Like No Other
Melanie George
Inglaterra
Uma mulher como poucas...Kate estava acostumada ao lado mais cruel da vida. Criada num orfanato, ela sobreviveu como batedora de carteiras nas ruas de Londres. Por isso, quando seu mundocolidiu com o dos ricos numa tentativa frustrada de assalto, ela se preparou para nada menosque a prisão. Em vez disso, porém, viu-se alvo da bondade e gentileza de um homem muitorico... e descobriu-se desejando seu coração...Quando Alec Breckridge decidiu ajudar aquela encantadora menina de rua, não imaginava que se sentiria tão atraído, e muito menos que fosse ele quem teria de conquistar aconfiança dela. Agora, à medida que um perigoso segredo ameaça separá-lo de Kate, elearriscará qualquer coisa para provar seu amor à mulher que roubou seu coração... Uma mulher como poucas...
Digitalização: Neia
Revisão: Crysty
A Ladra e o Conde
Like No Other
Melanie George
Inglaterra
Uma mulher como poucas...Kate estava acostumada ao lado mais cruel da vida. Criada num orfanato, ela sobreviveu como batedora de carteiras nas ruas de Londres. Por isso, quando seu mundocolidiu com o dos ricos numa tentativa frustrada de assalto, ela se preparou para nada menosque a prisão. Em vez disso, porém, viu-se alvo da bondade e gentileza de um homem muitorico... e descobriu-se desejando seu coração...Quando Alec Breckridge decidiu ajudar aquela encantadora menina de rua, não imaginava que se sentiria tão atraído, e muito menos que fosse ele quem teria de conquistar aconfiança dela. Agora, à medida que um perigoso segredo ameaça separá-lo de Kate, elearriscará qualquer coisa para provar seu amor à mulher que roubou seu coração... Uma mulher como poucas...
Digitalização: Neia
Revisão: Crysty
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Antes de se tornar escritora, Melanie George era diretora executiva de uma empresa de
consultoria. Sua função mais importante, porém, sempre foi a de mãe -de um filho
adorado e dois cãezinhos. Quando não está escrevendo, Melanie está restaurando sua
casa, construída há cem anos.
Querida leitora,
Conhecida pelo apelido de "Raposa ", e fazendo-se passar por um rapazote, Kate é uma
das batedoras de carteira mais hábeis de Londres, graças à sua compleição miúda e
agilidade. Quando ela é, finalmente, apanhada, é entregue, num ato de caridade, a lorde
Alec Breckridge, que não demora a perceber que o "Raposa " é uma garota, e, por sinal,
muito atraente. Para surpresa de Kate, em vez de mandar prendê-la, Alec a acolhe em
sua casa e lhe oferece emprego. Mais que isso, ele se apaixona por ela. Mas Kate ainda
não está totalmente livre de seu passado e, por mais que ela queira cortar os vínculos
com a gangue à qual pertencia, isso pode não ser tão fácil quanto ela pensa, e poderá pôr
em risco o amor que o conde sente por ela...
Leonice Pompônio Editora
"A Ladra e o Conde é um romance ao mesmo tempo doce e divertido. Melanie George
demonstra todo o seu talento com esta história de amor entre um nobre e uma menina de
rua, tornando-o verossímel e realista!"
Romantic Times
Leitoras
"Um romance cativante e divertido!"
"A Ladra e o Conde faz você rir e chorar! Muito bom..."
"Um romance repleto de emoção, que eu recomendo!"
"Melanie George acertou em cheio, mais uma vez! A Ladra e o Conde é um romance
fantástico!"
"Do momento em que comecei a ler este livro, não consegui mais parar! Os personagens
são maravilhosos, a trama é envolvente, enfim, é um romance que todas devem ler.
Melanie George é o máximo!"
"Não tenho palavras para descrever o que eu achei deste livro. Da primeira à última
página, eu me envolvi de tal maneira com a história, que não queria que acabasse!"
"Melhor, impossível!"
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Copyright ©2000 por Melanie George
Originalmente publicado em 2000 por Kensington Books Corp.
PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP. NY, NY — USA
Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer
semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.
TÍTULO ORIGINAL: LIKE NO OTHER
EDITORA Leonice Pomponio
ASSISTENTES EDITORIAIS
Patrícia Chaves
Vânia Canto Buchala
EDIÇÃO/TEXTO
Tradução: Zeca Nunes
Revisão: Giacomo Leone Neto
ARTE
Mônica Maldonado
MARKETING/COMERCIAL
Andrea Riccelli
PRODUÇÃO GRÁFICA
Sonia Sassi
PAGINAÇÃO
Ana Beatriz Pádua
Copyrigh © 2009 Editora Nova Cultural Ltda.
Rua Paes Leme, 524 — 10a andar — CEP 05424-010 — São Paulo -SP
www.novacultural.com.br
Impressão e acabamento: RR Donnelley
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Capítulo I
Londres, Inglaterra
— Pelo amor de Deus, vá direto ao assunto! — Alec pediu com impaciência. —
Fica dando voltas, Anthony, e eu tenho muito a fazer — completou, encarando o amigo
que, relaxado, o fitava com um copo de uísque na mão.
— Como se fosse o único que trabalha — replicou Anthony Whitfield, a indolência
combinando com os trajes elegantes.
— Todos sabemos que trabalhar não faz parte da sua rotina — replicou Alec com
um suspiro. Apreciava a companhia de Anthony, duque de Glassboro e seu melhor amigo,
mas embora admirasse seu humor e inteligência, sabia que o nobre devotava a vida ao
prazer pessoal e nada mais.
— Por que diz isso? — protestou o duque. — Tenho andado muito ocupado
ultimamente.
— É mesmo? Com o quê?
— Ora, um contingente de mulheres que pede minha atenção. Dá um trabalho
enorme atender a todas... Não me sobra tempo para mais nada.
— Eu não me referia a seu harém. Falava de trabalho de verdade, como tomar
decisões e tocar negócios adiante.
— Por Deus, homem! Por que eu faria algo tão inútil? Meu pai, que Deus o tenha,
deixou-me uma herança tão grande que levarei o restante da vida para gastar. Seria uma
pena eu subir ao paraíso sem ter aproveitado a vida aqui embaixo.
— O paraíso não costuma receber depravados.
— Tenho dinheiro demais para ir a qualquer outro lugar que não seja o paraíso.
Alec sorriu, complacente. Apesar de amigos, eles eram muito diferentes. Anthony
apreciava ir a festas, beber, jogar. Ele, ao contrário, só trabalhava. Na verdade, até
demais.
Ainda era difícil acreditar que fazia apenas quinze anos que o pai de repente
tombara morto durante o desjejum. Conversavam à mesa, em uma manhã como tantas
outras, quando Edward Breckridge, sétimo conde de Somerset, respirou fundo, fechou os
olhos e despencou para a frente, caindo com o rosto sobre o prato.
Ele, Alec, fora criado para administrar os negócios do pai, mas não estivera
preparado para mudança tão brusca, sobretudo porque mal havia completado dezessete
anos na época. Bem que gostaria de ter tido ainda alguns anos de vida frívola, sem a
responsabilidade de administrar o patrimônio da família... Não obstante, assumira sem
hesitar o papel que o pai, assim como ele, também tomara para si na juventude.
Seu patrimônio era respeitável: propriedades agrícolas, fábricas de tecidos e uma
companhia marítima de transporte de carga. Afora a responsabilidade de zelar pelo bom
andamento dos negócios, também cuidava da mãe e da irmã, que não moravam ali.
A rotina atribulada, contudo, não o desagradava. Apreciava ter o tempo tomado por
obrigações, mesmo porque a vida em sociedade não o atraía.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Não preciso lembrá-lo de que, além da fortuna, você também herdou um título
de nobreza pelo qual devia zelar — Alec dirigiu-se a Anthony, sério.
— Claro — concordou o jovem duque. — Meu pai era um bom homem. Eu jamais
farei algo que desvirtue o nome de nossa família. O problema, é que meu dinheiro e título
vieram acompanhados de obrigações que não gosto de ter. Por outro lado, eles me dão a
possibilidade de pagar alguém para dar cabo de tais deveres por mim... No final, não
posso reclamar: ganho de qualquer maneira.
— Cuidado, Anthony. Pode cair nas mãos de alguém sem escrúpulos.
— Não se preocupe. Não faço o trabalho, mas me encarrego de checar o que
acontece e para onde vai o dinheiro. Desenvolvi um sistema eficiente para controlar as
contas. Não menospreze minha esperteza.
— Jamais duvidei de sua capacidade.
— Acabamos mudando de assunto — recomeçou Anthony, levantando-se para
servir-se de outra dose de uísque. — Não vim para falar de mim.
— Sobre quem veio falar?
— Sobre você, ora. Era o que estávamos fazendo, não? — ele questionou,
tomando um gole da bebida.
— Tenho muito trabalho a fazer. — Alec resolveu parar com a tergiversação de seu
desocupado amigo. — Sabe o caminho da porta da frente, portanto não preciso
acompanhá-lo nem chamar o mordomo.
— Não vai se livrar de mim com tanta facilidade — avisou Anthony sorrindo. — Não
partirei antes de discutirmos uma coisa importante.
— Então desembuche, homem de Deus!
— Vim para discutirmos sua falta de contribuições com a sociedade. Fazer
caridade é dever de um homem de posses como você.
Alec abriu a boca, estupefato. Era um absurdo que justamente Anthony o criticasse
por isso.
— Do que está falando?
— Ser caridoso é a última moda, sabia? Não se fala de outra coisa na sociedade...
embora a maior parte dos aristocratas acredite que, para ser caridoso, basta empregar
um ou dois empregados a mais para servi-los.
— Como você, meu querido — replicou Alec com o sorriso que a grande amizade
entre os dois permitia.
— Não zombe de mim, pois também sou forçado a me submeter aos paradigmas
da sociedade. Devemos ajudar os menos afortunados. Você fica o tempo todo
trabalhando neste escritório e não vê o que ocorre lá fora.
Resolvendo que já perdera tempo demasiado, Alec não aceitou a imposição do
amigo.
— Anthony, se me permite... Tenho de trabalhar. Conversaremos em outro
momento.
— Por Deus! Será que não ouviu uma só palavra do que eu disse? Você tem de
fazer algo pelos pobres!
Exasperado, Alec decidiu mudar de tática. Conhecia o duque e sabia que ele não
desistiria enquanto não obtivesse o que desejava.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— O que quer, afinal? Que eu faça uma doação? — indagou, levantando-se para
apanhar uma caixa de metal sobre a bancada atrás da mesa de trabalho. — Quanto? —
perguntou, após colocar a caixa sobre a mesa e destampá-la, revelando maços e maços
de dinheiro, além de moedas de ouro e prata.
Como Anthony nada disse, pegou dois pacotes de cédulas e os colocou sobre a
mesa.
— Leve para os pobres. Com as minhas bênçãos.
— Não entende o que quero dizer — disse Anthony, recusando o dinheiro com um
gesto.
— Já pedi que me explicasse! — refutou Alec à beira da exasperação. — Ao
contrário do que diz, minha família é muito caridosa. Minha mãe e minha irmã contribuem
financeiramente com dois orfanatos diferentes e organizam atividades para arrecadar
doações. Uma das alas do hospital da cidade leva o nome de meu pai, pois foi ele quem
custeou a construção.
— E verdade. Mas o que você fez?
Receando explodir com o amigo, Alec decidiu tomar algo também. Calado, serviu-
se de vinho Madeira, tomou um gole e então se virou para o duque.
— Desde quando se tornou um exemplo de virtude? Pensei que todos os traços de
generosidade e benevolência da família Glassboro já houvessem sido erradicados.
— O sarcasmo não é seu ponto forte — revidou Anthony. — Por que não me deixa
terminar de falar?
— Perdoe minha insolência, Vossa Graça. Prossiga, por favor — falou Alec com
um suspiro.
— Como eu dizia, quem é rico deve fazer caridade. E a caridade começa em casa,
meu amigo — prosseguiu Anthony em tom cada vez mais dramático. — Empreguei um
pobre rapaz que vivia na rua. Um sem-teto, por assim dizer. Agora ele tem um salário
semanal, comida todos os dias e um local para dormir. Se isso não é ser caridoso, o que
é?
— Deve estar lucrando algo com isso — volveu Alec, sem se convencer.
— Claro, com a satisfação de ajudar os...
— Menos afortunados, eu sei — Alec completou. — Já disse isso. O que não
revelou é a verdadeira razão de ter feito o que fez. Conheço você bem demais,
esqueceu?
Suspirando, Anthony tomou o último gole de uísque e colocou o copo sobre a
mesa.
— A sociedade — confessou, enfim. — Eu não poderia ir a mais nenhuma festa ou
recepção enquanto não houvesse feito minha parte. As mulheres só falam nisso. Se digo
que nado faço, um minuto depois vão embora. Num jantar da semana passada, terminei
sozinho num canto, pois não tinha vontade de fumar charutos com os homens e as
mulheres não notavam mais minha existência. Você me conhece, Alec. Sabe que não
vivo sem elas. São essenciais como o ar que respiro.
— Compreendo. E agora, quando perguntam o que tem feito de caridade, você diz
que tirou um pobre rapaz da rua e o empregou em sua casa.
— Isso mesmo. Quando conto o que fiz, elas me elogiam e se mostram
interessadas. Tudo voltou ao normal, graças a Deus. Mas preciso confessar algo: ser
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
caridoso não passa de um modismo que logo terá fim. E quando esta tolice terminar,
mandarei aquele sujeito de volta para onde veio. Para ser sincero, não gosto de ter uma
criatura assim em casa... As vezes, penso se não vai me assassinar.
Como se fosse possível!, pensou Alec. Anthony era um homem forte e excelente
pugilista. Jamais teria problemas em se defender!
— Droga, Anthony, por que está aqui? — explodiu, exasperado.
— Não precisa gritar! — indignou-se Anthony. — Minha audição está perfeita.
— Não é sua audição o que me preocupa, mas suas digressões. Se já resolveu o
problema com a ala feminina, por que veio me atazanar a paciência e me impedir de
trabalhar?
Anthony deu de ombros.
— Seria excelente se eu tivesse algo a mais para contar sobre meus atos
caridosos, como, por exemplo, dizer que o convenci a ajudar os desafortunados. E então?
— perguntou com uma urgência que o tornava patético.
Alec pensou que, se podia lidar com Anthony, podia lidar com o mundo inteiro. De
qualquer maneira, concordar em ser caridoso não era nada catastrófico.
— Está bem!
Ao ouvir a resposta afirmativa, Anthony sorriu, satisfeito.
— Pode escolher uma obra de caridade para eu ajudar — Alec prosseguiu. — Mas
não me meta em encrencas!
— Não se preocupe, amigo. — O duque sorriu, levantando-se para partir. — Verei
o que posso fazer para que todos admirem sua imensa caridade.
— Vai ficar me devendo essa.
— Com certeza.
— Vejam! Uma fruta madura! — O rapazinho alto e magro apontou para o
cavalheiro forte e elegante que descia, despreocupado, pela outra calçada.
Semiescondido nas sombras de um edifício desocupado, o grupo voltou a atenção
para o homem no outro lado da rua.
— Os bolsos dele devem estar pesados demais... Que tal aliviarmos o cavalheiro?
— sugeriu o mesmo rapaz. — Está sozinho e não há ninguém por perto.
— É um homem forte — observou um dos integrantes da gangue.
— E mais jovem do que a maioria dos doadores — ajuntou outro.
— Caminhar aqui sozinho e de noite é buscar problemas — disse uma voz até
então calada. De timbre um pouco mais alto, exalava segurança e controle. — Deixem
para mim — avisou a figura vestida com roupa escura. — Observem o trabalho de um
profissional...
— Com os diabos! — praguejou Anthony ao ver que Huntley não o esperava do
lado de fora da taverna como haviam combinado. Aquela parte da cidade era um
verdadeiro lixo: garrafas vazias e sujeira emporcalhavam o meio-fio, esperando a
tempestade seguinte levá-las para longe, pois na certa a prefeitura não se preocupava em
limpar a região. Por que Huntley tinha de escolher uma taverna na periferia da civilização?
Por causa da esposa, claro. A dama com cara de cavalo.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
A mulher odiava quando o marido saía com ele, e com razão, Anthony pensou.
Afinal, quando visitavam tavernas, voltavam para casa muito bêbados. Isso para não
mencionar os deslizes mais graves...
Seria mais agradável se divertir na região boêmia da cidade, mas Huntley conhecia
muita gente que, caso o visse, não hesitaria em dedurá-lo. E se a esposa o pegasse em
outra mentira...
Anthony resolveu entrar na taverna e começar a beber em vez de esperar na rua
escura e deserta. Ao abrir a porta, uma lufada de ar esfumaçado e um aroma ácido de
cerveja invadiram suas narinas. O ambiente estava lotado e seu aspecto não era nada
higiênico. Sua fina casaca contrastava com os casacos de lã baratos dos demais.
Sorriu, discreto. Adorava criar encrencas para exercitar os músculos e dotes de
pugilista, e o local prometia nesse sentido.
Decidiu começar com uma dose dupla. Ao passar por um grupo que falava e ria
alto, no caminho para o balcão, ouviu um espirro e sentiu algo estranho nas costas. Virou-
se a tempo de notar um menino de roupa escura e boné desaparecendo entre a multidão
comprimida na taverna.
— Maldição! — exclamou, ao se ver sem carteira. — Espere aí, seu moleque!
Rápido, Anthony num instante o alcançou e agarrou pelo braço.
— Tire a mão de mim e caia fora, seu porco imundo! — gritou o garoto, puxando o
braço com um gesto brusco, mas inútil, para se libertar.
— Que linguajar horroroso — repreendeu Anthony, mantendo o pequeno
firmemente cativo, porém distante o suficiente para que o menino não o acertasse com os
punhos e os pontapés.
— Vou lhe ensinar uma lição! — prosseguiu o moleque, desfechando socos no ar.
— Vai se arrepender de ter encostado a mão em mim!
O garoto era valente, Anthony concluiu, mas jamais poderia enfrentar um adulto
forte e musculoso como ele.
— Estou morrendo de medo... — replicou, zombeteiro.
— Se não me soltar, vou fazer picadinho de você! — prosseguiu o jovenzinho,
enfiando a mão no bolso e retirando um garfo.
— O homem capturou nosso chefe! — um dos moleques da gangue exclamou.
— Ninguém jamais o apanhou! — disparou o outro, alarmado. Era mais baixo que
os demais, e, com certeza, mais jovem. — Se não visse com meus próprios olhos, eu não
acreditaria!
— Que vamos fazer? — inquiriu o terceiro.
— Temos de salvá-lo! — o mais alto declarou. — Vamos, mexam esses traseiros!
Com murmúrios de acordo, os três se prepararam para salvar Raposa, líder do
bando.
Antes de se lançarem à ação, porém, algo novo ocorreu: um homem enorme e
gordo desceu a rua correndo, a barriga dificultando o deslocamento.
— Anthony! Estou chegando! Aguente mais um pouco!
Sem largar o moleque, Anthony ergueu o olhar e avistou Huntley. Pensou em gritar
que ele não se apressasse, pois tinha tudo sob controle, mas ficou com pena de frustrar o
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
impulso solidário do amigo. Huntley era um bom homem. Mesmo apreciando as tavernas,
cumpria exemplarmente as responsabilidades familiares.
Arquejante, ele se aproximou.
— Não se preocupe! — começou com a voz entrecortada. — Vim... salvá-lo.
— Pelo amor de Deus, homem! Acalme-se.
Vendo que seu captor se distraíra, o moleque não vacilou: deu-lhe uma violenta
joelhada no estômago.
Pego de surpresa, Anthony se desequilibrou e caiu, levando o menino junto. Num
instante, porém, se recuperou e apertou o braço do garoto com mais força.
— Moleque atrevido! — rosnou em tom ameaçador. — A prisão de Newgate vai lhe
ensinar a respeitar os mais velhos!
Ao ouvir aquilo, uma sombra de receio perpassou os olhos do rapazinho.
— Não vou para Newgate! Mato você se tentar me enviar para lá! — ameaçou,
puxando o braço e tentando lhe acertar pontapés.
— Faça algo, Huntley!
Após pensar um momento, Huntley fez o que um homem de seu tamanho faria:
sentou-se em cima do garoto.
— Não! Vai matá-lo desse jeito! — exclamou Anthony ao ver o menino lutando para
respirar sob o peso imenso.
— Não consigo me levantar! — Huntley oscilou para um lado e, sem alternativa,
Anthony soltou o moleque e se ergueu. Em seguida, agarrou os braços de Huntley e o
ajudou a se erguer.
Deus! O homem pesava uma tonelada!
Quando o colocou em pé, por fim, voltou a atenção para o garoto. Ainda com
dificuldade para respirar, este custou até conseguir sentar-se.
— O que aconteceu? — perguntou Huntley.
— Este ladrãozinho tentou me roubar — explicou Anthony, observando o menino.
Surpreso, notou que uma longa mecha de cabelo castanho havia escapado por um dos
lados do boné. — Ou será que eu deveria dizer "ladrazinha"? — acrescentou, franzindo a
testa.
Era de fato uma menina!, percebeu, fitando com atenção a face da jovem
criminosa.
— Droga! Ser golpeado por uma mulher ofende meu orgulho masculino.
— Vai apanhar mais se não me soltar, seu maldito! — ela ameaçou, fazendo-o
gargalhar. — O que é tão engraçado?!
— Você é uma doçura — ele comentou, vendo agora a beleza da menina
escondida sob a sujeira que lhe manchava o rosto, ainda que ela o fitasse como se fosse
capaz de matá-lo.
— Tome cuidado... Já ensinei lições a homens maiores do que você!
— Obrigado por avisar.
— Ainda quer me levar para Newgate? — ela perguntou, erguendo o queixo numa
atitude de desafio que não lhe escondeu o medo. Ir para Newgate equivalia a uma
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
sentença de morte, pois poucos saíam com vida de lá. — Não tenho medo de você nem
da lei!
Anthony, porém, sabia que ela mentia apesar da máscara de coragem. Estendeu o
braço, oferecendo a mão para ajudá-la, e levou um tapa.
-— Não preciso de ajuda — ela disparou, erguendo-se, cambaleante.
Ao vê-la em pé à sua frente, Anthony a fitou com novos olhos. Sob as roupas de
moleque de rua, notou as formas arredondadas das coxas e os seios dissimulados sob a
camisa e o casaco.
— Como pude pensar que era um rapaz? — começou, andando em círculo ao seu
redor. — Você é do tipo mignon, mas não é nenhuma criança.
— Quem sou ou deixo de ser não é da sua conta!
— Seu tipo físico sem dúvida a ajuda a roubar... Passa desapercebida e escapa
rapidamente, pois se mete entre as pessoas com facilidade.
— Não teria me notado se eu não houvesse espirrado por causa do seu perfume
fedorento!
— Fedorento?! — Anthony se espantou. — É a loção masculina mais cara da
Inglaterra!
— Pois fede mais do que cachorro de rua depois da chuva — ela reafirmou com
ódio.
Anthony tomou consciência do que desejava fazer com aquela figura.
Surpreendentemente, não se tratava de nada sexual, a despeito da beleza escondida sob
a sujeira e os trajes de moleque.
— Bater carteiras não é o tipo de profissão que alguém como você deve ter.
— É mesmo? — ela indagou com sarcasmo, empinando o queixo. — Que profissão
eu deveria ter então?
— Iria se sair muito bem fazendo algo que exigisse pouca roupa sobre o corpo —
ele respondeu, piscando um olho.
— Canalha imundo!
— Estou brincando... — Anthony sorriu. — Não é o que tenho em mente. Venha
comigo e vai compreender.
Ela tentou fugir outra vez, porém ele tornou a prendê-la pelo braço.
— Para onde está me levando? Tenho o direito de saber!
— Não tem o direito de saber nada. Fique quieta e caminhe a meu lado.
— Para onde vai levar a moça? — Huntley se aproximou para lhe cochichar ao
ouvido.
— Para a casa de um amigo — Anthony respondeu no mesmo tom.
— Por que não conta para ela?
— Porque não costumo dar satisfações a ladrões. Mas não se preocupe... O que
vou fazer será bom para ela.
— Boa noite, Holmes — Anthony cumprimentou com jovialidade, puxando a jovem
ladra que se recusava a entrar na casa.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
O mordomo de Alec o fitou, boquiaberto.
— Precisa de ajuda, milorde? — ofereceu, tentando recuperar a compostura.
— Avise Alec que quero vê-lo — ele pediu, mas então se lembrou de que o amigo
na certa estaria trabalhando no escritório. — Pode deixar... sei onde encontrá-lo.
Após duas batidas na porta, não esperou por resposta e irrompeu escritório
adentro, arrastando a batedora de carteiras. Para seu espanto, Alec não se encontrava lá.
— Onde ele foi parar? — murmurou, avançando e olhando ao redor.
— Pare de me arrastar! — disparou a moça com raiva. — Já avisei que vai me
fazer perder a cabeça!
— O que fará? — Anthony desafiou, virando-a de frente para ele.
O olhar da jovem devia tê-lo feito prever o perigo que corria, mas, outra vez a pele
acetinada e os lábios tenros o distraíram. Aproveitando-se de seu momento de
desatenção, ela lhe desferiu um tremendo pontapé entre as pernas.
Com um gemido de dor, Anthony a soltou e dobrou o corpo.
— Eu avisei — ela falou com um sorriso, ajeitando o cabelo sob o boné para
reassumir a postura de rapaz.
— Você é muito mal-educada! — grunhiu Anthony, suando frio, sem conseguir
erguer o corpo.
— Se me dá licença... — Ela ia correr quando percebeu alguém bloqueando a
saída. Não parou para ver quem era: abaixou a cabeça e investiu, disposta a passar por
cima do desconhecido que lhe barrava o caminho.
Foi como se chocar contra uma parede de aço.
Desorientada, ela cambaleou para trás, ao mesmo tempo que reparava nos finos
sapatos de verniz à sua frente. Erguendo o olhar devagar, notou a elegância das calças
feitas de um tecido que devia valer mais do que ela jamais tivera no bolso. De caimento
perfeito, estas delineavam coxas musculosas. O abdômen reto, notou, era encimado por
um peito largo. A camisa branca com abotoaduras de ouro e o colete justo de veludo
escuro ressaltavam o tamanho e vigor dos ombros enormes.
Um par de sobrancelhas benfeitas se arqueava sobre olhos escuros que a fitavam
com curiosidade. A expressão no rosto moreno acentuava as mandíbulas bem formadas,
o nariz em perfeita harmonia com o restante do rosto e os cabelos fartos e ondulados. O
desconhecido tinha uma aparência ao mesmo tempo elegante e selvagem.
— Olá — disse com uma voz grave que reverberou por seu corpo.
— Olá — ela respondeu, sem alternativa. Fugir, no momento, era impossível.
Quem é você?, Alec quis indagar, mas decidiu deixar para Anthony a explicação.
Ele presenciara o golpe sofrido pelo amigo, e se perguntava o que significava a presença
de um moleque de rua em seu escritório.
— Algum problema? — perguntou ao amigo com frieza.
— Claro que não — assegurou o duque, erguendo o rosto vermelho. — O que lhe
deu tal impressão?
— Talvez o fato de estar com o corpo abaixado e as pernas trançadas...
— Estava admirando o tapete — Anthony elaborou, tentando reassumir uma
atitude normal. — É persa?
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Sim — confirmou Alec, entrando na sala. — Mas não veio para ver meu tapete,
veio?
Ao notar a porta desimpedida, a moça se preparou para empreender outra tentativa
de fuga. Prevendo o que ela iria fazer, Anthony tratou de segurá-la pelo braço outra vez.
— Porco imprestável! — ela disparou, revoltada.
— Seus elogios me encantam, mas nem tente partir sem avisar. É nossa hóspede
de honra agora, e não pode ir embora assim, sem mais nem menos.
— Odeio você!
— Gostaria de poder dizer o mesmo a seu respeito, mas não seria verdade. Sua
língua de víbora e esse olhar flamejante me intrigam. Pode me chamar de louco, mas me
identifico com você.
— Está indo longe demais ao me comparar a um almofadinha como você! Pensa
que é muito ilustre, mas não passa de um asno imbecil!
— Escute aqui, cale essa boca, senão...
— Deixe o rapaz em paz, Anthony! — Alec interveio, avançando até se colocar
entre os dois. — Não vale a pena brigar com um garoto.
— Não se iluda — preveniu Anthony, fitando os olhos azuis da jovem ladra. — Esta
figura faz parte da elite do mundo criminoso e merece apanhar!
— Não diga bobagens. Seria incapaz de agredir alguém tão jovem.
— Não tem ideia do que está fa...
— Onde está sua caridade, Anthony?
— É isso mesmo! Deveria ser caridoso e me deixar ir embora! — o falso moleque
se intrometeu.
Alec sorriu, porém Anthony ficou ainda mais irritado.
— Estou sendo caridoso! Na verdade até demais! Aliás... — Anthony apontou a
figura de boné e roupas sujas. — Esta será a sua obra de caridade, meu amigo.
— Como assim? — Alec se espantou.
— Ei! Não sou nenhum caso de caridade! — A jovem figura se indignou.
Algo no timbre de voz do moleque chamou a atenção de Alec, enfim, fazendo-o
virar-se para fitá-lo. Antes de ter a chance de refletir sobre o que era, contudo, teve de
agir rápido para agarrar o braço do rapazinho que, outra vez, fazia menção de agredir
Anthony.
Ao assegurar-se de que o jovem desistira de atacá-lo, ele o soltou.
— Para mim chega — declarou o duque. — Fiz a minha parte e vou embora.
— Não pretende deixar este moleque aqui, não é? — Alec reagiu, franzindo o
cenho.
— É justamente o que vou fazer. Você me deu carta-branca para decidir qual seria
sua obra de caridade.
— Mas avisei para não me meter em encrencas — ele revidou, alarmado.
— Devia ter sido mais específico. Não sou obrigado a ler seus pensamentos.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Resoluto, Anthony passou pelos dois e caminhou para a porta. Após três passos,
porém, parou e fitou Alec.
— Quase me esqueci de avisar o mais importante: tome cuidado com a sua obra
de caridade, pois ela tem as mãos leves — completou, virando-se para o falso moleque.
— Quanto você, se tentar fugir, já sabe. Vai direto para Newgate.
— O que quer dizer com "mãos leves"? — exigiu Alec, alarmado.
— Digamos que nosso hóspede aprecia se apropriar do que não lhe pertence.
— Não sou um simples ladrão! — revoltou-se o dito rapaz.
— Sou o melhor ladrão de Londres!
— Você ouviu — reforçou Anthony, mirando Alec. — E prepare-se para uma
grande surpresa, meu querido amigo — finalizou, antes de rumar para a porta.
— Que surpresa? — Alec exigiu, preocupado.
— Tire o boné de nosso amigo e verá... — Anthony desapareceu corredor afora.
