
— Não sei muito bem se você está me insultando ou sendo
modesto. De qualquer modo, concorda comigo, não? Há
coisas de sobra. Erradas e certas, importantes e
insignificantes, na maior mixórdia possível. Não se sabe por
onde começar.
— Eu sei — disse Tommy.
— Ah é? Por onde?
— Pela pancada que você recebeu na cabeça. Tuppence
hesitou um instante.
— Francamente, não vejo como isso possa servir de ponto
de partida. Quer dizer, foi a última coisa que aconteceu, não
a primeira.
— Pois no meu modo de entender, pode. Não vou deixar
que andem por aí batendo na cabeça de minha mulher. E é
um ponto real pra começar. Não se trata de imaginação. Foi
uma coisa real que realmente aconteceu.
— Concordo em gênero, número e grau — declarou
Tuppence. — De fato, aconteceu. E comigo. Não me
esqueci, não. Estive pensando nisso... Isto é, desde que
recuperei a capacidade de pensar.
— Tem alguma idéia de quem possa ter sido?
— Infelizmente, não. Estava curvada, examinando um
túmulo e, de repente, bumba!
— Quem seria?
— Imagino que alguém de Sutton Chancellor. E, no entanto
parece tão implausível. Mal falei com aquela gente.
— O pastor?
— Não pode ser ele — afirmou. — Primeiro, porque é um
velhote muito simpático. Segundo, porque nunca teria a
força suficiente. E terceiro, porque tem uma respiração
tremendamente asmática. Jamais chegaria de mansinho atrás
de mim sem que eu ouvisse.
— Nesse caso, se você deixa fora o pastor...
— Você não?
— Bem — replicou Tommy, — sim, deixo. Como você sabe,
fui procurá-lo e falei com ele. Há anos que mora aqui e todo
mundo o conhece. É possível que a própria encarnação do
demônio fosse capaz de bancar um pastor bondoso, mas não
por mais de uma semana no máximo, creio eu. Nunca
durante cerca de dez ou doze anos.
— Bem, então o próximo suspeito seria Miss Bligh. Nellie
Bligh. Embora por que, só Deus saiba. Não podia supor que
eu estivesse tentando roubar um túmulo.
— Acha que tenha sido ela?
— Olhe, realmente não. É competente, lógico. Se quisesse
me seguir, pra verificar o que eu andava tramando e
desfechar a pancada, lograria pleno êxito, E, que nem o
pastor, estava lá... no local... em Sutton Chancellor,
entrando e saindo de sua casa a toda hora, ocupada numa
coisa ou outra. Podia ter-me visto no cemitério, aproximar-
se pelas minhas costas, sem o menor ruído, só por
curiosidade, ver que eu examinava uma sepultura, achar, por
um motivo qualquer, que eu não tinha o direito de fazer
aquilo e me bater com um dos vasos de metal pra flores da
igreja ou o que estivesse mais à mão. Agora não me pergunte
por quê. Não há nenhuma razão aparente.
— E depois quem, Tuppence? Mrs. Cockerell, não é assim
que ela se chama?
— Mrs. Copleigh. Não, não poderia ser ela.
— Ora, como é que você tem tanta certeza assim? Ela mora
em Sutton Chancellor, podia ter notado quando saiu da casa
e simplesmente ir atrás.
— Quanto a isso não há dúvida. Só que é muito tagarela.
— Não vejo nenhuma relação.
— Se a escutasse conversar a noite inteira, como eu, logo
perceberia que alguém que fala tanto que nem ela, sem
parar, numa fluência constante, nunca poderia ser ao mesmo
tempo uma mulher de ação! Jamais conseguiria se aproximar
de mim sem gritar a plenos pulmões.
Tommy ponderou o argumento.
— Muito bem — disse. — Você possui bom discernimento
pra esse tipo de coisa, Tuppence. Rejeitemos Mrs. Copleigh.
Quem é que sobra?
— Amos Perry. É o homem que mora na Casa do Canal.
(Tenho de chamá-la assim porque tem uma porção de outros
nomes. E esse foi o primeiro que teve.) O marido da bruxa
camarada. Há qualquer coisa estranha com ele. É um pouco
retardado e um verdadeiro homenzarrão. Se quisesse, podia
bater na cabeça de qualquer pessoa e até acho que em certas
circunstâncias possivelmente gostaria de fazê-lo..., embora
não possa entender por que motivo escolheria logo eu. No
fundo representa uma melhor hipótese que Miss Bligh, que
me parece apenas uma dessas criaturas cansativas e
eficientes que andam de um lado pra outro dirigindo
paróquias e metendo o bedelho em tudo. Não é de modo
algum o tipo que chegaria ao extremo de uma agressão física,
a não ser que tivesse uma razão desvairadamente emotiva.
Você sabe — acrescentou, com um ligeiro tremor, — fiquei
assustada a primeira vez que o vi. Ele estava me mostrando o
jardim. De repente senti que... bem, que não me agradaria
cair nas más graças dele... ou encontrá-lo numa rua deserta à
noite. Me pareceu um sujeito pouco dado a acessos de
violência, mas que seria capaz disso, se alguma coisa o
arrastasse nesse sentido.
— Então está — disse Tommy, — Amos Perry. Número um.
— E tem a esposa — continuou Tuppence devagar. — A
bruxa camarada. Foi simpática e gostei dela... não quero que
tenha sido ela... não acho que tenha sido ela, mas tenho a
impressão de que anda envolvida em alguma coisa... Algo
relacionado com aquela casa. Esse é outro problema, sabe,
Tommy?... Não se sabe qual é o detalhe mais importante em
tudo isso... Comecei a imaginar se tudo não se concentra em
torno daquela casa... se não será a casa o ponto de
convergência. O quadro... Aquele quadro tem de ter um
significado, não tem, Tommy? Estou certa de que sim.
— Sim — concordou Tommy, — acho que tem.
— Vim pra cá à procura de Mrs. Lancaster..., mas aqui
parece que ninguém jamais ouviu falar nela. Fiquei
pensando se não havia entendido a coisa errada... que Mrs.
Lancaster se encontrava em perigo (porque ainda creio
piamente nisso) porque possuía aquele quadro. Acho que eia
nunca esteve em Sutton Chancellor... apenas ganhou, ou
mesmo comprou, um quadro de uma casa daqui. E esse
quadro possui um significado... de certo modo representa
uma ameaça pra alguém. Dona Chocolate... Mrs. Moody...
disse à tia Ada que tinha reconhecido uma pessoa em Sunny
Ridge... alguém relacionado com "atividades criminosas".
Tenho a impressão de que essas atividades estão ligadas ao
quadro e à Casa do Canal. E a uma criança que talvez haja
sido assassinada lá. Tia Ada admirou o quadro de Mrs.
Lancaster... e ganhou-o de presente... Quem sabe se Mrs.
Lancaster não falou sobre ele... onde o tinha conseguido, ou
quem lhe dera e onde a casa ficava... Mrs. Moody foi morta
porque reconheceu decididamente alguém que estivera
"ligado a atividades criminosas." Conte de novo a conversa
que você teve com o Dr. Murray — pediu Tuppence. —
Depois de explicar o que sucedera com Dona Chocolate, ele
passou a enumerar certos tipos de assassinos, citando
exemplos da vida real. Uma mulher que dirigia uma casa de
saúde pra pessoas idosas... recordo vagamente que li
qualquer coisa a respeito, só que não consigo me lembrar do
nome da fulana. A idéia era fazer com que lhe entregassem
todo o dinheiro que tinham pra poderem morar lá até à
morte, com boa comida e bons cuidados e sem se
preocuparem com problemas financeiros. E viviam muito
felizes... com o único inconveniente de que morriam
geralmente em menos de um ano... tranqüilos em seu sono.
E finalmente começaram a desconfiar. A mulher foi
processada e condenada por homicídio... Porém não teve o
menor remorso, protestando que praticara um ato de
bondade com os pobres coitados.
— Sim. Isso mesmo — confirmou Tommy. — Também não
consigo me lembrar do nome dela.
— Bem, não tem importância. E depois ele citou outro caso.
De uma empregada doméstica, cozinheira ou governanta.
Costumava trabalhar pra diversas famílias. Parece que às
vezes não acontecia nada, mas noutras ocorria uma espécie
de envenenamento em massa. Na comida, segundo consta.
Tudo com sintomas bastante razoáveis. Algumas pessoas se
salvavam.
— Ela preparava os sanduíches — explicou Tommy, —
arrumava em pacotes e entregava pra levarem em
piqueniques. Era muito boazinha, dedicada e quando
acontecia um envenenamento em massa também sofria os
mesmos sintomas e efeitos. Provavelmente exagerando um
pouco. Aí, no fim de tudo, ia-se embora empregando-se
noutra casa, numa parte bem diferente da Inglaterra. A coisa
continuou durante anos a fio.
— Exato, tem razão. Ninguém, creio eu, pôde jamais
entender por que ela fazia aquilo. Será que se transformou
numa espécie de mania... de hábito? Será que se divertia
com isso? Ninguém realmente jamais soube. Parece que não
nutria nenhum ressentimento pessoal contra qualquer uma
das vítimas. Decerto não regulava bem.
— É. Creio que sim, embora eu ache que depois de longa
análise um desses psiquiatras terminaria descobrindo que
tudo era devido a um canário pertencente a uma família que
ela conhecera há muitos anos, na infância, e que lhe causou
um trauma, um susto ou troço parecido. Mas, seja como for,
creio que deve ter sido uma coisa assim.
— A terceira era ainda mais estrambótica — lembrou
Tommy. — Uma francesa que tinha sofrido terrivelmente
com a perda do marido e da filha. Ficou desconsolada e se
converteu num anjo de piedade.
— Justo. Agora me lembro. Em qualquer aldeia que ela
surgia, era logo apelidada de anjo. Givon, ou algo parecido.
Oferecia-se pra cuidar dos vizinhos quando adoeciam.
Principalmente se se tratasse de crianças. Dedicava-se de
corpo e alma. Mas cedo ou tarde, depois de aparentes
melhoras, pioravam e morriam. Passava horas chorando no
enterro e todos diziam que não sabiam o que teriam feito
sem o anjo que cuidara tanto de seus adorados filhos.
— Por que você quer recapitular tudo isso, Tuppence?
— Estou pensando se o Dr. Murray teria algum motivo pra
mencionar esses casos.
— Você quer dizer que ele relacionou...
— Tenho a impressão de que ele tomou três exemplos
clássicos e famosos e tentou comparar, por assim dizer, pra
ver se algum se adaptava a Sunny Ridge. Na minha opinião,
de certo modo, qualquer um serviria. Miss Packard
personifica o primeiro. A eficiente diretora de um asilo.
— Você realmente tem implicância com aquela mulher.
Sempre simpatizei com ela.
— Não nego que muita gente simpatizou com assassinos —
retrucou Tuppence, com toda a razão. — É que nem os
trapaceiros e vigaristas que sempre têm cara de inocentes e
parecem honestos. Eu até afirmaria que todos os criminosos
dão impressão de serem muito bonzinhos e especialmente
sensíveis. Esse tipo de coisa. Seja como for, Miss Packard é a
própria eficiência e dispõe de todos os recursos pra provocar
uma bela morte natural sem despertar suspeitas. E somente
alguém como Dona Chocolate poderia desconfiar dela. E
isso porque também era um pouco aloprada e compreendia
perfeitamente esse gênero de mentalidade. Ou talvez já a
tivesse encontrado antes noutro lugar.
— Não creio que Miss Packard lucrasse financeiramente
com qualquer uma das mortes das velhas pensionistas.
— Você não sabe. Seria um modo mais inteligente de agir,
não se beneficiar com todas. Bastava selecionar uma ou duas,
que fossem ricas e lhe deixassem bastante dinheiro, e ao
mesmo tempo ter sempre algumas mortes perfeitamente
naturais e que não proporcionassem nenhuma vantagem.
Portanto você vê, eu acho que o Dr. Murray talvez —
talvez, note-se — lançasse um olhar pra Miss Packard e
dissesse consigo mesmo: — "Bobagem, estou imaginando
coisas". Mas mesmo assim a idéia lhe ficou gravada na
cabeça. O segundo caso que ele mencionou encaixaria numa
empregada doméstica, uma cozinheira, ou até qualquer
espécie de enfermeira profissional. Alguém que trabalhasse
no local, uma mulher de meia-idade, de confiança, porém
maluca dessa maneira toda especial. Talvez acostumada a
sentir certos rancores e antipatias por determinadas
pacientes. Não podemos adivinhar quem possa ser porque
não creio que conheçamos ninguém suficientemente...
— E o terceiro?
— Ah, esse é mais difícil — confessou Tuppence. — Uma
pessoa devotada. Dedicada.
— Quem sabe ele apenas acrescentou esse pra fazer conta
redonda — sugeriu Tommy. E depois lembrou: — Que me
diz daquela enfermeira irlandesa?
— A boazinha, a quem demos a estola de pele?
— Sim, aquela de quem tia Ada gostava. A extremamente
simpática. Parecia gostar de todas, lamentando tanto quando
morriam. Estava muito inquieta quando conversou conosco,
não estava? Você até comentou... ia-se embora e não chegou
realmente a explicar por quê.
— Calculo que pudesse ser um tipo neurótico. De modo
geral as enfermeiras não são tão sentimentais. Não é bom
prós doentes. Devem ser calmas, eficientes e inspirar
confiança.
— A enfermeira Beresford com a palavra — brincou
Tommy com um sorriso.
— Mas voltando ao quadro — continuou Tuppence. — Que
tal se nos concentrássemos nele? Achei muito interessante o
que você me contou sobre Mrs. Boscowan, quando foi
visitá-la. Ela parece... parece fascinante.
— E é mesmo — confirmou Tommy. — Sem sombra de
dúvida, a pessoa mais fascinante que encontramos nesta
história bizarra. O tipo da criatura que dá a impressão de
saber coisas, mas não por pensar nelas. Parecia ter
conhecimento de algo a respeito deste lugar que eu não
sabia e que você talvez também não. Porém ela sabe de
alguma coisa.
— Estranhei o que ela disse sobre o barco — frisou
Tuppence. — Que o quadro antes não tinha nenhum. Por
que você julga que agora tenha?
— Ah, não sei.
— Havia algum nome pintado no casco? Não me recordo de
ter visto nenhum... mas verdade que nunca examinei muito
detidamente.
— Está escrito Waterlily.
— Muito apropriado pra um barco... o que é que isso me faz
lembrar?
— Não tenho a mínima idéia.
— E estava absolutamente certa de que o marido não o
pintara... Ele podia ter acrescentado mais tarde.
— Diz ela que não... com absoluta certeza.
— Existe, lógico, outra possibilidade que ainda não
esmiuçamos. A respeito da pancada que me deram, quero
dizer... um intruso...alguém talvez me seguisse até aqui
desde Market Basing naquele dia, pra ver o que eu andava
tramando. Porque eu estive lá, pedindo todas aquelas
informações. Percorrendo os corretores de imóveis, um por
um. Me dissuadiram de alugar a casa. Mostraram-se
esquivos. Mais do que seria- normal. O mesmo tipo de
evasiva que recebemos quando procuramos averiguar o
paradeiro de Mrs. Lancaster. Advogados e bancos, um
proprietário com quem não se pode entrar em contato
porque vive no exterior. A mesma espécie de esquema.
Quem sabe não mandaram alguém atrás de meu carro, pra
ver o que eu estava fazendo e no momento oportuno
desfechar a pancada. O que nos traz de volta — lembrou
Tuppence, — ao túmulo no cemitério. Por que não queriam
que eu examinasse as sepulturas antigas? De qualquer jeito, já
estavam espalhadas pelos cantos... dir-se-ia que um bando de
moleques, fartos de quebrar cabinas telefônicas, tinham
entrado lá pra se divertir, cometendo sacrilégios à sombra da
igreja.
— Você diz que havia palavras pintadas... ou mal gravadas
na pedra?
— Sim... talhadas a formão, parece. Alguém que desistiu
porque não adiantava mesmo. O nome... Lily Waters... e a
idade... sete anos... estavam legíveis... e depois os outros
fragmentos de palavras..: Parecia algo como "Ai de quem..."
seguido por "escandalizar"... "inocentes"... e... "mó"...
— Parece familiar.
— Não é pra menos. Decididamente bíblico... mas gravado
por alguém que não se lembrava direito da frase...
— Tudo muito estranho...
— E por que haviam de se opor... eu estava apenas ajudando
o pastor... e o coitado que anda em busca da filha-perdida...
Pronto, cá estamos nós... de volta à criança desaparecida...
Mrs. Lancaster falou numa, emparedada numa lareira, e Mrs.
Copleigh tagarelou a respeito de freiras encerradas em muros
e crianças assassinadas, e uma mãe que matou uma filha de
colo, e de um amante, um bastardo e um suicídio... Tudo
numa série de histórias, boatos, falatórios e lendas,
misturados na mais gloriosa confusão! Seja como for,
Tommy, houve um fato verdadeiro... não apenas diz-que-
diz-que ou murmuração...
— Refere-se a...
— À boneca esfarrapada que caiu da chaminé na Casa do
Canal... Um brinquedo de criança. Estava lá há anos, toda
coberta de fuligem e entulho...
— Pena que não a tenhamos — disse Tommy.
— Eu tenho! — exclamou Tuppence, triunfante.
— Você a trouxe?
— Sim. Aquilo me impressionou, sabe? Achei melhor trazer
pra examinar. Ninguém fez a menor questão de guardá-la.
Os Perrys no mínimo iam jogar logo na lata de lixo. Vou
buscá-la.
Levantou-se do sofá, foi até a mala, remexeu um pouco e
depois retirou algo embrulhado em papel de jornal.
— Cá está, Tommy. Dê uma olhada.
Com certa curiosidade, Tommy desfez o pacote. Retirou
cuidadosamente os destroços de uma boneca infantil. Os
braços e as pernas balançavam, frouxos. Festões de pano
desbotados se desfaziam ao serem tocados. O corpo parecia
feito de um couro de camurça muito fino, costurado a um
miolo que outrora estivera repleto de serragem, porém agora
cedia aqui e ali por onde ela se escoara. Quando Tommy
segurou-a, da maneira mais delicada possível, o corpo
subitamente se desintegrou, dobrando-se numa grande
chaga que deixou passar um punhado de serragem junto
com pequenos seixos que se espalharam por todos os cantos
do soalho. Tommy pôs-se a recolhê-los com o maior
cuidado.
— Santo Deus! — murmurou. — Santo Deus!
— Que esquisito — comentou Tuppence — está cheia de
pedrinhas. Será que foi um pedaço da chaminé que
desmoronou? O reboco ou qualquer coisa que caiu?
— Não — disse Tommy. — Estavam dentro da boneca.
Depois de juntar todas com cuidado, enfiou o dedo na
carcaça da boneca e novas pedrinhas caíram. Aproximou-se
da janela e examinou-as contra a luz. Tuppence o observava,
sem entender nada.
— Que idéia mais engraçada, encher uma boneca de
pedrinhas.— comentou.
— Bem, não se trata exatamente de um tipo comum de
pedrinhas. Calculo que tivessem um bom motivo pra fazer
isso.
— O que é que você quer dizer?
— Dê uma olhada. Pegue um punhado.
Apanhou algumas na mão dele com uma expressão intrigada.
— Não passam de simples seixos. Uns grandes e outros
menores. Por que ficou tão agitado?
— Porque começo a compreender tudo, Tuppence. Não são
seixos coisa nenhuma, minha cara. São diamantes.
15 - Reunião no vicariato

— DIAMANTES! — exclamou Tuppence boquiaberta.
Desviando os olhos de Tommy para os seixos que ainda
segurava na mão, perguntou:
— Estas coisas cobertas de poeira, diamantes? Tommy
confirmou com a cabeça.
— Agora começa a ficar compreensível, Tuppence. Tudo se
explica. A Casa do Canal. O quadro. Espere até que Ivor
Smith fique sabendo desta boneca. Ele já tem um buque à
sua espera, Tuppence...
— A troco de quê?
— Por ajudar a prender uma grande quadrilha de
criminosos!
— Você e seu Ivor Smith! No mínimo foi onde você andou
durante a semana passada, me abandonando nos meus
últimos dias de convalescença naquele hospital horroroso...
justamente quando eu mais precisava de uma boa conversa e
muito estímulo.
— Fui te ver nas horas de visita praticamente todas as tardes.
— Não me contou grande coisa.
— Fui prevenido por aquela fera de Irmã pra não te deixar
agitada. Mas o próprio Ivor vai vir cá depois de amanhã e já
preparamos uma pequena reunião social no vicariato.
— Quem irá?
— Mrs. Boscowan, um dos grandes proprietários de terras
local, tua amiga Miss Nellie Bligh, o pastor, lógico, você e
eu...
— E Mr. Ivor Smith... qual é o verdadeiro nome dele?
— Ao que me consta, Ivor Smith.
— Você é sempre tão prudente... Deu uma gargalhada
repentina.
— De que está rindo?
— Me lembrei de como gostaria de ter visto você
descobrindo gavetas secretas junto com o Albert na
escrivaninha de tia Ada.
— O mérito foi inteiramente dele. Precisava ouvir a
preleção que fez sobre o assunto. Diz que aprendeu tudo na
juventude, com um antiquário.
— Imagine, tia Ada realmente deixando um documento
sigiloso como aquele, todo lacrado. No fundo aposto como
não sabia de nada, porém estava pronta a acreditar que havia
alguém perigoso em Sunny Ridge. Será que percebeu que
era Miss Packard?
— Isso não passa de mera conjetura sua.
— Muito boa, por sinal, já que estamos à procura de uma
quadrilha de criminosos. Eles necessitariam de um lugar que
nem Sunny Ridge, respeitável e bem administrado, com
uma assassina competente na chefia. Alguém com todas as
qualificações pra ter acesso a entorpecentes à hora que
quisesse. E que aceitasse quaisquer mortes que ocorressem
ali como perfeitamente normais, influenciando assim um
médico a crer que não tinham nada de mais.
— Você pensou em cada detalhe, mas na verdade o único
motivo que te levou a desconfiar de Miss Packard foi que
não gostou dos dentes dela...
— Pra comer você melhor — repetiu Tuppence pensativa.
— Te digo ainda mais, Tommy... Vamos supor que esse
quadro... o da Casa do Canal... nunca tivesse pertencido a
Mrs. Lancaster...
— Porém nós sabemos que pertencia — retrucou Tommy,
olhando para ela.
— Não sabemos coisa nenhuma. Sabemos apenas o que Miss
Packard disse... Foi ela quem contou que Mrs. Lancaster
tinha dado o quadro pra tia Ada.
— Mas por que iria... — interrompeu a frase.
— Talvez por isso mesmo Mrs. Lancaster fosse levada
embora... pra que não dissesse que ele não lhe pertencia e
que não tinha dado pra tia Ada.
— Acho essa idéia extravagante demais.
— Pode ser... No entanto o quadro foi pintado em Sutton
Chancellor... A casa que aparece nele é uma que existe em
Sutton Chancellor... Temos motivo pra acreditar que ela é...
ou foi... usada como esconderijo por uma associação de
criminosos... que, segundo tudo indica, são chefiados por
Mr. Eccles, o homem responsável por mandar Mrs. Johnson
buscar Mrs. Lancaster. Não creio que Mrs. Lancaster jamais
tenha posto os pés em Sutton Chancellor, ou estado na Casa
do Canal ou possuído o quadro... embora eu ache que ouviu
alguém comentar isso em Sunny Ridge... Dona Chocolate,
talvez? Por isso começou a tagarelar, o que era arriscado, e
assim teve de ser removida. Mas um dia hei de encontrá-la!
Anote bem o que eu estou dizendo, Tommy.
— As aventuras de Mrs. Thomas Beresford.
— A senhora está com um aspecto ótimo. Mrs. Tommy —
comentou Mr. Ivor Smith.
— Estou-me sentindo perfeitamente bem de novo —
retrucou Tuppence. — Que idiotice a minha andar por aí
recebendo pancadas, não é mesmo?
— Merece uma medalha... Principalmente por causa da
boneca. Só queria saber como faz pra descobrir essas coisas!
— É um legítimo perdigueiro — afirmou Tommy. — Põe o
focinho no rastro e sai atrás.
— Vocês não pretendem me excluir dessa reunião logo
mais, hem? — disse Tuppence desconfiada.
— Claro que não. Esclarecemos uma série de coisas, sabe?
Não podem imaginar como me sinto grato a ambos. Note-se
que nos estávamos aproximando um pouco desse bando de
criminosos espantosamente astuto, responsável por uma
fantástica quantidade de roubos durante os últimos cinco ou
seis anos. Conforme revelei a Tommy, quando veio me
perguntar se eu sabia algo a respeito do nosso esperto Mr.
Eccles, há muito andávamos de olho nele, porém não é o
tipo de pessoa contra quem seja fácil obter provas.
Demasiado cauteloso. Funciona como procurador... uma
atividade perfeitamente lícita com clientes absolutamente
normais. Como disse a Tommy, um dos pontos mais
importantes tem sido essa cadeia de imóveis. Casas de
aspecto perfeitamente normal onde residem pessoas do mais
absoluto respeito, que ficam ali durante certo tempo... e
depois se mudam. Agora, graças à senhora, Mrs. Tommy, e
sua investigação de chaminés e pássaros mortos, localizamos
com toda a certeza uma dessas casas. O lugar onde uma
parcela da pilhagem estava escondida. Usaram um hábil
sistema, sabem, transformando jóias ou várias coisas do
gênero em pacotes de diamantes brutos, ocultando-os ou
levando pro estrangeiro em barcos de pesca, quando todo o
clamor público em torno do roubo já houvesse passado.
— E quanto aos Perrys? Estão... espero que não estejam...
metidos no plano?
— Não se pode afirmar categoricamente — respondeu Mr.
Smith. — Não, seria temerário. Parece-me provável que
Mrs. Perry, ao menos, sabe alguma coisa, ou então em
determinada época veio a saber.
— Quer dizer que faz parte da quadrilha?
— Não digo isso. É possível que estivesse nas mãos deles.
— De que maneira?
— Olhe, vou falar em caráter confidencial, pois sei que
guardarão sigilo sobre o assunto, mas a polícia local sempre
achou que o marido. Amos Perry, talvez fosse o responsável
pela onda de infanticídios de anos atrás. No consenso
médico, ele poderia facilmente ter sentido uma compulsão
pra matar crianças. Nunca houve nenhuma prova definitiva,
no entanto a esposa parecia ansiosa demais em sempre lhe
proporcionar álibis perfeitos. Nesse caso, compreendem,
podia estar nas mãos de uma quadrilha inescrupulosa que os
tivessem colocado como inquilinos da parte de uma casa
onde sabiam que ela ficaria de boca calada. Talvez até
dispusessem de qualquer forma de evidência culposa contra
o marido. A senhora os conhece... qual é a opinião que teve
dos dois, Mrs. Tommy?
— Simpatizei com ela — frisou Tuppence. — Achei que
era... bem, foi como eu disse, me deu a impressão de que era
uma bruxa camarada, capaz de magia branca, mas não negra.
— E ele?
— Me amedrontou. Não o tempo todo. Só umas duas vezes.
De repente parecia ficar enorme e assustador. Apenas por
alguns instantes. Não pude imaginar o que me infundia
medo, mas o fato é que eu sentia. Creio que foi como o
senhor disse. Percebi que ele não regulava bem da cabeça.
— Há muita gente assim — concordou Mr. Smith. — E
muitas vezes não são nada perigosos. Só que nunca se sabe,
nem se pode ter certeza.
— Que vamos fazer hoje à noite no vicariato?
— Averiguar algumas coisas. Ver um punhado de gente.
Apurar certos dados que nos possam dar um pouco mais de
informação que precisamos.
— O Major Waters estará presente? O homem que escreveu
ao pastor a propósito da criança?
— Parece que não existe tal pessoa! Havia um caixão
enterrado onde o velho túmulo fora removido... um esquife
infantil, forrado de chumbo... E estava cheio de produto de
pilhagem. Jóias e objetos de ouro de um arrombamento
perto de St. Albans. A carta ao pastor tinha a finalidade de
descobrir o que acontecera à sepultura. As estripulias da
rapaziada local complicaram tudo.
— Não imagina o quanto eu lamento, minha cara — disse o
pastor, vindo ao encontro de Tuppence de braços abertos.
— É mesmo, minha cara, fiquei tão terrivelmente abalado
que isso fosse suceder logo com quem tinha se mostrado tão
gentil comigo. Quando estava apenas tentando me ajudar.
Francamente, achei que fora tudo culpa minha. Não devia
ter permitido que procurasse o túmulo, embora quem
poderia supor... uma vez que não havia o menor motivo...
que um bando de jovens desordeiros...
— Ora, não se preocupe, ministro — interveio Miss Bligh,
aparecendo repentinamente a seu lado. — Tenho certeza de
que Mrs. Beresford sabe que o senhor nada teve a ver com o
fato. Foi mesmo uma grande gentileza oferecer-se pra
ajudar, mas agora tudo já passou e ela está perfeitamente
bem de novo. Não é, Mrs. Beresford?
— Claro — respondeu Tuppence, um pouco chateada,
entretanto, que Miss Bligh determinasse seu estado de saúde
com tamanha segurança.
— Venha sentar-se aqui e ponha uma almofada nas costas —
convidou Miss Bligh.
— Não é preciso — recusou Tuppence, não querendo
ocupar a poltrona que Miss Bligh lhe oferecia, solícita. Em
vez disso, dirigiu-se a unia cadeira de encosto duro e
extremamente incômodo do outro lado da lareira.
Uma forte pancada seca repercutiu na porta da frente. Todos
os presentes levaram um sobressalto. Miss Bligh precipitou-
se.
— Não se incomode, ministro — disse, — deixe que eu
atendo.
— Sim, por favor.
Houve um murmúrio no vestíbulo e em seguida Miss Bligh
voltou, trazendo uma mulher grandalhona vestida de
brocado e um homem muito alto e magro, de aspecto
cadavérico. Tuppence fitou-o assombrada. Uma capa preta
cobria-lhe os ombros e o rosto comprido e descarnado
lembrava uma fisionomia de outro século. Parecia saído,
pensou ela, de uma tela de El Greco.
— Que imenso prazer revê-lo — saudou o pastor, virando-
se para os outros. — Permitam-me apresentar-lhes Sir Philip
Starke. Mr. e Mrs. Beresford. Mr. Ivor Smith. Ah! Mrs.
Boscowan. Há quantos anos não nos víamos... Mr. e Mrs.
Beresford.
— Mr. Beresford eu já o conheço — disse Mrs. Boscowan.
Olhou para Tuppence. — Como vai? — cumprimentou. —
Que bom encontrá-la. Soube que sofreu um acidente.
— Sim. Mas agora já estou bem.
Findas as apresentações, Tuppence tornou a sentar na
cadeira. Sentia-se invadida por um cansaço que ultimamente
parecia manifestar-se com mais freqüência do que nunca.
Consolou-se com a idéia de que decerto seria resultado do
choque. Permanecendo imóvel, com as pálpebras
entreabertas, nem assim deixava de analisar cada pessoa na
sala com a máxima atenção. Não escutava o que diziam,
apenas observava. Tinha a impressão de que alguns
personagens do drama... no qual se envolvera
involuntariamente... estavam ali reunidos numa espécie de
palco. Os elementos aos poucos se uniam, formando um
núcleo compacto. Com a chegada de Sir Philip Starke e Mrs.
Boscowan, dir-se-ia que dois protagonistas até então
ausentes subitamente entravam em cena. Ambos haviam-se
conservado, por assim dizer, o tempo todo fora do círculo e
agora passavam a integrá-lo. De certo modo tomavam parte,
comprometidos. Por que tinham vindo àquela reunião?...
Gostaria de saber. Intimados por alguém? Ivor Smith? Exigira
sua presença ou apenas pedira cortesmente? Ou lhe seriam
talvez tão desconhecidos quanto eram para ela? Pensou
consigo mesma: "Tudo começou em Sunny Ridge, mas o
asilo não representa o verdadeiro âmago do problema, que
sempre esteve aqui, em Sutton Chancellor. Aconteceram
coisas neste lugar. Não muito recentemente, disso estou
quase certa. Há muito tempo. Coisas que não se
relacionavam com Mrs. Lancaster... mas que, sem querer, a
envolviam. E, no entanto, onde andará ela agora?"
Sentiu um leve calafrio.
"Vai ver — pensou Tuppence, — vai ver que está morta..."
Nesse caso, precisava reconhecer o próprio fracasso. Pusera-
se à procura, inquieta, pelo destino de Mrs. Lancaster,
achando que um perigo a ameaçava, e determinara-se a
encontrá-la, a fim de protegê-la.
— E se não estiver morta — decidiu, — hei de socorrê-la!
Sutton Chancellor... Fora ali que sucedera algo significativo e
perigoso. A casa do canal fazia parte disso. Talvez
constituísse o centro de tudo. Ou seria a própria aldeia? Um
lugar onde pessoas haviam vivido, chegado, partido, fugido,
sumido, desaparecido e reaparecido. Que nem Sir Philip
Starke.
Sem mover a cabeça, os olhos de Tuppence se concentraram
nele. A única coisa que sabia a seu respeito era o que Mrs.
Copleigh mencionara durante o longo monólogo sobre os
habitantes locais. Um sujeito tranqüilo e culto. Um botânico,
um industrialista, ou que pelo menos possuía grandes
interesses industriais. Portanto, um homem rico... e que
adorava crianças. Lá vinha ela de novo. Crianças outra vez.
A casa do canal e o pássaro na chaminé, de onde caíra uma
boneca infantil, escondida ali por alguém. Uma boneca que
escondia no forro um punhado de diamantes... produtos de
um roubo. Ali se situava um dos centros de operações de
uma vasta organização criminosa. Porém existiam crimes
mais sinistros que assaltos. "Sempre achei que ele podia ser o
culpado", dissera Mrs. Copleigh.
Sir Philip Starke. Um assassino? Pelas pálpebras entreabertas,
Tuppence o analisava com a nítida consciência de averiguar
se ele encaixava de qualquer modo na sua concepção de
homicida... de infanticida, por sinal.
Que idade teria? No mínimo setenta, talvez mais. Uma
fisionomia ascética, sofrida. Sim, decididamente ascética.
Sem sombra de dúvida, um rosto torturado. Aqueles
imensos olhos negros. Dignos de um modelo de El Greco. O
corpo descarnado.
Por que teria comparecido à reunião? Desviou os olhos na
direção de Miss Bligh. Sentada um pouco inquieta na
cadeira, levantando-se de vez em quando para empurrar
uma mesa mais para perto de alguém, oferecer uma
almofada, deslocar a posição de uma caixa de cigarros ou
fósforos. Irrequieta, mas à vontade. Estava fitando Philip
Starke. Toda vez que se acalmava, seu olhar pousava nele.
— Fidelidade canina — pensou Tuppence. — Creio que
esteve apaixonada por ele. E acho que de certo modo ainda
está. A gente não perde o amor por alguém só por causa de
velhice. Criaturas como Derek e Deborah é que pensam
assim. Não conseguem imaginar ninguém apaixonado que
não seja jovem. Mas me parece que ela... continua
perdidamente enamorada de Sir Philip. Quem foi mesmo
que disse... teria sido Mrs. Copleigh ou o pastor... que Miss
Bligh trabalhara como sua secretária na mocidade e era ela
quem atualmente tratava dos negócios dele no lugarejo?
— Ora — pensou Tuppence, — nada mais natural. As
secretárias muitas vezes se apaixonam pelos patrões. Assim,
digamos que Gertrude Bligh amasse Philip Starke. De que
adiantaria tal constatação? Teria Miss Bligh conhecimento ou
desconfiança de.que a calma personalidade ascética de Philip
Starke ocultasse uma hedionda carga de loucura? Sempre
gostou tanto de crianças...
— Em demasia, na minha opinião — comentara Mrs.
Copleigh.
Há atrações realmente irremediáveis. Talvez fosse essa a
razão daquela aparência tão torturada.
— A não ser que a gente seja patologista, psiquiatra ou algo
semelhante, não se conhece nada sobre assassinos loucos —
pensou Tuppence. — Por que procuram matar as crianças?
O que causa esse impulso? Será que depois se arrependem?
Sentem-se enojados, desesperadamente infelizes ou
apavorados?
Então reparou; que o olhar dele havia-se fixado nela.
Fitaram-se mutuamente e Tuppence teve a impressão de que
ele queria comunicar-lhe alguma mensagem.
— "A senhora está pensando em mim — dizia. — Sim, tem
toda a razão. Sou uma criatura atormentada."
De fato, o termo o descrevia com exatidão... Um homem
atormentado.
A muito custo, desviou o olhar. Contemplou o pastor.
Simpatizava com ele. Era um amor de pessoa. Saberia de
alguma coisa? Talvez, pensou Tuppence, ou bem podia estar
vivendo no meio de uma terrível complicação da qual jamais
sequer suspeitara. As coisas aconteciam ao seu redor sem
que possivelmente soubesse, pois possuía aquela qualidade
um tanto perturbadora de inocência.
Mrs. Boscowan? Sobre ela tornava-se difícil dizer alguma
coisa ao certo. Uma mulher de meia-idade, de forte
personalidade, como Tommy já observara. Porém aquilo não
parecia suficiente. Como que obedecendo a uma ordem de
Tuppence, Mrs. Boscowan de repente se pôs em pé.
— Não se importam que eu vá lá em cima lavar as mãos? —
perguntou.
— Oh! Mas claro. — Miss Bligh levantou-se de um salto. —
Vou mostrar-lhe onde fica, não é, ministro?
— Conheço perfeitamente o caminho — retrucou a
escultora. — Não se incomode... Mrs. Beresford.
Tuppence teve um ligeiro sobressalto.
— Não quer aproveitar? — convidou. — Venha comigo.
Tuppence ergueu-se, dócil como uma criança. Relutaria
em aceitar a evidência. Porém sabia que tinha recebido uma
ordem e quando Mrs. Boscowan dava uma ordem, era
impossível desobedecer.
A essa altura, Mrs. Boscowan já se achava no corredor e
Tuppence ia atrás. Subiram os degraus... Tuppence na
retaguarda.
— O quarto de hóspedes fica no topo da escada — informou
Mrs. Boscowan. — Está sempre pronto. Comunica com um
banheiro.
Abriu a porta em frente à escada, entrou, acendeu a luz e
Tuppence seguiu-a.
— Fiquei muito contente por encontrá-la aqui — disse Mrs.
Boscowan. — Contava com isso. Estava preocupada por sua
causa. Seu marido lhe contou?
— Sim, ele me falou qualquer coisa.
— Estava preocupada, sim. — Fechou a porta, encerrando-
se, por assim dizer, num lugar íntimo de confabulações
privadas. — Nunca lhe pareceu — perguntou, — que Sutton
Chancellor é uma localidade perigosa?
— Pra mim foi — concordou Tuppence.
— Sim, eu sei- Ainda bem que não foi pior, mas é que... sim,
acho que compreendo.
— A senhora sabe de alguma coisa — afirmou Tuppence. —
Sabe de alguma coisa sobre tudo isso, não sabe?
— De certo modo, sim. E por outro lado, não. Trata-se mais
de instinto, pressentimentos, entende? Quando resultam
infalíveis, a gente se preocupa. Essa história toda de
quadrilha de criminosos parece tão extraordinária. Dá
impressão de que não tem nada que ver com...
Parou abruptamente.
— Quero dizer, é apenas uma dessas coisas que acontecem...
que sempre estão acontecendo, mesmo. Só que hoje são
muito organizadas, como negócios. Não existe nada
realmente perigoso, sabe, ao menos quanto ao aspecto
criminal. Refiro-me ao outro. Prever onde se encontra o
risco e a maneira de se defender dele. A senhora precisa
tomar cuidado, Mrs. Beresford. Estou falando sério. É muito
temerária e isso não lhe convém. Pelo menos neste lugar.
— Minha velha tia — retrucou Tuppence lentamente, — ou
antes, a tia de Tommy... alguém contou pra ela, na casa de
saúde onde veio a falecer... que havia um assassino.
Emma sacudiu devagar a cabeça.
— Ocorreram duas mortes naquele asilo — continuou
Tuppence, — que deixaram o médico desconfiado.
— Foi isso que lhe despertou a curiosidade? — Não. A coisa
vem de mais tempo.
— Se não estiver com pressa — pediu Emma Boscowan, —
daria pra me contar rápido... da maneira mais resumida
possível, pois alguém pode interromper... o que aconteceu
precisamente na tal casa de saúde, asilo de velhice, ou seja lá
o que for, que lhe pareceu suspeito?
— Sim, vou-lhe contar.
Tuppence sintetizou o caso em breves palavras.
— Compreendo — disse Emma Boscowan. — E não sabe
onde se encontra a velha, essa tal de Mrs. Lancaster,
atualmente?
— Não sei, não.
— Crê que tenha morrido?
— É bem possível.
— Porque sabia de alguma coisa?
— Sim. Quanto a isso tenho certeza. Algum crime. Alguma
criança, talvez que fora assassinada.
— Creio que nesse ponto a senhora se engana — replicou
Mrs. Boscowan. — Acho que a criança ficou envolvida e ela
talvez tenha confundido tudo. A velha, quero dizer.
Misturou a menina com outra coisa qualquer, um crime
diferente.
— Suponho que seja possível. Os velhos de fato confundem
tudo. No entanto existiu um assassino de crianças solto por
aqui, não existiu? Pelo menos foi o que me disse a mulher
onde estive hospedada.
— Houve vários infanticídios na região, sim. Mas isso
aconteceu há muitos e muitos anos, sabe? Não tenho certeza
da data. O próprio pastor não saberia informar. Ainda não
vivia aqui na época. Quem morava era Miss Bligh. Sim, de
fato, ela devia estar aqui. Seria relativamente moça na
ocasião.
— É, com certeza. — Então perguntou: — Foi sempre
apaixonada por Sir Philip Starke?
— Ah, notou, hem? Sim, acho que sim. Inteiramente
dedicada a ele, além da idolatria. William e eu também logo
percebemos quando viemos pra cá a primeira vez.
— Por que se interessaram por este lugar? Moraram na Casa
do Canal?
— Não, nunca moramos lá. Ele gostava de pintá-la. Fez
vários quadros dela. Que aconteceu com aquele que seu
marido me mostrou?
— Levou de novo pra casa — respondeu Tuppence. —
Contou-me o que a senhora disse a respeito do barco... que
seu esposo não havia pintado... o barco chamado Waterlily...
— Sim. Não foi pintado por William. Quando vi o quadro a
última vez, não havia barco nenhum. Alguém acrescentou
depois.
— E chamou-o de Waterlily... E um homem que não existe,
um certo Major Waters... escreveu, perguntando sobre um
túmulo... de uma menina chamada Lilian... só que não havia
nenhuma criança enterrada naquele lugar, apenas um caixão
pequeno, cheio com o produto de um grande roubo. A
pintura do barco deve ter sido uma mensagem... pra
informar onde os objetos da pilhagem se achavam
escondidos... Tudo parece relacionado com crime...
— De fato, parece... Porém não se pode ter certeza se...
Emma Boscowan atalhou bruscamente a frase.
— Ela está subindo à nossa procura — avisou às pressas. —
Entre no banheiro...
— Quem?
— Nellie Bligh. Corra aí pra dentro.. Passe o ferrolho.
— Mas que mulherzinha intrometida! — resmungou
Tuppence, desaparecendo pela porta.
— Um pouco mais do que isso — comentou Mrs.
Boscowan.
Miss Bligh entrou, animada e solícita.
— Oh, espero que tenham encontrado o que precisavam.
Havia toalhas limpas e sabonete? Mrs. Copleigh sempre vem
arrumar a casa, mas tenho de fiscalizar se faz tudo direito.
Mrs. Boscowan e Miss Bligh desceram juntas. Tuppence
alcançou-as na sala de visitas. Sir Philip Starke ergueu-se à
sua chegada, arrumando-lhe a cadeira de novo e sentando-se
ao seu lado.
— Está confortável, Mrs. Beresford?
— Sim, obrigada — agradeceu Tuppence. — Ficou ótimo.
— Senti-me penalizado... — sua voz possuía um vago
encanto, como se fosse formada por elementos
fantasmagóricos, longínquos, carecendo de ressonância e no
entanto estranhamente cava — ao saber do acidente. É tão
triste hoje em dia... todos esses desastres que sucedem por
aí...
Os olhos dele percorriam-lhe o rosto e ela pensou consigo
mesma: — "Está-me analisando exatamente como fiz há
pouco com ele." Fitou Tommy de relance, mas viu que
conversava com Emma Boscowan.
— Que a fez vir a Sutton Chancellor, afinal, Mrs. Beresford?
— Oh, estamos atrás de uma casa no campo, de uma forma
um tanto vaga — respondeu. — Meu marido se ausentou de
casa pra comparecer a uma espécie de congresso, sei lá, e eu
me lembrei de dar um giro pelo interior... só pra verificar o
que havia, o tipo de preço que se teria de pagar, essas coisas,
sabe?
— Soube que a senhora andou visitando a casa perto da
ponte do canal.
— Andei, sim. Uma vez, quando passava de trem, reparei
nela. Tem um aspecto lindo... vista do lado de fora.
— Sim. Calculo, porém, que mesmo por fora precisa de Uma
boa reforma. No telhado e coisas assim. Do outro lado não é
tão bonita, não?
— Não. Me pareceu uma estranha maneira de dividir uma
casa.
— Pois é — retrucou Philip Starke, — as pessoas têm cada
idéia, não é?
— O senhor nunca morou lá? — indagou Tuppence.
— Não, não. Nunca. Minha casa se incendiou há vários
anos. Ainda existe uma parte que sobrou. No mínimo passou
por.lá ou alguém lhe mostrou. Fica acima deste vicariato,
sabe? No alto da colina. Pelo menos é o que chamam de
colina nesta parte do mundo. Não é nada de especial. Meu
pai construiu-a lá por 1890, mais ou menos. Uma mansão
imponente. Coberturas góticas, um toque de Balmoral. Os
nossos arquitetos hoje em dia voltaram a admirar esse tipo
de coisa, embora na realidade, há quarenta anos, fosse
considerada horrível. Possuía tudo o que uma pretensa casa
de fidalgo devia possuir. — Sua voz era levemente irônica.
— Sala de bilhar, solário, recanto para senhoras, um
refeitório colossal, salão de baile, cerca de quatorze quartos.
E antigamente chegou a ter... segundo meus cálculos... um
serviço de quatorze empregados pra cuidar de tudo.
— Pelo visto, nunca lhe agradou muito.
— Nunca. Fui uma decepção pra meu pai. Ele era um
próspero industrialista e esperava que eu lhe sucedesse, o
que não aconteceu. Tratou-me muito bem. Dava-me uma
boa mesada, ou pensão... como se chamava na época... e
deixava-me fazer o que eu queria.
— Soube que se dedica à botânica.
— De fato, sempre foi um dos meus maiores passatempos.
Costumava viajar em busca de flores silvestres, sobretudo
nos Bálcãs. Nunca pensou em fazer o mesmo? É um lugar
maravilhoso pra pesquisa.
— Parece muito sedutor. E depois voltava a morar aqui?
— Faz séculos que não resido mais na aldeia. Pra ser franco,
jamais tornei a morar aqui desde que minha mulher morreu.
— Oh — exclamou Tuppence, um pouco embaraçada. —
Desculpe.
— Já faz anos. Faleceu antes da guerra. Em 1938. Era muito
bonita.
— Ainda conserva retratos seus aqui em sua casa?
— Oh não, está tudo vazio. Mandei guardar toda a mobília,
quadros, etc., num depósito. Só ficou um quarto de dormir,
um gabinete e uma sala de estar, ocupados pelo meu agente
ou por mim mesmo, quando preciso vir cá e atender a
qualquer negócio imobiliário.
— Nunca foi vendida?
— Não. Houve rumores de que iriam incentivar o
incremento agrícola. Não sei. Não que eu tenha qualquer
vocação pra esse gênero de trabalho. Meu pai julgava estar
fundando uma espécie de domínio feudal. Eu devia sucedê-
lo e meus filhos a mim. E assim por diante, pelos séculos
afora. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — Mas Júlia e
eu jamais tivemos filhos.
— Ah — murmurou Tuppence, — compreendo.
— Portanto não me resta nada a fazer por aqui. De fato,
raramente venho. Tudo o que precisa ser feito, Nellie Bligh
se encarrega de providenciar pra mim. — Dirigiu-lhe um
sorriso. — Tem sido uma secretária admirável. Continua
tratando de meus assuntos e tudo mais.
— O senhor nunca vem cá e, no entanto não tenciona
vendê-la? — estranhou Tuppence.
— Existe um excelente motivo pra isso — respondeu. Um
leve sorriso passou-lhe pelos traços austeros.
— Talvez, afinal de contas, eu realmente herdasse um pouco
do espírito comercial de meu pai. A terra, sabe, está
aumentando enormemente de valor. Representa melhor
investimento do que o dinheiro que obteria com a venda.
Valoriza dia a dia. É possível que futuramente construa-se
uma vasta cidade residencial nessas terras.
— Então enriquecerá?
— Então serei ainda mais rico do que hoje — corrigiu Sir
Philip. — E o que tenho já me basta.
— Que faz na maioria do tempo?
— Viajo e trato de negócios em Londres. Possuo uma galeria
de arte lá. Converti-me num vendedor de quadros. Todas
essas coisas são interessantes. Ocupam o nosso tempo... até o
momento em que uma mão pousa no ombro e a gente ouve
uma voz que diz: "Chegou a hora".
— Por favor — pediu Tuppence, — não diga isso... sinto um
arrepio.
— Não vejo por que, Mrs. Beresford. Creio que viverá
muitos anos ainda, cheios de alegria.
— Pois estou perfeitamente feliz por enquanto — retrucou.
— No mínimo terminarei ficando com todas as dores,
achaques e problemas que afligem a velhice. Surda, cega,
reumática e uma série de outras coisas.
— Provavelmente não lhe incomodarão tanto quanto
imagina. Desculpe o comentário, que pode parecer rude,
mas a senhora dá impressão de ser muito feliz com seu
marido.
— Ah, de fato sou — concordou Tuppence. — Creio que no
fundo não existe nada que se compare a uma boa vida
conjugal, não é mesmo?
Mal concluiu a frase, teve vontade de desaparecer. Quando
olhou para ele, que sofrera tantos anos a fio e possivelmente
ainda continuava pranteando a perda da esposa adorada,
sentiu-se ainda mais furiosa consigo mesma.
16 - A manhã seguinte

Foi NA manhã seguinte à reunião.
Ivor Smith e Tommy pararam a conversa e olharam um para
o outro, virando-se depois para Tuppence, que fitava a
lareira, distraída.
— Aonde chegamos? — perguntou Tommy.
Com um suspiro, Tuppence voltou da região remota a que
fora levada por suas cogitações e contemplou os dois.
— Pra mim tudo continua embrulhado — disse. — A
reunião de ontem à noite? De que adiantou? Que significou
aquilo? — Olhou para Ivor Smith. — Imagino que
representasse alguma coisa pra vocês. Podem dizer quais
foram os resultados?
— Não iria tão longe — respondeu Ivor. — Acho que não
estamos atrás da mesma coisa, estamos?
— Realmente não — confirmou Tuppence. Ambos fitaram-
na perplexos.
— Muito bem — continuou Tuppence. — Sou uma mulher
com uma ideia fixa. Quero encontrar Mrs, Lancaster. Preciso
me certificar se está sã e salva.
— Primeiro terá de achar Mrs. Johnson — advertiu Tommy.
— Nunca encontrará Mrs. Lancaster se não conseguir
localizar Mrs. Johnson.
— Mrs. Johnson — repetiu Tuppence. — Sim, gostaria de
saber... Mas acho que não estão nada interessados nesse
ponto — disse a Ivor Smith.
— Ah, pelo contrário, Mrs. Tommy. Muito pelo contrário.
— E Mr. Eccles? Ivor sorriu.
— Creio que em breve ele receberá sua recompensa. No
entanto, não me fiaria nisso. É um homem que destrói o
próprio rastro com tal habilidade que a gente chega a
duvidar de que algum dia tenha havido algum. — E
murmurou pensativo: — Um grande administrador. Um
gênio da planificação.
— Ontem à noite... — começou Tuppence e hesitou. —
Posso fazer perguntas?
— Pode — respondeu Tommy. — Mas não garanto que
receba respostas satisfatórias do nosso velho Ivor.
— Sir Philip Starke — disse Tuppence. — Onde é que ele
encaixa? Não tem aspecto de provável criminoso... a não ser
que fosse do tipo que...
Parou a tempo de evitar alguma referência às fantasiosas
conjeturas de Mrs. Copleigh sobre os infanticídios...
— Sir Philip representa uma fonte de informações valiosa —
explicou Ivor Smith. — É o maior latifundiário local... e de
outras regiões da Inglaterra também.
— Em Cumberland?
Ivor Smith olhou vivamente para Tuppence.
— Cumberland? Por que pergunta? O que é que a senhora
sabe sobre Cumberland, Mrs. Tommy?
— Nada — retrucou Tuppence. — Não sei por que me veio
à idéia. — Franziu a testa, perplexa. — E uma rosa raiada de
vermelho e branco ao lado de uma casa... uma dessas
qualidades antigas.
Sacudiu a cabeça.
— A Casa do Canal é propriedade de Sir Philip Starke?
— A terra é dele... Como quase todos os arredores da aldeia.
— Sim, ele me falou ontem à noite.
— Por seu intermédio, soubemos uma porção de coisas a
respeito de arrendamentos e locações que estavam
habilmente embaralhados em complexidades legais...
— Aqueles corretores de imóveis que fui procurar em
Market Basing... É imaginação minha ou há qualquer coisa
duvidosa na atividade deles?
— Não é imaginação, não. Vamos fazer-lhes uma visita hoje
de manhã. E terão de responder a uma série de perguntas
bastante embaraçosas.
— Ótimo — aplaudiu Tuppence.
— Estamos indo muito bem. Esclarecemos o grande roubo
do correio de 1965, os assaltos em Albury Cross e o caso do
trem expresso irlandês. Localizamos boa parte do produto da
pilhagem. Arrumavam esconderijos hábeis nessas casas. Um
banheiro novo numa, dependências de serviço noutra...
diminuindo o tamanho dos quartos pra caber um nicho
interessante. Ah é, encontramos muita coisa.
— Mas e as pessoas? — indagou Tuppence. — Eu me refiro
aos que tiveram a idéia, os cérebros do negócio..., além de
Mr. Eccles, quero dizer. Deve haver outros que sabiam de
alguma coisa.
— Oh, sim. Pelo menos mais dois... um sujeito que tinha
uma boate, localizada convenientemente perto de M1. Era
apelidado de "Sortudo". O protótipo do velhaco. E uma
mulher chamada "Killer Kate"..., mas isso já faz muito
tempo... uma de nossas criminosas mais fascinantes. Bonita
moça mas de precário equilíbrio mental. Livraram-se dela...
podia se converter num autêntico perigo pra eles. Era uma
empresa rigorosamente comercial... só estavam interessados
em lucro... não em crime.
— E a Casa do Canal era um dos esconderijos?
— Houve época em que se chamava Ladymead. Depois teve
uma porção de nomes diferentes.
— Apenas pra complicar tudo ainda mais — comentou
Tuppence. — Ladymead. Gostaria de saber se tem alguma
relação com outro fato qualquer.
— Por que haveria de ter?
— Bem, na verdade não tem — retrucou. — Só que me
deixou de novo com a pulga atrás da orelha, se é que me
entende. O diabo — continuou — é que já nem sei mais o
que quero dizer. O quadro, também. Boscowan pintou a
paisagem e depois alguém acrescentou um barco, dando-lhe
um nome...
— Tiger Lily.
— Não, Waterlily. E a mulher dele afirma que não foi o
marido quem pintou o barco.
— Como é que ela sabe?
— Deve saber. Quando a gente casa com um pintor, e ainda
mais também sendo artista, acho que é fácil reconhecer o
estilo. Ela é um bocado assustadora, a meu ver — disse
Tuppence.
— Quem... Mrs. Boscowan?
— Sim. Sabe o que eu quero dizer? Enérgica. Um pouco
esmagadora.
— É. Talvez.
— Ela sabe de alguma coisa — insistiu Tuppence, — mas
não tenho certeza de que seja conscientemente, se é que me
faço entender.
— Não por mim — afirmou Tommy decidido.
— Ora, eu quero dizer que existe uma maneira de saber
coisas. A outra é uma espécie de pressentimento.
— Acho que é um pouco o seu caso, Tuppence.
— Digam o que quiserem — continuou Tuppence, sem se
afastar do próprio fio de raciocínio, — a coisa toda gira em
torno de Sutton Chancellor. De Ladymead, ou Casa do
Canal, como preferirem chamá-la. E de toda essa gente que
morou aqui, tanto hoje como no passado. Certos
acontecimentos datam de muito tempo atrás.
— Está pensando em Mrs. Copleigh.
— De modo geral — redargüiu Tuppence, — eu acho que
ela misturou uma porção de coisas que só complicaram ainda
mais o problema. E creio também que fez uma confusão
danada com a ordem cronológica.
— Isso é freqüente com os habitantes do campo — lembrou
Tommy.
— Não pense que eu não sei. Afinal de contas, fui criada
num vicariato do interior. Eles marcam as datas pelos
acontecimentos, não pelos anos. Não dizem "isso aconteceu
em 1930" ou "aquilo foi em 1925", ou coisa que o valha.
Dizem "isso aconteceu no ano em.que o velho moinho
pegou fogo" ou "aquilo sucedeu depois que o raio derrubou o
carvalho gigante e matou o granjeiro James" ou "foi no ano
em que houve a epidemia de paralisia infantil". De forma
que, naturalmente, as coisas de que se lembram não
obedecem a uma seqüência especial. Fica tudo muito difícil
— acrescentou. — Destacam-se certos detalhes, aqui e ali,
não sei se me entendem. Claro que o problema — disse
Tuppence, com o ar de alguém que de repente faz uma
descoberta importante — é que estou ficando velha.
— A senhora será eternamente jovem — declarou Ivor,
galanteador.
— Deixe de bobagem — retrucou Tuppence, cáustica. —
Estou velha porque me lembro das coisas da mesma maneira
que eles. Voltei a ser primitiva no meu uso da memória.
Levantou-se e caminhou pela sala.
— Que tipo mais chato de hotel — comentou.
Foi até o quarto de dormir e tornou a sair, sacudindo a
cabeça.
— Não há nenhuma Bíblia.
— Bíblia?
— É. Sabe, nos hotéis antigos, sempre tem uma na mesa de
cabeceira. Creio que é pra gente ser salva a qualquer hora do
dia ou da noite. Pois aqui não há,
— Quer uma?
— Olhe, num certo sentido, sim. Fui criada como se deve e
costumava conhecê-la muito bem, como toda filha de
clérigo que se preze. Porém hoje. compreende, a tendência
é esquecer. Principalmente porque não ensinam mais direito
nas igrejas. Dão uma versão moderna, onde todo o fraseado,
creio eu, está tecnicamente certo, numa tradução adequada,
só que não parece o texto de antigamente. Enquanto vocês
dois vão falar com os corretores de imóveis, irei de carro até
Sutton Chancellor — acrescentou.
— Pra quê? Proíbo-lhe — advertiu Tommy.
— Besteira... Não vou bancar o detetive. Só quero ir à igreja
e olhar a Bíblia. Se for alguma versão moderna, então
procuro o pastor. Ele há de ter uma, não? Do tipo correio,
quero dizer. Versão Autorizada.
— Para que você precisa de uma Versão Autorizada? —
Quero apenas refrescar a memória sobre aquelas palavras
rabiscadas no túmulo da menina,.. Me interessam.
— Está tudo muito bem... mas não me fio em você,
Tuppence... sabe lá se não vai se meter noutra encrenca
assim que a perder de vista.
— Palavra de honra como não pretendo vagabundear de
novo por cemitérios. A igreja numa manhã ensolarada e o
gabinete do pastor... apenas isso... pode haver algo mais
inocente?
Tommy olhou-a com ar de dúvida e desistiu.
Depois de largar o carro à entrada, Tuppence olhou
cuidadosamente em torno antes de penetrar no recinto da
igreja. Procedia com a desconfiança natural de quem sofrera
sérios danos corporais num determinado ponto geográfico.
Parecia não haver nenhum agressor emboscado atrás dos
túmulos.
Entrou na igreja. Uma mulher idosa, de joelhos, lustrava
alguns metais. Tuppence avançou na ponta dos pés até o atril
e pôs-se a examinar o volume pousado ali. A lustradora de
metais ergueu a cabeça, lançando-lhe um olhar de
recriminação.
— Não precisa ter medo que não vou roubar — advertiu
Tuppence para tranqüilizá-la e, tornando a fechar o livro,
saiu sem ruído da igreja.
Sentiu-se tentada a visitar o lugar onde haviam aberto as
recentes escavações, porém prometera-se de antemão a não
ceder.
— "Ai de quem escandalizar" — murmurou. — Talvez
significasse isso, mas nesse caso forçosamente se referia a
alguém...
Percorreu de carro a curta distância ao vicariato, desceu e
subiu a senda que levava à porta de entrada. Tocou a
campainha, mas não escutou nenhum tilintar no interior.
— No mínimo está estragada — disse, conhecendo os
hábitos das campainhas de vicariato.
Empurrou a porta, que imediatamente se abriu.
Permaneceu imóvel no vestíbulo. Em cima da mesa, um
envelope grande com selo estrangeiro ocupava boa parte do
espaço. Trazia a inscrição impressa de uma Sociedade
Missionária na África.
— Ainda bem que não sou missionária — pensou. Havia
qualquer coisa por trás desse vago raciocínio, algo
relacionado com uma certa mesa de vestíbulo nalgum lugar,
e que devia se lembrar... Flores? Folhas? Quem sabe uma
carta ou embrulho?
Nesse momento o pastor apareceu no limiar à esquerda.
— Oh — exclamou. — Estava me procurando? Eu... oh, é
Mrs. Beresford, não é?
— Exatamente — respondeu Tuppence. — Vim perguntar
se por acaso o senhor não tem uma Bíblia.
— Bíblia — repetiu ele, numa expressão inesperadamente
dubitativa. — Uma Bíblia.
— Achei provável que tivesse — disse Tuppence.
— Claro, naturalmente. Pra ser franco, creio que possuo
várias. Tenho um Testamento Ortodoxo — lembrou,
esperançoso. — Mas não é isso que a senhora quer, é?
— Não. Ando à procura — declarou com firmeza — da
Versão Autorizada.
— Oh meu Deus — retrucou o pastor. — Lógico, deve
haver diversos exemplares pela casa. Uma porção, mesmo.
Infelizmente, hoje não usamos mais essa versão na igreja. A
gente tem de seguir as idéias do bispo, e ele insiste muito em
modernizar, pras pessoas moças, sabe como é. Acho uma
pena. A minha estante está tão atulhada de livros que alguns
ficam por trás dos outros. Mas creio que posso encontrar ò
que a senhora quer. Pelo menos me parece. Se não, pedirei a
Miss Bligh. Ela anda por aí, tratando dos vasos pras crianças
arrumarem flores silvestres no Recanto Infantil da igreja.
Deixou Tuppence no vestíbulo e tornou a entrar na peça de
onde saíra.
Tuppence não o acompanhou. Ficou ali, franzindo a testa e
pensando. Ergueu de repente a cabeça. A porta do fundo do
corredor se abriu e Miss Bligh apareceu. Vinha com um
grande e pesado vaso de metal nas mãos. Teve um estalo.
— Mas claro — exclamou, — claro.
— Oh, deseja alguma coisa?... Eu... ah, é Mrs. Beresford.
— Sim — respondeu Tuppence, acrescentando logo: — E a
senhora é Mrs. Johnson, não?
O vaso pesado caiu no chão. Tuppence se abaixou e
recolheu-o. Avaliou o peso com a mão.
— Arma bem pesada — comentou, tornando a largá-lo. —
O objeto ideal pra bater na cabeça de alguém pelas costas —
prosseguiu. — Foi o que a senhora fez comigo, não foi, Mrs.
Johnson?
— Eu... eu... como disse? Eu... eu... eu nunca... Mas
Tuppence não precisava de maiores informações.
Vira o efeito de suas palavras. À segunda menção de Mrs.
Johnson, Miss Bligh se traíra de modo inconfundível. Estava
trêmula e apavorada.
— Havia uma carta outro dia na mesa de seu vestíbulo —
disse Tuppence, — dirigida a uma certa Mrs. Yorke, num
endereço em Cumberland. Foi pra onde a senhora a levou,
não foi, Mrs. Johnson, quando tirou-a de Sunny Ridge? É lá
que ela está agora. Mrs. Yorke ou Mrs. Lancaster... usava
tanto um nome quanto o outro... York e Lancaster, que nem
a rosa rajada de vermelho e branco no jardim dos Perrys...
Virou-se rapidamente e saiu da casa, deixando Miss Bligh
parada no vestíbulo, ainda apoiada ao corrimão da escada,
boquiaberta, de olhos arregalados. Tuppence desceu
correndo ao portão, entrou no carro e partiu. Olhou de novo
para a porta de entrada, mas ninguém apareceu. Passou pela
igreja, a caminho de Market Basing, porém de repente
mudou de idéia. Deu meia volta, percorrendo o mesmo
trajeto anterior e tomou a estrada à esquerda, que conduzia à
ponte da Casa do Canal. Abandonou o automóvel, espiou
pela cancela, verificando se um dos Perrys estava no jardim.
Não havia rastro deles. Cruzou o portão e subiu a trilha até a
porta dos fundos. Também se achava fechada. Assim como
as janelas.
Tuppence sentiu-se chateada. Talvez Alice Perry tivesse ido
fazer compras em Market Basing. Era quem mais queria
encontrar. Bateu na porta, primeiro delicadamente, depois
com força. Ninguém atendeu. Girou a maçaneta, mas a porta
não cedeu. Estava trancada. Ficou ali parada, indecisa.
Havia algumas perguntas que precisava fazer a Alice Perry
com urgência. Provavelmente estaria em Sutton Chancellor.
Quem sabe não seria melhor voltar lá? A dificuldade da Casa
do Canal era que nunca parecia ter ninguém por perto e
praticamente nenhum tráfego pela ponte. Não havia
ninguém para informar onde os Perrys poderiam andar
nessa manhã.
17 - Mrs. Lancaster

TUPPENCE ESTAVA parada, de cenho franzido, quando, de
repente, da maneira mais imprevista, a porta se abriu.
Tuppence retrocedeu um passo, espantada. A pessoa que se
achava à sua frente era a última criatura deste mundo que
esperava encontrar. No umbral, vestida exatamente como
em Sunny Ridge, e sorrindo do mesmo modo, com aquele ar
de vaga amabilidade, estava a própria Mrs. Lancaster.
— Oh — exclamou Tuppence.
— Bom dia. Queria falar com Mrs. Perry? — perguntou a
velhinha. — É dia de feira, sabe? Que sorte que pude
atendê-la. Demorei um pouco pra descobrir a chave. Creio
que deve ser uma cópia, não lhe parece? Mas entre, por
favor. Talvez aceite uma xícara de chá ou qualquer coisa.
Como num sonho, Tuppence atravessou o limiar. Mrs.
Lancaster, sempre mantendo os gestos corteses de
hospitalidade, levou-a à sala de visitas.
— Sente-se — convidou. — É uma lástima que eu não saiba
onde guardam as xícaras e tudo mais. Cheguei apenas há uns
dois dias. Bem, agora deixe-me ver... Mas... claro... já nos
encontramos antes, não?
— Sim — confirmou Tuppence, — quando a senhora estava
em Sunny Ridge.
— Sunny Ridge... hum... Sunny Ridge. Parece que me
lembra alguma coisa. Ora, lógico, a nossa querida Miss
Packard. Sim, um lugar muito bom.
— A senhora foi-se embora um pouco às pressas, não foi? —
perguntou Tuppence.
— As pessoas são tão mandonas — comentou Mrs.
Lancaster. — Vivem afobando a gente. Não dão tempo pra
arrumar as coisas ou fazer as malas direito ou seja lá o que
for. Não por mal, naturalmente. É evidente que eu gosto
muito de nossa cara Nellie Bligh, mas é um tipo de mulher
tremendamente dominadora. Às vezes eu acho —
acrescentou Mrs. Lancaster, curvando-se para Tuppence, —
às vezes eu acho, sabe, que não é bem... — bateu
significativamente na testa. — É óbvio que isso acontece.
Principalmente com solteironas. Mulheres que não se
casam, sabe? Dedicadas a boas obras e tudo mais, mas que às
vezes pegam umas manias esquisitas. Os clérigos é que
sofrem. Essas coitadas metem na cabeça que o pastor lhes
fez uma proposta de casamento quando na realidade nunca
pensou em fazer uma coisa dessas. Ah é, pobre Nellie. Tão
sensata pra certas coisas. Tem sido uma maravilha aqui pra
paróquia. E tenho a impressão de que sempre foi uma
secretária de primeira ordem. Mas mesmo assim, às vezes
tem idéias muito estranhas. Como aquela de me tirar de uma
hora pra outra do ótimo Sunny Ridge e depois me levar lá
pra Cumberland... uma casa tétrica, é de repente, quando eu
menos esperava, me trazer pra cá...
— Está morando aqui? — perguntou Tuppence.
— Bem, se é que se pode chamar disso. De modo geral é um
arranjo muito singular. Cheguei há apenas dois dias.
— Antes a senhora esteve em Rosetrellis Court, em
Cumberland?
— Sim, creio que o nome era esse mesmo. Não é tão bonito
que nem Sunny Ridge, não lhe parece? Pra dizer a verdade,
nem deu tempo pra me instalar. E não era tão bem
administrado, tampouco. O serviço era inferior e usavam um
tipo de café bastante ordinário. No entanto, já estava me
acostumando e travei amizades interessantes lá. Uma
conhecera uma tia minha, vários anos atrás, na índia. É tão
bom, sabe, quando a gente encontra relações.
— Deve ser — concordou Tuppence.
Mrs. Lancaster continuou animada.
— Agora, deixe-me ver, a senhora foi a Sunny Ridge, mas
acho que não pra ficar. Creio que tinha ido visitar uma
hóspede.
— A tia de meu marido — explicou, — Miss Fanshawe.
— Ora, lógico. Claro que foi isso. Agora me lembro. E não
houve qualquer coisa a respeito de uma filhinha sua atrás de
uma lareira?
— Não — disse Tuppence, — não era minha filha.
— Mas foi por isso que veio cá, não é? Andaram tendo
problemas com a daqui. Um pássaro caiu pela chaminé, pelo
que soube. Este lugar precisa de reforma. Não gosto nem um
pouco de ficar aqui. Não, de jeito nenhum e vou dizer pra
Nellie assim que a encontrar.
— Está hospedada com Mrs. Perry?
— Bem, mais ou menos. Acho que posso lhe confiar um
segredo, hem?
— Oh sim — garantiu Tuppence, — claro que sim.
— Olhe, não é realmente aqui que eu estou. Nesta parte da
casa, quero dizer. Esta pertence aos Perrys. — Curvou-se
para a frente. — Existe outra, sabe, se a gente sobe lá em
cima. Venha comigo. Vou-lhe mostrar.
Tuppence se levantou. Sentia-se como se estivesse vivendo
um sonho completamente doido.
— Convém trancar a porta primeiro. É mais seguro — disse
Mrs. Lancaster.
Subiu na frente de Tuppence por uma escada um tanto
estreita que levava ao andar superior. Passaram por um
dormitório de casal com indícios de uso... provavelmente o
quarto dos Perrys... e cruzaram uma porta que comunicava
com outra peça contígua. Continha um lavatório e um
grande armário de madeira. Mais nada. Mrs. Lancaster
dirigiu-se ao guarda-roupa, tateou o fundo e depois, com
súbita facilidade, deslocou-o para um lado. Parecia ter
rodinhas por baixo, pois separou-se da parede com bastante
rapidez. Atrás, para surpresa de Tuppence, havia uma lareira,
encimada por um espelho, com uma pequena prateleira
onde havia bibelôs de pássaros de porcelana.
Para seu maior assombro, Mrs. Lancaster pegou o que se
achava bem no meio e puxou-o com toda a força. Pelo visto,
era colado, pois, como verificou rapidamente, todos os
outros estavam presos. Só que em resultado da ação de Mrs.
Lancaster ouviu-se um estalido e a lareira inteira se afastou
da parede e girou por completo.
— Engenhoso, não é? — perguntou Mrs. Lancaster. — Foi
feito há muito tempo, sabe, quando reformaram a casa. A
toca do pastor, era assim que chamavam este quarto, porém
não acho que fosse realmente isso. Não, não tinha nada que
ver com pastores. Pelo menos nunca me pareceu. Vamos
passar pro outro lado. É lá que estou morando.
Deu novo empurrão. A parede em frente também recuou e
instantes após se encontraram numa ampla sala de aspecto
encantador, com janelas que abriam sobre o, canal e a colina
oposta.
— Linda peça, não acha? — perguntou Mrs. Lancaster. —
Uma vista tão bonita. Sempre gostei daqui. Morei nesta casa
durante algum tempo quando moça, sabe?
— Ah, compreendo.
— Pena que dê azar — comentou. — É, sempre disseram
que esta casa tinha mau olhado. Creio, sabe — acrescentou,
— que é melhor fechar esse troço de novo. Todo cuidado é
pouco, não lhe parece?
Estendeu a mão e empurrou a porta por onde haviam
entrado, fechando-a outra vez. Houve um forte estalido
quando o mecanismo voltou ao lugar.
— Decerto — disse Tuppence, foi uma das reformas que
fizeram pra transformá-la num esconderijo.
— Fizeram uma porção. Mas, sente-se, vamos. Prefere uma
cadeira alta ou baixa? Eu gosto de altas. Sofro um pouco de
reumatismo, sabe? Suponho que a senhora imaginou que
houvesse um cadáver de criança lá — acrescentou. — Uma
idéia de fato absurda, não acha?
— Sim, talvez.
— Guardas e ladrões — observou Mrs. Lancaster, com ar
indulgente. — A gente é tão boba na mocidade... Todas
essas histórias. Quadrilhas... grandes assaltos... a atração é tão
forte pra quem é jovem. Pensa-se que ser a companheira de
um pistoleiro é a coisa mais maravilhosa do mundo. Foi o
que imaginei uma vez. Acredite no que lhe digo... —
inclinou-se para diante e bateu no joelho de Tuppence, —
não é verdade. Puro fato. Eu também pensei que fosse, mas
a gente quer mais do que isso, sabe? No fundo não há
nenhuma emoção em apenas roubar coisas sem ser
apanhada. Requer boa organização, claro.
— Quer dizer que Mrs. Johnson ou Miss Bligh... seja lá o
nome que lhe dá...
— Bem, naturalmente, pra mim ela é sempre Nellie Bligh.
Mas por um motivo ou outro... pra facilitar as coisas, diz
ela... de vez em quando se intitula Mrs. Johnson. Só que
nunca foi casada, sabe? Oh não. É solteirona mesmo.
Ouviu-se um som de batidas lá embaixo.
— Nossa — exclamou Mrs. Lancaster, — devem ser os
Perrys que estão chegando. Não pensei que fossem voltar
tão cedo.
As batidas continuaram.
— Talvez seria melhor abrir — sugeriu Tuppence.
— Não, meu bem, não vamos fazer isso — retrucou Mrs.
Lancaster. — Não tolero gente que esteja sempre se
intrometendo. A conversa está tão boa, não acha? Creio que
ficaremos simplesmente aqui... ah, meu Deus, agora estão
chamando embaixo da janela. Espie um pouco pra fora e
veja quem é.
Tuppence aproximou-se da janela.
— É Mr. Perry — disse. Ele começou a gritar:
— Júlia! Júlia!
— Que impertinência — reclamou Mrs. Lancaster. Não
permito que pessoas como Amos Perry me chamem pelo
primeiro nome. De jeito nenhum. Não se preocupe, meu
bem — acrescentou, — estamos completamente seguras
aqui. E podemos conversar à vontade. Vou-lhe contar tudo a
meu respeito... de fato levei uma vida muito interessante...
Agitada... Às vezes acho que devia escrevê-la. Estive
envolvida, sabe? Era uma desmiolada e me meti com... bem,
no fundo não passava de uma vulgar quadrilha de
criminosos. Não existe outro termo. Alguns até eram muito
indesejáveis. Mas não pense que não havia gente boa entre
eles. De grande classe, por sinal.
— Miss Bligh?
— Não, não, Miss Bligh nunca teve nada a ver com crime.
Que esperança. Oh, não, é toda carola, sabe? Religiosa. Essas
coisas. Só que existem diferentes espécies de religião. Como
talvez saiba, não?
— Suponho que haja uma porção de seitas de todos os tipos
— sugeriu Tuppence.
— Sim, tem de haver, pra gente comum. Porém existem
outras, além das comuns. Algumas pessoas eleitas, que
obedecem a ordens especiais. Legiões de elite. Compreende
o que eu quero dizer, meu bem?
— Creio que não — respondeu Tuppence. — Não acha que
devíamos deixar os Perrys entrarem na casa deles? Estão
ficando um pouco inquietos...
— Não, não vamos deixar os Perrys entrarem. Não antes
que... bem, não antes que eu termine de lhe contar tudo.
Não precisa ficar assustada, meu bem. É tudo muito... muito
natural, muito inocente. Não dói de jeito nenhum. Ê que
nem pegar no sono. Nada pior.
Tuppence olhou-a fixamente, depois deu um salto e correu à
porta da parede.
— Por aí não dá pra sair — advertiu Mrs. Lancaster.—
Precisa saber onde está o trinco. Não é onde pensa.
Absolutamente. Só eu sei. Conheço todos os segredos deste
lugar. Vivi aqui com os criminosos quando era moça até que
me separei deles e obtive a salvação. Uma salvação especial.
Foi o que eu recebi... pra expiar meu pecado... A criança,
sabe... matei-a. Era bailarina... não queria ter filhos... Ali,
oh... na parede... está meu retrato... vestida de bailarina...-
Tuppence olhou na direção que o dedo apontava. Havia uma
pintura a óleo, de corpo inteiro, de uma jovem num traje de
folhas brancas de cetim, com a legenda "Waterlily".
— Foi um de meus melhores papéis. Todo mundo disse.
Tuppence recuou devagar e sentou-se. Não tirava os olhos
de Mrs. Lancaster. Palavras lhe martelavam a cabeça.
Palavras que tinha ouvido em Sunny Ridge. "A coitadinha
era sua filha?" Na ocasião, se atemorizara. Tal como agora.
Ainda não estava certa do que sentia medo, sabia apenas que
era idêntico. Contemplando aquela fisionomia benevolente,
aquele sorriso bondoso.
— Precisava cumprir as ordens que recebera... É necessário
que haja agentes de destruição. Fui designada para isso.
Aceitei a incumbência. Partem livres de pecado, entende?
Quero dizer, as crianças, naturalmente. Não tinham idade
suficiente pra pecar. Assim mandava-os pra Glória, tal como
fora ordenado. Ainda inocentes. Sem conhecer o mal. Pode
ver que grande honra era ser escolhida. Ser uma das
criaturas eleitas. Sempre adorei crianças. Nunca tive filhos.
Que crueldade, não acha? Ao menos parecia. Mas realmente
serviu de castigo pelo que tinha cometido. Talvez saiba o
que foi.
— Não — disse Tuppence.
— Oh, a senhora dá impressão de saber tanto. Julguei que
talvez soubesse isso também. Havia um médico. Fui
procurá-lo. Tinha apenas dezessete anos na época e estava
assustada. Ele falou que seria melhor tirar logo a criança
antes que alguém ficasse sabendo. Mas não foi melhor, não,
sabe? Comecei a ter pesadelos. Sonhava que a criança estava
sempre ali, me perguntando por que nunca tinha tido vida.
E disse que precisava de companheiras. Era uma menina,
compreende? Sim, tenho certeza de que era. Vinha e pedia
outras crianças. Então recebi a ordem. Eu não podia mais ter
filhos. Estava casada e julguei que teria, pois meu marido
adorava crianças com loucura, porém nunca tivemos,
porque eu era amaldiçoada, entende? Claro que entende,
sim. No entanto havia uma saída, um modo de expiação.
Reparar o que eu tinha feito. Afinal, cometera um crime,
não? E a única maneira de expiar um crime é cometer
outros, porque esses não seriam propriamente crimes, mas
sacrifícios. Oferecidos a Deus. Percebe a diferença? As
crianças iam fazer companhia à minha filha. De idades
diversas, mas todas pequenas. Recebia a ordem e então... —
curvou-se para a frente e tocou em Tuppence, — era uma
coisa tão alegre de fazer. Compreende, não é mesmo? Ficava
tão contente por libertá-las, pra que nunca soubessem o que
era pecado, como eu sabia. Naturalmente não podia contar
pra ninguém, nenhuma pessoa jamais devia tomar
conhecimento. Precisava tomar cuidado. Mas às vezes havia
gente que ficava sabendo ou desconfiando. Nesse caso,
claro... bem, quero dizer, também tinham de morrer, pra
que eu ficasse salva. Assim sempre me salvei, entende?
— Não... não muito bem.
— Mas pelo menos sabe. Foi por isso que veio cá, não foi?
Sabia. Descobriu no dia em que lhe perguntei, em Sunny
Ridge. Vi no seu rosto. Eu disse: "A coitadinha era sua filha?"
Pensei que tivesse ido lá porque talvez fosse uma das mães.
Uma de quem eu houvesse matado a filha. Esperava que
voltasse outra vez, pra tomarmos um copo de leite juntas.
Em geral sempre era leite. Às vezes chocolate. Quem quer
que soubesse.
Cruzou a sala devagar e abriu um armário que ficava num
canto.
— Mrs. Moody... — perguntou Tuppence — foi uma?
— Ah, então soube a respeito dela?... Não era uma das
mães... tinha sido camareira no teatro. Me reconheceu e por
isso tive de liquidá-la. — De repente virou-se e dirigiu-se
para Tuppence segurando um copo de leite e sorrindo
persuasivamente. — Beba — disse. — Beba tudo de um gole
só.
Tuppence conservou-se imóvel um instante, depois saltou e
correu à janela. Pegando uma cadeira, espatifou os vidros.
Curvou a cabeça para fora e gritou:
— Socorro! Acudam!
Mrs. Lancaster soltou uma gargalhada. Largou o copo de
leite em cima de uma mesa, recostou-se de novo na cadeira
e riu sem parar.
— Como é burra. Quem é que pensa que vai vir? Quem julga
que possa vir? Teriam de arrombar as portas, passar pela
parede e a essa hora... há outras coisas, sabe? Não precisa ser
leite. Leite é mais cômodo. Leite, chocolate e até mesmo
chá. Pra aquela baixinha da Mrs. Moody eu pus no
chocolate... era louca por chocolate.
— A morfina? Como conseguiu?
— Ora, foi fácil. Um homem com quem eu vivi há anos...
tinha câncer... o médico me deu um estoque pra ele... pra
que eu guardasse... outros entorpecentes também... Mais
tarde eu disse que tinha jogado tudo fora..., porém escondi,
com mais drogas e calmantes... Achei que um dia talvez
pudessem ser úteis... e foram... Ainda tenho uma porção...
Nunca tomei nada disso... Não faço fé. — Empurrou o copo
de leite na direção de Tuppence. — Beba, assim é mais
cômodo. O outro modo... o problema é que não me lembro
direito onde botei.
Ergueu-se da cadeira e começou a caminhar em torno da
sala.
— Onde foi que eu deixei? Onde? Vivo esquecendo tudo
agora que sou velha.
Tuppence berrou de novo.
— Socorro!
Mas a margem do canal continuava deserta. Mrs. Lancaster
andava de um lado para outro.
— Eu pensei... com certeza pensei... ora, claro, na minha
bolsa de tricô.
Tuppence virou-se da janela. Mrs. Lancaster se aproximava.
— Mas que mulher idiota — disse, — preferir deste modo.
Estendeu o braço esquerdo e segurou Tuppence pelo ombro.
Tirou a mão direita das costas. Empunhava uma lâmina
comprida e fina de estilete. Tuppence se debateu. "Posso
dominá-la facilmente — pensou. — Não há problema. É
uma velha. Fraca. Não pode..."
De repente, numa fria onda de medo, lembrou-se: — "Mas
eu também sou velha. Não sou tão forte quanto penso. Não
tanto quanto ela. Suas mãos, sua maneira de agarrar, seus
dedos. Deve ser porque é louca e os loucos, sempre ouvi
dizer, são fortes."
A lâmina brilhante aproximava-se cada vez mais. Tuppence
gritou. Lá embaixo ouvia brados e batidas. Agora à porta,
como se alguém quisesse arrombar, inclusive as janelas. —
"Mas nunca conseguirão entrar — imaginou, — pelo menos
por essa passagem secreta. A não ser que conheçam o
mecanismo."
Lutou ferozmente. Ainda continuava retendo Mrs.
Lancaster à certa distância. Mas a outra era maior. Uma
mulher enorme e corpulenta. O rosto tinha o mesmo
sorriso, embora o olhar já não fosse benevolente. Agora
parecia alguém que se divertia imensamente.
— Kilter Kate — disse Tuppence.
— Sabe meu apelido? Sim, mas purifiquei-o. Converti-me
em anjo exterminador. É pela vontade divina que devo
matá-la. Por isso está tudo certo. Entende perfeitamente
como é, não? E por isso está certo.
Tuppence viu-se comprimida contra o encosto de uma
grande poltrona. Com um braço, Mrs. Lancaster a sujeitava,
aumentando a pressão... não havia mais recuo possível. Na
mão direita, a velha aproximava o aço afiado do estilete.
— "Não devo entrar em pânico — pensou Tuppence, — não
devo entrar em pânico..." Porém logo lhe ocorria, com forte
insistência: — "Mas que posso fazer?" Inútil lutar.
Então sentiu medo... o mesmo pavor atroz que lhe dera o
primeiro pressentimento em Sunny Ridge...
"A coitadinha era sua filha?"
Fora a primeira advertência... só que a interpretara mal... não
tinha percebido que se tratava de um aviso.
Seus olhos observavam a proximidade do aço, mas por
incrível que pareça, não era o metal cintilante nem a ameaça
que representava que a paralisavam de horror. Era aquele
rosto... o rosto benigno e sorridente de Mrs. Lancaster...
sorrindo de pura alegria, de contentamento... uma mulher
cumprindo a tarefa designada, com serena sensatez,
— "Não parece louca — pensou Tuppence. — É isso que é
horrível... Claro que não pode dar essa impressão, pois se
julga sã. É um ser humano perfeitamente normal e
razoável... isso é o que ela pensa... Oh, Tommy, Tommy, no
que é que eu fui me meter desta vez?"
Viu-se dominada por uma vertigem e amoleceu. Os
músculos se afrouxaram... em alguma parte houve um
grande estrondo de vidros partidos. Mergulhou numa maré
de escuridão e inconsciência.
— Assim, sim... já está voltando a si... beba isto, Mrs.
Beresford.
Um copo apertado contra os lábios... resistiu
desesperadamente... Leite envenenado... quem havia dito
isso uma vez... algo a respeito de "leite envenenado"? Não
tomaria leite envenenado... Não, não era leite... um cheiro
bem diferente...
Acalmou-se e abriu a boca... provou
— Conhaque! — exclamou Tuppence, identificando o sabor.
— Exato! Continue... beba um pouco mais...
Tuppence tomou outro gole. Recostou-se nas almofadas,
olhando em torno. Pela janela se via a ponta de uma escada.
E defronte, uma quantidade de vidros quebrados
esparramados pelo chão.
— Escutei a vidraça partir.
Empurrou o cálice de conhaque e seu olhar passou da mão e
do braço para o rosto do homem que o estava segurando.
— El Greco — murmurou.
— O que foi que a senhora disse?
— Não tem importância. Examinou a sala.
— Onde está ela... Mrs. Lancaster, quero dizer?
— Está... descansando... no quarto ao lado...
— Ah, compreendo. — Porém não tinha certeza se
compreendia mesmo. Dali a pouco talvez. Por enquanto só
conseguia ter uma idéia de cada vez...
— Sir Philip Starke — falou devagar e dubitativamente. —
Acertei?
— Sim... Por que disse El Greco?
— Pelo sofrimento.
— Não entendo.
— O quadro... Em Toledo... Ou no Prado... foi o que eu
achei há muito tempo... não, não faz tanto tempo assim... —
Pensou um pouco... fez uma descoberta... — Ontem à noite.
Uma reunião... No vicariato...
— Está melhorando depressa — encorajou.
De certo modo parecia tão natural, estar sentada ali, nessa
sala com vidros partidos no soalho, conversando com esse
homem... de rosto moreno angustiado...
— Cometi um engano... em Sunny Ridge. Me equivoquei
por completo sobre ela... Na ocasião me amedrontei... Mas
interpretei mal... Em vez de ter medo dela... senti medo por
ela... Pensei que ia lhe suceder qualquer coisa... Quis
protegê-la... salvá-la... Eu... — Olhou-o hesitante. —
Compreende? Ou parece tolice?
— Ninguém compreende melhor do que eu... ninguém
neste mundo.
Tuppence fitou-o fixamente... de cenho franzido.
— Quem... quem era ela? Mrs. Lancaster, quero dizer... Mrs.
Yorke... isso não é verdadeiro... foi apenas tirado de uma
roseira... quem era ela... mesma?
Philip Starke respondeu amargamente:
— "Quem era ela? Ela mesma? A autêntica, a verdadeira
Quem era ela... que trazia o Sinal de Deus à testa?"
A senhora conhece "Peer Gynt", Mrs. Beresford? Foi até a
janela. Parou ali um momento, olhando para fora... Depois
virou-se abruptamente.
— Era minha mulher, Deus me perdoe.
— Sua mulher?... Mas ela morreu... a placa na igreja...
— Morreu no estrangeiro... foi o boato que espalhei... E
mandei colocar uma placa em sua memória na igreja.
Ninguém gosta de fazer muitas perguntas a um viúvo
desconsolado. Não continuei morando aqui.
— Algumas pessoas disseram que ela tinha abandonado o
senhor.
— Isso também ajudou.
— Levou-a embora quando descobriu... a respeito das
crianças...
— Então já sabe?
— Ela me contou... Parece... incrível.
— A maior parte do tempo procedia de maneira normal...
ninguém teria suposto. A polícia, no entanto, começou a
desconfiar... Tive de agir,.. Precisava salvá-la... protegê-la...
A senhora compreende... pode compreender... um pouco,
ao menos?
— Sim — respondeu Tuppence, — posso compreender
perfeitamente.
— Ela era... tão linda antigamente.. — a voz vacilou um
pouco. — Está vendo? Ali... — apontou para o quadro na
parede. — Waterlily... Foi sempre arrebatada. A mãe era a
última descendente dos Warrenders... uma velha família...
cruzamento sanguíneo... Helen Warrender... fugiu de casa.
Caiu nas garras de um sujeito que não prestava... um
malfeitor... A filha entrou pro teatro... trabalhava como
bailarina... Waterlily foi seu papel mais popular... depois se
juntou a uma quadrilha de criminosos... pelo prazer da
aventura... só para se divertir. Vivia sofrendo decepções...
Quando casou comigo, tinha rompido com tudo aquilo...
queria sossego... uma vida tranqüila no campo... morando
em família... com filhos. Eu era rico... podia-lhe dar tudo o
que quisesse. Mas não tivemos prole. Foi uma tristeza pra
nós dois. Ela começou a ter obsessões de culpa... Talvez
houvesse sido sempre um pouco desequilibrada... Não sei...
Que importa a causa?..'. Era... Fez um gesto desesperado.
— Eu a adorava... Sempre a amei... pouco ligava ao que era...
ao que fazia... Queria que se salvasse... conservá-la ilesa...
não encerrada... prisioneira pelo resto da vida, sofrendo em
silêncio. E nós a mantivemos salva... durante muitos e
muitos anos.
— Nós?
— Nellie... minha cara e fiel Nellie Bligh. A querida Nellie
Bligh. Foi maravilhosa... planejou e providenciou tudo. Os
Asilos de Velhice... todo conforto e luxo. E nada de
tentações... nenhuma criança... tinham de permanecer
longe de seu alcance... Parecia dar certo... esses asilos
situados em lugares distantes... Cumberland... Gales do
Norte... Era pouco provável que alguém a reconhecesse... ou
pelo menos julgávamos. Foi sugestão de Mr. Eccles... um
advogado muito sagaz... cobrava caro... mas eu dependia
dele.
— Chantagem? — insinuou Tuppence.
— Nunca encarei desse modo. Era um amigo e um
conselheiro...
— Quem pintou o barco no quadro... o barco chamado
Waterlily?
— Fui eu. Ela adorou. Lembrava-lhe o triunfo no palco. Foi
um dos quadros de Boscowan. Ela gostava da pintura dele.
Depois, um dia, escreveu um nome com tinta preta embaixo
da ponte... o nome de uma criança morta... Por isso pintei
um barco pra dissimular e o intitulei Waterlily...
A porta na parede se abriu... A bruxa camarada passou por
ela.
Olhou para Tuppence e em seguida para Philip Starke.
— Tudo em paz de novo? — perguntou num tom casual.
— Sim — respondeu Tuppence.
Percebeu logo que um dos traços mais simpáticos da bruxa
camarada era que nunca fazia o menor estardalhaço.
— Seu marido está lá embaixo, esperando no carro. Eu disse
que vinha buscar a senhora... se quiser, bem entendido.
— Quero, sim — confessou Tuppence.
— Foi o que imaginei. — Olhou em direção à porta que
comunicava com o quarto. — Ela está... lá dentro?
— Sim — confirmou Philip Starke.
Mrs. Perry entrou no quarto. Tornou a sair...
— Creio...
Fitou-o com ar interrogativo.
— Ela ofereceu um copo de leite a Mrs. Beresford... que não
aceitou.
— E então, decerto, ela mesma tomou? Ele hesitou.
— Sim.
— Depois eu chamo o Dr. Mortimer — disse Mrs. Perry.
Aproximou-se de Tuppence para ajudá-la a se levantar, mas
não foi necessário.
— Não estou ferida — informou. — Foi apenas um
choque... Agora me sinto perfeitamente bem.
Ficou em pé, diante de Philip Starke... Nenhum dos dois
parecia ter mais nada a dizer. Mrs. Perry colocou-se ao lado
da porta na parede.
Afinal Tuppence falou.
— Não há nada que eu possa fazer, não é mesmo? —
perguntou, embora não fosse propriamente uma pergunta.
— Somente uma coisa... Foi Nellie Bligh quem lhe deu
aquela pancada no cemitério no outro dia.
Tuppence anuiu.
— Já tinha imaginado.
— Ela perdeu a cabeça. Pensou que a senhora estivesse na
pista do nosso segredo. Ela... sinto-me amargamente
arrependido pelas exigências terríveis a que a submeti
durante todos esses longos anos. É mais do que se pode
pedir a qualquer mulher.
— Acho que ela o amou muito — retrucou Tuppence. —
Porém não creio que continuarei procurando Mrs. Johnson,
se é isso que o senhor queria que nós não fizéssemos.
— Obrigado... Fico-lhe muito agradecido.
Fez-se novo silêncio. Mrs. Perry esperou pacientemente.
Tuppence olhou em torno. Chegou à janela partida e
contemplou o tranqüilo canal lá embaixo.
— Suponho que nunca mais verei esta casa outra vez. Quero
decorar tudo pra poder me lembrar.
— Não prefere esquecê-la?
— Não. Alguém me falou que era uma casa que tinha sido
mal utilizada. Agora sei o que queriam dizer.
Fitou-a com ar interrogativo, porém não disse nada.
— Quem o mandou aqui à minha procura? — perguntou
Tuppence.
— Emma Boscowan.
— Logo vi.
Cruzou a porta secreta junto com a bruxa camarada e
desceram ao andar térreo.
Uma casa para amantes, dissera Emma Boscowan. Pois era
assim que a deixava... de posse de dois apaixonados... uma
morta e o outro que sofria e vivia...
Saiu ao encontro de Tommy, que a esperava no carro.
Despediu-se da bruxa camarada e entrou no carro.
— Tuppence — disse Tommy.
— Já sei — retrucou.
— Não faça isso de novo — pediu Tommy. — Nunca mais.
— Não farei.
— Isso é o que você sempre diz. E depois faz.
— Não faço, não. Estou muito velha.
Tommy ligou o motor. Foram-se embora.
— Pobre Nellie Bligh — comentou Tuppence.
— Por quê?
— Tão perdidamente apaixonada por Philip Starke. Fazendo
todas essas coisas por ele anos e anos a fio... tanta devoção
canina desperdiçada.
— Besteira! — retorquiu Tommy. — No mínimo adorou
cada minuto. Há mulheres assim.
— Bruto desalmado — disse Tuppence.
— Aonde você quer ir... ao "Cordeiro e Estandarte" em
Market Basing?
— Não — respondeu Tuppence. — Quero ir pra casa. Pra
CASA, Thomas. E ficar lá.
— Amém — replicou Mr. Beresford. — E se Albert nos
receber com uma galinha queimada, eu o mato!

Agatha Christie

POIROT SEMPRE ESPERA
E OUTRAS HISTÓRIAS

Tradução de
PEDRO GONZAGA

SUMÁRIO

Através de um espelho sombrio / 7
O mistério da arca de Bagdá /16
Onde há um testamento / 35
A segunda batida do gongo / 53
Poirot sempre espera / 82
A boneca da modista / 158
Santuário / 183


ATRAVÉS DE UM ESPELHO SOMBRIO

Não tenho explicação para esta história. Não tenho teorias
sobre o porquê de tudo isto. Simplesmente aconteceu.
Da mesma maneira, às vezes eu me pergunto como teriam
sido as coisas se eu tivesse percebido naquele momento o
detalhe essencial que só pude apreciar muitos anos depois.
Se eu o tivesse percebido... bem, suponho que o destino de
três vidas poderia ter sido completamente alterado. De
algum modo, não deixa de ser um pensamento assustador.
Tudo começou quando tive que retornar no verão de 1914 -
um pouco antes da guerra -, seguindo para Badgeworthy na
companhia de Neil Carslake. Neil era, acredito, meu melhor
amigo. Eu também tinha conhecido seu irmão Alan, mas
não muito bem. Sylvia, a irmã deles, eu não conhecera. Ela
era dois anos mais nova que Alan e três mais moça do que
Neil. Por duas vezes, enquanto freqüentávamos a mesma
escola, eu deveria ter ido passar as festas com Neil em
Badgeworthy, mas nas duas vezes imprevistos impediram
que isso ocorresse. Foi dessa maneira que somente aos 23
anos é que acabei conhecendo a casa de Neil e Alan.
Teríamos uma festa das grandes por lá. Sylvia, a irmã de
Neil, acabara de anunciar seu noivado com um sujeito
chamado Charles Crawley. Ele era, como dizia Neil, um
bocado mais velho do que ela, mas um camarada bastante
decente e razoavelmente próspero.
Chegamos, lembro-me, por volta das sete da noite. Cada um
tinha ido para seu respectivo quarto para trocar de roupa
para o jantar. Neil indicou-me o meu. Badgeworthy era um
velho e charmoso casarão. Anexos foram construídos
livremente ao longo de três séculos, de modo que o casarão
acabou cheio de pequenos desníveis para cima e para baixo,
e escadas surpreendentes. Era o tipo de habitação em que
não é fácil se localizar. Lembro-me de Neil prometer vir me
buscar para que descêssemos para jantar. Sentia-me um
pouco tímido diante da perspectiva de encontrar seus
familiares pela primeira vez. Recordo de dizer entre risadas
que aquele era o tipo de casarão em que alguém esperava
encontrar fantasmas pelos corredores, e ele disse, sem
qualquer pudor, que acreditava que o lugar era assombrado,
mas que nenhum deles jamais vira qualquer coisa, e que ele
não sabia nem que forma um fantasma deveria ter.
Então ele se retirou e eu resolvi abrir minha mala para pegar
as minhas roupas de noite. Os Carslakes não eram abastados;
aferravam-se ao seu velho casarão, mas não possuíam
serviçais ou camareiros.
Bem, eu acabara de chegar ao estágio de dar o nó em minha
gravata. Estava parado em frente ao espelho. Podia ver meu
rosto e meus ombros e atrás deles a parede do quarto - uma
parede plana, interrompida por uma porta posicionada bem
no centro dela - e, enquanto terminava de ajeitar minha
gravata, percebi que a porta se abria.
Não sei por que não me virei - creio que teria sido a atitude
natural; de todo modo, não foi o que fiz. Fiquei apenas
observando a porta se abrir devagar - e à medida que ela foi
se abrindo, pude ver o quarto que ficava além dela.
Era um quarto - maior do que o meu - com duas camas, mas
logo, porém, minha respiração se suspendeu: ao pé de uma
das camas estava uma garota e ao redor de seu pescoço havia
um par de mãos masculinas, e o homem a puxava devagar
para trás, apertando sua garganta, de modo a sufocar a garota
vagarosamente.
Não havia qualquer possibilidade de engano. Eu enxergava
com clareza a situação. O que estava sendo cometido ali era
um assassinato.
Podia ver com nitidez o rosto da garota, seus cabelos de um
loiro vívido, o terror agonizante de sua bela face, ruborizada
pouco a pouco pelo sangue. Do homem conseguia enxergar
apenas as costas, as mãos e a cicatriz que corria de cima a
baixo pela face esquerda até chegar ao seu pescoço.
Levou algum tempo para que eu me desse conta do que se
passava, mas na realidade não foram mais do que alguns
instantes de indecisão. Então me virei de súbito para salvá-
la...
E na parede atrás de mim, a parede refletida no espelho, não
havia mais do que um guarda-roupa vitoriano de mogno.
Nenhuma porta aberta, nenhuma cena de violência. Voltei a
olhar para o espelho. Em sua superfície refletia-se apenas o
guarda-roupa...
Passei minhas mãos sobre os olhos. Então cruzei o quarto e
tentei arredar o guarda-roupa para frente. Foi nesse
momento que Neil entrou pela outra porta que vinha do
corredor e me perguntou que diabos eu estava tentando
fazer.
Deve ter me achado um tanto bizarro por lhe perguntar,
quando me voltei para ele, se havia uma porta atrás daquele
guarda-roupa. Ele disse, sim, havia uma porta aí atrás, ela
dava para o quarto contíguo. Perguntei-lhe quem estava
ocupando o quarto contíguo, e ele disse que eram os Oldams
- um tal major Oldam e sua esposa. Perguntei-lhe então se a
sra. Oldam tinha cabelos claros, e quando ele respondeu
secamente que ela era morena comecei a perceber que
muito provavelmente eu estava fazendo papel de palhaço
com aquela história toda. Tratei de me recompor, arranjei
alguma desculpa esfarrapada e depois descemos juntos. Disse
a mim mesmo que eu devia ter sofrido algum tipo de
alucinação - sentindo-me, de modo geral, bastante
envergonhado e um bocado idiota.
E então... Neil disse: "Minha irmã Sylvia", e eu olhava para o
rosto adorável da garota que eu recém tinha visto ser
sufocada até a morte... e logo fui apresentado ao seu noivo,
um homem alto e moreno com uma cicatriz que lhe corria por
todo o lado esquerdo da face.
Bem, aí estão os fatos. Gostaria que você pensasse ou
dissesse o que faria se estivesse em meu lugar. Ali estava a
garota - a mesma garota - e o homem que eu tinha visto
sufocá-la - e os dois iriam se casar dentro um mês
aproximadamente.
Tivera eu, ou não, uma visão profética do futuro? Será que
Sylvia e o marido viriam para cá em algum momento no
futuro e seriam alojados naquele quarto (o melhor quarto de
hóspedes), fazendo com que a cena que eu havia
testemunhado se realizasse em toda sua crueldade?
O que eu deveria fazer, afinal? Será que eu poderia fazer
alguma coisa? Será que Neil ou a própria garota acreditariam
em mim?
Não pensei em outra coisa durante toda a semana em que
estive lá. Falar ou não sobre isso? E de modo quase
instantâneo, outra complicação se apresentou. Veja você,
apaixonei-me perdidamente por Sylvia Carslake no primeiro
instante em que a vi... Desejava-a mais do que qualquer
outra coisa na face da Terra... E isso, de certa maneira,
deixou-me de mão atadas.
E ainda assim, se eu não dissesse nada, Sylvia se casaria com
Charles Crawley e então ele a mataria...
De forma que, um dia antes de minha partida, resolvi revelar
tudo a ela. Disse-lhe que acharia normal se me considerasse
com o intelecto prejudicado ou algo semelhante, mas lhe
jurei solenemente que tinha visto as coisas da exata maneira
como haveria de lhe contar e que se ela estava determinada
a se casar com Crawley, eu tinha obrigação de lhe falar sobre
minha estranha experiência.
Ela escutou em profundo silêncio. Havia algo em seus olhos
que eu não conseguia compreender. Ela não estava nem um
pouco furiosa. Assim que terminei, agradeceu-me com
seriedade. Segui repetindo como um idiota, "Eu vi isso
acontecer. Realmente vi", e ela disse, "tenho certeza que
sim, se você diz. Acredito em você."
Bem, o resultado é que acabei indo embora sem saber se
tinha feito a coisa certa ou agido como um idiota, e uma
semana depois Sylvia rompeu o noivado com Charles
Crawley.
Depois disso, estourou a guerra, e não havia muito tempo
livre para pensar em qualquer outra coisa. Uma ou duas
vezes, quando estava de licença, cruzei com Sylvia, mas,
tanto quanto possível, acabei por evitá-la.
Eu a amava e a queria mais do que nunca, mas de algum
modo sabia que não seria agir da maneira correta. Graças a
mim ela havia rompido o noivado com Crawley, e eu não
deixava de repetir para mim mesmo que só poderia justificar
a ação que eu havia tomado se fizesse de minha atitude um
gesto puramente desinteressado.
Então, em 1916, Neil foi morto e coube a mim contar a
Sylvia sobre seus últimos momentos. Já não podíamos
permanecer nos tratando com toda aquela formalidade.
Sylvia adorava Neil e ele havia sido meu melhor amigo. Ela
estava graciosa, adoravelmente graciosa em sua dor. Mal
consegui segurar minha língua e parti outra vez, desejoso de
que uma bala me encontrasse e pusesse fim a toda aquela
situação miserável. A vida sem Sylvia não valia a pena ser
vivida.
Mas não havia nenhuma bala endereçada a mim. Uma pegou
de raspão debaixo do meu ouvido direito e outra foi desviada
pela cigarreira em meu bolso, mas ao fim de tudo escapei
ileso. Charles Crawley foi morto em combate no início de
1918.
De alguma maneira, isso fez a diferença. Voltei para casa no
outono de 1918, um pouco antes do Armistício, e fui direto
ao encontro de Sylvia para lhe revelar meu amor. Não tinha
muitas esperanças de que ela fosse acolher de imediato meu
sentimento, e você não poderia fazer idéia da minha
surpresa quando ela me perguntou por que não havia lhe
dito isso antes. Deixei escapar alguma coisa sobre Crawley e
ela disse, "Mas por que você acha que terminei com ele?", e
então ela me revelou que havia se apaixonado por mim do
mesmo modo que eu me apaixonara por ela - desde o
primeiro instante.
Disse-lhe que eu achava que ela tinha rompido seu noivado
por causa da história que eu lhe contara, e ela sorriu
zombeteira e me disse que se você ama um homem, não o
abandona assim tão covardemente, e então nós repassamos a
minha visão e concordamos que era estranha, mas nada de
mais.
Bem, depois disso, por um bom tempo nada de muito
significativo aconteceu. Sylvia e eu nos casamos e fomos
muito felizes. Mas percebi, tão logo tive a noção de que ela
era realmente minha, que eu não fora talhado para ser o
melhor tipo de marido. Amava Sylvia com devoção, mas eu
era ciumento, absurdamente ciumento de qualquer um a
quem ela dirigisse um mero sorriso que fosse. Isso a divertiu
em um primeiro momento, chego a pensar que isso chegava
inclusive a agradá-la. Era prova, afinal, da extensão do meu
amor.
Quanto a mim, percebi de forma completa e inequívoca que
não só fazia papel de tolo como também estava pondo em
risco a paz e a felicidade de nossa vida conjugal. Eu sabia
disso, confesso, mas não conseguia mudar. Cada vez que
Sylvia recebia uma carta e não me mostrava, eu me
atormentava sobre a identidade de quem a havia enviado. Se
ela sorrisse e conversasse com qualquer homem, logo dava
comigo mal-humorado e vigilante.
De início, como disse, Sylvia ria de mim. Achava que era
uma grande brincadeira. Logo passou a não achar tão
engraçada a brincadeira. Por fim, já não achava graça
nenhuma...
E, aos poucos, começou a se afastar de mim. Não no sentido
físico, mas começou a afastar sua intimidade de mim. Eu já
não sabia quais eram seus pensamentos. Ela era gentil, mas
infelizmente de um modo distante.
Gradualmente, percebi que ela não me amava mais. O amor
dela morrera e tinha sido eu o seu assassino...
O passo seguinte foi inevitável, dei-me conta de que o
esperava, temeroso...
Então Derek Wainwright entrou em nossas vidas. Ele tinha
tudo o que eu não tinha. Era inteligente e dono de uma
língua afiada. Ademais, tinha boa aparência, e - sou forçado
a admitir - era um ótimo sujeito. Assim que o vi, disse para
mim mesmo: "Está aí o homem certo para Sylvia..."
Ela lutou contra isso. Sei que ela lutou... mas não lhe ofereci
qualquer ajuda. Eu não podia. Estava mergulhado em minha
melancólica e taciturna casmurrice. Eu sofria como o diabo -
e não era capaz de estender um dedo sequer para me salvar.
Não a ajudei. Piorei ainda mais as coisas. Certo dia, despejei
sobre ela um ímpeto de cólera, selvagem e injustificada. As
coisas que lhe disse foram cruéis e falsas e, enquanto eu as
dizia, sabia o quão cruéis e falsas eram de fato. E ainda assim,
senti um prazer brutal em dizer aquilo...
Lembro-me de como Sylvia ficou vermelha e se encolheu...
Levei-a ao limite de sua resistência.
Lembro-me que ela disse: "Isso não pode continuar..."
Quando cheguei em casa naquela noite, encontrei-a vazia -
totalmente vazia. Havia um bilhete - bem ao estilo
tradicional.
Nele ela dizia que estava me deixando - para sempre. Havia
seguido para Badgeworthy, para passar alguns dias. Depois
disso, iria ao encontro de uma pessoa que a amava e que
precisava dela. Eu devia aceitar sua decisão como definitiva.
Acho que até então eu não tinha realmente acreditado em
minhas próprias suspeitas. Essa confirmação por escrito de
meus piores medos me deixou terrivelmente possesso. Fui
atrás dela em Badgeworthy o mais rápido que o carro pôde
me levar.
Ela acabava de trocar o vestido para o jantar, lembro bem,
quando invadi a peça. Posso ver sua face: surpresa, linda,
assustada.
Eu disse: "Ninguém além de mim poderá tê-la. Ninguém".
E eu a agarrei pelo pescoço e minhas mãos se aferraram à sua
carne e eu a inclinei para trás.
Subitamente, vi nosso reflexo refletido no espelho. Sylvia
prestes a sufocar e eu a estrangulá-la, a cicatriz em minha
face onde a bala a havia marcado, abaixo da orelha direita.
Não, eu não a matei. Aquela repentina revelação me
paralisou e fez com que afrouxasse os meus dedos,
permitindo que o corpo dela deslizasse para o chão...
E então comecei a chorar - e ela me consolou... Sim, ela me
consolou.
Eu lhe disse tudo o que sentia, e ela me disse que com a
frase "uma pessoa que a amava e que precisava dela" estava
se referindo ao seu irmão Alan... Abrimos nossos corações
uma para o outro naquela noite, e acho que, daquele
momento em diante, jamais voltamos a nos separar...
É um pensamento edificante para se levar ao longo da vida -
que, não fossem a graça de Deus e um espelho, alguém
poderia se tornar um assassino...
Uma coisa de fato morreu naquela noite: o demônio do
ciúme que me possuíra por tanto tempo...
Mas às vezes me questiono: se eu não tivesse cometido o
erro inicial - a cicatriz na face esquerda, quando de fato era na
direita - em função da imagem refletida pelo espelho...
Estaria eu tão certo de que o homem era Charles Crawley?
Será que teria avisado Sylvia? Estaria ela casada comigo ou
com ele?
Ou será que o passado e o futuro são um só?
Sou um sujeito simples - e não sei fingir que entendo dessas
coisas. Tenho certeza apenas do que vi, e que, graças a essa
visão, Sylvia e eu estamos juntos, à moda antiga: até que a
morte nos separe. E talvez além...

O MISTÉRIO DA ARCA DE BAGDÁ

As palavras davam uma manchete atraente, e eu disse isso ao
meu amigo Hercule Poirot. Eu não conhecia nenhuma das
partes. Meu interesse era meramente o interesse isento de
um passante. Poirot concordou.
- Sim, tem um toque oriental, um toque de mistério. A arca
pode muito bem ter sido uma imitação de um móvel
jacobeu-carolíngio de Tottenham Court Road; mesmo assim
o repórter que pensou em nomeá-la a Arca de Bagdá estava
incrivelmente inspirado. A palavra "mistério" também está
justaposta com esperteza, embora, até onde sei, haja muito
pouco mistério sobre o caso.
- Exatamente. É tudo muito terrível e macabro, mas não é
misterioso.
- Terrível e macabro - disse Poirot reflexivamente.
- A idéia como um todo é revoltante - eu disse, me
levantando e caminhando de um lado para o outro na peça. -
O assassino mata esse homem, que é seu amigo, o enfia
dentro de um baú e meia hora depois está dançando na
mesma sala com a mulher de sua vítima. Pense! Se ela
tivesse imaginado por um segundo...
- É verdade - disse Poirot, pensativo. - Essa gloriosa dádiva, a
intuição feminina... parece não ter funcionado.
- Aparentemente a festa transcorria de modo alegre - eu
disse com um leve arrepio. - E todo o tempo, enquanto
dançavam e jogavam pôquer, havia um homem morto com
eles no salão. Alguém poderia escrever uma peça sobre isso.
- Já foi feito - disse Poirot. - Mas não desanime, Hastings -
ele acrescentou gentilmente. - Só porque um tema já foi
utilizado uma vez, não significa que não possa ser utilizado
de novo. Escreva seu drama.
Eu peguei o jornal e estudava a reprodução borrada de uma
fotografia.
- Ela deve ser uma mulher bonita - eu disse lentamente. -
Mesmo por aqui dá pra ter uma idéia.
Abaixo da fotografia havia a seguinte legenda:

Um retrato recente da sra. Clayton, a esposa do homem assassinado

Poirot pegou o jornal de minhas mãos.
- Sim - ele disse. - Ela é linda. Sem dúvida é daquelas que
nasceram para perturbar a alma dos homens.
Ele me devolveu o jornal com um suspiro.
- Dieu merci, eu não tenho um temperamento ardente. Isso
me salvou de muitos constrangimentos. Sou devidamente
agradecido.
Não me lembro de termos discutido mais o caso. Poirot não
mostrou nenhum interesse especial pelo assunto na época.
Os fatos estavam tão claros, e havia neles tão pouca
ambigüidade, que discuti-los parecia mera futilidade.
O sr. e a sra. Clayton e o major Rich eram amigos de longa
data. No dia em questão, 10 de março, os Clavtons aceitaram
um convite para passar a noite com o major Rich. Por volta
das sete e meia, no entanto, Clayton explicou para outro
amigo, o major Curtiss, com quem tomava um drinque, que
tinha sido chamado inesperadamente à Escócia e partiria no
trem das oito horas.
- Terei tempo apenas para dar uma passada lá e explicar isso
ao velho Jack - continuou Clayton. - Mar-guerita vai, é
claro. Sinto muito por não poder ficar, mas Jack vai
entender.
O sr. Clayton fez exatamente o que havia dito. Chegou ao
apartamento do major Rich por volta das vinte para as oito.
O major não estava, mas seu criado, que conhecia bem o sr.
Clayton, sugeriu que ele entrasse e esperasse. O sr. Clayton
disse a ele que não tinha tempo, mas que entraria para
escrever um bilhete. Ele disse também que estava indo pegar
um trem.
O criado, conseqüentemente, o levou até a sala de estar.
Cerca de cinco minutos depois, o major Rich, que deve ter
entrado sozinho, sem que o criado o ouvisse, abriu a porta
da sala de estar, chamou seu serviçal e o mandou sair para
comprar cigarros. Quando voltou, o criado levou os cigarros
para o seu patrão, que estava então sozinho na sala de estar.
O criado naturalmente concluiu que o sr. Clayton já havia
partido.
Os convidados chegaram um pouco depois. Eram eles: a sra.
Clayton, o major Curtiss e o sr. e a sra. Spence. Passaram a
noite dançando ao som da vitrola e jogando pôquer. Os
convidados partiram pouco depois da meia-noite.
Na manhã seguinte, quando estava entrando na sala de estar,
o criado ficou alarmado ao ver uma mancha escura que
marcava o tapete embaixo e na frente de um móvel que o
major Rich havia trazido do Oriente, e que era chamado de a
Arca de Bagdá.
Instintivamente o criado levantou a tampa da arca e ficou
horrorizado ao encontrar lá dentro o corpo de um homem
que havia sido apunhalado no coração.
Apavorado, saiu às pressas do apartamento e chamou o
primeiro policial que viu. Verificou-se que o homem morto
era o sr. Clayton. A prisão do major Rich foi decretada em
seguida. A defesa do major, ao que parecia, consistia numa
resoluta negação de tudo.
Ele não havia visto o sr. Clayton na noite anterior e só tinha
tomado conhecimento de sua viagem à Escócia através da
sra. Clayton.
Esses eram os aspectos visíveis do caso. Insinuações e
sugestões naturalmente abundaram. A amizade e o
relacionamento intimo do major Rich com a sra. Clayton
estavam tão evidentes que só um tolo deixaria passar o que
estava escrito nas entrelinhas. O motivo do crime era
evidente.
Minha longa experiência me ensinara a levar calúnias
infundadas em consideração. O motivo sugerido poderia,
apesar das evidências, ser inteiramente fantasioso. Alguma
razão completamente distinta poderia ter precipitado a ação.
Mas uma coisa estava clara: Rich era o assassino.
Como eu estava dizendo, o caso poderia ter sido encerrado
ali, se Poirot e eu não tivéssemos comparecido a uma festa
oferecida por Lady Chatternon naquela noite.
Poirot, embora expressasse desgosto por compromissos
sociais e declarasse sua paixão pela solidão, na verdade
apreciava muito esses eventos. Ser paparicado e tratado
como uma celebridade o agradava imensamente.
Em certas ocasiões, ele chegava mesmo a parecer um gato a
ronronar! Já o vi receber os mais exorbitantes elogios e agir
como se não houvesse nada mais adequado, pronunciando
os comentários mais ostensivamente arrogantes, alguns dos
quais não posso sequer registrar.
Às vezes ele discutia comigo sobre o assunto.
- Mas meu amigo, eu não sou anglo-saxão. Por que devo
bancar o hipócrita? Si, si, é isso que vocês fazem, todos
vocês. O piloto que realizou um vôo complicado, o tenista
campeão, eles olham para baixo e balbuciam inaudivelmente
"isso não é nada". Mas eles realmente pensam assim? Nem
por um segundo. Eles são capazes de admirar as qualidades
de outras pessoas. Logo, sendo eles homens razoáveis,
também as admiram em si mesmos. Mas a maneira como
foram condicionados os impede de dizê-lo. Eu, eu não sou
assim. Os talentos que possuo, eu os saudaria em outro
homem. Casualmente, na minha área de atuação, não há
ninguém que chegue aos meus pés. Cest dommage! Assim, eu
admito livremente e sem hipocrisia que sou um grande
homem. Possuo a ordem, o método e o conhecimento da
psicologia num grau extraordinário. Sou Hercule Poirot! Por
que deveria ficar vermelho, gaguejar e murmurar baixinho
que na verdade não passo de um tolo? Isso não seria
verdade.
- Com certeza há apenas um Hercule Poirot - concordei,
não sem uma pitada de malícia que, felizmente, Poirot não
detectou.
Lady Chatternon era uma das mais entusiásticas admiradoras
de Poirot. Partindo da conduta misteriosa de um pequinês,
ele havia desvelado uma série de ligações que levavam a um
famoso ladrão e assaltante de casas. Desde então, Lady
Chatternon o enaltecia fervorosamente.
A visão da figura de Poirot causava grande impacto nas
festas. Seus impecáveis trajes de noite, o primoroso ajuste da
sua gravata branca, a simetria exata da separação de seu
penteado, o lustro de pomada em seu cabelo, e o sinuoso
esplendor de seus famosos bigodes - todos esses aspectos
combinados para compor a imagem exata de um dândi
inveterado. Era difícil, nesses momentos, levar o
homenzinho a sério.
Era cerca de onze e meia da noite quando Lady Chatternon,
abatendo-se sobre nós, tirou Poirot da companhia de um
grupo de admiradores e o carregou com ela. Nem preciso
dizer que também fui arrastado.
- Quero que o senhor suba até o meu quartinho - disse Lady
Chatternon sem fôlego logo que saiu do alcance dos ouvidos
dos outros convidados. - O senhor sabe onde fica, Monsieur
Poirot. Lá o senhor encontrará alguém que precisa muito da
sua ajuda. E o senhor irá ajudá-la, eu sei. É uma das minhas
amigas mais próximas, então, por favor, vá.
Conduzindo-nos de modo enérgico enquanto falava, Lady
Chatternon abriu bruscamente uma porta, exclamando ao
fazê-lo:
- Ele está aqui, Marguerita, meu anjo. E ele fará qualquer
coisa que você pedir. O senhor ajudará a senhora Clayton,
não é Monsieur Poirot?
Dando a resposta como certa, ela se retirou com a mesma
energia que caracterizava todos os seus movimentos.
A sra. Clayton estava sentada numa cadeira perto da janela.
Ela se levantou e veio em nossa direção. O preto do vestido
de seu luto fechado ressaltava-lhe a brancura da pele. Era
uma mulher particularmente adorável, e havia nela uma
candura infantil que tornava seu charme irresistível.
- Alice Chatternon é tão amável - ela disse. - Ela planejou
isso. Disse que o senhor me ajudaria, Monsieur Poirot. Claro,
eu não sei se o senhor poderá me ajudar, mas eu espero que
sim.
Ela havia estendido a mão e Poirot a tomou. Ele segurou a
mão por um instante enquanto a mulher examinava de
perto. Não havia nada vulgar na maneira como o fazia. Era
mais como o olhar gentil, ainda que perscrutador, que um
bom médico dirige a um novo paciente, assim que é
conduzido à sua presença.
- A senhora tem certeza, madame, de que eu posso ajudá-la?
- Alice afirma que sim.
- Sim, mas eu estou perguntando para a senhora. Um leve
rubor coloriu suas faces.
- Não sei o que o senhor quer dizer com isso.
- O que, madame, a senhora deseja que eu faça?
- O senhor... o senhor sabe quem eu sou?
- Com certeza.
- Então o senhor pode imaginar o que eu estou lhe pedindo
para fazer. Monsieur Poirot, capitão Hastings - fiquei satisfeito
com o fato de ela saber quem eu era -, o major Rich não
matou o meu marido.
- Por que não?
- Como disse?
Poirot sorriu diante do seu leve desconforto.
- Eu disse, por que não? - ele repetiu.
- Acho que não estou entendendo.
- Todavia é muito simples. A polícia, os advogados, eles irão
fazer a mesma pergunta: por que o major Rich matou
Monsieur Clayton? Eu pergunto o oposto. Eu pergunto à
senhora, madame, por que o major Rich não matou o senhor
Clayton.
- O senhor quer dizer, por que eu tenho tanta certeza? Ora,
porque eu sei. Eu conheço o major Rich muito bem.
- A senhora conhece o major Rich muito bem - repetiu
Poirot num tom de voz inexpressivo.
O rubor incendiou as suas faces.
- Sim, isso é o que eles dirão, o que pensarão, eu sei!
- Cest vrai. É sobre isso que eles vão lhe perguntar, até que
ponto a senhora conhecia o major Rich. Talvez a senhora
fale a verdade, talvez a senhora minta. A mentira é
imprescindível para uma mulher, é uma excelente arma.
Mas há três pessoas, madame, para as quais uma mulher
deve dizer a verdade. Para o seu padre confessor, para o seu
cabeleireiro e para o seu detetive particular, se ela confiar
nele. A senhora confia em mim, madame?
Marguerita Clayton respirou profundamente.
- Sim - ela disse -, confio. Não tenho outra opção - ela
acrescentou de maneira bastante infantil.
- Então, até que ponto a senhora conhecia o major Rich?
Ela o olhou por um momento em silêncio e em seguida
ergueu o queixo audaciosamente.
- Vou responder à sua pergunta. Eu amei Jack desde o
primeiro momento que o vi, há dois anos. Nos últimos
tempos, acho que ele também começou a corresponder a
esse amor, embora nunca tenha me dito isso.
- Épatant! - disse Poirot. - A senhora me poupou uns bons
quinze minutos indo direto ao ponto, sem fazer rodeios. A
senhora tem bom senso. E o seu marido, ele suspeitava
desses sentimentos?
- Não sei - disse Marguerita pausadamente. - Depois de um
tempo, comecei a desconfiar que soubesse. Ele passou a se
portar de maneira diferente..., mas isso pode ter sido coisa
da minha cabeça.
- Ninguém mais sabia?
- Acho que não.
- E... perdoe-me, madame, mas a senhora não amava o seu
marido?
Existem, a meu ver, pouquíssimas mulheres que teriam
respondido àquela pergunta de maneira tão simples quanto
esta mulher o fez. Outras teriam tentado explicar seus
sentimentos.
Marguerita Clayton simplesmente disse:
- Não.
- Bien. Agora sabemos onde estamos. De acordo com a
senhora, madame, o major Rich não matou seu marido, mas
a senhora percebe que todas as evidências apontam para o
sentido contrário. A senhora está ciente, intimamente, de
alguma falha nas evidências?
- Não. Eu não sei de nada.
- Quando foi a primeira vez que o seu marido lhe informou
sobre a viagem que ele faria à Escócia?
- Logo depois do almoço. Ele me disse que era uma maçada,
mas que teria que ir. Disse se tratar de alguma coisa
relacionada com valores de terras.
- E depois disso?
- Ele saiu, foi para o clube, eu acho. Eu... eu não voltei a vê-
lo.
- Agora quanto ao major Rich, como ele se comportou
naquela noite? Como de costume?
- Acho que sim.
- A senhora não tem certeza?
Marguerita enrugou a testa.
- Ele estava um pouco contido. Comigo, não com os outros.
Mas achei que sabia o porquê. O senhor entende? Eu tinha
certeza de que a reserva ou, melhor dizendo, a desatenção,
não tinha nada a ver com Edward. Ele ficou surpreso ao
ouvir que Edward havia ido para a Escócia, mas não de
maneira exagerada.
- E não lhe ocorre mais nenhum detalhe incomum
relacionado com aquela noite?
Marguerita refletiu.
- Não, mais nada.
- A senhora reparou na arca?
Ela balançou a cabeça com um pequeno tremor.
- Eu sequer me lembro dela, ou com o que se parecia. Nós
jogamos pôquer a maior parte da noite.
- Quem ganhou?
- O major Rich. Eu estava sem sorte, e o major Cur-tiss
também. O sr. e a sra. Spence ganharam um pouco, mas o
major Rich foi o principal vencedor.
- A que horas a festa acabou?
- Cerca de meia noite e meia, eu acho. Saímos todos juntos.
-Ah!
Poirot ficou em silêncio, absorto em seus pensamentos.
- Eu gostaria de poder ser mais útil ao senhor - disse a sra.
Clayton. - Parece que tenho tão pouco a lhe contar.
- Sobre o presente, sim. E sobre o passado, madame?
- O passado?
- Sim. Não houve outros incidentes? Ela ruborizou.
- O senhor se refere àquele tipo atroz que se matou com um
tiro? Não foi minha culpa, sr. Poirot, realmente não foi.
- Não era exatamente esse incidente que eu tinha em mente.
- Aquele duelo ridículo? Mas os italianos costumam duelar.
Fiquei tão feliz por aquele homem não ter morrido.
- Deve ter sido um alívio para a senhora - disse Poirot
gravemente.
Ela o olhava com desconfiança. Ele se levantou e tomou a
mão dela na sua.
- Não lutarei um duelo pela senhora, madame - ele disse. -
Mas farei o que a senhora me pediu. Descobrirei a verdade.
E roguemos para que seus instintos estejam certos, para que
a verdade a ajude e não a prejudique.
Nossa primeira entrevista foi com o major Curtiss. Era um
homem na casa dos quarenta anos, com porte de soldado, de
cabelos muito escuros e rosto bronzeado. Ele conhecia o sr.
e a sra. Clayton havia alguns anos, assim como o major Rich.
Ele confirmou os relatos da imprensa.
Clayton e ele haviam tomado um drinque juntos no clube
pouco antes das sete e meia, e Clayton havia, na ocasião,
anunciado sua intenção de fazer uma visita rápida ao major
Rich antes de ir para a estação de Euston.
- Qual era o estado de espírito do sr. Clayton? Ele estava
deprimido ou alegre?
O major refletiu. Não era um homem muito eloqüente.
- Ele me pareceu muito bem-disposto - ele disse finalmente.
- Ele não comentou nada sobre alguma desavença com o
major Rich?
- Por Deus, não. Eles eram amigos.
- Ele não se opunha à amizade da mulher dele com o major
Rich?
O major ficou com o rosto muito vermelho.
- O senhor andou lendo aqueles malditos jornais, com suas
insinuações e mentiras. É claro que ele não se opunha. Ora,
ele me disse: "Marguerita vai, é claro".
- Entendo. E durante a noite, o major Rich comportou-se
como de costume?
- Não notei nenhuma diferença.
- E a sra. Clayton? Ela também estava agindo normalmente?
- Bem - ele refletiu -, agora pensando bem, ela estava um
pouco quieta. O senhor sabe, pensativa e distante.
- Quem chegou primeiro?
- O sr. e a sra. Spence. Eles já estavam lá quando eu cheguei.
Na verdade, parei para buscar a sra. Clayton, mas ela já tinha
saído. Então eu cheguei lá um pouco atrasado.
- E o que fizeram para se divertir? Dançaram? Jogaram
cartas?
- Um pouco de cada. Primeiro dançamos.
- Estavam em cinco?
- Sim, mas isso não foi um problema, porque eu não danço.
Coloquei os discos e os outros dançaram.
- Quem dançou com quem?
- Bem, na verdade o sr. e a sra. Spence gostam de dançar
juntos. Eles têm uma espécie de fascinação pela função toda,
passos ensaiados, coisas do gênero.
- Então a sra. Clayton dançou com o major Rich.
- Exato.
- E depois jogaram pôquer?
- Sim.
- A que horas o senhor foi embora?
- Ah, bem cedo. Pouco depois da meia-noite.
- Foram todos juntos?
- Sim. Para falar a verdade, dividimos um táxi. Deixamos a
sra. Clayton primeiro, depois eu, e então o sr. e a sra. Spence
continuaram até Kensington.
A nossa próxima visita foi ao sr. e à sra. Spence. Apenas a
sra. Spence estava em casa, mas a sua descrição da noite
estava de acordo com a do major Curtiss, excetuando o fato
de que demonstrou certa acidez em relação à sorte do major
Rich no jogo de cartas.
Naquela manhã, mais cedo, Poirot tivera uma conversa
telefônica com o inspetor Japp da Scotland Yard. Como
resultado, chegamos ao apartamento do major Rich e
encontramos o seu criado, Burgoyne, nos esperando.
O testemunho de Burgoyne foi muito claro e preciso.
O sr. Clayton havia chegado vinte minutos antes das oito
horas. Infelizmente o major Rich tinha acabado de sair. O sr.
Clayton havia dito que não poderia esperar, porque tinha
que pegar o trem, mas iria entrar rapidamente para escrever
um bilhete. Ele foi até a sala de estar para fazê-lo. Burgoyne
não tinha ouvido seu patrão chegar, pois estava preparando
o banho, e o major Rich, naturalmente, entrou no
apartamento usando a própria chave. Segundo seu parecer,
mais ou menos dez minutos depois, o major Rich o chamou
e o mandou sair para comprar cigarros. Não, ele não havia
entrado na sala de estar. O major Rich estava parado junto à
porta. Ele havia retornado com os cigarros cinco minutos
depois e desta vez entrara na sala de estar, que então estava
vazia, excetuando-se seu patrão, que fumava perto da janela.
Este havia perguntado se o banho estava pronto e, ao ser
informado positivamente, dirigiu-se ao banheiro. Ele,
Burgoyne, não mencionara o sr. Clayton, pois havia suposto
que o seu patrão o tinha encontrado por ali, levando-o ele
mesmo até a porta. O comportamento do seu patrão havia
sido exatamente o mesmo que de costume. Ele havia
tomado o seu banho, se vestido e, pouco depois, o sr. e a sra.
Spence haviam chegado, seguidos pelo major Curtiss e pela
sra. Clayton.
Não ocorrera a ele, Burgoyne explicou, que o sr. Clayton
pudesse ter partido antes que o seu patrão tivesse chegado.
Para que isso fosse possível, o sr. Clayton teria que ter batido
a porta da frente atrás de si, barulho que o serviçal com
certeza teria ouvido.
Adotando a mesma maneira impessoal, Burgoyne avançou
sua narrativa para o momento em que encontrou o corpo.
Pela primeira vez, minha atenção se dirigiu para a sinistra
arca. Era um grande objeto encostado na parede ao lado do
móvel da vitrola. Era feito de alguma madeira escura e
marchetada. A tampa se abria muito facilmente. Eu olhei
para dentro da arca e me arrepiei. Embora estivesse bem
limpa, algumas manchas sinistras restavam.
De repente, Poirot exclamou:
- Aqueles furos ali, eles são estranhos. Alguém poderia dizer
que eles foram recém-feitos.
Os furos em questão ficavam na parte de trás da arca, contra
a parede. Havia três ou quatro. Eles tinham menos de um
centímetro de diâmetro e pareciam ter sido feitos
recentemente.
Poirot se curvou para examiná-los, olhando de modo
inquiridor para o empregado.
- É de fato curioso, senhor. Não me lembro de jamais ter
visto estes furos antes, embora talvez eu não os tivesse
notado.
- Não tem importância - disse Poirot. Fechando a tampa da
arca, ele caminhou para trás
até que suas costas encostassem na janela. Então repenti-
namente ele fez uma pergunta:
- Diga-me - ele disse. - Quando o senhor trouxe os cigarros
para o seu patrão naquela noite, havia alguma coisa fora de
lugar na sala?
Burgoyne hesitou por um minuto, depois com certa
relutância ele respondeu:
- É estranho que o senhor diga isso. Agora que o senhor
mencionou, havia sim. Aquele biombo ali, que corta a
corrente de ar que vem da porta do quarto, estava um pouco
mais para a esquerda.
- Assim?
Poirot lançou-se agilmente para frente e puxou o biombo.
Era uma bela peça de couro pintado. O biombo já obstruía
levemente a visão da arca, e quando Poirot o ajustou, passou
a escondê-la por completo.
- É isso mesmo, senhor - disse o empregado. - Estava bem
assim.
- E na manhã seguinte?
- Ainda estava nessa posição. Eu me lembro. Eu o movi de
volta ao seu lugar e foi então que avistei a mancha. O tapete
está sendo levado, senhor. É por isso que o assoalho está
descoberto.
Poirot acenou com a cabeça.
- Muito bem - ele disse. - Eu lhe agradeço.
Ele colocou um pedaço de papel enrugado na mão do
empregado.
- Obrigado, senhor.
- Poirot - eu disse quando saímos à rua -, aquele negócio do
biombo. Ele depõe a favor de Rich?
- É mais uma coisa que depõe contra ele - disse Poirot
tristemente. - O biombo ocultava a arca ao resto do
ambiente. Também escondia a mancha no tapete. Mais cedo
ou mais tarde o sangue iria empapar a arca e manchar o
tapete. O biombo evitaria a descoberta por algum tempo.
Sim, mas há alguma coisa aí que eu não estou entendendo.
O empregado, Hastings, o empregado.
- O que tem o empregado? Ele me pareceu um sujeito muito
inteligente.
- Exatamente, muito inteligente. É possível, então, crer que
o major Rich não previsse que o empregado com certeza
descobriria o corpo na manhã seguinte? Imediatamente após
o crime ele não teve tempo para nada, isso é fato. Ele enfia o
corpo na arca, esconde-a com o biombo e passa a noite na
expectativa de que nada seja descoberto. Mas e depois que
os convidados se foram? Com certeza esta seria a hora de se
livrar do corpo.
- Talvez ele esperasse que o empregado não fosse notar a
mancha.
- Isso, mon ami, é absurdo. Um tapete manchado é a primeira
coisa em que um bom serviçal repara. E vejamos o major
Rich: vai para a cama e ronca confortavelmente, sem fazer
nada sobre a questão. Isso é muito interessante.
- Não é possível que Curtiss tenha visto as manchas quando
estava trocando os discos na noite anterior? - eu sugeri.
- Não é muito provável. O biombo lançaria uma sombra
justamente sobre aquele espaço. Não, isso não, mas aos
poucos começo a ver. Vagamente ainda, mas começo a ver.
- Ver o quê? - eu pergunto ansioso.
- As possibilidades, assim dizendo, de uma explicação
alternativa. Nossa próxima visita pode esclarecer algumas
coisas.
A visita seguinte foi ao médico que havia examinado o
corpo. Seu relato foi uma mera recapitulação do que ele já
havia dito no inquérito. A vítima havia sido apunhalada no
coração com uma faca longa e fina, algo como um estilete. A
faca havia sido deixada na ferida. A morte tinha sido
instantânea. A faca pertencia ao major Rich e normalmente
ficava sobre a sua escrivaninha. Não havia impressões
digitais no objeto. Ele havia sido limpo ou empunhado
envolto num lenço. No que diz respeito à hora, pode ter
sido em qualquer momento entre as sete e as nove horas da
noite.
- Ele não poderia, por exemplo, ter sido morto depois da
meia-noite? - perguntou Poirot.
- Não. Isso eu posso afirmar. Dez horas no máximo. Mas é
mais provável que tenha ocorrido entre sete e oito e meia.
- Há uma segunda hipótese possível - disse Poirot, quando já
estávamos em casa. - Estou curioso para saber se você a
enxerga, Hastings. Para mim está muito claro, e só preciso
de mais um ponto para decifrar este caso de uma vez por
todas.
- Não estou vendo - eu disse.
- Ora, faça um esforço, Hastings. Faça um esforço.
- Muito bem - eu disse. - Às sete e quarenta Clayton está
vivo e bem-disposto. A última pessoa a vê-lo vivo é o major
Rich.
- Assim supomos.
- Bem, isso não está claro?
-Você está esquecendo, mon ami, que o major Rich nega esse
fato. Ele declara explicitamente que Clayton já havia partido
quando ele chegou.
- Mas o empregado afirma que teria escutado alguma coisa se
Clayton tivesse saído sozinho, por causa do barulho da
porta. E também, se Clayton foi embora, quando ele voltou?
Ele não poderia ter voltado depois da meia-noite porque o
médico afirma com certeza que ele já estava morto pelo
menos duas horas antes disso. Isso nos deixa apenas uma
alternativa.
- Sim, mon ami.
- Que durante os cinco minutos em que Clayton esteve
sozinho na sala de estar, outra pessoa tenha entrado ali e o
tenha matado. Mas aí estamos diante do mesmo impasse. Só
alguém que estivesse com a chave poderia entrar sem o
conhecimento do empregado. E da mesma maneira, ao sair,
o assassino teria que ter batido a porta, e isso, mais uma vez,
o empregado teria ouvido.
- Exatamente - disse Poirot - E portanto...
- E portanto... nada - eu disse. - Não consigo ver nenhuma
outra solução.
- É uma pena - murmurou Poirot. - E é tão
extraordinariamente simples. Tão claro quanto os olhos azuis
da madame Clayton.
- Você acha mesmo?
- Eu não acho nada, até que eu tenha provas. Uma pequena
prova vai me convencer.
Ele pegou o telefone e ligou para Japp na Scotland Yard.
Vinte minutos depois, estávamos diante de um pequeno
amontoado de objetos postos sobre uma mesa. Esses eram os
pertences que o falecido levava nos bolsos na noite do
crime.
Havia um lenço, um punhado de moedas de baixo valor
soltas, uma carteira contendo três libras e cinqüenta
centavos, umas duas notas fiscais e uma fotografia esmaecida
de Marguerita Clayton. Também havia um canivete, um
lápis dourado e uma estranha ferramenta de madeira.
Foi neste último objeto que Poirot se deteve. Ele o
desatarraxou e diversas pequenas pontas se desprenderam
dele.
- Você está vendo, Hastings, uma broca e todas as outras
chaves. Ah! Seria uma questão de poucos minutos para fazer
alguns furos na arca com isto.
- Aqueles furos que você viu?
- Precisamente.
- Você quer dizer que foi Clayton quem os talhou?
- Mais oui, mais oui! O que aqueles furos sugeriam a você? Eles
não eram feitos para que se pudesse espiar, porque se
encontravam na parte de trás da arca. Qual era a finalidade
deles então? Para que entrasse ar? Mas ninguém faz furos
para um cadáver, então está claro que eles não foram feitos
pelo assassino. Eles sugerem apenas uma coisa, que um
homem iria se esconder dentro da arca. E imediatamente,
seguindo essa hipótese, as coisas se tornam inteligíveis. O sr.
Clayton está com ciúmes de sua mulher com Rich. Ele aplica
o velho truque de fingir que vai viajar. Ele vê Rich saindo, e
então entra no apartamento, aproveita a oportunidade de
estar sozinho para escrever o bilhete e rapidamente talha
esses furos, escondendo-se dentro da arca. Sua mulher irá
até lá naquela noite. Possivelmente Rich se livrará dos
outros, possivelmente ela ficará lá depois que os outros
forem embora, ou fingirá partir para depois retornar. O que
quer que aconteça, ele saberá. Qualquer coisa é preferível ao
terrível tormento da suspeita que ele carrega.
- Então você está dizendo que Rich o matou depois que os
outros haviam partido? Mas o médico disse que isso seria
impossível.
- Exatamente. Então você vê Hastings, ele deve ter sido
morto durante a festa.
- Mas todos estavam na sala!
- Precisamente - disse Poirot gravemente. - Você vê a beleza
disso? "Todos estavam na sala." Que grande álibi! Que sang
froid, que ousadia, que audácia!
- Eu ainda não entendo.
- Quem foi atrás daquele biombo para fazer funcionar a
vitrola e trocar os discos? A vitrola e a arca estavam lado a
lado, você lembra? Os outros estão dançando, a vitrola está
tocando. E o homem que não dança levanta a tampa da arca
e crava a faca que ele tinha recém escondido em sua manga
no corpo do homem que estava escondido lá dentro.
- Impossível! O homem iria gritar.
- Não se ele houvesse sido dopado primeiro.
- Dopado?
- Sim. Com quem Clayton tomou um drinque às sete e meia?
Ah! Agora você vê. Curtiss! Curtiss havia inflamado a mente
de Clayton com suspeitas contra a sua mulher e Rich. Curtiss
sugeriu este plano. A visita à Escócia, o esconderijo na arca,
o toque final de mover o biombo. Não para que Clayton
pudesse levantar de leve a tampa por alguns instantes para se
aliviar, e sim para que ele, Curtiss, pudesse levantar aquela
tampa sem ser visto. O plano é de Curtiss, e observe a beleza
dele, Hastings. Se Rich tivesse percebido que o biombo
estava fora de lugar e o tivesse colocado de volta, bem,
nenhum mal haveria sido feito. Bastaria bolar outro plano.
Mas Clayton se esconde na arca, o leve narcótico que Curtiss
havia ministrado faz efeito. Ele desfalece. Curtiss levanta a
tampa e o golpeia, e a vitrola segue tocando Walking my baby
back home.
Eu me pego dizendo:
- Mas por quê? Por quê?
- Por que um homem se suicidou? Por que dois italianos
travaram um duelo? Curtiss é um homem de temperamento
sombrio e ardente. Ele queria Marguerita Clayton. Com o
marido e Rich fora do caminho, ela iria, assim ele pensava,
se voltar para ele.
E acrescentou reflexivamente:
- Essas mulheres simples e de jeito infantil... elas são muito
perigosas. Mas mon Dieul Que obra-prima! Me toca o coração
desmascarar um homem como esse. Eu posso ser um gênio,
mas também sou capaz de reconhecer a genialidade em
outras pessoas. Um crime perfeito, mon ami. Eu, Hercule
Poirot, estou lhe dizendo. Um crime perfeito. Épatant!

ONDE HÁ UM TESTAMENTO

- Antes de mais nada, evite aborrecimentos e excitações -
disse o doutor Meynell, com a afetação natural apresentada
pelos médicos.
A sra. Harter, como costuma ser o caso de pessoas que
ouvem tais palavras amenas, porém insignificantes, pareceu
mais hesitante do que aliviada.
- Há certa fraqueza cardíaca - continuou o médico de modo
fluente -, mas não há nada com o que se alarmar. Posso lhe
garantir. Segue tudo igual - ele acrescentou -, mas seria bom
mandar instalar um elevador. Hein? O que lhe parece?
A sra. Harter parecia preocupada.
O doutor Meynell, ao contrário, parecia satisfeito consigo
mesmo. A razão pela qual ele preferia visitar os clientes ricos
aos pobres era que com os ricos podia exercitar sua
irrequieta imaginação nas prescrições dos cuidados.
- Sim, um elevador - disse o doutor Meynell, tentando
pensar em algo ainda mais extravagante, mas sem sucesso. -
E devemos evitar qualquer esforço desnecessário. Exercite-
se em áreas planas, diariamente, aproveitando um dia
bonito, mas evite subir montanhas. E, sobretudo, muita
distração para a mente. Não pense muito em sua saúde.
Para o sobrinho da velha senhora, Charles Ridgeway, o
médico foi um pouco mais explícito.
- Não me entenda mal - ele disse. - Sua tia pode viver ainda
muitos anos, provavelmente viverá. Ao mesmo tempo, um
choque ou esforço exagerado podem levá-la assim! - Ele
estalou os dedos. - Ela precisa levar uma vida muito
tranqüila. Nada de esforço. Nada de cansaço. Mas, é claro,
não se pode permitir também que fique deprimida. Ela deve
se manter animada e com a mente bem ocupada.
- Ocupada - disse Charles Ridgeway ponderativo.
Charles era um jovem pensativo. Era também um homem
que acreditava em cumprir suas intenções sempre que
possível.
Naquela noite, sugeriu a instalação de um aparelho de rádio.
A sra. Harter, já seriamente contrariada com a idéia do
elevador, ficou perturbada e em desacordo. Charles foi
persuasivo.
- Não sei se me agradam essas coisas extravagantes - disse a
sra. Harter, num tom de lamento. - As ondas, você sabe... as
ondas elétricas. Elas podem me afetar.
Charles, de uma maneira gentil e superior, mostrou que não
havia qualquer fundamento nessa idéia.
A sra. Harter, cujo conhecimento do assunto era bastante
vago, estava obstinada em sua opinião.
- Toda essa eletricidade - ela murmurou timidamente. - Você
pode dizer o que quiser, Charles, mas algumas pessoas são
afetadas pela eletricidade. Eu sempre sinto uma dor de
cabeça horrível antes de uma tempestade. Eu sei disso.
Ela sacudiu sua cabeça triunfantemente. Charles era um
jovem paciente. Ele também era persistente.
- Minha querida tia Mary - ele disse -, deixe-me esclarecer as
coisas para a senhora.
Ele era uma espécie de autoridade no assunto. Deu uma
palestra e tanto sobre o tema; entusiasmando-se com sua
tarefa, falou de tubos de emissor brilhante, de tubos de
emissão débil, de alta e baixa freqüências, de amplificação e
de condensadores.
A sra. Harter, submersa num mar de palavras que não
compreendia, se rendeu.
- Claro, Charles - ela murmurou -, se você acha mesmo...
- Minha querida tia Mary - disse Charles entusiasmado -, é a
melhor coisa para a senhora, para que não fique melancólica
ou algo assim.
O elevador recomendado pelo doutor Meynell foi instalado
pouco tempo depois, e isso quase causou a morte da sra.
Harter, pois, como muitas outras senhoras de idade, ela
tinha uma forte objeção a homens estranhos em sua casa.
Ela suspeitava que todos estavam de olho em sua prataria
antiga.
Depois do elevador chegou o rádio. A sra. Harter foi deixada
a contemplar o que, para ela, era um objeto repulsivo: uma
grande caixa de aparência tosca, crivada de botões.
Foi preciso todo o entusiasmo de Charles para conciliá-la
com o aparelho, mas ele estava em seu próprio terreno,
girando botões e discursando eloqüentemente.
A sra. Harter sentou-se em sua poltrona, paciente e cortês,
absolutamente certa de que aqueles aviamentos modernos
não passavam do mais completo aborrecimento.
- Ouça, tia Mary, nós estamos em Berlim! Isso não é
esplêndido? A senhora está ouvindo o homem?
- Eu não ouço nada a não ser um bocado de zunidos e
chiados - disse a sra. Harter.
Charles continuou a girar os botões.
- Bruxelas - ele anunciou com entusiasmo.
- Ah, é? - disse a sra. Harter, com o mais leve resquício de
interesse.
Charles mais uma vez girou os botões e um uivo aterrador
ecoou quarto adentro.
- Agora parecemos estar dentro da casinha do cachorro -
disse a sra. Harter, que era uma velhinha dotada de certa
presença de espírito.
- Ha-ha! - disse Charles, a senhora não abre mão de uma
piada, não é, tia Mary? Muito bem!
A sra. Harter não se conteve e sorriu para ele. Ela gostava
muito de Charles. Durante alguns anos uma sobrinha,
Miriam Harter, havia morado com ela. Ela pretendia fazer da
menina sua herdeira, mas Miriam havia fracassado. Ela era
impaciente e se mostrava claramente entediada com a vida
social de sua tia. Estava sempre fora de casa, "vagando" como
dizia a sra. Harter. Acabou se envolvendo com um jovem,
que sua tia desaprovava completamente. Miriam tinha sido
mandada de volta para a mãe com um curto bilhete, como
uma mercadoria devolvida. Ela acabou se casando com o
jovem em questão, e a sra. Harter tinha por costume lhe
mandar uma caixa de lenços ou um arranjo de centro de
mesa no Natal.
Tendo achado decepcionante investir em sobrinhas, a sra.
Harter passou a se concentrar em sobrinhos. Charles, desde
o início, tinha sido um sucesso absoluto. Mostrava-se
sempre agradavelmente respeitoso em relação à tia e
escutava com uma aparência de intenso interesse as
reminiscências de sua juventude. Nesse aspecto ele repre-
sentava um contraste em relação a Miriam, que ficava
claramente entediada e não deixava de demonstrá-lo.
Charles nunca se aborrecia; estava sempre de bom humor,
sempre alegre. Dizia à tia várias vezes ao dia que ela era uma
senhora encantadora.
Imensamente satisfeita com a sua nova aquisição, a sra.
Harter havia escrito para seu advogado a fim de lhe passar as
instruções para a elaboração de um novo testamento. Este
lhe foi enviado e, depois de devidamente aprovado por ela,
assinado.
E agora mesmo na questão do rádio, Charles logo provou ter
acertado mais uma vez.
A sra. Harter, a princípio hostil, passou a ser tolerante e
finalmente ficou fascinada. Ela apreciava o aparelho ainda
mais quando Charles não estava em casa. O problema de
Charles é que ele não dava sossego ao equipamento. A sra.
Harter ficava confortavelmente sentada em sua poltrona
escutando um concerto sinfônico, ou uma palestra sobre
Lucrécia Bórgia ou sobre a vida marinha, bastante satisfeita e
em paz com o mundo. Charles era diferente. A harmonia
era rompida por altos sons dissonantes nas suas tentativas
entusiasmadas de sintonizar estações estrangeiras. Mas
naquelas noites em que Charles estava jantando fora com
amigos, a sra. Harter deleitava-se muito com o rádio. Ela o
ligava, sentava-se na sua poltrona e escutava o programa da
noite.
Foi cerca de três meses depois que o rádio fora instalado que
se deu o primeiro acontecimento sinistro. Charles estava
ausente, numa mesa de bridge.
O programa da noite era um concerto de baladas. Uma
soprano muito conhecida estava cantando Annie Laurie e, no
meio de Annie Laurie, uma coisa estranha aconteceu. Houve
uma pausa repentina, a música parou por um momento, os
ruídos e batidas continuaram, e depois também se
extinguiram. Tudo ficou silencioso, e depois um ruído baixo,
muito fraco, pôde ser ouvido.
A sra. Harter teve a impressão, embora não tivesse certeza,
de que a máquina havia sintonizado uma estação de um
lugar muito distante, e então, clara e articuladamente, uma
voz falou, a voz de um homem com um leve sotaque
irlandês.
- Mary... Você está me ouvindo, Mary? É o Patrick quem está
falando... Em breve irei buscá-la. Você estará pronta, não é, Mary?
Então, quase que imediatamente, a melodia de Annie Laurie
voltou a encher a peça.
A sra. Harter sentou-se dura em sua poltrona, as mãos
agarradas aos braços do móvel. Estaria sonhando?
Patrick! A voz de Patrick! A voz de Patrick nesta sala, fa-
lando com ela. Não, deve ser um sonho, uma alucinação
talvez. Ela deve ter caído no sono por um ou dois minutos.
Uma coisa curiosa para se sonhar, que a voz do seu falecido
marido havia falado com ela do além. Ficou um pouco
assustada. Quais eram as palavras que ele havia dito?
Em breve irei buscá-la. Você estará pronta, não é, Mary?
Poderia ser uma premonição? Fraqueza cardíaca. O coração.
Afinal, ela estava ficando velha.
- É um aviso, isso sim - disse a sra. Harter, levantando-se
devagar e penosamente da sua poltrona, e adicionou de
modo característico, "Todo aquele dinheiro desperdiçado
para colocar um elevador!"
Ela não contou nada a ninguém sobre o acontecido, mas
durante os dois dias que se seguiram ela parecia pensativa e
preocupada.
E então se deu o segundo episódio. Mais uma vez ela estava
sozinha na sala. O rádio, que tocava uma seleção de músicas
orquestrais, apagou-se tão repentinamente quanto da outra
vez. Mais uma vez se deu o silêncio, a impressão de
distância, e por fim a voz de Patrick, não como quando era
vivo, mas uma voz rarefeita, distante, com uma estranha
qualidade sobrenatural.
- Aqui é o Patrick falando com você, Mary. Eu irei buscá-la muito em
breve...
Depois as batidas, os zumbidos e as músicas orquestrais
estavam a todo vapor novamente.
A sra. Harter olhou o relógio. Não, ela não tinha dormido
desta vez. Acordada e em total posse de suas faculdades
mentais, ela tinha ouvido a voz de Patrick. Não tinha sido
uma alucinação, estava certa disso. De maneira confusa,
tentou refletir sobre tudo o que Charles havia explicado a ela
sobre a teoria das ondas no ar.
Seria possível que Patrick houvesse falado com ela? Que sua
voz tivesse sido carregada através do espaço? Havia ondas
faltando ou algo do gênero. Ela se lembrou de Charles
falando sobre "lacunas na escala". Talvez as ondas que
estivessem faltando pudessem explicar o suposto fenômeno
psicológico. Não, não havia nada essencialmente impossível
na idéia. Patrick havia falado com ela. Ele tinha se
beneficiado da ciência moderna para prepará-la para o que
viria em breve.
A sra. Harter tocou a campainha para chamar sua criada,
Elizabeth.
Elizabeth era uma mulher alta e magra, na casa dos sessenta
anos. Debaixo do exterior rígido ela ocultava uma grande
afeição e ternura por sua senhora.
- Elizabeth - disse a sra. Harter quando sua fiel serviçal
apareceu -, você está lembrada do que lhe contei? A
primeira gaveta à esquerda da minha escrivaninha. Está
trancada: a chave longa com a etiqueta branca. Está tudo
pronto ali dentro.
- Pronto, madame?
- Para o meu enterro - disse furiosamente a sra. Harter. -
Você sabe muito bem do que estou falando, Elizabeth. Você
mesma me ajudou a colocar as coisas lá.
O rosto de Elizabeth começou a se mover de maneira
estranha.
- Oh, madame - ela choramingou -, não insista nessas coisas.
Eu pensei que a senhora estava melhorando.
- Todos nós temos que ir uma hora ou outra - disse a sra.
Harter de modo prático. - Já vivi além da conta, Elizabeth.
Pronto, pronto, você está parecendo uma boba. Se tiver que
chorar, faça isso em outro lugar.
Elizabeth se retirou, ainda fungando. A sra. Harter olhou-a
partir com uma boa dose de afeição.
- Velha tola, mas fiel - ela disse -, muito fiel. Deixe-me ver,
foram cem libras que lhe deixei, ou apenas cinqüenta? Tem
que ser cem.
A questão preocupou a velha senhora e no dia seguinte ela
se sentou e escreveu ao advogado perguntando se ele podia
mandar o testamento, para ela dar uma olhada. Foi naquele
mesmo dia que Charles a surpreendeu com algo dito durante
o almoço.
- Por falar nisso, tia Mary, quem é aquele velho bronco no
quarto de hóspedes? Quer dizer, no retrato sobre a lareira. O
velho com o chapéu de pele de castor e costeletas?
A sra. Harter olhou para ele austera.
- Aquele é o seu tio Patrick quando jovem - ela disse.
- Oh, tia Mary, sinto muitíssimo. Eu não queria ser grosseiro.
A sra. Harter aceitou as desculpas com um digno aceno de
cabeça.
Charles continuou um tanto indeciso:
- Eu estava apenas me perguntando. A senhora vê... Ele
parou indeciso e a sra. Harter disse severamente:
- E então? O que você ia dizer?
- Nada - disse Charles apressadamente. - Nada que faça
sentido, quero dizer.
A velha senhora não disse mais nada, mas mais tarde
naquele mesmo dia, quando estavam a sós, ela voltou ao
assunto.
- Eu gostaria que você me dissesse, Charles, o que lhe fez
indagar sobre a foto do seu tio.
- Eu disse à senhora, tia Mary. Foi apenas uma bobagem
minha, algo totalmente sem propósito.
- Charles - disse a sra. Harter, na sua voz mais despótica -,
insisto em saber.
- Bem, minha querida tia, se a senhora quer mesmo saber, eu
tive a impressão de tê-lo visto, o homem do retrato, quero
dizer, olhando através da janela dos fundos quando eu estava
subindo pela passagem ontem à noite. Algum efeito de luz,
suponho eu. Fiquei imaginando quem diabos poderia ser, o
rosto tão vitoriano, se é que a senhora me entende. E então
Elizabeth disse que não havia ninguém, nenhum visitante
ou estranho na casa, e mais tarde da noite eu fui por acaso ao
quarto de hóspedes e a pintura estava lá sobre a lareira. O
homem que eu havia visto, ali! É fácil de explicar, de fato, eu
espero. Subconsciente ou algo do gênero. Devo ter visto o
retrato antes sem me dar conta que o tinha visto, apenas
imaginando depois o rosto na janela.
- A janela dos fundos? - disse a sra. Harter avidamente.
- Sim, por quê?
- Nada - disse a sra. Harter.
Mas ela ficou sobressaltada mais uma vez. O aposento havia
sido o closet do seu marido.
Naquela mesma noite, estando Charles ausente mais uma
vez, a sra. Harter ficou sentada ouvindo rádio com uma
febril impaciência. Se pela terceira vez ela ouvisse a voz
misteriosa, seria a prova, final e definitiva, de que ela estava
de fato se comunicando com algum outro mundo.
Embora seu coração batesse mais rápido, ela não ficou
surpresa quando a mesma pausa ocorreu, e, depois do
costumeiro intervalo de silêncio sepulcral, a apagada e
distante voz irlandesa falou mais uma vez.
- Mary - você está preparada agora... Na sexta-feira virei buscá-la...
Sexta-feira às nove e meia... Não tenha medo: você não sentirá dor...
Esteja preparada...
Então, quase cortando a última palavra, a música da or-
questra invadiu a sala novamente, barulhenta e dissonante.
A sra. Harter permaneceu sentada e imóvel por um ou dois
minutos. Seu rosto havia empalidecido e seus lábios estavam
azulados e aflitos.
Dentro de poucos instantes ela se levantou da poltrona e se
sentou na sua escrivaninha. Com a mão um tanto trêmula,
escreveu as linhas que seguem:

Hoje à noite, às nove e quinze, ouvi claramente a voz do
meu falecido marido. Ele disse que viria me buscar na sexta-
feira à noite, às nove e meia. Se eu morrer neste dia e nesta
hora, gostaria que esses fatos fossem divulgados a fim de
provar de modo irrefutável a possibilidade de comunicação
com o mundo espiritual.
MARY HARTER

A sra. Harter releu o que havia escrito, fechou o bilhete
num envelope e endereçou-o. Então tocou a campainha,
que foi prontamente atendida por Elizabeth. A sra. Harter
levantou-se da escrivaninha e entregou o bilhete que
acabara de escrever à velha criada.
- Elizabeth - ela disse -, se eu morrer na sexta à noite gostaria
que este bilhete fosse entregue ao doutor Meynell. Não -
como Elizabeth parecia prestes a protestar -, não discuta
comigo. Você me disse várias vezes que acredita em
premonições. Estou tendo uma premonição agora. Tem mais
uma coisa. Eu tinha deixado para você no meu testamento
cinqüenta libras. Gostaria que você ficasse com cem. Se não
puder eu mesma ir ao banco antes da minha morte, o sr.
Charles cuidará disso.
Como da outra vez, a sra. Harter cortou os protestos
chorosos de Elizabeth. Em cumprimento à sua determinação
a velha senhora falou com o seu sobrinho sobre o assunto na
manhã seguinte.
- Lembre-se, Charles, que se alguma coisa me acontecer,
Elizabeth deve receber cinqüenta libras a mais.
- A senhora anda muito deprimida, tia Mary - disse Charles
alegremente. - O que vai lhe acontecer? De acordo com o
doutor Meynell, estaremos celebrando seu centésimo
aniversário daqui a vinte anos.
A sra. Harter sorriu afetuosamente para ele, mas não
respondeu. Depois de uns minutos, disse:
- O que você vai fazer na sexta-feira à noite, Charles? Ele
pareceu um pouco surpreso.
- Para falar a verdade, os Ewings me convidaram para uma
mesa de bridge, mas se a senhora preferir que eu fique em
casa...
- Não - disse a sra. Harter com determinação. - De jeito
nenhum, Charles. Nessa noite em especial eu prefiro estar
sozinha.
Charles olhou para ela curioso, mas a sra. Harter não
concedeu mais nenhuma informação. Era uma senhora
determinada e corajosa. Sentia que precisava passar por
aquela estranha experiência sozinha.
A noite de sexta-feira encontrou a casa muito silenciosa. A
sra. Harter sentou-se como de costume em sua poltrona em
frente à lareira. Todos os preparativos estavam feitos.
Naquela manhã ela havia ido ao banco e retirado cinqüenta
libras em dinheiro, entregando-as a Elizabeth, a despeito dos
protestos chorosos da última. Ela havia classificado e
arrumado todos os seus pertences e etiquetado algumas jóias
com nomes de amigos e parentes. Também havia escrito
uma lista de instruções para Charles. O aparelho de chá de
Worcester era para ser entregue à prima Emma, as jarras de
Sèvres para o jovem William, e assim por diante.
Agora olhava para o longo envelope que tinha em suas mãos
e retirou dele um documento dobrado. Este era o seu
testamento enviado a ela pelo sr. Hopkinson, de acordo com
as suas instruções. Já o havia lido cuidadosamente, mas agora
o revisava mais uma vez para refrescar sua memória. Era um
documento curto, conciso. Um legado de cinqüenta libras
para Elizabeth em consideração aos seus fiéis serviços. Dois
de quinhentas libras, um para a irmã e outro para um primo-
irmão; e o restante para o seu amado sobrinho Charles
Ridgeway.
A sra. Harter sacudiu a cabeça várias vezes. Charles seria um
homem muito rico quando ela morresse. Bem, ele havia sido
muito bom pra ela. Sempre benévolo, sempre afetuoso, e
com uma alegria que nunca falhava em agradá-la.
Olhou o relógio. Três minutos para completar a meia hora
que faltava. Bem, ela estava pronta. E estava calma
- bastante calma. Mesmo tendo repetido essas últimas
palavras diversas vezes, seu coração batia de uma forma
estranha e irregular. Ela quase não se dava conta, mas estava
se encaminhando para um complicado estado de nervos.
Nove e meia. O rádio estava ligado. O que ela escutaria?
Uma voz familiar anunciando a previsão do tempo ou aquela
voz distante que pertencia a um homem que havia morrido
25 anos atrás?
Mas não ouviu nem um nem outro. Em vez disso veio um
som familiar, um som que ela conhecia bem, mas que essa
noite a fazia sentir como se uma mão gelada estivesse
pousada sobre seu coração. Um barulho na porta da frente...
Novamente o barulho se fez ouvir. E um sopro gelado
pareceu varrer todo o ambiente. A sra. Harter já não tinha
nenhuma dúvida do que eram aquelas suas sensações. Estava
com medo... Estava mais do que com medo - estava
apavorada...
E de repente lhe veio à mente o seguinte pensamento: "
Vinte e cinco anos é muito tempo. Patrick é um estranho para mim
agora."
Terror! Era isso o que a estava invadindo.
Um leve passo do lado de fora da porta - um leve e hesitante
passo. A porta se abriu silenciosamente...
Os pés da sra. Harter vacilaram, oscilando de leve de um
lado para o outro, os olhos fixos na porta aberta. Algo
escorregou dos seus dedos para dentro da lareira.
Ela deu um grito abafado que morreu em sua garganta. Na
fraca luz da porta de entrada, estava uma figura familiar, com
uma barba castanha, bigodes e um antiquado casaco
vitoriano.
Patrick tinha vindo buscá-la!
Seu coração bateu uma vez com força e terror e depois
parou. Ela escorregou para o chão, dobrando-se sobre si
mesma.
ALI ELIZABETH a encontrou, uma hora depois.
O doutor Meynell foi chamado imediatamente e Charles
Ridgeway foi retirado às pressas de seu jogo de bridge. Mas
nada podia ser feito. A sra. Harter estava fora do alcance da
medicina.
Dois dias depois, Elizabeth lembrou-se do bilhete que sua
senhora havia lhe dado. O doutor Meynell o leu com grande
interesse e mostrou-o a Charles Ridgeway.
- Uma coincidência muito curiosa - ele disse. - Está claro que
sua tia andava tendo alucinações com a voz de seu falecido
marido. Ela deve ter se inquietado a tal ponto que a
excitação foi fatal, e quando a hora finalmente chegou, ela
morreu em função do choque.
- Auto-sugestão? - perguntou Charles.
-Algo do tipo. Eu o informarei sobre o resultado da autópsia
o mais breve possível, embora eu pessoalmente não tenha
nenhuma dúvida. Nessas circunstâncias uma autópsia é
desejável, mas não passa de mera formalidade.
Charles, compreensivo, acenou com a cabeça.
Na noite anterior, quando os moradores da casa já estavam
na cama, ele tinha removido um fio que corria da parte de
trás do rádio até o seu quarto, no andar de cima. Além disso,
como a noite havia sido fria, ele pedira a Elizabeth para
acender a lareira no seu quarto, e no fogo ele queimou uma
barba castanha e bigodes. Algumas roupas vitorianas
pertencentes ao seu falecido tio foram devolvidas ao baú
com cheiro de cânfora no sótão.
Até onde podia imaginar, estava perfeitamente seguro. Seu
plano, o sombrio esboço que começara a se formar em sua
mente quando o doutor Meynell lhe disse que sua tia
poderia viver por muitos anos se recebesse os devidos
cuidados, havia sido um sucesso admirável. Um choque
súbito, o doutor Meynell havia dito. Charles, aquele jovem
afável, querido das velhinhas, sorriu para si mesmo.
Quando o médico partiu, Charles cuidou de seus afazeres
mecanicamente. Certos arranjos para o funeral tinham de
ser definitivamente resolvidos. Parentes vindos de longe
precisavam que alguém providenciasse para eles os
respectivos trens. Um ou dois deles teriam que passar a noite
por ali. Charles cuidou de tudo eficiente e metodicamente,
acompanhando a corrente de seus próprios pensamentos.
Um duríssimo golpe nos negócios! Esse era o seu fardo. Ninguém,
ainda menos sua falecida tia, sabia da situação periclitante
em que Charles se encontrava. Suas atividades,
cuidadosamente ocultadas do mundo, tinham-no levado
para onde a sombra de uma prisão já se anunciava.
A exposição e a ruína o encarariam de frente se ele não
pudesse, em poucos meses, levantar uma considerável
quantia de dinheiro. Bem - isso agora estava resolvido.
Charles sorriu para si mesmo. Graças a um truque, a uma
encenação - e não havia nada de criminoso nisso -, ele
estava salvo. Era agora um homem muito rico. Não tinha
nenhuma dúvida sobre isso, pois a sra. Harter nunca havia
escondido suas intenções.
Em oportuna harmonia com esses pensamentos, Elizabeth
chegou perto da porta e anunciou a Charles que o sr.
Hopkinson estava ali e que gostaria de vê-lo.
Já estava na hora mesmo, pensou Charles. Reprimindo uma
tendência a assobiar, compôs em seu rosto uma adequada
gravidade e foi até a biblioteca. Lá ele cumprimentou o
velho e formal cavalheiro que, por mais de um quarto de
século, havia sido o conselheiro legal da falecida sra. Harter.
O advogado se sentou ao convite de Charles e com uma
breve tosse seca começou a tratar de negócios.
- Não entendi muito bem a carta que o senhor me enviou,
sr. Ridgeway. O senhor parecia acreditar que o testamento
da falecida sra. Harter estivesse sob os nossos cuidados?
Charles o fitou com os olhos.
- Com certeza. Ouvi minha tia falar sobre isso.
- Oh, claro, claro. Ele estava sob nossos cuidados.
- Estava?
- Foi isso que eu disse. A sra. Harter nos escreveu, pedindo
que o testamento fosse enviado a ela na terça-feira passada.
Uma sensação desconfortável invadiu Charles. Ele teve um
remoto pressentimento de desagrado.
- Sem dúvida ele vai aparecer entre os papéis dela -
continuou o advogado tranqüilamente.
Charles não disse nada. Tinha medo de confiar em sua
língua. Eleja tinha vasculhado os papéis da sra. Harter
detalhadamente, com apuro suficiente para estar bastante
certo de que não havia um testamento entre eles. Em um ou
dois minutos, quando recuperou o controle sobre si mesmo,
falou com o advogado. A sua voz soou irreal para si mesmo,
e ele teve a sensação de que água fria lhe escorria pelas
costas.
- Alguém mexeu em seus objetos pessoais? - perguntou o
advogado.
Charles respondeu que a criada, Elizabeth, o havia feito.
Elizabeth foi chamada por sugestão do sr. Hopkinson. Ela
veio prontamente, austera e direta, e respondeu às perguntas
que lhe foram apresentadas.
Ela tinha vasculhado todas as roupas e objetos pessoais da
senhora. Tinha certeza de que não havia nenhum
documento parecido com um testamento entre eles. Ela já o
tinha visto - sua pobre senhora o tivera nas mãos na manhã
de sua morte.
- Você tem certeza disso? - perguntou o advogado com
severidade.
- Sim, senhor. Ela me disse. E me fez pegar cinqüenta libras
em dinheiro. O testamento estava num longo envelope azul.
- Correto - disse o sr. Hopkinson.
- Agora estou me lembrando - continuou Elizabeth —,
aquele mesmo envelope azul estava sobre esta mesa na
manhã seguinte à morte da sra. Harter, só que estava vazio.
Eu o coloquei sobre a escrivaninha.
- Eu me lembro de tê-lo visto ali - disse Charles.
Ele se levantou e foi até a escrivaninha. Em alguns minutos
ele voltou com um envelope em mãos, que entregou ao sr.
Hopkinson. Este o examinou e fez um aceno com a cabeça.
- Este é o envelope no qual despachei o testamento na
última terça-feira.
Os dois homens olharam com firmeza para Elizabeth.
- Mais alguma coisa, senhor? - ela indagou respeitosamente.
- Não para o momento, obrigado.
Elizabeth seguiu em direção à porta.
- Um minuto - disse o advogado. - Havia fogo na lareira
naquela noite?
- Sim, senhor, ela sempre estava acesa.
- Obrigado, isso é tudo.
Elizabeth saiu da sala. Charles inclinou-se para frente,
pousando uma mão trêmula sobre a mesa.
- O que o senhor acha? O que está pensando?
O sr. Hopkinson balançou a cabeça.
- Ainda devemos esperar que o testamento apareça. Se não
aparecer...
- Bem, e se não aparecer?
- Suponho que só haja uma conclusão possível. Sua tia
mandou pedir o testamento com a intenção de destruí-lo.
Não querendo que Elizabeth perdesse com isso, deu a ela sua
herança em dinheiro.
- Mas por quê? - gritou Charles selvagemente. - Por quê?
O sr. Hopkinson tossiu. Uma tosse seca.
- O senhor não teve nenhuma desavença com a sua tia, sr.
Ridgeway? - ele murmurou.
Charles arfou.
- Não, de maneira alguma - ele exclamou calorosamente. -
Estávamos nos termos mais amigáveis e afetivos, até o fim.
- Ah! - disse o sr. Hopkinson, sem olhar para ele.
Charles recebeu como um choque o fato de o advogado não
acreditar nele. Quem sabe o que esse velho seco como um
pau não terá ouvido? Rumores sobre os feitos de Charles
podem ter chegado até ele. Nada mais natural que o outro
supusesse que esses mesmos rumores tivessem chegado à
sra. Harter, e que a tia e sobrinho tivessem tido uma
altercação sobre o assunto?
Mas não era verdade! Charles passava por um dos períodos
mais amargos de sua trajetória. Todos acreditavam em suas
mentiras. Agora que ele falava a verdade, a crença era
negada. A ironia disso tudo!
É claro que sua tia jamais queimara o testamento! Claro que
não...
Seus pensamentos pararam por um instante. O que era
aquela visão se erguendo diante de seus olhos? Uma velha
senhora com uma mão junto ao peito... alguma coisa
escorregando... um papel... caindo sobre as quentes brasas
vermelhas...
O rosto de Charles empalideceu. Ele ouviu uma voz rouca -
a sua própria voz - perguntando:
- E se o testamento nunca for encontrado...?
- Existe um testamento antigo da sra. Harter. Datado de
setembro de 1920. De acordo com essa versão, a sra. Harter
deixa tudo para sua sobrinha, Miriam Harter, agora Miriam
Robinson.
O que o velhote estava dizendo? Miriam? Miriam com seu
marido desclassificado e suas quatro pestes choronas? Toda a
sua esperteza - para Miriam!
O telefone tocou às suas costas. Ele apanhou o receptor. Era
a voz do médico, sincera e gentil.
- É você, Ridgeway? Achei que gostaria de saber. A autópsia
acaba de ser concluída. A causa da morte é mesmo a que eu
conjeturava. Na verdade, o problema cardíaco era muito
mais grave do que eu suspeitava quando ela estava viva.
Mesmo com os mais extremos cuidados, ela não teria vivido
mais do que dois meses. Achei que você gostaria de saber.
Pode ser que o console um pouco.
- Perdão - disse Charles -, você se importaria em repetir o
que acabou de dizer?
- Ela não teria vivido mais do que dois meses - disse o
médico num tom um pouco mais alto. - No fim foi melhor
assim, meu caro companheiro...
No entanto, Charles bateu o telefone ao colocá-lo de volta
no gancho. Estava ciente de que a voz do advogado lhe dizia
algo da distância.
- Por Deus, sr. Ridgeway, o senhor está doente?
Para o inferno com todos eles! O advogado convencido.
Aquele velho peçonhento do Meynell. Sem mais esperanças
no horizonte, restava-lhe apenas as sombras das paredes da
prisão...
Sentiu que Alguém tinha estado brincando com ele,
brincando com ele como um gato faz com um rato. Alguém
deve estar rindo...

