domingo, 29 de maio de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> Agatha Christie 2

MORTE NO NILO
AGATHA CHRISTIE

CAPÖTULO I


LINNET RIDGEWAY!
- � ela! - exclamou Mr. Burnaby, propriet rio
de Three Crowns, dando uma cotovelada no compa-
nheiro.
De boca aberta e olhos arregalados, os dois ho-
mens fitaram o bel¡ssimo Rolls Royce vermelho, que
parara em frente do Correio.
Desceu uma jovem, sem chap‚u e com um vestido
que parecia (parecia somente) muito simples. Cabelos
doirados e fei‡äes um tanto autorit rias, tipo deveras
atraente, como raramente se via em Malton-under-
-Wode.
Em passos r pidos e decididos, a jovem entrou no
edif¡cio do Correio.
- � ela! - repetiu Mr. Burnaby. E em tom mais
baixo e reverente: - Possui milhäes... Vai gastar um
dinheirÆo na propriedade que comprou. Piscinas, jar-
dins italianos, salÆo de baile... reforma completa da
casa!
- � mais dinheiro que entra na cidade.
O coment rio, em tom de inveja e rancor, foi feito
pelo outro, um sujeito magro e espigado.
- Sim. àptimo para Malton-under-Wode. àpti-
mo! - concordou Mr. Burnaby, exprimindo-se em
tom complacente. E depois duma pequena pausa:-
Isto vai interessar-nos um pouco.

- Mas ‚ muito diferente de Sir George - lem-
brou o outro.
- Ah, a culpa foi dos cavalos! Sir George nunca
teve muita sorte - disse Mr. Burnaby com indul-
gˆncia.
- Quanto recebeu ele pela propriedade?
- Nada menos de sessenta mil, pelo que me con-
taram.
Ante o assobio de surpresa do companheiro,
Mr. Burnaby continuou com ar triunfante:
- E dizem que ela pretende gastar outro tanto,
antes de dar o servi‡o por terminado!
- Isso ‚ pecado! - exclamou o homem. - Onde
arranjou tanto dinheiro?
- Na Am‚rica, pelo que ouvi dizer. A mÆe era fi-
lha £nica de um desses multimilion rios. Como no ci-
nema, hem?
A jovem saiu nesse momento. O homem magro
acompanhou com o olhar o carro que se afastava, e
resmungou:
- NÆo acho que esteja certo! Dinheiro e beleza...
‚ de mais! Uma rapariga com uma fortuna dessas nÆo
tem o direito de ser bonita. E ‚ bonita de facto!...
Tem tudo. NÆo acho justo...

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Trecho da not¡cia social do Daily Bdague:

uEntre as pessoas que ceavam em Chez Ma Tante,
notei a linda Linnet Ridgeway. Estavam em sua com-
panhia a Hon. Joana Southwood, Lorde Windlesham
e Mr. Toby Bryce. Como ningu‚m ignora, Miss Rid-
geway ‚ filha de Melhuish Ridgeway, que se casou
com Ana Hartz. Herdou do av", Leopoldo Hartz,

imensa fortuna. A bela Linnet ‚ a sensa‡Æo do mo-
mento. Corre o boato de que o seu noivado ser anun-
ciado brevemente. NÆo h d£vida que Lorde Windle-
sham parece muito apaixonado!þþ

III


- Querida, vai ficar uma maravilha! - exclamou
a Hon. Joana Southwood.
Estava no quarto de Linnet Ridgeway, sentada em
frente da janela. O seu olhar passou sobre os jardins,
indo at‚ ao descampado, com a sua franja azulada, for-
mada pelos bosques.
- Uma perfei‡Æo, nÆo ‚ verdade?
Ao dizer isto, Linnet apoiou-se ao parapeito da
janela. A expressÆo do seu rosto era animada, viva,
dinƒmica. A seu lado, Joana Southwood parecia, at‚
certo ponto, uma criatura apagada: vinte e sete anos,
alta, magra, rosto inteligente e sobrancelhas depiladas
com originalidade.
- E conseguiu tanto em tÆo pouco tempo! Contra-
tou muitos arquitectos?
- Trˆs.
- Como sÆo eles? NÆo creio que jamais tenha co-
nhecido algum.
- Simp ticos. Mas ...s vezes pouco pr ticos, pelo
que tive ocasiÆo de observar.
- Minha querida, com certeza deu logo rem‚dio a
isso! � a pessoa mais pr tica que conhe‡o.
Houve uma pequena pausa.
Joana apanhou o colar de p‚rolas que estava sobre
o toucador e disse:
- Com certeza que sÆo verdadeiras, nÆo ‚ verda-
de, Linnet?
- Naturalmente!

- Sei que para si ‚ <þnaturalmenteþþ, minha querida,
mas nem toda a gente poderia dizer a mesma coisa. Em
geral sÆo cultivadas, ou mesmo uma boa imita‡Æo, de
Woolworth! Minha querida, sÆo extraordin rias. TÆo
bem combinadas! Este colar deve valer uma fortuna.
- Um pouco vulgar, na sua opiniÆo?
- NÆo, de maneira nenhuma. Uma beleza. Quan-
to vale?
- Mais ou menos cinquenta mil libras.
- Que dinheirÆo! NÆo tem medo de ser roubada?
- NÆo; uso-o constantemente e, al‚m disso, est
no seguro.
- Deixe-me us -lo at‚ ... hora do jantar, sim? Que
emo‡Æo para mim!
- Claro, se isso lhe causa assim tanto prazer-
concordou Linnet, rindo;
- Sabe uma coisa? As veses, invejo-a. Vocˆ tem
tudo na vida. Vinte anos; dona do seu nariz; fortuna
enorme; beleza; ¢ptima sa£de. At‚ mesmo inteligˆncia!
Quando faz vinte e um anos?
- Em Junho. Darei uma grande festa em Lon-
dres, para celebrar a minha maioridade.
- E pretende depois casar-se com Charles Wind-
lesham? Esses insuport veis cronistas mundanos an-
dam excitad¡ssimos. E Charles parece deveras apaixo-
nado.
Linnet respondeu, encolhendo os ombros:
- NÆo sei. Para dizer a verdade, ainda nÆo pensei
em casar-me.
- E faz muito bem. As coisas mudam, depois do
casamento, nÆo ‚ verdade?
O telefone tocou e Linnet foi atender.
- Sim?
Respondeu-lhe a voz do mordomo:
- Miss de Bellefort deseja falar-lhe. Posso fazer a
liga‡Æo?
- Bellefort? Sim, naturalmente.
A liga‡Æo estabeleceu-se e em seguida ouviu-se
uma voz ardente, suave e um tanto ofegante:

- Ol , Miss Ridgeway! Linnet!
- Jackie querida! H quantos s‚culos nÆo tenho
not¡cias suas!
- Tem razÆo; ‚ mesmo uma vergonha. Mas, Lin-
net, preciso muito de falar consigo.
- NÆo pode c vir? Gostaria de lhe mostrar a pro-
priedade... o meu novo brinquedo.
- Pois ‚ justamente o que desejo fazer.
- EntÆo tome um ¢nibus; ou um autom¢vel, se
achar prefer¡vel.
- Est bem. Vou no meu calhambeque. Comprei-
-o por quinze libras; ...s vezes, arranca que ‚ uma ma-
ravilha! Mas ‚ caprichoso. Se eu nÆo estiver ... hora do
ch , ‚ porque ele embirrou com alguma coisa. At‚ j .
Linnet desligou o telefone e aproximou-se nova-
mente de Joana.
- � a minha mais velha amiga, Jacqueline de Bel-
lefort. Estivemos juntas num convento em Paris. Teve
o mais incr¡vel azar deste mundo. Seu pai era um con-
de francˆs; a mÆe, americana-sulista. O pai fugiu com
outra mulher, e a mÆe perdeu toda a fortuna no pƒnico
de Wall Street. Jackie ficou sem nada. NÆo sei como
se tem arranjado nestes £ltimos dois anos.
Joana pulia as unhas esmaltadas de um rubro vivo.
Inclinou a cabe‡a para ver o efeito, e perguntou, em
tom langoroso:
- Minha querida, nÆo acha que vai ser uma ma‡a-
da? Quando acontece uma infelicidade aos meus ami-
gos, abandono-os imediatamente! Parece falta de cora-
‡Æo, mas evita-se assim tanto aborrecimento futuro!
EstÆo sempre a querer dinheiro emprestado, ou ent"o
abrem alguma loja, e a gente tem que ir ali comprar os
mais pavorosos vestidos deste mundo! Ou ainda dedi-
cam-se a pintar abat jours e a fazer ‚charpes...
- Quer dizer que, se eu perdesse a fortuna, aban-
donava-me no dia seguinte?
- Sim, minha querida, nÆo o nego. Concorde que
ao menos sou franca! S¢ gosto das pessoas que estÆo

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por cima. E vocˆ ver que o mesmo se d com quase
toda a gente, mas muitos nÆo tˆm a coragem de con-
fessar a verdade. Dizem apenas: þþFrancamente, nÆo
tolero Fulana, Sicrana, ou Beltrana. Os dissabores fi-
zeram dela uma pessoa tÆo amarga, tÆo esquisita, coi-
tadinha! þþ
- Como ‚ maldosa, Joana!
- Apenas me defendo, como toda a gente.
- Eu nÆo!
- Claro que nÆo! Uma pessoa com os seus rendi-
mentos nÆo precisa de ser s¢rdida.
- E engana-se a respeito de Jacqueline - protes-
tou Linnet. - Ela nÆo ‚ uma parasita. Tenho querido
ajud -la, mas sempre recusou os meus oferecimentos.
Tem um orgulho enorme.
- Porquˆ tanta pressa em vir aqui? Garanto que
quer alguma coisa.
- Realmente, pareceu-me um tanto agitada-
confessou Linnet. - Jackie sempre foi muito emotiva.
Uma vez, chegou a espetar um canivete...
- Querida, que interessante!
- Num garoto que estava a maltratar um cÆo. Jac-
kie tentou fazer com que ele parasse com a brincadei-
ra. NÆo o conseguindo, segurou o garoto e deu-lhe uns
a‡oites. Mas o rapaz era mais forte, e entÆo de repente
ela puxou de um canivete e z s! NÆo imagina que alga-
zarra, depois disso!
- NÆo duvido. � incr¡vel!
A criada de Linnet entrou neste momento. Pediu
licen‡a, foi ao guarda-roupa, tirou dali um vestido e
retirou-se.
- Que aconteceu a Marie? - perguntou Joana.-
Parece que esteve a chorar.
- Coitada! Lembra-se que lhe contei que ia casar-
-se com um rapaz que trabalhava no Egipto? Como
nÆo o conhecesse muito bem, achei melhor tirar algu-
mas informa‡äes. Pois vim a saber que tem mulher e
trˆs filhos!

- Quantos inimigos vocˆ deve ter!
- Inimigos? - perguntou Linnet, admirada.
Joana inclinou a cabe‡a e acendeu um cigarro.
- Inimigos, minha querida. Vocˆ ‚ assustadora-
mente efciente. Sabe, melhor do que ningu‚m, o que
deve ser feito.
Linnet exclamou, soltando uma gargalhada.
- Imagine, dizer isso quando eu, afinal, nÆo te-
nho um £nico inimigo neste mundo!

IV


Lorde Windlesham estava sentado sob o cedro do
jardim, admirando os graciosos contornos de Wode
Hall. Nada que desfigurasse a beleza antiga - os no-
vos al‡ados e pavilhäes ficavam para tr s, nÆo estraga-
vam a fachada. Quadro de tranquilidade e beleza, ilu-
minado pelo sol de Outono. E, no entanto, nÆo era
Wode Hall que Charles Windlesham via naquele mo-
mento, mas uma mansÆo do tempo de Elisabeth, mais
imponente, com uma larga alameda no parque, e um
fundo mais sombrio... A sua pr¢pria mansÆo, Charl-
tonbury; e, no primeiro plano, um vulto feminino-
uma jovem de cabelos doirados e rosto de expressÆo
ardente... Linnet, como senhora de Charltonbury!
Tinha esperan‡a. A recusa de Linnet nÆo fora ab-
solutamente categ¢rica. NÆo passara mesmo de um pe-
dido de espera. Pois bem; ele saberia esperar...
Extraordinariamente conveniente, essa uniÆo. Um
casamento rico era, no seu caso, aconselh vel, mas n"o
uma necessidade premente, a ponto de obrig -lo a des-
denhar os pr¢prios sentimentos. E amava Linnet.
Tˆ-la-ia desejado para esposa, mesmo que ela fosse
paup‚rrima e nÆo uma das mais ricas raparigas da In-
glaterra.

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Distraiu-se durante algum tempo com esses agrad -
veis planos para o futuro. Talvez a restaura‡Æo da ala
oeste, afastada a necessidade de abandonar a ca‡a...
Charles Windlesham continuou a sonhar, ao sol...

V


Eram quatro horas quando o roadster parou, com
um ru¡do spero de rodas sobre as pedras da rua e de-
le desceu uma rapariga. Pequena, delgada e de cabelos
negros. Subiu a correr os degraus e puxou o cordÆo da
campainha.
Minutos depois faziam-na entrar na vasta sala de
visitas, e um imponente mordomo anunciava, com a
costumada e l£gubre intona‡Æo:
- Miss de Bellefort.
- Linnet!
- Jackie!
Windlesham afastou-se ligeiramente, observando
com ar complacente a impetuosa criaturinha que de
bra‡os abertos se atirara sobre Linnet.
- Lorde Windlesham, Miss de Bellefort, a minha
melhor amiga - apresentou a dona da casa.
Bonita, achou ele. NÆo exactamente bonita, mas
indubitavelmente atraente, com aqueles olhos enormes
e os cabelos negros e ondulados. Lorde Windlesham
disse uma ou duas palavras am veis e depois, sem dar
nas vistas, deixou a s¢s as duas amigas.
Jacqueline gritou, naquele seu modo caracter¡stico,
tÆo conhecido de Linnet.
- Windlesham? Windlesham? Mas ‚ o rapaz com
quem vocˆ vai casar-se, pelo que dizem os jornais! Ca-
sa, Linnet?
- Talvez - murmurou Linnet.
- Querida, estou tÆo contente! Ele ‚ simp tico.

- Oh, nÆo conte como certo. Ainda nÆo me de-
cidi.
- Claro que nÆo! As rainhas deliberam longamen-
te, antes de escolherem o pr¡ncipe consorte.
- NÆo seja rid¡cula, Jackie.
- Mas vocˆ ‚ uma rainha, Linnet! Sempre o foi.
Sa Majest‚, la reine Linnette! Linnette, la blonde!
E eu... Bom; eu sou a confidente da rainha, a primei-
ra dama de honor.
- Est a dizer tolices, querida. Onde esteve du-
rante tanto tempo? Desapareceu sem uma explica‡Æo!
E nunca se lembrou de me escrever.
- Bem sabe que detesto escrever. Onde estive?
Oh, cem por cento submersa, querida. Em EMPRE-
GOS, sabe disso? Empregos sombrios, com mulheres
sombrias!
- Querida, gostaria que...
- Aceitasse a liberalidade da rainha? Pois bem
,
para ser franca, foi para isso que vim. NÆo; nÆo para
pedir dinheiro emprestado. Ainda nÆo cheguei a esse
ponto! Mas vim pedir-lhe um grande favor.
- Diga l .
- Se ‚ verdade que vai casar-se com esse Windle-
sham, talvez me compreenda melhor.
- Jackie, nÆo me diga que...
- Sim, Linnet, estou noiva!
- EntÆo ‚ isso! Achei-a excessivamente exuberan-
te. � esse o seu estado habitual, mas hoje pareceu-me
mais ainda.
- � como me sinto.
- Fale-me sobre o felizardo.
- Chama-se Simon Doyle. � alto, forte, muito
simples e infantil; ador vel, enfim! Pobre... muito po-
bre. � o que se chama um þþgentil-homemþþ e disso
nÆo h d£vida, mas sem dinheiro. A fam¡lia ‚ de De-
vonshire. Simon adora o campo e tudo quanto lhe diz
respeito. E pensar que passou estes £ltimos cinco anos
num abafado escrit¢rio da cidade! Mas agora estÆo a

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despedir muitos empregados, e ele viu-se de repente
sem coloca‡Æo. Linnet, eu morro se n"o me casar com
ele! Morro, sim...
- NÆo seja rid¡cula, Jackie.
- Mas ‚ verdade. Sou louca por ele. Ele ‚ louco
por mim. NÆo podemos viver um sem o outro.
- Querida"vocˆ est verdadeiramente apaixonada!
- Eu sei. E horr¡vel, nÆo ‚ verdade? O amor do-
mina-nos e nada podemos fazer contra isso.
Houve uma pausa. Os olhos dilatados tiveram uma
expressÆo tr gica. Jackie estremeceu ligeiramente e
continuou:
- ·s vezes, tenho medo. Simon e eu fomos feitos
um para o outro. Nunca poderei amar outro homem.
Preciso que nos ajude, Linnet. Quando me contaram
que tinha comprado esta propriedade, tive uma ideia.
Oi‡a: vocˆ vai precisar de um administrador, talvez
mesmo de dois. Quero que dˆ o lugar a Simon.
- Oh! - exclamou Linnet, assustada.
Jacqueline continuou vivamente:
- Ele conhece bem o assunto. Foi criado no cam-
po, de modo que sabe dirigir uma propriedade. Al‚m
do mais, tem pr tica bastante de servi‡o de escrit¢rio.
Oh, Linnet, vocˆ dar-lhe- o emprego, nÆo ‚ verdade,
por minha causa? Se ele nÆo der conta do recado des-
pe‡a-o. Mas tenho a certeza de que dar . E poderemos
viver numa casinha, e vocˆ e eu ver-nos-emos muitas
vezes. Ser maravilhoso...
Jackie levantou-se e insistiu:
- Diga que sim, Linnet. Por favor, diga que sim.
Minha querida amiga Linnet, diga que sim!
- Jackie...
- Combinado?
Linnet desatou a rir.
- Rid¡cula Jackie! Pois bem, traga o seu namora-
do, deixe-me conversar com ele e discutiremos o as-
sunto.
Jackie avan‡ou para a amiga, beijando-a com exu-
berƒncia.

- Querida Linnet, vocˆ ‚ amiga a valer! Eu sabia-
-o. Sabia que podia contar consigo, agora e sempre.
� a mais ador vel criatura deste mundo. Adeus.
- Mas, Jackie, vocˆ vai ficar aqui.
- Eu? Oh, nÆo. Vou para Londres e amanhÆ esta-
rei de volta, com Simon, para decidirmos tudo. Vocˆ
vai ador -lo; ele ‚ um amor.
- Mas nÆo pode esperar ao menos para tomar
uma ch vena de ch ?
- NÆo, nÆo posso, Linnet. Estou muito excitada,
aflita para ir contar tudo a Simon. Sei que pare‡o lou-
ca, querida, mas quanto a isso nada posso fazer. O ca-
samento com certeza me curar . Ouvi dizer que fica-
mos mais ponderadas, depois.
Ao chegar ... porta, Jackie pareceu hesitar, depois
voltou para dar mais um r pido abra‡o.
- Querida Linnet, nÆo h ningu‚m no mundo co-
mo vocˆ!

VI


M. Gaston Blondin, propriet rio do elegante res-
taurante Chez Ma Tante, nÆo era homem que desse a
muitos dos fregueses a honra da sua companhia. At‚
as mais belas mulheres, os ricos, os nobres e os afama-
dos, ...s vezes esperavam em vÆo por um sinal que os
distinguisse. Raramente, e com ar de condescendˆn-
cia, M. Blondin saudava um dos fregueses, acompa-
nhando-o a uma mesa privilegiada e trocando com ele
um ou outro discreto coment rio.
Mas naquela noite, trˆs vezes M. Blondin exerceu
a real prerrogativa. Uma vez, por uma duquesa; outra,
por um par do Reino, grande apreciador do turf; e a
terceira vez por um homenzinho um tanto c¢mico, de
enormes bigodes negros, e que, a julgar pelas aparˆn-
16 þ 17

cias, nÆo era pessoa cuja presen‡a pudesse honrar o
elegante Chez Ma Tante.
M. Blondin, no entanto, tratou-o com desusada
considera‡Æo.
Embora ningu‚m tivesse conseguido mesa durante
a £ltima meia hora, de repente e misteriosamente apa-
receu uma, num dos pontos mais cobi‡ados. M. Blon-
din em pessoa acompanhou o rec‚m-chegado, dando
mostras de grande empressement.
- Mas, naturalmente, para o senhor sempre haver
mesa, Monsieur Poirot! Desejaria que nos desse essa
honra mais frequentemente.
Hercule Poirot sorriu, lembrando-se de certo inci-
dente em que tinham estado envolvidos um cad ver,
um criado, M. Blondin e uma bel¡ssima e misteriosa
dama.
- � muita gentileza sua, Monsieur Blondin.
- Veio s¢, Monsieur Poirot?
- Sim, estou s¢.
- Oh, bem! Jules vai preparar-lhe uma refei‡Æo
que ser um verdadeiro poema; sim, um poema!
A companhia das senhoras, por mais encantadoras que
elas sejam, tem essa desvantagem: afasta da comida a
nossa aten‡Æo. Garanto-lhe que vai apreciar o seu jan-
tar, Monsieur Poirot. Agora, quanto ao vinho...
Seguiu-se uma conferˆncia entre t‚cnicos, assistida
por Jules, o maitre d'h"tel.
M. Blondin demorou-se alguns segundos, pergun-
tando em tom confidencial:
- Est a tratar de algum caso grave?
- NÆo, infelizmente - disse Poirot abanando
tristemente a cabe‡a. - Juntei algumas economias e
posso agora gozar uma vida de ociosidade.
- Invejo-o, Monsieur Poirot.
- NÆo, nÆo, seria tolice seguir o meu exemplo.
Garanto-lhe que nÆo ‚ agrad vel como parece...-
disse Poirot, com um suspiro. - � bem verdade o
que dizem: que o homem foi obrigado a inventar
o trabalho para fugir ao esfor‡o de ter que pensar.

M. Blondin ergueu as mÆos, num gesto expressivo.
- Mas h tanto que fazer! Viagens...
- Sim, viagens. E nÆo sÆo poucas as que tenho
feito. Pretendo visitar o Egipto, este Inverno. Dizem
que o clima ‚ magn¡fico! J ‚ alguma coisa a gente ver-
-se livre do nevoeiro, dos dias cinzentos, da monotonia
da chuva que cai sem cessar.
- Ah, o Egipto! - suspirou M. Blondin.
- Pode-se mesmo, creio eu, chegar at‚ l de com-
boio, escapando da viagem por mar, com excep‡Æo, ‚
l¢gico, do canal da Mancha.
- Ah, o mar... NÆo passa bem a bordo?
Hercule Poirot abanou a cabe‡a, estremecendo li-
geiramente.
- Nem eu tÆo-pouco - confessou M. Blondin.-
Curioso, o efeito que tem sobre o est"mago.
- Mas sobre alguns est"magos, somente! O balan-
‡o nÆo tem efeito nenhum sobre certas pessoas. Pare-
cem at‚ gostar!
- Injusti‡a de Deus.
M. Blondin sacudiu a cabe‡a e afastou-se, concen-
trando-se ainda nesse ¡mpio pensamento.
Durante esta pequena conversa os criados, de mÆos
h beis e movimentos suaves, serviam Poirot. Torradi-
nhas melba, manteiga, balde de gelo, enfim, todos os
complementos de uma refei‡Æo de primeira.
A orquestra negra rompeu numa orgia de sons al-
tos e discordantes. Londres dan‡ava.
Hercule Poirot p"s-se a observar a sala; a sua men-
te met¢dica ia registando tudo o que via.
Que expressÆo de cansa‡o e t‚dio na maioria dos
rostos! Alguns daqueles homens pesadäes pareciam,
no entanto, divertir-se... Mas na fisionomia dos seus
pares notava-se uma expressÆo de paciente resigna‡Æo.
A gorda mulher de vermelho estava radiante. Indubi-
tavelmente, os obesos tinham alguma compensa‡Æo na
vida... um prazer, um deleite negado aos de silhueta
mais moderna.


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Muita gente nova... Alguns com expressÆo vaga,
alguns entendidos; outros, sem d£vida alguma, infeli-
zes. � um absurdo dizer que a juventude ‚ a ‚poca da
felicidade - juventude, tempo da maior vulnerabili-
dade!
O olhar de Poirot suavizou-se ao pousar sobre cer-
to par. Muito bem combinado: rapaz alto, de ombros
largos; rapariga esbelta e delicada. Dois corpos que se
moviam num perfeito ritmo de felicidade - felicidade
encontrada no ambiente, na hora, na companhia um
do outro.
De s£bito, a dan‡a parou. Palmas. Depois o bis, e
o par voltou ... sua mesa, perto da de Poirot.
A rapariga vinha corada, sorridente. Quando a viu
sentada, Poirot estudou-lhe o rosto, ligeiramente er-
guido para o do companheiro. Havia naqueles olhos
alguma coisa mais do que simples expressÆo de riso.
Hercule Poirot abanou a cabe‡a.
þþEla ama de mais, esta pequenaþþ, pensou ele.
þþNÆo vale a pena. NÆo, nÆo. E muito perigoso.þþ
Uma palavra lhe chamou a aten‡Æo neste momen-
to: Egipto.
Aos seus ouvidos chegaram duas vozes. A da rapa-
riga: ardente, clara, arrogante e com ligeiro sotaque
estrangeiro nos rr; a do rapaz: agrad vel, grave, bem
educada.
- NÆo estou a ser optimista, Simon. Garanto-lhe
que Linnet nÆo nos faltar .
- Talvez falte eu.
- Tolice. � justamente o emprego que lhe conv‚m.
- Bom, para ser franco, creio que tem razÆo... No
fundo, nÆo tenho d£vidas quanto ... minha capacidade.
E hei-de vencer... por sua causa!
A rapariga riu baixinho. Riso de verdadeira felici-
dade...
- Esperaremos trˆs meses, at‚ termos a certeza de
que vocˆ nÆo ser despedido. E entÆo.
- EntÆo eu aceit -la-ei como minha leg¡tima espo-
sa; nÆo ‚ assim que se diz?

- E iremos passar a nossa lua-de-mel ao Egipto.
Pouco importa que fique caro! Conhecer o Egipto foi
sempre o sonho da minha vida. O Nilo, as pirƒmides,
a areia...
O rapaz disse, em voz rouca e abafada:
- Veremos tudo isso juntos, Jackie... Juntos. Que
maravilha, nÆo acha?
- NÆo sei... Ser tÆo maravilhoso para vocˆ como
para mim? O seu amor ser tÆo profundo como o
meu?
A voz da jovem tornara-se subitamente spera, os
olhos dela pareciam maiores, com expressÆo quase re-
ceosa.
A resposta foi dada com igual aspereza:
- NÆo seja absurda, Jackie.
A rapariga repetiu:
- NÆo sei... - e depois, encolhendo os ombros:
- Vamos dan‡ar.
Hercule Poirot murmurou de si para si:
<<Un qui aime et un qui se laisse aimer.þþ Tamb‚m eu
digo: þþNÆo sei...þþ

VII


Joana Southwood disse:
- E, com certeza, ele nÆo ‚ l grande coisa?
- Oh, nÆo creio - respondeu Linnet. - Confio
no gosto de Jacqueline.
- Ah, mas em mat‚ria de amor h muito contra-
-senso!
Linnet abanou a cabe‡a com impaciˆncia e procu-
rou mudar de assunto.
- Preciso de ir ver Mister Pierce, a respeito da-
queles projectos.
- Projectos?

20 þ 21

- Sim, algumas cabanas em p‚ssimas condi‡äes
sanit rias. Pretendo demoli-las, assim que os morado-
res tiverem sa¡do.
- Vocˆ d provas de um esp¡rito higi‚nico e hu-
manit rio.
- De qualquer maneira, as cabanas teriam que
desaparecer, para dar lugar ... minha nova piscina.
- Os moradores estÆo satisfeitos com a ideia?
- Quase todos ficaram encantados. Mas dois ou
trˆs nÆo concordaram... procuravam opor dificulda-
des. NÆo parecem compreender que as suas condi‡äes
de vida vÆo melhorar extraordinariamente.
- Mas vocˆ, com certeza, nÆo cedeu?
- Minha querida Joana, creia que a vantagem ‚
toda deles!
- Sim, nÆo duvido. Benef¡cio compuls¢rio.-
Joana soltou uma risada ao ver Linnet contrair as so-
brancelhas e acrescentou:
- Vamos, confesse, vocˆ ‚ uma tirana. Tirana
benfeitora, se achar prefer¡vel.
- NÆo sou tirana, de forma alguma.
- Mas gosta que seja feita a sua vontade.
- Nem sempre.
- Linnet Ridgeway, pode olhar-me bem de frente
e dizer que j houve uma ocasiÆo em que nÆo tivesse
feito exactamente o que desejou fazer?
- In£meras.
- Oh, sim, þþin£merasþþ. Apenas isto; nada de po-
sitivo. E nÆo pode citar-me um s¢ exemplo, por maior
esfor‡o que fa‡a! O retumbante triunfo! Linnet Ridge-
way na sua carruagem doirada!
- Acha que sou ego¡sta? - perguntou Linnet,
bruscamente.
- NÆo; irresist¡vel, apenas. Efeito da combina‡Æo
cþdinheiro-encantoþþ. Todos se curvam diante da sua
pessoa; aquilo que nÆo pode comprar com dinheiro,
adquire-o vocˆ com um sorriso. Resultado: Linnet
Ridgeway, a Jovem que Possui Tudo.

- NÆo seja rid¡cula, Joana!
- E entÆo, nÆo possui tudo?
- Creio que sim... Mas dito desse modo parece
repulsivo.
- Claro que ‚ repulsivo! Daqui a alguns anos,
com certeza, vocˆ vai sentir profundo t‚dio. Entretan-
to, goze o seu retumbante triunfo na sua carruagem
doirada! Mas ...s vezes fico a conjecturar o que nÆo
acontecer quando vocˆ quiser passar por uma rua on-
de houver a tabuleta cþTrƒnsito Impedidoþþ.
- NÆo seja idiota, Joana. - Linnet voltou-se para
Lord Windlesham, que acabava de se juntar a elas, e
explicou: - Joana est a dizer-me as coisas mais desa-
grad veis deste mundo.
- S¢ despeito, querida, s¢ despeito - replicou
Joana em tom vago, erguendo-se para sair dali.
NÆo se desculpou por deix -los. Percebera o brilho
do olhar de Windlesham...
O rapaz nada disse durante alguns minutos. De-
pois foi direito ao assunto:
- Resolveu alguma coisa, Linnet?
A jovem respondeu lentamente:
- Acha que estou a ser cruel? Talvez que, nÆo
tendo a certeza, eu devesse dizer: þþNÆoþþ...
O rapaz interrompeu-a.
- NÆo diga isso! Dar-lhe-ei tempo para reflectir.
Mas creio que poder¡amos ser felizes um com o outro.
Linnet respondeu em tom de crian‡a que se des-
culpa:
- Sabe, estou a divertir-me tanto... principalmen-
te com tudo isto aqui... Em Wode Hall, quero concre-
tizar o meu ideal; acho que est a ficar bonito, nÆo
‚ verdade?
- Lindo. Bem planeado. Tudo perfeito. Vocˆ ‚
muito inteligente, Linnet - disse o rapaz. E depois
de uma pausa: - Gosta de Charltonbury, nÆo gosta?
Naturalmente, precisa de ser modernizada, mas vocˆ
tem tanto jeito para isso! Seria at‚ uma distrac‡Æo.

22 / 23

- Mas... Naturalmente, Charltonbury ‚ uma ma-
ravilha.
Linnet falara com espontaneidade e entusiasmo,
mas n"o p"de deixar de sentir um frio no cora‡Æo. Pa-
receu-lhe ter ouvido uma nota discordante, que viera
perturbar a completa satisfa‡Æo que antes sentira.
Naquele momento, nÆo analisou a sensa‡Æo; mas
depois, quando Windlesham entrou em casa, procurou
sondar os seus mais rec"nditos pensamentos.
Charltonbury. Sim, fora isso. Desagradara-lhe a re-
ferˆncia a Charltonbury. Mas porquˆ? A mansÆo era
relativamente famosa. Pertencia ... fam¡lia de Windle-
sham desde os tempos de Elisabeth. A posi‡Æo de se-
nhora de Charltonbury era realmente invej vel. Wind-
lesham era, incontestavelmente, um dos melhores
partidos da Inglaterra.
Claro que ele nÆo podia levar Wode a s‚rio...
A propriedade de Linnet nÆo podia ser comparada
com a outra. Mas Wode era dela! Linnet vira-a, com-
prara-a, reformara-a, ali gastando rios de dinheiro. Era
a sua propriedade, o seu reino. Perderia o valor, a im-
portƒncia, se Linnet se casasse com Windlesham. Que
utilidade podiam ter duas casas de campo? E, das
duas, naturalmente Wode Hall ‚ que teria de ser sacri-
ficada.
Ela, Linnet Ridgeway, deixaria de existir. Seria
condessa de Windlesham, levando um belo dote a
Charltonbury e ao seu dono. J nÆo seria rainha, mas
esposa do rei.
þþEstou a ser rid¡culaþþ, pensou consigo mesma.
Era curioso, no entanto, como lhe desagradava a
ideia de abandonar Wode... E outra coisa tamb‚m
a preocupava.
A voz de Jackie, com aquela estranha intona‡Æo:
Se nÆo me casar com ele, eu morro! þlþIorro... Morro...
T"o decidida, tÆo atraente. Ela, Linnet, sentiria o
mesmo a respeito de Windlesham? Claro que nÆo. Tal-
vez nÆo fosse mesmo capaz de sentimento tÆo intenso.
Devia ser... maravilhoso... sentir assim.

O ru¡do de um carro ouviu-se, atrav‚s da janela
aberta.
Linnet fez um gesto impaciente. Jackie e o namo-
rado, com certeza. Tinha de ir ao encontro deles.
Estava de p‚, ... porta da entrada, quando Jacqueli-
ne e Simon Doyle desceram do carro.
Jackie correu para a amiga e apresentou:
- Linnet, este ‚ Simon. Simon, aqui est Linnet.
� a pessoa mais maravilhosa deste mundo.
Linnet viu um rapaz alto, de ombros largos e olhos
de um azul profundo, cabelos castanhos ondulados,
queixo quadrado e sorriso franco, talvez mesmo um
tanto infantil...
Foi a primeira a saud -lo. A mÆo que apertou a
sua era firme, quente... Linnet gostou da maneira co-
mo ele a olhou - com expressÆo de ing‚nua e franca
admira‡Æo.
Jackie dissera-lhe que a amiga era maravilhosa e
nÆo havia d£vida que ele concordava com ela.
Linnet sentiu que o sangue lhe corria mais r pido
nas veias; parecia tomada de leve embriaguez...
- Isto aqui nÆo ‚ realmente lindo? - perguntou.
- Entre, Simon, e deixe-me receber dignamente o
meu novo administrador.
Ao voltar-se, para conduzi-los, ia pensando:
þþSou imensamente... imensamente feliz. Gosto do
namorado de Jackie. Gosto imensamente...þþ
E depois, com s£bita ang£stia:
þþFelizarda, esta Jackie...þþ

VIII


Tim Allerton reclinou-se na cadeira de vime e bo-
cejou, fitando o mar. Depois, olhou de soslaio para
a mÆe.

24 þ 25

Mrs. Allerton era uma senhora de cabelos brancos,
de cinquenta anos, ainda bonita. Procurava disfar‡ar a
imensa afei‡Æo que sentia pelo filho, dando aos l bios
uma expressÆo de severidade todas as vezes que olhava
para ele. Mas ningu‚m se iludia com isso, e Tim me-
nos que qualquer outro.
- Gosta de Maiorca, mamÆ?
- Bem... ‚ barato - ponderou ela.
- E frio... - completou Tim, estremecendo ligei-
ramente.
Era um rapaz alto, magro, de peito franzino e ca-
belos negros. A boca tinha uma expressÆo suave, o
olhar era tristonho e o queixo pouco flrme. MÆos lon-
gas e delicadas.
Amea‡ado, anos antes, de tuberculose, nunca fora
realmente muito forte. Constava que cþescreviaþþ, mas
os amigos dele sabiam tacitamente que as perguntas
curiosas sobre as suas produ‡äes liter rias nÆo eram
recebidas com entusiasmo.
- Em que est s a pensar, Tim?
Mrs. Allerton estava alerta. Os olhos de um casta-
nho-escuro brilharam com expressÆo suspeita.
O rapaz respondeu, sorrindo:
- Estava a pensar no Egipto.
- No Egipto?
- Sim. H l calor a valer. Convidativas areias
doiradas. O Nilo. Eu gostaria de subir o Nilo; e a
mÆe?
- Oh, gostaria! - respondeu ela, secamente.-
Mas ‚ uma viagem cara. NÆo ‚ para aqueles que tˆm
de contar os trocos.
Tim soltou uma gargalhada, ergueu-se e estendeu
os bra‡os, parecendo de repente animado, cheio de vi-
da. Quando respondeu, foi em tom excitado, ardente:
- As despesas ficam por minha conta. Sim, queri-
da mamÆ, nÆo se espante. Uma pequena oscila‡Æo no
mercado, com resultados absolutamente satisfat¢rios,
como vim a saber hoje de manhÆ.

- Hoje de manhÆ? - perguntou Mrs. Allerton
em tom brusco. - Tu recebeste apenas uma carta e...
- interrompeu-se, mordendo os l bios.
No rosto de Tim surgiu uma expressÆo ao mesmo
tempo divertida e aborrecida. Mas o bom humor saiu
vitorioso.
...era uma carta de Joana! - concluiu ele sere-
namente. - Acertou, mamÆ. Que ¢ptimo detective
minha mÆe daria! At‚ mesmo o c‚lebre Hercule Poirot
teria que temer pela sua gl¢ria, caso se lembrasse de
competir com ele.
Mrs. Allerton zangou-se.
- S¢ porque reconheci a letra...
- E viu que n"o era do corretor? Tem razÆo. Para
ser exacto, foi ontem que recebi dele a comunica‡Æo.
A letra da pobre Joana realmente chama a aten‡Æo...
gatafunhos sobre todo o sobrescrito, como se por ele
tivesse passeado alguma aranha embriagada.
- Que diz Joana? Alguma novidade? - pergun-
tou Mrs. Allerton, procurando dar ... voz uma intona-
‡Æo natural e despreocupada.
A camaradagem entre Tim e sua prima em segun-
do grau, Joana Southwood, tinha o dom de a irritar.
ccNÆo que haja alguma coisa entre elesþþ - costumava
dizer. Tinha a certeza de nÆo existirem motivos para
receios. Tim nunca manifestara pela prima um interes-
se sentimental, e o mesmo se podia dizer de Joana, em
rela‡Æo a ele. A atrac‡Æo m£tua parecia ter por base o
mesmo gosto pelos potins e um grande n£mero de ami-
gos comuns. Ambos eram soci veis e gostavam de co-
mentar a vida alheia; Joana era espirituosa, se bem
que ...s vezes um tanto c ustica.
NÆo era, portanto, o medo de ver o filho apaixona-
do por Joana que fazia com que Mrs. Allerton se re-
tra¡sse quando a rapariga estava presente ou quando
chegavam cartas dela. Era outro sentimento, dif¡cil de
ser definido - talvez que, sem dar por isso, tivesse
ci£mes do prazer que Tim parecia sentir na compa-
26

nhia da prima. Ele e a mÆe eram tÆo bons companhei-
ros, que Mrs. Allerton ficava ligeiramente alarmada
quando o via interessado por outra mulher. Imaginava
tamb‚m que a sua companhia, em tais ocasiäes, pode-
ria constranger as duas pessoas mais jovens. Frequen-
temente, ia encontr -los profundamente absortos num
assunto, tendo a impressÆo de que, ... sua chegada, a
conversa vacilava, e que Tim e Joana procuravam pro-
positadamente fazer que ela ficasse inteirada do assun-
to, como mandava a boa educa‡Æo. NÆo; nÆo havia
d£vida de que Mrs. Allerton nÆo apreciava Joana
Southwood. Achava-a pouco sincera, afectada e muito
superficial, e tinha de fazer um esfor‡o para nÆo mani-
festar francamente a sua opiniÆo.
Em resposta ... pergunta da mÆe, Tim tirou a carta
do bolso e p"s-se a relˆ-la. Uma carta longa, conforme
observou Mrs. Allerton.
- Pouca coisa - disse Tim. - Os Devenishes es-
tÆo a divorciar-se. O velho Monty foi preso por estar
embriagado quando dirigia o carro. Windlesham foi
para o Canad . Parece que ficou muito abalado, quan-
do Linnet Ridgeway o recusou. Ela vai casar com
aquele seu administrador.
- Que coisa esquisita! E ele ‚ algum sujeito im-
poss¡vel?
- NÆo, em absoluto. � um dos Doyle de Devon-
shire. Sem dinheiro, naturalmente... e estava noivo de
uma das melhores amigas de Linnet. Deixa estar que ‚
forte!
- NÆo acho isso bonito - declarou Mrs. Aller-
ton, corando.
Tim lan‡ou-lhe um olhar r pido e afectuoso.
- Eu sei que a mÆe nÆo aprova o roubo do marido
das outras e todas essas hist¢rias.
- No meu tempo, t¡nhamos, felizmente, as nossas
normas! Hoje em dia, os novos pensam que podem
andar por a¡ a fazer o que bem entendem.
- NÆo þþpensamþþ somente. Fazem-no - declarou
Tim, sorrindo. - Vide Linnet Ridgeway.

- Pois acho isso horr¡vel!
Os olhos de Tim tiveram um brilho malicioso.
- Alegre-se, veterana! Talvez eu concorde consi-
go. Em todo o caso, ainda nÆo me apropriei da esposa
ou noiva de ningu‚m.
- Tenho a certeza de que nunca farias uma coisa
dessas - declarou Mrs. Allerton. E acrescentou com
certo orgulho:
- Eduquei-te bem de mais para isso.
- EntÆo a gl¢ria ‚ sua, e nÆo minha.
Sorriu com ar brincalhÆo, dobrou a carta e guar-
dou-a de novo no bolso. Mrs. Allerton pensou: þþEle
mostra-me todas as cartas que recebe, mas lˆ-me so-
mente trechos das de Joana.þþ
Afastou esse pensamento indigno, decidindo-se,
como sempre, a agir como a senhora de boa educa‡Æo.
- Joana est a divertir-se muito?
- Mais ou menos. Pensa em abrir uma pastelaria
em Mayfair.
- Est sempre a falar em difculdades financeiras!
- comentou Mrs. Allerton, com uma ponta de despei-
to. - Mas vai a toda a parte, e sempre admiravelmente
bem vestida. Deve gastar um dinheirÆo em roupas.
- Oh, bom, talvez nÆo as pague - disse Tim.-
NÆo, mamÆ, n"o me refiro ...quilo que a sua mentalida-
de burguesa lhe sugere. Falo literalmente: que talvez
nÆo pague as suas contas.
Mrs. Allerton suspirou.
- Nunca pude compreender como h gente que
consiga, fazer isso.
- E um dom especial - declarou Tim. - Quan-
do a pessoa tem gostos extravagantes e nenhuma no‡Æo
do valor do dinheiro, encontra sempre quem lhe dˆ
cr‚dito ilimitado.
- Sim, mas acaba na Rua da Mis‚ria, como o po-
bre Sir George Wode.
- A mamÆ tem um fraco por aquele tratador de
cavalos; provavelmente porque ele lhe chamou þþbotÆo-
-de-rosaþþ em algum baile de 1879.

2g 29

- Em 1879, eu ainda nÆo tinha nascido! - pro-
testou veemente Mrs. Allerton. - Sir George ‚ um
homem muito fino, e nÆo admito que lhes chames tra-
tador de cavalos.
- Ouvi hist¢rias muito esquisitas a respeito dele,
contadas por pessoas bem informadas.
- Tu e Joana nÆo tˆm escr£pulo nenhum de falar
da vida alheia; qualquer coisa serve, contanto que seja
maldosa.
Tim replicou, erguendo as sobrancelhas:
- MÆe querida, est irritada! NÆo sabia que apre-
ciava tanto o velho Wode.
- Tu nÆo compreendes que sacrif¡cio deve ter si-
do para ele vender Wode Hall. Adorava aquela pro-
priedade.
Tim tinha uma resposta na ponta da l¡ngua, mas
conteve-se. Afinal de contas, quem era ele para julgar
os outros? Depois de uma pequena pausa, disse com
ar pensativo:
- Sabe uma coisa? Creio que nÆo se engana mui-
to. Linnet convidou-o para ir ver as reformas, e ele re-
cusou grosseiramente.
- Claro. Ela devia ter tido o tacto de nÆo fazer tal
convite.
- E acho que o velho lhe guarda rancor. Resmun-
ga consigo mesmo todas as vezes que a vˆ. NÆo lhe
perdoa ela ter-lhe oferecido um pre‡o exagerado pela
mansÆo em ru¡nas.
- E nÆo achas isso natural? - perguntou Mrs. Al-
lerton, secamente.
- Para ser franco, nÆo! - replicou Tim. - Para
quˆ viver no passado? Para que continuarmos apega-
dos ...s coisas que deixaram de existir?
- Com que pretendes substitu¡-las?
Tim respondeu, encolhendo os ombros:
- Excita‡Æo. Novidade. Prazer do imprevisto. Em
vez de herdar um in£til peda‡o de terra, a satisfa‡Æo
de ganhar dinheiro pelo nosso pr¢prio esfor‡o, com a
nossa inteligˆncia e habilidade.

- Enfim, uma bem sucedida transac‡Æo na Bolsa!
- Porque nÆo? - perguntou Tim, rindo.
- E que dizer de um prejuizo igual?
- Minha mÆe, nÆo est demonstrando muito tacto
com essa sua observa‡Æo. Al‚m do m...is, ‚ pouco apro-
priada, justamente hoje!... Que me diz da viagem ao
Egipto?
- Bom, acho que...
Tim interrompeu-a, sorrindo.
- Est combinado, entÆo. Tanto a mÆe como eu
sempre tivemos vontade de conhecer o Egipto.
- Que data sugeres?
- Oh, o mˆs que vem. Janeiro ‚ a melhor ‚poca.
Gozaremos da agrad vel companhia do pessoal deste
hotel por mais algumas semanas.
- Tim! - exclamou Mrs. Allerton em tom de
censura. E depois, como quem se desculpa: - Prome-
ti a Mistress Leech que tu a acompanharias ... pol¡cia.
Ela nÆo fala espanhol...
- A respeito daquele anel? - perguntou Tim
com uma careta. - O rubi cor de sangue de sua filha?
Ainda insiste em dizer que foi roubado? Bom, irei pa-
ra lhe fazer a vontade, mamÆ, mas na minha opiniÆo ‚
perder tempo. S¢ servir para meter em apuros algu-
ma pobre criada. Tenho a certeza de que lhe vi o anel
no dedo naquele dia, quando foi tomar banho no mar.
Com certeza caiu-lhe sem que desse por isso.
- Mistress Leech garante que o deixou sobre o
toucador.
- Pois nÆo deixou. Vi-o com os meus pr¢prios
olhos. Aquela mulher ‚ uma tonta. Qualquer pessoa
que se enfia pelo mar dentro em Dezembro, s¢ porque
o Sol est a brilhar nesse momento, pode ser qualifica-
da de idiota. Al‚m do mais, as mulheres obesas nÆo
tˆm o direito de se exibir de maillot. � um espect culo
revoltante.
- Creio que devo desistir de tomar banho - mur-
murou Mrs. Allerton.


30

Tim replicou, soltando uma gargalhada:
- A mÆe? Pode fazer inveja a muita garota de de-
zoito anos!
Mrs. Allerton suspirou:
- Gostaria que houvesse mais gente nova aqui,
para te fazer companhia, Tim.
- Pois eu nÆo - replicou o rapaz, abanando enfa-
ticamente a cabe‡a. - Damo-nos muito bem, a mÆe e
eu, e nÆo sinto a falta de outras distrac‡äes.
- Mas gostarias que Joana aqui estivesse.
- Pelo contr rio - declarou ele com inesperada
firmeza. - Nisso engana-se. Joana diverte-me, mas
nÆo gosto dela realmente; al‚m do mais, a sua cont¡-
nua presen‡a irrita-me. Gra‡as a Deus, n"o est aqui!
NÆo me desagradaria mesmo saber que nunca mais ve-
ria Joana em toda a minha vida.
Fez uma pequena pausa e depois murmurou, em
tom quase impercept¡vel:
- H somente uma mulher no mundo por quem
sinto verdadeiro respeito e admira‡Æo. E, Mistress Al-
lerton, creio que sabe muito bem a quem me refiro.
A mÆe de Tim corou, parecendo um tanto cons-
trangida.
O rapaz concluiu, em tom grave:
- NÆo h no mundo muitas mulheres realmente
correctas. Mas acontece que a mÆe ‚ uma delas.

IX


Em Nova Iorque, num apartamento que dava para
o Central Park, Mrs. Robson exclamou:
- Mas que maravilha! �s realmente uma criatura
feliz, Corn‚lia.
Corn‚lia Robson corou de prazer. Era uma rapari-
ga alta, desajeitada; os olhos castanhos tinham a ex-
pressÆo submissa do olhar de um cÆo.

- Oh, ser ¢ptimo! - concordou a rapariga.
A velha Miss Van Schuyler inclinou a cabe‡a, satis-
feita com a correcta atitude das parentes pobres.
- Sempre sonhei com uma viagem ... Europa-
suspirou Corn‚lia. - Mas nunca pensei que o sonho
se realizasse.
- Miss Bowers, naturalmente, ir comigo, como
de costume - avisou Miss Van Schuyler. - Mas so-
cialmente acho que a sua companhia deixa um tanto a
desejar... H muitas coisas em que Corn‚lia me pode-
r ser £til.
- Terei nisso muito prazer, prima Marie - repli-
cou Corn‚lia prontamente.
- Bem, bem, entÆo est decidido. V agora procu-
rar Miss Bowers, minha querida. � a hora da minha
gemada.
A mÆe de Corn‚lia disse, quando a rapariga se re-
tirou:
- Minha cara Marie, fico-lhe realmente grata! Vocˆ
bem sabe que, na minha opiniÆo, Corn‚lia sente nÆo
ter ˆxito na sociedade. Isso deve, ‚ l¢gico, mortific -
-la. Se eu estivesse em condi‡äes de lhe proporcionar
viagens... Mas nÆo ignora qual a nossa situa‡Æo, de-
pois da morte de Ned.
- Tenho muito prazer em lev -la comigo - decla-
rou Miss Van Schuyler. - Corn‚lia foi sempre muito
servi‡al, e ‚ menos ego¡sta do que as raparigas de hoje.
Mrs. Robson ergueu-se e beijou o rosto amarelo e
enrugado da prima rica.
- Fico realmente grata - repetiu, saindo da sala.
Encontrou, na escada, uma mulher de tipo decidi-
do e eficiente. Miss Bowers trazia um copo com um l¡-
quido amarelo e espumante.
- EntÆo, Miss Bowers, de abalada para a Europa?
- Sim, Mistress Robson.
- Que viagem agrad vel!
- Sim, creio que vai ser muito agrad vel.
- J esteve no estrangeiro?

32 33

- Oh, sim, Mistress Robson. Estive em Paris, no
Outono passado, com Miss Van Schuyler. Mas ainda
nÆo conhe‡o o Egipto.
Mrs. Robson pareceu hesitar.
- Espero que... nÆo haver ... inconveniente-
disse, baixando a voz.
Miss Bowers, no entanto, respondeu no tom habi-
tual:
- Oh, nÆo, Mistress Robson. Isso fica por minha
conta. Estou sempre de olho aberto.
Mas ainda havia uma expressÆo preocupada na fi-
sionomia de Mrs. Robson, quando desceu os £ltimos
degraus da escada...


X


No seu escrit¢rio, na parte baixa da cidade, Mr. An-
drew Pennington abria a correspondˆncia particular.
De s£bito, cerrou o punho, batendo com for‡a so-
bre a escrivaninha. O rosto enrubescera e duas grossas
veias sobressa¡am-lhe na testa.
Premiu um botÆo sobre a escrivaninha e imediata-
mente surgiu uma elegante esten¢grafa.
- Diga a Mister Rockford que venha aqui.
- Sim, Mister Pennington.
Minutos depois, apareceu Sterndale Rockford, s¢-
cio de Pennington. Os dois tinham mais ou menos o
mesmo tipo. Altos, cabelos grisalhos, fisionomias inte-
ligentes, bem barbeados.
- Que aconteceu, Pennington?
Pennington ergueu os olhos da carta que estava re-
lendo e disse:
- Linnet casou-se.
- Quˆ?

- Vocˆ ouviu o que eu disse! Linnet Ridgeway ca-
sou-se!
- Como? Quando? Por que motivo o nÆo soube-
mos a tempo?
Pennington lan‡ou um olhar ao calend rio da escri-
vaninha e explicou:
- Ainda nÆo estava casada quando escreveu esta
carta, mas agora est . Dia 4, de manhÆ. Hoje, por-
tanto.
Rockford sentou-se de chofre numa cadeira.
- Ufa! ... Sem participa‡Æo, sem nada? Quem ‚
ele?
Pennington consultou novamente a carta.
- Doyle. Simon Doyle.
- Que esp‚cie de sujeito? J ouvi falar nele?
- NÆo. Ela nÆo ‚ muito expl¡cita... - declarou
Pennington, estudando a letra de caracteres altos e n¡-
tidos.
- Tenho a impressÆo de que h qualquer coisa de
esquisito nesta hist¢ria toda... Mas isso nÆo vem ao ca-
so. O principal ‚ que est casada.
Os olhares de ambos encontraram-se. Rockford in-
clinou a cabe‡a, dizendo calmamente:
- O assunto requer estudo.
- þue vamos fazer?
- E o que lhe pergunto.
Ficaram alguns minutos em silˆncio. Rockford
perguntou, afinal:
- Tem algum plano?
- O Normandie sai hoje - respondeu Pennington
lentamente. - Um de n¢s dois ainda poderia...
- Est louco! Qual ‚ a sua ideia?
Pennington replicou:
- Esses advogados ingleses... - mas nÆo termi-
nou a frase.
- E entÆo? Est por acaso a pensar em enfrent -
-los? Est louco!
- NÆo, sugiro que vocˆ... ou eu... que um de n¢s
v ... Europa.

34 35

- Mas que ideia ‚ a sua? - perguntou de novo.
Pennington acariciou a carta e replicou:
- Linnet vai passar a lua-de-mel no Egipto. Pre-
tende ali ficar um mˆs ou mais...
- Egipto, hem?
Rockford refletiu alguns instantes. Depois ergueu
a cabe‡a e o seu olhar encontrou o do s¢cio.
- Egipto... � essa a sua ideia?

- Sim. Um encontro fortuito. A passeio. Linnet e
o marido... Atmosfera de lua-de-mel. NÆo ‚ imposs¡vel.
Rockford nÆo pareceu muito convencido.
- Linnet ‚ perspicaz. Se ‚! ... Mas...
- Creio que h maneiras de... se conseguir-
murmurou suavemente Pennington.
De novo, os olhares de ambos se encontraram.
Rockford inclinou a cabe‡a.
-Est certo, meu rapaz.
Pennington consultou o rel¢gio.
- Teremos de nos apressar... seja qual for o que
tiver que partir.
- V vocˆ - exclamou vivamente Rockford.-
Vocˆ teve sempre as maiores aten‡äes de Linnet. Tio
Andrew... Aproveite-se disso.
A fisionomia do outro endureceu.
- Espero dar conta do recado.
- Isso ‚ imperativo - declarou Rockford.-
A situa‡Æo ‚ cr¡tica...

XI


Ao rapazinho Iranzino que abrira a porta com ar
interrogador, disse William Carmichael:
- Fa‡a o favor de me mandar Mister Jim.
Minutos depois, Jim Fanthorp apareceu, fitando o
tio com expressÆo indagadora.

- Hummmm... C est vocˆ - grunhiu o velho,
erguendo a cabe‡a.
- Mandou-me chamar?
- Olhe para isto.
O rapaz sentou-se e puxou para mais perto a pilha
de pap‚is, enquanto o outro ficava a observ -lo.
- EntÆo?
A resposta foi imediata:
- Parece-me muito suspeito.
O s¢cio mais velho da firma Grant & Carmichael
grunhiu novamente.
Jim Fanthorp releu a carta a‚rea que acabara de
chegar do Egipto.
þþ... parece o c£mulo escrever de neg¢cios num dia
como este. Pass mos uma semana em Mena House e
fizemos uma excursÆo a Fayam. Depois de amanhÆ,
vamos subir o Nilo, at‚ Luxor e AssuÆo; talvez che-
guemos at‚ Cartum. Ao entrarmos no escrit¢rio da
agˆncia Cook, hoje de manhÆ, para tratar das passa-
gens, imagine quem ali fomos encontrar?!... O meu
procurador americano, Andrew Pennington. Creio que
vocˆ lhe foi apresentado h dois anos, quando ele veio
a Inglaterra. Nem por sombras podia eu pensar que
viria encontr -lo no Egipto, e nem ele sabia que eu es-
tava aqui. Nem tÆo-pouco que eu me casara! A carta
que lhe escrevi, contando tudo, deve ter chegado jus-
tamente quando ele partiu da Am‚rica. Tamb‚m vai
subir o Nilo, seguindo o nosso itiner rio. NÆo ‚ ex-
traordin ria a coincidˆncia?
þþMuito agradecida por tudo quanto fez por mim
em ‚poca de tanta balb£rdia. .. þþ
Ao notar que o sobrinho se preparava para virar a
p gina,, Mr. Carmichael tirou-lhe a carta das mÆos.
- E s¢ isso. O resto nÆo tem importƒncia. Muito
bem; que acha vocˆ?
O rapaz refletiu alguns segundos.
- Bom... Na minha opiniÆo, nÆo foi coincidˆn-
cia...


36

O outro aprovou com a cabe‡a e rosnou:
- Gostaria de ir ao Egipto?
- Acha aconselh vel?
- Acho que nÆo h tempo a perder.
- Mas eu, porquˆ?
- Reflicta um pouco, meu rapaz, reflita. Nem
Linnert nem Pennington o conhecem. Se for de aviÆo,
talvez chegue a tempo.
- Eu... Para ser franco, a ideia nÆo me agrada
muito. Que devo fazer?

- Use os seus olhos. Os ouvidos. A inteligˆncia...
se ‚ que a tem. E, se necess rio, aja.
- Eu... a ideia nÆo me agrada.
- Talvez nÆo; mas tem de ser.
- �... necess rio?
- Imperativo, na minha opiniÆo - declarot
Mr. Carmichael.

XII


Compondo o turbante de fazenda nacional, qu
usava ... volta da cabe‡a, Mrs. Otterbourne disse et
tom lamuriento:
- NÆo sei por que motivo nÆo vamos para o Egiþ
to. Estou farta de Jerusal‚m.
Ao notar que a filha nÆo fazia coment rio algun
continuou:
- Podias ao menos responder quando algu‚m i
diz alguma coisa.
Mas Rosalie Otterbourne estava atenta ao jorn
colocado na sua frente.
Um retrato, e em baixo a not¡cia:

þþMrs. Simon Doyle, que antes do casamento e.
conhecida como a bela Miss Linnet Ridgeway. Mr.
Mrs. Doyle estÆo a passar a lua-de-mel no Egipto..

C,ostaria de ir para o Egipto, mamÆ? - pergun-
ghn, gostaria - respondeu bruscamente Mrs. Ot-
þe, - Acho que nos tratam aqui com muita
þia. A minha presen‡a ‚ reclamo para o hotel, e
lero-me com direito a uma redu‡Æo nos pre‡os.
þo falei a esse respeito, foram muito impertinen-
aesmo muito. Mas nÆo fiz cerim¢nia em dizer
þ opiniÆo que tinha sobre eles!
rapariga suspirou.
Um lugar ‚ igual a outro lugar, mamÆ. Gostaria
rtir j .
rs. Otterbourne continuou:
E hoje de manhÆ o gerente teve o topete de me
que todos os quartos estÆo reservados, e temos
socupar os nossos nestes dois pr¢ximos dias!
EntÆo vamos para outro lugar.
Imediatamente. Estou disposta a lutar pelos
direitos.
Na minha opiniÆo, talvez seja prefer¡vel irmos
þ Egipto - murmurou Rosalie. - Tanto faz
:omo l .
NÆo ‚ realmente uma questÆo de vida ou de
- concordou a outra.
as nisto ela enganava-se. Era, de facto, uma
¡o de vida ou de morte.

38

- Aquele ‚ Hercule Poirot, o c‚lebre detective-
indicou Mrs. Allerton.
Ela e o filho estavam sentados em cadeiras de vime
de um vermelho berrante, do lado de fora do Hotel
Catarata, em AssuÆo, e observavam os dois vultos que
se afastavam: um homenzinho baixo, que envergava
um fato de seda branca, e uma rapariga alta e esbelta.
Tim Allerton endireitou-se na cadeira, com inespe-
rada vivacidade.
- Aquele c¢mico homenzinho? - perguntou in-
cr‚dulo.
- Sim, aquele c¢mico homenzinho!
- Santo nome de Deus, que est ele a fazer aqui?
A mÆe de Tim soltou uma gargalhada.
- Meu caro, nÆo te exaltes dessa forma. Porque
ser que os homens gostam tanto de crimes? Por mim,
detesto romances policiais, e nÆo me dou ao trabalho
de os ler. Mas nÆo creio que Poirot esteja aqui por al-
gum motivo especial. Tem ganho muito dinheiro e
com certeza viaja para conhecer o mundo.
- Parece que soube escolher a rapariga mais bo-
Mrs. Allerton inclinou a cabe‡a de lado, observan-
do novamente os dois vultos. A rapariga era uns dez
cent¡metros mais alta que o companheiro. Andava com
elegƒncia, sem se inclinar para a frente, e ao mesmo
tempo com rigidez.
- Ela ‚ bonita. com certeza?

Ao fazer a pergunta, Mrs. Allerton lan‡ou ao filho
um olhar de soslaio, divertindo-se ao ver o peixe mor-
der a isca.
- Mais do que bonita! � pena estar sempre de
mau humor.
- Talvez seja apenas expressÆo flsion¢mica, meu
filho.
- Um diabrete desagrad vel, com certeza. Mas
bonita, disso n"o h d£vida.
O alvo desses coment rios caminhava ao lado de
Poirot. Rosalie Otterbourne revirava na mÆo a sombri-
nha e a expressÆo do seu rosto nÆo desmentia as pala-
vras de Tim. Parecia realmente mal-humorada; estava
de sobrancelhas contra¡das e a linha rubra dos l bios
desca¡a-lhe nos cantos.
Passaram pelo portÆo do hotel, voltaram ... esquer-
da e entraram no jardim p£blico.
Hercule Poirot conversava com volubilidade, tendo
no rosto uma expressÆo de beatitude. Estava de fato
de seda branca, muito bem passado, chap‚u panam ,
e levava na mÆo um vistoso enxota-moscas com cabo
de imita‡Æo de ƒmbar.
- ...estou encantado... - dizia ele. - Encanta-
do! Os recifes negros da Elefantina, o sol, os barqui-
nhos no rio. Sim, vale a pena viver.
Fez uma pausa e acrescentou:
- NÆo ‚ tamb‚m a sua opiniÆo, mademoiselle?
Rosalie replicou secamente:
- Oh, provavelmente. Mas acho AssuÆo um lugar
l£gubre. O hotel est quase vazio e os h¢spedes tˆm
cem anos de idade...
Interrompeu-se, mordendo os l bios.
Os olhitos de Poirot tiveram um brilho malicioso.
- � verdade, sim; estou com um p‚ na cova.
- Eu... nÆo estava a pensar no senhor - disse a
jovem. - Desculpe-me. Foi pouco delicado da minha
parte.
- NÆo tem importƒncia. � natural que deseje

44

companheiros da sua idade. Oh, bom; h pelo me-
nos um.
- Aquele que fca sentado ao lado da mÆe o tem-
po todo? Gosto dele... mas acho-o insuport vel... tÆo
pretencioso!
Poirot sorriu.
- E eu? Sou tamb‚m pretencioso?
- Oh, de maneira nenhuma.
NÆo havia d£vida que ela nÆo estava interessada,
mas isso nÆo preocupou Poirot, que, com ar pacata-
mente satisfeito, comentou:
- O meu melhor amigo diz que sou muito con-
vencido.
- Oh, bom, com certeza o senhor tem motivos
para isso - disse Rosalie, num tom vago. - Infeliz-
mente, o crime nÆo me interessa.
Poirot disse com ar solene:
- Alegra-me saber que nÆo tem nenhum segredo
horr¡vel a ocultar.
Pelo espa‡o de um segundo, a m scara entediada
da rapariga transformou-se, e ela lan‡ou um r pido
olhar ao companheiro. Poirot continuou, sem parecer
notar coisa alguma:
- Mademoiselle, sua mÆe nÆo compareceu hoje ao
almo‡o. Espero que nÆo esteja indisposta?
- A mamÆ nÆo tem passado bem - declarou Ro-
salie secamente. - Darei gra‡as a Deus quando nos
formos embora daqui.
- Seremos companheiros de viagem, nÆo ‚ verda-
de? Faremos juntos a excursÆo at‚ Uadi Halfa e ... Se-
gunda Catarata?
- Sim.
Os dois sa¡ram das sombras do jardim para um
poeirento trecho da estrada que marginava o rio. Cin-
co vendedores de colares, dois de bilhetes postais, trˆs
de escaravelhos de gesso e outros ainda destacaram-se
þ de um grupo e acercaram-se deles, em atitude infantil-
þþmente esperan‡osa.

45

- Quer contas, senhor? Muito bonitas, senhor.
Muito baratas...
- Menina, compre um escaravelho. Veja... grande
rainha... muita sorte.
- Veja, senhor... laz£li verdadeiro. Muito bom,
muito barato...
- Um passeio de jumento, senhor? Este ‚ muito
bom. Jumento Whisky e Soda, senhor...
- Quer ir ...s pedreiras de granito, senhor? Este,
bom jumento. O outro nÆo presta, cai de vez em
quando, senhor...
- Bilhete postal? Bonito... barato...
- Veja, menina... s¢ dez piastras; muito barato...
isto marfim... Este muito bom enxota-moscas... este,
tudo ƒmbar...
- Vai de barco, senhor? O meu, muito bom...
- Volta para o hotel, senhora? Este, muito bom
jumento...
Hercule Poirot fazia gestos vagos, tentando livrar-
-se do enxame de moscas humanas. Rosalie atravessou
o grupo com ar de sonƒmbula.
- � melhor a gente fingir que ‚ surda e muda-
observou.
A algazarra ainda os acompanhava.
- Bakshish? Bakshish? Hip, hip, hurrah! Muito
bom, muito barato...
Os trapos de cores vistosas que eles vestiam arras-
tavam-se pitorescamente, e as moscas pousavam nas
p lpebras daqueles homens.

Alguns eram persistentes. Outros conformavam-se,
preparando-se para investir contra o pr¢ximo turista.

Agora, Poirot e Rosalie faziam a via-sacra das lo-
jas... Aqui, intona‡Æo suave e persuasiva...
- D -me a honra de visitar hoje a minha loja, se-
nhor? - Deseja este crocodilo de marfim, senhor?-
J esteve na minha loja, senhor? - Mostro-lhe os mais
belos artigos...
Entraram na quinta loja e Rosalie comprou v rios
rolos fotogr ficos - a finalidade daquele passeio.

Sa¡ram e foram at‚ ... margem do rio.
Um dos vapores do Nilo acabava de atracar. Poirot
e Rosalie observaram com interesse os passageiros.
- Muitos, nÆo? - comentou a rapariga.
Virou a cabe‡a ao perceber que Tim Allerton vi-
nlia juntar-se-lhes. O rapaz parecia ofegante, como se
tivesse caminhado muito depressa.
Continuaram ali durante alguns minutos. Tim foi o
primeiro a falar:
- Gente horr¡vel, com certeza - comentou em
tom desdenhoso, indicando as pessoas que desembar-
cavam.
- Em geral sÆo insuport veis - concordou Ro-
salie.
Os trˆs tinham o ar superior que assumem as pes-
soas que j est"o num lugar, quando estudam os re-
c‚m-chegados.
- Ol ! - exclamou Tim, com uma nota de s£bita
excita‡Æo na voz: - Macacos me mordam se aquela
nÆo ‚ Linnet Ridgeway!
Se Poirot nÆo pareceu interessado, o mesmo nÆo se
pode dizer de Rosalie. Inclinou-se para a frente, a ex-
pressÆo entendiada desapareceu-lhe do rosto.
- Onde? Aquela de branco?
- Sim, com o rapaz alto. VÆo descer agora. O ma-
rido, com certeza. NÆo me lembro do nome dele, nes-
‹ te momento.
- Doyle - informou Rosalie. - Simon Doyle.
þTodos os jornais deram a not¡cia. Ela ‚ riqu¡ssima,
þ ‚?
- Uma das raparigas mais ricas de Inglaterra-
larou Tim, animadamente.
Ficaram em silˆncio, observando os passageiros
þ desciam. Poirot fitou com curiosidade o alvo da-
:les coment rios.
- � muito bonita - murmurou.
- Algumas pessoas tˆm tudo - observou Rosalie,
tom amargo.

46 þ 47

Havia no seu rosto uma estranha expressÆo de ran-
þor, enquanto o olhar dela acompanhava a jovem que
þþinha a descer a escada de bordo.
Linnet Doyle estava tÆo bem vestida como a prin-
þipal figura de uma revista ao entrar no palco. Tinha
ramb‚m o aplomb de uma artista famosa. Estava habi-
þuada a chamar a aten‡Æo, a ser admirada, a ser a pri-
meira, onde quer que aparecesse.
Percebeu os olhares atentos dirigidos ... sua pessoa

- e ao mesmo tempo quase nÆo os percebeu, pois tais
tributos faziam parte da sua vida.
Desceu para a margem, representando um papel,
se bem que o representasse inconscientemente. A rica,
a bela Linnet Ridgeway, a flor da sociedade, na sua
viagem de n£pcias. Voltou-se com ligeiro sorriso para
o homem a seu lado, fazendo uma observa‡Æo qual-
quer. Ele respondeu, e o som da sua voz pareceu inte-
ressar Poirot. O olhar do detective brilhou; as suas so-
brancelhas contra¡ram-se ligeiramente.
O casal passou perto deles. Poirot ouviu Simon
Doyle dizer:
- Procuraremos arranjar tempo para isso, queri-
da. Podemos ficar uma semana ou duas, se gostar de
estar aqui.
O rosto do rapaz estava voltado para ela. ExpressÆo
ardente, adoradora, talvez mesmo um tanto humilde.
Poirot examinou-o com ar pensativo. Ombros lar-
gos, rosto bronzeado, olhos azul-escuros, sorriso in-
fantil.
- Um tipo de sorte! - comentou Tim Allerton,
ao vˆ-los passar. - Imagine! Encontrar uma herdeira
que nÆo tenha aden¢ides e p‚s chatos!
- Parecem muito felizes - disse Rosalie com uma
nota de inveja na voz. Disse repentinamente, mas tÆo
baixo que Tim nÆo percebeu o sentido das palavras:
- NÆo ‚ justo.
Mas Poirot ouviu-a. Continuava de sobrancelhas
contra¡das, com ar perplexo, mas nÆo deixou de lan‡ar
... companheira um olhar curioso.

Tim disse entÆo:
- Tenho que fazer uma compra para minha mÆe.
Tocou no chap‚u e afastou-se. Poirot e Rosalie vol-
þam lentamente para o hotel, afastando do caminho
þn ou outro vendedor importuno.
- EntÆo nÆo ‚ justo, mademoiselle? - perguntou
ele suavemente.
A rapariga corou, encolerizada.
- NÆo sei o que quer dizer com isso.
- Repito, apenas, o que lhe ouvi dizer em voz
baixa h pouco. Oh, disse, sim.
Rosalie encolheu os ombros.
- � realmente de mais para uma pessoa s¢. Di-
nheiro, beleza, e porte e... - Interrompeu-se repenti-
naznente.
Poirot sugeriu:
- Amor? Hem, amor? Mas a senhora nÆo sabe.
Talvez ele tenha casado s¢ pelo dinheiro!
- NÆo viu, entÆo, como a olhava?
- Sim, mademoiselle. Vi tudo; at‚ mesmo alguma
coisa que a senhora nÆo viu.
- Que foi?
Poirot respondeu lentamente:
- Vi, mademoiselle, linhas escuras sob uns olhos
de mulher. Vi as articula‡äes l¡vidas da mÆo que segu-
rava uma sombrinha...
- Que quer dizer com isso? - perguntou Rosalie,
olhando-o bem de frente.
- Digo que nem tudo o que luz ‚ oiro; digo que,
embora aquela senhora seja bela, rica e amada, existe
alguma coisa que nÆo vai bem... E ainda mais...
- Sim?
Poirot continuou, franzindo as sobrancelhas:
- Sei que, certa vez, em qualquer lugar, j ouvi
la voz; a voz de Mister Doyle. E gostaria de saber
' ¤de foi!
Mas Rosalie nÆo o ouvia. Parecia subitamente feita
pedra, desenhando com a ponta da sombrinha ara-
cos na areia. De repente, explodiu:

4g 49

- Sou detest vel. Uma verdadeira peste. Gostaria
de lhe arrancar o vestido e pisar aquele rosto belo e ar-
rogante. NÆo passo de uma gata invejosa; mas ‚ assim
que sinto. Tudo, na atitude dela, indica triunfo, im-
portƒncia, confian‡a em si.
A explosÆo pareceu surpreender Poirot. Segurou o
bra‡o de Rosalie e sacudiu-a amigavelmente e sem ru-
deza.
- Tenez... Vai sentir-se melhor por ter dito isso.
- Odeio-a. Nunca pensei que, ... primeira vista,
fosse poss¡vel odiar tanto uma pessoa!
- Magn¡fico.
Rosalie fitou-o com ar incr‚dulo. Depois desatou
a rir.
- Bien - disse Poirot, rindo tamb‚m.
Voltaram como bons camaradas para o hotel.
- Preciso ir ver a mamÆ - disse a jovem ao entra-
rem no trio sombrio e fresco.
Poirot dirigiu-se para o terra‡o que dava para o
Nilo.
As mesinhas estavam preparadas para o ch , mas
ainda era cedo. Ele ficou alguns momentos a olhar o
rio, depois foi passear pelo jardim.
Algumas pessoas jogavam t‚nis, apesar do calor do
sol. Poirot parou a observ -las; depois desceu a ladeira.
E ali, sentada numa cadeira que dava para o Nilo,
foi encontrar a rapariga que vira em Chez Ma Tante.
Reconheceu-a imediatamente. O rosto que vira naque-
la noite ficara-lhe nitidamente gravado na mem¢ria.
Mas a expressÆo era agora bem diversa. Estava mais
p lida, mais magra e havia no seu rosto algumas som-
bras que indicavam cansa‡o e sofrimento.
Poirot recuou. A jovem nÆo o vira; ele ficou, por-
tanto, a observ -la durante alguns segundos, sem que
ela suspeitasse da presen‡a dele. O pezinho batia im-
pacientemente no chÆo. Os olhos, de estranho brilho,
tinham uma expressÆo de calmo e sombrio triunfo. Ela

fitava o Nilo, onde os barquinhos de velas brancas na-
vegavam de um para o outro lado.
Um rosto - uma voz. Lembrou-se entÆo de am-
bos. O rosto da rapariga; a voz que pouco antes ouvira
novamente. A voz de um rapaz em lua-de-mel...
E, enquanto Poirot estava ali, a observar a jovem,
deu-se a segunda cena do drama.
Vozes, l em cima. A rapariga levantou-se de cho-
fre. Linnet Doyle e o marido desciam a ladeira. Lin-
net parecia feliz, confiante; a expressÆo tensa, a rigi-
dez dos m£sculos tinham desaparecido...
A jovem que se erguera tÆo repentinamente adian-
tou-se entÆo.
Os outros dois estacaram.
- Ol , Linnet - disse Jacqueline de Bellefort.-
Ent"o vocˆ est aqui! Os nossos caminhos estÆo sem-
pre a cruzar-se, nÆo ‚ verdade? Ol , Simon, como vai
vocˆ?
Linnet recuara, apoiando-se ... rocha com uma ex-
clama‡Æo. O belo rosto de Simon Doyle teve uma
s£bita convulsÆo de c¢lera. Ele adiantou-se, como se
quisesse agredir a esguia criaturinha ... sua frente.
Com um r pido movimento de cabe‡a, qual um
passarinho, ela indicou que percebera a presen‡a de
uma pessoa estranha. Simon voltou-se e viu Poirot.
Disse entÆo desajeitadamente:
- Ol , Jacqueline. NÆo esper vamos encontr -la
aqui.
As palavras dele tiveram um som muito pouco con-
vincente.
Os dentes brancos da rapariga reluziram.
- Verdadeira surpresa, hem! - disse ela.
Depois, com uma inclina‡Æo de cabe‡a, p"s-se a
subir a ladeira.
Delicadamente, Poirot tomou a direc‡Æo oposta.
Mas ainda ouviu Linnet dizer:
- Simon... pelo amor de Deus... Simon, que po-
demos fazer?

50 þ 51

CAPÖTULO II


Terminara o jantar.
Suave a ilumina‡Æo no terra‡o do Hotel Catarata,
onde, em redor de mesas pequenas, estava a maioria
dos h¢spedes.
Simon e Linnet Doyle vieram at‚ ali, acompanha-
dos por um senhor distinto, de cabelos grisalhos, rosto
barbeado e vivaz de americano.
O grupo hesitou um momento ... porta. Tim Aller-
ton ergueu-se e adiantou-se, dizendo amavelmente a
Linnet:
- NÆo se lembra de mim, com certeza. Sou primo
de Joana Southwood.
- Naturalmente... Que distrac‡Æo a minha! Tim
Allerton, nÆo ‚ verdade? Apresento-lhe meu marido
(aqui a voz de Linnet tremeu ligeiramente: orgulho? ti-
midez?) e o meu procurador, na Am‚rica, Mister Pen-
ning2on.
Tim cumprimentou os dois homens e disse, voltan-
do-se de novo para Linnet:
- Desejo apresentar-lhe minha mÆe.
Minutos depois faziam todos parte de um grupo.
Linnet sentara-se a um canto, entre Tim e Pennington

- cada um deles procurando atrair a sua aten‡Æo.
Mrs. Allerton conversava com Simon Doyle.
A porta girat¢ria moveu-se. A jovem sentada entre
os dois homens teve uma s£bita contrac‡Æo. Mas ficou
de novo ... vontade, quando viu um homenzinho engra-
‡ado, que imediatamente atravessou o terra‡o.
Mrs. Allerton disse:

- Vocˆ nÆo ‚ a £nica celebridade aqui presente.
Aquele c¢mico homenzinho ‚ Hercule Poirot.

Falara despreocupadamente, apenas por h bito de
sociedade, para quebrar uma pausa constrangedora;
mas a informa‡Æo pareceu impressionar Linnet.
- Hercule Poirot? Claro que o conhe‡o de nome...

Os olhos dela adquiriram uma expressÆo abstracta,
e os dois homens a seu lado ficaram sem saber o que
d.izer.
Poirot aproximou-se do parapeito do terra‡o, mas a
sua companhia foi imediatamente solicitada.
- Sente-se, Mister Poirot. Linda noite, nÆo acha?
- Mais oui, madame, muito linda - concordou
ele, aceitando o convite.
Sorriu amavelmente para Mrs. Otterbourne. Que
enorme quantidade de gaze preta, e que rid¡culo tur-
bante!
Mrs. Otterbourne continuou, na sua voz alta e la-
murienta.
- - In£meras notabilidades aqui, nÆo ‚ verdade?
Com certeza, os jornais dirÆo alguma coisa a esse res-
peito. Belezas da sociedade, famosas romancistas...
interrompeu-se com um sorriso de falsa mod‚stia.
Poirot mais sentiu do que viu a contrac‡Æo da rapa-
riga mal-humorada ... sua frente.
- Est actualmente a escrever alguma novela, ma-
dame? - perguntou ele.
Mrs. Otterbourne esbo‡ou novamente um sorriso
desajeitado.
- Ando muit¡ssimo pregui‡osa. Preciso de reco-
me‡ar. O meu p£blico est a mostrar-se impaciente, e
o meu editor... pobre homem! Reclama‡äes a cada
correio! At‚ mesmo telegramas!...
Poirot viu de novo a jovem ... sua frente mudar de
posi‡Æo.
- NÆo me importo de lhe contar, Mister Poirot.
Estou aqui em busca de ambiente, de cor local. Neve
em Pleno Deserto! ‚ o t¡tulo do meu pr¢ximo livro.
Forte. Sugestivo. Neve... no deserto... derretendo-se
ao primeiro sopro ardente da paixÆo.
Rosalie ergueu-se, murmurando qualquer coisa, e
dirigiu-se para o jardim imerso em sombras.
- A gente precisa de ser forte - continuou
Mrs. Otterbourne, sacudindo enfaticamente o turban-
52 þ 53

te. - Realidade... sim, os meus livros sÆo reais. As
bibliotecas podem bani-los... que importa? Digo a ver-
dade. Sexo... Ah! Mister Poirot, porque ser que toda
a gente tem medo do sexo? O pivot do Universo? Tem
lido os meus livros?
- NÆo, infelizmente, madame!. .. A senhora com-
preende; nÆo leio muitos romances. O meu trabalho...
Mrs. Otterbourne disse com firmeza:
- Preciso dar-lhe um exemplar de · Sombra da
Figueira. Creio que vai gostar. � cru... mas ‚ real!
- � muita gentileza sua, madame. Terei muito
prazer em lˆ-lo.
Mrs. Otterbourne ficou dois ou trˆs minutos em
silˆncio, brincando com um longo colar de contas que
lhe passava duas vezes pelo pesco‡o.
Olhou rapidamente de um lado ao outro, murmu-
rando:
- Talvez seja prefer¡vel dar um pulo l acima e
trazˆ-lo.
- Oh, madame, por favor, nÆo se incomode. Mais
tarde...
- NÆo, nÆo ‚ inc¢modo nenhum - declarou ela
erguendo-se. Gostaria de lhe mostrar...
- Que ‚ que sucedeu, mamÆ? - perguntou Rosa-
lie, reaparecendo inopinadamente.
- Nada, minha querida. Ia apenas buscar um li-
vro para Mister Poirot.
- · Sombra da Figueira? Deixe l , que eu vou
busc -lo.
- Tu nÆo sabes onde est .
- Sei, sim.
A rapariga atravessou rapidamente o terra‡o e en-
trou no trio.
- Permita-me que a felicite, madame, pela linda
filha que tem - disse Poirot, inclinando-se galante-
mente.
- Rosalie? Sim, sim ‚ bonita. Mas ‚ muito dura,
Mister Poirot. E nÆo tem paciˆncia com as pessoas

doentes. Acha que tem sempre razÆo. Pensa que sabe
mais a respeito da minha sa£de do que eu pr¢pria...
Poirot fez sinal a um criado que ia a passar naquele
momento.
- Um licor, madame? Chartreuse? Crˆme de menthe?
Mrs. Otterbourne abanou vigorosamente a cabe‡a.
- NÆo, nÆo. Sou francamente pela lei seca. Talvez
tenha notado que s¢ bebo gua... ou de vez em quan-
do uma limonada. NÆo suporto nada que tenha lcool.
- Posso entÆo oferecer-lhe uma limonada?
Ela inclinou a cabe‡a e Poirot encomendou o re-
fresco e um b‚n‚ditine.
A porta girou novamente e Rosalie apareceu, com
o livro.
- Aqui est - disse ela em voz inexpressiva.
- Mister Poirot acaba de me oferecer um refresco
- disse a romancista.
- E mademoiselle, que deseja?
- Nada - declarou a rapariga. Ao perceber a fal-
ta de gentileza da resposta, acrescentou: - Nada,
obrigada.
Poirot aceitou o volume que Mrs. Otterbourne lhe
estendia. Tinha ainda a capa original, em cores ale-
gres, onde se via, sentada numa pele de tigre, uma se-
nhora de cabelos cortados e unhas rubras, em trajes de
Eva. Em cima, uma rvore com folhas de carvalho,
cheia de ma‡Æs enormes e de fant stico colorido.
· Sombra da Figueira, por Salom‚ Otterbourne. Den-
tro, uma nota do editor, referindo-se em termos entu-
si sticos ao magn¡fico realismo e coragem daquele es-
tudo da vida amorosa de uma mulher moderna.
Franco, real, verdadeiro - eram os adjectivos empre-
gados.
Poirot inclinou-se, murmurando:
- Sinto-me muito honrado, madame.
Ao erguer a cabe‡a, os seus olhos encontraram os
da filha da autora. Involuntariamente, ele fez um pe-
queno movimento, nÆo podendo ocultar totalmente a

54 þ 55

surpresa e a consterna‡Æo que sentiu ante a eloquˆncia
da dor que aqueles olhos revelavam.
Felizmente, as bebidas chegaram neste momento.
Poirot ergueu galantemente o copo.
- · votre sant‚, madame, mademoiselle.
Mrs. Otterbourne murmurou, enquanto ia toman-
do uns goles da limonada:
- Delicioso, tÆo refrescante!
Depois disso, ficaram em silˆncio, fitando os reci-
fes negros e brilhantes. Pareciam fant sticos, ao luar.
Como enormes monstros pr‚-hist¢ricos, que tivessem
metade do corpo fora da gua.
Soprou repentina brisa, que com a mesma presa
desapareceu.
Que impressÆo de silˆncio, de expectativa!...
O olhar de Hercule Poirot examinou o terra‡o e os
seus ocupantes. Estaria enganado, ou tamb‚m havia
aqui a mesma sensa‡Æo de expectativa? Como no tea-
tro, quando a gente espera a entrada da artista prin-
cipal...
Neste momento, a porta girat¢ria moveu-se nova-
mente, desta vez como se a pessoa a empurrasse com
gesto de estudada importƒncia. A conversa cessou
em todas as mesas, os olhares voltaram-se para aque-
le lado.
Apareceu uma jovem morena e esbelta, de vesti-
do de noite, cor de vinho. Parou por alguns segun-
dos, depois atravessou o terra‡o com ar decidido e
foi sentar-se a uma mesa desocupada. Na sua atitude
nada havia de ostensivo, nada fora de prop¢sito, e,
no entanto, dera a impressÆo de uma artista a entrar
no palco.
- Ora, ora! - exclamou Mrs. Otterbourne, aba-
nando a cabe‡a aprisionada no turbante. - Ela pensa
que ‚ algu‚m, essa pequena!
Poirot nada disse. Observava... A jovem sentara-se
num lugar de onde podia encarar Linnet Doyle. Logo

56

em seguida, a milion ria inclinou-se para a frente, dis-
se qualquer coisa e levantou-se, indo sentar-se noutra
cadeira. Estava agora de costas para a rec‚m-chegada.
Poirot inclinou a cabe‡a, pensativo.
Cinco minutos mais tarde, a outra jovem foi sen-
tar-se no lado oposto do terra‡o. Ali ficou, fumando e
sorrindo com serenidade, como se nÆo tivesse uma s¢
preocupa‡Æo na vida. Mas constantemente, como que
inconscientemente, o seu olhar descansava sobre a es-
posa de Simon Doyle.
Um quarto de hora mais tarde, Linnet ergueu-se
bruscamente e entrou no hotel, quase logo seguida pe-
lo marido.
Jacqueline de Bellefort sorriu e fez a cadeira girar
para o outro lado. Acendeu um cigarro e p"s-se a con-
templar o Nilo. Continuou a sorrir...

CAPÖTULO III


- Mister Poirot.
O detective ergueu-se apressadamente. Continuara
sentado no terra‡o, mesmo depois de o £ltimo h¢spe-
de se retirar. Imerso em profunda medita‡Æo, estivera
a contemplar as lisas e brilhantes rochas negras, mas,
ao ouvir o seu nome, voltou ... realidade.
Chamara-o uma voz bem-educada, firme; e, apesar
de ligeiramente arrogante, encantadora.
Voltando-se vivamente, Hercule Poirot encontrou
o olhar dominador de Linnett Doyle.
A jovem lan‡ara sobre o vestido de cetim branco
uma capa de veludo carmesim: estava tÆo bela e impo-
nente que Poirot, no seu ¡ntimo, a comparou a uma
rainha.
- Estou a falar com Hercule Poirot?
A frase era mais uma afirma‡Æo do que uma per-
gunta.

57

- Ao seu dispor, madame.
- Talvez saiba quem sou?
- Sim, madame. Disseram-me o seu nome. Sei
exactamente quem ‚.
Linnet inclinou a cabe‡a, como quem nÆo esperava
outra coisa.
- Quer acompanhar-me ... sala de jogo, Mister
Poirot? Desejo muito falar-lhe - disse ela com aquele
seu ar encantadoramente dominador.
- Certamente, madame.
Entraram no hotel, caminhando Linnet um pouco
... frente. Quando chegaram ... sala de jogo, a jovem fez
sinal a Poirot para que fechasse a porta. Sentou-se de-
pois a uma das mesas e o detective seguiu-lhe o exem-
plo. Linnet foi direita ao assunto. Nenhuma hesita‡Æo
Fluˆncia absoluta.
- Tenho ouvido falar muito do senhor, Mister
Poirot, e sei que ‚ um homem muito inteligente.
Acontece que preciso de aux¡lio, e creio que o senhor
‚ a pessoa mais indicada para isso.
Poirot inclinou a cabe‡a e replicou:
- � muita gentileza sua, madame. Mas, a senhora
sabe, estou em f‚rias, e nestas ocasiäes nÆo costumo
aceitar incumbˆncia alguma.
- Poder¡amos chegar a um acordo.
A frase nÆo foi dita de maneira insultuosa - ape-
nas com a intona‡Æo de quem est habituada a decidir
tudo de acordo com os seus pr¢prios interesses.
Depois de impercept¡vel pausa, Linnet continuou:
- Mister Poirot, estou a ser v¡tima de uma intole-
r vel persegui‡Æo. E preciso que isso acabe! A minha
inten‡Æo era ir ... pol¡cia, mas meu... meu marido acha
que ela nada poderia fazer.
- Talvez possa ser mais expl¡cita? - perguntou
Poirot delicadamente.
- Sim, ‚ o que vou fazer. � muito simples.
Ainda nenhuma hesita‡Æo, nada de rodeios. Linnet
Doyle tinha uma mentalidade de homem de neg¢cios.

Fez uma pequena pausa, apenas para poder apresentar
os factos da maneira mais concisa poss¡vel.
- Antes de me conhecer, meu marido estava noivo
de uma amiga minha, Miss de Bellefort. Simon rom-
peu o noivado; dois caracteres antag¢nicos. Lamento
dizer que a minha amiga ficou muito abalada. Eu...
sinto muito, mas ningu‚m pode impedir estas coisas.
Ela fez... bem, certas amea‡as. Pouca aten‡Æo dei a
essas amea‡as, que, sou for‡ada a confessar, ela nÆo
procurou levar a efeito. Em vez disso, adoptou o es-
tranho procedimento de... de nos seguir aonde quer
que vamos.
Poirot ergueu as sobrancelhas e comentou:
- Vingan‡a um tanto... original.
Muito original... e completamente rid¡cula!
Mas, ao mesmo tempo... importuna - confessou Lin-
net, mordendo os l bios.
Poirot inclinou a cabe‡a em sinal de assentimento.
- Sim, nÆo h d£vida. A senhora, creio eu, est
em viagem de n£pcias?
- Estou, sim. Aconteceu, primeiro, em Veneza.
L estava ela, no Danielli. Pensei que fosse apenas
coincidˆncia. Situa‡Æo um tanto constrangedora, mas
nada mais do que isso. Depois, fomos encontr -la a
bordo, em Brindisi. Pens mos que estivesse a caminho
da Palestina; julg mos tˆ-la deixado no navio. Mas ao
chegarmos a Mena House, l estava ela, ... nossa es-
pera!
- E depois?
- Subimos o Nilo. Eu... tinha quase a certeza de
a encontrar a bordo. NÆo a vendo, julguei que tivesse
desistido de agir de maneira tÆo... tÆo infantil. Mas
quando cheg mos aqui... vimos que nos esperava.
Poirot observou Linnet com aten‡Æo. Absoluta-
mente senhora de si; mas as articula‡äes da mÆo que
se agarravam ... mesa estavam l¡vidas...
- E tem medo que continue esse estado de coisas?
- Tenho... - disse Linnet. E depois de uma pe-
58 þ 59

quena pausa: - Claro que tudo isso ‚ uma infantilida-
de... Jacqueline est a fazer um papel rid¡culo. Admi-
ro-me de que nÆo tenha mais orgulho, mais dignidade.
Poirot fez um gesto impulsivo.
- H ocasiäes, madame, em que o orgulho e a dig-
nidade... saltam pela janela! Existem outras... emo-
‡äes mais fortes.
- Sim, possivelmente - disse Linnet com impa-
ciˆncia. - Mas, francamente, que espera ela lucrar
com isso?
- Nem sempre ‚ uma questÆo de lucro, madame.
Qualquer coisa no tom de Poirot desagradou a
Linnet. Ela corou e replicou vivamente:
- Tem razÆo. Uma discussÆo sobre os motivos
nÆo vem ao caso. O ponto principal ‚ p"r termo a tu-
do isso.
- E de que maneira pretende consegui-lo, madame?
- Bom... naturalmente, meu marido e eu nÆo po-
demos continuar a ser v¡timas de tal persegui‡Æo. De-
ve haver alguma medida legal contra uma coisa dessas.
Linnet falara com impaciˆncia. Poirot perguntou,
fitando-a:
- Ela amea‡ou-a, por acaso, em p£blico? Serviu-
-se de termos insultuosos? Tentou qualquer violˆncia
f¡sica?
- NÆo.
- EntÆo, francamente, madame, nÆo vejo o que a
senhora possa fazer. A jovem tem prazer em viajar por
certos lugares, e esses lugares sÆo os mesmos onde a
senhora e seu marido se acham, eh bien, que mal h
nisso? O Sol nasce para todos! Ela nÆo procura intro-
meter-se na sua vida particular? � sempre em p£blico
que tais encontros se dÆo?
- Quer dizer que nÆo h nada que eu possa fazer?
- perguntou Linnet com incredulidade.
Poirot respondeu serenamente:
- Nada, na minha opiniÆo. Mademoiselle de Belle-
fon est no seu direito.

- Mas... isto ‚ de enlouquecer! � intoler vel! Ver-
-me obrigada a suportar uma coisa dessas!
Poirot disse secamente:
- Compreendo o seu ponto de vista, madame,
principalmente porque nÆo deve estar habituada a su-
portar coisas que lhe desagradam.
- Deve haver uma maneira de p"r fim a isso-
disse Linnet, contraindo as sobrancelhas.
- A senhora poderia partir, procurar outro lugar
- sugeriu Poirot, encolhendo os ombros.
- Ela seguir-me-ia.
- Provavelmente.
- Mas ‚ absurdo!
- Exactamente.
- De qualquer maneira, porque hei-de eu... por-
que havemos n¢s de fugir? Como se... como se...
Linnet interrompeu-se.
Poirot disse, entÆo:
- Exactamente, madame. Como se.. . ! A¡ ‚ que es-
t a questÆo, nÆo ‚ verdade?
Linnet ergueu a cabe‡a e encarou-o.
- Que quer dizer com isso?
Poirot mudou de intona‡Æo. Inclinou-se para a fren-
te, perguntando em tom confidencial, muito suave:
- Por gue motivo se importa tanto, madame?
- Porquˆ? Mas ‚ alucinante! Irritante ao m ximo!
J lhe disse qual a razÆo.
Poirot abanou a cabe‡a.
- NÆo inteiramente.
- Que quer dizer com isso? - perguntou nova-
mente Linnet.
Poirot apoiou-se ao espaldar da cadeira, dizendo
em tom despreocupado, impessoal:
- Ecoutez, madame: vou contar-lhe uma historiazi-
nha. H um ou dois meses, estava eu num restaurante
em Londres. Na mesa pegada ... minha, vi duas pes-
soas, um rapaz e uma rapariga. Pareciam muito feli-
zes, muito apaixonados. Discutiam, confiantes, o futuro.

60 þ 61

NÆo que eu seja indiscreto... eles nÆo se preocupavam
com quem pudesse ouvi-los. O homem estava de cos-
tas para mim, mas podia ver o rosto da rapariga. Ar-
dente. Apaixonado. Aquela jovem amava com o cora-
‡Æo, a alma, o corpo; e nÆo era dessas pessoas que
amam levianamente e muitas vezes. Via-se claramente
que, para ela, era questÆo de vida ou de morte. Esta-
vam noivos, pelo que pude perceber, e falavam do lu-
gar aonde iam passar a lua-de-mel. O Egipto.
Poirot fez uma pausa. Linnet perguntou brusca-
mente:
- E entÆo?
- Isto foi h um ou dois meses - continuou Poi-
rot. - Mas o rosto da rapariga, nÆo mais o esqueci.
Sabia que o reconheceria, se o visse novamente. Lem-
bro-me tamb‚m da voz do homem. E, madame, creio
que nÆo lhe ser dif¡cil adivinhar a ocasiÆo em que de
novo vi o rosto e ouvi a voz. Aqui, no Egipto. O ho-
mem, em lua-de-mel, sim; mas em lua-de-mel com ou-
tra mulher.
Linnet disse secamente:
- E que tem isso? J mencionei os factos.
- Os factos... sim.
- EntÆo?
Poirot disse lentamente:
- A rapariga do restaurante referiu-se a uma ami-
ga; uma amiga que, tinha ela a certeza, nÆo lhe daria
nenhuma decep‡Æo. Essa amiga era, creio eu, a senhora.
Linnet corou.
- Sim, eu disse-lhe que ‚ramos amigas.
- E ela tinha confian‡a na senhora?
- Tinha.
Linnet hesitou por um momento, mordendo impa-
cientemente os l bios. Depois, vendo que Poirot nÆo
parecia disposto a falar, continuou:
- Naturalmente, foi um caso lament vel. Mas es-
sas coisas acontecem, Mister Poirot.

- Ah, sim, acontecem, madame. - Fez uma pau-
sa, e depois: - A senhora pertence ... Igreja Anglica-
na, com certeza?
- Realmente - disse Linnet, um tanto perplexa.
- EntÆo deve conhecer certos trechos da Bi'blia,
que sÆo lidos em voz alta na igreja. Deve ter ouvido
falar do rei David, do homem rico que tinha muitos
rebanhos e do pobre que s¢ tinha uma ovelha, e como
o rico tirou ao pobre essa £nica ovelha. Foi uma coisa
que aconteceu, madame.
Linnet endireitou-se na cadeira e exclamou, os
olhos brilhantes de c¢lera:
- Vejo perfeitamente aonde quer chegar, Mis-
ter Poirot! Falando sem rodeios, acha que roubei o na-
morado ... minha amiga. Sob o ponto de vista senti-
mental, que na minha opiniÆo ‚ o ponto de vista das
pessoas da sua gera‡Æo, talvez isso seja verdade. Mas a
fria realidade ‚ diferente. NÆo nego que Jackie estives-
se loucamente apaixonada por Simon, mas n"o creio
que o senhor tenha admitido a hip¢tese de o mesmo se
dar com ele. Gostava muito dela, mas acho que, mesmo
antes de me conhecer, ele j come‡ara a compreender
que ia cometer um erro, casando-se com Jacqueline.
Procure examinar o caso a sangue-frio, Mister Poirot.
Simon descobre que ‚ a mim que ama, nÆo a Jackie.
Que deve fazer? Ser de uma nobreza her¢ica e casar-
-se com uma mulher por quem nÆo tem amor, prova-
velmente estragando trˆs vidas; pois ‚ duvidoso que
nessas circunstƒncias pudesse fazer Jackie feliz! Se
j estivesse casado quando me conheceu, concordo
que talvez fosse seu dever manter-se firme; se bem que
nem disso posso ter a certeza! Quando um ‚ infeliz
no casamento, tamb‚m o outro sofre. Mas o noivado
nÆo ‚ um la‡o indissol£vel. Se houver engano, entÆo
nÆo h d£vida que ‚ prefer¡vel encarar a situa‡Æo antes
que seja tarde de mais. Concordo que foi duro para
Jackie; lamento que tenha sido assim; mas, paciˆncia!
Foi inevit vel.


62 þ 63

- NÆo sei - declarou Poirot.
- Que quer dizer com isso?
- Muito sensato, muito l¢gico, tudo quanto disse.
Mas nÆo explica uma coisa.
- Que coisa?
- A sua atitude, madame. Esta persegui‡Æo, a se-
nhora poderia encar -la de dois modos: poderia cau-
sar-lhe aborrecimento, sim, ou despertar a sua pieda-
de. Piedade por ver a sua amiga tÆo profundamente
ferida, a ponto de desdenhar todas as conven‡äes so-
ciais. Mas nÆo ‚ essa a sua reac‡Æo. Para a senhora, a
persegui‡Æo ‚ intoler vel. E porquˆ? Por uma razÆo,
apenas; porque a senhora experimenta uma sensa‡Æo
de culpa.
Linnet ergueu-se de chofre.
- Como ousa o senhor? Realmente, Mister Poirot,
est a ir longe de mais!
- Mas ‚ que eu ouso, madame! Ouso, sim. Vou
falar-lhe com absoluta franqueza. Na minha opiniÆo,
embora tenha tentado iludir-se a si pr¢pria, a senhora
procurou conscientemente suplantar a sua amiga. Na mi-
nha opiniÆo, sentiu, desde o princ¡pio, grande atrac‡Æo
por Mister Doyle. E houve um momento em que he-
sitou, quando compreendeu que poderia parar ou
continuar. A escodha dependia da senhora, nÆo de Mis-
ter Doyle. � bonita, madame, rica, perspicaz, inteli-
gente; e tem encanto. Estava nas suas mÆos fazer valer
esse encanto, ou limit -lo. A senhora tem tudo o que o
mundo possa oferecer. A vida da sua amiga resumia-se
em uma s¢ pessoa. A senhora sabia-o e, embora hesi-
tasse, nÆo ergueu a mÆo... Ao contr rio, estendeu-a,
como o rei David, tirando ao pobre a sua £nica ove-
lha.
Houve um silˆncio. Linnet dominou-se e replicou
friamente:
- Isso nada tem com o caso!
- Tem, sim. Estou a explicar-lhe por que motivo
as inesperadas apari‡äes de Miss de Bellefort a tˆm

perturbado tanto. � porque (embora o procedimento
dela talvez seja pouco feminino e pouco digno) a se-
nhora tem a ¡ntima convic‡Æo de que ela est no seu
direito.
- Isso nÆo ‚ verdade!
Poirot encolheu os ombros.
- Vejo que insiste em querer iludir-se a si pr¢-
pria.
- Absolutamente.
Poirot disse suavemente:
- Madame, tenho a impressÆo de que tem tido
uma vida feliz e de que a sua atitude para com os ou-
tros tem sido sempre generosa e am vel.
- Tenho feito o poss¡vel para agir assim - disse
Linnet.
A c¢lera impaciente desaparecera-lhe do rosto.
A frase fora pronunciada simplesmente, quase com
desƒnimo.
Poirot disse:
- E ‚ por isso que a ideia de ter ferido algu‚m a
perturba tanto, ‚ por isso que tem dificuldade em re-
conhecer que isto se tenha dado. Perdoe-me se fui im-
pertinente, mas a psicologia ‚ o factor mais importante
de um caso.
Linnet replicou lentamente:
- Mesmo supondo-se que seja verdade o que diz
(e note que nÆo admito coisa alguma!) que fazer ago-
ra? Ningu‚m pode modificar o passado; temos de en-
carar as coisas tal qual elas sÆo.
- A senhora raciocina com clareza. � verdade;
nÆo se pode alterar o passado. Temos de aceitar as coi-
sas como elas sÆo. E, ...s vezes, madame, nada mais do
que isso podemos fazer: aceitar as consequˆncias dos
nossos actos passados.
- Quer dizer que nÆo h nada que eu possa fazer?
- perguntou Linnet com incredulidade. - Nada?
- Precisa de ter coragem, madame. Pelo menos, ‚
essa a minha opiniÆo.

64 þ 65

- Mas o senhor nÆo podia... falar com Jackie...
com Miss de Bellefort? Procurar convencˆ-la?
- Sim, posso fazer isso. F -lo-ei, se ‚ esse o seu
desejo. Mas nÆo espere grandes resultados. Na minha
opiniÆo, Miss de Bellefort est tÆo obcecada, que nada
a demover do seu prop¢sito.
- Mas h -de haver alguma coisa que o senhor pos-
sa fazer para nos livrar desta persegui‡Æo.
- A senhora poderia, naturalmente, voltar a In-
glaterra e fixar-se no seu lar.
- Mesmo assim, creio que Jacqueline seria capaz
de se instalar na vila, para que eu a visse todas as ve-
zes que pusesse o p‚ fora da propriedade.
- Tem razÆo.
- Al‚m do mais, nÆo creio que Simon concorde
em fugir.
- Qual a atitude dele, em tudo isto?
- Est furioso. Simplesmente furioso.
Poirot inclinou a cabe‡a, pensativo. Linnet conti-
nuou, em tom suplicante:
- O senhor procurar ... falar com ela?
- Falarei, sim. Mas nÆo creio que seja bem suce-
dido.
Linnet exclamou violentamente:
- Jackie ‚ extraordin ria. Ningu‚m pode prever o
que ela far !
- Falou-me, h pouco, de certas amea‡as. Poder
dizer-me que tipo de amea‡as?
Linnet encolheu os ombros e respondeu:
- Ela amea‡ou... Bom... amea‡ou matar-nos a
ambos. Jackie, ...s vezes, demonstra... o seu tempera-
mento latino.
- Compreendo... - disse Poirot, gravemente.
Linnet voltou-se para ele, em tom ardente:
- O senhor agir por mim?
- NÆo, madame - respondeu o detective com fir-
meza. - NÆo aceitarei a incumbˆncia. Farei o poss¡-
vel, sob o ponto de vista humanit rio. Isso, sim. A si-
tua‡"o ‚ dif¡cil, perigosa. Farei o poss¡vel para a
ajudar, mas repito que nÆo creio muito no ˆxito.
- Mas nÆo agir em meu favor? - perguntou Lin-
net, pesando cada palavra.
- NÆo, madame - respondeu Hercule Poirot.

CAPÖTULO IV


O detective encontrou Jacqueline de Bellefort sen-
tada num dos rochedos que davam para o Nilo. Tivera
a certeza de que ela nÆo se retirara e que iria encontr -
-la em algum ponto, nas imedia‡äes do hotel.
Estava com o queixo entre as mÆos e nÆo voltou a
cabe‡a quando ouviu passos.
- Mademoiselle de Bellefort? - perguntou Poi-
rot. - Permite que lhe fale por alguns momentos?
Jacqueline voltou ligeiramente a cabe‡a, com um
leve sorriso a brincar-lhe nos l bios.
- Pois nÆo - respondeu. - � Mister Hercule
Poirot, creio eu? Posso tentar adivinhar? Vem falar-me
em nome de Mistress Doyle, que lhe prometeu prin-
cipescos honor rios, se fosse bem sucedido na sua
missÆo.
Poirot sentou-se num banco, perto dela.
- A sua suposi‡Æo ‚, em parte, verdadeira - dis-
se ele sorrindo. - Acabo de ter uma entrevista com
Mistress Doyle. Mas nÆo aceitei honor rios e, rigoro-
samente falando, nÆo a represento.
Jacqueline deixou escapar uma exclama‡Æo e fitou-
-o com aten‡Æo.
- EntÆo porque veio? - perguntou bruscamente.
Poirot respondeu com outra pergunta:
- J me tinha visto antes, mademoiselle?
- NÆo, creio que nÆo.
- Pois eu j a conhecia. Sentei-me a seu lado em
Chez Ma Tante. Estava l com Mister Simon Doyle.

66 þ 67

O rosto da jovem transformou-se em m scara inex-
pressiva.
- Lembro-me daquela noite...
- Desde entÆo, muita coisa aconteceu - disse
Poirot.
- Sim, tem razÆo; muita coisa aconteceu.
A voz da rapariga era dura, com intona‡Æo profun-
damente amarga.
- Mademoiselle, falo como amigo. Enterre os seus
mortos!
Ela pareceu sobressaltada.
- Que quer dizer com isso?
- Esque‡a-se do passado! Volte-se para o futuro!
Aquilo que est feito est feito. A amargura nÆo dar
rem‚dio a coisa alguma.
- Isso conviria admiravelmente a Linnet.
Poirot fez um gesto vago.
- NÆo penso nela neste momento. Estou a pensar
em Jacqueline de Bellefort. A senhora sofreu, sim,
mas o que est a fazer agora s¢ serve para lhe aumen-
tar o sofrimento.
A jovem sacudiu a cabe‡a e respondeu:
- Engana-se. H ocasiäes... em que chego quase a
sentir prazer.
- E isso, mademoiselle, ‚ o mais lament vel.
Ela ergueu vivamente o busto.
- O senhor nÆo ‚ tolo - disse. E depois, pesando
as palavras: - Creio que ‚ bem-intencionado.
- Volte para casa, mademoiselle. � nova, inteligen-
te... Tem o mundo diante de si.
Jacqueline abanou lentamente a cabe‡a.
- O senhor nÆo compreende, ou nÆo quer com-
preender. Simon ‚ o meu mundo.
- O amor nÆo ‚ tudo, mademoiselle - disse Poi-
rot suavemente. - � s¢ na mocidade que temos essa
ilusÆo.
- O senhor nÆo compreende. - Lan‡ando-lhe
um r pido olhar, a rapariga acrescentou: - Sabe de

tudo, com certeza? Conversou com Linnet? E estava no
þþurante aquela noite... Simon e eu am vamo-nos.
- Sei que a senhora o amava.
- Simon e eu am vamo-nos. E eu queria muito a
I,innet... Conflava nela. Era a minha melhor amiga.
Linnet p"de comprar sempre tudo o que quis. Nunca
se privou de coisa alguma. Quando viu Simon, dese-
jou-o e apropriou-se dele, simplesmente.
- E ele consentiu em ser comprado?
Jacqueline abanou lentamente a cabecinha negra.
- NÆo, nÆo foi exactamente isso. Se tivesse sido
assim, eu hoje n"o estaria aqui... Est a insinuar que
Simon nÆo merece ser amado... Se se tivesse casado
com Linnet por interesse, isso seria verdade; mas n"o
se casou por dinheiro. O caso ‚ mais complicado do
que parece. Existe uma coisa chamada deslumbramento,
Mister Poirot. E nisso o dinheiro ajuda. Linnet tinha
ccambienteþþ, percebe? Era a rainha de um pequeno rei-
no; mulher de luxo at‚ ... ponta dos dedos. Como nu-
ma cena de teatro. O mundo a seus p‚s... Um dos
mais ricos e mais cobi‡ados pares da Inglaterra era
pretendente ... sua mÆo. Em vez de aceit -lo, ela incli-
nou-se para o obscuro Simon Doyle... Admira-se de
que isso lhe tenha subido ... cabe‡a? - Jacqueline fez
um gesto brusco: - Olhe a Lua l em cima. Pode vˆ-
-la perfeitamente, nÆo pode? � verdadeira. Mas, se o
Sol estivesse a brilhar, nÆo a poderia ver. Foi mais ou
menos isso. Eu era a Lua... Quando veio o Sol, Simon
nÆo mais me viu... Ficou ofuscado. Nada mais viu, a
nÆo ser o Sol: Linnet.
Fez uma pausa, depois continuou:
- Vˆ, portanto, que foi... deslumbramento. Ela
subiu-lhe ... cabe‡a. Al‚m do mais, ‚ absolutamente se-
nhora de si, tem aquele h bito de mandar. Mostra-se
tÆo decidida, tÆo certa, que faz as outras pessoas terem
tamb‚m certeza. Simon foi... fraco, talvez, mas deve-
-se levar em conta que ‚ um rapaz muito simples. Ele
ter-me-ia amado, e somente a mim, se Linnet nÆo ti-
6g 69

vesse aparecido, arrebatando-o para a sua carruagem
doirada. E eu sei, sei perfeitamente, que nunca a teria
amado, se ela nÆo tivesse procurado conquist -lo.
- Sim, ‚ isso o que a senhora pensa.
- Sei que ‚ a verdade. Ele amava-me: sempre me
amar .
- Mesmo agora?
Ela ia responder vivamente, mas conteve-se. Olhou
para Poirot, corando violentamente. Voltou o rosto,
baixou a cabe‡a e disse em voz abafada:
- Sim, sei. Agora odeia-me. Sim, odeia-me... Ele
que se acautele!
Remexeu rapidamente na bolsa de seda que estava
no banco. Depois estendeu a mÆo. Poirot viu-lhe na
dextra um revolverzinho de cabo de madrep‚rola, que
mais parecia um brinquedo.
- Bonito, nÆo? - perguntou a rapariga. - Pare-
ce muito pequeno para ser verdadeiro, mas ‚ verdadei-
ro! Uma destas balas d para matar uma pessoa. E te-
nho boa pontaria... - Sorriu como quem se lembra
de factos antigos. - Quando fui com minha mÆe para
a Carolina do Sul, meu av" ensinou-me a atirar. Ele era
daquele tipo que gostava de solucionar as suas rixas ...
bala, principalmente quando a honra estava em jogo.
Tamb‚m meu pai teve duelos muitas vezes, em novo.
Era bom esgrimista. Duma vez, matou um homem,
por causa de uma mulher. Vˆ, portanto, Mister Poi-
rot... - encarou-o bem de frente - ...tenho a quem
sair! Comprei este rev¢lver quando tudo aquilo acon-
teceu. Pretendia matar um deles... a dificuldade estava
em saber qual! Qualquer serviria. Se eu achasse que
Linnet ia ter medo... mas Linnet tem muita coragem
f¡sica. Foi a¡ que... achei que podia esperar! A ideia
cada vez me seduzia mais. Afinal de contas, eu pode-
ria realizar o meu prop¢sito em qualquer momento;
seria mais divertido esperar... e ficar a pensar nisso.
E entÆo ocorreu-me esta vingan‡a: segui-los! Onde
quer que chegassem, alegres e felizes, iriam encontrar-
-me! E deu resultado! Atingiu Linnet em cheio, mais
do que qualquer outra coisa! Ficou profundamente
perturbada. Foi a¡ que comecei a divertir-me... E nÆo
h nada que ela possa fazer! Sou sempre muito am vel
e delicada! NÆo h uma palavra a que eles possam
agarrar-se! Mas isso est a envenenar-lhes a existˆncia.
N¡tida e cristalina, uma gargalhada dela ecoou pela
noite dentro.
Poirot segurou-a pelo bra‡o.
- Fique quieta. Quieta!
Jacqueline voltou-se para ele e exclamou:
- EntÆo?
O seu sorriso era de franco desafio.
- Mademoiselle, imploro-lhe, nÆo fa‡a uma coisa
dessas.
- Quer que eu deixe em paz a querida Linnet,
nÆo ‚ verdade?
- � algo mais profundo do que isso. NÆo abra ao
mal as portas do seu cora‡Æo.
Ela ficou de l bios entreabertos, uma expressÆo
perplexa surgiu-lhe no olhar.
Poirot continuou, gravemente:
- Porque, se o fizer, o mal atender ... chamada...
Sim, disso nÆo h d£vida. Entrar no seu cora‡Æo, fa-
zendo dele a sua morada, e passado algum tempo j
nÆo ser poss¡vel expuls -lo.
Jacqueline fitou-o. O olhar dela pareceu vacilar.
- NÆo sei... NÆo sei... - murmurou. E depois,
em tom de desafio: - O senhor nÆo me pode impedir.
- NÆo, nÆo posso - concordou Poirot, tristemente.
- Mesmo que quisesse mat -la... o senhor nÆo po-
deria impedir-me de o fazer.
- NÆo, nÆo poderia, se a senhora estivesse dispos-
ta a sofrer o castigo.
Jacqueline de Bellefort soltou uma gargalhada.
- Oh, nÆo tenho medo da morte! Afinal de con-
tas, que tenho eu que me prenda ... vida? Com certeza
acha errado matar uma pessoa que nos prejudicou,

70 þ 71

mesmo que essa pessoa nos tenha roubado aquilo que
mais prezamos no mundo?
Poirot respondeu em tom decidido:
- Sim, mademoiselle. Acho que matar ‚ um crime
imperdo vel.
Jacqueline riu novamente.
- EntÆo deve aprovar o meu actual plano de vin-
gan‡a. Porque, sabe, enguanto ele der resultado, nÆo
usarei esta arma... Mas h ocasiäes em que tenho me-
do; sim, medo. Vejo tudo vermelho ... minha frente...
quero feri-la... enfiar-lhe uma faca no cora‡Æo, encos-
tar-lhe o rev¢lver ... fronte, apertar o gatilho... Oh!
A exclama‡Æo assustou Poirot.
- Que aconteceu, mademoiselle?
Ela voltara a cabe‡a e o seu olhar perscrutou as
trevas.
- Algu‚m... ali, de p‚. Agora j se foi.
Hercule Poirot voltou-se vivamente.
Tudo deserto e silencioso.
- Parece-me que nÆo h ningu‚m, al‚m de n¢s,
mademoiselle. - Ergueu-se e continuou: - Em todo o
caso, j disse tudo quanto tinha para dizer. Desejo-lhe
muito boa noite.
Jacqueline tamb‚m se levantara. Disse em tom
quase suplicante:
- O senhor compreende, nÆo compreende?... que
nÆo posso fazer o que me pede?
Poirot sacudiu a cabe‡a e replicou:
- NÆo! Sei que poderia, se assim o desejasse! H
sempre um momento! A sua amiga Linnet... Houve
tamb‚m um momento em que ela poderia ter estaca-
do... Mas deixou que o momento passasse. E quando
uma pessoa faz isso, fica amarrada, e nÆo tem segunda
oportunidade.
- NÆo tem segunda oportunidade... - repetiu
Jacqueline.
Ficou pensativa por alguns segundos, depois er-
gueu a cabe‡a em atitude de desafio.

- Boa noite, Mister Poirot.
Ele abanou a cabe‡a tristemente; depois, seguiu-a
pelo caminho que levava ao hotel.

CAPÖTULO V


Na manhÆ seguinte, quando sa¡a do hotel para ir a
p‚ at‚ ... cidade, Poirot viu Simon Doyle aproximar-se.
- Bom dia, Mister Poirot.
- Bom dia, Mister Doyle.
- Vai ... cidade? Permite que lhe fa‡a companhia?
- Pois nÆo! Terei nisso muito prazer.
Os dois homens caminharam lado a lado, passaram
pelo portÆo e ganharam a sombra das rvores. Simon
tirou entÆo o cachimbo da boca e disse:
- Creio que minha mulher teve uma conversa
com o senhor, ontem ... noite, Mister Poirot?
- Realmente.
Simon Doyle estava de sobrancelhas ligeiramente
contra¡das. Pertencia ...quele tipo de homem de ac‡Æo,
que sente dificuldade em exprimir-se com clareza.
- At‚ certo ponto, fiquei satisfeito - disse ele.-
O senhor conseguiu convencˆ-la de que nada podemos
fazer.
- Realmente nÆo existe, neste caso, nenhuma pe-
na imposta pela lei - concordou Poirot.
- Exactamente. Linnet nÆo podia compreender
que isso fosse poss¡vel - disse Simon sorrindo ligeira-
mente. - Foi criada com a ideia de que qualquer difi-
culdade pode ser solucionada pela pol¡cia.
-- Boa coisa, se isso fosse poss¡vel - disse o detec-
tive.
Houve uma pausa. De repente, Simon exclamou,
uma onda de sangue subindo-lhe ao rosto:
- �... ‚ o c£mulo que ela seja v¡tima de tal perse-
72 þ 73

gui‡"o! NÆo fez coisa alguma. V l q£e algu‚m diga
que procedi como um miser vel! Com certeza que ‚
verdade. Mas nÆo admito que Linnet seja responsabili-
zada. Nada teve que ver com o caso.
Poirot inclinou gravemente a cabe‡a, mas nÆo fez
coment rio algum.
- O senhor... conversou com Jackie... com Miss
de Bellefort?
- Conversei.
- Conseguiu convencˆ-la a mostrar um pouco
mais de bom senso?
- NÆo o creio.
Simon exclamou em tom irritado:
- Ela nÆo vˆ que est a fazer um papel rid¡culo?
NÆo percebe que nenhuma mulher respeit vel agiria
dessa forma? NÆo tem um pouco de orgulho, de digni-
dade?
Poirot replicou, encolhendo os ombros:
- Ela tem apenas... como direi?... a impressÆo de
que foi lesada.
- Est certo, mas, com os diabos, meu amigo,
uma rapariga normal nÆo procede desta forma! Con-
fesso que a culpa foi toda minha. NÆo fui correcto nes-
sa hist¢ria. Acharia compreens¡vel que ficasse aborre-
cida comigo e nunca mais me quisesse ver... Mas
seguir-me por toda a parte ‚... indecente! Exibindo-se
desta maneira! Que espera ganhar com isso?
- Vingan‡a... talvez.
- Tolice! Compreenderia melhor uma atitude me-
lodram tica... Se me desse um tiro, por exemplo.
- Acharia isso mais de acordo com o tempera-
mento dela?
- Para ser franco, acharia, sim. � impulsiva, tem
um g‚nio dos diabos. NÆo me surpreenderia que, sob
o dom¡nio da c¢lera, praticasse um acto de loucura.
Mas esta espionagem...
- � mais subtil, sim! Inteligente!
- O senhor nÆo compreende. Isso d cabo dos
nervos de Linnet.

- E os seus?
Simon fitou-o com ar de surpresa.
- Eu?... Gostaria de torcer o pesco‡o ...quela pes-
tezinha.
- Nada ficou, entÆo, do sentimento antigo?
- Meu caro Mister Poirot... nÆo sei como expli-
car-me... Foi como... como a Lua, quando aparece o
Sol. A gente nÆo vˆ mais nada. Assim que vi Linnet,
Jackie deixou de existir.
- Tiens, c'est dr"le, ‡a! - murmurou Poirot.
- PerdÆo?
- A sua compara‡Æo interessou-me, nada mais do
que isso.
Simon corou novamente, dizendo:
- Jackie disse-lhe, com certeza, que me casei com
Linnet por interesse. � mentira! Nunca me casaria
por dinheiro com mulher alguma. O que Jackie nÆo
compreende ‚ que ‚ dif¡cil, para um homem, quan-
do... quando... uma mulher gosta dele como Jackie
gostava de mim...
- Ah!... - exclamou Poirot, olhando vivamente
para o companheiro.
Simon continuou:
- Parece... Talvez o nÆo deva dizer... mas Jackie
gostava demasiado de mim!
- Un qui aime et un qui se laisse aimer - murmu-
rou Poirot.
- Hem? Que foi que disse? O senhor compreen-
de, um homem nÆo quer que a mulher goste mais dele
que ele dela. - A voz de Simon tornou-se mais quen-
te, ... medida que ele continuava: - Ningu‚m quer ter
a impressÆo de que ‚, corpo e alma, propriedade de
outra pessoa. Aquela atitude de posse! Este homem ‚
meu; pertence-me! � coisa que nÆo tolero, que homem
algum tolera. A gente quer escapar... libertar-se.
O homem quer sentir que a mulher lhe pertence, e
nÆo ele a ela.
Interrompeu-se e acendeu um cigarro com os de-
dos ligeiramente tr‚mulos.

74 þ 75

- E era assim que se sentia ao lado de Mademoi-
selle Jacqueline? - perguntou Poirot.
- Que disse? - exclamou Simon, erguendo os
olhos. E depois: - Sim, sim. Para ser franco, foi o
que aconteceu. Ela nunca percebeu coisa alguma,
‚ claro, e nem eu podia falar-lhe sobre isso. Mas esta-
va inquieto... e, quando encontrei Linnet, perdi a ca-
be‡a! Nunca tinha visto mulher mais linda na minha
vida. E tÆo extraordin ria! Toda a gente a fazer-lhe
a corte, e ela escolhe um pobre diabo como eu!
A £ltima frase fora dita em tom de ing‚nua admi-
ra‡Æo.
- Compreendo - disse Poirot. - Sim, com-
preendo.
- Por que motivo nÆo pode Jackie aceitar a situa-
‡Æo, conformar-se de boa vontade? Afinal de contas,
cada um tem que aguentar o que lhe toca neste mun-
do. Confesso que a culpa foi toda minha. Mas paciˆn-
cia. Acho loucura um homem casar-se com uma
mulher a quem deixou de amar. E agora que conhe‡o
bem Jackie, que vejo a que extremos pode chegar,
compreendo que escapei de boa!
- A que extremos pode chegar... - repetiu Poi-
rot, pensativo. - Tem alguma ideia do que isso possa
ser, Mister Doyle?
Simon fitou-o, sobressaltado.
- NÆo... ou pelo menos... que quer dizer com
isso?
- O senhor sabe que ela tem um rev¢lver?
- NÆo creio que se sirva dele. Talvez que no prin-
c¡pio... Mas j passou desse ponto. Agora est apenas
despeitada, procura importunar-nos.
- Talvez seja apenas isso - disse Poirot, enco-
lhendo os ombros.
- � com Linnet que me preocupo - disse Si-
mon, um tanto desnecessariamente.
- Sim, compreendo.
- NÆo acredito que Jackie tente qualquer coisa de

melodram tico, mas esta persegui‡Æo est a dar cabo
dos nervos de Linnet. Vou contar-lhe a ideia que me
ocorreu, e talvez o senhor possa dizer-me se o meu
plano deve ser modificado. Para come‡ar, anunciei
abertamente que vamos ficar aqui uns dez dias. Mas
amanhÆ o navio Karnak sai de Shellƒl para Uadi Halfa.
� minha inten‡Æo comprar passagens para este vapor,
at‚ Philae. A criada de Linnet levar as malas para
bordo; n¢s dois tomaremos o Karnak em Shellƒl.
Quando Jackie perceber que n"o voltamos, ser tarde
de mais... estaremos em plena viagem. Com certeza
h -de julgar que fomos para o Cairo. Penso at‚ em dar
uma gorjeta ao porteiro para dizer isso. Na agˆncia de
turismo, nÆo lhe poderÆo dar informa‡äes, pois os
nossos nomes nÆo constarÆo da lista de passageiros.
Que tal a ideia?
- NÆo h d£vida que est bem planeado. E se ela
resolver esperar aqui?
- Talvez nÆo voltemos. Poder¡amos continuar at‚
Cartum, indo depois, de aviÆo, para o Qu‚nia. Ela nÆo
nos pode seguir ... volta do mundo.
- NÆo; h -de chegar a hora em que as dificulda-
des financeiras a impedirÆo de continuar. Ouvi dizer
que nÆo tem fortuna.
Simon fitou o detective com admira‡Æo.
- Muito bem pensado da sua parte; a ideia ainda
nÆo me ocorrera. Jackie ‚ paup‚rrima.
- E, no entanto, conseguiu segui-los at‚ aqui?
Simon disse, em tom perplexo:
- Ela tem um pequeno rendimento, naturalmente.
Pouco menos de duzentas libras por ano, creio eu.
Com certeza... sim, com certeza est a gastar o capital,
para poder custear estas viagens.
- Quer dizer que chegar o dia em que nÆo ter
mais recursos e ficar em absoluta mis‚ria?
- Sim...
Simon remexeu-se, constrangido, como se aquela
ideia lhe causasse desconforto. Poirot observava-o
atentamente.


76 þ; 77

- NÆo, nÆo ‚ uma ideia muito agrad vel...
- Bom, quanto a isso nada posso fazer! - excla-
mou Simon colericamente. E depois: - Que tal acha
o meu plano?
- Acho que talvez dˆ resultado. Mas, naturalmen-
te, ‚ uma retirada.
Simon corou violentamente.
- Quer dizer que vamos fugir? Sim, ‚ verdade.
Mas Linnet...
Poirot ficou a observ -lo, depois inclinou a cabe‡a,
concordando.
- Como diz, ‚ realmente a melhor solu‡Æo. Mas
lembre-se de que Mademoiselle Jacqueline ‚ inteligente.
Simon replicou sombriamente:
- Algum dia creio que teremos de enfrentar a si-
tua‡Æo e lutar, de uma maneira ou de outra. O proce-
dimento dela nÆo ‚ nada razo vel.
- Razo vel, mon Dieu! - exclamou Poirot.
- NÆo vejo motivo para que uma mulher nÆo
proceda como um ser racional - disse Simon com
firmeza.
- ·s vezes, procedem - replicou Poirot secamen-
te. - E sÆo ainda mais desconcertantes. - Fez uma
pequena pausa e acrescentou: - Tamb‚m estarei a
bordo do Karnak. O nosso itiner rio ‚ o mesmo.
- Oh!. . . - Simon hesitou, depois perguntou, pa-
recendo ter dificuldade em exprimir-se: - NÆo ‚ por
nossa causa? Quero dizer, nÆo gostaria que...
Poirot desiludiu-o imediatamente.
- De forma alguma! J estava resolvido, antes de
sair de Londres. Fa‡o sempre os meus planos com an-
tecedˆncia.
- NÆo vai entÆo de um lugar a outro, conforme a
inspira‡Æo? NÆo acha isto muito mais agrad vel?
- Talvez. Mas para se ter ˆxito na vida, cada por-
menor deve ser estudado de antem"o.
Simon soltou uma gargalhada e replicou:
- Com certeza, ‚ assim que procedem os assassi-
nos mais h beis.

- Sim; se bem que o crime mais perfeito de que
tenho lembran‡a, e um dos mais dif¡ceis de ser desco-
berto, foi cometido no impulso do momento.
Simon disse, um tanto infantilmente:
- Precisa de contar-nos alguns dos seus casos, a
bordo do Karnak.
- NÆo; poderia acabar por me tornar ma‡ador.
- Isso nunca! O senhor deve ter muita coisa inte-
ressante para contar. Pelo menos, ‚ esta a opiniÆo de
Mistress Allerton... Est ansiosa pela oportunidade
de lhe fazer um interrogat¢rio em regra!
- Mistress Allerton? A senhora de cabelos grisa-
lhos que tem um filho tÆo delicado
- Exactamente. Estar tamb‚m a bordo do Karnak.
- Sabe que o senhor...
- Claro que nÆo! - declarou enfaticamente Si-
mon. - Ningu‚m sabe de coisa alguma. Parti do
princ¡pio que ‚ melhor nÆo confiar em ningu‚m.
- àptima medida, que tamb‚m costumo adoptar.
Por pensar nisso, a terceira pessoa do seu grupo, aque-
le senhor de cabelos grisalhos...
- Um pouco estranho, numa viagem de n£pcias,
nÆo ‚ o que est pensando? Pennington ‚ o procurador
de Linnet, na Am‚rica. Encontr mo-lo, por acaso, no
Cairo.
- Ah, vraiment! Permite-me uma pergunta? Sua
esposa atingiu j a maioridade?
- Ainda nÆo completou vinte e um anos - res-
pondeu. - Mas nÆo teve que pedir o consentimento
de ningu‚m para se casar comigo. A not¡cia causou
grande surpresa a Pennington. Ele saiu de Nova Ior-
que no Carmanic, dois dias antes de ter ali chegado a
carta onde Linnet lhe participava o nosso casamento.
E, portanto, nÆo sabia de nada...
- Carmanic - murmurou Poirot.
- Ficou muito admirado quando nos encontrou
no Cairo.

7g 79

- Foi realmente uma grande coincidˆncia!
- � verdade. Fic mos a saber que pretendia viajar
pelo Nilo e, portanto, reunimo-nos; nÆo pod¡amos,
sem indelicadeza, agir de outra forma. Al‚m do mais...
Bom, de certo modo, foi at‚ um al¡vio. - Simon inter-
rompeu-se, parecendo de novo constrangido. - O se-
nhor compreende. Linnet tem andado nervos¡ssima,
esperando ver Jackie surgir a cada momento... En-
quanto est vamos s¢s, este assunto vinha ... baila cons-
tantemente. A companhia de Andrew Pennington va-
leu-nos neste sentido: vimo-nos obrigados a falar de
outras coisas.
- A sua esposa nÆo se abriu com Mister Penning-
ton?
- NÆo - disse Simon, em tom ligeiramente
agressivo. - � assunto que s¢ a n¢s diz respeito.
Al‚m do mais, quando inici mos esta viagem pelo Ni-
lo, pens mos que o caso estivesse liquidado.
Poirot abanou a cabe‡a, dizendo:
- NÆo, ainda n"o est liquidado. O fim ainda nÆo
est pr¢ximo, disso tenho a certeza.
- Sou obrigado a dizer, Mister Poirot, que o se-
nhor nÆo ‚ muito animador.
O detective encarou-o com ligeira irrita‡Æo, pen-
sando consigo mesmo: þþEste anglo-saxÆo nÆo leva nada
a s‚rio. Continua a ser uma crian‡a.þþ
Linnet Doyle e Jacqueline de Bellefort levavam
ambas o caso muito a s‚rio. Mas na atitude de Simon
ele nada mais via do que irrita‡Æo, impaciˆncia mascu-
lina.
- Permite-me uma pergunta indiscreta? A ideia
de vir ao Egipto foi sua?
Simon respondeu, corando:
- NÆo, claro que nÆo. Para falar a verdade, teria
preferido ir a outra parte qualquer. Mas Linnet fazia
grande empenho. E entÆo... entÆo...
Interrompeu-se, sem saber como continuar.
- Naturalmente - disse Poirot, gravemente.

Compreendia que, se Linnet fazia empenho numa
coisa, essa coisa tinha de ser feita.
Pensou consigo mesmo: þþOuvi trˆs vers"es da mes-
ma hist¢ria. Uma contada por Linnet Doyle, a segun-
da por Jacqueline de Bellefort, a terceira por Simon
Doyle. Qual delas estar mais pr¢xima da verdade?v

CAPÖTULO VI


Mais ou menos ...s nove horas da manhÆ seguinte,
Simon e Linnet Doyle partiram para a sua excursÆo a
Philae. De uma das varandas do hotel, Jacqueline de
Bellefort viu-os partir no pitoresco barquinho de velas
brancas. Por este motivo, nÆo viu sair, da frente do
hotel, um carro cheio de malas, onde ia sentada uma
criada de ar grave e compenetrado. O carro tomou a
direc‡Æo de Shellƒl.
Hercule Poirot resolveu passar na ilha Elefantina,
bem defronte do hotel, as duas horas que lhe restavam
antes do almo‡o.
Desceu at‚ ao ancoradouro e reuniu-se aos dois ho-
mens que tomavam um dos barcos do hotel. Evidente-
mente, os dois sujeitos nÆo se conheciam. O mais novo
chegara na v‚spera, de comboio. Alto, de cabelos es-
curos, rosto magro e queixo belicoso. Usava umas cal-
‡as de flanela cinzenta, muito sujas, e um pul"ver de
jogador de p¢lo, impr¢prio para aquele clima. O outro
era um sujeito de meia-idade, atarracado, que nÆo per-
deu tempo a encetar conversa com Poirot, exprimin-
do-se num inglˆs um tanto lƒnguido. Sem tomar parte
na conversa, de expressÆo fechada e sobrancelhas con-
tra¡das, o mais novo voltou-lhe as costas, pondo-se a
admirar a agilidade com que os barqueiros n£bios go-
vernavam o barco com os dedos dos p‚s, enquanto
com as mÆos manobravam as velas.


80 þ.. 81

O rio estava tranquilo: viam-se passar os vultos
negros dos recifes... A brisa soprava-lhes no rosto.
Chegaram ... ilha; assim que desembarcaram, Poirot e
o seu loquaz companheiro foram directamente para
o museu. A esta altura, o homenzinho oferecera ao de-
tective o seu cartÆo de visita, inclinando-se galante-
mente:

Signor Guido Richetti, Arque¢logo

NÆo ficando atr s em gentileza, Poirot retribuiu a
v‚nia e apresentou tamb‚m o seu cartÆo. Satisfeitas as
conven‡äes, os dois entraram juntos no museu, mos-
trando-se o italiano uma fonte de eruditas informa-
‡äes. Agora conversavam em francˆs.
O rapaz que viera com eles deu, com ar desinteres-
sado, uma volta pela sala, bocejando de vez em quan-
do; depois saiu. Poirot e Richetti acabaram por lhe
seguir o exemplo. O italiano p"s-se entusiasticamente
a examinar as ru¡nas, mas Poirot, reconhecendo uma
sombrinha de listas verdes, nos recifes perto do rio,
fugiu naquela direc‡Æo.
Mrs. Allerton estava sentada na rocha, tendo um
livro no rega‡o e um caderno de desenho nas mÆos.
Poirot tirou delicadamente o chap‚u e Mrs. Aller-
ton puxou logo a conversa.
- Bom dia - disse ela. - Nada mais dif¡cil do
que a gente ficar livre desta crian‡ada.
Um bando de pretinhos estava ... volta dela, sorri-
dentes, de mÆo estendidas e implorando bakshish com
ar esperan‡oso.
- Pensei que ficassem cansados de me observar-
disse Mrs. Allerton com ar desanimado. - EstÆo a¡ h
duas horas, e chegaram um a um. De vez em quando,
eu empunhava a sombrinha e bradava: Imshi, espa-
lhando-os, por um ou dois minutos; mas voltavam
logo, de olhos arregalados, esses olhos nojentos...
e narizes ainda mais nojentos! NÆo creio que goste de

crian‡as, a nÆo ser que estejam mais ou menos limpas
e tenham no‡äes elementares de educa‡Æo.
Ela respirou, riu-se e Poirot, amavelmente, procu-
rou dispersar a petizada, embora sem resultado. Fu-
giam, mas nÆo tardavam a voltar, formando um c¡rcu-
lo ... volta deles.
- Se ao menos se pudesse ter um pouco de sosse-
go no Egipto, acho que gostaria daqui estar algum
tempo! - exclamou Mrs. Allerton. - Mas a gente
nunca pode estar realmente s¢. Vem logo algu‚m pe-
dir-nos dinheiro, ou oferecer jumentos, ou colares,
ou propor excursäes ...s vilas dos nativos, ou seja l o
que for.
- � um grande inconveniente, nÆo h d£vida-
concordou Poirot.
Estendeu o len‡o no rochedo e sentou-se com mui-
to cuidado.
- Seu filho hoje nÆo lhe faz companhia?
- NÆo; Tim tem de mandar algumas cartas, antes
de partirmos daqui. Vamos ... Segunda Catarata, nÆo
sabia?
- Eu tamb‚m vou.
- Oh, que bom! Confesso que estou encantada
por conhecˆ-lo. Estivemos em Maiorca com uma tal
Mistress Leech, e ela contou-nos as coisas mais ex-
traordin rias deste mundo a seu respeito, Monsieur
Poirot. Perdera no banho de mar um anel de rubi e la-
mentou que o senhor l nÆo estivesse para o encontrar.
- Ah, parbleu, nÆo sou nenhuma foca!
Ambos riram. Mrs. Allerton disse entÆo:
- Vi-o da minha janela, hoje de manhÆ, cami-
nhando ao lado de Simon Doyle. Diga-me: que acha
dele? Estamos todos interessad¡ssimos pelo marido de
Linnet Ridgeway.
- Ah, sim?
- � verdade. Talvez o senhor nÆo ignore que o ca-
samento dele com Linnet causou grande surpresa.
Pensavam todos que ela ia aceitar Lorde Windlesham,

82 þ 83

e de repente aparece noiva deste rapaz de que nin-
gu‚m jamais ouvira falar!
- Conhece-a bem, madame?
- NÆo, mas uma das minhas primas, Joana
Southwood, ‚ uma das suas melhores amigas.
- Ah, sim, tenho lido esse nome nos jornais-
disse Poirot. Ficou em silˆncio por alguns minutos,
depois continuou: - Est muito em evidˆncia, essa
Mademoiselle Joana Southwood.
- Oh, Joana sabe fazer reclamo de si pr¢pria, dis-
so nÆo h d£vida! - disse secamente Mrs. Allerton.
- NÆo a aprecia muito, madame?
- A minha observa‡Æo foi muito pouco caridosa
- disse Mrs. Allerton, em tom penitente. - O se-
nhor sabe, tenho ideias antigas, e nÆo gosto dela. Mas
Tim e Joana sÆo muito bons amigos.
- Compreendo - disse Poirot.
Mrs. Allerton lan‡ou-lhe um r pido olhar, e resol-
veu mudar de assunto.
- H pouca gente nova por aqui! Aquela linda pe-
quena de cabelos castanhos, que tem por mÆe a horr¡-
vel criatura de turbante, ‚ quase a £nica rapariga que
se vˆ aqui. Notei que o senhor tem conversado muito
com ela. Interesso-me por aquela pequena.
- Porquˆ, madame?
- Tenho pena dela. Como uma pessoa pode sofrer
tanto, quando ‚ nova e sens¡vel! Creio que ela sofre
bastante.
- � verdade; nÆo ‚ feliz, a pobrezinha.
- Tim e eu chamamos-lhe a cþpequena amuadaþþ.
Tentei uma ou duas vezes conversar com ela, mas tra-
tou-me com absoluta frieza. Parece-me que vai tam-
b‚m fazer esta viagem pelo Nilo. Com a convivˆncia,
ser inevit vel uma certa camaradagem, nÆo ‚ verdade?
- � poss¡vel, madame.
- Por mim, sou muito soci vel; gosto imenso de
estudar tipos diferentes. - Fez uma pausa e conti-
nuou: - Tim disse-me que essa jovem morena (Miss

de Bellefort, creio eu) estava noiva de Simon Doyle.
Deve ser constrangedor, um encontro desses.
- Realmente - concordou Poirot.
Mrs. Allerton lan‡ou-lhe um olhar r pido.
- Sabe uma coisa? Talvez seja tolice minha, mas
ela amedronta-me. Parece uma criatura tÆo... ardente.
- Talvez nÆo se engane muito, madame. Uma
grande for‡a emotiva ‚ sempre assustadora.
- Tamb‚m gosta de estudar tipos diversos, Mon-
sieur Poirot? Ou reserva o seu interesse para os gran-
des criminosos?
- Madame, essa categoria nÆo incluir muita
gente?
Mrs. Allerton pareceu ligeiramente alarmada.
- Fala s‚rio?
- Com o devido incentivo, ‚ claro - terminou
Poirot.
- Que, com certeza, varia?
- Naturalmente.
Mrs. Allerton hesitou, brincando-lhe um sorriso
nos l bios.
- At‚ mesmo eu?
- As mÆes, madame, sÆo as mais impiedosas,
quando os filhos estÆo em perigo.
- Creio que ‚ verdade - disse gravemente
Mrs. Allerton. - Sim, o senhor tem razÆo.
Ficaram em silˆncio por alguns segundos; depois,
ela continuou, sorrindo:
- Procuro imaginar crimes de acordo com o tem-
peramento de cada uma das pessoas do hotel. � muito
divertido... Simon Doyle, por exemplo?
Poirot respondeu, sorrindo tamb‚m:
- Um crime muito simples; um caminho directo
para o seu objectivo. Nada de subtilezas.
- E, naturalmente, f cil de ser descoberto?
- Sim. NÆo seria vergonhoso.
- E Linnet?
- Como a rainha, em Alice, no Pais das Maravi-
lhas: þþCortem-lhe a cabe‡a.þþ E pronto!

84 þ 85

- Claro. O divino poder da monarquia! Como no
caso da vinha de Naboth... E a rapariga perigosa...
Jacqueline de Bellefort? Poderia tornar-se assassina?
Poirot hesitou por um ou dois segundos, depois
respondeu sem grande convic‡Æo:
- Sim, creio que sim.
- Mas nÆo tem a certeza?
- NÆo. Ela deixa-me perplexo, aquela pequena.
- NÆo creio que Mister Pennington fosse capaz de
matar, nÆo acha tamb‚m? Parece tÆo seco, tÆo disp‚p-
tico, sem sangue nas veias.
- Mas, provavelmente, com um poderoso instinto
de conserva‡Æo!
- Sim, talvez. E a pobre Mistress Otterbourne,
com o seu eterno turbante?
- Existe uma coisa que se chama vaidade.
- Como motivo para o assass¡nio? - perguntou,
admirada, Mrs. Allerton.
- Os motivos sÆo ...s vezes muito banais, madame.
- Quais os principais, Monsieur Poirot?
- Dinheiro, principalmente. Com isto quero dizer
þþlucroþþ em toda a extensÆo da palavra. E h tamb‚m:
vingan‡a, amor, medo... e ¢dio, simplesmente. E fi-
lantropia.. .
- Monsieur Poirot!
- Oh, sim, madame. Conheci uma pessoa chama-
da... digamos A... que foi assassinada por B, unica-
mente para que C fosse beneficiada. Os crimes pol¡ti-
cos geralmente podem ser assim classificados. Uma
pessoa ‚ considerada nociva ... civiliza‡Æo e por esse
motivo eliminada. Tais criminosos esquecem-se de que
s¢ Deus tem o direito de vida ou morte.
Poirot falara em tom grave. Mrs. Allerton concluiu
calmamente:
- Agrada-me essa opiniÆo. Mas, por outro lado,
Deus escolhe os seus instrumentos.
- � perigoso pensar assim, madame.
Ela replicou, com intona‡Æo menos s‚ria:

86

- Depois desta conversa, Monsieur Poirot, admi-
ro-me de que ainda haja um ser vivo no mundo.
Levantou-se, acrescentando:
- Temos de voltar. Vamos sair logo depois do al-
mo‡o.
Quando chegaram ao ancoradouro, viram o rapaz
de pul"ver de jogador de p¢lo preparando-se para to-
mar o seu lugar no barco. O italiano j ali estava insta-
lado. Quando o barqueiro n£bio soltou a vela, Poirot
procurou, delicadamente, encetar conversa com o des-
conhecido.
- H coisas maravilhosas no Egipto, nÆo ‚ ver-
dade?
O rapaz fumava um cachimbo mais ou menos ba-
rulhento. Tirou-o da boca e disse, breve e enfatica-
mente, e, contra a expectativa, em voz muito bem-
-educada:
- Causam-me nojo.
Mrs. Allerton, interessada, colocou o lorgnon no
nariz e fitou-o com ar encantado.
- Sim? E a que se refere? - perguntou Poirot.
- Tome por exemplo as Pirƒmides. Grandes blo-
cos de in£til alvenaria, erguidos para satisfazer o des-
p¢tico ego¡smo de um rei obeso. Pense na multidÆo de
homens que suaram e morreram ao constru¡-las. Fico
nauseado quando me lembro do sofrimento e tortura
que elas representam.
Mrs. Allerton exclamou alegremente:
- O senhor acharia prefer¡vel nÆo haver Pirƒmi-
des, nem Paternon, nem belos t£mulos e templos, s¢
pela satisfa‡Æo de saber que as criaturas tiveram trˆs
refei‡äes por dia e morreram tranquilamente nos seus
leitos !
O rapaz fitou-a de sobrolho carregado.
- Acho que os seres humanos valem mais do que
as pedras.
- Mas nÆo duram tanto - observou Poirot.
- Prefiro ver um oper rio bem alimentado a ad-
87

mirar aquilo a que chamam þþobra de arteþþ. O futuro ‚
que tem importƒncia, nÆo o passado.
Isto foi de mais para o Signor Richetti, que rom-
peu num palavreado dif¡cil de ser compreendido.
O rapaz replicou apaixonadamente, dizendo fran-
camente qual a sua opiniÆo sobre o capitalismo.
Quando terminou o seu discurso, tinham chegado
ao cais do hotel.
Mrs. Allerton murmurou animadamente: þþBom,
bomþþ - e desceu imediatamente. O rapaz atirou-lhe
um olhar venenoso.
No trio do hotel, Poirot encontrou Jacqueline de
Bellefort, vestida de amazona. A rapariga inclinou-se
com um sorriso zombeteiro e disse:
- Vou andar de jumento. Recomenda uma excur-
sÆo ...s vilas nativas, Monsieur Poirot?
- � aonde pretende ir, mademoiselle? Eh bien, sÆo
pitorescas, mas aconselho-a a nÆo gastar muito dinhei-
ro nas curiosidades locais.
- Que sÆo mandadas daqui para a Europa? NÆo,
nÆo sou assim tÆo ing‚nua.
Com uma ligeira inclina‡Æo de cabe‡a, ela saiu para
a claridade do Sol, l fora.
Poirot acabou de arrumar as malas, f cil tarefa,
uma vez que as suas roupas estavam sempre na melhor
ordem poss¡vel. Dirigiu-se em seguida para a sala de
jantar.
Depois do almo‡o, o ¢nibus do hotel levou at‚ ...
esta‡Æo os h¢spedes que iam ... Segunda Catarata. To-
mariam ali o expresso do Cairo a Shellƒl.
Iam: Mrs. Allerton e o filho, Poirot, o rapaz de
cal‡as de flanela e o italiano. Mrs. Otterbourne e a fi-
lha tinham preferido a excursÆo ... represa e a Philae;
tomariam o vapor em Shellƒl.
O comboio trazia uns vinte minutos de atraso. Mas
finalmente chegou. Come‡ou a correria. Carregadores
nativos que tiravam as malas das carruagens esbarra-
vam em outros que carregavam a bagagem dos que

partiam. Finalmente, um tanto ofegante, Poirot viu-se
num compartimento com a sua bagagem, a dos Aller-
ton e outra completamente desconhecida, ao passo que
Tim e a mÆe tinham ido parar a outra carruagem, com
o resto das suas malas.
No compartimento do detective, estava uma senho-
ra idosa, de rosto enrugado, gola alta com barbas,
muitos brilhantes nos dedos, e, no rosto, uma expres-
sÆo de grande desprezo pelo resto da Humanidade.
Lan‡ou a Poirot um aristocr tico olhar e entrichei-
rou-se por detr s de uma revista americana. Em frente
dela estava sentada uma jovem grandalhona, um tanto
desajeitada. Tinha olhos castanhos, submissos como os
de um cÆo, cabelos em desalinho, e parecia ansiosa por
agradar. De vez em quando, a velha levantava o olhar
e em tom seco dava-lhe uma ordem qualquer.
- Corn‚lia, re£na as mantas. Quando chegarmos,
tome conta da minha mala. NÆo permita que nin-
gu‚m a agarre. NÆo se esque‡a da minha faca de cor-
tar papel.
Viagem curta. Dez minutos depois chegavam ao
cais, onde estava atracado o S. S. Karnak. As duas
Otterbourne j se encontravam a bordo.
O Karnak era menor do que o Papyrus ou o L¢tus,
navios da Primeira Catarata, grandes de mais para pas-
sar pelos canais da represa de AssuÆo. Os passageiros
subiram para bordo, indo logo procurar as suas aco-
moda‡äes. Como o navio nÆo estava cheio, muitos ti-
nham cabines no tombadilho de passeio. Toda a parte
fronteira desse tombadilho era ocupada por um salÆo
envidra‡ado, onde os passageiros podiam sentar-se pa-
ra admirar o rio. No tombadilho de baixo, ficava a sala
de fumo e o pequeno salÆo, e no tombadilho inferior a
sala de jantar.
Deixando as malas na cabina, Poirot voltou ao
tombadilho, para apreciar a partida, indo reunir-se a
Rosalie, que estava debru‡ada na amurada.
- EntÆo vamos para a N£bia! Est contente, ma-
demoiselle?

88 þ 89

A jovem respirou profundamente e respondeu:
- Estou, sim; tenho a impressÆo de que estamos
agora realmente longe de tudo.
Fez um gesto com a mÆo, mostrando o rio na fren-
te deles. Espect culo em que havia qualquer coisa de
selvagem: o len‡ol de gua; os recifes sem vegeta‡Æo
que desciam at‚ ... margem; aqui e ali, as ru¡nas de
uma casa abandonada. O cen rio tinha um encanto
melanc¢lico, sinistro, mesmo.
- Longe das criaturas - acrescentou Rosalie.
- A nÆo ser dos companheiros de viagem, made-
moiselle?
Ela encolheu os ombros, dizendo:
- H qualquer coisa neste pa¡s que me faz ficar...
m . Tudo o que ferve dentro de mim parece vir ... to-
na... Tudo tÆo mal distribu¡do, tÆo injusto...
- Ser ? A gente nÆo pode julgar pelas aparˆncias.
Rosalie murmurou:
- Veja as mÆes de algumas pessoas... e veja a mi-
nha. Para ela, nÆo existe outro deus a nÆo ser o Sexo,
e Salom‚ Otterbourne ‚ o seu profeta! - Interrom-
peu-se. E depois: - Talvez eu nÆo devesse ter dito
isto.
Poirot fez um gesto com ambas as mÆos.
- Porque nÆo? Estou habituado a ouvir muita coi-
sa. Se, como diz, est fervendo por dentro, como ge-
l‚ia no fogo, eh bien, deixe que a espuma venha ... su-
perf¡cie, para que a gente possa tamb‚m tir -la com
uma colher! - Poirot fez um gesto, de quem atirava
qualquer coisa ao rio e acrescentou:
- Pronto, j se foi!
Rosalie nÆo p"de deixar de sorrir.
- Que homem extraordin rio ‚ o senhor! - mur-
murou. De repente contraiu-se e exclamou: - Olhe
quem est aqui! Mistress Doyle e o marido! Eu nÆo ti-
nha a menor ideia que tamb‚m iam fazer esta viagem.
Linnet acabara de sair de uma cabina que ficava na
parte central do tombadilho e Simon vinha logo atr s

dela. Poirot teve um leve sobressalto ao vˆ-la aparecer

- tÆo bela, tÆo senhora de si. Atitude arrogante, feliz.
Simon tamb‚m parecia outra pessoa. A boca rasgava-
-se-lhe num sorriso e parecia um colegial satisfeito.
- Que maravilha! - disse, inclinando-se tamb‚m
na amurada. - Acho que vou gostar muit¡ssimo da
viagem: e vocˆ, Linnet? NÆo se tem impress"o alguma
de viagem de turismo, parece que vamos conhecer o
cora‡Æo do Egipto.
Linnet respondeu vivamente:
- Tem razÆo. � tÆo... selvagem, se ‚ que me ex-
primo bem.
Ao dizer isto, passou a mÆo pelo bra‡o de Simon, e
ele apertou-lha carinhosamente.
- Estamos a largar, Lin.
Realmente o navio afastava-se do cais. Tinha co-
me‡ado a viagem de sete dias - at‚ ... Segunda Catara-
ta e de novo de volta ao hotel.
Atr s deles, ecoou uma gargalhada cristalina. Lin-
net deu uma s£bita reviravolta. Jacqueline de Bellefort
estava ali, tendo no rosto uma expressÆo zombeteira.
- Ol , Linnet; nÆo pensei que viesse encontr -la
aqui. Julguei tˆ-la ouvido dizer que ia ficar mais dez
dias em AssuÆo. Que surpresa!
- Vocˆ nÆo... nÆo... - balbuciou Linnet. Depois,
conseguindo um sorriso convencional: - Nem eu t"o-
-pouco esperava vˆ-la.
- NÆo?
Jacqueline afastou-se para o outro lado do navio.
A mÆo de Linnet apertara com for‡a o bra‡o do ma-
rido.
- Simon... Simon...
A expressÆo de prazer desaparecera da fisionomia
de Doyle. Via-se que estava furioso. Fechou os pu-
nhos, apesar do esfor‡o que fazia para se dominar.
Os dois afastaram-se dali. Embora nÆo voltasse a
cabe‡a, Poirot percebeu algumas palavras soltas.
... Fugir. .. imposs¡vel... poder¡amos. ..

90 91

E depois, mais alta, a voz de Doyle, desesperada,
mas decidida:
- NÆo podemos fugir a vida inteira, Linnet: ago-
ra, temos que seguir para diante.

Algumas horas mais tarde. Anoitecera. Poirot esta-
va sentado no salÆo envidra‡ado, admirando o pano-
rama. O Karnak passava por uma garganta do rio.
Os recifes desciam com uma esp‚cie de ferocidade at‚
...s guas que corriam entre eles.
Estavam agora na N£bia.
Poirot ouviu um ru¡do...
Linnet Doyle apareceu a seu lado. Cruzava e des-
cruzava as mÆos e Poirot estranhou-lhe a expressÆo do
rosto; de crian‡a assustada e perplexa. Foi ela a pri-
meira a falar:
- Mister Poirot, estou com medo... com medo de
tudo. Nunca me senti assim. Estes recifes selvagens,
sombrios, nus... Para onde vamos? Que vai acontecer?
Tenho medo, repito. Toda a gente me odeia, nÆo sei
porquˆ... fui sempre am vel, tenho procurado ajudar
os outros... e, no entanto, muita gente me odeia. Ex-
ceptuando Simon, estou cercada de inimigos. � horr¡-
vel saber que h quem nos deteste.
- Mas que significa tudo isso, madame?
- Nervos, talvez... mas tenho a impressÆo do pe-
rigo... perigo ... minha volta.
Lan‡ou um r pido olhar por sobre o ombro, de-
pois disse bruscamente:
- Como ir acabar tudo isto? Estamos presos
aqui. Numa ratoeira. NÆo h sa¡da nenhuma. Temos
de continuar. Eu... nÆo sei onde estou.
Linnet sentou-se numa cadeira a seu lado. Poirot
fitou-a gravemente, tendo nos olhos uma expressÆo
compassiva.
Linnet continuou:
- Como p"de ela saber que segu¡amos neste na-
vio? Como p"de saber?

Poirot abanou a cabe‡a e respondeu:
- Ela ‚ inteligente, como a senhora sabe.
- Tenho a impressÆo de que nunca poderei esca-
par-lhe.
- Existe uma solu‡Æo. Admiro-me que ainda nÆo
lhe tenha ocorrido... Afinal de contas, no seu caso,
madame, o dinheiro ‚ de somenos importƒncia. Porque
nÆo tomou o seu dahabiyah particular?
Linnet pareceu ter dificuldade em explicar-se.
- Se tiv‚ssemos sabido... mas naquela ocasiÆo nÆo
desconfi vamos de coisa alguma... E ‚ dif¡cil... - Fez
uma pausa, e depois com s£bita veemˆncia: - Oh, o
senhor nÆo conhece metade das minhas dificuldades.
Preciso ser diplomata, com Simon... � tÆo sens¡vel,
em mat‚ria de dinheiro. Queria que eu fosse com ele a
Espanha... queria pagar sozinho as despesas da viagem
de n£pcias. Como se isso tivesse importƒncia! Os ho-
mens sÆo uns tolos. Simon tem de se habituar a... vi-
ver confortavelmente. S¢ a men‡Æo de um dahabiyah o
perturbou: despesas desnecess rias e essa hist¢ria to-
da. Tenho de educ -lo... aos poucos.
Linnet ergueu os olhos e mordeu os l bios, achan-
do que se excedera nas confidˆncias. Levantou-se, di-
zendo:
- Tenho de ir vestir-me. Desculpe-me, Mister Poi-
rot, mas parece-me que estive a dizer muitas tolices!

CAPÖTULO VII


Usando um elegante e discreto vestido de noite, de
renda preta, Mrs. Allerton desceu para a sala de jan-
tar. O filho encontrou-a ... porta.
- Desculpe-me; pensei que estivesse atrasado.
- Onde serÆo os nossos lugares?

92 93

O salÆo estava repleto de mesinhas. Mrs. Allerton
ficou parada, ... espera que o steward, ocupado em aco-
modar um grupo grande, pudesse vir atendˆ-la.
- Por pensar nisso, convidei aquele homenzinho,
Hercule Poirot, para se sentar ... nossa mesa.
- MamÆ! - exclamou Tim, parecendo realmente
chocado e descontente.
Mrs. Allerton fitou-o, admirada. Em geral, Tim
era tÆo cordato...
- Incomoda-te, meu filho?
- Claro que me incomoda. � um sujeito sem eira
nem beira.
- Oh, nÆo, Tim! NÆo concordo contigo.
- De qualquer maneira, que interesse temos n¢s
em conviver com um desconhecido? Num vaporzinho
deste tamanho, ‚ aborrecido! Teremos a companhia
dele pela manhÆ, ... tarde e ... noite.
- Desculpa-me - disse Mrs. Allerton, parecendo
realmente compungida. - Pensei que achasses muito
divertido. Mister Poirot, afmal de contas, deve ter tido
uma vida cheia de perip‚cias. E tu gostas de romances
policiais!
- Preferia que a mÆe nÆo tivesse essas ideias lumi-
nosas - resmungou Tim. - Creio que nÆo h agora
nada a fazer!
- Para ser franca, nÆo vejo como.
- Oh, bom, entÆo ‚ melhor conformar-me.
O steward aproximou-se, conduzindo-os a uma me-
sa. No rosto de Mrs. Allerton, havia uma expressÆo
perplexa. Em geral, Tim era muito cordato e bem-
-humorado. Aquela explosÆo nÆo estava de acordo com
o seu temperamento; ele nÆo sentia a habitual aversÆo
dos Ingleses pelos estrangeiros. Era cosmopolita...
þþOh, paciˆnciaþþ, pensou ela com um suspiro. þþOs ho-
mens sÆo incompreens¡veis! At‚ mesmo os mais chega-
dos a n¢s tˆm reac‡äes imprevistas.þþ
Tinham acabado de se sentar quando Poirot apare-
ceu, atravessando rapidamente a sala. Parou, apoiando
a mÆo no encosto da terceira cadeira.

- Permite, realmente, madame, que me aproveite
do seu convite?
- Naturalmente. Sente-se, Mister Poirot.
- � muita gentileza sua.
Mrs. Allerton teve a desagrad vel impressÆo de
que, ao sentar-se, ele lan‡ara um r pido olhar a Tim, e
que o rapaz nÆo conseguira esconder totalmente o des-
contentamento que sentia.
Mrs. Allerton procurou criar um ambiente agrad -
vel. Ao tomarem a sopa, apanhou a lista de passagei-
ros, que estava sobre a mesa.
- Vamos ver quem conhecemos - prop"s ela ale-
gremente. - Isto ‚ sempre divertido.
Come‡ou a ler.
- Mistress Allerton, Mister Tim Allerton. Bom,
at‚ aqui nÆo ‚ dif¡cil. Miss de Bellefort. Est na mesa
das Otterbourne... Ser poss¡vel que ela e Rosalie este-
jam agora a dar-se bem? Em seguida, vem o Doutor
Bessner. Quem ‚ este Doutor Bessner?
Ao dizer isto, ergueu os olhos para uma mesa a
que estavam sentados quatro homens.
- Na minha opiniÆo, deve ser aquele gordo de bi-
godinho e cabe‡a quase rapada - disse Poirot. - Ale-
mÆo, com certeza. Parece gostar da sopa.
NÆo havia d£vida que dali podiam ouvir o ru¡do
que o homem fazia ao comer.
Mrs. Allerton continuou a ler.
- Miss Bowers? Vamos adivinhar quem ‚ Miss Bo-
wers? H trˆs ou quatro mulheres... Bom, por enquanto
vamos deix -la de lado. Mister e Mistress Doyle. SÆo,
sem d£vida nenhuma, os mais importantes. Ela ‚ mui-
to bonita, e que maravilhoso vestido que ela tem!
Tim voltou-se ao ouvir o coment rio. Linnet, Si-
mon e Pennington ocupavam uma mesa de canto. Lin-
net estava de branco, tendo como £nica j¢ia um colar
de p‚rolas.
- A mim, parece-me um vestido muito simples-
94 þ 95

disse Tim. - Apenas um peda‡o de fazenda com uma
esp‚cie de corda na cintura.
- Sim. Uma descri‡Æo muito masculina de um
modelo de oitenta guin‚us.
- NÆo posso compreender como ‚ que as mulhe-
res Pagam tanto pelas suas roupas! - comentou Tim.
- E um verdadeiro absurdo.
Mrs. Allerton continuou a estudar os companhei-
ros de viagem.
- Mister Fanthorp deve ser aquele rapaz s‚rio,
que nunca diz uma palavra, e que est ... mesa do ale-
mÆo. Rosto simp tico; desconfiado, mas inteligente.
- Sim, o rapaz ‚ inteligente - concordou Poirot.
- Quase nÆo fala, mas ouve atentamente e observa tu-
do. Os olhos dele nÆo perdem nada... nÆo ‚ do tipo
que a gente espera encontrar viajando por prazer nesta
parte do Globo. Gostaria de saber o que faz por aqui.
- Mister Ferguson - leu Mrs. Allerton. - Te-
nho um palpite de que Ferguson ‚ o nosso amigo comu-
nista. Mistress Otterbourne, Miss Otterbourne. Sabe-
mos quem sÆo. Mister Pennington? Ali s: tio Andrew!
� um homem bonito...
- MamÆ!... - admoestou Tim.
- Acho que ‚ bonito, de uma maneira seca-
completou ela. - Queixo um tanto cruel. Com certeza
daquele tipo a que se referem os jornais, que especula
em Wall Street... Garanto que ‚ riqu¡ssimo! Em segui-
da: Mister Hercule Poirot, cujas enormes qualidades
estÆo sendo desperdi‡adas. N"o pode arranjar um cri-
me para Mister Poirot, Tim?
A pilh‚ria, dita com boa inten‡Æo, s¢ serviu para
aborrecer mais ainda o rapaz. Contraiu as sobrancelhas
e Mrs. Allerton continuou vivamente:
- Mister Richetti. O nosso amigo italiano, o ar-
que¢logo. Depois, Miss Robson, e fmalmente Miss Van
Schuyler. Esta £ltima ‚ f cil de adivinhar. A fe¡ssima
americana que, com certeza, se julga dona do navio e
que provavelmente vai mostrar-se muito esquiva e nÆo

dirigir a palavra senÆo aos muito privilegiados! Mas
‚ extraordin ria, sob certo ponto de vista, nÆo ‚ ver-
dade? Uma esp‚cie de objecto antigo... As duas mu-
lheres em sua companhia devem ser Miss Bowers e
Miss Robson. Uma delas, a magra de ¢culos, com cer-
teza ‚ a secret ria; a outra, coitada, que parece diver-
tir-se apesar de ser tratada como escrava, deve ser
alguma parente pobre. O meu palpite ‚ que Robson ‚
a secret ria, e Bowers a parente pobre.
- Engana-se, mamÆ - declarou Tim, que recupe-
rara o bom humor.
- Como ‚ que o sabes?
- Estava no salÆo antes do jantar e ouvi a velhota
dizer ... dama de companhia: þþOnde est Miss Bowers?
V imediatamente cham -la, Corn‚lia. þþ E l foi a rapa-
riga como um cÆozinho obediente.
- Preciso de conhecer Miss Van Schuyler - disse
Mrs. Allerton com ar pensativo.
Tim sorriu novamente.
- Ela trat -la-ia com frieza, mamÆ.
- NÆo importa. Prepararei o terreno, sentando-
-me a seu lado e falando em tom baixo e bem-educado
(mas perfeitamente percept¡vel) de todos os titulares,
parentes e amigos nossos, de que me puder lembrar.
Creio que uma ligeira referˆncia ao teu primo em ter-
ceiro grau, o duque de Glasgow, conseguir maravi-
lhas.
- Como ‚ pouco escrupulosa, mamÆ!
Os acontecimentos, depois do jantar, nÆo deixaram
de ter o seu lado c¢mico, para quem gostasse de estu-
dar a natureza humana.
O rapaz socialista (que, conforme julgara Mrs. Al-
lerton, era realmente Mr. Ferguson) retirou-se para a
sala de fumar, desdenhando a companhia dos que ti-
nham ido para o salÆo envidra‡ado.
Conforme era de esperar, Miss Van Schuyler esco-
lheu o melhor e mais resguardado canto, avan‡ando
decidida para a mesa ... qual estava sentada Mrs. Otter-
bourne.


96 þ 97

- A senhora h -de desculpar-me, mas creio que
deixei aqui o meu tricot.
Diante daquele olhar hipnotizador, a senhora de
turbante teve que bater em retirada. Miss Van Schuy-
ler instalou-se ali com a sua comitiva. Mrs. Otterbour-
ne sentou-se perto, de vez em quando aventurando
uma ou outra observa‡Æo, mas foi tratada com tal frie-
za que teve logo de desistir. Miss Van Schuyler conti-
nuou ali sentada, em esplˆndido isolamento. Os Doyle
procuraram a companhia dos Allerton; o Dr. Bessner
ficou ao lado do silencioso Mr. Fanthorp. Jacqueline
de Bellefort estava sozinha, com um livro na mÆo. Ro-
salie Otterbourne parecia inquieta... Uma ou duas ve-
zes, Mrs. Allerton dirigiu-lhe a palavra, procurando
atra¡-la para o seu grupo, mas a rapariga respondeu
sem a menor cordialidade.
Mr. Poirot passou a noite ouvindo pormenores da
carreira liter ria de Mrs. Otterbourne.
Ao dirigir-se para a sua cabina, naquela noite, Poi-
rot encontrou-se com Jacqueline de Bellefort. A rapa-
riga estava debru‡ada na amurada. Voltou-se, ao ru¡do
de passos, e Poirot nÆo p"de deixar de notar a expres-
sÆo de profunda infelicidade do seu rosto. A despreo-
cupa‡"o, o malicioso desafio, o sombrio triunfo ti-
nham desaparecido.
- Boa noite, mademoiselle.
- Boa noite, Mister Poirot. - Ela pareceu hesi-
tar, depois perguntou: - Ficou admirado por me ver
aqui?
- NÆo tanto admirado como pesaroso... muito pe-
saroso - respondeu Poirot em tom grave.
- Quer dizer... pesaroso por minha causa?
- Sim, foi o que eu quis dizer. A senhora esco-
lheu o caminho mais perigoso... Da mesma maneira
que n¢s, neste navio, inici mos uma viagem, tamb‚m
a senhora partiu numa viagem s¢ sua, navegando por
entre escolhos, num rio tormentoso, ao encontro de
correntes perigosas e desconhecidas...

- Porque diz tudo isso?
- Porque ‚ verdade... A senhora cortou as amar-
ras que a prendiam ... seguran‡a. Duvido que possa
agora voltar, mesmo que fosse esse o seu desejo.
- � verdade... - murmurou ela lentamente.
E depois, deitando a cabe‡a para tr s: - Oh, bom,
cada um de n¢s tem de acompanhar a sua estrela para
onde quer que ela nos conduza.
- Cuidado, mademoiselle, que nÆo seja uma estrela
falsa!
Ela deu uma gargalhada e imitou a voz de papagaio
dos rapazes que ofereciam jumentos:
- Esta estrela muito m , senhor! Esta estrela
cai...

Poirot acabara de pegar no sono, quando um mur-
m£rio de vozes o despertou.
Reconheceu a voz de Simon Doyle, repetindo as
mesmas palavras que dissera quando o navio sa¡ra de
Shellƒl:
- Agora temos de seguir para diante...
þþSim, agora temos de seguir para dianteþþ - mur-
murou Poirot de si para si.
NÆo estava nada satisfeito.

CAPÖTULO VIII


Na manhÆ seguinte, o navio chegou cedo a Es-
-Sebua. Toda sorridente, tendo na cabe‡a um chap‚u
de aba larga e esvoa‡ante, Corn‚lia Robson foi uma
das primeiras a descer. NÆo era o seu forte fazer pouco
dos outros. Tinha bom g‚nio e estava sempre mais
disposta a notar as qualidades do que os defeitos dos
outros. NÆo estremeceu ao ver Poirot, de fato branco,
camisa cor-de-rosa, gravata borboleta e chap‚u bran-
98 þ 99

co, como provavelmente teria estremecido horrorizada
a muito aristocr tica Miss Van Schuyler.
Enquanto caminhavam lado a lado, por uma aveni-
da ladeada de esfinges, respondeu amavelmente ... frase
com que ele tentou entabular conversa.
- As suas companheiras nÆo vˆm a terra, visitar o
templo?
- Bom, a prima Marie, isto ‚, Miss Van Schuyler,
nunca se levanta cedo. Precisa de ter muito cuidado
com a sua sa£de. E, naturalmente, queria que Miss Bo-
wers, a enfermeira, ficasse para a atender em diversas
coisas. Disse tamb‚m que este nÆo ‚ um dos templos
mais interessantes. Mas foi muito am vel, permitindo
que eu descesse...
- Muito am vel - disse Poirot secamente.
A ing‚nua Corn‚lia nÆo percebeu a ironia.
- Oh, ela ‚ muito boa. Foi uma maravilha convi-
dar-me para esta viagem. Acho que sou uma criatura
de sorte! Nem pude acreditar, quando ela disse ... ma-
mÆ que pretendia trazer-me.
- E tem-se divertido, mademoiselle?
- Oh, muit¡ssimo. Conheci a It lia: Veneza, P -
dua, Pisa. Depois o Cairo... S¢ no Cairo ‚ que a prima
Marie nÆo passou muito bem e eu nÆo pude sair.
E agora esta viagem a Uadi Halfa...
Poirot comentou, sorrindo:
- Vejo que tem muito bom g‚nio, mademoiselle.
Ao dizer isto, olhou pensativo para Rosalie, que
caminhava solit ria ... frente deles.
- � muito bonita, nÆo ‚? - perguntou Corn‚lia,
acompanhando o olhar do detective. - Talvez um
pouco reservada de mais. Muito inglesa, disso nÆo h
d£vida. Mas ‚ menos bonita que Mistress Doyle.
Acho que Mistress Doyle ‚ a mulher mais linda, mais
elegante que jamais vi na minha vida! E o marido
parece ador -la, nÆo ‚ verdade? Acho aquela senhora
de cabelos grisalhos muito distinta. Creio que ‚ prima
de um duque. Estava a falar sobre ele, perto de n¢s
ontem ... noite. Mas nÆo creio que tenha um t¡tulo.

E foi falando, at‚ que o dragomano fez sinal para
que todos parassem. O homem anunciou:
- Este templo foi dedicado ao deus eg¡pcio Amon
e ao deus Sol R‚-Harakhte, que tem por s¡mbolo uma
cabe‡a de gaviÆo...
A voz mon¢tona continuou. O Dr. Bessner, de
Baedeker em punho, falava consigo mesmo em alemÆo.
Preferia orientar-se pelo que estava escrito...
Tim Allerton nÆo se reunira ao grupo. E a mÆe
procurava quebrar a reserva do g‚lido Mr. Fanthorp.
Andrew Pennington, de bra‡o dado com Linnet, ouvia
atentamente, parecendo muito interessado nas explica-
‡"es do guia.
- Um metro e oitenta e cinco cent¡metros de altu-
ra, entÆo? - disse Pennington, admirado. - Parece-
-me um pouco menos. Que tipo, este Rams‚s! Que
energia!
- Um bom negociante, tio Andrew - comentou
Linnet.
Pennington fitou-a com ar aprovador.
- Est muito bem-disposta, Linnet. Tenho estado
preocupado consigo, ultimamente. Andava muito aba-
tida.
Rindo e conversando, o grupo voltou para bordo.
De novo o Karnak cortou as guas do Nilo. O cen rio
era agora menos rido. Havia palmeiras, campos culti-
vados.
A mudan‡a de panorama pareceu trazer certo al¡-
vio ... opressÆo dos passageiros. Tim Allerton recupera-
ra o bom humor. Rosalie estava menos reservada. Lin-
net parecia quase despreocupada...
Pennington disse-lhe:
- � falta de tacto falar em neg¢cios numa viagem
de n£pcias, mas h uma ou duas coisas...
- Mas, naturalmente, tio Andrew! - exclamou
Linnet, voltando imediatamente a ser mulher de neg¢-
cios. - O meu casamento traz algumas modifica‡äes,
‚ l¢gico.

100 þ 101

- Justamente. Quando lhe convier, queria que as-
sinasse alguns documentos.
- Porque nÆo agora?
Andrew Pennington lan‡ou um olhar ... sua volta.
Eram os £nicos, naquele canto do salÆo envidra‡ado.
Quase todos estavam fora, no peda‡o de tombadilho
que ficava entre o salÆo e as cabinas. Al‚m deles, esta-
vam ali: Mr. Ferguson, tomando cerveja numa mesi-
nha do centro, de pernas estendidas e usando as mes-
mas pouco limpas cal‡as de flanela, e assobiando nos
intervalos entre um gole e outro; Mr. Poirot sentado na
parte fronteira, muito atento ao panorama; Miss Van
Schuyler, a um canto, lendo um livro sobre o Egipto.
- àptimo - disse Pennington.
Saiu do salÆo.
Linnet e Simon sorriram um para o outro - sorri-
so lento, que levou alguns minutos para se definir.
- Tudo bem, querida?
- Sim, tudo bem. Engra‡ado como j nÆo me sin-
to atormentada!
Pennington voltou, trazendo consigo uma por‡Æo
de documentos escritos em letra cerrada.
- Deus do C‚u! - exclamou Linnet. - Tenho
de assinar tudo isso?
Pennington pareceu compungido.
- Sei que ‚ aborrecido para si, mas eu gostaria
que os seus neg¢cios ficassem em ordem. Primeiro, o
aluguer da propriedade da Quinta Avenida... Depois
a concessÆo daqueles terrenos no Oeste...
Continuou falando, enquanto ia pondo em ordem
os pap‚is.
Simon bocejou.
Nisto, a porta que dava para o tombadilho abriu-se
e Mr. Fanthorp apareceu. Examinou o salÆo com ar
despreocupado, dirigindo-se em seguida para onde es-
tava Poirot, ali ficando a apreciar as guas azuladas e a
areia amarela...
...assine aqui - concluiu Pennington, esten-
dendo uma folha de papel sobre a mesa e indicando
um espa‡o em branco.
Linnet pegou no documento e come‡ou a lˆ-lo.
Voltou de novo ... primeira p gina; depois pegou na ca-
neta que Pennington colocara sobre a mesa e assinou:
- Linnet Doyle...
Pennington afastou o papel e apresentou-lhe outro.
Fanthorp encaminhou-se despreocupadamente pa-
ra aquele lado. Olhou pela janela lateral, como se
qualquer coisa na margem lhe tivesse chamado a aten-
‡Æo.
- � apenas a transferˆncia - disse Pennington a
Linnet. - NÆo precisa de ler.
Mas Linnet examinou rapidamente o documento.
Pennington estendeu outra folha, que Linnet leu com
aten‡Æo.
- Est tudo em perfeita ordem - declarou o ame-
ricano. - Nada de interessante. Terminologia legal,
apenas.
Simon bocejou novamente, dizendo:
- Minha querida, nÆo vai ler tudo isso, pois nÆo?
Levar at‚ ... hora do almo‡o, ou talvez mais.
- Leio sempre tudo at‚ ao fim - disse Linnet.-
Aprendi isto com meu pai. Ele dizia que ...s vezes po-
dia haver um engano involunt rio.
Pennington disse, com uma gargalhada um tanto
spera:
- A senhora teve sempre boa cabe‡a para os neg¢-
cios, Linnet.
- � muito mais cautelosa do que eu - disse Si-
mon, rindo. - Nunca li um documento na minha
vida! Assino onde me mandem assinar, na linha de
pontinhos, e pronto!
- � um desleixo - reprovou Linnet.
- NÆo tenho feitio para neg¢cios - disse Simon
jovialmente. - Nunca tive. Dizem-me para assinar e
eu assino. � muito mais simples.
Andrew Pennington fitava-o, pensativamente. Dis-
se em tom seco, acariciando o l bio superior:

102 þ, 103

- Um tanto arriscado, ...s vezes, nÆo, Doyle?
- Tolice! NÆo sou destes sujeitos que acham que
toda a Humanidade est pronta a passar-nos a perna.
Sou uma criatura confiante, sabe, e acho que vale a
pena, pois quase nunca me arrependo.
De repente, com grande surpresa de todos, o silen-
cioso Mr. Fanthorp voltou-se, dirigindo-se a Linnet:
- Espero que nÆo considere impertinˆncia da mi-
nha parte, mas a senhora h -de permitir-me que lhe
diga o quanto admiro a sua competˆncia. Na minha
profissÆo (sou advogado) tenho notado que, infeliz-
mente, as senhoras sÆo em geral pouco cautelosas.
Achei admir vel ouvi-la dizer que nunca assina um do-
cumento sem primeiro o ler at‚ o fim. Admir vel!
Inclinou-se ligeiramente; depois, muito vermelho,
voltou-se para de novo contemplar o Nilo.
Linnet balbuciou, hesitante:
...Eu... agrade‡o-lhe...
Mordeu os l bios para conter o riso. Com que sole-
nidade falara o rapaz!
Pennington parecia deveras aborrecido. Simon nÆo
sabia se devia ficar tamb‚m aborrecido ou achar gra‡a.
As orelhas de Mr. Fanthorp continuavam muito
vermelhas.
- O pr¢ximo, por favor - disse Linnet ao seu
procurador.
Mas o mau humor do americano nÆo se dissipara.
- Talvez seja prefer¡vel deixarmos para outra oca-
siÆo - disse ele secamente. - Como... hum... como
diz Doyle, se a senhora quiser ler tudo, ficaremos aqui
at‚ ... hora do almo‡o. NÆo podemos perder a maravi-
lha deste cen rio. E, de qualquer maneira, os dois pri-
meiros documentos eram os mais urgentes. Mais tarde
trataremos do resto.
- Vamos para fora - sugeriu Linnet. - Est
aqui muito calor.
Sa¡ram os trˆs. Hercule Poirot voltou a cabe‡a,
pensativo. O seu olhar pousou-se, durante alguns mi-
nutos, sobre as costas de Mr. Fanthorp, indo depois
fixar-se em Mr. Ferguson, que continuava na sua posi-
‡"o despreocupada, assobiando baixinho.
Finalmente, o detective olhou para a empertigada
Miss Van Schuyler, que continuava sozinha no seu
canto. A velhota fulminava Ferguson com o olhar.
A porta abriu-se e Corn‚lia apareceu, muito esba-
forida.
- Demorou-se muito - disse a velha, secamente.
Onde esteve?
- Desculpe-me, prima Marie. A lÆ nÆo estava on-
de a senhora me disse que a procurasse.
- Minha amiga, vocˆ nunca encontra nada! Reco-
nhe‡o-lhe a boa vontade, mas precisa de fazer um es-
for‡o para ser mais inteligente e mais esperta. Basta
concentrar-se um pouco mais.
- Sinto muito, prima Marie. Sei que sou muito
tola.
- Pois esforce-se por nÆo o ser. Convidei-a para
esta viagem e espero em troca um pouco de aten‡Æo.
Corn‚lia corou.
- Desculpe-me, prima Marie.
- E onde est Miss Bowers? H dez minutos que
eu devia ter tomado as minhas gotas! Fa‡a o favor de
ir procur -la imediatamente. O m‚dico disse que ‚ im-
portant¡ssimo...
Nesse momento, Miss Bowers apareceu, trazendo
um copo com o rem‚dio.
- As suas gotas, Miss Van Schuyler.
- Eu devia ter tomado este rem‚dio h dez minu-
tos - exclamou a velhota secamente. - Se h coisas
que me irritam, a falta de pontualidade ‚ uma delas.
- Perfeitamente - concordou Miss Bowers. Con-
sultou o rel¢gio de pulso e declarou: - Falta meio mi-
nuto para as onze.
- Pelo meu rel¢gio sÆo onze e dez.
- Poder verificar que o meu est certo. � uma
¢ptima marca. NÆo se adianta nem se atrasa um se-
gundo.