— Algum dia ainda mato meu melhor amigo — Alec resmungou consigo.
— Isso se eu não o matar — assegurou a voz atrás dele. Alec se voltou para fitar o
garoto e, exasperado, passou a mão pelo cabelo. Como Anthony podia ter feito tal coisa?
Ele devia ter previsto que o duque ia deturpar suas palavras e causar confusão.
Concentrando-se no menino, tentou sorrir. Desde o princípio notara algo estranho
nele, porém não sabia dizer o que era. Seu ar quase delicado suscitava uma aura de
vulnerabilidade, mas o brilho dos olhos demonstrava que tinha coragem. Era um moleque
de rua e, portanto, habituado a lutar para sobreviver. Em tais circunstâncias, seu ímpeto
de roubar até era compreensível, embora não justificável.
A face do garoto era o enigma maior. A pele suave e rosada não tinha espinhas ou
marcas. Que idade teria?
Estreitando o olhar, Alec o observou com maior atenção. As sobrancelhas suaves
encimavam olhos de um azul límpido e cristalino.
De súbito, ele se lembrou das últimas palavras do amigo e, sem pensar duas
vezes, tentou tirar o boné puído do menino, que recuou, assustado.
— Não vou machucá-lo — Alec garantiu, tentando outra vez.
Desta vez foi bem-sucedido... e longos cabelos castanhos caíram por sobre os
ombros pequenos até a altura do peito.
Ele abriu a boca, estupefato. O "rapaz" era uma moça! E uma moça linda.
Franziu o cenho. Anthony o alertara de que ele teria uma surpresa, mas aquilo era
demais. Fascinado, observou os traços delicados da face à sua frente: os olhos exóticos,
o nariz levemente arrebitado, os lábios rosados e cheios.
— Você é uma menina!
— E daí? — Ela levou as mãos à cintura.
— Estou surpreso, ora.
— Então é bom ir se acostumando.
— Não pretendi insultá-la. Só estou chocado. Ainda mais sabendo que você é...
— Uma ladra? — ela completou com hostilidade, fazendo-o desistir do assunto.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Qual é o seu nome?
— Por que quer saber?
— Por necessidade. A menos que prefira que eu a chame de "Ei, você!".
Além de bonito, ele é espirituoso, ela pensou, disfarçando um sorriso.
E o fato de ele a ter defendido contra o amigo a surpreendera. Embora ele
impressionasse pelo tamanho, tinha uma maneira gentil de se comportar e falar. E, a
julgar pela casa onde vivia, era muito rico.
Por instinto, ela catalogou alguns itens que valeria a pena levar quando fugisse
dali.
— Meus amigos me chamam de Raposa — respondeu, por fim.
— "Raposa" é o seu nome?
— É o que meus companheiros me deram, portanto está bom.
— Companheiros?
— Sim. Minha gangue.
— Gangue?
— Vai continuar repetindo o que eu digo?
— Eu só gostaria de saber o nome que lhe deram quando nasceu, nada mais.
— Eu também não sei — confessou a garota, abaixando o olhar. — Minha mãe
morreu quando nasci, e meu pai foi embora logo depois.
— Sinto muito.
Sem nada acrescentar, a moça deu de ombros.
— Quem tomou conta de você? — indagou Alec.
— Por que quer saber? — Ela cruzou os braços e, desinteressada, fitou os
afrescos de gesso que decoravam o teto do escritório.
Ao observar o perfil feminino, delineado pelos compridos cabelos castanhos, Alec
pensou em perguntar se ela conhecia os quadros de Renoir, o pintor francês que
retratava lindas senhoritas de pele alva e faces rosadas. Mas lembrou-se de que aquela
menina vivia na rua, não tinha acesso à educação e nem visitava museus e galerias de
arte.
— Só estou querendo saber um pouco mais a seu respeito — explicou, tentando
não soar intimidador.
Ela tornou a dar de ombros.
— Cresci em orfanatos diferentes até ser grande o suficiente para tomar conta de
mim.
— Que idade tinha então?
— Sete anos, mais ou menos.
— Sete anos? — Alec reagiu, abismado, ao imaginar uma criança de sete anos
perambulando sozinha pelas ruas de Londres.
— Oito no máximo. Quando me mudei para o segundo orfanato, perderam a conta
do mês em que nasci.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Ele sentiu o peito se apertar. Tivera uma infância de rei, frequentando as melhores
escolas e usufruindo o melhor que a vida tinha a oferecer: excelentes refeições, passeios,
criados que antecipavam cada necessidade ou desejo seu. Ainda que naqueles dias
trabalhasse mais do que a maioria dos aristocratas, pertencia a um mundo de festas e
acontecimentos sociais no qual a elegância, a fartura e o desperdício imperavam.
Não parecia justo que a garota à sua frente houvesse tido vida tão diferente. Sem
lar nem família, não era de admirar que houvesse se transformado numa ladra.
— Por que me olha assim?
— Assim como? — Alec surpreendeu-se ao ver que ela o fitava.
— Como se tivesse pena de mim. Não preciso da sua compaixão. Não tenho
menos valor do que você. Aliás, talvez eu tenha até mais!
Num impulso, ela começou a caminhar para a porta. Por algum tempo, deixara-se
impressionar pelo fato de aquele desconhecido forte e elegante tratá-la com uma
consideração à qual não estava habituada, mas era tolice pensar que isso significasse
muita coisa. No fundo, ele a via apenas como a representante de uma espécie rara e
digna de pena.
Antes de chegar à saída, contudo, notou o mordomo encostado à parede e olhando
fixo para a frente, como se nada visse. Quando ela se aproximou, ele correu a abrir a
porta para sua passagem.
Aposto que ele não vê a hora de eu ir embora, pensou, divertida.
Sem fitar o criado desagradável, prosseguiu, incontinenti. No entanto, estacou sob
o umbral. Eles iriam permitir que ela partisse sem protestos?
Virou-se, resoluta.
— Não vai dizer que não posso ir embora ou me revistar para ver se não estou
levando nada?
Alec reprimiu um sorriso. A moça hesitava em partir e aquilo era bom, refletiu, sem
compreender a razão de tal pensamento. A intuição, entretanto, lhe dizia que era melhor a
moça ficar por vontade própria do que obrigada.
— Por que faria isso? — perguntou, enfiando as mãos no bolso das calças. — Não
sou responsável por você.
— Mas, e quanto ao seu amigo? Ele falou que eu deveria trabalhar aqui até pagar
minha dívida por ter tentado lhe roubar a carteira, caso contrário me levaria para
Newgate.
— Minha casa não é uma prisão, e você não tentou me roubar. Portanto está livre
para partir se quiser.
— Compreendo.
— Gostaria de comer algo? — Alec perguntou para quebrar o silêncio que seguiu.
— A cozinheira está preparando pato assado, e ninguém é tão bom na cozinha quanto
ela. Mas não se sinta obrigada a aceitar. Tenho certeza de que é uma pessoa ocupada.
— Está zombando de mim?
— Não — garantiu Alec. — Afinal precisa sobreviver de alguma maneira.
Ela piscou, aturdida, depois correu os olhos pelo escritório. Seguindo seu olhar,
Alec notou que ela observava a lareira de mármore, as tapeçarias nas paredes, a mobília
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
de madeira nobre e a estante de mogno repleta de livros. O que mais pareceu
impressioná-la, contudo, foi o candelabro de cristal veneziano que pendia do teto.
— Está certo de que posso comer aqui? — ela perguntou quando tornou a fitá-lo.
— Claro.
— Se é assim... Por que não? Seria estupidez recusar um prato de comida.
— Também acho — Alec murmurou, reprimindo outra vez o riso diante da forma
mal-educada com que ela aceitara o convite.
Algo lhe dizia que a noite iria ser interessante. A garota tinha um frescor e uma
originalidade que a tornavam diferente. Seria divertido variar de conversa, mesmo porque
estava cansado das banalidades que era obrigado a discutir com as mulheres da
sociedade.
Virando-se para Holmes, notou que o mordomo de cabelos grisalhos mantinha a
mão sobre a maçaneta, esperando pela saída da moça.
— Você ouviu, Holmes, teremos uma convidada para o jantar. Diga à cozinheira
para colocar um prato extra para a senhorita... — Ele se calou e a fitou com ar
interrogativo.
— Kate — ela respondeu num impulso. Esse era o nome pelo qual a chamavam
desde que se conhecia por gente.
Não se sentia como Kate, contudo. O nome soava como o de uma lady, e não
como o de alguém que crescera em orfanatos e agora vivia nas ruas do decadente bairro
de Whitechapel.
— Por favor, prepare um lugar à mesa para a srta. Kate — Alec instruiu o
mordomo.
— Como desejar, milorde — aceitou Holmes, sem dissimular sua desaprovação
ante o gesto. — A senhorita não gostaria de lavar as mãos e o rosto antes de comer? —
perguntou em tom neutro, sem se dirigir a ela.
— Por que pergunta para ele e não para mim, seu saco de batatas podres?! —
Kate se indignou ao se ver tratada como um ser inferior e indigno de atenção.
Alec bufou na tentativa de conter o riso. Holmes era um bom homem, atencioso e
gentil, porém tinha mesmo uma tendência a menosprezar quem pertencia às classes
sociais menos privilegiadas. Provavelmente nem tinha consciência disso, mas, muitas
vezes, comportava-se como um esnobe.
Resolveu intervir ao ver o criado ficar vermelho como um tomate.
— Holmes apenas quis deixá-la à vontade caso quisesse se refrescar — minimizou
com um lindo sorriso.
Mais uma vez, Kate se surpreendeu ao ver um homem tão rico exibindo tanta
sensibilidade. Não desejava dar o braço a torcer e se limpar, mas, por outro lado, a ideia
de jogar água fresca no rosto e nos braços era atraente. Afinal, fazia tempo que não se
lavava com outra coisa que não a água da chuva.
Abaixou o olhar e fitou a própria roupa. Mesmo limpando as mãos e o rosto,
seguiria com aquele traje imundo. Quando estava na rua, isso não importava, mas, ali
dentro, destoava do ambiente. Sentiu um nó na garganta e odiou a si própria pela
vulnerabilidade.
Alec percebeu os olhos claros marejando e se apressou em tranquilizá-la:
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Escute, não se sinta obrigada a...
— Onde posso me limpar? — Kate o interrompeu.
— No andar de cima — ele respondeu com cautela, e então se virou para Holmes.
— Por favor, conduza a senhorita até o meu quarto.
— Até o seu quarto, milorde? — O mordomo abandonou sua impassibilidade e o
fitou, estarrecido.
— Sim, Holmes.
— Tem certeza, milorde?
Alec apenas o fitou com censura.
Kate pensou em dizer que não queria que aquele mordomo esnobe a
acompanhasse. Mas a casa era imensa e não gostaria de se perder.
Sem alternativa, ergueu a cabeça e saiu.
Em silêncio, Holmes a seguiu rapidamente e emparelhou com ela, guiando-a
escadaria acima até o andar superior.
Apesar de contrariada por ter de acompanhar o tal Holmes, Kate teve a atenção
distraída pelos ricos arredores. Ao atingirem o topo da escada, ela deparou com um
consolo de mármore sobre o qual repousava uma pequena caixa revestida com pedras
semipreciosas. Fascinada, quis tocar o delicado objeto, porém Holmes deu-lhe um tapa
na mão.
— Não toque em nada! — alertou com ar de superioridade.
— Não se atreva a encostar a mão em mim, seu urubu seco, ou vai pagar caro! —
Kate ameaçou, revoltada.
— Se não tocar em nada, não terei de fazer isso — o mordomo replicou apenas, e
continuou a andar.
Kate comprimiu os lábios. Era melhor agir como se ele não existisse, comer o
máximo de comida possível e cair fora dali.
— Ficarei aqui fora, aguardando — alertou Holmes, tão logo abriu a porta do
aposento do patrão. — Nem pense em remover algo, pois conheço cada detalhe desse
quarto!
— Você é mesmo um idiota convencido — contra-atacou Kate. — Agora, se me dá
licença, preciso me preparar pois fui convidada para jantar — finalizou, entrando no
quarto do dono da casa.
— Se não sair logo, entrarei para ver o que está fazendo — Holmes avisou, antes
de fechar a porta atrás dela.
Kate, porém, não respondeu, pois o que viu a fascinou. Jamais poderia conceber
um ambiente tão requintado como o que se descortinava à sua frente.
O quarto era glorioso. Amplo, tinha as paredes recobertas por um tecido de
estampa sóbria que contrastava com as imensas cortinas claras. O fogo crepitava na
enorme lareira sobre a qual repousavam candelabros de prata. Poltronas de veludo
próximas do calor, convidavam a relaxar, e, do lado esquerdo do aposento, um enorme
espelho de cristal e moldura dourada cobria quase toda a parede.
Encimada por um dossel drapejado, sustentado por quatro colunas de madeira, a
cama dominava o ambiente. Era tão grande que sua gangue inteira poderia dormir ali e
ainda sobraria espaço!, ela refletiu. Mais do que uma cama, parecia uma plataforma, tal
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
era a distância que a separava do chão. Tanto que, para subir nela, era necessário usar
uma escadinha de dois degraus. Contra o espaldar de madeira trabalhada, havia uma
profusão de travesseiros com fronhas de tecido sedoso, nas quais devia ser uma delícia
recostar a cabeça.
Caminhando até a estante que chegava ao teto, Kate passou a ponta dos dedos
sobre os livros encapados em couro. O dono da casa devia ter lido tudo aquilo. Com
certeza, tivera a melhor educação que o dinheiro podia comprar e frequentara uma
daquelas escolas elegantes onde os meninos usavam uniformes com galões dourados
nos ombros.
Aproximando-se da lareira, tocou o veludo da poltrona, deliciando-se com a maciez
do tecido. Sobre o consolo, velas queimavam nos candelabros, criando um brilho que
refletia no espelho da parede, do outro lado. O conjunto criava uma atmosfera mágica,
enfatizada pelo aroma de sândalo que impregnava sutilmente o lugar.
Era incrível como a vida podia ser diferente daquela a que ela se habituara! Ali,
tudo era aconchego e segurança, ao contrário da rua sempre hostil e perigosa, onde
necessitava se manter alerta.
Por que tanta diferença? Ela não pedira para se tornar órfã. Pobre, acostumara-se
a ser tratada como um ser inferior. Ao vê-la vivendo nas ruas, as pessoas a tratavam
como um animal que deveria ser escorraçado. Não podia entrar em lugares frequentados
por gente "decente", nem caminhar por onde transitavam aristocratas. Quando deparava
com policiais, eles sempre vinham perguntar o que ela estava fazendo e demandavam
que fosse embora.
Sim, ela roubava para viver. Mas que alternativa tinha? Não sabia ler ou escrever,
e jamais haviam lhe acenado com a possibilidade de um emprego regular e honesto.
Assim, tinha três escolhas: roubar, mendigar ou se prostituir. Viver da solidariedade alheia
não era uma opção, mesmo porque sempre exigiam algo em troca. A maior parte das
pessoas fazia caridade apenas para aplacar a própria culpa, e não para ajudar o próximo.
Solidariedade verdadeira só ocorria entre semelhantes, como entre os companheiros da
gangue que ela liderava. Mesmo assim, eles eram obrigados a se defender de outras
gangues de gente tão pobre quanto eles.
Por isso se tornara Raposa. Não era dura e cruel como fingia ser, mas a imagem
lhe garantia respeito nos becos de Londres.
Respirou fundo. Na verdade, estava cansada de ter medo, de passar fome, de ver
os dias passando e levando os poucos sonhos que ainda ousara ter até alguns anos
antes.
E as circunstâncias tinham se tornado piores a cada dia, ela se lembrou. Quando
as mudanças em seu corpo haviam começado a atrair um tipo de atenção que ela não
desejava, passara a se vestir como um rapaz e a andar com o rosto sujo. Tinha escondido
o cabelo comprido sob um boné, mas se recusara a cortá-lo, pois era o único atributo que
a fazia se sentir feminina.
Erguendo-se na ponta dos pés, observou a própria face refletida no espelho sobre
a lareira. Sob a sujeira, sua pele estava pálida. Os olhos, que já haviam presenciado tanta
brutalidade e infelicidade, haviam perdido parte do brilho, fazendo-a parecer mais velha.
Mordeu o lábio, perturbada. Estava um verdadeiro desastre. Os cabelos
precisavam ser lavados e escovados, ainda que isso não ocorresse muitas vezes ao ano,
e tinha uma mancha escura de fuligem na bochecha que ela nem sabia como havia
conseguido.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Desanimada, retornou para o centro do quarto e, outra vez, fitou o enorme leito.
Imaginou o dono da casa dormindo ali. Será que dormia nu?
Franziu o cenho, sem compreender por que tal pensamento lhe ocorrera. O conde
era um homem alto, másculo, bonito e intrigante, mas isso não era motivo para ela se
perguntar se ele dormia sem roupa!
Talvez a pergunta houvesse ocorrido por ela estar em frente a uma cama tão
maravilhosa.
Num impulso, deu dois passos e tocou a coberta que caía pelos lados com um
suspiro. Ao notar que se comportava como se estivesse num sonho, resolveu afastar os
pensamentos tolos e verificar uma cômoda encostada à parede, em outro canto do
aposento. A madeira nobre do móvel brilhava. Sobre a cômoda, havia objetos de uso
pessoal como pentes de marfim e uma escova de roupa.
Ao abrir uma caixa de prata forrada de veludo escuro, deparou com muitos pares
de abotoaduras. Artigos valiosos. Apenas um par daqueles lhe garantiria refeições por
vários dias! Dominou o impulso de roubar, pois algo lhe dizia que, ao menos por
enquanto, não deveria fazer isso.
Meneando a cabeça, voltou a caminhar pelo aposento, sem notar que o tempo
passava e ela ainda não começara a se limpar. Ao se aproximar do guarda-roupa, abriu a
porta que, embora pesada, moveu-se com facilidade e sem fazer ruído. Lá dentro, uma
infinidade de camisas alvas como a neve e ternos e casacas escuros se encontravam
pendurados em perfeita disposição. Não exibiam um só amassado ou mancha de sujeira.
Era como se jamais houvessem sido usados!
Num impulso, tomou a manga de uma das camisas e a encostou na face, sem
pensar que a própria sujeira poderia manchar o tecido. Fechou os olhos, sentiu a textura
macia e aspirou o aroma de limpeza e masculinidade.
Era como estar no paraíso, concluiu. Ali, tudo cheirava bem. No silêncio daquele
quarto quente e aconchegante, as agruras do mundo não existiam.
Após fitar por algum tempo a rua através da janela, Alec voltou para o interior da
sala e sentou-se. Havia pensado em beber algo enquanto esperava, mas tinha desistido.
Onde estava a menina? Fazia meia hora que subira para se limpar.
Quando considerou checar o que acontecia, lembrou-se de que Holmes a
acompanhava. O mordomo deixara bem claro que não simpatizava com sua inesperada
"convidada". Teria feito algo?
Correndo para o saguão, Alec subiu a escada de dois em dois degraus. Se Holmes
tivesse ousado colocá-la para fora, arcaria com as consequências.
Entretanto, algo lhe dizia que Kate não aceitaria as imposições do mordomo sem
fazer um escândalo ou contra-atacar.
Ao chegar ao corredor, surpreendeu-se por não deparar com Holmes esperando
em pé do lado de fora de seu aposento. Estranhamente, tudo estava quieto.
Ao aproximar-se, encostou o ouvido na porta para escutar o que ocorria lá dentro.
Silêncio. Será que ela resolvera partir por vontade própria? Teria preferido dispensar uma
promissora refeição?
Preocupado, Alec refletiu que não tinha muitas opções: ou permanecia parado ali
como um idiota, ou batia para ver se respondiam.
Embora a segunda alternativa fosse a mais adequada, ele levou a mão à maçaneta
e a girou com cuidado.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
A cena com a qual deparou o surpreendeu. Em pé, Kate acariciava a face com a
manga de uma camisa pendurada no guarda-roupa. De olhos fechados, cheirava o tecido
sorrindo. Mesmo vestida com aquelas roupas sujas de moleque de rua, sua aparência era
angelical. Kate exalava inocência por todos os poros, concluiu, perturbado. Ela abriu os
olhos, retirou o cabide com a camisa e a segurou diante do corpo. Então, inclinou a
cabeça, avaliando-se no espelho.
De repente, como se pressentisse ser observada, voltou-se para a porta e seu
olhar cruzou com o dele.
Alec a fitou com ar divertido.
— Espero não estar importunando — ele quebrou o silêncio com voz tranquila.
Ele não está zangado!, Kate surpreendeu-se, soltando o ar que havia prendido.
— Não me importuna.
— Perdão, eu devia ter batido na porta.
— Por quê? Este é o seu quarto. — Ela deu de ombros e corou ao perceber que
ainda mantinha a camisa na frente do corpo. — Deve estar se perguntando por que abri o
guarda-roupa e peguei sua camisa.
— Não — garantiu Alec, encostando o ombro no umbral.
— Eu não devia bisbilhotar suas coisas — Kate recomeçou, aturdida. Era possível
que ele não houvesse se importado realmente? Afinal, sabia que ela roubava! — Eu
estava procurando uma toalha — mentiu, mesmo ciente de que a desculpa soava
esfarrapada.
Sem nada dizer, Alec entrou com a graça de um felino e se aproximou, levando-a a
pensar que chegara a hora de ela levar um safanão e ser atirada na calçada. Com aquele
tamanho, ele nem precisaria chamar os criados!
Recuou, temerosa, entretanto, o conde não parou. Quando estava perto o
suficiente para golpeá-la, ergueu a mão e ela se encolheu. O dono da casa, contudo,
apenas girou a maçaneta ao lado dela.
Kate olhou, boquiaberta, para a porta que parecia fazer parte do imenso guarda-
roupa, mas que revelou um aposento contíguo, no qual se via uma pia de mármore, uma
banheira de cobre e apetrechos de higiene.
Um banheiro particular!, concluiu, embasbacada. Já ouvira falar de casas assim,
mas jamais havia entrado em uma delas. Era impressionante que se pudesse acordar
pela manhã, descer de uma cama gloriosa, banhar-se sem sair do quarto e então
escolher uma daquelas roupas maravilhosas antes de sair para o mundo.
Alec entrou e a convidou a segui-lo. Após colocar a camisa sobre uma cadeira
próxima, Kate aceitou o convite, notando que a sala de banho era maior do que julgara a
princípio. Sobre uma bancada, avistou uma bacia de porcelana com água. Toalhas e um
vaso com flores davam cor ao ambiente revestido de mármore claro.
Vendo-a absorvida na contemplação dos arredores, Alec molhou os dedos na água
e aspergiu na face de Kate.
Ela deu um salto para trás.
— Tem medo de água? — ele perguntou, brincalhão. — Pensei que fosse corajosa.
— Sou corajosa — reafirmou Kate, estreitando os olhos para fazer a expressão
rude e dura que usava para enfrentar os perigos da rua.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Em resposta, Alec umedeceu outra vez a ponta dos dedos e tornou a borrifá-la no
rosto de Kate.
— Pare com isso! — ela gritou, irritada.
— Não veio aqui para se lavar? — ele desafiou, enfiando os dedos na água pela
terceira vez para espirrar nela.
Sem pensar duas vezes, Kate avançou até a bacia, enfiou a mão na água e
espargiu muitas gotas no rosto do dono da casa, triunfante.
Ao ver a surpresa no rosto moreno, prendeu a respiração. Afinal, não era criança
para se envolver em jogos infantis. Era líder de uma gangue do bairro de Whitechapel e
deveria agir como tal. O que diriam seus comandados se a vissem brincando com um
nobre?
O pior era que agora ele provavelmente estava zangado. E embora ela não fosse
uma convidada de verdade, não via a hora de consumir a refeição prometida.
— Perdão — murmurou e voltou-se para a bacia. Inclinando a face, mergulhou as
mãos na água e começou a lavar o rosto.
Educado, Alec recuou um passo, permitindo que ela se movimentasse. Ao vê-la
terminar, passou-lhe uma pequena toalha sedosa e perfumada.
Kate enxugava o rosto quando o som de alguém clareando a garganta perto deles
a fez se virar. Holmes, o mordomo antipático, a fitou de queixo erguido antes de se virar
para Alec e adquirir uma expressão respeitosa.
— Sinto muito ter deixado a moça sozinha, milorde. Fui chamado para resolver um
desentendimento entre duas empregadas.
— Não tem problema.
Ao notar as gotas na casaca impecável, o mordomo fitou Kate com suspeição.
— Algo errado, milorde? — indagou, preocupado.
— Está tudo bem. Mas perturbei minha convidada, e ela ainda precisa de um
tempo para se arrumar. Pode me trazer uma garrafa de vinho? Estarei no escritório.
Após fazer uma reverência, Holmes fez meia-volta e partiu.
Alec virou-se para Kate e a fitou em silêncio até ouvir os passos de Holmes
sumindo a distância. Então, sem nada acrescentar, ele também caminhou para a porta.
Antes de se afastar, entretanto, parou e virou-se para Kate.
— Não tenha pressa, e fique à vontade para usar o que for preciso — afirmou. E
saiu, fechando a porta atrás de si.
Sem saber o que pensar, Kate permaneceu parada, fitando a porta fechada.
Pensativo, Alec fitava a rua através da janela do escritório. Não conseguia
compreender por que se engajara na brincadeira infantil de atirar água na senhorita. O
que havia acontecido com ele? Não era um homem conhecido pela espontaneidade e,
com certeza, não andava por aí brincando com desconhecidos. A irmã sempre dizia que
ele deveria se soltar e relaxar um pouco, mas até ela ficaria surpresa se soubesse o que
ele tinha feito.
— Milorde? — A voz de Holmes soou atrás dele. Quando Alec se virou para o
mordomo, viu que Kate o acompanhava.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— A srta. Kate já acabou de se refrescar — anunciou o criado.
— Obrigado, Holmes. Pode ir agora.
O mordomo hesitou, como se preferisse não partir. Mas, dirigindo um último olhar
desconfiado na direção da moça, saiu da sala.
Alec meneou a cabeça. Holmes só queria lhe ser fiel, mas estava exagerando.
Ao se ver a sós com Kate, porém, ele desistiu de pensar no mordomo.
— Sente-se, por favor — convidou, educado.
Alec a observou caminhar até a cadeira mais próxima e se instalar sobre o assento
sem nenhuma cerimônia. Em seguida, ela passou a examinar o escritório, como se
catalogasse mentalmente os itens valiosos.
O fato de ter se lavado não transformava seu caráter. E nem ele tinha a expectativa
de que fosse de outra maneira.
Mas a limpeza lhe fizera bem. Sem as manchas de sujeira cobrindo a face, uma
pele sedosa como pêssego se revelara. Tendo arrumado uma fita de alguma maneira, ela
atara os cabelos castanhos atrás da cabeça, acentuando as linhas suaves do rosto, o
nariz afilado e os grandes olhos azuis. Quanto à roupa que vestia... Bem, não havia muito
a fazer.
Por um momento, Alec a imaginou vestida com a camisa que ela tirara do guarda-
roupa. Naturalmente, seria longa demais e lhe chegaria até os joelhos, mas ela não ficaria
feia.
— Gostaria de beber algo? — ofereceu, encaminhando-se para uma mesa sobre a
qual havia garrafas de bebida, taças e copos de cristal.
Kate tentou não observá-lo, mas era difícil. Sentia-se estranha, pois jamais estivera
sozinha na companhia de um homem adulto. Seus amigos da gangue eram jovens, pouco
mais do que meninos.
Sem dizer que, ali, ela transitava num ambiente desconhecido e estava fora de seu
elemento. O que fazia naquela casa linda, ao lado daquele homem gigante que a tratava
com tanta gentileza? Ele era diferente dos lordes que havia visto. Ela já roubara a carteira
de muitos, mais do que podia contar nos dedos, e eles não costumavam ser tão fortes e
másculos.
E certamente não possuíam aquele tom moreno de pele, os cabelos ondulados e
os ombros imensos. Visto de costas, ele parecia sólido como a pedra de Gibraltar.
De repente, notou que ele a fitava com ar interrogativo.
— O que disse? — perguntou, embaraçada.
— Perguntei se gostaria de tomar algo. Tem idade suficiente para beber, não tem?
—-perguntou Alec, refletindo que aquela era uma maneira suave de questioná-la a
respeito da idade.
— Tenho idade suficiente para fazer o que eu quiser.
— Claro. Espero que compreenda: não seria certo oferecer bebida a uma menor de
idade.
Assim como não era certo ficar excitado em sua presença.
Por Deus! O que acontecia com ele? Por que se encontrava naquele estado?
Na certa porque fazia tempo que não se envolvia com uma mulher.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
De qualquer maneira, não havia nada de errado em querer saber qual a idade dela.
Só não perguntava diretamente porque não queria ser indelicado.
— Não gaste seu tempo pensando nisso, pois não bebo — ela interrompeu seus
devaneios. — Nunca gostei de álcool.
— Pois faz muito bem. Já eu bebo uísque de vez em quando e vinho durante as
refeições. Tomei meu primeiro drinque aos dezesseis anos. E você?
Kate franziu a testa. A pergunta era estranha. Afinal, que importância tinha quando
ela experimentara bebida pela primeira vez?
— Tomei conhaque há uns quatro anos. Após o terceiro gole, meu estômago
revirou e coloquei tudo para fora.
Quantos anos você tem, droga?, ele teve ímpetos de dizer.
— Beber é um gosto que necessita ser desenvolvido. No princípio, não é agradável
— falou em vez disso.
— Pode ser — Kate respondeu, impaciente. Aquela conversa sem sentido estava
atrasando seu jantar.
— Por falar nisso, eu...
— Qual é o seu nome? — ela o interrompeu.
— Meu nome? — Alec surpreendeu-se. Para ela não parecia difícil indagar o que
tinha em mente. — Ah, perdão por não ter me apresentado antes. Eu me chamo Alec. E
você, quan...
Uma batida à porta o impediu de concluir a pergunta.
— O que foi? — ele perguntou, exasperado.
— O jantar está servido, milorde — anunciou Holmes.
— Obrigado por avisar — ele agradeceu. Em seguida, caminhou para Kate e
ofereceu o braço. — Vamos?
— Claro! — ela exclamou com um lindo sorriso, levantando-se de imediato. —
Estou morta de fome!
Alec a observou, fascinado. Kate emanava uma luz própria, e o mais interessante
era que não fazia esforço para tal, o que a tornava ainda mais encantadora. Mesmo
trajando roupas de moleque, ela exalava feminilidade, percebeu, perturbado.
— Eu seria capaz de devorar um cavalo! — Kate acrescentou, espontânea,
fazendo-o rir com o comentário.
Educado, ele fez uma breve reverência, tomou a mão delicada e a colocou sobre o
braço.