A SEGUNDA BATIDA DO GONGO

Joan Ashby saiu de seu quarto e ficou parada por um
instante à frente da soleira da porta. Preparava-se para dar
meia-volta para retornar ao quarto quando, debaixo dos seus
pés - ao que parecia -, um gongo soou.
Imediatamente Joan disparou para frente quase em ritmo de
corrida. Era tamanha a sua pressa que na parte superior da
grande escada ela se chocou contra um jovem que vinha na
direção contrária.
- Olá, Joan! Para que toda essa pressa?
- Desculpe-me, Harry. Eu não o vi.
- Sim, pude perceber - disse Harry Dalehouse causticamente.
- Mas como eu ia dizendo, para que toda essa afobação?
- Foi o gongo.
- Eu sei. Mas foi apenas a primeira batida.
- Não, foi a segunda.
- Primeira.
- Segunda.
Enquanto discutiam, foram descendo as escadas. Agora
estavam no corredor, onde o mordomo, tendo recolocado a
baqueta do gongo no lugar, avançava na direção deles com
passos graves e altivos.
- Foi a segunda - insistiu Joan. - Eu sei que foi. Bem, antes de
mais nada, olhe a hora.
Harry Dalehouse deu uma olhada no relógio de pêndulo.
- Oito horas e doze minutos - ele observou. - Joan, acho que
você está certa, mas não ouvi a primeira. Digby - ele se
dirigiu ao mordomo -, esta foi a primeira ou a segunda
batida?
- A primeira, senhor.
- Às 8h12? Digby, alguém vai ser despedido por isso.
Um leve sorriso surgiu por um instante no rosto do
mordomo.
- O jantar será servido dez minutos mais tarde esta noite,
senhor. Ordens do patrão.
- Incrível! - gritou Harry Dalehouse. - As coisas estão
chegando a um ponto crítico. Existem sempre novas
surpresas. O que aflige meu honrado tio?
- O trem das sete, senhor, atrasou meia hora, e como...
O mordomo travou quando um som parecendo o estalo de
um chicote foi ouvido.
- O que diabos... - disse Harry. - Ora, isso soou exatamente
como um tiro.
Um homem moreno e atraente, de 35 anos, saiu da sala de
visitas à esquerda deles.
- O que foi isso? - ele perguntou. - Soou exatamente como
um tiro.
- Deve ter sido um estouro no cano de descarga de algum
carro, senhor - disse o mordomo. - A estrada passa bem
perto deste lado da casa, e as janelas do segundo andar estão
abertas.
- Talvez - disse Joan com desconfiança. - Mas isso seria ali. -
Ela indicou com a mão para a direita. - E tenho a impressão
de que o barulho veio daqui. - Ela apontou para a esquerda.
O homem moreno sacudiu a cabeça.
- Eu acho que não. Eu estava na sala de visitas. Saí para este
lado porque pensei que o barulho vinha desta direção.
Ele fez um sinal com a cabeça na direção do gongo e da
porta da frente.
- Leste, oeste e sul, não é? - disse o irrefreável Harry. - Bem,
eu vou completar o quadro, Keene. Norte para mim. Tive a
impressão de que vinha de trás de nós. Alguém apresenta
uma outra possibilidade?
- Bem, sempre pode-se tratar de um assassinato - disse
Geoffrey Keene, sorrindo. - Como disse, srta. Ashby?
- Foi apenas um calafrio - disse Joan. - Não é nada. Aquilo
que a gente chama de um frio na espinha.
- Um bom palpite: assassinato - disse Harry. - Mas, ai de
mim! Sem gemidos, sem sangue? Receio que seja um
caçador atrás de um coelho.
- Uma possibilidade enfadonha, mas eu suponho que
acertada - concordou o outro. - Mas soou tão perto. De
qualquer forma, vamos passar à sala de visitas.
- Graças a Deus não estamos atrasados - disse Joan com
fervor. - Desci as escadas correndo como uma tola,
pensando que era o segundo gongo.
Entre risos, todos entraram na grande sala de visitas.
Lytcham Close era uma das casas antigas mais famosas da
Inglaterra. Seu dono, Hubert Lytcham Roche, era o último
descendente de uma grande linhagem, e mesmo os seus
parentes mais distantes estavam prontos a advertir que "O
velho Hubert, sabe, deveria ser realmente internado. Louco
de atar, o pobre coitado."
Excluído o exagero natural de alguns amigos e parentes,
sobrava alguma verdade. Hubert Lytcham Roche era, sem
dúvida, excêntrico. Apesar de ser um excelente músico, era
um homem de temperamento ingovernável e tinha uma
idéia quase anormal de sua própria importância. As pessoas
que freqüentavam sua casa tinham que respeitar suas manias;
do contrário, nunca mais eram convidadas.
Uma dessas manias era sua música. Se tocava para os
convidados, como fazia com freqüência à noite, exigia-se
nada menos que silêncio absoluto. Um comentário
sussurrado, o ruído de um vestido, mesmo um simples
movimento bastava para que ele se voltasse com um olhar
feroz, e lá se ia a chance do desafortunado visitante ser
novamente convidado.
Outro aspecto era a pontualidade absoluta para a principal
refeição do dia. O café-da-manhã era insignificante - podia-
se descer ao meio-dia se você assim desejasse. Quanto ao
almoço, a mesma coisa - uma refeição simples de carnes frias
e frutas em compota. Mas o jantar era um rito, um festival,
preparado por um cozinheiro cordon bleu que ele havia
persuadido, através de um salário fabuloso, a deixar um
grande hotel.
A primeira batida do gongo soava cinco minutos antes das
oito horas. Às oito e quinze a segunda batida se fazia ouvir, e
imediatamente depois a porta era aberta, o jantar anunciado
aos convidados reunidos, e um solene cortejo seguia até a
sala de jantar. Qualquer um que tivesse a ousadia de se
atrasar para a segunda batida do gongo era, daquele
momento em diante, excomungado - e Lytcham Close
estaria fechada para sempre para o desventurado comensal.
Por isso a ansiedade de Joan Ashby, e também o assombro
de Harry Dalehouse, ao ouvir que o evento sagrado seria
atrasado em dez minutos na noite em questão. Embora não
fosse muito próximo de seu tio, ele já havia ido a Lytcham
Close um número suficiente de vezes para saber quão rara
era essa ocorrência.
Geoffrey Keene, que era o secretário de Lytcham Roche,
também ficou muito surpreso.
- Extraordinário - ele comentou. - Eu nunca vi algo assim
acontecer. Você tem certeza?
- Foi Digby quem disse.
- Ele disse algo sobre um trem - disse Joan Ashby.
- Se não estou enganada.
- Estranho - disse Keene pensativo. - Saberemos com o
desenrolar dos eventos, suponho. Mas é muito curioso.
Os dois homens ficaram em silêncio por um instante,
observando a garota. Joan Ashby era uma criatura
encantadora, de olhos azuis e cabelos dourados, dotada de
um brilho maroto. Esta era a sua primeira visita a Lytcham
Close, e o convite havia sido feito por sugestão de Harry.
A porta se abriu, e Diana Cleves, a filha adotiva de Lytcham
Roche, entrou na sala.
Havia uma graça atrevida em Diana, uma feitiçaria de olhos
negros e língua insolente. Quase todos os homens se
apaixonavam por Diana e ela se comprazia com suas
conquistas. Uma criatura estranha, cuja sugestiva e tentadora
fogosidade encobria sua completa frieza.
- Pela primeira vez ganhei do velho - ela comentou. - É a
primeira vez em semanas que ele não chega primeiro,
olhando o relógio e dando passos barulhentos de um lado
para o outro, como um tigre na hora da ração.
Os dois jovens avançaram, ela sorriu de forma hipnótica para
eles, depois se virou para Harry. As faces escuras de
Geoffrey Keene ruborizaram enquanto ele recuava.
Recuperou-se, no entanto, logo depois, quando a senhora
Lytcham Roche entrou. Era uma mulher alta, morena,
naturalmente esquiva em suas maneiras. Estava usando uma
roupa esvoaçante de um tom indeterminado de verde. Com
ela estava um homem de meia-idade com um nariz aquilino
e um queixo destacado: Gregory Barling. Ele era uma figura
proeminente no mundo das finanças, bem-nascido por parte
de mãe. Havia vários anos, mantinha uma relação de íntima
amizade com Hubert Lytcham Roche.
Bum!
O gongo soou, imponente. Quando o som se extinguiu, a
porta foi aberta, e Digby anunciou:
- O jantar está servido.
Então, apesar de ser um criado bem-treinado, um lampejo
de completo espanto brotou em seus olhos.
Era evidente que o seu espanto foi compartilhado por todos.
A sra. Lytcham Roche soltou uma risada vacilante.
- É incrível. Realmente. Não sei o que fazer... Todos ficaram
perplexos. Toda a tradição de Lytcham
Close estava arruinada. O que poderia ter acontecido?
Cessaram as conversas. Havia um tenso ar de espera.
Finalmente a porta se abriu mais uma vez; um ar de alívio
circulou pelo ambiente, combinado a uma leve ansiedade
sobre como tratar a situação. Nenhum comentário que
pudesse ressaltar o fato de que o próprio anfitrião trans-
gredira a regra mais rigorosa da casa poderia ser feito.
Mas o recém-chegado não era Lytcham Roche. Ao contrário
do homem grande, barbudo, com a aparência de viking,
avançava em direção à longa sala de visitas um homem
muito pequeno, evidentemente um estrangeiro, de cabeça
oval, com um extravagante bigode e os mais irretocáveis
trajes de noite.
Com os olhos brilhando, o recém-chegado avançou em
direção à sra. Lytcham Roche.
- Minhas desculpas, madame - ele disse. - Creio que estou
um pouco atrasado.
- Oh, de maneira alguma! - murmurou a sra. Lytcham Roche
de maneira vaga. - De maneira alguma, senhor... - ela
vacilou.
- Poirot, madame. Hercule Poirot.
Ele ouviu atrás de si um suave "Oh" - mais para uma arfada
do que para uma palavra articulada -, uma exclamação
feminina. Talvez ele tenha se sentido lisonjeado.
- A senhora sabia que eu viria? - ele murmurou gentilmente.
- N'est-ce pas, madame? O seu marido lhe disse.
- Oh, oh sim - disse a sra. Lytcham Roche, de maneira
pouco convincente. - Quero dizer, acho que sim. Sou terri-
velmente desafeita às coisas práticas, sr. Poirot. Nunca me
lembro de nada. Mas felizmente Digby cuida de tudo.
- Meu trem atrasou - disse o senhor Poirot. - Um acidente
nos trilhos.
- Oh - exclamou Joan -, então é por isso que o jantar foi
atrasado.
Seu olhar rapidamente pousou sobre ela, um olhar sinistro e
perspicaz.
- Trata-se de algo incomum, então?
- Eu realmente não me lembro quando foi que... - começou
a falar a sra. Lytcham Roche e depois parou.
- Quero dizer - ela continuou confusamente -, é tão
estranho. Hubert nunca...
Poirot passou rapidamente os olhos pelo grupo.
- O senhor Lytcham Roche ainda não desceu?
- Não, e isso é tão espantoso - ela olhou suplicante para
Geoffrey Keene.
- O sr. Lytcham Roche é a pontualidade em pessoa -
explicou Keene. - Ele não se atrasa para o jantar desde, bem,
nunca vi ele se atrasar antes.
Para um estranho a situação deve ter sido cômica: os rostos
desnorteados e a consternação geral.
- Já sei - disse a sra. Lytcham Roche, com o ar de quem está
resolvendo um problema. - Vou tocar a sineta para chamar
Digby.
A ação acompanhou as palavras. O mordomo chegou
prontamente.
- Digby - disse a sra. Lytcham Roche -, o seu senhor. Ele
está...
Como era de costume, ela não terminou a frase. Estava claro
que o mordomo não esperava que ela o fizesse. Respondeu
prontamente e com simpatia.
- O sr. Lytcham Roche desceu às cinco para as oito e entrou
no escritório, senhora.
- Oh! - Ela fez uma pausa. - Você não acha, quero dizer, que
ele não ouviu o gongo?
- Eu acho que ele deve ter ouvido. O gongo fica muito
próximo à porta do escritório.
- Sim, claro, claro - disse a sra. Lytcham Roche, mais vaga do
que nunca.
- Eu devo informá-lo, senhora, de que o jantar está servido?
- Ah, obrigada, Digby. Sim, eu acho... Sim, sim, faça isso.
- Eu não sei - disse a sra. Lytcham Roche para os seus
convidados enquanto o mordomo se retirava - o que eu faria
sem o Digby!
Uma pausa se seguiu.
Então Digby voltou a entrar na sala. Sua respiração estava
um pouco mais rápida do que o esperado para um bom
mordomo.
- Desculpe-me, senhora. A porta do escritório está trancada.
Foi então que o sr. Hercule Poirot assumiu o controle da
situação:
- Eu acho - ele disse - que nós deveríamos ir até o escritório.
Abriu caminho e todos o seguiram. Sua suposta autoridade
parecia perfeitamente natural. Ele já não era o convidado de
aparência cômica. Era uma pessoa importante e o dono da
situação.
Liderou o caminho, saindo pelo corredor, passando pela
escadaria, pelo grande relógio, pelo nicho no qual ficava o
gongo. Exatamente em frente ao nicho havia uma porta
fechada.
Ele bateu na porta, primeiro gentilmente, depois com
crescente violência. Mas não houve resposta. Muito
agilmente ele se ajoelhou e colocou o olho na fechadura.
Levantou-se e olhou em volta.
- Messieurs - ele disse -, precisamos derrubar esta porta.
Imediatamente!
Assim como antes, ninguém questionou sua autoridade.
Geoffrey Keene e Gregory Barling eram os mais fortes.
Investiram contra a porta sob as instruções de Poirot. Não
era uma tarefa fácil. As portas de Lytcham Close eram
sólidas - nada de materiais baratos e modernos. A superfície
de madeira resistiu ao ataque bravamente, mas acabou
cedendo ao ataque dos homens, tombando para dentro.
O grupo hesitou na entrada da porta. Viram o que
inconscientemente temiam ver. A janela estava bem à sua
frente. À esquerda, entre a porta e a janela, havia uma
grande escrivaninha. Sentado, não exatamente na mesa, mas
à sua diagonal, estava um homem - um homem de grande
porte - inclinado para frente na cadeira. Suas costas estavam
voltadas para eles e seu rosto para a janela. Sua posição,
porém, permitia que se visse tudo: sua mão direita a pender
debilmente e, abaixo dela, no tapete, uma pistola pequena e
brilhante.
Poirot disse rapidamente a Gregory Barling:
— Tire a sra. Lytcham Roche daqui, e também as outras
duas damas.
O outro acenou compreensivo com a cabeça. Ele pousou a
mão sobre o braço de sua anfitriã. Ela tremia.
- Ele se matou - ela murmurou. - Horrível! - Com mais um
calafrio ela se deixou levar embora. As duas meninas a
seguiram.
Poirot avançou para dentro do aposento, os dois jovens atrás
dele.
Ele se ajoelhou ao lado do corpo, fazendo gestos para que
eles ficassem um pouco afastados.
Encontrou o furo da bala no lado direito da cabeça. A bala
havia atravessado o crânio e saído pelo outro lado, e havia,
evidentemente, acertado um espelho que estava pendurado
na parede à esquerda, visto que este estava rachado. Sobre a
escrivaninha estava uma folha de papel, quase em branco,
exceto pelas palavras ME DESCULPE rabiscadas numa
caligrafia hesitante e irregular.
Poirot olhou subitamente para trás, em direção à porta.
- A chave não está na fechadura - ele disse. - Será... Sua mão
deslizou para dentro do bolso do falecido.
- Aqui está - ele disse. - Pelo menos é o que parece. Tenha a
bondade de testar, monsieur.
Geoffrey Keene pegou a chave da mão de Poirot e a
encaixou na fechadura.
- É essa mesmo.
- E a janela?
Harry Dalehouse avançou em direção à janela.
- Fechada.
- Você me permite?
Rapidamente, Poirot se juntou ao outro na janela. Era uma
longa janela de batentes. Poirot a abriu, ficou parado por um
instante examinando a grama à frente, então voltou a fechá-
la.
- Meus amigos - ele disse -, precisamos telefonar para a
polícia. Até eles chegarem e se convencerem de que foi
mesmo suicídio nada pode ser tocado. A morte ocorreu no
máximo há quinze minutos.
- Eu sei - disse Harry com a voz rouca. - Nós ouvimos o tiro.
- Comment. O que você está dizendo?
Harry explicou com a ajuda de Geoffrey Keene. Quando ele
acabou de falar, Barling reapareceu.
Poirot repetiu o que havia dito antes, e quando Keene saiu
para telefonar, ele pediu a Barling que lhe respondesse
brevemente algumas perguntas.
Eles foram para um pequeno aposento, deixando Digby de
guarda do lado de fora do escritório, enquanto Harry foi
procurar as senhoras.
- O senhor era, pelo que sei, um amigo íntimo do sr.
Lytcham Roche - começou Poirot. - É por essa razão que eu
recorro primeiramente ao senhor. De acordo com a
etiqueta, talvez eu devesse falar primeiro com a senhora
Lytcham Roche, mas no momento isso não me parece
pratique.
Ele fez uma pausa.
- Eu estou, como senhor pode ver, numa situação muito
delicada. Vou expor os fatos francamente para o senhor. Sou
um detetive particular.
O financista sorriu de leve.
- Não é necessário que o senhor me diga isso, sr. Poirot. O
seu nome, a essas alturas, já é parte desta casa.
- Monsieur é muito amável - disse Poirot se curvando. -
Vamos em frente, então. Recebo, em meu endereço em
Londres, uma carta deste sr. Lytcham Roche. Nessa carta ele
diz que tem uma razão para acreditar que está sendo
fraudado em grandes somas de dinheiro. Por razões
familiares, como ele mesmo colocou, não quer envolver a
polícia no assunto, mas deseja que eu venha até sua casa e
investigue o caso para ele. Bem, eu concordo. Venho. Não
tão rápido quanto o senhor Lytcham Roche deseja, pois,
afinal, tenho outros afazeres, e o senhor Lytcham Roche
não é exatamente o rei da Inglaterra, apesar de ele parecer
acreditar que é.
Barling deu um sorriso oblíquo.
- Ele de fato se via dessa maneira.
- Exatamente. Oh, o senhor compreende, a carta dele
revelou de modo bastante claro que ele era o que se poderia
chamar de um homem muito original. Ele não era louco,
mas desequilibrado, n'est-ce pas?
- O que ele acaba de fazer deve mostrar isso.
- Oh, monsieur, mas o suicídio nem sempre é um ato de
desequilibrados. Um júri investigativo poderia assim
considerar, mas apenas para poupar os sentimentos dos que
ficam.
- Hubert não era um sujeito normal - disse Barling, decidido.
- Era dado a furores ingovernáveis, era monomaníaco no
que dizia respeito ao orgulho familiar, e tinha mais idéias
fixas do que qualquer um. Mas apesar de tudo, era um
homem muito astuto.
- Precisamente. Ele era astuto o suficiente para descobrir que
estava sendo roubado.
- Um homem comete suicídio porque está sendo roubado? -
perguntou Barling.
- Exato, monsieur. É ridículo. E isso me leva à necessidade de
pressa no caso. Por razões familiares, essa foi a frase que ele
utilizou na carta. Eh, bien, monsieur, o senhor é um homem
vivido, o senhor sabe que é precisamente por isto, por
razões familiares, que um homem, de fato, comete suicídio.
- O senhor quer dizer...?
- Que parece, à primeira vista, que ce pauvre monsieur havia
descoberto algo mais e não foi capaz de encarar o que
descobrira. Mas entenda, eu tenho um dever. Eu já estou
empregado, encarregado do caso, pois aceitei a tarefa. O
falecido não queria que essas "razões familiares" chegassem à
polícia. Então devo agir rapidamente. Tenho que descobrir a
verdade.
- E quando o senhor vai descobrir?
- Então... Bem, terei de usar minha discrição. Farei o que for
possível.
- Entendo - disse Barling. Ele fumou em silêncio por um ou
dois minutos, depois disse: - Ainda assim não creio que
possa ajudá-lo. Hubert nunca me confidenciou nada. Eu não
sei de nada.
- Mas diga-me, monsieur, quem, em sua opinião, teria chance
de roubar esse pobre homem?
- Difícil dizer. Claro, há o corretor de imóveis. Trata-se de
um novo funcionário.
- O corretor?
- Sim. Marshall. Capitão Marshall. Um sujeito muito
simpático, perdeu um braço na guerra. Veio para cá há um
ano. Mas Hubert gostava dele, eu sei, e também confiava
nele.
- Se era o capitão Marshall que o estava enganando, não
haveria razão para o silêncio.
- Não... não m-mesmo.
A hesitação não escapou aos olhos de Poirot.
- Fale, monsieur. Fale claramente. Eu lhe suplico.
- Pode ser apenas intriga.
- Por favor, fale.
- Pois bem. Vou falar. O senhor reparou numa jovem muito
atraente na sala de visitas?
- Reparei em duas.
- Ah, sim, a senhorita Ashby. Uma gracinha de menina. É a
sua primeira visita. Harry Dalehouse pediu para a sra.
Lytcham Roche convidá-la. Não, eu me refiro a uma garota
morena: Diana Cleves.
- Ela me chamou a atenção - disse Poirot. - É do tipo que
chamaria a atenção de qualquer homem, creio.
- Ela é o diabo em pessoa - explodiu Barling. - Ela já se
comportou de maneira leviana com todos os homens num
raio de trinta quilômetros. Alguém vai assassiná-la qualquer
dia desses.
Ele enxugou a testa com um lenço, sem se dar conta do
aguçado interesse que o outro lhe votava.
- E essa jovem é...
- É a filha adotiva de Lytcham Roche. Sofreram uma grande
decepção quando descobriram que não poderiam ter filhos.
Então adotaram Diana Cleves, que era uma espécie de prima
deles. Hubert era muito dedicado a ela, simplesmente a
idolatrava.
- Sem dúvida ele não ia gostar da idéia de ela se casar? -
sugeriu Poirot.
- A menos que ela se casasse com a pessoa certa.
- E a pessoa certa seria... o senhor, monsieur? Barling
arregalou os olhos e ruborizou.
- Em nenhum momento eu disse...
- Mais non, mais non! O senhor não disse nada. Mas era isso
mesmo, não era?
- Sim, eu me apaixonei por ela. Lytcham Roche estava feliz
com a idéia. Isso estava de acordo com os planos que ele
tinha para ela.
- E quanto à mademoisellé?
- Eu já lhe disse: ela é o demônio encarnado.
- Compreendo. Ela tem suas próprias idéias do que é se
divertir, não é verdade? Mas e o capitão Marshall, onde ele
entra?
- Bem, os dois têm se encontrado. As pessoas comentam.
Não que eu pense que haja alguma coisa aí. Puro falatório.
Só isso.
Poirot concordou com a cabeça:
- Mas supondo que tenha havido mesmo algo... Bem, então
talvez isso possa explicar por que o senhor Lytcham Roche
desejava proceder cautelosamente.
- O senhor entende, não entende, que não há nenhuma
razão visível para suspeitar que Marshall tenha sido o
responsável pelo desfalque?
- Oh, parfaitement, parfaitement! Pode ser um caso de
falsificação de cheque em que alguém da casa está
envolvido. E esse jovem sr. Dalehouse, quem é?
- Um sobrinho.
- Será o herdeiro, não é?
- Ele é o filho de uma irmã. É provável que vá assumir o
nome: não há mais nenhum Lytcham Roche.
- Entendo.
- A propriedade não está exatamente vinculada, apesar de
sempre ter passado de pai para filho. Sempre imaginei que
ele deixaria a casa para a esposa enquanto ela vivesse e
depois talvez para Diana, se ele aprovasse seu casamento. O
senhor vê, o marido poderia assumir o nome.
- Compreendo - disse Poirot. - O senhor foi muito gentil e
útil para mim, monsieur. Posso lhe pedir mais uma coisa? Para
explicar à sra. Lytcham Roche tudo o que eu lhe disse e
suplicar a ela que me conceda um minuto?
Mais rápido do que ele esperava, a porta se abriu e a sra.
Lytcham Roche entrou. Ela andou suavemente até uma
cadeira.
- O sr. Barling me explicou tudo - ela disse. - Não há
necessidade de fazer escândalo, não é mesmo? Embora eu
sinta realmente que foi obra do destino, o senhor não acha?
Quero dizer, por causa do espelho e tudo mais.
- Comment? O espelho?
- No momento em que o vi... aquilo parecia um símbolo. De
Hubert! Uma maldição, sabe. Acho que famílias antigas
freqüentemente têm maldições. Hubert sempre foi muito
estranho. Ultimamente andava mais estranho do que nunca.
- A senhora me perdoe a pergunta, madame, mas a senhora
não está, sob nenhum aspecto, mal de dinheiro?
- Dinheiro? Eu nunca penso em dinheiro.
- A senhora sabe o que dizem por aí, madame? Aqueles que
nunca pensam em dinheiro normalmente são os que mais
precisam dele.
Ele arriscou uma pequena risada. Ela não correspondeu. Os
olhos dela miravam algum ponto ao longe.
- Muito obrigado, senhora - ele disse, e a entrevista chegou
ao fim.
Poirot tocou a sineta e Digby atendeu.
- Pedirei que o senhor me responda algumas perguntas -
disse Poirot. - Sou um detetive particular contratado pelo
seu patrão antes de ele morrer.
- Um detetive! - o mordomo disse ofegante. - Como assim?
- Por favor, responda às minhas perguntas. Quanto ao tiro...
Ele ouviu o relato do mordomo.
- Então havia quatro pessoas no saguão?
- Sim, senhor; o sr. Dalehouse e a srta. Ashby, e o sr. Keene,
que veio da sala de visitas.
- E onde estavam os outros?
- Os outros, senhor?
- Sim, a sra. Lytcham Roche, a srta. Cleves e o sr. Barling.
- A sra. Lytcham Roche e o sr. Barling desceram mais tarde,
senhor.
- E a srta. Cleves?
- Eu acho que a senhorita Cleves estava na sala de visitas,
senhor.
Poirot fez mais algumas perguntas, depois dispensou o
mordomo com a ordem de que pedisse à srta. Cleves que
viesse vê-lo.
Ela atendeu imediatamente à convocação, e ele a estudou
atentamente tendo em vista as revelações de Barling. Era
mesmo bela, em seu vestido branco de cetim com o botão
de rosa no ombro.
Ele explicou as circunstâncias que o haviam trazido a
Lytcham Close, examinando-a cuidadosamente, mas ela
demonstrou apenas o que parecia ser genuína surpresa, sem
nenhum sinal de inquietação. Ela falou sobre Marshall com
indiferença ainda que num tom de aprovação. Apenas com a
menção do nome de Barling ela demonstrou certa animação.
- Aquele homem é um vigarista - ela disse categoricamente.
- Eu disse isso ao Velho, mas ele não quis me escutar:
continuou colocando dinheiro nos negócios podres dele.
- A senhorita está triste, mademoiselle, que o seu pai esteja
morto?
Ela o encarou.
- É claro. Sou moderna, sabe, sr. Poirot. Não sou de ficar
choramingando ou coisas do tipo. Mas eu gostava do velho.
Embora, sem dúvida, tenha sido melhor para ele.
- Melhor para ele?
- Sim. Qualquer dias desses ele teria de ser internado. Estava
crescendo dentro dele essa crença de que o último Lytcham
Roche de Lytcham Close era onipotente.
Poirot concordou com a cabeça.
- Entendo, entendo sim... sinais evidentes de perturbação
mental. A propósito, a senhorita permite que eu observe a
sua bolsinha? É encantadora, todos esses botões de rosa de
seda... O que eu estava dizendo? Ah, sim, a senhorita ouviu
o disparo?
- Oh, sim! Mas pensei que fosse um carro ou um caçador, ou
algo assim.
- A senhorita estava na sala de visitas?
- Não, eu estava no jardim.
- Muito bem. Obrigado, mademoiselle. Agora eu gostaria de ver
o senhor Keene, é isso?
- Geoffrey? Vou dizer a ele que venha.
Keene entrou no aposento, alerta e interessado.
- O sr. Barling estava me contando sobre a razão que o
trouxe aqui. Não sei se há algo que eu possa lhe contar, mas
se eu puder...
Poirot o interrompeu.
- Só quero saber uma coisa, monsieur Keene. O que foi o que o
senhor parou para juntar do chão, pouco antes de
chegarmos à porta do escritório há pouco?
- Eu... - Keene deu um pequeno pulo da cadeira, depois
voltou a se acomodar. - Não sei do que o senhor está falando
- ele disse de modo fraco.
- Ah, eu acho que o senhor sabe, monsieur. O senhor estava
atrás de mim, eu sei, mas tenho um amigo que diz que eu
tenho olhos atrás da cabeça. O senhor pegou alguma coisa e
colocou no bolso direito de seu paletó.
Houve uma pausa. Podia-se ler claramente a indecisão no
atraente rosto de Keene. Finalmente ele se decidiu.
- Pode escolher, senhor Poirot - ele disse e, inclinando-se
para frente, virou os bolsos do avesso. Havia uma piteira, um
lenço, um pequeno botão de rosa de seda e uma pequena
caixa de fósforos dourada.
Após um momento de silêncio, Keene disse:
- Para falar a verdade foi isso - ele pegou a caixa de fósforos.
- Devo tê-la deixado cair, mais cedo.
- Acho que não - disse Poirot.
- O que o senhor quer dizer com isso?
- Aquilo que estou dizendo. Eu, monsieur, sou um homem
meticuloso, metódico, ordeiro. Uma caixa de fósforos no
chão, eu a teria visto e juntado. Uma caixa de fósforos deste
tamanho, com certeza eu a teria visto! Não, monsieur, eu
acho que foi uma coisa muito menor, como isto, talvez.
Ele pegou o pequeno botão de rosa de seda.
- Da bolsa da srta. Cleves, eu suponho?
Houve um momento de hesitação, então Keene admitiu
com uma risada.
- Sim, é isso mesmo. Ela me deu ontem à noite.
- Muito bem - disse Poirot, e neste momento a porta se
abriu, e um homem alto, de cabelos claros, vestido com um
traje de passeio, avançou para dentro do aposento.
- Keene! O que é isso? Lytcham Roche se matou? Nossa, não
posso acreditar. E incrível.
- Deixe-me apresentá-lo - disse Keene - ao senhor Hercule
Poirot. Ele vai lhe contar tudo - e saiu da sala batendo a
porta.
- Sr. Poirot - John Marshall estava ávido -, muitíssimo prazer
em conhecê-lo. Foi um pouco de sorte eu ter encontrado o
senhor aqui. Lytcham Roche não me disse que o senhor
viria. Sou um grande admirador do seu trabalho.
"Um jovem fascinante", pensou Poirot - mas nem tão
jovem, pois tinha cabelos grisalhos nas têmporas e finas
rugas na testa. Eram sua voz e suas maneiras que lhe davam
um certo ar juvenil.
- A polícia...
- Eles estão aqui, senhor. Subi com eles enquanto ouvia as
notícias. Não pareciam particularmente surpresos. Claro que
ele era louco de atar, mas mesmo assim...
- Mesmo assim o senhor está surpreso com o fato de ele ter
cometido suicídio?
- Para falar a verdade, sim. Jamais teria pensado que... bem,
que Lytcham Roche pudesse imaginar que o mundo sem ele
continuaria a girar.
- Ele teve problemas financeiros recentemente, não é?
Marshall concordou com a cabeça.
- Ele especulava. Os esquemas arriscados de Barling. Poirot
disse calmamente:
- Serei muito franco. O senhor tinha alguma razão para supor
que o sr. Lytcham Roche suspeitasse que o senhor estava
manipulando indevidamente suas contas?
Marshall fitou Poirot com uma espécie de perplexidade
cômica. Tão cômica que Poirot teve que sorrir.
- Vejo que o senhor está totalmente perplexo, capitão
Marshall.
- Sim, naturalmente. Essa é uma idéia ridícula. - Ah! Uma
outra pergunta. Ele não suspeitava que o senhor estivesse
prestes a lhe tomar a filha adotiva?
- Oh, então o senhor sabe sobre mim e Di? - ele riu de
maneira embaraçada.
- É verdade, então? Marshall assentiu com a cabeça.
- Mas o velho não sabia de nada. Di não permitiria que lhe
contassem. Acho que ela estava certa. Ele teria ficado uma
fera. Eu teria sido escorraçado do meu emprego e ficaria
tudo por isso mesmo.
- E, em lugar disso, qual era o seu plano?
- Bem, palavra de honra, senhor, nem eu sei. Deixei que Di
cuidasse disso. Ela disse que daria um jeito. Na verdade, eu já
estava procurando um emprego. Se encontrasse, deixaria
este.
- E mademoiselle teria se casado com o senhor? Mas o sr.
Lytcham Roche poderia ter cortado a pensão dela.
Mademoiselle Diana, pelo que pude perceber, é apaixonada por
dinheiro.
Marshall pareceu um tanto constrangido.
- Eu tentaria compensá-la de alguma maneira, senhor.
Geoffrey Keene entrou na sala.
- Os policiais já estão de saída e gostariam de vê-lo, sr.
Poirot.
- Merci. Já vou.
No escritório estavam um robusto inspetor e o médico da
polícia.
- Sr. Poirot? - disse o inspetor. - Ouvimos falar do senhor. Eu
sou o inspetor Reeves.
- O senhor é muito gentil - disse Poirot, enquanto trocavam
um aperto de mãos. - O senhor não precisa da minha
colaboração, não é? - ele deu uma risadinha.
- Desta vez não, senhor. Tudo está correndo sem maiores
dificuldades.
- O caso está perfeitamente esclarecido, então? - perguntou
Poirot.
- Absolutamente. Porta e janela fechadas, chave da porta no
bolso do falecido. Comportamento estranho nos últimos
dias. Nenhuma dúvida.
- Tudo muito... natural?
O médico resmungou.
- Ele devia estar sentado num ângulo muito incomum para
que a bala pudesse atingir aquele espelho. Mas suicídio é
mesmo um negócio incomum.
- O senhor encontrou a bala?
- Sim, aqui está. - O médico mostrou a bala. - Perto da
parede abaixo do espelho. A arma pertencia ao sr. Roche.
Ele a guardava na gaveta da escrivaninha. Tem alguma coisa
por trás disso, eu diria, mas o quê, nós nunca saberemos.
Poirot assentiu com a cabeça.
O corpo havia sido levado para um quarto. A polícia agora se
despedia. Poirot ficou parado na porta, observando-os partir.
Um ruído fez com que ele se virasse. Harry Dalehouse
estava atrás dele, muito próximo.
- O senhor tem, por acaso, uma lanterna potente, meu
amigo? - perguntou Poirot.
- Sim, vou buscá-la para o senhor.
Quando voltou com a lanterna, Joan Ashby estava com ele.
- Vocês podem me acompanhar se quiserem - disse Poirot
cortesmente.
Ele saiu pela porta da frente e virou à direita, parando diante
da janela do escritório. Pouco menos de dois metros de
gramado a separavam da passagem pavimentada. Poirot se
agachou, iluminando a grama com a lanterna. Ele se
levantou e balançou a cabeça.
- Não - ele disse -, ali não.
Então ele parou e lentamente seu corpo endureceu. Em cada
lado do gramado havia um enorme canteiro de flores. A
atenção de Poirot estava focada no canteiro do lado direito,
cheio de ásteres silvestres e dálias. O facho estava
direcionado para a frente do leito. Nítidas na terra macia,
havia pegadas.
- Quatro pegadas - murmurou Poirot. - Duas na direção da
janela, duas em sentido contrário.
- Um jardineiro - sugeriu Joan.
- Não, mademoiselle, não. Olhe bem. Estes sapatos são
pequenos, delicados, de salto alto, sapatos femininos.
Mademoiselle Diana mencionou ter estado no jardim. A
senhorita sabe se ela desceu antes da senhorita, mademoiselle?
- Não me lembro. Eu estava com muita pressa porque o
gongo tinha soado, e pensava já ter ouvido o primeiro. Acho
que a porta do quarto dela estava aberta quando passei pelo
corredor, mas não tenho certeza. A da sra. Lytcham Roche
estava fechada, isso eu sei.
- Muito bem.
Alguma coisa em sua voz fez com que Harry levantasse os
olhos repentinamente, mas Poirot estava apenas franzindo
de leve as sobrancelhas para si mesmo.
Na porta de entrada, encontraram Diana Cleves.
- A polícia já foi - ela disse. - Está tudo terminado. Ela
suspirou profundamente.
- Posso pedir que a senhorita me conceda um dedo de prosa,
mademoiselle?
Ela seguiu até um pequeno aposento e Poirot a seguiu,
fechando a porta.
- E então? - ela parecia um pouco surpresa.
- Uma perguntinha, mademoiselle. A senhorita esteve esta
noite, em algum momento, no canteiro de flores do lado de
fora da janela do escritório?
- Sim - ela acenou com a cabeça. - Por volta das sete horas e
mais uma vez quase na hora do jantar.
- Não estou entendendo - ele disse.
- Não creio que haja nada para "entender", como o senhor
diz - ela disse friamente. - Estava colhendo uns ásteres para a
mesa. Sempre faço o arranjo de flores. Isso foi por volta das
sete.
- E depois? O que mais fez depois?
- Ah, sim! O que aconteceu foi que derrubei uma gota de
óleo para o cabelo no meu vestido, bem aqui no ombro. Foi
quando eu estava prestes a descer. Eu não queria trocar de
vestido. Lembrei-me que tinha visto um botão de rosa no
canteiro. Então fui correndo até lá, colhi-o e o prendi com
um alfinete. Está vendo?
Ela chegou perto dele e levantou a rosa. Poirot viu a
minúscula mancha de óleo. Ela permaneceu perto dele, seu
ombro quase roçando no dele.
- E a que horas foi isso?
- Oh, por volta das oito e dez, acho.
- A senhorita não tentou entrar pela janela?
-Acho que tentei. Sim, pensei que seria mais rápido entrar
pela janela. Mas estava trancada.
- Entendo - Poirot respirou profundamente. - E o tiro - ele
disse -, onde a senhorita estava quando o ouviu? Ainda no
canteiro de flores?
- Oh, não, isso foi uns dois ou três minutos depois, logo
antes de eu entrar pela porta do lado.
- A senhorita sabe o que é isto, mademoiselle?
Na palma da mão de Poirot estava o pequeno botão de rosa
de seda. Ela o examinou tranqüilamente.
- Parece com um dos botões de rosa da minha bolsinha.
Onde o senhor o achou?
- Estava no bolso do sr. Keene - disse Poirot cáusticamente. -
A senhorita deu isso a ele, mademoiselle?
- Ele lhe disse que eu dei isso para ele?
Poirot sorriu.
- Quando foi que a senhorita deu isso para ele?
- Ontem à noite.
- Ele a advertiu para dizer isso, mademoiselle?
- O que o senhor quer dizer com isso? - ela perguntou
furiosamente.
Mas Poirot não respondeu. Saiu da sala a passos largos e
entrou na sala de visitas. Barling, Keene e Marshall estavam
lá. Ele foi diretamente até eles.
- Messieurs - ele disse bruscamente -, os senhores podem me
seguir até o escritório?
Saiu em direção ao saguão e se dirigiu a Joan e Harry.
- Vocês também, por favor. E alguém pode pedir para a
madame descer? Muito obrigado. Ah! E aqui está o excelente
Digby. Digby, uma perguntinha, uma perguntinha muito
importante. A srta. Cleves fez um arranjo de ásteres antes do
jantar?
O mordomo parecia espantado.
- Sim, senhor, fez.
- Você tem certeza?
- Certeza absoluta, senhor.
- Três bien. Agora, venham todos.
Dentro do escritório, ele os encarou.
- Pedi para que viessem aqui por uma razão. O caso está
encerrado, a polícia já veio e já partiu. Eles disseram que o
sr. Lytcham Roche se suicidou. Está tudo terminado
- ele fez uma pausa. - Mas eu, Hercule Poirot, digo que não
está terminado.
Enquanto os olhos chocados se voltavam para ele, a porta se
abriu e a sra. Lytcham Roche entrou no aposento.
- Eu estava dizendo, madame, que este caso não está
encerrado. É uma questão de psicologia. O sr. Lytcham Ro-
che sofria de manie degrandeur, tinha para si que era um rei.
Um homem assim não se mata. O sr. Lytcham Roche não se
matou. - Fez uma nova pausa. - Ele foi assassinado.
- Assassinado? - Marshall deu uma risada curta.
- Sozinho, numa sala com a porta e a janela trancadas?
- Ainda assim - disse Poirot resolutamente -, ele foi
assassinado.
- E depois se levantou para trancar a porta ou fechar a janela,
suponho - disse Diana sarcasticamente.
- Vou lhes mostrar uma coisa - disse Poirot, indo em direção
à janela. Ele girou o trinco da janela de batentes e depois a
puxou suavemente.
- Estão vendo, está aberta. Agora vou fechá-la, mas sem girar
o trinco. Agora a janela está fechada, mas não trancada.
Agora!
Ele deu um pequeno golpe e o trinco foi acionado, lançando
o pino para dentro de seu buraco.
- Estão vendo? - disse Poirot suavemente. - Este mecanismo
é muito fraco. Isso poderia ter sido feito pelo lado de fora
facilmente.
Ele se virou de maneira austera.
- Quando o tiro foi disparado, às 8hl2, havia quatro pessoas
no saguão. Quatro pessoas têm um álibi. Onde estavam as
outras três? A senhora, madame? Em seu quarto. E o senhor,
monsieur Barling? Também estava em seu quarto?
- Estava.
- E a senhorita, mademoiselle, estava no jardim, como já
admitiu.
- Eu não vejo... - começou Diana.
- Espere - ele se voltou para a sra. Lytcham Roche.
- Diga-me, madame, a senhora tem alguma idéia de como o
seu marido dividiu o dinheiro dele no testamento?
- Hubert o leu para mim. Ele disse que eu deveria saber. Ele
me deixou três mil por ano, taxáveis sobre o espólio, e a casa
de meu dote ou nossa casa na cidade, a que eu preferisse.
Todo o resto ele deixou para Diana, na condição de que se
ela se casasse o marido teria que assumir o nome da família.
-Ah!
- Mas depois ele acrescentou uma nova cláusula, algumas
semanas atrás.
- Sim, madame?
- Ele ainda deixava tudo para Diana, mas com a condição de
que ela se casasse com o sr. Barling. Se ela se casasse com
qualquer outra pessoa, tudo ficaria para o seu sobrinho,
Harry Dalehouse.
- Mas a cláusula adicional foi feita há poucas semanas
- murmurou Poirot. - Mademoiselle pode não ter tomado
conhecimento disso. - Ele avançou na direção dela de forma
acusativa. - Mademoiselle Diana, a senhorita quer se casar com
o capitão Marshall, não é? Ou com o sr. Keene?
Ela atravessou o ambiente e deu seu braço ao leal Marshall.
- Continue - ela disse.
- Erguerei o caso contra a senhorita, mademoiselle. A senhorita
amava o capitão Marshall. A senhorita também ama o
dinheiro. Seu pai adotivo jamais consentiria que a senhorita
se casasse com o capitão Marshall, mas se ele morresse a
senhorita estaria absolutamente certa de que herdaria tudo.
Então a senhorita sai, caminha sobre o canteiro de flores até
a janela que está aberta, leva consigo a arma que havia
pegado de dentro da gaveta da escrivaninha. A senhorita vai
até a sua vítima falando amavelmente. Atira. Deixa a arma
perto da mão dele, depois de tê-la limpado e pressionado os
dedos da vítima contra o cabo da mesma. A senhorita sai de
novo, sacudindo a janela até que o pino caia. Entra em casa.
Não foi isso o que aconteceu, mademoiselle?
- Não! - gritou Diana. - Não, não!
Ele a olhou e depois sorriu.
- Não - ele disse -, não foi assim. Poderia até ter sido, é
plausível, é possível, mas não foi o que ocorreu por duas
razões. A primeira é que a senhorita colheu os ásteres às sete
horas; e a segunda razão deriva de algo que mademoiselle me
disse há pouco.
Ele se virou para Joan, que o fitou espantada. Ele acenou
com a cabeça para encorajá-la.
- Sim, mademoiselle. A senhorita me disse que desceu correndo
as escadas porque pensou que o gongo soava pela segunda
vez, visto que acreditava já ter ouvido a primeira batida.
Ele deu uma rápida olhadela ao redor do ambiente.
- Os senhores não vêem o que isso significa? - ele gritou. -
Os senhores não vêem? Olhem! Olhem! - Ele foi num salto
até a cadeira onde a vítima havia sentado. - Os senhores
notaram como estava o corpo? Não estava posicionado
corretamente em relação à mesa. Não. Estava de lado para
ela, de frente para a janela. Essa é uma maneira natural de se
cometer suicídio? Jamais, jamais! Você escreve o seu bilhete,
"me desculpe", num pedaço de papel, abre a gaveta, tira a
pistola, segura-a contra a sua cabeça e atira. É assim que se
comete suicídio. Mas agora pensem em assassinato! A vítima
está sentada em sua escrivaninha, o assassino está ao seu
lado, conversando. E ainda conversando, atira. Para onde vai
a bala? - Ele fez uma pausa. - Atravessa a cabeça, atravessa a
porta se estiver aberta e, então, atinge o gongo.
"Ah! Os senhores começam a enxergar? Essa foi a primeira
batida do gongo, que só foi ouvida pela mademoiselle, pois o
seu quarto fica logo acima.
"O que o nosso assassino faz na seqüência? Fecha a porta, e a
tranca, coloca a chave no bolso do falecido, vira o corpo
para o lado na cadeira, pressiona os dedos do falecido na
arma e depois a posiciona sob sua mão, racha o espelho na
parede como o grandioso toque final. Em resumo, 'constrói'
o suicídio. Então sai pela janela, o pino é sacudido e volta
para o seu lugar; o assassino pisa não na grama, onde as
pegadas seriam evidentes, mas no canteiro de flores, onde
elas podem ser aplainadas, eliminando os rastros. Depois
volta para dentro de casa e, às 8h12, quando está sozinho na
sala de visitas, dá um tiro de revólver pela janela da sala de
visitas e corre para o saguão. Foi assim que o senhor agiu, sr.
Geoffrey Keene?"
Fascinado, o secretário encarou o acusador que se
aproximava dele. Então, com um grito rouco, ele desabou no
chão.
- Creio que aí está a minha resposta - disse Poirot.
- Capitão Marshall, o senhor poderia ligar para a polícia?
- Ele se inclinou sobre a figura prostrada. - Acho que ele
ainda estará inconsciente quando eles chegarem.
- Geoffrey Keene - murmurou Diana. - Mas que motivo ele
poderia ter?
- Acho que como secretário ele tinha certas oportunidades,
certo controle sobre as contas. Alguma coisa despertou as
suspeitas do sr. Lytcham Roche. Ele mandou me chamar.
- Por que o senhor? Por que não a polícia?
- Eu creio, mademoiselle, que a senhorita pode responder a
esta pergunta. Monsieur suspeitava que havia algo entre a
senhorita e o sr. Keene. Para que seu pai não desconfiasse do
seu relacionamento com o capitão Marshall, a senhorita
flertava descaradamente com Geoffrey Keene. Tudo bem, a
senhorita não precisa negar! O sr. Keene é informado sobre
a minha vinda e resolve agir de imediato. A essência do seu
plano é que o crime precisa ter ocorrido aparentemente às
8hl2, quando ele tem um álibi. O único perigo é a bala, que
deve estar caída em algum lugar perto do gongo e a qual ele
não teve tempo de recolher. Quando estamos todos a
caminho do escritório, ele a junta. O momento é tão tenso
que ele acha que ninguém vai reparar. Mas eu, eu reparo em
tudo! Pergunto a ele sobre isso. Ele reflete por um minuto e
resolve fazer teatro! Ele insinua que o que ele havia pegado
era o botão de rosa de seda, interpreta o papel do jovem
apaixonado protegendo a mocinha que ama. Oh, ele foi
muito esperto, e se a senhorita não tivesse colhido os
ásteres...
- Eu não entendo, o que as flores têm a ver com isso?
- A senhorita não entende? Veja, havia apenas quatro
pegadas no canteiro, mas quando a senhorita estava
colhendo as flores deve ter feito muito mais que isso. Logo,
entre o momento em que a senhorita estava colhendo as
flores e o momento em que desceu para pegar o botão de
rosa, alguém deve ter encoberto o canteiro. Não pode ter
sido o jardineiro, nenhum jardineiro trabalha depois das
sete. Então teria de ser alguém que tinha culpa no cartório.
Só podia ser o assassino... Afinal, o assassinato foi cometido
antes de o tiro ser ouvido pelos outros.
- Mas então por que ninguém ouviu o tiro de fato?
- perguntou Harry.
- Um silenciador. Eles o encontrarão junto com o revólver,
jogado no meio dos arbustos.
- Mas que enorme risco!
- Por que risco? Todos estavam no andar de cima se
arrumando para o jantar. Era um ótimo momento. A bala era
o único contratempo, e até isso, pensava ele, ninguém tinha
percebido.
Poirot pegou a bala.
- Ele a jogou para perto do espelho quando eu estava
examinando a janela com o sr. Dalehouse.
- Oh! - Diana voltou-se para Marshall. - Case-se comigo,
John, e me leve embora.
Barling tossiu.
- Minha querida Diana, segundo os termos do testamento do
meu amigo...
- Eu não me importo! - gritou a garota. - Nem que tenhamos
que pintar calçadas.
- Não há necessidade de fazer isso - disse Harry.
- Dividiremos tudo meio a meio, Di. Eu não vou embolsar
tudo só porque o tio era maluco.
De repente, ouviu-se um grito. A sra. Lytcham Roche
levantou-se de um salto.
- Sr. Poirot, o espelho... ele, ele deve tê-lo quebrado de
propósito.
- Sim, madame.
- Oh! - ela o fitou. - Mas quebrar um espelho traz má sorte.
- De fato, trouxe má sorte ao sr. Geoffrey Keene
- disse Poirot alegremente.

POIROT SEMPRE ESPERA

Lily Margrave alisou as luvas sobre os joelhos num gesto
nervoso e lançou um olhar para o ocupante da grande
poltrona à sua frente.
Ela ouvira falar de Monsieur Hercule Poirot, o famoso
investigador, mas era a primeira vez que o via em carne e
osso.
O aspecto cômico e quase ridículo que ele apresentava
provocara um distúrbio na concepção que havia feito dele.
Poderia esse homenzinho engraçado, com a cabeça em
forma de ovo e o enorme bigode, realmente fazer as
maravilhas que lhe atribuíam? No momento, aquilo de que
se ocupava parecia a ela algo particularmente infantil. Ele
empilhava pequenos blocos de madeira coloridos, um sobre
o outro, e parecia bem mais interessado nos resultados da
atividade do que na história que ela lhe contava.
No entanto, diante do silêncio súbito dela, ele a encarou
agudamente.
- Mademoiselle, continue, por favor. Não pense que não lhe
dou atenção, posso lhe garantir que é justamente o
contrário.
Começou a empilhar os pequenos blocos novamente, um
sobre o outro, enquanto a voz da garota retomava a história.
Era uma história horripilante, uma história de violência e
tragédia, mas a voz seguia tão calma e indiferente, o relato
era tão conciso que qualquer coisa de humano parecia ter
sido deixada de fora dele.
Por fim ela terminou.
- Espero - ela disse com ansiedade - que eu tenha esclarecido
tudo.
Poirot, de modo enfático, assentiu diversas vezes com a
cabeça. Derrubou os blocos de madeira com um golpe de
mão, espalhando-os sobre a mesa, e, recostando-se na
poltrona, as pontas dos dedos pressionadas umas contra as
outras e os olhos no teto, começou a recapitular.
- Sir Reuben Astwell foi morto dez dias atrás. Na quarta-feira,
anteontem, o sobrinho dele, Charles Leverson, foi preso
pela polícia. As evidências contra ele são, até o presente
momento, pelo que sabemos, e corrija-me, mademoiselle, se
eu estiver errado, as seguintes: Sir Reuben ficou escrevendo
até tarde em seu recanto especial, a sala da Torre. O sr.
Leverson chegou tarde e entrou usando uma chave de
trinco. A discussão que teve com o tio foi ouvida pelo
mordomo, cujo quarto está posicionado exatamente embaixo
da sala da Torre. A discussão terminou com um repentino e
surdo baque, como se uma cadeira tivesse sido derrubada,
seguido de um grito abafado.
"O mordomo ficou alarmado e pensou em se levantar para
ver o que estava acontecendo, mas, alguns segundos depois,
ouviu o sr. Leverson deixar o quarto, assobiando
animadamente uma melodia, e assim tirou o assunto da
cabeça. Na manhã seguinte, no entanto, uma criada
descobriu o corpo de Sir Reuben junto à escrivaninha. Ele
fora golpeado por algum tipo de instrumento pesado. O
mordomo, suponho, ainda não contou sua versão da história
para a polícia. Era de esperar, presumo. Não é verdade,
mademoiselle?
A pergunta abrupta fez Lily Margrave se assustar.
- O que foi que o senhor disse?
- Sempre esperamos que esse tipo de assunto seja tratado
com humanidade, não é mesmo? - disse o homenzinho. -
Enquanto a senhorita me fazia o seu relato, de modo tão
admirável, tão conciso, transformava os atores deste drama
em meras marionetes. Quanto a mim, porém, busco sempre
os aspectos da natureza humana. Digo para meus botões que
esse mordomo, como é mesmo o nome dele?
- Seu nome é Parsons.
- Esse Parsons, então, manterá os elementos característicos
de sua classe, resistirá fortemente a revelar algo à polícia,
dirá a eles o mínimo possível. Acima de tudo, não dirá nada
que possa incriminar um membro da família. Um invasor,
um assaltante, ele vai se aferrar a essa idéia com toda a força
de uma extrema obstinação. Sim, a lealdade das classes servis
é um interessante tema de estudo.
Radiante, ele voltou a se recostar.
- Nesse meio-tempo - continuou -, todos os moradores da
casa já deram suas versões dos fatos, o sr. Leverson entre
eles, e na versão dele o que consta é que chegou já tarde e
foi dormir, sem ver o tio.
- Foi isso o que ele disse.
- E ninguém viu motivo para duvidar - refletiu Poirot -,
excetuado, claro, Parsons. Então aparece um inspetor da
Scotland Yard, inspetor Miller, a senhorita disse, não? Eu o
conheço. Cruzei com ele uma ou duas vezes no passado. Ele
é o que chamam de um sujeito arguto, um investigador, um
farejador.
"Sim, eu o conheço! E o arguto inspetor Miller, bem, ele vê
o que o inspetor local não tinha visto, que Parsons está
ansioso e incomodado, e que sabe de alguma coisa que ainda
não revelou. Eh bien, ele tem pouco trabalho com o Parsons.
A essa altura, já está devidamente provado que ninguém
invadiu a casa naquela noite, que o assassino deve ser
procurado dentro e não fora da casa. E Parsons está infeliz e
assustado e se sente mais do que aliviado de ter o segredo
arrancado de si.
"Ele tinha dado o seu melhor para evitar um escândalo, mas
há limites; e então o inspetor Miller escuta a história de
Parsons, faz uma ou duas perguntas e logo passa a investigar
por sua própria conta. O caso que ele montou é bastante
forte, bastante forte.
"Havia marcas de dedos ensangüentados no canto do baú na
sala da Torre, e as impressões digitais eram as de Charles
Leverson. A criada disse a ele que esvaziara uma bacia de
água ensangüentada no quarto do sr. Leverson na manhã
seguinte ao crime. Ele explicou a ela que havia cortado o
dedo, e ele tinha, de fato, um pequeno corte ali, mas um
corte mínimo! O punho da manga de sua camisa havia sido
lavado, mas eles encontraram manchas de sangue na manga
de seu casaco. Ele estava precisando de dinheiro e seria
beneficiado em testamento com a morte de Sir Reuben.
Realmente, um caso muito bem montado, mademoiselle."
Ele fez uma pausa.
- E ainda assim a senhorita veio me ver hoje. Lily Margrave
encolheu seus ombros delgados.
- Como eu disse, Monsieur Poirot, Lady Astwell me enviou.
- Então não teria vindo por sua própria vontade, não é?
O homenzinho lançou para ela um olhar perspicaz. A garota
não respondeu.
- A senhorita não respondeu à minha pergunta. Lily
Margrave começou a alisar as luvas novamente.
- É bastante difícil para mim, Monsieur Poirot. Preciso
considerar a minha lealdade a Lady Astwell. Indo direto ao
ponto: sou apenas sua dama de companhia, mas ela sempre
me tratou como se eu fosse uma filha ou uma sobrinha. Tem
sido extraordinariamente gentil, e, quaisquer que sejam seus
erros, eu não gostaria de adotar uma postura crítica em
relação às ações dela, ou mesmo prejudicar o senhor no que
diz respeito a assumir o caso.
- É impossível prejudicar Hercule Poirot, cela ne se fait pas -
declarou alegremente. - Percebo que a senhorita acredita
que Lady Astwell está dando importância demais ao assunto.
Vamos, seja franca. Não é verdade?
- Bem, se eu devo dizer...
- Fale, mademoiselle.
- Acho que tudo não passa de uma grande bobagem.
- É o que lhe parece, então?
-Não quero falar mal de Lady Astwell...
- Compreendo - murmurou Poirot com suavidade. -
Compreendo perfeitamente.
Seus olhos a incentivavam a prosseguir.
- Ela é realmente uma boa pessoa, e assustadoramente gentil,
mas não é, como posso dizer, uma mulher educada. O
senhor sabe que ela era uma atriz quando Sir Reuben casou
com ela, e que ela também nutre toda sorte de preconceitos
e superstições. Se diz alguma coisa, assim tem de ser, e ela
simplesmente não ouvirá a voz da razão. O inspetor não foi
muito diplomático com ela, e isso fez com que ela recuasse.
Diz que é um absurdo suspeitarem do sr. Leverson e que
isso era apenas mais um dos tantos erros que a polícia
cometeria, e claro, para completar, que o querido Charles
não tinha feito nada.
- Mas então ela não tem base para sua alegação, certo?
- Nenhuma.
- Rá! É mesmo? Veja só.
- Eu disse a ela - seguiu Lily - que não faria nenhum sentido
vir até o senhor apenas com uma convicção sem qualquer
embasamento.
- A senhorita lhe disse isso mesmo? - perguntou Poirot. -
Isso é interessante.
Seus olhos, num relance rápido e abarcador, perscrutaram
Lily Margrave, apreendendo os detalhes de seu traje preto e
limpo, o toque em branco junto ao pescoço, e o elegante
chapeuzinho preto. Pôde observar sua elegância, o belo
rosto com o queixo levemente pontiagudo, além dos olhos
de um azul profundo, de longas pestanas. De modo
imperceptível, sua atitude mudou. Agora estava interessado
não tanto pelo caso, mas pela garota sentada à sua frente.
- Lady Astwell, eu imagino, mademoiselle, não passa de uma
pessoa desequilibrada e histérica?
Lily Margrave assentiu com entusiasmo.
- Isso a descreve perfeitamente. Ela é, como já lhe disse,
muito gentil, mas é impossível discutir com ela ou tentar
fazer com que veja as coisas de modo lógico.
- Talvez ela tenha o seu próprio suspeito - sugeriu Poirot -,
um suspeito bastante absurdo.
- É isso exatamente o que está acontecendo - disse Lily com
empolgação. - Ela desenvolveu uma profunda implicância
em relação ao secretário de Sir Reuben, pobre homem. Ela
diz saber que foi ele quem cometeu o crime, embora tenha
sido provado, de maneira conclusiva, que o pobre Owen
Trefusis não poderia tê-lo feito.
- E ela afirma isso sem quaisquer razões?
- Justamente. Tudo está baseado em suas intuições. A voz de
Lily Margrave adquirira um tom profundamente
desdenhoso.
- Percebo, mademoiselle - disse Poirot, sorrindo -, que a
senhorita não acredita em intuição?
- Não creio que faça nenhum sentido - respondeu
Lily.
Poirot se recostou em sua poltrona.
- Les femmes - murmurou -, gostam de pensar que se trata de
uma arma especial que o bom Senhor lhes deu, e para cada
vez que essa arma lhes mostra o caminho certo, pelo menos
nove vezes as conduz ao errado.
- Eu sei - disse Lily -, mas já lhe disse como é Lady Astwell.
Simplesmente não se pode discutir com ela.
- Então, mademoiselle, sendo a senhorita sábia e discreta, veio
até a mim como fora ordenada e buscou uma maneira de me
pôr au courantàa situação.
Algo em seu tom de voz fez a garota assumir um ar
desafiador.
- Evidentemente - disse Lily, defendendo-se -, sei como o
tempo do senhor é valioso.
- A senhorita é por demais lisonjeira, mademoiselle
- disse Poirot -, mas neste momento, de fato, tenho muitos
casos em minhas mãos.
- Temo que isso seja mesmo verdade - disse Lily, erguendo-
se. - Comunicarei a Lady Astwell...
No entanto, Poirot não se levantou. Em vez disso,
continuou sentado na poltrona e olhou a garota de baixo
para cima.
- Está com pressa de ir embora, mademoiselle. Peço-lhe que se
sente só mais um pouco.
Percebeu o sangue aflorar à face dela e depois a tonalidade
voltar ao normal. Ela voltou a se sentar, vagarosamente e
contra sua vontade.
- Mademoiselle é rápida e decidida - disse Poirot.
- Deve ser mais condescendente com velhos como eu, que
levam tempo para tomar suas decisões. A senhorita me
entendeu mal, mademoiselle. Não disse que não iria ter com
Lady Astwell.
- Então o senhor virá?
O tom de voz da garota era neutro. Não olhava para Poirot,
mas para algum ponto no chão, desapercebida, assim, do
agudo escrutínio com que era brindada.
- Diga a Lady Astwell que estou à sua inteira disposição.
Estarei em... Mon Repôs, não é isso?, nesta tarde.
Ele se ergueu. A garota acompanhou seu gesto.
- Eu... eu direi a ela. É ótimo que o senhor possa vir, Monsieur
Poirot. Temo, no entanto, que o senhor descubra que
embarcou numa expedição inútil.
- É provável, mas quem pode garantir?
Ele a viu sair com formalidade pela porta. Depois retornou
para sua sala de estar, carrancudo, imerso em pensamentos.
Uma ou duas vezes assentiu com a cabeça, então abriu a
porta e chamou seu criado.
- Meu bom George, prepare-me, por favor, uma pequena
valise. Estou indo para o interior nesta tarde.
- Muito bem, senhor - disse George.
Ele era o típico inglês. Alto, cadavérico e impassível.
- Uma jovem é um fenômeno interessantíssimo, George —
disse Poirot, enquanto mais uma vez se deixava cair sobre a
poltrona, acendendo um cigarro. - Especialmente,
compreende, se é inteligente. Pedir para que uma pessoa
faça alguma coisa e ao mesmo tempo predispô-la a não fazê-
la... trata-se de uma delicada operação. Exige finura. Ela foi
muito sagaz, ah, sim, muito sagaz, mas Hercule Poirot, meu
bom George, é dono de uma inteligência um tanto
excepcional.
- Já ouvi o senhor falar sobre isso, senhor.
- Não é o secretário que ela tem em mente - refletiu Poirot. -
A acusação de Lady Astwell contra ele, ela trata com
desprezo. Ao mesmo tempo, está ansiosa para que ninguém
alerte os gansos. Eu, meu bom George, vou até lá acabar
com esse sossego, quero pôr lenha na fogueira! Há algum
drama por lá, em Mon Repôs. Um drama humano, e isso me
excita. Ela é sagaz, a espertinha, mas não sagaz o suficiente.
Pergunto-me, pergunto-me, o que encontrarei por lá?
A voz de George, em tom de desculpa, rompeu a pausa
dramática que havia sucedido às palavras do patrão.
- Devo colocar algum traje na mala, senhor? Poirot olhou
para ele com tristeza.
- Sempre concentrado, atento ao seu próprio trabalho. Você
é muito bom para mim, George.
Quando o trem das 16h55 chegou à estação Abbots Cross,
dele desembarcou Monsieur Hercule Poirot, vestido com
muito asseio e afetação, os bigodes encerados ao extremo.
Entregou seu bilhete, passou pelo posto e foi abordado por
um chofer alto.
- Monsieur Poirot?
O homenzinho olhou para ele.
- Este é meu nome.
- Por aqui, senhor, por favor.
Abriu-lhe a porta de um enorme Rolls-Royce.
A casa ficava a cerca de três minutos da estação. O chofer
desceu mais uma vez e abriu a porta do carro, e Poirot saiu.
O mordomo aguardava com a porta da frente aberta.
Poirot lançou um olhar rápido e prazenteiro sobre a parte
exterior da casa antes de entrar. Era grande, uma sólida
mansão de tijolos vermelhos, sem pretensões de beleza, mas
com um ar de conforto verdadeiro.
Poirot entrou no saguão. O mordomo discretamente
recolheu seu chapéu e seu sobretudo, e então murmurou
naquele tom grave e deferente só alcançado pelos melhores
serviçais:
- A senhora o está esperando, senhor.
Poirot seguiu o mordomo pelas escadas acarpetadas. Este,
sem dúvida, era Parsons, um serviçal extremamente bem-
treinado, cujos modos, conforme o desejado, não afetavam
emoção. No topo da escada, ele tomou a direita ao longo de
um corredor. Passou por uma porta que conduzia a uma
ante-sala e anunciou:
- Monsieur Poirot, milady.
A peça não era muito grande e estava tomada por móveis e
bugigangas. Uma mulher, vestida de preto, ergueu-se de um
sofá e veio rapidamente em direção a Poirot.
- Monsieur Poirot - ela disse com a mão esticada. Seus olhos
correram ligeiros sobre a figura do dândi. Fez uma pausa por
um minuto, ignorando a reverência do homenzinho sobre
sua mão e o "Madame" murmurado, e então, soltando sua
mão da dele após uma súbita e vigorosa pressão, exclamou:
- Acredito em homens pequenos! São os inteligentes.
- O inspetor Miller - murmurou Poirot - é, acredito, um
homem alto?
- Ele não passa de um idiota arrogante - disse Lady Astwell. -
Faria a gentileza de sentar aqui perto de mim, Monsieur
Poirot?
Indicou-lhe o sofá e continuou:
- Lily fez o possível para me convencer a não chamá-lo, mas
não cheguei a esta altura da vida sem saber o que era o
melhor para mim.
- Uma grande conquista - disse Poirot, ao segui-la até o
canapé.
Lady Astwell se acomodou confortavelmente entre as
almofadas e se voltou para olhá-lo de frente.
- Lily é uma ótima menina - disse Lady Astwell -, mas acha
que sabe tudo, e, de acordo com minha experiência, esse
tipo de pessoa costuma estar errada. Não sou inteligente,
Monsieur Poirot, nunca fui, mas acerto onde muitas pessoas
erram. Acredito em orientação. Então, quer ou não quer que
eu lhe diga quem é o assassino? Uma mulher sabe, Monsieur
Poirot.
- A srta. Margrave sabe?
- O que ela lhe contou? - perguntou com aspereza Lady
Astwell.
- Ela me comentou os fatos do caso.
- Os fatos? Ah, sim, e aposto que estão todos contra Charles,
mas eu lhe digo, Monsieur Poirot, não foi ele. Sei que não foi
ele!
Ela lhe disse aquilo com uma seriedade que era quase
desconcertante.
- A senhora está convicta, Lady Astwell?
- Trefusis matou meu marido, Monsieur Poirot. Tenho certeza
disso.
- Por quê?
- Por que ele o teria matado, ou por que tenho certeza de
que foi ele? Vou lhe dizer uma coisa: eu simplesmente sei!
Sou engraçada com essas coisas. Logo chego a uma idéia e
me aferro a ela.
- O sr. Trefusis seria de alguma maneira beneficiado com a
morte de Sir Reuben?
- Não lhe deixou sequer um centavo - retomou de imediato
Lady Astwell. - Isso só demonstra que o caro Reuben ou não
conseguia gostar dele, ou não podia confiar nele.
- Ele estava com Sir Reuben havia muito, então?
- Quase nove anos.
- Isso é um longo tempo - disse Poirot suavemente -, um
tempo deveras longo para permanecer como empregado de
um homem. Sim, o sr. Trefusis deve ter conhecido bem o
seu empregador.
Lady Astwell encarou-o.
- Aonde o senhor quer chegar? Não vejo o que isso tem a
ver com o assunto.
- Estou seguindo a trilha de uma pequena idéia que tive -
disse Poirot. - Uma pequena idéia, nada interessante, talvez,
mas original, no que diz respeito à questão.
Lady Astwell continuou a encará-lo.
- O senhor é muito inteligente, não? - ela perguntou, em um
tom um pouco duvidoso. - É o que todos dizem.
Hercule Poirot riu.
- Talvez também a senhora devesse me brindar com esse
elogio um dia desses, madame. Mas vamos voltar ao motivo.
Fale-me agora sobre as pessoas da casa, as que estavam aqui
no dia da tragédia.
- Charles, é claro.
- Ele era sobrinho de seu marido, pelo que sei, não da
senhora.
- Sim, Charles era o filho único da irmã de Reuben. Ela se
casara com um homem relativamente rico, mas então eles
perderam tudo, uma dessas falências que costumam ocorrer
no meio financeiro, e ele morreu, e também a esposa, e
Charles veio morar conosco. Ele tinha 23 anos na época, e
se preparava para ser advogado. Mas quando a situação
piorou, Reuben levou-o para trabalhar no escritório.
- Charles era diligente no trabalho?
- Gosto de homens que seguem o andar da carruagem - disse
Lady Astwell, com um gesto de aprovação. - Não, esse era
justamente o problema, Charles não era um sujeito
trabalhador. Passava o tempo inteiro brigando com seu tio
por causa de alguma confusão ou outra coisa qualquer que
tivesse aprontado. Não que o pobre Reuben fosse alguém de
fácil convívio. Por várias vezes eu lhe disse que ele havia
esquecido o que era ser jovem. Ele era bastante diferente
naqueles tempos, Monsieur Poirot.
Lady Astwell lançou um suspiro diante da reminiscência.
- As mudanças precisam acontecer, madame - disse Poirot. -
É a lei.
- Ainda assim - disse Lady Astwell - ele nunca foi
verdadeiramente rude comigo. Ao menos, se ele chegava a
sê-lo, sempre se desculpava mais tarde, o pobre e caro
Reuben.
- Então ele era difícil, hein? - perguntou Poirot.
- Eu sempre achava uma maneira de lidar com ele - disse
Lady Astwell, com um ar de domador de leões bem-
sucedido. - Mas às vezes as coisas ficavam realmente
complicadas quando ele perdia a paciência com os criados.
Há maneiras de fazer isso, mas Reuben sempre escolhia as
erradas.
- Exatamente como Sir Reuben deixou dividido seu dinheiro,
Lady Astwell?
- Metade para mim, metade para Charles - respondeu
prontamente Lady Astwell. - Os advogados não apresentam
essa divisão assim de modo simples, mas é mais ou menos
isso.
Poirot maneou a cabeça.
- Entendo... Entendo - ele murmurou. - Bem, agora, Lady
Astwell, preciso que a senhora me descreva os moradores da
casa. Há a senhora; o sobrinho de Sir Reuben, sr. Charles
Leverson; o secretário, sr. Owen Trefusis; e também a srta.
Lily Margrave. Talvez a senhora pudesse me falar um pouco
mais sobre a jovem.
- O senhor quer saber sobre Lily?
- Sim, ela está com a senhora há muito tempo?
- Cerca de um ano. Tive uma série de secretárias-
acompanhantes, sabe, mas de um modo ou de outro elas
acabavam me dando nos nervos. Com Lily foi diferente. Ela
é delicada e centrada e, além disso, tem uma ótima
aparência. Gosto de ter um rostinho bonito perto de mim,
Monsieur Poirot. Sou uma pessoa estranha; gosto ou desgosto
de alguém logo no primeiro instante. Assim que pus os
olhos nessa menina, disse para mim mesma: "Ela vai servir".
- Ela veio por indicação de amigos, Lady Astwell?
- Acho que ela respondeu a um anúncio. Sim, foi isso.
- Sabe alguma coisa sobre a família dela, de onde ela vem?
- Seus pais estão na índia, acredito. Não sei muito sobre eles,
mas num rápido olhar se pode dizer que Lily é uma dama,
não é verdade, Monsieur Poirot?
- Ah, sim, perfeitamente, perfeitamente.
- Claro - prosseguiu Lady Astwell -, eu mesma não sou uma
dama. Sei disso e a criadagem sabe disso, mas não
mesquinha. Sei apreciar o que tem valor, e ninguém poderia
ser mais gentil comigo do que Lily tem sido. Vejo-a quase
como se fosse minha filha, Monsieur Poirot, de verdade.
Poirot esticou a mão direita e ajeitou alguns dos objetos que
estavam sobre a mesa próxima.
- Sir Reuben também compartilhava desse sentimento? - ele
perguntou.
Mantinha os olhos sobre as bugigangas, mas sem dúvida
notou a pausa antes que Lady Astwell viesse com a resposta.
- Para um homem é diferente. É claro que eles... que eles se
davam muito bem.
- Obrigado, madame - disse Poirot. Ele sorria por dentro. - E
essas eram as únicas pessoas na casa naquela noite?
Excetuando-se, claro, os criados.
- Ah, há ainda Victor.
- Victor?
- Sim, o irmão de meu marido, sabe, que também é seu
sócio.
- Ele mora com vocês?
- Não, tinha acabado de chegar de visita. Nos últimos anos
ele esteve na África Ocidental.
- África Ocidental - murmurou Poirot.
Ele já percebera que Lady Astwell era capaz de desenvolver
um assunto sozinha se lhe fosse dado tempo suficiente.
- Dizem que é uma terra maravilhosa, mas me parece o tipo
de lugar que tem um efeito terrível sobre um homem. Eles
bebem demais e se tornam incontroláveis. Nenhum dos
Astwells tem bom temperamento, e o comportamento de
Victor, desde que ele voltou da África, tem sido
simplesmente chocante. Por várias vezes ele já me deixou
assustada.
- Ele assustou a srta. Margrave? - murmurou suavemente
Poirot.
- Lily? Oh, não acredito que ele tenha tido muito contato
com Lily.
Poirot tomou algumas notas em seu caderninho, depois
colocou o lápis de volta na presilha e guardou o caderninho
no bolso.
- Eu lhe agradeço, Lady Astwell. Agora, se puder, vou
entrevistar Parsons.
- Quer que ele venha até aqui?
A mão de Lady Astwell avançou em direção à campainha.
Poirot interrompeu rapidamente o gesto.
- Não, não, mil vezes não. Descerei para falar com ele.
- Se acha que assim é melhor...
Lady Astwell estava nitidamente desapontada por não poder
participar da cena vindoura. Poirot adquiriu um ar de sigilo.
- É essencial - ele disse de forma misteriosa, e deixou Lady
Astwell devidamente impressionada.
Encontrou Parsons na copa, polindo a prataria. Poirot deu
início aos procedimentos com uma de suas mais cômicas
reverências.
- Permita-me que me apresente - ele disse. - Sou um
detetive.
- Sim, senhor - disse Parsons -, pudemos perceber. Seu tom
era respeitoso, mas indiferente.
- Lady Astwell mandou me buscar - continuou Poirot. - Ela
não estava satisfeita; não, não estava nada satisfeita.
- Ouvi a senhora dizê-lo numa série de ocasiões - disse
Parsons.
- De fato - disse Poirot —, estou lhe contando coisas que o
senhor já sabe, não é mesmo? Então não percamos tempo
com essas ninharias. Leve-me, se puder me fazer essa
gentileza, até seu quarto e me diga exatamente o que o
senhor ouviu na noite do assassinato.
O quarto do mordomo era no primeiro piso, contíguo à ala
dos criados. Tinha janelas com barras, e um cofre ficava em
um dos cantos da peça. Parsons indicou a cama estreita.
- Fui me recolher, senhor, às onze horas. A srta. Margrave já
tinha ido deitar, e Lady Astwell estava com Sir Reuben na
sala da Torre.
- Lady Astwell estava com Sir Reuben? Ah, prossiga.
- A sala da Torre, senhor, fica exatamente acima de onde
estamos. Se as pessoas estão conversando por lá, podem ser
ouvidos murmúrios, mas não o que é dito, naturalmente.
Devo ter pegado no sono depois das onze e meia. Era meia-
noite em ponto quando fui acordado pelo som da batida da
porta da frente, o que só podia significar que o sr. Leverson
havia retornado. Em seguida, ouvi passos no andar de cima
e, alguns minutos depois, a voz do sr. Leverson falando com
Sir Reuben.
"Tive o palpite então de que naquele momento, senhor, o sr.
Leverson estava não diria propriamente bêbado, mas
inclinado a ser um pouco indiscreto e barulhento. Gritava
com o tio no limite de seus pulmões. Apanhei uma palavra
aqui e outra ali, mas não o suficiente para compreender do
que se tratava, e então houve um grito agudo e um baque
pesado."
Sobreveio uma pausa, e Parsons repetiu as últimas palavras.
- Um baque pesado - ele disse, impressionado.
- Se não me engano é um baque surdo na maioria dos
romances - murmurou Poirot.
- Talvez, senhor - disse Parsons com severidade. - Foi
realmente um baque pesado o que ouvi.
- Mil perdões - disse Poirot.
- Não é necessário, senhor. Depois do baque, no silêncio,
ouvi a voz do sr. Leverson dizer claramente, num registro
alto: "Meu Deus", ele disse, "Meu Deus", assim como lhe
repito, senhor.
Parsons, de sua primeira resistência em revelar a história,
progredira a ponto de agora poder saboreá-la. Ele se
considerava vigorosamente um narrador. Poirot entrou no
jogo.
- Mon Dieu - ele murmurou. - Que emoção o senhor não deve
ter experimentado!
- Sim, de fato, senhor - disse Parsons -, assim mesmo como o
senhor disse. Não que eu tenha pensado muito nisso naquele
momento. Mas me ocorreu perguntar se alguma coisa estava
errada, e se não era melhor eu subir. Fui acender a luz, mas
tive o azar de topar com uma cadeira.
"Abri a porta, segui até o saguão da criadagem e abri a outra
porta que dava acesso a uma passagem. A escada dos fundos
fica ali, e, enquanto eu estava nos primeiros degraus,
hesitando, ouvi a voz do sr. Leverson lá em cima, falando
com franqueza e doçura. 'Ninguém se machucou, por sorte',
ele disse. 'Boa noite', e o escuto se afastar pelo corredor até
seu quarto, assobiando.
"Claro que retornei imediatamente para a cama. Algum
objeto deve ter caído, foi o que pensei. Eu lhe pergunto,
senhor, dava para eu imaginar que Sir Reuben havia sido
assassinado, com o sr. Leverson desejando boa noite e tudo
mais?"
- O senhor tem certeza de que a voz que ouviu era a do sr.
Leverson?
Parsons olhou para o pequeno belga compassivamente, e
Poirot percebeu com total clareza que, certo ou errado, o
juízo de Parsons quanto a essa questão já estava estabelecido.
- Há mais alguma coisa que o senhor queira me perguntar?
- Só mais uma - disse Poirot. - O senhor gosta do sr.
Leverson?
- Como, senhor?
- É uma pergunta simples. O senhor gosta do sr. Leverson?
Parsons, surpreso num primeiro momento, agora parecia
constrangido.
- A opinião geral dos serviçais, senhor - ele disse e fez uma
pausa.
- Bem - disse Poirot -, expresse-a assim se lhe agrada.
- Senhor, a opinião é de que o sr. Leverson é um jovem
generoso, mas não, se me permite dizê-lo, um cavalheiro
particularmente inteligente.
- Ah! - disse Poirot. - Sabe, Parsons, que mesmo sem tê-lo
visto ainda, esta também é precisamente a minha opinião
sobre o sr. Leverson.
- É mesmo, senhor?
- Qual é a sua opinião, digo, qual é a opinião dos serviçais
sobre o secretário?
- Ele é um cavalheirro calmo, paciente, senhor. Preocupado
em evitar qualquer problema.
- Vraiment— disse Poirot. O mordomo tossiu.
- A senhora, senhor - ele murmurou -, costuma ser um tanto
apressada em seus julgamentos.
- Então, na opinião dos serviçais, o sr. Leverson cometeu o
crime?
- Nenhum de nós gostaria de pensar que foi o sr. Leverson -
disse Parsons. - Nós... Bem, francamente, não pensávamos
que ele fosse capaz de uma coisa dessas, senhor.
- Mas ele tinha um temperamento um pouco violento, não?
- perguntou Poirot.
Parsons se aproximou dele.
- Se está perguntando quem tinha o temperamento mais
violento da casa...
Poirot ergueu uma mão.
- Ah! Mas essa não é a pergunta que eu faria - ele disse com
suavidade. - Minha pergunta seria, quem tem o melhor
temperamento?
Parsons o encarou boquiaberto.

Poirot não perdeu mais tempo com ele. Com uma
reverência amável - ele sempre era amável - deixou o quarto
e vagou pelo enorme saguão de Mon Repôs.
Ficou por ali durante um ou dois minutos com seus
pensamentos, então, a um som sutil que chegou até ele,
virou a cabeça para um dos lados à maneira de um tordo
empertigado, e finalmente, com passos surdos, atravessou
uma das portas que conduziam para fora do saguão.
Parou na soleira, olhando para a peça; uma sala pequena
decorada como uma biblioteca. Numa enorme escrivaninha,
no canto mais afastado da peça, estava sentado um jovem
magro e pálido, escrevendo. Tinha um queixo retraído e
usava um pincenê.
Poirot o observou por alguns minutos e então rompeu o
silêncio com uma tosse completamente artificial e teatral.
- A-ham! - tossiu Hercule Poirot.
O jovem parou de escrever e virou a cabeça. Não parecia
excessivamente surpreso, mas uma expressão de
perplexidade tomou conta de sua face ao avistar Poirot.
O último se aproximou com uma mesura.
- Tenho a honra de falar com Monsieur Trefusis, estou certo?
Ah, meu nome é Poirot, Hercule Poirot. Talvez já tenha
ouvido falar de mim.
- Oh, sim, sim, certamente - disse o jovem. Poirot o encarou
atentamente.
Owen Trefusis tinha cerca de 33 anos, e o detetive reparou
de pronto por que ninguém estava disposto a levar a sério a
acusação de Lady Astwell. O sr. Owen Trefusis era um jovem
afetado e distinto, irresistivelmente meigo, o tipo de homem
que pode ser, e é, sistematicamente intimidado. Qualquer
um poderia ter certeza de que ele jamais conseguiria
demonstrar ressentimento.
- Lady Astwell mandou buscá-lo, é claro - disse o secretário. -
Ela anunciou que ia fazê-lo. Existe alguma coisa que eu possa
fazer para ajudá-lo?
Seus modos eram polidos sem serem efusivos. Poirot aceitou
uma cadeira e murmurou cortesmente:
- Lady Astwell chegou a lhe mencionar suas opiniões e
suspeitas?
Owen Trefusis sorriu de leve.
- Até onde sei - ele disse -, ela suspeita de mim. É um
absurdo, mas é isso. Ela mal me dirigiu uma palavra cortês
desde a morte de Sir Reuben, e se encolhe contra a parede
ao me ver passar.
Sua postura era perfeitamente natural, e havia mais diversão
que ressentimento em sua voz. Poirot assentiu com a
cabeça, com um ar de simpática franqueza.
- Cá entre nós - ele esclareceu -, ela me disse a mesma coisa.
Não discuti com ela. Há muito que estabeleci uma regra:
jamais discutir com uma dama convicta. O senhor entende,
é pura perda de tempo.
- De fato.
-Eu digo, sim, madame, oh, perfeitamente, madame,
précisément, madame. Essas palavras não significam nada, mas
agradam da mesma maneira. Faço minhas investigações, e
embora pareça quase impossível que alguém exceto
MonsíewrLeverson possa ter cometido o crime, ainda assim,
bem, o impossível já aconteceu outras vezes.
- Entendo perfeitamente a sua posição - disse o secretário. -
Por favor, saiba que estou inteiramente à sua disposição.
- Bon — disse Poirot. - Vejo que nos entendemos. Agora me
ponha a par dos acontecimentos daquela noite. Melhor
começar pelo jantar.
- Leverson não estava presente, como o senhor, sem dúvida,
sabe - disse o secretário. - Ele tinha tido um sério
desentendimento com o tio e saiu para jantar no Golf Club.
Sir Reuben estava de péssimo humor em função disso.
- Não muito amável, ce Monsieur, hein? - sugeriu Poirot com
delicadeza.
Trefusis sorriu.
- Oh! Ele era um tártaro! Eu não teria trabalhado nove anos
com ele se não conhecesse cada detalhe do seu compor-
tamento. Era um homem extraordinariamente difícil de se
lidar, Monsieur Poirot. Podia ter um surto de fúria infantil e
maltratar qualquer um que se aproximasse dele.
"Àquela altura, eu já estava acostumado a isso. Desenvolvi o
hábito de não prestar a menor atenção às coisas que ele
dizia. No fundo, ele não tinha um coração mau, mas podia se
comportar de maneira estúpida e exasperadora. A melhor
coisa a fazer era nunca retrucá-lo."
- Havia outras pessoas aqui tão sábias quanto o senhor a esse
respeito?
Trefusis encolheu os ombros.
- Lady Astwell agüentou bastante - ele disse. - Ela não sentia
um pingo de medo de Sir Reuben, e ela sempre soube
suportar as crises. No final, eles sempre se entendiam, e Sir
Reuben realmente tinha muita afeição por ela.
- Eles chegaram a discutir naquela noite?
O secretário olhou-o de soslaio, hesitou por um minuto, e
então disse:
- Creio que sim; qual o motivo da pergunta?
- Uma idéia, nada de mais.
- Não posso garantir, claro - explicou o secretário -, mas pelo
modo como as coisas estavam isso era o mais provável.
Poirot não insistiu no tópico.
- Quem mais estava no jantar?
- A srta. Margrave, o sr. Victor Astwell e eu.
- E depois?
- Fomos para a sala de visitas. Sir Reuben não nos
acompanhou. Cerca de dez minutos depois ele apareceu e
me destratou por uma banalidade qualquer a respeito de uma
carta. Subi com ele até a sala da Torre e arrumei o que era
necessário; então Victor Astwell entrou e disse que tinha
algo que queria tratar com o irmão, então eu desci e me
juntei às duas damas.
"Cerca de quinze minutos depois, ouvi a sineta de Sir
Reuben soar violentamente, e Parsons surgiu para dizer que
eu deveria ter imediatamente com Sir Reuben. Ao entrar no
quarto, o sr. Victor Astwell estava saindo. Ele quase me
derrubou. Alguma coisa acontecera para deixá-lo perturbado
daquele jeito. Ele tinha um temperamento violento. Penso
mesmo que ele nem chegou a me ver."
- Sir Reuben chegou a comentar alguma coisa?
- Ele disse: "Victor é um lunático; ele ainda fará uma
bobagem contra alguém num desses seus acessos de fúria".
- Ah! - disse Poirot. - O senhor sabe sobre o que eles
discutiram?
- Não faço a mais vaga idéia.
Poirot moveu sua cabeça com extremo vagar e olhou para o
secretário. Aquelas últimas palavras haviam sido
pronunciadas de um modo bastante apressado. Estava
convencido de que Trefusis poderia ter dito mais alguma
coisa se assim o quisesse. Mas novamente não forçou a
questão.
- E depois? Continue, por favor.
- Trabalhei com Sir Reuben por cerca de uma hora e meia.
Às onze, Lady Astwell entrou, e Sir Reuben me disse que eu
poderia me recolher.
- E foi o que o senhor fez?
- Sim.
- Faz alguma idéia de quanto tempo ela ficou com
ele?
- Não. O quarto dela fica no primeiro piso, e o meu, no
segundo, de modo que não poderia escutar a hora em que
ela foi para a cama.
- Entendo.
Poirot assentiu com a cabeça umas duas vezes e se pôs de
pé.
- E agora, monsieur, leve-me até a sala da Torre.
Ele seguiu o secretário pela ampla escadaria para o piso
superior. Ali Trefusis o conduziu ao longo do corredor, e
através de uma porta acarpetada ao final do percurso, que
dava para a escada dos criados e para um curto corredor que
terminava numa porta. Ao cruzar essa porta, encontraram-se
na cena do crime.
Era um quarto alto, duas vezes mais alto que qualquer um
dos outros, e deveria ter aproximadamente nove metros
quadrados. Espadas e azagaias adornavam as paredes, e
muitas curiosidades nativas estavam dispostas sobre mesas.
No canto oposto, sob o vão da janela, havia uma grande
escrivaninha. Poirot se dirigiu direto para ela.
- Sir Reuben foi encontrado aqui?
Trefusis assentiu.
- Acertaram-no por trás, creio?
Mais uma vez o secretário assentiu.
- O crime foi cometido com um desses porretes nativos - ele
explicou. - Um objeto extremamente pesado. A morte deve
ter ocorrido de modo praticamente instantâneo.
- O que reforça a idéia de que o crime não foi premeditado.
Uma rusga feia, e uma arma apanhada quase
inconscientemente.
- Sim, isso só piora a situação do pobre Leverson.
- E o corpo foi encontrado debruçado sobre a mesa?
- Não, ele deslizou de lado e foi parar no chão.
- Ah - disse Poirot -, isso é curioso.
- Por que curioso? - perguntou o secretário.
- Por causa disso.
Poirot apontou para uma marca redonda e irregular sobre o
tampo polido da escrivaninha.
- Isto é uma marca de sangue, mon ami.
- E possível que tenha espirrado ali - sugeriu Trefusis -, ou
talvez tenha sido feita depois, quando removeram o corpo.
- É bem possível, bem possível - disse o homenzinho. - Há
apenas uma porta para este cômodo?
- Há uma escada em espiral aqui.
Trefusis afastou uma cortina de veludo num dos cantos da
peça, junto à porta, revelando uma pequena escada que
levava para um patamar superior.
- Este lugar foi originalmente construído por um astrônomo.
A escada conduz para a torre onde o telescópio fora
instalado. Sir Reuben transformou o local num quarto, e
algumas vezes dormia ali quando trabalhava até tarde.
Poirot subiu com agilidade os degraus. O quarto circular
escada acima estava mobiliado de maneira simples, com um
catre, uma cadeira e uma penteadeira. Poirot ficou satisfeito
ao ver que não havia nenhuma outra saída, e então voltou a
descer, indo de encontro a Trefusis, que o esperara no
mesmo lugar.
- O senhor escutou o sr. Leverston entrar? - ele perguntou.
Trefusis negou com a cabeça.
- Já estava ferrado no sono.
Poirot assentiu. Olhou devagar ao redor do quarto.
- Eh bienl - ele disse por fim. - Não creio que haja alguma
coisa ainda por aqui, a não ser que... O senhor poderia me
fazer a gentileza de puxar as cortinas?
Obedientemente, Trefusis puxou as pesadas cortinas negras
que cobriam a janela no lado oposto da peça. Poirot acendeu
a luz encoberta por um globo de alabastro que pendia do
teto.
- Há alguma luz de escrivaninha?
Como resposta o secretário acionou uma poderosa lâmpada,
coberta por uma pantalha verde, que ficava sobre a
escrivaninha. Poirot apagou a luz de cima, depois voltou a
acendê-la e então a apagou.
- Cest bienl Terminei aqui.
- O jantar será servido às sete e meia - murmurou o
secretário.
- Eu lhe agradeço, Monsieur Trefusis, por toda a sua gentileza.
- Não por isso.
Poirot percorreu o corredor até chegar ao quarto que lhe
fora reservado. O inescrutável George estava ali,
organizando as coisas de seu patrão.
- Meu bom George - ele disse de pronto -, espero que possa
conhecer na hora do jantar um certo cavalheiro que começa
a me intrigar enormemente. Um homem que veio dos
trópicos, George. Com um temperamento tropical,
conforme dizem. Um homem de quem Parsons tentou me
falar, e que Lily Margrave sequer mencionou. O finado Sir
Reuben já tinha um temperamento difícil, George. Suponha
que um homem como esse entre em contato com outro
cujo temperamento é ainda pior, o que me diz disso? Está
criado o circo, não?
- "Armado o circo" é a expressão correta, senhor, e nem
sempre essas coisas são assim.
-Não?
- Não, senhor. Veja o caso da minha tia Jemima, senhor,
dona de uma língua das mais ferinas, maltratou uma de suas
pobres irmãs que vivia com ela, fez algo realmente
chocante. Quase tirou a vida da coitada. Mas qualquer um
que aparecesse perto dela e que a enfrentasse, bem, aí as
coisas eram bem diferentes. O que ela não podia suportar era
a subserviência.
- A-ha! - disse Poirot. - Isso é realmente sugestivo... George
deixou escapar uma tosse como para se
desculpar.
- Há mais alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-lo,
senhor? - perguntou com delicadeza.
- Certamente - disse Poirot de imediato. - Descubra para
mim a cor do vestido que a srta. Lily Margrave vestiu
naquela noite, e qual camareira que a atendeu.
George recebeu essas ordens impassível como de costume.
- Muito bem, senhor, pela manhã terei as informações que
solicitou.
Poirot ergueu-se do assento e ficou observando o fogo.
- Você me foi muito útil, George - ele murmurou.
- Sabe que não me esquecerei de sua tia Jemima?
No fim das contas, Poirot não viu Victor Astwell naquela
noite. Por telefone chegou uma mensagem dando conta de
que ele ficara detido em Londres.
- Ele cuida das questões de negócio do seu finado marido,
não é? - perguntou Poirot a Lady Astwell.
- Victor é um dos sócios - ela explicou. - Foi para a África
em busca de umas concessões de minério para a firma. Era
mineração, não era, Lily?
- Sim, Lady Astwell.
- Minas de ouro, acho, ou talvez cobre, ou estanho? Lily,
você deve saber, pois estava sempre fazendo perguntas
sobre isso ao Reuben. Oh, tenha cuidado, querida, ou
acabará derrubando esse vaso!
- Está um calor horrível aqui dentro com esse fogo
- disse a garota. - Será que... Será que posso abrir a janela por
um instante?
- Fique à vontade, querida - disse Lady Astwell placidamente.
Poirot acompanhou a garota com os olhos enquanto ela se
dirigia até a janela para abri-la. Ela ficou por ali alguns
instantes respirando o ar gelado da noite. Quando retornou e
se sentou em sua cadeira, Poirot lhe perguntou de modo
polido:
- Então mademoiselle está interessada em minas?
- Oh, para dizer a verdade não - disse a garota com
indiferença. - Eu escutava o que Sir Reuben dizia, mas não
sei nada sobre o assunto.
- Então a senhorita fingia muito bem - disse Lady Astwell. -
Pobre Reuben, de fato ele pensava que a senhorita tinha
interesses ocultos ao fazer todas aquelas perguntas.
Os olhinhos do detetive não deixaram de mirar o fogo, o
qual olhava de modo fixo, mas, apesar disso, não deixou de
reparar no súbito rubor de vergonha que tomou a face de
Lily Margrave. Habilmente, ele mudou o foco da conversa.
Quando chegou a hora do boa-noite, Poirot disse à sua
anfitriã:
- Posso ter uma palavrinha com a senhora, madame?
Lily Margrave desapareceu discretamente.
Lady Astwell olhou de modo inquiridor para o detetive.
- A senhora foi a última pessoa a ver Sir Reuben com vida
naquela noite?
Ela assentiu. Lágrimas lhe brotaram dos olhos, e ela
apressadamente levou um lenço com bordas negras até eles.
- Ah, não se aflija, por favor, não se aflija.
- Está tudo bem, Monsieur Poirot, é que não posso evitar.
- Sou triplamente imbecil por aborrecê-la dessa maneira.
- Não, por favor. Prossiga. O que o senhor estava dizendo?
- Era por volta das onze, imagino, quando a senhora foi até a
sala da Torre e Sir Reuben dispensou o sr. Trefusis, correto?
- Creio que sim.
- Por quanto tempo ficou com ele?
- Faltavam quinze minutos para a meia-noite quando fui para
o meu quarto; lembro de ter dado uma olhada no relógio.
- Lady Astwell, a senhora poderia me dizer qual foi o teor da
conversa que teve com o seu marido?
Lady Astwell desabou no sofá e não conseguiu mais se
conter. Seus soluços eram vigorosos.
- Nós, bri-bri-brigamos - ela lamentou.
- Por que motivo? - a voz de Poirot era lisonjeira, quase
terna.
- Uma po-porção de coisas. Co-me-me-meçou por causa de
Lily. Reuben desenvolveu uma antipatia por ela, sem
nenhum motivo, e disse que a surpreendera mexendo em
seus papéis. Ele queria mandá-la embora, e eu lhe disse que
ela era uma boa menina e que eu não permitiria. E então ele
começou a gri-gritar comigo, mas eu não estava disposta a
aturar aquilo, então eu disse o que pensava dele.
"Não que eu pensasse aquilo mesmo, Monsieur Poirot. Ele
disse que havia me tirado da sarjeta ao se casar comigo, aí eu
disse: 'Ah, mas o que isso tem a ver com o assunto?' Jamais
poderei me perdoar. O senhor sabe como é, Monsieur Poirot,
eu sempre dizia que uma boa briga ajuda a renovar as coisas,
mas como eu poderia saber que alguém ia matá-lo naquela
mesma noite? Coitado do velho Reuben."
Poirot escutara com simpatia aquela explosão.
- Causei-lhe sofrimento - ele disse. - Peço perdão. Sejamos
agora pragmáticos, práticos e precisos. A senhora continua
aferrada à idéia de que o sr. Trefusis matou seu marido?
Lady Astwell se pôs de pé.
- O instinto de uma mulher, Monsieur Poirot - ela disse em
tom solene -, jamais mente.
- Exatamente, exatamente - disse Poirot. - Mas quando ele
cometeu o crime?
- Quando? Depois que eu o deixei, é claro.
- A senhora deixou Sir Reuben faltando quinze para a meia-
noite. Às cinco para a meia-noite, o sr. Leverson chegou.
Nesse intervalo de dez minutos a senhora diz que o
secretário entrou no quarto dele e o matou?
- É perfeitamente possível.
- Diversas coisas são possíveis - disse Poirot. - O crime pode
ter sido praticado em dez minutos. Ah, sim. Mas foi mesmo?
- É claro que ele diz que estava deitado e já adiantado no
sono - disse Lady Astwell -, mas quem pode saber se isso é
verdade ou não?
- Ninguém o viu por ali - lembrou-a Poirot.
- Todos já estavam deitados e pregados no sono - disse Lady
Astwell com um ar triunfante. - É óbvio que ninguém o viu.
- Curioso - disse Poirot para si mesmo. Houve uma breve
pausa.
- Eh bien, Lady Astwell, desejo-lhe boa noite.
George depôs uma bandeja com o café matinal de seu patrão
ao lado da cama.
- A srta. Margrave, senhor, vestia um traje de chiffon verde-
claro na noite em questão.
- Obrigado, George. Você é de extrema confiança.
- A terceira camareira é a encarregada da srta. Margrave,
senhor. O nome dela é Gladys.
- Obrigado, George. Você é insubstituível.
- Não por isso, senhor.
- É uma linda manhã - disse Poirot, olhando através da janela
-, e ninguém deve estar de pé assim tão cedo. Creio, meu
bom George, que teremos a sala da Torre à nossa disposição
para um pequeno experimento.
- Precisará de mim, senhor?
- O experimento - disse Poirot - não será doloroso. As
cortinas ainda estavam puxadas na sala da Torre
ao chegarem lá. George estava aponto de arriá-las quando foi
detido por Poirot.
- Vamos deixar a sala como está. Acenda apenas a lâmpada
da escrivaninha.
O criado obedeceu.
- Agora, meu bom George, sente-se naquela cadeira. Faça de
conta que está escrevendo. Três bien. Quanto a mim, apanho
o porrete, posiciono-me às suas costas e então o acerto na
parte de trás da cabeça.
- Sim, senhor - disse George.
- Ah - disse Poirot -, mas quando eu acertá-lo, não continue
a escrever. Você entende que não tenho como agir com
exatidão. Não posso acertá-lo com a mesma força que o
assassino usou com Sir Reuben. Quando chegar a essa parte,
teremos que fazer uma encenação. Eu desfiro um golpe na
sua cabeça, e depois você desaba. Os braços bem relaxados,
o corpo solto. Deixe-me ajeitá-lo. Mas não, não contraia os
músculos.
Ele deixou escapar um suspiro de exasperação.
- Você é admirável quando o assunto é passar uma calça,
George - ele disse -, mas sua capacidade imaginativa deixa a
desejar. Levante-se e deixe-me assumir o seu lugar.
Poirot fez a volta e se sentou à escrivaninha.
- Estou escrevendo - ele declarou - de modo concentrado.
Você surge atrás de mim, golpeia-me a cabeça com o
porrete. Bum! A caneta voa de meus dedos, eu caio para
frente, mas não muito para frente, pois a cadeira e baixa e a
escrivaninha é alta, e, principalmente, meus braços me
sustentam. Faça a gentileza, George, de retornar até a porta,
fique ali parado e me diga o que vê.
-Sim!
- Sim, George? - ele disse, de modo encorajador.
- Eu o vejo, senhor, sentado à escrivaninha.
- Sentado à escrivaninha?
- É um pouco difícil de enxergar perfeitamente, senhor -
explicou George -, assim de longe, ainda mais com a
lâmpada tão escondida pela pantalha. E se eu puder acender
esta luz, senhor?
Sua mão se estendeu em direção ao interruptor.
- De jeito nenhum - disse Poirot bruscamente. - Devemos
seguir a reconstituição de modo exato. Aqui estou eu,
inclinado sobre a escrivaninha, e aí está você, parado junto à
porta. Avance agora, George, avance, e ponha a mão no
meu ombro.
George obedeceu.
- Incline-se um pouco sobre mim, George, para se fixar
sobre seus pés, por assim dizer. Ah! Voilà.
O corpo amolecido de Poirot deslizou para o lado de modo
artístico.
- Eu realmente desabei! - ele observou. - Sim, isto foi
realmente bem pensado. Há agora algo mais importante a ser
feito.
- É mesmo, senhor? - perguntou o criado.
- Sim, é preciso que eu tome um bom café-da-manhã.
O homenzinho riu com gosto de sua própria piada.
- O estômago, George, não pode ser ignorado. George
manteve um silêncio reprovador. Poirot
desceu as escadas às gargalhadas, feliz consigo mesmo.
Estava satisfeito com o rumo que as coisas tomavam.
Depois do café-da-manhã ele conheceu Gladys, a terceira
camareira. Estava bastante interessado no que ela podia lhe
contar a respeito do crime. Ela nutria simpatia por Charles,
embora não tivesse dúvida de sua culpa.
- Coitado do jovem cavalheiro, senhor, parece duro, parece
mesmo, mas ele devia estar fora de si naquele momento.
- Ele e a srta. Margrave devem se dar bem - sugeriu Poirot. -
Afinal, são os dois únicos jovens na casa.
Gladys balançou a cabeça.
- Ela sempre o tratou com frieza. Não queria qualquer
envolvimento, e sempre deixou isso bem claro.
- Ele teve uma queda por ela, não?
- Ah, coisa passageira, por assim dizer; não há nenhum mal
nisso, senhor. Já o sr. Victor Astwell está realmente
assediando a srta. Lily.
Ela deu uma risadinha.
- Ah, vraiment. Gladys voltou a rir.
- Ele está verdadeiramente apaixonado por ela. A srta. Lily
parece mesmo um lírio, não acha, senhor? Tão alta e os
cabelos de uma adorável tonalidade dourada.
- Ela deveria usar um vestido de noite verde - refletiu Poirot.
- Há uma certa tonalidade de verde...
- Ela tem um, senhor - disse Gladys. - Claro, ela não pode
usá-lo agora, sendo ainda manhã, mas ela usava um bem
assim na noite em que Sir Reuben morreu.
- Deve ser um verde-claro, não um verde-escuro - disse
Poirot.
- É um verde-claro, senhor. Se puder esperar um minuto eu
o mostro para o senhor. A srta. Lily acaba de sair com os
cachorros.
Poirot assentiu. Ele sabia tão bem disso quanto Gladys. De
fato, foi somente após ter certeza de que Lily estava a uma
distância segura da casa que ele tinha ido procurar a
camareira. Gladys saiu apressada e retornou alguns minutos
mais tarde com o vestido de noite verde-claro suspenso em
um cabide.
- Maravilhoso - exclamou Poirot, unindo as mãos em
admiração. - Permita-me vê-lo na luz por um momento.
Tomou o vestido de Gladys, deu as costas para ela e se
dirigiu à janela. Debruçou-se sobre ele e então o estendeu
pelos braços.
- É perfeito - ele declarou. - Perfeitamente estonteante.
Muitíssimo obrigado por me mostrá-lo.
- Não por isso, senhor - disse Gladys. - Sabemos que os
homens franceses se interessam por vestidos femininos.
- A senhora é muito gentil - murmurou Poirot.
Observou-a se afastar mais uma vez e às pressas com o
vestido. Então baixou os olhos para as suas mãos e sorriu. Na
direita trazia uma tesourinha de unha, na esquerda um
nítido pedaço do chiffon verde.
- E agora - murmurou -, à parte ousada. Retornou para os
seus aposentos e chamou George.
- Na penteadeira, meu bom George, você verá um milagre.
Pegue o alfinete de gravata.
- Sim, senhor.
-No lavabo há uma solução de ácido carbólico. Peço-lhe a
gentileza de mergulhar a ponta do alfinete na solução.
George fez o que lhe foi pedido. Havia muito deixara de se
surpreender com as excentricidades de seu patrão.
- Está feito, senhor.
- Três bien! Agora se aproxime. Aqui está o meu indicador;
crave a ponta do alfinete nele.
- Perdão, senhor, mas o senhor quer que eu lhe crave o
alfinete?
- Mas claro. E exatamente isso o que desejo. Você precisa
cravar até sair sangue, mas não muito.
George tomou o dedo do patrão. Poirot fechou os olhos e se
inclinou para trás. O empregado enterrou o alfinete de
gravata no dedo de Poirot, que deixou escapar um grito
agudo.
- Je vous remercie, George - ele disse. - O que você fez é
suficiente.
Puxando um pedacinho de chiffon verde do bolso, envolveu
vivazmente o dedo nele.
- A operação produziu um milagre - ele observou,
acompanhando o resultado. - Você não está curioso,
George? Veja, é admirável!
O empregado recém lançara um olhar pela janela. -
Desculpe-me, senhor - ele murmurou -, um cavalheiro
acaba de chegar num grande carro.
- A-ha! - disse Poirot, colocando-se rapidamente de pé. - O
esquivo sr. Victor Astwell. Vou descer e me apresentar.
Poirot estava predestinado a ouvir o sr. Victor Astwell um
pouco antes de vê-lo. Uma voz poderosa ecoou pelo saguão.
- Preste atenção no que está fazendo, seu idiota duma figa!
Há vidro dentro da pasta. Para o diabo que o carregue,
Parsons, saia da minha frente! Solte-a, seu cretino!
Poirot desceu as escadas com agilidade. Victor Astwell era
um homem grande. Poirot o saudou com uma respeitosa
reverência.
- Quem diabos é você? - bramiu o homenzarrão. Poirot fez
uma nova mesura.
- Sou Hercule Poirot.
- Por Deus! - disse Victor Astwell. - Então, depois de tudo,
Nancy mandou buscá-lo, não é mesmo?
Ele pousou uma mão sobre o ombro de Poirot e o conduziu
para a biblioteca.
- Então você é o sujeito de que tanto falavam - ele observou,
olhando-o de cima a baixo. - Perdoe-me por meu linguajar
de há pouco. Esse meu motorista é uma besta, e Parsons
sempre me tira do sério, com essa alegria de velho cretino.
Não consigo suportar idiotas com bom-humor - ele disse,
meio a se desculpar -, mas pelo que ouvi dizer não é este o
seu caso, hein, Monsieur Poirot?
Ele sorriu com jovialidade.
- Aqueles que assim pensaram tiveram enormes dissabores -
disse Poirot tranqüilamente.
- É verdade? Bem, então Nancy o trouxe até aqui por estar
com essa pulga atrás da orelha quanto ao secretário. Isso não
vai dar em nada. Trefusis é mais suave que leite, chega
inclusive a beber leite, creio. O camarada é um abstêmio.
Que grande perda de tempo, não lhe parece?
- Se alguém tem a oportunidade de observar a natureza
humana, jamais o tempo é perdido - disse Poirot em voz
baixa.
- Natureza humana, hein?
Victor Astwell ficou a encará-lo, então se deixou cair sobre
uma cadeira.
- Há algo que eu possa fazer pelo senhor?
- Sim, o senhor pode me dizer qual foi o teor da discussão
entre o senhor e seu irmão naquela noite.
Victor Astwell balançou a cabeça.
- Nada a ver com o caso - ele disse de modo decidido.
- Ninguém pode garanti-lo - disse Poirot.
- Não tinha nada a ver com Charles Leverson.
- Lady Astwell acredita que Charles nada tem a ver com o
assassinato.
- Oh, Nancy!
- Parsons alega que foi Monsieur Charles Leverson quem
entrou naquela noite, mas ele não o viu. Lembre-se que
ninguém o viu.
- É bastante simples. Reuben vinha repreendendo o jovem
Charles ultimamente, não sem razão, devo dizer. Mais tarde
ele quis vir para cima de mim. Então eu lhe disse algumas
verdades, apenas para chateá-lo. Eu estava decidido a ajudar
o rapaz. Pretendia vê-lo naquela noite, tentar mostrar a
realidade para ele. Quando fui para o meu quarto, não me
deitei. Em vez disso, deixei a porta entreaberta e sentei na
cadeira para fumar. Meu quarto fica no segundo andar,
Monsieur Poirot, e o do Charles está ao lado.
- Desculpe-me interrompê-lo, mas o sr. Trefusis também
dorme no mesmo andar?
Astwell assentiu.
- Sim, o quarto dele fica logo depois do meu.
- Próximo à escada?
- Não, para o outro lado.
Uma curiosa luz iluminou o rosto de Poirot, mas o outro não
a percebeu e continuou:
- Como eu ia dizendo, esperei por Charles. Escutei a porta da
frente batendo, como previa, uns cinco minutos antes da
meia-noite, mas não houve nenhum sinal de Charles pelos
dez minutos seguintes. Quando o vi subir as escadas, percebi
que não seria uma boa idéia dar-lhe uma dura naquela noite.
Ergueu seu cotovelo significativamente.
- Entendo - murmurou Poirot.
- Pobre-diabo, não conseguia sequer andar em linha reta—
disse Astwell. - Além disso, estava com uma cara bastante
pálida. Julguei, então, que fosse por causa do estado em que
se encontrava. Claro, agora sei que aquilo tudo se devia ao
fato de que acabara de cometer um crime.
Poirot interpôs uma pergunta rápida.
- O senhor não ouviu nenhum som vindo da sala da Torre?
- Não, mas o senhor deve se lembrar de que eu estava
justamente no lado oposto da casa. As paredes são grossas, e
não creio que pudesse escutar mesmo o disparo de uma
pistola.
Poirot assentiu.
- Perguntei se ele precisava de alguma ajuda para chegar até a
cama - continuou Astwell. - Mas ele disse que estava bem,
entrou no quarto e bateu a porta. Eu me despi e fui deitar.
Poirot mirava o tapete, pensativo.
- O senhor tem noção, Monsieur Astwell - ele disse por fim -,
de que seu testemunho é de extrema importância?
- Talvez sim, de certa maneira. O que o senhor quer dizer
com isso?
- Que de acordo com seu testemunho, dez minutos se
passaram entre a batida da porta da frente e a presença de
Leverson junto às escadas. Ele disse, se não me engano, que
chegou em casa e foi direto para a cama. Mas há mais do que
isso. A acusação de Lady Astwell contra o secretário é
fantástica, admito, embora até agora não tenha se provado
impossível. Mas o seu testemunho cria um álibi.
- Como assim?
- Lady Astwell diz que deixou o marido quinze para a meia-
noite, enquanto o secretário foi para a cama às onze horas. O
único lapso de tempo que ele teria para cometer o crime
seria entre quinze para meia-noite e o retorno de Charles
Leverson. Então, se, como o senhor diz, o senhor estava
sentado com a porta aberta, ele não poderia ter saído e
retornado ao quarto sem que o senhor o visse.
- Sim, isso é verdade - concordou o outro.
- Não há nenhuma outra escada?
- Não, para chegar à sala da Torre ele teria que passar pela
minha porta, e não passou, tenho plena certeza disso. E, de
qualquer maneira, Monsieur Poirot, como eu havia dito há
pouco, o homem é mais manso que um cura, isso posso
garantir.
- Sim, sim - disse Poirot de modo sutil -, já compreendi. —
Fez uma pausa. - E o senhor não me dirá qual foi o teor de
sua discussão com Sir Reuben?
O rosto do outro adquiriu uma tonalidade verme-lho-escura.
- Não arrancará nada de mim. Poirot olhou para o teto.
- Posso sempre usar de discrição - murmurou - quando uma
dama está envolvida.
Victor Astwell se pôs de pé num salto.
- Desgraçado, como ousa... O que está insinuando?
- Estou pensando - disse Poirot - na srta. Lily Margrave.
Victor Astwell ficou ali parado, indeciso, por cerca de dois
minutos, depois dos quais sua cor se normalizou e ele voltou
a sentar.
- O senhor é esperto demais para mim, Monsieur Poirot. Sim,
era por causa de Lily que discutíamos. Reuben queria
prejudicar a garota; ele havia futricado ou descoberto algo
sobre ela, falsas referências, algo dessa natureza. Eu,
particularmente, não acredito numa vírgula do que ele disse.
"E então ele seguiu nessa linha, passando dos limites
aceitáveis, falando de como ela roubava à noite e levava os
ganhos para um comparsa do lado de fora. Meu Deus! Não
pude deixar de retrucar. Disse a ele que por muito menos
homens melhores do que ele tinham perdido a vida. Aquilo
foi suficiente para que se calasse. Reuben tinha certo receio
de mim quando eu enveredava por esse caminho."
- Mal posso imaginar por quê - murmurou polidamente
Poirot.
- Lily Margrave não me sai da cabeça - disse Vitor em outro
tom. - Uma ótima garota, dos pés à cabeça.
Poirot não respondeu. Olhava para um ponto à sua frente,
aparentemente perdido em abstrações. Retornou de forma
brusca de seu alheamento.
- Eu devo, me parece, esticar um pouco as pernas. Há um
hotel aqui por perto, não é?
- Dois - disse Victor Astwell -, o Golf Hotel, lá perto do
campo, e o Mitre, próximo à estação.
- Muito obrigado - disse Poirot. - Sim, com certeza devo dar
uma esticada nas pernas.

O Golf Hotel, como o próprio nome diz, localiza-se junto ao
campo de golfe, quase ao lado da sede do clube. Foi para lá
que Poirot primeiro se dirigiu no trajeto da "esticada de
pernas" que ele a si mesmo advertira que iria empreender. O
homenzinho tinha sua própria maneira de agir. Três minutos
após ter entrado no Golf Hotel, já estava numa conversa
privada com a srta. Langdon, a gerente.
- De qualquer modo, lamento por incomodá-la, mademoiselle -
disse Poirot -, mas a senhorita sabe, sou um detetive.
A simplicidade sempre o atraiu. Nesse caso, o método se
mostrou de uma eficácia imediata.
- Um detetive! - exclamou a srta. Langdon, olhando-o
descrente.
- Não da Scotland Yard - garantiu-lhe Poirot.
- Seguramente a senhorita já notou que não sou inglês,
certo? Bem, estou aqui para fazer perguntas de caráter
privado sobre a morte de Sir Reuben Astwell.
- O que o senhor está me dizendo! - A srta. Langdon olhou
com firmeza e expectativa.
- Precisamente - disse Poirot de modo simpático.
- Somente para uma pessoa com sua descrição eu poderia
revelar esta informação. Acredito, mademoiselle, que a
senhorita pode me ajudar. Saberia me dizer se algum
cavalheiro hospedado aqui na noite do assassinato se
ausentou naquela oportunidade, retornando por volta da
meia-noite ou meia hora depois?
Os olhos da srta. Langdon se arregalaram mais do que nunca.
- O senhor não acha que...? - ela tomou ar.
- Que o assassino esteve por aqui? Não, mas tenho razões
para acreditar que um de seus hóspedes deu uma caminhada
até Mon Repôs naquela noite, e, se isso ocorreu, é possível
que tenha visto alguma coisa que pode ser insignificante
para ele, mas bastante útil para mim.
A gerente meneou a cabeça sobriamente, com um ar de
quem estivesse acostumada a lidar com os anais da lógica
investigativa.
- Entendo perfeitamente. Bem, vejamos; quem esteve
hospedado aqui?
Ela franziu o cenho, passando, é claro, os nomes em sua
cabeça e usando, vez ou outra, para auxiliar a memória, o
livro de registro ao alcance dos dedos.
- Capitão Swann, sr. Elkins, major Blyunt, o velho sr.
Benson. Não, na verdade, senhor, não creio que nenhum
deles tenha saído naquela noite.
- Certamente a senhorita teria percebido se isso acontecesse,
não?
- Ah, sim, senhor, não é algo comum, como pode ver?
Quero dizer, os cavalheiros saem para jantar ou algo
semelhante, mas não saem depois do jantar, porque... bem,
não há nada para fazer lá fora, há?
A atração em Abbots Cross era o golfe e nada além do golfe.
- De fato - concordou Poirot. - Então, até onde consegue
lembrar, mademoiselle, nenhum dos hóspedes saiu naquela
noite?
- O capitão England e sua esposa saíram para jantar. Poirot
balançou a cabeça.
- Não é isso que estou procurando. Tentarei no outro hotel;
o Mitre, não é mesmo?
- Ah, o Mitre - disse a srta. Langdon. - Claro, qualquer um
hospedado por lá pode ter saído para a tal caminhada.
O desprezo com que havia dito isso, ainda que vago, era
evidente, e Poirot cuidadosamente bateu em retirada.

Dez minutos depois, repetia a cena, desta vez com a srta.
Cole, a rude gerente do Mitre, um hotel menos pretensioso
e de diárias mais baixas, localizado junto à estação.
- Um cavalheiro saiu naquela noite, retornando por volta da
meia-noite e meia, até onde consigo lembrar. Um hábito
bastante estranho, sair para caminhar a uma hora dessas. Ele
já havia feito isso antes, uma ou duas vezes. Deixe-me ver,
qual seu nome mesmo? No momento não consigo me
lembrar.
Ela trouxe um grande livro de registro para perto de si e
começou a virar as páginas.
- Décimo nono, vigésimo, vigésimo primeiro. Ah, aqui está.
Naylor, Capitão Humphrey Naylor.
- Ele já se hospedara aqui antes? A senhora o conhece bem?
- Uma vez - disse a srta. Cole -, há uns quinze dias. Ele saiu à
noite, lembro bem.
- Ele veio jogar golfe, certo?
- Acredito que sim - disse a srta. Cole. - É a principal razão
para os cavalheiros virem até aqui.
- É verdade - disse Poirot. - Bem, mademoiselle, agradeço-lhe
profundamente e lhe desejo um bom dia.
Retornou a Mon Repôs com um rosto bastante pensativo.
Vez ou outra, retirava alguma coisa do bolso e a olhava.
- É preciso fazê-lo - murmurou para si mesmo -, e logo,
assim que eu consiguia armar a oportunidade.
O primeiro procedimento que adotou ao entrar na casa foi
perguntar a Parsons pelo paradeiro da srta. Margrave. Foi-lhe
dito que ela estava no pequeno estúdio cuidando da
correspondência de Lady Astwell, e a informação pareceu
garantir a satisfação de Poirot.
Encontrou o pequeno estúdio sem maiores dificuldades. Lily
Margrave estava sentada à escrivaninha, junto à janela,
escrevendo. Mas para ela a sala estava vazia. Poirot
cuidadosamente fechou a porta às suas costas e seguiu em
direção à garota.
- Posso, por gentileza, ter um minuto de seu tempo,
mademoiselle?
- Com certeza.
Lily Margrave colocou os papéis de lado e se voltou na
direção dele.
- O que posso fazer pelo senhor?
- Pelo que sei, mademoiselle, na noite da tragédia, assim que
Lady Astwell foi ver o marido a senhorita foi direto para a
cama. Correto?
Lily Margrave assentiu.
- Por acaso, a senhorita não voltou a descer? A garota negou
com a cabeça.
- Creio, mademoiselle, que a senhorita disse que em nenhum
momento naquela noite esteve na sala da Torre, não é?
- Não me lembro de ter dito isso, mas, seja como for, é a
pura verdade. Não estive na sala da Torre naquela noite.
Poirot ergueu as sobrancelhas.
- Curioso - ele murmurou.
- Como assim?
- Muito curioso - murmurou Poirot outra vez. - Como a
senhorita pode, então, me explicar isto?
Puxou do bolso uma pequena tira manchada de chiffon verde
e a estendeu para que a garota pudesse examinar.
A expressão dela não mudou, mas ele teve a nítida
impressão de que sua respiração se alterara.
- Não estou entendo, Monsieur Poirot.
- A senhorita usava, pelo que sei, um vestido verde de chiffon
naquela noite, mademoiselle. Isto aqui - e tocou a tira com os
dedos - é um pedaço que se rasgou dele.
- E o senhor o encontrou na sala da Torre? - perguntou a
garota com rispidez. - Onde? Em que lugar?
Hercule Poirot olhou para o teto.
- Por enquanto podemos dizer apenas na sala da Torre?
Pela primeira vez, um vislumbre de medo passou pelos
olhos da garota. Ela começou a falar, mas então se controlou.
Poirot observava suas pequenas mãos brancas cruzadas sobre
a ponta escrivaninha.
- Tentava me lembrar se eu tinha estado na sala da Torre
naquela noite - ela meditou. - Antes do jantar, quero dizer.
Acho que não. Tenho quase certeza. Se esta tira do vestido
estivesse na sala da Torre por todo esse tempo, parece-me
algo um tanto extraordinário que a polícia não a tivesse
encontrado imediatamente.
- A polícia - disse o homenzinho - não pensa nas coisas que
Hercule Poirot pensa.
- Devo ter entrado ali às pressas um pouco antes do jantar -
refletiu Lily Margrave - ou então a tira já estava por ali na
noite anterior. Eu tinha usado o mesmo vestido na ocasião.
Sim, tenho quase certeza de que foi na noite anterior.

- Acredito que não - disse Poirot em tom neutro.
- Por quê?
Ele apenas moveu a cabeça lentamente, de um lado para o
outro.
- O que o senhor quer dizer? - sussurrou a garota.
Ela se inclinava para frente, encarando-o, o rosto pálido por
completo.
- A senhorita não percebeu, mademoiselle, que este fragmento
está manchado? Não há qualquer dúvida, a mancha é de
sangue humano.
- O senhor quer dizer...
- Quero dizer que a senhorita esteve na sala da Torre depois
que o crime foi cometido, não antes. Creio que será sábio de
sua parte me contar toda a verdade, para que o pior não
recaia sobre a senhorita.
Ele se pôs de pé, a pequena e austera figura de um homem, o
indicador apontado acusadoramente para a garota.
- Como o senhor descobriu? - deixou escapar Lily.
- Não importa, mademoiselle. Eu lhe disse que Hercule Poirot
sabe. Sei de tudo sobre o capitão Humphrey Naylor, e que a
senhorita foi encontrá-lo naquela noite.
Lily subitamente enfiou a cabeça entre os braços e desandou
a chorar. De imediato, Poirot abandonou sua atitude
inquiridora.
- Calma, calma, minha menina - ele disse, acariciando o
ombro da garota. - Não se aflija. É impossível enganar o
detetive Hercule Poirot; assim que você aceitar esta
realidade, seus problemas estarão terminados. E agora você
me contará a história toda, não? Vamos, abra seu coração
para mim.
- Não é nada do que o senhor está pensando, nada mesmo.
Humphrey é meu irmão, jamais tocou num fio de cabelo do
morto.
- Seu irmão, hein? - disse Poirot. - Então assim estão as
coisas. Bem, se a senhorita quer evitar que a suspeita recaia
sobre ele, é melhor me contar toda a história, sem deixar
nada de fora.
Lily voltou a se sentar, afastando os cabelos que lhe haviam
caído sobre a testa. Depois de alguns minutos, começou a
falar, numa voz baixa e clara.
- Vou lhe contar a verdade, Monsieur Poirot. Vejo que seria
absurdo tentar qualquer coisa diferente disso. Meu nome
verdadeiro é Lily Naylor, e Humphrey é meu único irmão.
Alguns anos atrás, quando ele estava na África, descobriu
uma mina de ouro, ou melhor, devo dizer, descobriu a
presença de ouro. Não tenho como lhe relatar esta parte
com propriedade, porque não entendo dos detalhes
técnicos, mas o resultado foi o seguinte:
"A descoberta parecia ser bastante promissora, e Humphrey
voltou para casa com cartas endereçadas a Sir Reuben
Astwell, esperançoso de que ele se interessasse pela questão.
Ainda não entendo bem os trâmites, mas soube que Sir
Reuben enviou um especialista para fazer um relatório e que
posteriormente disse a meu irmão que o relatório do
especialista fora desfavorável e que ele, Humphrey,
cometera um grande equívoco. Meu irmão retornou à África
e partiu numa expedição para o interior. Não se soube mais
notícias dele. Supôs-se que ele e a expedição haviam
perecido.
"Um pouco depois disso, formou-se uma companhia para
explorar as jazidas de ouro de Mpala. Quando meu irmão
retornou à Inglaterra, logo concluiu que essas jazidas eram
idênticas às que ele havia descoberto. Sir Reuben
aparentemente não tinha nada a ver com esta companhia, e
até onde se sabia eles haviam descoberto o lugar por conta
própria. Mas meu irmão não ficou satisfeito: ele estava
convencido de que Sir Reuben, de modo deliberado,
enganara-o.
"Ele se tornou mais e mais violento e descontente com o
assunto. Nós dois somos sozinhos no mundo, Monsieur
Poirot, e como nessa época seria necessário eu buscar meu
próprio sustento, arquitetei a idéia de ocupar uma posição
nesta casa para descobrir se havia alguma conexão entre Sir
Reuben e a empresa que explora as jazidas de ouro de Mpala.
Por razões óbvias, escondi meu nome, e serei obrigada a ad-
mitir, com toda franqueza, que forjei minhas referências.
"Havia várias candidatas para o posto, grande parte delas
com um currículo muito melhor do que o meu, então, bem,
Monsieur Poirot, escrevi uma bela carta da duquesa de
Perthshire, que eu sabia que havia partido para a América.
Eu acreditava que uma duquesa teria um efeito poderoso
sobre Lady Astwell, e eu estava certíssima. Ela me escolheu
para a vaga.
"Desde então tenho me comportado de maneira odiosa,
como uma espiã, e até recentemente sem qualquer sucesso.
Sir Reuben não é o tipo de homem que revela seus segredos
de negócio, mas quando Victor Astwell retornou da África,
ele se tornou menos reservado em suas conversas, e
comecei a acreditar que, afinal, Humphrey não se enganara.
Meu irmão apareceu por aqui uns quinze dias antes do
assassinato, e eu me esgueirei secretamente para fora da casa
para encontrá-lo à noite. Eu lhe repassei as coisas que Victor
Astwell tinha dito, e ele ficou muito animado, garantindo-
me que eu estava no caminho certo.
"Mas depois disso as coisas começaram a dar errado. Alguém
deve ter me visto quando saí da casa e relatou o ocorrido a
Sir Reuben. Isso levantou sua desconfiança e ele foi
investigar minhas referências, e logo descobriu que eram
forjadas. A crise sobreveio no dia do crime. Creio que ele
achava que estava atrás das jóias de sua mulher. Quaisquer
que fossem suas suspeitas, ele não tencionava deixar que eu
passasse nem mais um dia em Mon Repôs, embora ele
tivesse concordado em não me processar por causa das
referências falsas. Lady Astwell ficou do meu lado durante
todo o processo e enfrentou Sir Reuben com valentia."
Ela fez uma pausa. O rosto de Poirot refletia uma pesada
gravidade.
- E então, mademoiselle - ele disse -, chegamos à noite do
crime.
Lily engoliu com dificuldade e assentiu com a cabeça.
- Antes de mais nada, Monsieur Poirot, devo lhe contar que
meu irmão voltou a aparecer por aqui, e que eu já havia
encontrado uma maneira de escapar outra vez. Fui até meu
quarto, conforme eu disse, mas não me deitei. Em vez disso,
esperei até que me parecesse que todos estavam dormindo, e
então desci a escada e saí pela porta lateral. Encontrei
Humphrey e lhe contei em poucas palavras do que havia
ocorrido. Disse-lhe que eu achava que os papéis que ele
queria estavam no cofre de Sir Reuben na sala da Torre, e
concordamos em nos arriscar naquela noite numa última
aventura desesperada em busca das provas.
"Combinamos que eu iria primeiro para ver se o caminho
estava livre. Escutei as doze badaladas do relógio da igreja ao
entrar pela porta lateral. Já estava na metade da escada que
leva à sala da Torre quando escutei o barulho de alguma
coisa caindo e uma voz que disse, "Meu Deus!" Uns dois
minutos depois, a porta da sala da Torre foi aberta, e Charles
Leverson saiu. Pude ver perfeitamente seu rosto iluminado
pela luz do luar, mas eu estava encolhida num canto da
escada, protegida pelas sombras, de forma que ele não pôde
me ver.
"Ele ficou ali parado por um momento, oscilando sobre os
pés e parecendo aterrado. Dava a impressão de estar
escutando alguma coisa. Depois, aparentando muito esforço,
ele conseguiu se recuperar e, abrindo a porta da sala da
Torre, disse algo sobre não ter levado a sério o que foi dito.
Sua voz soou bastante alegre e jovial, mas seu rosto
desmentia o tom adotado. Esperou mais um minuto e então,
vagarosamente, seguiu pela escada para o andar de cima até
sumir de vista.
"Depois que ele se foi, esperei mais um tempinho e então
me esgueirei até a porta da sala da Torre. Tive o
pressentimento de que alguma coisa trágica tinha ocorrido.
A luz de cima estava apagada, mas a da escrivaninha estava
acesa, e isso foi suficiente para eu ver que Sir Reuben estava
estendido no chão junto ao pé da mesa. Não sei como
consegui, mas controlei meus nervos e me ajoelhei ao lado
dele. Logo percebi que estava morto, derrubado com um
golpe que o atingiu por trás e também que não fazia muito
que morrera. Toquei a mão dele, e ela ainda estava quente.
Foi horrível, Monsieur Poirot. Horrível!"
Ela estremeceu novamente com a lembrança.
- E depois? - perguntou Poirot, olhando-a de modo
penetrante.
Lily Margrave assentiu.
- Sim, Monsieur Poirot, sei o que o senhor está pensando. Por
que não dei o alarme e acordei a casa? Era o que eu deveria
ter feito, eu sei, mas então me ocorreu de súbito, enquanto
eu ainda estava ajoelhada, que minha briga com Sir Reuben,
somada à saída para encontrar Humphrey e ao fato de que
logo eu seria dispensada comporiam uma seqüência fatal.
Eles diriam que eu tinha facilitado a entrada de Humphrey e
que ele, por vingança, teria matado Sir Reuben. Se eu
dissesse que tinha visto Charles Leverson deixar a sala,
ninguém me daria ouvidos.
"Foi terrível, Monsieur Poirot! Eu fiquei ali ajoelhada, imersa
num turbilhão de pensamentos, e, quanto mais eu pensava,
mais meus nervos se agitavam. Naquele instante, percebi a
chave que tinha caído do bolso de Sir Reuben, quando ele
tombou no chão. No molho estava a chave do cofre, cuja
combinação eu já conhecia, pois certa vez Lady Astwell a
mencionara e eu a ouvi. Segui em direção ao cofre, Monsieur
Poirot, destravei-o e passei a vasculhar os papéis que
estavam lá dentro.
"Por fim, encontrei o que estava procurando. Humphrey
tinha toda razão. Sir Reuben estava por trás da companhia de
mineração em Mpala, e ele havia deliberadamente enganado
Humphrey. Isto piorava ainda mais as coisas. Fornecia um
motivo definitivo e perfeito para que Humphrey tivesse
cometido o crime. Coloquei os papéis de volta no cofre,
deixei a chave na porta e subi de imediato para o meu
quarto. Pela manhã, quando a criada descobriu o corpo, fingi
estar surpresa e apavorada como todos na casa."
Ela se deteve e olhou de forma lastimosa para Poirot.
- O senhor precisa acreditar em mim, Monsieur Poirot. Oh, o
senhor precisa acreditar em mim!
-Acredito, mademoiselle- disse Poirot. - A senhorita me
explicou diversas coisas que ainda me intrigavam. A sua
absoluta certeza, em primeiro lugar, de que Charles
Leverson cometera o crime e, ao mesmo tempo, seus per-
sistentes esforços em me manter afastado daqui.
Lily assentiu.
- Eu tinha medo do senhor - ela admitiu com franqueza. -
Lady Astwell não tinha como saber, como eu sabia, que
Charles era o culpado, nem eu poderia dizer a ela nada a
respeito. Apesar de tudo, eu tinha esperanças de que o
senhor não aceitasse o caso.
- Mas, graças àquela sua evidente ansiedade, acabei tendo
que aceitá-lo - disse Poirot, irônico.
Lily olhou para ele rapidamente, os lábios tremendo de leve.
- E então, Monsieur Poirot... O que o senhor fará agora?
- No que lhe diz respeito, mademoiselle, nada. Acredito na sua
história e vou considerá-la. O próximo passo é ir a Londres
encontrar o inspetor Miller.
- E depois? - perguntou Lily.
- E depois - disse Poirot -, depois veremos.
Fora do estúdio, ele lançou mais um olhar para o pequeno
retalho de chiffon verde manchado que trazia em sua mão.
- Impressionante - murmurou para si mesmo - a
engenhosidade de Hercule Poirot.

O inspetor Miller não nutria especial admiração por Hercule
Poirot. Não fazia parte do pequeno círculo de inspetores da
Yard que aceitavam de bom grado a colaboração do pequeno
belga. Acostumara-se a dizer que a figura de Hercule Poirot
era supervalorizada. Naquele caso em específico, sentia-se
bastante seguro de suas conclusões e, por isso, saudou Poirot
de forma bem-humorada.
- Trabalhando para Lady Astwell, não é mesmo? Bem, o
senhor já chegou com o caso prontinho e resolvido, uma
belezura.
- Quer dizer que não há qualquer dúvida sobre o assunto?
Miller piscou.
- Nunca houve caso tão simples, em que o criminoso foi
praticamente pego com a mão na massa.
- Monsieur Leverson prestou depoimento, certo?
- Era melhor que tivesse ficado de boca fechada
- disse o detetive. - Repetiu sem parar que seguiu direto para
o quarto e que não passou nem perto da sala do tio. Pode-se
ver de cara que não passa de conversa fiada.
- Certamente vai de encontro ao peso da evidência -
murmurou Poirot. - Qual sua impressão sobre o jovem
Monsieur Leverson?
- Um idiota total e completo.
- De personalidade fraca, não?
O inspetor concordou.
- Dificilmente alguém poderia acreditar que um jovem como
esse teria coragem para cometer tal tipo de crime.
- À primeira vista, não - concordou o inspetor.
- Mas, bendito seja, pensei diversas vezes nesta questão.
Pegue um jovem dissipador e fraco e o encurrale, acrescente
aí uma boa dose de bebida e, por um curto espaço de tempo,
pode-se transformá-lo num cuspidor de fogo. Um homem
fraco encurralado é mais perigoso que um homem forte.
- Sim, isso que o senhor diz é verdade. Miller inclinou-se um
pouco mais para frente.
- Claro, não há mal nenhum nisso, Monsieur Poirot
- ele disse. - O senhor recebe a sua comissão da mesma
maneira, e naturalmente é preciso simular uma investigação
para satisfazer a dama que o contratou. Isto é
compreensível.
- O senhor realmente tem um entendimento interessante
das coisas - murmurou Poirot, e tomou o caminho da saída.
Seu próximo encontro foi com o representante legal de
Charles Leverson. O sr. Mayhew era um cavalheiro magro,
seco e cauteloso. Recebeu Poirot com reserva, mas este, no
entanto, tinha sua própria maneira de transmitir confiança.
Em dez minutos, os dois conversavam de modo amigável.
- O senhor deve entender - disse Poirot - que ajo neste caso
somente em defesa do sr. Leverson. Este é o desejo de Lady
Astwell. Ela está convencida de que ele não tem culpa de
nada.
- Sim, sim, é verdade - disse o sr. Mayhew sem entusiasmo.
Os olhos de Poirot faiscaram.
- O senhor não parece dar muito valor às opiniões de Lady
Astwell, correto?
- Amanhã mesmo ela pode estar convencida da culpa dele -
disse o advogado secamente.
-As intuições dela não são, com certeza, evidências -
concordou Poirot -, e, em função disso, o caso se afigura
bastante sinistro para o pobre jovem.
- É uma pena que ele tenha insistido naquela história com a
polícia - disse o advogado. - De nada servirá ele se aferrar a
essa história.
- Para o senhor também ele mantém a mesma versão? -
inquiriu Poirot.
Mayhew assentiu.
- Não muda uma vírgula. Repete a mesma ladainha como um
papagaio.
- E isso é o que destrói a fé do senhor nele - refletiu o outro.
- Ah, não negue - acrescentou rapidamente, erguendo a
mão. - Posso ver com clareza. No íntimo, o senhor acredita
que ele é culpado. Mas me escute agora, escute a versão de
Hercule Poirot para o caso.
"Nosso jovem chega em casa, bebeu drinques atrás de
drinques, certamente alguns uísques com soda. Ele está
tomado pela, como se chama? Empáfia da bebida, e nesse
estado de espírito, ele entra em casa pela porta da frente e
vai a passos trôpegos até a sala da Torre. Ele espia através da
porta e vê o tio meio à sombra, aparentemente inclinado
sobre a escrivaninha.
"Monsieur Leverson está tomado, como bem dissemos, pela
empáfia da bebida. Ele se solta, diz ao tio tudo o que pensa
dele. Desafia-o, insulta-o e, quanto mais o tio se nega a lhe
responder, mais ele se encoraja para prosseguir, repetindo o
que já havia dito, novamente, e sempre mais alto. Até que
finalmente o silêncio constante do tio lhe provoca uma
apreensão. Ele se aproxima mais, toca com a mão o ombro
do tio, e esse desaba sob o seu toque, deslizando para o chão.
"Ele fica sóbrio, então, nosso Monsieur Leverson. A cadeira
cai junto com um estrondo, e ele se inclina sobre Sir
Reuben. Ele percebe o que aconteceu, olha para as mãos
cobertas pelo líquido quente e vermelho. Então o pânico o
domina, ele daria qualquer coisa para apagar o grito que
acabara de escapar de seus lábios, ecoando pela casa.
Mecanicamente ele ergue a cadeira, e então sai apressado
pela porta e aguça os ouvidos. Ele acredita ter escutado
algum tipo de som, e então, imediatamente,
automaticamente, finge estar conversando com o tio através
da porta aberta.
"O som não se repete. Ele está convencido de que se
equivocou ao pensar que ouviu alguma coisa. Agora tudo é
silêncio, ele se arrasta até seu quarto, e lhe ocorre que o
melhor será fingir que nunca esteve próximo do quarto do
tio naquela noite. Então ele apresenta sua versão da história.
Parsons, naquele momento, lembre-se, ainda não havia dito
que escutara alguma coisa. Quando ele o faz, é tarde demais
para Monsieur Leverson mudar sua versão. Ele é estúpido e
obstinado, de modo que prefere se aferrar ao que inventou.
Diga-me, monsieur, se isto não lhe parece possível?
- Sim - disse o advogado -, acredito que da maneira como o
senhor apresentou a situação isso seja possível.
Poirot se pôs de pé.
- O senhor tem o privilégio de poder entrar em contato com
Monsieur Leverson - ele disse. - Apresente-lhe a minha
versão e pergunte ao seu cliente se não é essa a verdade.
Em frente ao escritório do advogado, Poirot tomou um táxi.
- Harley Street, 348 - murmurou para o motorista.

A partida de Poirot para Londres pegou Lady Astwell de
surpresa, pois o homenzinho não fizera qualquer menção do
que pretendia fazer. Ao retornar, após a ausência de um dia,
ele foi informado por Parsons que Lady Astwell gostaria de
vê-lo assim que possível. Poirot encontrou a dama em sua
suíte. Ela estava estendida sobre um divã, a cabeça apoiada
em almofadas, e parecia impressionantemente doente e
cansada; muito mais do que aparentava no dia em Poirot
tinha chegado.
- Então o senhor voltou, Monsieur Poirot?
- Retornei, madame.
- Esteve em Londres? Poirot concordou.
- O senhor não me avisou que estava indo - disse Lady
Astwell com aspereza.
-Mil desculpas, madame. Admito meu erro, deveria tê-la
avisado. La prochaine fois ...
- O senhor fará da mesma maneira - interrompeu Lady
Astwell com um perspicaz toque de humor. - Fazer
primeiro e comunicar depois, esse é o seu verdadeiro lema.
- Não seria o de madame também?
Os olhos dele brilharam.
- De vez em quando, talvez - admitiu a outra. - Qual a razão
de sua viagem a Londres, Monsieur Poirot? Pode me dizer
agora, suponho?
- Fui me encontrar com o bom inspetor Miller, e também
com o excelente sr. Mayhew.
Os olhos de Lady Astwell lhe perscrutaram a face.
- E então, o senhor acha que...? - ela perguntou lentamente.
Os olhos de Poirot estavam cravados em sua face.
- Há uma possibilidade de que Charles seja inocente - ele
disse com gravidade.
- Ah! - Lady Astwell se ergueu parcialmente, fazendo rolar
duas almofadas para o chão. - Então eu estava certa. Eu
estava certa!
- Falei em possibilidade, madame, apenas isso.
Alguma coisa em seu tom pareceu tocá-la. Ela se ergueu
sobre um dos cotovelos e encarou-o de forma penetrante.
- Posso fazer alguma coisa? - ela perguntou.
- Sim - ele assentiu com a cabeça -, a senhora pode me dizer,
Lady Astwell, por que suspeita de Owen Trefusis.
- Eu tinha lhe dito que eu sabia. Isto é tudo.
- Infelizmente, isso não é o suficiente - disse Poirot com
secura. - Faça um esforço para recuperar a noite fatal,
madame. Relembre de cada detalhe, cada pequeno
acontecimento. O que a senhora viu ou observou em relação
ao secretário? Eu, Hercule Poirot, lhe digo que deve haver
alguma coisa.
Lady Astwell balançou a cabeça.
- Eu mal o vi naquela noite - ela disse -, e certamente não
pensei nele uma vez sequer.
- Sua mente estava ocupada com outra coisa?
- Sim.
- Com a animosidade de seu marido contra a srta. Lily Mar
grave?
- Exato - disse Lady Astwell, assentindo. - O senhor parece
saber todas as coisas, Monsieur Poirot.
- Eu, eu sei de tudo - declarou o homenzinho com um
absurdo ar de grandiosidade.
- Tenho muita estima por Lily, Monsieur Poirot, o senhor viu
com os próprios olhos. Reuben começou a fazer um
escarcéu a respeito das referências dela. Entenda. Não estou
dizendo que ela não mentiu a respeito. Ela mentiu. Mas,
bendito seja, eu fiz coisas muito piores nos velhos tempos.
Você precisa ter todo o tipo de truques na manga para
sobreviver aos empresários do teatro. Não há nada que eu
não tenha escrito, dito ou feito na minha época.
"Lily queria este emprego, e ela colocou várias informações
que não são bem... legítimas, o senhor sabe. Os homens são
tão estúpidos para esse tipo de coisa; Lily teria que ser uma
funcionária de banco que tivesse roubado milhões para
justificar o escândalo que ele fez. Passei terrivelmente
preocupada toda aquela noite, porque, embora no final eu
geralmente conseguisse resolver as coisas com Reuben, às
vezes ele dava uma de cabeça-dura, pobrezinho. Então é
claro que não tive tempo de reparar no secretário, não que
alguém jamais repare muito no sr. Trefusis. Ele está por ali e
isso é tudo o que se pode reparar."
- Reparei nessa característica do sr. Trefusis - disse Poirot. -
Ele não possui uma personalidade que se destaque, que
brilhe, que provoque qualquer coisa.
- Não - disse Lady Astwell -, ele não é como Victor.
- Monsieur Victor Aswell é, devo dizer, explosivo.
- Essa é uma ótima palavra para defini-lo - disse Lady Astwell.
- Pode-se ouvi-lo explodir pela casa toda, como um desses
fogos de artifício.
- De pavio curto, suponho? - sugeriu Poirot.
- Ah, ele é o diabo em pessoa quando está agitado - disse
Lady Astwell -, mas, por sorte, não tenho medo dele. Victor é
um cão que ladra, mas não morde.
Poirot olhou para o teto.
- E a senhora nada tem a me dizer sobre o secretário naquela
noite? - ele murmurou com delicadeza.
- É como lhe digo, Monsieur Poirot. Eu sei. É intuição.
Intuição feminina...
- Não basta para enforcar um homem - disse Poirot e
também não fará com que outro não seja enforcado. Lady
Astwell, se a senhora acredita sinceramente que Monsieur
Leverson é inocente, e que suas suspeitas em relação ao
secretário são bem-fundamentadas, consentiria num
pequeno experimento?
- Que tipo de experimento? - questionou Lady Astwell com
desconfiança.
- Permitiria que eu a colocasse sob influência hipnótica?
- Para quê?
Poirot se inclinou para frente.
- Se eu lhe dissesse, madame, que essa sua intuição está
baseada em certos fatos registrados de forma subconsciente,
a senhora provavelmente agiria com ceticismo. Desse modo,
direi apenas que esse experimento que proponho pode ser
de grande importância para o desafortunado jovem Charles
Leverson. A senhora terá coragem de recusar?
- Quem me colocará em transe? - quis saber Lady Astwell
com descrença. - O senhor?
- Um amigo meu, Lady Astwell, que está chegando, se não
me engano, neste exato minuto. Posso ouvir o barulho das
rodas lá fora.
- Quem é ele?
- Um certo dr. Cazalet de Harley Street.
- Ele é de confiança? - perguntou apreensiva Lady Astwell.
- Não se trata de um charlatão, se é isso o que a senhora quer
dizer. Pode confiar nele plenamente.
- Bem - disse Lady Astwell com um suspiro -, acho que isso
tudo não passa de uma bobajada, mas o senhor pode tentar,
se quiser. Ninguém poderá dizer que eu o atrapalhei.
- Muitíssimo obrigado, madame.
Poirot saiu da suíte às pressas. Retornou em poucos minutos,
trazendo consigo um homem pequeno e alegre, de rosto
redondo, de óculos, uma figura que nada tinha a ver com a
imagem que Lady Astwell fazia de um hipnotizador. Poirot o
apresentou.
- Bem - disse Lady Astwell de bom humor -, como
começamos essa tolice?
- É muito simples, Lady Astwell, muito simples - disse o
pequeno doutor. - Apenas se recoste, isso, assim. Não se
sinta apreensiva.
- Não me sinto nem um pouco apreensiva - disse Lady
Astwell. - Quero ver alguém me hipnotizar contra minha
vontade.
O dr. Cazalet sorriu abertamente.
- Sim, mas se a senhora consente, não será contra sua
vontade, certo? - ele disse com bonomia. - Isso mesmo. O
senhor pode apagar a outra luz, Monsieur Poirot? Isso,
mergulhe no sono, Lady Astwell.
Ele mudou um pouquinho de posição.
- Está ficando tarde. A senhora está com sono, muito sono.
Suas pálpebras estão pesadas, estão se fechando... fechando...
fechando. Logo a senhora estará dormindo...
Sua voz se aprofundou, baixa, suave e monótona. Então ele
se inclinou para frente e ergueu delicadamente a pálpebra
direita de Lady Astwell e se voltou para Poirot, assentindo
com satisfação.
- Tudo certo - ele disse em voz baixa. - Posso prosseguir?
- Por favor.
O médico falou de modo ríspido e autoritário:
- A senhora está dormindo, Lady Astwell, mas vai me ouvir e
responder a todas as minhas perguntas.
Sem se mover ou mexer uma pálpebra, a figura imóvel sobre
o sofá respondeu numa voz baixa e monótona:
- Posso ouvi-lo. Responderei às suas perguntas.
- Lady Astwell, quero que a senhora retorne à noite em que
seu marido foi morto. Lembra-se daquela noite?
- Sim.
- A senhora está na mesa de jantar. Descreva-me o que viu e
sentiu.
A figura deitada se mexeu, um pouco menos relaxada.
- Estou muito aflita, preocupada com Lily.
- Sabemos disso. Fale-nos do que a senhora viu.
- Victor está comendo todas as amêndoas salgadas; ele é
insaciável. Amanhã pedirei a Parsons que não coloque o
prato naquele lado da mesa.
- Prossiga, Lady Astwell.
- Reuben está de mau humor esta noite. Não creio que seja
só por causa de Lily. Tem alguma coisa a ver com os
negócios. Victor olha para ele de um jeito estranho.
- Fale-nos sobre o sr. Trefusis, Lady Astwell.
- A manga esquerda de sua camisa está puída. O cabelo dele
está empapado de brilhantina. Gostaria que os homens não
usassem isso, estraga os estofados da sala de estar.
Cazelet olhou para Poirot; o outro fez um movimento com a
cabeça.
- O jantar já acabou, Lady Astwell, a senhora está tomando
café. Descreva-me a cena.
- O café está bom hoje à noite. Isso varia muito. A
cozinheira não é nada confiável em relação ao café. Lily não
pára de olhar para a janela, não sei por quê. Agora Reuben
entra na sala; ele está num de seus piores humores esta noite
e lança os maiores impropérios contra o coitado do sr.
Trefusis, que traz na mão um corta-papéis, um que é bem
cumprido e afiado, como uma faca. Ele aperta com força o
corta-papéis. Suas juntas estão muito brancas. Veja, ele
cravou com tanta força o instrumento na mesa que a ponta
chegou a estalar. Ele o segura como alguém seguraria um
punhal que quisesse cravar em alguém. Veja, agora os dois
estão saindo juntos. Lily está usando o seu vestido verde; ela
fica tão bem nessa cor, como se fosse um lírio. Devo mandar
lavar as colchas na próxima semana.
- Um minuto, Lady Astwell.
O médico se reclinou na direção de Poirot.
- Acho que já conseguimos - ele murmurou. - Esses
movimentos com o corta-papéis, foi isso que a convenceu
de que o secretário estava por trás de tudo.
- Sigamos agora para a sala da Torre.
O doutor assentiu e, com voz alta e decidida, começou a
fazer mais perguntas para Lady Astwell.
- É mais tarde, na mesma noite. A senhora está na sala da
Torre com seu marido. Os dois tiveram uma discussão
terrível, certo?
Novamente a figura voltou a se mexer de modo incômodo.
- Sim... Terrível... terrível. Dissemos coisas hediondas um
para o outro.
- Não se preocupe com isso agora. A senhora pode ver a sala
com clareza, as cortinas estão puxadas, as luzes acesas.
- Não a luz de cima, só a da escrivaninha.
- A senhora está deixando o seu marido agora, a senhora lhe
diz boa noite.
- Não, eu estava furiosa demais.
- É a última vez que a senhora o verá; logo ele será morto. A
senhora sabe quem o matou, Lady Astwell?
- Sim. O sr. Trefusis.
- Por que a senhora diz isso?
- Por causa da saliência... da saliência na cortina.
- Havia uma saliência na cortina?
- Sim.
- A senhora a viu?
- Sim, quase toquei.
- E havia um homem escondido atrás dela... O sr. Trefusis?
- Sim.
- Como a senhora sabe?
Pela primeira vez a voz monótona que respondia a tudo
perdeu sua confiança.
- Eu... eu... por causa do corta-papéis.
Poirot e o doutor trocaram novamente um olhar rápido.
- Não consigo entendê-la, Lady Astwell. Havia uma saliência
na cortina, a senhora disse? Alguém estava escondido ali? A
senhora não viu a pessoa?
- Não.
- A senhora pensou se tratar do sr. Trefusis pelo modo como
antes ele segurara o corta-papéis?
- Sim.
- Mas o sr. Trefusis havia ido para a cama, não é verdade?
- Sim... sim, isso é verdade, ele tinha ido para o quarto.
- Então ele não poderia estar atrás das cortinas da janela?
- Não... não, claro que não, ele não estava ali.
- Ele havia dado boa noite a seu marido um pouco antes,
certo?
- Sim.
- E a senhora não o viu novamente?
- Não.
Ela se agitava agora, debatia-se um pouco, gemendo
baixinho.
- Ela está acordando do transe - disse o médico. - Bem, acho
que conseguimos o máximo possível, não?
Poirot concordou com a cabeça. O médico se inclinou sobre
Lady Astwell.
- A senhora está acordando - ele murmurou com suavidade.
- A senhora está acordando agora. No próximo minuto
abrirá os olhos.
Os dois homens esperaram e logo Lady Astwell se sentou
ereta e encarou os dois.
- Eu estive cochilando?
- Sim, Lady Astwell, apenas um rápido cochilo
- disse o médico.
Ela olhou para ele.
- Parte do seu numerozinho de mágica, hein?
- A senhora não se sente pior do que antes, espero?
- ele perguntou.
Lady Astwell bocejou.
- Sinto-me mais cansada e esgotada. O médico ficou de pé.
- Pedirei que lhe tragam um pouco de café - ele disse -, e
com isso me retiro.
- Eu disse alguma coisa? - Lady Astwell perguntou após vê-los
prestes a sair pela porta.
Poirot lhe sorriu de volta.
- Nada muito importante, madame. A senhora nos informou
que as colchas da sala de estar precisam de limpeza.
- De fato - disse Lady Astwell. - Não precisavam me pôr em
transe para fazer com que eu dissesse isto. - Ela riu bem-
humorada. - Alguma coisa mais?
- A senhora se lembra de ver o sr. Trefusis apanhar o corta-
papéis aquela noite na sala de estar? - perguntou Poirot.
- Não tenho certeza - disse Lady Astwell. - Talvez ele o tenha
pego.
- Uma saliência na cortina lhe diz alguma coisa? Lady Astwell
franziu o cenho.
- Acho que me lembro de algo - ela disse devagar.
- Não... se foi, ainda assim...
- Não se canse, Lady Astwell - disse rapidamente Poirot -,
não tem nenhuma importância, nenhuma importância
mesmo.
O doutor seguiu com Poirot para os aposentos do último.
- Bem - disse Cazalet -, creio que isso deixa as coisas
perfeitamente claras. Nenhuma dúvida de que, quando Sir
Reuben estava repreendendo o secretário, este agarrou com
força o corta-papéís e teve que usar de uma boa dose de
autocontrole para não responder. A esfera consciente da
mente de Lady Astwell estava tomada por completo pelo
problema de Lily Margrave, mas a subconsciente percebeu e
fez uma interpretação errada da ação.
- Esta esfera lhe deu a firme convicção de que Trefusis
assassinara Sir Reuben. Agora chegamos à saliência na corti-
na. Isto é interessante. Pelo que pude entender da descrição
que você me fez da sala da Torre, a escrivaninha está junto à
janela. Há cortinas na frente da janela, correto?
- Sim, mon ami, cortinas de veludo negro.
- E há espaço no vão da janela para que alguém pudesse se
esconder ali?
- Creio que há um espaço exato para isso.
- Então há pelo menos uma possibilidade - disse o médico
devagar - de que alguém estivesse escondido na sala, mas, se
assim fosse, não poderia ser o secretário, já que ambos o
viram sair da sala. Poderia ser Victor Astwell, pois Trefusis o
viu sair, e não poderia ser Lily Margrave. Quem quer que
estivesse ali, teria que ter entrado antes de Sir Reuben
naquela noite. O senhor me fez um quadro perfeito de como
as coisas estão. E o que me diz do capitão Naylor? Não
poderia ser ele a pessoa escondida ali?
- É sempre possível - admitiu Poirot. - Ele jantou no hotel
com certeza, mas depois de quanto tempo ele saiu é algo
difícil de definir com exatidão. Ele retornou à meia-noite e
meia.
- Então pode ter sido ele - disse o médico -, e, se era ele,
temos o assassino. Ele tinha um motivo, e a arma do crime
estava ao alcance da mão. Você não parece, contudo,
satisfeito com a idéia, estou enganado?
- Eu tenho outras idéias - confessou Poirot. - Diga-me uma
coisa, Monsieur le Docteur, supondo por um minuto que Lady
Astwell tenha cometido esse crime, ela necessariamente
revelaria esse fato sob hipnose?
O médico deixou escapar um silvo.
- Então é aí que quer chegar? Lady Astwell é a criminosa,
hein? Claro, é possível. Não pensei nisso sequer um minuto.
Ela foi a última a estar com ele, e ninguém o viu com vida
depois disso. Quanto à sua pergunta, eu estaria inclinado a
dizer que não. Lady Astwell poderia entrar em estado
hipnótico com uma forte resolução mental quanto a não
dizer nada sobre sua participação no crime. Poderia
responder às minhas perguntas com sinceridade, mas ficaria
calada em relação a esse ponto. De todo modo, eu
dificilmente esperaria que ela fosse tão insistente quanto à
culpa do sr. Trefusis.
- Compreendo - disse Poirot. - Mas não estou dizendo que
acredito que Lady Astwell seja a criminosa. É apenas uma
sugestão, nada além disso.
- É um caso interessante - disse o médico após alguns
instantes. - Aceitando que Charles Leverson seja inocente,
há inúmeras possibilidades, Humphrey Naylor, Lady Astwell
e até mesmo Lily Margrave.
- Há outra que você não mencionou - disse Poirot
calmamente -, Victor Astwell. De acordo com sua própria
versão, ele estava sentado em seu quarto com a porta aberta,
esperando o retorno de Charles Leverson, mas para esse álibi
contamos apenas com as palavras dele, compreende?
- Ele é o sujeito com um temperamento terrível, não? -
perguntou o médico. - Aquele de que você me falou?
- Esse mesmo - concordou Poirot. O médico se pôs de pé.
- Bem, tenho que voltar para a cidade. Você me manterá a
par do ocorrido, sim?
Depois que o médico se foi, Poirot fez soar a campainha de
George.
- Uma xícara de chá, George. Meus nervos estão em
frangalhos.
- Certamente, senhor - disse George. - Vou prepará-lo agora
mesmo.
Dez minutos depois ele trouxe uma xícara fumegante para
seu patrão. Poirot inalou com prazer o vapor de cheiro
desagradável. Enquanto dava uns goles, começou um
solilóquio em voz alta.
- A caçada é diferente em cada parte do mundo. Para pegar
uma raposa você precisa lançar os cachorros e acompanhá-
los. Você grita, corre, é uma questão de velocidade. Nunca
cacei um veado, mas sei que para isso é preciso rastejar por
um bom tempo, longas horas se arrastando sobre o próprio
estômago. Meu amigo Hastings já me falou sobre isso. Nosso
método aqui, George, não pode ser nenhum desses.
Pensemos em um gato caseiro. Por longas e aborrecidas
horas ele observa o buraco do rato, imóvel, não desperdiça
energia, mas não abandona a empreitada.
Suspirou e depôs a xícara sobre o pires.
- Eu lhe pedi que fizesse uma mala para poucos dias.
Amanhã, meu bom George, você irá a Londres e me trará o
que for necessário para duas semanas.
- Muito bem, senhor - disse George. Como de costume, não
deixou transparecer qualquer emoção.
A presença constante e sempre visível de Hercule Poirot em
Mon Repôs era inquietante para muitas pessoas. Victor
Astwell reclamou disso à sua cunhada.
- Tudo bem, Nancy. Você não sabe como esses sujeitos são.
Ele encontrou uma agradável pousada aqui, e é evidente que
vai se instalar por cerca de um mês, com todo o conforto,
cobrando-lhe uma fortuna de comissão enquanto isso.
Lady Astwell respondeu dizendo que podia cuidar de seus
assuntos particulares sem qualquer interferência.
Lily Margrave tentava com empenho esconder sua
perturbação. Antes, ela confiava plenamente que Poirot
tivesse acreditado em sua versão. Agora já não tinha tanta
certeza.
Poirot não participava da caça numa posição totalmente
imóvel. No quinto dia de sua temporada, levou para a mesa
de jantar um pequeno álbum para gravar impressões digitais.
Como método de obter as digitais das pessoas da casa,
parecia um recurso um pouco obtuso, mas não tão obtuso
como podia parecer, já que assim ninguém ali poderia se
recusar a fornecê-las. Somente depois que o homenzinho se
recolheu foi que Victor Astwell externou sua opinião.
- Percebe o que isso significa, Nancy? Ele está atrás de um de
nós.
- Não seja ridículo, Victor.
- Bem, que outro propósito teria esse albunzinho brilhante
que ele trouxe?
- Monsieur Poirot sabe o que está fazendo - disse Lady Astwell
complacentemente, e olhou de modo significativo para
Owen Trefusis.
Em outra ocasião, Poirot introduziu a estratégia de recolher
as pegadas de cada um numa folha de papel. Na manhã
seguinte, utilizando-se de um caminhar felino até a
biblioteca, o detetive surpreendeu Owen Trefusis, que deu
um salto da cadeira como se tivesse sido baleado.
- Peço-lhe mil perdões, Monsieur Poirot - ele disse com
recato -, mas o senhor nos deixa numa situação inquietante.
- É mesmo? Como você explica isso? - perguntou o
homenzinho inocentemente.
- Preciso admitir - disse o secretário - que para mim as
evidências contra Charles Leverson são extremamente
convincentes. O senhor, aparentemente, não tem a mesma
convicção.
Poirot estava parado, olhando para a janela. De súbito,
voltou-se para o outro.
- Preciso lhe contar algo em caráter confidencial, Monsieur
Trefusis.
-Sim?
Poirot parecia não ter pressa em começar. Esperou um
minuto, hesitante. Quando falou, as primeiras palavras
coincidiram com o abrir e fechar da porta da frente. Para um
homem que falava confidencialmente, seu tom de voz era
um tanto alto, abafando, inclusive, o som dos passos que
vinham do saguão.
- O que lhe direi é segredo, sr. Trefusis. Trata-se de uma
nova evidência, que vem provar que quando Charles
Leverson entrou na sala da Torre naquela noite Sir Reuben já
estava morto.
O secretário olhou-o fixamente.
- Mas que evidência? Por que não ouvimos nada a respeito
disso?
- Os senhores ouvirão - disse o homenzinho de forma
misteriosa. - Enquanto isso, somente nós dois saberemos do
segredo.
Com rapidez ele deixou a sala, e quase colidiu com Victor
Astwell no saguão.
- O senhor acaba de chegar, não é, monsieur!
Astwell assentiu.
- Um dia do cão lá fora - ele disse, respirando com
dificuldade -, gelado e ventoso.
- Ah - disse Poirot -, então não darei minha caminhada hoje.
Sabe, sou como um gato, eu me sento perto do fogo e me
mantenho aquecido.
- Ça marche, George - ele disse naquela noite ao fiel
empregado, esfregando as mãos enquanto falava -, eles estão
ao alcance de minhas garras, basta o pulo! É difícil, George,
fazer o papel do gato, o j ogo da espera, mas ele dá
resultados, sim, resultados incríveis. Amanhã obteremos o
resultado.
No dia seguinte, Trefusis foi obrigado a ir à cidade. Tomou o
mesmo trem que Victor Astwell. Mal haviam deixado a casa,
Poirot foi como que tomado por uma febre de atividade.
-Vamos, George, vamos ao trabalho. Se a criada se aproximar
destes quartos, é sua função atrasá-la. Diga-lhe umas
gentilezas, George, e a mantenha no corredor.
Entrou primeiro no quarto do secretário e começou uma
busca completa. Não deixou uma gaveta ou prateleira sem
inspeção. Então colocou todas as coisas rapidamente no
lugar e deu a busca por encerrada. George, que montava
guarda na soleira da porta, deixou escapar um pigarro
deferencial.
- Com licença, senhor?
- Sim, meu bom George?
- Os sapatos, senhor. Os dois pares de sapato marrons estão
na segunda prateleira e os de verniz estão na de baixo. Ao
recolocá-los no lugar o senhor trocou a ordem.
- Maravilha! - gritou Poirot, apertando as mãos. - Mas não
nos incomodemos com isso. É coisa sem importância, posso
lhe assegurar, George. Monsieur Trefusis jamais perceberá
algo tão trivial.
- Como o senhor quiser - disse George.
- É sua função notar essas coisas - disse Poirot, dando um
tapínha encorajador no ombro do outro. - Isso lhe dá
credibilidade.
O empregado não respondeu, e quando, mais tarde naquele
dia, o procedimento foi repetido no quarto de Victor
Astwell, não fez nenhum comentário ao ver que as roupas
de baixo do sr. Astwell não haviam sido acondicionadas no
lugar devido. Todavia, no segundo caso ao menos, os
acontecimentos mostraram que o empregado estava certo e
Poirot errado. Naquela noite, Victor Astwell entrou na sala
de estar bufando.
- Olhe aqui, seu maldito belga, seu nanico insolente, quem
lhe deu o direito de vasculhar o meu quarto? Que diabos
pensava encontrar por lá? Não aceitarei isso, compreende? É
o que dá ter um espiãozinho de meia-tigela fuçando pela
casa.
Poirot abriu os braços de maneira eloqüente enquanto
despejava palavra após palavra. Ofereceu centenas, milhares,
milhões de desculpas. Ele havia sido desastrado,
impertinente, estava confuso. Tomara uma liberdade
indevida. No fim, o cavalheiro enfurecido foi forçado a
ceder, embora não parasse de grunhir.
E ainda naquela noite, sorvendo seu chá, Poirot murmurou
para George:
- As coisas estão andando, George, sim, estão andando.
- Sexta-feira - observou Poirot, pensativo -, meu dia de sorte.
- De fato, senhor.
- Por acaso você não é supersticioso, meu bom George?
- Prefiro não me sentar no décimo terceiro lugar de uma
mesa, senhor, e evito passar debaixo de escadas. Quanto à
sexta-feira, porém, não tenho superstição.
- Isso é bom - disse Poirot -, pois hoje travaremos nossa
batalha de Waterloo.
- Sério, senhor?
- Você tem tanto entusiasmo, meu bom George, nem
chegou a me perguntar o que pretendo fazer.
- E o que será, senhor?
- Hoje, George, farei a busca final na sala da Torre.
Realmente, depois do café-da-manhã, Poirot, com a
permissão de Lady Astwell, foi até a cena do crime. Lá, em
diversos períodos da manhã, os serviçais o viram engati-
nhando pelo chão, examinando minuciosamente o veludo
negro das cortinas, subindo em cadeiras para inspecionar as
molduras das pinturas nas paredes. Pela primeira vez, Lady
Astwell revelou desconforto com a situação.
- Devo admitir - ela disse. - Ele finalmente está me dando
nos nervos. Ele tem alguma carta escondida na manga, e não
sei o que é. E o jeito como ele engatinha pelo chão lá na sala
como se fosse um cachorro me faz ter arrepios dos pés à
cabeça. O que ele está procurando? Gostaria de saber. Lily,
minha cara, gostaria que você fosse até lá para ver o que ele
está fazendo. Não, melhor não, prefiro que você fique aqui
comigo.
- Permita-me que eu vá, Lady Astwell? - perguntou o
secretário, erguendo-se da escrivaninha.
- Se puder me fazer a gentileza, sr. Trefusis. Owen Trefusis
deixou a peça e subiu as escadas em
direção à sala da Torre. À primeira vista, pensou que a sala
estivesse vazia; não havia, por certo, nenhum sinal de
Hercule Poirot por ali. Ele acabava de dar meia-volta para
descer quando um som chegou aos seus ouvidos: ele avistou
o homenzinho na metade da escada em espiral que levava ao
quarto acima.
Ele estava apoiado sobre as mãos e os joelhos; numa das
mãos trazia uma pequena lente de aumento e através dela
examinava com minúcia alguma coisa no madeiramento ao
lado do tapete da escada.
Enquanto o secretário o observava, ele emitiu um súbito
grunhido e enfiou a lente no bolso. Então se pôs de pé,
segurando alguma coisa entre o polegar e o indicador.
Naquele momento ele percebeu a presença do secretário.
- A-ha! Monsieur Trefusis, não o escutei entrar.
Era agora um homem diferente. O triunfo e a exultação
brilhavam por toda sua face. Trefusis o encarou com
surpresa.
- O que aconteceu, Monsieur Poirot? O senhor parece muito
satisfeito.
O homenzinho inflou o peito.
- Sim, de fato. Veja, finalmente encontrei o que estava
procurando desde o começo. Tenho aqui entre meus dedos
a evidência necessária para condenar o criminoso.
- Então - disse o secretário erguendo as sobrancelhas -, não
se trata de Charles Leverson?
- Não foi Charles Leverson - disse Poirot. - Até este
momento, embora eu conhecesse o criminoso, ainda não ti-
nha certeza de seu nome, mas por fim tudo se esclareceu.
Ele desceu as escadas e deu um tapinha no ombro do
secretário.
- Sou obrigado a ir a Londres imediatamente. Fale com Lady
Astwell por mim. Poderia pedir a ela que reúna todas as
pessoas da casa na sala da Torre às nove horas? Estarei lá,
então, e revelarei a verdade. Ah, olhe para mim, estou muito
contente.
E rompeu numa pequena e fantástica dança, saindo da sala
da Torre. Trefusis ficou ali, vendo-o sair.
Alguns minutos depois, Poirot apareceu na biblioteca,
perguntando se alguém poderia fornecer-lhe uma caixinha
de papelão.
- Infelizmente, não tenho nada parecido aqui comigo - ele
explicou -, e tenho algo de grande valor que preciso guardar.
De uma das gavetas da escrivaninha Trefusis trouxe à luz
uma pequena caixa, e Poirot se declarou encantado com
isso.
Subiu correndo as escadas com sua arca do tesouro;
encontrando George no patamar, alcançou-lhe a caixa.
- Há algo de extrema importância aí dentro - explicou. -
Guarde-a, meu bom George, na segunda gaveta da minha
cômoda, ao lado da caixinha de jóias em que estão minhas
abotoaduras de pérola.
- Muito bem, senhor - disse George.
- Não a danifique - disse Poirot. - Seja muito cuidadoso.
Dentro dessa caixa há algo que porá a corda no pescoço de
um criminoso.
- Não se preocupe, senhor — disse George.
Poirot desceu a escada às pressas e, apanhando o chapéu,
deixou a casa a todo vapor.