104 þ 105

Miss Bowers continuava imperturb vel.
Miss Van Schuyler tomou o rem‚dio e disse aspe-
ramente:
- Estou muito pior.
- Sinto muito, Miss Van Schuyler.
Apesar disso, Miss Bowers nÆo parecia demasiado
pesarosa. A sua atitude era completamente desinteres-
sada. Dera, maquinalmente, a resposta que devia dar.
- Est quente de mais aqui - disse Miss Van
Schuyler. - Arranje-me uma cadeira no tombadilho,
Miss Bowers. E vocˆ, Corn‚lia traga o meu tricot, mas
nÆo v deix -lo cair! Depois quero que me desmanche
uma meada.
A pequena procissÆo saiu.
Mr. Ferguson suspirou, mudou de posi‡Æo e obser-
vou para os circunstantes:
- C‚us, como eu gostaria de torcer o pesco‡o a es-
ta criatura!
Poirot perguntou, em tom interessado:
- � um tipo que lhe desagrada, hem?
- Desagrada? Se desagrada! Que bem faz esta
mulher a quem quer que seja? Nunca trabalhou, nun-
ca levantou um dedo para ajudar ningu‚m. Aprovei-
tando-se sempre dos outros... � uma parasita... e uma
parasita bem pouco simp tica, ainda por cima. H
muita gente neste navio que nÆo faria falta, se desapa-
recesse do mundo!
- Acha?
- Claro que acho. Aquela rapariga, por exemplo,
que estava h pouco ali, a assinar transferˆncias de ac-
‡äes e fazendo-se importante! Centenas e centenas de
criaturas matando-se por uma ninharia para que ela
possa usar meias de seda e vestidos luxuosos! Uma das
mulheres mais ricas de Ingl terra, disseram-me, e uma
que nunca ajudou ningu‚m.
- Quem lhe disse que ‚ uma das mulheres mais
ricas da Inglaterra?
Mr. Ferguson fitou Poirot com ar belicoso e re-
plicou:

- Um homem com quem o senhor nÆo gostaria de
falar! Um homem que trabalha com as suas pr¢prias
mÆos e nÆo se envergonha disso! Muito diferente dos
seus bonecos bem vestidos que nÆo valem nada.
O olhar do rapaz examinou com desagrado a grava-
ta borboleta e a camisa cor-de-rosa de Poirot.
- Pois eu, eu trabalho com a inteligˆncia e nÆo te-
nho vergonha disso! - exclamou Poirot devolvendo o
olhar do socialista.
- Deviam ser mortos ... bala, todos eles! - rosnou
o homem.
- Meu caro, que paixÆo tem pela violˆncia!
- Diga-me: que bem se pode conseguir sem ela?
A gente tem de quebrar e destruir, antes de edificar
coisa que preste.
- � certamente mais f cil, e mais barulhento e
mais espectacular!
- Que faz o senhor para ganhar a vida? Nada, ga-
ranto. Com certeza, considera-me um homem m‚-
dio...
- De maneira nenhuma! Estou por cima! - de-
clarou Poirot com ligeira arrogƒncia.
- Quem ‚ o senhor?
- Sou detective - disse Poirot com o ar modesto
de quem dissesse: þþSou rei.þþ
- Deus do C‚u! - exclamou o rapaz parecendo
realmente at¢nito. - NÆo me diga que aquela rapari-
ga arrasta atr s de si um pateta de um pol¡cia? Tem
assim tanto cuidado com a pele?
- NÆo tenho rela‡äes algumas com Mister e Mis-
tress Doyle - declarou Poirot secamente. - Viajo
por prazer.
- Divertindo-se com umas f‚rias, hem?
- E o senhor? NÆo est tamb‚m de f‚rias?
- F‚rias? - repetiu Mr. Ferguson com ar de des-
prezo. - Estudo as condi‡äes da vida.
- Muito interessante - disse Poirot, saindo dali
discretamente e dirigindo-se para o tombadilho.

106 þ 107

Miss Van Schuyler instalara-se no melhor canto.
Corn‚lia estava ajoelhada em frente dela, com uma
meada de lÆ ... volta dos bra‡os estendidos. Miss Bo-
wers, sentada muito direita, lia o Saturday Evening
Post.
Poirot vagueou por ali, indo at‚ ao tombadilho de
estibordo. Ao passar pela popa, quase colidiu com
uma mulher, que se voltou assustada para ele. More-
na, provocante, tipo latino, vestida de preto. Estivera
a conversar com um homem fardado, que parecia ser
um dos maquinistas. Havia uma estranha expressÆo no
rosto de ambos - de culpa e alarme. Poirot ficou a fa-
zer conjecturas sobre o assunto que tinham estado a
discutir. ..
Continuou o seu caminho. Abriu-se a porta de
uma cabina e, metida num roupÆo de cetim escarlate,
Mrs. Otterbourne quase lhe caiu nos bra‡os.
- Desculpe-me - disse ela. - Meu caro Mister Poi-
rot, desculpe-me! O balan‡o... O balan‡o, o senhor
compreende! Nunca fui bom marinheiro. Se ao menos
o navio parasse de jogar... - Agarrou o bra‡o do de-
tective e continuou: - Nunca me sinto bem, a bordo.
E fico aqui, sozinha, horas e horas... Aquela minha fi-
lha... nÆo tem nenhuma considera‡Æo... nenhum cui-
dado com a sua pobre mÆe, que tudo tem feito por
ela. - Aqui, Mrs. Otterbourne come‡ou a chorar,
mas sem interromper as queixas. - Tenho trabalhado
para ela como uma escrava, como uma verdadeira es-
crava. Uma grande amoureuse... que eu poderia ter
sido! Uma grande amoureuse! Sacrifiquei tudo... nin-
gu‚m se incomoda! Mas direi a todo o mundo... agora
mesmo... como minha filha me abandona...
Fez um movimento para a frente, mas Poirot pro-
curou detˆ-la delicadamente.
- Irei procur -la, madame. O rio est agitado.
A senhora poderia ter sido varrida pela borda fora.
Mrs. Otterbourne fitou-o com ar incr‚dulo.
- Acha?

- Sem d£vida nenhuma.
Poirot conseguiu o seu intento. Mrs. Otterbourne
parecia vacilar, mas depois entrou, trope‡ando, na ca-
bina.
As narinas de Poirot estremeceram uma ou duas
vezes. Depois, foi procurar Rosalie, que estava senta-
da entre Tim e Mrs. Allerton.
- Sua mÆe reclama a sua presen‡a, mademoiselle.
A jovem estivera a rir-se, feliz e despreocupada.
Uma sombra passou-lhe pelo rosto... Lan‡ou um olhar
suspeito ao detective e saiu apressadamente dali.
- NÆo posso compreender esta menina - disse
Mrs. Allerton. - Varia tanto! Mostra-se um dia am -
vel... e no outro francamente indelicada.
- Completamente estragada e mal-humorada-
declarou Tim.
Mrs. Allerton abanou a cabe‡a e replicou:
- NÆo o creio. Na minha opiniÆo, ‚ muito infeliz.
Tim encolheu os ombros.
- Oh, bom, com certeza todos n¢s temos os nos-
sos aborrecimentos - disse ele em tom seco e duro.
Neste momento, ouviu-se o som de um gongo.
- Almo‡o! - exclamou Mrs. Allerton, encantada.
- Estou a morrer de fome.
Naquela noite, Poirot notou que Mrs. Allerton con-
versava com Miss Van Schuyler. Ao passar por ali, viu a
mÆe de Tim piscar os olhos disfar‡adamente para ele.
- Naturalmente, no castelo de Cafries... O du-
que... - dizia ela.
De folga por algum tempo, Corn‚lia estava no
tombadilho, ouvindo o Dr. Bessner, que, com frases
inspiradas, lhe falava sobre as coisas do Egipto. A ra-
pariga parecia encantada.
Debru‡ado na amurada, Tim dizia:
- De qualquer maneira, ‚ um mundo infame...
- Algumas pessoas tˆm tudo. NÆo ‚ justo - re-
plicou Rosalie.
Poirot suspirou.
Ainda bem que j nÆo era novo...

108 þ 109

CAPÖTULO IX

Naquela manhÆ de segunda-feira, foram ouvidas
v rias exclama‡äes de prazer no tombadilho do Kar-
nak. O navio estava ancorado; em frente dele podia
ver-se, banhado pelo Sol da manhÆ, um grande templo
talhado na rocha. Quatro enormes figuras fitavam
eternamente o Nilo e o nascente.
Corn‚lia exclamou, entusiasmada:
- Oh, Mister Poirot, isto ‚ uma maravilha! Quero
dizer... SÆo tÆo grandes e serenos... Olhando para eles
a gente sente-se tÆo pequena... como um insecto... e
nada parece ter importƒncia, nÆo ‚ verdade?
Mr. Fanthorp, que estava perto deles, murmurou:
- Sim... hummmm... ‚ realmente impressionante.
- Que colosso, hem? - disse Simon Doyle, apro-
ximando-se. E em tom confidencial, dirigindo-se a
Poirot: - Sabe uma coisa, nÆo sou muito amigo de vi-
sitar templos e admirar vistas, mas um espect culo co-
mo este impressiona, empolga, se ‚ que compreende o
que quero dizer. Aqueles fara¢s devem ter sido uns
sujeitos extraordin rios.
Os outros afastaram-se. Simon baixou a voz e con-
tinuou:
- Estou satisfeit¡ssimo por ter feito esta viagem.
As nuvens dissiparam-se. Extraordin rio que isto te-
nha acontecido, mas ‚ verdade. Os nervos de Linnet
voltaram ao normal. Diz ela que ‚ porque enfrentou
finalmente a situa‡Æo.
- Acho muito prov vel - declarou Poirot.
- Diz que, quando viu Jackie no navio, sentiu um
choque horr¡vel. Mas depois... sem saber como, dei-
xou de se importar com isso. Combin mos nÆo a evitar
mais. Enfrentaremos Jackie no seu pr¢prio campo,
mostrando-lhe que a sua atitude rid¡cula j nÆo nos

hnpressiona. � apenas falta de dignidade da parte de-
la; nada mais do que isso. Pensou que ir¡amos ator-
mentados, enervados, mas... Bom, agora j nÆo nos
impressionamos. Que isto lhe sirva de li‡Æo!
- Muito bem - disse Poirot, com ar pensativo.
- E, portanto, est tudo em ordem, nÆo ‚ verdade?
- Sim, sim...
Linnet surgiu neste momento, bela e sorridente,
de vestido de linho cor de damasco.
Saudou Poirot sem grande entusiasmo, com uma
ligeira inclina‡Æo de cabe‡a; depois levou o marido
dali.
Poirot sorriu intimamente, reconhecendo que a sua
atitude cr¡tica nÆo fora muito apreciada. Linnet estava
acostumada a ser admirada, tanto pela sua pessoa co-
mo pelos seus actos. Hercule Poirot cometera um cri-
me de lesa-majestade.
Mrs. Allerton veio procur -lo.
- Que diferen‡a, nesta jovem! - murmurou.-
Parecia aborrecida, nada feliz, em Assu"o. Hoje est
tÆo contente que a gente tem medo at‚ que ela esteja

Antes que Poirot pudesse responder, foi feita a
chamada para todos se reunirem. O guia ofcial levou
os passageiros para terra, para visitarem Abu Simbel.
Poirot estava agora ao lado de Andrew Pennington.
- � esta a sua primeira viagem ao Egipto? - per-
guntou ao americano.
- NÆo. Estive aqui em 1923. Isto ‚, estive no
Cairo. Mas ‚ a primeira vez que fa‡o esta viagem pe-
lo Nilo.
- Veio pelo Carmanic, creio eu? Pelo menos foi o
que me disse Mistress Doyle.
Pennington lan‡ou ao detective um olhar penetran-
te e respondeu:
- Vim, sim.

110 þ 111

- Estive a pensar que talvez o senhor tenha co-
nhecido uns amigos meus que estavam tamb‚m a bor-
do: a fam¡lia Rushington Smith.
- NÆo me lembro de ningu‚m com esse nome.
O navio estava cheio e tivemos mau tempo: muitos
dos passageiros quase nÆo sa¡ram das cabinas. E, de
qualquer maneira, a viagem ‚ tÆo curta que a gente
nÆo chega a saber quem est ou nÆo a bordo.
- Sim, tem razÆo. Que agrad vel surpresa, encon-
trar-se com Mistress Doyle e o marido! NÆo tinha a
menor ideia de que estavam casados?
- NÆo. Mistress Doyle tinha-me escrito, mas a
carta chegou ... Am‚rica depois de eu ter partido, e foi-
-me reenviada de l . S¢ a recebi alguns dias depois do
nosso inesperado encontro no Cairo.
- Conhece Mistress Doyle h muitos anos, nÆo ‚
verdade?
- Oh, sim, Mister Poirot. Conhe‡o Linnet Ridge-
way desde que era deste tamanho - disse ele, fazendo
um gesto para ilustrar o que dissera. - O pai dela e
eu ‚ramos grandes amigos. Um homem extraordin -
rio, Melhuish Ridgeway, e que teve grande ˆxito na
vida.
- A filha herdou uma fortuna consider vel, pelo
que ouvi dizer... Oh, pardon, nÆo estou a ser muito
discreto!
Andrew Pennington sorriu ligeiramente.
- Oh, isso n"o ‚ segredo. Sim, Linnet ‚ uma mu-
lher muito rica.
- Creio, no entanto, que a £ltima baixa lhe afec-
tou o valor das ac‡äes, por mais seguras que sejam?
Pennington levou um ou dois segundos para res-
ponder:
- Isso, naturalmente, ‚, at‚ certo ponto, verdadei-
ro. As coisas estÆo muito dif¡ceis, hoje em dia.
- Parece-me, no entanto, que Mistress Doyle tem
boa cabe‡a para os neg¢cios - murmurou Poirot.
- Tem razÆo. Sim, tem razÆo. Linnet ‚ uma mu-
lher pr tica e inteligente.

Pararam. O guia come‡ou a falar sobre o templo
constru¡do pelo grande Rams‚s. As quatro gigantescas
imagens do pr¢prio Rams‚s, talhadas na rocha, duas
de cada lado da entrada, pareciam encarar o pequeno
grupo de turistas.
Desdenhando as explica‡äes do dragomano, Ri-
chetti examinava a base dos gigantes, onde se viam em
relevo as imagens dos escravos negros e s¡rios.
Quando entraram no templo, pareceu experimen-
tarem todos uma sensa‡Æo de tranquilidade e paz.
0 guia continuava a chamar a aten‡Æo de todos para as
imagens em relevo, de colorido vivo, nas paredes in-
ternas, mas os turistas separaram-se em grupos de
duas ou trˆs pessoas.
Em alemÆo sonoro, o Dr. Bessner lia o seu Baedeker,
parando de vez em quando para traduzir uma passagem
ou outra para Corn‚lia, que docilmente se conservava a
seu lado. Mas nÆo por muito tempo... Miss Van Schuy-
ler entrou pelo bra‡o da fleum tica Miss Bowers e or-
denou: þþVenha c , Corn‚liaþþ - interrompendo assim
a aula.
Depois dela partir, o alemÆo ainda continuou, a sor-
rir vagamente, atrav‚s das grossas lentes dos ¢culos.
- Rapariga simp tica - disse ele a Poirot. - NÆo
tem a aparˆncia faminta das magricelas de hoje... Be-
las curvas... Sabe tamb‚m ouvir inteligentemente, e ‚
um prazer dar-lhe explica‡äes.
Poirot nÆo p"de deixar de refletir que era sina
de Corn‚lia ter sempre que obedecer ou ouvir.
Dispondo de alguns momentos de liberdade, de-
pois da perempt¢ria ordem dada a Corn‚lia, Miss Bo-
wers estava de p‚ no meio do templo, examinando-o
com o seu olhar frio e pouco curioso, nÆo parecendo
muito impressionada com as maravilhas do passado.
Havia um santu rio interno, onde estavam quatro
imagens, sentadas em atitude de grande dignidade.
Linnet e Simon estavam ali a examin -las. A jovem
passara o bra‡o pelo do marido e estava de rosto ergui-
112 þ 113

do - rosto t¡pico da moderna civiliza‡Æo; inteligente,
curioso, sem nada que lembrasse o passado.
- Vamos sair daqui - disse Simon. - NÆo gosto
destes sujeitos, principalmente daquele de chap‚u
alto.
- � Amon, com certeza. E o outro ‚ Rams‚s.
Porque nÆo gosta deles? Acho-os muito imponentes.
- Imponentes de mais, na minha opiniÆo. H ne-
les algo de sobrenatural... Vamos para o sol.
Linnet riu-se, mas acompanhou-o.
Sa¡ram para fora, pisando a areia amarela e quente.
Linnet come‡ou a rir... Aos p‚s deles, em fila, esta-
vam as cabe‡as de seis meninos n£bios, parecendo
separadas dos corpos. Viravam os olhos, as cabe‡as
moviam-se no mesmo ritmo, enquanto eles diziam.
- Hip, hip, hurrah! Muito bom, muito bom. Mui-
to obrigado.
- Que absurdo! Como conseguem uma coisa des-
tas? EstÆo enterrados muito profundamente? - per-
guntou Linnet.
Simon atirou algumas moedas e imitou os garotos:
- Muito bom, muito bonito, muito caro!
Dois rapazitos, a cargo do show, apanharam as
moedas.
Linnet e Simon continuaram o seu caminho.
NÆo tinham vontade de voltar para o navio e esta-
vam cansados de apreciar vistas e antiguidades. Senta-
ram-se de costas para a rocha, aquecendo-se ao sol.
- Como ‚ lindo o Sol! - exclamou Linnet. TÆo
bom... E que tranquilidade, que sensa‡Æo de seguran-
‡a! Como ‚ bom ser feliz... Como ‚ bom ser eu, eu,
eu, Linnet Doyle...
Fechou os olhos. Estava meio acordada, meio
adormecida, com pensamentos que nÆo fugiam nem se
fixavam, como a areia que a brisa levantava e de novo
deixava cair.
Simon nÆo fechara os olhos. Tamb‚m neles havia
uma expressÆo de contentamento. Que tolo fora em

aborrecer-se, aquela primeira noite! NÆo havia motivo
para se preocupar. Tudo ia bem... Afmal de contas, a
gente podia confiar em Jackie...
Um grito... Algu‚m a correr para aquele lado, ges-
ticulando, gritando...
Durante alguns segundos, Simon pareceu estupe-
facto. Em seguida ergueu-se de um salto, arrastando
Linnet consigo.
Um minuto depois teria sido tarde de mais. Um
grande bloco de pedra, que rolara do penhasco, pas-
sou fragorosamente por eles. Se tivesse ficado onde es-
tava, Linnet teria sido esmagada.
P lidos, sem fala, os dois continuaram agarrados um
ao outro. Tim Allerton e Poirot chegaram, a correr.
- Ma foi, madame, escapou por pouco!
Instintivamente, os quatro ergueram os olhos. NÆo
viram coisa alguma. Mas l em cima havia uma sen-
da... Poirot lembrou-se de ter visto alguns nativos se-
guirem por ali, quando o grupo de turistas desembar-
cara.
Olhou para o casal Doyle. Linnet parecia atordoa-
da, perplexa. Simon estava francamente furioso.
- Que Deus a amaldi‡oe - exclamou ele.
Interrompeu-se, lan‡ando um r pido olhar ao com-
panheiro de Poirot.
- Safa, que foi por um triz! - exclamou Tim.-
Algum idiota que soltou a pedra, ou ter ela rolado
por acaso?
Ainda muito p lida, Linnet balbuciou:
- Creio que... algum idiota soltou a pedra.
- Poderia ter ficado reduzida a p¢. Parece-lhe que
nÆo tem nenhum inimigo, Linnet?
Duas vezes ela engoliu em seco, sem poder respon-
der ... pergunta.
- Venha para o navio, madame - disse Poirot vi-
vamente. - Precisa de tomar um estimulante.
Caminharam alguns segundos em silˆncio. Via-se
que Simon mal podia conter a c¢lera, mas Tim come-
‡ou a falar em tom de gracejo, procurando distrair a

114 þ 115

aten‡Æo de Linnet do perigo de que ela escapara. Poi-
rot estava mudo, s‚rio.
E entÆo, quando chegaram ao passadi‡o, Simon es-
tacou subitamente, estupefacto.
Jacqueline de Bellefort vinha descendo para terra.
Com o seu vestido de fustÆo azul, parecia uma crian‡a
naquela manhÆ.
- Deus do c‚u! - murmurou Simon em tom aba-
fado. - EntÆo foi um acidente.
A c¢lera desaparecera-lhe do rosto, sendo substi-
tu¡da por tal expressÆo de al¡vio que Jacqueline notou
que acontecera alguma coisa de anormal.
- Bom dia - disse ela. - Creio que estou atra-
sada.
Com uma inclina‡Æo de cabe‡a para todos em ge-
ral, tomou a direc‡Æo do templo.
Simon agarrou o bra‡o de Poirot. Tim e Linnet
iam na frente.
- Meu Deus, que al¡vio! Pensei... pensei...
- Sim, sim, sei o que pensou - disse Poirot.
Mas ainda continuava preocupado e grave.
Voltou a cabe‡a, observando cuidadosamente a po-
si‡Æo de todos os outros membros do grupo.
Miss Van Schuyler vinha pelo bra‡o de Miss Bo-
wers.
Um pouco adiante, de p‚, Mrs. Allerton ria dos
garotos n£bios. Mrs. Otterbourne estava ao lado dela.
NÆo viu nenhum dos outros.
Poirot abanou a cabe‡a e lentamente acompanhou
Simon, que subia para o vapor.

CAPÖTULO X


- Quer fazer-me o favor, madame, de me explicar
o sentido da palavra fey?
A pergunta pareceu causar surpresa a Mrs. Aller-
ton. Ela e Poirot subiam lentamente o rochedo que da-
va para a Segunda Catarata. Quase todos os outros ti-
nham ido de camelo, mas Poirot achou que o balan‡o
do animal poderia lembrar o de um navio. Mrs. Aller-
ton dera como desculpa a preserva‡Æo da sua dignida-
de pessoal.
Tinham chegado na noite anterior a Uadi Halfa.
Duas lanchas haviam, nessa manhÆ, levado todo o gru-
po at‚ ... Segunda Catarata, com excep‡Æo de Richetti,
que insistira em ir sozinho a um lugar deserto chama-
do Semna que, dissera ele, era muito importante por
ter sido a porta da N£bia no tempo de Amenem-
het III, e onde havia uma laje na qual se lia que, ao
entrar no Egipto, os negros tinham de pagar direitos
aduaneiros. Os outros passageiros fizeram tudo para o
dissuadir, embora sem resultado. Signor Richetti esta-
va resolvido e afastou todas as objec‡äes: 1) que a ex-
cursÆo nÆo valia a pena; 2) que nÆo seria poss¡vel con-
seguir um carro; 3) que nÆo poderia obter outro meio
de condu‡"o; 4) que o pre‡o seria proibitivo. Tendo
zombado de l; manifestado incredulidade quanto a 2;
tendo-se prontificado a procurar ele mesmo o carro
quanto a 3; e pedinchando animadamente, em rabe,
ao chegar a 4, finalmente o italiano abalara, arranjan-
do a partida de maneira furtiva e secreta, para evitar
que algum outro turista se lembrasse de lhe fazer com-
panhia.
- Pey? - Mrs. Allerton inclinou a cabe‡a de
lado, como quem reflecte. - Bom, ‚ realmente uma
palavra escocesa. Indica uma esp‚cie de exagerada feli-
cidade que precede o desastre. O senhor sabe o que
quero dizer... � bom de mais para poder durar, e essa
hist¢ria toda...
E ela continuou no mesmo tom, tentando expli-
car o melhor que podia e sabia. Poirot ouvia-a aten-
tamente:
- Agradecido, madame. Agora compreendo. � es-
quisito que tivesse dito isso ontem, sem prever que,
por pouco, Madame Doyle ia escapar ... morte.

116 i 117

Mrs. Allerton estremeceu ligeiramente.
- Deve ter sido por um triz. Acha que algum da-
queles negrinhos fosse capaz de empurrar a pedra por
brincadeira? � o que as crian‡as de todo o mundo gos-
tam mais de fazer... sem m inten‡Æo, ‚ claro.
Poirot encolheu os ombros.
- Talvez, madame.
Mudou de assunto, falando de Maiorca, e fazen-
do v rias perguntas, sob o pretexto de uma poss¡vel
visita.
Mrs. Allerton j gostava muito de Poirot - talvez
por esp¡rito de contradi‡Æo. Percebera que Tim fazia o
poss¡vel para que ela nÆo se mostrasse tÆo camarada do
detective, que ele qualificava de þþhomem sem eira
nem beiraþþ. Mas Mrs. Allerton nÆo compartilhava des-
sa opiniÆo. Provavelmente era a ex¢tica maneira de
Poirot se vestir que aumentava a preven‡Æo de Tim.
Mas Mrs. Allerton achava-o inteligente, e interessante
a sua companhia. Muito compreensivo, tamb‚m...
Viu-se de repente a fazer-lhe confidˆncias, contando-
-lhe a antipatia que tinha por Joana Southwood. Sen-
tiu um grande al¡vio em falar sobre isso. E porque
nÆo? Ele nÆo conhecia Joana, provavelmente nunca vi-
ria a conhecˆ-la. Que mal havia em desabafar?
Neste momento, Tim e Rosalie falavam dela.
Tim estivera a queixar-se, em tom meio brinca-
lhÆo. Sa£de m , nÆo o bastante para despertar interes-
se; nem boa tÆo-pouco, a ponto de lhe permitir que
levasse a vida que desejaria levar. Pouco dinheiro-
nenhuma ocupa‡Æo atraente.
- Vida completamente ins¡pida - terminou ele
em tom descontente.
Rosalie replicou bruscamente:
- Vocˆ tem uma coisa que muita gente invejaria.
- E isso ‚...?
- Sua mÆe.
Tim ficou agradavelmente surpreendido.
- Minha mÆe?... Sim, ‚ extraordin ria. � muito
am vel da sua parte dizer-me isso.

- Acho-a encantadora. Bonita... distinta, calma...
como se nada pudesse atingi-la... E, no entanto, sem-
pre pronta a achar gra‡a e a divertir-se.
Rosalie balbuciava, tal a sua espontaneidade.
Tim sentiu uma onda de simpatia pela rapariga.
Desejou poder retribuir o elogio, mas infelizmente
Mrs. Otterbourne era, na sua opini"o, um dos maiores
perigos para a Humanidade. Ficou embara‡ado por
nÆo poder responder.
Miss Van Schuyler ficara na lancha. NÆo podia ar-
riscar-se a subir de camelo, nem tÆo-pouco a p‚. Dis-
sera, em tom brusco:
- Sinto ter de lhe pedir que fique comigo, Miss Bo-
wers. Era minha inten‡Æo dizer-lhe que fosse, e Corn‚-
lia que ficasse, mas as raparigas de hoje sÆo tÆo ego¡s-
tas! Fugiu sem me dar a m¡nima satisfa‡Æo. E vi-a a
conversar com aquele sujeito desagrad vel e mal-edu-
cado, o tal Ferguson. Corn‚lia desapontou-me bastan-
te. NÆo tem a menor no‡Æo dos h bitos da sociedade.
Miss Bowers replicou, na sua voz desinteressada:
- NÆo tem importƒncia, Miss Van Schuyler. Est
muito quente para se ir a p‚, e eu nÆo sinto atrac‡Æo
alguma pelas selas daqueles camelos. Com certeza, es-
tÆo cheias de pulgas.
Ajeitou os ¢culos, semicerrou os olhos para exami-
nar o grupo que vinha descendo o morro e observou:
- Miss Robson nÆo est com aquele rapaz. Est
com o doutor Bessner.
Miss Van Schuyler rosnou, apenas.
Desde que descobrira que Bessner tinha uma cl¡ni-
ca na Checoslov quia e era dos m‚dicos mais afamados
da Europa, tratava-o com mais cordialidade. Al‚m do
mais, talvez viesse a precisar dos seus servi‡os profis-
sionais, antes de ver terminada aquela viagem.
Quando voltaram para o navio, Linnet deixou es-
capar uma exclama‡Æo de prazer.
- Um telegrama para mim!

118 þþ 119

Agarrou-o vivamente e abriu-o.
- Mas... nÆo compreendo... batatas.... beterra-
bas... que significa tudo isto, Simon?
Simon ia aproximar-se para ler por sobre o ombro
dela, quando uma voz furiosa exclamou:
- Desculpe-me, esse telegrama ‚ para mim.
Ao dizer isto, Richetti arrancou-o bruscamente das
mÆos de Linnet, fulminando-a ao mesmo tempo com o
olhar.
A jovem fitou-o, admirada, depois virou o sobres-
crito.
- Oh, Simon, que tolice a minha! � Richetti, nÆo
Ridgeway... Al‚m disso, o meu nome j nÆo ‚ Ridge-
way. Pe‡o desculpa.
Linnet seguiu o arque¢logo, que se dirigia para a
popa.
- Pe‡o-lhe que me desculpe, Signor Richetti.
O meu nome era Ridgeway, antes de me casar, e nÆo
estou casada h muito tempo...
Interrompeu-se, sorridente, convidando-o tamb‚m
a sorrir do faux pas de uma rec‚m-casada.
Mas nÆo havia d£vida que Richetti nÆo achara gra-
‡a. Nem mesmo a rainha Vit¢ria, nos seus momentos
de maior severidade, poderia ter-se mostrado tÆo des-
contente.
- Deve ter-se cuidado, ao ler um nome. Qualquer
desleixo neste sentido ‚ imperdo vel.
Linnet mordeu os l bios, sentindo o sangue iþbir-
-lhe ao rosto. NÆo estava habituada a ver as suas des-
culpas recebidas daquela forma. Voltou-se e, aproxi-
mando-se do marido, disse em tom col‚rico:
- Estes italianos sÆo insuport veis.
- NÆo fa‡a caso, querida. Vamos ver o grande
crocodilo de marfim que chamou a sua aten‡Æo.
Desceram juntos para terra.
Poirot, que os observava, ouviu a seu lado uma
respira‡Æo ofegante. Voltou-se e deu com Jacqueline
de Bellefort, de mÆos agarradas ... amurada do navio.

A expressÆo do seu rosto alarmou Poirot... J nÆo era
alegre ou maliciosa. Como se dentro dela ardesse um
fogo consumidor...
- Eles j n"o ligam importƒncia - disse ela, fa-
lando baixinho e depressa. - J nÆo os posso atingir...
NÆo se importam que eu esteja ou nÆo aqui... NÆo
posso... nÆo posso feri-los mais.
Poirot notou que as mÆos de Jacqueline tremiam.
- Mademoiselle...
Ela nÆo se p"de conter.
- Oh, agora ‚ tarde... tarde de mais. O senhor ti-
nha razÆo. Eu nÆo devia ter vindo. NÆo nesta via-
gem... Como foi que a classificou? Viagem da alma?
NÆo posso voltar atr s... tenho que continuar. Eles
nÆo serÆo felizes juntos... nÆo serÆo! Prefiro matar...
Afastou-se bruscamente, sem terminar a frase. Poi-
rot seguiu-a com o olhar. Nisto sentiu uma mÆo sobre
o ombro.
- A sua amiguinha parece muito perturbada, Mis-
ter Poirot.
O detective voltou-se, admirando-se ao dar com
um velho conhecido. - Coronel Race!
O homem, de rosto bronzeado, sorriu.
- Que surpresa, hem?
Hercule Poirot vira Race um ano antes, em Lon-
dres. Convivas do mesmo jantar - reuniÆo que termi-
nara com a morte de um estranho sujeito, o dono da
casa.
Poirot sabia que Race era um homem que tanto
podia estar aqui como ali. Geralmente, era encontrado
num dos postos avan‡ados do Imp‚rio, onde havia pe-
rigo de alguma subleva‡Æo.
- EntÆo est em Uadi Halfa - comentou Poirot
com ar pensativo.
- Estou aqui neste navio.
- Quer dizer?.
- Que vou voltar com vocˆs para Shellƒl.
Poirot ergueu as sobrancelhas.

120 þ 121

- Muito interessante. Posso, talvez, oferecer-lhe
um drink?
Foram para o salÆo envidra‡ado, agora completa-
mente deserto. Poirot encomendou um whisky para o
coronel e para si uma laranjada bem a‡ucarada.
- EntÆo vai voltar connosco? - disse o detective
,
depois do primeiro gole. - Iria mais depressa se fosse
pelo navio do governo, que viaja tanto de noite como
de dia, nÆo ‚ verdade?
O rosto de Race enrugou-se num sorriso.
- Acertou, como sempre, Mister Poirot - disse
ele.
- Os passageiros, entÆo?
- Um deles.
- Qual? Eu gostaria de saber?! - perguntou Poi-
rot erguendo os olhos para o tecto.
- Infelizmente nem eu sei.
Poirot fitou-o com ar interessado e o coronel conti-
nuou:
- NÆo h motivo para nÆo lhe contar. Ultimamen-
te, temos tido muitos aborrecimentos aqui, de uma
forma ou de outra. NÆo queremos apanhar as pessoas
que promovem abertamente as agita‡äes e sim os ho-
mens que, inteligentemente, chegam o fogo ... p¢lvora.
Eram trˆs. Um morreu. Outro est na cadeia. þuero o
terceiro... um homem que j cometeu cinco ou seis as-
sass¡nios a sangue-frio. � um dos mais inteligentes agi-
tadores pagos que jamais existiram... E acha-se neste
navio. Sei disso, pelo trecho de uma carta que esteve
nas nossas mÆos. Depois de decifrada pudemos ler:
þþX estar a bordo do Karnak. Fev. de 7 a 13.þþ NÆo di-
zia sob que nome viajaria.
- Alguma descri‡Æo do sujeito?
- NÆo. De ascendˆncia americana, francesa e ir-
landesa. Meio mesti‡o. Isto nÆo nos ajuda muito! Tem
alguma ideia?
- Uma ideia... nÆo ‚ muita coisa - disse Poirot,
pensativo.

Conheciam-se tÆo bem que Race nÆo insistiu. Sabia
que Poirot nÆo falava a nÆo ser que tivesse a certeza do
que dizia.
O detective co‡ou o nariz e disse, em tom descon-
tente:
- Passa-se alguma coisa neste navio que me causa
inquieta‡Æo.
Race fitou-o com ar indagador, mas nada disse.
Poirot continuou:
- Imagine uma pessoa, digamos: A, que prejudi-
cou seriamente uma segunda pessoa, B. Esta pessoa
B deseja vingar-se. Faz algumas amea‡as...
- A e B estÆo neste navio?
- Exactamente - disse Poirot.
- E B, presumo, ‚ uma mulher?
- Acertou.
Race acendeu um cigarro e disse:
- Se eu fosse vocˆ, nÆo me preocuparia. As pes-
soas que dizem que vÆo fazer isto e mais aquilo geral-
mente nÆo fazem nada.
- Principalmente quando se trata das mulheres,
nÆo ‚ o que quer dizer?
Mas Poirot nÆo parecia nada satisfeito.
- H mais alguma coisa? - perguntou Race.
- H , sim. Ontem, A escapou milagrosamente da
morte. Esp‚cie de morte que muito convenientemente
poderia ter sido considerada acidente.
- Tentativa feita por B?
- NÆo; ‚ justamente isso que nÆo compreendo.
B nÆo podia ter tido liga‡Æo alguma com o caso.
- EntÆo foi acidente?
- Creio que sim... mas nÆo gosto desse tipo de
acidentes.
- Tem a certeza de que B est inocente?
- Absoluta.
- Bom, existem dessas coincidˆncias. Por pensar
nisso: quem ‚ A? Uma pessoa desagrad vel?
- Pelo contr rio. Uma rapariga encantadora, rica
e bonita.

122 þ 123

- At‚ parece um romance - comentou Race, sor-
rindo.
- Peut-ˆtre. Mas, repito, nÆo estou nada satisfeito,
meu amigo. Se nÆo me engano, e, para ser exacto, ra-
ramente me engano...
O coronel Race sorriu intimamente deste tÆo t¡pico
coment rio.
...entÆo h realmente motivo para me inquietar
- continuou Poirot. E agora vocˆ aparece-me com ou-
tra complica‡Æo. Vem dizer-me que h um assassino a
bordo do Karnark!
- Mas as suas v¡timas em geral nÆo sÆo raparigas
encantadoras.
Poirot abanou a cabe‡a com ar descontente.
- Tenho medo... Tenho medo... Aconselhei hoje
essa senhora, Mistress Doyle, a ir com o marido para
Cartum, a nÆo voltarem neste navio. Mas nÆo concor-
daram. Pe‡o a Deus que nos deixe chegar a Shellƒl
sem que aconte‡a uma desgra‡a.
- NÆo est a ser muito pessimista?
- Tenho medo - disse o detective simplesmente.
- Sim, eu, Hercule Poirot, tenho medo...

CAPÖTULO XI


No dia seguinte. Noite parada e quente.
Corn‚lia Robson admirava o interior do templo.
O Karnak ancorara novamente em Abu-Simbel, para
que os passageiros pudessem visitar o templo, desta
vez com luz artificial. Extraordin ria diferen‡a! Corn‚-
lia comentou o facto com Mr. Ferguson, que estava a
seu lado.
- Imagine, a gente vˆ muito melhor ... noite!-
exclamou ela. - Todos os inimigos do rei, que foram
degolados por ordem dele... bem vis¡veis, agora. E ali

est um lindo castelo que eu nÆo tinha notado antes.
Gostaria que o doutor Bessner estivesse aqui, para me
explicar o que ‚.
- NÆo compreendo como tolera aquele velho idio-
ta - exclamou Ferguson em tom desanimado.
- NÆo diga isso. � um dos homens mais bondosos
que tenho conhecido.
- Velho pedante.
- Acho que nÆo devia falar dessa forma.
O rapaz segurou-a pelo bra‡o. Iam saindo do tem-
plo, para a noite quente e enluarada.
- Como ‚ que consente em ser apoquentada por
aquele velhote, e dominada e pisada por aquela me-
gera?
- Mister Ferguson!
- NÆo tem um pouco de personalidade? NÆo sabe
que ‚ tÆo boa como ela?
- NÆo sou, nÆo! - exclamou Corn‚lia com since-
ra convic‡Æo.
- NÆo ‚ tÆo rica... foi o que quis dizer.
- NÆo foi, nÆo. A prima Marie ‚ muito culta e...
- Culta! - exclamou o rapaz soltando o bra‡o tÆo
bruscamente como o agarrara. - Essa palavra repug-
na-me.
Corn‚lia fitou-o, alarmada.
- Ela nÆo gosta que vocˆ converse comigo, nÆo ‚
verdade? - continuou o rapaz.
Corn‚lia corou, muito embara‡ada, mas nada res-
pondeu.
- E porquˆ? Por pensar que nÆo sou do seu n¡vel
social? Bah... NÆo sente o sangue ferver-lhe nas veias?
- Gostaria que nÆo fosse tÆo exaltado - balbu-
ciou Corn‚lia.
- NÆo compreende entÆo, vocˆ, uma americana,
que todos nascem livres e iguais?
- De maneira nenhuma! - protestou Corn‚lia.
- Minha menina, isso faz parte da sua Consti-
tui‡Æo!

124 þ 125

- A prima Marie diz que os pol¡ticos nÆo sÆo ca-
valheiros. E, naturalmente, nÆo somos todos iguais.
Que tolice! Sei que nÆo sou bonita. Isso ...s vezes en-
tristecia-me, mas j me conformei. Gostaria de ser be-
la e elegante como Mistress Doyle, mas nÆo sou assim
,
e de nada vale ficar aborrecida.
- Mistress Doyle! - exclamou Ferguson em tom
de profundo desprezo. - � um tipo de mulher que
devia ser morta para exemplo.
Corn‚lia fitou-o com ar ansioso.
- Com certeza ‚ por causa da sua digestÆo-
diagnosticou ela. - Tenho uma pepsina especial, que
a prima Marie j experimentou. Quer tamb‚m experi-
mentar?
- Vocˆ ‚ imposs¡vel! - exclamou Ferguson, afas-
tando-se dali.
Corn‚lia dirigiu-se para o navio. Ia a chegar ao
passadi‡o quando Ferguson a alcan‡ou de novo.
- Vocˆ ‚ de facto a melhor pessoa neste navio-
disse ele. - NÆo se esque‡a disso!
Corada de prazer, Corn‚lia dirigiu-se para o salÆo
envidra‡ado.
Miss Van Schuyler conversav--þom o Dr. Bessner
- conversa agrad vel, a respeito de certos aristocr ti-
cos clientes do m‚dico.
Corn‚lia disse em tom contrito:
- Espero nÆo me ter demorado de mais, prima
Marie.
A velhota consultou o rel¢gio e replicou secamente:
- NÆo foi l muito r pida, minha amiga. E onde
p"s a minha ‚charpe de veludo?
Corn‚lia procurou ... sua volta, oferecendo-se depois
para ir ver na cabina.
- Claro que nÆo a encontrar na cabina! - excla-
mou a velha. - Estava aqui a meu lado depois do jan-
tar, e eu nÆo sa¡ deste salÆo. Estive sentada ali, naque-
la cadeira.
Corn‚lia iniciou nova busca.

- NÆo consigo encontr -la, prima Marie.
- Tolice. Procure de novo.
Mais parecia uma ordem dada a um cÆo; e, como
sempre, Corn‚lia obedeceu humildemente.
O silencioso Mr. Fanthorp, que estava sentado ali
perto, ergueu-se para a ajudar. Mas a ‚charpe nÆo apa-
receu.
O dia fora tÆo quente e abafado que muita gente se
retirara cedo, depois de ter ido a terra admirar o templo.
Os Doyle jogavam o br¡dege, a uma mesa de canto, com
Pennington e Race. O £nico ocupante do salÆo era
Hercule Poirot, que parecia morto de sono.
Ao passar por ele (rainha com a sua comitiva!)
Miss Van Schuyler parou para lhe dizer algumas pala-
vras. O detective ergueu-se prontamente, reprimindo
um enorme bocejo.
- S¢ agora fiquei a saber quem ‚, Mister Poirot
- disse a americana. - Um velho amigo meu, Rufus
Van Aldin, j me falara do senhor. Preciso que me
conte uma das suas aventuras, quando tiver ocasiÆo.
Dito isto, passou adiante com uma am vel, se bem
que condescendente, inclina‡Æo de cabe‡a.
De olhos reluzentes, apesar da sonolˆncia, Poirot
inclinou-se exageradamente diante dela.
Depois bocejou de novo. Sentia-se pesado e em-
brutecido de tanto sono e mal podia ficar de olhos
abertos. Olhou de relance para os jogadores de br¡dege,
absortos no jogo, depois para Fanthorp, que parecia
muito interessado na leitura de um livro. NÆo havia
mais ningu‚m no salÆo.
Passou pela porta girat¢ria, entrando no tombadi-
lho. Jacqueline de Bellefort, que vinha apressadamen-
te em direc‡Æo contr ria, quase colidiu com ele.
- Pardon, mademoiselle.
- Est com cara de sono, Mister Poirot.
- Mais oui - confessou ele francamente. - Mal
posso abrir os olhos. Tivemos um dia muito abafado,
opressivo.

126 127

- Sim... - disse ela, parecendo reflectir alguns
segundos. - Sim, dia em que tudo parece... estalar!
Quebrar! A gente nÆo pode mais...
A sua voz era rouca e apaixonada. Jackie olhara,
nÆo para Poirot, mas para a areia da costa. As suas
mÆos estavam convulsas, r¡gidas. S£bito, a tensÆo pa-
receu diminuir.
- Boa noite, Mister Poirot.
- Boa noite, mademoiselle.
Os olhos de ambos encontraram-se, mas somente
durante uns segundos. No dia seguinte, ao relembrar
este olhar, Poirot chegou ... conclusÆo de que nele hou-
vera um apelo...
Poirot dirigiu-se para a sua cabina e Jacqueline en-
trou no salÆo.
i
Depois de ter atendido Miss Van Schuyler em mui-
tas coisas £teis e in£teis, Corn‚lia pegou num bordado
e voltou para o salÆo. NÆo sentia sono. Pelo contr rio,
estava bem acordada e ligeiramente excitada.
Os jogadores de br¡dege continuavam absortos no
jogo. Fanthorp ainda lia tranquilamente. Corn‚lia sen-
tou-se e come‡ou a bordar.
De repente, a porta abriu-se e Jacqueline apareceu.
Ficou ali parada, a cabe‡a lan‡ada para tr s. Depois
tocou a campainha e aproximou-se de Corn‚lia, sen-
tando-se a seu lado.
- Esteve em terra?
- Estive - respondeu Corn‚lia. - Achei tudo
lindo ao luar.
- Sim, ‚ uma noite linda... Verdadeira noite de
lua-de-mel.
O seu olhar procurou a mesa do br¡dege, descan-
sando um momento sobre Linnet Doyle.
O criado veio atender a campainha.
Jacqueline encomendou um gin duplo. Ao ouvir a
ordem, Simon lan‡ou-lhe um olhar r pido, onde havia
uma expressÆo ligeiramente ansiosa.

- Simon, esperamos a sua marca‡Æo - disse
Linnet.
Jacqueline p"s-se a cantarolar baixinho. Quando o
criado voltou, ela ergueu o copo e exclamou: þþAo cri-
me!þþ Bebeu de um s¢ trago e encomendou outro.
Simon olhou de novo para aquele lado. Come‡ou a
distrair-se nas marca‡äes; Pennington, seu parceiro,
chamou-lhe duas ou trˆs vezes a aten‡Æo.
Jacqueline come‡ou de novo a cantarolar, a princ¡-
pio baixinho, depois um pouco mais alto:
Ele era dela, e abandonou-a...
- PerdÆo - disse Simon a Pennington. - Foi to-
lice minha nÆo voltar ao seu naipe. E assim eles ganha-
ram o rubber.
Linnet ergueu-se.
- Estou com sono. Acho que vou para a cama.
- Est mesmo na hora - declarou o coronel Race.
- De acordo - disse Pennington.
- Vocˆ vem, Simon?
Doyle respondeu lentamente:
- Ainda nÆo. Creio que vou primeiro tomar um
drink.
Linnet inclinou a cabe‡a e saiu com Race. Pen-
nington acabou o seu whisky e acompanhou-os.
Corn‚lia come‡ou a recolher as linhas e o bordado.
- NÆo v ainda, Miss Robson - pediu Jacqueli-
ne. - NÆo v por favor. Estou com vontade de fazer
desta noite uma noite e tanto! NÆo me abandone.
Corn‚lia sentou-se novamente.
- N¢s, raparigas, precisamos ficar solid rias!-
disse Jacqueline, atirando a cabe‡a para tr s e soltando
uma gargalhada sem alegria alguma.
O criado trouxe o segundo gin.
- Tome alguma coisa - ofereceu Jacqueline.
- NÆo, muito agradecida - respondeu Corn‚lia.
Jacqueline inclinou a cadeira para tr s e recome‡ou
a cantarolar, mais alto agora:
Ele era dela, e abandonou-a...

128 129

Mr. Fanthorp virou uma p gina do livro: Europe
from Within.
Simon apanhou uma revista.
- Acho que vou para a cama - disse Corn‚lia.-
Est a fazer-se tarde.
- NÆo pode ir j - disse Jacqueline. - NÆo lho
permito sem que me conte a sua vida.
- Bom... NÆo h muito que contar... - balbu-
ciou Corn‚lia. - Tenho vivido sempre em casa, quase
nÆo viajo. � esta a minha primeira viagem ... Europa.
Estou encantada...
Jacdueline soltou nova gþgalhada.
- E uma criatura feliz, nÆo ‚? C‚us, eu gostaria
de ser assim.
- Oh, gostaria? Mas garanto-lhe que...
Corn‚lia nÆo terminou, parecendo muito embara-
‡ada.
NÆo havia d£vida que Miss de Bellefort estava a
beber de mais. Bom, isso nÆo era novidade para Cor-
n‚lia. Tinha visto muita gente beber no tempo da Lei
Seca. Mas havia alguma coisa... Jacqueline falava com
ela... olhava para ela... e no entanto Corn‚lia sentia
que as suas palavras eram dirigidas a outra pessoa.
Mas s¢ havia duas pessoas no salÆo: Mr. Fanthorp
e Mr. Doyle. O primeiro parecia absorto na leitura; o
segundo tinha um ar esquisito... uma expressÆo vigi-
lante no olhar...
Jacqueline disse de novo:
- Conte-me a sua vida.
Obediente, como sempre, Corn‚lia fez-lhe a vonta-
de. Conversou pesadamente, dando pormenores in£-
teis da sua vida quotidiana. Estava tÆo pouco habitua-
da a ser ouvida! O seu papel era ouvir, ouvir sempre.
E, no entanto, Jacqueline parecia querer saber.
Quando Corn‚lia parava, a outra animava-a a continuar:
- Vamos, conte-me mais alguma coisa.
E, portanto, Corn‚lia continuou (þþA mamÆ, natu-
ralmente, tem uma sa£de muito delicada; em certos

130

dias s¢ come cereais!þþ) sabendo, infelizmente, que tu-
do o que dizia era supinamente desinteressante, mas
apesar disso lisonjeada pela aten‡Æo que a outra lhe
dispensava. Mas estaria Jacqueline realmente interes-
sada? NÆo estaria, por acaso, ouvindo alguma outra
coisa, ou antes: esperando ouvir outra coisa? Olhava
para Corn‚lia, sim, mas nÆo haveria algu‚m naquela
sala...
- E, naturalmente, temos aulas de arte, e o ano
passado fiz um curso de... (Que horas seriam? Tard¡s-
simo, com certeza. Estivera falando, falando sem pa-
rar. Se ao menos acontecesse alguma coisa...)
Imediatamente, como para que o seu desejo ficasse
satisfeito, alguma coisa aconteceu que, no primeiro
momento, lhe pareceu muito natural.
Jacqueline voltou a cabe‡a, e disse a Simon Doyle:
- Toque a campainha, Simon. Quero outro drink.
O rapaz ergueu os olhos da revista que folheava e
disse calmamente:
- Os criados j foram para a cama. J passa da
meia-noite.
- Estou a dizer-lhe que quero outro drink.
- Vocˆ j bebeu de mais, Jackie.
Ela voltou-se bruscamente para o rapaz.
- Que diabo tem vocˆ com isso?
Ele encolheu os ombros e respondeu:
- Nada.
A rapariga observou-o durante um ou dois minu-
tos. Depois:
- Que aconteceu, Simon? Est com medo?
Ele nÆo respondeu, e pegou de novo na revista,
com exagerada calma.
Corn‚lia murmurou:
- C‚us... tÆo tarde, j ... Preciso...
Come‡ou a remexer nas suas coisas, deixou cair o
dedal.
- NÆo v ainda - disse Jacqueline. - Quero ter
outra mulher aqui ao meu lado, para me apoiar.-

131

Deu uma gargalhada e continuou: - Sabe por que
motivo Simon est com medo? Receia que lhe conte a
hist¢ria da minha vida.
- Oh!... - balbuciou Corn‚lia.
Jacqueline disse em voz bem clara:
- Porque, sabe vocˆ, n¢s fomos noivos.
- Oh, nÆo diga isso!
Corn‚lia estava dominada por emo‡äes contr rias.
Sentia-se profundamente embara‡ada, mas ao mesmo
tempo estava excitada, curiosa. Que expressÆo... som-
bria, no rosto de Simon Doyle!
- Sim, ‚ uma hist¢ria muito triste - disse Jac-
queline em voz abafada e ir¢nica. - Ele tratou-me
muito mal; nÆo ‚ verdade, Simon?
Simon Doyle disse asperamente:
- V para a cama, Jackie. Vocˆ est bˆbeda.
- Se est constrangido, meu caro Simon, pode
sair da sala.
Simon olhou para ela. A mÆo que segurava a revis-
ta tremia ligeiramente. Mas declarou em tom firme:
- NÆo saio.
Corn‚lia murmurou pela terceira vez:
- Tenho de ir... ‚ tÆo tarde...
- Vocˆ nÆo vai - disse Jacqueline, estendendo a
mÆo e obrigando-a a sentar-se. - Vai ficar e ouvir
o que tenho para lhe dizer.
- Jackie, vocˆ est a fazer um papel rid¡culo!-
exclamou Simon asperamente. - Pelo amor de Deus,
v para a cama.
Jacqueline endireitou-se na cadeira. Dos seus l -
bios saiu, sibilante, uma torrente de palavras encoleri-
zadas:
- Est com medo de uma cena, nÆo est ? Isso
porque vocˆ ‚ tÆo inglˆs... tÆo reservado! Quer que eu
proceda þþcorrectamenteþþ, nÆo ‚ verdade? Mas pouco
me importo de ser correcta ou nÆo! E melhor sair da-
qui, porque vou falar... e muito.
Jim Fanthorp fechou com cuidado o livro, bocejou
discretamente, consultou o rel¢gio, levantou-se e saiu.

Atitude muito inglesa e muito pouco convincente.
Jacqueline deu uma reviravolta na cadeira e de no-
vo fitou Simon.
- Seu grand¡ssimo idiota, pensou que podia tra-
tar-me como me tratou, sem sofrer coisa alguma?-
exclamou em voz rouca e pesada.
Simon abriu os l bios, mas resolveu calar-se. Con-
tinuou im¢vel, como se achasse que a c¢lera se extin-
guiria por si, caso nada dissesse para provocar Jacque-
line.
A voz dela era pesada, confusa. Corn‚lia parecia
fascinada, pois n"o estava habituada a ver emo‡äes tÆo
fortes assim postas a nu.
- Disse-lhe que seria mais f cil mat -lo do que per-
mitir que pertencesse a outra mulher... Acha que falei s¢
por falar? Engana-se. Estive apenas... ... espera, vocˆ per-
tence-me! Ouve? � meu.
Nem assim Simon falou. A mÆo de Jacqueline pro-
curou qualquer coisa na bolsa. A rapariga inclinou-se
para a frente.
- Eu disse-lhe que o mataria, e disse a verdade...
- Jacqueline ergueu a mÆo, onde brilhou qualquer coi-
sa. - Vou mat -lo como a um cÆo, cÆo que vocˆ ‚...
Finalmente, Simon pareceu acordar. Ergueu-se de
um salto, mas no mesmo instante ela premiu o gatilho...
Simon torceu-se, caindo na cadeira. Corn‚lia deu
um grito e correu para o tombadilho. Jim Fanthorp
estava ali, debru‡ado sobre a amurada.
- Mister Fanthorp... Mister Fanthorp...
O rapaz correu. Corn‚lia agarrou-lhe as mÆos, fa-
lando incoerentemente.
- Ela matou-o! Oh, ela matou-o!
Simon Doyle estava im¢vel na cadeira onde havia
ca¡do meio atravessado. Jacqueline parecia paralisada.
Tremia violentamente e com os olhos dilatados fitava a
mancha rubra que, pouco a pouco, se espalhava pela
cal‡a de Simon, bem abaixo do joelho, no ponto onde
ele comprimia um len‡o.

132 þ 133

Jacqueline balbuciou:
- Eu nÆo tinha inten‡Æo... Oh, meu Deus, eu nÆo
tinha inten‡Æo...
O rev¢lver desprendeu-se-lhe dos dedos nervosos,
caindo no chÆo com um ru¡do seco. Ela deu-lhe um
pontap‚ e a arma foi parar debaixo de uma poltrona.
Simon murmurou em voz fraca.
- Fanthorp, pelo amor de Deus... vem gente...
Diga que nÆo foi nada... um acidente... ou seja l o
que for... � preciso evitar o escƒndalo.
Fanthorp inclinou a cabe‡a, como quem com-
preendeu perfeitamente. Virou-se para a porta, dizen-
do ao assustado n£bio que apareceu neste momento:
- Muito bem... muito bem... Foi uma brincadeira!
O negro pareceu perplexo; depois, tranquilizou-se.
Sorriu, arreganhando os dentes e saiu.
Fanthorp voltou-se para os outros:
- Est certo. NÆo creio que ningu‚m mais tenha
ouvido. Mais pareceu o estalo de uma rolha, ao saltar.
Agora. . .
Parou, sobressaltado. Jacqueline come‡ara a chorar
histericamente.
- Oh, meu Deus, eu preferia estar morta... Vou
matar-me... Oh, que fiz eu, que fiz eu?
Corn‚lia correu para o seu lado.
- Calma, menina, calma.
De testa h£mida e rosto contra¡do de dor, Simon
disse, ansiosamente: - Levem-na daqui. Pelo amor
de Deus, levem-na daqui! Fanthorp, obrigue-a a ir pa-
ra a cabina. Por favor, Miss Robson, v chamar aquela
sua enfermeira.
Olhou, suplicante, para um e para outro e con-
tinuou:
- NÆo a deixem sozinha... Fa‡am com que a en-
fermeira fique com ela. Depois vÆo chamar Bessner.
Pelo amor de Deus, nÆo deixem que minha mulher ve-
nha a saber disto.
Jim Fanthorp inclinou a cabe‡a. Aquele silencioso
rapaz sabia mostrar-se calmo e competente numa crise.

Ele e Corn‚lia levaram a chorosa Jacqueline para a
cabina. Ela continuava a lutar, os solu‡os pareceram
recrudescer.
- Vou afogar-me... Vou afogar-me... NÆo mere‡o
viver... Oh, Simon... Simon...
- V chamar Miss Bowers - disse Fanthorp a
Corn‚lia - Fico aqui ... espera.
Corn‚lia inclinou a cabe‡a e apressou-se a obedecer.
Assim que ela saiu, Jacqueline agarrou o bra‡o de
Fanthorp.
- A perna de Simon... est a sangrar... quebra-
da... Ele pode morrer. Preciso ir vˆ-lo... Oh, Simon...
Simon... Como ‚ que fui fazer aquilo?
Ela erguera a voz. Fanthorp recomendou:
- Calma... calma... Nada acontecer a Mister Doyle.
A jovem come‡ou a lutar.
- Deixe-me. Quero atirar-me ... gua... Quero
morrer.
Segurando-a pelos ombros, Fanthorp obrigou-a de
novo a deitar-se.
- Fique quieta. NÆo fa‡a barulho. Procure domi-
nar-se. NÆo vai acontecer coisa alguma, garanto-lhe.
Com grande al¡vio de Fanthorp, Jacqueline pare-
ceu acalmar-se. Ele deu gra‡as a Deus quando as cor-
tinas se abriram e a competente Miss Bowers, metida
num horr¡vel quimono, entrou, acompanhada por Cor-
n‚lia.
- EntÆo, entÆo, que ‚ isto? - perguntou viva-
mente a enfermeira, tomando conta da situa‡Æo, sem
demonstrar surpresa ou alarme.
Fanthorp deu-se por feliz por deixar Jacqueline en-
tregue aos seus cuidados e apressou-se a ir procurar o
Dr. Bessner.
Bateu, entrando quase imediatamente.
- Doutor Bessner?
Ouviu um ronco terr¡vel e logo em seguida uma
voz assustada:


134 135

\


- Sim? Que houve?
Fanthorp acendera a luz. O m‚dico piscou os
olhos, parecendo uma coruja enorme.
- Doyle... Foi ferido. Miss de Bellefort deu-lhe
um tiro. Est no salÆo. O senhor pode vir examin -lo?
O m‚dico agiu prontamente. Fez algumas r pidas
perguntas, enfou um roupÆo e os chinelos, pegou na
maleta e acompanhou o inglˆs at‚ ao salÆo.
Simon conseguira abrir uma janela a seu lado,
apoiando ali a cabe‡a, procurando respirar o ar puro
da noite. O rosto dele tinha uma palidez impressio-
nante.
O m‚dico aproximou-se.
- EntÆo? Que aconteceu?
Um len‡o ensanguentado estava ca¡do no chÆo, e
no tapete havia uma mancha rubra.
O exame do m‚dico foi pontilhado de exclama‡äes
e grunhidos teut¢nicos.
- Sim, isto ‚ grave... Fractura... E grande perda
de sangue. Herr Fanthorp, precisamos de o levar para
a cabina. Assim... Ele nÆo pode andar. Temos que pe-
gar nele... assim.
Quando levantavam Simon, Corn‚lia apareceu ...
porta.
O m‚dico deixou escapar um grunhido de satisfa‡Æo.
- Ach, ‚ a senhora? Goot. Venha connosco. Tenho
necessidade de quem me auxilie. A senhora ser-me-
mais £til do que aqui o nosso amigo. Ele j est p lido.
Fanthorp perguntou com um sorriso amarelo:
- Quer que v chamar Miss Bowers?
O m‚dico lan‡ou a Corn‚lia um olhar cr¡tico e de-
clarou:
- Esta senhora servir . NÆo vai desmaiar, ou coisa
parecida, hem?
- Farei o que me disser que fa‡a - replicou Cor-
n‚lia vivamente.
Bessner inclinou a cabe‡a com ar satisfeiro.
A pequena procissÆo seguiu pelo tombadilho.

Os dez minutos seguintes foram dedicados ao tra-
tamento; Mr. Fanthorp nÆo os apreciou em absoluto.
Sentia-se intimamente envergonhado da coragem de-
monstrada por Corn‚lia.
- Bom, ‚ s¢ o que posso fazer - disse Bessner fi-
nalmente. E batendo no ombro de Simon, com ar
aprovador: - Foi um her¢i, meu amigo.
Depois enrolou a manga da camisa do ferido e ti-
rou uma seringa da maleta.
- Vou agora dar-lhe um sedativo, para poder dor-
mir. E quanto ... sua mulher?
- Ela nÆo precisa saber at‚ amanhÆ - disse Si-
mon, fracamente. - Eu... ningu‚m deve censurar
Jackie... Foi tudo por culpa minha. Tratei-a muito
mal... pobre menina... nÆo sabia o que estava a fazer.
O m‚dico inclinou a cabe‡a.
- Sim, sim, compreendo.
- � minha a culpa - insistiu Simon. Os seus
olhos procuraram os de Corn‚lia. - Algu‚m precisa
ficar com ela... Poderia... fazer alguma loucura...
O m‚dico deu-lhe uma injec‡Æo. Corn‚lia disse,
muito compenetrada:
- NÆo se preocupe, Mister Doyle. Miss Bowers
vai ficar com ela toda a noite.
Os olhos de Simon tiveram um brilho de gratidÆo.
Relaxou os m£sculos e cerrou as p lpebras. De repen-
te, abriu-os novamente.
- Fanthorp? O rev¢lver... nÆo devem deix -lo...
por ali... os criados iriam encontr -lo... de manhÆ.
O inglˆs inclinou a cabe‡a.
- Est certo. Vou eu mesmo busc -lo.
Saiu e percorreu o tombadilho. Miss Bowers apare-
ceu ... porta da cabina de Jacqueline.
- Est bem. Dei-lhe uma injec‡Æo de morfina-
anunciou a enfermeira.
- Mas a senhora vai ficar ao lado dela?
- Sim. A morfina tem um efeito excitante sobre
certas pessoas. Ficarei com ela toda a noite.

136 137

Fanthorp foi para o salÆo.
Alguns minutos mais tarde, o m‚dico ouviu uma
pancada na sua porta.
- Doutor Bessner?
- Sim - respondeu o interpelado, aparecendo
imediatamente.
Fanthorp chamou-o para o tombadilho.
- Oi‡a... NÆo consigo encontrar o rev¢lver...
- Que me diz?
- O rev¢lver. Caiu da mÆo da rapariga... Ela deu-
-lhe um pontap‚ e ele foi parar debaixo de uma das
poltronas. Mas nÆo est ali.
Entreolharam-se por segundos.
- Mas quem poderia tˆ-lo apanhado?
Fanthorp encolheu os ombros.
Bessner continuou:
- Esquisito... Mas, quanto a isso, nÆo vejo o que
possamos fazer.
Perplexos e ligeiramente alarmados, os dois ho-
mens separaram-se.

CAPÖTULO XII


Hercule Poirot acabava de tirar a espuma do rosto
rec‚m-barbeado, quando ouviu uma pancada na porta.
Quase que imediatamente Race entrou sem cerim¢nia
alguma.
- O seu instinto nÆo o enganou. Aconteceu!-
disse ele ao detective.
Poirot endireitou-se e perguntou bruscamente:
- Aconteceu o quˆ?
- Linnet Doyle morreu; levou um tiro na cabe‡a
ontem ... noite.
Poirot ficou uns minutos em silˆncio. Duas cenas
apareceram vivamente diante dos seus olhos... Uma

S/S KARNAK
CONV�S


SALµO

PLANTA

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JAMES
FANTH'OáP
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38 39 26 2)
ANDREW LINNET
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34 B5 3Q 3þ
MPSAtþþDMIyS HERCULE
QTrf ttBOultrþE PO I RQT
33 32
MISI COWONEL
y BOwEaB áþCE
Iþr oþ
CABINAS

138

jovem, em AssuÆo, dizendo em tom ofegante: þþGosta-
ria de lhe encostar o rev¢lver ... cabe‡a e premir o gati-
lho...v E outra, mais recente, a mesma voz dizendo:
þþA gente sente que nÆo pode continuar... que qual-
quer coisa vai estalar. þþ E aquela fugidia expressÆo de
s£plica no olhar. Que acontecera com ele, que nÆo res-
pondera ao apelo? Estivera cego, surdo, imbecilizado,
com aquela vontade de dormir.
Race continuou:
- Como tenho certa posi‡Æo oficial, mandaram-me
chamar, entregando-me o caso. O navio devia partir
daqui a meia hora, mas s¢ partir com ordem minha.
H , naturalmente, a possibilidade de o assassino ter
vindo de terra.
Poirot sacudiu negativamente a cabe‡a. Race pare-
ceu concordar com ele.
- Tem razÆo. A hip¢tese deve ser afastada. Bom,
meu amigo, assuma o comando. Vocˆ entende mais do
que eu do assunto.
Poirot, que se vestira com grande rapidez, voltou-
-se para o amigo, dizendo:
- Estou ...s suas ordens.
Sa¡ram para o tombadilho.
- Bessner j deve estar l - disse Race. - Man-
dei-o chamar imediatamente.
Havia, no navio, quatro cabinas de luxo, com casa
de banho. Das duas a bombordo, uma era ocupada por
Bessner, a outra por Andrew Pennington. A estibor-
do, a primeira era de Miss Van Schuyler e a seguinte
de Linnet Doyle. A de Simon ficava cont¡gua a esta.
Um criado muito p lido e nervoso, do lado de fora
da cabina de Linnet, abriu a porta para os dois ho-
mens entrarem. Bessner estava debru‡ado sobre a cama,
mas ergueu a cabe‡a e grunhiu quando os viu chegar.
- Que nos diz, doutor Bessner, deste neg¢cio?-
perguntou Race.
O m‚dico co‡ou com ar pensativo o queixo ainda
nÆo barbeado.

- Ach! Ela levou um tiro ... queima-roupa. Veja...
aqui... por cima da orelha... onde a bala entrou. Uma
bala muito pequena, de calibre vinte e dois, diria eu.
O rev¢lver quase encostado ... cabe‡a... Veja, a pele es-
t chamuscada.
De novo, e com tristeza, Poirot se lembrou das pa-
lavras que ouvira em Assu"o.
Bessner continuou:
- Ela estava a dormir... NÆo houve luta... O as-
sassino entrou no escuro e matou-a, sem que ela tives-
se percebido coisa alguma.
- Ah! Non! - exclamou Poirot, sentindo-se ul-
trajado no seu senso psicol¢gico. (Jacqueline de Belle-
fort, de rev¢lver em punho, entrando sorrateiramente
numa cabina ...s escuras... NÆo, isto nÆo estava þþcertoþþ.)
Bessner fitou-o atrav‚s das grossas lentes dos ¢culos
e declarou:
- Mas garanto-lhe que foi o que aconteceu.
- Sim, sim. NÆo estava a pensar no que me disse.
NÆo quis contradizˆ-lo.
Bessner deixou escapar um grunhido de satisfa‡Æo.
Poirot adiantou-se. Linnet Doyle estava deitada de
lado, em posi‡"o natural e calma. Mas, acima do ouvi-
do havia um pequeno orif¡cio, e um c¡rculo de sangue
seco ... volta dele.
O detective sacudiu tristemente a cabe‡a. Nisto, o
seu olhar fixou-se na parede, deixando escapar uma
exclama‡Æo de espanto.
A brancura da parede estava maculada por uma
grande letra J tra‡ada com um l¡quido escuro.
Durante segundos, Poirot nÆo p"de desviar os
olhos; inclinou-se depois e com muito cuidado ergueu
a mÆo direita da morta. Um dos dedos estava mancha-
do de vermelho escuro...
- Nom d'un nom d'un nom!
- Hem? Que sucedeu? - perguntou Race.
O m‚dico ergueu os olhos e disse:
- Ach! Isso a¡?

140 þ 141

- Com os diabos! - exclamou Race. - Que me
diz a isto, Poirot?
- Vocˆ pergunta-me o que ‚ isto? Eh bien, ‚ mui-
to simples, nÆo ‚? Mistress Doyle est a morrer, deseja
indicar o seu assassino, e escreve com o dedo molhado
no pr¢prio sangue a inicial de quem a matou. Oh,
sim, ‚ simplic¡ssimo.
- Ach! Mas...
O m‚dico ia dizer qualquer coisa, mas um gesto
brusco do coronel deteve-o.
- EntÆo ‚ essa a sua opiniÆo? - perguntou Race
lentamente.
Poirot voltou-se para ele, inclinando afirmativa-
mente a cabe‡a.
- Sim, sim. � como j disse, de uma incr¡vel sim-
plicidade. TÆo conhecido, nÆo ‚ verdade? Acontece
tantas vezes em romances policiais! � mesmo um pou-
co vieux jeu! Faz-me acreditar que o assassino seja um
pouco... antiquado!
Race respirou profundamente.
- Compreendo. A princ¡pio, pensei...
Poirot interrompeu-o, sorrindo:
- Que eu acreditava nos velhos clich‚s melodra-
m ticos? Mas, perdÆo, doutor Bessner; o senhor ia a
dizer?. ..
O m‚dico exclamou na sua voz gutural:
- Que diz? Bah! � absurdo! Tolice! A pobre se-
nhora morreu instantaneamente. Embeber o dedo no
sangue (como os senhores podem ver, h muito pouco
sangue!) e escrever a letra J na parede... Que tolice!
Que melodram tica tolice!
- C'est de l'enfantillage.
- Mas foi feito com alguma inten‡Æo - disse Race.
- Naturalmente - declarou Poirot, com uma ex-
pressÆo grave.
- Que significa esta letra J? - perguntou Race.
- Jacqueline de Bellefort - declarou prontamen-
te o detective. - Uma jovem que h menos de uma

semana me disse que nada lhe daria maior prazer do
que... - Interrompeu-se, depois citou deliberadamen-
te: - þþencostar-lhe o meu querido rev¢lver ... cabe‡a e
apertar o gatilho...þþ
- Gott in Himmel! - exclamou o m‚dico.
Houve um momento de silˆncio. Race respirou
profundamente e perguntou:
- E foi exactamente o que aconteceu?
Bessner inclinou a cabe‡a.
- Sim, foi. Rev¢lver de calibre muito pequeno,
provavelmente vinte e dois. A bala, naturalmente, tem
que ser extra¡da, mas podemos dar isso como certo.
- Qual a hora da morte?
De novo Bessner co‡ou o queixo, fazendo um ru¡-
do spero. Disse:
- NÆo posso ser muito preciso. SÆo agora oito ho-
ras. Acho que, levando-se em conta a temperatura de
ontem ... noite, ela est morta no m¡nimo h seis horas
e no m ximo h oito.
- Isso fixa a hora da morte entre a meia-noite e as
duas da manhÆ?
- Exactamente.
Houve uma pausa. Race olhou ... volta e perguntou:
- E quanto ao marido? Com certeza dorme na ca-
bina cont¡gua.
- No momento presente est a dormir na minha
cabina - disse o dr. Bessner.
Os outros fitaram-no at¢nitos.
Bessner abanou a cabe‡a v rias vezes.
- Ach, isso mesmo. Vejo que nÆo sabem do inci-
dente... Mister Doyle levou um tiro, ontem ... noite,
no salÆo.
- Tiro? Mas, quem?...
- Miss Jacqueline de Bellefort.
- Est ferido gravemente? - perguntou Race em
tom brusco.
- Sim, houve fractura. Tomei, no momento, as
providˆncias necess rias, mas, assim que for poss¡vel,

142 þ 143

Mister Doyle ter de tirar uma radiografia e procurar
receber tratamento adequado, que nÆo lhe pode ser
dado neste navio.
- Jacqueline de Bellefort... - murmurou Poirot.
O seu olhar procurou de novo a letra J, na parede.
Race disse bruscamente:
- Se nÆo h nada mais para se fazer aqui, vamos
ent"o para baixo. A gerˆncia p"s a sala de fumo ... nos-
sa disposi‡Æo. � imperativo conhecer os pormenores
do que aconteceu ontem ... noite.
Sa¡ram da cabina. Race fechou a porta e tirou a
chave, dizendo:
- Podemos voltar mais tarde. O mais urgente ‚ ter
uma ideia exacta dos acontecimentos.
Foram para o tombadilho de baixo, onde encontra-
ram o gerente do Karnak que, parecendo pouco ... von-
tade, esperava ... porta da sala de fumo.
O pobre homem estava muito perturbado, aflito
por deixar a responsabilidade ao coronel Race.
- Acho que, levando em conta a sua posi‡Æo ofi-
cial, nÆo h melhor solu‡Æo do que deixar tudo nas
suas mÆos. Recebi ordem de me p"r ... sua disposi‡Æo
sobre aquele outro... assunto. Se quiser assumir o co-
mando, providenciarei para que tudo seja feito de
acordo com a sua vontade.
- Muito bem. Para come‡ar, gostaria que, duran-
te o inqu‚rito, esta sala ficasse ... minha disposi‡Æo e de
Mister Poirot.
- Perfeitamente.
- Por enquanto, ‚ s¢ isto. Continue com o seu
trabalho. Sei onde devo procur -lo, se precisar de al-
guma coisa.
O gerente saiu, parecendo mais aliviado.
Race voltou-se para o m‚dico:
- Sente-se, Bessner, e conte-nos o que aconteceu
ontem ... noite.
Ele e Poirot ouviram em silˆncio a narrativa do
m‚dico.

- Muito claro - comentou Race, depois de Bes-
sner concluir. - A rapariga estava excitada, mais ain-
da ficou depois de dois ou trˆs drinks, acabando por
disparar o rev¢lver contra Doyle. Depois, foi ... cabina
de Mrs. Doyle e matou-a.
Mas o m‚dico acenou com a cabe‡a.
- NÆo, nÆo concordo. NÆo acho isso possivel. Para
come‡ar, ela nÆo teria escrito a sua pr¢pria inicial na
parede. Seria rid¡culo, nicht wahr?
- Poderia ter agido assim, se estivesse tÆo cega-
mente enciumada como parecia - disse Race. - Tal-
vez tivesse querido assinar... Bom, assinar o crime.
Poirot abanou a cabe‡a.
- NÆo; nÆo creio que agisse assim tÆo cruamente.
- EntÆo s¢ h outra explica‡Æo. Algu‚m escreveu
aquele J, com inten‡Æo de atrair as suspeitas sobre a
jovem.
O m‚dico concordou:
- Sim, e o criminoso foi infeliz... porque, o se-
nhor sabe, nÆo somente ‚ improv vel que a jovem frau-
lein tenha cometido o crime, mas impossivel, na minha
opiniÆo.
- Como assim?
Bessner falou do histerismo de Jacqueline, que os
obrigara a chamar Miss Bowers.
- E creio... tenho a certeza, que Miss Bowers
passou com ela toda a noite.
- Se foi assim, as coisas simplificam-se - disse
Race.
- Quem descobriu o crime? - perguntou Poirot.
- A criada de Mistress Doyle, uma tal Louise
Bourget. Foi hoje de manhÆ chamar a patroa, como de
costume. Ao encontr -la morta, saiu horrorizada da ca-
bina, desmaiando nos bra‡os de um criado que passava
nesse momento. O homem foi procurar o gerente e es-
te veio chamar-me. Avisei Bessner, depois fui para a
sua cabina, Poirot.
O detective inclinou a cabe‡a e Race continuou, di-
rigindo-se agora ao m‚dico:

144 145

- Doyle precisa de ser informado. O senhor disse
que ele ainda est a dormir?
- Sim, na minha cabina. Dei-lhe um forte narc¢-
tico a noite passada.
Race voltou-se para Poirot:
- NÆo creio que seja necess rio determos o doutor
Bessner por mais tempo, nÆo ‚ verdade?... Muito
agradecido, doutor.
O m‚dico ergueu-se.
- Sim, vou tomar o meu pequeno-almo‡o. De-
pois, voltarei ... minha cabina, para ver se Mister Doyle
est em condi‡äes de ser acordado.
- Agradecido.
Depois de Bessner sair, os dois homens entreolha-
ram-se.
- EntÆo, que me diz a isto, Poirot? - perguntou
Race. - Est tudo nas suas mÆos. Receberei as suas
ordens. � s¢ dizer-me o que devo fazer.
Poirot inclinou-se, dizendo:
- Eh bien, precisamos de iniciar o inqu‚rito. Em
primeiro lugar, acho que devemos verificar o incidente
de ontem ... noite. Isto ‚, temos que interrogar Fanthorp
e Miss Robson, que testemunharam o facto. O desapare-
cimento do rev¢lver ‚ muito signif‹cativo.
Race tocou a campainha e deu uma ordem ao cria-
do que apareceu.
Poirot abanou tristemente a cabe‡a, murmurando:
- � grave, ‚ grave...
- Tem alguma ideia? - perguntou Race, com
certa curiosidade.
- As minhas ideias sÆo confusas. NÆo estÆo em
ordem... NÆo nos podemos esquecer de uma coisa im-
portant¡ssima: que essa pequena odiava Linnet Doyle
e falou em mat -la.
- Acha que seria capaz?...
- Acho que sim... sim - disse Poirot sem muita
convic‡Æo.
- Mas nÆo desta maneira? � isto que o aborrece?

NÆo entraria no escuro, matando-a enquanto ela dor-
mia? Acha imposs¡vel este absoluto sangue-frio?
- Sim, at‚ certo ponto.
- Acha que essa rapariga, Jacqueline de Bellefort,
seria incapaz de um crime frio e premeditado?
Poirot disse lentamente:
- NÆo tenho a certeza. Ela teria a inteligˆncia...
sim, mas duvido que chegasse a praticar o acto.
- Sim, compreendo - declarou Race. - Bom,
de acordo com a hist¢ria de Bessner, teria sido mate-
rialmente imposs¡vel.
- E se for verdade, isso facilita muito as coisas.
Esperemos que seja verdade. - Poirot fez uma pausa
e acrescentou com simplicidade: - Ficarei contente,
porque tenho muita pena dela.
Abriu-se a porta e Corn‚lia e Fanthorp apareceram.
- NÆo ‚ horr¡vel? - exclamou Corn‚lia. - Po-
bre, pobre Mistress Doyle! TÆo bonita! S¢ um monstro
a poderia ter ferido. E Mister Doyle vai ficar desespe-
rado, quando souber. Ainda ontem ... noite estava tÆo
preocupado, com medo que ela viesse a saber do inci-
dente!
- � justamente sobre isso que queremos certas in-
forma‡äes, Miss Robson - disse Race. - Desejamos
saber exactamente o que se passou ontem ... noite.
Corn‚lia come‡ou a falar, um tanto confusamente,
mas, com uma ou outra pergunta, Poirot p"-la no bom
caminho.
- Ah, sim, compreendo. Depois do br¡dege, Mada-
me Doyle retirou-se. Mas teria ido para a sua cabina?
- Foi, sim - disse Race. - Eu mesmo a acom-
panhei, despedindo-me dela ... porta da cabina.
- A que horas?
- C‚us, isso nÆo sei eu dizer - exclamou Corn‚lia.
- Passavam vinte minutos das onze horas - disse
Race.
- Bien. EntÆo ...s onze e vinte, Madame Doyle es-
tava viva. Nessa ocasiÆo, quais eram, exactamente, as
pessoas que estavam no salÆo?

146 þ 147

Desta vez foi Fanthorp quem respondeu:
- Doyle, Miss de Bellefort, Miss Robson e eu.
- Isso mesmo - confirmou Corn‚lia. - Mister Pen-
nington acabou o seu whlsky e retirou-se em seguida.
- E isso foi... ?
- Oh, trˆs ou quatro minutos depois.
- Antes das onze e meia, entÆo?
- Sim.
- EntÆo s¢ ficaram no salÆo: a senhora, Miss de
Bellefort, Mister Doyle e Mister Fanthorp. Que esta-
vam todos a fazer?
- Mister Fanthorp estava a ler um livro; eu, a
bordar. Miss de Bellefort estava... estava...
Fanthorp veio em aux¡lio de Corn‚lia.
- Estava a beber muito.
- Sim, conversava comigo, pedindo-me que lhe
contasse a minha vida. Mas dizia coisas esquisitas...
olhava para mim, mas as suas palavras pareciam dirigi-
das a Mister Doyle. Ele estava furioso, mas nÆo dizia
coisa alguma. Creio que achou que, se ficasse quieto,
ela se acalmaria.
- Mas nÆo foi o que aconteceu?
Corn‚lia abanou a cabe‡a.
- Procurei retirar-me, uma ou duas vezes, mas ela
prendeu-me. Sentia-me constrangida... Depois, Mister
Fanthorp levantou-se e saiu...
- Estava a ficar desagrad vel - disse o rapaz.-
Achei prefer¡vel sair discretamente. Miss de Bellefort
procurava armar abertamente uma cena.
- E depois ela puxou o rev¢lver - disse Corn‚lia.
- Mister Doyle deu um salto, mas a bala atingiu-o
na perna. E a¡ entÆo Jacqueline come‡ou a chorar e
solu‡ar... e eu fiquei apavorada, e corri atr s de Mis-
ter Fanthorp e ele acompanhou-me, e Mister Doyle
pediu que nÆo fiz‚ssemos escƒndalo, e um dos n£bios
ouviu a detona‡Æo e veio saber o que era, e Mister
Fanthorp disse que nÆo era nada, e n¢s lev mos Jac-
queline para a cabina e Mister Fanthorp ficou com ela
enquanto fui chamar Miss Bowers!

Corn‚lia parou, ofegante.
- A que horas? - perguntou Race.
Corn‚lia exclamou de novo:
- C‚us, isso nÆo sei eu dizer!
Mas Fanthorp respondeu prontamente:
- Mais ou menos meia-noite e vinte. Sei que ...
meia-noite e meia hora j eu estava na minha cabina.
- Deixem-me ter a certeza sobre um ou dois pon-
tos - disse Poirot. - Depois que Mistress Doyle se
retirou, nenhum dos quatro saiu do salÆo?
- NÆo.
- Tem a certeza de que Miss de Bellefort nÆo saiu
dali?
Fanthorp respondeu sem hesitar:
- Absoluta. Nem Doyle, nem Miss de Bellefort,
nem eu ou Miss Robson sa¡mos do salÆo.
- Muito bem. Isto prova que Miss de Bellefort
nÆo poderia ter assassinado Mistress Doyle antes
de... digamos meia-noite e vinte. Agora, Miss Rob-
son: a senhora disse-nos que foi chamar Miss Bowers.
Miss de Bellefort ficou sozinha na cabina nesse per¡o-
do de tempo?
- NÆo, Mister Fanthorp ficou com ela.
- Muito bem. At‚ agora, Miss de Bellefort tem
um libi perfeito. Miss Bowers ‚ a pr¢xima pessoa a
ser ouvida, mas antes de a mandar chamar, gostaria de
saber a sua opiniÆo sobre um ou dois pontos. A senho-
ra disse-me que Mister Doyle estava ansioso para que
Miss de Bellefort nÆo ficasse sozinha. Recearia ele por
acaso cþue ela cometesse outro acto de loucura?
- E essa a minha opiniÆo - disse Fanthorp.
- Acha que receava que ela atacasse Mistress Doyle?
- NÆo; nÆo creio que fosse esse o seu receio-
declarou Fanthorp. - Na minha opiniÆo, temia que
ela fizesse alguma loucura contra si pr¢pria.
- Suic¡dio?
- Exactamente. O efeito do lcool parecia ter de-
148 þ 149

saparecido e ela estava desolada com o que fizera. Re-
criminava-se veementemente, dizendo que preferia ter
morrido.
Corn‚lia disse timidamente:
- Acho que Mister Doyle estava preocupado com
ela. Falou muito suavemente... Que era culpa dele...
que a maltratara. Foi muito... gentil.
Hercule Poirot abanou a cabe‡a, pensativo.
- Agora, quanto ao rev¢lver. Que fim levou?
- Ela deixou-o cair - disse Corn‚lia.
- E depois?
',:
Fanthorp explicou que mais tarde fora procurar o
rev¢lver, n"o o tendo encontrado.
- Ah! - exclamou Poirot. - Agora estamos per-
to. Por favor, sejam precisos. Descrevam-me exacta-
mente o que aconteceu.
- Miss de Bellefort deixou cair o rev¢lver, dando-
-lhe em seguida um pontap‚.
- Como se sentisse repugnƒncia - disse Corn‚lia.
- Compreendo exactamente como devia sentir-se.
- E, conforme me disseram, o rev¢lver foi parar
debaixo de uma poltrona. Agora, muita aten‡"o: Miss de
Bellefort nÆo o apanhou, antes de sair do salÆo?
Tanto Corn‚lia como Fanthorp foram positivos
neste ponto.
- Pr‚cisement. Apenas quero ter a certeza - disse
Poirot. - Chegamos, entÆo, a este ponto. Quando
Miss de Bellefort saiu do salÆo, o rev¢lver estava sob a
poltrona. E como depois disso Miss de Bellefort nÆo
ficou sozinha um s¢ minuto, nÆo teve oportunidade de
ir ao salÆo para apanhar a arma. Que horas eram, Mis-
ter Fanthorp, quando voltou para o procurar?
- Pouco antes da meia-noite e meia hora.
- E quanto tempo se passou, desde o momento
em que o senhor e o doutor Bessner levaram Doyle
para fora do salÆo, at‚ ...quele em que voltou para pro-
curar o rev¢lver?
- Cinco minutos... talvez um pouco mais.

- EntÆo, nesses cinco minutos, algu‚m tirou a arnuz
de debaixo da poltrona. Esse algu‚m nÆo era Miss de Bel-
lefort. Quem teria sido? Parece muito prov vel que es-
sa pessoa tenha sido o assassino de Mistress Doyle.
Podemos tamb‚m supor que essa pessoa viu ou ouviu
o que se passou no salÆo.
- NÆo sei por que motivo diz isso - interrompeu
Fanthorp.
- Porque o senhor acabou de dizer que a arma es-
tava debaixo da poltrona, fora do alcance da vista de
quem quer gue fosse. Acho, portanto, pouco prov vel
que tivesse sido descoberta por acaso. Foi apanhada
por algu‚m que sabia que estava ali. E, portanto, esse
algu‚m deve ter assistido ... cena.
Fanthorp abanou a cabe‡a.
- NÆo vi ningu‚m quando sa¡ para o tombadilho,
pouco antes de ser dado o tiro.
- Ah, mas o senhor saiu pela porta a estibordo.
- Sim, do mesmo lado da minha cabina.
- EntÆo nÆo teria visto uma pessoa que estivesse
a espiar pelos vidros da porta a bombordo?
- NÆo - confessou o rapaz.
- Algu‚m mais ouviu a detona‡Æo, a nÆo ser
o criado n£bio?
- Que eu saiba, nÆo.
Depois de uma pequena pausa, Fanthorp conti-
nuou:
- Lembro-me agora de que as janelas tinham sido
fechadas, porque Miss Van Schuyler sentira uma cor-
rente de ar, ao princ¡pio da noite. As portas girat¢rias
tamb‚m estavam fechadas. Duvido que a detona‡Æo
pudesse ser ouvida. Teria soado apenas como o estalo
de uma rolha ao saltar.
- At‚ agora ningu‚m parece ter ouvido o segundo
tiro; aquele que matou Mistress Doyle - comentou
Race.
- Logo trataremos disso - disse Poirot. - Por
enquanto quero concentrar-me em Mademoiselle de

150 þ 151

Bellefort. Precisamos de interrogar Miss Bowers. Mas
antes de sa¡rem - com um gesto deteve Corn‚lia e
Fanthorp - desejo que me dˆem certas informa‡äes
sobre as suas pessoas. Assim nÆo ser necess rio cha-
m -los novamente. Primeiro, o senhor: o seu nome,
completo?
- James Lechdale Fanthorp.
- Endere‡o?
- Glasmore House, Market Donnington, Nort-
hamptonshire.
- ProfissÆo?
- Sou advogado.
- As suas razäes para visitar este pa¡s?
Houve uma pausa. Pela primeira vez, o impass¡vel
Fanthorp pareceu desconcertado. Disse, finalmente,
quase balbuciando:
- Hummm... por prazer.
- Ah! - exclamou Poirot. - De f‚rias, hem, de
f‚rias?
- Hummm... sim.
- Muito bem, Mister Fanthorp. Queira dar-me
um resumo dos seus actos, depois dos acontecimentos
que acaba de expor.
- Fui imediatamente para a cama.
- A que horas?
- Logo depois da meia-noite.
- A sua cabina ‚ a vinte e dois, a estibordo, a
mais pr¢xima do salÆo?
- Exactamente.
- Mais uma pergunta. Ouviu alguma coisa... seja
o que for, depois de se retirar?
Fanthorp pareceu reflectir.
- Deitei-me imediatamente. Creio ter ouvido o
ru¡do de um baque na gua, quando ia a pegar no sono.
- Ouviu? Perto?
Fanthorp abanou a cabe‡a.
- Francamente, nÆo o posso dizer. Eu estava meio
adormecido.

- E a que horas devia ter sido isso?
- · uma hora, mais ou menos. Francamente, nÆo
posso precisar.
- Muito agradecido, Mister Fanthorp. NÆo quero
mais nada.
Poirot voltou-se para Corn‚lia.
- E agora, Miss Robson, o seu nome todo?
- Corn‚lia Ruth. O meu endere‡o ‚: The Red
House, Bellfield, Connecticut.
- Porque veio ao Egipto?
- Minha prima Marie, Miss Van Schuyler, convi-
dou-me para vir em sua companhia.
- J conhecia Mistress Doyle, antes de a encon-
trar nesta viagem?
- NÆo, nÆo conhecia.
- Que fez ontem ... noite?
- Fui imediatamente para a cama, depois de ter
ajudado o m‚dico a tratar da perna de Mister Doyle.
- A sua cabina ‚...?
- Quarenta e um, a bombordo, pegada ... de Miss
de Bellefort.
- Ouviu alguma coisa?
- Nada, absolutamente nada.
- Nenhum baque?
- NÆo. Nem poderia ouvir, pois do meu lado o
navio est encostado ... margem.
Poirot inclinou a cabe‡a.
- Muito agradecido, Miss Robson. Talvez possa
agora fazer-me a gentileza de me mandar Miss Bowers.
Depois de Corn‚lia e Fanthorp sa¡rem, Race vol-
tou-se para Poirot:
- Parece claro. A nÆo ser que trˆs testemunhas
independentes estejam a mentir, Jacqueline de Belle-
fort nÆo poderia ter reavido aquela arma. Mas algu‚m
a apanhou. E algu‚m presenciou a cena. E algu‚m foi
bastante idiota para escrever a letra J na parede.
Ouviu-se uma pancada na porta e Miss Bowers
apareceu.
A enfermeira sentou-se com a calma e correc‡Æo

152 þ 153

habituais. Respondeu ...s perguntas de Poirot, dizendo-
-lhe o nome, endere‡o, profissÆo e acrescentando:
- Estou ao servi‡o de Miss Van Schuyler h mais
de dois anos.
- A sa£de dessa senhora ‚ realmente delicada?
- NÆo, nÆo posso dizer que o seja - declarou
Miss Bowers. - J nÆo ‚ muito nova, e ‚ nervosa
quanto ... sua sa£de, de modo que gosta de ter sempre
uma enfermeira a seu lado. Mas nÆo tem nenhuma
mol‚stia grave. Gosta de ser servida, e est disposta a
pagar para isso.
Poirot pareceu compreender.
- Ouvi dizer que Miss Robson foi cham -la on-
tem, ... noite, Miss Bowers?
- Foi, sim.
- Pode dizer-me exactamente o que aconteceu?
- Pois nÆo! Miss Robson contou-me resumida-
mente a cena do salÆo e eu acompanhei-a. Encontrei
Miss de Bellefort num estado de grande excita‡Æo.
- Fez alguma amea‡a contra Mistress Doyle?
- NÆo, nada nesse g‚nero. Parecia tomada de
m¢rbido arrependimento. Tinha bebido muito, pelo
que me pareceu, e estava a sentir a reac‡Æo. Achei que
nÆo devia ficar sozinha; dei-lhe uma injec‡Æo de morfi-
na e passei a noite a seu lado.
- Agora, Miss Bowers, quero que me responda
francamente: Miss de Bellefort saiu da cabina?
- NÆo, nÆo saiu.
- E a senhora?
- Fiquei com ela at‚ hoje de manhÆ.
- Tem a certeza absoluta?
- Absoluta.
- Agradecido, Miss Bowers.
Depois de a enfermeira sair os dois homens entreo-
lharam-se.
Jacqueline de Bellefort estava absolutamente ino-
cente. Quem teria assassinado Linnet Doyle?

154

CAPÖTULO XIII


Race disse:
- Algu‚m apanhou o rev¢lver e esse algu‚m nÆo
foi Miss de Bellefort. Algu‚m que sabia o bastante pa-
ra pensar que o crime seria atribu¡do a ela... Mas essa
pessoa ignorava que uma enfermeira iria ficar a seu la-
do toda a noite, depois de lhe ter dado uma injec‡Æo
de morfina. E mais ainda: j houvera uma tentativa de
morte contra Linnet Doyle, quando aquela pedra ro-
lou do penhasco. Tamb‚m disso Jacqueline de Belle-
fort estava inocente. Quem, entÆo?
- Ser mais simples procurarmos ver quem nÆo
poderia ter sido - disse Poirot. - Mister Doyle, Mis-
tress Allerton, Mister Tim Allerton, Miss Van Schuy-
ler e Miss Bowers sÆo inocentes, pois estavam ao al-
cance da minha vista naquele momento.
- Hummm - resmungou Race. - Ainda sobra
muita gente. E quanto ao motivo?
- Acho que s¢ Mister Doyle nos poder ajudar.
Houve v rios incidentes...
A porta abriu-se e Jacqueline entrou. Estava muito
p lida, e parecia atordoada.
- NÆo fui eu - disse em voz de crian‡a amedron-
tada. - Oh, por favor, acreditem em mim. Toda a
þente vai pensar que fui eu... mas nÆo fui... nÆo fui!
E horr¡vel! Gostaria que nÆo tivesse acontecido. A noi-
te passada, quase matei Simon... Creio que estava lou-
ca. Mas o outro tiro nÆo fui eu que...
Sentou-se, desatando a chorar.
Poirot bateu-lhe levemente num ombro.
- Vamos, vamos. Sabemos que nÆo matou Mis-
tress Doyle. Est provado, sim, provado, mon enfant.
Jackie endireitou-se bruscamente na cadeira.
- Quem foi, entÆo?
- Tamb‚m gostar¡amos de o saber! - disse Poi-
rot. - NÆo pode ajudar-nos em alguma coisa, minha
menina?

155

Jacqueline sacudiu a cabe‡a.
- NÆo sei... NÆo posso imaginar quem... NÆo,
nÆo tenho a menor ideia.
Ficou alguns minutos de sobrancelhas contra¡das,
depois continuou:
- NÆo me posso lembrar de ningu‚m que lhe de-
sejasse a morte... - aqui a voz de Jackie tremeu ligei-
ramente: - .. a nÆo ser eu.
- Desculpem-me por um momento - interrom-
peu Race. - Acaba de me ocorrer uma coisa.
Saiu apressadamente.
Jacqueline continuou sentada, de cabe‡a baixa, tor-
cendo nervosamente as mÆos. De repente, exclamou:
- A morte ‚ uma coisa horr¡vel. Sim, horr¡vel.
Detesto lembrar-me dela.
- Tem razÆo - disse Poirot. - NÆo ‚ agrad -
vel, na verdade, pensar que, agora, neste momento,
uma pessoa deve estar a regozijar-se com o ˆxito do
seu crime.
- NÆo... diga isso! - exclamou Jackie. - � hor-
r¡vel, dito assim dessa maneira!
Poirot replicou, encolhendo os ombros:
- � verdade.
Jackie murmurou baixinho:
- Desejei a sua morte... e agora ela est morta...
E, mais ainda, morreu como eu disse que gostaria que
morresse!
- Sim, mademoiselle. Levou um tiro na cabe‡a.
- EntÆo eu tinha razÆo, aquela noite, no Hotel
Catarata! Algu‚m estava a ouvir.
- Ah! Eu estava a pensar se se lembraria disso.
Sim, ‚ demasiada coincidˆncia. Mistress Doyle ter mor-
rido exactamente da maneira que a senhora imaginou.
Jackie estremeceu.
- Aquele homem... quem poderia ter sido?
Houve alguns minutos de silˆncio; depois, Poirot
perguntou em tom muito diferente:
- Tem a certeza de que era um homem, mademoi-
selle?

- Sim, naturalmente. Pelo menos...
Ela franziu as sobrancelhas, fechou os olhos, esfor-
‡ando-se por se lembrar melhor.
- Pensei que fosse um homem - disse lentamente.
- Mas agora j nÆo tem a certeza?
- NÆo, nÆo tenho a certeza. Julguei que fosse um
homem... mas era apenas um vulto... uma sombra...
Fez uma pausa e, como Poirot nada dissesse, con-
tinuou:
- Acha que talvez tenha sido uma mulher? Mas
nenhuma das mulheres deste navio pode ter motivos
para desejar a morte de Linnet, nÆo ‚ assim?
Poirot nÆo respondeu. A porta abriu-se e Bessner
apareceu.
- Quer fazer o favor de vir ver Mister Doyle,
Monsieur Poirot? Ele deseja falar consigo.
Jackie levantou-se de um salto, agarrando Bessner
pelo bra‡o.
- Como vai ele? Est ... bem?
- Claro que nÆo est bem - respondeu o m‚dico
em tom de censura. - Houve fractura.
- Mas nÆo morrer ?
- Ach, quem falou em morrer? Quando chegar-
mos a um lugar civilizado, ele tirar uma radiografia e
receber o tratamento adequado.
A jovem torceu convulsivamente as mÆos, caindo
de novo na cadeira.
Poirot saiu com o m‚dico. Nesse momento, Race
veio reunir-se a eles. Percorreram o tombadilho de
passeio, at‚ ... cabina de Bessner.
Simon Doyle estava deitado, a sua palidez era im-
pressionante, tanto pela dor como pelo choque que le-
vara. Mas a expressÆo principal da sua fisionomia era
perplexidade - a penosa perplexidade de uma crian‡a.
- Entrem, por favor - disse ele. - O m‚dico
contou-me... a respeito de Linnet... NÆo posso acredi-
tar. NÆo posso acreditar que seja verdade.
- Sim, deve ter sido um choque horr¡vel - disse
Race.

156 þ 157

Simon balbuciou:
- Os senhores sabem... nÆo foi Jackie. Tenho a
certeza de que nÆo foi Jackie! As aparˆncias sÆo contra
ela, nÆo h d£vida, mas tenho a certeza de que nÆo ‚
culpada. Estava... um pouco embriagada, a noite pas-
sada, e muito excitada; foi por isso que me alvejou.
Mas Jackie nÆo cometeria um... assassinio... a sangue-
-frio...
Poirot disse suavemente:
- N"o fique assim perturbado, Mister Doyle.
NÆo foi Miss de Bellefort quem matou sua esposa.
Simon fitou-o com ar de d£vida.
- Est a falar s‚rio?
- Mas j que nÆo foi Miss de Bellefort, pode dar-
-nos uma ideia de quem poderia ter sido?
Simon abanou a cabe‡a, parecendo ainda atordoado.
- � absurdo... imposs¡vel. A nÆo ser Jackie, nin-
gu‚m tinha motivo para lhe desejar mal.
- Reflicta, Mister Doyle. NÆo tinha inimigos?
NÆo existe ningu‚m com razäes de queixa contra ela?
Simon sacudiu negativamente a cabe‡a.
- � absurdo, fant stico. H , naturalmente, Wind-
lesham. Ela desquitou-se dele para casar comigo. Mas
nÆo vejo que um rapaz correcto como Windlesham possa
cometer um crime... Al‚m do mais, est a muitas milhas
de distƒncia daqui. O mesmo se aplica a Sir George
Wode. Tinha um pequeno ressentimento contra Lin-
net, reprovando a maneira como ela modificou a casa,
mas tamb‚m ele est longe; e, em todo o caso, seria ri-
d¡culo pensar em algu‚m cometer um crime por moti-
vo tÆo f£til.
- Oi‡a, Mister Doyle. No primeiro dia, aqui, a
bordo do Karnak, fiquei impressionado com uma con-
versa que tive com sua esposa - disse Poirot vivamen-
te. - Estava muito aborrecida, muito preocupada.
Disse: (preste aten‡Æo ...s minhas palavras!) disse que
toda a gente a odiava. Que estava com medo, que se
sentia em perigo, como se cada pessoa ... sua volta fosse
um inimigo.

- Ficou realmente perturbada quando viu Jackie
a bordo. O mesmo se deu comigo - disse Simon.
- � verdade, mas isso nÆo basta para explicar tais
palavras. Quando disse que estava cercada de inimi-
gos, com certeza exagerou, mas sem d£vida nenhuma
referia-se a mais de uma pessoa.
- Talvez nisso tenha razÆo - concordou Simon.
- Creio que posso explicar... Ficou muito perturbada
com um nome que viu na lista dos passageiros.
- Um nome na lista dos passageiros? Que nome?
- Bom, para falar a verdade, nÆo sei. Eu nÆo ouvi
com aten‡Æo, tÆo preocupado ficara com a apari‡Æo de
Jacqueline. Se bem me lembro, Linnet falou em pre-
ju¡zos, em neg¢cios, e que nÆo se sentia ... vontade
quando encontrava algu‚m que tinha uma queixa con-
tra a sua fam¡lia. Embora nÆo conhe‡a muito bem a
hist¢ria da fam¡lia, sei que a mÆe de Linnet era filha
de um milion rio. Seu pai era apenas abastado, mas
depois do casamento naturalmente come‡ou a jogar na
Bolsa, ou seja l o que for. Como resultado destas
transac‡äes, naturalmente muitas pessoas tiveram pre-
ju¡zos. O senhor sabe a hist¢ria: abastan‡a num dia,
mis‚ria no outro. Muito bem: pelo que percebi, estava
a bordo o filho de um homem que sofrera um grande
desastre financeiro por causa do pai de Linnet. Lem-
bro-me de tˆ-la ouvido dizer: þþ� horr¡vel a gente saber
que ‚ detestada por uma pessoa que nem ao menos
nos conhece. þþ
- Sim... - disse Poirot com ar pensativo. - Isso
explica o que ela me disse. Pela primeira vez na vida
estava a sentir o peso, nÆo as vantagens, da sua posi-
‡Æo. Tem a certeza, Mister Doyle, de que ela nÆo disse
o nome do homem?
Simon abanou a cabe‡a com ar desanimado.
- Francamente, nÆo prestei muita aten‡Æo. Sei
que respondi: þþOh, hoje em dia ningu‚m se incomoda
muito com o que aconteceu com os pais. A vida cami-
nha demasiadamente depressa para isso.þþ

158 þ 159

Bessner disse secamente:
- Ach, mas tenho um palpite. Existe a bordo um
rapaz que demonstra ressentimento.
- Ferguson? - perguntou Poirot.
- Sim. Falou uma ou duas vezes contra Mistress Doy-
le. Eu mesmo o ouvi.
- Que podemos fazer para ter a certeza? - per-
guntou Doyle.
- Race e eu temos que interrogar todos os passa-
geiros - declarou Poirot. - At‚ ouvirmos o que tˆm
a dizer, seria leviandade formar opiniÆo. H ainda a
criada... Acho que deve ser a primeira a ser interroga-
da. A presen‡a de Mister Doyle talvez nos seja £til.
- Boa ideia - concordou Simon.
- Estava h muito tempo ao servi‡o de Mis-
tress Doyle?
- Mais ou menos dois meses.
- S¢ dois meses? - exclamou Poirot.
- O senhor nÆo supäe...
- Sua esposa tinha j¢ias de valor?
- Tinha o colar de p‚rolas. Disse-me que valia
quarenta ou cinquenta mil libras. - Simon estreme-
ceu ligeiramente e exclamou: - Meu Deus, acha que
aquelas malditas p‚rolas...
- O m¢bil do crime pode ter sido o roubo - dis-
se Poirot. - Se bem que pare‡a imposs¡vel... Bom,
veremos. A criada que venha c .
Louise Bourget era a moreninha viva que Poirot
vira, certa vez, no tombadilho.
Mas agora a vivacidade desaparecera do seu rosto.
Via-se que tinha chorado e parecia amedrontada, e no
entanto havia no seu rosto uma expressÆo profunda-
mente astuciosa, que impressionou desagradavelmente
os dois homens.
- O seu nome ‚ Louise Bourget?
- Sim, monsieur.
- Quando foi que viu Mistress Doyle com vida
pela £ltima vez?

- A noite passada, monsieur. Esperei para a ajudar
a despir-se.
- Que horas eram?
- Um pouco depois das onze, monsieur. N"o pos-
so dizer a hora exacta. Esperei que a senhora me dis-
pensasse e depois sa¡.
- Quanto tempo levou tudo isso?
- Dez minutos, monsieur. A senhora estava cansa-
da. Disse-me que apagasse as luzes antes de sair.
- Depois de a deixar, que fez vocˆ?
- Fui para a minha cabina, monsieur, no tombadi-
lho de baixo.
- E nÆo viu nem ouviu nada que nos possa servir
de esclarecimento?
- Como poderia eu, monsieur?...
- Isso s¢ vocˆ nos poder dizer - replicou Poirot.
A mulher olhou-o de soslaio e continuou:
- Mas, monsieur, eu nÆo estava perto... como po-
deria eu ver ou ouvir alguma coisa? Eu estava no tom-
badilho de baixo. A minha cabina fica do outro lado
do navio. Teria sido imposs¡vel ouvir qualquer coisa.
Claro que se nÆo tivesse sentido sono, se tivesse subido
as escadas, talvez tivesse visto o assassino, esse mons-
tro, entrar ou sair da cabina de madame; mas, como
nÆo foi assim...
Ergueu as mÆos num gesto suplicante, dirigindo-se
a Simon:
- Monsieur, por favor... Compreende a minha si-
tua‡Æo? Que posso eu dizer?
- Minha cara menina, nÆo seja tola - repreendeu
Simon asperamente: - Ningu‚m pensa que viu ou
ouviu coisa alguma. NÆo se preocupe. Cuidarei de si.
Ningu‚m pensa em acus -la...
- Monsieur ‚ muito bom - murmurou Louise,
baixando modestamente os olhos.
- Podemos ter entÆo a certeza de que nada viu ou
ouviu? - perguntou Race com impaciˆncia.
- Foi o que eu disse, monsieur.

160 þ 161

- E nÆo conhece ningu‚m que tivesse alguma
queixa contra a sua patroa?
Com grande surpresa de todos, Louise abanou vi-
gorosamente a cabe‡a.
- Oh, sim. Isso sei. A essa pergunta posso res-
ponder þþsimþþ, com a maior certeza deste mundo.
- Refere-se a Mademoiselle de Bellefort? - per-
guntou Poirot.
- Quanto a ela, nÆo h d£vida. Mas nÆo era em
Miss de Bellefort que eu pensava. H um homem nes-
te navio que nÆo gostava de madame, e que estava
muito zangado porque ela o havia prejudicado.
- Deus do C‚u, que significa tudo isso? - excla-
mou Simon.
Louise continuou, abanando enfaticamente a cabe‡a:
- Sim, sim, ‚ como digo! O caso deu-se com a an-
tiga criada de madame, que a servira antes de mim.
Um homem, um dos maquinistas deste vapor, queria
casar-se com ela. A outra criada, Marie, era o seu no-
me, estava disposta a casar-se com ele. Mas Madame
Doyle tirou informa‡äes sobre o homem e descobriu
que esse tal Fleetwood j era casado... com uma mu-
lher de cor, os senhores compreendem, natural deste
pa¡s. Ela voltara para viver com a fam¡lia, mas conti-
nuava ainda a ser mulher dele. Madame contou isto a
Marie, e ela ficou muito triste e nÆo quis mais saber
de Fleetwood. O homem ficou furioso, e quando des-
cobriu que Madame Doyle se chamara Miss Linnet
Ridgeway, antes do casamento, disse-me que gostaria
de a matar! Estragara-lhe a vida, intrometendo-se on-
de nÆo era chamada; foi o que ele me disse.
Louise parou, triunfante.
- Interessante - comentou Race.
Poirot voltou-se para Simon e perguntou:
- Sabia disso, por acaso?
- NÆo - respondeu Simon com evidente sinceri-
dade. - Duvido mesmo que Linnet soubesse que o
homem trabalhava neste navio. Provavelmente, ela j
se esquecera do incidente.

Voltou-se bruscamente para a criada e perguntou:
- Falou sobre isso a Mistress Doyle?
- NÆo, monsieur, claro que nÆo.
- Sabe alguma coisa a respeito do colar da sua pa-
troa? - perguntou Poirot.
- O colar? - exclamou Louise arregalando os
olhos. - Ontem ... noite ainda o usou.
- Vocˆ viu o colar, quando Mistress Doyle se foi
deitar?
- Sim, monsieur.
- Onde foi que ela o guardou?
- Na mesinha de cabeceira, como de costume.
- Foi onde o viu pela £ltima vez?
- Sim, senhor.
- Viu-o ali hoje de manhÆ?
Uma expressÆo assustada apareceu no rosto da ra-
pariga.
- Mon Dieu, nem me lembrei de olhar! Aproxi-
mei-me da cama, depois vi... vi madame. Sa¡ a correr e
desmaiei.
Hercule Poirot inclinou gravemente a cabe‡a.
- Vocˆ nem ao menos olhou. Mas eu tenho olhos
observadores, e digo-lhe que nÆo havia nenhum colar
na mesinha de cabeceira, hoje de manhÆ.

CAPÖTULO XIV


Poirot nÆo se enganara. O colar nÆo estava na me-
sinha de cabeceira de Linnet.
Louise Bourget foi encarregada de dar uma busca
nas coisas de Mrs. Doyle; estava tudo em ordem, se-
gundo ela disse. Somente haviam desaparecido as p‚-
rolas.
Sa¡ram da cabina. Um dos criados de bordo veio
dizer que a refei‡Æo estava pronta na sala de fumo.

162 þ 163

Quando percorriam o tombadilho, Race parou para
se debru‡ar na amurada.
- Ah! Vejo que tem uma ideia, meu amigo - ex-
clamou Poirot.
- Sim, ocorreu-me de repente, quando Fanthorp
disse que tinha ouvido um baque na gua. Tamb‚m eu
acordei ontem ... noite, pensando ter ouvido esse mes-
mo ru¡do. � bem poss¡vel que, depois do crime, o as-
sassino tenha atirado a arma fora.
- Acha isso poss¡vel, meu amigo?
Race encolheu os ombros e replicou:
- � apenas uma sugestÆo. Afnal de contas, a ar-
ma nÆo foi encontrada na cabina. Foi a primeira coisa
que procurei.
- Assim mesmo, parece incr¡vel que tenha sido
atirada ... gua.
- Onde est , entÆo?
- Se nÆo est na cabina de Mistress Doyle, logica-
mente s¢ h um lugar onde poder ser encontrada.
- E ‚...?
- A cabina de Mademoiselle de Bellefort.
- Sim, compreendo...
Race parecia reflectir. E depois, em tom brusco:
- A pequena nÆo est na cabina agora. Vamos
examin -la?
Mas nÆo era essa a ideia de Poirot.
- NÆo, nÆo, meu amigo. NÆo sejamos precipita-
dos. Talvez ainda nÆo tenha sido levada para l .
- Que acha uma busca imediata a todo o navio?
- Dessa maneira ficariam a saber o que pensa-
mos. Precisamos de agir com a maior cautela. A nossa
posi‡Æo ‚, neste momento, muito delicada. Vamos dis-
cutir a situa‡Æo enquanto comemos.
Entraram na sala de fumo.
- EntÆo? - disse Race servindo-se de caf‚. - Te-
mos dois ind¡cios: o desaparecimento das p‚rolas, e
aquele tal Fleetwood. Quanto ao colar, tudo leva a acre-
ditar em roubo, mas... nÆo creio que concorde comigo...

Poirot disse vivamente:
- NÆo acha que a escolha do momento foi um
tanto infeliz?
- Exactamente. O roubo de um colar daquele va-
lor acarretaria uma busca rigorosa. Todos os passagei-
ros teriam que ser revistados: como poderia entÆo o
ladrÆo esperar escapar?
- Poderia ter ido a terra, escondendo-o em qual-
quer parte.
- A companhia tem sempre um guarda na margem.
- EntÆo nÆo seria poss¡vel... Teria o assass¡nio sido
cometido para distrair a aten‡Æo do roubo? NÆo, isto ‚
um absurdo! Mas suponhamos que Mistress Doyle te-
nha acordado e apanhado o ladrÆo em flagrante?...
- E o homem matou-a? Mas ela estava a dormir
quando levou o tiro.
- EntÆo, tamb‚m isso est fora de discussÆo. Sabe
uma coisa?... Tenho um palpite a respeito destas p‚ro-
las... e no entanto... nÆo, ‚ imposs¡vel. Porque, se o
meu palpite estivesse certo, as p‚rolas nÆo teriam desa-
parecido. Diga-me: qual ‚ a sua opiniÆo sobre a criada?
- Achei que sabia mais do que quis dar a enten-
der - respondeu Race lentamente.
- Ah, tamb‚m vocˆ teve essa impressÆo?
- NÆo ‚ nada simp tica.
- Tem razÆo. Eu nÆo poderia ter confian‡a naque-
la pequena.
- Acha que teve alguma rela‡Æo com o crime?
- NÆo, nÆo o creio.
- Com o roubo das p‚rolas, entÆo?
- Isso ‚ mais prov vel. H pouco tempo que esta-
va ao servi‡o de Mistress Doyle. Pode ser que fa‡a
parte de alguma quadrilha especializada em roubos de
j¢ias; nestes casos, h sempre uma criada com ¢ptimas
referˆncias. Infelizmente, nÆo nos ‚ poss¡vel tirar in-
forma‡"es a respeito dela. Al‚m do mais, esta explica-
‡Æo nÆo me satisfaz... Aquelas p‚rolas... ah, sacr‚, o
meu palpite devia estar certo. E, no entanto, ningu‚m
seria imbecil a ponto de...

164 þ 165

Poirot interrompeu-se bruscamente. Race per-
guntou:
- E quanto a Fleetwood?
- Precisamos de o interrogar. Talvez esteja a¡ a
solu‡Æo. Se a hist¢ria de Louise ‚ verdadeira, ele tinha
motivo para desejar vingar-se. Poderia ter assistido ...
cena entre Jacqueline e Mister Doyle, entrando depois
no salÆo vazio para se apoderar da arma. Sim, ‚ poss¡-
vel. E aquela letra J escrita com sangue... Tamb‚m es-
t de acordo com a psicologia de uma criatura rude.
- Quer dizer que ‚ exactamente a pessoa que pro-
curamos?
- Sim... s¢ se...
Poirot co‡ou o nariz e respondeu com uma careta:
- Vˆ vocˆ, reconhe‡o as minhas fraquezas. Dizem
que gosto de tornar dif¡ceis os meus casos. A solu‡Æo
que vocˆ sugere... ‚ tÆo simples... f cil de mais... NÆo
acho poss¡vel que tenha realmente sucedido dessa ma-
neira. E, no entanto, talvez seja simples preven‡Æo da
minha parte.
- Bom, talvez seja melhor chamarmos o homem
aqui.
Race tocou a campainha. Depois de o criado se re-
tirar, Race voltou-se novamente para Poirot:
- Outras... probabilidades?
- Muitas, meu amigo. Tomemos, por exemplo,
o procurador americano.
- Pennington?
- Sim, Pennington. Assisti, um dia destes, a uma
cena curiosa.
Poirot contou a Race o que acontecera e continuou:
- Vˆ, pois, que ‚ significativo. Madame queria ler
todos os pap‚is, antes de os assinar. E ele, entÆo, deu
a desculpa de um outro dia. E o marido fez uma ob-
serva‡Æo muito significativa!
- Qual?
- Disse: þþNunca leio documento algum. Assino onde
me mandam assinar.þþ Percebe como ‚ significativo?

Pennington percebeu. Foi como se eu tivesse lido isso
no seu olhar. Fitou Doyle como se uma ideia inteira-
mente nova lhe tivesse passado pela cabe‡a. Imagine-
mos, meu amigo, que vocˆ ‚ procurador da filha de
um homem imensamente rico. Talvez tenha usado o
dinheiro para especular. Sei que ‚ o que acontece em
novelas policiais, mas de vez em quando a gente lˆ
tamb‚m sobre isso nos jornais. � coisa que acontece,
meu amigo, acontece.
- NÆo duvido - declarou Race.
- Talvez ainda haja tempo para especular louca-
mente. Talvez a pupila ainda nÆo tenha atingido a
maioridade. E entÆo... ela casa-se! A administra‡Æo do
dinheiro passa, de um momento para o outro, das suas
mÆos para as dela! Cat strofe!... Mas ainda h uma es-
peran‡a. Ela est em lua-de-mel. Talvez se descuide...
Um documento enfiado no meio dos outros; assinado,
talvez, sem ser lido... Mas Linnet Doyle nÆo era desse
tipo. Com ou sem lua-de-mel, era uma mulher de ne-
g¢cios. E entÆo seu marido faz uma observa‡Æo, e uma
nova ideia ocorre ao homem que desesperadamente
procura salvar-se da ru¡na. Se Linnet morresse, a for-
tuna passaria para as mÆos do marido, e com ele seria
tÆo f cil lidar! Seria como uma crian‡a nas mÆos de
um homem astuto como Andrew Pennington. Mon
cher coronel, garanto-lhe que vi o pensamento passar
pela mente de Pennington. þþSe eu tivesse que tratar
com Doyle...þþ Sim, foi este o pensamento de Andrew
Pennington.
- Talvez - disse Race secamente. - Mas vocˆ
nÆo tem provas.
- NÆo, infelizmente.
- E h tamb‚m aquele tal Ferguson. Fala com
bastante azedume... NÆo que me impressione com pa-
lavras; apesar disso, ‚ possivel que ele seja o filho do
homem que foi levado ... ru¡na pelo pai de Linnet. Sei
que ‚ arriscado, mas nÆo imposs¡vel. H gente que fi-
ca ...s vezes a remoer inj£rias passadas.

166 167

Race ficou em silˆncio por alguns minutos, e de-
pois disse:
- E h tamb‚m o meu homem.
- Sim, h o þþseu homemþþ, como vocˆ diz.
- � um assassino - declarou Race. - Quanto a
isso n"o h d£vida. Por outro lado, nÆo vejo que liga-
‡Æo possa ter tido com a fam¡lia de Linnet. Vivem em
esferas completamente diversas.
Poirot disse lentamente:
- A nÆo ser que, acidentalmente, Mistress Doyle
tenha descoberto a identidade dele.
- � poss¡vel, mas pouco prov vel. - Race in-
terrompeu-se ao ouvir uma pancada na porta. Depois:
- Ah, aqui est o nosso quase b¡gamo.
Fleetwood era um homem alto e de aparˆncia fe-
roz. Olhou, desconfiado, de um para o outro. Poirot
reconheceu nele o homem que vira no tombadilho a
conversar com Louise Bourget.
Fleetwood perguntou:
- Mandou-me chamar?
- Mandei - disse Race. - Talvez tenha ouvido
dizer que foi cometido um crime neste vapor, ontem ...
noite?
O homem inclinou a cabe‡a.
- E creio que vocˆ tinha motivos para nÆo gostar
da mulher que foi assassinada.
Uma expressÆo de alarme surgiu no olhar de Fleet-
wood.
- Quem lhe disse isso?
- Acho que Mistress Doyle se intrometera entre
vocˆ e uma certa rapariga.
- Sei quem lhe contou isso: aquela francesa vaga-
bunda. � uma grande mentirosa, essa rapariga.
- Mas aconteceu que ‚ verdade.
- � mentira!
- Diz isso sem saber ainda do que se trata.
O alvo foi atingido. O homem enrubesceu, engo-
lindo em seco.

- � verdade, nÆo ‚, que ia casar-se com uma ra-
pariga chamada Marie, e que ela desmanchou o noiva-
do quando soube que vocˆ j era casado?
- Que tinha ela com isso?
- Quer dizer: que tinha Mistress Doyle com isso?
Bom, vocˆ sabe, bigamia ‚ bigamia.
- NÆo foi nada assim. Casei-me com uma das na-
tivas daqui. Ela voltou para a sua fam¡lia. NÆo a vejo
h seis anos.
- Mas ainda est casado com ela.
O homem ficou em silˆncio e Race continuou:
- Mistress Doyle, ou Miss Ridgeway, como se
chamava naquele tempo, descobriu tudo...
- Sim, e que Deus a amaldi‡oe! Metendo-se na-
quilo que nÆo lhe dizia respeito... Eu teria sido bom
para Marie. Teria feito tudo pela sua felicidade. E ela
nunca teria sabido nada da outra, se nÆo fosse por
aquela sua patroa intrometida. NÆo nego que tinha es-
ta razÆo de queixa contra aquela senhora, e fquei re-
voltado quando a vi neste navio, toda bem vestida e
cheia de j¢ias, mandando em Deus e toda a gente, sem
se lembrar que estragara para sempre a vida de um ho-
mem! Fiquei revoltado, sim... Mas da¡ a pensarem
que sou um miser vel assassino... se pensam que pe-
guei num rev¢lver e a matei... Bom, isso nÆo passa de
uma grande mentira! Nunca lhe toquei. E que Deus
me sirva de testemunha.
O homem parou, o suor escorria-lhe da testa.
- Onde estava vocˆ ontem, entre a meia-noite e as
duas da manhÆ?
- Na minha cama. E o meu companheiro poder
confirmar o que digo.
- Veremos - disse Race, despedindo-o com uma
seca inclina‡Æo de cabe‡a. - Por enquanto ‚ s¢ isto.
- Eh bien? - disse Poirot quando a porta se fe-
chou.
Race encolheu os ombros.
- Falou muito coerentemente. Est nervoso, ‚

168 þ 169

claro, mas nÆo excessivamente. Teremos que verificar
o seu libi, se bem que nÆo creio que seja decisivo.
O companheiro dele provavelmente estava a dormir, e
este sujeito poderia ter entrado e sa¡do sem que o ou-
tro percebesse coisa alguma. Depende de sabermos se
mais algu‚m o viu.
- Sim, precisamos de averiguar.
- O pr¢ximo facto a investigar, na minha opiniÆo,
‚ se algu‚m ouviu qualquer coisa que nos dˆ uma ideia
da hora do crime. Bessner diz que ocorreu entre a
meia-noite e as duas da manhÆ. E poss¡vel que algum
dos passageiros tenha ouvido a detona‡Æo, mesmo que
nÆo a tenham reconhecido como um tiro. Por mim,
nÆo ouvi nada semelhante. E vocˆ?
Poirot sacudiu a cabe‡a.
- Dormi como um frade. NÆo ouvi nada, absolu-
tamente nada. Mesmo que estivesse narcotizado, n"o
teria dormido mais profundamente.
- � pena - disse Race. - Bom, esperemos obter
mais resultado com as pessoas que tˆm cabinas a esti-
bordo. J interrog mos Fanthorp. Em seguida, vˆm os
Allerton. Vou mandar cham -los.
Mrs. Allerton entrou com muita vivacidade. En-
vergava um vestido cinzento, de seda listrada.
- � horr¡vel! - disse, ao aceitar a cadeira que
Poirot lhe ofereceu. - Mal posso acreditar... Aquela
linda criatura, com tudo para a prender ... vida... mor-
ta desta maneira! Mal posso realmente acreditar.
- Sei como se sente, madame - disse Poirot em
tom compreensivo.
- Ainda bem que o senhor est a bordo - disse
ela simplesmente. - Assim poder descobrir quem
cometeu o crime. Fiquei contente por saber que nÆo
foi aquela pobre rapariga de rosto tr gico.
- Mademoiselle de Belleford? Quem lhe contou
que nÆo foi ela?
- Corn‚lia Robson - respondeu Mrs. Allerton
com a sombra de um sorriso. - Sabe, ela est excita-
d¡ssima com toda esta hist¢ria! � provavelmente a £ni-
ca coisa fora do comum que lhe aconteceu na vida e
que jamais acontecer . Mas ‚ muito nova, e envergo-
nha-se de gozar com os acontecimentos. Acha que ‚
horr¡vel da sua parte.
Mrs. Allerton fitou Poirot durante alguns segun-
dos, depois acrescentou:
- Mas nÆo devo tagarelar. O senhor tem algumas
perguntas a fazer-me?
- Sim, por favor. A que horas se deitou, madame?
- Logo depois das dez e meia.
- E dormiu imediatamente?
- Sim; estava com sono.
- E ouviu alguma coisa... seja o que for, durante
a noite?
Mrs. Allerton franziu as sobrancelhas.
- Sim, creio que ouvi um baque e algu‚m cor-
rer... ou teria sido o contr rio? Estou um pouco con-
fusa. Tive a vaga ideia de que algu‚m ca¡ra ao mar...
Sonho, o senhor compreende. Mas depois acordei e fi-
quei ... escuta, e nada mais ouvi.
- E sabe a que horas foi isso?
- NÆo, infelizmente nÆo. Mas nÆo creio que tenha
sido muito depois de me ter deitado; isto ‚, durante a
primeira hora ou pouco mais tarde.
- Infelizmente, madame, isso ‚ muito vago!
- Tem razÆo. Mas nÆo vale a pena eu querer adi-
vinhar, quando na realidade nÆo tenho a menor ideia,
nÆo ‚ verdade?
- E ‚ s¢ o que tem a dizer-nos, madame?
- Infelizmente, ‚.
- J conhecia Mistress Doyle, antes desta viagem?
- NÆo. Tim conhecia-a. E eu j ouvira falar mui-
to dela, por uma prima, Joana Southwood, mas nunca
t¡nhamos trocado uma palavra, at‚ ...quele dia, no ter-
ra‡o do hotel, em AssuÆo.
- Se me d licen‡a, madame, tenho outra pergun-
ta a fazer-lhe.

170 þ 171

Mrs. Allerton murmurou com um leve sorriso:
- Gostaria imenso que me fizesse uma pergunta
indiscreta.
- Muito bem. A senhora, ou pessoa de sua familia,
teve algum prejuizo financeiro, em consequˆncia de tran-
sac‡äes com Melhuish Ridgeway, pai de Mistress Doyle?
A pergunta pareceu surpreender Mrs. Allerton.
- Oh, nÆo. As finan‡as da fam¡lia nunca sofre-
ram, a n"o ser uma ligeira depressÆo... O senhor sabe,
tudo rende menos do que costumava render... NÆo
houve nada de melodram tico na nossa pobreza. Meu
I marido deixou uma fortuna pequena, mas ainda con-
servo o que herdei, embora os juros nÆo sejam os mes-
mos daquele tempo.
- Agradecido, madame. Talvez queira ter a bon-
dade de nos mandar o seu filho?
Tim disse a Mrs. Allerton, quando esta foi pro-
cur -lo:
- Acabou-se a prova? Chegou a minha vez. Que
esp‚cie de perguntas lhe fizeram?
- Apenas se eu tinha ouvido alguma coisa ontem
... noite. E, infelizmente, nÆo ouvi coisa alguma. NÆo
sei como... Afmal de contas, a cabina de Linnet ‚ qua-
se pegada ... minha. Acho que devia ter ouvido a deto-
na‡Æo. Vai agora, Tim; estÆo ... tua espera.
Poirot fez a Tim a mesma pergunta que a Mrs. Al-
lerton, e ele respondeu:
- Fui cedo para a cama, ...s dez e meia, mais ou
menos. Li um pouco, e apaguei a luz logo depois das
onze horas.
- Ouviu alguma coisa depois disso?
- Ouvi uma voz de homem, dizendo boa noite,
nÆo muito longe da minha cabina.
, - Devia ser eu, despedindo-me de Mistress Doyle
- disse Race.
- Com certeza. Depois disso fui para a cama.
; Mais tarde, ouvi ru¡dos confusos: algu‚m chamando
Fanthorp, lembro-me agora.

- Era Miss Robson, ao sair do salÆo envidra‡ado.
- Sim, com certeza foi isso. E depois ouvi v rias
vozes diferentes. E algu‚m correndo pelo tombadilho,
e um baque na gua. E depois a voz do velho Bessner,
recomendando em tom nÆo muito baixo: þþCuidado,
agora.þþ E ainda: þþNÆo ande depressa demais.þþ
- Ouviu um baque?
- Qualquer coisa desse g‚nero.
- Tem a certeza de que nÆo foi uma detona‡Æo?
- Bom, talvez tenha sido isso. Deu-me a impressÆo
do estalo de uma rolha ao saltar. � poss¡vel que tenha
sido um tiro. Talvez eu tenha imaginado o baque, por
associa‡Æo de ideias; o ru¡do da rolha fazendo-me lem-
brar algum l¡quido a ser despejado num copo... Sei
que, na nebulosidade do meu pensamento, achei que
estava a dar-se uma festa, ou coisa parecida. E desejei
que fossem todos para a cama e ficassem quietos!
- Nada mais, depois disso?
Tim pareceu reflectir.
- Somente Fanthorp movendo-se na sua cabina,
que ‚ pegada ... minha. Pensei que nunca mais fosse
para a cama.
- E depois?
Tim encolheu os ombros.
- Depois... o esquecimento.
- NÆo ouviu mais nada?
- Absolutamente nada.
- Muito agradecido, Mister Allerton.
Tim levantou-se e saiu.

CAPÖTULO XV


Race estudava a planta do tombadilho de passeio.
- Fanthorp, Tim Allerton, Mistress Allerton. De-
pois uma cabina vazia, a de Simon Doyle. A velha

172 þ 173

americana. Se algu‚m ouviu alguma coisa, tamb‚m ela
deve ter ouvido. � melhor mandarmos cham -la, se j
estiver a p‚.
Miss Van Schuyler entrou na cabina, parecendo
ainda mais velha e amarela naquela manhÆ. Os olhitos
pretos tinham uma venenosa expressÆo de contrariedade.
Race ergueu-se e inclinou-se diante dela.
- Sentimos muito ter que a incomodar, Miss Van
Schuyler. Foi muita bondade sua... Queira sentar-se.
A velhota disse secamente:
- Acho detest vel ver-me metida nisto; detest -
vel! N"o quero de modo algum envolver-me em...
hummm... neg¢cio tÆo desagrad vel.
- Tem razÆo, tem razÆo. Eu estava justamente a
dizer a Monsieur Poirot que, quanto mais cedo ouv¡s-
semos o seu depoimento, melhor, pois assim nÆo ter¡a-
mos mais que a incomodar.
Miss Van Schuyler fitou Poirot com expressÆo um
pouco mais benevolente.
- Fico satisfeita por ver que os senhores com-
preendem os meus sentimentos. NÆo estou habituada
a estas coisas.
Poirot disse suavemente:
- De acordo, mademoiselle. � exactamente por is-
so que queremos deix -la livre de aborrecimentos o
mais depressa poss¡vel. Agora: a que horas se deitou
ontem?
- Deito-me sempre ...s dez horas. Ontem, iquei
um pouco atrasada, porque, muito desatenciosamente,
Corn‚lia fez-me esper -la.
- TrŠs bien, mademoiselle. Agora: que ouviu de-
pois de se ter retirado?
Miss Van Schuyler explicou:
- Tenho o sono muito leve.
- · merveille. � uma sorte para n¢s.
- Acordei com a voz daquela espalhafatosa criada
de Mistress Doyle, dizendo: þþBonne nuit, madameþþ,
em voz alta de mais, na minha opiniÆo.

- Depois?
- Adormeci novamente. Acordei com a impressÆo
de que algu‚m estava na minha cabina, mas nÆo tardei
a perceber que o ru¡do vinha da cabina vizinha.
- A de Mistress Doyle?
- Sim. Depois ouvi passos no tombadilho e em
seguida um baque na gua.
- NÆo sabe mais ou menos que horas eram?
- Posso dizer exactamente a hora. Uma e dez.
- Tem a certeza?
- Tenho, sim. Olhei para o rel¢gio, que estava na
mesa de cabeceira.
- NÆo ouviu uma detona‡Æo?
- NÆo; nem nada desse g‚nero.
- Mas quem sabe se nÆo foi a detona‡Æo que a
acordou?
Miss Van Schuyler pareceu reflectir, inclinando li-
geiramente a cabe‡a.
- Talvez - respondeu, contrariada.
- E nÆo tem a menor ideia do que possa ter cau-
sado esse baque na gua?
- Pelo contr rio. Sei perfeitamente o que foi.
Race endireitou-se, de olhar alerta.
- Sabe?
- Claro! NÆo gostei daquele ru¡do de passos a
meio da noite. Levantei-me, portanto, e fui at‚ ... porta
da minha cabina. Miss Otterbourne estava debru‡ada
na amurada e acabava de atirar qualquer coisa ... gua.
- Miss Otterbourne?
- Distingui-lhe perfeitamente o rosto.
- E ela nÆo a viu, mademoiselle?
- NÆo o creio.
Poirot inclinou-se e perguntou:
- E qual a expressÆo do rosto de Miss Otterbourne?
- Parecia profundamente alterada.
Os dois homens entreolharam-se. Race perguntou:
- E entÆo?
- Miss Otterbourne afastou-se para o lado da po-
pa e eu voltei para a cama.

174 þ 175

Neste momento, bateram ... porta e o gerente apa-
receu, trazendo nas mÆos um embrulho encharcado.
- Encontr mos, coronel.
Race estendeu a mÆo e desembrulhou, dobra por
dobra, o tecido de veludo. Caiu de dentro um len‡o
grosseiro, com manchas cor-de-rosa, que envolvia um
revolverzinho de cabo de madrep‚rola.
Race fitou Poirot com ar de malicioso triunfo.
- Vˆ? A minha ideia nÆo era assim tÆo m . Foi
atirado ... gua - disse ele, colocando o rev¢lver na
palma da mÆo. - Que diz a isto, Monsieur Poirot?
E o rev¢lver que viu no Hotel Catarata, naquela noite?
O detective examinou-o com cuidado, depois disse
calmamente:
- Sim, ‚ o mesmo. C estÆo os enfeites no cabo
e... as iniciais: J. B. � um article de luxe, muito femi-
nino, mas apesar disso perigoso.
- Vinte e dois... - murmurou Race, examinan-
do-o tamb‚m. - Duas balas batidas. N"o h d£vida
nenhuma de que ‚ esta a arma.
Miss Van Schuyler tossiu de maneira significativa.
- E que acham da minha ‚charpe?
- A sua ‚charpe, mademoiselle?
- Sim, isto que o senhor tem a¡ na mÆo ‚ a minha
‚charpe de veludo!
Race examinou o tecido macio e perguntou:
- Isto ‚ seu, Miss Van Schuyler?
- Claro que ‚ meu! - exclamou a velha secamen-
te. - Dei pela sua falta ontem ... noite. Perguntei a to-
dos se tinham visto a minha ‚charpe.
Poirot consultou Race com o olhar e este inclinou a
cabe‡a em sinal de assentimento.
- Onde a viu pela £ltima vez, Miss Van Schuyler?
- Estava a meu lado, no salÆo, ontem ... noite.
Quando me levantei para me ir deitar, nÆo consegui
encontr -la.
Poirot perguntou tranquilamente:
- Percebe para que foi usada?

Ao dizer isto, abriu a ‚charpe, mostrando v rios fu-
rinhos no tecido.
- O assassino usou-a para amortecer a detona‡Æo-
acrescentou ele.
- Que topete! - exclamou Miss Van Schuyler,
corando violentamente.
Race disse entÆo:
- Ficar-lhe-ei muito agradecido, Miss Van Schuy-
ler, se me disser quais as suas rela‡äes com Mistress
Doyle, anteriormente a esta viagem.
- Essas rela‡äes eram inexistentes.
- Mas conhecia-a?
- Sabia quem era, naturalmente.
- Mas a sua fam¡lia e a dela nÆo se davam?
- A minha fam¡lia foi sempre exigente, coronel
Race. Minha mÆe jamais sonharia em ir visitar uma
pessoa da fam¡lia Hartz, que, a nÆo ser pelo seu di-
nheiro,, era gente que socialmente nÆo contava.
- E s¢ o que tem a dizer, Miss Van Schuyler?
- Nada tenho a acrescentar ao que j disse. Lin-
net Ridgeway foi educada na Inglaterra e eu nunca a
tinha visto at‚ p"r os p‚s neste vapor.
Dito isto, levantou-se. Poirot abriu-lhe a porta
e ela saiu muito tesa e importante.
Os olhares dos dois homens encontraram-se.
- � esta a sua versÆo da hist¢ria, e dela nÆo se
afastar - disse Race. - Talvez seja verdade. NÆo
sei... Mas... Rosalie Otterbourne? Por esta nÆo espera-
va eu!
Poirot abanou a cabe‡a, com ar perplexo. Depois
bateu com for‡a o punho na mesa, exclamando:
- Mas isto nÆo tem sentido! Nom d'un nom d'un
nom! NÆo tem sentido!
- Que quer exactamente dizer com isso? - per-
guntou Race, fitando-o com curiosidade.
- Digo que at‚ certo ponto tudo caminha logica-
mente. Algu‚m queria matar Linnet Doyle. Algu‚m
ouviu a cena no salÆo, ontem ... noite. Algu‚m ali en-
176 þ 177

trou sorrateiramente, apanhando o rev¢lver; o rev¢lver
de Miss de Bellefort, lembre-se bem! Algu‚m matou
Linnet com este rev¢lver e escreveu a letra J na pare-
de... Tudo muito claro, nÆo ‚ verdade? Tudo apontan-
do para Jacqueline. E depois, que faz o assassino?
Deixa o rev¢lver (a arma reveladora) em algum lugar
onde possa ser encontrado? NÆo! Ele, ou ela, atira o
rev¢lver ... gua, esta prova tÆo importante. Porquˆ,
meu amigo, porquˆ?
Race sacudiu a cabe‡a.
- � realmente esquisito - confessou ele.
- Mais do que esquisito, impossivel!
- Imposs¡vel nÆo, uma vez que aconteceu!
- NÆo foi isso que eu quis dizer. Digo que a mar-
cha dos acontecimentos ‚ impossivel! Alguma coisa est
errada.

CAPÖTULO XVI


Race fitou o colega com curiosidade. Respeitava, e
tinha motivo para isso, a inteligˆncia de Hercule Poi-
rot. E, no entanto, naquele momento nÆo podia acom-
panhar-lhe o racioc¡nio. Mas nem por isso lhe pergun-
tou coisa alguma. N"o era h bito seu fazer perguntas.
Continuou com o assunto de que tratavam naquele
momento.
- Que fazer, em seguida? Interrogar a pequena
Otterbourne?
- Sim; isso talvez nos ajude um pouco.
Rosalie Otterbourne entrou com expressÆo de m
vontade no rosto. NÆo parecia nervosa ou amedronta-
da; apenas de mau humor e contrariada.
- EntÆo! Que desejam? - perguntou.
Foi Race quem primeiro lhe dirigiu a palavra.
- Estamos a investigar a morte de Mistress Doy-
le - explicou ele.

Rosalie inclinou a cabe‡a, sem nada responder.
- Quer dizer-me o que fez ontem ... noite?
Rosalie reflectiu alguns segundos.
- A mamÆ e eu fomos cedo para a cama; antes das
onze horas. NÆo ouvimos coisa alguma, a nÆo ser mur-
m£rios de vozes ... porta da cabina do doutor Bessner.
Distingui a voz pesada do alemÆo, afastando-se. Natu-
ralmente, s¢ hoje de manhÆ fiquei a saber do que se
tratava.
- NÆo ouviu um tiro?
- NÆo.
- NÆo saiu da sua cabina, ontem ... noite?
- NÆo.
- Tem a certeza?
Rosalie encarou-o.
- Que quer dizer com isso? Claro que tenho a
certeza.
- A senhora nÆo teria, por acaso, dado a volta pe-
lo tombadilho, e atirado qualquer coisa ... gua?
- H alguma lei proibindo que se atirem coisas ...
gua? - perguntou a jovem, corando.
- NÆo, claro que nÆo. EntÆo foi o que fez?
- Nada disso. J lhe disse que nÆo sa¡ da minha
cabina.
- Se algu‚m tiver dito que a viu...
A jovem interrompeu-o:
- Quem foi que disse que me viu?
- Miss Van Schuyler.
- Mlss Van Schuyler? - perguntou Rosalie, ad-
mirada.
- Sim; Miss Van Schuyler disse que espreitou pe-
la porta da sua cabina, e viu a senhora atirar qualquer
coisa ..., gua.
- E mentira - declarou a jovem sem hesitar.
Depois, como se alguma coisa lhe tivesse ocorrido
de repente, perguntou:
- A que horas?
Desta vez foi Poirot quem respondeu:

178 þ 179

- Passavam dez minutos da uma hora, mademoi-
selle.
Rosalie inclinou a cabe‡a, com ar pensativo.
- Ela viu mais alguma coisa?
Poirot fitou-a com curiosidade, co‡ando o queixo.
- Ver... nÆo. Mas ouviu.
- Sim?
- Algu‚m a mexer-se na cabina de Mistress Doyle.
- Compreendo - murmurou Rosalie.
Agora estava p lida, muito p lida.
- E insiste em dizer que nÆo atirou nada fora, ma-
demoiselle?
- Por que motivo havia eu de andar no meio da
noite a atirar coisas ao rio?
- Talvez houvesse um motivo, um motivo inocente.
- Inocente? - perguntou a jovem bruscamente.
- Foi o que eu disse. Porque, a senhora sabe, al-
guma coisa foi atirada ... gua a noite passada; uma coi-
sa que nada tinha de inocente.
Sem dizer uma palavra, Race mostrou-lhe a ‚charpe
de veludo, abrindo-a para exibir o seu conte£do.
Rosalie recuou, perguntando:
- Foi com isto... que a mataram?
- Sim, mademoiselle.
- E acha que eu... que fui eu que a matei? Que
tolice! Por que motivo havia eu de querer matar Lin-
net Doyle? Se nem ao menos a conhecia!
Sorriu, levantando-se com ar desdenhoso.
- � completamente rid¡culo! - acrescentou.
- Lembre-se, Miss Otterbourne, de que Miss Van
Shuyler est pronta a jurar que distinguiu claramente
as suas fei‡äes, ao luar.
Rosalie riu novamente.
- Aquela gata velha! Com certeza ‚ quase cega.
NÆo foi a mim que viu. - Fez uma pausa e pergun-
tou: - Posso ir-me embora?
Race inclinou a cabe‡a e a jovem saiu.
Os dois homens entreolharam-se novamente. Race
acendeu um cigarro e comentou:

- EntÆo ‚ isso! Contradi‡Æo absoluta. Em quem
devemos acreditar?
- Parece-me que nenhuma das duas foi muito
franca.
- � isso o mais duro no nosso trabalho - obser-
vou Race em tom desanimado. - Tanta gente oculta a
verdade, ...s vezes por motivos completamente f£teis!
E agora? Continuaremos o interrogat¢rio?
- Creio que sim. � sempre bom agir com m‚todo
e ordem.
Mrs. Otterbourne foi a seguinte a ser chamada.
Confirmou o que a filha dissera - que tinham am-
bas ido para a cama antes das onze horas. Nada ouvira
durante a noite. NÆo podia dizer se Rosalie sa¡ra ou
nÆo da cabina... Quanto ao crime, parecia disposta a
discuti-lo.
- O crime passionnel! - exclamou ela. - O ins-
tinto primitivo: matar! tÆo ligado ao instinto sexual!
Aquela pequena, Jacqueline, meio latina, de tempera-
mento ardente, obedecendo aos seus mais fortes instin-
tos, adiantando-se de mansinho, de rev¢lver na mÆo...
- Jacqueline nÆo matou Mistress Doyle. Disso te-
mos n¢s a certeza. Est provado - declarou Poirot.
- Seu marido, entÆo - emendou Mrs. Otterbour-
ne, sem se dar por vencida. Sede de sangue e instinto
sexual; crime passionel. H muitos exemplos...
- Mister Doyle levou um tiro na perna e estava
impossibilitado de se mover - explicou o coronel Ra-
ce. - Passou a noite com o doutor Bessner.
Mrs. Otterbourne pareceu desapontada, mas ime-
diatamente procurou outra solu‡Æo.
- Naturalmente! Como fui tola! Miss Bowers!
- Miss Bowers?
- Sim, ‚ l¢gico. Psicologicamente tÆo claro! Re-
pressÆo. A virgem recalcada! Enfurecida ao ver o es-
pect culo daqueles dois: um casal jovem e apaixonado!
Claro que foi ela. � o tipo perfeito... sem atrac‡Æo f¡si-
ca... seriedade inata... No meu livro A Vinha Est‚ril...

180 þ 181

Race interrompeu-a delicadamente:
- As suas sugestäes foram muito apreciadas. Pre-
cisamos agora de continuar com o nosso trabalho.
Muito agradecido.
Acompanhou-a amavelmente at‚ ... porta e voltou
enxugando a testa.
- Uf, que criatura venenosa! � pena nÆo ter sido
ela a assassinada.
- Pode ainda acontecer! - disse Poirot ... guisa de
consola‡Æo.
- Talvez nÆo seja tÆo grande absurdo. Quem ‚
que falta? Pennington? Vamos deix -lo para o fim. Ri-
chetti, Ferguson.
Signor Richetti chegou, parecendo muito agitado e
falando com volubilidade.
- Que horror! Que infƒmia!... Uma mulher tÆo
jovem e bonita... Que crime monstruoso! - exclamou
erguendo expressivamente as mÆos.
Respondeu com clareza ...s perguntas de Poirot. Logo
depois do jantar, para ser exacto, fora para a cama...
muito cedo. Lera um panfleto muito interessante, re-
c‚m-publicado: Praehistoþ~ische Forschung in Kleinasien.
Apagara a luz um pouco antes das onze horas.
NÆo, nÆo ouvira detona‡Æo alguma. Nem coisa pareci-
da com o estalo de uma rolha. O £nico som que ouvira
- e isto bem mais tarde! - fora o de qualquer coisa
batendo na gua, perto da sua escotilha.
- A sua cabina fica no tombadilho de baixo, a es-
tibordo, nÆo ‚ verdade?
- Sim, sim, ‚ isso mesmo. E ouvi o ru¡do de um
baque, muito forte.
De novo ele ergueu os bra‡os para dar ˆnfase ... frase.
- Pode dizer-me a que horas foi isso?
Richetti pareceu reflectir.
- Uma, duas, trˆs horas depois que adormeci.
Talvez duas horas.
- · uma e dez, por exemplo?
- Sim, talvez tivesse sido. Ah! Que crime horr¡-
vel... desumano... uma mulher tÆo linda!...

Saiu o Signor Richetti, ainda gesticulando bastante.
Race olhou para Poirot. O detective ergueu expres-
sivamente as sobrancelhas, depois encolheu os ombros.
Mandaram chamar Mr. Ferguson.
Com ele foi mais dif¡cil. O rapaz esparramou-se in-
solentemente numa cadeira.
- Que barulho por causa de uma coisa sem im-
portƒncia! - disse ele desdenhosamente. - H mu-
lheres em excesso no mundo.
Race perguntou friamente:
- Pode dar-nos um resumo dos seus actos ontem
... noite, Mister Ferguson?
- NÆo vejo razÆo para isso. Mas nÆo me incomoda
responder. Vagueei de um lado para o outro. Fui a ter-
ra com Miss Robson. Quando ela voltou para o barco,
vagabundeei, sozinho, mais um pouco. Voltei para o
navio e fui deitar-me ... meia-noite.
- A sua cabina fica no tombadilho de baixo, a es-
tibordo?
- Fica. NÆo estou em cima, com os aristocratas.
- Ouviu um tiro? Qualquer coisa parecida com o
estalar de uma rolha?
Ferguson reflectiu; depois disse:
- Sim, creio ter ouvido um som semelhante ao
saltar de uma rolha... NÆo me lembro quando... Antes
de adormecer. Mas ainda havia muita gente a p‚; agi-
ta‡Æo, passos apressados no tombadilho de cima.
- Provavelmente devido ao tiro dado por Miss de
Bellefort. NÆo ouviu outro?
Ferguson sacudiu negativamente a cabe‡a.
- Nem o ru¡do de um baque na gua?
- Sim, isso creio que ouvi. Mas havia tanto baru-
lho que nÆo posso ter a certeza.
- Saiu da sua cabina durante a noite?
Ferguson sorriu.
- NÆo, nÆo sa¡. E infelizmente nÆo tive participa-
‡Æo no acto merit¢rio.
- Vamos, vamos, Mister Ferguson, nÆo seja tÆo
infantil.


182 þ 183

Isto pareceu encolerizar o socialista.
- Porque nÆo hei-de dizer o que penso? Sou a fa-
vor da violˆncia.
- Mas nÆo päe em pr tica as suas ideias? - disse
Poirot. - NÆo sei, nÆo...
Inclinou-se e perguntou noutro tom:
- Foi aquele sujeito, Fleetwood, nÆo foi, que lhe
disse que Linnet Doyle era uma das mulheres mais ri-
cas da Inglaterra?
- Que tem Fleetwood com isso?
- Fleetwood, meu amigo, tinha um excelente mo-
tivo para matar Linnet Doyle.
Ferguson endireitou-se vivamente na cadeira.
- EntÆo ‚ este o seu jogo, hem? - exclamou coleri-
camente. - Querem empurrar a culpa para o pobre
Fleetwood, que nÆo pode defender-se, que nÆo tem di-
nheiro para pagar a advogados! Mas oi‡am uma coisa: se
tentarem incrimin -lo, terÆo de ajustar contas comigo.
- E, precisamente, quem ‚ o senhor? - pergun-
tou suavemente Poirot.
Mr. Ferguson corou violentamente.
- Sou uma pessoa leal aos seus amigos - disse
ele bruscamente.
- Bom, Mister Ferguson, por enquanto, creio
que ‚ s¢ isto - disse Race.
Quando a porta se fechou, Race comentou:
- Um sujeito no fundo bem simp tico, nÆo acha?
- NÆo desconfia entÆo que seja o homem que est
a procurar? - perguntou Poirot.
- NÆo o creio. E no entanto ele est a bordo.
A informa‡"o foi muito precisa. Oh, bom, uma coisa
de cada vez. Vamos interrogar Pennington.

CAPÖTULO XVII


Andrew Pennington compareceu com todas as con-
vencionais manifesta‡äes de surpresa e pesar. Estava,
como sempre, caprichosamente vestido. Usava agora
uma gravata preta. O rosto comprido e bem barbeado
tinha uma expressÆo perplexa.
- Senhores, este caso abalou-me profundamente.
A pequena Linnet... Imaginem, lembro-me dela quan-
do era a menina mais linda deste mundo! Como Me-
lhuish Ridgeway se orgulhava dela! Bom, de nada
adiantam as lamenta‡äes. Digam-me apenas em que
posso ajud -los; ‚ s¢ o que lhes pe‡o.
Race abriu o interrogat¢rio:
- Para come‡ar, Mister Pennington, ouviu algu-
ma coisa a noite passada?
- NÆo, senhor. NÆo posso dizer que tenha ouvi-
do. A minha cabina fica pegada ... do doutor Bessner,
n£mero trinta e oito-trinta e nove. Ouvi certa agita‡Æo,
a¡ pela meia-noite. Naturalmente, naquela ocasiÆo nÆo
soube do que se tratava.
- NÆo ouviu mais nada? Tiros?. .
Pennington abanou a cabe‡a.
- Nada semelhante.
- E foi para a cama ...s...?
- Pouco depois das onze.
O americano inclinou-se para a frente e continuou
em tom confidencial:
- NÆo creio que ignorem os boatos que correm
neste navio? Aquela rapariga meio francesa, por exem-
plo, Miss de Bellefort. H alguma coisa de esquisito,
como sabem. Linnet nada me disse, mas naturalmente
nÆo sou cego nem surdo. Houve qualquer coisa entre
ela e Simon, nÆo houve? Cherchez la femme (‚ coisa
que muitas vezes d certo) e neste caso nÆo creio que
tenham que chercher muito longe.
Poirot perguntou:


185

- Quer dizer que, na sua opiniÆo, Miss de Belle-
fort matou Mistress Doyle?
- � o que me parece. Claro que nÆo sei de nada...
- Infelizmente, n¢s sabemos de alguma coisa!
- Iþem? - exclamou o americano, ligeiramente
sobressaltado.
- Sabemos que teria sido imposs¡vel Miss de Bel-
lefort matar Mistress Doyle.
Poirot deu pormenorizadamente explica‡äes, mas
Pennington mostrou-se pouco disposto a aceit -las.
- NÆo digo que ... primeira vista nÆo pare‡a que os
senhores tˆm razÆo, mas aquela enfermeira... garanto
que nÆo ficou acordada toda a noite. Com certeza
adormeceu e a rapariga escapuliu-se da cabina.
- Pouco prov vel, Mister Pennington. Lembre-se
de que Miss Bowers tinha aplicado a Jacqueline uma
forte injec‡Æo. Al‚m do mais, as enfermeiras em geral
tˆm o sono leve e costumam acordar quando os pa-
cientes acordam.
- Acho muito esquisito - disse o americano.
Race replicou, em tom ligeiramente autorit rio:
- Creio que pode acreditar, Mister Pennington,
que examin mos com cuidado todas as possibilidades.
NÆo h d£vida quanto ao resultado: Jacqueline de Bel-
lefort nÆo poderia ter assassinado Linnet Doyle. So-
mos, portanto, obrigados a procurar algures e achamos
que neste ponto o senhor nos poder auxiliar.
- Eu? - perguntou Pennington com um nervoso
sobressalto.
- Sim. O senhor era ¡ntimo amigo da v¡tima. Pro-
vavelmente, sabe da vida de Mistress Doyle mais do
que o seu pr¢prio marido, que a conheceu h poucos
meses. Talvez nos possa dizer, por exemplo, se existe
algu‚m com razÆo de queixa contra ela, algu‚m que ti-
vesse motivos para lhe desejar a morte.
Pennington passou a l¡ngua pelos l bios ressequi-
dos e respondeu:
- Garanto-lhe que nÆo tenho a m¡nima ideia...

Linnet, o senhor sabe, foi educada na Inglaterra. Co-
nhe‡o muito pouco da sua vida e das suas rela‡äes.
- E, no entanto, algu‚m neste navio estava inte-
ressado no seu desaparecimento. O senhor deve estar
lembrado de que Mistress Doyle escapou de um peri-
go iminente, aqui mesmo, quando aquela pedra ro-
lou... Ah! Mas talvez nÆo estivesse l ?
- NÆo; eu estava dentro do templo, nessa ocasiÆo.
Ouvi depois coment rios sobre o caso, naturalmente.
Escapou por um triz. Mas... talvez um acidente, nÆo
acha?
Poirot encolheu os ombros.
- Foi o que se pensou, no momento. Agora...
nÆo sei!
- Sim, sim, tem razÆo! - disse Pennington enxu-
gando a testa com um fin¡ssimo len‡o de seda.
Race disse:
- Mistress Doyle referiu-se a certa pessoa neste
navio que tinha raz"es de queixa, nÆo contra ela, pes-
soalmente, mas contra a sua fam¡lia. Sabe quem pode-
ria ser essa pessoa?
O americano respondeu, parecendo sinceramente
admirado:
- NÆo, nÆo tenho a m¡nima ideia.
- Mistress Doyle nÆo discutiu o caso com o senhor?
- NÆo.
- Era amigo ¡ntimo do pai dela... NÆo se lembra
de nenhuma transac‡Æo que tenha tido como resultado
a ru¡na de algum advers rio, no mundo das finan‡as?
Pennington abanou a cabe‡a, com ar desanimado.
- Nenhum caso especial. Tais transac‡äes eram,
naturalmente, frequentes, mas n"o me lembro de nin-
gu‚m que tivesse feito amea‡as... Nada desse g‚nero.
- Em resumo, Mister Pennington, o senhor nÆo
nos pode ajudar?
- � o que parece. Lamento muito, meus senhores.
Race trocou um olhar com Poirot.
- Tamb‚m eu sinto - disse ele. - Est vamos
com esperan‡as.

186 þ 187

Levantou-se, dando a entrevista por terminada.
- Como est de cama, Mister Doyle com certeza
h -de querer que eu cuide de tudo - disse Penning-
ton. - Perdoe-me, coronel, mas que providˆncias vai
tomar?
- Quando sairmos daqui, iremos directamente pa-
ra Shellƒl, onde devemos chegar amanhÆ de manhÆ.
- E o corpo?
- Ser levado para uma das cƒmaras frigor¡ficas.
Pennington despediu-se e saiu.
Poirot e Race consultaram-se com o olhar. O coro-
nel acendeu um cigarro e comentou:
- Mister Pennington nÆo estava nada ... vontade.
Poirot inclinou a cabe‡a e disse:
- Mister Pennington estava tÆo perturbado, a
ponto de dizer uma mentira est£pida. Ele nÆo estava
no templo de Abu Simbel, quando aquela pedra rolou.
Sobre isso, eu (moi qui vous parle) posso jurar. Eu aca-
bara justamente de sair do templo.
- Uma mentira est£pida - concordou Race.-
E muito significativa.
- Mas no momento oportuno n¢s o trataremos
com luvas de pelica, nÆo ‚ verdade?
- � tamb‚m a minha opiniÆo.
- Meu amigo, n¢s entendemo-nos ...s mil mara-
vilhas.
Ouviram um ronco distante e spero, sentiram o
navio vibrar a seus p‚s...
O Karnak iniciava a sua viagem de regresso a Shellƒl.
- As p‚rolas - disse Race. - Temos agora que
cuidar das p‚rolas.
- Tem algum plano?
- Tenho, sim. - Race consultou o rel¢gio e
acrescentou: - Daqui a meia hora, ser servido o al-
mo‡o. No fim da refei‡Æo, farei uma comunica‡Æo; di-
rei que o colar foi roubado, e que sou obrigado a pedir
que fiquem todos no salÆo, para que se proceda a uma
busca no navio.

Poirot inclinou a cabe‡a em sinal de assentimento.
- Muito bem pensado. Quem quer que seja que te-
nha roubado o colar, ainda o conserva em seu poder. Apa-
nhado de surpresa, o ladrÆo nÆo ter oportunidade de
o atirar ao rio, num momento de pƒnico.
Race puxou para mais perto uma pilha de pap‚is e
disse, em tom de quem se desculpa:
- Gosto de fazer um resumo dos factos, ... medida
que vou progredindo. Evita-se assim muita confusÆo.
- Faz muito bem. Nada h como a ordem e o m‚-
todo - disse Poirot.
Race escreveu durante dez minutos, na sua letra
mi£da e fina. Finalmente, empurrou para mais perto
de Poirot o fruto do seu trabalho.
- Qualquer coisa com que nÆo concorde?
O detective apanhou as folhas. No alto da primei-
ra, estava escrito:


ASSASSÖNIO DE MRS. LINNET DOYLE

Mrs. Doyle foi vista com vida, a £ltima vez, pela
sua criada, Louise Bourget. Hora: 23 e 30 (aprox.)
Das 23.30 ...s 0.20 as seguintes pessoas tˆm libis:
Corn‚lia Robson, James Fanthorp, Simon Doyle, Jac-
queline de Bellefort - ningu‚m mais - mas o crime
provavelmente foi cometido depois disso, pois ‚ quase
certo o assassino ter usado o rev¢lver de Jacqueline de
Bellefort, que at‚ entÆo estava dentro da bolsa desta
£ltima. NÆo est provado que o crime foi cometido
com este rev¢lver, e s¢ se poder ter a certeza absoluta
depois da aut¢psia, quando for ouvida a opiniÆo dos
t‚cnicos, a respeito da bala; mas podemos considerar
isto como prov vel.
Curso prov vel dos acontecimentos: X (o assassino)
presenciou a cena entre Jacqueline e Simon Doyle, no
salÆo envidra‡ado, viu onde caiu o rev¢lver, sob a pol-
trona. Quando o salÆo ficou deserto, X procurou a ar-
ma - pensando que o crime seria por isso atribu¡do a

188 þ 189

Jacqueline. Devido a esta teoria, muita gente pode ser
considerada inocente.
Corn‚lia Robson, uma vez que nÆo teve oportunida-
de de ir buscar o rev¢lver, antes de James Fanthorp
voltar para o procurar.
Miss Bowers - a mesma coisa.
Dr. Bessner - a mesma coisa.
N. B. NÆo se pode considerar Fanthorp como
completamente inocente, pois podia ter metido a arma
no bolso, dizendo depois que a nÆo encontrara.
Qualquer outra pessoa poderia ter apanhado a arma
naquele espa‡o de dez minutos.
Poss¡veis motivos para o crime:
Andrew Pennington: Isto, partindo-se do princ¡pio de
que ‚ culpado de fraudulentas especula‡äes. H muitos
ind¡cios neste sentido, mas nÆo bastam para o apontar
como assassino. Se foi quem fez rolar a pedra, entÆo
mostrou que ‚ pessoa que sabe aproveitar a oponunida-
de que se apresenta. O crime, naturalmente, nÆo foi pre-
meditado, a nÆo ser de uma maneira geral. A cena no sa-
lÆo ontem ... noite forneceu a oportunidade ideal.
Objec‡äes ... teoria da culpabilidade de Pennington.
Porque atirou ele o rev¢lver ao rio, uma vez que era uma
prova valiosa contra þ. B. ?
Fleetwood: Motivo: vingan‡a. Fleetwood achava
que Linnet Doyle o prejudicara. � poss¡vel que tivesse
assistido ... cena, notando o lugar onde o rev¢lver fora
parar. Pode tˆ-lo apanhado mais pela facilidade de ter
uma arma ... mÆo, do que para atirar a culpa sobre Jac-
queline. Isto condiz com o gesto subsequente de o ati-
rar fora. Mas, sendo assim, por que motivo escreveu a
letra þ com sangue na parede?
N. B. � mais prov vel que o len‡o barato, encon-
trado ... volta do rev¢lver, perten‡a a um homem como
Fleetwood, do que a qualquer dos passageiros abastados.
Rosalie Otterbourne: Devemos aceitar o depoimento
de Miss Van Schuyler ou a negativa de Rosalie? Algu-
ma coisa foi lan‡ada ... gua, provavelmente o rev¢lver
dentro da ‚charpe de veludo.
Pontos a serem estudados: Teria Rosalie algum
motivo?
� poss¡vel que nÆo apreciasse Mrs. Doyle e a inve-
jasse - mas como motivo para matar isto parece ab-
surdo; a julgar pelas aparˆncias, nÆo havia nenhuma
liga‡Æo anterior entre Rosalie e Linnet.
Miss Van Schuyler: A ‚charpe de veludo que envolvia
a arma pertence a Miss Van Schuyler. A julgar pelo que
ela disse, viu-a pela £ltima vez no salÆo envidra‡ado.
Chamou a aten‡Æo para o facto de a ter perdido, tendo
sido feita, sem resultado, uma busca para a encontrar.
Como foi a ‚charpe parar ...s mÆos de X? Ter-se-ia
X apoderado dela no princ¡pio da noite? E, sendo as-
sim, com que fito? Ningu‚m podia saber de antemÆo
que ia haver uma cena entre Jacqueline e Simon. Teria
X encontrado a ‚charpe no salÆo, quando foi procurar
o rev¢lver? Mas, neste caso, porque nÆo foi encontra-
da na ocasiÆo da busca? Miss Van Schuyler tˆ-la-ia per-
dido realmente?
Isto ‚:
Terzcz Miss Van Schuyler assassinado Linnet Doyle? Se-
r falsa a sua acusa‡Æo a Rosalie? Se matou Mrs. Doyle,
qual o motivo?
Outras possibilidades:
Algu‚m com razäes contra a familia Ridgeway. Poss¡-
vel - mas nÆo h ind¡cios.
Sabemos que h um homem perigoso a bordo - um
assassino. Temos aqui um assassino e um crime. NÆo
haver liga‡Æo entre os dois? Mas, para chegarmos a esta
conclusÆo, seria necess rio saber que Linnet tinha pode-
rosas informa‡äes a respeito desse homem.
Conclusäes: Podemos dividir as pessoas a bordo em
dois grupos - aqueles que tinham motivo, ou contra
quem h ind¡cios, e aqueles que, pelo que at‚ agora
averigu mos, estÆo livres de suspeita.

190 þ 191

Grupo I Grupo II

Andrew Pennington Mrs. Allerton
Tim Allerton
Fleetwood Corn‚lia Robson
Rosalie Otterbourne Miss Bowers
Miss Van Schuyler Dr. Bessner
Signor Richetti
Louise Bourget (Roubo) Mrs.0tterbourne
Ferguson (Pol¡tica?) James Fanthorp

Poirot afastou os pap‚is e comentou:
- Est certo, muito certo, o que escreveu.
- Concorda?
- Concordo, sim.
- E agora, qual a sua colabora‡Æo?
Poirot empertigou-se com ar importante.
- Eu, eu fa‡o a mim mesmo uma pergunta: þþPor
que motivo atiraram fora o rev¢lver?þþ
- S¢ isso?
- No momento presente, ‚ s¢ isso. At‚ conseguir
uma resposta satisfat¢ria a esta pergunta, de nada vale
o resto. Isto ‚... talvez a¡ esteja o ponto de partida.
Note, meu amigo, que no seu sum rio, vocˆ nÆo pro-
curou solucionar essa dificuldade.
Race sugeriu, encolhendo os ombros:
- Pƒnico.
Mas Poirot nÆo pareceu satisfeito. Apanhou a
‚charpe de veludo, estendendo-a sobre a mesa, e pas-
sou os dedos em volta dos furos e das marcas chamus-
cadas.
- Diga-me uma coisa, meu amigo: vocˆ tem mais
pr tica do que eu de armas de fogo... Uma coisa as-
sim, ... volta de um rev¢lver, amorteceria o som?
- NÆo. Pelo menos nÆo tanto como um silencia-
dor - respondeu Race.
- Um homem, e ainda mais um homem habitua-
do a lidar com armas de fogo, saberia isso. Mas nÆo
uma mulher.
Race fitou-o com curiosidade.
- Provavelmente, nÆo.
- Ela teria lido novelas policiais, onde os porme-
nores nem sempre sÆo exactos.
Race ergueu o rev¢lver.
- De qualquer maneira, este brinquedo nÆo faria
muito barulho - disse ele. - Um simples estalo e
pronto! Com outros ru¡dos ... volta, as probabilidades
sÆo de dez para um de que nÆo seria ouvido.
- Sim, pensei nisso.
Poirot examinou o len‡o e continuou:
- Len‡o de homem, mas nÆo de um cavalheiro.
Ce cher Woolworth, com certeza. No m ximo trˆs pence.
- Tipo de len‡o que um homem como Fleetwood
usaria.
- Sim. Notei que Andrew Pennington usa um fi-
n¡ssimo len‡o de seda.
- Ferguson? - sugeriu Race.
- Possivelmente. Como bravata. Mas uma banda-
na estaria mais de acordo!
- Em lugar de luva, com certeza, para segurar o
rev¢lver e evitar impressäes digitais - disse Race.
E acrescentou, como pilh‚ria: - O Caso do Len‡o
Cor-de-Rosa.
- Ah, sim. Cor de jeune fille, nÆo ‚?
Poirot colocou o len‡o sobre a mesa e voltou a exa-
minar a ‚charpe.
- Apesar de tudo, ‚ esquisito...
- A que se refere?
- Cette pauvre Madame Doyle. Deitada tÆo calma-
mente... com aquele furo na cabe‡a. Lembra-se da sua
expressÆo?
Race fitou-o com curiosidade.
- Sabe uma coisa? Palpita-me que me quer dizer
alguma coisa, Poirot, mas nÆo tenho a menor ideia do
que seja!

192 þ 193

CAPÖTULO XVIII


Ouviu-se uma pancada na porta.
- Entre - disse Race.
Apareceu um dos criados, que se dirigiu a Poirot:
- Desculpe-me, mas Mister Doyle deseja falar-lhe.
- Vou imediatamente.
O detective saiu da sala, subiu ao tombadilho supe-
rior e foi at‚ ... cabina do Dr. Bessner.
De rosto vermelho e febril, Simon parecia um tan-
to constrangido.
- Foi muita gentileza sua vir ver-me, Mister Poi-
rot. Desejo fazer-lhe um pedido.
- Sim?
Simon enrubesceu mais ainda.
- �... a respeito de Jackie. Eu gostaria de a ver.
O senhor acha... O senhor importa-se... acha que ela
se incomodaria... se lhe pedisse para vir at‚ c ? Tenho
estado aqui deitado, reflectindo... Aquela pobre pe-
quena... nÆo passa de uma crian‡a, afinal de contas...
e tratei-a tÆo mal, e...
Interrompeu-se, sem saber como continuar.
Poirot fitou-o, interessado.
- Deseja ver Mademoiselle Jacqueline? Vou cha-
m -la.
- Agradecido. � muita bondade sua.
Poirot encontrou Jacqueline encolhida numa cadei-
ra, a um canto do salÆo envidra‡ado. Tinha um livro
aberto nas mÆos, mas nÆo o lia.
Poirot disse-lhe suavemente:
- Quer fazer o favor de me acompanhar, made-
moiselle? Mister Doyle deseja vˆ-la.
A rapariga teve um sobressalto. Corou, depois em-
palideceu. Havia no seu rosto uma expressÆo perplexa.
- Simon? Ele... quer... ver-me?
Poirot achou comovente aquela incredulidade.
- Quer vir, mademoiselle?

- Ah, sim... irei.
Acompanhou-o docilmente, como uma crian‡a.
Poirot entrou primeiro na cabina.
- Mademoiselle est aqui.
Jacqueline entrou, vacilante, e estacou de repente.
Continuou ali, de p‚, muda, os olhos fitos em Simon.
- Ol ! Jackie...
Tamb‚m ele parecia constrangido.
Como a jovem nada dissesse, continuou:
- � muita bondade sua vir ver-me. Eu queria di-
zer... isto ‚...
Jaqueline interrompeu-o. As palavras sa¡ram-lhe
aos borbotäes, em tom de desespero.
- Simon... eu nÆo matei Linnet. Vocˆ sabe que
nÆo fui eu... Ontem ... noite eu... estava louca. Oh, po-
der perdoar-me?
Agora, j ele podia exprimir-se com maior facili-
dade.
- Naturalmente! NÆo tem importƒncia! NÆo tem
a m¡nima importƒncia! Era isso que eu queria dizer-
-lhe. Achei que talvez vocˆ estivesse um pouco preo-
cupada. ..
- Preocupada? Um pouco? Oh, Simon!
- Era por isso que queria vˆ-la e falar-lhe. Est
certo, minha boa amiga. Vocˆ estava perturbada on-
tem ... noite... um pouco embriagada. Tudo muito na-
tural.
- Oh, Simon, eu poderia tˆ-lo matado...
- NÆo com aquele brinquedo...
- E a sua perna? Talvez nunca mais possa andar...
- Oi‡a, Jackie, nÆo seja tola. Assim que chegar-
mos a AssuÆo, vÆo tirar-me uma radiografia e extrair a
bala, e tudo ficar em ordem.
Jackie engoliu em seco duas vezes, depois correu
para perto de Simon, ajoelhando-se ao lado da cama,
escondendo o rosto nas mÆos e solu‡ando. O rapaz
acariciou-lhe a cabe‡a, desajeitadamente. O seu olhar
encontrou o de Poirot; com um suspiro de m vontade
o detective saiu da cabina.


194 þ 195

Ao afastar-se, ainda ouviu solu‡os e murm£rios.
- Como pude ser tÆo m ... Oh, Simon! .. . Sinto
tanto... Estou tÆo arrependida...
Corn‚lia estava debru‡ada na amurada. Voltou a
cabe‡a ao ver o detective aproximar-se.
- Ah, ‚ o senhor, Mister Poirot. De certo modo
parece incr¡vel que o dia esteja tÆo bonito!
Poirot ergueu o olhar, dizendo:
- Quando brilha o Sol, a gente nÆo pode ver a
Lua. Mas quando o Sol desaparece... ah, quando
o Sol desaparece!...
Corn‚lia fitou-o, de boca aberta.
- PerdÆo?
- Dizia eu, mademoiselle" que, quando o Sol desa-
parecer, vamos ver a Lua. E esta a verdade, nÆo ‚?
- Mas... sim... claro que sim - disse ela, fitan-
do-o, admirada.
Poirot riu de mansinho.
- Estou a dizer tolices. NÆo fa‡a caso, mademoi-
selle.
Dito isto, dirigiu-se lentamente para a popa. Ao
passar pela primeira cabina, parou alguns segundos.
Ouviu trechos de conversa l dentro.
. . profunda ingratidÆo... depois do que fiz por
si... falta de considera‡Æo para com a sua pobre mÆe...
nÆo imagina o que sofro...
Poirot comprimiu os l bios. Ergueu a mÆo e bateu
... porta.
Um silˆncio assustado; depois a voz de Mrs. Otter-
bourne, perguntando:
- Quem ‚?
- Mademoiselle Rosalie est ?
Rosalie apareceu. Poirot ficou impressionado com
os c¡rculos roxos sob os olhos e os sulcos ... volta da
boca.
- Que aconteceu? - perguntou ela sem cordiali-
dade alguma. - Que deseja?
- O prazer de alguns minutos de conversa com a
senhora. Quer fazer-me o favor?...

Os l bios da rapariga apertaram-se numa expressÆo
mal-humorada. Fitou Poirot com ar desconfiado e per-
guntou-lhe de chofre:
- Porquˆ?
- Seria um favor, mademoiselle.
- Oh, entÆo...
Passou para o tombadilho, fechando a porta da ca-
bina.
Poirot segurou-a delicadamente pelo bra‡o e levou-
-a pelo tombadilho, sempre em direc‡"o ... popa. Pas-
saram pelo balne rio, deram a volta para o outro lado.
Estavam sozinhos naquela parte do navio. O Nilo cor-
ria atr s deles...
Poirot descansou os cotovelos na amurada, mas
Rosalie continuou dura e tesa.
- Que deseja? - perguntou ela no mesmo tom
brusco.
Poirot falou devagarinho, escolhendo as palavras.
- Poderia fazer-lhe algumas perguntas, mademoi-
selle, mas nÆo creio que consinta em responder-me.
- Parece-me entÆo que perdeu o seu tempo, tra-
zendo-me aqui.
Poirot passou lentamente a mÆo pela amurada e
disse:
- Est acostumada, mademoiselle, a suportar so-
zinha o peso dos seus aborrecimentos... Mas nÆo ‚
poss¡vel fazer isso eternamente. A tensÆo nÆo pode ser
suportada por muito tempo. � este o seu caso, made-
moiselle.
- NÆo sei a que se refere - disse Rosalie.
- Estou a falar sobre factos, mademoiselle; factos
positivos e sem beleza. Vamos chamar preto ao preto,
e numa senten‡a curta. A sua mÆe bebe, mademoiselle.
Rosalie nÆo respondeu. Abriu os l bios como quem
ia falar, mas fechou-os novamente. Por um momento,
ficou sem saber o que dizer.
- NÆo precisa de dizer coisa alguma, mademoisel-
le; deixe que eu fale sozinho. Em AssuÆo, interessei-
196

-me pelas rela‡äes entre a senhora e sua mÆe. Vi ime-
diatamente que, apesar das suas observa‡äes pouco
filiais, a senhora estava na realidade protegendo deses-
peradamente a sua mÆe. Logo percebi do que se trata-
va. E isto muito antes de ter, certa manhÆ, encontrado
sua mÆe completamente embriagada. Compreendi que
o seu caso era de crises intermitentes, casos de cura
mais dif¡cil. A senhora dava provas de muita coragem.
Al‚m do mais, sua mÆe tinha a mal¡cia da pessoa que
bebe ...s escondidas. Conseguiu uma provisÆo secreta
de bebidas. NÆo seria surpresa para mim saber que s¢
ontem a senhora descobriu o seu esconderijo. E assim,
a meio da noite, foi para o outro lado do navio (uma
vez que o seu ficava contra a margem) e atirou tudo ao
Nilo.
Poirot fez uma pausa e perguntou:
- Acertei?
- Acertou, sim - disse Rosalie com s£bita pai-
xÆo. - Com certeza fui tola em nÆo lhe confessar isso
desde o princ¡pio! Mas nÆo queria que toda a gente
soubesse. A not¡cia espalhar-se-ia entre os passageiros.
E parecia tal tolice... isto ‚... que eu...
Poirot terminou a frase por ela:
- Tal tolice que a senhora fosse acusada de assas-
s¡nio?
Rosalie inclinou a cabe‡a, depois explodiu nova-
mente:
- Tenho-me esfor‡ado tanto para impedir que
viessem a saber!... Mas nÆo ‚ realmente culpa dela.
Come‡ou a ficar desanimada. Os seus livros nÆo ti-
nham sa¡da nenhuma. O p£blico est farto destes vul-
gares enredos sexuais. Ela ficou magoada... profunda-
mente magoada. Come‡ou entÆo a... beber. Durante
muito tempo, nÆo compreendi porque andava tÆo es-
quisita. Quando descobri... tentei impedir que conti-
nuasse. Passava bem durante algum tempo... depois,
de repente, recome‡ava, tornando-se birrenta, discu-
tindo com toda a gente. Que horror! - Rosalie estre-
meceu e continuou: - E eu sempre alerta, para lev -
-la ao bom caminho!... Depois, come‡ou a implicar
comigo... ·s vezes, chego a pensar que me odeia...
- Pauvre petite - disse Poirot.
Rosalie voltou-se bruscamente para ele.
- NÆo tenha pena de mim. NÆo seja bom. � mais
f cil, de outra forma.
Suspirou - um suspiro de cortar o cora‡Æo. E, de-
pois de uma pausa:
- Estou cansada... horrivelmente cansada.
- Compreendo.
- Todos me acham insuport vel, reservada e sem-
pre de mau humor. NÆo ‚ culpa minha. H muito
tempo j que me esqueci de como ‚ que se pode ser
gentil...
- Foi justamente o que lhe disse. A senhora su-
portou sozinha, durante muito tempo, o fardo dos
seus pesares.
Rosalie disse lentamente:
- � um al¡vio... falar sobre isso. O senhor sempre
foi muito bom, Mister Poirot. Creio que muitas vezes
fui grosseira...
- La politesse nÆo ‚ necess ria entre amigos.
A expressÆo desconfiada voltou ao rosto de Ro-
salie.
- O senhor vai... vai contar a toda a gente? Com
certeza ser obrigado a isso, por causa daquelas maldi-
tas garrafas que atirei fora.
- NÆo, nÆo ser necess rio. Quero apenas que me
esclare‡a sobre certo ponto. A que horas foi isso? Uma
e dez?
- Mais ou menos. NÆo me lembro ao certo.
- Diga-me agora, mademoiselle: Miss van Schuyler
viu-a; a senhora viu-a tamb‚m?
- NÆo.
- Diz ela que espreitou pela porta da cabina.
- Eu nÆo poderia vˆ-la. Examinei de relance o
tombadilho e depois olhei o rio.

198 þ 199

- E viu algu‚m, quando examinou o tombadilho
?
Houve uma pausa - uma longa pausa. Rosalie
franziu as sobrancelhas, como quem reflecte.
Finalmente, respondeu em tom firme.
- NÆo, n"o vi ningu‚m.
Hercule Poirot abanou lentamente a cabe‡a. Mas
era grave a expressÆo dos seus olhos...

CAPÖTULO XIX


Isolados, ou dois a dois, com ar submisso, os pas-
sageiros entraram na sala de jantar. Como se achassem
que seria indecoroso sentarem-se muito animadamente
... mesa... Tomaram os seus lugares, com ar penitente,
quase.
Tim Allerton chegou alguns minutos depois de sua
mÆe, parecendo mal-humorado.
- Nunca nos tiv‚ssemos lembrado de fazer esta
maldita viagem! - resmungou ele.
Mrs. Allerton sacudiu tristemente a cabe‡a.
- Oh, meu filho, tamb‚m sou da mesma opiniÆo.
Aquela linda rapariga! Tudo tÆo desperdi‡ado. Pensar
que houve quem pudesse mat -la a sangue-frio! Parece
imposs¡vel que exista gente capaz disso. E aquela po-
brezinha...
- Jacqueline?
- Sim, tenho muita pena dela. Parece tÆo infeliz!
- Isto lhe ensinar a nÆo andar por a¡ a disparar
armas como quem brinca - disse friamente Tim, ser-
vindo-se de manteiga.
- Com certeza ela foi mal-educada.
- Oh, pelo amor de Deus, nÆo encare o caso sob
um ponto de vista maternal.
- Est s de mau humor, Tim.
- Estou, sim. E porque nÆo havia de estar?

- NÆo vejo motivo para zangas. � um caso muito
triste, apenas.
Tim replicou, encolerizado:
- A mÆe est a ver tudo com olhos romƒnticos!
Parece nÆo compreender que nÆo ‚ brincadeira nenhu-
ma a gente ver-se envolvida num crime de morte.
Mrs. Allerton pareceu ligeiramente sobressaltada.
- Mas certamente...
- � justamente isso! NÆo existe nenhum þþMas
certamente...þþ Todas as pessoas, neste maldito navio,
estÆo sob suspeita. N¢s ambos tanto como os outros.
Mrs. Allerton nÆo pareceu convencida.
- Tecnicamente, creio que sim... mas, quanto ao
resto, ‚ rid¡culo!
- NÆo h nada de rid¡culo num crime! Pode ficar
a¡ sentada, exalando santidade e com a consciˆncia
tranquila, mas os investigadores de Shellƒl ou AssuÆo
nÆo vÆo julg -la pela expressÆo do seu rosto!
- Talvez que at‚ l j tenham descoberto a ver-
dade.
- Porquˆ?
- Monsieur Poirot...
- Aquele velho pretensioso? NÆo descobrir coisa
alguma. S¢ tem pros pia e bigodes.
- Muito bem, Tim; talvez tenhas razÆo, mas mes-
mo assim ‚ melhor a gente conformar-se e continuar
de cara alegre.
Apesar disso, Tim nÆo pareceu mais animado.
- H ainda o roubo daquelas malditas p‚rolas-
disse ele.
- O colar de Linnet?
- Sim; parece que foi roubado.
- Com certeza foi esse o m¢bil do crime.
- Porquˆ? Est a confundir duas coisas completa-
mente diferentes.
- Quem disse que desapareceu?
- Ferguson. Ele soube-o pelo maquinista seu ami-
go, e este, por seu turno, ficou sabendo do caso pela
criadinha francesa.