Capítulo II
Kate franziu a testa ao deparar com os diferentes talheres ao lado do prato. Por
que alguém precisaria de mais do que um garfo para comer?
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
O anfitrião na cabeceira da mesa abriu um sorriso encorajador e fez um gesto com
a cabeça. Ela, contudo, não teve coragem de sustentar seu olhar. Afinal, não era fácil
fingir que tinha o controle da situação. Se Alec a fitasse nos olhos, notaria sua
insegurança.
Kate suspirou. Jamais se sentira tão ignorante quanto às chamadas "boas
maneiras". Acostumada a lidar com situações difíceis e até mesmo perigosas, sempre
contara com a própria esperteza para triunfar nas lutas do dia a dia. Agora, porém, se
descobria pouco à vontade para realizar tarefas simples como usar talheres ou colocar o
guardanapo de linho sobre o regaço, algo que ela copiou de Alec.
O pior era ver sua confusão observada por Holmes, aquele mordomo enxerido que
não saía da sala de jantar e erguia uma sobrancelha ou balançava a cabeça a cada vez
que ela levava algo à boca. Seria ótimo se Falcão estivesse presente, pois não se
deixaria intimidar pelas provocações do imbecil e o colocaria em seu devido lugar.
Havia um vínculo especial entre ela e Falcão; algo que só a morte poderia romper.
Falcão a completava. Possuía os atributos que ela não tinha, e vice-versa. Ela o
considerava quase como uma extensão de si mesma.
A entrada de uma criada a fez esquecer Holmes. Normalmente, ela não gostava de
pão, pois fazia dias que não tinha outra coisa com que se alimentar. Contudo, os
pãezinhos fumegantes dentro de uma cesta de vime que a serviçal colocou ao lado de
Alec deram-lhe água na boca. Sem dúvida, eram muito diferentes do pão seco e duro que
em geral lhe caía nas mãos.
— Alec? — chamou.
— Sim, Kate?
Ao ouvir aquilo, Holmes cambaleou como se fosse desmaiar. Sem se conter, ele
deu um passo adiante e a encarou.
— A senhorita está falando com um conde. Não pode se dirigir a ele pelo primeiro
nome.
— Então como vou pedir que me passe o maldito pãozinho? — ela perguntou,
enfezada.
— Não pode pedir que o conde lhe passe algo. Para isso existem os criados. Se
olhar ao redor, verá que há vários aqui para servi-la.
Kate notou as duas moças em pé. Discretas, tinham passado despercebidas, mas
se adiantaram, prontas para atendê-la.
— Também quero um pouco daquela coisa marrom.
— "Aquela coisa marrom" é o molho para a carne, senhorita — o mordomo
explicou, rígido.
— Quer dizer que não posso me levantar, assim, e pegar? — Ela inclinou o corpo
por sobre a mesa e, esticando o braço, puxou uma travessa. Para afrontar o mordomo
ainda mais, tomou um dos garfos e começou a se servir de batatas. — Viu? Posso fazer
isso sozinha. Não sou criança, e minhas mãos funcionam muito bem.
Recostado na cadeira, Alec observava o entrevero, divertido. Kate se defendia
muito bem sozinha. Era mesmo uma moça especial. Apesar de jovem, tinha um fogo
dentro de si que a tornava irresistível.
De súbito, Alec compreendeu o que o atraía em sua figura: a liberdade que ela
possuía para agir como bem entendesse. Ele sempre se comportara da maneira devida e
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de acordo com as regras estipuladas para se conversar, sentar, comer ou sorrir. Leis
estritas regiam seu comportamento e não deixavam muito espaço para a espontaneidade.
Que ironia os nobres enxergarem a posse de fortuna como uma garantia de
liberdade! O conflito entre Kate e Holmes se tornou pior. Vermelho de raiva, o mordomo
empurrou a travessa de batatas para longe da moça. Sem se fazer de rogada, ela tornou
a inclinar o corpo sobre a mesa e, desta vez, ergueu a travessa.
Alec receou que Kate fosse atirar a comida em Holmes e achou por bem interferir.
— Holmes é um pouco rígido, às vezes... — Tocou-a no braço e a incitou a
recolocar a travessa sobre a mesa.
— Às vezes? — ela replicou com ironia, embora desistindo das batatas.
Afastando-se, o mordomo se juntou aos outros criados destacados para servir o
jantar.
— Com certa frequência, talvez. Mas não é sempre assim.
— O que você quer dizer é que ele está se comportando como um esnobe imbecil
apenas por causa de minha presença?
— Não exatamente — contemporizou Alec. — Holmes não é uma pessoa ruim
quando o conhecemos melhor — acrescentou em voz baixa. — Ele só está meio perdido
com a excepcionalidade da situação.
Kate nada disse, mas o olhar mostrava que não estava convencida.
— Não permita que ele a faça perder a paciência — Alec prosseguiu, discreto. —
Holmes perderá o interesse em confrontá-la se você não revidar — assegurou, na
esperança de que fosse assim.
Naturalmente, ele poderia chamar a atenção do mordomo caso a situação fosse
longe demais, porém era divertido observar o embate entre os dois.
— Aposto minha alma com o demônio que o atrevido não vai desistir de me
apoquentar — Kate duvidou, lançando um olhar de soslaio para Holmes. — Só ficará
satisfeito quando me ver pelas costas.
— Que tal colocarmos esse assunto de lado e passarmos à sobremesa? — sugeriu
Alec, fazendo um sinal.
Os criados tiraram os pratos, ao mesmo tempo que outra serviçal surgia, trazendo
uma bandeja de prata com doces. A tática deu resultado, pois os olhos de Kate brilharam.
Alec escolheu logo, apontando uma fatia de torta de abóbora. Para ele, a
sobremesa era apenas outro momento da refeição, e não havia muito a pensar a respeito.
Para Kate, entretanto, era diferente. Exposta aos doces, tortas, bolos e caldas de
sabores diferentes, ela não sabia o que escolher.
— Maggie — ele chamou a serviçal —, por que não deixa a bandeja? Talvez a srta.
Kate queira provar mais de um dos quitutes.
Obedecendo à instrução, a empregada colocou a bandeja sobre a mesa, enquanto
a outra colocava um pratinho na frente de Kate. Então, ambas se retiraram.
Alec teve de fazer força para não rir quando Kate se serviu de duas fatias de bolo,
cobriu-as com calda de chocolate e ainda colocou creme chantili sobre o doce, coroando-
o com cerejas carameladas.
— Que delícia! — exclamou de boca cheia.
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— Fico feliz que goste — ele falou com sinceridade. Não se sentia tão leve e
descontraído havia muito tempo. Quanto mais ficava junto de Kate, mais tinha vontade de
se aproximar dela. — Não quer mais nada? — perguntou ao notar que ela terminara a
sobremesa.
Erguendo as mãos num gesto simbólico, ela se recostou no espaldar alto,
parecendo mais do que satisfeita. Alec notou a pequena mancha de chocolate no canto
esquerdo da boca e, num assomo, quis beijá-la e sentir sua doçura. O impulso foi tão forte
que o fez desviar o olhar.
Kate consumira muito mais do que uma dama faria normalmente, pensou sorrindo.
Natural. Além de faminta, com certeza ela não estava habituada a tanta fartura.
Fitou-a, discreto, e viu suas pálpebras pesar. Kate inclinou a cabeça para a frente e
tornou a erguê-la com dificuldade. Estava prestes a adormecer!
Alec pensou em tentar despertá-la, mas não teve coragem.
Ela já respirava mais de modo cadenciado, indicando que em breve estaria no
mundo dos sonhos.
Tombando a cabeça para a frente mais uma vez, Kate começou a ressonar.
Alec recostou-se na cadeira e relaxou os ombros, sorrindo. A visão da moça
adormecida deu-lhe paz e transformou a sala de jantar num local acolhedor e repousante.
Nesse momento, Holmes reapareceu após ter saído por um momento. Ao ver Kate
dormindo, horrorizou-se.
— Não diga nada! — urgiu Alec num sussurro, impedindo que o mordomo a
acordasse e destruísse a magia do momento. Então, levantou-se num impulso,
aproximou-se de Kate e a ergueu nos braços com cuidado.
Ela se moveu ao ser erguida, porém não despertou.
— O quarto de hóspedes está arrumado? — ele indagou em voz baixa.
— Sim, milorde. Foi arejado esta tarde, e trocaram os lençóis.
— Excelente. Não... — Agitou a mão ao perceber que Holmes se preparava para
acompanhá-lo. — Pode deixar. — E, devagar, carregou-a para fora da sala de jantar e
escada acima sob o olhar estarrecido do mordomo.
O quarto de hóspedes ficava no final do corredor, em frente ao seu. Abrindo a porta
com alguma dificuldade, entrou no aposento escuro e colocou Kate sobre o leito com
delicadeza. Em seguida acendeu a lamparina sobre o criado-mudo e fitou a beleza
delicada, iluminada pelo brilho da chama.
Num impulso, ergueu a mão para tocar o rosto angelical.
Não, refreou-se depressa. O que estava fazendo? Kate confiava nele e, estando
em sua casa e vulnerável, merecia sua proteção. Não podia agir como um devasso.
Relutante, foi até a lareira apagada. Como a madeira estivesse preparada, num
instante acendeu o fogo que iluminou o aposento com um brilho dourado.
De súbito, ocorreu a Alec que ele não havia trabalhado desde a inesperada
aparição de Kate. A ladra com rosto de anjo tinha conseguido um feito.
Movido por um impulso irresistível, ele retornou para perto da cama. Relaxada
sobre o colchão, Kate tinha os braços estendidos ao longo do corpo.
Deus! Como ela era diferente das mulheres que ele conhecia!
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Sua mãe, a quem ele amava e respeitava, vivia dizendo que ele precisava
encontrar a mulher certa. Alguém maleável e de bom nível social, dizia.
Compreendia o que ela queria dizer: a mãe queria para nora uma aristocrata que,
de preferência, não fizesse objeção a ser dominada por ela.
Talvez por isso ele jamais tivesse pensado em se casar... além de nunca ter
encontrado uma mulher que lhe despertasse tal desejo.
De qualquer forma, o trabalho o mantinha ocupado e, muitas vezes, o obrigava a
viajar, impedindo-o, inclusive, de visitar com maior frequência a fazenda da mãe. Sua irmã
Jane, entretanto, não tinha a mesma sorte. Vivendo com a condessa, sujeitava-se aos
desígnios da dominante progenitora.
Alec suspirou. Para sua tristeza, Jane acabara se tornando introvertida e tímida.
Embora fosse inteligente, não ousava ter opiniões próprias. Era bonita e perspicaz, porém
só desabrocharia como pessoa no dia em que conseguisse se libertar do jugo de sua
mãe.
Ele sempre insistia para que a irmã passasse uma temporada com ele em Londres,
mas nunca obtinha sucesso. De qualquer modo, teria de escoltar Jane para introduzi-la na
sociedade, e a perspectiva de ir a festas e jantares não o animava.
Se fosse necessário, contudo, faria tal esforço. Jane precisava conhecer a capital,
ampliar seus horizontes e encontrar pessoas de sua mesma idade.
Por outro lado, se a mãe deles insistisse em vir também, passar um verão inteiro
sob seus ditames seria uma tortura.
Seus pensamentos foram interrompidos quando Kate soltou um murmúrio e virou-
se no leito, abraçando a si mesma.
Imaginando que talvez ela estivesse com frio, ele lhe tirou delicadamente as botas
e a cobriu com cuidado.
Por que aquela moça o enternecia tanto?, indagou-se, intrigado. Não tinham nada
em comum. Seus mundos só haviam se tocado por conta da interferência de Anthony.
Talvez fosse melhor que ele jamais a houvesse conhecido. Afinal, o que podia
fazer por Kate? Que diferença faria ela ter uma noite de fartura e conforto, quando o dia
seguinte traria de volta a vida árdua da qual ela não poderia escapar?
Além do mais, ela lhe despertava sentimentos com os quais ele nem sabia como
lidar.
Alec se afastou, incomodado. Num impulso, virou-se e deixou o quarto, fechando a
porta atrás de si.
Rolando sobre a cama, Kate abraçou o travesseiro fofo e ronronou como um gato
preguiçoso e satisfeito. Que sonho agradável estava tendo! Sonhava dormir numa cama
ampla que não precisava compartilhar com os três outros órfãos. Um leito quentinho e
aconchegante. Era incrível como o cérebro criava fantasias maravilhosas e tão reais.
De repente, ela abriu os olhos. Onde estava? Que lugar era aquele?!
Desorientada, sentou-se no colchão com o coração acelerado. Ela de fato dormira
numa cama ampla e confortável!
De repente, a lembrança dos últimos eventos a assaltou e ela respirou fundo. No
final das contas, a noite fora um sucesso: embora aquele homenzarrão a tivesse
capturado no bar, ela terminara jantando na casa de um aristocrata e, inacreditavelmente,
passara a noite dormindo num dos quartos da mansão!
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Seus companheiros de gangue iriam morrer de inveja, pensou. Alec, o bonito
conde de sangue azul, era mesmo uma figura diferente.
Espantando o sono, desceu da cama, recordando-se do jantar na noite anterior.
Envergonhada, concluiu que caíra no sono e fora trazida para o quarto.
Quem a teria carregado? Não o mordomo, com certeza, pois ele a teria colocado
na calçada ao relento. Então, só podia ter sido Alec, deduziu com um estranho arrepio.
Aqueles braços poderosos a teriam carregado com facilidade, sem dúvida... Pena que
estivera adormecida quando isso havia ocorrido.
Sentindo-se corar, Kate decidiu que era hora de parar de pensar bobagens. Ainda
estava escuro lá fora. A lamparina sobre o criado-mudo brilhava, e a lareira espalhava um
fulgor avermelhado pelo quarto.
Olhando ao redor, Kate notou as paredes claras, decoradas com um pequeno friso
próximo ao teto. Embora a cama não fosse enorme como a do dono da casa, ainda assim
era muito grande. No canto esquerdo do aposento avistou uma cadeira de balanço antiga,
cujo desenho simples destoava da luxuosa mobília.
Mas foi o que viu sobre a cadeira que a fez pular da cama e caminhar até lá: um
adorável roupão de seda da cor do vinho! O tecido refletia a luz da lamparina como se
fosse ele mesmo uma tênue fonte de luz.
Não pode ser para mim, pensou, mas, após hesitar um momento, tocou-o quase
com reverência.
Que mal faria experimentar aquela maravilha?, perguntou-se. Talvez aquela fosse
a única oportunidade que teria na vida de colocar algo assim sobre o corpo.
Kate apanhou o robe e o colocou com cuidado sobre o leito. Livrou-se da roupa
suja e puída e a largou sobre o chão.
Notou com surpresa o próprio reflexo num grande espelho próximo da cama. Era a
primeira vez que se via de corpo inteiro! Encontrara espelhos velhos, jogados nas ruas,
mas em geral estes estavam quebrados e a imagem era sempre distorcida.
Desviou o olhar. Não gostava de ver a si mesma, pois não apreciava o que via.
Contudo, algo mais forte a fez se virar e observar o próprio reflexo.
Seu rosto era redondo demais, concluiu, e os cabelos despenteados não ajudavam
em nada. Os seios, se é que poderiam ser denominados assim, não eram maiores que os
pêssegos que Doninha por vezes roubava na feira. Tinha o corpo reto demais, e não
possuía as curvas que via delineadas sob os vestidos de cintura justa das mulheres que
subiam e desciam das carruagens.
Com um suspiro, fez meia-volta, resolvendo que não iria sentir pena de si mesma.
Vestiu o roupão e, ao se mirar no espelho outra vez, notou, surpresa, que as poucas
curvas que tinha se destacavam sob o tecido. A peça era linda e deliciosamente macia. E,
como tudo naquela casa, exalava um suave perfume. O único problema era ser longa
demais, tanto nas mangas quanto no comprimento.
Tomando cuidado para não tropeçar no tecido, foi até a janela, querendo respirar ar
puro. Abriu a cortina, moveu o pequeno trinco que fechava a vidraça, e foi saudada por
uma lufada de ar frio.
O inverno chegaria em breve, lembrou-se com um arrepio. Então, sua luta diária
por sobrevivência seria ainda mais feroz.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Incrível como uma noite no aconchego da mansão do conde quase a fizera se
esquecer das noites gélidas ao relento... Era como se estivesse fora das ruas por
semanas.
Era melhor aproveitar aquele luxo enquanto podia e voltar para a cama, decidiu
com um suspiro.
Quando ia fechar a janela, porém, notou um movimento entre os arbustos.
— Quem está aí? — perguntou num sussurro, pois não queria acordar o dono da
casa nem os criados.
— É você, Raposa? — Uma voz cautelosa soou do lado de fora.
— Doninha? — perguntou Kate, reconhecendo a voz.
— Sou eu! E não estou sozinho!
Surpresa, ela se debruçou sobre o parapeito da janela, colocando o corpo quase
inteiro para fora.
— O que fazem escondidos entre as plantas? Estão loucos? — perguntou ao ver
os companheiros da gangue.
— Mal-agradecida! Arriscamos a vida para vir ver se você estava bem! — Doninha
ralhou em tom amargo.
— Fale baixo ou vai acordar todo mundo!
Kate arrependeu-se da reprimenda no mesmo instante. Afinal, seus companheiros
desempenhavam uma nobre missão.
Iluminado pelo luar, Doninha, que sempre competira com Kate para a chefia da
gangue, fitava-a com estranheza.
— O que está acontecendo? Não parece estar em maus lençóis, muito pelo
contrário! — o moleque comentou com sarcasmo.
Kate o fulminou com o olhar.
— Não seria normal passar mal na casa de um conde, não acha? — ela provocou,
dando de ombros e querendo dar a impressão de que tinha um plano em mente. A casa
estava repleta de itens valiosos, embora ela não apreciasse a ideia de aliviar alguém que
a havia tratado tão bem.
Mas era tolice pensar assim, concluiu. Roubar fazia parte de sua vida. No final,
teria de levar algo para não despertar suspeitas entre os companheiros. Mesmo que
depois desse um jeito de devolver tudo, não poderia sair dali de mãos vazias.
Por outro lado, não conseguia imaginar como roubaria quem lhe dera comida e não
se incomodara quando ela caíra no sono. Alguém que até a carregara para o quarto,
permitindo que pernoitasse na mansão embora soubesse que ela era uma ladra...
— Virá conosco ou vai ficar aí? — perguntou Rato.
A pergunta a pegou de surpresa e Kate hesitou. Iria embora ou não? Não era
prisioneira na casa e, mesmo sem checar, sabia que a porta não se encontrava trancada.
A única coisa era que o mordomo Holmes podia estar à espreita para evitar que ela
saísse levando algo.
Respirou fundo. Bobagem. Alec apenas a tinha convidado para jantar e, na certa,
ela já teria ido embora caso não houvesse caído no sono.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Mas estaria pronta para abrir mão de tanto conforto, mesmo sabendo que este não
duraria muito?
— Vou ficar um pouco mais e ver o que consigo descobrir. Ao ouvir aquilo, os
moleques murmuraram entre si. Foi Doninha quem tornou a falar.
— Não vá se acostumar a ficar aí dentro! — disse, mal-humorado.
— Nem se esqueça de nós — Rato acrescentou.
Kate viu-se assolada por uma súbita onda de culpa. Não podia evitar gostar
daquele conforto, porém os companheiros iriam dormir em algum beco escuro, longe
daquele bairro elegante.
— Vou pegar o máximo que conseguir — assegurou num sussurro. —
Provavelmente me mandarão embora pela manhã, portanto tenho de aproveitar o tempo
restante para ver o que consigo achar de valioso.
Outra vez os moleques tornaram a trocar murmúrios.
— Está bem — Doninha falou por eles. — Sabe onde nos encontrar amanhã.
Doninha e Rato fizeram meia-volta e desapareceram no escuro. Entretanto, uma
figura permaneceu solitária embaixo da janela. Era Falcão.
— Tem certeza de que está bem? — ele perguntou, preocupado. — O sangue azul
não a mantém prisioneira?
Um sorriso gentil apareceu nos lábios de Kate ao fitar o amigo do peito.
— Não se preocupe. Estou bem. Agora vá e se junte aos outros.
Falcão ainda a observou por algum tempo antes de se afastar. De todos os
companheiros, seria o primeiro a defendê-la em qualquer circunstância e a qualquer
preço.
Quando ele desapareceu, Kate suspirou, aliviada. Apesar de não crer que o dono
da casa fosse fazer mal aos meninos se os pegasse dentro da propriedade, era melhor
que eles fossem embora. Mesmo porque não seria simples explicar a presença do bando.
Fechou a janela e se voltou para o interior do quarto. Planejava se deitar, mas
estacou ao perceber os olhos profundos que a fitavam sob o umbral.
— Você me assustou! — reclamou, nervosa, ao reconhecer a figura de Alec.
— Perdão. Eu devia ter anunciado minha presença. Não conseguia dormir e pensei
ter ouvido algo... Vim ver se estava tudo bem, mas não quis correr o risco de despertá-la
batendo na porta.
Havia algo inquietante na maneira como ele a fitava. Será que escutara a conversa
com os rapazes, mas nada dizia para testá-la?, Kate refletiu. Se quisesse, Alec poderia
exigir explicações facilmente lançando mão de seu físico avantajado.
Mesmo assim, ele não a intimidava, decidiu. Algo lhe dizia que o sangue azul
jamais lhe faria mal.
— Um sonho me despertou e eu não conseguia voltar a dormir. Resolvi tomar um
pouco de ar e agora ia me deitar.
— Compreendo — Alec aceitou com voz grave. — Quando a vi debruçada daquele
jeito, tive medo de que pudesse cair. — Não estava pensando em fugir, espero?
— Não, claro que não.
— Está tudo bem com você?
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Kate se lembrou de como pensara que Falcão era o único amigo verdadeiro que
possuía. Seria tolice pensar em Alec como um tipo de amigo também?
— Estou ótima — ela respondeu. — Há quanto tempo estava me observando?
Tempo suficiente para me deixar enfeitiçar, ele pensou, perturbado. O derrière
perfeito, marcado pelo tecido fino que o revestia como uma segunda pele, havia sido uma
visão e tanto.
Aliás, fora uma agradável surpresa encontrá-la trajando o robe de seda dele.
De repente, Alec tomou consciência de que continuava a fitá-la sem nada dizer.
— Perdão, eu... Perguntou algo?
— Perguntei há quanto tempo estava me observando. Alec fez uma pausa antes de
responder.
— Há alguns minutos. Por quê?
— Por nada. — Kate deu de ombros. — Só estava curiosa.
Era isso mesmo o que ele sentia naquele momento, ele concluiu. O correto seria
partir, agora que confirmara estar tudo bem, porém seus pés não se moviam e,
traiçoeiros, seus olhos se desviaram do rosto delicado para percorrer devagar o corpo
delineado pela seda cor de vinho. Ela provavelmente não tinha consciência do quanto
estava sedutora. O robe não era transparente, contudo se ajustava com tanta suavidade
sobre suas curvas que era como se ela estivesse nua.
Estava adorando o que via, percebeu com a respiração acelerada. Era natural,
afinal era homem, tentou defender-se.
Mas é um cavalheiro antes de qualquer coisa, gritou a voz da razão dentro dele.
— Está encantadora com o meu roupão — algum demônio o fez dizer.
— Este roupão é seu?! — Kate se espantou.
— Pensei que gostaria de vesti-lo caso desejasse tomar um banho. Foi o menor
que encontrei.
Ela sentiu a face arder.
Mas, desde quando o líder de uma gangue corava?! Ela era dura, destemida... Por
que se esquecia disso quando Alec estava por perto?
Por causa das palavras gentis que ele dizia, do sorriso largo, daqueles olhos
escuros que a fitavam com profundidade, concluiu, intrigada.
— Obrigada por me deixar usar seu robe — agradeceu num murmúrio.
— É um prazer — assegurou Alec, e uma eternidade pareceu passar antes de ele
tornar a falar. — Eu ia à cozinha tomar um leite quente para relaxar. Não gostaria de me
acompanhar?
— Conheço um método melhor — Kate falou de pronto e, sem se fazer de rogada,
puxou-o pela mão e o fez sentar-se numa cadeira.
Apesar da surpresa, Alec nada fez para impedi-la. Com o coração batendo rápido,
ele a viu ficar em pé à sua frente e inclinar o corpo para fitá-lo, os olhos azuis brilhando à
luz da lamparina.
Kate avançou mais um passo até quase tocá-lo, e o ar pareceu adensar. Alec
prendeu a respiração, controlando o impulso de puxá-la para o colo.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Feche os olhos e fique tranquilo — ela pediu.
Ele aceitou a sugestão mais do que depressa. Era o único modo de não ceder à
tentação de roçar o rosto no corpo mais do que convidativo diante dele.
Então, Kate passou a lhe massagear as têmporas com um toque firme e suave ao
mesmo tempo.
Alec respirou fundo e começou a relaxar.
— É muito bom — elogiou com voz rouca.
Ela sentiu um arrepio de prazer com as palavras. Mas não era só isso. Tocar a face
de Alec havia gerado nela uma reação intensa.
Estranho. A freira de um dos orfanatos que tinha frequentado a ensinara a
massagear as próprias têmporas sempre que a preocupação ou o medo a impedissem de
dormir. Assim, costumava usar o método para ajudar também os meninos da gangue,
mas nunca sentira aquele frisson ao tocá-los...
— Está ajudando? — perguntou, insegura.
— Muito — respondeu Alec, abrindo os olhos devagar. — Faz isso com
frequência?
— Infelizmente — Kate revelou com uma sombra no olhar. Ele franziu o cenho de
leve ao captar a mensagem oculta na palavra. Tomou-a pelos pulsos, querendo confortála
de alguma forma, porém Kate deu um passo para trás.
— Obrigado — Alec murmurou, levantando-se. — Nós nos veremos amanhã.
Ela o observou partir, perguntando a si mesma por que, de repente, se sentia tão
sozinha.
O sol iluminava o quarto quando Kate acordou. Rolando para o lado, ela fitou o
relógio ao lado da cama: passava das nove horas! Nunca havia acordado tão tarde. Em
geral, ela e os companheiros acordavam antes de o sol nascer e saíam em busca de algo
para forrar o estômago. Dormir até tarde era um luxo que só os ricos podiam se permitir.
Levantando-se de um salto, concluiu que já abusara da gentileza do dono da casa.
Era hora de colocar a velha roupa, agradecer ao sangue azul, escolher algo para levar e
satisfazer os companheiros... e cair fora.
Fechou os olhos e abraçou a si mesma, deliciando-se mais alguns minutos com a
suavidade do robe que ainda usava. Vestida daquela forma, sentia-se uma princesa.
E Alec era o príncipe.
Céus! Iria se lembrar daquele conto de fadas por muitos anos.
Nenhum conto de fadas dura para sempre, a voz da razão soou dentro dela.
Suspirou, conformada, e olhou ao redor. Onde estariam suas roupas? Ela as
deixara no chão, mas não se encontravam mais ali.
Maldição! Holmes devia tê-las levado. Afinal, o mordomo a odiava. Provavelmente
atirara suas roupas na calçada.
Irritada, Kate amarrou o cinto do robe com força e, de queixo erguido, saiu do
quarto disposta a ensinar uma lição àquele arrogante.
Não teve de procurar muito, pois ao descer a escada, encontrou-o no saguão.
— Você! — acusou sem delongas.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Bom dia — Holmes cumprimentou, seco.
— Dispense as amabilidades, pois não estou com humor para isso.
— Estranhou dormir em uma cama? Claro... Não deve estar acostumada. Ou a
senhorita sempre acorda de mau humor?
— Não preciso lhe dar satisfações!
— Ora, mas é mesmo muito cordial e afável.
— E você, um arrogante! — retrucou Kate, caminhando até a porta que dava para
a rua.
— Vai embora? Não quer ficar um pouco mais? — Holmes perguntou com ironia.
— Já disse que não tenho de dar satisfações a você. Aliás, não gosto de conversar
com gente que se comporta como um cão obediente na frente do dono, mas vira uma
hiena quando o patrão não está por perto.
— Por que tanta gritaria? — A voz profunda de Alec soou do topo da escada. Ele
desceu os degraus devagar, os olhos se estreitando levemente quando notou que ela
ainda usava o robe de seda. — E então? — Olhou de um para outro.
— Ele roubou minhas roupas! — acusou Kate, apontando o mordomo.
— Eu jamais faria uma coisa dessas, milorde, eu...
— Basta! — o conde decidiu. — Quietos. Kate e Holmes o fitaram, surpresos.
— Holmes não levou suas roupas — Alec explicou com um suspiro.
— Não?
— Eu dei ordem para que fossem lavadas. Uma criada subiu para pegá-las
enquanto você dormia. Eu devia ter pedido sua permissão, mas achei que não iria se
importar.
Kate se voltou para Holmes. Ele não era o culpado, mas nem por isso ela iria pedir
desculpas.
Incomodada com o silêncio que se seguiu, fez meia-volta e retornou para o quarto.
Pouco depois, batiam à porta.
— Olá... — saudou Alec com as mãos nas costas quando ela atendeu.
— Olá — Kate respondeu num murmúrio, voltando para o interior do quarto.
— Eu trouxe algo para você.
Quando ela se virou, notou que ele carregava um vestido dobrado.
Franziu a testa, perturbada. Primeiro o conde mandava lavar suas roupas, depois
lhe trazia uma nova. Por que fazia aquilo? Fitou o vestido nas mãos de Alec e se lembrou
de uma vez em que encontrara uma capa velha no lixo e a colocara sobre as costas,
fingindo estar num baile.
Entretanto, não estava numa viela decadente agora... e o vestido era verdadeiro.
Num impulso, estendeu o braço para tocá-lo. Era azul-claro, e enfeitado com
pequenas flores cor-de-rosa.
— Pertence a minha irmã Jane — explicou Alec. — Ela deixou vários vestidos aqui
após sua última visita. Eu trouxe este para você usar enquanto suas roupas não estão
prontas.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Sua irmã não vai se importar?
— Não. Ela tem muitos vestidos. Nem notará a falta deste. — Ele estendeu o traje.
— Experimente... Jane é um pouco mais alta, mas creio que vá servir.
Kate recebeu o vestido como se fosse um tesouro. Jamais tivera a oportunidade de
colocar algo assim. Não importava que tivesse de devolvê-lo dali a pouco: seria uma
experiência inesquecível.
Sem nada acrescentar, Alec sorriu e partiu, fechando com cuidado a porta atrás de
si. Extasiada, ela colocou o vestido sobre o leito e o admirou mais um pouco, antes de
começar a tirar o roupão.
Então, algo lhe ocorreu: na noite anterior, apenas limpara o rosto e os braços!
Olhou ao redor e notou a porta a um canto. Na certa era um aposento para higiene
pessoal tal como vira no quarto de Alec!
Dito e feito. Lá dentro havia uma pia e uma banheira.