Seu retorno se deu de forma menos ostentosa. O fiel George,
de acordo com suas instruções, esperava-o na porta lateral.
- Estão todos na sala da Torre? - perguntou Poirot.
- Sim, senhor.
Ouvia-se o murmúrio de algumas palavras sendo trocadas, e
então Poirot, com os triunfantes passos do vencedor, subiu
até a sala onde o assassinato ocorrera havia menos de um
mês. Seus olhos correram pela peça. Lá estavam todos: Lady
Astwell, Victor Astwell, Lily Margrave, o secretário; e
Parsons, o mordomo. O último estava rondando junto à
porta, indeciso.
- George disse, senhor, que eu seria necessário por aqui. -
Falou Parsons assim que Poirot apareceu. - Isso está correto,
senhor?
- Perfeitamente - disse Poirot. - Permaneça, eu lhe peço.
Ele avançou para o meio da sala.
- Este foi um caso bastante interessante - disse, numa voz
baixa e meditativa. - Interessante porque qualquer um aqui
poderia ter cometido o crime. Quem herdará o dinheiro?
Charles Leverson e Lady Astwell. Quem foi a última pessoa
que esteve com ele? Lady Astwell. Quem discutiu com ele
violentamente? Lady Astwell.
- Do que o senhor está falando? - gritou Lady Astwell. - Não
estou entendendo, eu...
- Mas alguém mais discutiu com Sir Reuben - continuou
Poirot, numa voz pensativa. - Mais alguém o deixou
vermelho de raiva naquela noite. Supondo que Lady Astwell
tenha deixado o marido vivo à meia-noite, haveria dez
minutos até que o sr. Charles Leverson retornasse, dez
minutos nos quais seria possível que alguém que estivesse
no segundo andar descesse, fizesse o que tinha que fazer e
retornasse para seu quarto.
Victor Astwell deu um salto e deixou escapar um grito.
- Mas que diabos...? - Parou, sufocado na própria raiva.
- Num acesso de fúria, sr. Astwell, o senhor certa vez matou
um homem na África Ocidental.
- Não posso acreditar - gritou Lily Astwell.
Ela se aproximou, as mãos contritas, duas marcas vermelhas
e brilhantes nas faces.
- Não posso acreditar - repetiu a garota. Ela se aproximou de
Victor Astwell.
- É verdade, Lily - disse Astwell -, mas tem coisas que este
homem não sabe. O sujeito que eu matei era um curandeiro
que acabara de massacrar quinze crianças. Creio que eu
tinha uma justificativa para meu ato.
Lily se aproximou de Poirot.
- Monsieur Poirot - ela disse com afã -, o senhor está
enganado. Não é porque um homem tem um temperamento
exacerbado, porque tem um surto e então diz todo tipo de
coisa que se pode acusá-lo de ter cometido um assassinato.
Eu sei... Eu sei e posso lhe garantir que o sr. Astwell é
incapaz de fazer uma coisa dessas.
Poirot olhou para Lily, com um sorriso extremamente
curioso no rosto. Então tomou a mão dela entre as suas e a
acariciou com gentileza.
-Veja só, mademoiselle - ele disse de modo brando -, a
senhorita também tem lá as suas intuições. Então acredita no
sr. Astwell, certo?
Lily falou em voz baixa:
- O sr. Astwell é um bom homem - ela disse - e é honesto.
Ele não tem nada a ver com as falcatruas da companhia de
mineração em Mpala. Ele é de uma bondade acima de
qualquer prova, e... eu prometi me casar com ele.
Victor Astwell se aproximou dela e tomou-lhe a outra mão.
- Juro por Deus, Monsieur Poirot - ele disse -, juro que não
matei o meu irmão.
- Sei que não foi o senhor - disse Poirot. Seus olhos
percorreram a sala.
- Escutem, meus amigos. Num transe hipnótico, Lady Astwell
mencionou ter visto uma protuberância na cortina naquela
noite.
Todos os olhares se dirigiram para a janela.
- O senhor está dizendo que havia um ladrão escondido ali? -
exclamou Victor. - Mas que bela solução!
- Ah - disse Poirot com suavidade. - Mas não se trata dessa
cortina.
Ele deu meia-volta e apontou para a cortina que escondia a
pequena escada em espiral.
- Sir Reuben usara o quarto na noite anterior ao crime.
Tomou café-da-manhã na cama, e recebeu o sr. Trefusis lá
em cima para lhe passar as instruções. Não sei bem o que o
sr. Trefusis esqueceu no quarto, mas esqueceu alguma coisa.
Ao dar boa noite a Sir Reuben e Lady Astwell, ele se lembrou
do que esquecera e subiu correndo as escadas para buscar.
Não creio que nem a esposa nem o marido tenham notado
seu movimento, pois os dois já estavam engajados numa
violentíssima discussão. Eles estavam no meio dessa
discussão quando o sr. Trefusis voltou a descer as escadas.
"As coisas que ambos diziam eram de natureza tão íntima e
pessoal que o sr. Trefusis se viu numa posição bastante
desconfortável. Estava claro para ele que os dois pensavam
que ele tivesse saído da sala já há algum tempo. Temeroso de
atrair a raiva de Sir Reuben contra si, ele decidiu ficar onde
estava à espera de uma oportunidade para sair depois. Ele
ficou atrás da cortina, e Lady Astwell quando deixou a sala
subconscientemente notou o contorno dele.
"Depois que Lady Astwell saiu, Trefusis tentou escapar sem
ser visto, mas Sir Reuben acabou virando a cabeça,
tornando-se ciente da presença do secretário. Já tomado de
mau-humor, passou a agredir o seu secretário, acusando-o de
estar deliberadamente espionando e escutando às
escondidas.
"Messieurse mesdames, sou um estudante de psicologia. Durante
todo o caso estive procurando não por um homem ou
mulher de mau temperamento, porque o mau
temperamento é sua própria válvula de escape. Cão que ladra
não morde. Não, eu procurava por um homem de bom
temperamento, um homem que fosse paciente e que tivesse
autocontrole, um homem que durante nove anos
desempenhou o papel de oprimido. Não há tensão maior do
que aquela que se estende por anos, não há ressentimento
maior do que aquele que se acumula lentamente.
"Durante nove anos Sir Reuben maltratou seu amedrontado
secretário, e por nove anos esse homem resistiu em silêncio.
Mas chega um dia em que finalmente essa tensão chega ao
seu ponto crítico. Alguma coisa estala! Foi o que ocorreu
naquela noite. Sir Reuben voltou a se sentar na escrivaninha,
mas o secretário, em vez de seguir humilde e
obedientemente para a porta, pegou o pesado porrete de
madeira e derrubou o homem que tanto o havia maltratado."
Ele se voltou para Trefusis, que o encarava como se estivesse
petrificado.
- Seu álibi era extremamente simples. O sr. Astwell pensava
que o senhor estivesse em seu quarto, mas ninguém o viu ir até
lá. O senhor tentava escapar da sala, após ter golpeado Sir
Reuben, quando ouviu um ruído e correu novamente para
trás da cortina. Ali o senhor estava quando Charles Leverson
entrou na sala, também estava ali quando Lily Margrave
apareceu. Não levou muito tempo depois disso para que o
senhor avançasse incólume até seu quarto, numa casa
silenciosa. O senhor pretende negar?
Trefusis começou a balbuciar.
- Eu... eu nunca...
- Ah! Deixe-nos terminar. Durante duas semanas, então,
passei representando esta comédia. Mostrei-lhe que a rede
se aproximava lentamente do senhor. As impressões digitais,
as pegadas, a busca em seu quarto e o reordenamento
desajeitado de suas coisas. Fiz isso para lhe incutir terror,
para mantê-lo acordado durante as noites, temeroso,
perguntando-se: "Será que não deixei uma impressão ou uma
pegada em algum lugar?"
"Muitas vezes o senhor revia os eventos daquela noite, sem
conseguir deixar de se perguntar o que fizera, o que deixara
de fazer, e então o conduzi ao estado em que o senhor
cometeria um erro. Vi o medo aflorar em seus olhos quando
apanhei alguma coisa na escada em que o senhor se
escondera naquela noite. Então fiz uma grande exibição,
com a caixinha, com o depósito em confiaça a George, e
depois, com a minha retirada."
Poirot se voltou na direção da porta.
- George?
- Estou aqui, senhor.
O empregado se aproximou.
- Pode dizer às damas e aos cavalheiros quais foram as
minhas instruções?
- Eu deveria permanecer escondido dentro do guarda-roupa
em seu quarto, senhor, após ter posto a caixa de papelão
onde o senhor me ordenara. As três e meia desta tarde,
senhor, o sr. Trefusis entrou no quarto, foi até a cômoda e
retirou a caixa em questão.
- E naquela caixa - continuou Poirot - estava um alfinete
comum de gravata. Quanto a mim, sempre digo a verdade.
Realmente apanhei alguma coisa na escada esta manhã. Há
um dito inglês que dá conta disso, não? "Veja um alfinete e o
apanhe, pois isso lhe trará boa sorte ao longo do dia." Para
mim funcionou, tive boa sorte, descobri o assassino.
Ele se voltou para o secretário,
- Percebe? - ele disse suavemente. - O senhor acabou se traindo.
De repente, Trefusis desabou. Mergulhou numa poltrona a
soluçar, o rosto enterrado entre as mãos.
- Eu estava louco - ele gemeu. - Eu estava louco. Mas, oh,
Meu Deus, ele me maltratou e me molestou além de todo o
limite suportável. Durante anos eu o odiei e abominei.
- Eu sabia! - gritou Lady Astwell.
Ela saltou para frente, o rosto irradiado por um triunfo feroz.
- Eu sabia que tinha sido ele. Ela ficou ali, feroz e triunfante.
- E a senhora estava certa - disse Poirot. - Alguém pode
chamar isso das mais variadas maneiras, mas o fato é o
mesmo. Sua "intuição", Lady Astwell, se mostrou correta.
Minhas felicitações.
A BONECA DA MODISTA

I
A boneca estava sobre a enorme poltrona de veludo. Não
havia muita luz na peça; o céu de Londres estava escuro. Na
suave penumbra, de um cinza esverdeado, as cobertas e as
cortinas e os tapetes combinavam entre si, todos mantendo
uma tonalidade sóbria de verde. A boneca também
combinava com o cenário. Estava estendida, frouxa, bem
espalhada em suas roupas de veludo verde, com sua
toquinha feita do mesmo material, a face pintada. Ela era
uma boneca de estimação, um capricho de mulheres ricas, a
boneca refestelada ao lado do telefone, ou entre as almofadas
do divã. Esparramava-se por ali, eternamente imóvel, mas
estranhamente viva. Parecia um produto decadente do
século XX.
Sybil Fox, entrando às pressas com alguns tecidos e croquis,
olhou para a boneca com uma discreta sensação de surpresa
e espanto. Ficou um pouco confusa, mas qualquer que tenha
sido a natureza de sua confusão, não chegou à sua
consciência. Em vez disso, perguntou a si mesma, "bem, o
que aconteceu com o tecido de veludo azul? Onde o
coloquei? Tenho certeza de que ele estava por aqui." Foi até
o patamar da escada e disse em direção à sala de trabalho:
- Elspeth, Elspeth, o tecido azul está por aí? A sra. Fellows-
Brown estará aqui a qualquer momento.
Voltou a entrar na peça, acendendo as luzes. Novamente
lançou um olhar para a boneca. "Mas que diabos, onde pode
estar esse... Ah, aqui está." Recolheu o tecido de onde ele
caíra, de suas mãos. Houve o costumeiro estalar do lado de
fora, vindo do patamar, sinal de que o elevador fizera uma
parada, e, depois de um ou dois minutos, a sra. Fellows-
Brown, acompanhada de seu pequinês, entrou resfolegando
na peça, mais parecendo um trem barulhento que chegasse a
uma estação pouco movimentada.
- Vai vir uma chuvarada - ela disse -, uma água daquelas.
Desfez-se de suas luvas e de um casaco de pele. Alicia
Coombe entrou. Nos últimos tempos, não era sempre que
vinha, somente quando alguma cliente especial aparecia, o
que por certo era o caso da sra. Fellows-Brown.
Elspeth, a encarregada da oficina, desceu com o vestido, e
Sybil o passou por sobre a cabeça da sra. Fellows-Brown.
- Aí está - ela disse -, acho que ficou bom. Sim, com certeza,
acertamos em cheio.
A sra. Fellows-Brown ficou de lado e olhou-se no espelho.
- Devo confessar que suas roupas realmente dão um jeito de
esconder a minha bunda - ela disse.
- Você está muito mais magra do que estava três meses atrás
- garantiu-lhe Sybil.
- Para ser sincera, não - disse a sra. Fellows-Brown -, embora
eu deva dizer que pareço mais magra neste vestido. Há
alguma coisa no corte de vocês que realmente diminui a
minha bunda. É quase como se eu não tivesse bunda
nenhuma, quero dizer, como se tivesse uma como a maioria
das pessoas tem.
Ela suspirou e cuidadosamente alisou a parte problemática de
sua anatomia.
- Isso sempre foi uma dificuldade para mim - ela continuou.
- Claro, por muitos anos eu consegui entrar nos vestidos,
vocês sabem, esticando bem a parte da frente. Bem, mas
agora isso não funciona mais, porque minha barriga está tão
grande quanto a parte de trás. E bem, quero dizer, não se
pode apertar dos dois lados, não é mesmo?
Alicia Coombe disse:
- A senhora deveria ver algumas das minhas clientes!
A sra. Fellows-Brown desfilou com o vestido para lá e para
cá.
- Ter barriga é pior do que ter uma bunda grande - ela disse.
- Aparece mais. Ou talvez a gente tenha essa impressão
porque, quero dizer, quando estamos falando com as pessoas
a gente está olhando para elas de frente, ou seja, elas não
podem ver nossa bunda, mas podem ver nossa barriga. Seja
o que for, decidi que é melhor apertar a barriga e deixar a
bunda como está.
Ela estendeu o pescoço e o girou ainda mais, e então, de
súbito, disse:
- Oh, essa boneca de vocês! Ela me provoca arrepios. Há
quanto tempo a tem?
Sybil lançou um olhar incerto para Alicia Coombe, que
parecia confusa, mas não muito preocupada.
- Não lembro bem... acho que já faz algum tempo. Não sou
boa em lembrar das coisas. Ando cada vez pior,
simplesmente não consigo lembrar de nada. Sybil, há quanto
tempo nós a temos?
Sybil disse com rapidez:
- Não sei.
- Bem - disse a sra. Fellows-Brown -, ela me deixa arrepiada.
Bizarro! Parece que ela está nos observando, sabe, e talvez
até rindo debaixo daquelas mangas de veludo. Eu me livraria
dela se fosse vocês. - Tremeu de leve, então passou
novamente a tratar dos detalhes da confecção do vestido.
Deveria ou não encurtar um pouquinho mais as mangas?
Depois que todos esses pontos importantes foram decididos
de modo satisfatório, a sra. Fellows-Brown voltou a vestir
sua própria roupa e se preparou para sair. Ao passar pela
boneca, virou novamente a cabeça.
- Não - ela disse -, eu não gosto dessa boneca. É como se
pertencesse à casa. Isso não é saudável.
- O que será que ela quis dizer com isso? - perguntou Sybil,
assim que a sra. Fellows-Brown desceu as escadas.
Antes que Alicia Coombe pudesse responder, a sra. Fellows-
Brown retornou, enfiando a cabeça pela porta.
- Meu bom Deus, esqueci completamente de Fou-Ling.
Onde está você, queridinho? Bem, vejam só!
Ela fixou os olhos, assim como as outras duas mulheres. O
pequinês estava sentado na poltrona de veludo verde, o
olhar cravado na boneca estirada. Não havia qualquer
expressão em seus olhinhos saltados, fosse de prazer ou
ressentimento. Ele estava apenas olhando para o objeto.
- Vem cá, queridinho da mamãe - disse a sra. Fellows-
Brown.
O queridinho da mamãe não deu a mínima bola para ela.
- Ele está se tornando a cada dia mais desobediente - disse a
sra. Fellows-Brown, com o ar de quem fosse capaz de
catalogar virtudes. - Vamos, Fou-Ling. Hora do papazinho.
Um figadozinho saboroso.
Fou-Ling moveu a cabeça cerca de quatro centímetros na
direção de sua dona, então, cheio de desdém, voltou a
apreciar a boneca.
- Ela certamente o impressionou - disse a sra. Fellows-
Brown. - Não creio que ele a tivesse notado antes. Eu
também não a tinha visto. Ela já estava aqui na última vez
que eu vim?
As duas outras mulheres trocaram um olhar entre si. Sybil
agora tinha o cenho franzido, e Alicia Coombe disse,
enrugando a testa:
- Já lhe disse, simplesmente não consigo lembrar das coisas
nos últimos tempos. Há quanto tempo a boneca está conosco,
Sybil?
- De onde ela veio? - perguntou a sra. Fellows-Brown.
- Vocês a compraram?
- Oh, não. - De algum modo a idéia a surpreendeu.
- Oh, não. Acho que... acho que alguém deve ter me
presenteado com ela. - Ela balançou a cabeça. - Isso é
enlouquecedor! - exclamou. - Absolutamente enlouque-
cedor quando as coisas se apagam da sua cabeça logo depois
de acontecer.
- Não seja estúpido, Fou-Ling - disse a sra. Fellows-Brown
com rispidez. - Vamos. Terei que pegar você.
Ela o apanhou. Fou-Ling emitiu um curto latido como forma
de agônico protesto. Saíram da peça com a cara de olhos
esbugalhados voltada para trás, por sobre o tronco peludo,
encarando ainda com enorme atenção a boneca sobre a
poltrona...
- Aquela boneca ali - disse a sra. Groves - é de arrepiar os
cabelos.
A sra. Groves era a faxineira. Ela acabara de limpar o chão,
movendo-se como se fosse um caranguejo. Agora estava de
pé e trabalhava vagarosamente na peça retirando o pó.
- Engraçado - disse a sra. Groves -, até ontem, eu nunca
tinha reparado nela. E então fui pega de surpresa por ela,
como se diz.
- Você não gosta dela? - perguntou Sybil.
- Confesso, sra. Fox, que ela me provoca arrepios
- disse a faxineira. - Não é algo normal, se a senhora me
entende. Essas pernas longas, o modo como ela se espalha
por ali e o olhar penetrante cravado na gente. Não parece
uma coisa saudável, é isso.
- Você nunca disse nada sobre ela antes - disse Sybil.
- Estou lhe dizendo, nunca tinha percebido a boneca, só
notei hoje de manhã... É claro que eu sei que ela já estava há
algum tempo por aí, mas... - Ela parou e uma expressão de
perplexidade passou rapidamente por seu rosto. - Parece
uma dessas coisas que a gente sonha à noite - ela disse e,
juntando vários materiais de limpeza, se retirou da sala de
prova, seguindo pelo patamar até a peça oposta.
Sybil olhou fixamente para a boneca. Uma expressão de
confusão crescia em sua face. Alicia Coombe entrou e Sybil
se voltou bruscamente.
- Srta. Coombe, há quanto tempo a senhorita tem essa
criatura?
- O quê, a boneca? Minha querida, você sabe que não
consigo lembrar de nada. Ontem, meu Deus, isso é tão
ridículo!, eu estava indo assistir àquela palestra e não estava
nem no meio do caminho quando descobri, de repente, que
não conseguia lembrar para onde eu ia. Pensei e pensei.
Finalmente disse para mim mesma: deve ser no Fortnums.
Sabia que tinha algo importante para mim no Fortnums.
Bem, você não vai acreditar, mas foi somente quando já
estava em casa, tomando meu chá, que lembrei de fato da tal
palestra. Claro, sempre escutei que as pessoas ficam gagás à
medida que envelhecem, mas comigo está acontecendo
muito rápido. Acabei de esquecer onde pus minha bolsinha,
e também meus óculos. Onde foram parar esses malditos
óculos? Estava com eles agora mesmo... Estava lendo alguma
coisa no Times.
- Os óculos estão sobre a lareira - disse Sybil, alcançando-os a
ela. - Como a senhorita conseguiu essa boneca? Quem lhe
deu?
- Também isso não me vem, é um branco - disse Alicia
Coombe. - Alguém me deu de presente ou a enviou para
mim, acho... No entanto, ela parece combinar perfeitamente
com a sala, não?
- Sim, me parece muito bem - disse Sybil. - O engraçado é
que não consigo me lembrar da primeira vez que a vi.
- Por favor, não comece a seguir o mesmo caminho que eu -
admoestou-a Alicia Coombe. - Afinal, você ainda é jovem.
- Mas é verdade, srta. Coombe, não consigo me lembrar.
Quero dizer, olhei para ela ontem e achei que havia algo,
como bem disse a sra. Groves, algo assustador nela. E então
me dei conta que já havia pensado nisso, e então tentei me
lembrar da primeira vez que tinha pensado nisso, e... bem,
eu simplesmente não conseguia lembrar de nada! De certa
maneira, era como se eu nunca a tivesse visto antes... só que
uma sensação aqui dentro dizia o contrário. Era como se ela
estivesse ali há um longo tempo, mas só agora eu a notasse.
- Talvez ela tenha entrado voando pela janela certo dia num
cabo de vassoura - disse Alicia Coombe. - Seja como for,
agora este é o seu lar. - Ela deu uma olhada ao redor. - É
difícil imaginar esta sala sem ela, não lhe parece?
- Pois é - disse Sybil, com um leve tremor -, mas eu gostaria
de poder.
- O quê?
- Imaginar a sala sem ela.
- Será que estamos todas ficando malucas com a boneca? -
perguntou Alicia Coombe com impaciência. - O que há de
errado com a pobrezinha? Parece-me um repolho podre,
mas talvez - ela acrescentou - porque eu esteja sem meus
óculos. - Ela colocou-os no nariz e olhou fixamente para a
boneca. - Sim - ela disse -, entendo o que você quer dizer.
Ela é assustadora... Tem uma aparência triste, mas ao mesmo
tempo parece astuta e bastante determinada.
- Engraçado - disse Sybil - a sra. Fellows-Brown ter sentido
tanta aversão pela boneca.
- Ela é do tipo que não se importa em dizer o que lhe vem à
cabeça - disse Alicia Coombe.
- Mas é estranho - insistiu Sybil - que essa boneca tenha lhe
causado tão forte impressão.
- Bem, as pessoas às vezes sentem uma súbita antipatia pelas
coisas.
- Talvez - disse Sybil com um risinho - essa boneca não
estivesse aí até ontem... Talvez ela tenha entrado voando
pela janela, como a senhorita diz, e tenha se acomodado ali.
- Não - disse Alicia Coombe -, tenho certeza que ela já está
ali há algum tempo. Talvez ela só tenha ficado à vista ontem.
- É o que eu acho também - disse Sybil -, que ela já está ali
há algum tempo..., mas, por outro lado, não consigo lembrar
de tê-la visto até ontem.
- Agora, querida - disse Alicia Coombe vigorosamente -,
basta. Você está fazendo eu me sentir bastante estranha por
causa disso, sinto uns arrepios correndo pela minha espinha.
Você não vai começar com uma série de crendices e
eventos sobrenaturais para explicar a criatura, vai?
Ela apanhou a boneca, deu-lhe uma chacoalhada, arrumou
seus ombros e a fez sentar novamente sobre a poltrona.
Imediatamente a boneca deslizou um pouco e perdeu a
postura.
- Não parece viva, de modo algum - disse Alicia Coombe,
olhando para a boneca. - Ainda assim, de um modo
engraçado, ela parece viva, não é?

2
- Oh, aquela coisa me perturba - disse a sra. Groves,
enquanto percorria o salão de exposição, tirando o pó. -
Perturba de tal maneira que tenho pavor de entrar na sala de
prova.
- O que é que perturba você? - perguntou a srta. Coombe,
que estava sentada na escrivaninha no canto da peça,
ocupada com várias contas. - Essa mulher - ela acrescentou,
mais para si mesma do que para a sra. Groves - acha que
pode ter dois vestidos de noite, três vestidos de baile e um
traje completo a cada ano sem me pagar um centavo sequer
por eles! Realmente, cada uma que me aparece!
- É aquela boneca - disse a sra. Groves.
- O quê? Está falando de nossa boneca outra vez?
- Sim, sentada lá sobre a mesa, como se fosse gente. Oh, é de
assustar.
- Do que você está falando?
Alicia Coombe se levantou, cruzou a sala, passou pelo
patamar lá fora e entrou na sala oposta - a sala de prova.
Havia uma pequena mesa ao estilo Sheraton num dos
cantos, e lá, sentada numa cadeira, os longos braços
estendidos sobre o tampo, estava a boneca.
- Parece que alguém andou se divertindo - disse Alicia
Coombe -, fazendo-a sentar dessa maneira. Realmente, ela
parece bem natural.
Sybil Fox apareceu naquele momento, vinda do andar
superior, trazendo um vestido que deveria ser provado
naquela manhã.
- Venha aqui, Sybil. Veja a nossa boneca, sentada na minha
mesa particular, agora ela escreve cartas.
As duas mulheres olharam a cena.
- Realmente - disse Alicia Coombe -, é ridículo! Me
pergunto quem a colocou ali. Foi você?
- Não, não fui eu - disse Sybil. - Deve ter sido uma das
garotas lá de cima.
- Uma brincadeira totalmente sem graça - disse Alicia
Coombe. Ela tirou a boneca de cima da mesa e a colocou de
novo no sofá.
Sybil acomodou com cuidado o vestido sobre uma cadeira,
depois saiu e subiu mais uma vez para a oficina.
- Vocês já viram uma boneca - ela disse -, uma boneca de
veludo que fica na sala da srta. Coombe, na sala de prova?
A encarregada da oficina e as três garotas a olharam.
- Sim, senhorita, claro que já vimos.
- Quem de brincadeira a colocou sentada na mesa hoje de
manhã?
As três garotas olharam para ela, então Elspeth, a
encarregada, disse:
- Sentada na mesa? Não fui eu.
- Nem eu—disse uma das garotas. — Foi você, Marlene?
Marlene negou com a cabeça.
- Não foi mesmo uma piadinha sua, Elspeth?
- Não, de jeito nenhum - disse Elspeth, uma mulher rígida,
que parecia trazer a boca sempre cheia de alfinetes. - Tenho
mais o que fazer do que ficar brincando de sentar bonecas
em mesas.
- Escutem - disse Sybil, e para sua surpresa sua voz tremia
um pouco. — Foi uma ótima piada, isso foi, eu só quero
saber quem foi que fez isso.
As três garotas se eriçaram.
- Já lhe dissemos, sra. Fox. Nenhuma de nós fez isso, certo,
Marlene?
- Não fui eu - disse Marlene -, e se Nellie e Mar-garet
disseram que não foram elas, bem, então não foi nenhuma
de nós.
- Já dissemos o que sabíamos - disse Elspeth. - Do que se
trata afinal, sra. Fox?
- Não pode ter sido a sra. Groves? - perguntou Marlene.
Sybil balançou a cabeça.
- Não pode ter sido a sra. Groves. Ela levou um senhor susto.
- Vou descer para ver isso com meus próprios olhos
- disse Elspeth.
- Ela já não está mais lá - disse Sybil. - A srta. Coombe já a
recolheu da mesa e a colocou de volta no sofá. Bem - ela fez
uma pausa -, isso significa que alguém a sentou lá na
escrivaninha achando que ia ser engraçado. É o que me
parece. E... e eu não consigo entender por que a piadista não
se entrega.
- Já lhe disse duas vezes, sra. Fox - disse Margaret.
— Não sei por que a senhora insiste em nos acusar de
mentirosas. Não faríamos uma brincadeira tola dessas.
- Me desculpem - disse Sybil. - Não queria incomodá-las.
Mas... mas quem mais poderia fazer uma tontice dessas?
- Talvez ela tenha chegado até a mesa com suas próprias
pernas - disse Marlene e deu uma risadinha.
Por alguma razão, Sybil não gostou do comentário.
- Oh, na verdade nada disso faz sentido - ela disse, e voltou a
descer as escadas.
Alicia Coombe murmurava faceira uma melodia. Olhou ao
redor da sala.
- Perdi meus óculos de novo - ela disse -, mas não tem
importância. Não quero ver nada neste momento. O
problema, claro, é que quando alguém é tão cego como eu e
perde seus óculos, a não ser que tenha um outro par para pôr
enquanto procura o que está perdido, não poderá achá-los,
porque simplesmente não enxerga nada.
- Eu vou dar uma olhada para a senhorita - disse Sybil. - Há
pouco a senhorita ainda estava com eles.
- Fui até a outra peça quando você subiu. Acho que os deixei
por lá.
Ela foi até a outra peça.
- Que chateação - disse Alice Coombe. - Quero fechar essas
contas. Como posso fazer isso sem meus óculos?
- Vou lá em cima e pego seu par sobressalente no quarto -
disse Sybil.
- Não tenho um segundo par aqui comigo - disse Alice
Coombe.
- Por quê? O que aconteceu com ele?
- Bem, acho que o esqueci ontem quando fui almoçar. Já
telefonei para lá, e também para as outras duas lojas em que
estive.
- Oh, querida - disse Sybil -, acho que a senhorita precisa de
três pares.
- Se eu tivesse três pares de óculos - disse Alicia Coombe -
passaria o resto da vida procurando por eles. Acho mesmo
que o melhor é ter apenas um par. Então é preciso procurar
até encontrá-lo.
- Bem, deve estar em algum lugar - disse Sybil. - A senhorita
só esteve nessas duas peças. Certamente não está aqui, então
a senhorita deve tê-lo deixado na sala de prova.
Ela retornou, percorreu a peça, procurando com afinco.
Finalmente, como último recurso, ela ergueu a boneca do
sofá.
- Estão aqui - ela anunciou.
- Oh, você os encontrou, Sybil?
- Debaixo da preciosa boneca. Acho que a senhorita os tirou
quando foi colocá-la de volta no sofá.
- Não. Tenho certeza que não.
- Oh - disse Sybil com exasperação. - Então acho que a
boneca pegou os óculos e os estava escondendo da
senhorita!
- Com certeza - disse Alicia, olhando pensativa para a
boneca. - Sabe, eu não menosprezaria a capacidade dela.
Parece uma boneca muito inteligente, não, Sybil?
- Não vou com a cara dela - disse Sybil. - Ela tem um ar de
quem sabe alguma coisa que não sabemos.
- Você não acha que ela parece ter uma expressão um pouco
triste e ao mesmo tempo doce? - perguntou Alicia Coombe
apelativa, mas sem convicção.
- Não vejo qualquer doçura nela - disse Sybil.
- Pois é... talvez você esteja certa... Oh, bem, vamos
continuar nossas atividades. Lady Lee estará aqui em dez
minutos. Quero apenas terminar e despachar estas faturas.

3
- Sra. Fox. Sra. Fox?
- Sim, Margaret? - perguntou Sybil. - O que é? Sybil estava
ocupada, reclinada sobre a mesa, cortando um pedaço de
cetim.
- Oh, sra. Fox, é a boneca de novo. Fui descer o vestido
preto como a senhora pediu e lá estava a boneca sentada na
escrivaninha outra vez. E não fui eu que pus ela ali, não foi
nenhuma de nós. Por favor, sra. Fox, nós não faríamos uma
coisa dessas.
A tesoura de Sybil deslizou um pouco.
- Veja - ela disse zangada -, olha só o que você me fez fazer.
Oh, bem, depois se dá um jeito. Agora, como é essa história
da boneca?
- Ela está sentada na mesa outra vez.
Sybil foi até lá e entrou na sala de prova. A boneca estava
sentada na cadeira do mesmo modo como já estivera antes.
- Você é muito determinada, não? - disse Sybil, falando com
a boneca.
Ela a pegou sem cerimônia e devolveu-a ao sofá.
- Este é o seu lugar, minha garota - ela disse. - Fique aí.
Caminhou até a outra sala.
- Srta. Coombe.
- Sim, Sybil.
- Alguém está brincando conosco, sabe.
A boneca estava sentada de novo na escrivaninha.
- Quem você acha que pode ser?
- Uma daquelas três lá de cima - disse Sybil. - Ela deve achar
que é engraçado, decerto. Claro que todas elas juram que
não têm nada a ver com isso.
- Quem você acha que é? Margaret?
- Não, acho que não é ela. Ela parecia bastante esquisita
quando veio me falar. Apostaria na sorridente Marlene.
- De qualquer modo, é uma tolice completa fazer uma coisa
dessas.
- Sim, claro, uma idiotice - disse Sybil. - No entanto -
acrescentou com acidez -, vou pôr um fim nisso.
- O que fará?
- A senhorita já vai ver - disse Sybil.
Naquela noite, ao sair, ela chaveou a porta da sala de prova
pelo lado de fora.
- Estou trancando esta porta - ela disse - e levando a chave
comigo.
- Oh, entendo - disse Alicia Coombe, com um leve ar de
divertimento. - Você começa a achar que sou eu, não é?
Acha que estou tão atrapalhada que entro na sala a fim de
escrever, mas em vez disso pego a boneca e a coloco na
escrivaninha para escrever para mim. É essa a sua opinião? E
depois eu me esqueço de tudo?
- Bem, é uma possibilidade - admitiu Sybil. - De toda
maneira, tenho certeza de que nenhuma brincadeirinha
acontecerá na sala esta noite.
Na manhã seguinte, com os lábios apertados, a primeira
coisa que Sybil fez ao chegar foi destrancar a porta da sala de
prova e entrar a largas passadas. A sra. Groves, com uma
expressão injuriada, esfregão e espanador na mão, esperava
no patamar.
- Veremos agora! - disse Sybil.
Então ela recuou com um fraco suspiro. A boneca estava
sentada na escrivaninha.
- Ui! - exclamou a sra. Groves às suas costas. - Que coisa
estranha! Isso sim. Oh, olhe para a senhora, sra. Fox, está
muito pálida, como se tivesse visto uma assombração. A
senhora precisa tomar alguma coisa. Será que a sra. Coombe
não tem alguma coisa lá em cima?
- Estou bem - disse Sybil.
Caminhou até onde estava a boneca, levantou-a com
cuidado e cruzou a sala com ela.
- Alguém está aplicando um truque na senhora outra vez -
disse a sra. Groves.
- Não sei como alguém pode ter aplicado um truque em mim
desta vez - disse Sybil devagar. - Tranquei a porta na noite
passada. Você mesma sabe que não teria como alguém
entrar aqui.
- Talvez alguém tenha outra chave - disse a sra. Groves,
prestativa.
- Acho que não - disse Sybil. - Nós nunca nos preocupamos
em trancar essa porta antes. É uma dessas chaves antigas e
há somente uma delas.
- Talvez uma outra chave se encaixe, a chave da porta em
frente.
Na seqüência, elas testaram todas as chaves que havia na
loja, mas nenhuma se encaixava na fechadura da sala de
prova.
- Isso é estranho, srta. Coombe - disse Sybil mais tarde,
enquanto almoçavam juntas.
Alicia Coombe parecia um bocado satisfeita.
- Minha querida - ela disse. - Acho isso simplesmente
extraordinário. Creio que deveríamos escrever ao pessoal
que desenvolve pesquisas psíquicas. Você sabe, eles talvez
mandem um investigador, um médium ou algo assim para
ver se há alguma coisa peculiar em relação à sala de prova.
- A senhorita não parece nem um pouco preocupada - disse
Sybil.
- Bem, de certo modo, estou gostando disso — disse Alicia
Coombe. - Quero dizer, na minha idade, é muito divertido
quando coisas assim acontecem! Apesar disso, não... -
acrescentou pensativa. - Não gosto do rumo que as coisas
estão tomando. Quero dizer, essa boneca está saliente
demais, não é verdade?
Naquela noite, Sybil e Alicia Coombe trancaram mais uma
vez a porta pelo lado de fora.
- Continuo achando - disse Sybil - que alguém está fazendo
uma piada conosco, embora, na verdade, eu não consiga
entender por quê...
- Você acha que ela vai estar junto à escrivaninha amanhã de
manhã? - perguntou Alicia.
- Sim - disse Sybil -, acho sim.
Mas as duas se enganaram. A boneca não estava na
escrivaninha, estava sobre o peitoril da janela, olhando para
a rua. E novamente havia uma extrema naturalidade em sua
posição.
- É uma tolice, mas dá medo, não? - perguntou Alicia
Coombe, enquanto tomavam uma rápida xícara de chá
naquela tarde. Por consenso, elas não a mantinham na sala
de prova, como de costume, mas na sala de Alicia Coombe,
que ficava do outro lado.
- Tolice em que sentido?
- Bem, quero dizer, não há nada com que se preocupar. É
apenas uma boneca que está sempre num lugar diferente.
À medida que os dias avançavam, parecia cada vez mais fácil
observar o fenômeno. Agora não era apenas à noite que a
boneca se movia. A qualquer momento que entrassem na
sala de prova, depois de terem se ausentado por alguns
minutos, podiam encontrar a boneca num lugar diferente.
Deixavam-na no sofá e a encontravam numa poltrona. Em
outra oportunidade, ocupava uma poltrona diferente da
anterior. Algumas vezes aparecia sentada no peitoril da
janela, noutras, outra vez na escrivaninha.
- Ela se movimenta de acordo com a própria vontade - disse
Alicia Coombe. - E eu acredito, Sybil, que isso a diverte.
As duas mulheres ficaram olhando para aquela figura inerte
e espraiada em seu veludo macio e solto, com seu rosto de
seda pintado.
- Alguns pedaços de veludo e seda e um pouco de tinta, só
isso - disse Alicia Coombe. Sua voz trazia certa constrição. -
Creio que nós poderíamos nos livrar dela.
- O que a senhorita quer dizer com nos livrar dela?
- perguntou Sybil. Sua voz revelava um certo espanto.
- Bem - disse Alicia Coombe -, nós podíamos pô-la no fogo,
se houvesse fogo. Queimá-la, quero dizer, como se fosse
uma bruxa... Ou, claro - acrescentou sem rodeios -,
poderíamos simplesmente jogá-la na lata do lixo.
- Não creio que isso seria uma boa idéia - disse Sybil.
- Alguém provavelmente veria a boneca no lixo e a traria de
volta para a gente.
- Poderíamos também mandá-la para algum lugar
- disse Alicia Coombe. - Você sabe, para uma dessas socie-
dades que estão sempre escrevendo para pedir alguma coisa
para vender ou pôr num bazar. Acho que essa é a melhor
idéia.
- Não sei... - disse Sybil. - Ficaria quase com medo de fazer
isso.
- Medo?
- Bem, acredito que ela poderia voltar - disse Sybil.
- Você está dizendo que ela poderia voltar para cá!
- Sim, é isso que estou dizendo.
- Acho que estamos cada vez mais dementes, não lhe
parece? - disse Alicia Coombe. - Talvez eu realmente esteja
gagá e você esteja apenas me divertindo, é isso?
- Não - disse Sybil. - Mas estou com uma terrível e
assustadora sensação, sabe, uma horrível sensação de que ela
é forte demais para a gente.
- O quê? Esse monte de trapos?
- Sim, essa horrível e molenga mistura de trapos. Porque,
veja, ela está tão determinada.
- Determinada?
- A seguir seu próprio caminho! Quero dizer, este é o quarto
dela agora.
- Sim - disse Alicia Coombe, olhando ao seu redor —, é isso,
não é?, a cor das paredes e tudo mais... Acreditava que ela se
adaptava à sala, mas é a sala que se adapta a ela. Devo dizer -
acrescentou a modista, com um toque de vivacidade na voz
- que é meio absurdo que uma boneca chegue e tome posse
das coisas. Você sabe, a sra. Groves já não vem limpar esta
peça.
- Ela disse ter medo da boneca?
- Não. Simplesmente dá as mais variadas desculpas.
- Então Alicia acrescentou, com uma nota de pânico: - O que
vamos fazer, Sybil? Isso está me atrapalhando, sabe? Não
consigo desenhar um vestido sequer há semanas.
- Não consigo me concentrar decentemente nos cortes -
confessou Sybil. - Cometo os erros mais tolos. Talvez - ela
disse receosa - sua idéia de escrever para um centro de
pesquisas psíquicas possa dar certo.
- Isto fará apenas com que façamos papel de idiotas
- disse Alicia Coombe. - Quando eu disse aquilo não estava
falando sério. Não, acho que teremos que seguir em frente
até que...
- Até que o quê?
- Oh, não sei - disse Alicia, e sorriu de modo incerto.
No dia seguinte, ao chegar, Sybil encontrou a porta da sala
de prova trancada.
- Srta. Coombe, a senhorita tem a chave? Trancou a sala na
noite passada?
- Sim - disse Alicia Coombe -, tranquei a porta e assim ela
permanecerá.
- O que está dizendo?
- Que simplesmente desisti da peça. A boneca pode
ficar com ela. Não precisamos de duas salas. Podemos nos
virar com esta aqui.
- Mas é a sua sala de estar particular.
- Bem, não preciso mais dela. Tenho um ótimo quarto. Posso
fazer uma sala de estar por lá, não?
- Está dizendo que não vai mais entrar na sala de prova? -
perguntou Sybil com incredulidade.
- Exatamente.
- Mas... E quanto à limpeza? A peça ficará em péssimo
estado.
- Que fique! - disse Alicia Coombe. - Se este lugar está
sofrendo algum tipo de possessão por parte da boneca, tudo
bem... deixe que ela mantenha suas posses. E que ela mesma
limpe os seus aposentos. - E acrescentou: - Ela nos odeia,
você sabe.
- O que está dizendo? - disse Sybil. - A boneca nos odeia.
- Sim - disse Alicia. - Você não sabia? Pois precisava saber. É
impossível que não tenha percebido isso ao olhar para ela.
- Sim - disse Sybil de modo pensativo. - Acho que sim. Acho
que senti isso desde o início... Ela sempre nos odiou, sempre
quis que déssemos o fora daqui.
- É uma criaturinha maliciosa - disse Alicia Coombe. - Seja
como for, ela deve estar satisfeita agora.
Depois disso, as coisas seguiram de maneira mais tranqüila.
Alicia Coombe anunciou às suas funcionárias que estava
desativando momentaneamente a sala de prova, eram muitas
salas para limpar e tirar o pó, explicou.
Mas isso mal pôde evitar que ela ouvisse, por acaso, naquela
mesma noite, uma das garotas da oficina comentar à outra:
- Agora a srta. Coombe enlouqueceu de vez. Sempre achei
ela um pouco estranha, o modo como esquecia ou perdia as
coisas. Mas agora ela se superou, não? Foi longe essa história
dela com a boneca lá de baixo.
- Oh, você não acha que ela enlouqueceu de verdade, não é?
- perguntou a outra garota. - E se ela tentar nos matar a
facadas?
As duas passaram, conversando, e Alicia sentou-se indignada
em sua poltrona. Enlouquecendo! Então acrescentou com
pesar para si mesma:
- Acho que se não fosse por Sybil, eu pensaria que estou
mesmo ficando louca. Mas como tenho do meu lado Sybil e
a sra. Groves, isso faz parecer que há alguma coisa
acontecendo. Mas o que não tenho como saber é de que
modo isso vai terminar.
Três semanas depois, Sybil disse para Alicia Coombe:
- Temos que entrar de vez em quando naquela sala.
- Por quê?
- Bem, quero dizer, ela deve estar numa terrível imundície.
As traças devem estar tomando conta de tudo. Deveríamos
ao menos tirar o pó e fazer uma faxina. Depois trancamos
novamente.
- Eu preferia manter a peça fechada e não voltar a entrar -
disse Alicia Coombe.
Sybil disse:
- Sabe, a senhorita é, de fato, ainda mais supersticiosa do que
eu.
- Acho que sim - disse Alicia Coombe. - Estou muito mais
disposta a acreditar nessas coisas do que você, mas, para
começo de conversa, bem, eu acho esse acontecimento de
certa maneira emocionante. Não sei. Simplesmente tenho
medo, e prefiro não entrar naquela sala outra vez.
- Bem, eu quero entrar - disse Sybil -, e é o que farei.
- Sabe qual é o seu problema? - perguntou Alicia Coombe. -
Você deixa que a curiosidade a domine completamente.
- Tudo bem, então sou curiosa. Quero ver o que a boneca
fez.
- Continuo achando que é melhor deixá-la em paz - disse
Alicia. - Agora que não entramos mais na sala, ela está
satisfeita. O melhor que você pode fazer é deixá-la assim. -
Deixou escapar um suspiro de exasperação.
- Quanta tolice estamos dizendo!
- Sim, sei que o que estamos dizendo não faz nenhum
sentido, mas se a senhorita quer me dar uma oportunidade
de parar com essas tolices, passe-me a chave, vamos, agora.
- Tudo bem, tudo bem.
- Creio que a senhorita está com medo de que eu a deixe
escapar ou algo assim. É mais fácil pensar que ela tem
poderes para atravessar portas e janelas.
Sybill destrancou a porta e entrou.
- Nossa, isso é muito estranho - ela disse.
- O que é estranho? - disse Alicia Coombe, espiando por
sobre o ombro da outra.
- Quase não há pó na sala, não é? Qualquer um pensaria que
depois de todo esse tempo fechada...
- Sim, isso é mesmo estranho.
- Lá está ela - disse Sybill.
A boneca estava no sofá. Não estava estendida em sua
tradicional posição relaxada. Sentava-se com aprumo, ereta,
uma almofada apoiada atrás das costas. Por seu aspecto,
presumia-se que era a dona da casa, à espera de suas visitas.
- Bem - disse Alicia Coombe -, ela parece estar em casa, não?
Sinto-me quase na obrigação de lhe pedir desculpas por ter
entrado dessa maneira.
- Vamos - disse Sybill.
Ela recuou, fechou a porta ao sair e voltou a passar a chave.
As duas mulheres se olharam.
- Gostaria de saber por que ela nos assusta tanto...
- disse Alicia Coombe.
- Por Deus, quem não ficaria assustada?
- Bem, quero dizer, o que acontece, afinal? Se formos pensar
bem, não acontece nada, ela não passa de uma boneca que
se move de lá para cá na peça. Acredito que não seja a
própria boneca, mas que ela esteja tomada por um poltergeist.
- Bem, essa parece ser uma boa idéia.
- Sim, mas não consigo acreditar nisso de verdade. Acho que
é... que é mesmo aquela boneca.
- Tem certeza de que não sabe mesmo de onde ela veio?
- Não tenho a mais vaga idéia - disse Alicia. - E quanto mais
penso nisso, mais me convenço de que não a comprei, e de
que ninguém a deu para mim. Creio que ela... bem, que ela
simplesmente apareceu.
- A senhorita acha que ela... que ela irá embora um dia?
- Na verdade - disse Alicia -, não sei por que ela iria... Ela
tem tudo de que precisa.
Mas parecia que a boneca ainda não conseguira tudo de que
precisava. No dia seguinte, quando Sybill entrou no salão de
exposição, suspendeu a respiração com um suspiro súbito.
Então dirigiu um chamado para o andar de cima.
- Srta. Coombe, srta. Coombe, venha até aqui.
- O que foi?
Alicia Coombe, que se levantara tarde, desceu as escadas,
manquejando um pouco, pois sofria de reumatismo no
joelho direito.
- O que está acontecendo, Sybil?
- Veja. Veja o que acaba de acontecer.
As duas pararam junto à porta do salão de exposição. Sentada
no sofá, espraiada tranqüilamente sobre um dos braços do
móvel, estava a boneca.
- Ela conseguiu sair - disse Sybil -, conseguiu escapar daquela
peça! Agora quer se adonar também do salão.
Alicia Coombe sentou na soleira da porta.
- No final - ela disse -, creio que ela vai querer se apossar da
loja toda.
- É possível - disse Sybil.
- Sua criatura nojenta, ladina e maliciosa - disse Alicia,
dirigindo-se à boneca. - Por que veio até aqui nos molestar
dessa maneira? Não queremos você por aqui.
Tanto ela quanto Sybil tiveram a impressão de que a boneca
se moveu de modo muito sutil. É como se seus membros se
afrouxassem ainda mais. Um de seus longos braços estendia-
se sobre o braço do sofá, e sua face semi-oculta parecia
espiar por cima dele. Além disso, seu olhar tinha um aspecto
dissimulado e malicioso.
- Criatura horrível - disse Alicia. - Já não posso suportá-la!
Não consigo suportá-la mais um minuto sequer.
De repente, pegando Sybil completamente de surpresa, ela
avançou pela sala, apanhou a boneca, correu até a janela,
abriu-a e lançou a boneca no meio da rua. Sybil deixou
escapar um pequeno grito e um suspiro.
- Oh, Alicia, a senhorita não devia ter feito isso! Tenho
certeza de que não devia ter feito isso!
- Eu precisava fazer alguma coisa - disse Alicia Coombe. -
Simplesmente não a agüentava mais.
Sybil juntou-se a ela à janela. Lá embaixo, no meio da
calçada, estendia-se a boneca, os membros espalhados, a face
voltada para o chão.
- A senhorita a matou - disse Sybil.
-Não seja ridícula... Como posso matar algo que é feito de
veludo e seda, de fragmentos e pedaços. Não é real.
- É terrivelmente real - disse Sybil. Alicia trancou a
respiração.
- Céus. Aquela criança...
Uma criança maltrapilha estava junto da boneca na calçada.
Ela olhou para um lado e para o outro da rua, uma rua que
não estava excessivamente cheia àquela hora da manhã,
embora houvesse algum tráfego de automóveis; então, como
se estivesse satisfeita, a menina se curvou, apanhou a boneca
e atravessou a rua correndo.
- Pare, pare! - gritou Alicia.
Ela se voltou para Sybil.
- Aquela criança não pode levar a boneca. Não podei Aquela
boneca é perigosa... é diabólica. Precisamos detê-la.
Não foram elas que a pararam. Foi o tráfego. Naquele
momento três táxis vinham de um lado e dois furgões de
comerciantes do outro. A criança estava isolada num espaço
entre as duas faixas. Sybil desceu as escadas correndo, com
Alicia Coombe atrás. Esquivando-se entre um furgão e um
carro particular, Sybil, seguida de perto por Alicia Coombe,
chegou no espaço em que estava a criança antes que ela
pudesse vencer o tráfego e chegar até o outro lado.
- Você não pode ficar com essa boneca - disse Alicia
Coombe. - Devolva-a para mim.
A criança olhou para ela. Era uma garotinha muito magra, de
cerca de oito anos, com um leve estrabismo.
- Por que eu devo dar ela pra você? - ela disse.
- Você jogou ela pela janela que eu vi... vi você jogando. Se
você jogou ela pela janela é porque não queria a boneca.
Então, agora ela é minha.
- Eu lhe compro outra - disse Alicia, desesperada.
- Iremos até uma loja de brinquedos, qualquer uma que você
quiser, e eu lhe comprarei a melhor boneca que você
encontrar. Mas me devolva essa aí.
- Nada feito - disse a criança.
Seus braços envolveram protetoramente a boneca.
- Você precisa devolver essa boneca - disse Sybil.
- Ela não pertence a você.
Ela se esticou para tomar a boneca da criança e naquele
instante esta lhe pisou o pé, deu meia-volta e começou a
gritar:
- Nada feito! Nada feito! Nada feito! Ela é minha. Eu amo ela.
Vocês não amam ela. Vocês odeiam ela. Se vocês não
odiassem ela, não tinham jogado ela pela janela. Eu amo ela,
eu estou dizendo, e é isso que ela quer. Ela quer ser amada.
E então, como uma enguia deslizando por entre os veículos,
a criança atravessou a rua, tomou uma ruela e saiu do
alcance de visão das duas mulheres antes que elas pudessem
decidir desviar dos carros para segui-la.
- Ela se foi - disse Alicia.
- Ela disse que a boneca queria ser amada - disse
Sybil.
- Talvez - disse Alicia -, talvez fosse isso o que ela quisesse
todo esse tempo... ser amada...
No meio do tráfego londrino, as duas mulheres se
entreolharam assustadas.


SANTUÁRIO

I
A esposa do vigário dobrou a esquina do vicariato com os
braços carregados de crisântemos. Seus rústicos sapatos
irlandeses arrastavam uma grande quantidade de terra do
jardim. Seu nariz estava sujo de poeira, mas ela estava
totalmente alheia a esse fato.
Ela teve certa dificuldade em abrir o portão do vicariato, que
se sustentava apenas sobre a metade de suas dobradiças
enferrujadas. Uma rajada de vento moveu seu chapéu
surrado, assentando-o em sua cabeça de maneira ainda mais
desengonçada do que antes.
- Diabos! - disse Bunch.
Batizada de Diana por seus esperançosos pais, a sra. Harmon
passou a ser chamada de Bunch ainda na infância por razões
óbvias, e esse nome a acompanhava desde então.
Empunhando os crisântemos, ela atravessou o portão e
chegou ao pátio da igreja, e em seguida à porta.
O ar de novembro era brando e úmido. Nuvens se moviam
pelo céu e revelavam pedaços de azul aqui e ali. Do lado de
dentro, a igreja era escura e fria; não era aquecida senão nos
horários de culto.
- Brrrrrr! - disse Bunch de modo enérgico. - É melhor
terminar logo com isso. Não quero morrer de frio.
Com a rapidez que advém da prática, ela reuniu a pa-
rafernália necessária: vasos, água, recipientes para as flores.
"Gostaria que tivéssemos lírios", pensou Bunch em silêncio.
"Já estou cansada destes crisântemos ásperos." Seus dedos
ágeis arrumavam as flores em seus recipientes.
Não havia nada particularmente original ou artístico em suas
decorações, pois Bunch Harmon não era nem original nem
artística, mas eram composições simples e agradáveis.
Carregando os vasos com cuidado, Bunch caminhou pela
nave em direção ao altar. Enquanto ela fazia isso, o sol
apareceu.
O astro brilhou através da janela leste, que tinha um vitral
um tanto tosco, composto em azul e vermelho - presente de
uma vitoriana rica que costumava freqüentar igreja. O efeito
era quase espantoso em sua repentina opulência. "Como
pedras preciosas", pensou Bunch. De repente ela parou,
olhando para a sua frente. Nos degraus do presbitério havia
um vulto escuro junto ao chão.
Depondo com cuidado as flores no chão, Bunch foi até os
degraus e se abaixou. Era um homem que estava debruçado
sobre si mesmo. Bunch se ajoelhou ao seu lado e,
lentamente e com muito cuidado, virou seu corpo. Seus
dedos buscaram o pulso do homem, um pulso tão fraco e
oscilante que revelava o estado de seu dono, assim como a
palidez quase esverdeada de seu rosto. Não restava dúvida,
pensou Bunch, de que ele estava morrendo.
Era um homem de aproximadamente 45 anos, vestido com
uma roupa preta surrada. Ela pôs de volta no chão a débil
mão que estava segurando e olhou para a outra. Esta estava
cerrada sobre o peito. Olhando mais de perto ela pôde ver
que os dedos estavam fechados sobre o que parecia ser um
grande maço ou lenço que ele segurava firmemente contra o
peito. A mão fechada estava coberta de respingos de cor
marrom, que Bunch imaginou ser sangue seco. Bunch
voltou a se equilibrar em seus calcanhares, franzindo a testa.
Até esse ponto, os olhos do homem tinham estado fechados,
mas neste instante eles se abriram de súbito e se fixaram no
rosto de Bunch. Eles não mostravam estupefação ou
errância. Pareciam totalmente vivos e inteligentes. Os lábios
do homem se moveram e Bunch se curvou para ouvir as
palavras, ou melhor dizendo, a palavra. Ele disse apenas:
- Santuário.
Havia, pensou ela, um pequeno sorriso em seus lábios
enquanto ele pronunciava essa palavra. Não poderia haver
erro, pois depois de um instante ele disse de novo:
- Santuário...
Então, com um longo e lânguido suspiro, seus olhos se
fecharam novamente. Mais uma vez os dedos de Bunch
procuraram o pulso do homem. Continuava lá, mas agora
ainda mais fraco e intermitente. Ela se levantou decidida.
- Não se mova - disse. - Vou buscar ajuda.
Os olhos do homem se abriram novamente, mas ele parecia
agora estar com sua atenção voltada para a luz colorida que
vinha da janela leste. Murmurou alguma coisa que Bunch
não entendeu muito bem. Ela pensou, assustada, que poderia
ter sido o nome do seu marido.
- Julian? - ela disse. - Você veio aqui procurar Tulian? Mas
não houve resposta. O homem ficou ali estendido, a
respiração curta e baixa.
Bunch virou-se e saiu rapidamente da igreja. Deu uma
olhada no relógio e moveu a cabeça com certa satisfação. O
dr. Griffiths ainda estaria em seu consultório, que ficava a
uma distância de poucos minutos a pé da igreja. Chegando
lá, ela entrou, sem bater ou tocar a campainha, passando pela
sala de espera para dentro do consultório do médico.
- O senhor precisa vir rápido - disse Bunch. - Tem um
homem à beira da morte na igreja.
Passados alguns minutos, o dr. Griffiths levantou-se após
examinar brevemente o homem.
- Seria possível movê-lo daqui até o vicariato? Não creio que
haja muita esperança, mas lá eu poderei atendê-lo melhor.
- Claro - disse Bunch. - Vou indo na frente para aprontar as
coisas. Vou mandar Harper e Jones para cá, para ajudar o
senhor a carregá-lo.
- Obrigado. Quando chegar ao vicariato, posso telefonar para
chamar uma ambulância, mas receio que quando ela
chegar...
Ele não terminou a frase.
- Hemorragia interna? - perguntou Bunch. O dr. Griffiths
assentiu com a cabeça.
- Como ele conseguiu chegar até aqui? - ele perguntou.
- Eu acho que ele deve ter passado a noite toda aqui
- disse Bunch, reflexiva. - Harper destranca a porta da igreja
pela manhã quando sai para o trabalho, mas não costuma
entrar.
Cerca de cinco minutos depois, o dr. Griffiths colocou o
telefone de volta no gancho e voltou para a sala onde o
ferido estava deitado sobre cobertores recém-postos no sofá.
Bunch carregava uma bacia com água e organizava as coisas
usadas no exame médico.
- Bem, isso é tudo - disse o dr. Griffiths. - Chamei uma
ambulância e notifiquei a polícia. - Ele ficou parado,
franzindo a testa, olhando para o paciente que estava deitado
de olhos fechados, a mão esquerda se movendo em nervosos
espasmos para o lado.
- Ele foi baleado - disse Griffiths. - Baleado bem de perto. -
Ele enrolou seu lenço e o pressionou sobre a ferida para
estancar o sangue.
- Ele poderia ter ido longe depois do acontecido?
- perguntou Bunch.
- Oh, sim, é bem possível. Um homem mortalmente ferido é
capaz de se levantar e caminhar ao longo de uma rua como
se nada tivesse acontecido, e então desfalecer de repente,
cinco ou dez minutos depois. Logo, ele não foi
necessariamente baleado na igreja. Não, mesmo. Ele pode
ter sido baleado a uma boa distância daqui. Claro, ele pode
ter atirado em si mesmo, largado o revólver e cambaleado
até a igreja. Eu só não entendo por que ele foi até a igreja e
não até o vicariato.
- Ah, isso eu sei - disse Bunch. - Ele disse "santuário". O
médico a encarou.
- Santuário?
- Aqui está Julián - disse Bunch, virando a cabeça ao ouvir os
passos do marido no corredor. - Julián! Venha até aqui.
O reverendo Julián Harmon entrou no aposento. Seus
modos vagos e professorais sempre o faziam parecer muito
mais velho do que de fato era.
- Meu Deus! - disse Julián Harmon, olhando de maneira
tranqüila e curiosa para os instrumentos cirúrgicos e para a
figura debruçada sobre o sofá.
Bunch explicou a situação em poucas palavras, como era de
costume.
- Ele estava na igreja, à beira da morte. Foi baleado. Você o
conhece, Julián? Pensei tê-lo ouvido dizer seu nome.
O vigário foi até o sofá e olhou para o homem agonizante.
- Pobre sujeito - ele disse, e sacudiu a cabeça. - Não, eu não o
conheço. Tenho quase certeza de que nunca o vi antes.
Naquele instante os olhos do homem se abriram mais uma
vez. Eles passaram do médico para Julián Harmon e dele
para a sua esposa. Os olhos estacionaram ali, fitando o rosto
de Bunch. Griffiths deu um passo à frente.
- Se você pudesse nos dizer... - ele disse rapidamente.
Mas com os olhos fixos em Bunch, o homem disse numa
voz fraca:
- Por favor, por favor...
E então, com um leve tremor, morreu... O sargento Hayes
lambeu a ponta de seu lápis e virou a página do seu caderno
de anotações.
- Então isso é tudo que a senhora pode me dizer, sra.
Harmon?
- Sim, isso é tudo - disse Bunch. - Estas são as coisas que
estavam em seus bolsos.
Sobre a mesa, perto do sargento Hayes, estavam uma
carteira, um velho relógio danificado com as iniciais W.S. e
a parte correspondente à volta de uma passagem de ida e
volta para Londres. Nada mais.
- O senhor descobriu quem ele é? - perguntou Bunch.
- Um casal, sr. e sra. Eccles, telefonou para a delegacia. Ele é
irmão da senhora, ao que parece. Seu nome é Sandbourne.
Já estava mal de saúde e dos nervos há algum tempo.
Andava cada vez pior. Anteontem ele saiu de casa e não
voltou mais. Levava um revólver consigo.
- E ele veio até aqui e se deu um tiro com o revólver?
- perguntou Bunch. - Por quê?
- Bem, ele andava deprimido...
Bunch o interrompeu:
- Não é isso que estou perguntando. O que quero saber é por
que aqui?
Como o sargento Hayes obviamente não sabia a resposta
para aquela pergunta, replicou de maneira evasiva:
- Ele chegou aqui no ônibus das 5h10.
- Sim - disse Bunch novamente -, mas por quê?
- Eu não sei, sra. Harmon - disse o sargento Hayes.
- Não existe nenhuma explicação. Se o equilíbrio mental é
perturbado...
Bunch terminou a sentença para ele:
- Eles podem fazê-lo em qualquer lugar. Mas ainda me
parece desnecessário tomar um ônibus para uma pequena
área rural como esta. Ele não conhecia ninguém aqui, não é?
- Não pelo que pôde ser averiguado - disse o sargento Hayes.
Ele tossiu de modo apologético enquanto se levantava e
disse:
- Pode ser que o sr. e a sra. Eccles venham até aqui lhe fazer
uma visita, dona, se a senhora não se importar.
- Claro que eu não me importo - disse Bunch. - É muito
natural. Eu só gostaria de ter algo a dizer a eles.
- Eu tenho que ir - disse o sargento Hayes.
- Fico muito aliviada - disse Bunch enquanto acompanhava o
sargento até a porta da frente - que não tenha sido
assassinato.
Um carro havia parado em frente ao portão do vica-riato. O
sargento Hayes, olhando rapidamente, comentou:
- Parece que o sr. e a sra. Eccles já estão aqui, dona, para falar
com a senhora.
Bunch se preparou para suportar o que, ela pensava, poderia
ser uma difícil provação. "De qualquer modo", pensou,
"posso chamar Julian para me ajudar se for o caso. Um
homem do clero é de grande ajuda quando as pessoas estão
desoladas pela perda de um parente."
Bunch não sabia exatamente o que esperar do sr. e da sra.
Eccles, mas foi acometida, ao cumprimentá-los, de certa
perplexidade. O sr. Eccles era uma homem corpulento e
vistoso, de modos alegres e brincalhões. A sra. Eccles tinha
um ar um pouco esnobe. Sua boca era pequena, bem
delineada. Sua voz era fina e aguda.
- Foi um choque terrível, sra. Harmon, como a senhora bem
pode imaginar - ela disse.
- Oh, eu sei - disse Bunch. - Deve ter sido. Sentem-se, por
favor. Eu posso oferecer-lhes, bem, talvez seja um pouco
cedo para o chá...
A sra. Eccles sacudiu sua pequena mão de dedos curtos:
- Não, não se incomode - ela disse. - É muito gentil da sua
parte. Só gostaria de saber... bem... o que o pobre William
disse e todo o resto, a senhora entende?
- Ele estava fora há tempos - disse o sr. Eccles -, e eu acho
que ele deve ter tido algumas experiências muito desa-
gradáveis. Desde que voltou para casa, andava muito quieto
e deprimido. Dizia que o mundo não era um bom lugar para
se viver e que não tinha nenhuma expectativa quanto ao
futuro. Pobre Bill, ele sempre foi um sujeito melancólico.
Bunch olhou para eles por alguns instantes sem dizer nada.
- Ele roubou o revólver do meu marido - continuou a sra.
Eccles - sem que percebêssemos. Então, ao que parece, veio
até aqui de ônibus. Acho que foi sensível de sua parte. Ele
não teria gostado de fazer isso em nossa casa.
- Pobre homem, pobre homem - disse o sr. Eccles com um
suspiro. - Não se pode julgá-lo.
Houve outra pausa curta, então o sr. Eccles disse:
- Ele deixou uma mensagem? Ultimas palavras, algo assim?
Seus olhos claros observavam Bunch atentamente. A sra.
Eccles também se inclinou para frente como se estivesse
ansiosa pela resposta.
- Não - disse Bunch em voz baixa. - Ele foi para a igreja
quando estava à beira da morte, buscando um santuário.
- Santuário? - disse a sra. Eccles de maneira confusa. -Acho
que não estou...
O sr. Eccles interrompeu:
- Lugar sagrado, minha querida - ele disse impacientemente.
- É isso que a esposa do vigário quer dizer. Suicídio é
pecado, você sabe. Suponho que ele quisesse se redimir.
- Ele tentou dizer algo um pouco antes de morrer - disse
Bunch. - Começou dizendo "por favor", mas não foi além
disso.
A sra. Eccles colocou seu lenço sobre os olhos e fungou.
- Oh, querido, é terrivelmente triste, não é?
- Acalme-se, Pam - disse seu marido. - Não se culpe, essas
coisas não podem ser evitadas. Pobre Willie. Ele está em paz
agora. Bem, muito obrigado sra. Harmon. Espero que não a
tenhamos estorvado em nada. A esposa de um vigário é uma
mulher ocupada, sabemos disso.
Eles se despediram com um aperto de mãos. Então Eccles se
voltou repentinamente para trás, para dizer:
- Ah, sim, só mais uma coisa. Creio que o casaco dele está
aqui, não?
- O casaco? - Bunch franziu a testa.
- Gostaríamos de ficar com todos os pertences dele, a
senhora sabe. São de valor sentimental - disse a sra. Eccles.
- Ele tinha um relógio, uma carteira e uma passagem de trem
nos bolsos - disse Bunch. - Eu entreguei tudo ao sargento
Hayes.
- Então está bem - disse o sr. Eccles. - Ele entregará para nós,
assim espero. Seus documentos particulares devem estar na
carteira.
- Havia uma nota de uma libra na carteira - disse Bunch. -
Nada além disso.
- Nenhuma carta ou coisa que o valha? Bunch sacudiu a
cabeça.
- Bem, mais uma vez obrigado, sra. Harmon. O casaco que
ele estava vestindo, é possível que também esteja com o
sargento?
Bunch franziu a testa tentando se lembrar.
- Não - ela disse-, acho que não... deixe-me ver. O doutor e
eu o tiramos para examinar a ferida - ela deu uma olhada
incerta ao redor do ambiente. - Devo tê-lo levado para o
andar de cima, junto com as toalhas e a bacia.
- Eu estava pensando, sra. Harmon, se a senhora não se
importar... Nós gostaríamos de ficar com o casaco, a senhora
entende, a última coisa que ele vestiu. Bem, teria um valor
imenso para minha esposa.
- Claro - disse Bunch. - O senhor gostaria que eu mandasse
lavar antes?
- Oh, não, não, não, isso não é necessário. Bunch franziu a
testa.
- Agora eu me pergunto onde é que... me dêem licença por
um momento.
Ela subiu as escadas e demorou alguns minutos para
retornar.
- Desculpem-me - ela disse ofegante -, minha diarista deve
ter posto o casaco junto com as outras roupas que foram para
a lavanderia. Levei um bom tempo para encontrá-lo. Aqui
está. Vou embrulhá-lo para vocês.
Contrariando os protestos do casal, ela o fez; então,
despedindo-se efusivamente mais uma vez, o sr. e a sra.
Eccles partiram.
Bunch voltou lentamente pelo corredor e entrou no
escritório. O reverendo Julián Harmon levantou os olhos e
seu rosto desanuviou-se. Ele estava escrevendo um sermão e
receava ter sido desviado do rumo pelo interesse que lhe
despertaram as relações políticas entre a Judeia e a Pérsia,
durante o reinado de Ciro.
- Sim, querida? - ele disse esperançoso.
- Julián - perguntou Bunch -, o que é exatamente um
santuário?
Julián Harmon gentilmente pôs de lado a folha do sermão.
- Bem - ele disse -, santuário em templos gregos e romanos
era a celia na qual ficava a estátua de um Deus. A palavra em
latim para altar, "ara", também significa proteção - ele
continuou doutamente. - No ano 399 d.C, o direito a
santuário foi final e definitivamente reconhecido nas Igrejas
Cristãs. A mais antiga menção do direito a santuário na
Inglaterra está no Código de Leis emitido por Ethelbert no
ano 600 d.C...
Ele continuou por algum tempo com sua explicação. Julian
seguidamente ficava desconcertado com a receptividade de
sua esposa aos seus pronunciamentos eruditos.
- Querido - ela disse, você é um doce. Inclinando-se, ela o
beijou na ponta do nariz.
Julian se sentiu um pouco como um cão que fosse
congratulado por realizar um truque engenhoso.
- O sr. e a sra. Eccles estiveram aqui - disse Bunch. O vigário
franziu a testa.
- O sr. e a sra. Eccles? Eu não me lembro...
- Você não os conhece. Ela é irmã do homem da igreja e ele
é seu marido.
- Minha querida, você deveria ter me chamado.
- Não houve necessidade - disse Bunch. - Eles não estavam
precisando de consolo. Será que... - ela franziu a testa - se eu
deixasse um ensopado no forno amanhã, você conseguiria se
virar, Julian? Estou pensando em ir até Londres, há uma
liquidação que quero aproveitar.
- Navegar? - O marido a olhou sem entender.
- Você diz andar de barco ou num iate?
- Há uma liquidação especial ocorrendo na Burrows &
Portman's. Você sabe, lençóis, toalhas de mesa e lã de vidro.
Não sei o que nós fazemos com nossas lãs, mas elas ficam
gastas em muito pouco tempo. Além disso
- ela acrescentou habilmente -, acho que está na hora de
visitar a tia Jane.

2
Aquela doce velhinha, Miss Jane Marple, estava gozando dos
prazeres da metrópole por duas semanas, confortavelmente
instalada no apartamento do seu sobrinho.
- É tão gentil da parte de Raymond - ela murmurou.
- Ele e Joan foram para os Estados Unidos por duas semanas
e insistiram para que eu ficasse aqui e me divertisse. E agora,
querida Bunch, me conte o que a está preocupando.
Bunch era a afilhada predileta de Miss Marple, e a velha
senhora a olhava com grande afeição quando Bunch, com
seu chapéu enfiado na parte de trás da cabeça, começou a
contar a história.
O relato de Bunch foi claro e conciso. Miss Marple acenou
com a cabeça quando Bunch terminou.
- Entendo - ela disse -, entendo.
- É por isso que eu achei que deveria vir até a senhora
- disse Bunch. - A senhora vê, sem ser muito esperta...
- Mas você é esperta, minha querida.
- Não, não sou. Não como Julian.
- Julian, é claro, tem um intelecto muito sólido
- disse Miss Marple.
- Exatamente - disse Bunch. - Julian tem o intelecto, mas eu,
por outro lado, tenho a sensibilidade.
- Você tem muito bom senso, Bunch, e é muito inteligente.
- A senhora vê, eu não sei muito bem o que fazer. Não posso
perguntar a Julian porque, bem, quero dizer, Julian é tão
cheio de integridade...
A declaração pareceu ter sido perfeitamente compreendida
por Miss Marple, que disse:
- Eu entendo o que você quer dizer. Para nós mulheres,
bem, é diferente. - Ela continuou. - Você me contou o que
aconteceu, Bunch, mas eu gostaria de saber primeiro
exatamente o que você pensa sobre isso.
- Está tudo errado - disse Bunch. - O homem que estava na
igreja, morrendo, sabia tudo sobre santuário. Ele disse
exatamente da maneira que Julian teria dito. Quero dizer, ele
era um homem instruído e culto. E se ele tivesse dado um
tiro em si mesmo, não se arrastaria, depois disso, até uma
igreja para dizer "santuário". Santuário significa que quando
você está sendo perseguido, ao entrar numa igreja, você está
salvo. Seus perseguidores não podem tocá-lo. Em certa
época nem mesmo as autoridades podiam pegar você.
Ela olhou inquisitivamente para Miss Marple. Esta acenou
com a cabeça. Bunch continuou:
- Aquelas pessoas, o sr. e a sra. Eccles, eram bem diferentes.
Ignorantes e vulgares. E tem mais uma coisa. O relógio, o
relógio do falecido. Tinha as iniciais W.S. na parte de trás.
Mas dentro, eu o abri, estava escrito em letras muito
pequenas "Para Walter, de seu pai" e tinha uma data. Walter.
Mas o sr. e a sra. Eccles se referiam a ele como William ou
Bill.
Miss Marple parecia pronta para dizer alguma coisa, mas
Bunch continuou, afobada:
- Oh, eu sei que nem sempre alguém é chamado pelo nome
de batismo. Quero dizer, posso entender que você seja
batizado William e seja chamado de "Peixe" ou "Cenoura" ou
algo assim. Mas a sua irmã não chamaria você de William ou
Bill se o seu nome verdadeiro fosse Walter.
- Você quer dizer que ela não era irmã dele?
- Tenho certeza de que ela não era irmã dele. Eles eram
repugnantes, os dois. Foram até o vicariato para pegar as
coisas do homem e para saber se ele havia dito alguma coisa
antes de morrer. Quando eu lhes disse que ele não havia dito
nada, vi apenas uma coisa escrita em seus rostos: alívio.
Pensei comigo mesma - concluiu Bunch
- que foi Eccles que atirou nele.
- Assassinato? - disse Miss Marple.
- Sim - disse Bunch. - Assassinato. É por isso que eu procurei
a senhora, querida tia.
As observações de Bunch poderiam ter parecido
incongruentes para um ouvinte comum, mas Miss Marple
era famosa, em certas esferas, por desvendar assassinatos.
- Ele disse "Por favor" para mim, antes de morrer
- disse Bunch. - Ele queria que eu fizesse alguma coisa por
ele. O mais triste é que eu não faço idéia do que essa coisa
possa ser.
Miss Marple refletiu por alguns instantes, e então perguntou
algo que já tinha ocorrido a Bunch:
- Mas por que ele estava lá, afinal?
- A senhora quer dizer - disse Bunch - que, se você está
procurando um santuário, pode entrar numa igreja em
qualquer lugar. Não há necessidade de pegar um ônibus que
só sai quatro vezes ao dia e ir até um local isolado como o
nosso.
- Ele deve ter ido até lá com algum propósito - cogitou Miss
Marple. - Deve ter ido para ver alguém. Chipping Cleghorn
não é uma cidade grande, Bunch.
Bunch repassou em sua mente todos os habitantes do
lugarejo antes de sacudir a cabeça ainda um tanto hesitante.
- De certo modo - ela disse -, poderia ser qualquer pessoa.
- Ele não mencionou nenhum nome?
- Ele disse Julian, ou eu pensei tê-lo ouvido dizer Julian.
Poderia ter sido Júlia, acho. Mas até onde sei, não há
nenhuma Júlia vivendo em Chipping Cleghorn.
Ela apertou os olhos enquanto se lembrava da cena. O
homem deitado nos degraus da capela, a luz entrando pela
janela, brilhando como jóias azuis e vermelhas.
- Jóias - disse Miss Marple pensativamente.
- Agora estou chegando - disse Bunch - na parte mais
importante de todas. A senhora vê, o sr. e a sra. Eccles
fizeram a maior questão de ficar com o casaco do falecido.
Nós o tiramos quando o médico estava examinando ele. Era
um casaco velho e surrado, não haveria nenhuma razão para
eles quererem tanto a peça. Eles fingiram que era algo
sentimental, mas aquilo foi pura tolice. De qualquer
maneira, subi até o andar de cima para buscá-lo, e quando eu
estava subindo as escadas, me lembrei que ele havia feito um
gesto com a mão, tateando o casaco como se quisesse pegar
alguma coisa. Então, quando peguei o casaco, examinei-o
bem e vi que, numa das partes, o forro havia sido
recosturado com uma linha diferente. Então eu descosturei
essa parte e encontrei um pequeno pedaço de papel lá
dentro. Tirei o papel e costurei o forro novamente com a
linha apropriada. Fui muito cuidadosa e não acho que o sr. e
a sra, Eccles notaram o que eu fiz. Acho que eles não
notaram, mas não posso ter certeza. Depois eu desci com o
casaco, entreguei a eles e inventei alguma desculpa para a
demora.
- E o pedaço de papel? — perguntou Miss Marple. Bunch
abriu sua bolsa.
- Não mostrei para Julian - ela disse -, porque ele teria dito
que eu deveria tê-lo entregado ao sr. e a sra. Eccles. Mas
pensei que seria melhor trazê-lo para a senhora em vez
disso.
- Um canhoto de guarda-volumes - disse Miss Marple
olhando para o papel. - Estação de Paddington.
- Ele tinha uma passagem de volta para Paddington no bolso
- disse Bunch.
Os olhos das duas mulheres se encontraram.
- Precisamos agir - disse Miss Marple vivamente.
- Mas seria aconselhável ter muita cautela. Você notou,
minha querida Bunch, se estava sendo seguida em sua vinda
para Londres esta tarde?
- Seguida! - exclamou Bunch. - A senhora não acha que...
- Bem, eu acho que é possível - disse Miss Marple.
- Quando tudo é possível nós temos que tomar precauções. -
Ela se levantou num movimento rápido. - Você veio até
aqui pretensamente, minha querida, para ver as liquidações.
Eu acho que a coisa certa a fazer seria irmos até algumas
lojas. Mas antes de começarmos, é melhor fazermos alguns
ajustes. Suponho - acrescentou Miss Marple sombriamente -
que não precisarei do velho casaco de tweed com a gola de
pele de castor esta tarde.
Cerca de uma hora e meia depois, as duas senhoras, muito
mal-vestidas e parecendo esgotadas, ambas agarradas a
suados embrulhos contendo roupas de cama e mesa,
sentaram-se numa pequena e isolada hospedaria chamada
Galho de Maçã, para recuperar suas forças com uma torta de
carne com miúdos seguida de torta de maçã e manjar.
- Com certeza são toalhas de rosto de qualidade, como as
antigas - disse Miss Marple ofegante. - E têm um jota
bordado. É uma alegre coincidência que a esposa de
Raymond se chame joan. Eu vou guardá-las até que sejam
realmente necessárias, e elas poderão servir para Joan caso
eu vá desta para melhor antes do esperado.
- Eu estava mesmo precisando de tecido isolante
- disse Bunch. - E estas peças estavam muito baratas, embora
não tão baratas quanto as que aquela ruiva arrancou da
minha mão.
Uma mulher jovem e elegante, usando uma quantidade
considerável de blush e batom, entrou no Galho de Maçã
naquele instante. Depois de olhar em volta por alguns
instantes de modo vago, precipitou-se até a mesa onde
estavam sentadas Bunch e Miss Marple. Ela colocou um
envelope sobre a mesa perto de Miss Marple.
- Aqui está, Miss - ela disse alegremente.
- Oh, obrigada, Gladys - disse Miss Marple. - Muito obrigada.
Muito gentil da sua parte.
- É uma satisfação servi-la - disse Gladys. - Ernie sempre me
diz, "Tudo de bom que você aprendeu foi com aquela Miss
Marple para quem você trabalhou", e sem dúvida eu sempre
fico feliz em ajudá-la, senhora.
- Uma moça muito simpática - disse Miss Marple enquanto
Gladys se retirava. - Sempre tão disposta e tão gentil.
Ela olhou dentro do envelope e depois o passou para Bunch.
- Agora tenha muito cuidado, querida - ela disse.
- A propósito, aquele simpático inspetor ainda trabalha em
Melchester?
- Não sei - disse Bunch. - Espero que sim.
- Bem, se não for este o caso - disse Miss Marple
pensativamente -, posso ligar para o chefe de polícia. Acho
que ele ainda deve estar lembrado de mim.
- É claro que ele vai lembrar da senhora - disse Bunch. -
Qualquer pessoa se lembraria da senhora. A senhora é única
- ela concluiu.
Chegando a Paddington, Bunch se dirigiu ao guiché de
bagagens e apresentou o canhoto do guarda-volumes. Após
alguns instantes uma velha e surrada mala foi entregue a ela,
e carregando-a ela caminhou até a plataforma.
A viagem de volta para casa foi tranqüila. Bunch levantou-se
quando o trem se aproximou de Chipping Cleghorn e pegou
a velha mala. Assim que ela desceu do vagão, um homem,
correndo rapidamente ao longo da plataforma, puxou de
repente a mala da mão de Bunch e saiu, disparado com ela.
- Pare! - gritou Bunch. - Detenham-no! Ele pegou a minha
mala!
O bilheteiro que, nessa estação rural, era um homem de
reações um tanto lentas, apenas começara a dizer: "Olhe
aqui, você não pode fazer isso...", quando um forte golpe no
peito o empurrou para o lado, e o homem correu para fora
da estação, carregando a mala. Ele foi até um carro que o
esperava. Jogou a mala para dentro e estava prestes a segui-
la, mas antes que pudesse se mover uma mão segurou seu
ombro, e a voz do chefe de polícia Abel disse:
- E então, o que está acontecendo aqui? Bunch chegou
ofegante, vinda da estação.
- Ele roubou a minha mala. Eu tinha acabado de sair do trem
com ela.
- Bobagem - disse o homem. - Eu não sei o que esta senhora
está falando. Esta mala é minha. Eu acabo de descer do trem
com ela.
Ele fitou Bunch com um olhar estúpido e imparcial.
Ninguém diria que o chefe de polícia Abel e a sra. Harmon
haviam passado longos períodos, durante os intervalos de
Abel, discutindo as respectivas virtudes do adubo e da
farinha de ossos para as roseiras.
- A senhora afirma, dona, que a mala é sua? - disse o chefe
de polícia Abel.
- Sim - disse Bunch. - Definitivamente.
- E o senhor?
- Eu digo que a mala é minha.
Era um homem alto, moreno e bem vestido, falava
lentamente e agia de maneira superior. Uma voz feminina
vinda de dentro do carro disse:
- É claro que esta mala é sua, Edwin. Eu não sei do que esta
mulher está falando.
- Vamos ter que esclarecer esta situação - disse o chefe de
polícia Abel. - Se esta mala é sua, madame, diga-me o que
tem dentro dela.
- Roupas - disse Bunch. - Um longo casaco de tweed com
gola de pele de castor, dois blusões de lã e um par de sapatos.
- Bem, isso foi claro o suficiente - disse o policial. Ele voltou-
se para o outro.
- Eu sou figurinista de teatro - disse o homem
arrogantemente. - Esta mala contém objetos cenográficos
que eu trouxe até aqui para uma performance amadora.
- Muito bem, senhor - disse o chefe de polícia Abel.
- Bem, vamos ter que dar uma olhada, não é? Podemos ir até
a delegacia de polícia ou, se estiverem com pressa, podemos
levar a mala até a estação e abri-la lá mesmo.
- Para mim está bem assim - disse o homem moreno. - A
propósito, meu nome é Moss, Edwin Moss.
O chefe de polícia, carregando a mala, voltou para a estação.
- Só vou levar isto até o setor de despacho, George - ele disse
ao bilheteiro.
O chefe de polícia Abel colocou a mala sobre a bancada do
despacho e puxou o fecho para trás. A mala não estava
chaveada. Bunch e o sr. Edwin estavam um de cada lado do
policial, seus olhos se encontrando num mesmo sentimento
de vingança.
- Ah! - disse o chefe de polícia Abel, conforme puxava a
tampa.
Do lado de dentro, primorosamente dobrado, estava um
surrado casaco de tweedcom uma gola de pele de castor. Havia
também dois blusões de lã e um par de sapatos.
- Exatamente como a senhora havia dito, madame
- disse o policial voltando-se para Bunch.
Ninguém podia dizer que o sr. Edwin Moss não fazia as
coisas direito. Sua consternação e remorso foram
impressionantes.
- Me desculpe — ele disse. - Mil perdões. Por favor, acredite
em mim, cara senhora, quando eu lhe digo que sinto
muitíssimo. É imperdoável, totalmente imperdoável o meu
comportamento - ele olhou para o seu relógio.
- Bem, tenho que ir agora. É provável que a minha mala
tenha ido com o trem.
Levantando mais uma vez seu chapéu, ele disse docemente
a Bunch:
- Perdoe, senhora - e saiu apressado da sala de despacho.
- O senhor vai deixá-lo escapar? - perguntou Bunch em tom
conspirador ao chefe de polícia.
O último fechou lentamente um de seus olhos bovinos
numa piscadela.
- Ele não irá muito longe, dona - ele disse. - Quero dizer, ele
não irá muito longe sem que seja visto, se a senhora me
entende.
- Ah - disse Bunch aliviada.
- Aquela velha senhora me telefonou - disse o chefe de
polícia Abel -, aquela que esteve aqui há alguns anos.
Esperta ela, não é? Mas hoje teve muito movimento por
aqui. E provável que o inspetor ou o sargento fale com a
senhora amanhã de manhã.
Foi o inspetor quem compareceu, o inspetor Craddock, de
quem Miss Marple havia se lembrado. Ele cumprimentou
Bunch com um sorriso nos lábios, como um velho amigo.
- Mais um crime em Chipping Cleghorn - ele disse
animadamente. - Aqui não se sente falta de emoção, não é,
sra. Harmon?
- Eu estaria satisfeita com bem menos - disse Bunch. - O
senhor veio para me fazer perguntas ou para me contar
alguma coisa, afinal?
- Primeiro eu vou lhe contar algumas coisas - disse o
inspetor. - Para começar, o sr. e a sra. Eccles já estavam
sendo vigiados havia algum tempo. Há suspeitas de que eles
estejam envolvidos em diversos roubos na região. E mais,
embora a sra. Eccles tenha um irmão chamado Sandbourne,
que recentemente voltou do exterior, o homem que a
senhora encontrou agonizando na igreja ontem
definitivamente não era Sandbourne.
- Eu sabia que não era ele - disse Bunch. - Para começar seu
nome era Walter, e não William.
O inspetor concordou com um aceno de cabeça.
- O nome dele era Walter St. John, e ele havia fugido da
prisão de Charrington 48 horas antes.
- Claro - disse Bunch baixinho para si mesma - ele estava
sendo perseguido pela lei e procurou um santuário.
Então ela perguntou:
- O que ele havia feito?
- Vou ter que retroceder bastante para lhe contar. É uma
história complicada. Há muitos anos, havia uma certa
dançarina que apresentava números num teatro de
variedades. A senhora provavelmente nunca ouviu falar
dela, mas ela havia se especializado numa dança de As mil e
uma noites: "Aladim na Caverna das Jóias", como era
chamada. Ela usava alguns diamantes falsos e pouquíssima
roupa. Não era uma grande dançarina, mas era, bem,
atraente. De qualquer modo, um nobre asiático se apaixonou
por ela. Entre outras coisas, ele a presenteou com um
magnífico colar de esmeraldas.
- As históricas jóias de Rajah? - murmurou Bunch extasiada.
O inspetor Craddock tossiu.
- Bem, uma versão mais moderna, sra. Harmon. O caso não
durou muito tempo. Acabou-se quando a atenção do
potentado foi capturada por uma estrela de cinema cujas
exigências eram bem menos modestas.
"A dançarina, vamos chamá-la de Zobeida, seu nome
artístico, ficou com o colar, e este foi roubado pouco tempo
depois. O colar desapareceu do seu camarim no teatro, e
havia uma suspeita fundada das autoridades de que ela
mesma haveria planejado o sumiço. Esse tipo de coisa era
um golpe para chamar a atenção, para encobrir algo ainda
mais desonesto. O colar nunca foi recuperado, mas durante
o curso da investigação a atenção da polícia se voltou para
esse homem, Walter St. John. Era um homem de boas
maneiras e boa formação, que havia entrado em decadência
e trabalhava como vendedor de jóias para uma firma um
tanto obscura, que era suspeita de ser receptadora de jóias
roubadas. Havia evidências de que este colar havia passado
por suas mãos. Porém, foi só quando se pôde provar a sua
ligação com outro ladrão de jóias que ele foi enfim levado a
julgamento e condenado à prisão. Sua pena não seria muito
longa, por isso sua fuga pegou a todos de surpresa.
- Mas por que ele veio até aqui? - perguntou Bunch.
- É isso que nós queremos descobrir, sra. Harmon. Seguindo
seu rastro, parece que ele foi primeiro a Londres. Não
visitou nenhum de seus antigos sócios, mas visitou uma
senhora idosa, a sra. Jacobs, que havia sido figurinista de
teatro anteriormente. Ela não quis dizer uma palavra sobre o
motivo de sua visita, mas de acordo com outros inquilinos
da residência, ele saiu de lá carregando uma mala.
- Entendo - disse Bunch. - Ele deixou a mala no guarda-
volumes em Paddington e veio até aqui.
- A essa altura - disse o inspetor Craddock -, Eccles e o
homem que se apresentou como Edwin Moss já estavam em
seu encalço. Eles queriam aquela mala. Eles o viram entrar
no ônibus. Devem ter vindo de carro um pouco à frente e
esperado que ele saísse do ônibus.
- E então ele foi assassinado? - disse Bunch.
- Sim - disse Craddock. - Ele foi baleado. O revólver era de
Eccles, mas eu acho que foi Moss quem atirou. Agora, sra.
Harmon, o que queremos saber é: onde está a mala que
Walter St. John de fato guardou na estação de Paddington?
Bunch deu uma risada.
- Acho que já deve estar com a tia Jane - ela disse -, quero
dizer, Miss Marple. Este era o plano dela. Mandou uma
antiga empregada fazer uma mala com algumas coisas dela e
depositá-la no guarda-volumes de Paddington. Depois, nós
trocamos de recibo. Retirei a mala que a empregada havia
deixado e a trouxe de trem. Miss Marple já estava prevendo
que haveria alguma tentativa de tomar a mala de mim.
Foi a vez de o inspetor Craddock rir.
- Foi o que ela disse quando telefonou. Vou até Londres para
vê-la. A senhora quer vir junto, sra. Harmon?
- Bem... - disse Bunch, pensativa. - Bem... para falar a
verdade, é uma grande coincidência. Eu tive uma dor de
dente na noite passada, então realmente devo ir a Londres
para fazer uma visita ao dentista, não devo?
- Definitivamente - disse o inspetor Craddock... Miss Marple
correu os olhos do rosto do inspetor
Craddock diretamente para o rosto ávido de Bunch Harmon.
A mala estava sobre a mesa.
- É claro que não a abri - disse a velha senhora. - Nunca
pensaria em fazer qualquer coisa antes que chegasse alguma
autoridade. Além do que - ela acrescentou com um recatado
e malicioso sorriso vitoriano -, ela está trancada.
- A senhora gostaria de arriscar um palpite sobre o que tem
dentro, Miss Marple?
- Imagino - disse Miss Marple - que sejam os figurinos de
Zobeida. O senhor gostaria de um cinzel, inspetor?
O cinzel logo cumpriu sua função. As duas mulheres deram
uma leve arfada quando a tampa abriu. A luz do sol vinda da
janela iluminou o que parecia um inesgotável tesouro de
jóias brilhantes: vermelhas, azuis, verdes, laranjas.
- A Caverna de Aladim - disse Miss Marple. - As jóias falsas
que a garota usava para dançar.
- Ah! - disse o inspetor Craddock - O que há de tão precioso
nisto para que um homem tenha sido assassinado em nome
de sua captura?
- Ela era uma garota esperta, acredito - disse Miss Marple
pensativamente. - Ela já está morta, não está, inspetor?
- Sim, morreu há três anos.
- Ela tinha um valioso colar de esmeraldas - disse Miss
Marple meditativamente. - Retirou as pedras do cordão e as
ajustou aqui e ali em suas fantasias de teatro, onde todos as
veriam como meras pedras de vidro colorido. Então mandou
fazer uma réplica do colar verdadeiro, e essa réplica,
obviamente, é que foi roubada. É por isso que nunca chegou
ao mercado. O ladrão logo descobriu que as pedras eram
falsas.
- Tem um envelope aqui - disse Bunch, empurrando algumas
das pedras brilhantes.
O inspetor Craddock pegou o envelope das mãos de Bunch e
tirou dele dois documentos oficiais. Leu em voz alta:
- "Certidão de Casamento entre Walter Edmund St. John e
Mary Moss." Esse era o verdadeiro nome de Zobeida.
- Então eles eram casados - disse Miss Marple. - Muito bem.
- O que é o outro papel? - perguntou Bunch.
- A certidão de nascimento de uma filha, Jewel.
- Jewel? - gritou Bunch. - Mas é claro. Jewel! JilP. É isso.
Agora eu entendo por que ele veio para Chipping Cleghorn.
É isso que ele estava tentando me dizer. Jewel. Os sr. e a sra.
Mundy. Laburnum Cottage. Eles criam uma menininha para
alguém. Eles são muito afeiçoados a ela. Eles a tratam como
se fosse sua própria neta. Sim, agora eu me lembro, o nome
dela era Jewel, só que, é claro, eles a chamam de Jill. A sra.
Mundy teve um derrame há mais ou menos uma semana, e
o sr. Mundy está muito doente, pneumonia. Os dois iam ter
que ir para o hospital. Tenho tentado encontrar um bom lar
para Jill. Não queria que ela fosse levada para uma
instituição. Acho que seu pai deve ter ouvido essas notícias
na prisão e dado um jeito de escapar e de pegar esta mala
que, ele ou a sua mulher, havia deixado com a velha
figurinista. Suponho que se as jóias de fato pertenciam à sua
mãe, elas podem ser usadas para ajudar a menina agora.
- Imagino que sim, sra. Harmon. Se elas estiverem aqui.
- Oh, elas estarão aqui certamente - disse Miss Marple
alegremente.

4
- Graças a Deus você está de volta, querida - disse o
reverendo Julián Harmon, saudando sua esposa com afeição
e uma ponta de satisfação. - A sra. Burt sempre faz o melhor
que pode quando você não está, mas ela meserviu uns
bolinhos de peixe muito peculiares no almoço. Eu não queria
magoá-la, então os dei para o Tiglath-Pileser , mas nem ele
quis comê-los, então eu tive que jogá-los pela janela.
- Tiglath-Pileser - disse Bunch acariciando o gato do
vicariato, que estava ronronando encostado ao seu joelho - é
muito seletivo em relação aos peixes que come. Sempre digo
a ele que ele tem um paladar refinado!
- E o seu dente, querida? Resolveu o problema?
- Sim - disse Bunch. - Nem doeu muito, e já aproveitei para
visitar a tia Jane de novo.
- Querida velhinha - disse julian. - Espero que ela não esteja
muito debilitada.
- Nem um pouco - disse Bunch com uma risada. Na manhã
seguinte Bunch levou uma leva fresca
de crisântemos para a igreja. O sol estava mais uma vez
vertendo pela janela leste, e Bunch parou nos degraus do
altar sob a luz brilhante. Numa voz muito baixa e suave ela
disse:
- A sua menininha vai ficar bem. Vou cuidar para que isso
aconteça. Eu prometo.
Então ela arrumou a igreja, foi até um banco e se ajoelhou
por alguns momentos para fazer suas preces. Depois teria
que retornar ao vicariato para enfrentar as tarefas
acumuladas de dois dias de ausência.

"A próxima vez". Em francês no original. (N.T.)
Estilo de mobília inglesa, de design despojado, elaborado a partir do início do século XIX.
(N.T.)
Referência a uma possível corcova, bunch em inglês. (N.T)
Jogo de palavras intraduzível. A mulher diz sale, liquidação; e o marido entende sail, navegar.
As duas palavras soam da mesma maneira. (N.T.)
Tiglath-Pileser foi o mais famoso dos monarcas do primeiro império assírio (por volta de 1110
a.C). (N.T.)






O VEREDITO
Agatha Christie

Agitada e doentia, 38 anos, Anya ainda conserva
traços do antigo encanto. Entrevada agora numa
cadeira de rodas, transformou-se numa mulher
faladeira e queixosa, que não consegue evitar sentir-
se um estorvo para o marido, o professor Karl
Hendryk. Um dia, ela é encontrada morta em sua
cadeira. Suicídio num momento de fraqueza ou
desequilíbrio mental? Causa mortis: dose excessiva de
stropatina. O veredicto permanece em aberto devido
à insuficiência de dados quanto ao modo pelo qual a
dose fatal teria sido ministrada. Agatha Christie cria
um jogo diabólico de situações e tramas em que o
leitor assiste fascinado, qual num teatro, à sua
inimitável arte de inventar e solucionar mistérios.

Tradução de
BÁRBARA HELIODORA

EDITORA RECORD


1958

Nota da Tradutora

Como em todos os textos teatrais ingleses, as referências à
Direita e Esquerda são todas do ponto de vista do ator, não
da platéia.
Para quaisquer indicações de movimento ou posição foram
usados os termos comuns de teatro:
D = Direita
E = Esquerda
C = Centro
B = Baixo (frente do palco)
A = Alto (fundo do palco)
Acima = mais para o fundo do palco
Abaixo = mais para a frente do palco
Cruzar = andar na direção de

Sumário

O Veredicto
PERSONAGENS
(Por ordem de entrada em cena)
LESTER COLE
SRA ROPER
LISA KOLETZKY
PROFESSOR KARL HENDRYK
DR. STONER ANYA
HENDRYK HELEN
ROLLANDER SLR
WILLIAM ROLLANDER
DETETIVE INSPETOR OGDEN
SARGENTO DE POLÍCIA PEARCE
SEQUÊNCIA DAS CENAS
ATO I
Cena I: Uma tarde no início da primavera
Cena II: Duas semanas mais tarde. À tarde
ATO II
Cena I: Quatro dias mais tarde. Cerca do meio-dia
Cena II: Duas semanas mais tarde. À tarde
Cena III: Dois meses mais tarde. Fim de tarde
Época: a da composição da peça


Ato Um
Cena I
CENÁRIO: Sala de estar do apartamento do PROFESSOR
HENDRYK, no bairro de Bloomsbury, em Londres.
O apartamento é o andar superior de uma das velhas
casas de Bloomsbury. Trata-se de uma saía de belas
proporções, com mobília confortável e antiquada. A
característica que mais imediatamente chama a
atenção é o número de livros: livros por toda parte,
em estantes nas paredes, sobre as mesas, nas cadeiras,
no sofá e empilhados no chão. Uma porta de duas
folhas abre para um hall, onde a porta de entrada fica à
DA e um corredor à EA que leva à cozinha. Também á
D fica a porta do quarto de LISA. Nasala, a porta do
quarto de ANYA fica à DB, e à EA uma porta de vidros de
caixilho abre para um pequeno balcão, com grades
envoltas em hera que dá para a rua embaixo e para um
correr de casas em frente. A escrivaninha de KARL em
frente à porta do balcão e tem uma cadeira em frente
a ela. Está recoberta de livros, ao lado de um telefone,
mata-borrão, agenda, etc. Abaixo da escrivaninha ha
um pequeno armário para se guardar discos, cheio de
discos, mais livros e folhas cobertas de anotações para
aulas. Em cima do mesmo há um toca-discos. Nas
paredes de ambos os lados da porta grande ao fundo
há estantes; abaixo da do lado E fica a pequena mesa
de trabalho de ANYA. Entre a porta dupla e a estante
da E há uma mesa redonda, de três andares, com livros
nos dois de baixo e uma planta no do alto. De
encontro à parede abaixo da porta à D há um pequeno
consolo com uma planta em cima e livros empilhados
embaixo. Pendurado na parede acima da porta à EB há
um pequeno conjunto de prateleiras com mais livros
e os remédios de ANYA em um canto. Embaixo dessas
prateleiras há um pequeno armário cheio com mais
livros. O armário para louças fica embaixo. Em frente às
prateleiras há uma escada de biblioteca. Um sofá fica à oc,
com uma mesa redonda atrás dele. Há cadeiras acima eàEda
mesa. Há livros sobre as três peças de mobiliário. Uma
grande poltrona de couro vermelho fica à EC, com ainda
mais livros em cima. À noite a sala é iluminada por uma
arandela de cada lado da porta de vidro e por lâmpadas de pé
sobre a mesa, na escrivaninha e no armário à D. Há
comutadores à E da porta dupla. No hall de entrada há uma
cadeira à D da porta do quarto.
Quando o pano se abre a porta dupla, ao fundo, está aberta e
o palco às escuras. Ao acenderem as lutes LESTER COLE está
precariamente equilibrado na escada da biblioteca. É um
rapaz desajeitado, mas simpático, com cerca de vinte e
quatro anos. Suas roupas são surradas e pobres, e tem o
cabelo despenteado. Há uma pilha de livros no alto da
escada. LESTER se estica para alcançar a prateleira de cima,
vai pegando um livro aqui e ali, folheia-o, coloca-o na pilha
da escada ou devolve-o à prateleira.
SRA. ROPER: (Fora DE do hall.) Muito bem, Srta. Koletzky, eu
providencio antes de ir para casa. (A SRA. ROPER entra vindo
da E do hall. É a faxineira e tem um ar sonso e desagradável.
Carrega suas roupas de rua e uma sacola de compras. Cruza
para a D do hall, depois volta, muito sorrateiramente,
entrando na sala com as costas de encontro à porta da D.
Desliza até o lado B da escrivaninha, onde há um maço de
cigarros. Está a ponto de roubá-lo quando LESTER fecha um
livro com ruído. A SRA. ROPER, com tremendo susto, gira
rapidamente.) Ora, Sr. Cole, eu não sabia que o senhor es-
tava aí. (LESTER vai devolver o livro àprateleira de cima e
quase se desequilibra.) Tenha cuidado! (Deposita sua sacola
no chão.) Essa coisa não é segura; mas não é, mesmo.
(Coloca o chapéu.) Pode desabar a qualquer momento — e
ai onde è que o senhor ia parar? (Veste o casaco.)
LESTER: Quem sabe, não é? (As luzes começam a baixar com
o crepúsculo.)
SRA. ROPER: Ainda ontem eu li no jornal que um senhor
caiu de uma escada na biblioteca. Na hora, pensaram que
não era nada — depois teve de ser levado a toda pressa para
o hospital. (Põe a ècharpe em torno do pescoço.) Com uma
costela quebrada que enfiou no pulmão. (Com grande
satisfação.) E no dia seguinte — estava morto!
LESTER: Que jornais animadores a senhora lê, Sra. Roper.
(Interessado em um livro, esquece a SRA. ROPER.)
SRA. ROPER: E vai acontecer o mesmo com o senhor se
continuar a se esticar desse jeito. (Olha para os cigarros.
Vendo que LESTER não está reparando nela, esgueira-se,
cantarola baixinho e esvazia o maço de cigarros em seu
bolso. Segurando o maço vazio.) Veja só! O professor está de
novo sem cigarros. (Um relógio bate cinco horas.) É melhor
eu ir comprar um maço novo, antes que a loja feche. Diga á
Srta. Koletzky que não demoro para ir buscar a roupa lavada.
(Pega sua sacola, vai para o hall.) Até logo! (Ela sai pela D. do
hall. Ouve-se aporta da frente abrir e fechar.)
LESTER: (Sem tirar o nariz do livro.) Pode deixar que eu digo.
(Bate a porta à E do hall, LESTER dá um pulo, derruba a pilha
de livros do alto da escada. LISA KOLETZKY entra ao CA, da E.
É uma mulher alta, bonita e morena, de 35 anos, de
personalidade forte e um tanto enigmática. Carrega uma
bolsa de água quente.) Desculpe, Srta. Koletzky; eu apanho.
(Desce e junta os livros.)
LlSA: Não importa. Alguns livros a mais ou a menos, por
aqui, não significam nada.
LESTER: É que a senhorita me assustou. Como está a Sra.
Hendryk?
LISA: Como sempre. Queixa-se do frio. Estou levando outra
bolsa.
LESTER: Ela está doente há muito tempo?
LISA: Cinco anos.
LESTER: Será que algum dia ela vai melhorar?
LISA: Ela tem dias bons e dias maus.
LESTER: Eu sei; mas eu estava falando de melhorar mesmo.
(LISA sacode a cabeça.) Puxa, isso é duro, não é?
LISA. (Com o ar pouco à vontade de uma estrangeira.)
É como diz: "Puxa, isso é duro"...
LESTER: Os médicos não podem fazer nada?
LISA. Não. Ela sofre de uma dessas doenças para as quais hoje
em dia ainda não há cura. É possível que um dia ainda a
encontrem. Nesse meio tempo... (dá de ombros) ela nunca
vai conseguir melhorar. A cada mês, a cada ano, ela fica um
pouco mais fraca. Mas pode durar ainda muitos e muitos
anos.
LESTER: Sim, isso é duro. Duro para ele.
LISA: É como diz, muito duro para ele.
LESTER: Ele é muito bom para ela, não é?
LISA: Ele gosta muito dela.
LESTER: Como era ela, quando jovem?
LISA: Muito bonita. Sim, uma menina linda, loura, de olhos
azuis e sempre sorrindo.
LESTER. (Perplexo.) Sabe, isso me assusta. Quero dizer — o
que o tempo faz com a gente. Como as pessoas mudam.
Quero dizer, é impossível saber o que é real e o que não é —
ou se alguma coisa é real.
LISA: Esta bolsa me parece muito real. (Sai, pela DB,
deixando a porta aberta. Ouve-se LISA conversando
com ANYA, porém não o suficiente para se
compreender o que dizem. LISA volta à DB.)
LESTER: (Culpado.) O professor disse que eu podia pegar
tudo o que quisesse.
LISA: Naturalmente, se ele disse que sim.
LESTER. Ele é maravilhoso, não é?
LISA: (Absorta com um livro.) Hmm?
LESTER: O Professor. É maravilhoso. Nós todos achamos,
todos. Todo mundo está muito entusiasmado. O jeito com
que ele fala das coisas. Todo o passado parece ficar vivo, de
novo. (Pausa.) Quero dizer, quando ele fala se percebe o
que tudo aquilo quer dizer. Ele é bem fora do comum, não
é?
LISA: Ele tem um cérebro de primeira água.
LESTER: Que sorte a nossa ele ter de sair do país dele e ter
vindo para cá. Mas não é só o cérebro, sabe? É uma outra
coisa.
LISA: (Pega um volume de Walter Savage Landor.) Eu
compreendo o que você quer dizer.
LESTER: É como se ele soubesse tudo a nosso respeito. Que-
ro dizer, que ele sabe como tudo é dificil. Porque disso
ninguém escapa — a vida é difícil, não é?
LISA: Não vejo por que haveria de ser.
LESTER: (Estupefato.) Perdão?
LISA: Eu não vejo por que é que você diz — e tanta gente
diz — que a vida é difícil. Eu acho que a vida é muito
simples.
LESTER: Ora, vamos — dificilmente eu diria simples.
LISA: Mas é claro. Ela tem um desenho, nitidamente
delineado, muito fácil de ver.
LESTER: Pois eu acho que ela é uma confusão dos diabos.
Será que você é Cientista Cristã, ou coisa no gênero?
LISA: (Rindo.) Não, não sou Cientista Cristã.
LESTER: Mas, acredita, realmente, que a vida seja fácil e
feliz?
LiSA: Eu não disse que fosse fácil ou feliz. Disse que era
simples.
LESTER: Eusei que você é muito boa... (encabulado)...
quero dizer, basta ver como cuida da Sra. Hendryk, e tudo
isso.
LISA: Eu cuido dela porque quero, não por questão de
bondade.
LESTER: O que eu quero dizer é que você podia arranjar um
emprego bem remunerado, se quisesse.
LISA: Sem dúvida eu poderia conseguir um emprego com
muita facilidade. Eu sou formada em física.
LESTER: Não tinha a menor idéia! Mas, nesse caso, você
devia arranjar um emprego, não devia?
LISA: O que é que você quer dizer com — devia?
LESTER: Bem, quero dizer que é um desperdício, se não
trabalhar. Desperdício da sua capacidade, quero dizer.
LISA: Um desperdício do treinamento que tive, pode ser.
Mas de capacidade — creio que faço bem o que estou
fazendo, e gosto de fazê-lo.
LESTER: Eu sei, mas...
(Ouve-se a porta da entrada. KARL HENDRYK entra ao CA,
vindo da D. É um homem viril e bonitão de quarenta e
cinco anos. Carrega uma pasta e um pequeno ramo de flores
primaveris. Acende as arandelas, a lâmpada sobre a mesa
àDea lâmpada da mesa ao CD nos comutadores à E da
porta. Sorri para LISA, e seu rosto se ilumina ao ver
LESTER.)
KARL: Olá, Lisa.
LISA: Olá, Karl.
KARL: Veja só — primavera! (Entrega-lhe as flores.)
LlSA: Que lindas. (Pousa as flores, depois toma o sobretudo
e o chapéu de KARL, saindo depois à E com os mesmos.)
KARL: Então veio pegar mais livros? Ótimo. Deixe-me ver o
que está levando. Ah, sim, Loschen é ótimo — muito sólido.
E o Verthmer. Salzen — bem, vou avisá-lo — ele não é nada
seguro.
LESTER: Então, talvez fosse melhor que eu não...
KARL: Não, leve-o, leve-o. Leia-o. Eu o avisei baseado na
minha experiência, porém você tem de julgar por você
mesmo.
LESTER: Muito obrigado. Vou lembrar-me do que o senhor
disse. Eu trouxe o Loftus de volta. Foi exatamente como o
senhor disse — ele realmente nos faz pensar.
KARL: Por que não fica para jantar conosco? (Acende a luz da
escrivaninha.)
LESTER: (Colocando os livros em sua sacola.) Muito
obrigado, mas eu já tenho um compromisso.
KARL: Compreendo. Então, vejo-o na segunda-feira. Cuidado
com os livros.
(LISA entra ao CA da E.)
LESTER: (Enrubescendo, culpado.) É claro, é claro. Eu
sinto muito — mas muito, mesmo — ter perdido aquele
outro.
KARL: Não pense mais nisso. Eu também já perdi livros na
vida. Acontece como todo mundo. LESTER: O senhor tem
sido muito bondoso. Muito, mesmo. Há gente que nunca
mais teria me emprestado um só livro.
KARL: Tcha! Isso seria uma grande tolice. Vai, vai, rapaz.
(LESTER sai, pelo hall e para a D.) Como está Anya?
LISA: Esteve muito deprimida e inquieta esta tarde, mas
agora conseguiu se aquietar e descansar. Espero que já esteja
dormindo.
KARL: Se está dormindo, não vou acordá-la. Minha pobre
querida; ela precisa de todo o repouso que puder conseguir.
LISA: Vou buscar água para as flores. (Pega um vaso na
prateleira e sai pela E do CA.)
LESTER: (Entra apressado pela D do CA, certifica-se de
que está sozinho com KARL.) Eu tenho de lhe contar. É
preciso. Eu — eu não perdi aquele livro. (LlSA entra da E
ao CA com as flores num vaso, que coloca sobre a
mesa.) Eu — eu o vendi.
KARL: (Não realmente surpreendido.) Compreendo.
Você o vendeu.
LESTER: Eu não queria contar para o senhor. E nem sei por
que contei. Mas achei que o senhor tinha de saber Não sei o
que o senhor vai pensar de mim.
KARL: Você o vendeu. Por quanto?
LESTER: (Orgulhoso.) Consegui duas libras por ele. Duas
libras.
KARL: Precisava do dinheiro?
LESTER: É, sim, senhor. Precisava muito.
KARL: Para que queria o dinheiro?
LESTER: Bem, minha mãe tem andado doente ultimamen-
te... Não, não vou mais mentir. Eu o queria para .... sabe, é
uma moca. Eu queria levà-la a algum lugar..
KARL: Ah! Queria o dinheiro para gastar com uma moça!
Compreendo. Bem. Muito bem — mas realmente muito
bem.
LESTER: Muito bem? Mas...
KARL: É tão natural. Bem, é claro que foi muito errado roubar
meu livro, vendê-lo e me mentir a respeito. Mas quando se
tem de fazer alguma coisa errada fico contente que seja por
um bom motivo. E na sua idade não há nada melhor do que
— sair com uma moça e divertir-se. É bonita, essa moça?
LESTER: Bem, naturalmente eu acho que sim. Na verdade, ela
é maravilhosa.
KARL: E vocês se divertiram, com as duas libras?
LESTER: É, mais ou menos. Quero dizer, eu comecei me
divertindo muito. Mas — mas estava me sentindo meio sem
jeito.
KARL: Meio sem jeito — é; é muito interessante.
LESTER: Por favor, acredite que estou terrivelmente enver-
gonhado, que lamento muito e que não acontecerá de novo.
E digo mais. Vou juntar dinheiro e comprar o livro de volta
para devolvê-lo.
KARL: Então fará isso, se puder. Agora, alegre-se — está tudo
acabado e esquecido. (LESTER olha KARL com gratidão e
sai pela D do hall.) Alegro-me que ele tenha vindo me
contar tudo sozinho. Esperava que o fizesse, mas é claro que
não podia ter certeza.
LISA: Quer dizer, então, que sabia que ele o havia roubado?
KARL: Éclaro que sabia.
LISA: Mas nunca deixou que ele soubesse que já sabia.
KARL: Não.
LISA: Por quê?
KARL: Porque, como já disse, esperava que ele me dissesse
sozinho.
LISA: (Pausa.) Era um livro valioso?
KARL: Na verdade, impossível de encontrar. LISA: Oh, Karl.
KARL: Pobre diabo — tão contente de ter conseguido duas
libras por ele. O livreiro que o comprou provavelmente já o
vendeu por quarenta ou cinqüenta, a esta altura.
LISA: De modo que ele não conseguirá tornar a comprá-lo?
KARL: Não.
LISA: Eu não o compreendo, Karl. (Perdendo a paciência.)
Às vezes tenho a impressão de que você faz tudo para que
os outros abusem de você — para deixar que roubem suas
coisas, que o enganem...
KARL: (Delicadamente.) Mas, Lisa, eu não fui enganado...
LISA: Mas isso ainda é pior. Roubo é roubo. Do jeito que
você age, está praticamente encorajando os outros a roubar.
KARL: Estou mesmo? Será? Será? LISA: Você me deixa tão
zangada! KARL: Eu sei. Eu sempre a deixo zangada.
LISA: Aquele desgraçado rapaz...
KARL: Aquele desgraçado rapaz tem um enorme potencial e
pode tornar-se um estudioso de primeira — realmente de
primeira. E isso é muito raro, sabe, Lisa. É muito raro. Há
muitos rapazes e moças que são sérios e desejam aprender.
Mas não os bons de verdade. Porém Lester Cole tem o
estofo do qual são feitos os verdadeiros estudiosos. Você não
faz idéia da diferença que um Lester Cole faz na vida de um
professor.
LISA: Isso eu compreendo. Há tanta mediocridade por aí.
KARL: Mediocridade ou ainda pior. Não importa gastar tempo
com um pé-de-boi dedicado, mesmo que não seja muito
inteligente; mas os que querem aprender apenas como uma
forma de esnobismo intelectual, que experimentam o estudo
como se experimenta uma jóia, que querem um verniz e
apenas um verniz, que desejam que sua comida já venha
mastigada, esses são os que eu não aturo. Ainda hoje recusei
um.
LISA: Quem foi?
KARL: Uma mocinha muito mimada. Naturalmente ela po-
derá assistir às aulas e perder seu tempo. É um direito que
lhe assiste. Mas ela queria atenção especial — aulas
particulares.
LISA: E está disposta a pagar por elas?
KARL: Foi o que ela sugeriu. Pelo que pude deduzir, o pai é
muito rico e sempre comprou tudo o que a filha quis. Bem,
ele não vai comprar as minhas aulas particulares para ela.
LISA: Nós bem que poderíamos usar o dinheiro.
KARL: Eu sei. Eu sei, mas não é uma questão de dinheiro — é
o tempo, compreende, Lisa? Eu realmente não tenho tempo.
Há dois rapazes, Sydney Abrahamson — este você já
conhece — e um outro. O filho de um mineiro. Ambos
estão interessados. Muito interessados, e acredito que são
bons. Mas ambos estão sendo prejudicados pela educação
superficial que receberam. Eu tenho de dar aulas particulares
a eles para que possam ter uma oportunidade. Eles valem o
esforço, Lisa; valem mesmo. Você compreende?
LISA: Eu compreendo que ninguém consegue mudar você,
Karl. Você não faz nada e sorri quando um aluno leva um
livro precioso e recusa uma aluna rica em favor de outro,
sem um níquel. Eu sei que isso é tudo muito nobre, mas a
nobreza não paga o padeiro, nem o açougueiro, nem o
armazém.
KARL: Mas, Lisa, não é possível que estejamos tão mal assim.
LISA: Não, ainda não estamos assim; mas sempre po-
deríamos aproveitar um pouco mais de dinheiro. Basta
pensar no que poderíamos fazer nesta sala.
(Ouve-se batidas de uma bengala no chão.)
Ah! Anya acordou.
KARL: Pode deixar que eu vou.
(KARL sai pela DB. LISA sorri e sacode a cabeça, depois
junta os livros. A música de um realejo é ouvida, fora.
LISA pega o Walter Savage Landor, senta-se e lê. A
SRA. ROPER entra no hall pela D com um embrulho de
roupa lavada. Sai pela E do hall, deixa o pacote, depois
entra na sala, com sua sacola de compras.
SRA. ROPER: EU fui buscar a roupa. Comprei cigarros para o
professor — os dele tinham acabado de novo. Ih, as pessoas
não ficam doidas quando ficam sem cigarro? Precisava ver o
Sr. Freemantle, onde eu trabalhava. Gritava feito um doido
quando não tinha cigarro. Ficava logo implicando com a
mulher. Eles não se davam lá muito bem — ele tinha uma
secretária. Sem-vergonha! Na hora do divórcio eu bem que
podia ter contado umas coisinhas que andei vendo. E tinha
ido dizer, mesmo, se não fosse pelo Sr. Roper. Eu achava
que era direito, mas ele disse "não, senhora; não se cospe a
barlavento". (A campainha da frente toca.) Quer que eu
veja quem é?
LISA: Por favor, Sra. Roper.
(A SRA. ROPER sai à D do hall.)
DOUTOR: (Fora.) Boa noite, Sra. Roper.
(A SRA. ROPER torna a entrar. O DR. STONER segue-a. Ele
é tipicamente o médico de família antiquado, com
cerca de sessenta anos. E ali, efetivamente, ele se
sente em casa.)
SRA. ROPER.- É o doutor.
DOUTOR: Boa noite, Lisa, querida.
LISA: Olá, Dr. Stoner.
SRA. ROPER: Bem, está na hora de ir. Ah, Srta. Koletzky, vou
trazer outro pacote de chá amanhã de manhã. Tornou a
acabar. Até amanhã! (Sai ao CA para o D.)
DOUTOR: Então, Lisa, como vão as coisas? (LISA marca seu
livro e fecha-o.) Karl andou comprando livros de novo ou
é só impressão minha que ainda há mais, agora? (Afasta
alguns livros para sentar-se no sofá.)
LISA: EU O proibi de comprar mais, doutor. Praticamente não
há mais lugar para sentar.
DOUTOR: Você tem toda razão de reclamar, Lisa, mas não vai
adiantar nada. Karl prefere jantar um livro do que um bife.
Como vai Anya?
LISA: Hoje ela esteve muito deprimida e inquieta. Ontem
parecia um pouco melhor e mais animada.
DOUTOR: É; é assim mesmo. (Suspira.) Karl está com ela?
LISA: Está.
DOUTOR: Ele nunca lhe falta. (Pára a música de realejo.)
Você sabe não é, querida, que Karl é um homem
extraordinário? As pessoas o sentem, sabe; são influenciadas
por ele.
LISA. Ele causa lá seus efeitos, sem dúvida.
DOUTOR: O que quer dizer com isso, minha jovem?
LISA: (Pegando o livro que estava lendo.) "Não há
campos de amaranto do lado de cá da tumba."
DOUTOR: (Tomando-lhe o livro.) Hum. Walter Savage
Landor. E o que queria dizer, Lisa, ao citá-lo?
LISA: Apenas que o senhor e eu sabemos que não há campos
de amaranto do lado de cá da tumba. Mas que Karl não sabe.
Para ele os campos de amaranto estão aqui, agora, o que
pode ser muito perigoso.
DOUTOR: Perigoso — para ele?
LISA: Não só para ele. Também para os outros, os que cui-
dam ou dependem dele. Os homens como Karl...
DOUTOR: (Pausa.) Sim?
(Rumor de vozes fora na EB. LISA vai para a mesa de
trabalho à EA e coloca-a àDda poltrona. KARL entra à
DB empurrando ANYA HENDRYK em uma cadeira de
rodas. ANYA é uma mulher de cerca de 38 anos, agita-
da e doentia, com traços de seu antigo encanto.
Outrora foi uma jovem bonita e coquete. Agora a
maior parte do tempo é uma inválida faladeira e
queixosa.)
KARL: Bem que pensei ter ouvido sua voz, Doutor.
DOUTOR: Boa noite, Anya. Você está com aparência ótima,
hoje. (KARL empurra a cadeira para a D da mesa de
costura.)
ANYA: Posso parecer bem, Doutor, mas não é como me sin-
to. Como poderia sentir-me bem, trancada aqui o dia
inteiro?
DOUTOR: Mas você tem um terraço tão bonito no seu quarto.
Lá você pode sentar-se e tomar ar puro e sol e ver tudo o
que está acontecendo por ai.
ANYA: Como se houvesse alguma coisa em volta de mim que
valesse a pena olhar. Só essas casas sem graça e essa gente
sem graça que mora por aqui. Ora, quando me lembro de
nossa casa linda e do nosso jardim e de toda a nossa mobília
linda — tudo perdido. É demais, Doutor; é demais perder-se
tudo o que se tinha.
DOUTOR: Vamos, Anya; você ainda tem um marido ótimo e
de valor.
(LISA coloca as flores sobre a mesa de costura.)
ANYA: Mas nem ele é mais o marido que eu tinha... (Para
LYSA.) não é? (LISA ri e sai ao CA.) Você está todo curvo,
Karl, e seu cabelo está grisalho.
KARL: Sinto muito, mas você terá de me aturar assim como
estou.
ANYA- Sinto-me pior a cada dia, Doutor. Minhas costas
doem e estou com um tremor no braço esquerdo. Acho que
esse último remédio que me deu não me fez muito bem.
DOUTOR: Então precisamos experimentar alguma outra coisa.
ANYA: As gotas são boas, aquelas para o coração, que Lisa me
dá, quatro de cada vez. Ela disse que o senhor mandou que
não desse mais do que isso. Mas eu acho que me acostumei
com elas e que talvez fosse melhor tomar seis ou oito.
DOUTOR: Lisa está cumprindo minhas ordens. É por isso que
mandei que não as deixasse perto de você, para que não
tomasse demais. Fique sabendo que elas são perigosas.
ANYA: Ainda bem que não ficam perto de mim. Estou certa
de que, se deixassem, um dia eu tomava o vidro inteiro e
acabava com tudo.
DOUTOR: Ora, ora, querida. Mas é claro que não ia fazer uma
coisa dessas.
ANYA: E eu, de que valho, jogada aqui o tempo todo, doente
e atrapalhando todo mundo? Ora, eu sei que são todos muito
bondosos, mas devem sentir que eu sou uma carga
insuportável.
KARL: Você não é carga para mim, Anya.
ANYA: Eu sei que sou. Não é como se eu ainda fosse alegre e
divertida, como costumava ser. Agora sou apenas uma
inválida, inquieta e emburrada, sem nada de divertido para
dizer.
KARL: Nada disso, querida.
ANYA: Se ao menos eu estivesse morta e desaparecesse, Karl
poderia se casar com uma mulher jovem que pudesse ajudá-
lo em sua carreira.
KARL: Você ficaria espantada se soubesse quantas carreiras
foram arruinadas por causa de homens que se casaram com
mulheres jovens quando eles mesmos já eram de meia-
idade.
ANYA: Eu sei do que estou falando. Sou um peso para vocês.
DOUTOR: (Escrevendo uma receita em um bloco.) Vamos
experimentar um tônico. Um novo.
LISA: (Entra ao CA. Traz uma bandeja com café para qua-
tro.) Já viu as suas flores, Anya? Karl trouxe-as para você.
(Serve o café.)
ANYA: Não quero que me lembrem a primavera. Primavera,
nesta cidade horrível. Você se lembra do bosque, quando
nós saíamos para apanhar junquilhos? Naquele tempo a vida
era tão feliz, tão fácil. Não sabíamos o que estava para vir.
Agora o mundo é odioso, terrível, uma cinza-sujo, e nossos
amigos estão todos dispersados, muitos deles mortos, e nós
temos de viver em um país estranho.
DOUTOR: (Recebendo sua xícara.) Obrigado, Lisa.
KARL: Há coisas piores.
ANYA: Eu sei que você acha que eu me queixo o tempo todo,
mas — se eu estivesse bem eu teria coragem e enfrentaria
tudo.
(ANYA estende a mão e KARL a beija. LÍSA entrega a
xícara de ANYA.)

KARL: Eu sei, minha querida, eu sei. Você tem muito o que
agüentar.
ANYA: Você não sabe de nada. (A campainha da frente
toca, LISA sai pelo hall à D.) Você tem saúde e é forte. E
Lisa também. O que foi que eu fiz para que isso acontecesse
comigo?
KARL: Querida — querida — eu compreendo.
LISA: (Fora.) Boa tarde.
HELEN: (Fora.) Por favor, eu poderia ver o Professor
Hendryk?
LISA: (Fora.) Por favor, entre.

(LISA entra ao CA pela D. HELEN ROLLANDER segue-a.
HELEN é uma moça bonita e segura de si, cerca de 23
anos.)

LISA: A Srta. Rollander quer vê-lo, Karl.
HELEN: (Segura de si e encantadora. LISA observa-a.)
Espero que não se importe com minha intromissão. Conse-
gui seu endereço com Lester Cole. (LISA continua a servir
o café.)
KARL: É claro que não me importo. Permita-me que apre-
sente minha mulher — a Srta. Rollander. (LISA dá a xícara
de KARL a ele.)
HELEN: Como está, Sra. Hendryk? ANYA: Como está? Como
vê, sou inválida; não posso me levantar.
HELEN: Sinto muito. Espero que não se importe de eu ter
vindo, mas sou aluna de seu marido. Queria fazer uma
consulta.
KARL: A Srta. Koletzky, o Dr. Stoner.
HELEN: (Para LISA.) Como está? (Aperta a mão do DOU-
TOR.) Como está?
DOUTOR: Muito prazer.
HELEN: Então é aqui que o senhor mora. Livros, livros e
mais livros.
DOUTOR: A senhorita não sabe a sorte que tem em poder
sentar-se. Há menos de cinco minutos é que eu tirei daí
pilhas de livros.
HELEN: Eu sempre tenho sorte.
KARL: Gostaria de tomar um café?
HELEN: Não, obrigada. Professor Hendryk, será que eu
poderia falar-lhe a sós por um momento?
KARL: Infelizmente nossas acomodações são um tanto limi-
tadas. Esta é nossa única sala.
HELEN: Bem, creio que o senhor já sabe o que quero dizer. O
senhor me disse hoje que seu tempo está tão tomado que
não poderia aceitar mais nenhum aluno particular. Vim
pedir-lhe que mude de idéia e faça uma exceção a meu
favor.
KARL: Sinto muito, Srta. Rollander, mas meu tempo está
inteiramente tomado.
HELEN: O senhor não pode me alijar assim. Acontece que eu
sei que depois de me recusar o senhor concordou em aceitar
Sydney Abrahamson como aluno particular, de modo que o
senhor tinha tempo. Preferiu-o a mim. Por quê?
KARL: Se deseja uma resposta sincera...
HELEN: Desejo. Detesto gente que desconversa.
KARL: Creio que Sydney tem mais possibilidades de apro-
veitar essas aulas do que a senhorita.
HELEN: Quer dizer que julga que o cérebro dele é superior ao
meu?
KARL: Não, não diria isso; mas ele tem, digamos, um desejo
maior de aprender.
HELEN: Ah, compreendo. Pensa que não encaro o estudo
com seriedade? (KARL não responde.) Mas não é assim. A
verdade é que o senhor tem preconceitos. Porque eu sou
rica, porque acabei de debutar e fiz todas as tolices que as
debutantes fazem — julga que não tenho seriedade.
ANYA: (Achando a fala de HELEN demais; interrompendo.)
Karl.
HELEN: Mas acredite que tenho.
ANYA: Ai, ai — será — Karl! KARL: O que é, minha
querida?
ANYA: Minha cabeça — não estou me sentindo muito bem.
(HELEN fica perturbada com a interrupção; tira cigarros e
isqueiro da bolsa.) Sinto muito — er — Srta. Rollander, mas
se me permite, voltarei para o meu quarto.
HELEN: (Um tanto aborrecida.) Mas é claro que compreen-
do.
(KARL empurra-a em direção da porta à DB. O DOUTOR vai
até a porta, abre-a e assume o controle da cadeira.)
ANYA: Meu coração — está muito esquisito esta noite.
Doutor, será que o senhor não podia...?
DOUTOR: Claro, claro. Creio que podemos encontrar algu-
ma coisa para aliviá-la. Karl, quer trazer minha maleta? (O
DOUTOR sai pela porta à DB. com ANYA. KARL pega a
maleta do DOUTOR.)
KARL: (Para HELEN.) Com licença. (Sai à DB.)
HELEN: Pobre da Sra. Hendryk. Há muito tempo que é
inválida?
LISA: Há cinco anos.
HELEN: Cinco anos! Pobre homem!
LISA: Pobre homem?
HELEN: Estava pensando nele a dar atenção a ela o tempo
todo. Ela gosta que ele lhe dê atenção o tempo todo, não
gosta?
LISA: Ele é marido dela.
HELEN: Ele é um homem muito bondoso, não é? Mas há
pessoas boas demais. A piedade enfraquece, não acha? Temo
não ser nada bondosa. Jamais sinto piedade de ninguém. Não
consigo. Eu nasci assim. A senhorita também mora aqui?
LISA: Eu cuido da Sra. Hendrik e do apartamento.
HELEN: Ah, coitada; que coisa horrível.
LISA: Absolutamente. Eu gosto muito.
HELEN: (Com ar um tanto vago.) Mas não existem empre-
gadas ao algo no gênero que vão para toda parte cuidando de
inválidos? Tenho a impressão de que seria muito melhor se
fizesse algum curso e arranjasse um emprego.
LISA: Não preciso fazer qualquer curso. Eu já sou física.
HELEN: Ora, mas então seria muito fácil arranjar um em-
prego.
LISA: Eu já tenho um emprego — aqui.

(KARL entra à DB, pega um vidro de remédio e um copo na
prateleira perto da porta, depois cruza para a estante à DA.
LISA junta as xícaras e a bandeja e sai pelo CA.)

HELEN: Então, Professor Hendryk; o senhor me aceita?
KARL: Temo que a resposta seja não. (Ele põe água da jarra
que está na estante no copo de remédio, depois cruza para a
porta à DB.)
HELEN: O senhor não compreende. Eu quero aprender. Eu
quero que me ensinem. Por favor, o senhor não pode me
recusar.
KARL: Mas posso sim, sabe?
HELEN: Mas por quê? Por quê? Papai lhe pagaria um montão
de dinheiro se o senhor me aceitasse. O dobro do preço
normal. Eu sei que paga.
KARL: Tenho certeza de que seu pai fará tudo o que a
senhorita desejar, mas não se trata de uma questão de
dinheiro. (LISA entra ao A. Para LISA.) Lisa, dê um cálice de
xerez à Srta. Rollander, por favor. Eu tenho de voltar para
perto de Anya.
HELEN: Professor Hendryk!
KARL: Minha mulher está em um de seus maus dias. Sei que
me desculpará se eu voltar para perto dela agora.
(KARL sorri encantadoramente para HELEN, depois sai à OB.
LISA pega uma garrafa de xerez no armário da estante à D.
HELEN, após uma pausa, pega sua bolsa e luvas no sofá.)
HELEN: Não, obrigada. Nâo quero xerez. Já vou indo. (Pára
junto à porta ao CA. O DOUTOR entra pela porta à OB.) Eu vou
conseguir o que quero, sabem? Eu sempre consigo. (Sai pelo
CA.)
LISA: Aceita um xerez, Doutor? DOUTOR: Obrigado. Aquela
moça é muito decidida. LISA: (Servindo.) É. E naturalmente
está apaixonada por Karl.
DOUTOR: Imagino que isso acontece com bastante freqüên-
cia.
LISA: É claro. Eu me lembro que me apaixonei perdidamente
por meu professor de matemática. Ele nem sequer olhava
para mim. (Serve o DOUTOR.)
DOUTOR: Mas provavelmente você então era mais jovem do
que ela.
LISA: Ah, sim; eu era mais jovem.
DOUTOR: Acha que Karl possa compreender?
LISA: Nunca se sabe. Eu creio que não.
DOUTOR: Quer dizer que ele já está acostumado?
LiSA: Não exatamente com esse tipo de moça. A maioria das
estudantes é um bando bem pouco atraente, porém esta tem
beleza, charme e dinheiro — e ela o quer muito, mesmo.
DOUTOR: Então você está com medo.
LISA: Não, não estou com medo; não por Karl. Eu sei como
ele é. Sei o que Anya significa para ele e sempre significará.
Se eu estiver com medo... (Hesita.)
DOUTOR: Então?
LISA: Ora, o que importa? (KARL entra à DB.) KARL: Então a
minha jovem importuna já foi. (LISA serve-o.)
DOUTOR: Uma jovem muito bonita. Há muitas estudantes
assim, Karl?
KARL: Felizmente, não; de outro modo teríamos ainda mais
problemas do que temos agora. DOUTOR: Você precisa ter
cuidado, meu velho. KARL-. Mas eu tenho. Preciso ter.
DOUTOR: E se você der aulas particulares a ela, é melhor fa-
zer Lisa ficar presente, de pau de cabeleira. Boa noite, Lisa,
LISA: Boa noite, Doutor. (O DOUTOR sai ao CA. LISA serve
KARL. Pausa.) É melhor eu ir ver Anya.
KARL: Não. Ela disse que queria ficar sozinha para descansar
um pouco. (Pausa.) Acho que o aparecimento daquela
moça aqui a perturbou.
LISA: É, eu sei.
KARL: É O contraste entre a vida dela — e a outra. E diz ela
que também fica com ciúmes. Anya sempre esteve
convencida de que eu ainda vou me apaixonar por uma de
minhas alunas.
LISA: E é possível que sim.
KARL: Você é capaz de dizer isso?
LISA; Podia acontecer.
KARL: Nunca. E você sabe que não. (Pausa constrangida.)
Por que você fica aqui conosco? (LISA não responde.
Pausa.) Por que você fica aqui conosco? LISA: Você sabe
muito bem por que eu fico. KARL: Eu acho que não é bom
para você. Acho que talvez você devesse voltar. LISA:
Voltar? Voltar para onde?
KARL: Não há, e nem houve, nada contra você. Você pode-
ria voltar para sua antiga função. Eles dariam tudo para tê-la
de volta.
LISA: É possível, mas eu não quero ir.
KARL: Mas talvez você devesse ir.
LlSA: Devesse ir? Devesse? O que é que você quer dizer?
KARL: Isso não è vida para você.
LlSA: É a vida que eu escolhi.
KARL: Mas é má para você. Volte. Vá embora. Tenha sua
própria vida.
LISA: Eu tenho minha própria vida.
KARL: Você sabe o que eu quero dizer. Casar. Ter filhos.
LISA: Não acredito que possa me casar. KARL: Não se ficar
aqui; mas se for embora...
LISA: Você quer que eu vá? (Pausa.) Responda: você quer
que eu vá?
KARL: (Com dificuldade.) Não; eu não quero que você vá.
LISA: Então não falemos mais nisso.
KARL: Você se lembra do concerto no Kursaal, naquele dia?
Era agosto e estava muito quente. Uma soprano imensa de
gorda cantou a Liebestod. E nem ao menos cantava bem.
Nenhum de nós dois ficou impressionado. Você usava uma
saia e um casaco verdes e um chapeuzinho engraçado. É
esquisito, não é, como certas coisas não se esquece jamais, e
se continuará a não esquecer? Eu não sei o que aconteceu na
véspera daquele dia, ou no dia seguinte, mas lembro-me
claramente daquela tarde. As cadeiras douradas na
plataforma, os músicos limpando o suor da testa e a cantora
gorda agradecendo e jogando beijos com a mão. E depois
eles tocaram o concerto para piano e orquestra de
Rachmaninoff. Você se lembra, Lisa?
LISA: É claro que sim.
KARL: (Cantarolando o tema do concerto.) Ainda posso
ouvi-lo. (A campainha da frente toca.) Ora essa, quem
poderia ser?
(LISA sai ao CA para D.)
ROLLANDER: (Fora.) Boa noite. O Professor Hendryk está?
LISA: Está. Quer entrar, por favor?
(SIR WILLIAM ROLLANDER entra ao CA, da D. É um
homem alto e grisalho, de forte personalidade. LISA
entra atrás dele.)
ROLLANDER: Professor Hendryk? Meu nome é Rollander.
KARL: Como está? Esta è a Srta. Koletzky.
ROLLANDER: Muito prazer. LISA: Muito prazer.
ROLLANDER: Eu tenho uma filha que estuda com o senhor,
Professor Hendryk.
KARL: Sim, è verdade.
ROLLANDER: Ela julga que freqüentar suas aulas não é
suficiente para ela. E gostaria que o senhor lhe desse,
também, aulas particulares.
KARL: Temo que isso não seja possível.
ROLLANDER: Sim, eu sei que ela jà lhe falou sobre o assunto e
que o senhor recusou. Porém, se me permite, eu gostaria de
reabrir a questão.
KARL: Certamente, Sir William, mas não acredito que o
senhor possa alterar a minha decisão.
ROLLANDER: Primeiramente eu gostaria de compreender as
razões de sua recusa. Elas não me ficaram muito claras.
KARL: São muito simples. Por favor, sente-se. Sua filha é
encantadora e inteligente, mas não tem, na minha opinião, a
estrutura da qual os verdadeiros estudiosos são feitos.
ROLLANDER: Essa decisão não é um tanto arbitrária?
KARL: Creio que o senhor aceita a crença popular de que o
saber é uma coisa que pode ser empurrada para dentro das
pessoas assim como se recheia um pato. Talvez fosse mais
fácil o senhor compreender se se tratasse de música. Se sua
filha tivesse uma voz bonita e afinada e o senhor a levasse a
um professor de canto para que ela se transformasse em
cantora de óperas, um professor consciencioso e honesto
dir-lhe-ia francamente que a voz dela não era adequada, a
despeito de qualquer tipo de treinamento a que fosse
submetida.
ROLLANDER: Bem, o senhor é o especialista. Suponho que
devo, no caso, curvar-me ante o seu julgamento.
KARL: O senhor, pessoalmente, acredita que sua filha queira
abraçar uma carreira acadêmica?
ROLLANDER: Não, para ser franco, não acredito. Mas ela
pensa que sim, Professor Hendryk. Então, coloquemos as
coisas em termos muito simples: eu quero que minha filha
obtenha o que deseja.
KARL: Uma fraqueza paterna muito comum.
ROLLANDER: Como diz, uma fraqueza paterna muito comum.
A minha posição, no entanto, é muito menos comum do
que a da maioria dos pais. Eu sou, não sei se sabe, e para
dizê-lo nos termos mais diretos — um homem rico.
KARL: Tenho plena consciência disso, Sir William. Creio que
há alguns dias atrás li a descrição do exótico equipamento de
um carro de luxo, especialmente desenhado, que o senhor
encomendou para sua filha, como presente.
ROLLANDER: Ah, aquilo? Provavelmente parecerá tolice e
ostentação. As razões por trás dele, deixe-me que lhe diga,
são fundamentalmente comerciais. Helen nem sequer está
muito interessada no carro. Sua mente, no momento, está
voltada para assuntos sérios. Devo dizer que isso é novidade,
pela qual estou grato. Durante uns dois anos ela andou com
um grupo que me desagradava bastante. Agora parece que
ela quer estudar seriamente e por isso estou cem por cento
do lado dela.
KARL: Compreendo muito bem seu pontode vista, porém...
ROLLANDER: Dir-lhe-ei um pouco mais, Professor Hendryk.
Helen é tudo o que tenho. A mãe dela morreu quando ela
tinha sete anos. Eu amava minha mulher e jamais tornei a
me casar. Tudo o que me resta dela é Helen. Eu sempre dei a
Helen tudo — tudo — o que ela quis neste mundo.
KARL: Estou certo que isso foi muito natural; mas terá sido
certo?
ROLLANDER: Provavelmente não, mas agora já se tornou meu
modo de vida. E Helen é uma ótima moça, Professor
Hendryk. Estou certo de que ela já cometeu er ros e tolices,
porém na vida só se aprende com a experiência. Os
espanhóis têm um provérbio: "Tome o que quiser e pague
depois, disse Deus." E isso é sensato, Professor Hendryk,
muito sensato. KARL: O preço pode ser muito alto.
ROLLANDER: Helen quer aulas particulares com o senhor. Eu
quero que ela as tenha. Estou disposto a pagar o seu preço.
KARL: Não é uma questão de preço, Sir William. Não estou
no mercado para ser vendido pelo preço mais alto. Tenho
responsabilidades para com a minha profissão. Meu tempo e
energia são limitados. Tenho dois bons alunos particulares,
homens pobres, mas que, a meu ver, merecem prioridade
acima da sua filha. Desculpe-me por lhe falar tão
francamente.
ROLLANDER: Aprecio seu ponto de vista, e não sou tão in-
sensível quanto possa pensar. Compreendo perfeitamente
que não se trata de dinheiro. Mas acredito, Professor
Hendryk — e sou um homem de negócios — que todo
homem tem seu preço.
KARL: Tem direito à sua opinião.
ROLLANDER: A sua esposa, creio eu, está sofrendo de escle-
rose generalizada.
KARL: É verdade. Mas como — como o senhor...?
ROLLANDER: Quando enfrento um problema investigo-o
exaustivamente sob todos os ângulos. Essa doença, Professor
Hendryk, é muito pouco conhecida. Atenua-se com
paliativos, mas não há cura conhecida e, muito embora o
paciente possa viver muitos anos, qualquer cura total está
inteiramente fora de questão. Creio que, falando em termos
não médicos, o que eu disse é correto?
KARL: Sim, é correto.
ROLLANDER: Mas o senhor deve ter ouvido falar de um
sensacional tratamento novo que começaram na América e
que tem despertado grandes esperanças. Não finjo estar
falando com qualquer precisão ou conhecimento médico,
porém acredito que um antibiótico novo, muito caro, foi
descoberto e tem alcançado efeitos consideráveis sobre o
curso da doença. No momento ele não pode ser comprado
na Inglaterra, mas uma pequena quantidade da droga — ou
sei lá como a chamam — foi mandada para cá e será usada
para alguns casos especiais. Tenho influência bastante para
isso, Professor Hendryk. O Instituto Franklin, onde a pes-
quisa será realizada, aceitará sua esposa como um desses
pacientes se eu usar de minha influência junto a ele.
KARL: (Baixinho.) Suborno e corrupção.
ROLLANDER: (Nada ofendido.) Ah, sim; é exatamente como
diz. Suborno e corrupção. Não suborno pessoal, isso não
funcionaria em seu caso. O senhor recusaria qualquer oferta
financeira que eu lhe fizesse. Mas será que pode se dar ao
luxo de recusar uma oportunidade de sua esposa recuperar a
saúde? (Pausa.)
KARL: O senhor tem toda razão, Sir William. Aceitarei sua
filha como aluna. Dar-lhe-ei aulas particulares e o mesmo
cuidado e atenção que daria ao meu melhor aluno. Isso o
satisfaz?
ROLLANDER: Satisfará a ela. É o tipo de moça que não aceita
um "não". Bem; o senhor tem a minha palavra de que,
quando o Instituto Franklin estiver pronto para começar, sua
esposa será aceita como paciente. Isso acontecerá,
provavelmente, dentro de dois meses. (LISA vai abrir a porta
do fundo.) Só me resta esperar que o tratamento seja tão
bem-sucedido quanto os casos nos Estados Unidos parecem
ter sido e que, dentro de um ano, eu possa congratular-me
com o senhor pela recuperação da saúde e das forças de sua
esposa. Boa noite, Professor Hendryk. (Vai sair, mas volta.)
Acontece que minha filha está lá embaixo, no carro,
aguardando a resposta da minha missão. Importar-se-ia se ela
subisse por um momento? Estou certo de que ela gostaria de
agradecer-lhe pessoalmente.
KARL: Sem dúvida, Sir William.
(ROLLANDER sai ao CA para a D. LISA acompanha-o.)
ROLLANDER: (Fora.) Boa noite.
LISA: (Fora.) Boa noite, Sir William. (LISA volta.) Então a
moça ganhou.
KARL: Acha que eu deveria ter recusado?
LISA: Não.
KARL: Eu já fiz Anya sofrer demais. Por ficar excessiva-
mente preso a meus princípios fui expulso da universidade,
em casa. Anya jamais compreendeu realmente por quê.
Jamais compreendeu meu ponto de vista. Pareceu-lhe que
meu comportamento foi tolo e quixotesco. Mas sofreu muito
mais do que eu por meu gesto. (Pausa.) De modo que agora
há esta oportunidade de ela se recuperar e eu tenho de
agarrá-la.
LISA: E os outros dois estudantes? Um deles não terá de ser
sacrificado?
KARL: Claro que não. Encontrarei o tempo. Posso fazer
meu próprio trabalho tarde da noite.
LISA: Você já não é mais tão jovem, Karl. E está trabalhando
demais.
KARL: Aqueles dois rapazes não podem sofrer por isso.
LISA: Se você tiver um colapso, todos irão sofrer.
KARL: Então eu não posso ter nenhum colapso. É uma sorte
não haver, no caso, nenhuma questão de princípios.
LISA: Uma sorte imensa — para Anya.
KARL: O que você quer dizer com isso, Lisa?
LISA: Nada, na verdade.
KARL: Eu não compreendo. Sou um homem muito simples.
LISA: Eu sei. E é isso que assusta tanto, em você.
(Ouve-se a batida da bengala de AN VA.)
KARL: Anya está acordada.
LISA: Não; eu vou. Sua nova aluna vai querer vê-lo.
KARL: Você acha que eu agi certo? (HELEN entra ao CA à D.)
LISA: E o que é certo? Como podemos saber antes de ver os
resultados? (Sai à DB.)
HELEN: A porta estava aberta, de modo que eu fui entrando.
Não fiz mal?
KARL: Absolutamente.
HELEN: Espero que não esteja zangado. Aposto que não tem
muito boa opinião de mim como estudante. Mas deve
compreender que nunca recebi o treinamento adequado. Só
uma educação tola, de coisas que estão na moda. Mas vou
trabalhar muito a sério, pode estar certo.
KARL: (Voltando à realidade.) Ótimo. (Faz algumas anotações
em uma folha de papel.) Vamos começar uma vida de estudo
sério. Poderei emprestar-lhe alguns livros. Irá levá-los
consigo, lê-los, depois virá em hora marcada e eu lhe farei
certas perguntas a respeito das conclusões que tirará deles.
Compreendeu?
HELEN: Compreendi. Poderia levar os livros agora? Papai está
me esperando no carro.
KARL: É uma boa idéia. Terá de comprar estes aqui. (Entrega-
lhe a lista que escreveu.) Agora, vejamos. (Vai até a estante e
pega dois volumes grandes, resmungando enquanto o faz.
Ele fala quase que como para si mesmo.) Tem de ler
Lecomte, naturalmente; ah, sim, e possivelmente Wertfor.
Você lê alemão?
HELEN: Só sei um pouco de alemão de hotel.
KARL: Terá de estudar alemão. Será impossível fazer o que
quer que seja sem bom conhecimento de alemão e francês.
Deverá estudar gramática e composição alemãs três vezes
por semana. (HELEN FAZ uma ligeira careta, ele lhe lança um
olhar severo e entrega-lhe os livros.) Temo que os livros
sejam um pouco pesados.
HELEN: Ai! Se são!! Parece bastante difícil. (Inclina-se
ligeiramente sobre o ombro de Karl enquanto olha os li-
vros.) Quer que eu leia tudo isso?
KARL: Quero que leia o livro todo com especial atenção para
o capítulo 4 e o capítulo 8.
HELEN: (Quase que se encostando toda nele.) Compreendo.
KARL: Digamos a próxima quarta-feira às quatro horas?
HELEN: Aqui?
KARL: Não; na minha sala na universidade.
HELEN: Oh, muito obrigada, Professor Hendryk. Estou
realmente muito grata. Realmente, e vou tentar o melhor
que puder. Por favor, não fique contra mim.
KARL: Eu não estou contra a senhorita.
HELEN: Está, sim. Acha que eu e meu pai o obrigamos a me
aceitar. Mas o senhor ainda se orgulhará de mim. Prometo.
KARL: Então, estamos entendidos. Não há mais nada a di-
zer.
HELEN: O senhor foi um amor. Um amor. Estou muito grata.
(Dá um repentino beijo no rosto de KARL. Depois se
afasta, pega os livros.) Quarta. Às quatro.

(HELEN sai ao CA à D. KARL, surpreso, põe a mão no
rosto e descobre que ficou manchado de batom. Lim-
pa o rosto com um lenço, sorri e sacode a cabeça. Vai
até o gramofone, põe o disco Concerto No 2 para piano e
orquestra de Rachmaninoff, depois vai sentar-se,
começa a trabalhar, pára a fim de ouvir a música.
LISA: vira à DB. Fica um momento ouvindo, e
observando KARL, porém ele não tem consciência da
presença dela. Ela cobre o rosto com as mãos, tentan-
do recobrar seu autodomínio. Porém, repentinamen-
te, se descontrola, corre para o sofá e se atira ao lado
dele.
LISA: Não. Não. Tire esse disco.
KARL: É Rachmaninoff, Lisa. Você e eu sempre gostamos
tanto dele.
LISA: Eu sei. E é por isso que, no momento, não posso
suportá-lo. Tire-o!
KARL: Você sabe, Lisa. Você sempre soube.
LISA: Não! Nós nunca dissemos absolutamente nada.
KARL: Mas sabíamos, não é?
LISA: (Em voz diferente, prática.) Anya está chamando
por você.
KARL: (Como que saindo de um sonho.) Claro, claro. Eu
já vou lá.

(KARL sai à DB. LISA fica olhando para ele, depois para a
porta, em atitude de desespero.)

LISA: Karl. (Esmurrando o sofá.) Karl. Oh, Karl.
(Ela desaba, no auge da infelicidade, sobre o lado D do
sofá enquanto as luzes se apagam e...)
CAI O PANO
Cena II

CENÁRIO: O mesmo. Duas semanas mais tarde. De
tarde.
Quando o pano se abre as luzes sobem. A folha da di-
reita da porta grande está aberta. ANYA está em sua
cadeira de rodas ao c com sua mesa de costura à E.
Está tricotando. KARL, sentado à escrivaninha, toma
notas de vários livros. A SRA. ROPER espana as
prateleiras da estante à D. Seu aspirador está abaixo do
sofá. LISA entra, vindo de seu quarto, e vai pegar sua
bolsa na poltrona. Está vestida para sair.