200 þ 201

- Era um lindo colar - suspirou Mrs. Allerton.
Poirot chegou neste momento. Inclinou-se diante
de Mrs. Allerton, desculpando-se:
- Estou um pouco atrasado.
- Com certeza esteve muito ocupado?
- Realmente - disse ele, encomendando uma no-
va garrafa de vinho ao criado.
- Somos muito fi‚is aos nossos h bitos - obser-
vou Mrs. Allerton. - O senhor toma sempre vinho,
Tim pede whisky e soda, e eu, por meu lado, estou
sempre a experimentar uma nova marca de gua mi-
neral.
- Tiens! - exclamou Poirot, fitando-a durante
um momento. Depois murmurou de si para si: þþAqui
est uma ideia. . . n
Depois, com um impaciente movimento de om-
bros, afastou o pensamento que lhe ocorrera e come-
‡ou a conversar sobre banalidades.
- � grave o ferimento de Mister Doyle? - per-
guntou dali a pouco Mrs. Allerton.
- Sim, ‚ mais ou menos s‚rio. Bessner est ansio-
so por chegarmos a AssuÆo, para que possam tirar
uma radiografia e extrair a bala. Mas tem esperan‡as
de que ele nÆo fique defeituoso.
- Pobre Simon! Ainda ontem parecia um menino
satisfeito, a quem nada faltava no mundo. E agora a
sua linda esposa est morta e ele inutilizado numa ca-
ma! Espero, no entanto...
- Que espera, madame? - perguntou Poirot ven-
do que ela parara no meio da frase.
- Espero que nÆo esteja zangado de mais com
aquela pobrezinha.
- Com Mademoiselle Jacqueline? Pelo contr rio.
Estava muito preocupado com ela.
Poirot voltou-se para Tim e continuou:
- Sabe uma coisa? Est a¡ um interessante proble-
ma psicol¢gico. Durante todo o tempo em que Made-
moiselle Jacqueline os seguia, ele estava furioso; mas

agora que ela o atacou, ferindo-o gravemente, toda a
c¢lera de Mister Doyle parece ter desaparecido. Pode
explicar-me uma coisa destas?
- Sim, creio que sim - disse Tim com ar pensa-
tivo. - O procedimento dela, a princ¡pio, fez com
que ele se sentisse um tolo...
- Tem razÆo. Ofendeu a sua dignidade masculina.
- Mas agora, encarando-se o caso sob outro ponto
de vista, ela ‚ que fez papel de tola. Toda a gente est
contra Jacqueline, de modo que...
- Ele pode mostrar-se generoso e perdoar-lhe-
terminou Mrs. Allerton. - Como os homens sÆo
crian‡as!
- Coment rio profundamente falso que as mulhe-
res tˆm a mania de fazer - murmurou Tim.
Poirot sorriu. E, dirigindo-se ao rapaz:
- Diga-me: a prima de Madame Doyle, Miss Joa-
na Southwood, era parecida com ela?
- O senhor confundiu o parentesco, Monsieur
Poirot. Joana ‚ nossa prima e era amiga de Linnet.
- Ah, perdÆo, estou confundido. � uma rapariga
muito em moda. Tenho-me interessado por ela ultima-
mente.
- Porquˆ? - perguntou Tim bruscamente.
Poirot quase se p"s de p‚ para cumprimentar Jac-
queline, que acabava de entrar e passava por ali, diri-
gindo-se para a sua mesa. A jovem estava corada e de
olhos brilhantes, parecendo ligeiramente ofegante.
Quando se sentou de novo, Poirot parecia ter es-
quecido a pergunta de Tim. Murmurou em tom dis-
tra¡do:
- Gostaria de saber se todas as mulheres que tˆm
j¢ias de valor sÆo tÆo descuidadas como Madame Doyle!
- � entÆo verdade que o colar desapareceu?-
perguntou Mrs. Allerton.
- Quem lhe disse isso, madame?
- Ferguson - declarou Tim.
- Sim, ‚ verdade - respondeu Poirot gravemente.

202 þ 203

- Com certeza vai ser muito desagrad vel para to-
dos n¢s - disse nervosamente Mrs. Allerton. - Pelo
menos ‚ o que diz Tim.
O rapaz ficou carrancudo, mas o detective voltou-
-se para ele.
ú - Ah! EntÆo j passou por essa experiˆncia? Este-
;, ve hospedado em alguma casa onde houve um roubo?
i
- Nunca.
- Oh, sim - lembrou Mrs. Allerton. - Estiveste
em casa dos Portaligtons, quando foram roubados os
brilhantes daquela velha imposs¡vel.
- Confunde sempre as coisas, mamÆ. Eu estava
;I.. l , quando descobriram que os brilhantes que ela usa-
va eram falsos! A substitui‡Æo talvez tivesse sido feita
‹:
anos antes... Para ser franco, muita gente achou que
talvez fosse ela mesma a respons vel!
- Foi o que Joana disse, com certeza.
- Joana nÆo estava l .
- Mas conhecia muito bem aquela gente. O co-
ment rio ‚ do tipo que ela gostaria de fazer.
- A mÆe est sempre contra Joana.
Poirot mudou vivamente de assunto. Disse que es-
tava com inten‡Æo de fazer uma compra grande, numa
das lojas de AssuÆo. Um tecido muito interessante,
vermelho e oiro. Teria, naturalmente, que pagar al-
guns direitos alfandeg rios...
- Eles dizem que podem... como direi?... despa-
char tudo para mim? E que os direitos nÆo serÆo mui-
; to pesados. Acham que chegar tudo em ordem?
Mrs. Allerton disse que muita gente fazia, naque-
‹ las lojas, compras que eram mandadas directamente
; para a Inglaterra, e que em geral nÆo havia motivo de
queixa.
- Bien. Farei isso, entÆo. Mas que trabalho,
quando a gente est no estrangeiro e nos chega um pa-
cote de Inglaterra! J tiveram essa experiˆncia? Tˆm
recebido alguma coisa, em viagem?
- NÆo o creio, nÆo ‚ verdade, Tim? Tens recebi-
do livros, naturalmente, mas sobre isso nunca tivemos
aborrecimentos.
- Ah, nÆo; com livros ‚ diferente.
A sobremesa fora servida. Sem pr‚vio aviso, Race
levantou-se e fez o seu discurso.
Referiu-se ...s circunstƒncias do crime e anunciou o
roubo do colar. Enquanto se procedia a uma busca no
vapor, ele ficaria grato aos passageiros se permane-
cessem tranquilos no salÆo. Depois disso, se ningu‚m
fizesse objec‡Æo, seriam todos revistados...
Poirot aproximara-se discretamente de Race. Ou-
viu-se um zunzum... Vozes perplexas, indignadas,
excitadas.. .
Poirot murmurou qualquer coisa ao ouvido de Ra-
ce, justamente no momento em que este ia sair do
salÆo.
O coronel inclinou afirmativamente a cabe‡a e cha-
mou um criado.
Disse-lhe algumas palavras e depois, juntamente
com Poirot, passou para o tombadilho, fechando a
porta.
Ficaram por um ou dois minutos debru‡ados na
amurada. Race acendeu um cigarro e disse:
- NÆo ‚ m a sua ideia. Logo veremos se d re-
sultado. Dou-lhes trˆs minutos.
A porta da sala de jantar abriu-se e o mesmo cria-
do com que tinha falado apareceu. Saudou Race, di-
zendo:
- Tem razÆo, coronel. Uma das senhoras diz que
precisa de falar-lhe com urgˆncia.
- Ah! - exclamou Race com ar satisfeito.-
Quem ‚ ela?
- Miss Bowers, a enfermeira.
O coronel pareceu surpreendido.
- Traga-a para a sala de fumo. NÆo consinta que
ningu‚m mais saia da sala.
- NÆo, senhor. O outro criado cuidar disso.
O homem voltou ao salÆo e Poirot e Race dirigi-
ram-se para a sala de fumo.

204 þ 205

- Bowers, hem? - murmurou Race.
Mal tinham l entrado, Miss Bowers apareceu com
o criado. O homem saiu, fechando a porta.
- Muito bem, Miss Bowers; que significa tudo is-
to? - perguntou Race.
Miss Bowers era a mesma pessoa controlada de
sempre, nÆo parecendo nada emocionada.
- Desculpe-me, coronel, mas, nas circunstƒncias
actuais, achei que era prefer¡vel vir imediatamente fa-
lar-lhe - disse ela, abrindo a bolsa - para lhe devol-
ver isto...
Tirou de dentro um colar de p‚rolas, colocando-o
sobre a mesa.

CAPÖTULO XX


Se Miss Bowers fosse do tipo que gostasse de cau-
sar sensa‡Æo, teria ficado amplamente satisfeita com o
efeito do seu gesto.
No rosto de Race aparecera uma expressÆo comple-
tamente estupefacta.
- � extraordin rio! Quer ter a bondade de se ex-
plicar, Miss Bowers?
- Naturalmente. Foi para isso que vim aqui-
disse a enfermeira, instalando-se confortavelmente nu-
ma cadeira. - Claro que me foi dif¡cil resolver qual a
mais acertada maneira de agir. A fam¡lia, naturalmen-
te, preferiria evitar um escƒndalo, confiando no meu
crit‚rio; mas as circunstƒncias sÆo tÆo extraordin rias
que nÆo me deixam outra alternativa. NÆo encontran-
do nada nas cabinas, a primeira ideia dos senhores se-
ria revistar os passageiros; se o colar fosse encontrado
em meu poder, a situa‡Æo seria embara‡osa e a verda-
de teria que vir ... luz.
- E qual ‚ exactamente a verdade? Tirou estas p‚-
rolas do quarto de Mistress Doyle?

- Oh, nÆo, coronel Race. Claro que nÆo. Foi
Miss Van Schuyler quem as tirou.
- Miss Van Schuyler?
- Sim. NÆo p"de resistir... O senhor sabe, ela
costuma tirar... coisas. J¢ias, principalmente. E por is-
so que a acompanho por toda a parte, e nÆo por causa
da sua sa£de. E devido a esta sua... maniazinha. Fico
alerta, e felizmente nada houve de desagrad vel desde
que estou ao seu servi‡o. Basta eu ficar de sobreaviso
,
o senhor compreende. E ela costuma p"r tudo no mes-
mo lugar (num p‚ de meia) de modo que ‚ muito sim-
ples para mim. Basta eu olhar para l todas as manhÆs.
Tenho o sono leve e durmo sempre a seu lado; nos ho-
t‚is deixo aberta a porta de comunica‡Æo. Procuro en-
tÆo convencˆ-la a voltar para a cama. Num navio, ‚,
naturalmente, muito mais dif¡cil. Mas geralmente ela
nÆo faz isso de noite. � mais um h bito de apanhar as
coisas que vˆ esquecidas aqui e ali... Claro que sempre
sentiu grande atrac‡Æo pelas p‚rolas.
- Como foi que a senhora descobriu que o colar
tinha sido tirado? - perguntou Race.
- Encontrei-o no p‚ de meia, hoje de manhÆ. Eu
sabia, naturalmente, a quem pertencia. J o tinha no-
tado. Fui lev -lo ... cabina de Mistress Doyle, com es-
peran‡as de a encontrar ainda a dormir e sem ter dado
pelo seu desaparecimento, mas ao chegar ... porta vi ali
um criado, que me contou o que acontecera. Ningu‚m
podia entrar na cabina. O senhor compreende, portan-
to, o meu dilema. Mas eu ainda tinha esperan‡a de
conseguir p"r o colar na cabina em qualquer outro
momento. Garanto-lhe que passei uma manhÆ muito
desagrad vel, procurando resolver qual a melhor ma-
neira de agir, pois, como o senhor sabe, a fam¡lia de
Miss Van Schuyler ‚ muito correcta e exigente. Uma
not¡cia como esta nunca dever aparecer nos jornais.
Mas nÆo ser necess rio, nÆo ‚ verdade?
Miss Bowers parecia realmente preocupada.
- Depende das circunstƒncias - respondeu Race,

206 þ 207

sem se comprometer. - Mas faremos, ‚ claro, o poss¡-
vel para a ajudar. Que diz a isso Miss Van Schuyler?
- Oh, ela negar a p‚s juntos, naturalmente. � o
que sempre faz. Dir que uma pessoa maldosa colocou
o colar entre as suas roupas. Nunca confessa ter tirado
coisa alguma. � por isso que vai muito mansinha para
a cama, quando ‚ apanhada a tempo. Diz que foi ape-
nas admirar a Lua, ou coisa parecida.
- Miss Robson sabe desse... defeito?
- NÆo, nÆo desconfia de nada. Sua mÆe sabe,
mas Miss Robson ‚ uma rapariga muito ing‚nua e
Mistress Robson achou prefer¡vel que ela continuas-
se na ignorƒncia. Posso perfeitamente tomar conta
de Miss Van Schuyler sozinha - acrescentou a com-
petente Miss Bowers.
- Ficamos muito agradecidos, Miss Bowers, por
nos ter vindo procurar tÆo prontamente - disse Poirot.
A enfermeira ergueu-se, dizendo:
- Espero ter agido pelo melhor.
- Pode ter a certeza que sim.
- O senhor compreende que, com um crime de
morte...
Race interrompeu-a com voz grave:
- Miss Bowers, vou fazer-lhe uma pergunta e
quero que compreenda que ter de ser respondida
com absoluta franqueza. Miss Van Schuyler ‚ mental-
mente anormal, a ponto de ser cleptoman¡aca. Tem
tamb‚m tendˆncias homicidas?
Miss Bowers respondeu vivamente:
- Oh, c‚us, nÆo! Nada nesse g‚nero; disso pode
ter a certeza. A velha ‚ incapaz de uma maldade.
A resposta fora dada com tanta firmeza que nÆo
havia mais nada a dizer. Apesar disso, Poirot ainda fez
uma pergunta.
- Miss Van Schuyler ‚ ligeiramente surda, nÆo ‚?
- Para falar a verdade, sim, Monsieur Poirot.
NÆo muito, de modo que nÆo se nota isso ao conversar
com ela. Mas muitas vezes nÆo ouve uma pessoa entrar
no quarto, ou qualquer outra coisa desse g‚nero.

- Acha que ouviria ru¡do de passos na cabina de
Mistress Doyle, que ‚ pegada ... dela?
- Oh, nÆo o creio. A cama dela fica do outro la-
do, nem mesmo contra a parede comum ...s duas cabi-
nas! NÆo, nÆo creio que pudesse ouvir coisa alguma.
- Agradecido, Miss Bowers.
- Quer ter a bondade de voltar ... sala de jantar e
esperar ali com os outros? - disse Race.
Abriu a porta e viu-a descer as escadas e dirigir-se
para o salÆo. Depois fechou de novo a porta e voltou
para perto da mesa. Poirot examinava o colar.
- Bom, a reac‡Æo foi r pida - disse Race.-
Mulher astuta e de muita presen‡a de esp¡rito, capaz
de nos iludir mais ainda, se isto convier aos seus pla-
nos. E, quanto a Miss Van Schuyler? NÆo creio que
possamos elimin -la da lista dos suspeitos. � possivel
que tenha cometido o crime para se apoderar das p‚ro-
las. NÆo podemos acreditar na palavra da enfermeira;
ela far o poss¡vel para proteger a fam¡lia.
Poirot inclinou a cabe‡a. Estava muito ocupado a
revirar as p‚rolas nos dedos, examinando-as contra
a luz.
- Na minha opiniÆo, podemos acreditar que esta
parte da hist¢ria, referente ... velha, ‚ verdadeira. Ela
espreitou pela porta da cabina e viu Rosalie. Mas nÆo
creio que tenha ouvido coisa alguma na cabina de Mis-
tress Doyle. Com certeza estava apenas a espreitar, an-
tes de ir surripiar as p‚rolas.
- EntÆo Rosalie estava no tombadilho?
- Sim; atirando ... gua o sortido de bebidas da mÆe.
Race abanou a cabe‡a, com ar de pena.
- EntÆo ‚ isso! Duro para uma pessoa tÆo nova.
- Sim; a vida nÆo tem sido muito alegre para cette
pauvre petite Rosalie.
- Estou contente por terem sido dissipadas as d£-
vidas. Ela nÆo ouviu ou viu coisa alguma?
- Fiz-lhe essa pergunta. Respondeu-me (depois

208 þ 209

de um intervalo de vinte segundos!) que nÆo vira nin-
gu‚m.
- Oh! - exclamou Race subitamente alerta.
- Sim, ‚ significativo.
- Se Linnet foi assassinada ... uma e dez, ou a
qualquer hora depois, em que havia silˆncio no na-
vio, acho extraordin rio que ningu‚m tenha ouvido
o tiro - observou Race. - Concordo que aquele re-
volverzinho nÆo faria muito barulho, mas haveria
completo silˆncio a bordo, e qualquer ru¡do, mesmo
um estalo, seria ouvido. Mas come‡o a compreender
melhor. A cabina cont¡gua ... de Mistress Doyle, na
parte da frente, estava desocupada, uma vez que Si-
mon se achava na do m‚dico. A outra, atr s, ‚ de
Miss Van Schuyler, que ‚ ligeiramente surda. Isto
deixa apenas...
Fez uma pausa, fitando Poirot.
- A cabina pegada ... dela, do outro lado do navio,
isto ‚, a de Pennington. Parece-me que voltamos sem-
pre a Pennington.
- Voltaremos a ele daqui a pouco, mas sem luvas
de pelica! Ah, sim, vou proporcionar a mim mesmo
esta satisfa‡Æo! - exclamou Poirot.
- Neste meio tempo, ‚ melhor continuarmos a re-
vistar o navio. O colar servir de desculpa, embora j
tenha sido devolvido, pois Miss Bowers com toda a
certeza nÆo ir propalar o facto.
- Ah, estas per¢las! - disse Poirot, examinando-
-as mais uma vez contra a luz.
Passou a l¡ngua sobre elas, chegando mesmo a
morder uma. Depois largou-as sobre a mesa, suspi-
rando.
- Mais complica‡äes, meu amigo - disse ele.-
NÆo sou perito no assunto, mas, na ‚poca das minhas
actividades, lidei muito com j¢ias, e conhe‡o mais ou
menos o que vejo. Estas p‚rolas sÆo apenas uma boa
imita‡Æo.

CAPÖTULO XXI


Race blasfemou violentamente.
- Este maldito caso est a ficar cada vez mais
complicado - disse ele, apanhando o colar. - Tem a
certeza de que nÆo se enganou? A mim parece-me ver-
dadeiro.
- Sim, a imita‡Æo ‚ perfeita.
- Que significa isto? Quem sabe se Linnet nÆo
trazia uma imita‡Æo, para viajar mais tranquilamente,
como fazem muitas mulheres?
- Se fosse esse o caso, o marido provavelmente
estaria informado.
- Talvez nÆo lhe tivesse contado.
Poirot abanou a cabe‡a, descontente.
- NÆo, nÆo creio. Naquela primeira noite, a bor-
do, admirei as p‚rolas de Mistress Doyle, o oriente, o
brilho maravilhoso. Tenho a certeza de que eram ver-
dadeiras.
- Isso sugere-nos duas possibilidades. Primeiro:
que Miss Van Schuyler roubou a imita‡Æo, depois de o
colar verdadeiro ter sido roubado por outra pessoa. Se-
gundo: que aquele neg¢cio de cleptomania ‚ treta. Ou
Miss Bowers ‚ uma ladra, e inventou a hist¢ria, pro-
curando alienar as nossas suspeitas com a entrega da
imita‡Æo, ou o bando est todo de acordo. Isto ‚: trata-
-se de uma autˆntica quadrilha, querendo passar por
uma fam¡lia americana.
- Talvez. � dif¡cil saber - disse Poirot. - Mas
chamo a sua aten‡Æo para um ponto. Uma imita‡Æo,
com fecho e tudo o mais, perfeita a ponto de enganar
Mistress Doyle, nÆo poderia ter sido feita ... pressa.
A pessoa que copiou as p‚rolas deve ter tido ocasiÆo
de examinar cuidadosamente as verdadeiras.
Race ergueu-se.
- � in£til continuar a fazer conjecturas. Vamos
para diante. Temos que encontrar o colar verdadeiro
,
ficando ao mesmo tempo de olhos abertos.

210 þ 211

Primeiro, revistaram as cabinas do tombadilho in-
ferior.
A de Richetti continha v rios trabalhos sobre ar-
queologia, em diversas l¡nguas; in£meras roupas; lo-
‡äes para o cabelo, de perfume intenso; duas cartas-
uma, de uma expedi‡Æo arqueol¢gica na S¡ria, e outra,
pelo que parecia, de uma irmÆ que vivia em Roma.
Todos os len‡os eram de seda de cor.
Passaram em seguida para a cabina de Ferguson.
Literatura comunista; v rios instantƒneos; Erezv-
hon, de Samuel Butler; uma edi‡Æo barata de Pepys
Diary. O guarda-roupa nÆo era muito vasto - as rou-
pas de cima geralmente rotas e sujas, as de baixo, pelo
contr rio, de muito boa qualidade. Len‡os caros, de
linho.
- Interessante discrepƒncia - murmurou Poirot.
- � esquisito nÆo haver nada de pessoal, nenhu-
ma carta, documento ou coisa parecida.
- Sim, d que pensar. Um sujeito engra‡ado, este
Ferguson.
Poirot examinou, pensativo, um anel com sinete,
guardando-o em seguida na gaveta onde o encontrara.
Dali foram para a cabina de Louise Bourget.
A criada costumava tomar as suas refei‡äes depois dos
outros passageiros, mas Race dera ordem para que ela
fosse reunir-se aos outros.
Um dos criados veio procur -lo.
- Desculpe-me, senhor, mas nÆo consigo encon-
trar aquela rapariga. NÆo posso saber para onde foi.
Race espreitou para dentro da cabina de Louise.
Estava vazia.
Foram para o tombadilho de passeio, e come‡aram
a busca nas cabinas a estibordo. A de Fanthorp era a
primeira. Aqui, perfeita ordem. Mr. Fanthorp nÆo
trazia grande bagagem, mas tudo o que tinha era de
boa qualidade.
- Nenhuma carta - comentou Poirot. - Este
Mister Fanthorp tem o cuidado de destruir a sua cor-
respondˆncia.

Em seguida, foram para a cabina de Tim Allerton.
Havia ali sinais de uma mentalidade de anglo-
-cat¢lico - um pequeno tr¡ptico e um grande ter‡o de
madeira trabalhada. Al‚m das roupas de uso pessoal,
encontraram um manuscrito incompleto, muito anota-
do e rabiscado, e uma boa colec‡Æo de livros, quase to-
dos de recente publica‡Æo. Havia tamb‚m uma grande
quantidade de cartas numa gaveta. Poirot, que nunca
tivera escr£pulo de ler a correspondˆncia alheia, pas-
sou uma vista de olhos por elas. Notou que nÆo havia
nenhuma de Joana Southwood. Apanhou um tubo de
seccotine, examinando-o com ar distra¡do, depois disse:
- Vamos continuar.
- Nada de len‡os de Woolworth - observou Ra-
ce, tornando a p"r numa gaveta o que dali tirara.
A seguir, vinha a cabina de Mrs. Allerton. Muito
bem arrumada; no ar, um suave perfume de lavanda...
A busca terminou logo. Race comentou, ao sair:
- Uma senhora correcta, esta.
A segunda cabina era a que Simon Doyle usava co-
mo vesti rio. As coisas de primeira necessidade, como
pijamas e objectos de toilette, tinham sido levados para
a cabina de Bessner, mas o resto ficara ali. Duas malas
de coiro de bom tamanho e uma mala-arm rio. No ar-
m rio, havia tamb‚m algumas roupas.
- Vamos examinar tudo com cuidado, meu amigo
- disse Poirot. - � bem prov vel que o ladrÆo tenha
escondido aqui as p‚rolas.
- Acha?
- Sim, sim. Pense bem! O ladrÆo, seja ele quem
for, devia saber que cedo ou tarde ir¡amos fazer uma
busca e que seria loucura esconder o colar na sua pr¢-
pria cabina. Os lugares p£blicos apresentam outras di-
fculdades, mas aqui est uma cabina que nÆo poder
ser visitada pelo dono. E, portanto, se o colar for en-
contrado aqui, ficaremos na mesma.
Mas, por mais que procurassem, nada encontraram.
Poirot soltou uma exclama‡Æo descontente e mais
uma vez sa¡ram para o tombadilho.

212 þ 213

A cabina de Linnet fora fechada, depois de o corpo
ser removido, mas Race trouxera a chave.
Entraram. A nÆo ser pela ausˆncia do corpo, estava
tudo exactamente como de manhÆ.
- Poirot, se h alguma coisa para ser descoberta
aqui, pelo amor de Deus, descubra-a! - exclamou
Race. - Ningu‚m mais competente do que vocˆ, te-
nho a certeza disso.
- Desta vez nÆo se refere ...s p‚rolas, mon ami?
- NÆo. O crime ‚ mais importante. � poss¡vel
que alguma coisa me tenha escapado hoje de manhÆ.
Calmamente, com m‚todo e habilidade, Poirot co-
me‡ou a busca. P"s-se de joelhos e examinou o soalho,
palmo a palmo. Em seguida a cama. Depois o arm -
rio, as gavetas da c¢moda, a mala-arm rio, as duas fi-
nas maletas. Concentrou-se finalmente no lavat¢rio.
V rios cremes, p¢s, lo‡äes. Mas a £nica coisa que pa-
receu interessar Poirot foram dois frascos, com a eti-
queta þþNailexþþ. Tirou-os da prateleira e levou-os para
a mesa de toilette. Um deles, com o r¢tulo þþNailex Ro-
seþþ, estava vazio, a nÆo ser uma ou duas gotas de um
l¡quido rubro, no fundo. O outro, do mesmo tama-
nho, mas rotulado þþNailex Cardinalv, estava quase
cheio. Poirot desarrolhou-os a ambos, cheirando-os
com cuidado e delicadeza.
Um cheiro de pˆra invadiu a cabina. Com uma ca-
reta, o detective rolhou os frascos.
- Descobriu alguma coisa? - perguntou Race.
Poirot replicou com um prov‚rbio francˆs:
- On ne prend pas les mouches avec le vinaigre.
Depois acrescentou, com um sorriso:
- Meu amigo, nÆo tivemos sorte. O assassino nÆo
foi gentil. NÆo deixou cair as abotoaduras, a ponta do ci-
garro, a cinza do charuto ou, no caso de se tratar de
uma mulher, o len‡o, o bƒton, o gancho do cabelo.
- Somente o frasco de verniz para unhas?
Poirot encolheu os ombros, dizendo:
- Tenho que perguntar ... criada. H aqui uma
coisa... sim, uma coisa muito curiosa.

- Onde diabo foi ela meter-se?
Sa¡ram, fecharam a porta e foram para a cabina de
Miss Van Schuyler.
Ali, tamb‚m, todos os sinais de luxo - tudo em
perfeita ordem.
A cabina seguinte era a cabina dupla, ocupada por
Poirot; a seguir vinha a de Race.
- Pouco prov vel que o tenham escondido numa
destas - disse Race. Poirot nÆo concordou.
- � poss¡vel. Certa vez, no Expresso do Oriente,
tive que investigar um assass¡nio. Havia o mist‚rio de
um quimono vermelho. Tinha desaparecido, e no entan-
to devia estar no comboio. Achei-o... imagina onde?...
Na minha pr¢pria maleta, fechada ... chave! Ah, mas
que impertinˆncia!
- Bom, vejamos se algu‚m foi impertinente consi-
go ou comigo desta vez.
Mas nada encontraram. Em seguida, revistaram a ca-
bina de Miss Bowers, com igual resultado. Os len‡os ali,
eram simples, de linho com uma inicial, apenas.
A seguir, a cabina das duas Otterbournes. Tam-
b‚m aqui Poirot foi meticuloso, mas sem resultado
algum.
Logo depois entraram na cabina de Bessner. Ao la-
do de Simon, estava uma bandeja com comida em que
ele nÆo tocara.
- Sem apetite - desculpou-se Simon.
Parecia febril, mais doente do que no princ¡pio do
dia. Poirot compreendeu a ansiedade de Bessner em
lev -lo o mais depressa poss¡vel para um hospital.
O detective explicou o que ele e Race estavam a fa-
zer e Simon inclinou a cabe‡a com ar aprovador. Ma-
nifestou grande surpresa quando soube que as p‚rolas
haviam sido devolvidas por Miss Bowers, e que eram
falsas.
- Tem a certeza absoluta, Mister Doyle, de que
sua esposa nÆo tinha um colar falso, que trouxe em lu-
gar do verdadeiro?

214 þ 215

Simon abanou enfaticamente a cabe‡a.
- Oh, tenho a certeza. Linnet adorava aquele co-
lar e usava-o em toda a parte. Estava no seguro e acho
que por isso ela se despreocupava um pouco.
- Precisamos entÆo continuar a nossa busca.
Poirot abriu as gavetas. Race atacou uma das malas.
Simon ftou-os, admirado, e perguntou:
- Oi‡am, nÆo suspeitam do velho Bessner, nÆo
‚ verdade?
Poirot encolheu os ombros, replicando:
- Porque nÆo? Que sabemos n¢s dele? Somente
o que ele pr¢prio nos contou.
- Mas ele nÆo poderia esconder aqui o colar, sem
que eu...
- NÆo poderia esconder hoje, sem que o senhor o
percebesse. Mas a substitui‡Æo pode ter sido feita h
muitos dias.
- NÆo pensei nisso.
A busca foi improf¡cua.
Agora, a cabina de Pennington. Os dois homens
levaram algum tempo a examinar com cuidado o con-
te£do de uma pasta - v rios documentos que exigiam
a assinatura de Linnet.
Poirot comentou em tom l£gubre:
- Tudo acima de qualquer suspeita. NÆo ‚ tam-
b‚m a sua opiniÆo?
- Sem d£vida. Mas o homem nÆo ‚ nenhum idio-
ta. Se houvesse aqui algum documento compromete-
dor, uma procura‡Æo, ou coisa parecida, ‚ mais do
que certo que o teria destru¡do imediatamente ap¢s
o crime.
- Tem razÆo.
Poirot tirou da gaveta de cima da c¢moda um pesa-
do Colt, examinou-o, guardando-o novamente.
- EntÆo ainda h gente que viaja armada! - mur-
murou ele.
- Sim, significativo, talvez. Mas Linnet nÆo foi
assassinada com uma arma deste calibre. - Race fez

216

uma pausa e depois disse: - Sabe uma coisa? Tenho
procurado uma resposta ... sua observa‡Æo sobre o re-
v¢lver atirado ao rio. Suponhamos que o assassino o
tenha deixado na cabina, e que outra pessoa o deitou
fora?
- Sim, ‚ poss¡vel. Tamb‚m pensei nisso. Mas d
ensejo a v rias perguntas. Quem era essa segunda pes-
soa? Que interesse tinha em proteger Jacqueline? Que
estava l a fazer? A £nica pessoa que n¢s sabemos que
entrou na cabina de Linnet foi Miss Van Schuyler.
Acha poss¡vel ela ter tirado o rev¢lver? Que motivo
tem para proteger Jacqueline? E no entanto... que ou-
tro motivo pode existir para a remo‡Æo da arma?
Race sugeriu:
- Talvez a velha tenha reconhecido a sua ‚charpe,
ficasse assustada e atirasse tudo fora.
- A ‚charpe, talvez. Mas a arma? Concordo, no
entanto, que talvez seja uma solu‡Æo. Mas ‚ pouco
subtil, bon Dieu, ‚ pouco subtil. E vocˆ ainda nÆo per-
cebeu uma coisa a respeito da ‚charpe...
Quando sa¡ram da cabina de Pennington, Poirot
prop"s que Race continuasse a revistar as que falta-
vam, de Jacqueline, de Corn‚lia, e duas desocupadas,
enquanto ele ia conversar com Simon Doyle.
Voltou entÆo para a cabina de Bessner.
Simon disse, ao vˆ-lo entrar:
- Oi‡a, estive a reflectir. Tenho a certeza de que o
colar de ontem ... noite era o verdadeiro.
- Porque diz isso, Mister Doyle?
- Porque Linnet... - ele contraiu-se ligeiramente
ao pronunciar o nome da esposa - esteve a acarici -lo
pouco antes do jantar e falando sobre ele. Entendia de
j¢ias. Tenho a certeza de que teria percebido, se fosse
falso...
- Em todo o caso, era uma boa imita‡Æo. Diga-me
uma coisa: Mistress Doyle estava habituada a separar-
-se do colar? Emprestou-o alguma vez a uma amiga,
por exemplo?


217

Simon corou, ligeiramente constrangido.
- O senhor sabe, Mister Poirot, ‚-me dif¡cil res-
ponder... eu... o senhor compreende, nÆo havia muito
tempo que eu conhecia Linnet.
- Ah, nÆo; foi um romance r pido, o seu.
Simon continuou:
- E, portanto, nÆo podia estar a par de uma coisa
dessas. Mas Linnet era muito generosa. NÆo duvido
de que isso tenha acontecido.
Poirot disse em voz muito suave:
- Por exemplo, nunca emprestou o colar a Made-
moiselle de Bellefort?
- Que quer dizer com isso? - exclamou Simon,
corando violentamente. Tentou sentar-se, teve uma
contrac‡Æo de dor e caiu de novo sobre a cama.-
Que pretende insinuar? Que Jackie roubou o colar?
NÆo foi ela. Juro que nÆo. Jackie ‚ honesta como nin-
gu‚m. � rid¡culo supor que ‚ ladra... completamente
rid¡culo.
Poirot fitou-o com os olhos brilhantes.
- Oh, l l l ! - exclamou inesperadamente.-
Parece que fui mexer num vespeiro.
- Jackie ‚ honesta!
Poirot lembrou-se de uma voz de mulher, em As-
suÆo, ... beira do Nilo, dizendo: þþAmo Simon... e ele
ama-me. þþ
Ficara conjecturando qual das trˆs asser‡äes que
ouvira naquela noite era a verdadeira. Parecia-lhe ago-
ra que fora Jacqueline quem mais se aproximara da
verdade.
A porta abriu-se e Race apareceu.
- Nada - disse em tom brusco. - Bom, era o
que esper vamos. Vejo que os criados vˆm para nos
contar o resultado da busca, no salÆo.
Um homem e uma mulher apareceram ... porta.
O homem foi o primeiro a falar.
- Nada, senhor.
- Algum dos homens fez oposi‡Æo?

- Somente o italiano. Falou muito sobre isso.
Disse que era uma vergonha... qualquer coisa nesse
g‚nero. E tinha um rev¢lver.
- Que esp‚cie de rev¢lver?
- Autom tico. Mauser 25, senhor.
- Os italianos sÆo nervosos - comentou Simon.
- Richetti fez um barulho dos diabos em Uadi Halfa,
s¢ por causa de um telegrama errado. Foi muito gros-
seiro com Linnet.
Race voltou-se para a criada das cabinas, uma mu-
lher forte e bonita.
- Nada, nas senhoras - declarou ela. - Todas
protestaram, a nÆo ser Mistress Allerton, que nÆo po-
dia ter sido mais gentil. Nem mesmo sinal do colar!
Por pensar nisto, Miss Rosalie Otterbourne tem um
revolverzinho na bolsa.
- De que tipo?
- Pequenino, com cabo de madrep‚rola. Mais pa-
rece um brinquedo.
Race teve um sobressalto.
- Maldito caso! Pensei que ela estivesse livre de
qualquer suspeita. Porque ser que toda a gente, neste
navio anda com rev¢lver de cabo de madrep‚rola?
Voltou-se para a mulher e perguntou:
- Mostrou-se aborrecida quando vocˆ descobriu o
rev¢lver?
A criada abanou a cabe‡a e respondeu:
- NÆo creio que tenha percebido. Eu estava de
costas, quando examinei a bolsa.
- De qualquer maneira, ela devia saber que o re-
v¢lver seria encontrado. Oh, bom, nÆo sei o que pen-
sar. E quanto ... criada?
- Batemos o navio todo ... procura dela, senhor, e
nÆo conseguimos encontr -la.
- De que se trata? - perguntou Simon.
- Louise Bourget, a criada de Mistress Doyle, de-
sapareceu.
- Desapareceu?

218 þ 219

Race disse com ar pensativo:
- � poss¡vel que o colar tenha sido roubado por
ela. � a £nica pessoa que poderia ter conseguido uma
imita‡Æo.
- E depois, quando percebeu que iam revistar o
navio, atirou-se ao rio - sugeriu Simon.
- Tolice! - replicou Race em tom irritado.-
Ningu‚m pode atirar-se de um navio como este em
pleno dia, sem que algu‚m dˆ por isso! Ela deve estar
aqui.
Houve uma pausa, depois Race perguntou ... criada:
- Quando foi que Louise foi vista pela £ltima vez?
- Mais ou menos meia hora antes de tocarem a si-
neta do almo‡o.
- Vamos examinar a sua cabina. Talvez encontre-
mos a¡ algum ind¡cio.
Race desceu para o tombadilho de baixo, acom-
panhado por Poirot. Abriram a porta da cabina e en-
traram.
Louise Bourget, que tinha por obriga‡Æo conservar
em ordem as coisas dos outros, nÆo parecia muito or-
denada no que era seu. Em cima da c¢moda havia
uma confusÆo de objectos, a sua maleta estava aberta,
com roupas ca¡das para fora, impedindo-a que se fe-
chasse, e nas cadeiras estavam pousadas algumas rou-
pas de baixo.
Poirot examinou as gavetas da c¢moda e Race a
maleta.
Os sapatos de Louise estavam alinhados perto da
cama. Um deles, de verniz preto, parecia descansar
num ƒngulo muito esquisito, quase sem apoio. TÆo ex-
traordin rio aquilo que chamou a aten‡Æo de Race.
Race fechou a maleta e inclinou-se sobre os sapatos.
Soltou uma brusca exclama‡Æo...
Poirot voltou-se vivamente para ele e perguntou
- Qu'est-ce qu'il y a?
Race respondeu sombriamente:
- Ela nÆo desapareceu. Estci agui, debaixo da cama..

CAPÖTULO XXII


O corpo sem vida de Louise Bourget estava no
chÆo da cabina. Os dois homens inclinaram-se para o
examinar.
Race foi o primeiro a erguer-se.
- Morta h mais de uma hora, creio eu. Bessner
ter que dar o seu parecer. Apunhalada no cora‡"o.
Morte instantƒnea, com certeza. NÆo est nada bonita,
nÆo ‚ verdade?
- NÆo - respondeu Poirot, estremecendo ligeira-
mente.
O rosto moreno e felino estava convulsionado nu-
ma expressÆo de surpresa e f£ria - os l bios abertos,
mostrando os dentes.
Poirot inclinou-se novamente, erguendo a mÆo di-
reita da morta. Abriu-lhe os dedos, que ainda agarra-
vam qualquer coisa. Entregou a Race um pedacinho
de papel de um tom rosa-lil s e perguntou:
- Sabe o que ‚?
- Dinheiro.
- O canto de uma nota de mil francos, creio eu.
- Bom, nÆo h d£vida quanto ao que aconteceu
- disse Race. - Ela sabia alguma coisa, e estava a ex-
plorar o assassino. Bem not mos n¢s que ela nÆo esta-
va a ser muito sincera hoje de manhÆ!
- Temos sido idiotas... imbecis! - exclamou Poi-
rot. - Dev¡amos ter compreendido... nesse momento.
Que foi que ela disse? þcComo poderia eu ver ou ouvir al-
guma coisa! Eu estava no tombadilho de baixo. Claro
que, se nÆo tivesse sentido sono, se tivesse subido as esca-
das, talvez tivesse visto o assassino, esse monstro, entrar
ou sair da cabina da senhora; mas como nÆo foi assim. .. þþ
Claro que foi o que aconteceu! Ela subiu. Viu algu‚m
esgueirando-se para a cabina de Linnet, ou saindo de
l . E, por causa da sua ganƒncia, da sua insensata ga-
nƒncia, jaz a¡ agora!

220 þ 221

- E estamos longe de saber quem a matou - dis-
se Race, aborrecido.
Mas Poirot abanou a cabe‡a, dizendo:
- NÆo, nÆo... Sabemos muito mais agora. Sabe-
mos... quase tudo. Parece incr¡vel... e no entanto deve
ter sido assim. Mas nÆo compreendo... Ah! Que idiota
fui hoje de manhÆ! Ach mos... ach mos que Louise
estava a ocultar-nos alguma coisa, e nÆo percebemos a
causa de tudo: chantage.
- Deve ter exigido algum dinheiro imediatamente
- disse Race. - Com amea‡as. O assassino foi obri-
gado a ceder, pagando-a em dinheiro francˆs. Algum
ind¡cio?
- NÆo o creio. Muita gente traz em viagem uma
reserva de dinheiro, libras, d¢lares, e tamb‚m francos.
Com certeza o assassino deu-lhe tudo o que tinha, em
moeda de v rios pa¡ses. Vamos continuar.
- O assassino entrou aqui, deu-lhe o dinheiro e
depois...
- Depois, ela contou o dinheiro - terminou Poi-
rot. - Oh, sim, conhe‡o esse tipo. Ela contaria o di-
nheiro, e ao fazˆ-lo estaria distra¡da. O assassino ata-
cou. Tendo conseguido mat -la, agarrou o dinheiro e
fugiu... sem notar que ficava o canto de uma nota.
- Talvez seja poss¡vel identific -lo por a¡ - disse
Race, sem grande convic‡Æo.
- Duvido. Ele examinar as notas e notar o ras-
gÆo. Claro que, se fosse um sujeito avarento, n"o teria
coragem de destruir uma nota de mil francos; mas
acredito que seja um tipo completamente diferente.
- Porque diz isso?
- Tanto este crime como o de Mistress Doyle exi-
gem certas qualidades: coragem, aud cia, presen‡a de
esp¡rito, rapidez; qualidades que nÆo condizem com
um temperamento prudente, econ¢mico.
Race abanou a cabe‡a, desanimado.
- Vou mandar chamar Bessner.
O exame m‚dico nÆo durou muito. Com uma pro-
fusÆo de Achs, Sos e outras exclama‡äes, Bessher p"s
mÆos ... obra.
- A morte n"o ocorreu h mais de uma hora-
declarou ele. - Foi r pida, instantƒnea.
- Que arma acha o senhor que foi usada?
- Ach, isto ‚ interessante. Alguma coisa muito
afiada, muito fina, muito delicada. Posso mostrar-lhes
de que tipo.
Foram todos para a cabina de Bessner. O m‚dico
abriu uma mala pequena, tirando dali uma esp‚cie de
bisturi longo e fino.
- Alguma coisa neste g‚nero, meu amigo. NÆo
uma faca comum de mesa.
- Espero que nenhum dos seus instrumentos...
lhe falte, doutor? - perguntou Race suavemente.
Bessner encarou-o; uma onda de sangue subiu-lhe
ao rosto.
- Que diz? - exclamou indignado. - Acha que
eu, Carl Bessner, tÆo conhecido em toda a µustria, eu,
com a minha cl¡nica, os meus aristocr ticos clientes...
eu tenha matado uma miser vel femme de chambre! Ah
,
mas ‚ rid¡culo, absurdo o que diz! Nenhum dos meus
instrumentos me falta, nenhum, garanto-lhe. EstÆo to-
dos aqui, nos seus lugares. Verifique o senhor mesmo.
NÆo me esquecerei deste insulto ... minha profissÆo.
Bessner fechou a caixa bruscamente, atirou-a para
cima de uma cadeira e passou furioso para o tomba-
dilho.
- Uf! - exclamou Simon - o velho ficou furioso!
- � lament vel - disse Poirot, encolhendo os
ombros.
- EstÆo enganados. O velho Bessner ‚ uma ¢pti-
ma criatura, apesar de ser meio boche.
O m‚dico reapareceu subitamente.
- Querem ter a bondade de sair da minha cabina?
Tenho de fazer o curativo ... perna do doente.
Miss Bowers entrara depois dele, e esperava, cor-
recta e profssional, que os outros se retirassem.

222 þ 223

Race e Poirot obedeceram vagarosamente. Race
murmurou qualquer coisa e passou ... frente.
Poirot voltou ... esquerda.
Ouviu vozes femininas, uma gargalhada... Jacque-
line e Rosalie conversavam na cabina desta £ltima.
A porta estava aberta. As raparigas ergueram os
olhos quando a sombra de Poirot caiu sobre elas. Ro-
salie sorriu para ele pela primeira vez, um sorriso t¡mi-
do e am vel, um tanto incerto, como quem fazia uma
coisa com que nÆo estava familiarizada.
- Falando da vida alheia, meninas! - brincou ele.
- NÆo, nada disso - respondeu Rosalie. - Para
falar a verdade, est vamos a comparar os nossos bƒ-
tons.
Poirot sorriu.
- Les chiffons d'aujourd'hui - murmurou ele.
Havia algo de for‡ado no seu sorriso, e Jacqueline,
mais perspicaz do que Rosalie, nÆo deixou de notar o
facto. Largou o bat"n e passou para o tombadilho.
- Alguma coisa... que foi que aconteceu?
- Acertou, mademoiselle. Alguma coisa aconteceu.
- Que foi? - perguntou Rosalie, vindo juntar-se
a eles.
- Outra morte - disse Poirot.
Rosalie ficou um minuto com a respira‡Æo suspen-
sa. Poirot observava-a atentamente. Viu a expressÆo de
alarme, e, mais do que isso, de consterna‡Æo, que por
um minuto passou pelos olhos dela.
- A criada de Mistress Doyle foi assassinada-
disse ele sem rodeios.
- Assassinada? - exclamou Jacqueline. - O se-
nhor disse assassinada?
- Sim, foi isso o que eu disse.
Embora a resposta tivesse sido dada a Jackie, os
olhos de Poirot observavam Rosalie. Foi a ela que se
dirigiu em seguida:
- A tal criada viu alguma coisa que nÆo devia ter
visto. E, portanto, receando que ela nÆo soubesse guar-
dar segredo, reduziram-na para sempre ao silˆncio!

- Que teria ela visto?
A pergunta foi feita de novo por Jackie, e de novo
Poirot respondeu a Rosalie. Interessante, aquela cena
triangular...
- Quanto a isso, nÆo pode haver d£vida - disse o
detective. - Deve ter visto algu‚m entrar ou sair da
cabina de Mistress Doyle, na noite do crime.
Poirot era observador. Notou a respira‡Æo ofegan-
te, o estremecimento das p lpebras... A reac‡Æo de
Rosalie fora exactamente a que ele esperava ver.
- Ela disse quem? - perguntou Rosalie.
Poirot sacudiu tristemente a cabe‡a.
Ouviram-se passos no tombadilho. Corn‚lia, apare-
ceu, assustada, de olhos arregalados.
- Oh, Jacqueline, aconteceu uma coisa horr¡vel!
Afastaram-se as duas. Instintivamente, Poirot e
Rosalie tomaram a direc‡Æo oposta.
A jovem perguntou bruscamente:
- Porque me olha dessa forma? Que ‚ que lhe
passou pela cabe‡a?
- A senhora fez-me duas perguntas. Far-lhe-ei
uma s¢, em troca, mademoiselle. Porque nÆo me conta a
verdade?
- NÆo sei a que se refere. Contei-lhe tudo, hoje
de manhÆ.
- NÆo; nem tudo. NÆo me contou que traz na
bolsa um rev¢lver de pequeno calibre, com cabo de
madrep‚rola. NÆo me contou tudo o que viu a noite
passada.
A rapariga corou. Depois disse secamente:
- NÆo ‚ exacto. NÆo tenho rev¢lver nenhum.
- Insisto em dizer que tem um rev¢lver na sua
bolsa.
Ela deu uma reviravolta, entrou na cabina e voltou
imediatamente, entregando-lhe com gesto brusco a sua
bolsa de camur‡a cinzenta.
- Est a dizer absurdos. Verifique.
Poirot abriu a bolsa. NÆo havia dentro nenhum re-
v¢lver.

224 þ 225

Devolveu-a a Rosalie, notando a expressÆo desde-
nhosa e triunfante do olhar dela.
- NÆo, nÆo est aqui - disse ele, bem-humorado.
- Vˆ? Nem sempre tem razÆo, Monsieur Poirot.
E engana-se sobre aquela coisa rid¡cula que disse.
- NÆo; nÆo o creio.
- O senhor ‚ imposs¡vel! - declarou ela, batendo
o p‚, indignada. - Mete uma ideia na cabe‡a, e vai
batendo, batendo sempre na mesma tecla.
- � porque quero que me diga a verdade.
- Qual ‚ a verdade? O senhor parece conhecˆ-la
melhor do que eu.
- Quer que lhe diga o que foi que a senhora viu?
Se eu acertar, est pronta a confessar que acertei? Pois
bem, vou come‡ar. Acho que, quando deu a volta pela
popa do navio, a senhora estacou subitamente porque
viu um homem a sair de uma cabina do centro do
tombadilho; a cabina de Mistress Doyle, como icou a
saber no dia seguinte. Viu-o fechar a porta e afastar-se
para o outro lado, entrando numa das cabinas da extre-
midade. E agora: acertei, mademoiselle?
Rosalie nÆo respondeu.
Poirot continuou:
- Talvez ache mais sensato nÆo responder. Talvez
tenha medo de, se falar, ser tamb‚m assassinada.
Por um momento pensou que ela morderia a isca
- que a acusa‡Æo ... sua coragem conseguiria aquilo
que argumentos mais subtis nÆo tinham conseguido.
Os l bios de Rosalie entreabriram-se... tremeram.
- NÆo vi ningu‚m - disse ela.

CAPÖTULO XXIII


Endireitando os punhos do vestido, Miss Bowers
þaiu da cabina do m‚dico.
Jacqueline abandonou Corn‚lia bruscamente e apro-
ximou-se da enfermeira.
- Como vai ele?
Poirot chegou a tempo de ouvir a resposta. Miss Bo-
wers parecia preocupada... Disse:
- NÆo vai muito mal.
- Quer dizer que piorou? - exclamou Jacque-
line.
- Bom, nÆo nego que ficarei mais tranquila de-
pois da radiografa, quando ele estiver num hospital.
Quando acha que chegaremos a Shellƒl, Mister Poirot?
- AmanhÆ, cedo.
Miss Bowers comprimiu os l bios e abanou a cabe-
‡a lentamente.
- � pena. Estamos a fazer o poss¡vel, mas h sem-
pre o perigo de uma septicemia.
Jacqueline agarrou o bra‡o da enfermeira, excla-
mando:
- Ele vai morrer? Vai morrer?
- C‚us, nÆo, Miss de Bellefort. Isto ‚, espero
realmente que nÆo. O ferimento em si nÆo ‚ perigoso.
Mas nÆo h d£vida quanto ... necessidade de uma ra-
diografia. E, naturalmente, o pobre Mister Doyle deve
ficar hoje em repouso absoluto. Com toda esta agita-
‡Æo... nÆo ‚ de admirar que a febre tenha subido.
O choque da morte da mulher, e uma e outra coisa...
Jacqueline largou o bra‡o da enfermeira e afastou-
-se, indo debru‡ar-se na amurada.
- Na minha opiniÆo, nunca se deve perder a espe-
ran‡a - disse Miss Bowers. - Felizmente, Mister
Doyle tem uma ¢ptima constitui‡Æo, e isto ‚ um ponto
a seu favor. Mas nÆo h d£vida que esta alta de tempe-
ratura causa preocupa‡äes...

227

Abanou a cabe‡a, acertou os punhos mais uma vez
e afastou-se em passos r pidos.
Com os olhos cheios de l grimas, Jacqueline diri-
giu-se, cambaleante, para a sua cabina. Sentiu que
algu‚m a ajudava a firmar-se. Voltou-se e deu com
Poirot. Apoiou-se a ele e entraram juntos na cabina.
Jacqueline sentou-se na cama, e as l grimas corre-
ram-lhe entÆo livremente, acompanhadas de solu‡os.
- Ele vai morrer. Vai morrer. Sei que vai morrer.
E fui eu que o matei...
Poirot encolheu os ombros, com ar tristonho.
- Mademoiselle, o que est feito est feito. � tarde
de mais para arrependimentos.
Jacqueline exclamou, apaixonadamente:
- Se ele morrer, a culpa ser minha. Eu!. .
E amo-o tanto, tanto...
- De mais... - suspirou Poirot.
O pensamento ocorrera-lhe meses antes, no restau-
rante de M. Blondin, e era ainda essa a sua opiniÆo.
Ap¢s ligeira hesita‡Æo, continuou:
- Mas nÆo se fie no que diz Miss Bowers. Achei
sempre as enfermeiras muito l£gubres! A enfermeira
da noite admira-se sempre de encontrar o doente vivo,
ao anoitecer, e a enfermeira do dia fica admirada por
encontr -lo vivo na manhÆ seguinte! Elas conhecem a
fundo, compreende, as complica‡äes que podem so-
brevir. Uma pessoa que guia um carro poderia imagi-
nar: se um roadster sa¡sse daquela encruzilhada, se
aquele camiÆo se lembrasse de repente de fazer mar-
cha atr s, se a direc‡Æo do carro que se aproxima se
partisse, se um cÆo saltasse daquela cerca em cima do
meu bra‡o; eh bien com certeza eu morreria. Mas a
gente supäe, e geralmente com razÆo, que nenhuma
dessas coisas acontecer e que a viagem terminar sem
incidentes.
Jacqueline disse, sorrindo por entre as l grimas:
- Procura consolar-me, Monsieur Poirot?
- Deus sabe o que tento fazer! A senhora nÆo de-
via ter feito esta viagem.

- Tem raz"o... Tem sido... horr¡vel! Mas est
quase terminada.
- Mais oui... Mais oui.
- E Simon ir para o hospital e ser bem tratado,
e tudo se arranjar .
- Fala como uma crian‡a! E viveram para sempre
felizes. � isto, nÆo ‚?
A rapariga corou.
- Monsieur Poirot, garanto-lhe que nunca...
- þþ� cedo de mais para pensarmos nisso!þþ � a fra-
se hip¢crita que devia ter dito, nÆo ‚ verdade? Mas a
senhora ‚ meio latina, mademoiselle. Deve saber reco-
nhecer a verdade, mesmo quando nÆo ‚ muito elegan-
te. Le roi est mort... vive le roi! O Sol escondeu-se, j se
vˆ a Lua. � isto, nÆo ‚?
- O senhor nÆo compreende. Ele tem apenas d¢
de mim, porque sabe como me sinto por ser a causa-
dora de todo o seu sofrimento.
- Ah, bom, a piedade sincera ‚ um nobre senti-
mento - declarou Poirot.
Fitou-a com ar meio zombeteiro, em que havia
tamb‚m outra expressÆo. Murmurou baixinho, em
francˆs:

La vie est vaine
Un peu d'amour
Un peu de haine
Et puis bonjour.

La vie est brŠve
Un peu d'espoir
Un peu de rˆve
Et puis bonsoir.

O detective saiu de novo para o tombadilho. Race,
que passeava de borda a borda, chamou-o.
- Poirot? àptimo. Tenho uma ideia.
Passou o bra‡o pelo do detective e come‡aram a
caminhar juntos.

228 þ 229

- A respeito de um coment rio de Doyle. Opor-
tunamente, nÆo lhe dei importƒncia. Qualquer coisa
sobre um telegrama.
- Tiens... c'est vrai.
- Com certeza nÆo d nada, mas nÆo podemos
desprezar nenhum ind¡cio. Com os diabos, meu ami-
go, duas mortes e ainda estamos no escuro!
- NÆo; no escuro nÆo. No claro.
Race fitou-o com curiosidade.
- Tem alguma ideia?
- Agora ‚ mais do que uma ideia. Tenho a certeza.
- Desde... quando?
- Desde a morte de Louise Bourget.
- Macacos me mordam se entendo alguma coisa!
- Meu amigo, est tudo t"o claro, tÆo claro! S¢ h
certas dificuldades. Embargos, impedimentos! Com-
preenda-me: ... volta de uma pessoa como Linnet Doy-
le h tanta coisa... tantos sofrimentos... àdio, inveja,
ci£me, mesquinhez. Como um enxame de moscas...
zumbindo... zumbindo.
- Mas chegou a alguma conclusÆo? - perguntou
Race sem poder conter a curiosidade. - Sei que nÆo
diria uma coisa dessas, a nÆo ser que tivesse a certeza.
Quanto a mim, estou na mesma. Tenho as minhas sus-
peitas, ‚ claro...
Poirot estacou subitamente, agarrando com for‡a o
bra‡o de Race.
- Vocˆ ‚ um grande homem, mon colonel. NÆo
diz: þþConte-me. Que foi que descobriu?þþ Sabe que, se
pudesse falar, eu falaria. H ainda tanta coisa para es-
clarecer! Mas reflicta, reflita durante alguns minutos
sobre o que lhe vou dizer. H certos pontos... A decla-
ra‡Æo de Mademoiselle de Bellefort, de que algu‚m
ouviu a nossa conversa em AssuÆo. O depoimento de
Mister Tim Allerton, sobre o que ouviu ou nÆo ouviu
na noite do crime. As significativas respostas de Loui-
se Bourget, hoje de manhÆ. O facto de Mistress Aller-
ton beber gua, seu filho whisky e soda, e eu vinho.

Acrescente a isto os dois frascos de verniz das unhas, e
o prov‚rbio que citei na ocasiÆo. E, finalmente, chega-
mos ao ponto culminante da hist¢ria: o facto do rev¢l-
ver ter sido envolvido num len‡o barato e numa ‚char-
pe de veludo, e atirado ao rio...
Race ficou alguns minutos em silˆncio, depois aba-
nou a cabe‡a.
- NÆo compreendo. Tenho apenas uma vaga ideia
do que est a insinuar, nada mais.
- � porque vocˆ est enxergando apenas a meta-
de. E lembre-se de uma coisa: temos que come‡ar,
desde o princ¡pio, pois as nossas primeiras dedu‡äes
estavam completamente erradas.
Race fez uma careta.
- Estou habituado a isso. ·s vezes, tenho a im-
pressÆo de que ‚ s¢ esse o trabalho do detective: voltar
atr s, recome‡ar!
- Sim, tem razÆo. E ‚ justamente isso que muita
gente nÆo quer fazer. Concebem uma teoria e querem
que tudo caiba dentro dela. Se alguma coisa nÆo se en-
caixa, afastam-na sem mais nem menos. Mas os factos
que nÆo se encaixam sÆo justamente os mais signifi-
cativos. Durante todo este tempo, reconheci a impor-
tƒncia do rev¢lver ter sido levado do local do crime.
Sabia que tinha alguma significa‡Æo, mas h meia hora
somente compreendi qual era essa significa‡Æo!
- E eu ainda nÆo vejo nada!
- Mas ver ! Reflicta sobre os pontos que lhe indi-
quei. Agora, vamos solucionar o problema do telegra-
ma. Isto ‚, se Herr Doktor nos receber.
Bessner recebeu-os carrancudo.
- Que ‚ isto? Querem ver de novo o meu doente?
Garanto-lhes que ‚ uma imprudˆncia. Est com febre,
teve um dia muito agitado.
- Apenas uma pergunta. Nada mais do que isso
- prometeu Race.
O m‚dico afastou-se com um grunhido de descon-
tentamento e os dois homens entraram na cabina.

230 i 231

Bessner passou por eles, resmungando qualquer
coisa e disse:
- Volto daqui a trˆs minutos, o tempo que lhes
dou para falarem com o doente.
Os seus passos pesados ressoaram no tombadilho.
O olhar de Simon interrogou os dois homens.
- Que desejam?
- Uma coisa de nada - disse Race. - Quando os
criados de bordo me disseram que Richetti se tinha
mostrado muito desagrad vel, o senhor observou que
isso nÆo era de admirar, pois o homem tinha mau g‚-
nio, e fora muito grosseiro com sua esposa, a respeito
de certo telegrama. Pode contar-nos o incidente?
- Pois nÆo. Foi em Uadi Halfa, quando acab va-
mos de voltar da Segunda Catarata. Linnet julgou ter
visto um telegrama para ela. Esqueceu-se de que o seu
nome j nÆo era Ridgeway; e Richetti e Ridgeway sÆo
parecidos, quando escritos em m caligrafa. Abriu,
portanto, o telegrama, nÆo podendo entendˆ-lo; nisto,
o italiano aproximou-se furioso, arrancando-lhe o tele-
grama das mÆos. Ela seguiu-o, para lhe pedir descul-
pa, mas o homem tratou-a com muita grosseria.
Race respirou profundamente.
- E o senhor sabe, Mister Doyle, o que dizia esse
telegrama?
- Sei, sim senhor; Linnet leu um trecho em voz
alta. Dizia...
Interrompeu-se. Qualquer coisa estava a acontecer
l fora...
- Onde estÆo Mister Poirot e o coronel Race?
Preciso vˆ-los imediatamente. � muito importante.
Trago informa‡äes importantes. Eu... Est"o com Mis-
ter Doyle?
Bessner nÆo fechara a porta; somente a cortina se
interpunha entre a cabina e o tombadilho. Mrs. Otter-
bourne afastou-a, entrando como um furacÆo. Estava
vermelha, caminhando em passo incerto, e a sua voz
nÆo era muito firme.

- Mister Doyle, sei quem matou sua esposa!-
exclamou ela em tom dram tico.
- Quˆ?
Simon e os dois outros homens ftaram-na estupe-
factos. Mrs. Otterbourne lan‡ou-lhes um olhar triun-
fante. Estava feliz, imensamente feliz.
- Sim, a minha teoria est provada. Instinto pri-
mitivo, impulso irresist¡vel... Pode parecer imposs¡vel,
fant stico... mas ‚ verdade.
Race perguntou bruscamente:
- Quer dizer que tem em seu poder provas contra
a pessoa que assassinou Mistress Doyle?
Mrs. Otterbourne caiu sobre uma cadeira, abanan-
do enfaticamente a cabe‡a.
- Claro que tenho. Os senhores concordam, nÆo ‚
verdade, que a pessoa que matou Louise Bourget tamb‚m
matou Linnet Doyle?
- Sim, sim - disse Simon em tom impaciente.-
� l¢gico. Continue.
- EntÆo nÆo me enganei. Sei quem matou Louise
Bourget, e portanto sei quem matou Linnet Doyle!
- Quer dizer que tem uma teoria a respeito da
morte de Louise Bourget - disse Race em tom c‚p-
tico.
Mrs. Otterbourne voltou-se para ele como uma
fera.
- NÆo, nada disso. Tenho a certeza absoluta. Vi a
pessoa com os meus pr¢prios olhos.
Agitado, febril, Simon pediu:
- Pelo amor de Deus, comece pelo princ¡pio. Sa-
be quem matou Louise Bourget?
Mrs. Otterbourne inclinou a cabe‡a.
- Vou contar-lhes exactamente o que aconteceu.
Sim, ela sentia-se feliz, sem d£vida nenhuma! Era
aquele o seu momento de triunfo. Pouco importava
que os seus livros nÆo tivessem sa¡da... Pouco impor-
tava que o p£blico que antes os devorava tivesse agora
outros predilectos! Salom‚ Otterbourne tornar-se-ia

232 þ 233

novamente famosa, o seu nome apareceria nos jor-
nais... Seria a principal testemunha num crime de
morte!
Respirou profundamente e abriu a boca.
- Foi quando desci para o almo‡o. NÆo tinha
vontade nenhuma de comer... depois daquela trag‚-
dia... Bom, este pormenor nÆo interessa. No meio do
caminho, ocorre-me que me esquecera de certa coisa
na cabina e pedi a Rosalie que fosse busc -la.
Mrs. Otterbourne fez uma pequena pausa.
A cortina moveu-se ligeiramente, como que ao to-
que da brisa, mas nenhum dos trˆs homens notou coi-
sa alguma.
- Eu... - Mrs. Otterbourne parou de novo. Era
um assunto delicado, mas nÆo podia desprezar aquele
pormenor. - Eu... tinha uma combina‡Æo com uma
das pessoas... do... hum... personnel do navio. Esta
pessoa tinha que me... arranjar certa coisa... e eu nÆo
queria que minha filha soubesse... Ela ...s vezes ‚ im-
plicante...
Bom, a hist¢ria nÆo estava l muito bem contada,
mas depois poderia pensar em qualquer coisa que cau-
sasse melhor impressÆo nos jurados.
Race olhou interrogativamente para Poirot.
O detective inclinou a cabe‡a de maneira imper-
cept¡vel e os l bios dele formaram a palavra: þþBebidaþþ.
A cortina moveu-se novamente. Apareceu qualquer
coisa, com um brilho acinzentado de metal...
Mrs. Otterbourne continuava:
- Eu tinha combinado ir at‚ ao tombadilho da po-
pa abaixo deste, onde o homem estaria ... minha espe-
ra. Ao percorrer o tombadilho, vi abrir-se a pona de
uma cabina e surgir Louise. Parecia estar ... espera de al-
gu‚m. Ficou surpreendida quando me viu, entrando
de novo, bruscamente, na cabina. NÆo dei importƒncia
ao facto, ‚ claro. Fui at‚ onde devia ir e recebi a... tal
coisa, das mÆos do homem. Paguei-lhe e... troquei al-
gumas palavras com ele. Depois voltei. Quando ia a

234

transpor aquele ƒngulo, vi algu‚m bater ... porta da ca-
bina da criada e entrar...
Race disse:
- E essa pessoa era...
Bum!
O ru¡do da explosÆo pareceu encher toda a cabina.
Cheiro forte de p¢lvora... Mrs. Otterbourne virou de
lado, como que em atitude indagadora, depois tombou
para a frente, batendo pesadamente no chÆo. O sangue
jorrava-lhe detr s da orelha...
Houve um momento de silˆncio estupefacto.
Logo em seguida, os dois homens v lidos levanta-
ram-se. O corpo da mulher atrapalhou-os um pouco...
Race inclinou-se sobre ela, ao passo que Poirot, com
um pulo de gato, passava para o tombadilho.
Vazio. No chÆo, bem perto da porta, o rev¢lver,
um Colt.
Poirot olhou de um lado para outro. O tombadilho
estava completamente deserto. Dirigiu-se para a popa.
Ao fazer a curva, deu com Tim Allerton, que vinha
apressadamente, em sentido contr rio.
- Com os diabos, que aconteceu? - perguntou
o rapaz, ofegante.
- Viu algu‚m, quando vinha para c ?
- Se vi algu‚m? NÆo.
- EntÆo, acompanhe-me.
Poirot segurou o rapaz pelo bra‡o e voltou para
a cabina de Bessner.
Havia agora um grupo em frente ... porta: Rosalie,
Jacqueline e Corn‚lia tinham sa¡do das suas cabinas.
Outras pessoas vinham do salÆo: Ferguson, Fanthorp
e Mrs. Allerton.
Race postara-se ao lado do rev¢lver. Poirot disse
bruscamente a Tim Allerton:
- Tem por acaso um par de luvas?
Tim remexeu no bolso.
- Tenho, sim - disse ele.
Poirot agarrou as luvas, cal‡ou-as e baixou-se para

235

examinar o rev¢lver. Race seguiu-lhe o exemplo. Os
outros observavam, de respira‡Æo suspensa.
- Ele nÆo foi para o outro lado - disse Race.-
Fanthorp e Ferguson estavam sentados no salÆo e tˆ-
-lo-iam visto.
- E Mister Allerton tamb‚m o teria visto se ele
tivesse ido para a popa - declarou Poirot.
Race disse, apontando a arma:
- Creio que vimos este rev¢lver h pouco tem-
po... Precisamos de nos certificar disso.
Bateram ... porta da cabina de Pennington. NÆo
houve resposta. A cabina estava vazia... Race foi at‚ ...
c¢moda e abriu a gaveta de cima. O rev¢lver desapare-
cera.
- Este ponto est esclarecido - disse Race.-
E agora, onde estar Pennington!
Voltaram para o tombadilho. Mrs. Allerton jun-
tara-se ao grupo. Poirot aproximou-se vivamente, di-
zendo:
- Madame, leve Miss Otterbourne daqui, e fique
com ela. Sua mÆe foi... - Poirot consultou Race com
o olhar e terminou: - assassinada.
Bessner apareceu, muito afogueado.
- Gott im Himmel! Que sucedeu?
Abriram caminho para ele. Race fez um sinal com
a cabe‡a e o m‚dico entrou na cabina.
- Procurem Pennington - disse Race. - H im-
pressäes digitais nesse rev¢lver?
- Nada - declarou Poirot.
Encontraram Pennington no tombadilho de baixo,
na saleta, a escrever algumas cartas. O americano le-
vantou o rosto bonito e bem barbeado e perguntou:
- Algo de novo?
- NÆo ouviu um tiro?
- Agora que me falam nisso, creio ter ouvido um
estrondo qualquer. Mas nunca imaginei... Quem levou
o tiro?
- Mistress Otterbourne.

- Mistress Otterbourne? - perguntou ele, parecen-
do muito admirado. - Que me dizem! Mistress Ot-
terbourne... NÆo vejo por que... - Fez uma pausa e
depois baixando a voz: - Quer-me parecer, senhores,
que temos a bordo algum man¡aco. Acho que devemos
organizar um sistema de defesa.
- Mister Pennington, h quanto tempo est nesta
sala? - perguntou Race.
- Bom, deixe-me pensar... - disse Pennington,
co‡ando o queixo devagar. - Uns vinte minutos, mais
ou menos.
- E n"o saiu daqui?
- NÆo... Claro que nÆo - disse o americano, fi-
tando os dois homens com expressÆo indagadora.
- Saiba, Mister Pennington, que Mistress Ot-
terbourne foi assassinada com o seu rev¢lver - disse
Race.

CAPÖTULO XXIV


Mr. Pennington ficou escandalizado, Mr. Penning-
ton mal podia acreditar naquelas palavras.
- Mas, meus senhores, o caso ‚ muito s‚rio. Real-
mente muito s‚rio.
- Muito, para o senhor, Mister Pennington.
- Para mim? - exclamou o americano erguendo
admirado as sobrancelhas. - Mas, meu caro senhor,
eu estava aqui, a escrever tranquilamente, quando ou-
vi a detona‡Æo.
- Talvez tenha uma testemunha para provar isso?
O americano abanou a cabe‡a.
- Bom, nÆo... nÆo digo que tenha. Mas vˆ-se logo
que teria sido imposs¡vel eu ir at‚ ao tombadilho de ci-
ma, matar aquela pobre mulher (e que motivos tinha
eu para isso, afinal de contas?) e descer de novo, sem

236 þ 237

que algu‚m me visse. H sempre muita gente no sa-
lÆo, a esta hora do dia.
- Como explica o facto de ter sido usado o seu re-
v¢lver?
- Bom, creio que nisso tenho um pouco de culpa.
Logo depois de termos vindo para bordo, est vamos
conversando, no salÆo, sobre armas de fogo, e lembro-
-me de ter dito que quando viajo trago sempre um re-
v¢lver.
- Quem estava presente?
- Bom, nÆo posso lembrar-me exactamente. Mui-
tas pessoas, em todo o caso.
O americano fez uma pausa, abanou lentamente
a cabe‡a e repetiu:
- Sim, nisso tenho um pouco de culpa.
E depois:
- Primeiro Linnet, depois a criada de Linnet e
agora Mistress Otterbourne. NÆo faz sentido!
- Houve um motivo - disse Race.
- Sim?
- Mistress Outterbourne ia dizer-nos o nome de
uma pessoa que ela vira entrar na cabina de Louise.
Antes de o poder fazer, algu‚m a matou.
Pennington enxugou a testa com um len‡o de seda,
murmurando:
- � horr¡vel!
- Mister Pennington, eu gostaria de discutir cer-
tos aspectos deste caso consigo - disse Poirot.-
Quer vir ... minha cabina daqui a meia hora?
- Com muito prazer.
Mas o americano nÆo parecia sentir prazer algum...
Race e Poirot sa¡ram.
- Um sujeito astuto - observou Race. - Mas es-
t com medo, hem?
- NÆo est nada satisfeito, o nosso Mister Pen-
nington - concordou Poirot.
Quando chegaram de novo ao tombadilho de pas-
seio, Poirot viu Mrs. Allerton sair da sua cabina, fa-
zendo-lhe urgentes sinais.

238

- Madame?
- Aquela pobre menina! Diga-me, Mister Poi-
rot, nÆo h alguma cabina dupla onde eu possa ficar
com ela? NÆo conv‚m voltar para aquela onde dor-
mia com sua mÆe, e a minha s¢ tem um leito.
- Isso ‚ f cil de se arranjar, madame. � muita
bondade sua.
- Oh, nada, nada. Al‚m do mais, gosto da peque-
na. Sempre simpatizei com ela.
- Est muito... abalada?
- Muito. Creio que era muito dedicada ...quela
horr¡vel mulher. � isto que torna o caso tÆo pat‚tico.
Tim acha que ela bebia... � verdade?
Poirot apenas inclinou a cabe‡a. Mrs. Allerton
continuou, encolhendo os ombros:
- Oh, bom... Pobre mulher!... Com certeza nÆo
devemos julg -la, mas Rosalie deve ter tido uma vida
dura.
- Sim, madame, teve. � muito orgulhosa, e foi
sempre muito leal.
- Gosto disso... quero dizer: da lealdade. � um
sentimento que hoje em dia est fora de moda. Tem
um car cter esquisito, aquela menina... Orgulhosa, re-
servada, teimosa, e no fundo muito afectuosa, creio eu.
- Vejo que ela estar em muito boas mÆos, ma-
dame.
- NÆo se preocupe; cuidarei dela. Est -se afei-
‡oando a mim de uma maneira muito comovente.
Mrs. Allerton entrou de novo na cabina e Poirot
voltou ao local do crime.
Corn‚lia estava de p‚, no tombadilho, de olhos
bem abertos.
- NÆo compreendo bem, Mister Poirot. Como ‚
que a pessoa que fez fogo conseguiu fugir sem que ne-
nhum de n¢s a visse?
- Sim, como? - perguntou Jacqueline.
- Ah, nÆo foi assim tÆo extraordin rio como pen-
sam. H trˆs direc‡äes que o assassino poderia ter se-
guido.


239

Jacqueline pareceu admirada.
- Trˆs?
- Poderia ter ido para a direita e poderia ter ido
para a esquerda - disse Corn‚lia. - NÆo vejo outro
caminho.
Jacqueline tamb‚m parecia perplexa. De s£bido, o
seu rosto iluminou-se.
- Claro. Ele poderia ter tomado, no mesmo pla-
no, uma de duas direc‡äes; mas poderia tamb‚m ter
voltado ... direita, neste mesmo plano. Isto ‚, nÆo po-
deria subir mas poderia descer.
Poirot sorriu:
- Mademoiselle ‚ inteligente - disse ele.
Corn‚lia disse:
- Creio que sou uma tonta, mas n"o percebo coisa
alguma.
- Monsieur Poirot quer dizer que ele poderia ter
saltado para o tombadilho de baixo.
- C‚us! - exclamou Corn‚lia. - Isso nunca me
ocorreria! Mas teria que ser muito gil. Acham isso
poss¡vel?
- Muito f cil - disse Tim. - Lembre-se de que
h sempre um minuto de surpresa depois de um acon-
tecimento como este. A gente ouve uma detona‡Æo e
durante um ou dois segundos fica como que parali-
sado.
- Foi o que lhe aconteceu, Mister Allerton?
- Sim, foi o que me aconteceu. Durante cinco
segundos, fiquei apatetado. Depois, corri pelo tom-
badilho.
Race saiu da cabina de Bessner e disse em tom au-
torit rio:
- Queiram ter a bondade de sair. Vamos remover
o cad ver.
Obedeceram todos imediatamente. Poirot acompa-
nhou-os. Corn‚lia disse com tristeza:
- Nunca me esquecerei desta viagem... Trˆs mor-
tes... Um verdadeiro pesadelo.

Ferguson exclamou, em tom agressivo:
- Isso ‚ porque vocˆs sÆo supercivilizados. De-
viam considerar a morte como a consideram os Orien-
tais. � apenas um incidente, que mal se nota.
- Isso est certo para eles - observou Corn‚lia.
- Coitados, nÆo tˆm instru‡Æo.
- N"o; e ‚ uma vantagem. A instru‡Æo desvitali-
zou a ra‡a humana. Veja a Am‚rica; a sua mania de
cultura. � repugnante.
- Acho que est a dizer tolices - observou Cor-
n‚lia corando. - No Inverno, assisto sempre a confe-
rˆncias sobre Arte Grega e a Renascen‡a, e ouvi uma
sobre as Mulheres C‚lebres da Hist¢ria.
- Arte Grega! Renascen‡a! Mulheres C‚lebres da
Hist¢ria! Fico desgostoso s¢ de ouvi-la falar. � o futuro
que importa, menina, nÆo o passado. Morreram trˆs
mulheres neste navio... Bom, e que tem isso? NÆo fa-
zem falta. Linnet Doyle e o seu dinheiro! A criada
francesa, parasita dom‚stica. Mistress Otterbourne,
velha idiota e in£til. Acha que algu‚m se importa que
tenham morrido ou nÆo? Pois eu nÆo acho. Foi mesmo
uma boa coisa.
- Engana-se redondamente! - exclamou Corn‚lia
com veemˆncia. - E estou cansada de o ouvir falar,
como se ningu‚m tivesse importƒncia no mundo a nÆo
ser vocˆ. Eu nÆo apreciava Mistress Otterbourne, mas
Rosalie gostava muito da mÆe e est profundamente
abalada com a sua morte. Eu nÆo achava a criada fran-
cesa muito simp tica, mas h -de haver algu‚m, em al-
gum canto do mundo, que gostasse dela... E quanto a
Linnet Doyle... Bom, sem olhar mais nada, era uma
beleza! Achava-a tÆo bonita que ficava com um n¢ na
garganta sempre que a via aparecer. Sei que sou feia, e
isto faz com que aprecie mais ainda a beleza. Era tÆo
linda... com qualquer coisa de Arte Grega! E quando
uma coisa bela desaparece, ‚ um preju¡zo para a Hu-
manidade. Pronto, e acabou-se.
Mr. Ferguson recuou um passo e enfiou as duas
mÆos nos cabelos, puxando-os com for‡a.

240 ( 241

- Desisto - disse ele. - Vocˆ ‚ incr¡vel. NÆo
tem um pingo de despeito feminino... - E, voltando-
-se para Poirot: - Sabe que o pai de Corn‚lia foi leva-
do ... ru¡na pelo velho Ridgeway? Mas esta menina faz
caretas quando vˆ a herdeira coberta de p‚rolas, exi-
bindo modelos franceses? N"o! Solta um balido ape-
nas: uN"o ‚ linda?v, como qualquer ovelha mansinha.
NÆo creio que tenha sentido despeito algum.
Corn‚lia corou.
- Sim, mas por um minuto apenas. O meu pai
morreu de desgosto...
- Por um minuto apenas! Essa ‚ boa!
Corn‚lia voltou-se bruscamente para ele.
- Bom, nÆo disse h pouco que era o futuro que
importava, e nÆo o passado? Tudo isso foi no passado,
nÆo foi? J se acabou!
- Um a zero! - confessou Ferguson. - Corn‚lia
Robson, vocˆ ‚ a mulher mais simp tica que jamais
encontrei na vida. Quer casar comigo?
- NÆo seja absurdo.
- � um pedido de casamento, embora feito na
presen‡a do Grande Detective. De qualquer maneira,
o senhor ‚ testemunha, Monsieur Poirot. Em pleno
gozo das minhas faculdades, propus casamento a esta
mulher, contra todos os meus princ¡pios, pois n"o
aprovo os tais la‡os legais entre os sexos! Mas, como
nÆo creio que ela aceitasse outra coisa, que seja entÆo o
matrim¢nio! Vamos, Corn‚lia, diga þþsimþþ!
- Acho que vocˆ ‚ supinamente rid¡culo - repli-
cou Corn‚lia, corando.
- Porque nÆo se casa comigo?
- NÆo ‚ s‚rio...
- Quer dizer que nÆo estou a falar s‚rio quando
lhe proponho casamento, ou que nÆo sou bastante si-
sudo?
- Ambas as coisas; mas eu referia-me ao car cter.
Vocˆ ri de tudo o que ‚ s‚rio: Educa‡Æo, Cultura e...
Morte. Ningu‚m poderia ter confian‡a em si.

Interrompeu-se, corou de novo e entrou apressada-
mente na sua cabina.
Ferguson continuou a olhar naquela direc‡Æo.
- Maldita rapariga! Pareceu-me que estava a ser
sincera. Quer um homem de confian‡a. Essa ‚ boa!-
Fez uma pausa e depois perguntou com curiosidade:
- Que aconteceu, Monsieur Poirot? O senhor est
muito pensativo.
Com um sobressalto, Poirot voltou ... realidade.
- Reflicto, nada mais do que isso. Reflicto.
- Medita‡Æo sobre a Morte, por Hercule Poirot.
Um dos seus conhecidos mon¢grafos.
- Mister Ferguson, o senhor ‚ um rapaz muito
impertinente.
- Desculpe-me. Gosto de atacar as institui‡äes or-
ganizadas.
- E eu... sou uma delas?
- Exactamente. Que acha daquela pequena?
- Miss Robson?
- Sim.
- Acho que ‚ uma rapariga de muito car cter.
- Tem razÆo. � en‚rgica, embora pare‡a d¢cil.
Corajosa... Bom, quero aquela menina. Creio que nÆo
ser mau ir sondar a velhota. Se eu conseguir que se
manifeste abertamente contra mim, talvez Corn‚lia fi-
que mais bem-disposta a meu favor.
Ferguson deu uma reviravolta e dirigiu-se para o
salÆo.
Miss Van Shuyler estava sentada no seu canto ha-
bitual, parecendo mais arrogante do que nunca, e fazia
tric".
Ferguson aproximou-se.
Entrando disfar‡adamente, Poirot sentou-se a
uma distƒncia regular, parecendo absorto na leitura
de uma revista.
- Boa tarde, Miss Van Schuyler.
Miss Van Shuyler ergueu o olhar, baixando-o ime-
diatamente e respondendo em tom g‚lido:

242 þ 243

- Hummm... boa tarde.
- Miss Van Shuyler, preciso falar-lhe sobre um as-
sunto muito importante. Quero casar com a sua prima.
O novelo de lÆ de Miss Van Schuyler caiu, rolan-
do pelo soalho. A velhota respondeu em tom acrimo-
nioso:
- O senhor deve estar maluco.
- De modo nenhum. Estou decidido. J falei
com ela.
Miss Van Shuyler observou-o friamente, com o
olhar curioso de quem examina um animal raro.
- Falou! E, com certeza, ela mandou-o passear?
- Recusou.
- Naturalmente.
- Nada de þþnaturalmentev. Vou insistir at‚ ela di-
zer þþsimþþ.
- Garanto-lhe, senhor, que tomarei providˆncias
para que minha prima nÆo seja importunada - decla-
rou Miss Van Schuyler, em tom acerbo.
- Que tem a senhora contra mim?
Miss Van Schuyler apenas ergueu as sobrancelhas,
deu um puxÆo na lÆ para fazer voltar o novelo, e en-
cerrou assim a conversa.
- Vamos - insistiu Ferguson. - Que tem contra
mim?
- Acho a pergunta desnecess ria, Mister...
Hummm... nÆo sei o seu nome.
- Ferguson.
- Mister Ferguson - completou Miss Van
Schuyler com evidente desprezo - tal casamento est
fora de discussÆo.
- Quer dizer que nÆo sou digno dela?
- Acho que isso est mais do que claro.
- E porque ‚ que nÆo sou digno dela?
Miss Van Schuyler nÆo respondeu.
- Tenho duas pernas, dois bra‡os, boa sa£de, in-
teligˆncia normal. Que ‚ que me falta?
- Existe uma coisa chamada posi‡Æo social, Mis-
ter Ferguson.

- Posi‡Æo social? Isso ‚ laracha.
A porta abriu-se e Corn‚lia apareceu, estacando su-
bitamente ao ver o seu pretendente em conversa com a
tem¡vel prima Marie.
Ferguson voltou a cabe‡a, sorriu e exclamou:
- Aproxime-se, Corxþ‚lia. Estou a fazer o pedido
da maneira mais correcta poss¡vel.
- Corn‚lia! - exclamou a americana em voz
realmente terr¡vel. - Corn‚lia, vocˆ deu corda a este
rapaz?
- Eu... Claro que nÆo... isto ‚...
- Que quer dizer com isso?
- Ela nÆo me deu corda - disse o rapaz, vindo
em socorro de Corn‚lia. - A culpa ‚ toda minha. NÆo
me desiludiu completamente, porque tem muito bom
cora‡Æo. Corn‚lia, sua prima diz que nÆo sou digno de
si. Isso, naturalmente, ‚ verdade, mas nÆo sob o ponto
de vista de Miss Van Schuyler. O meu car cter, ‚ l¢gi-
co, nÆo ‚ tÆo elevado como o seu, mas diz ela que so-
cialmente estou muito abaixo de si.
- Isso, creio eu, h -de saltar aos olhos de Corn‚lia
- disse a americana.
- Acha? - perguntou Mr. Ferguson, fitando a
rapariga atentamente. - � por isso que nÆo quer ca-
sar comigo?
- NÆo, nÆo ‚ - replicou Corn‚lia, corando. - Se
eu gostasse de vocˆ, teria dito þþsimþþ, fosse vocˆ quem
fosse.
- EntÆo nÆo gosta de mim?
- Acho-o imposs¡vel! As coisas que diz... A ma-
neira de as dizer... Eu... nunca encontrei ningu‚m co-
mo o senhor...
Confusa, e prestes a chorar, Corn‚lia saiu apressa-
damente do salÆo.
- Para ser franco, o come‡o nÆo est nada mau-
observou Ferguson. Reclinou-se na cadeira, olhou o
tecto, assobiou, cruzou as pernas e continuou: - Ain-
da acabarei por lhe chamar þþminha primaþþ.

244 245

Miss Van Schuyler estava tr‚mula de raiva.
- Saia desta sala imediatamente, senhor, ou toca-
rei a campainha para chamar o criado.
- Paguei a minha passagem, e nÆo poderÆo expul-
sar-me do salÆo principal - disse Ferguson. - Mas
vou fazer-lhe a vontade.
Ergueu-se e saiu displicentemente dali, cantarolan-
do baixinho.
Miss Van Schuyler tentou erguer-se, louca de rai-
va. Saindo discretamente do seu retiro, Poirot curvou-
-se para apanhar o novelo que rolara de novo.
- Agradecida, Monsieur Poirot. Se quiser fazer o
favor de me mandar Miss Bowers... Estou muito per-
turbada... Que sujeito insolente!
- Um tanto excˆntrico, creio eu - observou Poi-
rot. - Quase todos os da fam¡lia sÆo assim. Tarados,
naturalmente. Sempre dispostos a exageros.
Fez uma pausa e perguntou despreocupadamente:
- A senhora reconheceu-o, com certeza?
- Reconheci-o?
- Adopta o nome de Ferguson, por nÆo querer
usar o t¡tulo, devido ...s suas ideias avan‡adas.
- Titulo?
- Sim, aquele rapaz ‚ Lorde Dawlish. Riqu¡ssi-
mo, naturalmente. Tornou-se comunista, quando este-
ve em Oxford.
No rosto de Miss Van Schuyler, reflectiam-se emo-
‡äes contradit¢rias. Perguntou em voz rouca:
- H quanto tempo sabe isso, Monsieur Poirot?
O detective encolheu os ombros.
- Vi o retrato dele numa destas revistas... e de-
pois encontrei na sua cabina o anel com o brasÆo. Oh,
quanto a isso nÆo h d£vida.
Poirot divertia-se com o conflito de emo‡äes da ve-
lha americana. Finalmente, com uma am vel inclina-
‡Æo de cabe‡a, ela despediu-se, dizendo:
- Fico-lhe muito agradecida, Monsieur Poirot.
O detective ainda sorria, mesmo depois de se ver
s¢, no salÆo.

Sentou-se, minutos depois, e o seu rosto adquiriu
uma expressÆo mais grave. Estava a seguir um deter-
minado curso de ideias... De vez em quando abanava
a cabe‡a.
- Mais oui - murmurou afinal. - Est tudo
certo.

CAPÖTULO XXV


Race veio procur -lo.
- EntÆo, Poirot, que me diz? Pennington deve su-
bir daqui a dez minutos. Deixo tudo nas suas mÆos,
meu amigo.
Poirot ergueu-se vivamente.
- Primeiro, mande chamar Fanthorp.
- Fanthorp? - perguntou Race, admirado.
- Sim. Traga-o ... minha cabina.
Race inclinou a cabe‡a e afastou-se. Poirot dirigiu-
-se para a sua cabina. Minutos depois, chegavam Fant-
horp e Race.
Poirot indicou duas cadeiras e ofereceu cigarros.
- Agora, Mister Fanthorp, vamos ao que interes-
sa! Vejo que usa a mesma gravata que o meu amigo
Hastings.
Fanthorp olhou, perplexo, para a gravata, e ex-
plicou:
- � uma gravata O. E.
- Exactamente. Saiba que, embora estrangeiro,
conhe‡o o ponto de vista inglˆs. Sei, por exemplo, que
h coisas þþque se fazemþþ e coisas þþque nÆo se fazemþþ.
Fanthorp sorriu, dizendo:
- Hoje em dia isso j nÆo ‚ vulgar.
- Talvez nÆo, mas o h bito persiste. A Velha Gra-
vata da Escola ainda ‚ A Velha Gravata da Escola, e h
certas coisas (sei por experiˆncia pr¢pria) que quem

246 247

usa a Velha Gravata nÆo faz! Uma dessas coisas, Mis-
ter Fanthorp, ‚ uma pessoa intrometer-se na conversa
de estranhos, quando ningu‚m pediu a sua opiniÆo.
Fanthorp fitou-o sem nada dizer. Poirot conti-
nuou:
- Mas h poucos dias, Mister Fanthorp, foi exac-
tamente isso o que o senhor fez. Certas pessoas esta-
vam a tratar de neg¢cios particulares, no salÆo; o se-
nhor aproximou-se, indubitavelmente para ouvir a
conversa chegando mesmo a voltar-se e dar os para-
b‚ns ... senhora, Mistress Simon Doyle, pela sua crite-
riosa maneira de negociar.
Fanthorp estava rubro. Poirot continuou, sem es-
perar por coment rio algum:
- Muito bem, Mister Fanthorp; isso nÆo devia,
de modo algum, ser o procedimento de uma pessoa
que usa uma gravata igual ... do meu amigo! Hastings ‚
delicad¡ssimo, e morreria de vergonha se fizesse uma
coisa dessas. E, portanto, levando-se em considera‡Æo
o facto de o senhor ser muito novo para estar em con-
di‡"es de fazer uma viagem tÆo dispendiosa, nÆo de-
vendo ter grande fortuna pessoal, pois trabalha numa
firma de advogados, e nÆo dando mostras de recente
mol‚stia que necessitasse de uma viagem de convales-
cen‡a, levando-se tudo isto em considera‡Æo, pergunto
a mim mesmo, e pergunto tamb‚m ao senhor: Qual a
razÆo da sua presen‡a neste navio?
Fanthorp lan‡ou a cabe‡a para tr s, num desafio,
exclamando:
- Recuso-me a prestar qualquer declara‡Æo nesse
sentido. Acho que est louco, Monsieur Poirot.
- Estou no meu ju¡zo perfeito. Onde fica a sua
firma? Em Northampton, isto ‚, nÆo muito longe de
Wode Hall. Que conversa tentou ouvir? Sobre docu-
mentos... Qual a finalidade da sua observa‡Æo, qual o
coment rio que fez com evidente constrangimento
e malaise? A finalidade era evitar que Mistress Doyle as-
sinasse, sem lˆ-los, certos documentos.

Poirot fez uma pausa; depois continuou:
- Houve, neste navio, um crime, e logo em segui-
da outros dois. Se eu lhe disser que a bala que matou
Mistress Otterbourne saiu do rev¢lver de Mister An-
drew Pennington, talvez compreenda que ‚ seu dever
contar-nos o que sabe.
Fanthorp ficou em silˆncio alguns minutos. Final-
mente, disse:
- O senhor tem uma maneira engra‡ada de dizer
as coisas, Monsieur Poirot, mas compreendo o seu
ponto de vista. O facto ‚ que nÆo tenho informa‡"es
precisas para lhe dar.
- Quer dizer entÆo que ‚ um caso de suspeita,
apenas?
- Exactamente.
- E, portanto, acha imprudˆncia falar? Talvez te-
nha razÆo, sob o ponto de vista jur¡dico. Mas isto aqui
nÆo ‚ um tribunal de justi‡a. Race e eu procuramos
descobrir o criminoso. Qualquer informa‡Æo que nos
dˆ poder ser de grande valor.
Jim Fanthorp reflectiu novamente. Depois:
- Muito bem. Que desejam saber?
- Por que motivo empreendeu esta viagem?
- Vim a mandado de meu tio, Mister Carmichael,
procurador de Mistress Doyle, na Inglaterra. Por
motivos de neg¢cios, meu tio mantinha constante
correspondˆncia com Mister Andrew Pennington,
procurador de Mistress Doyle, na Am‚rica. Diversos
pequenos incidentes (nÆo posso enumer -los a todos)
fizeram com que meu tio suspeitasse que as coisas nÆo
andavam como deviam.
- Para falar sem rodeios, seu tio suspeitava que
Pennington fosse um trapaceiro?
Fanthorp inclinou a cabe‡a, sorrindo de leve.
- O senhor ‚ mais franco do que eu, mas no fun-
do ‚ isso mesmo. Certas desculpas apresentadas por
Pennington, e explica‡äes sobre o emprego de deter-
minados capitais despertaram as suspeitas de meu tio.

248 þ 249

Tais suspeitas ainda nÆo estavam bem definidas, quan-
do soubemos que Miss Ridgeway se casara e viera para
o Egipto. O casamento tranquilizou meu tio, pois,
quando ela voltasse ... Inglaterra, a direc‡Æo dos neg¢-
cios ser-lhe-ia entregue. Nisto, numa carta do Egipto,
ela referiu-se ao facto de se ter encontrado, por acaso, no
Cairo, com Andrew Pennington. As suspeitas de meu
tio tornaram-se mais fortes. Ele teve a certeza de que o
americano, agora em situa‡Æo desesperada, iria tentar
obter a assinatura de Mistress Doyle, para cobrir os
seus desfalques. NÆo tendo provas para apresentar ...
sua cliente, meu tio viu-se numa embara‡osa situa‡Æo.
A £nica solu‡Æo que encontrou foi mandar-me para c
de aviÆo, para tentar descobrir a verdadeira situa‡Æo.
Eu devia ficar de olhos abertos, e, se fosse necess rio,
agir; missÆo muito desagrad vel, pode ter a certeza!
Para falar a verdade, na ocasiÆo a que o senhor se refe-
riu, sei que fiz um papel indecente. Situa‡Æo constran-
gedora, mas o resultado foi satisfat¢rio.
- Quer dizer que Mistress Doyle descon iou de
qualquer coisa? - perguntou Race.
- NÆo tanto por isso. Mas creio que Pennington
ficou com a pulga atr s da orelha. Fiquei convencido
que ele nÆo tentaria mais nada durante algum tempo,
e at‚ l eu esperava ter travado rela‡äes com os Doyle,
para poder preveni-los de qualquer forma. Para dizer
a verdade, pretendia falar com Mister Doyle. Mis-
tress Doyle era tÆo apegada a Pennington que seria di-
f¡cil insinuar qualquer coisa contra ele. Teria sido mais
f cil falar com o marido.
Race inclinou a cabe‡a, concordando. Poirot per-
guntou:
- Quer dar-me a sua opiniÆo franca, Mister Fant-
horp? Se tivesse que fazer um neg¢cio desonesto, esco-
lheria para v¡tima Mister ou Mistress Doyle?
Fanthorp sorriu ligeiramente.
- Mister Doyle, sem hesitar um s¢ momento.
Linnet era muito perspicaz. O marido, pelo que me

250

parece, ‚ um destes sujeitos confiantes que nÆo enten-
dem de neg¢cios e estÆo sempre prontos a assinar þþna
linha de pontinhosþþ, como ele mesmo disse.
- De acordo - declarou Poirot. - E ai est o
motivo.
- Mas tudo isto sÆo conjecturas - observou
Fanthorp. - NÆo sÆo provas.
- Ah! Ah! Mas conseguiremos as provas - excla-
mou Poirot.
- De que maneira?
- Provavelmente por interm‚dio do pr¢prio Pen-
nington.
Fanthorp pareceu pouco convencido.
- Acha? Eu duvido.
Race consultou o rel¢gio e declarou:
- Ele deve estar a chegar.
Percebendo a insinua‡Æo, Fanthorp despediu-se e
saiu.
Dois minutos depois, Pennington apareceu, mos-
trando-se ainda am vel e sorridente. Somente a linha
dura do queixo e a expressÆo cautelosa do olhar deixa-
vam perceber o experiente homem de luta, que estava
de sobreaviso.
- Muito bem, senhores, aqui estou eu - disse
ele, sentando-se e olhando para os dois homens.
Poirot come‡ou:
- Pedimos-lhe que viesse at‚ aqui, Mister Pen-
nington, pois nÆo h d£vida que est directamente in-
teressado no assunto.
Pennington exclamou, erguendo as sobrancelhas:
- � essa a sua opiniÆo?
- Sem d£vida nenhuma - replicou Poirot suave-
mente. - Se nÆo me engano, conheceu Linnet desde
crian‡a.
- Oh!... - O rosto do americano desanuviou-se
,
a expressÆo de alerta j nÆo era t"o intensa. - PerdÆo,
eu nÆo tinha entendido bem. Sim; conforme lhe disse
hoje, conheci Linnet desde pequenina.

251

- Era amigo ¡ntimo do pai dela?
- Sim; Melhuish Ridgeway e eu ‚ramos muito

amigos.
- TÆo ¡ntimos que, antes de morrer, ele o nomeou
procurador da filha, entregando-lhe a direc‡Æo de toda
a sua imensa fortuna?
- Sim, mais ou menos isso - disse o americano.
A expressÆo cautelosa voltara ao seu rosto. - NÆo
sou, naturalmente, o £nico respons vel. Havia outros.
- Morreram?
- Dois morreram. O terceiro, Mister Sterndale
Rockford, ainda vive.
- Seu s¢cio?

- Sim.
- Pelo que vim a saber, Miss Ridgeway era me-
nor, quando se casou?
- Sim; ia fazer vinte e um anos em Julho pr¢-
ximo.
- E, naturalmente, a gerˆncia da fortuna passaria
para as mÆos dela?
- Exactamente.
- Mas o casamento precipitou os acontecimentos?
O queixo de Pennington endureceu.
- Perdoem-me, mas que tˆm o senhores com is-
so? - perguntou em tom agressivo.
- Se lhe desagrada responder...
- NÆo ‚ questÆo de desagradar. NÆo me importo
que perguntem. Mas nÆo vejo razÆo para isso.
- Oh, mas certamente, Mister Pennington...-
disse Poirot, inclinando-se para o americano, os olhos
a luzirem como os de um gato - ... existe a questÆo
do motivo... E a situa‡Æo fmanceira da v¡tima deve
sempre ser levada em conta.
Pennington disse em tom d£bio:
- Pelo testamento de Ridgeway, Linnet devia as-
sumir a gerˆncia dos neg¢cios quando fizesse vinte e
um anos, ou quando se casasse.
- Nenhuma outra condi‡Æo?

- Nenhuma.
- E, se nÆo me engano, ‚ uma questÆo de mi-
lhäes?
- Sim, de milhäes.
Poirot disse suavemente:
- A sua responsabilidade, Mister Pennington, e
do seu s¢cio, deve ter sido enorme.
- Estamos acostumados a assumir responsabilida-
des. Isso nÆo nos preocupa - replicou o outro seca-
mente.
- NÆo sei, nÆo.
Qualquer coisa no tom de Poirot desagradou ao
americano.
- Que diabo quer dizer com isso? - perguntou
ele colericamente.
Poirot replicou com ar de ing‚nua franqueza.
- Estava a pensar, Mister Pennington, se o casa-
mento de Linnet nÆo teria causado certa... consterna-
‡Æo, no seu escrit¢rio!
- Consterna‡Æo?
- Foi a palavra que empreguei.
- Que diabo quer insinuar?
- Uma coisa muito simples. Os neg¢cios de Lin-
net Doyle estarÆo em perfeita ordem, como deviam
estar?
Pennington ergueu-se, exclamando:
- Basta. Por mim, basta!
- Mas primeiro vai responder ... minha pergunta?
- EstÆo em perfeita ordem - replicou o outro,
secamente.
- NÆo ficou alarmado com a not¡cia do casamen-
to, a ponto de tomar o primeiro vapor para a Europa e
fingir um encontro furtuito no Egipto?
Pennington aproximou-se, parecendo novamente
calmo.
- O que acaba de dizer ‚ um verdadeiro absurdo!
Eu nÆo tinha a menor ideia do casamento de Linnet,
at‚ a encontrar no Cairo. Fiquei admirad¡ssimo...

252 þ 253

A carta dela deve ter chegado um ou dois dias depois
de eu ter sa¡do de Nova Iorque. Foi-me reenviada e
recebi-a uma semana depois.
- O senhor disse-me que veio no Carmanic?
- Exactamente.
- A carta chegou a Nova Iorque depois de o Car-
manic sair?
- Quantas vezes tenho que repetir a mesma coisa?
- Estranho... - murmurou Poirot.
- Que ‚ que ‚ estranho?
- Que nas suas malas nÆo haja etiqueta alguma
do Carmanic. Os £nicos r¢tulos transatlƒnticos sÆo do
Normandie, que saiu dois dias depois do Carmanic.
Por um momento, o outro ficou sem saber o que
dizer. O seu olhar vacilou...
Race interveio, para refor‡ar a vantagem a favor
deles:
- Vamos, vamos, Mister Pennington. Temos v -
rias raz"es para acreditar que o senhor veio no Nor-
mandie e nÆo no Carmanic. Se assim foi, recebeu a car-
ta de Mistress Doyle antes de sair de Nova Iorque.
NÆo vale a pena negar; nada mais f cil do que esclare-
cer este ponto com as respectivas companhias.
Pennington procurou distraidamente uma cadeira e
sentou-se. A sua fisionomia estava impass¡vel - de jo-
gador de p¢quer. Atr s daquela m scara, a gil inteli-
gˆncia preparava a pr¢xima cartada.
- Entrego os pontos, senhores. Foram espertos de
mais para mim. Mas eu tinha uma razÆo para isso.
- Sem d£vida - disse Race secamente.
- Se eu lhes disser quais eram as razäes, espero
que compreendam que falo confidencialmente.
- Pode esperar um procedimento criterioso da
nossa parte. NÆo podemos, ‚ l¢gico, garantir nada ...s
cegas.
- Muito bem - suspirou o americano. - Vou
confessar a verdade. Certas coisas que se passaram na
Inglaterra desagradaram-me profundamente. Fiquei

preocupado. Como nÆo era poss¡vel descobrir coisa al-
guma por carta, resolvi vir averiguar pessoalmente.
- Que quer dizer com þþcoisas que me desagrada-
ramþþ?
- Eu tinha razäes para acreditar que Linnet esta-
va a ser lesada.
- Por quem?
- Pelo seu advogado inglˆs. � uma acusa‡Æo que
nÆo se pode fazer levianamente. Resolvi vir saber pes-
soalmente do que se tratava.
- Isso prova o seu sincero interesse pelos neg¢cios
da sua cliente, nÆo h d£vida. Mas nÆo explica a men-
tira a respeito da carta.
- Bom, quanto a isso... - o americano estendeu
as mÆos, de palmas para cima, e continuou: - A gen-
te nÆo pode vir perturbar uma viagem de n£pcias, sem
dar para isso um razÆo plaus¡vel. Achei prefer¡vel que
se acreditasse em coincidˆncia. Al‚m do mais, eu nÆo
sabia coisa alguma a respeito do marido. Era at‚ poss¡-
vel que fosse c£mplice.
- Em resumo, os seus motivos eram absolutamen-
te desinteressados - observou Race, secamente.
- Exactamente, coronel Race.
Houve uma pausa. Race olhou para Poirot. O de-
tective inclinou-se para a frente dizendo:
- Mister Pennington, nÆo acreditamos numa s¢
palavra dessa hist¢ria.
- Com os diabos, nÆo acreditam? Em que acredi-
tam, entÆo?
- Parece-nos que o casamento de Linnet Ridge-
way o deixou numa situa‡Æo embara‡osa; que o senhor
veio ... pressa, esperando poder salvar-se, isto ‚, procu-
rando um meio de ganhar tempo. E achamos que, ten-
do isso em vista, procurou obter a assinatura de Mis-
tress Doyle para certos documentos, nÆo tendo sido
bem sucedido. E que, no fim da viagem pelo Nilo,
quando caminhava pelo penhasco de Abu Simbel, o
senhor deslocou uma pedra, que quase a matou...

254 þ 255

- Est louco.
- Acreditamos que mais ou menos as mesmas cir-
cunstƒncias se repetiram na viagem de volta, isto ‚,
que se apresentou a oportunidade de eliminar Mistress
Doyle quando a morte dela seria certamente atribuida a
outra pessoa; e nÆo somente julgamos, mas sabemos que
o seu rev¢lver foi usado para matar a mulher que nos
ia revelar o nome do assassino de Mistress Doyle e de
Louise Bourget...
- Com os diabos! - exclamou o americano, inter-
rompendo a eloquˆncia de Poirot. - Aonde quer che-
gar? Est louco? Que motivo tinha eu para matar Lin-
net? Eu nÆo herdaria coisa alguma, quem herda ‚
o marido! Porque nÆo o interrogam? O beneficiado
‚ ele, nÆo eu.
Race replicou friamente:
- Na noite do crime, Doyle s¢ saiu do salÆo de-
pois de ter levado um tiro na perna. A impossibilidade
de se mover depois disso ‚ atestada pela enfermeira e
pelo m‚dico, ambos testemunhas de confian‡a. Ele
nÆo poderia ter matado Louise Bourget. � mais do
que certo que nÆo matou Mistress Otterbourne! O se-
nhor sabe-o tÆo bem como n¢s.
- Sei que nÆo a matou - disse Pennington um
pouco mais calmo. - Digo apenas: porque se voltam
contra mim, quando nada lucro com essa morte?
- Mas, meu caro senhor, isto ‚ apenas uma ques-
tÆo de opiniÆo - disse Poirot, com a suavidade do
miar de um gato. - Mistress Doyle era uma mulher
inteligente, bem a par dos seus neg¢cios, e bastante
perspicaz para descobrir qualquer irregularidade. As-
sim que assumisse a gerˆncia da fortuna, o que se
daria logo que fosse para a Inglaterra, nÆo deixaria de
suspeitar... mas depois da sua morte, como bem disse
o senhor, o marido herda tudo, e o caso muda de figu-
ra. Simon desconhece os neg¢cios da esposa; sabe ape-
nas que era muito rica. � pessoa simples e confiante...
O senhor nÆo ter grande dificuldade em apresentar-
256

-lhe documentos complicados, ocultando o ponto prin-
cipal numa confusÆo de algarismos, adiando a presta-
‡Æo de contas sob qualquer pretexto, alegando
formalidades, a recente depressÆo do mercado. Acho
que haver muita diferen‡a entre lidar com a esposa ou
com o marido.
Pennington encolheu os ombros.
- As suas ideias sÆo... rid¡culas.
- O tempo no-lo dir .
- Que disse?
- Disse: þþO tempo no-lo dir .þþ Temos aqui trˆs
mortes, trˆs assass¡nios. A lei exigir uma completa
vistoria aos neg¢cios de Mistress Doyle.
Poirot viu os ombros do outro ca¡rem e percebeu
que vencera. As suspeitas de Fanthorp estavam confir-
madas.
O detective continuou:
- O senhor os apostou... e perdeu. � in£til que-
rer continuar com o bluff.
Pennington murmurou:
- O senhor nÆo compreende... Foi tudo muito di-
reito. Essa maldita depressÆo... A loucura de Wall
Street... Mas j preparei a reac‡Æo. Com sorte, estar
tudo em ordem at‚ meados de Junho.
Com as mÆos tr‚mulas, procurou um cigarro; ten-
tou acendˆ-lo, mas sem resultado.
- Com certeza aquela pedra foi uma s£bita tenta-
‡Æo - disse Poirot. - Pensou que ningu‚m o tinha
visto...
- Aquilo foi um acidente, garanto que foi! - ex-
clamou Pennington, inclinando-se para a frente, com
expressÆo ansiosa e a voz aterrorizada. - Tropecei e
ca¡ contra a pedra. Juro que foi um acidente...
Os dois homens nada disseram.
De repente, Pennington pareceu voltar a si. Ainda
estava abalado, mas o esp¡rito combativo refizera-se-
-lhe em parte. Dirigiu-se para a porta, dizendo:
- Os senhores nÆo me podem incriminar. Foi um


257

acidente. E nÆo fui eu que a matei! Ouviram? Quanto
a isso, nÆo podem tamb‚m incriminar-me, e nunca
conseguirÆo fazˆ-lo.
Saiu.

CAPÖTULO XXVI


Quando a porta se fechou, Race suspirou profun-
damente.
- Conseguimos mais do que eu esperava. Confis-
sÆo de fraude. De tentativa de assass¡nio. Mais teria si-
do imposs¡vel. Um homem pode confessar uma tenta-
tiva de morte, mas nÆo o crime verdadeiro.
- ·s vezes, sim - disse Poirot com olhos sonha-
dores, luzentes como os de um gato.
Race fitou-o com curiosidade.
- Tem algum plano?
Poirot inclinou a cabe‡a, enumerando pelos dedos:
- O jardim de AssuÆo. O depoimento de Mister A1-
lerton. Os dois frascos do verniz. A minha garrafa de
vinho. A ‚charpe de veludo. O len‡o manchado. O re-
v¢lver encontrado no local do crime. A morte de
Louise. A morte de Mistress Otterbourne... Sim, est
tudo a¡. Pennington nÆo ‚ o assassino, Race.
- Quˆ? - perguntou Race, estupefacto.
- Pennington nÆo ‚ o assassino. Tinha motivos?
Sim. Desejava a morte de Linnet? Sim. Chegou a fa-
zer uma tentativa. Mais c'est tout. A este crime era ne-
cess rio algo que Pennington nÆo possui. � um crime
que exige aud cia, execu‡Æo r pida e perfeita, cora-
gem, indiferen‡a ao perigo, e uma inteligˆncia calcu-
lista, de recursos. Pennington nÆo tem esses atributos.
NÆo podia cometer um crime, a nÆo ser que tivesse a
certeza de que nÆo correria perigo. Mas este crime era
dos mais perigosos! Era necess rio aud cia... E Pen-
nington nÆo ‚ audacioso. � apenas astuto.

258

Race fitou Poirot com o respeito que um homem
competente tem por outro.
- Vocˆ resolveu todo o problema?
- Creio que sim. H uma ou duas coisas... Aque-
le telegrama, por exemplo, que Linnet Doyle leu.
Gostaria de esclarecer esse ponto.
- Com os diabos, esquecemo-nos de perguntar a
Doyle. Ia dizer-nos quando a velha Otterbourne apa-
receu... Vamos perguntar-lhe novamente.
- Daqui a pouco. Primeiro quero conversar com
certa pessoa.
- Quem?
- Tim Allerton.
Race ergueu as sobrancelhas.
- Allerton? Bom, vamos mand -lo chamar.
Tocou a campainha e mandou o criado dar o re-
cado.
Tim entrou, com expressÆo indagadora na fisio-
nomia.
- Mandaram-me chamar?
- Sim, Mister Allerton. Sente-se.
Tim sentou-se. A expressÆo do seu rosto era aten-
ta, mas ligeiramente contrariada.
- Alguma coisa em que os possa servir? - per-
guntou ele em tom polido, mas nada entusiasmado.
- At‚ certo ponto, talvez - disse Poirot.-
O que realmente lhe pe‡o ‚ que me ou‡a.
Tim ergueu as sobrancelhas, admirado, e replicou:
- Pois nÆo. Ningu‚m sabe ouvir melhor do que
eu. Digo sempre: Hummm... Hummm... nos momen-
tos oportunos.
- àptimo. Hummm, Hummm, ser muito ex-
pressivo. Eh bien, vamos come‡ar. Quando os conheci
,
em AssuÆo, Mister Allerton, senti grande atrac‡Æo pe-
lo senhor e pela senhora sua mÆe. Para come‡ar, acho-
-a uma das pessoas mais encantadoras que conheci at‚
hoje...
O rosto inexpressivo de Tim transformou-se du-
rante uns segundos:


259

- Sim, ‚ £nica - concordou ele.
- Mas o que depois me interessou foi o facto de
se referirem a certa pessoa.
- Como?
- Sim... Uma certa Joana Southwood. Porque, o
senhor sabe, eu tinha ouvido esse nome recentemente.
Poirot fez uma pausa e continuou:
- Nestes £ltimos trˆs anos, certos roubos de j¢ias
tˆm preocupado a Scotland Yard. Do tipo que pode
ser descrito como þþroubos sociaisþþ. O m‚todo ‚ geral-
mente o mesmo: a substitui‡Æo da j¢ia verdadeira por
uma imita‡Æo. O inspector Japp, que ‚ meu amigo,
chegou ... conclusÆo de que os roubos nÆo eram prati-
cados por uma s¢ pessoa, mas por duas, que muito in-
teligentemente trabalhavam de acordo. Estava conven-
cido, pelos ind¡cios, de que os roubos eram cometidos
por pessoas da sociedade. A sua aten‡Æo fixou-se, fi-
nalmente, em Miss Joana Southwood. Veriflcou-se que
cada uma das v¡timas era sua parenta ou amiga, e em
todos os casos ela chegara a ter nas mÆos ou usar a j¢ia
desaparecida. Al‚m do mais, a sua maneira de viver
nÆo estava de acordo com a sua fortuna. Por outro la-
do, estava provado que o roubo propriamente dito, is-
to ‚, a substitui‡Æo, nÆo fora cometido por ela. Em
certas ocasiäes, ela achava-se fora da Inglaterra no
momento da substitui‡Æo. E assim, pouco a pouco,
uma ideia se formou no c‚rebro do inspector Japp.
Miss Southwood fora, em certa ‚poca, s¢cia de uma
firma de j¢ias de fantasia. Japp achou que provavel-
mente ela examinava as j¢ias das amigas, desenhando-
-as minuciosamente, providenciando em seguida para
que fossem copiadas por algum joalheiro h bil e pouco
escrupuloso. Depois disso, havia a substitui‡Æo da j¢ia
verdadeira pela falsa, substitui‡Æo essa feita por uma
terceira pessoa, algu‚m que pudesse provar nÆo ter
examinado a j¢ia, nem tido interferˆncia alguma na
sua c¢pia. Japp ignorava a identidade desta terceira
pessoa. Certos trechos da sua conversa, Mister Aller-
ton, mteressaram-me. Um anel desaparecera durante a
sua estada em Maiorca, o senhor estivera hospedado
numa casa onde houve uma dessas substitui‡äes, a sua
intimidade com Miss Southwood, tudo isso chamou a
minha aten‡Æo. Al‚m disso, o facto de nÆo gostar da
minha companhia e de procurar evitar a camaradagem
entre sua mÆe e eu... Poderia, ‚ claro, tratar-se apenas
de antipatia pessoal, mas achei que nÆo era esse o ca-
so. O senhor fazia grande esfor‡o para ocultar, sob
certa afabilidade, essa antipatia. Eh bien, depois da
morte de Linnet, descobriu-se o desaparecimento das
p‚rolas. Compreende, pois, que imediatamente me
lembrei do senhor! Mas nÆo fiquei satisfeito. Porque,
se, como desconfio, ‚ c£mplice de Miss Southwood
(¡ntima amiga de Mistress Doyle) entÆo o m‚todo em-
pregado seria a substitui‡Æo, nÆo o roubo pura e sim-
plesmente. Mas as p‚rolas sÆo devolvidas inesperada-
mente, e que descubro eu?... Que se trata apenas de
uma imita‡Æo. Sei entÆo quem ‚ o verdadeiro ladrÆo.
O colar devolvido era falso; a substitui‡Æo fora feita
anteriormente.
Poirot fitou o rapaz sentado na sua frente. Tim es-
tava p lido. NÆo tinha o esp¡rito combativo de Pen-
nington. Era de outro tipo, mais franco, menos caleja-
do. O rapaz exclamou, esfor‡ando-se por manter o
tom zombeteiro:
- Que diz? E, se foi isso o que aconteceu, que fiz
entÆo ...s p‚rolas?
- Tamb‚m sei onde estÆo.
A expressÆo de Tim transformou-se.
Poirot continuou lentamente:
- H somente um lugar onde podem estar. Re-
flecti sobre isso, e cheguei a esta conclusÆo. As p‚ro-
las, Mister Allerton, estÆo escondidas num ter‡o, na
sua cabina. As contas do ter‡o sÆo entalhadas com
muita perfei‡Æo... Provavelmente feitas sob encomen-
da. Estas contas podem ser desatarraxadas, se bem
que ningu‚m o perceberia, ao vˆ-las. Dentro de cada

260 þ 261

conta est uma p‚rola, colada com seccotine. Muitos
investigadores policiais respeitam os objectos religio-
sos, a nÆo ser que haja neles algo que realmente chame
a aten‡Æo. O senhor contou com isso. Tentei descobrir
de que maneira Miss Southwood lhe mandara a imita-
‡Æo... Deve ter vindo pelo correio, uma vez que o se-
nhor decidiu esta viagem quando soube, em Maiorca,
que Mistress Doyle estava aqui em lua-de-mel. Na mi-
nha opiniÆo, o colar veio num livro, quadrado, cortado
nas p ginas do centro. Em geral, os livros nÆo sÆo
abertos no correio.
Houve uma pausa, uma longa pausa. Depois Tim
disse serenamente:
- O senhor venceu. Mas foi uma aventura interes-
sante. NÆo h nada a fazer, creio eu, a nÆo ser aceitar
o castigo.
Poirot inclinou a cabe‡a.
- Sabe que foi visto, aquela noite?
- Visto? - exclamou Tim com um sobressalto.
- Sim. Algu‚m o viu sair da cabina de Linnet
Doyle, na noite do crime.
Tim exclamou:
- Oi‡a! NÆo pensa... Juro que nÆo fui eu que a
matei! Tenho estado em palpos de aranha... Escolher
logo aquela noite!... C‚us, que pesadelo tem sido isto
para mim.
- Sim, o senhor deve ter tido momentos desagra-
d veis - concordou Poirot. - Mas agora que a verda-
de veio ... luz, talvez nos possa ajudar. Mistress Doyle
estava viva ou morta, quando o senhor roubou as p‚-
rolas?
Tim respondeu em voz rouca:
- NÆo sei. Juro por Deus, Monsieur Poirot, que
nÆo sei. Eu descobrira onde ela deixava o colar duran-
te a noite... na mesinha de cabeceira. Entrei de mansi-
nho, estendi a mÆo e agarrei o colar, deixando ali o fal-
so. Calculei, naturalmente, que ela estivesse a dormir.
- NÆo ouviu a respira‡Æo? E claro que procurou
ouvir?

262

- Estava tudo muito silencioso... muito silencio-
so... - disse Tim, parecendo realmente sincero.-
NÆo; nÆo me lembro de tˆ-la ouvido respirar...
- Havia algum cheiro a p¢lvora queimada no ar
como se um tiro tivesse sido dado recentemente
? ,
- NÆo o creio. NÆo me lembro.
Poirot suspirou.
- EntÆo estamos na mesma.
- Quem foi que me viu? - perguntou Tim com
curiosidade.
- Rosalie Otterbourne. Veio do outro lado do na-
vio, viu-o sair da cabina de Linnet e entrar na sua.
- EntÆo foi ela quem lhe contou...
Poirot replicou suavemente:
- Desculpe-me; nÆo foi ela quem me contou.
- Mas entÆo... como chegou a saber?
- Porque sou Hercule Poirot! NÆo preciso gue me
digam! Quando lhe perguntei, sabe o que ela me res-
pondeu? uNÆo vi ningu‚m.þþ Mas mentiu.
- Porquˆ?
Poirot replicou despreocupadamente:
- Talvez por ter pensado que o homem que ela vi-
ra era o assassino. Tinha razÆo para pensar isso.
- Mais um motivo para lhe contar.
Poirot encolheu os ombros.
- NÆo foi essa opiniÆo de Miss Otterbourne.
Tim disse, com uma nota esquisita na voz:
- � uma pequena extraordin ria. Deve ter sofrido
muito com aquela sua mÆe.
- � verdade. A vida nÆo tem sido muito f cil
para ela.
- Pobre menina... - murmurou Tim. E voltando-
-se para Race: - Confesso ter roubado as p‚rolas, e os
senhores encontr -las-Æo exactamente onde disseram que
estÆo. Sou culpado, sim. Mas, quanto a Miss South-
wood... nÆo confesso coisa alguma. Os senhores nÆo
tˆm provas contra ela. A maneira como consegui o co-
lar falso ‚ coisa que s¢ a mim diz respeito.


263

- Atitude muito correcta - murmurou Poirot.
- Sempre cavalheiro! - comentou Tim.
E depois de uma pequena pausa:
- O senhor compreende agora por que motivo eu
ficava aborrecido ao ver minha mÆe sempre a procur -
-lo, Monsieur Poirot. NÆo sou criminoso bastante cale-
jado para gostar de me ver cara a cara com um grande
detective, ainda mais antes de levar a efeito uma ope-
ra‡Æo arriscada! Talvez que outro sentisse prazer nisso.
Eu nÆo. Para ser franco, fiquei com muito medo!
- Mas nem assim desistiu?
Tim encolheu os ombros.
- O medo nÆo bastou para tanto. A troca tinha de
ser feita; uma ¢ptima oportunidade se apresentava
aqui no navio. Duas cabinas depois da minha, e Lin-
net tÆo preocupada com os seus aborrecimentos, que
nÆo notaria a substitui‡Æo...
- NÆo sei, nÆo...
- Que quer dizer com isso? - perguntou viva-
mente Tim.
Poirot tocou a campainha.
- Vou pedir a Miss Otterbourne que venha aqui
por alguns minutos.
Tim franziu as sobrancelhas, mas nada disse.
Rosalie entrou logo depois. Os seus olhos, incha-
dos de chorar, tiveram uma expressÆo admirada ao ver
Tim. Mas a atitude desafiadora desaparecera por com-
pleto. Sentou-se, fitando Poirot e Race, com uma do-
cilidade inesperada.
- Sentimos muito incomod -la, Miss Otterbourne
- disse Race suavemente, um tanto aborrecido com
Poirot.
- NÆo tem importƒncia - murmurou a jovem.
Poirot tomou a palavra:
- Preciso de esclarecer um ou dois pontos, made-
moiselle. Quando lhe perguntei se tinha visto algu‚m
no tombadilho, ... uma e dez, naquela madrugada, a se-
nhora respondeu-me que nÆo. Felizmente, consegui

264

descobrir a verdade sem o seu aux¡lio. Mister Allerton
confessou que esteve na cabina de Linnet Doyle a noi-
te passada.
A jovem olhou de relance para Tim, e este inclinou
gravemente a cabegþ.
- A hora est certa, Mister Allerton?
- Cert¡ssima.
Rosalie fitava-o, perplexa. Os seus l bios treme-
ram... entreabriram-se...
- Mas vocˆ nÆo... nÆo...
Ele respondeu vivamente:
- NÆo; nÆo a matei. Sou ladrÆo, nÆo assassino.
Tudo vir ... luz, de modo que nÆo h mal nenhum em
saber-se a verdade. Eu estava com os olhos naquele
colar!
- Mister Allerton diz que foi ... cabina naquela
noite trocar o colar verdadeiro por um falso - disse
Poirot.
- � verdade? - perguntou Rosalie.
Os olhos graves, tristonhos, interrogaram-no sua-
vemente.
- � verdade - disse Tim.
Houve uma pausa. Race remexeu-se na cadeira
constrangido.
,
Poirot continuou, num tom esquisito de voz:
- Como disse, ‚ esta a hist¢ria de Mister Allerton
,
em parte confirmada pelo seu testemunho, mademoisel-
le. Isto ‚, h provas quanto ao facto de ter ele visitado
a cabina de Linnet a noite passada, mas nÆo quanto ao
motivo de tal visita.
Tim fitou-o, exclamando:
- Mas o senhor sabe!
- Sei o quˆ?
- Bom... Sabe que tenho o colar em meu poder.
- Mais oui... mais oui. Sei que tem o colar, mas
nÆo sei quando se apoderou dele. Talvez tenha sido antes
da noite passada... Ainda h pouco o senhor me disse
que Linnet nÆo teria notado a substitui‡Æo. NÆo estou

265

muito certo disso. Suponhamos que tivesse notado...
Suponhamos que soubesse quem era o culpado... que
tivesse amea‡ado denunci -lo... E suponhamos que o
senhor tenha ouvido a cena entre Jacqueline e Simon,
e que, assim que viu o salÆo vazio, entrou ali, apode-
rando-se do rev¢lver... E que mais tarde, quando ha-
via silˆncio a bordo, foi ... cabina de Linnet para impe-
dir de uma vez por todas que ela o denunciasse...
- Meu Deus!... - murmurou Tim, fitando Poi-
rot com olhar de intenso sofrimento.
O detective continuou:
- Mas algu‚m mais o viu: Louise Bourget. No dia
seguinte, foi procur -lo. O senhor compreendeu que
ceder ... chantage da rapariga seria tornar-se para sem-
pre seu escravo. Fingiu concordar, marcando encontro
na cabina dela para depois do almo‡o. E entÆo, quan-
do Louise contava o dinheiro, matou-a... Mas a sorte
n"o estava do seu lado. Algu‚m o viu dirigir-se para a
cabina... Mistress Otterbourne. Mais uma vez o se-
nhor teve que agir prontamente, loucamente, mas era
a sua £nica oportunidade! Ouvira Pennington falar do
rev¢lver... Correu ... cabina dele, apanhou o rev¢lver,
ficou do lado de fora da cabina do doutor Bessner e
atirou antes que Mistress Otterbourne pudesse revelar
o seu nome...
- NÆo! - exclamou Rosalie. - NÆo foi ele!
NÆo foi.
- Depois disto, fez a £nica coisa que lhe era possi-
vel fazer. Deu a volta pela popa, e quando dei com o
senhor, fngiu que vinha em direc‡Æo contr ria. O se-
nhor usara luvas, e estas luvas estavam no seu bolso.
- Diante de Deus juro que nada disso ‚ verdade!
- exclamou Tim.
Mas a voz tr‚mula e hesitante nÆo era nada convin-
cente.
Nisto, a exclama‡Æo de Rosalie supreendeu-os a
todos.
- Claro que nÆo ‚ verdade! E Monsieur Poirot sa-
be-o bem. Fala assim por algum motivo oculto.

266

Poirot fitou-a, sorrindo. Estendeu as mÆos, de pal-
mas para cima, como quem entrega os pontos.
- Mademoiselle ‚ inteligente de mais... Mas con-
cordam que foi engenhoso?
- Com os diabos...
Tim parecia furioso, mas Poirot conteve-o com um
gesto.
- As aparˆncias estÆo contra si, Mister Allerton, e
quero que nÆo se esque‡a disto. Agora, vou dizer-lhe
algo mais agrad vel. Ainda nÆo examinei aquele ter‡o na
sua cabina. Pode ser que, quando o fizer, nÆo encontre
ali coisa alguma. E uma vez que Mademoiselle Rosalie
insiste em dizer que nÆo viu ningu‚m no tombadi-
lho... eh, bien nada temos contra o senhor. O colar foi
tirado por uma cleptoman¡aca, que o devolveu. Est
numa caixa na mesinha ao lado da porta; se o senhor e
mademoiselle quiserem examin -lo...
Tim ergueu-se e permaneceu um momento im¢vel.
Quando falou, as suas palavras soaram inadequadas,
mas pareceram satisfazer os ouvintes.
- Obrigado. NÆo precisarÆo de dar-me outra
oportunidade.
Abriu a porta para a rapariga passar, e levou a cai-
xinha.
Seguiram lado a lado pelo tombadilho. Tim abriu a
caixa, tirou de dentro o colar falso e atirou-o ao Nilo.
- Pronto! Quando devolver a caixa a Poirot, o co-
lar verdadeiro estar dentro dela. Que idiota tenho
sido!
Rosalie disse em voz baixa:
- Como foi que come‡ou?
- Como comecei? Oh, nÆo sei ao certo. T‚dio...
pregui‡a... esp¡rito de aventura. Maneira muito mais
agrad vel de passar o tempo que na prisÆo de um es-
crit¢rio. H -de parecer-lhe s¢rdido... mas tinha uma
certa atrac‡Æo. Principalmente por causa do perigo.
- Creio que compreendo.
- Sim, mas vocˆ nunca faria uma coisa dessas.


267

Rosalie ficou pensativa alguns minutos, depois res-
pondeu:
- NÆo; nÆo faria.
- Oh, minha querida... vocˆ ‚ tÆo linda.. tÆo lin-
da! Porque n"o quis dizer que me viu a noite passada?
- Pensei que... poderiam suspeitar de si.
- E suspeitou de mim?
- NÆo. NÆo o achei capaz de matar algu‚m.
- Tem razÆo; nÆo sou feito da massa forte dos as-
sassinos. Sou apenas um m¡sero ladr"o.
Ela tocou-lhe timidamente no bra‡o.
- NÆo diga isso...
Tim segurou com for‡a a mÆo de Rosalie, dizendo:
- Minha querida, seria poss¡vel... Sabe a que me
refiro?... Ou lan‡ar-me-ia sempre em rosto...
Ela replicou, sorrindo:
- H coisas que tamb‚m vocˆ me poderia lan‡ar
em rosto...
- Rosalie, meu amor...
Ela fez um gesto, detendo-o:
- Mas... e Joana?
- Joana?! Vocˆ ‚ como a mamÆ! NÆo ligo a m¡ni-
ma importƒncia a Joana... Tem cara de cavalo e olhos
de ave de rapina... Uma criatura muito pouco atraen-
te, enfim.
Rosalie disse, ap¢s uma pausa:
- Sua mÆe nÆo precisa saber de nada.
- NÆo sei - replicou Tim, pensativo. - Creio
que lhe contarei. A mamÆ ‚ forte. Pode aguentar mui-
ta coisa. Sim, creio que vou desfazer-lhe as ilusäes ma-
ternais a meu respeito. Ficar tÆo contente ao saber
que as minhas rela‡äes com Joana eram puramente co-
merciais, que me perdoar seja o que for!
Tinham chegado ... cabina de Mrs. Allerton. Tim
bateu ... porta com firmeza. Mrs. Allerton apareceu.
- Rosalie e eu... - come‡ou Tim.
Fez uma pausa.
- Oh, meus queridos... - exclamou Mrs. Aller-
ton abra‡ando Rosalie. - Minha querida menina...
Eu tinha esperan‡as, mas Tim era tÆo esquisito!..
Fingia que nÆo gostava de si! Mas claro que nÆo me
enganou.
Rosalie balbuciou:
- A senhora foi sempre tÆo boa para mim... tÆo
boa... Desejei que...
NÆo p"de continuar, apoiando, feliz e solu‡ante, a
cabe‡a no ombro de Mrs. Allerton.

CAPÖTULO XXVII


Quando a porta se fechou sobre Tim e Rosalie
,
Poirot voltou-se com ar penitente para Race. O coro-
nel estava muito s‚rio.
- Consente no meu arranjo, nÆo consente? - per-
guntou o detective. - � um tanto irregular... Sei que
‚ irregular... mas prezo muito a felicidade das cria-
turas.
- NÆo parece prezar a minha! - queixou-se
Race.
- Aquela jeune fille... tenho um fraco por ela, e
vejo que est apaixonada. Ser um ¢ptimo casamento.
Ela tem as qualidades fortes que lhe faltam a ele.
A mÆe gosta de Rosalie... tudo tÆo bem combinado!
- Em resumo, o casamento foi arranjado pelos
deuses e por Hercule Poirot. S¢ me resta tomar parte
na conspira‡Æo.
- Mas, mon ami, eu disse-lhe que isto tudo nÆo
passa de mera suposi‡Æo da minha parte.
Race nÆo p"de deixar de rir.
- Est certo, est certo. NÆo sou nenhum pol¡cia,
gra‡as a Deus! NÆo duvido de que o rapaz ande direi-
to daqui por diante. A rapariga ‚ muito correcta
q ,
uanto a isso nÆo h d£vida. NÆo; do que me queixo ‚
268
269

da sua maneira de me tratar, a mim! Sou paciente, mas
existe um limite para essa paciˆncia. Vocˆ sabe quem
cometeu os trˆs crimes neste navio, ou nÆo sabe?
- Sei.
- EntÆo para quˆ toda esta lengalenga?
- Acha que me estou a divertir com conjecturas?
E isso aborrece-o? Mas nÆo ‚ como pensa. Duma vez
fiz parte de uma expedi‡Æo arqueol¢gica e ali aprendi
alguma coisa. Durante a escava‡Æo, quando sa¡a algu-
ma coisa da terra, tiravam cuidadosamente tudo quan-
to estava em volta. Primeiro a terra solta, raspando
aqui e ali com uma faca, at‚ que o objecto aparecesse
limpo, isolado, pronto para ser fotografado sem ele-
mentos estranhos a deform -lo. � o que tenho procu-
rado fazer; afastar os elementos estranhos para que
possamos ver a verdade, a verdade nua e crua.
- Muito bem. Que venha entÆo essa verdade nua
e crua! NÆo foi Pennington. NÆo foi Allerton. NÆo de-
ve ter sido Fleetwood. Para variar, diga-me quem foi.
- Meu amigo, ‚ justamente o que vou fazer.
Ouviu-se uma pancada na porta. Race blasfemou
baixinho.
Corn‚lia e o Dr. Bessner entraram. A ra ari a a-
p g p
recia muito perturbada.
- Oh, coronel Race! Miss Bowers acaba de me
contar a respeito da prima Marie... Levei um choque
horr¡vel! Miss Bowers disse que nÆo podia mais su-
portar sozinha a responsabilidade, que era melhor eu
saber, j que fa‡o parte da fam¡lia. A princ¡pio, nÆo
quis acreditar, mas o doutor Bessner tem sido muito
bom...
- Nada disso - protestou o m‚dico, modesta-
mente.
- Tem sido tÆo am vel, explicando tudo, e como
a pessoa nÆo tem culpa... Ele j teve casos de clepto-
mania na sua cl¡nica. E explicou-me que muitas vezes
‚ um caso agudo de neurose...
Corn‚lia pronunciou a £ltima palavra com profun-
270

da reverˆncia. Como os outros nada dissessem, conti-
nuou:
- Est implantado no subconsciente, ...s vezes por
causa de alguma coisa que aconteceu quando a pessoa
era crian‡a. Ele tem curado muita gente, fazendo o
doente pensar no passado, procurando lembrar-se que
coisa era essa...
Corn‚lia vez uma pausa, respirou, e continuou:
- Mas estou preocupad¡ssima, com medo de que
venham a descobrir. Seria horr¡vel, se chegassem a sa-
ber em Nova Iorque! Imagine, os jornais publicariam
a not¡cia... A prima Marie, a mamÆ... nenhuma delas
poderia andar de cabe‡a erguida.
Race suspirou:
- Sim, senhor, pelo que vejo, isto aqui ‚ a Casa
dos Segredos.
- PerdÆo, coronel Race?
- Eu queria dizer que qualquer coisa menos grave
do que o assass¡nio est a ser ocultada.
- Oh, que al¡vio! - exclamou Corn‚lia juntando
as mÆos. - Tenho andado tÆo preocupada...
- A senhora tem muito bom cora‡Æo - disse Bes-
sner, dando-lhe uma pancadinha benevolente no om-
bro. E, voltando-se para os outros: - � muito nobre e
sens¡vel.
- Oh, nÆo. O senhor ‚ que est a ser am vel.
- Tem visto Mister Ferguson? - perguntou Poirot.
Corn‚lia corou.
- NÆo, mas a prima Marie tem falado sobre ele.
- Parece que o rapaz ‚ nobre - observou Bes-
sner. - Confesso que nÆo d essa impressÆo. As suas
roupas s"o horr¡veis. Nem por sombras parece um ra-
paz de educa‡Æo!
- E qual ‚ a sua opiniÆo, mademoiselle?
- Acho que ‚ maluco, pura e simplesmente - de-
clarou Corn‚lia.
Poirot perguntou, voltando-se para o m‚dico:
- Como vai o seu doente?


271

- Ach, vai indo optimamente. Acabo de tranquili-
zar a pequena Fraulein de Bellefort. Talvez nÆo acre-
ditem, mas encontrei-a em estado de desespero, s¢
porque o rapaz tinha um pouco de febre hoje ... tarde!
Nada mais natural. � mesmo extraordin rio que a fe-
bre nÆo tenha subido mais ainda. Ele ‚ como alguns
dos nossos camponeses; tem um ¢ptimo organismo.
Tenho-os visto gravemente feridos, nÆo parecendo
sentir coisa alguma. O mesmo se d com Mister Doy-
le. O pulso dele est normal, a temperatura apenas um
pouco mais elevada do que devia estar. Consegui acal-
mar os receios da rapariga. Em todo o caso, ‚ rid¡culo,
nicht wahr? Num momento, d um tiro ao sujeito, e
no momento seguinte tem medo que ele morra!
Corn‚lia disse:
- Ela ama-o apaixonadamente; ‚ por isso.
- Ach, mas nÆo est certo! Se a senhora gostasse
de um homem, iria dar-lhe um tiro? NÆo; ‚ sensata de
mais para isso.
- De qualquer maneira, nÆo gosto de coisas que
fazem barulho! - exclamou infantilmente Corn‚lia.
- Claro que nÆo. � muito feminina...
Race interrompeu a troca de amabilidades.
- Se Simon est bem, nÆo vejo motivo para nÆo
reatarmos a nossa conversa de hoje ... tarde. Estava a
falar-me de um telegrama...
- Ah! Ah! Muito engra‡ado - exclamou Bessner.
- Doyle falou-me do tal telegrama. Batatas, alcacho-
fras... Ach? PerdÆo?
Race endireitara-se na cadeira, exclamando:
- Meu Deus! EntÆo ‚ ele! Richetti...
Voltou-se para os outros trˆs, que o fitavam sem
nada compreender.
- Um novo c¢digo, usado na rebeliÆo da µfrica
do Sul. Batatas significam metralhadoras; alcachofras,
explosivos poderosos, e assim por diante. Richetti ‚
tÆo arque¢logo como eu! � um perigoso agitador, um
homem que j matou v rias pessoas. Mistress Doyle

abriu o telegrama por engano, os senhores compreen-
dem. Se repetisse na minha frente o que lera, Richetti
estaria perdido!
Race pareceu reflectir. E depois, voltando-se para
Poirot:
- Acertei? � Richetti o criminoso?
- � o seu homem - declarou Poirot. - Sempre
achei que havia qualquer coisa de esquisito nele. Era
perfeito de mais no seu papel. S¢ arque¢logo, nÆo uma
criatura humana.
Poirot fez uma pausa, e, como os outros nada dis-
sessem, continuou:
- Mas nÆo foi Richetti quem matou Linnet Doy-
le. H j algum tempo que conhe‡o o que chamo a
ccprimeira metadeþþ do assassino. Agora conhe‡o tam-
b‚m a ccsegunda metadeþþ. O quadro est completo.
Mas compreendam que, embora saiba o que aconte-
ceu, nÆo tenho provas. Intelectualmente, a solu‡Æo sa-
tisfaz-me. H apenas uma esperan‡a: confissÆo, por
parte do assassino.
Bessner ergueu cepticamente os ombros.
- Ach! Mas isso seria um milagre.
- NÆo o creio. NÆo nas circunstƒncias actuais.
- Mas quem ‚? - exclamou Corn‚lia. - NÆo vai
dizer-nos?
O olhar de Poirot foi de um para o outro. Race
sorria ironicamente; Bessner continuava c‚ptico; Cor-
n‚lia, de l bios entreabertos fitava-o com expressÆo
profundamente interessada.
Race mexeu-se na cadeira e exclamou:
- EntÆo, vamos ver at‚ que ponto chega a inteli-
gˆncia de Hercule Poirot!
- Para come‡ar, fui idiota, completamente idiota
- disse o detective. - O maior obst culo era o rev¢l-
ver, o rev¢lver de Jacqueline. Porque nÆo ficara no lo-
cal do crime? A inten‡Æo do assassino era certamente
þcrimin -la. Por que motivo levou a arma? Fui tÆo idio-
ta que imaginei os mais fant sticos motivos. E o ver-
272
273

dadeiro era muito simples! O assassino levou o
rev¢lver porque precisava de lev -lo... porque nÆo po-
dia fazer outra coisa!

CAPÖTULO XXVIII


Poirot inclinou-se para Race e continuou:
- Vocˆ e eu, meu amigo, inici mos a nossa inves-
tiga‡Æo com uma ideia preconcebida. Ach vamos que
o crime fora perpetrado num impulso de momento,
sem nenhum plano anterior. Algu‚m desejava eliminar
Linnet Doyle e aproveitara a oportunidade de agir
num momento em que o crime seria certamente atri-
bu¡do a Jacqueline de Bellefort. Da¡ se conclu¡a que
essa pessoa ouvira a cena entre Jacqueline e Simon, e
se apoderara da arma quando os outros sa¡ram do
salÆo.
þþMas, meu amigo, se essa nossa ideia preconcebida
estivesse errada, entÆo todo o aspecto da questÆo ficava
alterado. E estava errada! O crime nÆo fora cometido
impulsivamente. Ao contr rio, fora planeado, calculado
com muita precisÆo, tendo todos os pormenores sido
estudados de antemÆo, at‚ mesmo quanto ao narc¢tico
vertido aquela noite na garrafa de vinho de Hercule
Poirot! Tomo vinho; os meus companheiros de mesa
tomam: um, gua mineral; o outro, whisky e soda. Na-
da mais simples do que deitar uma dose de um narc¢-
tico inofensivo no meu vinho, uma vez que as garrafas
ficaram na mesa todo o dia. Mas nÆo achei isso prov -
vel. O dia estivera quente, e eu sentia-me cansad¡ssi-
mo; nÆo era de admirar que, contra o meu costume,
eu tivesse dormido profundamente.
þþCompreendam-me: ainda estava sob a impressÆo
daquela ideia preconcebida. Se eu tivesse sido narcoti-
zado, entÆo o crime teria sido premeditado... Quero

com isto dizer que, antes das sete e trinta, quando foi
servido o jantar, o crime j fora planeado... E isto (sob
o ponto de vista da ideia preconcebida) era absurdo.
O primeiro obst culo ... ideia preconcebida foi o facto
de ter o rev¢lver sido encontrado no Nilo. Para come-
‡ar, se as nossas dedu‡äes estivessem certas, o rev¢lver
nunca deveria ter sido atirado ao rio. E ainda mais..
Poirot voltou-se para Bessner:
- O senhor, doutor Bessner, examinou o corpo de
Linnet Doyle. Lembra-se que o ferimento apresentava
sinais de chamuscado, significando que o tiro fora da-
do com a arma rente ... cabe‡a.
Bessner inclinou a cabe‡a, dizendo:
- Sim, ‚ exacto.
- Mas o rev¢lver foi encontrado dentro de uma
‚charpe de veludo, podendo-se verificar que a bala per-
furara as dobras do tecido, parecendo que a inten‡"o
do criminoso fora abafar o som. Mas se o tiro tivesse si-
do dado atrav‚s do veludo, nÆo haveria sinais chamusca-
dos na pele da vitima. E, portanto, o tiro dado atrav‚s
da ‚charpe nÆo podia ser o tiro que matara Linnet Doyle.
Poderia ter sido o outro, de Jacqueline contra Simon?
NÆo, pois quanto a isso havia testemunhas. Parecia
,
portanto, que houvera um terceiro tiro, sobre o qual
nada sab¡amos. Mas duas balas somente haviam sido
picadas.
þþEstava ali uma curiosa circunstƒncia, dif¡cil de ser
explicada. O segundo ponto interessante foram os dois
frascos do verniz, que encontrei na cabina de Linnet.
Agora, raramente as senhoras trocam a cor do verniz
das unhas, e eu notei que as unhas de Linnet tinham
sempre a tonalidade chamada þþCardinalv, de um ver-
melho-escuro. O outro frasco estava marcado þþRoseþþ,
que ‚ de um rosa-p lido. Mas as poucas gotas no fun-
do do frasco nÆo eram cor-de-rosa, mas de um verme-
lho-vivo. A curiosidade fez que eu destapasse o frasco
e cheirasse o conte£do. Em vez do acentuado perfume
de pˆra, havia ali um cheiro de vinagre! Isto queria di-
274 þ 275

zer que as duas gotas l no fundo deviam ser de tinta
vermelha! Ora: nÆo havia motivo para que Mistress Doy-
le nÆo tivesse tinta vermelha na cabina, mas seria mais
natural que a guardasse num frasco de tinta e nÆo num
frasco de verniz. Estava ali um elo com o len‡o man-
chado de rosa, encontrado ... volta do rev¢lver. Tinta
vermelha ao contacto da gua desaparece com facilida-
de, mas sempre deixa um tom rosado.
þþTalvez que s¢ com estes ind¡cios eu devesse ter
chegado ... verdadeira conclusÆo, mas houve um acon-
tecimento que acabou com todas as d£vidas. Louise
Bourget foi assassinada de maneira que a indicava cla-
ramente como chantagista. Segurava o canto de uma
nota de mil francos... Lembrei-me tamb‚m das signi-
ficativas palavras que me dissera naquela manhÆ...
Ou‡am cuidadosamente, pois aqui est a chave do pro-
blema. Quando lhe perguntei se vira alguma coisa na
noite anterior, ela deu-me uma resposta muito curiosa:
þþClaro que se nÆo tivesse sentido sono, se tivesse subido as
escadas, talvez tivesse visto o assassino, esse monstro, en-
trar ou sair da cabina de madameþþ... Agora, que ‚ que
isto significa?
Bessner, que parecia intelectualmente interessado
no assunto, sugeriu:
- Significava que subira as escadas.
- NÆo, nÆo; o senhor nÆo compreende aonde que-
ro chegar. Porque dizia ela isto a n¢s?
- Para insinuar...
- Mas para que insinuar a n¢s? Se sabia quem era
o assassino, poderia ter agido de duas maneiras: dizer-
-nos a verdade, ou guardar silˆncio e explorar o crimi-
noso! Mas nÆo fez nem uma nem outra coisa. NÆo dis-
se prontamente: þþNÆo vi ningu‚m. Eu estava a
dormir.þþ Nem tÆo-pouco: cþVi algu‚m, Fulano-de-tal.v
Porque se serviu daquela frase complicada? Parbleu,
s¢ pode haver uma razÆo! Ela estava a insinuar para o
assassino, e, portanto, o assassino devia estar presente na
ocasiÆo. Mas, al‚m de n¢s dois, Race e eu, s¢ estavam

ali duas pessoas: Simon Doyle e o senhor, doutor Bes-
sner.
O m‚dico deu um salto da cadeira.
- Ach! Que est dizendo? Est a acusar-me? Mas
isso ‚ rid¡culo, inconceb¡vel!
Poirot disse bruscamente:
- Fique quieto. Estou a dizer-lhe quais as minhas
reflexäes, na ocasiÆo. Sejamos impessoais.
- Ele nÆo est a acus -lo - disse Corn‚lia em
tom conciliador.
Poirot continuou vivamente:
- E, portanto, s¢ restavam os outros dois: Simon
Doyle e Bessner. Mas que razÆo tinha Bessner para
matar Linnet Doyle? Nenhuma, a julgar pelas aparˆn-
cias. Simon Doyle, entÆo? Mas isso era imposs¡vel!
Havia muitas testemunhas de que ele nÆo sa¡ra do sa-
lÆo antes do conflito. Depois, fora ferido; ter-lhe-ia
sido materialmente imposs¡vel sair dali. Tinha eu pro-
vas disso? Sim. Havia o depoimento de Miss Robson
,
de Jim Fanthorp, de Jacqueline de Bellefort, quanto ...
primeira parte; a declara‡Æo de pessoas competentes
como Miss Bowers e o doutor Bessner, quanto ... se-
gunda. NÆo havia d£vida poss¡vel. E, portanto, Bes-
sner devia ser o culpado. Em favor dessa teoria havia o
facto da criada ter sido apunhalada com um instrumen-
to cir£rgico. Mas, por outro lado, fora o pr¢prio Bes-
sner quem chamara a aten‡Æo para esse ponto!
cþE entÆo, meus amigos, um outro facto indiscut¡-
vel se apresentou ante os meus olhos. A insinua‡Æo de
Louise Bourget nÆo poderia ter sido feita a Bessner
,
pois poderia ter falado com ele em particular a qualquer
momento que o desejasse. Tais palavras s¢ poderiam ter
sido dirigidas a uma pessoa: Simon Doyle! Simon esta-
va ferido, tinha o m‚dico constantemente a seu lado
,
estava na cabina desse m‚dico... Ela arriscou-se a diri-
gir-lhe aquelas palavras amb¡guas, com medo de nÆo
ter outra oportunidade. Lembro-me de que se voltou
para ele, exclamando: þþLlonsieur, por favor... Com-
276 þ 277

preende a minha situa‡Æo? Que posso eu dizer?þþ E a
resposta dele: þþMinha cara menina, nÆo seja tola. Nin-
gu‚m pensa que viu ou ouviu coisa alguma. NÆo se preo-
cupe. Cuidarei de si. Ningu‚m a acusaþþ. Era esta a ga-
rantia que ela desejava obter!
Bessner soltou um grunhido imenso.
- Ach! Que tolice! Acha que um homem com a
perna fracturada pode andar pelo navio a matar os
passsageiros? Garanto-lhe que teria sido impossivel a
Simon Doyle sair da cabina!
Poirot disse suavemente:
- Sei disso. Tem toda a razÆo. Era imposs¡vel...
mas verdadeiro! Logicamente, as palavras de Louise s¢
poderiam ter tido um sentido. E, portanto, voltei atr s,
fazendo uma revisÆo do caso, estudando os aconteci-
mentos ... luz deste novo conhecimento. Teria sido im-
poss¡vel que, antes da questÆo, Simon tivesse sa¡do do
salÆo sem que pessoa alguma lhe notasse a ausˆncia?
NÆo achei a ideia admiss¡vel. O testemunho de pessoas
competentes como Bessner e Miss Bowers poderia ser
desprezado? Tamb‚m nÆo. Mas lembrei-me de que
houvera um intervalo... Simon Doyle ficara sozinho no
salÆo pelo espa‡o de cinco minutos, e o exame compe-
tente de Bessner fora feito depois deste per¡odo. Para
este per¡odo t¡nhamos apenas o testemunho aparente,
visual; e, aquilo que parecera prov vel, j nÆo era cer-
to. Que ‚ que fora realmente visto, deixando de lado as
suposi‡äes?
uMiss Robson vira Miss de Bellefort atirar, vira Si-
mon cair na cadeira, vira-o apertar contra a perna um
len‡o que gradualmente se fora tingindo de vermelho.
Que vira ou ouvira Mister Fanthorp? Ouvira um tiro,
encontrara Doyle com um len‡o manchado de verme-
lho ... volta da perna. Que acontecera depois? Doyle
mostrara-se muito insistente, ao pedir que levassem
dali Miss de Bellefort, dizendo que nÆo a deixassem
sozinha. Depois disso sugerira a Fanthorp que fosse
chamar o m‚dico.

þþE, portanto, Miss Robson e Miss de Bellefort e
Mister Fanthorp sa¡ram dali, e nos seguintes cinco mi-
nutos estiveram ocupados no tombadilho a bombordo. As
cabinas de Miss Bowers, do m‚dico e de Miss de Belle-
fort ficam todas daquele lado. Simon Doyle s¢ precisa-
va de dois minutos... Apanha o rev¢lver, tira os sapa-
tos, corre como uma lebre pelo tombadilho, entra na
cabina da esposa, que est a dormir, d -lhe um tiro na
cabe‡a, päe no lavat¢rio o frasco com a tinta vermelha
(‚ necess rio que nÆo seja encontrado em seu poder!)
volta a correr para o salÆo, apanha a ‚charpe de Miss
Van Schuyler (que anteriormente escondera no vÆo da
poltrona) enrola-lhe o rev¢lver e d um tiro na pr¢pria
perna... A cadeira onde cai (com verdadeira dor, desta
vez) fica perto da janela. Ele abre a janela e atira o re-
v¢lver ao Nilo, envolto na ‚charpe e no len‡o revela-
dor. . .
- Imposs¡vel! - disse Race.
- NÆo, meu amigo, nada imposs¡vel. Lembre-se
do depoimento de Tim Allerton. Ele ouviu um estalo
,
e em seguida o ru¡do de um baque. E ouviu mais algu-
ma coisa... passos de quem corria, em frente da sua
cabina. Mas ningu‚m devia andar a correr no tombadilho
a estibordo. Que ouvira Mister Alberton? Os passos de
Simon Doyle, correndo s¢ de meias.
- Ainda acho imposs¡vel - declarou Race.-
Ningu‚m poderia ter agido com essa velocidade. Ain-
da mais um sujeito de racioc¡nio lento como Doyle!
- Mas muito gil, fisicamente!
- Quanto a isso, de acordo. Mas nÆo poderia ter
planeado tudo sozinho com todos esses pormenores.
- Mas nÆo planeou sozinho, meu amigo. Nisso ‚
que est vamos enganados. Parecia um crime cometido
num impulso de momento, mas nÆo era um crime nes-
se sentido! Pelo contr rio. Foi muito inteligentemente
planeado, e estudado minuciosamente. NÆo era poss¡-
vel que Simon tivesse por acaso um frasco de tinta no
bolso. NÆo: foi propositadamente. NÆo foi por acaso que

278 þ 279

Jacqueline deu um pontap‚ no rev¢lver, mandando-o
para baixo da poltrona, de maneira a ficar ali esqueci-
do at‚ mais tarde.
- Jacqueline?
- Certamente. A segunda metade do assassino.
Que foi que deu a Simon o seu libi? O tiro dado por
þacqueline. Que foi que deu a þacqueline o seu libi?
A insistˆncia de Simon, que fez com que a enfermeira
passasse a noite toda ao lado dela. E, portanto, encon-
tramos nos dois as qualidades necess rias: em Jacque-
line, a inteligˆncia fria e calculista; em Simon, o ho-
mem de ac‡Æo, que cometeria o crime com incr¡vel
rapidez e precisÆo.
Poirot fez uma pausa e continuou:
- Analisem o caso sob o ponto de vista certo, e
todas as d£vidas se dissiparÆo. Simon e Jacqueline ti-
nham sido apaixonados um pelo outro. Admitam a hi-
p¢tese de ainda se amarem e tudo f‹ca esclarecido. Si-
mon liquida a esposa rica, herda o seu dinheiro e mais
tarde casar com a antiga namorada. Muito inteligente!
A persegui‡Æo a Mistress Doyle, por parte de Jacqueli-
ne, fazia parte do plano. A suposta raiva de Simon.
E no entanto... havia falhas. Ele queixara-se certa vez
das mulheres autorit rias, exprimindo-se com sincera
amargura. Eu devia ter percebido que pensava na sua
mulher, nÆo em Jacqueline. Depois, a sua atitude para
com a esposa, em p£blico. Um t¡pico inglˆs, como Si-
mon Doyle, em geral nÆo ‚ demonstrativo. Simon nÆo
era verdadeiramente um bom actor. Exagerou a atitu-
de apaixonada. E aquela conversa que tive com Jac-
quelme, quando ela quis que eu pensasse que algu‚m
estivera ... escuta!... Eu nÆo vi ningu‚m. E nÆo havia
ningu‚m! Mas isto seria mais tarde um pormenor
cheio de interesse. E duma vez, aqui no navio, julguei
ter ouvido uma conversa entre Simon e Linnet. Dizia
ele: þþAgora temos que andar para diante.þþ Era Simon,
sim, mas dirigindo-se a Jacqueline.
þþO drama final foi perfeitamente calculado. O nar-
c¢tico vertido no meu vinho, para evitar que lhes atra-
280

palhasse os planos, a escolha de Miss Robson como
testemunha, o prel£dio da cena no salÆo, o histerismo
de Miss de Bellefort, os seus remorsos exagerados. Ela
fez bastante barulho, para evitar que o tiro fosse ouvi-
do. En v‚rit‚, foi uma ideia muito inteligente! Jacque-
line declara ter atirado sobre Doyle, Miss Robson con-
frma as suas palavras, Fanthorp diz a mesma coisa...
E, quando o m‚dico examina Doyle, verifica que real-
mente ele est ferido! NÆo pode haver d£vida! Ambos
conseguiram um perfeito libi, ... custa, naturalmente
,
de certo risco e sofrimento para Simon. Mas era neces-
s rio que o sofrimento de facto o inutilizasse durante
algum tempo.
þþMas houve um imprevisto! Louise Bourget nÆo ti-
nha sono aquela noite. Subiu as escadas e viu Simon
correr at‚ ... cabina da esposa e sair novamente dali. Is-
to bastou para que tirasse as suas conclusäes no dia
seguinte. E, portanto, procurou gananciosamente ex-
torquir dinheiro, assinando assim a sua senten‡a de
morte.
- Mas Mister Doyle nÆo poderia ter matado Loui-
se - exclamou Corn‚lia.
- NÆo. Este crime foi cometido pela outra parcei-
ra. Assim que teve oportunidade, Simon pediu para
falar com Jacqueline. Chegou mesmo a fazer-me sinal
para que os deixasse s¢s. Falou-lhe do novo perigo.
Precisavam de agir sem demora! Ele sabe onde Bes-
sner guarda os seus instrumentos. Depois do crime, o
bisturi ‚ posto de novo no seu lugar; um pouco tarde
,
um tanto ofegante, Jacqueline entra no salÆo, para al-
mo‡ar.
cþMas nem assim passou o perigo. Mistress Otter-
bourne viu þacqueline entrar na cabina de Louise Bour-
get. E vem a correr contar a Simon a novidade. Jac-
queline ‚ a assassina. Lembra-se, Race, como Simon
gritou com a pobre mulher? Nervos, pens mos n¢s.
Mas a porta ficara aberta e ele procurava avisar a c£m-
plice. Ela ouviu-o e agiu com a rapidez do relƒmpago.
Lembrou-se do rev¢lver que Pennington mencionara


281

no salÆo. Foi busc -lo, aproximou-se da porta, ficou ...
escuta e no momento cr¡tico atirou. Gabara-se certa
vez de ser boa atiradora, e deu provas disso.
þþDepois do terceiro crime, eu disse que o assassino
poderia ter tomado trˆs caminhos. Poderia ter ido para
a popa (e neste caso o criminoso era Tim) poderia ter
pulado para baixo (pouco prov vel) ou ter entrado em
alguma cabina. A de Jacqueline era a segunda depois
da do doutor Bessner. Bastava-lhe atirar o rev¢lver pa-
ra o chÆo e entrar na cabina, desmanchar o cabelo e
atirar-se para cima da cama. Arriscado, mas a £nica
coisa poss¡vel.
Houve alguns segundos de silˆncio. Depois Race
perguntou:
- Que aconteceu com a primeira bala, atirada por
Jacqueline?
- Creio que entrou na mesa. H ali um buraco re-
centemente feito. Acho que Doyle teve tempo de a ti-
rar com um canivete, atirando-a pela janela. Tinha,
naturalmente, uma c psula extra, para que julg sse-
mos que somente duas balas haviam sido picadas.
- � horr¡vel - suspirou Corn‚lia. - Simples-
mente horr¡vel. Pensaram em tudo!
Poirot ficou em silˆncio. Mas nÆo era um silˆncio
modesto. Os seus olhos pareciam dizer: þþNÆo, nisso
est enganada. NÆo contaram com Hercule Poirot!þþ
Disse em voz alta:
- E agora, doutor Bessner, vamos dizer umas pa-
lavrinhas ao seu doente...

CAPÖTULO XXIX


Mais tarde, Poirot bateu ... porta de uma cabina.
Uma voz disse þþEntreþþ, e ele entrou.
Jacqueline estava sentada numa cadeira. Noutra,
contra a parede, estava a robusta criada de bordo.

282

Jacqueline olhou, pensativa, para Poirot. Com um
gesto, indicou a criada e perguntou:
- NÆo podemos ficar a s¢s?
Ele inclinou a cabe‡a e a mulher retirou-se. Poirot
puxou a cadeira desocupada para perto de Jacqueline.
Nenhum dos dois disse coisa alguma. O detective pa-
recia muito infeliz.
Finalmente, a rapariga resolveu quebrar o silˆncio.
- EntÆo est tudo acabado! O senhor foi inteli-
gente de mais para n¢s, Monsieur Poirot.
O detective suspirou, estendeu as mÆos para cima
sem nada encontrar para dizer.
,
- Apesar de tudo, nÆo sei como poderia ter prova-
do - continuou Jacqueline. - Acertou, naturalmen-
te, mas se tiv‚ssemos continuado com o bluff...
- De nenhuma outra forma, mademoiselle, poderia
ter acontecido.
- Isto pode satisfazer a inteligˆncia, mas nÆo creio
que tivesse convencido os jurados. Oh, bom, nÆo h
rem‚dio. O senhor colheu Simon de surpresa, e ele
entregou os pontos, sem lutar. Perdeu a cabe‡a, coita-
do, e confessou tudo.
Minutos depois, Jacqueline acrescentou:
- Ele ‚ mau jogador.
- Mas a senhora sabe perder.
Ela riu subitamente - uma gargalhada estranha,
alegre, desafadora.
- Oh, sim, sei perder.
E impulsivamente, fitando o detective:
- N"o se aborre‡a tanto, Monsieur Poirot! Por
minha causa, ‚ o que quero dizer. O senhor importa-
-se, nÆo ‚ verdade?
- Sim, mademoiselle.
- Mas nunca lhe ocorreria deixar-me escapar?
- Nunca - respondeu Poirot serenamente.
Ela inclinou a cabe‡a, concordando.
- De nada vale ser sentimental. NÆo poderia reco-
me‡ar... J nÆo sou pessoa em quem se possa ter con-
fian‡a. Eu mesma o sinto...


283

Continuou, como se falasse consigo pr¢pria:
- � tÆo f cil matar... E a gente come‡a a achar
que nÆo tem importƒncia... Que ‚ s¢ a nossa felicidade
que interessa! Isto ‚ perigoso.
Fez uma pausa, e depois, sorrindo:
- Sabe, o senhor fez o poss¡vel por mim. Aquela
noite, em AssuÆo, disse que nÆo abrisse ao mal as por-
tas do cora‡Æo... J desconfiava das minhas inten‡äes?
Poirot abanou a cabe‡a, dizendo:
- Eu s¢ sabia que o que lhe dissera era verdade.
- Era verdade, sim. Sabe, eu poderia ter entÆo
evitado... Quase cheguei a desistir. Poderia ter dito a
Simon que nÆo queria continuar... Mas a¡, talvez
que...
Interrompeu-se, e depois, impulsivamente:
- Gostaria de saber como foi tudo, desde o prin-
c¡pio?
- Se desejar contar-me, mademoiselle.
- Sim, creio que sim. Foi realmente muito sim-
ples. Simon e eu am vamo-nos...
Disse isto em voz natural; e, no entanto, sob o tom
despreocupado havia reminiscˆncias...
Poirot disse simplesmente:
- E o amor bastaria para a senhora, mas nÆo pa-
ra ele.
- Tem razÆo, at‚ certo ponto. Mas o senhor nÆo
conhece Simon. Desejou sempre ser rico. Gosta de tu-
do quanto o dinheiro proporciona: cavalos, iates, des-
porto, as coisas boas da vida. E nunca p"de obtˆ-las...
Simon ‚ muito, muito simples. Quando deseja uma
coisa, ‚ como uma crian‡a... tem que consegui-la.
Apesar disso, nunca procurou casar-se com alguma
mulher rica e horr¡vel. NÆo ‚ desse tipo. Depois, co-
nhecemo-nos, e isto mais ou menos resolveu tudo. S¢
o que nÆo sab¡amos era quando nos poder¡amos casar.
Simon tivera um bom emprego, mas perdera-o, at‚
certo ponto por sua pr¢pria culpa. Tentara ser esperto
de mais e fora logo descoberto. NÆo creio que tivesse

realmente tido inten‡Æo de ser desonesto. Pensou ape-
nas que era o recurso normal de que a gente da cidade
se servia.
Os olhos de Poirot brilharam, mas nÆo fez comen-
t rio algum.
- Est vamos naquela situa‡Æo, quando me lem-
brei de Linnet e da sua nova propriedade. Fui procu-
r -la. Eu gostava muito da Linnet; gostava, Monsieur
Poirot. Era a minha melhor amiga e nunca pensei que
coisa alguma se metesse entre n¢s. Apenas achei que
era uma sorte ela ser rica. Se desse o emprego a Si-
mon, a nossa vida seria outra. Ela foi muito boazinha
,
dizendo-me que trouxesse Simon para que o conheces-
se. Foi justamente na ‚poca em que o senhor nos viu
em Chez Ma Tante. T¡nhamos procurado divertir-nos
aquela noite, embora nÆo estiv‚ssemos em condi‡äes
de fazer extravagƒncias.
Fez uma pausa, suspirou e continuou:
- Monsieur Poirot, o que lhe vou dizer ‚ a pura
verdade. As coisas nÆo mudam pelo facto de Linnet
ter morrido. � por isso que nem agora tenho pena de-
la. Fez tudo para me roubar Simon... Juro que ‚ ver-
dade NÆo creio que ela tenha hesitado um minuto.
Eu era sua amiga, mas isto nÆo lhe fez doer a cons-
ciˆncia. Atirou-se a Simon de uma maneira b rbara...
þ E Simon nÆo lhe deu aten‡Æo Eu falei-lhe sobre
deslumbramento", Monsieur Poirot, mas natural-
mente fiz isso para o despistar. Simon nÆo queria sa-
ber de Linnet. Achava-a bonita, mas muito autorit -
ria, e ele detesta as mulheres desse g‚nero. O interesse
de Linnet constrangia-o horrivelmente. Mas, natural-
mente, gostava do dinheiro dela...
þcClaro que percebi isso... E malmente disse a Si-
mon que talvez fosse prefer¡vel ele romper comigo pa-
ra poder casar-se com Linnet. Mas ele riu-se da minha
sugestÆo. Declarou que, com ou sem dinheiro, devia
ser um inferno ser marido de uma mulher daquelas.
Disse que ter dinheiro, na sua opiniÆo, era ele ter di-
284
285

nheiro, e nÆo estar casado com uma mulher que guar-
dasse a chave do cofre. "Eu seria uma esp‚cie de pr¡n-
cipe consorte", acrescentou. Disse tamb‚m que nÆo
desejava outra mulher a nÆo ser eu...
þþCreio que sei exactamente quando a ideia lhe
ocorreu pela primeira vez. Disse-me: "Se eu tivesse
um pouco de sorte, casar-me-ia com ela, e ela morreria
dentro de um ano, deixando-me os cobres!" Ao dizer
isto, uma estranha expressÆo luziu no seu olhar. Sim,
foi quando teve essa ideia pela primeira vez...
cþFalou sobre isso muitas vezes, dizendo sempre:
"Que sorte se Linnet morresse!"
cþProtestei energicamente, e durante algum tempo
Simon nÆo voltou ao assunto. Mas certo dia encontrei-
-o a ler qualquer coisa sobre ars‚nico... Acusei-o e ele
deu uma gargalhada, dizendo: "Quem nÆo arrisca, nÆo
petisca. Nunca terei outra oportunidade de p"r a mÆo
em tanto dinheiro."
þþPassado algum tempo, percebi que estava resolvi-
do. Fiquei apavorada, simplesmente apavorada. Por-
que, sabe, compreendi que ele nunca conseguiria sair-
-se bem. � tÆo ing‚nuo... NÆo tem imagina‡Æo
nenhuma. Com ele, nada de subtilezas... Provavel-
mente, daria a Linnet uma boa dose de ars‚nico e es-
peraria que o m‚dico declarasse que ela morrera de
gastrite. Supäe que as coisas saem sempre ... medida
dos nossos desejos.
þþE, portanto, tive que intervir, para tomar conta
dele...
Jacqueline disse isto muito simplesmente, de boa-
-f‚. Poirot nÆo duvidou que o motivo fosse exactamen-
te esse que ela alegava. Pessoalmente, nÆo cobi‡ara o
dinheiro de Linnet. Mas amava Simon, com um amor
que ia al‚m da razÆo, da justi‡a e da piedade.
A rapariga continuou:
- Reflecti muito, procurando um plano que desse
resultado. Achei que a base devia ser uma esp‚cie de
duplo libi. Sabe como... Se Simon e eu pud‚ssemos

286

depor um contra o outro, mas um depoimento que jus-
tamente nos exonerasse... Ser-me-ia f cil fingir que o
odiava. Nada mais natural, naquelas circunstƒncias.
Depois, quando Linnet fosse assassinada, com certeza
suspeitariam de mim, de modo que era prefer¡vel que
suspeitassem desde o princ¡pio. Combin mos os por-
menores, um a um. Eu fazia questÆo de que, se algum
dos pormenores falhasse, tivesse eu que pagar, e nÆo
Simon. Mas ele estava preocupado comigo...
þþA £nica parte que me agradou foi saber que eu
nÆo teria que cometer o crime. Eu nÆo o poderia ter
feito! Ir de mansinho, a sangue-frio, enquanto ela esti-
vesse a dormir!... O senhor sabe, eu nÆo lhe perdoara
P '
oderia mat -la frente a frente, mas nunca de outra
maneira.. .
þþEstud mos tudo cuidadosamente. Mesmo assim
,
Simon foi escrever aquela letra J na parede, ideia tola
e melodram tica! Exactamente a ideia que lhe ocorre-
ria! Mas deu tudo certo.
Poirot inclinou a cabe‡a.
- Tem razÆo. NÆo foi culpa sua, se Louise Bour-
get nÆo sentiu sono aquela noite... Mas, depois, made-
moiselle?
Ela fitou-o nos olhos e disse:
- Tem razÆo... � horr¡vel, nÆo ‚? NÆo posso acre-
ditar que eu tenha feito aquilo! Compreendo agora o
que o senhor queria dizer com þþabrir ao mal as portas
do cora‡Æoþþ. O senhor sabe perfeitamente o que acon-
teceu. Louise fez Simon compreender que o vira. Ele
pediu que me chamassem... Assim que nos vimos s¢s
,
eontou-me tudo, dizendo o que eu devia fazer. N"o fi-
quei horrorizada. Estava com medo... com um medo
incr¡vel; ‚ esse o mal que o crime faz a uma pessoa...
Simon e eu nÆo corr¡amos perigo, a nÆo ser por causa
daquela miser vel francezinha chantagista! Levei-lhe
todo o dinheiro de que disp£nhamos. Fingi rastejar...
E entÆo, quando ela contava o dinheiro... matei-a! Foi

287

muito f cil. Por isso ‚ que ‚ tÆo horrorosamente assus-
tador... tÆo f cil, tÆo f cil!..
þþMas nem assim est vamos salvos. Mistress Otter-
bourne vira-me. Veio, triunfante, pelo tombadilho, ...
procura do coronel Race. NÆo tive tempo para reflec-
tir. Agi com a rapidez do relƒmpago. Foi muito exci-
tante. Eu sabia que naquela ocasiÆo era arriscad¡ssimo
e por esse motivo foi ainda mais interessante!..
Jacqueline fcou de novo em silˆncio. E depois:
- Lembra-se que veio depois ... minha cabina?
Disse-me que nÆo sabia porque tinha vindo. Eu estava
apavorada, infeliz... Pensei que Simon fosse morrer.
- E eu... desejei do cora‡Æo que isso acontecesse
- disse Poirot.
Jacqueline inclinou a cabe‡a.
- Sim, teria sido melhor para ele.
- NÆo foi isso que eu quis dizer.
Jacqueline fitou o rosto severo ... sua frente e mur-
murou baixinho:
- NÆo se importe tanto por minha causa, Mon-
sieur Poirot. Se tiv‚ssemos vencido, eu teria sido mui-
to feliz, e aproveitado a vida, e com certeza nunca me
arrependeria. Mas, como nÆo foi assim... Bom, a gen-
te tem de aguentar as consequˆncias.
Minutos depois, acrescentou:
- Com certeza a criada fica aqui para me vigiar,
para que eu nÆo me enforque, ou engula alguma p¡lula
de cido pr£ssico, como qualquer personagem de ro-
mance. NÆo precisa de ter medo. NÆo farei nada disso.
Ser mais f cil para Simon, se eu estiver a seu lado.
Poirot ergueu-se. Jacqueline seguiu-lhe o exemplo
e exclamou, sorrindo:
- Lembra-se quando lhe disse que eu tinha que
seguir a minha estrela? O senhor achou que talvez fos-
se uma estrela falsa. E eu respondi: þþEsta estrela ‚
muito m , senhor! Esta estrela cai. . . þþ
Quando Poirot passou para o tombadilho, a garga-
lhada de Jacqueline ecoava-lhe ainda nos ouvidos.

288

CAPÖTULO XXX


Chegaram a Shellƒl de madrugada. Os sombrios
rochedos desciam at‚ ao rio.
- Quel pays sauvage - murmurou Poirot.
- Bom, cumprimos o nosso dever - disse Race.
- Tomei providˆncias para que Richetti seja levado
para terra em primeiro lugar. Felizmente
nh mos. � um h que o apa-
omem manhoso... isso posso-lhe ga-
rantir Escapou-nos dezenas de vezes.
- NÆo foi isso exactamente - replicou Poirot.-
Este tipo infantil de criminoso ‚ geralmente
p muito
retencioso. Uma picada na bola de g s da sua vaida-
de, e a bola esvazia-se logo! Ficam murchos como
qualquer crian‡a.
Como Poirot nada dissesse, Race continuou:
- Precisamos arranjar uma maca para Doyle.
� extraordin rio o m¡sero estado em que icou de re-
pente.
- Ele merece a forca - disse Race. - � um su-
jeito frio e sem escr£pulos. Tenho pena da ra ariga...
mas, quanto a isso, nada podemos fazer. p
- Dizem que o amor justi ica tudo mas nÆo ‚
,
verdade. Mulheres que amam como Jacqueline sÆo e
rigosas. Foi o que pensei, quando a vi. þþEla ama de
mais, esta pequena!v E era verdade.
Corn‚lia Robson aproximou-se.
- Estamos quase a chegar.
acrescen ¢um silˆncio um ou dois minutos, depois
- Estive com ela.
- Com Miss de Bellefort?
- Sim, tive pena dela, acompanhada apenas com a
criada. Mas creio que a prima Marie ficou muito zan-
gada.
Com expressÆo furiosa no olhar Miss Van Schuy-
,
ler vinha lentamente pelo tombadilho.


289

- Corn‚lia, vocˆ comportou-se muito mal. Vou
mand -la directamente para a Am‚rica.
- Sinto muito, prima Marie, mas nÆo vou para a
Am‚rica. Vou casar-me.
- EntÆo, fnalmente teve ju¡zo - disse a velha,
secamente.
Ferguson aproximou-se neste momento.
- Corn‚lia, que est a dizer? NÆo pode ser ver-
dade!
- � verdade, sim - declarou Corn‚lia. - Vou
casar com o doutor Bessner. Pediu a minha mÆo on-
tem ... noite.
- E porque ‚ que vai casar com ele? - perguntou
Ferguson, furioso. - S¢ porque ‚ rico?
- NÆo, senhor! - replicou a rapariga indignada.
- Porque gosto dele. � bom, e muito culto. E eu
sempre me interessei pela medicina, e pelos doentes, e
vou ter uma vida interessant¡ssima ao lado dele!
- Quer dizer que prefere casar com aquele velho
insuport vel a casar-se comigo? - perguntou Fergu-
son com ar incr‚dulo.
- Prefiro, sim! Vocˆ nÆo ‚ de confian‡a! Ningu‚m
teria sossego vivendo consigo. E ele nÆo ‚ velho! Ain-
da nÆo tem cinquenta anos.
- Tem uma barriguinha redonda - disse Fergu-
son com maldade.
- Bom, e eu tenho os ombros abaulados - repli-
cou Corn‚lia. - O f¡sico nÆo tem importƒncia. Ele
disse que posso ajud -lo na cl¡nica e que vai ensinar-
-me muita coisa a respeito de neuroses.
Depois de Corn‚lia sair, Ferguson dirigiu-se a
Poirot:
- Acha que ela fala s‚rio?
- Acho.
- Prefere aquele velho aborrecido a mim?
- Sem d£vida alguma.
- A pequena est maluca! - declarou Ferguson.
Os olhos de Poirot brilharam.

290

- � uma mulher original. Provavelmente a pri-
meira que o senhor conhece.
O navio aproximava-se do cais. Fora estendido um
cordÆo ... freqn£‚ dos passageiros. Estes tinham sido re-
venidos de deviam esperar, antes de desemba car.
De rosto sombrio e olhar venenoso, Richetti des-
ceu para terra, entre dois maquinistas.
Depois dum pequeno intervalo, trouxeram uma
maca. Simon Doyle foi levado at‚ ao passadi‡o.
Parecia outro homem - covarde, amedrontado,
tendo-lhe desaparecido do rosto a despreocupa‡Æo.
Logo em seguida vinha Jacqueline, ao lado da
criada.
Estava p lida, mas fora disso parecia a mesma de
sempre. Aproximou-se da maca e disse:
- Ol , Simon.
Ele ergueu vivamente o olhar; a expressÆo infantil
pareceu voltar-lhe ao rosto por um momento.
- Estraguei tudo - disse ele. - Perdi a cabe‡a
e confessei! Perdoe-me, Jacqueline; a culpa foi toda
minha.
Ela sorriu docemente.
- NÆo tem importƒncia, Simon. Arrisc mos e
perdemos. Nada mais do que isso.
Os homens pegaram de novo na maca.
Jacqueline baixou-se e arranjou o la‡o do sapato.
Depois a mÆo subiu at‚ acima da meia e ela endirei-
tou-se, segurando qualquer coisa...
Ouviu-se um estampido: þcBum!"
Simon Doyle fez um movimento convulsivo, imo-
bilizando-se em seguida.
Jacqueline inclinou a cabe‡a. Ficou um instante de
rev¢lver na mÆo, sorrindo para Poirot.
E entÆo, no momento em que Race pulou, ela vol-
tou o rev¢lver contra o peito e apertou o gatilho.
Caiu vagarosamente no chÆo...
Race berrou:
- Com os diabos, onde foi ela arranjar esse re-
v¢lver


291

Poirot sentiu uma pressÆo no bra‡o. Mrs. Allerton
perguntou baixinho:
- O senhor... sabia?
- Jacqueline tinha dois desses rev¢lveres - expli-
cou o detective. - Fiquei certo disso, quando me
contaram que haviam encontrado um na bolsa de Ro-
salie, no dia em que os passageiros foram revistados.
Mais tarde, Jackie foi ... cabina de Rosalie e apanhou
de novo o rev¢lver, distraindo a aten‡Æo da outra sob o
pretexto de uma compara‡Æo de bƒtons. Como Jacque-
line e a sua cabina tinham sido revistadas ontem, nin-
gu‚m achou necess rio fazer hoje o mesmo.
Mrs. Allerton perguntou:
- O senhor queria que ela tivesse este im?
- Sim; sem d£vida nenhuma. Mas Jacqueline nÆo
o quis sozinha. Por isso Simon Doyle teve uma morte
mais suave do que merecia.
Mrs. Allerton murmurou, estremecendo ligeira-
mente:
- O amor ‚ ...s vezes uma coisa terr¡vel.
- � por isso que muitos dos grandes romances de
amor sÆo trag‚dias.
O olhar de Mrs. Allerton descansou sobre Tim e
Rosalie. Ela exclamou, com s£bita veemˆncia:
- Mas, gra‡as a Deus, ainda existe felicidade no
mundo!
- Como bem o disse, madame, gra‡as a Deus!
Mais tarde, os corpos de Louise Bourget e Mrs.
Otterbourne foram levados para terra.
Em seguida o de Linnet Doyle. Minutos depois, o
tel‚grafo come‡ou a funcionar para todo o mundo, co-
municando ao p£blico que Linnet Doyle, n‚e Linnet
Ridgeway, a c‚lebre, a bela, a riqu¡ssima Linnet Doy-
le, morrera...

Sir George Wode leu a not¡cia no seu clube, em
Londres; Sterndale Rockford, em Nova Iorque; Joana
Southwood, na Su¡‡a. E o crime foi tamb‚m discutido
no bar Three Crowns, em Malton-under-Wode.

E o amigo de Mr. Burnaby, o magricela, disse:
- Bom, nÆo parecia justo, ela ter tudo quanto
queria.
Mr. Burnaby replicou, com muito bom senso:
- Em todo o caso, nÆo parece que tenha aprovei-
tado muito, coitadita.
Mas passado pouco tempo pararam de comentar o
facto, e discutiram o Grande Pr‚mio e o prov vel ven-
cedor. Pois, como dizia Mr. Ferguson, naquele mesmo
momento, em L£xor, nÆo ‚ o passado que interessa
mas sim o futuro.
,

292

O Autor e a Obra

Agatha Christie, romancista e autora dram tica in-
glesa, de seu nome completo, Agatha Mary Clarissa
Miller Christie, nasceu em Torquay, a 15 de Setembro
de 1891. Filha de mÆe inglesa e pai americano fez os
seus estudos em casa, educada por professores.
Durante a Primeira Guerra Mundial alistou-se na
Cruz Vermelha para acompanhar o seu primeiro mari-
do, o coronel Archibald Christie, de quem tomou o
c‚lebre apelido, que manteve apesar da separa‡"o em
1926. A sua experiˆncia com venenos nos hospitais
onde trabalhou est na origem do profundo conheci-
mento sobre a mat‚ria, utilizado em muitos dos seus
romances. Foi nesta ‚poca que escreveu A Primeira
Investiga‡Æo de Poirot (1920), com que deu in¡cio ... sua
longa e brilhante carreira de escritora de livros poli-
ciais. Coincidiu a obra com a apresenta‡"o da persona-
gem Hercule Poirot, o detective belga que se tornaria
quase tÆo conhecido como a sua autora e que na reso-
lu‡Æo dos enigmas policiais ser concorrente da am vel
Miss Jane Marple, a personagem favorita de Agatha
Christie.
Depois do segundo casamento, em 1930, com o ar-
que¢logo Max Mallowan, a escritora, apaixonada por
viagens, passou a dividir o tempo entre a þþestrutura-
‡Æo dos crimesþþ e as escava‡äes arqueol¢gicas.
C‚lebre, desde a publica‡Æo em 1926 de O Assassi-
nato de Roger Ackroyd, Agatha Christie manteve ao
longo da sua vasta obra - mais de oitenta volumes-
as caracter¡sticas que identifcariam o seu estilo: a in-
vestiga‡Æo racional e a psicologia; o mist‚rio denso e a
variedade de personagens e ambientes; o emaranhado
de ind¡cios e a solu‡Æo imprevista.
Os seus livros encontram-se traduzidos em cerca
de cem l¡nguas e os exemplares vendidos ascendem ...s
centenas de milhÆo. No entanto, nÆo foram s¢ os li-
vros policiais a proporcionar-lhe a admira‡Æo do p£bli-
co, pois Agatha Christie tamb‚m ‚ autora de pe‡as de
teatro - refere-se A Ratoeira (1951), rnantida em cena
durante vinte e cinco anos -, hist¢rias para crian‡as e
romances psicol¢gicos publicados sob o pseud¢nimo
de Mary Westmacott.
Membro da Real Sociedade de Literatura e distin-
guida com um grau honor¡fico em Letras, atribu¡do
pela Universidade de Exeter, recebeu, em 1956, o t¡tu-
lo de Dama do Imp‚rio Britƒnico, pelo conjunto da
sua obra.
Agatha Christie morreu em Wallingforg, Oxford, a
12 de Janeiro de 1976.