Ansiosa, abriu as torneiras e viu a banheira de bronze se encher com água na
temperatura exata para um banho delicioso.
Fitou-se no espelho. Seus cabelos estavam sujos e desgrenhados, porém ali tinha
tudo o que era necessário para que ficasse limpa: água, sabão, toalha, pentes, escovas...
Era incrível o conforto que os ricos desfrutavam!
Mergulhou na água morna com um suspiro de contentamento e, de repente, sentiu
os olhos rasos d'água. Nunca fora tratada com tanto respeito, tanta consideração.
Mas não fazia sentido chorar. Precisava mais era aproveitar o momento.
Não foi fácil sair do calor delicioso da banheira, porém Kate se obrigou a sair e usar
a toalha felpuda para secar os cabelos. Escovando-os até quase vê-los secos, voltou para
o quarto e se vestiu.
Ao mirar o próprio reflexo no espelho, segurou o ar nos pulmões: não sabia que
podia parecer tão feminina! O vestido estampado era um pouco maior do que devia,
mesmo assim delineava graciosamente sua cintura e deixava à mostra parte do colo alvo.
Os cabelos, antes opacos e desgrenhados, caíam em cascata, brilhando à luz do sol que
entrava pela janela.
Kate olhou os pés descalços sob a barra rendada de cenho franzido. Teria de
colocar as botas sujas e desgastadas que continuavam ao lado da lareira, mas não tinha
importância. Ninguém iria vê-las.
Após calçar as botinas, tornou a se olhar no espelho sorrindo. Estava perfeita!
Então, respirando fundo, fez meia-volta e caminhou para a porta.
Alec estava sentado à escrivaninha quando ouviu a voz de Anthony. Como de
hábito, o amigo o visitava sem ser convidado.
— Milorde não recebe visitas pela manhã, Vossa Graça — Holmes alertava o
duque. — Por favor, não o inco... Um minuto depois, Anthony irrompia escritório adentro.
— Está tudo bem por aqui? — perguntou, olhando ao redor.
— Parece que sim. — Avançou até a escrivaninha e colocou as mãos sobre os
documentos.
— Cuidado! São papéis importantes — Alec o repreendeu.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Não seja hostil — revidou Anthony. — Não vê que me preocupo com seu bem-
estar? Por isso vim ver como estava.
— Por que tanta preocupação agora?
— Ora, bolas! Estava preocupado com o que podia ter ocorrido nesta casa. Mas
vejo que você sobreviveu... Ou será que cometeu algum ato não recomendável? Espero
que não tenha assassinado sua obra de caridade, embora ninguém possa recriminá-lo se
tiver feito isso.
Alec suspirou. O amigo sempre escolhia as horas em que ele se encontrava mais
atarefado.
— Fico feliz em ter sua permissão para matar alguém — replicou, sarcástico.
— Está zombando de mim. E assim que me agradece? Da próxima vez, deixarei
você apodrecer aqui sozinho se algo lhe ocorrer.
Melodramático como sempre!, pensou Alec, buscando paciência.
— Veio para saber como minha hóspede está passando?
— A ladra foi içada à condição de hóspede? Interessante — Anthony julgou com
malícia.
— Não tão interessante quanto você gostaria, pois não tenho mais nada a contar.
— Mas, com certeza, notou que há uma linda senhorita escondida sob a sujeira e
as roupas de moleque...
— A opinião de um especialista em beleza feminina como você é sempre
abalizada.
— Ela não roubou nada? Verificou os itens valiosos?
— Tudo em ordem. Não sei por que se preocupa. Afinal, a garota não está em sua
casa.
— Não se esqueça de que a pequena víbora tentou me roubar. Fui a maior vítima
nesta história, portanto, mereço que me trate bem.
— Ela tentou, mas não conseguiu. Portanto, você não é realmente vítima.
— Não conseguiu porque percebi a tempo! Entretanto, me acertou um golpe que
quase destrói minha virilidade — Anthony lembrou, insistindo no melodrama.
— Ah! Isso teria sido terrível para muitas mulheres, não?
— Não faça comentários maldosos.
— Estou falando a verdade, meu amigo. De qualquer forma, admito que não deve
ter sido fácil para você sair ileso... A garota parecia um gato selvagem quando chegou
aqui.
— Pelo visto, você a domou com facilidade. Onde estão os arranhões?
— Sinto desapontá-lo, mas não os tenho. Para ser sincero, Kate se comportou
muito bem e se revelou companhia agradável.
— Quer dizer que a mão-leve tem nome, além daquele derrière maravilhoso? De
banho tomado e dentro de um vestido, ficaria irresistível...
Alec preferiu não responder ao comentário. Sua expressão, entretanto, demonstrou
que as palavras o tinham desagradado.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Sem se incomodar, o duque tirou uma caixinha de prata do bolso. Apanhou um
charuto e o acendeu com um isqueiro também de prata.
— É difícil acreditar que nos referimos à mesma pessoa — prosseguiu após soltar
uma baforada. — A jovem ladra que eu trouxe para esta casa não tinha nada de
agradável.
— Não seria uma reação à maneira como você a tratou?
— O que esperava que eu fizesse? Que lhe ofertasse doces e flores por ela ter
tentado me roubar?
— Podia ter lidado com a situação de maneira diferente.
— Claro! Devia ter entregado a carteira que ela não conseguiu levar e agradecer
pelo golpe que me deu entre as pernas.
— O que quero dizer é que não deu uma chance a ela. A moça é vítima de uma
vida trágica. Não escolheu ser ladra e o faz apenas por uma questão de sobrevivência.
— Pobrezinha... Quero ver se vai ter a mesma opinião quando ela roubar você. E
não diga que não avisei.
Alec ergueu o olhar e, surpreso, notou Kate parada sob o umbral, os lábios
apertados demonstrando que escutara o comentário de Anthony. Mesmo assim, parecia
delicada e encantadora como um anjo, principalmente agora que trajava o vestido azul
com adornos cor-de-rosa.
Deus!, ela havia mudado muito. Devia ter tomado banho e agora tinha a pele mais
alva do que nunca, exceto pelas faces coradas. Os cabelos castanho-escuros caíam em
ondas sobre os ombros, e a boca rosada ressaltava o azul límpido do olhar. Sem falar no
perfume de flores que já invadia o ambiente.
— Está adorável, Kate — ele elogiou com sinceridade, levantando-se para recebêla.
Num impulso, tomou sua mão e a beijou num cumprimento galante.
As palavras e maneiras de Alec aqueceram o coração de Kate. Mesmo tendo
escutado o comentário do lorde que a trouxera ali, sentiu-se feliz. Era maravilhoso ser
tratada como mulher!
Tomando-a pelo braço, Alec a conduziu até um pequeno sofá. Entretanto, a magia
do momento não durou muito, pois Anthony logo a rompeu com outro comentário
desagradável.
— Que milagre um pouco de água e sabão pode fazer! — exclamou, estudando-a
dos pés à cabeça. — Quem diria que havia realmente uma garota sob aqueles trajes
imundos.
Kate o encarou. Com esforço, conseguiu não rebater a ofensa, porém não poderia
garantir quanto tempo suportaria antes de dar àquele almofadinha o que ele merecia. Era
incompreensível que um homem tão bom quanto Alec se relacionasse com criaturas tão
desprezíveis.
— Pare de importuná-la — Alec admoestou o amigo. Anthony ergueu as
sobrancelhas.
— Desde quando me tornei o vilão desta história? Pelo que me lembro, eu era a
vítima.
Kate bufou e desviou o olhar.
— Está zombando de mim, garota?
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Agora que todos já disseram o que tinham a dizer, por que não passamos a uma
conversa mais agradável? — interveio Alec.
— Ora, ora. — Anthony fitou o amigo com sarcasmo. — Tem certeza de que nada
ocorreu aqui na noite passada? A atmosfera por aqui parece tão amigável e
aconchegante...
— O que está insinuando? — Kate exigiu, irritada.
— Nada. — Anthony virou-se para ela com um ar casual. — Mas esse vestido me
parece familiar... Onde o vi antes?
Ela cerrou o maxilar, jurando que o nobre ia pagar pela provocação.
Erguendo-se, encarou Anthony por um instante e então caminhou para a porta.
— Não está indo embora por minha causa, está? — O duque sorriu, cínico.
— Não apreciei sua companhia — Kate falou por cima do ombro.
A resposta perfeita, Alec pensou. Típica de uma dama. Aqueles dois formavam
uma dupla divertida, entretanto, ele não queria que ela fosse embora.
— Fique conosco, por favor — pediu, educado.
Kate o fitou, indecisa, e Anthony apagou o charuto, decidido a facilitar as coisas.
— Foi um prazer visitá-lo, Alec. Agora, se me dá licença, vou embora. Tornaremos
a nos encontrar esta noite, presumo? Espero que não tenha mudado os planos.
— Esta noite? — repetiu Alec, confuso.
— Não me diga que se esqueceu! — o duque volveu em tom de reprimenda. —
Lady Hampton não vai gostar de saber que você a dispensou com tanta facilidade.
Uma sombra tingiu o olhar de Alec.
— Pois eu havia me esquecido — assumiu com um suspiro.
Maldição! Como podia ter se esquecido do compromisso de acompanhar lady
Hampton ao baile dos Rutherford? A mãe e a irmã haviam se empenhado em promover
tal encontro, e agora ele se via obrigado a comparecer a uma festa a que não tinha a
menor vontade de ir. De acordo com sua irmã, Jane, lady Hampton era a sensação da
temporada. Solteira e dona de imensa fortuna, ela retornara à cidade fazia pouco tempo,
após viver anos no estrangeiro. Jane dissera que qualquer cavalheiro que se desse valor
tinha de travar relações com a dama ou seria malvisto pela sociedade.
Alec não se importaria em ser rejeitado. Jamais dera atenção ao que a aristocracia
pensava a seu respeito. Tendo encontrado tal dama um mês antes, na festa que a mãe e
Jane haviam promovido na casa de campo em que viviam, não se animara a revê-la. Sua
irmã, porém, se encarregara de organizar as coisas de tal maneira que, quando ele dera
por si, já tinha o compromisso de escoltar a mulher ao baile daquela noite.
— Droga — resmungou, contrafeito.
— Não se zangue comigo — Anthony replicou. — Não fui eu quem marcou o
compromisso para você. De qualquer maneira, nós nos veremos mais tarde — afirmou,
virando-se então para Kate. — Tenha um bom dia, senhorita...
Ela aguardou que ele se retirasse e bateu a botina, exasperada.
— Sujeitinho impertinente! — comentou, voltando a sentar-se no sofá.
Alec retornou à cadeira atrás da mesa de trabalho com um suspiro.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Se o conhecesse melhor, veria que ele não é tão ruim.
— Claro que não. — Kate bufou com desdém.
— Anthony não é nenhum exemplo de simpatia e amabilidade, Kate, mas é
inofensivo. Não se apoquente por causa dele.
— Seu amigo não me incomoda — ela mentiu. Não estava acostumada a levar
desaforo para casa. Ser ofendida e permanecer quieta não era algo que fizesse com
frequência, ainda mais quando quem a afrontava era um nobre cheio de dinheiro. O fato
de possuir fortuna e um título de nobreza não dava a um homem o direito de tratar mal os
outros.
— Já tomou seu desjejum? — Alec inquiriu, interrompendo seus pensamentos.
— Não.
— Eu também não. Aceitaria me acompanhar?
Não foi necessário convidar duas vezes. Após concordar com um gesto de cabeça,
Kate o acompanhou em silêncio até a sala de refeições.
Apenas depois de já terem sido servidos, resolveu fazer a pergunta que não lhe
saía da cabeça:
— Quem é lady Hampton?
— Uma amiga de minha irmã Jane que prometi escoltar ao baile dos Rutherford,
está noite.
— Ela é bonita? — Kate perguntou, hesitante.
— Depende da sua definição de beleza. — Ele sorriu. — Como descreveria uma
mulher bonita?
Não era difícil responder. Mulheres bonitas eram delicadas, femininas, sensuais,
elegantes e bem-educadas. Possuíam um guarda-roupa repleto de lindos vestidos em
todas as cores do arco-íris. Andavam sempre perfumadas e de cabelo penteado. Numa
só frase, eram o que ela jamais seria.
— Kate? — Alec chamou ao se ver sem resposta.
— Cabelos sedosos, olhos sensuais e pele perfeita — ela respondeu enfim.
— Crê que apenas esses traços determinam se uma mulher é bonita ou não?
— Ela deve ter vestidos lindos também.
— Na maior parte dos casos, as damas se vestem bem. Mas a beleza de uma
mulher não está condicionada às roupas que veste... Uma mulher bonita ainda é bela
mesmo em andrajos.
— Tolice.
— Eu não mentiria a respeito de algo tão importante — ele repousou os cotovelos
sobre a mesa. — Quando a mulher traz a beleza na alma, suas roupas e seus traços não
são tão importantes. Ela pode ser rica ou pobre, ter muitos vestidos ou nenhum, mas
permanecerá linda.
Ela o fitou de soslaio.
— Juro que é verdade. — Alec colocou a mão sobre o peito em atitude solene.
Um sorriso iluminou a face de Kate e ele sentiu o coração bater mais depressa.
— Você tem um sorriso adorável — comentou, como se falasse consigo.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— É mesmo? — ela murmurou, incrédula.
— Sim. — Alec desviou o olhar, perturbado. Após dar uma garfada nos ovos
mexidos, prosseguiu: — Gostou de sua visita à minha casa?
A pergunta a entristeceu, pois a fez se lembrar de que sentiria saudades dos
momentos passados ali.
— Sei que ficar aqui não foi fácil para você — Alec continuou, pouco à vontade. —
Sobretudo tendo de se defender da hostilidade de Holmes e Anthony... Não compreendo
porque Holmes a tratou tão mal. Sempre foi um modelo de discrição e não costuma fazer
comentários tão abusados. Trabalha para minha família desde antes de eu nascer, por
isso aprendi a aceitá-lo. Por outro lado, nunca vi Holmes tão... animado.
— Pela raiva que sente de mim, imagino — replicou Kate, servindo-se de um
bolinho.
— Você é uma pessoa diferente.
— E isso é bom ou ruim? — ela perguntou após morder o quitute.
— Muito bom — garantiu Alec. — Mas, voltando à minha pergunta: gostou de ficar
aqui? Seja honesta, por favor. Sou forte o suficiente para ouvir a verdade.
Kate sabia que ele era forte para suportar muito mais. Era incrível que alguém tão
grande e seguro considerasse necessário escutar a opinião dela.
Entretanto, a pergunta reverberava em sua cabeça: gostava de estar na casa do
sangue azul! Ele pedira honestidade, porém estava muito confusa.
— É muito agradável aqui.
— Agradável — repetiu Alec. — Bem... Não é um comentário ruim.
— Você tem sido muito gentil — Kate prosseguiu com hesitação —, embora eu não
compreenda por quê.
— E por que eu não seria gentil com você?
— Sou uma ladra, você se esqueceu? Fui trazida até aqui porque seu amigo me
apanhou quando tentei roubá-lo. Não compreendo por que ele me trouxe para cá em vez
de me levar para Newgate, como ameaçou. Se ele acreditou que ia me punir, enganou-se
redondamente.
— Anthony anda obcecado por promover atos de caridade.
— Não sou um caso de caridade! — Kate objetou com firmeza.
— Sabe que eu não a considero assim. É minha convidada, e eu a trato como tal. É
bem-vinda nesta casa, e espero que não sinta o contrário. — Alec sorriu, mas, antes que
ela pudesse sorrir de volta, ele empurrou o prato para a frente, tirou o guardanapo de
linho do colo e o colocou sobre a mesa. Então se levantou como se com pressa de partir.
Tem muito a fazer, ela concluiu. E, nesta noite, vai escoltar lady Hampton ao baile,
o que é mais interessante do que fazer companhia a uma batedora de carteiras...
Sentindo um nó no estômago, Kate refletiu que seu tempo na casa de Alec chegara
ao fim.
— Você comeu tão pouco — comentou, levantando-se também. — Um homem do
seu tamanho precisa se alimentar bem. Leve este bolinho de chocolate.... Só dei uma
pequena mordida — ofereceu, entregando a ele o quitute.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Obrigado — Alec agradeceu, divertindo-se com a atitude ingênua e generosa. —
Gostaria de lhe fazer companhia, mas devo trabalhar — explicou, refletindo pela primeira
vez que seria bom ter alguém para fazer seu serviço. Muitos nobres pagavam um
contador. Talvez fosse uma boa ideia fazer o mesmo.
— Não quero atrapalhar — Kate falou, hesitante. — Vou pegar minhas roupas e ir
embora — prosseguiu, abaixando o olhar para alisar o vestido que teria de devolver. Ao
reconhecer que se comportava como uma tola, entretanto, ergueu a cabeça. — Obrigada
por me emprestar esta roupa e por tudo o mais.
Em resposta, ele abriu o sorriso que a encantava.
— Bem... — ela recomeçou, insegura.
Alec mudou o peso do corpo de um pé para o outro. Precisava ir trabalhar, mas
algo o impedia.
A verdade era que apreciara os momentos passados com Kate. Fazia muito tempo
que não se sentia tão descontraído e animado. Mesmo porque sua vida se resumia a
trabalho, e ela fora como um raio de sol iluminando seus dias cinzentos.
Entretanto, sua rotina não comportava interferências. Desde o nascimento, seu
futuro estava gravado em pedra. Não havia espaço para acontecimentos inesperados,
muito menos para tomar conta de uma jovem ladra... ainda que esta fosse uma criatura
encantadora.
De qualquer modo, Kate não iria querer ficar, mesmo que ele a convidasse.
E que razão ele teria para fazer isso?, perguntou-se, intrigado.
De súbito, as palavras de Anthony reverberaram em sua mente:
Fazer caridade é dever de um homem de posses como você. Por outro lado, Kate
jamais se submeteria a esse tipo de coisa.
Mesmo assim, ele tinha, de fato, condições para oferecer a ela uma chance para
que deixasse de roubar. Sem a sua intervenção, Kate terminaria na cadeia cedo ou tarde,
e ele não queria que isso acontecesse. Ela era um diamante bruto que só necessitava ser
lapidado para se transformar em uma joia preciosa.
— Adeus — Kate murmurou, caminhando para a porta.
— Kate! — chamou num impulso. — Não gostaria de ficar um pouco mais?
Ela se virou, os olhos azuis fitando-o com perplexidade.
— Se desejar, claro — ele completou.
Kate estudou a face morena. Alec tinha uma expressão neutra que não dava pistas
a respeito do que pensava.
— Por que me convida?
— Porque gosto de você, ora.
Sentindo o coração acelerar, ela resistiu à súbita sensação de felicidade que a
envolveu. Teve vontade de dizer que também gostava dele, mas seria estupidez fazer
isso, pois suas palavras não teriam o mesmo significado que as dele. Um nobre não teria
nenhum interesse em tê-la como amiga.
— Não receia que eu roube algo?
— Duvido que fizesse isso, pois pratica furtos para sobreviver. Aqui teria um teto
sobre a cabeça e refeições garantidas. Além do mais, confio em você.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Ela deixou cair o queixo. Era a primeira vez que alguém lhe dizia algo assim.
— Isso é verdade?
— Por que eu mentiria?
Kate piscou, aturdida. Nunca antes desejara tanto ser uma verdadeira dama;
alguém que um cavalheiro como Alec pudesse respeitar e admirar.
Mas por que ele a convidava para ficar? O que desejava dela? Mal se conheciam,
embora ela tivesse a sensação de que Alec era um amigo antigo.
Ainda que Alec parecesse preencher o vazio que ela sempre carregara dentro de
si, no entanto, eles haviam se encontrado pela primeira vez no dia anterior.
Kate respirou fundo. Sentia-Se derreter quando ele a; fitava daquela maneira. E
quando Alec sorria, era como se raios de sol a iluminassem.
— Tem certeza? — perguntou, vacilante.
— Eu não convidaria se não tivesse certeza.
— Então aceito — ela resolveu num repente.
— Ótimo. — Ele suspirou, satisfeito. — Mais tarde conversarei com a sra. Dearborn
sobre os arranjos a ser feitos.
— Que arranjos?
— Para seu novo trabalho --Alec explicou, antes de se afastar sorrindo.
Kate pulou, sobressaltada.
— Pelo amor de Deus! Quase me matam do coração! Como aparecem assim, do
nada?
— Como podíamos avisar? questionou Rato, emergindo dos arbustos.
Doninha e Falcão apareceram em seguida.
— Desde quando não percebe que está sendo seguida? — perguntou Doninha,
desconfiado, porém Kate não respondeu.
— O que ainda faz aqui? — Rato quis saber. — Por que não foi ao nosso
encontro? Pensamos que viria esta manhã.
— Estávamos preocupados — Falcão emendou em tom sério.
— Sinto muito ter preocupado vocês, não tive a intenção. Não voltei porque me
envolvi em algumas coisas.
— Que coisas? — indagou Doninha, ainda mais desconfiado.
— Não se meteu em encrencas, espero — acrescentou Falcão.
Kate perguntou a si mesma por que Alec a fazia se esquecer de tudo e de todos.
Recordou-se da sensação de vazio que a assaltara quando se preparava para partir, e da
felicidade imensa que sentira ao ouvi-lo pedir que ficasse. Uma voz dentro dela alertava
que aquilo iria terminar mal e que ela deveria ir embora antes que fosse tarde demais...
Mas algo também lhe dizia que já era tarde demais.
Falcão ainda a fitava, esperando por uma resposta.
— Não me envolvi em problemas — murmurou, enfim.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Então, o que aconteceu? — Rato inquiriu. — E por que está usando esse
vestido?
Kate se perguntou a mesma coisa. Suas roupas haviam sido lavadas e passadas.
Tinham até cerzido os buracos das calças. Ela podia ter se trocado, mas não o fizera.
Tinha gostado daquele vestido, pois ele a lembrava de que seu nome verdadeiro era Kate
e não Raposa.
— Por acaso está gostando de alguém? — zombou Rato.
— Está maluco? — Ela sentiu o rosto pegar fogo. — Minhas roupas estavam sujas
e foram colocadas para lavar. Como não podia ficar nua, coloquei este vestido.
— Suas roupas estão sempre sujas. Por que tiveram de ser lavadas agora?
— Raposa não precisa explicar o que faz. — Falcão a defendeu.
— O que fazem aqui? — ela perguntou, ansiosa por mudar de assunto.
— Quando não a vimos, pensamos que o sangue azul houvesse feito algo ruim a
você — Rato explicou.
— Viemos checar se estava tudo bem — continuou Doninha.
Uma ruidosa gargalhada soou nesse instante, vinda da casa. Escondido entre os
arbustos do jardim que rodeava a mansão dos Rutherford, o grupo focou a atenção no
movimento dentro do salão de festas. Como as amplas portas que davam para o jardim
estavam abertas, era possível observar o que ocorria lá dentro. Vestidos com trajes de
gala, os convidados bebiam, dançavam e riam. Os criados atravessavam o salão,
servindo drinques e canapés.
Kate suspirou. Poucos momentos antes, ao ver Alec no saguão de sua residência,
pronto para sair, permanecera escondida em um dos corredores até que ele partisse. Ao
se ver sozinha, tinha tomado uma decisão: iria segui-lo, pois não conseguiria permanecer
lá sem saber o que ocorria na tal festa. Por algum motivo, queria vê-lo ao lado de lady
Hampton.
Mas como poderia explicar aquilo para seus companheiros?
Alec havia dito que iria conversar com a sra. Dearborn a respeito de um trabalho
para ela, contudo a governanta nada mencionara quando tinham se encontrado naquela
tarde. O fato de Alec ter lhe oferecido um emprego era uma oportunidade única e ela
devia estar feliz. Mas não se sentia assim.
Teria deixado a imaginação ir longe demais? Alec havia dito que ela era "diferente"
e afirmado que gostava dela... Porém, era só simpatia o que ele sentia. Se ela começara
a imaginar coisas, a culpa era sua!
Assim sendo, por que, diabos, o seguira até o baile?
Mordeu o lábio, tensa. Tinha conseguido arrancar da sra. Dearborn o endereço da
mansão dos Rutherford e, mais tarde, quando os criados já estavam certos de que ela
havia se recolhido, escapulira até ali.
Fitando os três companheiros a seu lado, porém, Kate reconheceu que o plano não
se desenrolara como ela esperava.
— Quanto luxo! — comentou Doninha de repente, embasbacado com a
suntuosidade do salão e com a riqueza dos trajes dos convidados.
— Eles bebem o quanto querem — comentou Rato com inveja. — Será que não
conseguiríamos uma garrafa?
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Seria arriscado demais — Kate sentenciou.
— Você anda estranha — comentou Doninha, observando-a com atenção. — O
que há?
— Não há nada — ela assegurou de pronto. Mas a verdade era que estava rígida
de tensão. Seria um desastre se Alec a descobrisse espionando a festa ao lado dos
companheiros de rua.
— Ainda não explicou o que faz aqui — Rato a desafiou. Kate engoliu em seco.
Tinha esperanças de que eles não a questionassem mais, porém agora teria de inventar
uma razão plausível.
— Estou aqui para vigiar o conde e garantir que não trame nada contra mim —
elaborou, admitindo que a mentira não convencia nem a ela mesma.
— Não compreendo — disse Rato, passando a mão pelos cabelos vermelhos. —
Se o sangue azul está aqui, por que não aproveita para roubar a casa dele? Não posso
pensar numa oportunidade melhor.
— Esqueceu de que a casa está cheia de criados?
— Desde quando você é incapaz de lidar com esse tipo de coisa? — Doninha a
interpelou.
— Eu poderia ludibriá-los caso quisesse, mas tenho outras coisas na cabeça.
— Que coisas? — Rato quis saber.
— Coisas mais importantes.
— Como assim? — indagou Doninha.
— Preciso decidir como aproveitar ao máximo esta oportunidade de ouro. Não é
todo dia que tenho trânsito livre na casa de um conde, e estou pensando em como agir
para aliviá-lo com o máximo de lucro possível para nós.
Ao ouvir aquilo, Doninha e Rato sorriram. Falcão, porém, a fitou com ar
especulativo.
— O conde me ofereceu trabalho, e isso é sinal que de confia em mim — Kate
explicou, sabendo que criava uma falsa impressão apesar de não mentir.
— Como obteve a confiança do sangue azul? — Doninha indagou, impressionado.
— Fazendo-o crer que eu era uma órfã renegada pelo mundo e que morreria de
fome caso não roubasse, ora.
— Vai trabalhar na casa dele? — Rato se espantou.
— Isso mesmo.
— Puxa! Nem eu poderia ter feito melhor — admirou-se Rato sem modéstia.
— Que tipo de trabalho? — interpelou Falcão.
— Não sei ainda — Kate respondeu, sentindo-se desconfortável ao mentir para o
melhor amigo, e considerando que talvez devesse contar a verdade ao menos a ele. Se
havia alguém que merecia saber o que ocorria, era Falcão.
Contudo, o que ocorria?
—O sangue azul lhe ofereceu um trabalho e você não sabe o que é? — Rato
duvidou. — Talvez seja burrice minha, mas não compreendo.
— Você é burro mesmo — zombou Doninha.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Cuidado com o que diz! — Rato advertiu.
Kate suspirou. Por alguma razão, as desavenças entre os companheiros a
incomodavam agora. Todos eles tinham vivido no mesmo orfanato. Juntos, haviam decido
fugir, na esperança de conseguir uma vida mais confortável.
Contudo, logo seus sonhos se desfizeram, e a vida se mostrara irremediavelmente
hostil. Sem poder controlar o fluxo natural das coisas, terminaram se transformando numa
gangue de rua que roubava para viver.
Ela não pedira para se tornar líder do grupo, pensou Kate, e, de certa forma,
continuava não querendo exercer esse papel. Mas as circunstâncias a haviam levado a
isso. Doninha era valente o bastante para a posição, entretanto não tinha a racionalidade
e o sangue-frio necessários para decidir os destinos da gangue ou para dirimir conflitos.
Rato era arrogante e vivia se indispondo com os demais. Falcão não tinha voz de
comando.
Cumpria ordens sem problemas, mas era incapaz de liderar.
Nenhum deles reunia tantas condições quanto ela para estar à cabeça do grupo.
— Quando vai voltar? — Falcão perguntou em voz baixa enquanto Doninha e Rato
seguiam discutindo.
— Vai depender de quanto tempo o conde me quiser por per... de quanto tempo
serei capaz de aturar o trabalho, seja lá qual for. Talvez volte logo, pois aquela mansão
cheia de etiquetas me irrita. Além do mais, há um mordomo que me olha de nariz
empinado e age como se fosse o dono da casa.
Kate desejava assegurar a Falcão que não partiria para sempre, mesmo porque
acreditava nisso. O futuro era previsível: ou o conde iria se cansar dela, ou ela faria algo
que o levaria a mandá-la embora.
Como, por exemplo, acertar um soco em Holmes, pensou.
— Tome cuidado — Falcão pediu, preocupado.
— Tomarei.
— Vou sentir a sua falta.
Deus! Será que ela agia certo? Talvez estivesse enganada a respeito do bom
caráter de Alec e fosse um erro se afastar dos companheiros, ainda que temporariamente.
Aquela era sua vida e, por pior que fosse, seu grupo era solidário e não estava sozinha.
Kate admitiu o que sentia, por fim: medo. Medo do desconhecido. Medo do futuro.
— Também sentirei sua falta — garantiu, comovida. — Mas sabe onde me
encontrar caso necessite de mim. Como eu disse, não tardarei a voltar.
— Se esta é sua chance de ter uma vida melhor, deve aceitá-la, Kate. Você
merece. — As palavras de Falcão a surpreenderam. — Não se preocupe conosco.
Ficaremos bem.
Ela sentiu um aperto no peito.
— Não tenha medo — ele insistiu, como se lesse seus pensamentos. — Você sabe
o que faz.
— Eu...
— O que estão cochichando? — exigiu Doninha de repente.
Antes que Kate pudesse responder, uma voz desconhecida soou:
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Quem está aí?
Distraídos, nenhum deles havia notado o homenzarrão que se aproximara e agora
os fitava a poucos metros de distância.
Após uma rápida troca de olhar, Rato e Doninha fugiram em disparada.
— Vá! — Kate urgiu ao ver que Falcão permanecia imóvel, como se a esperasse.
— Fuja! Posso distraí-lo!
— Mas...
— Vá embora!
Quando Falcão partiu correndo, por fim, o homem já quase a alcançava. Kate
continuou paralisada como se houvesse criado raízes no chão. Em segundos, o
desconhecido poderia prendê-la, contudo ela não conseguia se mover.
O homem a agarrou pelo braço e Kate se transformou num gato selvagem.
Erguendo as mãos, transformou as unhas em garras e arranhou o sujeito com força.
— Vagabunda! — Ele reagiu de pronto, desferindo uma bofetada tão forte em seu
rosto que quase a fez cair.