ANYA: (Irritada, quase chorando.) Perdi outra malha.
Duas malhas. Que horror!
LISA: Eu as pego em um instante. (Pega o tricô.)
ANYA: Não adianta eu querer fazer tricô. Olhe para minhas
mãos. Não ficam paradas. Não adianta.
SRA. ROPER: Bem que dizem que nossa vida é um vale de
lágrimas. Viram aquilo que saiu no jornal, hoje? Duas
menininhas afogadas. Lindas, as duas. Falar nisso, Srta.
Koletzky, o chá tornou a acabar.
(SRA. ROPER sai pela DB. LISA já consertou o tricô de ANYA
e devolve-o.)
LISA: Pronto. Já está tudo certo.
ANYA: Será que algum dia eu vou ficar boa de novo? (A
SRA. ROPER volta pela OB, torna a pegar o espanador que
deixou na mesa, Am A fala com doçura e nostalgia.) Eu
queria tanto ficar boa.
SRA. ROPER: Mas é claro que vai ficar, queridinha; claro
que vai. Ninguém deve desistir. O mais velho da minha
Joyce tem cada ataque de dar medo. Diz o médico que
depois ele fica bom, mas eu não sei, não. Agora eu vou
arrumar o quarto, está bem? Para ficar tudo arrumadinho
quando o doutor chegar.
LISA: Por favor, Sra. Roper. (Esta sai à OB, deixando a porta
aberta.)
ANYA: É melhor você ir, Lisa; senão se atrasa.
LISA: Se prefere que eu fique...
ANYA: Claro que não. Seus amigos estão aqui só por um dia.
É óbvio que tem de ir vê-los. Já basta eu ser uma inválida
inútil sem ter de sentir que estou estragando o divertimento
dos outros.
(A SRA. ROPER. de fora, quebra a calma do ambiente com o
ruído de seu aspirador e com sua interpretação de uma velha
canção com voz rouquenha.)
KARL: Ora, por favor!
LISA: (À porta à DB.) Sra. Roper! Sra. Roper! (Cessa o ruído
do aspirador e da canção.) Será que não se importa? O
Professor está tentando trabalhar.
SRA. ROPER: (Fora.) Desculpe.
(LISA pega sua bolsa. Achou o incidente divertido e KARL e
ANYA também se divertem. KARL enche sua pasta com livros
e papéis.)
ANYA: Você se lembra da nossa pequena Mitzi?
LISA: Ah, Mitzi; é mesmo.
ANYA: Uma empregadinha tão simpática, tão trabalhadora.
Sempre rindo. E com muito bons modos. E fazia tortas
maravilhosas.
LISA: É mesmo.
KARL: Enfim! Agora já está tudo pronto para a minha aula.
LISA: Eu volto assim que puder, Anya. Até logo.
ANYA: Divirta-se.
LISA: Até logo, Karl.
KARL: Até logo, Lisa. (LISA sai ao CA à D.) Um dia, querida,
você ficará boa e forte.
ANYA: Não, nunca. Você fala comigo como se eu fosse uma
criança imbecil. Eu estou doente. Muito doente e ficando
cada vez pior. E você finge ficar alegre e animado. Não
imagina como é irritante.
KARL: Desculpe. Sim, compreendo que ás vezes deve ser
muito irritante.
ANYA: E eu te irrito e te canso.
KARL: Mas é claro que não.
ANYA: É claro que sim. Você é muito bom e muito paciente,
mas na realidade deve ansiar para que eu morra e você fique
livre.
KARL: Anya, Anya, não diga isso. Você sabe que não é
verdade.
ANYA: Ninguém jamais pensa em mim. Ninguém me leva
em consideração. Foi a mesma coisa quando você perdeu
sua Cadeira na Universidade. Por que foi que você teve de
abrigar os Schultzes?
KARL: Eles eram nossos amigos, Anya.
ANYA: Você jamais gostou realmente de Schultz, nem nunca
concordou com os pontos de vista dele. Quando ele se
meteu em encrencas com a polícia nós devíamos tê-lo
evitado de uma vez por todas. Era a única coisa segura a
fazer.
KARL: A mulher e os filhos dele não tiveram culpa, e foram
deixados na miséria. Alguém tinha de ajudá-los.
ANYA: Mas não precisava que fôssemos nós.
KARL: Mas eram nossos amigos, Anya. Não se pode aban-
donar os amigos quando eles estão em perigo.
ANYA: Você não pode; disso eu sei. Mas não pensou em
mim. O resultado foi você ter de pedir demissão e nós
termos de deixar nossa casa e nossos amigos e vir para este
país frio, cinzento e horrível.
KARL: Ora vamos, Anya; não é tão ruim assim.
ANYA: Para você, pode ser que não. Deram-lhe um lugar na
universidade em Londres e para você tanto fez como tanto
faz, desde que tenha seus livros e seus estudos. Mas eu estou
doente.
KARL: Eu sei, minha querida.
ANYA: E aqui eu não tenho amigos. Fico deitada dias inteiros
sem ninguém para conversar, sem ouvir nada de
interessante, nem sequer um mexerico. Faço tricô e perco
as malhas.
KARL: Ora, vamos...
ANYA: Você não compreende. Você não compreende nada.
Não é possível que você realmente goste de mim, pois se
gostasse, compreenderia. KARL: Anya, Anya.
ANYA: Na verdade você é egoísta, egoísta mesmo, e duro.
Você não se importa com ninguém a não ser com você
mesmo. KARL: Minha pobre Anya.
ANYA: É muito fácil dizer "pobre Anya". Mas ninguém
realmente se importa comigo, ninguém gosta mesmo de
mim.
KARL: Eu penso em você. Eu me lembro da primeira vez em
que a vi. Com um casaquinho todo bordado de lã de cores
alegres. Nós fomos a um piquenique nas montanhas. Os
narcisos estavam em flor. Você tirou os sapatos e caminhou
pelo capim. Lembra-se? Sapatinhos tão bonitos e pezinhos
tão bonitos.
ANYA: (Com repentino sorriso de prazer.) Meus pés
sempre foram pequeninos.
KARL: Os mais bonitos do mundo. E a moça mais bonita.
ANYA: E agora eu murchei, estou velha e doente. Não sirvo
para mais nada. KARL: Para mim você é a mesma Anya.
Sempre a mesma.
(A campainha da frente toca.) Deve ser o Dr. Stoner.
SRA. ROPER: (Entrando da porta à DB.) Querem que eu vá
abrir? (Sai ao CA à D. Ruído de vozes fora. A SRA. ROPER
volta, seguida por HELEN, que carrega os dois livros
que levara emprestados.) É uma moça que quer falar com
o senhor.
HELEN: Trouxe de volta alguns de seus livros. Pensei que
talvez precisasse deles. (Pára quando vê ANYA, e seu
rosto perde a animação. A SRA. ROPER sai à DB.)
KARL: Querida, você se lembra da Srta. Rollander?
HELEN: Como está, Sra. Hendryk? Sente-se melhor?
ANYA: EU nunca me sinto melhor.
HELEN: (Sem emoção.) Sinto muito. (A campainha torna
a tocar, KARL pousa os livros na escrivaninha e sobe
para CA.)
KARL: Agora deve ser o Dr. Stoner.
(KARL sai aoCAàoea SRA. ROPER entra da DB, carre-
gando uma cesta de papéis. Pega um cinzeiro na prate-
leira perto da estante e esvazia-o na cesta. HELEN olha
distraída um livro sobre a mesa ao CD.)
SRA. ROPER: Eu acabo o quarto mais tarde. É melhor ir
comprar chá antes que a loja feche.
KARL: (Fora.) Olá, Doutor. Entre.
DOUTOR: (Fora.) Olá, Karl. O dia está lindo. (KARL vem
aoCAàDe faz entrar o DOUTOR.)
KARL: Eu gostaria de ter uma palavra com o senhor sozinho,
Doutor.
(A SRA. ROPER sai ao CA à E. deixando a porta aberta.)
DOUTOR: Naturalmente. Então, Anya, está um lindo dia de
primavera.
ANVA: É mesmo?
KARL: Poderiam dar-nos licença um momento?
HELEN: É claro.
DOUTOR: Boa tarde, Srta. Rollander. HELEN: Boa tarde,
Doutor.
(KARL e o DOUTOR saem pela porta à DB. A SRA. ROPER entra
ao CA d E, carregando seu casaco e sacola de compras. Pousa
a sacola enquanto veste o casaco.)
SRA. ROPER: Está muito quente para esta época do ano — e
esse tempo sempre me faz doer as juntas. Hoje de manhã eu
estava tão emperrada que mal conseguia sair da cama. Eu
volto logo com o chá, Sra. Hendryk. Devo comprar meia
libra?
ANYA: Como quiser, como quiser.
SRA. ROPER: Então, até loguinho. (Sai ao CA d D.)
ANYA: Quem toma o chá é ela. Fica sempre dizendo que
precisamos de mais chá, mas nós praticamente não o
tomamos. Preferimos café.
HELEN: Acho que essas mulheres sempre levam uma coisa ou
outra, não é?
ANYA: E pensam que nós somos estrangeiros e por isso não
vamos perceber. Temo que seja muito maçante, Srta.
Rollander, ficar aqui só comigo para conversar. Os inválidos
não são boa companhia.
(HELEN examina os livros na estante.)
HELEN: Eu só vim para devolver aqueles livros.
ANYA: Karl tem livros demais. Olhe só esta sala — é livro
para todo lado. Os estudantes vêm aqui e pedem livros
emprestados, e lêem, e deixam tudo espalhado, e ainda
perdem muitos dos que levam. É de enlouquecer —
realmente de enlouquecer.
HELEN: Não deve ser muito divertido para a senhora.
ANYA: Eu queria morrer.
HELEN: A senhora não deve dizer uma coisa dessas.
ANYA: Mas é verdade. Eu incomodo e aborreço todo
mundo. Minha prima Lisa e meu marido. Pensa que é
agradável saber que se é um peso para os outros?
HELEN: E a senhora pensa isso?
ANYA: Morta eu estaria melhor. Muito melhor. Às vezes
acho que vou acabar com tudo isso. Seria muito fácil. Basta
uma dose um pouco mais forte do meu remédio do coração
e aí todos ficam contentes e livres e eu fico em paz. Por que
continuar a sofrer?
HELEN: (Obviamente entediada.) Deve ser terrível para a
senhora.
ANYA: Nem imagina. A senhorita nem pode compreender.
É jovem, bonita, rica e tem tudo o que deseja. E aqui estou
eu, infeliz, desamparada, sempre sofrendo, e ninguém se
importa. Ninguém se importa, realmente.
(DOUTOR entra pela OS. KARL segue-o.)
DOUTOR: Bem, Anya, Karl me disse que dentro de duas
semanas você já deverá ir para a clínica.
ANYA: Não vai adiantar nada. Eu sei.
DOUTOR: Ora, ora, não diga isso. Eu estive lendo um artigo
muito interessante em uma revista médica, no outro dia, que
tratava do assunto. Apenas um trabalho de apresentação,
porém muito interessante. É claro que aqui nós estamos
encarando o novo tratamento com muita cautela. Temos
medo de assumir compromissos. Nossos primos americanos
são mais precipitados, mas não há dúvida de que parece ter
boas probabilidades de sucesso.
ANYA: Eu realmente não acredito nele; não vai adiantar na-
da.
DOUTOR: Ora, Anya, deixe de ser pessimista. (Empurra a
cadeira para a porta à DB, que KARL apressa-se em
abrir.) Vamos fazer nosso exame semanal para eu saber se
posso usá-la para mostrar como sou bom médico.
ANYA: Eu não consigo mais fazer tricô. Minhas mãos tre-
mem tanto que eu perco as malhas a toda hora. (KARL tira a
cadeira do DOUTOR e vai empurrando-a para a porta.)
KARL: ISSO não quer dizer nada, não é, Doutor?
DOUTOR: Absolutamente nada.
(KARL sai com ANYA pela porta à DB. O DOUTOR sai atrás
deles. KARL volta e fecha a porta. Ignora HELEN.)

KARL: Desculpe, mas eu tenho de sair. Tenho de dar uma
aula às quatro e meia.
HELEN: O senhor está zangado por que eu vim?
KARL: Claro que não. Foi muita bondade sua devolver os
livros.
HELEN: O senhor está zangado. Ultimamente tem sido tão
brusco — tão ríspido. O que foi que eu fiz para o senhor se
zangar? Ontem o senhor estava realmente irritado.
KARL: Naturalmente que estava. A senhorita diz que quer
aprender, que quer estudar e tirar seu diploma, mas não
estuda.
HELEN: Bem, eu tenho andado muito ocupada ultimamente
— tem acontecido tanta coisa... KARL: A senhorita não é
estúpida, tem muita inteligência e massa cinzenta, mas não
se esforça. Como andam suas lições de alemão?
HELEN: Ainda não providenciei.
KARL: Mas é preciso, é preciso. É essencial que possa ler
alemão. Os livros que lhe dou para ler a senhorita não lê
direito. Eu faço perguntas e suas respostas são superficiais.
HELEN: Mas tudo isso é tão maçante.
KARL: Mas a senhorita estava ansiosa por estudar, por obter
seu diploma.
HELEN: No que me diz respeito o diploma pode ir para o
diabo que o carregue!
KARL: (Deixando cair a pasta, de tão perplexo.) Então
eu não compreendo. Obriga-me a aceitá-la como aluna,
obriga seu pai a vir pedir-me...
HELEN: Eu queria vê-lo, estar perto de você. Será que está
cego, Karl? Eu estou apaixonada por você.
KARL: (Atônito.) O quê? Mas, menina...
HELEN: Será que não gosta nem um pouquinho de mim?
KARL: Sabe que é uma moça muito atraente, mas é preciso
que se esqueça de toda essa bobagem.
HELEN: Não é bobagem. Estou dizendo que o amo. Por
que não podemos enfrentar o fato de forma simples e na-
tural? Eu quero você e você me quer. Você sabe que sim —
você é o tipo de homem com quem eu quero me casar. E
por que não? Sua mulher não serve de nada para você.
KARL: Como você compreende pouco as coisas. Fala como
uma criança. Eu amo minha mulher.
HELEN: Ora, eu sei. Você é uma pessoa tremendamente
bondosa. Toma conta dela e lhe dá xícaras de chá e não sei o
que, sem dúvida. Mas isso não é amor.
KARL: Será que não? Eu acredito que seja.
HELEN: É claro que você tem de tomar providências para
que ela tenha todo o cuidado necessário, mas isso não
precisa interferir em sua vida de homem. Se nós tivermos
um caso, sua mulher não precisa saber.
KARL: Minha cara menina, nós não vamos ter um caso.
HELEN.- Ai, eu não sabia que você era tão preconceituoso.
(Vem-lhe repentinamente uma idéia.) Eu não sou vir-
gem, se é isso que o preocupa. Já tive muitas experiências.
KARL: Helen, não se iluda. Eu não estou apaixonado por
você.
HELEN: Pode continuar a dizer isso até ficar roxo que eu
vou continuar a não acreditar.
KARL: Porque não quer acreditar. Mas é a verdade. Eu amo
minha mulher. Ela me é mais cara do que qualquer outra
coisa neste mundo.
HELEN: (Como uma criança confusa.) Por quê? Por quê?
Quero dizer, o que é, neste mundo, que ela pode lhe dar? Eu
poderia dar tudo a você. Dinheiro para pesquisas ou sei lá...
KARL: Mas mesmo assim você nâo seria Anya. Ouça...
HELEN: É possível que ela tenha sido muito bonita, mas agora
não é mais.
KARL: É, sim. Ninguém muda. A mesma Anya continua a
existir nela. A vida faz coisas com a gente. Doenças,
desapontamentos, exilio, todas essas coisas formam uma
crosta que cobre o ser verdadeiro. Mas esse ser verdadeiro
continua a existir para sempre.
HELEN: Eu acho que você está dizendo asneiras. Se fosse um
casamento de verdade — mas nâo é. Nâo pode ser, nessas
circunstâncias.
KARL.- É um casamento de verdade.
HELEN: Ora, você é impossível!
KARL: Sabe, você ainda é uma criança. Não compreende.
HELEN: (Começando a perder a paciência.) Você é que é
criança, vivendo em uma nuvem de sentimentalismos e
mentiras. Você mente aié para você mesmo. Se você tivesse
coragem — mas eu tenho coragem e sou muito realista. Não
tenho medo de olhar para as coisas e chamá-las por seus
nomes certos.
KARL: Você é uma criança que não cresceu.
HELEN: (Exasperada.) Oh!
DOUTOR: (Entra pela DB. empurrando a cadeira de ANYA para
sua posição rotineira ao c.) Tudo muito satisfatório.
ANYA: É o que ele diz. Todo médico é mentiroso.
DOUTOR: Bem, já tenho de ir. Tenho um cliente às quatro e
meia. Adeus, Anya. Boa tarde, Srta. Rollander. Eu vou para o
seu lado, Karl. Se quiser eu lhe dou uma carona.
KARL: Muito obrigado, Doutor.
DOUTOR: Eu o espero no carro. (Sai ao CA à D.)
ANYA: Karl, me perdoe, Karl.
KARL: Perdoar o quê, minha querida? O que há para
perdoar?
ANYA: Tudo. Meu mau humor, minhas queixas. Mas não
sou eu, de verdade, Karl. É sò a doença. Você compreende?
KARL: (Com o braço passado afetuosamente em torno
de seus ombros.) Compreendo. (HELEN olha-os, franze o
cenho, depois volta-se para a janela.) Nada do que vo-
cê diz jamais poderá ferir-me porque eu conheço o seu
coração. (Ele afaga a mão de ANYA e ela beija a mão
dele.)
ANYA: Karl, você vai se atrasar para a aula. Precisa ir
logo.
KARL: Eu não queria deixar você sozinha.
ANYA: ASra. Roper volta aqualquer momento e fica comi-
go até Lisa chegar.
HELEN: Eu não tenho nada de especial para fazer; posso
ficar com a Sra. Hendryk até a Srta. Koletzky voltar.
KARL: Poderia mesmo, Helen?
HELEN: Mas è claro.
KARL: É muita bondade sua. (Poro ANYA.) Aié logo,
querida.
ANYA: Adeus.
KARL: Obrigado, Helen. (Sai ao CA à D, fecha a porta.
A tarde começa a cair.)
HELEN: A Srta. Koletzky é sua parenta?
ANYA: É; é minha prima-irmã. Veio para a Inglaterra
conosco e desde então ficou em nossa companhia. Ela
foi ver uns amigos de passagem por Londres. No Hotel
Russell, que não fica muito longe. É muito raro
encontrarmos amigos de nosso país.
HELEN: A senhora gostaria de voltar para lá?
ANYA: Nós não podemos voltar. Um amigo de meu
marido, professor também, caiu em desgraça por causa
de sua posição política — ele foi preso.
HELEN: E por que razão isso afeta o Professor
Hendryk? ANYA: A mulher e os filhos dele,
compreenda, ficaram absolutamente desamparados. O
Professor Hendryk insistiu para que nós os abrigássemos.
Quando as autoridades souberam, ele foi obrigado a pedir
demissão.
HELEN: Ora, não parece que valesse muito a pena; parece?
ANYA: É o que eu achava, e aliás jamais gostei de Maria
Schultz. Era uma mulher muito ranzinza, sempre se
queixando, criticando e choramingando a respeito de alguma
coisa. E as crianças eram mal-educadas e quebravam tudo. É
muito triste ter deixado nossa casa, tão bonita, e vir para cá
praticamente como refugiados. Isso aqui jamais será um lar.
HELEN: Parece que não foi muito fácil para a senhora.
ANYA: OS homens não pensam nessas coisas. Só pensam em
suas idéias do que é certo e errado, ou então no dever.
HELEN: Eu sei. É um cansaço. Mas os homens não são rea-
listas, como nós.
(Pausa. HELEN acende um cigarro que tirou da bolsa.
Um relógio bate quatro horas.)
ANYA: Lisa não me deu meu remédio antes de sair. Às vezes
ela me irrita com essa história de se esquecer das coisas.
HELEN: Posso fazer alguma coisa?
ANYA: (Apontando para a prateleira na parede à DB.)
Está naquela prateleirinha ali. O vidro pequeno. São quatro
gotas em um pouco de água. (HELEN apaga o cigarro no
cinzeiro da estante, pega o vidro de remédio e um
copo na prateleira.) É para o coração, sabe. Aí há um copo
e um conta-gotas. (HELEN cruza para a estante à D.) Tenha
muito cuidado, porque é muito forte. É por isso que guardam
fora do meu alcance. Às vezes me sinto tão deprimida que
ameaço me matar e eles acham que se o remédio estivesse
perto talvez eu cedesse à tentação e tomasse uma dose
excessiva.
HELEN: (Abrindo o vidro.) E isso lhe acontece muitas
vezes, não é?
ANYA: Ah, sim. Tantas vezes que seria melhor morrer de
vez.
HELEN: Eu sei; eu compreendo.
ANYA: Mas, afinal, é preciso ter coragem e continuar em
frente.

(HELEN está de costas para ANYA e lança um rápido
olhar por sobre o ombro. ANYA, tricotando, não está
olhando para ela. HELEN inclina o vidro e derrama to-
do o conteúdo no copo, junta um pouco de água e vai
dar o copo a ANYA.)
HELEN: Pronto. Aqui está.
ANYA: Obrigada, meu bem. (Pega o copo e
experimenta.) O gosto está um pouco forte.
HELEN: A senhora não disse quatro gotas?
ANYA: Isso mesmo. (Engole tudo de uma vez, depois
recosta-se e pousa o copo na mesa de costura. HELEN,
tensa, observa-a.) O Professor trabalha demais, sabe.
Aceita mais alunos do que devia. Eu queria — queria que ele
tivesse uma vida mais fácil.
HELEN: É possível que ainda tenha.
ANYA: Duvido. (Com um sorriso terno.) Ele é tão bom
para todos. Tão cheio de bondade. Tão bom para mim, tão
paciente. (Tem um espasmo de respiração.) Ah!
HELEN: O que foi?
ANYA: É SÓ — que parece que não consigo respirar direito.
Tem certeza de que não me deu remédio demais?
HELEN: Eu lhe dei a dose certa.
ANYA: Tenho certeza — certeza que sim. Eu não queria
dizer — não queria... (Suas palavras tornam-se mais
lentas e ela recosta na cadeira quase como se adorme-
cesse. Sua mão sobe lentamente na direção de seu co-
ração.) Que estranho — mui — estranho. (Sua cabeça cai
para um lado no travesseiro. HELEN observa-a. Agora
parece assustada. Sua mão sobe a seu rosto, depois cai
de novo.)
HELEN: (Em voz baixa.) Sra. Hendryk. (Silêncio. Mais
alto.) Sra. Hendryk!
(HELEN toma o pulso de ANYA; guando constata que parou
leva um susto e atira a mão para baixo, aterrorizada. Depois
se afasta, anda um pouco em volta, sempre olhando para
ANYA. Depois sacode-se para voltar à realidade. Vê o copo
na mesa, pega-o e limpa-o com seu lenço, depois inclina-se
e coloca-o cuidadosamente na mão esquerda de ANYA.
Depois ela se encosta, exausta, no braço do sofá. Novamente
controla-se, vai até a estante epega o vidro de remédio e o
conta-gotas. Limpa suas impressões do vidro e cruza para a
D de AN YA. Delicadamente fecha os dedos de ANYA em
torno do vidro, depois coloca-o na mesa de costura, tira o
conta-gotas e coloca-o ao lado do vidro. Cruza um pouco
para o alto, olha em volta, depois vai depressa pegar sua
bolsa e suas luvas no sofá e corre para a porta ao CA. Pára
repentinamente e corre para a prateleira para pegar o jarro
de água, limpando-o com seu lenço enquanto cruza para a
mesa de costura, onde o coloca. Novamente cruza para a
porta ao CA. Ouve-se fora o som de um realejo. HELEN sai no
hall para a D. Ouve-se a porta da frente bater. Há uma longa
pausa, depois ouve-se a porta da frente abrir e fechar. A SRA.
ROPER mete a cabeça pela porta àDno CA.)
SRA. ROPER: Comprei o chá. (Desaparece. Volta, tirando o
chapéu e o casaco, que pendura em um cabide invisível do
lado D.) E comprei o bacon e uma dúzia de caixas de
fósforos. As coisas andam tão caras, hoje em dia! Eu quis
comprar uns rins para o jantar da pequena Muriel, mas o
preço estava enorme e os rins pequenininhos. Vai ter que
comer o que os outros comem e olhe lá. Eu sempre digo a
ela que dinheiro não nasce em árvore. (Sai à DB. Longa
pausa, depois a porta da frente abre e fecha. LISA entra à
Ddo CA, guardando sua chave na bolsa ao entrar.)
USA: (Ao entrar.) Demorei muito? (Olhapara ANYA, julga
que está dormindo e sorri. Tira o chapéu. Depois volta-se
para ANYA e começa a compreender que talvez ela não
esteja apenas dormindo.) Anya? (Corre até a o de ANYA e
levanta-lhe a cabeça. Vê o vidro na mesa de costura, vai até
a mesa e pega o vidro, depois o copo. A SRA. ROPER entra
quando LISA está segurando o vidro.)
SRA. ROPER: (Assustada.) Eu não ouvi a senhora entrar.
LISA: (Pousando o vidro com/orça, assustada com o
aparecimento repentino da outra.) Eu não sabia que a se-
nhora estava aqui.
SRA. ROPER: Alguma coisa errada?
LISA: A Sra. Hendryk — eu acho que a Sra. Hendryk está
morta. (Ela vai até o telefone, e disca.)
(A SRA. ROPER cruza lentamente para a D de ANYA. VÊ o
vidro, depois lentamente se vira para olhar para LISA, que
espera impacientemente que alguém atenda a seu chamado.
LISA, de costas para a SRA. ROPER, não percebe o seu olhar. As
luzes se apagam enquanto...)
CAI O PANO
Ato Dois

Cena I
CENÁRIO: O mesmo. Quatro dias mais tarde. Cerca do
meio-dia.
Quando o pano se abre as luzes sobem. A sala está va-
zia. A única diferença é a ausência da cadeira de rodas
de ANYA. AS portas estão todas fechadas. Após um
instante KARL entra ao CA, pousa um momento o olhar
no antigo lugar da cadeira de rodas, depois senta-se
na poltrona. LISA entra ao CA e dirige-se à
escrivaninha. O DOUTOR entra pelo CA, olha para os
outros, depois cruza para baixo do sofá. LESTER entra
ao CA e fica em pé, bastante sem jeito. Todos entram
muito lentamente e muito deprimidos.

DOUTOR: Bem, terminou.
LISA: Eu nunca tinha visto um inquérito antes, aqui neste
país. São sempre assim? DOUTOR: Bem, variam, sabe;
variam. (Senta-se no lado D do sofá.)
LISA: Tudo tão prático, tão frio.
DOUTOR: Bem, é claro que não gostamos muito de coisas
emocionais. Afinal é apenas um caso, uma rotina, nada mais.
LESTER: Não foi um veredicto um tanto estranho? Eles
disseram que ela morreu de uma dose excessiva de
stropatina, mas não disseram como ela foi ministrada. Creio
que deveriam ter dito suicídio em momento de dese-
quilíbrio mental e liquidar o assunto.
KARL: Não acredito que Anya tenha se suicidado.
LISA: Eu também diria que não.
LESTER: No entanto, as provas eram bem claras. Suas
impressões digitais estavam no vidro e no copo.
KARL: Deve ser sido um acidente. A mão dela tremia muito,
sabe? Ela deve ter pingado muito mais do que pensava. O
curioso é que eu não me lembro de ter posto o vidro e o
copo perto dela; porém devo ter posto.
LISA: A culpa foi minha. Eu devia ter-lhe dado as gotas an-
tes de sair.
DOUTOR: Não foi culpa de ninguém. Não há nada tão inútil
quanto essas auto-acusações por se ter ou não ter feito
alguma coisa. Essas coisas acontecem e são muito tristes. E é
melhor deixá-las por isso mesmo — (Muito baixinho e
não para os outros.) Se pudermos.
KARL: O senhor não acredita que Anya tenha tomado uma
dose excessiva deliberadamente, acredita, Doutor?
DOUTOR: Eu diria que não.
LESTER: Ela falava muito nisso, não é? Quero dizer, quando
estava deprimida.
DOUTOR: Ora, quase todo inválido crônico fala de suicídio.
Porém muito raramente chegam a suicidar-se.
LESTER: (Encabulado.) Por favor, espero que não achem
que eu estou me intrometendo. Acho que preferem ficar
sozinhas. Eu não devia...
KARL: O que é isso, meu filho? Foi muita bondade sua.
LESTER: Pensei que talvez pudesse fazer alguma coisa. Eu
faria qualquer coisa... (Lança olhar de devotamento a
KARL) se ao menos fosse alguma coisa que pudesse ajudar.
KARL: Sua solidariedade ajuda. Anya gostava muito de você,
Lester.
(A SRA. ROPER entra ao CA. Usa um vestido preto
surrado e chapéu. Traz uma bandeja com café para
quatro e um prato de sanduíches.)

SRA. ROPER: (Em tom devidamente suave.) Fiz um
pouco de café e uns sanduíches. (Pousa a bandeja na
mesa.)
Achei que o senhor precisava de alguma coisa para levantar
as forças, Professor. (LISA vai servir o café.)
KARL: Obrigado, Sra. Roper.
SRA. ROPER: (Cônscia de suas virtudes.) Voltei do
inquérito o mais rápido possível — para já estar tudo pronto
quando o senhor chegasse.
KARL: (Reparando nos trajes da SRA. ROPER.) Então a
senhora foi ao inquérito?
SRA. ROPER: Claro que fui. Com muito interesse. Pobre
senhora. Sempre por baixo, não é? Resolvi ir em sinal de
respeito, se não por qualquer outra razão. Mas devo dizer
que não tem sido nada agradável essa história da policia por
aqui a fazer perguntas.
(Os outros evitam olhar para ela, na esperança que ela
pare de falar e vá embora, porém ela insiste em enta-
bular conversa, sucessivamente, com todos.)
DOUTOR: Essas investigações de rotina têm de ser realizadas.
(Serve café a KARL.)
SRA. ROPER: Naturalmente.
DOUTOR: Toda vez que não se pode emitir um atestado de
óbito o inquérito médico-legal é obrigatório.
SRA. ROPER: Ora, sem dúvida. Estou certa de que está tudo
como deve ser, mas mesmo assim não é nada agradável. Isso
é que eu digo. (O DOUTOR se serve de café.) Não estou
acostumada com essas coisas. Meu marido não vai gostar de
me ver envolvida em uma coisa dessas.
LISA: Mas eu não vejo de que modo a senhora pode ficar
envolvida.
SRA. ROPE: (Para LISA.) Bem, eles me fizeram perguntas, não
fizeram, se ela andava deprimida ou se ela costumava falar
em fazer alguma coisa como a que houve. (Para KARL.) Ah,
sim; eles me perguntaram muita coisa.
KARL: Mas agora acabou, Sra. Roper. Creio que não precisa
se incomodar com mais nada, agora.
SRA. ROPER: Acho que não. Obrigada, Professor. (Sai pelo
CA à D.)
DOUTOR: Essas mulheres parecem um bando de vampiros.
Só gostam de doenças, mortes e enterros. Parece que um
inquérito é como um prêmio de bom comportamento.
LISA: Lester — café?
LESTER: Muito obrigado. (Serve-se, depois esquece tudo
lendo um livro.)
KARL: Deve ter sido alguma espécie de acidente; deve ter si-
do.
DOUTOR: Eu não sei. O café não é igual ao seu, minha
querida Lisa.
LISA: Ela deve tê-lo deixado ferver pelo menos meia hora.
KARL: A intenção era boa. LISA. Será que era? (Sai à DB.)
DOUTOR: Quer um sanduíche?
KARL: Não, muito obrigado.
DOUTOR: (Para LESTER.) Acabe com eles, meu filho. Na sua
idade sempre se tem fome.
(LESTER, inteiramente envolvido com o livro, nem le-
vanta os olhos, porém automaticamente sé serve de
um sanduíche.)
LESTER: Até que não é má idéia. LISA: (Defora.) Karl!
KARL: Com licença, um momento. Já vou. (Sai à DB.)
LESTER: Ele está arrasado, não é, Doutor? DOUTOR: Está.
LESTER: É uma coisa de certo modo esquisita, eu não quero
dizer esquisita, porque, suponho — bem, quero dizer, é tão
difícil compreender o que os outros sentem.
DOUTOR: O que você está querendo dizer, rapaz?
LESTER: Bem, quer o dizer, que com a pobre da Sra.
Hendryk sendo inválida e tudo isso, seria de pensar, não ê,
que ele fosse um pouco impaciente com ela, ou que se
sentisse muito preso. Seria possível imaginar até que, na
verdade, là no fundo, ele ficasse contente por se libertar.
Mas não foi assim. Ele a amava. Ele realmente a amava.
DOUTOR: O amor não é apenas sofisticação ou desejo, ou pura
atração sexual — todas essas coisas nas quais os jovens
acreditam tanto. Isso é só o modo pelo qual a natureza
começa todo o processo. Podemos dizer que tudo isso é a
flor esplendorosa. Mas o amor é a raiz. Dentro da terra, fora
da vista, nada de muito espetacular, mas é onde está a vida.
LESTER: É, suponho que sim. Mas a paixão não dura; não é?
DOUTOR: Deus me ajude! Vocês, jovens, não entendem
dessas coisas. Vocês lêem nos jornais a respeito de divórcios
e intrigas amorosas com muito sexo no meio de tudo. Por
que de vez em quando não lêem os anúncios de morte, só
para variar? Encontrariam uma grande quantidade de
registros de que Emily disto ou John daquilo, ao morrerem
com 74 anos, eram a bem-amada esposa de fulano ou o
bem-amado marido de sicrana. São registros bem pouco
espetaculares de vidas passadas juntas, sustentadas por essa
raiz da qual eu estava falando e que continua a produzir suas
folhas e flores. Talvez não mais flores esplendorosas, mas,
mesmo assim, flores.
LESTER: Acho que tem razão. Eu nunca tinha pensado nisso.
Sempre pensei que casar era arriscar um pouco, a não ser, é
claro, que se conheça a moça que....
DOUTOR: Isso — tudo de acordo com o figurino. Você co-
nhece uma moça — ou talvez jã a tenha conhecido — que é
diferente.
LESTER: Mas ela édiferente, Doutor.
DOUTOR: Já vi tudo. Bem, boa sorte, meu rapaz.
(KARL entra à DB, carregando um pequeno pendentife.)
KARL: Quer fazer o favor de dar isto à sua filha, Doutor?
Era de Anya e eu creio que ela gostaria que ficasse para
Margaret. (Entrega a jóia.)
DOUTOR: (Comovido.) Obrigado, Karl. Sei que Margaret
ficará muito grata por recebê-lo. Bem, está na hora de ir.
Não posso deixar os pacientes esperando no consultório.
LESTER: (Para KARL.) EU também vou, se tem certeza de que
não há mais nada que eu possa fazer.
KARL: Para falar a verdade, há sim. (LESTER fica encanta-
do.) Lisa está fazendo uns embrulhos com roupas e coisas
assim — vai mandá-las para uma instituição de caridade. Se
pudesse ajudá-la a carregá-los até o correio...
LESTER: Mas é claro que posso. (Sai à DB.)

(O DOUTOR sai ao CA. LESTER entra à DB, carregando uma
caixa grande embrulhada em papel pardo, que leva até a
escrivaninha, onde a fecha com fita adesiva. LISA entra à DB.
Carrega um embrulho de papel pardo e uma pequena gaveta
que contém papéis, cartas, etc., e uma caixinha de jóias.)

LISA: Se você pudesse examinar isto aqui, Karl. Sente-se ai e
passe os olhos em tudo, sozinho e tranqüilo. Tem de ser
feito, e quanto mais cedo melhor.
KARL: Como você é equilibrada, Lisa. Começa-se a adiar essas
coisas e fica-se com medo de fazê-las. Com medo do quanto
vai doer. Mas, como disse, é melhor acabar logo com elas.
LISA. Eu não me demoro. Vamos, Lester.

(LISA e LESTER saem ao CA. KARL pega a cesta de papéis junto
à escrivaninha, senta-se no sofá, pousa a cesta perto de si,
coloca a gaveta sobre os joelhos e começa a ler as cartas.)

KARL: Há tanto tempo. Tanto tempo. (A campainha da frente
toca.) Ora, vá-se embora, seja lá quem for.
SRA. ROPER: (Fora.) Quer fazer o favor de entrar? (SRA. ROPER
entra ao CA, da D, afasta-se para um lado.) É a Srta. Rollander,
Professor.
(HELEN entra ao CA, da D. KARL levanta-se e pousa a gaveta
sobre a mesa à DC. A SRA. ROPER sai ao CA à E, deixando a
porta aberta.)
HELEN: Espero que não pense que estou sendo inoportuna.
Mas, sabe, eu fui ao inquérito e depois achei que devia vir
aqui para conversar. Mas se prefere que eu vá embora. .. (A
SRA. ROPER entra ao CA, vestindo seu casaco.)
KARL: Não, não, a senhorita não está incomodando.
SRA. ROPER: Vou sair só um instantinho para comprar mais
chá, antes que eles fechem. Tornou a acabar.
KARL: (Manuseando as cartas da gaveta, muito longe de tu-
do.) Claro, Sra. Roper.
SRA. ROPER: Ah, já estou vendo que o senhor está fazendo,
Professor. E é uma tarefa muito triste. A minha irmã, sabe, é
viúva. Guardou todas as cartas que o marido escreveu para
ela do Oriente Médio. E volta e meia, pega aquela pilha toda
e chora que só vendo. (HELEN, impaciente, caminha pela
sala.) O coração não esquece. Professor; é o que eu sempre
digo. O coração não esquece.
KARL: E é como diz, Sra. Roper.
SRA. ROPER: Deve ter sido um choque terrível para o se-
nhor, não é? Ou o senhor já estava esperando?
KARL: Não, não estava esperando.
SRA. ROPER: Não sei como é que ela foi fazer uma coisa
dessas. (Olha, hipnotizada, para o lugar onde ficava a cadeira
de ANYA.) Não parece direito; não, senhor, não parece
direito, mesmo.
KARL: A senhora não disse que ia comprar chá?
SRA. ROPER: Isso mesmo, Professor — e tenho de me
apressar porque o armazém fecha às doze e trinta. (Sai ao
CA.)
HELEN: Eu senti muito ouvir... KARL: Muito obrigado.
HELEN: É claro que já fazia muito tempo que ela estava
doente, não é? Ela devia sentir-se tremendamente de-
primida.
KARL.- Ela lhe disse alguma coisa antes que fosse embora,
naquele dia?
HELEN: Não. Eu — eu acho que não. Nada em particular.
KARL: Mas será que ela estava deprimida? Sem ânimo?
HELEN: (Agarrándose à possibilidade.) Estava. Sim, estava
sim.
KARL: Você foi embora e a deixou — sozinha — antes de
Lisa voltar!
HELEN: Sinto muito. Temo que isso não me tenha ocorrido.
Quero dizer, ela estava perfeitamente bem e insistiu para
que eu não ficasse, e — bem, para falar a verdade, eu — eu
tive a impressão de que ela queria que eu fosse embora — de
modo que eu fui. É claro que agora...
KARL: Não, não. Eu compreendo. Percebo que a minha po-
bre Anya devia estar com aquela idéia em mente e por isso
pediu-lhe que se fosse.
HELEN: E, de certo modo, na verdade, era o melhor que
poderia acontecer, não era?
KARL: (Com raiva.) O que quer dizer — o melhor que pode-
ria acontecer?
HELEN: Quero dizer para você. E para ela, também. Ela
queria se libertar de tudo isso... pois bem, agora conseguiu.
KARL: É muito difícil para mim acreditar que ela quisesse se
libertar de tudo isto.
HELEN: Mas ela dizia que sim — afinal, ela não podia ser
muito feliz, podia?
KARL: Às vezes ela era muito feliz.
HELEN: Mas não podia, sabendo que era um peso para você.
KARL: (Começando a perder a paciência.) Ela jamais foi
um peso para mim.
HELEN. Ora, por que razão você tem de ser tão hipócrita a
respeito dessa história toda? Eu sei que você era solícito e
bondoso para com ela, mas è preciso enfrentar a verdade.
Ser amarrado a uma inválida tagarela deve ser uma cruz para
qualquer homem. Agora você está livre. Pode seguir seu
caminho. Pode fazer qualquer coisa — qualquer coisa. Será
que não tem ambição?
KARL: Creio que não.
HELEN. Mas tem de ter; claro que tem. Eu tenho ouvido os
outros falarem a seu respeito; já ouvi dizer que seu livro foi o
mais brilhante do século.
KARL: Isso é que é elogio...
HELEN: Mas era gente que sabia das coisas. Você teve ofertas,
também, de ir para os Estados Unidos, para uma porção de
lugares. Não ê verdade? E rejeitou-as por causa de sua
mulher, a quem não podia deixar e que não podia viajar. Há
tanto tempo que você está amarrado que não sabe nem
direito o que é ser livre. Acorde, Karl; acorde. Seja você
mesmo. Você fez tudo o que podia por Anya. Pois bem,
agora acabou. Pode começar a divertir-se, a viver a vida
como ela realmente deve ser vivida.
KARL: Isto é algum sermão que você me está pregando,
Helen?
HELEN: Só o presente e o futuro è que importam.
KARL: O presente e o futuro são feitos do passado.
HELEN: Você está livre. Por que haveríamos de continuar a
fingir que não nos amamos?
KARL: (Firme e quase grosseiro.) Eu não a amo, Helen; é
preciso que meta isso em sua cabeça. Eu não a amo.
Você está vivendo uma fantasia fabricada na sua própria
cabeça.
HELEN: Não estou, não.
KARL: Está, sim, Detesto ser brutal, porém tenho de dizer-
lhe que não tenho em relação a você qualquer sentimento
do gênero que imagina.
HELEN: Mas tem de ter. Tem de ter. Depoi do que eu fiz
por você. Há gente que não teria tido a coragem, mas eu
tive. Eu o amava tanto que não agüentava vê-lo agarrado
àquela mulher tagarela e inútil. Você não sabe do que eu
estou falando, sabe? Eu a matei. Agora, está
compreendendo? Eu a matei.
KARL: (Completamente estarrecido.) Você matou...Eu
não sei que você está falando.
HELEN: Eu matei a sua mulher. Não tenho vergonha do que
fiz. Gente doente, gasta e inútil deve ser alijada para dar
lugar aos que importam.
KARL: (Afastando-se dela; apavorado.) Você matou
Anya?
HELEN: Ela pediu o remédio. Eu o dei a ela. Dei o vidro
inteiro.
KARL: Você — você...
HELEN: Não se preocupe. Ninguém jamais saberá. Eu pensei
em tudo. (Fala como uma criança confiante, contente
consigo mesma.) Limpei todas as impressões digitais — e
consegui botar as próprias impressões dela no vidro e no
copo. De modo que isso está tudo certo, compreendeu? Eu
não ia contar nada a você, mas de repente não suportei que
houvesse qualquer segredo entre nós. (Põe as mãos no
peito de KARL.)
KARL: (Empurrando-a.) Você matou Anya.
HELEN: Se você se acostumar com a idéia...
KARL: Você — matou — Anya. (Cada vez que repete
essas palavras cresce sua consciência do ato dela e seu
tom se torna mais ameaçador. Ele a pega
repentinamente pelos ombros e a sacode como um
bicho, depois empurra-a para longe.) Sua desgraçada
imatura — o que foi que você fez? Falando aí feito uma
matraca a respeito de sua coragem e de sua esperteza. Você
matou minha mulher — minha Anya. Será que compreende
o que fez? Falando de coisas que não compreende, sem
consciência, sem piedade. Eu poderia agarrá-la pelo pescoço
e estrangulá-la agorinha mesmo. (Agarra-a pelo pescoço e
começa a estrangulá-la. HELEN é forçada contra as
costas do sofá. Involuntariamente, KARL atira-a para
longe e ela cai sobre o braço do sofá, lutando para
respirar.) Saia daqui. Saia daqui antes que eu faça com você o
que você fez com Anya.
(HELEN ainda luta para recuperar a respiração, soluçando ao
mesmo tempo.)
HELEN: (Desesperada.) Karl.
KARL: Saia. (Gritando.) Eu disse para sair.
(HELEN, ainda soluçando, arrasta-se até a poltrona, pega a
bolsa e as luvas e, como em transe, sai àD do CA. KARL cai
na cadeira da escrivaninha e enterra o rosto nas mãos. Pausa.
LISA entra pela D do CA.)
LISA: (Chamando.) Já voltei, Karl. (Vai para seu quarto.)
KARL: Minha pobre Anya.
(Pausa. LISA entra. Está pondo um avental.)

LISA: Encontrei Helen na escada. Parecia tão esquisita.
Passou por mim como se não me tivesse visto. (Vi KARL.)
Karl, o que foi que aconteceu? KARL: Ela matou Anya.
LISA: O quê?
KARL: Ela matou Anya. Anya pediu o remédio e aquela
menina desgraçada deliberadamente lhe deu uma dose
excessiva.
LISA: Mas as impressões de Anya estavam no copo.
KARL: Helen botou-as lá depois que ela morreu.
LISA: (Objetiva.) Compreendo — ela pensou em tudo.
KARL: Eu sabia. Eu sempre soube que Anya nâo se mataria.
LISA: É óbvio que ela está apaixonada por você.
KARL: É isso. Porém eu jamais lhe dei a menor razão para
acreditar que me importasse com ela. Jamais, Lisa. Eu juro
que não.
LISA: E nem imagino isso. Ela é do tipo de pessoa que acha
que tudo tem de ser exatamente como ela quer.
KARL. Minha pobre e brava Anya. (Longapausa.)
LISA: O que é que você pretende fazer?
KARL: Fazer?
LISA: Não vai dar parte à polícia?
KARL: Dar parte à polícia?
LISA: Bem, è assassinato, sabe?
KARL: É. Foi assassinato.
LISA: Bem, então você tem de dizer à polícia tudo o que ela
disse.
KARL: Mas eu não posso fazer isso.
LISA: Por que não? Você aprova assassinatos?
KARL: Mas não posso deixar aquela menina...
LISA: (Controlando-se.) Nós viemos, por livre e espontânea
vontade, como refugiados, para este país, sob a proteção de
cujas leis vivemos. Creio que devemos respeitar essas leis, a
despeito do que possam ser nossos sentimentos pessoais em
relação a qualquer assunto.
KARL: Você julga, seriamente, que eu deveria chamar a
polícia?
LISA: Sim.
KARL: Por quê?
LISA: A mim parece ser apenas uma questão de bom senso.
KARL: Bom senso! Bom senso! E será possível guiarmos
nossas vidas sempre pelo bom senso?
LISA. EU sei que você não guia. Jamais guiou. Tem o coração
mole, Karl. Mas eu não tenho.
KARL: É errado sentir piedade? A misericórdia poderá ser um
erro?
LISA: Ela pode levar a muita infelicidade.
KARL: É preciso viver disposto a sofrer pelos princípios em
que acreditamos.
LISA: É possível. Isso é problema seu. Mas os outros
também sofrem por eles. Anya sofreu por eles.
KARL: EU sei, eu sei. Mas você não compreende.
LISA: (Encara KARL.) Eu compreendo muito bem.
KARL: O que é que você quer que eu faça?
LISA: Já lhe disse. Dê parte à polícia. Anya foi assassinada.
Aquela moça confessou tê-la assassinado. A polícia tem de
ser informada.
KARL: Você não pensou bem, Lisa. Ela é tão jovem. Só tem
23 anos.
LISA: Enquanto que Anya tinha 38.
KARL: Se ela for julgada e condenada — de que vai adiantar?
Isso pode trazer Anya de volta? Não compreende, Lisa, que
a vingança não pode trazer Anya de volta?
LISA: Não. Anya está morta.
KARL: EU queria que você visse tudo como eu vejo.
LISA: Mas não posso, Karl. Eu amava Anya. Éramos primas
e amigas. Andávamos juntas quando éramos meninas. Cuidei
dela quando ficou doente. Vi como tentou ter coragem,
como tentou não se queixar. Eu sei o quanto a vida foi difícil
para ela.
KARL: Dar parte à polícia não trará Anya de volta. E, além do
mais, Lisa, é impossível eu deixar de me sentir responsável.
De algum modo eu devo ter encorajado essa menina.
LISA: Você não a encorajou. Sejamos francos, Karl. Ela fez
todo o possível para seduzi-lo e não o conseguiu.
KARL: Não importa você colocar os fatos nesses termos.
Continuo responsável. Seu amor por mim foi o motivo que a
levou a fazer o que fez.
LISA: O motivo que a impeliu foi a necessidade de conseguir
o que queria, do mesmo modo que sempre obteve tudo o
que quis na vida.
KARL: E essa tem sido a tragédia dela. Nunca teve a menor
chance.
LISA: E é jovem e bonita.
KARL: O que quer dizer com isso?
LISA: Eu me pergunto se você seria tão sensível e generoso
se se tratasse de uma de suas alunas feias.
KARL: Você não pode imaginar...
LISA: Não posso imaginar o quê?
KARL: Que eu queira aquela menina...
LISA: E por que não? Não se sente atraído por ela? Seja
honesto consigo mesmo. Tem certeza de que não está um
pouquinho apaixonado por ela?
KARL: Como pode dizer isso? Você? Quando sabe — quando
sempre soube...? É a você que eu amo. Você. Passo noites
em claro pensando em você, querendo você. Lisa, Lisa...
(KARL toma LISA em seu braços. Abraçam-se
apaixonadamente. Uma silhueta indefinida é vista
junto à porta ao CA. Após uma pausa a porta é fechada,
violentamente. Isso faz com que KARL e LISA se
separem e olhem na direção da porta. Não vêem
quem foi e o público também é deixado em dúvida a
respeito da identidade do bisbilhoteiro. As luzes se
apagam enquanto...
CAI O PANO
Cena II

CENÁRIO: O mesmo. Seis horas mais tarde. É noite.

Quando o pano se abre as luzes sobem um pouco,
deixando a maior parte da sala na escuridão. LISA está
sentada no sofá, fumando. Está quase invisível. Ouve-
se a porta da frente abrir e fechar e o som de vozes na
entrada. KARL entra ao CA: traz um jornal no bolso do
sobretudo. O DOUTOR entra logo atrás dele.

KARL: Não há ninguém em casa. Será...
DOUTOR: Lisa! O que está fazendo aqui, no escuro?
LlSA: Estava só pensando.
DOUTOR: Encontrei Karl na esquina e, então, viemos juntos.
Sabe o que eu receitaria para você, Karl? Um pouquinho de
álcool. Um conhaque bem forte. Que tal, Lisa? (LISA faz um
gesto vago.) Deixe estar; eu conheço bem a casa. (Pega uma
garrafa de conhaque e um cálice, serve uma dose grande.)
Ele teve um choque, sabe. Um grande choque.
KARL: Eu contei a ele a respeito de Helen.
DOUTOR: É, contou.
LISA: Deve ter sido um choque para o senhor, também?
DOUTOR: Sabe, eu tenho andado meio preocupado. Anya não
me parecia ser um tipo suicida e não conseguia conceber a
possibilidade de um acidente. (Dá o conhaque a KARL.) E,
além disso, o inquérito provocou minhas suspeitas. Não
havia dúvida de que a polícia estava por trás do veredicto. É,
tudo estava cheirando mal. A polícia me interrogou muito
detalhadamente, porém eu não conseguia atinar com o que
estavam querendo. É claro que eles nunca chegaram a dizer
absolutamente nada.
LISA: Quer dizer, então, que não ficou surpreendido?
DOUTOR: Não, não realmente. Aquela moça acha que pode
fazer sempre tudo o que quiser, e pronto. Até mesmo
assassinato. Pois bem, estava enganada.
KARL: EU me sinto responsável.
DOUTOR: Karl, vá por mim. Você não teve qualquer tipo de
responsabilidade. Comparado com aquela moça você tem a
inocência de um recém-nascido. Seja como for, agora a coisa
toda está fora de suas mãos.
LISA: Acha que ele deve dar parte à polícia?
DOUTOR: Acho.
KARL: Não.
DOUTOR: Por que insiste em sentir-se parcialmente
responsável? Você é sensível demais.
KARL: É uma pobre criança desgraçada.
DOUTOR: Uma cadelinha empedernida e assassina! Essa é que
é a verdade. E não precisa se preocupar antes do tempo.
Aposto dez contra um que jamais será presa.
Presumivelmente ela negará tudo — e são necessárias
provas, como sabe. A polícia pode saber com certeza quem
e o autor de um crime e não conseguir armar o caso. O pai
da moça é muito importante. Um dos homens mais ricos da
Inglaterra. Isso pesa muito.
KARL: Nisso, creio que se engana.
DOUTOR: Ora, não estou falando mal da polícia. Se eles
conseguirem armar o caso contra ela, irão em frente, sem
medo ou idéias preconcebidas. Só o que digo é que terão de
examinar as provas com cuidado ainda maior do que o de
costume. E, à primeira vista, não pode realmente haver
muitas provas. A não ser, é claro, que ela não resista e
confesse tudo. E minha impressão é que ela é dura demais
para isso.
KARL: Ela confessou a mim.
DOUTOR: Isso ê muito diferente. Muito embora, para falar a
verdade, não compreenda por que o fez. Parece-me uma
tolice sem nome.
LISA. Porque se orgulhava do que fez.
DOUTOR: Acha que é isso?
KARL. É verdade. E é isso que torna tudo tão terrível. (A
campainha da frente toca.) Quem poderá ser?
DOUTOR: Na certa um de seus alunos. Eu irei livrá-lo dele.
(Sai ao CA.)
OGDEN: (Fora.) Por favor, eu poderia ver o Professor
Hendryk?
DOUTOR: (Fora.) Por aqui, por favor. (O DOUTOR entra ao
CA e afasta-se para dar passagem.) É o Inspetor Ogden.

(O DETETIVE INSPETOR OGDEN e O SARGENTO DE POLÍCIA
PEARCE entram pela D do CA. OGDEN tem modos
agradáveis e rosto totalmente inexpressivo. O
SARGENTO fecha a porta e fica de pé, acima da mesa ao
CD.)

OGDEN: Espero que não o esteja perturbando, Professor.
KARL: De modo algum.
OGDEN: Boa noite, Srta. Koletzky. Creio que não esperavam
tornar a verme — porém temos algumas perguntas a fazer.
O veredicto ficou em aberto, como sabem. Insuficiência de
dados quanto ao modo pelo qual a morta chegou a tomar a
dose fatal.
KARL: Eu sei.
OGDEN: O senhor mudou de idéia quanto a isso, Professor,
desde a primeira vez em que falamos do assunto?
(KARL lança rápido olhar a LISA. OGDEN e o SARGENTO
notam o olhar e eles mesmos trocam olhares. Pausa.)
KARL: (Deliberadamente.) Não, não mudei. Continuo a
pensar que deve ter sido algum tipo de — acidente.
(LISA afasta-se. O DOUTOR quase que grunhe e vira-se
para outro lado.)
OGDEN: Porém definitivamente não um suicídio.
KARL: Definitivamente não suicídio.
ODGEN: Bem, quanto a isso o senhor tem toda razão. Não foi
suicídio. LISA: Como é que o senhor sabe?
OGDEN: Por provas que não foram apresentadas no in-
quérito. Provas quanto às impressões digitais encontradas no
vidro que continha a droga fatal — e no copo, também.
KARL: O senhor quer dizer..., mas as impressões digitais eram
as da minha mulher, não eram?
OGDEN: Ah, sim; as impressões digitais eram as da sua mu-
lher. Porém não foram feitas por ela.
KARL: O que quer dizer?
OGDEN: É O tipo de coisa que o criminoso amador pensa que
é muito simples. Pegar a mão de uma pessoa e apertá-la em
torno de uma arma ou de um copo, ou sejá, lá do que for.
Mas na verdade isso não ê tão fácil de fazer. A posição das
impressões digitais é tal que jamais poderiam ter sido
deixadas por uma mulher viva segurando um vidro. Isso
significa que outra pessoa pegou a mão de sua mulher a fim
de dar a impressão de que ela se suicidara. Um raciocínio um
tanto infantil e feito por alguém muito confiante da própria
capacidade. Além disso, devia haver muitas outras im-
pressões digitais no vidro, mas não havia — ele foi in-
teiramente limpo antes das impressões digitais de sua mulher
serem colocadas. Percebe o que isso significa?
KARL: Compreendo.
OGDEN: Não haveria razão para que isso fosse feito caso se
tratasse de acidente. O que só deixa uma possibilidade.
KARL: Sei.
OGDEN: Eu me pergunto se sabe, Professor. Tudo isso
significa — uma palavra feia — assassinato.
KARL: Assassinato.
OGDEN: Isso não lhe parece muito inacreditável, Professor?
KARL: Não imagina quão inacreditável. Minha mulher era
muito suave e delicada. Para mim parecerá sempre tão
horrível quanto inacreditável a idéia de que alguém a
pudesse ter — matado.
OGDEN: O senhor, mesmo...
KARL: O senhor está me acusando?
OGDEN: Mas é claro que não, Professor. Se eu tivesse
qualquer suspeita a seu respeito ter-lhe-ia feito a advertência
de lei. Não, Professor Hendryk, já verificamos sua história e
temos contas de cada minuto de seu tempo. O senhor saiu
daqui na companhia do Dr. Stoner e ele afirma que não
havia nem vidro nem copo na mesa de costura de sua
mulher quando saíram. Entre o momento em que o senhor
saiu e a hora que a Srta. Ko-letzky diz ter chegado aqui e
encontrado sua mulher morta, sabemos onde o senhor
estava a cada minuto. Estava dando aula a um grupo de
estudantes na universidade. Não, não há qualquer indicação
de que o senhor tenha sido a pessoa que deixou as
impressões digitais de sua mulher no copo. O que lhe estou
perguntando, Professor, é se o senhor tem, pessoalmente,
alguma idéia de quem o poderia ter feito.
KARL: (Finalmente.) Eu — não posso ajudá-lo.
(OGDEN levanta-se e troca olhares com o SARGENTO.)
OGDEN: O senhor compreende, naturalmente, que isso muda
as coisas. Será que eu poderia examinar o apartamento,
principalmente o quarto da Sra. Hendryk? Eu posso obter
um mandado de busca, se for necessário, mas...
KARL: Mas é claro. Veja tudo o que quiser. O quarto de mi-
nha mulher —é ali. OGDEN: Obrigado.
KARL: A Srta. Koletzky esteve separando as coisas dela.
(LISA cruza até a porta àDBe abre-a. OGDEN e o SAR-
GENTO saem à DB. LISA olha para KARL, depois sai também
àDBe fecha a porta.)
DOUTOR: Já o conheço há tempo suficiente, Karl, para lhe
dizer que está agindo como um idiota.
KARL: Não posso ser eu a apontar o caminho até ela. Mesmo
sem mim vão descobri-la muito breve.
DOUTOR: Não tenho tanta certeza assim. E tudo isso é uma
grande asneira.
KARL: Ela não sabia o que estava fazendo.
DOUTOR: Sabia perfeitamente.
KARL. Não sabia o que estava fazendo porque a vida ainda
não lhe ensinou o que é a compreensão ou a compaixão.
(LISA entra e fecha a porta.)
LISA: Conseguiu botar algum senso na cabeça dele?
DOUTOR: Ainda não. Você está toda fria.
LISA: Não, não é frio. É medo. Vou fazer um pouco de café.
(Sai ao CA à E.)
KARL: Eu só queria que você e Lisa compreendessem que a
vingança não devolve a vida de Anya.
DOUTOR: E suponhamos que a nossa belezinha continue a
dispor de todas as esposas que encontre em seu caminho?
KARL: Eu não acredito nisso.
(O SARGENTO e OGDEN entram à DB.)
OGDEN: Pelo que vejo as roupas e objetos de sua esposa já
foram destinados a vários fins?
KARL: Já. Foram mandados, creio, para a Missão do Leste de
Londres.
ODGEN: E quanto a papéis e cartas?
KARL. Eu comecei a examiná-los hoje de manhã. Mas não
imagino o que possa querer encontrar...
OGDEN: (Vago.) Nunca se sabe. Alguma anotação, algum
bilhete...
KARL. Duvido muito. Mesmo assim, naturalmente, reviste
tudo. Não creio que encontre... (Pega um pacote de
cartas amarradas com uma fita.) Será que vai precisar
destas? São as cartas que escrevi à minha mulher há muitos
anos.
OGDEN: Sinto muito, mas infelizmente terei de lê-las
também.
KARL: Estarei na cozinha se quiser me ver, Inspetor.
(KARL sai ao CA para a E. O DOUTOR sai atrás dele, fe-
chando a porta atrás de si.)
SARGENTO: O senhor acha que ele estava metido na coisa?
OGDEN: Não. (Examina os papéis na gaveta.) Não de
início. Eu diria que ele não tinha a menor idéia. Mas agora
ele sabe — e ficou profundamente chocado.
SARGENTO.- Mas pelo visto ele não vai dizer nada.
OGDEN: Bem, isso já seria esperar demais. Não parece haver
muita coisa aqui. Nem seria de esperar que houvesse, dadas
as circunstâncias.
SARGENTO: Se houvesse, a Sra. Varre-tudo já saberia. Eu diria
que mete o nariz em todo lugar. Aquele tipo sempre sabe as
sujeiras. E como se divertiu em contar!
OGDEN: Uma mulher muito desagradável.
SARGENTO: Vai servir muito no banco das testemunhas.
OGDEN: A não ser que exagere. Bem, nada de novo aqui. É
melhor continuar com o trabalho. (Ao CA.) Queiram fazer o
favor de vir aqui.
(LISA entra ao CA e desce até CB. O DOUTOR desce até DB
do sofá. KARL entra e fica à E do sofá. O SARGENTO vai
até a porta ao CA, fecha-a e fica de pé à frente dela.)
OGDEN: Srta. Koletzky, tenho mais algumas perguntas a lhe
fazer. Deve compreender que não é obrigada a responder
nada a não ser que assim o deseje.
LISA: Não desejo responder a nenhuma pergunta.
OGDEN: Talvez esteja agindo bem. Lisa Koletzky, está presa
sob a acusação de ter ministrado veneno a Anya Hendryk
no dia 5 de março — e é do meu dever adverti-la de que
qualquer coisa que disser será anotada e poderá ser usada
como prova.
KARL: O que é isso? O que está dizendo? O que está fazendo?
OGDEN: Por favor, Professor; nada de cenas.
KARL: (Cruzando para trás de LISA e envolvendo-a em
seus braços.) Mas o senhor não pode prender Lisa; não po-
de, não pode. Ela não fez nada.
LISA: (Delicadamente afastando KARL, com voz clara e
calma.) Eu não assassinei minha prima.
OGDEN: Mais tarde a senhora terá a oportunidade de dizer
tudo o que quiser.
(KARL avança para o INSPETOR, porém o DOUTOR segura-
lhe o braço.)
KARL: (Empurrando o DOUTOR, quase aos gritos.) Não
pode fazer isso. Não pode.
OGDEN: (Para LISA.) Se precisa de um casaco ou chapéu...
LISA: Não preciso de nada.
(LISA olha para KARL por um momento, depois o SAR-
GENTO abre a porta. LISA sai ao CA. OGDEN e o SARGENTO
seguem-na. KARL toma uma resolução súbita e corre atrás
deles.)

KARL: Inspetor Ogden! Volte aqui. Preciso falar com o se-
nhor.
OGDEN: (Fora.) Espere no vestíbulo, Sargento.
SARGENTO: (Fora.) Sim, senhor. (OGDEN entra ao CA.)
OGDEN: Pois não, Professor Hendryk?
KARL: Tenho uma coisa a dizer-lhe. Eu sei quem matou mi-
nha mulher. Não foi a Srta. Koletzky.
OGDEN: (Polido.) Então, quem foi?
KARL: Foi uma moça chamada Helen Rollander. É uma de
minhas alunas. Ela — ela apegou-se a mim de forma um
tanto infeliz. Ela estava sozinha com minha mulher no dia
em questão e deu-lhe uma dose excessiva do remédio para o
coração.
OGDEN: E como sabe disso, Professor?
KARL: Ela me disse tudo, hoje de manhã.
OGDEN: Verdade? E há alguma testemunha?
KARL: Não; porém eu estou lhe dizendo a verdade.
OGDEN: Helen — Rollander. Quer dizer a filha de Sir Wil-
liam Rollander?
KARL: Sim. O pai dela é Sir William Rollander. Ele é um
homem muito importante. Isso faz alguma diferença?
OGDEN: Não, não faria qualquer diferença — se sua história
fosse verdadeira.
KARL: (Levanta-se.) Eu lhe juro que é verdadeira.
OGDEN: O senhor é profundamente devotado à Srta. Ko-
letzky, não é?
KARL: E o senhor acha que eu inventaria uma história só
para protegê-la?
OGDEN: Creio que é perfeitamente possível — o senhor tem
relações íntimas com a Srta. Koletzky, não tem?
KARL: (Estarrecido.) O que o senhor quer dizer?
OGDEN: Deixe que eu lhe diga, Professor, que a sua
empregada, a Sra. Roper, foi à polícia hoje de manhã e fez
uma declaração.
KARL: Então foi a Sra. Roper quem...
OCDEN: É em parte graças a essa declaração que a Srta.
Koletzky foi presa.
KARL: (Para o DOUTOR, buscando apoio.) O senhor acredita
que Lisa e eu...
OGDEN: Sua esposa era uma inválida. A Srta. Koletzky é uma
jovem atraente. Conviviam quase que forçadamente.
KARL: E o senhor pensa que nós planejamos juntos matar
Anya.
OGDEN: Não, não creio que o senhor tenha planejado. Pode
ser que esteja enganado, naturalmente. Acredito que o
planejamento tenha sido feito pela Srta. Koletzky. Havia
uma perspectiva de sua mulher recobrar a saúde, graças a um
novo tratamento. Acredito que a Srta. Koletzky não queria
correr o risco de ver tal coisa acontecer.
KARL: Mas eu estou lhe dizendo que foi Helen Rollander.
OGDEN: Está dizendo, eu sei. Porém é uma história muito
pouco plausível. Acha plausível que uma moça como a Srta.
Rollander, que tem o mundo a seus pés e mal o conhece,
fizesse uma coisa dessas? Esse tipo de acusação não depõe
nada a seu favor, professor — fabricada, assim, de uma hora
para outra, só porque acha que não será possível contradizê-
lo.
KARL: Escute. Vá procurar a Srta. Rollander. Diga-lhe que
uma outra mulher está presa pelo assassinato. Diga-lhe —
por mim — que eu sei que — apesar de todos os seus
defeitos — ela é decente e honesta. Eu juro que ela
confirmará o que eu lhe disse.
OGDEN: O senhor está sendo muito esperto, não é?
KARL: O que quer dizer com isso?
OGDEN: Exatamente o que eu disse. Mas não há ninguém
para confirmar a sua história. KARL: Só a própria Helen.
OGDEN: Exatamente. KARL: E o Dr. Stoner. Eu contei a ele.
OGDEN: Ele só sabe porque o senhor lhe contou.
DOUTOR: Eu acredito que seja verdade. Inspetor. Se se
lembra, eu mencionei que, ao deixarmos a Sra. Hendryk,
naquele dia, a Srta. Rollander permaneceu aqui para fazer-
lhe companhia.
OCDEN: Um oferecimento muito bondoso da parte dela. Nós
interrogamos a Srta. Rollander naquela ocasião e não vejo
razões para duvidar do que nos contou. Ela ficou aqui pouco
tempo e depois a Sra. Hendryk pediu-lhe que fosse embora,
já que se sentia cansada.
KARL: Vá procurar Helen agora. Diga-lhe o que aconteceu.
Diga-lhe o que eu pedi que ela lhe contasse.
OGDEN: Exatamente quando o Professor Hendryk lhe con-
tou que a Srta. Rollander havia matado sua esposa? Agora, se
não me engano.
DOUTOR: Isso mesmo.
KARL: Nós nos encontramos na rua.
OGDEN: Não lhe pareceu que se fosse verdade ele nos teria
procurado tão logo ela lhe confessasse o que havia feito?
DOUTOR: Ele não é esse tipo de homem.
OGDEN: Eu não creio que o senhor realmente saiba que tipo
de homem ele é. E ele tem um raciocínio rápido e vivo; e
não é muito escrupuloso. (KARL vira-se para o INSPETOR, mas
o DOUTOR o segura.) Este é seu sobretudo e este é o seu
jornal, pelo que vejo. (Tira o jornal do bolso.)
KARL: Sim; eu comprei na banca da esquina, antes de entrar.
Ainda não o li.
OGDEN: Tem certeza?
KARL: Tenho — tenho absoluta certeza.
OGDEN: Pois creio que já o leu. (Lê o jornal) "A filha única
de Sir William Rollander, Helen Rollander, foi vitima de um
lamentável acidente hoje pela manhã. Ao cruzar a rua ela foi
atropelada por um caminhão. O motorista do caminhão
afirma que a Srta. Rollander não lhe deu tempo de frear. Ela
avançou para a rua, sem olhar para a direita ou esquerda, e
foi morta instantaneamente." (KARL cai no sofá, arrasado.)
Creio que ao ler esse parágrafo, Professor, vislumbrou um
meio de salvar sua amante, acusando uma jovem que jamais
poderia negar o que diz — porque estava morta.
As luzes apagam-se enquanto...
CAI O PANO

Cena III
CENÁRIO: O mesmo. Três meses mais tarde. Final de
tarde.

Quando o pano se abre as luzes se acendem. KARL
está sentado rio sofá. O DOUTOR, encostado à mesa da
DC, lê o Walter Savage Landor. LESTER anda de um
lado para outro, á EC. O telefone toca. Todos se
assustam. LESTER atende.

KARL: Eu queria ter ficado no tribunal. Por que não me
deixaram ficar?
DOUTOR: Lisa pediu, muito particularmente, que você não
estivesse lá quando fosse lido o veredicto. Temos de
respeitar seus desejos.
KARL: Você poderia ter ficado.
DOUTOR: Ela queria que eu ficasse com você. Os advogados
nos informarão imediatamente...
KARL: Não podem julgá-la culpada. Não podem.
LESTER: Se o senhor quiser que eu volte para lá...
DOUTOR: Fique aqui, Lester.
LESTER: Se eu puder ajudar. Se puder fazer alguma coisa...
DOUTOR: Pode ficar atendendo o raio do telefone que não
pára de tocar.
KARL: Isso, meu rapaz. Fique aqui. Sua presença me ajuda.
LESTER: É mesmo? Ajuda mesmo?
KARL: Ela tem de ser, ela será absolvida. Não acredito que a
inocência possa passar sem ser reconhecida.
DOUTOR: Não? Pois eu sim. Vê-se isso a toda hora. E você
também já o viu, Karl, muitas e muitas vezes. Diga-se de
passagem que eu creio que ela causou ótima impressão ao
júri.
LESTER: Mas as provas são terríveis. É aquela desgraçada
daquela Roper. As coisas que disse.
DOUTOR: Era claro que acreditava no que estava dizendo.
Isso é o que tornou seu depoimento tão inabalável. Foi um
dado particularmente azarado ela ter visto você e Lisa
abraçados no dia do inquérito. Imagino que deve ter visto
mesmo.
KARL: Sim, deve ter visto. É verdade. Foi a primeira vez na
vida que eu beijei Lisa.
DOUTOR: Em um momento realmente infeliz. É uma pena
que aquela metida jamais tenha visto ou ouvido nada do que
se passou entre você e Helen. "Uma moça muito boazinha"
— foi só o que ela conseguiu dizer.
KARL: É tão estranho dizer a verdade e não ser acreditado.
DOUTOR: Só o que você conseguiu foi que todos ficassem
com ódio de você por haver inventado uma história sórdida
a respeito de uma moça que está morta.
KARL: Se ao menos eu tivesse ido à polícia imediatamente,
na hora em que ela me contou...
DOUTOR: Se tivesse... Mas foi realmente um azar você só
contar a história depois de ter comprado o jornal que trazia a
notícia da morte dela. E suas razões para não ir
imediatamente à polícia não davam para ninguém acreditar.
Claro que eu acredito, porque sei que idiota completo você
é. Mas as circunstâncias são todas as mais terrivelmente
condenatórias. Aquela tal Roper encontrar Lisa perto do
corpo, segurando o vidro de remédio com a mão enluvada.
Toda a coisa se entrosou da maneira mais diabólica... (O
telefone toca.)
KARL: É...? Pode ser...?
(Há uma angustiada pausa, depois o DOUTOR faz um
gesto para LESTER, que vai até o telefone e atende.)
LESTER: Alô?... Alô... Vá para o diabo! (Bate com o
telefone, desligando-o.)
DOUTOR: Vampiros, isso é o que eles são. Uns vampiros.
KARL: Se a considerarem culpada, se...
DOUTOR: Bem, sempre poderemos recorrer, sabe.
KARL. Mas por que haveria ela de ter de passar por tudo isso?
Por que haveria ela de sofrer? Eu gostaria de estar no lugar
dela.
DOUTOR: Sim; sempre é mais fácil quando somos nós
mesmos.
KARL: Afinal, eu sou parcialmente responsável pelo que
aconteceu....
DOUTOR: Eu já lhe disse que isso é asneira.
KARL: Mas Lisa não fez nada. Nada.
DOUTOR: (Pausa. Para LESTER.) Vá fazer um pouco de
café, rapaz, se é que sabe.
LESTER: Mas é claro que sei... (Toca o telefone. LESTER vai
atender, KARL O impede.)
KARL: Não responda.
(O telefone continua a tocar. LESTER hesita, mas sai ao
CA. pela E. O telefone continua a tocar sem parar. KARL
corre para atender.)
KARL: Deixem-me em paz, está bem? Deixem-me em paz.
(Bate com o telefone.) Eu não agüento. Eu não agüento.
DOUTOR: Paciência, Karl. Coragem.
KARL: E de que — adianta dizer-me isso?
DOUTOR: Não muito; mas não há o que dizer, há? Não há
nada que o possa ajudar, agora, a não ser coragem.
KARL: Eu fico pensando em Lisa. No que ela deve estar
sofrendo.
DOUTOR: Eu sei. Eu sei.
KARL: Ela é tão corajosa. Tão maravilhosamente corajosa.
DOUTOR: Lisa é uma pessoa maravilhosa. Eu sempre soube
disso.
KARL: EU a amo. Você sabia que eu a amava?
DOUTOR: É claro que sabia. Já faz muito tempo que você a
ama.
KARL: É. Nenhum de nós dois o admitia, mas nós sabíamos.
Isso não quer dizer que eu não amasse Anya. Eu amava
Anya. Eu sempre a amarei. Não queria que ela morresse.
DOUTOR: Eu sei, eu sei. Jamais duvidei disso.
KARL: Talvez pareça estranho, mas é possível amar duas
mulheres ao mesmo tempo.
DOUTOR: Não é nada estranho. Acontece muitas vezes. E
você sabe o que Anya costumava dizer-me? "Quando eu me
for, Karl precisa casar com Lisa." Era isso que ela dizia. "O
senhor precisa obrigá-lo a casar com ela, Doutor", dizia ela.
"Lisa cuidará dele e será boa para ele. Se ele não pensar
nisso, é preciso que o senhor meta essa idéia na cabeça
dele." Era isso que ela costumava me dizer e eu prometi que
o faria.
KARL: Diga-me de verdade, Doutor. Acredita que eles a
absolvam? Acredita?
DOUTOR: Eu creio — que você deveria preparar-se para...
KARL: Nem sequer o advogado acreditou em mim, não é? É
claro que fingiu que sim, mas não acreditou.
DOUTOR: Não, acho que não acreditou, mas há uma ou duas
pessoas de bom senso no júri — penso. Aquela mulher
gorda com o chapéu engraçado prestou atenção em tudo o
que você disse a respeito de Helen, e notei que acenava a
cabeça concordando com tudo. Talvez o marido dela tenha
saído dos trilhos por alguma mocinha. Nunca se sabe que
tipo de coisa esquisita pode influenciar as pessoas. (O
telefone toca.)
KARL: Desta vez deve ser.
DOUTOR: (Ao telefone.) Alô?...
(LESTER entra da E do CA, carregando uma bandeja com
três xícaras de café.)
KARL: Então?
LESTER: É...? (Pousa a bandeja na mesa.)
DOUTOR: Não...Não, temo que não possa. (Desliga.) Outro
vampiro.
KARL: Mas o que esperam conseguir com isso?
DOUTOR: Creio que um aumento na circulação dos jornais.
LESTER: (Servindo café a KARL.) Espero que esteja bom.
Eu custei até achar tudo. KARL: Obrigado.
(LESTER serve-se de café e dá uma xícara ao DOUTOR.
Pausa enquanto tomam café.)
DOUTOR: Algum dia você jà viu garças voando baixo ao
longo da margem de um rio? LESTER: Nâo, acho que não. Por
quê? DOUTOR: Por nada.
LESTER: Por que lhe veio essa idéia à cabeça?
DOUTOR: Não sei. Imagino que apenas o desejo de que nada
disto fosse verdade e eu estivesse em qualquer outro lugar.
LESTER: Ah, compreendo. É tão horrível não poder fazer
nada.
DOUTOR: Não hà nada pior do que esperar.
LESTER: (Pausa.) Sabe, eu tenho a impressão de que nunca vi
uma garça. DOUTOR: São pássaros muito graciosos.
KARL: Doutor, eu quero que faça uma coisa para mim.
DOUTOR: Sim? O quê?
KARL: Quero que volte ao tribunal. DOUTOR: Não, Karl.
KARL: Sim, eu sei que prometeu. Mas eu quero que volte.
DOUTOR: Karl —Lisa...
KARL: Se acontecer o pior, eu gostaria que Lisa pudesse vê-lo
lá. E se não for o pior — bem, então ela precisará de que
alguém cuide dela, que a tire de lã e a traga para casa. Eu sei
que estou com a razão.
DOUTOR: Muito bem.
LESTER: (Para o DOUTOR.) Eu posso ficar e...
(KARL olha para o DOUTOR e sacode ligeiramente a
cabeça. O DOUTOR capta a sugestão.)
DOUTOR: Não, você vem comigo, Lester. Há momentos
em que um homem tem de ficar sozinho. É isso, não é Karl?
KARL. Não se preocupem comigo. Eu quero ficar aqui,
quieto, com Anya.
DOUTOR: O que foi que disse? Com Anya?
KARL: Foi isso que eu disse? É o que parece. Deixem-me
aqui. Não atenderei o telefone. Esperarei até que voltem. (O
DOUTOR e LESTER saem ao CA à D. KARL recosta-se em
sua poltrona. O relógio bate seis horas.)
"Enquanto dure a luz eu me lembrarei E nem na escuridão
esquecerei".
(Pausa. Depois o telefone toca. KARL levanta-se, ig-
nora o telefone, e sai levando as xícaras pelo CA à E.
Enquanto está fora o telefone pára de tocar. KARL
volta e vai pegar o disco de Rachmaninoff. Vai até a
escrivaninha e senta-se, pousando o disco na mesma,
em frente a ele. LISA repentinamente entra do CA à D,
fecha a porta atrás de si e se encosta nela. KARL
levanta-se e vira-se.)
KARL: Lisa! (Sem acreditar no que vê.) É verdade? É mes-
mo?
LISA: Eles me absolveram.
KARL: (Tentando tomá-la em seus braços.) Oh, minha
querida. Como estou grato. Ninguém há de magoá-la de
novo, Lisa.
LISA: (Empurrando-opara longe de si.) Não.
KARL: (Finalmente percebendo a frieza e a distância
dela.) O que quer dizer?
LiSA: Eu vim buscar as minhas coisas.
KARL: O que quer dizer — suas coisas?
LISA: Só algumas coisas de que preciso. Depois eu vou
embora.
KARL: O que quer dizer — vai embora?
LISA: Vou sair daqui.
KARL: Mas, fora de brincadeira — isso é ridículo! Não quer
dizer que se importa com o que os outros dizem? Será que
isso importa, agora?
LISA: Você não compreende. Eu vou embora para sempre.
KARL: Embora — para onde?
LISA: O que importa? Algum lugar. Eu posso arranjar um
emprego. Não haverá dificuldades quanto a isso. Vou para o
exterior ou fico na Inglaterra, não sei. Seja onde for, é para
começar uma nova vida.
KARL: Uma vida nova? Quer dizer — sem mim?
LISA: É. É, Karl. É exatamente isso que quero dizer. Sem
você.
KARL: Mas por quê? Por quê?
LISA: Porque para mim, basta.
KARL. Eu não compreendo.
LlSA: Não fomos feitos para nos compreendermos. Nós não
encaramos as coisas do mesmo modo e eu tenho medo de
você.
KARL: Como é que você pode ter medo de mim?
LISA: Porque você é o tipo de homem que sempre causa
sofrimento.
KARL: Não.
LISA: É verdade.
KARL: Não.
LISA: Eu vejo as pessoas como elas são. Sem malícia, sem
julgá-las, mas também sem ilusões. Não espero que as
pessoas sejam maravilhosas, ou que a vida seja maravilhosa,
e nem eu desejo, particularmente, ser maravilhosa. Se
existem campos de amaranto — no que me diz respeito eles
só podem existir do oulro lado do túmulo.
KARL: Campos de amaranto? Do que está falando?
LISA: Estou falando de você, Karl. Você põe suas idéias em
primeiro lugar, não as pessoas. Idéias sobre lealdade e
amizade e piedade. E por isso as pessoas que estão perto de
você sofrem. Você sabia que perderia seu emprego se
abrigasse os Schultzes. E sabia, tinha de saber, que
infelicidade de vida isso seria para Anya. Mas não se
importou com Anya. Só se importou com suas idéias e com
o que estava certo. Mas as pessoas são importantes, Karl. Tão
importantes quanto as idéias. Anya era importante, eu sou
importante. Por causa das suas idéias, por causa de sua
misericórdia e compaixão para com a moça que matou sua
mulher, você me sacrificou. Fui eu quem pagou pela sua
compaixão. Mas não estou mais disposta a fazer esse tipo de
coisa. Eu o amo, porém isso não basta. Você tem mais coisas
em comum com Helen do que comigo. Ela era como você
— implacável, ia até o fim para obter o que queria. Não se
importava com as pessoas, desde que saíssem do caminho
dela.
KARL: Lisa, você não pode querer dizer o que está dizendo.
Não pode.
LISA: Quero, sim. Na verdade eu já venho pensando nisso
há muito tempo. Pensei nisso em todos aqueles dias no
tribunal. Eu realmente não esperava que me absolvessem.
Nem sei por que o fizeram. O juiz não parecia ter sequer a
menor sombra de dúvida. Mas parece que alguns dos jurados
acreditaram em mim. Havia um homem que ficava me
olhando, assim como se estivesse me avaliando. Apenas um
homem comum, sem nada de extraordinário — mas ele
olhou para mim e achou que eu não tinha feito aquilo — ou
pode ser que ele tenha pensado que eu fosse o tipo de
mulher que ele gostaria de levar para a cama e por isso não
queria que eu sofresse. Não sei o que pensou — mas — era
uma pessoa olhando para outra e ficou do meu lado e pode
ser que tenha conseguido persuadir os outros. E, então,
estou livre. A mim foi dada uma segunda oportunidade na
vida. E eu vou começar de novo — sozinha. (Sai à DB.)
KARL: Lisa. Você não pode querer dizer isso. Não pode ser
tão cruel. Você tem de me ouvir, Lisa. Eu lhe imploro.
(LISA volta à DB. Traz uma pequena moldura de prata
com uma fotografia.)

LISA: Não, Karl. O que acontece às mulheres que amam vo-
cê? Anya o amava e morreu. Helen o amava e morreu. Eu
— estive muito perto da morte. Para mim basta. Quero me
livrar de você — para sempre.
KARL: Mas para onde você irá?
LISA: Você me disse para ir embora e ter filhos. É possível
que faça isso. Se acontecer, vou encontrar alguém como
aquele homem do júri, alguém que seja humano, uma
pessoa, como eu. (Grita repentinamente.) Basta! Eu o
amei durante anos e fiquei liquidada. Eu vou-me embora e
não quero vê-lo nunca mais. Nunca!
KARL: Lisa!
LISA: Nunca!

(Ouve-se repentinamente a voz do DOUTOR, chaman-
do, da entrada.)

DOUTOR: (Fora, chamando.) Karl! Karl! (Entra sem ver
LISA.) Está tudo bem, rapaz. Ela foi absolvida. Com-
preendeu? Ela foi absolvida. (Vê LISA e cruza para ela de
braços abertos.) Lisa. Minha querida Lisa. Graças a Deus
você se salvou. É maravilhoso! Maravilhoso!
LISA: (Tentando corresponder.) Sim, é maravilhoso.
DOUTOR: (Examinando-a.) Como vai você? Um pouquinho
tensa — mais magra — o que é muito natural, com tudo o
que passou. Mas nós vamos compensar tudo isso. Vamos
cuidar de você. Quanto ao Karl, aqui, você nem pode
imaginar em que estado ele ficou. Bem, graças a Deus agora
está tudo acabado. (Para KARL.) Que me diz — vamos sair
para comemorar? Uma garrafa de champanhe?
LISA: (Forçando um sorriso.) Não, Doutor — hoje não.
DOUTOR: Ora, mas que idiota eu sou. Claro que não. Você
precisa descansar.
LISA: Eu estou bem. Só preciso ir apanhar umas coisas mi-
nhas.
DOUTOR: Coisas?
LISA: Eu não — eu não vou ficar aqui.
DOUTOR: Mas... Ah, percebi — bem, talvez seja sensato, com
gente como a tal Roper solta por aí, com suas mentes e
línguas imundas. Mas vai para onde? Para um hotel? É
melhor ir lá para casa. Margaret ficará encantada. Só temos
um quartinho pequenino, mas cuidaremos muito bem de
você.
LISA: Quanta bondade sua. Mas já fiz meus planos. Diga —
diga a Margaret que muito breve eu irei visitá-la.
(LISA sai para o seu quarto. O DOUTOR começa a per-
ceber que nem tudo está bem.)
DOUTOR: Karl, há qualquer coisa errada?
KARL: O que poderia estar errado?
DOUTOR: (Aliviado.) Ela passou por uma experiência
terrível. Leva algum tempo para — para voltar ao normal.
Quando me lembro como estávamos sentados aqui —
esperando — com aquele raio daquele telefone tocando sem
parar — esperando — temendo — e que agora... acabou
tudo.
KARL: Sim, acabou tudo.
DOUTOR: Nenhum júri decente poderia condená-la! Eu disse.
Karl, você ainda está meio estonteado. Será que ainda não
acreditou? (Abraça KARL.) Karl, acabe com isso. Estamos
com a nossa Lisa de volta. Eu sei que sou desajeitado — eu
sei que leva algum tempo para se ficar acostumado com a
alegria.
(LISA entra, vinda de seu quarto. Carrega uma sacola,
que pousa no chão. Evita olhar para KARL.)
LISA: Agora eu vou.
DOUTOR: Vou chamar um táxi para você.
LISA: Não — por favor — prefiro ficar sozinha. (O DOUTOR
fica perplexo, mas cede. Ela vai até o DOUTOR, põe as
mãos sobre seus ombros.) Obrigada — por sua bondade
— por tudo o que fez por Anya — sempre foi um bom
amigo — jamais me esquecerei. (Beija o DOUTOR, pega a
sacola e sai ao CA à D, sem olhar para KARL uma única
vez.)
DOUTOR: Karl — o que quer dizer isso? Há qualquer coisa
errada.
KARL: Lisa vai embora.
DOUTOR: Sim, por uns tempos. Mas — vai voltar. KARL:
Não, ela não vai voltar.
DOUTOR; O que é que você quer dizer com isso? KARL: Ela —
não — vai — voltar.
DOUTOR: O que quer dizer? Vocês se separaram?
KARL. Você viu como ela foi embora. Aquela foi nossa
despedida.
DOUTOR: Mas, por quê?
KARL. Ela disse que para ela já bastava.
DOUTOR: Fale direito, homem.
KARL: É muito simples. Ela sofreu. Ela não quer sofrer mais.
DOUTOR: Mas por que razão haveria ela de sofrer?
KARL: Parece — que eu sou um homem — que traz
sofrimento aos que o amam.
DOUTOR: Mas que asneira!
KARL: Será? Anya me amava e morreu. Helen me amava e
morreu.
DOUTOR. Lisa disse isso a você?
KARL: Disse. Será que sou assim? Eu só trago sofrimento a
quem me ama? O que ela queria dizer quando falou em
campos de amaranto?
DOUTOR: Campos de amaranto. (Pensa um momento e
depois pega o Walter Savage Landor na mesa à DC.) Foi
aqui que eu li. (Aponta a passagem.)
KARL: Por favor, deixe-me.
DOUTOR: Eu gostaria de ficar.
KARL: Eu preciso me acostumar a ficar sozinho.
DOUTOR: (Hesitando.) Você não acha...
KARL: Ela não voltará. (O DOUTOR, relutante, sai ao CA. à
D. KARL se levanta, vai até a escrivaninha, acende a
luz, fecha as cortinas, senta-se e começa a ler.) "Não
há campos de amaranto deste lado do túmulo. Não há vozes,
oh Rodope, que não se calem logo, por melódicas que sejam:
não há nome, por mais apaixonadamente que seja repetido,
do qual o eco afinal não esvaia"... (Ele pousa o livro sobre
a escrivaninha, levanta-se, pega o disco, vai até o
gramofone, liga-o e depois, vagarosamente, vai cair
sentado na poltrona.) Lisa — Lisa — como poderei viver
sem você? (Deixa cair a cabeça entre as mãos. A porta
ao CA abre-se lentamente. LISA entra, cruza KARL e
pousa delicadamente a mão sobre o ombro dele. Ele
olha para ela.) Lisa? Você voltou! Por quê?
LISA: (Ajoelhando-se ao lado dele.) Porque sou uma
idiota.
(LISA apoia a cabeça no colo de KARL, ele encosta sua
cabeça na dela e a música sobe enquanto...)
CAI O PANO

O Refúgio

Produzida por Peter Saunders no Fortune Theatre, em
Londres, a 7 de junho de 1951, com o seguinte elenco:
(Por ordem de entrada em cena)
HENRIETTA ANGKATELL
SIR HENRY ANGKATELL, K.C.B.
LADY ANGKATTELL
MIDGE HARVEY
GUDGEON
EDWARD ANGKATELL DORIS
GERDA CRiSTOW
DR. JOHN CRISTOW. M.D.F.R.C.P. VERONICA CRAYE INSPETOR
COLQUHOUN, C.I.D. SARGENTO DETETIVE PENNY
Beryl Baxter
George Thorpe
Jeanne de Casalis
Jessica Spencer
A. J. Brown Colin Douglas
Patricia Jones
Joan Newell
Ernest Clark
Dianne
Foster
Martin Wyideck Shaw Taylor

A peça foi dirigida por HUMBERT GREGG
O espetáculo foi posteriormente transferido para o
Ambassador's Theatre.
SINOPSE DA AÇÃO
A ação se passa no jardim de inverno da casa de Sir Henry
Angkatell, O Refúgio, à cerca de 18 milhas de Londres.
ATO UM: Uma tarde de sexta-feira no início de setembro

ATO DOIS: Cena 1. Sábado pela manhã
Cena 11. Mais tarde, no mesmo dia

ATO TRÊS: A segunda-feira seguinte.
As luzes serão abaixadas durante o Ato Três para indicar a
passagem de uma hora.
ÉPOCA: a da composição da peça.

Ato Um


CENÁRIO: Sala da casa de SIR HENRY ANGKATELL,
O Refúgio, à cerca de 18 milhas de Londres. Uma
tarde de sexta-feira no início de setembro.
Uma sala informal, porém mobiliada com bom gosto.
No centro, ao fundo, subindo-se três degraus, grandes
portas envidraçadas dão para um terraço em cujo
limite exterior há uma mureta baixa. Para além desta,
vê-se uma encosta recoberta de árvores, contra a qual
é construída a casa. Portas envidraçadas menores,
subindo-se um degrau, ao C da parede à D, dão para
um jardim de arbustos densos. Na parede do fundo à
E das portas envidraçadas há uma recamara à qual se
tem acesso por um arco, separado do resto da sala por
pesada cortina. A parede do fundo dessa recamara,
ocupada por uma estante embutida, é mobiliada com
uma mesinha sobre a qual há um vaso de prata com
rosas. Supõe-se que uma estátua exista na recamara,
embora não possa ser vista pelo público. A lareira fica
ao C da parede da Ee há estantes embutidas nas
paredes à D das portas ao CA e abaixo das portas na
parede à D. Numa pequena escrivaninha à EB, há uma
luminária e um telefone; junto à escrivaninha, uma
cadeira, e, embaixo desta, uma cesta de papéis; acima
da escrivaninha, um pedestal com uma escultura
abstrata. Uma mesa com uma luminária fica abaixo das
estantes à DA, e uma mesinha, com um rádio, acima
da lareira. Há uma cadeira de braços à EAC e um sofá
confortável à DC. Abaixo do sofá, uma pequena
mesinha de café circular; um puje junto à lareira
completa o mobiliário. A sala é atopetada e há
cortinas alegres nas janelas. Além das lâmpadas de
mesa a sala é iluminada, à noite, por arandelas a cada
lado das portas grandes ao CA e por lâmpadas
elétricas em forma de vela, em pequenos suportes,
sobre a lareira. Uma ou duas miniaturas decoram as
paredes e, acima da lareira, há um bucólico quadro de
uma casa georgiana, com colunas, em meio a um
bosque. O comutador da luz e o cordão que aciona a
campainha para chamar os empregados estão na
parede abaixo da lareira. Há um outro comutador,
para a luz da alcova, à D do arco. Dois vasos de
parede, cheios de flores, decoram as paredes a cada
lado das portas do fundo.

Quando o pano se abre é uma bela tarde e todas as
portas estão abertas. SIR HENRY ANGKATELL, um homem
idoso de aspecto distinto, está sentado na extremidade
D do sofá, lendo The Times. HENRIETTA ANGKATELL está
no terraço, para além das portas envidraçadas, de pé
junto a um cavalete de escultor, modelando em barro.
E uma bela moça de cerca de 33 anos, usando bons
tweeds esportivos e um avental de escultor. Ela avança
e recua em relação à sua obra uma ou duas vezes,
depois entra pelo CA. Há uma mancha de barro em seu
nariz e ela está de cenho carregado.

HENRIETTA. (Entrando.) Droga! Droga! Droga!
SIR HENRY: Não está indo bem?
HENRIETTA: Que desgraça ser escultora!
SIR HENRY: Deve ser. Eu sempre julguei que fosse necessário
se ter modelos para esse tipo de coisas.
HENRIETTA: Ora, querido, o que estou fazendo é abstrato.
SIR HENRY: O quê?... (Aponta para a escultura no
pedestal.) Igual a isso?...
HENRIETTA: Alguma notícia interessante no Times?
SIR HENRY: Morreu um bando de gente. (Olha para ela.)
Está com barro no nariz.
HENRIETTA: O quê?
SIR HENRY: Barro — no nariz.
HENRIETTA: (Olhando no espelho da lareira,
vagamente.) É mesmo. (Esfrega o nariz, depois a testa.)
SIR HENRY: Agora está na cara toda.
HENRIETTA: E faz diferença, querido?
SIR HENRY: É claro que não.
(HENRIETTA vai até o terraço e retoma o trabalho. LADY
ANCKATELL entra pela D. É uma senhora encantadora e
aristocrática por volta dos 60, com ar completamente
vago, porém com muita personalidade. Parece estar
no meio de uma conversa.)
LADY ANCKATELL: Ora, ora! Quando não é uma coisa é
outra. Eu deixei minha ratoeira para doninhas aqui?
(Apanha uma armadilha para doninhas na lareira.) Ah,
está aqui. A pior coisa com as doninhas é que nunca se sabe
onde é que elas vão dar o próximo golpe. As pessoas têm
razão quando dizem que a natureza ao natural nunca é
muito simples. Não concorda, Henry?
SIR HENRY: Não posso, minha querida, a não ser que saiba do
que você está falando.
LADY ANGKATELL: Juro que serei implacável para com elas
— mas implacável mesmo. (Sua voz vai sumindo à me-
dida que sai pela D.)
HENRIETTA: (Do terraço.) O que foi que Lucy disse?
SIR HENRY: Nada. Uma Mucyce's qualquer. Mas, veja só, são
seis e meia.
HENRIETTA: É melhor eu parar e me limpar. Todos vêm de
carro?
(Recobre o trabalho com um pano molhado.)
SIR HENRY: Todos menos Midge. Ela vem de ônibus. Já
deveria estar aqui.
HENRIETTA: Querida Midge. É um amor. Muito melhor do
que qualquer um de nós, não acha? (Empurra o cavalete
para a D, fora da visão do público.)
SIR HENRY: Preciso anotar essa pergunta. HENRIETTA:
(Entra.) Menos excêntrica, talvez. Há qualquer coisa de
muito sensato em Midge. SlR HENRY: Eu sou perfeitamente
sensato, muito obrigado. HENRIETTA: S-s-im — é possível
que seja.
SIR HENRY: Tenho tanto juízo quanto pode ter alguém que
viva com a querida Lucy, bendita seja. Sabe, Henrietta, estou
ficando preocupado com Lucy.
HENRIETTA: Preocupado? Por quê?
SIR HENRY: Lucy não compreende que há certas coisas que
ela não pode fazer. HENRIETTA: Não estou entendendo.
SIR HENRY: Ela sempre conseguiu escapar das conseqüên-
cias. Acho que nenhuma outra mulher no mundo poderia
ter desrespeitado as regras do Palácio do Governador como
Lucy. (Tira o cachimbo do bolso.) A maioria das
mulheres de Governadores obedece às convenções. Mas
Lucy, não! Imaginem sói Pintava o diabo com o protocolo
nos jantares — o que, minha cara Henrietta, é o mais negro
dos crimes. (Procura o fumo.) Sentava inimigos mortais
um ao lado do outro. Ignorava todas as questões raciais. E
não armava brigas: ao contrário, sempre conseguia fazer
tudo sair bem. (HENRIETTA entrega a ele o pacote de
fumo.) Ah, obrigado. Mas é aquele jeito dela — aquele
sorriso doce, aquele ar de desamparo. E com os empregados
é a mesma coisa — ela dá um trabalho dos diabos, mas todos
são loucos por ela.
HENRIETTA: Eu sei como é. Coisas que a gente não atura
de mais ninguém ficam perfeitamente aceitáveis em Lucy. O
que será? Charme? Hipnotismo?
SIR HENRY: (Enchendo o cachimbo.) Não sei. É assim
desde menina. Mas sabe, Henrietta, ela está piorando. Ela
não compreende que há limites para tudo. Eu chego a achar
que Lucy acharia possível até mesmo matar impunemente.
HENRIETTA: Querido Henry, você e Lucy são uns anjos,
me deixando fazer toda a minha bagunça aqui — deixando
cair barro nos seus tapetes. Quando meu estúdio pegou fogo
pensei que estava liquidada — vocês foram maravilhosos me
deixando vir ficar com vocês.
SIR HENRY: Minha querida, sentimos muito orgulho de vo-
cê. Pois se eu estava acabando de ler um artigo inteiro a seu
respeito e de sua exposição no Times.
HENRIETTA: Onde?
SIR HENRY: NO alto da página. Acho que é aí. É claro que eu
não digo que entenda do assunto. HENRIETTA: (Lendo.) "A
peça mais significativa do ano." Ai, quanta asneira! Deixe eu
ir me lavar.
(Deixa cair o jornal no sofá, pega o avental e sai, de-
pressa, pela E. SIR HENRY levanta, põe o jornal e o pa-
cote de fumo na mesinha de café, joga um pouco de
barro da mesinha na cesta de papéis, pega fósforos.
MIDGE HARVEY entra ao CA, vinda da E. É pequena,
vestida com cuidado, mas obviamente pobre. É uma
moça de grande coração, prática, agradável, pouco
mais jovem do que HENRIETTA. Carrega uma valise.)
MIDGE: (Entrando.) Olá, primo Henry.
SIR HENRY: Midge! (Pega a valise, beija-a.) Mas que
prazer vê-la!
MIDGE: Prazer é vê-lo.
SIR HENRY : Como vai você?
MIDGE: Muito bem.
SIR HENRY: Não anda trabalhando demais naquela droga de
loja de vestidos?
MIDGE: OS negócios andam fracos, no momento, senão eu
não poderia ter vindo para o fim de semana. O ônibus estava
empilhado de gente; nunca andou tão devagar. (Olha pela
janela à D.) É divino estar aqui. Quem mais vem neste fim
de semana?
SIR HENRY: (Pousando a valise.) Não muita gente. Os
Cristows. Que você conhece, naturalmente.
MIDGE: Não é o médico famoso com sua mulher apagada?
SIR HENRY: Exatamente. Ninguém mais. Ah, sim... (Ris-
cando o fósforo.) E Edward, naturalmente.
MIDGE: (Como que golpeada pelo som do nome.)
Edward!
SIR HENRY: (Acendendo o cachimbo.) É uma luta
arrancar
Edward de Ainswick, hoje em dia. MiDGE: Ainswick! Lindo
e maravilhoso Ainswick! (Vai até a lareira e olha para o
quadro que fica acima dela.)
SIR HENRY: Sim, é um lugar muito bonito.
MIDGE: É o lugar mais bonito do mundo!
SIR HENRY: Você teve momentos muito felizes por lá, não
é?
MIDGE: Todas as minhas lembranças felizes são de lá.
(LADY ANGKATEIX entra da D, carregando um grande vaso de
flores vazio.)
LADY ANGKATEIX: (Entrando.) Vocês acreditam que elas
conseguiram de novo? Empurraram para fora da terra um
canteiro inteiro das minhas lindas lobélias. Bem, se pelo
menos o tempo continuar firme...
SIR HENRY: Olhe, ai está Midge.
LADY ANGKATEIX: Onde? (Vai até MIDGE e beija-a.) Ora,
minha querida Midge, eu não a tinha visto, meu bem. (Para
SIR HENRY, confidencial.) Isso ajuda, não é? Do que é que
vocês dois estavam falando quando eu entrei?
SIR HENRY: Sobre Ainswick.
LADY ANGKATEIX: (Com repentina mudança.) Ainswick!
SIR HENRY: Vamos, vamos, Lucy. (Um pouco perturbado,
ele sai para a E.)
MIDGE. (Apontando o vaso.) E por que foi que trouxe isso
para cá, querida?
LADY ANGKATEIX: Não tenho a menor Idéia. Tire-o daqui.
(MiDGE tira o vaso de LADY A., leva-o para o terraço e
pousa-o no chão, fora de cena.) Obrigada, querida. Como eu
estava dizendo, pelo menos o tempo está firme. Já é alguma
coisa. Porque se um bando de pessoas que não se afinam
ficarem trancadas dentro de casa... Onde é que você está?
Ah, está ai. Fica tudo dez vezes pior. Não acha?
MIDGE: O que é que fica pior?
LADY ANGKATELL: É claro que sempre há os jogos de salão
— mas aí fica como no ano passado, e eu jamais poderei me
perdoar por causa da pobre Gerda — e o pior é que, na
verdade, ela é muito boazinha. É estranho que uma pessoa
tão encantadora quanto Gerda possa ser tão totalmente
destituída de inteligência. Se é isso que as pessoas querem
dizer quando falam da lei das compensações, eu não acho
nada justo.
MIDGE: Do que é que você está falando, Lucy?
LADY ANGKATELL: Do fim de semana, querida. É um alívio
tão grande discutir as coisas com você, Midge querida. Você
é tão prática.
MIDGE: Sim; mas o queé que nós estamos discutindo?
LADY ANGKATELL: John, naturalmente, é encantador, com
aquela personalidade dinâmica que parece que todo médico
realmente bem-sucedido tem. Mas, com Gerda, bem, todos
nós temos de ser muito bondosos.
MIDGE: Vamos, o que é isso? Gerda Cristow também não é
assim tão ruim.
LADY ANGKATELL: Querida! Com aqueles olhos de vaca
perplexa! E parecendo não entender uma única palavra do
que se diz a ela.
MIDGE: Bem, é que ela não entende o que você diz — o que
não è culpa dela. Sua mente anda tão rápido, Lucy, que, para
ficar a par com ela, a conversa tem de dar saltos
inacreditáveis — omitindo lodos os elementos de ligação.
LADY ANGKATELL: Como macacos. Felizmente Henrietta
está aqui. Ela foi maravilhosa na primavera passada, quando
brincamos de charadas e anagramas — quando todos tinham
acabado, descobríamos que a pobre Gerda não tinha
conseguido nem começar. Não sabia nem sequer qual era o
jogo. Foi terrível, não foi, Midge?
MIDGE: Como è que ainda há quem aceite seus convites pa-
ra fins de semana é um misiério para mim. Entre o nível
intelectual da conversa, os jogos e seu estilo peculiar de
conversa, Lucy, é uma loucura.
LADY ANOKATELL: É. Acho que somos, mesmo, meio
exaustivos. A pobrezinha parecia tão atônita; e John tão
impaciente. Foi ai que fiquei grata a Henrietta. Ela virou-se
para Gerda e pediu a receita do suéter que ela estava usando
— uma coisa horrenda, de um verde desbotado — cheio de
babadinhos e pompons — um horror — e imediatamente
Gerda ficou mais alegrinha e contente. E o pior de tudo foi
que a pobre Henrietta teve de comprar lã e fazer um horror
daqueles.
MIDGE: Mas era mesmo um horror?
LADY ANGKATELL: Um susto. Não — em Henrietta até que
ficou muito bonitinho — que è o que eu queria dizer
quando disse que o mundo é muito triste? A gente sim-
plesmente não sabe por quê...
MIDGE: Pare aí. Já está divagando de novo. Concentre-se
no fim de semana. Ainda não sei qual é o problema. Se você
evitar jogos de destreza mental, falar com Gerda de forma
coerente e mantiver Henrietta a postos para as emergências,
qual é a dificuldade?
LADY ANGKATELL: Ia sair tudo muito bem, se ao menos
Edward não viesse.
MIDGE: (Reagindo ao nome.) Edward? É claro. Mas o
que, neste mundo de Deus, fez você convidar Edward,
Lucy?
LADY ANGKATELL: Eu não convidei. Ele telegrafou
perguntando se nós poderíamos hospedá-lo. E você sabe
como Edward é fácil de melindrar. Se tivéssemos tele-
grafado. "Não", ele jamais se convidaria novamente. Ele é
assim.
MIDGE: É.
LADY ANGKATELL: Querido Edward. Se ao menos Henrietta
resolvesse de uma vez casar com ele. Na verdade ela gosta
muito dele. Se eles pudessem ficar aqui sozinhos, estes dias,
sem os Cristows. Acontece que John tem um efeito
extremamente infeliz sobre Edward. John fica muito mais e
Edward muito menos, sabe como é? (MIDGE acena com a
cabeça.) Mas eu tenho a impressão de que vai ser tudo
muito difícil. (GUDGEON. O mordomo perfeito sob todos
os aspectos, entra à E.)
GUDGEON: (Anunciando.) O Sr. Edward. (Entra
EDWARD ANGKATELL, um homem ligeiramente
recurvado, de 40 ou 45 anos, sorriso agradável e
óbvia timidez. É um homem estudioso e usa ternos
bem cortados, porém surrados. GUDGEON sai à E.)
LADY ANGKATELL: Edward. (Beija-o.) Estávamos aqui
comentando como era bom você ter resolvido aparecer.
EDWARD: Lucy, Lucy. Que bondade a sua me deixar
aparecer. (Para MIDGE, surpreendido e contente.) Ora
essa... é a pequena Midge. (Ele sempre fala com MIDGE
com a afeição indulgente que se dá a uma criança.)
Você parece tão crescida.
MIDGE: Já faz anos que eu estou crescida.
EDWARD: Vai ver que sim. Eu não tinha reparado.
MIDGE: Eu sei.
EDWARD: Você sabe, em Ainswick o tempo pára. Eu sempre
me lembro de você como era nas férias, quando tio Hugh
ainda estava vivo. (Para LADY A.) EU queria que você viesse
mais vezes a Ainswick, Lucy. No mo-menio está ião bonito.
LADY ANGKATELL: Está mesmo, querido?
GUDGEON: (Entrando à E.) Perdão, milady, mas a Sra.
Medway gostaria de vê-la por um momento. É sobre um dos
pratos do jantar.
LADY ANGKATELL: OS fígados de galinha. Os açougueiros não
têm sensibilidade com os fígados de galinha. Não chegaram?
GUDGEON: Chegaram, milady; porém a Sra. Medway está
com certas dúvidas...
(LADY A. e GUDGEON saem à E.)
EDWARD. ÀS vezes imagino se Lucy ainda se importa muito
com a história de Ainswick.
MIDGE: Importar, como?
EDWARD: Bem, afinal, era a casa dela. (Tira um cigarro.)
MIDGE: Posso?
EDWARD: (Oferecendo-lhe a cigarreira.) Mas é claro.
(Ela pega um cigarro.) Se ela tivesse sido um menino a
casa seria dela e não minha. Ela não teria ressentimentos?
(Acende os cigarros.)
MIDGE: Não no sentido em que você pensa. Afinal, você é
um Angkatell, e isso é o que importa. Os Angkatells sempre
ficam juntos. Até se casam com as primas.
EDWARD: É, mas ela não parece se importar muito com
Ainswick.
MIDGE: Ah, sim. Lucy gosta mais de Ainswick do que de
qualquer outra coisa no mundo. (Olha o quadro sobre a
lareira.) Aquele quadro é a nota dominante desta casa. Mas
se você pensa que ela possa ter ressentimentos contra você,
está enganado.
EDWARD: Eu nunca chego a compreender Lucy. Ela é de
um charme absolutamente extraordinário.
MIDGE: Lucy è a criatura mais adorável que eu conheço. E
Jamais extravagante...
(HENRIETTA, que já se arrumou, entra à E.)

HENRIETTA: Olá, Edward.
EDWARD: Henrietta, que prazer vê-la.
HENRIETTA: Como está Ainswick?
EDWARD. NO momento, está uma beleza.
HENRIETTA: Olá, Midge, querida, como vai você?
EDWARD: (Oferece um cigarro a HENRIETTA.) Você devia
ir até lá, Henrietta.
HENRIETTA: (Aceita o cigarro.) Eu sei — como nós nos
divertíamos lá, quando crianças, não é?
(LADY A. entra à E., carregando uma imensa lagosta na
ponta de um barbante.)
LADY ANGKATELL: Comerciante é igual a jardineiro: ambos se
aproveitam de nossa ignorância. Não acha, Edward? Sempre
que se quer um canteiro cheio eles salpicam umas coisinhas
aqui e ali... (Toma consciência da lagosta.) Mas o que
será isto?
EDWARD: Parece uma lagosta.
LADY ANGKATELL: É uma lagosta. Onde será que eu a ar-
ranjei? Como será que ela veio parar nas minhas mãos?
HENRIETTA: Eu tenho a impressão de que você a pegou na
mesa da cozinha.
LADY ANGKATELL: (Segurando a lagosta contra as costas
do sofá.) Já sei. Tive a impressão de que uma almofada desta
cor iria ficar muito bem aqui. O que é que vocês acham?
HENRIETTA: Não!
LADY ANGKATELL: Não... Bem, foi só uma idéia.
GUDGEON: (Entra da E. com uma bandeja. Impassível.)
Perdão, milady. A Sra. Medway pergunta se lhe poderia
ceder a lagosta. (Ela a coloca na bandeja.) Obrigado,
milady. (Sai.)
LADY ANGKATELL: Gudgeon é maravilhoso. Sempre aparece
na hora certa.
HENRIETTA: Tem um fósforo, Midge?
EDWARD: Como vai a escultura, Henrietta?
HENRIETTA: Estou acabando a figura grande para o Grupo
Internacional. Quer ver? (MIDGE acende o cigarro dela e
recoloca o isqueiro na lareira.)
EDWARD: Quero.
HENRIETTA. Está escondida no lugar que, se não me engano,
o corretor imobiliário que vendeu esta casa a Henry
chamava de "o cantinho do café da manhã".
LADY ANGKATELL: Graças a Deus, eu jamais, em toda a
minha vida, tomei café em um cantinho.
(HENRIETTA vai até a recamara, afasta a cortina, acende
a luz. EDWARD leva MIDGE até lá e, com ela, fica de pé
à D, como se olhando algo, fora, à E.)
HENRIETTA: Chama-se A Adoradora.
EDWARD: (Impressionado.) É uma figura fortíssima. Bela
textura. Que madeira é essa?
HENRIETTA: Pereira.
EDWARD: (Lentamente.) É... um tanto incômoda.
MIDGE: (Nervosa.) É terrível.
EDWARD: A inclinação excessiva do pescoço e dos ombros
para a frente — a submissão. O fanatismo do rosto — os
olhos — ela é cega?
HENRIETTA: É.
EDWARD: E para o que é que ela está olhando — com esses
olhos cegos? HENRIETTA: Não sei. Para seu Deus, acho.
LADY ANGKATELL: Pobre Henrietta.
HENRIETTA: O que foi que você disse, lucy?
LADY ANGKATELL: Nada. (Olha para fora.) Olhem só os
passarinhos. Mas só se devia olhar passarinho com
binóculos e do alto de uma árvore, não é? Ainda há garças
em Ainswick, Edward?
EDWARD: Há, sim — perto do rio.
LADY ANGKATELL: Perto do rio — ai, ai. (A voz some
quando ela sai à D.) EDWARD. Por que foi que ela disse
"Pobre Henrietta"?
HENRIETTA: Lucy não é cega.
EDWARD: Quer dar um passeio, Henrietta? Queria esticar um
pouco as pernas, depois de guiar todo esse tempo.
HENRIETTA: Quero, sim. Passei a maior parte do dia fazen-
do modelagem. Você vem, Midge?
MIDGE: Não, obrigada. (Edward vai saindo para o
terraço.) Vou ficar e ajudar Lucy quando os Cristows
chegarem.
EDWARD: (Parando e virando-se subitamente.) Cristow?
Ele vem hoje?
HENRIETTA: Vem, sim.
EDWARD: Pena eu não ter sabido.
HENRIETTA: Por quê?
EDWARD: (Muito calmo.) Eu poderia ter vindo... qualquer
outro fim de semana.
(Pausa. HENRIETTA e EDWARD saem pelo CA MIDGI
observa-os. Seu rosto revela seu amor sem esperança
por EDWARD. LADY A. entra à D.)
LADY ANGKATELL: (Sussurrando.) Henrietta e Edward fo-
ram passear?
MIDGE: Foram.
LADY ANGKATELL: Edward já sabe a respeito dos Cristows?
MIDGE: Sabe.
LADY ANGKATELL: FOI tudo bem?
MIDGE: Eu não diria tanto.
LADY ANGKATELL: Ai, ai; eu sabia que este fim de semana ia
ser constrangedor.
MIDGE: Vamos dar uma volta no jardim, Lucy. Quais são as
últimas novidades no mundo das flores? Hoje em dia eu vivo
no asfalto. São as dálias, agora?
LADY ANGKATELL: São. Maravilhosas — lá à sua maneira
meio sem graça. E cobertas de insetinhos que são ótimos
para elas, mas detestáveis para nós.
(LADY A. e MIDGE saem pela D. DÓRIS, a empregada,
entra pela E e segura a porta aberta. Parece meio
retardada e morre de medo de GUDGEON, que entra
pela E. Ele traz bandeja de bebidas, que coloca na
mesa adequada. DÓRIS fecha a porta e desce, ficando
de boca aberta à EC.)
GUDGEON: Vamos, Dóris; dobre os jornais, como eu lhe
ensinei. (Ele começa a dar brilho nos copos.)
DORIS: Sim, senhor, Sr. Gudgeon. A milady, aí, é meio
amalucada, não é, Sr. Gudgeon?
GUDGEON: É claro que não. Milady tem um intelecto
particularmente perspicaz. Fala cinco línguas estrangeiras,
viajou o mundo inteiro com Sir Henry, que foi Governador
de uma das principais províncias da índia. É provável que
tosse o Vice-Rei seguinte, se aquele abominável Governo
Trabalhista não desbaratasse o Império.
DORIS: (Guardando os jornais.) O meu pai é trabalhista.
(Pausa durante a qual GUDGEON lança a DORIS olhar
de piedade. Ela recua um passo e fala em tom de des-
culpas.) Oh, desculpe, Sr. Gudgeon.
GUDGEON: Seus pais não são culpa sua, Dóris.
DÓRIS: Eu sei que eles não têm classe.
GUDGEON: Você está aprendendo direitinho... embora não
se compare com nada do que costumávamos ter. Era a filha
do Guarda-Caça, ou do Mestre das Cocheiras, enfim, alguma
moça com boas maneiras, que tivesse sido educada direito.
Esse é o tipo de moça que eu gosto de treinar.
DÓRIS: Desculpe, Sr. Gudgeon. (Guardados os jornais,
esvazia cinzeiros, jogando as cinzas na lareira.)
GUDGEON: Parece que esses dias se acabaram para sempre.
DÓRIS: A Srta. Simmonds também está sempre me amolan-
do.
GUDGEON: Para o seu próprio bem, Dóris. É para treiná-la.
DORiS: E depois de treinada, por acaso eu vou ganhar mais?
GUDGEON: Temo que não muito.
DORIS: Então eu acho que não vale muito a pena ser
treinada, não é?
GUDGEON: Menina, realmente eu temo que você tenha
razão. (DORIS continua limpando.) Ah! (DORIS,
embaraçada de estar esvaziando na ladeira, devolve
cinzeiro a seu lugar.) O problema hoje em dia é a falta de
patrões bem treinados. Ninguém sabe a quantas anda. Os
que têm dinheiro para ter criadagem não sabem o que é um
bom criado.
DORIS: Meu pai diz que eu devo me chamar de auxiliar
doméstica.
GUDGEON: Que não auxilia grande coisa. Fique sabendo,
menina, que você tem muita sorte de estar em uma casa em
que se sabe usar os copos certos e o patrão e a patroa
apreciam a capacidade profissional. Não há muitos patrões
que ainda saibam se estão sendo servidos peio iado certo ou
não.
DORIS: Mas mesmo assim eu acho que a milady faz umas
coisas muito esquisitas. Feito pegar aquela lagosta.
GUDGEON: Milady é um pouco distraída, sem dúvida,
porém nesta casa estou eu para fazer tudo a fim de poupar
qualquer problema ou incômodo a milady.
(Ouve-se uma buzina, fora. Ele vai à mesa das bebi-
das, pega a toalha de chá, depois pega no chão a valise
de MIDGE.) Chegaram o Dr. e a Sra. Cristow. Suba e fique
pronta para ajudar Simmonds a desfazer as malas.
DÓRIS: (Abrindo porta à E.) Sim, senhor, Sr. Gudgeon.
(Vai sair.)
GUDGEON: (Repreendendo-a.) Ah-ah!
DÓRIS: Oh! (Segura a porta aberta.)
GUDGEON: (Saindo na frente dela.) Obrigado. (Um relógio
bate sete horas. DÓRIS sai, deixando a porta aberta.
Após a quarta batida...) Boa noite, meu senhor.
JOHN: (Fora, à E.) Boa noite, Gudgeon. Como vai?
GUDGEON: Boa noite, madame. Bem, obrigado, meu senhor.
GERDA: (Fora, à E.) Boa noite, Gudgeon.
(GUDGEON à E faz entrar JOHN e GERDA CRISTOW. Ele é
um homem bonito de 38 anos, personalidade di-
nâmica, um tanto brusco. GERDA é tímida e um tanto
obtusa. Ela traz uma bolsa de couro, artesanato
'artístico'.)
GUDGEON: (Entrando.) Se quiser fazer o favor, madame.
GERDA: Ainda está bem quente.
GUDGEON: Bastante, madame. Espero que a viagem tenha
sido agradável.
GERDA: Foi, obrigada.
GUDGEON: Creio que milady está no jardim, meu senhor.
Irei informá-la de que já chegaram.
JOHN: Obrigado, Gudgeon. (GUDGEON sai à D. JOHN vai até
o terraço e olha para a E.) Como é bom sair da cidade
para ficar aqui.
GERDA: (Inexpressiva.) É ótimo.
JOHN: Meu Deus, como eu odeio viver preso em Londres.
Plantado naquele maldito consultório, ouvindo mulheres
choramingando. Como eu odeio gente doente!
GERUA: Ora, John, você não quer realmente dizer uma coisa
dessas.
JOHN: A doença me repugna.
GERDA: Mas se você odiasse gente doente, não ia ser médi-
co, querido; ia?
JOHN: Ninguém vai ser médico porque gosta de gente doen-
te. O interessante é a doença, não é o paciente. Você tem
umas idéias esquisitas, Gerda.
GERDA.- Mas você gosta de curar as pessoas.
JOHN: Eu não as curo. Só lhes dou um pouco de fé ou, às
vezes, um laxativo. Ai, meu Deus, como estou cansado.
GERDA: John, você trabalha demais. Nunca pensa em você.
Eu vivo explicando aos meninos que a vida de médico é
quase um sacerdócio. Mas sinto tanto orgulho do modo pelo
qual você entrega seu tempo e sua energia, sem se poupar.
JOHN: Pelo amor de Deus, Gerda. Você não tem a menor
idéia do que está dizendo. Não compreende que gosto da
minha profissão? É muito interessante e eu ganho muito
dinheiro.
GERDA: Mas você não trabalha só por causa do dinheiro. É
só ver o quanto se interessa por seu trabalho no hospital.
Para aliviar a dor e o sofrimento.
JOHN: A dor é uma necessidade biológica, e o sofrimento
sempre existirá entre nós. O que me interessa é a técnica da
medicina.
GERDA: E... as pessoas que estão sofrendo.
JOHN: Ora, pelo amor de Deus... (Repentinamente
envergonhado.) Desculpe, Gerda. Não queria gritar com
você. Acho que nesses últimos tempos tenho andado muito
nervoso e mal-humorado. Eu... desculpe-me.
GERDA: Está tudo bem, meu querido. Eu compreendo.
JOHN: Sabe, Gerda, se você não fosse tão paciente e tão
mártir talvez fosse melhor. Por que não se volta contra mim,
às vezes, não briga comigo, não responde à altura? Ora, não
fique tão chocada. Seria melhor se você fizesse tudo isso.
Não há homem que goste de morrer afogado em melado.
GERDA: Você está cansado, John.
JOHN: (Sombrio.) Sim, estou cansado. (Recosta-se e fecha
os olhos.)
GERDA: Está precisando de umas férias.
JOHN: (Sonhador.) Eu gostaria de ir para o Sul da França —
o Mediterrâneo — o sol, as mimosas em flor...
GERDA: Então por que não vamos? (Hesitante.) Oh, eu não
sei bem como é que ia resolver o problema das crianças. É
claro que Terence passa o dia no colégio, mas é sempre tão
grosseiro com Mademoiselle. Ela, para falar a verdade, quase
que nâo consegue mandar na Zena. Não, acho que eu não ia
ficar tranqüila. É claro que elas podiam ficar com Elsie em
Bexhill. Ou talvez Mary Foley pudesse ficar com eles...
JOHN: (Abrindo os olhos, vago.) O que é que você estava
dizendo? GERDA: As crianças.
JOHN: O que têm elas?
GERDA: Estava imaginando como poderíamos ajeitar as
coisas se fôssemos para o Sul da França.
JOHN: E por que haveríamos de ir para o Sul da França? Do
que é que você está falando?
GERDA: Porque — você — você disse — que gostaria de ir.
JOHN: Ah, isso? Ora, estava sonhando acordado.
GERDA: Não sei por que não poderíamos — desde que a
pessoa que fique encarregada dos meninos seja de confiança.
E às vezes eu sinto que...
JOHN: Você está sempre preocupada com alguma coisa. Pelo
amor de Deus, vamos relaxar e gozar este fim de semana.
Pelo menos você está tendo uma folga de todos os seus
afazeres domésticos.
GERDA: É, eu sei.
JOHN: Onde se meteram as pessoas?
GERDA: Henrietta vai estar aqui?
JOHN: Sim, ela está aqui.
GERDA: Ah, que bom. Eu gosto muito de Henrietta.
JOHN. Henrietta é muito boazinha.
GERDA: Será que ela já acabou aquela estátua,minha que
estava fazendo?
JOHN: Não consigo entender por que pediu a você para ser-
vir de modelo. Uma coisa muito estranha. (GERDA sente-se
golpeada pelo tom e a atitude do marido.) Eu sempre
acho bom que as pessoas apareçam para receber seus
convidados. (Sai à D. GERDA levanta-se, remexe na bolsa,
tem tosse nervosa.)
EDWARD: (Fora, ao CA.) E neste último inverno abri mais
aquela alameda de árvores para poder ver melhor o lago.
(HENRIETTA E EDWARD entram ao CA.)
HENRIETTA: (Entrando.) Mas que ótima idéia, Edward. Olá,
Gerda, como vai? Você conhece Edward Angkatell, não é?
EDWARD: Como está, Sra. Cristow?
GERDA: Como está? (Deixa cair uma luva e torna a
pegar.
Edward se abaixa para pegá-la, porém ela é mais
rápida.) HENRIETTA: Onde está John?
GERDA: Ele foi até o jardim para ver se encontrava Lady
Angkatell.
HENRIETTA: É um jardim no qual ninguém encontra nin-
guém, parece uma floresta, de tanta árvore e arbusto.
GERDA: Mas dentro em breve estará coberto com as lindas
cores do outono.
HENRIETTA. É.
EDWARD: Se me dão licença, vou mudar de roupa. (Sai.)
HENRIETTA: O outono leva ao passado — ficamos todos
dizendo: "Você se lembra?..." (GERDA está tensa e infeliz.
Virando-se, HENRIETTA olha para GERDA e o rosto dela
fica mais suave.) Vamos também procurar os outros?
GERDA: Não, por favor — quero dizer... claro, seria ótimo.
HENRIETTA: Gerda! Por que é que você vem aqui, se odeia
tanto esse lugar?
GERDA: Mas eu não odeio.
HENRIETTA: Claro que odeia.
GERDA: Nao é verdade. É tão bom vir um pouco para o
campo e Lady Angkatell é tão bondosa.
HENRIETTA: Lucy? Ela nunca foi bondosa na vida dela. Ela é
bem-educada e sabe ser amável. Mas sempre a achei uma
pessoa um tanto cruel, talvez porque não chegue a ser
lotalmente humana. Ela não sabe o que é sentir ou pensar
como gente normal. E você está odiando estar aqui, Gerda;
você sabe que está.
GERDA: Mas, sabe, John gosta.
HENRIETTA: Eu sei que John gosta. Mas ele podia vir sozi-
nho.
GERDA: Nunca. Ele não poderia se divertir aqui sem mim.
Ele é muito altruísta. Pensa que me faz bem vir para o
campo. Mas mesmo assim fico muito contente que você
esteja aqui — fica tudo muito melhor.
HENRIETTA: Fica, mesmo? Que bom.
GERDA: (Numa explosão de confidências.) Sabe, eu não
gosio, mesmo, de sair da minha casa. Há tanto o que fazer
ames de sair, e John é tão impaciente. Mesmo agora eu não
sei se fechei as torneiras do banheiro direito, e eu tinha de
deixar um recado para a lavanderia. E sabe, Henrieita, eu não
confio, de verdade, na governanta francesa das crianças —
quando eu não estou lá eles nunca obedecem a ela. Bem, de
qualquer modo, são só dois dias.
HENRIETTA: Dois dias de inferno — alegremente aturados
por causa de John.
GERDA: Você deve me achar muito mal-agradecida —
quando todos são tão bondosos. Café na cama, empregados
tão bem treinados — mas, às vezes, eu tenho a impressão...
HENRIETTA: Eu sei. Eles escondem a roupa da geme e é uma
loucura para tornar a encontrar, e sempre preparam o
vestido e os sapatos que não é para usar naquela hora. É
preciso impor nossa vontade.
GERDA: Mas eu nâo tenho vontade para impor.
HENRIETTA: E como vai o tricô?
GERDA. Agora estou trabalhando com couro. (Mostra a
bolsa.) Fui eu que fiz esta bolsa.
HENRIETTA: Você, mesma? (Levanta-se, vai até a
recamara
e abre a cortina.) Por falar nisso tenho uma coisa para
você.
(Ela acende a luz e desaparece. Volta imediatamente
carregando uma pequena estatueta de gesso. Apaga a
luz, fecha a cortina e vai para a poltrona.)
GERDA: Henrietta! É a estatueta que você estava fazendo de
mim? (HENRIETTA entrega a estatueta a ela.) Oh, é linda.
HENRIETTA: Fico muito contente de que tenha gostado.
GERDA: Gosto muito.
JOHN. (Fora à o.) Seu jardineiro fez um trabalho realmente
extraordinário, Sir Henry.
SIR HENRY: (Entrando à D com LADY A., JOHN e MIDGE.)
A terra daqui é ótima para rosas.
JOHN. Olá, Henrietta.
HENRIETTA: Olá, John.
LADY ANGKATELL: Que prazer em vê-la, Gerda.
SIR HENRY: Como está passando, Sra. Cristow?
LADY ANGKATELL: (Para GERDA.) Faz tanto tempo que vocês
não vêm aqui. Conhece minha prima, Midge Harvey?
MIDGE: Sim; conhecemo-nos no ano passado.
GERDA: (Para JOHN.) John, olhe só o que Henrietta acaba de
me dar. (Entrega a estatueta a ele.)
JOHN. (Para HENRIETTA.) Ora essa — mas o que é que deu
em você para fazer isso?
GERDA: Ora, John; è muilo bonitinha.
JOHN: Realmente, Henrietta.
SIR HENRY: (Intervindo com tato.) Sra. Cristow, preciso
contar-lhe o grande acontecimento dos últimos tempos.
Conhece a casinha que fica no fim aqui da nossa estrada?
Acaba de ser alugada por uma estrela de cinema e a
população local está desvairada.
GERDA: Bem, mas é muito natural que esteja.
MIDGE: Ela é muito glamurosa?
SIR HENRY: Bem, eu ainda não a vi, embora ela esteja na
casa. Como é mesmo o nome dela?
MIDGE: Hedy Lamarr?
SIR HENRY: Não. Como é o nome daquela com o cabelo
nos olhos?
MIDGE. Verônica Lake.
SIR HENRY: Não.
MIDGE: Lauren Bacall.
SIR HENRY: Não.
LADY ANGKATELL: Nazimova — não. É melhor
perguntarmos a Gudgeon. Ele sabe, na certa.
SIR HENRY: Nós a vimos naquele filme — lembra, com
aquele durão — que faz de gângster, e eles voam para o
Pacífico depois voam de volta, e havia uma menininha
particularmente detestável...
MIDGE: A História de San Francisco?
SIR HENRY: Isso!
MIDGE: Verônica Craye.
(JOHN deixa cair a estatueta. GERDA, com um grito, pega a
estatueta, que não se quebrou.)

HENRIETTA: John! (Eia passa a observá-lo com renovada
curiosidade.)
GERDA: Minha estatueta.
JOHN: (juntos) Desculpem.
SIR HENRY:) Isso mesmo. Loura de voz roufenha.
LADY ANGKATELL: Você quer ir ver o seu quarto, Gerda?
GERDA: Sim... é melhor eu ir abrir as malas.
LADY ANGKATELL: (Indo para a porta à E.) Simmonds já
arrumou tudo, na certa. Mas se quiser subir um pouco...
MIDGE: Eu vou com você. Onde é que eu estou, Lucy? No
Quarto Azul?
LADY ANGKATELL: Está; e eu botei Edward no Eremita e os
outros... (Sua voz deixa de ser ouvida quando sai com as
outras pela porta D. E. JOHN fica de pé como se estivesse
estonteado.)
SIR HENRY: Onde está Edward? Será que ele já guardou o
carro? Ainda há lugar na garagem.
(Ele sai pelo terraço para a E. HERIETTA vai até JOHN e dá-lhe
seu cigarro. Agora que estão a sós suas vozes têm novo tom
de intimidade.)

HENRIETTA: Há alguma coisa errada, meu bem?
JOHN: Mmm? Eu estava — pensando — lembrando. Des-
culpe.
HENRIETTA: Há uma atmosfera de reminiscência neste lugar.
(Olha para o quadro.) Eu também andei me lembrando.
JOHN: É mesmo? (Desinteressado.) Lembrando de quê?
HENRIETTA: Do tempo em que era uma pirralha de pernas
magrelas e cabelo despenteado — uma menina feliz que não
tinha a menor idéia do que a vida lhe poderia fazer.
Voltando ao passado...
JOHN: (Sonhador.) Por que razão haveríamos de querer
voltar atrás, de repente? Por que razão coisas nas quais havia
anos não se pensava, de repente nos assaltam a mente?
HENRIETTA: Que coisas, John?
JOHN: O mar azul... o perfume das mimosas..
HENRIETTA: Quando?
JOHN: Há dez anos.
HENRIETTA: E você gostaria... de voltar?
JOHN: Não sei. Estou tão cansado. (Por trás, ela põe a mão no
ombro dele. Ele segura a mão dela, mas continua sonhando.)
O que faria eu sem você?
HENRIETTA: Tenho a impressão de que passaria muito bem.
JOHN: Por que é que as coisas voltam à mente — coisas
acabadas, mortas?
HENRIETTA: Talvez porque não estejam realmente acabadas
nem mortas.
JOHN: Nem depois de dez anos? Deus sabe há quanto tempo
eu nem pensava nisso. Mas, ultimamente — até mesmo
quando faço a ronda das enfermarias —, tudo me vem à
mente, de forma incrivelmente viva. (Pausa.) E agora, de
repente, ela está ai, no final da estrada.
HENRIETTA: Você quer dizer Verônica Craye?
JOHN: É. Estive noivo dela, há dez anos.
HENRIETTA: Ah — compreendo.
JOHN: Eu era jovem e idiota! Estava louco por ela. Ela estava
começando no cinema. Eu tinha começado a clinicar havia
um ano. E tinha tido uma chance extraordinária — a de
trabalhar com Radley. D.H. Radley, sabe, grande autoridade
em degeneração do córtex.
HENRIETTA: E o que foi que aconteceu?
JOHN: O que eu já devia ter percebido que iria acontecer.
Ela teve uma oportunidade de ir para Hollywood. E,
naturalmente, aceitou. Mas pressupôs, com a maior sem-
cerimônia, que eu largaria tudo para ir com eia. (Ri.) Nem
imaginava o quanto minha profissão significava para mim.
Ainda posso ouvi-la. "Ora, não vai ser preciso você
continuar a ser doutor — eu vou ganhar montes de
dinheiro." (Dá seu cigarro a HENRIETTA.) Eu ainda tentei
explicar tudo a ela. Radley — que oportunidade maravilhosa
era trabalhar com ele. Sabe o que foi que ela disse? "O quê?
Com aquele velhinho engraçado?" Eu lhe disse que o
velhinho engraçado havia realizado alguns dos trabalhos
mais importantes de nossa geração — que suas experiências
poderiam revolucionar o tratamento da doença de Riggs.
Mas é claro que estava perdendo meu tempo. Ela nunca ou-
vira falar na doença de Riggs.
HENRIETTA: E muito pouca gente ouviu. Eu mesma não a
conhecia até você me falar e então começar a ler a respeito.
JOHN: Ela perguntou quem se importava com um monte de
doenças misteriosas. O clima da Califórnia era ótimo - e eu ia
me divertir vendo o mundo. Ela ficaria muito triste de ir
sem mim. A Srta. Craye era uma egoísta - ela jamais pensou
em ninguém que não fosse ela mesma.
HENRIETTA: Mas você também não deixa de ser egoísta,
John.
JOHN: Eu compreendia o ponto de vista dela. Por que não
poderia ela compreender o meu?
HENRIETTA: O que foi que você sugeriu?
JOHN: Eu disse que a amava. Implorei-lhe que abandonasse a
oferta de Hollywood e se casasse comigo imediatamente.
HENRIETTA: Ê o que respondeu ela?
JOHN: Ela achou a idéia apenas — divertida.
HENRIETTA: E então?
JOHN: Bem, só restava fazer uma coisa — acabar tudo. E eu
acabei. Não foi fácil. Tudo isso aconteceu quando nós
estávamos no Sul da França. Separei-me de Verônica e voltei
para Londres para trabalhar com Radley.
HENRIETTA-. E então se casou com Gerda?
JOHN: É. No ano seguinte.
HENRIETTA: Por quê?
JOHN: Por quê?
HENRIETTA: É. Quis uma pessoa inteiramente diferente de
Verônica Craye?
JOHN: Bem, é possível. Não queria que minha mulher fosse
uma beleza espetacular. Não queria que fosse uma egoísta
infernal a querer e a agarrar tudo o que pudesse. Queria paz,
segurança, devoção e todas as coisas tranqüilas e duradouras
da vida. Queria alguém que recebesse todas as suas idéias de
mim.
HENRIETTA: Bem, pois conseguiu o que queria. Seria
impossível uma pessoa mais devotada a você do que Gerda.
JOHN: E aí é que está a ironia. Escolhi Gerda exatamente
pelas qualidades que tem e hoje em dia passo a maior parte
do tempo implicando com ela por causa dessas qualidades.
Como é que eu ia saber o quanto a devoção pode ser
irritante?
HENRIETTA: E Gerda? Está satisfeita?
JOHN: Ora, Gerda está muito bem. Ela está feliz.
HENRIETTA: Está mesmo?
JOHN: Está. Passa a vida preocupada com a casa e com as
crianças. É só no que pensa. É a dona-de-casa mais
incompetente e a mãe mais errada que se possa imaginar.
Mas, pelo menos isso a ocupa.
HENRIETTA: Como você é cruel, John.
JOHN: Eu?
HENRIETTA: Você nunca vê ou sente nada a não ser do seu
próprio ponto de vista? Por que fica trazendo Gerda para
passar o fim de semana aqui quando sabe que é uma tortura
para ela?
JOHN: Que bobagem! Faz muito bem a ela sair um pouco.
Pelo menos ela muda um pouco de ares.
HENRIETTA: Há momentos, John, em que realmente eu o
odeio.
JOHN: Henrietta! Meu amor — não diga uma coisa dessas.
Você sabe que só você é quem torna a vida suportável para
mim.
HENRIETTA: Será mesmo? (Ela levanta a mão como se
para
acariciá-lo, porém controla-se. JOHN a beija.)
JOHN: Quem é Edward Angkatell?
HENRIETTA- Um primo meu, em segundo grau — meu e de
Henry.
JOHN: Eu já o conhecia?
HENRIETTA: Já esteve com ele duas vezes.
JOHN: Não me lembro. Ele está apaixonado por você,
Henrietta?
HENRIETTA: Está.
JOHN: Bem, então tome cuidado. Você é minha, sabe.
(HENRIETTA olha para ele em silêncio.) E escute aqui, que
idéia foi essa de fazer aquela estatueta absurda de Gerda? Não
é bem de seu estilo, não é?
HENRIETTA: Tecnicamente é um trabalho muito bem reali-
zado —- um retrato, simples e direto, de Gerda. Ela gostou
muito.
JOHN: Gerda não sabe a diferença entre uma obra de arte e
uma fotografia colorida. E que tal sua figura em madeira para
o Grupo Internacional? Já acabou?
HENRIETTA: Já.
JOHN: Então deixe-me dar uma olhada. (Sem vontade,
HENRIETTA vai até a recamara, acende a luz, depois fica
à E, para observar a reação de JOHN. Este se levanta,
vai até lá efica no arco, olhando para a Efora.) Puxa, é
muito bom. Mas, que diabo... (Com raiva.) Então foi para
isso que você queria que Gerda posasse para você. Como
ousa?
HENRIETTA: Fiquei imaginando se você iria perceber.
JOHN: Perceber? Mas claro que ia perceber.
HENRIETTA: Mas o rosto não é o de Gerda.
JOHN: Não; é o pescoço, são os ombros, é toda a atitude.
(A luz do dia começa a diminuir e vai desaparecendo
até o final do ato.)
HENRIETTA: Sim; era isso o que eu queria.
JOHN: Como é que pôde fazer uma coisa dessas? É
injustificável.
HENRIETTA: Você não compreende, John. Você não sabe o
que é querer alguma coisa —- e olhar para ela todo dia — a
linha do pescoço — os músculos — o ângulo da cabeça — o
peso no maxilar. Eu vinha olhando para tudo isso, querendo
tudo isso, toda vez que eu via Gerda. Até que, pura e
simplesmente, tive de tê-los para mim.
JOHN: De forma totalmente inescrupulosa.
HENRIETTA: Sim —- é como você diria.
JOHN: (Constrangido.) Aquela coisa que você fez, Henriet-
ta, é de aterrorizar. Para o que é que ela esta olhando —
quem é que está na frente dela.?
HENRIETTA: Não sei, John. Eu penso — que poderia ser
você. (EDWARD entra pela E,já de smoking.) Você se
lembra de Edward — John.
JOHN: (Frio.) É claro.
EDWARD: Apreciando a última obra-prima de Henrietta?
JOHN: É. Estava, sim.
EDWARD: E o que acha?
JOHN: (De costas para EDWARD.) EU não estou realmente
em condições de julgar.
EDWARD: Tem muita força!
JOHN: Mmm?
EDWARD: Eu disseque tem muita força.
JOHN: É.
HENRIETTA: (Apagando a luz e fechando a cortina da
recamara.) Eu tenho de ir mudar de roupa.
EDWARD: Ainda há muito tempo. Quer beber alguma coisa,
Cristow?
JOHN: Não, obrigado.
EDWARD: A noite está muito agradável. (Ele olha para
HENRIETTA e JOHN sai pela D.)
HENRIETTA: Você foi muito grosseiro, John.
JOHN: Não tenho tempo a perder com esse tipo de gente.
HENRIETTA: Edward é maravilhoso.
JOHN: É possível. Não gosto dele. Acho que é totalmente
inexpressivo.
HENRIETTA: Você sabe, John, às vezes eu fico com medo por
você.
JOHN: Por mim? Do que é que está falando?
HENRIETTA: É perigoso ser tão inconsciente quanto você.
JOHN: Inconsciente?
HENRIETTA: Você jamais vê ou sabe qualquer coisa a respeito
do que os outros estão sentindo por você.
JOHN: Eu diria exatamente o contrário.
HENRIETTA: Você vê, sem dúvida, o que você está olhando.
Você parece um holofote. Um raio muito forte concentrado
no que o interessa, mas, por trás, e de cada lado, tudo na
maior escuridão.
JOHN: Henrietta, meu bem, o que é tudo isso?
HENRIETTA: Eu eslou lhe dizendo que é perigoso.Você
acha que todos gostam de você: Lucy, Gerda, Henry, Midge
e Edward. Você por acaso sabe o que qualquer um deles
sente a seu respeito?
JOHN: E Henrietta? O que é que ela sente? Pelo menos —
(ele a toma pela mão e aproxima-a dele) tenho certeza
de você.
HENRIETTA: Não se pode ter certeza de ninguém no mun-
do, John. (JOHN a beija. Quando ela, incapaz de lutar,
cede, ele a larga, sorri, vira-se, e vai para a porta à E.
EDWARD entra à D, JOHN lhe lança um olhar cínico e sai
à E.) Vou lhe pedir um drinque, Edward, antes de subir. (Ela
olha-se no espelho, retoca o batom com o lenço.)
EDWARD: Um xerez?
HENRIETTA: Por favor.
EDWARD: (Servindo dois cálices de xerez.) Eu gostaria
que você fosse mais freqüentemente a Ainswick, Henrietta.
Já faz muito tempo.
HENRIETTA: Eu sei. A gente vai ficando envolvida com as
coisas.
JOHN: É essa a verdadeira razão?
HENRIETTA: Não, inteiramente.
EDWARD: Pode me contar, Henrietta.
HENRIETTA: Você é um amor, Edward. Eu gosto muito de
você.
EDWARD: Por que è que você não vai a Ainswick? (Dá-
lhe um dos cálices.)
HENRIETTA: Porque ninguém pode voltar atrás.
EDWARD: Você era feliz lá, nos velhos tempos.
HENRIETTA: Sim; feliz da maneira mais maravilhosa
possível — que é quando não se sabe que se é feliz.
EDWARD: (Levantando o cálice.) A Ainswick!
HENRIETTA: (Levantando o seu.) A Ainswick. Continua
tudo igual, Edward? Ou será que mudou? As coisas também
mudam.
EDWARD: Eu não mudo.
HENRIETTA: Não, Edward, querido. Você é sempre o mes-
mo.
EDWARD: O mesmo paradão.
HENRIETTA: Não diga isso.
EDWARD: É verdade. Eu nunca consegui ser bom — nisso —
de fazer coisas.
HENRIETTA: Talvez seja uma sabedoria, nâo fazer tanta coisa.
EDWARD: É muito estranho você dizer isso, Henrietta. Logo
você, que tem tido tanto sucesso.
HENRIETTA: Escultura não é o tipo de coisa na qual você
resolve que vai fazer uma coisa e obtém sucesso. É uma
coisa que se apodera da gente — que nos persegue —de
modo que, no fim, não se tem outra saída a não ser entrar
em certo acordo com ela. E então — durante algum tempo
— fica-se em paz.
EDWARD: E você quer paz, Henrietta?
HENRIETTA: Há momentos em que sinto que quero ficar em
paz mais do que qualquer outra coisa neste mundo.
EDWARD: Você teria paz em Ainswick. Acho que você po-
deria ser feliz, lá. Mesmo que... mesmo que tivesse de me
aturar. Que tal, Henrietta? Não quer vir para Ainswick para
fazer dele seu lar? Você sabe que ele está sempre lá, à sua
espera.
HENRIETTA: Edward, eu queria nâo gostar tanto de você. Fica
tão mais difícil continuar a dizer não.
EDWARD: Então, é não?
HENRIETTA: Eu sinto muito.
EDWARD: Você já disse não, antes, mas desta vez — bem,
pensei que ia ser diferente. Quando conversamos na floresta
seu rosto estava tão jovem e feliz, quase como era,
antigamente. Falando de Ainswick, pensando em Ainswick.
Você não percebe o que isso significa, Henrietta?
HENRIETTA: Às vezes o passado é um lugar muito bom para
viver.
HENRIETTA: Não se pode voltar ao passado. É a única coisa
que não podemos fazer — voltar.
EDWARD: O que você realmente quer dizer é que não se
casa comigo por causa de John Cristow. (Pausa.) É isso, não
é? Se não houvesse um John Cristow no mundo, você
casaria comigo.
HENRIETTA: Eu não consigo imaginar um mundo no qual
não existisse John Cristow.
SIR HENRY: (Entra, de smoking, acende as luzes da sala.
HENRIETTA se levanta.) Ande logo, Henrietta. Está quase na
hora do janlar.
HENRIETTA: Eu me vistoem um segundo. (Sai.)
SIR HENRY: (Indopara a mesa das bebidas.) Já está bebendo,
Edward? (Acende a luz.)
EDWARD: Já, obrigado.
SIR HENRY: (Preparando um coquetel.) Não tenho visto
muito você desde que Lucy e eu nos instalamos aqui no
Refúgio.
EDWARD: Não. E como é que vocês estão se sentindo —
tendo abandonado as preocupações de Estado?
SIR HENRY: Muitas vezes eu penso, Edward, que você foi o
mais sábio de toda a familia.
EDWARD: Bem, é um ponto de vista muilo original. Eu
sempre me considerei um perfeito exemplo de total fracasso
na vida.
SIR HENRY: Não, nâo; é tudo uma questão de valores
próprios. Cuidar da propriedade que se tem, cultivar e ler os
livros de que se gosta... (MIDCE entra à E., com vestido de
noite) sem competir na luta pelas realizações materiais...
(Para MIDGE.) Olá, que vestido bonito.
MIDGE: Uma das minhas pechinchas, da loja!
EDWARD: É impossível que você realmente goste de traba-
lhar em uma loja, Midge.
MIDGE: E quem foi que disse que eu gosto?
EDWARD.- Mas, então, por que fica lá?
MIDGE: E você sugere que eu viva de quê? Belos
pensamentos?
EDWARD: (Chocado.) Mas, minha cara, se eu tivesse a menor
idéia de que você estava em dificuldades...
SIR HENRY: Não gaste o tempo à toa, Edward. Ela é
teimosíssima. Recusou uma mesada e não quer vir morar
conosco, muito embora nós já tenhamos implorado. Eu não
consigo imaginar nada mais agradável do que ter a jovem
Midge pela casa.
EDWARD: Por que não vem, Midge?
MIDGE: Eu tenho cá as minhas idéias. Sou pobre, soberba e
preconceituosa. (LADY A. entra, com vestido de noite.)
Ele estão me amolando, Lucy.
LADY ANGKATELL: Estão mesmo, querida?
EDWARD: Eu não gosto da idéia de Midge trabalhando na tal
loja de roupas.
MIDGE: Pois então encontre-me um emprego melhor.
EDWARD: Tem de haver alguma coisa....
MIDGE: Lembre-se de que eu não sou preparada para nada.
Tenho a meu favor um modo de ser agradável e a capacidade
de me manter sob controle quando os outros gritam comigo.
EDWARD:Você quer dizer que as freguesas são grosseiras
com você?
MIDGE. Às vezes, assustadoramente grosseiras. É privilégio
de toda freguesa.
EDWARD: Mas, menina, isso está tudo errado. Se eu tivesse
sabido... (Tira a cigarreira e oferece um cigarro a MID-
GE.)
MIDGE: (Aceitando.) E como é que você ia saber? Seu
mundo e o meu são muito distantes. (Ele acende o cigarro
dela.) Eu sou Angkatell pela metade. A outra metade não
passa de uma mocinha que trabalha, com um fantasma do
desemprego sempre ameaçando de um canto qualquer,
apesar das promessas dos políticos.
SIR HENRY: (Cruzando até MIDGE com dois copos.)
Agora seja uma menina boazinha e beba isto. (Dá-lhe um
copo.) O que foi que deixou a nossa gatinha tão eriçada?
(Ele oferece o outro copo a LADY A.)
LADY ANGKATELL: (A SIR HENRY.) Eu prefiro xerez, que-
rido. Edward às vezes consegue esse tipo de efeito.
GERDA: (Entrando à E, com vestido de noite.)
Desculpem-me se eu estiver atrasada.
LADY ANGKATELL: Mas você não está atrasada, minha
querida.
MIDGE: Acabamos de descer.
SIR HENRY: O que vai tomar, Sra. Cristow... xerez...gim?
(Entra JOHN de smoking, da E.)
GERDA. Ora, gim com qualquer coisa.
JOHN: Eu sou o último?
LADY ANGKATELL: Henrietta ainda não desceu.
(SIR HENRY leva cálice para LADY A. Depois vaiservir a
bebida de GERDA. A conversa fica confusa e mistu-
rada.)
EDWARD: Então é uma de GERDA: Eu acho uma beleza suas
pechinchas, não é Midge?
LADY ANGKATELL: Pechincha? Você quer dizer que compra
de graça? Henry, querido, sabe que esta menina consegue...

(VERÔNICA CRAYE entra ao CA vinda da E do terraço, e
fica parada na porta. É uma mulher muito bonita que
sabe disso. Usa um vestido de noite resplandecente e
carrega bolsinha de noite. Sua presença causa sen-
sação. JOHN olha-a fixamente, como se em transe.
MIDGE e LADY A. levantam-se. Todos se viram para
olhar VERÔNICA.)
VERÔNICA: Suplico que me perdoem — por aparecer assim,
tão repentinamente, em sua casa. Sou sua vizinha, Lady
Angkatell — sou daquela casinha ridícula chamada O
Pombal — e aconteceu uma coisa terrível. Não há um único
fósforo em casa e meu isqueiro não está funcionando. O que
eu podia fazer? A única saída foi vir pedir socorro a meus
únicos vizinhos em um raio de não sei quantas milhas. LADY
ANGKATELL: Mas é claro. Deve ter sido muito desagradável.
VERÔNICA: (De súbito, fingindo ter visto JOHN SÓ
naquele momento.) Não é possível! John! É John Cristow!
(Vai até JOHN e toma-lhe ambas as mãos.) Mas não é
incrível? Há anos e anos que não nos vemos. E, de repente
— encontrá-lo... aqui. É uma surpresa absolutamente
maravilhosa. (A LADY A.) John é meu velho amigo.
(Continua segurando a mão esquerda dele.) Para falar a
verdade, John foi o primeiro homem que eu amei.
SIR HENRY: (Ainda servindo.) Xerez? Ou um martini seco?
VERÔNICA: Não, obrigada. (JOHN pega o xerez das mãos de
SIR HENRY.)
LADY ANGKATELL: Midge, querida, quer tocar a campainha?
(MIDGE vai ao cordão e toca.)
VERÔNICA: Espero que não achem uma coisa horrível eu ter
me intrometido, assim, sem mais nem menos.
LADY ANGKATELL: De modo algum.
SlR HENRY: É uma honra. (Indica MIDGE.) Minha prima,
Srta. Harvey, Edward Angkatell. (Olha para GERDA.)
Ehmmm...
JOHN: Esta é minha mulher, Verônica.
VERÔNICA: (Tomando a mão de GERDA.) Ah, mas que
prazer conhecê-la.
GUDGEON: (Entrando à E.) Chamou, milady?
LADY ANGKATELL: Uma dúzia de caixas de fósforos, por
favor, Gudgeon.

(GUDGEON fica momentaneamente abalado em sua
habitual impassibilidade, mas recupera-se imediata-
mente e sai à E.)
SIR HENRY: A senhora está gostando de morar no Pombal?
VERÔNICA: Adorando. Acho tão maravilhoso estar perdida
no campo — nestes deliciosos bosques ingleses — e assim
mesmo ficar tão pertinho de Londres.
SIR HENRY: A senhora não imagina a emoção que anda
causando na vizinhança. Mas já deve estar acostumada com
esse tipo de coisa.
VERÔNICA: Bem, já andei assinando uns autógrafos. Mas o
que eu gosto, aqui, é que isso não è uma aldeia, as pessoas
não ficam de boca aberta, olhando. Não imaginam como
aprecio a paz de tudo isso.
(GUDCEON entra à E trazendo um pacote com uma dúzia
de caixas de fósforos em uma bandeja de prata.)
LADY ANGKATELL: (Indicando VERÔNICA.) É para madame.
(GUDCEON vai até ela.)
VERÔNICA: (Pegando os fósforos.) Ora, Lady Angkatell...
Eu não posso realmente aceitar...
LADY ANGKATELL: Por favor. Não é nada.
VERÔNICA: Bem, fico muito grata por sua bondade. (GUD-
CEON sai à E.) John, você também mora por aqui?
JOHN: Não, não. Eu moro em Londres. Estou só passando o
fim de semana.
VERÔNICA: Eu nem acredito que nós nos encontramos de
novo, depois de tantos anos. (HENRIETTA entra à E. de
vestido de noite. VERÔNICA olha para HENRIETTA e
levanta-se.) Bem, eu já tenho de voltar, levando minha
grande conquista comigo. John, quer me levar até o fim da
estrada?
JOHN: Naturalmente.
VERÔNICA: E mil vezes obrigada. (Ela sorri para SIR HENRY
e EDWARD, mas ignora as damas.) Foram todos muito
gentis.
(JOHN vai até a mesa das bebidas e deposita seu copo.)
LADY ANGKATELL: Nem por isso.
VERÔNICA: E agora, John, você tem de me contar tudo o que
tem feito nesses anos e anos desde que nos vimos.
GUDGEON: (Entrando à E.) O jantar está servido, milady.
(Sai à E.)
VERÔNICA: Oh, não posso levá-lo na hora do jantar. SlR
HENRY: Não quer ficar para jantar conosco?
VERÔNICA: Nâo, não, não. Nem sonhar. John, você pode vir
depois do jantar? Estou morrendo para saber de todas as suas
novidades. Estarei à sua espera. (Sobe os degraus. Na
porta vira-se para olhar a todos.) E muito, muito
obrigada — a todos.
(Ela sai ao CA para a E. JOHN fica a D da porta do fundo
olhando para ela. LADY A. entrega seu copo a EDWARD,
que o coloca sobre a lareira. MIDGE pousa seu copo
sobre a lareira, vai para a porta à E e abre-a. JOHN sai
para o terraço.)
LADY ANGKATELL: Que grande atuação! Vamos jantar? (Vai
para a porta à E.)
SIR HENRY (Cruza para porta à E. Várias conversas são
iniciadas e as falas que se seguem superpõem-se à
medida que todos vão saindo.) Eu me lembro de ter visto
essa moça em um filme. Usava um sari muito decotado.
(Sai.)
EDWARD: Eu a vi também, mas não me lembro em que fil-
me.
MIDGE: Deve ter sido A História de San Francisco.
Tornou a passar há pouco tempo. (Sai.)
EDWARD: Onde foi que passou? Você viu?
SIR HENRY: Ela deve ter mudado o cabelo. Estava todo solto,
caindo nas costas. Sra. Cristow, o que achou de nossa estrela
de cinema?
GERDA: (Indopara a porta àB.) Ela é muito simpática;
muito simpática, mesmo. (Sai.)
EDWARD: É; é mesmo. Não acha, Henry?
SIR HENRY: Nos filmes ela dá a impressão de ser mais alta.
(Sai.)
EDWARD: Concordo. Mas na vida real elas são diferentes.
(Sai.)
(A conversa continua, fora do palco, à E. JOHN,
esquecido de tudo o mais, continua no terraço, olhan-
do para a E. HENRIETTA vai até a porta à E e vira-se.)
HENRIETTA: Você vem, John?
JOHN: O quê? Ah, vou... é; vou, sim. É claro.
HENRIETTA sai pela E e JOHN segue-a através da porta
enquanto
CAI O PANO


Ato Dois
Cena l

CENÁRIO: o mesmo. Sábado pela manhã.

O pano se abre durante uma linda manhã. O relógio
está batendo onze horas. As portas envidraçadas estão
abertas e o rádio toca música. A canção é I cried for
you. JOHN entra lépido pela E, está cantarolando,
parece feliz e de bom humor. Vai à EC, confere seu
relógio com o que fica sobre a lareira, depois sobe até
o terraço, ao c, tira um cigarro da cigarreira e acende-
o. GUDGEON entra à E; traz uma bandeja de prata com
um bilhete.

GUDGEON: Um bilhete para o senhor, Doutor.
JOHN: Para mim? (Pega o bilhete.)
GUDGEON. Estão esperando por uma resposta, Doutor
JOHN: Parece que vamos ter um dia lindo, Gudgedon.
GUDGEON: Sem dúvida, meu senhor. Embora houvesse
considerável névoa nos baixios, hoje pela manhã.
(JOHN lê o bilhete e franze o cenho.)
JOHN: Não há resposta, Gudgeon.
GUDGEON: (Virando-se para ir para a porta à E.) Muito
bem, meu senhor.
JOHN: Onde é que está todo mundo?
GUDGEON: Milady foi até a granja, meu senhor. Os
cavalheiros foram atirar e creio que a Srta. Harvey e a Srta.
Henrietta estão no jardim.
JOHN: Obrigado, Gudgeon.

(GUDGEON sai à E, JOHN vai até o terraço, relê o
bilhete, solta uma exclamação irada, amarrota-o e
enfia-o em um dos bolsos. MIDGE entra pela D, com uma
braçada de dálias e folhagens.)
MIDGE: Bom dia. (Ajoelha-se, pega o vaso que está sobre a
mesinha de café e começa a enchê-lo de dálias.)
JOHN: Bom dia.
MIDGE: Gerda já se levantou?
JOHN: Não. Tomou café na cama. Estava com dor de cabeça.
Eu disse a ela que, uma vez na vida, ficasse repousando.
MIDGE: Eu tinha planejado ficar a manhã toda na cama, mas
o dia lá fora estava tão lindo que não consegui.
JOHN: Onde está Henrietta?
MIDGE: Não sei. Estava comigo agora mesmo. Talvez tenha
ido para o jardim das rosas. (JOHN sai ao alto para a D e LADY
A. entra à E, carregando uma cesta com ovos.)
LADY ANGKATELL: Música? (Vai até o rádio.) Ah. não, isso,
também, não. (Desligando o rádio.) Chegai Ninguém pode
começar a se sacolejar a esta hora da manhã.
MIDGE: Você podia arrumar essas dálias, Lucy. Elas já me
derrotaram.
LADY ANGKATELL: Verdade, querida? (Pousa sua cesta no
chão à Eda mesa de bebidas.) Que pena — mas pode deixar.
O que era mesmo que eu queria? Ah, já sei. (Ela levanta o
receptor do telefone.) Agora, deixe-me ver — ah, sei, essa
coisa. (Ela aconchega o receptor do telefone primeiro em
um braço, depois no outro, enquanto MIDGE a olha,
espantada. Depois satisfeita.) Ah! Agora já sei o que é.
(Recoloca o fone no lugar.)
MIDGE: Lucy, o que é que você está fazendo?
LADY ANGKATELL: Fazendo?
MIDGE: Dava a impressão de estar brincando de alguma
coisa com o telefone.
LADY ANGKATELL: Ah, era o bebê da Sra. Bagshaw. Você
pegou o vaso errado, querida.
MIDGE: O que foi que você disse?
LADY ANCKATELL: Eu disse que você pegou o vaso errado.
As dálias sempre ficam no vaso branco.
MIDCE: Não, o que é que você estava falando do bebê de
não sei quem?
LADY ANCKATELL: Ah, você está falando do telefone,
queridinha.
MIDGE: Não é de espantar que Gerda Cristow quase tenha
um colapso nervoso cada vez que você conversa com ela.
(Pega o vaso branco e uma jarra de água da mesa das bebidas
e leva-os para a mesinha de café.) O que é que o bebê da Sra.
Bagshaw tem a ver com o telefone?
LADY ANCKATELL: Ela parecia estar segurando o coitadinho
— de cabeça para baixo. Então eu fiquei experimentando, de
vários modos. E é claro que percebi afinal — ela é canhota.
Por isso é que tudo parecia errado. John Cristow já desceu?
MIDGE: Já. Ele foi ao jardim procurar Henrietta.
LADY ANCKATELL: Oh! Você acha que tudo isso é sensato?
MIDGE: O que você quer dizer?
LADY ANCKATELL: Bem, eu não quero dizer nada...
MIDGE: Vamos, Lucy, diga logo.
LADY ANGKATELL: Bem, querida, você sabe que eu não
durmo muito bem, e quando eu não consigo dormir, tenho
mania de ficar andando pela casa.
MIDGE: Eu sei. Metade dos hóspedes acha que são ladrões, a
outra metade acha que são fantasmas.
LADY ANCKATELL: Bem, por acaso eu olhei pela janela do
corredor. John estava voltando para casa, e eram quase três
horas. (Pausa. Elas se olham.)
MIDGE: (Levando o vaso, já pronto, para a mesa das bebi-
das.) Mesmo para velhos amigos com muita coisa para
conversar, três da manhã parece um pouco exagerado. Dá
para imaginar o que Gerda não estará pensando.
LADY ANCKATELL: EU SÓ imagino é se Gerda pensa.
MIDGE: Até mesmo a mais subserviente das mulheres pode
se revoltar.
LADY ANCKATELL: EU acho que Henrietta foi outra que
parece não ter dormido muito bem ontem. A luz do quarto
dela estava acesa e tenho a impressão de ter visto um
movimento nas cortinas.
MIDGE: Fora de brincadeira, John é um idiota.
LADY ANGKATELL: Ele é um homem que sempre se arriscou
— e de modo geral se deu muito bem.
MIDGE: Um dia ele passa dos limites. Esta foi um pouco
forte, até mesmo para ele.
LADY ANGKATELL: Minha filha, esta ele não podia evitar.
Aquela mulher se intrometeu aqui, ontem de noite — e
simplesmente o agarrou. Devo dizer que apreciei muito a
atuação dela. Foi magnificamente planejada, o momento tão
perfeitamente escolhido.
MIDGE: Você acha que foi planejada?
LADY ANGKATELL: Ora, querida, o que é isso?
MIDGE: Você pode dizer, porque não está envolvida, que
foi uma bela atuação — mas resta saber se Gerda ou
Henrietta concordariam com você.
(Entra SIR HENRY carregando dois revólveres.)
SIR HENRY: Vamos praticar um pouco de tiro ao alvo. Quer
experimentar, Midge?
MIDGE: Eu nunca dei um único tiro com pistola ou
revólver na minha vida. Provavelmente iria fazer um buraco
em você, primo Henry.
SIR HENRY: Pode deixar que tomo todas as providências para
que não o faça.
MIDGE: Bem, seria muito agradável pensar que um dia eu
poderia acabar com a alegria de algum assaltante.
SIR HENRY: Toda mulher deveria aprender a usar um
revólver.
LADY ANGKATELL: Agora você se meteu com o hobby de
Henry. Ele tem uma imensa coleção de pistolas e revólveres,
inclusive um belíssimo par de pistolas de duelo, francesas.
(Lê o jornal.)
MIDGE: Mas não é preciso ter licença, para isso?
SIR HENRY: Naturalmente.
MIDGE: E já apareceu algum ladrão?
SIR HENRY: Ainda não, mas nós não perdemos as esperanças.
Se aparecer, é provável que seja abatido por Lucy.
MIDGE: Lucy?
SIR HENRY: Lucy atira muito melhor do que eu. Não erra
nunca.
MIDGE: Eu ficaria petrificada. (Sai com SIR HENRY à D.)
HENRIETTA: (Entrando ao C. da E.) Olá! Os Angkatells vão todos
se exterminar mutuamente?
LADY ANGKATELL: Foram lá para o stand de tiro ao alvo. Por
que não vai juntar-se a eles, Henrietta?
HENRIETTA: Vou, sim. Na última primavera eu atirei bastante
bem. Você também vai, Lucy?
LADY ANGKATELL; Vou, sim. Não. Primeiro tenho de dar um
jeito nos meus ovos. (Ela olha à sua volta.)
HENRIETTA: Ovos?
LADY ANGKATELL: Estão ali, naquela cesta, querida.
(HENRIETTA pega a cesta e entrega-a a LADY A.) Obrigada, meu
bem. (Pousa-a no chão ao lado de sua cadeira e retoma sua leitura.)
HENRIETTA: Onde está Edward?
LADY ANGKATELL: Acho que pegou a espingarda e saiu para a
floresta. Henry ia com ele, mas apareceu não sei quem para
falar de não sei o quê.
HENRIETTA: Sei. (Está perdida em seus pensamentos. Ruído de dois
tiros de revólver.)
LADY ANGKATELL: Não vai trabalhar hoje de manhã?
HENRIETTA.- Não. A idéia secou. (Novo tiro de revólver.)
LADY ANGKATELL: Eu acho tão sensacional, querida — você
fazer todas as coisas abstratas.
HENRIETTA: Pensei que não gostava delas, Lucy.
LADY ANGKATELL: Não, sempre achei que eram pura asneira.
Mas acho maravilhoso que você saiba que não são.
(GERDA entra apressada, da e, com aspecto alarmado.)
GERDA: Eu ouvi tiros — muito perto da casa.
LADY ANOKATELL: Não é nada. É tiro ao alvo — Henry —
eles puseram os alvos lá naquele lugar onde costumavam
jogar boliche.
HENRIETTA: Vem experimentar, Gerda.
GERDA: É difícil.
HENRIETTA: Claro que não. É só fechar os olhos e apertar o
gatilho, que a bala acaba indo para algum lugar.
(Ruído de dois tiros fora. HENRIETTA e GERDA saem à D;
ouve-se um tiro à D. LADY A levanta-se, cruza para a
mesinha de café, pousa o jornal, pega o vaso e as folhagens.
Dois tiros à D. LADY A. cruza até a cesta de papéis, onde joga
as folhagens. Leva o vaso à mesa das bebidas. Dois tiros da D.
JOHN entra ao C, da D. Está fumando.)
JOHN: Começou a guerra?
LADY ANGKATELL: Começou, querido — não, querido. É
Henry. Tiro ao alvo.
JOHN: Eu me lembro que ele gosta muito de atirar.
LADY ANGKATELL: Por que não vai juntar-se a eles?
JOHN. Eu tenho de escrever umas cartas. Será que poderia
escrevê-las aqui?
LADY ANGKATELL: Mas é claro. Encontrará selos na
gavetinha. Se deixar as cartas na mesa da entrada, Gudgeon
providenciará para que sejam despachadas. JOHN: Esta é a
casa mais bem organizada da Inglaterra.
LADY ANGKATELL: Deus o abençoe, meu filho. Agora deixe-
me ver... (Olha em volta.) Onde foi que eu pus meus ovos?
Ah, ali, perto da cadeira. (Ela pega a cesta de ovos e sai pela
porta à E.)
JoHN: EU não tinha compreendido exatamente o que estava
dizendo.
(LADY A. sai, JOHN cruza para a escrivaninha e tira um
bilhete do bolso. Depois de ler amarrota-o e joga-o na cesta
de papéis; ele se senta, suspira profundamente e começa a
escrever. VERÔNICA entra ao CA, vinda da E. Carrega uma
bolsa vermelha, enorme, espetacular.)
VERÔNICA: (Na porta do fundo. Imperiosa.) John.
JOHN: Verônica!
VERÔNICA: Eu mandei um bilhete pedindo que você viesse
imediatamente. Não o recebeu?
JOHN: Sim, recebi.
VERÔNICA: Então, por que não veio? Fiquei esperando.
JOHN: Lamento, mas não era conveniente para mim ir hoje
de manhã.
VERÔNICA: Quer me dar um cigarro?
JOHN: Naturalmente. (Oferece-lhe sua cigarreira.)
VERÔNICA: Eu mandei chamá-lo porque precisamos
conversar. Temos de tomar providências. Para o nosso fu-
turo, quero dizer.
JOHN: E temos algum futuro?
VERÔNICA: É claro que temos um futuro. Desperdiçamos dez
anos. Não há necessidade de perdermos mais tempo.
(Senta-se no centro do sofá com a bolsa ao lado D do
mesmo.)
JOHN: Desculpe, Verônica. Tenho a impressão de que você
entendeu tudo isso da forma errada. Eu — gostei muito de
encontrá-la novamente, mas você sabe que, na verdade, não
temos nada em comum — somos de mundos diferentes.
VERÔNICA: Que bobagem, John. Eu o amo e você me ama.
Nós sempre nos amamos. No passado você foi terrivelmente
cabeçudo. Mas não vale a pena pensar nisso. Olhe, nossos
mundos não se opõem. Não pretendo voltar aos Estados
Unidos tão cedo. Quando acabar o filme que estou fazendo
agora, vou fazer um papel sério numa boa peça em Londres.
Já tenho a peça. É nova. Elderton escreveu para mim. Vai
ser um sucesso fantástico.
JOHN: Tenho certeza que sim.
VERÔNICA: E você pode continuar a ser médico. Ouvi dizer
que você é muito conhecido.
JOHN: (Irritado.) Sou um consultor bastante conceituado no
campo de determinadas moléstias — se é que isso a interessa
— o que duvido.
VERÔNICA: O que eu queria dizer é que nós dois podíamos
continuar com o nosso trabalho. Impossível ser melhor.
JOHN: Você é uma personalidade realmente muito
interessante. Não compreende que sou um homem casado
— que tenho filhos?
VERÔNICA: Bem, no momento eu também sou casada. Mas
essas coisas se arranjam com muita facilidade. Um bom
advogado quebra qualquer galho. (Suave.) Eu sempre quis
casar com você, meu bem. Eu nem sei por que é que eu
sinto essa paixão assim louca por você — (passa os braços
em torno do pescoço de John) mas eu sinto, e pronto!
JOHN: (Afastando-a. Brusco.) Desculpe, Verônica. Não há
o que discutir.
VERÔNICA: Mas eu disse que um bom advogado pode dar um
jeito...
JOHN: Nenhum advogado vai dar jeito de espécie alguma.
A sua vida e a minha não têm nada em comum.
VERÔNICA: Nem depois da noite de ontem?
JOHN: Você não é nenhuma criança, Verônica. Já teve dois
maridos e, sem dúvida, um bom número de amantes.
Exatamente o que "a noite de ontem" significa?
Absolutamente nada, e você sabe muito bem disso.
VERÔNICA: Se você tivesse visto o seu rosto, ontem, quando
entrei por aquela porta — era o mesmo que estar de volta ao
Sul da França há não sei quantos anos.
JOHN: Eu estava de volta ao Sul da França. (Gentil.) Tente
compreender, Verônica. Ontem você me apareceu, como se
saísse do passado. Eu tinha andado pensando em você.
Pensando se eu havia sido tão sensato quanto sempre me
havia julgado — ou apenas covarde. E — de repente — lá
estava você — assim como um sonho que virou realidade.
Mas, mesmo assim, um sonho. Hoje eu estou de volta ao
presente, um homem dez anos mais velho. Um homem que
você não conhece e de quem provavelmente não gostaria
muito, se conhecesse.
VERÔNICA: Você está dizendo que prefere sua mulher a
mim?
JOHN: É — estou, sim. Repentinamente compreendi que
gosto dela muito mais do que pensava. Quando voltei para
esta casa à noite — ou hoje de madrugada — percebi, de
repente, com que estupidez eu havia arriscado perder tudo
de que preciso neste mundo. Felizmente, Gerda estava
dormindo. Não tem a menor idéia da hora em que voltei.
Pensa que saí muito cedo da sua casa.
VERÔNICA: Sua mulher deve ser muito crédula.
JOHN: Ela me ama — e confia em mim.
VERÔNICA: Ela é uma tola! E, seja como for, não acredito em
uma só palavra do que disse. Você me ama.
JOHN: Sinto muito, Verônica. VERÔNICA: Você não me ama?
JOHN: Fui perfeitamente franco com você. Você é uma mu-
lher muito bonita e sedutora, Verônica — mas eu não a
amo.
VERÔNICA: (Furiosa.) Você me pertence, John. Sempre me
pertenceu. Desde que cheguei à Inglaterra que venho
pensando em você, planejando a melhor maneira de tornar a
encontrá-lo. Por que acha que aluguei essa porcaria de
casinhola ai adiante? Simplesmente porque descobri que
você vinha freqüentemente passar fins de semana com os
Angkatells.
JOHN: Então foi tudo planejado, ontem. Hoje de manhã eu
notei que seu isqueiro estava funcionando.
VERÔNICA: Você me pertence.
JOHN: (Com raiva fria.) Eu não pertenço a ninguém. De
onde é que você tirou essa idéia de que pode ser dona de
outro ser humano? Houve tempo em que eu a amei e lhe
pedi que se casasse comigo e compartilhasse a minha vida.
Você se negou.
VERÔNICA: Minha vida e minha carreira eram muito mais
importantes do que as suas. Qualquer pessoa pode ser
médico.
JOHN: Você é mesmo tão importante quanto pensa?
VERÔNICA: Se ainda não cheguei ao topo, estou chegando
muito perto.
JOHN: Será? Duvido um pouco. Falta alguma coisa a você,
Verônica — o que será? Calor humano — generosidade —
você não dá nada. Só toma — tira — agarra — o tempo
todo.
VERÔNICA: (Com voz embargada de fúria.) Você não me
quis há dez anos. E não me quis de novo hoje. Juro por Deus
que farei você pagar por isso!
JOHN: Sinto muito se a magoei, Verônica. Você é muito,
muito bonita, minha querida, e houve um tempo em que a
amei muito. Não podemos deixar as coisas assim?
VERÔNICA: (Vai até a porta do CA e de lá se vira para
ele.) Você se cuide, John Cristow. Eu o odeio como jamais
pensei odiar alguém em toda a minha vida.
JOHN: (Irritado.) Ora!
VERÔNICA: E não se iluda que eu vá acreditar que você está
me largando por causa de sua mulher. Não. É por causa da
outra.
JOHN: Que outra?
VERÔNICA: Aquela que entrou por aquela porta ontem de
noite e ficou olhando para você. Se você não puder ser meu,
também não vai poder ser de mais ninguém, John.
Compreenda bem isso.