294

FIC€ÇO POLICIµRIA DE AGATHA CHRISTIE

llll,'LU U1U(�lhþAL TDAnnr¤n nþ"..,.......þþ.


TÖTULO ORIGINAL TRADU€ÇO PORTUGUESA
The Myster:ous Affair at Styles 1920 A Primeira Investiga‡Æo de Poirot
The Secret Adversary 1922 0 Advers rio Secreto
Murder on the Links 1923 Poirot,0 Golfe e o Crime
The Man in the Brown Suit 1924 0 Homem do Fato Castanho
The Secret of Chimneys 1925 0 Segredo de Chimneys
Poirot Investigates 1925 Poirot Investiga
The Murder of Roger Ackroyd 1926 0 Assassinato de Roger Ackroyd
The Big Four 1927 As Quatro Pot‰ncias do Ma1
Tke Mistery of the Blue Train 1928 0 Mist‚rio do Comboio Azul
The Thirteen Problems 1928 Os Treze Problemas
Partners tn Cr'ime 1929 0 Homem Que Era o N.016
The Seven Dials Memoiy 1929 0 Mist‚rio dos Sete Rel¢gios
The Murder at the Vicariage 1930 Encontro com Um Assassino
The Sittaford Mistery 1930 0 Mist‚rio de Sittaford
Peri1 at End House 1931 A Diab¢lica Casa Isolada
Parker Pynne Investigates 1932 Parker Pynne Investiga
Lord Edgware Dies 1933 A Morte de Lord Edgware
The Hound of Death 1933 Testemunha de Acusa‡Æo
Murder on tke Orient Express 1933 Um Crime no Expresso do Oriente
Why Did't Tkey Ask Evans? 1933 Perguntem a Evans
The Mistery of Listerdale 1934 0 Mist‚rio de Listerdale
Three Act Tragedy 1934 Trag‚dia em Trˆs Actos
The ABC Murders 1935 Os Crimes do ABC
Death in the Clouds 1935 Morte nas Nuvens
Murder in Mesopotamia 1935 Assass¡nio na Mesopotƒmia
Cards on the Ta¢le 1936 Cartas na Mesa
Death on the Nile 1937 Morte no Nilo
Dumb Witness 1937 Poirot Perde Uma Cliente
Murder in the Mews 1937 Crime nos Est bulos
Appointment with Death 1938 Morte entre as Ru¡nas
Hercule Poirot's Christmas 1938 0 Natal de Poirot
Murder is Easy 1938 Matar E F cil
Ten Little Niggers 1939 Convite para a Morte
296

1777
The Regata M£tery 1939
The Labours of Hercules 1939
One, Two, Buckle My Shoe 1940
Evil Under the Sun 1940
N or M 1941
The Body in the Libraly 1941
Five Little Pigs 1941
The Moving Finger 1942
Toward Zero 1944
Sparkling Cyanide 1944
Death Comes as the End 1945
The Hollow 1946
Taken at the Flood 1948
Crooked House 1948
A Murder is Announced 1950
They Came to Baghdad 1951
Three Blind Mice e (The Mousetrap)1951
Mrs McGinty's Dead 1951
They Do it with Mirrors 1952
After the Funeral 1953
A Pocket Full of Rye 1953
Destination Unknown 1954
Hickory, Dickory Dock 1955
Dead Man's Folly 1956
The Mysterious Mr. Quin 1957
4.50 from Paddington 1957
Ordeal by Innocense 1958
Cat Among the Pigeons 1959
The Adventure of the 1960
Chnstmas Pudding
The Pale Horse
The Mirror Crak'd from Side
to Side
The Clocks
A Caribbean Mistery
At Bertram's Hotel
Third Gir1
Endless IVight
By the Pricking of My Thumbs
Hallowe'en Party
Passenger to Frankfurt
Nemesss
Elephants Can Remember
Postern of Fate
Poirot's Early Cases
Curtain. Poirot's Last Case
Sleeping Murder
Miss Marple's Final Cases

ro:rot da(va o Criminoso
O Mist‚rio da Regata
Os Trabalhos de H‚rcules
Os Crtmes Patri¢ticos
As F‚rias de Poirot
Tempo de Espionagem
Um Cad ver na Biblioteca
Poirot Desvenda o Passado
O Enigma das Cartas An¢nimas
Contagem at‚ Zero
· Sa£de da... Morte
Morrer NÆo � o Fim
Poirot o Teatro e a Morte
Arrastados na Torrente
A éltima RazÆo do Crime
Participa-se Um Crime
Encontro em Bagdade
A Ratoeira
Poirot Contra a Evidˆncia
,þogo de Espelhos
Os Abutres
Centeio Que Mata
Destino Conhecido
Poirot e os Erros da Dactil¢grafa
Poirot e o þogo Macabro
O Misterioso Mr. Quin
O Estranho Casa da Velha Curiosa
Cabo da Vibora
Poirot e as ,þ'¢ias do Prmcipe
A Aventura do Pudim de Nata1

1961 O Cavalo P lido
1962 O Espelho Quebrado
1963 Poirot e os 4 Rel¢gios
1964 Mist‚rio nas Cara¡bas
1965 Mist‚rio em Hote1 de Luxo
1966 Poirot e a Terceira Inquilina
1967 Noite sem Fim
1968 Caminho para a Morte
1969 Poirot e o Encontro þuvenil
1970 Passageiro para Francoforte
1971 Nemes:s
1972 Os Elefantes NÆo Esquecem
1973 Morte Pela Porta das Traseiras
1974 Ninho de Vespas
1975 Cai o Pano (O éltimo Caso de
Poirot)
1976 Crime Adormecido
1979 Os éltimos Casos de Miss Marple

297
FIM DO LIVRO.


Convite para um
homicídio

Agatha Christie


Tradução:
Maria Isabel Garcia


1950

Para Ralph e Anne Newman, em cuja casa pela
primeira vez provei a "Delícia Fatal"!

CAPÍTULO 1

I
Todas as manhãs entre 7:30h e 8:30h, exceto aos domingos,
Johnnie Butt percorria de bicicleta o vilarejo de Chipping
Cleghorn, assobiando furiosamente. À porta de todas as
casas e bangalôs, parava para enfiar na caixa postal os jornais
que os moradores houvessem encomendado ao sr. Totman,
que tinha sua loja na High Street. Assim, o coronel e a sra.
Easterbrook recebiam The Times e o Daily Graphic: a sra.
Swettenham, The Times e o Daily Worker; para a srta.
Hinchliffe e a srta. Murgatroyd, iam o Daily Telegraph e o
News Chronicle; e a srta. Blacklock assinava o Telegraph,
o Daily Mail e The Times.
Em todas essas casas — na verdade, em todas as casas de
Chipping Cleghorn — ele entregava, às sextas-feiras, um
exemplar do North Benhum News and Chipping
Cleghorn Gazette, mais conhecido nas redondezas como,
simplesmente, a Gazette.
Dessa forma, nas manhãs de sexta-feira, a maioria dos
moradores de Chipping Cleghorn, após uma rápida olhadela
nas manchetes do jornal diário (Situação internacional
crítica! Reúne-se a Assembléia da ONU! Polícia caça
assassino da datilografa loura! Três minas de carvão
paradas! Vinte mortes por envenenamento no hotel
de veraneio, etc.), abria as páginas da Gazette e
mergulhava nas notícias locais. Depois de examinar
superficialmente as Cartas dos Leitores (onde se
espelhavam as disputas e brigas da vida rural), nove entre
dez leitores se voltavam para a coluna Pessoal. Ali se
agrupavam, sem qualquer ordem, objetos à venda ou
procurados, apelos frenéticos por empregados domésticos,
inúmeras inserções relativas a cães, anúncios a propósito de
aves domésticas e equipamento de jardinagem, e vários
outros itens de interesse para os membros da pequena
comunidade de Chipping Cleghorn. Aquela sexta-feira, 29
de outubro, não era exceção...


II
A sra. Swettenham afastou da testa duas rebeldes mechas
grisalhas e abriu The Times; com um olhar profundamente
desinteressado, examinou as páginas internas, chegando à
conclusão de que quaisquer notícias sensacionais, caso
existissem, haviam sido camufladas pelo jornal com a
eficiência costumeira. Nascimentos, Casamentos &
Falecimentos mereceram um exame mais atento,
principalmente o último item. Só então, com o dever
cumprido, ela abandonou The Times e sofregamente
entregou-se à Chipping Cleghorn Gazette.
Pouco depois, seu filho Edmund, ao entrar na sala,
encontrou-a mergulhada na coluna Pessoal.
— Bom dia, meu filho — disse a sra. Swettenham. — Os
Smedley estão vendendo o Daimler. É de 1935... velho, não
acha?
Resmungando algo ininteligível em resposta, seu filho se
serviu de uma xícara de café e duas torradas. Sentando-se,
abriu o Daily Worker, que apoiou sobre a torradeira.
— Filhotes de cães dinamarqueses — a sra. Swettenham
continuou a ler. — Juro que não sei como essa gente
consegue dinheiro para alimentar esses cachorros enormes,
hoje em dia... juro que não sei... Ora, Selina Lawrence está
pedindo uma cozinheira outra vez. Não adianta nada, eu sei
que não adianta. E ainda por cima ela não botou o endereço,
só a caixa postal, assim é impossível mesmo. As empregadas
fazem questão absoluta de saber onde vão trabalhar...
Dentaduras, não sei por que se vendem tantas dentaduras...
Sementes especialmente selecionadas. Não são muito
caras, não... Ah, tem aqui uma moça que quer uma
colocação interessante, aceita viajar. Ora essa! Quem
não quer?... Bassês... jamais gostei de bassês... não porque
sejam de origem alemã, é claro; esse problema já acabou há
tanto tempo... mas é que não gosto mesmo da raça. O que é,
sra. Finch?
A porta se abrira, aparecendo a cabeça e o busto de uma
mulher de ar triste, usando uma velha boina de veludo.
— Bom dia, madame — disse ela. — Posso começar a
limpeza?
— Ainda não. Nós ainda não terminamos — disse a sra
Swettenham, e acrescentou, para consolá-la: — Estamos
quase acabando.
A sra. Finch, olhando para Edmund e seu jornal, fungou
com descrença, e saiu.
— Eu mal comecei — disse Edmund, quase ao mesmo tempo
em que sua mãe advertia:
— Gostaria tanto que você não lesse esse jornal horrível,
meu filho. A sra. Finch o detesta.
— E o que têm as minhas opiniões políticas a ver com a sra.
Finch?
— Ora, você nem mesmo é um proletário — insistiu ela. —
Você, para falar a verdade, não trabalha em coisa alguma.
— Isso não é verdade — replicou Edmund, indignado. —
Estou escrevendo um livro.
— Eu estou falando de trabalho de verdade — disse a sra.
Swettenham. — E temos que nos preocupar com a sra.
Finch, sim senhor. Se ela brigar conosco e não vier mais,
quem é que vamos arranjar?
— Ponha um anúncio na Gazette — disse Edmund,
sorrindo.
— Eu agora mesmo estava dizendo que não adianta. Ah, meu
Deus, hoje em dia, se a gente não tem uma velha empregada
de confiança que faça tudo na cozinha, não há salvação
alguma.
— E por que não temos uma velha empregada de confiança?
Por que a senhora não me arranjou uma ama-de-leite,
quando eu era pequeno? Estaria aqui em casa até hoje... Não
pensou nisso?
— Você tinha uma aia, querido.
— Não é desculpa; foi uma incrível falta de planejamento —
resmungou Edmund.
A sra. Swettenham não o ouviu: tinha novamente
mergulhado nos anúncios pessoais.
— Oferece-se cortador de grama com motor. Pensando
bem... meu Deus, por esse preço!... Mais bassês... Escreva
ou mande me avisar: Pobre Desesperado... esses
apelidos são sempre engraçados... Cocker Spaniels...
Lembra-se da nossa Susie, Edmund? Parecia gente; entendia
tudo o que se dizia a ela... Consolo Sheraton; vende-se
barato. Antigüidade autêntica. Sra. Lucas, Dayas
Hall... Mas que mentirosa! Imagine, um Sheraton!...
A sra. Swettenham fungou e continuou a ler:
— Tudo foi um engano, querida. Amo-te como
sempre. Espero-te sexta-feira: J... Deve ser uma briga de
namorados; ou será que é código de alguma quadrilha de
ladrões?... Mais bassês! Francamente, acho que andam
exagerando nessa mania de criar bassês! Há tantas raças boas
por aí. O seu tio Simon costumava criar terriers. Tão
engraçadinhos! Gosto que um cachorro tenha bastante
pernas... Senhora que viaja vende costume azul-
marinho... Não diz o preço nem o tamanho... Convida-se
para um casamento... não, para um homicídio... O quê?
Como pode ser? Edmund, Edmund... ouça isto... Convida-
se para um homicídio, a ter lugar sexta-feira, 29 de
outubro, em Little Paddocks, às 18:30h. Espera-se a
presença de todos os amigos da família; não haverá
outra convocação. Que coisa extraordinária! Edmund!
— O que foi? — perguntou Edmund, levantando os olhos do
seu jornal.
— Sexta-feira, 29 de outubro..., mas é hoje!
— Deixe-me ver — o rapaz lhe tirou o jornal das mãos.
— O que será que isso quer dizer? — perguntou a sra.
Swettenham, transbordando de curiosidade.
Edmund, em dúvida, coçou o nariz.
— Deve ser uma festa. Na certa, querem brincar com o
"jogo do assassino".
— Oh! — decepcionou-se a sra. Sweftenham. — Maneira
muito esquisita de convidar as pessoas para uma festa...
assim, no meio dos anúncios... Não é o gênero da Letitia
Blacklock. Ela é uma pessoa muito sensata.
— Pode ter sido idéia dos sobrinhos.
— Mas um convite assim, em cima da hora... Logo hoje.
Você acha que devemos ir?
— Diz aí que "espera-se a presença de todos os amigos", não
diz?
— Pois eu acho muito idiotas essas maneiras modernas de
convidar as pessoas — respondeu a sra. Swettenham, com ar
decidido.
— Mas você não é obrigada a ir, mamãe.
— Não sou — ela concordou.
Houve um breve silêncio.
— Você vai mesmo comer essa última torrada, Edmund?
— Acho que é mais importante eu me alimentar direito do
que deixar aquela velha megera tirar a mesa.
— Psiu, meu filho, fale baixo... ela vai ouvir... Edmund,
como é que é esse "jogo do assassino"?
— Não sei direito... Parece que cada pessoa recebe uma carta
ou um pedaço de papel... Uma carta indica quem é o
assassino e outra o detetive. Apaga-se a luz e o assassino dá
um tapinha no ombro de alguém, que tem de gritar e fingir
que morreu...
— Deve ser emocionante.
— Deve ser uma chateação. Eu não vou.
— Que bobagem, Edmund — disse, resoluta, a sra.
Swettenham.
— Eu vou, e você vai comigo. Está resolvido!

III
— Archie — disse a sra. Easterbrook ao marido —, ouça
isto.
O coronel Easterbrook não lhe deu a menor atenção, lia um
artigo no Times, pontuando a leitura com rosnados de
irritação.
—O problema com esses sujeitos — disse ele — é que não
sabem nada, nada, sobre a Índia! Nada!
— Eu sei, meu bem, eu sei...
Se soubessem, não escreveriam tantas bobagens.
— Pois é, meu amor. Archie, ouça só. Convida-se para um
homicídio, a ter lugar sexta-feira, 29 de outubro (é
hoje), em Little Paddocks, às 18:30h. Espera-se a
presença de todos os amigos da família. Não haverá
outra convocação.
Triunfante, ela fez uma pausa. O coronel Easterbrook a
encarou, pacientemente, mas sem grande interesse.
— É um "jogo do assassino".
— Oh!
— Apenas isso. Mas — ele sorriu — pode ser bastante
divertido, quando é bem-feito. É preciso ser organizado
direito, por alguém que tenha experiência. Há um sorteio,
alguém é o "assassino", sem que os outros saibam. Apaga-se a
luz. O "assassino" escolhe sua vítima, que tem de contar até
vinte, antes de gritar. Então, quem tiver sido sorteado para
ser o detetive interroga os outros. Onde estavam, o que
haviam feito, enfim, tenta pilhar o culpado numa
contradição. É uma brincadeira interessante... se o detetive...
ora, se ele tem alguma experiência de trabalho policial.
— Tem de ser alguém como você, Archie. Você teve tantos
casos complicados na sua província.
O coronel Easterbrook sorriu, complacente, torcendo
carinhosamente a ponta do bigode.
— É verdade, Laura — disse ele. — Eu bem que poderia
ensinar uma ou duas coisas a esse pessoal.
E se aprumou na cadeira.
— A srta. Blacklock deveria ter pedido que você ajudasse a
preparar a brincadeira.
O coronel fungou.
— Ora, há um rapaz morando lá agora. Deve ser idéia dele...
é sobrinho dela, ou coisa parecida, não? Mas é esquisito,
publicar a coisa no jornal.
— Está na coluna Pessoal. Podíamos nem ter visto. Mas é
um convite, não é, Archie?
— Se for, é muito estranho. Uma coisa eu garanto: comigo
não vão contar.
— Ah, Archie... — a voz da sra. Easterbrook se esganiçou
numa súplica.
— Muito em cima da hora. Como é que sabem que eu não
tinha outro compromisso?
— Mas você não tem, não é, querido? — a sra. Easterbrook
desceu a um tom persuasório. — Eu acho, sabe, Archie, que
você deveria ir... pelo menos, para dar uma mãozinha à
pobre srta. Blacklock. Tenho certeza de que ele conta com
você para o sucesso da festa. Você sabe tanta coisa sobre a
polícia, seus métodos e tudo mais... Se você não for, na certa
será um fracasso. Afinal de contas, precisamos ajudar os
vizinhos.
A sra. Easterbrook inclinou para um lado a sua cabecinha
artificialmente loura, e abriu o mais que pôde os seus
olhinhos azuis.
— Bom, Laura, se você acha mesmo isso...
O coronel Easterbrook mais uma vez retorceu a ponta do
bigode grisalho, contemplando com carinho sua
rechonchuda esposa, pelo menos trinta anos mais moça que
ele.
— Para falar a verdade, acho que é o seu dever, Archie —
disse ela solenemente.

IV
A Chipping Cleghorn Gazette também fora entregue nos
Boulders, três bangalôs pitorescamente conjugados numa só
residência, onde moravam as srtas. Hinchliffe e Murgatroyd.
— Hinch?
— O que é, Murgatroyd?
— Onde é que você está?
— Galinheiro.
A srta. Murgatroyd aproximou-se da amiga, atravessando
cautelosamente o gramado molhado. A outra, de calças
compridas de veludo e blusão de corte militar, estava
ocupada em misturar porções de ração balanceada numa
bacia, cheia de cascas de batata e cabeças de repolho. A
poção fumegante exalava um odor repugnante.
As duas amigas não se pareciam, A srta. Hinchliffe tinha os
cabelos curtos, como um homem, e sua pele era áspera,
marcada pelo tempo. A srta. Murgatroyd, gorda e
bonachona, usava uma saia de tweed xadrez e um suéter
folgado, de um azul brilhante. "Seus cabelos grisalhos,
normalmente indisciplinados, estavam em total desordem;
ela própria estava meio sem fôlego.
— Na Gazette — resfolegou ela.—Veja só: o que pode ser
isto? Convida-se para um homicídio, a ter lugar sexta-
feira, 29 de outubro, em Little Paddocks, às 18:30h.
Espera-se a presença de todos os amigos da família.
Não haverá outra convocação.
Terminando a leitura, sem fôlego, ela ficou em silêncio, à
espera de um pronunciamento esclarecedor.
— Besteira — decretou a srta. Hinchliffe.
— Eu sei, mas o que quer dizer?
— Pelo menos, deve valer um drinque.
— Você acha que é um convite?
— Se é ou não, descobriremos quando chegarmos lá —
disse a srta. Hinchliffe. — Deve ser sherry, e ruim. É
melhor sair de cima da grama, Murgatroyd. Você está de
chinelos, e eles já estão ensopados.
— Ah, meu Deus.
A srta. Murgatroyd contemplou com desânimo os próprios
pés.
— Quantos ovos hoje?
— Sete. Aquela galinha desgraçada ainda está arredia. Preciso
prendê-la de novo.
— Mas é um convite muito esquisito, não acha? —
perguntou Amy Murgatroyd, voltando ao anúncio na
Gazette. Sua voz tinha um tom levemente sonhador.
A sua amiga estava com o pensamento voltado para assunto
mais importantes. Estava preocupada com galinhas
recalcitrantes, è nenhum anúncio de jornal, por mais
enigmático que fosse, poderia desviar a sua atenção.
Enfrentando sem medo o terreno enlameado, cercou e
capturou uma galinha pintada, que cacarejou um protesto
indignado.
— Muito melhor é criar patos — disse a srta. Hinchliffe. —
Muito menos trabalho.

V
— Mas que ótimo! — disse a sra. Harmon ao marido, o
reverendo Julian Harmon, quando ambos tomavam o café
da manhã. — Vai haver um homicídio na casa da srta.
Blacklock.
— Um homicídio? — perguntou o marido, levemente
surpreso.
— Quando?
— Hoje à tarde... quero dizer, à noite: às seis e meia. Ah,
mas que azar, querido, é na hora de sua aula de catecismo.
Que azar. Você gosta tanto de homicídios!
— Não tenho a menor idéia do que você está falando,
Bunch. A sra. Harmon, que adquirira muito cedo o apelido
de Bunch
graças à forma esférica de seu rosto e de seu corpo,
chamava-se, na realidade, Diana. Ela lhe passou o jornal por
cima da mesa.
— Aí, no meio das dentaduras e dos pianos de segunda mão.
— Mas que anúncio extraordinário...
— Não é mesmo? — disse alegremente a sra. Harmon. —
Nunca pensei que a srta. Blacklock se interessasse por
brincadeiras de assassinato; deve ser idéia dos Simmons,
embora Julia Simmons não seja do tipo de gostar de
homicídios. Ah, não me conformo que você não possa ir,
querido. Mas eu vou, e depois lhe conto tudo. Por mim, eu
não iria: não gosto muito de brincadeiras que têm de ser no
escuro. Fico logo com medo. Vou rezar para não ser
assassinada. Se alguém puser a mão no meu ombro e
sussurrar "você está morta", meu coração vai dar um pulo
tão grande que sou capaz de morrer de verdade. Você acha
que isso pode acontecer?
— Não, Bunch. Acho que você vai viver ainda muitos anos...
ao meu lado.
— E morrer no mesmo dia e ser enterrada no mesmo
túmulo. Que lindo!
A idéia fez a sra. Harmon sorrir de orelha a orelha.
— Você parece muito feliz — comentou o marido sorrindo.
— E quem não estaria, no meu lugar? — ela perguntou,
quase com surpresa. — Com você, Susan, Edward e todos
gostando de mim e não se importando com a minha burrice.
E o sol brilhando! E esta casa, tão grande e tão bonita, para
morar!
O olhar do reverendo Julian Harmon passeou pela sala de
jantar, espaçosa, mas vazia; ele concordou, sem grande
convicção.
— Há quem ache ser a pior coisa do mundo viver nesta casa,
tão vazia e tão cheia de correntes de ar.
— Bem, eu gosto de quartos grandes. Mesmo que a gente
não arrume a casa e deixe tudo pelos cantos, há sempre
espaço de sobra.
— Mas falta aquecimento central, e tantas outras coisas.
Deve ser um trabalhão para você, Bunch, tomar conta de
tudo.
—Não é, não, Julian. Eu me levanto às seis e meia para
acender o aquecedor, depois fico andando para cima e para
baixo arrumando a casa, e às oito horas já está tudo pronto. E
fica tudo direitinho, não fica? Eu passo cera e envernizo os
móveis, e boto folhas secas nos jarros, por causa do
cheirinho bom que elas têm. Uma casa grande não dá muito
mais trabalho que uma pequena, juro que não dá. A gente
anda mais depressa, não fica batendo com o traseiro nos
móveis durante a limpeza, como acontece em cômodos
pequenos. E eu gosto de dormir num quarto grande e frio; é
tão gostoso ficar embaixo das cobertas, sentindo o frio só na
ponta do nariz. E tem mais: não importa o tamanho da casa,
o número de batatas a descascar e de pratos a lavar é sempre
o mesmo. E pense como é bom para Edward e Susan terem
um quarto enorme para brincar, onde eles podem armar o
trem elétrico e dar festas para as bonecas, sem nunca
precisar desmanchar tudo e guardar. E é sempre bom ter
uma casa onde sobra espaço para outras pessoas virem
morar. Jimmy Symes e Johnnie Finch... se não fosse a nossa
casa, eles teriam de ir morar com os genros. E você sabe
muito bem, Julian, que nunca é agradável morar com genros
e noras. Eu sei que você gosta muito de mamãe, mas tenho
certeza de que não gostaria de começar a vida morando com
papai e ela. E eu também não gostaria: nunca me sentiria
adulta. Julian sorriu para ela.
— De certa forma, você ainda é uma meninazinha, Bunch.
O problema com Julian Harmon é que a natureza o fizera
um homem de sessenta anos, e ainda faltavam vinte e cinco
para que ele chegasse lá.
— Eu sei que sou burra...
— Mas, Bunch, você não é burra. É bastante inteligente,
mesmo.
— Não sou, não. Não sou nada intelectual. Mas eu me esfor-
ço. E gosto, gosto de verdade, quando você conversa
comigo sobre livros, História, essas coisas. Só que não foi
muito boa idéia você ler Gibbon para mim depois do jantar:
com o frio lá fora e o calorzinho da lareira, há alguma coisa
em Gibbon que faz a gente dormir.
Julian riu.
— Mas eu gosto de ouvir você falar, Julian. Conte-me de
novo aquela história do velho vigário que fez um sermão
sobre Ahasuero.
— Mas você já sabe de cor, Bunch.
— Ah, conte de novo. Por favor.
O marido obedeceu:
— Foi o velho Scrymgour. Alguém entrou na sua igreja um
dia. Ele estava debruçado no púlpito, pregando com o maior
entusiasmo para umas duas velhas, encarregadas da limpeza.
Estava sacudindo o dedo para elas e dizendo: "Ah! Eu sei
muito bem o que vocês pensam. Vocês pensam que o
Grande Ahasuero da Primeira Lição era Artaxerxes Segundo.
Mas não era!" E, triunfante: "Ele era Artaxerxes Terceiro."
Para Julián, a história não era especialmente engraçada, mas
Bunch sempre se dobrava de rir. Sua risada soou como uma
cascata.
— O coitado do velhinho! — exclamou ela. — Você vai ser
igualzinho, um dia, Julián.
Julián, contrafeito, concordou com humildade:
— Eu sei. Tenho certeza de que nunca conseguirei falar com
bastante simplicidade.
— Eu não me preocuparia tanto — disse Bunch, levantando-
se e começando a recolher numa bandeja os pratos do café.
— A sra. Butt, ontem, me contou que o marido, que nunca
ia à igreja e era praticamente ateu, tem vindo todos os
domingos para ouvir o seu sermão.
Ela continuou, numa imitação bem razoável da voz ultra-
afetada da sra. Butt:
— "Foi mesmo no outro dia, que Butt disse ao sr. Timkins,
de Little Worsdale, que nós realmente, temos cultura aqui
em Chipping Cleghom, madame. Não é como em Little
Worsdale, onde o sr. Gross fala como se todos fossem
crianças ignorantes. Temos cultura de verdade, Butt disse. O
nosso vigário é um homem finamente educado... em
Oxford, não em Milchester, e não esconde a sua erudição.
Conhece tudo sobre os romanos e gregos, e também sobre
os babilônios e os assírios. E até mesmo o gato da paróquia,
Butt disse, tem o nome de um rei assírio!" Eis a sua glória,
querido — concluiu Bunch triunfante. — Meu Deus, não
posso ficar conversando, ou não acabo tão cedo o serviço.
Vamos, Tiglath Pileser, tenho umas espinhas de peixe para
você.
Abrindo a porta e habilmente mantendo-a aberta com o pé,
ela atravessou rapidamente o umbral, levando a bandeja
carregada enquanto cantava, com mais entusiasmo do que
afinação, sua versão particular de uma canção popular:
— É um belo dia para assassinatos, ora se é! Como um
lindo dia de maio. E na cidade nenhum detetive
existe...
O ruído dos talheres sendo jogados na pia abafou os versos
seguintes, mas, quando o reverendo Julian Harmon já estava
na porta da rua, chegou até ele o final, entoado a plenos
pulmões:
— E hoje vamos todos matar alguém!

CAPÍTULO 2
CAFÉ DA MANHÃ EM LITTLE PADDOCKS

I
Também em Little Paddocks ía em meio o café da manhã.
A srta. Blacklock, uma mulher de sessenta anos, dona da
casa, estava sentada à cabeceira da mesa. Usava um costume
de tweed, e com ele uma estranha combinação, um colar
de grandes pérolas artificiais. Estava lendo o Daily Mail.
Julia Simmons languidamente folheava o Telegraph;
Patrick Simmons conferia as palavras cruzadas do Times. A
srta. Dora Bunner dedicava toda a sua atenção ao semanário
local.
A srta. Blacklock sorriu de algo que lera, enquanto Patrick
murmurava:
— Ah, é aderente, e não adesivos; foi aqui que errei...
Súbito, a srta. Bunner emitiu um som estranho, parecendo
uma
galinha assustada:
— Letty... Letty... você viu isto? O que poderá ser?
— O que é, Dora?
— Um anúncio esquisitíssimo. E fala em Little Paddocks.
Mas, o que poderá ser?
— Se você me deixar ler, Dora...
Obediente, a srta. Bunner entregou o jornal à mão estendida
pela srta. Blacklock, apontando o anúncio com um dedo
trêmulo.
— Olhe só, Letty.
A srta. Blacklock olhou. Seus olhos se arregalaram.
Desconfiada, olhou em torno de si e leu o anúncio em voz
alta:
— Convida-se para um homicídio, a ter lugar sexta-
feira, 29 de outubro, em Little Paddocks, às 18:30h.
Espera-se a presença de todos os amigos da família.
Não haverá outra convocação.
Acrescentou, rispidamente:
— Patrick, isso foi idéia sua?
Seus olhos se fixaram, sem pestanejar, no rosto bonito e
leviano do jovem sentado na outra extremidade da mesa. O
desmentido de Patrick foi instantâneo:
— Nada disso, tia Letty. Que idéia é essa? Eu não tenho nada
com isso.
— Você seria bem capaz... —respondeu, séria, a srta.
Blacklock. — Você é bem capaz de achar que seria
divertido.
— Uma brincadeira minha? Nem pense nisso.
— E você, Julia?
Julia, aparentando desinteresse, disse:
— Claro que não.
— Será que a sra. Haymes... — murmurou a srta. Bunner,
olhando para um lugar vazio, onde alguém tomara café mais
cedo.
— Não acredito que a nossa Phillipa tenha se metido a
engraçada disse Patrick. Ela é uma jovem senhora muito
séria.
— Mas para que fizeram isso, afinal de contas? — perguntou
Julia bocejando. — Por quê?
Pausadamente, a srta. Blacklock disse:
— Acho... acho que deve ser um trote bobo.
— Mas, por quê? — exclamou Dora Bunner. — Por que
razão? Se for brincadeira, é muito estúpida. E de muito mau
gosto!
Suas bochechas tremiam de indignação, e seus olhos míopes
soltavam faíscas de raiva.
A srta. Blacklock sorriu para ela.
— Também não é preciso se aborrecer tanto assim, Bunny —
disse ela. — Foi só uma brincadeira de alguém, mas bem que
eu gostaria de saber quem foi.
— O anúncio diz que é hoje — lembrou a srta. Bunner. —
Hoje, às seis e meia. O que você acha que vai acontecer?
— A morte! — exclamou Patrick, com voz sepulcral. — A
morte deliciosa!
— Cale a boca, Patrick — disse a srta. Blacklock, enquanto a
srta. Bunner soltava um gemido.
— Eu estava me lembrando daquele bolo especial que Mitzi
faz — desculpou-se Patrick. — Nós sempre o chamamos de
Delícia Fatal.
A srta. Blacklock sorriu.
— Mas, Letty, você acha mesmo... — insistiu a srta.
Bunner. A amiga lhe cortou a frase com bom humor:
— Eu sei muito bem o que vai acontecer às seis e meia —
disse ela, calmamente. — Vamos ter metade da cidade aqui
dentro de casa, todos doidos de curiosidade. É bom ver se
temos algum sherry em casa.

II
— Você está preocupada, não está, Lotty?
A srta. Blacklock teve um sobressalto. Estava sentada à sua
escrivaninha, desenhando peixinhos num pedaço de papel,
distraída. Olhou para a amiga, cuja expressão era de
ansiedade.
Na verdade, não sabia o que dizer a Dora Bunner. Não
queria que Bunny ficasse aborrecida ou preocupada.
Pensativa, demorou a responder.
Ela e Dora Bunner haviam sido colegas de escola. Dora fora
uma menina bonita, de cabelos louros e olhos azuis, embora
muito pouco inteligente. Isso não fazia, então, muita
diferença; sua alegria, sua beleza e seu temperamento
bastavam para torná-la uma companhia agradável. Na
opinião da amiga, ela deveria ter se casado com um
simpático oficial do Exército, ou então um advogado de
cidade pequena. Tinha muitas qualidades: era afetuosa,
devotada, leal. Mas a sorte não fora generosa com Dora
Bunner. Ela tivera de ganhar a vida. Tentara diversas
atividades, sempre com muito empenho e pouca
competência.
As duas amigas haviam se afastado uma da outra. Seis meses
antes, entretanto, a srta. Blacklock recebera uma carta,
patética e não muito coerente. Dora estava doente. Vivia em
um quarto humilde, tentando sobreviver com a sua pequena
pensão. Tentara fazer tricô para vender, mas os seus dedos
estavam endurecidos pelo reumatismo. Lembrara os dias de
colégio... a vida as havia separado..., mas talvez... quem
sabe... a sua velha amiga pudesse ajudá-la.
A srta. Blacklock reagira impulsivamente. Pobre Dora, tão
bonitinha e tão tola. Trouxe-a para Little Paddocks, com o
pretexto reconfortante de que "a casa está ficando muito
grande para mim, e preciso de alguém para me ajudar a
tomar conta de tudo". Não seria por muito tempo, o médico
já a prevenira: apesar disso, Dora era, às vezes, um fardo
pesado demais. Confundia tudo, perturbava as sempre
temperamentais empregadas estrangeiras, errava o rol da
roupa suja, perdia contas e cartas; enfim, vez por outra
levava a competente srta. Blacklock ao desespero total.
Pobre cabeça tonta, tão leal, tão ansiosa por ajudar, tão
orgulhosa e contente por se sentir útil e, lamentavelmente,
tão inútil.
— Chega, Dora. Lembre-se do que eu lhe pedi...
Oh — a srta. Bunner desculpou-se. — Eu sei. Esqueci.
Mas..., mas você está, não está?
— Preocupada? Não. Pelo menos — acrescentou, com
sinceridade na voz — não muito. Você está falando daquele
anúncio bobo na Gazette, não?
— Estou... mesmo que seja uma brincadeira, eu acho que é
uma brincadeira... mal-intencionada.
— Mal intencionada?
— É. Tenho a impressão de ser alguma coisa feita com raiva.
Quer dizer... não é uma brincadeira simpática.
A srta. Blacklock a olhou. Os olhos pacíficos, a boca
obstinada, o nariz levemente arrebitado. Pobre Dora, tão
exasperante, tão confusa, tão devotada, um problema e
tanto. Uma velha tola e, no entanto, estranhamente sensata,
quase que por instinto.
— Acho que você tem razão, Dora — disse a srta. Blacklock.
Não é uma brincadeira simpática.
— Eu não gosto nada disso — disse Dora Bunner, com
insuspeita energia. — Assusta-me.
Acrescentou, inesperadamente:
— E assusta você também, Letty.
— Bobagem — replicou a srta. Blacklock, enfática.
— É perigoso. Tenho certeza de que é. Como essas pessoas
que mandam bombas para a gente dentro de embrulhos.
— Meu bem, é apenas algum idiota tentando ser engraçado.
— Mas acontece que não é engraçado.
Na verdade, não era nada engraçado... A expressão da srta.
Blacklock denunciava seus pensamentos, e Dora exclamou,
triunfante:
— Eu sei! Eu sei que você também acha!
— Mas, Dora, querida...
Parou. Pela porta, irrompeu uma jovem tempestuosa, cujo
generoso busto arfava sob um suéter apertado. Vestia uma
saia bizarramente colorida e suas longas tranças, negras e
lustrosas, estavam presas à cabeça em diversas voltas. Seus
olhos escuros faiscavam.
— Posso falar com a senhora, sim, por favor, não? — disse
ela, enfaticamente.
A srta. Blacklock suspirou:
— Claro, Mitzi. O que é?
Às vezes, ela pensava que seria melhor fazer todo o trabalho
da casa, inclusive cozinhar, para não ter de aturar as
explosões daquela refugiada de guerra.
— Já vou dizer... posso falar, não posso? Senhora recebe meu
aviso... agora, imediato... peso demissão... vou embora,
imediato!
— Mas, por quê? Alguém a aborreceu?
— Sim, aborrecida, estou sim — afirmou Mitzi,
dramaticamente. — Não quero morrer! Uma vez, já, na
Europa, eu escapar. Minha família, toda inteira, morta;
mataram todos: mãe, irmãozinho, sobrinha tão bonitinha...
todos, todos mortos. Mas eu fugir... bem escondida. Vim
para Inglaterra. Trabalhar. Trabalho que nunca... nunca fiz
em minha terra... eu...
— Eu sei de tudo isso — disse a srta. Blacklock, secamente.
Na verdade, não era a primeira nem a segunda vez que
ouvira a história. — Mas, por que você quer ir embora
agora?
— Porque eles vir aí, de novo, para me matar!
— Quem?
— Os inimigos. Nazistas! Talvez, desta vez, vêm os
bolcheviques. Descobrem que eu estou aqui. Vêm para me
matar. Eu li... é verdade... eu li no jornal!
— Ah, a Gazette, não foi?
— Aqui, escrito aqui. — Mitzi apresentou o jornal, que trazia
atrás das costas. — Ver... aqui diz homicídio. Em Little
Paddocks. Aqui, não é? Hoje, 18:30h. Ah! Eu não espera
para ser assassinada... não senhora!
— Mas, por que isso há de ser com você? É... nós achamos
que seja uma brincadeira.
— Brincadeira? Brincadeira, matar pessoas?
— Não, claro que não. Mas, minha filha, se alguém quisesse
matá-la, não ia anunciar no jornal, não é mesmo?
— A senhora achar que não? Mitzi
mostrou-se um tanto abalada.
— Achar, talvez, que não vão matar ninguém? Talvez é a
senhora que eles vão matar, hein?
— Tenho certeza de que ninguém quer me matar — disse a
srta. Blacklock, sorrindo. — E, francamente, Mitzi, não sei
por que alguém quereria matá-la. Para quê?
— Ah, gente muito ruim... muito malvados. A senhora não
sabe, mãe, irmãozinho, a sobrinha tão bonitinha...
— Eu sei, eu sei... — a srta. Blacklock cassou-lhe a palavra
com um gesto enérgico. — Mas pçsso garantir que ninguém
quer matar você, Mitzi. É claro que, sç você quiser, pode ir
embora daqui, mesmo sem aviso prévio. Não posso impedi-
la. Mas acho que você será muito tola se fizer isso.
E, vendo o ar de indecisão da empregada, acrescentou:
— Com aquela carne que veio hoje do açougueiro vamos
fazer um cozido para o almoço. Achei muito dura.
— Fazer um goulash, um goulash especial.
— Pode dar o nome que quiser. Outra coisa: use aquele resto
de queijo para fazer uns canapés. Acho que teremos visitas
esta noite.
— Esta noite? Por que esta noite?
— Às seis e meia.
— Mas não é a hora do jornal? Para que eles vêm? Por quê?
— Vêm para o velório — disse a srta. Blacklock, piscando o
olho. — Pode voltar lá para dentro, Mitzi. Estou ocupada. E
feche a porta — acrescentou, com firmeza.— Por enquanto,
pelo menos esse problema está resolvido — disse, quando a
porta se fechou atrás de uma Mitzi intrigada e confusa.
— Você é tão eficiente, Letty — disse a srta. Bunner com
admiração.

CAPÍTULO 3
Às SEIS E MEIA DA TARDE

I
— Ora muito bem, aqui estamos todos — disse a srta.
Blacklock, passeando o olhar pela sala de estar. As cortinas
cor-de-rosa, os vasos de bronze com crisântemos, o
pequeno jarro de violetas e a caixa de prata com cigarros, na
mesinha perto da parede, a bandeja com copos e garrafas na
mesa de centro.
Little Paddocks era uma casa de tamanho médio, construída
em estilo vitoriano. Tinha uma varanda longa e estreita e
janelas com persianas verdes. A sala de estar, também
comprida e estreita, e que não recebia muita luz por causa
do teto da varanda, tinha, originalmente, uma porta dupla
em uma das extremidades, dando para uma saleta com um
janelão. Uma geração anterior retirara a porta dupla,
substituindo-a por portières de veludo. A srta. Blacklock
dispensara as portières, e as duas salas se transformaram
numa só, divididas por um arco. Havia uma lareira em cada
extremidade: nenhuma estava acesa, embora o ambiente
estivesse levemente aquecido.
— A senhora acendeu o aquecimento central — disse
Patrick. A srta. Blacklock concordou.
— O tempo tem estado tão úmido, ultimamente. Dava para
sentir a umidade na casa toda; por isso, pedi a Evans que o
acendesse antes de sair.
— Gastando o seu precioso coque? — perguntou Patrick,
irônico.
— Pois é, o meu precioso coque. Mas, se não fosse ele, seria
o meu carvão mais precioso ainda. Você sabe que o
departamento de Combustível não nos permite comprar
nem mesmo aquela cota semanal ridícula, a não ser quando
podemos provar que não temos outros meios de cozinhar.
— Acho que já houve um tempo em que todo mundo tinha
carvão e coque à vontade, não? — perguntou Julia, como
quem falasse de um país distante.
— Já, sim, e muito mais barato.
— E as pessoas podiam comprar o quanto quisessem, sem
assinar declaração nenhuma, e nunca faltava? Havia estoques
enormes?
— De todos os tipos e qualidades, e nada de pedras, como
hoje em dia.
— Deve ter sido um mundo maravilhoso — disse Julia, com
voz sonhadora.
A srta. Blacklock sorriu.
— Relembrando, eu também acho. Mas sou uma velha. É
natural que eu prefira os meus tempos. Vocês, moços,
deveriam pensar diferente.
— Eu não precisaria trabalhar — disse Julia. — Poderia ficar
em casa, arrumando as flores, escrevendo cartas... Por que
naquele tempo as pessoas viviam escrevendo cartas?
— Porque não viviam dependuradas no telefone — disse a
srta. Blacklock, sorrindo com os olhos. — Acho que você
nem sabe como escrever uma cartinha, Julia.
— No estilo daquele Manual do missivista elegante que
descobri outro dia, garanto que não! Era uma delícia!
Ensinava até como recusar uma proposta de casamento de
um viúvo.
— Duvido que você gostasse de ficar em casa tanto quanto
pensa — disse a srta. Blacklock. — Havia deveres, não se
esqueça. Na verdade — ela continuou, séria —, eu não sou
muito indicada para falar. Bunny e eu entramos muito cedo
no mercado de trabalho — disse sorrindo com amizade para
Dora Bunner.
— Ah, isso é verdade, ora se é — concordou a srta. Bunner.
— Aquelas crianças, tão levadas. Nunca as esquecerei. Mas
Letty não passou por isso: era mais inteligente, foi ser uma
mulher de negócios, secretária de um grande homem.
A porta se abriu e Phillipa Haymes entrou. Era alta e loura,
de aspecto tranqüilo. Olhou em volta, com ar surpreso.
— Alô — disse. — É uma festa? Ninguém me contou nada.
— É claro — exclamou Patrick. — A nossa Phillipa não sabe,
ainda. A única mulher em Chipping Cleghorn que não sabe,
aposto.
Phillipa o encarou, curiosa.
— Eis aqui, à sua volta — disse Patrick, dramaticamente,
fazendo um largo gesto com a mão —, a cena de um crime!
Phillipa Haymes estava obviamente intrigada.
— Aqui — e Patrick indicou os dois vasos de crisântemos —
estão as urnas funerárias: estes canapés de queijo e estas
azeitonas são para os convidados do velório.
— É alguma brincadeira? — perguntou Phillipa, dirigindo-se,
curiosa, à srta. Blacklock. Eu sempre sou muito burra para
perceber brincadeiras.
— É uma brincadeira, e de mau gosto — disse Dora Bunner,
com energia. — Eu não gosto nada disso.
— Mostre-lhe o anúncio — disse a srta. Blacklock. —
Preciso ir recolher os patos. Já está ficando escuro.
— Deixe que eu faço isso — disse Phillipa.
— Nada disso, minha filha. Você já trabalhou bastante por
hoje.
— Eu vou, tia Letty — ofereceu-se Patrick.
— Não, senhor — respondeu ela, energicamente. — Na
última vez você se esqueceu de trancar o portão.
— Pois então eu vou, Letty — disse a srta. Bunner. — Eu
gosto. É só botar minhas galochas... Onde é que deixei o
meu suéter?
Mas a srta. Blacklock, sorrindo, já saíra da sala.
— Não adianta, Bunny — disse Patrick. — A tia Letty é tão
eficiente que não suporta que alguém faça algo por ela. Ela
realmente prefere fazer tudo sozinha.
— Ela adora ser assim — disse Julia.
— Não ouvi qualquer oferecimento de ajuda, de sua parte —
comentou o irmão.
Julia sorriu, preguiçosa.
— Você mesmo disse que ela gosta de fazer as coisas
sozinha
— lembrou. — Além disso — acrescentou, esticando uma
perna bem torneada, vestida em uma meia transparente —,
estou com as minhas melhores meias.
— A morte em meias de seda! — declamou Patrick.
— Não é seda, seu idiota. É náilon.
— Mas, assim, o título fica horrível.
— Alguém poderia me dizer — interferiu Phillipa, em tom
queixoso — por que estão todos falando de morte?
Todos tentaram dizer-lhe, ao mesmo tempo... enquanto
ninguém conseguia achar a Gazette para lhe mostrar o
anúncio, porque Mitzi a levara para a cozinha.
A srta. Blacklock voltou alguns minutos depois.
— Pronto, tudo resolvido — disse ela, e olhou para o
relógio — São seis e vinte. Alguém deve estar chegando...
ou muito me engano sobre os meus vizinhos.
— Mas, por que deve vir alguém aqui? — perguntou
Phillipa, confusa.
— Você não sabe, minha filha?... É, acho que não. Mas
acontece que a maioria das pessoas é muito mais curiosa do
que você.
— Phillipa não se interessa por nada — disse Julia, com certo
sarcasmo.
Phillipa não respondeu. A srta. Blacklock estava olhando em
volta da sala. Mitzi colocara o sherry e os pratinhos com
azeitonas, canapés e pequenos pastéis na mesinha de centro.
— Por favor, Patrick, leve a bandeja, ou a mesa toda, se
preferir, para perto do janelão, na outra sala. Afinal de
contas, eu não estou dando uma festa! Não convidei
ninguém. E não quero que fique óbvio que estou esperando
que alguém venha.
— Tia Letty, a senhora está querendo disfarçar sua
inteligente dedução?
— Exatamente, meu rapaz. Muito obrigada.
— Então, podemos continuar com a nossa encantadora
representação de um pacato serão familiar — disse Julia — e
mostraremos muita surpresa se alguém bater à porta.
A srta. Blacklock apanhara a garrafa de sherry e a segurava,
indecisa. Patrick a tranqüilizou.
— Ainda tem pelo menos meia garrafa aí. Deve bastar.
— É... acho que sim...— ela hesitou. Depois, corando
levemente, disse: — Patrick, por favor... há uma outra
garrafa no armário da copa... vá buscá-la, e traga um saca-
rolhas. Eu... bem, nós... é melhor usar uma garrafa nova.
Esta aqui já foi aberta há muito tempo.
Patrick obedeceu, sem uma palavra. Voltou com a garrafa,
que abriu. Ao colocá-la na bandeja, olhou com curiosidade
para a srta. Blacklock.
— Está levando tudo isso muito a sério, não? — perguntou,
suavemente.
— Ora — exclamou, chocada, Dora Bunner. —
Francamente, Letty, você não está pensando...
— Psiu — disse a srta. Blacklock. — A campainha. Estão
vendo, minha inteligente dedução se confirma.

II
Mitzi abriu a porta da sala, fazendo entrar o coronel e a sra.
Easterbrook. Tinha ela seus próprios métodos de anunciar as
pessoas. Como se estivesse participando da conversa, disse:
— O coronel e a sra. Easterbrook estão aí para ver a
senhora. O coronel mostrou-se amável e muito expansivo,
como se escondesse um certo encabulamento.
— Saímos para dar uma voltinha e decidimos fazer uma
visitinha — disse ele, enquanto Julia escondia uma risada
atrás de um acesso de tosse. — Como vão todos? Uma tarde
agradável, não? Estou vendo que já ligaram o seu
aquecimento central. Nós ainda não ligamos o nosso.
— Mas que lindos crisântemos! — exclamou a sra.
Easterbrook.
— Que beleza!
— Já estão meio murchos, para falar a verdade — disse Julia.
A sra. Easterbrook saudou Phillipa Haymes com o excesso
de
cordialidade necessário para mostrar que ela compreendia
muito bem que Phillipa não era, realmente, uma
trabalhadora braçal.
— Como vai indo o jardim da sra. Lucas? — perguntou ela.
— Acha que ainda tem jeito? Foi tão abandonado durante a
guerra toda... e, depois, só tinha aquele velhote horrível, o
sr. Ashe, que só fazia varrer as folhas e plantar repolhos.
— O tratamento está indo bem — disse Phillipa. — Mas vai
demorar um pouco.
Mitzi abriu novamente a porta:
— Chegaram aí as madames de Boulders.
— Boa noite — disse a srta. Hinchliffe, atravessando a sala
em largas passadas e apertando com firmeza a mão da srta.
Blacklock.
— Eu disse a Murgatroyd: "Vamos dar um pulinho em Little
Paddocks!" Queria lhe perguntar como vão os seus patos.
Estão chocando?
— A noite está caindo tão depressa, ultimamente, não? —
disse a srta. Murgatroyd a Patrick, com ar distraído.
— Mas que lindos crisântemos!
— Murchos!—explodiu Julia.
— Mas, por que você não coopera? — murmurou-lhe
Patrick, em tom de reprovação.
— Vocês já ligaram o aquecimento central — acusou a srta.
Hinchliffe. — É cedo demais.
— A casa fica muito úmida nesta época do ano — disse a
srta. Blacklock.
Com uma acrobacia de sobrancelhas, Patrick perguntou se
estava na hora de servir o sherry e, pelo mesmo código,
recebeu a resposta da srta. Blacklock: "Ainda não."
— O senhor tem recebido bulbos da Holanda, este ano? —
ela perguntou ao coronel Easterbrook.
A porta se abriu novamente, e a sra. Swettenham entrou,
seguida por Edmund, de cara fechada e nitidamente
constrangido.
— Somos nós! — disse a sra. Swettenham, alegremente,
olhando em torno com indisfarçada curiosidade. Então,
sentindo-se subitamente desconfortável, ela prosseguiu: —
Tive a idéia de dar um pulinho aqui para lhe perguntar se
não gostaria de ganhar uma gatinha, srta. Blacklock. Nossa
gata está para...
— ... para dar à luz um batalhão de rebentos de um gato vira-
lata — completou Edmund. — Nem quero pensar no que
vai dar. Não diga depois que não foi prevenida!
— Nossa gata é muito boa para caçar ratos — cortou a sra.
Swettenham apressadamente, acrescentando:— Mas que
lindos crisântemos!
— Vocês ligaram o aquecimento central, não? — perguntou
Edmund, com grande originalidade.
— Engraçado como as pessoas se parecem com discos de
vitrola... — suspirou Julia.
— Não gosto nada das últimas notícias — disse o coronel
Easterbrook a Patrick, segurando-o pela lapela, para que não
houvesse a menor chance de fuga. — Não gosto, não
senhor. Para mim, a guerra é inevitável... absolutamente
inevitável.
— Eu não sei. Nunca leio os jornais — disse Patrick.
Uma vez mais abriu-se a porta, e a sra. Harmon entrou. Seu
velho chapéu de feltro estava empurrado para a nuca, numa
vaga tentativa de seguir a moda, e ela trocara o seu suéter
costumeiro por uma antiquada blusa de renda.
— Alô, srta. Blacklock — exclamou ela, com um sorriso que
lhe tomava todo o rosto. — Não estou atrasada, estou?
Quando começa o assassinato?
Diversos "ahs" e "ohs", alguns abafados com êxito, foram
ouvidos. Julia deu uma risada satisfeita, enquanto Patrick
fazia uma careta e a srta. Blacklock sorria para a visitante.
— Julian está morrendo de raiva por não poder vir — disse
a sra. Harmon. — Ele adora homicídios. Foi por isso que ele
fez aquele sermão tão bom, domingo passado (mesmo que
não fique bem eu dizer que o sermão foi bom, ele sendo o
meu marido, mas foi bom mesmo, não acharam?), muito
melhor que os de costume. Mas eu ia dizendo que foi tudo
por causa de A morte executa a mágica da cartola.
Vocês não leram? A mocinha do Boots guardou um exem-
plar especialmente para mim. A gente fica inteiramente
confusa: pensa que sabe o que está acontecendo... e, de
repente, tudo muda de lugar e aparecem os assassinos,
quatro ou cinco de uma vez. Pois eu deixei o livro no
escritório antes do Julian se trancar lá dentro para escrever o
sermão e ele o apanhou e não conseguiu largá-lo antes de
acabar! E acabou tendo de escrever o sermão correndo, sem
citações complicadas nem aquelas suas frases complicadas e,
naturalmente, saiu muito melhor que os outros. Ah, meu
Deus, já estou falando demais. Mas, digam, quando começa
o assassinato?
A srta. Blacklock olhou para o relógio sobre a lareira.
— Se começar mesmo — anunciou com bom humor —,
deve ser logo. Falta um minuto para as seis e meia. Enquanto
esperamos, vamos tomar um sherry.
Patrick se dirigiu para a garrafa com largas e entusiásticas
passadas, enquanto a srta. Blacklock se aproximava da
mesinha onde estava a caixa de cigarros.
— Eu adoraria um cálice de sherry — disse a sra. Harmon.
— Mas que história é essa de sei
— Bem — explicou a dona da casa —, eu sei tanto quanto
você. Não sei o que...
Calou-se e virou a cabeça na direção da lareira onde o
pequeno relógio começou a dar as horas. Era um som suave,
como o de um sininho de prata. Todos se mantiveram em
silêncio: ninguém se movia. Todos olhavam para o relógio.
Quando se extinguiu o som da última batida da meia hora,
todas as luzes se apagaram.

IV
No escuro, gritinhos femininos de expectativa e prazer
fizeram-se ouvir.
— Está começando! — exclamou, em êxtase, a sra. Harmon.
Em tom queixoso, Dora Bunner protestou:
— Ah, eu detesto isto!
E outras vozes: "Tão assustador!" "Estou com tanto medo!"
"Fico toda arrepiada!" "Archie, onde está você?" "E o que eu
tenho de fazer agora?" "Oh, desculpe, pisei no seu pé?"
"Desculpe..."
Então, com um estrondo, a porta se abriu. A luz de uma
poderosa lanterna passeou pela sala. Uma voz de homem,
rouca e anasalada, evocando para todos os presentes uma
infinidade de momentos agradáveis passados em frente a
uma tela de cinema, ordenou ao grupo:
— Mãos para cima! Mãos para o alto, vamos! — a voz
repetiu, enérgica.
Prazerosamente, todas as mãos se levantaram acima das
cabeças.
— Não é maravilhoso? — suspirou uma voz feminina. —
Estou tão emocionada...
E então, inesperadamente, um revólver atirou. Duas vezes.
O som dos dois disparos quebrou a complacência da sala.
Subitamente, a brincadeira não era mais uma brincadeira.
Alguém gritou...
A silhueta no portal girou repentinamente nos calcanhares;
pareceu hesitar, ouviu-se um terceiro tiro, ela se dobrou
sobre si mesma e se estatelou no chão. A lanterna caiu e se
apagou.
A escuridão voltou. E, bem devagar, com um rangido
vitoriano de protesto, a porta da sala de estar, como
costumava fazer quando não estava bem escorada, fechou-se
lentamente. Ouviu-se o ruído do trinco.
V
O caos se instalou na sala de estar. Diversas vozes soaram ao
mesmo tempo: "Luzes!" "Onde fica o interruptor?" "Alguém
tem um isqueiro?" "Ah, eu não gosto nada disso, não gosto
nada, nada..." "Mas os tiros foram de verdade!" "Era um
revólver de verdade que ele tinha na mão." "Era um ladrão?"
"Oh, Archie, eu quero ir embora." "Por favor, alguém tem
um isqueiro?"
Quase ao mesmo tempo, dois isqueiros se acenderam,
produzindo chamas modestas, mas firmes.
Piscando, todos se entreolharam. Rostos espantados se
defrontaram com rostos assustados. Encostada à parede ao
lado do arco, a srta. Blacklock mantinha uma das mãos no
rosto. A fraca iluminação mal dava para perceber que algo
escuro escorria entre seus dedos.
O coronel Easterbrook pigarreou e se elevou à altura da
situação.
— Tente os interruptores, Swettenham — ele ordenou.
Edmund, que estava próximo à porta, obedientemente
acionou o interruptor para cima e para baixo.
— Ou é um fusível ou falta de força — disse o coronel. —
Quem está fazendo essa barulheira?
De algum ponto do outro lado da porta fechada, ouvia-se
uma voz feminina gritando sem parar. Estava aumentando
de volume, e passara a ser acompanhada por batidas de
punhos na porta.
Dora Bunner, que soluçava num canto, opinou:
— É Mitzi. Estão matando a Mitzi.
— Seria muita sorte... — murmurou Patrick.
— É preciso arranjar velas — disse a srta. Blacklock. —
Patrick, por favor...
O coronel já estava abrindo a porta. Edmund e ele, isqueiros
em punho, passaram para a saleta de entrada; quase
tropeçaram em alguém, deitado no caminho.
— Parece que está desmaiado — disse o coronel. — Onde
está essa mulher que está berrando desse jeito?
— Na sala de jantar — disse Edmund.
A sala de jantar ficava logo depois da saleta. Alguém estava
batendo com as mãos na porta, uivando e gritando.
— Ela está trancada aí dentro — disse Edmund, inclinando-
se. Girou a chave e Mitzi irrompeu como um tigre faminto
pulando sobre a presa.
A luz da sala de jantar tinha ficado acesa e, silhuetada no
portal, a figura de Mitzi, gritando sem parar, era um quadro
vivo de terror insano. Um toque cômico era dado pelo fato
de que estivera limpando a prataria e ainda tinha nas mãos
um trapo de flanela e uma faca de peixe.
— Cale a boca, Mitzi — disse a srta. Blacklock.
— Pare com isso — disse Edmund.
Como Mitzi não mostrasse a menor intenção de parar de
gritar, ele avançou e lhe deu uma bofetada no rosto. Mitzi
engoliu em seco e parou de gritar, passando a soluçar em
silêncio.
— Arranjem velas — disse a srta. Blacklock. — No armário
da cozinha. Patrick, você sabe onde fica a caixa dos fusíveis?
— Na passagem atrás da copa? OK, vou ver o que posso fa-
zer.
A srta. Blacklock dera alguns passos e entrara na área
iluminada pela luz que vinha da sala de jantar; Dora Bunner
deu um gritinho, enquanto Mitzi soltava mais um de seus
berros.
— Sangue, sangue — ela soluçou. — A senhora ferida... vai
morrer, sangrar até morrer...
— Não seja estúpida — disse bruscamente a srta. Blacklock.
— Não foi nada, só um arranhão na orelha.
— Mas, tia Letty — disse Julia —, o sangue... Realmente, a
blusa, as pérolas e a mão da srta. Blacklock
pareciam ter saído de um banho de sangue.
— As orelhas sempre sangram muito — disse ela. — Uma
vez, quando eu era menina, cheguei a desmaiar no
cabeleireiro, e o pobre homem mal me beliscara a orelha
quando jorrou uma bacia cheia de sangue. Mas é preciso dar
um jeito nessas luzes.
— Eu apanhar velas — disse Mitzi.
Julia foi com ela e voltaram com diversas velas presas em
pires.
— Vamos dar uma olhada no nosso malfeitor — disse o
coronel. — Segure essas velas aqui embaixo, por favor,
Swettenham. Quantas puder.
— Eu vou pelo outro lado — disse Phillipa.
Com mão firme, ela empunhou um par de pires. O coronel
Easterbrook se ajoelhou.
A figura deitada estava envolta num improvisado manto
negro com um capuz. O rosto estava oculto por uma
máscara preta, e ele usava luvas pretas de algodão. O capuz
havia escorregado, descobrindo uma cabeça loura e
despenteada.
O coronel Easterbrook virou o corpo, sentiu o pulso e o
coração... e retirou os dedos com uma exclamação de
repugnância, trazendo-os para perto do rosto. Estavam
vermelhos e pegajosos.
— Atirou em si mesmo — disse.
— Está muito ferido? — perguntou a srta. Blacklock.
— Hum, Acho que está morto... pode ter sido suicídio... ou
então tropeçou nessa capa e o revólver disparou quando ele
caiu. Se eu pudesse ver melhor...
Nesse instante, como num passe de mágica, as luzes
voltaram.
Uma sensação de distanciamento da realidade invadiu os
habitantes de Chipping Cleghorn reunidos naquela saleta de
Little Paddocks, no momento em que compreenderam que
estavam na presença da morte violenta e inesperada. A mão
do coronel Easterbrook estava manchada de vermelho. O
sangue ainda escorria pelo pescoço da srta. Blacklock,
chegando à sua blusa e ao seu casaco; a seus pés estava
aquela figura grotescamente estendida no chão...
Vindo da sala de jantar, Patrick disse:
— Parece que era só um fusível...
O coronel Easterbrook deu um puxão na pequena máscara
preta.
— É melhor ver quem é o sujeito — disse ele. — Embora
eu não creia que seja alguém que conheçamos...
Retirou a máscara. Pescoços se esticaram. Mitzi soluçou e
arfou; os demais ficaram em silêncio.
Súbito, Dora Bunner exclamou, excitada:
— Letty, Letty, é aquele rapaz do hotel, em Medenham
Wells. O que veio aqui e queria que você lhe desse dinheiro
para voltar para a Suíça, e você recusou. Devia ser tudo um
pretexto... para espionar a casa... Ah, meu Deus, ele podia
ter matado você...
Assumindo o comando da situação, a srta. Blacklock disse
com decisão:
— Phillipa, leve Bunny para a sala de jantar e lhe dê meio
copo de conhaque. Julia, minha filha, dê um pulo no
banheiro e apanhe no armariozinho gaze e esparadrapo...
não tem propósito eu ficar sangrando feito um porco.
Patrick, quer telefonar para a polícia, por favor?

CAPÍTULO 4
O HOTEL ROYAL SPA

I
George Rydesdale, chefe de polícia de Middleshire, era um
homem tranqüilo. De estatura média, escondia seus olhos
inteligentes sob espessas sobrancelhas; tinha o hábito de
falar pouco e ouvir muito, antes de expedir, em voz neutra,
uma ordem concisa, que era sempre obedecida.
No momento, ele ouvia o inspetor-detetive Dermont
Craddock. Craddock estava oficialmente encarregado do
caso. Rydesdale o chamara na noite anterior de Liverpool,
onde fora fazer algumas investigações relacionadas a outro
caso. O chefe tinha uma boa opinião de Craddock; não
apenas possuía bons miolos e imaginação como também (e
disso Rydesdale gostava ainda mais) a autodisciplina
necessária para andar devagar, conferir e examinar cada fato,
e não tirar conclusões antes de chegar ao fim de cada pro-
blema.
— O guarda Legg recebeu a chamada, senhor — Craddock
estava dizendo. — Parece que ele agiu muito bem, com
rapidez e presença de espírito. E não deve ter sido fácil.
Umas doze pessoas, todas querendo falar ao mesmo tempo,
inclusive uma dessas mulheres centro-européias que entram
em crise só de ver um policial fardado. Convenceu-se de
que ia ser presa e quase derrubou as paredes de tanto gritar.
— O morto foi identificado?
— Sim, senhor. Rudi Scherz. Nacionalidade suíça.
Empregado no Hotel Royai Spa, em Medenham Wells,
como recepcionista. Se concordar, senhor, acho melhor
começar com o Royai Spa e ir a Chipping Cleghorn depois.
O sargento Fletcher já está lá.
Rydesdale fez um gesto de aprovação. A porta se abriu, e o
chefe de polícia ergueu a cabeça.
— Entre, Henry — disse ele. — Temos aqui algo um pouco
fora do comum.
Sir Henry Clithering, ex-comissário da Scotland Yard,
entrou, mostrando no rosto o interesse despertado. Era um
homem idoso, alto e de aparência distinta.
— Agrada até ao seu paladar requintado — continuou
Rydesdale.
— Eu nunca fui requintado — replicou, indignado, sir
Henry.
— É a última novidade — explicou Rydesdale. — Agora
estão anunciando os homicídios com antecedência. Mostre
aquele anúncio a sir Henry, Craddock.
— The North Benham News and Chipping Cleghorn
Gazette — disse sir Henry. — Um nome e tanto. — Ele
leu o pedacinho indicado pelo dedo de Craddock. — Hum, é
mesmo: bastante fora do comum.
— Alguma pista sobre quem colocou o anúncio? —
perguntou Rydesdale.
— Pela descrição, senhor, foi colocado pelo próprio Rudi
Scherz, na quarta-feira.
— Ninguém lhe perguntou nada? A pessoa que recebeu o
anúncio não o achou esquisito?
— Tenho a impressão de que a lourinha que recebe anúncios
lá é inteiramente incapaz de achar ou deixar de achar
qualquer coisa, senhor. Ela apenas contou as palavras e
recebeu o dinheiro.
— Qual foi a razão? — perguntou sir Henry.
— Juntar um bando de curiosos no lugar — sugeriu
Rydesdale. — Reuni-los num local determinado numa certa
hora, para assaltá-los e roubar seus bens e seu dinheiro.
Como idéia, não deixa de ter originalidade.
— Que espécie de lugar é Chipping Cleghorn? — perguntou
sir0 Henry.
— Uma vila pitoresca, bem espalhada. Açougue, padaria,
quitanda, uma boa loja de antiguidades... e duas casas de chá.
A cidade tem orgulho de suas belezas naturais e procura
atrair turistas motorizados. É muito residencial, também.
Bangalôs onde antigamente moravam camponeses, hoje
reformados e habitados por velhas solteironas e casais
aposentados. Na era vitoriana, houve um modesto surto
imobiliário.
— Eu sei — disse sir Henry. — Velhinhas simpáticas e
coronéis reformados. Não há dúvida: todos os que leram este
anúncio correram para lá às seis e meia da tarde, para saber o
que estaria acontecendo. Ora, até que eu gostaria de ter aqui
a minha velhinha simpática preferida. Ela adoraria meter os
dentes neste belo osso. É exatamente do que ela gosta.
— Quem é a sua velhinha preferida, Henry? Alguma tia?
— Não — ele suspirou. — Nenhum parentesco. Apenas —
ele acrescentou, com a voz cheia de respeito — é a melhor
detetive que já pisou neste mundo. Um talento nato,
cultivado em solo fértil.
Voltou-se para Craddock:
— Não despreze as velhinhas inteligentes que encontrar
nesse vilarejo, meu filho. Caso tudo isto se transforme num
mistério de grande profundidade, o que não creio que
aconteça, lembre-se de que conheço uma velhota que passa
o tempo cuidando de rosas e costurando... e que pode passar
a perna em qualquer sargento detetive. Ela pode lhe dizer o
que deve ter acontecido, o que deveria ter acontecido e até
o que realmente aconteceu! E também por que aconteceu!
— Não me esquecerei, senhor — disse o inspetor detetive
Craddock, em tom formal; ninguém suspeitaria de que
Dermont Eric Craddock era afilhado de sir Henry e tinha a
maior intimidade com o padrinho.
Rydesdale contou o caso, em suas linhas gerais, ao amigo.
— Estavam todos lá às seis e meia, mesmo — disse ele. —
Mas, como aquele sujeito suíço soube que estariam? E, outra
coisa, será que eles teriam consigo dinheiro e valores que
compensassem o golpe?
— Uns dois broches antigos, talvez um colar de pérolas
cultivadas, algum dinheiro trocado, talvez uma ou duas
libras, não mais... — disse pensativo sir Henry. — E essa
srta. Blacklock guarda muito dinheiro em casa?
— Ela diz que não, senhor. Pouco mais de cinco libras, eu
soube.
— Uma ninharia — disse Rydesdale.
— Vamos acabar acreditando que o sujeito tinha mania de
teatro — comentou sir Henry. — Não era o lucro, mas a
emoção de representar a cena do assalto. Influência do
cinema, quem sabe? É bem possível. Como é que ele
conseguiu se ferir?
Rydesdale apanhou na mesa uma folha de papel.
— É o relatório médico preliminar. O revólver disparou à
queima-roupa... chamuscou a carne... hum... nada que
mostre se foi acidente ou suicídio. Pode ter sido
deliberadamente, ou ele pode ter tropeçado, caído, e o
revólver, que ele segurava colado ao corpo, pode ter
disparado... talvez tenha sido isso.
Olhou para Craddock.
— Você terá de interrogar as testemunhas com muito
cuidado e fazê-las dizer exatamente o que viram.
— Todas devem ter visto alguma coisa diferente —
comentou, desalentado, o inspetor detetive.
— Sempre me interessei — disse sir Henry — em saber o
que as pessoas vêem em momentos de grande excitação e
tensão nervosa. O que vêem e, o que é ainda mais
interessante, o que não vêem.
— Onde está o relatório sobre o revólver?
— Marca estrangeira... muito comum no Continente...
Scherz não tinha licença para ele... e não o declarou quando
chegou à Inglaterra.
— Um mau sujeito — disse sir Henry.
— Deficiências de caráter por todos os lados. Muito bem,
Craddock, vá ver o que consegue descobrir sobre ele no
Royal Spa.
II
No Royal Spa, o inspetor Craddock foi levado diretamente
ao gabinete do gerente.
O gerente, sr. Rowlandson, um homenzarrão exuberante, de
maneiras expansivas, saudou o policial com um largo sorriso.
— Teremos o maior prazer em ajudá-lo no que pudermos,
inspetor — disse ele. — De fato, é um caso extraordinário.
Nunca pensei... nunca. Scherz parecia ser um rapaz igual aos
outros, simpático... não consigo imaginá-lo como um
assaltante.
— Há quanto tempo ele trabalhava aqui, sr. Rowlandson?
— Eu estava vendo isso pouco antes de o senhor chegar. Uns
três meses. Credenciais muito boas, documentos em ordem
etc...
— E o seu trabalho era satisfatório?
Sem dar a perceber, Craddock registrou a pausa infinitesimal
antes da resposta de Rowlandson.
— Bastante satisfatório.
Craddock empregou uma técnica que freqüentemente dava
bons resultados.
— Ora, ora, sr. Rowlandson — disse, sacudindo a cabeça
devagar. — Não é bem isso, não é mesmo?
— Bem... — o gerente pareceu um tanto abalado.
— Vamos, havia alguma coisa de errado. O que era?
— Pois é: eu não sei.
— Mas sempre achou que houvesse alguma coisa errada,
não?
— Bem... é... achei... Mas não tenho nada de concreto. Não
gostaria de ver meus palpites anotados e depois jogados na
minha cara.
Craddock sorriu, afável.
— Entendo perfeitamente. Não se preocupe. Mas tenho de
descobrir alguma coisa sobre o tipo desse Scherz. O senhor
suspeitava... de quê?
Relutante, Rowlandson falou:
— Houve problemas, uma ou duas vezes, com contas de
hóspedes. Certas coisas cobradas em excesso.
— O senhor quer dizer que suspeitava que ele cobrasse
certos otens que não existiam e embolsasse a diferença
quando a conta fosse paga?
— Algo parecido... Na melhor das hipóteses, ele era muito
negligente. Mais de uma vez as quantias eram altas. Para
falar a verdade, mandei que o nosso contador examinasse os
seus livros, por suspeitar que ele... bem, que ele não
prestasse. Havia diversos erros e muita falta de método, mas
as contas davam certo. Por isso, achei que estava enganado.
— Mas, se não estivesse? Se Scherz estivesse embolsando
pequenas quantias aqui e ali, ele poderia se cobrir repondo o
dinheiro, não?
— Sim, se ele tivesse o dinheiro. Mas quem se apropria de
"pequenas quantias", como o senhor diz, geralmente precisa
com urgência dessas quantias, e as gasta na hora.
— Então, se ele precisasse de dinheiro para repor quantias
desaparecidas, teria de consegui-lo de outra maneira...
roubando, por exemplo?
— Isso. Imagino se teria sido a primeira vez...
— Talvez. Pelo menos, tinha toda a marca de coisa de
amador. Existe alguma outra pessoa que lhe poderia ter dado
o dinheiro? Alguma mulher em sua vida?
— Uma das garçonetes no restaurante. Chama-se Myrna
Harris.
— Preciso falar com ela.
III
Myrna Harris era uma jovem bonita, com uma bela cabeleira
ruiva e um narizinho arrebitado.
Estava assustada e preocupada, profundamente consciente
da vergonha de ser interrogada pela polícia.
— Não sei de nada, senhor. Nada, mesmo — protestou ela.
— Se soubesse que ele era assim, nunca teria saído com o
Rudi. Mas ele trabalhava na Recepção, eu então pensei que
fosse um rapaz direito. Como eu ia saber? Acho que o hotel
devia tomar mais cuidado com as pessoas que vêm trabalhar
aqui... estrangeiros, principalmente. Com um estrangeiro, a
gente nunca sabe a quantas anda. Ele era de alguma dessas
quadrilhas de que os jornais falam?
— Nós achamos — disse Craddock — que ele agia sozinho.
— Imagine... e ele tão quieto, com um ar tão direito... nunca
pensei. A verdade é que sumiram umas coisas minhas... um
broche de brilhantes... e um anelzinho de ouro. Que eu me
lembre... Mas nunca sonhei que pudesse ser o Rudi...
— Claro que não — disse Craddock. — E pode ter sido outra
pessoa. Você o conhecia bem?
— Eu não diria bem.
— Mas eram amigos?
— Ah, isso sim... éramos amigos, só isso. Nada de sério. Eu
fico sempre de pé atrás com estrangeiros, o senhor sabe.
Geralmente são muito simpáticos, mas nunca se sabe, não é
mesmo? Aqueles poloneses, durante a guerra! E mesmo os
americanos! Nunca dizem que são casados, até a última hora.
Rudi contava muita vantagem, mas eu sempre dava um
desconto no que ele dizia.
Craddock sentiu que uma nova porta se abria e enveredou
por ela:
— Contava vantagem, hein? Mas isso é muito interessante;
estou vendo que você nos será muito útil. Que vantagens
eram essas que ele contava?
— Ah, dizia que sua família na Suíça era muito rica... rica e
importante. Mas isso não combinava com a falta de dinheiro
em que ele vivia; então, ele dizia que não podia mandar vir
dinheiro da Suíça por causa das leis sobre o câmbio. Pode ser
verdade, eu não sei... mas as coisas dele não eram caras. As
roupas, por exemplo: não eram chiques, sabe? Eu também
acho que uma porção das histórias que ele contava eram
inventadas. Que subia nos Alpes, que salvava a vida de
pessoas dependuradas no abismo... Ora, ele ficava tonto só
de passar naquela trilha do Desfiladeiro de Boulter...
Imagine, os Alpes!
— Você saiu muito com ele?
— Saí... isto é... saí, sim. Ele era muito educado, e sabia
como... ora... como tratar as mulheres. Sempre os melhores
lugares no cinema, e até flores ele me dava, às vezes. E
dançava muito bem... muito bem, mesmo.
— Alguma vez ele lhe falou dessa srta. Blacklock?
— Ela às vezes vem almoçar aqui, não é? E já passou uns dias
no hotel. Não, acho que nunca falou nela. Não sabia que ele
a conhecia.
— E Chipping Cleghorn, ele mencionou?
Craddock pensou ter visto uma expressão de alarme nos
olhos de Myrna Harris, mas não chegou a ter certeza.
— Não tenho certeza... lembro-me de que uma vez ele
perguntou alguma coisa sobre horários de ônibus..., mas não
me lembro se era para Chipping Cleghorn ou para outro
lugar. Não foi recentemente.
E nada mais ele conseguiu tirar dela. Não notara nada de
diferente em Rudi Scherz. Não o vira na véspera. Nunca
soubera (nunca tivera o menor indício, ela frisara) que Rudi
Scherz era ladrão.
"E, provavelmente", pensou Craddock, "isso era a pura
verdade."

CAPÍTULO 5
SRTA. BLACKLOCK, SRTA. BUNNER

Little Paddocks era bem parecida com a idéia que dela fizera
o inspetor detetive Craddock. Viu patos e galinhas, e um
jardim que já vira dias melhores; hoje, apenas algumas
margaridas Michaelmas púrpuras, fora de tempo. O gramado
e os caminhos mostravam sinais de poucos cuidados.
Resumindo o quadro, o policial pensou: "Na certa,
insuficiência de fundos para gastar com jardineiros; mas
gostam de flores. A casa precisa de pintura. Quase todas as
casas de hoje precisam. Um lugarzinho agradável."
Quando o seu carro parou na porta da frente, o sargento
Fletcher se aproximou, vindo do lado da casa. Lembrava,
com sua postura militar, um soldado da Guarda, e era capaz
de dar cinco inflexões diferentes a uma mesma palavra.
— Senhor.
— Ah, você está aí, Fletcher.
— Senhor — disse o sargento.
— Novidades?
— Já terminamos com a casa, senhor. Parece que Scherz
não deixou impressões digitais em parte alguma. Usava luvas,
naturalmente. Não há sinais de arrombamento nas portas e
janelas. Parece que ele veio de Medenham de ônibus,
chegando aqui às seis horas. A porta lateral da casa estava
trancada às cinco e meia, segundo me disseram. Parece que
ele entrou pela porta da frente. A srta. Blacklock afirma que
essa porta só é trancada quando fecham a casa, à noite. A
empregada, por outro lado, diz que a porta passou toda a
tarde trancada..., mas ela é capaz de dizer qualquer coisa. O
senhor vai ver: muito temperamental. Refugiada da Europa
Central.
— Difícil de tratar, hein?
— Senhor! — replicou, com emoção, o sargento Fletcher.
Craddock sorriu.
Fletcher prosseguiu no relatório:
— O sistema elétrico está em ordem. Ainda não
descobrimos como ele apagou as luzes. Apenas um circuito
foi desligado: sala de estar e saleta de entrada. A instalação e
a fiação são antiquadas. Mas não percebo como ele pode ter
mexido na caixa de luz, que fica perto da copa: teria de
atravessar a cozinha, e a empregada o teria visto.
— A não ser que fosse sua cúmplice.
— É bem possível. Ambos são estrangeiros... e eu não
confio nela, nem um pouco.
Craddock notou dois grandes e assustados olhos negros
espreitando por uma janela ao lado da porta da frente. Pouco
se via do rosto, amassado contra a vidraça.
— É aquela ali?
— Ela mesma, senhor.
O rosto desapareceu. Craddock tocou a campainha.
Após longa espera, a porta foi aberta por uma jovem bonita,
de cabelos castanhos e ar esnobe.
— Inspetor detetive Craddock — disse o policial.
A moça o encarou friamente, com seus belos olhos cor de
avelã:
— Entre. A srta. Blacklock está esperando.
A saleta de entrada, segundo Craddock observou, era longa e
estreita, e com um número enorme de portas. A jovem
abriu uma porta à esquerda, e disse:
— Inspetor Craddock, tia Letty. Mitzi não quer abrir a
porta. Trancou-se na cozinha e está gemendo e soluçando
sem parar. Acho que ninguém vai almoçar hoje nesta casa.
E acrescentou, olhando para Craddock, antes de sair,
fechando a porta atrás de si:
— Ela não gosta da polícia.
Craddock adiantou-se para cumprimentar a proprietária de
Little Paddocks.
À sua frente estava uma mulher alta, de uns sessenta anos,
ainda atraente. Seus cabelos grisalhos eram naturalmente
ondulados, e formavam uma moldura elegante para um rosto
inteligente e decidido. Tinha olhos cinzentos, muito vivos,
um queixo reto, resoluto. Estava com uma atadura na orelha
esquerda. Não usava pintura e vestia-se com simplicidade:
uma saia, um casaco de tweed e um suéter. No pescoço, um
ornamento que não combinava muito com o resto de sua
aparência: um colar antigo, um toque vitoriano que indicava
um traço de sentimentalismo um tanto inesperado.
Ao seu lado, bem perto, estava uma mulher da mesma idade.
Sua cabeleira revolta mal era contida por uma rede; seu rosto
redondo não escondia seu nervosismo. Craddock não teve
dificuldade em reconhecer "Dora Bunner, amiga", como
rezavam as anotações do guarda Legg, acompanhadas de um
comentário pessoal: "Biruta!"
A voz da srta. Blacklock era educada, agradável.
— Bom dia, inspetor Craddock. Esta é a srta. Bunner, minha
amiga, que me ajuda a tomar conta da casa. Não quer se
sentar? Fuma, por acaso?
— Não quando estou de serviço, minha senhora.
— Ah, mas que pena!
Com olhos habituados a isso, Craddock examinou a sala de
um relance. Uma típica sala de estar vitoriana. Duas janelas
compridas neste lado, um janelão ao fundo... cadeiras, sofá...
mesa de centro com um grande jarro de crisântemos... outro
jarro no peitoril da janela... tudo fresco, agradável, embora
sem grande originalidade. A única nota esquisita era um
pequeno vaso de prata cheio de violetas murchas numa
mesinha ao lado do arco que separava as duas partes da sala.
Como não lhe podia passar pela cabeça que a srta. Blacklock
tolerasse a permanência de flores mortas dentro de casa,
presumiu que fosse a única indicação de que alguma coisa
fora do comum acontecera para perturbar a rotina de uma
casa bem administrada.
— Creio, srta. Blacklock, que esta é a sala em que... em que o
incidente ocorreu?
— Foi aqui.
— O senhor devia ter visto ontem à noite — exclamou a srta.
Bunner. — Uma confusão e tanto! Mesinhas derrubadas,
uma com a perna quebrada... as pessoas tropeçando umas
nas outras no escuro... alguém esqueceu um cigarro aceso
em cima de um móvel. As pessoas, os mais moços
principalmente, são tão descuidadas com essas coisas. A
sorte é que nenhum dos bibelôs de porcelana se quebrou...
Gentilmente, mas com firmeza, a srta. Blacklock a
interrompeu:
— Tudo isso, Dora, por mais desagradável que tenha sido,
não tem muita importância. Será melhor se nós apenas
respondermos às perguntas do inspetor Craddock.
— Obrigado, minha senhora. Daqui a pouco falaremos do
que aconteceu ontem à noite. Primeiro, quero que me conte
quando viu pela primeira vez o morto... Rudi Scherz.
— Rudi Scherz? — a srta. Blacklock pareceu surpreender-se.
— Era esse o nome dele? Pensei... bom, não importa. Eu o
conheci num dia em que fui a Medenham para umas
compras... deixe-me ver... há umas três semanas. Nós, a srta.
Bunner e eu, fomos almoçar no Hotel Royai Spa. Quando
estávamos saindo, chamaram o meu nome. Eu me voltei e
era esse rapaz. "Não é a srta. Blacklock?", ele perguntou, e
disse que talvez eu não me lembrasse, mas era o filho do
dono do Hotel des Alpes, em Montreux, onde minha irmã e
eu ficamos, quase um ano, durante a guerra.
— Hotel des Alpes, Montreux — anotou Craddock. — E a
senhora se lembrava dele, srta. Blacklock?
— Não. Não tinha a menor recordação de já tê-lo visto. Esses
rapazes de hotéis são todos iguais. Mas nós passamos uma
temporada muito agradável em Montreux, e o proprietário
tinha sido muito gentil, e por isso tentei ser gentil e disse
que esperava que ele estivesse gostando da Inglaterra; ele
disse que sim, que o pai o mandara passar seis meses aqui,
para aprender administração de hotéis. Tudo parecia muito
natural.
— E depois disso?
— Foi... é, deve ter sido há uns dez dias, ele apareceu aqui
inesperadamente. Eu fiquei muito surpreendida. Ele pediu
desculpas por me aborrecer, mas disse que eu era a única
pessoa que ele conhecia na Inglaterra. Disse que precisava
de dinheiro com a maior urgência, para voltar para a Suíça,
porque a mãe estava passando muito mal.
— Mas Letty não lhe deu a menor atenção — interrompeu a
srta. Bunner.
— Era uma história muito esquisita — continuou a srta.
Blacklock. — Achei que ele não era boa coisa. Aquele
negócio de precisar do dinheiro para voltar à Suíça era
idiotice. O pai poderia facilmente providenciar tudo
telegrafando para cá. Esse pessoal de hotel é muito unido.
Suspeitei que ele tivesse furtado dinheiro ou coisa parecida.
Ela fez uma pausa e continuou, secamente:
— Não pense que tenho coração de pedra. Fui secretária de
um grande financista durante muitos anos, e me habituei a
pedidos de dinheiro. Conheço praticamente todas as
histórias. A única coisa que me surpreendeu — acrescentou,
pensativa — foi ele ter desistido com tanta facilidade. Foi
logo embora, sem dizer mais nada. Como se não tivesse a
menor esperança de conseguir o dinheiro.
— A senhora acredita, agora, que tudo não passou de um
pretexto para conhecer a casa?
A srta. Blacklock concordou, sem pestanejar.
— É exatamente o que penso... agora. Quando estava
saindo, ele fez uns comentários sobre as salas. Disse: "A
senhora tem uma sala de jantar muito bonita" (o que não é
verdade, ela é estreita e escura), só como pretexto para
entrar e dar uma olhada. E depois pulou na minha frente
para abrir a porta. Acho que era para examinar o trinco. Na
verdade, nós nunca trancamos a porta da frente antes de
anoitecer. Quase todo mundo faz assim por aqui. Qualquer
pessoa poderia ter entrado.
— E a porta lateral? Há uma porta que dá para o jardim,
não?
— Há. Eu passei por ela quando fui guardar os patos, pouco
antes das pessoas começarem a chegar.
— Estava trancada quando a senhora saiu?
A srta. Blacklock franziu a testa.
— Não me lembro... acho que sim. Pelo menos, eu a
tranquei quando voltei.
— Isso foi por volta de seis e quinze?
— Mais ou menos.
— E a porta da frente?
— Não costuma ser trancada até bem mais tarde.
— Então, Scherz poderia ter entrado facilmente por ela. Ou
poderia ter se esgueirado para dentro enquanto a senhora
estava ocupada com os patos. Ele já conhecia o interior da
casa e provavelmente tomara nota de diversos prováveis
esconderijos... armários etc. É... tudo parece muito claro.
— Desculpe, mas não concordo — disse a srta. Blacklock.
— Por que razão uma pessoa teria todo esse trabalho para
assaltar esta casa, ainda mais com aquela história ridícula de
"mãos ao alto"?
— A senhora guarda muito dinheiro em casa, srta. Blacklock?
— Umas cinco libras naquela escrivaninha ali e, talvez, uma
ou duas em minha bolsa.
— Jóias?
— Um par de brincos e broches e este colar que estou
usando. O senhor tem de concordar, inspetor, que a história
toda é absurda.
— Não foi assalto nenhum — exclamou a srta. Bunner. — Eu
já lhe disse, Letty, mais de uma vez. Foi vingança! Porque
você não lhe quis dar o dinheiro! Ele atirou em você duas
vezes... de propósito.
— Ah — disse Craddock. — Chegamos então à noite de
ontem. O que aconteceu exatamente, srta. Blacklock?
Conte-me, com suas palavras, tudo de que se lembra.
A srta. Blacklock refletiu por um momento.
— O relógio bateu as horas — ela disse. — Aquele, na lareira.
Lembro-me de ter dito que, se alguma coisa ia acontecer,
não ia demorar. Então, o relógio deu as horas. Ficamos todos
prestando atenção, sem dizer nada. É um carrilhão. Não
tinha acabado de soar a meia hora quando as luzes se
apagaram.
— Que luzes estavam acesas?
— Os apliques, aqui e no outro lado da sala. A lâmpada de pé
e os dois abajures estavam apagados.
— Houve alguma explosão ou ruído, imediatamente antes de
as luzes se apagarem?
— Creio que não.
— Tenho certeza de que houve um clarão — disse Dora
Bunner. — E um estampido.
— E depois, srta. Blacklock?
— A porta se abriu...
— Qual delas? Há duas, aqui.
— Oh, esta aqui. Aquela de lá não se abre; é falsa. A porta se
abriu e ele apareceu... um homem mascarado, com um
revólver. Parecia fantástico demais, mas é claro que, na
hora, pensei que fosse apenas uma brincadeira idiota. Ele
disse alguma coisa... não me lembro bem...
— Mãos ao alto, ou atiro! — contribuiu a srta. Bunner,
dramaticamente.
— Algo parecido — concordou a srta. Blacklock, sem muita
certeza.
— E todos levantaram as mãos?
— Mas, claro — disse a srta. Bunner. —Todos nós. Fazia
parte da brincadeira, entende?
— Eu, não — disse a srta. Blacklock, rispidamente. — Achei
que era uma bobagem. E tudo aquilo me aborrecia bastante.
— E então?
— A lanterna estava bem nos meus olhos. Fiquei meio tonta.
De repente, por incrível que pareça, ouvi uma bala passar
zunindo pela minha cabeça e cravar na parede atrás de mim.
Alguém gritou, e senti uma dor, como uma queimadura, na
orelha, e ouvi o segundo tiro.
— Foi apavorante — esclareceu a srta. Bunner.
— E o que aconteceu depois, srta. Blacklock?
— É difícil dizer... eu estava tão abalada pela dor e pela
surpresa. A... a pessoa se voltou para o outro lado e pareceu
tropeçar: houve outro tiro e a sua lanterna se apagou. Todo o
mundo começou a gritar e a correr de um lado para o outro,
uns tropeçando nos outros.
— Onde a senhora estava?
— Perto da mesa. Estava com aquele vaso de violetas na mão
— disse a srta. Bunner, sem se conter.
— Eu estava aqui — a srta. Blacklock se dirigiu para a
mesinha perto do arco. — E, para ser exata, era a caixa de
cigarros que estava em minha mão.
O inspetor Craddock examinou a parede atrás dela. Os dois
buracos de bala eram bem visíveis, mas os projéteis já
haviam sido extraídos e levados embora, para serem
comparados com o revólver.
— A senhora escapou por pouco — disse ele, calmamente.
— Ele atirou nela, mesmo — disse a srta. Bunner. — Foi de
propósito! Eu vi. Ele botou o foco da lanterna em todo o
mundo, um por um, até encontrá-la, aí não mudou mais de
posição e então atirou nela, de verdade. Ele queria matar
você, Letty.
— Dora, meu bem, não sei por que você meteu isso na
cabeça.
— Ele atirou você — insistiu Dora, teimosamente. — Ele
queria acertar em você e, quando errou, matou-se. Tenho
certeza absoluta de que foi assim que aconteceu!
— Nunca passou pela minha cabeça que ele acabasse se
matando — disse a srta. Blacklock. — O seu tipo não era o
de quem faz uma coisa dessas.
— A senhora achava, pelo menos até serem disparados os
tiros, que tudo não passava de uma brincadeira?
— É claro. O que mais poderia pensar?
— E quem poderia ser o autor da brincadeira?
— No começo, você pensou que fosse o Patrick — Dora
Bunner lembrou.
— Patrick? — perguntou o policial, repentinamente.
— Um rapaz, meu primo, Patrick Simmons — disse a srta.
Blacklock, nitidamente aborrecida com a amiga. —
Realmente, quando vi o anúncio, pensei que fosse uma
brincadeira sua, mas ele negou de pés juntos.
— Foi então que você ficou preocupada, Letty — continuou
a srta. Bunner. — Você fingia que não estava, mas estava.
Era um convite para um homicídio... e era o seu homicídio!
E, se o homem não tivesse errado, você estaria morta. E o
que ia ser de nós todos?
Dora Bunner estremeceu ao dizer essas palavras. A
expressão de seu rosto demonstrava claramente que estava
na iminência de cair no choro.
A srta. Blacklock lhe bateu no ombro.
— Está tudo bem, Dora... não se emocione à toa. Não lhe faz
bem algum. Está tudo bem. Tivemos uma experiência muito
desagradável, mas já acabou tudo. Você precisa se controlar
— acrescentou ela —, por mim, Dora. Eu dependo de você
para tomar conta da casa, você sabe muito bem disso. Não é
hoje que chega a roupa que foi para lavar?
— Ah, meu Deus, que sorte você me ter lembrado, Letty!
Preciso verificar se eles devolveram aquela fronha que
estava faltando. Vou tomar nota para não esquecer. Vou
tratar disso agora mesmo.
— E leve essas violetas embora — disse a srta. Blacklock. —
Não há nada que eu mais deteste do que flores mortas.
— Que pena. Eu as colhi ontem, estavam tão frescas. Não
duraram nada... ah, meu Deus, devo ter esquecido de pôr
água no vaso. Imagine! Estou sempre me esquecendo das
coisas. Agora vou ver se a roupa limpa já chegou. Já está na
hora.
Saiu, reconfortada e tranqüila.
— Ela não é uma pessoa forte — explicou a srta. Blacklock —
e não pode se excitar. Alguma outra coisa que o senhor
desejasse saber, inspetor?
— Sim, apenas quantas pessoas vivem aqui e algumas
informações sobre elas.
— Pois não. Além de Dora Bunner e eu, tenho dois jovens
primos morando comigo agora. Patrick e Julia Simmons.
— Primos? Não são sobrinhos?
— Não. Chamam-me de tia Letty, mas na verdade são primos
afastados. A mãe deles é minha prima em segundo grau.
— Sempre moraram com a senhora?
— Ah não, só nos últimos dois meses. Moravam no sul da
França antes da guerra. Patrick entrou para a Marinha e Julia,
penso eu, foi trabalhar num ministério; ficou em Llandudno.
Quando acabou a guerra, a mãe me escreveu, perguntando
se não poderia aceitá-los como hóspedes... Julia está
aprendendo enfermagem no hospital geral de Milchester e
Patrick está estudando engenharia na universidade de lá.
Milchester, o senhor sabe, fica apenas a cinqüenta minutos
de ônibus, e tive o maior prazer em alojá-los. Pagam uma
pequena quantia por cama e comida, e não há problema
algum.
Com um sorriso, ela acrescentou:
— Gosto de ter gente jovem por perto.
— Há também uma sra. Haymes, não?
— Há. Ela trabalha em Dayas Hall, para a sra. Lucas, como
assistente do jardineiro. A casa de jardineiro de lá está
ocupada pelo velho jardineiro e sua mulher, e a sra. Lucas
me pediu que a alojasse. É uma moça simpática. O marido
foi morto na Itália, e ela tem um filho de oito anos num
colégio interno; ele virá para cá nas férias.
— E empregados domésticos?
— Um jardineiro vem às terças e sextas. A sra. Huggins vem
da cidade cinco dias por semana e fica toda a manhã. E ainda
tenho uma refugiada estrangeira, nem sei pronunciar o seu
nome direito, que ajuda na cozinha. O senhor vai ter
problemas com Mitzi, acho eu. Sofre de mania de
perseguição, ou coisa parecida.
Craddock concordou, com um gesto de cabeça. Lembrava-
se de mais um dos valiosos comentários do guarda Legg.
Além de colocar "Biruta" ao lado do nome de Dora Bunner,
e "Cem por cento" junto ao de Letitia Blacklock, ele
ornamentara a ficha de Mitzi com uma palavra: "Mentirosa".
Como se tivesse lido os seus pensamentos, a srta. Blacklock
disse:
— Mas, por favor, não julgue mal a pobre coitada só porque
ela é mentirosa. Eu realmente acredito que exista uma base
de verdade atrás das suas mentiras; é assim com a maioria
dos mentirosos doentios. Quero dizer... por exemplo, as suas
histórias de atrocidades aumentam cada vez que ela as conta:
praticamente tudo o que já se publicou a esse respeito
aconteceu com ela ou com parente próximo; no entanto,
tenho certeza de que ela realmente sofreu um choque
violento e viu, pelo menos, um parente seu ser morto. Acho
que muitos refugiados sentem, talvez com razão, que
atrairão mais atenção e simpatias na medida que mais
tenham passado por atrocidades, e por isso exageram e
inventam. Para falar a verdade — ela acrescentou —, Mitzi é
uma pessoa irritante. Ela nos deixa malucos; é mal-humorada
e desconfiada, está sempre tendo "pressentimentos" e se
considerando ofendida. Mas, apesar de tudo, tenho pena
dela. Também, quando ela quer, sabe cozinhar muito bem
— concluiu, com um sorriso.
— Vou tentar não excitá-la mais do que o estritamente
necessário — disse Craddock, para tranqüilizá-la. — Foi a
srta. Julia Simmons quem abriu a porta para mim?
— Foi. Gostaria de falar com ela agora? Patrick saiu. Phillipa
Haymes está trabalhando em Dayas Hall.
— Obrigado, srta. Blacklock. Quero mesmo falar com a srta.
Simmons, se for possível.

CAPÍTULO 6
JULIA, MITZI, PATRICK

I
Sem saber exatamente a razão, Craddock irritou-se com o ar
de superioridade ostentado por Julia, quando esta entrou e
ocupou a cadeira da qual Letitia Blacklock há pouco se
levantara. Fixando nele um olhar imperturbável, ela esperou
por suas perguntas. A srta. Blacklock saíra para deixá-lo à
vontade.
— Gostaria que me falasse sobre o que houve ontem à noite,
srta. Simmons.
— Ontem à noite? — murmurou ela, com frieza. — Ah, nós
todos dormimos como pedras. Reação normal, eu acho.
— Eu falo de ontem à noite a partir de seis horas.
— Ah, sei. Bem, apareceu uma porção de chatos...
— Quem eram?
Ela novamente o olhou com frieza.
— O senhor ainda não sabe?
— Quem faz as perguntas sou eu, srta. Simmons — disse ele,
com um sorriso.
— Desculpe. É que acho tão aborrecido repetir as coisas...
Pelo visto, o senhor não acha... Bem, vieram o coronel e a
sra. Easterbrook, as srtas. Hinchliffe e Murgatroyd, a sra.
Swettenham com Edmund Swettenham, e a sra. Harmon,
mulher do vigário. Chegaram nessa mesma ordem. E, se
quer saber o que disseram, foram exatamente as mesmas
coisas, uns depois dos outros. "Estou vendo que vocês já
ligaram o aquecimento central" e "Que lindos crisântemos!"
Craddock teve que morder os lábios: a imitação era perfeita.
— A única exceção foi a sra. Harmon. Ela é um amor. Foi
entrando, com o chapéu quase caindo da cabeça e os sapatos
desamarrados, e logo perguntando quando ia começar o
homicídio. Ficou todo mundo encabulado, porque todos
estavam fingindo ter aparecido aqui por acaso. A tia Letty,
com aquele jeitão seco que ela tem, disse que ia começar a
qualquer momento. E então o relógio começou a dar as
horas e, quando acabou, as luzes se apagaram, a porta se
abriu e apareceu uma figura mascarada, que disse: "Mãos ao
alto, pessoal", ou coisa parecida. Exatamente como num
filme de terceira categoria. Realmente ridículo. E então ele
disparou dois tiros na tia Letty e, de repente, o negócio não
era mais ridículo.
— Onde estavam todos, quando isso aconteceu?
— Quando as luzes se apagaram? Ora, em pé por aí, sabe
como é... Hinch (srta. Hinchliffe) estava parada em frente à
lareira, de pernas abertas e mãos na cintura, como um
homem.
— Estavam todos nesta parte da sala, ou do outro lado depois
do arco?
— Quase todo mundo estava aqui. Patrick tinha ido para lá,
para apanhar o sherry. Acho que o coronel Easterbrook foi
atrás dele. mas não tenho certeza. Nós... nós estávamos
todos espalhados.
— E a senhorita?
— Acho que eu estava perto da janela. Tia Letty tinha ido
apanhar os cigarros.
— Na mesa perto do arco?
— E... e foi então que as luzes se apagaram e começou a cena
de cinema.
— O sujeito tinha uma lanterna bastante forte... o que fez
com
ela?
— Ora, ele projetou a luz em cima da gente. Era muito
forte... não dava para agüentar sem fechar os olhos.
— Quero que responda isto com muito cuidado, srta.
Simmons.
Ele segurou a lanterna numa só posição, ou ficou movendo o
facho de luz?
Julia parou para pensar. Já estava bem menos fria e distante.
— Ele a moveu — ela respondeu, em voz pausada — como
um foco de luz numa pista de dança. Estava bem nos meus
olhos e depois deu a volta pela sala; então, vieram os tiros.
Dois tiros.
— E depois?
— Ele rodopiou... e Mitzi começou a berrar como uma
sirene de ambulância: a lanterna se apagou e houve outro
tiro. Depois, a porta se fechou (ela se fecha sozinha, sabe,
devagarinho, rangendo... é meio sinistro) e ficamos todos no
escuro, sem saber o que fazer, com a pobre da Bunny
soltando gritinhos como um coelhinho, e a Mitzi berrando
do outro lado da porta.
— Na sua opinião, o homem se feriu deliberadamente ou
tropeçou e o revólver disparou por acidente?
— Não tenho a menor idéia. Foi tudo tão teatral. Para falar a
verdade, eu pensei que fosse uma brincadeira estúpida... até
ver o sangue escorrendo da orelha da tia Letty. Mesmo que
alguém quisesse disparar um revólver para fazer a coisa ficar
mais realista, presume-se que tivesse o cuidado de atirar para
o alto, não acha?
— E claro. Acredita que ele pudesse ver claramente em
quem estava atirando? Quero dizer, a srta. Blacklock estava
bem visível à luz da lanterna?
— Não sei. Não estava olhando para ela, mas para ele.
— Onde quero chegar é a isto: a senhorita pensa que o
sujeito estava apontando diretamente para ela? Unicamente
para ela, entende?
Julia pareceu um pouco surpreendida com a pergunta.
— O senhor quer dizer que ele atirou nela de propósito?
Ah, creio que não... Afinal de contas, se quisesse dar um tiro
nela, haveria uma porção de oportunidades melhores. Não
faria sentido reunir todos os amigos e vizinhos só para
dificultar. Ele poderia ficar de tocaia atrás de uma cerca, no
velho estilo irlandês, qualquer dia da semana e
provavelmente ninguém veria nada.
Essas palavras, pensou Craddock, respondiam muito bem à
opinião de Dora Bunner, que acreditava num ataque
proposital contra Letitia Blacklock.
Com um suspiro, ele disse:
— Obrigado, srta. Simmons. Acho que vou conversar com
Mitzi, agora.
— Cuidado com as unhas dela — preveniu Julia. — Ela é
uma fera!

II
Craddock, levando Fletcher de contrapeso, encontrou Mitzi
na cozinha. Ela estava fazendo massa de pastel, e levantou os
olhos com desconfiança, ao vê-los entrar.
Seus cabelos negros caíam sobre a testa, estava visivelmente
mal-humorada, e seu avental vermelho, sobre uma saia
verde, realçava ainda mais a sua palidez.
— O que veio fazer em minha cozinha, sr. polícia? É da
polícia, não é? Ah, perseguição não acabar nunca, nunca...
eu já devia acostumar. Dizia que Inglaterra ia ser diferente,
mas não, não, é tudo mesma coisa. Sr. polícia veio me
torturar, fazer eu dizer coisas, mas eu não dizer nada. Pode
arrancar minhas unhas, encostar fósforos acesos na minha
pele... ah, pode fazer até pior. Mas eu não falar, ouviu? Não
digo nada... nada, nada, nada. Pode me mandar para campo
de concentração, não importo.
Craddock a encarou, pensativo, escolhendo o melhor
método de ataque. Finalmente, suspirou e disse:
— Muito bem, apanhe seu casaco e seu chapéu.
— O que diz? — perguntou Mitzi, espantada.
— Apanhe seu chapéu e seu casaco e vamos embora. Esqueci
o aparelhinho de arrancar unhas e o resto do meu
equipamento ficou na delegacia. Tem as algemas aí,
Fletcher?
— Senhor! — disse Fletcher, com entusiasmo.
— Mas eu não querer ir — gemeu Mitzi, recuando.
— Então tem de responder com bons modos a todas as
perguntas que forem feitas com bons modos. Se quiser, pode
ter um advogado presente.
— Advogado? Não gostar de advogado. Não querer
advogado. Deixou de lado o rolo de amassar pastéis, limpou
as mãos num
pano e se sentou.
— O que senhor quer saber? — perguntou.
— Quero a sua versão do que aconteceu aqui ontem à noite.
— O senhor saber muito bem o que aconteceu.
— Mas quero a sua versão.
— Eu querer ir embora. Ela contou isso? Foi quando vi no
jornal convidarem para crime. Eu querer ir embora. Ela não
deixar. Uma mulher muito dura... não gostar da gente. Fez
eu ficar. Mas eu sabia... eu sabia o que ia acontecer. Eu sabia
que iam me matar.
— Mas não mataram, não é?
— Não — ela admitiu, contrafeita.
— Então, vamos lá: conte o que houve.
— Eu estar nervosa. Ah, tão nervosa. Desde cedo. Ouvir
coisas. Gente andando, rondando. Uma vez, ouvir uma
pessoa se esgueirando na saleta de entrada... mas é apenas
aquela sra. Haymes entrando pela porta do lado "para não
sujar a escada da frente", ela diz. Como se ela fazer muita
questão! É nazista, aquela mulher... com aquele cabelo louro,
aquele olho azul, aquele jeito de ser melhor que eu,
pensando que eu sou uma... uma porcaria...
— Não se preocupe com a sra. Haymes.
— Quem é que ela pensar que é? Tem curso de universidade,
como eu? Tem diploma de Economia? Não tem, não: é
jardineira... vive cavando, aparando grama, para ganhar um
dinheirinho no fim do semana. Por que ela ser uma
senhora?
— Eu disse para não se preocupar com a sra. Haymes. Vamos
em frente.
— Eu apanhar sherry e os cálices e as coisas de comer que
fiz, muito gostosas, e levei para sala de visitas. Então, toca
campainha e eu abro porta. Uma porção de vezes eu abro
porta. E humilhação..., mas eu fazer. E depois volto para
copa e vou limpar prataria, e fico pensando que é idéia boa,
porque, se alguém vem matar, * tenho a faca de trinchar,
bem afiada, aqui pertinho de mim.
— Muito bem pensado.
— Então, de repente, ouvir tiros. Penso: "Chegou hora, está
começando." Correr pela sala de jantar (a outra porta, ela não
abre), parar um momento para ouvir e então outro tiro e um
barulhão, e eu mexo no trinco, mas estar trancado no outro
lado. Eu fechada, como rato em ratoeira. Eu louca de medo.
Eu gritar e gritar e gritar e bater com mãos na porta. Enfim...
enfim, eles abrem porta e me deixam sair. Então eu apanhar
velas, muitas velas, muitas. Luzes acendem, e eu vejo
sangue, sangue! Ach, Gott in Himmel, o sangue! Não é
primeira vez que vejo sangue. Meu irmãozinho... eu vi
morrer, na minha frente... e sangue nas ruas... gente ferida,
morrendo... eu...
— Está bem — disse o inspetor Craddock. — Muito
obrigado.
— E agora — disse Mitzi, dramaticamente — pode prender e
levar para cadeia!
— Hoje, não — disse o policial.

III
Quando Craddock e Fletcher atravessavam a saleta, a porta
da frente se abriu com violência e um rapaz, alto e bonito,
quase os atropelou.
— Os guardiões da lei! — exclamou o jovem.
— Sr. Patrick Simmons?
— Certo, inspetor. O senhor é o inspetor, e o outro é o
sargento, correto?
— Correto, sr. Simmons. Podemos conversar por um
minuto, por favor?
— Estou inocente, inspetor, juro que estou.
— Vamos, sr. Simmons, não se faça de tolo. Tenho que ouvir
outras pessoas ainda, e não posso perder tempo. Que sala é
esta? Podemos entrar?
— É o estúdio..., mas ninguém estuda aí.
— Pensei que o senhor estivesse estudando — disse
Craddock.
— Descobri que não conseguia me concentrar na
matemática, e vim para casa.
Sem prestar atenção às suas brincadeiras, o inspetor
Craddock pediu, e obteve, detalhes completos de
identificação e serviço militar.
— Agora, sr. Simmons, descreva o que aconteceu ontem à
noite.
— Nós caprichamos, inspetor. Mitzi fez canapés e a tia Letty
abriu uma garrafa nova de sherry...
Craddock interrompeu:
— Uma nova garrafa? Havia uma outra?
— Havia. Pela metade. Mas tia Letty implicou com ela,
parece.
— Ela estava nervosa, na sua opinião?
— Não, creio que não. Ela é muito sensata. Foi a velha
Bunny, eu acho, quem a exasperou um pouco... passou o dia
inteiro falando em tragédias.
— A srta. Bunner estava realmente preocupada, então?
— Ah, estava. Divertiu-se muito.
— Ela levou o anúncio a sério?
— Claro, ficou apavorada.
— Parece que a srta. Blacklock, quando leu o anúncio, teve a
impressão de que o senhor tinha alguma coisa a ver com
aquilo. Por quê?
— Ora, porquê! Eu levo a culpa de tudo o que acontece por
aqui!
— Mas o senhor não teve coisa alguma a ver com o anúncio,
não foi, sr. Simmons?
— Eu? Nem sonhando!
— Alguma vez já conversou com esse Rudi Scherz, ou já o
tinha visto?
— Nunca.
— No entanto, é o tipo de brincadeira que poderia ter feito,
hein?
— Quem lhe disse isso? Só porque uma vez botei uma torta
de maçãs embaixo dos lençóis da Bunny... ou porque
mandei uma carta a Mitzi, dizendo que a Gestapo estava
atrás dela...
— Conte-me a sua versão do que aconteceu.
— Eu tinha ido apanhar as bebidas quando, de repente,
Shazam! As luzes se apagaram. Eu me virei e vi um sujeito
parado na porta, dizendo: "Mãos ao alto", e todo mundo
começou a dar gritinhos. No momento exato em que eu me
decidi a pular em cima dele, o rapaz começou a atirar. Logo
depois se esborrachou no chão; sua lanterna se apagou e
ficamos novamente no escuro. O coronel Easterbrook
começou a gritar ordens com sua voz de quartel. "Luzes",
ele disse, e pensa que meu isqueiro quis acender? Claro que
não, como sempre.
— Pareceu-lhe que o intruso estava apontando
particularmente para a srta. Blacklock?
— Ah, como eu ia saber? Tenho a impressão de que
começou a atirar só para se distrair um pouco... e então
percebeu que tinha ido longe demais.
— E se matou?
— Pode ser. Quando vi o seu rosto, pareceu-me que era o
tipo do ladrãozinho barato que perde a cabeça à toa.
— E nunca o tinha visto antes?
— Nunca.
— Obrigado, sr. Simmons. Quero ouvir as outras pessoas que
estavam aqui ontem à noite. Qual seria a melhor forma de
encontrá-las?
— Bem, a nossa Phillipa, a sra. Haymes, trabalha em Dayas
Hall, cujos portões ficam bem em frente ao nosso. Depois,
tente os Swettenham, que moram logo adiante. Qualquer
pessoa lhe ensinará o caminho.

CAPÍTULO 7
ENTRE OS PRESENTES

I
Dayas Hall não escondia as cicatrizes da guerra, visíveis em
diversos setores dos jardins, onde ervas daninhas ou inúteis
cresciam vigorosamente.
Uma parte da horta, entretanto, apresentava sinais de
disciplina, e ali Craddock encontrou um homem idoso, de
cara amarrada, que pensava na vida, apoiado no cabo de uma
enxada.
— Está procurando a sra. Haymes? Não sei por onde anda.
Ela só faz mesmo o que bem entende, nunca ouve as outras
pessoas. Eu podia ajudar, com muito boa vontade, mas pra
quê? Não adianta, essa mocidade de hoje não ouve nada que
se ensina! Pensam que sabem tudo, só porque usam calças
compridas e já deram umas voltinhas em cima de um trator.
Mas, aqui, o problema é de jardinagem. E isso não se
aprende num dia. Jardinagem, isso é que é.
— Parece que é mesmo — concordou Craddock. O velho
aceitou o comentário como um incentivo.
— Agora, preste atenção, moço, o que que eu posso fazer
num lugar deste tamanho? Antigamente, eram três homens
e um menino. E não se pode fazer por menos. E não há
muita gente por aí que trabalhe tanto quanto eu. Tem vezes
que não largo antes das oito. Antes das oito horas da noite!
— Como o senhor consegue? Usa lanterna?
— Não, não é nesta época do ano. Claro. E no verão que eu
faço isso, no verão.
— Ah — disse Craddock. — Bem, vou procurar a sra.
Haymes.
O homem se interessou.
— Por quê? O senhor não é da polícia? Ela se meteu em
alguma complicação? Ou foi por causa daquela confusão em
Little Paddocks? A tal história dos mascarados que assaltaram
a casa? Ah, uma coisa assim não aconteceria antes da guerra.
Devem ser desertores, aposto. Gente desesperada, andando
por aí. Por que o Exército não prende esses sujeitos?
— Não faço idéia — disse Craddock. — Imagino que o
assalto esteja sendo muito comentado.
— Ora, se está... Onde é que vamos parar? Isso disse o Ned
Barker. Ele acha que é por causa do cinema. Mas o Tom
Riley acha diferente: o problema é todos esses estrangeiros
que vieram para cá. Ele disse que tem certeza de que aquela
moça que cozinha para a srta. Blacklock, aquela de mau
gênio, está metida na história. Disse que ela é comunista, se
não for coisa pior, e ninguém precisa de gente assim por
aqui. Agora a Marlene, a moça que trabalha no bar, acha que
deve ter alguma coisa que valha muito dinheiro na casa da
srta. Blacklock. Ninguém imaginaria isso, diz ela, porque
ninguém pode ser mais simples que a srta. Blacklock, quer
dizer, sem falar daquele colar de pérolas que ela usa. "Só que
pode ser que as pérolas sejam de verdade...", ela disse; e a
Florrie (é a filha do velho Bellamy) então disse que era
besteira, que todo mundo podia ver que eram "jóias de
fantasia", foi como ela disse. Fantasia... maneira engraçada de
dizer que uma coisa é falsificada, o senhor não acha?
Antigamente, falava-se muito em "pérolas romanas" e em
"diamantes de Paris" (minha mulher era dama de companhia
de uma lady, e eu sei), mas é tudo a mesma coisa: vidro
puro! Aquela srta. Simmons, acho que também são essas
fantasias que ela usa... folhas de hera e besourinhos
dourados. Hoje em dia, não se vê muito ouro de verdade por
aí... até alianças de casamento eles estão fazendo dessa tal de
platina. Uma porcaria, na minha opinião.
O velho Ashe fez uma pausa, recuperou o fôlego, e
continuou:
— O Jim Huggins garantiu que a srta. Blacklock não guarda
muito dinheiro em casa; ele deve saber, porque é a mulher
dele que vai lá todo dia arrumar a casa, e aquela velha sabe
de tudo que acontece por perto dela. Abelhuda, sabe como
é?
— Ele disse qual era a opinião da sra. Huggins?
— Para ela, aquela Mitzi está metida na história. Mal-
humorada daquele jeito, e toda convencida, ainda por cima!
Outro dia mesmo, chamou a sra. Huggins de serviçal.
Craddock ficou parado por um momento, organizando
dentro da cabeça a parte essencial dos comentários do velho
jardineiro. Era uma boa visão panorâmica da opinião pública
rural de Chipping Cleghorn, embora não contivesse coisa
alguma que o pudesse auxiliar em seu trabalho. Começou a
afastar-se, enquanto o velho lhe dizia:
— Pode ser que ela esteja perto das macieiras. Deve estar
colhendo as maçãs; estou muito velho para isso.
Realmente, foi lá que Craddock encontrou Phillipa Haymes.
Sua primeira visão foi a de um belo par de pernas, em calças
de montaria, escorregando pelo tronco de uma árvore. Logo
surgiu Phillipa inteira, com o rosto corado e o cabelo
despenteado pelos galhos. Ela o encarou com um ar meio
assustado.
"Daria uma boa Rosalind", pensou Craddock
automaticamente; o detetive era um entusiasta de
Shakespeare, e desempenhara com muito sucesso o papel do
melancólico Jaques, numa apresentação de Como gostais,
em benefício do orfanato sustentado pela polícia.
Mas logo depois mudou de idéia. Phillipa Haymes era muito
dura para ser uma boa Rosalind; seus cabelos louros e sua
impassividade eram intensamente britânicos, mas de uma
Inglaterra do século XX e não do século XVI. Um britanismo
bem-educado e frio, sem uma centelha de malícia.
— Bom dia, sra. Haymes. Desculpe se a assustei. Sou o
inspetor Craddock, da polícia de Middleshire. Gostaria de
conversar um pouco.
— Sobre ontem à noite?
— Certo?
— Vai demorar? Vamos...
Ela olhou em volta, desconcertada, mas Craddock apontou
para um tronco caído.
— Sem cerimônia — disse ele. — Não quero interromper o
seu trabalho mais do que o necessário.
— Obrigada.
— É só uma questão de rotina. A que horas a senhora voltou
do trabalho ontem?
— Mais ou menos às cinco e meia. Eu me atrasei uns vinte
minutos porque precisava regar umas plantas na estufa.
— Ao chegar em casa, entrou por qual porta?
— A porta do lado. A gente corta caminho passando ao lado
dos patos e das galinhas; encurta caminho e não suja a
escada da frente. Eu, às vezes, no fim do dia, estou num
estado lastimável...
— A senhora sempre faz esse caminho?
— Sempre.
— A porta estava destrancada?
— Estava. No verão, ela costuma ficar escancarada. Mas nesta
época do ano, geralmente está fechada, mas não trancada.
Todo mundo vive entrando e saindo por ela. Eu a tranquei
quando entrei.
— Também faz isso sempre?
— Há uma semana. É que escurece por volta de seis horas,
percebe? A srta. Blacklock costuma sair para recolher os
patos e as galinhas mais tarde; mas geralmente ela passa pela
porta da cozinha.
— E a senhora tem certeza de que trancou a porta lateral
desta vez?
— Certeza absoluta.
— Certo, sra. Haymes. E o que fez quando entrou?
— Tirei os sapatos enlameados e fui para cima tomar um
banho e trocar de roupa. Quando desci, vi que havia uma
espécie de festinha. Até aquela hora eu não sabia coisa
alguma sobre o tal anúncio no jornal.
— Agora, por favor, descreva o que aconteceu na hora do
assalto.
— Bem, as luzes se apagaram de repente...
— Onde estava a senhora?
— Perto da lareira. Eu estava procurando o meu isqueiro,
que imaginava ter deixado por ali. As luzes se apagaram... e
todo mundo começou a dar risadinhas. Então, a porta se
abriu e apareceu aquele homem, jogando a luz da lanterna
em cima da gente, sacudindo um revólver e mandando que
levantássemos as mãos.
— Foi obedecido?
— Não por mim. Pensei que era tudo brincadeira, estava
cansada e, para falar a verdade, não estava realmente
disposta a erguer os braços.
— Na realidade, a senhora estava aborrecida com aquilo
tudo?
— Estava, mesmo. Então, o revólver disparou. Os tiros
foram ensurdecedores, e fiquei assustada de verdade. A luz
começou a dançar de repente, e a lanterna acabou caindo e
se apagando. Foi quando Mitzi começou a gritar. Parecia que
estavam matando um porco.
— A luz da lanterna era muito ofuscante, na sua opinião?
— Não, não muito. Mas era bastante forte. Caiu em cima da
srta. Bunner por um segundo, e ela parecia o fantasma de
um rabanete, de tão branca, e com a boca aberta e os olhos
esbugalhados.
— O homem moveu a lanterna de um lado para outro?
— Ah, sim, ele passeou a luz por toda a sala.
— Como se estivesse procurando alguém?
— Acho que não.
— E depois, sra. Haymes?
Phillipa Haymes franziu a testa.
— Ah, foi a maior confusão, uma gritaria... Edmund
Swettenham e Patrick Simmons acenderam os seus isqueiros
e saíram para a saleta de entrada; nós fornos atrás; alguém
abriu a porta da sala de jantar (as luzes não se tinham
apagado lá) e Edmund Swettenham deu um tremendo
bofetão na bochecha de Mitzi para tirá-la do acesso de
histeria. A partir daí ela melhorou bastante.
— A senhora viu o corpo do morto?
— Vi.
— Conhecia-o? Já o vira antes?
— Nunca.
— Acha que a morte foi acidental, ou pensa que ele se feriu
deliberadamente?
— Não tenho a menor idéia.
— Não o viu, na primeira vez que ele esteve na casa?
— Não. Acho que foi no meio da manhã, e eu não devia
estar em casa. Passo o dia todo fora.
— Muito obrigado, sra. Haymes. Só mais uma coisa. Tem
alguma jóia de valor? Anéis, braceletes, qualquer coisa
assim?
Phillipa sacudiu a cabeça.
— O meu anel de casamento... uns dois broches.
— E, tanto quanto saiba, não havia nada de especialmente
valioso na casa?
— Não. Quer dizer, alguns objetos de prata bem bonitos, mas
nada fora do comum.
—-Muito obrigado, sra. Haymes.

II
Quando Craddock se retirava, atravessando a horta, deparou
com uma senhora muito corada, o que talvez fosse
conseqüência da apertada cinta que usava.
— Bom dia — disse ela, belicosamente. — Quer alguma
coisa?
— Sra. Lucas? Sou o inspetor Craddock.
— Ah, entendo. Desculpe-me. Não gosto de estranhos se
metendo no meu jardim, atrapalhando os meus jardineiros.
Mas o senhor está apenas cumprindo suas obrigações.
— Exatamente.
— Eu gostaria de saber se pode acontecer uma repetição
daquele ultraje de ontem, em casa da srta. Blacklock. É uma
quadrilha, por acaso?
— Temos praticamente certeza, sra. Lucas, de que não foi
trabalho de um bando.
— Há muitos assaltos, hoje em dia. A polícia anda relaxando.
Craddock não respondeu.
— O senhor deve ter conversado com Phillipa Haymes, não?
— Queria ouvir a sua história, como testemunha ocular.

— Não poderia ter esperado até uma hora, poderia? Afinal,
seria mais justo interrogá-la na hora de descanso, que é dela,
do que no horário de trabalho, que é meu...
— Estou ansioso para voltar...
— O problema é que ninguém mais tem consideração, hoje
em dia. Também, ninguém mais trabalha direito. Chegam
com atraso, passam meia hora de mãos abanando, às dez
horas vão tomar café e, na hora de começar a trabalhar,
começa a chover. Quando é preciso cortar a grama, pode
contar que o cortador está com defeito. E a hora da saída é
sempre adiantada dez, quinze minutos.
— A sra. Haymes me disse que, ontem, saiu daqui às cinco e
vinte da tarde, e não às cinco horas.
— Ah, isso pode ser. É preciso reconhecer que a sra.
Haymes é muito dedicada ao trabalho, embora, muitas
vezes, não Consiga achá-la em parte alguma. Ela é muito
bem nascida, o senhor sabe, e nós temos a obrigação de
fazer alguma coisa por essas pobres viúvas de guerra.
Embora sempre existam aborrecimentos. As férias escolares
são muito longas, e ela exigiu que tivesse maior tempo livre
durante elas. Eu lhe disse que existem ótimos campos de
férias para onde se podem mandar as crianças; elas se
divertem muito mais do que agarradas nas saias das mães.
Não há necessidade alguma de passarem as férias com os
pais.
— Mas a sra. Haymes não recebeu a sugestão com bons
olhos, certo?
— Teimosa como uma mula, essa menina. Logo na época do
ano em que eu preciso ter a quadra de tênis aparada e
remarcada quase todos os dias. O velho Ashe não consegue
fazer uma linha reta. Mas acontece que o meu problema
ninguém leva em consideração!
— Com certeza, o salário da sra. Haymes é menor do que o
normal...
— Claro. Tudo tem que ter uma compensação.
— Evidentemente. Bom dia, sra. Lucas.

III
— Foi horrível — disse a sra. Swettenham, com ar satisfeito.
— Mas muito... muito horrível mesmo. Na minha opinião, o
pessoal da Gazette deveria ser muito mais cuidadoso com os
anúncios que eles aceitam. Quando eu o li, achei muito
esquisito. Foi o que eu disse, não se lembra, Edmund?
— A senhora se lembra do que estava fazendo quando as
luzes se apagaram, sra. Swettenham? — perguntou o
inspetor.
— Ah, tão parecido com as charadas do meu tempo de
criança! "Onde estava Moisés quando a luz se apagou?" A
resposta era, naturalmente, "no escuro". Como aconteceu
conosco ontem à noite. Todo mundo lá, sem saber o que ia
acontecer. E, de repente, aquela emoção, o senhor sabe
como é, quando a luz se apagou. E a porta se abriu; mal se
via o homem parado lá, com o revólver e aquela lanterna
que cegava a gente e a voz ameaçadora, dizendo: "A bolsa
ou a vida!" Ah, nunca me diverti tanto. É claro que logo
depois tudo ficou horrível, simplesmente horrível! Balas de
verdade, assoviando pelas orelhas da gente! Deve ter sido
igual aos Comandos, na guerra.
— Onde estava a senhora nessa ocasião, sra. Swettenham?
— Ora, deixe-me ver, onde é que eu estava? Com quem eu
estava conversando, Edmund?
— Não faço a menor idéia, mamãe.
— Acho que estava perguntando à srta. Hinchliffe o que ela
achava de dar óleo de fígado de bacalhau às galinhas durante
o inverno... Ou era a sra. Harmon? Não, ela tinha acabado de
chegar. Tenho a impressão de que estava comentando com
o coronel Easterbrook sobre o perigo de instalarem um
laboratório de pesquisas atômicas na Inglaterra. Deveria ser
numa ilha perdida no meio do mar, pára não haver perigo de
radiatividade.
— Não se recorda se estava sentada ou de pé?
— Faz muita diferença, inspetor? Eu estava perto da janela,
ou então ao lado da lareira... eu sei porque estava bem junto
do relógio, quando ele deu as horas. Foi tão emocionante!
Aquela espera, sem ninguém saber o que ia acontecer!
— A senhora disse que a luz da lanterna a cegou. Estava
voltada diretamente para a senhora?
— Estava bem nos meus olhos. Eu não conseguia ver coisa
alguma.
— O homem manteve o facho de luz imóvel ou ele o passou
de uma pessoa para outra?
— Ah, não sei. O que fez ele, Edmund?
— Ele iluminou a todos, um a um, lentamente, como se
estivesse verificando o que fazia cada um. Acho que queria
saber se alguém estava se preparando para atacá-lo.
— E em que parte da sala estava o senhor, então?
— Estava conversando com Julia Simmons. Estávamos os
dois de pé no meio da sala.
— Estavam todos na parte principal da sala ou havia alguém
do outro lado do arco?
— Phillipa Haymes tinha passado para o lado de lá, acho eu.
Ela estava perto da outra lareira. Creio que procurava alguma
coisa.
— Tem alguma idéia a respeito do terceiro tiro, se foi
acidente ou suicídio?
— Não sei. O homem girou nos calcanhares de repente, e
depois se dobrou sobre si mesmo e caiu ao chão. Mas tudo
foi bastante confuso. O problema é que não se via nada.
Depois, aquela moça, a refugiada, começou a berrar como
uma desesperada.
— Foi o senhor quem abriu a porta da sala de jantar e a
deixou sair, não?
— Eu mesmo.
— A porta estava trancada por fora, mesmo, fora de qualquer
dúvida?
Edmund o olhou com curiosidade.
— Claro que estava. O senhor não está pensando...
— Eu apenas gosto de ter certeza das coisas. Muito obrigado,
sr. Swettenham.

IV
O inspetor Craddock foi forçado a passar bastante tempo
com o coronel e a sra. Easterbrook. Teve de ouvir uma longa
dissertação sobre o ângulo psicológico do caso.
— Hoje em dia, é preciso abordar as coisas pelo ângulo
psicológico — disse-lhe o coronel. — Precisamos
compreender os nossos criminosos. O problema em questão
é realmente muito simples, para um homem com a minha
experiência. Por que o nosso amigo coloca o anúncio?
Psicologia: ele quer se anunciar, atrair atenção para a sua
pessoa. Tem sido esquecido, desprezado, por ser estrangeiro,
pelos outros funcionários do hotel. Quem sabe, uma moça
não o quis. Ele quer chamar a sua atenção. Quem é o ídolo
cinematográfico do mundo moderno? O gângster, o homem
mau? Muito bem, ele será, então, um homem mau. Assalto a
mão armada. Uma máscara, um revólver, mas também
precisa de uma platéia. Então, providencia uma. E, então, no
momento supremo, ele perde o controle do papel. Passa a
ser mais que um assaltante: é um assassino. Atira... às cegas...
O inspetor Craddock apanhou a palavra no ar:
— "Às cegas", diz o senhor, coronel. Não admite que ele
pudesse estar atirando deliberadamente em alguém, isto é,
na srta. Blacklock?
— Não, não. Ele apertou o gatilho, como eu disse,.às cegas.
E foi isso que o fez cair em si. A bala acertou em alguém
apenas de raspão, é verdade, mas ele não sabia disso. De
repente, caiu em si. Tudo aquilo, a representação que ele
preparara, era real. Ele atirara em alguém... talvez tivesse
matado alguém... A realidade é como um murro em seu
rosto. Em pânico, volta o revólver contra si mesmo.
O coronel Easterbrook fez uma pausa, pigarreou com
imponência e concluiu, em tom satisfeito:
— Claro como água, não tenho a menor dúvida. Claro como
água.
— É tão maravilhoso — disse a sra. Easterbrook — a maneira
pela qual você sabe exatamente o que aconteceu, Archie.
A sua voz era carregada de admiração. O inspetor Craddock,
por sua vez, também estava admirado, embora de outra
forma.
— Exatamente em que lugar da sala estava o senhor, coronel
Easterbrook, quando foram disparados os tiros?
— Estava de pé, ao lado de minha esposa; perto de uma mesa
de centro onde havia um jarro com flores.
— Você se lembra, Archie, que eu segurei o seu braço, na
hora em que a luz apagou? Estava tão apavorada. Não sei o
que seria de mim se você não estivesse ali.
— Pobre gatinha... — disse o coronel, brincalhão.

V
O inspetor encontrou a srta. Hinchliffe ao lado de um
chiqueiro.
— São ótimas criaturas, os porcos — disse ela, coçando um
dorso áspero e rosado. — Este está indo muito bem, não
acha? Vai dar um ótimo bacon na época do Natal. Bom, mas
o que quer o senhor? Já contei aos seus homens, na noite
passada, que não tenho a menor idéia de quem seria aquele
homem. Nunca o vi nas vizinhanças, espionando ou
fazendo algo parecido. A sra. Mopps diz que ele veio de um
dos hotéis de Medenham Wells. Por que ele não roubou
alguém por lá mesmo, se precisava tanto? Daria um lucro
muito maior.
Isso era indiscutível. Craddock continuou com as suas
perguntas.
— Onde estava a senhora, exatamente, quando o incidente
ocorreu?
— Incidente! Maneira muito delicada de definir as coisas!
Onde é que eu estava quando começou o tiroteio? É isso que
o senhor quer saber?
— E.
— Apoiada na lareira, rezando para alguém me oferecer um
drinque — replicou prontamente a srta. Hinchliffe.
— Acha que os tiros foram disparados às cegas ou dirigidos
contra uma pessoa em particular?
— O senhor está falando de Letty Blacklock? Como diabo eu
vou saber uma coisa dessas? É muito difícil saber exatamente
o que aconteceu ou o que eu estava pensando na hora. Tudo
o que lembro é que as luzes se apagaram e apareceu aquela
lanterna dançando pela sala e cegando todo mundo. Depois,
houve os tiros, e eu pensei: "Se esse idiota do Patrick
Simmons inventou alguma brincadeira com um revólver
carregado, alguém vai se machucar."
— Pensou que fosse idéia de Patrick Simmons?
—-Parecia bem provável. Edmund Swettenham é um
intelectual que escreve livros e não é metido a engraçado; o
velho coronel Easterbrook não acharia a menor graça em
preparar aquela confusão. Mas Patrick é um menino levado.
De qualquer maneira, eu lhe devo desculpas pelo que
pensei.
— A sua amiga também pensou que fosse coisa de Patrick
Simmons?
— Murgatroyd? É melhor falar com ela. Não que diga coisa
com coisa. Está lá no pomar. Vou chamá-la, se quiser.
Enchendo os pulmões, a srta. Hinchliffe soltou um berro
estentório:
— Ei! Murgatroyd!
— ... Indo... — ouviu-se uma voz aguda e tímida.
— Depressa... é a polííííícia! — gritou a srta. Hinchliffe.
A srta. Murgatroyd chegou, trotando nervosamente, quase
sem fôlego. Sua saia tinha a bainha descosida, e o cabelo
escapava de uma rede mal colocada na cabeça. O rosto,
redondo e simpático, abria-se num largo sorriso.
— Scotland Yard? — perguntou ela, ofegante. — Eu não
sabia! Se soubesse, não tinha ido lá para longe.
— Não chamamos a Scotland Yard, ainda, srta. Murgatroyd.
Sou o inspetor Craddock, de Milchester.
— Ah, mas é formidável, não? — respondeu ela, sem parecer
muito entusiasmada. — Já descobriu muitas pistas?
— Onde é que você estava na hora do crime? E isso que ele
quer saber — disse a srta. Hinchliffe, piscando para
Craddock.
— Ah, meu Deus — gemeu a srta. Murgatroyd. — Mas é
claro, eu devia estar preparada. Um álibi. Deixe-me pensar...
ora, eu estava junto com os outros.
— Não comigo — disse a srta. Hinchliffe.
— Ah, Hinch, não estava? Não, é verdade, estava do outro
lado, olhando os crisântemos. Muito fraquinhos, por sinal. E,
de repente, aconteceu tudo aquilo; só que eu não entendi
nada, na hora, quer dizer, eu não sabia em que ia dar aquilo
tudo. Nem pensei que aquele revólver fosse de verdade. E
aquela confusão toda, com a gritaria... Eu não entendia nada,
percebe? Pensei que ela estivesse sendo assassinada... quer
dizer, a moça refugiada. Pensei que estivessem cortando a
garganta dela lá na outra sala. Não sabia que era ele... para
falar a verdade, eu nem sabia que era um homem. Só tinha
ouvido a voz, pedindo para a gente levantar os braços.
— Levantar as mãos — corrigiu a srta. Hinchliffe. — E era
uma ordem, não um pedido.
— Tenho até vergonha de dizer que, até aquela moça
começar a gritar, eu estava achando tudo meio divertido. Só
não estava gostando muito das luzes apagadas, e alguém
pisou no meu pé. Uma dor! Quer saber mais alguma coisa,
inspetor?
— Não — disse o inspetor Craddock, olhando-a com uma
mistura de curiosidade e espanto. — Acho que não.
A outra mulher deu uma risada áspera.
— Ele não quer mais nada com você, Murgatroyd.
— Pode ter certeza, Hinch — disse a amiga —, que estou
inteiramente disposta a colaborar no que me for possível.
— Ele não está interessado — replicou a srta. Hinchliffe.
Voltando-se para o inspetor, ela continuou:
— Se o senhor está fazendo a sua romaria geograficamente,
sua próxima parada deve ser a casa do reverendo. Talvez
consiga alguma coisa por lá. A sra. Harmon dá a impressão
de ser um tanto confusa, mas às vezes tenho a impressão de
que ela não é totalmente desprovida de miolos. Às vezes.
Vendo o inspetor e o sargento Fletcher se afastarem com
firmes passadas, a srta. Murgatroyd comentou, preocupada:
— Ah, Hinch, eu me saí muito mal? Eu fico tão atrapalhada!
— Pelo contrário — e a srta. Hinchliffe sorriu. — No fim
das contas, acho que você se portou muito bem.

VI
A sala, modesta apesar de espaçosa, fazia o inspetor
Craddock sentir-se bem. Lembrava-lhe, um pouco, a sua
própria casa, em Cumberland. Cortinas desbotadas, poltronas
grandes e gastas pelo uso, livros e flores por todos os cantos,
e um cachorro numa cestinha. Também achava simpática
aquela sra. Harmon, com seu ar distraído, sua aparência
desarrumada, sua expressão cheia de boa vontade.
Entretanto, ela logo lhe disse, com franqueza:
— Não vou poder ajudá-lo em nada. Eu fechei os olhos.
Não suporto ser ofuscada por uma luz forte. Depois, houve
aqueles tiros, e eu apertei ainda mais os olhos. E eu preferia,
ah, seria tão melhor, que fosse um homicídio silencioso.
Detesto barulho.
— Então, a senhora não viu nada.
O inspetor sorriu para ela.
— Mas, teria ouvido...
— Ah, de certo; havia muito para se ouvir. Portas se
abrindo e se fechando, pessoas dizendo bobagens e
prendendo a respiração, Mitzi berrando feito uma
locomotiva, a pobre Bunny gemendo como um coelhinho
encurralado. E todos se empurrando, e tropeçando uns nos
outros. Quando eu tive certeza de que não haveria mais
estampidos, abri os olhos. Todos já estavam lá fora, com
velas acesas. E, então, as luzes voltaram e de repente tudo
ficou como antes. Eu sei que não era exatamente assim, mas
pelo menos nós tínhamos voltado a ser o que éramos... não
mais pessoas sem identidade, perdidas no escuro. As pessoas
mudam muito no escuro, não acha?
— Acho que sim; acho que entendo o que a senhora quer
dizer. A sra. Harmon sorriu para ele.
— E, então, ali estava ele — ela prosseguiu. — Um
homenzinho com cara de estrangeiro, muito corado, com
um ar de surpresa no rosto, estendido no chão, morto... com
um revólver do lado. Não... não fazia sentido, não sei bem
por quê.
Para o inspetor, também não fazia sentido... A história toda
começava a fazê-lo pensar.

CAPÍTULO 8
Miss MARPLE ENTRA EM CENA

I

Craddock pôs sobre a mesa do seu chefe o relatório
datilografado de suas diversas entrevistas. Rydesdale acabava
de ler o telegrama que recebera da polícia suíça.
— Ele tinha mesmo uma ficha policial — comentou. —
Hum... como se esperava...
— Sim, senhor.
— Jóias... hum... estelionato... cheques... sem dúvida, um ra-
paz extremamente desonesto.
— É verdade, senhor, mas de vôo curto.
— Pois é. Mas são os vôos curtos que preparam os grandes.
— Será, mesmo?
O chefe de polícia levantou os olhos.
— Está preocupado com alguma coisa, Craddock?
— Estou, senhor.
— Por quê? Tudo é bastante claro... ou não? Vamos ver o
que dizem essas pessoas com quem você andou
conversando.
Apanhou o relatório e o leu rapidamente.
— Nada de extraordinário: muitas contradições e enganos.
As versões de pessoas diferentes sobre alguns momentos de
tensão nunca concordam entre si. Mas, em linhas gerais, a
história me parece bastante clara.
— Eu sei, senhor. Mas não me satisfaz. A história está
contada direitinho... mas é a história errada, entende?
— Bem, vejamos os fatos. Rudi Scherz apanhou o ônibus das
5:20h em Medenham, chegando a Chipping Cleghorn às seis
horas. Depoimentos de dois passageiros e o motorista. Do
ponto de ônibus, ele se dirigiu, a pé, na direção de Little
Paddocks. Entrou na casa sem grande dificuldade...
provavelmente pela porta da frente. Intimidou os presentes
com um revólver, disparou dois tiros, ferindo a srta.
Blacklock ligeiramente, e em seguida matou-se com um
terceiro tiro, não havendo indícios suficientes para
determinar se o fez deliberadamente ou por acaso.
Concordo que as razões pelas quais ele fez tudo isso são
extremamente insatisfatórias. Mas o porquê não é, na
verdade, um problema nosso. O júri do coroner pode dar
um veredicto de suicídio ou morte acidental: seja qual for,
pouco nos importa. É assunto encerrado.
— O senhor quer dizer que sempre podemos aceitar a
psicologia do coronel Easterbrook — disse Craddock, com
melancolia.
Rydesdale sorriu.
— Afinal de contas, o coronel tem muita experiência nisso.
Confesso que eu não suporto esse jargão psicológico que
usam a propósito de tudo, hoje em dia..., mas também não
podemos desprezá-lo de todo.
— Eu ainda sinto que a história está errada.
— Tem alguma razão para suspeitar de que alguém em
Chipping Cleghorn tenha mentido?
Craddock hesitou.
— Acho que a moça estrangeira sabe mais do que diz. Mas
pode ser apenas prevenção minha.
— Acha que ela poderia estar mancomunada com esse
sujeito? Ter aberto a porta para ele? Ou ter tido a idéia?
Alguma coisa assim. Ela não estaria acima disso. Mas seria
necessário que realmente existisse na casa algo de valor,
dinheiro ou jóias, e isso não acontece. A srta. Blacklock
nega, peremptoriamente. E os outros, também. Isso nos
deixa com a hipótese de que existiria algo valioso na casa que
todos desconhecessem...
- O que daria um excelente enredo de romance policial...
- Eu sei que é ridículo, senhor. Outro ponto é a certeza da
srta. Bunner de que Scherz tentou deliberadamente matar a
srta. Blacklock.
— Bem, mas pelo que você mesmo diz... e pelo seu próprio
depoimento, essa srta. Bunner...
— Ah, não há dúvida, senhor — cortou Craddock,
rapidamente. — Uma péssima testemunha. Altamente
influenciável. Qualquer um poderia meter-lhe o que
quisesse dentro da cabeça. Mas o interessante é que essa
teoria é dela mesma, ninguém a sugeriu. Todos os outros a
desmentem. Por uma vez na vida, ela está nadando contra a
maré.
— E por que Rudi Scherz quereria matar a srta. Blacklock?
— Aí é que está o problema: eu não sei. A srta. Blacklock
também não... a não ser que seja uma mentirosa muito
melhor do que parece. Ninguém sabe. Portanto,
aparentemente, a teoria é falsa.
Ele suspirou.
— Ânimo, Craddock — disse o chefe de polícia.
Vamos almoçar com sir Henry. A melhor comida que
houver no Hotel Royai Spa de Medenham Wells.
— Obrigado, senhor — disse Craddock, um tanto surpreso.
— Acontece que recebemos uma carta... — Rydesdale
parou, ao ver que sir Henry Clithering entrava. — Ah, você
chegou, Henry.
— Bom dia, Dermont — disse sir Henry.
— Tenho algo para você — respondeu o chefe de polícia.
— O quê?
— Uma carta, autêntica, de uma velhinha simpática. Está
hospedada no Hotel Royal Spa. É sobre alguma coisa que ela
acha que nos interessará, com relação ao caso de Chipping
Cleghorn.
— Ah, as minhas velhotas simpáticas — disse sir Henry,
triunfante. — O que lhe disse eu? Tudo ouvem, tudo vêem.
E, para contrariar o provérbio, tudo contam. O que foi que
esta velhinha em questão descobriu?
Rydesdale consultou a carta.
— Escreve igualzinho à minha avó — ele reclamou. — Uns
arabescos, como se tivessem metido uma aranha no tinteiro;
e tudo sublinhado. Gasta um espaço enorme pedindo
desculpas por tomar nosso valioso tempo, embora acredite
que possa ser de alguma utilidade etc. e tal... Chama-se...
deixe-me ver... Jane qualquer coisa... Murple... não, Marple.
Jane Marple.
— Que o Senhor seja louvado! — exclamou sir Henry. —
Será possível? Mas é a minha velhinha particular, rainha de
todas as velhinhas geniais deste mundo! É a super velhinha!
E ela deu um jeito de aparecer em Medenham Wells, em
vez de estar pacificamente em casa, em St. Mary Mead.
Exatamente a tempo de se meter com um homicídio. Mais
uma vez, Miss Marple tem o prazer e a honra de aceitar um
convite para um homicídio!
— Muito bem, Henry — disse Rydesdale, sardonicamente.
— Terei o maior prazer de conhecer essa maravilha, de
quem você fala nesse§ termos de propaganda
cinematográfica. Vamos embora! Almoçaremos no Royai
Spa e conversaremos com a dama. Craddock não está com
cara de quem faz muita fé nos seus dotes...
— Pelo contrário, senhor — disse Craddock polidamente.
Entretanto, não podia deixar de pensar que seu tio, às vezes,
exagerava um pouco.
II
A srta. Jane Marple era quase, embora não exatamente, tudo
o que Craddock esperava. Mais simpática do que imaginara,
e também bem mais velha. Na verdade, parecia ser bastante
idosa. Seus cabelos eram muito brancos; sua pele, enrugada e
rosada. Seus olhos eram extremamente azuis, suaves e
inocentes. Estava coberta de lã até o pescoço, envolto no
xale de bordas rendadas, e até as mãos, ocupadas em tricotar
um cobertor de criança.
Estava encantada em rever sir Henry. Mostrou-se
terrivelmente encabulada ao ser apresentada ao chefe de
polícia e ao inspetor Craddock.
— Mas, com efeito, sir Henry, que prazer... que sorte,
encontrá-lo de novo. Há quanto tempo não nos víamos...
De fato, meu reumatismo tem piorado muito. É claro que eu
não poderia pagar este hotel (que preços que andam
cobrando ultimamente, não?), mas Raymond... meu
sobrinho, Raymond West... talvez se lembre dele...
— Mas claro, todos o conhecem.
— É mesmo, aquele menino faz tanto sucesso com seus
livros, não é mesmo? Ele se orgulha de jamais escrever sobre
coisas agradáveis. Mas ele se ofereceu para pagar todas as
minhas despesas. E a esposa dele também está se saindo
muito bem com os seus quadros. Faz muitos jarros cheios de
flores murchas, e também uns pentes quebrados em cima de
peitoris de janelas, coisas assim. Olhe, eu jamais tive
coragem de dizer a ela, mas confesso que não gosto muito
do gênero. Enfim... ah, meu Deus, já estou eu falando sem
parar... E o chefe de polícia em pessoa... eu não queria tomar
o seu tempo...
"Completamente gagá", pensou Craddock constrangido.
— Vamos para o escritório do gerente — disse Rydesdale.
— Poderemos conversar mais à vontade.
Após a complicada operação de coleta de todos os novelos e
agulhas de Miss Marple, ela os acompanhou, sempre
ruborizada e pedindo desculpas, ao confortável gabinete do
sr. Rowlandson.
— Muito bem, Miss Marple, vejamos o que tem para nos
dizer — disse o chefe de polícia.
Miss Marple foi ao assunto com inesperado poder de síntese:
— Foi um cheque. Ele o alterou.
— Ele?
— Aquele rapaz que trabalhava na recepção, aqui. O que é
acusado de ter preparado aquele assalto, e que se suicidou.
— Ele alterou um cheque, diz a senhora?
A srta. Marple fez um gesto afirmativo.
— Isso mesmo. Eu o tenho aqui — disse ela, retirando-o da
bolsa para colocá-lo sobre a mesa. — Recebi-o esta manhã,
junto com outros, do banco. Veja: era de sete libras, e ele o
alterou para dezessete. Um risco vertical antes do "7" e um
acréscimo de "dezes" à frente da palavra "sete", com um
floreio para confundir um pouco. Realmente, muito bem-
feito. Devia ter uma certa prática, acho eu. É a mesma tinta,
porque eu escrevi o cheque na portaria do hotel. Tenho a
impressão de que ele já fez isso antes, não?
— Só que, desta vez, escolheu a pessoa errada — disse sir
Henry.
Miss Marple concordou.
— É mesmo. Tenho a impressão de que ele não iria longe
como criminoso. Eu não poderia ser mais contra-indicada.
Uma jovem mulher casada, cheia de problemas, ou alguma
moça apaixonada... esse é o tipo de gente que escreve
cheques de quantias diferentes e não toma conta dos
canhotos. Mas uma velha, que tem de contar os seus tostões,
uma pessoa de hábitos antigos... ora, é uma péssima escolha.
Eu nunca faço cheques de 17 libras. Para as despesas
mensais, meus livros, vinte libras; para as despesas pessoais,
são sempre sete libras... antigamente eram cinco, mas os
preços subiram tanto...
— E talvez ele lhe lembrasse alguém? — perguntou sir
Henry, com uma ponta de malícia.
Miss Marple sorriu e balançou a cabeça.
— O senhor é muito implicante, sir Henry. Para falar a
verdade, ele me fez lembrar de alguém, sim. Fred Tyler, o
peixeiro. Sempre acrescentava um "1" na coluna dos
shillings. Como hoje em dia todo mundo come muito
peixe, as contas são sempre muito grandes, e ninguém se
dava ao trabalho de tomar nota. Ele ficava com dez
shillings de cada vez, não era muito, mas dava para
comprar umas gravatas e levar Jessie Spragge (a moça que
trabalhava na loja de cortinas) ao cinema. Era só para fazer
um pouco de onda, como essa gente moça costuma dizer.
Mas, voltando ao assunto, logo na primeira semana em que
estive aqui, apareceu um erro na minha conta. Eu chamei a
atenção daquele rapaz, e ele pediu desculpas, todo cheio de
gentilezas. Dava a impressão de estar muito encabulado, mas
eu disse para mim mesma: "Esse rapaz tem um olho
esquisito..." Quando eu acho que alguém tem um olho
esquisito — ela continuou—, é porque é uma pessoa que
olha para a gente sempre de frente, sem piscar nem desviar a
vista.
Craddock, quase involuntariamente, deu um sorriso de
compreensão. Era exatamente o caso de Jim Kelly, um
famoso vigarista que ele ajudara a pôr atrás das grades pouco
tempo antes.
— Rudi Scherz era um completo marginal — disse
Rydesdale.
— Descobrimos que, na Suíça, tem uma extensa ficha
policial.
— As coisas não andavam boas para ele por lá, e veio para
cá, com documentos falsos, na certa? — perguntou Miss
Marple.
— Exatamente — concordou Rydesdale.
— Ele costumava sair com uma garçonete ruiva do
restaurante
— informou a velhota. — Felizmente, acho que ela não
ficou muito chocada. Apenas gostava de ter alguém que
fosse um pouco "diferente", e lhe desse flores e bombons,
coisa que os rapazes ingleses não costumam fazer. Ela já lhe
contou tudo o que sabe? — perguntou, virando-se
subitamente para Craddock, — Ou ainda não revelou tudo?
— Não tenho certeza — disse Craddock, prudentemente.
— Acho que ainda deve ter algum segredinho — disse Miss
Marple. — Ela tem andado muito preocupada. Hoje de
manhã trouxe-me geléia de ameixas em vez de laranja, e
esqueceu o bule do leite. Normalmente, é uma excelente
garçonete. Aposto que está com medo. Tem medo de
prestar depoimento ou alguma coisa do gênero. Mas tenho
certeza... — e os seus inocentes olhos azuis examinaram,
com evidente aprovação, a aparência viril e os belos traços
do inspetor Craddock — de que o senhor conseguirá per-
suadi-la a contar tudo o que sabe.
Craddock enrubesceu e sir Henry sorriu.
— Pode ser importante — disse Miss Marple. — Pode ser
que ele lhe tenha contado o nome da pessoa.
Rydesdale a olhou, surpreso.
— Que pessoa?
— Desculpe, eu não sei me expressar direito. A pessoa que o
fez fazer aquilo, entende?
— Mas a senhora pensa que ele estava obedecendo a uma
ordem ou sugestão de alguém?
Os olhos de Miss Marple se arregalaram de surpresa.
— Ora, mas naturalmente... quero dizer: ele não passava de
um rapaz de boa aparência, que dava seus pequenos golpes:
um cheque aqui, uma joiazinha barata ali, talvez uns avanços
na caixa registradora, enfim, toda a sorte de espertezas
miúdas. Seu único problema era ter bastante dinheiro no
bolso para se vestir bem, sair com uma garota, esse tipo de
coisas. E, então, de repente, ele se arma com um revólver,
ataca um bando de pessoas reunidas numa sala e atira em
alguém. Ora, ele jamais faria algo assim. Jamais! Não é o seu
tipo. Não faria sentido!
Craddock teve um sobressalto. Era exatamente o que Letitia
Blacklock dissera. O que a mulher do reverendo dissera. O
que ele mesmo sentia, cada vez com maior intensidade. Não
fazia sentido. E, agora, a velhinha simpática de sir Henry
também o dizia, com toda a segurança de que era capaz a sua
voz suave.
— Quem sabe, Miss Marple, a senhora nos poderá dizer —
e sua voz soava estranhamente agressiva — o que
aconteceu, então?
Surpresa, ela se voltou para ele.
— Mas, como posso eu saber o que aconteceu? Li o que saiu
nos jornais... mas era tão pouco... Posso fazer conjeturas,
mas não tenho informações completas.
— George — disse sir Henry —, seria muito irregular se
permitíssemos a Miss Marple ler o relatório das entrevistas
feitas por Craddock com o pessoal de Chipping Cleghorn?
— Talvez seja irregular — disse Rydesdale —, mas não foi
sendo muito ortodoxo que cheguei aonde estou. Ela pode ler
tudo. Estou curioso para ouvir a sua opinião. Miss Marple
estava encabulada.
— Ah, não dêem atenção a sir Henry! Ele exagera tanto,
quando fala de umas pequenas observações que fiz, por
sorte, no passado. Francamente, eu não tenho talento algum
(mas não tenho, mesmo), a não ser, talvez, um certo
conhecimento da natureza humana. Sempre achei que as
pessoas têm uma tendência a confiar demais nos outros. E
eu sempre tive uma tendência a esperar o pior. Não é muito
bonito, eu sei... mas o problema é que geralmente tenho
razão.
— Leia isto — disse Rydesdale, jogando-lhe nas mãos as
folhas datilografadas. — Não levará muito tempo. Afinal de
contas, essas pessoas são do mundo em que a senhora vive...
deve conhecer uma porção como elas. Talvez possa
descobrir algo que nos tenha escapado, O caso está para ser
arquivado, e vale a pena recolher uma opinião não
profissional sobre ele, antes de engavetá-lo. E é bom a
senhora saber que o próprio Craddock não está muito
contente com as investigações. Como a senhora, ele diz que
a história toda não faz muito sentido.
Reinou silêncio na sala enquanto Miss Marple lia o relatório.
Finalmente, ela ergueu os olhos.
— É tudo muito interessante — disse, com um suspiro. —
Todas essas coisas diferentes que as pessoas dizem... e
pensam. O que elas vêem... ou pensam que vêem. E tudo tão
complexo, porque quase tudo é sem importância, e é muito
difícil descobrir se alguma coisa tem realmente
importância... como achar uma agulha num palheiro.
Craddock sentiu uma ponta de desapontamento. Por um
breve instante, imaginara que sir Henry poderia ter razão
em sua opinião sobre aquela curiosa velhinha. Ela poderia
encontrar alguma coisa. Afinal, as pessoas mais velhas, às
vezes, são muito observadoras. Por exemplo, ele nunca
conseguira ocultar coisa alguma de sua tia-avó Emma, até o
dia em que ela revelou que ele sempre fungava quando
estava se preparando para contar uma mentira.
Mas a famosa Miss Marple de sir Henry não conseguira
produzir mais do que algumas generalizações banais. Um
tanto irritado, ele disse, com certa aspereza na voz:
— O problema é que os fatos são indiscutíveis. Embora os
depoimentos possam ser contraditórios em questão de
detalhes, todos viram a mesma coisa: um homem
mascarado, com um revólver e uma lanterna, abrir a porta e
ameaçá-los. Pouco importa se pensam que ele disse "Mãos
ao alto!", ou "Mãos para cima!", ou qualquer outra expressão
que, para eles, esteja associada à idéia de um assalto. O que
interessa é que eles o viram.
— Mas, certamente — disse Miss Marple, suavemente —, na
verdade, não poderiam... não poderiam, mesmo... ter visto,
seja o que for...
Craddock prendeu a respiração. Ela não caíra na armadilha!
Não podia negar que a velha era esperta: tudo o que ele
dissera fora para testá-la, mas ela estava atenta. Não fazia
grande diferença quanto ao que acontecera, mas ela
percebera, como ele o fizera, que toda aquela gente que
acreditava ter visto um homem mascarado realmente não o
vira.
— Se entendi direito — disse Miss Marple, com os olhos
brilhando como os de uma criança entretida com seu
brinquedo favorito —, não havia luz alguma na saleta de
entrada, nem na escada, certo?
— Certo — confirmou Craddock.
— Então, se um homem se colocou na porta, jogando uma
luz forte nos olhos de quem estava dentro da sala, ninguém
poderia ver coisa alguma a não ser o brilho da lanterna, não
é mesmo?
— É. Eu experimentei.
— Logo, quando alguns deles disseram que viram um
homem mascarado, etc. e tal, na verdade, embora não
tenham consciência disso, estão recapitulando o que viram
mais tarde, quando as luzes se acenderam. Portanto, tudo
está de acordo com a tese de que Rudi Scherz foi um... um
"pato", não é como se diz?
Rydesdale a olhou com tanta surpresa que ela enrubesceu
mais ainda.
— Não sei se a palavra está certa — murmurou. — Não sou
muito entendida em gíria, e essas expressões vivem
entrando e saindo de moda, não é mesmo? Essa eu acho que
li numa história do sr. Dashiel Hammett (meu sobrinho
Raymond diz que ele é um dos melhores no gênero
"pesado" de histórias policiais). Um "pato", pelo que eu
entendi, é alguém que leva a culpa por um crime cometido
por outro. Este Rudi Scherz parece ter sido feito sob medida
para isso. Não muito inteligente, mas muito ambicioso e
extremamente crédulo.
Sorrindo com tolerância, Rydesdale perguntou:
— Por acaso a senhora está sugerindo que alguém o
persuadiu a ir lá, disparar um revólver dentro de uma sala
cheia de gente? É difícil acreditar.
— Para mim, ele pensava que era tudo uma brincadeira —
explicou Miss Marple. — Pagaram-lhe para fazer aquilo,
naturalmente. Para colocar o anúncio no jornal, para fingir
que fazia um reconhecimento do terreno e, então, na noite
em questão, bastava ir lá, de máscara e capa preta, abrir a
porta brandindo uma lanterna e gritar "Mãos ao alto!"
— E disparar um revólver?
— Não, não — disse Miss Marple. — Ele nunca teve um
revólver.
— Mas todos dizem... — começou Rydesdale, e parou.
Exatamente — disse Miss Marple —, compreendo a razão de
sua hesitação. Ninguém poderia ter visto um revólver,
mesmo que ele tivesse um na mão. E não creio que tivesse.
Acho que, depois que gritou "Mãos ao alto!", alguém veio
por trás dele, no escuro, e disparou aqueles dois tiros por
cima do seu ombro. Assustado, ele girou nos calcanhares e,
ao fazer isso, recebeu no corpo o terceiro tiro. Depois, o
outro deixou cair o revólver ao seu lado...
Os três homens a encararam. Sir Henry falou baixinho:
— É uma teoria... e é bem possível...
— Mas, quem seria o sr. X que se esgueirou por trás dele no
escuro? — perguntou o chefe de polícia.
Miss Marple tossiu.
— O senhor vai ter de perguntar à srta. Blacklock quem
queria matá-la.
"Ponto para Dora Bunner", pensou Craddock. "Mais uma
vitória do instinto sobre a inteligência."
— Acredita, então, que foi uma tentativa deliberada de matar
a srta. Blacklock? — perguntou Rydesdale.
— Pelo menos, é o que parece — disse Miss Marple. —
Embora existam uma ou duas dificuldades. Mas o que eu
estava pensando, agora, é se não existiria um atalho. Não há
dúvida de que quem quer que tenha combinado aquilo com
Rudi Scherz exigiu que ele não abrisse a boca. Talvez ele
tenha obedecido. Mas, se falou com alguém, esse alguém
certamente será essa menina, Myrna Harris. E talvez...
talvez ele tenha deixado escapar alguma pista sobre a pessoa
que teve a idéia da brincadeira.
— Vou falar com ela agora — disse Craddock, levantando-
se. Miss Marple aprovou, com um gesto de cabeça.
— Faça isso, inspetor Craddock. Vou me sentir muito
melhor depois que o senhor falar com ela. Porque, só depois
que ela contar tudo o que sabe, estará em segurança.
— Em segurança?... Ah, entendo.
Ele saiu da sala. Não inteiramente convencido, mas
procurando ser gentil, o chefe de polícia opinou:
— Muito bem, Miss Marple, pelo menos tudo o que nos
disse dá para pensar.

III

— Estou arrependida, juro que estou — disse Myrna Harris.
— E o senhor é muito bonzinho em não ficar zangado. Mas.
sabe como é, mamãe se aborrece com qualquer coisa. E
fiquei com medo de acharem que eu era... como se diz, uma
cúmplice. Quer dizer, os senhores só teriam a minha palavra
de que eu estava convencida de que tudo não passava de
uma brincadeira.
Ela falava depressa, sem esconder o nervosismo. Craddock
repetiu as frases tranquilizadoras com que quebrara a sua
resistência.
— Está bem. Vou contar tudo que sei. Mas, se puder, o
senhor não me meterá em complicações, está bem? Por
causa de mamãe. Primeiro, o Rudi me deu um bolo: nós
íamos ao cinema naquela noite, e ele veio me dizer que não
podia ir, e eu fiquei uma fera, afinal de contas, tinha sido
idéia dele mesmo, e eu não gosto de levar bolos,
principalmente de estrangeiros. Ele disse, não era sua culpa,
e eu disse que com certeza não, e então ele acabou dizendo
que tinha um trabalhinho para fazer naquela noite e que ia
ganhar um bom dinheirinho, e se eu não gostaria de ganhar
um relógio de pulso? E eu disse, que história era aquela de
trabalhinho? Ele disse para não contar pra ninguém, mas ia
haver uma festa num lugar qualquer e ele ia fingir um
assalto. Mostrou o anúncio que tinha posto no jornal, e eu
tive de rir. Ele estava muito superior: disse que era coisa de
criança, mas que os ingleses são assim mesmo. Que nunca
deixam de ser crianças. Naturalmente, eu respondi que ele
não tinha direito de falar assim de nós... e aí nós discutimos
um pouco, mas acabamos fazendo as pazes. O senhor
compreende, não compreende? Que, quando li a história
toda no jornal, e vi que não era brincadeira nenhuma, e que
o Rudi tinha atirado em alguém e depois se suicidado, bom,
eu não sabia o que ia fazer." Pensei que se eu dissesse que
sabia de tudo antes, ia parecer que estava metida na
complicação' toda. Mas é que, quando ele me contou,
parecia mesmo uma brincadeira. Eu teria jurado que ele
também pensava que não era para valer. Nem sabia que ele
tinha um revólver. Nunca falou nada sobre levar um
revólver.
Craddock procurou acalmá-la, antes de fazer a pergunta mais
importante:
— Quem foi que ele disse que tinha preparado a tal
brincadeira? E não conseguiu coisa alguma.
— Ele não disse. Acho que ninguém. Era tudo idéia dele
mesmo.
— Ele não mencionou nome algum? Falou em ele... ou ela,
por exemplo?
— Não disse nada, a não ser que ia ser gozadíssimo. "Vou
morrer de rir com as caras que eles vão fazer." Foi o que ele
disse.
"E morreu mesmo", pensou Craddock.
IV
— É apenas uma teoria — disse Rydesdale, quando voltavam
para Medenham. — Não tem nada que a apóie, na verdade.
Digamos que a velha tem uma boa dose de imaginação e
pronto, está bem?
— Eu preferia fazer o contrário, senhor.
— Mas é tudo muito improvável. Um misterioso X que
aparece subitamente na escuridão atrás do nosso jovem
amigo suíço. De onde veio? Onde estava?
— Poderia ter entrado pela porta lateral — disse Craddock—,
exatamente como Scherz o fez. Ou — acrescentou hesitante
— ele poderia ter vindo da cozinha.
— Ela poderia ter vindo da cozinha, é o que você quer
dizer?
— Sim, senhor, é uma possibilidade. Desconfio daquela
mulher desde o começo. Ela não me parece ser boa coisa.
Todos aqueles gritos e ataques histéricos, tudo pode ser
fingimento. Ela poderia ter combinado tudo com ele, fazê-lo
entrar no momento adequado, preparar tudo e depois atirar
nele, trancar-se na sala de jantar, apanhar a prataria e a
flanela e começar com o berreiro.
— Contra isso, temos o fato de que... como é o nome dele...
ah, sim, Edmund Swettenham afirma categoricamente que a
porta estava trancada por fora, e que teve de girar a chave
para soltar a mulher. Alguma outra porta naquele lado da
casa?
—- Há uma porta que dá para a escada dos fundos e para a
cozinha, sob a escada principal, mas parece que o seu trinco
caiu há mais de uma semana e ninguém se deu ao trabalho
de providenciar o conserto. Por isso, a porta não abre. E
parece que isso é verdade. Eu vi os dois trincos e o eixo
numa prateleira na saleta, e estavam cobertos de poeira. Por
outro lado, é claro que um profissional poderia ter dado um
jeito de abrir aquela porta.
— Vale a pena ver se a moça tem ficha policial. Verifique os
seus documentos. Mas essa versão já está me parecendo
muito hipotética.
Mais uma vez o chefe de polícia olhou para o seu
subordinado, esperando uma reação. Craddock respondeu,
em voz pausada:
— Eu sei, senhor, e, naturalmente, se o senhor pensa que é
melhor arquivar o caso, então vamos arquivá-lo. Mas eu
gostaria de trabalhar mais um pouco nele.
Para surpresa sua, o chefe de polícia respondeu com
aprovação:
— Eu não esperava outra coisa!
— Podemos trabalhar no ângulo do revólver. Se a teoria
está certa, ele não pertencia a Scherz, e, certamente, até
agora ninguém pôde provar que ele possuía um.
— É de fabricação alemã.
— Eu sei, senhor. Mas o país está cheio de modelos
continentais de armas. Os americanos e os nossos rapazes
também trouxeram toneladas de "recordações" da guerra.
— É verdade. Algum outro caminho?
— É preciso haver um motivo. Se a teoria tem algum fundo
de verdade, por menor que seja, o que aconteceu sexta-feira
não foi nem uma brincadeira nem um assalto comum, mas
uma tentativa de assassinato a sangue-frio. Alguém tentou
matar a srta. Blacklock. Mas, por quê? Acho que, se alguém
sabe a resposta, deve ser a própria srta. Blacklock.
— Pelo que me lembro, ela mesma se encarregou de jogar
água fria nessa hipótese.
— Ela jogou água fria na hipótese de que Rudi Scherz
poderia querer matá-la. E tinha razão. E há outra coisa ainda,
senhor.
— O quê?
— Alguém poderia tentar novamente.
— Isso bastaria para provar que a teoria é verdadeira — disse,
secamente, o chefe de polícia. — Por falar nisso, tome conta
de Miss Marple, está bem?
— Miss Marple? Por quê?
— Soube que vai se instalar na casa paroquial de Chipping
Cleghorn, e virá a Medenham Wells duas vezes por semana
para tratamento de reumatismo. Parece que a sra. não-sei-o-
quê é filha de uma velha amiga sua. É uma boa figura, a
velhinha. Afinal, imagino que tenha tido uma vida tranqüila
demais, e se distraia farejando suspeitos de homicídio...
— Gostaria que ela não aparecesse por lá — disse Craddock,
sério.
— Tem medo de que o atrapalhe?
— Não é isso, senhor, mas simpatizei com ela. Não gostaria
que corresse risco algum... desde, é claro, que a sua teoria
tenha algum fundo de verdade.

CAPÍTULO 9
A PROPÓSITO DE UMA PORTA

I
— Lamento incomodá-la mais uma vez, srta. Blacklock...
— Ora, não importa. Já soube que o inquérito foi adiado por
mais uma semana; imagino que o senhor esteja tentando
conseguir mais provas, não?
O inspetor Craddock concordou.
— Para começar, srta. Blacklock, Rudi Scherz não era filho
do proprietário do Hotel des Alpes, em Montreux. Parece
que começou sua carreira como servente num hospital de
Berna. E muitos pacientes deram por falta de pequenos
objetos de valor. Com outro nome, foi garçom num hotel de
esportes de inverno. Lá, a sua especialidade era fazer contas
em duplicata no restaurante, com alguns itens de diferença
de uma para outra... e ele embolsava a diferença,
naturalmente. Depois, esteve numa grande loja de Zurique,
a qual, durante sua estada, sofreu um considerável acréscimo
nos seus prejuízos normais por furto; e parece que não eram
fregueses os culpados.
— Na verdade, tratava-se de um especialista em pequenos
golpes — comentou a srta. Blacklock secamente. — Então,
eu tinha razão em pensar que nunca o vira antes?
— Exatamente; na certa alguém lhe mostrou a senhora no
Royai Spa, e ele fingiu reconhecê-la. A polícia suíça estava
em seu encalço, e ele veio para cá com documentos
forjados, que lhe valeram o emprego no Royai Spa.
— Um lugar ideal para ele — observou a srta. Blacklock. —
É muito caro, e as pessoas que ficam lá são bastante ricas. A
maioria não deve prestar muita atenção às contas que paga.
— Isso mesmo — confirmou Craddock. — Para ele, as pers-
pectivas de uma boa colheita eram excelentes.
A srta. Blacklock franziu a testa, pensativa.
— Tudo isso é muito claro — disse. — Mas, então, por que
vir a Chipping Cleghorn? O que haveria aqui que seria, para
ele, melhor do que o que poderia encontrar no hotel?
— A senhora continua a sustentar que não existia coisa
alguma de muito valor na casa?
— Claro que não. Eu sei. Posso lhe garantir, inspetor, que
não temos um Rembrandt desconhecido, nem nada de
parecido.
— Então, parece que sua amiga, a srta. Bunner, tinha razão,
não? Ele veio para tentar matar a senhora.
— Está vendo, Letty? O que foi que eu disse?
— Ah, Bunny, que bobagem!
— Mas, será bobagem mesmo? — disse Craddock. — Sabe,
eu acho que é verdade.
A srta. Blacklock o encarou com firmeza.
— Olhe aqui, vamos esclarecer isso. O senhor realmente
acredita que esse rapaz veio à minha casa, depois de ter
colocado aquele anúncio para que metade da cidade se
reunisse na minha sala de visitas...
— Mas pode ser que ele não quisesse que isso acontecesse
— interrompeu a srta. Bunner. — Pode ter sido apenas um
aviso sinistro... só para você, Letty... foi o que eu pensei,
quando li... Convida-se para um homicídio... eu senti
logo que era alguma coisa horrível... e, se tudo acontecesse
como ele queria, teria matado você e fugido... e quem é que
ia saber que tinha sido ele?
— É verdade — disse a srta. Blacklock. — Mas...
— Eu sabia que aquele anúncio não era uma brincadeira,
Letty. Eu disse que não era. E a Mitzi... ela também ficou
assustada!
— Ah — disse Craddock. — Mitzi. Gostaria de saber mais
algumas coisas sobre essa moça.
— Os seus documentos e licença de trabalho estão em
ordem.
— Não duvido — comentou Craddock, com certa rispidez.
— Os de Scherz também pareciam estar.
— Mas, por que Rudi Scherz ia querer me matar? Não há
explicação para isso, inspetor.
— Pode haver alguém por trás dele — respondeu Craddock,
medindo suas palavras. — Já pensou nessa hipótese?
Usara a expressão como uma metáfora, mas no mesmo
momento ocorreu-lhe que, se a teoria de Miss Marple
estivesse certa, aquelas palavras estariam certas também
literalmente. De qualquer maneira, pequena impressão
causaram na srta. Blacklock, que ainda mostrava ceticismo.
— Continuo sem entender — disse ela. Por que alguém
havia de querer me matar?
— É a senhora quem deve responder a essa pergunta, srta.
Blacklock.
— Mas eu não sei de ninguémi Tenho certeza disso. Não
tenho inimigos. Tanto quanto saiba, sempre vivi em paz
com meus vizinhos. Não conheço segredos tenebrosos de
ninguém. E uma hipótese ridícula! E, se o senhor está
insinuando que Mitzi tem alguma coisa a ver com o caso, é
outra idéia absurda. Como a srta. Bunner acaba de dizer, ela
ficou apavorada quando viu o anúncio na Gazette. Queria
mesmo fazer as malas e ir embora imediatamente.
— Pode ter sido uma manobra inteligente de sua parte. Ela
teria certeza de que a senhora insistiria para que ficasse.
— É claro que, se o senhor meteu uma idéia na cabeça,
sempre terá uma resposta para tudo. Mas posso lhe garantir
que, se Mitzí* ficasse com raiva de mim, por algum motivo
idiota, pode ser que envenenasse a minha comida, mas
jamais arquitetaria um plano tão complicado como esse. É
um absurdo completo. Fico pensando se a nossa polícia não
terá um preconceito contra estrangeiros: Mitzi pode ser
mentirosa, mas não é uma assassina a sangue-frio. O senhor
pode ir apoquentá-la, se quiser. Mas, quando ela sair
indignada porta afora, ou se trancar no quarto, aos uivos,
vou ter muita vontade de obrigar o senhor a fazer o jantar. A
sra. Harmon vem tomar chá aqui esta tarde com uma
senhora que está hospedada em sua casa, e eu gostaria que
Mitzi fizesse uns bolinhos... mas já estou vendo que o
senhor vai transtorná-la completamente. Não seria possível
suspeitar de alguma outra pessoa?

II
Craddock foi à cozinha; fez a Mitzi as mesmas perguntas que
já fizera antes, e recebeu as mesmas respostas.
Sim, ela trancara a porta da frente pouco depois das quatro
horas. Não, não costumava fazer isso, mas naquela tarde
estava nervosa por causa daquele "horrível anúncio". Não
valia a pena trancar a porta lateral, porque a srta. Blacklock e
a srta. Bunner a usavam para ir guardar os patos e dar de
comer às galinhas, e a sra. Haymes geralmente entrava por
aquela porta quando chegava do trabalho.
— A sra. Haymes diz que trancou a porta quando entrou, às
5:30h.
— Ah, senhor acreditar nela... natural, nela senhor
acreditar...
— E por que não? Acha que não deveria acreditar nela?
— Interessa, o que acho eu? O senhor não,acreditar em mim.
— Vamos tentar. Acha que a sra. Haymes não trancou aquela
porta?
— Acho que ela tomar cuidado para não trancar porta, isso
sim.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Craddock.
— Aquele rapaz, ele não fazer as coisas sozinho. Não, ele
saber muito bem onde vir, saber muito direito quando era
para abrir uma porta que deixaram aberta para ele... ah, ah,
tudo exato como ele quer!
— O que está querendo dizer? — insistiu Craddock.
— Mas que adianta eu falar? O senhor não ouvir. Diz que eu
ser pobre moça refugiada de guerra que conta mentiras, que
uma loura senhora inglesa não dizer mentiras... ora, claro
que não, ela ser tão britânica, tão... tão honesta. E por isso,
vai e acredita nela, nunca em mim. Ah, mas eu poder contar
coisas, ora se poder!
E Mitzi bateu estrepitosamente com uma frigideira no fogão.
Craddock estava em dúvida, sem saber se dava ou não
atenção ao que bem poderia ser um forte acesso de inveja.
— Eu presto atenção a tudo que me dizem — afirmou.
— Mas eu não contar nada. Sabe por quê? Vocês são todos
iguais. Vivem desprezando, perseguindo, os pobres
refugiados. Se eu contar que, faz uma semana, quando
aquele moço veio pedir dinheiro para a srta. Blacklock e ela
mandar passear... se eu disser que depois eu ouvir ele
conversando com a sra. Haymes no pavilhão, ali mesmo, o
senhor dizer que é invenção minha, e pronto!
"E deve mesmo ser invenção", pensou Craddock, dizendo
em voz alta:
— Como poderia você ouvir o que se dizia no pavilhão?
— Ah, o senhor não saber, já está falando! — exclamou
Mitzi, triunfante. — Eu fui apanhar umas urtigas... urtiga é
bom para cozinhar, sabe; eles não achar, mas eu cozinho e
não digo nada, e todo mundo come. E ouvi os dois
conversando lá dentro. Ele diz para ela: "Mas onde é que eu
me escondo?" E ela diz: "Eu lhe mostro...", e depois ela diz:
"Às seis e quinze", e eu penso: "Ach! É assim que você se
comporta, minha madame! Quando voltar do trabalho, tem
encontro com um homem, e vai levar o homem para dentro
de casa." Eu desconfio que a srta. Blacklock não gostar muito
disso. Vai botar linda senhora na rua. Vou ver tudo, eu
penso comigo, ouvir tudo, e depois contar para a srta.
Blacklock. Mas agora eu saber que estava enganada. Ela não
estar combinando nada de amor com ele... era tudo para
roubar, para matar. Mas senhor vai dizer que eu inventei
tudo. Mitzi malvada, senhor vai dizer, vou te levar para
prisão.
Craddock estava em dúvida. Ela poderia estar inventando,
mas havia a possibilidade de que não estivesse.
Cautelosamente, perguntou:
— Tem certeza de que era com Rudi Scherz que ela estava
falando?
— Claro que ter! Ele tinha acabado de sair, e eu ver quando
foi direto da casa para o pavilhão no jardim. E logo depois —
ela acrescentou, em desafio — é que eu ver se achava
urtiguinhas verdinhas e fresquinhas.
"Existiriam", pensou o inspetor, "urtigas frescas em
outubro?" Mas ele compreendia que Mitzi se sentisse
obrigada a apresentar uma desculpa para encobrir o que não
passara de pura e simples bisbilhotice.
— Você não ouviu nada além do que me contou? Mitzi
respondeu com indignação:
— Aquela srta. Bunner, a nariguda, começar a gritar, me
chamando. "Mitzi, Mitzi!" Eu ir. Ah, ela me irritar. Ficar o
tempo todo se metendo. Diz que vai me ensinar a cozinhar.
Do jeito dela! Mas tudo o que ela fazer fica com gosto de
água, de água, água!
— Por que não contou tudo no outro dia? — perguntou
Craddock, com severidade.
— Porque eu não me lembrar... eu não pensei... só depois foi
que eu dizer para mim mesma, que eles combinar tudo
naquela hora...- ele e ela.
— Tem certeza absoluta de que era a sra. Haymes?
— Ah, certeza absoluta! Claro que ter. Ela é ladra, essa sra.
Haymes. Ladra e parceira de ladrões. O que ela ganhar para
trabalhar no jardim não bastar para uma madame fina como
ela, não senhor! Ela ainda precisa roubar a srta. Blacklock,
que ser tão boa para ela. Ah, essa mulher ser muito ruim,
muito ruim mesmo!
— Digamos — disse o inspetor, encarando-a cuidadosamente
— que alguém diga que você foi vista conversando com
Rudi Scherz?
A insinuação teve menor efeito do que ele esperava. Mitzi
se limitou a fungar e sacudir a cabeça.
— Se alguém dizer que me viu falando com ele, isso ser
mentira, mentira, mentira — disse, com desprezo. — Ser
muito fácil dizer mentiras contra alguém, mas aqui na
Inglaterra é preciso provar, não? A srta. Blacklock me
ensinar isso, e é verdade, não é? Eu não conversar com
ladrões e assassinos. E nenhum polícia inglês vai dizer que
eu converso. E como é que posso preparar almoço, se
senhor ficar aqui falando, falando, falando o tempo todo?
Vai embora da minha cozinha, por favor, que eu quero
preparar um molho que precisa de muita atenção.
Atravessando a saleta de entrada, ele tentou abrir a porta
errada. A srta. Bunner, que descia a escada, apressou-se em
lhe ensinar.
— Não é essa porta — disse ela. — Essa não abre. E a porta
seguinte, à esquerda. São tantas portas, é fácil a gente se
confundir.
— São muitas, mesmo — disse Craddock, olhando em volta.
Prestativa, a srta. Bunner as enumerou para ele:
— Primeiro, a porta da salinha, depois a do armário e a da
sala de jantar... todas desse lado. No lado de cá, a porta falsa
que o senhor estava tentando abrir, a porta da sala de estar, a
do armário de louças e a do estúdio; no fundo, a porta de
entrada lateral. Dá para confundir mesmo. Especialmente
essas duas, uma ao lado da outra. Mais de uma vez já tentei
abrir a porta errada. Costumava haver uma mesinha
encostada nela, mas nós a colocamos mais adiante, junto da
parede.
Craddock notara, quase sem o perceber, que havia uma
estreita linha horizontal ao longo da porta que ele estivera
tentando abrir. Compreendeu, então, tratar-se da marca
deixada pela mesinha. Alguma coisa se agitou em seu
cérebro, fazendo-o perguntar:
— Colocaram, quando?
A vantagem de interrogar Dora Bunner era a completa falta
dè necessidade de justificar as perguntas. Qualquer pergunta,
sobre qualquer assunto, era recebida pela tagarela srta.
Bunner com a maior naturalidade; ela adorava dar
informações, por mais banais que fossem.
— Ah, deixe-me ver, foi há pouco tempo mesmo... há dez
ou quinze dias.
— E por que a mudaram de lugar?
— Francamente, não me lembro. Alguma coisa ligada às
flores. Acho que foi Phillipa quem fez um enorme arranjo
de flores (ela faz isso muito bem) com todas as cores do
outono, com galhos e folhas misturadas; era tão grande que
as pessoas viviam esbarrando nele, e por isso a Phillipa disse
que era melhor arrastar um pouco a mesa e, de qualquer
maneira, as flores ficariam melhor contra a parede do que
encostadas no painel da porta. Só foi preciso tirar da parede
o Wellington em Waterloo. Não que seja uma das minhas
gravuras favoritas. Foi parar embaixo da escada.
— Na verdade, não é realmente uma porta falsa, certo? —
perguntou Craddock, examinando-a.
— Ah, não, é uma porta verdadeira, se é isso que o senhor
quer saber. É a porta da outra ponta da sala de estar, do
tempo em que eram duas salas separadas. Quando se
juntaram as duas salas, abrindo aquele arco, uma porta ficou
demais, e esta foi trancada.
— Trancada? — Craddock experimentou a porta, sem forçá-
la. — Mas parece que não a pregaram. Está apenas fechada.
— Está trancada, eu acho. E o ferrolho também foi passado.
Ele viu o ferrolho, na parte superior da porta, e o
experimentou.
A lingüeta correu facilmente... facilmente demais.
—Quando ela foi aberta pela última vez? — perguntou à srta.
Bunner.
— Ah, há anos e anos, imagino. Pelo menos, nunca foi
aberta desde que vim morar aqui.
— A senhora sabe onde está a chave?
— Há uma porção de chaves numa gaveta por aqui. Deve ser
uma delas.
Craddock a seguiu e examinou um molho de velhas chaves
enferrujadas, que estava no fundo de uma gaveta. Examinou-
as e selecionou uma, que parecia diferente das demais, e a
levou para a porta. A chave servia, e girou com facilidade.
Ele empurrou, e a porta se abriu silenciosamente.
— Olhe, tenha cuidado — exclamou a srta. Bunner. —
Pode haver aiguma coisa encostada do outro lado. Nós
nunca a abrimos.
— Não? — perguntou o inspetor.
Seu rosto estava carrancudo, quando ele disse,
enfaticamente:
— Esta porta foi aberta muito recentemente, srta. Bunner.
Tanto a fechadura quanto as dobradiças foram lubrificadas.
Ela o encarou, de olhos arregalados.
— Quem iria fazer uma coisa dessas? — perguntou.
— É o que vou descobrir — disse Craddock, energicamente.
E pensou: "O sr. X, um estranho? Não... X estava aqui...
nesta casa.,, estava na sala de estar, naquela noite..."