Kate sentiu o gosto de sangue na boca e, passando a língua pelo lábio, identificou
o local do ferimento. Quando o brutamontes a agarrou outra vez, estava pronta para
reagir. Agil, deu um chute tão alto que acertou o desconhecido no queixo. Enquanto ele
cambaleava, entretanto, conseguiu segurá-la pelo vestido e, ao deslocar-se, terminou
rasgando o tecido.
Com o canto dos olhos, ela notou um movimento inesperado a seu lado. Antes que
pudesse identificar o que era, uma pedra voou na direção da cabeça do bruto. Ouviu-se
um baque surdo, e o desconhecido tombou sobre a grama.
— Você está bem? — Falcão perguntou, preocupado.
— Eu disse para você ir embora!
— Não podia deixar você à mercê desse desgraçado.
— Eu poderia ter me safado sozinha. Além do mais, você podia ter se machucado.
— Você me ajudou tantas vezes em todos estes anos, Kate. Chegou a hora de eu
retribuir!
Kate não conseguiu permanecer zangada. Na verdade, se não fosse a intervenção
de Falcão, ela poderia ter se dado mal.
— Ele está morto? — perguntou o menino, receoso, ao fitar o corpo inerte.
— Claro que não — ela garantiu, torcendo para que fosse verdade, e o rapaz
soltou um suspiro de alívio. — Agora, vá embora e não diga a ninguém o que aconteceu.
Nem mesmo a Doninha ou Rato!
Ele meneou a cabeça, hesitante.
— Prometo que nos encontraremos em breve. — Kate sorriu com ternura ao ver o
amigo fitá-la por mais alguns instantes, para depois sumir nas sombras.
Olhou o brutamontes e rezou para que este se recuperasse. Depois, sem perder
mais tempo, também desapareceu na escuridão.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Capítulo III
Alec respirou, aliviado, quando se despediu de lorde e lady Rutherford. E, após
levar lady Hampton à residência onde ela vivia, sentiu um alívio ainda maior. Finalmente
estava só e podia voltar para casa!
— Bem-vindo de volta, milorde — cumprimentou Holmes ao abrir a porta. — Teve
uma boa noite?
— Longa demais. — Ele passou a casaca e as luvas para o mordomo. — Está tudo
bem por aqui? Não discutiu mais com nossa hóspede, espero?
— Não, milorde. A casa esteve quieta e nem vi a senhorita.
Alec surpreendeu-se. Pelo pouco que conhecia do temperamento de Kate, não
teria se admirado se ela houvesse acertado um golpe no criado ou o tivesse machucado,
atirando nele algum objeto.
— Onde ela está?
— No quarto — afirmou Holmes, não escondendo seu desagrado. — Quer que eu
chame Jeffries para ajudar milorde a se deitar? — perguntou, referindo-se ao valete.
— Não será necessário — recusou Alec, caminhando para a escadaria. — Boa
noite.
Ao chegar à porta do quarto, ele parou e aguçou os ouvidos. Após as conversas
aborrecidas e desinteressantes com as damas no baile dos Rutherford, precisava de uma
distração mais agradável... Kate, sem dúvida, poderia lhe proporcionar isso.
Num impulso, resolveu checar se ela se encontrava desperta. Se estivesse
dormindo, não a despertaria.
Só vou me assegurar de que está bem, pensou, sem vontade de dissecar os
motivos que o levavam a procurá-la.
Ao chegar à porta fechada, hesitou. Talvez Kate se ressentisse de ser incomodada
tão tarde da noite. Na verdade, não havia motivo razoável para ele procurá-la agora...
Enquanto resolvia o que fazer, escutou um ruído dentro do quarto. Acreditando que
ela estivesse desperta, moveu a maçaneta.
— Kate? — chamou em voz baixa, abrindo a porta.
No escuro do aposento, ele não a viu de imediato. Entretanto, um leve movimento
chamou sua atenção. Ela estava sentada na beirada da cama, de cabeça baixa e de
costas para ele.
A intuição de imediato lhe disse que alguma coisa ali estava muito errada.
— O que houve?
Como ela não respondesse, Alec foi ao seu encontro. Com as mãos sobre o
regaço, Kate fitava o próprio vestido.
Alec se ajoelhou a seu lado de cenho franzido. Kate tinha as faces sujas de terra e
o cabelo desgrenhado. O que teria acontecido?!
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Kate — ele recomeçou, agora preocupado. — O que aconteceu? — perguntou
com ternura, porém ela não respondeu, tampouco o fitou. — Por favor, não se feche para
mim.
Ela prosseguiu calada, mas, por fim, ergueu o rosto e o encarou. Alarmado, Alec
notou o lábio inferior ferido e inchado. Sem pensar, ergueu a mão para tocá-la no rosto.
— Não — ela pediu num murmúrio.
— Pelo amor de Deus... Conte-me o que aconteceu.
— Eu... escorreguei e caí.
Embora não acreditasse, ele preferiu não desdizê-la. Queria saber o que havia se
passado, mas não iria forçá-la a contar.
Erguendo-se, caminhou até a mesinha com tampo de mármore sobre a qual
encontrou uma bacia de porcelana com água fresca e toalhas perfumadas. Após
umedecer uma delas, tornou a se aproximar de Kate.
— Comprima contra o lábio — pediu, oferecendo o pano umedecido. — Vai reduzir
o inchaço.
Com os dedos tremendo, ela fez como Alec pedia. Após algum tempo, voltou a
falar:
— Eu caí — repetiu, querendo convencê-lo. — Não prestava atenção ao caminhar,
e tropecei no tapete. Sou muito desastrada.
Desastrada? Ele não a descreveria assim. Kate tinha um ar feminino e corajoso
que poucas mulheres podiam se orgulhar de ostentar. Apesar de iletrada, era inteligente
e, mesmo vivendo nas ruas, era mais doce e delicada do que muitas damas.
Será que havia brigado com Holmes ou outro criado?
— Como se sente? — perguntou com gentileza.
— Melhor — ela mentiu. Contudo, o que a machucava mais não era o ferimento no
lábio, e sim o dano no vestido. Por sua culpa, o lindo traje estava arruinado. Que loucura
a tinha acometido quando resolvera seguir Alec?
Depois de tudo de bom que ele lhe proporcionara, merecia uma explicação. Mas
seria impossível contar a verdade, pois Alec ficaria chocado se soubesse que ela o havia
seguido.
Pior ainda se soubesse que Falcão atacara aquele brutamontes com uma pedra.
Talvez o desconhecido até houvesse merecido por tratá-la com tanta violência, mas a
polícia não estaria do seu lado ou de Falcão. Afinal, eles não passavam de "moleques de
rua".
Ao ver como Alec a fitava, Kate se comoveu. Ele parecia arrasado por vê-la
machucada, mas outra emoção também brilhava em seus olhos escuros. Uma emoção
que ela não soube identificar.
De súbito, não conseguiu mais se conter, e lágrimas sentidas escorreram por sua
face.
— Não chore! — Alec pediu com suavidade.
— Não estou chorando. — Ela tentou firmar a voz a despeito do nó na garganta.
— O que quer que esteja errado poderá ser consertado.
— Não há conserto possível.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Acredite em mim, Kate. Conte o que se sucede, e darei um jeito.
Ela o fitou, hesitante. Alec tomara sua mão entre as dele, e seu calor subia pelo
braço dela até aquecer seu coração. Kate suspirou, trêmula. Gostaria que...
O que gostaria? Que um cavalheiro como ele gostasse dela? De ser uma mulher
rica, refinada e elegante, digna do respeito de um conde?
Jamais possuiria tais qualidades.
— Perdão — murmurou, e a palavra saiu acompanhada de um soluço.
— Por Deus, pelo quê?
— Arruinei o vestido de sua irmã. Juro que não tive intenção. Foi um acidente.
— Por isso está tão triste? — Alec indagou, incrédulo, porém aliviado.
— Creio que possa ser consertado — ela prosseguiu, tensa.
— O vestido não tem importância, Kate.
— Não?
— Não — ele garantiu, sorrindo.
— Mas pertence à sua irmã... Ela vai ficar zangada quando descobrir.
— Não precisamos contar a ela. Como eu disse, Jane tem tantas roupas que nem
mesmo vai dar pela falta desta — Alec a tranquilizou.
Apesar das lágrimas sentidas que ainda lhe corriam pela face, Kate respirou,
aliviada.
— Se eu soubesse costurar, consertaria eu mesma o vestido. Nesse momento,
bateram à porta.
— Milorde? — chamou a sra. Dearborn, abrindo a porta devagar.
— Pode entrar — ele deu sua permissão, tranquilo.
— Perdoem-me incomodar, mas Holmes me despertou para dizer que o senhor
estava com Kate, e que talvez houvesse algum problema.
Holmes, pensou Alec... Sempre bisbilhotando onde não devia.
— Está tudo bem, sra. Dearborn. Não se preocupe — completou com um suspiro.
Não pretendia contar à governanta o que ocorria, pois não queria embaraçar Kate.
Ela já estava triste e não merecia ser mais importunada.
Entretanto, ao notar o rasgo no vestido florido, a sra. Dearborn avançou para perto
deles e, ao se aproximar, percebeu o ferimento no lábio da moça.
— O que aconteceu, minha criança? — perguntou, preocupada. Sem hesitar,
tomou a toalhinha das mãos de Kate e limpou o ferimento com cuidado.
Para surpresa de Alec, ela não fez objeção.
— Não fique assim, querida, o vestido pode ser consertado — a mulher garantiu. —
Não foi fácil para minha mãe me ensinar a costurar mas, no fim, terminei aprendendo.
— A sra. Dearborn se tornou excelente com a linha e agulha — afirmou Alec. —
Tanto que até me ensinou a costurar também.
Kate arregalou os olhos.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Não posso crer que você saiba costurar! — exclamou, pensando que ele
brincava.
— Pois pode acreditar.
— Mas tem criados para costurar para você. Por que faria isso?
— Por que não? Nunca é demais aprender a fazer coisas novas — Alec replicou,
lembrando-se de que a mãe quase tivera um ataque ao saber de sua nova habilidade. Na
opinião dela, um homem não devia fazer o que era uma tarefa feminina por excelência. —
E se eu estivesse perdido no meio deserto e caísse um botão da minha camisa?
— Não há desertos por aqui. — Kate esboçou um sorriso — Além disso, não
acredito que um homem como você acabasse se perdendo.
Um homem como eu?, ele repetiu para si mesmo. O que ela queria dizer?
— Sabe realmente costurar? — Kate o fitava, embasbacada.
— Pergunte à sra. Dearborn...
— Sabe costurar e muito bem! — confirmou a velha senhora.
— Está vendo? Quem garante é a minha professora. Kate tornou a sorrir e Alec
respirou, aliviado.
— Agora que esclarecemos tudo, eu a encontrarei pela manhã, senhorita — a
governanta decidiu. — Procure-me após o café da manhã.
— Para quê? — ela perguntou.
— Para eu ensiná-la a costurar tal como ensinei milorde, ora.
Kate se sentiu excitada ante a perspectiva de aprender a costurar. Se fosse bem-
sucedida, conseguiria consertar o vestido, e a irmã de Alec não se zangaria.
E quem sabe, assim, ele sentisse orgulho dela?
— E quanto ao meu trabalho?
— O que quer saber? — Alec indagou.
— Ainda não sei o que vou fazer.
— Não se preocupe com isso. Tudo a seu tempo — ele falou sorrindo.
A sra. Dearborn fez o mesmo e, desejando boa noite, saiu do quarto.
Tão logo eles se viram a sós, Alec sentou-se na cama ao lado de Kate com uma
expressão de genuína preocupação no rosto.
— Conte-me o que aconteceu, por favor.
Kate suspirou. As pernas de ambos se tocavam, produzindo um calor que subia,
traiçoeiro, por seu corpo.
Carinhoso, Alec tomou a mão dela e acariciou-lhe os dedos.
— O que você fez, Kate? — perguntou em tom terno e persuasivo.
— Arruinei o vestido de sua irmã.
— Garanto que não chamarei a polícia por causa disso — ele disse brincando.
A menção à polícia a fez se lembrar do brutamontes atacado por Falcão. Já teriam
informado as autoridades? Será que a descobririam?
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
E, pior ainda: não prejudicaria Alec por causa do sucedido? Afinal, ela estava na
casa dele.
— Kate... — Alec recomeçou com suavidade. — Bens materiais não são
importantes. Fico feliz só em ver que está bem apesar desse machucado no lábio.
— Verdade? — ela quis confirmar e, num impulso, sentou-se virada para ele.
Subitamente perturbado com o movimento, Alec apenas meneou a cabeça.
Kate mordeu o lábio ao perceber que ele tinha consciência de sua mentira. Agora,
além de ladra, ela também era uma mentirosa aos seus olhos.
E pensar que vinha se esforçando tanto para que Alec a visse como uma boa
pessoa!
— É tarde — ele falou, levantando-se. — Você precisa descansar.
Kate não queria que Alec fosse embora. Por algum motivo, desejava tê-lo sempre
por perto.
— Boa noite — ele falou baixinho, os olhos fixos nos dela. — Durma bem e
descanse.
Quando Alec partiu, fechando a porta, ela abraçou um dos fofos travesseiros e se
deitou com um suspiro. Apesar da súbita solidão que a invadira, sentia-se calma agora.
Alec dormia no quarto em frente ao dela, e isso gerava uma sensação de paz como
jamais experimentara antes.
Como havia prometido, a sra. Dearborn procurou Kate na manhã seguinte para a
primeira lição de costura.
Kate, porém, ficou incomodada ao se ver com tecido, linha e agulha nas mãos.
Quem poderia imaginar que Raposa, famoso por sua coragem e mãos leves, lidaria com
tais apetrechos?
Como se não bastasse, ela se revelou uma negação, pois os pontos que dava não
tinham uniformidade e a linha se rompia constantemente. Para não contar as várias vezes
em que picou o dedo com a agulha.
Acabou aprendendo duas coisas sobre si mesma: não era paciente e ficava de
mau humor quando algo não dava certo.
A sessão de costura, porém, apresentou uma vantagem inesperada: a sra.
Dearborn era uma excelente fonte de informação sobre Alec e a regalou com histórias da
juventude do conde.
— Lorde Alec sempre foi habilidoso e inteligente. Além das excelentes notas na
escola, usava o tempo livre para aprender outras coisas. Mas era muito travesso também.
Kate tentou manter o ar indiferente para não dar a impressão de ter demasiado
interesse na vida do conde. Afinal, ele não a veria senão como mais uma pessoa que
trabalhava na casa, embora ainda não houvessem esclarecido o que ela iria fazer.
— Que travessuras ele fazia?
— Subia em árvores altas e depois não conseguia descer, por exemplo —
começou a boa senhora, rindo. — Milorde era curioso, e por vezes se colocava em
situações de risco. Quando a família viajava para o campo, adorava cuidar dos animais e
fazia excursões que duravam o dia inteiro. Hoje em dia tem esse ar sóbrio, mas não se
iluda: ele ainda tem um coração de menino.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Ao ouvir aquilo, Kate se lembrou do episódio na sala de banho do quarto de Alec,
quando ele havia espirrado água em seu rosto. O comportamento era infantil, mas
demonstrava sua leveza interior.
— Milorde também fazia coisas para atazanar os outros, como colocar minhocas
na gaveta do criado-mudo da irmã. E tinha uma aranha falsa com a qual assustava os
desavisados. Uma vez colocou pudim dentro do sapato de Holmes! Imagine como o pobre
homem reagiu! Chegaram a pensar em enviar milorde para a academia militar, porém a
morte prematura do pai mudou o rumo de sua vida.
— O pai de Alec morreu cedo?
— Sim — confirmou a velha senhora com um suspiro. — Lorde Edward teve uma
morte inesperada e prematura, obrigando Alec, na época ainda muito jovem, a assumir os
negócios da família. Milorde deu conta do recado, embora tenha sido obrigado a deixar de
lado os prazeres da vida. Desde então, nunca mais parou de trabalhar e pouco se diverte.
Ouvindo a sra. Dearborn, Kate imaginou o peso que Alec carregava nos ombros
desde a juventude. Tinha ombros fortes, mas os moços precisavam se divertir. No caso
dela, as piadas e a companhia bem-humorada de Falcão a faziam se esquecer das
vicissitudes da vida.
— É suficiente para hoje — anunciou a governanta, indicando o fim da primeira
aula de costura. Ao observar o resultado do trabalho de Kate, contudo, não se mostrou
muito entusiasmada. — A prática vai fazê-la melhorar... Amanhã eu a ensinarei a costurar
com linha dupla e a fazer pontos cruzados. Isto é para você, querida — disse, entregando
a Kate a pequena almofada que ela havia feito enquanto a ensinava.
— Para mim? — Kate surpreendeu-se, fitando a linda peça estampada, costurada
com perícia.
— Sim... A menos que não queira.
— Quero muito — garantiu Kate, segurando a almofadinha como se fosse um
objeto valioso. Muito obrigada, sra. Dearborn!
— Foi um prazer, querida. Por sinal, meu nome é Dorothy, mas os amigos me
chamam "Dotty".
— Eu sou sua amiga?
— Claro que é.
O coração de Kate palpitou, feliz.
— Obrigada, Dotty.
Após guardar os apetrechos de costura, a governanta levantou-se para partir.
— Dotty? — Kate chamou, hesitante.
— Sim?
— Você me ensinaria a ler e escrever? Já percebi que fala muito bem e
corretamente embora seja uma criada. Talvez... — Ela ia prosseguir, mas se calou de
repente ao notar que havia dito algo ofensivo. — Perdão, eu...
— Não se preocupe, querida. Sei o que quis dizer.
— Sinto muito. Não sei onde eu estava com a cabeça. Esqueça o que pedi.
— Por quê? Ensiná-la a ler e escrever é uma ideia ótima
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Mas eu não devia ter pedido — Kate reconsiderou, constrangida. — A senhora
tem coisas mais importantes para fazer.
— Pois considero seu pedido uma honra. Esteja pronta para começar após o jantar
desta noite. — Sem dar a Kate a chance de objetar outra vez, a governanta partiu com um
sorriso de satisfação.
Na manhã seguinte, Kate sentou-se em frente ao espelho do quarto para exercitar
as vogais e praticar a pronúncia das palavras novas que a sra. Dearborn lhe ensinara na
noite anterior.
— O rato rupestre roeu a roupa roubada do rei ranzinza de Roma — começou,
articulando bem as palavras, conforme explicara a governanta.
Mordeu o lábio. Excitada com a lição, ela acabara se esquecendo de indagar sobre
o trabalho que iria desempenhar. Batidas na porta a fizeram se levantar de um salto.
— Posso entrar? — A voz da mulher soou do lado de fora e Kate respirou, mais
calma.
— Claro, Dotty — assegurou, correndo a abrir a porta. — Nem precisava bater.
— Devemos sempre bater antes de entrar, querida. É uma regra de boa educação.
Kate anotou mentalmente o que acabara de ouvir. Vinha aprendendo tantas coisas
que até começara a fazer uma lista de bons modos.
Sorrindo, a mulher entregou-lhe o vestido que fora danificado. O rasgo fora
consertado de modo que nem se notava.
— Você o consertou! — ela exclamou, radiante.
— Fiz o melhor que pude.
— Ficou muito bom! Nem se nota que estava rasgado — afirmou com alegria.
Então notou que a velha senhora trazia outras roupas dobradas.
— O que é tudo isso?
— Vestidos, querida. Para você.
— Para mim? Mas... Não compreendo, eu...
— Não há nada para compreender. Milorde disse que a senhora deveria tê-los, e
aqui estão.
— Alec... quero dizer, lorde Alec disse que eram para mim?
— Isso mesmo. Não vai prová-los?
Kate não se fez de rogada. Feliz, experimentou um vestido, depois outro e em
seguida um terceiro. A cada vez, rodopiava, maravilhada, em frente ao espelho.
A sra. Dearborn assistiu ao desfile, afirmando que todos haviam lhe caído bem e a
deixado ainda mais bonita.
— Qual deles vai usar hoje? — perguntou, sorrindo.
Kate jamais enfrentara esse tipo de questão. Usava sempre a mesma roupa, e o
máximo que fazia era colocar ou tirar a blusa de lã dependendo da temperatura.
Agora, porém, havia inúmeros vestidos sobre a cama, um mais lindo do que o
outro.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Terminou optando pelo cor-de-rosa. Dotty confirmou que era excelente escolha e
que este lhe acentuava o tom rosado das faces, ao mesmo tempo que ressaltava seus
olhos azuis.
Chegada a hora de tomar o café da manhã, Kate desceu a escada sentindo o
espírito leve e o coração radiante. Seu novo traje parecia ter sido feito sob encomenda.
Dotty explicara que tinha ajustado as roupas, estreitando a cintura de algumas e subindo
a barra de todas.
Ao se aproximar da sala onde serviam o desjejum, Kate ouviu a voz de Alec
pedindo a uma criada que servisse mais chá e sentiu o coração disparar dentro do peito.
— Bom dia, Alec — cumprimentou, entrando com graça e orgulhosa por estar tão
bem-arrumada.
Para sua infelicidade, porém, Alec mal a notou. Sentado à cabeceira da mesa, já
começara a comer e se concentrava na leitura do jornal.
— Bom dia — ele respondeu sem fitá-la.
— Deve dizer "milorde" e não chamá-lo pelo nome — resmungou Holmes,
encarando-a com ar de censura.
— Não tem trabalho a fazer? Lustrar pratarias, por exemplo? — ela perguntou,
ácida, antes de sentar-se.
Magoada pela total falta de atenção de Alec, permaneceu em silêncio. Ao ver uma
criada colocar um prato de comida à sua frente, tomou o garfo e começou a remexer o
alimento, sem vontade de comer. Alec prosseguiu lendo o jornal como se ela não
estivesse presente.
— Alguma notícia interessante? — perguntou por fim, exasperada.
Alec abaixou o jornal devagar e a fitou de maneira distante.
— Não.
Kate franziu o cenho.
— Está tão sério. Alguém morreu, por acaso? — Ela tentou brincar, embora sem
conseguir dissimular o nervosismo.
Alec não achou graça na piada, pois se manteve calado. Muito bem, Kate resolveu.
Se ele não queria falar, então teria de ouvir.
— Um jornaleiro que conheço costumava ler as notícias para mim e meus
companheiros — começou com casualidade —, mas não sabia ler direito e saltava os
trechos mais difíceis. No final, entendíamos pouco das notícias. Era muito aborrecido.
Um longo tempo passou antes de Alec se manifestar. Quando o fez, apenas
meneou a cabeça sem esconder que a conversa não o interessava, e começou a passar
geleia numa torrada.
— Meus amigos diziam que o jornaleiro não sabia ler e que inventava as coisas
que dizia — ela prosseguiu, incontinenti. — Com o tempo acabaram perdendo o interesse
e nunca mais fomos lá. Mas eu gostava de escutar o que ele falava, e não me importava
se, às vezes, não contava o final da história. Acontece que, como chefe da gangue, eu
não podia obrigar meus companheiros a fazer o que não desejavam.
Kate franziu a testa ao se ver ignorada. Lançou um olhar constrangido na direção
dos criados que permaneciam impassíveis logo atrás deles, esperando para servi-los.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
De repente, Alec se levantou, despediu-se com uma breve reverência e, sem fitá-la
nos olhos, partiu.
O apetite habitualmente voraz de Kate dissipou-se por completo. Empurrando o
prato, ela também se ergueu e deixou a sala com um peso no coração. Por que Alec
mudara tanto da noite para o dia? Ela teria feito algo errado?
O comportamento do conde não mudou nos dias que se seguiram. Embora ele não
a tratasse mal, mantinha-se distante e reservado. Tornara-se muito formal e parecia ter os
pensamentos em outro lugar quando se encontravam.
Kate pensou em ir embora, mas não teve coragem de tomar tal atitude. Mesmo
tratada com frieza, passava os dias esperando o café da manhã e o jantar: os únicos
momentos em que o via agora. Mesmo assim, Alec sempre reiterava que tinha muito
trabalho e partia, deixando que terminasse as refeições sozinha.
O tédio começou a assaltá-la. A falta do que fazer arruinava seu humor, e a
irritação a transformava em uma pessoa desagradável, ela sabia. Tinha de fazer força
para não tratar mal os criados, sobretudo Dotty, que prosseguia com suas lições de
costura, leitura e escrita.
Kate não se conformava com a situação. Por vezes tinha vontade de fazer algo
errado apenas para obter a atenção do conde. Ele havia dito que lhe arrumaria trabalho,
porém jamais o fizera e nem tocara mais no assunto. Agia como se houvesse se
esquecido da promessa.
Sem ousar bater na porta do escritório que ele mantinha fechada, contudo, ela
procurava o que fazer para passar o tempo. A verdade, porém, é que sentia uma
tremenda falta de Alec.
— Planejando como vai me matar?
Acreditando estar só, Kate virou-se, surpresa. Alec!
Como vinha ocorrendo, seu coração disparou ao vê-lo, e ela se deliciou com a
figura máscula que entrava na sala. Um homem não tinha o direito de ser tão bonito,
pensou, especialmente quando ela estava zangada com o dito cujo.
Por que ele teria voltado? Fazia menos de dez minutos que havia partido, depois
de avisar Holmes que iria passar a tarde fora. Ela não o ouvira retornar porque, na
verdade, estava absorta, tramando o que fazer para capturar sua atenção.
Era extraordinário o modo como Alec intuía o que ela pensava.
— Não receia saber o que estou pensando? — provocou com um sorriso maroto.
— Se for algo ruim, sei que mereço. Tenho andado preocupado, e não lhe dei a
devida atenção. Peço que me perdoe.
Kate sorriu, maravilhada ao perceber como simples palavras podiam operar
milagres.
— Eu estava pensando se gostaria de cavalgar comigo — ele convidou.
— Quer dizer, andar a cavalo? — Ela arregalou os olhos azuis, tensa.
— Sim.
Era óbvio que gostaria de fazer algo com Alec, mas por que não algo simples como
jogar baralho? Era boa no carteado, até porque conhecia muitos truques... Mas andar a
cavalo não sabia.
— Se você quiser — murmurou, sem coragem de recusar.
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— Ótimo — Alec se animou.
Meia hora mais tarde, Kate refletia que devia ter recusado o convite. O cavalo que
Alec mandara selar para ela não parava quieto, e ela já estava com a mão doendo por
conta da força que empregava para segurar a rédea. Pior ainda: o animal não a obedecia.
— Bicho difícil! — ela resmungou em certo momento. — Já disse para andar mais
rápido, mas ele não me obedece.
Alec se divertiu ao vê-la medir forças com o garanhão. Bem treinados, os cavalos
de raça seguiam com precisão as instruções de quem os montava, porém, só
compreendiam ordens claras. Kate trajava as calças de rapaz com que chegara ali e
recusara a sela para sentar-se de lado, insistindo em usar a normal.
Ele suspirou. Não quisera cavalgar com ela no Hyde Park por temer encontrar
conhecidos que fatalmente fariam perguntas para as quais ele não tinha resposta. Assim,
haviam seguido para um parque menor e não frequentado pela elite da cidade.
A verdade era que não fazia muito sentido estar a sós com Kate, mesmo que agora
fosse responsável por ela. De qualquer forma, ele lhe oferecera um emprego e precisava
descobrir quais eram suas habilidades.
Mas que habilidades seriam essas? Kate sabia roubar e, até onde sabia, se
defender muito bem. Mas seria impossível usar tais talentos. Se lhe oferecia trabalho, era
justamente para afastá-la dessa vida desregrada.
O que ela poderia ser? Camareira? Ajudante de cozinha?
Bufou, contrariado. Já havia mais serviçais na casa do que o necessário. Contratar
Kate sem necessidade na certa iria gerar falatório.
Sem dizer que os criados não apreciariam trabalhar com Kate, ainda que
parecessem gostar dela. Afinal, eles sabiam que ela costumava roubar nas ruas.
De qualquer forma, propor a Kate que trabalhasse como criada na mansão a
magoaria. Aliás, também ele ficaria incomodado, embora não compreendesse por que se
sentia assim. Jamais perdera tempo tanto tempo refletindo sobre criados.
Lembrou-se dela sentada na beirada da cama e fitando o rasgo no vestido com
lágrimas nos olhos. Algo se transformara dentro dele após aquele incidente e o paradoxo
o atormentava: queria tê-la por perto e, ao mesmo tempo, manter dela a maior distância
possível. Por isso, e não apenas por conta do trabalho, tentara ficar longe de Kate nos
últimos dias.
Não obstante, ele se comprometera a ajudá-la e não iria fugir àquela
responsabilidade. Precisava encontrar um trabalho para Kate. Algo decente e que ela
pudesse desempenhar a contento. Não era isso que a sociedade chamava de caridade?
Fazer algo para ajudar um homem ou uma mulher desafortunada?
Kate, entretanto, não era uma mulher. Ainda era uma menina!
Ou não?
Franziu o cenho ao pensar que ainda não sabia qual era sua idade. Apesar da
curiosidade, não lhe ocorrera nenhum momento oportuno para perguntar... Ou talvez não
tivesse feito isso por temer a resposta.
Mas saber não faria diferença. Ou faria?
Alec respirou fundo. Queria acreditar que tudo o que fazia por ela era motivado por
uma preocupação generosa com o bem-estar de outro ser humano e nada além disso.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Mesmo que Kate não fosse uma menina, seguia sendo responsabilidade dele e merecia
ser protegida. Tocá-la ou assediá-la de alguma forma, estava fora de cogitação.
Mas, por que pensava naquilo?
— Cavalo maldito — Kate vociferou, interrompendo o curso de seus pensamentos.
— Parece uma tartaruga! Por que não anda mais rápido?
Como se notasse que Kate o insultava, o garanhão virou a cabeça e a fitou com os
grandes olhos escuros.
— Estou falando de você mesmo! — ela exclamou ao notar a reação do animal. —
Besta preguiçosa! Não adianta me encarar, e nem pense em me morder, pois também
tenho dentes afiados!
Alec não conteve o riso. Kate não tinha consciência de como parecia maluca
conversando com um cavalo como se este fosse um ser humano.
— Do que está rindo? — ela se exasperou.
— De você. Acha mesmo que ele compreende o que você diz?
— Está tomando o partido desse animal idiota?
— Não estou tomando partido nenhum — Alec replicou com calma.
— Este infeliz está me aborrecendo.
— Não parou para pensar que talvez você também o esteja aborrecendo?
Kate se calou, surpresa. O que ele dizia fazia sentido, ainda que ela não gostasse
de admitir.
— Black Silver é um bom animal se o conhecer melhor — garantiu Alec, referindo-
se ao cavalo pelo nome.
— Você vive dizendo isso! Foi o que afirmou a respeito de Holmes e de seu amigo
Anthony.
— Se quer que sua montaria ande mais rápido, basta cutucar seus flancos.
— O que é isso?
— O corpo do cavalo. Bata os calcanhares, assim, e ele obedecerá.