(Ela sai com raiva, ao CA, para a E, deixando sua bolsa
no sofá. JOHN fica um momento olhando para ela, de-
pois vai até a escrivaninha, pega o papel em que
estava escrevendo, rasga-o e joga-o na cesta. GUDGEON
entra, vai na direção do sofá, quando vê JOHN.)

GUDGEON: Perdão, senhor Doutor, sabe onde está miladyl
JOHN: Acho que estão todos no tiro ao alvo.
GUDGEON: O tiro ao alvo já acabou há algum tempo, Doutor.
(JOHN tira o bilhete de VERÔNICA do bolso, amassa-o,
joga-o na direção da cesta de papéis, mas não acerta e
o bilhete cai perto da cesta.)

JOHN: Então devem estar em algum lugar, no jardim.
(GUDGEON cruza abaixo do sofá, pega a nota amarrotada,
joga na cesta, depois pega a cesta e sai pela porta à E.
JOHN escolhe um livro na estante e começa a folhear as
primeiras páginas. Há um barulho vindo do terraço à E.
JOHN deixa cair o livro no sofá, vai até o terraço, vira-se
para aE.e mostra repentinos sinais de alarme.) Ora! O
que você está fazendo? Abaixe isso. Ora, você...
(O som de um tiro de revólver é ouvido ao CA. JOHN
cambaleia descendo os degraus, tenta ir à porta à E,
mas desaba no chão à EC. Um revólver é atirado, no
terraço, da E,para o c. Há uma pausa, depois GERDA
entra, rapidamente, pela EB. Ela está carregando sua
bolsa de couro de artesanato. Corre para a E. de JOHN.)
GERDA: John — oh, John! (Cruza para CA., vai até o ter-
raço, apanha o revólver, olha para a E; depois fica no
alto dos degraus, olhando para a frente. GUDGEON entra,
apressado, da E; um momento mais tarde SIR HENRY
entra da D, logo seguido por MIDGE.)
SIR HENRY: O que aconteceu? Cristow! Cristow! Meu Deus,
o que foi que aconteceu? (Ajoelha-se junto a JOHN.)
MIDGE: Gerda — John — o que foi?
GUDGEON: (Ajoelhando-se.) Dr. Cristow! Meu senhor! O
que foi?
SIR HENRY: (Levantando cabeça e ombros de JOHN.) Ele
foi ferido. (Sente o coração de JOHN, que ainda respira.
GUDGEON levanta-se.)
GUDGEON: Ferido? Como aconteceu?
SIR HENRY: Chame um médico, Gudgeon. (GUDGEON vai
para o telefone.)
MIDGE: Ele está morto?
SIR HENRY.- Não. (LADY A. entra à E,e HENRIETTA à D.)
HENRIETTA Eu ouvi — um tiro. (Ajoelha-se junto a JOHN.)
John!John!
(EDWARD entra ao CA. JOHN abre os olhos e olha para
HENRIETTA.)
JOHN: (Tentando levantar-se; em voz alta e
angustiada.)
Henrietta — Henrietta (Cai morto. SIR HENRY sente o
coração de JOHN, depois olha para HENRIETTA e
GERDA.)
GERDA: (Histérica.) Ele está morto — ele está morto. John
está morto. (HENRIETTA cruza até GERDA e tira-lhe o
revólver. LADY A vai até GERDA e passa-lhe o braço
pela cintura.) John está morto.
(O PANO COMEÇA A CAIR)
GUDGEON: (Ao telefone.) Ligue-me com o Dr. Murdock.

CAI O PANO

Cena II

CENÁRIO: O mesmo. Mais tarde, no mesmo dia.
Quando o pano se abre, o tempo mudou, o vento está
ficando mais forte e o céu encoberto. As janelas estão
fechadas, com exceção da parte D das portas ao CA.
LADY A. está sentada no lado D do sofá, tricotando, e
MIDGE na cadeira à DB. EDWARD na poltrona à EC faz
as palavras cruzadas do The Times. HENRIETTA está de
pé no terraço ao CA, e depois de algum tempo desce
para o c, faz uma pausa quando o relógio bate duas
horas, depois anda até a D, para olhar para fora da
janela.
LADY ANGKATELL: EU sabia que o tempo estava bom demais
para durar. E só queria saber como vou me arranjar com a
comida. Essa pessoa... esse Inspetor, e mais o outro — o que
é que se faz? Manda-se uma bandeja, ou coisa no gênero? Ou
será que devem tomar a refeição conosco, mais tarde? Os
policiais nâo parecem nem um pouco com o que se lê nos
livros. Esse Inspetor Colquhoun, por exemplo, é um
gentleman. Eu sei que hoje em dia nâo se deve dizer isso
de ninguém — ficam ofendidos — mas é o que ele é.
(Pausa.) St. Albans! (EDWARD e HENRIETTA olham
surpreendidos para LADY A.)
HENRIETTA: O que é que tem St. Albans?
LADY ANGKATELL: Não, não; Hendon! A faculdade de
Polícia. Completamente diferente do nosso Inspetor
Jackson, daqui, que é muito simpático, mas tem um sotaque
horrível e uns bigodes ainda piores.
(HENRIETTA abre a cortina da recamara, acende a luz e
fica olhando para a estátua.)
MIDGE. Por que foi que mandaram alguém da Scotland Yard?
Eu pensava que a polícia local é que tomava as primeiras
providências.
EDWARD: Estamos em área metropolitana.
MIDGE: Ah, sei. (HENRIETTA vai para lareira, deixando
recamara aberta e acesa.)
LADY ANGKATELL: EU acho que a mulher não toma conta
dele direito. Deve ser do tipo que limpa tudo sem parar, mas
esquece da comida.
EDWARD: Colquhoun?
LADY ANGKATELL: Não, não, querido. O Inspetor Jackson.
Não creio que Colquhoun seja casado. Ainda não. É muito
atraente, não é?
HENRIETTA: Eles estão demorando tanto com Henry.
LADY ANGKATELL: O pior dos assassinatos é que atrapalham
tanto os criados. Primeiro, nos botam para fora daqui para
tirar fotografias, depois nos empurram de volta, tudo junto,
aqui, enquanto fazem seu quartelgeneral da sala de jamar. E
agora esse Inspetor Colquhoun se tranca na biblioteca com
Henry. O que é que se faz com Gerda; vocês sabem? Leva-se
alguma coisa na bandeja? Talvez um bom caldo?
MIDGE: Realmente, Lucy, você é absolutamente desumana.
LADY ANGKATELL: (Surpresa.) Minha querida, tudo isto é
muito perturbador, porém as coisas, como refeições etc.,
têm de continuar. Tudo que me excita me dá fome—e
também me embrulha o estômago.
MIDGE: É, eu sei. É exatamente assim.
LADY ANGKATELL: Ler a respeito de assassinatos em livros e
revistas não dá a menor idéia do quanto eles podem ser
desagradáveis. Eu me sinto como se tivesse andado umas 15
milhas. E só pensar que na semana que vem nós vamos
aparecer no News of the World — talvez até mesmo
amanhã.
EDWARD: Eu nunca leio o News ofthe World.
LADY ANGKATELL: Não? Pois eu leio sempre. Nós fingimos
que compramos para os criados, mas Gudgeon é muito
compreensivo. Jamais o leva para a sala deles antes da noite.
Você deveria lê-lo, Edward. Ficaria surpreendido com o
número de coronéis reformados que fazem propostas
indecorosas a babás. (GUDGEON entra da E com bandeja com
café e sanduíches.) Ah!
GUDGEON: (Cruzando até a mesinha de café.) Devo levar
alguma coisa para Sir Henry e o oficial de polícia, na
biblioteca?
LADY ANGKATELL: Sim, sim; e muito obrigada, Gudgeon. Eu
estou um pouco preocupada com a Sra. Cristow.
GUDGEON: Simmonds já levou-lhe chá, umas torradinhas e
um ovo quente, milady. (Vira-se em direção à E.)
LADY ANGKATELL: Obrigada, Gudgeon. Eu tinha me es-
quecido dos ovos. Eu queria fazer alguma coisa com eles.
GUDGEON: (Parando e virando-se.) Já tomei as providências,
milady. (Com leve traço de ênfase.) Creio que perfeitamente
satisfatórias. Não há necessidade de continuar a se
preocupar. (Sai à E.)
LADY ANGKATELL: Não sei o que eu faria sem ele. Esses
sanduíches substanciais são exatamente o que nós pre-
cisávamos — não é algo tão ofensivo quanto uma refeição,
com todos sentados, e no entanto...
MIDGE: (Começando a chorar, histérica.) Lucy! Pare
com isso!...
(LADY A. parece surpresa, EDWAR D pousa seu jornal e
lápis depois vai até MIDGE epassa-lhe o braço em vol-
ta, enquanto ela soluça incontrolavelmente.)
EDWARD: Midge...
LADY ANGKATELL: Pobrezinha. Tudo isso foi demais para ela.
EDWARD: Não se preocupe, Midge. Está tudo bem. Venha
sentar-se. (Leva-a até o sofá.)
MIDGE: Desculpem-me por ser tão tola.
EDWARD: Nós compreendemos.
MIDGE: Eu perdi meu lenço. (LADY A serve quatro
xícaras de café.)
EDWARD: (Dando seu lenço a MIDGE.) Pronto — aqui está
o meu.
MIDGE: Obrigado.
EDWARD: E tome um café.
MIDGE: Não, eu não quero nada.
EDWARD: Quer, sim. (Entrega uma xícara a ela.) Vamos,
beba isso. Vai se sentir melhor.
LADY ANGKATELL: Quer café, Henrietta?
HENRIETTA: Quero, obrigada. Será que uma de nós não devia
ficar com Gerda? (EDWARD SERVE Henrietta.)
LADY ANGKATELL: Minha filha, eu não sei o que pensar.
(EDWARD serve-se de café.) Não se sabe quais são as
reações dela. Como é que alguém se sentiria depois de ter
matado o marido? Nós simplesmente não podemos saber.
HENRIETTA: Será que não estamos pressupondo com muita
facilidade que Gerda matou o marido? (Pausa embaraçosa.
EDWARD olha para LADY A. constrangido.
LADY A. olha HENRIETTA, tentando se resolver a dizer
alguma coisa.)
EDWARD: Bem, nós a encontramos de pé, junto ao corpo,
com o revólver na mão. Pensei que não havia a menor
dúvida.
HENRIETTA: Mas ainda não ouvimos o que ela tem a dizer.
EDWARD: Para mim, parece evidente.
LADY ANGKATELL: Lembrem-se de que ela sofreu as mais
terríveis provocações. O comportamento de John foi
descarado. Afinal, há maneiras e maneiras de se fazer esse
tipo de coisa. De ser infiel, quero dizer.

(GERDA entra à E, muito abalada e inocente. Carrega
sua bolsa de couro.)

GERDA: (Olhando em volta, pedindo desculpas.) Eu —
eu realmente não conseguia mais ficar deitada. Estava me
sentindo — tão inquieta.
LADY ANGKATELL: Mas è claro que não. (Leva-a para o
sofá, onde a senta.) Venha sentar-se aqui, querida. Midge,
aquela almofadinha. (MIDGE pega a almofada e entrega a
LADY A.) Ponha os pés para cima. (Põe a almofada atrás
da cabeça de Gerda.) Nós estávamos a ponto de comer
uns sanduíches. Quer um?
GERDA: Não, não, obrigada. Eu — eu estou apenas
começando a compreender. Não consegui sentir — ainda
não consigo — que John está morto. Que eu nunca mais o
verei. Mas quem poderia matá-lo?

(Todos parecem constrangidos, SIR HENRY entra, à E,
seguido pelo INSPETOR COLQUHOUN, um homem
tranqüilo e reflexivo, com encanto e senso de humor.
Sua personalidade é simpática. Não pode ser interpre-
tado como um papel cômico. SIR HENRY traz um ca-
chimbo cheio na mão.)

SIR HENRY: O Inspetor Colquhoun gostaria de falar com
Gerda, querida. Será que poderia subir com ele e...
LADY ANGKATELL: Esta é a Sra. Cristow, Inspetor
Colquhoun.
GERDA: (Nervosa.) Sim — sou — o senhor queria falar
comigo? É sobre a morte de John?
INSPETOR: Não desejo perturbá-la, Sra. Cristow, mas gostaria
de fazer-lhe algumas perguntas. A senhora não é obrigada a
respondê-las, a não ser que assim o queira, e tem direito, se
quiser, de ter presente um advogado, antes de fazer qualquer
declaração.
SIR HENRY: É o que eu aconselharia, Gerda.
GERDA: (Sentando-se.) Um advogado? E por que um
advogado? Um advogado não saberia nada a respeito da
morte de John.
INSPETOR: Qualquer declaração que deseje fazer...
GERDA: Eu quero contar. É tudo tão confuso — como um
pesadelo. Eu não consigo chorar. Eu não sinto absolu-
tamente nada.
SIR HENRY: É o choque.
GERDA: Sabe, aconteceu tudo tão depressa. Eu tinha voltado
para casa e estava acabando de descer para pegar minha
bolsa de couro, quando ouvi um tiro — e então eu entrei
aqui e lá estava John — caído, todo retorcido — e sangue —
sangue.
INSPETOR: A que horas foi isso, Sra. Cristow? (LADY A. E
MIDGE olham-se.)
GERDA: Eu não sei. Podia ser meio-dia — ou meio-dia e
meia.
INSPETOR: Onde é que a senhora estava antes de descer?
GERDA: No meu quarto. INSPETOR: Tinha acabado de subir?
GERDA: Não. Estava lá havia uns quinze minutos. Eu tinha
saído, antes. Sir Henry, muito bondosamente, estava
tentando me ensinar a atirar — mas eu fiz tudo tão mal que
nem sequer acertei no papel do alvo. (LADY A. e MIDGE se
olham.) E então eu passeei um pouco — para fazer
exercício — e voltei para casa para buscar minha bolsa de
couro trabalhado, subi, desci e, então, como já disse — ouvi
um tiro e entrei aqui — e lá estava John, morto. HENRIETTA:
Morrendo. (Pega um cigarro na caixa da mesa e
acende-o no que já estava fumando. Todos olham para
HENRIETTA.)
GERDA: Eu pensei que ele estava morto. Havia sangue e o
revólver. Eu peguei o revólver...
INSPETOR: Onde a senhora o pegou, Sra. Cristow? (Pausa
tensa. Todos olham.)
GERDA: Eu não sei.
INSPETOR: A senhora não deveria ter tocado nele, sabe?
GERDA: Não?
INSPETOR: E depois o que foi que aconteceu?
GERDA-. Depois os outros entraram e eu disse "John está
morto — alguém matou John". Mas quem poderia tê-lo
matado? Quem no mundo haveria de poder querer matá-lo?
(SIR HENRY repentinamente acende seu cachimbo.
EDWARD observa-o.) John, o melhor dos homens, tão bom,
tão generoso. Sempre se sacrificando. Seus pacientes o
adoravam. Deve ter sido alguma espécie de acidente —
deve ter sido isso.
MIDGE: Não poderia ter sido suicídio?
INSPETOR. Não. O tiro foi disparado a pelo menos quatro pés
de distância.
GERDA: Mas tem de ter sido um acidente.
INSPETOR: Não foi acidente, Sra. Cristow. Não havia
desavenças entre a senhora e ele?
GERDA: Entre nós dois? Não.
INSPETOR: Tem certeza?
GERDA: Ele ficou um pouco irritado comigo quando eu es-
tava guiando a caminho daqui. Eu faço muito mal as
mudanças. Eu — eu não sei por que, mas quando estou no
carro com John parece que nunca consigo fazer nada certo.
Eu fico nervosa.
INSPETOR: Mas não havia desavenças sérias? Brigas?
GERDA: Brigas? Entre mim e John? Não, Inspetor. Eu e John
jamais brigávamos. Ele era tão bom, tão gentil.
(Ela começa a chorar.) E eu nunca mais vou tornar a vê-
lo. (MIDGE desce para E do sofá.)
(Para GERDA.) Querida. (Para Midge) meu bem, por favor.
(Indo até GERDA e ajudando-a (juntos) 4 a levantar.) Eu a
levarei para cima, Lucy. É só, Sra. Cristow. Por favor — eu
quero ir para o meu quarto.
(O INSPETOR acena com a cabeça.)
MIDGE: Isso; vamos descansar um pouco. Você vai se sentir
melhor.
LADY ANGKATELL: Peça um saco de água quente a
Simmonds. (MIDGE leva GERDA pela porta à E. Para o
INSPETOR.) Ela o adorava.
INSPETOR.- Sei, sei. Agora gostaria de conversar com todos,
porém um de cada vez. Se não se importasse, talvez, Lady
Angkatell...
LADY ANGKATELL: Claro que não, Inspetor. Quero fazer
tudo o que puder para ajudar. Temos de cooperar ao
máximo.
INSPETOR: Exatamente isso é que nós gostaríamos.
LADY ANGKATELL: (Confidencial.) Para falar a verdade,
é
meu primeiro assassinato. INSPETOR: É mesmo?
LADY ANGKATELL: É. Claro que para o senhor já é tudo ro-
tina. Deve viver correndo daqui para lá, prendendo gente,
enviando carros de patrulha...
INSPETOR: Nosso dinamismo não é assim tão intenso...
SIR HENRY: Minha mulher gosta muito de ir ao cinema,
Inspetor.
INSPETOR: Temo que na vida real tudo seja muito mais
entediante do que na tela. Ficamos apenas fazendo um
monte de perguntas um tanto cansativas a um sem-número
de pessoas.
LADY ANGKATELL: (Radiosa.) E agora o senhor quer me fa-
zer uma porção de perguntas. Bem, eu farei tudo o que
puder para ajudar. Desde que não me pergunte que horas
eram, ou onde é que eu estava, ou o que estava fazendo.
Porque isso è o tipo de coisa de que eu nunca me lembro —
desde criança.
SiR HENRY: Não desencoraje muito o Inspetor, querida. (Ele
vai abrir a porta da E.) Posso ir, também?
INSPETOR: Eu ficaria encantado, Sir Henry.
SIR HENRY: As frases de minha mulher às vezes são um
pouco difíceis de se acompanhar. Eu poderei servir de
intérprete.
(LADY A sai à E.O INSPETOR e SIR HENRY seguem-na.
HENRIETTA sobe até o terraço e fica olhando para fora.
EDWARD observa-a em silêncio alguns instantes. Ela
não lhe dá a menor atenção.)
EDWARD: Não está tão quente quanto ontem.
HENRIETTA: Não, não — está frio — é a friagem do outono.
EDWARD: É melhor você entrar — senão se resfria.
HENRIETTA-. Acho que vou dar uma caminhada.
EDWARD: Acho melhor não.
HENRIETTA: Por quê?
EDWARD: Bem, primeiro porque vai chover — e depois —
eles poderiam achar esquisito.
HENRIETTA: Você acha que um policial seguiria as minhas
pegadas pela floresta afora? EDWARD: Eu realmente não sei.
Ninguém pode saber o que estão pensando — a coisa toda
parece tão óbvia.
HENRIETTA: Você quer dizer Gerda?
EDWARD: Bem, e quem mais poderia ser?
HENRIETTA: Quem mais teria motivo para matar John
Cristow?
EDWARD: É.
HENRIETTA: E Gerda tinha algum motivo?
EDWARD: Se descobrisse umas coisas aí — afinal, ontem à
noite...
HENRIETTA: Você quer dizer John e Verônica Craye?
EDWARD: (Um pouco embaraçado.) Bem, é.
(Impaciente.) Ele devia estar louco.
HENRIETTA: Estava. Paixão adolescente não resolvida,
mantida congelada, e repentinamente liberada. Ele estava
louco, sem dúvida.
EDWARD: Ela é uma mulher extraordinariamente bonita, de
uma beleza um tanto dura. Mas não vejo como possa fazer
alguém perder a cabeça.
HENRIETTA: E suponho que John também não visse — hoje
de manhã.
EDWARD: É uma história de muito mau gosto.
HENRIETTA: É. Acho que vou caminhar um pouco.
EDWARD: Então eu vou com você.
HENRIETTA: Prefiro ficar sozinha.
EDWARD: EU vou com você.
HENRIETTA: Será que não compreende? Quero ficar sozinha
— com meus mortos.
EDWARD: Sinto muito. (Pausa.) Henrietta, eu não disse nada
— pensei que você preferisse que não. Mas você sabe, não
sabe, o quanto eu sinto?
HENRIETTA: Sente? (Sorriso amargo.) Que John Cristow
esteja morto?
EDWARD: Quero dizer — por você. Sei que foi um choque
tremendo.
HENRIETTA: Choque? Mas eu sou rija, Edward. Eu agüento os
choques. Foi um choque para você? Eu me pergunto o que
você sentiu quando o viu atirado ali? Satisfação, talvez?
(Acusando-o.) Você ficou satisfeito?
EDWARD: É claro que não. Cristow e eu não tínhamos
nada em comum, mas...
HENRIETTA: Vocês tinham a mim em comum. Os dois
gostavam de mim, não gostavam? Porém isso não os unia —
muito pelo contrário.
EDWARD: Henrietta, não seja tão amarga. Eu realmente sinto
por você essa perda — a sua dor.
HENRIETTA: (Sombria.) Será dor?
EDWARD: O que é que você quer dizer?
HENRIETTA: (Para si mesma.) Tão depressa. Pode acontecer
tão depressa. Num instante, vivo — respirando — e no
outro — morto — acabado — o vazio. Ah, o vazio. E aqui
estamos nós, comendo sanduíches e tomando café e
dizendo que estamos vivos. E John, que tinha muito mais
vida do que qualquer um de nós, está morto. Eu fico
repetindo a palavra, sabe, sem parar, para mim mesma.
Morto — morto — morto — morto — morto.
EDWARD: (Sacudindo-a pelos ombros.) Henrietta.
Henrietta! Pare com isso...
HENRIETTA: (Recobrando o controle, tranqüila.) Você
não sabia que eu podia me sentir assim? O que é que você
pensava? Que eu ia me sentar elegantemente enxugando o
cantinho do olho com um lencinho enquanto você segurava
a minha mão? Que ia ser um grande choque para mim, mas
que daqui a pouco tudo começaria a passar? E que você me
confortaria muito gentilmente? Você é gentil, Edward... mas
isso não basta.
EDWARD: (Profundamente magoado.) Sim, eu sempre
soube disso.
HENRIETTA: Como é que você acha que tem sido este dia
aqui, hoje? Com John morto e ninguém se importando, a
não ser Gerda e eu. Com você contente, Midge aflita e Lucy
divertindo-se, muito delicadamente, é claro, em ver o News
of the World passar a realidade para letra de fôrma. Será
que agora consegue perceber que pesadelo terrível tem sido?
EDWARD: Consigo.
HENRIETTA: Neste momento nada me parece real, a não ser
John. Eu sei que estou sendo brutal com você, Edward, mas
não posso evitá-lo, não posso deixar de ficar ressentida que
seja o John, tão cheio de vida, que esteja morto...
(Interrompe-se.)
EDWARD: E que eu — que sou meio morto esteja vivo?
HENRIETTA: Não foi isso que eu quis dizer, Edward.
EDWARD: Eu acho que foi, Henrietta. (HENRIETTA faz um
gesto sem esperança, e sai à D. EDWARD parece estar no
meio de um sonho. MIDGE entra pela E.)
MIDGE: Brrr! Está frio aqui.
EDWARD: (Ausente.) É.
MIDGE: Onde estão os outros?
EDWARD: Não sei.
MIDGE: O que é que há? (Fecha as portas.) Você queria tu-
do aberto? Edward (toca-lhe a mão) — você está gelado.
(Toma-lhe a mão e leva-o para junto da lareira.) Venha para
cá que eu acendo o fogo. (Pega fósforos em cima da lareira,
ajoelha-se e acende o fogo.)
EDWARD: (Muito comovido.) Você é uma criança
adorável, Midge. (Senta-se.)
MIDGE: Não, eu não sou criança. Vocês ainda usam pinhas
para fazer fogo, em Ainswick?
EDWARD: Ninguém merecia viver sozinho, lá.
MIDGE: Henrietta saiu?
EDWARD: Saiu.
MIDGE: Que idéia mais esquisita. Está chovendo.
EDWARD: Ela está muito perturbada. Você sabia que ela e
John Cristow...
MIDGE: Estavam tendo um caso? Naturalmente que sim.
EDWARD: Acho que todo mundo sabia.
MIDGE: Todo o mundo, menos Gerda.
EDWARD: Que o diabo o leve!
MIDGE: (indo até EDWARD e ajoelhando-se.) Meu amor —
não fique assim.
EDWARD: Até morto — ele a tem.
MIDGE: Por favor, não, Edward.
EDWARD: E ela mudou tanto, desde aqueles tempos, em
Ainswick.
MIDGE: Todos nós mudamos.
EDWARD: Eu não. Eu apenas fiquei parado.
MIDGE: E quanto a mim?
EDWARD: Você não mudou.
MiDGE: (Com amargura.) Como é que você sabe?
Você nunca olha para mim. (EDWARD leva um susto e
toma o rosto dela em sua mão esquerda.) Eu sou uma
mulher, Edward. (GUDGEON entra à D, MIDGE levanta-
se.)
GUDGEON: O Inspetor gostaria de vê-lo na sala de
jantar, senhor.
EDWARD: Ah, sim, está bem.
(Sai à E e GUDGEON fecha a porta. Durante o diálogo
seguinte GUDGEON reúne na bandeja as xícaras, etc.,
que ficaram espalhadas por vários pontos da sala.)

MIDGE: A Sra. Cristow ainda está descansando?
GUDGEON: Creio que sim, senhorita. O Dr. Murdock
receitou alguns comprimidos, e Simmonds tem
ordens para dar-lhe um a cada duas horas.
MIDGE: Você gostaria que uma de nós ficasse lã em
cima com ela?
GUDGEON: Não é realmente necessário, senhorita.
Simmonds é de toda confiança.
MIDGE: Tenho certeza que sim.
GLDGEON: Obrigado, senhorita. Com licença.
(Ela sai à E. MIDGE fecha a porta. HENRIETTA aparece no
terraço ao alto, vinda da E, e bate no vidro. MIDGE
deixa HENRIETTA entrar, depois fecha a porta.)
MIDGE: Que susto você me pregou. (Indica a D.)
Esperava que chegasse por lá.
HENRIETTA: Eu fiquei dando voltas e voltas na casa.
Que bom que você acendeu o fogo.
MIDGE: (Acusadora.) O que você fez com Edward?
HENRIETTA: (Distraída.) Edward?
MIDGE: E. Quando eu entrei, há pouco, ele estava
com um aspecto terrível — gelado, pálido como a
morte.
HENRIETTA: Midge — Midge, se você gosta tanto de Edward,
por que não faz alguma coisa em relação a isso?
MIDGE: Fazer alguma coisa? O que é que você quer dizer?
HENRIETTA: (Impaciente.) Sei lá. Subir em uma mesa e gri-
tar. Chamar a atenção dele para você. Será que não sabe que
essa é a única esperança, com um homem como Edward?
MIDGE: Não acredito que Edward venha a gostar de mais
alguém e esqueça você, Henrietta.
HENRIETTA: O que não seria muito inteligente da parte dele.
MIDCE: É possível — mas é verdade.
HENRIETTA: Ele nem sabe como eu sou. Ele continua gos-
tando da imagem que tem do que eu fui um dia. Hoje em dia
— eu odeio Edward.
MIDGE: Você não pode odiar Edward. Ninguém pode
odiar Edward.
HENRIETTA: Eu posso.
MIDGE: Mas, por quê?
HENRIETTA: Porque ele me lembra uma porção de coisas que
quero esquecer.
MIDGE: Que coisas?
HENRIETTA: Ainswick.
MIDGE: Ainswick? Você quer se esquecer de Ainswick?
HENRIETTA: Quero, quero. Eu era feliz em Ainswick. Será
que não compreende que eu não suporto me lembrar de
uma época em que eu era feliz? (LADY A. entra
abruptamente.) Eu nunca mais voltarei a Ainswick (Vai
até a porta à E, ignora LADY A. e sai.)
LADY ANGKATELL: O que foi que ela disse?
MIDGE: Que nunca mais irá a Ainswick.
LADY ANGKATELL: Ora, eu acho que irá sim, querida.
MIDGE: Você quer dizer — que ela irá casar-se com Edward.
LADY ANGKATELL: É. Acho que sim. (Animada.) Agora que
John Cristow não está mais no caminho. Sim,
creio que ela irá casar-se com Edward. Tudo está se
resolvendo da melhor forma, não acha? MlDGE: É possível
que John Cristow não achasse a mesma coisa.
LADY ANGKATELL: Não — mas, afinal, eu não estava pen-
sando nele.
(O INSPETOR entra à E. seguido pelo SARGENTO DETETIVE
PENNY. O SARGENTO está à paisana e carrega um
caderno de notas ao qual freqüentemente se refere e
no qual faz novos assentamentos.)
INSPETOR: A Senhorita Angkatell está por aí? MlDGE: Acho
que ela subiu para mudar de roupa. Quer que vá chamá-la?
LADY ANGKATELL: Não, deixem que eu vá. Eu quero ver
como está Gerda. (Oferece bombons ao INSPETOR.) Quer
um? São recheados.
INSPETOR: Não, obrigado.
LADY ANGKATELL: (Oferecendo ao SARGENTO.) Aquele ali
tem gelatina dentro.
SARGENTO: Não, obrigado. (Ela sai à E.)
INSPETOR: Srta. Harvey, não é?
MIDGE: Sou Margerie Harvey.
INSPETOR: Não mora aqui? Sente-se, por favor.
MIDGE: Não. Em Londres. 27, Strathmere Mansions, W2.
INSPETOR: Mas é parente da família?
MIDGE. Minha mãe era prima-irmã de Lady Angkatell.
INSPETOR: E onde estava quando foi dado o tiro?
MIDGE: No jardim.
INSPETOR: Estavam todos um tanto espalhados, não estavam?
Lady Angkatell estava voltando do galinheiro. O Sr.
Angkatell estava descendo da floresta. A senhorita, do
jardim; e a Sra. Cristow de seu quarto. Sir Henry veio do tiro
ao alvo. E a Srta. Angkatell?
MIDGE: Estava em algum lugar no jardim.
INSPETOR: Bem, em conjunto cobriram todas as direções
possíveis. Agora, Srta. Harvey, eu gostaria que me
descrevesse o que viu logo que entrou aqui, com o maior
cuidado.
MIDGE: (Apontando.) John Cristow estava caído ali. Havia
sangue — A Sra. Cristow estava em pé — com um revólver
na mão.
INSPETOR: E a senhorita pensou que ela o havia matado?
MIDGE: Para falar francamente, pensei.
INSPETOR: Não tinha dúvidas?
MIDGE: Não; naquele momento, não.
INSPETOR: Mas agora tem. Por quê?
MIDGE: Compreendi que havia tirado uma conclusão
precipitada.
INSPETOR: E por que estava tão certa de que ela o havia
matado?
MIDGE: Talvez porque ela estivesse com o revólver na mão.
INSPETOR: Mas a senhorita deve ter pensado que ela tivera
alguma razão para atirar nele. MIDGE: (Muito perturbada.)
Eu...
INSPETOR: Então, Srta. Harvey?
MIDGE: Eu não sei de razão nenhuma.
INSPETOR: Na verdade, pelo que sabe, eles formavam um
casal muito unido?
MIDGE: Oh, sim, muito.
INSPETOR: Compreendo. Vamos continuar. O que aconteceu
então?
MIDGE: Eu acho — é, Sir Henry ajoelhou-se perto dele. E
disse que ele não estava morto. Ele mandou Gudgeon
chamar o médico.
INSPETOR: Gudgeon? Ah, o mordomo. Então ele também
estava aqui.
MIDGE: Estava. Gudgeon foi até o telefone e exatamente
nesse instante John abriu os olhos. Tenho a impressão de
que ele lutou para levantar-se. E então — então ele morreu.
Foi horrível.
INSPETOR: E foi SÓ isso?
MIDGE: Foi.
INSPETOR: Ele não disse nada antes de morrer?
MIDGE: Creio que ele disse "Henrietta".
INSPETOR: Ele disse "Henrietta".
MIDGE: Ela — (agitada) ela estava bem em frente a ele
quando ele abriu os olhos. Ele estava olhando para ela.
INSPETOR: Compreendo. Por enquanto, é tudo, Srta. Harvey.
MIDGE: (Indo para a porta à E.) Bem, é melhor que eu vá
chamar Henrietta. Lady Angkatell, como sabe, é um tanto
distraída. Ela normalmente esquece o que ia fazer. (O
SARGENTO abre a porta para ela e depois fecha.)
INSPETOR: (Pensativo.) Lady Angkatell é tão desnorteada...
SARGENTO: Para mim ela é maluca.
(O INSPETOR estende a mão e o SARGENTO dá-lhe o
caderno de notas.)
INSPETOR: O que será? O que será? (Folheia o caderno.)
Discrepâncias muito interessantes. Lady Angkatell diz:
(lendo) "Ele murmurou alguma coisa antes de morrer, mas
não foi possível entender o quê."
SARGENTO: Talvez ela seja surda.
INSPETOR: Não, não; não creio que seja. Segundo Sir Henry,
John Cristow disse "Henrietta" em voz alta. Quando eu o
sugeri — porém não antes — a Srta. Har-vey disse a mesma
coisa. Edward Angkatell diz que Cristow morreu sem dizer
uma só palavra. Cudgeon não se lembra, exatamente. Todos
eles sabem de alguma coisa, Penny, mas não contam.
SARGENTO: Nós chegamos lá. O senhor acha que a mulher é
que atirou nele? (Toma o caderno do INSPETOR e afasta-
se.)
INSPETOR: As mulheres tantas vezes têm razões tão boas para
atirar nos maridos que já temos a tendência de suspeitar
automaticamente delas.
SARGENTO: Bem, está na cara que todos os outros pensam
que foi ela.
INSPETOR: Ou será que todos querem que seja ela?
SARGENTO: O que quer dizer, exatamente o quê?
INSPETOR: Esta casa tem um ar de solidariedade familiar.
Todos eles são aparentados. A Sra. Cristow é a única
estranha. Sim, creio que eles ficariam muito contentes de ter
a certeza de que foi ela.
SARGENTO: Mas o senhor não tem certeza?
INSPETOR: Na realidade, qualquer um poderia ter atirado
nele. Neste caso não há álibis. Não há locais nem horas a
serem verificados. Dê uma olhada nas entradas e saídas.
Você poderia atirar nele do terraço, correr em volta da casa
e entrar por ali — (Indica porta à D.) Ou entrar pela porta
principal e o hall, e se disser que esteve na horta ou no
galinheiro ou na floresta, ninguém poderá verificar.
(Olhapara a D.) Há arbustos e vegetação rasteira até bem
junto à casa. Pode-se brincar de esconde-esconde por aí
horas a fio. O revólver foi um dos usados para o tiro ao alvo.
Qualquer um poderia tê-lo pegado e todos o haviam
manuseado, muito embora as únicas impressões claras sejam
as da Sra. Cristow e de Henrietta Angkatell. No final, tudo se
resume em saber que tipo de homem era John Cristow.
Quando se sabe tudo a respeito de um homem, pode-se ter
um bom palpite a respeito de quem poderia querer matá-lo.
SARGENTO: Isso tudo nós vamos descobrir em Londres,
em Harley Street. Secretária, empregados, sabe como é.
INSPETOR: Conseguiu alguma coisa com os empregados
daqui?
SARGENTO: Ainda não. São todos muito empertigados.
Infelizmente não há ajudante de cozinha. Eu sempre faço
sucesso com elas. Mas há uma ajudante de arrumadeira, que
dorme fora, com a qual ainda tenho esperanças,. Se não
precisar de mim agora, vou trabalhar um pouco nela.
(O INSPETOR acena com a cabeça, o SARGENTO sai à E. O
INSPETOR vai até a porta da D, olha um momento para
fora, depois volta e sai para o terraço. Volta e vem
sentar-se no sofá. Sente alguma coisa debaixo da
almofada atrás dele, retira-a e encontra a bolsa
vermelha de VERÔNICA. Abre a bolsa, olha dentro da
mesma, demonstra surpresa, fecha a bolsa, pesa-a com
a mão. Ao fazê-lo, ouve vozes, fora à E.
Imediatamente repõe a bolsa no sofá e cobre-a com a
almofada.)

MIDGE: (Fora à E.) Ah, você está aí, Henrietta. O Inspetor
quer vê-la.
HENRIETTA: (Fora.) Obrigada, Midge. Lucy acaba de me
dizer. Vou vê-lo agora.
MIDGE: (Fora.) Ótimo. Fiquei com medo que ela esqueces-
se.

(HENRIETTA entra pela E.)
HENRIETTA: (Entrando e fechando a porta.) O senhor
queria falar comigo?
INSPETOR: Queria, Srta. Angkatell. A senhorita também é
parente, não é?
HENRIETTA: Sou. Somos todos primos. É tudo meio confuso
porque Lady Angkatell casou-se com um primo em segundo
grau, de modo que é também Angkatell de solteira.
INSPETOR.- Então é um grupo familiar — com exceção do
Dr. E da Sra. Cristow?
HENRIETTA: Exato.
INSPETOR: Será que poderia me fazer seu relato do que
aconteceu?
HENRIETTA: Eu estava no jardim das flores. (Aponta para a
D.) É daquele lado. Não muito longe da casa. Ouvi o tiro e
compreendi que vinha da casa e não da área de tiro ao alvo,
que é lá embaixo. Achei muito estranho, por isso resolvi vir
até aqui.
INSPETOR: E entrou por onde?
HENRIETTA: (Apontando para a D.) Por ali.
INSPETOR: Quer descrever o que viu?
HENRIETTA: Sir Henry e Gudgeon, o mordomo, estavam
curvados sobre John. A Sra. Cristow estava ao lado deles.
Segurava o revólver na mão.
INSPETOR: E a senhorita deduziu que ela havia atirado ne-
le?
HENRIETTA: Por que razão haveria de fazê-lo?
INSPETOR: Mas, de fato, não pensou que ela tinha dado o
tiro?
HENRIETTA: Não, não pensei, não.
INSPETOR: Pensou o quê, então?
HENRIETTA: Eu acho que eu não pensei em nada. Foi tudo
tão inesperado. Sir Henry disse a Gudgeon que chamasse um
médico e ele foi telefonar.
INSPETOR: Quem mais estava na sala?
HENRIETTA: Todo mundo, eu acho. Não— Edward chegou
depois de mim.
INSPETOR: Vindo de onde?
HENRIETTA: Do terraço.
INSPETOR: E aí?
HENRIETTA: E aí — John morreu.
INSPETOR: Ele ficou consciente antes de morrer?
HENRIETTA: Ah, sim; ele abriu os olhos.
INSPETOR: E chegou a dizer alguma coisa?
HENRIETTA: (Após uma pausa.) Ele disse "Henrietta".
INSPETOR: A senhorita o conhecia bem?
HENRIETTA: Muitíssimo bem.
INSPETOR: Ele não disse nada mais?
HENRIETTA: Não.
INSPETOR. O que aconteceu depois?
HENRIETTA: Deixe-me ver — ah, sim, Gerda deu um grito.
Ela estava cambaleando, sacudindo o revólver para todo
lado. Fiquei com medo que pudesse dispará-lo. Tirei-o dela e
tentei levá-la para o sofá.
INSPETOR: A senhora era mais particularmente amiga do
Dr. Cristow ou da Sra. Cristow?
HENRIETTA: Essa é uma pergunta muito difícil de responder.
INSPETOR: (Compreensivo e gentil.) É mesmo, Srta.
Angkatell?
HENRIETTA: (Resoluta.) Bem, vou direto ao ponto. Eu era
amante de John Cristow. Era isso o que o senhor queria
saber, não era?
INSPETOR: Muito obrigado, Srta. Angkàtell. (Tira uma
cigarreira do bolso e oferece a ela. Muito delicado.)
Sinto muito, porém temos de saber de todos os fatos.
HENRIETTA: (Aceitando o cigarro. Seca.) Se esse fato
particular não for relevante para o caso — e não vejo como
possa ser — haverá alguma necessidade de torná-lo público?
Não por mim. Mas por trazer à Sra. Cristow muita dor
desnecessária.
INSPETOR: (Acendendo o cigarro de HENRIETTA.) A Sra.
Cristow não tinha noção do seu relacionamento com o
marido dela?
HENRIETTA: Nenhuma.
INSPETOR: Tem certeza absoluta disso?
HENRIETTA: Absoluta.
INSPETOR: Há quanto tempo o Dr. Cristow e a senhorita
estavam apaixonados.?
HENRIETTA: Tornei-me sua amante há seis meses. Não disse
que estivéssemos apaixonados.
INSPETOR: (Observando-a com renovado interesse.) Não
tenho certeza de compreender o que quer dizer, Srta.
Angkàtell.
HENRIETTA; Creio que entenderá depois que pensar um
pouco.
INSPETOR: Não se pensava na possibilidade de um divórcio?
HENRIETTA: Claro que não. É isso o que estou tentando
explicar. John Cristow já tinha tido outros casos com outras
mulheres. Eu era apenas parte — de uma procissão. Não
creio que ele realmente se importasse com qualquer mulher
que não fosse a sua. Mas ela não era do tipo de mulher com
quem ele pudesse falar a respeito de seu trabalho. Ele estava
pesquisando uma moléstia um tanto obscura. Ele era muito
brilhante e a pesquisa era a verdadeira paixão de sua vida.
Adquiriu o hábito de vir ao meu estúdio discuti-la comigo.
Para falar a verdade ficava tudo um pouco acima do meu
conhecimento, mas eu comprei uns livros a respeito e
estudei um pouco, para poder compreender melhor. E
minhas perguntas, mesmo que não fossem muito técnicas,
ajudavam-no a formular suas próprias idéias. (Ela fala muito
naturalmente, como a um amigo.) E então — de repente —
eu fiquei entre John e o que ele estava pensando. Comecei a
afetá-lo como mulher. Ele não queria se apaixonar por mim
— tinha-se apaixonado quando muito jovem e desde então
tivera medo de passar pelo mesmo tipo de coisa. Não, ele
queria apenas um caso, como os outros casos que já tivera.
Creio que pensava que se tivesse um caso comigo sé livraria
de mim como idéia, de modo que, posteriormente, eu
deixaria de distrai-lo de seu trabalho.
INSPETOR: E isso era satisfatório também para a senhorita?
HENRIETTA: Não, nâo, é claro que não. Mas tinha de bastar.
Eu amava John Cristow e ficava comente em saber que ele
tinha o que queria.
INSPETOR: Compreendo. Então era assim. HENRIETTA: Eu
estava esquecendo que o senhor é um policial.
INSPETOR: Os policiais são muito parecidos com os outros
homens. E ouvimos muita coisa que hão é estritamente
pertinente... talvez por sermos impessoais — assim como os
padres.
HENRIETTA: É, imagino que devem ter de aprender muito a
respeito do coração humano. (A frase que se segue soa um
tanto falsa.) De modo que agora o senhor compreende por
que John disse "Henrietta" antes de morrer. (O SARGENTO
entra à E.)
INSPETOR: Um pequeno ponto, Srta. Angkatell — por que
tirou o revólver da Sra. Cristow?
HENRIETTA.- Eu já lhe disse. Pensei que ela fosse desmaiar.
INSPETOR: Foi um dos revólveres usados no tiro ao alvo. As
únicas impressões claras são as da Sra. Cristow e,
naturalmente, as suas. (Pausa.) Teria sido melhor se nin-
guém o tivesse tocado.
HENRIETTA: Nào se pensa nessas coisas, na hora. É só,
Inspetor?
INSPETOR: Sim, Srta. Angkatell; no momento, é só.
(O SARGENTO abre a porta à E para sair, depois torna a
fechá-la.)
SARGENTO: Arrancou alguma coisa útil dela?
INSPETOR: Ela era amante de Cristow. Disse que isso explica o
fato de ele ter dito "Henrietta" antes de morrer.
SARGENTO: Bem, parece razoável.
INSPETOR: Se for verdade.
SARGENTO: Que outra razão poderia ele ter para dizer o no-
me dela?
INSPETOR: Poderia ter sido — uma acusação.
SARGENTO: O senhor quer dizer que ela pode ter liquidado
com ele?
INSPETOR: É possível.
SARGENTO. EU aposto na mulher. Se a Sra. Cristow tivesse
descoberto tudo a respeito do marido com essa Henrietta,
teremos o que precisamos — um motivo.
INSPETOR: Henrietta Angkatell diz que ela não sabia.
SARGENTO. Ninguém pode ter certeza. Vai ver que alguém
contou à Sra. Cristow, não é?
INSPETOR. (Indo à recamara e olhando para a estátua.)
Ela nào poderia esconder seus sentimentos muito tempo.
Não é do tipo que pode.
SARGENTO: E os outros? Estão todos limpos, então?
INSPETOR: Não parece haver alguma razão para nenhum
deles desejar a morte de John Cristow. Mas ainda há muita
coisa que não sabemos. Estão todos de orelha em pé e muito
cuidadosos a respeito do que nos dizem.
SARGENTO: Não consigo ver nenhuma razão para Sir Henry
ou Lady Angkatell poderem querer tirar John Cristow do
caminho.
INSPETOR: Nem aquela menina — a Srta. Harvey. Mas é
preciso lembrar a declaração de Edward Angkatell: "John
Cristow disse alguma coisa antes de morrer? Nada." Uma
negativa total de uma coisa que sabemos ser verdade. Tanto
Sir Henry quanto a Srta. Harvey dizem que John Cristow
disse "Henrietta" em alto e bom som.
SARGENTO: O senhor acha que Edward Angkatell está caído
pela tal Henrietta?
INSPETOR: É o que penso.
SARGENTO: E fez o que pôde para não envolvê-la na história
toda?
INSPETOR: Exatamente.
SARGENTO: É — parece que foi isso mesmo.
INSPETOR: E, admitindo isso, Penny, nós ficamos com mais
um suspeito.
SARGENTO: Edward Angkatell?
INSPETOR: (Sentando na ponta D do sofá.) Sim. É do tipo
nervoso. E se gostasse muito de Henrietta e descobrisse que
ela era amante de John Cristow? Ele é bem daquele tipo
quietinho que explode quando menos se espera.
SARGENTO: Esperando poder ficar com ela quando o outro
não estivesse mais no caminho?
INSPETOR: Já vi muitos casos assim.
SARGENTO: Então, na sua opinião, a coisa fica entre esses três.
Henrietta Angkatell, Edward Angkatell e a mulher?
INSPETOR: Ora, eu tenho a mente muito aberta, Penny —
mas muito aberta, mesmo. (Pega a bolsa de VERÓNICA
debaixo da almofada e levanta-a.) O que acha disto?
SARGENTO: Uma bolsa de senhora.
INSPETOR: Sem sombra de dúvida.
SARGENTO: Nós a examinamos quando fizemos esta sala.
(Consulta seu caderno.) Duas libras e dez shillings em
notas, sete shillings em moedas, o batom, o pó e o rouge de
costume. Isqueiro de prata. Lenço de renda sem marca.
Tudo muito chique. Suponho que pertença a uma das
senhoras, embora eu não saiba a qual delas. (INSPETOR, com
bolsa na mão, puxa cordão da companhia.) Não
investiguei porque pensei que não tinha importância.
INSPETOR: Você acha que pertence a uma das mulheres desta
casa?
SARGENTO: Julguei que sim. O senhor tem alguma razão para
pensar que não?
INSPETOR: Apenas razões estéticas. O gosto não é
suficientemente bom para Lady Angkatell. É cara demais pa-
ra a Srta. Harvey. E muito na moda para a Sra. Cristow.
Espetacular demais para Henrietta Angkatell. Não me parece
que seja de alguém nesta casa. Acho-a muito intrigante.
SARGENTO: Bem, acho que posso descobrir a quem pertence;
mas como o conteúdo não incluía nada de extraordinário...
INSPETOR: Tem certeza de que mencionou tudo o que estava
dentro dela?
SARGENTO: Creio que sim, meu senhor.
GUDGEON: (Entra à E.) O senhor chamou, Inspetor?
INSPETOR: Chamei. Será que poderia dizer-me a quem
pertence esta bolsa?
GUDGEON: Temo que não, meu senhor. Não me recordo de
jamais tê-la visto antes. Posso indagar da criada pessoal de
milady, meu senhor. Ela saberia melhor do que eu.
INSPETOR: Muito agradecido.
(GUDGEON vai até a porta à E, hesita e volta.)
GUDGEON: Acaba de ocorrer-me, Inspetor, se me permite
uma sugestão?
INSPETOR: Mas é claro.
GUDGEON: É possível que seja de propriedade da Srta.
Verônica Craye.
SARGENTO: Verônica Craye? A estrela de cinema? Ela anda
por aqui?
GUDGEON: (Ao INSPETOR.) Ela ocupa uma casa de veraneio
umas cem jardas mais adiante, nesta mesma estrada. Chama-
se O Pombal.
INSPETOR: E a Srta. Craye esteve aqui?
GUDGEON: Ela esteve aqui ontem à noite, meu senhor.
INSPETOR: E trazia esta bolsa?
GUDGEON: Não, meu senhor. Usava trajes de noite e trazia
uma bolsa branca, com pequenos diamantes. Mas creio que
seja possível que a Srta. Craye tenha estado aqui esta manhã,
um pouco mais cedo, por algum tempo.
INSPETOR: Quando?
GUDGEON: Cerca do meio-dia, meu senhor.
INSPETOR: Vocêa VÍU?
GUDGEON: Não pessoalmente, meu senhor. A ajudante de
arrumadeira, meu senhor, observou-a da janela de um dos
quartos. A menina é uma fã ardorosa de cinema. Ficou
muito excitada.
SARGENTO: Eu irei falar corn ela. (Sai à E.)
INSPETOR: Lady Angkateil não mencionou que a Srta. Craye
tivesse estado aqui hoje pela manhã.
GUDGEON: Nâo creio que milady estivesse a par da visita da
Srta. Craye.
INSPETOR: Então, quem foi que ela veio visitar?
GUDGEON: Quanto a isso, meu senhor, não estou informado.
(Tosse, discretamente.) Hmm!
INSPETOR:O que é?
GUDGEON: Um bilhete foi trazido do Pombal para o Dr.
Cristow esta manhã, um pouco mais cedo. Dr. Cristow disse
que não havia resposta.
INSPETOR: Compreendo. O que aconteceu ao bilhete?
GUDGEON: Creio que poderia obtê-lo para o senhor. Recolhi
alguns papéis amarrotados perto da cesta, ali no canto.
INSPETOR: Obrigado, Gudgeon — eu ficaria muito grato se
o trouxesse aqui imediatamente.
GUDGEON: (Indo para porta à E.) Pois não, meu senhor.
INSPETOR: Pelo que vejo, o Dr. Cristow conhecia a Srta.
Craye?
GUDGEON: É O que parece, meu senhor. Ele foi visitá-la on-
tem à noite depois do jantar.
INSPETOR: E a que horas ele voltou?
GUDGEON: Quanto a isso, meu senhor, não posso informá-lo.
Segundo as ordens de Sir Henry, deixei a porta lateral aberta
quando fui deitar-me à meia-noite e quinze. Até aquele
momento o Dr. Cristow ainda não havia voltado.
(VERÔNICA entra ao CA, vinda da E.)
VERÔNICA: Acabo de saber da notícia. É horrível — horrível.
O senhor é...?
INSPETOR: Eu sou o Inspetor Colquhoun, da Scotland Yard.
VERÔNICA. Então John foi mesmo assassinado? (GUDGEON
sai à d.)
INSPETOR: Ah, sem dúvida, Srta. Craye; ele foi assassinado.
VERÔNICA: Então sabe quem eu sou?
INSPETOR: Eu gosto muito de bons filmes.
VERÔNICA: Como o senhor é gentil. Estou na Inglaterra para
fazer um filme.
INSPETOR: O Dr. Cristow era seu amigo?
VERÔNICA: Fazia anos que eu não o via. Ontem à noite vim
aqui para pedir uns fósforos — e a primeira pessoa que vi
quando entrei na sala foi John Cristow.
INSPETOR: Ficou contente de vê-lo?
VERÔNICA: Muito. É sempre muito agradável encontrar
velhos amigos.
INSPETOR: Parece que ele foi visitá-la ontem à noite?
VERÔNICA: Sim. Eu lhe pedi que fosse até lá depois do jantar,
se pudesse. Tivemos uma conversa maravilhosa sobre velhos
amigos e velhos tempos.
INSPETOR: A que horas ele saiu?
VERÔNICA: Não tenho a menor idéia. Conversamos muito
tempo.
INSPETOR: Sobre os velhos tempos?
VERÔNICA: É claro. E sobre o que havia acontecido a cada
um de nós. Pelo que soube, ele teve muito sucesso em sua
profissão. E casou-se, depois que nos deixamos de ver.
INSPETOR: A senhora não conhecia a mulher dele?
VERÔNICA: Não. Ele nos apresentou aqui, ontem à noite. Eu
deduzi do que ele — bem, ele não chegou realmente a dizer,
mas sugeriu — que seu casamento não era lá muito feliz.
INSPETOR: Verdade?
VERÔNICA: Tenho a impressão de que a esposa é uma dessas
mulheres ineficientes, com tendência para crises de ciúmes.
INSPETOR: E ela teria motivo para tais ciúmes?
VERÔNICA: Ora, não pergunte a mim. Pensei apenas que
talvez tenha havido algum probleminha recentemente.
O ciúme leva as pessoas a fazerem coisas terríveis.
INSPETOR: A senhora acredita que tenha sido a mulher que
atirou nele?
VERÔNICA: Bem, na verdade eu não sei nada a respeito. Foi
minha empregada — ela me disse que a mulher dele havia
sido efetivamente encontrada ao lado do corpo com o
revólver ainda na mão. Mas é claro que os boatos mais
fantásticos se espalham por este mundo.
INSPETOR: Esse, por acaso, é perfeitamente verdadeiro.
VERÔNICA: Bem, na certa a mulher descobriu tudo a respeito
dele e daquela tal escultora. (O SARGENTO entra, trazendo
o bilhete amarrotado.)
INSPETOR: Com licença. (O SARGENTO entrega-lhe o
bilhete.)
VERÔNICA: Naturalmente.
SARGENTO: (À parte, para o INSPETOR.) Ele chegou às três
horas.
VERÔNICA: Eu na verdade só vim até aqui para — para...
INSPETOR: (Pegando a bolsa.) Para buscar sua bolsa, talvez?
Esta bolsa é sua, não é?
VERÔNICA: Ah, obrigada.
INSPETOR: Um instante, por favor. (Lê o bilhete.) O Dr.
Cristow voltou para casa às três horas da manhã de hoje.
Não acha que é uma hora um tanto — digamos, pouco
convencional?
VERÔNICA: Estávamos falando sobre os velhos tempos.
INSPETOR: É o que a senhora já disse.
VERÔNICA: Vai ver que realmente era muito mais tarde do
que eu pensava.
INSPETOR: E essa foi a última vez que viu o Dr. Cristow?
VERÔNICA: Foi.
INSPETOR: Tem certeza, Srta. Craye?
VERÔNICA: É claro que tenho certeza.
INSPETOR: E quanto a essa sua bolsa?
VERÔNICA: Ora, eu a devo ter deixado ontem, quando vim
pedir fósforos.
INSPETOR: Um pouco grande e pesada para bolsa de noite.
(Pensa.) Eu penso que a senhora a deixou aqui hoje de
manhã.
VERÔNICA: E o que o faz pensar uma coisa dessas?
INSPETOR: (Pousa a bolsa sobre a lareira.) Em parte, este
seu bilhete. (Lê) "Por favor, venha aqui hoje de manhã.
Preciso vê-lo, Verônica." Um tanto ríspido. O Dr. Cristow,
creio, mandou dizer que não havia resposta. Ele não foi vê-
la — de modo que a senhora veio vê-lo, não veio?
VERÔNICA: Mas que maravilha que o senhor é! Parece saber
de tudo!
INSPETOR: Nem tudo. O que aconteceu aqui, quando veio?
Brigaram?
VERÔNICA: Bem — não creio que — se possa chamar
exatamente de briga. Pobre John.
INSPETOR: Por que pobre John?
VERÔNICA: Eu não queria contar-lhe. Não me parecia justo.
INSPETOR: Sim?
VERÔNICA: John ficou louco — completamente enlouque-
cido. Ele foi apaixonado por mim anos atrás. Ele — queria
deixar a mulher e os filhos — queria que eu me divorciasse e
casasse com ele. É muito assustador, na verdade, pensar que
se pode ter tal efeito num homem.
INSPETOR: Deve ser. Assim tão repentina e inesperadamente.
VERÔNICA: Eu sei. Quase inacreditável. Mas é possível, sabe
— não conseguir esquecer nunca — ficar esperando e
planejando. Há homens assim.
INSPETOR: E mulheres, também.
VERÔNICA: Sim, sim; suponho que sim. Bem, de qualquer
forma, ele era desses. A princípio, fingi não tomá-lo a sério.
Disse-lhe que estava louco. Ele disse qualquer coisa no
gênero ontem à noite. Foi por isso que lhe mandei esse
bilhete. Não podia deixar as coisas como estavam. Vim até
aqui para fazê-lo compreender que o que ele estava
sugerindo era impossível. Mas ele não queria escutar o que
eu dizia. E agora — está morto. Eu me sinto horrível. (O
SARGENTO pigarreia.)
INSPETOR: Sim, Sargento?
SARGENTO: Eu soube, por informações recebidas, que, ao sair
por aquela porta, ouviu-se a senhora dizer... (lê em seu
caderno) "Eu o odeio como jamais pensei odiar alguém em
toda a minha vida."
VERÔNICA: Eu tenho certeza de que nunca disse tal coisa. A
que é que o senhor anda dando ouvidos? A mexericos da
criadagem?
SARGENTO: Uma de suas fâs, Srta. Craye, estava rondando aí
fora, na esperança de conseguir um autógrafo. Ela ouviu
muito do que foi dito nesta sala.
VERÔNICA: Tudo um bando de mentiras! (Ao INSPETOR.)
Quer me dar minha bolsa?
INSPETOR: Pois não, Srta. Craye. (Pega a bolsa.) Porém temo
que terei de ficar com o revólver.
VERÔNICA: Revólver? (O INSPETOR, protegendo a arma com
um lenço, tira-a da bolsa.)
INSPETOR: Não sabia que havia um revólver em sua bolsa?
SARGENTO: Mas... (O INSPETOR silencia-o com um olhar.)
VERÔNICA: Não havia revólver algum. Não é meu. Eu não sei
nada a respeito de revólveres.
INSPETOR: (Examinando.) 38 Smith and Wesson — o
mesmo calibre da bala que matou John Cristow.
VERÔNICA: Não pense que pode me fazer cair em uma
armadilha! Vou consultar meu advogado, vou... Como ousa!
INSPETOR: Aqui está sua bolsa, Srta. Craye. (VERÔNICA ar-
ranca a bolsa dele. Parece raivosa e assustada.)
VERÔNICA: Não direi mais uma só palavra.
INSPETOR: Muito sensato.
(VERÔNICA vira-se, fuzila o SARGENTO com os olhos, depois
sai rapidamente ao CA para a BO INSPETOR fica olhando
para ela, embrulhando o revólver cuidadosamente no
lenço.)
SARGENTO: Mas, senhor, eu...
INSPETOR: Nem mas nem meio mas, Penny. Há qualquer
coisa de podre etc, etc. (O SARGENTO abre a boca para
protestar. Ele o silencia com um gesto.) Eu sei — eu sei. O
que eu fico pensando é se...
CAI O PANO

Ato Três

CENÁRIO: O mesmo. Na manhã da segunda-feira seguinte.
Quando o pano se abre vemos uma bela manhã, as portas
envidraçadas estão abertas e um pequeno fogo queima na
lareira. GUDGEON faz entrar o INSPETOR e o SARGENTO, à E.

GUDGEON: Informarei Sir Henry de que o senhor está
aqui,
Inspetor. (Sai.) SARGENTO: Bonitas flores.
INSPETOR: É mesmo.
SARGENTO: (Olha o quadro sobre a lareira.) Gosto muito deste
quadro. Bonita casa. De quem será?
INSPETOR: É a casa em que Lady Angkatell nasceu e cresceu.
SARGENTO: É mesmo? Vendida e loteada, como tudo o mais,
hoje em dia?
INSPETOR: Não. Pertence a Edward Angkatell. É o herdeiro.
SARGENTO: Então por que não é de Sir Henry? O título
não édele?
INSPETOR: Não. Ele é Cavaleiro da Ordem do Banho. Era
apenas primo em segundo grau.
SARGENTO: O senhor parece saber tudo a respeito da família.
INSPETOR: Dei-me ao trabalho de descobrir tudo o que me
foi possível. Pensei que fosse importante para o caso.
SARGENTO: Não vejo como. Mas, de qualquer forma, agora
parece que estamos chegando mais perto; ou não estamos?
INSPETOR: Por enquanto, não estamos é mais correto.
DORIS: (Entrando na porta ao fundo, da E.) Shh!
SARGENTO: Olá.
DORIS: (Com ar conspiratório.) Eu vim por este lado para
o Sr. Gudgeon não me ver. Por aqui é moda dizer que
conversar com a policia é vulgar, mas eu digo que o melhor
é que se faça justiça.
SARGENTO: Parabéns, mocinha. Quem diz que é vulgar falar
com a polícia?
DORIS: A cozinheira, a Sra. Medway. Diz que ter a polícia
em casa já é o bastante, que isso nunca tinha acontecido
antes na vida dela, e que era até capaz de não conseguir mais
a mão suficientemente leve para fazer massa folheada.
(Toma fôlego.) E que se não fosse por milady ela tinha
pedido demissão, mas que ninguém pode deixar milady
numa situação destas. (Para o INSPETOR.) Aqui eles são
todos malucos pela tal da milady.
SARGENTO: Bem, voltemos ao pedaço em que se faz justiça.
DORIS: Foi o que vi com meus próprios olhos.
SARGENTO: Que, aliás, são olhos muito bonitinhos.
DORIS: Ora, deixe disso! Bem, foi no sábado de tarde — no
dia do assassinato. Eu subi para fechar as janelas dos quartos,
porque parecia que ia chover e quando — assim sem querer
— olhei lá de cima cá para baixo, o que è que eu vi?
SARGENTO: Bem — o que é que você viu?
DORIS: Eu vi o Sr. Gudgeon em pé, no hall de entrada, com
um revólver na mão e uma cara esquisitíssima. Me deu o
maior susto.
INSPETOR: Gudgeon?
DORIS: Sim, senhor. E aí eu fiquei pensando que talvez ele
fosse o assassino.
INSPETOR: Gudgeon!
DORIS: E espero que tenha feito o que é certo vindo aqui
falar com o senhor, porque só imagino o que vão dizer de
mim na sala dos empregados, mas eu digo que o melhor — é
...que se faça justiça
SARGENTO: E fez muito bem, mocinha.
DÓRIS: O que eu acho é que... Vem alguém aí. (Corre para
o CA.) Tenho de correr. Pensam que estou verificando a
roupa lavada. (Sai.)
SARGENTO: Uma moça muito útil. Era ela quem estava
rondando por aqui para pegar o autógrafo.
(SIR HENRY entra à E.)
INSPETOR: Bom dia, Sir Henry. SIR HENRY: Bom dia,
Inspetor.
SARGENTO. Bom dia, senhor. (SIR HENRY responde de
cabeça.)
SIR HENRY: O senhor queria falar comigo?
INSPETOR: Sim, senhor. Precisamos de mais algumas
informações.
SIR HENRY: Pois não?
INSPETOR: Sir Henry, o senhor tem uma coleção
considerável de armas de fogo, principalmente pistolas e
revólveres. Eu gostaria de saber se alguma delas está
faltando.
SIR HENRY: Não estou entendendo. Já lhe disse que levei
dois revólveres e uma pistola para o stand de tiro ao alvo no
sábado de manhã e que verifiquei depois que um 38 Smith
and Wesson estava faltando. Identifiquei o revólver que
estava faltando como aquele que a Sra. Cristow estava
segurando logo após Cristow ter levado o tiro.
INSPETOR: Inteiramente correto, Sir Henry. Segundo a
declaração da Sra. Cristow, ela o apanhou no chão, perto do
corpo de seu marido. Nós havíamos suposto, talvez até
naturalmente, que aquele tivesse sido o revólver com o
qual o Dr. Cristow foi baleado.
SIR HENRY: E quer dizer — que não foi.
INSPETOR: Agora já temos o relatório da balística. Sir Henry,
a bala que matou John Cristow não saiu daquele revólver.
SIR HENRY: O senhor me deixa perplexo.
INSPETOR: Sim, é realmente muito estranho. A bala era do
calibre correto, porém aquele não foi o revólver usado.
SIR HENRY: Mas permita-me perguntar, Inspetor, por que
supõe que a arma do crime tenha saido da minha coleção?
INSPETOR: Não o suponho, Sir Henry — porém tenho de
verificar antes de procurar em outros lugares.
SIR HENRY: (Indopara a E.) Percebo. Bem, poderei dar-lhe a
informação que deseja em um minuto. (Sai à d)
SARGENTO: Ele não sabe de nada.
INSPETOR: É o que parece.
SARGENTO: A que horas é o inquérito?
INSPETOR: Ao meio-dia. Temos muito tempo.
SARGENTO: Só as provas de rotina e um adiamento. Imagino
que já esteja tudo arranjado com as autoridades?
(MIDGE entra à E. Está de manto e chapéu, carrega
bolsa, luvas e valise.)
INSPETOR: Está de partida, Srta. Harvey?
MIDGE: Tenho de ir para Londres logo após o inquérito.
INSPETOR: Temo que terei de pedir-lhe que não saia daqui
hoje.
MIDGE: Mas isso é uma complicação. Sabe, eu trabalho em
uma casa de modas, e se não estiver de volta lá às duas e
meia vai dar a maior confusão.
INSPETOR: Lamento, Srta. Harvey. Mas poderá dizer que agiu
sob ordens da polícia.
MIDGE: E lhe garanto que isso ainda é pior do que chegar
tarde. Bem, acho que o melhor é telefonar logo e acabar
com a expectativa. (Ao telefone.) Alô...
TELEFONISTA: (A voz razoavelmente audível.)
Número, por favor.
MIDGE: Regent quatro — meia — nove — dois, por favor.
TELEFONISTA: Qual é o seu número?
MIDGE: Dowfield dois — dois — um. (INSPETOR à E olha
para o SARGENTO.)
TELEFONISTA: Dowfield dois — dois — um. Há uma
espera de vinte minutos para essa chamada.
MIDGE: Oh!
TELEFONISTA: Devo completar a chamada?
MIDGE: Sim, por favor complete-a. A senhora me chama?
TELEFONISTA: Sim, senhora.
MIDGE: Obrigada. (Desliga. SIR HENRY entra à E.)
SIR HENRY: Quer fazer o favor de nos deixar a sós, Midge?
MIDGE: Pois não. Mas estou esperando uma chamada para
Londres.
SIR HENRY: Eu a chamarei quando completarem. Se não se
esquecerem. (MIDGE sai à E.) Um segundo Smith and
Wesson, em um coldre de couro marrom, está faltando da
minha coleção.
INSPETOR: (Tirando um revólver de seu bolso.) Seria esta
a arma, Sir Henry? (SIR HENRY pega o revólver e
examina-o cuidadosamente.)
SIR HENRY: É — É este mesmo. Onde o encontrou?
INSPETOR: Isso não importa, no momento. Porém o tiro que
matou o Dr. Cristow partiu deste revólver. Eu poderia falar
com seu mordomo, Sir Henry? (Pega o revólver de
volta.)
SIR HENRY: Naturalmente. (Vai tocar a campainha.)
Deseja falar com ele aqui?
INSPETOR: (Colocando o revólver no bolso.) Se me
permite, Sir Henry.
SIR HENRY: Quer que eu me retire ou que fique? Eu preferi-
ria ficar. Gudgeon é um empregado muito antigo e precioso.
INSPETOR: Eu preferiria que estivesse presente, Sir Henry.
GUDOEON: (Entrando à E.) O senhor me chamou, Sir Hen-
ry?
SIR HENRY: Chamei, Gudgeon. (Indica o INSPETOR, a
quem GUDGEON olha polidamente.)
INSPETOR: Gudgeon, nos últimos tempos, em alguma ocasião,
teve, em sua posse, uma pistola ou um revólver?
GUDGEON.- (Imperturbável.) Acho que não, meu senhor.
Não possuo arma de fogo.
SARGENTO: (Lendo.) "Olhei lá de cima cá para baixo... Eu vi
o Sr. Gudgeon, em pé, no hall de entrada, com um revólver
na mão... (GUDGEON reage fechando os punhos) e uma
cara esquisitíssima..." (O INSPETOR olha o SARGENTO, que
se cala.)
GUDGEON: Está inteiramente correto, meu senhor. Peço
desculpas por me haver escapado da lembrança, de
momento.
INSPETOR: Talvez pudesse nos dizer exatamente o que
aconteceu.
GUDGEON: Certamente, meu senhor. Era cerca de uma hora,
no sábado. Normalmente, é claro, eu deveria estar trazendo
o almoço, porém devido ao fato de um assassinato ter sido
cometido pouco tempo antes, a rotina doméstica estava
desorganizada. Quando passava pelo hall de entrada, notei
que uma das pistolas de Sir Henry, uma pequena Derringer,
senhor, estava sobre a arca de carvalho que fica lá. Achei
que ela não devia ficar assim, à solta, de modo que a peguei,
levei-a para a biblioteca do amo e coloquei-a no lugar
adequado. Devo acrescentar, meu senhor, que não tenho
qualquer lembrança de ter estado com qualquer cara esqui-
sitíssima.
INSPETOR: Diz que levou a arma de volta à biblioteca de Sir
Henry? Ela está lá agora?
GUDGEON: Que eu saiba, sim. Posso verificar facilmente.
INSPETOR: (Tirando o revólver do bolso.) Não era — esta
arma?
GUDGEON: (Examinando o revólver.) Ora, não, senhor.
Esse é um 38 Smith and Wesson — a outra era uma pistola
pequena — uma Derringer.
INSPETOR: Você parece entender muito de armas de fogo.
GUDGEON: Eu servi na Guerra de 14, meu senhor.
INSPETOR: E diz que encontrou essa pistola Derringer —
sobre a arca de carvalho que fica no halH
GUDGEON: Exatamente, meu senhor.
(LADY A. entra ao CA, vinda da E.)

LADY ANGKATELL: Que prazer em vê-lo, Sr. Colquhoun. Que
história é essa de Gudgeon e uma pistola? Encontrei aquela
pobre menina, a Dóris, banhada em lágrimas. Acho que ela
estava certa em dizer o que viu, se acha que viu. Eu tenho a
maior dificuldade em saber o que é certo e o que é errado —
fica muito fácil quando o errado é desagradável e o certo é
agradável, mas quando é ao contrário fica dificílimo. O que
foi que você disse a eles sobre a pistola, Gudgeon?
GUDGEON: (Respeitoso, porém enfático.) Encontrei a
pistola no hall, milady. Não tenho a menor idéia de quem
a deixou lá. Eu a peguei e coloquei-a no lugar de costume. É
o que disse ao Inspetor e ele compreende.
LADY ANGKATELL: Não devia ter feito uma coisa dessas,
Gudgeon. Eu falarei pessoalmente com o Inspetor.
GUDGEON: Mas...
LADY ANGKATELL: Aprecio seus motivos, Gudgeon. Sei que
sempre tenta poupar-nos qualquer dificuldade ou
preocupação. (Firme.) Mas agora, é só. (GUDGEON hesita,
depois inclina-se e sai. SlR HENRY tem aspecto muito
grave. LADY A. sorri de modo cativante para o
INSPETOR.) Foi realmente muito delicado da parte de
Gudgeon. Muito feudal, se é que me entende. Sim, acho que
feudal é a palavra exata.
INSPETOR: Devo compreender, Lady Angkatell, que a
senhora tem, pessoalmente, maiores informações a respeito?
LADY ANGKATELL: É claro. Gudgeon não encontrou a arma
no hall, coisa nenhuma. Ele a encontrou quando foi tirar os
ovos.
INSPETOR: Os OVOS?
LADY ANGKATELL: É. Da cesta. (Ela parece pensar que
agora está tudo claro.)
SIR HENRY: É preciso que nos conte um pouco mais, querida.
Tanto o Inspetor Colquhoun quanto eu continuamos sem
compreender nada.
LADY ANGKATELL: Ah! Não perceberam? A pistola estava na
cesta — debaixo dos ovos.
INSPETOR: Que cesta? E que ovos, Lady Angkatell?
LADY ANGKATELL: A cesta que levei comigo quando fui para
a granja. A pistola estava dentro e eu pus os ovos em cima
dela e depois esqueci. Quando encontramos o pobre John
Cristow aqui, baleado, o choque foi tão grande que eu ia
deixando cair a cesta e Gudgeon apanhou-a, bem a tempo —
por causa dos ovos. Mais tarde eu perguntei a ele se já havia
datado os ovos — para ninguém comer os mais velhos antes
dos mais novos — e ele disse que tudo havia sido
providenciado — e agora me lembro que ele foi
excessivamente enfático ao dizê-lo. Como podem perceber,
ele achou a arma e tornou a guardá-la no lugar. Muito bonito
e leal da parte dele — mas também muito tolo,
naturalmente, Inspetor, já que o senhor quer saber a
verdade, não é?
INSPETOR: (Soturno.) E a verdade é o que hei de conseguir.
LADY ANGKATELL: Mas é claro. É tão triste, toda essa
história de ficar perseguindo as pessoas. Acho que seja lá
quem foi que atirou em John Cristow não quis realmente
atirar nele... (o INSPETOR e o SARGENTO se entreolham)
quero dizer, não de verdade. Se foi Gerda, tenho certeza de
que não queria. Para falar a verdade, fico surpreendida que
ela não tenha atirado para outro lugar completamente
diferente — é o que se poderia esperar dela. Se foi ela,
provavelmente agora está arrependidíssima. Ter o pai
assassinado já é péssimo para as crianças; que dirá ainda ter a
mãe enforcada. Às vezes eu me pergunto se vocês, da
policia, se lembram das coisas.
INSPETOR: (Um tanto perplexo.) Não estamos pensando em
efetuar qualquer prisão no presente momento, Lady
Angkatell.
LADY ANGKATELL: Ah, mas que coisa sensata! Afinal, eu
sempre achei que o senhor era um homem sensato,
Inspetor.
INSPETOR: Bem — er — muito obrigado, Lady Angkatell.
Agora deixe-me entender tudo com clareza. A senhora
esteve atirando com o revólver?
LADY ANGKATELL: Pistola.
INSPETOR: Ah. Foi o que Gudgeon disse. Esteve fazendo ti-
ro ao alvo?
LADY ANGKATELL: Oh, não, não. Eu a tirei da biblioteca
antes de ir para o lado da granja.
INSPETOR: (Olha para SIR HENRY, depois para a poltrona.)
Permite? (SIR HENRY acena a cabeça. Ele se senta.) Por quê,
Lady Angkatell?
LADY ANGKATELL: (Triunfante.) Eu sabia que o senhor ia me
perguntar isso. E é claro que deve haver alguma resposta.
Não deve, Henry?
SIR HENRY: Eu certamente pensaria que sim, minha queri-
da.
LADY ANGKATELL: Sim, é óbvio que eu deveria ter alguma
idéia na cabeça quando peguei a Derringer e botei na cesta
dos ovos. (Esperançosa, para HENRY.) O que terá sido?
SIR HENRY: Minha mulher é extraordinariamente distraída,
Inspetor. INSPETOR: É o que parece.
LADY ANGKATELL: Por que razão haveria eu de pegar aquela
pistolinha?
INSPETOR: Eu não tenho a menor idéia, Lady Angkatell.
LADY ANGKATELL: EU entrei aqui... aqui virou sua biblioteca,
Henry... com a janela e a lareira para lá. Eu estava falando
com Simmonds a respeito de fronhas... vamos nos agarrar às
fronhas... e me lembro muito bem de caminhar... até a
lareira (vai até a escrivaninha) e me lembrar de que
precisava de um atiçador novo... um que tenha aquela coisa
na coisa, compreenderam? (O INSPETOR e o SARGENTO se
entreolham.) E aí eu me lembro de abrir a gaveta e tirar a
Derringer — uma pistolinha muito jeitosa — e colocá-la na
cesta de ovos. E então eu... Não, eu estava com tantas coisas
na cabeça... como aquele novo canteiro de flores... e
preocupada pensando se o pingüim da Sra. Medway ia ficar
suficientemente doce.
SARGENTO: O pingüim?
LADY ANGKATELL: É. Uma mousse de chocolate com creme
chantilly no meio. John Cristow gostava de coisas muito
doces.
INSPETOR: A senhora carregou a pistola?
LADY ANGKATELL: Será que carreguei? Mas eu acho que é
lógico que tenha carregado, Inspetor. O senhor não acha?
INSPETOR: Eu acho que vou conversar um pouco mais com
Gudgeon. (Vai para a porta à E.) Quando se lembrar um
pouco mais a senhora me conta, não é, Lady Angkatell?
(SARGENTO vai para a porta à E.)
LADY ANGKATELL: Mas, naturalmente. As coisas às vezes
aparecem de volta na cabeça da gente de uma hora para
outra, não é?
INSPETOR: É. (Sai. SARGENTO sai. O relógio bate onze ho-
ras.)
SIR HENRY: Por que foi que você pegou a pistola?
LADY ANGKATELL: EU não tenho bem certeza, Henry —
imagino que tivesse uma vaga idéia a respeito de um
acidente.
SIR HENRY: Acidente?
LADY ANGKATELL: É. Há tanto pedaço de raiz crescendo para
fora — é tão fácil tropeçar. Eu sempre achei que um
acidente deveria ser o modo mais simples de fazer uma coisa
dessas. Naturalmente eu lamentaria profundamente e me
sentiria profundamente culpada...
SIR HENRY: E quem iria sofrer o acidente?
LADY ANGKATELL: John Cristow, naturalmente.
SIR HENRY: Pelo amor de Deus, Lucy!
(LADY A. muda repentinamente. Perdeu o ar vago, está
quase fanática.)
LADY ANGKATELL: Oh, Henry, eu tenho andado tão
preocupada. Com Ainswick.
SIR HENRY: Percebo. Então era Ainswick. Você sempre
gostou demais de Ainswick, Lucy.
LADY ANGKATELL: Você e Edward são os últimos Angkatells.
A não ser que Edward se case, acaba tudo — e ele é tão
obstinado — aquela cabeça comprida, como a do meu pai.
Eu pensei que se ao menos John não estivesse no caminho,
Henrietta poderia se casar com Edward — ela na verdade
gosta muito dele — e quando uma pessoa morre, a gente
esquece. De modo que tudo se reduzia a uma coisa: ficar
livre de John Cristow.
SIR HENRY.- (Apavorado.) Lucy, foi você...
LADY ANGKATELL: (Novamente esquiva.) Querido, queri-
do, como pode, mesmo que por um momento, imaginar que
eu tenha atirado em John? Eu tive aquela idéia idiota a
respeito de um acidente. Mas, aí, eu me lembrei de que ele
era nosso hóspede. Não se pode convidar uma pessoa para o
fim de semana e depois se esconder atrás de uma árvore e
fazê-la de alvo. De modo que você não precisa mais se
preocupar, Henry.
SIR HENRY: (Rouco.) Eu sempre me preocupo com você,
Lucy.
LADY ANGKATELL: (Pegando um bombom.) Mas não é
preciso, querido. Vamos, abra a boca. Lá vai um barquinho
carregadinho de... (Enfia o bombom na boca de SIR
HENRY.) Pronto! Ficamos livres de John sem eu ter de fazer
nada. Isso me lembra daquele homem em Bombaim que foi
tão grosseiro comigo em um jantar. Três dias mais tarde ele
foi atropelado por um trem. (Sai à D. O telefone toca, SIR
HENRY vai atender.)
TELEFONISTA: Sua chamada para Regent, meu senhor.
SIR HENRY: Chamada? Para Regent?
MIDGE: (Entrando, à E.) É para mim?
SIR HENRY: É, sim. (Ela toma o telefone de SIR HENRY,
que saia D.) MIDGE: Alô. É Madame? VOZ: Não, é Vera.
MIDGE: Será que eu poderia falar pessoalmente com
Madame?
VOZ: Quer fazer o favor de esperar um momento?
VOZ: (Após certa pausa.) Alô. Aqui fala Madame Henri.
MIDGE: É a Srta. Harvey.
Voz: E por que não está aqui? Mademoiselle estará aqui à
tarde?
MIDGE: Não, não; temo não poder estar ai hoje à tarde.
(EDWARD entra ao CA, vindo da E.)
Voz: Ora, sempre essas desculpas.
MIDGE: Não, não é uma desculpa. (EDWARD, por gestos,
pergunta se ela se importa que ele fique. Ela cobre o
bocal.) Não, não vá. E só a minha loja. Voz: Então o que é?
MIDGE: (Ao telefone.) Houve um acidente. (EDWARD
senta-se e pega revista.)
VOZ: Acidente? Nada dessas mentiras. Não gosto de descul-
pas esfarrapadas.
MIDGE: Não, não estou mentindo nem inventando descul-
pas. Não posso voltar hoje. Não posso ir embora. São ordens
da polícia.
VOZ: Da polícia?
MIDGE: É, da polícia.
Voz: O que foi que mademoiselle andou fazendo?
MIDGE: Não é culpa minha. Não se pode fazer nada.
Voz: Onde é que mademoiselle está?
MIDGE: Em Dowfield.
Voz: Onde houve o assassinato?
MIDGE: É. A senhora leu no jornal?
Voz: É claro. Muito inconveniente. O que acha que meus
clientes dirão quando souberem que está metida em um
assassinato?
MIDGE: Bom, mas a culpa não é minha.
VOZ: Mas é muito aborrecido.
MIDGE: Todo assassinato é aborrecido.
Voz: Mademoiselle está se divertindo. Ficou importante,
não é?
MIDGE. Desculpe, mas acho que está sendo um pouco in-
justa.
Voz: Se não voltar hoje, não terá mais trabalho. Há muita
moça por ai querrendo trabalhar.
MIDGE: Por favor, não diga isso. Eu sinto muito.
VOZ: Mademoiselle voltará amanhã, ou então nunca mais
apareça por aqui.
(MIDGE desliga. Está quase chorando.)
EDWARD: Quem era?
MIDGE: Minha patroa.
EDWARD: Você deveria tê-la mandado para o diabo que a
carregasse.
MIDGE: E ser despedida?
EDWARD: Eu não suporto ouvir você sendo — tão
subserviente.
MIDGE: Não sei do que você está falando. Para se ter atitudes
independentes, é preciso ser economicamente inde-
pendente.
EDWARD: Meu Deus, Midge; há outros empregos — empre-
gos interessantes.
MIDGE: É — lê-se todo o dia no The Times gente procuran-
do esse tipo de emprego.
EDWARD: Sei.
MiDGE: Às vezes, Edward, você me faz perder a paciência.
O que é que você sabe a respeito de empregos? De arranjá-
los ou mantê-los? Este meu emprego, por acaso, é
razoavelmente bem pago, com um horário também
razoável.
EDWARD: Ora, dinheiro!
MIDGE: É, dinheiro. É de que preciso para viver. Eu tenho
um emprego que me sustenta, compreende?
EDWARD: Henry e Lucy podiam...
MIDGE: Já falamos nisso antes. E é claro que eles o fariam.
Não adianta, Edward. Você è um Angkatell, e Henrry e
Lucy são Angkatells. Mas eu sou só meia Angkatell. Meu pai
era simplesmente um pequeno' negociante — honesto,
trabalhador e talvez não muito brilhante. É dele que eu
herdei essa mania de não aceitar favores. Quando o negócio
dele faliu, ele pagou todas, as dívidas até o último shilling.
Eu sou como ele. Eu me importo com o dinheiro e com
dívidas. Você não vê, Edward, que para você e Lucy está
tudo bem. Lucy poderia hospedar qualquer de seus amigos
ou amigas aqui indefinitivamente e nem sequer pensar no
assunto — e poderia ir morar com qualquer um deles, se ne-
cessário. Não haveria nenhum sentimento de obrigação. Mas
eu sou diferente.
EDWARD: Você é uma menina ridícula e muito querida.
MIDGE: É possível que eu seja ridícula, mas eu não sou
uma menina.
EDWARD: (Dominando MIDGE com sua altura.) Mas é
horrível que você tenha de aturar grosserias e insolência.
Meu Deus, Midge, eu gostaria de tirar você de tudo isso —
de levá-la para Ainswick.
MIDGE: (Furiosa e meio chorando.) Por que diz essas
coisas estúpidas? Não é verdade. Você acha que fica mais
fácil, quando estou ouvindo grosserias e gritos, saber que há
lugares como Ainswick neste mundo? Você acha que eu
fico grata a você por ficar aí resmungando que gostaria
muito de me tirar de tudo isso? É muito simpático, mas não
quer dizer absolutamente nada.
EDWARD: Midge!
MIDGE: Você não sabe que eu venderia a alma para estar
em. Ainswick, agora, neste momento? Eu amo Ainswick
tanto, tanto, que mal agüento pensar nele. Você é cruel,
Edward, dizendo coisas bonitas que não quer, realmente,
dizer.
EDWARD: Mas eu quero realmente dizê-las. Venha Midge.
Nós vamos para Ainswick agora, no meu carro.
MIDGE: Edward!
EDWARD: Vamos, Midge. Nós vamos para Ainswick.
Vamos? Que tal?
MIDGE: (Rindo um pouco histericamente.) Eu paguei
para
ver o seu blefe, não foi, Edward? EDWARD: Mas eu não
estou blefando. MIDGE: Calma, Edward. De qualquer modo,
a polícia nos impediria.
EDWARD: Eu tinha esquecido. É, acho que sim.
MIDGE: (Muito suavemente.) Tudo bem, Edward;
desculpe ter gritado com você.
EDWARD: (Tranqüilamente.) Você realmente ama
Ainswick, não é?
MIDGE: Já me resignei à idéia de não ir para lá. Mas não
precisa também ficar falando nisso.
EDWARD: Eu já percebi que a idéia de correr para lá, agora,
não funciona — mas queria dizer que você fosse para lá
permanentemente.
MIDGE: Permanentemente?
EDWARD: Estou pedindo que se case comigo, Midge.
MIDGE: Casar...?
EDWARD: Eu não sou uma perspectiva muito romântica. Eu
sei que sou sem graça. Leio uns livros que você pro-
vavelmente acharia aborrecidos, escrevo uns artigos também
insípidos e tomo conta da propriedade. Mas nós já nos
conhecemos há tanto tempo, e pode ser que Ainswick
compense o que me falta. Será que você vem, Midge?
MIDGE: Casar com você?
EDWARD: Será que você pode suportar a idéia?
MIDGE: (Ajoelhando-se no sofá e debruçando-se na
direção de EDWARD.) Edward, oh, Edward — você me
oferece o céu como — como se fosse uma coisa que se traz
em uma bandeja.
(EDWARD toma-lhe as mãos e beija-as. LADY A. entra à
D.)
LADY ANGKATELL: (Entrando.) Eu sempre disse que
rododentros a gente tem de juntar um monte, ou então...
MIDGE: Edward e eu vamos nos casar.
LADY ANGKATELL: (Estupefacta.) Casar? Você e Edward?
Mas, Midge, eu nunca so... (Recobra o controle, vai até
MIDGE, beija-a, depois oferece a mão a EDWARD.) Oh,
querida, eu fico tão contente. Mas estou encantada. E você
vai ficar aqui e largar aquela loja horrenda. Vai se casar aqui.
E Henry a levará ao altar.
MIDGE: Lucy, querida, eu adoro a idéia de me casar aqui.
LADY ANGKATELL: Cetim branco-pérola e um livro de
orações de capa de marfim — nada de buquê. E damas de
honra?
MIDGE: Não, Lucy; eu não quero nada de muita compli-
cação.
EDWARD: Apenas um casamento muito singelo, Lucy.
LADY ANGKATELL: EU compreendo perfeitamente, queridos.
A não ser que se escolha muito bem, as damas de honra
nunca combinam — há sempre uma feiosa que estraga tudo
— geralmente a irmã do noivo. E as crianças são piores
ainda. Ou pisam na cauda do vestido, ou começam a chorar.
Não há moça que possa entrar na igreja com tranqüilidade,
com um bando de possíveis problemas a entrar atrás dela.
MIDGE: Eu não preciso de nada atrás de mim, nem sequer
de uma cauda. Posso até me casar de saia e casaco.
LADY ANGKATELL: Ah, não, querida, isso é coisa de viúva.
Cetim-pérola e eu a levarei pessoalmente à Mireille.
MIDGE: Mas eu não posso pagar nada da Mireille.
LADY ANGKATELL: Mas, querida, Henry e eu vamos dar todo
o seu enxoval.
MIDGE: Querida. (Cruza até EDWARD e segura a mão dele.)
LADY ANGKATELL: Querida Midge, querido Edward! Eu só
espero que as calças do fraque do Henry não estejam
apertadas. Eu quero que ele se divirta. E, quanto a mim, vou
usar... (Fecha os olhos.)
MIDGE: O que, Lucy?
LADY ANGKATELL: Azul-hortênsia e renard prateado. Está
resolvido. Que pena que John Cristow tenha morrido.
Afinal, foi inteiramente desnecessário. Mas que fim de
semana mais cheio de acontecimentos. Primeiro, um
assassinato, depois um casamento, depois, isto, e aquilo.
(INSPETOR e SARGENTO entram à E. Ela se vira.) Entrem,
entrem. Estes jovens acabam de ficar noivos.
INSPETOR: Verdade? Meus parabéns.
EDWARD.- Muito obrigado.
LADY ANGKATELL: (Indo para a E.) Acho que tenho de ir
me preparar para o inquérito. Estou louca que chegue a
hora. Eu nunca vi um inquérito.
(Sai à E.O SARGENTO fecha a porta. EDWARD e MIDGE
saem à D.)
SARGENTO: (Cruzando para a D.) Podem dizer o que
quiserem, para mim ela não é certa da cabeça. E esses dois?
Então era desta que ele gostava, e não da outra.
INSPETOR: Agora, é o que parece.
SARGENTO: Bem, isso deixa-o de fora. Quem nos resta, agora?
INSPETOR: Só temos a palavra de Gudgeon de que a arma na
cesta de Lady Angkatell é a que ele afirma. A questão está
sem resposta. Você se esqueceu de uma coisa, sabe? Do
coldre de couro, Penny.
SARGENTO: Coldre?
INSPETOR: Sir Henry nos disse que a pistola era guardada em
um coldre de couro marrom. Onde está ele? (SIR HENRY
entra à E.)
SIR HENRY: Creio que já devíamos ir — mas, por alguma
razão extraordinária, todos parecem ter sumido. (Para fora.)
Edward! Midge!
LADY ANGKATELL: (Entrando, de casaco e chapéu,
carregando um livro de orações e usando uma luva
branca e uma cinza.) Que tal? A roupa está apropriada
para a ocasião?
SIR HENRY: O livro de orações é totalmente dispensável,
querida.
LADY ANGKATELL: Mas eu pensei que se fazia toda espécie de
juramentos.
INSPETOR: O testemunho, neste tipo de tribunal, não é feito
sob juramento, Lady Angkatell. Hoje tudo não passará de
uma formalidade. Se me dão licença, nós já vamos.
(Sai à E, seguido do SARGENTO.)

LADY ANGKATELL: Você, eu e Gerda podemos ir no Daim
ler. Edward pode levar Midge e Henrietta.
SIR HENRY: Onde está Gerda?
LADY ANGKATELL: Henrietta está com ela.
(EDWARD e MIDGE entram à D.)

SIR HENRY: Bem, que novidade é essa, a respeito de vocês
dois? (Aperta a mão de EDWARD.) Não é uma notícia
maravilhosa? (Vai beijar MIDGE.)
EDWARD: Obrigado, primo Henry.
MIDGE: Obrigada, primo Henry.
LADY ANGKATELL: (Olhando suas luvas.) Mas o que será
que me fez botar uma luva branca e uma cinza? Que coisa
esquisita. (Sai à E.)
EDWARD: Eu vou buscar meu carro. (Sai ao CA.)
MIDGE: Você ficou, mesmo, satisfeito?
SIR HENRY: É a melhor notícia que recebo em muito tempo.
E você nem imagina o que significa para Lucy. Ela vive com
Ainswick na cabeça.
MIDGE: Ela queria que Edward casasse com Henrietta.
(Perturbada.) Será que ela se importa que seja eu?
SIR HENRY: Claro que nâo. Ela só queria que Edward se
casasse. E, se quiser minha opinião, você vai ser uma mulher
muito melhor para ele do que Henrietta.
MIDGE: Mas para Edward tem sido sempre Henrietta.
SlR HENRY: Bem, é melhor que nâo deixe nenhum desses
policiais ouvir isso. Sob meu ponto de vista, a melhor coisa
que poderia acontecer a ele neste momento era ficar noivo
de você. Deixa de ser suspeito.
MIDGE: Edward? Suspeito?
SlR HENRY: Tirando Gerda, eu diria que ele era o suspeito
número um. Para falar francamente, ele odiava John
Cristow.
MIDGE: Eu me lembro — na noite do assassinato — então
foi por isso... (Fica desespesradamente infeliz. HEN-
RIETTA entra à E.)
HENRIETTA: Henry, eu vou levar Gerda comigo. Ela está um
pouco nervosa e eu acho que uma das conversas de Lucy
seria o suficiente para enlouquecê-la de vez. Nós já vamos.
SIR HENRY: É. Nós também devíamos ir. (Sai, deixa a por-
ta aberta. Fora, chamando.) Lucy! Está pronta?
HENRIETTA.- Parabéns, Mídge. Você subiu na mesa e gritou
para ele?
MIDGE: Acho que sim.
HENRIETTA: Eu disse que era de você que Edward precisava.
MIDGE: Acho que Edward jamais amará realmente
alguém,
a não ser você.
HENRIETTA: Ora, não seja absurda, Midge.
MIDGE: Eu não sou absurda. É o tipo da coisa que a gente
sabe.
HENRIETTA: Edward jamais pediria a você que se casasse
com ele se não a quisesse.
MIDGE: É possível que ele tenha achado que era — sensato.
HENRIETTA: O que é que você quer dizer com isso?
GERDA: (De fora, chamando.) Henrietta.
HENRIETTA: (Indo para a porta à E.) Estou indo, Gerda. (Sai
à B.)
(EDWARD entra, ao CA, vindo da E.)
EDWARD: (Entrando.) O carro está lá fora.
MIDGE: (Virando-se.) Se não se importa, eu vou com Lucy.
EDWARD: Mas, por quê?
MIDGE: Ela perde tudo — fica aflita — eu posso ser útil.
EDWARD: (Magoado.) Midge, aconteceu alguma coisa? O que
foi?
MIDGE: Deixe para lá, agora. Vamos ao inquérito.
EDWARD: Mas aconteceu alguma coisa.
MIDGE: Não — não me amole.
EDWARD: Midge, você mudou de idéia? Será que eu apressei
um pouco as coisas, agora há pouco? Você, afinal, não quer
casar comigo?
MIDGE: Não, não — nós temos de manter as aparências.
Até tudo isto acabar.
EDWARD: O que é que você quer dizer?
MIDGE: Do jeito que as coisas estão agora — é melhor você
continuar sendo meu noivo. Mais tarde nós podemos
terminar.
(EDWARD parece arrasado por um momento, depois se
controla e fala com voz totalmente sem expressão.)
EDWARD: Compreendo — nem ao menos por Ainswick —
você aceita.
MIDGE: Não ia dar certo, Edward.
EDWARD: É. Vai ver que você tem razão. É melhor você ir.
Os outros estão esperando.
MIDGE: Você não....?
EDWARD: Eu já vou. Estou habituado a andar sozinho.
(MIDGE sai ao CA para a E. EDWARD cruza e sai àE, mas
volta em alguns instantes. Traz um revólver. Fecha a porta,
vai até a lareira, põe as luvas de MIDGE em seu bolso.
Depois verifica se o revólver está carregado. Quando
torna a fechar o revólver, MIDGE entra ao CA, da E.)
MIDGE: Edward, você ainda está aí?
EDWARD: (Tentando parecer calmo.) Ora, Midge, você
me assustou.
MIDGE: Eu vim buscar minhas luvas. Deixei em algum lu-
gar, por aqui. (Olha na direção da lareira e vê o revól-
ver na mão de EDWARD.) Edward, o que está fazendo com
esse revólver?
EDWARD: Estava pensando em ir fazer um pouco de tiro ao
alvo.
MIDGE: Tiro ao alvo? Mas, e o inquérito?
EDWARD: Ah, é mesmo, o inquérito. Eu tinha esquecido.
MIDGE: Edward — o que foi? (Mais perto dele.) Meu
Deus! (Arranca o revólver dele e cruza para a lareira.)
Dê esse revólver aqui — você deve estar louco. (Pousa o
revólver na lareira. Ele se senta na poltrona. Ela se vi-
ra.) Como pôde fazer uma coisa dessas? (Ajoelha-se junto
a ele.) Mas por quê, Edward? Por quê? Por causa de
Henrietta?
EDWARD: (Surpreso.) Henrieta? Não. Isso já acabou.
MIDGE: Por quê? Diga por quê?
EDWARD: É tudo tão — sem esperança.
MIDGE: Conte para mim, meu querido. Faça com que eu
compreenda.
EDWARD: Eu não sirvo para nada, Midge. Nunca servi. São
os homens como Cristow que.... alcançam o sucesso — que
as mulheres admiram. Mas eu... nem para ter Ainswick você
foi capaz de se forçar a casar comigo.
MIDGE: E você pensou que eu ia casar com você por causa
de Ainswick?
EDWARD: O céu em uma bandeja — mas você não agüentou
se lembrar que eu também vinha nela.
MIDGE: Mas isso não é verdade. Não é verdade. Mas que
idiota! Será que você não compreendeu? Não era Ainswick
que eu queria, era você. Eu o adoro — sempre o adorei. Eu o
amo desde que me lembro de existir. Às vezes ficava
doente, de tanto amor por você.
EDWARD: Você me ama?
MIDGE: Mas é claro que eu o amo, meu idiota querido.
Quando você me pediu para casar com você eu me senti no
céu.
EDWARD: Mas, então, porquê...?
MIDGE: Porque fui uma boba. Meti na cabeça que você só
me pediu por causa da polícia.
EDWARD: Da polícia?
MIDGE: Eu pensei — que talvez — você tivesse matado
John Cristow.
EDWARD: Eu....?
MIDGE: Por Henrietta — e pensei que você tivesse ficado
noivo de mim para despistar. Devo ter ficado maluca.
EDWARD: Não posso dizer que lamento a morte de Cristow
mais jamais pensaria em matá-lo.
MIDGE: Eu sei. Fui uma tola. (Deita a cabeça no peito
dele.) Mas eu estava com ciúmes de Henrietta.
EDWARD: (Abraçando-a.) Não precisa, Midge. Amei a
Henrietta de outros tempos. Mas naquele dia em que você
acendeu o fogo para mim eu compreendi que essa mulher, a
Henrietta de hoje, é uma estranha para mim. Quando você
me disse para olhar para você, pela primeira vez eu deixei de
ver Midge, a menininha, para ver Midge — uma mulher
quente e viva.
MIDGE: Edward!
EDWARD: Midge, nunca mais me deixe.
MIDGE: Nunca mais. Eu prometo. (Ouve-se um buzina.)
Meu Deus, Edward, nós temos de ir. Estão esperando. O que
foi que eu vim fazer? As luvas! (EDWARD tira as luvas do
bolso e entrega a ela.) Oh, meu amor!

(Saem ao CA para a E. Black-out em resistência, du-
rante o qual è fechada a cortina da recamara. Pausa de
seis segundos e a luz torna a subir. Supõe-se o lapso
de uma hora, durante a qual o tempo mudou para
tempestuoso e sombrio. GERDA e HENRIETTA entram ao
CA, HENRIETTA amparando GERDA. Ambas trazem bolsas.)

HENRIETTA: (Entrando.) Bem, ganhamos da tempestade.
Que horror, aqui até parece noite. (Ao passar pela mesa
das bebidas acende a lâmpada.) Você está bem? Com
certeza? (Leva GERDA para o sofá.) Venha aqui, para poder
ficar com os pés para cima. (GERDA senta no sofá.
HENRIETTA vai à mesa das bebidas.)
GERDA: Desculpe dar tanto trabalho. Não sei por que sofri
aquele desmaio.
HENRIETTA: (Servindo conhaque com água.) Ora, é natu-
ral. Estava muito abafado.
GERDA: Espero ter feito meu depoimento corretamente. Fico
tão confusa.
HENRIETTA: Você fez tudo muito bem.
GERDA: O juiz, ou lá o que era, foi muito bondoso. Ai, estou
contente que já acabou tudo. Se ao menos minha cabeça não
doesse tanto.
HENRIETTA: Você precisa beber alguma coisa. (Oferece o
copo a GERDA.)
GERDA: Não, obrigada; para mim, não.
HENRIETTA: Pois eu preciso. E acho que seria melhor você
também beber.
GERDA: Não — mesmo. (HENRIETTA toma um pequeno
gole, pousa o copo.) O que eu — mas talvez desse muito
trabalho...
HENRIETTA: Tire essa história de dar trabalho da cabeça,
Gerda. O que é que você queria tanto?
GERDA: Eu queria um chá — uma xícara de chá bem
quentinho.
HENRIETTA: Mas com todo o prazer.
GERDA: Mas é muito trabalho. Os empregados...
HENRIETTA: Está tudo bem. (Vai tocar a campainha, de-
pois pára.) Ah, já ia esquecendo; Gudgeon está no in-
quérito.
GERDA: Não tem importância.
HENRIETTA: Eu dou um pulo à cozinha e peço à Sra. Med-
way.
GERDA: Ela pode não gostar.
HENRIETTA: Ela não vai se importar. Mas talvez não gostasse
de vir atender à campainha.
GERDA: Você é tão boa para mim. (HENRIETTA sai à E.
Relâmpago e trovão. GERDA levanta-se, assustada, vai à porta
à D, olha para fora, depois olha apavorada para o lugar onde
JOHN morreu, prende a respiração senta-se no sofá e começa
a chorar baixinho. HENRIETTA entra à E.) John! Oh, John! Eu
não agüento.
HENRIETTA: A água já está no fogo. É só um instante. Por
favor, Gerda, não chore. Já acabou, agora.
GERDA: Mas o que eu vou fazer? O que posso fazer sem
John?
HENRIETTA: Lembre-se das crianças.
GERDA: Eu sei, eu sei. Mas era John quem resolvia tudo.
HENRIETTA: Eu sei. (Ela hesita um momento, cruza para
acima do sofá, põe as mãos sobre os ombros de GERDA efaz
com que esta se recoste.) Há só uma coisa, Gerda. (Pausa.) O
que é que você fez do coldre?
GERDA: (Olhando fixo para a frente.) Coldre?
HENRIETTA: O segundo revólver, sabe, aquele que você pe-
gou na biblioteca de Henry, tinha um coldre de couro. O
que é que você fez com ele?
GERDA: (Repetindo a palavra com aparência de imbecilida-
de.) Coldre?
HENRIETTA: (Urgente.) Você tem de me dizer. A não ser por
isso, está tudo em ordem. Não há nada mais que possa trair
você. Eles poderão suspeitar — mas não poderão provar
nada. Mas aquele coldre é um perigo. Ainda está com você?
(GERDA acena lentamente com a cabeça.) Onde?
GERDA: Eu cortei-o em pedaços e guardei na minha bolsa de
couro.
HENRIETTA: (Pegando a bolsa de artesanato de couro.) Aqui?
(GERDA concorda com a cabeça. HENRIETTA vai até a
escrivaninha, acende a lâmpada, depois tira uns pedaços de
couro marrom da bolsa de GERDA.) Eu vou levar e me
livrar deles. (Coloca-os em sua própria bolsa.) Foi uma
idéia ótima que você teve.
GERDA: (Falando em voz aguda e excitada, pela
primeira vez, e revelando que não é totalmente sã.)
Eu não sou tão estúpida quanto as pessoas pensam. Quando é
que você soube que eu matei John?
HENRIETTA: Eu sempre soube. Quando John disse "Hen-
rietta" para mim, antes de morrer, eu sabia o que ele queria
dizer. Eu sempre sabia o que John queria. Ele queria que eu
protegesse você — que de alguma forma eu mantivesse você
fora de tudo. Ele a amava muito. Muito mais do que pensava.
GERDA: (Chorando.) John — oh, John.
HENRIETTA: (Sentando-se ao lado de GERDA, no sofá.) Eu
sei, querida. Eu sei. (Passa o braço sobre os ombros de
GERDA.)
GERDA: Mas não pode saber. Era tudo mentira — tudo. Eu
tinha de matá-lo. Eu o adorava. Adorava. Pensava que ele
era tudo o que havia de nobre e bom. Mas ele não era nada
disso.
HENRIETTA: Ele era um homem — não um deus.
GERDA: Era tudo mentira. Na noite que aquela mulher veio
aqui — aquela mulher do cinema —, eu vi o rosto dele
quando olhou para ela. E depois do jantar ele foi lá. E não
voltou. Eu fui deitar, mas não conseguia dormir. Horas a fio
— e ele não voltava. Finalmente eu me levantei, vesti um
casaco, calcei os sapatos, desci a escada e saí pela porta do
lado. Fui pela estrada até a casa dela. As cortinas estavam
fechadas na frente, e então eu dei a volta por trás. E, lá, não
estavam fechadas, eu cheguei pertinho e espiei para dentro.
(Histérica.) Eu espiei lá para dentro. (Relâmpago e
trovão ao longe.)
HENRIETTA: Gerda!
GERDA: Eu vi os dois — aquela mulher e John. (Pausa.) Eu
vi os dois. (Pausa.) Eu acreditava em John — comple-
tamente — inteiramente — e era tudo mentira. Eu fiquei
sem nada — nada. (Retomando tom de conversa.) Você
compreende, não compreende, Henrietta, que eu tinha de
matá-lo? (Pausa.) Será que aquele chá vem aí? Eu queria
tanto um chá.
HENRIETTA: Vem já. Pode continuar a me contar, Gerda.
GERDA: (Astuta.) Sempre disseram que eu era estúpida
quando era pequena. Burra e lenta. Diziam: "É melhor não
dar para a Gerda fazer, porque a Gerda vai levar o dia
inteiro." Ou então: "A Gerda parece que não compreende
nada do que se diz a ela." Será que nenhum deles percebia
que isso ainda me fazia mais burra e mais lenta? E aí,
finalmente, eu encontrei uma saída. Eu fingia ser muito mais
estúpida do que era. Eu olhava como se não compreendesse.
Mas, por dentro, muitas vezes eu estava rindo. Porque
muitas vezes eu sabia mais do que eles pensavam.
HENRIETTA: Sei. Entendo.
GERDA: John não se importava se eu era ou não burra —
pelo menos a princípio. Ele dizia que eu não me preo-
cupasse — que deixasse tudo com ele. Foi só quando ele
começou a ficar muito ocupado. Então, começou também a
ficar impaciente. E, às vezes, eu achava que não conseguia
fazer nada certo. Mas, ai, eu me lembrava de como ele era
inteligente — e bom. Só tem que — afinal, não era — e eu
tive de matá-lo.
HENRIETTA: Continue.
GERDA: Eu sabia que tinha de ter muito cuidado porque a
polícia é muito esperta. Eu li em uma história de detetive
que eles podem descobrir de que revólver é uma bala. Então
eu peguei um outro revólver na biblioteca de Henry e matei
John com ele, e joguei o primeiro perto dele. E ai eu dei a
volta na casa, correndo, entrei, passei por aquela porta,
cheguei perto de John e peguei o revólver. Eu pensei, sabe,
que todos iam pensar que tinha sido eu, mas que depois iam
ver que o revólver não era aquele e aí não acontecia nada
comigo. E aí eu queria pôr o revólver com que eu o matei na
casa daquela mulher do cinema e todos iam pensar que tinha
sido eia. Só que ela esqueceu a bolsa aqui — e ficou ainda
mais fácil. Eu guardei o revólver na bolsa mais tarde,
naquele mesmo dia. Eu não sei por que não a prenderam.
(Voz sobe.) Deviam ter prendido. (Histérica.) Foi por
causa dela que eu matei John.
HENRIETTA.- Você limpou as impressões digitais do segundo
revólver, daquele com o qual você atirou nele?
GERDA: Claro. Eu sou mais esperta do que as pessoas
pensam. Mas eu esqueci o coldre.
HENRIETTA: Não se preocupe. Agora está comigo. Acho que
você está inteiramente a salvo, Gerda. Você precisa ir para
um lugar qualquer, tranqüilo, no campo, e esquecer tudo
isto.
GERDA: (Infeliz.) É. Acho que preciso. Eu não sei o que
fazer. Eu não sei para onde ir. Não sei me decidir — John
sempre resolvia tudo. Minha cabeça está doendo.
HENRIETTA: Eu vou buscar o chá. (Sai à E. GERDA olha
matreiramente para a porta à E, levanta-se, pega um
vidrinho de veneno de sua bolsa e estica a mão para
pegar o copo de HENRIETTA. Faz uma pausa, tira um
lenço da bolsa epega o copo com ele. HENRIETTA volta,
silenciosamente, à E. Está carregando uma bandeja
com o chá. GERDA, de costas, não percebe que ela
entrou. HENRIETTA olha enquanto GERDA derrama o
vidrinho no copo, depois torna a guardar o vidro e o
lenço em sua bolsa. HENRIETTA sai rapidamente, GERDA
vai sentar. HENRIETTA torna a entrar, cruza até a
mesinha de café e pousa a bandeja sobre ela.) Aqui
está seu chá, Gerda.
GERDA: Muito obrigada, Henrietta.
HENRIETTA: (Indo até a mesa das bebidas.) Onde está
meu copo? (Pega-o.)
GERDA: (Servindo-se.) Exatamente o que eu queria. Como
você é boa para mim, Henrietta.
HENRIETTA: Será que devo beber isto, ou será melhor
tomar um chá com você?
GERDA: (Matreira.) Ora, você não gosta de chá, não é,
Henrietta?
HENRIETTA: (Cortante.) Acho que hoje, eu prefiro chá.
(Pousa seu copo na mesinha de café e sai pela porta à E.)
Vou buscar outra xícara.
(GERDA franze a testa, irritada, ese levanta. Olha em torno,
vê o revólver sobre a lareira, olha para a porta à E, depois
corre até a lareira e pega o revólver. Examina-o, vê que está
carregado, acena a cabeça satisfeita e emite um pequeno
soluço. O INSPETOR entra à DB.)
INSPETOR: O que está fazendo com esse revólver, Sra.
Cristow?
GERDA: (Virando-se, assustada.) Oh, Inspetor, que susto o
senhor me pregou. Meu coração não é muito forte, sabe?
INSPETOR: O que é que a senhora estava fazendo com esse
revólver?
GERDA: Eu o encontrei — aqui.
INSPETOR: (Tomando o revólver de GERDA.) A senhora sabe
muito bem como se carrega um revólver, não é? (Ele o
descarrega, põe as balas em um bolso e o revólver no outro.)
GERDA: Sir Henry muito bondosamente me ensinou. O
inquérito já acabou?
INSPETOR: Já.
GERDA: Qual foi o veredicto?
INSPETOR: Adiado.
GERDA: Isso não está certo. Tinham de dizer que foi
homicídio intencional e que a culpada foi ela.
INSPETOR: Ela?
GERDA: Aquela atriz. Aquela tal de Verônica Craye. Se
adiarem a decisão, ela escapa — vai de volta para a América.
INSPETOR: Verônica Craye não atirou em seu marido, Sra.
Cristow.
GERDA: Atirou. Atirou, sim. Claro que atirou.
INSPETOR: Não. O revólver não estava na bolsa dela na
primeira vez em que esta sala foi revistada. Foi posto lá
depois. (Pausa.) Muitas vezes nós sabemos muito bem
quem é o culpado de um crime, Sra. Cristow — (olha-a
significativamente), porém nem sempre conseguimos as
provas suficientes.
GERDA: (Loucamente.) Oh, John — John — onde está vo-
cê? Eu quero você, John.
INSPETOR: Sra. Cristow, por favor — não faça isso.

(GERDA soluça histericamente. O INSPETOR vai até a
mesa das bebidas, pega o copo de HENRIETTA, leva-o
até GERDA, a quem o entrega. GERDA, sem notar o que
é, bebe todo o conteúdo do copo. Após alguns ins-
tantes ela se levanta, cambaleia e cruza abaixo do
sofá. Quando começa a cair, o INSPETOR a alcança e
deita-a no sofá. Entra HENRIETTA pela E. Traz xícara e
pires. Corre até E do sofá, ajoelha-se e pousa xícara e
pires na mesa enquanto o INSPETOR tira o copo vazio
de GERDA.)

HENRIETTA: Gerda. (Vê o copo. Para o INSPETOR.) O se-
nhor lhe deu isso?
INSPETOR: O que é que havia aqui?
HENRIETTA: Ela botou alguma coisa dentro — que tirou da
bolsa. (O INSPETOR abre a bolsa de GERDA e tira o vidro
de veneno.)
INSPETOR: (Lendo o rótulo.) Como será que ela conseguiu
isso? (Sente o pulso de GERDA, depois sacode a cabeça.)
Então ela se matou.
HENRIETTA: Não. Era para mim.
INSPETOR: Para a senhora? Por quê?
HENRIETTA: Porque — eu sabia — de uma coisa.
(Caminha.)
INSPETOR: Sabia que ela tinha matado o marido? Ora, eu
também sabia disso. Aprendemos a conhecer as pessoas em
nosso trabalho. A senhora não é do tipo que mata. Ela era.
HENRIETTA: Ela amava John Cristow — demais.
INSPETOR: A Adoradora — é o título da estátua, não é? E,
agora, o que vai fazer?
HENRIETTA: Certa vez John me disse que, se ele morresse, a
primeira coisa que eu deveria fazer seria modelar uma figura
de dor. Pode ser estranho, mas é exatamente isso que eu vou
fazer.
(O INSPETOR vai até a escrivaninha quando LADY A.
entra, radiosa.)
LADY ANGKATELL: Que inquérito maravilhoso. (O INSPETOR
pega o telefone.) Exatamente como contam nos li-vrose...
(Vê GERDA.) Gerda se...? (O INSPETOR a olha em silêncio.
HENRIETTA cobre os olhos com as mãos para esconder
suas lágrimas. Acena com a cabeça.) Mas que alívio...
INSPETOR: (Ao telefone.) A polícia, por favor.
HENRIETTA começa a soluçar quando O PANO CAI






Agatha Christie

Portal do Destino

Tradução de
MARIA A. MORAES REGO

EDITORA RECORD

Para
Hannibal e Seu Dono








































São quatro as portas de Damasco, o Portal do Destino, a Entrada do Deserto, a Caverna da Tragédia, o Forte do Medo... Não passa, Caravana, ou passa sem cantar. Você já ouviu o silêncio dos pássaros mortos, Ou alguma coisa que chore como um pássaro?

AS PORTAS DE DAMASCO de James Elroy Flecker




























ÍNDICE

LIVRO I
I A Respeito de Livros
II A Flecha Negra
III Uma Visita ao Cemitério
IV Uma Porção de Parkinson
V O Bazar do Elefante Branco
VI Problemas
VII Mais Problemas
VIII Mrs. Griffin

LIVRO II
I Muito Tempo Atrás
II Matilde, Bem-Amado e o Quiosque
III "Acredite em Coisas Impossíveis"
IV Excursão no Bem-Amado, Oxford e Cambridge
V Métodos de Pesquisa
VI Mr. Robinson

LIVRO III
I Mary Jordan
II Tuppence Pesquisa
III Tommy e Tuppence Trocam Idéias
IV Matilde é Operada
V Um Encontro com o Coronel Pikeaway
VI O Portal do Destino
VIIO Inquérito
VIII Um Tio é Lembrado
IX Brigada Juvenil
X Tuppence é Atacada
XI Hannibal-Entra em Ação
XII Oxford, Cambridge e Lohengrin
XIII Uma Visita de Miss Mullins
XIV Uma Conversa no Jardim
XV Hannibal e Mr. Crispin em Serviço Ativo
XVI Os Pássaros Voam para o Sul
XVII Últimas Palavras: Jantar com Mr. Robinson
LIVRO I

I
A RESPEITO DE LIVROS

— LIVROS — explodiu Tuppence, mal-humorada.
— O que houve? — perguntou Tommy. Do outro lado da sala Tuppence o encarou.
— São esses livros.
— Entendo o seu problema — respondeu Thomas Beresford.
Em frente a Tuppence havia três grandes caixotes. Ainda estavam cheios de livros, embora ela já tivesse guardado muitos deles.
— É inacreditável — disse Tuppence.
— O que, o espaço que eles ocupam?
— Isso.
— Está tentando colocá-los todos nas estantes?
— Nem sei o que estou tentando fazer, aí é que está o caso. Não sei realmente o que quero. Ah, Deus! — suspirou Tuppence.
— Ora — disse o marido, — não pensei que tivesse esses problemas. Você sempre sabe, até bem demais, o que quer fazer.
— O caso é que estamos envelhecendo e... vamos ser francos... o reumatismo começa a nos atrapalhar. Já é difícil nos esticar para colocar livros lá em cima ou levantar algum peso. E quando nos abaixamos é ruim ficar em pé novamente.
— É, esta é uma boa descrição das nossas incapacidades físicas.
— Sabe, foi maravilhoso poder comprar esta nova casa, justamente no lugar onde queríamos viver. É a casa de nossos sonhos, com algumas modificações, é claro.
— Tivemos que unir duas salas numa só — disse Tommy — e construímos o que você chama de varanda, e que para mim é um pórtico.
— Vai ficar ótima! — disse Tuppence com convicção.
— Acha que nem vou reconhecê-la quando ficar pronta?
— Não exatamente, mas quando eu tiver terminado, você ficará encantado e dirá: "Mas que esposa inteligente, criativa e habilidosa, a minha!"
— Preciso lembrar-me de dizer exatamente isso — disse Tommy.
— Não vai ser preciso. Será óbvio, evidente.
— E o problema dos livros?
— Bem, trouxemos dois ou três caixotes de livros conosco, depois de vender os que não nos interessavam. Só trouxemos aqueles dos quais não queríamos nos separar. E o pessoal que nos vendeu a casa, não me lembro o nome deles agora, queria levar pouca coisa e nos ofereceram os móveis e os livros. Então...
— Fizemos algumas ofertas — completou Tommy.
— É, menos do que esperavam que fizéssemos, a mobília e os objetos eram horríveis. Felizmente não tínhamos que ficar com eles! Mas quando vi os livros para crianças lá embaixo na sala de estar, havia alguns que tinham sido meus prediletos e acho que ainda são, resolvi que gostaria de ficar com eles. Lembra-se da história de Ándrocles e o Leão, de Andrew Lang? Li-o quando tinha oito anos.
— Tuppence, você já lia aos oito anos?
— Já, aprendi com cinco. Quando eu era pequena, as crianças dessa idade já liam. Acho que nem era preciso aprender. Alguém lia as histórias alto e se você gostava podia pegar mais tarde na estante e olhá-las sozinho, até que um dia descobria que sabia lê-las, sem nunca ter aprendido a soletrar, ou coisa semelhante. Depois as coisas se complicaram, nunca aprendi ortografia corretamente, mas se tivessem me ensinado quando tinha quatro anos, teria aprendido com perfeição. Meu pai ensinou-me a somar, subtrair e multiplicar. Dizia que a tabuada de multiplicação era a coisa mais útil que se podia aprender na vida. Eu sabia fazer aquelas divisões enormes, também.
— Ele deve ter sido um homem inteligente!
— Não acho que fosse muito inteligente — disse Tuppence — mas era bom, muito bom.
— Estamos saindo do assunto.
— É, como eu dizia, adorei a idéia de ler Ándrocles e o Leão novamente. Havia uma história sobre "um dia de minha vida em Eton", escrita por um aluno de Eton. Não sei por que achava isto interessante, mas o certo é que achava. Era um dos meus livros prediletos. Havia resumos de clássicos, livros de Mrs. Molesworth, O Relógio Cuco, A Fazenda dos Quatro Ventos.
— Espere aí — disse Tommy, — não é preciso uma descrição completa dos amores literários da sua infância.
— O importante é que não se pode mais comprá-los hoje em dia. As novas edições geralmente foram modificadas, com outras ilustrações. Nem reconheci Alice no País das Maravilhas quando o vi, outro dia. Estava todo diferente. Ainda se podem achar as histórias de Mrs. Molesworth, alguns contos de fada como Rosa, Azul e Amarelo e muitos que me deliciaram mais tarde. Livros de Stanley Weyman e coisas assim. Desses há muitos aqui na casa.
— Compreendo, você sentiu-se tentada. Era uma boa compra — disse Tommy.
— Mais do que isto. Este assunto o está aborrecendo?
— Não, estou muito interessado, continue.
— Comprei-os a um preço muito baixo, acredite. E aqui estão eles, junto com os nossos livros.
Só que são tantos, que as prateleiras novas não vão ser suficientes. Haverá lugar para mais livros lá no seu querido escritório, lá embaixo?
— Não, não há Tuppence. Não há lugar nem para os meus.
— Ah, Deus, isso sempre nos acontece. Acha melhor construir mais uma sala?
— Não, vamos economizar. Você mesmo disse isso anteontem, lembra-se?
— Isso foi anteontem, as coisas mudam — disse Tuppen-ce. — O que vou fazer é colocar agora nas prateleiras os livros que queremos conservar. Mais tarde resolveremos o que fazer com os outros, deve haver hospitais de crianças e outros lugares onde estejam interessados em livros.
— Podíamos vendê-los.
— Não creio que alguém os queira comprar. Não são valiosos, ou coisa parecida.
— Nunca se sabe — disse Tommy. — Pode ser que algum desses livros esgotados esteja sendo procurado há muito tempo, por algum negociante do ramo.
— Vamos guardá-los por hora. Estou folheando um a um para ver se ainda me lembro se os quero. Estou tentando separá-los em gêneros, aventuras, histórias de fadas, histórias para crianças muito pequenas, aqueles contos sobre escolas onde as crianças eram sempre muito ricas, L. T. Meade, acho. Achei uns livros que costumávamos ler para Débora quando era pequena. Nós duas gostávamos do Ursinho Puff, e não achávamos grande coisa a Galinhazinha Cimenta.
— Você está se cansando. É bom parar um pouco — disse Tommy.
— É, acho que sim. Se ao menos pudesse arrumar este lado da sala e guardar os livros...
— Está bem, vou ajudá-la.
Tommy pegou um caixote e virou-o para que os livros caíssem. Pegou uma braçada deles e colocou na estante.
— Estou arrumando por ordem de tamanho, fica melhor.
— Não chamo a isso de arrumação — reclamou Tuppence.
— Por hora será suficiente. Mais tarde poderemos separá-los melhor, algum dia chuvoso, quando não tivermos nada melhor para fazer.
— O problema é que sempre temos algo melhor para fazer.
— Bem, já arrumei mais sete. Só falta agora aquele canto lá em cima. Será que aquela cadeira agüenta o meu peso? Preciso alcançar a prateleira lá de cima.
Tommy subiu na cadeira com todo cuidado. Conseguiu colocar na estante uma pilha de livros que Tuppence lhe entregou, mas os três últimos caíram desastradamente por cima dela.
— Ai, isso doeu.
— Não pude evitar, você me entregou muitos de uma vez só.
Tuppence deu uns passos para trás:
— Está ótimo assim. Se você colocar este ali na segunda prateleira, estará terminado este caixote. Ainda bem. Hoje estou arrumando os que comprei, talvez achemos algo valioso.
— Talvez — disse Tommy.
— Tenho um palpite de que encontraremos uma, preciosidade, alguma coisa que vale muito dinheiro.
— E o que faremos? Vamos vender o livro?
— Pode ser. Também podemos exibi-lo disfarçadamente aos outros dizendo: "Vejam que descoberta interessante nós fizemos!" Tenho certeza de que descobriremos alguma coisa.
— O quê? Algum livro velho e querido do qual já tinha se esquecido?
— Mais do que isso. Estou pensando em algo surpreendente e assustador. Algo que modificará nossas vidas.
— Ah, Tuppence! Você tem uma imaginação maravilhosa! Acho maia provável encontrarmos algo que seja um desastre total.
— Tolice. É preciso ter esperanças. É a coisa mais necessária para se viver, a esperança. Lembra-se? Eu sempre tenho esperança.
— Sei que você tem — disse Tommy e suspirou. — Muitas vezes lamentei esse lato.


II
A FLECHA NEGRA

MRS. THOMAS Beresford colocou O Relógio Cuco, de Mrs. Molesworth, num espaço vazio na terceira prateleira a contar de baixo. Ali estavam os outros livros da mesma autora. Tuppence escolheu A Sala da Tapeçaria e folheou-o pensativamente. Talvez lesse A Fazenda dos Quatro Ventos. Desse não se lembrava muito bem. Suas mãos hesitaram... Tommy chegaria logo.
Estava progredindo. Com toda a certeza. Se ao menos não parasse para reler os antigos favoritos. .. Era muito agradável, mas levava tanto tempo. Quando Tommy lhe perguntava todas as noites ao chegar em casa como iam as coisas, respondia: — Vão muito bem! — e usava todo o seu tato para impedi-lo de subir e olhar a arrumação das estantes. Levava muito tempo. Instalar-se numa casa sempre levava mais tempo de que se esperava. E como havia gente irritante, eletricistas por exemplo. Chegavam e não contentes com o que tinham feito da última vez, abriam mais buracos no assoalho, onde a dona da casa desprevenida quase se despencava, sendo salva à última hora pelo ele-tricista que estava no andar de baixo.
— Algumas vezes — dissera Tuppence — gostaria de não ter saído de Bartons Acre.
— Lembre-se do telhado da sala de jantar — Tommy respondera — e do sótão e do que aconteceu com a garagem. O carro quase a demoliu.
— Talvez você pudesse reformá-la.
— Não — dissera Tommy. — Era necessário, praticamente, reconstruí-la. Foi melhor mudar-nos.
Algum dia esta casa ficará muito agradável. Tenho certeza disso. Haverá lugar para todas as coisas que quisermos fazer.
— Você quer dizer para guardar tudo que quisermos.
— Isso mesmo — respondera Tommy. — Guardamos coisas demais. Concordo plenamente com você.
Tuppence pensou se algum dia a casa estaria finalmente arrumada. Parecera tão fácil, mas como as coisas tinham se complicado. Parte das dificuldades eram os livros, certamente.
— Se eu fosse uma menininha normal, de hoje em dia, não teria aprendido a ler tão cedo e com tanta facilidade — dissera Tuppence. — Hoje, crianças de quatro, cinco ou seis anos não sabem ler. Às vezes, nem quando chegam aos dez ou onze. Não sei por que achávamos tão fácil. Todos sabía-mos ler: eu, meu vizinho Martin, Jennifer, que morava na esquina, Cyril e Winifred. Todos nós. Não sabíamos soletrar corretamente, mas líamos tudo. Acho que aprendíamos perguntando às pessoas. Lembro-me dos anúncios que nos fascinavam, quando íamos chegando a Londres de trem. As Pílulas para o Fígado do Dr. Cárter. Imaginava para que serviriam. Ai, meu Deus, preciso me concentrar no que estou fazendo.
Apanhou mais alguns livros e por quase uma hora ficou entretida com Alice no País do Espelho, e com Desconhecidos na História, de Charlotte Yong. Depois hesitou ante o grosso volume de O Colar de Margaridas.
— Preciso reler este aqui. Quantos anos se passaram desde que o li!
— O que disse, senhora?
— Nada, não — disse Tuppence ao seu fiel criado Albert, que aparecera na porta.
— Pensei que a senhora tinha me chamado. Não tocou a campainha?
— Não. Só encostei nela quando subi na cadeira para pegar um livro.
— Quer que eu pegue algum livro para a senhora?
— Bem, seria ótimo. Tenho medo de cair dessas cadeiras. Algumas estão com as pernas bambas e outras escorregam.
— Algum livro em particular?
— Bem, ainda faltam as três prateleiras de cima. Alcance-me os livros da segunda. Quero ver o que há por aí.
Albert subiu na cadeira e depois de sacudir os livros, um a um, para retirar a poeira, entregou-os a Tuppence, que os recebeu com entusiasmo:
— Veja só o que está aqui! Quantos livros de Stanley Weyman: O Amuleto, Em Busca do Tesouro, O Cocar Vermelho. Adoro todos eles. Costumava lê-los quando tinha dez ou onze anos. Talvez encontremos O Prisioneiro de Zenda — Tuppence suspirou de prazer com a idéia. — O Prisioneiro de Zenda foi o primeiro romance que li. A Princesa Flávia, o Rei da Ruritânia, Rudolph Rassendyl. Até sonhávamos com ele.
Albert estendeu-lhe mais livros.
— Ah, esses são para crianças pequenas. Preciso colocar todos juntos. E aqui está A Ilha do Tesouro. É divertido, mas já o li outra vez e creio ter visto dois filmes sobre ele. Não gosto de filmes baseados em livros. Nunca são a mesma coisa. Aqui está Raptado. Sempre gostei deste.
Albert tentou pegar uma pilha grande demais de livros e Catriona caiu na cabeça de Tuppence.
— Desculpe-me senhora. Sinto muito.
— Está tudo bem — disse Tuppence. — Não faz mal. Há mais algum livro de Stevenson aí em cima?
Albert entregou-lhe mais uma pilha com muito cuidado. Tuppence exclamou entusiasmada:
— A Flecha Negra. Que ótimo! Este foi um dos primeiros livros que li na minha vida! Acho que nunca o leu, não é, Albert? Não é do seu tempo. Deixe-me pensar. Havia um quadro na parede, e olhos que viam através dos olhos da figura, era assustador. Maravilhoso, mesmo. A Flecha Negra, a Inglaterra de Ricardo III: "O gato, o rato e Lovell, o cão, governam a Inglaterra com o porco". O porco era Ricardo, naturalmente. Hoje em dia, há livros que defendem Ricardo, dizem até que era formidável. Mas eu não acredito. Shakespeare também não acreditava, e faz Ricardo dizer, no início da peça: "Provarei que sou um infame."
— Quer mais livros, senhora?
— Não, obrigada, Albert. Acho que estou muito cansada para continuar.
— Está certo, senhora. A propósito, o senhor telefonou e disse que chegaria meia hora atrasado.
— Não tem importância — disse Tuppence. Sentou-se, abriu A Flecha Negra, e mergulhou na leitura.
— Meu Deus, que livro maravilhoso. Vou gostar de lê-lo novamente. Lembro-me tão pouco, era tão interessante.
Fez-se silêncio. Albert voltou à cozinha. Tuppence recostou-se confortavelmente na velha poltrona. O tempo passou. Mrs. Beresford relembrava as alegrias do passado relendo A Flecha Negra de Robert Louis Stevenson. Na cozinha o tempo passava também enquanto Albert dedicava-se ao fogão. Um carro chegou e Albert dirigiu-se à porta lateral
— Quer que eu guarde o carro na garagem, senhor?
— Não — disse Tommy. — Pode deixar. Deve estar ocupado com o jantar. Cheguei muito atrasado?
— Não, senhor. Até menos do que disse que chegaria.
Tommy guardou o carro e entrou na cozinha esfregando as mãos.
— Está frio lá fora. Onde está Tuppence?
— A senhora está lá em cima com os livros.
— Ela ainda está às voltas com aqueles livros terríveis?
— Está. Arrumou muitos hoje, mas passou grande parte do tempo lendo.
— Mas que coisa! — disse Tommy. — O que teremos para o jantar?
— Filé de linguado com limão, senhor. Não vai demorar.
— Pode servir daqui a uns quinze minutos. Quero tomar um banho primeiro.
No andar de cima Tuppence ainda estava entretida com A Flecha Negra. Havia rugas de concentração na sua testa. Tinha descoberto uma coisa esquisita. Na página 64 ou 65, não podia ver bem, alguém sublinhara algumas palavras. Tuppence passara o último quarto de hora examinando o caso. As palavras eram salteadas, não era, portanto, um trecho que alguém julgara importante. Tinham sido sublinhadas com tinta vermelha. Tuppence leu-as baixinho.
— Não, não faz sentido.
Pegou algumas folhas de papel que estavam sobre a escrivaninha. Eram amostras enviadas pela gráfica, impressas com o novo endereço, Os Loureiros, para que os Beresford fizessem a sua escolha.
— Que nome bobo — disse Tuppence — mas se o trocarmos novamente a correspondência pode se extraviar.
Copiou as palavras e notou algo que não reparara antes.
— Ah, assim é diferente. Riscou algumas letras no papel.
— Finalmente a achei — disse a voz de Tommy. — O jantar está quase pronto. Como vão os livros?
— Isto é um quebra-cabeça. Não consigo entender.
— Não consegue entender o quê?
— Bem, eu estava lendo A Flecha Negra do Stevenson, muito distraída, quando cheguei a esta página onde há uma coisa estranha. Algumas palavras foram sublinhadas com tinta vermelha.
— Isto é normal — disse Tommy. — Muita gente marca os livros, nem sempre com tinta vermelha, é claro. Frases que gostaríamos de lembrar, citações e coisas semelhantes. Você sabe disso.
— Sei, mas não é isso que acontece aqui — disse Tuppence. — São as letras.
O que quer dizer, são as letras? — perguntou Tommy.
— Olhe aqui.
Tommy sentou-se no braço da poltrona e leu: "Matcham segurou grito Jack pulou ruína dedos janela juntos sinal... ora, isso não faz sentido, é bobagem.
— Foi o que pensei a princípio. Mas não é bobagem, Tommy.
Embaixo, sinos tocaram.
— O jantar está servido.
— Isto pode esperar — disse Tuppence. — Tenho que lhe contar agora. Mais tarde talvez possamos fazer alguma coisa. É muito estranho realmente. Preciso lhe contar.
— Pois conte. É mais outra das suas fantásticas descobertas?
— Não, não creio. Olhe, separei as letras. Nesta página, veja bem, o "M" de Matcham e o "a" estão sublinhados. Não são as palavras que queriam destacar e sim as letras. A seguir o "r" de segurou, e o "y" da palavra seguinte, o "j" de Jack, o "1" de pulou, o "r" de ruína, o "d" de dedos, o "a" de janela, o "n" de juntos, o "n" de sinal.
— Chega, pelo amor de Deus — disse Tommy.
— Espere um pouco — disse Tuppence. — Preciso descobrir. Vê agora por que escrevi esta lista? Veja, vamos pegar as letras e escrevê-las em ordem. As quatro primeiras formam M-A-R-Y. Mary.
— Muito bem. Alguém chamava-se Mary. Deve ter sido alguma criança, com espírito inventivo, que escreveu seu nome no livro. As pessoas vivem fazendo isso.
— Olhe aqui — disse Tuppence. — A é uma palavra é J-O-R-D-A-N
— Não está vendo? Mary Jordan — disse Tommy. — Agora já sabe o nome todo dela. Mary Jordan.
— Mas este livro não pertencia a ela. No início está escrito numa caligrafia bem infantil, "Alexander". Alexander Parkinson, acho.
— Acha que isto é importante?
— Naturalmente que é — disse Tuppence.
— Venha, estou com fome.
— Tenha calma — disse Tuppence. — Vou ler para você o que dizem as letras sublinhadas neste trecho. Não vejo mais nenhuma nas próximas páginas. Tenho a certeza agora de que só as letras são importantes, não as palavras. N-Ã-O, não; M-O-R-R-E-U, morreu; N-A-T-U-R-A-L-M-E-N-T-E, naturalmente. Mary Jordan não morreu naturalmente. Vê agora? E depois vem: "Foi um de nós. Acho que sei quem". É tudo, não encontro mais nada. Fascinante, não acha?
— Olhe aqui, Tuppence, você não está pretendendo fazer nada sobre isto, está?
— Do que está falando?
— Ora, você está achando que há algum mistério.
— Bem, para mim o mistério existe — disse Tuppence. — "Mary Jordan não morreu naturalmente. Foi um de nós. Acho que sei quem". Tommy, você tem que concordar que é muito curioso.

III
UMA VISITA AO CEMITÉRIO

— TUPPENCE — chamou Tommy, ao chegar em casa.
Ninguém respondeu. Aborrecido, subiu correndo os degraus e entrou no hall do andar térreo. Na sua pressa, quase tropeçou num buraco aberto no assoalho e exclamou indignado:
— Mais um desses eletricistas idiotas e descuidados!
Não era a primeira vez que isto lhe acontecia. Os eletricistas chegavam com um ar eficiente e otimista e começavam a trabalhar.
— Falta pouco, está quase pronto — eles diziam. — Voltaremos à tarde. — E não voltavam. Tommy nem se admirava mais. Já se habituara aos hábitos de trabalho de encanadores, eletricistas e os outros companheiros do ramo das construções. Todos chegavam animados, faziam comentários otimistas, saíam para buscar alguma coisa e não voltavam. Podia-se telefonar à vontade que, ou o número estava errado, ou eles tinham saído, ou não trabalhavam mais ali. Tudo que era possível fazer era esperar e tomar cuidado para não torcer o tornozelo ou cair em algum buraco. Ele se preocupava mais com a possibilidade de Tuppence se machucar, do que com ele. Chamou novamente:
— Tuppence, Tuppence!
Estava preocupado. Tuppence era o tipo de pessoa que sempre corria o risco de se queimar no fogão ou de derramar a água fervendo da chaleira. Sempre prometia, quando ele saía de casa, que seguiria à risca seus sábios conselhos. Não, ela só ia sair para comprar um pacote de manteiga, e isso não era perigoso, era?
— No seu caso, eu acho que é — dizia Tommy.
— Ora, não seja bobo.
— Não é bobagem, não — respondera Tommy. — Estou tentando ser um marido cuidadoso para preservar a minha propriedade favorita, embora eu nem saiba por que a considero assim. ..
— Porque sou encantadora, atraente, ótima companheira e tomo conta de você muito bem.
— Isso pode ser verdade — disse Tommy — mas eu podia lhe citar uma lista diferente.
— Não faça isso. Acho que não vou gostar dela. Sei que você tem muitas queixas arquivadas contra mim. Mas não se preocupe, tudo estará bem. Quando chegar é só chamar que estarei aqui.
E agora, onde estava ela?
— Mulherzinha terrível — disse Tommy. — Saiu outra vez.
Subiu à sala onde ela estivera na véspera. Deve estar lendo outro livro e imaginando coisas sobre algumas palavras que alguma criança tola sublinhou com tinta vermelha! Ou à procura de Mary Jordan, seja quem for; Mary, que não morreu de morte natural. Sem querer, ele também estava interessado. Devia ter acontecido há muito tempo. Os últimos donos da casa chamavam-se Jones e tinham morado ali uns três ou quatro anos. Essa criança que escrevera no livro de Stevenson vivera na casa há muitos anos. De qualquer maneira, Tuppence não estava ali e não havia nenhum livro fora da estante.
— Em que diabo de lugar ela se meteu?
Thomas desceu, chamando por ela. Ninguém respondeu. O casaco dela não estava pendurado na entrada. Onde teria ido? Onde estava Hannibal?
— Hannibal, Hannibal, aqui Hannibal, aqui.
Hannibal não apareceu. Bem, pelo menos ele está com ela, pensou Tommy. Não deixará ninguém fazer mal a Tuppence. Ele é que poderia atacar alguém. Era muito sociável quando o levavam numa visita, mas as pessoas que quisessem entrar em qualquer casa em que ele morasse, eram consideradas suspeitas, decididamente. Estava sempre pronto a enfrentar qualquer perigo, a latir e a morder se fosse necessário.
Thomas andou um pouco pela calçada, mas não viu nenhum sinal de uma mulher de altura média com um casaco vermelho vivo, levando um cachorrinho preto. Finalmente, meio zangado, voltou para casa.
Um cheiro apetitoso o recebeu. Foi direto para a cozinha, onde Tuppence, às voltas com o fogão, deu-lhe um sorriso de boas-vindas.
— Você chegou tarde — disse-lhe ela. — Que tal o cheiro? Gostoso, não acha? Esta torta tem alguns ingredientes diferentes dessa vez, uns temperos que achei na horta. Pelo menos acho que são temperos.
— Se não forem, logo saberemos — disse Tommy. — Talvez sejam ervas venenosas, folhas de di-gitalis com um ar inocente! Onde você se meteu?
— Levei Hannibal para passear.
Nesse momento Hannibal se manifestou. Pulou em cima de Tommy, dando-lhe uma recepção tão entusiasmada que quase o derrubou. Era um cãozinho preto, de pêlo lustroso, com manchas castanhas nas costas e nos dois lados do focinho. Era um Manchester terrier de ótimo pedigree e se achava mais importante e mais aristocrático do que qualquer outro cão que conhecia.
— Ora, pois eu andei por ai a sua procura. Onde se meteu com esse tempo ruim?
— Não estava muito ruim, não. Só muito úmido e enevoado. Estou um tanto cansada.
— Onde foi? Fazer compras?
— Não, as lojas fecham cedo hoje. Não.... Fui ao cemitério.
— Que idéia fúnebre — disse Tommy. — O que foi fazer no cemitério?
— Fui olhar as sepulturas.
— Está ficando cada vez mais fúnebre. E Hannibal se distraiu?
— Tive de prendê-lo na coleira. Alguém com jeito de sacristão ia saindo da igreja e achei que Hannibal podia não simpatizar com ele. Bem, é melhor não indispor as pessoas contra nós logo de saída, não é?
— O que foi fazer no cemitério?
— Ver a espécie de gente que está enterrada lá. Está um bocado cheio. Data do início de mil e oitocentos, e acho que há umas duas pessoas que nasceram ainda no século anterior, mas as datas já estão muito apagadas.
— Ainda não vejo o que foi fazer no cemitério.
— Estava investigando — disse Tuppence.
— Investigando o quê?
— Queria ver se havia algum Jordan enterrado lá.
— Que coisa, você ainda está nessa? Estava procurando...
— Bem, Mary Jordan morreu. E sabemos que, apesar do livro dizer que ela não morreu de morte natural, deve ter sido enterrada em algum lugar não?
— É inegável — disse Tommy. — Pode ser que tenha sido enterrada no jardim.
— Não acho isso plausível — disse Tuppence — porque esse menino chamado Alexander, obviamente, achava que tinha descoberto uma coisa muito importante sobre a morte dela. Se ele foi o único a saber disso, se ninguém mais descobriu, então ela foi enterrada normalmente e...
— E ninguém falou em crime — sugeriu Thomas.
— Isso mesmo. Ela pode ter sido envenenada, golpeada na cabeça, atropelada, empurrada num abismo... posso imaginar o assassinato dela de muitas maneiras.
— Tenho a certeza de que pode. Pelo menos sei que você tem um bom coração, Tuppence, e que não iria pôr em execução as suas idéias.
— Mas não havia nenhuma Mary Jordan no cemitério Nem nenhuma outra pessoa com esse sobrenome.
— Deve ter ficado desapontada — disse Thomas. — Será que esta coisa que você está cozinhando está pronta? Tenho uma fome terrível. O cheiro está ótimo.
— Está no ponto. Vamos comer assim que você tiver lavado as mãos.





IV
UMA PORÇÃO DE PARKINSON

HAVIA uma porção de Parkinson — disse Tuppence enquanto comiam. — Uma montanha deles, que viveram há muito tempo. Velhos, crianças, casais. É muitos Capes, Griffins, Overwoods e Underwoods.
— Tenho um amigo chamado George Underwood, mas não conheço nenhum Overwood.
— Esta era uma menina, Rose Overwood.
— Que nome esquisito! — disse Tommy. — Não combina. Preciso chamar aqueles eletricistas. Tenha cuidado, Tuppence, ou você vai cair naquele buraco lá em cima.
— E morrerei de morte natural.
— Não, morrerá de curiosidade. Conhece aquele ditado: "A curiosidade matou um gato"?
— Você não sente curiosidade?
— Não vejo razão para isso. O que temos de sobremesa?
— Torta com creme.
— Hum, a refeição estava deliciosa, Tuppence.
— Ótimo que você tenha gostado.
— Que pacote é aquele perto da porta dos fundos? O vinho que encomendamos?
— Não — disse Tuppence, — são bulbos. Tulipas. Vou falar com o velho Isaac sobre eles.
— Onde vai plantá-los?
— Ao longo da aléia principal do jardim.

— Aquele velho tem jeito de quem vai morrer a qualquer minuto.
— Não acho — disse Tuppence. — Isaac é muito forte. Já descobri que os bons jardineiros ficam melhores com a idade. Mas se algum grandalhão, por volta dos trinta e cinco, disser que sempre quis trabalhar num jardim, pode ter certeza de que não vai prestar para nada. Só vai querer varrer algumas folhas e cada vez que você quiser plantar alguma coisa, dirá que é a época errada. E a época certa, não chega nunca. Mas o Isaac é maravilhoso. Entende de tudo. Bem, vou ver se ele já chegou.
— Daqui a pouco estarei lá também.
Tuppence e Isaac passaram momentos agradáveis desempacotando os bulbos e discutindo sobre o lugar onde ficariam mais bonitos. Havia tulipas de floração precoce no começo de fevereiro, lindas espécies híbridas, belíssimas tulipas de hastes longas que floriam em maio ou junho. Serviriam para artísticos arranjos para enfeitar a casa, ou para despertar inveja e ciúme aos visitantes, ao longo do caminho que levava à porta da entrada. Talvez até despertassem a sensibilidade do entregador de carne e dos quitandeiros.
Às quatro horas, Tuppence preparou um bule marrom cheio de chá bem forte na cozinha, colocou-o na bandeja com um bule de leite e o açucareiro, e chamou Isaac para tomar uma xícara antes de ir embora. Foi então à procura de Tommy. Creio que deve estar dormindo em algum lugar, pensou ela. Uma cabeça surgiu de um sinistro buraco no assoalho.
— Já terminei, madame — disse o eletricista. — Não precisa mais tomar cuidado. Está tudo consertado. Amanhã vou começar a trabalhar lá em cima.
— Espero que sim — disse Tuppence. — O senhor viu Mr. Beresford em algum lugar?
— O seu marido? Está lá em cima. Ouvi o barulho de alguma coisa pesada caindo ao chão. Devem ter sido livros.
— Livros? Minha nossa!
O eletricista retirou-se para o seu mundo particular sob o corredor e Tuppence subiu ao sótão que tinha sido transformado numa pequena biblioteca ocupada, no momento, pelos livros de crianças. Tommy estava sentado numa escadinha rodeado de livros. Havia falhas consideráveis nas estantes.
— Então estava olhando os livros, não é? — disse Tuppence. — E fingia que não estava nem interessado! Você desarrumou um bocado de livros que eu já tinha arranjado direitinho.
— Sinto muito — disse Tommy — mas achei que talvez fosse uma boa idéia dar uma olhada.
— Encontrou palavras sublinhadas em mais algum livro?
— Não, nenhuma.
— Que pena.
— Acho que esse menino, Alexander Parkinson, era meio preguiçoso. É verdade que arranjou um método trabalhoso, mas bem que poderia ter deixado mais algumas informações a respeito do caso Jordan.
— Perguntei ao velho Isaac. Ele conheceu muita gente por aqui, mas diz que não se lembra de nenhum Jordan.
— O que vai fazer com aquele abajur de bronze que está perto da porta? — perguntou Tommy enquanto desciam.
— Vou levá-lo ao Bazar do Elefante Branco.
— Por quê?
— Ah, sempre me aborreceu. Acho que o compramos no estrangeiro, não foi?
— É, acho que estávamos doidos. Concordo que é horrível, e pesado demais, também.
— Mas Miss Sanderson ficou toda satisfeita quando lhe disse que poderia ficar com ele. Ofereceu-se para mandar buscá-lo, mas eu disse que o levaria de carro hoje.
— Posso levá-lo se quiser.
— Obrigada, prefiro ir.
— É melhor eu ir junto e carregá-lo para você.
— Não é necessário. Arranjarei alguém para fazer isso.
— Tem outras razões para querer ir só, não é?
— Bem, acho que gostaria de conversar um pouco com o pessoal.
— Não sei bem o que está pretendendo fazer, Tuppence. Mas vejo que há alguma coisa, pelo brilho de seus olhos.
— Leve Hannibal para passear — disse Tuppence. — Não posso levá-lo para o bazar. Não quero me meter numa briga de cachorros.
— Está bem. Vamos passear, Hannibal?
Hannibal disse sim, como de hábito. Tinha meios inconfundíveis de se fazer entender, requebrava o corpo, sacudia a cauda, levantava e abaixava a pata e esfregava a cabeça na perna de Tommy. Naturalmente, caro amigo, ele parecia dizer, é para isso que você existe. Vamos dar um delicioso passeio. Tomara que haja muitos cheiros para farejar!
— Venha — disse Tommy, — vou levar a guia e desta vez não fuja para a rua, hem? Aquele ônibus quase o pegou.
Hannibal olhou-o com a expressão de um cachorro muito bonzinho e obediente, o que não era verdade, mas bem que ele conseguia enganar muita gente! Tommy colocou o abajur no carro, reclamando do peso. Depois que Tuppence virou a esquina, ele saiu com Hannibal e andou até a ruazinha da igreja, onde havia pouco tráfego. Ali retirou a guia da coleira e Hannibal agradeceu o privilégio rosnando e farejando uns tufos de grama que cresciam na calçada. Se soubesse falar diria: Por aqui passou um cachorrão. Deve ter sido aquele dálmata. Detesto dálmatas. Se o encontrar, vou mordê-lo. Ah, uma cadelinha passou por aqui. Gostaria de conhecê-la. Será que mora nesta casa?
— Hannibal, saia daí, esta casa não é a sua!
Hannibal fingiu não ouvir. Correu para trás da casa, mas um latido forte por trás da porta da cozinha fez com que voltasse correndo, obedientemente, para perto de Tommy.
— Bom menino — disse este.
Quando precisar de mim, é só chamar, respondeu Hannibal.
Ao chegar ao portão do cemitério, ao lado da igreja, o cão, que tinha o dom de alterar seu tamanho conforme as circunstâncias exigissem, esgueirou-se entre as traves sem dificuldades.
— Volte aqui, Hannibal, não pode entrar no cemitério!
Se Hannibal pudesse responder, diria: Mas eu já estou aqui, meu amo! E corria alegremente pelos caminhos do cemitério como se estivesse num jardim agradabilíssimo.
— Diabo de cachorro! — resmungou Tommy, entrando e correndo atrás de Hannibal que já estava na outra extremidade do cemitério e parecia decidido a fazer uma visita à igreja. Tommy, entretanto alcançou-o a tempo e prendeu o fujão que, muito satisfeito, balançava a cauda, como se aquilo fizesse parte dos seus planos. "Sei que está me prendendo porque sou um cachorro muito valioso," pa-recia dizer. Como não houvesse ninguém ali para dizer que era proibido, Tommy resolveu continuar o passeio pelo cemitério, talvez para conferir as descobertas de Tuppence.
Examinou primeiro um velho e gasto monumento de pedra, perto de uma pequena porta lateral da igreja. Era provavelmente um dos mais antigos. Havia vários por ali, com datas do século dezenove, mas esse mereceu um exame mais demorado de Tommy.
— Estranho — disse ele. — Muito estranho.
Hannibal olhou-o. Não entendia por que seu dono estava tão interessado no túmulo. Não havia nada ali que pudesse interessar um cachorro. Sentou-se, olhando o dono com um ar inquisitivo.





V
O BAZAR DO ELEFANTE BRANCO

O ABAJUR de bronze de Tuppence, horroroso na opinião dela, foi recebido calorosamente.
— Que delicadeza a sua, Mrs. Beresford, trazer-nos algo tão bonito e interessante. Suponho que o comprou em suas viagens fora do país.
— Sim, nós o compramos no Egito — disse Tuppence.
Não tinha muita certeza, pois já o comprara há oito ou dez anos. Não sabia se fora em Damasco, Bagdá ou no Teerã, mas como o Egito estava muito em moda no momento, achou que assim o abajur ficaria mais interessante. Depois ele tinha um jeitão meio egípcio, e se não fora feito lá, pelo menos era de inspiração egípcia.
— Mas é grande demais para a nossa casa — explicou.
— Acho aue deveríamos rifá-lo — disse Miss Little.
Miss Little era uma espécie de supervisora do bazar. Seu apelido era "o arquivo" principalmente porque estava sempre bem informada do que acontecia na paróquia. Era uma mulher grande e volumosa que desmentia o seu sobrenome. Chamavam-na Dotty, diminutivo de Dorothy.
— Virá ao bazar, Mrs. Beresford?
— Certamente, mal posso esperar para comprar algumas coisas. Acho ótima a idéia do bazar, o que parece um elefante branco para alguém pode ser uma pérola preciosa para outra pessoa.
— Preciso repetir essa frase para o vigário — disse Mrs. Price-Ridley, uma senhora angulosa, com dentes demais. — Ele vai achar engraçado.
— Vou comprar essa bacia de papier-mâché — disse Tuppence erguendo-a como um troféu — se estiver ainda à venda amanhã.
— Mas existem lindas bacias de plástico, hoje.
— Não gosto muito de plástico — disse Tuppence; — essa bacia é muito jeitosa, você pode enchê-la de louças que elas não se quebrarão. E esse antigo abridor de latas com uma cabeça de touro, não se vê mais disto!
— Acho os abridores elétricos bem mais práticos.
A conversa prosseguiu nesse teor até que Tuppence perguntou se poderia ajudar em alguma coisa.
— Ah, Mrs. Beresford, acho que a senhora deve ter muita sensibilidade artística. Que tal arrumar a vitrina de antiguidades?
— Posso tentar. Se não estiver saindo a seu gosto, avise-me.
— É ótimo ter mais alguém para ajudar. A senhora já acabou a arrumação de sua casa?
— Calculei que já tivesse acabado a essa altura, mas ainda falta muita coisa. Meu maior problema são os eletricistas, carpinteiros e o resto do pessoal. Não acabam nunca.
Formou-se um debate para decidirem quais eram os piores, se os eletricistas ou se os operários da companhia de gás.
— Os bombeiros são piores — declarou Miss Little com firmeza, — pois têm que vir lá de Lower Stamford. Os eletricistas vêm só de Wellbank.
A chegada do vigário, que apareceu para dizer umas palavras animadoras às senhoras, interrompeu a conversa.
— Soube muita coisa a respeito da senhora e de seu marido — disse ele a Tuppence. — Devem ter tido uma vida fascinante! Creio que não gostam muito de falar a respeito da maravilhosa atuação que tiveram na última guerra, não é?
— Ah, conte-nos senhor vigário — disse uma das senhoras que arrumava o balcão das geléias.
— Não posso, contaram-me muito confidencialmente. Creio que a vi passeando pelo cemitério ontem, Mrs. Beresford.
— Estive na igreja também. O senhor tem dois vitrais muito bonitos.
— Um deles é do século quatorze, mas a maior parte já é da era vitoriana.
— Vi que há muitos Parkinson enterrados no cemitério.
— É verdade, houve muita gente da família Parkinson morando aqui, mas eu não os conheci. Acho que deve ter conhecido alguns, não é Mrs. Lupton?
Mrs. Lupton, uma senhora idosa que andava com o auxílio de duas bengalas, sorriu.
— Sim, lembro-me quando a velha Mrs. Parkinson, que morava no solar da família, ainda vivia. Era uma mulher maravilhosa.
— Vi também os túmulos de alguns Sommers e Chattertons.
— Vejo que a senhora está interessada no nosso passado — disse o vigário.
— Creio ter ouvido falar numa Jordan, terá sido Annie ou Mary? — Tuppence olhou em volta com um ar interrogativo, mas o nome Jordan parecia não ter despertado nenhum interesse.
— Alguém já teve uma cozinheira chamada Susan Jordan. Acho que foi Mrs. Blackwell. Mas não era grande coisa, só ficou alguns meses.
— Isso aconteceu há muito tempo?
— Não, há mais ou menos uns oito ou dez anos, no máximo.
— Ainda há algum, Parkinson morando por aqui?
— Não, foram-se há muito tempo. Creio que uma delas casou-se com um primo e foram viver em Quênia.
— Mrs. Lupton — chamou Tuppence, sabendo que a velha senhora trabalhava no hospital de crianças local, — a senhora quer uns livros para as suas crianças? São velhos, vieram junto com a mobília antiga que compramos com a casa.
— É muita delicadeza sua, Mrs. Beresford, mas ganhamos uma porção deles, em edições modernas. Não creio que as crianças gostem muito de ler livros antigos.
— É uma pena que a senhora pense assim — disse Tuppence. — Eu adorava os livros da minha infância e muitos tinham sido da minha avó, quando era pequena. Era desses que eu gostava mais. Nunca me esquecerei da Ilha do Tesouro, da Fazenda dos Quatro Ventos e dos livros de Stanley Weyman. — Tuppence resignou-se ao fracasso e dando uma olhada no relógio disse que era tarde e despediu-se.
Entrando em casa, após deixar o carro na garagem, foi recebida por Albert que lhe perguntou:
— Gostaria de uma xícara de chá, senhora? Deve estar cansada.
— Não, obrigada. Elas me ofereceram chá lá no bazar. Com um bolo muito gostoso, por sinal. Os pãezinhos é que estavam horríveis.
— É difícil fazer pãezinhos, quase tão difícil quanto roscas fritas. Ah — e Albert suspirou — Amy sabia fazer umas rosquinhas deliciosas!
— Isso mesmo. Ninguém sabia fazê-las como ela.
Amy tinha sido a esposa de Albert, falecida há alguns anos. Na opinião de Tuppence, Amy soubera fazer tortas deliciosas, mas as suas rosquinhas nunca tinham sido grande coisa.
— Nunca consegui fazer rosquinhas que prestassem — disse Tuppence.
— Ah, e preciso um dom especial.
— Onde está Mr. Beresford? Saiu?
— Não senhora. Está lá em cima no sótão, quero dizer, na nova biblioteca.
— O que está fazendo lá em cima? — perguntou Tuppence surpreendida.
— Olhando os livros, eu acho. Fazendo uma arrumação.
— Estou achando isso esquisito. Ele foi meio indelicado conosco por causa daqueles livros.
— Creio que foi porque não entendia como a senhora podia se interessar tanto por eles. Ele prefere uns livros mais sérios, livros científicos, não é?
— Vou subir e tirá-lo de lá — disse Tuppence.
— Onde está Hannibal?
— Acho que está lá em cima também.
Nesse instante Hannibal apareceu. Depois de latir ferozmente, como achava ser sua obrigação como cão de guarda, tinha deduzido corretamente que fora a sua dona quem entrara e não algum ladrão de pratarias. Descera as escadas rebolando o corpo, a língua de fora, balançando a cauda.
— Você está contente em ver sua mãe, não é? — disse Tuppence.
Hannibal concordou com tanta veemência que quase a derrubou.
— Devagar, devagar. Não quer me matar, não é? Onde está seu dono? Lá em cima?
Hannibal entendeu. Subiu correndo um lance de escadas e olhou para ela, esperando que o seguisse.
— Bem, nunca pensei encontrá-lo aqui — disse Tuppence, meio sem fôlego, ao ver Tommy sobre uma escadinha de madeira remexendo nos livros.
— O que está fazendo? Pensei que tinha ido levar Hannibal para passear.
— Nós fomos passear — disse Tommy. — Lá no cemitério.
— O que foram fazer lá? Acho que não é permitido cachorro entrar no cemitério.
— Ele estava preso e não fui eu quem o levei. Ele é que me levou. Parece gostar muito lá do cemitério.
— Espero que ele não se acostume com a idéia
— disse Tuppence. — Sabe como ele é. Gosta de manter os hábitos. Se ele se habituar a ir ao cemitério todos os dias, vai ser um problema para nós.
— Ele quer lhe contar que é mais inteligente do que nós dois.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Tuppence.
— Divertiu-se muito? — disse Tommy mudando de assunto.
— Bem, eu não diria isso. Todas foram muito amáveis e delicadas comigo e pode ser que eu aprenda a distingui-las. Mas de saída, é difícil, sabe? Todas usam roupas parecidas e não sei quem é quem.. Se ao menos tivesse alguma muito bonita ou muito feia, seria mais fácil.
— Eu ia lhe contar sobre a nossa esperteza, minha e de Hannibal.
— Se não me engano, tinha dito que o esperto era o Hannibal.
Tommy estendeu a mão e pegou um livro na estante a sua frente.
— "Raptado" — ele leu. — Mais um livro de Robert Louis Stevenson. Alguém gostava muito dele. Alexander Parkinson. A Flecha Negra, Raptado, Catriona e mais dois, todos dados a Alexander por uma avó carinhosa e por uma tia.
— E daí? — perguntou Tuppence.
— Achei seu túmulo — disse Tommy.
— Achou o quê?
— Foi Hannibal quem achou. Está bem no canto, perto de uma pequena porta lateral da igreja. Acho que é a porta da sacristia. Está muito apagado e mal conservado. Alexander Richard Parkinson tinha quatorze anos de idade quando morreu. Hannibal estava farejando o túmulo. Consegui pegá-lo e 11 a inscrição, apesar de estar muito apagada.
— Quatorze anos — disse Tuppence. — Pobre menino.
— É, é muito triste.
— Alguma coisa o preocupa — disse Tuppence. — O que é?
— Sabe, comecei a imaginar coisas. Acho que você me contagiou. Isso é o pior em você. Quando se interessa por algo, acaba fazendo com que os outros se interessem também.
— Não vejo ainda qual é o problema.
— Fiquei pensando se não teria sido uma questão de causa e efeito.
— O quê, Tommy?
— Pensava em Alexander Parkinson, que se deu ao trabalho de escrever, em código, uma mensagem secreta em seu livro. "Mary Jordan não morreu naturalmente " Suponhamos que fosse verdade. O que acontece a seguir? Alexander Parkinson morre.
— Você não está achando que...
— Talvez — disse Tommy. — O fato de ele morrer aos quatorze anos fez com que começasse a pensar. Naturalmente não há nada escrito no túmulo sobre a causa de sua morte. Só: "Em Deus encontrarás a alegria plena". Bem, ele sabia algo que era perigoso para alguém. E morreu.
— Acha que foi assassinado? Pode ser só imaginação sua.
— Foi você quem começou, lembra-se?
— Acho que nunca descobriremos nada, embora continuemos a imaginar coisas. Faz tempo demais.
— Deve ter sido mais ou menos na época em que investigávamos o caso de Jane Finn.
Entreolharam-se e começaram a pensar no passado.