CAPÍTULO 10
Pip E EMMA

I
Desta vez a srta. Blacklock ouviu com maior interesse o que
ele tinha a dizer. Era uma mulher inteligente, ele já o
percebera, e não lhe escapou a importância das revelações
do policial.
— Realmente — ela disse — isso muda tudo... Ninguém
tinha direito de mexer naquela porta. Com o meu
conhecimento, ninguém mexeu nela.
— Mas a senhora sabe o que isso quer dizer — insistiu o
inspetor. — Quando as luzes se apagaram, naquela noite,
qualquer pessoa que estivesse nesta sala poderia ter saído por
aquela porta, vir por trás de Rudi Scherz e atirar na senhora.
— Sem que alguém visse, ouvisse ou percebesse?
— Sem que alguém visse, ouvisse ou percebesse. Lembre-se
de que, quando as luzes se apagaram, todos se movi-
mentaram de um lado para outro, falando e esbarrando uns
nos outros. E, depois, tudo o que podiam ver era a luz
ofuscante da lanterna.
Pausadamente, a srta. Blacklock replicou:
— E o senhor acredita que uma daquelas pessoas, essa gente
boa e comum que são os meus vizinhos, esgueirou-se para
fora e tentou me assassinar? A mirnl Mas, por quê! Pelo
amor de Deus, por quê?
— Tenho a impressão de que a senhora deve saber a resposta
a essa pergunta, srta. Blacklock.
— Mas não sei. Garanto-lhe, inspetor, que não sei.
— Bem, vamos tentar descobrir. Quem fica com o seu
dinheiro, se a senhora morrer?
— Patrick e Julia — disse a srta. Blacklock, com certa
relutância. — Deixei também os móveis desta casa e uma
pequena renda anual para Bunny. Realmente, não é muito.
Eu tinha muita coisa em títulos alemães e italianos, que
perderam todo o valor; além disso, com os impostos e
pequenos dividendos que estão sendo pagos hoje em dia,
posso lhe garantir que minha morte não valeria grande coisa.
Há cerca de um ano, prendi quase todo o meu dinheiro
numa renda anual.
— Seja como for, a senhora tem alguma renda, e seus
sobrinhos são os herdeiros.
— E, por isso, Patrick e Julia planejariam me matar?
Simplesmente não acredito. Não estão desesperados por
causa de dívidas, nem nada parecido.
— Tem certeza disso?
— Não, sei apenas o que eles me contam... Mas,
francamente, recuso-me a suspeitar deles. Algum dia, pode
ser que valha a pena me matar, mas não agora.
— O que quer dizer essa história de "algum dia", srta.
Blacklock? — perguntou o policial, com a atenção
despertada pela ênfase.
— Apenas que, algum dia... talvez em breve... eu poderei ser
uma mulher muito rica.
— Isso me interessa. Explique, por favor.
— Pois não. Talvez não saiba, mas, por mais de vinte anos,
fui secretária e colaboradora pessoal de Randall Goedler.
Craddock estava cada vez mais interessado. Randall Goedler
fora um figurão no mundo das finanças. Suas especulações
audaciosas e a aura de publicidade melodramática que
sempre o cercara fizeram dele uma personalidade difícil de
ser esquecida. Morrera, se Craddock não se enganava, em
1937 ou 38.
— Não é do seu tempo, acho eu — disse a srta. Blacklock.
— Mas com certeza ouviu falar no seu nome.
— Ah, naturalmente. Era um milionário, não?
— Muitas vezes milionário, embora sua riqueza flutuasse
muito. Sempre arriscava quase tudo o que tinha num novo
golpe.
Ela falava com entusiasmo; seus olhos brilhavam com a
recordação.
— De qualquer forma, ele morreu muito rico. Não tinha
filhos. Deixou a fortuna em usufruto para a esposa enquanto
vivesse e, depois, tudo para mim.
A vaga lembrança de uma manchete ecoou no cérebro do
inspetor.
IMENSA FORTUNA DEIXADA PARA FIEL SECRETÁRIA... OU
coisa parecida.
— Nos últimos doze anos — disse a srta. Blacklock, com
certa malícia —, eu tive excelentes razões para assassinar a
sra. Goedler..., mas não é isso que lhe interessa, não é
mesmo?
— Por acaso... desculpe-me por perguntar. Por acaso a sra.
Goedler não gostou da decisão do marido?
A srta. Blacklock abertamente achou graça na pergunta.
— Não precisa ser tão discreto. O que o senhor quer
realmente saber é se fui amante de Randall Goedler. Não,
não fui. Não creio que Randall tenha jamais pensado em
mim dessa forma; e eu, certamente, nunca senti esse tipo de
atração por ele. Era apaixonado por Belle, a esposa, e morreu
apaixonado por ela. Tenho certeza de que a gratidão foi o
motivo que o levou a fazer aquele testamento. Sabe,
inspetor, nos primeiros tempos, quando Randall estava
começando, esteve à beira do desastre total. Era uma questão
de algumas mil libras em dinheiro vivo, embora o golpe
fosse enorme e emocionante, audacioso como tudo o que
ele fazia. E ele não tinha o dinheiro necessário. Eu o socorri;
tinha algumas economias e acreditava em Randall. Vendi
tudo o que tinha e lhe dei o dinheiro. Foi o bastante. Uma
semana depois, ele era um homem imensamente rico.
— Depois disso, ele sempre me tratou como uma espécie de
sócia. Ah, foi uma época emocionante — e a srta. Blacklock
suspirou. — Eu me divertia muito. Depois, meu pai morreu,
minha única irmã era doente. Tive de largar tudo para cuidar
dela. Randall morreu uns dois anos depois. Eu ganhara muito
dinheiro enquanto trabalhávamos juntos, e com franqueza
não esperava que me deixasse coisa alguma, mas fiquei
comovida, realmente, e orgulhosa, quando soube que, se
Belle morresse antes de mim (e ela sempre foi uma dessas
criaturas delicadas que todos pensam que não vão durar
muito), eu herdaria toda a sua fortuna. É possível que ele
não soubesse o que fazer com o dinheiro. Belle é um amor
de pessoa, e ficou contentíssima com a solução, ela é-
mesmo muito boa. Vive na Escócia. Não a tenho visto há
anos... só trocamos cartas no Natal. O senhor sabe, levei
minha irmã para um sanatório suíço pouco antes da guerra.
Ela morreu lá, tísica.
Depois de ficar em silêncio por um momento, ela
continuou:
— Só voltei para a Inglaterra há pouco mais de um ano.
— A senhora disse que poderia ser uma mulher muito rica
em breve... dentro de quanto tempo?
— Soube, pela enfermeira que cuida dela, que Belle está
caindo muito depressa. Pode ser... talvez, uma questão de
semanas. O dinheiro não representará muito para mim —
ela acrescentou, com tristeza na voz. — Tenho o bastante
para o que preciso. Antigamente, gostava de jogar na Bolsa,
mas hoje... Ah, a gente vai ficando velha. Seja como for,
inspetor, creio que o senhor compreendeu que, se Patrick e
Julia quisessem me matar por motivos financeiros, seriam
loucos em não esperar mais algum tempo.
— Entendo, srta. Blacklock, mas o que aconteceria se a
senhora morresse antes da sra. Goedler? Para quem iria o
dinheiro?
— Para falar a verdade, nunca pensei nisso. Para Pip e
Emma, acho eu...
Craddock arregalou os olhos e a srta. Blacklock sorriu.
— Parece esquisito? Acontece que, se eu morrer antes de
Belle, o dinheiro deve ir para a progénie legal (não é assim
que se diz?) da única irmã de Randall, Sônia. Randall tinha
brigado com a irmã, que se casou com ura sujeito que ele
considerava um vigarista... ou pior.
— Era mesmo um vigarista?
— Ah, sem dúvida. Mas, tenho a impressão de que também
fazia muito sucesso com as mulheres; era grego, ou romeno,
ou coisa parecida... como se chamava, mesmo?... Stamfordis,
Dmitri Stamfordis.
— Randall Goedler tirou a irmã do testamento quando ela se
casou com esse sujeito?
— Ah, Sônia já era uma mulher rica. Randall sempre fez
investimentos para ela. Quando possível, dava um jeito para
que o marido não pudesse tocar no dinheiro. Mas creio que,
quando os advogados aconselharam que previsse a hipótese
de que eu morresse antes de Belle, ele escolheu, com certa
relutância, os filhos de Sônia; apenas porque não lhe ocorreu
outra coisa e porque ele não era homem de deixar seus bens
para obras de caridade.
— E havia filhos?
— Pois é isso: são Pip e Emma — riu. — Eu sei. que soa meio
ridículo. Mas tudo o que sei é que Sônia escreveu a Belle,
depois do casamento, pedindo que dissesse a Randall que
estava muito feliz, que tivera gêmeos e que os chamava de
Pip e Emma. Que eu saiba, nunca escreveu novamente. Mas
é claro que Belle poderá lhe contar mais detalhes.
A srta. Blacklock achava a história toda um tanto divertida; o
inspetor, não muito.
— O problema é o seguinte — resumiu ele. — Se a
senhora tivesse sido morta na outra noite, pelo menos duas
pessoas receberiam uma fortuna bastante grande. A senhora
está enganada, srta. Blacklock, quando diz que ninguém teria
motivo para desejar a sua morte. Existem duas pessoas, no
mínimo, com motivos bastante ponderáveis. Que idade teria
agora esse casal de gêmeos?
A srta. Blacklock franziu a testa.
— Deixe-me ver... 1922... não, é difícil lembrar... Imagino
que estariam com 25 ou 26. — Ela estava séria, agora. —
Mas, com certeza, o senhor não pensa...
— Penso que alguém disparou um revólver, com a intenção
de matá-la. Penso que é possível que a mesma pessoa tente
novamente. Gostaria, por favor, que a senhora tivesse o
maior cuidado, srta. Blacklock. Um homicídio já foi
planejado, e não deu certo. Creio que uma segunda tentativa
está sendo preparada agora mesmo.

II
Phillipa Haymes se aprumou e afastou da testa úmida uma
mecha rebelde. Estava limpando um canteiro.
— Pois não, inspetor?
Olhou-o com curiosidade. Ele a examinou com atenção bem
... maior do que fizera anteriormente. Realmente, uma moça
bonita, um tipo bem inglês, com seu cabelo muito louro, o
rosto alongado. Um queixo e uma boca marcados pela
obstinação. O conjunto dava a impressão de que nela havia
algo reprimido, algo de tenso. Os olhos-eram azuis, firmes,
inescrutáveis. O tipo de moça capaz de guardar a sete chaves
um segredo.
— Desculpe por procurá-la sempre quando está trabalhando,
sra. Haymes — disse ele —, mas não quis esperar até a hora
do almoço. Além disso, achei que seria mais fácil
conversarmos aqui e não em Little Paddocks.
— O que é, inspetor?
Não havia emoção em sua voz; e muito pouco interesse.
Mas, não haveria um leve indício de cautela... ou seria
imaginação sua?
— É a propósito de uma certa declaração que ouvi esta
manhã. Uma declaração a seu respeito.
Phillipa ergueu levemente as sobrancelhas.
— A senhora me disse, sra. Haymes, que aquele homem,
Rudi Scherz, era-lhe inteiramente desconhecido?
— Disse.
— Que, quando o viu, morto no chão, fora a primeira vez
que lhe pusera os olhos em cima, certo?
— Claro. Nunca o vira antes.
— Por acaso não teve uma conversa com ele, no pavilhão do
jardim de Little Paddocks?
— No pavilhão?
Ele teve quase certeza de ter percebido um toque de medo
em sua voz.
— Lá mesmo, sra. Haymes.
— Quem disse isso?
— Disseram-me que a senhora teve uma conversa com Rudi
Scherz, na qual ele lhe perguntara onde poderia se esconder,
e a senhora respondera que lhe mostraria um lugar; uma
certa hora, seis e quinze, foi mencionada na conversa. E
deve ter sido mais ou menos a essa hora que Scherz chegou
a estas redondezas, vindo do ponto de ônibus, na noite do
assalto.
Houve um momento de silêncio. Depois, Phillipa deu uma
risada curta, de desprezo. Seu ar era o de quem se divertia
com tudo aquilo.
— Não sei quem lhe disse isso. Mas posso fazer uma idéia. É
uma história tola e malfeita. Inveja, é claro. Não sei bem por
que, mas Mitzi me detesta mais do que os outros.
— A senhora desmente o que ela disse?
— Claro que desminto... nunca vi Rudi Scherz na minha
vida, e nem cheguei perto da casa naquela manhã. Estava
aqui, trabalhando.
— Em qual manhã? — perguntou Craddock, suavemente.
Houve uma momentânea pausa. Os olhos da jovem
brilharam.
— Todas as manhãs. Eu passo todas as manhãs aqui. Nunca
saio antes de uma hora.
Com sarcasmo, ela concluiu:
— Não adianta dar atenção a Mitzi. Ela mente o tempo
todo.
— É um problema — comentou Craddock, enquanto se
afastava com o sargento Fletcher. — Duas mulheres cujas
histórias se contradizem frontalmente. Em qual vamos
acreditar?
— Parece que todo mundo concorda que essa moça
estrangeira é uma mentirosa de marca maior — disse
Fletcher.
— Pela minha experiência com estrangeiros, eles mentem
com a maior tranqüilidade. E acho óbvio que ela tem raiva
da sra. Haymes.
— Então, se você estivesse no meu lugar, acreditaria na sra.
Haymes?
— A não ser que o senhor tenha outros motivos...
E Craddock não os tinha, não concretamente, exceto por
um par de olhos azuis muito firmes, firmes demais, e a
maneira pela qual ela dissera as palavras "naquela manhã".
Por mais que se esforçasse, Craddock não se lembrava de ter
dito que o encontro no pavilhão se realizara de manhã ou à
tarde.
Por outro lado, a srta. Blacklock (e se ela não tivesse feito,
certamente a srta. Bunner o teria) poderia ter falado da visita
do jovem estrangeiro que viera tentar arranjar dinheiro para
uma passagem para a Suíça. E Phillipa Haymes, sabendo
disso, poderia ter chegadp naturalmente à conclusão de que
a conversa teria ocorrido naquela mesma manhã.
Mas, ainda assim, ele tinha a impressão de ter percebido um
toque de medo na voz de Phillipa, quando ela perguntara:
— No pavilhão?
Decidiu não tirar qualquer conclusão a respeito do episódio,
por enquanto.

III
Era agradável ficar no jardim da casa do reverendo. Um
daqueles veranicos de outono caíra sobre a Inglaterra. O
inspetor Craddock nunca conseguia se lembrar se
chamavam a isso "Verão de s. Martinho" ou "Verão de s.
Lucas", mas isso pouco importava, o ar ficava realmente
mais agradável. E, também, um tanto exasperante. Estava
sentado numa cadeira de lona oferecida pela dinâmica
Bunch, que saíra para uma reunião de mães na escola local.
Bem protegida por diversos xales e mais um cobertor sobre
os joelhos, Miss Marple tricotava ao seu lado. O sol, a paz, o
ruído ritmado das agulhas de tricô de Miss Marple, tudo se
combinava para quase levá-lo a adormecer. No entanto, ao
mesmo tempo, ele sentia a presença, num recanto
escondido do cérebro, de um mau pressentimento. Era
como um sonho já conhecido, no qual uma ameaça oculta
sob uma superfície pacífica aos poucos transforma a
tranqüilidade em puro terror...
Abruptamente, ele disse:
— A senhora não deveria estar aqui.
As agulhas pararam de girar por um instante. Os olhos
plácidos e límpidos de Miss Marple fixaram-se nele,
pensativos.
— Eu sei o que o senhor quer dizer — disse ela. — O senhor
é um rapaz muito sensato. Mas não há problema algum. O
pai de Bunch (foi o pastor de nossa paróquia, um homem
muito erudito) e a sua mãe (uma mulher realmente
impressionante de muita força espiritual) são velhos amigos
meus. E a coisa mais natural do mundo que eu, estando em
Medenham, venha passar uns dias com ela.
— Pode ser — concordou Craddock. — Mas... não ande
bisbilhotando por aí. Tenho um pressentimento... é verdade,
tenho mesmo... de que seria muito arriscado.
Miss Marple esboçou um sorriso.
— O problema — disse ela — é que todas as mulheres de
idade são bisbilhoteiras. Teria sido muito esquisito, e mais
fácil de provocar desconfianças, se eu não metesse um
pouco o nariz onde não sou chamada. Perguntas sobre
amigos comuns em outros países, e se a pessoa se lembra de
fulano e de beltrano, e quem foi mesmo que se casou com a
filha de lady qualquer-coisa? E tudo isso ajuda, não?
— Ajuda? — perguntou o inspetor, sentindo-se não muito
inteligente.
— Sim, ajuda a descobrir se as pessoas são o que dizem que
são — explicou Miss Marple. E continuou:
— Não é isso que b preocupa? Na verdade, é uma das coisas
mais estranhas que aconteceram por causa da guerra. Por
exemplo, este lugar, Chipping Cleghorn, é muito parecido
com St. Mary Mead, onde eu moro. Há quinze anos, a gente
sabia quem era todo mundo. Os Bantrys, na mansão, e os
Hartnells, os Price Ridleys, os Weatherbys... Eram pessoas
cujos pais e mães e avós e avôs, ou tios e tias, haviam
morado no mesmo lugar antes delas. Se alguém viesse de
fora, sempre trazia cartas de apresentação, ou tinham sido do
mesmo regimento ou servido no mesmo navio. E, se
aparecesse alguém que fosse realmente um estranho — um
completo desconhecido — então todos ficariam imaginando
coisas e não descansariam enquanto não descobrissem tudo
a seu respeito.
Com alguma melancolia, ela balançou a cabeça,
continuando:
— Mas não é mais assim. Todas as vilas e pequenos
lugarejos do interior estão cheios de pessoas que apenas
chegaram e se instalaram, sem ter quaisquer laços com a
gente da terra. Todas as mansões foram vendidas, e os
bangalôs foram modificados e restaurados. E aparecem
novos moradores a todo o instante. Tudo o que sabemos
deles é o que eles mesmos contam. Vêm de todas as partes
do mundo. Da índia, de Hong-Kong e da China, e mais as
pessoas que viviam na França e na Itália, em cidadezinhas
baratas e ilhotas pitorescas. E, também, que ganharam algum
dinheiro e puderam se aposentar. Mas ninguém mais sabe
quem é quem. Alguém pode ter objetos de bronze de
Benares em casa, ou falar em tiffin e chota Hazri, ou
poderá ter estatuetas de Taormina è falar de sua igreja inglesa
e da biblioteca de lá; como a srta. Murgatroyd e a srta.
Hinchliffe. Pode ter vindo do Sul da França ou do Oriente. E
todos aceitam quem chega, sem pestanejar. Não esperam,
para a primeira visita, receber antes uma carta de um amigo,
dizendo que Fulano é uma pessoa encantadora, um amigo de
infância etc. e tal.
E isso, pensou Craddock, era exatamente a raiz do seu
problema. Ele não sabia. Todos eram apenas rostos e
personalidades, afiançados por carnes de racionamento e
cartões de, identidade... cartões bem impressos, numerados,
mas sem fotografias ou impressões digitais. Bastava querer,
para se conseguir um cartão de identidade; e, em parte
devido a isso, os laços sutis que mantinham intata a estrutura
da sociedade rural inglesa haviam se desfeito. Numa cidade,
ninguém conhece seus vizinhos; no campo, também não,
mas, às vezes, temos a ilusão de que os conhecemos.
Graças à porta que fora lubrificada, Craddock sabia que um
dos que haviam estado na sala de visitas de Little Paddocks
não era o bom vizinho que fingia ser... ou a boa vizinha...
E, por causa disso, ele tinha medo do que poderia acontecer
a Miss Marple, que era tão frágil e tão idosa, embora tão
esperta...
— Até certo ponto — disse ele —, podemos verificar a vida
pregressa desse pessoal...
Mas ele sabia que isso era mais difícil do que parecia. índia,
China, Hong-Kong, Sul da França... bem mais difícil do que
teria sido, quinze anos antes. Ele sabia muito bem que muita
gente andava pelo país com identidades emprestadas...
geralmente, emprestadas por pessoas vitimadas subitamente
em "trágicos incidentes" nas grandes cidades. Havia
organizações que compravam ou falsificavam identidades e
cartões de racionamento; havia centenas de atividades ilegais
de pequeno porte, florescendo por toda a parte. Era possível
verificar, mas levaria muito tempo, e tempo ele não tinha,
porque a viúva de Randall Goedler estava às portas da morte.
Foi então que, cansado e preocupado, embalado pela luz do
sol, ele contou a Miss Marple a história de Randall Goedler e
de Pipf Emma.
— Dois nomes, nada mais — disse ele. — Ainda por cima,
apelidos! Podem não existir. Podem ser dois respeitáveis
cidadãos vivendo em algum lugar,da Europa. Por outro lado,
um deles, ou ambos, podem estar aqui em Chipping
Cleghorn.
— Mais ou menos 25 anos... quem poderia ser? — Pensando
em voz alta, ele continuou: — O sobrinho e a sobrinha... ou
primos, ou sei lá o quê... há quanto tempo ela não os via, eu
gostaria de saber...
— Pode deixar que eu descubro — disse, gentilmente, Miss
Marple.
— Pelo amor de Deus, Miss Marple, não vá...
— Vai ser muito simples, inspetor, não precisa se
preocupar. E não vai chamar a atenção de ninguém, o
senhor sabe, já que não será oficial. Se houver alguma coisa
de errado com eles, não seria bom alertá-los, não é mesmo?
"Pip e Emma", pensou Craddock. Pip e Emma? Aquilo já era
uma obsessão para ele. O rapaz atraente, audacioso, a jovem
bonita de olhos frios...
— Nas próximas 48 horas — disse ele — poderei descobrir
mais alguma coisa sobre eles. Vou à Escócia. A sra. Goedler,
se estiver em condições de falar, poderá me contar muito a
respeito de Pip e Emma.
— Acho que é a melhor coisa que poderia fazer. Miss
Marple hesitou.
— Espero — ela murmurou — que o senhor tenha avisado a
srta. Blacklock para que tenha cuidado.
— Eu a preveni. E vou deixar um homem pelas redondezas,
para controlar a situação à distância.
Ele teve de evitar o olhar de Miss Marple, que lhe dizia com
suficiente clareza que deixar um homem para controlar a
situação à distância adiantaria muito pouco, se o inimigo
estivesse dentro de casa...
— E não se esqueça — disse Craddock, ao se despedir — que
também preveni a senhora.
— Posso lhe garantir, inspetor — disse Miss Marple —, que
sei tomar conta de mim mesma muito direitinho.

CAPÍTULO 11
Miss MARPLE TOMA UM CHÁ

Talvez Letitia Blacklock parecesse um pouco distraída
quando a sra. Harmon apareceu para o chá, trazendo uma
convidada que estava passando alguns dias em sua casa. Mas
Miss Marple, a convidada em questão, não o perceberia
facilmente, por ser a primeira vez que se viam.
A velhinha revelou-se encantadora, com seus modos gentis
e sua amena bisbilhotice. Logo de saída, mostrou que era
uma dessas velhas senhoras sempre preocupadas com
ladrões.
— Hoje em dia, minha cara — ela garantiu à dona da casa —,
eles conseguem entrar em qualquer lugar, em qualquer
lugar. Eu não acredito em nenhum desses sistemas
modernos de segurança inventados pelos americanos.
Prefiro uma coisa muito antiquada: um bom ferrolho, bem
pesado. Eles conseguem forçar fechaduras e destravar
trancas, mas um bom ferrolho? Duvido. Já tentou isso?
— Ah, nós não nos preocupamos muito com essas coisas —
disse a srta. Blacklock, risonha. — Aqui não há muita coisa
para ser roubada. ,
— É muito bom colocar uma correntinha na porta da frente
— aconselhou Miss Marple. — Assim, a empregada pode
abrir uma fresta para ver quem está batendo, e não podem
forçar a entrada.
— Acho que Mitzi (é uma refugiada que trabalha para nós)
adoraria isso.
— Deve ter sido horrível o assalto que aconteceu aqui;—
disse Miss Marple. — Bunch me contou tudo.
— Eu fiquei apavorada — disse Bunch.
— Foi mesmo uma experiência muito desagradável —
concordou a srta. Blacklock.
— Foi uma sorte, que o tal homem tenha tropeçado e atirado
nele mesmo, não foi? Esses ladrões são tão violentos hoje
em dia. Como é que ele entrou?
— O problema é que nós não temos o hábito de trancar as
portas.
— Ah, Letty — disse a srta. Bunner. — Esqueci de lhe
contar. O inspetor agiu de maneira muito esquisita hoje.
Insistiu em abrir a outra porta... você sabe, essa que nós
nunca abrimos, ali. Procurou a chave até achar, e disse que a
porta tinha sido lubrificada. Mas eu não sei por que, já que...
O sinal da srta. Blacklock para que calasse a boca veio tarde
demais e ela apenas hesitou, de boca aberta.
— Ah, Letty, desculpe... quer dizer, ah, Letty, não foi por
mal. Desculpe... eu sou tão burra...
— Não importa — disse a srta. Blacklock, embora fosse
visível o seu aborrecimento. — Só que imagino que o
inspetor Craddock não gostaria de que comentássemos o
assunto. Não sabia que você estava lá quando ele andou
investigando, Dora. A senhora compreende, não, sra.
Harmon?
— Ah, claro — disse Bunch. — Não vamos dizer uma
palavra, não é, tia Jane? Mas fico pensando por que ele...
E mergulhou em seus pensamentos. A srta. Bunner passou
alguns instantes hesitando, com a cara comprida dos
pecadores arrependidos, antes de voltar ao assunto, com
ímpeto:
— Mas eu sempre digo as coisas erradas! Ah, Letty, eu sou
uma carga tão grande nas suas costas...
— Você é o meu consolo, Dora — respondeu rapidamente a
srta. Blacklock. — Além disso, num lugar pequeno como
Chipping Cleghorn, nenhum segredo dura muito, mesmo.
— E isso é uma grande verdade — disse Miss Marple. — É
impressionante a rapidez com que as notícias correm. Em
parte são os empregados, mas não pode ser apenas isso;
temos tão poucos empregados hoje em dia. Mas há essas
mulheres que trabalham por hora, e até que devem ser
piores, porque vão de casa em casa, espalhando as
novidades.
— Oh! — exclamou, subitamente, Bunch Harmon. —
Entendi tudo! E claro: se essa porta também podia ser aberta,
então alguém poderia ter saído daqui, no escuro, e realizado
o assalto... Só que não foi assim... já que foi aquele homem
do hotel... ou não foi?... Realmente, ainda não entendi
tudo...
Ela franziu as sobrancelhas.
— E foi aqui que tudo aconteceu, então? — perguntou Miss
Marple, acrescentando, em tom de desculpa: — Tenho a
impressão de que a senhora está me achando muito curiosa,
srta. Blacklock..., mas é um episódio tão emocionante...
como essas coisas que a gente lê nos jornais... e, tendo
acontecido com alguém que a gente conhece... estou louca
para ouvir a história toda, para imaginar exatamente como
tudo aconteceu, a senhora entende, não?
Imediatamente, Miss Marple foi alvo de um relato, confuso
e não muito objetivo, a duas vozes, as de Bunch e da srta.
Bunner, salpicado de emendas e correções da parte da srta.
Blacklock.
No meio da narrativa, Patrick chegou e, de bom humor,
passou a colaborar, a ponto de desempenhar o papel de Rudi
Scherz.
— E a tia Letty estava ali... no canto, junto ao arco... Vá
para lá, tia Letty...
A srta. Blacklock, obedeceu, e aproveitaram para mostrar a
Miss Marple os buracos de bala na parede.
— Mas que coisa extraordinária... a senhora escapou por um
fio... — disse ela, arregalando os olhos.
— Eu ia oferecer cigarros aos convidados... — e a srta.
Blacklock apontou para a caixa de prata sobre a mesa.
— Quase ninguém toma cuidado, quando fuma — reclamou
a srta. Bunner. — Não respeitam os móveis como
antigamente. Olhem essa queimadura horrível que alguém
fez, deixando um cigarro aceso em cima da mesa. Uma
vergonha!
A srta. Blacklock suspirou.
— Não devemos dar muita importância a essas coisas...
— Mas é uma mesa tão bonita, Letty.
A srta. Bunner tinha, pelos bens da amiga, um carinho tão
grande como se fossem seus. Bunch Harmon sempre a
admirara por isso. Ela não tinha uma ponta sequer de inveja.
— É uma linda mesa — disse Miss Marple, gentilmente. —
E o abajur de porcelana, uma gracinha.
A srta. Bunner aceitou o elogio como se fosse ela, e não a
sua amiga, a proprietária do objeto.
— Não é uma beleza? Dresden. Temos dois iguais. O outro
está no quarto de guardados, acho eu.
— Você sabe onde está tudo nesta casa, Dora... ou, pelo
menos, pensa que sabe — disse a srta. Blacklock, com bom
humor. — Você se preocupa muito mais do que eu com as
minhas coisas.
A srta. Bunner encabulou.
— Eu gosto mesmo de coisas bonitas — ela confessou, numa
voz em que havia um pouco de desejo e outro tanto de
desafio.
— Eu, por mim, confesso que tenho muito carinho pelos
meus poucos bens — disse Miss Marple. — São tantas
recordações que estão-ligadas a eles, sabem como é... A
mesma coisa com fotografias. Hoje em dia, as pessoas
guardam muito poucos retratos. Eu, não: tenho todos os
retratos de meus sobrinhos e sobrinhas quando eram bebês,
depois mais crescidos, e assim por diante.
— A senhora tem uma foto minha horrível, com três anos
— disse Bunch. — Segurando um cachorro e apertando os
olhos.
— Imagino que a sua tia tenha uma porção de retratos seus
— disse Miss Marple, voltando-se para Patríck.
— Ah, nós somos apenas primos, não muito próximos.
— Acho que Elinor me mandou um retrato seu, quando era
um bebê, Patrick — disse a srta. Blacklock. — Mas acho que
o perdi. Para falar a verdade, tinha até esquecido quantos
filhos ela teve, e como se chamavam, até que ela me
escreveu, falando de vocês dois.
— É um outro sinal dos tempos — disse Miss Marple. —
Hoje, é muito comum a gente não conhecer os parentes
mais jovens. Antigamente, quando havia reuniões de
família, isso seria impossível.
— A última vez que vi a mãe de Pat e Julia foi em seu
casamento, há trinta anos — disse a srta. Blacklock. — Era
uma moça muito bonita.
— Por isso, teve filhos tão bonitos — disse Patrick, sorrindo.
— A senhora tem um álbum maravilhoso — disse Julia. —
Não se lembra, tia Letty? Nós o folheamos, outro dia.
Aqueles chapéus!
— E nós nos achávamos tão elegantes — suspirou a srta.
Blacklock.
— Não se incomode, tia Letty — afirmou Patrick. — Daqui a
uns trinta anos, Julia vai se encontrar em uma foto de hoje...
e na certa vai se achar ridícula!
— A senhora fez aquilo de propósito? — perguntou Bunch,
enquanto ela e Miss Marple voltavam para casa. — Puxar o
assunto das fotografias?
— Ora, meu bem, não deixa de ser interessante saber que a
srta. Blacklock não conhecia qualquer dos seus dois jovens
parentes de vista... É... acho que o inspetor Craddock vai
gostar de saber disso.

CAPÍTULO 12
ATIVIDADES MATINAIS EM CHIPPING
CLEGHORN

I

Edmund Swettenham se sentou, precariamente, num
montinho de pedras.
— Bom dia, Phillipa — disse ele.
— Alô.
— Muito ocupada?
— Mais ou menos.
— Fazendo o quê?
— Não está vendo?
— Não, não sou jardineiro. Para mim, você está brincando
com a terra.
— Estou preparando a terra para plantar alfaces.
— É mesmo? Bastante prosaico.
— Você queria alguma coisa em especial? — perguntou
Phillipa, com frieza.
— Queria. Ver você.
Phillipa o olhou de esguelha.
— Preferia que você não viesse. A sra. Lucas não vai gostar.
— Ela proíbe que você tenha admiradores?
— Não seja bobo.
— Admiradores... uma palavra certíssima. Descreve
perfeitamente a minha atitude. Admiração... respeitosa, à
distância... mas profunda.
— Vá embora, Edmund, por favor. Você não tem nada que
fazer aqui.
— Errado — respondeu ele, triunfante. — Eu tenho o que
fazer aqui. A sra. Lucas telefonou para mamãe hoje, e lhe
disse que está com um superávit de abóboras.
— Quilos.
— E talvez nós quiséssemos trocar um jarro de mel por
algumas abóboras.
— Mas é uma troca desigual! Abóboras não estão valendo
nada: todo mundo está cheio delas.
— É claro. E foi por isso que a sra. Lucas telefonou. Na
última vez, a troca sugerida foi de um pouco de leite
desnatado. Leite desnatado, veja bem, por alguns pés de
alface. Ainda não era tempo de alfaces, e estavam valendo
um shilling cada pé.
Phillipa não respondeu.
Edmund remexeu no bolso e extraiu um pote de mel.
— E aqui — disse — está o meu álibi. Indestrutível! Se o
busto da sra. Lucas apontar na esquina, estou aqui para trocá-
lo por alguns vegetais. Não se poderá dizer que quem estiver
conversando comigo esteja desleixando no cumprimento do
dever.
— Estou vendo.
— Você já leu Tennyson? — perguntou Edmund,
reanimando a conversa.
— Não muito.
— Deveria. Tennyson vai voltar a ficar na moda dentro de
muito pouco tempo. Quando você ligar o rádio, a BBC estará
transmitindo O idílio dos reis, em vez dessas
intermináveis discussões sobre Trollope. Para mim, a mania
por Trollope sempre foi sinal de afetação. Um pouquinho de
Trollope, de vez em quando, muito bem. Mas Trollope,
Trollope, Trollope, o tempo todo! Ninguém agüenta. Mas,
por falar em Tennyson: já leu o poema Maud?
— Uma vez. Há muito tempo.
— Tem umas coisas boas.
Quase murmurando, ele recitou:
— "Simples e pura, fria e certa, um vazio esplêndido." É
você, Phillipa.
— Não chega a ser um elogio!
— Não, não era para ser. Acho que o pobre coitado estava
intoxicado com a Maud, assim como eu estou com você.
— Não seja tolo, Edmund.
— Ah, que inferno, Phillipa, por que você é assim? O que
acontece atrás dessas lindas feições? O que, em que você
pensa? O que você sentei Está feliz, triste, assustada... ou
quê? Alguma coisa tem de ser.
— Os meus sentimentos são um problema meu — disse
Phillipa, em voz baixa.
— E meu também. Quero fazer você falar. Quero saber o que
está acontecendo nessa cabecinha fechada. Tenho direito de
saber. Claro que tenho! Eu não quis me apaixonar por você.
Só queria escrever meu livro, sozinho no meu canto. Um
livrinho tranqüilo, mostrando as misérias do mundo. É
extremamente fácil dizer coisas inteligentes sobre a
melancolia generalizada do mundo de hoje. É tudo uma
questão de hábito, no fundo. Eu me convenci disso quando
li uma biografia de Burne Jones.
Phillipa tinha deixado de lado as alfaces e o olhava com certa
perplexidade.
— O que tem Burne Jones a ver com tudo isso?
— Tudo, tudo. É lendo sobre os pré-rafaélicos que
compreendemos o que é a moda. Eles eram todos
absurdamente saudáveis, alegres; riam e brincavam, e tudo
era bom e maravilhoso. Era a moda da época. Não eram mais
saudáveis ou felizes do que nós. E nós não somos mais
infelizes do que eles. É tudo moda, eu lhe digo. Depois da
Primeira Guerra, foi a moda do sexo. Agora, é a moda das
frustrações. E nada disso importa. Mas, por que estamos
falando sobre essas coisas? Eu comecei falando sobre nós
dois. Mas me deu medo de continuar e acabei desviando o
assunto. Porque você não quer me ajudar.
— O que quer que eu faça?
— Fale! Conte-me coisas. É o seu marido? Você o adorava,
ele morreu, e por isso você se trancou na concha? É isso?
Muito bem, você o adorava, e ele morreu. Pois bem, os
maridos de outras mulheres também morreram, uma porção
deles, e algumas delas gostavam deles. A gente as ouve falar
em bares; chegam a chorar, quando bebem um pouco além
da conta, e depois vão para a cama com a gente porque
acham que assim vão se sentir melhor. É uma forma de
resolver o problema, eu acho. E você tem de resolver o seu
problema, Phillipa. Você é moça, muito linda, e eu a amo
demais. Fale-me sobre o seu maldito marido, conte-me
coisas sobre ele.
— Não há nada a contar. Nós nos conhecemos e nos
casamos.
— Você devia ser muito moça.
— Moça demais.
— Então, não era feliz com ele. Vamos, Phillipa, continue.
— Não há nada para continuar. Casamo-nos, éramos tão
felizes quanto a maioria das pessoas, acho eu. Harry nasceu.
Ronald foi para a guerra. Ele... ele morreu na Itália.
— E, agora, só existe Harry?
— E agora só existe Harry.
— Eu gosto de Harry. É um bom garoto, simpático. Ele gosta
de mim. Nós nos damos bem. E então, Phillipa? Vamos nos
casar? Você pode continuar com a jardinagem e eu vou
escrevendo o meu livro, e nos feriados paramos de trabalhar
e nos divertimos. Com um pouco de jeito, conseguiremos
não morar com mamãe. Ela pode soltar um pouco de
dinheiro para ajudar o filho adorado. Eu sou um parasita, eu
escrevo livros idiotas, eu não enxergo bem, eu falo demais.
Esses são os piores defeitos. Quer experimentar?
Phillipa o olhou. O que via era um jovem alto, de ar meio
solene, tendo no rosto um par de óculos e uma expressão de
expectativa. O seu cabelo cor de areia estava despenteado e
ele a encarava com um sorriso simpático e ansioso.
— Não — disse Phillipa.
— Definitivamente, não?
— Definitivamente, não.
— Porquê?
— Você não sabe nada a meu respeito.
— Só isso?
— Não. Você não sabe nada sobre coisa alguma. Edmund
pensou um pouco.
— Talvez não saiba, mesmo — ele admitiu. — Mas quem
sabe? Phillipa, minha adorada... — ele parou.
O som de uma voz estridente se aproximava deles.

Pássaros encarapitados no alto muro do jardim (recitou
Edmund),
Quando a noite começava a cair (embora sejam apenas
onze horas da manhã),
Phil, Phil, Phil, Phil,
Era o seu grito incessante.
— O seu nome não ajuda muito, para uma rima, não é?
Parece uma Ode a uma caneta-tinteiro Você não tem
outro nome?
— Joan. Por favor, vá embora. É a sra. Lucas.
— Joan, Joan, Joan, Joan. Melhor, mas não muito.
Quando a pobre Joan se debruça no fogão... não é uma
imagem que predisponha ao casamento, lamentavelmente.
— A sra. Lucas está...
— Ah, que inferno. — disse Edmund. — Passe aí uma
abóbora, vamos.

II

O sargento Fletcher estava à vontade em Little Paddocks.
Era o dia de folga de Mitzi. Ela sempre ia a Medenham Wells
no ônibus das 11h. Tendo feito uma combinação prévia com
a sita. Blacklock, o sargento Fletcher tinha a casa à sua
disposição. Dora Bunner e a dona da casa tinham ido à
cidade.
Fletcher trabalhou depressa. Alguém naquela casa havia
lubrificado e preparado a porta e, quem quer que o fizera,
tivera o objetivo de sair da sala de estar sem ser percebido,
assim que as luzes se apagassem. Isso deixava Mitzi de fora,
já que ela não precisaria usar aquela porta.
Quem sobrava? Os vizinhos, Fletcher pensou, também
podiam ficar de fora. Não imaginava como pudessem ter
oportunidade de preparar a porta. Sobravam Patrick e Julia
Simmons, Phillipa Haymes, e, possivelmente, Dora Bunner.
Os jovens Simmons estavam em Milchester. Phillipa,
trabalhando. O sargento tinha total liberdade de procurar o
que quisesse. Mas a casa, para seu desapontamento, não
parecia esconder segredos. Fletcher, que era um técnico em
eletricidade, não achou nada, na fiação ou nos aparelhos
elétricos, que sugerisse como haviam sido apagadas as luzes.
Dando uma rápida busca nos quartos de dormir, encontrou
tudo irritantemente normal. No quarto de Phillipa Haymes,
havia retratos de um menino de olhos sérios, uma foto mais
antiga da mesma criança, uma pilha de cartas infantis, dois
ou três programas teatrais. Julia tinha, em seu quarto, uma
gaveta cheia de instantâneos tirados no Sul da França:
banhos de mar, uma villa cercada de árvores floridas.
Patrick guardava algumas recordações de seus tempos na
Marinha. Dora Bunner tinha poucos objetos pessoais, todos
aparentemente inocentes.
No entanto, pensou Fletcher, alguém daquela casa havia
lubrificado a porta da sala.
Seus pensamentos foram interrompidos por um ruído que
vinha do andar de baixo. Ele correu para o patamar da escada
e olhou para baixo. A sra. Swettenham estava atravessando a
saleta de entrada. Tinha uma cesta no braço. Olhou para
dentro da sala de estar, voltou-se e entrou na sala de jantar.
Saiu logo depois, sem a cesta.


Um leve ruído feito por Fletcher, uma tábua que estalou sob
seus pés, a fez voltar a cabeça.
— Srta. Blacklock?
— Não, sra. Swettenham, sou eu — disse Fletcher. A mulher
sufocou um gritinho.
— Ah, que susto! Pensei que fosse um outro ladrão. Fletcher
desceu.
— Parece que esta casa não é bem protegida contra ladrões
— disse. — Todo mundo entra e sai daqui à vontade?
— Eu trouxe alguns marmelos — explicou a sra.
Swettenham. — A srta. Blacklock gosta de fazer marmelada,
e não tem marmeleiro no quintal. Eu os deixei na sala de
jantar.
Ela sorriu.
— Mas o senhor está querendo saber como é que eu entrei?
Foi pela porta do lado. Está sempre aberta. Nós vivemos
entrando e saindo da casa dos outros, sargento. Ninguém se
preocupa em trancar as portas antes de escurecer. E
atrapalharia tudo, não é, se a gente trouxesse coisas e não
tivesse onde deixá-las... Não-é como antigamente, quando
bastava apertar uma campainha que logo aparecia um criado
— ela suspirou. — Eu me lembro — lamentou-se — que na
índia tínhamos dezoito empregados... dezoito. Sem contar a
aia. E não era nada demais. Em casa, quando eu era pequena,
tínhamos três... e mamãe achava uma vergonha que não
pudéssemos ter uma auxiliar de cozinheira. Sei que a gente
não deve se queixar, sargento, mas eu estranho muito a vida
que se leva hoje em dia. Muito mais sofrem os pobres
mineiros, que vivem sofrendo de psitacosis (o nome é esse,
ou essa é aquela doença dos papagaios?) e por causa disso
têm de mudar de trabalho e vão ser jardineiros, sem saber
distinguir um tufo de grama de um pé de espinafre, não é
mesmo?
E acrescentou dirigindo-se para a porta:
— Não se incomode comigo. Imagino que esteja muito
ocupado. Escute: não vai acontecer mais nada, vai?
— Por que iria acontecer, sra. Swettenham?
— Eu pensei, vendo o senhor aqui. Será que não é uma
quadrilha de ladrões? Ah!... por favor, diga à srta. Blacklock
que eu trouxe os marmelos, sim?
A sra. Swettenham saiu. Fletcher se sentia como se tivesse
recebido um choque inesperado. Ele acreditara,
erroneamente, como agora percebia, que, obrigatoriamente,
havia sido alguém da casa que preparara a porta. E estava
vendo o seu erro. Alguém de fora precisaria apenas esperar
até que Mitzi tomasse o seu ônibus e que Letitia Blacklock e
Dora Bunner deixassem a casa. E nada seria mais simples.
Assim, não poderia ficar fora de cogitação qualquer das
pessoas que estiveram na sala de jantar naquela noite.

III
— Murgatroyd.
— O que é, Hinch?
— Andei pensando...
— Foi mesmo, Hinch?
— É, o cérebro genial andou funcionando. Sabe,
Murgatroyd, aquela história do outro dia não me convenceu
muito.
- Como assim, Hinch?
— Você vai ver. Prenda esse cabelo, Murgatroyd, e segure
este martelo. Faça de conta que é um revólver.
—Oh — disse a srta. Murgatroyd, nervosamente.
— Muito bem. Calma, ele não vai mordê-la. Venha até a
porta da cozinha. Você vai ser o ladrão. Fique aí. Agora,
você vai entrar na cozinha e assaltar um bando de patetas.
Segure a lanterna. Acenda-a.
— Mas é dia claro!
— Use a imaginação, Murgatroyd. Acenda.
A srta. Murgatroyd obedeceu, desajeitadamente, segurando
o martelo sob o braço enquanto o fazia.
— Muito bem — disse a srta. Hinchliffe —, vá em frente.
Lembre-se daquela vez em que você fez Hermia, do Sonho
de uma noite de verão, no Instituto Feminino. Seja atriz.
Capriche. "Mãos ao alto!" é tudo que você precisa dizer. Não
me estrague a cena dizendo "por favor".
Obedientemente a srta. Murgatroyd levantou a lanterna,
brandiu o martelo e avançou para a porta da cozinha.
Transferindo a lanterna para a mão direita, girou
rapidamente a maçaneta e deu um passo adiante, passando a
lanterna para a mão esquerda novamente.
— Mãos ao alto! — disse, sem muita convicção. — Meu
Deus, é muito difícil, Hinch — ela acrescentou, encabulada.
— Por quê?
— A porta. É de vaivém, fica voltando em cima de mim, e
estou com as duas mãos ocupadas.
— Exatamente — exclamou a srta. Hinchliffe. — E a porta da
sala de estar em Little Paddocks faz a mesma coisa. Não é de
vaivém, mas não pode permanecer aberta. Foi por isso que
Letty Blacklock comprou aquele prendedor pesado de vidro,
no Elliot's, na High Street. Por falar nisso, eu nunca a
perdoei por ter passado na minha frente. Eu já tinha
conseguido que aquele velho estúpido baixasse o preço de
oito guinéus para seis libras. E ainda ia pechinchar mais um
pouco, quando a Blacklock foi e comprou o danado. Nunca
vi um prendedor de porta tão bonito. É muito difícil
fazerem grandes como aquele.
— Talvez o ladrão tenha colocado o prendedor no lugar para
manter a porta aberta... — sugeriu a srta. Murgatroyd.
— Use a cabeça. Murgatroyd. Como é que ele fez?
Escancarou a porta, disse "Com licença um instante",
abaixou-se, ajeitou o prendedor e depois voltou à posição
inicial, mandando todo mundo levantar as mãos? Tente
segurar a porta com o ombro.
— Ainda fica muito sem jeito — queixou-se a srta.
Murgatroyd.
— Exato — disse a srta. Hinchliffe. — Um revólver, uma
lanterna e a porta para se segurar... é um pouco demais, não
é? Logo, qual é a resposta?
A srta. Murgatroyd não tentou responder. Olhava com
curiosidade e admiração para sua cerebral amiga e esperava
que dela viesse a luz da verdade.
— Nós sabemos que ele tinha um revólver, porque deu os
tiros
— disse a srta. Hinchliffe. — E sabemos que tinha uma
lanterna porque nós a vimos... a não ser que tenhamos sido
vítimas de hipnose coletiva como no truque indiano da
corda (como o velho Easterbrook é chato com aquelas
histórias); portanto, a pergunta a fazer é: será que alguém
segurou a porta para ele?
— Mas quem poderia ter feito isso?
— Ora, você, por exemplo, Murgatroyd. Que eu me lembre,
você estava de pé do lado da porta quando as luzes se
apagaram.
A srta. Hinchliffe riu com prazer.
— Um tipo muito suspeito, você, hein, Murgatroyd?
Ninguém pensaria, à primeira vista. Vamos, passe para cá
esse martelo. Graças a Deus que não é um revólver, ou você
já estaria morta a esta altura!

IV
— É a coisa mais extraordinária — murmurou o coronel
Easterbrook.
— Realmente extraordinária, Laura!
— Sim, querido?
— Venha aqui no meu quarto um instante.
— O que é, meu bem?
A sra. Easterbrook apareceu na soleira da porta.
— Lembra-se de quando lhe mostrei o meu revólver?
— Ah, sei. Uma coisa preta, horrível.
— É. Lembrança dos alemães. Estava nesta gaveta, não
estava?
— Estava — eu acho.
— Pois não está mais.
— Archie, que coisa estranha!
— Você não mexeu nele?
— Ah, imagine! Eu jamais teria coragem de encostar um
dedo naquele revólver.
— Será que aquela velha...?
— Ah, não, de forma alguma. A sra. Butt não faria uma coisa
dessas. Quer que eu pergunte?
— Não... é melhor não. Não vale a pena deixar que comecem
a falar. Diga uma coisa, você se lembra quando foi que lhe
mostrei o revólver?
— Ah... há uma semana, mais ou menos. Você estava
resmungando a respeito dos seus colarinhos e da lavadeira e
puxou a gaveta toda; estava ali no fundo, e eu perguntei o
que era.
— E, foi isso mesmo. Mais ou menos uma semana. Não se
lembra do dia?
De olhos baixos, a sra. Easterbrook pensou no problema,
usando todas as suas células cinzentas.
— Claro — disse ela. — Foi sábado. Nós íamos ao cinema e
acabamos não indo.
— Hum... tem certeza de que não foi antes? Na quarta-feira?
Ou quinta, ou na semana anterior?
— Não, meu bem — disse a sra. Easterbrook. — Lembro-me
muito bem. Foi sábado, dia 30. Parece que passou muito
tempo por causa de tudo o que houve. E posso mostrar por
que tenho certeza: foi no dia seguinte ao assalto na casa da
srta. Blacklock. Porque, quando vi o revólver, lembrei-me
do tiroteio, na noite anterior.
— Ah! — disse o coronel Easterbrook. — Isso tira um peso
das minhas costas.
— Ora, Archie, por quê?
— Porque, se esse revólver tivesse sumido antes do tiroteio...
ora, seria bem possível que aquele sujeitinho tivesse roubado
o meu revólver.
— E como é que ele ia saber que você tinha um revólver?
— Essas quadrilhas são diabólicas para descobrir essas coisas.
Conseguem saber tudo sobre os lugares e as pessoas que
moram neles.
— Quanta coisa você sabe, Archie.
— Lá isso é verdade. A experiência que eu tenho... Mas,
como você se lembra de ter visto o revólver depois daquela
noite, tudo está resolvido. O revólver que o suíço usou não
poderia ser o meu, certo?
— Claro.
— É um alívio. Eu teria de ir à polícia, e iam me fazer uma
porção de perguntas desagradáveis. Seria obrigação deles. E
eu nunca cheguei a tirar uma licença para ele. A gente acaba
se esquecendo dessas leis, depois de uma guerra. E eu o
considerava mais um souvenir do que uma arma.
— Claro. É natural, meu bem.
— Mas, mesmo assim... onde diabo estará ele?
— É bem capaz da sra. Butt tê-lo apanhado. Ela sempre me
pareceu muito honesta, mas pode ser que tenha ficado
muito nervosa depois do assalto, e tenha tido vontade de ter
um revólver em casa. Mas ela jamais confessará. Nem vou
lhe perguntar nada. Pode se ofender. E, depois, o que que
nós íamos fazer? Esta casa é tão grande... eu, sozinha, nunca
poderia...
— Certo — decidiu o coronel Easterbrook. — Melhor não
dizer nada.

CAPÍTULO 13
ATIVIDADES MATINAIS EM CHIPPING
CLEGHORN (CONT.)

Miss Marple fechou atrás de si o portão da casa paroquial e
entrou no pequeno caminho que levava à rua principal.
Com a ajuda de uma grossa bengala do reverendo Julián
Harmon, seus passos eram seguros e rápidos.
Passou pelo bar Red Cow e pelo açougueiro; fez uma breve
parada para examinar a vitrina da loja de antiguidades do sr.
Elliot. A loja ficava estrategicamente situada ao lado da casa
de chá Bluebird, para que os seus freqüentadores
motorizados, depois de parar para uma xícara de chá e uns
"bolinhos caseiros" — uma designação um tanto eufemística
—, se sentissem tentados pelos objetos engenhosamente
expostos na vitrina.
O sr. Elliot procurara servir a todos os gostos. Duas peças de
cristal de Waterford repousavam sobre um belo porta-
garrafas. Uma escrivaninha de nogueira se anunciava como
sendo "uma autêntica pechincha" e, sobre uma mesa, viam-
se diversas peças: aldabras de formatos curiosos, louça de
Dresden, dois tristonhos colares de contas, uma caneca com
a inscrição "Recordação de Tumbridge Wells" e alguns
objetos de prata vitoriana.
Miss Marple se encantou com a vitrina e o sr. Elliot, uma
aranha velha e obesa, espreitou de sua teia, avaliando as
possibilidades daquela nova mosca.
No momento exato em que ele chegava à conclusão de que
uma recordação de Tumbridge Wells não deveria
corresponder aos sonhos secretos de uma senhora
hospedada na casa paroquial (é claro que o sr. Elliot, como
todo mundo, sabia exatamente quem era ela), Miss Marple
avistou, com o canto do olho, a srta. Dora Bunner entrando
no Bluebird. Imediatamente, decidiu que nada seria melhor
para cortar o vento frio da manhã do que uma boa xícara de
café.
A idéia já ocorrera a quatro ou cinco senhoras. Miss Marple,
piscando os olhos para acostumá-los ao ambiente mal
iluminado do café, foi saudada pela voz de Dora Bunner, ao
seu lado.
— Bom dia, Miss Marple. Sente-se aqui, vamos. Estou
sozinha.
— Muito obrigada.
Miss Marple se deixou cair, com certo alívio, na cadeira de
braços pintada de azul e de aparência frágil, que era um dos
pontos altos da decoração da casa de chá.
— Que vento forte — queixou-se ela. — Eu não posso
andar muito depressa, por causa do meu reumatismo.
— Eu sei o que é isso. Sofri de ciática um ano... era horrível!
Com apetite, as duas senhoras trocaram impressões de
combate sobre reumatismo, ciática e nefrite. Uma jovem de
ar emburrado, que vestia um avental cor-de-rosa enfeitado,
no busto, por uma revoada de pássaros azuis, ouviu com um
bocejo e um resmungo de fatigada impaciência os seus
pedidos de café e bolinhos.
— Os bolinhos — disse a srta. Bunner, num sussurro
conspiratório — são mesmo muito bons aqui.
— Simpatizei muito com aquela moça, tão bonitinha, que
encontrei outro dia, quando estava saindo da sua casa —
disse Miss Marple. — Acho que ela trabalha em jardinagem.
Ou será outra coisa? Hynes... ou é outro nome?
— Ah, sim, Phillipa Haymes. Nossa "hóspede de honra",
como nós costumamos dizer.
A srta. Bunner riu de seu próprio senso de humor.
— Uma moça muito tranqüila; uma pessoa fina, sabe como é.
— Imagino. Conheci um coronel Haymes... na cavalaria
indiana. Talvez seja o seu pai dela, não?


— Ela é sra. Haymes. Viúva. O marido foi morto na Sicília,
ou na Itália. Pode ser que o seu seja o pai dele.
— Fiquei pensando, não haverá um pouco de romance no
ar? — sugeriu, com ar maroto, Miss Marple. — Com aquele
rapaz alto?
— Com Patrick, a senhora quer dizer? Não, eu não...
— Não, eu falo de um rapaz alto, de óculos. Já o vi por aí.
— Ah, sim, Edmund Swettenham. Psiu! Aquela ali, no canto,
é a mãe dele, a sra. Swettenham. Mas não sei, sabe? Acha
que ele gosta dela? É um rapaz tão estranho... às vezes, diz
coisas tão esquisitas. Todos dizem que ele é muito
inteligente — concluiu ela, com o ar de quem revelava um
vício oculto.
— A inteligência não é tudo na vida — sentenciou Miss
Marple, sacudindo a cabeça. — Ah, olhe o nosso café.
A jovem de cara amarrada colocou a louça, ruidosamente,
sobre a mesa. Miss Marple e a srta. Bunner se serviram de
bolinhos.
— Achei uma coisa tão bonita, a senhora e a srta. Blacklock
terem sido colegas de escola. Uma amizade antiga; é raro
isso hoje em dia.
— É mesmo — suspirou a srta. Bunner. — Muito pouca
gente seria tão leal a uma velha amiga como ela foi. Ah, os
bons tempos, há tantos anos... Ela era tão bonita, e gostava
tanto da vida... uma coisa tão triste...
Sem ter a menor idéia do que seria tão triste assim, Miss
Marple também suspirou e sacudiu a cabeça.
— A vida é muito dura — murmurou.
— "E o triste sofrimento com bravura suportado" — recitou a
srta. Bunner, com os olhos rasos d'água. — Sempre me
recordo deste verso. Paciência e resignação... são virtudes
que merecem recompensa, na minha opinião. Para mim,
nada é bom demais para ela, e o que lhe acontecer de bom, é
porque ela merece, de verdade.
— O dinheiro — disse Miss Marple — pode fazer muito para
suavizar os nossos sacrifícios.
O comentário era, pelo menos aparentemente, seguro. A
outra só poderia estar falando das possibilidades de riqueza
futura da srta. Blacklock.
No entanto, ele lançou a srta. Bunner numa trilha diferente.
— Dinheiro! — exclamou ela com amargura. — Sabe, eu
não creio que alguém, sem passar pela experiência, possa
saber o que realmente representa o dinheiro, ou melhor, a
falta de dinheiro.
Miss Marple concordou sabiamente, com um aceno de sua
cabeça branca.
A srta. Bunner continuou, falando rapidamente,
entusiasmando-se, com o sangue lhe subindo ao rosto:
— Tantas vezes a gente ouve as pessoas dizerem que
preferem "ter só flores na mesa, a ter uma mesa sem flores".
Quantas vezes quem diz isso terá passado sem comer? Não
sabem o que é. Ninguém sabe, sem ter passado por isso:
sentir fome de verdade. Pão, um pouquinho de margarina,
um vidro de pasta de carne. Um dia depois do outro, sempre
a mesma coisa, e a gente sonhando com um bife, com
legumes. E a má aparência. Quando a gente tem de
remendar as roupas e ficar esperando que não fique muito
visível. E tentar trabalhar e ouvir, sempre, dizerem que já
passamos da idade. Ou, então, conseguir um emprego só
para descobrir que as forças da gente não dão. E desmaiar, e
perder o emprego. E o aluguel, sempre o aluguel, que tem de
ser pago, ou nos botam na rua. A pensão que a gente recebe
nunca dura muito... dura muito pouco, na verdade.
— Eu sei — disse, com ternura, Miss Marple, olhando para a
expressão corada e aguerrida da srta. Bunner.
— Eu escrevi a Letty. Vi o seu nome por acaso, no jornal.
Era a notícia de um almoço em benefício do hospital de
Milchester. Estava lá, preto no branco: A srta. Letitia
Blacklock. Senti como se o passado estivesse voltando. Há
anos que não ouvia falar nela. Tinha sido secretária de um
homem muito rico, Goedler, nunca ouviu falar nele? Sempre
fora uma jovem inteligente, dessas que sobem na vida. Não
era muito bonita, mas de muita personalidade.
Eu pensei... ora, eu pensei que talvez ela se lembrasse de
mim..., e era uma das pessoas que poderiam me ajudar.
Alguém que a gente conheceu na infância, companheira de
colégio, que nos conhece a fundo... que sabe que a gente...
que a gente não está querendo enganar ninguém...
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Foi então que Lotty veio e me levou com ela. Disse que
precisava de alguém para ajudá-la. Eu tive a maior surpresa
da minha vida, é claro... mas é claro que os jornais sempre
podem se enganar, não é? Ela foi tão boa... tão
compreensiva. Eu faria qualquer coisa por ela... qualquer
coisa. E se lembrava tão bem dos bons tempos... Eu faço
muita força, realmente me esforço... mas às vezes faço tudo
errado... minha cabeça não anda boa, sabe como é? Eu me
engano muito. Eu me esqueço, e digo as coisas erradas. Ela é
muito paciente. O que eu realmente gosto nela é que sempre
finge que eu sou mesmo útil a ela. Isso é que é bondade, não
acha?
— É realmente bondade — concordou Miss Marple, com
doçura.
— Mesmo depois de vir para Little Paddocks, eu costumava
me preocupar com o que ia ser de mim... se alguma coisa
acontecesse a ela. Há tantos acidentes... esses carros correm
feito uns loucos... nunca se sabe, não é? É claro que eu
nunca disse nada; mas ela deve ter adivinhado. Um dia, de
repente, contou que deixara para mim uma renda fixa, no
testamento... e, também, o que para mim tem muito mais
valor... todos os seus móveis, que são tão bonitos... Fiquei
tão emocionada... Mas ela disse que ninguém cuidaria deles
como eu... e isso é verdade, mesmo... eu não suporto ver
objetos quebrados, marcas de copos em cima das mesas,
essas coisas. Eu me preocupo com esse tipo de coisas.
Algumas pessoas são tão descuidadas... há umas que são mais
do que descuidadas!
Falando com simplicidade, ela prosseguiu:
— Eu não sou tão estúpida quanto pareço. Eu vejo muito
bem quando alguém está explorando Letty. Umas pessoas,
não vou dizer nomes, tiram todas as vantagens que podem.
Ela confia demais, sabe como é?
— Faz muito mal — disse Miss Marple, balançando a cabeça.
— Faz, sim. A senhora e eu, Miss Marple, nós conhecemos o
mundo. Mas, ela...
E a srta. Bunner também sacudiu a cabeça.
Miss Marple tinha a impressão de que a secretária de um
grande homem de negócios também deveria conhecer o
mundo. Provavelmente, a srta. Bunner queria referir-se ao
fato de que Letty Blacklock sempre vivera com conforto, e
que as pessoas bem colocadas na vida não conhecem os
profundos abismos da natureza humana.
— Aquele Patrick! — exclamou a srta. Bunner, tão
repentinamente e com tanta aspereza que Miss Marple quase
deu um pulo. — Que eu saiba, já arrancou dinheiro dela duas
vezes. Fingindo que está cheio de dívidas. Essas desculpas.
Ela é generosa demais. Quando eu lhe falei sobre isso, só
soube dizer que "ele é muito moço, Dora; é na juventude
que se deve aproveitar".
— Mas isso é mesmo verdade — opinou Miss Marple. — É
um rapaz tão simpático.
— Não vejo essa simpatia toda — insistiu Dora Bunner. —
Vive se divertindo à custa dos outros. E aposto que vive
metido com garotas. Para ele, eu não passo de... de uma
figura ridícula. Parece que não compreende que as pessoas
também têm sentimentos.
— Mas os moços sempre são assim — disse Miss Marple.
Com ar misterioso, a srta. Bunner se inclinou subitamente
para a frente.
— A senhora jura que não diz uma palavra a ninguém? —
ela exigiu. — Acontece que eu tenho certeza de que ele está
metido naquela complicação toda. Para mim, ele conhecia
aquele outro rapaz... ou, pelo menos, Julia conhecia. Eu
jamais teria coragem de falar nisso com Letty; aliás, soltei
uma insinuação e ela quase teve um ataque. E claro que é
uma situação esquisita, afinal de contas, o Patrick é seu
sobrinho (ou primo, pelo menos) e, se o outro rapaz se
matou, o Patrick seria moralmente responsável, não seria?
Quer dizer, se foi ele quem o convenceu a fazer aquela
encenação toda.
Eu fico muito confusa com essa história toda. Agora, só
falam naquela outra porta da sala de estar. É outra coisa que
me preocupa... o detetive dizer que ela foi lubrificada.
Porque, entende, eu vi... Parou, abruptamente.
Miss Marple demorou a encontrar um comentário adequado.
— Deve ser mesmo um problema e tanto para a senhora —
disse, esforçando-se para ser simpática.
— Mas é esse o problema — exclamou Dora Bunner. — Eu
passo as noites em claro, preocupada... Aconteceu outra
coisa, outro dia... Eu encontrei Patrick no fundo do quintal.
Estava procurando ovos (uma das nossas galinhas só põe fora
do galinheiro) e dei de cara com ele: estava segurando uma
pena e uma xícara... uma xícara com um resto de óleo no
fundo. Quando me viu, ele quase deu um pulo, assustado, e
disse que estava pensando o que seriam aquelas coisas que
tinha achado ali. Ele pensa muito depressa... tenho certeza
de que imaginou essa desculpa logo que me viu. Só não sei
como é que ele achou aquelas coisas no meio das plantas, a
não ser que estivesse procurando e soubesse muito bem
onde estavam. E claro que eu não disse nada.
— Não, claro que não.
— Mas eu o olhei, fazendo uma cara...
Dora Bunner esticou o braço para apanhar e mordiscar,
distraidamente, um bolinho cor de salmão.
— E, depois, outro dia, ouvi quando ele e Julia estavam
tendo uma conversa muito séria. Pareciam estar discutindo.
Ele disse: "Não quero nem pensar que você esteja metida
nisso!", e a Julia (ela é muito calma, sempre, sabe?)
respondeu: "Ora, irmãozinho, o que que você faria?" Foi aí
que eu dei o azar de pisar numa tábua *" meio solta, e eles
me viram. "Andam brigando, vocês dois?", eu perguntei,
fazendo graça, e o Patrick respondeu que estava avisando
a ela que não comprasse nada no mercado negro. Ah, ele é
muito esperto, mas é claro que não acreditei naquela
história! E, se quer saber a minha opinião, eu acho que o
Patrick fez alguma coisa com o abajur da sala de estar para
fazer as luzes se apagarem, porque tenho certeza de que era
a pastora e não o pastor. E, no dia seguinte...
Ela parou, enrubescendo. Miss Marple voltou a cabeça e viu
a srta. Blacklock, parada, atrás delas. Devia ter acabado de
entrar.
— Café e mexericos, Bunny? — ela perguntou; havia um
leve tom de reprovação em sua voz. — Bom dia, Miss
Marple. Frio, não?
— Estávamos só conversando — disse a srta. Bunner, com
nervosismo na voz. — Eu estava dizendo que hoje em dia
há tantas leis novas, tantos regulamentos estranhos...
Ninguém sabe direito o que tem de fazer, não é?
As portas se abriram de repente e Bunch Harmon entrou
como um furacão no Bluebird.
— Alô — disse ela. — Estou atrasada para o café?
— Não, meu bem — respondeu Miss Marple. — Sente-se e
peça uma xícara.
— Precisamos ir andando — disse a srta. Blacklock. — Fez as
compras, Bunny?
Sua voz era novamente bondosa, mas ainda havia
reprovação em seus olhos.
— Fiz... fiz, sim, Letty. Só preciso dar uma passadinha na
farmácia para comprar aspirinas.
Quando as portas se fecharam atrás da dupla que saía, Bunch
perguntou:
— Sobre o que estavam conversando?
Miss Marple não respondeu imediatamente. Esperou que
Bunch pedisse o seu café, antes de falar:
— A solidariedade na família é algo muito forte. Muito
forte, mesmo. Você se lembra de um caso famoso... não me
lembro direito, mas diziam que o marido tinha envenenado
a mulher. Num copo de vinho. Então, no julgamento, a filha
jurou que tinha bebido metade do copo da mãe, o que
inocentava o pai. Dizem, claro que pode ser apenas boato,
que ela nunca mais falou com o pai, nem morou com ele. É
claro que um pai é uma coisa, e um sobrinho, ou primo
distante, é outra. Mas continua sendo verdade que ninguém
gosta de ver um membro da família enforcado, não é
mesmo?
— Não — disse Bunch. Acho que não.
Miss Marple se recostou na cadeira. Murmurou, baixinho:
— Em toda a parte, as pessoas são sempre as mesmas, sempre
parecidas umas com as outras.
— Com quem eu me pareço?
— Ora, para falar a verdade, querida, você se parece é com
você mesma. Não sei de ninguém que você me faça lembrar.
A não ser, talvez...
— Lá vem a turma dela — disse Bunch.*
— Estava pensando numa criada que eu tive, minha filha.
— Uma criada? Eu seria uma péssima criada.
— Eu sei, minha filha, ela também era. Não sabia servir à
mesa. Punha tudo errado na mesa, misturava as facas da
mesa com as da cozinha, e a sua touca (isso foi há muitos
anos, minha filha) estava sempre torta na cabeça.
Bunch, num gesto automático, ajustou o chapéu.
— E o que mais? — perguntou, com alguma ansiedade.
Eu não a mandava embora porque era uma pessoa agradável
de se ter em casa; e porque ela me fazia rir. Eu gostava de
como ela dizia as coisas, de uma forma direta. Uma vez, veio
me dizer: "Não posso ter certeza, madame, mas a Florrie, do
jeito que ela se senta, parece uma mulher casada." E tinha
toda a razão: a pobre Florrie estava em dificuldades, causadas
por um ajudante de cabeleireiro. Felizmente, ainda havia
tempo, e eu pude ter uma conversinha com o rapaz; foi um
casamento muito bonito e eles foram muito felizes. Era uma
boa moça, a Florrie, mas com uma certa tendência a se
deixar levar por uns belos olhos azuis.
- Ela matou alguém? — perguntou Bunch. — Quero dizer, a
sua criada.
- Não, jamais — respondeu Miss Marple. — Casou-se com
um pastor batista, Tiveram cinco filhos.
— Como eu — disse Bunch. — Embora eu só tenha chegado
até Edward e Susan, até agora.
Um ou dois minutos depois, ela acrescentou:
— Em quem está pensando, tia Jane?
— Em muita gente, minha filha, muita gente — disse Miss
Marple, vagamente.
— Gente de St. Mary Mead.
— Quase todas... Estava mesmo pensando era na enfermeira
Ellerton. Uma mulher muito bondosa. Tomava conta de
uma velha senhora, e parecia realmente gostar dela. Então, a
velha morreu. E houve outra, que também morreu. Morfina.
Aí descobriram tudo. Ela fizera tudo com a maior bondade,
e a coisa mais chocante era que ela mesma não sabia que
tinha feito algo de errado. As velhas não tinham muito
tempo de vida, ela disse, e uma sofria de câncer e tinha
dores horríveis.
— Quer dizer... eutanásia?
— Não, não. Ela era herdeira de ambas. Gostava de dinheiro,
entende... E haf/ia também um rapaz que trabalhava num
navio; era sobrinho da sra. Pusey, da papelaria. Trazia coisas
roubadas para ela vender. E dizia que as tinha comprado no
exterior. Ela acreditava piamente. Quando a polícia apareceu
e começou a fazer perguntas, ele lhe deu umas pauladas na
cabeça, para que não pudesse denunciá-lo... Não era um
jovem muito decente..., mas muito simpático. Duas moças
estavam apaixonadas por ele. Gastou um dinheirão com uma
delas.
— Com certeza a pior das duas — disse Bunch.
— Exatamente, querida. Houve também o caso da sra. Cray,
da loja de lãs. Era devotada ao filho, e acabou por estragá-lo.
O rapaz se meteu com um pessoal muito esquisito. Lembra-
se de Joan Croft, Bunch?
— Não, acho que não.
— Pensei que você a tivesse visto, quando veio me visitar.
Costumava aparecer fumando, cachimbo ou charuto. Uma
vez, houve um assalto no banco, e Joan estava lá na hora.
Derrubou o homem e lhe tirou o revólver. Recebeu até uma
medalha por isso.
Bunch ouvia atentamente. Parecia estar decorando as
palavras de Miss Marple.
— E... — ela incentivou.
— Aquela moça em St. Jean des Colimes, um certo verão.
Uma moça tão calma... e mais silenciosa ainda do que calma.
Todos gostavam dela, mas ninguém chegou a conhecê-la
bem... Depois, soubemos que seu marido era falsário. Por
isso, ela se sentia afastada das outras pessoas. No fim, acabou
meio esquisitona. A solidão causa essas coisas, sabe.
— As suas recordações incluem algum coronel anglo-
indiano?
— Naturalmente, querida. Em Larches, havia o major
Vaugham, e o coronel Wright em Simla Lodge. Não havia
nada de errado com nenhum dos dois. Mas eu me lembro do
sr. Hodgson, o gerente do banco, que foi fazer uma viagem
de navio e se casou com uma mulher com idade de ser sua
filha. Não tinha a menor idéia de onde ela teria surgido... a
não ser pelo que ela própria lhe dizia.
— E não era verdade?
— Não, minha filha, muito pelo contrário.
— Nada mau — disse Bunch, contando nos dedos. — Já
tivemos a devotada Dora, o belo Patrick, a sra. Swettenham
e Edmund, Phillipa Haymes, o coronel Easterbrook e a sra.
Easterbrook, e, se quer a minha opinião, acho que a senhora
tem toda a razão em relação a ela. Só que não teria motivo
algum para matar Letty Blacklock.
— Talvez a srta. Blacklock soubesse de algo que ela gostaria
que não se tornasse conhecido.
— Puxa, mas essas coisas ainda acontecem?
— Às vezes. Você não é assim, Bunch, mas há pessoas que se
incomodam muito com o que os outros pensam a seu
respeito.
— Eu sei o que a senhora quer dizer — disse Bunch,
subitamente. — Se a gente tivesse sofrido o diabo e, de
repente, encontrasse um refúgio, um cantinho junto de uma
lareira e uma mão para nos afagar a cabeça, e alguém que nos
achasse formidáveis, faríamos tudo para conservar isso...
Bem, tenho de admitir que a sua galeria de tipos está bem
completa.
— A verdade é que você não fez todas as comparações
corretamente, sabe? — disse Miss Marple, suavemente.
— Não? Onde foi que me enganei? Julia? Julia, bela Julita,
tão esquisita...
— Três shillings e seis pence — disse a garçonete
emburrada, surgindo inesperadamente.
— Além disso — ela acrescentou, seu busto arfando sob os
pássaros azuis do avental — gostaria muito de saber, sra.
Harmon, por que a senhora me chamou de esquisita.
Sempre fui uma moça muito direita e nunca deixei de ir à
igreja aos domingos.
— Pelo amor de Deus, me desculpe — disse Bunch. —
Estava só inventando uma musiquinha. Não era com você.
Nem sabia que seu nome é Julia.
— Ah, foi coincidência — disse a jovem, mais calma. — Eu
não me ofendi, é claro, mas é que ouvi o meu nome, e
pensei... bem, quando a gente pensa que estão falando de
nós, é natural procurar ouvir, não é? Obrigada.
Embolsando a gorjeta, ela desapareceu.
— Tia Jane — disse Bunch —, não fique tão aborrecida; o
que foi?
— Mas, de certo... — murmurou Miss Marple — não poderia
ser. Não há razão alguma...
— Tia Jane!
Miss Marple suspirou, e sorriu com animação.
— Não era nada, meu bem.
— A senhora acha que sabe quem foi o culpado? —
perguntou Bunch. — Quem foi?
— Mas eu não sei — disse Miss Marple. — Apenas tive uma
idéia..., mas não tenho mais. Bem que gostaria de saber. O
tempo é tão curto. Tão curto.
— Por que... curto?
— Aquela senhora, na Escócia, pode morrer a qualquer
momento.
— Então, a senhora acredita mesmo em Pip e Emma — disse
Bunch, arregalando os olhos. — Acha que foram eles... e
que tentarão de novo?
— Claro que tentarão de novo — disse Miss Marple, quase
sem pensar. — Quem tentou uma vez, tentará uma outra.
Quando a gente decide matar alguém, não desiste só porque
não deu certo na primeira tentativa. Ainda mais se tiver
certeza de que ninguém suspeita.
— Mas, se forem Pip e Emma — disse Bunch —, só duas
pessoas poderiam ser eles. Só podem ser Patrick e Julia. São
irmãos e os únicos que têm a idade certa.
— Minha querida, não é tão simples assim. Existem dezenas
de ramificações e combinações. Se Pip for casado, há a sua
mulher; e o marido de Emma. E a mãe deles: ela é parte
interessada, mesmo que não herde diretamente. Se Letty
Blacklock não a vê há trinta anos, provavelmente não a
reconheceria hoje. As mulheres, depois de certa idade, são
muito parecidas umas com as outras. Lembre-se de que a sra.
Wotherspoon recebeu, durante muito tempo, a sua pensão
de velhice e a da sra. Bartlett, embora a sra. Bartlett tivesse
morrido há muito tempo. Além disso, a srta. Blacklock é
míope. Não reparou como ela aperta os olhos para ver as
pessoas? E temos também o pai da dupla. Pelo que se sabe,
não é boa coisa.
— É. Mas ele é estrangeiro.
— De nascença. Mas não há motivo algum para se imaginar
que fale mal o inglês ou que gesticule muito, como certos
continentais... Tenho a impressão de que poderia muito bem
desempenhar o papel, por exemplo... por exemplo, de um
coronel anglo-indiano, tão bem quanto qualquer outra
pessoa.
— A senhora acha mesmo isso?
— Não, não, claro que não. Só sei que há muito dinheiro em
jogo, muito dinheiro, mesmo. E eu sei muito bem as coisas
terríveis que as pessoas fazem para pôr as mãos num monte
de dinheiro.
— Ah, eu imagino — disse Bunch. — Mas não adianta nada,
não é? No fim de tudo, quero dizer?
— Não, não adianta..., mas elas nunca sabem disso, antes.
— Eu entendo — disse Bunch, subitamente sorrindo, o seu
sorriso meio torto, mas doce. — Todos pensam que, com
eles, vai ser diferente... Até eu sinto isso...
E divagou:
— A gente finge que faria um bem enorme com o
dinheiro... uma porção de planos... asilos para órfãos... mães
desamparadas... férias para mulheres idosas que trabalharam
a vida toda...
Seu rosto se encheu de sombras. Seus olhos escureceram,
trágicos.
— Eu sei o que a senhora deve estar pensando — disse a
Miss Marple. — Está achando que eu seria das piores.
Porque eu me iludo com facilidade. Quem está atrás de
dinheiro por motivos egoístas, pelo menos não tem ilusões
sobre si mesmo. Mas, quando a gente começa a fingir, a
imaginar que fará coisas boas com o dinheico, então não é
tão difícil de se convencer que não faria grande diferença
matar alguém...
De repente, seus olhos se desanuviaram.
— Mas, eu não. Eu não mataria ninguém. Nem que fosse
uma pessoa velha, ou doente ou que estivesse fazendo muito
mal aos outros. Nem que fosse um chantagista... ou um
verdadeiro animal.
Cuidadosamente, ela pescou uma mosca aprisionada no
fundo da xícara e a colocou sobre a mesa para secar.
— Eu sei que as pessoas gostam de viver... não gostam?
Como as moscas. Até mesmo quando estamos muito velhos
e sofrendo muito, quando tudo o que fazemos é nos arrastar
ao sol para esquentar os ossos. Julian diz que pessoas assim
são mais presas à vida do que os mais jovens e mais fortes.
Para elas, ele diz que é mais difícil morrer, a luta é mais
dura. Eu gosto de viver, não apenas de ser feliz, de me
divertir. Só viver, mesmo; â sensação que tenho quando
acordo e sinto, no corpo todo, a certeza de que existo, de
que sou alguma coisa...
Com doçura, ela soprou a mosca; o inseto sacudiu as patas e,
meio desequilibrado, saiu voando.
— Fique tranqüila, tia Jane querida — disse Bunch. — Eu
jamais mataria alguém.

CAPÍTULO 14
EXCURSÃO NO PASSADO

Depois de uma noite no trem, o inspetor Craddock desceu
em uma pequena estação escocesa.
Sua primeira impressão foi de estranheza: por que a rica sra.
Goedler, inválida, podendo escolher entre uma mansão bem
situada em Londres, uma propriedade rural em Hampshire e
uma villa no Sul da França, teria preferido aquele remoto
ponto da Escócia para morar? Devia ser uma vida muito
solitária. Talvez ela estivesse muito doente para dar atenção
ao ambiente que a rodeava, ou preocupar-se com isso.
Um carro o esperava. Um grande e velho Daimler, dirigido
por um idoso motorista. Era uma manhã ensolarada, e
Craddock não se aborreceu durante a pequena viagem de
trinta quilômetros; quanto mais avançavam, mais ele se
admirava com aquele gosto pela solidão. Um comentário
dirigido ao motorista trouxe um esclarecimento parcial:
— Ela viveu aqui em criança. É a última sobrevivente da
família. O sr. Goedler e ela sempre foram mais felizes aqui
do que em qualquer outro lugar, e olhe que era difícil, para
ele, afastar-se de Londres com freqüência. Mas, quando
conseguia, os dois se distraíam muito por aqui.
Quando avistaram as muralhas cinzentas da velha edificação,
Craddock sentiu o tempo andar para trás. Um mordomo
envelhecido o recebeu.
Depois de fazer a barba e tomar um rápido banho, foi levado
a uma sala aquecida por uma gigantesca lareira, e lhe
serviram o café da manhã.
Estava terminando quando entrou uma mulher de meia-
idade, vestida de enfermeira, de ar simpático e competente;
apresentou-se como sendo a irmã McClelland.
— Minha paciente o espera, sr. Craddock. Na verdade, está
ansiosa para vê-lo.
— Farei o possível para não excitá-la — prometeu Craddock.
— É melhor que fique prevenido do que poderá acontecer.
O senhor a encontrará inteiramente normal. Ela falará
bastante, e se distrairá com isso até que, de repente, perderá
as forças. Saia imediatamente e me chame. Acontece que ela
vive quase permanentemente sob ação de morfina. Passa
quase todo o tempo em estado de sonolência. Devido à sua
visita, dei-lhe um estimulante forte. Assim que o seu efeito
passar, ela cairá num estado de semiconsciência.
— Entendo, srta. McClelland. Se possível, eu gostaria de
saber exatamente qual é o estado de saúde da sra. Goedler.
— Bem, sr. Craddock, ela está morrendo. Não poderá viver
mais do que algumas semanas. Pode parecer exagero, mas a
verdade é que devia estar morta há anos. O que a tem
mantido viva é o seu enorme amor pela vida, a intensidade
com que ela vive cada momento. E curioso que isso
aconteça com alguém que há muitos anos não passa de uma
inválida, e que não sai desta casa há 15 anos, mas é a pura
verdade. A sra. Goedler nunca teve saúde, mas conservou,
em enorme grau, a vontade de viver.
Com um sorriso, ela concluiu:
— E o senhor também verá que é uma mulher encantadora.
Craddock foi levado a um espaçoso quarto de dormir; o fogo
estava aceso, e uma senhora idosa estava recostada numa
ampla cama, sob um dossel. Embora fosse apenas sete ou
oito anos mais velha do que Letitia Blacklock, sua fragilidade
fazia-a parecer muito mais idosa.
Seus cabelos brancos estavam cuidadosamente penteados;
um xale azul de lã lhe cobria os ombros. Seu rosto era
marcado por linhas de sofrimento; mas também havia traços
de doçura. E, estranhamente, seus olhos azuis tinham um
brilho que Craddock só podia classificar como maroto.
— Isso é curioso — disse ela. — Não é sempre que recebo a
visita da polícia. Ouvi dizer que Letitia Blacklock saiu
praticamente ilesa do atentado contra ela, não? Como vai a
minha querida Blackie?
— Muito bem, sra. Goedler. Manda-lhe lembranças.
— Faz muito tempo que não a vejo... Há muitos anos que
apenas trocamos cartões no Natal. Eu a convidei a vir aqui,
quando veio para a Inglaterra depois da morte de Charlotte,
mas ela disse que, depois de tantos anos, haveria muitas
recordações dolorosas, e talvez tivesse razão... Blackie
sempre teve muito bom-senso. No ano passado, convidei
uma velha amiga de colégio... Meu Deus, como nos
aborrecemos, as duas!
Ela sorriu.
— Quando acabamos a série dos "você se lembra?", não
havia mais nada a dizer. Foi até constrangedor.
Craddock deixou que ela falasse à vontade, antes de começar
com as perguntas. Queria, de certa forma, entrar no passado,
para sentir como eram, exatamente, as relações entre a srta.
Blacklock e os Goedler.
— Imagino — disse Belle, astutamente — que o senhor quei-
ra me fazer perguntas sobre o dinheiro. Randall o deixou
todo para Blackie, depois da minha morte. Na verdade, ele
nunca pensou que morreria antes de mim. Era um
homenzarrão forte, que nunca ficou doente na .vida, e eu
sempre vivi entre dores e gemi-v dos, com uma porção de
médicos à minha volta, todos de cara amarrada.
— Tenho a impressão de que a senhora nunca foi de fazer
reclamações, sra. Goedler.
A velha senhora riu.
— Não, nunca me queixei muito. Nunca senti muita pena
de mim mesma. Mas sempre achamos que eu, sendo a mais
fraca, iria embora em primeiro lugar. Mas não foi assim.
Não... bem ao contrário...
— Precisamente por que o seu marido fez o seu testamento
dessa forma?
— Quer saber por que ele deixou o dinheiro para Blackie?
Não pela razão que na certa lhe está passando pela cabeça —
afirmou ela, com o brilho no olhar mais maroto do que
nunca. — Vocês da polícia pensam logo nessas coisas!
Randall nunca esteve apaixonado por ela, e nem ela por ele.
Na verdade, Letitia tem mentalidade masculina. Não tem
fraquezas ou sentimentos femininos. Não creio que jamais se
tenha apaixonado por algum homem. Nunca foi muito
bonita, nem se preocupava com roupas. E a pouca
maquilagem que usava era mais uma concessão aos costumes
do que uma tentativa de se embelezar.
Com um toque de piedade na voz, ela arrematou:
— Letitia nunca usufruiu as vantagens de ser mulher.
Craddock olhou com interesse para aquela figurinha frágil
estendida sobre a cama. Belle Goedler — só então ele
percebeu — não só aproveitara bem a sua condição de
mulher, como ainda o fazia. Ela sorriu para ele.
— Sempre pensei: como deve ser terrivelmente aborrecido
alguém ser homem, e não mulher. Acho — continuou,
voltando a falar sério — que Randall sempre viu em Blackie
uma espécie de irmão mais moço. Sempre confiou em suas
opiniões, que eram invariavelmente sensatas. Mais de uma
vez ela o salvou de águas turvas, sabia?
— Ela me contou que uma vez chegou a socorrê-lo com
dinheiro.
— E verdade, mas eu me referia a mais do que isso. Depois
de tantos anos, pode-se falar a verdade. Randall não
conseguia ver com exatidão a diferença entre o certo e o
errado. Não tinha uma consciência muito sensível, entende?
O coitado não distinguia bem o que era apenas um ato de
esperteza de uma ação desonesta. Blackie o mantinha na
linha. E para isso podia-se contar com Letitia Blacklock: uma
honestidade sem limites. Nunca faria algo que fosse
desonesto. Uma pessoa de muito bom caráter, sabe? Sempre
a admirei. Aquelas duas tiveram uma infância terrível. O pai
era um velho médico rural, teimoso e de mentalidade
estreita como poucos, um tirano doméstico completo.
Letitia se libertou e foi para Londres, onde estudou
contabilidade. A outra irmã era doente, tinha uma
deformidade qualquer, e nunca recebia pessoas ou saía de
casa. Foi por isso que, quando o pai morreu, Letitia largou
tudo e foi cuidar dela. Randall ficou uma fera, mas não
adiantou nada. Se Letitia achava que era sua obrigação fazer
alguma coisa, ela fazia, e pronto. Não adiantava tentar
demovê-la.
— Isso aconteceu quanto tempo antes de seu marido morrer?
— Uns dois anos, acho eu. Randall fez o testamento antes de
ela sair da firma, e não o modificou depois. "Não temos
ninguém", ele me disse (nosso filho morreu com dois anos).
"Quando tivermos morrido, nós dois, é melhor que Blackie
fique com o dinheiro. Ela vai fazer uma devastação na Bolsa,
com ele."
— Randall era fascinado pelo jogo das finanças — continuou
Belle. — Para ele, não era só o dinheiro, mas também a
aventura, os riscos, a emoção. E Blackie era igualzinha a ele.
Tinha o mesmo espírito aventureiro e as mesmas opiniões.
Coitada, não tinha as outras coisas: apaixonar-se, manobrar
os homens, brincar com eles... e também ter um lar e filhos,
e tudo mais.
Craddock não podia deixar de se admirar com aquilo, com a
piedade sincera, com uma ponta de desprezo, que aquela
mulher revelava; uma mulher cuja vida fora toda ela
prejudicada pela doença, cujo único filho morrera, cujo
marido morrera, e que ficara condenada a uma viuvez
solitária, presa a uma cama por tantos anos.
— Sei o que o senhor está pensando — disse ela, com um
gesto de cabeça. — Mas eu já tive todas as coisas que valem
a pena na vida. Posso tê-las perdido..., mas já as tive.
Quando moça, eu fui bonita e alegre: casei-me com o
homem que amava, e ele nunca deixou de me amar... Meu
filho morreu, mas eu o tive para mim durante dois anos
lindos. Sofri muito, fisicamente... mas só quem sente dor
sabe apreciar o extremo prazer dos momentos em que a dor
vai embora. E todo mundo é bom para mim, sempre... na
verdade, sou uma mulher de sorte.
De algo que ela dissera antes, Craddock extraiu uma nova
pergunta:
— A senhora disse que o seu marido deixou a fortuna para a
srta. Blacklock porque não tinha outra pessoa no mundo.
Mas isso não é exatamente verdade, não? Ele tinha uma
irmã.
— Ah, Sônia. Mas tinham brigado muitos anos antes, e
nunca mais se viram.
— Ele não concordou com o seu casamento?
— Exato. Ela se casou com um homem chamado... ora, como
era mesmo o seu nome...?
— Stamfordis.
— Isso mesmo. Dmitri Stamfordis. E Randall sempre disse
que ele era um vigarista. Os dois se detestaram de saída. Mas
Sônia estava apaixonadíssima, decidida a se casar de qualquer
maneira. E eu sempre achei que ela tinha razão. Os homens
têm sempre idéias estrarfhíssimas sobre esses assuntos. Sônia
não era nenhuma criança: tinha 25 anos e sabia exatamente
o que estava fazendo. Eu admito que ele era um vigarista,
um espertalhão profissional, mesmo. Tinha ficha na polícia,
e Randall sempre suspeitou que usasse nome falso. Sônia
sabia de tudo isso. O x do problema, e Randall naturalmente
não poderia saber disso, era que Dmitri tinha um charme
enorme para as mulheres. E estava tão apaixonado por Sónia
quanto ela por ele. Randall dizia que ele queria se casar pelo
dinheiro dela... mas não era verdade. Sónia era muito bonita,
entende? E tinha muita personalidade. Se o casamento não
tivesse dado certo, se Dmitri fosse infiel ou mau para ela, ela
poderia simplesmente abandoná-lo. Era uma mulher rica e
podia fazer o que bem quisesse.
— Nunca fizeram as pazes, ela e o irmão?
— Não. Randall e Sônia nunca se deram bem. Ela ficou
furiosa quando ele tentou impedir o casamento. "Você
nunca mais vai me ver!", foi o que ela disse.
— E a senhora, nunca teve notícias?
Belle sorriu.
— Um ano e meio depois, recebi uma carta, de Budapeste,
se bem me lembro; mas ela não mandou o seu endereço.
Pedia que eu dissesse a Randall que era muito feliz, e que
acabava de ter gêmeos.
— E lhe disse os seus nomes?
Belle sorriu novamente.
— Disse que haviam nascido logo em seguida ao meio-dia...
por isso, ia chamá-los de Pip e Emma. Devia ser brincadeira,
claro.
— E nunca mais ouviu falar dela?
— Não. Ela anunciou que ia fazer uma pequena viagem,
com o marido e as crianças, aos Estados Unidos. E nunca
mais soube dela...
— A senhora por acaso guardou a carta?
— Não, lamento muito... Eu a li para Randall, e ele só fez
resmungar que "ela ainda vai se arrepender de se ter casado
com aquele sujeito". E não tocou mais no assunto. Na
verdade, nós nos esquecemos dela. Saiu inteiramente de
nossas vidas, entende?
— No entanto, o sr. Goedler deixou seus bens para os filhos
dela, na hipótese de que a srta. Blacklock morresse antes da
senhora?
— Ah, isso foi idéia minha. Quando ele me falou sobre o
testamento, eu lhe disse: "Ah, eu sei que Blackie é forte
como um cavalo, e eu sou muito delicada, mas acidentes
podem acontecer..." E ele disse: "Mas não há mais
ninguém... ninguém." "E Sônia?" — eu perguntei. Ele
explodiu: "Deixar aquele sujeito botar as mãos no meu
dinheiro? Jamais!" Foi então que sugeri os filhos deles. Nós
sabíamos de Pip e Emma, e podia haver outros, depois. Ele
resmungou mais um pouco, mas acabou concordando.
— E, desse dia em diante — disse Craddock, escolhendo as
palavras — nunca mais teve notícias de sua cunhada ou de
seus filhos?
— Não... podem ter morrido... ou podem estar em qualquer
parte.
Em Chipping Cleghorn, por exemplo, pensou Craddock.
Como se lesse os seus pensamentos, os olhos da sra. Goedler
se encheram de apreensão.
— Não deixe que eles façam mal a Blackie. Blackie é uma
boa pessoa... boa de verdade... não deixe que lhe façam
nada...
Sua voz começou a sumir. Craddock notou as sombras
escuras que se formavam ao redor de sua boca e de seus
olhos.
— A senhora está cansada — disse ele. — Vou sair. Ela
concordou com um gesto de cabeça.
— Mande Mac entrar — sussurrou. — Estou mesmo cansa-
da... Tome conta de Blackie... para que nada lhe aconteça...
tome conta dela...
— Farei o possível, sra. Goedler.
Ele se levantou e se dirigiu para a porta. A voz dela, um
fiapo de som, o seguiu...
— Não falta muito... até eu morrer... perigoso para ela...
tome conta...
A irmã McClelland passou por ele, quando saiu.
— Espero não lhe ter feito mal — disse Craddock,
constrangido.
— Nem pense nisso, inspetor. Eu lhe disse que ela ia perder
as forças de repente, não disse?
Mais tarde, ele fez uma pergunta à enfermeira:
— A única coisa que não tive tempo de perguntar à sra.
Goedler foi se ela teria velhas fotografias. Se tiver, eu
poderia...
Ela o interrompeu:
— Infelizmente, não existe nada desse tipo. Todos os seus
papéis e recordações foram guardados junto com os móveis
da casa de Londres, no começo da guerra. A sra. Goedler
estava muito mal naquela época. Pouco depois, o depósito
foi bombardeado. Ela ficou tristíssima por ter perdido tudo
aquilo. Acho que não restou nada.
Não havia coisa alguma a fazer, então, pensou Craddock. No
entanto, ele tinha a certeza de que sua viagem não fora em
vão. Pip e Emma, os dois fantasmas, não eram mais
fantasmas. Ele pensou:
"Temos um irmão e uma irmã que cresceram juntos em
algum lugar da Europa. Quando se casou, Sônia Goedler era
uma mulher rica, mas, nos últimos tempos, o dinheiro
deixou de valer muita coisa em diversos lugares do
continente. A guerra mudou muita coisa. Portanto, temos os
dois jovens, filhos de um homem com um passado
criminoso. Podem ter vindo para a Inglaterra, sem tostão. O
que fariam? Procurar descobrir algum parente rico. O tio,
um homem riquíssimo, morreu. Provavelmente, a primeira
coisa que fariam seria tentar conhecer o seu testamento —
ver se, por acaso, algum dinheiro foi deixado para a mãe ou
para eles próprios. Assim, acabam descobrindo a existência
de Letitia Blacklock. Em seguida, fazem investigações sobre
a viúva de Randall Goedler. Apuram que é uma inválida que
mora na Escócia, com pouco tempo de vida. Se essa Letitia
Blacklock morrer antes dela, os dois herdarão enorme
fortuna. E aí?"
Ele mesmo respondeu:
"Eles não vão à Escócia; mas procuram descobrir onde está
morando Letitia Blacklock. E vão para lá. Não com seus
verdadeiros nomes... e juntos... ou separados? Emma... quem
poderia ser? Pip e Emma... Eu como o meu chapéu se Pip,
ou Emma, ou os dois, não estão, agora, em Chipping
Cleghorn.

CAPÍTULO 15
"DELÍCIA FATAL"

I
Na cozinha de Little Paddocks, a srta. Blacklock dava
instruções a Mitzi.
— Sanduíches de sardinha e de tomate também. E alguns
desses bolinhos que você faz tão bem. E eu queria que você
fizesse também aquele seu bolo especial.
— Vai ser festa, então? Essas coisas todas...
— É aniversário da srta. Bunner, e virão convidados para o
chá.
— Na idade dela, ninguém comemorar aniversário. Muito
melhor esquecer.
— Ora, ela não quer esquecer. Vai ganhar uma porção de
presentes, e não custa nada fazer uma festinha para ela.
— Na última vez, senhora fazer festinha. E veja no que deu.
A srta. Blacklock controlou a sua irritação.
— Mas desta vez não vai acontecer nada.
— Como é que senhora saber o que vai acontecer nesta casa?
Eu passar dia todo tremendo e de noite trancar porta do
quarto e olhar no armário para ver se não tem ninguém
escondido. v
— Assim você não tem nada com que se preocupar —
comentou, friamente, a srta. Blacklock.
— O bolo que senhora quer é o... — e Mitzi pronunciou uma
palavra que, aos ouvidos britânicos da srta. Blacklock, soou
como Schwtizberztz, ou, melhor ainda, como dois gatos
cuspindo.
— Esse mesmo.
— Mas, para esse, não ter nada! Impossível fazer. Precisar
chocolate, muita manteiga, açúcar, passas.
— Você pode usar esta lata de manteiga que recebemos dos
Estados Unidos. E algumas destas passas que estávamos
guardando para o Natal, e aqui está uma barra de chocolate e
o açúcar.
O rosto de Mitzi se abriu num sorriso radiante.
— Assim fazer uma maravilha... uma maravilha! — ela
exclamou, extasiada. — Vai ser bolo enorme, de derreter na
boca! Em cima botar uma cobertura... cobertura de
chocolate... caprichar muito... e escrever "Felicidades".
Ingleses fazer bolos com gosto de areia, nunca, nunca
provaram um bolo assim. Uma delícia, vocês dizer... uma
delícia...
Seu rosto novamente se encheu de sombras.
— O sr. Patrick. Ele chamar o meu bolo de "Delícia Fatal". O
meu bolo! Não permitir que chame assim a meu bolo!
— Mas, foi um elogio — disse a srta. Blacklock —, uma
maneira de dizer que o bolo é muito gostoso.
Mitzi não pareceu convencer-se inteiramente.
— Bom, eu não gostar dessas palavras: fatal/fatalidade...
Ninguém morre porque comer meus bolos; ao contrário,
pessoas se sentir muito melhor, muito mesmo.
— Tenho certeza que vai ser assim mesmo.
A srta. Blacklock saiu da cozinha com um suspiro de alívio
por ter encerrado com êxito a conversa. Mitzi era sempre
imprevisível. Encontrou-se com Dora Bunner no corredor.
— Ah, Letty, não quer que eu ensine a Mitzi a cortar os
sanduíches?
— Não — disse a srta. Blacklock, guiando-a com firmeza na
direção contrária à da cozinha. — Ela não está de bom
humor e não quero perturbá-la.
— Mas eu só ia mostrar a ela...
— Por favor, não lhe mostre coisa alguma, Dora. Esse pessoal
da Europa Central não gosta de aprender as coisas. Detestam
receber ensinamentos.
Dora a olhou, em dúvida. Subitamente, abriu-se em sorrisos.
— Edmund Swettenham acabou de telefonar. Desejou-me
muitas felicidades e disse que vinha me trazer um pote de
mel de presente hoje à tarde. Não é um amor de rapaz? Não
sei como descobriu-que era o meu aniversário.
— Parece que iodo mundo sabe. Você deve ter falado sobre
isso, Dora.
— Bem, pode ser que eu tenha comentado que estou fa-
zendo 59...
— Você está com 64 anos, Dora — disse a srta. Blacklock,
piscando o olho.
— A srta. Hinchliffe disse: "Você nem parece; quantos anos
acha que eu tenho?" Fiquei sem saber o que dizer, porque
ela é tão esquisita que não se pode saber a sua idade. Disse
que vai me trazer uns ovos, por sinal. Eu lhe contei que as
nossas galinhas não andam pondo muito, ultimamente.
— Você não está tendo um aniversário muito ruim —
comentou a srta. Blacklock. — Mel, ovos... aquela linda
caixa de bombons da Julia...
— Não sei onde ela consegue essas coisas.
— É melhor não perguntar. Com toda a certeza, seus
métodos são inteiramente ilegais.
— E o seu broche divino.
A srta. Bunner olhou com orgulho para a pequena folha
ornada de diamantes que lhe enfeitava o busto.
— Você gosta? Ainda bem. Nunca me importei muito com
jóias.
— Adoro.
— Ótimo. Vamos dar de comer aos patos.

II
— Ah! — exclamou Patrick, dramaticamente, quando todos
se reuniram à volta da mesa. — O que vejo? "Delícia Fatal"!
— Silêncio — ordenou a srta. Blacklock. — Não deixe que
Mitzi o ouça. Ela detesta esse nome que você deu ao seu
bolo.
— De qualquer maneira, ele é mortalmente delicioso! É o
bolo de aniversário de Bunny?
— É, sim — disse a srta. Bunner. — Nunca tive um
aniversário tão divertido na minha vida.
Ela estava com as faces coradas pela animação, desde que o
coronel Easterbrook lhe entregara uma pequena caixa de
doces, com uma reverência e a dedicatória verbal: "Doces
para a mais doce!"
Julia fora forçada a tapar a boca apressadamente, sob um
olhar de censura da srta. Blacklock.
Todos fizeram justiça às iguarias colocadas sobre a mesa do
chá.
— Estou com um peso no estômago — disse Julia. — É esse
bolo. Tive a mesma sensação na última vez.
— Mas vale a pena — disse Patrick.
— Esses estrangeiros realmente entendem de bolos — disse a
srta. Hinchliffe. — Mas a verdade é que não sabem fazer um
bom pudim.
Todos mantiveram um silêncio respeitoso, embora aflorasse
aos lábjos de Patrick uma pergunta sobre se alguém ainda
estaria interessado num bom pudim.
— Está com jardineiro novo? — perguntou a srta. Hinchliffe
à srta. Blacklock, quando voltavam para a sala de estar.
— Não, por quê?
— Vi um sujeito bisbilhotando perto do galinheiro. Um jeito
de militar, bem apessoado.
— Ah, ele — disse Julia. — É o nosso detetive.
A sra. Easterbrook deixou cair a bolsa no chão.
— Detetive? — exclamou. — Mas... mas... por quê?
— Não sei — disse Julia. — Ele vive rondando a casa, vigian-
do tudo. Acho que está protegendo a tia Letty.
— Uma bobagem — disse a srta. Blacklock. — Eu sei me
proteger sozinha muito bem.
— Mas pensei que tudo já tivesse acabado — disse a sra.
Easterbrook. — Estava mesmo para lhe perguntar por que
adiaram o encerramento do inquérito.
— Porque a polícia não está satisfeita, ainda — disse o seu
marido. — Só pode ser por isso.
— Mas não estão satisfeitos ainda com o quê?
O coronel Easterbrook sacudiu a cabeça, com o ar de quem
sabia de muita coisa, embora nada pudesse dizer.
Edmund Swettenham, que não gostava do coronel, disse:
— A verdade é que estamos todos sob suspeita.
— Mas, suspeita, de quê? — repetiu a sra. Easterbrook.
— Não insista, meu bem — disse o marido.
— Suspeita de ter más intenções — disse Edmund. — Ou
seja, de pretender cometer um homicídio na primeira
oportunidade.
— Ah!, pare com isso, por favor, sr. Swettenham — suplicou
Dora Bunner. — Tenho certeza de que ninguém aqui quer
matar a minha adorada Letty!
Houve uma pausa de terrível constrangimento. Edmund,
muito vermelho, murmurou:
— Foi só uma brincadeira...
Em voz bem alta, Phillipa sugeriu que ligassem o rádio para
ouvir o noticiário das seis horas, uma sugestão recebida com
grande entusiasmo.
— A sra. Harmon está fazendo falta — sussurrou Patrick para
Julia. — Ela não ia perder a oportunidade de perguntar, em
voz bem alta: "Mas, com certeza, alguém ainda está
pensando em mataria senhora, não está, srta. Blacklock?"
— Eu acho bom que nem ela nem aquela velha Miss Marple
tenham podido vir — disse Julia. — Aquela velha é muito
curiosa. Não pára de fazer perguntas.
Ouvir o noticiário propiciou uma agradável discussão em
torno dos horrores da guerra atômica. O coronel
Easterbrook declarou que a Rússia era a grande inimiga da
civilização ocidental, ao que Edmund respondeu que tinha
diversos amigos russos bastante civilizados; uma informação,
aliás, recebida friamente pela maioria dos presentes.
A festinha acabou com efusivos cumprimentos à dona da
casa.
— Divertiu-se, Bunny? — perguntou a srta. Blacklock, ao sair
o último convidado.
— Ah, muito. Mas fiquei com uma terrível dor de cabeça. É
essa excitação toda, acho eu.
— É o bolo — disse Patrick. — Meu fígado está reclamando
um pouco, também. E a senhora também andou se
empanturrando de chocolates a manhã toda.
— Acho que vou me deitar — disse a srta. Bunner. — Vou
tomar umas duas aspirinas e cochilar um pouco.
— Uma ótima idéia — disse a srta. Blacklock.
A srta. Bunner subiu.
— Quer que eu vá guardar os porcos, tia Letty?
A srta. Blacklock olhou para Patrick com severidade.
— Se não se esquecer de puxar a tramela.
— Ah, pode deixar. Juro que tomo cuidado.
— Tome um cálice de sherry, tia Letty — disse Julia. —
Tive uma ama-seca que costumava dizer, sobre qualquer
coisa que queria que bebêssemos: "Vai acalmar o seu
estômago." A frase é meio cretina, mas, no caso, é
verdadeira.
— É, imagino que seja bom, mesmo. A verdade é que não
estamos acostumados a esse tipo de comida. Oh, Bunny,
você me assustou; o que é?
— Não acho minhas aspirinas — disse a srta. Bunner, angus-
tiada.
Apanhe das minhas, meu bem; estão na minha mesinha de
cabeceira.
— Tenho um vidro cheio na minha cômoda — disse
Phillipa.
— Muito, muito obrigada. Se eu não achar as minhas... mas
sei que as deixei em algum lugar. Um vidro novinho. Agora,
meu Deus, onde é que o botei?
— Há milhões de aspirinas no banheiro — disse Julia,
perdendo a paciência. — Esta casa está abarrotada de
aspirinas!
— Fico tão envergonhada de viver perdendo tudo —
lamentou-se a srta. Bunner, batendo em retirada e voltando
a subir as escadas.
— Pobre Bunny — disse Julia, empunhando seu cálice. —
Não seria melhor lhe dar um pouco de sherry?
— É melhor não, eu acho — disse a srta. Blacklock. — Ela já
se excitou muito hoje, e isso não lhe faz bem. Estou com
medo de que passe mal amanhã. Mas, seja como for, pelo
menos se divertiu bastante!
— Ela adorou tudo — disse Phillipa.
— Então vamos oferecer um cálice a Mitzi — propôs Julia.
— Ei, Pat — disse ela, vendo-o entrar pela porta lateral — vá
buscar Mitzi.
Assim, Mitzi apareceu, e Julia lhe serviu um cálice de
sherry.
— À saúde da melhor cozinheira do mundo — disse
Patrick. Mitzi se sentiu emocionada, mas não perdeu a
oportunidade
para uma reclamação.
— Não é verdadeiro. Eu não ser cozinheira. Em meu país,
meu trabalho ser intelectual.
— O que é um desperdício — comentou Patrick. — De que
vale qualquer trabalho intelectual em face de uma obra-
prima como a sua "Delícia Fatal"?
— Ahhh... eu já dizer que odiar esse nome...
— Não adianta, minha jovem — replicou Patrick. — Eu
batizei
assim, e assim ficará sendo chamado o seu bolo. Vamos
brindar a "Delícia Fatal", e que se danem as suas
conseqüências.

III
- Phillipa, minha filha, quero falar com você.
— Pois não, srta. Blacklock.
Phillipa Haymes estava um tanto surpresa.
— Você está preocupada com alguma coisa, por acaso?
— Preocupada?
— Tenho achado que você anda diferente, ultimamente.
Alguma coisa errada?
— Ora... não, srta. Blacklock. O que poderia estar errado?
— Bom... eu só pensei. Talvez, você e Patrick...
— Patrick? — Phillipa ficou realmente surpresa.
— Se não houver nada, melhor. Desculpe se estou me
metendo em sua vida. Mas vocês dois vivem muito
próximos, aqui dentro desta casa... e, mesmo que o Patrick
seja meu primo, não creio que seja um tipo adequado de
marido. Não tão cedo, pelo menos.
O rosto de Phillipa se congelara, despido de qualquer
expressão.
— Eu não vou me casar novamente — disse ela.
— Isso é o que você pensa, minha filha. Você é moça. Mas
não precisamos discutir isso. Não há mais problema. E você
não estará preocupada com... com dinheiro, por exemplo?
— Não. Não preciso de nada.
— Eu sei que você pensa muito na educação do seu menino.
Por isso, queria lhe dizer uma coisa. Eu fui hoje a
Milchester, conversar com o sr. Beddingfeld, o meu
advogado. As coisas andam meio agitadas ultimamente, e
pensei que seria bom fazer um novo testamento... em vista
de certos acontecimentos. Fora um legado para Bunny,
agora tudo vai para você, Phillipa.
— O quê? — Phillipa se sobressaltou.
Seus olhos se arregalaram. Sua expressão era tanto de
espanto como de medo.
— Mas eu não quero... realmente, não quero... ah! eu
preferia... E, de qualquer maneira, por quê? Por que para
mim?
— Talvez — disse a srta. Blacklock, num tom estranho —
porque não haja mais ninguém.
— Mas, há. Patrick e Julia.
— Eu sei que há Patrick e Julia.
Persistia o tom estranho na voz da srta. Blacklock.
— São seus parentes.
— Muito longe. Não têm direito a coisa alguma.
— Mas... mas eu também não tenho... não sei o que a
senhora está pensando... ah! eu não quero!
Seu olhar tinha mais hostilidade do que gratidão. E o medo
permanecia, em seus gestos, em sua voz.
— Eu sei o que faço, Phillipa. Fiquei gostando muito de
você... e não se esqueça do menino... você não herdará
muito se eu morrer agora; mas, daqui a algumas semanas,
será muito diferente.
Ela olhava Phillipa dentro dos olhos.
— Mas a senhora não vai morrer! — protestou a jovem.
— Não se eu puder evitá-lo, tomando as precauções que
forem necessárias.
— Precauções?
— Exatamente. Pense nisso... e não se preocupe mais.
Ela saiu abruptamente da sala. Phillipa a ouviu falar com
Julia, que entrou na sala de estar momentos depois. Seus
olhos tinham um brilho frio como o aço.
— Mexeu muito bem os seus pauzinhos, hein, Phillipa?
Você é dessas caladinhas... quando menos se espera...
— Ela lhe disse...
— Não, mas eu ouvi. Ela queria que eu ouvisse.
— O que você quer dizer com isso?
— A nossa Letty não é boba... Bem, seja como for, você
não tem mais problemas, Phillipa. Tudo ótimo para você,
não é?
— Oh, Julia, eu... eu não quis... não queria...
— Não, mesmo? Ora, claro que queria. Você não está bem de
vida, está? Problemas de dinheiro, eu sei. Mas, lembre-se de
uma coisa... se alguém liquidar a tia Letty agora, você será o
suspeito número um.
— Não é verdade. Seria idiotice minha, se eu a matasse agora,
porque... se eu esperasse...
— Então, você sabe a história da velha não-sei-o-quê que
está morrendo na Escócia? Ora essa... Phillipa, estou
começando a achar que você é mesmo muito espertinha...
— Eu não quero que você ou Patrick percam coisa alguma
por minha causa.
— Não quer, mesmo, meu bem? Desculpe... mas não
acredito.

CAPÍTULO 16
O INSPETOR CRADDOCK DE VOLTA

O inspetor Craddock não dormira bem, em sua viagem de
volta. Tivera mais pesadelos do que sonhos durante a noite.
Vira-se correndo sem parar pelos corredores cinzentos de
um velho castelo, numa tentativa desesperada de chegar a
algum lugar ou de impedir alguma coisa, desde que chegasse
a tempo. Finalmente, sonhou que acordara. Uma enorme
sensação de alívio inundou sua mente. De repente, a porta
de sua cabine se abriu lentamente, e Letitia Blacklock apare-
ceu, com sangue a lhe escorrer pelo rosto: "Por que não me
salvou? Você me poderia ter salvo, se quisesse", disse ela,
com voz queixosa. Então, ele acordou de verdade.
Sentiu-se bem melhor quando chegou a Milchester. Foi
direto a Rydesdale, que ouviu atentamente o seu relatório.
— Não nos adianta muito — disse. — Mas confirma o que
lhe disse a srta. Blacklock. Pip e Emma... hum... não sei...
— Patrick e Julia Simmons estão na idade certa. Se
pudéssemos verificar se a srta. Blacklock não os viu desde
quando eram crianças...
Com um sorriso, Rydesdale disse:
— A nossa aliada, Miss Marple, já fez isso para nós. A
verdade é que a srta. Blacklock nunca pusera os olhos em
qualquer dos dois até dois meses atrás.
— Então, senhor, certamente...
— Não é tão fácil assim, Craddock. Eu também fiz algumas
verificações. Pelo que conseguimos, Patrick e Julia não
parecem estar metidos na tramóia. A ficha dele na Marinha
é autêntica, e é uma ficha muito boa, exceto por uma certa
tendência à "insubordinação". Fizemos investigações em
Cannes, e ouvimos a sra. Simmons afirmar, com a maior
veemência, que evidentemente os seus dois filhos estão em
Chipping Cleghorn com a sua prima Letitia Blacklock.
Logo...
— E a sra. Simmons é a sra. Simmons?
— Pelo menos, tem sido sra. Simmons há muitos anos, isso
posso garantir — afirmou secamente Rydesdale.
— Então, não há dúvidas. O caso é que... esses dois serviam.
Idade certa. Não conheciam pessoalmente a srta. Blacklock.
Se estávamos precisando achar Pip e Emma... bem, deviam
ser eles.
O chefe de polícia balançou a cabeça, pensativo. Em
seguida, empurrou uma folha de papel para Craddock.
— Aqui está alguma coisa que descobrimos com relação à
sra. Easterbrook.
O inspetor leu, levantando as sobrancelhas.
— Muito interessante — comentou. — Passou a perna no
velho direitinho. Mas, que eu saiba, não tem qualquer
relação com o nosso problema.
— Aparentemente, não.
— E isto aqui se refere à sra. Haymes. Novamente se
ergueram as sobrancelhas de Craddock.
— Acho que vou ter mais uma conversinha com essa
senhora.
— Esta informação é importante, você acha?
— Pode ser. Uma chance pequena, é claro...
Os dois homens ficaram em silêncio por um instante.
— Como vai o trabalho de Fletcher, senhor?
— Fletcher anda muito ocupado. De comum acordo com a
srta. Blacklock, deu uma busca de rotina na casa, mas não
encontrou nada de importante. Além disso, apurou quem
poderia ter oportunidade de lubrificar aquela porta.
Verificou quem esteve na casa nos dias de saída daquela
empregada estrangeira. O negócio é mais complicado do que
pensávamos, porque ela costuma dar passeios diários.
Geralmente, vai ao centro tomar um café no Bluebird.
Assim, quando a srta. Blacklock e a srta. Bunner saem (o que
acontece todas as tardes), qualquer um pode entrar e sair da
casa.
— E as portas ficam sempre destrancadas?
— Ficavam. Acho que, agora, não ficam mais.
— E o que Fletcher obteve? Quem esteve lá quando
ninguém da família estava em casa?
— Praticamente todo mundo.
Rydesdale consultou uma folha de papel.
— A srta. Murgatroyd esteve lá levando uma galinha para
esquentar uns ovos (é meio complicado, mas foi o que ela
disse). Ela é muito confusa e caiu em uma porção de
contradições, mas Fletcher acha que é uma questão de
temperamento e não um sinal" de culpa.
— Pode ser — concordou Craddock.
— Depois, temos a sra. Swettenham, que foi buscar um
pouco de carne de cavalo que a srta. Blacklock deixou para
ela em cima da mesa da cozinha porque a srta. Blacklock
tinha ido naquele dia a Milchester, de carro, e a srta.
Blacklock sempre traz carne de cavalo para a sra.
Swettenham. Deu para entender?
Craddock pensou.
— Por que a srta. Blacklock não deixou a carne em sua casa,
quando passou por ela, de volta de Milchester?
— Não sei, mas ela não o fez. A sra. Swettenham diz que ela
(srta. B.) sempre deixa em cima da mesa da cozinha e que ela
(sra. S.) prefere ir apanhá-la quando Mitzi não está, porque
Mitzi costuma ser muito mal-educada.
— Parece fazer sentido. E depois?
— Temos a srta. Hinchliffe. Diz que não andou por lá
ultimamente. Mas não é verdade. Mitzi a viu saindo pela
porta lateral um dia, e foi vista também por uma sra. Butt
(uma das vizinhas). Em conseqüência, a srta. H. admitiu que
pode ser que tenha estado na casa, e se esquecido depois.
Não consegue se lembrar do motivo. Provavelmente, diz
ela, apenas passou por lá.
— Meio esquisito.
— Ao que parece, trata-se de uma dama um tanto esquisita.
Depois, temos a sra. Easterbrook. Estava levando seus lindos
cachorrinhos para passear e apenas entrou para saber se a
srta. Blacklock poderia lhe emprestar um molde de tricô,
mas a srta. Blacklock não estava. Logo, ela esperou um
pouco.
— Imagino. Poderia estar bisbilhotando, ou, então,
lubrificando uma porta. E o coronel?
— Foi lá uma vez com um livro sobre a índia que a srta.
Blacklock queria ler.
— Queria mesmo?
— Ela afirma que tentou valentemente escapar, mas não
conseguiu e teve de aceitar o livro.
— Isso é verdade — suspirou Craddock. — Se alguém está
realmente com vontade de nos emprestar um livro, é
impossível escapar!
— Não sabemos se Edmund Swettenham andou por perto da
casa. Ele não tem certeza de coisa alguma. Diz que esteve lá
algumas vezes a pedido da mãe, mas acha que, ultimamente,
não o tem feito.
— Em suma: nada de concreto.
— Isso mesmo.
Mas, sorrindo de leve, Rydesdale acrescentou:
— Miss Marple também não tem perdido tempo. Fletcher
relata que ela tem tomado o café da manhã no Bluebird. Já
foi tomar um cálice de sherry com Hinchliffe e Murgatroyd
e chá em Little Paddocks. Esteve apreciando o jardim dos
Swettenham... e foi conhecer as curiosidades indianas do
coronel Easterbrook.
— Talvez ela possa confirmar o passado indiano do coronel.
— Realmente, ela deve saber... parece ser autêntico.
Teremos de falar com o pessoal do Departamento do
Extremo Oriente para ter certeza,
— E, enquanto isso... — Craddock fez uma pausa — acha
que a srta. Blacklock concordaria em se afastar?
— Ir embora de Chipping Cleghorn?
— Exato. Talvez levar a fiel Bunner com ela, e partir com
destino ignorado. — Por que não ir à Escócia, visitar Belle
Goedler? É um lugar bastante remoto.
— Ir para lá esperar que a velha morra? Não creio que ela
concorde. Acho que mulher alguma aceitaria essa idéia.
— Mas, se for para salvar a própria vida...
— Vamos, Craddock... não é tão fácil liquidar uma pessoa,
como você está pensando.
— Não?
— Bem... de certa forma, é fácil, concordo. Há muitos
métodos. Veneno. Uma cacetada na cabeça quando ela
estiver tratando das galinhas, um tiro de trás de uma moita.
Mas matar alguém e escapar de suspeitas... isso não é nada
fácil. E todos devem saber que estão sob observação
constante. O primeiro plano falhou. Nosso assassino
desconhecido tem de arquitetar outro.
— Sei disso, senhor. Mas existe a questão do tempo. A sra.
Goedler está morrendo; pode morrer a qualquer momento.
Isso quer dizer que o nosso assassino não pode perder
tempo. E, outra coisa, ele, ou ela, deve saber que estamos
levantando o passado de todo mundo.
— E isso leva tempo — disse Rydesdale, com um suspiro. —
Temos até de telegrafar para a índia. É um trabalho
monótono e demorado.
— Portanto, o assassino tem mais um motivo para estar com
pressa. Tenho certeza, senhor, de que o perigo é bastante
real. O que está em jogo é uma fortuna enorme. Se Belle
Goedler morre...
Parou, vendo que um policial entrava.
— Legg está no telefone, senhor; falando de Chipping
Cleghorn.
— Passe para o meu aparelho.
Observando o seu superior, o inspetor Craddock viu o seu
rosto endurecer.
— Muito bem — rosnou Rydesdale. — O inspetor
Craddock vai para aí imediatamente.
Recolocou o fone no gancho.
— É... — e Craddock não chegou a terminar a frase.
Rydesdale sacudiu a cabeça.
— Não — ele disse. — Dora Bunner. Queria tomar uma
aspirina. Aparentemente, apanhou alguns comprimidos num
vidro que estava na mesinha de cabeceira de Letitia
Blacklock. Havia poucos no vidro. Ela apanhou dois, e
deixou um. O médico está mandando esse que sobrou para
análise. Ele tem certeza de que não é aspirina.
— Ela está morta?
— Está. Foi encontrada morta na cama esta manhã. Morreu
dormindo, diz o médico. Não acredita em morte natural,
embora sua saúde fosse bastante precária. O seu palpite é de
envenenamento por narcótico. A autópsia será hoje de
noite.
— Comprimidos de aspirina no quarto de Letitia Blacklock.
O nosso assassino é muito esperto. Patrick me contou que a
srta. Blacklock jogou fora uma garrafa de sherry pela
metade e abriu uma nova. Não creio que pensasse em fazer
o mesmo com um vidro de aspirinas. Quem terá estado na
casa nos últimos dois dias? Os comprimidos não podem ter
sido colocados há muito tempo.
Rydesdale levantou os olhos.
— Todos estiveram lá ontem — disse ele. — Uma festinha
de aniversário para a srta. Bunner. Qualquer um poderia ter
dado uma escapada para o segundo andar para fazer o
servicinho. Por outro lado, qualquer um dos moradores teve
muito mais oportunidades.

CAPÍTULO 17
O ÁLBUM

Miss Marple já estava no portão, envolta em agasalhos,
quando Bunch lhe entregou um envelope.
— Diga à srta. Blacklock — recomendou ela — que Julian
sente muitíssimo não poder ir, mas está assistindo um
paroquiano agonizante em Locke Hamlet. Se ela quiser vê-
lo, ele pode dar um pulo lá depois do almoço. Esse bilhete é
sobre as providências para o enterro. Julian acha melhor
quarta-feira, se a audiência do inquérito for na terça. Coitada
da Bunny. Só mesmo ela seria capaz de tomar um veneno
que era para outra pessoa... Então, até logo. Espero que a
senhora não se canse muito. Mas é que eu tenho de levar
essa criança ao médico, já, já.
Miss Marple garantiu que a caminhada não seria muito
cansativa, e Bunch voltou correndo para dentro de casa.
Enquanto esperava pela srta. Blacklock, na sala de estar, Miss
Marple olhou em torno de si, pensando no que teria querido
dizer Dora Bunner, naquela conversa no Bluebird, quando
afirmara que ' Patrick tinha "feito alguma coisa com o
abajur" para "fazer a luz se apagar". Que abajur? E que
"alguma coisa" poderia ter ele feito?
— Certamente — Miss Marple decidiu — ela estava falando
do pequeno abajur que ficava sobre a mesinha perto do arco
que dividia a sala em duas. Dissera algo sobre um pastor ou
uma pastora... e aquela era, de fato, uma peça delicada de
porcelana de Dresden, um pastor de casaco azul e calças cor-
de-rosa, segurando o que antes fora um candelabro e agora
havia sido adaptado à luz elétrica. A cúpula era de veludo
liso; um pouco grande demais; quase ocultava a figura da
base. O que mais dissera Dora Bunner? "Eu me lembro
muito bem que era a pastora. E, no dia seguinte..." Bem,
agora certamente era um pastor.
Miss Marple se lembrou de que, quando Bunch e ela tinham
vindo para o chá, Dora Bunner dissera que o abajur era parte
de um par. Claro: um pastor e uma pastora. E, no dia do
assalto, fora a pastora; mas, no dia seguinte, estava a outra
peça no lugar, a que estava ali agora: o pastor. Haviam sido
trocadas durante a noite. E Dora Bunner, por alguma razão,
ou sem razão alguma, acreditava que fora Patrick quem as
trocara.
Por quê? Porque, se o abajur original fosse examinado,
ficaria evidente como Patrick conseguira que as luzes se
apagassem. Como fizera ele? Miss Marple examinou com
atenção o objeto à sua frente. O fio corria sobre a mesa e
descia pelo lado, ficando a tomada na parede. O interruptor,
em formato de pêra, ficava no próprio fio. Nada disso
ajudava Miss Marple, que não entendia nada de eletricidade.
"Onde estaria a pastora?", pensou ela. No quarto de
guardados, jogada fora ou... onde era mesmo que Dora
Bunner encontrara Patrick com uma pena e uma xícara
cheia de óleo? No fundo do quintal? Miss Marple decidiu
levar a questão ao conhecimento do inspetor Craddock.
Quando tudo começou, a srta. Blacklock acreditava que o
seu sobrinho Patrick estaria por trás da colocação daquele
anúncio no jornal. Freqüentemente, essa espécie de
convicção instintiva acaba por se justificar; pelo menos, Miss
Marple acreditava muito nisso. Porque, quando a gente
conhece bem as pessoas, sabe as coisas que elas costumam
pensar...
Patrick Simmons...
Um rapaz bonito. Encantador. Um jovem pelo qual as
mulheres se sentiam atraídas, tanto as mais moças como as
mais velhas. O tipo de homem, quem sabe, igual ao que
provocara uma paixão irresistível na irmã de Randall
Goedler. Poderia Patrick Simmons ser "Pip"? Mas ele
estivera na Marinha durante a guerra. A polícia poderia
descobrir isso com facilidade.
Só que... às vezes... algumas pessoas conseguem passar por
outras, com grande facilidade...
A porta se abriu, e a srta. Blacklock entrou. Parecia, na
opinião de Miss Marple, muitos anos mais velha; toda a
disposição de viver e a energia haviam desaparecido.
— Desculpe ter vindo incomodá-la — disse Miss Marple. —
Mas o reverendo está com um paroquiano agonizante, e
Bunch tinha que levar uma criança doente ao médico. Julian
lhe mandou um bilhete.
Entregou o envelope à srta. Blacklock, que o abriu.
— Sente-se, Miss Marple — disse ela. — Foi muita bondade
sua tê-lo trazido.
Ela leu o bilhete e acrescentou:
— O reverendo Harmon é um homem muito
compreensivo. Não tenta oferecer um consolo inútil... Diga-
lhe que estou de acordo com tudo. O seu... seu hino favorito
era Levemos a luz avante.
Parou, bruscamente.
— Não passo de uma estranha — disse Miss Marple,
suavemente — mas, se puder fazer...
De repente, descontroladamente, Letitia Blacklock começou
a chorar. A sua dor a dominava inteira, como algo
avassalador e irremediável. Miss Marple permaneceu em
silêncio.
Finalmente, a srta. Blacklock ergueu a cabeça. Seu rosto
estava inchado e manchado pelas lágrimas.
— Desculpe — disse. — Eu... eu não pude me controlar, A
perda que eu tive... Ela... ela era a minha única ligação com
o passado, entende? A única que... que se lembrava. Agora,
que ela se foi, estou tão sozinha...
— Sei o que a senhora quer dizer — disse Miss Marple. — A
gente realmente fica sozinha quanto se vai a última pessoa
que tem as mesmas recordações. Eu tenho sobrinhos e
sobrinhas e bons amigos, mas não há mais ninguém que se
lembre de mim quando menina... ninguém que pertença aos
velhos tempos. Há muito tempo que estou sozinha assim.
As duas mulheres permaneceram em silêncio por algum
tempo.
— A senhora compreende muito bem — disse Letitia
Blacklock, levantando-se e se dirigindo à escrivaninha. —
Preciso escrever algumas palavras ao reverendo Harmon.
Segurou a caneta desajeitadamente e escreveu lentamente.
— Artrite — explicou. — Às vezes, mal consigo escrever.
Fechou o envelope e o endereçou.
— Seria muita bondade sua entregá-lo para mim. Ouvindo
uma voz fora da sala, disse, apressada:
— Deve ser o inspetor Craddock.
Aproximou-se do espelho sobre a lareira e aplicou um pouco
de pó no rosto.
Craddock entrou; sua expressão era fechada, dura. Olhou
para Miss Marple com desaprovação.
— Oh — disse. — Então a senhora está aqui. A
srta. Blacklock se afastou da lareira.
— Miss Marple veio trazer um bilhete do reverendo
Harmon.
— Eu já estive de saída — disse Miss Marple, corando. —
Por favor, não quero atrapalhar o seu trabalho.
— A senhora esteve aqui ontem, no chá?
— Não... não estive — respondeu Miss Marple,
nervosamente. — Bunch me levou para visitar uns amigos.
— Então, não há coisa alguma que me possa dizer.
Craddock segurou a porta aberta, num gesto sem qualquer
sutileza, e Miss Marple escapuliu por ela, bastante
encabulada.
— Essas mulheres são sempre bisbilhoteiras — comentou
Craddock.
— Acho que o senhor está cometendo uma injustiça — disse
a srta. Blacklock. — Ela realmente veio trazer um bilhete.
— Acredito.
— Não acho que tenha vindo só por curiosidade.
— Talvez a senhora tenha razão, srta. Blacklock, mas o meu
diagnóstico é de um ataque sério de bisbilhotice aguda...
— Ela é uma pobre velha inofensiva — replicou a srta.
Blacklock.

"Perigosa como uma cascavel; se a senhora soubesse...",
pensou Craddock, embora não tivesse a menor intenção de
revelar o fato, sem necessidade. Agora que tinha certeza
absoluta de que havia um assassino à solta, sentia que quanto
menos falasse, melhor. Não queria que Jane Marple fosse a
próxima vítima.
Em alguma parte, um assassino... Mas, onde?
— Não vou perder tempo com pêsames, srta. Blacklock —
disse ele. — Para falar a verdade, a morte da srta. Bunner me
abalou muito. Nós deveríamos ter dado um jeito de impedi-
la.
— Não sei o que poderiam ter feito.
— Não... realmente, não seria fácil. Mas, agora, temos de
trabalhar depressa. Quem estará fazendo isso, srta.
Blacklock? Quem será que já fez duas tentativas de assassiná-
la e acabará conseguindo, se não agirmos depressa?
Letitia Blacklock estremeceu.
— Não sei, inspetor... não faço a menor idéia.
— Conversei com a sra. Goedler. Ela me deu todo o auxílio
que pôde. Não foi muita coisa. Há um número muito
pequeno de pessoas que se beneficiaria com a sua morte. Em
primeiro lugar, Pip e Emma. Patrick e Julia Simmons são da
idade certa, mas o passado de ambos parece ser autêntico.
Seja como for, não podemos nos concentrar apenas neles.
Diga-me, srta. Blacklock, a senhora reconheceria Sónia
Goedler se a visse?
— Reconhecer Sónia? Ora, naturalmente... — ela parou,
subitamente. — Não — disse, pausadamente —, acho que
não. Faz tanto tempo... Trinta anos... ela seria uma mulher
de idade, agora.
— Como era ela quando a viu pela última vez?
— Sônia? — a srta. Blacklock pensou por um momento. —
Ela era pequena, morena.
— Alguma característica especial? Maneirismos?
— Não, acho que não. Era alegre... muito alegre.
— Pode não ser muito alegre hoje em dia — disse o inspetor.
Tem alguma fotografia sua?
— De Sônia? Deixe-me pensar... uma boa foto, não. Tenho
alguns instantâneos... num álbum, que está por aí... acho que
tenho pelo menos um dela.
— Ah. Posso vê-lo?
— Claro. Agora, onde é que eu botei esse álbum?
— Diga-me, srta. Blacklock, acredita, por hipótese, que a sra.
Swettenham possa ser Sónia Goedler?
— A sra. Swettenham? — a srta. Blacklock o olhou com
enorme espanto. — Mas o marido dela era funcionário do
Governo... primeiro na índia, e depois em Hong-Kong, eu
acho.
— A senhora sabe apenas o que ela lhe contou. Como se diz
em linguagem forense, não sabe de seu próprio
conhecimento, não é?
— Não — disse a srta. Blacklock, devagar. — Realmente, não
sei... Mas, a sra. Swettenham? Ora, é absurdo!
— Sónia Goedler era interessada por teatro? Atriz amadora,
por acaso?
—Ah, sim, e muito boa.
— Está vendo? Há outra coisa: a sra. Swettenham usa peruca.
Pelo menos — o inspetor emendou — a sra. Harmon diz
que ela usa.
— É... realmente, parece ser uma peruca. Todas aquelas
mechas cinzentas. Mas ainda acho que é absurdo. Ela é
muito boa pessoa, e às vezes muito engraçada, até.
— Temos, então, a srta. Hinchliffe e a srta. Murgatroyd.
Alguma delas poderia ser Sónia Goedler?
— A srta. Hinchliffe é muito alta, parece um homem.
— E a srta. Murgatroyd?
— Orá, mas... não, não, tenho certeza absoluta de que ela
não poderia ser Sónia.
— A senhora não enxerga bem, não é, srta. Blacklock?
— Sou míope, se é isso que quer saber.
— Entendo. De qualquer maneira, eu gostaria de ver esse
instantâneo de Sónia Goedler, mesmo que seja antigo e não
se pareça muito com ela. Nós somos profissionalmente
treinados em identificar características fisionômicas,
percebe?
— Vou procurá-lo para o senhor, então.
— Agora?
— Se o senhor fizer questão.
— Prefiro.
— Muito bem. Deixe-me pensar. Eu vi aquele álbum quando
estávamos arrumando uns livros no armário de guardados.
Julia estava me ajudando. Ela riu muito com as roupas que
usávamos naquela época... Os livros, nós levamos para a
prateleira da sala. Agora, onde foi que botamos o álbum e
aqueles volumes encadernados do Art Journal? Que
memória horrível, esta minha! Talvez Julia se lembre. Ela
está em casa hoje.
— Vou procurá-la.
O inspetor saiu. Não encontrou Julia em nenhum dos
cômodos do andar térreo. Mitzi, interrogada quanto ao seu
paradeiro, afirmou, com ar zangado, que não era de sua
conta.
— Eu? Ficar na cozinha e fazer almoço. E não comer nada
que não fazer eu mesma. Nada, nada, nada.
O inspetor chamou, ao pé da escada:
— Srta. Simmons!
Não obtendo resposta, subiu.
Deu de cara com Julia ao dobrar para a esquerda no patamar
superior. Ela estava saindo de uma porta atrás da qual se via
uma estreita escada em caracol.
— Eu estava no sótão — ela explicou. — O que é? O
inspetor Craddock explicou.
— Aqueles velhos álbuns de retratos? Eu me lembro, sim.
Nós os colocamos no armário do estúdio, eu acho. Vamos
ver.
Ela o precedeu na escada e, embaixo, entrou no estúdio.
Perto da janela, havia um amplo armário. Julia o abriu,
mostrando uma massa heterogênea de guardados.
— Lixo — disse ela. — Tudo isso é lixo. Mas pessoas de
certa idade simplesmente não sabem jogar as coisas fora.
O inspetor se ajoelhou e apanhou um par de velhos álbuns
na prateleira inferior.
— São estes?
— São.
A srta. Blacklock entrou e se juntou a eles.
— Ah!, então foi aí que os botamos. Eu não conseguia me
lembrar.
Craddock pôs os álbuns sobre a mesa e começou a folheá-
los.
Era uma série infindável de mulheres em imensos chapéus,
com vestidos roçando o chão. As fotos tinham legendas em
elegantes letras de fôrma, mas a tinta estava velha e apagada.
— Deveria ser neste — disse a srta. Blacklock —, na
segunda ou terceira página. O outro álbum é posterior ao
casamento de Sônia.
Ela virou uma página.
— Deveria estar aqui. Parou.
Havia diversos espaços vazios na página. Craddock se
inclinou e decifrou a escrita apagada.
"Sônia ... eu ... R. G." Um pouco adiante, "Sônia e Belle na
praia". E, na página seguinte, "Piquenique em Skeyene".
Craddock virou a folha. "Charlotte, eu, Sônia, R. G."
Ele se levantou. Seus lábios estavam apertados, mal
contendo sua irritação.
— Alguém tirou as fotografias daqui, e não acredito que
tenha sido há muito tempo.
— Não havia espaços em branco quando as vimos no outro
dia; não é, Julia?
— Não olhei com muita atenção... só reparei nos vestidos.
Mas... tem razão, tia Letty, não havia espaços em branco.
Craddock fechou ainda mais o rosto.
— Alguém tirou todas as fotos de Sônia Goedler deste
álbum.

CAPÍTULO 18
As CARTAS

I

— Desculpe aborrecê-la de novo, sra. Haymes.
— Não tem importância — disse Phillipa, secamente.
— Vamos para cá, por favor.
— O estúdio. Faz questão, inspetor? É muito frio, aqui. Não
há lareira.
— Não importa... não é por muito tempo. E, aqui, ninguém
nos pode ouvir.
— Isso faz diferença?
— Para mim, não, sra. Haymes. Para a senhora, talvez.
— Como assim?
— Que bem me lembre, sra. Haymes, a senhora me contou
que o seu marido foi morto em ação na Itália.
— Isso mesmo.
— Não seria mais simples ter dito a verdade? Que ele
desertou do seu regimento?
Ele notou que o seu rosto empalidecia, enquanto cerrava os
punhos com força. Com amargura na voz, ela disse:
— O senhor precisava revirar tudo?
— Contamos que as pessoas nos digam a verdade —
respondeu Craddock, com secura.
Ela permaneceu em silêncio um momento, antes de replicar:
— E daí?
— O que a senhora quer dizer com isso, sra. Haymes?
— Quero dizer, o que o senhor vai fazer a respeito? Contar a
todo o mundo? Será necessário... ou justo... ou caridoso?
— Ninguém sabe?
— Aqui, não. Harry — a sua voz se transformou —, o meu
filho, ele não sabe. Não quero que saiba. Não quero que
saiba... nunca.
— Então, permita que lhe diga que está correndo um grande
risco, sra. Haymes. Quando o menino tiver idade bastante
para compreender, conte-lhe a verdade. Se ele descobrir
sozinho, algum dia... não será bom para ele. Se a senhora
insistir em lhe encher a cabeça sobre os atos de heroísmo do
pai...
— Eu não faço isso. Não sou inteiramente desonesta. Apenas
não falo sobre ele. O seu pai... foi morto na guerra. Afinal, é
praticamente verdade, para... para nós.
— Mas o seu marido ainda está vivo?
— Talvez. Como vou saber?
— Quando o viu pela última vez, sra. Haymes?
— Não o vejo há anos — disse Phillipa, de um fôlego só.
— Tem certeza de que isso é verdade? Não esteve com ele,
por acaso, há uns quinze dias?
— O que o senhor está querendo dizer?
— Nunca acreditei muito em seu encontro com Rudi Scherz
no pavilhão do jardim. Mas Mitzi não parecia estar
mentindo. Tenho a impressão, sra. Haymes, de que o
homem que se encontrou com a senhora naquela manhã era
o seu marido.
— Não me encontrei com ninguém no pavilhão.
— Talvez ele estivesse precisando de dinheiro... e a senhora
lhe emprestou algum?
— Não estive com ele, não entende? Não me encontrei com
ninguém no pavilhão.
— Muitas vezes, desertores são homens desesperados. É
comum participarem de assaltos. Não sabia? Assaltos a mão
armada, inclusive. E não seria de estranhar que um desertor
usasse uma arma de fabricação estrangeira que tivesse
trazido da trincheira.
— Não sei onde está o meu marido. Não o vejo há anos.
— É a sua última palavra, sra. Haymes?
— Não tenho mais nada a dizer.

II
Craddock saiu de sua entrevista com a sra. Haymes
sentindo-se confuso e irritado.
— Teimosa como uma mula — disse para si mesmo,
zangado.
Tinha praticamente certeza de que Phillipa estava mentindo,
mas era impossível vencer a barreira de suas negativas.
Ele gostaria de saber um pouco mais sobre o ex-capitão
Haymes. Suas informações eram escassas. Uma ficha militar
negativa, mas sem coisa alguma que sugerisse tendências
criminosas.
De qualquer forma, Haymes não se encaixava com o fato da
porta lubrificada. Alguém da casa fizera aquilo, ou alguém
com livre acesso à casa.
Craddock estava em pé ao lado da escada. De repente
lembrou-se de Julia, descendo do sótão: o que estivera ela
fazendo lá? Um sótão, pensou ele, não era um lugar
adequado para uma esnobe do calibre de Julia.
O que estivera ela fazendo lá?
Subiu rapidamente os degraus até o primeiro andar. Não
havia qualquer pessoa por perto. Abriu a porta pela qual Julia
saíra e embarafustou pela escada em caracol.
O sótão era uma confusão de velhos baús e malas, móveis
quebrados, uma cadeira sem uma perna, um abajur de
porcelana quebrado, parte de um serviço de jantar.
Escolhendo um dos baús, ele abriu sua tampa.
Roupas. Roupas femininas, fora de moda, mas de boa
qualidade. Deviam ser da srta. Blacklock ou de sua irmã que
morrera.
Abriu outro baú.
Cortinas.
Passou para uma pequena pasta de couro. Continha
documentos e cartas. Cartas muito antigas, amareladas pelo
tempo.
Reparou que, do lado de fora da pasta, estavam gravadas as
iniciais C.L.B. Deduziu, corretamente, que deveriam ser da
irmã de Letitia, Charlotte. Abriu uma das cartas. Começava:
Querida Charlotte. Ontem, Belle sentiu-se melhor, e
fizemos um piquenique, R.G. também não trabalhou.
O negócio de Asvogel foi melhor do que
esperávamos, e R.G. está satisfeitíssimo. As ações
preferenciais subiram muito.
Ele passou por cima do resto e olhou a assinatura:
Sua irmã, Letitia.
Apanhou outra.
Querida Charlotte. Eu gostaria muito se você se
decidisse a sair da concha. Você está exagerando, e
sabe muito bem disso. Não é tão grave como você
pensa... E, realmente, as pessoas não prestam muita
atenção a coisas assim. Você não está desfigurada
como acha que está.
Ele balançou a cabeça. Lembrava-se de que Belle Goedler
dissera que Charlotte Blacklock tinha uma deformidade ou
defeito qualquer. E Letitia tivera de deixar o seu trabalho
para se dedicar à irmã. Aquelas cartas bem mostravam a sua
ansiedade e a sua afeição em relação à inválida. Ela enviara à
irmã longas narrativas sobre os acontecimentos de todos os
dias, com todos os detalhes que imaginava pudessem
interessar à jovem doente. E Charlotte guardara as cartas. Às
vezes, ela também mandava fotos.
Subitamente, Craddock se sentiu tomado por uma onda de
otimismo. Talvez ali houvesse uma pista. Naquelas cartas
haveria coisas de que Letitia Blacklock há muito se
esquecera. Ali estava um fiel retrato do passado e, em algum
ponto, poderia haver uma pista que o ajudasse a identificar o
desconhecido. Até fotografias poderia encontrar. Poderia
haver, no maço de cartas, alguma foto de Sónia Goedler
ignorada pela pessoa que tirara do álbum todas as outras.
O inspetor Craddock guardou todas as cartas na pasta,
cuidadosamente, e desceu a escada.
Letitia Blacklock, que estava parada no patamar, olhou-o
com espanto.
— Era o senhor que estava no sótão? Ouvi seus passos lá em
cima. Não sabia...
— Srta. Blacklock, encontrei algumas cartas, escritas pela
senhora para sua irmã Charlotte, há muitos anos. Quero a
sua permissão para lê-las.
— Isso é mesmo necessário? — perguntou ela, num
rompante de irritação. — Por quê? De que lhe servirá isso?
— Podem me ajudar a formar uma idéia de Sônia Goedler, de
sua personalidade... pode haver incidentes... ou alusões...
qualquer coisa que ajude.
— São cartas particulares, inspetor.
— Eu sei.
— Imagino que o senhor as vá levar de qualquer maneira...
deve ter autoridade para isso. Leve-as, então... Leve-as de
uma vez! Mas encontrará muito pouco sobre Sônia. Quando
ela se casou e foi embora eu só trabalhava para Randall
Goedler havia um ou dois anos.
— Pode haver alguma coisa — insistiu Craddock com
teimosia, acrescentando: — Temos de tentar por todos os
lados. Estou convencido de que o perigo é bastante grande.
— Eu sei — disse ela, mordendo os lábios. — Bunny mor-
reu... porque tomou um comprimido que era para mim. Na
próxima vez, pode ser Patrick, Julia, Phillipa, ou Mitzi,
alguém jovem, com toda a vida pela frente. Alguém que
beba um copo de vinho servido para mim, ou coma um
bombom que eu tenha recebido de presente. Ah! Leve essas
cartas, leve de uma vez! E, depois, pode queimá-las. Não
significam coisa alguma para pessoa alguma, a não ser
Charlotte e eu. Só falam de coisas que já acabaram, do
passado... que ninguém mais se lembra...
Sua mão subiu até o colar de pérolas falsas, de diversas
voltas, que usava colado ao pescoço. Craddock pensou em
como a jóia combinava pouco com sua saia e seu casaco de
tweed. Mais uma vez, ela disse:
— Leve essas cartas.

III
Na tarde seguinte, o inspetor fez uma visita à casa paroquial.
Era um dia escuro, de muito vento.
Miss Marple estava sentada bem perto do fogo, tricotando.
Bunch se arrastava de quatro pelo chão, cortando moldes de
costura.
Ela ergueu o busto e afastou uma mecha de cabelo dos olhos,
esperando que Craddock falasse.
— Não sei se estou abusando da confiança alheia — disse o
inspetor, dirigindo-se a Miss Marple — mas gostaria de que a
senhora lesse esta carta.
Ele explicou a descoberta que fizera no sótão, e acrescentou:
— É um conjunto de cartas que chegam a comover. A srta.
Blacklock falava sobre todos os assuntos, sempre na
esperança de despertar o interesse da irmã pela vida. Elas
nos ajudam, também, a ter uma boa idéia do velho pai: o dr.
Blacklock. Um velho ranzinza e teimoso, inamovível,
convencido de que tudo o que pensava e dizia era sempre
certo. É bem capaz de ter causado a morte de muitos
doentes com a sua obstinação. Não admitia qualquer idéia ou
método moderno.
— Francamente, não chego a ser muito contra ele — disse
Miss Marple. — Sempre achei esses médicos jovens muito
novidadeiros. Fazem a gente arrancar todos os dentes, tomar
uma porção de remédios estranhos e acabam por nos tirar as
tripas, antes de confessar que não sabem o que a gente tem.
Eu prefiro os remédios antiquados, naqueles vidros escuros
de farmácia. Afinal, esses sempre se podem derramar na pia.
Ela apanhou a carta que Craddock lhe estendia.
— Quero que a senhora a leia porque acho que deve
entender melhor essa geração do que eu. Talvez consiga ler
alguma coisa nas entrelinhas...
Miss Marple desdobrou a frágil folha de papel.

Querida Charlotte:
Não escrevo há dois dias porque temos tido enormes
problemas domésticos. Sónia, a irmã de Randall
(lembra-se dela? Quando foi apanhar você de carro
naquele dia? Ah, eu gostaria tanto de que você saísse
de casa mais um pouco... ), anunciou que vai se casar
com um tal de Dmitri Stamfordis. Só o vi uma vez.
Muito bonito, mas não o achei muito digno de
confiança. R.G. está uma fera, e diz que ele é um
espertalhão, um vigarista. Belle, coitada, só faz sorrir,
recostada no sofá. E Sônia (apesar daquele ar frio, ela
tem um gênio terrível) está zangadíssima com R.G.
Ontem, cheguei a pensar que ela o mataria!
Fiz o que pude. Falei com Sónia e falei com R. G.
Consegui acalmá-los um pouco; quando foram
conversar de novo, a briga começou igualzinha como
antes! Você não tem idéia como essa situação pode
deixar uma pessoa exausta. R.G. mandou investigar
esse Stamfordis — e parece que realmente não é flor
que se cheire.
Enquanto isso, ninguém pensa nos negócios, que
ficam todos na minha mão. Até que é bom, porque
R.G. me dá toda a autonomia. Ontem, ele me disse:
"Ainda bem que existe alguém com a cabeça no lugar.
Você não vai se apaixonar por um vigarista, não é,
Blackie?" Respondi que certamente não ia me
apaixonar por ninguém. Ele prometeu: "Vamos dar
uns sustos nesse pessoql da Bolsa." Às vezes, ele é
terrível, e sempre se arrisca muito. "Pelo visto, você
nunca me deixaria fazer bobagens, hein, Blackie?", ele
me disse, na semana passada. E não deixarei, mesmo!
Não entendo como uma pessoa não possa ver quando
alguma coisa é desonesta — mas R.G. realmente não
vê. Ele só sabe o que é abertamente contra a lei.
Em toda essa confusão, Belle se diverte. Ela acha que
é bobagem toda essa preocupação com Sônia. "Sônia
tem o seu dinheiro", diz ela. "Por que ela não há de se
casar com esse homem, se é isso que quer?" Eu
comentei que poderia ser um erro terrível, mas Belle
respondeu: "Nunca é um erro uma pessoa se casar
com um homem que ame — mesmo que depois venha
o arrependimento." Depois, ela disse que Sônia só não
tinha rompido ainda com Randall por causa do
dinheiro. "Sônia gosta muito de dinheiro", ela disse.
Chega, por ora. Como vai papai? Não digo que tenha
saudades dele. Mas pode lhe dizer que tenho, se achar
que vale a pena. Você tem saído? Procure não ser
muito mórbida, meu bem.
Sônia lhe manda lembranças. Acabou de entrar, e está
aqui perto, abrindo e fechando as mãos, como um
gato zangado experimentando as unhas. Acho que ela
e R.G. tiveram outra briga. Eu sei que Sônia pode ser
muito irritante, às vezes. Ela tem um olhar frio que
faz o sangue da gente gelar nas veias.
Um milhão de beijos, e muito ânimo! O tratamento
com iodo pode dar muito resultado. Andei
perguntando, e soube de coisas muito positivas sobre
ele.
Sua irmã, Letitia

Miss Marple dobrou a carta e a devolveu. Parecia distraída
com alguma coisa.
— Então, o que acha? — perguntou Craddock. — Que
impressão lhe deu?
— De Sônia? E muito difícil, sabe, ver uma pessoa através
dos olhos de outra... Uma mulher muito voluntariosa, isso
acho que é fora de dúvida. Querendo sempre ficar com a
parte melhor de tudo...
— Abrindo e fechando as mãos, como um gato
zangado... — murmurou Craddock. — Sabe, isso me faz
lembrar de alguém...
Ele franziu a testa, concentrando-se.
— Ele mandou investigar... — disse, quase para si mesma,
Miss Marple.
— Se conseguíssemos pôr as mãos nos resultados dessas
investigações... — comentou Craddock.
— Por acaso essa carta a faz lembrar de alguém em St. Mary
Mead? — perguntou Bunch, com a boca cheia de alfinetes.
— Não tenho certeza, meu bem... o dr. Blacklock realmente
parece um pouco com o sr. Curtiss, o pastor. Ele não deixou
que a filha colocasse aparelho nos dentes. Dizia que era a
vontade de Deus que ela fosse dentuça. "Mas, afinal de
contas", eu lhe disse, "o senhor apara sua barba e corta o
cabelo." Ele respondeu que era um problema inteiramente
diferente. Os homens são sempre assim! Enfim, isso não nos
ajuda nada com o nosso problema.
— Até hoje não identificamos a origem daquele revólver.
Não era de Rudi Scherz. Se eu soubesse quem tinha um
revólver, aqui em Chipping Cleghorn...
— O coronel Easterbrook tem um. Ele o guarda na sua gaveta
de colarinhos — disse Bunch.
— Como sabe disso, sra. Harmon?
— A sra. Butt me contou. Ela trabalha para mim, por dia. Isto
é, duas vezes por semana. Disse que ele, sendo militar, era
natural que tivesse uma arma, que podia ser muito útil em
caso de ladrões aparecerem.
— Quando ela lhe contou isso?
— Há muito tempo. Acho que há uns seis meses.
— O coronel Easterbrook? — murmurou Craddock.
— Parece essas roletas de parques de diversões, não parece?
A agulha roda, roda, e cada vez aponta para uma coisa
diferente — comentou Bunch, ainda falando com a boca
cheia de agulhas.
— Pois é... esse é que é o problema — gemeu Craddock.
— O coronel Easterbrook esteve em Little Paddocks outro
dia, para deixar um livro. Ele poderia ter aproveitado para
lubrificar a porta. Mas ele admitiu que tinha ido lá
abertamente. Não foi como a srta. Hinchliffe.
— O senhor precisa levar em conta os tempos em que
vivemos — disse suavemente Miss Marple.
Craddock a olhou sem entender.
— Afinal de contas, o senhor é a polícia — explicou ela. —
As pessoas não podem dizer tudo o que sabem à polícia, não
é mesmo?
— Não sei por que — replicou Craddock. — A não ser que
tenham algo de criminoso a esconder.
— Ela está falando de manteiga — disse Bunch, esgueirando-
se à volta de um pé da mesa para ancorar um pedaço de
papel que ameaçava voar. — Manteiga, milho, galinhas,
algumas vezes creme de leite, até bacon, de vez em
quando.
— Mostre-lhe aquele bilhete da srta. Blacklock — disse Miss
Marple. — Já é um pouco antigo, mas parece saído de uma
história de mistério.
— Ora, onde é que eu o meti? É esse aqui, tia Jane?
Miss Marple apanhou o pedaço de papel e o examinou.
— Este mesmo — disse, satisfeita. — É este.
Entregou-o ao inspetor.
"Andei investigando — o dia é quinta-feira", escrevera
a srta. Blacklock. "A qualquer hora depois das três. Se
houver um pouco para mim, deixe no lugar de
costume."
Bunch riu, fazendo voar pela sala um punhado de alfinetes.
Miss Marple observava o rosto do inspetor. Mas foi a mulher
do vigário quem explicou:
— Quinta-feira é o dia em que uma das fazendas aqui perto
costuma fazer manteiga. Eles reservam um pouco para os
amigos. Normalmente, é a srta. Hinchliffe quem vai buscar.
Ela tem relações com quase todos os fazendeiros. Acho que
é por causa de sua criação de porcos. Mas é tudo um pouco
sigiloso, entende, uma espécie de bolsa de trocas particular.
Quem recebe manteiga dá pepinos, ou algo parecido; alguma
coisinha, quando se mata um porco. De vez em quando, um
animal sofre um acidente e tem de ser sacrificado. Ora, o
senhor deve saber das coisas. Só que não fica bem falar sobre
isso com a polícia. Eu imagino que muitas dessastrocas sejam
ilegais, ninguém sabe ao certo, os regulamentos são tão
complicados! O que deve ter acontecido é que Hinch levou
um pacote de manteiga para Little Paddocks e o colocou no
lugar de costume. Existe um depósito de farinha no corredor
que está sempre vazio, e o lugar é lá. Craddock suspirou.
— Ainda bem que vim conversar com as senhoras — disse.
— Também há o caso dos cupons de roupas — continuou
Bunch. — Ninguém os vende... isso não é considerado
honesto. Mas se a sra. Butt ou a sra. Finch gostarem de um
vestidinho de lã ou um casaco não muito usados, elas os
pagam com cupons em vez de dinheiro.
— É melhor não me contar mais nada — disse Craddock. —
Tudo isso é contra a lei.
— Não deviam existir essas leis bobas — disse Bunch,
enchendo novamente a boca de alfinetes. — Eu não faço
nada disso, é claro, porque Julian não gosta, mas sei de tudo
o que acontece.
O inspetor mostrava, pela expressão de seu rosto, que
começava a ser dominado pelo desânimo.
— Tudo por aqui tem um ar tão agradável, tão corriqueiro —
disse ele. — Uma vida pitoresca, simples. No entanto, uma
mulher e um homem foram mortos, e outra mulher pode
morrer sem que eu consiga coisa alguma de concreto.
Agora, não estou me preocupando com Pip e Emma. Vou
me concentrar em Sônia. Gostaria de saber como ela era.
Havia umas duas fotos com estas cartas, mas nenhuma era
dela.
— Como o senhor sabe?
— Ela era pequena e morena, segundo a srta. Blacklock.
— É mesmo? — perguntou Miss Marple. — Isso é muito
interessante.
— Havia um instantâneo que me lembrava vagamente
alguém. Uma moça alta e loura, com o cabelo todo penteado
para cima. Não sei quem possa ser. Seja como for, não pode
ser Sónia. Acha que a sra. Swettenham pode ter sido morena
quando jovem?
— Muito morena não poderia ser — disse Bunch. Ela tem
olhos azuis.
— Eu tinha esperanças de achar uma foto de Dmitri
Stamfordis — mas isso já seria muita sorte... Bem —
arrematou Craddock, guardando a carta — é pena que isto
não lhe tenha dado alguma pista, Miss Marple.
— Ah, mas deu! — exclamou ela. — Pelo menos alguns
indícios. Leia-a de novo, inspetor... especialmente a parte
que fala das investigações que Randall Goedler mandou
fazer.
Craddock a olhou sem compreender.
O telefone tocou.
Bunch se levantou e foi atender, no hall onde, segundo a
boa tradição vitoriana, ele havia sido instalado. Pouco
depois, voltava.
— É para o senhor.
Um tanto surpreendido, Craddock foi atender, tendo o
cuidado de fechar a porta da sala de estar atrás de si.
— Craddock? É Rydesdale.
— Sim senhor.
— Estive examinando o seu relatório. Em sua conversa com
Phillipa Haymes, vejo que ela afirma que não esteve com o
marido desde que ele desertou do Exército?
— Isso mesmo, senhor. Ela insistiu nisso com muita ênfase.
Mas, em minha opinião, não dizia a verdade.
— Eu concordo. Lembra-se de um caso, há uns dez dias, de
um homem atropelado por um caminhão, e que deu entrada
no hospital de Milchester com contusão craniana e fratura
da bacia?
— Não foi um sujeito que se jogou na frente do caminhão
para salvar uma criança, e foi atropelado em seu lugar?
— Esse mesmo. Não tinha documentos, e ninguém apareceu
para identificá-lo. Parecia um fugitivo. Ele morreu ontem à
noite, sem voltar a si. Mas foi identificado: um desertor,
Ronald Haymes, ex-capitão do regimento de South
Loamshire.
— O marido de Phillipa Haymes?
— Exato. Tinha uma passagem do ônibus de Chipping
Cleghorn no bolso, por sinal, e bastante dinheiro.
— Então, ele conseguiu dinheiro com a mulher? Sempre
pensei que fora ele o homem que Mitzi surpreendeu
conversando com ela no pavilhão do jardim. Ela nega, de
pés juntos, naturalmente. Mas, senhor, o acidente foi antes...
Rydesdale lhe tirou as palavras da boca.
— Certo. Ele deu entrada no hospital no dia 28. O assalto foi
no dia 29. Isso o deixa fora de qualquer ligação com o caso.
Mas é claro que a mulher não sabia do acidente. Ela pode
estar pensando até agora que ele estava metido na história. É
natural que não dissesse nada... afinal, ele era seu marido.
— Foi um gesto bastante bonito, não foi, senhor? —
perguntou Craddock, sério.
— Salvar aquela criança do caminhão? Foi, sim., Muita
coragem. Não creio que Haymes tenha desertado por
covardia. Enfim, isso já é passado. Para um homem que
tinha sujado a sua ficha daquela maneira, foi uma bela
maneira de morrer.
— Fico contente por ela — disse o inspetor. — E pelo filho
deles.
— É... esse não vai precisar se envergonhar do pai. E ela
poderá se casar novamente.
— Eu estava pensando nisso, senhor... — disse Craddock,
pausadamente. — Abre algumas possibilidades novas.
— Já que você está aí, é melhor que lhe dê a notícia.
— Sim, senhor. Vou procurá-la agora. Ou talvez seja melhor
esperar que volte para casa. Pode ter um choque... e há outra
pessoa com quem preciso falar.

CAPÍTULO 19
RECONSTITUIÇÃO DO CRIME

I
— Vou deixar uma lâmpada acesa antes de sair — disse
Bunch. — Está muito escuro aqui. Acho que vai chover.
Empurrou o pequeno abajur através da mesa, para que
pudesse iluminar o tricô de Miss Marple, que estava sentada
numa imensa cadeira de espaldar reto.
Quando viu o fio se esticando sobre a mesa, Tiglath Pileser,
o gato, pulou sobre ele, mordendo-o e o arranhando com
violência.
— Pare com isso, Tiglath Pileser, já, já... É terrível, esse gato.
Veja só, quase cortou o fio; está quase desencapado. Seu gato
bobo, você não percebe que assim acaba levando um
choque?
— Obrigada, meu bem — disse Miss Marple, esticando o
braço para acender a lâmpada.
— Não é aí. Tem um interruptor na metade do fio. Espere
um instante. Vou tirar estas flores da frente.
Quando Bunch ergueu o pequeno jarro com rosas, Tiglath
Pileser, sacudindo o rabo, esticou uma pata travessa e
arranhou o seu braço. Um pouco de água se derramou do
jarro, caindo sobre a parte rota do fio e sobre o próprio
Tiglath que, miando coirwndig-nação, pulou para o chão.
Miss Marple acionou o pequeno interruptor. No ponto em
que a água molhara o fio, houve um pequeno estalido e um
lampejo.
— Ah, meu Deus — disse Bunch. — Deve ter queimado o
fusível. Vai ver que não tem luz na sala toda.
Ela experimentou alguns interruptores.
— Não tem, mesmo. Não deviam ser todas ligadas na mesma
chave, não é? E queimou a mesa, também. Esse Tiglath
Pileser... a culpa é toda dele. Tia Jane... o que foi? A senhora
se assustou?
— Não é nada, minha filha, só que fiz uma descoberta que já
deveria ter feito há muito tempo...
— Vou trocar o fusível e apanhar uma lâmpada no escritório
do Julian.
— Não, meu bem, não se incomode. Você vai perder o seu
ônibus. Não preciso de mais luz. Só quero ficar aqui um
instante... e pensar um pouco. Vá, minha filha, o ônibus não
vai esperar por você.
Quando Bunch saiu, Miss Marple permaneceu parada por
alguns minutos. Na sala, a atmosfera era pesada, refletindo a
tempestade que se armava lá fora.
Miss Marple puxou para si uma folha de papel.
Escreveu: Abajur? e sublinhou três vezes a palavra.
Logo depois, escreveu outra palavra. O seu lápis começou a
correr pelo papel, fazendo uma série de anotações
enigmáticas.

II
A sala de estar de Boulders, com seu teto rebaixado e o vidro
fosco de suas janelas, era bastante escura. A srta. Hinchliffe
e a srta. Murgatroyd discutiam.
— O seu problema, Murgatroyd — disse a srta. Hinchliffe
—é que você não se esforça.
— Mas estou lhe dizendo, Hinch, que não me lembro de
nada.
— Espere aí, Amy Murgatroyd. Vamos trabalhar com
objetividade. Até agora, não temos brilhado muito no setor
detetivesco. Eu estava enganada naquela história da porta.
Admito que você não tenha segurado a porta aberta para o
assassino. Você é inocente, Murgatroyd!
A srta. Murgatroyd sorriu amarelo.
— O nosso azar é termos a única faxineira discreta de
Chipping Cleghorn — continuou a srta. Hinchliffe. —
Normalmente, eu dou graças a Deus por isso, mas desta vez
está nos atrapalhando. Todo mundo já sabe há muito tempo
essa história da outra porta que foi usada... e nós só
soubemos ontem...
— Ainda não entendo como...
— É muito simples. Nossas primeiras conclusões estavam
certas. É impossível segurar uma porta aberta, agitar uma
lanterna e disparar um revólver, tudo ao mesmo tempo. Nós
mantivemos o revólver e a lanterna e excluímos a porta.
Pois estávamos erradas: tínhamos de excluir era o revólver.
— Mas ele tinha um revólver — disse a srta. Murgatroyd. —
Eu vi. Estava lá, no chão, ao lado dele.
— Quando ele já estava morto, sim. Mas, não percebe? Ele
não disparou aquele revólver...
— Então, quem foi?
— Isso é o que vamos descobrir. Mas, seja quem for, foi a
mesma pessoa que colocou os comprimidos envenenados no
quarto de Letty Blacklock... para que a pobre Dora Bunner
acabasse morrendo. E não pode ter sido Rudi Scherz, que já
está morto e enterrado. Foi alguém que estava naquela sala
na noite do assalto, e provavelmente alguém que também
estava na festa de aniversário. Assim, a única pessoa que está
excluída é o sr. Harmon.
— Você acha que os comprimidos foram colocados no dia da
festa de aniversário?
— Por que não?
— Mas, como?
— Ora, uma hora ou outra, todo mundo foi ao banheiro, não
foi? — perguntou a srta. Hinchliffe. — Eu fui... lavar as
mãos, por causa daquele bolo pegajoso. E a engraçadinha da
Easterbroqk foi arrumar a pintura no quarto de Letitia, não
foi?
— Hinch! Você acha que ela...
— Não sei, ainda. Seria muito óbvio, se fosse ela. Acho que
quem quisesse fazer aquilo não ia deixar que todo mundo
soubesse que esteve no quarto. Mas houve oportunidades às
pencas.
— Os homens não foram ao segundo andar.
— Há a escada dos fundos. Afinal de contas, se um homem
sai de uma sala, você não vai atrás dele para ver se está indo
para onde você pensa que ele vai. Seria falta de educação! E
não discuta, Murgatroyd. Vamos voltar ao primeiro atentado
contra Letty Blacklock. Para começo de conversa, preste
bastante atenção, tudo depende de você.
A srta. Murgatroyd se assustou.
— Ah, Hinch, por favor! Você sabe como eu me atrapalho
toda!
— Não é uma questão de usar os miolos, ou seja o que for
que você usa no lugar dos miolos. É uma questão de visão.
Do que você viu.
— Mas eu não vi nada.
— O problema com você, Murgatroyd, como eu já disse, é
que você não se esforça. Preste atenção... vamos ao que
aconteceu. A pessoa que queria matar Letty Blacklock estava
naquela sala, naquela noite. Ele... (digo ele para facilitar,
porque pode muito bem ter sido uma mulher, a não ser, é
claro, pelo fato de que os homens são tão canalhas... ) bem,
ele tinha lubrificado antecipadamente as dobradiças e o
trinco da segunda porta da sala de estar, que todos pensavam
que estivesse trancada. Não me pergunte quando ele fez
isso, porque só serviria para confundir tudo. Na verdade, se
eu quisesse, bastava escolher o momento certo e entrar em
qualquer casa de Chipping Cleghorn e fazer o que bem
entendesse lá dentro por mais de uma hora, sem ninguém
saber. E só uma questão de saber os horários das empregadas
e onde andam os moradores, quanto tempo vão demorar
fora de casa etc. Uma questão de planejamento adequado.
Continuando: ele lubrificou a porta. Ela, agora, abre-se sem
um gemido. Atenção ao palco: as luzes se apagam, a porta A
(a porta comum) é aberta de repente. Lanterna, mãos ao
alto, aquela palhaçada toda. Enquanto isso, aproveitando a
surpresa geral, X (é assim que se diz) esgueira-se pela porta B
para a saleta de entrada, que está às escuras, vem por trás
daquele suíço idiota, dá uns tiros contra Letty Blacklock e
depois atira no suíço. Joga o revólver no chão, para que os
patetas pensem que foi o suíço quem atirou, e volta
correndo para a sala, antes que alguém consiga acender um
isqueiro. Você está acompanhando tudo?
— Estou... acho que estou. Mas, quem foi?
— Ora, se você não sabe, Murgatroyd, ninguém sabe!
— Eu? — a srta. Murgatroyd quase desmaiou. — Mas eu não
sei nada. Não sei mesmo, Hinch!
— Use os miolos. Para começar, onde estavam todos quando
as luzes se apagaram?
— Não sei.
— Claro que sabe. Você me irrita, Murgatroyd. Não se
lembra, ao menos, onde você estava? Ao lado da porta.
— É... eu estava, mesmo. Ela bateu no meu joanete, quando
abriu.
— Por sinal, deveria ir a um bom calista, em vez de ficar
metendo a gilete no pé... acaba arranjando uma infecção.
Vamos, então: você está atrás da porta. Eu estou ao lado da
lareira, com a língua de fora, de tanta vontade de beber
alguma coisa. Letty Blacklock está junto da mesinha perto
do arco, apanhando os cigarros. Patrick Simmons foi
apanhar as bebidas no fundo da sala. Certo?
— Certo, certo, disso tudo eu me lembro.
— Muito bem. Alguém estava indo atrás de Patrick, ou pelo
menos começando a andar em sua direção. Um dos homens.
O caso é que não me lembro se era Easterbrook ou Edmund
Swettenham. Você se lembra?
— Não.
— Claro. Alguém mais estava andando naquela direção:
Phillipa Haymes. Disso tenho certeza; lembro-me de ter
notado como ela tem a espinha reta e de ter pensado que ela
faria boa figura em cima de um cavalo. Ela foi até a lareira do
outro lado do arco, fazer o que, não sei, porque foi nessa
hora que a luz se apagou. Então, a disposição dos
personagens é essa. No fundo da sala, estão Patrick
Simmons, Phillipa Haymes e/ou o coronel
Easterbrook ou Edmund Swettenham, não sabemos qual dos
dois. Agora, Murgatroyd, preste atenção. O mais provável é
que um dos três seja o culpado. Se alguém queria sair por
aquela porta, naturalmente teria a precaução de estar num
ponto conveniente, quando as luzes se apagassem. Portanto,
como eu ia dizendo, deve ser um desses três. E, se for,
Murgatroyd, a sua colaboração é perfeitamente dispensável!
A srta. Murgatroyd se animou consideravelmente.
— Por outro lado — continuou a srta. Hinchliffe —, existe a
possibilidade de que não seja um dos três. Logo, precisamos
novamente de você, Murgatroyd.
— Mas, como é que eu vou saber de alguma coisa?
— Como eu já disse, se você não sabe, ninguém sabe.
— Mas, eu não sei. Não sei! Eu nem podia enxergar!
— Ora, podia, sim senhora. Você é a única pessoa que podia!
Você estava praticamente atrás da porta. Você não podia
olhar na direção da lanterna porque a porta não deixava.
Você estava de frente para o outro lado, olhando na mesma
direção em que estava apontada a lanterna. Todos nós
estávamos com a visão ofuscada mas, você, não.
— E... talvez não, mas eu não vi nada... o facho da lanterna
se agitava tanto...
— E mostrava a você o quê? A luz iluminava uma porção de
rostos, não é? E mesas? E cadeiras?
— E... era assim mesmo... a srta. Bunner, com a boca muito
aberta, os olhos quase pulando para fora, muito arregalados,
piscando...
— Isso, menina! — a srta. Hinchliffe suspirou com alívio. Eu
sabia que você acabaria usando a cabeça. Vamos em frente.
— Mas eu não vi mais nada, juro que não vi.
— Quer dizer, por acaso, que o resto era uma sala vazia?
Ninguém em pé, ninguém sentado?
— Não, claro que não. A srta. Bunner estava com a boca
aberta, e a sra. Harmon, sentada no braço de uma cadeira.
Estava com os olhos fechados, muito apertados, as mãos
fechadas enterradas no rosto... como uma criança.
— Ótimo. Temos, então, a sra. Harmon e a srta. Bunner.
Está entendendo onde eu quero chegar? A dificuldade é que
não quero botar idéias na sua cabeça. Mas, quando
eliminarmos quem você tiver mesmo visto, chegaremos ao
pedaço realmente importante: quem você não viu?
Entendeu? Além das mesas, das cadeiras e dos crisântemos,
lá estavam algumas pessoas: Julia Simmons, a sra.
Swettenham, a sra. Easterbrook, o coronel Easterbrook, ou
Edmund Swettenham, Dora Bunner e Bunch Harmon.
Muito bem, você viu Bunch Harmon e Dora Bunner. Estão
riscadas. Agora, pense, Murgatroyd, pense, não haveria
alguma dessas pessoas que sem sombra de dúvida não
estivesse lá?
Um galho que bateu contra a vidraça assustou a srta.
Murgatroyd. Ela fechou os olhos, e murmurou, para si
mesma:
— As flores, em cima da mesa... a poltrona grande... a
lanterna não chegou a iluminar você, Hinch... a sra.
Harmon, sim...
O telefone tocou, insistente. A srta. Hinchliffe foi atender.
— Alô, o quê? Da estação?
A obediente srta. Murgatroyd, com os olhos fechados,
continuava a reviver a noite do dia 29. A lanterna, com seu
facho percorrendo a sala... um grupo de pessoas... as
janelas... o sofá... Dora Bunner... a parede... a mesinha com
o abajur... o arco... o disparo súbito do revólver...
— ... mas isso é extraordinário! — disse em voz alta.
— O quê? — a srta. Hinchliffe gritava com raiva ao
telefone. — Está aí desde hoje de manhã? Que horas? Mas,
seus idiotas, só me telefonam agora? Vou fazer uma
denúncia à Sociedade Protetora dos Animais. Ah, foi um
lapso? É só isso que o senhor sabe me dizer?
Ela bateu com o fone no gancho.
— É a cadela — disse. — A setter. Está na estação desde
estai manhã... desde as oito horas. Sem uma gota d'água! E os
imbecis só me telefonam agora. Vou buscá-la agora mesmo.
Ela saiu correndo da sala, sem dar atenção aos débeis e
esganiçados protestos da srta. Murgatroyd.
— Mas, Hinch... espere aí... urna coisa extraordinária... eu
não compreendo...
A srta. Hinchliffe já estava quase chegando ao pequeno
telheiro que lhes servia de garagem.
— Nós continuamos quando eu voltar — disse ela, de
longe. — Você não pode ir comigo. Ainda está de chinelos.
Deu a partida e recuou o carro para fora da garagem com um
solavanco. A srta. Murgatroyd deu um pulo para fora do
caminho.
— Mas, Hinch, eu preciso lhe dizer...
— Quando eu voltar...
Com outro solavanco, o carro pulou para a frente. Mas o
grito excitado da srta. Murgatroyd ainda o alcançou: — Mas,
Hinch, ela não estava lá...

III
As nuvens se juntavam no céu, grossas e escuras. Enquanto
a srta. Murgatroyd olhava o carro que se afastava, as
primeiras gotas pesadas começaram a cair.
Atabalhoadamente, a srta. Murgatroyd correu para uma
corda onde, algumas horas antes, pusera a secar dois vestidos
e algumas ( combinações.
Mas não parava de falar consigo mesma:
— Realmente, muito estranho... ah, meu Deus, não vou
recolher esta roupa toda a tempo... estava tudo quase seco...
Lutou contra um prendedor recalcitrante e em seguida virou
a cabeça ao ouvir alguém que se aproximava.
Dirigiu-lhe um alegre sorriso de boas-vindas.
— Alô! Entre, cuidado com a chuva!
— Deixe que eu a ajude.
— Ah, muito obrigada... é tão desagradável a roupa ficar toda
molhada outra vez. Eu devia recolher tudo junto com a
corda, mas não alcanço para soltá-la.
— Olhe a sua echarpe. Quer que a coloque no seu pescoço?
— Oh, muito obrigada... ah, espere... se eu alcançar este
prego... A echarpe de lã foi colocada em volta de seu
pescoço e então, subitamente, apertada com violência...
A boca da srta. Murgatroyd se abriu, mas não produziu
qualquer som, a não ser um ruído abafado, do fundo da
garganta.
E as mãos continuaram a apertar, cada vez mais...

IV
Voltando da estação, a srta. Hinchliffe parou para dar uma
carona a Miss Marple.
— Ei! — gritou ela. — A senhora vai se molhar. Venha
tomar chá conosco. Vi Bunch na fila do ônibus... a senhora
não vai querer ficar sozinha naquele casarão. Venha se
juntar a nós. Murgatroyd e eu estamos fazendo uma
reconstituição do crime. Acho que estamos conseguindo
alguma coisa. Cuidado com a cadela, ela está muito nervosa.
— É uma beleza.
— Um bicho muito bonito mesmo, não é? E aqueles idiotas
estavam com ela na estação desde hoje de manhã, sem me
dizerem coisa alguma. Ah, mas eu lhes disse poucas e boas!
Bons filhos da mãe! Com perdão da má palavra, não ligue, eu
fui educada na Irlanda, no meio dos cavalariços.
Com um solavanco, o carrinho ultrapassou o portão de
Boulders. Mal as duas senhoras saltaram, foram rodeadas por
um bando impaciente de patos e galinhas.
— Ah, essa Murgatroyd... — disse a srta. Hinchliffe. —
Esqueceu de lhes dar o milho.
— É difícil conseguir milho por aqui? — perguntou Miss
Marple.
A srta. Hinchliffe piscou o olho.
— Eu me dou muito bem com a maioria dos fazendeiros.
Espantando as galinhas do seu caminho, ela acompanhou
Miss Marple na direção da casa.
— A senhora não está muito molhada?
— Não, esta capa é muito boa.
— Vou acender o fogo, se Murgatroyd ainda não o fez. Ei,
Murgatroyd! Onde se meteu essa mulher? Murgatroyd! E a
cadela, onde se meteu agora? Também sumiu.
Ouviu-se, vindo de fora, um uivo triste.
— Essa diaba dessa cadela...
A srta. Hinchliffe correu para a porta e chamou:
— Venha cá, Cutie... Cutie! Um nome imbecil, mas ela já
está acostumada. Precisamos arranjar-lhe outro. Ei, Cutie!
A cadela setter estava cheirando alguma coisa caída sob a
corda esticada na qual diversas peças de roupa dançavam ao
vento.
Murgatroyd nem teve cabeça para recolher a roupa lavada.
Onde andará ela?
O animal insistiu em fuçar o que parecia ser um monte de
roupas: erguendo o focinho para o céu, mais uma vez soltou
o seu uivo lamentoso.
— Que diabo tem esse bicho?
A srta. Hinchliffe atravessou o gramado.
Agitada e preocupada, Miss Marple correu em seu encalço.
Pararam as duas juntas; a chuva caía sobre elas e a mulher
mais velha colocou o braço à volta da mais moça.
Sentiu os seus músculos se retesarem quando ela baixou os
olhos para o vulto caído, cujo rosto estava congestionado,
azulado; a língua se projetava para fora.
— Vou matar quem fez isso — disse a srta. Hinchliffe, em
voz baixa e aparentemente controlada. — Se eu conseguir
pôr as mãos nela...
— Nela? — perguntou Miss Marple.
A srta. Hinchliffe voltou para ela seu rosto transtornado.
— É. Eu sei quem é... ou quase sei... pelo menos, é uma de
três possibilidades.
Por mais um minuto ela ficou ali, olhando para a amiga
assassinada: depois, voltou-se em direção à casa. Sua voz
estava seca, dura.
— Precisamos telefonar para a polícia. E, enquanto
esperamos que eles venham, vou lhe contar tudo. De certa
forma, é minha culpa, o que aconteceu a Murgatroyd. Eu
estava fazendo um jogo... e homicídio não é um brinquedo.
— Não — respondeu Miss Marple. — Não é brinquedo.
— A senhora entende disso, não é? — perguntou a srta.
Hinchliffe, enquanto começava a discar.
Fez uma rápida comunicação do que acontecera e desligou.
— Eles estão vindo. É, eu soube que a senhora já esteve
metida nessas histórias antes... Acho que foi Edmund
Swettenham quem me falou... Não quer saber o que
estávamos fazendo, Murgatroyd e eu?
Narrou sucintamente a conversa que tivera com a amiga
antes de ir à estação.
— Quando eu estava saindo, ela ainda gritou... é por isso que
sei que não foi um homem, mas uma mulher... Ah, se eu
tivesse esperado, se tivesse prestado atenção! Que diabo, essa
cadela podia ficar onde estava mais quinze minutos!
— Não se culpe, minha filha. Não adianta. Ninguém pode
prever o que vai acontecer.
— Não, eu sei... Houve um barulho na janela, eu me lem-
bro... Talvez ela estivesse lá fora, ouvindo... é, é isso mesmo,
só pode ser isso... estava vindo para cá... Murgatroyd e eu
estávamos falando em voz alta... praticamente gritando... E
ela ouviu... ouviu tudo.
— Ainda não me contou o que a sua amiga disse.
— Só uma frase: "Ela não estava lá." Fez
uma pausa.
— Entende? Só três mulheres nós não havíamos eliminado: a
sra. Swettenham, Julia Simmons, a sra. Easterbrook. E, uma
das três... não estava lá... Não estava na sala porque tinha
saído pela outra porta e estava na saleta.
— Estou vendo — disse Miss Marple. — Entendo.
— É uma dessas três mulheres. Não sei qual. Mas vou
descobrir!
— Desculpe — interrompeu Miss Marple. — Mas ela, a srta.
Murgatroyd, quero dizer, disse aquela frase exatamente
como você a repetiu?
— Que história é essa?
— Ah, meu Deus, é difícil de explicar. Você a disse assim:
"Ela-não-estava-lá". Ênfase igual em todas as palavras. Está
entendendo? Há maneiras diferentes de dizer a mesma frase.
Você poderia ter dito: "Ela não estava lá." Muito pessoal. Ou
então, "Ela não estava lá." Confirmando uma suspeita
anterior. Ou poderia dizer (e é a forma mais aproximada da
que você usou), "Ela não estava lá," com a ênfase, se
houver, na palavra lá.
— Não sei... — a srta. Hinchliffe sacudiu a cabeça. — Não
me lembro... como diabo vou me lembrar? Acho, quer
dizer, com certeza da disse que "Ela não estava lá." Para
mim, é a maneira mais natural. Mas realmente não sei." Faz
alguma diferença?
— Faz — respondeu Miss Marple pensativa. — Acho que
sim. É um indício muito tênue, é claro, mas creio que é um
indício. Para falar a verdade, desconfio que faça muita
diferença...