— Quer que eu chute o bicho? É assim que os nobres tratam as montarias?
— Ninguém está dizendo para chutá-lo. Aja com firmeza apenas.
— Mas não gosto de quem abusa dos animais.
— Não se trata de abusar, Kate. Ele precisa saber quem está no comando. Se nãosentir sua autoridade, vai desafiá-la. É um comportamento normal. Ele foi adestrado para
agir dessa forma.
— Ainda penso que é abuso.
— Por que está tão irritada, Kate? — Alec a fitou, atento. — É só por causa do
cavalo?
— Claro que é. Este bicho não gosta de mim e me ignora como se eu não
existisse. Odeio ser ignorada. — Ela estalou a língua, aborrecida. — Veja o que
aconteceu na sua casa. Tentei ser gentil e me comportar como uma dama, não colocar os
cotovelos sobre a mesa e usar os talheres da maneira correta. Nem mostro a língua para
Holmes quando ele me trata mal! E, mesmo assim, com exceção de Dotty, todos me
tratam como se eu nem estivesse ali.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Alec sentiu uma culpa imensa ao se lembrar de como também a ignorara nos
últimos dias. Jamais se comportara assim, porém as sensações que Kate lhe provocava
também eram inéditas. Seu corpo nunca reagira de forma tão intensa à simples visão de
uma mulher.
Ele já cansara de dizer a si mesmo que precisava amainar o fascínio que sentia por
aquela jovem ladra, mas até agora não conseguira fazer isso. A distância que havia
imposto apenas o aprisionara dentro do escritório. Quanto mais tentava se afastar, mais
se lembrava daquele sorriso que o encantava e da suavidade que Kate nem sequer sabia
possuir.
Droga. Não devia tê-la convidado para cavalgar, mas o bom-senso parecia tê-lo
abandonado.
— Também não gosto de me comportar como homem — Kate prosseguiu,
pensativa.
— Quem disse que você se comporta como homem?
— Holmes.
Ele apertou os lábios.
— Holmes está indo longe demais. Creio que sua presença o faça sentir-se
ameaçado, como se estivesse perdendo território. Ele está comigo faz muito tempo mas,
por vezes, age como a minha mãe. É superprotetor e se esquece de que sou adulto e sei
me defender.
— Claro que sabe! — Kate volveu, indignada. — Já está bem grandinho para
precisar de uma babá...
Alec riu, balançando a cabeça.
— Está zombando de mim — ela reclamou, exasperada.
— De maneira alguma.
Uma garoa fina começou a cair de repente. Com um suspiro, ele apanhou as
rédeas do cavalo que ela montava e conduziu-o na direção de um imenso carvalho.
Olhou para Kate. Ela havia fechado os olhos e pendido a cabeça para trás, como
se querendo sentir a chuva no rosto. Quando pararam sob a copa da árvore, ela tornou a
abrir os olhos com um suspiro.
— Não gosta do cheiro da chuva na terra? — perguntou, sorrindo.
— Para ser sincero, nunca parei para pensar nisso.
— Nunca bebeu a água da chuva?
— Também não.
— Nunca sentiu a lufada de vento que faz o outono se transformar em inverno?
Alec meneou a cabeça em negativa. De repente, tomou consciência de que jamais
provara muitas coisas, embora estas sempre houvessem estado a seu alcance. Coisas
que se encontravam disponíveis para qualquer ser humano que tivesse sensibilidade
suficiente para notá-las...
Por algum motivo, desde que havia conhecido Kate ele começara a atentar para
aquele tipo de sensação. Era estranho mas, no fundo, ele até a invejava. Não era uma
inveja destrutiva, mas a "inveja branca" como diziam: aquela vontade legítima de
conhecer algo que outra pessoa conhece, ou de ser como a outra pessoa era.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Respirou fundo, perturbado. Possuía tudo o que o dinheiro podia comprar, mas não
dispunha das coisas não compráveis...
Deus! Anthony cairia na gargalhada se o ouvisse dizer tal coisa.
Sem notar, Alec fitou Kate com uma expressão em suspenso. O tempo parecia ter
parado enquanto ele submergia em pensamentos profundos e aprendia coisas a respeito
de si mesmo que jamais imaginara. Coisas que aquela criatura adorável ensinava sem
nem mesmo notar que o fazia.
Kate, porém, notou a maneira como estava sendo observada. Uma doce tensão
tomou conta de seu corpo, gerando um arrepio na espinha. Ela se manteve imóvel, pois
temia quebrar a magia do momento caso se movesse. Pior que isso: tinha a sensação de
que se atiraria nos braços de Alec caso se movimentasse.
De repente, soube que era exatamente isso que desejava desde a primeira vez em
que o vira. Ele fazia seu sangue correr mais rápido nas veias e lhe dava um desejo insano
de se entregar...
Os dois se fitaram em silêncio. Sobre os cavalos, seus corpos estavam próximos e
bastaria um pequeno movimento para que se tocassem.
— Por favor — ela murmurou, sem nem saber ao certo o que pedia.
— Maldição — praguejou Alec e, num impulso, aproximou os lábios dos dela e a
beijou. Foi um beijo suave a princípio, mas intenso. Tinha algo de reverente, como se
selasse o encontro de dois corações.
De repente, contudo, Alec a tirou da sela e a pôs de lado no colo. Beijou-a no canto
da boca, depois saboreou os lábios carnudos e doces devagar. Um fogo começou a
queimar dentro de Kate quando as línguas se tocaram num contato úmido e quente, e o
beijo se aprofundou. A boca de Alec cobriu a dela, a língua invadindo cada recanto numa
exigência incontida.
— Kate! — ele falou com voz rouca, despertando nela uma ânsia desconhecida
que a fez segurá-lo pelos ombros e tocar cada centímetro dos músculos sob a casaca.
Suspirou, enlevada. Jamais experimentara tanta segurança, tanto carinho. Aqueles
braços podiam fazer dela o que quisessem, pensou, incoerentemente, enquanto o
enlaçava pelo pescoço, depois mergulhava os dedos nos cabelos castanhos e sedosos.
Agarrou-se a Alec quando sentiu a língua quente investir em sua boca com mais
força. Seu coração batia tão forte, que estava certa de que ele poderia ouvi-lo. Nunca se
sentira tão viva, tão mulher. A sensação de pertencer a alguém, de poder se entregar sem
barreiras, era indizível.
De súbito, o cavalo de Alec se moveu, e as bocas se separaram.
— Meu Deus, Kate, eu sinto muito — ele murmurou, embora com olhos ainda
cheios de paixão. — Prometo que isso jamais acontecerá outra vez.
Ela piscou, devastada pelas palavras.
Kate permaneceu o restante do dia no quarto, perguntando-se o que fizera Alec se
afastar. As respostas que sua mente produzia, porém, eram nefastas.
Suspirou ao escutar alguém batendo na porta. Por um momento, pensou em se
manter quieta e fingir que dormia, mas não o fez, achando que podia ser Alec.
— Pode entrar.
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— O jantar está servido, senhorita — avisou Nora, uma das empregadas. — A sra.
Dearborn pediu que eu viesse chamá-la — explicou, observando-a com atenção. — A
senhorita está se sentindo bem?
Não, Kate quis responder, mas teria de explicar qual problema a afligia. Como não
havia nada fisicamente errado com ela, o que poderia dizer? Como explicar que se sentia
desconsolada por causa de um beijo que, de certa forma, ela mesma pedira, mas que não
tornaria a ocorrer?
— Estou ótima e morta de fome — mentiu.
Endireitando as costas, saiu do quarto e caminhou pelo corredor rumo à escadaria
que levava ao andar térreo. Quando atingiu o topo da escada, entretanto, uma voz
soando lá embaixo a fez parar. Era Alec.
— A carruagem está pronta, Holmes?
— Sim, milorde.
— Ótimo. Vou jantar com Anthony e voltarei tarde.
— Pois não, milorde.
Uma lufada de ar frio a atingiu, e o som de botas pesadas se fez ouvir sobre o piso
do saguão até que a porta da frente se fechou.
Alec partira e levara com ele toda a sua alegria.
Kate nem se lembrava do que havia comido no jantar, porém se sentiu enjoada ao
subir a escada de volta para o quarto. Deveria ir embora. Sentia-se desconfortável demais
para permanecer naquela casa, e tinha certeza de que Alec também desejava que ela
partisse, embora não houvesse tido coragem de lhe dizer isso.
Mas, por que ele tinha lhe oferecido um trabalho, então?
Na verdade, isso já nem importava. Alec obviamente mudara de opinião e não
desejava ter uma ladra trabalhando em sua casa.
Não sou nenhuma doença, refletiu, revoltada. Contudo, aquele não era o primeiro
golpe que a vida lhe dava, e sobreviveria. Afinal, nunca esperara que a recebessem de
braços abertos naquela mansão.
Ao chegar ao porto seguro do quarto, fechou a porta e foi sentar-se na beirada do
leito. Letárgica, ficou ali por muito tempo com uma névoa toldando os pensamentos.
Enfim, respirou fundo, levantou-se e caminhou até o guarda-roupa. Tirando o
vestido, pendurou-o no cabide e o guardou. Ainda fitou a roupa um instante, antes de tirar
as calças e a camisa com que havia chegado na casa e fechar a porta do armário.
Após vestir-se, olhou em volta com a sensação de que se esquecia de algo. Mas
não havia nada para esquecer, pois chegara ali apenas com as roupas do corpo. A roupa
de moleque era tudo o que possuía.
Tomando a almofada que a sra. Dearborn lhe dera, admirou uma última vez os
bordados perfeitos e bem-acabados, então a colocou ao lado dos travesseiros sobre a
cama. Não a levaria, assim como não carregaria consigo os vestidos ou qualquer outra
coisa. Deixaria tudo ali... incluindo os sonhos idiotas de viver naquela casa ao lado de um
conde maravilhoso que a tratara com tanta gentileza.
Já girava a maçaneta quando um ruído na janela a fez ficar alerta. Atiravam algo
contra o vidro!
Fez meia-volta e correu a abrir a cortina e a vidraça.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Quem está aí? — perguntou para o escuro.
— Sou eu! — retornou uma voz familiar.
— Doninha?
— Sim.
— Está sozinho?
— Estou!
— Aconteceu alguma coisa?
— Falcão...
Kate sentiu o sangue congelar.
— Fique onde está. Vou descer e o encontro aí fora. Aflita, ela saiu do quarto
depressa e, em vez de seguir para a escada principal, rumou para a dos fundos. Pouco
depois, corria entre as plantas e arbustos que rodeavam a casa.
— Doninha! — sussurrou quando não encontrou o amigo no lugar onde o avistara.
— Estou aqui! — Ele se materializou à sua frente, saindo das sombras.
— Onde está Falcão?
— Drake o sequestrou.
— O quê! — Kate exclamou, sentindo uma pontada no estômago.
Drake era o mais odiado e temido criminoso de Londres, pois, além de roubar,
assassinava sem dó nem piedade. Havia se autodeclarado o rei do submundo da cidade,
e todos os ladrões que quisessem permanecer nela teriam de lhe entregar a metade do
que roubassem. Quem ousava discordar encontrava uma morte dolorosa.
Até agora, ela e os companheiros haviam se mantido ilesos. Como só roubavam
para comer, não representavam ameaça.
A verdade era que, para eles, apenas a perspectiva de enfrentar Drake ou as
paredes de Newgate já bastava para convencê-los de que não valia a pena roubar algo
valioso.
— Por que Drake o levou? O que ele quer conosco? — Kate inquiriu, aflita.
— Drake descobriu que você ia aplicar um golpe no sangue azul e ficou zangado
por você não tê-lo informado.
— E por que eu faria isso? O que faço não é da conta dele! — ela replicou, irada.
— Está se esquecendo de que o homem pensa que a cidade é dele.
— Mas por que sequestrar Falcão? Não compreendo.
— Na certa porque não conseguiu pegar você aí dentro. Afinal, está protegida por
um bando de novos amigos...
— Eles não são meus amigos, Doninha — Kate afirmou, entristecendo-se ao
pensar nas lições de etiqueta e Gramática da sra. Dearborn. — O que eu gostaria de
saber é por que Drake não mandou me chamar. Eu o teria atendido.
— Talvez porque você tivesse de ser lembrada de quem são seus verdadeiros
amigos, e de qual era a sua vida...
— Jamais me esqueci disso! — ela revidou de pronto, embora ciente de que, se
não houvesse se deixado levar por ilusões, talvez Falcão não estivesse agora nas mãos
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
do mais perigoso bandido da região. — Droga, por que justamente Falcão? — perguntou-
se, inconformada.
— Quer dizer que teria sido melhor se Drake houvesse pego Rato ou eu.
— Claro que não!
Doninha soltou uma risada seca.
— Achou, mesmo, que iria viver na casa de um conde ricaço sem pagar um preço
por isso? Drake acredita que você está aliviando o sangue azul sem pagar a taxa de
cinquenta por cento que ele exige de todos os ladrões.
— Eu não roubei nada.
— Não? — Ele arregalou os olhos. — Que desgraça! O que tem feito todo esse
tempo? Tomado chá e comido bolinhos?
— Eu não confirmei que iria roubar algo daqui — Kate lembrou, mesmo sabendo
que havia dado a impressão de que o faria.
— Está louca? Vive na casa de um milionário e não rouba nada? Que tipo de ladra
é você?
Ela devia se indignar com o comentário. Durante muito tempo se orgulhara de
nunca ter sido capturada e por poder bater a carteira até de um agente policial. Mas agora
só pensava na integridade do amigo raptado.
— Para onde Drake levou Falcão? — perguntou com os nervos à flor da pele.
— Para o armazém — contou Doninha.
Kate soltou um gemido. O armazém, a construção abandonada onde Drake vivia e
de onde comandava seus negócios ilegais. A sede de seu pequeno império do crime.
Assim como a maior parte dos déspotas, ele transformara o local numa fortaleza inexpugnável.
Impenetrável como um castelo medieval, o armazém tinha entradas e saídas
vigiadas vinte e quatro horas por dia.
— Temos de resgatar Falcão.
— Fácil falar — ironizou Doninha.
— Conseguiremos armar um plano se pensarmos todos juntos — assegurou Kate,
tentando soar com mais convicção do que realmente sentia. — Já enfrentamos situações
difíceis e conseguimos nos safar.
— Mas nunca tivemos de lidar com Drake. Além do mais, agora somos apenas nós
dois contra ele.
— Como assim? E quanto a Rato? Aconteceu algo com ele também?!
— Preciso lembrá-la? Rato pode arruinar tudo se o incluirmos nisso.
Doninha tinha razão. Rato jamais conseguia seguir um plano à risca. Sempre
esquecia de fazer algo e, muitas vezes, quase colocara tudo a perder.
— Só nos dois, então — Kate assentiu, tentando esconder sua preocupação. —
Temos de pensar em como entrar no armazém.
— Está maluca? Só mesmo um louco faria a estupidez de entrar no quartel-general
de Drake! Não quero morrer.
— O que sugere?
Doninha franziu a testa, pensativo.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Não quero levar uma punhalada na barriga — recomeçou, por fim. — Minha
opinião é que devemos dar a Drake o que ele quer.
— E o que é que ele quer? — indagou Kate com medo da resposta.
— Que você alivie a mansão do sangue azul.
Ela sentiu uma pontada no coração. A ideia de roubar Alec era dolorosa, mas não
podia dizer que se surpreendia com a exigência daquele bandido. Ao ouvir Doninha
mencionar Drake, soubera de imediato que teria problemas pela frente.
E era desnecessário perguntar o que aconteceria a Falcão se ela não se dobrasse
à reivindicação do bandido.
— Drake quer o primeiro artigo entregue na mão dele amanhã. E avisou que tem
de ser dos bons.
— O quê!
— Achou que ele ia deixar por menos?
Kate respirou fundo, tentando organizar as ideias. Necessitava de um momento
para refletir quanto às alternativas que tinha. Deveria haver uma saída! Uma maneira de
salvar Falcão e manter Alec fora daquela história.
Mas como?
— Drake é um idiota. Como supõe que eu possa tirar coisas valiosas da casa de
um conde sem que ninguém note?
— Aposto que ele não está preocupado com isso. Afinal, o problema é seu.
— Por quanto tempo esse maldito pretende nos chantagear?
— Até achar que é suficiente. — Doninha deu de ombros. — Pelo bem de Falcão,
dê a Drake o que ele está pedindo — volveu o amigo dela, ácido. — E é bom ser rápida,
pois ele não gosta de esperar.
— Não precisa me lembrar disso — replicou Kate, sentindo o pânico crescer.
Lutando contra o desespero, fez força para se manter calma, pois Falcão dependia dela.
— Escute... Farei o que for possível. Avise Drake que vou encontrá-lo amanhã.
Doninha assentiu, preocupado, depois avançou por entre as sombras.
Kate fechou os olhos por um momento. Jamais se sentira tão só.
Kate passou horas vagueando pelas ruas após a partida de Doninha. Sua vida
estava um caos, e ela se perguntava como faria para resolver tantos problemas.
Quando um sino distante soou a meia-noite, reconheceu que, querendo ou não,
tinha de voltar para a casa de Alec e planejar lá o que faria. Ergueu o rosto para a lua e
pediu a Deus que não fosse obrigada a prejudicar Alec.
Encontrou a entrada de serviço destrancada e suspirou, aliviada. Seria terrível
bater na porta da frente e explicar a Holmes o que fazia fora de casa.
Os corredores estavam escuros, contudo as sombras se ajustavam a seu estado
de ânimo. Seguiu em direção ao quarto, ainda ruminando o problema. Por mais que
procurasse alternativas, não as encontrava. E já não se orgulhava da habilidade para
bater carteiras. A última coisa que desejava no momento era ser ladra.
Entretanto, ela era uma punguista, e não podia negar. E sendo este seu único
talento, teria de usá-lo para salvar Falcão.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Drake se divertia promovendo a infelicidade alheia. Cruel e temido por todos, não
hesitava em torturar ou matar para obter o que queria.
Céus! Tinha de haver uma alternativa!
Talvez ela pudesse se colocar a serviço de Drake, pensou de súbito. Mesmo tendo
repugnância pelo bandido, poderia jurar lealdade a ele.
Mas isso garantiria a segurança de Falcão e de seus outros companheiros? Eles
haviam sido sempre independentes, contudo perderiam a liberdade caso se submetessem
a Drake. E não haveria volta depois porque pagariam com a própria vida se jurassem
lealdade e não cumprissem com a palavra.
De repente, uma ideia irrompeu entre a confusão de pensamentos: após resgatar
Falcão, eles poderiam ir embora de Londres e nunca mais retornar. Só assim se veriam
livres daquele bandido!
Absorta, Kate subiu a escada principal e avançou pelo corredor escuro. Ao se
aproximar do quarto, deparou com uma silhueta parada em frente à porta e estacou,
assustada.
No instante seguinte, contudo, sentiu no ar o perfume de Alec que, até então, ela
nem sabia conhecer. Com o coração aos saltos, reconheceu os traços másculos e o brilho
nos olhos escuros.
— Você me assustou. Não sabia que estava aí.
— Está tudo bem?
Por um instante, Kate desejou contar o que ocorria. Queria ser honesta e, talvez,
pedir ajuda. Sendo um homem poderoso e amigo de outros homens também poderosos,
Alec saberia o que fazer.
O impulso se esvaiu, porém. O problema era dela, não dele.
Acima de tudo, não queria expor Alec a riscos, e Drake significava um risco
enorme. O bandido não ficaria quieto se interferissem em suas atividades.
— Estou bem — mentiu, notando que a voz soava alta demais no silêncio da casa.
— Onde você estava?
— Em nenhum lugar especial. Não conseguia dormir e saí para caminhar —
elaborou, desviando o olhar.
Alec nada comentou. Quando o silêncio se tornou opressivo demais, Kate tornou a
fitá-lo. Ele a estudava com tamanha intensidade que parecia invadir suas profundezas.
Incomodada, ela quis desviar o olhar, mas essa seria a prova de que mentia.
— Eu também não conseguia dormir — Alec disse, enfim. Só então Kate notou que
ele usava apenas um roupão de veludo azul-marinho.
Estranho. Alec avisara Holmes que iria encontrar Anthony e voltaria tarde. Por que
já estava de volta? E, principalmente, por que estava em frente à porta do quarto dela?
Teria vindo averiguar se ela estava acordada para convidá-la a tomar algo, como da outra
vez? E caso convidasse, ela conseguiria aceitar, sabendo o que sentia por ele e o que iria
fazer para libertar Falcão?
Alec respirou fundo. Fora uma temeridade vir procurar Kate. Já não confiava em si
mesmo quando estava próximo dela. Jurara manter distância, e fora bem-sucedido por
alguns dias, mas naquela noite tinha se descontrolado. Além de desistir da companhia de
Anthony, terminara saindo do quarto pois não havia o que o fizesse dormir.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Aquela paixão começava a dominá-lo? Era possível que estivesse perdendo o
senso, a razão, a capacidade de julgar o que deveria ou não fazer?
— Quantos anos você tem? — perguntou de repente, como se confirmando suas
suspeitas.
— Quase dezoito. Por quê?
Alec quase engasgou ao ouvi-la. Respirando fundo, permitiu-se dominar pelo alívio.
Saber que não alimentava pensamentos indecentes por uma criança tirava um peso enorme
de seus ombros e o livrava da culpa. Kate deixara de ser menina havia pouco tempo,
mas era adulta o bastante...
...Para quê?, completou para si mesmo.
Essa pergunta, entretanto, Alec não quis enfrentar.
— Vou beber uma dose de conhaque — anunciou, mudando de assunto antes que
ela notasse sua expressão aparvalhada. — Gostaria de me acompanhar?
— Desistiu do leite quente?
— Não quero leite esta noite — replicou, tentado a confessar o que lhe passava
pela cabeça. Afinal, Kate já tinha idade para compreender certas coisas.
Sem dizer nada, ela se virou e começou a caminhar na direção contrária.
— O conhaque está em meu quarto, Kate.
As palavras caíram como um raio sobre ela, que parou de caminhar. Não retornara
ao quarto de Alec desde o primeiro dia, porém jamais se esquecera do que havia visto lá
dentro. Por mais incrível que fosse, trazia cada detalhe gravado na memória.
E dentro daquele aposento estava a cama dele... Como num transe, ela se virou
devagar e o seguiu. Abrindo a porta, Alec deu um passo para o lado, convidando-a a
entrar.
Ao ultrapassar o umbral, Kate avistou o imenso guarda-roupa que abrira da outra
vez, e de onde retirara a camisa alva e perfumada. A camisa que havia roçado na face.
Era o que faria agora se estivesse só. Mas não estava.
Ouviu o clique da porta trancando-a no que agora parecia uma armadilha.
Entretanto, se fosse honesta, admitiria que desejava ser capturada nela. Já vivera muitas
coisas na vida, poucas prazerosas. Mas o que ocorria entre um homem e uma mulher
quando se encontravam a portas fechadas permanecia um mistério para ela. Um mistério
que desejava desvendar, embora não com um homem qualquer.
Só com Alec.
Estou me deixando levar pela fantasia, julgou. Alec apenas a convidara para beber
conhaque, nada mais. Além disso, na tarde em que tinham cavalgado juntos, ele dissera
que sentia muito tê-la beijado e que isso jamais tornaria a ocorrer.
Mesmo assim, ela não podia mentir para si mesma. Sonhara com os dois juntos
desde então.
E algo tão maravilhoso podia acontecer apenas em sonhos.
Caminhando até uma mesinha redonda, Alec serviu o conhaque devagar e a
observou, pensando como Kate era especial. Apesar da origem humilde e da falta de
escolaridade, não era uma pessoa comum. Seus olhos tinham algo exótico, e a pele era
sedosa como um pêssego. Mesmo sem os cuidados estéticos usufruídos pelas damas,
era uma mulher linda. Os cabelos estavam amarrados num rabo de cavalo atrás da
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cabeça, acentuando ainda mais a harmonia de seus traços. Quando umedecia os lábios,
provocava nele uma onda de desejo tão grande que era difícil manter a compostura.
Kate o fitava com timidez, agora; contudo outra emoção também brilhava em seus
olhos, embora ele não conseguisse identificar o que era.
Ela estendeu a mão, pedindo um copo, e ele se aproximou para entregar-lhe a
bebida. Ao fazê-lo, seus dedos se tocaram, e foi como se tivesse levado um choque.
Kate tomou um gole do conhaque, apressada. Precisava de algo para lhe dar
coragem.
A bebida, porém, era forte, e a fez engasgar. Tossindo delicadamente, ela levou a
mão à boca.
— Você está bem? — Alec perguntou, alisando suas costas para ajudá-la a
respirar melhor.
— Sim. O conhaque é forte, mas eu gosto.
— Talvez forte demais para quem não esteja habituado a beber.
Kate sabia que ele tinha razão, porém, num impulso, tomou outro gole.
— Ei... não beba tão rápido — alertou Alec.
Ela, no entanto, consumiu um terceiro gole. Não demorou, e o copo estava vazio.
— Pode me servir mais? — pediu, estendendo-o para Alec. Ele sorriu de lado.
— Vejo que gostou do sabor deste conhaque.
— Não exatamente. Mas gosto da sensação que ele produz dentro de mim.
— Que sensação?
— Um calor agradável que sobe à cabeça, me deixa leve e me acalma.
— Descreve de uma forma bastante poética.
Kate sorriu. Então, sem saber o que fazer, fitou os livros na estante.
— Leu tudo isso?
— Sim. Não quer um emprestado?
— Eu... não sei ler muito bem — ela respondeu, hesitante. De imediato, Alec se
arrependeu do que dissera. Claro que Kate não sabia ler, pois não tivera chance de
frequentar a escola.
Ela abaixou o olhar e, de súbito, o abismo social e cultural que os separava surgiu
mais claro do que nunca.
Alec procurou desesperadamente introduzir outro assunto, mas nada lhe vinha à
cabeça.
— Posso ensiná-la a ler e escrever se quiser — ofereceu num impulso.
Erguendo a face, Kate o fitou com os olhos brilhando.
— Faria isso?
— Com imenso prazer.
No instante seguinte, contudo, uma sombra apagou a alegria de seu olhar.
— Não posso — ela falou, lembrando-se de que precisava libertar Falcão do jugo
de Drake e do que seria obrigada a fazer para isso.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Claro que pode — refutou Alec, pensando que ela se considerava incapaz.
— Agora? — Kate o fitou de uma maneira indecifrável e, por mais que tentasse, ele
não conseguiu adivinhar o que se passava em sua cabeça.
— O que quer dizer?
Ela caminhou até a estante. Após observar os livros, retirou um volume.
— Podemos começar com este?
Das dezenas de livros à sua frente, Kate escolhera justamente o que falava sobre
as diferentes maneiras que um homem e uma mulher podiam fazer sexo. E, afora
descrever e sugerir posições e jogos sensuais, o livro também discorria sobre fetiches.
— Por que este?
— Por nenhuma razão especial. Gostei da cor da capa, e ele não é grande.
— Não é um bom livro para começarmos.
— Por que não?
— Não é adequado.
— É difícil demais para mim?
— Não é isso — replicou Alec, perturbado. O livro fora uma brincadeira de Anthony.
Suspirou, exasperado. Mesmo sem estar presente, o amigo lhe criava problemas.
— Tem certeza de que quer começar com este livro?
— Sim. O que quer dizer "E... ró... tica"? — ela perguntou, apontando o título.
Alec desejou que um raio o atingisse. Como se não bastasse Kate excitá-lo tanto,
ela ainda lhe pedia aquele tipo de explicação... Era demais!
— E então? — ela urgiu quando ele permaneceu em silêncio.
— Erótica quer dizer sensual — falou de uma vez. — Trata-se de literatura cujo
objetivo é ensinar sobre as diferentes maneiras de se fazer sexo.
— Compreendo — ela murmurou, ruborizando. — Posso tomar mais conhaque? —
pediu, sabendo que agora, mais do que nunca, precisaria de coragem para continuar.
Alec fez como ela pedia e, pouco depois, Kate já terminava a segunda dose da
bebida. Em vez de pedir outra, desta vez ela mesma caminhou até a mesinha. Ele bem
que pensou em demovê-la da ideia, mas não o fez.
— Esta bebida é ótima! — Kate elogiou, após tomar um longo gole. Sua voz já
soava um pouco pastosa, e ela sorria o sorriso típico de quem tem álcool correndo nas
veias.
Se eu fosse um homem decente, diria a ela para ir se deitar, Alec pensou. A honra,
porém, o desertara.
O pior era que Kate não parecia ter consciência do que ele sentia, a excitação
crescente que se apoderava de seu corpo. E a inocência a tornava ainda mais atraente.
Corada pela bebida, com as pálpebras pesadas e o corpo lânguido, ela se
mostrava mais adorável do que nunca. Quando retornou para o centro do quarto, Alec foi
até ela, disposto a beijá-la. Se fosse honesto consigo, admitiria ter essa intenção desde o
momento em que a convidara para beber no quarto. Se Kate não houvesse concordado,
talvez ele a tivesse beijado no corredor.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
A voz da razão protestou, dizendo que não era justo que ele se aproveitasse de
uma mulher que mal saíra da adolescência. Além disso, embora ele nunca tivesse dado
muita atenção a regras sociais, existia também a diferença de classe a ser considerada.
Debateu-se em conflitos. Se Kate, de alguma maneira, entrasse em contato com
cavalheiros da sociedade, estes, com certeza, se aproveitariam dela. Precisava protegêla.
Tinha de ajudá-la a manter sua inocência.
Pensar tudo isso, contudo, não o impediu de avançar. Outra voz, talvez a do
demônio, garantiu que não faria mal em beijá-la... Seria um único beijo, nada mais.
Quando Alec se aproximou, Kate não se moveu. Ele olhou as faces coradas, os
olhos límpidos, o contorno delicado do rosto... então se deteve nos lábios carnudos.
Ela suspirou, trêmula, quando ele correu um dedo pela curva suave de seu
pescoço e a acariciou nos cabelos.
— Você é linda — murmurou, enlaçando-a pela cintura.
— Não sou — ela discordou, desviando o olhar.
— É linda, mas não sabe disso — ele prosseguiu, tocando-a no queixo e fazendo-a
virar a face para fitá-lo.
— Mas, e quanto ao que aconteceu esta manhã? Você se afastou após me beijar,
e disse que nunca mais faria isso, como se não tivesse gostado de mim.
— Não foi de você que não gostei, Kate. Foi de mim mesmo. Em nenhum momento
pedi que ficasse em minha casa para que eu pudesse abusar de você. Não era essa a
minha intenção.
— Sei que não era — ela assegurou com voz rouca. Deus! Kate não estava
ajudando em nada, Alec pensou, perturbado.
Só um beijo, nada mais!, a voz tornou a soar em sua mente.