VI
PROBLEMAS

MUITA gente acha que uma mudança poderá ser até divertida, e que será um agradável exercício até para os empregados dá companhia de mudanças, mas a maioria das vezes não é isso que acontece.
É necessário fazer ou restabelecer relações com eletricistas, pedreiros, carpinteiros, pintores, colocadores de papel de parede, vendedores de geladeiras, fogões e aparelhos elétricos, estofadores, fornecedores de cortinas, linóleos e tapetes. Todos os dias, além do aue estava no programa, aparece sempre uma dúzia de pessoas. Algumas aguardadas com ansiedade e outras que já tinham até sido esquecidas.
Mas, pouco a pouco, Tuppence começou a anunciar o término de várias tarefas, com suspiros de alívio.
— Acho que a cozinha está quase perfeita. Só falta encontrar um depósito adequado para a farinha de trigo.
— Isso é muito importante? — perguntou Tommy.
— De certo que é. A farinha é vendida em pacotes de um quilo e meio, e as latas que tenho só dão para um quilo. É uma pena, são tão bonitinhas, cada uma com uma flor diferente.
Dias depois, Tuppence reclamou:
— Que nome tolo tem esta casa! "Os Loureiros". Não vejo o porquê. Não encontrei nenhum loureiro. Poderiam tê-la chamado "Os Olmos". Acho o olmo uma árvore muito simpática.
— Parece que no tempo dos Waddington ela teve outro nome.
— Faço uma confusão danada com esses nomes todos. Depois dos Waddington vieram os Jones, o pessoal que nos vendeu a casa. E antes deles, os Blackmore? E há muito tempo atrás os Parkinson, montanhas de Parkinson. Tenho ouvido falar muito deles.
— Quando foi isso?
— Para ser sincera, eu é que tenho perguntado muito sobre eles — disse Tuppence. — Se pudesse descobrir alguma coisa, poderíamos prosseguir com o nosso problema.
— Está falando de Mary Jordan?
— O problema não é só esse. Veja, a mensagem dizia: "Mary Jordan não morreu naturalmente". E depois prosseguia: "Foi um de nós". Será que "um de nós" queria dizer alguém da família Parkinson, ou qualquer pessoa que vivia na casa? Digamos que houvesse dois ou três Parkinson, algum velho avô, uma tia com um nome diferente mas ainda da família, e uma copeira, uma cozinheira, talvez uma governante, e uma faxineira, quem sabe? De qualquer modo, "um de nós" pode ter incluído muita gente. Mary Jordan pode ter sido uma empregada. E por que razão alguém queria que ela morresse? E esse alguém deve tê-la matado. .. Bem, depois de amanhã, de manhã, vou a outra reunião.
— Você está indo a muitas reuniões ultimamente.
— É um jeito de conhecer os vizinhos e as outras pessoas da aldeia. Essa aqui não é muito grande, e as pessoas sempre falam de seus velhos parentes e conhecidos. Vou tentar obter alguma coisa de Mrs. Griffin. Ela parece ser alguém aqui na vizinhança. Parece dirigir a todos com eficiência. Manda no vigário, no médico, na enfermeira da comarca e no resto do pessoal.
— Será que a enfermeira não seria útil?
— Não creio. A que serviu por aqui no tempo dos Parkinson já morreu. E esta é muito recente, não tem nenhuma curiosidade sobre o lugar. Acho que nem sabe que os Parkinson existiram.
— Gostaria de poder esquecer todos esses Parkinson! — disse Tommy, meio desesperado.
— Acha que daí não teríamos nenhum problema?
— Lá vem você com problemas. . .
— Foi a Beatrice.
— Que Beatrice?
— Quem me ensinou a usar esse termo. Acho que foi a Elizabeth que fazia a limpeza antes da Beatrice. Estava sempre me chamando para dizer: "Madame, eu estou com um problema." Daí a Beatrice também começou a usar esta frase e eu acabei pegando o hábito.
— É. Vamos admitir isto: você tem um problema ... eu tenho um problema... nós temos problemas! — E Tommy deu um suspiro e saiu.
Tuppence desceu as escadas devagar, sacudindo a cabeça. Hannibal chegou-se a ela, sacudindo a cauda, esperançoso.
— Não Hannibal, você já deu o seu passeio matinal.
Hannibal não desistiu, tentou convencê-la por vários meios caninos de que gostaria muito de passear outra vez. Por fim, desiludido, desceu as escadas e começou a latir para uma moça um tanto descabelada, que empunhava um aspirador de pó, como se estivesse prestes a mordê-la.
— Não deixe que ele me morda — gritou Beatrice.
— Ele não vai mordê-la — disse Tuppence. — Está só fingindo.
— Pois acho que um dia desses ele vai me morder de verdade — disse Beatrice, acrescentando: — Gostaria de falar com a senhora um momento.
— O que há?
— Bem, eu tenho um problema.
— Achei mesmo que era isso — disse Tuppence. — Que espécie de problema? E, por falar nisso, conheceu por aqui alguma família ou alguma pessoa chamada Jordan?
— Jordan? Bem, eu não sei. Conheci uns Johnson, um policial e um carteiro. Esse foi até meu namorado — disse Beatrice dando uma risadinha.
— Nunca ouviu falar de uma Mary Jordan, que morreu?
Beatrice sacudiu a cabeça negando e voltou ao ataque.
— É sobre o meu problema, senhora!
— Ah, sim, o seu problema.
— Espero que não se aborreça de eu lhe fazer uma pergunta, mas estou numa enrascada e não estou gostando disso.
— Se me contar depressa... Tenho que ir a uma reunião.
— Na casa de Mrs. Barber, não é?
— Bem, agora qual é o problema?
— É sobre um casaco. Achei tão bonito. Foi lá no Simmonds; entrei, experimentei e achei lindo. Tinha uma mancha perto da bainha, mas quase não aparecia.
— Sim, o que mais?
— Achei que estava barato por causa disto. E comprei. Quando cheguei em casa vi que tinha uma etiqueta marcando seis libras e eu só paguei três e setenta. Daí, achei que não estava direito. Voltei à loja e levei o casaco. Mas a pequena que o vendeu... o nome dela é Gladys... ficou aflitíssima. Eu disse que pagava a diferença e ela disse: "Não, não pode. Já está registrado. Isto vai me causar complica-ções".
— Por que haveria de causar complicações?
— Eu também achei que não. Mas ela disse que achariam que tinha sido negligente, não tinha olhado a etiqueta e que poderiam despedi-la.
— Creio que não — disse Tuppence. — Você agiu corretamente.
— Mas aí é que está. Ela tanto fez, começou a chorar e tudo mais, então eu peguei o casaco e vim embora. E agora não sei se roubei a loja ou não.
— Olhe — disse Tuppence, — eu já estou velha demais para saber o que é correto fazer nos dias de hoje. As lojas são diferentes das do meu tempo e os preços também. Talvez você pudesse dar o dinheiro a Gladys e ela resolveria a situação de algum modo.
— Mas imagine se ela ficasse com o dinheiro para ela. Então seria ela a ladra e não eu.
— A vida é difícil, não é? Mas creio que você tem que resolver esse caso sozinha. Se não pode confiar na sua amiga. ..
— Ela não é uma amiga de verdade. Só a conheço das vezes que faço compras lá. Ouvi falar que perdeu o seu último emprego por causa de uma dúvida a respeito de dinheiro.
Tuppence, já meio afobada, sugeriu:
— Neste caso, eu não faria nada. Empregou um tom tão firme que Hannibal
decidiu oferecer o seu apoio. Começou a latir para Beatrice e atacou o aspirador que considerava um dos seus piores inimigos. "Não confio nada neste aspirador, vou atacá-lo", latiu ele.
— Fique quieto, Hannibal. Pare de latir. Não vá morder ninguém nem coisa alguma na minha ausência, viu? Estou atrasada.
E Tuppence saiu apressadamente.
— Problemas — disse Tuppence, enquanto descia a ladeira da Rua do Pomar. Será que alguma dessas casas tinha um pomar?, pensou. Parecia pouco provável.
Mrs. Barber a recebeu com evidente prazer. Ofereceu-lhe alguns éclairs de aspecto delicioso.
— Que beleza! — disse Tuppence — A senhora os comprou na confeitaria Batterby?
— Não, não. Foi minha tia quem os fez. Ela é maravilhosa, sabe fazer coisas deliciosas.
— É muito difícil fazer éclairs. Nunca consegui fazê-los direito.
— Parece que o segredo está na qualidade da farinha.
As senhoras tomaram o seu café e conversaram sobre as dificuldades da arte culinária.
— Mrs. Bolland estava falando sobre a senhora um dia desses.
— Quem é Mrs. Bolland? — perguntou Tuppence.
— Ela mora perto da casa do vigário. Sua família é muito antiga aqui. Contou-nos como costumava vir até aqui quando era criança. Adorava as groselhas que "havia no jardim. E também as ameixas Rainha-Cláudia. É praticamente impossível encontrar essas ameixas hoje em dia. Existem uma parecidas, mas o gosto é diferente.
Todas concordaram que as frutas não tinham mais o mesmo sabor da época de sua infância.
— Meu tio-avô tinha árvores de Rainha-Cláudia — disse Tuppence.
— Aquele que era cónego em Anchester? O Cónego Henderson morou aqui com sua irmã. Aliás, aconteceu uma coisa muito triste. Um dia, ela estava comendo bolo de cominho e uma das sementes desceu pelo caminho errado, ela engasgou-se, e não houve jeito, morreu.
— Que coisa triste — disse Mrs. Barber. — Muito triste. Uma das minhas primas também morreu engasgada com um pedaço de carneiro. São coisas que acontecem. Até de soluços a gente morre.

VII
MAIS PROBLEMAS

— POSSO falar um momento com a senhora?
— Oh meu Deus! — suspirou Tuppence. — Mais problemas?
Descia da biblioteca limpando a poeira de seu costume mais elegante e estava pensando em pôr um chapeuzinho de penas para ir a um chá. Fora convidada por uma nova amiga que conhecera no Bazar do Elefante Branco. Não era hora para ouvir Beatrice falar de suas dificuldades.
— Não senhora, não são mais problemas não. Acho que é algo que lhe interessa.
— Ah! — exclamou Tuppence, ainda desconfiada. — Estou um pouco apressada, pois tenho que ir a um chá.
— Bem, noutro dia a senhora me perguntou se eu ouvira falar de uma Mary Jordan. E eu pensei que fosse Mary Johnson. Sabe, eu conheci uma Belinda Johnson que trabalhava no correio, há muitos anos.
— É, eu sei — disse Tuppence. — Havia também um policial chamado Johnson. Você já me disse.
— Bem, essa minha amiga, chamada Gwenda, ela trabalha numa loja ao lado do correio, onde vendem envelopes, cartões, e até presentes na época de natal.
— Sei qual é, a loja de Mrs. Garrison.
— Essa mesmo, só que não é mais de Mrs. Garrison. Mas de qualquer maneira, Gwenda disse que já ouviu falar de uma Mary Jordan que morou aqui muito tempo atrás. E que a senhora ia se interessar pela história. Ela morou aqui nesta casa.
— Na Casa dos Loureiros?
— É, só que naquele tempo o nome não era esse. Mas a minha amiga disse que ouviu contar alguma história triste sobre essa Mary. Parece que-ela morreu de um acidente ou coisa parecida.
— Sabe se ela morava nesta casa quando morreu? Ela fazia parte da família?
— Não, a família chamava-se Parker. Parker ou Parkinston, não sei bem. Acho que ela estava hospedada aqui. Mrs. Griffin é capaz de saber mais coisas sobre isso. A senhora conhece Mrs. Griffin?
— Muito ligeiramente — respondeu Tuppence. — Aliás, o chá desta tarde é lá na casa dela. Conhecia-a no bazar outro dia.
— Ela é muito velha. Mais velha do que parece, mas a sua memória ainda é muito boa. Acho que era madrinha de um filho dos Parkinston.
— Qual era o nome dele?
— Acho que era Alec. Alec ou Alex, parece.
— O que aconteceu com ele? Cresceu e entrou para a marinha ou para o exército ou coisa semelhante?
— Não senhora. Ele morreu. Acho que, está enterrado aqui. Teve uma daquelas doenças que ninguém dava jeito naquele tempo. Uma doença com nome de gente.
— Mal de Hodgkins, talvez?
— Não, não era essa. Uma doença que dá no sangue. Hoje em dia parece que eles trocam o sangue da pessoa, mas mesmo assim, não adianta. Mrs. Billing... da loja de doces, sabe... ela perdeu uma menina com sete anos dessa doença. Dá muito em crianças.
— Leucemia? — sugeriu Tuppence.
— É, isso mesmo! Mas dizem que um dia haverá cura. Como aquelas vacinas para tifo, sabe?
— Pobre menino — disse Tuppence.
— Ele não era muito pequeno. Já freqüentava o colégio. Devia ter uns treze ou quatorze anos.
— Foi uma pena de qualquer maneira — Tuppence fez uma pausa. — Estou um pouco atrasada. É melhor me apressar.
— Essa Mrs. Griffin sabe um bocado de coisas. Coisas que ela ouviu contar quando era pequena. Gosta muito de contar histórias sobre as famílias que viveram aqui. Cada escândalo! Parece que naqueles tempos, na era vitoriana ou eduardiana, sei lá, deve ter sido vitoriosa, pois a Rainha Vitória ainda estava viva... parece que o pessoal da alta sociedade daquele tempo não era sopa!
— Que interessante! — disse Tuppence.
— Parece que as moças faziam coisas que não deviam — continuou Beatrice, achando que a conversa estava ficando animada.
— Não creio — atalhou Tuppence. — Acho que elas tinham uma vida até muito austera. Casavam-se muito cedo, a maioria das vezes com outros nobres.
— Ah! — suspirou Beatrice, — moças de sorte. Deviam ter lindas roupas, ir às corridas e aos bailes nos palácios.
— Creio que iam a muitos bailes, sim.
— Sabe, uma vez conheci uma moça e a avó dela tinha sido empregada numa dessas casas grã-finas, onde se recebia muita gente. Uma vez, o Príncipe de Gales daquele tempo, o que depois foi Eduardo VII, esteve lá. Ela disse que ele era muito amável, com os criados e com todos. E ela guardou o sabonete que ele tinha usado para lavar as mãos. Uma vez, ela até mostrou para nós.
— Que interessante! — disse Tuppence. — Época fascinante aquela, não? O Príncipe esteve aqui nos loureiros também?
— Não, infelizmente. Nada de príncipes, nem condes, nem marqueses. Nem mesmo um lorde ou uma lady. Os donos da casa eram muito ricos, mas viviam do comércio. E comércio não é uma coisa muito chique, não é?
— Depende — disse Tuppence. — É melhor eu ir andando.
— É, acho que está na hora, sim, senhora.
— É melhor eu colocar um chapéu. O meu cabelo está meio despenteado.
— É, a senhora entrou com a cabeça nas teias de aranha. Vou limpá-las para que isso não aconteça outra vez.
Tuppence desceu as escadas correndo.
— Alexander deve ter feito isto muitas vezes. E ele sabia que tinha sido "um deles". Não consigo parar de pensar nisto.

VIII
MRS. GRIFFIN

— FOI ótimo a senhora e o seu marido terem vindo morar aqui, Mrs. Beresford — disse Mrs. Griffin enquanto servia o chá. — Açúcar? Leite?
Ofereceu um prato de sanduíches e Tuppence serviu-se.
— É tão importante ter vizinhos simpáticos com quem se tenha algo em comum, não acha? A senhora já conhecia esta região do país?
— Não, nem um pouco — disse Tuppence. — Os corretores nos enviaram descrições de muitas casas, e percorremos várias delas. Algumas eram horrorosas. Imagine que uma era anunciada como "possuindo todo o encanto do velho mundo".
— Posso ter uma idéia, devia ter um telhado em petições de miséria e umidade por todos os cantos. Quando dizem "totalmente modernizada", provavelmente estará cheia de aparelhos elétricos desnecessários e cercada de casas horrorosas. Mas a Casa dos Loureiros é uma graça. Mesmo assim a senhora provavelmente teve que modificar muitas coisas nela, não?
— Deve ter sido habitada por diversas famílias, não é?
— Hoje em dia as pessoas não se fixam muito aos lugares. Lembro-me dos Cuthbertsons, dos Red-lands, dos Seymours e por último os Jones.
— Qual a razão de a terem chamado "A Casa dos Loureiros"?
— Ora, devem ter gostado do nome. Pensando bem, há muito tempo atrás, na época dos Parkinson, havia uns loureiros ao longo da entrada, naquela curva, sabe. Um grupo deles, incluindo alguns daquela variedade manchada. Daqueles não gosto muito.
— Também não — concordou Tuppence. — Parece ter havido muitos Parkinson por aqui.
— Sim, creio que moraram na sua casa mais tempo do que qualquer outra família.
— Ninguém sabe me contar muita coisa sobre
eles.
— É que já faz muito tempo, querida. E depois ... depois do que houve, não é de admirar que tenham vendido a casa.
— O que foi, acharam que a casa dava azar? — perguntou Tuppence aproveitando a chance. — O lugar não era saudável ou coisa parecida?
— Não, o problema não foi com a casa. Foi com a família. Bem, foi durante a Primeira Guerra Mundial que a desgraça aconteceu. Ninguém queria acreditar." Minha avó costumava falar sobre o caso. Segredos da Marinha teriam sido revelados, planos para um novo submarino, parece. Falou-se que uma moça que morava com os Parkinson também estaria envolvida no caso.
— Chamava-se Mary Jordan?
— É, isso mesmo. Disseram depois que o seu nome verdadeiro não era esse. Parece que o menino, filho dos donos da casa, já suspeitava dela há muito tempo. Um bom menino, o Alexander, muito inteligente.

LIVRO II

I
MUITO TEMPO ATRÁS


CHOVIA. Tuppence estava escolhendo uns cartões de aniversário no correio quase vazio. Pessoas depositavam cartas na caixa do lado de fora ou compravam selos às pressas e tratavam logo de voltar a suas casas. Não era uma tarde boa para compras. Escolhi bem a ocasião, pensou Tup-pence.
Gwenda, que ela havia reconhecido facilmente pela descrição de Beatrice, mostrava-se interessada em ajudá-la. Gwenda era a vendedora da lojinha que existia em função do Correio de Sua Majestade. Esse era administrado por uma senhora idosa, de cabelos grisalhos.
Gwenda, que gostava de falar, sempre se interessava pelos novos habitantes da aldeia. Vivia feliz entre todos aqueles cartões com mensagens de amor, felicitações, boas-festas, papéis de carta, chocolates e enfeites de porcelana. Ela e Tuppence já estavam em grandes conversas:
— Fico satisfeita que esteja morando na "Cabana dos Príncipes"!
— Pensei que se chamasse "A Casa dos Loureiros".
— Nada disso, acho que o nome não é esse não. Mas os donos gostam de mudar o nome das casas.
— É, parece que é verdade — concordou Tuppence. — Até mesmo nós já pensamos em trocar o nome dela. A propósito, Beatrice disse que você conheceu uma moça chamada Mary Jordan que morou lá.
— Eu não a conheci, mas ouvi falar nela. Foi durante a guerra, não esta última, aquela outra em que havia zepelins.
— É, já ouvi falar deles.
— Foi em 1914 ou 1915 que eles chegavam até Londres, vinham à noite; devia ser pavoroso, não?
— Bem, nem tanto. Não eram tão assustadores como as bombas voadoras da última guerra. A gente tinha uma sensação estranha, como se eles estivessem nos seguindo pelas ruas.
— Vocês passavam a noite no metrô, não é verdade? Tinha uma amiga em Londres que ia todas as noites para a mesma estação do metrô.
— Não estávamos em Londres nesta última guerra, mas acho que eu não gostaria de passar as noites no metrô.
— Essa minha amiga Jenny adorava! Achava divertido mesmo, todos já tinham seus lugares marcados, os amigos esperavam pela gente, o pessoal levava sanduíches; conversavam e se divertiam a noite inteira. Os trens andavam o tempo todo sem parar. Quando a guerra acabou e ela voltou para casa, não conseguia se acostumar, achava tudo sem graça.
— Mas voltando a Mary Jordan...
— Já faz muito tempo que ouvi minha avó falar sobre ela. Dizia que tinha uns cabelos louros muito lindos. Ela era alemã, uma fraulein como as chamavam. Era uma espécie de governanta, tomava conta das crianças. Tinha trabalhado com a família de um oficial da Marinha, lá na Escócia, parece. Depois veio trabalhar aqui com os Parks ou Perkins, sei lá. Tinha folga uma vez por semana e ia sempre a Londres, e era lá que entregava as coisas, não sei bem o que eram, talvez coisas que roubasse.
— Ela foi surpreendida roubando alguma coisa?
— Acho que não, mas estavam começando a suspeitar dela quando adoeceu e morreu.
— De que ela morreu? Foi aqui, no hospital?
— Naquele tempo não havia hospital aqui. Disseram que a cozinheira se enganou, confundiu folhas de erva dedaleira com espinafre ou alface, sei lá. Parece que a dedaleira tem um veneno mortal chamado digital ou coisa semelhante. Chamaram o médico e ele fez o que pôde, mas não adiantou.
— Havia muitas pessoas na casa quando isso aconteceu?
— Parece que sempre havia muita gente: hóspedes, crianças, babá, governante, e sempre festas. Foi o que minha avó contou. E o velho Mr. Bodlicott também fala sobre essas coisas às vezes, aquele velho jardineiro que vai a sua casa. No começo parece que o acusaram de colher as plantas erradas, mas depois descobriram que tinha sido alguém da casa que resolvera pegar alguns legumes e fizera a confusão. Parece que o espinafre estava plantado perto de uns pés de dedaleira, e no inquérito disseram que era possível alguém colher umas folhas do veneno junto, por engano. De qualquer maneira foi uma coisa triste porque a minha avó dizia que ela era muito linda mesmo.
— E ela costumava ir a Londres todas as semanas?
— Costumava sim, dizia que tinha amigos lá. Era estrangeira e então falaram que era uma espiã alemã.
— E ela era?
— Acho qut não. Ela tinha muitos amigos. Os oficiais da Marinha e os militares do Campo Shelton gostavam dela.
— Ficou provado que era espiã?
— Acho que não. Isso foi o que as pessoas começaram a dizer. Mas isso foi há muito tempo, não foi na última guerra, não. Foi antes de 1914. Naquele tempo era moda ter babás estrangeiras. Francesas e até alemãs. Minha avó dizia que ela tinha muito jeito com as crianças. Todo mundo gostava dela.
— Nessa época é que ela trabalhava na Casa dos Loureiros?
— Mas não era esse o nome. Ela morava lá, sim. E sabia pintar quadros. Pintou até um retrato de uma velha tia-avó minha. Mas a tia Fanny dizia que tinha saido muito velha no retrato. Ela também fez um retrato de um menino da casa. Está lá na casa de Mrs. Griffin. Foi esse menino que desco-briu coisas sobre a Mary. Acho que ele era afilhado de Mrs. Griffin.
— Deve ter sido Alexander Parkinson.
— É, esse mesmo. Ele está enterrado perto da igreja.






II
MATILDE, BEM-AMADO E O QUIOSQUE

NA manhã seguinte, Tuppence saiu à procura do velho Isaac, que em ocasiões formais era chamado de Mr. Bodlicott. Isaac Bodlicott era uma figura popular na aldeia por duas razões: era muito velho, andava pelos noventa anos, e entendia praticamente de tudo. Sabia consertar um número inacreditável de coisas. Se alguém precisasse de um bombeiro, e não achasse, o velho Isaac dava um jeito. Problemas de esgoto, de água, aquecedor enguiçado, curto-circuitos, não eram mistérios para Mr. Bodlicott. Cobrava muito menos que os profissionais técnicos no assunto e seus consertos eram, muitas vezes, surpreendentemente geniais. Entendia de carpintaria, de fechaduras emperradas, pendurava quadros — que ficavam meio tortos, às vezes — e sabia consertar até molas de poltronas decrépitas. A única desvantagem dos seus serviços era que falava praticamente o tempo todo, só parando para consertar a dentadura que volta e meia atrapalhava a sua dicção. A memória do velho Isaac era fantástica. Suas lembranças dos acontecimentos passados da vida da aldeia eram, às vezes, literalmente inacreditáveis, pois gostava de adicionar detalhes meio duvidosos a velhas histórias.
— A senhora ficaria espantada se eu lhe contasse tudo que sei sobre aquele caso. Todo mundo pensa que sabe o que aconteceu, mas estão enganados, completamente enganados. Foi a irmã mais velha, sabe? Parecia tão distinta... Foi o cachorro do açougueiro que forneceu a pista. Seguiu-a até aquela casa, Ah, se eu lhe contasse tudo. E o caso da velha Mrs. Atkins. Ninguém sabia que ela tinha um revólver em casa. Mas uma vez que ela me chamou para consertar um armário alto que tem na sala, as dobradiças estavam ruins, eu vi na gaveta o revólver embrulhado junto com uns sapatos brancos de cetim, ela disse que eram do casamento da avó dela. Mas o revólver, foi o filho que trouxera da África, de uma caçada de elefantes, e ele ensinou a velha a atirar. Sabe o que ela fazia? Ficava sentada junto à janela da sala e, quando alguém aparecia na entrada, fazia pontaria por cima da cabeça deles e atirava. Todos se apavoravam e corriam. Ela disse que fazia aquilo para ninguém perturbar os passarinhos, era doida por passarinhos. Seria incapaz de atirar nos bichinhos, nunca faria uma coisa destas. E a Mrs. Letherby? Quase a prenderam, roubava coisas nas lojas. E, no entanto, era cheia do dinheiro.
Enquanto Mr. Bodlicott consertava a clarabóia do banheiro, Tuppence ficou imaginando uma forma de fazer com que o velho falasse no assunto que a interessava, os segredos que pareciam estar escondidos naquela casa. O velho Isaac não se fazia de rogado para atender aos chamados de gente nova na aldeia. Um dos prazeres de sua vida era conhecer gente, pessoas de fora a quem ele pudesse deslumbrar com suas reminiscências. Os antigos conhecidos muitas vezes não tinham mais paciência para ouvi-las outra vez, mas uma audiência nova era algo que merecia ser saboreado. E gostava também de demonstrar suas extensas habilidades, enquanto isso.
— O velho Joe teve muita sorte. Podia ter cortado o rosto.
— É, podia mesmo.
— Olhe, naquele canto tem cacos de vidro ainda.
— Estou vendo, mas não houve tempo para limpar.
— É, mas não se pode arriscar com vidro quebrado. Basta uma lasquinha para causar uma desgraça. Foi o que aconteceu a Mrs. Lavinia Shotacomb, morreu com uma artéria cortada. A senhora não acreditaria, mas...
Tuppence não se sentiu tentada a ouvir outra vez a história de Miss Lavinia, uma velhinha quase cega e muito surda.
— Creio — interveio ela antes que Isaac se entusiasmasse com o caso — que você deve saber de muitas coisas estranhas que aconteceram nessa aldeia.
— É, muitas vezes se pensa que alguém é uma coisa e no fim, vai ver, é uma coisa muito diferente.
— Uma pessoa pode ser uma espiã ou uma criminosa, não é? — sugeriu Tuppence, mas o velho Isaac não mordeu a isca, abaixou-se e Catou um pedacinho de vidro.
— Isso podia entrar no seu pé.
Tuppence viu que a clarabóia não conseguira despertar nada de interessante na memória do velho e sugeriu que fossem dar uma espiada na pequena estufa que ficava junto à parede da sala de jantar. Seus vidros estavam quase todos quebrados. Será que valeria a pena consertar ou era melhor deitá-la abaixo? Isaac se animou com o novo problema. Vamos descer e dar uma olhada. Deram a volta à casa até a construção.
— Ah, o quiosque — disse Isaac.
— Quiosque? — estranhou Tuppence.
— Mrs. Lottie Jones o chamava de quiosque. Acho que é um nome japonês. Isso não é uma estufa de verdade como algumas casas antigas amda têm, para samambaias e avencas, sabe. As crianças costumavam guardar brinquedos aqui.
— Podemos entrar? — perguntou Tuppence, tentando ver através de um vidro muito sujo. — Parece que há uma porção de coisas aí dentro.
— Bem, se ninguém tirou, os brinquedos ainda devem estar aí. Matilde e o Bem-amado pelo menos. Havia cadeiras quebradas, também. Veja, está quase caindo. Acho que não serve mais para nada. A chave deve estar no mesmo lugar.
— Que mesmo lugar?
— No galpão. Por aqui.
Seguiram pelo jardim até um barraco que mal merecia o nome de galpão. Depois de remover alguns ramos de árvores e chutar algumas maçãs podres, Isaac abriu a porta com um empurrão. Penduradas num prego, por trás de um velho capacho, estavam quatro chaves enferrujadas.
— As chaves de Lindop, o último jardineiro que morou aqui. Um empalhador de cadeiras aposentado que não sabia fazer nada direito. Vamos ver o quiosque?
— Vamos — concordou Tuppence, curiosa.
Depois da aplicação de um pouco de óleo, que Isaac descobriu miraculosamente em algum lugar, a fechadura funcionou perfeitamente e a porta abriu-se com um rangido para que Tuppence e o seu guia entrassem.
— Bem, aqui estamos — disse Isaac com ar de quem achara que o esforço não valera a pena. — Bom para o lixo, não é?
— Mas que cavalo interessante! — disse Tuppence.
— É a Matilde.
— Matilde?
— Foi uma rainha, acho que a mulher de Guilherme, o conquistador. É americana. Foi o padrinho de uma das crianças que a trouxe da América.
— Que crianças?
— Um dos filhos dos Bassington.. Deve estar toda enferrujada.
Matilde tinha sido um cavalo e tanto, algum dia. Era quase do tamanho de uma égua de verdade. Só restavam poucos fios do que fora antigamente uma crina respeitável, e uma das orelhas estava quebrada. As pernas separavam-se em ân-gulo embaixo.
— É diferente dos outros cavalos de brinquedo que já vi.
— É, os outros se balançam para frente e para trás, mas esse anda aos pulos, primeiro as patas da frente, depois as de trás. Tem um mecanismo formidável. Vou lhe mostrar.
— Tenha cuidado — disse Tuppence, — não vá se espetar em algum prego, nem vá cair.
— Ah, já fazem uns cinqüenta anos que andei na Matilde mas ainda me lembro como é. Ela ainda está bem sólida, não está caindo aos pedaços não — e com um movimento súbito e inesperado o velho pulou em cima de Matilde. O cavalo deu um pulo para frente.
— Que tal?
— Esplêndido — aplaudiu Tuppence.
— As crianças adoravam este brinquedo. Miss Jenny costumava andar nele todos os dias.
— Quem era Miss Jenny?
— A menina mais velha, que tinha o tal padrinho americano. Ele deu a ela o Bem-amado também.
Tuppence olhou-o interrogativamente.
— É o nome daquele cavalinho que puxa aquele carro ali no canto. Miss Pamela descia o morro com ele. Sempre muito séria, ela levava o carro até em cima do morro, sentava e deixava que ele descesse sozinho enquanto ela ia freando com os pés. Muitas vezes ela ia cair dentro da cerca viva.
— O que não devia ser muito agradável.
— Mas quase sempre ela conseguia parar antes. Às vezes eu estava preparando o canteiro das rosas de natal ou aparando a grama, e a via brincar desse jeito horas seguidas. E sempre muito séria. Não gostava que falassem com ela. Queria se concentrar na sua brincadeira de faz-de-conta.
— Que brincadeira era esta?
— Parece que ela imaginava que era uma rainha em fuga. Mary, rainha... da Irlanda ou da Escócia?
— Mary, rainha da Escócia.
— Isso mesmo. Ela dizia que era a rainha e estava fugindo dos seus inimigos. Ia para a Inglaterra pedir ajuda a Elizabeth, só que eu acho que a Elizabeth não foi uma ajuda muito boa, não.
— De que família eram elas?
— Da família Lister.
Escondendo o seu desapontamento, Tuppence perguntou:
— Conheceu uma moça chamada Mary Jordan?
— Sei quem é, mas não a conheci pessoalmente, isso foi um pouco antes do meu tempo. Está falando na espiã alemã, não?
— Todos já ouviram falar nela aqui, parece.
— É, a fraulein, como a chamavam. Já é tempo de a senhora começar a pensar nos legumes que vai plantar. Se quer ter vagens, é hora de semeá-las, e já é preciso pensar nas ervilhas. Alface seria uma boa idéia também, não? Tão tenra e fresquinha.
— O senhor já deve ter trabalhado em muitos jardins dessa redondeza.
— É, já trabalhei em quase todas as casas. A maioria dos jardineiros não entendia grande coisa e às vezes eu dava uma mãozinha nos trabalhos mais delicados. Uma vez aconteceu uma tragédia aqui nesta casa por causa de uma confusão a respeito de plantas. Mas isso foi antes do meu tempo.
— Foi com a dedaleira, não?
— Vejo que a senhora já está por dentro. Foi há muito tempo, várias pessoas ficaram intoxicadas, e uma delas morreu. Um velho amigo me contou essa história.
— Deve ter sido a fraulein.
— Eu não sei nada disso, não.
— Talvez eu esteja enganada — disse Tuppence. — Será que poderia levar o Bem-amado lá para cima do morro onde a Pamela brincava? Se é que o morro ainda está no mesmo lugar.
— O que é que a senhora acha? Na certa que está, coberto de capim, como sempre. Mas é melhor tomar cuidado, a ferrugem pode ter corroído o Bem-amado. Vou dar uma limpeza nele antes.
— Ótimo — disse Tuppence. — Mais tarde podia fazer uma lista dos legumes que vamos plantar.
— Pode ficar tranqüila que não plantarei espinafre junto com dedaleira. Não quero que lhe aconteça nada na sua casa nova. É um lindo lugar para quem tem um pouco de dinheiro para gastar nele.
— Muito obrigada — sorriu Tuppence.
— Vou dar um jeito no Bem-amado para que não desmonte com a senhora. Está muito velho, mas as coisas velhas às vezes funcionam melhor do que as novas. Um primo meu consertou uma bicicleta que tinha andado encostada uns quarenta anos. Foi só pôr um pouco de óleo e ela andou. Um pouquinho de óleo pede fazer milagres.

III
ACREDITE EM COISAS IMPOSSÍVEIS

— QUE idéia! — exclamou Tommy.
Estava acostumado a encontrar Tuppence nos lugares mais estranhos quando chegava em casa, mas assim também era demais.
Não vira sinal dela dentro da casa, e lá fora uma chuvinha miúda caia. Talvez esteja ocupada no jardim, pensou e saiu para procurá-la. Foi então que disse:
— Que idéia!
— Olá. Tommy, voltou mais cedo hoje, não é?
— O que é isso?
— O Bem-amado.
— O quê?
— O nome dele é Bem-amado.
— É pequeno demais para você.
— Na certa que é. É um brinquedo para crianças pequenas que não sabem andar de bicicleta ainda. Não tem pedais, mas se você o levar até lá em cima do morro, ele desce sozinho com o peso.
— E vem se esborrachar aqui embaixo. Era isto que você estava tentando fazer.
— Não — disse Tuppence, — a gente usa os pés como freios. Quer que eu faça uma demonstração?
— Não precisa' não. Está começando a chover. Só queria saber por que estava fazendo isso, não deve ser muito divertido.
— Na verdade — confessou Tuppence, — é melo assustador. Mas eu queria saber como era e...
— Resolveu perguntar à cerca viva, não é?
— Ora, não zombe, é que eu estava prosseguindo com as investigações dos nossos problemas.
— Que problemas, mulher?
— Fiquei pensando que poderia haver mais coisas escondidas nessa casa e resolvi dar uma olhada no que estava guardado, há muitos anos pelo jeito, naquela espécie de estufa engraçada. E achei a Matilde, um cavalo de balanço com um buraco no estômago.
— Buraco no estômago?
— Isso mesmo. Devem ter sido as crianças que meteram um bocado de coisas lá dentro. Folhas velhas, papéis sujos, pedaços de pano que tinham sido usados para limpar coisas.
— Venha, vamos entrar.
— Bem, Tommy — disse Tuppence aquecendo os pés na lareira da sala de estar, — conte-me as novidades. Foi ver a exposição na Galeria do Hotel Ritz'
— Não, para falar a verdade, não tive tempo.
— Como? Pensei que tivesse saído justamente para isso.
— Bem, não é sempre que a gente faz o que disse que ia fazer.
— Você deve ter ido a algum lugar e feito alguma coisa.
— Achei um bom lugar para estacionar o carro.
— Isso é bom. Onde é?
— Perto de Hounslow.
— O que foi fazer lá?
— Bem, só estacionei o carro e peguei o metrô para Londres.
— Você está com um ar culpado. Será que eu tenho uma rival em Hounslow?
— Não, e você vai gostar do que eu andei fazendo...
— Comprou algum presente para mim?
— Não, e por falar nisso, nunca sei o que devo comprar para você.
— Ora, pois acerta quase sempre — animou-o Tuppence. — Então o que andou fazendo?
— Eu também andei pesquisando.
— Pesquisando o quê? Espero que não tenham sido os preços de cortadores de grama.
— Que idéia!
— Ora, você está sempre olhando os catálogos, deve estar doido para comprar um.
— No momento o que estou fazendo é uma pesquisa histórica, de crimes antigos. Crimes cometidos há mais de sessenta anos.
— Conte logo, ande, Tommy!
— Fui a Londres e coloquei certas engrenagens em movimento.
— Pois de certa maneira — disse Tuppence — estive fazendo o mesmo que você. Só que nossos métodos são diferentes.
— Então nós estamos realmente envolvidos no problema de Mary Jordan, não é? O mistério de Mary Jordan está começando a tomar forma.
— E é um nome tão comum. Não devia ser verdadeiro, se ela era alemã. Mas mesmo sendo inglesa podia ser espiã, como dizem.
— Acho que é lenda essa história dela ser alemã.
— Tommy, diga-me, o que fez?
— Bem, há diversas maneiras de se obterem informações.
— Sobre coisas que aconteceram há muito tempo?
— É, maneiras diferentes do que remexer em brinquedos velhos, fazer perguntas a senhoras idosas, interrogar um velho jardineiro que provavelmente lhe contará tudo trocado, ou perturbar o expediente do correio perguntando às funcionárias o que diziam suas tias-avós.
— Todos esses meios deram algum resultado, mesmo que tenha sido pequeno.
— Os meus também darão.
— A quem você foi fazer perguntas?
— Não é bem assim Tuppence. Deve saber que temos relações com pessoas que têm meios de obter informações, ou pelo menos sabem a quem pagar para obter dados autênticos, dignos de confiança.
— E aonde eles vão procurar esses dados?
— Ora, para começar, no Registro Civil, pesquisando certidões de nascimento, de óbito, casamento. Podem-se obter informações em testamentos, também, há casamentos que só foram registrados em igrejas. Há gente especializada em fazer isso.
— Está gastando muito dinheiro nisso? — perguntou Tuppence. — Pensei que íamos economizar depois da mudança.
— Acho que é um dinheiro bem empregado, já que você está tão interessada nesse assunto.
— E descobriu alguma coisa?
— Não tão depressa, Tuppence. Temos que esperar os resultados.
— Acha que se descobrir onde Mary Jordan nasceu, isso será um ponto de partida para descobrir mais coisas sobre ela?
— Não é só isso. Estou mais interessado em atestados de óbito com a causa mortis, e há arquivos de jornais que podem ser estudados. De qualquer maneira, foi bom reencontrar velhas amizades, que nos podem ser úteis nesse caso. Muita coisa depende de se conhecer a pessoa certa.
— É a pura verdade. Sei disso por experiência própria.
— Nossos métodos não são iguais — disse Tommy. — Mas os seus são tão bons como os meus. Nunca me esquecerei do dia em que entrei na Pensão Sans Souci e vi você lá, sentada, fazendo tricô, fingindo ser uma tal de Mrs. Blenkensop!
— É, porque eu não acreditava em pesquisas, nem em fazer outros pesquisarem em meu lugar.
— Não, mesmo. E se escondeu' num armário perto de onde eu estava sendo entrevistado de uma maneira um tanto estranha e descobriu para onde eu estava sendo mandado, e o que teria de fazer lá. E chegou lá primeiro. Foi isso que fez, bisbilhotar. Nem mais, nem menos. Um método muito desonroso.
— Que dá resultados muito satisfatórios — disse Tuppence.
— É, você sabe o caminho certo para conseguir as coisas. É um dom que você tem.
— Bem, creio que algum dia saberemos tudo o que aconteceu aqui. Mas acho difícil acreditar que tenham acontecido coisas anormais, que haja alguma coisa importante escondida aqui.
— Lembre-se daquela canção: "Acredite em coisas impossíveis".
— Estou cansada, falta um quarto para as onze, acho que vou me deitar. Estou, com muito sono, e muito suja de tanto remexer naqueles brinquedos velhos e empoeirados. Acho que ainda há mais coisas naquele tal quiosque. Antes de dormir preciso tirar todas essas teias de aranha.
— E lembre-se da canção.
— Sei fazer isso melhor do que você.
— Você me surpreende, muitas vezes — disse Tommy.
— Mas quem costuma ter razão é você e não eu, o que me amola, às vezes. Mas nós temos que passar por essas provações. Quem é mesmo que costumava dizer isso a toda hora?
— Deixe pra lá — disse Tommy. — Vá tirar a poeira dos anos de cima de você. Que acha do Isaac como jardineiro?
— Ele se acha ótimo. Vamos ver.
— Infelizmente não sabemos quase nada sobre jardinagem. Mas isso é outro problema.




IV
EXCURSÃO NO BEM-AMADO, OXFORD E CAMBRIDGE

— É MELHOR tomar o meu café do que ficar pensando em coisas impossíveis — disse Tuppence ao encher a xícara. Examinou com interesse um prato com apetitosos rins cercando ovos estrelados que estava sobre o aparador.
— Vou deixar esta tarefa para Tommy. Ele que prossiga com suas pesquisas. Vamos ver o que vai conseguir — e experimentando os rins acrescentou: — Que bom poder comer de verdade de manhã.
Há muito ela se contentava com uma xícara de café e uma laranjada ou suco de grape fruit, o que resolvia muito bem os problemas de peso, mas que não era muito satisfatório para o apetite. O contraste daquela refeição quente era consolador para os seus sucos digestivos.
— Creio que os Parkinson deviam ter uma refeição semelhante de manhã. Ovos fritos ou escaldados e bacon e talvez perdiz fria, como contam os velhos romances. As crianças eram consideradas tão sem importância que só podiam comer as pernas. Mas podiam pegar com as mãos, pelo menos.
Parou de mastigar o último pedaço de rim. Barulhos estranhos chegavam até ela.
— Nossa, alguém desafinou!
Com uma torrada na mão, perguntou a Alfred, que entrava na sala:
— Algum operário está tocando sanfona ou coisa semelhante?
— Não, é o cavalheiro que veio ver o piano.
— Ver o que, no piano?
— Veio afinar. A senhora me pediu para arranjar um afinador.
— Deus, como você foi rápido. É mesmo maravilhoso.
Alfred gostou do elogio, mas com um ar de quem achava que era muito merecido; era realmente formidável como ele podia executar rapidamente os pedidas mais estranhos que recebia de Tommy e Tuppence.
— Ele disse que o piano estava precisando realmente ser afinado.
— Também acho.
Tuppence tomou mais meia xícara de café e foi até a sala de estar onde um jovem estava ocupado com o piano que parecia meio envergonhado de expor assim as suas entranhas.
— Bom dia, senhora — disse o jovem.
— Bom dia. Que bom que o senhor veio.
— O piano precisava ser afinado mesmo.
— Sim — concordou Tuppence. — Sei disso. Acabamos de nos mudar e calculei que a mudança não lhe faria nenhum bem. Há muito tempo ele não era afinado.
— Isso se vê — disse o jovem e tocou dois acordes alegres em um tom maior e um muito melancólico em dó menor.
— A senhora tem um belo instrumento.
— É um piano Erard. Já atravessou maus pedaços no bombardeio de Londres. Nossa casa foi atingida, mas felizmente estávamos fora e o estrago foi maior no exterior.
— É, por dentro está bom. Não vai ser necessário mexer em muita coisa.
Tiveram um agradável bate-papo, enquanto o jovem tocava os acordes iniciais de um prelúdio de Chopin, e daí passava para o Danúbio Azul. Finalmente anunciou que tinha terminado o serviço:
— Mas é melhor eu dar uma repassada daqui a alguns dias. Pode ser que não tenha notado alguma coisa que precisasse ser consertada.
Despediram-se com a cordialidade de pessoas que acabam de descobrir que tinham idéias semelhantes sobre música em geral, e a alegria que um piano pode oferecer.
— Essa casa deve ter precisado de muitas reformas — disse ele olhando em volta.
— É, já estava vazia há algum tempo quando a compramos.
— Sei que já teve muito donos.
— Deve ter uma longa história — aproveitou Tuppence. — Tantas pessoas viveram aqui, muita coisa deve ter acontecido.
— A senhora deve estar pensando no que houve durante a primeira guerra.
— Algo a ver com segredos militares, não foi?
— Falou-se muito nisso, mas não sei nada certo.
— Foi muito antes do seu tempo — consolou-o Tuppence, olhando o rosto jovem do seu companheiro.
Depois que ele saiu, sentou-se ao piano. O prelúdio que o afinador tocara fez com que Tuppence relembrasse um outro prelúdio de Chopin, Chuva Caindo no Telhado. Seus últimos acordes transformaram-se numa canção, que Tuppence acompanhou cantando baixinho:
"Onde está, onde está, meu bem-amado Por onde meu bem-amado andará? Na mata, dos pássaros ouve-se o chamado Quando o meu bem-amado voltará?"
— Acho que não é esse o tom. Mas está ótimo, felizmente. Que prazer tocá-lo novamente. Onde está, onde está meu bem-amado? Bem-amado? Isto deve ser uma inspiração, um sinal. Vou ver o que aconteceu com ele.
Calçou os sapatos de sola grossa, vestiu um suéter e saiu para o jardim. O Bem-amado tinha sido guardado no estábulo vazio em vez do quiosque. Tuppence levou-o para cima do morro e fez-lhe uma limpeza rápida com um espanador que trouxera para retirar algumas teias de aranha que restavam em alguns cantos. Sentou no carro e deu um impulso, animando-o a mostrar as suas habilidades que ainda resistiam ao tempo e ao uso.
— Vamos meu Bem-amado, desça o morro, mas não vá muito depressa — disse ela preparando-se para frear com os pés se fosse necessário.
A princípio o Bem-amado não parecia muito disposto a correr, mas quando a ladeira tornou-se mais inclinada, animou-se e Tuppence foi terminar a corrida numa posição muito pouco confortável dentro da cerca viva.
— Isso não foi muito agradável — disse ela libertando-se dos galhos espinhentos. Depois de sacudir como pôde a roupa, deu uma olhada em volta. Estava num trecho onde os arbustos, muito densos, quase fechavam a passagem. Havia rododendros e hortênsias. O local ficaria lindo na época da floração, mas no momento não havia grande beleza nele. Percebeu, escondida sob os arbustos, uma antiga aléia. Ainda podia se ver para onde ia. Tuppence forçou a passagem por entre os galhos e foi. seguindo o caminho morro acima. Pelo jeito ninguém passava por ali há anos.
— Onde irá dar? Deve haver uma razão para ela.
Mas à medida que a trilha parecia hesitar e mudava de direção, Tuppence começou a duvidar. Sentia-se tonta como Alice no País das Maravilhas. Os arbustos rarearam e viu loureiros, provavelmente os que tinham dado nome à casa. A trilha tornou-se pedregosa ao passar sob eles e de repente chegou a quatro degraus cobertos de musgo que davam acesso a uma espécie de santuário. Nele, um pedestal com uma estátua de pedra, um menino com uma cesta na cabeça, já muito estragado pelo tempo. Uma lembrança voltou a Tuppence:
— Isso marca uma época, minha tia Sarah tinha um bem igual em seu jardim. E ela gostava de loureiros, também.
Sua memória levou-a de volta à casa de tia Sarah, em dias de sua infância. Ali, aos seis anos, brincava de cavalgar cavalos imaginários, cavalos brancos com longas crinas ondulantes. Na sua fantasia, à medida que subia a trilha sob as faias, atravessava campos verdejantes, até chegar a um nicho semelhante àquele com o mesmo menino com a cesta. Tuppence, cavalgando o seu corcel, sempre levava algo para colocar na cesta, uma oferenda para o deus. E fazia então um pedido que era atendido quase sempre.
Mas eu fazia trapaça, não era honesta — pensou Tuppence sentando-se num degrau. — Pedia algo que sabia que ia acontecer e assim tinha a sensação de que o lugar era mesmo mágico e que o deus atenderá ao meu pedido. Um deus menino meio gorducho. Mas como era divertido inventar alguma coisa e acreditar nela!
Suspirou e desceu a trilha até encontrar o caminho de volta à casa.
O quiosque estava no mesmo caos da véspera, Matilde sempre com a sua cara triste e desamparada. Mas dois objetos atraíram a atenção de Tuppence. Dois bancos redondos de porcelana com cisnes pintados à volta. Um deles era azul escuro e o outro azul claro.
— Ora, já vi bancos iguais a esses quando era criança, na varanda da casa de uma de minhas tias. Costumávamos chamá-los de Oxford e Cambridge. Iguaizinhos, com cisnes e tudo. E com o mesmo orifício em forma de S para colocar coisas dentro. Vou pedir a Isaac para lavá-los bem e colocá-los na varanda ou pórtico, como Tommy prefere. Podemos usá-los quando o tempo melhorar.
Virou-se para sair, mas atrapalhou-se com as pernas de Matilde, e tropeçou.
— Meu Deus, o que foi que fiz?
O que fizera fora enganchar o pé no banco azul escuro de porcelana que rolou pelo chão até bater na parede e partir-se em pedaços.
— Ah, acabei com o Oxford. Vamos ter que nos contentar com o Cambridge. Não há jeito de colar o Oxford, há pedaços demais.
Suspirou e perguntou-se o que Tommy estaria fazendo.

Tommy trocava idéias com alguns velhos amigos.
— O mundo está muito diferente agora — disse o Coronel Atkinson. — Soube que você e sua mulher, Prudence... ela tem um apelido, Tuppence, não é?... Bem, soube que vocês foram morar no campo, perto de Hollowquay. O que os atraiu para lá? Alguma coisa em particular?
— A casa estava com um bom preço — disse Tommy.
— Que sorte, não? Precisa me dar o seu endereço. Qual é o nome da propriedade?
— Acho que vamos chamá-la A Cabana do Cedro, há um cedro muito bonito lá. Mas o nome antigo era A Casa dos Loureiros; acho isso com um sabor muito vitoriano.
— A Casa dos Loureiros, em Hollowquay! Que diabo de coisa você está tramando? Vamos, conte-me!
Tommy olhou para o rosto envelhecido onde um bigode branco despontava.
— Está a serviço do país novamente — insistiu o Coronel.
— Não, estou muito velho para isso. Já me aposentei dessa espécie de trabalho.
— Não acredito muito. Talvez tenham-lhe instruído para dizer isso. Há muita coisa que não foi descoberta sobre aquele caso.
— Que caso? — perguntou Tommy.
— Você deve ter lido ou ouvido qualquer coisa a respeito do escândalo Cardington. Estourou depois do caso das cartas e o caso dos planos do submarino de Emlyn Johnson.
— Ah, lembro-me vagamente.
— Foi o submarino que chamou a atenção para o caso. Mas o que realmente importava eram as cartas. Se alguém tivesse conseguido obtê-las teria sido um desastre. Denunciariam pessoas que eram naquele momento da mais completa confiança do governo. É impressionante como pode acontecer isso, não é? Mas muitas vezes os traidores são as últimas pessoas de quem suspeitaríamos, ótimos camaradas, de absoluta confiança. Muitos deles jamais foram descobertos — o Coronel piscou para Tommy. — Creio que mandaram você dar uma olhada, meu caro.
— Uma olhada em quê?
— Na Casa dos Loureiros. O pessoal da segurança revistou-a toda. Pensavam que havia provas valiosas escondidas em algum lugar da casa. Correram boatos de que teriam sido mandados para o exterior, talvez a Itália, mas muita gente ainda acha que podem estar escondidas lá. É urna casa, como você sabe, com porões, pisos de lajotas e outros lugares sugestivos. Vamos, admita que está na caçada outra vez, meu caro Tommy.
— Asseguro-lhe que não trabalho mais nisso.
— Ah, era o que todos acreditavam quando você estava naquela outra casa, no começo da última guerra. E acabou prendendo aquele alemão, e a mulher do livro de contos infantis. Bom trabalho, aquele, E agora está seguindo outra pista!
— Tolice — disse Tommy. — Não pense nisso, estou aposentado.
— Não, sua raposa velha, você ainda é melhor do que qualquer desses jovens. E fica aí com essa cara de inocente. Mas acho que não devia mesmo fazer-lhe perguntas. Segredo de estado, não é? Mas de qualquer maneira, tenha cuidado com sua mulher. Ela sempre se arrisca demais. Escapou por um triz naquele caso do M ou N.
— Tuppence está interessada somente na história da casa, quem morou lá e quando, retratos de velhos moradores e tudo o mais. Isso e o jardim. Está muito interessada em catálogos de flores.
— Bem, se dentro de um ano nada tiver acontecido, talvez eu acredite nisso. Mas eu o conheço e conheço Mrs. Beresford também. Um casal maravilhoso. Aposto que descobrirão alguma coisa. Tome nota, se aqueles papéis vierem à tona, terão um efeito muito grande na vida política e muita gente não vai gostar. Homens considerados atual-mente modelos de retidão. Mas que podem ser perigosos, não se esqueça disso, perigosos. Tenha cuidado e faça com que sua mulher tenha cuidado, também.
— As suas idéias estão começando a me interessar.
— Então vá em frente, mas tome conta de Mrs. Tuppence. Gosto dela, é uma boa moça, sempre foi e sempre será!
— Ela não é mais uma moça.
— Não diga isso! E nem se acostume a dizer. Sua mulher é uma em mil. Mas coitado de quem ela suspeitar. Provavelmente deve estar atrás de alguém agora.
— Acho mais provável que tenha ido tomar chá na casa de alguma velhota.
— Olhe que velhotas podem ser ótimas fontes de informação. Crianças pequenas também. Pessoas de quem menos se espera podem apontar a verdade escondida. Poderia lhe contar cada coisa...
— Acredito, Coronel.
— Bem, não posso revelar segredos — e o Coronel Atkinson balançou a cabeça.

Voltando para casa, Tommy mal via a paisagem que fugia rapidamente pela janela do trem. Sua imaginação estava presa às palavras do Coronel.
— Ele costuma estar por dentro das coisas. Mas que interesse poderia ter isto agora? Faz tanto tempo, não deve ter mais importância. Agora só se fala no Mercado Comum Europeu, novas idéias surgiram. Mas as famílias importantes continuam no poder. Seus novos membros, cuja lealdade não foi testada, podem ser influenciados por novos credos. Ou podem querer reviver velhas idéias. A Inglaterra está mudando, ou será sempre a mesma? Com lodo por baixo de superfície serena. O mar não é só água cristalina até as conchas que jazem no fundo. Há uma camada escura e pega-josa que deve ser suprimida. Mas aqui em Hollowquay? Não acredito. Hollowquay é uma lembrança do passado, uma aldeia de pescadores que teve grande impulso e chegou a ser conhecida como a Riviera inglesa. Mas agora só tem movimento em agosto, na estação de veraneio. A maioria das pessoas prefere fazer excursões fora do país.
— Como foi? — perguntou Tuppence, enquanto tomavam o café na sala de estar, após o jantar. — Divertiu-se muito? Como vão seus velhos amigos?
— Os mesmos de sempre. Como estava sua velha amiga?
— Acabei não indo à casa dela. O afinador veio ver o piano e choveu a tarde inteira. Foi pena, ela podia ter-me contado alguma coisa interessante.
— Pois o meu amigo contou-me algo que realmente me surpreendeu. O que acha daqui, Tuppence?
— Daqui desta casa?
— Não, de Hollowquay.
— Acho que é um bom lugar.
— E qual é o significado que você dá a esse "bom"?
— Um bom lugar é um lugar onde coisas não acontecem, onde não se quer que elas aconteçam. E onde a gente se alegra com esse fato.
— Acho que isso é um ponto de vista próprio de nossa idade.
— Não, não creio que seja só isso. É bom saber que há lugares onde coisas ruins não acontecem. Embora hoje quase tenha me acontecido uma.
— O que aconteceu? Andou fazendo alguma bobagem, Tuppence?
— Naturalmente que não.
— Então o que foi?
— Lembra-se daqueles vidros em cima da estufa? Um deles estava meio frouxo e hoje caiu quase em cima de minha cabeça. Podia ter-me cortado toda.
— Você não está machucada, está? — perguntou Tommy, olhando-a.
— Não, tive muita sorte. Mas levei aquele susto.
— Temos que mandar aquele seu velho faz-tudo, o Isaac, verificar todos os vidros. Não quero que lhe aconteça nada, Tuppence.
— Acho que há sempre uma coisa errada numa casa velha.
— O que há de errado nesta aqui?
— Por que pergunta?
— Por causa de algo que ouvi hoje.
— Isso não me parece possível, Tommy.
— Pois é. Com toda essa aparência respeitável e inocente, toda pintadinha de novo.
— Mas isso foi obra nossa. Estava bem ruinzinha e estragada quando a compramos.
— Por isso foi barata.
— O que soube, Tommy?
— Aquele velho bigodudo, o Monty, mandou você tomar cuidado e disse que eu tomasse conta de você, que era necessário tomar precaução neste lugar.
— Que diabo de coisa ele estava sugerindo com isso?
— Tuppence, o que pensaria você se lhe dissesse que ele insinuou que estávamos aqui em .serviço ativo? Que tínhamos sido mandados pelo departamento de segurança para descobrir o que havia de errado com este lugar?
— Diria que você ou o velho estava imaginando coisas.
— Pois ele acha que estamos aqui numa missão para descobrir alguma coisa.
— Que coisa?
— Algo escondido nesta casa.
— Ele deve estar doido.
— Sabe, também pensava assim, mas já não estou tão certo — O que há nesta casa para ser encontrado? Um tesouro escondido, as jóias da coroa russa estarão enterradas no porão?
— Não, não é um tesouro. É algo que significa perigo para alguém.
— Que estranho... — disse Tuppence.
— Por que diz isso, já achou alguma coisa?
— Não, na certa que não. Mas houve um escândalo nesta casa, realmente. Soube através de pessoas que ouviram falar, por velhos parentes. Mary Jordan estava envolvida, mas tudo parece ter sido abafado.
— Anda fantasiando coisa, Tuppence? Quer reviver o passado, os dias de aventura da nossa juventude, quando descobrimos o misterioso Mr. Brown?
— Que idéia, Tommy. Já faz tanto tempo. "Os jovens aventureiros", assim nos chamávamos. Não parece mais ter sido verdade.
— Mas foi. Muita coisa em que não queremos acreditar é verdade. O velho Monty diz que esse caso ocorreu há sessenta ou setenta anos.
— O que disse ele afinal?
— Falou que havia cartas ou papéis que criariam um grande escândalo político, uma reviravolta. Esses papéis desmascarariam alguém que está no poder e não deveria estar.
— Algo do tempo de Mary Jordan? Acho que você andou sonhando no trem.
— Talvez, realmente parece inacreditável.
— Mas já que moramos aqui, podemos dar uma olhadela — disse Tuppence passeando os olhos pelo aposento; — mas não creio que haja nada.
— Tanta gente já viveu aqui, famílias e famílias. Só se estiver no sótão ou no porão ou debaixo das lajes do caramanchão.
— Isso vai ser divertido. Quando não tivermos mais nada que fazer ou já estivermos cansados de plantar bulbos de tulipa, vamos procurar um pouco por aí. Admitindo que eu quisesse esconder alguma coisa, onde será que a colocaria, onde seria mais provável que ninguém encontrasse?
— Não sei, talvez em algum bule de chá.
Tuppence levantou-se, subiu num banquinho e tirou um bule chinês de uma estante que ficava sobre a lareira.
— Não há nada aqui.
— Era um lugar pouco provável.
— Acha — perguntou Tuppence animada com a idéia — que alguém tentou acabar comigo afrouxando o vidro da clarabóia?
— É pouco provável. Só se queriam pegar o velho Isaac.
— Que pena, gostaria de pensar que escapei por um fio.
— É melhor tomar cuidado, se não vou ter que tomar conta de você.
— Você se preocupa demais comigo.
— Devia gostar de ter um marido que se preocupa com você.
— Ninguém tentou descarrilar o trem ou atirar em você?
— Não — respondeu Tommy. — Mas talvez seja melhor verificar os freios do carro antes de sair nele outra vez. Naturalmente isso tudo é ridículo.
— Naturalmente — concordou Tuppence, — absolutamente ridículo. Mas de qualquer maneira é até divertido admitir estas possibilidades.
— Então Alexander teria morrido porque sabia demais.
— Ele sabia algo sobre a morte de Mary Jordan. "Foi um de nós" — os olhos de Tuppence animaram-se. — Temos que descobrir quem eram esses NÓS. Temos que voltar ao passado, e descobrir o porquê desse crime. Aí está uma coisa que nunca fizemos antes.
V
MÉTODOS DE PESQUISA

— ONDE se meteu, Tuppence? — perguntou seú marido ao voltar ao refúgio familiar no dia seguinte.
— O último lugar em que estive foi o porão.
— Vê-se logo, está com o cabelo cheio de teias de aranha.
— Não havia outro jeito, o porão está cheic delas. Mas não achei nada a não ser umas garrafas de bay-rum.
— Aquele rum feito com folhas de pimenta da Jamaica?
— Esse mesmo, mas acho que não serve para beber.
— Não, os homens o usavam no cabelo.
— Ah, estou me lembrando de um tio que o usava . Um amigo trazia da América. Mas de qualquer forma, não dá para esconder nada numa garrafa de rum.
— Então era isso que estava fazendo, procurando coisas.
— Tinha que começar por algum lugar — disse Tuppence. — Se o seu amigo disse a verdade, há alguma coisa escondida por aí. Mas é difícil imaginar em que lugar, os móveis são trocados quando uma casa muda de dono. É pouco provável que reste alguma coisa daquela época.
— Então, por que alguém havia de querer feri-la e fazer com que saiamos daqui, a não ser que haja nesta casa algo que não queira que encontremos?
— Bem, isso e uma possibilidade, mas pode não ser verdadeira. De qualquer forma, não foi um dia inteiramente perdido. Encontrei uma coisa.
— Tem relação com Mary Jordan?
— Pode ser. O porão não deu em nada, tinha só uma lâmpada muito velha, com vidro vermelho, que se usava para revelar fotografias, e as garrafas de bay-rum. E não creio que se pudesse esconder alguma coisa debaixo daquele chão. Havia mais uns baús velhos e duas malas tão decrépitas que se desmanchariam com um pontapé. Uma decepção completa.
— Uma pena — disse Tommy.
— Mas achei umas coisas interessantes. Vou lhe contar depois de tirar essas teias de aranha.
— Uma boa idéia. Vou gostar mais de olhar para você depois disto.
— Ah, queria que me achasse linda toda vez que olhasse para mim, apesar da minha idade.
— Minha querida, acho-a lindíssima. Umas teias de aranha que estão no seu pescoço me lembram até um retrato da imperatriz Eugênia. Tinha um cacho bem igualzinho a esse. Só que o seu tem uma aranha.
— Nossa! — exclamou Tuppence, tirando a aranha com a mão.
Quando desceu mais tarde, após a limpeza, encontrou Tommy com um copo na mão.
— Não está me oferecendo bay-rum, não é? — disse ela desconfiada. — Sabe qual seria um bom esconderijo? O estômago de Matilde.
— Não estou entendendo.
— Matilde é o cavalo de balanço. Sabia que tinha um buraco no estômago porque Isaac me contara. Mas cheio de papéis velhos. Nada de interesse. Mas é um bom esconderijo, não acha?
— É uma idéia.
— O Bem-amado também. Olhei por baixo do banco estofado, mas não há nada lá. Comecei a pensar outra vez e lembrei-me das estantes de livros. Podem-se esconder papéis dentro de livros.
— Pensei que tínhamos terminado de arrumar os livros — disse Tommy desanimado.
— Não, ainda falta a prateleira de baixo.
— Essa é mais fácil, pelo menos não é necessário usar escada.
— Foi o que pensei. Sentei-me no chão e dei uma olhada. A maioria eram livros com velhos sermões escritos por um pastor metodista, não havia nada neles. Mas por trás havia um buraco cheio de papéis e livros rasgados. Consegui tirar um grande, encapado com papel marrom. Imagine o que era.
— Não tenho idéia. Algo valioso como uma primeira edição do Robinson Crusoé?
— Não, um álbum de aniversário.
— O que é isso?
— Eram comuns antigamente. Creio que este é da época dos Parkinson, ou até mais antigo. Está muito estragado, mas talvez haja alguma coisa interessante nele. Não tive tempo de olhar bem.
— Acha aue pede haver algum papel dentro dele?
— Isso não. Mas há nomes e datas que podem nos interessar. Não havia mais nada na prateleira. Mas falta ver nos armários embutidos.
— E a mobília? Talvez tenha gavetas secretas.
— Tommy, lembre-se de que toda a mobília desta casa já era nossa. Só deixaram, além dos livros, as coisas do quiosque, brinquedos velhos e bancos de jardim. Não há mais nada do tempo dos Parkinson. Mas achei uma coisa interessante.
— O quê?
— Menus de porcelana.
— Menus de porcelana?
— Estavam naquele armário perto da despensa, que não conseguíamos abrir. Encontrei a chave, lá numa caixa no quiosque. Com um pouco de óleo consegui abrir a porta. O armário estava vazio, só alguma louça quebrada, provavelmente dos últimos donos da casa. Mas na prateleira de cima achei uma pilha de peças retangulares de porcelana, com menus escritos. Isso se usava antigamente nas festas, lembra-se? E que coisas fascinantes eles comiam! Refeições realmente deliciosas.
Com um consommé e uma sopa cremosa, duas espécies de peixe, duas entradas, e uma salada. Depois vinha o assado e um sorvete de frutas. E por último, acredite se quiser, salada de lagosta!
— Nossa, Tuppence. Chega, não agüento mais.
— São muito antigos, muito mesmo. Talvez signifiquem alguma coisa.
— O que acha que pode descobrir com isso?
— Bem, talvez o álbum revele alguma pista. Estava lá o nome de Winifred Morrisson.
— E daí?
— Winifred Morrisson era o nome de solteira da velha Mrs. Griffin. É uma das moradoras mais antigas daqui. Já tomei chá com ela; lembra-se de coisas que aconteceram ainda antes de sua época. Talvez saiba algo sobre as pessoas que foram a esse tal aniversário do álbum. Pode ser que dê em alguma coisa.
— Pode ser — concordou Tommy, meio céptico. — Ainda penso...
— Pensa o quê?
— Não sei o que pensar — respondeu Tommy. — Ou pelo menos... Ah, desisto. Admito que estou interessado.
— E você, descobriu alguma coisa?
— Não tive tempo. Mas arranjei novas fontes de informação. Sabe aquela mulher sobre quem lhe falei, que é ótima nesse serviço? Pois encarreguei-a de um trabalho.
— Tomara que dê resultado. Isso pode ser tolice, mas é divertido.
— Não tenho certeza de que vá ser tão divertido quanto está pensando.
— Não faz mal, pelo menos teremos feito o que estava ao nosso alcance.
— Mas não saia por aí fazendo tudo que está ao seu alcance, não. É exatamente isto que me preocupa quando estou longe de você.

VI
MR. ROBINSON

— O QUE será que Tuppence está fazendo? — disse Tommy suspirando.
— Desculpe-me, não ouvi bem o que disse. Tommy virou-se para olhar Miss Collodon
mais de perto. Era muito magra, com cabelos grisalhos que ainda apresentavam vestígios de um banho de água oxigenada com o qual tentara parecer mais jovem, sem resultado. Agora ela estava experimentando um tom sofisticado de cinza, mais apropriado para uma senhora de mais de sessenta, dedicada a pesquisas. Tinha uma expressão de superioridade ascética e um jeito de quem confiava plenamente nas próprias habilidades.
— Não foi nada, Miss Collodon, só um pensamento que tive.
O que será, pensou Tommy cuidando-se para não falar em voz alta, que ela pretende fazer hoje? Aposto que alguma tolice. Pode até se matar com aquele brinquedo obsoleto, ou fraturar algum osso. A bacia provavelmente. Tuppence deve estar fazendo ou alguma tolice, ou alguma coisa muito perigosa. Isto mesmo, perigosa. Era difícil afastar Tuppence do perigo. A mente de Tommy vagou por vários acidentes do passado. Uma citação lhe ocorreu e disse alto:
— Portais do Destino...

Não passe caravana, cala a tua canção
E escuta o silêncio, pois os pássaros estão mortos,
Mas quem canta como um pássaro?

Miss Collodonprontamente identificou o autor:
— Flecker — disse ela. — Flecker. — E continuou:
— "Caravana da morte... Caverna trágica, Forte do Medo."
Tommy olhou-a espantado até compreender que Miss Collodon pensara que ele lhe trouxera um problema poético para ser resolvido, para descobrir o poeta e o livro de onde fora tirado. Decididamente ela entendia de coisas demais.
— Estava preocupado com minha mulher — desculpou-se Tommy.
— Oh — disse Miss Collodon olhando-o com uma expressão diferente. Complicações matrimoniais, ela deduziu. Acho que vou indicar-lhe uma agência especializada em ajudar casais a se ajustarem.
Tommy acrescentou rapidamente:
— Já obteve alguma informação a respeito do assunto de que lhe falei anteontem?
— Ah, sim, não foi muito difícil. O Registro Civil é de grande ajuda nesses casos. Não sei se vai encontrar o que procura, mas aqui está unia lista com nomes, endereços, datas de nascimento, casamentos e mortes.
— Nossa, quantas Mary Jordans achou?
— Uma Mary, uma Maria e uma Polly Jordan. Uma Mollie Jordan, também. Não sei se alguma delas é quem o senhor procura — disse Miss Collodon entregando a Tommy uma folha datilografada.
— Obrigado. Muito obrigado.
— Há vários endereços também. Não consegui descobrir o do Major Dalrymple, as pessoas se mudam toda hora, hoje em dia. Mas acho que conseguirei a informação dentro de dois dias. Este é o endereço do Dr. Heseltine, está morando em Surbiton.
— Obrigado. Acho que começarei por ele.
— O senhor tem mais alguma pergunta?
— Tenho aqui uma lista de seis. Talvez alguma delas esteja fora da sua especialidade.
Miss Collodon tranqüilizou-o:
— Ora Mr. Beresford, tenho que abranger um campo muito amplo nesta minha profissão. O que é preciso em primeiro lugar é saber onde conseguir a informação. Já me perguntaram as coisas mais estranhas, mas hoje em dia a maior parte são detalhes legais sobre testamentos, escritores querendo dados para seus livros, informações sobre empregos no exterior ou problemas de imigração. Tenho que entender de muitos assuntos.
— É tenho a certeza de que entende.
— Até de ajuda a alcoólatras. Há muitas sociedades que se especializam nisso. Tenho uma lista grande. São muito compreensivas e de toda confiança.
— Lembrar-me-ei disso — disse Tommy! — se for necessário. Pode depender do que eu conseguir hoje.
— Oh, o senhor não parece ter esse problema!
— Meu nariz não está vermelho, não é?
— Mas isto costuma ser pior nas mulheres. É difícil fazer com que larguem o vício. Muitas vezes parecem ótimas, tomando a sua limonada, quando de repente, numa festa, pronto! Volta tudo.
Miss Collodon olhou o relógio.
— Sinto muito, mas está na minha hora. Tenho um compromisso na Rua Grosvenor.
— Obrigado por tudo — disse Tommy amavelmente, abrindo a porta para que ela saísse. De volta a sua mesa, desabafou:
— Preciso contar a Tuppence. O primeiro resultado de minhas pesquisas foi convencer uma auxiliar de que minha mulher bebe e o nosso casamento está se desintegrando por causa disto. O que vai me acontecer agora?
Aconteceu um encontro num restaurante modesto perto da Tottenham Court.
— Meu caro Tom, juro que não o reconheci — disse um homem idoso, levantando-se de sua cadeira.
— Acredito, de ruivo não tenho mais nada.
— Estamos todos grisalhos. Como vai de saúde?
— A mesma de sempre. Deteriorando-se devagarzinho.
— Há quanto tempo não o vejo? Uns dois anos ou dez?
— Nem tanto. Encontramo-nos no jantar dos Gatos Malteses, no outono passado, não se lembra?
— Isso mesmo. Parece que o restaurante fechou, mas ia mesmo acontecer, o lugar era muito agradável, mas que comida ruinzinha. O que anda fazendo, meu caro? Ainda está metido em espionagem?
— Não tenho mais nada a ver com isso.
— Você está desperdiçando suas habilidades.
— E você, Costeleta?
— Ah, já estou velho demais para servir meu país dessa maneira. São esses jovens ansiosos, recém-saídos das universidades, que fazem a espionagem de hoje. Onde está você agora? Mandei-lhe um cartão de natal este ano, verdade que só o coloquei no correio em janeiro, mas foi devolvido com um carimbo de "não mora neste endereço".
— Estamos no campo agora. Perto do mar, em Hollowquay.
— Hollowquay? Lembra-me alguma coisa. Aconteceu algo dentro da sua especialidade ali, não foi?
— Mas não na minha época. Ouvi falar disto depois que nos mudamos. Histórias que se passaram há mais de sessenta anos.
— Planos de um submarino vendidos a outro país, não? Nem me lembro mais a qual. O Japão ou a Rússia, talvez. Eram tempos de lindas espiãs que se encontravam com o terceiro secretário da embaixada em Regent Park, ou coisa parecida. Pelo menos nos livros.
— Quero lhe fazer uma pergunta, Costeleta.
— Pois faça. Tenho tido uma vida muito pacata, sabe. Lembra-se da Margery?
— Naturalmente que me lembro. Quase fui à seu casamento.
— É, você tomou o trem errado. Ele ia para a Escócia em vez de Southall. Mas você não perdeu nada.
— Não houve o casamento?
— Houve, sim. Mas não durou muito, um ano e meio e estava tudo acabado. Ela casou-se novamente e eu não. Mas vou vivendo muito bem. Moro em Little Pollon, há um ótimo campo de golfe lá. Minha irmã mora comigo, é viúva e tem algum dinheiro e nos damos muito bem. Ela é meio surda, mas é só uma questão de gritar um pouquinho.
— Disse que ouviu falar de Hollowquay? Houve realmente espionagem lá?
— Para ser franco, não me lembro bem. Mas causou sensação na época. Jovem oficial da Marinha, acima de qualquer suspeita, noventa por cento britânico, grau cento e cinco em confiança, e que não era nada disso afinal. A serviço da... não me lembro mais o país, deve ter sido a Alemanha. Antes da guerra de 1914.
— Havia uma mulher ligada a ele.
— Creio que se chamava Mary Jordan. Não tenho mais certeza. Parece que a mulher do tal oficial achava que ele ganhava pouco, ela é que queria mais dinheiro, e entrou em contato com os russos. Russos nada, estou fazendo confusão. Mas isto é uma história muito velha. O que tem a ver com você? E o que aconteceu com aquela mulher envolvida naquele caso do Lusitânia? Jane Fish, não era?
— Jane Finn. Casou-se com um americano.
— Ah, muito bem. Parece que estamos sempre relembrando velhos conhecidos. E se já estão mortos, ficamos muito espantados, pois não tínhamos pensado nessa hipótese. Mas se estão vivos ficamos mais surpreendidos ainda. É um mundo muito complicado.
Tommy concordava quando o garçom apareceu. O que iam comer? Daí em diante a conversa passou para assuntos gastronômicos.

À tarde Tommy tinha outro encontro marcado. Desta vez com um homem grisalho e desanimado, que obviamente tinha pressa em desfazer-se dele.
— Bem, realmente não tenho informações precisas. Houve um escândalo na época, mas sabe como essas coisas não duram. A imprensa logo descobre outro escândalo para explorar e tudo é esquecido.
E discorreu brevemente sobre fatos que confirmavam essa conclusão, mas logo prosseguiu:
— Talvez isso possa lhe ajudar. Marquei uma hora para o senhor neste endereço É um ótimo sujeito, sabe de tudo. É realmente o máximo. Uma das minhas filhas é afilhada dele, e ele é sempre muito amável, procura me atender sempre que é possível. Falei-lhe sobre o seu caso e disse que já tinha ouvido falar a seu respeito e que podia atendê-lo. As 3 e 45. Aqui está o endereço do seu escritório na cidade. Já foi apresentado a ele?
— Acho que não — disse Tommy olhando o cartão.
— Não vai dar muito pela aparência dele. Gran-dão e amarelo. Mas é o máximo. Boa sorte, amigo.

Tommy, tendo conseguido achar o tal escritório a tempo, foi recebido por um homem entre 35 e 40 anos, que parecia determinado a enfrentar todos os perigos. Tommy sentiu-se suspeito de estar tramando um atentado contra o maioral ou a sua equipe inteira, ou de carregar uma bomba escondida. Ficou um bocado nervoso.
— O senhor diz que tem um encontro com Mr. Robinson, A que horas? Ah, 3 e 45 — consultou uma ficha. — Mr. Thomas Beresford?
— Sim — disse Tommy.
— Assine aqui, por favor. Tommy assinou.
— Johnson.
Um jovem meio nervoso, de uns 32 anos, surgiu como uma aparição de trás de uma porta de vidro.
— Senhor?
— Leve Mr. Beresford ao quarto andar para ver Mr. Robinson.
— Sim, senhor.
O jovem conduziu-o a um elevador que parecia mal intencionado em relação aos seres humanos.
Quase esmagou Tommy quando entrou fechándose a um milímetro de suas costas.
— Está frio, não? - disse Johnson ansioso por mostrar-se amável com alguém que era admitido à intimidade do chefão.
— É, as tardes têm estado frias.
— Alguns dizem que é a poluição, outros que é o gás natural que estamos retirando do Mar do Norte.
Ah, não cinha ouvido falar nisso.
Ao fim do corredor do quarto andar, Johnson anunciou:
— Mr. Beresford está aqui, senhor.
Tommy entrou. Atrás de uma mesa imensa, que parecia encher a sala, estava sentado um homem enorme e pesado. Como o amigo de Tommy avisara, tinha um rosto largo e a pele amarelada. Sua nacionalidade podia ser qualquer uma, alemã, austríaca, talvez até fosse japçnês. Provavelmente era cem por cento inglês.
— Ah, Mr. Beresford.
Mr. Robinson levantou-se e estendeu a mão.
— Sinto tomar o seu tempo — disse Tommy. Achava que já tinha visto Mr. Robinson antes e que ficara intimidado na ocasião, pois obviamente ele era alguém muito importante, isso sentia-se logo.
— O senhor quer uma informação, mas seu amigo só me fez um resumo muito breve.
— Não devia lhe incomodar. Talvez seja sem importância. É somente.. .
— Uma idéia?
— E em parte é da minha mulher.
— Já ouvi falar nela e no senhor também. A última vez foi no caso M ou N ou vice-versa. Lembro-me de que o senhor prendeu aquele comandante, não foi? O tal nazista disfarçado em oficial inglês. Sei que não há mais criancinhas no jardim de infância. Mas o senhor e sua senhora fizeram um bom trabalho. A pista foi fornecida por um versinho de crianças, não é?
— Lembra-se disto? — perguntou Tommy, com novo respeito.
— Veio a minha cabeça neste minuto. Versinhos tão conhecidos que ninguém pensaria que tivessem algum significado oculto. Mas o que há agora? Está envolvido em alguma coisa?
— Nada de maior, realmente. É só que...
— Vamos, fale. Sente-se e ponha os pés para cima antes. É muito importante na nossa idade.
— É, agora só nos resta morrer, no devido tempo.
— Nada disso, depois que atravessamos uma certa fase, podemos continuar a viver praticamente para sempre.
— Bem, para ser breve, nos mudamos para uma nova casa, e os antigos moradores nos venderam alguns livros antigos, na maioria livros de criança. Num deles, minha mulher encontrou palavras com letras sublinhadas, que reunidas formavam uma frase. E essa frase talvez lhe pareça bobagem.
— Ótimo, se parece bobagem, quero saber.
— A frase dizia "Mary Jordan não morreu naturalmente. Deve ter sido um de nós".
— Muito interessante — disse Mr. Robinson. — Nunca encontrei nada semelhante. Sabe quem escreveu? Tem alguma pista?
— Parece ter sido um menino de idade escolar, membro da família Parkinson, que morava na casa então. Alexander Parkinson; está enterrado lá no cemitério.
— Parkinson, o nome é familiar, mas não me lembro de detalhes.
— E estamos tentando saber quem era Mary Jordan.
— Porque ela não morreu de morte natural. É, está dentro da sua especialidade. Já conseguiu descobrir alguma coisa?
— Nada, realmente. Ninguém sabe maiores detalhes sobre ela. Só que era uma espécie de babá, uma governante estrangeira.
— De que ela morreu?
— Dizem que envenenada por uma mistura de folhas de dedaleira com espinafre, colhidas na horta por engano. Mas não creio que isso matasse ninguém.
— Eu também não. Mas se alguém servisse um café ou um coquetel à Mary Jordan com uma dose forte de um alcalóide de digitalina, ela morreria e tudo seria atribuído às folhas de dedaleira. Mas o menino Alexander era esperto demais para acreditar nisso, não? Ele tinha outras idéias. Quando foi isso, Beresford?
— Antes da Primeira Guerra Mundial. Rumores antigos dizem que ela era uma espiã alemã.
— Lembro-me do caso, causou grande sensação. Todo alemão que trabalhava na Inglaterra antes de 1914 era acusado de ser espião, e o oficial inglês, envolvido no caso, era considerado acima de qualquer suspeita. Mas isso foi há muito, muito tempo. Acho que a imprensa nunca desencavou esse fato e explorou-o para divertir o público.
— Só consigo ter uma idéia muito vaga sobre o assunto.
— É, passou-se há muito tempo. O que despertou o interesse do público na época foi o roubo dos planos secretos de um submarino, e de aviões também. Mas havia o lado político, o caso envolvia pessoas de "total integridade". Integridade meio duvidosa, muitas vezes. Nesta última guerra — continuou .Mr. Robinson — houve gente que dizia que a nossa única chance era juntarmo-nos a Hitler. Estavam todos interessados em abolir a pobreza e a injustiça, Franco na Espanha, Mussolini com seus discursos pomposos. Antes das guerras há muita gente envolvida nessas atividades subversivas e muitos deles nunca são descobertos.
— O senhor parece saber de tudo. Desculpe o meu interesse, mas é realmente fascinante entrar em contato com alguém que está por dentro dos acontecimentos.
— Já fiz parte da panelinha muitas vezes, vivi muito tempo nos bastidores dos fatos. Ouve-se muita coisa e os amigos que participaram dos acontecimentos também falam. Deve saber disso.
— É verdade. Através de velhos amigos tenho sabido de coisas que outros ouviram contar e assim por diante.
— Foi assim que agiu até aqui.
— O problema — disse Tommy — é que não sei se estamos certos ou se esta nossa preocupação é bobagem de nossa parte. Veja, compramos uma casa agradável, já está toda arrumada, e começamos a trabalhar no jardim. Realmente não quero me envolver com esse tipo de coisa novamente, é só curiosidade. Mas não conseguimos deixar de pensar no que aconteceu há tanto tempo e no por quê. Só não vejo a finalidade disso, não vai adiantar nada a ninguém.
— Mas o senhor quer saber. Os seres humanos são assim. E isto nos leva a explorar a lua, o fundo dos oceanos, a achar oxigênio fornecido pelo mar e não pela vegetação. A curiosidade nos leva sempre a descobrir coisas novas. Sem ela seríamos tartarugas. Uma tartaruga tem uma vida muito calma, dorme o inverno todo, e pelo que sei, come grama todo o verão. Não é uma vida interessante, mas é tranqüila. Por outro lado...
— Eu diria que o homem se parece com o mangusto.
— Ótimo. Vejo que é leitor de Kipling. Fico satisfeito, Kipling não é tão apreciado hoje como devia, mas era estupendo. Seus contos são muito bons mesmo. Deviam ser mais lidos.
— Não quero fazer um papel ridículo intrometendo-me em coisas que não me dizem respeito, nem a ninguém mais.
— Isto nunca se sabe — disse Mr. Robinson.
Nesta altura Tommy já se sentia culpado de estar tomando o tempo de um personagem tão importante.
— Não é uma simples curiosidade da minha parte.
— O senhor quer agradar à sua mulher, não é? Já ouvi falar nela, mas não tive o prazer de conhecê-la. Deve ser uma pessoa maravilhosa, não?
— Na minha opinião, é.
— Gosto de ouvir isso, gosto de pessoas que se mantêm unidas, que apreciam o seu casamento e conservam-no.
— Talvez já seja uma velha tartaruga, suponho. Mas estamos velhos e aposentados e embora tenhamos uma boa saúde para nossa idade, não queremos mais nos envolver, nem nos intrometer em nada. É só. ..
— Eu sei, não precisa se desculpar. O senhor quer saber e Mrs. Beresford também. Pelo que ouvi falar dela, acabará arranjando um meio de saber de alguma forma. É um palpite meu.
— Acha mais provável ela descobrir do que eu?
— Talvez não esteja tão interessado quanto ela, mas tem grande capacidade para encontrar fontes de informação e chegará à solução. Olhe que não é fácil, num caso antigo como esse.
— Não vejo um motivo para prosseguir nesta investigação. Afinal Mary Jordan já está morta.
— Sim, isto é verdade. Mas pode-se julgar alguém de uma maneira errada, por causa do que se ouviu ou se leu a respeito.
— Está insinuando que temos idéias erradas a respeito de Mary Jordan? Ela não tinha importância?
— Não, ela pode ter tido muita importância. — Mr. Robinson olhou o relógio. — Infelizmente tenho um encontro dentro de dez minutos com um camarada muito chato, mas muito importante. Tem um alto cargo no governo, e é preciso viver com ele, não é? Gostaria de ter o privilégio seu e de sua mulher, de poder ver as coisas só sob o por to de vista de um cidadão fora da vida pública Sei alguns dos fatos dessa história e talvez ainda possa contar-lhe algum dia. Mas como são um assunto encerrado, não haverá lucro nenhum nisso. Uma coisa posso lhe dizer que provavelmente o ajudará em suas investigações: O comandante envolvido nesse caso foi julgado e cumpriu a sua pena, muito merecida por sinal. Era um traidor e pronto. Mas Mary Jordan...
— Sim?
— Quer saber quem ela era, pois vou lhe contar. Mary Jordan era uma espiã, mas não uma espiã inimiga. Ouça, meu caro — disse Mr. Robinson abaixando o tom da voz e debruçando-se sobre a mesa, — ela trabalhava para nós.

LIVRO III

I
MARY JORDAN

— MAS isto altera tudo — disse Tuppence.
— É — concordou Tommy, — foi uma surpresa enorme.
— Por que ele lhe contou?
— Não sei, deve ter seus motivos.
— Como é ele, Tommy?
— Bem, é alto, gordo e meio amarelado, um tipo muito comum. Mas a gente percebe a sua importância. Como disse o meu amigo, ele é o máximo.
— Parece estar se referindo a um cantor de musica pop.
— De tanto ouvir, acabei aprendendo o termo.
— Ainda acho que ele lhe revelou uma informação secreta.
— Talvez não importe mais, já faz muito tempo. E pense bem nos fatos que vêm a público, hoje em dia. Sabe-se tudo que alguém fez, disse, escreveu e até pensou. Coisas que eram abafadas antigamente. Hoje não se esconde mais nada.
— Mas isto me deixa confusa, estava tudo errado, não?
— O quê?
— O ângulo em que estávamos vendo as coisas. Olhe, o menino, o Alexander... aparentemente foi ele, não?.. Nos informou, com um atraso de sessenta anos, da morte de Mary Jordan. Alguém da família, ou da casa, era responsável. Mas nós nem sabíamos quem era ela e isso era um impasse.
— Eu que o diga! — falou Tommy.
— Até descobrirmos que tinha sido... aparentemente outra vez... uma espiã alemã.
— Mas agora sabemos a verdade: era o contrário.
— Ela era uma espiã inglesa.
— Devia ser do departamento de segurança ou da espionagem, qualquer que fosse o nome do departamento. E foi mandada para cá para investigar provavelmente o tal oficial dos planos. Talvez houvesse por aqui um grupo de agentes alemães preparando os acontecimentos para a guerra.
— Deve ter acontecido isso mesmo.
— E "um de nós" deve incluir mais gente do que supúnhamos. Pode ter sido alguém da vizinhança que estava na casa ou entrou por alguma razão. Mafy Jordan morreu porque descobriram o que estava fazendo, e o menino suspeitou ou sabia da verdade.
— Ela devia estar fingindo ser uma espiã alemã para fazer amizade com o tal comandante; já que não sabemos o seu nome vamos chamá-lo de X.
— Ouvi falar de um agente inimigo que morava numa cabana perto do cais; era o cabeça de uma grande organização. Pretendiam convencer o povo a juntar-se à Alemanha. Gente muito altruísta. . .
— Puxa, que confusão! Planos roubados, papéis secretos, espionagem, assassinato, isto está parecendo um romance de Philips Oppenheim!
— Não há nenhuma confusão, Tuppence. É muito simples. Mary Jordan estava aqui para descobrir alguma coisa e descobriu-a. Quando o comandante X e seus amigos viram que ela tinha descoberto. ..
— Pronto, resolveram silenciá-la.
— É, mas antes ela deve ter conseguido apoderar-se de papéis importantes, ou talvez fossem cartas e não teve tempo de entregá-las.
— Mas sobre a morte dela, se foi em conseqüência de comida envenenada, e todos ficaram doentes, não deve ter sido alguém da casa.
— Tuppence, veja as coisas dessa maneira: era fácil alguém colocar na cozinha as verduras misturadas com uma quantidade de folhas de dedaleira, que as pessoas passassem mal mas de forma alguma morressem. O médico seria chamado, e pela análise da comida provavelmente descobriria a causa.
— Mas nesse caso ninguém devia ter morrido.
— Mas imagine que alguém oferecesse a Mary Jordan um café com uma dose mortal do mesmo veneno da comida. Bem, todos pensariam que ela morrera porque era particularmente alérgica ao veneno da dedaleira.
— Ou talvez ela tivesse, como os outros, simplesmente passado mal, e no dia seguinte alguém lhe oferecesse um chá com o tal veneno. . .
— Agora sua cabeça está funcionando bem, Tuppence!
— Mas o realmente importante não é o como, é o quem. Praticamente qualquer pessoa poderia ter entrado na casa com uma carta falsa de apresentação, dizendo-se interessado em ver o jardim ou coisa semelhante, não acha?
— Creio que sim.
— Para mim há algo nesta casa que justifica o que me aconteceu.
— O que foi, Tuppence?
— As rodas do diabo daquele carrinho caíram fora quando eu descia o morro, e fui cair de cabeça dentro da cerca viva. Quase me esborrachei toda. Podia ter sido um acidente sério. Aquele velho tolo, o Isaac, tinha-me assegurado que o brinquedo era seguro e estava em ordem.
— E não estava?
— Não, mais tarde ele me disse que alguém devia ter mexido nas rodas, para elas terem caído com tal facilidade.
— Tuppence, já notou que este é o segundo ou o terceiro acidente a nos acontecer? Lembra-se daquelas estantes que quase desabaram sobre mim outro dia?
— Alguém estará tentando livrar-se de nós? Mas isso...
— Isso quer dizer que há alguma coisa aqui nesta casa.
Ficaram silenciosos. Tuppence abriu a boca para falar e desistiu, umas três vezes, a testa franzida. Foi Tommy quem perguntou finalmente:
— O que disse mesmo o velho sobre o Bem-amado?
— Que estava muito estragado e não era de admirar ter acontecido uma coisa destas. Mas que na véspera vira uns meninos brincando com o carro e podia ser que um deles tivesse afrouxado as rodas de brincadeira.
— Talvez, há esse tipo de crianças.
— Mas você continua achando que foi proposital, planejado para me machucar, não é? Parece meio impossível.
— Tudo depende das circunstâncias. Imagine que queiram nos afastar daqui. E não deve ser por causa da casa, não havia mais ninguém interessado nela quando a compramos.
— Não, ela estava precisando de muitas reformas e o seu estilo não está mais na moda, por isso o preço era baixo.
— É, devem querer nos afastar porque estamos nos intrometendo muito, fazendo perguntas demais.
— Não devem estar querendo nos matar, mas eles ficariam bem satisfeitos se chegássemos à conclusão de que não gostamos da casa afinal, querem nos obrigar a vender a casa e dar o fora.
— Que eles são esses?
— O outro lado. Vamos dizer que são eles contra nós.
— Será que o velho Isaac está metido nisso? — preocupou-se Tuppence.
— Ele é muito velho, deve saber alguma coisa; já vive aqui há muito tempo. Se alguém o subornasse com uma nota de cinco libras, acha que ele sabotaria o Bem-amado?
— Não, não tem miolos para isso.
— Não é preciso miolos para desatarraxar uns parafusos de maneira que se soltem na próxima descida do morro.
— Ainda acho que isso tudo pode ser bobagem nossa.
— Mas Mary Jordan existiu e morou aqui enquanto espionava o comandante X.
— Esta história de comandante X não tem graça. Precisamos descobrir o nome dele.
— Está certo, Tuppence. Agora suponhamos que Mary descobriu alguma coisa e tenha escrito uma carta.
— E escondeu no oco de uma árvore onde mais tarde alguém a iria pegar. Não, isso é coisa de romance de amor antigo. Mas ela poderia ter escrito uma carta em código com a aparência de uma mensagem de namorados, não podia?
— Que idéia romântica, querida. Mas acho difícil descobrir o que se passou realmente agora, passados tantos anos.
— Não vamos desistir, não é Tommy?
— Às vezes me dá vontade.
— Mas não consegue parar de pensar nesse assunto, nem eu tampouco. Se tivesse que desistir, perderia até o apetite. E os Parkinson? Estariam ligados ao inimigo?
— Na minha opinião, não. Acho que Mary Jordan usou o emprego na casa deles como uma justificativa para estar aqui em Hollowquay e tentar entrar em contato com o inimigo fingindo ser uma espiã alemã.
— E a casa também podia estar sendo usada como ponto de encontro. Mas então, como é que tanta gente morou aqui e nunca descobriu nada?
— Mas não era gente como você, Tuppence. Curiosa como um mangusto, metendo o nariz em livros velhos e descobrindo coisas. Provavelmente os outros donos nunca mexeram neles, deviam estar guardados em algum quarto fora de uso. Pode ser que as coisas escondidas por Mary, num lugar que ela julgava seguro, ainda estejam lá. Isso é uma idéia fascinante, não?
E alguém está com medo de que achemos essa coisa. Devem ter revistado a casa sem resultado, mas não têm certeza de que não esteja aqui. Oh, Tommy! Vou procurar fora da casa também!
— Que está pretendendo? Vai revolver a horta?
— O porão, o sótão, os velhos armários, tudo. Quem sabe?
— Ora, Tuppence, justamente quando íamos gozar uma velhice tranqüila!
— Por falar em velhice, não tinha pensado ainda no abrigo dos Velhinhos aposentados.
— Pelo amor de Deus, Tuppence, tome cuidado. Ficaria tomando conta de você, se não tivesse de ir a Londres saber o resultado das pesquisas.
— Pois eu vou pesquisar por aqui mesmo.

II
TUPPENCE PESQUISA

— SERÁ que estou incomodando a senhora, vindo sem avisar antes? — perguntou Tuppence. — Talvez fosse melhor ter telefonado, mas como não era nada importante, achei que poderia voltar mais tarde se estivesse ocupada. Não se acanhe, não vou ficar ofendida.
— De maneira alguma, fico muito satisfeita em vê-la, Mrs. Beresford — disse Mrs. Griffin.
Acomodou-se melhor na cadeira e olhou para a ansiosa Tuppence com uma expressão de prazer genuíno.
— A vinda de gente nova para este lugar é uma alegria para todos. Já estamos tão habituados aos vizinhos antigos que é um prazer ver uma cara nova. Venham jantar comigo um dia desses. Não sei a hora em que seu marido chega em casa. Ele vai a Londres quase todos os dias, não é?
— Vai sim. É muita delicadeza sua. Quero que venha ver a casa, quando estiver arrumada. Parece que este dia nunca chega!
— É, uma casa nunca está como se quer — disse Mrs. Griffin.
Mrs. Griffin tinha noventa e quatro anos, como Tuppence sabia através de suas fontes de informação: empregadas, o velho Isaac, Gladys do correio e várias outras. Mantinha uma postura empertigada para livrar-se das dores reumáticas nas costas, o que lhe dava um ar de uma pessoa muito mais jo-vem. Os cabelos, puxados para cima e amarrados com um lenço de renda, lembravam a Tuppence uma de suas tias-avós. Mrs. Griffin usava óculos bifocais e um aparelho de surdez, que raramente utilizava. Tinha ainda muita vivacidade e parecia capaz de alcançar os cem anos de idade e até de chegar aos cento e dez.
— O que tem feito ultimamente? — perguntou Mrs. Griffin. — A Doroty... Mrs. Rogers, sabe ... contou-me que os eletricistas já terminaram o serviço. Ela já foi minha empregada e agora faz a limpeza duas vezes por semana.
— É, graças a Deus. Vivia caindo nos buracos que eles abriam. Mrs. Griffin, vim trazer-lhe uma coisa, talvez ache bobagem. Mas encontrei-a fazendo uma arrumação nas estantes. Descobrimos uma porção de livros que havia na casa, a maioria livros de criança, muito antigos, mas alguns tinham sido meus prediletos na infância.
— Ah, deve ter ficado animada só com a idéia de lê-los novamente. Talvez tenha achado O Prisioneiro de Zenda! Foi o primeiro romance que li. Gostei tanto! Minha avó já tinha lido em seu tempo. Naquela época não encorajavam as crianças a lerem romances. Minha mãe e minha avó só permitiam que lêssemos História e outros assuntos sérios de manhã. Romances eram considerados diversão e só podiam ser lidos à tarde.
— Era isso mesmo — disse Tuppence. — Gostei muito de ler Mrs. Molesworth outra vez.
— Ah, já sei: A Sala da Tapeçaria...
— Não era ótimo? Reli muitos livros deliciosos. Mas eu lhe trouxe uma coisa que encontrei num buraco por trás da prateleira de baixo. Estava cheio de papéis, livros amarrotados e isso aqui
E Tuppence mostrou um embrulho de papel pardo.
— É um álbum de aniversário, muito antigo. E tem o seu nome. A senhora me disse que se chamava Winifred Morrisson, não era?
— Sim, minha querida, isso mesmo.
— Talvez a senhora se divirta, olhando-o. Deve ter o nome de velhos amigos seus.
— Foi muito amável da sua parte, gostarei muito de vê-lo. As lembranças do passado são muito doces na velhice. Foi uma lembrança delicada, a sua.
— Está meio desbotado e um pouco rasgado.
— Ora, ora, um álbum de aniversário. Naquele tempo todo mundo tinha um, depois passou a moda. Você escrevia seu nome no álbum de sua amiga e ela escrevia no seu — disse Mrs. Griffin folheando o livro. — Ah! Isto me leva ao passado. Helen Gilbert, naturalmente, e Daisy Sherfield, ela estava sempre tirando o aparelho dos dentes, porque a incomodava... Edie Crone, Margaret Dickson. E que bela caligrafia, muito melhor do que a de hoje em dia. Mal consigo entender as cartas de meus sobrinhos, parecem hieróglifos. E a Mollie Short gaguejava, coitada. Como me lembro delas todas!
— Muitas delas devem estar... — Tuppence parou com medo de melindrar a velha senhora.
— Sim, está certa, minha cara. A maioria já morreu, mas não todas. Ainda tenho algumas das minhas companheiras de infância bem vivas. Não aqui, pois casaram-se e foram morar em outros lugares, algumas com oficiais. Duas das minhas amigas mais antigas moram em Northumberland.
— Não vejo o nome dos Parkinson aqui. O álbum não é do tempo deles?
— Você está interessada nos Parkinson, não está?
— É verdade — admitiu Tuppence. — É pura curiosidade, mas vendo os livros me interessei pelo menino, Alexander Parkinson, e outro dia encontrei seu túmulo. Morreu ainda garoto, não foi? Isto me fez pensar ainda mais nele.
— Ele morreu muito novo, sim. Todos acharam que foi uma pena. Era muito inteligente e na certa teria um futuro brilhante. Não morreu de doença, foi uma intoxicação com comida estragada num piquenique que o matou. Foi Mrs. Henderson quem me contou, ela conheceu os Parkinson.
— Mrs. Henderson? — perguntou Tuppence.
— Você não a conhece. Mora num abrigo de velhos chamado Meadowside; fica a uns quinze ou vinte quilômetros daqui. Devia ir vê-la. Ela pode lhe contar muita coisa sobre a sua casa. Chamava-se O Ninho das Andorinhas naquela época Como é mesmo o nome hoje?
— A Casa dos Loureiros.
— Mrs. Henderson é mais velha do que eu, embora fosse a caçula de uma família muito grande. Foi uma espécie de dama de companhia e enfermeira de Mrs. Beddingfield, a dona do Ninho das Andorinhas na época. Vá vê-la, gosta muito de falar nos tempos antigos.
— Talvez eia não goste.
— Ora, querida, gostará na certa. Diga-lhe que eu sugeri a visita. Minha irmã Rosemary e eu vamos vê-la às vezes, mas há muito tempo não tenho podido sair. E você também poderia procurar Mrs. Henley; mora na Cabana da Macieira, uma outra pensão para gente idosa. Não tem a mesma classe da outra, mas o pessoal diverte-se fazendo mexericos. Certamente irão adorar a sua visita, vai quebrar a monotonia.







III
TOMMY E TUPPENCE TROCAM IDÉIAS

— PARECE cansada, Tuppence — disse Tommy depois do jantar, quando Tuppence deixou-se cair numa poltrona dando suspiros de alívio.
— Cansada? Estou morta!
— Que andou fazendo? Não andou trabalhando no jardim, não é?
— Não é cansaço físico, não. É estafa mental.
— Pensar é mesmo uma coisa exaustiva, concordo com você. Mas onde andou pensando? Não me parece que tenha conseguido tirar muita coisa de Mrs. Griffin anteontem.
— A primeira visita de hoje não foi grande coisa, mas a outra deu resultado, pelo menos acho que sim — disse Tuppence pescando uma caderneta de anotações de tamanho respeitável lá do fundo da bolsa.
— Veja, tomei algumas notas. Levei os menus de porcelana, sabe?
— E qual foi o resultado?
— De saída despertou o apetite de todos. Acredita que eles se lembravam deste jantar aqui?
— Eles quem?
— Não me lembro dos nomes, anotei mais as coisas que disseram. Mas ficaram entusiasmados com esse menu; tinha sido uma festa e tanto. Tinham servido salada de lagosta depois do assado, era o supra-sumo da elegância na época e foi a primeira vez que a provaram.
— Isso não acrescenta nada ao que sabemos.
— Escute só: lembravam-se também porque tinha sido o dia do recenseamento.
— O quê?
— Sabe o que é um recenseamento, não sabe? Tivemos um o ano passado. Todos dizem quem está na sua casa naquele dia, antigamente parece que assinavam o nome. Os velhinhos todos reclamaram do recenseamento moderno, acharam bisbilhotice do governo querer saber quantos e quem são os seus filhos, imagine como fica gente solteira com filhos! É uma coisa muito indiscreta, segundo eles.
— Se soubermos a data exata desse recenseamento talvez isso nos ajude.
— Você pode obter os dados do recenseamento?
— Deve ser fácil, conhecendo a pessoa certa.
— Lembravam-se dos mexericos sobre Mary Jordan. Era difícil acreditar que fosse espiã, tão boazinha; todos gostavam dela? Mas não a deviam ter contratado sabendo que tinha sangue alemão.
Tuppence acabou o seu café e recostou-se na cadeira.
— Mais alguma coisa? — perguntou Tommy.
— Bem, começaram a falar sobre coisas escondidas. Alguém contou uma história sobre um testamento achado dentro de um vaso chinês. E papéis que teriam sido levados para Oxford ou para Cambridge, não tenho certeza. Mas isso me pareceu uma história sem pé nem cabeça.
— Deve ter sido o sobrinho universitário de algum dos velhos que levou algo que não devia para Oxford ou Cambridge. Mas alguém havia conhecido Mary Jordan?
— Não, só ouviram falar dela através de outras pessoas, parentes ou um almirante qualquer.
— Falaram sobre sua morte?
— Sim, sabiam do episódio do espinafre misturado com a dedaleira. Todos ficaram bons, menos ela.
— Aqui a história confere.
— Mas foi muita gente falando ao mesmo tempo, de espiões, venenos em piqueniques e tudo mais. Ninguém sabia a data exata de nada. Sabe como são os velhos, quando passaram dos oitenta gostam de exagerar a idade, mas quando ainda estão nos setenta, dizem que têm cinqüenta e dois.
— "Mary Jordan não morreu naturalmente" — disse Tommy pensativo. — Será que Alexander falou com algum policial sobre suas suspeitas?
— Talvez tenha falado demais e por causa disso resolveram matá-lo.
— Sabemos a data da morte de Alexander pela inscrição do túmulo, mas não sabemos quando Mary Jordan morreu. Mas ainda vamos descobrir
— disse Tommy. — Vá fazendo uma lista do que já sabe, nomes e datas. É surpreendente como isto pode ajudar.
— Nessa hora seus amigos são muito úteis — disse Tuppence, com uma ponta de inveja.
— Os seus também.
— Não muito.
— Olhe, você faz as pessoas se mexerem. Foi procurar uma velha com um álbum antigo. Daí passou para um monte de gente e obteve uma porção de histórias antigas de avós, tios-avós, velhos almirantes, histórias de espionagem. Juntem-se a isso algumas datas e algumas informações precisas e quem sabe o que irá resultar?
— Quem teriam sido os tais estudantes que levaram algo para a escola?
— Isso não deve ter nada a ver com o nosso caso. Poderíamos procurar médicos e velhos clérigos, mas já se passou muito tempo. Não iríamos conseguir nada com isso.
— Alguém fez mais alguma gracinha com você?
— Não, ninguém tentou me matar nos últimos dias. Não fui convidada para nenhum piquenique, os freios do carro estão em ordem e a lata de inseticida no galpão nem foi aberta ainda.
— O velho Isaac deve estar esperando você aparecer com uns sanduíches.
— Ah, coitado do Isaac. Não fale mais mal dele, está ficando muito meu amigo. Queria me lembrar de uma coisa...
— O quê?
— É sobre o Isaac, mas me esqueci. Deixa para lá. Conheci uma velhinha que escondia seus brincos dentro das luvas de lã quando ia dormir; a tal que pensava estar sendo envenenada. E uma outra escondia o seu dinheiro dentro de uma caixa de louça das que se vêem nas igrejas escritas "para os órfãos" e desamparados". Quando estava cheia, ela quebrava e arranjava outra. Achava que ninguém roubaria os órfãos e desamparados!
— Você não encontrou, nas suas arrumações dos livros, algum de sermões com cara de serem bem chatos?
— Não, por quê?
— Seria um bom lugar para esconder alguma coisa, um livro bem maçante que ninguém iria querer ler. Era só cortar a parte central.
— Não vi,-não. Não me lembro de nenhum.
— Você o leria?
— Na certa que não.
— Aí está. Pode ter jogado fora. Mas algum dia ainda escreveremos um livro chamado Quem Matou Mary Jordan.
— Pois me parece pouco provável — disse Tuppence desanimadamente.

IV
MATILDE É OPERADA

— O QUE vai fazer hoje à tarde, Tuppence? Vai continuar me ajudando com esta lista de nomes e datas?
— Já cansei, Tommy. Isto é muito exaustivo, e volta e meia faço aquela confusão, não?
— É, algumas trapalhadas você fez mesmo.
— Não devia ser tão mais preciso do que eu, Tommy. Às vezes isso me irrita um pouco.
— O que vai fazer em vez disso?
— Uma soneca seria uma boa idéia, mas acho que vou abrir a barriga da Matilde.
— Que idéias violentas são essas?
— A Matilde, do quiosque.
— Quem é essa?
— O cavalo de balanço que tem um buraco no estômago, quero ver o que há lá dentro. Quer me dar uma mãozinha?
— Não estou com muita vontade, não.
— O senhor quer fazer a gentileza de me ajudar? — pediu com delicadeza exagerada Tuppence.
— Com um pedido desses não posso recusar — disse Tommy suspirando. — De qualquer forma, é melhor do que fazer listas. Isaac está por aí?
— Não, é sua tarde de folga, mas não o quero mesmo por perto. Acho que já arranquei dele todas as informações que tinha.
— Ele sabe mais coisas do que pensa, tem uma memória ótima. Reparei isto outro dia quando conversávamos.
— Deve ter mais de oitenta anos.
— Mas lembra-se muito bem de coisas acontecidas há mais de meio século.
— Bem, vamos operar a Matilde. Vou vestir umas roupas mais velhas porque há muita sujeira e teias de aranha por lá, e a nossa próxima paciente não está muito limpa.
— Se Isaac estivesse por aí poderia virá-la de barriga para cima para que pudéssemos alcançar o campo operatório mais facilmente.
— Sim, senhor cirurgião.
— Temos que remover os corpos estranhos que prejudicam a sua saúde. Que tal pintá-la depois? Os gêmeos de Débora gostarão de andar nela na sua próxima visita.
— É, eles vão adorar, embora já tenham muitos brinquedos caros. E as crianças gostam tanto de improvisar. São capazes de se divertir com barbantes e de fazer bonecos de faz-de-conta com trapos!
— Vamos, Matilde está esperando.
Não foi fácil virar Matilde, era bem pesada, cheia de parafusos que arranharam a mão de Tuppence e puxaram o fio do suéter de estimação de Tommy que exclamou indignado:
— Diabo de cavalo!
— Devia ter ido para a fogueira há muito tempo!
Neste momento o velho Isaac apareceu.
— O que é isso? O que vão fazer com esse cavalo? Posso ajudá-los? Querem que o tire daqui?
— Não é necessário — acalmou-o Tuppence. — Só queremos virá-lo para alcançar o buraco da barriga.
— Para que vão fazer isto, quem lhes deu essa idéia maluca? Pretendem achar alguma coisa?
— Só velharias provavelmente — disse Tommy — Queremos fazer uma limpeza por aqui. É um bom lugar para guardar um jogo de croquet, talvez, e coisas assim.
— Já houve um campo de croquet lá no roseiral, de tamanho pequeno. Bem antes da minha época. Mas o senhor não deve acreditar no que dizem por aí. Todo mundo gosta de contar lorotas, histórias de coisas escondidas e tudo mais. Vai ver é tudo mentira.
— Isaac, como sabe que houve um campo de croquet?
— Naquele canto ali, havia um jogo de malhos e bolas há séculos atrás. Não sei se sobrou alguma coisa.
Tuppence largou Matilde e foi dar uma espiada numa velha caixa de madeira encostada à parede. Abriu a tampa com dificuldade e descobriu uma desbotada bola azul, uma vermelha e um malho empenado, cobertos por um monte de teias de aranha.
— Foi no tempo de Mrs. Faulkner; ela participou até de torneios.
— Aonde? Em Wimbledon? — perguntou a incrédula Tuppence.
— Não, aqui mesmo. Ainda há retratos no fotógrafo.
— Fotógrafo?
— No Durrance, o fotógrafo da aldeia. A senhora o conhece, não é?
— Sim, ele vende filmes.
— Isto mesmo. Ele é c neto ou bisneto do velho Durrance e vende toda espécie de cartões e filmes. Mas o velho tirava retratos das pessoas. Outro dia mesmo apareceu lá uma mulher querendo um retrato da sua bisavó. Parece que tinha queimado ou perdido o seu e estava procurando o negativo. Há um bocado de álbuns antigos lá em algum canto.
— Álbuns — disse Tuppence pensativamente.
— Ajude-nos aqui, Isaac.
Tommy enfiou o braço dentro da barriga da Matilde e tirou de lá uma bola de borracha estourada que já havia sido amarela e vermelha algum dia.
— Esconderijo genial esse!
— Devem ter sido as crianças — disse o velho. — Houve um rapazinho que costumava usar isso como caixa de correio. Metia cartas aí dentro.
— Cartas? Para quem?
— Alguma namorada, mas isto aconteceu antes da minha época.
— É, tudo foi antes da sua época, não Isaac? — disse Tuppence enquanto o velho saía a pretexto de fechar as venezianas.
Tommy tirou o casaco.
— É inacreditável que nunca ninguém tenha feito uma limpeza nisso — disse Tuppence examinando seu braço sujo e arranhado.
— Por que alguém haveria de ter essa idéia?
— Tem razão — disse Tuppence. — Mas nós a tivemos, não?
— Só porque não temos nada melhor para fazer. Mas na minha opinião isso não vai dar em nada. Ai, me arranhei — reclamou Tommy retirando um cachecol de tricô que já servira de refeição a muitas traças.
— Cuidado com os pregos, Tuppence.
A pescaria de Tuppence resultou numa roda de carro de criança.
— Estamos perdendo nosso tempo.
— Mas vamos até o fim, já que começamos. Só espero que não haja minhocas por aqui.
— Minhocas gostam de viver debaixo da terra, Tuppence. Não achariam graça nenhuma na Matilde.
— Achei um papel de agulhas, todas enferrujadas.
— Alguma criança não gostava de costurar.
— Ei, isso tem jeito de livro! — disse Tuppence extraindo das entranhas de Matilde um volume, quase irreconhecível, com as folhas soltas e manchadas e a encadernação em pedaços.
— É um livro de francês: Pour les Enfants. Le Petit Precepteur.
— Mais uma criança sem vontade de estudar a lição. Fingiu ter perdido o livro, escondido para sempre dentro da Matilde, a boa Matilde.
— Deve ter sido difícil colocar as coisas dentro dela.
— Para uma criança era fácil. Era só se ajoelhar e pronto. Ai, que coisa escorregadia, parece a pele de um animal.
— Será um coelho morto?
— Não, não tem pelos — disse Tuppence retirando a mão cautelosamente.
— Parece uma carteira, e de um couro muito bom.
— E pelo jeito está cheia. Imagine se for dinheiro, notas de vinte libras, hem? O dinheiro daquele tempo era de um papel muito bom, talvez não esteja estragado.
— Melhor ainda se fossem moedas de ouro. Tive uma tia que tinha uma bolsa cheia delas, bem gordas e reluzentes, para o caso do pais ser invadido pela França, imagine. Nas ocasiões especiais, como a ida para o colégio, a gente ganhava uma, se fosse um sobrinho predileto, é claro. Eu vivia sonhando em ter uma bolsa como a dela, cheiinha de lindos soberanos de ouro.
— Vamos lá para fora ver isso melhor. Está muito abafado aqui.
Fora do quiosque viram que o achado era uma carteira de boa qualidade, ainda em condições razoáveis.
— Não está nem mofada, lá dentro deve ser bem seco.
— Parecem cartas, mas estão tão apagadas e velhas que nem sei se poderemos lê-las.
Com muito cuidado Tommy esticou o papel amarelado. A letra era grande e tinha sido escrita com tinta azul bem escura.
— Mudança do lugar de encontro — leu Tommy. — Ken Garden junto Peter Pan, quarta 25, 15:30, Joanna.
— Encontramos alguma coisa finalmente — disse Tuppence.
— Alguém devia ir a Londres, ao Kensington Garden e entregar os documentos, provavelmente, a uma pessoa que esperaria perto da estátua de Peter Pan. Mas quem colocou isto na Matilde?
— Não deve ter sido uma criança, foi alguém que morava na casa e podia entrar aqui sem ser notado.
Tuppence embrulhou a carteira no lenço que levava ao pescoço.
— Se houvesse papéis soltos lá dentro provavelmente virariam pó ao serem tocados, não? — disse ela enquanto voltavam à casa.
Na mesa do hall havia um pacote desajeitado. Albert, que saía da sala de jantar, explicou:
— Deixaram esse pacote aí de manhã para a senhora.
— O que será? — disse Tuppence desamarrando e abrindo o embrulho de papel pardo. — É um álbum. Aqui está uma nota, de Mrs. Griffin.
"Querida Mrs. Beresford. Foi muita gentileza sua trazer-me o álbum de aniversário aquele dia. Tive muito prazer em vê-lo e relembrar amigos do passado. Tinha-me esquecido do nome completo deles todos. Dias atrás encontrei esse álbum, foi da minha avó. Entre os retratos reparei em alguns da família Parkinson, eles eram amigos dela. Como a senhora está tão interessada na história de sua casa e nas pessoas que moraram nela, talvez goste de vê-los. Nãc é necessário devolver o álbum pois não tem maior importância para mim. A minha casa está cheia de coisas de velhos parentes, ima-gine que outro dia encontrei numa gaveta no sótão seis papéis de agulha. Devem ter uns cem anos de idade. Era minha avó quem costumava dar às empregadas de presente de Natal um papel de agulhas. Deve tê-los comprado em alguma liquidação para durar mais de um ano. Fiquei triste com tamanho desperdício."
— Um álbum de retratos — disse Tuppence. — Deve ser distraído; vamos olhá-lo.
Sentaram-se no sofá da sala. O álbum era típico da época, e os retratos estavam muito desbotados mas ainda dava para perceber as fisionomias. Volta e meia Tuppence reconhecia os jardins de sua casa.
— Olhe, a cerca-viva, e aqui está o Bem-amado com um menino engraçadinho sentado nele. E aqui as glicínias e o capim-dos-pampas. Isso parece uma festa no jardim, quanta gente em volta dessa mesa. Os nomes estão escritos embaixo. Ma-bel, não era nenhuma beleza essa Mabel. E esses quem são?
— Charles e Edmund — disse Tommy, — e andaram jogando tênis; que raquetes esquisitas. Aqui está o William e o Major Coates.
— Olhe Tommy. .. Mary!
— É ela mesma, Mary Jordan. Está escrito embaixo.
— E como era bonita, muito bonita mesmo. Está um pouco desbotado, mas é maravilhoso poder vê-la!
— Quem terá tirado esses retratos?
— Pode ter sido o fotógrafo que Isaac mencionou. O tal Durrance. Ainda vou lá dar uma olhada nos seus álbuns velhos.
Tommy tinha fechado o álbum e estava abrindo uma carta que viera pelo correio.
— Algo interessante? — perguntou Tuppen-ce examinando umas contas.
— Talvez seja. Vou a Londres amanhã outra vez.
— Ver aqueles seus informantes?
— Não, vou ver um Coronel Pikeaway que mora em Harrow Way, perto de Londres.
— Eu o conheço?
— Já devo ter falado nele, vive envolvido numa nuvem de fumaça. Tem pastilhas para tosse ai?
— Devem ter sobrado algumas do ano passado. Não tinha percebido que você estava com tosse.
— Não estou, mas vou precisar delas na casa do Coronel. Não adianta nem a gente olhar para as janelas que ele não liga para a indireta. Tudo está sempre fechado e ele fuma sem parar.
— Para que ele quer vê-lo?
— Não sei — disse Tommy. — Mas fala em Robinson.
— O tal grandão que entende de tudo?
— Esse mesmo.
— Não há um ditado que diz: "Pecados antigos têm longas sombras"? Deve ser o caso do que aconteceu aqui. Quer vir comigo ao tal fotógrafo esta tarde?
— Estou com vontade de tomar um banho de mar.
— Com esse frio?
— Não tem importância. Preciso mesmo de algo frio e revigorante para tirar o gosto de todas aquelas teias de aranha. Sinto-as em todo corpo, orelhas, pescoço, até entre os dedos do pé!
— Bem, então aproveite. Vou ver o tal Mr. Durrel ou era Durrance? Olhe, ainda não abriu esta carta.
— Ah, não vi. Talvez seja importante. É da minha pesquisadora, a tal que anda por toda a Inglaterra revolvendo os registros, os arquivos de jornal e o serviço de recenseamento. É um bocado eficiente.
— Eficiente e bonita?
— Se é bonita nunca notei.
— Ainda bem — disse Tuppence. — Sabe Tommy, tenho medo de que na sua idade vá ficar com idéias perigosas quando encontrar uma bela ajudante!
— Você não aprecia o marido fiel que tem.
— As minhas amigas dizem que nunca se pode ter certeza a respeito dos maridos.
— Você tem a espécie errada de amigas — disse Tommy.

V
UM ENCONTRO COM O CORONEL PIKEAWAY

TOMMY atravessou o Regent Park e passou por lugares que não via há anos. Lembrou-se do apartamento onde morava com Tuppence perto do Belsize Park e do cachorro que adorava passear ali. Toda vez que saíam para fazer compras, aquele cachorro teimoso, o James, um Sealyham de natureza obstinada, deitava o corpo comprido como uma salsicha na calçada e punha a língua de fora, como se estivesse completamente exausto. Os transeuntes todos apiedavam-se do pobrezinho:
— Coitadinho, está tão sem fôlego, será que os donos não percebem como está cansado?
Tommy puxava a guia, tentando persuadir James a seguir na direção oposta ao parque.
— Tommy, não pode carregá-lo um pouco? — pedia Tuppence.
— Ele é pesado demais.
E lá estava o esperto James novamente na direção desejada.
— Está certo — desistia Tuppence. — Vamos deixar as compras para mais tarde, agora vamos levar James aonde ele quer ir. Não há mesmo jeito de persuadi-lo a nos acompanhar.
O cão sacudia a cauda, todo satisfeito, ótimo, parecia dizer, vamos todos ao parque. Quase sempre conseguia o seu intento.
A última vez que Tommy vira o Coronel Pikeaway, fora numa sala cheia de fumaça em Blomsbury. O novo endereço era uma casa comum e pequena, perto do lugar de nascimento de Keats. Nada tinha de interessante ou atraente. Tommy tocou a campainha e foi atendido por uma mulher com uma cara de feiticeira, de nariz pontudo e queixo agressivo, aue o encarou com hostilidade.
— Queria ver o Coronel Pikeaway por favor.
— Não sei se vai ser possível — disse a bruxa. — Quem é o senhor?
— Meu nome é Beresford.
— Ah, pode entrar, ele está esperando.
— Posso estacionar o carro aqui em frente?
— Se não vai demorar... É raro passar um guarda por aqui. É melhor trancar o carro.
Depois de obedecer às instruções, Tommy seguiu a velha.
— É lá em cima — explicou ela.
Já nas escadas sentia-se um cheiro forte de fumo. A bruxa bateu numa porta, abriu-a e anunciou:
— Está aqui a pessoa que o senhor esperava.
Tommy penetrou numa atmosfera densa e quase irrespirável de tanta fumaça, e pensou que provavelmente reconheceria o Coronel sem o seu halo inesquecível de nicotina.
Um homem velho, sentado em uma poltrona esfarrapada, com rasgão nos braços, disse:
— Feche logo a porta, Mrs. Copes, para o ar frio não entrar.
Que pena, seria uma ótima idéia, pensou Tommy, sem outro remédio senão tentar respirar com precaução.
— Há quanto tempo não o vejo, Thomas Beresford? — perguntou o Coronel.
Tommy não teve tempo de fazer o cálculo,
— A última vez foi com aquele seu amigo, não foi? Não me lembro mais o nome dele, mas não importa. Julieta disse que uma rosa seria perfumada mesmo não se chamando rosa. Que falas tolas Shakespeare coloca na boca de seus persona-gens às vezes, não acha? Mas o pobre coitado era poeta. Não gosto muito de Romeu e Julieta, ha gente demais se suicidando por amor, mas isso acontece na vida real. Sente-se, meu rapaz.
Para aceitar o convite Tommy colocou no chão cuidadosamente uma pilha de livros que estava em cima da única cadeira disponível.
— Pode empurrá-los, era só uma coisa que estava pesquisando. Mas está com ótima aparência, só um pouco mais velho. Já teve algum ataque das coronárias?
— Não — disse Tommy.
— Ótimo, há gente demais sofrendo do coração por aí; pensam que o mundo vai parar sem eles, acham-se importantes demais. Será que também pensa assim?
— Não me julgo importante, vou gostar muito de descansar um pouco afinal.
— Isto é esplêndido — disse o Coronel. — Mas vai aparecer muita gente para atrapalhar seu descanso. Quem os mandou àquela casa? O Robinson me falou, sempre o mesmo, gordo, pálido e cada vez mais rico. Tem um ótimo faro para di-nheiro também. Por que o procurou?
— Bem, quando compramos aquela casa e minha mulher descobriu que tinha um segredo antigo, um amigo sugeriu-nos que procurássemos Mr. Robinson.
— Não conheço sua esposa, mas sei que é muito inteligente. Ela fez um grande trabalho naquele caso do M ou N, não foi?
— Isso mesmo.
— E estão investigando novamente. Já desconfiavam de alguma coisa antes?
— O senhor está enganado. Resolvemos nos mudar porque estávamos cansados de morar num apartamento e o preço do aluguel estava sempre aumentando.
— Os senhorios de hoje são terríveis. Agora na casa nova ü faut cultiver son jardin — disse o Coronel pulando inesperadamente para o francês. — Preciso praticar, o Mercado Comum esta aí, não é? Mas por que foram para o Ninho das Andorinhas?
— O nome atual é A Casa dos Loureiros.
— Quando era menino, a estrada de acesso às casas costumava ser coberta periodicamente de pedregulhos e era moda plantar loureiros de cada lado, ou os de folhas verdes e brilhantes ou aquela variedade de folhas manchadas. Na certa essa casa também os tinha.
— O senhor a conheceu?
— Não, nunca estive lá, mas lembro-me bem da comoção causada pelo caso. Foi uma fase perigosa para o país. Pelo que Mr. Robinson me contou, o senhor procura informações sobre uma moça chamada Mary Jordan, não é? Quer saber como era? Veja aquela fotografia à esquerda sobre a lareira.
Tommy levantou-se para olhar o retrato: era bem típico da época em que fora tirado, mostrava uma bela moça com o rosto emoldurado por um grande chapéu, segurando um ramo de rosas
— Um pouco ridículo para o gosto de hoje, não? Era muito bonita, mas não teve sorte. Morreu muito jovem, foi uma tragédia.
— Nada sei sobre ela — disse Tommy.
— É, ninguém mais deve lembrar-se dela — assentiu o Coronel.
— Na aldeia julgam que era uma espiã alemã, mas Mr. Robinson informou-me o contrário.
— É, ela era do nosso grupo e fez um bom trabalho, mas foi descoberta. Não sei os detalhes. Sempre houve confusões neste país, no mundo inteiro aliás. Sempre houve e parece que sempre haverá. Até no tempo das Cruzadas. Como foram ter aquela idéia de formar exércitos para libertar Je-rusalém!
— Há alguma confusão no país agora?
— Naturalmente, sempre há.
— De que espécie?
— Não sei bem, mas chegaram a apelar para mim, para um velho como eu. Querem saber de histórias passadas, de pessoas envolvidas em outras ocasiões. Querem descobrir segredos envolvidos nas brumas do passado. Você e sua mulher já prestaram bons serviços, querem fazer isto novamente?
— Não sei, já estou velho agora. Acredita quí posso fazer alguma coisa?
— Você me parece mais saudável do que a maioria dos homens de sua idade, está até melhor do que certos homens mais novos. E sua mulher tinha um ótimo faro, melhor que um cão de caça.
Tommy sorriu.
— Mas o que posso fazer? Ninguém me disse nada, nem me deram nenhuma instrução.
— E acho que não o farão. Não podem falar, o próprio Robinson tem medo de dizer demais. Mas deve ver que o mundo continua o mesmo, por toda parte violência, materialismo, rebeliões, sadismo, quase como nos tempos da juventude hitleriana. O Mercado Comum é uma coisa muito boa, a Europa precisa se unir. Mas uma união real de povos civilizados, com idéias e princípios civilizados. É preciso estar alerta aos sinais de perigo, e é aí que funciona aquele grandalhão.
— Mr. Robinson?
— É, já quiseram dar-lhe um título de nobreza, mas ele não se interessou. Está muito ocupado, sabe que o dinheiro é a mola do mundo, conhece todas as fortunas conseguidas com o tráfico de drogas. Hoje há idolatria do dinheiro, não para comprar uma bela casa e dois Rolls-Royces, mas para subverter as velhas crenças, a crença na honestidade e no comércio justo. Os fortes devem ajudar os fracos, os ricos financiar os pobres. A honestidade e a bondade precisam ser admiradas novamente.
Hoje o que importa é o mundo das finanças, o que está fazendo, quem está promoyendo, onde está indo o dinheiro. Temos que descobrir quem são os herdeiros dos poderosos do passado, manobrando por trás dos bastidores. O Ninho das Andorinhas foi uma espécie de quartel-general do mal. E o mal voltou mais tarde a Hollowquay. Lembra-se de Jonathan Kane?
— Só do nome, mais nada — disse Tommy.
— Era um fascista, mas antes que Hitler mostrasse a espécie de monstro que era. Naquele tempo muita gente acreditava ser o fascismo uma ótima solução para o mundo. Jonathan Kane teve seguidores de todas as idades, tinha planos de po-der e conhecia os segredos de muitas pessoas. Usou chantagem para conseguir seus fins. Temos medo de que outros usem esses segredos outra vez; por isso devem ter sido bem guardados. Há muitos segredos perigosos sobre armas secretas que não chegaram a ser usadas, e são um perigo para a paz e para a humanidade. Acha que isto é fantasia de um velho?
— Não, o senhor sempre teve conhecimento de muitas coisas.
— Não acha isto fantástico demais?
— Nada é fantástico demais. Cheguei a esta conclusão durante a minha vida. As coisas mais absurdas podem ser verdadeiras. Mas o senhor deve compreender que não tenho nenhum conhecimento científico, meu campo sempre foi a segurança.
— Deve haver alguém por trás do seu problema em Hollowquay e pode ser muito importante. Você sempre fez bem o seu trabalho e sua mulher tem um ótimo faro. Mulheres têm jeito para isso, quando são novas e bonitas usam as armas de Mata Hari. Eu tive uma tia-avó capaz de descobrir qualquer segredo. Acidentalmente, vocês estão no lugar certo. Um casal comum, aposentado, amável, e um dia poderão ouvir algo importante numa conversa.
— Lá ainda se fala do escândalo e dos planos roubados. Mas ninguém parece ter informações precisas a esse respeito.
— Já é um começo. Escute, Jonathan Kane morou por ali. Era popular na vizinhança, pode ter deixado discípulos fiéis. Pesquisem, procurem, mas pelo amor de Deus, tenham cuidado. Tome conta da Prudence.
— Tuppence, é como a chamo.
— Então tenha cuidado com a Tuppence, com o que comem e bebem, e com as pessoas que se aproximam, querendo fazer amizade. Tudo o que lhes parecer estranho ou pouco comum pode ser uma pista.
— Faremos o possível, mas já estamos velhos e sabemos muito pouco. Talvez não consigamos nada.
— Você não sabe, mas pode deduzir.
— É o que Tuppence faz. Acha que há algo escondido na casa.
— É possível. Outros já pensaram nisso, mas não acharam nada. Talvez não tenham procurado bem. Muitas famílias já viveram lá, os Lestranges, os Mortimers e os Parkinson. Um dos Parkinson foi importante nesse caso.
— Alexander Parkinson?
— Então já sabe? Como descobriu?
— Ele deixou uma mensagem num livro de Stevenson: "Mary Jordan não morreu naturalmente. Foi um de nós."
— Há um ditado: "O destino de cada um já nasce com a pessoa." Mas vocês podem prosseguir. Vamos, atravessem o Portal do Destino.

VI
O PORTAL DO DESTINO

A LOJA de Mr. Durrance ficava numa esquina. Na vitrina havia duas fotografias de casamentos, um bebezinho nu num tapete, um grupo em roupa de banho e dois jovens barbudos com suas namoradas. As fotografias não eram grande coisa e algumas já estavam desbotadas. Havia também cartões endereçados "Ao meu marido" e "A minha esposa", algumas carteiras baratas e papel de cartas estampado com flores.
Tuppence examinou a mercadoria, olhou o preço de alguns itens e esperou pelo término de uma conversa sobre as qualidades de determinada máquina de retratos. Enquanto uma senhora de idade, com cabelos grisalhos e olhos sem brilho, atendia um outro freguês, um jovem de longos cabelos claros, com ares de dono, aproximou-se de Tuppence e perguntou:
— Posso ajudá-la?
— Bem, estou interessada em álbuns de fotografias.
— Só tenho um ou talvez dois; hoje a maioria das pessoas prefere slides, sabe?
— Sei, mas coleciono álbuns antigos, como este aqui — disse Tuppence mostrando o álbum enviado por Mrs. Griffin.
— Ah, é bem antigo, deve ter mais de cinqüenta anos. Todos faziam álbuns naquela época.
— O senhor terá algum desses por aí? Como colecionadora interesso-me muito por eles.
— É, hoje em dia parece ser moda colecionar as coisas mais estranhas, não? Não sei se tenho algum tão antigo como o seu, mas posso dar uma olhada — disse Mr. Durrance abrindo uma gaveta.
— Há muito tempo ando querendo arrumar isto, mas não pensei em encontrar alguém interessado em comprar essas coisas. Tenho muitos retratos de velhos casamentos, mas nunca ninguém interessou-se por eles. Às vezes aparecem mães querendo saber se temos o negativo de velhos retratos de seus filhos quando bebês, retratos horrorosos em sua maioria. E volta e meia a polícia aparece querendo identificar algum suspeito de roubo ou assassinato, alguém que já morou aqui e pode ter tirado algum retrato. - Isto até anima um pouco o ambiente! — disse Mr. Durrance sorrindo.
— O senhor interessa-se por crimes, não?
— É, gosto de ler os jornais. Viu aquela história sobre um homem suspeito de ter matado a mulher uns seis meses atrás? Uns acham que ela ainda está viva e outros dizem que está enterrada em algum lugar.
Tuppence pensou que embora a conversa estivesse animada, não estava dando em nada, e resolveu apressar as coisas.
— O senhor terá alguma fotografia de uma moça chamada Mary Jordan? Ela morreu aqui há uns sessenta anos.
— Só se estiver nas coisas de meu pai; ele não gosta de jogar nada fora e se ouviu falar nela, ainda deve se lembrar. Essa Mary não é a tal espiã que tinha um pai alemão ou russo, sei lá?
— Essa mesma, tomara que encontre o retrato.
— Vou procurar quando tiver tempo e, se encontrar, avisarei a senhora. É escritora, por acaso? — disse Mr. Durrance, animando-se.
— Não faço disso uma profissão, mas estou escrevendo um pequeno livro sobre os fatos interessantes ocorridos nos últimos cem anos, crimes e coisas assim. Velhas fotografias dariam excelentes ilustrações.
— Vou fazer o possível para ajudá-la. O seu trabalho deve ser muito interessante.
— Também me interesso por uma família de nome Parkinson, que antigamente morou em minha casa.
— Ah, a senhora mora no Ninho das Andorinhas, lá em cima do morro. O nome agora é A Casa dos Loureiros, não?
— É, mas as andorinhas ainda fazem seus ninhos lá no meu telhado.
— É um nome engraçado para uma casa.
Achando que tinha iniciado relações satisfatórias com Mr. Durrance, Tuppence comprou alguns cartões-postais e o papel de carta florido e despediu-se. Resolvera dar mais uma olhada no quiosque antes de entrar em casa. Ao aproximar-se, deteve-se. Um monte de roupas velhas estava junto à porta do quiosque. Alguém esqueceu isso por aqui, pensou Tuppence apressando o passo. Mas não era só um monte de roupas velhas, alguém estava vestido com elas. Tuppence abaixou-se e depois, segurando-se na porta, ergueu-se devagar.
— Isaac, meu pobre velho, está morto. Alguém vinha pela aléia e ela chamou:
— Albert, Albert, uma coisa horrível aconteceu. O velho Isaac está morto. Acho que alguém o matou.

VII
O INQUÉRITO

O MÉDICO prestou seu depoimento. Duas testemunhas que passavam pelo portão do jardim foram ouvidas, a família depôs sobre o estado de saúde do velho. Dois possíveis inimigos, adolescentes que haviam sido admoestados por ele, foram chamados pela polícia e protestaram inocência. Seus patrões, incluindo Mrs. Prudence Beresford e Mr. Thomas Beresford, depuseram. Finalmente chegaram a um veredicto: assassinato por pessoa ou pessoas desconhecidas.
Tommy colocou um braço em volta dos ombros de Tuppence enquanto passavam por um grupo de curiosos à saída do inquérito.
— Você esteve ótima, Tuppence — disse ele quando entraram no jardim. — Falou muito claro e em tom audível. O juiz gostou do seu depoimento.
— Oh, Tommy, que interessa o meu depoimento? O pobre Isaac está morto, com a cabeça arrebentada.
— Alguém devia ter rancor dele.
— Mas por quê?
— Não sei.
— Terá sido por nossa causa, Tommy?
— O que quer dizer, Tuppence?
— É este lugar, essa nossa linda casa nova, este jardim. Será mesmo um bom lugar para nós? Nós pensávamos que era.
— Ainda penso assim, querida.
— Você é mais otimista do que eu. Tenho uma sensação desagradável de que algo está errado aqui. É o passado.
— Não fale mais nela.
— Em Mary Jordan? — perguntou Tuppence baixinho. — Mas que importância pode ter o passado? Não devia significar mais nada.
— O passado não devia interferir com o presente, não é? Mas na verdade ele interfere e de um modo estranho.
— Acha que muitas coisas acontecem por causa do passado?
— É como se fosse uma corrente como esta sua. Formada por elos, e com contas entre eles.
— Tommy, não estamos mais investigando o passado, agora isto é pessoal. A morte do velho Isaac muda tudo. Pobre Isaac, morto em nosso jardim.
— Ele era muito velho.
— Mas você ouviu o depoimento médico, não ouviu? Alguém o matou. Mas quem? E por quê?
— Por que não tentam nos matar se nós somos a causa?
— Talvez cheguem a isso. Talvez ele pudesse ou fosse nos contar alguma coisa. Imagine que tenha ameaçado alguém de falar-nos sobre a moça ou sobre os Parkinson, ou de algum segredo escondido. Resolveram então silenciá-lo. Mas se não fosse o nosso interesse pelo caso, isto não teria acon-tecido.
— Não se exalte assim, Tuppence.
— Tenho que ficar exaltada. Agora isso é um assunto pessoal. Não é mais um divertimento, estamos procurando um assassino. Não sabemos quem é, mas vamos descobrir. Não se trata mais do passado, mas de agora. Foi aqui que aconteceu, seis dias atrás, aqui no nosso jardim. Vou agir como um cão de caça e você vai prosseguir com suas pesquisas.
— Tuppence, acredita que temos uma chance?
— Não sei como, mas vamos descobrir. Foi uma coisa má e cruel que matou o velho Isaac.
Andorinhas passaram em revoada sobre suas cabeças.
— Podemos mudar o nome da casa novamente — disse Tommy.
— Quer chamá-la de O Ninho das Andorinhas — Tuppence acompanhou com os olhos o vôo dos pássaros e depois voltou-se para o portão do jardim.
— Como era mesmo aquele poema que sua pesquisadora conhecia? Falava em Portal da Morte, não?
— Não, Portal do Destino.
— O destino, pobre velho. O nosso portão do jardim, para Isaac, foi o Portal do Destino.
— Não se sinta tão culpada, Tuppence.
— Talvez algum dia esta casa ainda mereça o nome de O Ninho das Andorinhas.
Continuaram pela aléia até ver uma mulher em pé, na soleira da porta de entrada.
— Quem será? — estranhou Tommy.
— Já a vi antes — disse Tuppence. — Acho que é da familia de Isaac, mas não tenho certeza. Moram todos juntos, três ou quatro meninos, uma menina, esta mulher e uma outra.
A mulher dirigiu-se para eles.
— A senhora é Mrs. Beresford?
— Sou.
— A senhora não me conhece, sou a nora de Isaac. Fui casada com seu filho Stephen. Ele morreu há uns cinco ou seis anos num acidente. Um caminhão na auto-estrada. O senhor — disse ela olhando para Tommy — mandou flores para o enterro, não foi? Isaac trabalhava aqui, não?
— Sim, ele trabalhava para nós. Foi horrível o que aconteceu.
— Vim lhe agradecer. O senhor mandou umas flores muito bonitas, um bocado legais e o ramo era grande para valer.
— Isaac foi uma grande ajuda quando nos mudamos — disse Tuppence; — resolveu muitos problemas pois conhecia o lugar das coisas. E nos ensinou muito sobre jardinagem.
— É, ele entendia do seu trabalho, mas não podia mais fazer muita coisa, estava muito velho e não gostava de se abaixar. Sofria de lumbago e não conseguia mais fazer tudo que queria.
— Era muito bom e foi um grande auxilio — defendeu-o Tuppence firmemente. — Conhecia bem o lugar e as pessoas daqui e nos ajudou bastante.
— É, sabia de todos os mexericos do lugar. A família dele já morava aqui antes dele nascer. Bem, madame, não vou incomodá-la mais, vim só para agradecer.
— Foi muito amável, obrigada — disse Tuppence.
— A senhora vai precisar de alguém para trabalhar no jardim, não?
— Sim, nós não entendemos muito do assunto — Tuppence hesitou um pouco, talvez não fosse a ocasião certa. — A senhora talvez conheça alguém interessado em trabalhar para nós.
— Não sei, vou ver. Posso mandar o Henry, meu filho, até achar alguém. Bem, até logo.
— Como era o nome todo do Isaac? Não consigo lembrar-me — disse Tommy ao entrar.
— Isaac Bodlicott, se não me engano.
— Então ela deve ser Mrs. Bodlicott.
— E mora com toda a família em Marshton Road. Acha que ela sabe quem matou o velho? — perguntou Tuppence.
— Não creio. Não tinha jeito de quem sabia.
— Isso é difícil de dizer, não?
— Para mim, ela só veio agradecer as flores. Não parecia guardar rancor, ou ter vontade de vingar-se.
— Pode ser — disse Tuppence pensativamente.
VIII
UM TIO É LEMBRADO

NA manhã seguinte, quando Tuppence conversava com um eletricista que viera consertar uns defeitos da instalação, Albert interrompeu-a:
— Há um menino aí querendo falar com a senhora.
— Quem é?
— Não perguntei, está esperando lá fora.
Tuppence colocou o chapéu de sol na cabeça de qualquer maneira e desceu. Fora, um menino de uns doze ou treze anos, mexia os pés inquieto.
— A senhora estava me esperando, não é?
— Você é o Henry Bodlicott, não?
— Isso mesmo, sou sobrinho daquele homem que morreu. Sabe, eu nunca tinha visto um inquérito!
Henry parecia ter achado o acontecimento tão divertido, que Tuppence quase perguntou se ele gostara.
— Foi muito triste o que aconteceu com o seu tio.
— Ah, bem, ele era muito velho, não ia durar muito mesmo.
No inverno tossia a noite toda, a gente nem podia dormir! A mãe me disse que a alface precisa ser repicada. Sei onde ela está plantada porque às vezes vinha conversar com o velho Izzy enquanto ele trabalhava. Se a senhora quiser, posso fazer este serviço.
— Ótimo, vamos dar uma olhada. Foram andando juntos até a horta.
— Olhe aqui — disse Henry, — foram plantadas juntinhas e agora é preciso separar para elas crescerem.
— Não entendo muito de alfaces, nem de legumes. Só entendo um pouquinho de flores. Você quer ficar trabalhando aqui rio jardim?
— Oh, não, ainda vou à escola e entrego os jornais e no verão trabalho na colheita das frutas, sabe?
— Que pena, mas se souber de alguém... Deixe-me ver o que vai fazer com essa alface — disse Tuppence olhando o trabalho do menino.
— Agora está direito, tudo certinho. Essa qualidade é boa, dura um tempão.
— Bem, muito obrigada.
Tuppence ia andando em direção à casa quando notou que perdera o lenço. Voltou e Henry veio ver o que tinha acontecido.
— Perdi meu lenço. Ah, ali está ele, no arbusto.
O menino entregou-o e em vez de ir embora, ficou lá, de pé, mexendo os pés, inquieto. Pôs o dedo no nariz e depois coçou a orelha:
— A senhora fica zangada se eu perguntar uma coisa?
— O quê? — disse Tuppence encorajando-o. Henry ficou vermelho e sem jeito.
— Bem, é que ouvi falar, o pessoal anda dizendo... Bem, dizem que a senhora pegou espiões na última guerra. A senhora e o seu marido tiveram um bocado de aventuras. São do Serviço Secreto, não é? São agentes da pesada, mesmo — disse o menino olhando-a com admiração.
— É, algo parecido — concordou Tuppencç.
— Legal! Posso contar para o meu amigo Clarence? Ele tem um nome esquisito e a turma mexe com ele, mas é um cara legal. Vai achar um bocado emocionante saber que a senhora é um agente secreto!
— Mas isso foi há muito tempo, em 1940. —, Foi divertido ou a senhora teve medo?
— As duas coisas. Acho que tive medo a maior parte do tempo.
— É, mas é natural que a senhora tivesse, não é? O esquisito é a senhora vir morar aqui para se meter num caso parecido. O Clarence me contou que o tal espião pego pela senhora era um nazista disfarçado em comandante da Marinha inglesa.
— Mais ou menos isso.
— Deve ter sido por isso que a senhora veio para cá. Por causa dos tais planos do submarino. É o que dizem por aí.
— Mas não foi por isso, não. Esta casa é muito agradável e gostamos muito dela. Só ouvi falar nessas histórias depois, mas nada sei sobre elas.
— Bem, se eu descobrir alguma coisa, venho lhe contar.
— Como o seu amigo Clarence descobriu tantas coisas?
— Foi o Mick, que morou lá perto do ferreiro, quem contou. Ele já foi-se embora daqui, mas estava por dentro de tudo. E o nosso tio, o velho Isaac, também falava nessas coisas.
— Então ele sabia disso? — perguntou Tuppence.
— Claro, pensei que talvez tenha sido por isso que o mataram. Ele podia contar para a senhora o que sabia e acabaram com ele. Tiveram medo da polícia e, pronto, acabaram com o velho.
— Veja se consegue lembrar-se de alguma coisa dita por ele que possa ser importante. Talvez possamos descobrir quem o matou.
— No começo pensamos que fosse acidente. Sabe, o coração dele não estava bom e às vezes ficava tonto, podia ter caído. Mas o mataram mesmo, não é? A senhora sabe por quê?
Tuppence olhou para Henry. Pareciam dois cães policiais seguindo a mesma pista, pensou.
— Nós dois gostaríamos de saber, não é, Henry? Você que é seu parente e eu que fui sua amiga. Você tem alguma idéia?
— Olhe, o tio Izzy dizia que muita gente tinha raiva dele porque sabia de coisas que tinham acontecido. Mas como ele sempre falava de gente que já morreu, não sei quem era. A senhora vai deixar eu trabalhar também nessa investigação?
— Se você prometer guardar segredo. Não vá falar sobre isso para todos os seus amigos porque daí a história se espalha.
— E eles podem dizer aos bandidos e eles atacarem a senhora e Mr. Beresford, não é?
— Podem sim, e preferiria que não o fizessem.
— Olhe, se eu souber de alguma coisa, apareço me oferecendo para fazer algum serviço. Está bem assim? Daí nós podemos conversar sozinhos sem ninguém ouvir. No momento não sei de nada, mas tenho amigos — Henry assumiu um ar copiado de algum filme da televisão. — A senhora vai ver só o que vou descobrir.
— Tenha cuidado, Henry. Você compreende como isso é necessário?
— Pode deixar, vou ser muito cuidadoso. O tio Isaac falava que havia esconderijos aqui e encontros secretos. A mãe nem ligava nem o meu irmão Johnny. Mas o Clarence e eu ouvíamos tudo, ele dizia para mim: "Chuck, isto parece um filme!"
— Você ouviu falar em Mary Jordan?
— Na certa. A moça alemã que roubou os planos, não foi?
— Isso mesmo — disse Tuppence pedindo mentalmente desculpas ao espírito de Mary Jordan.
— Dizem que era muito bonita, como uma artista de cinema.

— Você está sem fôlego e parece animada — disse Tommy ao ver Tuppence entrar pela porta lateral. — Andou trabalhando demais no jardim?
— Não, não estava fazendo nada. Só olhando as alfaces e escutando um menino falar.
— Veio se oferecer para trabalhar no jardim?
— Não, embora isso fosse uma boa idéia — disse Tuppence. — Ele só estava expressando a sua admiração.
— Do quê? Do jardim ou do seu chapéu de palha?
— Do meu passado.
— O quê?
— Estava entusiasmado por estar falando com uma agente do Serviço Secreto que prendera um espião alemão.
— Nossa, até quando vão se lembrar disso?
— Não faço muita questão que esqueçam. É até agradável ser uma celebridade.
— Não deixa de ter razão.
— E neste caso, isso pode ser útil.
— Que idade tem o menino?
— É meio magrela, mas deve ter uns doze anos. Tem um amigo chamado Clarence.
— Que importância tem isso?
— Eles gostariam de se aliar a nós e ajudar na investigação.
— Acha que podem saber alguma coisa com a idade deles?
— Olhe, o menino estava ansioso para participar de nossas aventuras e falou em coisas importantes que estariam escondidas aqui. Aparentemente o velho Isaac sabia o lugar.
— Tuppence, tenha cuidado. Se alguém matou Isaac porque pensou que ele tinha nos dito alguma coisa, esse alguém pode esperar numa esquina escura por você e tentar usar o mesmo método outra vez. E atribuiriam o caso a algum ladrão.
— É, velhas senhoras meio artríticas são mesmo uma boa presa para essa espécie de gente. Que tal eu andar com uma pistola?
— Não, decididamente não — disse Tommy.
— Por quê? Acha que posso me enganar e machucar alguém?
— Não, mas é provável que tropece e se fira com ela.
— Ah, não vou fazer uma estupidez dessas!
— Pois eu acho que é bem capaz.
— Que tal um canivete?
— Não, Tuppence. O melhor é você andar por aí com um ar bem inocente, espalhando o boato de que não está satisfeita com a casa e pensa em se mudar.
— Para quem digo isso?
— Para qualquer pessoa, a notícia vai se espalhar logo.
— É, posso até ver isso. E você, vai dizer a mesma coisa?
— Mais ou menos, talvez que a casa está nos dando muita despesa.
— Mas, pretende prosseguir, não, Tommy?
— Vou continuar as pesquisas. Você tem algum plano?
— Pode ser que eu consiga alguma coisa daquele menino. O tal Henry vulgo Chuck, ou seria Clarence o seu nome?

XIX
BRIGADA JUVENIL

UMA manhã, depois da saída de Tommy para Londres, Tuppence andou pela casa tentando achar uma tarefa que a entusiasmasse, mas não teve nenhuma idéia brilhante. Afinal, com a sensação de voltar ao passado, resolveu-se pela pequena biblioteca do sótão e percorreu as estantes devagar, olhando os títulos. Tinha certeza de ter visto todos os livros de criança. Alexander Parkinson não revelara mais segredos.
Estava em pé, passando os dedos entre os cabelos, a testa franzida, olhando a prateleira de livros de teologia, cujas encadernações estavam se desmanchando, quando Albert entrou:
— Querem ver a senhora lá embaixo.
— Quem é? Algum conhecido?
— É um grupo de meninos com umas duas meninas talvez. Devem estar querendo alguma subscrição. Um deles chama-se Clarence.
Será que a conversa de ontem já produziu resultados? Pensou Tuppence. Valia a pena ir ver.
Ao chegar embaixo virou-se interrogativamente para seu guia.
— Não os deixei entrar — disse Albert. — Talvez não fosse seguro. Estão lá fora no jardim; estão esperando pela senhora perto de uma mina de ouro. Onde é isso?
— Lá depois do roseiral e do canteiro de dálias há um pequeno lago que já teve peixinhos dourados. Dê-me minhas botas e minha capa, vou preparada para o caso de alguém pretender me empurrar na água.
— É melhor vestir logo a capa, senhora, parece que vai chover.
— Ai, chuva e mais chuva, é só o que temos.
Um grupo animado, com uns dez ou doze garotos e duas meninas de cabelos compridos, esperava por Tuppence. Quando ela se aproximou, um deles gritou, numa voz esganiçada:
— Aí vem ela! Quem vai falar? É melhor você George, é você sempre quem fala as coisas.
— Mas hoje é meu dia — disse Clarence.
— Fique quieto, Clarrie. A sua voz é fina e vai logo começar a tossir se falar.
— Olhe aqui seu, esse negócio é meu, entende?
— Bom dia para todos — disse Tuppence interrompendo a discussão. — Queriam falar comigo? De que se trata?
— Nós temos uma informação para a senhora — disse Clarence. — É o que a senhora estava querendo, não é?
— Depende da espécie de informação — disse Tuppence.
— Não é nada de agora, é coisa antiga.
— É uma informação histórica — disse uma das meninas que parecia ser a mentora intelectual do grupo. — Se a senhora está pesquisando o passado isso vai lhe interessar.
— Entendo — disse Tuppence. — Por que chamam este lugar de mina de ouro?
Um dos meninos explicou:
— Por causa dos peixinhos dourados que havia aqui. Com umas caudas compridas, vinham lá do Japão no tempo de Mrs. Forrester.
— Isso foi há uns dez anos atrás.
— Que nada, há mais de cinqüenta isso sim.
— Eles comiam o rabo dos outros e depois morriam flutuando de barriga para cima — informou um menino pequeno.
— Mas não há mais peixes para se ver — disse Tuppence. — O que vocês queriam?
Todos falaram ao mesmo tempo até que Tuppence agitou a mão pedindo calma.
— Um de cada vez, por favor.
— Se a senhora quer saber de coisas escondidas na sua casa, coisas muito importantes mesmo, tem que ir ao PCP.
— Ir aonde?
— Ao PCP, a senhora não conhece? É o Palace Clube dos Pensionistas.
— Pelo nome deve ser um local muito grã-fino.
— Ih, não é náo — disse um menino de uns nove anos. — Só tem um monte de coroas aposentados mexericando. O pessoal diz que eles gostam de contar uma porção de mentiras sobre a vida deles.
— Onde é este PCP? — perguntou Tuppence.
— É lá no outro lado da aldeia, perto de Morton Cross. Os pensionistas podem jogar bingo e outras coisas. Acho que se divertem apesar de serem um bocado velhos e meio cegos ou surdos. Parece que gostam de se reunir.
— Talvez seja mesmo uma boa idéia ir visitá-los — disse Tupitence. — Qual seria a melhor hora para isso?
— De tarde é melhor. Se eles estão esperando visitas, têm direito a um chá mais caprichado, com biscoitos recheados e até com torradinhas. O que é que você quer. Fred?
Um menino deu um passo à frente e fez uma inclinação pomposa para Tuppence.
— Terei muito prazer em acompanhá-la. Três e meia é uma hora conveniente para a senhora?
— Poxa, para que tanta complicação? — reclamou Clarence.
— Gostarei muito de ir com você — disse Tuppence e acrescentou olhando o lago: — É mesmo uma pena que não haja mais peixinhos aqui.
— A senhora devia ter visto um que tinha cinco caudas. Sabe, uma vez o cachorro de Mrs. Fagget caiu lá dentro da água.
— Não era de Mrs. Fagget seu bobo, era de Miss French.
— O cachorro afogou-se? — perguntou Tuppence.
— Não, era um filhotinho e a mãe dele, a cadela, chamou Miss Isabel que estava colhendo maçãs lá no pomar, puxando-a pelo vestido, até que ela veio e salvou o cachorrinho. Mas o vestido dela ficou todo estragado com a lama.
— Quanta coisa já aconteceu nesta casa, não é? Bem, talvez dois ou três de vocês queiram me acompanhar até ao clube.
A confusão se estabeleceu. Sou eu... Você não... A Betty não pode ... até que Tuppence resolveu intervir.
— Bem, resolvam e estejam aqui às três e meia.
— A senhora vai gostar — disse Clarence.
— Será de interesse histórico — disse a menina intelectual.
— Cale a boca, Janet — disse Clarence e virou-se para Tuppence. — Desde que ela foi para o ginásio ficou assim. Agora se acha muito importante, os pais disseram que o primário não chegava para ela. Hum!

Enquanto almoçava pensou se realmente as crianças viriam buscá-la para o PCP. Existiria mesmo tal clube ou tudo não passaria de uma brincadeira? Mas seria divertido se aparecesse alguém. E na hora marcada a delegação chegou. Pontualmente às três e meia a campainha tocou. Tuppence levantou-se da poltrona junto à lareira e colocou um chapéu impermeável, porque provavelmente iria chover, quando Albert apareceu para acompanhá-la até a porta.
— A senhora não vai sair por aí com qualquer um, não é? — disse ele.
— Albert, já ouviu falar no PCP, um clube de pensionistas?
— Conheço sim. É uma construção recente, logo depois da reitoria, à direita. Foi feita especialmente para os velhinhos. Há jogos e as senhoras da paróquia organizam concertos e coisas assim.
A frente do trio estava Janet, na certa por causa de sua superioridade intelectual, no meio
Clarence e por fim um menino meio vesgo chamado Bert.
— Boa tarde, Mrs. Beresford. Ficamos felizes com a sua companhia. Talvez seja melhor a senhora levar um guarda-chuva, a previsão do tempo não é muito favorável hoje — disse Janet.
— Como vou na mesma direção, vou acompanhá-los um pouco — disse Albert.
Ele quer me proteger, pensou Tuppence. Talvez seja bom embora não acredite que Janet, Clarence ou Bert representem perigo.
Depois de uma caminhada de uns vinte minutos, chegaram a um edifício de tijolos vermelhos, onde foram recebidos por uma mulher gorda de uns setenta anos.
— Que ótimo, as nossas visitas chegaram — disse ela, dando palmadinhas nas costas de Tuppence. — Muito obrigada, Janet. Vocês não precisam esperar, meninos.
— Oh, creio que eles ficarão desapontados se não puderem ficar para o chá — disse Janet.
— Ah, está bem, hoje não temos muita gente mesmo. Achei melhor para náo atordoar muito Mrs. Beresford. Janet, por favor, vá à cozinha e diga a Mollie que pode servir.
Tuppence não podia dizer que não viera para tomar chá, e este apareceu rapidamente. Logo que consumiram o chá fraco com biscoitos e uns sanduíches de atum pouco apetitosos, todos ficaram sem saber o que dizer, até que um velhinho que pareceu a Tuppence ter uns cem anos, sentou-se ao seu lado de maneira decidida.
— Como eu sou o mais velho aqui, é melhor ser o primeiro a falar com a senhora, my lady — disse ele dando a Tuppence um título de nobreza. — Conheço mais histórias do tempo antigo que todos os outros, tudo que já aconteceu por essas bandas, pode ter certeza.
— Acredito — interveio Tuppence apressadamente, antes que ele começasse a falar de algum assunto que não a interessasse. — E sobre a época que antecedeu a Primeira Guerra Mundial? O senhor ou alguém de sua família saberia de alguma coisa?
— Como não — disse o velho. — Meu tio Len sabia de todos os detalhes. Igualzinho como o que aconteceu depois, antes da última guerra, naquela casa perto do cais. Um daqueles fascistas como o tal Mussolini fez um bocado de confusão, até comícios ele fez.
— Na primeira guerra houve uma moça chamada Mary Jordan, não foi? — perguntou Tuppence sem saber se estava agindo com cautela.
— Houve sim, era um pedaço de bonita. Arrancava qualquer segredo dos marinheiros e dos soldados.
Uma velhinha começou a cantar numa voz trêmula:
"As moças amam um marinheiro, As moças amam um marinheiro, E você sabe, oh meu amigo, Os marinheiros são um perigo."
— Chega Maudie, não agüento mais essa música. A senhora veio aqui para saber umas coisas. Sabe, aquelas histórias de um tesouro escondido que causou toda aquela confusão.
— Gostaria muito de ouvi-las, sim — disse Tuppence animada.
— Foi antes de 1944, todo mundo começou a falar e foi aquela animação.
— Falaram numa corrida de barcos — disse uma velhinha. — Uma competição entre Oxford e Cambridge. Quando eu era moça, uma vez fui a Londres assistir a uma corrida sob as pontes. Foi uma beleza, sabe? Ainda me lembro que Oxford ganhou.
— Que tolice — disse uma senhora de aspecto severo, o cabelo cinzento puxado num coque. — Sei mais do que todos vocês. Minha tia-avó Mathilda conhecia bem o caso. Houve muito falatório, e todos andaram procurando a tal mina de ouro. Para mim era uma barra de ouro trazida da Austrália.
— Isso não tem nenhum sentido — disse um velho que fumava um cachimbo com um ar de supremo desdém por seus semelhantes. — Eles confundiram tudo com os peixinhos dourados. Que ignorância!
— A coisa devia valer muito dinheiro ou não teria sido escondida — disse mais alguém. — Veio gente do governo e da polícia e procuraram poi toda a parte, mas não acharam nada.
— É porque não seguiram as pistas direito. As pistas existem, é só saber procurar — disse outra velhinha balançando-se numa cadeira. — As pistas existem.
— Isto é muito interessante — disse Tuppence. — Mas onde estão essas pistas? Na aldeia ou em que lugar?
Foi uma pergunta infeliz, pois houve pelo menos seis respostas diferentes e todas ao mesmo tempo.
— No campo, perto de Tower West — disse alguém.
— Que nada, é perto de Little Kenny.
— Nada disso, é na caverna perto do mar. Lá onde havia um túnel de contrabandistas.
— Foi um barco da armada espanhola que afundou ali, cheio de dobrões de ouro. São de quem achar.



X
TUPPENCE É ATACADA

— MAS que foi isso Tuppence? — disse Tom-my ao chegar àquela noite. — Parece tão cansada! O que andou fazendo?
— Estou mesmo muito cansada, nem sei se vou me recuperar algum dia.
— Mas o que foi? Andou subindo em escadas e arrumando mais livros ou coisa assim?
— Não, não quero saber de livros nunca mais. Já estou cansada de tantos livros.
— Bem, o que andou fazendo então?
— Daqui a pouco você vai saber. É melhor tomar alguma coisa antes. Talvez um coquetel ou um uísque, e faça uma dose para mim também, por favor!
Quando ela contou a Tommy os acontecimentos da tarde e a visita ao PCP, ele exclamou:
— Santo Deus, você se mete em caaa uma, Tuppence! Que tal achou?
— Nem sei, seis pessoas falando ao mesmo tempo, de uma maneira caótica e cada qual uma coisa diferente, não dá nem para julgar. Mas acho que consegui captar algumas idéias.
— Que idéias?
— Bem, há muitas lendas sobre um tesouro escondido aqui, que tem ligação com a guerra de 1914.
— Nós já sabíamos disso, não?
— Mas há várias histórias diferentes que sobreviveram até hoje, transmitidas dentro das famílias. E uma delas deve ser a verdadeira.
— Perdida entre todas as outras.
— Exatamente, como uma agulha num palheiro.
— E como vai descobrir qual é a verdadeira?
— Primeiro vou selecionar algumas possibilidades, Tommy. Depois, estou pensando em falar com as pessoas separadamente, para ver se consigo entender bem o que seus tios Len ou Mathilda ou Jonhny disseram. E examinar cada coisa, Você tem outra idéia?
— Se ao menos tivéssemos certeza do que estamos procurando!
— Bem, barras de ouro de um navio espanhol não devem ser, nem acredito que haja alguma coisa escondida na caverna dos contrabandistas.
— Só se for algum carregamento do bom conhaque francês, o que eu gostaria muito de achar, pelo jeito em que vão as coisas. Mas pode ser alguma carta de amor proibido, com a qual fizeram chantagem sessenta anos atrás, mas que não tem nenhuma importância hoje. Mas tenho uma boa notícia.
— Sobre o quê?
— O recenseamento; soube que realmente foi no ano da morte de Mary Jordan, tenho os dados aqui. Agora só falta procurar as pessoas certas para conseguir uma relação das que estavam aqui na casa dos Parkinson naquela noite.
— Isso pode ser muito útil. Como descobriu?
— Pelos métodos de pesquisa de Miss Collodon.
— Estou ficando com ciúmes dela.
— Não precisa ficar não, Tuppence. Ela é muito brava, me dá uns foras terríveis e não é nenhuma beleza.
— Ainda bem. Tommy, vamos jantar, acho que estou tonta é de tentar entender dezesseis velhinhos ao mesmo tempo.