CAPÍTULO 20
Miss MARPLE DESAPARECE


I
O carteiro, embora de má vontade, passara a entregar
correspondência em Chipping Cleghorn também à tarde,
além da entrega matinal costumeira.
Naquela tarde, ele deixou três cartas em Little Paddocks,
exatamente às dez para as cinco.
Uma era endereçada, numa caligrafia infantil, a Phillipa
Haymes; as outras duas eram para a srta. Blacklock. Ela as
abriu no momento em que, com Phillipa, sentava-se para o
chá. A chuva torrencial possibilitara a Phillipa sair mais cedo
de Dayas Hall, já que, terminado o trabalho nas estufas, nada
mais havia a fazer.
A srta. Blacklock abriu a primeira carta: era uma conta pelo
conserto do aquecedor da cozinha. Ela resmungou, irritada.
— Dymond está cobrando cada vez mais caro ... um
absurdo. Eu sei que não adianta reclamar, parece que todo
mundo está fazendo isso hoje em dia.
Abriu a outra carta, que vinha numa caligrafia que lhe era
totalmente estranha:
Querida tia Letty,
Espero que não se incomode que eu chegue aí terça-
feira. Escrevi a Patrick há dois dias, mas ele não me
respondeu.
Mas imagino que não haja problema. Mamãe vem à
Inglaterra no mês que vem, e está ansiosa para vê-la.
Meu trent chegará a Chipping Cleghorn às 18:l5h,
está bem assim?
Afetuosamente, Julia Simmons
A srta. Blacklock leu a carta duas vezes: com espanto, puro e
simples, e depois, com os lábios apertados. Olhou para
Phillipa que sorria, lendo a carta do filho.
— Sabe se Julia e Patrick já chegaram?
Phillipa levantou os olhos.
— Já. Entraram logo depois de mim. Subiram para mudar de
roupa. Estavam encharcados.
— Quer chamá-los para mim?
— Claro.
— Mas, espere... quero que leia isto.
Entregou a Phillipa a carta que acabara de receber. A moça a
leu e franziu a testa.
— Não compreendo...
— Nem eu... mas acho que já é tempo de entender. Chame
os dois, Phillipa, por favor.
Phillipa chegou ao pé da escada e chamou.
Patrick desceu correndo e entrou na sala.
— Fique, Phillipa — disse a srta. Blacklock.
— Alô, tia Letty — saudou Patrick alegremente. — Chamou?
— Chamei. Talvez você possa explicar isto.
O rosto de Patrick refletiu um desânimo quase cômico
quando terminou a leitura.
— Eu ia lhe mandar um telegrama! Que burrice a minha!
— Imagino que esta carta seja de sua irmã, Julia?
— É... é dela mesmo.
— Então — replicou a srta. Blacklock, com toda a irritação
de que era capaz —, quem é essa moça que você trouxe para
cá como se fosse Julia Simmons e que me foi apresentada
como sua irmã e minha prima?
— Ora... entenda, tia Letty... o problema é o seguinte... é
claro que eu posso explicar tudo... sei muito bem que não
deveria ter feito isso... mas achei que seria engraçado, que
não teria importância. Se a senhora me deixar explicar...
— Estou esperando pela explicação. Quem é essa moça?
— Bem, eu a conheci numa festa, pouco depois de largar a
farda. Conversamos, e eu lhe disse que estava vindo para
cá... e, então, pensei que seria gozado se a trouxesse
comigo... Sabe, Julia, a Julia verdadeira, tinha loucura para
trabalhar em teatro, e mamãe tinha ataques quando ouvia
falar nisso. Seja como for, Julia conseguiu uma ótima chance
de trabalhar numa companhia, e teve vontade de tentar... e
pensamos que seria mais prático não assustar mamãe,
deixando que ela pensasse que Julia estava aqui, estudando
para ser enfermeira, como uma moça bem-comportada.
— Eu ainda quero saber quem é essa outra moça.
Patrick recebeu com alívio a entrada de Julia, fria e tranqüila
como sempre.
— Descobriram tudo — ele anunciou.
Julia ergueu as sobrancelhas. Depois, sempre tranqüila,
aproximou-se e se sentou.
— OK — disse. — Então é isso. Imagino que esteja muito
zangada?
Examinou o rosto da srta. Blacklock com uma curiosidade
inteiramente despida de emoção.
— Eu estaria, se fosse a senhora — completou.
— Quem é você?
Julia suspirou.
— Acho que é hora de contar tudo. Vamos a isso. Eu sou
metade da dupla Pip e Emma. Para ser exata, meu nome de
batismo é Emma Jocelyn Stamfordis... só que papai não usou
o Stamfordis por muito tempo. O seu sobrenome seguinte,
se bem me lembro, era De Courcy. É bom que saiba que
papai e mamãe se separaram uns três anos depois que Pip e
eu nascemos. Foi c-da um para o seu lado. E nos dividiram.
Eu fiquei com ele. Não era muito bom pai, embora fosse
uma pessoa encantadora. Muitas vezes fui internada em
conventos, quando ele não tinha dinheiro, ou estava
preparando algum de seus golpes mais sinistros. Costumava
pagar com generosidade as primeiras despesas, dando a
impressão de ser riquíssimo, e depois me deixava nas mãos
das freiras por um ou dois anos. Mas, nos intervalos,
costumávamos nos divertir muito, vivendo na melhor
sociedade. A guerra nos separou completamente. Não tenho
idéia do que lhe aconteceu. Eu mesma tive as minhas
aventuras. Trabalhei com a Resistência, na França, por
algum tempo... muito divertido. Enfim, para encurtar a
história, acabei em Londres, pensando no futuro. Sabia que
o irmão de mamãe, com quem ela tivera uma briga terrível,
morrera muito rico. Procurei descobrir o seu testamento,
para ver se havia algo para mim. Não havia... não
diretamente, é claro. Tentei saber alguma coisa sobre a sua
viúva, mas apurei que estava quase gagá, vivendo à custa de
remédios e praticamente agonizante. Francamente, cheguei
à conclusão de que a senhora representava a minha melhor
chance. Ia herdar um monte de dinheiro e, pelo que eu
soube, não parecia ter ninguém para quem deixá-lo. Vou
falar claro: pensei que, se fizesse amizade com a senhora...
afinal de contas, as coisas mudaram bastante desde a morte
do tio Randall, não mudaram? Todo o dinheiro que
tínhamos sumiu no redemoinho da guerra. Achei que a
senhora ia ter piedade de uma pobre órfã, sozinha no
mundo, e lhe daria uma mesada, ou coisa parecida.
— Achou, é? — perguntou a srta. Blacklock, sem sorrir.
— Foi. Naturalmente, eu não sabia como a senhora era...
tinha imaginado um abordagem lacrimosa... Então, por uma
coincidência incrível, conheci Patrick, e descobri que era
seu sobrinho, primo, algo assim. Achei que era uma
oportunidade única. Não precisei me esforçar muito: ele caiu
por mim com a maior facilidade. A Julia verdadeira estava
maluca para ser atriz, e não tive o menor trabalho para
persuadi-la a cumprir seu dever para com as Artes e ir
estudar para ser a nova Sarah Bernhardt. A senhora não deve
culpar Patrick. Ele teve muita pena de mim, sozinha no
mundo... e, num instante, convenceu-se de que seria uma
idéia maravilhosa trazer-me para cá como sua irmã.
— Ele também aprovou que você contasse uma porção de
mentiras à polícia?
— Tenha dó. Não vê que, quando aconteceu aquela história
ridícula do assalto, ou melhor, depois de tudo aquilo, eu
percebi que estava enrascada? A verdade é que eu tenho um
motivo excelente para tirá-la do meu caminho. A senhora
tem apenas a minha palavra de que não fui eu quem tentou.
Mas não podia esperar que eu fosse me incriminar
deliberadamente. Até mesmo Patrick andou desconfiando
de mim. E, se ele chegou a pensar mal de mim, imagine o
que não diria a polícia! Aquele inspetor me pareceu um
homem muito desconfiado. Enfim, eu achei que a única
coisa a fazer era continuar a fingir que era Julia e desaparecer
no fim do ano. Como é que eu ia adivinhar que a pateta da
Julia... a Julia de verdade... ia brigar com o produtor e desistir
de tudo? Ela escreveu a Patrick, perguntando se poderia vir
para cá e, em vez de telegrafar mandando que ela ficasse
longe, ele vai e esquece de tomar qualquer providência.
Ela dirigiu um olhar de raiva para Patrick.
— Nunca vi um imbecil maior!
Suspirou.
— A senhora não tem idéia do que andei sofrendo em
Milchester! E claro que não estou freqüentando hospital
nenhum. Mas tinha de ir a alguma parte. Passei horas e
horas vendo e revendo os filmes mais horríveis do mundo.
— Pip e Emma — murmurou a srta. Blacklock. — Não sei
por que, apesar do que dizia o inspetor, nunca cheguei a
acreditar que existissem mesmo...
Olhou para Julia.
— Você é Emma — afirmou. — Onde está Pip?
Os olhos de Julia, claros e inocentes, enfrentaram os seus.
— Não sei — disse ela. — Não tenho a menor idéia.
— Acho que está mentindo, Julia. Onde o viu pela última
vez?
Teria Julia hesitado antes de responder?
Ela respondeu com voz firme:
— Não o vejo desde que tínhamos três anos de idade,
quando minha mãe o levou embora. Nunca mais o vi, nem a
ela. Não sei onde estão.
— E isso é tudo que você tem a dizer?
Julia suspirou.
— Eu poderia dizer que lamento muito. Mas não estaria
sendo sincera. Na verdade, eu faria tudo de novo... a não ser
que soubesse que iam acontecer esses crimes, naturalmente.
— Julia — disse srta. Blacklock — vou continuar a chamá-la
assim porque estou acostumada. Você disse que trabalhou
com a Resistência, na França?
— Foi. Durante um ano e meio.
— Imagino que tenha aprendido a atirar?
Novamente aqueles olhos azuis e frios encontraram os seus.
— Eu sei atirar, sim. E muito bem. Não atirei na senhora,
embora tenha de acreditar na minha palavra. Mas, uma coisa
lhe posso dizer: se eu tivesse atirado na senhora, não teria
errado.

II
A tensão foi rompida pelo ruído de um carro que parava
junto à casa.
— Quem poderá ser? — perguntou a srta. Blacklock.
A cabeça despenteada de Mitzi apareceu na porta. Estava de
olhos arregalados.
— Perseguição! — exclamou ela. — Polícia de novo. Não se
ficar mais em paz? Eu não agüentar. Vai escrever para o
Primeiro-Ministro, para o Rei!
Craddock a afastou de seu caminho com firmeza não muito
gentil. Entrou com ar extremamente sério, a ponto de
assustar a todos. Era um inspetor Craddock bem diferente do
que conheciam.
— A srta. Murgatroyd foi assassinada — anunciou ele. —
Foi estrangulada, há menos de uma hora.
Seus olhos procuraram Julia.
— Srta. Simmons... onde esteve durante o dia?
— Em Milchester. Acabei de chegar — respondeu ela,
cautelosamente.
— E o senhor?
— Eu também — disse Patrick.
— Chegaram juntos?
— Hum... chegamos, sim.
— Não — disse Julia. — Não vale a pena, Patrick. É o tipo de
mentira que eles descobrem na mesma hora. O pessoal do
ônibus nos conhece. Eu voltei mais cedo, inspetor: no
ônibus que chega às quatro horas.
E o que fez?
— Fui dar uma volta a pé.
— Na direção de Boulders?
- Não.
Ele a encarou. Julia, pálida, com os lábios apertados,
devolveu-lhe o olhar.
Antes que alguém pudesse falar, o telefone tocou. A srta.
Blacklock, depois de interrogar Craddock com o olhar,
atendeu.
— Alô. Quem? Ah, Bunch. O quê? Não. Ela não está. Não
tenho idéia... Ele está aqui, agora.
Afastou o fone e explicou aos outros:
— A sra. Harmon quer falar com o senhor, inspetor. Miss
Marple não voltou para a casa paroquial, e ela está
preocupada.
Craddock chegou ao telefone em duas passadas.
— Craddock falando.
— Estou assustada, inspetor...
A voz de Bunch tinha um tom de medo quase infantil.
— Não sei onde anda a tia Jane. E dizem que mataram a srta.
Murgatroyd. É verdade?
— É verdade, sim, sra. Harmon. Miss Marple estava com a
sita. Hinchliffe quando ela encontrou o corpo.
— Ah, então é lá que ela está — disse Bunch, respirando
com alívio.
— Desculpe, mas não está, não. Pelo menos, agora. Saiu...
deixe-me pensar... há meia hora. Ainda não chegou em
casa?
— Não. E são só dez minutos a pé. Onde pode estar ela?
— Quem sabe, na casa de algum vizinho?
— Já telefonei para eles — para todo mundo. Ela não está em
parte alguma. Estou com medo, inspetor.
"Eu também", pensou Craddock. Respondeu, rapidamente:
— Vou até aí, agora.
— Ah, venha, por favor. Quero lhe mostrar um papel. Ela
escreveu umas coisas, antes de sair. Não sei se tem alguma
importância... para mim, não faz muito sentido.
Craddock desligou. A srta. Blacklock perguntou, com
ansiedade na voz:
— Aconteceu alguma coisa com Miss Marple? Ah, espero
que não.
— Eu também — respondeu Craddock, sério.
— Ela é tão idosa... tão frágil.
— Eu sei.
A srta. Blacklock, mexendo nervosamente no colar de
pérolas que lhe escondia o pescoço, falou com voz rouca:
— Está ficando cada vez pior. Quem estiver fazendo isso
tudo deve ser uma pessoa louca, inspetor... inteiramente
louca...
— É possível.
Os dedos agitados da srta. Blacklock acabaram por romper os
fios de pérolas. Uma cascata de globos brancos se derramou
pelo chão.
— Minhas pérolas... minhas pérolas... — ela exclamou,
angustiada.
A nota de agonia em sua voz era tão forte que todos a
olharam com espanto. Com a mão na garganta, ela se voltou
e saiu correndo da sala, soluçando.
Phillipa começou a recolher as pérolas.
— Nunca a vi perder a cabeça dessa maneira — disse ela. —
É verdade que ela usa esse colar o tempo todo. Quem sabe
não será presente de alguém especial? Randall Goedler, na
certa.
— É possível — disse Craddock.
— Elas não são... não poderiam ser... pérolas de verdade?
Phillipa, de joelhos, catava as pérolas, uma a uma.
Apanhando uma, Craddock quase respondeu
automaticamente
que era uma hipótese ridícula. Mas as palavras não chegaram
a lhe sair dos lábios.
Afinal, poderiam ser verdadeiras aquelas pérolas?
Eram tão grandes, tão regulares, tão brancas, que parecia
óbvio serem falsas. Mas ele se lembrou, subitamente, de um
caso recente, no qual um colar de pérolas verdadeiras fora
comprado em uma loja de penhores por uns poucos
shillings.
Letitia Blacklock lhe garantira que não havia jóias de valor
na casa. Se aquelas pérolas fossem reais, deviam ter um valor
fabuloso. E, se Randall Goedler por acaso as tivesse dado a
ela... então, seu valor seria inestimável.
Pareciam falsas... deviam ser falsas, mas... e se fossem reais?
Por que não? Ela mesma poderia não saber da verdade. Ou
poderia ter decidido proteger o seu tesouro tratando-o como
se fosse um enfeite barato. O que poderiam valer, se fossem
pérolas verdadeiras? Impossível calcular... o bastante para
que alguém matasse para obtê-las... se alguém soubesse a
verdade.
O inspetor teve defazer um esforço para se libertar da
seqüência de especulações. Miss Marple desaparecera. Ele
precisava ir à casa paroquial.

III
Encontrou Bunch e o marido esperando por ele, ambos
preocupados e tensos.
— Ela ainda não apareceu — disse Bunch.
— Disse que vinha para cá, quando saiu de Boulders? —
perguntou Julian.
— Não chegou a dizer — disse Craddock, procurando
lembrar-se da última vez que vira Jane Marple.
Recordou o seu ar decidido e o brilho singularmente frio
daqueles olhos azuis, normalmente tão gentis.
Um ar decidido... decisão de fazer o quê? Ir aonde?
— Ela estava falando com o sargento Fletcher, na última
vez que a vi — disse ele. — Estava parada perto do portão.
Logo depois ela saiu. Pensei que estivesse voltando para cá.
Deveria ter mandado o carro trazê-la... mas havia tanta coisa
a fazer, e ela saiu sem se despedir. Fletcher deve saber de
alguma coisa! Onde estará ele?
Mas. ao telefonar para Boulders, descobriu que o sargento
Fletcher não estava lá, nem dissera aonde fora. Pensavam
que tivesse voltado para Milchester. O inspetor ligou para a
chefatura em Milchester, onde também não teve notícias do
policial.
Voltou-se então para Bunch, lembrando-se do que ela lhe
dissera ao telefone.
— Onde está o tal papel? A senhora disse que ela andou
escrevendo alguma coisa?
Bunch apresentou a folha de papel. Ele a abriu sobre a mesa,
enquanto Bunch se debruçava sobre seu ombro, soletrando
enquanto ele lia. A letra era trêmula e de difícil decifração:
Abajur.
Depois, outra palavra: violetas.
Um espaço e, mais adiante:
Onde vidro de aspirinas?
A anotação seguinte era mais difícil de decifrar.
— Delicia Fatal — leu Bunch. — É aquele bolo da Mitzi.
— Mandar investigar — leu Craddock.
— Investigar? O quê? E isto aqui? O triste sofrimento com
bravura suportado... Mas, que diabo...?
— Iodo — leu o inspetor. — Pérolas. Ah! pérolas!
— E depois, Lotty... não, Letty. O "e" dela é muito
parecido com o "o". E depois, Berna. E depois, pensão
de velhice...
Os três se entreolharam, confusos.
Craddock recapitulou, lentamente:
— Abajur. Violetas. Onde vidro de aspirinas? Delícia
Fatal. Mandar investigar. O triste sofrimento com
bravura suportado. Iodo. Pérolas. Letty. Berna.
Pensão de velhice.
— Isso significa alguma coisa? — perguntou Bunch. —
Será possível? Eu não entendo nada.
— Tenho uma vaga idéia... mas não sei — disse
Craddock. — E estranho que ela tenha feito essa
anotação sobre pérolas.
— Por quê? O que quer dizer?
— A srta. Blacklock sempre usa aquelas três voltas de
pérolas?
— Usa, sempre. Nós costumamos brincar sobre isso. É
tão aparente que são falsas, não é? Vai ver, ela pensa
que estão na moda.
— Pode haver outra razão — disse Craddock.
pausadamente.
— Ah! Não vá dizer que são verdadeiras. Ora, é
impossível!
— Quantas vezes a senhora já viu pérolas verdadeiras
daquele tamanho, sra. Harmon?
— Mas são tão foscas...
Craddock encolheu os ombros.
— Mas isso não interessa, pelo menos agora. O que
importa é Miss Marple não aparecer. Temos de
encontrá-la.
Tinham de encontrá-la antes que fosse tarde demais.
Ou já seria tarde demais? Aquelas palavras rabiscadas
numa folha de papel mostravam que ela estava
seguindo uma pista... Mas isso era perigoso,
terrivelmente perigoso, E onde estaria Fletcher?
Craddock saiu, andando com passos rápidos em
direção ao seu carro. Procurar... era tudo o que
poderia fazer... procurar.
Uma voz o chamou, saída dos arbustos molhados.
— Senhor! — disse Fletcher, com urgência na voz. —
Senhor...

CAPÍTULO 21
TRÊS MULHERES

Acabara o jantar em Little Paddocks. Fora uma refeição
silenciosa e desagradável.
Patrick, consciente de que perdera as boas graças da dona da
casa, fizera tentativas esparsas de conversação, e nenhuma
fora bem recebida. Phillipa Haymes estivera imersa em seus
próprios pensamentos. A srta. Blacklock, por seu turno, não
fizera qualquer esforço para manter o seu bom humor
habitual. Mudara de roupa para o jantar, e usava seu colar de
camafeus, mas, pela primeira vez, o medo se revelava em
suas olheiras e em suas mãos trêmulas.
Apenas Julia preservava seu ar de cínico distanciamento.
— Lamento muito — dissera — não poder fazer a mala e ir
embora. Mas acho que a polícia não permitiria. De qualquer
maneira, não pretendo perturbar a sua vida por muito
tempo. A qualquer momento, o inspetor Craddock deve
aparecer por aí com um mandado de prisão e um par de
algemas. Nem sei como é que isso ainda não aconteceu.
— Ele está procurando Miss Marple — respondeu a srta.
Blacklock.
— Acha que ela também foi assassinada? — perguntou
Patrick, por pura curiosidade científica. — Mas, por quê? O
que poderia ela saber?
— Não sei — foi a resposta seca da srta. Blacklock. — Talvez
a srta. Murgatroyd lhe tenha dito alguma coisa.
— Se ela também foi assassinada — raciocinou Patrick com
ar satisfeito —, a lógica indica que só uma pessoa pode ser a
culpada.
— Quem?
— Hinchliffe, é claro. O último lugar onde ela foi vista com
vida foi em Boulders. Acho que ela jamais saiu de Boulders.
— Estou com dor de cabeça — disse a srta. Blacklock, com
voz soturna, apertando a mão contra a testa. — Mas, por que
iria Hinch matar Miss Marple? Não faz sentido.
— Faz, se Hinch tiver assassinado Murgatroyd — replicou
Patrick, triunfante.
Phillipa saiu de sua apatia para comentar:
— Hinch jamais mataria Murgatroyd.
Patrick não se rendia com facilidade:
— Mataria, sim, se Murgatroyd tivesse descoberto algo que
provasse que ela... Hinch... era a assassina.
— Mas Hinch estava na estação quando Murgatroyd foi
morta. Assustando a todos, Letitia Blacklock gritou,
subitamente:
— Morte, morte, morte...! Vocês não podem falar de
qualquer outra coisa? Estou com medo, vocês não
percebem? Estou com medo. Não estava, antes. Pensei que
pudesse tomar conta de mim mesma... Mas não sei o que se
pode fazer contra um assassino que está esperando... que
sabe de tudo... que está escolhendo a sua hora... Ah! meu
Deus!
Deixou a cabeça cair nas mãos. Pouco depois, levantou os
olhos e pediu desculpas, secamente.
— Desculpem. Eu... perdi o controle.
— Não tem importância, tia Letty — disse Patrick,
carinhosamente. — Deixe que eu tomo conta de você.
— Você? — perguntara Letitia Blacklock, deixando perceber
um desânimo que era quase uma acusação.
Tudo isso aconteceu pouco antes do jantar. Nesse momento,
Mitzi entrou para anunciar que não pretendia fazer o jantar.
— Não entender mais nada nesta casa. Vai para meu quarto,
me trancar lá dentro. Não põe pé fora antes de nascer o sol.
Muito medo... tanta gente que morre... agora, aquela
estúpida srta. Murgatroyd, com aquela cara de vaca... quem
ia querer matar ela? Só maluco! Tem um maluco por aí! E
maluco não escolher quem matar. Eu, eu não vai morrer.
Tenho medo, naquela cozinha... umas sombras, barulhos...
eu pensa que tem alguém no quintal, depois pensa que é
dentro da despensa... ouvir passos... Então, eu vai para meu
quarto, me trancar lá dentro e empurrar o armário até ficar
na frente da porta. Quando chega de manhã, eu diz para
aquele polícia malvado que vai embora. Se ele não deixar, eu
digo que vai gritar, gritar, gritar, até ele deixar!
A ameaça causou apreensões generalizadas, já que todos
conheciam a capacidade pulmonar de Mitzi.
— Então, eu vai para meu quarto — disse Mitzi, repetindo a
afirmação mais uma vez, para que não houvesse dúvidas
quanto às suas intenções. Num gesto simbólico, ela deixou
cair no chão o seu avental.
— Boa noite, srta. Blacklock. Quem sabe, de manhã, a
senhora não estar viva. Se acontecer, então adeus.
Saiu abruptamente e a porta, com seu leve rangido
costumeiro, fechou-se devagar às suas costas. Julia se
levantou.
— Vou providenciar o jantar — ela disse calmamente. — É
uma boa solução... assim, vocês não ficam constrangidos
pela minha presença. Patrick (já que ele se nomeou seu
protetor, tia Letty) pode provar os pratos antes. Não quero
ser acusada de envenenar ninguém.
Assim, Julia preparou e serviu uma excelente refeição.
Phillipa chegou a ir à cozinha com uma oferta de ajuda, mas
Julia recusou com firmeza qualquer auxílio.
— Julia, há uma coisa que quero lhe dizer...
— Não é hora para as meninas ficarem trocando confidências
— disse Julia, com severidade. — Volte para a sala, Phillipa.
Agora, o jantar terminara, e todos tomavam café na sala de
estar, à volta da lareira, e ninguém parecia ter coisa alguma a
dizer. Estavam esperando, apenas esperando.
Às 8:30h o inspetor Craddock telefonou.
— Estarei aí dentro de quinze minutos — ele anunciou. —
Vou levar comigo o coronel e a sra. Easterbrook, e a sra.
Swettenham e seu filho.
— Mas, francamente, inspetor... não estou em condições de
receber ...
A voz da srta. Blacklock mostrava que ela estava no fim de
sua resistência.
— Sei como se sente, srta. Blacklock. Lamento muito. Mas
isto é urgente.
— O senhor... já encontrou Miss Marple?
— Não — respondeu o inspetor, desligando.
Julia levou a bandeja de café de volta para a cozinha, onde,
para sua surpresa, encontrou Mitzi contemplando os pratos e
travessas empilhados na pia. Mitzi soltou o verbo com
grande entusiasmo:
— Olha o que você fazer na minha cozinha! Aquela
frigideira — só, só para omeletes eu usar! E você, o que você
fazer com ela?
— Fritei cebolass.
— Estragou... tudo estragado. Agora, tenho de lavar
frigideira, e nunca, nunca eu lavar frigideira de omelete. Só
esfregar com muito cuidado com jornal. E esta panela aqui,
que você usar... eu só usar para leite...
— Ora, eu não sei que panelas você usa para o quê —
replicou Julia, irritada. — Você decidiu se trancar no quarto
e agora aparece, aqui na cozinha, também não sei por quê. É
melhor dar o fora e me deixar lavar a louça em paz.
— Não, não, minha cozinha ser minha, você vai embora.
— Ah, Mitzi, você é impossível!
Julia saiu da cozinha no momento exato em que soou a
campainha da porta.
— Eu não vai abrir porta — anunciou Mitzi, botando a
cabeça para fora da cozinha. Julia resmungou entre os dentes
uma expressão francesa não muito polida e se dirigiu para a
porta.
Era a srta. Hinchliffe.
— Boa noite — disse ela. — Desculpe a invasão. O inspetor
já telefonou?
— Ele não nos disse que a senhora viria — explicou Julia,
levando-a para a sala de estar.
— Disse que eu não precisava vir, se não quisesse — replicou
a srta. Hinchliffe. — Mas eu queria.
Ninguém deu pêsames à srta. Hinchliffe, nem se falou da
morte da srta. Murgatroyd. A tragédia mareara de tal forma a
expressão daquela mulher alta e vigorosa que qualquer
demonstração de simpatia pareceria uma impertinência.
— Acendam todas as luzes — disse a srta. Blacklock. — E
alguém ponha mais carvão na lareira. Estou com frio... morta
de frio. Venha sentar-se aqui perto do fogo, srta. Hinchliffe.
O inspetor disse que viria em quinze minutos. Já deve estar
chegando.
— Mitzi voltou para a cozinha — anunciou Julia.
— Voltou? Às vezes eu penso que essa moça é louca. Mas,
afinal de contas, pode ser que sejamos todos loucos.
— Eu não admito essa história de dizerem que todas as
pessoas que cometem homicídios são loucas — disse a srta.
Hinchliffe. — Para mim, todos os criminosos são sadios... e
até inteligentes, embora de uma forma horrível.
Ouviram um carro que se aproximava, e pouco depois
entrava Craddock, trazendo o coronel e a sra. Easterbrook e
Edmund e a sra. Swettenham.
Estavam todos circunspectos. Numa voz que era apenas um
eco de seu tom normal, o coronel Easterbrook exclamou:
— Ah, ah! Um bom fogo na lareira!
A sra. Easterbrook não quis tirar seu casaco de peles, e
sentou-se junto ao marido. Seu rosto, normalmente de uma
beleza insípida, dava a impressão de ter encolhido; agora,
lembrava a expressão tímida de um ratinho medroso.
Edmund estava num de seus acessos de mau humor e fazia
carrancas para todo mundo. A sra. Swettenham fez um
enorme esforço de animação, produzindo uma espécie de
paródia de si mesma:
— É estranho, não é? — disse ela, procurando assunto. —
Tudo isso, eu quero dizer. Aliás, é melhor não dizer nada. O
problema é que não sabemos quem será o próximo... como
nas epidemias, não é mesmo? Minha cara srta. Blacklock,
não acha que devia tomar um golinho de conhaque? É muito
bom para os nervos. Eu... não acho que fique bem esta
invasão em sua casa, mas o inspetor Craddock praticamente
nos forçou. Ah, é tão impressionante... sabe que ainda não a
encontraram? Aquela senhora tão simpática. Bunch Harmon
está quase histérica. Ninguém sabe onde ela foi, ao invés de
voltar para casa. Lá em casa não apareceu. Eu nem a vi, o dia
todo. E, se fosse lá para casa, eu certamente saberia, porque
estava na sala de estar, que fica nos fundos, sabe, e Edmund
estava escrevendo, na biblioteca, que fica na parte da frente,
de maneira que, se ela entrasse por qualquer lado, um de nós
saberia, infalivelmente. E, ah, meu Deus, estou rezando para
que nada aconteça àquela senhora tão simpática... muito boa
pessoa, ela, e tudo o mais, não é mesmo?
— Mamãe — disse Edmund, num tom de profunda agonia —
, não poderia dar um jeito de calar a boca?
— Ora, meu filho, eu não pretendo dizer uma só palavra —
retorquiu a sra. Swettenham, sentando-se no sofá ao lado de
Julia.
O inspetor Craddock permaneceu de pé ao lado da porta. De
frente para ele, quase na mesma linha, estavam três
mulheres: Julia e a sra. Swettenham no sofá, e a sra.
Easterbrook no braço da poltrona ocupada pelo marido. Ele
não planejara esse arranjo, mas lhe servia bem.
A srta. Blacklock e a srta. Hinchliffe estavam junto ao fogo.
Edmund estava de pé perto delas. Phillipa estava mais
afastada, nas sombras.
Craddock começou a falar sem qualquer preâmbulo.
— Todos aqui sabem que a srta. Murgatroyd foi assassinada.
Temos motivos para acreditar que o assassino é uma mulher.
Por outras razões, podemos limitar ainda mais nossa busca.
Vou perguntar a algumas senhoras aqui presentes o que
faziam entre quatro horas e quatro horas e vinte minutos,
esta tarde. Já ouvi a respeito a... a senhorita que tem usado o
nome de srta. Simmons. Vou lhe pedir que repita suas
declarações. Ao mesmo tempo, srta. Simmons, devo
preveni-la de que não precisa responder se acreditar que as
respostas possam incriminá-la. E tudo o que disser será
anotado pelo cabo Edwards e poderá ser usado como prova
no tribunal.
— O senhor é obrigado a dizer essas coisas, não é? —
perguntou Julia, que estava pálida, embora controlada. —
Repito que, entre quatro e quatro e meia estava andando
pelo campo, na direção do riacho que atravessa a fazenda
Compton. Voltei pela estrada que margeia o campo. Não
encontrei qualquer pessoa no caminho, ao que me lembre.
Não me aproximei de Boulders.
— Sra. Swettenham?
— Sua advertência vale para todos? — perguntou Edmund.
— Não — disse o inspetor, voltando-se para ele. — No
momento, apenas para a srta. Simmons. Não tenho motivos
para crer que quaisquer outras declarações possam
incriminar quem as faça. Mas todos, é claro, têm direito a
exigir a presença de um advogado e a se recusar a responder
perguntas sem a sua presença.
— Ora, mas isso seria uma bobagem e uma completa perda
de tempo — exclamou a sra. Swettenham. — Tenho certeza
de que posso lhe contar exatamente o que estava fazendo. E
o que o senhor quer, não é? Posso começar?
— Por favor, sra. Swettenham.
— Então, vejamos — a sra. Swettenham fechou os olhos por
um momento e os abriu novamente. — Naturalmente, eu
nada tive a ver com a morte da srta. Murgatroyd. E tenho
certeza de que todos aqui sabem disso. Mas sou uma mulher
experimentada e sei muito bem que a polícia tem a
obrigação de fazer uma porção de perguntas desnecessárias e
anotar todas as respostas com o maior cuidado, porque é
preciso fazer os seus relatórios. Não é verdade, meu filho?
A pergunta foi dirigida ao cabo Edwards, e ela acrescentou
gentilmente:
— Não estou falando muito depressa, estou?
Edwards, um taquígrafo competente, mas sem muito
traquejo social, ficou vermelho até as orelhas e respondeu:
— Está muito bem assim, madame. Talvez um pouquinho
mais devagar seja melhor.
A sra. Swettenham retomou sua narrativa, fazendo pausas
enfáticas nos momentos em que, na sua opinião, deveria
entrar uma vírgula ou um ponto.
— Bem, na verdade é difícil dizer... exatamente, é claro...
porque eu não tenho uma noção de tempo muito exata. E
desde a guerra a metade dos nossos relógios não anda
direito, e os que andam geralmente estão atrasados ou
adiantados, quando não param porque esquecemos de dar
corda.
Fez uma pausa para permitir que todos compreendessem a
situação e prosseguiu com novo alento:
— Que bem me lembre, às quatro horas eu estava cerzindo
uma meia (por sinal, fiz uma bobagem e tive de começar
tudo de novo: é estranho isso acontecer comigo, porque sei
cerzir muito bem) mas, caso esteja enganada, estava no
jardim, colhendo uns crisântemos... não, não, isso foi antes,
antes da chuva.
— A chuva — esclareceu o inspetor — começou exatamente
às 16:10h.
— Foi mesmo? Isso ajuda bastante. Então, eu estava lá em
cima, colocando uma bacia no corredor, onde tem uma
goteira. Aliás, a goteira estava tão forte que achei que a calha
estava entupida outra vez. Então, desci e botei minha capa e
as galochas. Chamei Edmund, mas ele não respondeu, então
eu pensei que ele estivesse num ponto crucial do romance
que está escrevendo e não quis incomodá-lo; além disso, é
um serviço que já estou acostumada a fazer. A gente usa o
cabo da vassoura, sabe, amarrado naquele ferro de empurrar
janelas para cima.
— Em suma — interferiu Craddock, notando que o seu
taquígrafo parecia estar confuso — a senhora estava
limpando a calha?
— Pois é. Estava toda entupida com folhas. Demorou
muito, e me molhei toda, mas consegui. Depois, voltei lá
para dentro, mudei de roupa e me lavei; folhas mortas têm
um cheiro, sabe? Aí fui para a cozinha e botei a chaleira no
fogo. Eram 18:51h pelo relógio da cozinha.
Edwards pousou o lápis e sacudiu a cabeça.
— O que significa — concluiu a sra. Swettenham, triunfante
— que eram exatamente vinte para as cinco. Ou quase isso
— arrematou.
— Alguém a viu quando estava limpando a calha?
— Infelizmente, não — disse a sra. Swettenham. — Eu teria
chamado a primeira pessoa que aparecesse para me ajudar! É
uma coisa muito difícil de se fazer sozinha.
— Então, pelas suas declarações, a senhora estava fora de
casa, de capa e galochas, durante a chuva, e, segundo afirma,
empregava o seu tempo na limpeza de uma calha, embora
não possa apresentar pessoa alguma que confirme suas
informações?
— O senhor pode examinar a calha — replicou a sra.
Swettenham. — Está limpinha.
— Ouviu quando sua mãe o chamou, sr. Swettenham?
— Não — disse Edmund. — Estava dormindo.
— Edmund — disse a sra. Swettenham com voz queixosa —,
pensei que você estivesse trabalhando.
O inspetor se voltou para a sra. Easterbrook.
— E a senhora?
— Estava com Archie na biblioteca — disse a sra.
Easterbrook encarando-o com seus olhos grandes e
inocentes. — Estávamos ouvindo rádio juntos, não
estávamos, Archie?
Houve uma pausa. O coronel Easterbrook enrubesceu e
prendeu nas suas a mão da esposa.
— Você não entende destas coisas, minha gatinha — disse
ele. — Eu... ora, inspetor, o senhor tem de compreender
que esta história nos transformou a todos. Minha mulher
está muito abalada. Ela é muito nervosa... além disso, não
percebeu a importância de... de pensar bem antes de prestar
uma declaração.
— Archie! — exclamou a sra. Easterbrook. — Você vai dizer
que não estava comigo?
— Mas não estava, não é mesmo, meu bem? Nós não
podemos nos afastar dos fatos. É muito importante, numa
investigação como esta. Eu estava conversando com
Lampson, o fazendeiro de Croft End, sobre umas telas de
galinheiro. Isso foi mais ou menos às quinze para as quatro.
E não cheguei em casa antes do fim da chuva, pouco antes
do chá, às quinze para as cinco. Laura estava fazendo os
biscoitos.
— E a senhora também esteve fora de casa, sra.
Easterbrook? O seu rosto parecia mais que nunca com o
focinho de um
ratinho. Seus olhos eram os de uma pessoa encurralada.
— Não... não, eu estava ouvindo rádio. Não saí de casa. Não
nessa hora. Mais cedo, sim. Mais ou menos... às três e meia.
Para dar uma volta, ali por perto.
Ela esperou por outras perguntas, mas Craddock apenas
disse, em voz baixa:
— Muito obrigado, sra. Easterbrook.
E prosseguiu:
— Os seus depoimentos serão datilografados. Poderão lê-los
e assiná-los se os considerarem corretos.
A sra. Easterbrook o encarou com súbita indignação:
— Por que o senhor não pergunta aos outros onde estavam?
Essa moça Haymes? E Edmund Swettenham? Como é que o
senhor sabe que ele estava mesmo dormindo? Ninguém o
viu.
— Antes de morrer, a srta. Murgatroyd fez uma certa
afirmação — explicou Craddock, pacientemente. — Na
noite do assalto, nesta sala, alguém saiu daqui. Alguém que
deveria ter estado aqui o tempo todo. A srta. Murgatroyd
relacionou para sua amiga os nomes das pessoas que viu. Por
um processo de eliminação, descobriu que havia alguém que
ela não tinha visto.
— Mas ninguém podia ver coisa alguma — disse Julia.
— Murgatroyd podia — disse a srta. Hinchliffe, subitamente
animando-se. — Ela estava aí, perto da porta, onde o
inspetor está agora. Foi a única pessoa que conseguiu ver
alguma coisa do que se passava.
— Ah! Isso é que o senhor pensar!
Mitzi fez uma de suas entradas dramáticas, escancarando a
porta e quase jogando Craddock no chão. Estava quase
histérica.
— Ah, polícia burro, não chama Mitzi aqui junto dos outros!
Eu ser apenas Mitzi! Mitzi fica na cozinha! Lá é lugar dela!
Mas eu vim dizer que Mitzi pode ver coisas, tão bem quanto
outros, até melhor que outros. Eu ver coisas. Naquela noite,
eu ver uma coisa e nem acreditar direito, e calar boca até
agora. Para mim mesma, eu dizer: espera, não conta nada
que você viu, espera calada.
— E quando tudo se acalmasse, você com certeza ia tentar
arrancar algum dinheiro de alguém, não? — perguntou
Craddock.
Mitzi se virou para ele como um gato zangado.
— E por que não? Por que me olhar desse jeito? Por que eu
não ia ganhar dinheirinho para pagar minha generosidade
em ficar calada? Ainda mais que vem muito dinheiro por aí
— muito, muito dinheiro. Ah! Eu ouvir coisas... saber de
tudo. Sei história de Pipema... essa sociedade secreta de que
ela... — e apontou dramaticamente para Julia — ser agente.
Eu ia mesmo esperar e pedir dinheiro, mas agora ter medo.
Preferir ter segurança. Daqui a pouco, alguém pode matar
eu. Por isso, eu contar tudo agora.
— Muito bem — disse o inspetor, com ar cético. — Afinal, o
que você sabe?
— Eu digo — anunciou Mitzi solenemente. — Naquela
noite, eu não estar limpando prataria como eu dizer antes,
eu estar na sala de jantar quando ouvi revólver disparar.
Olhar pelo buraco da fechadura. Tudo escuro, mas revólver
disparar de novo, e lanterna cai no chão, e quando cai, ela
gira e eu ver ela. Eu ver ela ali, junto dele, com revólver na
mão; eu ver a srta. Blacklock.
— Eu? — a srta. Blacklock se aprumou, atônita. — Você está
louca!
— Mas é impossível — disse Edmund. — Mitzi não poderia
ver a srta. Blacklock...
Craddock lhe cortou a palavra, falando com rara energia e
volume:
— Não poderia, sr. Swettenham? E por que não? Porque
não era a srta. Blacklock quem estava lá com o revólver? Era
o senhor, não era?
— Eu... claro que não... ora, que diabo!
— O senhor furtou o revólver do coronel Easterbrook. O
senhor fez o arranjo com Rudi Scherz, como se fosse uma
brincadeira. O senhor foi atrás de Patrick Simmons para o
fundo da sala e, quando as luzes se apagaram, fugiu pela
outra porta. O senhor atirou na srta. Blacklock e matou Rudi
Scherz. Poucos segundos depois, já estava de volta, tentando
acender o isqueiro.
Por um momento, Edmund permaneceu mudo, sem
encontrar palavras: finalmente, gaguejou:
— Mas isso é monstruoso. Por que eu? Que motivo eu ia
ter?
— Se a srta. Blacklock morrer antes da sra. Goedler, duas
pessoas herdarão a fortuna. São as pessoas que conhecemos
pelos apelidos de Pip e Emma. Julia Simmons já sabemos que
é Emma...
— Ep senhor pensa que eu sou Pip? — Edmund riu. —
Fantástico... absolutamente fantástico! Sei que tenho a idade
certa, mas nada mais. E posso lhe provar, seu maluco, que eu
sou Edmund Swettenham. Certidão de nascimento, diploma
de colégio, de universidade... tudo.
— Ele não é Pip.
A voz saiu de um canto mal iluminado. Phillipa Haymes
avançou, o rosto pálido. — Eu sou Pip, inspetor.
— A senhora?
— Eu. Todo mundo partiu do princípio de que Pip era um
menino; é claro que Julia sabia que era irmã gêmea de uma
menina... e não sei por que ela não o disse, esta tarde...
— Solidariedade de família — disse Julia. — De repente, eu
compreendi quem você era. Mas não sabia, antes.
— Eu tive a mesma idéia que Julia — explicou Phillipa, cuja
voz tremia um pouco. — Depois que eu... que perdi meu
marido e que terminou a guerra, eu não sabia o que fazer.
Minha mãe tinha morrido há muito tempo. Descobri nossa
ligação com a família Goedler. A sra. Goedler estava
morrendo, e, quando isso acontecesse, o dinheiro iria para
uma tal srta. Blacklock. Descobri onde ela morava e... e vim
para cá. Comecei a trabalhar para a sra. Lucas. Tinha a
esperança de que, como a srta. Blacklock era uma mulher
idosa, sem parentes, ela poderia, talvez, dispor-se a ajudar
um pouco. Não a mim, porque eu posso trabalhar, mas na
educação de Harry. Afinal de contas, é dinheiro da família
Goedler e ela não teria ninguém seu para dá-lo. Então —
Phillipa começou a falar mais depressa, como se não pudesse
conter uma torrente de revelações há muito contidas —
aconteceu o assassinato, e comecei a ficar assustada. Achei
que a única pessoa com um motivo real para assassinar a srta.
Blacklock era eu. Não tinha a menor idéia de quem Julia
era... não somos gêmeas idênticas, e não nos parecemos
muito. Enfim, parecia que a única pessoa suspeita era eu
mesma.
Parou, empurrando o cabelo para trás, e Craddock
subitamente compreendeu que o instantâneo esmaecido que
encontrara no maço de cartas só poderia ser uma foto da
mãe de Phillipa. A semelhança era indisfarçável. Descobriu
também por que a menção ao gesto de abrir e fechar as mãos
lhe parecera familiar: Phillipa o fazia agora.
— A srta. Blacklock tem sido boa para mim. Muito boa,
mesmo. Eu não tentei matá-la. Nunca pensei nisso. Mas, de
qualquer maneira, Pip sou eu.
— Assim — ela acrescentou —, não é preciso suspeitar de
Edmund.
— Não? — replicou Craddock e novamente sua voz soava
cortante como um chicote. — Edmund Swettenham é um
rapaz com gosto para o dinheiro. Um rapaz que, talvez,
tenha tido vontade de se casar com uma mulher rica.
Acontece que essa mulher não seria rica a não ser que a srta.
Blacklock morresse antes da sra. Goedler. E já que parecia
certo que a sra. Goedler morreria antes da srta.!
Blacklock, bem... ele tinha de tomar uma providência... não
é verdade, sr. Swettenham?
— Isso é mentira! — berrou Edmund.
E então, subitamente, o ar se encheu com um outro grito.
Vinha da cozinha — um longo e alucinado grito de terror.
— Não é Mitzi — exclamou Julia.
— Não — disse o inspetor Craddock. — É alguém que
assassinou três pessoas...

CAPÍTULO 22
A VERDADE

Quando o inspetor iniciara suas acusações contra Edmund
Swettenham, Mitzi tinha deixado a sala e voltado para a
cozinha. Estava enchendo a pia quando a srta. Blacklock
entrou. Mitzi a olhou de esguelha, encabulada.
— Mas, como você mente, Mitzi... — disse a srta.
Blacklock, sem rancor. — Olhe aqui... não é assim que se
lava a louça. Primeiro, coloque os talheres, depois encha a
pia até em cima. Dois dedos de água não dão para lavar nada.
Mitzi girou as torneiras obedientemente.
— Não estar zangada com o que eu dizer, srta. Blacklock? —
ela perguntou.
— Se fosse me zangar com todas as mentiras que você conta,
passaria a vida toda de mau humor — disse a srta. Blacklock.
— Vou lá dizer para inspetor que tudo ser mentira, está bem?
— insistiu Mitzi.
— Mas ele já sabe disso — respondeu a srta. Blacklock
sorrindo. Mitzi fechou as torneiras. Ao fazê-lo, duas mãos
surgiram por
trás de sua cabeça: com um movimento rápido, fizeram com
que ela mergulhasse na pia cheia de água.
— Só eu sei que, desta vez, você está dizendo a verdade —
disse a srta. Blacklock.
Mitzi tentou se debater, mas a srta. Blacklock era
surpreendentemente forte; suas mãos mantiveram a cabeça
da outra mulher mergulhada, apesar de toda a sua
resistência.
Então, de algum lugar muito próximo, a voz de Dora Bunner
se fez ouvir, num lamento choroso e fantasmagórico:
— Oh, Lotty... Lotty... não faça isso... Lotty...
A srta. Blacklock gritou. Suas mãos relaxaram a pressão e
Mitzi, libertada, ergueu a cabeça.
A srta. Blacklock não parou de gritar. Não havia mais
ninguém na cozinha...
— Dora, Dora, perdão... Eu não queria... não queria...
Inteiramente alucinada, ela saiu correndo para a porta para
ser barrada pelo corpanzil do sargento Fletcher, no mesmo
instante em que Miss Marple, afogueada e triunfante,
emergia do armário de vassouras.
— Sempre tive muito jeito para imitar as vozes dos outros —
ela comentou.
— A senhora tem de vir comigo — disse o sargento Fletcher.
— Sou testemunha de sua tentativa de afogar essa moça. E
há outras acusações. Devo preveni-la, Letitia Blacklock...
— Charlotte Blacklock — corrigiu Miss Marple. — É o seu
nome verdadeiro, não sabia? Embaixo desse colar que ela usa
o tempo todo, existe a cicatriz da operação.
— Operação?
— De bócio.
Acalmando-se aos poucos, a srta. Blacklock olhou para ela:
— Então, sabe de tudo?
— Sei... há algum tempo, já.
Charlotte Blacklock sentou-se à mesa e começou a chorar.
— Não deveria ter feito aquilo comigo — disse ela. — Não a
voz de Dora. Eu gostava dela, realmente gostava.
O inspetor Craddock e os outros se acotovelavam na porta
do corredor.
Edwards, que incluía noções de primeiros socorros entre
suas muitas habilidades, estava ocupado com Mitzi. Logo
que ela recobrou a fala, suas primeiras palavras foram de
elogio à própria atuação.
— Eu fazer muito bem, não? Muito inteligente, não? Muito
corajosa, não? Oh, eu ser tão brava! Quase ser assassinada,
também. Mas ter tanta coragem que arriscar a tudo.
A srta. Hinchliffe, num impulso incontido, abriu caminho
entre os demais e pulou sobre Charlotte Blacklock, que
chorava, sentada à mesa da cozinha. O sargento Fletcher
precisou de toda a sua força para segurá-la.
— Vamos... — disse ele. — Vamos... não, não faça isso,
srta. Hinchliffe.
Entre dentes cerrados, a srta. Hinchliffe suplicava:
— Deixe-me, deixe-me. Só um minuto... ela matou Amy...
matou Amy...
Charlotte Blacklock levantou a cabeça, soluçando.
— Eu não queria matá-la. Não queria matar ninguém... mas
tive de matar... mas o pior foi matar Dora... depois que ela
morreu, eu fiquei sem ninguém... desde que ela morreu, eu
estou sozinha... sozinha... oh, Dora... Dora...
E mais uma vez ela deixou cair a cabeça, chorando sem
parar.


CAPÍTULO 23
TODA A VERDADE

Miss Marple estava sentada na cadeira de braços. Bunch
estava no chão, em frente ao fogo, com os braços à volta dos
joelhos.
O reverendo Julian Harmon, com o queixo mergulhado nas
mãos, inclinado para a frente, tinha mais o ar de um menino
de colégio do que a sua aparência habitual de um homem
prematuramente envelhecido. Quanto ao inspetor
Craddock, demonstrava claramente, pelo cachimbo aceso e
pelo copo de uísque ao seu lado, que não estava de serviço.
Julia, Patrick, Edmund e Phillipa também faziam parte do
grupo.
— A história é sua, Miss Marple — disse Craddock.
— Ora, que nada, meu filho! Eu só dei uma mãozinha, aqui e
ali. Você estava encarregado de tudo, e fez todas as
investigações; além disso, sabe de tantas coisas que eu não
sei...
— Então contem juntos — intrometeu-se Bunch,
impaciente. — Um pouco cada um. Mas faço questão de que
tia Jane comece: adoro o seu jeito engraçado de juntar as
coisas. Quando foi que a senhora começou a desconfiar da
srta. Blacklock?
— É difícil dizer, minha filha. É claro que, de saída, parecia
claro que a pessoa ideal... melhor dizendo, a pessoa óbvia...
para ter organizado o assalto era a srta. Blacklock. Era a única
pessoa que se sabia ter estado em contato com Rudi Scherz,
e tudo mais eram providências fáceis de tomar pela própria
dona da casa. Ligar o aquecimento central, por exemplo,
para evitar acender a lareira, o que impediria que a sala
ficasse totalmente às escuras.
A única pessoa que poderia tomar essa providência era a
dona da casa.
"Não que tivesse ficado convencida desde o começo... mas
me lembro de ter pensado que era uma pena que as coisas
não fossem simples assim! Mas, na verdade, fui iludida como
todo mundo, e pensei que alguém estivesse mesmo
querendo matar Letitia Blacklock."
— Seria bom explicar logo o que realmente aconteceu —
disse Bunch. — O rapaz suíço a reconheceu... foi isso, não?
— Foi. Ele tinha trabalhado em...
Ela hesitou e olhou para Craddock, que tomou a palavra:
— Na clínica do dr. Adolf Koch, em Berna. Koch era um
especialista famoso em todo o mundo por suas operações de
bócio. Charlotte Blacklock se operou na mesma época em
que Rudi Scherz trabalhava lá como servente. Quando veio
para a Inglaterra, ele reconheceu, no hotel, a senhora que
conhecera como paciente da clínica e, num impulso,
abordou-a. Acho que ele não o teria feito se parasse para
pensar, porque perdera o emprego em circunstâncias não
muito honrosas; enfim, como isso ocorreu depois de
Charlotte ter deixado a clínica, era provável que ela não
soubesse de nada.
— Então ele não lhe falou nada de Montreux, e de seu pai ser
dono de um hotel lá?
— Ora, não. Isso ela inventou para explicar que ele a tivesse
procurado.
— Deve ter sido um grande choque para ela — disse Miss
Marple, pensativa. — Ela se sentia inteiramente tranqüila...
e, então, de repente, ocorre a coincidência quase
impossível, de aparecer alguém que a conhecia... não como
uma das duas Blacklocks; para isso estava prevenida... mas,
sem sombra de dúvida, como Charlotte Blacklock, uma
paciente que fora operada de bócio.
"Bem, mas você me pediu que começasse do princípio. O
princípio, eu acho (se o inspetor Craddock concorda), foi
quando Charlotte Blacklock, uma jovem bonita e sensível,
começou a sofrer desse crescimento desmedido da tiróide
que é conhecido pelo nome de bócio. Isso arruinou sua vida;
ela sempre atribuíra importância enorme à sua aparência.
Afinal, todas as jovens, na adolescência, são sensíveis e
vaidosas. Acredito que, se ela tivesse mãe viva, ou um pai
compreensivo, não chegaria ao estado mórbido em que
acabou mergulhando. Não havia ninguém para forçá-la a
enfrentar a vida e a levar uma existência normal, sem se
preocupar em excesso com a doença. Além disso, em outras
circunstâncias, ela teria sido operada muitos anos antes.
"Mas o dr. Blacklock, eu imagino, era um homem obstinado,
tirânico, antiquado. Não acreditava nessas operações.
Convenceu Charlotte de que nada havia a fazer... exceto
tratamento com iodo e outros medicamentos. Charlotte
aceitou tudo isso, e acho que também a sua irmã depositava
mais fé na capacidade profissional do dr. Blacklock do que
ele merecia.
"Charlotte era devotada ao pai, dentro das limitações de sua
personalidade não muito forte. Não há dúvida de que
aceitava suas decisões em tudo. E, à medida que o bócio
aumentava e mais a deformava, mais ela evitava o convívio
com outras pessoas. Embora, no fundo, fosse de natureza
afetiva."
— É uma descrição curiosa, para uma assassina — comentou
Edmund.
— Não concordo — replicou Miss Marple. — Pessoas fracas
e bondosas são, freqüentemente, muito perigosas. E, se
acham que a vida lhes deve alguma coisa, isso geralmente
destrói todos os seus princípios éticos.
"E Letitia Blacklock, evidentemente tinha uma
personalidade completamente diferente. O inspetor
Craddock me contou que Belle Goedler a descreveu como
uma pessoa essencialmente boa (e eu acredito mesmo que
ela o fosse). Era uma mulher de grande integridade que tinha
(como ela mesma dizia) enorme dificuldade em
compreender como alguém pode ser desonesto. Letitia, por
mais tentada que fosse, jamais pensaria em cometer uma
fraude. Ela era devotada à irmã. Os longos relatos que lhe
mandava sobre tudo o que acontecia à sua volta mostram o
seu esforço para mantê-la interessada na vida. Preocupava-se
muito com o estado de morbidez em que Charlotte estava
mergulhando.
"Até que morreu o dr. Blacklock. Letitia, sem hesitar um
segundo, largou tudo e se dedicou inteiramente a Charlotte.
Levou-a para a Suíça, para consultar os especialistas sobre a
possibilidade de uma operação. Era quase tarde demais; mas,
como sabemos agora, a operação foi um sucesso. A
deformidade desapareceu, e a cicatriz que deixou era
facilmente escondida por um colar de pérolas de muitas
voltas, colocado ao pescoço.
"Tinha começado a guerra. Era difícil voltar à Inglaterra, e as
duas irmãs ficaram na Suíça, trabalhando na Cruz Vermelha.
Foi assim mesmo, não foi, inspetor?"
— Certo, Miss Marple.
— Recebiam notícias esparsas da Inglaterra. Imagino que,
entre outras coisas, tenham sabido que Belle Goedler não
teria muito tempo de vida. Seria a coisa mais natural do
mundo que as duas tivessem passado horas e horas
conversando sobre seus planos para a enorme fortuna que
iriam receber. É claro que essa perspectiva era muito mais
importante para Charlotte do que para Letitia. Pela primeira
vez em sua vida, Charlotte se sentia como uma mulher
normal, que ninguém olhava com piedade ou repulsa.
Finalmente, ela podia gozar a vida, e tinha uma vida inteira
para gastar nos anos que lhe restassem. Viajar, ter uma casa
luxuosa, roupas e jóias, ir a peças e concertos, satisfazer
todos os seus caprichos... era uma espécie de conto de fadas
que se ia tornar real para Charlotte.
"Foi então que Letitia, a saudável e forte Letitia, apanhou
uma gripe que se complicou numa pneumonia e morreu em
menos de uma semana! Não foi apenas a irmã que Charlotte
perdeu, mas também aquela vida de luxo com que tinha
sonhado. Sabem, acho que deve até ter ficado com raiva de
Letitia. Ela não tinha nada que morrer, logo agora que
acabavam de saber que Belle Goedler estava nas últimas...
Mais um mês, quem sabe, e o dinheiro seria de Letitia, e dela
quando Letitia morresse...
"Então ficou bem marcada a diferença entre as duas irmãs.
Para " Charlotte, o que planejou fazer não tinha coisa alguma
de errado. O dinheiro era destinado a Letitia... seria de
Letitia dentro de muito pouco tempo... e ela se considerava
como uma espécie de outra metade da irmã.
"Talvez a idéia não lhe tivesse ocorrido até que um médico
ou outra pessoa qualquer lhe perguntasse o nome de batismo
da irmã; isso terá sido o bastante para que ela percebesse
que, para todo o mundo, elas eram as duas srtas. Blacklock:
duas senhoras inglesas, parecidas nas roupas e nos traços
fisionômicos (e, como eu estava dizendo outro dia a Bunch,
as senhoras idosas sempre se parecem umas com as outras).
Por que, então, não teria sido Charlotte a que morrera e
Letitia a que estava viva?
"Com certeza, foi mais um impulso do que um plano. E
Letitia foi sepultada com o nome de Charlotte. 'Charlotte'
morta, 'Letitia' voltou para a Inglaterra. E toda a sua
capacidade de iniciativa e a sua energia, adormecidas durante
tantos anos, vieram à tona. Como Charlotte, ela vivera em
segundo plano. Agora, tomava posse do ar de comando, da
sensação de comando que fora parte essencial da
personalidade de Letitia. No fundo, elas não eram diferentes
quanto à mentalidade; embora, é claro, houvesse uma
grande diferença moral.
"Naturalmente, Charlotte teve que tomar uma ou duas
precauções óbvias. Comprou uma casa numa parte da
Inglaterra onde nunca estivera antes. As poucas pessoas que
tinha de evitar eram alguns moradores de sua cidade natal
em Cumberland (onde, além disso, vivera a maior parte do
tempo trancada em casa) e, evidentemente, Belle Goedler,
que conhecera Letitia tão intimamente, pois com ela, seria
inútil qualquer disfarce. Quanto ao seu talhe de letra, a
artrite de suas mãos resolvia o problema. Na verdade, era
tudo mais fácil, já que pouquíssimas pessoas realmente
haviam conhecido Charlotte."
— Mas, se ela tivesse encontrado pessoas que conheceram
Letitia? — perguntou Bunch. — Essas não eram poucas.
— Mas também não seria grande problema. Alguém poderia
dizer: "Vi Letitia Blacklock outro dia; está tão diferente que
mal a reconheci." Isso é comum, e não despertaria suspeitas
de que ela não era Letitia. As pessoas realmente mudam
muito em dez anos. E se ela não reconhecesse alguém,
poderia atribuir isso à sua miopia. Além do mais, ela estava a
par de todos os detalhes da vida de Letitia em Londres... as
pessoas que conhecera, os lugares que freqüentara. Tinha as
cartas da irmã para se guiar, e poderia num instante desfazer
qualquer desconfiança mencionando algum episódio ou
falando de alguma amizade comum. Não, minha filha, era
realmente pelo lado de Charlotte que ela podia ter razões de
medo.
"Instalou-se, então, em Little Paddocks, e fez amizade com
os vizinhos. Quando recebeu uma carta pedindo um favor a
Letitia, aceitou com prazer a vinda dos dois primos que
jamais vira. O fato de que eles a aceitaram como a tia Letty
aumentou a sua sensação de segurança.
"Tudo corria esplendidamente. E, então, ela cometeu o seu
grande erro. Um erro que decorreu unicamente de sua
bondade natural e de sua natureza afetiva. Recebeu uma
carta de uma velha colega de escola que estava em
dificuldades, e correu em seu socorro." Em parte, deve ter
feito isso por se sentir muito sozinha, apesar de tudo. O seu
segredo a mantinha, de certa forma, afastada das outras
pessoas. E tinha sido realmente amiga de Dora Bunner, de
quem se lembrava como um símbolo de seus tempos alegres
no colégio. Seja como for, num impulso, ela respondeu à
carta de Dora com o seu próprio nome. Imaginem a surpresa
da outra! Escrevera a Letitia e recebia uma carta de
Charlotte. Não havia hipótese de tentar enganar Dora, uma
das poucas amigas que freqüentara o quarto de reclusa de
Charlotte, durante sua doença.
"E, como sabia que Dora veria a situação da mesma maneira
que ela, contou-lhe o que fizera. Dora deu a sua aprovação
incondicional. Para a sua cabeça confusa, era inteiramente
justo que a sua querida Lotty não perdesse a herança a que
tinha direito apenas porque Letty morrera numa ocasião tão
inconveniente. Lotty merecia uma recompensa pelo
sofrimento que enfrentara com tanta paciência e coragem.
Seria um absurdo que todo aquele dinheiro fosse para algum
desconhecido.
"Ela entendeu perfeitamente que ninguém poderia saber de
coisa alguma. Era como um quilo de manteiga comprado no
câmbio negro. Não se deve comentar a respeito, mas
também não é algo essencialmente errado. Assim, Dora veio
para Little Paddocks e logo Charlotte percebeu que
cometera um erro terrível. Não era apenas o fato de que era
quase impossível viver com uma pessoa como Dora Bunner,
com sua cabeça tonta e seus enganos e confusões
constantes. Isso, Charlotte poderia agüentar, porque
realmente gostava da outra, e porque o médico lhe dissera
que Dora não tinha muito tempo de vida. Mas a amiga logo
se revelou um risco permanente. Embora Charlotte e Letitia
se tratassem pelos nomes completos, Dora era o tipo de
pessoa que sempre usa apelidos carinhosos. Para ela, as irmãs
sempre haviam sido Letty e Lotty. E, embora se esforçasse
para chamar a amiga de Letty, o apelido correto volta e meia
lhe escapava dos lábios. Memórias do passado, também,
vinham-lhe constantemente à cabeça, e Charlotte tinha de
estar sempre alerta contra alusões inadequadas. A situação
começou a enervá-la.
"Mesmo assim, não era provável que alguém prestasse
atenção aos deslizes de Dora. O grande golpe na segurança
de Charlotte foi desfechado, como eu disse, quando ela foi
reconhecida e abordada por Rudi Scherz, no Hotel Royai
Spa.
"É possível que o dinheiro com que Rudi repôs os seus
primeiros desfalques no hotel tenha saído da bolsa de
Charlotte Blacklock. O inspetor Craddock acredita,
entretanto, e eu concordo com ele, que Rudi lhe pediu
dinheiro sem pensar em chantagem."
— Ele não tinha a menor idéia de que sabia de algo que a
pudesse prejudicar — explicou Craddock. — Tinha
consciência de ser um rapaz atraente, e sua experiência lhe
dizia que rapazes atraentes às vezes conseguem tirar
dinheiro de senhoras idosas se lhes contarem uma história
triste e convincente.
"Mas ela via a coisa de maneira diferente. Deve ter
imaginado que os pedidos não passavam de uma forma sutil
de chantagem, e que talvez ele suspeitasse de algo; depois,
quando soubesse da herança pelos jornais, que certamente
explorariam o caso após a morte de Belle Goedler, ele viria a
descobrir que tinha uma mina de ouro em seu poder.
"E, agora, ela não poderia voltar atrás. Já se apresentara como
Letitia Blacklock. Já usara esta identidade junto ao banco,
junto à sra. Goedler. E o único obstáculo à sua frente era
aquele suíço, um empregadinho de hotel, um tipo em que
não se podia confiar, provavelmente um chantagista. Ela
estaria em segurança... se ele fosse afastado do caminho.
"É possível que, no começo, ela tenha encarado o passo que
ia dar como uma fantasia. Em toda a sua vida, faltara-lhe
emoção e drama. Era pelo menos divertido planejar uma
solução para o seu problema: como faria para se livrar de
Rudi Scherz?
"E fez o plano. Depois, acabou decidindo que valia a pena
executá-lo. Falou a Rudi sobre a brincadeira que queria fazer
durante uma festa, explicando que precisava de um estranho
para desempenhar o papel do assaltante. Ofereceu uma boa
quantia pela sua ajuda.
"E o fato de que ele aceitou, sem suspeitar de nada, é que me
faz ter certeza de que o rapaz não desconfiava de que
representava perigo para ela. Para ele, tratava-se apenas de
uma velha tola, com dinheiro para jogar fora. Ela lhe deu o
anúncio para colocar no jornal e arranjou a sua visita a Little
Paddocks para estudar a geografia do local e ver por onde
entraria na noite da "brincadeira". É claro que Dora Bunner
ignorava tudo isso. E chegou o dia..."
Ele fez uma pausa. Miss Marple aproveitou para retomar a
narrativa, em sua voz doce:
— Deve ter sido um dia terrível para ela. Era tarde demais
para voltar atrás... Dora Bunner nos disse que Letty passou o
dia inteiro assustada; realmente, seu estado de tensão deve
ter sido muito profundo. Deve ter sentido medo do que ia
fazer, medo de que alguma coisa não desse certo — mas não
medo bastante para desistir.
"Talvez fosse emocionante furtar o revólver da gaveta do
coronel Easterbrook. Bastava levar alguns ovos ou um pote
de geléia como desculpa... e dar uma escapada até o andar de
cima, aproveitando a casa vazia. Talvez fosse emocionante
lubrificar a segunda porta da sala de estar, para que abrisse e
fechasse sem ruído. E, também, mudar o lugar da mesa que
ficava em frente à porta, com o pretexto de melhorar a
posição do arranjo de flores feito por Phillipa. Até então,
tudo tinha tido o gosto de uma brincadeira. Mas o que iria
acontecer a seguir não era uma brincadeira, muito pelo
contrário. Ah, sim, ela estava mesmo assustada... Dora
Bunner não estava enganada."
— Mesmo assim, ela não desistiu — disse Craddock. — E o
plano funcionou admiravelmente. Ela saiu pouco depois das
seis horas "para guardar os patos" e aproveitou para fazer
Scherz entrar e lhe dar a máscara, a capa, as luvas e a
lanterna. Então, às seis e meia, quando o relógio começou a
dar as horas, ela estava a postos, na mesinha perto do arco,
com a mão na caixa de cigarros. Era a coisa mais natural do
mundo: Patrick fora buscar as bebidas e ela, como dona da
casa, ia oferecer os cigarros. Ela previu, com razão, que,
quando o carrilhão começasse a soar, todos os olhares se
desviariam para o relógio. Foi o que aconteceu. Apenas uma
pessoa, a dedicada Dora, manteve seus olhos fixos na amiga.
E, depois, contou-nos, em suas primeiras declarações,
exatamente o que a srta. Blacklock fez: disse que ela
apanhara o jarro de violetas.
"Antes, ela já desbastara o fio do abajur, deixando-o a
descoberto. Tudo não levou mais do que um segundo. Ela
ergueu as violetas, derramou um pouco d'água na parte
descascada do fio e acionou o interruptor. A água conduz
bem a eletricidade. Houve o curto-circuito."
— Exatamente como aconteceu outro dia lá em casa —
disse Bunch. — Foi por isso que a senhora se impressionou
tanto, não foi, tia Jane?
— Foi, minha filha. Eu estava preocupada com aqueles
abajures. Compreendia que era um par, e que um havia sido
trocado pelo outro... provavelmente durante a noite.
— Certo — disse Craddock. — Quando Fletcher examinou o
abajur na manhã seguinte, estava, como os outros da casa,
perfeitamente em ordem, sem qualquer alteração no fio.
— Eu compreendi o que Dora Bunner quis dizer com aquela
história de que, na noite anterior, "era a pastora" — disse
Miss Marple —, mas caí no erro de pensar, como ela, que
Patrick havia sido o responsável pela troca. O interessante é
que nunca se poderia confiar em Dora Bunner, quando ela
repetia o que ouvira em alguma parte... sempre usava sua
imaginação para exagerar ou distorcer tudo, e geralmente
errava nas conclusões a que chegava, mas errava muito
pouco quando relatava o que vira. Ela viu Letitia apanhar as
violetas...
— E viu o que descreveu como sendo um clarão e um
estampido — contribuiu Craddock.
— E, naturalmente, quando Bunch derramou a água do jarro
de rosas sobre o fio, eu percebi que apenas a própria srta.
Blacklock poderia ter causado o curto-circuito, porque só ela
estava perto da mesa.
— Não sei como tudo isso me escapou — lamentou-se
Craddock. — Dora Bunner chegou a falar de um ponto
queimado na mesa, onde "alguém deixara um cigarro", e a
verdade é que ninguém chegou a acender um cigarro... E as
violetas morreram porque não havia água no jarro; foi um
deslize de Letitia, que deveria tê-lo enchido de novo. Mas
ela deve ter achado que ninguém iria notar e, de qualquer
maneira, a srta. Bunner estava pronta a admitir que tinha
esquecido de colocar a água, quando arrumara as flores.
Ele prosseguiu:
— Ela era altamente sugestionável. E a srta. Blacklock mais
de uma vez se aproveitou disso. As suspeitas de Bunny em
relação a Patrick eram influenciadas por ela, eu acho.
— Por que logo eu? — reclamou Patrick, em voz ofendida.
— Ela não queria levar a intriga adiante... apenas o suficiente
para distrair Bunny de qualquer suspeita de que a srta.
Blacklock estivesse por trás de tudo. Bem, todos sabemos o
que aconteceu depois. Assim que as luzes se apagaram e se
instalou a confusão, ela escapuliu pela porta previamente
lubrificada e se esgueirou por trás de Rudi Scherz, que estava
desempenhando seu papel com grande entusiasmo,
brincando com o facho de luz pela sala. Acho que ele jamais
suspeitou de que ela estivesse às suas costas, usando suas
luvas de jardinagem e empunhando o revólver. Ela esperou
até que a lanterna estivesse apontada para o lugar que
deveria mirar: a parede perto da qual ela deveria estar.
Então, fez dois disparos rápidos e, quando ele, espantado,
começou a se voltar, encostou a arma em seu corpo e atirou
novamente. Deixou o revólver cair ao lado do corpo, jogou
as luvas num canto qualquer e voltou pela mesma porta, para
o lugar exato onde estava no momento em que as luzes se
apagaram. Fez um ferimento na própria orelha, não sei bem
como...
— Tenho a impressão de que usou a tesourinha de unhas —
disse Miss Marple. — Basta um pequeno corte no lóbulo e
sai sangue à beça. Psicologicamente, agiu muito bem. O
sangue lhe escorrendo pela blusa confirmava que ela tinha
sido atingida, e que por pouco não morrera.
— As possibilidades de erro eram realmente muito pequenas
— disse Craddock. — A insistência de Dora Bunner em que
Scherz realmente quisera matar a srta. Blacklock tinha sua
utilidade. Sem querer dizer isso, Dora Bunner dava a
impressão de que realmente vira o momento em que sua
amiga teria sido ferida. O veredicto, fatalmente, seria de
suicídio ou morte acidental. E o caso seria arquivado. Se não
foi, devemos isso a Miss Marple.
— Ora, não senhor! — protestou Miss Marple
energicamente.
— Não fiz mais do que dar uma pequena ajuda. Era o senhor
quem não estava satisfeito, sr. Craddock. Foi o senhor quem
não quis arquivar o caso.
— Eu não estava mesmo satisfeito — concordou Craddock.
— Sabia que havia alguma coisa errada, em algum lugar. Mas
não sabia onde estava o erro, até que a senhora me mostrou.
E, depois, a srta. Blacklock teve um lance de azar: eu
descobri o que tinham feito naquela outra porta da sala. Até
aquele momento, poderíamos ter muitas teorias sobre o que
poderia ter acontecido... mas não passavam de conjeturase
Mas aquela porta lubrificada era uma prova. E eu a descobri
por puro acaso... porque segurei a maçaneta por engano.
— Para mim, o senhor foi levado a fazer aquilo, inspetor —
disse Miss Marple. — Eu sou meio antiquada, sabe.
— Assim, a caçada recomeçou — disse Craddock. — Mas,
dessa vez, era diferente. Procurávamos alguém com um
motivo para matar Letitia Blacklock.
— E havia alguém com um motivo, e a srta. Blacklock sabia
disso — prosseguiu Miss Marple. — Acho que ela
reconheceu Phillipa logo de saída. Acontece que Sônia
Goedler foi uma das poucas pessoas admitidas no quarto de
Charlotte. E, quando uma pessoa chega a uma certa idade (o
senhor ainda não sabe disso, sr. Craddock), a memória é
muito mais fiel para rostos que a pessoa viu quando era
jovem do que para outros muito mais recentes. Phillipa deve
ter a mesma idade de sua mãe quando esta conheceu
Charlotte, e é muito parecida com ela. O engraçado é que
Charlotte ficou satisfeita por ter reconhecido Phillipa.
Afeiçoou-se a ela e isso, inconscientemente, ajudou-a a fazer
as pazes com sua consciência. Jurou a si mesma que, quando
herdasse o dinheiro, tomaria conta de Phillipa. Iria tratá-la
como uma filha; ela e Harry viveriam em sua casa. Isso a
fazia sentir-se feliz e generosa. Mas, quando o inspetor
começou a fazer perguntas sobre a identidade de "Pip e
Emma", Charlotte começou a se preocupar. Ela não queria
transformar Phillipa num bode expiatório. Tudo o que
planejara era encenar um assalto praticado por um jovem
marginal que teria morte acidental. Mas agora, com a
descoberta da porta lubrificada, a situação mudava
completamente. E, com exceção de Phillipa, não havia mais
ninguém (que ela soubesse, já que não tinha a menor idéia
da verdadeira identidade de Julia) com qualquer motivo para
desejar a sua morte. E fez o possível para proteger a
identidade de Phillipa. Teve bastante presença de espírito
para lhe dizer, quando o senhor perguntou, que Sónia era
pequena e morena, e tirou os velhos instantâneos do álbum,
para que não se descobrisse a semelhança, na mesma ocasião
em que tirou as fotos em que Letitia aparecia.
— E pensar que cheguei a suspeitar de que a sra.
Swettenham seria Sónia Goedler — lamentou-se Craddock.
— Minha pobre mamãe — murmurou Edmund. — Uma
senhora de um passado sem mácula... pelo menos, que eu
saiba.
— Mas, naturalmente — continuou Miss Marple — o
verdadeiro perigo estava em Dora Bunner. Cada dia que
passava, ela ficava mais distraída e mais tagarela. Lembro-me
da maneira como a srta. Blacklock a olhou, no dia que em
fomos lá tomar chá. Sabem por quê? Dora acabara de chamá-
la de Lotty. Para nós não passou de um lapso ocasional. Mas
assustou Charlotte. E a situação piorou. A pobre Dora não
conseguia se conter. No dia em que tomamos café no
Bluehird, tive a estranha sensação de que Dora estava
falando de duas pessoas e não de uma e, evidentemente, era
isso mesmo. Numa hora, ela falava de sua amiga como não
sendo bonita, mas tendo muita personalidade e, quase ao
mesmo tempo, a descrevia como uma moça bonita e um
pouco leviana. Classificava Letty como inteligente e bem-
sucedida na vida... e, depois, falava de sua vida triste, sem
mencionar aquela citação, "Triste sofrimento com bravura
suportado", que não se encaixava de forma alguma na vida
de Letitia. Tenho certeza de que Charlotte ouviu uma boa
parte de nossa conversa, quando chegou ao restaurante.
Deve ter ouvido Dora falar na troca dos abajures, a história
do pastor e da pastora. E foi então que compreendeu o
perigo que a pobre e dedicada Dora Bunner representava
para a sua segurança.
"Acho que aquela conversa realmente selou o destino de
Dora... se me perdoam a expressão melodramática. Mas
desconfio de que, no fim, daria na mesma... porque
Charlotte jamais se sentiria segura enquanto Dora Bunner
estivesse viva. Ela gostava de Dora, não queria matá-la, mas
não via outra saída. E imagino que (como a enfermeira
Ellerton de quem lhe falei, outro dia, Bunch) ela se
convenceu de que seria também um gesto de bondade.
Pobre Bunny... sem muito tempo de vida, provavelmente
uma agonia dolorosa pela frente. O mais curioso é que ela
fez o possível para que Bunny tivesse um último dia de vida
muito feliz. Houve a festa de aniversário... o bolo especial...
— "Delícia Fatal" — disse Phillipa, estremecendo.
— É... é mais ou menos isso... ela se esforçou para servir
uma delícia fatal à amiga... A festa, todas as coisas que ela
gostava de comer, evitar que as pessoas fizessem
comentários que a perturbassem. E, depois, os comprimidos,
no vidro de aspirinas ao lado de sua própria cama, para que
Bunny, quando não achasse o vidro que acabara de comprar,
fosse apanhar algumas pílulas lá. E assim, pareceria (como de
fato aconteceu) que os comprimidos eram destinados a
Letitia ...
"Bunny morreu dormindo, feliz, e Charlotte novamente se
sentiu em segurança. Mas Bunny lhe fazia falta... faltavam-
lhe sua afeição, e sua lealdade, e a possibilidade de conversar
sobre os velhos tempos... Ela chorou amargamente no dia
em que vim lhe trazer aquele bilhete de Julian... e sua dor
era realmente autêntica. Ela acabara de matar sua melhor
amiga..."
— É horrível... — disse Bunch. — Que coisa horrível...
— Mas muito humana — interviu Julian Harmon. — Não
podemos nos esquecer de que os assassinos também são
humanos.
— Eu sei — disse Miss Marple. — Humanos. E,
freqüentemente, dignos de piedade. Mas muito perigosos,
também. Especialmente uma assassina fraca e de bom
coração como Charlotte Blacklock. Porque, quando uma
pessoa fraca sente medo, medo de verdade, fica alucinada de
terror, e perde inteiramente o controle.
— E Murgatroyd? — perguntou Julian.
— É... a pobre Murgatroyd. Charlotte deve ter ido lá
quando elas estavam reconstituindo o crime. A janela estava
aberta e eía ouviu tudo, antes de entrar. Até aquele
momento, nunca lhe ocorrera que poderia haver outra
pessoa que representasse um perigo para ela. A srta.
Hinchliffe estava insistindo com a amiga para que se
lembrasse do que vira, e Charlotte nunca pensara que
alguém pudesse ter visto alguma coisa. Imaginara que todos
estivessem olhando, automaticamente, para Rudi Scherz.
Com certeza, ficou colada à janela, escutando, na esperança
de que fracassassem os esforços de memória da pobre
Murgatroyd. E então, no momento exato em que a srta.
Hinchliffe saía correndo para a estação, Murgatroyd chegou
ao ponto que mostrava que ela se recordara do fato mais
importante. Foi quando gritou para a srta. Hinchliffe, que já
estava saindo: "Ela não estava lá..."
"Lembro-me de que perguntei à srta. Hinchliffe se ela falara
exatamente dessa maneira... Porque, se tivesse dito 'Ela não
estava lá', não seria a mesma coisa."
— Bom, isso já é um pouco sutil demais para mim — disse
Craddock.
Miss Marple se voltou para ele, o rosto corado pela excitação
da narrativa.
— Pense só no que estaria se passando dentro da cabeça da
srta. Murgatroyd... A gente às vezes vê muitas coisas, sabe, e
não tem consciência de que as viu. Uma vez, num acidente
de estrada de ferro, lembro-me de ter visto (embora, naquela
hora, nem pensasse nisso) uma grande mancha na pintura de
um vagão. Até hoje eu poderia desenhá-la igualzinha, se
quisesse. E, outra vez, quando caiu uma bomba perto de
mim, em Londres, foi aquela confusão toda de paredes
arrebentadas e janelas espatifadas... mas o que eu guardei na
memória, até hoje, foi uma mulher em pé na minha frente,
com um buraco em uma das meias, e as meias não
combinavam uma com a outra. É por isso que eu entendo
muito bem que, quando a srta. Murgatroyd parou de pensar
e apenas tentou se lembrar do que tinha visto, diversas
coisas começaram a aparecer na sua mente.
"Creio que ela começou a se lembrar da cena próxima à
lareira, onde primeiro bateu o facho da lanterna; depois,
seguiu pelas duas janelas, e havia diversas pessoas entre ela e
as janelas. Por exemplo, a sra. Harmon, com os punhos
apertados sobre os olhos... Recordando, ela continuou a
seguir o foco, passando pela srta. Bunner, de boca aberta e
olhos arregalados... e passando também por uma parede
vazia, atrás de uma mesa sobre a qual estavam um abajur e
uma caixa de cigarros. E, então, os tiros; e, de repente, ela se
lembrou de uma coisa extraordinária. Ela vira a parede na
qual, depois, apareceriam os buracos de bala, a parede em
frente à qual Letitia Blacklock estivera quando fora alvo dos
tiros, e, no momento em que o revólver disparou, e Letty
foi ferida, Letty não estava lá...
"Percebem, agora? Ela estivera se concentrando nas três
mulheres para as quais a srta. Hinchliffe lhe chamara a
atenção. Se uma das três não estivesse lá, seria a pessoa em
quem ela se fixaria. Na verdade, diria: 'Foi ela! Ela não
estava lá.' Mas era um lugar que a impressionara, um lugar
onde alguém deveria ter estado... mas o lugar estava vazio...
não havia ninguém lá. Havia o local, mas não a pessoa. Ela
não conseguiu assimilar o significado disso imediatamente.
'Que coisa extraordinária, Hinch', foi o que ela disse, 'ela não
estava lá...' Portanto, só poderia estar falando de Letitia
Blacklock."
— Mas a senhora já sabia disso antes, não sabia? —
perguntou Bunch. — Quando houve o curto-circuito.
Quando a senhora escreveu aquelas coisas na folha de papel.
— É verdade, meu bem. Nessa hora, eu juntei todos os
pedaços... todas as partes independentes do quebra-cabeça...
e apareceu um quadro completo, que fazia sentido.
Bunch recordou, em voz baixa:
— Abajur? Está certo. Violetas? Confere. Vidro de
aspirinas? A senhora estava pensando que Bunny não
precisava ter apanhado comprimidos no quarto de Letitia,
porque comprara um vidro naquele dia?
— A não ser que alguém tivesse escondido os seus
comprimidos. Era necessário que todos pensassem que fora
mais uma tentativa de matar Letitia Blacklock.
— Entendo. E, depois, "Delícia Fatal". O bolo, e não só o
bolo, toda a festa. Um dia feliz para Bunny, antes de sua
morte. Ela a tratou como um animal que é preciso sacrificar.
Isso é o que eu acho a coisa mais horrível... essa espécie de...
de bondade.
— Mas ela era uma mulher de natureza bondosa. O que ela
disse, depois de tudo, ali na cozinha, era bem verdade. "Eu
não queria matar ninguém." A única coisa que queria era
uma fortuna que não lhe pertencia! E, ante esse desejo que
se transformara numa obsessão, era o dinheiro que
compensaria tudo o que a vida lhe negara, nada poderia ficar
de pé. As pessoas que têm raiva do mundo são sempre
perigosas. Pensam que a vida lhes deve alguma coisa.
Conheço inválidos que sofreram muito mais e tiveram frus-
trações muito maiores do que as de Charlotte Blacklock... e
que conseguiram viver com felicidade. É o que está dentro
da gente que nos faz felizes ou infelizes. Ah, meu Deus,
estou divagando e nem sei mais o que estava dizendo. Onde
é que nós estávamos?
— Repassando a sua lista — lembrou Bunch. — O que a
senhora quis dizer com "mandar investigar"? Investigar o
quê?
Miss Marple balançou a cabeça, sorrindo para o inspetor:
— Ah! Essa o senhor deveria ter descoberto, inspetor
Craddock. O senhor me mostrou aquela carta de Letitia
Blacklock para a irmã. Tinha a palavra "investigar" duas
vezes: ambas escritas da mesma maneira. Mas, no bilhete
que pedi a Bunch para lhe mostrar, a srta. Blacklock
escrevera de forma diferente. Normalmente, as pessoas não
mudam a sua maneira de escrever com o passar dos anos.
Achei que isso era muito significativo.
— É verdade — disse Craddock. — Eu deveria ter notado.
Bunch continuava:
— "Triste sofrimento com bravura suportado". Isso foi
o que Bunny lhe disse no café; e é claro que Letitia não
sofria de coisa alguma. Iodo. Foi isso que lhe deu a pista do
bócio?
— Foi. Lembre-se de que elas foram para a Suíça, e a srta.
Blacklock tentou dar a impressão de que a irmã tinha
morrido de tuberculose. Mas eu sei que as maiores
autoridades em bócio e os melhores cirurgiões da
especialidade estão na Suíça. E havia aquele horrível colar de
pérolas que Letitia Blacklock sempre usava. Não combinava
com ela, mas era ideal para esconder a cicatriz.
— Agora entendo o nervosismo dela naquela noite em que o
colar se partiu — disse Craddock. — Na hora, pareceu uma
reação despropositada.
— E, em seguida, foi realmente Lotty que a .senhora
escreveu, e não Letty, como nós pensamos — disse Bunch.
— Eu me lembrei de que o nome da irmã era Charlotte, e
que Dora Bunner chamara a srta. Blacklock de Lotty uma ou
duas vezes e que, sempre que o fez, ficou muito agitada.
— E aquela história de Berna e de pensão por velhice?
— Rudi Scherz trabalhou num hospital de Berna.
— E a pensão?
— Não se lembra, Bunch, de que lhe falei nisso, aquele dia
no Bluebird! Na hora, não sabia exatamente como se
aplicava ao nosso problema, mas era a história da sra.
Wotherspoon receber a pensão da sra. Bartlett (embora a
sra. Bartlett tivesse morrido há muitos anos), apenas graças
ao fato de que as mulheres idosas sempre se parecem umas
com as outras. A verdade é que todos esses detalhes faziam
parte de um grande quadro, que só consegui ver quando
juntei as peças esparsas do quebra-cabeça. Tive que parar
para refrescar um pouco as idéias e pensar numa maneira de
provar que o quadro era verdadeiro. Foi então que a srta.
Hinchliffe me deu uma carona, e acabamos descobrindo a
srta. Murgatroyd...
O tom de sua voz se modificou: não era mais alegre,
excitado, mas duro e implacável.
— Eu me convenci de que precisava fazer alguma coisa. E
depressa. Mas ainda não havia provas. Pensei num plano e
conversei com o sargento Fletcher.
— E eu disse poucas e boas ao sargento Fletcher! — disse
Craddock. — Ele não tinha o direito de concordar com os
seus planos sem falar antes comigo.
— Ele não gostou da idéia, mas eu o convenci — disse Miss
Marple. — Fomos a Little Paddocks e procuramos a Mitzi.
— Não sei o que a senhora fez para convencê-la — disse
Julia.
— Não foi fácil, minha filha — respondeu Miss Marple. —
Mas ela é muito vaidosa, e ficou sensibilizada com o nosso
pedido de ajuda. Eu a enchi de elogios, e até disse que, se
estivesse em seu país, certamente teria trabalhado na
Resistência, no que ela concoí • dou sem pestanejar. Eu
comentei que ela tinha o temperamento ideal para esse tipo
de ação: era corajosa, não temia o perigo e sabia
desempenhar um papel como uma grande atriz. Contei uma
porção de histórias de mulheres famosas por façanhas
heróicas; algumas reais, a maioria inventada na hora. O que
importa é que ela ficou animadíssima.
— Que maravilha — comentou Patrick.
— Assim, ela acabou concordando em fazer a sua parte. Eu a
fiz ensaiar até ter todo o seu papel decorado. E a mandei
trancar-se em seu quarto até que o inspetor Craddock
chegasse. O problema com pessoas muito excitadas é que
ficam nervosas e acabam fazendo coisas antes da hora.
— Mas ela foi perfeita — disse Julia.
— Ainda não .entendi a necessidade daquilo — lamentou-se
Bunch. — É verdade que eu não estava presente, mas...
— O caso é meio complicado e era tudo um tanto arriscado.
O plano era dar a impressão de que Mitzi, embora admitisse
que realmente pensara em fazer chantagem, tinha ficado tão
nervosa e apavorada que decidira contar toda a verdade:
tinha visto, pelo buraco da fechadura, a srta. Blacklock
empunhando o revólver, atrás de Rudi Scherz. Isto é, tinha
visto o que realmente acontecera. O perigo era que
Charlotte Blacklock se lembrasse de que, como a chave
estava na fechadura, Mitzi não poderia ter visto coisa
alguma. Mas ninguém pensa nesses detalhes, na hora em
que recebe um choque. E Charlotte só conseguiu pensar em
que Mitzi a vira.
Craddock assumiu o comando da narrativa:
— Mas (e isso era essencial) eu tinha de fingir que recebia a
revelação com ceticismo, e por isso imediatamente lancei
um ataque contra alguém que não fora um suspeito até
então: Edmund.
— E eu desempenhei o meu papel também com rara
maestria — disse Edmund. — Enérgica negativa. Atitude de
quase desespero. Tudo de acordo com o plano. A única coisa
que não estava no plano, Phillipa, meu amor, era a sua
entrada em cena, confessando que era Pip. Nem o inspetor
nem eu tínhamos a menor idéia de quem era Pip. Eu é que
ia ser Pip! Quase estragou tudo, mas o inspetor salvou a
pátria com uma nova enxurrada de acusações, e aquelas
insinuações nojentas sobre as minhas intenções de casar
com uma milionária... o que provavelmente deve ter ficado
gravado no seu subconsciente, e ainda vai me fazer sofrer
um dia.
— Mas, por que isso era necessário?
— Não entende? Era importante fazer com que, do ponto de
vista de Charlotte Blacklock, a única pessoa que suspeitava
ou sabia da verdade fosse Mitzi. E que as suspeitas da polícia
estavam voltadas para outras pessoas. Mitzi tinha de ser
tratada como uma mentirosa. O problema é que, se Mitzi
insistisse, alguém acabaria por lhe dar atenção. Logo, era
necessário silenciá-la.
— Mitzi saiu da sala diretamente para a cozinha...
exatamente como eu lhe havia dito — continuou Miss
Marple. — A srta. Blacklock saiu atrás dela logo depois. O
sargento Fletcher já estava escondido, e eu estava em meu
posto, no armário das vassouras. Ainda bem que não sou
muito gorda.
Bunch se voltou para Miss Marple:
— O que a senhora esperava que acontecesse, tia Jane?
— Uma de duas coisas. Ou Charlotte ofereceria dinheiro a
Mitzi para que calasse a boca, e o sargento Fletcher seria
testemunha da oferta, ou então... ou então ela tentaria matar
Mitzi.
— Mas como ela podia pensar que escaparia dessa? Seria a
primeira pessoa de quem se suspeitaria.
— Ora, minha filha, ela perdera a cabeça. Estava como um
rato, encurralado e apavorado. Pense só no que aconteceu
naquele dia. O diálogo entre a srta. Hinchliffe e a srta.
Murgatroyd. A srta. Hinchliffe saindo para a estação e,
quando voltasse, a srta. Murgatroyd lhe diria que Letitia
Blacklock saíra da sala na noite do assalto. Tinha poucos
minutos para assegurar o silêncio da srta. Murgatroyd. Não
havia tempo para fazer um plano, para nada. Apenas para
matar. Ela se aproxima da pobre mulher, troca algumas
palavras e a estrangula. Em seguida, uma corrida até Little
Paddocks, uma rápida troca de roupa e, quando os outros
chegaram, ela estava ao pé do fogo, como se nunca tivesse
saído de casa.
"Então veio a terrível revelação da identidade de Julia. Ela
quebra o seu colar e fica aterrorizada, temendo que tivessem
visto a sua cicatriz. Mais tarde, o inspetor telefona,
anunciando que está trazendo todo mundo. Não há tempo
para pensar nem para descansar. Ela está mergulhada no
crime até o pescoço: não é apenas um assassinato "piedoso",
nem é apenas um jovem marginal cuja morte só pode
beneficiar a sociedade. Mas um homicídio, cru e simples.
Estará ela em segurança? Até aquele momento, sim. Mas,
então, surge Mitzi: mais um perigo. E preciso matar Mitzi,
tapar a sua boca! Ela já estava fora de si, de tanto medo. Não
era mais humana, apenas um animal perigoso.
— E por que a senhora se escondeu no armário, tia Jane? —
perguntou Bunch. — Não poderia deixar tudo a cargo do
sargento Fletcher?
— Era mais seguro se fôssemos dois, querida. E, além disso,
eu tinha certeza de que poderia imitar a voz de Dora
Bunner. Se alguma coisa pudesse fazer Charlotte Blacklock
desmoronar, seria isso.
— E deu certo!
— Foi... ela não agüentou.
Houve um longo silêncio, enquanto todos reconstituíam
mentalmente a cena. Depois, falando propositadamente em
tom de brincadeira, para fazer baixar a tensão, Julia disse:
— Foi ótimo para Mitzi. Ela me contou ontem que arranjou
um emprego em Southampton. Ela disse [Julia conseguiu
uma razoável imitação do linguajar de Mitzi]: "Eu vou lá e
eles dizer que ser preciso registro com polícia. Você
estrangeira, eles dizem, e eu diz para eles que sim, que eu
vou registrar! A polícia me conhecer bem, eu ajudar a
polícia! Sem Mitzi polícia jamais prender criminosa muito
perigosa. Mitzi arriscou a vida, porque ser corajosa, corajosa
como leão, sem medo de nada. Eles dizem para mim: Mitzi,
você é heroína, você formidável. E eu responder: Ach, não
foi nada."
Julia parou para tomar fôlego.
— E isso não foi nem dez por cento do que ela disse — co-
mentou.
— Acho — disse Edmund, pensativo — que daqui a pouco
Mitzi dirá que ajudou a polícia pelo menos em duzentos
casos!
— Ela ficou de bem comigo -— disse Phillipa. — Chegou a
me dar a receita da sua "Delícia Fatal", a título de presente
de casamento. Mas me fez prometer que não a daria a Julia,
porque Julia estragou a sua frigideira de fazer omeletes.
— Agora, a sra. Lucas está toda derretida com Phillipa,
depois que Julia e ela, com a morte de Belle Goedler,
herdaram a fortuna , deixada por Randall — contou
Edmund. — Ela nos mandou uns /. castiçais de prata como
presente de casamento. E vou ter o maior prazer em não
convidá-la para o casamento!
— E, assim, eles viveram felizes para sempre — disse Patrick.
— Edmund e Phillipa... e Julia e Patrick? — ele completou.
— Comigo, não. Comigo você não viverá feliz para sempre
— respondeu Julia. — Aquilo tudo que o inspetor Craddock
improvisou a respeito de Edmund aplica-se muito bem a
você. Você é mesmo o tipo do boa-vida que gostaria de uma
esposa rica. Nada feito!
— Não existe gratidão neste mundo — comentou Patrick. —
Depois de tudo o que eu fiz por essa moça.
— Quase me fez parar numa prisão, acusada de homicídio...
isso é o que você fez por mim — disse Julia. — Jamais me
esquecerei daquele dia em que chegou a carta de sua irmã.
Pensei que estivesse perdida. Não via saída alguma. Tenho a
impressão — completou ela, pensativa — de que vou
mesmo é para o teatro.
— O quê? Você também? — gemeu Patrick.
— Por que não? Vou ver se consigo o lugar da verdadeira
Julia. Depois, quando aprender tudo, acho que me dedicarei
à produção de peças. Encenar as peças de Edmund, talvez.
— Pensei que você escrevesse romances — comentou
Julian.
— Eu também pensei — respondeu Edmund. — Comecei a
escrever um romance, e até que estava saindo muito bom.
Páginas e páginas falando de um homem de barba crescida,
cheirando mal, e uma porção de ruas e becos cinzentos...
havia também uma velha com as pernas inchadas de
reumatismo, e uma jovem prostituta que vivia babando... e
todos passavam parágrafos enormes falando sobre a situação
do mundo e a falta de motivo para se continuar vivendo. O
problema é que eu também comecei a pensar no assunto...
e, de repente, tive uma idéia cômica e a anotei. Daí, nasceu
uma cena bastante interessante... tudo muito óbvio. Mas me
apaixonei pela coisa... e, antes que percebesse o que estava
fazendo, tinha escrito uma farsa gozadíssima, em três atos.
— Como se chama? — perguntou Patrick. — O Assassino é
o mordomo?
— Bem que poderia ser... mas, para falar a verdade, dei-lhe o
nome de Os elefantes sempre esquecem. E o que
importa é que foi aceita e vai ser produzida!
— Os elefantes esquecem — murmurou Bunch. — Pensei
que não esquecessem.
O reverendo Julian Harmon se levantou, de um pulo.
— Meu Deus. Com esta conversa toda... esqueci de fazer o
meu sermão!
— De novo por causa de histórias de detetives — comentou
Biincli. — Desta vez, uma história de verdade.
— O senhor poderia falar sobre o "Não Matarás" — sugeriu
Patrick.
— Não — disse Julian, sério. — Não vou usar isso.
— Tem toda a razão, Julian. Eu sei um tema muito melhor,
um tema feliz.
Ela recitou, com a voz clara, a passagem da Bíblia:
— "Mas eis que a primavera chegou, e a voz da tartaruga é
ouvida em toda a Terra..." não sei se é bem assim... mas
vocês conhecem o trecho. Embora eu não tenha a menor
idéia de onde apareceu esta tartaruga. As tartarugas devem
ter vozes horríveis.
— A palavra — explicou o reverendo Harmon — vem de
uma tradução infeliz. Não se refere a tartaruga, mas a um
pássaro. A palavra hebraica, no original, é...
Bunch o interrompeu, abraçando-o.
— De uma coisa eu sei... Você pensa que o Ahasuero da
Bíblia é Artaxerxes Segundo, mas, cá entre nós, é Artaxerxes
Terceiro.
Como sempre, Julian se surpreendeu com a graça que sua
mulher achava naquela anedota.
— Tiglath Pileser vai ajudá-lo no sermão — disse Bunch. —
Ele deve estar muito orgulhoso. Afinal, foi ele que nos
ensinou como aconteceu o curto-circuito.

EPÍLOGO

— Precisamos encomendar uns jornais — disse Edmund a
Phillipa, no dia em que voltaram a Chipping Cleghorn, após
a lua-de-mel. — Vamos dar um pulo à loja do Totmam.
O sr. Totmam, um homem pesado, de gestos lentos,
recebeu-os com amabilidade.
— Um prazer vê-lo de volta, senhor. E madame.
— Queremos encomendar alguns jornais.
— Pois não. E como vai a senhora sua mãe? Bem instalada
em Bournemouth?
— Ela adora aquilo lá — disse Edmund, que não tinha a
menor idéia a respeito mas que, como a maioria dos filhos,
preferia acreditar que tudo ia bem com os pais, esses entes
tão queridos e, freqüentemente, tão irritantes.
— É verdade. Um lugar muito agradável. Passei minhas férias
lá, no ano passado. A sra. Totmam gostou muito.
— Ótimo. E, quanto aos jornais...
— Eu ouvi dizer que estão apresentando uma peça sua em
Londres. Muito divertida, me disseram.
— É, está indo muito bem.
— Ouvi dizer que se chama Os elefantes sempre
esquecem. Aliás, desculpe perguntar, senhor, mas sempre
pensei que era o contrário... que eles não esqueciam, quero
dizer.
— É... é verdade... estou começando a acreditar que esse
título foi um erro. Não faz idéia de quantas pessoas já vieram
me dizer isso.
— Sempre pensei que fosse um fato bastante conhecido.
— E é mesmo. Como aquela história das aranhas comerem
os maridos.
— Ah! Elas fazem isso? Veja só: essa eu não sabia.
— E sobre os jornais...
— The Times, senhor? — perguntou o sr. Totmam,
apontando o lápis.
— Quero o Daily Worker — disse Edmund, com energia.
— E o Daily Telegraph — afirmou Phillipa.
— O New Statesman — replicou Edmund.
— O Radio Times — pediu Phillipa.
— The Spectator — disse Edmund.
— O Jornal de Jardinagem — disse Phillipa. Ambos
fizeram uma pausa para recuperar o fôlego.
— Perfeitamente — disse o sr. Totmam. — E a Gazette,
não?
— Não — disse Edmund.
— Não — disse Phillipa.
— Desculpem, querem ou não a Gazette?
— Não.
— Não.
— Então... — o sr. Totmam não queria que restassem
quaisquer dúvidas. — Então, não querem a Gazette?
— Não.
— Não querem recebê-la todas as semanas?
— Não.
Edmund, para que tudo ficasse bem claro, ainda
acrescentou:
— Agora, o senhor entendeu?
— Ah, sim... entendi, naturalmente.
Edmund e Phillipa saíram, e o sr. Totmam se dirigiu para os
fundos da loja.
— Tem um lápis, querida? — ele perguntou. — O meu
quebrou a ponta.
— Deixe-me ver — disse a sra. Totmam, tirando de suas
mãos o bloco de anotações. — Eu tomo nota. O que querem
eles?
— Daily Worker, Daily Telegraph, Radio Times, New
Statesman, The Spectator... e, também, o Jornal de
Jardinagem.
— O Jornal de Jardinagem — repetiu a sra. Totmam,
escrevendo. — E a Gazette.
— Eles não querem a Gazette.
— O quê?
— Não querem a Gazette. Foi o que disseram.
— Bobagem — disse a sra. Totmam. — Você não ouviu
direito. É claro que querem a Gazette! Todo mundo recebe
a Gazette. Se eles não receberem, como é que vão saber o
que está acontecendo?

As restrições a que a sra. Harmon alude fazem parte dos sacrifícios e do racionamento
generalizado impostos à Inglaterra no esforço de reconstrução do após-guerra. (N. da
T.)
Cutie: bonitinha, engraçadinha. (N. da T.)
O leitor brasileiro teve muito menos chances que o inspetor, já que a pista é
intraduzível em português. A palavra é enquiries (investigações), que pode ser grafada
com e inicial ou com /, sendo corretas ambas as formas. (N. da T.)
O pássaro é uma espécie de pomba, parente da nossa pomba rola. Em inglês, turtlv clave.
(N. da T.)





Os Treze Problemas

Agatha Christie


1930

RECORD


Sumário

1. O Clube das Terças-Feiras 7
2. A Casa do ídolo de Astartéia 20
3. As Barras de Ouro 35
4. A Calçada Tinta de Sangue 48
5. O Móvel do Crime 59
6. A Marca do Polegar de Sâo Pedro 73
7. O Gerânio Azul 87
8. A Dama de Companhia 105
9. Os Quatro Suspeitos 125
10. Tragédia de Natal 142
11. A Erva da Morte 162
12. O Caso do Bangalô 179
13. Morte por Afogamento 196

A LEONARD e KATHERINE WOLLE Y


1
O Clube das Terças-Feiras

"MISTÉRIOS não resolvidos."
Raymond soltou uma baforada de fumaça e repetiu essas
palavras com uma espécie de prazer deliberado e consciente.
"Mistérios não resolvidos."
Olhou satisfeito em derredor. A velha sala, com seu teto
apoiado em largas vigas negras, era mobiliada com belas
peças antigas, que lhe assentavam bem. Daí o olhar de
aprovação de Raymond West. Era escritor de profissão e
apreciava as atmosferas impecáveis. A casa de sua tia Jane
sempre o agradara como o ambiente adequado à
personalidade dela. Raymond olhou para a lareira, que lhe
ficava em frente, onde a tia estava sentada, erecta, na grande
poltrona de espaldar alto. O vestido de Miss Marple era de
brocado preto, muito justo na cintura. Um arranjo de renda
Mechlin descia em cascata na parte dianteira do corpinho.
Ela usava mitenas de renda preta e tinha à cabeça uma touca,
também de renda da mesma cor, sobre as massas sobrepostas
de seus cabelos cor de neve. Estava fazendo um tricô de lã
branca e macia. Seus olhos azuis, desbotados, indulgentes e
bondosos, examinaram com tranqüilo prazer o sobrinho e os
convidados dele. Primeiro pousaram no próprio Raymond,
que era deliberadamente afável e, depois, em Joyce
Lemprière, a artista, com seus cabelos pretos, cortados rente,
e seus estranhos olhos castanho-esverdeados. Em seguida
fitaram Sir Henry Clithering, homem de sociedade, muito
bem vestido. Havia mais duas pessoas na sala: o Dr. Pender,
o idoso clérigo da paróquia, e Mr. Petherick, que era ad-
vogado, homenzinho mirrado sempre a olhar por cima dos
óculos e não através das lentes. Miss Marple dedicou um
breve momento de atenção a todas essas pessoas e voltou ao
seu tricô, com um brando sorriso nos lábios.
Mr. Petherick tossiu uma tossezinha seca, que geralmente
precedia suas observações.
— O que você disse, Raymond? Mistérios não resolvidos?
Ah! De que se trata?
— Não se trata de coisa alguma — declarou Joyce Lemprière.
— Raymond simplesmente gosta do som de suas próprias
palavras e dele mesmo quando as pronuncia.
Raymond West lançou-lhe um olhar de reprovação. Ela
atirou para trás a cabeça e deu uma risada, acrescentando:
— Ele é um impostor, não é mesmo, Miss Marple? A se-
nhora sabe disso, eu tenho certeza.
Miss Marple sorriu com brandura e não deu resposta.
— A própria vida é um mistério não resolvido — afirmou
gravemente o pastor.
Raymond endireitou-se em sua cadeira, atirou fora o cigarro
num gesto brusco e falou assim:
— Não é isso que eu quero dizer. Não estou me referindo a
filosofia. Estou pensando em fatos prosaicos, simples e reais.
Em coisas que acontecem e que ninguém explica.
— Eu sei exatamente a que espécie de coisas você se refere,
meu querido — disse Miss Marple. — Por exemplo, ontem
pela manhã Mrs. Carruthers passou por uma experiência
muito estranha. Comprou uns camarões em conserva na
mercearia Elliot. Entrou em outras duas lojas, fazendo
compras, e, quando chegou em casa, verificou que estava
sem os camarões. Voltou às duas lojas onde havia estado, mas
os camarões tinham desaparecido completamente. Isso me
parece muito extraordinário.
— É um caso muito suspeito — observou Sir Henry
Clithering gravemente.
— Sem dúvida toda espécie de explicações são possíveis —
continuou Miss Marple, ligeiramente mais corada por causa
de sua emoção. — Por exemplo, alguém.. .
— Minha querida tia — interveio Raymond West num tom
meio divertido. — Eu não quero me referir a essa espécie de
incidentes que acontecem nas vilas. Estou pensando em
assassinatos, desaparecimento de pessoas. O tipo de coisa que
Sir Henry poderia nos contar horas a fio, se quisesse.
— Mas eu jamais converso sobre assuntos profissionais —
afirmou Sir Henry modestamente. — Não. Eu não falo sobre
assuntos profissionais.
Até bem pouco tempo Sir Henry havia sido diretor da
Scotland Yard.
— Suponho que muitos assassinatos e problemas nunca são
solucionados pela polícia — insinuou Joyce Lemprière.
— Creio que isso é um fato que se tem de admitir — declarou
Mr. Petherick.
— Eu fico imaginando — comentou Raymond West — que
espécie de cérebros realmente têm maior êxito quando se
trata de desvendar um mistério. A gente sempre acha que o
detetive médio deve sentir-se tolhido por falta de
imaginação.
— Esse é o ponto de vista dos leigos — afirmou Sir Henry
secamente.
— Você de fato quer que se nomeie uma comissão —
declarou Joyce, sorrindo. — Em matéria de psicologia e ima-
ginação, procure-se o escritor...
E curvou-se numa reverência irónica em direção a Raymond,
que permaneceu sério.
— A arte de escrever dá uma certa visão da natureza humana
— afirmou ele gravemente. — O escritor talvez enxergue
motivos que passam despercebidos às pessoas comuns.
— Eu sei, meu caro, que seus livros são muito engenhosos —
declarou Miss Marple. — Mas você acha que as criaturas são
realmente tão desagradáveis como você as cria?
— Minha querida tia — disse Raymond amavelmente —
guarde suas convicções. O céu não me permite que eu as
destrua.
— Eu queria dizer — continuou Miss Marple, franzindo
levemente a testa, enquanto contava os pontos de seu tricô
— que tanta gente me parece não ser boa nem má, mas
simplesmente tola.
Mr. Petherick voltou a tossir sua tossezinha seca. — Você
não acha, Raymond — disse ele —, que atribui demasiado
peso à imaginação? A imaginação é coisa muito perigosa,
como nós, advogados, sabemos muito bem. Ser capaz de
filtrar todas as evidências, imparcialmente, tomar os fatos e
considerá-los como fatos, isso me parece o único método ló-
gico de se chegar à verdade. Eu poderia acrescentar que, em
minha experiência, é o único que dá certo.
— Ora! — exclamou Joyce, atirando para trás seus cabelos
negros, com um jeito indignado. — Aposto que eu seria
capaz de ganhar do senhor nesse jogo. Eu não sou apenas
uma mulher. E diga o que quiser, as mulheres possuem uma
intuição que falta aos homens. Sou também uma artista. Vejo
coisas que o senhor não vê. Além disso, como artista já lidei
com pessoas de toda espécie e de todas as condições. Eu
conheço a vida como nossa querida Miss Marple, aqui, neste
lugar, não tem possibilidade de conhecer.
— Isso eu não sei, minha querida — declarou Miss Marple.
— Coisas muito dolorosas e angustiantes às vezes acontecem
nas vilas.
— Posso falar? — indagou o Dr. Pender, sorrindo. — Eu sei
que está em moda, hoje em dia, desacreditar o clero. Mas nós
ouvimos coisas. Conhecemos um lado do caráter das pessoas
que é um livro fechado para o mundo exterior.
— Bem — disse Joyce — tenho a impressão de que somos
um grupo bastante representativo. Que tal se nós fundás-
semos um clube? Que dia da semana é hoje? Terça-feira? Nós
o chamaremos o Clube das Terças-Feiras. Nós nos
reuniremos uma vez por semana, e cada sócio do clube terá
de propor um problema. Algum mistério que conheça por
experiência própria e do qual, naturalmente, saiba a solução.
Deixe-me ver, quantos somos aqui? Um, dois, três, quatro,
cinco. Deveríamos ser seis.
— Você se esqueceu de mim, querida — disse Miss Marple,
abrindo-se num claro sorriso.
Joyce ficou um tanto surpreendida, mas o dissimulou mais
que depressa, acrescentando:
— Seria ótimo, Miss Marple. Eu não imaginei que a senhora
quisesse participar do jogo.
— Acho que seria muito interessante — afirmou Miss
Marple. — Especialmente com tantos homens de talento
aqui reunidos. Eu receio não ser inteligente, mas tenho
vivido todos esses anos em St. Mary Mead, e isso me dá uma
certa compreensão da natureza humana.
— Estou seguro de que sua cooperação será muito valiosa —
declarou Sir Henry, cortesmente.
— Quem vai ser o primeiro? — indagou Joyce.
— Acho que não há a menor dúvida quanto a isso —
afirmou o Dr. Pender — quando temos a grande sorte de
contar com a presença de um homem tão eminente como
Sir Henry...
Deixou a frase inacabada, inclinando-se numa amável
reverência em direção a Sir Henry.
Este permaneceu em silêncio durante uns dois ou três
minutos. Finalmente, suspirou e tornou a cruzar as pernas,
começando a falar:
— É um pouco difícil para mim escolher precisamente o
tipo de coisa que desejam. Mas acontece que eu julgo
conhecer um exemplo que se enquadra de maneira muito
apropriada às nossas condições. Poderão ter lido algumas
referências a ele nos jornais, há um ano. Foi posto de lado,
naquela ocasião, como mistério não resolvido. Mas a solução
do caso veio ter às minhas mãos, não faz muitos dias.
Os fatos são muito simples. Três pessoas sentaram-se à mesa
para fazer uma ceia que constou, entre outras coisas, de
lagosta em lata. Mais tarde, durante a noite, todas três
passaram mal, tendo sido chamado um médico às pressas.
Duas dessas pessoas se restabeleceram, mas a terceira
morreu.
— Ah! — exclamou Raymond, num tom de aprovação.
— Como eu ia dizendo — prosseguiu Sir Henry — os fatos
foram muito simples. A morte dessa pessoa foi atribuída a
envenenamento pela ptomaína. Foi lavrado um atestado de
óbito nesse sentido, e a vítima foi devidamente sepultada.
Mas as coisas não ficaram nisso.
Miss Marple fez um gesto de assentimento com a cabeça, e
comentou:
— Suponho que começaram a falar sobre o caso. Isso
geralmente acontece.
— Agora eu devo descrever os atores desse pequeno drama
— prosseguiu Sir Henry. — Chamarei o marido e a mulher
de Mr. e Mrs. Jones, e darei à dama de companhia da mulher
o nome de Miss Clark. Mr. Jones era viajante de uma firma
de fabricantes de remédios, homem de boa aparência,
esfuziante, de maneiras vulgares, de seus cinqüenta anos de
idade. Sua esposa era também bastante vulgar, e teria uns
quarenta anos. A dama de companhia, Miss Clark, era
mulher de sessenta, corpulenta e alegre, com um rosto jovial
e rubicundo. Poderíamos dizer que nenhuma dessas pessoas
seria muito interessante.
O problema começou de um modo bem curioso. Mr. Jones,
na noite anterior ao acidente, estivera num pequeno hotel,
em Birmingham. Acontece que o mata-borrão de seu quarto
tinha sido renovado naquele dia, e a camareira do hotel,
aparentemente por não ter mais o que fazer, divertiu-se em
estudar a folha do mata-borrão diante do espelho, logo
depois de Mr. Jones ter escrito uma carta. Passados alguns
dias, saiu nos jornais uma reportagem sobre a morte de Mrs.
Jones, em conseqüência de haver ingerido lagosta em lata. A
camareira contou às colegas de serviço as palavras que
decifrara no mata-borrão. Eram as seguintes: Inteiramente
dependente de minha mulher... quando ela estiver
morta eu irei... centenas e milhares...
— Talvez vocês se lembrem de que houve recentemente o
caso de uma mulher envenenada pelo marido. Pouca coisa
bastou para inflamar a imaginação daquelas empregadas: Mr.
Jones planejara matar a esposa e herdar centenas de milhares
de libras! Acontece que uma delas tinha parentes que
moravam na pequena cidade onde residiam os Jones.
Escreveu a eles, que lhe responderam a carta. Parece que Mr.
Jones se mostrara interessado na filha do médico do lugar,
uma bonita mulher de trinta e três anos. O escândalo
começou a espalhar-se à boca pequena. Foi dirigida uma
petição ao Ministério do Interior. Inúmeras cartas anônimas
começaram a chover sobre a Scotland Yard, todas acusando
Mr. Jones de ter assassinado a esposa. Agora posso afirmar
que sempre pensamos que tudo não passasse de mexericos de
aldeia. Apesar disso, para tranqüilizar a opinião pública, foi
deferido um requerimento de exumação do cadáver. O caso
era desses de superstição coletiva, sem qualquer base sólida,
mas essa superstição provou ser surpreendentemente
justificada. Em conseqüência da autópsia, foi encontrada no
cadáver uma dose de arsênico suficiente para deixar per-
feitamente claro que a falecida fora envenenada. Competia à
Scotland Yard, em colaboração com as autoridades locais,
provar como o arsênico fora administrado à mulher, e quem
o fizera.
— Ah! — exclamou Joyce. — Estou gostando. Isso é que é
um caso!
— As suspeitas naturalmente recaíram sobre o marido —
continuou Sir Henry. — Ele se beneficiara com a morte da
mulher. Não recebeu as centenas de milhares de libras,
romanticamente imaginadas pela camareira do hotel, mas a
sólida quantia de 8000 esterlinos. Não tinha dinheiro, salvo o
que ganhava, e era homem de hábitos um tanto
extravagantes, tendo certo pendor pelas companhias
femininas. Nós investigamos da maneira mais delicada
possível os rumores de sua ligação com a filha do médico. No
entanto, embora parecesse claro que houvera uma forte
amizade entre ambos, durante certo tempo, dois meses antes
haviam rompido abruptamente. E tudo levou a crer que não
se haviam encontrado mais desde então. O próprio médico,
homem de idade, um tipo franco e acima de qualquer
suspeita, ficou estarrecido com o resultado da autópsia. Tinha
sido chamado por volta de meia-noite, encontrando as três
pessoas passando mal. Percebeu imediatamente que o estado
de Mrs. Jones era grave, e mandou buscar umas pílulas de
ópio em sua casa, para aliviar-lhe as dores. Mas apesar de
todos os seus esforços, ela não resistiu. Em momento algum,
entretanto, ele suspeitou que tivesse havido algo de errado.
Estava convencido de que a morte de Mrs. Jones fora
causada pelo botulismo. A ceia, naquela noite, consistira em
lagosta enlatada, salada, bolo confeitado, pão e queijo. Infe-
lizmente não sobrara um só pedaço de lagosta, e a lata tinha
sido jogada no lixo. Ele interrogou a jovem empregada, Gla-
dys Lynch, que se mostrou muito perturbada, chorando a
mais não poder, extremamente nervosa. Custou a conseguir
que a moça se ativesse ao que interessava, e ela declarou,
repetidamente, que a lata não estava de maneira alguma
estufada, e a lagosta lhe parecera em perfeitas condições.
Esses eram os fatos em que tínhamos de nos basear. Se Jones
administrara criminosamente arsênico à mulher, parecia
claro que não o poderia ter feito em qualquer dos alimentos
ingeridos na ceia, pois as três pessoas haviam participado da
refeição; Restava ainda outra circunstância, ou seja, o fato de
que Jones regressara de Birmingham no momento exato em
que a ceia estava sendo servida. Por isso não teria tido
oportunidade de adicionar qualquer coisa aos alimentos.
— E a dama de companhia? — indagou Joyce. — A mulher
forte e de rosto bem humorado.
Sir Henry assentiu num gesto de cabeça, e prosseguiu:
— Não nos esquecemos de Miss Clark, isso eu lhes posso
assegurar. Mas parecia duvidoso que ela tivesse algum motivo
para cometer o crime. Mrs. Jones não lhe deixou qualquer
legado, e o único resultado da morte de sua patroa foi que ela
teve de procurar outro emprego.
— Isso parece excluí-la do caso. — declarou Joyce
pensativamente.
— Acontece que um de meus inspetores não tardou em
descobrir um fato importante — continuou Sir Henry. —
Naquela noite, após a ceia, Mr. Jones fora até a cozinha e
pedira um prato de mingau de farinha de milho para a
esposa, que se queixava de não estar passando bem.
Permaneceu na cozinha à espera de que Gladys Lynch
preparasse o mingau e, em seguida, levou-o, ele próprio, ao
quarto da esposa. Admito que isso parecia resolver o caso.
O advogado concordou com um sinal de cabeça, declarando
o seguinte:
— O motivo — e acentuou o argumento com o indicador
erguido. — A oportunidade. Sendo o homem viajante de
uma firma de remédios, tinha fácil acesso ao veneno.
— E era pessoa sem grande fibra moral — acrescentou o
pastor.
Raymond West estava olhando fixamente para Sir Henry e
observou:
— Há um aspecto estranho nesse caso. Por que o senhor
não prendeu o homem?
Sir Henry deu um sorriso bastante irônico e declarou o
seguinte:
— Esse é o aspecto ingrato do caso. Até então tudo havia
corrido sem dificuldades. Mas depois tivemos de enfrentar
um obstáculo. Jones não foi preso porque ao interrogarmos
Miss Clark, ela declarou que havia tomado toda a tigela de
mingau, e não Mrs. Jones. Sim, parece que se dirigiu ao
quarto de Mrs, Jones, como era de seu hábito.. N^rs. Jones
estava sentada na cama, tendo ao seu lado o prato de mingau.
E lhe disse: "Não estou me sentindo nada bem, Milly. Isso é
bem feito, creio eu, por haver comido lagosta à noite. Pedi
ao Alberto que me trouxesse um prato de mingau. Mas agora
acho que não estou com vontade de tomar esse mingau."
"Que pena", comentou Miss Clark. "Está muito bem feito,
sem nenhum caroço. Gladys é de fato uma boa cozinheira.
Hoje em dia parece que muito poucas moças são capazes de
fazer um mingau decente. Pois eu declaro que estou com
bastante vontade de tomar o mingau. Estou com uma fome!"
Mrs. Jones disse o seguinte: "Eu acho que você deve estar
mesmo com fome. Com esse seu jeito maluco!"
— Devo esclarecer — acrescentou Sir Henry — que Miss
Clark, alarmada com o fato de estar cada vez mais gorda, an-
dava fazendo um regime geralmente conhecido por dieta do
Dr. Banting, isto é, eliminação de farináceos na alimentação.
Mrs. Jones teria dito: "Isso não faz bem a você, Milly. Se
Deus a fez gorda, Ele quis que você fosse gorda. Tome todo
esse prato de mingau. Vai lhe fazer o maior benefício deste
mundo."
— Miss Clark começou imediatamente a tomar o mingau —
continuou Sir Henry. — Desse modo, vê-se que nossos
argumentos contra o marido foram destruídos. Convidado a
dar uma explicação acerca do mata-borrão, Jones o fez sem
perda de tempo. A carta, esclareceu ele, era uma resposta à
que havia recebido de um irmão, que estava na Austrália e
lhe pedira um dinheiro. Escrevera ao irmão dizendo que
dependia inteiramente da mulher. Quando ela morresse,
teria o controle do dinheiro e ajudaria o irmão, se isso fosse
possível. Lamentou a impossibilidade de auxiliá-lo, mas
observou que havia centenas e milhares de pessoas no
mundo que se encontravam na mesma situação lamentável.
— Então foi assim que o argumento contra Mr. Jones foi por
água abaixo? — indagou o Dr. Pender.
— Exatamente — declarou gravemente Sir Henry. — Nós
não podíamos assumir o risco de prender Jones sem base.
Houve um silêncio e, em seguida, Joyce indagou:
— E isso foi tudo?
— O caso permaneceu nesse pé — continuou Sir Henry —
durante todo o ano passado. Agora a verdadeira solução está
em poder da Scotland Yard. Dentro de dois ou três dias,
todos irão provavelmente ler alguma coisa nos jornais a
respeito do assunto.
— A verdadeira solução! — exclamou Joyce pensativamente.
— Qual será! Vamos refletir durante uns cinco minutos e,
depois, dar nossas opiniões.
Raymond West concordou com um gesto de cabeça e mar-
cou o tempo em seu relógio. Quando se esgotaram os cinco
minutos, olhou para o Dr. Pender, indagando:
— O senhor quer falar em primeiro lugar? O velho pastor
sacudiu a cabeça, dizendo:
— Confesso que estou inteiramente perplexo. Não consigo
deixar de pensar no marido. De certo modo ele deve ser o
culpado. Mas não atino como praticou o crime. Posso apenas
sugerir que deve ter dado o veneno à esposa, empregando
algum processo que ainda não foi descoberto, embora, nesse
caso, não vejo como o caso tenha ficado esclarecido depois
de tanto tempo.
— Você, Joyce? — indagou Raymond.
— Foi a dama de companhia! — exclamou Joyce
categoricamente. — Foi a dama de companhia, não há a
menor dúvida. Como havemos de saber que motivos ela
possa ter tido? Só porque era gorda e feia, isso não quer dizer
que não estivesse apaixonada por Jones. Podia odiar a mulher
dele por alguma outra razão. Pensem o que é ser dama de
companhia. Ter de ser sempre agradável, concordar com
tudo, conter-se, reprimir-se. Um belo dia ela não agüentou
mais e matou a mulher. Provavelmente pôs o arsênico no
prato de mingau. E toda essa história de ter ela mesma
tomado o mingau é pura mentira.
— Mr. Petherick, o que acha o senhor? —. indagou Ray-
mond.
O advogado juntou as pontas dos dedos, num gesto
profissional, e afirmou:
— Eu estimaria não dizer... Diante dos fatos, eu estimaria não
dizer coisa alguma.
— Mas o senhor tem de dizer alguma coisa, Mr. Petherick —
declarou Joyce. — O senhor não pode deixar de fazer um
pronunciamento, ficar afirmando que "sem qualquer idéia
preconcebida", portar-se como se estivesse diante de um
tribunal. O senhor tem de tomar parte no jogo.
— Diante dos fatos — declarou Mr. Petherick — parece não
haver nada a dizer. É minha opinião particular, tendo em
vista, aliás, que em muitos casos desse tipo o marido foi o
culpado. A única explicação que se coaduna com os fatos
parece ser que Miss Clark, por um motivo qualquer,
deliberadamente lhe deu cobertura. Talvez tenha havido
entre eles um arranjo qualquer de ordem financeira. Ele
poderá ter percebido que seria considerado suspeito, e ela,
vendo diante de si apenas um futuro de pobreza, poderá ter
concordado em contar a história de haver tomado o mingau,
em retribuição pelo pagamento de uma quantia substancial a
ser-lhe entregue em caráter particular. Se o caso foi esse, sem
dúvida foi muitíssimo irregular. Em verdade, muitíssimo
irregular.
— Eu discordo de todos — declarou Raymond. — Todos se
esqueceram de um fator importante: a filha do médico. Eu
darei minha interpretação do caso. A lagosta em lata estava
estragada. Foi responsável pelos sintomas de envenena-
mento. Mandaram chamar o médico. Ele vê que Mrs. Jones,
tendo comido mais lagosta do que os outros, estava sentindo
muitas dores. Manda buscar, como o senhor nos informou,
algumas pílulas de ópio. Não vai ele próprio apanhá-las,
manda buscar as pílulas. Quem irá entregar essas pílulas de
ópio ao mensageiro? Sua filha, é claro. Muito provavelmente
ela aviava as receitas para ele. Estava apaixonada por Jones e,
nesse momento, todos os seus piores instintos vieram à tona:
ela percebeu que estava em suas mãos obter a liberdade dele.
As pílulas que enviou continham puro arsênico branco. Essa
é minha solução.
— Agora, Sir Henry, conte-nos tudo — disse Joyce, cheia de
ansiedade.
— Um momento — observou Sir Henry. — Miss Marple
ainda não se pronunciou.
— Ah, meu Deus! — exclamou ela. — Deixei escapar outro
ponto. Eu estava tão interessada na história! Ela me faz
lembrar o velho Dr. Hargreaves, que morou no alto da
colina. Sua esposa nunca teve a mais leve suspeita de nada,
até que ele morreu, deixando toda a fortuna para uma mulher
com quem vivera e de quem havia tido cinco filhos. Tinha
sido sua empregada durante certa época. "Moça tão boa",
Mrs. Hargreaves sempre dizia. Digna de toda confiança.
Virava os colchões todos os dias, menos nas sextas-feiras,
naturalmente. E o velho Hargreaves mantendo casa com essa
mulher, na cidade vizinha, continuando a ser o mordomo da
igreja e a fazer circular a bacia de esmolas, todos os
domingos.
— Minha querida tia Jane — interveio Raymond com certa
impaciência. — O que tem o falecido Hargreaves a ver com
o caso?
— Essa história me fez pensar nele imediatamente — de-
clarou Miss Marple. — Os fatos são tão parecidos! Eu supo-
nho que a pobre moça já confessou e isso é o que o senhor
sabe, Sir Henry.
— Que moça? — indagou Raymond. — Minha tia, de quem a
senhora está falando?
— Estou me referindo àquela pobre moça, Gladys Lynch,
naturalmente. A que ficou terrivelmente agitada quando o
médico falou com ela. Bem que tinha motivos para ficar
nervosa, coitadinha! Espero que o perverso do Jones seja
enforcado, pois transformou a pobre menina numa assassina.
Suponho que irão enforcá-la também, pobrezinha!
— Eu creio, Miss Marple, que a senhora está cometendo um
ligeiro equívoco — começou a dizer Mr. Petherick.
Miss Marple, no entanto, sacudiu a cabeça obstinadamente e
olhou para Sir Henry, indagando:
— Eu estou com a razão, não estou? Tudo me parece claro.
As centenas e milhares e o bolo confeitado, quero dizer, não
se pode errar.
— Que história é essa de bolo confeitado e de centenas e
milhares? — indagou Raymond.
— As cozinheiras quase sempre colocam "centenas e
milhares" nos bolos confeitados, meu querido — disse ela. —
São uns confeitos cor-de-rosa e brancos, de açúcar. Quando
ouvi dizer que eles tinham comido um bolo confeitado, na
ceia, e o que o marido estivera escrevendo a alguém sobre
"centenas e milhares", naturalmente liguei as duas coisas. Aí
é que estava o arsênico, nas "centenas e milhares". Ele o
deixou com a moça e lhe disse que o pusesse no bolo.
— Mas isso é impossível — afirmou Joyce pressurosamente.
— Todos comeram o bolo.
— Não! — exclamou Miss Marple. — A dama de companhia
estava fazendo regime, como você se lembra. Ninguém
come bolo confeitado quando está fazendo regime. E eu
acredito que Jones tenha raspado os confeitos de sua fatia de
bolo, deixando-os na borda do prato. Foi uma idéia
inteligente, embora muito perversa.
Todas as demais pessoas estavam de olhos fixos em Sir
Henry.
— É uma coisa muito curiosa — declarou ele lentamente. —
Miss Marple parece ter descoberto a verdade. Jones havia
posto Gladys Lynch "em apuros", como se diz. Ela estava à
beira do desespero. Ele queria afastar a esposa e prometera
casar-se com Gladys quando Mrs. Jones morresse.
Providenciou os confeitos e os deu a Gladys, instruindo-a
como deveria usá-los. Gladys Lynch faleceu há uma semana.
O filho dela morreu ao nascer, e Jones a abandonou por
outra mulher. Quando estava agonizando, Gladys contou a
verdade.
Houve um momento de silêncio e, em seguida, Raymond
declarou o seguinte:
— Bem, tia Jane, um ponto à seu favor. Eu não consigo
imaginar como a senhora conseguiu descobrir a verdade.
Nunca teria pensado que uma empregadinha de cozinha
estivesse ligada ao caso.
— Não, meu querido — disse Miss Marple. — Mas você não
conhece a vida como eu. Um homem do tipo de Jones,
vulgar e jovial! Logo que soube que havia uma bonita jovem
dentro de casa, teve certeza de que não a deixaria ficar sozi-
nha. Tudo isso é muito angustiante e penoso. Não é assunto
para uma conversa agradável. Eu não consigo lhes dar uma
idéia do choque que sofreu Mrs. Hargreaves e daqueles nove
dias de espanto para a vila.

2
A Casa do ídolo de Astartéia

— E AGORA, DR. PENDER, o que o senhor vai nos contar?
O velho pastor sorriu levemente, dizendo: — Minha vida
tem transcorrido em lugares tranqüilos. Muito poucos
acontecimentos memoráveis cruzaram meus caminhos. No
entanto, certa vez, quando eu era jovem, tive uma
experiência muito estranha e muito trágica.
— Ah! — exclamou Joyce Lemprière num tom de voz
encorajador.
—Nunca me esqueci dessa experiência — prosseguiu o
pastor. — Causou em mim profunda impressão naquele tem-
po e, até hoje, com um ligeiro esforço de memória, ainda sou
capaz de sentir o pasmo e o horror daquele terrível
momento, quando vi um homem cair sem vida, não
havendo, aparentemente, a interferência de qualquer agente
mortífero.
— Você me faz sentir calafrios de horror, Pender —
queixou-se Sir Henry.
— Aquilo também me causou calafrios, como você diz
— comentou Pender. — Desde então eu nunca mais
ridicularizei as pessoas que empregam a palavra "atmosfera".
Isso existe. Há lugares que são impregnados, saturados, de
influências boas ou más, capazes de fazer as pessoas sentirem
seu poder.
— Aquela casa, Os Larthes, é muito infortunada — observou
Miss Marple. — O velho Dr. Smithers perdeu toda sua
fortuna e foi obrigado a deixá-la. Então os Carslakes a ocupa-
ram e Johnny Carslake caiu de uma escada e quebrou a
perna. A Sra. Carslake teve de ir para o Sul da França, por
questões de saúde, e agora os Burdens tomaram a casa. Ouço
dizer que o pobre Mr. Burden vai ter de ser operado
urgentemente.
— Creio que existem superstições demais a respeito dessas
coisas — declarou Mr. Petherick. — Muitos prejuízos são
causados às propriedades por causa dessas histórias tolas que
circulam impensadamente.
— Pois eu conheço um ou dois fantasmas dotados de
personalidades muito fortes — observou Sir Henry, rindo
por entre os dentes.
— Eu acho — disse Raymond — que nós deveríamos deixar
que o Dr. Pender continuasse sua história.
Joyce levantou-se e apagou as duas luzes para que a sala
ficasse iluminada apenas pelo bruxuleante fogo da lareira.
— Atmosfera — disse ela. — Agora nós podemos continuar.
O Dr. Pender sorriu para Joyce, afundou-se em sua poltrona,
tirou o pincenê e começou a contar sua história com um tom
de voz suave e evocativo.
— Não sei se algum dos presentes conhece Dartmoor. O
lugar a que me refiro fica situado nos confins de Dartmoor. É
uma propriedade encantadora, embora tivesse estado à venda
durante vários anos, sem encontrar comprador. O lugar
talvez fosse um tanto desolado no inverno, mas a paisagem
era magnífica e havia certos aspectos curiosos e originais na
propriedade. Foi comprada por um homem chamado
Haydon — Sir Richard Haydon. Eu o conhecera nos tempos
da faculdade e, embora o tivesse perdido de vista durante
alguns anos, os velhos laços de amizade ainda perduravam.
Assim, aceitei com prazer seu convite para visitar O Bosque
Silencioso. Esse era o nome da propriedade que ele acabara
de adquirir.
O grupo não era muifo grande. Incluía o próprio Richard
Haydon, seu primo, Elliot Haydon, e também Lady
Mannering, acompanhada de uma filha pálida e bastante
apagada, de nome Violet. Havia um certo Capitão Rogers e a
esposa, pessoas muito chegadas à equitação e de rostos
queimados pelo sol, que só viviam para seus cavalos e
caçadas. Também se achava presente um jovem, Dr.
Symonds, e ainda Miss Diana Ashley. Eu sabia alguma coisa
acerca desta última pessoa. Seu retrato aparecia
freqüentemente nas colunas sociais: era uma das beldades
daquela temporada. Sua aparência era de fato muito
impressionante: era morena, alta, tinha uma linda pele, de
um tom muito igual e leitoso. E seus olhos, semicerrados e
oblíquos, lhe davam a curiosa e interessante aparência de
mulher do Oriente. Tinha uma voz maravilhosa, grave, cujo
timbre fazia lembrar um sino.
Percebi imediatamente que meu amigo, Richard Haydon,
estava muito interessado por ela, e imaginei que aquela
reunião fora arranjada simplesmente para servir de ambiente
para aquela moça. Quanto aos sentimentos dela, eu nada
poderia afirmar com segurança. Era caprichosa em seus
favores. Um dia, conversava com Richard, excluindo todos
os demais de suas atenções, ao passo que, em outro dia, dava
preferência ao primo dele, Elliot, parecendo mal se
aperceber da existência de Richard. Em seguida, dirigia seu
mais feiticeiro sorriso ao tranqüilo e reservado Dr. Symonds.
Na manhã seguinte à minha chegada, nosso anfitrião nos
mostrou toda a propriedade. A casa, em si mesma, nada tinha
de notável: era uma sólida construção, de granito do
Devonshire. Fora erguida para perdurar e resistir ao mau
tempo. Não era romântica, embora muito confortável. De
suas janelas descortinava-se o panorama da charneca, com
suas grandes e ondulantes colinas e seus montes irregulares,
que as coroavam, gastos pelas intempéries.
Nas encostas de um desses morros, o mais próximo da casa,
havia vários círculos de cabanas, remanescentes de tempos
idos, remontando à tdade da Pedra. Em outro monte havia
um montículo que fora recentemente escavado e no qual
tinham sido encontrados instrumentos e ferramentas de
bronze. Haydon estava se interessando por antiguidades e
conversava conosco com grande energia e entusiasmo sobre
o assunto. Aquele lugar, explicou-nos, era especialmente
fértil em restos do passado. Haviam sido descobertos
vestígios de habitantes de cabanas, do Neolítico, druidas,
romanos e até mesmo traços dos primeiros fenícios. Mas
aquele lugar era o mais interessante de todos, disse ele. E eu
sabia seu nome: Bosque Silencioso. Bem, era fácil perceber
de onde provinha esse nome.
Ele apontou com a mão. Aquele trecho da região era bastante
calvo, todo ele rochas, urzes e fetos. Todavia,
aproximadamente a uns cem metros da casa havia um bosque
formado de árvores que haviam sido plantadas muito juntas
umas das outras.
É um remanescente de tempos muito remotos, disse
Haydon. As árvores primitivas tinham morrido, mas haviam
sido replantadas. O bosque fora conservado muito à maneira
que apresentaria, talvez, na época dos colonizadores fenícios.
E nos convidou a vê-lo.
Nós todos o seguimos. No momento em que entramos no
bosque, eu me senti tomado de uma estranha opressão. Acho
que foi por causa do silêncio. Parecia que nenhum pássaro
fazia seu ninho naquelas árvores. Nelas reinava uma
atmosfera de desolação e horror. Reparei que Haydon estava
olhando para mim com um estranho sorriso.
— Você está sentindo alguma coisa por causa deste lugar,
Pender? Antagonismo? Desconforto?
— Eu não gosto do lugar — respondi tranqüilamente.
— Você está no seu direito. Ele foi um baluarte de um dos
mais velhos inimigos de sua fé. Este é o Bosque de Astartéia.
— Astartéia?
— Astartéia, Istar, ou Astoret, como você quiser chamá-la.
Eu prefiro o nome fenício de Astartéia. Creio que se sabe da
existência de um bosque de Astartéia no país. Fica no Norte,
junto à Muralha Romana. Não tenho provas disso, mas
gostaria de acreditar que nós possuímos aqui um verdadeiro e
autêntico bosque de Astartéia. Aqui mesmo, dentro deste
compacto círculo de árvores, eram cumpridos ritos sagrados.
— Ritos sagrados — murmurou Diana Ashley. — Seus olhos
tinham o aspecto sonhador de quem estivesse contemplando
algo de muito remoto. — Que ritos eram esses? — indagou.
— Não eram nada respeitáveis — afirmou o Capitão Rogers,
soltando uma estrondosa gargalhada, desprovida de qualquer
sentido. — Eu imagino que deveriam ser algo de "quente"
Haydon não prestou atenção a isso e prosseguiu:
— No centro do bosque devia haver um templo. Eu não sou
muito chegado a templos, mas me permito um pouco de
fantasia.
Naquele momento nós havíamos desembocado numa pe-
quena clareira que ficava no meio do círculo das árvores.
Nela havia uma construção que se assemelhava a um
pavilhão de jardim, feita de pedra. Diana Ashley olhou
indagadoramente para Haydon.
— É a Casa do ídolo — disse ele. — A Casa do Ídolo de
Astartéia.
Haydon encaminhou-se para a construção. E-vi seu interior,
sobre uma coluna de ébano, tosca, repousava uma pequena e
curiosa imagem que representava uma mulher com chifres
em forma de crescente, sentada num leão.
— Astartéia dos fenícios — disse Haydon. — A deusa da Lua.
— A deusa da Lua! — exclamou Diana. — Oh! Vamos
promover uma orgia desvairada esta noite. Todos nós
fantasiados. E viremos até aqui, ao luar, celebrar os ritos de
Astartéia.
Eu fiz um movimento súbito, e Elliot Haydon, o primo de
Richard, voltou-se rapidamente para mim, indagando:
— O senhor não está gostando disso, não é mesmo?
— Não — respondi gravemente. — Não estou.
Ele olhou para mim de um jeito curioso, observando o
seguinte:
— Mas é só de brincadeira. Dick não pode afirmar com
certeza que este bosque seja realmente sagrado. É apenas
uma idéia que ele tem. Gosta de brincar com as idéias. De
qualquer maneira, se fosse. . .
—- Se fosse?
— Bem — ele prosseguiu, rindo de um modo contrafeito. —
O senhor não acredita nessas coisas. O senhor, um pastor!
— Eu não tenho assim tanta certeza de que um pastor não
deva acreditar nisso — eu acrescentei.
— Mas tudo acabou. Está terminado — ele declarou.
— Eu não tenho tanta certeza a esse respeito — eu comentei,
pensativamente. — Sei apenas o seguinte: de modo geral eu
não sou um homem sensível a atmosferas. Mas logo que
penetrei neste bosque, senti uma estranha e curiosa im-
pressão: fui dominado por um mau presságio, um sentimento
de ameaça.
Ele me olhou por cima dos ombros, de um jeito constran-
gido, e acrescentou:
— Sim, o lugar é estranho, de certo modo. Sei o que o
senhor quer dizer, mas suponho que é apenas a imaginação
que nos faz ter essa impressão. O que você acha, Symonds?
O médico, que permanecera calado durante uns momentos,
respondeu com tranqüilidade:
— Eu não gosto daqui. Não lhes posso dizer o motivo. Mas
por alguma razão qualquer, não gosto deste lugar.
Naquele momento, Violet Mannering aproximou-se de mim
e exclamou:
— Eu detesto este lugar! Detesto! Vamos sair daqui.
Nós nos afastamos e as outras pessoas nos seguiram. Somente
Diana Ashley deixou-se ficar diante da Casa do Ídolo,
contemplando intensamente a imagem de Astartéia.
O dia estava excepcionalmente quente e radioso, e a sugestão
de Diana para que houvesse um baile a fantasia naquela noite
foi recebida com assentimento geral. Aconteceram as risadas
de sempre, os murmúrios e as costuras secretas e frenéticas.
Quando nós aparecemos para jantar, houve as habituais
exclamações, de alegria. Rogers e sua mulher eram um casal
neolítico, moradores de cabanas, o que explicava o súbito
desaparecimento dos tapetes da lareira. Richard Haydon se
considerava um marinheiro fenício, seu primo era um chefe
pirata, ao passo que o Dr. Symonds era um mestre-cuca,
Lady Mannering uma enfermeira e sua filha uma escrava
circassiana. Eu me vestira de monge, um tanto
exageradamente. Diana Ashley desceu por último à sala de
jantar, e nos causou um certo desapontamento, pois vestia
um amplo dominó preto.
— A desconhecida — declarou graciosamente. — Isso é o
que eu sou. Agora vamos jantar.
Depois do jantar, nós saímos da casa. A noite era linda,
quente, agradável, e a lua estava nascendo.
Andamos de um lado para outro, conversando, e o tempo
passou bem depressa. Deve ter sido uma hora depois que
reparamos que Diana não estava em nossa companhia.
— Com certeza não foi se deitar — disse Richard Haydon.
Violet Mannering sacudiu a cabeça e declarou:
— Isso não. Eu a vi seguir naquela direção, mais ou menos a
um quarto de hora — enquanto falava, apontou para o
bosque de árvores, que se mostravam negras e sombrias ao
luar.
— O que estará ela querendo fazer? — indagou Richard
Haydon. — Sou capaz de jurar que é alguma espécie de
bruxaria. Vamos ver.
Nós seguimos todos juntos, um tanto curiosos por saber o
que Miss Ashley teria se decidido a fazer. No entanto, eu
senti uma estranha relutância em penetrar naquele escuro e
agourento cinturão de árvores. Algo de mais forte do que eu
parecia me refrear, instando comigo para que não entrasse
naquele lugar. Eu me senti mais convencido do que nunca da
malignidade essencial daquele sítio. Creio que algumas das
outras pessoas experimentaram a mesma sensação, embora
estivessem pouco inclinadas a admiti-lo. As árvores haviam
sido plantadas tão perto umas das outras que o luar não
conseguia filtrar-se através delas. Ouviam-se em derredor
dezenas de ruídos, murmúrios e suspiros. A atmosfera era
essencialmente sobrenatural e, por um instintivo
assentimento unânime, permanecemos muito juntos uns dos
outros.
De repente chegamos à clareira, no meio do bosque, e ali
permanecemos imóveis e atônitos: à entrada da Casa do
Ídolo erguia-se, erecta, uma figura a tremeluzir, cingida por
uma gaze diáfana e com dois crescentes a projetarem-se da
massa escura de seus cabelos.
— Meu Deus! — exclamou Richard Haydon, com o suor a
jorrar-lhe da fronte.
Miss Violet Mannering foi mais incisiva, exclamando:
— Mas é Diana! O que ela fez consigo mesma? Parece bem
diferente!
À soleira da porta, o vulto ergueu as mãos. Deu um passo à
frente e falou, numa voz cantante, alta e suave:
— Eu sou a sacerdotisa de Astartéia. Tomem cuidado os que
de mim se aproximarem porque tenho a morte nas mãos.
— Não faça isso, querida — protestou Lady Mannering. —
Você nos faz ficar arrepiados.
Haydon avançou em direção a ela. —- Meu Deus, Diana! —
exclamou. — Você está maravilhosa!
Meus olhos tinham se habituado ao luar e eu conseguia
enxergar tudo com maior nitidez. Ela parecia de fato muito
diferente, como Violet observara. Seu rosto agora possuía
traços mais caracteristicamente orientais, e seus olhos
pareciam mais rasgados, com um brilho cruel. E o estranho
sorriso de seus lábios eu nunca tinha visto antes.
— Cuidado! — ela exclamou, num tom de advertência. —
Não vos aproximeis da Deusa. Se alguém puser a mão em
mim isso significará a morte.
— Você está maravilhosa, Diana — disse Haydon. — Mas
pare! Não sei porque, mas não estou gostando disso.
Ele começou a aproximar-se dela, avançando pela grama,
Diana estendeu-lhe a mão, exclamando:
— Pare! Mais um passo e eu o destruirei com a magia de
Astartéia.
Richard Haydon deu uma risada e apertou o passo. De
repente, aconteceu uma coisa estranha. Ele cambaleou
durante uns momentos e, em seguida, pareceu tropeçar,
caindo a fio comprido.
Não se levantou mais, permanecendo deitado onde havia
caído de bruços.
Subitamente, Diana começou a dar umas gargalhadas
histéricas. Aquilo era horrível, rompendo o silêncio da
clareira.
Soltando uma praga, Elliot deu um salto para a frente,
dizendo:
— Levante-se, Dick! Levante-se, homem!
Mas Richard Haydon permanecia deitado onde havia caído.
Elliot chegou junto dele, ajoelhou-se e o virou com cuidado.
Debruçou-se sobre ele, perscrutando-lhe o rosto.
Em seguida, levantou-se rapidamente, hesitou durante alguns
momentos, e disse:
— Doutor! Doutor, por amor de Deus! Eu acho que ele está
morto!
Symonds correu e Elliot veio juntar-se a nós, caminhando
muito devagar. Estava olhando para as mãos de um jeito que
eu não entendi.
Naquele momento, Diana soltou um grito alucinado.
— Eu o matei! — exclamou. — Oh, meu Deus! Eu não tive
essa intenção. Mas eu o matei!
E desmaiou, caindo pesadamente sobre a relva. Mrs. Rogers
deu um grito:
— Oh! Vamos sair deste lugar horrível! — E desatou no
pranto, acrescentando: — Aqui tudo poderá acontecer. É
horrível!
Elliot pôs a mão em meu ombro, murmurando:
— Não pode ser! Isso não pode ser! Um homem não pode
morrer dessa maneira. Isso é contra a natureza.
Eu procurei acalmá-lo.
— Há alguma explicação. Seu primo deveria ter alguma
doença cardíaca insuspeitada. O choque, a emoção...
Ele me interrompeu, dizendo:
— O senhor não compreende — e ergueu as mãos para que
eu as visse. Então reparei que estavam tintas de sangue.
— Dick não morreu de choque. Foi apunhalado. Apunhalado
no coração, e não existe nenhuma arma.
Eu o fitei de maneira incrédula. Naquele momento, Symonds
ergueu-se, tendo acabado de examinar o corpo, e veio em
nossa direção. Estava pálido. Todo o seu corpo tremia. E
disse:
— Nós não estamos todos loucos? Que espécie de lugar é
este, onde acontece uma coisa dessas?
— Então é verdade? — eu indaguei.
Ele fez que "sim" com a cabeça. E acrescentou:
— A ferida é de tal natureza que deve ter sido produzida por
um longo e fino punhal. Mas aqui não há nenhum punhal!
Nós nos entreolhamos, e Elliot Haydon declarou:
— Mas deve haver. Deve ter caído no chão. Há de estar em
algum lugar. Vamos procurá-lo.
Nós examinamos o terreno em derredor, mas foi em vão.
Subitamente, Violet Mannering declarou o seguinte:
— Diana tinha alguma coisa na mão. Uma espécie de adaga.
Eu a vi. Eu vi a arma brilhando quando ela o ameaçou.
Elliot Haydon sacudiu a cabeça e objetou:
— Ela sempre se manteve a mais de três metros dele. Lady
Mannering estava inclinada sobre a moça ali prostrada no
chão, e disse:
— Ela não tem nada na mão. Não vejo coisa alguma no
chão. Você tem certeza de que viu o punhal, Violet? Eu não
vi.
O Dr. Symonds aproximou-se de Diana, dizendo:
— Nós precisamos levá-la para a casa. Você quer me ajudar,
Rogers?
Nós transportamos a jovem para a casa. Estava sem sentidos.
Em seguida, voltamos ao bosque e carregamos o corpo de
Richard.
O Dr. Pender interrompeu sua narrativa, olhou em derredor
e declarou em tom de desculpa:
— Hoje nós procederíamos melhor, por causa da difusão dos
romances policiais. Qualquer menino sabe que um corpo
deve ser deixado onde for encontrado. Mas naquele tempo
nós não sabíamos disso e, por conseguinte, levamos o corpo
de Richard Haydon para seu quarto, naquela casa quadrada,
de granito. O mordomo foi despachado de bicicleta para
chamar a polícia. Era uma viagem de cerca de quinze
quilômetros.
Foi então que Elliot Haydon me chamou à parte, dizendo:
— Escute uma coisa. Vou voltar ao bosque. Aquela arma tem
de ser encontrada.
— Se é que havia uma arma — eu acrescentei num tom de
dúvida.
Ele segurou meu braço e o sacudiu com força dizendo:
— O senhor meteu na cabeça essa superstição. Está pen-
sando que a morte dele foi uma coisa sobrenatural. Pois bem.
Vou voltar ao bosque e verificar isso.
Eu me senti estranhamente infenso a que ele assim fizesse.
Esforcei-me ao máximo para dissuadi-lo de tal coisa, sem
resultado. A simples lembrança daquele espesso e denso
círculo de árvores me abominava, e eu tive forte premonição
de outro desastre. Mas Elliot era positivamente muito
obstinado. Creio que também estava aterrorizado, mas não
queria admiti-lo. E se foi, decidido a ir até o fundo do
mistério.
A noite foi horrível. Nenhum de nós conseguiu dormir.
Nem procurou fazê-lo. Quando a polícia chegou, mostrou-se
francamente incrédula a respeito de tudo. Revelou o firme
propósito de interrogar Miss Ashley, mas foi obrigada a
concordar com o Dr. Symonds, que se opôs com veemência
a essa idéia. Miss Ashley havia recobrado os sentidos, ou
saído de seu estado de transe, e ele lhe dera um forte
calmante para que ela dormisse. Não deveria ser de modo
algum perturbada até o dia seguinte.
Só por volta das sete horas da manhã alguém se lembrou de
Elliot Haydon. Foi então que Symonds de repente indagou
onde ele estava. Informei o que Elliot havia feito, e a grave
fisionomia de Symonds tornou-se ainda mais grave. Ele disse
o seguinte:
— Eu estimaria que ele não tivesse feito isso. Foi temerário.
— Não está imaginando que possa ter acontecido alguma
coisa de ruim a ele.
— Espero que não. Mas é melhor nós dois irmos verificar.
Eu sabia que ele tinha razão, mas precisei reunir toda minha
coragem para essa tarefa. Saímos juntos e tornamos a
penetrar no malfadado bosque. Chamamos duas vezes por
Elliot, na clareira, que apresentava um aspecto lívido e
fantasmal àquela luz das primeiras horas da manhã. Symonds
me agarrou pelo braço e disse alguma coisa, num sussurro.
Na noite da véspera, quando nós tínhamos contemplado
aquela clareira, ao luar, havia um corpo de homem, prostrado
e com o rosto afundado na relva. Agora, à luz do amanhecer,
tivemos a mesma visão: Elliot Haydon jazia exatamente no
mesmo lugar onde tombara seu primo.
— Meu Deus! — exclamou Symonds. — Ela também o
pegou!
Nós atravessamos a relva, correndo. Elliot "Haydon ali es-
tava, sem sentidos. Mas respirava débilmente. E dessa vez
não havia qualquer dúvida a respeito da causa da tragédia. Em
seu ferimento estava cravada uma longa e fina lâmina de
bronze.
— Penetrou no ombro dele, mas não atingiu o coração. Foi
sorte — comentou o médico. — Palavra de honra! Não sei o
que pensar. De qualquer maneira, não está morto e poderá
nos dizer o que aconteceu.
Isso foi exatamente o que Elliot não se mostrou capaz de
fazer. Sua descrição dos fatos revelou-se extremamente
imprecisa. Havia procurado a adaga, em vão. Por fim,
desistindo da busca, permaneceu de pé junto à Casa do ídolo.
Então começou a ficar cismado que alguém o estava
observando, lá do cinturão de árvores. Lutou contra essa
idéia, mas não conseguiu afastá-la da mente. Referiu-se a um
estranho e frio vento que principiou a soprar. Parecia que
esse vento não provém das árvores, mas do interior da Casa
do Ídolo. Voltou-se e espiou para dentro dela. Avistou a
pequena estátua e percebeu que havia tido uma ilusão de
ótica. A estátua deu-lhe a impressão de crescer, crescer cada
vez mais. Em seguida, inesperadamente levou um golpe
entre as têmporas, que o fez retroceder, cambaleando. E
quando caiu por terra, sentiu uma forte e abrasadora dor no
ombro esquerdo.
Dessa vez a adaga foi identificada como idêntica à escavada
no túmulo da colina, que havia sido comprada por Richard
Haydon. Ninguém parecia saber onde ele a guardara, em sua
própria casa, na Casa do Ídolo ou no bosque.
A polícia foi de opinião, e sempre o será, que Haydon foi
deliberadamente apunhalado por Miss Ashley. Mas diante de
nosso testemunho unânime, de que ela sempre se mantivera
a mais de três metros de distância dele, a polícia não poderia
ter esperanças de dispor de fundamentos para acusá-la. Por
esse motivo tudo permaneceu um mistério até agora.
Houve um momento de silêncio.
— Parece que não há nada a dizer — declarou finalmente
Joyce Lemprière. — Tudo é tão horrível e estranho. O
senhor tem alguma explicação a sugerir, Dr. Pender?
O velho médico fez que "sim" com a cabeça e disse:
— Certamente. Tenho uma explicação a dar, isto é, uma
espécie de explicação. É bastante curiosa, embora, a meu ver,
deixa de esclarecer certos aspectos da questão.
— Eu freqüentei sessões espíritas — declarou Joyce — e
todos podem dizer o que quiserem, mas às vezes acontecem
coisas muito estranhas. Suponho que o caso poderá ser expli-
cado por alguma forma de hipnotismo. A moça realmente se
transformou numa sacerdotisa de Astartéia e creio que, de
algum modo, deve tê-lo apunhalado. Talvez tenha
arremessado a adaga que Miss Mannering viu na mão dela.
— Ou poderá ter sido uma azagaia — sugeriu Raymond West.
— Afinal de contas, o luar não era muito intenso. Ela talvez
tenha tido nas mãos uma espécie de lança e atingido Haydon
à distância. Suponho, ainda, que o hipnotismo coletivo
explica as coisas. Eu quero dizer, todos estavam preparados
para vê-lo abatido através de algum meio sobrenatural e, por
esse motivo, assim o viram.
— Eu tenho presenciado muitas coisas maravilhosas feitas
com armas e facas, em music halls — declarou Sir Henry.
— Acredito ser possível que um homem tenha se ocultado
no cinturão de árvores e, de lá, atirado uma faca ou uma
adaga com suficiente precisão. Admitindo-se, sem dúvida,
que fosse um profissional. Reconheço que isso parece
bastante rebuscado, mas acredito ser a única teoria realmente
possível. Lembrem-se de que o segundo homem teve a
impressão de que havia alguém no Bosque a observá-lo.
Quanto a Miss Mannering afirmar que Miss Ashley tinha
uma adaga na mão, e os demais dizerem que não, isso nada
me surpreende. Se as pessoas aqui reunidas tivessem minha
experiência a respeito de descrições da mesma coisa, feitas
por vários indivíduos, saberiam que elas diferem tanto umas
das outras a ponto de parecer quase incríveis.
Mr. Petherick tossiu e observou o seguinte:
— Mas parece que estamos nos esquecendo de um fato
essencial em todas essas teorias. O que aconteceu com a
arma? Miss Ashley dificilmente poderia desfazer-se de uma
azagaia, de pé num espaço fechado, como na realidade
estava. E se um assassino ali oculto houvesse atirado o
punhal, nesse caso o punhal estaria cravado no ferimento,
quando o corpo do homem foi virado. Penso que devemos
pôr de lado todas as teorias rebuscadas e nos ater à
sobriedade dos fatos. E a que nos conduz a sobriedade dos
fatos? Bem. Uma coisa parece perfeitamente clara. Ninguém
se encontrava perto do homem quando ele foi abatido. Por
isso a única pessoa que poderia tê-lo apunhalado foi ele
próprio. Na realidade, tratou-se de um suicídio.
— Mas por que ele haveria de querer suicidar-se? — indagou
Raymond West, num tom de incredulidade.
O advogado tossiu novamente, acrescentando:
— Ah! Isso é mais uma questão teórica. No momento eu
não estou preocupado com teorias. Parece-me, excluído o
sobrenatural, em momento algum eu o admito, que essa foi a
única maneira de terem as coisas ocorrido. Ele se apunhalou
e ao cair, seus braços se abriram, arrancando a adaga do
ferimento e atirando-a longe, na zona das árvores. Acho que
isso foi uma coisa possível, embora um tanto improvável.
— Eu não gostaria de afirmar uma coisa dessas — declarou
Miss Marple. — Na verdade, tudo me deixa muito perplexa.
Mas os fatos estranhos acontecem mesmo. No garden party
de Lady Sharpley, no ano passado, um homem que estava
consertando o relógio de golfe tropeçou num dos números,
caiu e ficou desacordado, só recobrando os sentidos uns
cinco minutos depois.
— Sim, minha prezada tia — disse Raymond amavelmente.
— Mas não foi apunhalado.
— Decerto que não, meu querido. É o que estou lhe dizendo.
Não há dúvida que só houve um jeito de o pobre Sir Richard
ter sido apunhalado. Mas eu gostaria de saber por que ele
primeiro tropeçou. Poderá ter sido por causa da raiz de
alguma árvore. Com certeza ele deveria estar olhando para a
moça. E quando a noite é de luar, a gente tropeça nas coisas.
— A senhora está afirmando, Miss Marple, que a única
maneira de Sir Richard ter sido apunhalado... — começou o
pastor, olhando curiosamente para ela.
— Foi muito triste! Eu nem gosto de pensar nisso —
acrescentou Miss Marple. — Ele não era canhoto, era? Eu
quero dizer, não deveria ser porque se apunhalou no ombro
esquerdo. Sempre tive tanta pena do pobre Jack Baynes! Foi
durante a Guerra. Ele deu um tiro no próprio pé, todos de-
vem lembrar-se, depois de uma luta muito áspera, em Arras.
Ele me falou sobre isso quando fui visitá-lo no hospital.
Estava tão envergonhado! Espero que esse pobre homem,
Elliot Haydon, não tenha tirado muito proveito de seu
perverso crime.
— Elliot Haydon! — exclamou Raymond. — A senhora acha
que foi ele?
— Não sei quem possa ter sido a não ser ele — afirmou Miss
Marple, arregalando os olhos com uma ligeira expressão de
surpresa. — Quero dizer, como Mr. Petherick tão
criteriosamente sempre afirma, que a gente deve olhar os
fatos e deixar de lado toda aquela atmosfera da deusa, pagã,
que eu não acho muito decente.
— Primeiro ele se aproximou do homem e o virou.
Naturalmente, para fazer o que ia fazer, teria de estar voltado
de costa para todos. E fantasiado de chefe pirata, com certeza
usava alguma espécie de cinto. Eu me lembro de ter dançado
com um homem fantasiado de chefe pirata, quando era
moça. Tinha cinco qualidades de facas e punhais, e eu lhes
digo como aquilo era estranho e pouco confortável para seu
par.
Todos os olhos estavam voltados para o Dr. Pender.
— Eu soube a verdade — disse ele — cinco anos após a
tragédia ter ocorrido. Chegou-me sob a forma de uma carta a
mim dirigida por Elliot Haydon. Nela afirmou imaginar que
eu sempre suspeitara dele. Declarou que havia sido
dominado por uma tentação súbita. Também estava
apaixonado por Diana Ashley, mas era apenas um pobre
advogado, que lutava pela vida. Se Richard fosse afastado e
ele herdasse seu título e suas propriedades, isso lhe abriria
maravilhosas perspectivas. O punhal saltara-lhe do cinto
quando se ajoelhou ao lado do primo. Praticamente antes de
ter tempo sequer para refletir, cravou-lhe o punhal, tornando
a colocá-lo no cinto. Posteriormente ele se apunhalou para
afastar quaisquer suspeitas. Escreveu a mim na véspera de
partir para uma expedição ao Pólo Sul, caso nunca mais
voltasse, conforme declarou. Não penso que pretendesse
voltar e sei, como afirmou Miss Marple, que não tirou o
menor proveito do crime. Durante quatro anos, disse ele,
viveu num verdadeiro inferno. Esperava, segundo disse,
poder pelo menos expiar seu crime, morrendo com honra.
Houve uma pausa.
— E de fato ele morreu com honra — declarou Sir Henry. —
O senhor trocou os nomes em sua história, Dr. Pender. Mas
eu penso que estou reconhecendo a pessoa a que se refere.
— Como eu disse — prosseguiu o velho pastor — não acho
que a explicação abranja todos os fatos. Ainda acredito que
havia uma influência maligna naquele bosque, que gerou a
ação de Elliot Haydon. Mesmo hoje eu jamais consigo pen-
sar, sem estremecer, na Casa do Ídolo de Astartéia.

3
As Barras de Ouro

NÃO SEI SE o CASO que eu vou lhes contar é válido — disse
Raymond West — porque não lhes posso dar a solução dele.
Mas os fatos foram tão interessantes e curiosos que eu
gostaria de lhes propor o problema. Talvez nós possamos,
juntos, chegar a alguma conclusão lógica.
Os acontecimentos ocorreram há dois anos quando fui passar
a Festa de Pentecostes na casa de um homem chamado John
Newman, na Cornualha.
— Na Cornualha? — interrompeu Joyce Lemprière viva-
mente.
— Sim. Por quê?
— Por nada. É apenas estranho. Minha história também é
sobre um lugar na Cornualha. Uma pequena vila de
pescadores chamada Rathole. Não me diga que a sua é a
mesma.
— Não. Minha vila se chama Polperram. Fica na costa
ocidental da Cornualha. £ um lugar selvático e rochoso. Eu
tinha sido apresentado àquele homem algumas semanas antes
e o achara um companheiro muito interessante. Era
inteligente, tinha recursos, independente e dotado de
imaginação romântica. Por causa de seu último hobby, havia
alugado Pol House. Era uma autoridade na Era Elizabetana e
me descreveu, em linguagem vívida e pitoresca, a destruição
da Armada Espanhola. Mostrou-se tão entusiasmado que se
poderia quase pensar que havia sido testemunha ocular da
cena. Haverá alguma verdade na reencarnação? Eu fico
pensando nisso, pensando muito nisso.
— Você é tão romântico, meu querido Raymond — co-
mentou Miss Marple, olhando para ele com benevolência.
— Romântico será a última coisa que eu sou — declarou
Raymond West, meio aborrecido. — Mas esse tal Newman
era romântico de verdade, e me interessou, por esse motivo,
como uma estranha sobrevivência do passado. Parece que
um certo navio, pertencente à Armada, e que se sabia conter
um grande tesouro sob a forma de ouro proveniente do "Mar
Espanhol", naufragara ao largo da costa da Cornualha, nos
famosos e traiçoeiros Rochedos da Serpente. Durante alguns
anos, assim me contou Newman, haviam sido realizadas
várias tentativas para resgatar o navio e recuperar o tesouro.
Creio que histórias desse tipo são comuns, embora o número
de lendários navios de tesouros seja muito superior ao dos
verdadeiros. Fora constituída uma empresa, mas falira, e
Newman havia conseguido comprar os direitos sobre a
"coisa", ou que outro nome se dê a isso, por uma ninharia.
Tinha ficado cheio de entusiasmo. Em sua opinião, tratava-se
apenas de uma questão do emprego de maquinaria mais
moderna e científica. O ouro lá estava, e ele não tinha a
menor dúvida de que poderia ser recuperado.
Enquanto eu o escutava, ocorreu-me quantas vezes
aconteciam coisas assim. Um homem rico como Newman
consegue obter êxito quase sem esforço. No entanto, com
todas as probabilidades o valor real do dinheiro que
descobrisse pouco significaria para ele. Devo dizer que seu
entusiasmo me contagiou. Vi galeões desgarrados e à deriva
pela costa, correndo em meio às tempestades, batidos e
despedaçados de encontro a negros rochedos. A simples
palavra galeão possui uma sonoridade romântica. A expressão
"ouro espanhol" enche de emoção um menino de escola e
também qualquer adulto. Além disso, naquela época eu
estava trabalhando num romance do qual alguns episódios se
situavam no século XVI, e encarei a perspectiva de obter
valiosa cor local junto ao meu anfitrião.
Parti da Estação de Paddington numa sexta-feira pela manhã,
de moral elevado, pensando em minha viagem. O carro do
trem estava vazio, exceto quanto à presença de um homem
que se acomodou diante de mim, no canto oposto do banco.
Era alto, de aspecto marcial, e eu não pude deixar de ter a
impressão de que já o vira antes, em algum lugar. Dei tratos à
memória durante algum tempo, mas em vão. Finalmente,
cheguei à conclusão de que meu companheiro de viagem era
o Inspetor Badgworth, que eu encontrara quando estava
escrevendo uma série de artigos sobre o caso do
desaparecimento de Everson.
Lembrei-lhe esse fato e, dentro de pouco tempo, estávamos
conversando de maneira bastante agradável. Quando lhe
disse que ia para Polperram, ele observou que isso era uma
estranha coincidência, pois ele próprio também se destinava
ao mesmo lugar. Não quis parecer intrometido, por isso tive
o cuidado de não indagar que motivos aí o levavam. Em vez
disso, falei sobre meu próprio interesse a respeito do lugar, e
mencionei o galeão espanhol que nele naufragara. Com sur-
presa pata mim, o inspetor parecia estar informado sobre
tudo que se referia ao assunto, pois declarou o seguinte:
— Deve ser o Juan Fernandez. Seu amigo não será o pri-
meiro a enterrar muito dinheiro, tentando obter uma fortuna
com esse navio. E uma idéia romântica.
— Provavelmente toda a história não passa de um mito — eu
acrescentei. — Nenhum navio aí naufragou.
— O navio aí naufragou mesmo, com toda certeza — disse o
Inspetor — ao lado de um bom número de outros. O senhor
ficaria surpreendido se soubesse quantos naufrágios ocorrem
nesse trecho da costa. De fato isso é que agora me leva até lá.
Foi onde o Otranto naufragou há seis meses.
— Lembro-me de ter lido alguma coisa sobre o assunto
— eu comentei. — Creio que não houve perda de vidas.
— Não. Ninguém morreu — declarou o Inspetor. — Mas
perdeu-se outra coisa. Geralmente não sabe disso, mas o
Otranto estava carregado de ouro em barras.
— Sim? — indaguei muito interessado.
— Naturalmente nós empregamos mergulhadores na
operação de salvamento, mas o ouro havia desaparecido,
Mr. West.
— Desaparecido? — disse eu, fitando meu interlocutor.
— Como poderá ter desaparecido?
— Esse é o problema — prosseguiu o Inspetor. — As rochas
abriram um grande rombo na casa forte do barco. Assim, foi
bem fácil para os mergulhadores nela penetrar. Mas
encontraram essa casa forte vazia. A dúvida é a seguinte: o
ouro terá sido roubado antes ou depois do naufrágio? E terá
jamais estado na casa forte?
O caso parece bem estranho — eu acrescentei.
— É muito estranho quando se considera a natureza do ouro
em barras. Não se trata de um colar de diamantes, que uma
pessoa possa enfiar no bolso. Quando se pensa como o ouro
em barras é pesado e volumoso! Bem, a coisa parece
absolutamente impossível. Poderá ter havido alguma
escamoteação do ouro, antes de o navio zarpar. Mas se isso
não aconteceu, o ouro deve ter sido retirado do navio nos
últimos seis meses, e eu vou até lá para examinar o assunto.
Encontrei Newman à minha espera na estação. Desculpou-se
por não ter vindo de carro, que tinha mandado a Truro para
uns reparos. Em vez do carro, viera buscar-me num ca-
minhão que pertencia à propriedade.
Sentei-me ao seu lado e fomos serpenteando cuidadosamente
pelas estreitas ruas da vila de pescadores. Subimos uma
ladeira íngreme, que teria, digamos, um gradiente de vinte
por cento. E o carro parou nos portões de colunas de granito,
de Pol House.
A casa era encantadora. Localizava-se no alto dos penhascos
e dela se descortinava uma linda vista do mar. Uma parte da
construção teria trezentos ou quatrocentos anos, tendo-lhe
sido acrescentada uma ala moderna. Por detrás da casa
estendiam-se terras aráveis, cerca de quatro hectares.
— Seja bem-vindo a Pol House — disse Newman. — E ao
Emblema do Galeão de Ouro. — Apontou para um ponto, no
alto da porta de entrada, onde estava dependurada uma
perfeita reprodução de um galeão espanhol, com todo seu
velame desfraldado.
Aquela primeira noite foi muito encantadora e instrutiva.
Meu anfitrião mostrou-me velhos manuscritos referentes ao
Juan Fernandez. Desdobrou mapas, indicou posições sobre
os mesmos, marcadas por linhas pontilhadas, e exibiu
aparelhagem de mergulho que, posso dizer, me deixaram
completamente perplexo.
Referi-me ao encontro que tivera com o Inspetor
Badgworth, assunto pelo qual mostrou vivo interesse.
— As pessoas são muito esquisitas nesta costa — disse ele
pensativamente. — O contrabando e os restos de naufrágios
estão na massa de seu sangue. Quando um navio afunda aqui
no litoral, não podem deixar de considerar que sua pilhagem
é legal. Destina-se aos seus bolsos. Aqui há um homem que
eu gostaria que você conhecesse. É uma interessante
sobrevivência do passado.
O dia seguinte amanheceu luminoso e límpido. Eu fui levado
a Polperram e apresentado ao mergulhador de Newman, um
tal de Higgins. Era um tipo de fisionomia inexpressiva,
extremamente taciturno, e sua contribuição à nossa conversa
constituiu-se quase só de monossílabos. Após um diálogo
entre eles a respeito de assuntos muito técnicos, fomos até o
bar das Três Âncoras. Um canecão de cerveja de certo modo
contribuiu para soltar a língua daquele bom homem.
— Chegou um detetive de Londres — ele resmungou. —
Dizem que o navio que afundou aqui, em novembro passado,
estava transportando uma imensa quantidade de ouro. Bem.
Não foi o primeiro a ir ao fundo, nem será o último.
— Apoiado! — assentiu com entusiasmo o dono do Três
Âncoras. — Você está falando a verdade, Higgins Bill?
— Eu acho que sim, Mr. Kelvin — afirmou Higgins.
Olhei com certa curiosidade para o dono da taverna. Era um
homem de aspecto invulgar, moreno e bronzeado pelo sol,
de ombros excepcionalmente largos. Tinha os olhos
injetados e um jeito curiosamente furtivo de evitar o olhar
dos outros. Suspeitei que fosse a pessoa de quem Newman
me havia falado, dizendo que era um sobrevivente do
passado.
— Não queremos estrangeiros intrometidos nesta costa —
disse ele de um jeito um tanto truculento.
— O senhor se refere à polícia? indagou Newman com um
sorriso.
— À polícia e a outras pessoas — respondeu Kelvin de
maneira significativa. — O senhor não se esqueça disso.
— Você quer saber de uma coisa, Newman — eu comentei
enquanto subíamos a colina, de volta para casa. — Aquilo me
deu forte impressão de ser uma ameaça. Meu amigo desatou
a rir, dizendo:
— Tolice. Eu não faço nenhum mal às pessoas daqui.
Eu sacudi a cabeça, com um ar de dúvida. Havia algo de
sinistro e pouco civilizado nas maneiras de Kelvin. Senti que
a mente daquele homem poderia percorrer estranhos e
insuspeitados caminhos.
Creio que posso marcar o início do meu mal-estar a partir
daquele momento. Eu dormira razoavelmente bem naquela
primeira noite, mas, na seguinte, meu sono foi agitado e
interrompido. O domingo amanheceu sombrio e lúgubre,
com um céu carregado e ameaçando trovoada. Eu nunca
consigo ocultar minhas emoções, e Newman notou aquela
mudança em mim.
— O que está havendo com você, West? Esta manhã você
parece um feixe de nervos.
— É o tempo.
— Talvez seja isso.
Eu não disse mais nada. À tarde nós saímos a passeio na
lancha de Newman, mas a chuva desabou com tanta
violência que nós ficamos bem satisfeitos quando voltamos
para a praia e vestimos roupas secas.
Naquela noite meu mal-estar aumentou. Lá fora a tempestade
rugia e ululava. Por volta das dez horas, amainou. Newman
foi olhar a cara do tempo.
— O céu está limpando — disse ele. — Eu não me admiraria
se nós tivéssemos uma linda noite dentro de meia hora. Se
isso acontecer, irei dar uma caminhada a pé.
Eu bocejei e disse:
— Estou com um sono terrível. Acho que não dormi bas-
tante na noite passada. Creio que hoje vou cedo para a cama.
E assim fiz. Na noite anterior eu dormira pouco. Naquela
noite meu sono foi pesado, embora não reparador. Eu ainda
estava oprimido pelo terrível presságio de algum mal
iminente. Tive pesadelos horríveis. Sonhei com abismos
amedrontadores e com vastas ravinas entre as quais eu
vagueava, sabendo que um simples escorregão significaria a
morte. Levantei-me e vi que meu relógio marcava oito
horas. Eu estava com uma forte dor de cabeça, e ainda
dominado pelo terror dos meus sonhos daquela noite.
Esse terror era tão violento que ao dirigir-me à janela,
abrindo-a, recuei dominado por uma nova sensação de
terror: a primeira coisa que vi, ou julguei ver, foi um homem
cavando uma sepultura.
Levei uns dois minutos para me refazer. Então percebi que o
coveiro era o jardineiro de Newman. E o "túmulo" se
destinava a acomodar três novas roseiras que estavam sobre a
relva, aguardando o momento em que deveriam ser
firmemente plantadas.
O jardineiro ergueu os olhos e levou a mão ao chapéu,
dizendo:
— Bom dia, meu senhor. Que linda manhã!
— Estou de acordo com você — eu declarei num tom
inseguro, ainda incapaz de livrar-me de todo daquela
depressão.
Mas, como afirmara o jardineiro, a manhã era sem dúvida
muito bela. Estava fazendo sol e o céu, de um límpido azul-
claro, prometia bom tempo para aquele dia. Desci para fazer
minha refeição matinal, assobiando. As empregadas de
Newman não dormiam em sua casa. Duas irmãs, de meia
idade, que moravam num sítio vizinho, vinham diariamente
fazer o serviço, que era muito simples. Uma delas estava
colocando a cafeteira sobre a mesa quando eu entrei na sala e
disse:
— Bom dia, Elizabeth. Mr. Newman ainda não desceu?
— Ele deve ter passado toda a noite fora — ela respondeu.
— Não estava em casa quando eu cheguei.
Naquele instante meu mal-estar recomeçou. Nas duas ma-
nhãs anteriores, Newman descera para o café da manhã um
pouco tarde e eu imaginei que ele não gostasse de levantar-se
cedo. Movido por um mau pressentimento corri até seu
quarto. Estava vazio e, sem dúvida, ninguém dormira em sua
cama. Um rápido exame do aposento me revelou outras duas
coisas: se Newman tivesse saído para dar uma caminhada,
deveria ter feito isso com a roupa que vestira à noite, porque
não se encontrava no quarto.
Então tive certeza de que minha premonição era justificada.
Newman havia saído, como dissera, para dar um passeio a pé
naquela noite. Por algum motivo, não voltara para casa. Por
quê? Teria sofrido algum acidente? Caído do alto de um
penhasco? Era preciso realizar uma busca imediata.
Ao cabo de algumas horas, eu já reunira um grande grupo de
ajudantes, e nós demos uma busca minuciosa ao longo dos
penhascos e rochedos. Não havia o menor sinal de Newman.
Finalmente, desesperado, procurei o Inspetor Badgworth.
Seu rosto assumiu uma expressão muito grave.
— Parece-me ter sido feita alguma coisa perversa — disse
ele. — Este lugar tem alguns freqüentadores não muito
escrupulosos. O senhor já conhece Kelvin, o dono do Três
Âncoras?
Eu respondi afirmativamente.
— O senhor sabia que ele cumpriu uma pena de prisão há
quatro anos? Por assalto e agressão.
— Isso não me surpreende.
— A opinião unânime, aqui no lugar, é a de que seu amigo
gosta um pouco demais de intrometer-se no que não é de sua
conta. Espero não lhe tenha acontecido nada de muito grave.
A busca prosseguiu com redobrado empenho. A tarde já ia
avançada quando nossos esforços foram recompensados.
Encontramos Newman caído numa funda vala, num dos
confins de sua propriedade. Estava com as mãos e Os pés
fortemente amarrados por uma corda, tendo-lhe sido enfiado
um lenço na boca para amordaçá-lo e não poder gritar por
socorro.
Estava exausto e sentia fortes dores. Mas depois de fric-
cionarmos seus pulsos e tornozelos e de tê-lo feito tomar Um
grande gole de uísque, conseguiu descrever o que lhe
acontecera.
O tempo havia limpado e ele saíra para dar um passeio a pé,
isso por volta das onze horas. Sua caminhada o levara a certa
distância, ao longo dos penhascos, até um ponto conhecido
geralmente pelo nome de Angra dos Contrabandistas, por
causa do grande número de cavernas nele existentes. Tendo
observado que alguns homens estavam desembarcando de
um pequeno barco, aproximou-se para ver o que estava
acontecendo. A mercadoria retirada do barco pareceu-lhe
muito pesada e estava sendo transportada para uma das
cavernas mais remotas.
Apesar de não ter qualquer suspeita fundada de que houvesse
algo de errado naquilo, Newman ficou pensando no que
seria. Tinha se acercado bastante dos homens, sem ser visto.
De repente, ouviu um brado de alarme e, imediatamente,
dois robustos marujos caíram sobre ele e o deixaram sem
sentidos. Quando voltou a si, estava deitado num veículo a
motor, que avançava aos trancos e barrancos, tanto quanto
pode concluir, pela estrada que se estendia da costa até a vila.
Com grande surpresa para ele, o caminhão parou diante do
portão de sua própria casa. Aí, depois de uma troca de
palavras sussurradas, os homens finalmente o tiraram do
veículo e o arremessaram numa vala, num ponto cuja
profundidade tornava pouco provável fosse encontrado
durante algum tempo. Em seguida o caminhão se afastou e,
segundo acreditou ele, saiu por outro portão situado a uns
quatrocentos metros da vila. Não conseguiu descrever os
assaltantes, salvo quanto ao fato de que eram, sem dúvida,
homens do mar e, pelo seu sotaque, da Cornualha.
O Inspetor Badgworth mostrou-se muito interessado.
— Acreditem, lá é que a coisa foi escondida — disse ele.
— Salvados de algum naufrágio, armazenados numa caverna
solitária, em determinado lugar. Todos sabem que nós demos
uma busca em todas as cavernas da Angra dos Contraban-
distas e que agora vamos sair em campo mais adiante. Eles
evidentemente removeram o material durante a noite para
alguma caverna já vasculhada, sendo improvável que seja
objeto de uma nova busca. Infelizmente tiveram pelo menos
dezoito horas para dispor da mercadoria. Se apanharam Mr.
Newman na noite passada, duvido que agora possamos
encontrar alguma coisa.
O Inspetor saiu apressadamente para realizar uma busca.
Encontrou provas decisivas de que as barras de ouro haviam
sido armazenadas onde supunha, mas tinham sido daí
removidas, não havendo qualquer pista que levasse ao seu
novo esconderijo.
Mas existia, sim, uma pista, e o próprio Inspetor a indicou a
mim na manhã seguinte.
— Essa estrada é muito pouco usada por veículos a motor —
disse ele — e em dois ou três pontos nós recolhemos
vestígios de marcas de pneus, muito nítidas. Uma delas, de
três pontos de um pneu, é inconfundível. Mostra que o carro
atravessou o portão. Em certos lugares, há uma leve marca
que nos indica haver o veículo saído pelo outro portão. Por
isso não há grandes dúvidas de que se trata do veículo que
estamos procurando. Por que os homens saíram pelo portão
mais distante? Parece-me evidente que o caminhão veio da
vila. Bem, não há, na vila, muita gente que possua um
caminhão, no máximo duas ou três pessoas. Kelvin, o dono
do Três Âncoras, tem um.
— Qual era a ocupação anterior de Kelvin? — indagou
Newman.
— É curioso que o senhor me faça essa pergunta, Mr.
Newman — disse o Inspetor. — Kelvin foi mergulhador pro-
fissional, quando moço.
Newman e eu nos entreolhamos. As peças do quebra-cabeça
pareciam estar se encaixando, uma após outra.
— O senhor não reconheceu Kelvin entre os homens que
estavam na praia? — perguntou o Inspetor.
Newman sacudiu a cabeça num gesto de negação e
acrescentou:
— Lamento não ser capaz de afirmar coisa alguma quanto a
isso. Realmente não tive tempo de ver nada.
O Inspetor, muito gentilmente, permitiu que eu o
acompanhasse até o Três Âncoras. A garagem ficava no alto
de uma rua transversal. Suas grandes portas estavam
fechadas, mas, subindo por uma pequena alameda lateral,
encontramos uma pequena porta que dava acesso à garagem.
Estava aberta. Um exame superficial dos pneus bastou ao
Inspetor, que exclamou:
— Por Deus! Nós pegamos o homem. Aqui está a marca,
clara como água, na roda traseira esquerda. Muito bem, Mr.
Kelvin. Creio que o senhor não será esperto bastante para sa-
far-se.
Raymond West fez uma pausa.
— E daí? — indagou Joyce. — Até agora eu não vejo nada
que seja um problema. A menos que eles nunca tenham
encontrado o ouro.
— Não há dúvida. Nunca o encontraram — declarou
Raymond. — E também não apanharam Kelvin. Creio que o
homem se mostrou esperto demais para eles, mas não
percebo muito bem como agiu. Foi preso, diante da prova da
marca do pneu. Mas surgiu uma dificuldade excepcional.
Bem em frente às grandes portas da garagem havia um chalé
que fora alugado por uma artista, naquele verão.
— Ah, essas artistas! — exclamou Joyce, dando uma risada.
— Como você diz, ah, essas artistas! — prosseguiu Raymond.
— A artista tinha estado doente durante algumas semanas e,
por causa disso, era atendida por duas enfermeiras. A
enfermeira que trabalhava de noite puxara uma poltrona para
junto da janela, cuja persiana estava levantada. Declarou que
o caminhão não poderia ter saído da garagem em frente sem
que o tivesse visto, e jurou que ele de fato jamais saíra da ga-
ragem naquela noite.
— Eu não acho que isso constitua um grande problema —
declarou Joyce. — Sem dúvida a enfermeira adormeceu. As
enfermeiras sempre fazem isso.
— É sabido que isso acontece — afirmou Mr. Petherick
judiciosamente. — Mas parece que estamos aceitando os
fatos sem suficiente exame. Antes de admitir o testemunho
da enfermeira, deveríamos investigar muito seriamente se
ele merece crédito. Um álibi que se apresenta com rapidez
tão suspeita dá origem a dúvidas em nossas mentes.
— Houve também o depoimento da artista — declarou
Raymond. — Ela afirmou que estava sentindo dores e que
ficara acordada durante a maior parte da noite. Teria
certamente ouvido o barulho do caminhão, que seria fora do
comum. E a noite tinha sido muito tranqüila, depois de ter
amainado a tempestade.
— Hum — fez o pastor. — Isso certamente constituiu mais
um fato. Kelvin apresentou algum álibi?
— Disse que tinha ficado em casa, deitado, desde as dez horas
— respondeu Raymond. — Mas não conseguiu apresentar
testemunhas que confirmassem isto.
— A enfermeira dormiu — declarou Joyce. — E a doente
também. As pessoas doentes pensam que nunca pregam os
olhos durante a noite inteira.
Raymond olhou inquisidoramente para o Dr. Pender, que
comentou o seguinte:
— Sabem que eu tenho muita pena de Kelvin? Parece que se
trata de um desses casos de atirar uma má reputação aos cães.
Kelvin havia estado na prisão. Além da marca do pneu, que
certamente se afigura uma coisa muito fora do comum para
constituir mera coincidência, tudo indicava não haver
grande coisa contra ele, salvo seu infeliz passado.
— E o senhor o que acha, Sir Henry? — indagou Raymond.
Sir Henry sacudiu a cabeça e declarou, sorrindo:
— Acontece que eu conheço o caso. Por isso é claro que não
devo me pronunciar.
— Então vamos adiante — disse Raymond. A senhora tem
alguma coisa a dizer, tia Jane?
— Um minuto, querido. Acho que errei na conta dos meus
pontos. Dois invertidos, três simples, esticar o fio, mais dois
invertidos. Sim. Está certo. O que você disse, meu caro?
— Qual é sua opinião? — indagou Raymond.
— Você não vai gostar da minha opinião. Os jovens nunca
apreciam as opiniões dos mais velhos. É melhor eu não dizer
nada.
— Que tolice, tia Jane. Vamos! Fale!
— Bem, meu querido Raymond — declarou Miss Marple,
descansando o tricô no colo e olhando para o sobrinho. —
Eu acho que você deveria ter mais cuidado na escolha de
seus amigos. Você é tão crédulo! Tão facilmente enganado!
Eu creio que é porque você é escritor e tem tanta
imaginação! Toda aquela história a respeito do galeão
espanhol! Se você tivesse mais idade e mais experiência da
vida, teria ficado imediatamente desconfiado. Um homem
que você tinha conhecido apenas três semanas antes!
Subitamente Sir Henry soltou uma estrondosa gargalhada e
deu um tapa no joelho, dizendo:
— Desta vez você foi apanhado, Raymond. Miss Marple, a
senhora é maravilhosa. Seu amigo Newman, meu rapaz, tem
outro nome. Na verdade tem vários. No presente momento
não se encontra na Cornualha, mas no Devonshire, em
Dartmoor, para ser exato. É um condenado e se acha na
prisão de Princetown. Nós não o agarramos por causa do
negócio das barras de ouro roubadas, mas pelo assalto da casa
forte de um banco em Londres. Investigamos seus
antecedentes e descobrimos uma grande parte do ouro
roubado, enterrado no jardim de Pol House. Foi uma idéia
bem pensada que ele teve. Ao longo de toda a costa da
Cornualha circulam histórias de galeões naufragados, cheios
de ouro. Mas era necessário encontrar um bode expiatório e
Kelvin foi a pessoa ideal para isso. Newman representou
muito bem sua pequena comédia e nosso amigo Raymond,
com sua fama de escritor, foi uma testemunha irrefutável.
— E a marca do pneu? — objetou Joyce.
— Eu já vi isso uma vez, minha querida, embora não entenda
nada de motores — observou Miss Marple. — As pessoas
trocam as rodas, você sabe.. Já vi muitas vezes fazerem isso.
Naturalmente, poderiam tirar uma roda do caminhão de
Kelvin e levá-la pela pequena porta até a alameda, colocá-la
no caminhão de Newman, levar o caminhão por um portão
até à praia, enchê-lo e, em seguida, trazer a roda de volta,
colocando-a de novo no caminhão de Mr. Kelvin. Enquanto
isso, eu suponho, mais alguém estava amarrando Mr.
Newman na vala. Foi muito inconfortável para ele e
demorou muito tempo para que fosse encontrado. Muito
mais do que havia esperado. Creio que o homem que se dizia
jardineiro dele cuidou dessa parte da questão.
— Por que a senhora afirma que o homem se dizia jardineiro,
tia Jane? — indagou Raymond, cheio de curiosidade.
— Bem, ele não poderia ser um jardineiro de verdade —
prosseguiu Miss Marple. — Os jardineiros nunca trabalham
na segunda-feira de Pentecostes. Todo mundo sabe disso.
Ela sorriu e dobrou o tricô.
— Foi realmente esse pequeno fato que me colocou na pista
certa — e olhou para Raymond, acrescentando: — Quando
uma pessoa é dona de casa e tem um jardim, meu caro, sabe
essas pequenas coisas.