O problema, ele refletiu enquanto corria os olhos pela abertura discreta da camisa
que ela usava e que sugeria a curva suave dos seios, era que desejava muito mais do
que apenas um beijo...
— Por que eu? — Kate perguntou em voz baixa de repente. Ele esboçou um
sorriso. Aquela era a questão mais fácil de ser respondida.
— Porque você é diferente de todas as mulheres que conheço.
Kate tinha alma, era autêntica, completou para si mesmo.
E ele a desejava como jamais desejara outra mulher...
Mal sentiu os lábios dele na boca, Kate se lembrou de Falcão. Resoluta, disse a si
mesma que os sentimentos que Alec lhe despertava deveriam ser postos de lado, pois só
pioravam uma situação que já era grave.
Entretanto, como brecar o fluxo de sensações que a perpassava? Por mais que
tentasse se controlar, a necessidade de tocá-lo aniquilava a razão.
Colando os lábios nos dela, Alec a puxou de encontro a si e acariciou a boca
adocicada com a língua num toque quente, úmido e aveludado.
Incapaz de resistir, Kate o beijou de volta, entregando-se à magia do momento.
Atordoada de paixão, pendeu para trás a cabeça, permitindo-se sentir a carícia morna no
pescoço. Alec sugou a pele acetinada por alguns instantes, em seguida tornou a lhe
tomar a boca num beijo faminto, como se ela fosse um alimento sem o qual não pudesse
viver.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Alec... — ela sussurrou num tom que não sabia ser capaz de emitir, quando ele
correu as mãos quentes por suas costas, indo pousá-las em suas nádegas para puxá-la
de encontro a seu corpo rijo. — Eu... Não pare de me beijar!
Alec fez como ela pedia.
Desta vez, entretanto, a carícia provocou verdadeiras labaredas que a incendiaram
por dentro. Totalmente entregue, Kate sentiu que enveredava por uma estrada que não
permitia retorno. Sabia que não tinha o direito de pedir ou esperar nada em troca, pois ele
já lhe dera mais do que ela merecia...
No entanto, ela ainda desejava desesperadamente aquilo. Ao menos, assim, teria a
lembrança do toque de Alec para iluminá-la na escuridão dos dias e noites sombrios que
a aguardavam.
Sem planejar, mesmo porque jamais fizera isso antes, Kate passou a beijá-lo no
pescoço. Quando ele fechou os olhos com um gemido, ergueu a cabeça e o beijou na
orelha, para, em seguida, deslizar a língua devagar pela face morena até tomar-lhe a
boca novamente.
— Kate! — Alec murmurou contra seus lábios, ofegante. Ela sorriu. Sentia-se livre,
poderosa... quase perversa. Mas, sobretudo, sentia-se mulher.
— Eu não devia estar fazendo isso, mas quero você! — ele confessou, acariciando-
a nas costas com ânsia. — Tentei me afastar, repudiei meu desejo e inventei mil
desculpas para me manter distante... Mesmo depois de tê-la beijado esta manhã, quis
convencer a mim mesmo que fora algo sem importância, mas não consegui.
— Foi importante para mim — ela admitiu num murmúrio. Tomando a face delicada
entre as mãos, Alec a fitou como se perscrutasse sua alma.
— Diga-me que pare, e eu o farei. Preciso que me diga, ou não serei capaz...
Kate hesitou, mas não mais do que por um átimo de segundo.
— Não posso dizer isso. Não quero que pare.
Por um momento, Alec se retraiu. No instante seguinte, contudo, ele se rendeu
contra o que não podia mais lutar.
Devagar, desatou o laço que prendia os cabelos de Kate atrás da cabeça e, como
se tocando uma joia preciosa, puxou parte deles para a frente. Observou-a, então, como
jamais fizera, os olhos escuros de prazer.
Kate entreabriu os lábios, pois desejava provar de novo o sabor dos dele, e
Alec aceitou o convite. Segurando-a pela nuca, explorou a boca úmida com um
suspiro enquanto abria os botões da camisa fina com ansiedade. Gemeu quando ela
insinuou as mãos pelo tecido do robe que ele usava, espalmando-as contra seu peito.
O último botão cedeu e Alec baixou o olhar, as mãos se movendo, ávidas, para
cobrir os seios pequenos e perfeitos. Pega de surpresa pela sensação, Kate se viu
sacudida por um violento arrepio, que a fez ofegar e fechar os olhos por um momento. Ele
a beijou no pescoço enquanto prosseguia com a carícia, descendo a boca devagar e
torturantemente. Quando alcançou o bico rosado e intumescido, Kate buscou apoio nos
braços fortes, temendo cair. Soltou novo gemido e sua excitação quase levou Alec à
loucura. Estavam presos em uma espiral onde o desejo de um alimentava o prazer do
outro.
Kate ofegou. Tinha a sensação de que os seios haviam inchado. Arrepios ainda
percorriam seu corpo, mas agora pareciam emanar de seu âmago.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Sentiu um calor no meio das coxas, como se parte dela derretesse, e abriu os
olhos com um gemido de protesto quando Alec se afastou. Ao vê-lo começar a se despir,
entretanto, viu-se fascinada com sua beleza viril.
Alec se revelou em completa nudez, por fim, e ela estendeu os braços.
Kate só percebeu que haviam se movido quando se viu deitada na cama imensa.
Em contraste com o calor de seu corpo, as cobertas eram frias e refrescantes. Alec se
deitou sobre ela com um suspiro, pressionando-a contra a suavidade do colchão.
Mesmo refém de uma miríade de emoções, Kate ainda acreditou manter a lucidez.
Ela lhe daria seu corpo, pois necessitava fazê-lo, mas não lhe entregaria o coração ou
estaria perdida. Não havia futuro para eles, disse a si mesma mais uma vez. Portanto,
teria apenas o momento que agora viviam, o qual a transformaria para o restante de sua
vida.
Com as mãos tremendo, tocou os músculos bem delineados das costas de Alec,
sentindo os músculos retesados pelo esforço que ele fazia para se controlar. A cada vez
que soltava o ar, a suave lufada lhe tocava o peito, fazendo-a estremecer também.
Ele percorreu a pele do pescoço, o lóbulo da orelha, depois invadiu seu ouvido com
a língua, fazendo-a se arrepiar inteira.
Em resposta, Kate mordeu o queixo voluntarioso, ao mesmo tempo que explorava
as nádegas firmes e acariciava com os pés suas pernas sólidas.
— O que está fazendo comigo, Kate?
O timbre grave e profundo penetrou-lhe a alma, e ela sentiu os seios arder de
encontro ao peito largo de Alec. Ele mordeu suavemente um dos mamilos, fazendo-a
soltar um gemido e segurar-se nos cabelos fartos e ondulados do amante para arquear o
corpo.
— Gosta disso? — ele perguntou, erguendo a cabeça. Kate respondeu, puxando-o
de volta para si.
Mãos quentes percorreram seu corpo, e Kate pensou que, se o paraíso existia, era
aquela a porta de entrada. Sem deixar de lado nenhum centímetro de pele, ele a tocava
nas costas, no ventre, nas coxas. Esticando os braços, chegava a acariciá-la nos pés. E,
enquanto fazia isso, prosseguia beijando seus seios e alternando os lábios entre um
mamilo e outro. Ela se sentia como uma flor abrindo as pétalas para receber a luz do sol.
As carícias eram em sua pele, mas vibravam por seu interior em ondas que se
acumulavam, intensificando a tensão sensual. Magia. Pura magia.
— Alec! — ela exclamou quando sentiu que ele descia a cabeça até suas coxas.
Ele não parou. Devagar, passou a deslizar a língua pelo interior de uma perna e,
em seguida, da outra. Num gesto de entrega, Kate as separou, e Alec se permitiu explorar
seu recanto mais íntimo.
O sangue correu mais rápido pelas veias de Kate, como que abrindo caminho para
algo novo que despontava dentro dela. Alec passou os braços por sob suas pernas e
prosseguiu, beijando-a no cerne da feminilidade, enquanto, com as mãos, acariciava os
seios pequenos.
A doce tortura fez a tensão se acumular dentro dela. Quando Kate achou que já
não fosse suportar mais, ele afastou o rosto.
— Não pare! — ela suplicou baixinho, porém Alec resistiu e passou a beijá-la nos
quadris, no ventre, deslizando até se posicionar sobre ela.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Sabe o que vai acontecer agora? — perguntou, rouco.
— Mais "tortura"?
— Sim — ele disse. Num movimento sensual, roçou o membro rijo contra a
abertura tenra entre as coxas de Kate, fazendo-a estremecer. Ela o fitou nos olhos sem
esconder o medo que sentia. Ela o vira no esplendor da nudez, e sabia que Alec era
imenso em todos os sentidos.
— Alec, não sei se consigo, eu...
— Não se preocupe. — Ele a beijou na ponta do nariz.
Kate não estava tão convencida de que poderia abrigá-lo, mas Alec recomeçou a
beijá-la repetidas vezes, fazendo-a se esquecer de todos os receios. Tudo o que desejava
naquele momento era que ele ficasse ainda mais perto.
Agindo por puro instinto e curiosidade, ela enfiou a mão entre os corpos até tocar o
membro acetinado e ereto da base até a ponta.
— Kate! — Alec murmurou com voz rouca, e ergueu o corpo para observar a
carícia, o rosto moreno contorcido de prazer.
— Gosta disso? — ela indagou, insegura.
— Será que não vê?Você me faz delirar!
Ao ouvir aquilo, ela soube que necessitava tê-lo naquele momento. Determinada,
desceu as mãos até as nádegas de Alec e o puxou contra si. Sem poder esperar mais, ele
a penetrou lenta e profundamente. Kate ameaçou externar sua dor, porém teve o grito
abafado por um beijo.
A paixão não demorou a tomar conta de ambos. Com os corpos entrelaçados,
eram um só. Nada faltava. Corpo, alma, coração e mente se fundiam, elevando o êxtase a
tal ponto que os fazia sentir como se o universo inteiro rodopiasse em torno deles.
O ápice chegou ao mesmo tempo para ambos. Num abraço desvairado,
entregaram-se de forma absoluta a uma sensação que era desconhecida para ambos. O
tempo parecia haver parado ou deixado de existir.
Passada a explosão, Alec relaxou o corpo sobre o de Kate. Ofegantes e saciados,
permaneceram unidos, como se voltar a ser dois fosse uma perda terrível.
Fechando os olhos, Kate admitiu o que até então se recusara a ver.
Ela se apaixonara pelo conde Alec Breckridge.
Capítulo IV
Ao despertar na manhã seguinte, Kate espreguiçou-se, lânguida, tal qual um gato
após um cochilo. Contudo, quando a névoa em sua cabeça dissipou, as lembranças
vieram à tona.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Alarmada, ela ergueu o corpo num movimento brusco. Estava na cama de Alec!
Mas onde ele estava? Como podia tê-la deixado tão vulnerável? Não se importava
se alguém entrasse no quarto e a visse?
Imersa nas sombras da noite, não fora difícil para ela se esquecer de que ele era
um conde e ela, uma ladra... Mas com o dia clareando e os raios de sol entrando pela
janela, a vida tinha de voltar ao curso normal.
Por Deus, onde estariam suas roupas?
Kate prendeu a respiração quando ouviu uma batida na porta e se manteve imóvel.
É ele, disse para si mesma.
Mas por que bateria antes de entrar? Aquele era seu quarto.
Por cortesia, refletiu. A sra. Dearborn havia dito que sempre se devia bater antes
de entrar.
— Milorde? — A voz de Holmes soou no corredor.
Kate quase entrou em pânico. Saltando do leito, cobriu-se com o lençol de linho e
começou a procurar as roupas desesperadamente. Como se as coisas já não estivessem
ruins, ainda tinha de enfrentar também aquela!
— Milorde? — Holmes tornou a chamar. Segundos depois, o mordomo abriu a
porta devagar e entrou.
Kate o odiava. Mesmo assim, tentou assumir uma expressão casual, como se
fosse normal ela estar no quarto do conde, coberta por um lençol e nada mais.
Ao vê-la, Holmes arregalou os olhos e abriu a boca em estado de choque.
— O que deseja? — ela perguntou em tom neutro.
— Santa Maria! O que faz aqui, sua pirralha?
Kate cerrou o maxilar. Furiosa, sentiu vontade de partir para cima do maldito.
— Invadiu o quarto de milorde para roubar algo?!
— Claro que não! — ela disparou com veemência. — Quem você pensa que é para
me questionar? Não lhe devo satisfações!
— Estou aqui há mais tempo do que você, mocinha.
— E que importância isso tem?
— Verá qual é a importância quando eu chamar a polícia!
— O que dirá? Que tentei roubar o lençol do dono da casa?
— Ora, sua...
Kate mordeu o lábio. Por que chamara a atenção para o fato de estar nua? Não era
possível que Holmes fosse idiota a ponto de não compreender o motivo de ela estar
naquele quarto!
— Saia já desta casa e não volte nunca mais! — vociferou o mordomo, irado.
— Não creio que você tenha autoridade para decidir isso. — Soou uma voz grave
de repente.
Virando a cabeça, Holmes deparou com o conde sob o umbral e corou fortemente.
Kate sorriu, satisfeita, mas, quando fitou Alec, as lembranças da noite anterior voltaram
num torvelinho, e também ela corou.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Perdão, eu... não sabia que... — Holmes não conseguiu completar a frase. —
Como o senhor não desceu para tomar o café, vim ver se estava tudo bem. Bati antes de
entrar, claro, mas não houve resposta. Pode imaginar minha surpresa quando entrei e...
Ao se reportar ao patrão, ele sempre adquiria um tom submisso, bem diferente da
maneira como falava com ela quando estavam a sós!, observou Kate, irritada.
Alec a fitava, agora, sem esconder que a visão dela coberta apenas pelo lençol o
agradava. Ao cabo de alguns instantes, contudo, readquiriu sua expressão séria e se
virou para Holmes.
Respirou fundo. O criado ainda não notara que sua relação com Kate se
transformara profundamente? Tendo acordado antes, ele havia ficado deitado ao lado
dela, pensando no que acontecera entre eles. Logo chegara à conclusão de que não
sentia a menor vontade de manter segredo sobre tudo aquilo e tinha consciência de que
Kate era uma pessoa realista. Se aceitasse permanecer com ele, teria o que jamais
conseguiria caso retornasse para a rua.
Alec soltou o ar devagar. Ele lhe ofereceria uma casa para morar: uma linda
residência com vista para o Hyde Park, talvez. Assim, seriam amantes, e ele poderia
visitá-la todos os dias. Também lhe daria jóias e a levaria para lugares exóticos. Proporcionaria
a Kate a chance de usufruir todas as coisas que a vida lhe negara até então;
coisas que a maioria das mulheres adoraria ter.
Mas Kate não é como a maioria das mulheres, uma voz disse dentro dele.
— Já terminou o que veio fazer aqui? — perguntou a Holmes, sem agradecer ao
criado por ter vindo verificar se estava bem.
— Com certeza milorde compreende a razão de minha preocupação...
— Para ser franco, não.
— Mas, senhor, ela é uma ladra! E estava sozinha aqui em seu quarto.
Alec nada disse. Apenas prosseguiu, encarando o mordomo.
— Eu não me surpreenderia se milorde desse pela falta de algum artigo valioso.
Milorde sabe que tenho a obrigação de aventar tal possibilidade.
— Não roubei nada, seu velho imbecil! — vociferou Kate.
— Velho imbecil? — Holmes repetiu, indignado.
— Sempre suspeita das pessoas? — Alec perguntou ao criado.
— Nem sempre, senhor. Mas a presente situação me obriga a ficar alerta.
— Aprecio sua preocupação, porém seus receios são infundados. E, se ainda não
notou, a srta. Kate não tem onde esconder algo de valor...
— Eu... — Holmes principiou, mas se calou sem saber o que dizer.
— Pode ir, agora. E, por favor, informe à cozinheira que desejo um jantar especial
esta noite.
Após inclinar a cabeça com submissão, o mordomo começou a caminhar para a
porta.
— Holmes?
— Sim, milorde. — O homem se voltou de pronto.
— Não quero que diga uma só palavra sobre o que viu aqui.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Após fitar Kate um instante, o mordomo meneou a cabeça, concordando. Então,
partiu.
Kate se voltou para Alec, ressentida. Ele teria agido diferente se ela fosse uma
dama e não uma menina de rua? Teria mandado o mordomo embora sem pedir que
mantivesse sigilo? Se ela fosse uma mulher respeitável, talvez Alec não fizesse questão
de manter segredo sobre o que ocorrera entre os dois.
— Não devia ter pedido isso a ele — disse, exasperada. — Agora Holmes vai ter
algo com que me chantagear... Droga! Não sei que loucura me acometeu para eu ter feito
tamanha tolice!
Ao ouvi-la, Alec se aproximou, aborrecido.
— Nunca pensei que a opinião dos outros fosse tão importante para você.
— E não é. Muito menos a de Holmes. Mas não compreendo por que pediu para
que ele não dissesse nada. O que você e eu fazemos não é da conta de ninguém!
De repente, Kate se sentiu muito frágil. Embora esbravejasse e gritasse, uma dor
profunda a consumia. Não tivera tempo para se imunizar contra a visão do rosto lindo de
Alec, seus olhos penetrantes e o porte masculino e vigoroso que o caracterizavam. Como
faria para esquecê-lo?
Agora era tarde, pois o que nunca devia ter ocorrido já havia acontecido. Seus
sonhos de garota jamais poderiam se tornar realidade. Só lhe restava sumir daquela casa,
pensou, desviando o olhar.
— Escute, Kate...
— Não diga nada — ela pediu sem tornar a olhá-lo. O que aconteceu foi um erro.
Ele franziu o cenho. Não esperava que ela fosse dizer aquilo.
Pior: acreditara que a noite de amor fosse apaziguar seu desejo, e agora a queria
mais...
O melhor seria assumir um compromisso com ela, decidiu. Mesmo porque deveria
arcar com as consequências de lhe ter roubado a virgindade. Kate compreenderia que se
tornar sua amante seria a melhor maneira de resolver a situação.
Ao ver que Kate se afastava e lhe dava as costas, ele se aproximou devagar e a
tocou nos ombros, virando-a devagar.
— Não fizemos nada de errado, Kate — falou baixinho.
— Não é o que eu sinto. O que fizemos foi um erro, Alec, porque pertencemos a
mundos diferentes. Você não pode descer ao meu mundo, e eu não posso ascender ao
seu.
Ele suspirou profundamente. Seu olhar, porém, manteve o calor e a ternura.
— Seria estupidez não reconhecer as diferenças que nos circundam. Eu seria um
imbecil se quisesse convencer você de que sei o que é viver nas ruas... Porém, não podenegar que existe algo entre nós, Kate. É impossível que não sinta o mesmo.
Ela gostaria de negar a paixão que sentia e garantir que ele não a afetava, porém
era impossível.
— Também sinto assim — admitiu num murmúrio. — Mas tenho de parar de sentir.
— Por quê? Não temos motivos para nos rebelar contra o que sentimos. Devemos
aceitar nossos sentimentos e aproveitar o que é bom. Nunca tive tanta consciência de
como a vida é curta e de como devemos aceitar aquilo que nos torna feliz.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Kate vacilou. De súbito, a imagem de Falcão lhe veio à cabeça, lembrando-a do
que tinha a fazer. Não podia se deixar levar por emoções que arruinariam tudo o mais.
— Preciso me vestir — murmurou apenas, procurando as roupas.
Alec concordou em silêncio e fez meia-volta, caminhando para a porta. Antes de
sair, porém, parou e tornou a fitá-la.
— Quase me esqueci... Eu trouxe algo para você. — Enfiando a mão no bolso,
retirou uma pequena caixa. Tornou a se aproximar e a ofereceu para Kate.
— O que é? — ela perguntou, hesitante.
— Veja você mesma.
Intuindo que aquilo tornaria as coisas ainda mais difíceis, ela aceitou a caixa com
um nó na garganta. O que viu roubou sua respiração.
— Gosta? — Alec perguntou.
— É adorável! — ela respondeu, fitando o colar sobre o veludo escuro. — Que
pedras são essas? — quis saber, sem coragem de tocar o objeto que refletia a luz do sol
entrando pela janela.
— As pedras azuis são safiras, as outras são diamantes.
— Não compreendo... Por que me mostra isto?
— Experimente para ver como fica — ele sugeriu, mudando de assunto.
Kate meneou a cabeça, decidida a não aceitar a sugestão. Alec, porém, apanhou a
joia, caminhou para trás dela e colocou o colar ao redor de seu pescoço, provocando-lhe
um arrepio. Tomando sua mão, ele a trouxe para a frente do espelho.
— É lindo!
— Você é linda — ele sussurrou em seu ouvido. Kate piscou os olhos marejados.
— O que é esta pedra enorme no centro?
— Um diamante azul — Alec explicou. — Não existe outro igual a este. A gema é
única. Pertence à minha família há muitos anos.
Ele respirou fundo. Não sabia o que o acometera quando despertara naquela
manhã. Após fazer a higiene pessoal, tinha se vestido e descera para o escritório. Sem
titubear, fora direto ao cofre para retirar o colar que o fazia se lembrar dos olhos azuis de
Kate. Era uma joia única e de valor incomensurável.
Tal como ela.
— Como assim, uma gema única? Não compreendo.
— Quer dizer que nunca encontraram outro diamante azul como esse... Pensei que
gostaria de usar o colar esta noite.
— O que há esta noite?
— Depende de você. Eu a estou convidando para jantar. Não ouviu quando mandei
Holmes falar com a cozinheira?
Kate engoliu em seco. Alec não podia fazer isso com ela, muito menos agora!
Tinha de parar de se comportar como um príncipe encantado que a enchia de gentilezas
com as quais ela jamais sonhara.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Pensei que poderíamos jantar no salão verde. Só você e eu — ele prosseguiu.
— Dispensarei os criados e eu mesmo a servirei. Depois, poderá me dar a honra de
dançar comigo.
— Não sei dançar.
— Posso ser seu instrutor — Alec murmurou com voz de veludo.
Kate imaginou a ambos dançando com os corpos colados. Ela encostaria a cabeça
no peito largo e ele a conduziria.
— Por que faz isso? — perguntou, emocionada.
— Porque quero vê-la sorrir. Diga que aceita meu convite, Kate. Por favor.
Ela sabia que dizer "sim" a condenaria. Entretanto, o coração falou mais forte.
— Está bem.
Alec a beijou apaixonadamente. Num impulso, Kate o abraçou, aconchegando-se
ao corpo forte. O lençol, naturalmente, caiu no chão.
Horas mais tarde, Kate mirava o próprio reflexo no espelho, tentando ver se parecia
uma pessoa diferente. Afinal, agora era uma mulher na exata acepção da palavra.
Olhou por sobre o ombro. O lençol continuava caído ao pé da cama, pois tinha
passado o restante da manhã fazendo amor com Alec. Depois que ele partira, tinha ido
para o quarto que ocupava na mansão, assegurando-se de que ninguém a via cruzar o
corredor. Uma vez sozinha, fora capaz de pensar com mais clareza.
Fui estúpida, recriminou-se, e a convicção voltou redobrada: tinha de ir embora. E
quanto mais cedo, melhor.
Tornou a abrir a caixa com o colar de diamante azul. Era uma joia espetacular, um
verdadeiro tesouro. As pedras faiscavam, atestando o quanto eram valiosas. Era incrível
que Alec a presenteasse com algo que, além de valer uma fortuna, pertencia à sua família
havia muitas gerações.
E ela o entregaria a Drake em troca da liberdade de Falcão, pensou, deprimida. Ao
menos, não iria roubar nada de Alec. O presente não duraria muito em suas mãos,
contudo cumpriria um objetivo necessário. Seu destino era cruel, porém ela não possuía
alternativa. Odiava ter de entregar joia tão valiosa a um bandido, ainda mais tendo sido
esta um presente de Alec, mas tinha de fazê-lo.
Pulou quando bateram à porta.
— Entre — autorizou, na esperança de que não fosse Alec, pois não poderia
encará-lo agora. Se o visse, talvez não conseguisse levar o plano adiante.
— Sinto importuná-la, milady — disse Nora, uma das criadas.
Ela sentiu vontade de explicar que era como elas, e não uma dama da sociedade.
Desde que chegara àquela casa, os criados não sabiam como vê-la. Ela era um enigma
para eles: uma ladra sendo tratada como nobre.
— Milorde pediu para que eu trouxesse isto para a senhorita — prosseguiu Nora,
entrando com uma caixa nas mãos.
— O que é?
— Não sei. — Nora colocou a caixa sobre a cama. — A senhorita não vai abrir?
Kate respirou fundo e resolveu conferir o que Alec enviara. No entanto, não queria
abrir a caixa na frente da criada.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Nora percebeu seu desconforto e, embora desapontada, pediu licença e se foi.
Kate tirou a tampa da caixa com cuidado e deparou com um lindo vestido.
Confeccionado em seda azul-marinho, tinha delicados apliques de renda que o tornavam
elegante e sofisticado. Um vestido de gala como os que ela via nas vitrines da cidade!
Extasiada, desdobrou o traje com cuidado. Foi até o espelho e o colocou na frente
do corpo. O comprimento era perfeito, como se houvesse sido feito por encomenda. Alec
mandara confeccioná-lo para ela ou se tratava de outro dos vestidos da irmã?
Não importa, pensou, observando o caimento perfeito da saia. O corpete tinha um
decote profundo e as mangas terminavam em punhos fechados por botões de
madrepérola.
Fechando os olhos, ela se imaginou usando o vestido. Em sua fantasia, Alec ficaria
encantado com sua beleza. Ela caminharia com elegância e, sorridente, correria para os
braços do conde, pois sabia que ele a amava.
A razão, entretanto, dissipou a fantasia. Abrindo os olhos, Kate lembrou a si
mesma que não podia pensar tais coisas. Nem agora, nem nunca.
Bateram na porta outra vez. Antes que ela respondesse, esta se abriu devagar.
Era Alec.
Kate ainda segurava o vestido na frente do corpo, e ele sorriu.
— Vejo que recebeu meu presente. Espero que tenha gostado.
— É maravilhoso — ela afirmou antes de colocar o vestido sobre a cama.
— Vai usá-lo no jantar desta noite?
— Sim — ela respondeu, observando o sorriso que a enfeitiçava.
Gostaria de sorrir de volta. Mais do que isso: gostaria de beijá-lo.
Mas não podia. Tinha de lutar contra os sentimentos que colocavam em risco a
decisão que havia tomado.
— Estou um pouco cansada. Acho que vou me deitar por um tempo — elaborou,
sabendo que não era bom estar a sós com Alec, pois isso poderia levá-la a perder a
batalha que ela travava contra si mesma.
— Ótima ideia. Não quero que esteja cansada quando dançar comigo esta noite. —
Ele se aproximou e a beijou na face. Após dar meia-volta para partir, tornou a virar-se
para fitá-la. — Quase me esqueci da razão de ter vindo procurá-la... — Saiu do quarto por
um instante e retornou logo depois, trazendo uma caixa semelhante à do vestido, ainda
que branca e menor. — Para você.
— Outro presente? Não devia fazer isso! — Kate reclamou, mas sorriu por medo
de magoá-lo.
— Você merece ser presenteada.
O par de sapatos que combinava perfeitamente com o vestido a fez ficar com os
olhos marejados. Alec a tratava como se ela fosse uma princesa, concluiu. Mas não havia
espaço para isso em sua vida. Ela iria libertar Falcão e eles partiriam de Londres.
Tentando não demonstrar a tristeza que a assaltou, Kate tornou a guardar os
sapatos.
— Está tudo bem? — Alec perguntou, preocupado.
— Sim, não se preocupe. A que horas devo estar pronta?
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— Oito horas — ele falou, aproximando-se e enlaçando-a pela cintura. — Vai ficar
linda nesse vestido. Estou até com ciúme do tecido por ele tocar seu corpo...
Kate fechou os olhos quando a respiração quente de Alec em seu ouvido a fez se
arrepiar.
— Tenho dificuldade para me controlar quando estou a seu lado, Kate — ele
confessou. — Preciso tê-la outra vez.
Ela quase cedeu, pois também o desejava. Entretanto, a razão lhe dizia que seria
estupidez se entregar. Haviam feito amor mais de uma vez, porém estava terminado. Ela
iria sumir da vida de Alec.
— Estarei pronta às oito — afirmou, afastando-se. Alec fez menção de dizer algo,
contudo suspirou.
— Descanse — disse apenas, beijando-a na testa e se virando para sair.
— Alec!
Ele se voltou.
— Eu... agradeço tudo o que fez por mim.
— Sabe que foi um prazer — ele garantiu com um sorriso travesso. Então, sem
mais nada acrescentar, partiu.
Nunca mais nos veremos, Kate pensou com um nó na garganta.
— Milorde! Está elegante como um rei — elogiou a sra. Dearborn com seu jeito
alegre ao encontrar Alec no topo da escada principal.
— Obrigado.
Alec alisou a manga do traje preto que contrastava com a camisa alva como neve e
a faixa de cetim verde-escuro que trazia em volta da cintura. Os sapatos brilhavam. Sua
figura era a do mais perfeito aristocrata.
— Não vejo a hora de ver a srta. Kate — revelou a velha senhora. — Tenho
certeza de que também estará maravilhosa. É uma linda mulher.
— Tem razão — concordou Alec, imaginando-a com o vestido que ele comprara
por uma pequena fortuna. Queria que aquela noite fosse especial para Kate.
— Vou ver se ela está pronta ou necessita de alguma coisa — a governanta
resolveu, sorrindo. — Gosto muito da srta. Kate, milorde... Faço votos que tenham um
jantar agradável — desejou com um brilho nos olhos.
Alec observou a sra. Dearborn caminhar pelo corredor com um sorriso. Era como
se ela fizesse parte da família. Tratava-o como filho, sem as exigências que as mães
normalmente faziam... tais como arrumar uma boa esposa.
E o fato de ela e Kate se darem bem era importante, pois Kate precisava de boas
influências.
Descendo a escada, lembrou-se do que Anthony dissera sobre Kate ser uma "obra
de caridade", o que era um absurdo.
Tencionava ir à biblioteca para esperá-la quando ouviu os gritos da sra. Dearborn.
— Milorde! Milorde!
Alarmado, ele retornou e subiu a escada correndo. Ao chegar ao topo, a mulher o
esperava, consternada.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— O que foi?
— Milorde... — a sra. Dearborn recomeçou, chorando.
— Aconteceu algo com Kate? Ela está machucada?
— Não é isso... Ela foi embora.
As palavras o atingiram como um punhal.
— Tem certeza? Como sabe disso? Talvez tenha saído para caminhar um pouco.
— Infelizmente não é isso. O quarto estava totalmente às escuras. Quando acendi
as velas, deparei com o vestido e os sapatos sobre a cama. Também encontrei esta nota
— disse, mostrando um papel dobrado.
— Impossível — Alec replicou, sem aceitar a mensagem.