Albert ofereceu-lhes uma refeição bem satisfatória. Embora fosse um cozinheiro variável, às vezes tinha seus momentos de gênio, como o soufflê de queijo daquela noite.
— Está ótimo — disse Tuppence e Tommy concordou, ambos muito absorvidos na comida para trocarem mais idéias.
Depois da segunda xícara de café, Tuppence recostou-se na poltrona, deu um suspiro profundo e disse:
— Agora, sinto-me outra. Onde estávamos mesmo? Ah, quer me dar minha bolsa, por favor?
— Está aí bem no seu pé, junto da poltrona. Do outro lado.
Tuppence pegou a bolsa.
— Foi um ótimo presente. E é de crocodilo verdadeiro, só que é um pouco difícil guardar as coisas dentro dela.
— E pelo jeito mais difícil ainda de tirar — disse Tommy.
— Práticas mesmo são aquelas sacolas de palha. Dá para a gente guardar qualquer coisa — disse Tuppence conseguindo alguma coisa depois de muita luta.
— O que é? A lista da lavanderia?
— Não, é uma caderneta velha que usei para anotar o que me diziam. Já tinha feito uma lista, só que muitas coisas não parecem ter nenhum sentido. O tal recenseamento de que falou está anotado aqui. Só que eu não tinha a mínima idéia de que modo poderia ajudar. Mrs. Henderson e Dodo foram nomes que Mrs. Griffin mencionou. E isto aqui, ah, Oxford e Cambridge, parece que era um palpite de corrida de barcos.
— Tuppence, que importância isto pode ter?
— Não sei, estou anotando tudo. Pode ser que encontremos alguma pista no meio disto tudo, assim como encontramos a tal frase do Alexander entre todos aqueles livros. Por falar nisso, encontrei um pedacinho de papel amarelo com três palavras escritas a lápis. Ou foi dentro do Catriona ou dentro de As Sombras do Trono.
— Li este livro quando era menino, é sobre a revolução francesa.
— As três palavras são: Grin, Hen e Lo. Será algum código?
— Desculpe-me, Tuppence, mas para mim isso não tem sentido.
Tuppence ficou pensativa.
— Oxford e Cambridge, estou me lembrando de alguma coisa.
— Do seu Bem-amado talvez? — perguntou Tommy rindo.
— Pare de rir, seu bobo. É serio. Grin — Hen — Lo. Não quer dizer nada... Oh!
— Que oh foi esse, Tuppence?
— Oh, Tommy, tive uma idéia! É tão claro!
— O que é claro, mulher?
— Grin — hen — lo, leia ao contrário: Lo-hengrin, naturalmente. Lohengrin, a ópera de Wagner, o cisne, Tommy! O cisne!
— Aonde você viu um cisne, Tuppence?
— Em Oxford e Cambridge. São os nomes daqueles banquinhos redondos de louça para o jardim. Têm um lindo cisne pintado à volta. Lembra-se dos banquinhos, um azul escuro e o outro azul claro? Foi Isaac quem disse que um era Oxford e o outro Cambridge.
— E você quebrou o Oxford, não foi?
— Quebrei, mas o Cambridge ainda está lá. Não percebe? Havia algo escondido dentro daqueles cisnes. Tommy, vamos até lá. Está lá no quiosque.
— Não às onze horas da noite, nada disso.
— Amanhã, então. Você não precisa ir a Londres amanhã, não é?
— Não.
— Então fica para amanhã.
— A senhora está providenciando alguém para cuidar do jardim? — perguntou Albert. — Já trabalhei nesse serviço uma vez, mas não entendo nada de legumes. Por falar nisso, há um menino aí querendo falar com a senhora.
— Aquele menino de cabelhos vermelhos?
— Não, o outro de cabeleira comprida, loura, meio suja. Acho que seu nome é Clarence.
— Tuppence encontrou o menino sentado numa velha cadeira de vime na varanda, regalando-se com um pacote de batatas fritas e uma grande barra de chocolate.
— Bom dia, dona — disse Clarence. — Vim ver se podia ajudar.
— Bem, estamos mesmo precisando de ajuda no jardim. Você às vezes dava uma mãozinha ao Isaac, não é?
— É, às vezes. Não sei grande coisa, mas acho que o velho também não sabia. Mas ele falava um bocado, dizia que tinha sido jardineiro-chefe daquele casarão perto do rio, a casa do Mr. Bolingo; hoje é até uma escola. Mas minha avó dizia que era mentira.
— Isso não tem importância, Clarence. No momento estava pretendendo continuar a limpeza daquela pequena estufa.
— A senhora estava falando do quiosque?
— Isso mesmo. Como sabe o nome?
— Ah, todo mundo fala assim. É um nome japonês, não?
— Venha comigo, Clarence.
Tommy, Tuppence, Hannibal, Clarence e Albert, que resolvera trocar a lavagem dos pratos por algo mais interessante, seguiram em fila pela aléia do jardim. Volta e meia Hannibal abandonava a formação, quando um cheiro prometedor o atraía.
— De que raça é esse cachorro, nem? — perguntou Clarence. — Falaram que serve para caçar ratos.
— É verdade — disse Tommy. — É um Manchester terrier.
Percebendo que falavam a seu respeito, Hannibal animou-se, sacudindo o rabo e se rebolando todo. Depois sentou-se com um ar orgulhoso.
— Ele morde, não é? — disse Clarence.
— É um ótimo cão de guarda; toma muito cuidado comigo — disse Tuppence.
— Quando eu não estou por perto — acrescentou Tommy.
— O carteiro disse que quase levou uma mordida outro dia.
— É, ele gosta mesmo de implicar com os carteiros. Quem viu a chave do quiosque? — perguntou Tuppence.
— Eu sei, está lá no galpão perto dos vasos
— disse Clarence e daí a pouco voltava com uma chave enferrujada mas que tinha sinais de óleo.
— Isto deve ter sido obra de Isaac.
Aberta a porta, viram o banquinho de louça com o cisne pintado à volta, limpo e reluzente. Obviamente Isaac o tinha lavado e polido com a intenção de colocá-lo na varanda quando o tempo melhorasse.
— Onde está o outro, o azul escuro? Isaac dizia que se chamavam Oxford e Cambridge — disse Clarence.
— Quebrou-se. Sobrou este azul claro, deve ser o Cambridge. Não vejo como alcançar o interior desse banquinho, Tommy.
— Bem, só quebrando, como fez com o outro.
— Que abertura engraçada essa em cima! — disse Clarence. — Dá para botar uma carta, até parece caixa do correio.
— Você teve uma idéia inteligente, Clarence, disse Tommy.
Clarence ficou todo satisfeito:
— O senhor sabe que este banco desatarraxa? Eu vi o Isaac fazer isto uma vez. É só virar de cabeça para baixo e ir virando. Se estiver duro é só botar óleo, foi o que ele fez.
Tommy seguiu a sugestão e por alguns momentos parecia que a idéia não ia dar resultados mas de repente a base começou a: girar e dali a pouco soltou-se completamente.
— Deve estar cheio de sujeira — disse. Clarence.
Hannibal veio cooperar. Nada ficava bem feito sem a sua participação, pensava ele. Precisava dar uma mãozinha, ou melhor, uma cheirada. Meteu o focinho, mas o cheiro não o agradou.
— Não é nada apetitoso, não é? — disse Tuppence, olhando a sujeira lá dentro.
— Ai — gemeu Clarence.
— O que foi?
— Tem um prego aí dentro, e alguma coisa pendurada nele. Àqui está — e Clarence mostrou um pequeno embrulho de lona encerada.
Hannibal sentou-se perto de Tuppence e rosnou.
— O que há, Hannibal?
O cão rosnou outra vez. Tuppence abaixou-se e passou a mão pela cabeça dele.
— Você sabia, Clarence, que toda vez que lhe dão um osso, ele esconde? Outro dia estava guardando um debaixo da minha almofada e, quando me viu, correu e foi cavar um buraco bem no meio do canteiro das palmas para escondê-lo. Ele sempre guarda ossos para um caso de muita necessidade.
Hannibal farejou o embrulho retirado das entranhas de Cambridge. De repente, virou-se e latiu.
— Veja se há alguém aí fora, Tommy, pode ser o jardineiro que Mrs. Herring me prometeu outro dia.
Tommy abriu a porta e saiu acompanhada pelo cão.
— Não há ninguém aqui, Tuppence.
Hannibal deu um latido, rosnou outra vez e começou a latir cada vez mais alto.
— Parece que há alguma coisa naquela moita de capim-dos-pampas. Talvez seja algum cachorra desenterrando um osso do Hannibal. Pode ser também um coelho, mas o Hannibal gosta de coelhos e nem se dá ao trabalho de correr atrás deles.
Hannibal farejava a moita latindo e virando a cabeça para Tommy.
— Deve ser um gato. Ele detesta gatos.
— Pare, Hannibal, volte aqui — chamou Tuppence.
— O cão ouviu mas não desistiu de seu intento e continuou a latir furiosamente.
— Pare com isso — dizia Tommy quando ouviram duas explosões.
— Nossa, há alguém atirando nos coelhos — disse Tuppence.
— Entre, entre logo no quiosque, Tuppence — gritou Toraray.
Algo zumbiu em seus ouvidos enquanto Hannibal investia contra a moita.
— Ele está correndo atrás de alguém — disse Tommy. — Alguém desceu o morro correndo.
— Quem era? — perguntou Tuppence com voz fraca.
— Você está bem, Tuppence?
— Não muito, algo me atingiu aqui perto do ombro. O que houve?
— Atiraram em nós. Alguém que estava escondido naquela moita.
— Você acha que estavam nos observando? — perguntou Tuppence.
— Deve ter sido um irlandês do Exército de Libertação — disse Clarence. — Talvez seja um atentado.
— Não me parece um caso político — disse Tuppence.
— Vamos logo, vamos entrar em casa, Tuppence. Você também, Clarence, venham.
Tinham dado a volta à casa quando Hannibal reapareceu de repente. Tinha subido o morro correndo e estava sem fôlego. A seu modo, tentou persuadir Tommy a acompanhá-lo, puxando-o pela perna da calça na direção de onde viera.
— Ele quer que eu vá com ele pegar o homem.
— Não vá não, Tommy. Não quero que você leve um tiro. Quem iria tomar conta de mim? Vamos entrar logo.
No hall Tommy pegou o telefone.
— Para quem está ligando?
— Polícia. Pode ser que ainda peguem o camarada.
— Acho bom alguém amarrar o meu ombro. O sangue está manchando meu suéter de estimação.
— Não é o suéter que importa, Tuppence. Albert apareceu com um estojo de primeiros-socorros.
— Atiraram na senhora! Mas o que falta acontecer neste país?
— Acha melhor ir para o hospital, Tuppence?
— Não, não é preciso, é só passar um antis-séptico e fazer um curativo. Mas não passe iodo que arde. Você guardou aquela coisa direito?
— Que coisa?
— A coisa que retiramos do Cambridge. O tal pacote pendurado no prego. Deve ser importante. Eles estavam olhando, se tentaram nos matar é porque era muito importante

XI
HANNIBAL ENTRA EM AÇÃO

EM seu escritório Tommy conversava com o inspetor Norris, um agente da polícia.
— Com um pouco de sorte chegaremos a um resultado, Mr. Beresford — disse o inspetor. — O Dr. Crossfield está cuidando de sua esposa, não é?
— Está, mas felizmente o ferimento não é grave. A bala passou de raspão, mas sangrou bastante. O Dr. Crossfield disse que não há perigo, ela vai ficar boa logo.
— Ela não é mais uma criança, não é?
— Sim, já tem mais de setenta. Nós dois estamos envelhecendo — disse Tommy.
— Tenho ouvido falar muito em sua esposa, desde que se mudaram. Todos gostam dela. Ouvi muitos comentários sobre o passado de ambos.
— Não vale a pena falar sobre isso — disse Tommy.
— Não se pode apagar o passado, tenha sido bom ou mal. Nem o criminoso nem o herói escapam de sua sombra. Uma coisa eu posso lhe assegurar: faremos o possível para prender o assaltante. Pode descrevê-lo?
— Não, só o vi a distância, de costas, com o nosso cão correndo atrás dele, mas deve ser jovem, pois corria muito bem.
— Temos muitos problemas com adolescentes.
— Acho que era mais velho — disse Tommy.
— O senhor recebeu algum telefonema ou alguma carta pedindo dinheiro — perguntou o inspetor, — ou talvez pressionando-o para sair daqui?
— Não, nem uma coisa nem outra.
— Soube que vai a Londres quase todos os dias durante a semana, não é?
— Vou sim, quer saber algum detalhe?
— Não, mas sugiro que não se afaste de casa com tanta freqüência. Se fosse possivel o senhor ficar tomando conta de sua esposa. ..
— Já estava pensando nisso, inspetor. Tenho uma boa desculpa para deixar meus compromissos em Londres.
— Bem, nós vamos fazer o possível para controlar a situação e tentar agarrar esse camarada.
— Se não é indiscrição minha — perguntou Tommy, — o senhor suspeita de alguém? Tem alguma idéia sobre o motivo?
— Bem, Mr. Beresford, há muitos camaradas por aqui sobre ouem sabemos muito mais do que imaginam. A melhor forma de poder agarrá-los é ficar de olho neles, para descobrir se estão sozinhos ou se são mandados por alguém. Mas este caso não me parece ser trabalho de gente do local.
— Por que acha isto?
— Foram algumas informações recebidas de meus superiores.
Tommy e o inspetor entreolharam-se. Ficaram silenciosos por alguns minutos antes que o inspetor Norris dissesse:
— Se me permite um conselho...
— Naturalmente — disse Tommy.
— O senhor está precisando de ajuda no jardim.
— Nosso jardineiro foi morto, como o senhor sabe.
— Bom sujeito, o velho Isaac, não? Às vezes exagerava um pouco as suas histórias, mas era uma pessoa de confiança.
— Ninguém descobriu nada sobre o seu assassinato, não é?
— Bem, a verdade leva tempo para aparecer. O inquérito foi só um começo. Mas, Mr. Beresford, se aparecer alguém que já trabalhou para Mr. Solomon, oferecendo-se como jardineiro, eu o aconselharia a contratá-lo.
— Para Mr. Solomon, não foi? — perguntou Tommy.
O inspetor sorriu.
— Esse Mr. Solomon já morreu, mas morou aqui durante muitos anos e tinha vários jardineiros a seu serviço. Esse tal deve ter entre trinta e quarenta anos e talvez se apresente com o nome de Crispin. Se fosse o senhor não aceitaria outra pessoa, é um conselho que lhe dou.
— Entendo — disse Tommy.
— Vamos prosseguir as investigações, talvez tenhamos que ir a Londres.
— Gostaria de afastar Tuppence um pouco daqui, mas creio que dificilmente o conseguirei.
— As mulheres são muito dificeis — disse o inspetor Norris.
Mais tarde, sentado à cabeceira de Tuppence, vendo-a comer uvas, Tommy repetiu este comentário do inspetor.
— Você sempre come os caroços das uvas...
— Dá muito trabalho tirá-los; não devem fazer mal.
— Se não fizeram até hoje, é porque não vão fazer mais mesmo, não é?
— A polícia desconfia de alguém, Tommy?
— O inspetor Norris pensa que foi alguém de fora.
— Que mais disse ele?
— Disse que as mulheres são difíceis de controlar.
— E você tem coragem de repetir, não é?
Tommy sorriu e levantou-se.
— Vou dar uns telefonemas para Londres. Vou ficar em casa por uns dias.
— Não há necessidade, Tommy. Estou segura aqui. Albert pode tomar conta das coisas, e estou bem com o Dr. Crossfield cuidando de mim como uma galinha choca. Ele é muito bondoso.
— Vou fazer umas compras para Albert. Você quer alguma cojsa?
— Pode me arranjar um melão? Ando com vontade de comer frutas.
— Pois não, senhora.
Tommy telefonou para Londres.
— Coronel Pikeaway?
— É o Thomas Beresford quem fala?
— O senhor reconheceu minha voz? Queria lhe falar uma coisa.
— É sobre o acidente de Tuppence? Já soube — disse o Coronel. — Não precisa falar. Fique em casa uns dias, não venha a Londres e avise-me se acontecer alguma coisa.
— Tenho algo para lhe entregar.
— Guarde-o por alguns dias. Tuppence pensará num bom lugar para escondê-lo.
— Ela é perita emesconder coisas, tanto quanto o Hannibal.
— Ele correu atrás do homem que atirou em vocês, não foi?
— O senhor sabe de tudo, não, Coronel?
— É o nosso ofício, rapaz.
— Escute: Nosso cão conseguiu dar-lhe uma dentada, pelo jeito. Trouxe um pedaço das calças na boca.





XII
OXFORD, CAMBRIDGE E LOHENGRIN

— PONTUAL como sempre — disse o Coronel Pikeaway soltando uma baforada. — Desculpe ter insistido que viesse com urgência, mas precisava vê-lo.
— Como o senhor já deve saber temos tido algumas novidades ultimamente.
— Por que eu deveria saber, hem?
— É o seu ofício, não é?
O Coronel riu.
— Tem razão. Sua mulher escapou por pouco, não?
— O ferimento foi pequeno mas poderia ter sido muito mais grave; o senhor já deve conhecer os detalhes, não?
— Uma coisa que me entusiasmou foi sua mulher deduzir o significado de grin — hen — lo, lo — hen — grin. Genial, não foi?
— E eis aqui o resultado. Escondi-o na lata de farinha; tive receio de mandá-lo pelo correio.
— E estava certo.
— São cartas guardadas dentro de uma pequena lata de metal. A lata estava costurada num pedaço de lona encerada, pendurada em um prego dentro do cisne azul claro, o banquinho vitoriano de louça.
— Lembro-me deles, minha tia tinha um par na varanda.
— As cartas não estão em bom estado, mas creio que seus peritos resolverão esse problema, não é?
— É, eles sabem lidar com Isso.
— E aqui esta uma lista que Tuppence e eu fizemos. Vê aí Cambridge e Oxford, não é? Esta é uma pista que não será mais necessária. Há uns três ou quatro nomes, talvez um deles signifique alguma coisa para o senhor.
— Esta lista me parece bem interessante.
— Quando atiraram em nós, chamei a policia.
— Fez bem.
— Quando fui à delegacia, no dia seguinte, fui apresentado a um oficial novo por lá, o inspetor Norris.
— É, deve estar em serviço especial, provavelmente — disse o Coronel, tirando uma baforada.
Tommy tossiu.
— O senhor o conhece?
— Pode confiar nele, está encarregado da investigação, o pessoal local talvez possa descobrir se alguém os seguia, ou andava fazendo perguntas sobre o que faziam. Beresford, não acha uma boa idéia sair de lá agora e trazer a sua mulher?
— Não creio que consiga fazer isto. Nem o senhor poderia tirar Tuppence de lá agora. Ela não está muito ferida, e entusiasmou-se com a idéia de oue estamos perto de conseguir resultados, embora nem saibamos quem estamos procurando.
— Tudo que podem fazer é bisbilhotar — disse o Coronel batendo os dedos na caixa de metal. — Esta caixa vai nos revelar muitas coisas interessantes, as pessoas envolvidas na conspiração, gente que fazia um trabalho sujo por trás dos bastidores.
— Mas certamente. ..
— Sei o que ia dizer, estão todos mortos, não é? É verdade, mas é importante saber o que estava programado. Talvez outras pessoas estejam levando avante as mesmas idéias. Com outros personagens o grupo talvez persista. Sabe, se as pessoas são suficientemente coesas e firmes em suas idéias é assustador o que podem conseguir, ou inspirar outros a conseguir.
— Posso fazer uma pergunta?
— Naturalmente, mas não posso lhe garantir uma resposta.
— O nome Solomon tem algum significado para o senhor? O inspetor Norris o mencionou.
— Pode confiar no inspetor — disse o Coronel. — Mas este Mr. Solomon já morreu. Volta e meia usamos o seu nome, é muito útil poder usar uma pessoa real como referência. Ele era muito respeitado na vizinhança. Foi uma sorte para nós vocês terem ido morar na Casa dos Loureiros. Mas não queremos que isto se transforme num desastre para você e sua senhora. Suspeite de tudo e de todos, Beresford. É a melhor política.
—Há dois seres por lá em quem tenho confiança. Um é o Albert, que trabalha para nós há muitos anos.
— Lembro-me dele, um rapaz de cabelos vermelhos.
— Não é mais um rapaz agora.
— Quem é o outro?
— Meu cão Hannibal.
— Tem toda razão. Acho que foi o Dr. Watts fluem disse: "Os cães adoram latir e morder, é de sua natureza." De que raça é?
— É um Manchester terrier.
— Ah, tem uma pelagem preta e castanha, não é? Não é tão grande como um Dobbermann, mas é um cão que conhece o seu dever.

XIII
UMA VISITA DE MISS MULLINS

ALBERT saiu pela porta lateral da casa e foi ao encontro de Tuppence que passeava pelo jardim.
— Há uma senhora esperando para vê-la.
— Senhora? Quem é?
— Chama-se Miss Mullins, foi Mrs. Griffin quem a mandou aqui.
— É sobre o jardim, não é?
— Ela falou qualquer coisa sobre o jardim, sim.
— Pode trazê-la aqui — disse Tuppence. Reassumindo seu papel de mordomo eficiente,
Albert retornou dentro em pouco com uma mulher de aspecto pouco feminino, metida numas calças grossas de tweed e num velho suéter.
— Está um vento frio esta manhã, não? — disse ela com uma voz profunda e um pouco rouca. — Meu nome é Miss Mullins. Mrs. Griffin disse-me que a senhora estava precisando de ajuda no jardim.
— Bom dia — disse Tuppence estendendo-lhe a mão, — é um prazer. Realmente, estamos precisando de ajuda, sim.
— Não faz muito tempo que a senhora veio para cá, não é?
— Bem, o tempo que os operários ficaram na casa me pareceram séculos.
Miss Mullins deu uma risada.
— Sei o que é ter obras em casa. Mas se a senhora tivesse se mudado mesmo com as obras, nada teria ficado à seu gosto. O jardim é bonito, mas está muito abandonado, não é?
— É, os últimos moradores parece que não ligavam muito para ele.
— Não os conheci, mas chamavam-se Jones. Sempre morei do outro lado da cidade, perto da campina. Trabalho em duas casas lá, dois dias numa e um na outra. Mas uma vez só na semana é muito pouco para se tratar bem de um jardim. O velho Isaac trabalhava aqui, não? Bom sujeito, pena ter sido morto por aqueles assaltantes baratos. Ainda não descobriram nada, não é? Esses assaltantes andam em bando, e quanto mais joyens mais perigosos. Lindas magnólias a senhora tem aqui. Na minha opinião, esta qualidade é a melhor.
— Os legumes estão me preocupando mais no momento.
— Ah, a senhora quer uma boa horta. Sabe que a maioria das pessoas acaba desanimando e preferindo comprar os legumes? É mais prático.
— Gosto muito de batatinhas novas, e de ervilhas e de vagens também — disse Tuppence. — São mais gostosas quando bem tenrinhas.
— A senhora tem razão. Nada como legumes bem novinhos e frescos.
Albert apareceu de repente.
— Telefonema de Mrs. Redcliffe. Ela quer saber se a senhora pode almoçar lá amanhã.
— Diga a ela que sinto muito, mas tenho dé ir a Londres. Albert, espere um pouco. Quer entregar isto a Mr. Beresford? — disse Tuppence retirando da bolsa uma caderneta onde escreveu algumas palavras. — Diga a Mr. Beresford que estou aqu: no jardim com Miss Mullins. Este é o endereço da pessoa a quem ele está escrevendo.
— Pois não, senhora — disse Albert e desapareceu enquanto Tuppence voltava ao assunto da horta.
— Três dias de trabalho já é bastante, não é?
— Bem, para quem mora lá do outro lado... Tenho uma casinha lá
Neste momento Tommy apareceu com Hannibal correndo à sua volta. O cão foi o primeiro a chegar. Deteve-se um momento e então avançou sobre Miss Muilins latindo. Ela recuou alarmada.
— Este é o nosso terrível cão — disse Tuppence. — Mas é raro ele morder, o carteiro tem sido sua única vítima.
— Todos os cachorros mordem os carteiros, ou pelo menos tentam — disse Miss Mullins.
— Este é um bom cão de guarda. Não deixa ninguém se aproximar da casa e acha que sua principal função é me defender — disse Tuppence.
— Hoje em dia isto é muito bom.
— Há muitos roubos por aí, não é? Muitos de nossos amigos já foram roubados em plena luz do dia. É bom que saibam que temos um ótimo cão de guarda.
— A senhora tem razão.
— Este é o meu marido. Esta é Miss Mullins, Tcmmy, Miss Griffin amavelmente disse-lhe que precisávamos de alguém para cuidar do jardim.
— O serviço talvez seja muito pesado para a senhora, Miss Mullins.
— Naturalmente que não — disse ela-em sua voz grossa. — Posso usar uma pá tão bem quanto qualquer um. í; preciso revolver a terra e colocar estrume. A terra precisa ser bem preparada, é isso o importante.
Hannibal continuava a latir.
— É melhor levá-lo para dentro, Tommy. Ele está muito protetor esta manhã. Não quer entrar e tornar alguma coisa conosco, Miss Mullins? Podemos conversar mais sobre esse assunto.
Depois que prenderam Hannibal na cozinha, Miss Mullins aceitou um cálice de xerez. Fez algumas sugestões, olhou no relógio e disse que precisava ir.
— Tenho um encontro, não posso chegar atrasada — disse ela, despedindo-se apressadamente.
— Não me parece haver nada de errado com ela — disse Tuppence.
— Mas não podemos ter certeza.
— Podíamos pedir informações sobre ela.
— Agora você deve estar cansada de tanto passear pelo jardim. É melhor ir repousar. Vamos deixar o nosso passeio para outra tarde.



XIV
UMA CONVERSA NO JARDIM

— ENTENDEU bem, Albert? — disse Tommy.
Estavam juntos na copa, onde Albert lavava a louça do chá que trouxera do quarto de Tuppence.
— Sim, senhor — disse Albert, — entendi.
— É bom prestar atenção ao Hannibal. Ele o alertará.
— É um cão ajuizado, não confia em todo mundo.
— É, ele não é desses que sacodem a cauda para as pessoas erradas. Hannibal tem uma boa intuição. Mas você já entendeu o que tem a fazer, não?
— Mas no caso de a senhora resolver outra coisa, o que faço? Digo a ela ou...
— Terá que usar diplomacia, Albert. Obriguei-a a ficar na cama hoje. Ela fica sob sua responsabilidade.
Albert abriu a porta da frente para um jovem de terno de tweed e olhou para Tommy em dúvida Mas antes que dissesse alguma coisa o visitante entrou, com um sorriso amável.
— Mr. Beresford, soube que precisa de alguém para trabalhar no jardim. Ele está precisando de uma boa poda, não é? Já trabalhei para Mr. Solomon alguns anos atrás. O senhor deve ter ouvido falar nele.
— Sim, já ouvi falar em Mr. Solomon.
— Meu nome é Angus Crispin. Podemos dar uma olhada no serviço?
— É tempo de alguém dar uma boa arrumação aqui — disse Mr. Crispin, enquanto Tommy o conduzia pela horta.
— Aqui já houve uma plantação de espinafre. E ali já plantaram melões — disse Tommy apontando para uma latada.
— O senhor está bem informado sobre tudo isso, não?
— Bem, os visitantes gostam de falar sobre como era o jardim antes, as velhinhas sempre se lembram da disposição dos canteiros de flores. Até o próprio Alexander Parkinson parece ter espalhado entre os colegas o caso do espinafre.
— Deve ter sido um menino e tanto.
— Ele devia ser fã de histórias policiais. Foi ele quem deixou uma frase em código num livro de Stevenson, A Flecha Negra, e despertou a curiosidade de Tuppence.
— É um livro divertido, não? Li-o há uns cinco anos. Quando eu trabalhava para...— Mr. Crispin hesitou.
— Mr. Solomon? — sugeriu Tommy.
— Isto mesmo. Ouvi o velho Isaac contar muitas histórias, ele tinha quase cem anos, não? Trabalhou para o senhor pelo que me contaram.
— E era estupendo, levando-se em consideração a sua idade. Também gostava de nos contar suas histórias. Por falar em velhas histórias, obtive ontem uma lista interessante.
— Lista de quê?
— Do recenseamento. Houve um recenseamento, o dia está marcado na lista que vou lhe dar. Foi uma data importante e havia uma grande festa na casa. Todos os presentes constam da lista.
— Isso pode ser uma informação muito valiosa, uma lista de pessoas que estavam na casa num dia X. Ótimo. O senhor mudou-se para cá há pouco tempo, não é?
— É verdade, mas não sei se vamos ficar — respondeu Tommy.
— Não gosta daqui? Uma casa tão agradável, e o jardim ficará uma beleza se suprimirmos algumas árvores supérfluas e alguns arbustos que pelo jeito não vão florir mais. Não compreendo a sua vontade de mudar.
— Há muitas lembranças desagradáveis do passado nesta casa.
— Que importância pode ter o passado?
perguntou Mr. Crispin.
— Nenhuma, poderíamos pensar. Mas é só falar nele que as pessoas se tornam vivas e reais novamente. O senhor está realmente disposto a trabalhar no jardim?
— Como não! A jardinagem é o meu hobby favorito.
— Uma tal de Miss Mullins esteve aqui ontem.
— Miss Mullins? Miss Mullins? Trabalha como jardineira?
— Parece que sim. Foi uma velhinha chamada Mrs. Griffin quem a indicou.
— O senhor a contratou?
— Não ficou nada resolvido — disse Tommy. — Por falar nisso, temos um bom cão de guarda aqui, um Manchester terrier.
— Eles são ótimos vigias. Deve achar-se responsável por sua mulher e acompanhá-la a todos os lugares, não é verdade?
— Isso mesmo — disse Tommy. — Ele está preparado para defendê-la até a morte.
— São grandes cães, afetuosos e obstinados. E têm dentes muito aguçados, vou ter que tomar cuidado com ele.
— No momento, ele está lá em cima. Não há perigo.
— Miss Mullins — disse Mr. Crispin pensativo, — é interessante.
— Por quê?
— Bem, talvez eu a conheça com outro nome Diga-me, ela tem entre cinqüenta e sessenta anos?
— Sim, e um ar de uma típica habitante do campo.
— É ela mesmo. Tem parentes por aqui. Isaac poderia lhe falar sobre ela provavelmente. Soube que voltou há pouco tempo para cá. Tudo está combinando.
— O senhor deve saber muitas coisas a respeito deste lugar.
— Nem tanto assim. O velho Isaac sim, tinha uma ótima memória. Nesses clubes para gente idosa fala-se muito do passado embora se exagere multas vezes. O velho Isaac devia saber demais.
— É uma vergonha o que fizeram com o velho. Gostaria de acertar contas com quem o matou. Era uma ótima pessoa e nos ajudou muito. Venha, vamos continuar o passeio — disse Tommy.

XV
HANNIBAL E MR. CRISPIN EM SERVIÇO ATIVO

— PODE entrar — disse Tuppence ao ouvir Albert bater à porta do quarto.
— É aquela senhora que esteve aqui outro dia, Miss Mullins — disse Albert, enfiando a cabeça pela fresta. — Quer falar sobre o jardim; disse-lhe que a senhora estava de cama e talvez não a recebesse.
— Recebo sim, Albert.
— Ia-lhe trazer o café da manhã agora.
— Pois traga uma xícara para ela também. Dá para duas, não?
— O que faço com Hannibal? Não é melhor trancá-lo na cozinha?
— Não, ele não vai gostar nada da idéia. Prenda-o ali no banheiro.
Totalmente indignado, Hannibal permitiu de mau grado que Albert o empurrasse para o banheiro e fechasse a porta. Latiu seu protesto várias vezes.
— Pare com isso — gritou Tuppence. — Pare coin isso!
Hannibal obedeceu quanto aos latidos, mas deitou-se com o nariz na fresta da porta e começou a rosnar ameaçadoramente.
— Não queria incomodá-la, Mrs. Beresford — disse Miss Mullins entrando. — Mas pensei que a senhora gostaria de ver este livro sobre jardins. Há sugestões sobre o que plantar nesta época do ano. Veja só que arbustos bonitos... e dão-se bem nesse solo daqui, embora haja gente que diga o contrário. Oh, é muita delicadeza sua, vou aceitar uma xícara de café. Posso servi-la? É difícil para a senhora deitada aí. Será... — Miss Mullins olhou "para Albert que delicadamente trouxe-lhe uma cadeira.
— Está bem assim, Miss?
— Está ótimo. Parece que tocaram a campainha lá embaixo.
— Deve ser o leiteiro ou o quitandeiro — disse Albert. — Com licença.
Hannibal rosnou de noyo quando Albert fechou a porta.
— É o cachorro — explicou Tuppence. — Está muito zangado por não poder participar da festa, mas ele é muito barulhento.
— Quer açúcar, Mrs. Beresford?
— Só uma colher, não é preciso leite. Depois de encher a xícara com café e oferecê-la
a Tuppence, Miss Mullins tropeçou e caiu sobre a mesinha de cabeceira com uma exclamação de pena.
— Machucou-se? — perguntou Tuppence.
— Não, mas quebrei o seu vaso. Sou tão desajeitada. .. como fui quebrar este vaso tão lindo? O que a senhora não vai pensar de mim? Foi um acidente, asseguro-lhe.
— Naturalmente — disse Tuppence com bondade. — Deixe-me ver. Ora, podia ser pior. Quebrou-se ao meio, é fácil colá-lo outra vez. Nem vai aparecer.
— Estou tão encabulada — declarou Miss Mullins. — A senhora não deve estar se sentindo bem, eu não deveria ter vindo hoje, mas tive tanta vontade de lhe mostrar o livro...
Hannibal começou a latir novamente.
— Oh, o pobre cachorrinho — disse Miss Mullins. — Posso soltá-lo?
— É melhor não, não se pode confiar nele às vezes.
— Parece a campainha outra vez.
— £ o telefone. Pode deixar que Albert atenderá lá embaixo.
Mas foi Tommy quem atendeu.
— Alô — disse ele. — Sim, entendi. Um inimigo, decididamente um inimigo. Sim, nós já tomamos nossas precauções. Muito obrigado.
Desligou c telefone e olhou para Mr. Crispin.
— Era um aviso?
— Era — disse Tommy.
— É difícil saber quem é amigo ou inimigo, não é?
— E às vezes pode ser tarde demais quando descobrimos. Portal do Destino, Caverna da Tragédia — disse Tommy.
Mr. Crispin olhou-o surpreso.
— Desculpe-me, esta casa nos despertou o vício da poesia.
— É Flecker, não? Portões de Bagdá ou de Damasco?
— Venha, vamos subir. Tuppence não tem nada realmente, nem um resfriado, está só descansando.
— Levei café lá em cima — disse Albert reaparecendo, — com uma xícara extra para Miss Mul-lins. Ela está lá com um livro sobre jardinagem.
— Entendo — disse Tommy. — Parece que vai tudo bem. Onde está Hannibal?
— Fechei-o no banheiro. Fiz exatamente como o senhor mandou
Tommy subiu com Mr. Crispin atrás. Depois de bater à porta de Tuppence, entrou. Dentro do banheiro Hannibal deu um último latido de aviso e pulou sobre a porta, o trinco cedeu e ele investiu a todo vapor rosnando furiosamente para Miss Mullins.
— Meu Deus! — exclamou Tuppence.
— Boni menino esse Hannibal — disse Tommy para Mr. Crispin. — Reconhece o inimigo, não é?
— Deu-me uma dentada feia — disse Miss Mullins levantando-se com uma cara furiosa para Hannibal.
— Pela segunda vez, não foi? — perguntou Tommy. — Já a tinha expulsado daquela moita, não?
— Há quanto tempo não a via, Dodo minha querida — disse Mr. Crispin. — Desculpe-me, Miss Mullins, não estou atualizado. É seu nome de casada ou virou Miss Mullins agora?
Ela ergueu-se e olhou para Tuppence, Tommy e Mr. Crispin.
— Pensei que o seu nome fosse Dodo. Acho que vamos embora agora, querida. Prazer em conhecê-la Mrs. Beresford. Ouça um conselho de amigo: Não beba este café.
— Deixe-me ajudá-la — disse Miss Mullins adiantando-se. No mesmo instante Mr. Crispin colocou-se entre ela e Tuppence.
— Nada disso, Dodo minha querida. Eu não faria isso — disse ele. — A xícara pertence à casa e, sabe, será uma boa idéia fazer uma análise química de seu conteúdo. É tão fácil colocar veneno numa xícara e oferecê-la a uma inválida, não é? Você trouxe uma dose escondida, não foi?
Hannibal estava ansioso para expulsar Miss Mullins do quarto.
— Ele quer levá-la até a porta — disse Tommy. — Faz muita questão disso. Adora morder as pessoas quando se despedem. Ah, Albert, você estava aí fora. Viu o que aconteceu?
— Vi, sim senhor. Observei pelo buraco da fechadura. Ela pôs alguma coisa na xícara da patroa. Com muita habilidade, parecia um mágico, mas eu a vi.
— Não sei do que está falando — disse Miss Mullins. — Preciso ir agora, tenho um encontro importante.
E despencou-se pelas escadas com Hannibal em seus calcanhares, seguido por Crispin com a sua cara tranqüila de sempre.
— Espero que ela corra bastante, senão Hannibal a pega — disse Tuppence. — Que magnífico cão de guarda ele é!
— Aquele era Mr. Crispin, Tuppence. Chegou em boa hora, não foi? Devia estar esperando para ver o que acontecia. Cuidado com a xícara e o café. Vou arranjar um vidro para guardá-lo. Vai ser analisado e descobriremos o que está aí deniro. Agora ponha seu quimono mais bonito e venha tomar um drinque comigo lá embaixo.
— Provavelmente nunca descobriremos o que estava por trás disso tudo — disse Tuppence sacudindo a cabeça desolada e indo até a lareira.
— Quer colocar mais uma acha? — disse Tommy. — Deixe-me fazer isto. Não deve se mover muito.
— Meu braço está bom, Tommy. Não o quebrei nem nada, foi só um arranhão feio.
— Foi um ferimento a bala, Tuppence. Pode vangloriar-se de ter sido ferida numa guerra.
— Que coisa, parecia mesmo uma guerra.
— Não se aborreça, acertamos afinal as contas com Miss Mullins.
— Hannibal foi genial, não?
— Sim, ele nos deu um aviso muito claro — disse Tommy. — Ele a farejou na moita. Tem um faro excelente.
— Você não pode dizer o mesmo de mim. Achei que ela era uma resposta às minhas preces, esqueci até que esperávamos alguém recomendado pelo tal Solomon. O que Mr. Crispin lhe contou? É muito provável que seu nome nem seja Mr. Crispin.
— É, não deve ser.
— Ele veio aqui para investigar? Para mim, é gente demais.
— Penso que foi mandado para garantir a sua segurança.
— E a sua também, suponho. Onde está ele agora?
— Deve estar às voltas com Miss Mullins.
— Sabe, essa confusão toda me deu uma fome terrível. Adoraria comer caranguejo ensopado com um pouquinho de curry.
— Ah, então você está bem novamente. Fico satisfeito em vê-la com esse apetite todo.
— Então você já sabia que foi Miss Mullins, vestida de homem, quem se escondeu naquela moita e atirou em nós?
— E deduzimos que tentaria outra vez, aproveitando-se do fato de você estar fraca e de cama.
— É, lá veio ela cheia de solicitude feminina.
— E nossos preparativos funcionaram. Lá estava Albert, em guarda permanente, observando tudo o que ela fazia.
— E trazendo convenientemente uma bandeja com café e duas xícaras — disse Tuppence.
— Você viu Mullins, ou Dodo, como Crispin a chamou, colocar alguma coisa em seu café?
— Não, Tommy, confesso que não vi. Ela fingiu tropeçar e quebrou aquele vaso distraindo a minha atenção. Nem vi nada.
— Mas Albert viu. Estava na porta de atalaia e viu tudo.
— Foi ótima idéia deixar Hannibal preso no banheiro com a porta fechada só com o trinco. Hannibal sabe abri-lo quando quer, com o ímpeto de um tigre de bengala.
— É uma boa comparação.
— E agora Mr. Crispin, ou qualquer que seja o seu nome, deve estar concluindo sua investigação, embora eu não veja qual a ligação que Miss Mullins possa ter com Mary Jordan ou com um camarada perigoso como Jonathan Kane, que nem existe mais.
— Mas pode haver uma edição nova dele. Há por aí muitos jovens amantes de violência a qualquer preço e muitos superfascistas que sentem saudades de Hitler e seus companheiros.
— Acabei de reler O Conde Hannibal de Stanley Weyman, era de Alexander.
— O que achou?
— Bem, estava pensando nessas ondas de violência que se repetem. Imagine todas aquelas pobres crianças indo para as Cruzadas, cheias de alegria e vaidosas por terem sido escolhidas pelo Senhor para libertar Jerusalém, pensando que o mar se abriria para deixá-las passar, como a Moisés. E hoje em dia todos esses jovens que vão parar na justiça, porque assaltaram algum pobre velho para roubar-lhe seus vinténs. E o massacre de São Bartolomeu. Li num jornal que uma Universidade bem conhecida recebeu esses novos fascistas. Ah, creio que ninguém nos esclarecerá nada. Será que Mr. Crispin ainda vai achar mais alguma coisa por aqui? Vai voltar para tomar conta de mim e de você, Tommy?
— Não preciso de ninguém para tomar conta de mim.
— Ora, deixe de ser arrogante.
— Ele deverá vir despedir-se, pois é um rapaz muito educado, e, além disso, deve querer saber se você já está boa.
— Ah, o médico já deu um jeito nisso — disse Tuppence.
— Sabe que Mr. Crispin é um ótimo jardineiro? Ele trabalhou realmente na casa de Mr. Solomon, que era seu amigo, por algum tempo. E assim pode dar referências perfeitamente legítimas.
— É preciso pensar em tudo, não é?
A campainha da frente tocou e Hannibal pulou como um tigre para atacar qualquer intruso que invadisse o recinto sob sua guarda. Tommy voltou com um envelope.
— É para nós dois — disse Tommy abrindo-o. — Bem, isto abre novas perspectivas para o futuro.
— O que é?
— Um convite de Mr. Robinson para jantarmos com ele daqui a duas semanas, quando você tiver se recuperado de todo. O jantar é em sua casa de campo, em Sussex.
— Acha que ele nos contará alguma coisa?
— É possível.
— Vou levar a minha lista. Já sei até de cor: "A Flecha Negra, Alexander Parkinson. Oxford e Cambridge, Grin-hen-lo, O estômago de Matilde, Caim e Abel, Bem-amado..."
— Chega, Tuppence. Isso parece coisa de louco.
— É mesmo. Será que haverá alguém além de Mr. Robinson?
— Talvez o Coronel Pikeaway.
— Neste caso vou levar minhas pastilhas para tosse, não é? Tenho muita vontade de conhecer Mr. Robinson. Não acredito que seja tão grande e gordo como dizem. Oh, Tommy, não é na outra semana que deverá chegar Débora com as crianças?
— Não, felizmente isso já é agora, na próxima.
— Ainda bem, então está tudo certo! — disse Tuppence.

XVI
OS PÁSSAROS VOAM PARA O SUL

— O CARRO chegou?
Tuppence foi à varanda ver se algum carro tinha aparecido na curva da estrada; esperava com ansiedade a chegada de sua filha Débora com as três crianças. Albert apareceu na porta lateral.
— Não eram eles, não, senhora. Foi o quitandeiro. Os ovos subiram de novo. Não voto mais no Governo, vou dar uma chance aos liberais!
— Quer que eu vá preparar a sobremesa de morangos para esta noite?
— Não é necessário, senhora. Já a vi preparar o pavê muitas vezes e aprendi a fazê-lo.
— Ótimo, está se tornando um grande mestre-cuca, Albert. É a sobremesa favorita de Janet.
— E fiz também pasteizinhos de geléia para o menino Andrew.
— Os quartos estão prontos, Albert?
— Estão, Mrs. Shackleberry deu uma boa ajuda hoje de manhã. E no banheiro de Miss Débora coloquei o sabonete Guerlain de sândalo. É o sabonete predileto dela.
Tuppence suspirou aliviada ao saber que estava tudo em ordem para a chegada de sua família. Ouviu-se uma buzina e alguns segundos depois um carro dirigido por Tommy entrou, depositando os hóspedes nos degraus da varanda: Débora, ainda uma bonita mulher aos quarenta anos, Andrew com 15, Janet de onze e Rosalie de sete.
— Olá, vovó — gritou Andrew.
— Onde está Hannibal? — perguntou Janet?
— Quero lanchar — reclamou Rosalie, com vontade de chorar.
Houve cumprimentos gerais enquanto Albert se encarregava dos tesouros da família que incluíam um aquário com peixinhos dourados e um porquinho-da-índia numa gaiola.
— Então esta é a sua casa nova — disse Débora abraçando a mãe. — Gosto dela, gosto muito dela mesmo.
— Vamos dar uma volta no jardim? — convidou Janet.
— Depois do chá — disse Tommy.
— Quero lanchar — repetiu Rosalie, com medo de que se esquecessem daquela necessidade básica.
O chá foi servido na sala de jantar para a satisfação de todos.
— O que andou acontecendo com você, mãe? — perguntou Débora depois, quando estavam todos ao ar livre, as crianças correndo a explorar os prazeres do jardim, acompanhadas de Tommy e Hannibal, que também corria participando da alegria geral.
Débora, achando que a mãe precisava de uma mão firme e de uma proteção segura, perguntou:
— O que andou fazendo, mãe?
— Ah, agora já estamos confortavelmente instalados.
— Você andou fazendo das suas, não é verdade, papai?
Tommy voltava com Rosalie às costas, enquanto Janet explorava o novo território e Andrew passeava tentando assumir um ar adulto.
— Andou fazendo alguma — Débora voltou ao ataque. — Você esteve novamente bancando a Mrs. Blenkensop, ninguém consegue segurá-la, não é? Derek soube de coisas e me escreveu contando — disse acentuando o nome do irmão.
— Como foi que Derek soube? — perguntou Tuppence?
— Derek sempre descobre tudo. E você também, papai — Débora virou-se para o pai. — Você também está nesta. Pensei que tinham vindo para cá descansar, viver uma vida calma e divertir-se afinal.
— É, a idéia era esta — disse Tommy — mas o destino traçou outros planos.
— Portal do Destino — disse Tuppence, — Caverna da Tragédia, O Forte do Medo.
— Flecker — identificou Andrew, um erudito em formação. Gostava de poesia e tinha planos de tornar-se poeta. Prosseguiu:
— São quatro as portas de Damasco, Portal do Destino, A Entrada do Deserto, Caverna da Tragédia.

O Forte do Medo.
Não passa, Caravana, ou passa sem cantar. Você já ouviu o silêncio dos pássaros mortos. Ou alguma coisa que chore como um pássaro?" Como uma ilustração singularmente adequada, pássaros voaram do telhado sobre suas cabeças.
— Que pássaros são esses, vovó? — perguntou Janet.
— Andorinhas indo para o sul — disse Tuppence.
— Elas não vão voltar mais?
— Voltarão, sim, no próximo verão.
— E passarão sob o Portal do Destino. — disse Andrew todo satisfeito.
— Esta casa já se chamou O Ninho das Andorinhas — disse Tuppence.
— Mas você vai embora, não é? Papai escreveu que estava procurando outra casa.
— Por quê? — perguntou Janet.
— Vou lhe dar algumas razões — disse Tommy tirando do bolso uma folha de papel e lendo alto: — A Flecha Negra, Alexander Parkinson. Oxford e Cambridge, Grin-hen-Lo.. .
— Nada disso, Tommy! Esta lista é minha, você não tem nada a ver com ela.
— O que é isto? — perguntou Janet.
— Parece uma lista de indícios de uma história de detetives — disse Andrew, que em seus momentos menos poéticos era fã desse gênero de literatura.
— É isto mesmo, e é esta a razão pela qual estamos procurando outra casa.
— Mas eu gosto desta aqui — reclamou, Janet. — É linda.
— É uma casa muito bonita, e tem biscoitos de chocolate — disse Rosalie lembrando-se do lanche.
— Gosto dela, — disse Andrew com a entonação de um autocrático Czar de Todas as Rússias.
— Por que não gosta dela, vovó? — perguntou Janet.
— Mas eu gosto sim — disse Tuppence com um entusiasmo súbito. — Quero morar aqui, para sempre.
— Portal do Destino — disse Andrew, — É um nome fascinante.
— Poderíamos batizá-la novamente de O Ninho das Andorinhas — disse Tuppence.
— Por que não escrevem uma história com aquela lista? — sugeriu Andrew.
— É muito complicada — disse Débora. — Quem iria ler um livro desses?
— Você ficaria surpresa se visse o que as pessoas são capazes de ler e com prazer! — disse Tom-my, e olhou para Tuppence.
— Posso comprar tinta amanhã? — perguntou Andrew. — Se Albert me desse uma mãozinha, podíamos pintar o novo nome no portão.
— E no próximo verão as andorinhas saberiam que podiam voltar! — disse Janet.
— Não é uma má idéia — concluiu Débora.
— "La Reine le veult" — disse Tommy fazendo uma reverência para sua filha, que considerava seu privilégio, na família, dar o consentimento real.

XVII
ÚLTIMAS PALAVRAS: JANTAR COM MR. ROBINSON

— O JANTAR estava uma delícia — disse Tup-pence aos seus companheiros de refeição. Tinham deixado a mesa e estavam agora na biblioteca, onde o café era servido.
Mr. Robinson, tão pálido e até maior do que Tuppence o imaginara, sorria atrás de um belíssimo bule George II. Ao seu lado estava Mr. Crispin, que agora parecia se chamar Horsham. O Coronel Pike-away sentou-se ao lado de Tommy que lhe ofereceu um dos seus próprios cigarros.
— Eu nunca fumo depois do jantar — respondeu o Coronel com uma expressão de surpresa.
Miss Collodon, que Tuppence achara um tanto alarmante, disse:
— É verdade, Coronel? Que coisa interessante! — E virando-se para Tuppence: — Como o seu cachorro é bem comportado, Mrs. Beresford!
Hannibal, deitado sob a mesa com a cabeça nos pés de Tuppence, olhou-a com sua enganadora expressão angelical e balançou a cauda delicadamente.
— Pensei que fosse um cachorro bravo — disse Mr. Robinson com um olhar maroto para Tuppence.
— Quando ele é convidado para uma festa, tem maneiras muito educadas — disse Tuppence. — Adora isso, acha que está sendo prestigiado e comporta-se de acordo com a ocasião. — Virou-se para Mr. Robinson. — Foi realmente uma delicadeza muito grande a sua, convidá-lo e oferecer-lhe um prato de fígado. Ele adora fígado.
— Todos os cães adoram fígado — disse Mr. Robinson e olhou para Crispin-Horsham. — Mas se eu fosse à casa de Mr. e Mrs. Beresford corria o risco de ser recebido a dentadas, não?
— Hannibal leva muito a sério os seus deveres — disse Mr. Crispin. — É um cão de guarda e não se esquece disto.
— E como oficial da Segurança, você compreende bem os seus sentimentos, não é? — disse Mr. Robinson com um ar brincalhão.
— A senhora e seu marido fizeram um trabalho notável, estamos muito gratos. O Coronel Pikeaway contou-me que foi a senhora quem começou tudo.
— Simplesmente aconteceu — disse Tuppence encabulada. — Fiquei curiosa, quis descobrir o que acontecera e. . .
— Eu sei. E agora a senhora também deve sentir curiosidade em saber o que estava por trás daquilo tudo, não é?
Tuppence ficou ainda mais sem jeito e suas palavras tornaram-se um pouco incoerentes:
— Oh, naturalmente. Mas sei que é segredo e não devemos fazer perguntas. Compreendo perfeitamente, o senhor não poderia responder.
— Ao contrário, sou eu quem tenho uma pergunta a fazer à senhora, e gostaria que satisfizesse minha curiosidade.
Tuppence olhou-o espantada.
— Não posso imaginar o que possa ser.
— A senhora tem aí uma lista... foi o que seu marido me disse. Sei que é propriedade sua, mas sinto-me muito curioso.
Seus olhos brilhavam. Tuppence chegou à conclusão de que gostava muito de Mr. Robinson. Ficou silenciosa por uns momentos, tossiu e remexeu em sua bolsa de toalete.
— É um tanto tola, parece até meio louca — disse ela.
— Louco, louco, o mundo inteiro é louco — disse Mr. Robinson inesperadamente. — Assim falou Hans Sachs sentado sob uma árvore em Os Mestres Cantores, a minha ópera favorita. E como ele estava certo!
Pegou a folha de papel que ela lhe estendia
— Pode ler alto se quiser, não me importo — disse Tuppence.
Mr. Robinson deu uma olhada e entregou-a a Crispin.
— Leia você, Angus. Tem uma voz mais clara do que a minha.
Mr. Crispin pegou o papel e leu em sua agradável voz de tenor: A Flecha Negra Alexander Parkinson Mary Jordan não morreu naturalmente. Oxford e Cambridge. Grin-hen-Lo. Quiosque.
Estômago da Matilde. Caim e Abel. Bem-amado.
Parou, olhando para o dono da casa que se virou para Tuppence:
— Minha cara, quero cumprimentá-la, tem uma mente fora do comum. É notável como, partindo desta lista, pôde chegar às suas descobertas finais.
— Tommy contribuiu muito — disse Tuppence.
— Foi você quem me empurrou — disse Tommy.
— Foi uma bela investigação — disse o Coronel Pikeaway.
— A data do recenseamento esclareceu muitas coisas — disse Tommy.
— Vocês são realmente um casal bem dotado — disse Mr Robinson. Olhou para Tuppence e sorriu. — Deduzo que embora não queiram ser indiscretos, querem saber o que aconteceu.
— Oh! — exclamou Tuppence. — Então vai nos contar? Que maravilha!
— Uma parte começa com os Parkinson, como deduziram — começou Mr. Robinson. — Isto é, num passado remoto. Minha bisavó era uma Parkinson. Através dela é que sei de alguns detalhes.
"A moça. conhecida como Mary Jordan trabalhava para nós. Tinha conhecidos na Marinha. Sua mãe era austríaca e ela falava alemão fluentemente. Como seu marido sabe, há certos documentos que dentro em breve serão divulgados. A tendência atual do pensamento político é que o sigilo não deve ser preservado indefinidamente. Há coisas em nossos arquivos que devem ser divulgadas por fazerem parte da historia do país.
"Nos próximos dois anos deverão ser publicados uns três ou quatro volumes com documentos provando a autenticidade de certos fatos. Os acontecimentos que envolveram O Ninho das Andorinhas certamente serão incluídos. Os segredos transpiram — isso sempre acontece em tempos de guerra ou na época que antecede a elas. Havia políticos de grande prestígio e alguns jornalistas de renome que usaram sua influência erradamente.
"Já antes da primeira guerra, homens tramavam contra seu próprio país. Depois vieram os jovens universitários, que eram partidários fervorosos e algumas vezes membros ativos do Partido Comunista, sem que ninguém soubesse. E muito mais perigoso ainda, o fascismo entrou em moda e progra-mou uma eventual união com Hitler, o Amante da Paz, terminando assim rapidamente em guerra.
"E assim por diante. Por trás dos bastidores a ação é contínua. Já aconteceu antes e, sem dúvida, acontecerá sempre. Uma quinta-coluna ativa e perigosa, chefiada por homens que acreditam nela, por homens que buscam o ganho financeiro e por outros que querem o poder. Deve ser uma leitura fascinante.
"Com que freqüência as mesmas frases foram ditas: "O velho B.? Um traidor? Loucura, ele jamais faria isso, é de confiança absoluta!" A velha história, sempre a mesma coisa. No mundo das finanças, nas forças armadas, na política, sempre há aquele homem honesto que inspira confiança e amizade, completamente fora de qualquer suspeita. É esse o homem adequado para esse serviço sujo, o homem que venderia uma mina de ouro dentro do Hotel Ritz.
"A cidadezinha onde mora, Mrs. Beresford, tornou-se o quartel-general de um certo grupo antes da Primeira Guerra Mundial. Era uma cidadezinha tão agradável, tão típica do velho mundo, com tanta gente boa morando ali, todos patriotas colaborando no esforço de guerra.
"Um bom porto militar, um simpático e jovem Comandante da Marinha, de boa família, o pai fora almirante, eis alguns ingredientes.
"Um bom médico clinicava ali, muito amado por seus pacientes que confiavam todas as suas preocupações a ele, um clínico geral. Ninguém sabia que tivera um treinamento especial em guerra química — gases venenosos.
"E mais tarde, antes da segunda guerra, Mr. Kane, deveria ser Caim o seu nome, morou numa linda cabana de telhado de palha perto do cais. Tinha seu próprio credo político, nada de fascismo, não senhor. Só Paz Antes de Tudo, para salvar o mundo, um credo que ganhava adeptos rapidamente no Continente e em numerosos países do além-mar.
"Não é isso realmente o que quer saber, Mrs. Beresford, mas é o pano de fundo, um plano cuidadosamente tramado.
"E Mary Jordan foi mandada para lá, para descobrir, se possível, o que estava acontecendo. Ela nasceu antes de mim, mas senti admiração pelo seu trabalho quando ouvi a sua história e gostaria de tê-la conhecido. Obviamente ela tinha caráter e personalidade.
"Mary era seu nome de batismo, embora fosse conhecida por Mollie. Foi uma tragédia ter morrido tão cedo."
Mr. Robinson fez uma pausa.
Tuppence estivera olhando um retrato numa parede que lhe parecia familiar. Era um esboço de uma cabeça de menino.
— Mas aquele não é...
— É sim — disse Mr. Robinson. — É Alexander Parkinson. Tinha onze anos na época. Era o neto de uma tia-avó minha. Foi assim que Mary foi trabalhar na casa dos Parkinson como governante das crianças. Parecia um posto de observação seguro. Ninguém previu o que iria acontecer.
— Foi algum dos Parkinson? — perguntou Tuppence.
— Não, minha cara. Os Parkinson nunca estiveram envolvidos de nenhuma maneira. Mas havia outras pessoas, hóspedes e amigos, na casa aquela noite. Foi o seu Thomas quem descobriu que na noite do envenenamento geral houve aquele recenseamento. Os nomes de todas as pessoas presentes constam na lista juntamente com os nomes das pessoas da família. Um dos nomes era significativo. A filha do médico local, sobre quem lhes falei, veio visitar seu pai com dois amigos e pediu aos Parkinson para hospedá-la por uma noite. Os amigos nada tinham de errado, mas seu pai e ela estavam profundamente envolvidos nos acontecimentos. Foi ela quem, a pretexto de ajudar aos Parkinson no jardim algumas semanas antes, havia plantado pés de dedaleira jun-to aos espinafres. Foi ela quem, naquele dia fatal, colhera os legumes para o jantar. A intoxicação dos participantes do jantar foi encarada como um desses lamentáveis acidentes que acontecem algumas vezes. Sobre a morte de Mary, o médico testemunhou que já tivera conhecimento de caso semelhante. Este testemunho levou ao veredicto de morte acidental. O fato de que um cálice caíra ao chão e se espatifara no jantar não foi mencionado.
"E essa história poderia ter-se repetido, Mrs. Beresford. Atiraram na senhora e, mais tarde, uma mulher dizendo chamar-se Miss Mullins tentou envenenar o seu café. Parece que ela é neta de uma sobrinha do médico criminoso e antes da segunda guerra foi discípula de Jonathan Kane. Foi por isso que Horsham a conhecia. Já sabemos que foi ela quem matou o velho Isaac. Mas o seu cachorro não a suportou e agiu prontamente.
"Temos que tratar agora de um personagem ainda mais sinistro. O médico bondoso, e jovial que era idolatrado por todos, mas que parece ter sido o responsável pela morte de Mary Jordan. Tinha ampios interesses científicos, era perito em venenos e realizou um trabalho pioneiro em bacteriologia. Foram precisos sessenta anos para que esses fatos fossem conhecidos. Só Alexander Parkinson, um esco-lar naquela altura, teve alguma intuição da verdade.
— Mary Jordan não morreu naturalmente — disse Tuppence baixinho. — Deve ter sido um de nós. Foi o médico quem descobriu o que Mary andava fazendo?
— Não, o médico nem suspeitara. Mas alguém o fez. Até então ela tivera êxito total. O Comandante da Marinha acreditara em seu papel como tinha sido planejado. Passara a ela planos e informações cuidadosamente falsificados, de pouca im-portânica, que ela entregava a pessoas em Londres seguindo instruções detalhadas. A estátua de Peter Pan em Kensington Garden era um dos lugares de encontro. Sabemos até quais os funcionários e as embaixadas que estavam envolvidas... Mas isto já é passado, Mrs. Beresford. Um passado muito remoto.
O Coronel Pikeawty tossiu e prosseguiu:
— Mas a história se repete, Mrs. Beresford. Mais cedo ou mais tarde todos aprendem isto. Um núcleo formou-se recentemente em Hollowquay. Pessoas com conhecimentos dos fatos puseram a roda em movimento. Talvez Miss Mullins tenha voltado por causa disto. Certos esconderijos foram usados novamente, houve encontros secretos. Dinheiro começou a aparecer. Foi para descobrir de onde vinha e para onde ia que chamaram Mr. Robinson. Foi então que Mr. Beresford apareceu com informações que nos interessaram. Tudo combinava com o que já suspeitávamos. Um pano de fundo era preparado. Uma figura importante na política do país preparava-se para dirigir o movimento. Um homem de boa reputação, conseguindo cada dia mais adeptos e seguidores fiéis. O golpe em ação novamente. Um homem de grande integridade, amante da paz, não é fascismo, não. Só parece fascismo. Paz para todos e lucros para os que cooperarem.
— E isto ainda prossegue? — perguntou Tup-pence de olhos arregalados.
— Bem, agora já sabemos tudo que era preciso saber. E em parte devido a sua contribuição. O conteúdo do cavalo de balanço foi muito esclarecedor.
— Matilde! — exclamou Tuppence. — Fico tão satisfeita. Mal poderia imaginar, imagine, a barriga de Matilde!
— Os cavalos são uns animais maravilhosos — disse o Coronel Pikeaway. — Nunca se pode prever o que vão fazer, isto desde o Cavalo de Tróia.
— Mas se isto não acabou — disse Tuppence. — E com as crianças lá...
— Não se preocupe — disse Mr. Crispin. — Aquela área da Inglaterra está limpa. O ninho das vespas foi derrubado. Já se pode viver lá com tranqüilidade. Temos razões para acreditar que transferiram as operações para a vizinhança de Bury St. Edmonds. E estaremos de olho nos senhores, não se preocupem.
Tuppence deu um suspiro de alívio.
— Obrigada por me dizer isto. Sabe, minha Débora e suas três crianças volta e meia virão passar temporadas conosco.
— Não precisa se preocupar — disse Mr. Robinson. — Mas os senhores não adotaram aquela criança do caso do M ou N, a menina do livro de versos?
— Betty? — perguntou Tuppence. — Nós a adotamos, sim. Ela saiu-se muito bem na universidade e agora está na África fazendo pesquisas sobre o modo de vida dos nativos. Há muitos jovens interessados nisso. Ela é um amor, e está muito feliz.
Mr. Robinson pigarreou e levantou-se.
— Quero propor um brinde a Mr. e Mrs. Beresford, em reconhecimento ao serviço que prestaram ao país.
Foi ouvido com entusiasmo.
— Se me permitem, quero propor mais um brinde — disse Mr. Robinson. — Para Hannibal.
— Veja Hannibal — disse Tuppence alisando-lhe a cabeça. — Beberam à sua saúde. É uma distinção tão grande quanto ser armado cavalheiro ou receber uma medalha. Eu estive lendo O Conde Hannibal, de Stanley Weyman, um dia destes.
— Lembro-me dele, li-o quando menino — disse Mr. Robinson. — "Quem tocar meu irmão, toca Tavanne", não era assim? Pikeaway, concorda comigo? Venha Hannibal, re me permite vou tocar-lhe o ombro.
Balançando gentilmente a cauda, Hannibal andou em sua direção e recebeu um tapinha no dorso.
— Por meio deste, faço-o conde deste reino.
— Conde Hannibal, que beleza! — exclamou Tuppence. — Agora é que ele vai ficar mesmo orgulhoso!



A teia da aranha

Agatha Christie


Tradução de Henrique Guerra
















Como foi que o corpo do desagradável Oliver Costello apareceu na sala da casa de campo do distinto casal Henry e Clarissa Hailsham-Brown? A chuvosa tarde de março decorria tranquila, e nenhuma das pessoas lá presentes parecia ter interesse no crime. Acreditando tratar- se de um acidente, Clarissa decide esconder o cadáver. Está às voltas com a penosa tarefa quando surge o inspetor Lord, um diligente policial que recebeu um telefonema denunciando o homicídio.
Este é o romance - até hoje inédito no Brasil - que o escritor Charles Osborne adaptou a partir da peça de comédia e mistério homônimo de Agatha Christie, de 1954. Bem-humorado, com um enredo repleto de truques e reviravoltas, A teia da aranha fará a delícia dos fãs da Rainha do Crime.




























Títulos da Coleção Agatha Christie Pocket:
É fácil matar Mistério no Caribe
O misterioso Senhor Quiri
Nêmesis
A noite das bruxas
Poirot sempre espera e outras histórias
Por que não pediram a Evans?
Um passe de mágica
A teia da aranha
Testemunha da acusação e outras peças

Agatha Christie

























A TEIA DA ARANHA

Charles Osborne

Álibi, a primeira peça de Agatha Christie a ser encenada, com estreia no Prince of Wales Theatre, em Londres, em maio de 1928, não foi escrita pela própria Christie. Consistia em uma adaptação de Michael Morton da novela policial de Agatha O assassinato de Roger Ackroyd, de 1926, com Charles Laughton no papel de Hercule Poirot. Christie não apreciou a peça nem a atuação de Laughton. Devido, em grande parte, à sua insatisfação com Álibi, Agatha decidiu levar Poirot ao palco numa peça escrita por ela mesma. A peça resultante, Café preto, estreou em 1930 e ficou em cartaz por vários meses no St. Martin's Theatre, em Londres.
Sete anos se passaram até Agatha Christie escrever a peça seguinte, Akhnaton. Não era um mistério, mas sim a história do antigo faraó que tentou persuadir um Egito politeísta a se converter ao culto de um só deus, o deus-sol Aton. Akhnaton não chegou aos palcos e ficou esquecida. Trinta e cinco anos depois, durante uma limpeza da casa ao fim do inverno, a autora reencontrou o texto e o publicou.
Embora em 1928 não tivesse gostado de Álibi, ao longo dos anos Agatha Christie permitiu que mais cinco de suas obras fossem adaptadas ao teatro por outras mãos. A primeira dessas foi Love From a Stranger (1936), adaptada do conto O chalé do rouxinol por Frank Vosper, galã do teatro nos anos 1920 e 1930, que interpretou o papel principal. A novela de 1932 com Hercule Poirot, A casa do penhasco, tornou-se peça homônima em 1940, adaptada por Arnold Ridley, conhecido pela autoria de The Ghost Train, peça de sucesso na época. Com Assassinato na casa do pastor, dramatização de 1949 por Moie Charles e Barbara Toy da novela homônima de 1940, outra famosa personagem de Agatha Christie, Miss Marple, estreou nos palcos.
Desiludida com uma ou duas dessas adaptações ao teatro por outros roteiristas, em 1945 Agatha Christie começou ela mesma a adaptar ao teatro algumas de suas novelas já publicadas. O mistério O caso dos dez negrinhos (título mais tarde modificado, por razões óbvias, para Então não sobrou nenhum) virou espetáculo de muito sucesso tanto em Londres, em 1943, quanto em Nova York no ano seguinte.
A adaptação por Christie de Encontro marcado com a morte, novela policial publicada em 1928, foi encenada em 1945. Duas outras novelas posteriormente transformadas em peças pela autora foram Morte no Nilo (1937), encenada em 1945 com o título Assassinato no Nilo, e A mansão Hollow, publicada em 1946 e encenada em 1951. Essas três novelas tinham como protagonista Hercule Poirot, mas, ao adaptá-las ao teatro, Christie removeu Poirot. "Acostumei-me a ter Poirot em meus livros", comentou ela sobre uma dessas peças, "e assim ele naturalmente entrou neste, porém acabou meio deslocado. Ele cumpriu bem seu papel, mas fiquei pensando se o livro não seria melhor sem a sua presença. Assim, ao escrever a peça, eliminei Poirot."
Seguindo A mansão Hollow, Agatha Christie verteu não uma novela, mas o conto Três ratos cegos, que havia sido adaptado da rádio-novela escrita por ela em 1947 em homenagem a uma de suas maiores fãs, a Rainha Maria, viúva do rei britânico George V. A rainha, naquele ano em que celebrava seu octogésimo aniversário, havia encarregado a BBC da produção de uma rádio-novela de Agatha Christie, e Três ratos cegos foi o resultado. Para a adaptação ao teatro, escolheu-se um novo título, pinçado de Hamlet, de Shakespeare. Durante a performance que Hamlet promove perante Cláudio e Gertrudes, o rei indaga "Como se chama a peça?", ao que Hamlet responde "A ratoeira". A ratoeira estreou em Londres em novembro de 1952, e seu produtor, Peter Saunders, disse a Christie que esperava uma temporada duradoura, de um ano ou até mesmo de quatorze meses. "Não vai durar tanto tempo", retorquiu a autora da peça. "No máximo oito meses". Cinquenta e seis anos depois, A ratoeira permanece em cartaz - e pode ser que permaneça para sempre.
Poucas semanas depois da estreia de A ratoeira, Saunders sugeriu a Agatha Christie a adaptação ao palco de outro de seus contos, Testemunha da acusação. Imaginando ser uma tarefa muito difícil, ela recomendou a Saunders que tentasse ele mesmo. Dito e feito: em seu devido tempo, ele lhe apresentou o primeiro rascunho da peça. Após a leitura, Christie disse-lhe que não considerava a adaptação boa o suficiente, mas que sem dúvida lhe mostrara o caminho. Seis semanas depois, estava pronta a peça que mais tarde Christie consideraria uma de suas melhores. Na noite de abertura, em outubro de 1953, no Winter Garden Theater, em Drury Lane, a plateia ficou enfeitiçada pela engenhosi- dade do final surpreendente. Testemunha da acusação foi encenada em 468 espetáculos, e em Nova York desfrutou de temporada ainda mais longa: 646 espetáculos.
Pouco depois do lançamento de Testemunha da acusação, Agatha Christie concordou em escrever uma peça para a estrela britânica Margaret Lockwood, que desejava um papel para explorar seu talento para a comédia. O resultado foi uma deliciosa comédia de mistério, A teia da aranha, que lançou mão do uso satírico daquele velho estratagema rangedor, a passagem secreta. Em dezembro de 1954, a peça estreou no Savoy Theatre, onde permaneceu em cartaz por 774 espetáculos, rivalizando com As ratoeiras Testemunha da acusação. Agatha Christie tinha três sucessos teatrais simultâneos em cartaz em Londres.
Para o próximo empreendimento teatral, Christie adaptou, em colaboração com Gerald Verner, Hora Zero, novela policial escrita dez anos antes. Estreando no St. James's Theatre em setembro de 1956, rendeu uma temporada respeitável de seis meses. A autora, então perto dos setenta anos, continuava a produzir pelo menos um romance policial e vários contos por ano, além de trabalhar em sua autobiografia. Ela escreveria ainda cinco peças, todas - com exceção de uma - compostas especialmente para o teatro e não adaptadas de seus livros. A exceção foi Retorno ao assassinato, versão teatral do mistério de 1943 com Hercule Poirot, Os cinco porquinhos. Com Hercule Poirot outra vez suprimido da trama, o investigador passou a ser um advogado jovem e atraente. A peça estreou no Duchess Theatre em março de 1960, mas foi cancelada após 31 espetáculos.
Suas quatro peças remanescentes, todos escritas originalmente para o teatro, foram Veredito, O visitante inesperado (ambas estrearam em 1958), Rule of Three (1962) e Fiddlers Three (1972). Rule of Three consiste na verdade em três peças de um ato, não interconectadas; a última delas, The Patient, é um excelente thriller, com uma fala final insuperável. Entretanto, o público ficou longe desse espetáculo de três peças separadas, e Rule of Three encerrou atividades no Duchess Theatre após dez semanas em cartaz.
O derradeiro trabalho de Christie no teatro, Fiddlers Three, nem ao menos foi encenado em Londres. Excursionou pelo interior da Inglaterra em 1971 com o título Fiddlers Five, saiu de cartaz para ser reescrita e foi reencenada no Yvonne Arnaud Theatre, Guildford, em agosto de 1972. Depois de algumas semanas bem-sucedidas de excursão, não conseguiu uma sala adequada em Londres e encerrou a excursão pelo interior.
Veredito, que estreou no London's Strand Theatre em maio de 1958, é incomum porque, embora aconteça um assassinato na peça, não há mistério intrínseco - o crime é cometido perante os olhos da plateia. Cancelada após um mês em cartaz, sua otimista autora comentou: "Estou contente, ao menos saiu uma boa crítica no The Times". De imediato começou a compor uma nova peça e a completou em quatro semanas. Tratava-se de O visitante inesperado, que, depois de uma semana em Bristol, mudou-se ao Duchess Theatre, em Londres, onde estreou em agosto de 1958 e teve uma temporada satisfatória de dezoito meses. Com seu diálogo cortante e eficiente e sua trama repleta de surpresas, apesar de econômica e não muito complexa, é uma das melhores peças teatrais de Agatha Christie. O entusiasmo das resenhas foi unânime, e hoje, mais de quarenta anos depois, ganhou novo sopro de vida em forma de novela.
Poucos meses antes de sua morte em 1976, Agatha Christie consentiu com a adaptação ao palco feita por Leslie Darbon de sua novela de 1950, Convite para um homicídio, protagonizada por Miss Marple. Quando a peça chegou aos palcos postumamente em 1977, a crítica do Financial Times previu que ficaria em cartaz tanto quanto A ratoeira, o que não aconteceu.
Em 1981, Leslie Darbon adaptou outra novela de Christie, Cartas na mesa, um mistério com Poirot publicado 45 anos antes. Seguindo o exemplo da autora, Darbon eliminou Poirot da lista das personagens. Até hoje, não houve nenhuma outra adaptação das novelas de Agatha Christie. Com Café preto, O visitante inesperado e, agora, A teia da aranha, iniciei uma tendência na direção oposta.






















TEIA DA ARANHA
Capítulo I

Copplestone Court, a requintada e setecentista casa de campo de Henry e Clarissa Hailsham-Brown, situada nas colinas suaves do interior de Kent, parecia bonita mesmo ao fim de uma tarde chuvosa de março. No térreo, na sala de estar finamente mobiliada, com portas de vidro para o jardim, dois homens estavam em pé junto a uma mesa estreita encostada à parede na qual descansava uma bandeja com três taças de vinho do Porto, cada uma com um número: um, dois e três. Também havia na mesa um lápis e uma folha de papel.
Sir Rowland Delahaye, cinquentão de aparência distinta, com modos agradáveis e refinados, sentou-se no braço de uma confortável cadeira. Em seguida, Hugo Birch, sexagenário com tendência a ser um tanto irascível, colocou uma venda nos olhos de Sir Rowland e entre- gou-lhe uma das taças. Sir Rowland bebeu, avaliou por um instante e disse:
Acho que... sim... com certeza... sim: é o Dow 42.
Murmurando "Dow 42", Hugo repôs a taça na mesa, anotou e entregou a taça seguinte. De novo, Sir Rowland sorveu o vinho. Fez uma pausa, tomou outro gole e acenou com a cabeça de modo afirmativo.
Agora, sim - afirmou convicto. - Isto que é um bom vinho do Porto. - Tomou outro gole. - Não há dúvida: Cockburn 27.
Devolveu a taça a Hugo e acrescentou:
Imagine só, Clarissa desperdiçar uma garrafa de Cockburn 27 numa prova tola como esta. É um sacrilégio, sem dúvida. Mas, enfim, mulheres não entendem nada de vinho do Porto.
Hugo pegou a taça, anotou o veredicto no papel sobre a mesa e entregou a terceira taça ao amigo. Após um gole rápido, a reação de Sir Rowland foi imediata e violenta.
Argh! - exclamou com repugnância. - Rich Ruby, um vinho "tipo porto". Não sei como Clarissa tem uma coisa destas em casa.
Após ter a opinião devidamente registrada, tirou a venda dos olhos.
Agora é a sua vez - disse para Hugo.
Tirando os óculos de aros de tartaruga, Hugo permitiu que Sir Rowland colocasse a venda em seus olhos.
Bem, calculo que ela use esse porto barato para marinar a lebre ou dar sabor à sopa - sugeriu. - Não acredito que Henry a deixe oferecê-lo aos convidados.
Pronto, Hugo - afirmou Sir Rowland, terminando de atar a vencia nos olhos do amigo.
Talvez eu deva girar você três vezes como no jogo da cabra-cega - falou, conduzindo Hugo até a cadeira de braços e o ajudando a sentar.
Vá com calma - reclamou Hugo, tateando a cadeira atrás de si.
Tudo certo? - perguntou Sir Rowland.
Sim.
Então, em vez disso vou mudar a posição das taças - disse Sir Rowland, girando de leve as taças na mesa.
Não precisa - disse Hugo. - Acha que posso me influenciar pelo que você disse? Entendo tanto de vinho do Porto quanto você, em qualquer dia e hora, meu caro Roly.
Não esteja tão certo disso. Seja como for, um homem prevenido vale por dois - insistiu Sir Rowland.
Quando estava quase entregando uma das taças a Hugo, o terceiro convidado dos Hailsham-Brown entrou do jardim. Jeremy Warrender, jovem atraente de seus vinte e poucos anos, vestia uma capa de chuva por cima da roupa. Ofegante e visivelmente sem fôlego, rumou ao sofá e estava pronto para deixar-se cair nele quando percebeu o que estava acontecendo.
O que diabo vocês dois estão inventando? - perguntou ao tirar a capa impermeável e o casaco. - O jogo das três cartas com taças?
Que foi isso? - quis saber o vendado Hugo. - Parece que alguém deixou entrar um cachorro na sala.
É só o jovem Warrender - garantiu Sir Rowland.
Comporte-se.
Ah, tive a impressão de que era um cachorro arfando depois de perseguir um coelho disse Hugo.
Fui três vezes ao portão do chalé e voltei de capa de chuva - explicou Jeremy ao afundar pesadamente no sofá. - Ao que consta, o diplomata herzoslovaco fez esse percurso em 4 minutos e 53 segundos, com o peso extra da capa de chuva. Corri tudo que pude, mas não consegui em menos de 6 minutos e 10 segundos. E não acredito que ele tenha conseguido. Só Chris Chattaway conseguiria fazer nesse tempo, com ou sem capa de chuva.
Quem lhe contou sobre o diplomata herzoslovaco?
Perguntou Sir Rowland.
Clarissa.
Clarissa! - exclamou Sir Rowland, rindo disfarçadamente.
Ah, Clarissa - bufou Hugo com desdém.
Não deve dar crédito algum ao que Clarissa fala.
Ainda rindo consigo, Sir Rowland prosseguiu:
Acho que você não conhece muito bem sua anfitriã, Warrender. É uma moça de imaginação muito fértil.
Jeremy levantou-se.
Quer dizer que ela inventou toda essa história?
Perguntou indignado.
Ela é bem capaz disso - respondeu Sir Rowland ao entregar uma das três taças para o ainda vendado Hugo.
É bem o tipo de piada que ela gosta.
É mesmo? Esperem até eu me encontrar com essa moça — prometeu Jeremy. - Ela vai ouvir poucas e boas. Nossa, estou exausto. - E caminhou a passos largos e pomposos rumo ao hall, levando a capa de chuva.
Pare de resfolegar como uma morsa - reclamou Hugo. - Estou tentando me concentrar. Uma nota de cinco libras está em jogo. Roly e eu temos uma aposta em andamento.
Verdade? E qual é? - indagou Jeremy, retornando para se empoleirar no braço do sofá.
Para ver quem é o melhor avaliador de vinho do Porto - disse-lhe Hugo. - Temos Cockburn 27, Dow 42 e o melhor da mercearia local. Silêncio agora. Isto é importante. - Experimentou a primeira taça e depois murmurou com indiferença: - Hum... ah.
E então? - indagou Sir Roland. - Já decidiu qual é?
Não me apresse Roly - exclamou Hugo. - Não me faça colocar o carro na frente dos bois. Cadê o próximo?
Ele manteve a taça na mão enquanto outra lhe era entregue. Bebeu e declarou:
Sim, tenho certeza absoluta sobre estes dois. - Cheirou as duas taças mais uma vez. - O primeiro é o Dow.
Decidiu ao entregar uma taça. - O segundo é o Cockburn
Prosseguiu, devolvendo a outra taça.
Sir Rowland repetiu, enquanto anotava:
Taça número três, o Dow; taça número um, o Cockburn.
Bem, nem é preciso provar o terceiro - afirmou Hugo -, mas acho melhor ir até o fim.
Tome aí - disse Sir Rowland, entregando a última taça.
Depois de beber, Hugo deixou escapar uma exclamação de supremo nojo.
Ugh! Que porcaria intragável. - Devolveu a taça sir Rowland, puxou um lenço do bolso e enxugou os lábios para se livrar do gosto ruim. - Vai levar um tempo para o gosto desse troço sair de minha boca - reclamou. - Tire-me a venda, Roly.
Pode deixar - ofereceu-se Jeremy, levantando-se e indo atrás da cadeira de Hugo para desatar a venda. Sir Rowland, pensativo, bebeu a última das três taças antes de repousá-la na mesa.
Hugo, você acha isso mesmo? Taça número dois, o vinho da mercearia local? - Ele balançou a cabeça. - Besteira! Esse é o Dow 42, não tenho nenhuma dúvida disso.
Hugo colocou a venda no bolso.
Tsc, tsc! Você perdeu o paladar, Roly - declarou.
Deixe-me tentar - propôs Jeremy. Indo até a mesa, tomou um gole de cada taça. Hesitou, bebeu cada uma de novo e admitiu: - Bem, para mim todos têm o mesmo gosto.
Essa juventude! - criticou Hugo. - Tudo culpa desse maldito gim que vocês não param de beber. Estraga totalmente o paladar. Não é só mulher que não sabe distinguir vinho do Porto. Nos dias de hoje, nenhum homem com menos de quarenta anos sabe.
Antes que Jeremy tivesse oportunidade de responder, a porta da biblioteca se abriu, e Clarissa Hailsham-Brown, uma linda morena perto dos trinta anos, entrou.
Olá, meus amores - saudou ela, dirigindo-se sir Rowland e Hugo. - Já terminaram?
Sim, Clarissa - assegurou Sir Rowland. - Estamos prontos.
Sei que tenho razão - disse Hugo. - O número um é o Cockburn, o dois é a imitação e o três é o Dow. Certo?
Bobagem - exclamou Sir Rowland, antes que Clarissa pudesse responder. - O um é o Dow, o dois é o Cockburn e o três é a imitação. Estou certo ou não?
Queridos! - foi a única e pronta resposta de Clarissa. - Ela beijou primeiro Hugo, depois Sir Rowland e prosseguiu: - Agora podem levar a bandeja de volta para a sala de jantar. A garrafa de cristal está no aparador. - Sorrindo consigo, escolheu uma trufa da bomboneira.
Sir Rowland pegou a bandeja com as taças. Prestes a sair, estacou.
A garrafa? - perguntou circunspecto.
Clarissa sentou-se no sofá, aninhando-se em cima dos pés.
Sim. Só uma garrafa - respondeu com uma risadinha. - É tudo o mesmo vinho.
CAPÍTULO 2

A revelação de Clarissa provocou diferentes reações em cada um dos presentes. Jeremy deu boas gargalhadas, cruzou a sala e beijou a anfitriã, enquanto Sir Rowland ficou boquiaberto, e Hugo pareceu indeciso sobre que atitude tomar por ela ter feito os dois de bobos.
Quando Sir Rowland enfim encontrou palavras, foram estas:
Clarissa, sua impostora sem escrúpulos. — Mas seu tom foi afetuoso.
Bem — respondeu Clarissa -, choveu a tarde toda, e vocês não podiam jogar golfe. Precisavam se divertir um pouco e se divertiram com isso, não é mesmo, queridos?
Caramba! - exclamou Sir Rowland, levando a bandeja até a porta. - Devia se envergonhar por expor assim seus velhos e queridos amigos. Acontece que só o jovem Warrender aqui adivinhou que todas as taças tinham o mesmo conteúdo.
Hugo, que a esta altura estava rindo, acompanhou-o até a porta.
Diga-me, quem foi? - perguntou, abraçando o ombro de Sir Rowland. - Quem foi que disse que reconhecia um Cockburn 27 em qualquer lugar?
Não tem importância, Hugo - respondeu, resignado, Sir Rowland -, depois vamos beber mais um pouco daquilo, seja lá o que for. - Conversando, os dois saíram pela porta que dava para o hall, e Hugo fechou a porta atrás deles.
Jeremy postou-se defronte ao sofá.
Pois bem, Clarissa - disse em tom de censura. - Que história é essa de diplomata herzoslovaco?
Clarissa olhou-o com inocência.
Que tem ele? - indagou.
Apontando o dedo para ela, Jeremy falou claro e devagar:
Ele correu três vezes ao portão do chalé e voltou, com capa de chuva, em 4 minutos e 53 segundos?
Clarissa respondeu com um sorriso doce:
O diplomata herzoslovaco é um amor, mas já passou dos sessenta faz tempo, e duvido muito que nos últimos anos ele tenha feito alguma corrida.
Então é mesmo tudo invenção sua. Bem que me disseram que isso era provável. Mas por quê?
Bem - disse Clarissa, o sorriso ainda mais doce -, você ia ficar reclamando o dia todo por não ter feito exercício suficiente. Por isso, achei que a única coisa oportuna a fazer era ajudar você a praticar algum. Não ia adiantar nada eu sugerir uma corrida puxada no meio do bosque, mas eu sabia que você reagiria a um desafio. Então inventei alguém com quem você pudesse competir.
Jeremy soltou um cômico suspiro de exasperação.
Clarissa - indagou alguma vez você fala a verdade?
Claro que sim... às vezes - admitiu Clarissa. - Mas quando falo a verdade parece que ninguém acredita em mim. É muito estranho. - Pensou um instante e prosseguiu: - Quando a gente inventa algo, acho que nos deixamos levar, e tudo se torna mais convincente. - Ela deslizou até as portas de vidro.
Eu poderia ter arrebentado um vaso sanguíneo reclamou Jeremy. - Aposto que você nem ia dar bola.
Clarissa riu. Ao abrir as portas de vidro, comentou:
Acho mesmo que vai limpar. Vamos ter uma noite agradável. Que cheirinho bom tem o jardim depois da chuva. - Curvou-se para fora e farejou o ar. - Narcisos.
Ela fechou as portas de novo, e Jeremy se aproximou.
Gosta mesmo de morar no interior? - perguntou.
Adoro.
Mas deve sentir um tédio mortal! - exclamou ele.
Não combina com você, Clarissa. Deve sentir muita falta do teatro. Soube que você era apaixonada por teatro quando era mais jovem.
Sim, eu era. Mas dou um jeito de criar meu próprio teatro por aqui mesmo - disse Clarissa com uma risada.
Mas podia estar levando uma vida animada em Londres.
Clarissa riu de novo.
O quê... festas e boates? - perguntou ela.
Sim, festas. Você daria uma ótima anfitriã - disse Jeremy, rindo.
Ela o encarou.
Sei, como naqueles romances do período eduardiano - disse ela. - De qualquer maneira, festas diplomáticas são extremamente monótonas.
Mas é um desperdício tão grande, você escondida aqui - insistiu Jeremy, chegando mais perto e tentando pegar a mão dela.
O que está sendo desperdiçado... eu? - indagou Clarissa, recolhendo a mão.
Sim - respondeu ele com fervor. - E com Henry.
O que tem Henry? - Clarissa entretinha-se afofando a almofada de uma poltrona.
Jeremy olhou-a com firmeza.
Não consigo entender por que você se casou com ele - respondeu, criando coragem. - É bem mais velho que você e tem uma filha em idade escolar. - Curvou-se sobre a cadeira de braços, ainda observando-a de perto. - Uma pessoa ótima, sem dúvida, mas realmente, um pedante. Sempre de nariz empinado. - Parou, esperando uma reação. Como não houve, emendou: - Ele é um chato.
Ela permaneceu calada. Jeremy voltou à carga.
E não tem um pingo de senso de humor - resmungou com certa petulância.
Clarissa olhou para ele, sorriu, mas não disse nada.
Acha que eu não devo dizer essas coisas, não é? - comentou Jeremy.
Clarissa sentou-se na ponta de um banquinho comprido.
Ah, eu não ligo - afirmou. - Pode dizer o que quiser.
Jeremy sentou-se ao lado dela.
Você se dá conta então de que cometeu um engano? - indagou ansioso.
Mas não cometi engano nenhum - foi a resposta de Clarissa, enunciada em voz macia. E acrescentou provocante:
Você está tomando liberdades comigo, Jeremy?
Sem dúvida - foi a resposta imediata.
Que adorável - exclamou Clarissa, cutucando-o com o cotovelo. - Continue.
Acho que sabe o que sinto por você, Clarissa, respondeu Jeremy, um tanto melancólico.
Mas está apenas brincando comigo, não? Flertando. É mais um de seus joguinhos. Querida, não pode me levar a sério ao menos uma vez?
Sério? O que há de tão bom em ser "sério"? - respondeu Clarissa. - Já existe seriedade demais neste mundo. Gosto de me divertir e gosto que todos ao meu redor se divirtam também.
Jeremy sorriu com certa mágoa.
Estaria me divertindo bem mais neste momento se você me levasse a sério - observou.
Ah, pare com isso - pediu ela, brincalhona.
Claro que está se divertindo. Você é nosso convidado para o fim de semana, junto com meu adorável padrinho Roly. Para completar, o velho e amável Hugo também veio confra-ternizar esta noite. Ele e Roly são tão engraçados juntos. Não pode dizer que não está se divertindo.
Claro que estou me divertindo - admitiu Jeremy.
Mas você não vai me deixar dizer o que eu realmente quero lhe dizer.
Não seja infantil, querido - respondeu ela. - Sabe muito bem que pode dizer o que quiser para mim.
Verdade? Tem certeza disso? - perguntou.
Claro.
Pois muito bem - disse Jeremy. Levantou-se do banco e olhou para ela. - Eu te amo - afirmou.
Fico muito contente - respondeu Clarissa com vivacidade.
Não podia haver resposta mais errada - reclamou Jeremy. - Devia dizer "Sinto muito" em voz sincera e compreensiva.
Mas não sinto muito - insistiu Clarissa. - Eu me alegro muito. Gosto que as pessoas se apaixonem por mim.
Jeremy sentou ao lado dela de novo, mas virou o rosto. Agora ele aparentava profunda decepção. Obser- vando-o um pouco, Clarissa indagou:
Faria qualquer coisa neste mundo por mim?
Volvendo o olhar para ela, Jeremy respondeu ansioso:
Sabe que sim. Qualquer coisa. Qualquer coisa neste mundo - afirmou.
Verdade? - disse Clarissa. - Vamos supor, por exemplo, que eu matasse alguém, você me ajudaria... não, é melhor eu parar.
Clarissa se ergueu e deu alguns passos. Jeremy a seguiu com os olhos.
Continue, por favor - incitou ele.
Depois de uma breve hesitação, ela começou a falar.
Antes me perguntou se a vida aqui no interior não me dava tédio.
Foi.
Bem, vamos dizer que, de certa forma, sim - admi- é tiu. - Ou melhor, poderia, não fosse meu hobby secreto.
Hobby secreto? Como assim? - perguntou Jeremy intrigado.
Clarissa respirou fundo.
Vej a bem, Jeremy - disse ela -, minha vida sempre foi pacata e feliz. Nunca algo excitante aconteceu comigo, então comecei a fazer meu joguinho. Chama-se "Imagina".
"Imagina"? - indagou Jeremy, tomado de curiosidade.
Sim - disse Clarissa, começando a andar de um lado para o outro na sala. - Por exemplo, eu poderia dizer a mim mesma, "Imagina se uma bela manhã eu descesse e encontrasse um cadáver na biblioteca, o que eu faria?". Ou "Imagina se um dia aparecesse uma mulher dizendo que ela e Henry haviam se casado em segredo em Constantinopla e que nosso casamento era bígamo, o que eu diria a ela?". Ou "Imagina se eu tivesse seguido meus impulsos e me tornado uma atriz famosa?" Ou "Imagina se eu precisasse escolher entre trair meu país ou ver Henry ser baleado bem na minha frente?". Entende o que eu quero dizer?
Sorriu de repente para Jeremy.
Ou mesmo... - Ela se acomodou na cadeira de braços. - "Imagina se eu fugisse com Jeremy, o que aconteceria?"
Jeremy ajoelhou-se ao lado dela.
Estou lisonjeado - disse. - Mas alguma vez imaginou mesmo essa situação em especial?
Ah, sim - respondeu Clarissa, sorrindo.
E o que aconteceu? - ele pegou a mão dela.
Ela recolheu a mão novamente.
Deixe-me ver, a última vez em que eu joguei, estávamos em Juan les Pins, na Riviera, e Henry veio atrás de nós. Ele estava armado com um revólver.
Meu Deus! - exclamou Jeremy estupefato. - Ele atirou em mim?
Clarissa sorriu ao recordar.
Que me lembre - contou - ele disse... - Parou e, adotando um estilo dramático, prosseguiu: - "Clarissa, ou você volta comigo, ou eu me mato".
Jeremy levantou-se e se afastou.
Muito conveniente da parte dele - comentou, sem se convencer. - Não consigo pensar em algo menos parecido com Henry. Mas, enfim, o que você respondeu?
Na verdade, joguei de duas maneiras - admitiu Clarissa, ainda sorrindo de satisfação. - Numa vez disse a Henry que eu sentia muito. Eu não queria mesmo que ele se matasse, mas eu estava profundamente apaixonada por Jeremy, e nada me faria mudar de ideia. Henry se atirou aos meus pés, soluçando, mas eu permaneci irredutível. Disse a ele: "Gosto de você, Henry, mas não posso viver sem Jeremy. Adeus." Saí apressada para o jardim, onde você me esperava. Quando descíamos correndo o caminho até o portão da frente, ouvimos um tiro no interior da casa, mas continuamos sem olhar para trás.
Minha nossa! - admirou-se Jeremy, sem fôlego. - Isso é que eu chamo de contar tudo. Pobre Henry. - Meditou um pouco e prosseguiu: - Mas você disse que jogou de duas maneiras. O que aconteceu na outra vez?
Ah, Henry estava tão arrasado e suplicou de um modo que me inspirou tanta pena, que eu não tive coragem de abandoná-lo. Decidi esquecer você e dedicar meus dias à felicidade de Henry.
Jeremy ficou em estado de absoluta desolação.
Bem, querida - afirmou magoado -, com certeza você se diverte. Mas, por favor, fale sério um momento. Eu falo sério quando digo que a amo. E não é de hoje. Você deve ter percebido. Tem certeza de que não tenho chance? Quer mesmo passar o resto de sua vida com o velho e tedioso Henry?
Clarissa não precisou responder devido à chegada de uma criança alta e magricela, de uns doze anos de idade, vestindo uniforme escolar e carregando uma mochila. Ao entrar na sala, gritou "Olá, Clarissa!" como forma de saudação.
Oi, Pippa - respondeu à madrasta. - Está atrasada.
Pippa largou chapéu e mochila numa poltrona.
Aula de música - explicou lacônica.
Ah, sim - lembrou-se Clarissa. - Hoje é dia de piano, não é? Estava interessante?
Não. Um horror. Só repeti e repeti exercícios terríveis. A Srta. Farrow falou que fez isso para melhorar meu dedilhado. Ela não me deixou tocar o solo bonito que venho treinando. Tem algo para comer por aqui? Estou morrendo de fome.
Clarissa levantou-se.
Não pegou os bolinhos de sempre para comer no ônibus?
-Ah, sim - admitiu Pippa -, mas isso foi meia hora atrás. - A menina lançou a Clarissa um olhar de súplica quase cômico. - Posso comer bolo ou beliscar alguma coisa antes do jantar?
Pegando na mão de Pippa, Clarissa a levou à porta do hall, rindo.
Vamos ver o que podemos fazer - prometeu.
Enquanto saía, Pippa perguntou contente:
Ainda tem aquele bolo... aquele de cerejas por cima?
Não - disse Clarissa. - Você terminou com ele ontem.
Jeremy balançou a cabeça, sorrindo, ao escutar as vozes das duas sumindo no hall. Tão logo as vozes ficaram fora do alcance, ele se encaminhou rápido à escrivaninha e com pressa abriu uma ou duas gavetas. Contudo, ao ouvir de repente uma voz feminina chamando com entusiasmo do jardim "Ó de bordo!", teve um sobressalto e fechou rápido as gavetas. Voltou-se a tempo de ver uma mulher corpulenta e jovial, de uns quarenta anos, com um traje de tweed e botas de borracha, abrindo as portas de vidro. Ela parou ao ver Jeremy. No degrau da porta, perguntou bruscamente:
A Sra. Hailsham-Brown?
Devagar, com ar despreocupado, Jeremy rumou da escrivaninha ao sofá e respondeu:
Sim, Miss Peake. Ela foi à cozinha providenciar algo para Pippa comer. A senhora conhece o apetite voraz de Pippa.
Crianças não devem comer entre as refeições—foi a resposta, pronunciada em timbre retumbante, quase masculino.
Vai entrar, Miss Peake? - indagou Jeremy.
Não, não vou, por causa de minhas botas - explicou com uma risada cordial. - Eu levaria metade do jardim comigo se entrasse. - Riu de novo. - Só ia perguntar que verduras ela vai querer para o almoço de amanhã.
Bem, receio que eu... - principiou Jeremy, quando Miss Peake o cortou.
Quer saber de uma coisa? - disse ela repentinamente. - Eu volto mais tarde.
Fez menção de se retirar, mas então se virou para Jeremy.
Ah, o senhor vai tomar cuidado com essa escrivaninha, não vai, Sr. Warrender? - indagou, de maneira peremptória.
Sim, claro que vou - respondeu Jeremy.
É uma antiguidade preciosa, sabe - explicou Miss Peake. - Não deveria puxar as gavetas desse jeito violento.
Jeremy ficou confuso.
Mil desculpas. Eu só estava procurando uma folha em branco.
Na gaveta do meio - vociferou Miss Peake, apontando ao falar.
Jeremy voltou à escrivaninha, abriu a gaveta do meio e pegou uma folha de papel em branco.
Isso mesmo - continuou Miss Peake, sendo curta e grossa. - Curioso como as pessoas muitas vezes não enxergam nem mesmo o que está bem na frente de seus olhos.
Deu uma gargalhada com gosto e um passo largo de volta ao jardim. Jeremy riu junto com ela, mas cessou abruptamente tão logo ela saiu. Estava prestes a voltar à escrivaninha, quando Pippa retornou mastigando ruidosamente um bolinho.
CAPÍTULO 3

Hum... Que delícia - disse Pippa de boca cheia, fechando a porta atrás de si e limpando os dedos pegajosos na saia.
Oi - cumprimentou Jeremy. - Estava boa a escola hoje?
-Abominável - respondeu Pippa, contente ao colocar o que restava do bolo na mesa. - Hoje teve Tópicos Internacionais. - Ela abriu a mochila. - A professora Wilkinson adora Tópicos Internacionais. Mas ela é muito molenga. Não consegue manter a disciplina na sala de aula.
Pippa tirou um livro da mochila, e Jeremy perguntou:
Qual sua matéria favorita?
Biologia - foi a resposta instantânea e entusiasmada de Pippa. - É o paraíso. Ontem dissecamos a perna de um sapo. - Levou o livro à frente do rosto dele. - Olha só o que eu consegui no sebo. Uma raridade! Com certeza tem mais de um século.
O que vem a ser isto?
É tipo um livro de receitas - explicou Pippa, abrindo o livro. - É impressionante, muito impressionante.
Mas qual é mesmo o assunto? - quis saber Jeremy.
Pippa já estava absorta folheando o livro.
O quê? - sussurrou, virando as páginas.
Parece mesmo muito envolvente - observou ele.
O quê? - repetiu Pippa, ainda com a atenção voltada para o livro. E, a cada nova página, murmurava consigo: - Puxa vida!
Está na cara que valeu cada centavo - comentou Jeremy, apanhando um jornal.
Intrigada com um trecho que estava lendo, Pippa perguntou:
Qual a diferença entre uma vela de cera e uma de sebo?
Jeremy refletiu um instante antes de responder.
Imagino que a vela de sebo tenha qualidade bem inferior - disse ele. - Mas, com certeza, não é de comer? Que livro de receitas estranho.
Muito entretida, Pippa levantou-se.
"É de comer?" - declamou ela. - Parece o jogo das vinte perguntas. - Riu, atirou o livro na poltrona e buscou um baralho na estante de livros. - Sabe jogar paciência? - perguntou.
A essa altura, Jeremy estava totalmente imerso no jornal. Sua única resposta foi "Hum".
Pippa tentou atrair a atenção dele mais uma vez.
Não quer jogar rouba-monte?
Não - respondeu Jeremy com firmeza. Colocou o jornal no banco, sentou-se à escrivaninha e endereçou um envelope.
É, achei mesmo que você não ia querer - disse Pippa, em voz baixa e tristonha. Ajoelhando-se no chão no meio da sala, distribuiu as cartas e começou a jogar paciência. — Bem que a gente podia ter um dia bonito para variar - queixou-se. — Que perda de tempo o campo em dia de chuva!
Jeremy relanceou o olhar na direção dela.
Gosta de morar no interior, Pippa? - perguntou.
Muito — respondeu entusiasmada. - É bem melhor do que morar em Londres. Esta casa é incrivelmente mágica, tem quadra de tênis e tudo mais. Temos até um esconderijo de padre .
Um esconderijo de padre? - indagou Jeremy, sorrindo. - Nesta casa?
Temos sim! - afirmou Pippa.
Não acredito — falou Jeremy. - Não é da mesma época.
Pelo menos eu chamo de esconderijo de padre insistiu ela. - Eu vou mostrar para você.
Ela foi até o lado direito da estante, retirou uns livros e puxou para baixo uma pequena alavanca na parede atrás dos livros. Uma seção da parede à direita das prateleiras girou e abriu, revelando-se uma porta oculta. Atrás da porta havia um recesso de espaço razoável, com outra porta oculta na parede dos fundos.
Claro, eu sei que não é bem um esconderijo de padre - admitiu Pippa. - Mas com certeza é uma passagem secreta. Na verdade, aquela porta ali dá para a biblioteca.
Ah, dá? - Jeremy foi investigar. Abriu a porta no fundo da câmara, deu uma rápida olhada na biblioteca, fechou a porta e voltou à sala. - É mesmo.
Mas é tudo muito secreto. Se eu não tivesse dito, você nunca teria adivinhado - disse Pippa ao erguer a alavanca e cerrar a porta escondida. - Eu passo por ali toda hora - prosseguiu ela. - É o tipo do lugar bem conveniente para ocultar um cadáver, não acha?
Jeremy sorriu.
Ideal para isso - concordou.
Pippa voltou ao jogo de cartas no chão. Quando Clarissa entrou na sala, Jeremy ergueu o olhar.
A Amazona procura por você - informou ele.
Miss Peake? Ah, tédio - exclamou Clarissa ao pegar o bolo de Pippa da mesa e dar uma mordida.
Pippa na mesma hora se levantou.
Ei, isso é meu! - protestou.
Sua comilona egoísta - murmurou Clarissa, entregando o resto do bolo à menina. Pippa o repôs na mesa e voltou ao jogo.
Primeiro ela me saudou como se eu fosse um navio disse Jeremy a Clarissa - e depois me soltou os cachorros, dizendo que eu devia cuidar melhor da escrivaninha.
Ela é uma praga dos infernos - admitiu Clarissa, curvando-se sobre uma das pontas do sofá para sondar as cartas de Pippa. - Mas a casa é alugada, e ela vem junto com o pacote, por isso... - Cortou e disse a Pippa: - Dez preto no valete vermelho - antes de concluir - ...por isso tivemos que mantê-la. Em todo o caso, ela cuida direitinho do jardim e da horta.
Sei - concordou Jeremy, envolvendo Clarissa com o braço. - Esta manhã eu a vi da janela de meu quarto. Escutei uns grunhidos de esforço, espiei pela janela e lá estava a Amazona, no jardim, cavando algo que mais parecia uma imensa cova.
Chama-se sulcamento profundo - explicou Clarissa. - Se não me engano, serve para cultivar couves ou coisa parecida.
Jeremy inclinou-se a fim de estudar o jogo de cartas no chão.
Três vermelho no quatro preto - indicou ele a Pippa, que respondeu com um olhar irado.
Saindo da biblioteca com Hugo, Sir Rowland fitou Jeremy de modo significativo. Discretamente, ele escorregou o braço e afastou-se de Clarissa.
Até que enfim parece que o tempo vai limpar anunciou Sir Rowland. - Mas tarde demais para o golfe. Temos apenas uns vinte minutos de luz. - Baixando os olhos ao jogo de Pippa, apontou com o pé. - Olhe, esta aqui vai ali - disse. Atravessando a sala até as portas de vidro, não percebeu o olhar feroz de Pippa em sua direção. – Bem disse ele, observando o jardim -, acho que agora podemos ir à sede do clube, se é que vamos comer por lá.
Vou pegar o sobretudo - avisou Hugo e, ao cruzar por Pippa, debruçou-se para dar um palpite. Pippa, enfurecida a esta altura, inclinou o corpo e escondeu as cartas. Hugo dirigiu-se a Jeremy.
E você, garoto? - perguntou. - Vem conosco ou não vem?
Sim - respondeu Jeremy. - Só vou pegar o casaco. - Ele e Hugo entraram juntos no hall, deixando a porta aberta.
Tem certeza de que não se incomoda em jantar esta noite no clube, querido? - perguntou Clarissa sir Rowland.
Nem um pouco - garantiu. - Foi uma providência adequada, já que é a noite de folga dos empregados.
Elgin, o mordomo de meia-idade dos Hailsham- Brown entrou na sala vindo do hall e encaminhou-se a Pippa.
O jantar está servido na sala de estudo, Srta. Pippa - informou. - Leite, frutas e seus biscoitos preferidos.
Ah, tava na hora! - gritou Pippa, levantando-se em um pulo. - Estou azul de tanta fome!
Ela disparou rumo à porta do hall, mas foi bloqueada por Clarissa, que lhe disse severamente para antes recolher as cartas e guardá-las.
-Ah, chatice! - exclamou Pippa. Retornou às cartas, ajoelhou-se e devagarinho começou a fazer uma pilha junto ao pé do sofá.
Elgin dirigiu-se à patroa.
Com sua licença, madame - disse em voz baixa e respeitosa.
Sim, Elgin, o que é? - perguntou Clarissa.
O mordomo não parecia à vontade.
Houve um pequeno... como direi... mal-entendido com as verduras - contou ele.
Ai, meu Deus do céu - disse Clarissa. - Quer dizer com Miss Peake?
Sim, madame - prosseguiu o mordomo. - Minha mulher considera Miss Peake muito difícil de lidar, madame. Toda hora ela entra na cozinha, critica e faz comentários. Minha mulher não gosta nada disso. Em todos os lugares em que trabalhamos, a Sra. Elgin e eu sempre tivemos relações prazerosas com o jardim.
Sinto muito - respondeu Clarissa, disfarçando um sorriso. - Vou... bem... vou ver o que posso fazer. Vou conversar com Miss Peake.
Obrigado, madame - disse Elgin. Fez uma reverência e saiu, fechando â porta do hall.
Esses empregados... como são cansativos - observou Clarissa a Sir Rowland. - E como falam coisas curiosas. Como alguém pode ter relações prazerosas com o jardim? Isso me soa inadequado, de um modo herético.
Mas acho que você tem sorte com o casal Elgin
ponderou Sir Rowland. - Onde os conseguiu?
Ah, na agência de empregos local - respondeu Clarissa.
Sir Rowland franziu o cenho e observou:
Espero que não seja aquela, como é mesmo o nome? Aquela que só nos manda gente torta.
Torta? - perguntou Pippa, erguendo o olhar do chão, onde continuava a pôr as cartas em ordem.
Não, querida. Gente torta - disse Sir Rowland.
Lembra - continuou ele, voltando-se a Clarissa - daquela agência de nome italiano ou espanhol... de Botello, não é? Que não parava de mandar gente para ser entrevistada, na maioria imigrantes clandestinos? Andy Hulme e a esposa contrataram um casal que fez literalmente uma limpa na casa. Usaram o trailer de transportar cavalos de Andy e le-varam metade das coisas. Até hoje não foram capturados.
-Ah, sim - riu Clarissa. - Lembro sim. Pippa, vamos rápido! - ordenou ela.
Pippa pegou as cartas e levantou-se.
Prontinho! - exclamou, petulante, colocando as cartas na prateleira. - A vida seria bem melhor se a gente não precisasse toda hora estar arrumando as coisas.
Ela se dirigiu à porta, mas foi detida por Clarissa, que a chamou, pegando o resto do bolo que estava na mesa:
Tome aqui, leve isto com você - e entregou-lhe o bolo.
Pippa recomeçou a andar.
A mochila - continuou Clarissa.
Pippa correu à poltrona, apanhou a mochila e chispou rumo à porta do hall.
O chapéu! - gritou Clarissa.
Pippa largou o bolo na mesa, agarrou o chapéu e foi saindo.
Vem cá! - chamou Clarissa outra vez. Tomou o pedaço de bolo, enfiou na boca de Pippa, pegou o chapéu, enterrou-o na cabeça da menina e a empurrou para o hall. - E feche a porta, Pippa - ordenou.
Pippa enfim retirou-se, fechando a porta. Sir Row- riu, e Clarissa riu junto, pegando um cigarro da caixa na mesa. Lá fora, a luz do dia começava a esmaecer, e o lusco-fusco entrava na sala.
Sabe, é maravilhoso! - exclamou Sir Rowland.
Pippa mudou muito. Você tem feito um trabalho notável por aqui, Clarissa.
Clarissa afundou no sofá.
Acho que agora ela gosta mesmo de mim - disse.
E confia em mim. Estou adorando ser madrasta.
Sir Rowland pegou um isqueiro da mesinha ao lado do sofá e acendeu o cigarro de Clarissa.
O fato — observou — é que agora ela voltou a ser uma menina normal e feliz.
Clarissa concordou com a cabeça.
Acho que morar no interior fez a diferença - sugeriu. - Ela frequenta uma ótima escola e tem feito muitos amigos por lá. Sim, acho que está feliz e, como você diz, normal.
Sir Rowland franziu o cenho.
Que coisa chocante - exclamou - ver uma criança no estado em que ela estava. Eu tinha vontade de torcer o pescoço de Miranda. Que mãe horrível ela era.
Sim - concordou Clarissa. - Pippa tinha muito medo da mãe dela.
Sir Rowland juntou-se a ela no sofá.
Um caso revoltante - murmurou.
Clarissa cerrou os punhos e fez um gesto de raiva.
Fico furiosa só de pensar em Miranda - disse ela.
Tudo o que ela fez Henry sofrer e tudo por que ela fez essa criança passar. Ainda não consigo entender como uma mulher foi capaz disso.
O vício das drogas é uma coisa sórdida - prosseguiu Sir Rowland. - Altera toda a sua personalidade.
Ficaram um tempo em silêncio, até Clarissa perguntar:
Como acha que ela começou a usar drogas? -Acho que foi aquele amigo dela, o porco do Oliver
Costello - respondeu Sir Rowland. - Acredito que ele seja traficante.
É um homem detestável - concordou Clarissa.
Muito mau, eu sempre achei.
Eles se casaram, não?
Sim, um mês atrás.
Sir Rowland balançou a cabeça.
Bem, tudo indica que agora Henry está livre de Miranda, de uma vez por todas - disse ele. - Um sujeito legal, o Henry. - Enfatizou: - Um sujeito muito legal.
Clarissa sorriu e murmurou amavelmente:
Acha que precisa me dizer isso?
Sei que ele não fala muito - continuou Sir Rowland.
É o que poderia se chamar de uma pessoa reservada, mas íntegra. - Após uma pausa, acrescentou: - Aquele moço, o Jeremy. O que sabe dele?
Clarissa sorriu de novo.
Jeremy? Ele é muito divertido - respondeu.
Humpf! - bufou Sir Rowland. - Hoje em dia, parece que é só com isso que as pessoas se preocupam.
Lançou a Clarissa um olhar sério e prosseguiu: - Não vá... não vá me fazer uma bobagem, sim?
Clarissa riu.
Não se apaixone por Jeremy Warrender - respondeu ela. - É isso que você quer dizer, não é?
Sir Rowland continuou a fitá-la sério.
Sim - disse ele -, é exatamente isso que eu quero dizer. É evidente que ele é seu fã. Parece mesmo incapaz de lhe tirar as mãos de cima. Mas seu casamento com Henry é muito feliz, e eu não gostaria que se arriscasse a perdê-lo.
Clarissa respondeu com um sorriso afetuoso.
Acha mesmo que eu faria uma bobagem dessas?
perguntou risonha.
Certamente isso seria uma grande bobagem- frisou Sir Rowland. Depois de uma pausa, continuou. - Sabe, Clarissa querida, eu vi você crescer. Você significa realmente muito para mim. Se algum dia estiver em apuros, sabe que pode contar comigo, não sabe?
Claro, meu querido Roly - respondeu Clarissa. Ela o beijou na bochecha. - E não precisa se preocupar com Jeremy. Verdade, não precisa. Sei que ele é muito envolvente e cativante e tudo o mais. Mas você me conhece, estou apenas me divertindo. Apenas brincando. Não é nada sério.
Antes que Sir Rowland pudesse responder, Miss Peake de repente surgiu nas portas de vidro.

CAPÍTULO 4

Neste meio-tempo, Miss Peake havia tirado as botas e apareceu só de meias. Tinha na mão uma cabeça de brócolis.
A senhora não repara eu entrar deste jeito, Sra. Hailsham-Brown - bradou, caminhando até o sofá. - Não queria sujar a sala toda, por isso deixei as botas lá fora. Só queria que a senhora desse uma olhada neste bróco- lis. - Sobre o encosto do sofá, empurrou a verdura bem embaixo do nariz de Clarissa.
Pa... parece muito bonito - foi tudo o que Clarissa pôde pensar como resposta.
Miss Peake empurrou o brócolis para Sir Rowland.
Dê uma olhada - mandou ela.
Sir Rowland obedeceu e anunciou seu veredicto.
Não consigo ver nada de errado - declarou. Mas pegou o brócolis na mão para empreender uma investigação mais detalhada.
É óbvio que não tem nada de errado - gritou Miss Peake. - Ontem levei outro igualzinho a este na cozinha, e aquela mulher... - Interrompeu a fala, como quem abre parênteses: - Claro, não quero ficar falando dos seus empregados, Sra. Hailsham-Brown, embora eu até pudesse falar um pouco deles. - Retornando ao tema principal, prosseguiu: - Mas não é que aquela Sra. Elgin teve a petulância de dizer na minha cara que era um brócolis de qualidade tão inferior que se recusaria a cozinhá-lo? Ela disse bem assim: "Se a senhora não consegue fazer melhor do que isso na horta é melhor procurar outro emprego". Fiquei tão braba que poderia tê-la esganado.
Clarissa tentou fazer um aparte, mas, indiferente, Miss Peake continuou a se explicar.
Quero que a senhora saiba que eu não desejo causar problema - insistiu -, mas não vou entrar na cozinha para ser insultada. - Depois de uma pausa breve para recuperar o fôlego, retomou sua ladainha. - De agora em diante - declarou -, a Sra. Elgin pode deixar uma lista na porta dos fundos, que eu largo as verduras do lado de fora.
A esta altura, Sir Rowland tentou devolver o bróco- lis, mas Miss Peake o ignorou e prosseguiu:
Ela pode deixar uma lista do que ela vai precisar.
E concordou consigo mesma, acenando a cabeça com vigor.
Clarissa e Sir Rowland ficaram emudecidos. Na hora exata em que a jardineira abriu a boca de novo, o telefone tocou.
Deixe que eu atendo - berrou ela. Foi ao aparelho e ergueu o fone do gancho. - Alô... sim - gritou, limpando a mesa com a ponta do avental. - Aqui é Copplestone Court... Quer falar com a Sra. Brown?... Só um momento.
Miss Peake estendeu a mão com o receptor. Clarissa apagou o cigarro e foi atender.
-Alô - disse Clarissa. - É a Sra. Hailsham-Brown... Alô... alô? - Olhou para Miss Peake. - Que esquisito exclamou. - Parece que desligaram.
Quando Clarissa recolocava o fone no gancho, Miss Peake subitamente avançou até o consolo e começou a empurrá-lo na direção da parede.
Com sua licença - esbravejou ela -, mas o Sr. Sellon gostava desta mesa encostada na parede.
Clarissa secretamente fez uma careta para Sir Rowland, mas apressou-se a ajudar Miss Peake com o consolo.
Obrigada - disse a jardineira. - E - emendou ela, a senhora vai ter cuidado para não deixar marcas de taças nos móveis, não vai, Sra. Brown-Hailsham? - Clarissa olhou angustiada para a mesa, e a jardineira corrigiu-se.
Me desculpe... eu quis dizer Sra. Hailsham-Brown. - Ela caiu numa risada cordial. - Ora, Brown-Hailsham, Hailsham-Brown - prosseguiu. - Dá tudo na mesma, não é?
Não, Miss Peake, não dá - declarou Sir Rowland, articulando claramente as palavras. - Afinal, uma baia equina é algo bem diferente de uma equina baia.
Miss Peake ria jovialmente disso, quando Hugo entrou na sala.
Como vai? - cumprimentou ela. - Estou levando meu rotineiro puxão de orelha. Muito irônico como sempre. - Aproximando-se de Hugo, deu-lhe um tapinha nas costas e em seguida voltou-se aos demais. - Bem, boa noite a todos - gritou ela. - Está na hora de ir andando. Me dá aqui esses brócolis.
Sir Rowland o devolveu.
Baia equina... equina baia! - exclamou ela. - Essa foi boa! Não vou me esquecer, pode deixar. - Com outra risada estrondosa, sumiu pelas portas de vidro.
Hugo observou Miss Peake se afastar. Voltou-se para Clarissa e Sir Rowland.
Por que cargas d'água Henry aguenta essa mulher? Admirou-se.
Na verdade, ele a considera difícil de engolir - respondeu Clarissa. Pôs o livro de Pippa na mesa e se deixou afundar na poltrona. Hugo respondeu:
Eu também. Ela se acha tão esperta! Sempre com aquele jeito animado de estudante.
Temo que seja um caso de atraso na idade mental acrescentou Sir Rowland, meneando a cabeça.
Clarissa sorriu e disse:
Concordo que ela quase enlouquece a gente, mas é uma ótima jardineira e, como faço questão de repetir, ela vem junto com a casa, e já que a casa é uma maravilha de tão barata...
Barata? É mesmo? - interrompeu Hugo. - Não imaginava.
Uma pechincha - disse-lhe Clarissa. - Saiu um anúncio no jornal. Nós viemos para vê-la uns dois meses atrás e na mesma hora a alugamos por seis meses, com mobília e tudo.
A quem pertence a casa? - indagou Sir Rowland.
Era de um tal Sr. Sellon - respondeu Clarissa.
Mas ele morreu. Era um comerciante de antiguidades em Maidstone.
Ah, sim! - exclamou Hugo. - Sei quem é. Sellon & Brown. Um tempo atrás comprei um espelho estilo Chippendale muito bonito na loja dele em Maidstone. Sellon morava aqui no campo e ia a Maidstone todos os dias, mas acho que às vezes ele trazia clientes aqui para mostrar as coisas que mantinha em casa.
Nem me fale - contou Clarissa aos dois amigos -, esta casa tem algumas desvantagens. Ontem, por exemplo, um homem de traje xadrez berrante chegou guiando um carro esporte e fez uma proposta por essa escrivaninha - apontou ela. - Eu disse a ele que não era nossa e que por isso não podíamos vendê-la, mas ele simplesmente não escutou o que eu dizia e continuou a aumentar o preço. No fim chegou a quinhentas libras.
Quinhentas libras! - exclamou Sir Rowland, realmente estarrecido. Cruzou a sala até a escrivaninha. - Meu bom Deus! - continuou. - Puxa, acho que nem mesmo na feira de antiguidades alcançaria um preço perto disso. É uma peça interessante, mas com certeza não particularmente valiosa.
Enquanto Hugo juntava-se a ele perto da escrivaninha, Pippa retornou à sala.
Ainda estou com fome - reclamou.
Não é possível — Clarissa disse com firmeza.
Estou sim - insistiu Pippa. — Leite e biscoitos de chocolate e uma banana não enchem abarriga de ninguém - falou, jogando-se na cadeira de braços.
Sir Rowland e Hugo ainda perscrutavam a escrivaninha.
Sem dúvida, é uma mesa bonita - observou Sir Rowland. - Um móvel bem autêntico, imagino, mas não exatamente o que eu chamaria de uma peça de colecionador. Não concorda, Hugo?
-Sim, mas talvez tenha uma gaveta secreta com um colar de diamantes escondido - brincou Hugo.
Tem uma gaveta secreta. — intrometeu-se Pippa.
O quê? - espantou-se Clarissa.
Achei no sebo um livro sobre gavetas secretas em móveis antigos - explicou Pippa. - Depois andei olhando as escrivaninhas e outras coisas pela casa. Mas essa é a única que tem uma gaveta secreta - Levantou-se da cadeira. - Olhem - convidou ela. - Vou mostrar a vocês.
Ela caminhou até a escrivaninha e abriu uma das gavetas. Clarissa veio e inclinou-se sobre o soía para observar, enquanto Pippa deslizava a mão dentro da gaveta.
Viram? - disse e mostrou. - É só deslocar isso daqui pra fora, e tem um tipo de lingueta embaixo.
Humpfl - grunhiu Hugo. - Não vejo nada de muito secreto nisso.
Ah, mas isso não é tudo - continuou Pippa. - Você aperta isso aqui embaixo e... salta um escaninho. - De novo, fez conforme descreveu, e um escaninho foi ejetado da mesa. - Estão vendo?
Hugo pegou o escaninho e retirou dele um pedaço de papel.
Olhem - disse -, o que será isso? - Leu em voz alta: - "Seus trouxas!"
Quê?! - exclamou Sir Rowland. Pippa caiu na risada, e os outros a imitaram. Sir Rowland, brincalhão, sacudiu Pippa, que fingiu revidar com um soco e se vangloriou:
Fui eu que coloquei isto ali!
Sua malandrinha! — disse Sir Rowland, descabelando a menina. - Está me saindo pior que a Clarissa em matéria de truques infantis.
Na verdade - contou Pippa -, tinha um envelope com um autógrafo da rainha Vitória dentro. Vejam, vou mostrar pra vocês. - Disparou até as prateleiras, enquanto Clarissa recolocava o escaninho e fechava a gaveta da escrivaninha.
Numa das prateleiras inferiores da estante de livros, Pippa abriu uma caixinha, pegou um envelope antigo e mostrou três pedaços de papel ao grupo ali reunido.
Coleciona autógrafos, Pippa? - perguntou Sir Rowland.
Não exatamente - respondeu Pippa. - Apenas como atividade secundária. - Entregou um dos pedaços de papel a Hugo, que deu uma olhada e passou adiante sir Rowland.
Uma garota da escola é filatelista, e o irmão dela tem uma coleção fabulosa — contou Pippa. - No outono passado, ele achou que tinha conseguido um selo igual ao que tinha visto no jornal... um selo sueco ou suíço que valia centenas de libras. Entregou os dois autógrafos restantes e o envelope a Hugo, que os passou sir Rowland.
O irmão de minha amiga ficou bastante animado - continuou Pippa - e levou o selo a um avaliador. Mas o avaliador disse a ele que aquele não era o selo que ele estava pensando, mas mesmo assim era um ótimo selo. Em todo caso, ele pagou cinco libras pelo selo.
Sir Rowland devolveu os dois autógrafos a Hugo, que os entregou a Pippa.
Cinco libras é um bom preço, não é? - perguntou Pippa, e Hugo concordou com um grunhido.
Pippa baixou o olhar para os autógrafos.
Quanto vocês acham que vale o autógrafo da rainha Vitória? - quis saber ela.
Eu diria que entre cinco a dez xelins - informou Sir Rowland, observando o envelope que continuava a segurar.
Tem do John Ruskin e do Robert Browning também - contou Pippa.
Que, receio, também não tenham muito valor -falou Sir Rowland, entregando o autógrafo remanescente e o envelope a Hugo, que os repassou a Pippa, não sem comentar, em voz baixa e compassiva:
Sinto muito, meu bem. Não está com muita sorte, não é?
Pena que eu não tenho do Neville Duke e do Roger Bannister - murmurou Pippa com ansiedade. - Pelo jeito esses autógrafos históricos são muito batidos. - Guardou o envelope com os autógrafos na caixa, repôs a caixa na prateleira e foi saindo para o hall. - Posso ver se ainda tem biscoito de chocolate na despensa, Clarissa? - perguntou esperançosa.
Sim, se você quiser—disse Clarissa com um sorriso.
Estamos saindo - disse Hugo. Seguiu Pippa até a porta e chamou na escadaria:
Jeremy! Ei! Jeremy!
Já vai! - respondeu Jeremy, descendo as escadas depressa, com um taco de golfe na mão.
Henry deve estar chegando - murmurou Clarissa, tanto para si como para os outros.
Hugo cruzou a sala até a porta de vidro, avisando Jeremy:
Melhor sair por aqui. É mais perto. - Virou-se para Clarissa. - Boa noite, Clarissa querida - disse ele. - Obrigado por nos suportar. Talvez eu vá do clube direto para casa, mas prometo mandar inteiros os hóspedes do fim de semana.
Boa noite, Clarissa - despediu-se Jeremy, seguindo Hugo jardim afora.
Clarissa acenava para eles, quando Sir Rowland apareceu e passou o braço em volta dela.
Boa noite, querida - disse. - Warrender e eu vamos voltar lá pela meia-noite.
Clarissa o acompanhou até a porta de vidro.
Que anoitecer agradável - observou ela. - Vou com você até o portão do campo de golfe.
Caminharam lado a lado no jardim, sem tentar alcançar Hugo e Jeremy.
A que horas chega Henry? - perguntou Sir Rowland.
-Ah, não tenho certeza. Isso varia Daqui a pouco, acho. Seja como for, vamos fazer uma refeição leve e ter uma noite tranquila. Quando vocês voltarem já estaremos na cama.
Sim, não espere por nós, pelo amor de Deus - aconselhou Sir Rowland.
Andaram em silêncio amistoso até o portão do jardim, quando Clarissa falou:
É isso, querido, nos vemos mais tarde, ou mais certo no café-da-manhã.
Sir Rowland deu-lhe um beijinho afetuoso na face e apertou o passo para alcançar os outros. Clarissa deu meia-volta rumo a casa. Caminhou devagar na noite aprazível, detendo-se aqui e ali para saborear aspectos e aromas do jardim, dando rédeas ao pensamento. Riu sozinha ao lembrar-se da imagem de Miss Peake com seus brócolis. Sorriu ao pensar em Jeremy e a sua atabalhoada intenção de cortejá-la; meio à toa, ficou imaginando se ele estava falando sério. Ao aproximar-se da casa, começou a considerar, com prazer, a perspectiva de uma noite com o marido na placidez do lar.

CAPÍTULO 5

Pouco depois de Clarissa e Sir Rowland terem saído, Elgin, o mordomo, entrou na sala vindo do hall, trazendo uma bandeja com bebidas e repousando-a na mesa. Quando tocou a campainha da frente, foi atender. Era um homem moreno de charme artificial.
Boa noite, senhor - saudou Elgin.
Boa noite. Quero falar com a Sra. Brown - disse o homem com certa rispidez.
Pois não, senhor, tenha a bondade - disse Elgin. O homem entrou, e Elgin fechou a porta. - A quem devo anunciar?
Sr. Costello.
Por aqui, meu senhor. - Elgin mostrou o caminho através do hall. Ele ficou de lado para permitir que o recém- chegado entrasse na sala de estar e disse: - Pode esperar aqui, senhor. A madame está em casa. Vou ver se consigo encontrá-la. - Começou a se afastar, em seguida parou e dirigiu-se ao homem. - O senhor disse Sr. Costello?
Exato - respondeu o desconhecido. - Oliver Costello.
Pois não, meu senhor - murmurou Elgin, saindo da sala e fechando a porta atrás de si.
Ao se ver sozinho, Oliver Costello percorreu a sala com o olhar, caminhou primeiro à porta da biblioteca, ficou alguns segundos escutando e fez o mesmo na porta do hall. Aproximou-se da escrivaninha, curvou-se sobre ela e examinou as gavetas de perto. Escutando um ruído, afastou-se rapidamente da mesa. Estava parado no meio da sala quando Clarissa entrou pela porta de vidro.
Costello virou-se. Ao ver quem era, pareceu admirado.
Foi Clarissa quem falou primeiro. Com expressão de intensa surpresa, exclamou ofegante:
Você?
Clarissa! O que está fazendo aqui? - exclamou Costello, soando igualmente surpreso.
Pergunta cretina, não acha? - retrucou Clarissa. - Esta é a minha casa.
Sua casa? - perguntou de modo cético.
Não faça de conta que não sabe - disse Clarissa, com veemência.
Costello fitou-a em silêncio por um tempo. De repente mudou de atitude e disse:
Que casa encantadora. Pertencia ao velho... como é mesmo o nome dele? O vendedor de antiguidades, não é? Lembro que ele me trouxe aqui uma vez para me mostrar umas cadeiras Luís XV. - Pegou uma cigarreira do bolso.
Aceita um? - ofereceu.
Não, obrigada - respondeu Clarissa com aspereza.
E - acrescentou - acho melhor você ir embora. Meu marido está para chegar a qualquer momento e ele não vai gostar nada de ver você por aqui.
Costello reagiu com divertimento um pouco atrevido.
Mas é justamente com ele que eu quero falar. Para falar a verdade, é por isso que estou aqui, para discutir um acordo adequado.
Acordo? - perguntou Clarissa perplexa.
Um acordo sobre a Pippa - explicou Costello.
Miranda até concorda em deixar Pippa com Henry parte das férias de julho e talvez uma semana no Natal. Mas afora isso...
Clarissa cortou ríspida.
O que você quer dizer? - indagou ela. - A casa de Pippa é aqui.
Costello caminhou descansadamente até a mesa com as bebidas.
Minha cara Clarissa - exclamou - sabe muito bem que o tribunal deu a custódia da criança a Miranda.
Pegou uma garrafa de uísque. - Posso? - Sem esperar resposta serviu um drinque. - Não houve contestação, lembra-se?
Clarissa o encarou hostilmente.
Henry só concordou em dar o divórcio a Miranda
declarou de maneira clara e concisa - depois de ficar acertado entre eles, em particular, que Pippa ia morar com o pai. Se Miranda não tivesse concordado com isso, Henry não teria consentido em dar o divórcio.
Costello deu uma risada que beirou o escárnio.
Não conhece Miranda muito bem, não é? - perguntou. — Ela está sempre mudando de ideia.
Clarissa afastou-se dele.
Ninguém vai me convencer - disse ela com desprezo - que Miranda quer mesmo ficar com a criança; ela não dá a mínima para Pippa.
Mas você não é a mãe, querida Clarissa - respondeu Costello impertinente. - Posso chamá-la de Clarissa, não? - continuou, com outro sorriso desagradável. - Afinal, agora que estou casado com Miranda, você e eu somos quase parentes.
Virou o drinque de um só gole e baixou o copo.
Sim, posso garantir - prosseguiu ele agora o instinto materno de Miranda aflorou de verdade. Ela quer Pippa morando conosco a maior parte do tempo.
Não acredito - retorquiu Clarissa.
-Você é que sabe - disse Costello, acomodando-se confortavelmente na cadeira de braços. - Mas não tem sentido contestar agora. Afinal de contas, o acerto foi apenas verbal.
Vocês não vão ficar com Pippa - disse Clarissa, tenazmente. - Ela chegou aqui com os nervos em frangalhos. Agora está bem melhor, feliz na escola, e é assim que ela vai permanecer.
Como vai conseguir isso, querida? - zombou Costello. - A lei está do nosso lado.
O que há por trás disso tudo? - indagou Clarissa desnorteada. - Vocês não gostam de Pippa. Qual o seu real interesse? - Refletiu um pouco e bateu na testa. - Ah! Como sou boba. Chantagem, é claro.
Quando Costello estava para responder, Elgin surgiu.
Procurava a senhora, madame - falou o mordomo a Clarissa. - A Sra. Elgin e eu podemos sair agora, madame?
Claro que sim, Elgin - respondeu Clarissa.
Nosso táxi chegou - explicou o mordomo. - A ceia está servida na sala de jantar. - Ele estava saindo, mas voltou-se para Clarissa. - A senhora quer que eu feche a sala, madame? - perguntou, observando Costello de soslaio.
Não precisa, pode deixar que eu cuido disso - assegurou Clarissa. - O senhor e sua esposa podem tirar sua folga agora.
Obrigado, madame - disse Elgin. Girou em direção ao hall e completou: - Boa noite, madame.
Boa noite, Elgin - respondeu Clarissa.
Costello aguardou o mordomo fechar a porta e recomeçou.
Chantagem é uma palavra muito feia - ele salientou de modo pouco original. - Devia tomar mais cuidado antes de fazer acusações injustas. Por acaso eu falei em dinheiro?
Até agora não - respondeu Clarissa. - Mas é isso que você pretende, não é?
Costello deu de ombros e estendeu as mãos num gesto expressivo.
É verdade que não estamos em muito boa situação - admitiu. - Miranda sempre foi extravagante, você sabe muito bem. Acho que ela quer que Henry restabeleça a mesada dela. Afinal, ele é rico.
Clarissa aproximou-se de Costello e o encarou firme e diretamente.
Agora escute - ordenou ela. - Não posso falar por Henry, mas posso falar por mim. Tente levar Pippa embora, e vou lutar com unhas e dentes. - Fez uma pausa e acrescentou: - E vou usar a arma que estiver à mão.
Fazendo pouco caso da explosão dela, Costello disfarçou o riso, mas Clarissa continuou:
-Não vai ser difícil conseguir comprovação médica de que Miranda é viciada em drogas. Posso até mesmo ir à Scotland Yard falar com a divisão de Narcóticos e sugerir que fiquem de olho em você.
Costello reagiu com sobressalto.
Henry é muito correto para apoiar esses seus métodos - comentou.
Pois então Henry vai ter que tolerá-los - retorquiu ela com ferocidade. - O que importa é a criança. Não vou deixar ninguém maltratar ou assustar Pippa.
Neste momento, Pippa entrou na sala. Ao ver Costello, estacou aterrorizada.
Oi, Pippa, como vai? Como você está crescida - saudou ele, indo em direção à menina.
Pippa deu um passo para trás.
Vim especialmente para fazer um acordo em relação a você - contou ele. - Sua mãe não vê a hora de você ir morar com ela de novo. Ela e eu nos casamos e...
Não vou - gritou Pippa, muito nervosa, correndo até Clarissa para buscar proteção. - Não vou. Clarissa, eles não podem me forçar, podem? Eles não...
Não se preocupe, Pippa querida - disse Clarissa, abraçando a menina. - Seu lar é aqui, junto com seu pai e comigo. Você não vai ir embora.
Mas eu lhe garanto - começou Costello, apenas para ser cortado com raiva por Clarissa.
Saia daqui agora - gritou ela.
Fingindo de modo irônico estar amedrontado, Costello jogou as mãos acima da cabeça e afastou-se.
Agora! - repetiu Clarissa. E avançou na direção dele. - E não me apareça mais aqui, entendeu?
Miss Peake apareceu nas portas de vidro com um grande forcado na mão.
Ah, Sra. Hailsham-Brown - começou ela -, eu...
Miss Peake - interrompeu Clarissa. - Pode acompanhar o Sr. Costello pelo jardim até o portão dos fundos?
Costello fitou Miss Peake, que levantou o forcado ao retribuir o olhar.
Miss... Peake? - indagou ele.
Prazer em conhecê-lo - respondeu com sua voz áspera. - Cuido da horta e do jardim.
Sim, é claro - disse Costello. - Eu já vim aqui uma vez, talvez a senhora lembre, olhar uns móveis antigos.
Ah, sim - respondeu Miss Peake. - Na época do Sr. Sellon. Mas, sabe, o senhor não vai poder vê-lo. Ele morreu.
Não, eu não vim para vê-lo - afirmou Costello.
Eu vim para ver... a senhora Brown. - Deu ao nome certa ênfase.
Ah, sim? Verdade? Bem, agora o senhor já a viu disse-lhe Miss Peake. Parecia ter percebido que o visitante não era mais bem-vindo.
Costello dirigiu-se a Clarissa.
Até mais ver, Clarissa - disse. - Vai receber notícias minhas, pode ter certeza - avisou ele em tom quase ameaçador.
Por aqui - disse Miss Peake, indicando as portas de vidro com um gesto. E foi atrás dele, perguntando ao saírem: - O senhor vai pegar o ônibus, ou veio de carro?
Atravessavam o jardim, quando Costello informou:
Estacionei o carro perto do estábulo.
CAPÍTULO 6
Tão logo Oliver Costello se retirou com Miss Peake, Pippa desatou a chorar.
Ele vai me levar embora daqui - lamentou, aconchegando-se nos braços de Clarissa, em meio a soluços de amargor.
Não, não vai - garantiu Clarissa, mas a única resposta de Pippa foi gritar:
Odeio Oliver. Sempre odiei.
Com medo de que a menina estivesse à beira da histeria, Clarissa chamou a atenção dela com veemência: Pippa!
A menina afastou-se de Clarissa.
Não quero voltar para minha mãe, prefiro morrer - berrou de forma estridente. - Prefiro morrer. Vou matá-lo.
Pippa! - repreendeu Clarissa.
Neste momento, Pippa parecia irrefreável.
Eu me mato - bradou. - Corto meus pulsos e sangro até morrer.
Clarissa segurou-a firme pelos ombros.
Pippa controle-se - ordenou. - Está tudo bem, acredite. Estou aqui.
Mas eu não quero voltar para minha mãe, e eu odeio Oliver - exclamou Pippa em desespero. - Ele é malvado, malvado, malvado.
Sim, querida, eu sei disso - murmurou Clarissa, tentando reconfortá-la.
Mas tem uma coisa que você não sabe - disse Pippa, soando ainda mais desesperada. - Não contei tudo para você antes... Quando eu vim morar aqui. Não consegui tocar no assunto. Miranda me tratava mal e bebia o tempo todo, mas eu não vim só por causa disso. Uma noite, ela saiu não sei para onde, e Oliver ficou sozinho comigo... acho que ele estava muito bêbado... não sei... mas... - Parou e por um instante pareceu incapaz de continuar. Em seguida, fazendo um esforço, baixou o olhar e disse, num sussurro indistinto: - Ele tentou fazer coisas comigo.
Clarissa ficou horrorizada.
Pippa, o que você quer dizer? - perguntou. - O que está tentando dizer?
Desesperada, Pippa olhou em torno, como se procurasse alguém que pudesse falar por ela.
Ele... ele tentou me beijar e, quando eu o empurrei, ele me agarrou e começou a arrancar o meu vestido. Daí ele... - De repente, parouejrrompeu em pranto.
Venha cá, meu bem - murmurou Clarissa, abraçando a menina. - Tente não pensar nisso. Já passou. Nunca mais algo assim vai acontecer com você. Não vou descansar enquanto Oliver não tenha sido punido pelo que fez. Aquele animal asqueroso. Isso não vai ficar assim.
De súbito, o humor de Pippa mudou. Sua voz assumiu um quê de esperança ao lhe ocorrer uma ideia nova.
Bem que um raio podia cair em cima dele - pensou consigo em voz alta.
Podia mesmo - concordou Clarissa podia mesmo. - Seu rosto se revestiu de uma firmeza inabalável.
Agora se acalme, Pippa. Está tudo bem - garantiu Clarissa, puxando um lenço do bolso. - Tome, assue o nariz.
Pippa obedeceu e logo em seguida usou o lenço para enxugar as lágrimas derramadas no vestido de Clarissa.
Com certo esforço, Clarissa conseguiu achar graça do fato.
Agora, já para cima tomar seu banho - ordenou, fazendo Pippa dar meia-volta rumo ao hall. - E pode caprichar... seu pescoço está imundo.
Pippa parecia mais calma.
Sempre está - respondeu ela e foi saindo. Mas ao chegar na porta virou de repente e correu para Clarissa.
Não vai deixar ele me levar, não é? - suplicou.
Só por cima do meu cadáver - respondeu Clarissa, decidida. Então se corrigiu. - Ou melhor, só por cima do cadáver dele. Pronto! Está bom assim?
Pippa assentiu com a cabeça, e Clarissa beijou sua testa.
Agora, vamos andando - ordenou.
Pippa deu mais um abraço na madrasta e saiu. Clarissa ficou um tempo pensando; ao perceber que a sala escurecera, acendeu as luzes indiretas. Então fechou as portas de vidro e sentou-se no sofá, absorta em pensamentos, o olhar perdido.
Um ou dois minutos depois, ao escutar a porta da frente sendo fechada, olhou com expectativa para a porta do hall, por onde logo entrou o seu marido, Henry Hailsham- Brown, um homem bem-apessoado, de seus quarenta anos, o rosto um tanto inexpressivo, usando óculos de aros de tartaruga e carregando uma valise.
Oi, querida - saudou Henry, acendendo as arandelas e repousando a valise na poltrona.
Oi, Henry - respondeu Clarissa. - Que dia horrível, não acha?
Mesmo? - cruzou a sala, debruçou-se por cima do encosto do sofá e beijou a esposa.
Nem sei por onde começar - disse ela. - Tome um drinque antes.
Agora não - respondeu Henry, indo até a porta de vidro e fechando as cortinas. - Quem está em casa?
Um pouco surpresa com a pergunta, Clarissa respondeu.
Ninguém. É quinta-feira, a noite de folga dos Elgin. Vamos jantar presunto frio e mousse de chocolate, e o café vai estar saboroso porque eu mesma vou preparar.
Henry respondeu apenas com um enigmático "Hum?".
Intrigada com o jeito do marido, Clarissa indagou:
Henry, algum problema?
Bem, sim, de certa forma - reconheceu.
Algo errado? - perguntou ela. - É Miranda?
Não, na verdade não há nada de errado - assegurou Henry. - Pelo contrário. Sim, muito pelo contrário.
Querido - falou Clarissa, em tom afetuoso, com apenas um suave toque de deboche -, estou enganada ou percebo por trás dessa impenetrável fechada de Relações Exteriores uma certa palpitação humana?
Henry adotou um ar de deleite antecipado.
Bem - admitiu de certo modo, é mesmo palpitante. - Pouco depois acrescentou: — Por coincidência, um leve nevoeiro formou-se em Londres.
E isso é palpitante? - perguntou Clarissa.
Não, o nevoeiro não, é claro.
Então? - provocou Clarissa.
Henry olhou rapidamente em torno, como para se assegurar de que ninguém poderia escutá-lo. Em seguida, atravessou a sala e sentou-se no sofá ao lado de Clarissa.
Você precisa guardar segredo - enfatizou com a voz muito séria.
Sim? - incitou Clarissa esperançosa.
É mesmo confidencial - reiterou Henry. - Ninguém pode ficar sabendo. Mas, na verdade, você precisa saber.
Bem, vamos lá, conte - estimulou ela.
Henry olhou ao redor mais uma vez e voltou-se para Clarissa.
É tudo muito sigiloso - insistiu. Fez silêncio para causar impressão e declarou: - Kalendorff, o premier soviético, está chegando a Londres amanhã para uma importante reunião com o primeiro-ministro.
Nem um pouco impressionada, Clarissa respondeu:
Sim, eu sei.
Henry fitou-a perplexo.
Como assim, sabe? - indagou.
Li no jornal domingo passado — ela informou com naturalidade.
Não entendo como você consegue ler esses jornais de quinta categoria - censurou ele, parecendo realmente incomodado. - De qualquer maneira - prosseguiu -, os jornais não tinham como saber sobre a vinda de Kalendorff . Essa informação é ultrassecreta.
Meu pobre docinho - murmurou Clarissa, numa voz que misturava pena e incredulidade. - Ultrassecreta? Francamente! Vocês, funcionários do alto escalão... acre-ditam em cada uma!
Henry levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, sem esconder a tensão.
Droga, a notícia deve ter vazado - sussurrou.
Eu achava - observou Clarissa em tom mordaz
que a esta altura do campeonato você já sabia que notícias sempre vazam. Aliás, eu achava que você estaria preparado para isso.
Um pouco ofendido, Henry explicou:
Oficialmente a notícia foi liberada hoje à noite. O voo de Kalendorff deve chegar a Heathrow às 8h40, mas na verdade... - Inclinou-se sobre o sofá e fitou a esposa com ar duvidoso. - Falando sério, Clarissa - perguntou solenemente -, posso confiar em sua discrição?
Sou bem mais discreta que os jornais de domingo
protestou Clarissa, jogando os pés à frente e aprumando o corpo no sofá.
Henry sentou no braço do sofá e debruçou-se sobre Clarissa de modo conspirativo.
A reunião será amanhã em Whitehall - revelou -, mas seria muito proveitoso se antes disso pudesse haver uma conversa em particular entre Sir John e Kalendorff. Como é de se imaginar, todos os repórteres estarão aguardando Kalendorff em Heathrow, e depois que o avião pousar os movimentos de Kalendorff serão públicos.
Mais uma vez olhou ao redor, como se temesse descobrir membros da imprensa espiando por cima de seu ombro, e prosseguiu num tom de animação crescente:
Felizmente, esse começo de nevoeiro caiu do céu.
Continue - encorajou Clarissa. - Por enquanto está emocionante.
No último momento - contou Henry-, por questões de segurança, foi decidido que o avião não vai pousar em Heathrow. O pouso será transferido, como é comum nessas circunstâncias...
Para Bindley Heath - atalhou Clarissa. - São apenas 24 quilômetros daqui. Já sei aonde você quer chegar.
Você é sempre muito perspicaz, Clarissa querida - comentou Henry, um pouco reprovador. - Sim, vou ter que ir até o aeroporto agora em meu carro. Vou me encontrar com Kalendorff e trazê-lo até aqui. O primeiro-ministro está vindo para cá de automóvel direto de Downing Street. Meia hora será tempo suficiente para o que eles precisam discutir, e depois Kalendorff viaja para Londres com Sir John.
Henry fez uma pausa. Levantou-se, deu alguns passos, voltou-se e disse a ela com franqueza:
Sabe, Clarissa, isso pode ter enorme importância em minha carreira. Estão depositando muita confiança em mim ao fazer esse encontro aqui.
E fazem muito bem - respondeu Clarissa com voz firme, indo até o marido e o abraçando. - Henry, querido - exclamou -, acho tudo isso maravilhoso.
A propósito - informou Henry solene Kalendorff será chamado apenas de Sr. Jones.
Sr. Jones? - perguntou Clarissa, tentando, sem muito sucesso, não transparecer um toque de ceticismo divertido na voz.
Exato - explicou Henry -, num caso desses, é melhor não usar os nomes verdadeiros. Prudência nunca é demais.
Sim... mas... Sr. Jones? - indagou Clarissa. - Não podiam ter pensado em algo melhor que isso? - Acenou a cabeça, com ar incerto, e continuou: - E quanto a mim? Por acaso, recolho-me ao harém, por assim dizer, ou sirvo as bebidas, cumprimento os dois e desapareço discretamente?
Sem esconder certa inquietude, Henry observou a esposa e advertiu:
Deve levar isso a sério, meu bem.
Mas, Henry, querido - insistiu Clarissa -, não posso levar a sério e mesmo assim me divertir um pouquinho?
Por um breve instante Henry considerou a pergunta, antes de responder com gravidade:
Pensando bem, acho melhor você não aparecer, Clarissa.
Clarissa pareceu não se importar com isso.
Tudo bem - concordou. - E quanto à comida? Vão querer algo?
Ah, não - disse Henry. - Não é o caso de se preocupar com uma refeição.
Que tal uns sanduíches? - sugeriu Clarissa. Sentou no braço do sofá e continuou: - Sanduíches de presunto seriam os mais adequados. Envoltos em guardanapos para manter o frescor. E café quente, numa garrafa térmica. Sim, isso seria perfeito. E a musse de chocolate pode deixar que eu levo para o quarto como consolo por ser excluída da reunião.
Clarissa, não é hora... - começou Henry, desapro- vador, somente para ser interrompido pela esposa, que se levantou e atirou os braços em volta do pescoço dele.
Querido, estou falando sério, verdade - garantiu. - Nada vai dar errado. Não vou permitir. - Ela o beijou com carinho.
Henry gentilmente livrou-se do abraço.
E quanto ao velho Roly? - perguntou.
Ele e Jeremy estão jantando na sede do clube com Hugo - contou Clarissa. - Vão jogar bridge depois, por isso Roly e Jeremy voltam só pela meia-noite.
E os Elgin saíram? - perguntou Henry.
Querido, sabe que eles sempre vão ao cinema às quintas-feiras - lembrou Clarissa. - E só voltam bem depois das onze.
Satisfeito, Henry exclamou:
Ótimo. Parece que tudo vai funcionar a contento. Sir John e o senhor... hum...
Jones - lembrou Clarissa.
Exato, querida. O primeiro-ministro e o Sr. Jones terão ido embora muito antes de eles voltarem. - Henry consultou o relógio. - Bem, é melhor eu tomar um banho rápido antes de ir a Bindley Heath - afirmou.
E é melhor eu preparar os sanduíches de presunto - disse Clarissa, saindo depressa da sala.
Pegando a valise, Henry comentou:
Não deixe as luzes acesas, Clarissa. - Foi até a porta e desligou a iluminação indireta. - Nós produzimos nossa eletricidade por aqui a um custo alto. - Apagou também as arandelas de parede. - Não estamos em Londres.
Depois de uma rápida olhada na sala, agora imersa na escuridão exceto pela tênue luz do hall, Henry assentiu e fechou a porta.

CAPÍTULO 7

No clube de golfe, Hugo reclamava do comportamento de Clarissa no episódio da prova de vinho do Porto.
Está na hora de ela parar com esses joguinhos, sabe - disse, enquanto se dirigiam ao bar. - Lembra, Roly, daquela vez em que eu recebi um telegrama de Whitehall informando que meu nome estaria na próxima lista anual de títulos honoríficos e que eu seria agraciado com o título de Cavaleiro? Uma noite, quando eu jantava com os dois, confidenciei o assunto a Henry. Ele demonstrou surpresa, mas Clarissa começou a rir... Só então percebi que tinha sido ela quem enviara o tal telegrama. Ela sabe ser infantil às vezes.
Sir Rowland riu discretamente.
Sim, e como sabe. E adora representar. A verdade é que ela roubava a cena no clube de teatro da escola. Uma época cheguei a pensar que ela ia levar a sério e seguir carreira nos palcos. Ela convence até mesmo quando conta as mentiras mais deslavadas. Sim, é isso que os atores são. Mentirosos convincentes.
Ficou um instante imerso em lembranças. Depois prosseguiu:
A melhor amiga de Clarissa na escola era uma moça chamada Jeanette Collins. O pai dela tinha sido um famoso jogador de futebol, e a própria Jeanette era fanática por futebol. Bem, um dia Clarissa ligou para Jeanette, disfarçando a voz, e disse ser a agente de relações públicas de um time qualquer. Contou que Jeanette havia sido escolhida a nova mascote do time, mas com uma condição: que ela fosse àquela tarde ao estádio do Chelsea, fantasiada de coelhinha, e ficasse do lado de fora, perto das filas de entrada dos torcedores. Não se sabe como, mas o fato é que Jeanette deu um jeito de alugar uma fantasia e lá se foi vestida de coelhinha ao estádio, onde foi caçoada por centenas de pessoas e fotografada por Clarissa, que estava esperando por ela. Jeanette ficou furiosa. Acho que a amizade não resistiu a isso.
Não é de se admirar — rosnou Hugo resignado. Pegou o cardápio e começou a dedicar atenção à importante matéria de escolher o que comeria mais tarde.
Nesse meio tempo, na sala de estar vazia dos Hailsham-Brown, minutos depois de Henry ter saído para tomar a ducha, Oliver Costello entrou sorrateiramente pela porta de vidro, deixando as cortinas abertas para que o luar penetrasse. Com cuidado, percorreu a sala com o foco de uma lanterna, foi à escrivaninha e acendeu a lâmpada. Depois de erguer a lingiieta do escaninho secreto, de repente apagou a lâmpada e ficou imóvel, como se tivesse escutado algo. Aparentemente tranquilizado, acendeu de novo a lâmpada da mesa e abriu o escaninho.
Atrás de Costello, a parede ao lado da estante de livros se abriu devagar e silenciosa. Junto à escrivaninha, ele fechou o escaninho, apagou a lâmpada e se virou bruscamente. Nem bem andou e levou um violento golpe na cabeça, desferido por alguém escondido no interior do nicho. Costello desabou na hora, caindo atrás do sofá, e a porta secreta fechou depressa.
A sala permaneceu na escuridão um instante, até Henry Hailsham-Brown entrar vindo do hall, acender as arandelas e chamar "Clarissa!". Ele colocou os óculos e, quando abastecia a cigarreira com os cigarros de uma caixa na mesinha perto do sofá, Clarissa entrou, dizendo:
Estou aqui, querido. Quer um sanduíche antes
de ir?
Não, acho melhor eu sair logo - respondeu Henry, dando tapinhas nervosos no casaco.
Mas você vai chegar muito cedo - disse Clarissa.
São só vinte minutos de carro até lá.
Henry meneou a cabeça.
Nunca se sabe - declarou. - Posso furar um pneu, ou o carro pode quebrar.
Não se preocupe à toa, meu bem - repreendeu Clarissa, endireitando a gravata dele. - Tudo vai correr conforme o planejado.
Mas e quanto a Pippa? - perguntou Henry ansioso.
Tem certeza de que ela não vai descer e aparecer bem no meio da conversa sigilosa entre Sir John e Kalen... quero dizer, Sr. Jones?
Não, não há perigo disso - garantiu Clarissa. - Vou subir ao quarto dela e vamos fazer um banquete. Vamos assar as linguiças do café-da-manhã e repartir a mousse de chocolate.
Você é perfeita com Pippa, meu bem - disse com um sorriso afetuoso. - Esse é um dos motivos por que lhe sou muito grato. - Hesitou, um tanto atrapalhado, e prosseguiu: - Nunca fui de me expressar muito bem... eu... sofri tanto... e agora é tudo tão diferente. Você... - apertou Clarissa junto ao peito.
Por alguns instantes, os dois esqueceram do mundo num beijo apaixonado. Em seguida, Clarissa escapou suavemente do abraço e entrelaçou suas mãos nas dele.
Você me faz muito feliz, Henry—disse. - E vai ficar tudo bem com Pippa. Ela é uma criança adorável.
Henry sorriu com ternura.
Agora, vá se encontrar com esse tal de Sr. Jones - ordenou ela, empurrando-o rumo à porta do hall. - Sr. Jones - repetiu. - Vocês não tinham um nome menos ridículo para escolher?
Henry estava para sair da sala quando Clarissa perguntou:
Vão entrar pela porta da frente? Quer que eu a deixe destrancada?
Ele parou na soleira da porta, meditou e respondeu:
Não. Acho que vamos entrar pelo jardim.
É melhor colocar o sobretudo, Henry. Está esfriando - avisou Clarissa, empurrando-o ao hall. - E talvez o cachecol também. - Obediente, ele apanhou o sobretudo de um cabideiro no hall. Clarissa o acompanhou até a porta da frente e deu mais um conselho.
Cuide-se na estrada, querido.
Pode deixar - respondeu Henry. - Sabe que eu sempre me cuido.
Depois que ele saiu, Clarissa fechou a porta e foi até a cozinha terminar o preparo dos sanduíches. Mesmo atarefada em dispor os sanduíches num prato, envoltos era guardanapos úmidos para manter o frescor, o pensamento teimava em recair no recente e exasperador encontro com Oliver Costello. Com as sobrancelhas franzidas, levou os sanduíches à sala de estar, repousando-os na mesinha.
De repente, temerosa de provocar a ira de Miss Peake por ter marcado a mesa, pegou o prato de novo, esfregou sem sucesso a marca deixada e solucionou a questão cobrindo a marca com um vaso de flores que estava perto.
Transferiu o prato de sanduíches para o banquinho e em seguida sacudiu com cuidado as almofadas do sofá. Pegou o livro de Pippa e o levou à estante, cantarolando:
"Se alguém encontrasse alguém, atravessando o campo de cen..." - de súbito, parou de entoar a cantiga e soltou um grito estridente ao tropeçar em Oliver Costello e quase cair sobre ele.
Curvando-se sobre o corpo, Clarissa reconheceu quem era.
Oliver!—exclamou sem fôlego. Horrorizada, fitou-o por um tempo que pareceu uma década. Persuadida de que ele estava morto, endireitou-se depressa e correu à porta para chamar Henry, mas logo se deu conta de que ele saíra. Voltou ao corpo, correu até o telefone e tirou o fone do gancho. Começou a discar, parou e pôs o fone no gancho de novo. Ficou um tempo pensando e observou a porta secreta na parede. Tomando uma decisão rápida, olhou a parede outra vez e, com relutância, curvou-se e começou a arrastar o corpo em direção a ela.
Enquanto Clarissa fazia isso, a porta secreta abriu devagar. Pippa saiu da câmara, com um chambre sobre o pijama.
Clarissa! - gemeu a menina, correndo com ímpeto para a madrasta.
Tentando ficar entre Pippa e o corpo de Costello, Clarissa procurou afastar a menina com um leve empurrão.
Pippa - implorou -, não olhe, querida. Não olhe.
Com a voz sufocada, Pippa gritou:
Foi sem querer. Verdade, foi sem querer.
Apavorada, Clarissa segurou a criança pelos braços.
Pippa! Foi... você? - falou ela sem fôlego.
Ele está morto, não é? Morto de verdade? - indagou Pippa. Entre soluços convulsivos, lamentou: - Eu não... queria matá-lo. Não tive intenção.
Calma, tenha calma - murmurou Clarissa, con- solando-a. - Está tudo bem. Venha, sente aqui. - Levou Pippa até a cadeira de braços e a fez sentar-se.
Eu não queria. Não queria matá-lo - choramingou Pippa.
Clarissa ajoelhou-se ao lado dela.
Claro que você não queria - concordou. - Agora escute, Pippa...
Pippa não parava de chorar, ficando cada vez mais nervosa. Clarissa ralhou com ela.
Pippa, preste atenção. Tudo vai acabar bem. Precisa esquecer o que aconteceu. Esquecer tudo, entende?
Sim - soluçou Pippa -, mas... mas eu...
Pippa - continuou Clarissa com mais energia -, precisa confiar em mim e acreditar no que eu estou falando. Vai ficar tudo bem. Mas precisa ser corajosa e fazer exatamente o que eu disser.
Ainda em meio a soluços convulsivos, Pippa tentou desviar o rosto.
Pippa! - gritou Clarissa. - Vai fazer o que estou pedindo? - Puxou a menina de volta e a olhou bem de perto. - Vai ou não vai?
Sim, vou sim - chorou Pippa, aninhando a cabeça no peito de Clarissa.
Está bem. - Clarissa adotou um tom consolador e ajudou Pippa a levantar-se da cadeira. - Agora suba e vá para a cama.
Vem comigo, por favor - suplicou a menina.
Sim, sim - assegurou Clarissa. - Vou subir daqui a pouco, assim que eu puder, e vou lhe dar um bom comprimido. Então você vai adormecer e amanhã tudo vai parecer bem diferente. - Olhou o corpo no chão e acrescentou: - Não vai haver mais nada para se preocupar.
Mas ele está morto... não está? - perguntou Pippa.

Não, não, talvez não esteja - respondeu Clarissa de modo evasivo. - Vou descobrir. Agora vamos, Pippa. Obedeça.
Soluçando, Pippa saiu da sala e subiu a escada correndo. Clarissa observou-a saindo; em seguida, volveu o olhar para o corpo estirado no chão.
Imagine se eu encontrasse um cadáver na sala de estar, o que eu faria? — murmurou consigo. Ficou por um tempo absorta e exclamou com mais ênfase: - Ai, meu Deus, o que eu vou fazer?
CAPÍTULO 8

Quinze minutos depois, Clarissa permanecia na sala de estar, murmurando consigo. Mas estivera ocupada nesse meio tempo. Agora, todas as luzes estavam acesas, e a porta na parede, cerrada. As cortinas haviam sido corridas sobre as portas de vidro abertas. O corpo de Oliver Costello jazia atrás do sofá, mas Clarissa movera a mobília e dispusera no centro da sala uma mesa de bridge dobrável, com cartas e marcadores para bridge, e quatro cadeiras de espaldar alto e reto ao redor da mesa.
Em pé ao lado da mesa, Clarissa rabiscava anotações num dos marcadores.
- Três de espadas, quatro de copas, quatro sem trunfos, passo - murmurou, apontando cada mão de cartas ao marcar. - Cinco de ouros, passo, seis de espadas... dobro... e acho que não cumprem o contrato. - Após uma pausa, baixou o olhar e continuou. - Vamos ver... dobre vulnerável, duas vazas, quinhentos... ou deixo fazer? Não.
Foi interrompida pela chegada de Sir Rowland, Hugo e o jovem Jeremy, que entraram pela porta de vidro. Hugo parou um instante e fechou uma das folhas da porta envidraçada.
Deixando o marcador e o lápis na mesa de bridge, Clarissa correu ao encontro deles.
Graças a Deus, vocês chegaram - disse ela, muito transtornada, sir Rowland.
O que houve, querida? - perguntou Sir Rowland com preocupação na voz. Clarissa dirigiu-se aos três.
Meus queridos - gritou ela -, vocês precisam me ajudar.
Jeremy notou a mesa com as cartas distribuídas.
Parece que alguém andou jogando bridge - comentou alegremente.
Não seja melodramática, Clarissa - opinou Hugo.
O que andou aprontando, menina?
Clarissa agarrou-se sir Rowland.
O caso é grave - insistiu. - Gravíssimo. Vão me ajudar, não vão?
Claro que vamos ajudar, Clarissa - garantiu-lhe Sir Rowland -, mas o que foi que houve?
Sim, conte, o que foi desta vez? - indagou Hugo com certo enfado.
Jeremy também não demonstrou emoção.
Clarissa, o que você está inventando? - quis saber ele. - O que foi? Encontrou um corpo ou coisa parecida?
Exato - contou Clarissa. - Encontrei... um corpo.
Como assim... encontrou um corpo? - perguntou Hugo, mais perplexo do que interessado.
É bem como o Jeremy disse - respondeu Clarissa.
Entrei aqui e dei de cara com um corpo.
Hugo passou os olhos na sala.
Do que você está falando? - reclamou. - Que corpo? Onde ele está?
Não estou brincando, estou falando sério - gritou enraivecida. - Está ali. Vejam com seus próprios olhos. Atrás do sofá. - Empurrou Sir Rowland em direção ao sofá e recuou.
Hugo foi depressa até o sofá. Jeremy o seguiu e curvou-se sobre o encosto.
Minha nossa, é verdade - murmurou Jeremy.
Sir Rowland juntou-se a eles. Ele e Hugo inclinaram-se para examinar o corpo.
Puxa, é Oliver Costello - exclamou Sir Rowland.
Minha nossa Senhora! - Jeremy correu às portas de vidro e fechou as cortinas.
Sim - disse Clarissa. - É Oliver Costello.
O que ele estava fazendo aqui? - perguntou Sir Rowland a Clarissa.
Veio à noitinha conversar sobre Pippa - respondeu Clarissa. - Logo depois que vocês saíram para o clube.
Sir Rowland indagou desconcertado:
O que ele queria com Pippa?
Ele e Miranda estavam ameaçando levar Pippa embora - contou Clarissa. - Mas agora nada disso importa. Mais tarde eu conto a vocês. Temos pressa. Não há tempo a perder.
Sir Rowland ergueu uma das mãos em sinal de advertência.
Só um momento - ordenou, aproximando-se de Clarissa. — Precisamos esclarecer os fatos. O que aconteceu quando ele chegou?
Clarissa balançou a cabeça de forma impaciente.
Eu avisei que Miranda e ele não iam levar Pippa, e ele foi embora.
Mas ele voltou?
É óbvio que sim - disse Clarissa.
Como? - perguntou Sir Rowland. - Quando?
Não sei - respondeu Clarissa. - Só sei que entrei na sala, como já disse, e o encontrei... daquele jeito. - Fez um gesto em direção ao soía.
Entendi - disse Sir Rowland, recuando e debruçando-se sobre o corpo no chão. - Entendi. Bem, ele está mortinho da silva. Acertaram a cabeça dele com algo pesado e pontudo. — Olhou em volta para os demais.
Receio que isso não seja um negócio muito agradável prosseguiu, mas não temos outra coisa a fazer. - Foi falando e cruzando a sala rumo ao telefone. - Temos que ligar para a polícia e...
Não! - exclamou Clarissa categórica.
Sir Rowland já estava tirando o fone do gancho.
O quanto antes fizermos isso, melhor, Clarissa
aconselhou ele. - Mesmo porque não creio que eles suspeitem de você.
Não, Roly, pare- insistiu Clarissa. Cruzou a sala correndo, tirou o fone da mão dele e repousou-o no gancho.
Minha filha... - tentou argumentar Sir Rowland, mas Clarissa não lhe permitiu continuar.
Eu mesma poderia ter avisado a polícia, mas não quis - admitiu. - Eu sabia perfeitamente que era a coisa certa a fazer. Até comecei a discar. Então, em vez disso, liguei para o clube e pedi a vocês três que viessem até aqui com urgência. - Ela se voltou para Jeremy e Hugo. - E vocês ainda nem me perguntaram o porquê.
Pode deixar tudo conosco - garantiu-lhe Sir Rowland. - Nós vamos...
Clarissa o interrompeu com energia.
Parece que vocês não estão entendendo - insistiu ela. - Eu quero que me ajudem. Vocês disseram que me ajudariam se eu estivesse em apuros. - Ela virou para incluir os outros dois homens. - Queridos, vocês precisam me ajudar.
Jeremy postou-se de modo a esconder o corpo de Oliver da vista de Clarissa.
O que você quer que a gente faça, Clarissa? - perguntou com polidez.
Livrem-se do cadáver - foi a resposta inesperada.
Menina, deixe de bobagem - ordenou Sir Row- land. - Estamos falando de assassinato.
Exatamente por isso - ponderou Clarissa. - O corpo não pode ser encontrado nesta casa.
Hugo bufou inquieto.
Você não tem noção do que está falando, mocinha exclamou. - Anda lendo muitos livros policiais. Na vida real não se pode fazer esse tipo de brincadeira, ficar removendo cadáveres.
Mas eu já o movi - explicou Clarissa. - Eu o virei para ver se ele estava morto e comecei a arrastá-lo até o esconderijo. Quando percebi que ia precisar de ajuda, liguei para o clube. Enquanto esperava por vocês, bolei um plano.
Que inclui a mesa de bridge, suponho - comentou Jeremy, mostrando a mesa.
Clarissa pegou o marcador de bridge.
Sim - respondeu ela. - Este vai ser nosso álibi.
Que diabo... - começou Hugo, mas Clarissa não lhe deu chance de terminar.
Bridge rodado, meio da terceira rodada - avisou.
Imaginei todas as mãos e anotei os pontos neste marcador. Claro, agora vocês três precisam preencher os outros marcadores com suas respectivas letras.
Sir Rowland a fitou, bastante surpreso, e declarou:
Está louca, Clarissa. Completamente louca.
Clarissa não lhe deu atenção.
Pensei em tudo - retomou. - O corpo precisa ser retirado daqui. - Olhou para Jeremy. - Vai ser preciso dois de vocês para fazer isso - recomendou ela. - É bem difícil lidar com um cadáver... experiência própria.
-Aonde afinal você espera que o levemos? - indagou Hugo exasperado.
Clarissa estivera estudando o assunto.
Acho que o melhor lugar seria Marsden Wood recomendou. - Fica a apenas três quilômetros daqui.
Fez um gesto à esquerda. - Vocês saem pelo portão da frente e poucos metros depois pegam aquela estrada secundária. É uma estrada estreita, quase ninguém passa por ela. - Virou para Sir Rowland e deu as instruções.
Sigam até entrar no mato e deixem o carro ao lado da estrada. Depois voltem caminhando para cá.
Estarrecido, Jeremy perguntou:
Se eu entendi bem, você quer que a gente desove o corpo na mata?
Não. Podem deixá-lo dentro do carro - explicou Clarissa. - É o carro dele, entenderam? Ele o deixou estacionado perto do estábulo.
A esta altura, todo o trio estampava a mesma expressão desconcertada.
Vai ser tudo muito fácil - garantiu Clarissa. - Se por acaso alguém ver vocês voltando, a noite está bem escura. E ninguém vai conseguir reconhecer vocês. E temos um álibi. Nós quatro estávamos aqui, jogando bridge.
Ela repôs o marcador na mesa de bridge, quase satisfeita consigo. Os homens fitavam-na estupefatos.
Hugo começou a andar em círculos.
Eu... eu... - balbuciou, abanando as mãos no ar. Clarissa retomou as instruções.
Usem luvas, é claro - disse ela -, para não deixar impressões digitais em nenhuma superfície. Já estou com elas prontas aqui. - Afastando Jeremy da frente, ela foi ao sofá, pegou três pares de luvas debaixo de uma das almofadas e as dispôs num dos braços do sofá.
Sir Rowland não tirava os olhos de Clarissa.
Seu talento nato para o crime me deixa sem palavras - alfinetou.
Jeremy a olhou com admiração.
Ela pensou em tudo, não é mesmo? – comentou ele.
Sim - admitiu Hugo mas tudo isso não deixa de ser um grande absurdo.
-Agora, apressem-se - determinou Clarissa com veemência. - Às nove horas, Henry e o Sr. Jones vão chegar.
Sr. Jones? Quem raios é Sr. Jones? - perguntou Sir Rowland.
Clarissa levou a mão à cabeça.
Puxa vida - exclamou ela -, nunca tinha imaginado quanta explicação é necessária em caso de assassinato. Achava que bastaria pedir ajuda, vocês me ajudariam, e pronto, tudo estaria resolvido. - Olhou ao redor para o trio. - Ah, queridos, precisam me ajudar. - Passou a mão no cabelo de Hugo. — Hugo, querido...
A atuação está ótima, meu bem - disse Hugo, nitidamente incomodado -, mas um cadáver é uma coisa séria e desagradável. Ficar fazendo travessuras com ele pode resultar numa verdadeira confusão. Ninguém sai por aí transportando cadáveres na calada da noite.