4
A Calçada Tinta de Sangue

É CURIOSO, declarou Joyce Lemprière, mas eu estou relu-
tando em contar minha história. Aconteceu há muito tempo,
há cinco anos, exatamente. Mas é uma coisa de que eu nunca
me esqueço. Seu agradável e luminoso aspecto exterior e
todo aquele horror oculto por baixo de tudo. O estranho é
que o esboço que eu fiz naquela ocasião ganhou as cores
dessa atmosfera. Quando se olha para ele pela primeira vez,
vê-se apenas um desenho que representa uma pequena e
íngreme rua da Cornualha, banhada pelo sol. Mas se for
contemplado durante mais algum tempo, algo de sinistro
nele se insinua. Eu nunca vendi esse quadro, mas jamais olho
para ele. Fica num canto de meu estúdio, virado contra a
parede.
O nome do lugar é Rathole. É uma pequena vila de pes-
cadores, na Cornualha, muito pitoresca, talvez até demais.
Possui em excesso aquela atmosfera de "Velha Casa de Chá
da Cornualha". Tem lojas com jovens de cabelos curtos e
longas blusas de camponesas, que ficam desenhando lemas
sobre pergaminho, iluminados a mão. A vila é bonita e
estranha. Mas tudo isso de um modo artificial.
— Como eu conheço isso! — comentou Raymond West,
suspirando. — A praga das jardineiras floridas. Não importa
que sejam estreitas as veredas que levam até essas vilas tão
pitorescas. Nenhum desses lugares é seguro.
Joyce concordou com um sinal de cabeça, e prosseguiu:
— Umas estreitas vielas que vão dar em Rathole, muito
íngremes, parecem as paredes de uma casa. Bem.
Continuando minha história, eu tinha ido à Cornualha para aí
passar duas semanas, com a intenção de desenhar. Há uma
velha hospedaria na vila, Polharwith Arms. Dizem que é a
única construção que ficou de pé quando os espanhóis
bombardearam o lugar, no ano de mil quinhentos e tantos.
— Não foi bombardeado — comentou Raymond West,
franzindo a testa. — Procure ser exata em matéria de
história, Joyce.
— Bem, como quer que seja — continuou Joyce —, eles
desembarcaram canhões em algum ponto da costa, fizeram
fogo e as casas desabaram. A hospedaria era uma antiga e
maravilhosa construção, com uma espécie de varanda em
frente, sustentada por quatro colunas. Arranjei um ângulo
muito favorável e estava precisamente me instalando para
trabalhar quando um automóvel veio chegando devagar,
serpenteando morro abaixo. Com certeza iria parar em frente
à hospedaria, logo no lugar que me atrapalharia mais. Saíram
do carro duas pessoas, um homem e uma mulher, mas eu
não reparei muito nelas. A mulher estava com um vestido de
linho lilás e usava um chapéu da mesma cor.
Logo em seguida o homem partiu no carro e eu fiquei muito
grata porque ele se dirigiu até o cais e lá o deixou. Voltou a
pé e passou diante de mim, encaminhando-se para a hos-
pedaria. Naquele momento, outro abominável carro veio
ziguezagueando e dele saiu uma mulher, com um vestido de
chintz, da cor mais berrante que eu já vi. Creio que tinha
umas poinsétias escarlates. Ela estava usando um desses
grandes e típicos chapéus de palha. Um panamá, não é assim
que se chamam? Escarlate vivo.
Essa criatura não parou diante da hospedaria. Dirigindo o
carro até mais além, desceu a rua em direção ao outro carro.
Em seguida, saiu do automóvel e, quando o homem a viu,
soltou uma exclamação de espanto: "Carol, que maravilha!
Imagine só encontrar você nesse lugar tão remoto! Há. anos
que não nos víamos! Viva! Lá está minha mulher, Margery.
Você precisa conhecê-la".
Os dois subiram a rua em direção à hospedaria, um ao lado do
outro, e eu reparei que a mulher dele acabara de transpor a
porta e vinha caminhando em direção ao par. Eu vira apenas
de relance a que se chamava Carol, quando ela passou por
mim. Isso foi suficiente para que eu reparasse seu queixo
muito branco de pó-de-arroz e sua boca, de um vivo
escarlate.
Fiquei só imaginando, apenas imaginando, se Margery iria ter
grande prazer em conhecê-la. Eu não vira Margery de perto,
mas, à distância, ela me pareceu deselegante, mas bem
arranjada demais.
Bem! Aquilo naturalmente não era da minha conta, mas às
vezes a gente vislumbra pequenos aspectos da vida e não
consegue deixar de especular sobre eles. Do ponto em que
aquelas pessoas estavam eu só conseguia ouvir uns
fragmentos de sua conversa, que chegavam até onde eu me
encontrava. Falavam sobre banhos de mar. O marido, cujo
nome parecia ser Denis, pretendia tomar um barco, e remar
ao longo da costa. Havia uma famosa caverna que valia a
pena ser vista, assim disse ele, a cerca de um quilômetro e
meio de distância. Carol também queria visitar a caverna,
mas sugeria ir caminhando pelos rochedos e vê-la do lado da
terra. Disse que detestava barcos. Finalmente, decidiram o
seguinte: Carol tomaria o atalho dos rochedos e iria
encontrá-los na caverna, ao passo que Denis e Margery
pegariam um barco e iriam remando ao longo da costa.
Ouvindo que falavam em banho de mar, isso me levou
querer fazer o mesmo. A manhã era muito quente e eu não
estava realizando um trabalho tão bom assim. Imaginei que o
sol da tarde teria um efeito muito mais interessante. Por isso
arrumei minhas coisas e segui para uma praia que eu conhe-
cia, situada exatamente na direção oposta à caverna: era uma
descoberta minha. Lá tomei um ótimo banho de mar,
almocei língua enlatada e dois tomates e voltei, à tarde, para
continuar meu esboço, cheia de confiança e entusiasmo.
Todos os moradores de Rathole pareciam estar dormindo. Eu
tivera razão a respeito do sol da tarde: as sombras eram muito
mais expressivas. Polharwith Arms era o ponto principal do
meu desenho. Um raio de sol caía obliquamente até o chão,
diante da hospedaria, produzindo um efeito bastante
singular. Deduzi que as pessoas que tinham ido tomar banho
de mar já haviam voltado sãs e salvas porque duas roupas de
banho, uma escarlate e a outra azul-escura, estavam pendura-
das na sacada, secando ao sol.
Alguma coisa não havia dado certo num dos cantos do meu
esboço e eu me debrucei sobre ele durante alguns
momentos, tentando fazer algo para consertá-la. Quando
tornei a erguer os olhos, um vulto estava apoiado numa das
colunas de polharwith Arms, dando a impressão de ter ali
surgido por um passe de mágica. Vestia umas roupas de
marinheiro e creio que era pescador. Mas tinha umas longas
barbas negras, e se eu estivesse procurando o modelo de um
perverso capitão espanhol, não poderia haver imaginado
ninguém melhor. Comecei a trabalhar com uma rapidez
febril antes que ele se afastasse, embora, por sua atitude,
parecesse perfeitamente disposto a ficar apoiado naquela
coluna por toda a eternidade.
No entanto ele se moveu, felizmente só quando eu já havia
conseguido o que desejava, Aproximou-se e começou a
conversar comigo. E como aquele homem falava!
— Rathole é um lugar muito interessante — disse ele.
Eu já sabia disso. E embora tenha lhe dito a mesma coisa, isso
não me salvou. Fui obrigada a ouvir toda a história do
bombardeio, quero dizer, da destruição da vila. E mais, como
o dono de Polharwith Arms havia sido o último homem a
ser morto. Foi trespassado pela espada de um capitão
espanhol, na soleira de sua porta. Seu sangue jorrou na
calçada e ninguém conseguiu lavar a mancha desse sangue
durante cem anos.
Tudo aquilo se ajustava muito bem à impressão de langor e
indolência causada por aquela tarde. A voz do homem era
muito suave e, ao mesmo tempo, possuía algo de bastante
atemorizador. Tinha maneiras obsequiosas, mas eu senti que
ele, no íntimo, era cruel. Fez-me pensar na Inquisição e nos
terrores de todas as coisas que os espanhóis fizeram melhor
do que antes deles.
Durante todo tempo que ele falava eu continuei meu tra-
balho e, de repente, percebi, na emoção de ouvir sua
história, que eu pusera alguma coisa que antes não havia em
minha tela. Naquele quadrado branco da calçada, onde o sol
incidia diante da porta de Polharwith Arms, eu pintara
manchas de sangue. Pareceu-me extraordinária que minha
mente pudesse pregar uma peça daquela natureza à minha
mão. Mas olhei novamente em direção à taverna e
experimentei outro choque: minha mão pintara apenas o que
meus olhos estavam enxergando: gotas de sangue sobre a
calçada branca.
Fiquei de olhos pregados naquilo durante uns dois ou três
minutos. Depois fechei os olhos e disse de mim para mim:
não seja tola, lá não existe coisa alguma. Em seguida, tornei a
abrir os olhos: as manchas de sangue ainda estavam no
mesmo lugar.
Subitamente senti que não seria capaz de suportar aquilo.
Interrompi a torrente de palavras do pescador:
— Diga-me uma coisa. Minha vista não é muito boa. Aque-
las manchas de sangue estão ali na calçada?
Ele olhou para mim com uma expressão indulgente e bon-
dosa, dizendo:
— Hoje não há mais manchas de sangue, minha senhora. O
que estou lhe contando aconteceu há quase quinhentos anos.
— Sim — eu comentei. — Mas agora, na calçada...
As palavras morreram em minha garganta. Eu sabia, eu
sabia que ele não iria ver o que eu estava vendo. Levantei-
me e comecei a reunir minhas coisas, com as mãos trêmulas.
Enquanto assim fazia, o homem que chegara de carro,
naquela manhã, saiu pela porta da hospedaria. Inspecionou a
rua com um ar perplexo. Sua mulher apareceu na calçada e
recolheu as roupas de banho. Ele se dirigiu para o carro mas,
subitamente, mudou de rumo e atravessou a estrada, vindo
em direção ao pescador, indagando:
— Diga-me, por favor. O senhor sabe se aquela senhora que
chegou no segundo carro já voltou?
— Uma senhora com um vestido todo. cheio de flores? Não.
Eu não a vi chegar. Ela foi até a caverna, hoje de manhã,
tomando o caminho dos penhascos.
— Eu sei, eu sei. Nós tomamos banho de mar juntos. Depois
ela voltou para casa a pé, e eu não a vi mais desde então. Não
pode ter levado todo esse tempo. Os penhascos são peri-
gosos?
— Isso depende do caminho que a pessoa tomar. O melhor
jeito é levar alguém que conheça o lugar.
O homem parecia claramente referir-se a si mesmo e estava
começando a desenvolver esse tema, mas o outro o
interrompeu bruscamente, sem a menor cerimônia, e voltou
correndo à hospedaria, chamando a esposa que estava na
sacada.
— Escute, Margery — disse ele. — Carol ainda não voltou.
Que coisa estranha!
Eu não ouvi a resposta de Margery, mas seu marido
prosseguiu:
— Nós não podemos esperar mais. Temos de ir até
Penrithar. Você está pronta? Eu vou virar o carro.
Ele assim fez e, logo em seguida, os dois partiram. Nesse
meio tempo eu havia dominado meus nervos para provar a
mim mesma como era ridícula minha fantasia. Quando o
carro desapareceu, fui até a hospedaria e examinei
detidamente a calçada. Não, durante todo o tempo aquilo
havia sido produto de minha imaginação mórbida. No
entanto, de certo modo tornava as coisas mais aterrorizantes.
E enquanto eu ali permanecia de pé, ouvi a voz do pescador,
que estava olhando para mim, cheio de curiosidade:
— A senhora pensou ter visto manchas de sangue aqui? Eu
fiz que "sim" com a cabeça.
— Isso é muito esquisito. Muito esquisito mesmo —
acrescentou ele. — Nós temos uma superstição, minha
senhora. Se alguém vê manchas de sangue. ..
O homem fez uma pausa.
— E daí? — eu indaguei.
Ele continuou a falar, com sua voz suave. A entoação era da
Cornualha, mas, inconscientemente bem modulada e culta
quanto à pronúncia e inteiramente isenta da fraseologia do
lugar.
— Eles de fato dizem, minha senhora, que se alguém vir
Manchas de sangue, haverá uma morte dentro de vinte e
quatro horas.
Eu fiquei arrepiada. Aquilo me provocou uma sensação
desagradável, que me percorreu a espinha de ponta a ponta.
O homem prosseguiu, em tom persuasivo.
— Há uma placa muito interessante na igreja, é sobre a
morte...
— Não, obrigada — eu disse num tom decisivo. — E girei
sobre os calcanhares mais que depressa, começando a subir a
rua em direção ao chalé onde estava hospedada. No
momento em que aí cheguei, vi, à distância, a mulher que se
chamava Carol. Vinha se aproximando pela vereda dos
penhascos. Naquele pano de fundo feito de rochas cinzentas,
parecia uma flor escarlate, venenosa. Seu chapéu era cor de
sangue...
Eu estremeci. De fato estava com sangue no pensamento.
Pouco depois ouvi o ruído de seu carro. Fiquei pensando que
talvez ela também estivesse indo até Penrithar. Mas tomou a
estrada da esquerda, na direção oposta. Fiquei observando o
carro que ia subindo lentamente a colina, até que desapare-
ceu. Então respirei um pouco mais à vontade. Rathole
parecia ter novamente adquirido aquele seu aspecto tranqüilo
e sonolento.
— Se isso é tudo — interveio Raymond West, no momento
em que Joyce fez uma pausa — eu lhe darei imediatamente
meu veredicto: má digestão e manchas na visão após uma re-
feição.
— Não é tudo — declarou Joyce. — Você terá de ouvir o que
aconteceu depois. — Passados dois dias, li num jornal a
seguinte manchete: "Fatalidade no Banho de Mar." A notícia
informava que Mrs. Dacre, esposa do Capitão Denis Dacre,
afogara-se infortunadamente em Landeer Cove, pouco mais
além, na costa. Ela e o marido estavam hospedados no hotel,
e haviam dito que pretendiam tomar um banho de mar. Mas
soprou um vento frio e o Capitão Dacre declarou que estava
frio demais. Por isso, ele e algumas outras pessoas do hotel
foram até o campo de golfe, que ficava perto. Mrs. Dacre,
porém, dissera que para ela não estava fazendo frio, e foi,
sozinha, até a enseada. Como não voltasse, o marido ficou
alarmado. Em companhia de seus amigos, dirigiu-se à praia,
onde acharam as roupas dela junto a uma pedra. Mas não
encontraram o menor vestígio da infortunada mulher. Seu
corpo só foi descoberto quase uma semana depois, atirado à
praia, num ponto da costa situado a alguma distância. Havia
levado uma forte pancada na cabeça, antes de morrer.
Acreditou-se que deveria ter mergulhado e batido com a
cabeça numa rocha. Tanto quanto pude concluir, sua morte
teria ocorrido exatamente vinte e quatro horas depois do
momento em que vi as manchas de sangue.
— Eu protesto — declarou Sir Henry. — Isso não é um
problema: é uma história de fantasma, É evidente que Miss
Lemprière é médium.
Mrs. Petherick tossiu sua tosse de costume e disse o seguinte:
— Um ponto me chamou atenção. Aquele golpe na cabeça.
Creio que não devemos excluir a possibilidade de violência.
Mas não vejo que tenhamos quaisquer fatos em que pos-
samos nos basear. A alucinação de Miss Lemprière, ou sua
visão, é interessante, sem a menor dúvida. Mas não percebo
claramente qual o ponto em que deseja nosso
pronunciamento.
— Má digestão ou coincidência — afirmou Raymond. — De
qualquer maneira não podemos ter certeza de que se trata
das mesmas pessoas. Além disso, a maldição, ou o que quer
que fosse, só se aplicaria aos moradores de Rathole.
— Eu tenho a impressão — observou Sir Henry — que o
sinistro marujo tem alguma ligação com a história. Mas
concordo com Mr. Petherick: Miss Lemprière nos
proporcionou muito poucos dados.
Joyce voltou-se para o Dr. Pender, que fez um gesto de
cabeça, sorriu e disse o seguinte:
— A história é muito interessante. Mas eu concordo com Sir
Henry e Mr. Petherick. Há muito poucos dados para que
possamos,trabalhar sobre eles.
Foi então que Joyce olhou para Miss Marple, cheia de
curiosidade, pois esta lhe sorrira, dizendo:
— Eu também acho que você está sendo um pouco injusta,
minha querida Joyce. No meu caso, naturalmente, a coisa é
diferente. Eu quero dizer, nós, mulheres, apreciamos o
aspecto relativo às roupas. Eu não creio que seja razoável
apresentar o problema a um homem. Deve ter sido
necessário trocar de roupa muitas vezes. Que mulher
malvada! E que homem mais perverso ainda!
Joyce a encarou, dizendo:
— Tia Jane, isto é, Miss Marple. Eu quero dizer... eu creio.
.. eu realmente creio que a senhora conhece a verdade.
— Bem, minha querida — acrescentou Miss Marple — isso
foi muito mais fácil para mim, que fico aqui calmamente
sentada, do que foi para você, uma artista, tão suscetível a
essa história de atmosfera, não é mesmo? Aqui sentada com
meu tricô, eu simplesmente vejo os fatos. As manchas de
sangue caíram na calçada, tendo escorrido da roupa de banho
que estava dependurada acima dela. Sendo uma roupa de
banho vermelha, naturalmente os próprios criminosos não
perceberam que se tratava de manchas de sangue. Coitada da
mulher! Pobrezinha!
— A senhora me desculpe, Miss Marple — comentou Sir
Henry. — Mas saiba que eu ainda estou completamente
perdido. A senhora e Miss Lemprière parece saberem do que
estão falando, ao passo que nós, homens, ainda continuamos
totalmente no escuro.
— Agora eu lhes contarei o final da história — declarou
Joyce. — Aconteceu um ano depois. Eu me encontrava
numa pequena cidade à beira-mar, na costa leste. Estava
desenhando quando, subitamente, experimentei a estranha
sensação que uma pessoa tem a respeito de alguma coisa que
haja acontecido antes. Duas criaturas, um homem e uma
mulher; estavam na calçada que ficava diante de mim,
cumprimentando uma terceira, uma mulher que usava um
vestido de chintz, escarlate poinsétia.
O homem disse o seguinte: "Carol, mas que coisa
extraordinária! Imaginem só! Nós nos encontrarmos depois
de tantos anos! Você não conhece minha mulher. Joan, esta
é uma velha amiga, Miss Harding".
Reconheci imediatamente aquele homem. Era o mesmo
Denis que eu tinha visto em Rathole. Sua esposa era outra,
isto é, Joan, e não Margery. Mas era do mesmo tipo que a
primeira, desajeitada c muito insignificante. Durante alguns
momentos, pensei ter ficado maluca. Eles começaram a falar
em ir tomar banho de mar. Eu lhes conto o que fiz. Fui
diretamente ao distrito policial. Eu estava desvairada, mas
não liguei importância a isso. Aconteceu que tudo deu certo.
Lá havia um homem da Scotland Yard, que tinha chegado
exatamente por causa daquela coisa. Parece, é horrível falar
sobre isso, que a polícia suspeitava de Denis Dacre. O
verdadeiro nome dele não era esse, pois usava diferentes
nomes em diferentes ocasiões. Costumava travar
conhecimento com moças geralmente insignificantes, sem
parentes nem amigos. Casava-se com elas e fazia seguros de
vida de alto valor. Em seguida, isso é horrível! A mulher
chamada Carol era sua verdadeira esposa e os dois sempre
executavam o mesmo plano. Foi realmente por isso que a
polícia o pegou. As companhias de seguros começaram a
suspeitar. Ele se dirigia a algum lugar tranqüilo, à beira-mar,
acompanhado de sua nova esposa. Então a outra mulher apa-
recia e os três iam tomar banho de mar juntos. Depois que a
nova esposa era assassinada, Carol vestia as roupas dela e
voltava com ele de barco. Saíam do lugar, onde quer que
fosse, depois de fazerem indagações sobre a suposta Carol.
Quando se encontravam fora da vila, Carol apressadamente
tornava a vestir suas próprias roupas vistosas e refazia a
maquilagem espaventosa. Regressavam à vila e depois a
deixavam, dirigindo seu próprio carro. Verificavam em que
direção estava se deslocando a corrente do mar, e a suposta
morte acontecia no lugar vizinho ao ponto onde as pessoas
tomavam banho de mar, ao longo da costa. Carol
desempenhava o papel da esposa, ia para alguma praia
isolada, deixando as roupas dessa esposa junto a um rochedo.
E continuava a viagem sozinha, enfiada em seu vestido de
chintz estampado, ficando tranqüilamente aguardando que
o marido fosse juntar-se a ela.
No momento em que mataram a pobre Margery, suponho
que um pouco do seu sangue espirrou na roupa de banho de
Carol. Eles não repararam nisso porque a roupa era vermelha,
como disse Miss Marple. Mas quando a dependuraram na sa-
cada, o sangue gotejou.
— Uf! — exclamou Joyce, estremecendo. — Eu ainda o estou
vendo!
— Naturalmente — declarou Sir Henry — agora eu me
lembro muito bem de tudo. O verdadeiro nome do homem
era Davis. Tinha me fugido à memória que um dos seus
inúmeros supostos nomes era Dacre. O casal era
extraordinariamente astuto. Sempre me pareceu tão
espantoso que ninguém houvesse reparado na troca da
identidade dele. Suponho, conforme observou Miss Marple,
que as roupas são mais facilmente identificáveis do que as
fisionomias. Mas o plano foi muito inteligente. Embora
suspeitássemos de Davis, não foi fácil atribuir-lhe o crime
porque sempre parecia dispor de um álibi impecável.
— Tia Jane — indagou Raymond — olhando para ela cheio
de curiosidade. — Como a senhora consegue fazer isso? A
senhora tem levado uma vidinha tão pacífica e, no entanto,
parece não se surpreender com coisa alguma.
— Eu sempre acho as coisas muito iguais às outras neste
mundo — afirmou Miss Marple. — Mrs. Green, como vocês
sabem, enterrou cinco filhos, todos com a vida no seguro.
Bem! Naturalmente a gente começa a suspeitar.
Ela abanou a cabeça, acrescentando:
— Há uma grande perversidade na vidinha que se leva nas
vilas. Eu espero que vocês, meus queridos jovens, jamais
fiquem sabendo como este mundo é perverso!


5
O Móvel do Crime

MR. PETHERICK pigarreou com um jeito mais solene do que o
habitual, dizendo, em tom de desculpa:
— Receio que meu pequeno problema pareça bem insípido a
todos, após as sensacionais histórias que ouvimos. Na minha
não há derramamento de sangue, mas eu creio que se trata
de um pequeno problema, interessante e bem engenhoso.
Felizmente estou em condições de informar qual foi sua
solução.
— Não será um caso terrivelmente jurídico? — indagou Joyce
Lemprière. — Quero dizer, cheio de questões de direito e
uma porção de casos do tipo Barnaby versus Skinner no ano
de 1881, ou coisas desse tipo.
Mr. Petherick sorriu de maneira apreciativa, por cima dos
óculos, acrescentando:
— Não. Nada disso, minha jovem e prezada senhora. Não
precisa ter qualquer receio nesse particular. A história que
estou prestes a contar é perfeitamente simples e direta,
podendo ser acompanhada por qualquer leigo.
— Então não haverá chicanas — declarou Miss Marple,
sacudindo uma agulha de tricô em direção a ele.
— Decerto que não — afirmou Mr. Petherick.
— Bem — acrescentou Miss Marple — eu não estou assim
tão certa.
— A história diz respeito a um antigo cliente meu. Eu o
chamarei Mr. Clode, Simon Clode. Possuía apreciável
fortuna e morava numa grande casa, não muito longe daqui.
Um filho dele havia morrido na guerra e deixara uma
filhinha. A mãe da menina morrera por ocasião do
nascimento da criança e, quando o pai dela também faleceu,
passou a morar com o avô. Chris, a pequenina, fazia do avô o
que queria. Nunca vi um homem mais apegado a uma
criança, e não lhes consigo descrever a dor que sentiu
quando essa menina, com dezessete anos de idade, apanhou
uma pneumonia e foi desta para melhor.
O pobre Simon Clode mostrou-se inconsolável. Um irmão
dele morrera pouco tempo antes, em situação financeira
difícil, e Clode havia generosamente oferecido um lar aos
filhos desse irmão, duas meninas, Grace e Mary, e um rapaz,
George. Mas embora fosse bom e generoso para com os
sobrinhos, o velho Simon nunca lhes dedicou o afeto e os
cuidados que tivera no caso da netinha. Arranjou um
emprego para George num banco da vizinhança, e Grace
casou-se com um jovem químico e pesquisador, Philip
Garrod. Mary, uma menina quieta e introvertida, ficou
morando com o tio, cuidando dele. Creio que o estimava
muito, com aquele seu jeito tranqüilo e pouco expansivo.
Segundo todas as aparências, as coisas foram se desenrolando
pacificamente. Depois da morte da pequena Chris-tobel,
Simon Clode me procurou, dando-me instruções para que eu
lhe redigisse um novo testamento. Sua fortuna, que era bem
considerável, seria dividida igualmente entre o sobrinho e as
sobrinhas, cabendo um terço a cada um.
O tempo foi passando. Um belo dia, encontrando-me
casualmente com George Clode, pedi-lhe notícias do tio, que
eu não via há algum tempo. Ele me disse o seguinte, num
tom pesaroso: "Estimaria que o senhor desse um pouco de
juízo ao tio Simon". O rosto franco do rapaz, embora não
muito inteligente, parecia perplexo e preocupado. E
acrescentou: "Essa história de espiritismo está ficando cada
vez pior".
— Que história de espiritismo? — eu indaguei, muito
espantado.
George me contou tudo: Mr. Clode ficara pouco a pouco
interessado no espiritismo e, no auge de seu entusiasmo,
havia conhecido casualmente uma médium norte-americana,
uma certa Mrs. Eurydice Spragg. Essa mulher, que George
não hesitou em definir como impostora dos pés à cabeça,
conseguira obter imensa ascendência sobre Simon Clode.
Vivia praticamente em casa dele, e muitas sessões eram nela
realizadas, nas quais o espírito de Christobel aparecia ao avô,
já meio caduco, talvez.
Devo agora esclarecer que não pertenço à categoria das
pessoas que cobrem o espiritismo de ridículo e escárnio.
Conforme lhes afirmei, eu creio na evidência dos fatos.
Quando estamos diante de uma pessoa imparcial e pesamos
as evidências em favor do espiritismo, resta muita coisa que
não pode ser atribuída a fraudes nem ser levianamente posta
de lado. Por conseguinte, como eu lhes digo, não sou crente
nem descrente no espiritismo. Há certos testemunhos dos
quais não se pode discordar.
Mas, por um lado, o espiritismo presta-se muito facilmente à
fraude e à impostura. E diante de tudo quanto o jovem Clode
me contou sobre Mrs. Eurydice Spragg, eu me tornei cada
vez mais convencido de que Simon Clode não se achava em
boas mãos, e que Mrs. Spragg provavelmente era uma
farsante da pior espécie. O velho, embora atilado em
questões de ordem prática, seria facilmente dominado
quando estivesse em causa 6eu amor pela neta que havia
morrido.
Pensando em tudo isso, fiquei dia a dia mais inquieto.
Estimava os jovens Clode, Mary e George, e percebi que a tal
Mrs. Spragg, com a influência que exercia sobre o tio deles,
poderia futuramente gerar problemas.
Na primeira oportunidade que se apresentou, arranjei um
pretexto para fazer uma visita a Simon Clode. Encontrei Mrs.
Spragg instalada em casa dele, na qualidade de hóspede
querida. Logo que a vi, minhas piores apreensões se
confirmaram. Era uma mulher robusta, de meia idade,
vestida de um jeito exagerado. Vivia sempre a repetir
expressões de seu jargão profissional, sobre os queridos que
passaram ao Além, e outras coisas dessa natureza.
O marido dela também estava hospedado na casa de Simon
Clode. Chamava-se Abraham Spragg, um homem magro e
encolhido, com uma expressão melancólica e uns olhos
extremamente furtivos. Logo que me foi possível, fiquei a
sós com Simon Clode e o sondei com muito tato a respeito
do assunto. Ele mostrou-se cheio de entusiasmo. Eurydice
Spragg era uma criatura maravilhosa! Não ligava a mínima
importância ao dinheiro, pois lhe bastava a alegria de ajudar
um coração aflito. Ela tinha uma afeição maternal pela
pequena Chris. E ele estava começando a considerá-la quase
como se fosse uma irmã. Clode continuou a falar, dando-me
detalhes, contando-me que tinha ouvido a voz de Chris e
que a menina estava bem, em companhia dos pais. E
prosseguiu, referindo-se a outros sentimentos expressos pela
criança, os quais, segundo as recordações que eu tinha a seu
respeito, pareceram-me muito improváveis. Chris acentuara
que seu pai e sua mãe gostavam muito da querida Mrs.
Spragg.
— Mas, sem a menor dúvida, você é uma pessoa que há de
estar caçoando de mim — observou Simon.
— Não. Absolutamente. Longe de mim fazer isso. Algumas
das pessoas que escreveram sobre o espiritismo são homens
cujo testemunho eu aceitaria sem hesitar — disse eu. —
Respeitaria qualquer médium recomendado por um desses
homens, e daria crédito a ele. Presumo que Mrs. Spragg é
pessoa em quem se pode confiar.
Simon falou cheio de arroubos a respeito de Mrs. Spragg. Ela
lhe havia sido enviada pelo Céu. Tinha encontrado Mrs.
Spragg numa estação de águas onde passara dois meses
durante o verão. Fora um conhecimento travado por acaso. E
com que resultados maravilhosos!
Saí de sua casa muito preocupado. Meus piores temores se
confirmaram, mas eu não sabia o que poderia fazer. Após
muito refletir, decidi-me a escrever a Philip Garrod. Segundo
já mencionei, ele casara-se recentemente com Grace, a mais
velha das Clodes. Expus-lhe o caso, naturalmente em termos
os mais prudentes. Mostrei-lhe o perigo que havia no fato de
aquela mulher adquirir ascendência sobre o velho. E sugeri
que Mr. Clode fosse posto em contato, se possível, com
alguns conceituados círculos espíritas. Julguei que isso não
seria, no caso de Philip Garrod, coisa difícil de ser
conseguida.
Garrod agiu sem perda de tempo. Percebeu, o que não
ocorrera comigo, que a saúde de Simon Clode era muito
precária. Como homem prático, Garrod não pretendia
permitir que sua esposa e a irmã dela fossem despojadas da
herança que lhes pertenceria de direito, no caso de sobrevir
a morte de Simon. Veio procurar-me na semana seguinte,
acompanhado de uma pessoa, nada mais nada menos que o
famoso Professor Longman. Longman era um cientista de
primeira ordem, cujas ligações com o espiritismo obrigara
fosse o mesmo tratado com respeito. Não era apenas de um
brilhante cientista, mas também homem da maior correção e
probidade.
O resultado da visita de Longman a Simon Clode foi o mais
lamentável possível. Longman, segundo parece, falou muito
pouco enquanto lá esteve. Foram realizadas duas sessões, sob
condições que eu desconheço. Longman mostrou-se im-
parcial durante todo o tempo em que permaneceu na casa de
Simon. Todavia, depois de haver saído, escreveu uma carta a
Philip Garrod. Admitiu, nessa carta, que não pudera perceber
qualquer fraude nas atividades de Mrs. Spragg. No entanto,
em sua opinião, os fenômenos que presenciara não eram
genuínos. Mrs. Garrod, declarou ele, teria inteira liberdade
de mostrar essa carta ao tio, se o julgasse conveniente, e ele
sugeria que lhe seria possível colocar Mr. Clode em contato
com um médium da mais absoluta integridade.
Philip levou sem demora essa carta ao tio, mas o resultado
disso não foi o que eu havia previsto. O velho ficou possuído
de imensa fúria. Tudo aquilo era uma trama visando a
desacreditar Mrs. Spragg, uma santa mulher, caluniada e
injuriada. Ela já o informara a respeito da forte inveja que
havia despertado neste país. Simon declarou que Longman
havia sido forçado a afirmar que não descobrira qualquer
fraude. Eurydice Spragg lhe chegara nas horas mais aflitivas
de sua vida, dera-lhe ajuda e conforto. Ele estava disposto a
defender sua causa, ainda que isso significasse romper com
todos os membros da própria família. Para ele, Mrs. Spragg
representava mais do que qualquer outra pessoa deste
mundo.
Philip Garrod foi posto pela porta afora sem muita cerimônia.
Mas, em conseqüência desse acesso de cólera, a saúde de
Clode agravou-se, sem a menor dúvida. Durante um mês ele
ficou acamado quase ininterruptamente, e tudo indicava a
possibilidade de tornar-se um inválido, preso ao leito até que
a morte o libertasse. Passados dois dias da partida de Philip,
recebi um chamado urgente de Simon e me apressei em ir
vê-lo. Estava de cama e até aos meus olhos de leigo parecia
de fato muito doente. Respirava com grande dificuldade.
— Estou no fim — disse ele. — Sinto que é isso. Não discuta
comigo, Petherick. Mas, antes de morrer, vou cumprir
minha obrigação para com o ser humano que fez por mim
mais do que qualquer outra pessoa deste mundo. Quero fazer
um novo testamento.
— Sem dúvida — disse eu — desde que me dê instruções eu
redigirei um testamento e farei com que chegue às suas
mãos.
— Isso não me serve — acrescentou ele. — Ora essa, ho-
mem! Talvez eu não passe desta noite. Escrevi aqui o que eu
quero — e procurou um papel debaixo do travesseiro. —
Diga-me se isto está certo.
Estendeu-me a folha de papel na qual havia algumas palavras
escritas a lápis. Tudo era perfeitamente simples e claro.
Deixava 5.000 libras para cada sobrinho, e legava o restante
de sua avultada fortuna, sem restrições, a Eurydice Spragg,
com sua gratidão e admiração.
Eu não gostei daquilo, mas não havia o que discutir. Não se
poderia argüir um caso de insanidade mental, pois o velho
era são de espírito como qualquer pessoa normal.
Ele tocou a campainha, chamando duas das empregadas.
Ambas acudiram prontamente. A arrumadeira, Emma Gaunt,
era mulher alta, de meia idade, que o vinha servindo há
muitos anos e tinha sido dedicada enfermeira de Clode. Em
sua companhia apareceu também a cozinheira, uma jovem
rechonchuda, de seus trinta anos. Simon Clode encarou as
duas mulheres sob suas cerradas sobrancelhas, dizendo-lhes:
— Quero que vocês sejam testemunhas de meu testamento.
Emma, apanhe minha caneta-tinteiro.
Emma dirigiu-se obedientemente à escrivaninha dele. Mas o
velho lhe disse:
— Não está na gaveta da esquerda, criatura! — E falou com
irritação. — Você não sabe que a caneta está na gaveta do
lado direito?
— Ela não estava lá -— declarou Emma, estendendo-lhe a
caneta.
— Então você deve tê-la guardado fora do lugar, da última
vez — resmungou o velho. — Eu não tolero que as coisas
não sejam postas no lugar certo.
Continuando a resmungar, tomou a caneta das mãos dela e
copiou seu próprio rascunho do testamento, emendado por
mim, noutra folha de papel. Em seguida, assinou-o. Emma
Gaunt e a cozinheira, Lucy David, também assinaram o
documento. Eu o dobrei e coloquei num grande envelope
azul. O testamento havia sido, por uma questão de
necessidade, escrito numa folha de papel comum, como
todos hão de compreender.
No momento em que as empregadas se preparavam para sair
do quarto, Clode tornou a deitar-se sobre os travesseiros,
ofegante e com o rosto contorcido. Eu me debrucei sobre
ele, cheio de ansiedade, e Emma Gaunt voltou
apressadamente ao aposento. O velho melhorou, entretanto,
e sorriu débilmente, dizendo:
— Está tudo bem, Petherick. Não fique alarmado. De
qualquer maneira, eu morrerei tranqüilo, agora que fiz o que
queria.
Emma Gaunt olhou indagadoramente para mim como se
quisesse saber se deveria sair do quarto. Eu fiz-lhe um sinal
de cabeça, tranqüilizador, e ela se retirou, primeiro se abai-
xando para apanhar o envelope azul que havia caído no
chão, naquele meu momento de ansiedade. Entregou-me o
envelope, que eu enfiei no bolso do casaco. Em seguida, saiu
do quarto.
— Você está aborrecido, Petherick? — indagou Simon
Clode. — Você está cheio de prevenções, como todos os de-
mais.
— Não se trata de prevenção alguma. Mrs. Spragg poderá ser
tudo que você proclama. Eu não teria qualquer objeção se
você lhe deixasse um pequeno legado, como prova de gra-
tidão. Mas, digo-lhe isso com franqueza, Clode, deserdar pes-
soas de seu próprio sangue em proveito de uma estranha!
Isso não está certo.
Então, eu me dispus a sair. Havia feito o que pudera e lavrara
meu protesto.
Mary Clode surgiu da sala de visitas e veio ao meu encontro,
no vestíbulo, indagando:
— O senhor não vai tomar chá antes de sair? Venha até
aqui. — E me conduziu à sala de visitas.
O fogo ardia na lareira e a sala era aconchegante e aco-
lhedora. Ela tomou meu casaco no momento em que seu
irmão, George, ia entrando na sala. Ele pegou o casaco de
suas mãos, colocando-o sobre uma cadeira, no outro extremo
da sala. Em seguida, voltou para junto da lareira, onde nós
tomamos o chá. Nesse meio tempo, surgiu uma indagação a
respeito de um problema da propriedade. Simon dissera que
não desejava ser incomodado com esse assunto e deixara que
George o resolvesse. George estava bastante nervoso porque
teria de confiar em seu próprio julgamento. Por sugestão
minha, passamos ao escritório, depois do chá, onde eu
examinei os papéis referentes ao caso. Mary Clode nos
acompanhou.
Transcorrido um quarto de hora, preparei-me para sair.
Lembrando-me que havia deixado o sobretudo na sala de
visitas, dirigi-me até lá para buscá-lo. A única pessoa que se
encontrava na sala era Mrs. Spragg, ajoelhada perto da
cadeira onde se achava meu casaco. Parecia estar fazendo
alguma coisa perfeitamente desnecessária na capa de cretone
que revestia a cadeira. Levantou-se, enrubescendo, quando
nós entramos na sala, e disse, num tom de queixa:
— Esta capa nunca assenta direito. Meu Deus! Eu seria capaz
de fazer uma que caísse melhor.
Apanhei meu sobretudo e o vesti. Ao fazê-lo, reparei que o
envelope, contendo o documento, caíra de seu bolso e es-
tava no chão. Tornei a colocá-lo no bolso, despedi-me e saí.
Ao chegar ao escritório — agora irei descrever minhas ações
que se sucederam, e o farei com mais cuidado — tirei o
sobretudo e saquei o documento do bolso do mesmo. Eu o
tinha na mão e estava de pé, junto à minha mesa, quando
meu auxiliar entrou na sala. Alguém desejava falar comigo ao
telefone e a extensão que havia em minha escrivaninha não
estava funcionando. Por isso o acompanhei à outra sala, que
era a de entrada, e lá permaneci durante cerca de cinco
minutos, falando ao telefone. Quando voltei à sala, reparei
que meu auxiliar estava à minha espera, dizendo-me:
— Mr. Spragg veio vê-lo. Eu o fiz entrar em sua sala.
Dirigi-me para lá onde encontrei Mr. Spragg sentado ao lado
de minha mesa. Levantou-se e me cumprimentou de
maneira um tanto untuosa. Em seguida, começou a desfiar
uma longa arenga. Parecia que se tratava, principalmente, de
apresentar uma justificação meio constrangida dele próprio e
da esposa. Receava o que as pessoas diziam a seu respeito,
etc., etc. Sua esposa, desde criança, era conhecida pela
pureza de seu coração e de seus motivos.. . E assim por
diante. Creio que fui bastante seco com ele. Finalmente,
acredito que percebeu não estar sua visita sendo bem
sucedida, pois saiu de maneira abrupta. Depois eu me
lembrei que havia deixado o testamento sobre a mesa.
Apanhei-o, lacrei o envelope, nele escrevi o que continha, e
o guardei em meu cofre.
Agora vou chegar ao ponto culminante da história. Passados
dois meses, Mr. Simon Clode faleceu. Eu não entrarei em
muitos pormenores, pois irei limitar-me simplesmente aos
fatos. Quando o envelope, lacrado, contendo o
testamento, foi aberto, verificou-se que nele havia
apenas uma folha de papel em branco.
Petherick fez uma pausa, olhando em derredor para todos
aqueles rostos curiosos. E sorriu com certa satisfação,
dizendo:
— Com certeza todos apreciaram o ponto em questão.
Durante dois meses o envelope lacrado havia permanecido
em meu cofre. Não poderia ter sido mexido no decorrer de
todo esse tempo. Sem dúvida. O prazo fora muito reduzido,
entre o momento em que o testamento foi assinado e o fato
de eu guardá-lo no cofre. Ora, quem teria tido a
oportunidade de mexer no documento, e no interesse de
quem isso teria sido feito?
Vou recapitular os pontos essenciais, fazendo um breve
resumo dos mesmos: o testamento, assinado por Mr. Clode,
foi posto num envelope. Até aí muito bem. Em seguida, foi
por mim colocado no bolso do meu sobretudo. Este foi
tomado de minhas mãos por Mary, que o passou a George,
isso dentro dos limites do meu campo visual, enquanto
George segurava o sobretudo. Durante o tempo em que
permaneci no escritório, Mrs. Eurydice Spragg teria tido
tempo suficiente para retirar o envelope do bolso do
sobretudo, e ler seu conteúdo. Na realidade, tendo eu
encontrado o envelope no chão, e não no bolso do so-
bretudo, isso parece indicar que ela havia feito aquilo. Mas
agora chegamos a um ponto curioso: ela tivera a
oportunidade de substituir o documento pela folha em
branco, mas não teria qualquer motivo para assim proceder.
O testamento era-lhe favorável e, substituindo-o por uma
folha de papel em branco, isso a privaria da herança que
estivera tão ansiosa por obter. O mesmo se aplica a Mr.
Spragg. Ele também tivera a oportunidade de fazer a
substituição, pois havia ficado sozinho, ao lado do
documento em questão, durante uns dois ou três minutos,
em meu escritório. Mas, ainda nesse caso, não lhe seria
vantajoso assim proceder. Desse modo, estamos diante de
um curioso problema: as duas pessoas que tiveram a
oportunidade de substituir o documento por um papel em
branco não teriam um motivo para assim fazer, ao passo que
as duas outras pessoas que possuíam algum motivo para
fazê-lo não tiveram qualquer oportunidade de agir. A
propósito, eu não excluiria das suspeitas a empregada, Emma
Gaunt. Era dedicada aos jovens patrões e detestava Spragg.
Tenho certeza de que teria sido bem capaz de tentar
substituir o documento, se tivesse pensado nisso. Mas,
embora de fato tenha pegado no envelope, quando o
apanhou do chão e o entregou a mim, certamente não teve
oportunidade de mexer em seu conteúdo, nem poderia tê-lo
substituído por outro envelope graças a algum truque de
prestidigitação (coisa que não teria capacidade de fazer), isso
porque o envelope foi por mim levado para casa. E aí
ninguém provavelmente teria uma duplicata desse envelope.
Petherick olhou em derredor, abrindo-se num sorriso para
aquele grupo de pessoas. E acrescentou:
— Bem, há um pequeno problema nisso tudo. Espero tê-lo
exposto de maneira clara. Gostaria de ouvir suas opiniões a
respeito dele.
Para espanto geral, Miss Marple deu um longo riso abafado.
Alguma coisa parecia diverti-la imensamente.
— O que há, tia Jane? Será que não podemos participar do
que a senhora achou engraçado? — indagou Raymond.
— Eu estava pensando no pequeno Tommy Symonds, um
menino bem levado, creio eu. Mas às vezes ele era muito
divertido. Uma dessas crianças que têm carinhas inocentes e
infantis, mas que vivem sempre a pregar alguma peça, a fazer
alguma travessura. Eu estava pensando na pergunta que ele
fez na Escola Dominical,, na semana passada: "Professora, a
senhora diria que a gema do ovo é branca, ou que as gemas
dos ovos são brancas?" E Miss Durston explicou que todo
mundo poderia dizer que as gemas dos ovos são brancas, ou
que a gema do ovo é branca. Mas o levado do Tommy
acrescentou: "Pois eu digo que a gema do ovo é amarela."
Foi, sem dúvida, uma grande diabrura dele, mais velha do
que Matusalém. Eu conhecia essa história desde criança.
— E muito engraçado, minha querida tia Jane — observou
Raymond amavelmente. — Mas nada tem a ver com a his-
tória muito interessante que Mr. Petherick nos contou.
— Tem, sim senhor — declarou Miss Marple. — É uma
pergunta capciosa. A história de Mr. Petherick também é.
Coisa de advogado! Ah, meu velho e prezado amigo,
acrescentou Miss Marple, abanando a cabeça para ele, em
sinal de censura.
— Eu estou aqui pensando se a senhora de fato sabe o que
houve — disse o advogado, com um brilho no olhar.
Miss Marple escreveu umas palavras num pedaço de papel,
dobrou-o e passou-o às mãos dele.
Mr. Petherick desdobrou o papel, leu o que nele estava
escrito e olhou para ela com um jeito de admiração,
declarando o seguinte:
— Minha prezada amiga. Haverá alguma coisa que a senhora
não saiba?
— Eu sempre soube isso desde criança — afirmou Miss
Marple. — Já brinquei disso também.
— Estou completamente perdido — afirmou Sir Henry. —
Tenho certeza de que Mr. Petherick esconde dentro da
manga algum passe de mágica.
— Absolutamente — declarou Mr. Petherick. — De modo
algum. Trata-se de uma proposição inteiramente lícita e
direta. O senhor não deve dar atenção a Miss Marple. Ela
tem sua maneira própria de encarar as coisas.
— Nós não seremos capazes de chegar à verdade — disse
Raymond West, um tanto contrafeito. — Os fatos sem dú-
vida parecem bastante simples. Cinco pessoas efetivamente
manusearam aquele envelope. É claro que os Spraggs
poderiam ter mexido nele, mas é igualmente claro que não o
fizeram. Restam as outras três pessoas. Ora, quando se pensa
nos maravilhosos truques que possuem os mágicos quando
fazem determinadas coisas diante dos nossos olhos, parece-
me que o papel poderá ter sido retirado do envelope e
substituído por George Clode durante o tempo em que levou
o sobretudo até o extremo da sala.
— Pois eu acho que foi a moça — declarou Joyce. — Penso
que a empregada foi correndo contar-lhe o que estava
acontecendo. Ela apanhou outro envelope azul, substituindo-
o pelo original.
Sir Henry abanou a cabeça e disse, lentamente:
— Eu discordo de ambos. Essas coisas são feitas por mágicos,
nos palcos e nos romances. Mas eu acredito que seriam
impossíveis na vida real, especialmente diante dos olhos
perscrutadores de um homem como Mr. Petherick, aqui
presente. Mas eu tenho uma idéia, apenas uma idéia, nada
mais do que isso. Sabemos que o Professor Longman acabara
de fazer uma visita àquela casa e que falara muito pouco. É
simplesmente razoável supor que os Spraggs poderão ter
ficado muito ansiosos a respeito do resultado dessa visita. Se
Simon não lhes tivesse informado sobre isso, o que seria
bastante provável, poderiam ter considerado de um ângulo
bem diferente o fato de ter ele mandado chamar Mr.
Petherick. Talvez tenham acreditado que Mr. Clode já havia
feito um testamento que beneficiaria Eurydice Spragg, e que
o novo testamento teria sido redigido com a finalidade
expressa de excluí-la da herança, em resultado das revelações
do Professor Longman. Ou então, como dizem os advogados,
Philip Garrod teria impressionado o tio acerca dos direitos
das pessoas de seu próprio sangue. Nesse caso suponhamos
que Mrs. Spragg estivesse disposta a realizar a substituição do
documento. Ela assim faz, mas Mr. Petherick aparece e, num
momento infeliz, ela não teria tido tempo de ler o
documento verdadeiro e o destruiu apressadamente,
queimando-o, com receio de que o advogado pudesse dar
por falta dele.
Joyce sacudiu a cabeça de um jeito muito decidido, e disse:
— Ela jamais o queimaria sem ler o que nele estava escrito.
— Minha solução é bastante fraca — admitiu Sir Henry. —
Suponho que Mr. Petherick não terá ajudado, ele próprio, a
Providência Divina.
A insinuação foi feita apenas em tom de pilhéria, mas o
pequeno advogado empertigou-se todo com sua dignidade
ferida, e declarou, com certa aspereza:
— Insinuação muitíssimo imprópria.
— E o que diz o Dr. Pender? — indagou Sir Henry.
— Eu não posso afirmar que tenha idéias claras sobre o
assunto. Penso que a substituição deve ter sido feita por Mrs.
Spragg ou pelo marido dela, possivelmente pelo motivo
sugerido por Sir Henry. Se ela só leu o testamento depois da
saída de Mr. Petherick, nesse caso estaria diante de um
dilema, pois não poderia assumir a paternidade de sua própria
ação. Possivelmente o colocaria entre os papéis de Mr.
Clode, em algum lugar onde teria pensado que seria
encontrado depois da morte dele. Mas por que motivo o
testamento não foi achado, isso eu não sei. Talvez seja mera
especulação minha, mas Emma Gaunt o terá descoberto e,
por sua dedicação aos patrões, nesse caso indevida, destruiu
propositadamente o documento.
— Eu julgo que a solução do Dr. Pender é a melhor de todas
— declarou Joyce. — É a correta, Mr. Petherick?
O advogado abanou a cabeça, negativamente, e disse:
— Prosseguirei minha história onde a interrompi. Fiquei
perplexo, quase tão perdido como todos aqui. Penso que
nunca teria chegado à verdade, provavelmente isso não teria
acontecido. Mas fui informado à seu respeito. A coisa foi
realizada com astúcia.
Fui visitar Philip Garrod e jantei com ele, cerca de uma
semana após os acontecimentos. Durante nossa conversa,
depois do jantar, ele mencionou um caso interessante que
chegara ao seu conhecimento. E me disse o seguinte:
— Eu gostaria de contá-lo em confiança, Petherick.
— Perfeitamente — eu respondi.
— Um amigo meu, que espera receber uma herança de uns
parentes, ficou muito deprimido ao descobrir que esse pa-
rente estava pensando em beneficiar uma pessoa
inteiramente ¡merecedora disso. Meu amigo é um tanto
inescrupuloso quanto aos seus métodos, creio eu. Tinha em
casa uma empregada, muito dedicada aos interesses da pessoa
que eu poderia denominar a legítima herdeira. Esse amigo
deu-lhe instruções muito simples: forneceu-lhe uma caneta-
tinteiro, devidamente cheia. Ela teria de colocar essa caneta-
tinteiro numa gaveta da escrivaninha do quarto do patrão,
não na gaveta habitual onde a caneta era geralmente
guardada. Se o patrão lhe pedisse que servisse de testemunha
de sua assinatura em qualquer documento e lhe ordenasse
que trouxesse sua caneta, ela deveria levar-lhe não a caneta
certa, mas a outra, que era cópia fiel da mesma. Era tudo que
teria de fazer. Meu amigo não lhe deu quaisquer outras
informações. A moça era pessoa devotada e cumpriu
fielmente essas instruções.
Philip interrompeu o que estava me contando e disse:
— Espero não estar lhe caceteando, Petherick.
— Absolutamente — eu declarei. — Estou vivamente
interessado.
Nossos olhares se encontraram e Philip Garrod acrescentou:
— Naturalmente não conhece meu amigo.
— De certo que não.
— Então tudo está bem.
Philip fez uma pausa, sorriu e observou:
— Está percebendo de que se tratava? A pena estava cheia
de uma tinta geralmente denominada evanescente: uma
solução aquosa, de amido, à qual haviam sido adicionadas
algumas gotas de iodo. Isso dá um fluido azul-preto. Mas o
que se escrever com ele desaparece ao cabo de quatro ou
cinco dias.
Miss Marple deu um risinho abafado e disse:
— Tinta evanescente. Eu a conheço muito bem. Muitas
vezes brinquei com essa tinta quando era criança.
E riu-se para todos, fazendo uma pausa para novamente
sacudir um dedo, apontado para Mr. Petherick.
— De qualquer maneira, Mr. Petherick, foi uma armadilha
— disse ela. — Exatamente como fazem os advogados.

6
A Marca do Polegar de São Pedro

— É SUA VEZ, TIA JANE — disse Raymond West.
— Sim, tia Jane — exclamou Joyce Lemprière. — Estamos
esperando alguma coisa realmente suculenta.
— Ora essa, meus queridos, vocês estão caçoando de mim —
declarou Miss Marple plácidamente. — Vocês pensam que
por eu viver neste fim de mundo a vida inteira, não é pro-
vável que tenha tido experiências muito interessantes.
— Deus me livre de achar que a vida numa vila seja pacífica e
monótona — declarou Raymond com fervor. — Não
pensaria isso depois das terríveis revelações que ouvimos da
senhora. O mundo cosmopolita deve parecer brando e
tranquilo, comparado a St. Mary Mead.
— Bem, meu querido — disse Miss Marple. — A natureza
humana é a mesma em toda parte. Naturalmente uma pessoa
tem oportunidades de observá-la mais de perto, numa vila.
— A senhora é realmente excepcional, tia Jane — exclamou
Joyce. — Espero que não se importe que eu a chame de tia
Jane — acrescentou. — Não sei por que estou dizendo isso.
— Você não sabe, querida? — indagou Miss Marple. E
levantou a cabeça durante uns instantes, fitando a moça com
um olhar meio inquisitivo, que a fez enrubescer. Raymond
West remexeu-se na cadeira, e pigarreou, com um jeito
embaraçado.
Miss Marple olhou para ambos e tornou a sorrir, concen-
trando mais uma vez a atenção em seu tricô, dizendo:
— É verdade que eu tenho levado uma vida que se diria
muito monótona. Mas adquiri grande experiência ao resolver
vários pequenos problemas que surgiram. Alguns foram
realmente bem engenhosos, mas não vale a pena contá-los
porque tratam de coisas sem importância, em que não
estariam interessados. Coisas assim como esta: quem teria
cortado as malhas da bolsa de Mrs. Jones? Ou por que Mrs.
Sims só usou seu novo casaco de pele uma única vez. Coisas
verdadeiramente muito interessantes para qualquer estudioso
da natureza humana. Não. A única experiência de que eu me
lembro, que seria interessante para todos aqui, é a que diz
respeito ao marido de Mabel, minha pobre sobrinha.
Tudo aconteceu mais ou menos há uns quinze anos e,
felizmente, o caso está encerrado e as pessoas já se
esqueceram de tudo. A memória humana é muito breve,
felizmente. Eu sempre penso nisso.
Miss Marple fez uma pausa e murmurou consigo:
— Agora preciso contar esta carreira. A redução do tricô está
meio esquisita. Um, dois, três, quatro, cinco, depois três
pontos inversos. Está certo. Mas o que eu estava dizendo?
Ah, sim. Estava falando sobre a pobre Mabel.
Mabel era minha sobrinha. Uma boa menina, de fato muito
boazinha, mas um pouco tonta, como se poderia dizer.
Gostava muito de ser melodramática e de falar mais do que
devia, quando ficava contrariada. Aos vinte e dois anos de
idade casou-se com um certo Mr. Denman, homem de gênio
violento. Não era o tipo de pessoa capaz de ter paciência
com as fraquezas de Mabel, e eu também sabia que havia
casos de loucura na família dele. Mas as jovens, naquele
tempo, eram tão teimosas como as de hoje e como sempre
hão de ser. Mabel casou-se com ele.
Eu não a vi muito depois de seu casamento. Ela veio passar
uns tempos comigo, duas ou três vezes, e o casal me convi-
dou para hospedar-me em sua casa, em diversas ocasiões.
Mas eu realmente não gosto muito de me hospedar em casa
alheia, e sempre consegui arranjar algum pretexto para lá não
ir. Eles estavam casados há dez anos quando Mr. Denman
morreu de repente. O casal não tinha filhos e ele deixou toda
sua fortuna para Mabel. Escrevi para ela, naturalmente,
oferecendo-me para lhe fazer companhia, se ela assim
quisesse. Mabel me respondeu, numa carta muito sensata, e
eu percebi que não estava sucumbida de dor. Pensei que isso
era muito natural porque eu sabia que eles não estavam se
dando muito bem há algum tempo. Somente transcorridos
cerca de três meses é que recebi uma carta verdadeiramente
histérica, de Mabel, instando para que eu fosse à sua casa e
dizendo que as coisas iam de mal a pior, e que não seria
capaz de suportar aquilo por muito mais tempo.
Por esse motivo, o que foi muito natural, prosseguiu Miss
Marple, deixei dinheiro para a alimentação de Clara, deposi-
tei num banco minha prataria e o canecão de estanho do Rei
Carlos, e parti imediatamente. Encontrei Mabel num estado
de nervos horrível. A casa, Myrtle Den, era bem grande e
mobiliada com muito conforto. Mabel tinha cozinheira,
arrumadeira e também uma enfermeira que cuidava do velho
Mr. Denman, sogro dela, que não estava muito bom da
cabeça, como se diz. Era muito calmo e se portava bem, mas
era positivamente esquisito, em certas ocasiões. Havia casos
de loucura na família, já lhes falei.
Fiquei realmente impressionada ao ver como Mabel tinha
mudado. Era um feixe de nervos e todo seu corpo tremia.
Tive grande dificuldade em fazê-la me contar qual era seu
problema. Procedi, como sempre se age nessas ocasiões, de
maneira indireta, e pedi notícias de alguns amigos que ela
vivia mencionando em suas cartas, os Gallaghers. Com
surpresa para mim, Mabel me disse que quase nunca os via.
Outros amigos dela, que também me referi, provocaram a
mesma observação. Falei com ela do absurdo de ficar assim
trancada, dentro de casa, remoendo seus pensamentos, e
comentei, de maneira especial, a tolice de afastar-se de seus
amigos. Então ela subitamente me contou a verdade.
Não sou eu quem faz isso, ela me disse, são eles. Hoje em dia
ninguém aqui deste lugar me dirige a palavra. Quando vou
até High Street, todos se afastam para não se encontrar comi-
go, não falar comigo. Eu sou unia espécie de leprosa. Isso é
horrível! Eu não agüento mais! Vou ter que vender esta casa
e sair daqui. Mas por que hei de ser expulsa de uma casa
como esta? Eu não fiz nada de errado.
Eu fiquei mais perturbada do que lhes possa dizer. Estava
tricotando uma manta de lã para a velha Mrs. Hay e, em
minha inquietação, deixei escapar dois pontos e só descobri
isso muito tempo depois.
— Minha querida Mabel, eu lhe disse, você me surpreende.
Mas qual a causa de tudo isso?
Mabel tinha sido difícil, mesmo em criança. Eu sempre tivera
de me esforçar muito para conseguir que ela respondesse
minhas perguntas de maneira direta. Limitou-se a dizer
coisas vagas a respeito de conversas cheias de perversidade e
de pessoas ociosas que não tinham mais que fazer exceto
espalhar aqueles boatos e meter caraminholas nas cabeças
dos outros.
— Isso está perfeitamente claro para mim — eu prossegui.
— É evidente que anda circulando por aí alguma história a
seu respeito. Mas você deve saber, tão bem como qualquer
pessoa, que espécie de história é essa. E vai me dizer de que
se trata.
— É tão repugnante! — gemeu Mabel.
— Com certeza é repugnante — eu declarei num tom
enérgico. — Nada que você possa me contar sobre a mente
das pessoas será capaz de me espantar ou surpreender. Pois
bem, Mabel: você vai me dizer, sem meias palavras, o que
andam falando a seu respeito.
Então tudo veio à tona.
Parecia que a morte de Geoffrey Denman, tendo sido muito
súbita, inesperada, dera origem a vários rumores.
Efetivamente, como eu lhes disse, as pessoas andavam
afirmando sem rodeios que ela tinha envenenado o marido.
Eu espero que saibam não haver nada de mais cruel do que
um boato, e que não existe coisa mais difícil do que comba-
ter isso. Quando as pessoas falam pelas costas das outras, não
há nada que possa ser refutado ou negado. E os rumores
continuam a tomar corpo. Ninguém consegue detê-los. Eu
tinha absoluta certeza sobre um ponto: Mabel era
seguramente incapaz de envenenar alguém. Eu não via
motivos para que a vida dela fosse arruinada e sua casa se
tornasse um lugar intolerável simplesmente porque, com
todas as probabilidades, ela teria feito alguma coisa tola ou
estouvada.
— Não há fumaça sem fogo — eu lhe disse. — Muito bem.
Mabel, você precisa me dizer o que terá levado as pessoas a
começarem esse falatório. Deve ter havido alguma coisa.
Mabel mostrou-se muito incoerente, declarando que não
havia nada, absolutamente nada, exceto, sem dúvida, que a
morte de Geoffrey tinha sido muito súbita. Ele parecia estar
passando bem durante a ceia e adoecera gravemente, à noite.
O médico foi chamado, mas o pobre homem morreu poucos
minutos após sua chegada. Acreditou-se que sua morte fora
em conseqüência de haver ele comido uns cogumelos
envenenados.
— Bem — disse eu — suponho que uma morte súbita, dessa
natureza, é capaz de fazer com que as pessoas linguarudas
fiquem murmurando. Mas, sem dúvida, isso exige que haja
mais alguns fatos. Houve alguma discussão entre você e
Geoffrey, ou qualquer coisa parecida?
Ela admitiu ter discutido com ele na manhã anterior, quando
faziam a primeira refeição.
— Suponho que as empregadas ouviram essa discussão — eu
comentei.
— Elas não estavam na sala — disse Mabel.
— Não, minha querida. Mas, provavelmente estavam bem
perto, atrás da porta.
Eu conhecia bem demais a sonoridade da voz aguda e his-
térica de Mabel. E Geoffrey Denman era também inclinado a
elevar a voz quando se irritava.
— E sobre que assunto vocês discutiram? — eu indaguei.
— As coisas de costume. Eram sempre as mesmas, uma atrás
da outra. Algum fato sem importância fazia com que a gente
começasse a discutir. Então Geoffrey ficava impossível e
dizia coisas abomináveis. E eu falava o que pensava a respeito
dele.
— Então havia muitas discussões entre vocês?
— A culpa não era minha.
— Minha querida menina — eu acrescentei — não importa
de quem seria a culpa. Não é disso que estamos tratando.
Num lugar como este, os assuntos particulares são mais ou
menos do domínio público. Você e seu marido estavam
sempre discutindo. Vocês tinham travado uma discussão
muito forte, numa certa manhã. E naquela noite seu marido
morreu de repente e de maneira misteriosa. Isso é tudo, ou
ainda haverá mais alguma coisa?
— Eu não sei o que a senhora quer dizer quando fala em mais
alguma coisa — declarou Mabel num tom sucumbido.
— Exatamente o que estou dizendo, querida. Se você fez
alguma tolice, pelo amor de Deus não me esconda isso agora.
Eu só desejo fazer o que puder para ajudar a você.
— Ninguém poderá me ajudar! Ninguém! — exclamou Mabel
num desespero. — Só a morte!
— Tenha um pouco mais de confiança na Providência Di-
vina, minha querida. Muito bem, Mabel: eu sei
perfeitamente que há alguma coisa que você está
escondendo de mim.
Eu sempre soube, mesmo quando Mabel era criança, quando
não estava me dizendo toda a verdade. A coisa demorou
muito tempo a ser explicada, mas, finalmente, ela me contou
tudo. Naquela manhã, tinha ido até a farmácia e comprado
um pouco de arsênico. Naturalmente — fora obrigada a
assinar um livro por causa disso. E também, naturalmente, o
farmacêutico dera com a língua nos dentes.
— Quem é seu médico? — eu lhe perguntei.
— É o Dr. Rawlinson.
Eu o conhecia de vista. Mabel me havia apontado na rua o
Dr. Rawlinson, uns dias antes. Para falar em termos
absolutamente claros, ele era o que eu descreveria como um
tolo. Eu já tive muitas experiências na vida para acreditar na
infalibilidade dos médicos. Alguns são homens inteligentes,
outros não. E na metade dos casos, os melhores médicos não
sabem o que uma pessoa tem. Eu não quero saber de
médicos e de seus remédios.
Pensei no assunto e, em seguida, pus minha touca e fui
procurar o Dr. Rawlinson. Ele era exatamente o que eu havia
pensado: um bom velho, amável, impreciso, e tão míope que
dava pena. Era meio surdo e, também, suscetível no mais
alto grau. Logo se alvoroçou quando eu mencionei a morte
de Geoffrey Denman. E falou durante muito tempo sobre
várias espécies de fungos, comestíveis e outros. Havia
interrogado a cozinheira e ela admitira que dois ou três
cogumelos que preparara tinham aspecto um tanto estranho.
Mas como a mercearia os havia mandado, pensou que todos
deveriam ser bons. Mas, desde então, quanto mais pensava
neles, mais se convencia de que sua aparência era fora do
comum.
— Ela deveria estar convencida disso — eu comentei.
Os cogumelos a princípio eram bem iguais aos outros, quanto
ao seu aspecto. Mas acabaram ficando cor de laranja, com
manchas purpurinas. Não há nada que a classe médica não
seja capaz de se lembrar, se fizer um esforço nesse sentido.
Eu deduzi que Denman já não conseguia falar quando o
médico chegou à sua cabeceira. Não podia engolir e morreu
ao cabo de alguns minutos. O médico me pareceu
perfeitamente satisfeito com o atestado de óbito que passou.
Mas ninguém poderia ter certeza até que ponto aquilo seria
teimosia ou verdadeira convicção.
Fui diretamente para casa e perguntei a Mabel, com toda
franqueza, porque motivo ela havia comprado arsênico. E
declarei:
— Você deveria estar com alguma idéia na cabeça. Mabel
começou a chorar, e disse, a gemer:
— Eu queria acabar com minha vida. Era muito infeliz!
Pensei que ia pôr um fim ao meu sofrimento.
— Você ainda tem o arsênico? — eu indaguei.
— Não. Joguei todo fora.
Eu fiquei sentada, ruminando aquelas coisas. Depois inda-
guei;
— O que aconteceu quando ele começou a passar mal?
Chamou você?
— Não — disse ela, abanando a cabeça. — Tocou a cam-
painha com muita força. Deve ter tocado a campainha várias
vezes. Finalmente, Dorothy, a arrumadeira, ouviu a
campainha, acordou a cozinheira e as duas desceram.
Quando Dorothy o viu ficou muito assustada. Estava dizendo
coisas sem nexo, delirando. Ela deixou a cozinheira com ele
e foi correndo me chamar. Eu me levantei da cama e fui para
junto dele. Vi imediatamente que ele estava muito mal.
Infelizmente, a enfermeira Brewster, que cuida do velho Mr.
Denman, estava de folga naquela noite, por isso não havia
ninguém que soubesse o que fazer. Mandei Dorothy ir
chamar o médico. A cozinheira e eu ficamos com ele. Mas
passados alguns minutos, não pude mais agüentar tudo
aquilo. Era horrível demais. Corri para meu quarto e tranquei
a porta a chave.
— Mas que grande egoísmo e maldade — eu observei. —
Sem dúvida sua conduta não lhe ajudou em nada, disso você
pode ter certeza. A cozinheira repetiu essa história aos
quatro ventos. Muito bem. A coisa é feia.
Em seguida conversei com as empregadas. A cozinheira
queria me falar sobre os cogumelos, mas eu não permiti.
Estava cansada daqueles cogumelos. Em vez disso,
interroguei as duas de maneira precisa acerca do estado de
seu patrão naquela noite. Ambas concordaram que ele
parecia muito agoniado, não conseguindo engolir, só
podendo falar com uma voz estrangulada. E quando falava,
emitia apenas uns grunhidos, nada que fizesse sentido.
— O que ele disse quando estava delirando? — eu indaguei,
cheia de curiosidade.
— Alguma coisa sobre peixe, não foi isso? — disse a
cozinheira, voltando-se para a outra.
Dorothy concordou, declarando:
— Um monte de peixes. Umas coisas sem sentido como
isso. Eu vi logo que ele não estava bom das idéias.
Parecia impossível obter qualquer informação daquilo. Como
último recurso, procurei Brewster, que era mulher de meia
idade, magra, de seus cinqüenta anos.
— Foi uma pena que não estivesse aqui naquela noite —
disse ela. — Ninguém parece ter procurado fazer alguma
coisa por ele até o médico chegar.
— Suponho que ele estava delirando — eu sugeri, num tom
de dúvida. — Mas isso não é um sintoma de envenenamento
pela ptomaína.
— Depende — declarou a enfermeira. Eu indaguei como ia
passando seu doente. Ela abanou a cabeça, dizendo:
— Não vai nada bem.
— Debilitado?
— Ah, não! Ele é bem forte fisicamente. A não ser a visão,
que está enfraquecendo muito. Ainda é capaz de enterrar
todos nós. Mas a cabeça dele não está regulando. Está
piorando cada vez mais. Eu já disse a Mr. e Mrs. Denman
que ele deveria ir para um sanatório. Mas Mrs. Denman não
quer nem ouvir falar nisso. De maneira alguma.
Acho que devo dizer, em favor de Mabel, que ela sempre
teve um bom coração.
Pois bem. A situação era aquela. Eu refleti sobre todos os
aspectos da questão, e, finalmente, resolvi que havia apenas
uma coisa a fazer. Diante dos rumores que corriam, seria
necessário solicitar permissão para exumar o corpo. E deveria
ser feita uma autópsia para que as más línguas se calassem de
uma vez por todas. Naturalmente Mabel fez um estardalhaço,
sobretudo por motivos de ordem sentimental: perturbar o
morto em seu túmulo, onde estava descansando em paz. E
coisas assim. Mas eu mantive pé firme.
Não contarei uma longa história sobre esse aspecto da
questão. Conseguimos a autorização para mandar fazer a au-
tópsia, ou que outro nome se dê a isso. Mas seu resultado não
foi muito satisfatório, como se poderia ter esperado. Não fo-
ram encontrados quaisquer traços de arsênico, o que foi
muito bom, mas as verdadeiras palavras do laudo foram as
seguintes: não havia coisa alguma que provasse como o
morto encontrara seu fim.
Assim, como vêem, aquilo não nos libertou inteiramente de
nossa inquietação. As pessoas continuaram a falar sobre
venenos raros, que ninguém consegue identificar. Tolices
dessa natureza.
Eu havia falado com o patologista que fizera a autópsia, e lhe
fizera várias perguntas. Embora se esforçasse ao máximo para
deixar de me responder a maioria dessas perguntas, dele
obtive a informação de que julgava muito improvável que os
cogumelos envenenados tivessem sido a causa da morte.
Uma idéia estava fervilhando dentro de mim, e eu indaguei
àquele homem que veneno, se existisse algum, poderia ter
sido empregado para obter aquele resultado. Ele me deu uma
longa explicação da qual, eu devo confessar, não consegui
acompanhar a maior parte. Mas tudo se resumiu no seguinte:
a morte poderia ter sido causada por algum forte alcalóide de
origem vegetal.
A idéia que eu tinha era a seguinte: supondo que também
houvesse no sangue de Geoffrey Denman um toque de
loucura, não poderia ele ter acabado com a própria vida?
Numa certa fase de sua juventude, havia estudado medicina e
deveria possuir bons conhecimentos a respeito dos venenos
e seus efeitos.
Não achei que aquilo parecesse muito provável, mas era a
única coisa em que conseguia pensar. Estava quase
inteiramente perplexa, isso eu lhes posso afirmar. Bem, eu
acho que todos aqui, gente moderna, serão capazes de caçoar
de mim. Mas quando eu me encontro de fato em maus
lençóis, sempre faço uma oração. Em qualquer lugar, quando
estou caminhando pelas ruas, ou num bazar. Sempre sou
atendida. Pode ser uma coisa à-toa, aparentemente sem a
menor relação com o assunto, Mas sempre foi assim. Quando
era uma menina pequena, mantinha o seguinte texto,
espetado por um alfinete, no alto de minha cama: "Pede, e
receberás." Na manhã a que estou me referindo, eu estava
caminhando pela High Street, rezando com fervor. Fechei os
olhos e, quando os abri, imaginem o que foi a primeira coisa
que vi?
Quatro rostos, revelando vários graus de interesse, estavam
voltados para Miss Marple. Mas se pode presumir, com
segurança, que ninguém teria adivinhado a resposta certa
daquela pergunta.
— Eu vi — afirmou Miss Marple de maneira impressionante
— a vitrina de uma peixada. Nela só havia uma coisa:
hadoque fresco.
E olhou em derredor, com um ar triunfante.
— Oh, meu Deus! — exclamou Raymond West. — Essa foi a
resposta a uma prece: hadoque fresco!
— Sim, Raymond — declarou Miss Marple com um ar
severo. — Não há necessidade de blasfemar por causa disso.
A mão de Deus está por toda parte. A primeira coisa que eu
vi foram as manchas pretas, as marcas do polegar de São Pe-
dro. Essa é a lenda, como sabem. O polegar de São Pedro.
Aquilo esclareceu tudo para mim. Eu tinha necessidade de
fé, a sempre verdadeira fé em São Pedro. E liguei as duas
coisas; fé e peixe.
Sir Henry assoou o nariz de maneira um tanto pressurosa, e
Joyce mordeu o lábio.
Pois bem. O que aquilo me fez lembrar? A cozinheira e a
arrumadeira, naturalmente, tinham mencionado que uma das
coisas em que o moribundo falou foi peixe. Eu estava
convencida, absolutamente convencida, de que deveria ser
encontrada nessas palavras alguma solução para o mistério.
Fui para casa decidida a chegar ao âmago da questão.
Miss Marple fez uma pausa e prosseguiu:
— Alguma vez lhes ocorreu até que ponto nos guiamos pelo
que se chama, creio eu, o contexto? Há um lugar em
Dartmoor que se denomina Grey Wethers. Se alguém
conversasse com um lavrador desse lugar e mencionasse o
nome Grey Wethers. ele provavelmente concluiria que a
pessoa estaria se referindo a uns círculos de pedra. Mas é
possível que ela pudesse estar se referindo à atmosfera e, do
mesmo modo, se estivesse querendo falar nos círculos de
pedra, uma pessoa de fora, que ouvisse fragmentos da
conversa, talvez imaginasse que a outra estaria querendo se
referir ao tempo. Por isso, quando repetimos uma
conversação, via de regra não reproduzimos realmente as
palavras que foram pronunciadas. Inserimos outras palavras
que nos parecem significar exatamente a mesma coisa.
Conversei separadamente com a cozinheira e com Dorothy.
Perguntei à cozinheira se ela tinha plena certeza de que seu
patrão havia realmente mencionado um monte de peixes. Ela
afirmou estar absolutamente certa disso.
— Foram essas as exatas palavras dele? — eu indaguei — ou
fez referência a uma determinada espécie de peixe?
— Foi isso — declarou a cozinheira. — Uma determinada
espécie de peixe. Mas eu não consigo me lembrar o nome
dela. Um monte de. . . mais o que era mesmo? Não era qual-
quer um desses peixes que a gente serve à mesa. Seria uma
perca? Não. Não começava por p.
Dorothy também se recordou que o patrão tinha mencio-
nado uma espécie de peixe. Algum peixe exótico, disse ela.
— Uma pilha de, ou o que foi? — eu indaguei. — Ele falou
num monte ou numa pilha?
— Eu acho que ele falou numa pilha. Mas, realmente, não
estou bem certa. É difícil lembrar as palavras exatas de uma
pessoa, não é mesmo, Miss Marple? Especialmente quando
parece que não fazem sentido. Mas agora que estou pen-
sando nisso, estou quase certa de que era uma pilha, e o
nome do peixe começava por C. Mas não era cod nem
crayfish.
A parte da história que vem a seguir é aquela de que eu me
orgulho, prosseguiu Miss Marple. Naturalmente eu não
entendo nada de drogas, coisas que considero horríveis,
perigosas. Tenho uma velha receita de minha avó, uma
receita de chá de tanásia, que vale por qualquer quantidade
de remédios. Mas eu sabia que havia na casa de Mabel vários
livros de Medicina e, num deles, encontrei um índice de
drogas. Ceoffrey tinha ingerido determinado veneno e estava
tentando dizer o nome desse veneno.
Bem. Procurei a lista dos H's, começando por He. Nela não
havia nada que parecesse provável. Então comecei a exa-
minar a letra P e quase imediatamente cheguei a... o que
poderão imaginar?
Miss Marple olhou em derredor, adiando seu momento de
triunfo.
— Pilocarpina. Podem imaginar um homem que mal
consegue falar, tentando arrancar da boca essa palavra? Que
poderia ela parecer a uma cozinheira que nunca tinha ouvido
falar nisso? Não lhe daria a impressão de uma pilha de carpas?
— Meu Deus! — exclamou Sir Henry.
— Eu não teria chegado a acertar — disse o Dr. Pender.
— Muito interessante — comentou Mr, Petherick. —
Realmente, muito interessante.
Eu virei rapidamente as páginas do livro até encontrar a
indicada no índice. Li a respeito da pilocarpina e de seus
efeitos sobre a visão e outras coisas, que pareciam não ter
qualquer relação com o caso. Finalmente cheguei à frase
mais significativa: Tem sido experimentada com êxito
como antídoto para o envenenamento pela atropina.
Todos aqui devem imaginar que eu não tenha palavras para
lhes dizer como aquilo imediatamente me esclareceu. Jamais
havia pensado na probabilidade de Geoffrey Denman sui-
cidar-se. Não. Essa nova solução não era meramente
possível: eu estava absolutamente segura de que era a solução
correta, pois todas as peças do quebra-cabeças se ajustavam
logicamente umas às outras.
— Eu não estou tentando adivinhar — disse Raymond. —
Continue, tia Jane, e diga o que era surpreendentemente
claro para a senhora.
— Naturalmente eu não entendo nada de Medicina —
declarou Miss Marple. — Mas de fato acontece que eu sabia
isso, pois, quando minha vista andou falhando, meu médico
me receitou umas gotas de sulfato de atropina. Por isso fui
até o segundo andar, sem perda de tempo, e entrei no quarto
do velho Mr. Denman. Não fiz rodeios. Disse a ele:
— Mr. Denman, eu sei de tudo. Porque o senhor envenenou
seu filho?
Ele olhou para mim durante uns dois ou três minutos. Era
um velho bem bonito, à sua maneira. Em seguida, desatou a
rir. Foi uma das gargalhadas mais perversas que eu ouvi em
toda minha vida. Posso lhes garantir que fiquei arrepiada. Já
tinha ouvido falar numa coisa assim, quando a pobre Mrs.
Jones ficou louca.
— Sim — disse ele — eu acertei minhas contas com
Geoffrey. Fui esperto demais para Geoffrey. Ele queria me
mandar embora, não é mesmo? Mabel é uma boa moça.
Ficou do meu lado, mas eu sabia que ela não seria capaz de
manter-se firme diante de Geoffrey. No final, ele conseguiria
fazer tudo do jeito que desejava. Sempre foi assim. Mas eu
me livrei dele, eu me livrei do meu bom e querido filho. Há,
há, há! Eu me esgueirei durante a noite. Foi bem fácil. A
Brewster não estava em casa. Meu querido filho estava
dormindo e tinha um copo de água ao lado da cama. Sempre
acordava no meio da noite e bebia toda a água. Eu a
derramei, há, há, há! E esvaziei o vidro de colírio dentro do
copo. Ele com certeza iria acordar e sorver tudo antes de
saber o que era. Era apenas uma colher de sopa de remédio,
mas bem suficiente, bem suficiente. E ele assim fez. As
outras pessoas vieram me procurar pela manhã e me deram a
notícia cóm muito jeito. Tinham medo que fosse me
perturbar. Há, há, há! Há, há, há!
Bem, disse Miss Marple, esse é o final da história.
Naturalmente o pobre homem foi posto num hospício. Não
era realmente responsável pelo que tinha feito e a verdade se
tornou conhecida. Todos ficaram com pena de Mabel e não
souberam o que fazer por causa da injusta suspeita que
haviam alimentado. Mas se Geoffrey não tivesse percebido
que espécie de coisa havia engolido, nem procurado fazer
com que todas as pessoas fossem buscar o antídoto sem
demora, os fatos jamais poderiam ter sido descobertos. Creio
que os sintomas de envenenamento pela atropina são muito
positivos: dilatação das pupilas, e tudo mais. Mas,
naturalmente, como eu já lhes disse, o Dr. Rawlinson era
muito míope, coitado do velho! E no mesmo livro de
Medicina, que eu continuei lendo, uma parte desse livro era
interessantíssima, fiquei informada dos sintomas do
envenenamento pela ptomaína e pela atropina. Não eram
muito diferentes entre si. Mas eu nunca mais pude dar com
os olhos numa pilha de hadoque sem pensar na marca do
polegar de São Pedro.
Seguiu-se uma longa pausa.
— Minha prezada amiga — disse o Dr. Petherick. — Minha
muito prezada amiga, a senhora é realmente surpreendente.
E Sir Henry acrescentou:
— Vou recomendar à Scotland Yard que a procure para obter
seus conselhos.
— Bem, de qualquer maneira, tia Jane — disse Raymond —
há uma coisa que a senhora não sabe.
— Ah, mas eu sei, meu querido! — exclamou Miss Marple.
— Aconteceu pouco antes do jantar, não foi mesmo?
Quando você levou Joyce para admirar o pôr do sol. Aquele
lugar é muito especial. Perto da sebe de jasmineiros. Foi lá
que o leiteiro perguntou a Annie se poderia mandar correr os
proclamas.
— Mas que diabo, tia Jane! — reclamou Raymond. — Não
estrague todo o romance. Joyce e eu não somos iguais ao
leiteiro e Annie.
— Nisso é que você se engana, meu caro — observou Miss
Marple. — Todas as pessoas são realmente muito parecidas.
Mas, por felicidade, talvez não percebam isso.

7
O Gerânio Azul

— QUANDO EU AQUI ESTIVE, no ano passado — começou Sir
Henry Clithering e parou de falar.
Sua anfitriã, Mrs. Bantry, olhou para ele cheia de curiosidade.
O ex-diretor da Scotland Yard estava passando uma
temporada em casa de seus amigos, o Coronel e Mrs. Bantry,
que moravam perto de St. Mary Mead.
Mrs. Bantry, de caneta em punho, acabara de pedir-lhe um
conselho, indagando quem deveria ser convidado para ser a
sexta pessoa no jantar daquela noite.
— Vamos, Sir Henry — disse Mrs. Bantry, num tom de
encorajamento. — Quando o senhor esteve aqui, no ano
passado. . .
— Diga-me uma coisa — prosseguiu Sir Henry — a senhora
conhece Miss Marple?
Mrs. Bantry ficou meio espantada. Era a última coisa que
poderia imaginar. E declarou o seguinte:
— Se eu conheço Miss Marple? Quem não a conhece? É a
solteirona típica dos livros de ficção. Um encanto de pessoa,
mas irremediavelmente atrasada. O senhor não está dizendo
que gostaria que eu a convidasse para o jantar?
— A senhora se surpreende com isso?
— Um pouco, devo confessar. Eu nunca teria esperado que o
senhor... Mas talvez haja uma explicação para isso.
— A explicação é bem simples. Quando aqui estive, no ano
passado, nós cultivamos o hábito de discutir mistérios sem
solução. Éramos cinco ou seis pessoas: Raymond West, o
romancista, foi quem começou. Cada um de nós contou um
caso, cuja solução conhecia, mas que ninguém mais sabia
qual era. Nós achamos que se tratava de um exercício de
nossa capacidade de dedução. Ver quem chegaria mais perto
da verdade.
— E daí?
— Como aconteceu na velha história, mal nos apercebemos
que Miss Marple estava participando do jogo. Mas fomos
muito bem educados. Não queríamos melindrar nossa que-
rida e velha amiga. Foi então que aconteceu o melhor de
toda a brincadeira. A velha senhora nos bateu a nós todos,
todas as vezes!
— Como?
— Eu lhe asseguro. Chegou diretamente à verdade, como um
pombo-correio de volta ao seu pombal.
— Mas que coisa extraordinária! Como pode ser! A querida
velhinha, Miss Marple, poucas vezes saiu de St. Mary Mead.
— Mas na opinião dela isso lhe proporcionou ilimitadas
oportunidades de observar a natureza humana, como se fosse
ao microscópio.
— Creio que há uma certa verdade nisso. Uma pessoa pelo
menos poderia conhecer o lado mesquinho das outras. Mas
não acredito que nós tenhamos criminosos realmente
emocionantes entre nós. Penso que devemos pôr Miss
Marple à prova com a história do fantasma de Arthur, depois
do jantar. Seria ótimo se ela encontrasse uma solução para
esse caso.
— Eu não sabia que Arthur acreditava em fantasmas.
— Mas ele não acredita. Isso é que o preocupa. Acontece que
um amigo dele, George Pritchard, pessoa muito prosaica... É
realmente muito trágico para o pobre homem. Ou a história
extraordinária dele é verdadeira, ou então...
— Então o quê?
Mrs. Bantry não deu resposta à pergunta. Ao cabo de dois ou
três minutos, declarou, num jeito relutante:
— O senhor sabe que eu estimo o George, como toda gente.
Não se pode acreditar que ele... Mas as pessoas fazem coisas
tão estranhas!
Sir Henry assentiu com um movimento de cabeça. Ele sabia,
melhor do que Mrs. Bantry, que coisas extraordinárias as
pessoas fazem.
Naquela noite, Mrs. Bantry olhou em derredor de sua mesa
de jantar (tremendo um pouco enquanto o fazia) porque a
sala de jantar, como acontece na maior parte das salas de
jantar inglesas, era extremamente fria, e fixou o olhar
naquela velha senhora, muito empertigada, que estava
sentada ao lado de Mr. Bantry. Miss Marple usava mitenas de
renda preta, um antigo fichu lhe descia sobre os ombros, ao
passo que outra renda lhe prendia os cabelos brancos. Estava
conversando animadamente com o idoso Dr. Lloyd sobre o
asilo para os pobres e as suspeitadas limitações da enfermeira
distrital.
Mrs. Bantry ficou outra vez perplexa. Chegou a imaginar que
Sir Henry navia arquitetado uma complicada pilhéria. Tudo
aquilo parecia não ter sentido. Era incrível que pudesse ser
verdade o que ele dissera. Continuou a observar as pessoas e
seu olhar fixou-se afetuosamente no marido, corado e
espadaúdo, a conversar sobre cavalos com Jane Helier, a bela
e popular atriz. Jane, mais linda fora do palco do que quando
nele pisava, se isso fosse possível, arregalava seus imensos
olhos azuis e murmurava, de vez em quando: "É mesmo?
Vejam só! Que coisa extraordinária!" Ela não entendia nada
de cavalos e ligava menos ainda para isso.
— Arthur — disse Mrs. Bantry — você está caceteando a
pobre Jane a mais não poder. Deixe os cavalos em paz e
conte sua história do fantasma. Você sabe... a de George
Pritchard.
— Mas Dolly — observou Mr. Bantry Você não
compreende que...
— Sir Henry também quer ouvir essa história. Eu lhe
comentei alguma coisa sobre ela, hoje de manhã. Seria inte-
ressante saber o que cada pessoa teria a dizer a seu respeito.
— Por favor, conte — insistiu Jane. — Eu adoro casos de
fantasmas.
— Bem — disse o Coronel Bantry, hesitante. — Eu nunca
acreditei muito no sobrenatural, mas esse caso...
Não creio que qualquer dos presentes saiba quem é George
Pritchard. É uma das melhores pessoas que eu conheço. Sua
esposa, bem, ela já morreu, pobre mulher. Eu lhes direi
apenas isso: ela não tornou a vida de George muito amena
enquanto viveu. Era uma dessas criaturas semi-inválidas.
Acredito que tinha realmente alguma doença, mas, o que
quer que fosse, fazia render a coisa ao máximo. Era
caprichosa, exigente, pouco razoável. Vivia se queixando, de
manhã à noite. George tinha de atendê-la em tudo, e tudo
que fazia estava errado e era motivo de imprecações. A
maioria dos homens, estou plenamente convencido disso,
teria lhe dado uma machadada na cabeça muito tempo antes.
Não é verdade, Dolly?
— Ela era uma mulher terrível — declarou Mrs. Bantry, num
tom de convicção. — Se George lhe tivesse estourado os
miolos com um machado, e se houvesse alguma mulher no
júri, teria sido triunfalmente absolvido.
— Eu não sei como a história começou — prosseguiu Mr.
Bantry. — George foi bastante vago a esse respeito. Eu
deduzi que Mrs. Pritchard sempre tivera uma queda por
cartomantes, grafólogos, videntes, gente dessa espécie.
George não se importava com isso. Achava até muito
engraçado. Mas se recusava a fazer grandes louvações a essas
pessoas, o que era motivo de queixas sem fim de parte de sua
esposa.
Um exército de enfermeiras se sucederam na casa deles. Mrs.
Pritchard geralmente ficava descontente com elas ao cabo de
algumas semanas. Uma jovem enfermeira tinha se mostrado
muito interessada nessas habilidades da cartomancia e,
durante algum tempo, Mrs. Pritchard gostou muito dela.
Depois tornou-se subitamente hostil à moça e insistiu para
que fosse despedida. Voltou a admitir outra enfermeira, que
lhe servira anteriormente, mulher de mais idade, experiente
e de muito tato para lidar com doentes neuróticos. Tolerava
os maus humores e as crises de nervos de Mrs. Pritchard,
revelando a mais completa indiferença diante deles.
Mrs. Pritchard sempre almoçava no andar de cima, sendo
comum, à hora dessa refeição, George e a enfermeira
aparecerem para que fossem tomadas algumas providências
referentes à tarde. Rigorosamente falando, a enfermeira tinha
folga das duas às quatro horas, mas para servir, como se diz,
por vezes tirava essa folga depois do chá, caso George
quisesse dispor de seu tempo após o almoço. Nessa ocasião,
ela mencionara que ia visitar uma irmã, em Golders Green.
Poderia chegar um pouco atrasada. George ficou meio
desapontado pois havia combinado jogar uma partida de
golfe. Todavia, a enfermeira o tranqüilizou, dizendo:
— Ela não vai sentir falta de nenhum de nós, Mr. Pritchard.
— E seus olhos brilharam. — Mrs. Pritchard vai ter uma
companhia mais emocionante do que a nossa.
— De quem se trata? — indagou ele.
— Um momento — acrescentou a enfermeira. E os olhos
dela ficaram mais brilhantes do que nunca. — Deixe-me ler
direito: Zarida, Leitora do Futuro.
— Meu Deus! — lamentou-se George. — Mais uma!
— Mais uma — confirmou a enfermeira. — Creio que minha
antecessora, a enfermeira Carstairs, foi quem a mandou. Mrs.
Pritchard ainda não a viu. Pediu que eu lhe escrevesse,
marcando uma entrevista para hoje de tarde.
— Bem. De qualquer maneira eu vou jogar minha partida de
golfe — declarou George.
E saiu, movido pelos mais generosos sentimentos em relação
a Zarida, a Leitora do Futuro.
Quando voltou para casa, encontrou Mrs. Pritchard num
estado de grande agitação. Estava, como de costume, deitada
em seu sofá de inválida, com um vidro de sais de cheirar na
mão, aspirando-os a cada momento.
— George! — exclamou. — O que foi que eu lhe disse sobre
esta casa? Desde o momento em que eu aqui entrei, senti
que havia alguma coisa de ruim nela. Eu não tenho sempre
dito isso a você?
Reprimindo o impulso de dar-lhe uma resposta, George
declarou o seguinte:
— Você sempre faz isso. Não. Não direi que me lembro.
— Você nunca se lembra de nada que me diga respeito. Os
homens são extraordinariamente empedernidos. Mas eu
realmente acredito que você é ainda mais insensível do que a
maioria deles.
— Deixe disso, minha querida Mary. Não é justo de sua parte.
— Como eu estava lhe dizendo, George, aquela mulher
percebeu tudo imediatamente. Ela de fato recuou, assustada,
se você souber o que eu quero dizer, no momento em que
passou por aquela porta, e disse: "Aqui existe maldade.
Maldade e perigo. Estou sentindo isso."
George desatou a rir, de um jeito muito imprudente, e
declarou:
— Bem. Valeu a pena você gastar seu dinheiro hoje de
tarde.
Sua esposa fechou os olhos e aspirou longamente os sais.
— Você me detesta! — exclamou. — Você seria capaz de rir
e caçoar de mim se eu estivesse morrendo!
George protestou. Passados dois ou três minutos ela
prosseguiu:
— Você pode rir, mas eu vou lhe contar tudo. Esta casa é
positivamente perigosa para mim. Aquela mulher me disse.
Os generosos sentimentos de George em relação a Zarida se
modificaram. Ele sabia que sua esposa seria perfeitamente
capaz de insistir em mudar-se de casa se fosse dominada pelo
capricho de assim fazer.
— E o que mais ela falou? — indagou ele.
Sua mulher não conseguiu dizer grande coisa, pois estava
muito perturbada. Mas acrescentou:
— Ela disse isto. Eu tinha umas violetas dentro de um copo.
— E apontou para as flores, exclamando: — Ela falou: "Tire
isso daí. Não tenha flores azuladas. Nunca tenha flores
azuladas. As flores azuladas serão fatais à senhora.
Lembre-se disso." E Mrs. Pritchard acrescentou: — Você
sabe que a cor azul me repugna. Eu sempre lhe disse isso.
Sinto uma espécie de aviso nessa cor. Uma coisa natural e
instintiva.
George teve juízo bastante para não comentar que jamais a
ouvira referir-se aqui. Em vez de fazer qualquer observação,
perguntou que aparência tinha a misteriosa Zarida. Mrs.
Pritchard começou a descrevê-la animadamente:
— Tem cabelos pretos, cacheados, que lhe cobrem as orelhas.
Seus olhos são meio cerrados. Tem umas grandes olheiras
escuras. Estava com um véu preto que lhe escondia a boca e
o queixo. Fala com uma voz cantada, num forte sotaque de
estrangeira. De espanhola, creio eu.
— É. De fato tem o aspecto comum de sua classe — declarou
George num tom jovial.
Sua esposa cerrou os olhos imediatamente e disse:
— Eu estou me sentindo mal. Muito mal. Toque a cam-
painha e chame a enfermeira. A maldade me faz mal e você
sabe disso muito bem.
Transcorridos dois dias, a enfermeira foi procurar George.
Seu rosto tinha uma expressão grave e lhe disse:
— O senhor quer ir ver Mrs. Pritchard, por favor? Ela
recebeu uma carta que a perturbou muito.
George encontrou a mulher com a carta na mão. Estendeu-a
para que ele a pegasse, dizendo:
— Leia isto.
George leu a carta. Tinha sido escrita num papel fortemente
perfumado, numa caligrafia graúda e a tinta preta. Dizia o
seguinte:
"Eu vi o Futuro. Receba este aviso antes que seja tarde
demais. Cuidado com a Lua Cheia. A Primavera Azul
significa Advertência; a Malva-rosa Azul, Perigo; o
Gerânio Azul, Morte..."
George quase desatou numa gargalhada, mas seu olhar cruzou
com o da enfermeira, que lhe fez um rápido gesto de
advertência. Então declarou, meio desajeitadamente:
— Essa mulher está procurando amedrontar você, Mary.
Mas, de qualquer maneira, não existem primaveras nem
gerânios azuis.
Apesar disso Mrs. Pritchard desatou a chorar, dizendo que
seus dias estavam contados. A enfermeira e George saíram
do quarto, parando no patamar da escada. Ele exclamou, num
rompante:
— Enfermeira. A senhora com certeza não acredita. ..
— Absolutamente, Mr. Pritchard. Não acredito que se possa
adivinhar o futuro. Mas o que me deixa intrigada é a
significação daquilo. As cartomantes geralmente se
dispõem a agir pelo que conseguem obter. Mas essa mulher
parece estar aterrorizando Mrs. Pritchard sem qualquer
proveito próprio. Não consigo entender isso. Há qualquer
outra coisa...
— O que poderá ser? — indagou George.
— Mrs. Pritchard disse que Zarida tinha algo que lhe era um
tanto familiar — acrescentou a enfermeira.
— E daí?
— Bem, Mr. Pritchard. Eu não estou gostando nada disso. É
só.
— Eu não sabia que a senhora era tão supersticiosa.
— Não sou supersticiosa, mas sei que se trata de alguma coisa
suspeita.
Passaram-se aproximadamente quatro dias desse primeiro
incidente. Bem, prosseguiu Mr. Bantry, eu terei de descrever
o quarto de Mrs. Pritchard para lhes explicar o que
aconteceu.
— É melhor você deixar que eu faça isso — interrompeu
Mrs. Bantry. — O quarto era forrado com um desses moder-
nos papéis de parede nos quais são aplicados ramos de flores
para obter-se uma espécie de friso. O efeito é quase igual ao
de uma pessoa estar num jardim, embora as flores sem
dúvida sejam todas impossíveis. Eu quero dizer que não
poderiam desabrochar ao mesmo tempo.
— Não deixe que sua paixão pela exata floricultura a domine,
Dolly — interveio o marido. — Nós todos sabemos que você
é uma jardineira muito entusiasta.
— Mas isso é um absurdo — protestou Mrs. Bantry. —
Campánulas, narcisos, lupinos e malva-rosas. Tudo isso junto.
— E muito anticientífico — declarou Sir Henry. — Mas
continue a história, por favor.
— Bem, entre aquelas flores amontoadas — prosseguiu Mrs.
Bantry — havia umas primaveras, uns apanhados de
primaveras amarelas e cor-de-rosa. Mas continue você,
Arthur. A história é sua.
O Coronel Bantry retomou sua narrativa:
— Certa manhã, Mrs. Pritchard tocou violentamente a
campainha. As empregadas acudiram às pressas, julgando que
ela estivesse nas últimas. Nada disso. Muito excitada, apontou
para o papel de parede. Sem dúvida havia uma primavera
azul em meio às demais.. .
— Oh! — exclamou Miss Helier. — Isso é de arrepiar.
— O problema era o seguinte: a primavera azul teria sempre
ali estado? Essa foi a sugestão de George e da enfermeira. No
entanto Mrs. Pritchard não a aceitou de maneira alguma.
Nunca tinha visto aquela flor antes, e a noite anterior havia
sido de lua cheia. Ela ficou muito perturbada por causa disso.
— Encontrei George Pritchard naquele mesmo dia e ele me
contou o caso — observou Mrs. Bantry. — Fui visitar Mrs.
Pritchard e fiz o que pude para ridicularizar tudo aquilo, mas
em vão. Saí da casa dela realmente preocupada e me lembro
de ter encontrado com Jean Instow e de lhe ter contado o
caso. Jean é uma moça estranha. Ela me disse o seguinte:
"Então ela está realmente inquieta?" Eu declarei acreditar que
Mrs. Pritchard era mulher capaz de morrer de susto. Era de
fato anormalmente supersticiosa. Lembro-me que Jean me
impressionou bastante com o que disse em seguida: "Bem.
Isso poderia ser a melhor coisa deste mundo, não é mesmo?"
E falou de um jeito tão frio, num tom tão natural que eu
fiquei realmente chocada. Eu sei, naturalmente, que hoje em
dia se faz isso: ser brutal e dizer tudo que se pensa. Mas eu
nunca me acostumei com essas maneiras. Jean sorriu para
mim de um modo estranho e declarou o seguinte: "Você não
gostou do que eu disse, mas é a pura verdade. Que valor tem
a vida para Mrs. Pritchard? Nenhum. E é um verdadeiro
inferno para George Pritchard. A melhor coisa que poderia
acontecer seria ela morrer de susto." Eu acrescentei:
— George é sempre muito bom para ela. — E Jean observou:
— Sim. Merece um prêmio. É um homem muito simpático.
A última enfermeira da mulher dele era dessa opinião.
Aquela bonita. Como é o nome dela? Carstairs. Foi esse o
motivo da briga entre ela e Mrs. Pritchard.
Não gostei de ouvir Jean dizer aquilo. Naturalmente as
pessoas tinham imaginado que...
Mrs. Bantry fez uma pausa significativa.
— Bem, minha querida — comentou Miss Marple
plácidamente — as pessoas sempre ficam imaginando coisas.
Miss Instow é uma moça bonita? Eu suponho que ela jogue
golfe.
— Joga, sim — confirmou Mrs. Bantry. — É craque em todos
os esportes. E tem um físico interessante: muito loura, com
uma pele saudável e uns olhos azuis bonitos e tranquilos.
Naturalmente nós sempre imaginamos que ela e George
Pritchard, quero dizer, se as coisas fossem diferentes, fariam
um belo par.
— Eram amigos? — indagou Miss Marple.
— Eram. Muito bons amigos.
— Você acha, Dolly — perguntou o Coronel Baiitry num tom
de queixa — que eu posso continuar minha história?
— Arthur — disse Mrs. Bantry resignadamente — quer voltar
aos seus fantasmas.
— Eu soube o resto da história pelo próprio George —
prosseguiu o coronel. — Não há dúvida que Mrs. Pritchard
alarmou-se muito por volta do fim do mês seguinte. Marcou
num calendário o dia que seria de lua cheia e, naquela noite,
fez com que a enfermeira e George ficassem em seu quarto e
examinassem cuidadosamente o papel da parede. Havia
malvas-rosas e malvas vermelhas, mas nenhuma azul entre
elas. Quando George saiu do quarto, ela fechou a porta à
chave.
— E na manhã seguinte havia uma grande malva azul —
declarou triunfalmente Miss Helier.
— Exatamente — confirmou o Coronel Bantry. — De
qualquer maneira, foi quase isso. Uma das flores de malva,
bem por cima da cabeça de Mrs. Pritchard, tinha ficado azul.
Aquilo fez George ficar meio atordoado. E sentiu-se ainda
mais confuso porque se recusava a levar a coisa a sério.
Insistiu que tudo não passava de uma piada. Não tomou
conhecimento da circunstância de ter a porta sido fechada a
chave, nem do fato de Mrs. Pritchard haver descoberto
aquela transformação flor antes de qualquer outra pessoa, até
mesmo antes de a enfermeira entrar no quarto.
Tudo aquilo desconcertou George e o levou a mostrar-se
pouco razoável. Sentiu-se inclinado a acreditar no
sobrenatural pela primeira vez, mas não iria admiti-lo. Ele
geralmente cedia aos caprichos da esposa, mas dessa vez não
iria fazê-lo. Mary não haveria de portar-se como uma louca,
declarou ele. Tudo não havia sido mais do que um absurdo
dos diabos.
O mês seguinte passou rapidamente. Mrs. Pritchard ergueu
menos protestos do que se poderia ter imaginado. Creio que
era suficientemente supersticiosa para julgar que não poderia
fugir ao seu destino. Ficou sempre a repetir o seguinte:
"Primavera azul, aviso. Malva azul, perigo. Gerânio azul,
morte." E permaneceu deitada em sua cama, a olhar para o
cacho de gerânios rosa-avermelhados que ficava mais perto.
Aquilo atacava os nervos das pessoas. Até a enfermeira
apanhou a "infecção". Procurou George dois dias antes de ser
lua cheia e pediu-lhe que tirasse Mrs. Pritchard daquela casa.
George ficou irritado com isso e esbravejou:
— Se todas as flores daquela maldita parede ficarem azuis, uns
demônios azuis, não poderão matar ninguém.
— Poderão, sim — replicou a enfermeira. — Muita gente já
tem morrido de choque.
— Tolice — afirmou George.
Ele sempre foi um pouco teimoso. Ninguém consegue
dissuadi-lo de coisa alguma. Acredito que pensava, no
íntimo, que a esposa fazia aquelas mudanças na cor das flores
e que tudo não passava de um plano mórbido e histérico dela
mesma.
Pois bem. Chegou a noite fatal. Mrs. Pritchard trancou a
porta a chave, como de costume. Estava muito calma, quase
num estado de apatia. A enfermeira ficou preocupada com
aquilo e quis dar-lhe um estimulante, uma injeção de
estriquinina, mas Mrs. Pritchard recusou-se a isso. De certo
modo creio que estava gostando da situação. Assim disse
George.
— Eu penso que isso seria bem possível — afirmou Mrs.
Bantry. — Devia haver uma estranha espécie de encanto em
tudo aquilo.
Na manhã seguinte não se ouviu nenhum violento toque de
campainha. Mrs. Pritchard geralmente despertava por volta
das oito horas. Quando, às oito è meia, ela não deu o menor
sinal de vida, a enfermeira bateu com força em sua porta.
Não obtendo resposta, foi chamar George e insistiu para que
a porta fosse arrombada. Eles assim fizeram com o emprego
de um formão.
Bastou à enfermeira olhar para a figura imóvel que se achava
na cama. Disse a George que chamasse o médico pelo tele-
fone, mas já era tarde demais. O médico declarou que Mrs.
Pritchard deveria ter,morrido pelo menos há umas oito
horas. Os sais estavam perto de sua mão, sobre a cama. E na
parede ao lado dela, dois gerânios rosa-avermelhados
haviam adquirido forte coloração azul-escura.
— Que coisa horrível! — exclamou Miss Helier, estreme-
cendo.
— Não havia outros detalhes? — indagou Sir Henry.
O coronel abanou a cabeça, mas Mrs. Bantry acrescentou,
rapidamente:
— O gás.
— O que havia com o gás? — perguntou Sir Henry.
— Quando o médico chegou — esclareceu o coronel —
sentiu um leve cheiro de gás. E George verificou que a chave
do gás da lareira estava um pouco aberta. Mas tão pouco que
não poderia ter tido a menor importância.
— Mr. Pritchard e a enfermeira não repararam nisso quando
entraram no quarto da primeira vez? — insistiu Sir Henry.
— A enfermeira afirmou ter sentido um ligeiro cheiro de gás
— declarou o coronel. — George disse que não havia re-
parado nisso, embora alguma coisa o tenha feito sentir-se
muito estranho e cansado. Atribuiu isso ao choque que havia
tido e, provavelmente, foi o que de fato aconteceu. De
qualquer maneira, não se cogitou de envenenamento pelo
gás. O cheiro de gás mal poderia ser notado.
— E qual foi o desfecho da história? — indagou Sir Henry.
— Não parou nisso. Houve muito falatório. Todos podem
compreender que as empregadas tinham ouvido muita coisa,
por exemplo, Mrs. Pritchard dizer ao marido que ele a odiava
e que ficaria zombando dela mesmo que estivesse morrendo.
E também terão ouvido outros comentários mais recentes.
Certo dia ela dissera, quando ele se recusou a deixar a casa:
"Muito bem. Quando eu estiver morta, espero que todos os
empregados compreendam que você me matou."
E a má sorte ainda veio contribuir para as coisas, pois George
havia preparado um veneno contra ervas daninhas, que iria
espalhar nas alamedas do jardim, exatamente na véspera.
Uma das empregadas mais jovens o vira fazer isso e, depois,
observara que ele estava levando um copo de leite quente
para a esposa.
O falatório cresceu e espalhou-se. O médico dera um ates-
tado de óbito, não sei exatamente em que termos: choque,
síncope, parada cardíaca. Provavelmente empregou alguns
termos médicos que não significam grande coisa. Mas a
pobre mulher não estava nem um mês em seu túmulo
quando foi requerida e concedida uma autorização para que
seu corpo fosse exumado.
— E o resultado da autópsia foi nulo — declarou Sir Henry
num tom grave. — Foi um caso de fumaça sem fogo, pelo
menos daquela vez.
— A coisa foi realmente muito curiosa — comentou Mrs.
Bantry. — A cartomante Zarida, por exemplo. No endereço
em que deveria morar, ninguém jamais tinha ouvido falar
nela. Apareceu da primeira vez, declarou George, como por
encanto. E sumiu completamente.
— E mais ainda — acrescentou Mrs. Bantry. — A pequena
enfermeira chamada Carstairs, que parecia tê-la reco-
mendado, desapareceu e nunca mais se ouviu falar nela.
Todos se entreolharam.
— É uma história misteriosa — declarou o Dr. Lloyd. —
Pedem ser feitas suposições. Mas supor...
Ele abanou a cabeça.
— E Mr. Pritchard? Casou-se com Miss Instow? — indagou
Miss Marple com aquela sua voz suave.
— Por que a senhora faz essa pergunta? — indagou Sir
Henry.
Miss Marple arregalou seus tranqüilos olhos azuis e
acrescentou:
— Isso me parece tão importante! Eles se casaram?
O Coronel Bantry sacudiu a cabeça e disse:
— Bem. Nós esperávamos que acontecesse alguma coisa
desse tipo, mas já se passaram dezoito meses. E não creio que
até mesmo eles se vejam muito.
— Isso é importante — comentou Miss Marple. — Muito
importante.
— Então a senhora e eu pensamos a mesma coisa —
observou Mrs. Bantry. — A senhora acha que...
— Ora, Dolly — declarou o coronel. — Isso é injustificável.
Isso que você vai dizer. Você não pode ir acusando uma
pessoa sem a mínima sombra de prova.
— Não seja tão, como eu diria, tão masculino, Arthur. Os
homens sempre receiam afirmar as coisas. De qualquer
maneira, isso vai ficar só entre nós. É simplesmente uma
idéia fantástica de minha parte. Apenas é possível,
unicamente possível, que Jean Instow tenha se disfarçado
em cartomante. Prestem bem atenção. Ela poderá ter feito
isso a título de brincadeira. Eu não acredito, por um só
momento, que estivesse pretendendo causar algum mal. Mas
se assim fez, e se Mrs. Pritchard foi suficientemente tola para
morrer de susto, bem, isso foi que Miss Marple quis dizer,
não é verdade?
— Não, minha querida. Absolutamente — declarou Miss
Marple. — A senhora compreende. Se eu fosse matar
alguém, o que, naturalmente, eu jamais pensaria em fazer,
em momento algum; além do mais não gosto de mortes, nem
mesmo de matar vespas, embora saiba que isso é preciso e
tenho certeza de que meu jardineiro o faz da maneira mais
humana possível. Deixe-me ver. . . o que eu estava dizendo?
— Se a senhora quisesse matar alguém — lembrou Sir Henry.
— Ah, sim! — exclamou Miss Marple. — Bem. Se eu quisesse
matar alguém, não me contentaria de maneira alguma em
confiar no medo. Sei que nós costumamos ler a respeito de
pessoas que morrem de susto. Mas isso me parece coisa
muito incerta. E as pessoas mais nervosas são as que têm
muito mais coragem do que nós realmente imaginamos. Eu
gostaria de empregar algum meio mais positivo e seguro. De
fazer um plano cem por cento satisfatório.
— Miss Marple — interveio Sir Henry. — A senhora me
assusta. Eu espero que nunca deseje me eliminar. Seus planos
devem ser bons demais.
Miss Marple olhou para ele com um ar de censura e
acrescentou:
— Eu acho que deixei bem claro que jamais pensaria numa
perversidade dessas. Não. Estou procurando me colocar no
lugar de. .. de certa pessoa.
— A senhora não quer se referir a George Pritchard — disse
o Coronel Bantry. — Eu jamais acreditaria que George fizesse
isso. Embora, prestem atenção, a própria enfermeira tenha
pensado nisso. Fui visitá-la mais ou menos um mês após o
incidente, quando o corpo foi exumado. Ela não sabia como
o crime teria sido praticado. Na verdade, não disse
absolutamente nada. Mas deixou bem claro que acreditava
que George seria de certo modo responsável pela morte da
esposa. Estava convencida disso.
— Bem — comentou o Dr. Lloyd. — Talvez ela não es-
tivesse muito enganada. Vejam uma coisa: muitas vezes as
enfermeiras sabem o que se passa. Não podem afirmar coisa
alguma, não têm provas de nada. Mas sabem.
Sir Henry inclinou-se e declarou, num tom persuasivo:
— Vamos, Miss Marple. A senhora está perdida em seus
devaneios. Não quer nos contar quais são eles?
Miss Marple estremeceu, enrubescendo, e disse o seguinte:
— Peço que me desculpem. Eu estava justamente pensando
na enfermeira distrital. Um problema dificílimo!
— Mais difícil do que o problema do gerânio azul? — in-
dagou Sir Henry.
— Tudo realmente depende das primaveras — declarou Miss
Marple. — Eu quero dizer, Mrs. Bantry afirmou que eram
amarelas e cor-de-rosa. Se uma primavera cor-de-rosa tivesse
ficado azul, naturalmente isso se ajustaria perfeitamente ao
caso. Mas se fosse amarela...
— Era cor-de-rosa — esclareceu Mrs. Bantry.
— Isso parece resolver o problema — disse Miss Marple,
sacudindo a cabeça, num gesto de lástima. — E tempo de
vespas, e tudo mais. E, naturalmente, o gás.
— Isso lhe faz lembrar as inúmeras tragédias das vilas, eu
suponho — comentou Sir Henry.
— Não se trata de tragédias — afirmou Miss Marple. — E,
certamente, nada têm de criminosas. Mas faz-me lembrar
agora os problemas que estamos enfrentando com a
enfermeira distrital. Afinal de contas, as enfermeiras são
seres humanos e têm de ser tão corretas em seu
comportamento, usar aqueles colarinhos desconfortáveis e
ser tão ligadas às famílias. Não é de admirar que as coisas às
vezes aconteçam, não é mesmo?
Um lampejo passou pela mente de Sir Henry, que indagou:
— A senhora está se referindo à enfermeira Carstairs?
— Não. Não estou pensando na enfermeira Carstairs, mas na
enfermeira Copling. O senhor compreende. Ela havia
trabalhado na casa antes, sendo muito ligada a Mr. Pritchard.
E o senhor declarou que ele é um homem simpático. Eu lhes
digo que ela pensou... Bem. Não precisamos entrar nesse
detalhe. Não creio que soubesse coisa alguma sobre Miss
Instow. Naturalmente, quando descobriu o que havia entre
os dois, virou-se contra Mr. Pritchard e procurou fazer-lhe o
maior mal que pôde. A carta de fato a denunciou, não foi
isso?
— Que carta? — indagou Sir Henry.
— A carta que escreveu à cartomante, a pedido de Mrs.
Pritchard. A cartomante apareceu, aparentemente por causa
da carta. Mais tarde, porém, descobriu-se que ninguém
morava naquele, endereço. Isso mostra que a enfermeira
Copling estava envolvida no caso. Apenas fingiu escrever a
carta. Por isso, o que poderia parecer mais provável do que
ser, ela própria, a cartomante?
— Eu nunca entendi o caso da carta — declarou Sir Henry.
— Trata-se de um detalhe da maior importância, sem dúvida.
— Foi um passo bastante ousado — declarou Miss Marple. —
Mrs. Pritchard poderia tê-la reconhecido, apesar do disfarce.
Mas, se isso tivesse acontecido, naturalmente a enfermeira
poderia ter fingido de que se tratava de uma brincadeira.
— O que a senhora quis dizer — indagou Sir Henry —
quando afirmou que se fosse uma certa pessoa jamais teria
confiado no medo?
— Ninguém poderia ter certeza a respeito do recurso ao
medo — observou Miss Marple. — Não. Eu sei que os avisos
e as flores azuis foram, se posso empregar um termo militar,
apenas camuflagem. — E sorriu com gosto.
— E a verdadeira coisa? — indagou Sir Henry.
— Eu sei — continuou Miss Marple, num tom de desculpa —
que estou só pensando em vespas. Coitadinhas! São
destruídas aos milhares e, geralmente, nuns lindos dias de
verão. Mas eu me lembro de ter pensado, quando vi meu
jardineiro sacudindo o cianureto de potássio, numa garrafa
cheia de água, como aquilo parecia desses sais de cheirar. Se
fosse colocado num vidro de sais, em substituição aos
verdadeiros... Bem. A pobre senhora tinha o hábito de
aspirar seus sais. De fato o senhor declarou que foram
encontrados perto da mão dela. Então, naturalmente,
enquanto Mr. Pritchard foi telefonar para o médico, a
enfermeira trocou aquele vidro pelo verdadeiro e abriu um
pouco o bico de gás para dissimular o cheiro de amêndoas,
caso alguém sentisse algum odor estranho. Sempre ouvi dizer
que o cianureto não deixa vestígios após o transcurso de um
tempo suficientemente longo. Eu poderei estar enganada,
naturalmente. Talvez houvesse alguma coisa completamente
diferente no vidro. Mas isso realmente não importa, não é
verdade?
Miss Marple fez uma pausa, um tanto opressa.
Jane Helier inclinou-se um pouco para a frente e indagou:
— E quanto ao gerânio azul e às outras flores?
— As enfermeiras sempre têm papel de tornassol, não têm?
— indagou Miss Marple. — Bem. Para fazer certos exames.
O assunto não é muito agradável. Não vamos nos deter nisso.
Eu já pratiquei um pouco de enfermagem — acrescentou ela,
levemente ruborizada. — O azul torna-se vermelho pela
ação dos ácidos, e o vermelho fica azul com o emprego dos
álcalis. É tão fácil colar um pouco de papel de tornassol sobre
uma flor vermelha, junto da cama. Em seguida, quando a
pobre mulher usou seus sais, os fortes vapores de amónia
fizeram a flor tornar-se azul. Foi realmente muito bem
pensado. O gerânio de certo não era azul quando eles
entraram no quarto da primeira vez, e ninguém reparou
nisso até mais tarde. Quando a enfermeira trocou os vidros,
acredito que tenha segurado o que continha sal amoníaco
junto ao papel de parede, durante alguns instantes.
— A senhora poderia ter estado presente, Miss Marple —
declarou Sir Henry.
— O que me preocupa — acrescentou Miss Marple .— é o
pobre Mr. Pritchard e aquela boa moça, Miss Instow.
Provavelmente estão suspeitando um do outro e mantendo-
se afastados. A vida é tão curta!
Miss Marple sacudiu a cabeça.
— A senhora não precisa preocupar-se — disse Sir Henry.
— Na realidade eu guardo comigo uma surpresa. Uma enfer-
meira foi presa sob acusação de assassinato, de haver morto
um cliente idoso que lhe havia deixado um legado. O crime
foi praticado com o emprego do cianureto de potássio, colo-
cado em substituição a uns sais de cheirar. A enfermeira
Copling tentou aplicar novamente o mesmo truque. Miss
Instow e Mrs. Pritchard não precisam ter dúvidas a respeito
da verdade.
— Isso não é uma boa coisa? — exclamou Miss Marple. —
Não estou me referindo, naturalmente, ao novo assassinato.
Ele é muito triste e mostra como há maldade neste mundo. E
se a gente ceder? Isso me faz lembrar que preciso concluir
minha pequena conversa com o Dr. Lloyd sobre a
enfermeira da vila.

8
A Dama de Companhia

— BEM, DR. LLOYD — disse Miss Helier. — O senhor não
conhece algumas histórias de arrepiar?
E sorriu para ele, com aquele jeito que todas as noites
enfeitiçava o público freqüentador do teatro. Jane Helier era
por vezes considerada a mulher mais linda da Inglaterra. E
alguns de seus colegas de profissão, cheios de inveja, tinham
o hábito de dizer: "Naturalmente Jane não é uma atriz. É
incapaz de representar, se você entende o que eu quero
dizer. Mas aqueles olhos que ela tem!"
E os olhos dela fitavam, naquele instante, cheios de súplica, o
médico já grisalho, um solteirão idoso que vinha aliviando,
nos últimos cinco anos, os padecimentos dos moradores da
vila de St. Mary Mead.
Num gesto inconsciente, o Dr. Lloyd puxou o colete para
baixo. Ultimamente esse colete revelava certa inclinação para
ficar extremamente justo. E deu tratos à memória para não
desapontar aquela criatura encantadora, que se dirigia a ele
num tom assim tão confiante.
— Eu tenho a impressão — declarou Jane, com um jeito
sonhador — que eu gostaria de fartar-me de crimes esta
noite.
— Ótimo — declarou o Coronel Bantry, seu anfitrião.
— Ótimo. Ótimo. — E desatou numa gostosa gargalhada,
muito marcial. — Então Dolly?
Sua esposa, rapidamente chamada novamente para atender às
exigências da vida social (estivera planejando cuidado-
samente seu jardim de primavera), concordou
entusiasticamente com a idéia e declarou num tom animado,
embora vago:
— É ótimo, sem dúvida! Eu sempre pensei assim.
— Pensou, minha querida? — indagou Miss Marple, com
um fugaz brilho no olhar.
— Nos não temos grande coisa em matéria de histórias de
arrepiar, Miss Helier. E muito menos a respeito de crimes,
aqui em St. Mary Mead — afirmou o Dr. Lloyd.
— O senhor me surpreende — observou Sir Henry
Clithering. — E o ex-diretor da Scotland Yard voltou-se para
Miss Marple, acrescentando: — Eu sempre entendi, segundo
nossa amiga, aqui presente, que St. Mary Mead é um verda-
deiro antro de crimes e vícios.
— Oh, Sir Henry — protestou Miss Marple, meio ruborizada.
— Estou certa de que nunca disse uma coisa dessas. Eu só
afirmei que a natureza humana é essencialmente a mesma
numa vila ou em qualquer outro lugar. Mas as pessoas têm
oportunidades e tempo para observar tudo isso de perto,
num lugar pequeno.
— Mas o senhor não viveu sempre aqui — observou Jane
Helier, dirigindo-se ao médico. — Esteve em toda espécie de
lugares estranhos deste mundo. Em lugares onde
acontecem coisas.
— Isso é verdade, sem a menor dúvida — disse o Dr. Lloyd,
ainda pensando desesperadamente na história que iria narrar.
— Sim, sem dúvida. Sim. Ah! Já sei o que vou contar.
Acomodou-se na cadeira, deu um suspiro de alívio e co-
meçou:
— Aconteceu há alguns anos. Eu tinha quase me esquecido.
Mas os fatos foram realmente estranhos, muito estranhos
mesmo. E a coincidência final, que colocou em minhas mãos
a chave do mistério, foi também estranha.
Miss Helier puxou sua cadeira um pouco mais para perto
dele, passou batom nos lábios e ficou na expectativa. As
demais pessoas também voltaram seus rostos para ele, cheias
de interesse.
— Não sei se alguns dos presentes conhece as Ilhas Canárias
— principiou o médico.
— Devem ser maravilhosas — declarou Jane Helier. — Ficam
nos Mares do Sul, não é isso? Ou no Mediterrâneo?
— Eu lá estive, a caminho da África do Sul — disse o coronel.
— O Pico de Tenerife é belo de se ver ao pôr do sol.
— O incidente que vou descrever ocorreu na ilha Grã Ca-
nária, não em Tenerife. Foi há muitos anos. Eu tivera uma
estafa e tinha sido obrigado a deixar meus clientes da Ingla-
terra e ir para o exterior. Exerci a profissão em Las Palmas, a
principal cidade da Grã Canária. Gostei de viver lá, gostei
muito mesmo, por vários motivos. O clima era ameno e
ensolarado, havia um excelente banho de mar, e eu sou
entusiasta por banho de mar. A vida marítima, do porto, me
atraía muito. Navios de todas as partes do mundo tocavam
em Las Palmas. Eu costumava caminhar ao longo dos
molhes, todas as manhãs, bem mais interessado do que
qualquer representante do belo sexo poderia estar se andasse
por uma rua de chapeleiras.
Como eu ia dizendo, navios de todas as partes do mundo
tocavam em Las Palmas. Às vezes lá permaneciam durante
algumas horas, outras vezes por um ou dois dias. No
principal hotel da cidade, o Metrópole, viam-se pessoas de
todas as raças e nacionalidades, aves de arribação. Até
mesmo quem vai a Tenerife costuma dirigir-se à Grã Canária
e aí permanecer alguns dias antes de seguir para a outra ilha.
Minha história começa no Hotel Metrópole, numa noite de
quinta-feira, num mês de janeiro. Estava se realizando um
baile no hotel, e um amigo italiano, que estava comigo,
tinha-se abancado ao meu lado, numa pequena mesa.
Ficamos apreciando a cena. Havia um número razoável de
ingleses e de pessoas de outras nacionalidades, mas a maioria
dos dançarinos eram espanhóis. Quando a orquestra tocou
um tango, somente meia dúzia de pares desta última
nacionalidade foram dançar na pista. Todos dançavam bem e
nós ficamos observando e admirando. Uma mulher, de modo
especial, despertou hossa viva admiração. Era alta, bela e
sinuosa, movendo-se com a graciosidade de um leopardo
semidomesticado. Havia nela algo de perigoso. Afirmei isso
ao meu amigo e ele concordou comigo.
— Mulheres assim — disse ele — são fadadas a ter uma
história. A vida não passa ao largo de uma dessas mulheres.
— Talvez a beleza seja um bem perigoso — eu comentei.
— Não é só a beleza — insistiu ele. — Existe mais do que
isso. Olhe de novo para ela. Tem de acontecer coisas com
aquela mulher ou por causa dela. Como eu disse, a vida não
vai passar ao largo dessa criatura. Acontecimentos estranhos
irão envolvê-la. Basta olhar para ela que logo se vê.
Meu amigo fez uma pausa e acrescentou, sorrindo:
— Do mesmo modo que é bastante olhar para aquelas duas
mulheres que lá estão para saber que nada de fora do comum
poderia acontecer a qualquer das duas. Foram feitas para
levar uma existência segura e monótona.
Eu acompanhei seu olhar. As duas mulheres a que se referia
eram viajantes recém-chegadas. Eram duas inglesas que
haviam acabado de desembarcar de um navio da Holland
Lloyd, que encostara no porto naquela tarde. Seus
passageiros estavam começando a aparecer.
No momento em que olhei para elas, logo percebi o que meu
amigo queria dizer. As duas eram dessas inglesas
absolutamente corretas, dessas viajantes que encontramos no
exterior. Eu diria que suas idades estariam em torno dos
quarenta anos. Uma era loura, um tanto roliça, ao passo que a
outra era morena, tendendo um pouco, apenas levemente,
para magra. Eram o que se poderia dizer bem conservadas,
vestidas de maneira sóbria e discreta com seus tweeds bem
cortados, e usavam maquilagem muito leve. Tinham esse
aspecto de tranqüila segurança, que é um direito de
nascimento das inglesas de boas famílias. Nada havia de
notável em qualquer das duas. Eram iguais a milhares de suas
irmãs. Sem dúvida iriam ver o que desejavam ver, ajudadas
pelo Baedecker, e permanecer cegas diante de tudo mais.
Usariam a biblioteca de livros ingleses e freqüentariam a
Igreja Inglesa, em qualquer lugar onde acaso se
encontrassem, sendo provável que uma delas, ou ambas,
entendesse um pouco de desenho. E conforme declarou meu
amigo, jamais aconteceria a qualquer das duas nada de
emocionante ou excepcional, embora pudessem muito1
provavelmente viajar pela metade do mundo. Desviei os
olhos delas e tornei a observar a espanhola, com seu olhar
ardente, suas pálpebras semicerradas e seu sorriso.
— Pobrezinhas! — exclamou Jane Helier, suspirando. —
Mas eu de fato acredito que é uma tolice as pessoas não
tirarem o máximo de si próprias. Aquela mulher de Bond
Street, a Valentina, é realmente maravilhosa. Audrey
Denman é cliente dela. O senhor já a viu na peça The
Downward Step? É realmente maravilhosa no papel de
menina de escola, no primeiro ato. No entanto Audrey tem,
no mínimo, cinqüenta anos. Na verdade eu sei que ela está
quase com sessenta.
— Continue — disse Mrs. Bantry ao Dr. Lloyd. — Eu gosto
muito de histórias sobre coleantes dançarinas espanholas.
Isso me faz esquecer a idade que tenho e como sou gorda.
— Eu sinto muito — esclareceu o Dr. Lloyd, desculpando-se.
— Mas a senhora vai compreender que essa história na
realidade não é sobre a espanhola.
— Ah, não? — exclamou Mrs. Bantry.
— Não. Acontece que meu amigo e eu estávamos enganados.
Não ocorreu nada de emocionante com a beldade espanhola:
casou-se com um funcionário de uma agência de viagens e,
quando eu deixei a ilha, já tinha cinco filhos e estava ficando
muito gorda.
— Exatamente como a filha de Israel Peters — comentou
Miss Marple. — Entrou para o teatro e tinha umas pernas tão
bonitas que lhe deram o papel principal, de menino, numa
pantomima. Todos diziam que ela não daria em nada, mas
casou-se com um viajante comercial e ficou em ótima
situação na vida.
— O paralelo da vila — murmurou Sir Henry em voz baixa.
— Minha história — prosseguiu o médico — é sobre as duas
inglesas.
— Aconteceu alguma coisa com elas? — indagou Miss Helier.
— Logo no dia seguinte — disse o médico.
— Foi mesmo? — comentou Mrs. Bantry, num tom en-
corajador.
— Quando eu saí, naquela noite, dei uma olhada no livro de
registro do hotel, apenas por curiosidade. Encontrei
facilmente seus nomes: Miss Mary Barton e Miss Amy
Durrant, de Little Paddocks, Caughton Wier,
Buckinghamshire. Não imaginei, nesse momento, que em
breve iria encontrar novamente os nomes dessas pessoas. E
em circunstâncias trágicas!
Eu havia combinado fazer um piquenique com uns amigos,
no dia seguinte. Iríamos atravessar a ilha de automóvel,
levando nosso farnel, até um lugar chamado Las Nieves,
tanto quanto possa me lembrar, pois isso foi há muito tempo!
Era uma enseada bem protegida, onde poderíamos tomar
banho de mar, se tivéssemos disposição para isso.
Cumprimos exatamente nosso programa, salvo quanto ao
fato de que saímos um pouco tarde, paramos no meio do
caminho, fizemos nosso piquenique e, depois, prosseguimos
até Las Nieves para tomar um banho de mar antes da hora do
chá.
Quando nos aproximamos da praia, percebemos imedia-
tamente que lá havia uma grande agitação. Todos os
habitantes da pequena vila pareciam estar reunidos à beira da
praia. Logo que nos viram, correram em direção ao nosso
carro e começaram excitadamente a explicar o que havia
acontecido. Como meus conhecimentos de espanhol não
eram muito bons, levei alguns minutos para entendê-los.
Mas, finalmente, compreendi o que queriam dizer. Duas
inglesas sem juízo tinham ido tomar banho de mar. Uma
delas se afastara demais da praia, nadando, e se vira em
dificuldades. A outra fora ao seu encalço e teria morrido
afogada se um homem não se tivesse metido num barco a
remos, trazendo de volta as duas, uma delas já sem poder ser
socorrida.
Logo que apreendi o sentido das coisas, fui afastando aquela
pequena massa de gente e me dirigi apressadamente à praia.
A princípio não reconheci as duas mulheres. A que era meio
rechonchuda, de maio preto e com uma touca justa, de
borracha verde, não despertou em mim qualquer lembrança
quando me olhou ansiosamente. Estava ajoelhada ao lado da
amiga, procurando provocar sua respiração artificial, de
maneira um tanto desajeitada. Quando declarei que era
médico, ela deu um suspiro de alívio e eu lhe disse que fosse
imediatamente até um dos chalés vizinhos a fim de fazer
uma fricção no corpo e trocar de roupa. Uma das senhoras
do meu grupo a acompanhou. Eu me esforcei, sem resultado,
para reanimar a afogada. Já estava sem vida. Isso era
perfeitamente claro. Finalmente, fui forçado a desistir,
embora com relutância.
Reuni-me às outras pessoas, na pequena cabana de um
pescador, onde fui obrigado a comunicar a triste notícia. A
sobrevivente estava então vestida e eu imediatamente a
reconheci como sendo uma das duas inglesas que haviam
chegado na noite anterior. Ela recebeu a dolorosa
informação, com bastante calma e foi evidentemente o
horror de tudo aquilo que a impressionou, mais do que
qualquer forte sentimento pessoal.
— Pobre Amy — disse ela. — Coitada da Amy. Tinha
pensado tanto em tomar um banho de mar aqui. E nadava
tão bem! Não consigo compreender como foi. Que o senhor
acha que possa ter acontecido?
— Possivelmente ela teve uma cãibra. A senhora poderá me
dizer exatamente o que houve?
— Nós estávamos nadando já há algum tempo, uns vinte
minutos, eu diria. Então pensei em voltar para o hotel, mas
Amy quis nadar um pouco mais. E assim fez. De repente eu a
ouvi gritar e compreendi que estava pedindo socorro. Nadei
o mais depressa que pude em sua direção. Ainda estava em
cima da água quando cheguei perto dela. Mas se agarrou a
mim tão desesperadamente que nós duas afundamos. Se
aquele homem não chegasse de barco eu também teria me
afogado.
— Isso tem acontecido muitas vezes — eu comentei. — Não
é fácil salvar uma pessoa que esteja se afogando.
— Tudo me parece tão horrível — prosseguiu Miss Barton.
— Nós chegamos ontem apenas, e estávamos tão encantadas
com o sol e com nossas férias, tão curtas! E agora aconteceu
isso, essa terrível tragédia.
Eu indaguei detalhes sobre a morta, explicando que faria tudo
que pudesse por ela, Miss Barton, mas que as autoridades
espanholas iriam exigir informações completas. Ela
prontamente me deu todas as informações.
A morta, Miss Amy Durrant, era sua dama de companhia e
viera residir em sua casa cinco meses antes. Davam-se muito
bem, mas Miss Durrant falava muito pouco sobre sua família.
Tinha ficado órfã muito cedo e havia sido criada por um tio.
Ganhava a vida desde os vinte anos de idade.
A coisa foi assim, prosseguiu o médico, depois de fazer uma
pausa. A coisa foi assim, repetiu com um certo tom de
finalidade.
— Eu não compreendo — disse Jane Helier. — Isso foi tudo?
Eu quero dizer, foi muito trágico, eu suponho. Mas não o
que eu chamaria uma coisa de arrepiar.
— Eu acredito que houve algo mais — comentou Sir Henry.
— Houve, sim — confirmou o Dr. Lloyd. — Houve algo
mais. Aconteceu um fato estranho, exatamente naquela
ocasião. Eu naturalmente fiz perguntas aos pescadores, sobre
o que tinham visto. Eram testemunhas oculares do acidente.
Uma mulher contou uma história bastante esquisita. Na
época eu não prestei muita atenção ao que ela disse, mas essa
história voltou à minha lembrança, mais tarde. A mulher
insistiu que Miss Durrant não estava em apuros quando
chamou a outra moça. Esta foi nadando até onde se
encontrava sua amiga e manteve, propositadamente, a cabeça
dela debaixo d'água. Esse relato era tão fantástico, como
estou lhes dizendo, que não prestei muita atenção a ele.
Coisas dessa natureza parecem tão diferentes quando vistas
da praia. Miss Barton poderia ter procurado fazer com que a
amiga perdesse os sentidos, percebendo que ela iria agarrá-la,
tomada de pânico, e que ambas se afogariam. Segundo a
versão da espanhola parecia que, bem, que Miss Barton
tentara deliberadamente afogar sua dama de companhia.
Eu dei muito pouca atenção a isso, como lhes disse. Mais
tarde, ela me acudiu à memória. Nossa grande dificuldade
consistiu em descobrir qualquer coisa sobre aquela mulher,
Amy Durrant. Parecia não ter parentes. Miss Barton e eu
examinamos juntos a bagagem de Miss Durrant.
Encontramos um endereço e escrevemos para o mesmo. Era
simplesmente o de um quarto que ela alugara para nele
guardar alguns de seus pertences. A senhoria nada sabia e só
a tinha visto quando ela tomou o quarto. Miss Durrant
comentara, certa vez, que gostava de ter um canto que
pudesse chamar de seu, e para o qual tivesse liberdade de ir
em qualquer ocasião. No quarto havia dois ou três belos
móveis e alguns números, encadernados, de uma revista de
reproduções de quadros da Academia, além de uma grande
mala, cheia de objetos adquiridos por ela, mas nenhum de
caráter pessoal. Miss Durrant dissera à senhoria que seus pais
tinham morrido na Índia, quando ela era ainda criança, e que
havia sido criada por um tio padre. Mas não disse se era
irmão de seu pai ou de sua mãe e, por isso, o nome dela não
fornecia qualquer pista.
Tudo aquilo não seria exatamente misterioso, mas apenas
insatisfatório. Deve haver um graade número de mulheres
solitárias, orgulhosas e reticentes, naquela mesma situação,
Entre os pertences de Miss Durrant foram encontradas
algumas fotografias, tiradas em Las Palmas, bastante antigas e
desbotadas. Tinham sido aparadas para caber nas molduras
em que foram colocadas, de sorte que não continham o
nome de qualquer fotógrafo. Havia também um velho
daguerreótipo que poderia ser da mãe dela, ou, mais
provavelmente, da avó.
Miss Barton obtivera duas referências sobre sua dama de
companhia, mas se esquecera do nome de uma delas,
lembrando-se do nome da outra com certo esforço. Era o de
uma senhora que então se encontrava fora do país, tendo ido
para a Austrália. Escreveu-lhe uma carta, cuja resposta, como
é natural, levou algum tempo para chegar. Posso dizer que
não se conseguiu obter grande ajuda com essa carta, quando
veio às nossas mãos. Dizia a remetente que Miss Durrant
havia sido sua dama de companhia, muito eficiente, uma
pessoa encantadora. Mas nada sabia a respeito de sua vida
particular.
A situação era essa, como estou lhes dizendo. Realmente
nada havia de fora do comum. Mas foram exatamente duas
circunstâncias reunidas que causaram meu mal-estar. Aquela
moça, Amy Durrant, de quem ninguém sabia coisa alguma, e
a estranha versão da espanhola. Sim, eu ainda acrescentaria
uma terceira circunstância: quando me debrucei pela
primeira vez sobre o corpo da afogada, Miss Barton estava se
afastando em direção às cabanas e olhou para trás. Tinha uma
expressão, estampada na fisionomia, que eu só consigo
descrever como de viva ansiedade, uma espécie de
angustiosa incerteza. Isso ficou gravado em minha memória.
Na ocasião o fato não me impressionou como sendo
excepcional. Atribuí aquilo à terrível aflição causada pela
morte da amiga. Mas posteriormente percebi que as duas não
eram amigas. Não havia um verdadeiro afeto entre elas, nem
Miss Barton sentiu uma terrível dor. Ela estimava Amy
Durrant e ficara chocada com sua morte. Isso era tudo. Mas
então, por que aquela horrível e pungente ansiedade? Essa
indagação continuou a me perseguir. Eu não me enganara
com aquele olhar. E assim, quase contra minha vontade,
começou a tomar corpo em meu espírito uma resposta
àquela indagação. E se a versão da espanhola fosse a
verdadeira? Se Mary Barton tivesse deliberadamente tentado
afogar Amy Durrant a sangue-frio? Teria conseguido manter
a amiga debaixo d'água enquanto simulava estar tentando
salvá-la? Foi alcançada por um bote e posta fora de perigo. As
duas estavam numa praia isolada, afastadas de tudo. Foi então
que eu apareci. A última coisa que ela poderia esperar: um
médico! É um médico inglês. Ela sabia muito bem que certas
pessoas que permanecem debaixo d'água durante muito mais
tempo do que Amy Durrant voltam à vida por meio da
respiração artificial. E quando se virou para lançar-me um
derradeiro olhar, uma terrível e pungente ansiedade se
estampou em sua fisionomia. Se Amy Durrant revivesse e
contasse o que sabia?
— Ah! — exclamou Jane Helier. — Agora eu estou pal-
pitando de emoção!
— Encarado sob esse prisma todo o problema parecia mais
sinistro. E a personalidade de Amy Durrant tornou-se mais
misteriosa. Quem seria Amy Durrant? Por que, uma
insignificante dama de companhia, que vivia de um salário,
haveria de ser assassinada por sua patroa? Que história
haveria sob as aparências daquele fatal banho de mar? Ela
havia começado a trabalhar para Mary Barton apenas alguns
meses antes. Mary a levara ao exterior e, no próprio dia em
que desembarcaram, aconteceu a tragédia. Elas eram
realmente duas inglesas finas, sem nada de especial, bem
educadas. Aquilo tinha sido tão fantástico, eu dizia de mim
para mim. E permiti que minha imaginação me arrebatasse.
— Mas o senhor não fez nada? — indagou Miss Helier.
— Minha jovem e prezada amiga, o que eu poderia fazer?
Não havia provas. A maior parte das testemunhas oculares
narraram uma história igual à de Miss Barton. Eu forjara
minhas suspeitas a partir de uma fugaz expressão que eu
poderia, muito possivelmente, haver imaginado. A única
coisa que consegui fazer, e que de fato fiz, consistiu em
tomar todas as medidas no sentido de que fossem realizadas
as mais exaustivas investigações acerca das relações de Amy
Durrant. Quando, depois disso, voltei pela primeira vez à
Inglaterra, cheguei a procurar a senhoria do quarto que ela
havia alugado, obtendo os resultados que lhes contei.
— Mas o senhor sentiu que havia algo de errado — obser-
vou Miss Marple.
O Dr. Lloyd fez um sinal afirmativo, de cabeça.
— Durante a metade do tempo eu me envergonhava de mim
mesmo por pensar dessa maneira. Quem seria eu para
suspeitar daquela moça inglesa, fina, de maneiras agradáveis?
Suspeitar que houvesse cometido um crime horrível, a
sangue-frio? Fiz o que pude para ser o mais cordial para com
ela durante o breve período em que permaneceu na ilha.
Ajudei-a perante as autoridades espanholas. Fiz tudo que me
foi possível, na qualidade de inglês, para auxiliar uma
compatriota que se achava num país estrangeiro. Na verdade,
estou convencido de que ela tinha consciência de minhas
suspeitas e sabia que eu não a estimava, e que tinha aversão
por ela.
— Quanto tempo ela permaneceu na ilha? — indagou Miss
Marple.
— Creio que cerca de duas semanas. Miss Durrant foi
sepultada na ilha. Deve ter sido uns dois dias depois disso que
tomou seu navio, de regresso à Inglaterra. O choque a
perturbara tanto que ela sentiu ser-lhe impossível passar o
inverno em Las Palmas, como havia planejado. Foi o que me
disse.
— O fato pareceu perturbá-la? — indagou Miss Marple. O
médico hesitou e disse, cautelosamente:
— Bem. Não sei se lhe afetou a aparência.
— Ela não terá, por exemplo, engordado? — indagou Miss
Marple.
— É curioso a senhora perguntar isso. Agora começo a pensar
e creia que tem razão. Sim. Ela me pareceu ter aumentado de
peso.
— Que coisa horrível! — exclamou Jane Helier, estreme-
cendo. — É como engordar à custa do sangue da própria ví-
tima.
— Mas, por outro lado, talvez eu pudesse estar cometendo
uma injustiça em relação a ela — prosseguiu o Dr. Lloyd. —
Certamente me disse alguma coisa, antes de partir, que su-
geria coisa totalmente diferente. É possível que existam
certas consciências que agem muito lentamente. Eu creio
que existem. Levam algum tempo para despertar diante da
enormidade de algum ato que tenham praticado.
Foi na noite anterior à sua partida das Canárias. Ela me pedira
que eu fosse vê-la e me agradeceu muito efusivamente por
tudo quanto eu havia feito para ajudá-la. Naturalmente eu
não dei importância ao que fizera, dizendo que apenas agira
de maneira natural, diante das circunstâncias. Depois disso
ouve um silêncio entre nós. Em seguida, ela subitamente me
fez uma pergunta:
— O senhor acha que uma pessoa poderá ser justificada se
tomar a lei nas próprias mãos?
Eu respondi que se tratava de uma pergunta difícil, mas, de
modo geral, eu achava que não. Lei é lei, e temos de res-
peitá-la.
— Mesmo quando a lei for inócua? — ela insistiu.
— Eu não estou entendendo bem — foi minha resposta.
— É difícil explicar. Mas uma pessoa poderá praticar algum
ato considerado positivamente errado, julgado até mesmo
um crime, por algum motivo muito válido e suficiente.
Eu lhe respondi secamente que vários criminosos haviam
possivelmente pensado nisso, e ela se retraiu, murmurando:
— Mas que coisa horrível! Horrível mesmo!
Em seguida, mudando de tom, pediu-me que lhe receitasse
algum remédio para dormir. Não havia conseguido pregar
olhos desde, ela hesitou, desde aquele terrível choque.
— A senhora tem certeza de que foi por esse motivo? Não
há nada que a esteja preocupando? Nada que lhe aflija? — eu
indaguei.
— Eu, aflita? O que estaria me afligindo?
E falou de um jeito áspero e cheio de suspeitas.
— As preocupações às vezes causam insônia — eu observei
num tom indiferente.
Ela pareceu meditar durante alguns segundos e acrescentou:
— O senhor quer dizer preocupações sobre o futuro ou
preocupações sobre o passado, que não poderá ser alterado?
— Uma coisa ou outra.
— Mas não vaie a pena uma pessoa preocupar-se com o
passado — ela prosseguiu. — Não poderia fazê-lo reviver. E
de que valeria isso? Não se deve pensar numa coisa dessas.
Eu lhe receitei um sonífero fraco e apresentei-lhe minhas
despedidas. No momento em que a vi deixando o hotel,
pensei nas palavras que havia pronunciado. Não se poderia
fazê-lo reviver. Reviver o quê? Reviver quem?
Creio que esse último encontro certamente me preparou
para o que viria a seguir. Eu não o esperava, naturalmente,
mas, quando tudo aconteceu, não fiquei surpreendido. Isso
porque Mary Barton sempre me impressionara como pessoa
decidida. Não era uma pecadora pusilânime, mas uma mulher
de convicções e que se portaria à altura dessas convicções,
jamais cedendo enquanto nelas acreditasse. Imaginei que, em
nossa última conversa, estaria começando a duvidar de suas
convicções. Sei que suas palavras me sugeriram que, pela
primeira vez, ela estava sentindo o começo da ação daquele
terrível esquadrinhador das almas: o remorso.
O fato ocorreu na Cornualha, numa pequena estância
hidrotermal, bastante vazia naquela época do ano. Deve ter
sido, deixe-me ver, em fins de março. Eu li a respeito do
assunto nos jornais. Uma senhora estivera hospedada num
pequeno hotel, uma certa Miss Barton. Suas maneiras haviam
sido julgadas muito estranhas. Todos tinham reparado nisso.
À noite, caminhava pelo quarto, de um lado para outro,
falando sozinha, em voz sussurrada, não deixando que os
vizinhos dormissem. Fora procurar o vigário, certo dia, e lhe
dissera que tinha uma comunicação da maior gravidade para
lhe fazer. Declarou que havia cometido um crime. Em
seguida, em vez de prosseguir, calara-se abruptamente,
afirmando que iria vê-lo algum outro dia. O vigário a
considerou meio amalucada, não tomando muito à sério sua
auto-acusação.
Logo na manhã seguinte, deram por falta dessa mulher em
seu quarto. Havia deixado um bilhete, dirigido ao magistrado
encarregado de investigar as mortes suspeitas. Dizia o
seguinte:

Ontem tentei falar com o vigário e confessar-lhe tudo,
mas ele não permitiu. Só posso corrigir as coisas de
uma única maneira: uma, vida por outra vida. Minha
vida deve ter o mesmo fim que teve a dela. Eu
também tenho de me afogar. Eu julgava possuir uma
justificativa. Agora vejo que não era assim. Como
desejo obter o perdão de Amy, tenho de ir para onde
ela está. Não culpem ninguém pela minha morte.
MAKY BARTON

Suas roupas foram encontradas numa praia, que ficava numa
enseada vizinha. Pareceu bem claro que aí se havia despido e
nadado resolutamente pelo mar adentro, num ponto em que
sabia ser perigosa a correnteza. Seria arrastada ao longo da
costa.
Seu corpo não foi encontrado. Mas, algum tempo depois, foi
considerada presumivelmente morta. Era uma mulher rica, e
seus bens chegavam a cem mil libras. Tendo falecido sem
deixar testamento, toda sua fortuna foi herdada por uma
parenta mais próxima, uma prima que morava na Austrália.
Os jornais: fizeram discretas referências à tragédia ocorrida
nas Ilhas Canárias, sugerindo que a morte de Miss Durrant
abalou as faculdades mentais de sua amiga. Do inquérito que
foi realizado, resultou o habitual veredicto de suicídio em
estado de momentânea insanidade mental.
Assim caiu o pano sobre a tragédia de Amy Durrant e Mary
Barton.
Seguiu-se uma longa pausa e, em seguida, Jane Helier deu um
grande suspiro, acrescentando:
— Mas o senhor não deve parar nesse ponto, exatamente na
parte mais interessante da história. Continue.
— Mas a senhora há de compreender, Miss Helier —
comentou o médico —, não se trata de uma história em
folhetins. A vida real pára exatamente onde resolve parar.
— Mas eu não quero que ela pare — acrescentou Jane. — Eu
quero saber.
— Agora é o momento de usar a cabeça, Miss Helier —
explicou Sir Henry. — Por que Mary Barton matou sua dama
de companhia? Esse é o problema que nos propõe o Dr.
Lloyd.
— Está bem — assentiu Miss Helier — Ela poderia ter morto
sua dama de companhia por mil e um motivos. Eu quero
dizer, não sei por que assim fez. Poderia ter ficado doente
dos nervos, ou talvez tido ciúmes dela, embora o Dr. Lloyd
não tenha mencionado nenhum homem. Mas, ainda assim,
no navio... Bem, todos sabem o que se diz sobre navios e
viagens por mar.
Miss Helier fez uma pausa, meio ofegante, e as pessoas que a
ouviam sentiam-se dominadas pela impressão de que o
aspecto exterior da encantadora cabeça de Jane era infinita-
mente superior ao que havia dentro da mesma.
— Eu gostaria de fazer muitas hipóteses — declarou Mrs.
Bantry. — Mas suponho que devo me limitar a uma só. Eu
penso que o pai de Miss Barton fez fortuna arruinando o pai
de Amy Durrant. Por isso Amy decidiu vingar-se. Não, isso
está completamente errado. Que coisa aborrecida! Por que a
rica patroa haveria de matar sua pobre empregada? Já sei.
Miss Barton teve um jovem irmão que se suicidou por amor
de Amy Durrant. Miss Barton esperou sua oportunidade.
Amy aparece e Miss Barton a admite como dama de
companhia, levando-a às Canárias. E exerce sua vingança.
Que tal?
— Excelente — observou Sir Henry. — Mas não sabemos se
Miss Barton algum dia teve um irmão jovem.
— Isso nós deduzimos — declarou Mrs. Bantry. — Se não
tivesse tido um jovem irmão, não haveria um motivo para o
crime. Por isso ela deve ter tido um irmão jovem. O senhor -
não percebe essa coisa elementar?
— Tudo isso é muito bonito, Dolly — declarou o coronel. —
Mas não passa de uma suposição.
— Naturalmente — prosseguiu Mrs. Bantry. - É o que
podemos fazer: suposições. Não dispomos de nenhuma pista.
Continue querido, faça sua suposição.
— Palavra que eu não tenho nada a dizer — afirmou o
Coronel Bantry. — Mas penso haver alguma coisa na suges-
tão feita por Miss Helier, ou seja, que as duas se apaixonaram
por algum homem. Veja, Dolly, provavelmente terá sido
algum alto dignitário da Igreja. Ambas bordaram-lhe umas
capas, ou coisa parecida, e ele usou primeiro a feita por Miss
Durrant. Vocês podem confiar no que estou dizendo.
Imaginem como Miss Durrant ficou caída pelo pastor. Essas
mulheres perdem a cabeça quando encontram um bonito
pastor. Estamos cansados de ouvir falar nisso.
— Penso que devo tentar oferecer minha explicação, que é
um pouco mais sutil — declarou Sir Henry — embora eu
admita que se trata de mera suposição. Sugiro que Miss
Barton sempre foi perturbada das faculdades mentais.
Existem mais casos semelhantes a esse do que se possa
imaginar. Seu estado agravou-se e ela começou a acreditar
que era de seu dever livrar o mundo de certas pessoas,
possivelmente as que são denominadas mulheres infelizes.
Nada mais se sabe a respeito do passado de Miss Durrant.
Assim, é muito possível que ela tenha tido um passado, um
passado "infeliz". Miss Barton fica sabendo disso e decide
exterminá-la. Mais tarde, começa a duvidar da retidão de seu
ato e fica dominada pelo remorso. Seu fim mostra que estava
inteiramente perturbada das faculdades mentais. A senhora
poderá dizer se concorda ou não comigo, Miss Marple?
— Eu acho que não, Sir Henry — disse Miss Marple,
sorrindo com um jeito de quem se desculpa. — Penso que o
fim de Miss Barton mostra que era mulher inteligente e
dotada de recursos.
Jane Helier a interrompeu, soltou um pequeno grito e
declarou:
— Ah! Como eu fui tola! Posso fazer mais uma suposição?
Sem dúvida deve ter sido isso: chantagem. A dama de com-
panhia estava fazendo chantagem com Miss Barton. Só que
eu não sei por que Miss Marple declarou que foi muito
inteligente de sua parte suicidar-se. Isso eu não consigo
entender de maneira alguma.
— Ah! — exclamou Sir Henry. — A senhora compreende,
Miss Marple conhece um caso exatamente igual a esse,
ocorrido em St. Mary Mead.
— O senhor está caçoando de mim, Sir Henry — disse Miss
Marple, num tom de censura. — Confesso que essa história
me lembra um pouco a velha Mrs. Trout. Ela recebeu a
pensão por velhice, o senhor sabe, de três mulheres muito
idosas que já tinham morrido em paróquias diferentes.
— Isso me parece um crime complicadíssimo e muito bem
arquitetado — observou Sir Henry. — Mas não acredito que
possa lançar luzes sobre nosso problema atual.
— Decerto que não — concordou Miss Marple. — Para o
senhor, nada esclareceria. Mas algumas das famílias eram
muito pobres, e a pensão por velhice seria um grande
benefício para seus filhos. Sei que isso é difícil de entender
para uma pessoa de fora. Mas o que eu realmente quis dizer é
que toda a questão se prende ao fato de uma mulher idosa ser
tão parecida com qualquer outra.
— E daí? — indagou Sir Henry, perplexo.
— Eu sempre explico tão mal as coisas — prosseguiu Miss
Marple. — O que eu quero dizer é que, no momento em que
o Dr. Lloyd descreveu pela primeira vez as duas senhoras,
não foi capaz de distinguir uma da outra. Suponho que mais
ninguém, no hotel, o conseguiria. Naturalmente teriam essa
distinção ao cabo de dois ou três dias. Mas logo na manhã
seguinte uma delas se afogou. E a que não morreu declarou
ser Miss Barton. Acredito que jamais ocorreu a ninguém que
ela poderia não ser Miss Barton.
— Ah! A senhora está pensando... Ah! Agora eu percebo —
disse Sir Henry, falando muito devagar.
— É a única maneira natural de pensar no assunto. Nossa
querida Mrs. Bantry começou desse modo, há pouco. Por
que uma patroa rica haveria de matar sua humilde dama de
companhia? É tão mais provável que tenha ocorrido o
contrário. Eu quero dizer, é assim que as coisas acontecem.
— É de fato assim? — indagou Sir Henry. — A senhora me
deixa muito chocado.
— Mas naturalmente — prosseguiu Miss Marple — ela teria
de vestir as roupas de Miss Barton. Provavelmente ficariam
um pouco justas nela. Por isso aparentou ter engordado um
pouco. Por esse motivo é que eu fiz aquela pergunta ao Dr.
Lloyd. Um homem teria certeza de que a moça havia
engordado, e não que as roupas seriam apertadas para ela,
embora isso não seja a maneira muito apropriada de expressar
as coisas.
— Mas se Amy Durrant matou Miss Barton, o que terá
lucrado com isso? Não poderia manter essa impostura para
sempre — comentou Sir Henry.
— Ela apenas a manteve durante aproximadamente um mês
— acrescentou Miss Marple. — Nesse mês, eu presumo que
tenha viajado, conservando-se afastada das pessoas que
pudessem reconhecê-la. Isso é que eu quis dizer quando
afirmei que uma mulher, depois de certa idade, muito se
parece com as outras mulheres. Eu suponho que nunca
observaram as fotografias do passaporte de Miss Durrant.
Todos aqui sabem como são os passaportes. Em março, ela
foi para aquele lugar na Cornualha e começou a portar-se de
maneira estranha, chamando atenção sobre si mesma, de
sorte que, ao serem achadas suas roupas, na praia, e lida sua
última carta, as pessoas não pensassem na conclusão imposta
pelo bom-senso.
— Qual seria essa conclusão? — indagou Sir Henry.
— O corpo não foi encontrado — disse Miss Marple com
firmeza. — Isso seria a circunstância flagrante, se não tivesse
havido uma porção de coisas irrelevantes que afastaram as
pessoas da verdadeira pista, entre a idéia de ação perversa e
de remorso. Não apareceu o corpo. O fato verdadeiramente
significativo foi o corpo não ter aparecido.
— A senhora quer dizer — indagou Mrs. Bantry —, a se-
nhora quer dizer que não houve remorso? Que não houve...
que ela não se afogou?
— Ela não se afogou — afirmou Miss Marple. — Exatamente
o caso de Mrs. Trout de novo. Mrs. Trout era excelente para
despistar, mas encontrou alguém à sua altura, na minha
pessoa. Eu sou capaz de enxergar o íntimo da sua Miss
Barton, impelida pelo remorso. Ela não se afogou, absoluta-
mente. Foi para a Austrália, se é que sou capaz de adivinhar
as coisas.
— A senhora é de fato capaz disso — declarou o Dr. Lloyd.
— Sem a menor dúvida. As coisas me apanharam novamente
de surpresa. A senhora poderia ter me derrubado com um
simples piparote, naquele dia, em Melbourne.
— Foi a isso que o senhor se referiu como sendo uma
coincidência final? — indagou Miss Marple.
O Dr. Lloyd fez um gesto de assentimento com a cabeça, e
acrescentou:
— Sim. Foi muita falta de sorte para Miss Barton, ou Miss
Amy Durrant. Eu fui ser médico de bordo durante algum
tempo e, um dia, desembarcando em Melbourne, a primeira
pessoa que avistei, ao descer por uma rua, foi a mulher que
eu julguei tivesse se afogado na Comualha. Ela percebeu que
o jogo estava terminado e tomou uma decisão ousada: fez-me
seu confidente. Era uma mulher estranha, completamente
destituída de senso moral, creio eu. Era a filha mais velha de
uma família de nove irmãos, todos miseravelmente pobres.
Certa vez eles haviam sido repelidos por um tio rico, que
vivia na Inglaterra, a quem tinham pedido um auxílio, e Miss
Barton brigou com os pais por causa disso. Eles precisavam
desesperadamente de dinheiro porque seus três filhos mais
novos eram de saúde delicada e necessitavam de
dispendiosos cuidados "médicos. Foi então que Amy Barton
parece ter decidido realizar seu plano de cometer um
assassinato a sangue frio. Partiu para a Inglaterra e custeou
sua passagem trabalhando como ama-seca. Obteve o
emprego de dama de companhia de Miss Barton, dando o
nome de Amy Durrant. Alugou um quarto, nele colocando
alguns móveis para criar uma personalidade própria. O plano
do afogamento foi para ela uma inspiração do momento.
Aguardou que se apresentasse alguma oportunidade para rea-
parecer. Em seguida, montou a cena final do drama e
regressou à Austrália. No devido tempo, ela e os irmãos
herdaram a fortuna de Miss Barton, na qualidade de seus
parentes mais próximos.
— Um crime muito audacioso e perfeito — declarou Sir
Henry. — Quase o crime perfeito. Se fosse Miss Barton que
tivesse morrido nas Canárias, poderiam ser levantadas
suspeitas contra Amy Durrant e sua ligação com a família
Barton teria sido descoberta. Mas a troca de identidade e o
duplo crime, como se poderá chamá-lo, eliminaram
eficientemente tudo isso. Sim. Foi quase um crime perfeito.
— O que aconteceu com ela? — indagou Mrs. Bantry. —
Como agiu o senhor diante das circunstâncias, Dr. Lloyd?
— Eu me encontrava numa posição muito especial, Mrs.
Bantry. Dispunha de muito poucas provas, como a lei as
entende. E também se apresentaram certas evidências para
mim, na qualidade de médico. Aquela mulher, embora
parecesse forte e vigorosa, não iria durar muito. Fui à casa
dela em sua companhia e conheci o resto da família, gente
encantadora, dedicada à irmã mais velha e sem fazer a menor
idéia de que ela poderia ter cometido um crime. Por que
levar-lhes a tristeza quando eu nada poderia provar? A
confissão daquela mulher, a mim feita, não tinha sido ouvida
por mais ninguém. Deixei que a natureza seguisse seu curso.
Miss Amy Barton morreu seis meses depois de eu a ter
encontrado. Fiquei muitas vezes imaginando se ela
continuou feliz até o fim, sem se arrepender.
— Certamente que não — afirmou Mrs. Bantry.
— Eu acho que sim — observou Miss Marple. -— Mrs.
Trout foi inquebrantável.
Jane Helier estremeceu levemente, dizendo:
— Bem. Esse caso é de fato muito emocionante. Mas eu não
sei quem se afogou e quem foi afogada. Nem como Mrs.
Trout entrou na história.
— Ela não entrou na história, minha querida — observou
Miss Marple. — Foi apenas uma pessoa, não muito decente,
que morou na vila.
— Ah! — exclamou Jane. — Na vila. Mas nada acontece
numa vila, não é mesmo? Tenho certeza de que eu não seria
inteligente se morasse numa vila.

9
Os Quatro Suspeitos

A CONVERSA girou em torno de crimes não descobertos e que
permaneceram impunes. Cada um deu sua opinião: o Co-
ronel Bantry, sua rechonchuda e amável esposa, Jane Helier,
o Dr. Lloyd e até mesmo a idosa Miss Marple. A única pessoa
que não disse uma só palavra foi aquela melhor qualificada
para isso, na maneira de ver da maior parte das pessoas. Sir
Henry Clithering, ex-diretor da Scotland Yard, permaneceu
sentado em silêncio, cofiando o bigode, ou melhor, dando-
lhe umas pancadinhas, e mantendo nos lábios um meio
sorriso, como se algum pensamento íntimo o estivesse
divertindo.
— Sir Henry — observou finalmente Mis. Bantry. — Se o
senhor não disser alguma coisa eu vou dar um grito. Existem
ou não muitos crimes que continuam sem punição?
— A. senhora está pensando nas manchetes dos jornais, Mrs.
Bantry. Segue-se a elas uma lista de crimes não elucidados.
— Na verdade — comentou o Dr. Lloyd — suponho
constituírem uma percentagem muito reduzida do total.
— Sim. É isso mesmo — confirmou Sir Henry. — As cen-
tenas de crimes esclarecidos, e seus responsáveis, raramente
são proclamados e celebrados. Mas o ponto em questão não é
bem esse. Quando se fala em crimes não elucidados
geralmente se faz referência a duas coisas diferentes. Na
primeira categoria incluem-se todos os crimes de que a
Scotland Yard nunca ouviu falar, crimes que ninguém sabe
que foram cometidos.
— Mas eu suponho que esses crimes não sejam muitos —
comentou Mrs. Bantry.
— Não serão? — disse Sir Henry.
— O senhor não quer dizer que eles sejam em grande
número — observou Mrs. Bantry.
— Eu penso — disse Miss Marple, num tom meditativo —
que deve haver um grande número desses crimes.
A encantadora e idosa senhora, com seu jeito tranqüilo e
antiquado, fez essa afirmação num tom da mais perfeita
placidez.
— Minha-prezada Miss Marple — interrompeu o Coronel
Bantry.
— Não há dúvida que muitas pessoas são tolas — declarou
Miss Marple. — E as pessoas pouco inteligentes são
descobertas, seja lá o que façam. Mas existe um bom número
de pessoas que não são tolas. Eu estremeço só em pensar o
que poderão fazer, a menos que possuam princípios morais
muito firmes.
— Sim — concordou Sir Henry. — Há muitas pessoas que
não são nada tolas. Quantas cometem crimes que se tornam
conhecidos simplesmente por causa de algum lapso
implacável de sua parte. E cada vez que isso acontece, nós
fazemos a seguinte pergunta: se não houvesse ocorrido esse
erro alguém por acaso teria sabido o que aconteceu?
— Mas isso é muito grave, Clithering — observou o Coronel
Bantry. — É de fato muito grave.
— Você acha?
— O que você quer dizer? Ê grave. De certo que é grave.
— Você diz que o crime fica impune — comentou. Sir
Henry. — Mas deixará mesmo de ser punido? Não recebe o
castigo da lei. Mas o princípio de causa e efeito opera à mar-
gem da lei. Dizer que todos, os crimes acarretam uma
punição é, diga-se de passagem, um lugar comum. No
entanto, não poderá existir nada de mais verdadeiro.
— Talvez, talvez — declarou o Coronel Bantry. — Mas isso
não altera a gravidade... a gravidade... — E fez uma pausa,
sem saber direito o que dizer.
Sir Clithering sorriu e acrescentou:
— Noventa e nove por cento das pessoas pensam, sem a
menor dúvida, do mesmo modo que você. Mas você sabe
que a culpa não é realmente o que importa, e sim a
inocência. Isso é que ninguém percebe.
— Eu não estou compreendendo — declarou Jane Helier.
— Pois eu estou — disse Miss Marple. — Quando Mrs. Trent
deu falta de meia coroa em sua bolsa, a pessoa a quem isso
mais afetou foi sua empregada, Mrs. Arthur. Sem dúvida os
Trents pensaram que ela havia furtado a meia coroa. Mas
como eram pessoas de bom coração e sabiam que ela tinha
família grande e que o marido dela bebia, naturalmente não
quiseram chegar a medidas extremas. Mas começaram a ter
outra atitude em relação a ela e não deixavam que ficasse
tomando conta da casa quando iam viajar. Isso fez uma
grande diferença para Mrs. Arthur. E outras pessoas também
começaram a pensar mal dela. Mrs. Trent a viu através de
uma porta, refletida num espelho. Foi obra do mais puro
acaso, embora eu prefira chamar isso de Providência Divina.
Creio que isso é o que Sir Henry quer dizer. A maior parte
das pessoas estariam interessadas apenas em quem havia
tirado o dinheiro. E aconteceu que a pessoa menos provável
havia praticado o furto. Exatamente como nos contos
policiais. Mas a criatura para quem tudo aquilo representava
uma questão de vida ou de morte era a pobre Mrs. Arthur,
que não tinha feito nada. Não é isso que o senhor quis dizer,
Sir Henry.
— Exatamente, Miss Marple — concordou Sir Henry. — A
senhora percebeu exatamente o que eu quis dizer. A tal
empregada teve sorte, no caso que a senhora contou. Sua
inocência ficou provada. Mas certas pessoas podem levar a
vida inteira esmagadas ao peso de uma suspeita, geralmente
injustificada.
— O senhor está pensando em algum caso particular, Sir
Henry? — indagou Mrs. Bantry num tom judicioso.
— De fato estou, Mrs. Bantry. Um caso muito curioso.
Acreditamos haver sido cometido um assassinato, mas não
dispomos da menor probabilidade de prová-lo.
— Foi veneno, com certeza — murmurou Jane. — Algum
veneno que não deixa vestígios.
O Dr. Lloyd mexeu-se em sua cadeira, impacientemente, e
Sir Henry abanou a cabeça, dizendo:
— Não, minha cara senhora. Não foi o veneno secreto das
pontas de flechas dos índios da América do Sul. Eu estimaria
que tivesse sido alguma coisa desse tipo. Nós temos de lidar
com algo muito mais prosaico. É de fato tão prosaico que não
há esperanças de se provar quem praticou o crime. Um
homem idoso caiu de uma escada e quebrou o pescoço. Um
desses lamentáveis acidentes que acontecem todos os dias.
— Mas o que realmente ocorreu? — indagou o Dr. Lloyd.
— Quem poderá dizer? — observou Sir Henry, encolhendo
os ombros. — Terá sido amarrado um pedaço de pau ou um
barbante, no alto da escada, e depois cuidadosamente
removido? Isso nunca iremos saber.
— Mas o senhor pensa, bem... pensa que não foi um
acidente? Mas por quê? — indagou o médico.
— A história é muito comprida. Mas de fato temos quase
certeza de que não foi um acidente. Como eu lhes disse, não
há a menor probabilidade de sermos capazes de provar que o
crime foi cometido por determinada pessoa. As provas que
obtivéssemos seriam frágeis demais. Mas o caso tem outro
aspecto, e eu ia justamente me referir a isso. Quatro pessoas
poderiam ter aplicado o golpe da queda. Uma delas é culpada,
mas as outras três são inocentes. E se a verdade não for
descoberta, essas três pessoas irão ser vítimas do terrível
suplício da dúvida.
— Eu acho que é melhor o senhor nos contar sua longa
história — declarou Mrs. Bantry.
— Afinal de contas eu não terei necessidade de torná-la assim
tão longa — comentou Sir Henry. — De qualquer maneira,
poderei resumir seu começo. O caso diz respeito a uma
sociedade secreta alemã — a Sckwartze Hand — algo
semelhante à Camorra, ou à idéia que a maior parte das
pessoas faz sobre a Camorra. Um plano de chantagem e de
provocar o terror. Tudo começou de maneira bastante súbita,
depois da Guerra, e espalhou-se surpreendentemente. Um
número imenso de pessoas foram suas vítimas. As
autoridades não conseguiram erguer-se à altura da situação
porque os segredos da sociedade eram ciosamente guardados,
sendo quase impossível encontrar alguém que pudesse ser
induzido a revelá-los.
Nunca se soube grande coisa a respeito desse assunto, na
Inglaterra, mas na Alemanha a sociedade estava produzindo
efeitos quase paralisadores. Finalmente foi dissolvida e
desbaratada graças aos esforços de um homem, o Dr. Rosen.
Durante algum tempo ele havia sido figura importante junto
ao Serviço Secreto. Tornou-se membro da sociedade,
penetrou em seus círculos mais fechados e, como estou lhes
dizendo, foi o responsável pela derrocada da sociedade.
Mas, em conseqüência disso, tornou-se um homem marcado
para morrer, tendo sido julgado prudente que saísse da
Alemanha, de qualquer maneira, pelo menos por algum
tempo. Veio para a Inglaterra e nós recebemos cartas a seu
respeito, enviadas pela Polícia de Berlim. Aqui chegou e teve
uma entrevista pessoal comigo. Seu modo de encarar as
coisas era tranqüilo e resignado. Não tinha dúvidas sobre o
que lhe reservava o futuro.
— Eles me pegarão, Sir Henry — disse ele. — Tenho plena
certeza disso.
Era um homem alto, tinha uma bela cabeça, e falava com
uma voz grave, marcada apenas por leve entoação gutural,
que lhe traía a nacionalidade. E prosseguiu:
— É uma conclusão a que não me furto. Mas não importa:
estou preparado. Enfrentei esse risco quando me envolvi no
problema. E fiz o que me haviam solicitado. A sociedade
nunca mais poderá rearticular-se. Mas inúmeros de seus
membros estão em liberdade e irão exercer a única vingança
de que serão capazes: tirar minha vida. Trata-se meramente
de uma questão de tempo, mas estou ansioso para que esse
tempo seja o mais longo possível. O senhor compreenderá.
Estou coligindo e preparando para publicação um material
muito interessante resultado do trabalho de toda minha vida.
Gostaria de poder completar essa tarefa, se isso fosse
possível.
Ele falou de um jeito muito simples e com uma certa
grandeza, que eu não pude deixar de admirar. Eu lhe disse
que nós tomaríamos todas as precauções, mas ele não deu
importância às minhas palavras, repetindo:
— Um dia eles me pegarão. Mais cedo ou mais tarde.
Quando chegar esse dia, não se aflija. Sem dúvida o senhor
fará o possível para evitá-lo.
Em seguida me apresentou um esboço de seus planos, que
eram bastante simples. Estava disposto a alugar uma pequena
casa no campo,-onde pudesse viver tranqüilamente e
prosseguir seu trabalho. Nós acabamos por escolher uma vila
no Somerset, King's Gnaton, situada a onze quilômetros de
uma estação de estrada de ferro e singularmente intocada
pela civilização. Ele comprou uma casa encantadora, mandou
nela fazer vários melhoramentos e modificações, lá indo
morar, muito satisfeito. Residiam em sua companhia uma
sobrinha, Greta, um secretário, uma velha empregada alemã,
que o servira devotadamente durante quase quarenta anos,
criada que fazia todos os pequenos serviços, e um jardineiro,
natural de King's Gnaton.
— Os quatro suspeitos — observou o Dr. Lloyd a meia voz.
— Exatamente — confirmou Sir Henry. — Os quatro
suspeitos. Não há mais grande coisa a contar. A vida seguiu
placidamente seu curso em King's Gnaton durante cinco
meses. Então sobreveio o golpe. O Dr. Rosen caiu da escada
numa certa manhã e foi encontrado morto aproximadamente
meia hora depois. No momento em que o acidente deve ter
ocorrido, Gertrud estava na cozinha, de porta fechada, e
nada ouviu. Assim disse. Fräulein Greta encontrava-se no
jardim, plantando uns bulbos. Também assim declarou. O
jardineiro, Dobbs, estava num pequeno alpendre onde havia
plantas em vasos, tomando seu café das onze horas, assim
afirmou, e o secretário tinha saído para dar um passeio a pé.
Mas temos apenas suas palavras. Ninguém possui um álibi,
ninguém conseguiu confirmar a história narrada pelos
demais. Mas uma coisa é certa: pessoa alguma de fora poderia
ter cometido o crime, pois um estranho à pequena vila de
King's Gnaton teria, certamente, sido notado. A porta da
frente e a dos fundos, da casa, estavam ambas fechadas a
chave, e cada morador possuía sua própria chave. Portanto,
vê-se que as suspeitas se restringiam àquelas quatro pessoas.
No entanto, cada uma delas parecia estar acima de qualquer
suspeita: Greta, filha do próprio irmão do Dr. Rosen; Gertrud
com quarenta anos de dedicados serviços prestados ao
patrão; Dobbs, que jamais havia saído de King's Gnaton; e
Charles Templeton, o secretário,
— Sim. Que tal ele? — indagou o Coronel Bantry. — A meu
ver é o suspeito. — O que o senhor sabe sobre ele?
— O que sei a seu respeito o colocou inteiramente fora da
ação dos tribunais, naquela época — afirmou Sir Henry, num
tom grave. — O senhor compreende, Charles Templeton era
um dos meus homeus.
— Ah! — exclamou o Coronel Bantry, bastante desapontado.
— Sim — prosseguiu Sir Henry. — Eu queria ter alguém in
loco e, ao mesmo tempo, não desejava dar motivos para
falatório, na vila. Rosen realmente precisava de um secretário
e eu coloquei Templeton nesse posto. Ele é um perfeito
cavalheiro e fala alemão fluentemente. É um homem muito
capaz, em todos os sentidos.
— Mas então de quem o senhor suspeita? — indagou Mrs.
Bantry, num tom perplexo. — Todos parecem tão, digamos,
impossíveis!
— Sim, de fato parecem impossíveis — concordou Sir
Henry. — Mas os fatos podem ser encarados de outro
ângulo. Fráulein Greta era sobrinha dele, uma jovem muito
encantadora. Mas à Guerra repetidas vezes nos mostrou que
um irmão é capaz de voltar-se contra uma irmã, um pai
contra um filho, e assim por diante. E as jovens mais
encantadoras e meigas praticaram algumas das ações mais
surpreendentes. O mesmo se aplicaria a Gertrud. Quem sabe
que forças poderiam entrar em ação, no caso dela? Uma briga
com o patrão, talvez, um ressentimento crescente e tanto
mais duradouro por causa dos longos e dedicados anos de seu
passado. As mulheres idosas, pertencentes à sua classe, por
vezes são capazes de ser surpreendentemente rancorosas. E
Dobbs? Estaria inteiramente livre de suspeitas porque não
tinha qualquer ligação com a família? O dinheiro faz muitas
coisas. Dobbs poderá ter sido subornado.
Um fato parece indubitável: deve ter chegado de fora alguma
mensagem ou alguma ordem. Do contrário, por que aqueles
cinco meses de imunidade? Os agentes da sociedade devem
ter agido. Não estando ainda seguros da perfídia de Rosen,
adiaram seu "castigo" até que a traição dele ficou
comprovada, acima de qualquer dúvida. Então, postas de lado
todas as incertezas, devem ter enviado sua mensagem ao
espião que morava na casa. Essa mensagem dizia: "Mate".
— Que coisa horrível! — exclamou Jane Helier, estreme-
cendo.
— Mas como terá chegado a mensagem? Esse foi o ponto que
procurei elucidar, minha única esperança de resolver o
problema. Não haveria qualquer adiamento da execução da
ordem.
Isso eu sabia. Logo que ela chegasse seria cumprida. Era
característico da Schwartze Hand..
Mergulhei no problema, nele me concentrei de um modo
que provavelmente acharão ridiculamente meticuloso. Quem
havia estado naquela casa, naquela manhã? Não excluí
ninguém. Eis aqui uma lista dessas pessoas.
Sir Henry tirou do bolso um envelope e tomou um papel
entre os que ele continha:
O açougueiro, que trouxe um peso de carneiro. Investigado
e julgado sem culpa. O empregado da mercearia, que
entregou um pacote de farinha de trigo, duas libras de
açúcar, uma de manteiga e uma de café. Também investigado
e julgado sem culpa. O carteiro, que trouxe duas circulares
endereçadas a Fräulein Rosen, uma carta local para Gertrud,
três para o Dr. Rosen, uma delas com um selo estrangeiro, e
duas outras cartas para Mr. Tenipleton, uma também com
um selo estrangeiro.
Sir Henry fez uma pausa e retirou do envelope um maço de
documentos. Poderá interessá-los ver isso. Tudo chegou às
minhas mãos, enviado pelas várias pessoas em causa, ou
apanhado nas cestas de papéis. Não preciso dizer que esses
documentos foram examinados por peritos, pensando-se na
possível descoberta do emprego de tinta invisível, etc. Não
se poderá cogitar que tenha havido nada de emocionante,
dessa natureza.
Todos se reuniram em torno dos documentos para examiná-
los. Eram uns catálogos, respectivamente do dono de um
viveiro de plantas e de uma famosa peleteria de Londres. Dos
dois impressos enviados ao Dr. Rosen, um era de
procedência local e falava numas sementes para jardim, ao
passo que o outro proviera de uma papelaria de Londres. A
carta a ele endereçada dizia o seguinte:

MEU CARO DR. ROSEN :
Acabo de chegar do Dr. Helmuth Späth. Outro dia
estive com Edgar Jackson. Ele e Amos Perry tinham
acabado de voltar de Tsingtau. Com toda a
Honestidade eu lhe digo que invejei a viagem deles.
Mande-me notícias suas, sem demora. Como já lhe
disse antes, tome cuidado com certa pessoa. Você sabe
a quem me refiro, embora não concorde comigo.
Sua, Georgine.