Clarissa foi até Jeremy e repousou a mão no braço dele.
Jeremy, querido, você vai me ajudar, tenho certeza. Não vai? - perguntou com um tom de súplica na voz.
Jeremy fitou-a com adoração.
Está bem, eu topo - respondeu animado. - O que é um cadáver a mais ou a menos entre amigos?
Alto lá, mocinho - ordenou Sir Rowland. - Não vou permitir isso. - E virando-se para Clarissa: - Preste atenção, Clarissa, você precisa ouvir meus conselhos. Eu insisto. Afinal, precisamos levar Henry em conta.
Clarissa fulminou-o com o olhar e declarou:
Mas é justamente Henry que estou levando em conta.
CAPÍTULO 9
Os três homens receberam o comunicado de Clarissa em silêncio. De modo grave, Sir Rowland balançou a cabeça, Hugo permaneceu atônito, e Jeremy apenas deu de ombros, como quem desiste completamente de entender a situação.
Respirando fundo, Clarissa dirigiu-se ao trio.
Algo incrivelmente importante vai acontecer aqui hoje à noite - disse. - Henry saiu para... para se encontrar com uma pessoa e trazê-la até aqui. Trata-se de algo imprescindível e confidencial. Um segredo político muito importante. Ninguém deve saber disso. Não deve haver publicidade alguma.
Henry saiu para se encontrar com um tal de Sr. Jones? - Sir Rowland indagou de modo cético.
É um nome simples, concordo - disse Clarissa -, mas é assim que resolveram chamá-lo. Não posso revelar o nome verdadeiro dele. Não posso falar mais nada. Prometi a Henry não contar nada para ninguém, mas preciso que vocês entendam que eu não estou apenas... - virou para Hugo antes de concluir - ...sendo estúpida e bancando a atriz, como Hugo insinuou.
Ela se voltou para Sir Rowland.
Que tipo de efeito você acha que teria na carreira de Henry - perguntou - se ele entrasse aqui com essa pessoa ilustre (e com outra pessoa muito ilustre viajando especialmente de Londres só para essa reunião) e encontrasse a polícia investigando um crime... o assassinato do homem recém-casado com a ex-mulher de Henry?
Meu bom Deus! - exclamou Sir Rowland. Então encarou Clarissa e acrescentou em tom duvidoso: - Não está inventando tudo isso, está? Esse não é só mais um de seus jogos sofisticados com o objetivo de nos fazer de bobos?
Clarissa balançou a cabeça com pesar.
Nunca acreditam em mim quando falo a verdade, protestou.
Sinto muito, querida - disse Sir Rowland. - Sim, agora entendo que o problema é mais complicado do que eu imaginava.
Entende? - insistiu Clarissa. - Por isso que é absolutamente crucial remover o corpo daqui.
Onde está mesmo o carro dele? - indagou Jeremy.
Perto do estábulo.
E os empregados saíram, pelo que entendi?
Clarissa acenou com a cabeça.
Sim.
Jeremy pegou um par de luvas do sofá.
Certo - exclamou decidido. - Levo o corpo até o carro, ou trago o carro até o corpo?
Sir Rowland estendeu o braço, num gesto de contenção.
Espere um pouco - recomendou. - Não devemos nos precipitar assim.
Jeremy largou o par de luvas, mas Clarissa voltou-se sir Rowland, num grito desesperado:
Mas temos que nos apressar!
Sir Rowland a observou de modo sério.
Não estou convencido de que esse seu plano é o melhor, Clarissa - declarou. - Quero dizer, se pudéssemos apenas retardar a descoberta do corpo até amanhã de manhã... penso que isso resolveria o problema sem maiores complicações. De momento, se apenas levássemos o corpo a outro aposento, por exemplo, acho que isso poderia ser justificável.
Clarissa dirigiu-se diretamente a ele.
É você quem eu tenho que convencer, não é? disse ela.
Olhando para Jeremy, prosseguiu: - Jeremy está pronto para ajudar. - Lançou um olhar para Hugo.
E Hugo resmunga, balança a cabeça, mas acaba colaborando. É você que...
Abriu a porta da biblioteca.
-Vocês dois nos dão licença um minuto? - perguntou a Jeremy e Hugo. - Quero falar a sós com Roly.
Não deixa ela te enrolar, Roly - preveniu Hugo e foi deixando a sala junto com Jeremy.
Jeremy deu um sorriso tranquilizador a Clarissa e murmurou:
Boa sorte!
Sir Rowland, sisudo, sentou-se à mesa de leitura.
Pois bem! - exclamou Clarissa ao sentar-se do outro lado da mesa e fitá-lo.
Querida - advertiu Sir Rowland -, eu amo você, e sempre vou amar com ternura. Mas, antes que você me pergunte, neste caso, a resposta simplesmente tem que ser não.
Clarissa falou com seriedade e ênfase:
O corpo daquele homem não pode ser encontrado nesta casa - insistiu Clarissa. - Se ele for encontrado em Marsden Wood, posso dizer que ele ficou pouco tempo aqui. Posso dizer à polícia inclusive a hora exata em que ele saiu. Na verdade, Miss Peake o acompanhou até a saída, o que acabou sendo uma sorte. Não há motivo para mencionar que ele voltou.
Ela respirou fundo.
Mas se o corpo dele for encontrado aqui - retomou -, todos nós vamos ser interrogados. - Fez uma pausa antes de concluir sem hesitação: - E Pippa não vai conseguir suportar.
Pippa? - perguntou Sir Rowland claramente surpreso.
O rosto de Clarissa estava sombrio.
Sim, Pippa. Ela vai perder o controle e confessar o crime.
Pippa! - repetiu Sir Rowland, enquanto assimilava devagar as recentes informações.
Clarissa assentiu com a cabeça.
Meu Deus! - exclamou Sir Rowland.
Ela ficou apavorada quando ele veio aqui hoje contou Clarissa.
Tentei tranquilizá-la, dizendo que eu não ia permitir que ele a levasse embora, mas acho que ela não acreditou em mim. Você sabe tudo o que ela passou... o colapso nervoso que ela teve? Bem, acho que ela não sobreviveria se fosse obrigada a morar de novo com Oliver e Miranda. Pippa estava aqui quando eu encontrei o corpo de Oliver. Ela me disse que não teve intenção, eu tenho certeza de que ela estava falando a verdade. Foi puro pânico. Ela pegou aquele bastão e o atingiu sem pensar.
Que bastão? - indagou Sir Rowland.
Aquele do suporte no hall. Está no esconderijo. Deixei onde estava, não toquei nele.
Sir Rowland pensou por um momento. Então perguntou incisivo:
Onde está Pippa agora?
Na cama - disse Clarissa. - Dei um comprimido para ela dormir. Não deve acordar antes do amanhecer, quando vou levá-la a Londres. Minha antiga babá vai cuidar dela por um tempo.
Sir Rowland levantou-se e foi atrás do sofá olhar o corpo de Oliver Costello. Retornando, beijou Clarissa.
Meu bem, você venceu - disse ele. - Me perdoe. Pippa não deve ser obrigada a enfrentar uma situação como esta. Chame os outros de volta.
Ele fechou a outra folha da porta envidraçada. Clarissa, por sua vez, abriu a porta da biblioteca e chamou:
Hugo, Jeremy. Podem retornar, por favor? Os dois voltaram à sala.
Esse mordomo de vocês não fecha a casa direito avisou Hugo. - A janela da biblioteca estava aberta. Acabo de fechá-la.
Dirigindo-se sir Rowland, perguntou de chofre:
E então?
Fui convencido - foi a resposta igualmente concisa.
Muito bem - comentou Jeremy.
Não há tempo a perder - declarou Sir Rowland.
Antes de mais nada, as luvas.
Ele apanhou um par e o colocou. Jeremy pegou um par e entregou outro a Hugo; os dois colocaram as luvas. Sir Rowland foi até a porta secreta.
Como se abre esta coisa? - perguntou. Jeremy aproximou-se.
Assim - disse ele. - Pippa me mostrou. - Moveu a alavanca e abriu a porta secreta.
Sir Rowland examinou o esconderijo, estendeu o braço para dentro e pegou o bastão de caminhada.
Sim, é pesado o bastante - comentou. - E bem na cabeça. Por outro lado, eu não imaginava que... - Ele parou.
O que você não imaginava? - quis saber Hugo. Sir Rowland meneou a cabeça.
Eu imaginava - respondeu ele - que tinha sido algo com a ponta mais afiada... e metálica.
Quer dizer uma espécie de cutelo - observou Hugo, ríspido.
Não sei, não - disse Jeremy. - Para mim esse bastão parece bem mortal. Pode-se facilmente esfacelar a cabeça de alguém com ele.
Evidente que sim - disse Sir Rowland, em um tom seco. Voltou-se a Hugo e entregou-lhe o bastão. -Hugo, faça o favor de queimar isto na fornalha da cozinha - orientou.
Warrender, nós dois vamos levar o corpo até o carro.
Ele e Jeremy se agacharam, cada qual a um lado do corpo. No momento em que faziam isso, tocou uma campainha.
O que foi isso? - indagou Sir Rowland atônito. -A campainha da frente - disse Clarissa desorientada.
Todos ficaram petrificados por um instante. - Quem será?
- pensou consigo Clarissa em voz alta. — É muito cedo para Henry e... ahn... o sr. Jones. Talvez seja Sir John.
Sir John? - indagou Sir Rowland, ainda mais perplexo. - Quer dizer que o primeiro-ministro é esperado aqui hoje à noite?
Sim - respondeu Clarissa.
Hum... - murmurou Sir Rowland, numa indecisão momentânea. Então sussurrou: - Certo. Bem, precisamos fazer alguma coisa. - A campainha tocou de novo, e ele entrou em ação. - Clarissa - ordenou —, vá atender a porta. Use todas táticas possíveis de demora. Neste meio-tempo, damos um jeito por aqui.
Clarissa saiu rapidamente em direção ao hall, e Sir Rowland voltou-se para Hugo e Jeremy.
Escutem bem - explicou em tom decidido. - Vamos escondê-lo naquele nicho. Mais tarde, quando eles estiverem no meio da reunião, podemos retirá-lo pela biblioteca.
Boa ideia - concordou Jeremy, auxiliando Sir Rowland a erguer o corpo.
Precisam de ajuda? - perguntou Hugo.
Não, está tudo bem - respondeu Jeremy. Ele e Sir Rowland ergueram o corpo de Costello pelas axilas e o carregaram para dentro do esconderijo; Hugo pegou a lanterna. Pouco depois, Sir Rowland saiu e acionou a alavanca, seguido pelo apressado Jeremy. Rapidamente, Hugo esgueirou-se sob o braço de Jeremy esconderijo adentra, com a lanterna e o bastão. A porta secreta fechou.
Sir Rowland, depois de examinar o seu casaco para ver se não havia manchas de sangue, murmurou:
As luvas. - Tirou as luvas e colocou-as embaixo de uma almofada no sofá. Jeremy fez o mesmo. Então, Sir Rowland lembrou:
Bridge!
Sentou-se apressado à mesa de bridge.
Jeremy o imitou e pegou as cartas à sua frente.
Vamos, Hugo, mova-se - apressou Sir Rowiand, ao pegar suas cartas.
Como resposta, ouviu uma batida no interior do esconderijo. De repente, notando a ausência de Hugo, Sir Rowiand e Jeremy se entreolharam sobressaltados. Jeremy correu até a alavanca e abriu a porta secreta.
Vamos, Hugo - repetiu Sir Rowiand, inquieto, quando Hugo apareceu.
Depressa, Hugo - resmungou Jeremy, impaciente, acionando a alavanca e fechando a porta outra vez.
Sir Rowiand arrancou as luvas de Hugo e escon- deu-as embaixo da almofada do sofá. Os três prontamente tomaram lugar à mesa de bridge e apanharam as cartas. Nisso Clarissa veio do hall e entrou na sala, seguida por dois homens fardados.
Em tom de surpresa inocente, Clarissa anunciou:
Tio Roly, é a polícia.

CAPÍTULO 10

O mais antigo dos dois policiais, um grisalho atarracado, seguiu Clarissa sala adentro, e o seu colega ficou esperando à porta do hall.
Este é o inspetor Lord - apresentou Clarissa. - E... ela virou para o policial mais novo, um moreno de vinte e poucos anos, com a compleição de um jogador de futebol.
Desculpe-me, como é mesmo o seu nome? - perguntou.
O inspetor respondeu por ele.
É o guarda Jones - informou. Dirigindo-se aos três homens, ele prosseguiu: - Desculpe a intromissão, cavalheiros, mas recebemos a denúncia de que teria sido cometido um assassinato nesta casa.
Clarissa e seus amigos falaram todos ao mesmo tempo, demonstrando surpresa completa.
O quê? - bradou Hugo.
Um assassinato! - exclamou Jeremy.
Céus! - gritou Sir Rowland.
Não é extraordinário? - disse Clarissa.
Sim, recebemos um telefonema na delegacia- esclareceu o inspetor. Com um aceno de cabeça para Hugo, acrescentou: - Boa noite, sr. Birch.
Ahn... boa noite, inspetor - balbuciou Hugo.
Parece que alguém andou lhe passando um trote, inspetor - sugeriu Sir Rowland.
Sim - concordou Clarissa. - Jogamos bridge a noite toda.
Os outros confirmaram, e Clarissa indagou:
A pessoa que ligou disse quem foi assassinado?
Não foram mencionados nomes - comunicou o inspetor. - Quem ligou disse apenas que um homem havia sido assassinado em Copplestone Court e pediu que viéssemos imediatamente. Desligou antes que pudessem ser obtidas informações adicionais.
Deve ter sido um trote - declarou Clarissa. Acrescentou de maneira virtuosa: - Que coisa mais vil.
Hugo fez "Tsc, tsc" em desaprovação, e o inspetor respondeu:
A senhora ficaria surpresa se soubesse as maluquices que as pessoas fazem.
Fez uma pausa, olhou um por um dos interlocutores e continuou, dirigindo-se a Clarissa:
Muito bem, de acordo com a senhora, não aconteceu nada fora do comum aqui esta noite? - Sem esperar resposta, emendou: - Talvez seja melhor eu falar também com o sr. Hailsham-Brown.
Ele não está em casa - disse Clarissa ao inspetor. - Só vai chegar tarde da noite.
Entendo - respondeu. - Quem está hospedado na casa agora?
Sir Rowland Delahaye e o Sr. Warrender - disse Clarissa, indicando-os. Ela completou: - E o Sr. Birch, que o senhor já conhece, veio para a noite.
Sir Rowland e Jeremy aquiesceram com murmúrios.
Ah, claro - prosseguiu Clarissa, como se tivesse lembrado naquele instante e minha pequena enteada.
Deu ênfase à palavra "pequena". - Está no quarto dela, dormindo.
E quanto aos empregados? - quis saber o inspetor.
Temos dois. Marido e mulher. Mas é a noite de folga deles. Foram ao cinema em Maidstone.
Sei - disse o inspetor sério, acenando a cabeça.
Naquele exato momento, Elgin entrou na sala pela porta do hall, quase trombando com o guarda que estava ali de sentinela. Após um rápido olhar de dúvida ao inspetor, Elgin dirigiu-se à patroa.
A senhora deseja alguma coisa, madame? - perguntou.
O inspetor lançou um olhar mordaz a Clarissa, que exclamou surpresa:
Pensei que vocês tinham ido ao cinema, Elgin.
Tivemos que voltar logo, madame - explicou o mordomo. - Minha mulher não estava se sentindo bem.
Cheio de dedos, acrescentou: - Um... probleminha estomacal. Deve ter sido algo que ela comeu. - Olhou para o inspetor, depois para o guarda e perguntou: - Há algo... errado?
Qual o seu nome? - perguntou o inspetor.
Elgin, senhor - respondeu o mordomo. - Espero realmente não haver nada...
Alguém ligou à delegacia e disse que um assassinato havia sido cometido aqui - atalhou o inspetor.
Um assassinato? - indagou Elgin sem fôlego.
Sabe de alguma coisa?
Nada, senhor. Nada mesmo.
Quer dizer, então, que não foi você que ligou? perguntou o inspetor.
Não, não foi.
Quando você voltou para casa, entrou pela porta dos fundos, imagino?
Sim, meu senhor - respondeu Elgin, adotando uma atitude mais respeitosa devido ao nervosismo.
Notou algo diferente?
O mordomo meditou um pouco e respondeu:
Pensando bem, agora que o senhor falou, havia um carro desconhecido perto do estábulo.
Um carro desconhecido? Como assim?
Na hora fiquei pensando de quem podia ser relembrou Elgin. - Me pareceu um lugar curioso para estacionar.
Havia alguém no carro?
Não que eu tenha visto, senhor.
Vá dar uma olhada, Jones - ordenou o inspetor ao guarda.
Jones! - exclamou involuntariamente Clarissa, de sobressalto.
Algum problema? - disse o inspetor, virando-se para ela.
Clarissa recompôs-se depressa. Com um sorriso, murmurou:
Nada não... só achei que nem parece que ele é do País de Gales.
Com um gesto, o inspetor indicou ao guarda Jones e a Elgin que se retirassem. Os dois deixaram juntos a sala, e seguiu-se um silêncio. Um momento depois, Jeremy sentou-se no sofá e começou a comer os sanduíches. O inspetor descansou o quepe e as luvas na cadeira de braços e, respirando fundo, dirigiu-se ao grupo reunido.
Tudo indica - declarou numa fala lenta e calculada - que uma pessoa esteve aqui hoje à noite sem que ninguém percebesse. - Olhou para Clarissa. - Tem certeza de que não esperava mais ninguém? - perguntou.
-Ah... claro que tenho certeza - respondeu Clarissa.
Não queríamos que ninguém mais aparecesse. Lá estávamos em quatro para o bridge.
É mesmo? - disse o inspetor. - Eu também gosto de jogar bridge.
O senhor gosta? - respondeu Clarissa. - Joga a convenção Blackwood?
Só um joguinho simples - disse o inspetor. - Diga- me, Sra. Hailsham-Brown - retomou ele -, não faz muito tempo que a senhora mora aqui, não é mesmo?
Não - contou ela. - Umas seis semanas.
O inspetor observou-a detidamente.
E não aconteceu nada suspeito desde que vocês se mudaram para cá? - perguntou.
Antes de Clarissa responder, Sir Rowland interpôs:
O que o senhor quer dizer mais exatamente com nada suspeito, inspetor?
Bem, é uma história realmente curiosa - informou o policial, dirigindo-se a Sir Rowland. - Esta casa pertencia ao sr. Sellon, o vendedor de antiguidades. Ele morreu seis meses atrás.
Sim - lembrou-se Clarissa. - Sofreu uma espécie de acidente, não foi?
Exato - disse o inspetor. - Caiu de ponta cabeça na escada. - Volvendo o olhar a Jeremy e Hugo, emendando:
Morte acidental, foi o que alegaram. Pode ser que sim, pode ser que não.
O senhor quer dizer - perguntou Clarissa - que ele pode ter sido empurrado?
Ou isso - concordou, voltando-se para ela -, ou ele pode ter levado uma pancada na cabeça...
Houve um silêncio tenso, outra vez quebrado pelo inspetor:
Alguém pode ter disposto o corpo de Sellon ao pé da escadaria.
Na escadaria desta casa? - indagou Clarissa nervosamente.
Não, aconteceu na loja dele - informou o inspetor. -Não havia provas concludentes, é claro... mas o sr. Sellon escondia um pouco o jogo.
Como assim, inspetor? - perguntou Sir Rowland.
Bem - o inspetor respondeu -, vamos dizer que uma ou duas vezes ele precisou nos dar explicações. E em outra oportunidade a divisão de Narcóticos desceu de Londres para ter uma conversinha com ele... - fez uma pausa, antes de concluir —, mas não se conseguiu provar nada.
O senhor quer dizer oficialmente - observou Sir Rowland.
É verdade - disse o inspetor de modo expressivo. - Oficialmente.
Ao passo que não-oficialmente...? - instigou Sir Rowland.
Receio não poder tocar nesse assunto - respondeu o inspetor. Continuou: - Houve, porém, uma circunstância insólita. Havia na escrivaninha do Sr. Sellon uma carta inacabada, na qual ele mencionava estar em posse de algo descrito por ele como uma raridade incomparável e que ele iria... - neste ponto o inspetor parou, como se estivesse tentando recordar as palavras exatas - ...primeiro se certificar de que não era uma falsificação para depois vender por quatorze mil libras.
Pensativo, sir Rowland murmurou:
Quatorze mil libras. - E continuou, aumentando o tom de voz: - Sem dúvida, é bàstante dinheiro. O que poderia ser? Uma jóia, suponho, mas a palavra falsificação sugere... não sei, um quadro, talvez?
Jeremy continuava a mastigar os sanduíches de modo ruidoso. O inspetor respondeu:
Sim, talvez. Não havia nada na loja que valesse uma grande soma de dinheiro. O inventário do seguro não deixou dúvidas quanto a isso. O s.r. Sellon tinha uma sócia, dona de seu próprio negócio em Londres. Essa senhora escreveu dizendo que não sabia de nada que pudesse nos ajudar ou informar.
Sir Rowland balançou a cabeça devagar.
Ele pode ter sido assassinado, e o tal objeto, seja qual for, ter sido roubado - sugeriu ele.
É uma possibilidade, sir-concordou o inspetor, mas outra é que o suposto ladrão não tenha conseguido encontrar o objeto.
Ora, por que o senhor pensa isso? - indagou sir Rowland.
Porque - respondeu o inspetor - de lá para cá a loja foi arrombada duas vezes. Arrombada e revirada de cima a baixo.
Confusa, Clarissa quis saber:
Por que está nos contando tudo isso, inspetor?
Porque, Sra. Hailsham-Brown—volveu o inspetor -, passou pela minha cabeça que, seja lá o que for que o s.r. Sellon escondeu, ele pode ter escondido aqui nesta casa e não na loja dele em Maidstone. Por isso, perguntei se a senhora não ficou sabendo de algo estranho.
Erguendo a mão como se de repente tivesse lembrado de algo, Clarissa disse agitada:
-Alguém ligou hoje, pediu para falar comigo e, quando eu atendi o telefone, desligou. É um pouco esquisito, não acha? - Ela se virou para Jeremy e acrescentou: - Ah, sim, é claro. Houve também aquele homem que veio outro dia e queria comprar coisas... um grosseirão vestindo um terno xadrez. Queria comprar aquela escrivaninha.
O inspetor cruzou a sala para examinar a escrivaninha.
Esta aqui? - perguntou.

Sim - respondeu Clarissa. - É claro que eu disse a ele que não podíamos vender, afinal o móvel não era nosso, mas ele não acreditou em mim. Ofereceu uma quantia alta, bem mais do que vale.
Muito interessante - comentou o inspetor, perscrutando a escrivaninha. - Em geral, essas coisas têm uma gaveta secreta.
Sim, esta tem - revelou Clarissa. - Mas não tinha nada de muito interessante nela Só uns autógrafos antigos.
Interessado, o inspetor perguntou:
Autógrafos antigos podem valer bastante dinheiro, que eu saiba - falou. - De quem eram?
Posso garantir-lhe, inspetor — informou Sir Rowland que esses não eram raros o bastante nem para valer mais de uma ou duas libras.
A porta do hall abriu, e o guarda Jones entrou, trazendo um livrinho e um par de luvas.
E então, Jones? Qual o relatório? - perguntou o inspetor.
Examinei o carro - respondeu. - Só um par de luvas no assento do motorista. Mas encontrei esta agenda na bolsa da porta. - Entregou a agenda ao inspetor, e Clarissa trocou sorrisos com Jeremy pelo forte sotaque galês do guarda.
O inspetor examinou a agenda e leu em voz alta:
"Oliver Costello, Moigan Mansions, 27, Londres, SW3". - Então, perguntou a Clarissa de modo incisivo: - Por acaso um homem chamado Costello não esteve aqui hoje?

CAPÍTULO 11

Os quatro amigos trocaram olhares furtivos de culpa Tanto Clarissa quanto Sir Rowland fizeram menção de responder, mas foi Clarissa quem falou realmente.
84
Sim - admitiu. - Ele esteve aqui por volta... - Hesitou. - Deixe-me ver... - prosseguiu. - Sim, por volta das seis e meia.
Ele é seu amigo? - perguntou o inspetor a ela.
Não, eu não o chamaria de amigo - respondeu Clarissa. - Encontrei-me com ele só uma ou duas vezes.
De modo intencional, assumiu uma expressão constrangida e disse vacilante: - É... um pouco complicado mesmo... - Olhou suplicante a Sir Rowland, como passando a bola a ele.
Este cavalheiro prontamente atendeu ao não pronunciado pedido da amiga.
Inspetor - disse ele -, talvez fosse melhor eu explicar a situação.
Por favor - respondeu o inspetor um tanto lacônico.
Bem - prosseguiu Sir Rowland -, o caso tem a ver com a primeira Sra. Hailsham-Brown. Faz pouco mais de um ano que ela e Hailsham-Brown se divorciaram, e não faz muito ela se casou com o s.r. Oliver Costello.
Certo - observou o inspetor. - E o s.r. Costello veio aqui hoje. - Voltou-se para Clarissa. - Por que motivo perguntou, - Ele avisou que vinha?
Ah, não - respondeu Clarissa com naturalidade.
Para ser mais exata, quando Miranda e meu marido se divorciaram, ela levou junto uma ou duas coisas que na verdade não lhe pertenciam. Oliver Costello casualmente estava passando por aqui e fez uma visitinha para devolver.
Que tipo de coisas? - foi a pergunta instantânea do inspetor.
Clarissa esperava essa pergunta.
Nada importante - disse com um sorriso. Pegou a pequena cigarreira prateada da mesinha ao lado do sofá e estendeu ao inspetor.
Isto, por exemplo - disse ela. - Pertenceu à mãe de meu marido e tem valor sentimental para ele.
Pensativo, o inspetor fitou Clarissa por um instante, antes de perguntar:
O s.r. Costello chegou às seis e meia e ficou por quanto tempo?
Ah, pouco tempo - respondeu ela ao repor a cigarreira na mesa. - Disse que estava com pressa. Uns dez minutos, eu diria. Não mais do que isso.
E a conversa foi bem amigável? - inquiriu o inspetor.
Ah, sim - assegurou Clarissa. - Achei muita gentileza dele se importar em devolver as coisas.
O inspetor pensou um momento e indagou:
Ele mencionou para onde ia depois?
Não - respondeu Clarissa. - Na verdade, ele saiu por ali — prosseguiu, apontando a porta envidraçada de duas folhas. - Inclusive nossa jardineira, Miss Peake, estava aqui e se ofereceu para acompanhá-lo pelo jardim ao portão da saída.
Sua jardineira... ela mora na propriedade? - quis saber o inspetor.
Sim, mas não na casa. Ela mora no chalé.
Gostaria de ter uma palavrinha com ela - decidiu o inspetor. Voltou-se para o guarda. - Jones, vá chamá-la.
Há uma conexão telefônica entre a casa e o chalé. Quer que eu a chame, inspetor? - ofereceu-se Clarissa.
Se não for incômodo, Sra. Hailsham-Brown - respondeu o inspetor.
De modo algum. Ela ainda deve estar acordada - disse Clarissa, apertando um botão no telefone. Abriu um sorriso para o inspetor, que reagiu com timidez. Jeremy sorriu consigo e pegou mais um sanduíche.
Clarissa falou ao telefone.
Alô, Miss Peake. Aqui é a Sra. Hailsham-Brown... A senhora se importa de vir até aqui? Aconteceu uma coisa muito séria... Ah, sim, claro, não tem problema Obrigada.
Ela repôs o fone no gancho e voltou-se ao inspetor.
Miss Peake está acabando de lavar o cabelo, mas logo vai se vestir e vir para cá.
Obrigado - disse o inspetor. - Afinal, é possível que Costello tenha mencionado aonde ia.
Sim, é possível mesmo - concordou Clarissa.
Intrigado, o inspetor declarou a todos:
O que me deixa apreensivo é por que o carro do Sr. Costello ainda está aqui e onde está o Sr. Costello?
Clarissa lançou um olhar involuntário à estante de livros e à porta secreta; em seguida, caminhou até a porta de vidro para esperar Miss Peake. Jeremy, notando o olhar de Clarissa, recostou-se inocentemente no sofá e cruzou as pernas. O inspetor continuou:
Tudo indica que essa Miss Peake foi a última pessoa a ver Costello. Ele saiu, como a senhora disse, por essa porta de vidro. A senhora a fechou depois?
Não - respondeu Clarissa, defronte à porta envidraçada, de costas para o inspetor.
Mesmo? - perguntou o inspetor.
Algo na voz dele fez Clarissa se virar.
Bem, eu... acho que não - disse hesitante.
Então ele pode ter retornado e entrado por aí - observou o inspetor. Respirou fúndo e participou solenemente: - Creio, sra. Hailsham-Brown, que, com sua permissão, eu devo revistar a casa.
Fique à vontade - respondeu Clarissa com um sorriso afável. - Bem, esta sala o senhor já viu. Ninguém poderia estar escondido aqui. - Segurou a cortina aberta por um instante, como se esperasse Miss Peake, e exclamou: - Olhe, por aqui é a biblioteca. - Abriu a porta da biblioteca e convidou: - O senhor quer dar uma olhada?
Obrigado - disse o inspetor. - Jones! - No momento em que os dois policiais entravam na biblioteca, o inspetor emendou: - Verifique aonde vai dar esta porta, Jones - mostrando com um gesto outra porta bem na entrada da biblioteca.
Pode deixar, senhor - respondeu o guarda, entrando pela porta indicada.
Logo que suas vozes ficaram fora do alcance, Sir Rowland aproximou-se de Clarissa.
O que há do outro lado? - perguntou baixinho, indicando a porta secreta.
Uma estante de livros - respondeu concisamente.
Ele balançou a cabeça e rumou com indiferença ao sofá. Então se ouviu a voz do guarda:
É apenas outra porta para o hall, senhor.
Os dois policiais retornaram da biblioteca.
Certo - disse o inspetor. Olhou para Sir Rowland, obviamente percebendo que ele havia trocado de lugar.
Agora vamos vasculhar o resto da casa - avisou ele, rumando ao hall.
Vou junto com os senhores, se não se importarem ofereceu-se Clarissa -, caso minha enteada acorde e fique assustada. Não que eu ache que ela vá acordar. Incrível como é pesado o sono das crianças. Para fazê-las despertar, você praticamente tem de sacudi-las.
Quando o inspetor abriu a porta do hall, Clarissa indagou:
O senhor tem filhos, inspetor?
Um menino e uma menina - respondeu sucinto; em seguida saiu da sala, atravessou o hall e começou a subir as escadas.
Não é maravilhoso? - comentou Clarissa. E voltando-se para o guarda: - Sr. Jones. - Com um gesto, ela convidou o guarda a sair na frente e seguiu logo atrás.
Assim que eles saíram, os três remanescentes na sala se entreolharam. Hugo enxugou as mãos, e Jeremy passou a mão na testa.
E agora? - indagou Jeremy, pegando outro sanduíche.
Sir Rowland meneou a cabeça.
Não estou gostando nada disto - revelou. - Estamos cada vez mais envolvidos.
Se querem saber minha opinião - aconselhou Hugo -, só temos uma coisa a fazer: contar a verdade. Confessar antes que seja tarde.
Droga, não podemos fazer isso - exclamou Jeremy. - Seria uma deslealdade com Clarissa.
Mas se continuarmos com isso vamos deixá-la numa enrascada ainda pior - insistiu Hugo. - Como vamos conseguir remover o morto? A polícia vai apreender o carro dele.
Podemos usar o meu - sugeriu Jeremy.
Bem, não gosto disso - persistiu Hugo. - Não gosto nada disso. Raios, eu sou juiz de paz do condado. Minha reputação com a polícia local está em jogo. - Voltou-se para Sir Rowland. - O que me diz, Roly? Seu cérebro sempre funcionou bem.
Sir Rowland respondeu sério:
Tenho de admitir que isso não me agrada nem um pouco, mas pessoalmente estou comprometido com a empreitada.
Hugo, perplexo, disse ao amigo:
Não entendo você.
Confie em mim, se puder, Hugo - disse Sir Rowland. Com expressão grave, continuou: - Estamos numa situação perigosa, todos nós. Mas com união e uma boa dose de sorte, há chances de escaparmos desta.
Jeremy fez menção de abrir a boca, mas Sir Rowland ergueu a mão e prosseguiu:
Assim que a polícia se convencer de que Costello não está nesta casa, vai embora para procurar em outra parte. Afinal, pode haver muitas razões para ele ter abandonado o carro e ido embora a pé. - Fez um gesto aos dois e completou: — Somos todos cidadãos respeitáveis: Hugo é juiz de paz, como acabou de nos lembrar, e Henry Hailsham-Brown, diplomata do alto escalão do ministério das Relações Exteriores.
Sim, sim, e você tem uma carreira ilibada e conhecida, todos sabemos disso - interveio Hugo. - Tudo bem, se é isso que você quer, vamos enfrentar esta.
Jeremy levantou-se e mostrou o esconderijo com um aceno de cabeça.
Não podemos fazer algo imediatamente? - perguntou.
Agora não há tempo - determinou Sir Rowland em tom breve. - Eles vão voltar a qualquer minuto. Ele está seguro ali.
Jeremy balançou a cabeça em concordância relutante.
É preciso reconhecer que Clarissa é maravilhosa - comentou Jeremy. - Fria como pedra. Aquele inspetor está comendo na mão dela.
A campainha tocou.
Deve ser Miss Peake, suponho - declarou Sir Rowland. - Podia atender e fazê-la entrar, Warrender?
Tão logo Jeremy saiu, Hugo acenou para Sir Rowland se aproximar.
O que está havendo, Roly? - sussurrou com ansiedade. - O que Clarissa contou quando vocês estavam a sós?
Sir Rowland começou a falar, mas, escutando as vozes de Jeremy e de Miss Peake trocando cumprimentos na porta da frente, fez um gesto que significava "Agora não".
Acho melhor a senhora esperar na sala - Jeremy disse a Miss Peake ao fechar a porta da frente. Um instante depois, precedendo a Jeremy, a jardineira entrou na sala, aparentando ter se vestido com muita pressa. Trazia uma toalha enrolada na cabeça.
Por que tudo isto? - quis saber ela. - A Sra. Hail- sham-Brown toda misteriosa no telefone. Aconteceu alguma coisa?
Sir Rowland falou com suprema cortesia.
Sinto muito por termos tirado a senhora de casa desse jeito, Miss Peake - desculpou-se. - Sente-se, por favor. - Indicou uma cadeira à mesa de bridge.
Hugo puxou a cadeira para Miss Peake, que agradeceu. Ele se acomodou então em uma poltrona mais confortável. Sir Rowland informou à jardineira:
Na verdade, a polícia está aqui e...
A polícia? - interrompeu Miss Peake estarrecida. - Houve um roubo?
Não, um roubo não, mas...
Parou de falar quando Clarissa, o inspetor e o guarda retornaram à sala. Jeremy sentou-se no sofá; Sir Rowland, por sua vez, posicionou-se atrás do sofá.
Inspetor - apresentou Clarissa -, Miss Peake.
O inspetor aproximou-se da jardineira. Seu "Boa noite, Miss Peake" foi seguido de uma leve reverência.
Boa noite, inspetor - respondeu Miss Peake. - Agora mesmo eu perguntava a Sir Rowland... houve um furto ou coisa parecida?
Por um instante, o inspetor observou-a de modo perspicaz e falou:
Um telefonema um tanto curioso nos trouxe até aqui - contou ele. - E achamos que a senhora talvez pudesse nos esclarecer o assunto.
CAPÍTULO 12

Miss Peake recebeu o comunicado do inspetor com uma sonora risada.
Não disse? Isso está muito misterioso. Estou me divertindo, e como — exclamou deliciada.
O inspetor franziu o cenho.
Tem a ver com o Sr. Costello - explicou. - Sr. Oliver Costello, residente em Morgan Mansions, 27, Londres SW3. Se não me engano, fica na região de Chelsea.
Nunca ouvi falar desse homem - foi a resposta de Miss Peake, robustamente enunciada.
Ele esteve aqui hoje à tardinha, visitando a Sra. Hailsham-Brown - lembrou o inspetor -, e pelo que fui informado a senhora lhe mostrou a saída pelo jardim.
Miss Peake deu um tapa na coxa.
Ah, aquele sujeito - recordou ela. - A Sra. Hail- sham-Brown não me disse o nome dele.
Ela observou o inspetor, demonstrando-se um pouco mais interessada.
Pois não, o que o senhor quer saber? - indagou.
Gostaria de saber - ponderou o inspetor devagar - exatamente o que aconteceu e quando foi que a senhora o viu pela última vez.
Miss Peake pensou antes de responder.
Deixe-me ver - disse ela. - Saímos para o jardim, e eu contei a ele que havia um atalho até a parada de ônibus. Ele disse que não precisava, pois tinha vindo de carro e estacionado perto do estábulo.
Sorriu radiante para o inspetor, como se esperasse um elogio pela concisa lembrança dos fatos, mas ele apenas comentou de modo absorto:
Não é um lugar estranho para se deixar o carro?
Foi isso mesmo que eu pensei - concordou Miss Peake, dando um tapinha no braço do inspetor. Ele reagiu com surpresa, mas ela prosseguiu: - O mais normal teria sido vir direto pela frente, não acha? Mas tem cada pessoa esquisita. A gente nunca sabe o que vão fazer. - E deu uma de suas gargalhadas joviais.
E o que aconteceu depois? - inquiriu o inspetor.
Miss Peake deu de ombros.
Bem, ele foi até o carro, e imagino que tenha ido embora - respondeu.
A senhora não o viu partir?
Não... eu estava guardando minhas ferramentas foi a resposta da jardineira.
E essa foi a última vez que o viu? - indagou o inspetor, com ênfase.
Sim, por quê?
Porque o carro dele ainda está aqui - revelou o inspetor. Em tom pausado e incisivo, prosseguiu: - Às 7h49, recebemos um telefonema na delegacia dizendo que um homem havia sido morto em Copplestone Court.
Chocada, Miss Peake exclamou:
Morto? Aqui? Que absurdo!
Parece que isso é o que todo mundo pensa - observou o inspetor secamente, com um olhar sugestivo a Sir Rowland.
Claro - retomou Miss Peake —, sei que há esses loucos por aí atacando mulheres... mas o senhor está dizendo que um homem foi morto...
A senhora não escutou outro carro esta noite? cortou o inspetor abruptamente.
Só o do s.r. Hailsham-Brown - respondeu ela.
Sr. Hailsham-Brown? - indagou o inspetor, erguendo as sobrancelhas. - Pensava que ele só era esperado tarde da noite.
Mirou Clarissa, que se apressou a esclarecer.
É verdade, meu marido esteve aqui, mas precisou sair de novo logo depois.
O inspetor adotou uma atitude de paciência deliberada.
Ah, é mesmo? - comentou em tom de estudada polidez. - Quando, mais exatamente, ele esteve aqui?
Vamos ver... - Clarissa começou a gaguejar. - Deve ter sido mais ou menos...
Uns quinze minutos antes de eu terminar meu serviço - interrompeu Miss Peake. - Eu trabalho bastante depois do expediente, inspetor. Nunca me baseio nas horas regulamentares - explicou Miss Peake. - Faça seu trabalho com seriedade e entusiasmo, costumo dizer - continuou, batendo na mesa ao falar. - Sim, o s.r. Hail- sham-Brown deve ter chegado às sete e quinze.
Isso deve ter sido pouco depois que o Sr. Costello saiu - observou o inspetor. Caminhou ao centro da sala, e o seu jeito foi mudando quase imperceptivelmente ao prosseguir: - É bem provável que ele e o Sr. Hailsham- Brown tenham passado um pelo outro.
O senhor quer dizer - comentou Miss Peake, pensativa - que ele pode ter voltado para falar com o s.r. Hailsham-Brown.
Oliver Costello não voltou aqui, sem sombra de dúvida - atalhou Clarissa de forma categórica.
Mas a senhora não pode ter certeza disso - redarguiu a jardineira. - Ele pode ter entrado pela porta de vidro sem que a senhora tenha notado. - Após uma pausa, exclamou: - Meu Deus! Não estão pensando que ele matou o s.r. Hailsham-Brown, não é? Ah, me desculpem.
Claro que ele não matou Henry - vociferou Clarissa exasperada.
Para onde foi seu marido ao sair daqui? - perguntou o inspetor.
Não tenho a mínima ideia - respondeu Clarissa de modo breve.
Ele não costuma avisar aonde vai? - insistiu o inspetor.
Nunca faço perguntas - revelou Clarissa. - Para um homem, deve ser um tédio uma esposa sempre fazendo perguntas.
Miss Peake soltou um guincho repentino.
Mas que estupidez a minha - gritou. - Claro, se o carro daquele homem ainda está aqui, deve ter sido ele quem foi assassinado. - E deu uma risada estrepitosa.
Sir Rowland levantou-se.
Não há razão alguma para crermos que alguém foi assassinado, Miss Peake - repreendeu, com dignidade.
Na realidade, o inspetor acredita que tudo não passa de um trote bobo.
Miss Peake obviamente não tinha a mesma opinião.
Mas e o carro? - insistiu ela. — Ainda acho que é muito suspeito esse carro continuar por aqui. - Ela se ergueu e caminhou em direção ao inspetor. - O senhor já procurou o corpo, inspetor? - indagou ansiosa.
O inspetor já vasculhou a casa - respondeu Sir Rowland, antes que o policial tivesse oportunidade de falar. Em troca, ele recebeu um olhar penetrante do inspetor, em quem Miss Peake dava tapinhas no ombro. Ela continuou a expor suas teorias.
Tenho certeza de que a Elgin tem algo a ver com isso... o mordomo e aquela mulher dele, que se considera cozinheira - assegurou a jardineira ao inspetor com convicção. - Sempre suspeitei deles. Agorinha mesmo, quando eu estava vindo para cá, vi luz no quarto deles. E isso, por si só, já é suspeito. É a noite de folga deles e normalmente só voltam bem depois das onze. - Ela pegou o inspetor pelo braço. - O senhor revistou o quarto deles? perguntou inquieta.
O inspetor abriu a boca para falar, mas ela o interrompeu com outro tapinha no ombro.
Agora me escute - iniciou ela. - Vamos supor que o Sr. Costello tenha reconhecido Elgin como alguém com ficha na polícia. Costello pode ter decidido voltar para prevenir o Sr. Hailsham-Brown, e Elgin o atacou.
Muito satisfeita consigo, correu o olhar entre os presentes e continuou:
Claro, Elgin teria de esconder o corpo rapidamente em algum lugar para que pudesse dar um destino a ele mais tarde. Agora, fico pensando... onde ele poderia tê-lo escondido? - perguntou retoricamente, absorta em sua tese. Com um gesto em direção à porta de vidro, ela começou: - Atrás de uma cortina ou...
Foi interrompida com raiva por Clarissa.
Francamente, Miss Peake. Não há ninguém escondido atrás das cortinas. E tenho certeza de que Elgin nunca matou ninguém. Isso é ridículo.
Miss Peake retrucou, em tom de censura:
A senhora confia demais nas pessoas, Sra. Hailsham-Brown. Quando a senhora tiver a minha idade, vai perceber como é comum encontrar pessoas que na verdade são bem diferentes do que aparentam ser. - Deu sua risada jovial e voltou-se ao inspetor.
Quando o inspetor abriu a boca, Miss Peake deu outro tapinha no ombro dele.
Vamos ver - prosseguiu ela -, onde um homem como Elgin esconderia o cadáver? Talvez naquele nicho do armário entre a sala e a biblioteca. Suponho que já deram uma olhada ali?
Sir Rowland interveio célere.
Miss Peake, o inspetor já procurou aqui e na biblioteca - enfatizou ele.
O inspetor, porém, lançou um olhar expressivo para Sir Rowland e voltou-se para a jardineira.
O que a senhora quer dizer mais exatamente com "aquele nicho do armário", Miss Peake? - indagou ele.
Um certo nervosismo dominou a sala ao Miss Peake responder:

Ah, é perfeito para brincar de esconde-esconde. Você nem sonha que o lugar existe. Vou mostrar para o senhor.
Ela caminhou para a porta secreta, seguida pelo inspetor. Jeremy ergueu-se no mesmo momento em que Clarissa exclamou com energia:
-Não!
O inspetor e Miss Peake voltaram-se a ela.
Não tem nada ali agora - Clarissa informou. - Sei disso porque agora mesmo fui à biblioteca por ali.
A voz dela foi murchando. Miss Peake, desapontada, murmurou:
Bem, neste caso... - e afastou-se da porta secreta. Mas o inspetor a chamou de volta. - Mostre-me assim mesmo, Miss Peake — solicitou. - Eu gostaria de ver.
Miss Peake aproximou-se da estante.
Originalmente era uma porta - explicou. - Ficava bem na frente da outra. - Ela moveu a alavanca, explicando como fazer. - É só puxar esta tramela para trás, e a porta se abre. Estão vendo?
A porta secreta abriu, e o corpo de Oliver Costello caiu emborcado. Miss Peake gritou.
Pelo visto - observou o inspetor com um olhar sombrio para Clarissa -, a senhora estava enganada, Sra. Hailsham-Brown. Ao que parece houve um assassinato aqui esta noite.
O grito de Miss Peake alcançou o ápice.

CAPÍTULO 13

Dez minutos depois, as coisas estavam um pouco mais calmas. Miss Peake não estava mais na sala, tampouco Hugo e Jeremy. O cadáver de Oliver Costello prostrado no esconderijo aberto. Clarissa, estendida no sofá, era esti-mulada por Sir Rowland a beber um cálice de conhaque. O inspetor ao telefone, e o guarda Jones de sentinela.
Sim, sim - dizia o inspetor. - O que foi?... O motorista fugiu sem prestar socorro?... Onde?... Ah, sei... Tudo bem, mande-os para cá assim que puder... Queremos fotos, claro... Sim, a perícia completa.
Repôs o fone no gancho e aproximou-se do guarda.
Tudo acontece ao mesmo tempo - reclamou. - Nada acontece durante semanas, e justo agora o médico-legista sai para atender um grave acidente de carro... um desastre na rodovia de Londres. Tudo isso vai resultar num bom atraso. Enquanto o médico não chega, vamos fazendo o que estiver a nosso alcance. - Fez um gesto na direção do cadáver. - Melhor não mexermos nele antes da perícia fotográfica - sugeriu. - Não que isso vá nos informar algo. Ele não foi morto ali, foi colocado ali depois.
Como o senhor pode ter certeza? - indagou o guarda.
O inspetor baixou o olhar para o tapete.
É possível notar que os pés foram arrastados - salientou, agachando-se atrás do sofá. O guarda ajoelhou-se ao lado do inspetor.
Sir Rowland espiou sobre o encosto do sofá e depois perguntou para Clarissa:
Como está se sentindo agora?
Melhor. Obrigado, Roly - respondeu com a voz abatida.
Os dois policiais ergueram-se.
Talvez fosse melhor fechar essa tal porta da estante - recomendou o inspetor ao colega. - Chega de ataques histéricos.
Certo, senhor - respondeu o guarda. Em seguida, fechou a porta do esconderijo para o corpo não ser mais avistado.
Logo depois, Sir Rowland levantou-se do sofá e falou para o inspetor:
A Sra. Hailsham-Brown passou por um grave abalo. Seria bom ela subir ao quarto e se deitar um pouco.
Com polidez, mas com certa reserva, o inspetor replicou:
Com certeza, senhor, mas não agora. Antes eu gostaria de fazer umas perguntas a ela.
Sir Rowland tentou persistir.
Ela realmente não está em condições de ser interrogada agora.
Estou bem, Roly - interpôs Clarissa com a voz fraca. - Verdade, estou sim.
Está sendo muito corajosa, querida - disse-lhe Sir Rowland em tom de aviso -, mas creio que seria mesmo mais sensato você subir e descansar um pouquinho.
Querido tio Roly! - respondeu Clarissa com um sorriso. Disse ao inspetor: - Às vezes o chamo de tio Roly, embora ele seja meu anjo da guarda e não meu tio. Mas ele é sempre tão doce comigo.
Sim, já percebi isso - foi a resposta seca.
Pode me perguntar o que o senhor quiser, inspetor - prosseguiu Clarissa de modo cortês. - Mas na verdade acho que não vou poder ajudar muito, pois simplesmente não sei de nada sobre isso.
Sir Rowland suspirou, meneou a cabeça de leve e desviou o rosto.
Não vamos tomar muito seu tempo, senhora - garantiu o inspetor. Indo à porta da biblioteca, ele a segurou aberta e dirigiu-se sir Rowland. - O senhor não gostaria de se juntar aos demais na biblioteca? - sugeriu.
Acho melhor ficar aqui, no caso de... - começou Sir Rowland, até ser cortado pelo inspetor, agora em tom mais incisivo.
Chamo o senhor se for preciso. Espere na biblioteca, por favor.
Depois de um breve duelo de olhares, Sir Rowland reconheceu a derrota e foi à biblioteca. O inspetor fechou aporta e indicou silenciosamente ao guarda que sentasse e fizesse anotações. Clarissa escorregou os pés para fora do sofá e endireitou a postura. Por sua vez, Jones empunhou um bloco e um lápis.
Muito bem, Sra. Hailsham-Brown - iniciou o inspetor -, se a senhora estiver pronta, podemos começar.
Pegou a cigarreira da mesinha ao lado do sofá, virou-a, abriu-a e avaliou os cigarros.
O meu querido tio Roly sempre tenta me proteger de tudo - contou Clarissa com um sorriso encantador. Então, ao ver o inspetor manusear a cigarreira, ficou receosa. - Não vão usar meios ilícitos no interrogatório, não é? - indagou, num esforço para dar à pergunta um tom de brincadeira.
Nada desse tipo, senhora, eu lhe asseguro - disse o inspetor. - Apenas algumas questões triviais. - Virou para o guarda. - Pronto, Jones? - indagou, puxando uma cadeira da mesa de bridge defronte a Clarissa e sentando.
Tudo pronto, senhor - respondeu o guarda Jones.
Certo. Muito bem, Sra. Hailsham-Brown - começou o inspetor. - A senhora confirma que não sabia da existência do corpo escondido naquele recesso?
O guarda começou a tomar notas, e Clarissa respondeu de olhos arregalados:
Confirmo. Claro que não sabia. Que coisa horrível! Estremeceu. - Horrível demais.
Com olhar indagador, o inspetor prosseguiu.
Quando estávamos vasculhando esta sala, por que a senhora não mencionou a existência daquele esconderijo?
Clarissa confrontou o olhar fixo do inspetor com olhos arregalados de inocência.
Sabe - disse ela - que nem cheguei a pensar nisso. Nunca usamos o esconderijo, de modo que não me passou pela cabeça.
O inspetor não deixou escapar a deixa.
Mas a senhora disse - relembrou - que tinha acabado de cruzar por ali em direção à biblioteca.
Ah, não - exclamou Clarissa, sem titubear. - O senhor deve ter me entendido mal. - Apontou para a porta da biblioteca. - Eu quis dizer que tínhamos ido à biblioteca por aquela porta.
Sim, vai ver que eu a compreendi mal - observou o inspetor sombrio. - No entanto, deixe-me ao menos esclarecer um ponto. A senhora alega não saber quando o Sr. Costello voltou para cá, ou o motivo por que ele retornou?
Não, simplesmente não consigo imaginar o porquê - respondeu Clarissa, transbordando candura na voz.
Mas o fato é que ele voltou - persistiu o inspetor.
Sim, é claro. Agora sabemos disso.
Bem, ele deve ter tido algum motivo - argumentou o inspetor.
Suponho que sim - concordou Clarissa. - Mas não tenho a mínima ideia do que possa ter sido.
O inspetor pensou um instante e resolveu experimentar outra linha de abordagem.
A senhora acha que talvez ele quisesse falar com seu marido? - sugeriu.
Ah, isso não - respondeu Clarissa prontamente. - Tenho certeza de que não. Henry e ele nunca se deram bem.
Ah!—exclamou o inspetor. - Eles nunca se deram bem. Eu não sabia disso. Houve alguma discussão entre eles?
De novo, Clarissa respondeu depressa a fim de impedir uma nova e potencialmente perigosa linha de investigação.
Ah, isso não - assegurou ela -, eles nunca discutiram. Henry só não ia muito com a cara dele. - Sorriu simpática. - Sabe como os homens são esquisitos.
O olhar do inspetor sugeriu que ele pessoalmente não tinha conhecimento sobre isso.
Tem certeza absoluta de que Costello não voltou aqui para falar com a senhora? - perguntou outra vez.
Comigo? - ecoou Clarissa candidamente. - Ah, não, tenho certeza de que não foi por isso. Que motivo ele poderia ter?
O inspetor respirou fundo. Lenta e deliberadamente, perguntou:
Há alguém mais nesta casa com quem ele talvez quisesse falar? Por favor, pense bem antes de responder.
De novo, Clarissa fitou o inspetor com um olhar meigo de inocência.
Não consigo imaginar - insistiu ela. - Quero dizer, com quem mais poderia ser?
O inspetor ergueu-se, virou a cadeira e a empurrou junto à mesa de bridge. Com passos lentos, começou a tecer considerações.
O Sr. Costello vem aqui - recomeçou devagar - e devolve os objetos que a primeira Sra. Hailsham-Brown tinha levado do marido por engano. Ele se despede. Mas depois retorna à casa.
Caminhou até as portas de vidro.
Presume-se que ele tenha entrado por aqui - prosseguiu, mostrando a porta envidraçada. - Ele é assassinado... o corpo é empurrado para dentro daquele esconderijo... tudo num período de dez a vinte minutos...
Ele se voltou para encarar Clarissa.
E ninguém escuta nada? - finalizou com entonação ascendente. - Acho isso muito difícil de acreditar.
Sei - concordou Clarissa. - Acho tão difícil de acreditar quanto o senhor. É mesmo incrível, não?
Certamente - anuiu o inspetor, com um claro tom de ironia. Fez uma última tentativa. - Sra. Hailsham- Brown, a senhora tem certeza absoluta de que não ouviu nada? - perguntou de forma incisiva.
Não escutei nada - respondeu. - É mesmo bizarro.
Quase bizarro demais - comentou o inspetor sombrio. Após uma pausa, foi à porta do hall e abriu-a. - Bem, por enquanto é só, Sra. Hailsham-Brown.
Clarissa levantou-se e caminhou ligeiro para a biblioteca, mas foi interceptada pelo inspetor.
Por aí não, por favor - pediu ele, conduzindo-a ao hall.
Mas eu acho que devia me reunir aos demais - protestou ela.
Mais tarde, se a senhora não se importar - disse o inspetor secamente.
Com muita relutância, Clarissa saiu pela porta do hall.

CAPÍTULO 14

O inspetor fechou a porta do hall atrás de Clarissa e foi até o guarda Jones, que ainda tomava notas.
Onde está a outra mulher? A jardineira. Miss... ahn... Peake? - indagou o inspetor.
Deixei-a na cama do quarto de hóspedes - contou o guarda ao chefe. - Quero dizer, isso depois que ela se acalmou da crise nervosa. Passei por maus bocados com ela, não parava de rir e de gritar. Ficou num estado horrível.
Não importa se a sra. Hailsham-Brown falar com ela - disse o inspetor. - Mas o que ela não pode é falar com aqueles três homens. Precisamos que cada um recorde dos fatos e conte a sua própria versão. Presumo que você tenha chaveado a porta entre a biblioteca e o hall?
Sim, senhor - assegurou o guarda. - Tenho a chave comigo.
Não sei o que fazer com esse pessoal - confessou o inspetor ao colega. - São todos altamente respeitáveis. Hailsham-Brown, diplomata do ministério das Relações Exteriores; Hugo Birch, juiz de paz, nosso conhecido; e os outros dois hóspedes dos Hailsham-Brown me parecem cidadãos decentes, bem-posicionados na sociedade... Bem, você sabe o que eu quero dizer... Mas tem algo estranho acontecendo. Nenhum deles está sendo honesto conosco... e nisso se inclui a Sra. Hailsham-Brown. Estão escondendo algo, e estou determinado a descobrir o que é, tendo ou não tendo algo a ver com esse assassinato.
Estendeu os braços para cima, como se procurasse inspiração dos céus, e dirigiu-se ao guarda novamente:
Bem, é melhor continuarmos - disse ele. - Vamos interrogá-los um de cada vez.
Quando o guarda levantou-se, o inspetor mudou de ideia.
Não. Espere um pouco. Primeiro vou ter uma palavrinha com aquele nosso mordomo - decidiu.
Elgin?
Sim, Elgin. Vá chamá-lo. Estou com um palpite de que ele sabe de algo.
Pois não, senhor - respondeu o guarda.
Deixando a sala, o guarda encontrou Elgin rondando a porta da sala de estar. O mordomo fingiu encami- nhar-se à escadaria, mas parou ao ser chamado; entrou na sala sem esconder o nervosismo.
O guarda fechou a porta do hall e reassumiu seu posto de anotador. O inspetor indicou a cadeira próxima à mesa de bridge.
Elgin sentou-se, e o inspetor começou o interrogatório.
Muito bem, você foi ao cinema esta noite - recordou ele ao mordomo -, mas logo voltou. Pode explicar por quê?
Eu já disse, senhor - respondeu Elgin. - Minha mulher não estava se sentindo bem.
O inspetor observou-o detidamente.
Foi você quem fez o Sr. Costello entrar na casa quando ele esteve aqui esta noite, não foi? - indagou.
Sim, senhor.
O inspetor distanciou-se alguns passos de Elgin e de repente deu meia-volta.
Por que você não falou logo que era o carro do Sr. Costello que estava lá fora? - perguntou.
Eu não sabia de quem era o carro, senhor. O Sr. Costello não veio guiando pela frente. Eu nem sabia que ele tinha vindo de carro.
Não acha isso muito curioso? Deixar o carro perto do estábulo? - sugeriu o inspetor.
Sim, senhor, acho que sim - respondeu o mordomo. - Mas talvez ele tenha tido seus motivos.
O que está insinuando? - perguntou o inspetor prontamente.
Nada, senhor - respondeu Elgin. Deu a impressão de estar quase satisfeito consigo. - Nada mesmo.
Já tinha visto o Sr. Costello alguma outra vez? - perguntou o inspetor com a voz severa.
Nunca, senhor - garantiu.
O inspetor indagou em tom sugestivo:
Não foi por causa do Sr. Costello que você voltou esta noite?
Já lhe disse, senhor - falou Elgin. - Minha mulher...
Não quero mais saber de sua mulher - cortou o inspetor. Afastando-se de Elgin, prosseguiu: - Há quanto tempo trabalha para a Sra. Hailsham-Brown?
Seis semanas, senhor - foi a resposta.
O inspetor virou para encarar Elgin.
E antes disso?
Eu... fiquei um tempo... descansando - respondeu o mordomo inquieto.
Descansando? - ecoou o inspetor desconfiado. Fez uma pausa e acrescentou: - Tem consciência de que, num caso como este, as suas referências serão meticulosamente verificadas?
Elgin começou a se levantar.
Se isso era tudo... - começou, mas parou e voltou a sentar. - Eu... eu não quero enganá-lo, senhor - prosseguiu. - Não fiz nada de errado. O que eu quero dizer é que... a carta de recomendação tinha se rasgado... e como eu não lembrava o texto direito...

Fez suas próprias referências - cortou o inspetor. - Clichê.
Não tive a intenção de prejudicar ninguém - protestou Elgin. - Precisava do emprego para...
O inspetor cortou-o novamente.
Neste momento, não estou interessado em referências falsas - disse ao mordomo. - Quero saber o que aconteceu aqui esta noite e o que você sabe sobre o Sr. Costello.
Nunca o vi antes - insistiu Elgin. Olhou em direção à porta do hall e continuou: - Mas imagino por que ele veio aqui.
Ah, mesmo, e por quê? - quis saber o inspetor.
Chantagem - contou Elgin. - Ele sabia de algo sobre ela.
Por "ela" - disse o inspetor - presumo que você queira dizer a Sra. Hailsham-Brown.
Sim - continuou Elgin ansiosamente. - Eu vim para saber se ela queria mais alguma coisa e escutei um pouco da conversa.
O que você escutou para ser mais exato?
Escutei-a dizendo: "Mas isso é chantagem. Eu não vou aceitar isso". - respondeu Elgin, adotando uma entonação bem dramática ao citar as palavras de Clarissa.
Hum... - respondeu o inspetor, um pouco cético. - Algo mais?
Não - admitiu Elgin. - Pararam de conversar quando eu entrei e, depois que eu saí, começaram a falar mais baixo.
Sei — comentou o inspetor. Com expressão concentrada, esperou o mordomo retomar a palavra.
Elgin levantou-se da cadeira. Sua voz era quase um choramingo ao suplicar:
O senhor não vai ser muito duro comigo, não é, meu senhor? De um jeito ou de outro, já tenho problemas suficientes.
O inspetor o avaliou mais um tempo para em seguida dispensá-lo:
Bem, por enquanto é isso. Pode se retirar.
Sim, senhor. Obrigado, senhor - apressou-se a responder Elgin, debandando para o hall.
O inspetor observou a saída do mordomo e depois se dirigiu ao guarda.
Chantagem, hein? - murmurou, trocando olhadelas com o colega.
E a Sra. Hailsham-Brown parece uma senhora tão correta - comentou o guarda Jones, com um certo decoro.
Sim, mas não se deve pôr a mão no fogo por ninguém - ponderou o inspetor. Após uma pausa, ordenou de modo conciso: - Agora vou falar com o Sr. Birch.
O guarda foi até a biblioteca.
Sr. Birch, por favor.
Hugo surgiu na porta com um ar obstinado e desafiador. O guarda fechou a porta atrás dele e sentou-se à mesa. O inspetor cumprimentou-o alegremente.
Entre, Sr. Birch - convidou. - Sente-se aqui, por gentileza.
Hugo sentou-se, e o inspetor prosseguiu:
Temo que este assunto seja muito desagradável, senhor. O que o senhor tem a nos dizer?
Jogando o estojo dos óculos na mesa, Hugo respondeu em tom de desafio:
Absolutamente nada.
Nada? - inquiriu o inspetor surpreso.
O que o senhor espera que eu diga? - disse Hugo em tom de reprimenda. - A maldita jardineira abre a maldita porta secreta e desaba um maldito cadáver. - Bufou impaciente. - De tirar o fôlego - declarou. - Ainda não consegui me recuperar. - Lançou ao inspetor um olhar penetrante. - Nem é bom me perguntar nada - disse com firmeza -, porque eu não sei de nada.
Por um momento, o inspetor observou Hugo serenamente antes de perguntar:
É esse o seu depoimento? Que o senhor não sabe de nada?
Estou lhe dizendo - repetiu Hugo. - Eu não matei o sujeito. - De novo, fitou o inspetor com expressão desafiadora. - Nem ao menos o conhecia.
Não o conhecia - repetiu o inspetor. - Muito bem. Não estou sugerindo isso. E certamente não estou sugerindo que foi o senhor quem o matou. Mas não posso acreditar que o senhor "não sabe de nada", como o senhor disse. Que tal colaborar para descobrirmos o que o senhor realmente sabe? Para começar, o senhor já tinha ouvido falar dele, não tinha?
Sim - retorquiu Hugo ríspido. - Ouvi falar que não era flor que se cheire.
Como assim? - perguntou o inspetor serenamente.
Sei lá - vociferou Hugo. - O tipo de sujeito admirado pelas mulheres e desprezado pelos homens. Esse tipo de coisa.
O inspetor fez uma pausa e indagou com cautela:
O senhor não imagina por que ele voltou a esta casa uma segunda vez hoje à noite?
Não tenho a mínima ideia - esquivou-se Hugo. O inspetor deu alguns passos pela sala. Então, virou
abruptamente para encarar Hugo.
O senhor acha que havia algo entre ele e a atual Sra. Hailsham-Brown? - perguntou.
Chocado, Hugo respondeu:
Clarissa? Bom Deus, não! Clarissa é uma boa moça. Tem muito bom senso. Ela não olharia duas vezes para um sujeito como esse.
Nova pausa, e o inspetor disse por fim:
Quer dizer que o senhor não pode nos ajudar.
Sinto muito. Mas é isso mesmo - respondeu Hugo, simulando indiferença.
Na tentativa derradeira de ao menos extrair migalhas de informação de Hugo, o inspetor perguntou:
O senhor realmente não sabia que o corpo estava naquele esconderijo?
Claro que não - rebateu Hugo, aparentando estar ofendido.
Obrigado, senhor - disse o inspetor, afastando-se dele.
O quê? - indagou Hugo vagamente.
Isso é tudo. Muito obrigado, senhor - repetiu o inspetor ao pegar um livro de capa vermelha na escrivaninha.
Hugo levantou-se e apanhou o estojo dos óculos. Já cruzava a sala rumo à biblioteca quando o guarda se ergueu e bloqueou sua frente. Então Hugo virou rumo à porta de vidro, e o guarda disse:
Por aqui, Sr. Birch, por favor - e abriu a porta do hall. Desistindo, Hugo saiu e o policial fechou a porta atrás dele.
O inspetor sentou-se à mesa de bridge e passou a folhear o pesado livro vermelho. Jones comentou com ironia:
Que mina de informação o Sr. Birch, hein? Se bem que não deve ser nada bom para um juiz de paz se envolver num caso de assassinato.
O inspetor começou a ler em voz alta.
"Delahaye, Sir Rowland Edward Mark, cavaleiro comandante da Ordem do Banho, membro da Real Ordem Vitoriana..."
O que o senhor está lendo aí? - perguntou o guarda, espiando por cima do ombro do inspetor. - Ah, Quem é quem.
O inspetor retomou a leitura.
"Educação: Eton... Universidade Trinity..." Hum! "Adido consular... segundo secretário... Madri... plenipotenciário."
Uau! - exclamou o guarda ao escutar esta última palavra.
O inspetor o mirou com irritação e prosseguiu:
Constantinopla... missão especial concedida... Clubes... sócio do Boodle's e White's.
Devo chamá-lo agora, senhor? - perguntou o guarda.
O inspetor pensou um instante.
Não - decidiu. - Ele é o mais interessante do grupo, por isso vou deixá-lo por último. Vamos falar agora com o jovem Warrender.

CAPÍTULO 15

O guarda Jones, na porta da biblioteca, chamou:
Sr. Warrender, por favor.
Jeremy entrou, tentando sem sucesso parecer com-pletamente à vontade. O guarda fechou a porta e retomou seu lugar à mesa. O inspetor ergueu-se parcialmente e puxou uma cadeira da mesa de bridge para Jeremy.
Sente-se - ordenou, um tanto brusco, ao retomar assento. Jeremy obedeceu, e o inspetor perguntou em um tom impessoal: - Nome?
Jeremy Warrender.
Endereço?
Broad Street, 340, e Grosvenor Square, 34 - disse Jeremy num esforço para aparentar desinteresse. Olhou para o guarda, que anotava tudo, e acrescentou: - No interior: Hepplestone, Wiltshire.
Parece que o senhor vive de rendimentos - comentou o inspetor.
Infelizmente, não - admitiu Jeremy com um sorriso. - Sou o secretário particular de Sir Kenneth Thomson, diretor da Companhia Petrolífera Anglo-Árabe. Os endereços que eu dei são dele.
O inspetor acenou com a cabeça.
Sei. Trabalha para ele há muito tempo?
Já faz cerca de um ano. Antes disso, durante quatro anos fui assessor pessoal do Sr. Scott Agius.
Ah, sim - disse o inspetor. - Aquele rico empresário do centro financeiro de Londres, não é? - Meditou um pouco antes de prosseguir: - Conhecia esse Oliver Costello?
Não, nunca tinha ouvido falar dele até hoje à noite - contou Jeremy.
E não o viu quando ele veio aqui no começo da noite? - continuou o inspetor.
Não - respondeu Jeremy. - Eu tinha ido ao clube de golfe com os outros. Fomos jantar lá. Hoje é a noite de folga dos empregados, e o Sr. Birch nos convidou para jantar com ele no clube.
O inspetor assentiu com a cabeça. Um pouco depois, indagou:
A Sra. Hailsham-Brown também foi convidada?
Não, não foi - disse Jeremy.
O inspetor ergueu as sobrancelhas, e Jeremy emendou:
Quero dizer - explicou -, ela poderia ter ido se quisesse.
Está me dizendo - perguntou o inspetor -, então, que ela foi convidada? E que recusou?
Não, não - apressou-se em responder Jeremy, dando sinais de estar ficando aturdido. - O que eu quero dizer é que... bem, Hailsham-Brown costuma chegar bem cansado, e Clarissa nos disse que eles fariam uma refeição frugal aqui mesmo, como de costume.
Perplexo, o inspetor comentou de forma mordaz:
Deixe-me ver se eu entendo. A Sra. Hailsham- Brown esperou o marido para jantar com ele aqui? Ela não esperava que ele fosse sair de novo logo depois de chegar?
Jeremy a esta altura estava todo perdido.
Eu... ahn... bem... hum... na verdade, não sei - gaguejou. - Não... agora que o senhor falou, acredito que ela comentou mesmo algo sobre isso, que ele ia sair hoje à noite.
O inspetor ergueu-se e deu alguns passos para longe de Jeremy.
Se é assim, parece esquisito - observou - que a Sra. Hailsham-Brown não tenha ido ao clube com vocês, em vez de jantar sozinha em casa.
Jeremy voltou-se na cadeira para encarar o inspetor.
Bem... eh... bem... - iniciou e, ganhando confiança, completou rapidamente - quero dizer, foi a menina...
Pippa. Clarissa não ia gostar de sair e deixar a menina sozinha em casa.
Ou quem sabe - comentou o inspetor de forma muito sugestiva quem sabe ela estivesse com planos de receber uma visitinha especial?
Jeremy levantou-se.
Que insinuação mais sórdida - exclamou exaltado.
Isso é uma inverdade. Tenho certeza de que ela nunca planejou algo semelhante.
No entanto, Oliver Costello veio até aqui para se encontrar com alguém - ressaltou o inspetor. - Era a noite de folga do casal de empregados. Miss Peake fica em seu chalé. Não havia mais ninguém para ele encontrar além da Sra. Hailsham-Brown.
Tudo que eu posso dizer é que... - começou Jeremy. Em seguida, desviando o olhar, acrescentou vacilante:
Bem, é melhor o senhor perguntar a ela.
Já perguntei a ela - informou o inspetor.
E o que ela disse? - indagou Jeremy, mirando o policial.
Exatamente o que o senhor disse - respondeu o inspetor com polidez.
Jeremy sentou-se de novo à mesa de bridge.
Está vendo? - observou.
O inspetor caminhou pela sala, olhando o chão, como se estivesse concentrado em divagações. De súbito, encarou Jeremy outra vez.
Agora me diga apenas - inquiriu - por que todos vocês acabaram voltando do clube para cá. Era esse o planejado?
Sim - respondeu Jeremy, mas se corrigiu de imediato. - Quero dizer, não.
Afinal, sim ou não? - indagou placidamente o inspetor.
Jeremy inspirou fundo.
Bem - começou ele -, foi assim. Todos nós fomos ao clube. Sir Rowland e o velho Hugo foram direto ao salão de refeições, eu fui logo depois. É um bufê de pratos frios. Fiquei dando tacadas até escurecer e então... Bem, alguém disse "Que tal um bridge?", e eu comentei "Bem, por que não voltamos ao aconchego da casa dos Hailsham-Brown e jogamos lá?". Dito e feito.
Sei - observou o inspetor. - Quer dizer que a ideia foi sua?
Jeremy encolheu os ombros.
Na verdade, não lembro quem sugeriu primeiro admitiu. - Acho que pode ter sido Hugo Birch.
E a que horas vocês chegaram aqui?
Jeremy meditou por um instante e abanou a cabeça.
Não posso dizer com certeza - murmurou. - É provável que tenhamos saído do clube um pouco antes das oito.
E isso dá o que... - calculou o inspetor - ...uns cinco minutos a pé?
Sim, mais ou menos isso. O campo de golfe faz divisa com este jardim - respondeu Jeremy, olhando em direção às portas de vidro.
O inspetor chegou perto da mesa de bridge e olhou as cartas.
E depois vocês jogaram bridge?
Sim - confirmou Jeremy.
O inspetor balançou a cabeça devagar.
Isso deve ter sido uns vinte minutos antes de eu chegar aqui - estimou. Sem pressa, começou a andar ao redor da mesa. - Com certeza, vocês não tiveram tempo de completar duas rodadas e - levantou o marcador de Clarissa e o mostrou a Jeremy - começar uma terceira?
Como? - Jeremy confundiu-se, mas logo disse:
Ah, não. Não. Essa primeira rodada deve ter sido a pontuação de ontem.
Indicando os outros marcadores, o inspetor observou pensativo:
Apenas uma pessoa parece ter marcado os pontos.
Sim - concordou Jeremy. - Acho que todos somos um pouco preguiçosos para marcar. Deixamos isso para Clarissa.
O inspetor cruzou a sala rumo ao sofá.
Sabia da passagem entre esta sala e a biblioteca? Indagou.
O senhor quer dizer o lugar onde foi encontrado o corpo?
Exato.
Não. Não, nem imaginava - asseverou Jeremy.
Camuflagem fantástica, não? Ninguém adivinha sua existência.
O inspetor sentou-se num dos braços do sofá. Ao reclinar-se para trás, tirou uma almofada do lugar e percebeu as luvas escondidas sob a almofada. Seu rosto assumiu uma expressão grave ao dizer calmamente:
Portanto, Sr. Warrender, o senhor não poderia saber que havia um corpo na passagem. Poderia?
Jeremy afastou-se.
Quase caí duro, como se diz - respondeu ele.
Um melodrama sensacional. Não conseguia acreditar em meus olhos.
Enquanto Jeremy falava, o inspetor organizava as luvas no sofá. Segurou um par, meio à moda de um mágico.
A propósito, este par de luvas é seu, Sr. Warrender?
perguntou, tentando soar de improviso.
Jeremy o fitou.
Não. Quero dizer, sim - respondeu Jeremy, confuso.
De novo, senhor? Sim ou não?
Sim, é meu, acho.
O senhor estava de luvas quando veio do clube de golfe?
Sim - fez menção de recordar Jeremy. - Agora me lembro. Sim, estava de luvas. Tem uma friagem no ar esta noite.
O inspetor levantou-se do braço do sofá e aproximou-se de Jeremy.
Acho que o senhor está enganado. - Mostrando as iniciais nas luvas, frisou: - A face interna das luvas têm as iniciais do Sr. Hailsham-Brown.
Enfrentando o olhar do inspetor com tranquilidade, Jeremy retorquiu:
Ah, que engraçado. Tenho um par igualzinho. O inspetor retornou, sentou-se no braço do sofá novamente e, inclinando-se, mostrou o segundo par de luvas.
Quem sabe não é este o seu par? - sugeriu. Jeremy riu.
O senhor não vai me pegar de novo - respondeu.
Afinal, os dois pares são iguais.
O inspetor apresentou o terceiro par de luvas.
Três pares de luvas - murmurou, examinando-os.
Todos com as iniciais de Hailsham-Brown por dentro. Curioso.
Bem, esta é a casa dele, afinal - mencionou Jeremy.
Por que ele não poderia ter três pares de luvas por aí?
O mais curioso - respondeu o inspetor - é que o senhor pensou que pudessem ser suas. E, se não estou enganado, suas luvas estão aparecendo no bolso agora.
Jeremy levou a mão ao bolso direito do casaco.
Não esse, o outro - falou o inspetor.
Tirando as luvas do bolso esquerdo, Jeremy exclamou:
Ah, sim. Sim, estão mesmo.
Não são muito parecidas com estas. Ou são? - perguntou o inspetor incisivamente.
Para falar a verdade, estas são minhas luvas de golfe - respondeu Jeremy com um sorriso.
Muito obrigado, Sr. Warrender. Por enquanto, é só - dispensou o inspetor, de modo repentino, colocando a almofada no lugar.
Jeremy levantou-se aborrecido.
Olhe aqui - exclamou. - O senhor não está pensando... - parou.
Não estou pensando o quê? - indagou o inspetor.
Nada - respondeu Jeremy indeciso. Após uma pausa, dirigiu-se à biblioteca, mas foi interceptado pelo guarda. Volvendo ao inspetor, Jeremy apontou mudo e indagador para o hall. Com um aceno de cabeça, o inspetor fez que sim, e Jeremy saiu da sala fechando a porta do hall atrás de si.
Deixando as luvas no sofá, o inspetor aproximou-se da mesa de bridge, sentou-se e consultou novamente o Quem é quem.
Achei - murmurou. Começou a ler em voz alta:
"Thomson, Sir Kenneth. Diretor da Companhia Petrolífera Anglo-Árabe, do grupo Petróleo do Golfo." Hum,.. Impressionante. "Hobbies: filatelia, golfe, pesca. Endereço: Broad Street, 340; Grosvenor Square, 34."
O inspetor continuou a ler, e o guarda Jones cruzou até a mesinha ao lado do sofá e começou a apontar o lápis no cinzeiro. Agachando-se para juntar umas aparas no chão, viu uma carta de baralho caída e a trouxe até a mesa de bridge, largando-a bem na frente do chefe.
O que temos aqui? - indagou o inspetor.
Só uma carta, senhor. Achei ali, embaixo do sofá.
O inspetor pegou a carta.
O ás de espadas - observou. - Que carta interessante! Mas espere um pouco. - Olhou no verso da carta.
Vermelho. É o mesmo baralho. - Espalhou as cartas na mesa.
O guarda ajudou a separar o baralho.
Como pensei: nenhum ás de espadas - exclamou o inspetor. Levantou-se da cadeira. - Ora, isso não é extraordinário, Jones? - perguntou, colocando a carta no bolso e indo ao sofá. - Conseguiram jogar bridge sem perceber a falta do ás de espadas.
Sem dúvida, isso é extraordinário, senhor - concordou o guarda Jones ao arrumar as cartas na mesa.
O inspetor recolheu os três pares de luvas do sofá.
Chegou a hora de Sir Rowland Delahaye - orientou ele ao guarda, enquanto dispunha em pares as luvas na mesa de bridge.

CAPÍTULO 16

O guarda abriu a porta da biblioteca e chamou:
Sir Rowland Delahaye.
Sir Rowland deteve-se na soleira da porta, e o inspetor convidou:
Entre, senhor. Por favor, sente-se aqui.
Sir Rowland aproximou-se da mesa de bridge, hesitou um momento ao notar as luvas dispostas na mesa e sentou-se.
Seu nome é Sir Rowland Delahaye? - indagou o inspetor formalmente. Recebendo um aceno de cabeça afirmativo e sério, perguntou: - Onde o senhor mora?
Long Paddock, Littlewich Green, Lincolnshire - respondeu Sir Rowland. Batendo de leve com o dedo no exemplar de Quem é Quem, acrescentou: - Não conseguiu achar, inspetor?
O inspetor preferiu ignorar o comentário.
Agora, se o senhor tiver a bondade - disse -, eu gostaria de ouvir o seu relato sobre o que ocorreu hoje à noite, depois que vocês saíram daqui, pouco antes das sete.
Era óbvio que Sir Rowland pensara sobre isso.
Passou o dia todo chovendo - começou em voz branda - e de repente o tempo limpou. Tínhamos combinado jantar no clube de golfe, pois era noite de folga dos empregados. Foi o que fizemos. - Deu uma olhada para o guarda para se certificar de que ele acompanhava e prosseguiu: - Quando terminávamos a janta, a Sra. Hailsham- Brown ligou, nos contando que o marido tivera de sair devido a um compromisso inesperado e nos convidando para voltar e jogar bridge. Voltamos. Começamos a jogar e uns vinte minutos depois o senhor chegou, inspetor. O resto... o senhor sabe.
Pensativo, o inspetor observou:
Não é bem essa a versão do sr. Warrender.
Mesmo? - disse Sir Rowland. - E o que foi que ele disse?
Que a proposta de voltar aqui e jogar bridge surgiu de um de vocês. Provavelmente, do sr. Birch.
Ah - retorquiu Sir Rowland sem pestanejar -, mas veja bem, talvez o senhor não saiba que Warrender só apareceu no salão do restaurante do clube bem depois. Ele nem sequer percebeu que a sra. Hailsham-Brown tinha ligado.
Sir Rowland e o inspetor trocaram olhares desafiadores. Sir Rowland continuou:
O senhor deve saber melhor do que eu, inspetor, o quanto é raro o relato de duas pessoas sobre o mesmo fato coincidir. Na verdade, se nós três contássemos exatamente a mesma história, eu consideraria isso suspeito. Suspeito até demais.
O inspetor preferiu não comentar essa observação. Puxando uma cadeira para perto de Sir Rowland, sentou-se.
Gostaria de discutir o caso com o senhor, com sua permissão - propôs.
É muita delicadeza sua, inspetor - respondeu Sir Rowland.
Depois de olhar pensativamente o tampo da mesa por alguns segundos, o inspetor começou a argumentar.
O morto (sr. Oliver Costello) veio a esta casa com algum objetivo específico. - Fez uma pausa. - O senhor concorda que deve ter sido isso o que aconteceu?
No meu ponto de vista, ele veio para devolver a Henry Hailsham-Brown certos objetos que a na época sra. Miranda Hailsham-Brown levara junto com ela por engano - respondeu Sir Rowland.
Esse pode ter sido o pretexto dele - frisou o inspetor -, embora nem disso eu esteja certo. Mas estou certo de que esse não foi o motivo real que o trouxe até aqui.
Sir Rowland encolheu os ombros.
O senhor pode ter razão - observou. - Não sei dizer.
O inspetor prosseguiu rápido.
Ele veio, talvez, para ver alguém em especial. Pode ter sido o senhor, pode ter sido o sr. Warrender, ou quem sabe o sr. Birch.
Se ele quisesse falar com o Sr. Birch, que vive nesta região - salientou Sir Rowland -, teria ido à casa dele. Não teria vindo aqui.
Certamente - concordou o inspetor. - Portanto, isso nos deixa a opção de quatro pessoas. O senhor, o sr. Warrender, o sr. Hailsham-Brown e a sra. Hailsham- Brown - fez uma pausa e, encarando Sir Rowland com um olhar perscrutador, perguntou: - Diga-me, o senhor conhecia bem Oliver Costello?
-Muito superficialmente. Encontrei-o uma ou duas vezes no máximo.
Onde o senhor o encontrou? - indagou o inspetor.
Sir Rowland pensou um pouco.
Duas vezes na casa dos Hailsham-Brown em Londres, mais ou menos um ano atrás, e uma vez num restaurante, se não me engano.
Mas o senhor não tinha motivo para querer matá-lo?
Isso é uma acusação, inspetor? - perguntou Sir Rowland com um sorriso.
O inspetor meneou a cabeça.
Não, Sir Rowland - replicou o policial. - Eu chamaria mais de uma eliminação. Não creio que o senhor tivesse qualquer motivo para dar um fim em Oliver Costello. Sobram assim três pessoas.
Isso está começando a parecer uma variante de "O caso dos dez negrinhos" - comentou Sir Rowland, sorrindo.
O inspetor sorriu de volta.
O próximo da lista será o sr. Warrender - propôs ele. - Diga-me, há quanto tempo o conhece?
Conheci-o aqui mesmo, dois dias atrás - respondeu Sir Rowland. - Ele parece ser um moço agradável, de boa família, com boa instrução. É amigo de Clarissa. Não sei nada sobre ele, mas não acredito que seja um assassino.
É o suficiente sobre o sr. Warrender - observou o inspetor. - Isso me leva à próxima pergunta.
Antecipando-se a ele, Sir Rowland balançou a cabeça.
Se eu conheço bem Henry Hailsham-Brown e se eu conheço bem a sra. Hailsham-Brown. É isso que o senhor quer saber, não é? - indagou. - Na verdade, conheço muito bem Henry Hailsham-Brown. É um velho amigo. Quanto à Clarissa, sei tudo o que preciso saber sobre ela. Ela é minha protegida, e é impossível expressar o quanto eu a admiro.
Sim, senhor - disse o inspetor. - Acho que essa resposta esclarece bem as coisas.
Esclarece, mesmo?
O inspetor levantou-se e deu alguns passos na sala antes de se virar e confrontar Sir Rowland.
Por que vocês três mudaram de plano esta noite? - indagou. - Por que voltaram aqui para fazer de conta que estavam jogando bridge?
Fazer de conta? - exclamou Sir Rowland, com veemência.
O inspetor puxou a carta do bolso.
Esta carta - disse ele - foi encontrada no outro lado da sala, embaixo do sofá. É difícil de acreditar que vocês jogaram duas rodadas de bridge e começaram uma terceira com um baralho de cinquenta e uma cartas, com o ás de espadas faltando.
Sir Rowland pegou a carta, examinou-a frente e verso e a devolveu ao inspetor.
Sim - admitiu. - Talvez isso seja mesmo um pouco difícil de acreditar.
O inspetor ergueu os olhos, desanimado, e completou:
Também acho que estes três pares de luvas do sr. Hailsham-Brown exigem certa explicação.
Um pouco depois, Sir Rowland respondeu:
Receio, inspetor, que de mim o senhor não vai conseguir explicação alguma.
Sei que não - concordou o inspetor. - Entendo que está fazendo o melhor em consideração a uma certa senhora. Mas isso não é nada bom, senhor. A verdade vai acabar vindo à tona.
Me pergunto se vai mesmo - foi a única resposta de Sir Rowland ao comentário.
O inspetor foi à porta secreta.
A Sra. Hailsham-Brown sabia que o corpo de Cos- tello estava no esconderijo - insistiu. - Se ela o arrastou até ali sozinha, ou se foi ajudada por vocês, não sei. Mas estou convencido de que ela sabia. - Encarou Sir Rowland e prosseguiu. - Meu palpite é que Oliver Costello veio se encontrar com a Sra. Hailsham-Brown e extorquir dinheiro dela por meio de ameaças.
Ameaças? - perguntou Sir Rowland. - Que tipo de ameaças?
Isso vai aparecer no seu devido tempo, não tenho dúvida - assegurou o inspetor. - A Sra. Hailsham-Brown é jovem e atraente. Esse Sr. Costello fazia sucesso com as mulheres, pelo que dizem. Bem, a Sra. Hailsham-Brown casou-se há pouco tempo e...
Espere! - cortou Sir Rowland de modo peremptório. - Preciso colocá-lo a par de certas coisas. O senhor pode facilmente confirmar o que vou dizer. O primeiro casamento de Henry Hailsham-Brown não deu certo. A mulher dele, Miranda, era bonita, mas neurótica e desequilibrada. A saúde e a disposição de espírito de Miranda se degradaram de maneira tão alarmante que a filhinha deles teve de ser transferida para um internato.
Refletiu e recomeçou:
Sim, uma situação realmente chocante. Tudo indicava que ela havia se tornado uma viciada em drogas. Não se descobriu como Miranda conseguia as drogas, mas seria bem plausível imaginar que o fornecedor era esse homem, Oliver Costello, por quem ela estava apaixonada. No fim, acabou fugindo com ele.
Depois de nova pausa e de outro olhar ao guarda, para ver se ele acompanhava, Sir Rowland retomou seu relato.
Henry Hailsham-Brown, que tem pontos de vista antiquados, concedeu o divórcio a Miranda - explicou. - Agora, Henry encontrou paz e felicidade no casamento com Clarissa, e eu posso lhe garantir, inspetor, que não há nenhum segredo na vida de Clarissa. Não havia nada, eu posso jurar, com que Costello pudesse ameaçá-la.
O inspetor nada disse, permanecendo absorto.
Sir Rowland levantou-se, encostou a cadeira na mesa e foi ao sofá. Voltando-se outra vez ao policial, sugeriu:
Não acha que está seguindo a pista errada, inspetor? Por que tem tanta certeza de que Costello veio aqui atrás de alguém? Por que não poderia ser atrás de algo?
O que o senhor quer dizer com isso? - indagou o inspetor perplexo.
Quando o senhor falou conosco sobre o falecido Sr. Sellon - recordou Sir Rowland -, mencionou que a divisão de Narcóticos tinha interesse nele. Não é possível que haja uma ligação? Drogas... Sellon... casa de Sellon?
Silenciou. Como não houve reação do inspetor, prosseguiu:
Que eu saiba, Costello esteve aqui antes. Supostamente, para olhar as antiguidades de Sellon. Vamos supor que Oliver Costello quisesse algo que estivesse nesta casa. Naquela escrivaninha, por exemplo.
O inspetor olhou de relance a escrivaninha, enquanto Sir Rowland desenvolvia melhor sua tese.
Houve aquele curioso incidente do homem que veio aqui e ofereceu um valor exorbitante por aquela escrivaninha. Vamos supor que Oliver quisesse examinar (ou investigar, como queira) aquela escrivaninha. Vamos supor que alguém o tivesse seguido até aqui. E que esse alguém o tivesse golpeado perto da escrivaninha.
O inspetor não demonstrou emoção alguma.
É muita suposição... - começou, mas foi interrompido por Sir Rowland, que insistiu:
É uma hipótese bem plausível.
A hipótese — inquiriu o inspetor - de que esse alguém tenha colocado o corpo no esconderijo?
Exato.
Nesse caso, deveria ser alguém que soubesse da existência do esconderijo - observou o inspetor.
Poderia ser alguém que conhecesse a casa na época do Sr. Sellon - salientou Sir Rowland.
Sim, tudo isso é muito bonito, senhor - replicou o inspetor impaciente -, mas uma coisa continua sem explicação...
O quê? - perguntou Sir Rowland.
O inspetor o encarou detidamente.
A Sra. Hailsham-Brown sabia que o corpo estava no esconderijo. Ela tentou nos impedir de procurar ali.
Sir Rowland fez menção de falar, mas o inspetor ergueu a mão e emendou:
Nem tente me convencer do contrário. Ela sabia.
Por um breve momento, vigorou um silêncio nervoso, quando então Sir Rowland disse:
Inspetor, o senhor me permitiria conversar com minha protegida?
Só na minha frente - foi a resposta imediata.
Está bem.
O inspetor concordou com a cabeça.
Jones! - O guarda, entendendo, retirou-se da sala.
Estamos basicamente em suas mãos, inspetor - disse Sir Rowland ao policial. - Vou lhe pedir que faça todas as concessões possíveis.
Minha única preocupação é chegar à verdade, sir, e descobrir quem matou Oliver Costello - respondeu o inspetor.



CAPÍTULO 17

O guarda retornou à sala, segurando a porta aberta para Clarissa.
- Entre, por favor, Sra. Hailsham-Brown - solicitou o inspetor. Ao Clarissa entrar, Sir Rowland aproximou-se dela e falou solenemente:
Clarissa, minha querida. Faria uma coisa por mim? Queria que contasse ao inspetor a verdade.
A verdade? - ecoou Clarissa, sem convicção.
A verdade - repetiu Sir Rowland com ênfase. - É a única coisa a fazer. Estou falando sério. - Por um instante, fitou-a com firmeza e gravidade, depois saiu da sala. O guarda fechou a porta e voltou ao posto de anotador.
Sente-se, Sra. Hailsham-Brown - convidou o inspetor, desta vez indicando o sofá.
Clarissa sorriu-lhe, mas ele respondeu com um olhar severo. Ela caminhou devagar ao sofá, sentou-se e esperou um pouco. Disse enfim:
Sinto muito. Sinto muitíssimo por ter contado ao senhor todas aquelas mentiras. Não era essa minha intenção. - Parecia mesmo arrependida ao continuar: - A gente acaba se envolvendo, o senhor entende o que eu quero dizer?
Não posso dizer que sim - respondeu o inspetor com frieza. - Agora, por favor, vamos aos fatos.
Bem, é realmente muito simples - explicou ela, enumerando os fatos com os dedos ao falar. - Primeiro, Oliver Costello foi embora. Depois, Henry chegou. Depois, eu o vi saindo de carro de novo. Depois, eu vim para cá com os sanduíches.
Sanduíches? - indagou o inspetor.
Sim. É que o meu marido vai trazer aqui em casa um representante estrangeiro importantíssimo.
Ah, é? E quem é esse representante? - indagou o inspetor interessado.
Um tal de sr. Jones - revelou Clarissa.
Como? - disse o inspetor, com uma olhadela ao guarda Jones.
Sr. Jones. Este não é o seu nome verdadeiro, mas é assim que foi combinado chamá-lo. É tudo muito sigiloso. - Clarissa continuou a falar. - Eles iam comer sanduíches durante a conversa, e eu ia comer musse na sala de estudo.
Perplexo, o inspetor murmurou:
Musse na... sim, entendi - dando a impressão de não ter entendido nada.
Deixei os sanduíches aqui - contou Clarissa, apontando o banco - e comecei a arrumar tudo. Fui guardar um livro na estante e... então... praticamente tropecei em cima dele.
Tropeçou no corpo? - indagou o inspetor.
Sim. Estava aqui, atrás do sofá. Eu dei uma olhada para ver se... se ele estava morto e estava. Reconheci Oliver Costello e fiquei sem saber o que fazer. Por fim, liguei ao clube de golfe e pedi a Sir Rowland, sr. Birch e Jeremy Warrender que voltassem logo.
Curvando-se sobre o sofá, o inspetor perguntou com frieza:
A senhora não lembrou de avisar a polícia?
Lembrei sim - Clarissa respondeu -, mas... - Sorriu mais uma vez. - Bem, não avisei.
Não avisou - murmurou o inspetor consigo. Afastou-se, olhou para o guarda, ergueu as mãos em desespero e virou-se para encarar Clarissa. - Por que a senhora não avisou a polícia? - indagou.
Clarissa estava pronta para essa pergunta.
Bem, achei que não seria bom para o meu marido — respondeu. - Não sei se o senhor conhece funcionários do ministério das Relações Exteriores, inspetor, mas eles são discretos ao extremo. Gostam de tudo muito na surdina, sem chamar a atenção. O senhor há de admitir que assassinatos chamam bastante a atenção.
Imagino que sim - foi tudo o que o inspetor pôde formular como resposta.
Estou tão feliz com a sua compreensão - declarou Clarissa, de modo afetuoso, quase sentimental. Prosseguiu com o relato, mas, à medida que começou a perceber que a história não evoluía, sua fala foi se tornando cada vez menos convincente. - Quero dizer - ponderou -, ele estava morto mesmo, pois não tinha pulso, de forma que não pudemos fazer nada por ele.
O inspetor andava de um lado para o outro, sem responder. Seguindo-o com os olhos, Clarissa continuou.
O que eu quero dizer é que ele poderia ter sido morto tanto em Marsden Wood como em nossa sala de estar.
O inspetor virou de modo enérgico e a fitou.
Marsden Wood? — perguntou abruptamente. - O que tem Marsden Wood a ver com essa história?
Era para lá que eu estava pensando em levá-lo - respondeu Clarissa.
O inspetor colocou a mão na parte de trás da cabeça e olhou o piso, como à procura de inspiração. Sacudindo a cabeça para desanuviar, disse de modo incisivo:
Sra. Hailsham- Brown, nunca ouviu falar que em caso de suspeita de crime jamais se deve remover um cadáver?
Sei muito bem - retorquiu Clarissa. - Todo livro policial menciona isso. Mas estamos falando da vida real.
O inspetor ergueu as mãos em desalento.
Me refiro - continuou ela - ao fato de que na vida real é bem diferente.
O inspetor olhou Clarissa com silêncio incrédulo por um momento, antes de perguntar:
A senhora tem consciência da gravidade do que está dizendo?
Claro que tenho - replicou - e estou lhe dizendo a verdade. Em suma, resolvi ligar para o clube e todos retornaram para cá.
E a senhora os persuadiu a esconder o corpo nesse esconderijo.
Não - corrigiu Clarissa. - Essa ideia surgiu depois. No meu plano original, como lhe contei, eles deviam levar o corpo de Oliver ao carro dele e deixar o carro em Marsden Wood.
E eles concordaram? - o ceticismo na voz do inspetor era evidente.
Sim, concordaram - disse Clarissa, sorrindo.
Francamente, sra. Hailsham-Brown - afirmou o inspetor de modo rude -, não acredito numa palavra dessa história. Não acredito que três homens responsáveis concordariam em obstruir o curso da justiça dessa maneira por motivo tão desprezível.
Clarissa levantou-se. Afastando-se do inspetor, disse mais para si do que para ele:
Eu sabia que o senhor não acreditaria em mim se eu contasse a verdade. - Voltou o rosto na direção dele.
No que o senhor acredita, afinal? - perguntou ela.
Observando Clarissa de perto, o inspetor retrucou:
Só consigo imaginar uma razão pela qual aqueles senhores concordariam em mentir.
Ah, é? O que o senhor quer insinuar? Que outra razão eles teriam?
Eles concordariam em mentir - completou o inspetor - se acreditassem ou, o que é mais provável, se tivessem certeza de que foi a senhora que o matou.
Clarissa o fitou.
Mas eu não tinha motivo para matá-lo - protestou.
Motivo nenhum. - Afastou-se dele. - Ah, eu sabia que o senhor reagiria assim - exclamou. - É por isso...
Ela se calou de súbito, e o inspetor indagou com rispidez:
É por isso o quê?
Clarissa permaneceu pensando. Alguns momentos se passaram, e sua atitude pareceu mudar. Começou a falar de um modo mais convincente.
Está bem - anunciou, com o ar de quem vai fazer uma confissão completa. — Vou contar o porquê.
Acho que seria mais inteligente de sua parte - disse o inspetor.
Sim - concordou ela, voltando o rosto para mirá-lo honestamente. - Suponho que o melhor a fazer é contar a verdade- ela enfatizou a palavra.
O inspetor sorriu.
Posso lhe assegurar - ponderou ele - que contar um monte de mentiras à polícia não vai ajudá-la em nada, Sra. Hailsham-Brown. É melhor me contar a história real. Tintim por tintim.
Vou contar - prometeu Clarissa. Sentou-se numa das cadeiras à mesa de bridge. - Puxa vida - suspirou -, e eu que pensava estar sendo tão esperta.
É melhor deixar a esperteza de lado - disse o inspetor ao sentar-se defronte a Clarissa. - Muito bem - indagou -, o que realmente aconteceu esta noite?

CAPÍTULO 18

Clarissa ficou em silêncio por algum tempo. Então, olhando serena nos olhos do inspetor, começou a falar.
Tudo começou daquele modo que eu já lhe expliquei. Despedi-me de Oliver Costello, e ele se retirou, acompanhado de Miss Peake. Não imaginava que ele voltaria e ainda não consigo entender por que ele voltou.
Fez uma pausa, dando a impressão de estar tentando se lembrar do que ocorrera depois.
Ah, sim - continuou. - Meu marido chegou em casa, explicando que logo teria de sair de novo. Ele saiu de carro, e foi só eu fechar a porta da frente e me assegurar de que estava chaveada e trancada, que de repente comecei a ficar nervosa.
Nervosa? - indagou o inspetor, sem entender.
Por quê?
Bem, em geral não sou nervosa - revelou, falando com grande emoção -, mas me dei conta de que nunca tinha ficado sozinha à noite nesta casa.
Hesitou um pouco.
Isto, vá em frente - encorajou o inspetor.
Disse a mim mesma para deixar de ser boba. Pensei comigo: "Você tem telefone, não tem? Qualquer coisa é só ligar pedindo ajuda. Ladrões não agem cedo da noite. Agem de madrugada." Mas eu não tirava da cabeça a sensação de ter escutado o ruído de uma porta se fechando em algum lugar da casa ou passos no meu quarto lá em cima. Então pensei que era melhor fazer alguma coisa.
Hesitou de novo, e mais uma vez o inspetor a estimulou.
-Sim?
Fui à cozinha — disse Clarissa - e fiz os sanduíches para Henry e o sr. Jones comerem quando chegassem. Deixei todos prontinhos no prato, envoltos em guardanapos para manter o frescor, e estava cruzando o hall para trazê-los aqui quando... - cortou a fala de modo dramático eu realmente escutei algo.
Onde? - perguntou o inspetor.
Nesta sala - contou ela. - Dessa vez eu tinha certeza que não estava imaginando. Ouvi gavetas sendo abertas e fechadas. Logo me lembrei que a porta de vidro não havia sido trancada. Nós nunca a trancamos. Alguém tinha entrado por ali. .
De novo, ela se demorou.
Prossiga, sra. Hailsham-Brown - falou o inspetor impassível.
Clarissa fez um gesto de desamparo.
Eu não sabia o que fazer. Fiquei paralisada. Pensei: "E se eu estiver só me preocupando à toa? E se Henry resolveu voltar por algum motivo... ou até mesmo Sir Rowland, ou um dos outros? Vou ficar com cara de boba se for lá em cima na extensão e ligar à polícia." Foi quando me ocorreu um plano.
Fez uma nova pausa, e desta vez o "Sim?" do inspetor transpareceu um quê de impaciência.
Fui até o suporte do hall - disse Clarissa devagar e peguei o bastão mais pesado que encontrei. Em seguida fui à biblioteca. Não acendi as luzes. Fui tateando no escuro até chegar ao recesso. Abri-o suavemente e deslizei para dentro. Meu plano era entreabrir a porta do lado de cá e espiar quem estava aqui. - Apontou a porta secreta. - A menos que a pessoa já saiba, nem sonha que ali tem uma porta.
Sim - concordou o inspetor -, nem sonha mesmo.
A esta altura, Clarissa aparentava estar quase gostando de sua narrativa.
Acionei de leve a alavanca - recomeçou -, mas meus dedos escorregaram, e a porta abriu de supetão, batendo numa cadeira. Um homem perto da escrivaninha endireitou o corpo. Vi algo brilhante e luminoso na mão dele. Pensei que era um revólver. Fiquei aterrorizada. Pensei que ele ia atirar em mim. Com toda a minha força, acertei o bastão na cabeça dele, e ele caiu.
Ela se prostrou na mesa com o rosto entre as mãos.
Eu... eu posso tomar um pouco de conhaque? Pediu ela ao inspetor.
Claro que sim. - O inspetor levantou-se. - Jones! Chamou. O guarda encheu um cálice de conhaque e entregou ao inspetor. Clarissa havia erguido o rosto, mas o cobriu depressa com as mãos outra vez. Nesse meio- tempo, o inspetor trouxe-lhe o conhaque. Ela bebeu, tossiu e devolveu o cálice. O guarda Jones repôs o cálice na mesinha e retomou o lugar e as anotações.
O inspetor fitou Clarissa.
Pode continuar, Sra. Hailsham-Brown? - perguntou compreensivo.
Sim - respondeu Clarissa, levantando o olhar para ele. - O senhor é muito gentil. - Tomou fôlego e continuou o relato. - O homem ficou lá no chão. Sem se mexer. Acendi a luz e vi que era Oliver Costello. Estava morto. Foi horrível. Eu... eu não conseguia entender.
Mostrou a escrivaninha com um gesto.
Não conseguia entender o que ele estava fazendo ali, mexendo na escrivaninha. Tudo parecia um pesadelo medonho. Fiquei tão assustada que liguei para o clube de golfe. Queria meu protetor a meu lado. Os três vieram. Implorei que me ajudassem, que levassem o corpo embora... para algum lugar.
O inspetor olhou para ela com atenção.
Mas por quê? - perguntou.
Clarissa desviou o rosto.
Porque eu estava com medo — disse ela. - Um medo mesquinho. Medo da publicidade, de enfrentar um tribunal. Seria péssimo para o meu marido e para a carreira dele.
Volveu o rosto para o inspetor.
Se fosse mesmo um ladrão, talvez eu pudesse superar, mas sendo alguém conhecido, alguém casado com a primeira mulher de Henry... ah, simplesmente achei que eu não seria capaz de levar tudo isso ao fim.
Talvez - insinuou o inspetor - porque o morto tivesse, um pouco antes, tentado chantageá-la?
-Me chantagear? Que absurdo! - retorquiu Clarissa com plena convicção. - Isso é uma tolice. Não há nada com que alguém possa me chantagear.
Elgin, o seu mordomo, escutou detrás da porta a palavra chantagem - revelou o inspetor.
Não acredito que ele tenha escutado nada parecido - rebateu Clarissa. - Não poderia ter escutado. Se quer saber a minha opinião, acho que ele está inventando.
Falando sério, sra. Hailsham-Brown - insistiu o inspetor -, está querendo me convencer de que a palavra chantagem nunca foi mencionada? Por que o mordomo inventaria uma coisa dessas?
Juro que não houve menção a chantagem - exclamou Clarissa, batendo com a mão na mesa. - Eu lhe garanto... — Clarissa deteve a mão no ar e de repente caiu na risada. - Ah, que tolice. É claro. Foi aquilo.
A senhora lembrou? - indagou o inspetor tranquilamente.
Não foi nada, mesmo - assegurou Clarissa. - Oliver só estava comentando algo sobre os preços excessivos do aluguel de casas mobiliadas. Falei que tínhamos uma sorte incrível e que estávamos pagando apenas quatro guinéus por semana por esta aqui. Então ele falou: "Mal posso acreditar, Clarissa. Que trapaça é essa? Só pode ser chantagem." Eu dei uma risada e respondi: "Isso mesmo. Chantagem."
Riu de novo, como se estivesse recordando a conversa.
Só um modo tolo de se expressar, uma brincadeira. Eu nem me lembrava mais.
Sinto muito, Sra. Hailsham-Brown - disse o inspetor -, mas é impossível acreditar nisso.
Clarissa pareceu atônita.
É impossível acreditar no quê?
Que estão pagando só quatro guinéus a semana por esta casa toda mobiliada.
Mas é verdade! O senhor é mesmo o homem mais cético que conheci em toda minha vida - afirmou Clarissa, levantando e dirigindo-se à escrivaninha. - Tenho a im-pressão de que o senhor não acreditou em nada do que eu contei esta noite. Não tenho como provar a maioria das coisas, mas essa eu posso. E desta vez vou lhe provar.
Abriu uma gaveta da escrivaninha e remexeu em uns papéis.
Aqui está - exclamou. - Não, não é. Ah! Pronto.
Pegou um documento da gaveta e mostrou ao inspetor.
Este é o contrato de aluguel desta casa mobiliada. Foi feito por uma empresa de advogados a serviço dos inventariantes. Pode conferir... quatro guinéus por semana.
O diabo que me carregue! - exclamou o inspetor, estarrecido. - É mesmo incrível. Incrível demais. Imaginava que valia bem mais do que isso.
Clarissa abriu um de seus sorrisos encantadores.
Não acha que me deve desculpas, inspetor? - comentou.
O inspetor inseriu um certo charme na voz ao responder:
Desculpe-me, Sra. Hailsham-Brown - disse ele -, mas a senhora há de convir que é mesmo extremamente estranho.
Por quê? O que o senhor quer dizer? - disse Clarissa ao repor o documento na gaveta.
Bem, acontece - redarguiu o inspetor - que um casal andava aqui na região com o intuito de ver esta casa, e a mulher acabou perdendo um broche muito valioso nas redondezas. Ela passou na delegacia para registrar a ocorrência e mencionou esta casa. Comentou que os donos tinham pedido um preço absurdo. Achou ridículo alguém pedir dezoito guinéus por semana por uma casa no interior, longe de tudo. Eu concordei com ela.
Sim, isso é extraordinário, muito extraordinário concordou Clarissa com um sorriso afável. - Entendo a sua desconfiança. Mas talvez agora o senhor acredite em alguma das outras coisas que falei.
Não estou duvidando de sua versão mais recente, Sra. Hailsham-Brown - garantiu o inspetor. - Em geral, sabemos quando estão falando a verdade. Eu sabia, também, que deveria haver algum motivo grave para aqueles três cavalheiros inventarem esse desatinado plano de encobrimento.
O senhor não deve responsabilizá-los demais, inspetor - defendeu-os Clarissa. - A culpa foi minha. Tive de insistir muito com eles.
Já consciente da capacidade de persuasão de Clarissa, o inspetor respondeu:
Ah, não tenho dúvida disso. Mas continuo sem entender uma coisa. Quem telefonou para a polícia e denunciou o assassinato?
Sim, isso é impressionante! - disse Clarissa atônita.
Eu tinha esquecido completamente desse detalhe.
Obviamente não foi a senhora - salientou o inspetor -, e não poderia ter sido um dos três cavalheiros...
Clarissa abanou a cabeça.
Não poderia ter sido Elgin? - cogitou. - Ou, quem sabe, Miss Peake?
Não creio que possa ter sido Miss Peake - disse o inspetor. - Ficou evidente que ela não sabia que o corpo de Costello estava ali.
Imagino se isso é verdade mesmo - comentou Clarissa pensativa.
Afinal, quando o corpo foi descoberto, ela ficou histérica - recordou o inspetor.
Ah, isso não quer dizer nada. Qualquer pessoa pode ficar histérica - comentou Clarissa de modo incauto. O inspetor a olhou com ar de suspeita, e ela achou oportuno responder com o sorriso mais inocente possível.
De qualquer forma, Miss Peake não mora na casa observou o inspetor. - Ela tem seu próprio chalé no terreno da propriedade.
Mas ela bem que podia ter estado na casa - disse Clarissa. - Ela tem chave de todas as portas.
O inspetor meneou a cabeça.
Acho que não. A mim parece mais provável que Elgin tenha nos ligado - disse ele.
Clarissa aproximou-se do inspetor e deu um sorriso um tanto aflito.
O senhor não vai me mandar para a cadeia, vai? Indagou. - Tio Roly me assegurou que o senhor não faria isso.
O inspetor a fitou austero.
Foi bom ter mudado a história a tempo, senhora, e ter nos contado a verdade - refletiu com severidade. - Mas, se me permite dar um conselho, Sra. Hailsham-Brown, recomendo que entre em contato com seu advogado o quanto antes e o cientifique de todos os fatos relevantes. Neste meio tempo, vou mandar datilografar seu depoimento e pedir que a senhora o leia. Talvez seja amável o suficiente para assiná-lo.
Quando Clarissa ia responder, a porta do hall abriu, e Sir Rowland entrou.
Não aguentei esperar mais - explicou. - Tudo bem, inspetor? Entendeu nosso dilema?
Clarissa aproximou-se de seu protetor antes que ele pudesse falar mais.
Roly, querido - saudou ela, pegando a sua mão.
Fiz um depoimento, e a polícia... ou mais exatamente o sr. Jones aqui... vai datilografá-lo. Então vou ter de assiná-lo. Contei tudo.
O inspetor foi confabular com o guarda, e Clarissa continuou conversando calmamente com sir Rowland.
Contei que eu achava que era um ladrão - enfatizou ela - e que eu acertei uma pancada na cabeça dele.
Quando Sir Rowland, assustado, fez menção de falar, ela rapidamente tapou sua boca com as mãos, de modo que ele não pôde verbalizar. Prosseguiu apressada:
Contei como reconheci que era Oliver Costello, como fiquei transtornada e liguei ao clube, como implorei e implorei até convencer vocês a me ajudarem. Agora percebo o quanto agi mal...
O inspetor voltou-se na direção deles, e Clarissa tirou as mãos de cima da boca de Sir Rowland bem a tempo.
Mas na hora—disse ela - fiquei paralisada de medo e pensei que seria mais cômodo para todo mundo (para mim, para Henry e até para Miranda) se Oliver fosse encontrado em Marsden Wood.
Clarissa! O que diabos você andou contando? - exclamou Sir Rowland com a voz entrecortada.
A Sra. Hailsham-Brown fez um depoimento minucioso, - disse o inspetor satisfeito.
Voltando um pouco ao normal, Sir Rowland retorquiu, seco:
Assim parece.
Era a melhor coisa a fazer - disse Clarissa. - Pensando bem, era a única coisa a fazer. O inspetor me fez perceber isso. E eu estou realmente arrependida por ter contado todas aquelas mentiras tolas.
Isso vai acabar livrando a senhora de muitos problemas - garantiu o inspetor. - Pois bem, Sra. Hailsham- Brown - continuou -, não vou lhe pedir para entrar no esconderijo junto com o corpo, mas gostaria que a senhora me mostrasse a exata posição em que o homem estava quando a senhora entrou na sala vindo por ali.
-Ah... sim... vamos ver... ele estava... - iniciou Clarissa vacilante. Foi até a escrivaninha. - Não - continuou -, agora me lembrei. Estava parado aqui, bem assim. - Ela parou ao lado da escrivaninha e curvou-se.
Fique pronto para abrir a porta secreta quando eu avisar, Jones - disse o inspetor, gesticulando ao guarda, que se levantou e empunhou a alavanca na estante.
- Muito bem - disse o inspetor para Clarissa. - Ele estava parado aí. Então a senhora abriu a porta secreta e saiu por ela. Tudo bem, não precisa entrar ali e ver o corpo, apenas fique na frente da porta quando ela se abrir. Jones...
O guarda acionou a alavanca, e a porta secreta se abriu. O esconderijo estava vazio exceto por um pedacinho de papel no chão, apanhado pelo guarda Jones. O inspetor olhou, de modo acusador, para Clarissa e Sir Rowland.
O guarda leu em voz alta o que estava escrito na tira de papel. "Seus trouxas!" O inspetor arrancou o papel das mãos do guarda, enquanto Clarissa e Sir Rowland se entreolhavam, admirados.
O som alto da campainha da frente quebrou o silêncio.

CAPÍTULO 19

Pouco depois, Elgin entrou na sala de estar para anunciar a chegada do médico-legista. De imediato, o inspetor e o guarda Jones acompanharam o mordomo à porta da frente. No hall, o inspetor incumbiu-se da não invejável tarefa de confessar ao doutor que de momento não havia corpo a ser examinado.
Não diga, inspetor Lord - comentou o médico irritado. - O senhor tem ideia da raiva que dá vir aqui nesta lonjura e dar com os burros n'água?
Mas, doutor, posso lhe garantir - tentou explicar o inspetor - que tínhamos um corpo mesmo.
O inspetor está certo, doutor - confirmou o guarda Jones. - Sem dúvida, tínhamos um corpo. Acontece que ele acaba de sumir.
O burburinho de vozes atraíra Hugo e Jeremy da sala de jantar, do outro lado do hall. Eles não perderam a oportunidade de fazer observações pouco úteis.
Não sei como a polícia consegue trabalhar, perdendo corpos desse jeito! - queixou-se Hugo. Por sua vez, Jeremy alfinetou:
Não entendo por que não colocaram alguém vigiando o corpo.
Bem, seja lá o que aconteceu, se não há corpo a ser examinado, não vou mais perder o meu tempo aqui -vociferou o médico, dirigindo-se ao inspetor. - Tenha a certeza de que isso não vai ficar assim, inspetor Lord.
Sim, doutor. Não tenho dúvidas quanto a isso. Boa noite, doutor - replicou o inspetor fatigado.
O médico-legista saiu pela frente, batendo a porta atrás de si, e o inspetor voltou-se para Elgin, que se antecipou, alegando depressa:
Não sei de nada, eu lhe asseguro, senhor, absolutamente nada.
Neste meio tempo, na sala de estar, Clarissa e Sir Rowland, escutando à porta, divertiam-se com o contratempo dos policiais.
Horinha não muito oportuna para a chegada do reforço policial - riu-se Sir Rowland. - Parece que o médico-legista ficou bem irritado com o sumiço do cadáver.
Clarissa deu uma risadinha.
Mas quem será que deu sumiço nele? - perguntou ela. - Será que foi Jeremy?
Não consigo imaginar como ele poderia ter feito isso - replicou Sir Rowland. - Eles não deixaram ninguém entrar na biblioteca, e a porta entre a biblioteca e o hall estava chaveada. Aquele "Seus trouxas!" foi a gota d'água.
Clarissa riu, e Sir Rowland continuou.
Entretanto, nos revela uma coisa. Costello conseguiu abrir a gaveta secreta. - Calou-se um tempo e mudou de atitude. - Clarissa - recomeçou em tom grave por que afinal você não contou a verdade ao inspetor, mesmo depois de eu ter lhe implorado?
Eu contei - protestou Clarissa -, menos a parte de Pippa. Ele simplesmente não acreditou em mim.
Mas, por Deus, precisava contar tanta bobagem ao inspetor? - insistiu Sir Rowland.
Bem - retorquiu Clarissa com um gesto de desamparo -, me pareceu a história mais plausível de o inspetor acreditar. E - finalizou ela radiante - agora ele acredita mesmo em mim.
E o resultado é que você está no meio de uma grande confusão - salientou Sir Rowland. - Vai ser acusada de assassinato e sabe bem disso.
Vou alegar legítima defesa - afirmou Clarissa confiante.
Antes que Sir Rowland tivesse oportunidade de responder, Hugo e Jeremy entraram do hall. Hugo caminhou à mesa de bridge, resmungando:
Polícia de araque, nos empurrando pra lá e pra cá. E agora parece que conseguiram perder o cadáver.
Jeremy fechou a porta atrás de si, então aproximou-se do banco e pegou um sanduíche.
Esquisito pra burro - afirmou.
É inacreditável - comentou Clarissa. - Toda a história é inacreditável. O corpo sumiu, e ainda não sabemos quem foi que ligou para a polícia e contou que havia ocorrido um crime aqui.
Ora, claro que foi Elgin - opinou Jeremy, sentando num braço do sofá e começando a saborear o sanduíche.
Não, não - discordou Hugo. - Só pode ter sido aquela tal de Miss Peake.
Mas por quê? - quis saber Clarissa. - Por que um deles faria isso sem nos contar nada? Não faz sentido.
Na porta do hall, Miss Peake meteu a cabeça na sala e olhou em volta com ar conspirador.
Oi, a barra está limpa? - indagou. - Nenhum tira por perto? Parece que tem um enxame deles na casa.
Agora estão ocupados vasculhando a casa e o terreno — informou Sir Rowland.
Para quê? - perguntou Miss Peake.
O corpo - replicou Sir Rowland - sumiu.
Miss Peake soltou a risada jovial de sempre.
Que palhaçada! - explodiu ela. - O cadáver mágico, então?
Hugo sentou-se à mesa de bridge. Olhando ao redor, comentou, sem se dirigir a ninguém em especial:
É um pesadelo. Tudo não passa de um maldito pesadelo.
Bem como nos filmes, não é, Sra. Hailsham-Brown? - lembrou Miss Peake, tendo outro acesso de riso.
Sir Rowland sorriu para a jardineira.
Espero que a senhora esteja se sentindo melhor agora, Miss Peake, não está? - perguntou, cortês.
Ah, estou bem - respondeu ela. - Sabe, na verdade, sou um osso duro de roer. Apenas fiquei um pouco impressionada ao abrir aquela porta e dar de cara com um cadáver. Na hora perdi o controle, tenho de admitir.
Fico pensando, talvez - comentou Clarissa serenamente -, se a senhora já não sabia que ele estava ali.
A jardineira fitou-a.
Quem? Eu?
Sim, a senhora.
De novo parecendo dirigir-se ao cosmos inteiro, Hugo afirmou:
Não faz sentido. Por que alguém levaria o corpo embora? Todos sabemos que existe um corpo. Sabemos a identidade dele e tudo o mais. Não há motivo. Por que não deixar o infeliz onde estava?
Ah, eu não diria que não há motivo, Sr. Birch corrigiu Miss Peake, curvando-se sobre a mesa de bridge e encarando Hugo. - É preciso ter um corpo, sabe. Habeas corpus e aquela ladainha toda. Lembra-se? Antes de acusar alguém de assassinato, é preciso ter um corpo. - Voltou-se para Clarissa. - Portanto, não se preocupe, Sra. Hailsham- Brown - tranquilizou ela. - Tudo vai acabar bem.
Clarissa fitou-a.
O que quer dizer com isso?
Estive de ouvidos bem abertos esta noite - contou a jardineira. - Não fiquei o tempo todo deitada na cama do quarto de hóspedes. - Ela olhou para todos ao redor.
Nunca suportei aquele tal de Elgin, nem a esposa dele recomeçou. - Escutando às escondidas e correndo para fofocar à polícia histórias sobre chantagem.
Então escutou isso? - perguntou Clarissa curiosa.
Eu sempre digo: defenda o seu sexo - declarou Miss Peake. Olhou para Hugo. - Homens! - bufou. - Não me misturo com eles. — Sentou-se no sofá ao lado de Clarissa. - Se não conseguem achar o corpo, minha querida explicou Miss Peake -, não podem apresentar acusações contra a senhora. E digo mais: se aquele animal estava mesmo lhe fazendo chantagem, a senhora fez muito bem em quebrar a cabeça dele e se livrar da peste.
Mas eu não... — começou Clarissa com voz fraca.
Escutei a senhora contar tudo ao inspetor - interrompeu a jardineira. - E, se não fosse por aquele enxerido e medroso do Elgin, a sua história seria bem coerente. Fácil de acreditar.
De que história você está falando? - indagou Clarissa com curiosidade.
A de ter confundido ele com um ladrão. É o ponto de vista da chantagem que deixa tudo com aspecto diferente. Por isso, pensei que só tinha uma coisa a ser feita, retomou a jardineira. - Dar um fim no corpo e deixar a polícia perseguindo o próprio rabo.
Incrédulo, Sir Rowland recuou titubeante alguns passos. Miss Peake olhou ao redor com satisfação.
Trabalho talentoso, até eu mesma tenho de reconhecer - gabou-se ela.
Jeremy ergueu-se fascinado.
Está dizendo que foi a senhora quem removeu o corpo? - perguntou incrédulo.
A esta altura, todos encaravam Miss Peake.
Estamos todos entre amigos aqui, não? - indagou, olhando em volta. - Porque eu também posso dar com a língua nos dentes. Sim - admitiu ela eu que removi o corpo. - Deu um tapinha no bolso. - E passei a chave na porta. Tenho as chaves de todas as portas da casa, portanto isso não foi problema.
Clarissa fitou-a boquiaberta.
Mas como? Onde... onde a senhora colocou o corpo? - perguntou sem fôlego.
Miss Peake inclinou-se à frente num sussurro conspirador.
Na cama do quarto de hóspedes. Aquela de quatro colunas. Atravessado na cabeceira, embaixo do travesseiro comprido. Depois refiz a cama e deitei em cima dela.
Sir Rowland, pasmado, sentou-se à mesa de bridge.
Mas como a senhora levou o corpo até o quarto de hóspedes? - perguntou Clarissa. - Não ia conseguir fazer isso sozinha.
A senhora ficaria surpresa - sorriu Miss Peake de forma jovial. - O velho modo de erguer dos bombeiros. Joguei em cima do ombro. - Com um gesto, ela demonstrou como fizera.
Mas e se a senhora tivesse encontrado alguém na escada? - questionou Sir Rowland.
Ah, mas eu não encontrei - retorquiu Miss Peake. - A polícia estava aqui com a Sra. Hailsham-Brown. Vocês três estavam retidos por eles na sala de jantar. Então agarrei a oportunidade e, é claro, agarrei o morto também, levei-o ao hall, passei a chave na porta da biblioteca e o carreguei escadas acima até o quarto de hóspedes.
Caramba! - exclamou Sir Rowland sem fôlego.
Clarissa ficou em pé.
Mas ele não pode ficar embaixo do travesseiro comprido para sempre - ponderou ela.
Miss Peake virou-se para Clarissa.
Não, claro que para sempre não, sra. Hailsham- Brown — admitiu. — Mas por 24 horas ele vai ficar bem. A essa altura, a polícia vai ter liquidado com a busca na casa e no terreno. Vão estar procurando mais longe.
Correu o olhar entre seus admirados interlocutores.
Assim, estive pensando num modo de nos livrarmos do corpo - recomeçou. - Casualmente cavei uma bela trincheira no jardim esta manhã... para plantar ervilhas-de-cheiro. Ora, é só enterrar o corpo lá e plantar duas bonitas fileiras de ervilhas-de-cheiro por cima.
Sem palavras, Clarissa desmoronou no sofá.
Receio, Miss Peake - ponderou Sir Rowland -, que o oficio de coveiro há tempos deixou de ser assunto de iniciativa privada.
A jardineira riu a valer do comentário.
Ah, esses homens! - exclamou, balançando o dedo para Sir Rowland. - Sempre tão ostensivos na defesa da boa conduta. O bom senso das mulheres é superior. - Ela se virou para Clarissa. - Tudo o que é difícil para nós se torna fácil, até mesmo um assassinato. Não é, Sra. Hailsham-Brown?
Hugo levantou-se de repente.
Isso é um absurdo! - esbravejou ele. - Clarissa não o matou. Não acredito numa palavra disso.
Ora, se não foi ela - Miss Peake perguntou vivaz -, quem foi?
Naquele instante, Pippa entrou na sala vindo do hall, vestindo um chambre, caindo de sono, com uma tigela de mousse de chocolate na mão. Todos os olhares se voltaram para ela.



CAPÍTULO 20

Atônita, Clarissa se levantou num pulo.
Pippa! - gritou. - O que está fazendo fora da cama?
Acordei e resolvi descer - disse Pippa, entre um bocejo e outro.
Clarissa a conduziu ao sofá.
Estou com tanta fome - reclamou Pippa, bocejando de novo. Sentou-se, ergueu os olhos para Clarissa e disse em tom acusativo: - Você tinha dito que ia levar isto pra mim.
Clarissa pegou a tigela de mousse de chocolate da mão de Pippa e a pôs no banco. Em seguida, sentou-se ao lado da menina no sofá.
Achei que você estava dormindo, Pippa - explicou.
E eu estava mesmo dormindo - contou Pippa, com outro imenso bocejo. - Daí tive a impressão de que um policial entrou e ficou me olhando. Eu tinha tido um pesadelo e depois fiquei meio acordada. Daí me deu fome e resolvi descer.
Estremeceu, olhou todo mundo e recomeçou:
Além do mais, eu achei que poderia ser verdade.
Sir Rowland aproximou-se e sentou no sofá do outro lado de Pippa.
O que poderia ser verdade, Pippa? - perguntou.
Aquele sonho horrível que tive com o Oliver - respondeu Pippa, sentindo um calafrio ao lembrar.
O que aconteceu no sonho, Pippa? - indagou Sir Rowland mansamente. - Conte para mim.
Nervosa, Pippa tirou do bolso do chambre um pedacinho de cera modelada.
À tardinha, fiz isto aqui - relatou. - Derreti uma vela de cera, esquentei um alfinete e trespassei a cera com o alfinete.
Ela entregou o bonequinho de cera sir Rowland. De repente, Jeremy exclamou "Meu Deus!", deu um salto e começou a esquadrinhar a sala, atrás do livro que Pippa tentara lhe mostrar à tarde.
Recitei as palavras bem certinho e tudo o mais - explicou Pippa sir Rowland -, só que não consegui fazer bem do jeito que dizia no livro.
Que livro? - quis saber Clarissa. - Não estou entendendo.
Junto à estante, Jeremy achou o que procurava.
Aqui está - exclamou, entregando o livro para Clarissa por cima do encosto do sofá. - Pippa comprou hoje no sebo. Ela disse que era um livro de receitas.
Pippa deu uma risada repentina.
E você me disse: "É de comer?" - lembrou ela.
Clarissa examinou o livro. Leu na capa o título
Cem feitiços provados e comprovados. Abriu o volume e começou a ler.
"Como sarar verrugas. Como conquistar o seu amor. Como aniquilar o seu inimigo." Pippa... então foi isso que você fez?
Pippa lançou à madrasta um olhar de mistério.
Sim - respondeu.
Clarissa devolveu o livro a Jeremy, e Pippa observou o boneco de cera, ainda nas mãos de Sir Rowland.
Não se parece muito com Oliver - admitiu -, e eu não consegui nenhuma mecha de cabelo dele. Mas foi o mais parecido que pude fazer... e depois... depois... sonhei e pensei... - Tirou o cabelo do rosto e o ajeitou atrás das orelhas. - Pensei que eu tinha descido e que ele estava ali.
Apontou atrás do sofá. - E que era tudo verdade.
Sir Rowland largou mansamente o boneco de cera no banco, e Pippa prosseguiu:
Ele estava ali, morto. Eu tinha acabado com ele.
Olhou para todos na sala e começou a tremer. - É verdade? - perguntou. - Eu o matei?
Não, querida. Não - disse Clarissa, com os olhos rasos de lágrimas, abraçando Pippa.
Mas ele estava ali - insistiu Pippa.
Sei, Pippa - contou-lhe Sir Rowland. - Mas você não matou Costello. Ao trespassar o boneco de cera com o alfinete, você matou o ódio e o medo que tinha dele. Agora não tem mais medo nem ódio dele. Não é verdade?
Pippa voltou-se para Sir Rowland.
Sim, é verdade - reconheceu. - Mas eu o vi sim.
Olhou atrás do sofá. - Desci na sala e Costello estava caído ali, morto. - Aninhou a cabeça no peito de Sir Rowland. - Tenho certeza de que o vi, tio Roly.
Sim, querida, você o viu mesmo - disse-lhe Sir Rowland ternamente. - Mas não foi você quem o matou.
Ela o fitou com ansiedade, e ele recomeçou: - Agora preste atenção, Pippa. Alguém acertou a cabeça dele com um bastão. Você não fez isso, fez?
Ah, não - disse Pippa, acenando a cabeça com força. - Isso não. - Ela se virou para Clarissa. - Quer dizer tipo o bastão de golfe que o Jeremy tinha?
Jeremy riu.
Não, Pippa, não um taco de golfe - explicou ele.
Algo tipo aquele grande bastão que fica no suporte do hall.
Quer dizer aquele que era do Sr. Sellon e que Miss Peake chama de clava? - indagou Pippa.
Jeremy concordou com a cabeça.
Ah, não - falou Pippa. - Eu não faria uma coisa dessas. Não ia conseguir. - Voltou-se para Sir Rowland. - Ah, tio Roly, eu não ia matá-lo de verdade.
Claro que não - interveio Clarissa, com uma voz serena de bom senso, pegando a tigela de mousse e oferecendo a Pippa. - Agora vamos, querida, coma a sua mousse de chocolate e esqueça desse assunto. - Pippa abanou a cabeça em recusa, e Clarissa repôs a tigela no banco. Ela e Sir Rowland ajudaram Pippa a se deitar no sofá. Clarissa pegou na mão dela, e Sir Rowland afagou o cabelo da menina com carinho.
Não estou entendendo bulhufas dessa história - declarou Miss Peake. - Que livro é esse, afinal? - perguntou ela a Jeremy, que o folheava nesse momento.
"Como provocar uma peste no gado do vizinho." Não acha interessante, Miss Peake? - falou Jeremy. - Arrisco dizer que, com pequenas adaptações, a senhora consegue causar mancha-preta nas rosas da vizinha.
Não sei do que você está falando - retrucou a jardineira com rispidez.
Magia negra - explicou Jeremy.
Não sou supersticiosa, graças a Deus - bufou ela, encerrando o assunto e se afastando.
Hugo, que se esforçava para acompanhar os fatos, confessou:
Estou cada vez mais confuso.
Eu também - concordou Miss Peake, dando-lhe um tapinha no ombro. - É melhor eu ir dar uma espiadinha no que os rapazes de azul estão inventando. - E dando outra de suas estrepitosas risadas, saiu rumo ao hall.
Sir Rowland percorreu os olhares de Clarissa, Hugo e Jeremy.
E agora em que pé estamos? - pensou consigo em voz alta.
Clarissa ainda se restabelecia das revelações dos minutos anteriores.
Como fui estúpida - exclamou confusa. - Eu devia saber que Pippa não teria como... eu não sabia nada sobre esse livro. Pippa disse que tinha matado Oliver e eu... pensei que era verdade.
Hugo levantou-se.
Ah, você está dizendo que achou que Pippa...
Sim, querido - cortou Clarissa nervosa e incisivamente para impedi-lo de completar a frase. Mas Pippa, por felicidade, agora dormia serena no sofá.
Ah, entendo - disse Hugo. - Isso explica tudo. Bom Deus!
Bem, agora é melhor irmos até a polícia e enfim contar a verdade a eles - opinou Jeremy.
Sir Rowland balançou a cabeça pensativo.
Não sei, não - murmurou. - Clarissa já contou três versões diferentes...
Não. Esperem - interrompeu Clarissa de repente.
Tive uma ideia. Hugo, qual era o nome da loja do sr. Sellon?
Era só uma loja de antiguidades - replicou Hugo de modo vago.
Sim, sei disso - exclamou Clarissa impaciente.
Mas como ela se chamava mesmo?
Como assim... "como se chamava"?
Ah, querido, não dificulte as coisas - falou Clarissa.
Antes você disse, e eu quero que você diga de novo. Mas não quero mandar você dizer, nem dizer por você.
Hugo, Jeremy e Sir Rowland se entreolharam.
Alguém pode me esclarecer onde diabos esta moça quer chegar? - indagou Hugo em tom de queixa.
Não tenho ideia - replicou Sir Rowland. - Tente de novo, Clarissa.
Exasperada, ela insistiu:
É muito simples. Qual era o nome da loja de antiguidades em Maidstone?
Não tinha nome - respondeu Hugo. - Quero dizer, antiquários não se chamam Seaview ou coisa que o valha.
Santa paciência - resmungou Clarissa entre os dentes cerrados. Falando claro e devagar, pausando após cada palavra, perguntou uma vez mais:
O... que... estava... escrito... em... cima... da... porta?
Escrito? Nada - disse Hugo. - O que poderia estar escrito? Só o nome dos donos: "Sellon & Brown", é claro.
Até que enfim - gritou Clarissa em tom de júbilo. - Eu achava que era isso que você tinha dito antes, mas não tinha certeza. Sellon & Brown. Meu nome é Hailsham- Brown. - Ela olhou o trio a seu redor, mas eles apenas a olharam de volta, com expressão de total incompreensão nas faces.
Alugamos esta casa muito barato - recomeçou Clarissa. — Os outros interessados que vieram ver a casa antes ficaram assustados com o preço exorbitante do aluguel e desistiram, ficando descontentes. Entenderam agora?
Hugo mirou-a com um olhar inexpressivo, antes de responder:
-Não.
Jeremy sacudiu a cabeça.
Ainda não, meu bem.
Sír Rowland fitou-a de modo agudo.
Estou boiando - falou, pensativo.
O rosto de Clarissa assumiu uma expressão de ansiedade.
O Sr. Sellon tinha sociedade com uma pessoa que morava em Londres. Essa pessoa é uma mulher - explicou ela aos amigos. - Hoje, alguém ligou e pediu para falar com a sra. Brown. Não com a sra. Hailsham-Brown, apenas sra. Brown.
Agora começo a compreender - disse Sir Rowland, meneando a cabeça devagar.
Hugo sacudiu a cabeça.
Eu ainda não - admitiu.
Clarissa olhou para Hugo.
Baia equina ou equina baia... pequenos detalhes, grandes diferenças - observou ela inescrutável.
Você não está delirando ou algo parecido, Clarissa? Quis saber Hugo preocupado.
Alguém matou Oliver - recordou Clarissa. - Não foi nenhum de vocês. Nem Henry. Muito menos eu. - Fez uma pausa antes de continuar. - E não foi Pippa, graças a Deus. Então, quem foi?
Com certeza, é exatamente como eu disse ao inspetor - sugeriu Sir Rowland. - Um serviço de fora. Alguém seguiu Oliver até aqui.
Sim, mas por quê? - indagou Clarissa de modo expressivo. Não obtendo resposta, retomou suas considerações. - Hoje, quando acompanhei vocês ao portão relembrou ela aos três amigos ao voltar, entrei pelas portas de vidro e dei de cara com Oliver. Ele pareceu muito surpreso ao me ver. Disse: "Clarissa! O que está fazendo aqui?" Na hora, pensei que era um modo sofisticado de me irritar. Mas vamos supor que ele estivesse mesmo surpreso?
Os ouvintes pareciam estar atentos, mas nada disseram. Clarissa recomeçou:
Vamos supor que ele tenha ficado surpreso ao me ver. Ele pensava que esta casa pertencia a outra pessoa. Pensava que encontraria aqui a Sra. Brown, a sócia do sr. Sellon.
Sir Rowland meneou a cabeça.
Mas será que ele não sabia que você e Henry estavam morando aqui? - questionou. - Será que Miranda não saberia?
Sempre que Miranda precisa se comunicar o faz por intermédio de advogados. Nem ela nem Oliver necessa-riamente sabiam que estávamos morando aqui - explicou Clarissa. - Estou dizendo, tenho certeza de que Oliver Costello nem sonhava em me encontrar. Ah, mas na mesma hora ele se recuperou do susto e inventou a desculpa de que tinha vindo falar sobre Pippa. Ele fingiu ter ido embora, mas retornou porque...
Calou-se ao Miss Peake entrar pela porta do hall.
A caçada continua - declarou a jardineira animada. - Calculo que já procuraram embaixo de todas as camas. Agora estão lá fora no terreno. - Ela soltou a conhecida risada cordial.
Clarissa fitou-a de modo incisivo e disse:
Miss Peake, a senhora se lembra daquilo que o sr. Costello disse um pouco antes de ir embora? Não lembra?
Sem expressão, Miss Peake admitiu:
Não faço a mínima ideia.
Ele disse "Eu vim falar com a sra. Brown", não foi? — relembrou Clarissa.
Miss Peake pensou um pouco e respondeu:
Acredito que sim. Por quê?
Mas ele não veio falar comigo - insistiu Clarissa.
Bem, se não foi com a senhora, não sei com quem poderia ser - retorquiu Miss Peake com outra de suas risadas joviais.
Clarissa falou com decisão.
Com a senhora - disse ela para a jardineira. - Não é, sra. Brown?
CAPÍTULO 21

Miss Peake, aparentando supremo espanto com a acusação de Clarissa, por um instante pareceu em dúvida a respeito de como agir. Quando enfim respondeu, sua atitude mudara. Abandonando o tom divertido de costume, falou com seriedade.
Bem pensado - disse ela. - Tem razão, eu sou a Sra. Brown.
Clarissa estivera exercitando o seu raciocínio.
A senhora é a sócia do Sr. Sellon - revelou. - É a dona desta casa. Herdou-a de Sellon junto com a empresa em sociedade. Por algum motivo, teve a ideia de encontrar um inquilino cujo nome fosse Brown. O fato é que estava determinada a ter outra Sra. Brown morando aqui. Pensou que isso não seria muito difícil, já que Brown é um nome tão comum. Mas no fim das contas teve de se contentar com Hailsham-Brown. Não sei bem por que a senhora me queria no palco enquanto assistia. Ainda não entendo bem os detalhes... Sra. Brown, codinome Miss Peake, interrompeu-a.
Charles Sellon foi assassinado - disse ela a Clarissa. - Não há dúvida disso. Entrou em posse de algo muito valioso. Não sei de que forma... nem sei o que era. Ele nunca foi muito... - hesitou - escrupuloso.
É o que se comenta - observou Sir Rowland secamente.
Seja lá o que for - recomeçou a sra. Brown -, ele foi morto por isso. E seja lá quem o matou não encontrou a tal coisa. Provavelmente não a encontraram porque não estava na loja, e sim aqui. Pensei que, seja lá quem fosse, o assassino acabaria vindo aqui procurar, mais cedo ou mais tarde. Eu queria ficar na tocaia, por isso precisava de uma sra. Brown postiça. Um fantoche.
Sir Rowland soltou uma exclamação de contrariedade.
A senhora não se deu conta - perguntou à jardineira, falando com emoção - de que a senhora Hailsham- Brown uma moça totalmente inocente que nunca lhe fez mal, estaria correndo perigo?
Estive sempre por perto, não estive? - replicou a Sra. Brown, na defensiva. - Tanto que às vezes isso chegou a incomodar vocês. Bem, naquele dia que apareceu um homem oferecendo um preço exagerado por essa escrivaninha, não tive mais dúvidas: eu estava na pista certa. Mas posso jurar que não há nada nessa escrivaninha que tenha algum valor.
A senhora examinou a gaveta secreta? - indagou Sir Rowland.
A Sra. Brown pareceu surpresa.
Gaveta secreta? Onde? - exclamou, dirigindo-se à escrivaninha.
No meio do caminho, Clarissa a deteve.
Agora não há mais nada ali - garantiu. - Pippa encontrou a gaveta, mas dentro só havia uns autógrafos antigos.
Clarissa, eu gostaria de dar uma nova olhada naqueles autógrafos - pediu Sir Rowland.
Clarissa voltou-se para o sofá.
Pippa - chamou ela -, onde você colocou...? Ah, ela está dormindo.
A sra. Brown aproximou-se do sofá e baixou o olhar para a criança.
Dormindo um sono de pedra - confirmou. - É essa agitação toda. - Olhou para Clarissa. - Sabe de uma coisa? - disse. - Vou carregar Pippa lá para cima e colocá-la na cama.
Não - disse Sir Rowland peremptório.
Todos olharam para ele.
Ela não pesa nada - ponderou a sra. Brown. - Nem uma quarta parte do que pesava o cadáver do sr. Costello.
Mesmo assim - insistiu Sir Rowland -, acho que ela vai ficar mais segura por aqui.
Então todos se voltaram para Miss Peake/Sra. Brown, que deu um passo para trás, olhou ao redor e exclamou, indignada:
Mais segura?
-Foi isso que eu disse- retrucou Sir Rowland. Correu os olhos ao redor e acrescentou: - Essa menina disse algo muito sugestivo agora há pouco.
Sentou-se à mesa de bridge, observado por todos. Houve um silêncio. Hugo foi para o outro lado da mesa, sentou à frente de Sir Rowland e perguntou:
O que foi que ela disse, Roly?
Se vocês todos relembrarem um pouco dos fatos - sugeriu Sir Rowland -, talvez se dêem conta do que se trata.
Os outros se entreolharam. Sir Rowland apanhou o exemplar de Quem é Quem e começou a consultá-lo.
Não entendo - insistiu Hugo, meneando a cabeça.
O que foi que Pippa disse? — pensou Jeremy em voz alta.
Não tenho ideia - disse Clarissa, tentando recordar. - Algo sobre o policial? Ou sonhar? Descer aqui? Ficar meio acordada?
Vamos lá, Roly - intimou Hugo. - Não faça tanto mistério. O que está acontecendo, afinal?
Sir Rowland ergueu o olhar.
O quê? - perguntou distraído. - Ah, sim. Os tais autógrafos. Cadê eles?
Hugo estalou os dedos.
Se não me engano, Pippa os guardou naquela caixinha ali em cima - recordou ele.
Jeremy foi à estante de livros.
Aqui em cima? - indagou. Localizou a caixinha e retirou o envelope dela. - Sim, é verdade. Estão aqui - confirmou, ao pegar os autógrafos do envelope e entregá-los sir Rowland, que fechara o exemplar de Quem é Quem. Jeremy pôs o envelope vazio no bolso, e Sir Rowland passou a examinar os autógrafos com seu monóculo.
Victoria Regina, Deus a abençoe - murmurou Sir Rowland, observando o primeiro dos autógrafos. - Rainha Vitória. Tinta marrom esmaecida. Vamos ver, e este, qual é? John Ruskin... sim, é verdadeiro, tudo indica. E este outro? Robert Browning... hum... o papel não é tão antigo quanto seria de supor.
Roly! O que você quer dizer com isso? - perguntou Clarissa animada.
Tenho certa experiência com tintas invisíveis e esse tipo de coisa, desde o tempo da guerra - explicou Sir Rowland. - Quando é preciso fazer uma anotação secreta, uma boa alternativa é escrever com tinta invisível numa folha de papel e falsificar um autógrafo. Depois é só colocar esse autógrafo junto a outros autógrafos autênticos, que provavelmente ninguém vai notá-lo ou prestar atenção nele. Não mais do que nós.
A Sra. Brown pareceu confusa.
Mas o que Charles Sellon teria escrito que pudesse valer quatorze mil libras? - quis saber ela.
Absolutamente nada, minha senhora - replicou Sir Rowland. - Mas me ocorre agora que pode ter sido uma questão de segurança.
Segurança? - inquiriu a Sra. Brown.
Suspeita-se que Oliver Costello - esclareceu Sir Rowland - estivesse envolvido com tráfico de drogas. Sellon, como o inspetor nos contou, foi interrogado uma ou duas vezes pela divisão de Narcóticos. Pode haver uma conexão aqui, não acham?
A única resposta de Sra. Brown foi um olhar inexpressivo. Ele continuou:
Claro, pode ser só uma ideia boba minha. - Baixou o olhar para o autógrafo que estava segurando. - Não creio que seja algo muito elaborado, vindo da parte de Sellon. Suco de limão, talvez, ou solução de cloreto de bário. Calor ameno pode solucionar o caso. Se for preciso, tentamos vapor de iodo mais tarde. Mas primeiro vamos tentar uma aquecida de leve.
Ele se levantou.
Mãos à obra?
Temos um aquecedor elétrico na biblioteca - lembrou Clarissa. - Jeremy, poderia apanhá-lo?
Hugo se ergueu e empurrou a cadeira de encontro à mesa, enquanto Jeremy ia até a biblioteca.
Podemos ligá-lo aqui - disse Clarissa, indicando uma tomada no rodapé da sala.
A coisa toda é absurda - bufou a Sra. Brown com desdém. - Mirabolante demais.
Não acho - discordou Clarissa. - A ideia é ótima.
Jeremy voltou da biblioteca com um pequeno aquecedor elétrico.
Achou? - perguntou Clarissa.
Aqui está - respondeu. - Onde está a tomada?
Aqui embaixo - falou Clarissa, apontando. Ela segurou o aquecedor, e Jeremy conectou o cabo na tomada. Em seguida, ela colocou o aparelho no chão.
Sir Rowland pegou o autógrafo de Robert Browning e ficou em pé, perto do aquecedor. Jeremy ajoelhou-se perto do aparelho, e os outros se aproximaram para ver o resultado.
Não devemos ter muitas expectativas - alertou Sir Rowland. - Afinal, é só uma ideia que eu tive. Mas deve ter havido um bom motivo para Sellon ter guardado estes pedacinhos de papel num lugar tão secreto.
Isto me faz voltar no tempo - relembrou Hugo. - O tempo em que eu era garoto e escrevia mensagens secretas com suco de limão.
Com qual deles vamos começar? - indagou Jeremy entusiasmado.
Com a Rainha Vitória - opinou Clarissa.
Que nada, seis por um no Ruskin - foi o palpite de Jeremy.
Bem, eu aposto minhas fichas no Robert Browning - decidiu Sir Rowland, curvando-se e segurando o papel na frente do aquecedor.
Ruskin? Sujeito hermético. Nunca consegui entender um verso sequer de seus poemas—sentiu-se compelido a comentar Hugo.
Exato - concordou Sir Rowland. - São repletos de significados ocultos.
Pescoços se espicharam sobre os ombros de Sir Rowland.
Não vou aguentar se não acontecer nada - exclamou Clarissa.
Acho que... sim! Tem algo aqui - murmurou Sir Rowland.
Sim, está aparecendo algo - observou Jeremy.
Está? Deixe-me ver — disse Clarissa, animada.
Hugo abriu espaço entre Clarissa e Jeremy.
Sai da frente, rapaz.
Devagar — reclamou Sir Rowland. - Não empurrem... sim... tem algo escrito. - Fez uma pausa, endireitou o corpo e exclamou:
Conseguimos!
Conseguimos o quê? - quis saber a Sra. Brown.
Uma lista com seis nomes e endereços - revelou Sir Rowland. - Traficantes, presumo. E um dos nomes é Oliver Costello.
A exclamação foi geral.
Oliver! - disse Clarissa. - Então foi por isso que ele veio, e alguém deve tê-lo seguido e... ah, tio Roly, precisamos contar à polícia. Venha comigo, Hugo.
Clarissa correu para a porta do hall, seguida de Hugo, que saiu murmurando:
Nunca ouvi falar de algo tão extraordinário. - Sir Rowland pegou os outros autógrafos. Jeremy tirou o aquecedor da tomada e o levou de volta à biblioteca.
Prestes a seguir Clarissa e Hugo, Sir Rowland deteve- se na soleira da porta.
Vamos junto, Miss Peake? — indagou.
Não precisam de mim, não é mesmo?
Acho que sim. A senhora era sócia de Sellon.
Não tenho e nunca tive nada a ver com tráfico de drogas - insistiu a Sra. Brown. - Eu apenas administrava a parte do antiquário. Era responsável por todas as compras e vendas em Londres.
Entendo - replicou Sir Rowland, sem confiança, e segurou a porta aberta até ambos saírem.
Jeremy retornou da biblioteca, fechando com cuidado a porta atrás de si. Foi à porta do hall e escutou por um instante. Lançou um olhar à Pippa, chegou perto da poltrona, pegou a almofada e, pé ante pé, rumou ao sofá onde Pippa dormia.
Pippa se mexeu no meio do sono. Por um instante, Jeremy ficou paralisado; ao certificar-se de que ela ainda dormia, prosseguiu em direção ao sofá, até se posicionar atrás da cabeça da menina. Em seguida, devagarinho, começou a descer a almofada sobre o rosto de Pippa.
Neste exato momento, Clarissa veio do hall e entrou de novo na sala. Escutando o barulho da porta, Jeremy cobriu os pés de Pippa com a almofada cuidadosamente.
Eu lembrei do que Sir Rowland tinha dito - explicou-se ele a Clarissa - e achei melhor não deixar Pippa sozinha. Tive a impressão de que ela estava com os pés gelados, por isso acabei de cobri-los.
Clarissa cruzou a sala rumo ao banquinho.
Essa agitação toda me abriu o apetite - declarou. Baixou o olhar para o prato de sanduíches e disse com grande desânimo: - Puxa vida, Jeremy, você comeu tudo.
Sinto muito, eu estava morrendo de fome - disse ele, sem demonstrar arrependimento algum.
Não entendo por que razão - repreendeu ela. - Você jantou. Eu não.
Jeremy empoleirou-se no encosto do sofá.
Eu também não jantei - contou ele. - Fiquei treinando tacadas de aproximação. Só entrei no salão do restaurante pouco depois de você ter ligado.
Ah, entendo - replicou Clarissa desinteressada. Inclinou-se sobre o encosto do sofá para afofar a almofada. De repente seus olhos se arregalaram. Numa voz profundamente perturbada, repetiu:
Entendo. Você... foi você.
O que quer dizer?
Você! - repetiu Clarissa, quase como se estivesse falando sozinha.
O que quer dizer?
Olhando Jeremy nos olhos, Clarissa indagou:
O que você estava fazendo com aquela almofada quando eu entrei na sala?
Ele riu.
Já disse. Estava cobrindo os pés de Pippa. Estavam frios.
Verdade? Era isso mesmo que você ia fazer? Ou ia colocar a almofada sobre o rosto dela?
Clarissa! - gritou indignado. - Não fale uma coisa absurda dessas!
Eu estava certa de que o assassino de Oliver Costello não poderia ser um de nós. Falei isso a todos - relembrou Clarissa. - Mas um de nós poderia ser o assassino. Você. Você estava sozinho lá no campo de golfe. Poderia ter voltado para casa, entrado pela janela da biblioteca, que você havia deixado entreaberta. E você tinha ainda ò seu taco de golfe. É claro. Foi isso que Pippa viu. Foi isso que ela quis dizer quando falou: "Um bastão de golfe como o de Jeremy". Foi você que ela viu.
Isso é pura bobagem, Clarissa - objetou Jeremy num riso forçado.
Não, não é—insistiu. —Então, depois de ter matado Oliver, você retornou ao clube e ligou para a polícia, para que eles viessem aqui, achassem o corpo e suspeitassem de Henry ou de mim.
Jeremy ergueu-se de um pulo.
Que absurdo infame! — declarou.
Não é absurdo. É verdade. Sei que é verdade - exclamou Clarissa. - Mas por quê? É isso que não entendo. Por quê?
Permaneceram cara a cara num silêncio nervoso alguns instantes. Então Jeremy soltou um suspiro profundo. Retirou do bolso o envelope onde os autógrafos eram guardados. Estendeu-o a Clarissa, mas ela não o pegou.
Foi tudo por causa disto - revelou.
Clarissa deu uma olhada.
Esse é o envelope em que estavam os autógrafos disse ela.
Tem um selo nele - explicou Jeremy calmamente.
É o que se chama de selo com erro. Impresso na cor errada. Sueco, vendido ano passado por quatorze mil e trezentos libras.
Então é isso — falou Clarissa, recuando, sem fôlego.
Este selo caiu nas mãos de Sellon - recomeçou Jeremy. — Ele escreveu para Sir Kenneth, o meu patrão, sobre o caso. Mas fui eu que abri a carta. Viajei de Londres para cá e fiz uma visita Sellon e...
Hesitou, e Clarissa completou a frase por ele:
...e o matou.
Jeremy fez que sim com a cabeça, sem dizer nada.
Mas você não conseguiu encontrar o selo - conjeturou Clarissa, afastando-se dele.
Acertou de novo - admitiu Jeremy. - Não estava na loja, por isso me convenci de que devia estar aqui nesta casa.
Começou a andar na direção de Clarissa; ela continuou recuando.
Hoje à noite, pensei que Costello tinha vencido a parada.
E então você também o matou - disse Clarissa.
Jeremy concordou mais uma vez com a cabeça.
E agora, você ia matar Pippa? - perguntou ela ofegante.
Por que não? - respondeu impassível.
Não acredito - disse ela.
Clarissa, minha querida, quatorze mil libras é um bom dinheiro - observou Jeremy, com um sorriso que conseguiu ser ao mesmo tempo contrito e sinistro.
Mas por que está me contando isso? - indagou, tão perplexa quanto aflita. - Por acaso imagina que eu não vou contar para a polícia?
Você já contou tanta mentira. Nunca vão acreditar em você - retrucou ele.
Vão sim.
-Além disso - continuou Jeremy, investindo contra ela -, você não vai ter essa oportunidade. Para quem já matou duas pessoas, não custa matar mais uma.
Seus dedos se fecharam em torno do pescoço de Clarissa, e ela gritou.

CAPÍTULO 22

O grito de Clarissa foi acudido de imediato. Sir Rowland veio rápido do hall, acendendo as arandelas no caminho; o guarda Jones precipitou-se na sala pela porta de vidro, e o inspetor acorreu da biblioteca.
O inspetor segurou Jeremy.
Muito bem, Warrender. Escutamos tudo, obrigado - disse. - E é justamente essa a prova de que precisamos, acrescentou. - Passe para cá esse envelope.
Clarissa apoiou-se nas costas do sofá, com a mão na garganta. Ao entregar o envelope ao inspetor, Jeremy observou de modo impassível:
Então era uma armadilha, não era? Muito engenhosa.
Jeremy Warrender - disse o inspetor. - O senhor está preso pelo assassinato de Oliver Costello. É meu dever prevenir: tudo o que o senhor disser pode ser anotado e usado como prova.
Pode poupar o fôlego, inspetor - foi a resposta enunciada em tom sereno por Jeremy. - Não estou falando nada. Foi uma boa tentativa, mas simplesmente não deu certo.
Leve-o embora daqui - ordenou o inspetor ao guarda Jones, que pegou Jeremy pelo braço.
Qual o problema, Jones? Esqueceu-se das algemas? Indagou friamente Jeremy ao ter o braço direito torcido atrás das costas e ser conduzido porta afora.
Sacudindo a cabeça com tristeza, Sir Rowland observou Jeremy sendo levado e, em seguida, dirigiu-se a Clarissa.
Você está bem, minha querida? - perguntou ele preocupado.
Sim, sim, estou bem - respondeu Clarissa, respirando com certa dificuldade.
Não tive a intenção de expor você a isso - desculpou-se Sir Rowland.
Ela o fitou com sagacidade.
Você sabia que tinha sido Jeremy, não sabia? - indagou.
O inspetor entrou na conversa.
Mas como descobriu sobre o selo, sir?
Sir Rowland aproximou-se do inspetor Lord e pegou o envelope da mão dele.
Bem, inspetor - principiou comecei a desconfiar quando Pippa mostrou o envelope hoje à tardinha. Depois, lendo o Quem é Quem, descobri que o patrão de Warrender, Sir Kenneth Thomson, é filatelista, e minhas suspeitas aumentaram. E, há pouco, quando ele teve a ousadia de embolsar o envelope debaixo de meu nariz, eu tive certeza.
Devolveu o envelope ao inspetor.
Cuide bem disto, inspetor. Provavelmente o senhor vai descobrir que se trata de algo muito valioso, além de ser uma prova.
Sim, é uma prova - anuiu o inspetor. - Um jovem bandido especialmente perigoso vai ter aquilo que merece.
Cruzando a sala em direção à porta do hall, continuou:
Mas ainda falta encontrar o corpo.
Ah, isso vai ser fácil, inspetor — garantiu-lhe Clarissa. - Dê uma olhada na cama do quarto de hóspedes,
O inspetor observou Clarissa com ar de censura.
Ora, francamente, sra. Hailsham-Brown...- começou ele.
Foi interrompido por Clarissa.
Por que ninguém nunca acredita em mim? - queixou-se. - Está no quarto de hóspedes. Vá conferir, inspetor. Atravessado na cama, embaixo do travesseiro comprido. Miss Peake o colocou lá, tentando ser gentil.
-Tentando ser...? - As palavras faltaram ao inspetor. Foi até a porta, virou e disse em tom repreensivo: - Sabe, Sra. Hailsham-Brown, não facilitou nosso trabalho esta noite, nos contando todas essas histórias inacreditáveis. Acho que a senhora pensava que o seu marido era o assassino e estava mentindo para acobertá-lo. Mas a senhora não deveria ter feito isso. Realmente não deveria.
Balançou a cabeça outra vez e saiu da sala.
Pois bem! - exclamou Clarissa indignada. E virou- se para o sofá. - Ai, Pippa... - recordou.
É melhor levá-la para cima - aconselhou Sir Rowland. - Agora ela estará segura.
Sacudindo a menina com delicadeza, Clarissa disse de forma meiga:
Vamos, Pippa. Hora de ir para a cama.
Pippa levantou-se vacilante.
Tô faminta - murmurou.
Sim, sim, aposto que sim - assegurou Clarissa, levando a menina para o hall. - Venha, vamos ver o que podemos encontrar.
Boa noite, Pippa - disse Sir Rowland. Como retribuição, a menina bocejou um "B'a noite" e saiu com Clarissa. Sir Rowland sentou-se à mesa de bridge e, mal começara a guardar as cartas na caixa, Hugo entrou do hall.
Deus que me perdoe - exclamou Hugo. - Se me contassem eu não teria acreditado. Justo o jovem Warrender. Parecia um rapaz bem decente. Frequentou bons colégios. Era bem-relacionado.
Mas bem-propenso a matar por quatorze mil libras observou Sir Rowland polidamente. - De vez em quando isso acontece, até mesmo nas melhores famílias. Uma per-sonalidade cativante, mas desprovida de senso moral.
Sra. Brown, ex-Miss Peake, meteu a cabeça na porta.
Acho bom lhe avisar, Sir Rowland - declarou, retomando a habitual voz tonitruante. - Fui convocada a ir junto à delegacia. Querem que eu faça um depoimento. Estão um pouco descontentes com a peça que preguei neles. Acho que vou receber um puxão de orelha. - Explodiu numa gargalhada, recuou e bateu a porta do hall.
Hugo observou a saída de Miss Peake e em seguida juntou-se a Sir Rowland na mesa de bridge.
Sabe, Roly, ainda não entendi bem - admitiu.
Afinal, Miss Peake era a Sra. Sellon, ou o Sr. Sellon que era o Sr. Brown? Ou vice-versa?
Sir Rowland foi poupado de responder devido ao retorno do inspetor, que veio pegar o quepe e as luvas.
Agora vamos trasladar o cadáver, cavalheiros informou. Pouco depois acrescentou: - Sir Rowland, faria a gentileza de avisar a Sra. Hailsham-Brown que se ela continuar contando histórias fantasiosas à polícia um dia ela vai ter sérios problemas?
Não vamos esquecer, inspetor, que uma vez ela disse a verdade - lembrou-lhe Sir Rowland de modo suave -, mas o senhor simplesmente não acreditou.
O inspetor pareceu um pouco atrapalhado.
Sim... hum... bem - começou. - Enfim, recompondo-se, afirmou: - Francamente, era um pouco difícil de engolir, há de concordar comigo.
Ah, sem dúvida, eu concordo - assegurou Sir Rowland.
Não que eu culpe os senhores - continuou o inspetor em tom reservado. - A Sra. Hailsham-Brown tem um jeitinho muito persuasivo. - Balançou a cabeça, pensativo, e despediu-se: - Bem, boa noite, sir.
Boa noite, inspetor - respondeu Sir Rowland afável.
Boa noite, Sr. Birch - disse o inspetor, recuando para a porta do hall.
Boa noite, inspetor, e parabéns pelo bom trabalho respondeu Hugo ao se aproximar e apertar a mão dele.
Obrigado, sir- disse o inspetor.
Ele saiu, e Hugo bocejou.
Bem, acho que é melhor eu ir andando. Vou para casa dormir - disse ele a Sir Rowland. - Que noite, hein?
Resumiu bem, Hugo. Que noite! - respondeu Sir Rowland, arrumando a mesa de bridge. - Até amanhã.
Até - respondeu Hugo, retirando-se pelo hall.
Sir Rowland empilhou com esmero as cartas e os marcadores na mesa; em seguida pôs o exemplar de Quem é Quem na estante. Clarissa entrou vinda do hall, aproximou-se e repousou as mãos nos braços dele.
Roly, querido - falou. - O que seria de nós sem você? Você é tão inteligente.
E você é uma moça de muita sorte - disse ele. -Fez muito bem em não entregar o coração àquele jovem bandido, Warrender.
Clarissa estremeceu.
Não havia esse perigo - replicou. Sorriu com ternura: - Se eu entregasse meu coração a alguém, seria para você, meu querido - garantiu.
Ora, ora, não me venha com suas táticas - avisou Sir Rowland, rindo. - Se você...
Parou de repente ao ver Henry Hailsham-Brown entrar pela porta de vidro, e Clarissa exclamar:
Henry!
Oi, Roly - cumprimentou Henry. - Pensei que vocês iam ir ao clube esta noite.
Bem... ahn... acho que vou dormir agora - foi tudo o que Sir Rowland foi capaz de dizer naquele momento. - Foi uma noite extenuante.
Henry olhou para a mesa de bridge.
O quê? Bridge extenuante? - indagou em tom de brincadeira.
Sir Rowland sorriu.
Bridge e... ahn... outras coisas mais - respondeu e encaminhou-se para a porta do hall. - Boa noite a todos.
Clarissa atirou-lhe um beijo, ele retribuiu e saiu da sala. Clarissa virou-se para Henry.
Onde está Kallendorff... quero dizer, onde está o sr. Jones? - perguntou, inquieta.
Henry colocou a valise no sofá. Sem esconder a frustração e o cansaço na voz, murmurou:
Nunca fiquei tão indignado. Ele não apareceu.
Como é que é? - Clarissa mal podia acreditar no que ouvia.
Do avião desceu apenas um subalterno inexperiente - contou Henry, desabotoando o sobretudo.
Clarissa ajudou Henry a tirar o sobretudo. Ele continuou:
A primeira coisa que ele fez foi dar meia-volta e decolar para o lugar de onde viera.
Por quê?
E eu lá vou saber? - De modo compreensível, Henry demonstrava um certo nervosismo. - Ele me pareceu desconfiado. Mas desconfiado de quê? Quem vai saber?
Mas e quanto a Sir John? - indagou Clarissa ao retirar o chapéu da cabeça de Henry.
Essa é a pior parte - resmungou ele. - Não consegui avisá-lo a tempo, e ele deve estar chegando a qualquer minuto, imagino. - Henry consultou o relógio. - Claro, na mesma hora liguei do aeroporto para Downing Street, mas ele já estava na estrada. Ah, a coisa toda é um memorável fiasco.
Henry afundou no sofá com um suspiro exausto. Na mesma hora, o telefone tocou.
Deixe que eu atendo - disse Clarissa, cruzando a sala. - Pode ser a polícia. - Ergueu o fone.
Henry fitou-a com um olhar indagador.
A polícia?
Sim, aqui é Copplestone Court - dizia Clarissa ao telefone. - Sim... sim, ele está. - Mirou Henry com um olhar ligeiro. - Querido, é para você - avisou. - Do aeroporto Bindley Heath.
Henry levantou-se correndo para o telefone, mas no meio do caminho desacelerou, assumindo um andar altivo.
Alô - disse ao fone.
Clarissa levou ao hall o chapéu e o sobretudo de Henry, mas logo voltou e ficou bem atrás dele.
Sim... sou eu - declarou. - O quê?... Dez minutos depois?... Eu devo?... Sim... Sim, sim... Não... Não, não... Verdade?... Entendi... Sim... Certo.
Repôs o fone no gancho, gritou "Clarissa!", virou-se e percebeu que ela estava logo atrás dele.
Ah, você está aí. Parece que outro avião aterrissou dez minutos depois do primeiro, e Kalendorff estava nele.
O Sr. Jones, você quer dizer - relembrou Clarissa.
Exato, meu amor. Toda a prudência é pouca - reconheceu ele. - Sim, ao que tudo indica, a primeiro aeronave era uma espécie de medida de precaução. É mesmo insondável o modo como funciona o cérebro dessa gente. Bem, de qualquer forma, o... hum... sr. Jones está sendo escoltado até aqui. Vão chegar em quinze minutos. Me diga, está tudo certo? Tudo em ordem? - Olhou a mesa de bridge. - Pode dar um jeito nessas cartas, querida?
Apressada, Clarissa guardou as cartas e os marcadores; por sua vez, Henry chegou perto do banco e, com extrema surpresa, pegou o prato vazio e a tigela de musse.
Que diabo é isto? - quis saber.
Clarissa acorreu e apanhou o prato e a tigela.
Pippa estava com fome - explicou. - Vou tirar isto daqui. E acho melhor fazer mais uns sanduíches de presunto.
Ainda não... tem cadeiras espalhadas por toda a sala - falou Henry, num leve tom de censura. - Pensei que você ia deixar tudo pronto, Clarissa.
Ele começou a dobrar as pernas da mesa de bridge.
O que você andou fazendo a noite toda? - perguntou ele, carregando a mesa de bridge até a biblioteca.
Clarissa estava arrumando as cadeiras neste momento.
Ah, Henry - exclamou -, esta noite foi emocionante. Sabe, logo que você saiu, eu trouxe os sanduíches para cá e, quando me dei conta, tropecei num corpo. Ali - apontou ela. - Atrás do sofá.
Sim, sim, querida - murmurou Henry, desligado, ajudando Clarissa a empurrar a poltrona ao local de costume. - Suas histórias são sempre encantadoras, mas o melhor mesmo é deixar para outra hora.
Mas, Henry, é verdade - insistiu. - E isso é apenas o começo. A polícia veio, e foi uma surpresa atrás da outra. - Começou a se exprimir de modo confuso. - Foi descoberta uma rede de tráfico de drogas; Miss Peake não é Miss Peake, o nome dela é Sra. Brown; e no fim o assassino era Jeremy; ele estava tentando roubar um selo de quatorze mil libras.
Sei. Vai ver era outro sueco amarelo - comentou Henry. Sua voz era indulgente, mas na verdade não estava escutando.
Acho que isso é tudo! - exclamou Clarissa contente.
Clarissa, você tem mesmo uma imaginação muito fértil - disse Henry carinhosamente. Pôs a mesinha entre a cadeira de braços e a poltrona; com seu lenço espanou os farelos de cima dela.
Mas, meu bem, eu não imaginei isso. Não teria sido capaz de imaginar nem a metade.
Henry pôs a valise no sofá atrás de uma almofada, sacudiu outra e levou uma terceira até a poltrona. Neste meio tempo, Clarissa não desistia de atrair sua atenção.
É mesmo incrível - comentou. - Nunca realmente acontecia nada em minha vida, e hoje aconteceu tudo de uma vez. Assassinato, polícia, viciados em drogas, tinta invisível, escrita secreta... Por pouco não vou presa por homicídio e por muito pouco não acabo estrangulada.
- Fez uma pausa e olhou para Henry. - Pensando bem, querido, acho que foi o suficiente para uma noite só.
Agora vá fazer o café, meu bem - respondeu Henry. - Amanhã pode abrir de novo sua encantadora torneirinha de asneiras.
Exasperada, Clarissa indagou:
Mas você não se dá conta, Henry, de que esta noite eu quase fui assassinada?
Henry olhou para o relógio.
Tanto Sir John como Sr. Jones podem chegar a qualquer minuto - disse ansiosamente.
Tudo o que eu passei esta noite... - recomeçou Clarissa. - Ah, meu bem, isso me faz lembrar Sir Walter Scott.
Isso o quê? - indagou Henry, de modo vago, ao olhar em volta e certificar-se de que agora tudo estava em seu devido lugar.
Minha tia me fez aprender de cor - rememorou Clarissa.
Henry fitou-a com olhar indagador, e ela recitou:
"Ó, como a teia se emaranha, se o ludíbrio é o primeiro fio."
De repente, prestando atenção, Henry abraçou a esposa pela cintura.
Minha adorável aranha! - disse.
Clarissa envolveu o pescoço de Henry em seus braços.
Sabe o que as aranhas fazem? - indagou. - Devoram seus maridos! - Roçou as unhas no pescoço dele.
É bem mais fácil eu devorar você - respondeu Henry, com paixão, ao beijá-la.
De súbito, a campainha da frente tocou.
Sir John! - ofegou Clarissa, afastando-se em sobressalto de Henry, que exclamou ao mesmo tempo:
Sr. Jones!
Clarissa empurrou Henry para a porta do hall.
Vá atender a porta - ordenou ela. - Eu deixo o café e os sanduíches no hall, e você pode trazer para cá quando for o caso. Agora começam conversas de alto escalão. - Ela beijou a ponta dos dedos e tocou de leve nos lábios de Henry. - Boa sorte, querido.
Boa sorte - respondeu Henry. Virou-se para sair, mas então se voltou de novo. - Quero dizer, obrigado. Fico pensando qual dos dois chegou primeiro. - Ágil, ele abotoou o casaco, ajeitou a gravata e correu para abrir a porta.
Clarissa pegou o prato e a tigela; estava quase entrando no hall quando parou ao ouvir a saudação calorosa de Henry, "Boa noite, Sir John". Ela hesitou um pouco, correu à estante e acionou a alavanca. A porta secreta abriu; Clarissa deu um passo atrás e se escondeu.
Na bruma de mistério, Clarissa sai de cena - declamou ela num sussurro teatral ao sumir no esconderijo, uma fração de segundo antes de Henry entrar na sala com o primeiro-ministro.

Repassando Agatha Christie 1, em anexo



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"Agradeço todas as dificuldades que enfrentei; não fosse por elas, eu não teria saído do lugar. As facilidades nos impedem de caminhar. Mesmo as críticas nos auxiliam muito..."

 

Chico Xavier

 

Agradeço,em especial aos amigos, pelo apoio,

pela atenção e dedicação recebidos.

Que a vida de cada um seja plena

de PAZ e LUZ......sempre!

 

Abraços.

M. Loureiro




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