A correspondência de Mr. Templeton consistia nesta conta.
Como vêem, é de seu alfaiate, e também na carta de um
amigo, da Alemanha, prosseguiu Sir Henry. Infelizmente ele
rasgou a carta enquanto dava um passeio a pé. Finalmente,
temos a carta recebida por Gertrud, que foi a seguinte:

QUERIDA MRS. SWARTS.
Esperamos que possa comparecer à reunião na noite
de sexta-feira. O vigário diz contar com a senhora.
Todos serão bem-vindos. A receita do presunto é
muito boa e eu lhe agradeço por isso. Esperando que
esta vá encontrá-la bem, aqui fico, sempre às suas
ordens. Emma Greene.

O Dr. Lloyd deu um meio sorriso, o mesmo fazendo Mrs.
Bantry. Ele acrescentou:
— Penso que a última carta poderia ser posta de lado por um
tribunal.
— Sou da mesma opinião — observou Sir Henry. — Mas,
tive o cuidado de verificar se existia uma Mrs. Greene e se
haveria alguma reunião na igreja. É sabido que todo cuidado
é pouco.
— É o que sempre diz nossa amiga, Miss Marple — co-
mentou o Dr. Lloyd, sorrindo. — A senhora está perdida em
seus devaneios. Em que está pensando?
Miss Marple estremeceu e disse:
— Que tolice minha. Eu estava imaginando por que a pa-
lavra honestidade, na carta ao Dr. Rosen, foi escrita com um
H maiúsculo.
Mrs. Bantry apanhou a carta e declarou:
— É isso mesmo.
— Sim, minha querida — acrescentou Miss Marple. — Eu
pensei que já tivesse reparado nisso.
— Há positivamente um aviso nessa letra — observou o
Coronel Bantry. — Foi a primeira coisa que me atraiu a
atenção. Reparei mais nisso do que todos possam imaginar.
Sim. Há positivamente um aviso. Mas contra quem?
— Existe um aspecto bastante curioso nessa carta —
acrescentou Sir Henry. — Segundo as palavras de
Templeton, o Dr. Rosen abriu a carta quando estava tomando
o café da manhã, atirando-a para ele, Templeton. Disse não
saber quem era aquele homem.
— Mas não era um homem — comentou Jane Helier. —
Estava assinada por uma Georgine.
— É difícil dizer-se quem era essa pessoa — declarou o Dr.
Lloyd. — Poderia ser Georgey. Mas, sem dúvida, parece mais
ser Georgine. Mas o que me chamou a atenção foi o fato de
que a letra é de homem.
— Você quer saber de uma coisa? Isso é interessante —
observou o Coronel Bantry. — Ele atirou a carta por cima da
mesa, como se fingisse não saber absolutamente do que se
tratava. Pretendeu observar a fisionomia de alguém. Mas que
fisionomia? A da moça ou a do homem?
— Ou até mesmo a da cozinheira — sugeriu Mrs. Bantry. —
Ela poderia estar na sala, servindo o café da manhã. Mas o
que eu não percebo.é uma coisa muito esquisita...
Ela franziu a testa, examinando a carta. Miss Marple
aproximou-se um pouco mais, esticou um dedo e tocou a
folha de papel. As duas murmuraram alguma coisa entre si.
— Mas por que o secretário rasgou a outra carta? — indagou
subitamente Jane Helier. — Parece... Ah! Não sei. Parece
estranho. Por que ele receberia cartas da Alemanha? Embora,
naturalmente, esteja acima de qualquer suspeita.
— Mas Sir Henry não disse isso — declarou Miss Marple
apressadamente, erguendo os olhos de sua confabulação em
voz baixa com Mrs. Bantry. — Ele falou em quatro
suspeitos. Isso mostra que inclui Mr. Templeton entre eles.
Não tenho razão, Sir Henry?
— Perfeitamente, Miss Marple. Eu aprendi uma coisa com
minha dura experiência. Nunca afirmar que qualquer pessoa
esteja acima de qualquer suspeita. Acabei de dar-lhe os
motivos pelos quais três dessas pessoas poderiam ser
culpadas, embora isso pareça improvável. Jamais, em
momento algum, apliquei o mesmo processo a Charles
Templeton. Mas cheguei finalmente à seguinte conclusão,
utilizando a regra que acabei de mencionar: fui obrigado a
reconhecer que qualquer exército, marinha ou polícia tem
em suas fileiras um certo número de traidores, por mais que
se possa detestar admiti-lo. Examinei serenamente a possível
indiciação de Charles Templeton.
Fiz a mim menos aproximadamente a mesma pergunta que
Miss Helier acabou de formular. Por que só ele, entre todas
as pessoas da casa, não pôde mostrar a carta que havia
recebido? Além do mais, uma carta com um selo da
Alemanha. Por que haveria de receber cartas da Alemanha?
Essa última pergunta era inocente e eu a fiz diretamente a
Templéton. Sua resposta foi bastante simples. A irmã de sua
mãe era casada com um alemão. A carta era de uma prima,
alemã. Assim fiquei sabendo o que antes ignorava: Charles
Templéton mantinha relações com pessoas da Alemanha.
Isso positivamente o colocou na lista dos suspeitos. Ele é um
dos meus homens, rapaz que eu sempre estimei e em quem
sempre confiei. Mas em face de um princípio de justiça e
imparcialidade, devo admitir que encabeça minha lista.
Os fatos são os seguintes. Eu não sei. Eu não sei... E com
todas as probabilidades, jamais saberei. Não se trata de punir
um assassino. Trata-se do que me parece cem vezes mais
importante. Talvez seja a questão de frustrar toda a carreira
de um homem honrado... por causa de uma suspeita, de
uma suspeita que eu não ouso pôr de lado.
Miss Marple tossiu e falou, num tom de voz tranqüilo:
— Nesse caso, Sir Henry, se eu o interpreto corretamente, o
jovem Mr. Templéton é a única pessoa que muito o
preocupa.
— Sim, de certa maneira. Teoricamente eu deveria sentir a
mesma coisa em relação a todas quatro, mas, realmente, o
caso não é esse. Dobbs, por exemplo. Poderei ficar pensando
nele, suspeitando dele, mas isso não irá de fato afetar-lhe a
carreira. Ninguém, da vila, jamais terá tido a menor idéia de
que a morte do velho Dr. Rosen não tenha sido um acidente.
Gertrud seria um pouco mais afetada, pois a atitude de
Fraülein Rosen, em relação a ela, talvez tenha mudado. Mas,
possivelmente, isso não terá para ela grande importância.
Quanto a Greta Rosen, bem, agora nós chegamos ao âmago
da questão. Greta é uma jovem muito bonita e Charles
Templéton é também muito bem apessoado. Durante quatro
meses os dois foram atirados um contra o outro, sem ter
quaisquer distrações fora de casa. E o inevitável aconteceu.
Apaixonaram-se, embora não tenham chegado ao ponto de
traduzir isso em palavras.
Logo depois aconteceu aquela catástrofe. Há três meses, um
ou dois dias depois de eu haver regressado, Greta Rosen veio
me procurar. Disse-me que tinha vendido a casa e que estava
de volta para a Alemanha, pois havia finalmente resolvido os
negócios do tio. Veio me ver, embora soubesse que eu já
estava aposentado, porque desejava realmente me procurar a
fim de tratar de um assunto pessoal. Depois de alguns
rodeios, abriu o coração. O que eu pensava sobre o caso? A
carta com o selo alemão. Ela havia se preocupado muito com
aquilo. E a carta que Charles tinha rasgado. Estaria tudo
certo? Tudo deveria estar certo, sem dúvida. Ela
naturalmente acreditava na versão que ele dera. Mas se
soubesse o que tinha acontecido? Se de fato soubesse disso,
com certeza!
Estão me entendendo? Era aquele sentimento: o desejo de
confiar, mas também aquela horrível suspeita que a rondava,
resolutamente recalcada para o mais fundo da mente, mas aí
persistindo, apesar de tudo. Eu lhe falei com absoluta
franqueza, pedindo-lhe que fizesse o mesmo. Perguntei-lhe
se havia chegado a gostar de Charles e ele dela.
— Acho que sim — declarou a moça. — Sim. Sei que isso
aconteceu. Nós éramos tão felizes! — ela prosseguiu. — Não
tínhamos pressa. Dispúnhamos de todo o tempo deste mun-
do. Algum dia ele haveria de dizer que me amava e eu
também lhe confessaria a mesma coisa. Mas o senhor pode
imaginar como tudo mudou. Uma nuvem negra baixou sobre
nós, e nos separou. Vivemos constrangidos. Quando nos
encontramos, não sabemos o que dizer. Talvez aconteça com
ele o mesmo que se passa comigo. E dizemos para nós
mesmos: "Se houvesse certeza!" Por isso, Sir Henry, é que eu
lhe peço me dizer se o senhor pode ter essa certeza. Talvez
possa. Quem matou meu tio não foi Charles Templeton.
Diga-me isso. Eu lhe suplico. Diga-me.
E o diabo é que não pude dizer o que ela esperava, comentou
Sir Henry, dando um murro na mesa. Eles se afastaram um
do outro cada vez mais. E aquela suspeita entre eles como
um fantasma. Um fantasma que poderia ser esconjurado.
Sir Henry inclinou-se para trás em sua cadeira, com uma
expressão de cansaço e desolação estampada na fisionomia.
Mas endireitou-se novamente, com o rosto iluminado por
um estranho sorriso. E acrescentou o seguinte:
— A menos que Miss Marple nos possa ajudar. Tenho a
impressão de que aquela carta talvez esteja na linha de sua
especialidade. A carta sobre a reunião na igreja. Não lhe faz
lembrar alguma coisa ou algum lugar que possa tornar as
coisas perfeitamente claras? A senhora será capaz de fazer
alguma coisa que ajude dois jovens indefesos e que desejam
ser felizes?
Debaixo desse tom de gracejo havia algo mais naquele apelo.
Sir Henry chegara a ter na mais alta conta a capacidade men-
tal daquela frágil e antiquada senhora, que nunca se casara.
Lançou-lhe um olhar que expressava alguma coisa muito
parecida com a esperança.
Miss Marple tossiu e alisou suas rendas, admitindo o seguinte:
— Isso me faz de certo modo lembrar Annie Poultny. A
carta é sem dúvida muito clara, tanto para Mrs. Bantry
quanto para mim. Não estou me referindo à carta sobre a
reunião na Igreja, mas à outra. Como o senhor quase sempre
reside em Londres, Sir Henry, não teria ensejo de reparar
nisso.
— Como — indagou Sir Henry. — Reparar em quê? Miss
Marple estendeu a mão, tomando um dos catálogos.
Abriu-o e leu em voz alta, com uma certa volúpia:

Dr. Helmuth Spath.
Puro lilás, flor maravilhosamente linda, tendo uma haste de
excepcional comprimento e firmeza.
Esplêndida para ser colhida e colocada em vasos, e também
para enfeitar jardins.
Uma novidade de surpreendente beleza.
Edgar Jackson.
Flor semelhante ao crisântemo, com uma bela forma e
acentuada cor de tijolo.
Amos Perry.
De cor vermelha viva, muito decorativa.
Tsingtau.
De cor vermelho-alaranjada, viva.
Flor de jardim muito vistosa, duradoura, depois de colhida.
Honestidade.
Flor cor-de-rosa e branca, imensa e dotada de forma perfeita.

— Com H maiúsculo, devem estar lembrados — murmurou
Miss Marple.
Mrs. Bantry atirou o catálogo sobre a mesa e declarou, num
tom muito veemente:
— Dálias!
— Sua inicial é a mesma de death, que significa morte —
explicou Miss Marple.
— Mas a carta foi endereçada ao próprio Dr. Rosen —
objetou Sir Henry.
— Isso constituiu o aspecto bem arquitetado do plano —
observou Miss Marple. — Isso e o aviso que continha. Que
faria ele ao receber uma carta de alguém que não conhecia,
cheia de nomes que também não conhecia? Ora essa!
Haveria de passá-la ao secretário!
— Então, afinal.. . começou a falar Sir Henry.
— Não! — exclamou Miss Marple. — Não foi o secretário!
Aquilo deixa perfeitamente claro que não foi ele. Se tivesse
sido jamais permitiria que se achasse a carta. E também
nunca teria destruído a carta endereçada a ele próprio, com
um selo alemão. Realmente, sua inocência, se o senhor me
permite usar uma palavra, é simplesmente flagrante.
— Então quem foi? — indagou Sir Henry.
— Bem, isso parece quase certo, tão certo quanto possam ser
as coisas neste mundo. Havia outra pessoa à mesa do
café e ela, muito naturalmente, em face das circunstâncias
apanhou a carta e a leu. Foi isso. O senhor se lembra que ela
recebeu um catálogo de jardinagem pela mesma mala do
correio?
— Greta Rosen — disse Sir Henry lentamente. — Então a
visita que ela me fez...
— Os homens nunca percebem essas coisas — prosseguiu
Miss Marple. — Eu acho que nos julgam a nós, mulheres
idosas, bem. .. umas gatas com olhos de lince porque vemos
o que vemos. Mas os fatos são esses. Infelizmente sabemos
muita coisa sobre nosso próprio sexo. Não duvido que
houvesse uma barreira entre os dois. O jovem subitamente
sentiu uma repulsão inexplicável pela moça. Suspeitou dela,
simplesmente por uma questão de instinto, e não conseguiu
ocultar suas suspeitas. Eu realmente acredito que a visita que
ela lhe fez foi apenas motivada por despeito. Realmente
sentia-se muito segura. Mas saiu de seus cuidados para
robustecer as suspeitas do senhor quanto ao pobre Mr.
Templeton. O senhor não tinha assim tanta firmeza até que
ela o visitou.
— Tenho certeza de que não foi coisa alguma do que ela disse
— começou a falar Sir Henry.
— Os homens nunca percebem essas coisas — declarou Miss
Marple calmamente.
— Então a moça — disse Sir Henry e fez uma pausa. — Ela
cometeu um assassinato a sangue-frio e escapou, sã e salva.
— Isso não, Sir Henry — observou Miss Marple. — Ela não
escapou sã e salva. O senhor e eu não acreditamos nisso..
Greta Rosen não irá escapar ao seu castigo. Lembre-se do que
o senhor disse há pouco. Para começar, ela deve estar convi-
vendo com pessoas muito estranhas, chantagistas e
terroristas, que não irão fazer-lhe nenhum bem.
Provavelmente a levarão a um fim miserável. Como o senhor
bem disse, não devemos desperdiçar nossas preocupações
com pessoas culpadas. O que importa são as inocentes.
Acredito que Templeton vai se casar com a prima alemã. O
fato de ter rasgado a carta parece suspeito, para empregar esta
palavra num sentido muito diferente do que temos usado
durante toda esta noite. Talvez ele estivesse com um pouco
de receio que a outra moça reparasse na carta e lhe pedisse
para vê-la... Sim. Creio que deveria haver um pouco de
romance nessa carta. Mas ainda restava Dobbs. Mas eu diria,
como o senhor observou, que tudo aquilo não teria muita
importância para ele. Provavelmente só pensaria em tomar
seu café das onze horas. E também havia a pobre velha, a
Gertrud, que me fez lembrar Annie Poultny. Coitadinha da
Annie! Cinqüenta anos de devotados serviços e a suspeita de
ter dado sumiço ao testamento de Miss Lamb, ainda que nada
tenha podido ser provado. Aquilo quase partiu o coração
sensível da pobre criatura. Depois que ela morreu, soube-se
que Miss Lamb pusera, ela própria, o testamento na gaveta
secreta de sua caixa de chá, por uma questão de segurança.
Mas isso foi tarde demais para a coitada da Annie.
— É exatamente o que me preocupa tanto, no caso da pobre
alemã, já idosa — prosseguiu Miss Marple. — Quando uma
pessoa fica velha, amargura-se com muita facilidade. Eu tive
mais pena dela do que de Mr. Templeton, que é jovem e
bonito, evidentemente benquisto junto às mulheres. Escreva
para ela, Sir Henry. Diga-lhe simplesmente que sua
inocência foi comprovada, sem a menor sombra de
dúvida... Seu velho patrão está morto e, com certeza, ela
vive se amargurando, sentindo que suspeitam de sua pessoa. .
. É intolerável ficar pensando nisso.
— Eu vou escrever a ela, Miss Marple — disse Sir Henry.
— E olhou para a velha senhora de um jeito curioso. — A
senhora quer saber de uma coisa? Eu nunca irei
compreendê-la bem. Seu ponto de vista é sempre diferente
do que cu estiver pensando.
— Eu creio que minha visão é muito limitada — comentou
Miss Marple modestamente. — Praticamente eu nunca saio
de St. Mary Mead.
— No entanto a senhora solucionou o que se poderia
denominar um mistério internacional — prosseguiu Sir
Henry.
— A senhora o resolveu. Estou convencido disso.
Miss Marple enrubesceu, mas se conteve, afirmando o
seguinte:
— Creio que fui bem educada segundo os padrões do meu
tempo. Minha irmã e eu tivemos uma governanta alemã,
uma Fraülein. Era uma pessoa muito sentimental. Ela nos en-
sinou a linguagem das flores, um tipo de estudo hoje esque-
cido, embora muito encantador. Uma tulipa amarela, por
exemplo, significa amor sem esperança, ao passo que uma
rainha margarida quer dizer "morro aos seus pés". Aquela
carta tinha a assinatura de uma Georgina que, se eu bem me
lembro, quer dizer dália, em alemão. Isso tornou tudo
perfeitamente claro, como é natural. Eu gostaria de poder me
lembrar do significado de dália, mas isso me foge. Minha
memória já não é o que era antes.
— De qualquer maneira não significa Death, que é morte. —
comentou Sir Henry.
— Não, de fato não significa isso. Ê horrível, não é mesmo?
— prosseguiu Miss Marple. — Há coisas muito tristes neste
mundo.
— Há, sim — comentou Mrs. Bantry, suspirando. — Por
sorte nós temos flores e amigos.
— O senhor reparou que ela nos coloca em último lugar?
— observou o Dr. Lloyd.
— Um homem costumava mandar-me orquídeas roxas todas
as noites, no teatro — disse Jane num tom sonhador.
— Isso queria dizer "estou à espera de seus favores" —
declarou Miss Marple num tom animado.
Sir Henry tossiu de um modo peculiar e desviou o rosto. De
repente Miss Marple exclamou:
— Já me lembrei. Dália significa "traição e falsas afirmações".
— É maravilhoso! — comentou Sir Henry, suspirando. —
Absolutamente maravilhoso!

10
Tragédia de Natal

— Eu TENHO UMA RECLAMAÇÃO A FAZER — declarou Sir Hen-
ry Clithering, piscando amavelmente os olhos para todos que
se achavam ali reunidos. O Coronel Bantry, de pernas estica-
das, estava fitando a lareira, de cenho franzido, como se ela
fosse um soldado negligente a desfilar numa parada, ao passo
que sua esposa examinava sub-repticiamente um catálogo de
bulbos que havia chegado na última entrega do correio. O
Dr. Lloyd estava contemplando com franca admiração a
figura de Jane Helier, e essa bela moça parecia absorta a
examinar as próprias unhas, recobertas de esmalte cor-de-
rosa. Somente Miss Marple, uma senhora solteira e já idosa,
permanecia sentada muito erecta. Seus olhos azuis e
desbotados piscaram para Sir Henry em retribuição ao gesto
dele.
— Uma reclamação? — ela murmurou.
— Uma reclamação muito séria. Nós somos um grupo de
seis pessoas, três representantes de cada sexo. Eu protesto em
nome dos homens oprimidos. Já foram narradas três histórias
esta noite, todas por homens! Eu protesto porque as senhoras
ainda não nos deram sua contribuição.
— Oh! — exclamou Mrs. Bantry cheia de indignação.
— Estou certa de que demos nossa contribuição. Ouvimos as
histórias e as apreciamos da maneira mais esclarecida.
Revelamos a atitude verdadeira feminina, não querendo nos
projetar muito.
— Excelente desculpa — declarou Sir Henry. — Mas não é
válida. Existe um precedente muito bom nas Mil e Uma
Noites. Por isso, adiante-se.
— O senhor se refere a mim? — indagou Mrs. Bantry.
— Mas eu não sei nenhuma história para lhes contar. Nunca
estive envolvida em sangue e mistérios.
— Eu não insisto que haja sangue. Absolutamente. Mas
tenho certeza de que uma dessas três senhoras conhece
algum mistério favorito. Vamos, Miss Marple. "A Curiosa
Coincidência da Faxineira" ou "O Mistério da Reunião de
Mães". Não me desaponte com St. Mary Mead.
Miss Marple abanou a cabeça e disse:
— Nada que possa interessá-lo, Sir Henry. Nós temos nossos
pequenos mistérios, naturalmente. Houve o caso dos ca-
marões em conserva, que desapareceram de maneira tão
incompreensível. Mas isso não o interessaria porque tudo foi
muito trivial, embora tenha lançado consideráveis luzes
sobre a natureza humana.
— A senhora me ensinou a idolatrar a natureza humana —
declarou Sir Henry solenemente.
— E quanto a Miss Helier? — indagou o Coronel Bantry. —
Deve ter tido algumas experiências interessantes.
— Sim, de fato — observou p Dr. Lloyd.
— Eu? — disse Jane. — O senhor pretende que eu lhes conte
alguma coisa que tenha acontecido comigo?
— Ou com algum de seus amigos — corrigiu Sir Henry.
— Oh! — exclamou Jane num tom vago. — Eu acho que
comigo nunca aconteceu nada. Isto é, não esse tipo de
coisas. Flores, sem dúvida, e bilhetes estranhos. Mas os ho-
mens são mesmo assim, não é verdade? Eu acho que não
aconteceu... — Ela fez uma pausa e deu a impressão de estar
perdida em seus pensamentos.
— Estou vendo que teremos de aceitar a epopéia dos ca-
marões — disse Sir Henry. — Vamos, Miss Marple.
— O senhor gosta tanto de gracejar, Sir Henry — observou
Miss Marple. — Os camarões não passam de uma ninharia.
Mas agora que comecei a pensar nisso, de fato me recordo de
um incidente, não exatamente um incidente, mas talvez
alguma coisa muito mais grave: uma tragédia. E até certo
ponto eu me encontrei nela envolvida. Nunca me arrependi
de tudo que fiz. Não senti o menor remorso. Mas não
aconteceu em St. Mary Mead.
— Isso me desaponta — comentou Sir Henry. — Mas eu
insisto com a senhora para que enfrente a situação. Eu sabia
que não seria em vão confiar na senhora.
Ele se acomodou em sua cadeira numa atitude de quem
deseja ouvir alguma coisa, ao passo que Miss Marple enrubes-
ceu levemente.
— Espero ser capaz de contar minha história de maneira
adequada — ela acrescentou num tom ansioso. — Receio ser
muito inclinada a divagações. Uma pessoa às vezes se afasta
inteiramente de um ponto, sem saber que está fazendo isso.
É tão difícil recordar cada fato em sua devida ordem. Todos
devem ser tolerantes para comigo se eu contar mal minha
história. Ela aconteceu há muito, muito tempo.
Como eu lhes disse, não se relacionou com St. Mary Mead.
De fato tem a ver com um certo Hidro...
— A senhora quer dizer um hidroavião? — indagou Jane,
arregalando os olhos.
— Você não entenderia, minha querida — disse Mrs. Bantry,
e explicou-lhe o que era um hotel de "estação de águas",
chamado Hidro. E o coronel trouxe sua contribuição pessoal,
esclarecendo o seguinte:
— É uma coisa horrível. Absolutamente abominável! As
pessoas têm de sair da cama cedo e beber uma água com um
gosto detestável. E sempre há uma porção de mulheres
sentadas em derredor. Meu Deus, quando eu penso...
— Ora essa, Arthur — observou Mrs. Bantry placidamente.
— Você sabe que foi ótimo para você.
— Uma quantidade de mulheres velhas, sentadas em der-
redor, comentando sobre escândalos — resmungou o
Coronel Bantry.
— Eu acho que isso é verdade — disse Miss Marple. — Eu
própria...
— Minha querida Miss Marple — interveio o coronel,
horrorizado. — Eu jamais pretendi, em tempo algum. . .
Miss Marple o interrompeu com um pequeno gesto, muito
vermelha, e acrescentou:
— Mas é verdade, Coronel Bantry. Eu apenas gostaria de
dizer isso. Deixe-me ordenar meus pensamentos. Sim. Falar
sobre escândalos, como o senhor afirmou... isso se faz
muito. As pessoas sentem-se atraídas pelos escândalos, espe-
cialmente os jovens. Meu sobrinho, que escreve livros, obras
muito engenhosas, creio eu, me afirmou que a maioria das
coisas mordazes que se espalham sobré o caráter alheio são
ditas sem qualquer espécie de prova. Como isso é perverso!
Mas o que eu lhes assevero é que nenhum desses jovens
jamais pára e pensa no que estiver falando. Eles realmente
não examinam os fatos. Não resta dúvida que o ponto crucial
da questão é o seguinte: quantas vezes esse falatório,
como se diz, ê verdadeiro. Eu penso que se eles
examinassem mesmo os fatos, descobririam que os
mexericos são verdadeiros, em noventa por cento dos casos.
Isso é que faz as pessoas ficarem tão aborrecidas com o que
se diz.
— Os palpites inspirados — comentou Sir Henry.
— Não. Não se trata disso. Absolutamente — prosseguiu
Miss Marple. — Trata-se de uma questão de prática e de
experiência. Se mostrarem a um egiptólogo, assim ouvi dizer,
um desses curiosos e pequenos escaravelhos, ele poderá
afirmar, olhando para o objeto e segurando-o entre as mãos,
a que data antes de Cristo ele pertence, ou se não passa de
uma imitação, feita em Birmingham. Sempre é capaz de dar
uma razão precisa para assim proceder. Simplesmente sabe
aquilo. Passou a vida inteira lidando com esses escaravelhos.
Isso é que eu estou procurando lhes dizer (muito mal, bem
sei). As mulheres que meu sobrinho qualifica de "supérfluas"
dispõem de muitos lazeres. E seu principal interesse consiste,
geralmente, em pessoas. Por isso, como vêem, chegam a ser
o que poderíamos chamar de peritas. Hoje em dia os jovens
conversam muito francamente sobre assuntos que não eram
sequer mencionados em nosso tempo. Mas, por outro lado,
suas mentes são tão ingênuas. Acreditam em todos e em
tudo. E se uma pessoa tentar adverti-los sobre isso, ainda que
de maneira discreta, dizem que essa pessoa tem uma
mentalidade vitoriana. E afirmam que se parece com uma pia
de cozinha, onde tudo desaparece.
— Afinal de contas o que há de errado com uma pia de
cozinha? — indagou Sir Henry.
— Exatamente- — observou Miss Marple com vivacidade. —
E o que há de mais necessário em qualquer casa. Mas,
naturalmente, não é uma coisa romântica. Eu confesso que
tenho minhas suscetibilidades, como todas as pessoas, e que
tenho às vezes sido cruelmente magoada por observações
irrefletidas. Sei que os homens não se interessam pelos
assuntos domésticos, mas quero me referir à minha
empregada, Ethel, uma jovem muito bonita e prestativa, em
todos os sentidos. Logo que a vi, percebi que era do mesmo
tipo que Annie Webb e igual à pobre filha de Mrs. Bruitt. Se
surgisse alguma oportunidade, o meu e o teu nada
significariam para ela. Por isso eu a despedi, no fim do mês,
dando-lhe uma carta de recomendação. Declarei que ela era
honesta e sóbria, mas avisei particularmente à velha Mrs.
Edwards que não a tomasse a seu serviço. Meu sobrinho,
Raymohd, ficou zangadíssimo por causa disso, afirmando
nunca ter ouvido falar em coisa tão perversa. Sim, perversa.
Pois bem. Ela foi trabalhar para Lady Ashton, a quem não me
senti na obrigação de avisar coisa alguma. Que aconteceu?
Todas as rendas da roupa íntima da senhora foram cortadas, e
furtados dois broches de brilhantes que ela tinha. A moça
desapareceu durante a noite e nunca mais se ouviu falar nela.
Miss Marple fez uma pausa, respirou fundo e prosseguiu:
— Todos hão de estar dizendo que isso nada tem a ver com o
que aconteceu no hotel de Keston. Mas, em certo sentido,
de fato tem. Vou explicar por que não tive a menor dúvida
desde o primeiro instante em que vi os Sanders juntos, de
que ele pretendia liquidar a mulher.
— Oh! — exclamou Sir Henry, inclinando-se para a frente.
Miss Marple voltou para ele seu rosto tranqüilo e acres-
centou:
— Como eu ia dizendo, Sir Henry, não tive a menor dúvida.
Sanders era um homem alto, bem apessoado, com um rosto
muito vermelho. Tinha maneiras efusivas, sendo muito
popular junto a toda espécie de gente. E ninguém poderia ser
mais amável com a mulher do que ele. Mas eu logo percebi
que pretendia liquidá-la.
— Minha prezada Miss Marple observou Sir Henry.
— Sim, eu logo percebi tudo. Isso é o que diria meu so-
brinho, Raymond West. Diria que eu não dispunha da
menor prova. Mas eu me recordo de Walter Hones,
proprietário da taverna Green Man. Indo para casa a pé, em
companhia da esposa, certa noite, ela caiu dentro de um rio e
ele recebeu o dinheiro do seguro. £ me recordo também de
duas ou três pessoas que andam por aí, sãs e salvas, uma delas
pertencente à nossa própria classe social. Foram à Suíça
passar as férias de verão. Um deles ia praticar alpinismo com
a mulher. Eu avisei a ela que não fosse. A pobrezinha nem se
zangou comigo, como poderia ter feito, limitando-se a rir.
Pareceu-lhe esquisito que uma pessoa idosa e excêntrica
como eu fosse dizer aquilo sobre seu Harry. Pois bem: houve
um acidente e Harry está casado com outra mulher. Mas o
que eu poderia fazer? Eu percebi tudo, mas não havia
provas.
— Oh, Miss Marple! — exclamou Mrs. Bantry. — A senhora
realmente quer dizer que...
— Minha querida, essas coisas são muito comuns. São de fato
muito comuns. Os homens ficam tentados de um modo
especial, sendo tão mais fortes. É tão fácil, quando as coisas
parecem ter acontecido por acidente. Como eu ia dizendo,
logo percebi tudo a respeito dos Sanders. Aconteceu num
ônibus de dois andares. Estava cheio na parte de baixo e nós
tivemos de viajar no andar de cima. Quando nós três nos
levantamos para sair do ônibus, Mr. Sanders perdeu o
equilíbrio e caiu de encontro à esposa, que despencou de
cabeça pela escada abaixo. Felizmente o condutor era um
jovem muito forte e a segurou.
— Mas, com toda certeza, deve ter sido um acidente —
observou Sir Henry.
— Foi um acidente, sem a menor dúvida — comentou Miss
Marple. — Nada poderia ter parecido mais acidental. Mas
Mr. Sanders tinha sido da Marinha Mercante, assim ele me
disse. E um homem que consegue manter o equilíbrio num
navio a jogar de maneira desagradável, não perde o equilíbrio
no andar de cima de um ônibus. Isso não acontece nem com
uma mulher idosa como eu! Não me falem nisso!
— De qualquer maneira, nós podemos concluir que a
senhora não teve qualquer dúvida — declarou Sir Henry. —
A senhora estava certa de tudo aquilo.
Miss Marple assentiu de cabeça, acrescentando:
— Eu estava suficientemente segura de minha opinião, e
outro acidente na travessia de uma rua, ocorrido pouco
tempo depois, fez com que eu tivesse ainda mais certeza a
respeito do que estava pensando. Mas agora eu lhe pergunto,
Sir Henry: o que eu poderia fazer? Lá estava uma boa
mulherzinha, casada, que em breve iria ser assassinada.
— Minha prezada amiga, eu fico até sem poder respirar —
observou Sir Henry.
— Isso acontece porque o senhor, como a maior parte das
pessoas, hoje em dia, não quer enfrentar os fatos. O senhor
pensa que uma coisa dessas não poderia acontecer. Mas era a
realidade, eu sabia disso. Mas estava numa situação tão
desvantajosa! Não poderia dirigir-me à polícia, por exemplo.
E avisar à jovem mulher seria inútil, como eu percebi. Ela era
muito devotada àquele homem. Eu apenas me ocupei em
descobrir tudo que pudesse sobre eles. Uma pessoa dispõe de
muitas oportunidades quando fica nos seus trabalhos de
agulha, junto à lareira. Mrs. Sanders (o nome dela era Gladys)
tinha muita disposição para falar. Parece que eles não
estavam casados há muito tempo. O marido iria herdar
alguns bens, mas, naquela época, eles estavam em situação
financeira muito ruim. Na realidade, viviam de uma pequena
renda que ela tinha. Já ouvimos falar em coisas assim. Ela se
queixava de não poder tocar em seu capital. Parece que
alguém tivera um certo bom-senso. Mas o dinheiro era dela e
poderia dispor do mesmo, em testamento. Isso eu descobri.
Ela e o marido haviam feito seus testamentos, um em favor
do outro, logo após o casamento. Muito emocionante! Sem
dúvida, quando os negócios de Jack endireitassem... Havia
aquela preocupação o dia inteiro. Enquanto isso eles estavam
de fato em situação muito difícil. Seu quarto era no último
andar, entre os dos empregados. E tão perigoso, em caso de
incêndio, embora houvesse uma escada de emergência, bem
do lado de fora da janela deles. Indaguei cuidadosamente se
haveria alguma sacada. As sacadas são perigosas. Basta um
empurrão, todos sabem!
Eu a fiz prometer-me não chegar à sacada. Disse que havia
tido um sonho. Isso a impressionou. Às vezes se consegue
muita coisa com as superstições. Ela era uma bonita mulher,
tendo a cútis um tanto desbotada, e os cabelos mal
penteados, caídos sobre o pescoço numa espécie de rabo de
cavalo. Era muito crédula. Repetiu ao marido o que eu lhe
havia dito e eu reparei que ele me olhou uma ou duas vezes,
de um modo estranho. Ele não era crédulo e sabia que eu
tinha viajado naquele ônibus.
Mas eu vivia preocupada, terrivelmente preocupada, pois não
conseguia atinar como vencê-lo em astúcia. Não poderia
impedir que qualquer coisa acontecesse no Hotel Hidro, mas
apenas dizer algumas palavras que lhe revelassem minhas
suspeitas. Mas isso significaria apenas que ele iria adiar seus
planos. Não. Comecei a acreditar que o único método a
adotar seria um que fosse bem ousado. Preparar de algum
modo uma armadilha para ele. Se eu o induzisse a atentar
contra a vida dela de um jeito de minha própria escolha,
nesse caso ele seria desmascarado e ela seria obrigada a
enfrentar a verdade, por maior que fosse o choque que isso
lhe causasse.
— A senhora me faz perder a respiração — declarou o Dr.
Lloyd. — Que plano concebível a senhora poderia adotar?
— Eu havia encontrado um plano: não temer coisa alguma —
disse Miss Marple. — Mas o homem era esperto demais.
Resolveu não esperar. Pensou que eu poderia suspeitar de
alguma coisa e desferiu seu golpe antes que eu pudesse ter
certeza sobre o que se passava. Ele sabia que eu iria suspeitar
de algum acidente e, por isso, decidiu-se pelo assassinato.
Ouviu-se a respiração levemente opressa de todos que
rodeavam Miss Marple. Ela sacudiu a cabeça e apertou os
lábios de um modo sinistro e acrescentou:
— Receio ter contado isso de maneira um tanto abrupta.
Devo procurar dizer-lhes exatamente o que ocorreu. Eu
sempre me senti amargurada por causa disso. Achei que
deveria ter de algum modo impedido que tudo acontecesse.
Mas a Providência sabe o que faz, sem a menor dúvida. De
qualquer maneira, eu fiz o que pude.
Pairava no ar algo que só consigo descrever como uma
sensação sobrenatural. Parecia que alguma coisa nos oprimia
a todos. Uma sensação de desgraça iminente. Para começar,
havia George, o porteiro do hall. Estava trabalhando há
muitos anos naquele lugar e conhecia todas as pessoas. Teve
bronquite e pneumonia, morrendo em quatro dias. Foi muito
triste. Um verdadeiro golpe para nós todos. E ainda por cima,
quatro dias antes do Natal. Depois uma das empregadas da
casa, moça tão boa, teve uma infecção num dedo e morreu
em vinte e quatro horas.
Eu estava na sala de visitas com Miss Trollope e Mrs.
Carpenter. Esta última mostrou-se positivamente mórbida,
deliciando-se com tudo aquilo: "Guarde minhas palavras" —
disse ela. "Isso não é o fim. Você conhece o ditado?
Depois de dois vem três. Vai haver outra morte. Não
tenha dúvida. E nós não teremos de esperar muito tempo.
Depois de dois vem três."
E ao pronunciar essas últimas palavras ela sacudiu a cabeça e
fez estalar suas agulhas de tricô. Acontece que eu levantei os
olhos e lá estava Mr. Sanders, de pé, no vão da porta.
Durante apenas um minuto ele foi apanhado desprevenido e
eu percebi a expressão de sua fisionomia da maneira mais cla-
ra possível. Eu acreditarei, até a hora de minha morte, que as
tétricas palavras de Mrs. Carpenter lhe meteram na cabeça
tudo aquilo.
Ele entrou na sala sorridente, e com seu jeito alegre indagou:
— Posso fazer alguma compra de Natal para as senhoras? Irei
a Keston daqui a pouco.
Permaneceu na sala durante uns dois ou três minutos, rindo
e conversando. Depois retirou-se. Eu lhe afirmo que me sen-
ti perturbada e perguntei, de maneira direta:
— Onde está Mrs. Sanders? Alguém sabe?
Mrs. Trollope disse que ela tinha saído com uns amigos, s os
Mortimers, para jogar bridge. Isso me tranqüilizou por
aquele momento. Mas continuei muito inquieta e indecisa a
respeito do que fazer. Passada mais ou menos meia hora, subi
até meu quarto. Cruzei com o Dr. Coles, meu médico, que
vinha descendo as escadas. Como eu desejava consultá-lo
sobre meu reumatismo, levei-o até meu quarto, na mesma
hora. Ele me contou (confidencialmente), que a pobre Mary
tinha morrido. O gerente não queria que a notícia se
espalhasse e, por isso, eu deveria guardá-la para mim.
Naturalmente não lhe informei que só tínhamos conversado
sobre o assunto durante uma hora, desde o momento em que
a moça exalara o último suspiro. Essas coisas tornam-se
imediatamente sabidas. E um homem de sua experiência
deveria estar bem certo disso. Mas o Dr. Coles, sempre um
homem simples, incapaz de suspeitar do que quer que fosse.
Acreditava no que desejava acreditar. Foi isso, exatamente
isso, que me alarmou passado um minuto. Ao se retirar, ele
me declarou que Sanders lhe pedira que examinasse a esposa.
Parecia que ela andava meio indisposta ultimamente. Má
digestão, etc.
Pois bem: naquele mesmo dia Gladys Sanders me
dissera que sua digestão era maravilhosa e que andava
muito satisfeita por causa disso.
Estão percebendo? Todas as suspeitas que eu tinha a respeito
daquele homem voltaram a me atormentar, multiplicadas por
cem. Ele estava se preparando para agir. Mas iria fazer o quê?
O Dr. Coles se retirou antes que eu pudesse me decidir se
deveria ou não tocar no assunto com ele, embora, se eu
houvesse realmente lhe falado, não teria sabido o que dizer.
No momento em que eu ia saindo do quarto, o próprio
Sanders vinha descendo as escadas, procedendo do andar de
cima. Estava vestido para sair e tornou a me perguntar se
poderia ser útil a mim, na cidade. Tudo quanto consegui
fazer para não ser incivil com aquele homem foi dirigir-me
diretamente para a sala do hotel e pedir um chá. Lembro-me
que eram precisamente cinco e meia.
Agora estou muito ansiosa para relatar claramente o que
ocorreu em seguida. Eu ainda estava na sala do hotel e
faltavam quinze minutos para as sete quando Mr. Sanders
nela entrou. Havia dois homens em sua companhia, e todos
três estavam inclinados a ser um tanto joviais. Mr. Sanders
afastou-se dos amigos e se aproximou do lugar onde eu estava
sentada ao lado de Miss Trollope. Explicou que desejava
pedir nossa opinião a respeito de um presente de Natal que
pretendia dar à esposa. Era uma bolsa para ser usada com um
vestido de noite. Ele declarou o seguinte:
— Como as senhoras vêem, sou apenas um rude marinheiro.
O que hei de entender dessas coisas? Pedi que me enviassem
três bolsas para eu escolher uma. E desejo um conselho de
pessoas entendidas no assunto.
Nós dissemos naturalmente, que teríamos muito prazer em
ajudá-lo. Ele perguntou se nos importaríamos de subir por-
que sua esposa poderia chegar a qualquer momento e ele não
queria trazer as bolsas lá para a sala. Nunca me esquecerei do
que aconteceu em seguida. Ainda sou capaz de sentir meus
dedos formigando.
Mr. Sanders abriu a porta do quarto e acendeu a luz. Não sei
qual de nós viu primeiro...
Mrs. Sanders estava caída de bruços, com o rosto de
encontro ao chão. Morta!
Eu fui a primeira a chegar junto dela. Ajoelhei-me, segurei-
lhe a mão e tomei-lhe o pulso. Mas foi inútil, pois até seu
braço estava frio e rígido. Perto de sua cabeça havia uma
meia cheia de areia, a arma com que tinha sido abatida. Miss
Trollope, pobre criatura, ficou chorando junto à morta, com
as mãos na cabeça. Sanders deu um grito: "Minha mulher!
Minha mulher!" E correu para ela. Eu impedi que ele a
tocasse. Naquele momento, tive certeza de que ele tinha
feito aquilo. Talvez houvesse alguma coisa que pretendesse
tirar ou ocultar.
— Não se deve tocar em nada — eu disse. — Acalme-se, Mr.
Sanders. E a senhora, Miss Trollope, faça o favor de descer e
chamar o gerente.
Eu lá fiquei, ajoelhada ao lado do corpo. Não iria deixar
Sanders sozinho. Mas fui obrigada a admitir que se aquele
homem estava representando, estava fingindo tudo
maravilhosamente. Parecia atordoado, desnorteado, em
verdadeiro pânico.
O gerente acudiu sem demora. Inspecionou rapidamente o
quarto e, em seguida, fez-nos sair e fechou a porta do apo-
sento a chave, retirando-a da fechadura. Saiu para telefonar à
polícia. Esta chegou, segundo me pareceu, um século depois
(mais tarde fomos informados de que a linha telefônica
estava com defeito). O gerente tivera de enviar um
mensageiro até o distrito policial, e o hotel ficava fora da
cidade, na beira do pântano. Mrs. Carpenter nos cansou
demais. Estava tão satisfeita porque sua profecia, "Depois de
dois vem três", tinha dado certo tão depressa. Ouvi dizer que
Sanders estava andando sem rumo pelo jardim, com a cabeça
entre as mãos, dando todas as demonstrações de dor.
Finalmente a polícia chegou. Os homens subiram ao andar
de cima, acompanhados pelo gerente e por Mr. Sanders.
Pouco depois mandaram me chamar. Eu lá fui. O inspetor es-
tava sentado junto a uma mesa, escrevendo Era um homem
de aspecto inteligente. Eu gostei dele.
— Miss Jane Marple? — ele indagou.
— Sim.
— Soube que a senhora estava presente quando foi en-
contrado o corpo, não é isso mesmo?
— Respondi afirmativamente e descrevi com exatidão o que
havia ocorrido. Creio que foi um alívio para aquele pobre
homem encontrar alguém capaz de responder suas perguntas
de maneira coerente, pois tivera antes de lidar com Sanders e
Emily Trollope. Esta, segundo soube, ficara completamente
desmoralizada, pobre criatura! Lembro-me que minha mãe
me ensinou que uma senhora deve sempre ser capaz de
controlar-se em público, por mais que possa se entregar às
suas emoções quando estiver sozinha.
— Máxima admirável — declarou Sir Henry gravemente.
Quando acabei de falar, o inspetor disse o seguinte:
— Muito obrigado, minha senhora. Agora sou compelido a
pedir-lhe apenas que olhe para o corpo mais uma vez. Está
ele exatamente como se encontrava quando a senhora
entrou no quarto? Não foi mudado de posição?
Expliquei-lhe haver impedido que Mr. Sanders fizesse tal
coisa, e o inspetor me aprovou com um gesto de cabeça.
— Esse senhor parece estar muito perturbado — observou
ele.
— Parece que sim — eu observei.
Não acredito haver dado ênfase especial à palavra "parece",
mas o inspetor me olhou de um modo bastante sutil,
acrescentando;
— Então podemos admitir que o corpo se acha exatamente
na posição em que estava quando foi encontrado.
— Exceto quanto ao chapéu — eu acrescentei.
O inspetor levantou rapidamente os olhos para mim,
indagando:
— O que a senhora quer dizer com o chapéu?
Eu expliquei que o chapéu estava na cabeça da pobre Gladys
e agora estava no chão, caído ao lado dela. Eu naturalmente
pensei que a polícia tivesse feito aquilo. Mas o inspetor o
negou de maneira categórica. Nada fora tirado do lugar nem
tocado. Lá estava ele, de pé, fitando aquela pobre figura,
deitada de bruços. Sua expressão era de perplexidade. Gladys
estava vestida com roupa de sair: um casaco de tweed
vermelho escuro, com uma gola de pele cinzenta. O chapéu
de feltro vermelho, barato, estava caído bem perto de sua
cabeça.
O inspetor permaneceu em silêncio durante alguns minutos,
com uma fisionomia carrancuda. Depois teve uma idéia e
indagou:
— A senhora poderia talvez se lembrar se a falecida estava
com uns brincos, ou se costumava usar brincos?
Felizmente é de meu hábito observar muito as coisas.
Lembrei-me de que havia um brilho de pérolas logo abaixo
da aba do chapéu, embora eu não tenha prestado especial
atenção a isso, na ocasião. Pude responder afirmativamente a
primeira pergunta.
— Isso esclarece a coisa — disse o inspetor. — A caixa de
jóias da morta foi roubada. Não que ela possuísse coisas de
muito valor, segundo estou informado. Foram retirados os
anéis de seus dedos. O assassino deve ter se esquecido dos
brincos e voltou para buscá-los depois de haver sido
descoberto o crime. — Ele percorreu com o olhar todo o
aposento e acrescentou lentamente. — Poderá ter estado
escondido aqui neste quarto todo o tempo.
Eu neguei essa possibilidade, explicando que eu própria
olhara embaixo da cama. E o gerente tinha aberto as portas
do guarda-roupa. Não havia outro lugar onde um homem pu-
desse esconder-se. É bem verdade que o compartimento de
chapéus, no meio do guarda-roupa, estava fechado a chave.
Mas era apenas uma parte desse armário, e tinha pouca
profundidade. Cheia de prateleiras. Ninguém poderia ter se
ocultado aí.
O inspetor abanou a cabeça muito devagar, enquanto eu lhe
expliquei tudo isso. E disse:
— Aceito sua palavra, minha senhora. Nesse caso, como eu
afirmei antes, ele deve ter voltado. É um homem de cabeça
muito fria.
— Mas o gerente fechou a porta a chave e a retirou da
fechadura — eu acrescentei.
— Isso não quer dizer nada. Temos a sacada e a escada de
emergência. Por esse caminho é que o ladrão entrou. É
possível que a senhora o tenha perturbado em seu trabalho.
Ele se esgueirou pela janela. E quando todos saíram do
quarto, voltou e continuou o serviço interrompido.
— O senhor tem certeza de que foi um ladrão? — eu
indaguei.
O inspetor me respondeu secamente:
— Bem! Parece que foi. A senhora não acha?
Mas havia alguma coisa em seu tom de voz que me deixou
satisfeita. Senti que ele não levava muito a sério Mr. Sanders
no papel de viúvo inconsolável.
Como estão vendo, eu admito francamente que estava
dominada, totalmente dominada por uma opinião que nossos
vizinhos, os franceses, segundo creio, chamam de idée fixe.
Sabia que aquele homem, Sanders, pretendia que sua mulher
morresse. O que eu não quis levar em consideração foi essa
coisa fantástica, a coincidência. Meu ponto de vista sobre
Mr. Sanders era absolutamente certo e verdadeiro. Eu
estava segura a esse respeito. Aquele homem era um
miserável. Embora sua hipócrita pretensão de estar sentindo
uma grande dor não tivesse me enganado um só instante, eu
de fato me lembro que, naquele momento, sua surpresa e
perplexidade foram maravilhosamente bem representadas.
Tudo aquilo me pareceu inteiramente natural, se estão
percebendo o que quero dizer. Devo admitir que um
estranho sentimento de dúvida começou a insinuar-se
dentro de mim, depois de minha conversa com o inspetor.
Se Sanders tivesse feito aquela coisa horrível, eu não
conseguia imaginar qualquer motivo que o levasse a voltar ao
quarto, esgueirando-se pela escada de incêndio, só para
retirar os brincos das orelhas da esposa. Não seria uma coisa
sensata. E Sanders era um homem muito sensato. Por isso
mesmo é que eu o julgava tão perigoso.
Miss Marple olhou em derredor e prosseguiu.
Talvez todos percebam onde eu quero chegar. Tantas vezes
acontecem coisas inesperadas neste mundo. Eu estava tão
certa. Acho que foi isso que me cegou. O resultado foi um
choque para mim: ficou provado, acima de qualquer
dúvida, que Mr. Sanders não poderia ter de modo
algum cometido o crime.
Mrs. Bantry respirou forte, muito surpreendida. Miss Marple
voltou-se para ela, dizendo:
— Eu sei, minha querida. Não era isso que esperava quando
eu comecei minha história. Também não foi o que eu própria
esperava. Mas fatos são fatos. E se ficar provado que uma
pessoa esteja errada, ela deverá ser suficientemente humilde
para começar tudo de novo. Eu sabia que Mr. Sanders era, no
íntimo, um assassino. E nunca ocorreu coisa alguma capaz de
abalar esta minha firme convicção.
Agora espero que todos desejem conhecer os fatos reais.
Mrs. Sanders, como sabem, havia passado a tarde com alguns
amigos, os Mortimers, jogando bridge. Saiu da casa deles
mais ou menos uns quinze minutos antes das seis. Da
residência de seus amigos até o hotel levava-se um quarto de
hora a pé, ou até menos, se a pessoa andasse depressa. Ela
deve ter chegado de volta pelas seis e meia. Ninguém a viu
entrar, por isso deve ter usado a porta lateral e se dirigido
para seu quarto sem perda de tempo. Lá mudou de roupa (o
casaco castanho-claro e a saia que ela usou para o bridge
estavam pendurados no armário) e ela evidentemente se
preparava para sair outra vez quando levou o golpe. Dizem
que é bem possível que jamais tenha sabido quem a abateu.
Um saco de areia, segundo me informaram, é uma arma
muito eficiente. Parece que os atacantes estavam escondidos
no quarto, possivelmente num dos grandes armários, aquele
que ela não abriu.
Vejamos, agora, os movimentos de Mr. Sanders. Ele saiu,
como já lhes disse, por volta das cinco e meia, ou um pouco
mais tarde. Fez algumas compras em duas ou três lojas e,
pelas seis horas, entrou no Grand Spa Hotel, onde encontrou
dois amigos, os mesmos com quem, mais tarde, voltou para o
hotel. Eles jogaram bilhar e, segundo soube, tomaram muitas
doses de uísque com soda. Esses dois homens (seus nomes
eram Hitchcock e Spender) permaneceram em companhia
dele a partir das seis horas. Voltaram a pé para o hotel, e os
amigos só o deixaram quando vieram ao meu encontro e de
Miss Trollope. Como lhes disse, isso ocorreu mais ou menos
a um quarto para as sete, hora em que a mulher de Mr.
Sanders já devia estar morta.
Preciso lhes dizer que conversei com aqueles dois amigos
dele. Não gostei dos homens. Não eram agradáveis nem
tinham maneiras educadas. Mas fiquei certa de uma coisa:
disseram a verdade absoluta quando afirmaram que Sanders
estivera o tempo todo em sua companhia.
Mas surgiu outro aspecto de certa importância. Enquanto
Mrs. Sanders estava jogando bridge, foi chamada ao
telefone. Um homem, cujo nome era Mr. Littleworth, queria
falar com ela. Pareceu entusiasmada e satisfeita por algum
motivo e, diga de passagem, cometeu um ou dois erros
graves. E despediu-se mais cedo do que esperavam as pessoas
com quem estava.
Foi perguntado a Mr. Sanders se ele sabia se Mr. Littleworth
era amigo de sua esposa, mas ele declarou que nunca tinha
ouvido falar nesse nome. Para mim isso parece estar
confirmado pela atitude de sua esposa, porque ela também
deu a impressão de não conhecer Littleworth. Apesar disso,
voltou de sua conversa no telefone toda sorridente e
ruborizada. Por isso acredito que a pessoa, quem quer que
fosse, não lhe deu seu verdadeiro nome, o que constitui um
aspecto suspeito, não é verdade?
De qualquer maneira, foi esse o problema que se apresentou.
A história do ladrão, que parece improvável, ou a outra
teoria, ou seja, a de que Mrs. Sanders estava se preparando
para sair ao encontro de alguém. Terá essa pessoa entrado no
quarto dela, utilizando-se da escada de emergência? Terá
havido uma discussão entre os dois? Ele a teria atacado à
traição?
Miss Marple interrompeu sua narrativa.
— E daí? — indagou Sir Henry. — Qual a solução?
— Eu fico só imaginando se algum dos presentes será capaz
de adivinhar qual foi.
— Eu não sou nada forte em matéria de palpites — declarou
Mrs. Bantry. — Acho uma pena Sanders ter apresentado um
álibi tão maravilhoso. Se isso satisfez à senhora, deve ter sido
correto.
Jane Helier moveu a linda cabeça e fez a seguinte pergunta:
— Por que o tal compartimento de chapéus estava fechado a
chave?
— Uma pergunta muito bem pensada, minha querida —
declarou Miss Marple. — Eu sempre refleti sobre isso,
embora a explicação tenha sido bem simples. Nesse
compartimento havia um par de chinelos bordados e uns
lenços que a pobre mulher estava fazendo para dar ao marido
como presente de Natal. Por isso é que tinha fechado o
compartimento a chave. Essa chave foi encontrada em sua
bolsa.
— Ah! — exclamou Jane. — Afinal de contas isso não é
muito interessante.
— Mas é interessante — objetou Miss Marple. — A única
coisa realmente interessante. O que fez todos os planos do
assassino irem por água abaixo.
Todos os olhares se voltaram para ela.
— Eu não percebi a coisa durante dois dias — prosseguiu Miss
Marple. — Fiquei dando tratos à imaginação até que, de
repente, tudo se tornou claro. Fui procurar o inspetor e lhe
pedi que fizesse uma certa experiência.
— O que a senhora pediu a ele que tentasse fazer? — indagou
Mrs. Bantry.
— Pedi que experimentasse aquele chapéu na cabeça
da pobre moça. O que ele não conseguiu fazer,
naturalmente. Não entrou na cabeça dela. O chapéu
não era dela.
Mrs. Bantry olhou fixamente para Miss Marple e indagou:
— Mas não estava na cabeça dela, no começo?
— Não. Não estava na cabeça dela.
Miss Marple fez uma breve pausa, permitindo que suas
palavras causassem uma certa impressão, e prosseguiu:
— Nós tínhamos admitido que o corpo da pobre Gladys lá
estava. Mas nunca olhamos para seu rosto. Lembre-se de que
ela tinha caído de bruços. E o chapéu lhe ocultava o rosto.
— Ela foi morta, não foi? — indagou Mrs. Bantry.
— Foi morta, mais tarde — respondeu Miss Marple — Na
hora em que estávamos telefonando para a polícia Gladys
Sanders estava viva.
— A senhora quer dizer que alguém estava fingindo ser ela?
Mas a senhora segurou nela — comentou Mrs. Bantry.
— Segurei num cadáver, sem dúvida — disse Miss Marple
gravemente.
— Mas que diabo! — exclamou o Coronel Bantry. — Não se
pode andar segurando cadáveres assim a torto e a direito. O
que eles fizeram depois com o primeiro corpo?
— Ele tornou a colocá-lo no lugar — respondeu Miss
Marple. — Foi uma idéia diabólica, muito bem pensada.
Nossa conversa, na sala de visitas, o fez imaginar aquilo. Por
que não utilizar o corpo da pobre Mary, a empregada?
Lembrem-se que o quarto dos Sanders ficava junto dos
quartos dos empregados. Os homens da agência funerária só
iriam chegar depois do anoitecer. E ele contou com isso.
Levou o corpo de Mary pela sacada (já estava escuro, às
cinco horas). Vestiu-o com uma das roupas de sua esposa e
com seu grande casaco vermelho. Foi então que descobriu
que o compartimento de chapéus, do armário, estava
trancado a chave. Só havia uma coisa a fazer: ir buscar um
dos chapéus da pobre moça. Ninguém haveria de reparar
nisso. Pôs o saco de areia perto dela. Depois saiu para arranjar
seu álibi.
Telefonou para a esposa, dizendo que era Mr. Littleworth.
Não sei o que falou com ela, conforme lhes informei. Mas
fez com que deixasse mais cedo o grupo com quem estava
jogando bridge e voltasse para o hotel. Ele combinara com a
esposa para que o encontrasse às sete no jardim do hotel,
perto da escada de emergência. Provavelmente disse que
tinha uma surpresa a fazer-lhe.
Mr. Sanders voltou para o hotel em companhia de seus
amigos e arranjou as coisas de sorte que Miss Trollope e eu
descobríssemos o crime junto com ele. Chegou até a fingir
que pretendia virar o corpo e eu o impedi. Então foi
chamada a polícia e ele se afastou, cambaleando, indo para o
jardim.
Ninguém lhe pediu que apresentasse um álibi depois do
crime. Foi ao encontro da esposa, subiu com ela pela escada
de emergência, entrando os dois no quarto. Talvez já lhe
tivesse contado alguma história a respeito do cadáver. Ela se
debruçou sobre o corpo. Ele apanhou o saco de areia e
desferiu-lhe o golpe... Meu Deus! Eu me sinto mal até hoje
só em pensar nisso. Em seguida, rapidamente tirou o casaco e
a saia da esposa, pendurou-os num cabide e vestiu-a com as
roupas do outro cadáver.
Mas o chapéu não servia. O cabelo de Mary era cortado à
la garçonne, e Gladys Sanders, como lhes disse, usava um
grande coque. Ele foi obrigado a deixar o chapéu ao lado do
corpo, na esperança de que ninguém iria reparar nisso. Em
seguida, carregou o corpo da pobre Mary de volta para o
quarto dela e tornou a compô-lo de maneira decente.
— Isso parece incrível! — exclamou o Dr. Lioyd. — Que
risco ele enfrentou. A polícia poderia ter chegado cedo
demais.
— Lembrem-se de que os telefones não estavam
funcionando
— acrescentou Miss Marple. — Isso foi uma parte do
trabalho dele. Não poderia dar-se o luxo de permitir que a
polícia chegasse ao local do crime antes da hora. Quando a
polícia de fato apareceu, os inspetores demoraram-se algum
tempo no escritório do gerente do hotel antes de subir ao
quarto. Foi o ponto mais vulnerável do plano, ou seja, a
probabilidade de alguém reparar na diferença entre um
cadáver de duas horas e o de outra pessoa que tivesse
morrido apenas' pouco mais de meia hora antes. Mas ele
contava com o seguinte: que as pessoas que descobrissem o
crime não possuíssem conhecimentos especializados sobre o
assunto.
O Dr. Lloyd assentiu de cabeça, dizendo o seguinte:
— Iriam supor que o crime havia sido praticado mais ou
menos às seis e quarenta e cinco, creio eu. Mas fora de fato
cometido às sete horas, ou alguns minutos depois disso.
Quando o médico da polícia examinou o corpo seriam no
máximo, aproximadamente, sete e meia. Ele nada poderia
afirmar.
— Eu sou a pessoa que deveria ter sabido de tudo — declarou
Miss Marple. — Tinha tomado o pulso da pobre moça, e
estava gelado. No entanto, passado pouco tempo o inspetor
disse que o assassinato teria sido cometido pouco antes de
nós chegarmos. E eu não vi nada!
— Eu acho que a senhora viu muita coisa, Miss Marple
— observou Sir Henry. — Esse caso aconteceu antes de
minha gestão. Nem me lembro de ter ouvido falar nele. Mas
que aconteceu?
— Sanders foi enforcado — disse Miss Marple num tom
decidido. — Bem feito! Nunca me arrependi de minha
participação para entregar aquele homem à justiça. Não
tenho paciência com esses modernos escrúpulos
humanitários a respeito da pena capital.
A expressão severa de sua fisionomia suavizou-se.
— No entanto, muitas vezes eu me censurei amargamente
por não ter conseguido salvar a vida daquela pobre moça.
Mas quem teria dado ouvidos às palavras de uma mulher
idosa, que tivesse chegado apressadamente a suas
conclusões? Quem sabe? Talvez tenha sido melhor para ela
morrer, quando ainda era feliz, do que ter continuado a
viver, desgraçada e desiludida, num mundo que lhe teria
subitamente parecido horrível. Ela tinha amor àquele patife e
confiava nele. Nunca descobriu quem ele era.
— Muito bem — comentou Jane Helier. — Ela tinha toda
razão. Toda razão. Eu gostaria de. .. — E parou de falar.
Miss Marple olhou para a famosa, bela e triunfante Jane
Helier e abanou a cabeça bondosamente, dizendo, num tom
brando:
— Eu compreendo, minha querida. Eu compreendo.

11
A Erva da Morte

— E AGORA, MRS. B. — disse Sir Henry Clithering num tom
encorajador.
— Eu já lhe falei. Não quero que me chamem de Mrs. B. Isso
não é muito digno.
— Então eu a chamarei de Scheherazade.
— É ainda pior ser Sche... Como é o nome dela? Eu nunca
seria capaz de contar uma história decentemente. Pergunte
isso ao Arthur se o senhor não acreditar em mim.
— Você é bastante segura em matéria de fatos, Dolly —
observou o Coronel Bantry. — Mas não é forte quando se
trata de desenvolvê-los.
— É isso mesmo — declarou Mrs. Bantry, batendo sobre a
mesa que tinha diante de si um catálogo de bulbos que tinha
nas mãos. — Fiquei prestando atenção a todos e não sei fazer
isso: ele disse, ela disse, o senhor ficou imaginando, eles
pensaram, todos acharam implícito, etc. Simplesmente não
sei fazer isso. Além do mais, não conheço coisa alguma que
tenha uma história que possa ser contada.
— Nós não podemos acreditar nisso, Mrs. Bantry — declarou
o Dr. Lloyd, sacudindo a cabeça grisalha, fingindo estar
duvidando de sua anfitriã.
Miss Marple acrescentou, com sua voz branda:
— Certamente, minha querida.. .
Mrs. Bantry continuou a abanar a cabeça com obstinação.
— Todos aqui não imaginam como minha vida é banal. Lidar
com a criadagem, a dificuldade de arranjar copeiras, ir à
cidade comprar roupas, ir ao dentista e às corridas de Ascot
(que Arthur detesta). E cuidar do jardim...
— Ah! O jardim! — exclamou o Dr. Lloyd. — Nós todos
sabemos para que lado bate seu coração, Mrs. Bantry.
— Deve ser bom ter um jardim — declarou Jane Helier, a
linda e jovem atriz. — Sim. Se a pessoa não for obrigada a
cavar a terra ou sujar as mãos. Eu gosto tanto de flores!
— O jardim — observou Sir Henry. — Não poderíamos
tomar isso como ponto de partida? Vamos, Mrs. B. O bulbo
envenenado, o narciso mortífero, a erva da morte.
— É estranho o senhor dizer isso -— observou Mrs. Bantry.
— O senhor me fez lembrar uma coisa. Arthur, você se re-
corda daquele caso que houve em Clodderham Court? Você
sabe a que eu me refiro. O velho Sir Ambrose Bercy. Você se
lembra como nós o achamos um velho encantador e amável?
— Sem dúvida. Sim. Foi um caso estranho. Continue, Dolly.
— É melhor você contar o caso, querido.
— Que tolice. Continue. Você precisa fazer alguma coisa. Eu
acabei de dar minha pequena contribuição.
Mrs. Bantry respirou fundo. Juntou as mãos, entrelaçando os
dedos, revelando em sua fisionomia a mais absoluta ansie-
dade. Em seguida, começou a falar rápida e fluentemente:
— Bem. Não há muita coisa para contar. A Erva da Morte.
Foi isso que me fez pensar no caso, embora eu a chamasse de
salva e cebola.
— Salva e cebola? — comentou o Dr. Lloyd. Mrs. Bantry
abanou a cabeça.
— Aconteceu assim — explicou Mrs. Bantry. — Nós está-
vamos hospedados na casa de Sir Ambrose Bercy, em
Clodderham Court, Arthur e eu. Um dia, por engano,
embora de maneira bem estúpida, eu sempre assim pensei,
uma porção de folhas de digital foram colhidas juntamente
com outras, de salva. Naquela noite, o pato servido no jantar
foi recheado com aquilo, e todas as pessoas sentiram-se mal.
Uma pobre moça, pupila de Sir Ambrose, morreu por causa
disso.
— Meu Deus! — exclamou Miss Marple. — Que coisa trágica!
— Não foi mesmo?
— E daí — comentou Sir Henry. — O que aconteceu depois?
— Não aconteceu nada — respondeu Mrs. Bantry. Foi só isso.
Todos ficaram admirados. Embora tivessem sido previamente
avisados, não esperavam que a história fosse assim tão curta.
— Minha prezada amiga — comentou Sir Henry num tom de
protesto — não pode ter sido apenas isso. O que a senhora
nos contou foi um acontecimento trágico. Mas não um pro-
blema, em qualquer acepção da palavra..
— Bem. Naturalmente houve mais alguma coisa — declarou
Mrs. Bantry. — Mas se eu lhes dissesse o que foi, todos
ficariam sabendo.
Ela deitou um olhar de desafio para as pessoas que se acha-
vam ali reunidas e declarou, num tom de queixa:
— Eu lhes disse que não seria capaz de desenvolver os fatos e
fazê-los parecer devidamente com uma história, o que teria
de ser feito.
— Mas que surpresa! — exclamou Sir Henry, endireitando-se
em sua cadeira e ajustando o monóculo. — Realmente,
Scheherazade, isso é muito interessante e reconforta o
espírito. Nossos talentos estão sendo desafiados. Estou meio
desconfiado que a senhora fez isso de propósito, para
estimular nossa curiosidade. Penso que o indicado será
algumas rápidas séries de "vinte perguntas". A senhora quer
começar, Miss Marple?
— Eu gostaria de saber alguma coisa sobre a cozinheira —
declarou Miss Marple. — Deveria ser uma mulher muito
pouco inteligente, ou então, muito inexperiente.
— Era exatamente isso: muito pouco inteligente — declarou
Mrs. Bantry. — Chorou copiosamente depois do que
aconteceu, dizendo que as folhas haviam sido colhidas e
entregues a ela como sendo de salva. E de que jeito haveria
de saber que não eram?
— Uma pessoa incapaz de pensar com a própria cabeça —
comentou Miss Marple.
— Era provavelmente uma mulher já idosa e, eu diria, uma
ótima cozinheira?
— Excelente cozinheira — confirmou Mrs. Bantry.
— Agora é a sua vez, Miss Helier — observou Sir Henry.
— Ah! O senhor quer dizer minha vez de fazer uma
pergunta? — Seguiu-se uma pausa, enquanto Jane ficou
meditando.
- Finalmente, declarou, num tom meio desorientado: —
Realmente... eu não sei o que perguntar.
Seus lindos olhos voltaram-se para Sir Henry, como quem
implora socorro.
— Por que não indagar sobre os personagens, Miss Helier?
— sugeriu ele.
Jane parecia continuar perplexa. E Sir Henry acrescentou:
— Quais os personagens, por ordem de sua entrada em cena.
— Ah, sim — disse Jane. — Boa idéia.
Mrs. Bantry começou rapidamente a contar pelos dedos:
— Sir Ambrose, Sylvia Keene (a moça que morreu), um
amigo deles, que era seu hóspede, Maud Wye, uma dessas jo-
vens do tipo do patinho feio. De certa forma conseguem im-
pressionar as pessoas, eu nunca sei de que jeito. Havia
também um certo Mr. Curie que tinha ido conversar sobre
livros com Sir Ambrose, livros raros, antigos e estranhos,
escritos em latim, uns pergaminhos bolorentos. Também lá
estava Jerry Larimer — uma espécie de vizinho que morava
numa propriedade ao lado. A Fairlies fazia limite com a de Sir
Ambrose. E também Miss Carpenter, uma dessas mulheres
de meia idade que conseguem aninhar-se confortavelmente
em algum lugar. A propósito, eu creio que era dama de
companhia de Sylvia.
— Agora é minha vez — disse Sir Henry. — Acho que é
porque estou sentado ao lado de Miss Helier. Quero saber de
muitas coisas: desejo um breve retrato verbal, Mrs. Bantry,
um retrato de todas as pessoas que acabam de ser mencio-
nadas.
— Ah! — exclamou Mrs. Bantry, num tom hesitante.
— Sir Ambrose — prosseguiu Sir Henry. — Comece por ele.
Como era ele?
— Era um senhor idoso, de aspecto muito distinto. Não era
realmente muito velho — não tinha mais de sessenta anos,
creio eu. Mas era de constituição muito delicada. Tinha um
coração fraco, não podia subir escadas, e havia mandado
instalar um elevador em sua casa. Tudo isso o fazia parecer
mais idoso do que era. Tinha maneiras muito encantadoras,
as de um homem da Corte. Essas são as palavras capazes de
descrevê-lo melhor. Nunca era visto irritado ou inquieto.
Tinha uma linda cabeleira branca e uma voz particularmente
encantadora.
— Bem. Agora eu estou vendo Sir Ambrose. E a jovem
Sylvia. Como a senhora disse que ela se chamava?
— Sylvia Keene. Era bonita, realmente muito bonita, Tinha
os cabelos pretos e uma pele linda. Talvez não fosse muito
inteligente. Era bastante tola.
— Deixe disso, Dolly — protestou seu marido.
— Naturalmente Arthur não seria dessa opinião — declarou
Mrs. Bantry secamente. — Ela era tola, na verdade nunca
disse coisa alguma que valesse a pena ouvir.
— Uma das criaturas mais graciosas que eu conheci —
declarou o Coronel Bantry calorosamente. — Vê-la jogar
tênis era simplesmente um encanto. Um encanto! Era muito
engraçada, uma criatura muito divertida. E tinha um jeito tão
bonito. Aposto que todos os jovens achavam isso.
— Exatamente no que você está enganado — disse Mrs.
Bantry. — As moças iguais a ela não têm encanto para os
rapazes de hoje. Só para os velhos antiquados como você,
Arthur, que ficam sentados, engrolando as palavras quando
falam sobre moças.
— Não adianta ser jovem — afirmou Jane. — A pessoa tem
de ser SA.
— Que é isso? — indagou Miss Marple. — Que é SA?
— Quer dizer sex appeal — explicou Jane.
— Ah, sim! — comentou Miss Marple. — No meu tempo
costumava-se dizer que a pessoa "atraía com os olhos".
— A expressão não é nada má — afirmou Sir Henry. — Creio
que a senhora descreveu a dama de companhia como sendo
uma gata, não foi isso, Mrs. Bantry?
— Eu não quis dizer uma gata, Sir Henry. Isso é coisa muito
diferente. Era uma mulher grandalhona, suave, branca,
sempre a ronronar. Esse era o jeito de Adelaide Carpenter.
— Que idade ela tinha?
— Eu diria que andava pela casa dos quarenta. Morava lá há
algum tempo, desde quando Sylvia teria seus onze anos. Era
uma pessoa de muito tato. Uma dessas viúvas que ficam em
situação difícil, têm relações nos meios aristocráticos, mas
não têm dinheiro. Eu não gostava dela. Mas eu jamais aprecio
as pessoas que têm mãos muito brancas e longas. E não gosto
nada de gatas.
— E Mr. Curie? Que tal era ele?
— Um desses homens idosos e curvados. São tantos por toda
parte, que as pessoas mal distinguem uns dos outros. Re-
velava entusiasmo quando falava sobre seus livros
bolorentos, mas não em outras ocasiões. Creio que Sir
Ambrose não o conhecia muito bem.
— E Jerry, o vizinho?
— Era um rapaz realmente encantador. Estava noivo de
Sylvia. Foi isso que tornou as coisas tão tristes.
— Agora eu fico imaginando... — começou a dizer Miss
Marple. E parou no meio da frase.
— Imaginando o quê?
— Nada, minha querida.
Sir Henry olhou para Miss Marple cheio de curiosidade e
declarou, num tom meditativo:
— Então os jovens estavam noivos. Havia muito tempo?
— Cerca de um ano. Sir Ambrose tinha feito oposição ao
noivado, sob a alegação de que Sylvia era muito jovem. Mas
ao cabo de um ano de noivado ele cedera, e o casamento de-
veria realizar-se muito em breve.
— Ah! A jovem tinha bens?
— Quase nada. Apenas uma renda de cem ou duzentas libras
por ano.
— Você está na pista falsa, Clithering — disse o Coronel
Bantry, dando uma risada.
— Agora chegou a vez do nosso doutor fazer sua pergunta —
observou Sir Henry. — Eu ficarei quieto.
— Minha curiosidade é principalmente de ordem profis-
sional — declarou o Dr. Lloyd. — Eu estimaria saber que
depoimentos médicos foram prestados no inquérito, isto é,
se nossa anfitriã lembrar-se disso, ou se ela o souber.
— Sei mais ou menos o que houve — disse Mrs. Bantry.
— Envenenamento pela digitalina. Está certo?
O Dr. Lloyd assentiu de cabeça, comentando o seguinte:
— O princípio ativo da chamada erva-dedal, a digital, age
sobre o coração. Na realidade, trata-se de uma droga muito
valiosa em certas perturbações cardíacas. O caso é muito
curioso.
Eu jamais acreditaria que ingerir alguma coisa feita com
folhas de digital pudesse causar a morte. Essas idéias sobre a
ingestão de folhas ou frutos venenosos são muito exageradas.
Muito pouca gente percebe que o princípio vital, ou o
alcalóide, tem de ser extraído com grande cuidado, exigindo
processos complicados.
— Outro dia Mrs. MacArthur mandou alguns bulbos muito
especiais para Mrs. Toomie — disse Miss Marple. — E a
cozinheira de Mrs. Toomie pensou que fossem cebolas.
Todos os Toomies passaram de fato muito mal.
— Mas não morreram por causa disso — comentou o Dr.
Lloyd.
— Não. Não morreram — admitiu Miss Marple.
— Uma moça que eu conheci morreu envenenada pela
ptomaína — disse Jane Helier.
— Nós precisamos continuar investigando o crime — de-
clarou Sir Henry.
— O crime? — exclamou Jane, estremecendo. — Eu pensei
que tivesse sido um acidente.
— Se tivesse sido um acidente — comentou lentamente Sir
Henry — eu acho que Mrs. Bantry não nos teria contado
essa história. Não. Segundo minha interpretação do caso,
tudo apenas assumiu a aparência de um acidente. Por detrás
disso houve algo de mais sinistro. Eu me recordo de um caso:
Vários convidados se achavam reunidos em certa casa,
palestrando depois do jantar. As paredes da sala eram
adornadas com toda espécie de armas antigas. Apenas a título
de brincadeira, um dos convidados agarrou uma velha pistola
e apontou para outro, fingindo que ia dispará-la. A pistola
estava carregada e o tiro partiu, matando o homem. Nesse
caso, tivemos primeiro de verificar quem havia secretamente
preparado e carregado a pistola e, em seguida, quem havia
orientado a conversação para que ocorresse o pequeno
incidente final daquela rude brincadeira. O homem que
disparara a pistola estava completamente inocente.
Parece-me que estamos diante do mesmo problema. Aquelas
folhas de digital foram deliberadamente misturadas com as de
salva, sendo de antemão sabido qual seria o resultado disso.
Desde que afastamos a cozinheira de qualquer culpa, nós a
exoneramos disso, não é fato? Surge então a pergunta: quem
colheu as folhas e as levou à cozinha?
— Isso pode ser respondido com facilidade — disse Mrs.
Bantry. — Pelo menos em parte. Foi a própria Sylvia que
levou as folhas para a cozinha. Fazia parte de sua tarefa
quotidiana colher verduras, alface ou outras, molhos de
cenouras novas
— toda espécie de coisas que os jardineiros nunca colhem
como se deve. Eles detestam entregar folhas novas e tenras,
esperando que se tomem belos espécimes. Sylvia e Mrs.
Carpenter costumavam, elas próprias, cuidar disso. De fato
havia grande quantidade de digital entre a salva, num canto
da horta. Por isso o engano foi muito natural.
— Mas foi a própria quem colheu as folhas?
— Isso ninguém soube. Presumiu-se que sim.
— Presunções — comentou Sir Henry —, são uma coisa
perigosa.
— Mas eu de fato sei que Mrs. Carpenter não as colheu —
acrescentou Mrs. Bantry. — Acontece que estava dando um
passeio comigo pelo terraço, naquela manhã. Nós saímos
depois da primeira refeição. O tempo estava
excepcionalmente bom e quente para aquele começo de
primavera. Sylvia foi sozinha até a Horta. Mais tarde, no
entanto, eu a vi andando de braço dado com Maud Wye.
— Então elas eram grandes amigas? — indagou Miss Marple.
— Eram — confirmou Mrs. Bantry. — Ela parecia que ia
dizer alguma coisa, mas não o fez.
— Maud Wye estava hospedada na casa há muito tempo?
— indagou Miss Marple.
— Mais ou menos umas duas semanas — respondeu Mrs.
Bantry, demonstrando em sua voz uma nota de inquietação.
— A senhora não gostava de Miss Wye — sugeriu Sir Henry.
— Gostava, sim. Isso eu gostava.
E seu tom de inquietação cresceu, chegando a revelar
ansiedade.
— A senhora está nos ocultando alguma coisa, Mrs. Bantry
— declarou Sir Henry num tom acusatório.
— Eu fiquei pensando, há instantes —: começou Miss
Marple. Mas não quis prosseguir.
— Quando a senhora ficou pensando em alguma coisa?
— No momento em que a senhora declarou, Mrs. Bantry,
que os dois jovens estavam noivos. Disse que isso a tinha
feito ficar tão triste. Mas se percebe o que eu quero dizer, sua
voz não me pareceu assumir o tom apropriado quando a
senhora afirmou isso. Nem apropriado nem convincente.
— Mas que pessoa terrível a senhora é — declarou Mrs.
Bantry. — Sempre parece que sabe as coisas. Sim, eu estava
pensando em alguma coisa. Mas realmente não sei se devo
ou não lhes dizer o que era.
— A senhora precisa nos dizer isso — afirmou Sir Henry.
— Quaisquer que sejam seus escrúpulos, não deve ser
ocultado de nós.
— Pois bem, foi apenas o seguinte: uma noite, de fato foi na
noite que precedeu a tragédia, eu saí até o terraço, antes do
jantar. A janela da sala de visitas estava aberta. Acontece que
eu vi Jerry Lorimer e Maud Wye. Ele estava... bem... estava
beijando a moça. Naturalmente eu nunca soube se isso foi
uma coisa puramente casual, ou se... bem... quero dizer,
ninguém poderá afirmar nada. Eu sabia que Sir Ambrose de
fato jamais estimara Jerry Lorimer. Talvez soubesse que
espécie de homem ele era. Mas de uma coisa eu tenho
certeza: Maud realmente gostava muito dele. Bastava
reparar como olhava para ele quando estava distraída.
Também acho que os dois serviriam melhor um para o outro
do que ele e Sylvia.
— Vou fazer-lhe uma pergunta, rapidamente, antes que
Miss Marple possa se antecipar a mim — interveio Sir
Henry.
— Desejo saber se Jerry e Maud Wye se casaram depois da
tragédia.
— Casaram-se — disse Mrs. Bantry. — Casaram-se, sim. Seis
meses depois.
— Oh, Scheherazade, Scheherazade! — acrescentou Sir Hen-
ry. — Só pensar na maneira em que a senhora começou a
nos contar essa história. A senhora nos forneceu o esqueleto
da coisa. E a quantidade de carne que estamos agora
descobrindo!
— Não fale dessa maneira tão vampiresca — observou Mrs.
Bantry. — E não empregue a palavra carne de um jeito que o
afasta imediatamente de seu bifezinho. Mr. Curie era
vegetariano. No café da manhã costumava comer uma coisa
esquisita, que parecia farelo. Esses homens idosos e curvados
muitas vezes são excêntricos. E também usam um tipo
especial de roupas de baixo.
— Mas que história é essa? — indagou o coronel. — Você
sabe que espécie de roupas de baixo Mr. Curie usava?
— Eu não sei nada disso — afirmou Mrs. Bantry com
dignidade. — Estava só fazendo uma suposição.
— Vou corrigir minha afirmação anterior — declarou Sir
Henry. — Em vez dela, afirmarei que os personagens de seu
problema são muito interessantes. Estou começando a
visualizá-los, todos eles. Então, Miss Marple?
— A natureza humana é sempre interessante, Sir Henry
— observou Miss Marple. — O velho e eterno triângulo. Será
a base do nosso problema? Imagino que sim.
O Dr. Lloyd pigarreou, dizendo, num tom bastante cheio de
hesitação:
— Mrs. Bantry. A senhora nos dirá se também passou mal.
— Pois não passei! E o Arthur também. Todos passaram mal.
— Exatamente isso. Todos — prosseguiu o médico. — A
senhora percebe o que eu quero dizer? No caso que Sir
Henry acabou de nos contar, um homem deu um tiro em
outro. Não teve de atirar em todas as pessoas que estavam na
sala.
— Não estou entendendo — observou Jane. — Quem matou
alguém?
— Estou dizendo que a pessoa que planejou as coisas o fez de
maneira muito curiosa. Teve uma ilimitada confiança no
acaso ou então agiu com a mais absoluta indiferença pelas
vidas humanas. Eu custo a crer que um homem seja capaz de
envenenar deliberadamente oito pessoas, tendo por objetivo
eliminar uma delas.
— Eu percebo seu ponto de vista — declarou Sir Henry
pensativamente. — Confesso que deveria ter me lembrado
disso.
— E não poderia ter envenenado a si próprio também? —
indagou Jane.
— Alguém faltou ao jantar naquela noite? — indagou Miss
Marple.
Mrs. Bantry abanou a cabeça, dizendo:
— Todos estavam presentes.
— Exceto Mr. Lorimer, minha querida, creio eu — observou
Mr. Bantry.
— Não. Ele não jantou lá naquela noite — declarou Mrs.
Bantry.
— Ah! — exclamou Miss Marple, num outro tom de voz.
— Isso torna as coisas muito diferentes. — Ela franziu a testa,
aflita, e prosseguiu, num murmúrio: — Eu fui muito tola.
Muito tola mesmo.
— Confesso que sua observação me preocupa, Lloyd, — disse
Sir Henry. — Como assegurar que a moça, e somente ela, iria
ingerir a dose fatal?
— Isso seria impossível — observou o médico. —- Isso me
conduz à observação que vou fazer. E se supusermos que a
jovem não era, afinal, a vítima visada?
— Como?
— Em todos os casos de envenenamento, os resultados são
muito incertos. Várias pessoas comeram aquele prato. O que
aconteceu? Uma ou duas ficaram ligeiramente indispostas,
outras duas disseram que se sentiram muito mal, e uma delas
morreu. E assim foi, não existe a menor certeza em coisa
alguma. Mas há casos em que outro fator pode entrar em
causa. A digitalina é uma droga que age diretamente sobre o
coração, como eu lhes disse, sendo receitada em certos
casos. Pois bem: uma pessoa, naquela casa, sofria do
coração. E se tiver sido ela a vítima escolhida? O que não
seria fatal para os demais, seria fatal para ela, ou o assassino
poderia razoavelmente supor tal coisa. A circunstância de os
fatos terem sido outros constitui apenas uma prova do que eu
estava dizendo há pouco: sobre a incerteza e a falta de
confiança no efeito das drogas sobre os seres humanos.
— Sir Ambrose — observou Sir Henry. — Você acha que
ele foi a pessoa visada. Sim, sim. E que a morte da moça foi
um erro.
— Quem ficaria com o dinheiro dele depois de sua morte? —
indagou Jane.
— Pergunta muito criteriosa, Miss Helier. — Uma das
primeiras que eu sempre fazia em minha antiga profissão —
comentou Sir Henry.
— Sir Ambrose tinha um filho — informou Mrs. Bantry,
falando devagar. — Havia cortado relações com o pai muitos
anos antes. Acho que o rapaz era um insensato. No entanto,
Sir Ambrose não tinha poderes para deserdá-lo. Clodderham
Court era inalienável. Martin Bercy herdara o título do pai e
a propriedade. Mas havia muitos outros bens que Sir
Ambrose poderia deixar para quem quisesse e os legou a
Sylvia, sua pupila. Eu sei disso porque Sir Ambrose morreu
menos de um ano após os acontecimentos que estou
contando, e não se preocupou em fazer um novo testamento
depois da morte de Sylvia. Penso que o dinheiro tocou a
Crown, ou, talvez, ao filho dele, na qualidade de parente
mais próximo. Realmente não me lembro do que aconteceu.
— Por isso interessava apenas a um filho de Sir Ambrose, que
não estava presente, e à jovem, que morreu, livrar-se dele —
observou Sir Henry pensativamente. — Isso não me parece
muito promissor.
— A outra mulher não recebeu nada? — indagou Jane.
— Aquela que Mrs. Bantry chamou de gata.
—- Não foi contemplada no testamento — informou Mrs.
Bantry.
— Miss Marple, a senhora não está prestando atenção —
disse Sir Henry. — Está com seus pensamentos muito longe
daqui.
— Eu estava me lembrando do velho boticário, Mr. Badger.
— Tinha uma caseira muito jovem, que poderia ser não
apenas filha dele, mas neta. Ele não disse nada a ninguém. A
família, uma porção de sobrinhos, todos cheios de esperan-
ças! Quando ele morreu, vocês acreditam que tinha se casado
secretamente com a moça dois anos antes? Naturalmente Mr.
Badger era um boticário, e também um homem idoso, pouco
educado e vulgar, ao passo que Sir Ambrose Bercy era um
cavalheiro muito fino, assim disse Mrs. Bantry. Mas apesar
disso a natureza humana é muito parecida em toda parte.
Houve uma pausa. Sir Henry olhou firmemente para Miss
Marple, que o fitou de um jeito amável, com aqueles seus
oihos azuis meio irônicos.
— Essa Mrs. Carpenter era bonita? — indagou ela?
— Sim, era bonita à sua maneira. Muito tranqüila. Não tinha
nada de chamar a atenção.
— Tinha uma voz agradável — observou o Coronel Bantry.
— Parecia o ronrom de uma gata. Assim que eu a chamaria
— comentou Mrs. Bantry.
— Um dia desses você vai se chamar de gata, Dolly —
declarou o Coronel Bantry.
— Eu gosto de ser gata no meu círculo doméstico — afirmou
Mrs. Bantry. — De qualquer maneira, não aprecio muito as
mulheres, você sabe disso. Gosto dos homens e das flores.
— Um gosto excelente — observou Sir Henry. —
Especialmente porque os homens são colocados em primeiro
lugar.
— Foi uma questão de tato — comentou Mrs. Bantry.
— Bem. E meu pequeno problema? Acho que fui
absolutamente imparcial. Arthur, você não acha que eu fui
imparcial?
— Sim, minha querida. Penso que não haverá nenhum
inquérito sobre o páreo, feito pelos administradores do
Jockey Club.
— O senhor será o primeiro — declarou Mrs. Bantry,
apontando para Sir Henry.
— Vou ser muito cheio de rodeios — disse Sir Henry.
— Isso porque, a senhora compreende, realmente não tenho
a menor certeza a respeito da questão. Em primeiro lugar,
vejamos Sir Ambrose. Ele não poderia adotar um processo
tão original de suicidar-se e, por outro lado, não teria nada a
ganhar com a morte da pupila. Sir Ambrose sairá da cena.
Agora temos Mr. Curie. Nenhum motivo para matar a moça.
Se Sir Ambrose era a pessoa visada, Mr. Curie poderia ter
furtado um ou dois manuscritos raros. Ninguém mais iria dar
por falta deles. Muito frágil e muitíssimo improvável. Por
isso eu penso que Mr. Curie, apesar das suspeitas de Mrs.
Bantry quanto às suas roupas íntimas, é inocente. Miss Wye.
Motivo para matar Sir Ambrose: nenhum. Motivo para matar
Sylvia: bastante forte. Ela queria o homem de Sylvia, e o
queria muito, segundo nos disse Mrs. Bantry. Esteve com
Sylvia naquela manhã, no jardim, por isso teve oportunidade
de colher as tais folhas. Não. Não podemos afastar Miss Wye
assim tão facilmente. O jovem Lorimer. Tinha um motivo
para matar qualquer dos dois. Se ele se livrasse de sua
namorada, poderia casar-se com a outra moça. Em todo caso,
parece-me um pouco drástico que fosse matá-la. O que
significa, hoje em dia, o rompimento de um noivado? Se Sir
Ambrose morresse, ele se casaria com uma jovem rica, em
vez de casar-se com outra, pobre. Isso poderia ser ou não
importante, dependendo de sua situação financeira. Se eu
descobrir que sua propriedade estava gravada por uma pesada
hipoteca... e Mrs. Bantry deliberadamente nos ocultou esse
fato, afirmarei que houve parcialidade. Agora, vejamos Mrs.
Carpenter. Querem saber de uma coisa? Eu suspeito de Mrs.
Carpenter. Aquelas mãos brancas, e seu excelente álibi
quanto à hora em que as ervas foram colhidas. Eu sempre
desconfio dos álibis. Tenho ainda outra razão para suspeitar
dela, que guardarei para mim. Mesmo assim, tudo
considerado, se tiver de fazer uma conjectura, direi que a
culpada foi Miss Maud Wye, porque há mais indícios contra
ela do que contra qualquer outra pessoa.
— O seguinte — disse Mrs. Bantry, apontando para o Dr.
Lloyd.
— Eu acho que você está enganado, Clithering, em apegar-se
à teoria de que houve a intenção de causar a morte da moça.
Estou convencido de que o assassino pretendeu eliminar Sir
Ambrose. Não creio que o jovem Lorimer tivesse os
conhecimentos necessários para isso. Estou inclinado a crer
que a culpada foi Mrs. Carpenter. Morava há muito tempo
com aquela família, conhecia tudo a respeito do estado de
saúde de Sir Ambrose, e poderia facilmente arranjar meios e
modos para que a jovem Sylvia (que a própria Mrs. Bantry
declarou ser bastante pouco inteligente) apanhasse as folhas
apropriadas. Quanto ao móvel do crime, confesso que não
vejo qual tenha sido. Mas eu me arrisco a supor que Sir
Ambrose tenha feito, em alguma ocasião, um testamento em
que ela era beneficiada. Isso é o máximo que sou capaz de
dizer.
Mrs. Bantry apontou para Jane Helier.
— Eu não sei o que dizer — declarou Jane — exceto o
seguinte: Por que a própria moça não poderia ter feito
aquilo?
Afinal de contas, levou as folhas para a cozinha. E a senhora
nos disse que Sir Ambrose estava firmemente contra seu
casamento. Se ele morresse, ela obteria o dinheiro e poderia
casar-se imediatamente. Sabia tanto a respeito da saúde de Sir
Ambrose quanto Mrs. Carpenter.
O dedo de Mrs. Bantry moveu-se lentamente, apontando
para Miss Marple. E disse o seguinte:
— Vamos, senhora erudita.
— Sir Henry colocou a questão de maneira muito clara,
muito clara, mesmo — declarou Miss Marple. — E o Dr.
Lloyd teve tanta razão no que afirmou! Os dois juntos pare-
cem ter tornado as coisas tão claras! Mas eu apenas acho que
o Dr. Lloyd não se apercebeu muito bem de um dos aspectos
do que nos disse. Não sendo o médico de Sir Ambrose, não
poderia saber exatamente que espécie de perturbação
cardíaca Sir Ambrose teria. Não é isso mesmo?
— Eu não entendo muito bem o que a senhora quer dizer,
Miss Marple — comentou o Dr. Lloyd.
— O senhor presumiu que Sir Ambrose teria um coração
capaz de ser adversamente ifeiado pela digitalina? Mas nada
prova que assim era. Poderia ser exatamente o contrário.
Sim. O senhor disse que a digitalina é muitas vezes receitada
no caso de perturbações cardíacas.
— Mesmo assim, Miss Marple, não percebo a que isso nos
possa conduzir — observou o Dr. Lloyd.
— Bem. Isso significa que ele poderia ter digitalina em casa
de maneira muito natura!, sem ser obrigado a dar explicações
sobre isso. O que estou procurando dizer (eu sempre me
exprimo tão mal) é o seguinte: Imaginemos que uma pessoa
quisesse envenenar alguém com uma dose fatal de digitalina.
O meio mais simples e fácil não seria proceder de sorte que
todas as pessoas fossem envenenadas de fato com folhas de
digitalina? Isso não seria fatal no caso de qualquer outra
pessoa, naturalmente, mas ninguém ficaria surpreendido se
houvesse uma vítima, pois o Dr. Lloyd declarou que essas
coisas são tão incertas. Provavelmente ninguém iria indagar
se a moça havia realmente ingerido uma dose fatal de uma
infusão de digitalina, ou coisa parecida. Ele poderia tê-la
posto num coquetel ou no café, ou ter feito a jovem tomá-la
como se fosse simplesmente um tônico.
— A senhora está dizendo que Sir Ambrose envenenou sua
pupila, a encantadora jovem de quem gostava tanto?
— Exatamente — disse Miss Marple. — Como fez Mr. Badger
com sua jovem caseira. Não me digam que é um absurdo
para um homem de sessenta anos apaixonar-se por uma
menina de vinte. É coisa que acontece todos os dias. Eu
afirmo que no caso de um velho autocrata como era Sir
Ambrose, isso poderia transtorná-lo. Não conseguia admitir a
idéia de vê-la casada, fez o que pôde para impedir o
casamento, e sem êxito. Seus desvairados ciúmes tornaram-
se tão violentos que preferiu matá-la a permitir que ela se
fosse com o jovem Lorimer. Deve ter pensado nisso com
alguma antecedência porque teria de semear a digital entre a
salva. Ele próprio a colheria no momento oportuno e a
mandaria à cozinha juntamente com a salva. £ horrível
pensar nisso, mas devemos assumir uma atitude indulgente,
se pudermos. Os homens daquela idade são às vezes muito
estranhos, mesmo quando se trata de moças ainda jovens. O
nosso último organista... Mas eu não devo falar sobre
escândalos.
— Então foi assim, Mrs. Bantry? — indagou Sir Henry.
— Mrs. Bantry fez um gesto de assentimento com a cabeça,
acrescentando:
— Foi. Eu não fazia a menor idéia a esse respeito. Jamais
imaginei que não tivesse sido outra coisa. Mas apenas um
acidente. No entanto, após a morte de Sir Ambrose, eu
recebi uma carta. Ele deixara instruções para que essa carta
me fosse enviada. Nela contava-me a verdade. Não sei por
que, mas eu e ele sempre nos entendemos muito bem.
No silêncio que reinou durante alguns momentos, ela pa-
receu sentir que havia contra ela uma crítica não expressa
em palavras. Assim acrescentou mais que depressa:
— Todos estão pensando que eu traí uma confidência que
me foi feita, mas esse não foi o caso. Mudei todos os nomes.
Ele realmente não se chamava Sir Ambrose Bercy. Não
repararam como Arthur olhou para mim com um ar meio
tolo quando mencionei esse nome? A princípio ele hão
entendeu a coisa. Eu mudei tudo. Como se diz nas revistas
ilustradas e no começo dos livros: "Todas as personagens
desta história são puramente fictícias." Nunca se sabe quem
são elas na realidade.

12
O Caso do Bangalô

— Eu JÁ PENSEI NUM CASO — declarou Jane Helier.
Seu lindo rosto iluminou-se num sorriso confiante, como o
de uma criança à espera de aprovação. Era um daqueles sor-
risos que perturbavam o público de Londres, todas as noites,
e que fizera a fortuna dos fotógrafos.
— Aconteceu com uma de minhas amigas — prosseguiu
Jane, cuidadosamente.
Todos murmuraram algumas palavras hipócritas, mas de
estímulo. O Coronel Bantry, Mrs. Bantry, Sir Henry
Clithering, o Dr. Lloyd e a velha Miss Marple estavam
convencidos de que a amiga de Jane era ela própria. Teria
sido incapaz de se lembrar de qualquer coisa que tivesse
afetado outra pessoa, ou de se interessar por isso.
— Minha amiga — continuou Jane — (não irei mencionar
seu nome), era uma atriz, uma atriz muito conhecida.
Ninguém manifestou qualquer surpresa. Sir Henry Clithering
pensou o seguinte: fico imaginando quantas frases irão se
seguir até que ela se esqueça de manter a ficção e diga "Eu"
em vez de dizer "Ela".
— Minha amiga estava realizando uma tournée pelas
províncias. Isso aconteceu há uns dois anos. Creio que é
melhor não lhes dizer o nome do lugar. Era uma cidade à
beira de um rio, não muito longe de Londres. Eu a chamarei
de...
Jane fez uma pausa, com a testa franzida, cheia de
perplexidade. Até mesmo inventar um simples nome parecia
estar muito acima de sua capacidade. Sir Henry foi em
socorro de Miss Helier, sugerindo, gravemente:
— Vamos chamá-la de Riverbury?
— Sim. Serviria esplendidamente. Riverbury. Eu me
lembrarei desse nome. Bem, como eu ia dizendo, essa...
amiga estava em Riverbury com sua companhia teatral,
quando aconteceu uma coisa muito curiosa.
Ela franziu a lesta novamente e declarou, num tom de
queixa:
— É muito difícil pura uma pessoa dizer exatamente o que
quer. Mistura as coisas e conta primeiro as que deveriam vir
depois.
— A senhora está indo muito bem — comentou o Dr. Lloyd
num tom encorajador. — Continue.
— Bem. Aconteceu uma coisa curiosa. Minha amiga foi
convidada a comparecer ao distrito policial. E lá foi. Parece
que tinha havido um furto num bangalô que ficava à beira do
rio, e que havia sido preso um jovem. Ele tinha contado uma
história meio estranha. Por isso mandaram chamar minha
amiga.
Ela nunca tinha estado num distrito policial, mas as pessoas
foram gentis com ela, muito gentis mesmo.
— Teriam de ser, disso eu estou certo — declarou Sir Henry.
— O sargento, creio que foi o sargento, ou talvez tenha sido
um inspetor, ofereceu-lhe uma cadeira e explicou os fatos.
Naturalmente eu imediatamente vi que havia algum engano.
— Ah! — pensou Sir Henry. — "Eu". Chegamos ao ponto
que eu imaginei.
— Minha amiga assim disse — continuou Jane, parecendo
não ter consciência de haver se traído. — Explicou que tinha
estado ensaiando seu papel, no hotel, que nunca ouvira falar
naquele Mr. Faulkener. E o sargento disse: "Miss Hei..."
Ela parou, enrubescendo.
— Miss Heiman — sugeriu Sir Henry, piscando um olho.
— Sim, sim. Serve. Muito obrigada. Ele disse: "Bem, Miss
Heiman, eu achei que deveria haver algum engano, sabendo
que a senhora estava hospedada no Bridge Hotel." E
perguntou se eu faria alguma objeção em acarear, ou seria,
ser acareada? Não me lembro.
— Isso realmente não tem importância — disse Sir Henry
num tom tranqüilizador.
— De qualquer maneira, acareada ou ser acareada com o
jovem. Por isso eu declarei: "Sem dúvida que não." Eles
trouxeram o homem e disseram: "Esta senhora é Miss
Helier", e... Jane interrompeu o que estava dizendo, e fez
"Oh!".
— Não se preocupe, minha querida — disse Miss Marple,
num tom consolador. — Nós estávamos obrigadas a
adivinhar. E você não nos disse o nome do lugar, nem
qualquer coisa realmente importante.
— Bem — prosseguiu Jane. — Eu de fato pensei em lhes
contar o caso como se tivesse acontecido com outra pessoa.
Mas isso é difícil, não é mesmo? Eu quero dizer, a gente se
esquece.
Todos lhe asseguraram que aquilo era muito difícil.
Tranqüilizada, ela continuou sua narrativa um tanto
complicada:
— Ele era um homem de boa aparência, realmente de muito
boa aparência. Era jovem e tinha cabelos ruivos. Limitou-se a
ficar de boca aberta quando me viu. E o sargento indagou:
"Esta é a senhora?" O homem respondeu: "Não. Não é ela
Como eu fui idiota." Eu sorri, dizendo que aquilo não tinha
importância.
— Eu posso imaginar a cena — declarou Sir Henry.
— Deixe-me ver — disse Jane. — Como será melhor eu
continuar?
— Que tal se nos disser de que se tratava, querida — sugeriu
Miss Marple, de um jeito tão -suave que ninguém poderia
suspeitar que estaria sendo irônica. — Eu quero dizer, qual
foi o engano do jovem. E qual foi o furto.
— Ahh sim! — exclamou Jane. — Bem, aquele jovem... o
nome dele era Leslie Faulkener, havia escrito uma peça. Na
realidade já havia escrito várias, embora nenhuma delas
tivesse sido encenada. Tinha-me enviado aquela peça para
que eu a lesse. Eu não sabia disso porque me enviam,
naturalmente, centenas de peças, e eu leio muito poucas
dessas peças. Somente aquelas de que sei alguma corsa. De
qualquer modo, os fatos foram os seguintes: parece que Mr.
Faulkener recebera uma carta minha, mas essa carta não era
realmente minha. Compreenderam?
Ela fez uma pausa, cheia de ansiedade, e todos lhe asse-
guraram haver tudo compreendido.
— A carta dizia que eutinha lido a peça, gostado muito dela,
e que ele deveria vir conversar comigo sobre o assunto.
A carta dava um endereço: O Bangalô, Riverbury. Por isso
Mr. Fauikener tinha ficado muitíssimo satisfeito e se dirigira
ao tal lugar: o Bangalô. Uma empregada abriu-lhe a porta e
ele perguntou por Miss Helier. Ela disse que Miss Helier
estava à sua espera, fazendo-o entrar na sala de visitas, onde
uma mulher se dirigiu a ele. O jovem naturalmente admitiu
que fosse eu, o que me parece estranho porque, afinal de
contas, tinha me visto representar, no palco, e minhas
fotografias são muito conhecidas, não é verdade?
— Em toda a Inglaterra — declarou Mrs. Bantry pronta-
mente. — Mas existe uma grande diferença entre uma
fotografia e seu original, minha querida Jane. E também há
uma grande diferença entre estar às luzes da ribalta e fora do
palco. Não são todas as atrizes que passam nesse teste tão
bem como você. Lembre-se disso.
— Bem — disse Jane, ligeiramente apaziguada. — Pode ser
que seja isso. De qualquer maneira, ele descreveu a tal
mulher como sendo alta e loura, com grandes olhos azuis e
muito bonita. Por isso eu suponho que fosse bastante
parecida comigo. Ela sentou-se, começou a falar sobre a peça
e disse que estava disposta a representá-la. Certamente ele
não suspeitou de nada. Enquanto ficaram conversando,
foram servidos uns coquetéis e Mr. Fauikener tomou um,
naturalmente. Bem, é só do que ele se lembra: ter tomado
um coquetel. Quando acordou, ou recobrou os sentidos, ou
que nome se dê a isso, estava deitado no meio da estrada,
junto a uma sebe para que não corresse perigo de ser
atropelado. Sentiu-se muito esquisito e fraco, a tal ponto que
apenas se levantou e foi cambaleando pela estrada, sem saber
direito para onde estava se dirigindo. Declarou que se tivesse
em plena consciência do que fazia teria voltado ao Bangalô e
tentado descobrir o que acontecera. Mas sentia-se apenas
apalermado e aturdido, e foi caminhando sem saber o que
fazia. Estava mais ou menos recobrando a consciência
quando a polícia o prendeu.
— Por que a polícia o prendeu? — indagou o Dr. Lloyd.
— Ah! Eu não lhes disse? — indagou Jane arregalando muito
os olhos. — Foi por causa do furto. Que tolice minha.
— Você mencionou um furto — observou Mrs. Bantry.
— Mas não disse onde foi praticado, o que foi furtado, e
porque houve esse furto.
— Bem, esse bangalô, o tal onde ele foi, não era meu,
naturalmente. Pertencia a um homem chamado...
Jane voltou a franzir a testa.
— Quer que eu sirva de padrinho outra vez? — indagou Sir
Henry. — Pseudônimos fornecidos de graça. Descreva-me o
ocupante da casa que eu darei um nome a ele.
— Tinha sido alugada por um homem rico, de Londres. Um
homem que possuía um título.
— Sir Herman Cohen — sugeriu Sir Henry.
— Serve às mil maravilhas. Ele alugara a casa para uma
mulher, a esposa de um ator. Ela também era atriz.
— Daremos ao ator o nome de Claud Leason — disse Sir
Henry. — E a senhora será conhecida pelo nome que usava
profissionalmente. Que tal se a chamarmos de Miss Mary
Kerr?
— Eu acho que o senhor é muito inteligente — declarou
Jane. — Não sei como pensa nessas coisas com tanta
facilidade. Bem. Para Sir Herman era uma espécie de chalé
de fim de semana. E para a tal mulher também.
Naturalmente a esposa de Sir Herman não sabia de nada.
— O que muitas vezes acontece — comentou Sir Henry.
— Ele tinha dado muitas jóias à tal mulher, entre elas umas
lindas esmeraldas.
— Ah! — exclamou o Dr. Lloyd. — Agora estamos chegando
ao ponto crucial da questão.
— Essas jóias estavam no bangalô, simplesmente guardadas
numa caixa de jóias. A polícia disse que aquilo tinha sido
uma grande falta de cuidado. Qualquer pessoa poderia tê-las
roubado.
— Você está vendo, Dolly? — comentou o Coronel Ban-try.
— O que eu lhe digo sempre?
— Na minha experiência — afirmou Mrs. Bantry — as
pessoas mais cuidadosas é que vivem a perder as coisas. Eu
não trancafio minhas jóias num estojo. Eu as guardo numa
gaveta, soltas, debaixo de minhas meias. Se a tal... Como é o
nome dela mesmo? Ah! Se Mary Kerr tivesse feito a mesma
coisa, as jóias dela nunca teriam sido surripiadas.
— Teriam, sim — disse Jane — porque todas as gavetas foram
arrombadas e espalhado pelo chão tudo que havia dentro
delas.
— Então eles não estavam realmente atrás das jóias — disse
Mrs. Bantry. — Estavam procurando alguns documentos
secretos, É assim que sempre acontece nos livros.
— Eu nada sei sobre documentos secretos — declarou Jane
num tom hesitante. — Nunca ouvi falar neles.
— Não fique perplexa, Miss Helier — observou o Coronel
Bantry. — As falsas pistas de Dolly não devem ser levadas a
sério.
— Fale sobre o furto — disse Sir Henry.
— Alguém que se disse chamar Miss Mary Kerr telefonou
chamando a polícia. Declarou que o bangalô tinha sido
assaltado e descreveu um jovem, de cabelos ruivos, que a
tinha visitado naquela manhã. Sua empregada achara que
havia nele algo de estranho e se recusara a deixá-lo entrar no
bangalô. Mais tarde, no entanto, elas o tinham visto dele sair
por uma janela. Descreveu o homem com tanta exatidão que
o policial o prendeu uma hora depois. Então ele contou sua
história, mostrando-lhes a carta que tinha recebido de mim.
Como eu lhes disse, mandaram me buscar. Quando o
homem me viu declarou o que já lhes contei: não tinha sido
eu, absolutamente!
— É uma história muito curiosa — declarou o Dr. Lloyd. —
O tal Mr. Faulkener conhece Miss Kerr?
— Não. Ou declarou que não a conhecia. Mas eu ainda não
lhes contei a parte mais curiosa da história. Naturalmente a
polícia visitou o bangalô, encontrando tudo tal qual havia
sido descrito: gavetas abertas e as jóias desaparecidas. Mas a
casa estava vazia. Somente muitas horas depois é que Mary
Kerr apareceu. E afirmou que não tinha telefonado,
chamando a polícia, e que era a primeira vez que estava
ouvindo aquela história... Parece que ela havia recebido um
telegrama de certo empresário, oferecendo-lhe um papel
muito importante, e marcando um encontro com ela. Por
isso tinha naturalmente ido sem demora a Londres, para não
faltar a esse encontro. Quando lá chegou, verificou que tudo
não passava de um embuste. Não havia sido passado nenhum
telegrama;
— Um estratagema bastante comum, empregado para afastá-
la do caminho — comentou Sir Henry. — E quanto às
empregadas?
— Aconteceu a mesma coisa. Só havia uma empregada, que
foi chamada ao telefone, aparentemente por Miss Kerr, que
declarou ter se esquecido de alguma coisa muito importante.
Deu instruções à empregada para que apanhasse uma bolsa,
que estava numa gaveta, em seu quarto. A moça deveria
tomar o primeiro trem para Londres. Assim ela fez,
naturalmente, depois de fechar a casa. Mas quando chegou
no clube de Miss Kerr, onde lhe haviam dito que encontraria
a patroa, lá ficou à sua espera, em vão.
— Hum! — resmungou Sir Henry. — Estou começando a
entender. A casa ficou vazia, e penetrar nela por uma janela
oferecia pouca dificuldade, eu imagino. Mas não percebo
muito bem como Mr. Faulkener entrou na história. Quem
telefonou para a polícia, se não foi Miss Kerr?
— Isso ninguém soube nem descobriu.
— É curioso — disse Sir Henry. — E o jovem era de fato a
pessoa que declarou ser?
— Sim. O papel que ele desempenhou estava certo. Tinha até
a carta que se supôs ter sido escrita por mim. Nada que se
parecesse com minha caligrafia. Mas, naturalmente, não se
poderia imaginar que ele a conhecesse.
— Bem, vamos estabelecer claramente a situação — disse Sir
Henry. — Corrija-me se eu me enganar. A tal moça e a
empregada foram induzidas a sair da casa. O jovem foi
induzido a ir até lá, por meio de uma carta falsa, sendo
atribuída verossimilhança a essa carta pelo fato de a senhora
estar realmente trabalhando em Riverbury, naquela semana.
O jovem foi narcotizado e telefonaram à polícia, fazendo as
suspeitas recaírem diretamente sobre ele. Um roubo havia de
fato sido praticado. Presumo que levaram as jóias.
— Sim.
— Foram recuperadas?
— Não, nunca. Creio que Sir Herman de fato procurou abafar
a coisa, do jeito que pôde. Mas não conseguiu. Eu imagino
que sua esposa entrou com um processo de divórcio em
conseqüência disso. Mas de fato nada sei.
— Que aconteceu com Mr. Leslie Faulkener?
— Finalmente, foi posto em liberdade. A polícia declarou que
não tinha provas suficientes contra ele. O senhor não acha
que todo esse caso toi bem estranho?
— Positivamente estranho. A primeira pergunta a fazer é a
seguinte: Deve-se acreditar na versão de quem? Quando a
senhora narrou a de Mr. Faulkener, Miss Helier, eu reparei
que estava inclinada a acreditar nele. Terá algum motivo para
isso, além de sua própria intuição a respeito do assunto?
— Não, absolutamente — afirmou Jane meio a contragosto.
— Eu acho que não tenho qualquer motivo para isso. Mas ele
foi tão gentil, desculpou-se tanto por me haver confundido
com outra pessoa. Tive certeza de que deveria estar dizendo
a verdade.
— Eu compreendo — comentou Sir Henry, sorrindo.
— Mas a senhora há de admitir que ele poderia facilmente ter
inventado aquela história. Ter escrito a carta, fazendo-a
passar por sua. Poderia também narcotizar-se depois de
praticado o roubo com êxito. Mas confesso não perceber
onde estaria a pertinência de tudo isso. Teria sido mais fácil
penetrar na casa, servir-se do que queria e desaparecer
calmamente. A menos que tivesse possivelmente sido
observado por alguém da vizinhança e soubesse que havia
sido visto. Então teria podido facilmente arquitetar seu plano,
isso para afastar as suspeitas que recairiam sobre ele e
justificar sua presença naquele lugar.
— Ele era pessoa de recursos? — indagou Miss Marple.
— Eu creio que não — disse Jane. — Acredito que estava em
situação bem difícil.
— Toda a questão me parece curiosa — observou o Dr.
Lloyd. — Devo confessar que se aceitarmos a história do
jovem como verídica, o caso torna-se muito mais
complicado. Por que motivo uma mulher desconhecida, que
se fez passar por Miss Helier, teria de arrastar aquele
estranho e envolvê-lo no problema. Por que razão haveria de
encenar uma comédia tão complicada?
— Explique-me só uma coisa, Jane — disse Mrs. Bantry.
— O jovem Faulkener encontrou-se frente a frente com
Mary Kerr em alguma fase do inquérito?
— Isso eu não sei — respondeu Jane, falando muito devagar,
de cenho franzido e dando tratos à memória.
— Se ele não fez isso o caso está resolvido — declarou Mrs.
Bantry. — Garanto que estou certa. O que haveria de ser
mais fácil do que fingir que uma pessoa tinha sido chamada a
Londres? A pessoa telefona para a empregada, da Estação de
Paddington, ou de qualquer outra. E quando a empregada
aparece em Londres, essa pessoa torna a voltar. O jovem
chega para o encontro marcado, é narcotizado, a pessoa arma
a cena do roubo, exagerando o mais que pode. Telefona para
a polícia, forja uma descrição do bode expiatório, e vai
novamente para Londres. Depois volta para casa, num trem
mais tarde, e faz o papel de inocente, colhida de surpresa.
— Mas por que haveria de furtar as próprias jóias, Dolly?
indagou o coronel.
— Elas sempre fazem isso — declarou Mrs. Bantry. — De
qualquer maneira, sou capaz de imaginar centenas de
motivos. Poderá ter querido arranjar dinheiro
imediatamente. Ou então poderá ter sido vítima da
chantagem de alguém que ameaçou contar o que havia ao
marido dela ou à esposa de Sir Herman. Talvez já tivesse
vendido as jóias e Sir Herman andava impaciente, pedindo
para vê-las. Por isso ela teve de dar um jeito a respeito das
jóias. Isso acontece muitas vezes nos livros. Ou então ele
estava com a intenção de modificar as jóias, mandar fazer
novos engastes para elas, e a mulher havia arranjado umas
réplicas das jóias. Ou, ainda, isso é uma idéia muito boa, não
muito aproveitada nos livros, ela fingiu que as jóias haviam
sido roubadas. Ficou num estado de nervos horrível, e ele
lhe deu outras. Desse modo ela ficou com dois conjuntos de
jóias, em vez de um só. Eu bem sei que essa espécie de
mulheres é terrivelmente astuciosa.
— Você é muito inteligente, Dolly — disse Jane num tom de
admiração. — Eu nunca tinha pensado nisso.
— Você pode ser inteligente, Dolly, mas Jane não disse que
você está com a razão — observou o Coronel Bantry. —
Sinto-me inclinado a suspeitar do tal senhor da cidade. Ele
saberia que tipo de telegrama seria capaz de afastar a mulher,
e poderia arranjar tudo mais facilmente com a ajuda de
alguma nova amizade feminina. Ninguém parece ter pensado
em pedir-lhe que apresentasse um álibi.
— E o que acha Miss Marple? — indagou Jane, voltando-se
para a velha senhora que tinha permanecido sentada, em
silêncio, com uma ruga de perplexidade na testa.
— Minha querida, realmente eu não sei o que dizer. Sir
Henry vai achar engraçado, mas, desta vez, não me recordo
de nenhum paralelo, na vila, que me possa ajudar. Natural-
mente há muitos problemas sugestivos. Por exemplo, o da
empregada. Nesses... lares irregulares do tipo que você nos
descreveu, a empregada estaria, sem a menor dúvida,
perfeitamente a par da situação. E uma moça de fato decente
não aceitaria um emprego daqueles. Sua mãe não lhe
permitiria isso, nem por um instante. Assim penso que
podemos presumir que a empregada não era realmente digna
de confiança quanto ao seu caráter. Poderia estar combinada
com os ladrões. Deixaria a casa aberta para eles e iria de fato
até Londres, embora tivesse certeza do falso recado
telefônico. Isso para afastar as suspeitas de sua pessoa. Eu
devo confessar que essa me parece a solução mais provável.
Mas se os ladrões foram de tipo comum, isso me parece
muito estranho. Parece atribuir p uma empregada maiores
conhecimentos do que ela provavelmente teria.
Miss Marple fez uma pausa e prosseguiu num tom sonhador:
— Eu não consigo deixar de sentir que houve alguma. . .
bem, alguma coisa que devo descrever como impressão
pessoal a respeito de todo esse caso. E se alguém estivesse
despeitado, por exemplo? Uma jovem atriz que ele não
tivesse tratado bem? Não acha que isso explicaria melhor as
coisas? Uma tentativa deliberada de colocá-lo em apuros. Isso
é que parece ter havido. No entanto, não seria inteiramente
satisfatório. . .
— Mas, doutor, o senhor não disse nada! — exclamou Jane.
— Eu tinha me esquecido do senhor.
— Eu estou sempre sendo esquecido — disse com tristeza o
médico de cabelos grisalhos. — Devo ter uma personalidade
insignificante.
— Oh, não! — exclamou Jane. — Diga-nos, por favor, o que
o senhor pensa a respeito do caso.
— Eu me encontro na posição de concordar com as soluções
apresentadas por todos, e, no entanto, não aceito nenhuma
delas. Tenho uma teoria meio artificial. Provavelmente
infundada: a esposa tem a ver alguma coisa com o caso. A
esposa de Sir Herman, eu quero dizer. Não tenho o menor
fundamento para pensar desse modo, mas a senhora ficaria
surpreendida se soubesse que coisas extraordinárias,
realmente muito extraordinárias, uma mulher enganada se
propõe a fazer.
— Oh, Dr. Lloyd! — exclamou Miss Marple, emocionada. —
Que observação inteligente a sua. Eu nunca tinha pensado na
pobre Mrs. Pebmarsh.
Jane olhou para ela e indagou:
— Mrs. Pebmarsh? Quem é Mrs. Pebmarsh?
— Bem — começou Miss Marple num tom meio hesitante.
— Não sei se ela realmente se enquadra no caso. É uma
lavadeira. Furtou um broche de opala, espetou-o numa blusa
e a entregou na casa de outra mulher.
Jane parecia mais confusa do que nunca.
— Isso torna tudo perfeitamente claro para a senhora, Miss
Marple? — indagou Sir Henry, piscando um olho.
Com surpresa para ele, Miss Marple abanou a cabeça e disse:
—f Não. Eu acho que não. Confesso que estou comple-
tamente perplexa. O que eu percebo é que nós, mulheres,
devemos nos unir. Numa situação de emergência, devemos
ficar ao lado das pessoas do nosso sexo. Penso que essa é a
moral da história que Miss Helier nos contou.
— Eu devo confessar que me escapou a significação ética do
mistério — declarou Sir Henry gravemente. — Talvez per-
ceba a importância de sua observação de maneira mais clara
quando Miss Helier nos revelar a solução do caso.
— Como! — disse Jane bastante perplexa.
— Eu estava observando, para empregar a linguagem das
crianças, que nós "entregamos os pontos". A senhora, Miss
Helier, e somente a senhora, mereceu a elevada honra de
nos apresentar um mistério absolutamente desconcertante.
Até Miss Marple tem de se confessar derrotada.
— Todos entregam os pontos? — indagou Jane.
— Sim. — Após um minuto de silêncio, durante o qual ficou
à espera de que as outras pessoas falassem, Sir Henry mais
uma vez tornou-se o porta-voz dos demais. — Isso quer
dizer que nós ficamos nas soluções vagas que apresentamos à
guisa de tentativas. Uma de cada homem, duas de Miss
Marple, e uma dúzia de Mrs. B.
— Não foi uma dúzia — declarou Mrs. Bantry. — Eram
variações de ura tema principal. E quantas vezes terei de lhe
dizer que não quero ser chamada de Mrs. B.?
— Então todos entregam os pontos — disse Jane num tom
pensativo. — Isso é muito interessante.
— Bem, vamos, Jane — disse Mrs. Bantry. — Qual é a
solução?
— A solução? — indagou Jane.
— Sim. O que de fato aconteceu? Jane olhou para Mrs.
Bantry e disse:
— Eu não faço a menor idéia.
— Como?
— Sempre pensei nisso. Eu pensei que todos aqui eram tão
inteligentes que alguém seria capaz de me dizer o que
aconteceu.
Todos ficaram meio aborrecidos. Era maravilhoso que Jane
fosse tão linda. Mas, naquele momento, aquelas pessoas
estavam achando que a falta de inteligência às vezes pode ir
longe demais. Nem o mais extraordinário encanto seria capaz
de desculpar aquilo.
— A senhora quer dizer que a verdade nunca foi descoberta?
— indagou Sir Henry.
— Exatamente. Por isso eu de fato pensei que alguém daqui
pudesse me dizer o que aconteceu.
Jane parecia magoada. Era claro que estava ressentida.
— Bem. Eu... eu. .. — começou a falar o Coronel Bantry,
sem encontrar as palavras.
— Você é a criatura mais irritante deste mundo — disse Mrs.
Bantry. — De qualquer maneira, eu tenho certeza, e sempre
a terei, de que estou com a razão. Se você nos disser apenas
os verdadeiros nomes de todas as pessoas, eu ficarei
absolutamente certa de tudo.
— Isso eu acho que não posso fazer — disse Jane, falando
muito lentamente.
— Não, minha querida — interveio Miss Marple. — Miss
Helier não poderia fazer isso.
— Mas de certo que poderia — afirmou Mrs. Bantry. — Não
seja tão magnânima, Jane. Nós, os mais velhos, temos
necessidade de um pouco de escândalo. Pelo menos diga
quem era o magnata de Londres.
Jane abanou a cabeça e Miss Marple, com seu jeito meio
antiquado, continuou a apoiá-la, observando o seguinte:
— Deve ter sido uma coisa muito angustiante.
— Não — comentou Jane num tom de sinceridade. — Eu
acho que gostei bastante daquilo.
— Bem, talvez tenha gostado — comentou Miss Marple. —
Suponho que lhe serviu para quebrar a monotonia. Em que
peça estava tomando parte?
— Em Smith.
— Ah, sim. Aquela peça de Somerset Maugham. Acho que
todas as peças que ele escreve são muito engenhosas. Já as-
sisti a quase todas.
— Você vai reapresentá-la em sua excursão do próximo
outono, não é verdade? — indagou Mrs. Bantry.
Jane confirmou essas palavras com um gesto de cabeça.
— Bem — disse Miss Marple, levantando-se. — Eu preciso ir
para casa. É tão tarde! Mas nós passamos uma noite muito
divertida. Excepcionalmente divertida. Acredito que a
história de Miss Helier ganhou o prêmio. Não concordam
comigo?
— Eu lamento que estejam zangados comigo — disse Jane. —
Eu quero dizer, porque eu não sei que fim teve a história.
Creio que deveria lhes ter dito isso antes.
O tom de sua voz revelava ansiedade. O Dr. Lloyd portou-se
nobremente à altura das circunstâncias, declarando o
seguinte:
— Minha jovem e prezada senhora: Por que afligir-se? A
senhora nos proporcionou um problema muito interessante
como estimulo à nossa sagacidade. Apenas deploro que
nenhum de nós tenha podido resolvê-lo de modo
convincente.
— Fale em seu nome — disse Mrs. Bantry. — Eu o resolvi.
Estou convencida de que tenho razão.
— Quer saber de uma coisa? — observou Jane. — Eu
realmente acredito que você tenha razão. O que disse me
parece tão provável!
— A qual das sete soluções a senhora se refere? — indagou
Sir Henry num tom meio implicante.
O Dr. Lloyd gentilmente ajudou Miss Marple a calçar suas
galochas. "Pode ser que chova", explicou a velha senhora. O
médico ia acompanhá-la até sua casa, em estilo antigo.
Enrolada em vários chalés de lã, Miss Marple deu boa-noite a
todos, mais uma vez. Despediu-se por último de Jane Helier.
Curvando-se um pouco, murmurou alguma coisa no ouvido
da atriz. Jane soltou um "Ah!", de espanto, tão alto que as
outras pessoas se voltaram para ela.
Miss Marple saiu sorridente e abanando a cabeça, ao passo
que Jane ficou olhando fixamente para ela.
— Você não vem se deitar, Jane? — indagou Mrs. Bantry. —
O que há com você? Você está com uma cara de quem viu
algum fantasma.
Jane deu um profundo suspiro e voltou ao seu natural.
Sorrindo para os dois homens, aquele seu sorriso que os
deixava meio atordoados, subiu as escadas em companhia de
sua anfitriã. Mrs. Bantry entrou no quarto de Jane em sua
companhia, e disse:
— Sua lareira está quase apagada. — E atiçou o fogo de um
jeito impróprio e ineficiente, acrescentando: — Elas não
fizeram o fogo direito. Como são incapazes essas
empregadas. Mas eu acho que é bem tarde. Ora, veja. Já passa
de uma hora.
— Você acha que muitas pessoas gostam dela? — indagou
Jane Helier, sentada na beira da cama e, aparentemente,
mergulhada em seus pensamentos.
— Gostam da empregada?
— Não. Daquela senhora idosa e engraçada. Como é o nome
dela... não é Marple?
— Se gostam eu não sei. Creio que ela é um tipo muito
comum nas pequenas vilas.
— Ah, meu Deus! — exclamou Jane. — Eu não sei o que
fazer. — E deu um profundo suspiro.
— O que há, Jane? — indagou Mrs. Bantry.
— Estou preocupada.
— Preocupada por quê?
— Dolly — disse Jane com uma voz solene e de mau agouro.
— Você sabe o que aquela velha esquisita murmurou para
mim antes de sair pela porta?
— Não. O que foi?
— Ela disse o seguinte: Se eu fosse a senhora, não faria
isso, minha querida. Nunca se entregue demais ao
poder de outra mulher, ainda que pense que ela seja,
no momento, sua amiga. — Você sabe, Dolly, isso é uma
grande verdade.
— O quê? Essa máxima? Sim, talvez seja. Mas eu não percebo
sua aplicação.
— Eu acho que nunca se deve confiar realmente numa
mulher. E eu ficaria à sua mercê. Nunca tinha pensado nisso.
— De que mulher você está falando?
— De Netta Greene, minha substituta no palco.
— Mas o que Miss Marple sabe a respeito de sua substituta?
— Eu acho que ela adivinhou tudo, mas eu não entendo
como.
— Jane, você quer fazer o favor de me dizer logo de que está
falando?
— Estou falando sobre a história. A história que eu contei.
Oh, Dolly! Aquela mulher, você sabe, aquela que me roubou
Claud?
Mrs. Bantry fez que "sim" com um gesto de cabeça, voltando
rapidamente seus pensamentos para o último dos casamentos
infelizes de Jane, com Claud Averbury, um ator.
— Ela se casou com ele. E eu poderia ter dito a Claud o que
iria acontecer. Ele não sabe, mas aquela mulher tem um caso
com Sir Joseph Salmon. Passa os fins de semana com ele, no
bangalô a que eu me referi. Eu gostaria que ela fosse
desmascarada, que todos soubessem que espécie de mulher
ela é. Com um roubo, você compreende, tudo teria de ficar
esclarecido.
— Jane — disse Mrs. Bantry numa voz entrecortada —
Você arquitetou a história que nos contou?
Jane assentiu de cabeça, dizendo:
— Foi por isso que eu escolhi Smith. Eu uso um uniforme
de empregada, como você sabe. Eu deveria tê-lo à mão. E
quando eles me mandassem chamar, no distrito policial, seria
para mim a coisa mais fácil do mundo dizer que estava
ensaiando meu papel com minha substituta, no hotel. Sem
dúvida nós realmente estaríamos no bangalô. Bastaria que eu
abrisse a porta e trouxessem os coquetéis, e que Netta
fingisse que era eu. Ele nunca mais veria aquela mulher,
sem a menor dúvida, por isso não haveria perigo de que
pudesse reconhecê-la. E eu sou capaz de parecer muito
diferente, no papel de empregada. Além disso, ninguém olha
para empregadas, embora elas também sejam gente. Nós
planejamos arrastá-lo depois até a estrada, furtar a caixa de
jóias, telefonar para a polícia e voltar para o hotel. Eu não
gostaria que o pobre moço sofresse, mas Sir Henry disse que
não acreditava que ele fosse sofrer, não é mesmo? E ela
estaria nas manchetes dos jornais, e tudo mais. Claud veria o
que ela de fato é.
Mrs. Bantry sentou e começou a gemer:
— Ah! minha pobre cabeça! E durante todo o tempo, Jane
Helier foi uma embusteira. Contar aquela história da maneira
que você fez!
— Eu sou uma boa atriz — afirmou Jane num tom de
complacência. Sempre fui, não importa o que as pessoas
escolham o que eu deva dizer. Eu não me traí, não é mesmo?
— Miss Marple tinha razão — murmurou Mrs. Bantry. — O
fator pessoal. Oh! Sim, o fator pessoal, Jane, minha boa
menina. Você percebe que furto é furto, e que você poderia
ter sido mandada para a cadeia?
— Bem. Nenhum de vocês adivinhou — disse Jane. — Com
exceção de Miss Marple. — E seu rosto tornou a adquirir
uma expressão preocupada. — Dolly, você realmente acha
que há muita gente igual a ela?
— Francamente, não acho — disse Mrs. Bantry. Jane
suspirou novamente, acrescentando:
— Mesmo assim, é melhor uma pessoa não se arriscar.
Naturalmente eu estaria nas mãos de Netta. Isso é muito
verdadeiro. Ela poderia virar-se contra mim, fazer uma
chantagem comigo, qualquer coisa. Ela me ajudou a pensar
nos detalhes e declarou ser dedicada a mim. Mas nunca se
sabe, no caso de uma mulher. Não. Eu acho que Miss Marple
tem razão. Era melhor eu não arriscar.
— Mas, minha querida, você já se arriscou!
— Oh, não! — exclamou Jane arregalando muito os olhos. —
Você não está entendendo. Nada disso aconteceu ainda. Eu
estava. .. bem, fazendo um teste, por assim dizer.
— Eu não tenho a pretensão de entender sua gíria de teatro
— declarou Mrs. Bantry num tom cheio de dignidade. —
Você quer dizer que se trata de um futuro projeto, e não de
atos praticados no passado?
— Eu ia fazer isso no próximo outono, em setembro. Agora
não sei que fazer.
— E Miss Marple adivinhou, realmente adivinhou a verdade,
e não nos disse nada — comentou Mrs. Bantry com indig-
nação.
— Eu penso que por isso é que ela falou sobre as mulheres
que deveriam ser aliadas umas das outras. Ela não iria me
denunciar aos homens. Isso foi muito decente de sua parte.
Mas, eu não me importo que você saiba, Dolly.
— Bem, Jane, desista da idéia, eu lhe imploro.
— Eu acho que vou desistir — murmurou Miss Heber. —
Talvez existam outras Miss Marples.

13
Morte por Afogamento

SIR HENRY CLITHERING, ex-diretor da Scotland Yard, estava
hospedado em casa de seus amigos, os Bantrys, em sua
residência perto da pequena vila de St. Mary Mead.
Numa certa manhã de sábado, descendo para tomar o café da
manhã às dez horas e um quarto, hora confortável para um
hóspede, quase esbarrou em sua anfitriã, Mrs. Bantry, à porta
da sala de almoço. Ela estava saindo às pressas,
evidentemente num estado de certa excitação.
O Coronel Bantry estava sentado à mesa, mais rubicundo do
que de costume. E disse:
— Bom dia, Clithering. Bonito dia. Sirva-se.
Sim Henry obedeceu. No momento em que se sentou, com
um prato de rim e bacon à sua frente, seu anfitrião
prosseguiu:
— Dolly está meio perturbada hoje de manhã.
— É isso mesmo. Eu achei que sim — disse Sir Henry num
tom moderado. E ficou pensando durante algum tempo. Sua
anfitriã tinha um temperamento plácido, pouco inclinado ao
mau humor e ao nervosismo. Tanto quanto Sir Henry sabia,
apenas um assunto a interessava vivamente: a jardinagem.
— É isso — disse o Coronel Bantry. — Uma notícia que
recebemos hoje de manhã a preocupou. Uma moça da vila.
Filha de Emmott. O Emmott, dono da taverna Blue Boar.
— Ah, sim! Naturalmente foi isso.
— Sim, senhor — prosseguiu o Coronel Bantry num tom
pensativo. — Uma bonita moça. Meteu-se numa encrenca.
A história de sempre. Eu estive fazendo ver isso a Dolly.
Bobagem minha. As mulheres nunca vêem as coisas com
bom-senso. Dolly está toda a favor da moça. Você sabe como
as mulheres são. Os homens são uns animais, tudo que há de
ruim, etc., etc. Mas as coisas não são assim tão simples. Não
nos dias de hoje. As moças sabem o que estão fazendo. Um
indivíduo que seduz uma jovem não é necessariamente um
patife. Em cinqüenta por cento dos casos ele não é. Eu bem
que gostava do jovem Sandford. Um tolo. Antes isso do que
um Don Juan. É o que eu diria.
— Esse Sandford foi o homem que encrencou a moça?
— Parece que sim. Naturalmente eu não sei de nada
pessoalmente — declarou o coronel num tom cauteloso. —
É o que se murmura por aí. Você sabe como é este lugar!
Como eu ia dizendo, não sei de nada. Não sou igual a Dolly,
que chega a conclusões apressadas e lança acusações a torto e
a direito. Isso é o diabo. As pessoas deviam tomar cuidado
com o que dizem. Você compreende: inquérito e tudo mais.
— Inquérito?
O Coronel Bantry encarou Sir Henry e disse:
— Isso mesmo. Eu não tinha dito a você. A moça se afogou.
Por isso é que estão fazendo todo esse barulho.
— É um caso muito desagradável.
— Sem a menor dúvida. Eu nem gosto de pensar. Coitada!
Tão bonita! O pai dela é um homem durão, em todos os
sentidos. Imagino que ela sentiu não ser capaz de enfrentar a
gritaria dele. — O coronel fez uma pausa, e acrescentou: —
Isso é que deixou Dolly tão perturbada.
— Onde ela se afogou?
— No rio. Logo abaixo do moinho a corrente é bem rápida.
Há uma vereda e uma ponte. As pessoas acham que ela se
atirou da ponte. Bem. Não vale a pena pensar nisso.
Farfalhando o jornal ruidosamente, o coronel o abriu e pôs-
se a distrair o espírito, afastando-o de assuntos dolorosos,
absorvendo-se nas mais recentes iniquidades praticadas pelo
Governo.
Sir Henry estava apenas moderadamente interessado na
tragédia da vila. Depois da refeição, instalou-se numa
confortável poltrona, no gramado do jardim, inclinou, o
chapéu sobre os olhos e ficou pensando na vida de um
ângulo pacífico.
Eram aproximadamente onze e meia quando uma empregada
muito bem posta veio caminhando rapidamente pelo gra-
mado, e lhe disse:
— Com licença, Sir Henry. Miss Marple acaba de chegar e
disse que gostaria de falar com o senhor.
— Miss Marple?
Sir Henry arranjou-se na poltrona e endireitou o chapéu.
Aquele nome o surpreendeu. Lembrava-se muito bem de
Miss Marple. De suas maneiras tranqüilas de solteirona e de
sua surpreendente penetração de espírito. Recordava-se de
uma dúzia de casos não resolvidos e hipotéticos. E como, em
cada um desses casos, aquela "típica solteirona de aldeia"
havia rápida e infalivelmente apreendido a verdadeira
solução dos mistérios. Sir Henry tinha um respeito muito
profundo por Miss Marple. Ficou imaginando o que a teria
levado a vir procurá-lo.
Miss Marple estava sentada na sala de visitas, muito erecta
como sempre, tendo ao seu lado uma cesta de compras de
procedência estrangeira, de um vivo colorido. Suas faces
estavam bastante coradas e ela parecia perturbada.
— Sir Henry, estou tão contente. Tão feliz por encontrá-lo.
Aconteceu que eu ouvi dizer que o senhor estava passando
uma temporada aqui... Espero que o senhor me perdoe ...
— Tenho grande prazer em vê-la — disse Sir Henry,
apertando-lhe a mão. — Creio que Mrs. Bantry não está em
casa.
— É verdade — observou Miss Marple. — Eu a vi con-
versando com Footit, o açougueiro, quando ia passando.
Henry Footit foi atropelado ontem por um veículo. Por
causa do cachorro que ele tem. Um desses fox-terriers de
pêlo liso, bem grande e briguento. Desses que os açougueiros
parecem ter sempre.
— É isso mesmo — disse Sir Henry num tom de quem deseja
ajudar.
— Fiquei satisfeita de vir aqui enquanto ela não está em casa
— prosseguiu Miss Marple. — Porque com o senhor é que
eu queria falar. A respeito desse triste caso.
— A respeito de Henry Footit? — indagou Sir Henry meio
perplexo.
Miss Marple lançou-lhe um olhar de censura, dizendo:
— Não, não. Sobre Rose Emmott, naturalmente. O senhor já
ouviu falar nela?
Sir Henry assentiu com um gesto de cabeça, acrescentando:
— Bantry me contou o caso. Muito triste.
Sir Henry ficou um tanto sem saber o que pensar. Não
poderia imaginar por que Miss Marple haveria de querer vê-
lo a propósito de Rose Emmott.
Miss Marple sentou-se novamente, e Sir Henry a
acompanhou. Quando a velha senhora começou a falar, suas
maneiras eram outras: graves e de certa dignidade.
— O senhor talvez se lembre, Sir Henry, que em duas ou três
oportunidades nós participamos de uma espécie de jogo que
foi realmente agradável: propor mistérios e dar-lhes soluções.
O senhor mostrou-se bastante generoso e disse que eu não
me portei de todo muito mal.
— A senhora nos venceu a nós todos — declarou Sir Henry
calorosamente. Revelou um talento absoluto para apreender
a verdade. E sempre forneceu exemplos, eu me lembro disso,
de alguns paralelos ocorridos na vila, que lhe proporcio-
naram as pistas das soluções.
Ele sorriu enquanto falava, mas Miss Marple não lhe retribuiu
o sorriso. Permaneceu com uma expressão grave e
acrescentou:
— O que o senhor então me disse deu-me forças para vir
agora procurá-lo. Sinto que se lhe disser alguma coisa, pelo
menos o senhor não irá rir-se de mim.
Sir Henry subitamente percebeu que ela estava falando com
grande ansiedade, e disse, brandamente:
— Certamente eu não irei rir da senhora.
— Sir Henry... essa moça... Rose Emmott. Ela não se
afogou: foi assassinada... E eu sei quem a matou.
Sir Henry permaneceu em silêncio durante uns bons três
segundos, dominado pelo mais absoluto espanto. A voz de
Miss Marple fora perfeitamente tranqüila, sem revelar a
menor excitação. Poderia ter feito a afirmação mais banal
deste mundo, em face da serenidade que demonstrou.
— Isso constitui uma afirmação muito grave, Miss Marple —
comentou Sir Henry quando conseguiu respirar novamente.
Ela assentiu coir —1 tranqüilo e repetido gesto de cabeça,
dizendo:
— Eu sei, eu sei. Por isso é que vim procurá-lo.
— Mas, minha prezada amiga, eu não sou a pessoa que a
senhora deveria procurar. Atualmente sou um simples
cidadão.
Se a senhora sabe de fatos do tipo que diz saber, deve
procurar a polícia.
— Isso eu acho que não posso fazer — declarou Miss Marple.
— Por que não?
— Porque, o senhor compreende, não disponho de qualquer
conhecimento dos fatos, como o senhor diz.
— A senhora quer dizer que se trata apenas de uma suposição
de sua parte?
— O senhor poderá dar-lhe esse nome, se preferir, mas não
se trata disso, realmente. Estou numa situação em que sei das
coisas. Mas se eu apresentasse minhas razões ao Inspetor
Drewitt, ele simplesmente haveria de soltar uma gargalhada.
E para falar a verdade, eu não o censuraria por isso. É muito
difícil entender o que o senhor poderia chamar de
conhecimento especializado.
— Como, por exemplo? — indagou Sir Henry. Miss Marple
esboçou um leve sorriso, e acrescentou:
— Se eu fosse dizer que eu sei das coisas porque um homem
chamado Peasegood entregou nabos em vez de cenouras
quando veio com sua carroça para vender verduras e
legumes a minha sobrinha, há vários anos passados. . .
E Miss Marple parou de falar, num eloqüente silêncio.
— Um nome muito adequado à profissão desse homem —
murmurou Sir Henry. — A senhora quer dizer que está
simplesmente fazendo seu julgamento com base nos fatos de
um caso paralelo.
— Eu conheço a natureza humana — afirmou Miss Marple.
— É impossível deixar de conhecer a natureza humana
quando se tem vivido numa vila durante todos esses anos. A
questão é a seguinte: o senhor acredita ou não em mim?
Ela encarou Sir Henry com muita firmeza. O rubor de suas
faces tinha se acentuado. Seus olhos encontraram os dele
sem vacilar.
Sir Henry era um homem dotado de grande experiência na
vida. Tomava decisões rapidamente, sem tergiversar. Embora
a afirmação de Miss Marple pudesse parecer improvável e
fantástica, teve imediata consciência de que a aceitava.
— Eu de fato acredito na senhora, Miss Marple. Mas não
percebo por que deseja que eu me envolva no assunto, nem
por que veio me procurar.
— Eu refleti muito sobre isso — declarou Miss Marple. —
Como lhe disse, não disponho de fatos. O que eu lhe pediria
que fizesse seria interessar-se pelo asunto. O Inspetor
Drewitt ficaria muito lisonjeado com isso, estou certa. E,
naturalmente, se o caso chegasse mais além, o Coronel
Melchett, chefe de polícia, seria uma pessoa dócil em suas
mãos. Disso eu tenho certeza.
Ela o fitou com um jeito de quem estava lhe fazendo um
apelo.
— E que dados a senhora vai me proporcionar como base
para minha ação?
— Pensei em escrever um nome — disse Miss Marple — o
nome, num pedaço de papel e de entregar-lhe esse papel. Se
o senhor, no curso de suas investigações, concluir que a
pessoa não está de modo algum envolvida no caso, eu terei
errado completamente.
Miss Marple fez uma pausa e acrescentou, estremecendo:
— Seria uma coisa tão horrível, tão horrível mesmo, se uma
pessoa inocente fosse enforcada.
— Como — exclamou Sir Henry, alarmado.
Ela voltou para ele um rosto aflito, e disse o seguinte:
— É possível que eu esteja enganada a esse respeito, embora
não acredite que esteja. O Inspetor Drewitt é realmente um
homem inteligente. Todavia um certo grau de inteligência às
vezes é a coisa mais perigosa que existe. Não conduz uma
pessoa muito longe.
Sir Henry encarou Miss Marple com um ar cheio de
curiosidade.
Depois de procurar um pouco entre suas coisas, Miss Marple
abriu uma pequena rede, dela tirou um caderninho de notas,
arrancou uma folha desse caderno, nela escrevendo
cuidadosamente um nome. Ela dobrou o papel e o entregou a
Sir Henry.
Ele desdobrou o papel e leu o nome, que não o fez lembrar
de coisa alguma. Todavia, ergueu um pouco as sobrancelhas,
olhou para Miss Marple e colocou no bolso o pedaço de
papel, dizendo:
— Muito bem. É uma tarefa fora do comum. Nunca fiz coisa
semelhante. Mas vou confiar no julgamento que faço a
respeito da senhora, Miss Marple.
Sir Henry estava sentado numa sala em companhia do Co-
ronel Melchett, chefe de polícia do condado, e do Inspetor
Drewitt.
O chefe de polícia era um homem de baixa estatura e tinha
um porte decididamente marcial. O inspetor era alto, de
ombros largos, pessoa muito sensata.
— Eu realmente sinto que estou me intrometendo — ob-
servou Sir Henry com um sorriso amável. — Realmente não
lhes poderia dizer por que estou fazendo isso (o que era a
pura verdade).
— Meu prezado amigo, nós estamos encantados. É uma
grande honra — declarou o chefe de polícia.
— Uma grande distinção — afirmou o inspetor.
E o chefe de polícia pensou com seus botões: "Ele está
morrendo de tédio, pobre homem, lá na casa dos Bantrys. O
velho a falar mal do governo e a velha a tagarelar sobre
bulbos".
E o inspetor disse de si para si: "Que pena não estarmos
diante de um problema de fato complicado. Uma das
melhores cabeças da Inglaterra, segundo ouvi dizer. É pena
que se trate de um caso tão fácil".
O coronel então falou em voz alta:
— Eu acho que tudo é muito sórdido e muito simples. A
primeira impressão foi a de que a moça tinha se atirado no
rio. Estava esperando um bebe, o senhor compreende. Mas
nosso médico, Haydock, é um homem cuidadoso. Notou
umas equimoses nos antebraços dela, produzidas antes da
morte. Exatamente nos pontos onde um homem a teria
segurado, atirando-a dentro do rio.
— Isso exigiria muita força?
— Eu acho que não. Não haveria luta, pois a moça teria sido
colhida de surpresa. A ponte é para pedestres, de madeira e
muito escorregadia. Jogar a moça da ponte seria a coisa mais
fácil. De um lado a ponte não tem corrimão.
— O senhor sabe com certeza que a tragédia ocorreu nesse
lugar?
— Sei. Um rapaz daqui, Jimmy Brown, de doze anos, estava
na mata que fica do outro lado. Ouviu um grito, vindo da
ponte, e o barulho de água espadanada por causa da queda de
alguma coisa. Estava anoitecendo e seria difícil enxergar
direito. Logo depois ele viu uma forma branca flutuando na
água e correu em busca de auxílio. Tiraram a moça da água,
mas não conseguiram fazê-la voltar a si.
— O rapaz viu alguém na ponte?
— Não, não viu ninguém. Mas estava ficando escuro, como
eu lhe disse, e sempre há nevoeiro por lá. Vou interrogá-lo
para saber se viu alguém naquele lugar antes ou depois. Ele
naturalmente presumiu que a moça se atirara da ponte. Todo
mundo a princípio pensou a mesma coisa.
— Além disso, temos o bilhete — declarou o Inspetor
Drewitt. — E voltou-se para Sir Henry, acrescentando: —
Um bilhete que estava no bolso da falecida. Escrito a lápis,
desses que os artistas usam, e completamente ensopado.
Mesmo assim nós conseguimos ler o bilhete.
— E o que dizia?
— Era do jovem Sandford. E nos seguintes termos:
"Encontrarei você na ponte. — R.S." Bem. Eram quase oito e
meia, já passavam alguns minutos, quando Jimmy Brown
ouviu o grito e o barulho na água.
— Não sei se o senhor conhece Sandford? — prosseguiu o
Coronel Melchett. — Está aqui mais ou menos há um mês. É
um desses jovens arquitetos modernos, que projetam casas
esquisitas. Está construindo uma casa para Allington. Só Deus
sabe como vai ficar, cheia de novidades, creio eu. Mesas de
jantar feitas de vidro e cadeiras cirúrgicas, de aço e chapas
metálicas. Mais isso não vem ao caso, embora prove que
espécie de sujeito Sandford é: um comunista. Sem moral.
— Os crimes de sedução vêm de longa data — comentou Sir
Henry num tom branao, ainda que não sejam tão velhos
como o assassinato.
O Coronel Melchett olhou para ele e disse:
— Sim. Sem dúvida. Sem dúvida.
— Muito bem, Sir Henry, a coisa é essa — observou
Drewitt. — Feia, mas simples. Esse jovem Sandford
encrencou a vida da moça. Depois ficou ansioso para escapar
e voltar para Londres. Tem uma namorada em Londres. Uma
moça decente. Eles estão noivos. E se ela ouvir falar nesse
caso, a vida dele poderá ficar arruinada. Sandford encontrou-
se com Rose na ponte, numa noite de nevoeiro. Não havia
ninguém por perto. Ele agarrou a moça pelos ombros e
atirou-a dentro do rio. Um sujo, que merece o que o espera.
Essa é minha opinião.
Sir Henry permaneceu em silêncio durante uns minutos.
Percebeu que havia, no caso, forte injunção de preconceitos
locais. Um arquiteto modernista provavelmente não seria
popular na conservadora vida de St. Mary Mead. E indagou o
seguinte:
— Não há dúvida, creio eu, que Sandford é realmente o pai
da criança que vai nascer?
— É o pai, com toda certeza — disse Drewitt. — Rose
Emmott contou tudo ao pai dela. Pensou que o rapaz ia se
casar com ela. Casar-se com ela! Não aquele homem!
Meu Deus, pensou Sir Henry. Tenho a impressão de ter
voltado a um melodrama vitoriano: jovem ingênuo, vilão de
Londres, pai severo, revelação do segredo. Só precisamos do
fiel namorado, da vila. Sim, eu creio que chegou o momento
de perguntar por ele. E falou em voz alta:
— A jovem não tinha namorado por aqui?
— O senhor se refere a Joe Ellis? — indagou o inspetor. —
Um bom rapaz, o Joe. É carpinteiro. Ah! Se ela tivesse ficado
sempre com o Joe!
O coronel fez um sinal de aprovação com a cabeça, e
acrescentou num tom brusco:
— Ficar dentro de sua classe.
— E como Joe recebeu o caso amoroso dela?
— Ninguém sabe — disse o inspetor. — Joe é um rapaz
tranqüilo. Fechado. Tudo o que Rose fez foi nas barbas dele.
Ela o tinha pelo cabresto. Ele simplesmente esperava que ela
voltasse algum dia. Essa era a atitude dele, acho eu.
— Eu gostaria de vê-lo.
— Nós vamos visitá-lo, — disse o Coronel Melchett. — Não
estamos pondo de lado nenhuma pista. Achei que primeiro
deveríamos ver o Emmott, depois Sandford é, em seguida, o
Ellis. Isso lhe convém, Clithering?
Sir Henry disse que aquilo lhe conviria muito bem.
Encontraram Tom Emmott no Blue Boar. Era um homem
grandalhão de meia idade, atarracado, com um olhar astuto e
um queixo truculento.
— Prazer em ver os senhores. Bom dia, coronel. Entre aqui
onde nós podemos ficar à vontade. Posso oferecer alguma
coisa aos senhores? Não? Como queiram. Vieram aqui para
tratar do caso de minha pobre filha. Ah! Ela era uma boa
menina até que esse sujo, desculpem minhas palavras, mas
isso é o que ele é, apareceu. Ele a levou a fazer aquilo.
Assassino sujo. Trouxe a desgraça para todos nós. Minha
pobre filha!
— Sua filha lhe disse categoricamente que Mr. Sandford era
responsável pelo estado dela? — indagou Melchett num tom
firme.
— Sim. Ela me contou tudo. Aqui nesta mesma sala.
— E o senhor o que disse a ela? — indagou Sir Henry.
— O que eu disse a ela? — O homem pareceu
momentaneamente desconcertado.
— Sim. O senhor, por exemplo, ameaçou-a de expulsá-la de
casa?
— Eu fiquei um pouco transtornado. Isso é muito natural.
Tenho certeza de que os senhores concordam que isso é
muito natural. Mas eu de maneira alguma a expulsei de casa.
Não faria uma coisa dessas. — E Emmott assumiu um ar de
virtuosa indignação. — Não. Para que existe a lei? Isso é o
que eu digo. Para que existe a lei? Ele tinha de fazer o que
devia. E se não fizesse, por Deus que haveria de pagar.
O homem deu um murro na mesa.
— A que horas o senhor viu sua filha pela última vez? —
indagou Melchett?
— Na hora do chá. Ontem.
— Qual era o jeito dela?
— Muito igual ao de costume. Eu não reparei em nada. Se eu
tivesse sabido.. .
— Mas o senhor não sabia — observou o inspetor secamente.
Os três se despediram.
— Emmott não causa uma impressão muito favorável —
comentou Sir Henry.
— Ele é meio patife — disse Melchett. — Cortaria o pescoço
de Sandford se tivesse oportunidade para isso.
A visita seguinte foi ao arquiteto. Rex Sandford era muito
diferente da imagem que Sir Henry inconscientemente
formara a seu respeito. Era um jovem alto, muito louro e
magro. Tinha olhos azuis e sonhadores, cabelos despenteados
e compridos demais. Sua maneira de falar era um tanto
feminina.
O Coronel Melchett disse quem era e apresentou seus
companheiros. Em seguida, indo diretamente ao objetivo da
visita, convidou o arquiteto a prestar declarações a respeito
de seus movimentos na noite anterior.
— O senhor compreende — disse num tom de advertência -
— eu não tenho poderes para obrigá-lo a prestar declarações.
E tudo quanto o senhor disser poderá ser utilizado como
prova contra o senhor. Desejo que isso fique bem claro.
— Eu... eu não estou entendendo — balbuciou Sandford.
— O senhor sabe que Rose Emmott se afogou na noite
passada?
— Sim, sei. Muito triste. Eu não preguei olhos esta noite.
Hoje nem consegui trabalhar. Eu me sinto responsável,
terrivelmente responsável.
Ele passou a mão pelos cabelos, fazendo com que ficassem
ainda mais despenteados. E acrescentou, num tom de
comiseração: — Nunca pensei em causar nenhum mal a ela.
Nunca imaginei que ela fosse tomar aquela atitude.
O rapaz sentou-se junto a uma mesa e cobriu o rosto com as
mãos.
— Estarei entendendo o que o senhor diz, Mr. Sandford?
Que o senhor se recusa a declarar onde esteve ontem à
noite, às oito e trinta?
— Não, não. Certamente eu não me recuso a isso. Não estive
em casa. Fui dar um passeio a pé.
— O senhor foi se encontnr com Miss Emmott?
— Não. Saí sozinho. Andei pela mata. Fiz uma longa
caminhada.
— Então como o senhor explica este bilhete, que foi
encontrado no bolso da morta?
O inspetor leu o bilhete em voz alta, impassivelmente, e
concluiu:
— Pois bem. O senhor nega que escreveu isso?
— Não. Não nego. O senhor tem razão. Eu escrevi esse
bilhete. Rose me pediu que fosse encontrá-la. Eu não sabia o
que fazer. Por isso escrevi o bilhete.
— Assim as coisas vão melhor — disse o inspetor.
— Mas eu não fui ao encontro! — exclamou Sandford, num
tom de voz emocionado, quase aos gritos. — Achei melhor
não ir. Eu ia voltar no dia seguinte para Londres. Pretendia
escrever para ela de Londres e fazer alguma coisa.
— O senhor sabe que aquela moça ia ter um filho, e que
havia dito que o senhor era o pai da criança?
Sandford deu um gemido e não respondeu.
— A afirmação dela foi verdadeira?
Sandford afundou mais o rosto entre as mãos, e declarou
meio em surdina:
— Eu creio que sim.
— Ah! — exclamou o Inspetor Drcwitt, sem conseguir
disfarçar sua satisfação. — Agora vamos falar sobre esse
"passeio" que o senhor deu. O senhor viu alguém ontem à
noite?
— Não sei. Acho que não. Tanto quanto eu possa me lem-
brar, não encontrei ninguém.
— É pena..
— O que o senhor quer dizer com isso? — indagou Sandford
fitando o inspetor desvairadamente. — Que importa que eu
tenha saído para dar um passeio ou não? Que diferença isso
faz quanto ao fato de Rose ter se afogado?
— Ah! — disse o inspetor. — O senhor compreende, ela
não se afogou. Foi deliberadamente atirada no rio. Mr.
Sandford.
— Ela foi... — Sandford levou um ou dois minutos para
perceber todo o horror daquilo. — Meu Deus! Então. . .
E deixou-se cair numa cadeira.
O Coronel Melchett levantou-se para sair, e disse:
— O senhor compreende, Mr. Sandford. Não deverá, em
hipótese alguma, afastar-se desta casa.
Os três homens saíram juntos. O inspetor e o chefe de po-
lícia entreolharam-se.
— Eu creio que é o bastante, — disse o inspetor.
— Sim. Mande lavrar uma ordem de prisão e segure o ho-
mem.
— Os senhores me desculpem — disse Sir Henry. — Esqueci
minhas luvas.
Sir Henry tornou a entrar na casa rapidamente. Sandford
estava sentado exatamente como o haviam deixado, de olhos
parados, aturdido, fixando um ponto vazio diante dele.
— Eu voltei — disse Sir Henry — para lhe dizer que estou
pessoalmente ansioso por fazer tudo que puder para ajudá-lo.
Não estou autorizado a revelar o motivo do meu interesse
por sua pessoa. Mas vou pedir-lhe, se o senhor quiser me
atender, que me conte da maneira mais breve possível o que
se passou entre o senhor e aquela jovem.
— Ela era muito bonita — disse Sandford. — Muita bonita e
muito sedutora. E me fez um terrível cerco. Isso é verdade,
eu o afirmo diante de Deus. Ela não me deixava. Eu estava
sozinho aqui, ninguém gostava muito de mim e, como lhe
disse, ela era excepcionalmente bonita e parecia saber o que
estava fazendo, e tudo mais. — A voz dele sumiu. Ele
levantou os olhos, e prosseguiu: — Então aconteceu aquilo.
Ela queria que nós nos casássemos. Eu não sabia o que fazer.
Estou noivo de uma moça, em Londres. Se ela ouvir falar
nisso, com certeza vai ouvir, tudo estará acabado. Ela não
compreenderá. E como haveria de compreender? Eu sou um
patife, sem dúvida. Como eu lhe disse, não sabia o que fazer.
Evitei tornar a ver Rose. Pensei em voltar para Londres,
procurar meu advogado, tomar certas medidas em matéria de
dinheiro, etc., em favor dela. Meu Deus! Como fui louco! E
tudo está tão claro, um libelo contra mim. Mas eles estão
enganados. Ela deve ter se afogado.
— Ela alguma vez ameaçou acabar com a própria vida?
Sandford abanou a cabeça, e disse:
— Nunca. Eu suponho que ela não era dessas.
— E quanto a um homem chamado Joe Ellis?
— O rapaz que é carpinteiro? Um bom tipo de homem
dessas vilas antigas. Pouco inteligente, mas apaixonado pela
Rose.
— Ele poderia ter ficado com ciúmes — sugeriu Sir Henry.
— Eu creio que sim. Andou meio enciumado. Mas é um
tipo bovino. Capaz de sofrer em silêncio.
— Bem — disse Sir Henry. — Eu preciso ir andando. E foi
juntar-se aos outros dois homens, dizendo:
— Você sabe, Melchett, acho que nós precisamos ter uma
conversa com aquele outro homem, o Ellis, antes de
tomarmos qualquer medida drástica. Seria pena que você
efetuasse uma prisão que acabasse sendo um erro. Afinal de
contas o ciúme é um motivo bem aceitável para um
assassinato. E também um motivo muito comum para isso.
— Lá isso é verdade — declarou o inspetor. — Mas Joe Ellis
não é desse tipo de homens. Seria incapaz de matar uma
mosca. Ninguém jamais o viu perder a calma. Mesmo assim,
eu concordo que é melhor perguntar a ele onde andou na
noite passada. Agora ele está em casa. Mora com Mrs.
Bartlett — uma criatura muito digna. Uma viúva que lava
roupa para fora.
A pequena casa para a qual se dirigiram era imaculadamente
limpa e muito bem arrumada. Uma mulher alta e corpulenta,
de meia idade, veio lhes abrir a porta. Tinha um rosto
agradável e olhos azuis.
— Bom dia, Mrs. Bartlett — disse o inspetor. — Joe Ellis está?
— Chegou a menos de dez minutos. Façam o favor de entrar.
Enxugando as mãos no avental, ela os fez entrar numa
minúscula sala de frente onde havia pássaros empalhados,
cães de louça, um sofá e vários móveis sem qualquer
utilidade.
Mrs. Bartlett sem demora providenciou cadeiras para eles,
afastou uma estante cheia de bibelôs para obter mais espaço
na sala e dela saiu para chamar o rapaz:
— Joe, três senhores querem falar com você.
Uma voz respondeu a esse chamado, provindo da cozinha, lá
nos fundos:
— Já vou, quando acabar de me lavar. Mrs. Bartlett sorriu.
— Aproxime-se, Mrs. Bartlett — disse o Coronel Melchett.
Sente-se.
— Oh, não! — Eu não poderia fazer uma coisa dessas. Mrs.
Bartlett sentiu-se chocada com aquela sugestão.
— A senhora considera Joe Ellis um bom inquilino? —
indagou Melchelt num tom de aparente indiferença.
— Eu não poderia ter um inquilino melhor. É um moço
realmente de confiança. Nunca bebe uma gota de álcool.
Tem orgulho em seu trabalho. £ sempre bondoso e
prestativo aqui em casa. Colocou aquelas prateleiras para
mim, montou um novo armário na cozinha. Qualquer
coisinha que seja preciso fazer na casa Joe faz, com
naturalidade, e mal quer aceitar que a gente lhe agradeça.
Meu senhor, não existem muitos moços iguais a ele.
— Um belo dia alguma jovem vai ter sorte — disse Melchett
num tom displicente. — Ele gostava muito daquela pobre
moça, Rose Emmott, não é mesmo?
Mrs. Bartlett suspirou, dizendo:
— Aquilo me fazia mal. Joe adorava o chão onde ela pisava, a
moça não ligava nem um pouco a ele.
— Onde Joe passa as noites, Mrs. Bartlett?
— Geralmente fica em casa. Faz uns trabalhos avulsos e está
se esforçando para aprender contabilidade por correspon-
dência.
— Ah, sim! Ele ficou em casa ontem à noite?
— Sim senhor.
— A senhora tem certeza disso, Mrs. Bartlett? — indagou Sir
Henry incisivamente.
— Certeza absoluta, meu senhor.
— Ele não terá saído, por exemplo, por volta das oito às oito
e meia?
— Ah, não! — exclamou Mrs. Bartlett, dando uma risada. —
Esteve consertando o armário da cozinha para mim durante
quase toda a noite e eu fiquei ajudando a ele.
Sir Henry olhou para a fisionomia sorridente e tranqüila de
Mrs. Bartlett e sentiu o primeiro aguilhão de dúvida.
Passados alguns momentos Ellis entrou na sala.
Era um moço alto e de ombros largos, de muito boa apa-
rência, à sua maneira rústica. Tinha olhos azuis, meio
desconfiados, e um sorriso que revelava bom gênio. Sob
todos os aspectos era um jovem e simpático gigante.
Melchett iniciou a conversação, e Mrs. Bartlett retirou-se
para a cozinha.
— Nós estamos investigando a morte de Rose Emmott. Você
a conheceu, Ellis.
— É verdade. — Ele hesitou e, em seguida, murmurou o
seguinte: — Eu tinha esperanças de me casar com ela algum
dia. Pobre moça!
— Você ouviu dizer alguma coisa a respeito do estado de
Rose?
— Ouvi. — Seu olhar teve um lampejo de cólera. — Ele a
abandonou. Mas teria sido melhor para ela. Não seria feliz,
casada com ele. Eu achei que ela viria me procurar, depois
que aquilo aconteceu. Eu teria tomado conta dela.
— Apesar de...
— Não foi culpa de Rose. Ele a desencaminhou com lindas
promessas e tudo mais. Ah! Ela me falou sobre isso. Não
tinha nenhum motivo para se afogar. Ele não merecia isso.
— Onde esteve você ontem à noite, às oito e meia?
Terá sido imaginação de Sir Henry, ou de fato houve um leve
embaraço na pronta resposta do rapaz? Talvez pronta demais.
— Estive aqui. Arranjando um armário na cozinha para Mrs.
Bartlett. Pergunte a ela. Dirá isto ao senhor.
Ele foi rápido demais em sua resposta, notou Sir Henry. "É
homem que pensa devagar. Suas palavras foram pronuncia-
das tão prontamente que já as tinha preparadas."
Em seguida Sir Henry pensou consigo que aquilo era pura
imaginação de sua parte. Estava fantasiando as coisas. Sim.
Imaginando até que houve um brilho de apreensão naqueles
olhos azuis.
Depois de mais algumas perguntas e respostas, os três ho-
mens se despediram. Sir Henry arranjou um pretexto para ir
até a cozinha. Mrs. Bartlett estava atarefada, diante do fogão.
Ergueu os olhos e sorriu amavelmente - Era ele. Um novo
armário estava colocado na parede, ainda não inteiramente
acabado. Algumas ferramentas encontravam-se junto a ele, e
também alguns pedaços de madeira.
— Nisso é que Ellis esteve trabalhando ontem à noite? —
indagou Sir Henry.
— Sim, senhor. Um belo trabalho, não é mesmo? Joe é um
carpinteiro muito hábil.
Não havia no olhar de Mrs. Bartlett qualquer vislumbre de
apreensão ou embaraço.
Mas quanto a Ellis? Teria Sir Henry imaginado aquilo? Não.
Tinha havido alguma coisa. "Preciso pôr as mãos nele",
pensou Sir Henry.
Voltando-se para sair da cozinha, esbarrou num carrinho de
criança, e disse:
— Espero não ter acordado o bebê.
Mrs. Bartlett soltou uma sonora risada, e declarou:
— Não, senhor. Eu não tenho filhos. O que é pena. Carrego
minhas trouxas de roupa nele.
— Estou compreendendo.
Sir Henry acrescentou então, num impulso:
— Mrs. Bartlett. A senhora conheceu Rose Emmott. Diga-
me realmente o que a senhora achava dessa moça.
Mrs. Bartlett olhou para ele de um jeito curioso, e declarou o
seguinte:
— Bem. Eu achava que ela era uma leviana. Mas está morta e
eu não gosto de falar mal dos defuntos.
— Mas eu tenho razões, fortes razões para fazer minhas
perguntas — prosseguiu Sir Henry, num tom persuasivo.
Ela pareceu refletir, estudando atentamente a fisionomia
dele. Por fim, tomou uma resolução e falou, num tom
tranqüilo:
— Ela não prestava. Eu não diria isso na presença de Joe. Ela
o enganou muito bem. Era daquele tipo de mulher de que a
gente tem mais pena. O senhor sabe.
— Sim. — Sir Henry sabia muito bem. Os Joe Ellis deste
mundo são particularmente vulneráveis. Confiam cegamente
nas pessoas. Mas, exatamente por esse motivo, o choque que
sentem quando descobrem as coisas pode ser mais forte do
que o comum.
Sir Henry deixou a casa de Mrs. Bartlett sem saber o que
pensar. Verdadeiramente perplexo. Estava diante de um
verdadeiro impasse. Joe Ellis tinha trabalhado dentro de casa
durante toda a noite da véspera. Mrs. Bartlett lá realmente
estivera também, vendo-o trabalhar. Poderia uma pessoa ir
além daquele muro intransponível? Nada existia que pudesse
ser contraposto àquilo, exceto, possivelmente, aquela rapidez
suspeita da resposta de Joe. Aquela idéia de que ele teria sua
história já preparada.
— Muito bem — disse Melchett. — Isso parece tornar o
problema bastante claro, não é fato?
— Sem dúvida — concordou o inspetor. — Sandford é o
nosso homem. Não poderá encontrar uma saída. As coisas
são claras como água. Na minha opinião, a moça e o pai dela
estavam se preparando para fazer uma chantagem com ele.
Sandford não tem dinheiro e não queria que o caso chegasse
aos ouvidos de sua namorada. Ficou desesperado e agiu em
conseqüência disso. E o que diz o senhor? — indagou o
inspetor, dirigindo-se com deferência a Sir Henry.
— Parece que foi assim — admitiu Sir Henry. — Mas eu não
consigo imaginar Sandford praticando uma ação violenta.
Mas sabia, enquanto assim falava, que sua objeção dificil-
mente seria válida. O animal, por mais manso que seja, é
capaz de ações surpreendentes se for acuado.
— Mas eu gostaria de ver o rapaz — disse ele subitamente.
— Aquele que ouviu o grito.
Jimmy Brown mostrou ser um rapaz inteligente, muito
pequeno para sua idade, e com um rosto decidido e astuto.
Estava ansioso por ser interrogado e ficou bem desapontado
quando Sir Henry procurou confirmar a história dramática a
respeito do que Jimmy ouvira naquela noite fatal.
— Eu creio que você estava do outro lado da ponte. Do outro
lado do rio, em relação à vila. Você viu alguém aí, quando
chegou até a ponte?
— Havia alguém andando pela mata. Eu acho que era Mr.
Sandford, o arquiteto que está construindo aquela casa
esquisita.
Os três homens entreolharam-se.
— Isso foi mais ou menos uns três minutos antes de você
ouvir os gritos?
O rapaz fez que sim com um gesto de cabeça.
— Você viu mais alguém, do lado do rio que dá para a vila?
— Vi um homem andando pela vereda, daquele lado. Ia
devagar e estava assobiando. Talvez tenha sido Joe Ellis.
— Você não poderia ter visto quem era — declarou o ins-
petor incisivamente. — Com aquele nevoeiro e aquela
escuridão.
— Foi por causa do assobio — disse o rapaz. — Joe Ellis
sempre assobia a mesma música — "Eu quero ser feliz". É a
única que ele sabe.
O rapaz falou com o desprezo dos modernistas pelas coisas
antiquadas.
— Qualquer pessoa poderia assobiar uma música — observou
Melchett. — Ele estava caminhando em direção à ponte?
— Não, Ia na outra direção. Na direção da vila.
— Eu acho que não precisamos nos preocupar com esse
desconhecido — disse Melchett. — Você ouviu o grito e o
barulho na água. Alguns minutos depois você viu o corpo
flutuando rio abaixo e correu em busca de socorro. Voltou
até a ponte, atravessou-a e foi direto à vila. Você não viu
ninguém perto da ponte quando foi à procura de socorro?
— Acho que havia dois homens com um carrinho de mão,
na vereda que dá para o rio. Mas estavam um pouco afastados
e eu não pude ver se estavam subindo ou descendo a vereda.
A casa de Mr. Giles era a que ficava mais perto. Por isso eu
corri até lá.
— Você fez muito bem, rapaz — disse Melchett. — Você se
portou de maneira muito louvável e com presença de
espírito. Você é escoteiro, não é?
— Sim senhor.
Sir Henry permaneceu calado, absorto em suas reflexões.
Tirou do bolso um pedaço de papel, examinou-o e abanou a
cabeça. Parecia ser impossível. No entanto...
Decidiu fazer uma visita a Miss Marple.
Ela o recebeu em sua bonita sala de visitas, de estilo antigo,
um tanto atravancada por excesso de móveis.
— Vim informá-la sobre o progresso de minhas investigações
— disse Sir Henry. — Receio que as coisas não estejam indo
bem, do nosso ponto de vista. Vão prender Sandford. E eu
devo dizer que têm razão para isso.
— Então o senhor não encontrou nada, como direi, em apoio
a minha teoria? Miss Marple parecia perplexa, ansiosa. —
Talvez eu esteja enganada, inteiramente enganada. O senhor
tem tanta experiência. Sem dúvida teria descoberto tudo, se
as coisas tivessem sido daquele jeito. — Miss Marple
inclinou-sé para a frente, tomando fôlego. — Mas pode ter
sido. Foi na noite de sexta-feira.
— Na noite de sexta-feira?
— Sim. Na noite de sexta-feira. Às sextas-feiras de noite
Mrs. Bartlett entrega a roupa lavada nas casas de várias
pessoas.
Sir Henry reclinou-se em sua cadeira. Lembrou-se da história
que Jimmy havia contado a respeito do homem que estava
assobiando. Sim. Tudo se ajustava muito bem.
Ele se levantou e segurou calorosamente as mãos de Miss
Marple, dizendo:
Creio que estou encontrando meu caminho. Pelo menos
poderei tentar.
Cinco minutos depois ele estava de volta na casa de Mrs.
Bartlett, diante de Joe Ellis, naquela pequena sala, em meio
àqueles cães de louça. E disse, num tom incisivo:
— Ellis, você mentiu a respeito da noite passada. Você não
esteve na cozinha, montando o armário, entre oito e oito e
meia. Você andou caminhando pela vereda perto do rio, em
direção à ponte, alguns minutos antes de Rose Emmott ser
assassinada.
Joe falou com a respiração ofegante:
— Ela não foi assassinada. Ela não foi assassinada. Eu não teria
nenhum motivo para fazer uma coisa dessas. Ela se atirou no
rio. Foi o que ela fez. Estava desesperada. Eu não teria tocado
num fio do cabelo dela. Não teria feito nem isso.
— Então por que você mentiu a respeito do lugar onde
estava?
Joe tergiversou e baixou os olhos, embaraçado:
— Eu estava aterrorizado. Mrs. Bartlett me viu naquele
lugar. E quando ela ouviu dizer o que tinh- acontecido logo
depois, pensou que aquilo poderia ser contra mim. Eu resolvi
dizer que estava trabalhando aqui e ela concordou em confir-
mar minhas palavras. Ela é uma mulher fora do comum. Tem
sempre sido boa para mim.
Sir Henry saiu da sala sem dizer palavra e entrou na cozinha.
Mrs. Bartlett estava diante da pia, lavando a louça.
— Mrs. Bartlett — disse ele — eu sei de tudo. Acho melhor
a senhora confessar. A menos que a senhora queira que
Joe Ellis seja enforcado por um crime que não cometeu. Não.
Eu vejo que isso a senhora não quer. Eu lhe direi o que
aconteceu: a senhora estava levando roupa lavada às casas de
seus fregueses; encontrou-se com Rose Emmott; pensou que
ela tinha abandonado Joe e estava andando com aquele
estranho; imaginou que ela estava em apuros; Joe mostrava-
se disposto a socorrê-la, casar-se com ela, se isso fosse
necessário; ele estava em sua casa há quatro anos; a senhora
tinha se apaixonado por ele e queria que ele fosse seu; a
senhora odiava aquela moça e não conseguia tolerar a idéia
de que aquela "mulherzinha" devassa e indigna lhe tirasse seu
homem; a senhora é uma mulher forte, Mrs. Bartlett; agarrou
a moça pelos ombros e atirou-a dentro do rio; alguns
minutos depois, encontrou-se com Joe Ellis; Jimmy viu a
senhora e ele juntos, de longe, mas, por causa da escuridão e
do nevoeiro, presumiu que o carrinho de bebê fosse um
carrinho de mão e que dois homens o estivessem em-
purrando; a senhora persuadiu Joe de que ele poderia ser sus-
peitado e tramou o que supôs ser um álibi para ele, mas, real-
mente, era um álibi para a senhora. Então? Estou certo? Não
é verdade?
Sir Henry susteve a respiração. Havia arriscado tudo naquela
jogada. Ali estava Mrs. Bartlett, de pé diante dele, esfregando
as mãos no avental, lentamente se decidindo sobre o que
dizer.
— Foi exatamente como o senhor falou — declarou afinal,
com aquela sua voz suave (voz perigosa, Sir Henry
subitamente sentiu isso). — Não sei o que me veio à cabeça.
Uma sem-vergonha, isso é o que ela era. Só pensei que não
iria tirar Joe de mim. Eu não tive uma vida feliz. Meu marido
era um pobre homem, inválido e de mau gênio. Eu tratei
dele, cuidei dele. Então Joe apareceu para ser meu inquilino.
Eu não sou assim tão velha, apesar de meus cabelos brancos.
Tenho só quarenta anos. Joe é um homem que a gente
encontra entre mil. Eu tenho feito tudo por ele. Tudo. Ele
parecia uma criança. Tão tranqüilo e tão crédulo. Era meu.
Eu tinha de olhar por ele, fazer as coisas para ele. E aquela,
aquela... — Mrs. Bartlett engoliu em seco e dominou sua
emoção. Até mesmo naquele momento, foi uma mulher
forte. Levantou-se, muito erecta, e encarou Sir Heary de um
jeito estranho, dizendo: — Estou pronta para ir. Nunca pen-
sei que alguém pudesse descobrir tudo. Não sei como o
senhor conseguiu saber como foi. Isso eu não sei mesmo.
Sir Henry abanou a cabeça brandamente e disse:
— Quem soube não fui eu. — E lembrou-se do pedaço de
papel que ainda tinha no bolso, contendo umas palavras
escritas numa caligrafia elegante e de estilo antigo:
"Mrs. Bartlett, com quem Joe Ellis mora, como
inquilino, no número 2, Casas do Moinho."
Miss Marple acertara mais uma vez.

Repassando Agatha Christie 2 , em anexo.




--

"Agradeço todas as dificuldades que enfrentei; não fosse por elas, eu não teria saído do lugar. As facilidades nos impedem de caminhar. Mesmo as críticas nos auxiliam muito..."

 

Chico Xavier

 

Agradeço,em especial aos amigos, pelo apoio,

pela atenção e dedicação recebidos.

Que a vida de cada um seja plena

de PAZ e LUZ......sempre!

 

Abraços.

--
M. Loureiro
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Se um dia tiver que escolher entre o mundo e o amor... Lembre-se. Se escolher o mundo ficará sem o amor, mas se escolher o amor com ele você conquistará o mundo.
(Albert Einstein)


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