— Não pode ser de Kate. Ela não sabe ler nem escrever.
— Kate me pediu para ensiná-la... Não contou ao senhor, pois queria fazer uma
surpresa.
Com as mãos tremendo, Alec aceitou e desdobrou o papel. Na medida em que lia,
sua expressão se tornava mais sombria. Ao terminar, amassou o papel com força. Kate o
traíra!
— O que aconteceu, milorde? Ela está bem? Para onde foi? — a sra. Dearborn
perguntou, ansiosa.
— Deve estar bem — ele garantiu com amargura. — Mas não sei para onde foi. De
qualquer forma, deixou claro que não via a hora de ir embora.
— Como assim? Pensei que algo houvesse ocorrido, forçando-a a partir. Estava
diferente hoje, parecia triste.
Alec também notara algo estranho em Kate, mas acreditara ser por causa da
intimidade que haviam compartilhado. Pensou que ela talvez estivesse confusa ou
receosa, porém agora via que não se tratava disso.
Ele fora um imbecil. Kate o iludira como a uma criança. No fim, Anthony tinha razão
ao não confiar nela. Apenas ele, Alec, acreditara em seu bom caráter. Kate devia estar
rindo à sua custa agora.
Como fora idiota! Por que havia acreditado que ela pudesse mudar? Kate vivera
nas ruas a vida inteira, não podia ser confiável.
Furioso e decepcionado, ele atirou longe a mensagem. Sem nada dizer, desceu a
escada e foi para o escritório, batendo a porta com força atrás de si.
Pesarosa, a sra. Dearborn permaneceu parada onde estava. Então, recolheu a
nota e a desamassou.
Fui embora. O diamante azul que você me deu combina com meus olhos, por isso
não resisti à tentação de levá-lo. Considere como um pagamento pelo que tirou de mim.
Kate se sentia arrasada. Odiava Drake, mas odiava a si mesma ainda mais. Alec
provavelmente já havia lido a mensagem e agora a desprezava.
O que jamais devia ter começado, terminava por fim. E o saldo era a dor imensa
que a aniquilava.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Tinha de se concentrar em Falcão e nada mais. Aquela noite passaria e outro dia
viria. Sua dor jamais iria desaparecer, mas o tempo a tornaria suportável, empurrando-a
para as profundezas de sua alma. Deus faria isso acontecer, pois ela não seria capaz de
viver com o coração partido.
— O que faz aqui, Raposa? Não sabe que esta parte da cidade é perigosa?
Ela congelou ao reconhecer a voz. Devagar, virou-se para encarar Drake. Ele se
movia com surpreendente facilidade para o homem gordo que era. Avançando pela viela
escura, num instante se aproximou.
Kate ergueu a cabeça, os olhos faiscando. Voltara a ser Raposa, o batedor de
carteiras líder de gangue. A jovem dama se desvanecera, e o homem bruto e feioso à sua
frente era o responsável por isso.
Avistá-lo, porém, não a surpreendeu, pois ela pedira a Doninha que o avisasse
para vir encontrá-la no beco vazio e imundo.
— Vejo que não mudou nada, pirralha — disse o bandido, sentindo prazer em
humilhá-la. — E ainda fala como a víbora que é. A temporada na casa do sangue azul
não melhorou suas maneiras.
— E você está mais gordo e horrível do que nunca. Cheira mal também, como um
cão de rua... Mas os cães, pelo menos, são amigáveis — Kate revidou, mordaz.
Arrependeu-se de imediato, contudo. Não deveria provocar o facínora, pois ele
ainda tinha Falcão.
— Eu não sabia que Falcão tinha tanto medo de facas — Drake recomeçou com
um sorriso cruel. — Não terei chance de matá-lo com uma punhalada, pois vai morrer de
um ataque do coração quando me vir avançar.
— Deixe Falcão em paz!
— Não está em posição de me dar ordens. Caso se preocupe com a sorte de seu
amigo, melhor manter a boca fechada.
Kate sabia que deveria manter o autocontrole. Por mais que odiasse Drake, não
poderia confrontá-lo.
— Tomou a decisão correta ao fazer o que ordenei.
— É o melhor para mim. Jamais obedeceria um imbecil como você.
A reação de Drake foi imediata. Pega de surpresa, Kate não teve tempo de se
desviar da bofetada que a fez cambalear.
No instante seguinte, contudo, recuperou o equilíbrio e tornou a fitá-lo.
Ao sentir o gosto de sangue na boca, tocou o lábio. O enorme anel de rubi de
Drake a machucara, contudo o golpe não a chegou a amedrontá-la. Aquele era seu
mundo, e ela sabia como lidar com ele.
— Comporte-se e não vou usá-la, cadela. Afinal, já que se tornou mulher, pode
muito bem me dar o que quero.
As palavras a atingiram como um raio. Drake sabia que ela não era mais virgem?!
— Sei tudo a seu respeito. — Ele pareceu ler seus pensamentos. — Achou que iria
manter segredo? Até me contaram que fica linda de vestido...
— Como sabe que usei vestidos?
— Mantive a casa do conde sob vigilância, claro.
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Por Deus!, Kate pensou, horrorizada. Por causa dela, Drake se aproximara de Alec.
Se o machucasse, seria ela a culpada.
— Deixe o sangue azul fora disso.
— Prostituta imunda! Já disse que não pode me dar ordens.
— E eu já disse para deixar o conde em paz!
— Está apaixonada por ele — afirmou Drake com um sorriso malicioso. — O
sangue azul conquistou seu coração.
Maldição! Falei demais, ela concluiu, odiando-se por dar outra arma àquele patife.
— O que quer de mim? — inquiriu, mudando de assunto.
— Saberá em breve... Mas, antes, quero você.
— Jamais! — Kate se opôs energicamente. Nunca permitiria que aquele homem
odioso a tocasse. Teria de matá-la para isso!
— Pense em seu querido Falcão — Drake sugeriu com um sorriso ameaçador.
Ela engoliu em seco.
— Boa menina — ele prosseguiu ao ver que a ameaça surtira efeito. — Se você se
comportar, eu...
— Onde está Falcão? — ela o interrompeu.
Drake ergueu a mão para ajeitar o cabelo, fazendo-a pensar que ele a golpearia
outra vez. O facínora queria ter o controle da conversa, porém não considerava que
também ela possuía algo que ele desejava: o diamante azul.
— Onde está Falcão? — exigiu com voz contida.
— Sabe que seu corpo não é nada mau? Tem potencial para trabalhar como
prostituta... Afinal, já conquistou até um sangue azul. Podia ter uma vida de rainha em vez
de ficar batendo carteiras.
— Prefiro roubar a vender o corpo — ela afirmou com segurança. — Pretende
continuar com essa conversa mole em vez de ir direto ao assunto?
— Vejo que Falcão é mais importante que a paixão besta que sente pelo conde —
concluiu Drake, cofiando o queixo.
— O que quer de mim? Desembuche!
— Quero muitas coisas, minha querida...
Kate pensou na joia que trazia no bolso das calças. Drake não sabia, mas o que
ele queria estava ali mesmo.
— E se eu me negar a dar o que você quer? Drake estreitou os olhos.
— Se fizer isso, vai encontrar seu amigo boiando no Tâmisa.
Kate empalideceu. Drake era mais do que capaz de cumprir a ameaça. Não
poderia pressioná-lo além do limite, sob o risco de comprometer a vida de Falcão.
— Vejo que começa a me compreender — ele deduziu diante de seu silêncio. —
Ótimo. Eu odiaria que algo ruim ocorresse com Falcão, mas acidentes acontecem... Seria
uma pena uma vida terminar tão cedo, não acha? De qualquer modo, posso facilitar as
coisas se você cooperar.
— Nunca.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Drake replicou tomando o braço dela com força, mas Kate se livrou com um gesto
brusco. Em seguida, desferiu um soco no estômago do bandido que o fez se curvar.
Ele, porém, se recuperou rapidamente.
— Vadia... Vou lhe ensinar uma lição! — gritou, avançando. Rápida, Kate saltou,
colocando-se fora de alcance.
— Eu não vim para isso. Você exigiu que eu roubasse algo valioso do sangue azul
como condição para libertar Falcão. Pois bem, eu trouxe o que você quer...
Num impulso, ela tirou o colar do bolso.
— Interessa? — desafiou, deixando-o à vista.
Drake estreitou o olhar ao ver a enorme pedra e, aliviada, Kate refletiu que agora
tinha um trunfo.
— Um diamante como nenhum outro igual: o diamante azul. Tem valor inestimável.
— Como posso ter certeza de que é genuíno?
— Está cego? Basta olhar para ver que não é falso. Eu não seria imbecil a ponto
de arriscar a vida de Falcão.
— Deixe-me ver — ele exigiu, sem parecer convencido.
— Só depois de eu vir Falcão.
— Não está em condições de barganhar, maldita. Não me faça perder a paciência.
Entregue o diamante de uma vez!
Kate negou com um gesto de cabeça. Drake não cumpria o combinado.
Pois ela iria para o túmulo antes de entregar aquele colar.
— Entregarei o diamante quando eu tiver Falcão de volta.
— Sua valentia é tocante, mas poderia ser usada para algo melhor. Pensei que
fosse mais esperta, mas, obviamente, já fez sua escolha.
Erguendo a mão, Drake fez um aceno e dois capangas surgiram das sombras.
Kate engoliu em seco. Não tinha para onde correr, mas não iria se entregar com
facilidade.
Tentou escapulir entre os dois brutos. Não podia permitir que tomassem o colar,
pois este era a única coisa que poderia trazer Falcão de volta. Um dos homens tentou
segurá-la pelo pulso, mas ela se desvencilhou, saltando para o lado. Tinha a vantagem de
ser menor e mais rápida, mas não podia enfrentá-los num embate corpo a corpo.
— Peguem essa idiota! — Drake rugiu, a barriga imensa impedindo-o de ajudar na
captura.
Ziguezagueando, Kate levava a melhor. Os homens a cercavam, impedindo que
atingisse a saída do beco, porém ela conseguia se manter fora de alcance.
— Vou matar Falcão! — Drake gritou de repente.
A ameaça a fez parar e, num segundo, os dois brutamontes a agarraram.
— Peguem o diamante, imbecis! — ordenou Drake, e um deles obedeceu.
— Pronto. Já tem o que queria — começou Kate ao ver o colar nas mãos do
inimigo. — Agora cumpra sua parte no acordo! Onde está Falcão?
— Não se apresse. Não pode me obrigar a nada.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— O que pretende fazer com Falcão?! Tenho o direito de saber!
— Não antes que retorne para a casa do conde e roube outras belezas como esta
— Drake resolveu, fitando o colar com cobiça.
Céus! Ela jamais poderia voltar para Alec!
— Não posso! Ele já deve saber que levei o colar. Não seria tolo a ponto de me
deixar entrar na casa outra vez!
— Não subestime o seu charme, pombinha.
— Soltará Falcão se eu trouxer algo mais?
— Talvez sim, talvez não... Depende do que trouxer.
Kate refletiu que Drake jamais iria se satisfazer. Se ela não roubasse Alec, ele
exigiria que ela roubasse outro nobre.
— O conde vai colocar a polícia atrás de mim — arguiu, embora não acreditasse
que Alec fosse fazer tal coisa. Ele era diferente do amigo Anthony. Alec era especial.
— É problema seu, portanto, resolva sozinha. É esperta, e vai encontrar uma
solução. Pense em Falcão e no que vai ocorrer se não fizer o que digo.
Drake fez um gesto, ordenando que os capangas a soltassem.
— Posso vê-lo ao menos? — Kate pediu, tensa.
— Talvez. Se fizer o que mando, permitirei que fale com Falcão amanhã.
Ela concordou em silêncio, odiando-o mais do que nunca. Drake sorriu.
— Sei que não vai me desapontar — disse, antes de fazer meia-volta e partir.
O som do cristal se espatifando contra a parede ecoou pelo escritório, mas não
proporcionou a Alec o alívio esperado.
— Milorde? — perguntou Holmes, abrindo a porta.
— Saia daqui! — ele rugiu, transtornado.
O mordomo correu o olhar pelo patrão, alarmado. De cabelos despenteados, Alec
havia retirado a gravata e desabotoado a camisa.
— Não escutou o que eu disse? — falou por entre os dentes.
Holmes se desculpou e fechou a porta.
Alec praguejou seguidas vezes. Estava embriagado, mas que tudo fosse para o
inferno, decidiu, os olhos fixos no fogo que ardia na lareira.
Nem o álcool, contudo, o fazia se esquecer de Kate.
Por que ela fizera aquilo? Ele a tratara bem e tentara fazê-la feliz.
Pegou outro copo para servir-se de mais uísque, porém a garrafa estava vazia.
Num assomo, atirou-a também contra a parede.
A porta tornou a se abrir, e Alec fechou os olhos com raiva.
— Eu disse para ir embora! — vociferou sem se virar.
— Olá, Alec. — Soou uma voz tímida.
Ele enrijeceu. Estaria sonhando? Tinha de estar, pois era a voz de Kate!
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Virando-se devagar, confirmou sua suspeita. A face linda e delicada que ele tanto
adorara o fitava agora. A mulher que o traíra estava de volta.
Não obstante, sentiu alívio ao ver que parecia bem. Mas, por que não estaria?,
perguntou a si mesmo com cinismo. Sendo um produto das ruas, Kate sabia como se
defender lá fora.
Na verdade, naquele momento ela estaria mais segura nas ruas do que perto dele.
— Não está com sorte. Não tenho mais nada de valioso comigo — disse, gelado.
— Sei que mereço ouvir isso.
— Ah, sabe? — Alec explodiu, caminhando, furioso, em sua direção. — Então deve
saber também que está se arriscando ao vir aqui. Posso ter chamado a polícia.
— Sei que não fez isso. Conheço você, Alec.
— Onde está o colar? — ele exigiu num tom baixo e perigoso.
— Não o tenho mais.
— Já o vendeu? — Ele soltou uma risada seca. — Anthony tinha mesmo razão a
seu respeito.
Kate abaixou o olhar. Havia permanecido escondida entre os arbustos do jardim
antes de entrar. Pela janela, avistara Alec bebendo e andando de lá para cá no escritório,
e tinha visto quando ele atirara o copo e a garrafa contra a parede.
— Espero que acredite em mim quando digo que sinto muito.
— Não acredito mais em você.
— Sinto muito, eu não devia ter vindo — Kate murmurou, sabendo que não fora só
a chantagem de Drake que a fizera voltar.
Respirou fundo. Encontraria um lorde para roubar. Para Drake não faria diferença
se ela roubasse Alec ou outro aristocrata.
Virou-se lentamente e, aproximando-se da porta, colocou a mão na maçaneta.
— Maldição! — ele praguejou e foi até ela.
Kate não se moveu. Alec estava tão perto que ela sentia sua respiração e o calor
que emanavam dele. Ele não a transformara apenas em uma mulher de verdade, mas
num ser humano com sentimentos, sonhos e esperanças.
— Sinto muito — repetiu com voz embargada. — Eu não devia ter vindo!
— Então por que veio?
Kate não respondeu, pois não podia. Mas era de esperar que Alec demandasse
uma explicação.
Devagar, ela se virou para fitá-lo. Estavam a centímetros de distância e os olhares
se encontraram. Quando Alec baixou o olhar e fitou seus lábios, Kate soube que ele iria
beijá-la.
Um instante depois, as bocas se uniram num beijo desesperado.
Kate gemeu. Precisava fugir dali, mas algo mais forte a fez tocá-lo no peito e subir
as mãos devagar até enlaçá-lo pelo pescoço. Mergulhando os dedos nos cabelos
escuros, colou o corpo no dele, precisando de sua força.
— O que está fazendo comigo, Kate? — Alec sussurrou quando seus lábios enfim
se separaram.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Alec...
Uma onda de desejo os engolfou. Trêmula, Kate abriu os últimos botões da camisa
já amassada enquanto Alec a desnudava e inclinava a cabeça para lhe beijar os seios.
Como se quisesse devorá-la, passou a sugar os mamilos enrijecidos, alternando-se entre
um e outro. Excitado, puxou-a pelas nádegas.
Kate sentiu o membro viril contra o ventre e, num impulso, começou a abrir as
calças de Alec. Ele fez o mesmo com ela, livrando-a dos trajes masculinos antes de se
ajoelhar para beijá-la na parte interior das coxas.
Ela fechou os olhos, tremendo de ansiedade. Quando se viu intimamente beijada,
estremeceu. Sentiu-se derreter por dentro, e cada nervo de seu corpo vibrou de desejo.
Era como se o mundo houvesse deixado de existir. Tudo o que havia era o contato úmido
e quente dos lábios de Alec em seu âmago.
Quando ela pensou que não suportaria mais a intensidade do prazer que sentia,
ele se ergueu. Seus olhos escuros brilhavam com profundo desejo quando,
inesperadamente, ergueu-a pelas coxas. Reagindo por instinto, Kate o enlaçou com as
pernas, preparando-se para recebê-lo.
Alec a penetrou num só movimento antes de recomeçar a beijá-la e possuí-la com
enlevo.
Loucos de paixão, prosseguiram se beijando e formando um só corpo, até se
verem deitados no tapete da sala. O clímax não tardou a chegar, arrebatando a ambos
num êxtase que, ao menos momentaneamente, destruiu tudo o que os separava.
Quando o orgasmo cedeu e sua respiração começou a normalizar, Kate voltou a si.
No momento seguinte, Alec se moveu para separar os corpos.
Ela virou o rosto, sem coragem de fitá-lo nos olhos.
— Eu não devia ter vindo — murmurou, rompendo o insuportável silêncio.
— Você já disse isso — Alec replicou numa voz levemente alterada pelo álcool. —
Mas não disse por que me deixou. Não compreendo — resumiu, confuso. Soltando-a,
sentou-se no chão. — Foi por causa do dinheiro? Se precisava de algo, podia ter pedido.
Kate gostaria que fosse tão fácil. Sem dúvida Alec a ajudaria, mas gostava demais
dele para colocá-lo em perigo.
— Não sei o que dizer — afirmou, desviando o olhar. Alec se ergueu num salto.
— Por que voltou, Kate? Se fosse tão desnaturada quanto tentou parecer naquela
mensagem, estaria celebrando sua vitória em vez de vir até aqui.
Porque eu precisava vê-lo, embora saiba que jamais poderei ser sua, ela pensou,
deprimida, porém nada disse.
Glorioso em sua nudez, Alec começou a caminhar de um lado para o outro.
— Por que não fala comigo, Kate? — Ele parou para fitá-la nos olhos. — Por que
não explica o que acontece? Não sou seu inimigo.
— Jamais o considerei meu inimigo.
Aproximando-se, Alec a tomou pelo braço, o toque oscilando entre a raiva, a
revolta e uma ponta de mágoa.
— Fale comigo, Kate! Conte o que está acontecendo. Tem de haver uma razão
para ter feito isso comigo.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Ela abriu a boca para explicar, porém algo mais forte a refreou. O problema não era
de Alec, e sim dela. E nunca se perdoaria caso algo ruim acontecesse a ele.
— Eu não devia ter vindo — tornou a dizer. Precisava ir embora fugir dali. Seu
destino estava traçado.
— Pare de dizer que não devia ter vindo!
— Vou embora — Kate resolveu, começando a se virar. Alec engoliu em seco. Se
ela queria ir, não impediria. Suas mãos, porém, não obedeceram. Retendo-a, ele a fez se
virar outra vez. Quando tornaram a se encarar e Alec deparou com os lábios carnudos,
não resistiu e tornou a beijá-la.
Kate tampouco se opôs à carícia. Tornando a abraçá-lo, entregou-se ao beijo que,
mais uma vez, selava a intensidade da paixão que sentiam.
— Venha comigo — ele falou de repente, recolhendo as roupas do chão e vestindo
as calças.
Sem esperar que ela se vestisse, ergueu-a nos braços e foi para a porta. Kate se
encolheu ao saírem do escritório, temendo ser vista nua pelos criados. Alec, contudo, a
carregou com facilidade escada acima.
Uma vez dentro do quarto, ele bateu a porta atrás de si com o pé e a colocou na
imensa cama de dossel. Quando Alec recomeçou a beijá-la sofregamente, Kate se rendeu
de novo.
Pode ser a última vez, refletiu, deprimida.
Muito tempo depois, ela jazia no leito, fitando o teto. A respiração profunda de Alec
indicava que ele adormecera.
Devagar e com cautela, Kate se desvencilhou do abraço e deslizou para fora da
cama. Incapaz de se afastar, permaneceu um longo tempo observando o corpo nu do
homem que amava. Alec merecia alguém especial, e ela jamais seria tal pessoa.
Após vestir-se em silêncio, ela se aproximou e o tocou na face.
Era hora de partir, e desta vez para sempre.
Alec despertou quando os primeiros raios de sol entraram pela janela. Ao esticar o
braço para abraçar Kate, notou a cama vazia.
Abriu os olhos. Ela havia ido embora outra vez?
Alguns minutos mais tarde, ao descer correndo para o saguão, descobriu,
estarrecido, que um antigo e valioso vaso chinês sumira junto com ela.
Capítulo V
Oculta nas sombras da noite, Kate se posicionou na entravada do beco. Ela
retornara ao mesmo local onde havia encontrado Drake da última vez, carregando o vaso
chinês com cuidado para não deixá-lo cair.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Encostada à parede, observou a ratazana que fuçava no lixo acumulado do outro
lado da viela, a intuição lhe dizendo que havia algo errado.
Deus, como odiava Drake! Jamais desejara a morte de alguém, mas, num caixão
embaixo da terra, aquele patife não faria mal a mais ninguém.
Ouviu um ruído no fundo do beco e prendeu a respiração.
— Quem está aí? — chamou, porém não obteve resposta.
— Raposa? — uma voz quase inaudível respondeu, por fim. No instante seguinte,
Kate escutou um gemido e o baque seco de um corpo tombando no chão. Quem quer que
fosse, decerto estava machucado!
Mesmo hesitante, resolveu avançar pela travessa.
— Kate!
— Meu Deus! — ela exclamou ao avistar Falcão. Aproximando-se, colocou o vaso
no solo e se agachou ao lado do amigo, erguendo sua cabeça com cuidado. Ele tinha o
rosto manchado de sangue.
Ao vê-lo ferido, Kate não conseguiu conter as lágrimas. Falcão havia sido
espancado, tinha os olhos inchados e arranhões na face e nos braços.
E a culpa era dela. Se não houvesse se envolvido com Alec, aquilo não estaria
acontecendo.
— É você, Raposa? — ele perguntou com voz débil, abrindo com dificuldade os
olhos inchados.
— Sou eu — ela respondeu, tentando firmar a voz. — O que aconteceu? Foi Drake
quem machucou você?
Falcão concordou com um gesto de cabeça.
— Quando percebi que você não vinha me resgatar, tentei fugir, mas ele me
apanhou.
— Oh, Falcão! — Kate lamentou, mortificada. — Mas tudo acabou agora. Vamos
voltar para casa — prometeu, caindo em si logo em seguida. Não tinham uma casa. Para
onde poderiam ir?
— Não, Kate. Não posso ir com você. Nem agora, nem nunca.
— Por que não? — ela indagou, tomada por um pressentimento sombrio. — Vamos
sumir daqui antes que Drake chegue e...
— Não ouviu o que eu disse? Não posso ir com você, Kate. Eu matei Drake!
Ela congelou.
— Tem certeza? — indagou num murmúrio, custando a crer nas palavras.
— Ele começou a me torturar, dizendo que você havia se esquecido de nós, que no
fundo era uma vadia... eu o apunhalei — Falcão falou sem emoção, os olhos brilhando
com uma frieza que ela jamais vira.
— Drake não contou que eu tinha vindo resgatar você? Não mostrou o colar valioso
que entreguei a ele para pagar por sua liberdade?
— Não. O colar pertencia ao sangue azul?
— Sim. Eu teria roubado o próprio demônio para libertar você!
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Eu sabia que não ia me abandonar. — Falcão esboçou um sorriso. — Por que
me deixei enganar por aquele maldito? Agora é tarde demais.
— Porque ele o atormentou até você perder o controle. Mas não se preocupe mais.
Tomarei conta de tudo. Você e os outros são minha família, Falcão — Kate afirmou,
comovida. — Agora vamos cair fora daqui. Rato e Doninha devem estar preocupados
conosco. Diga-me uma coisa: alguém viu o que aconteceu entre você e Drake?
— Ninguém. Saltei pela janela e caí sobre uns sacos de lixo. Mas os capangas de
Drake saberão que fui eu quem o matou quando virem que eu sumi.
De repente, uma ideia tomou forma na cabeça de Kate.
— Drake o mantinha prisioneiro no armazém, não é?
— Sim.
— Está melhor? Tem condições de caminhar sozinho?
— Acho que sim, mas de que isso importa agora?
— Precisa me fazer um favor, Falcão. Quero que leve isto de volta para o conde —
pediu, apontando o vaso chinês. — É uma peça valiosa que roubei da mansão, pois
Drake não se contentou apenas com o colar. Quero que entre na casa do conde sem ser
notado e deixe o vaso no saguão. A porta da frente está sempre aberta, portanto não será
difícil.
— Por que isso? — Falcão ergueu-se com dificuldade.
— Não importa a razão. Tem de fazer isso por mim, pois o conde não apreciaria
tornar a me ver.
— Não compreendo... Para onde você vai?
— Não se preocupe. Voltarei para encontrar você e os outros.
Falcão hesitou, mas enfim concordou com um gesto de cabeça.
— Após levar o vaso, vá procurar Rato e Doninha — ela instruiu. — Sabe onde
encontrá-los. Se algo der errado, e eu não voltar até o amanhecer, quero que procure o
conde novamente e conte o que aconteceu. Ele ajudará vocês.
— Qual é o seu plano, Kate?
— Não importa agora. Confie em mim, e tudo vai dar certo — ela pediu, rezando
para ter razão.
— Kate — Falcão começou, hesitante. — Está gostando do sangue azul?
— Não — ela respondeu sem convicção. — Agora vá! Tornaremos a nos encontrar
após o dia raiar.
— O que digo para o conde caso ele me veja e pergunte sobre você?
A pergunta a pegou de surpresa. A resposta, porém, não foi difícil.
— Diga que sinto muito por tudo o que aconteceu.
Alec fitava o fogo da lareira que não apaziguava o frio que ele sentia na alma. Em
vez de jantar, preferira seguir bebendo. Quem sabe assim pudesse se esquecer daquela
mulher de olhos azuis que o encantara e traíra.
Sua mente oscilava entre maldizer Kate e dizer para si que todos tinham o direito
de errar de vez em quando. Kate, aliás, Raposa, fora o seu erro.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Por fim, resolveu que era hora de se deitar. Acordaria outra vez de ressaca na
manhã seguinte, mas aquele seria o último desconforto causado pela jovem ladra.
Ao sair para o corredor, porém, ouviu um ruído. Pensou estar imaginando coisas,
pois era tarde e os criados dormiam.
Quando o barulho tornou a soar, porém, teve certeza de que não era fruto da
bebedeira.
Desconfiado, notou que o som provinha do saguão. Parecia alguém tentando
passar despercebido. Aquilo só podia significar uma coisa: havia um invasor na casa!
Seria Kate? Ela teria voltado para roubar algo mais?
Não era possível. Ela não seria tão tola.
Mas se tivesse feito isso, iria aprender uma lição.
Até então ele a tratara com consideração, pensando que ela roubava por não ter
alternativa, mas agora seria diferente. Kate veria que ninguém o roubava impunemente.
Em silêncio e com cautela, Alec avançou na direção do ruído. O invasor, quem
quer que este fosse, seria pego desprevenido.
Ao chegar ao fim do corredor, encostou o corpo na parede e espiou com cuidado o
que ocorria no vestíbulo. Um pequeno vulto se deslocava em meio às sombras,
parecendo observar os itens que o rodeavam. Na certa, escolhia o que ia levar.
O delinquente era magro e baixo, na certa um dos "companheiros" de Kate.
Quando o vulto se aproximou de onde ele estava, Alec decidiu que era o momento
de capturá-lo.
— Escolheu a casa errada, amigo — disse, saindo do esconderijo. — Agora vai se
arrepender.
O ladrão se virou e, surpreso, deixou cair no chão o que carregava. Num impulso,
Alec avançou contra o intruso e lhe desferiu um soco na face.
A frágil figura foi ao chão.
Alec fitou o próprio punho, custando a acreditar que fora tão violento contra alguém
tão menor do que ele. Não se recordava de outra ocasião em que houvesse agredido uma
pessoa daquela forma.
O que ocorrera com seu caráter pacífico e tranquilo? Ao contrário de Anthony, ele
era contra a violência e não se deixava levar por impulsos agressivos. Na certa era o
efeito da bebida... ou da depressão que sentia com a falta de Kate.
Arrependido, ajoelhou-se ao lado do corpo frágil e inerte, caído no chão. Por que
simplesmente não o imobilizara e o prendera a uma cadeira até a polícia chegar? Talvez
estivesse louco, mas o remorso o fez tomar uma decisão impensável: iria carregar o
rapazinho para o quarto que Kate havia ocupado, e o colocaria na cama até que ele
recuperasse a consciência.
Erguendo o jovem no colo, surpreendeu-se ao notar que ele era ainda mais leve do
que parecia. Magro e franzino, o pequeno malfeitor com certeza se alimentava mal.
As palavras de Anthony sobre caridade de repente lhe voltaram à lembrança, a
despeito da experiência que ele havia tido com Kate.
Com o menino no colo, tomou o rumo da escada. Entretanto, Holmes apareceu de
repente, vindo do corredor que levava às dependências dos criados. Trazia um
candelabro de duas velas, e a luz iluminou a face do intruso que ele levava nos braços.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Chocado, Alec notou o olho roxo e inchado, o rosto cheio de sangue ressecado.
Fora ele o responsável por aquilo?
Ao fitá-lo melhor, porém, Alec congelou. Não era um rapaz, mas uma garota!
— Meu Deus! Kate?!
— Milorde! — Holmes exclamou, aproximando-se. Erguendo o candelabro,
aproximou a luz da face ferida. — Devo chamar um médico?
— Depois — decidiu Alec. — Traga uma bacia com água fria e uma toalha para o
quarto de hóspedes.
— É a srta. Kate? — o mordomo perguntou, confuso.
— Não — Alec afirmou, agora com certeza. Ele carregava uma garota, mas não se
tratava de Kate.
Entretanto, era muito parecida com ela. Os mesmos traços delicados, a mesma
pele aveludada, os mesmos cílios longos... Os lábios eram menos carnudos e as
sobrancelhas mais escuras, mas ainda assim a semelhança era irrefutável. Ao tirar o
boné que a moça trazia na cabeça, os cabelos caíram soltos. Eram um pouco mais
escuros do que os de Kate, e mais curtos também.
Alec estava perplexo.
— Não é Kate — repetiu para si mesmo. — Mas por que não vi que se tratava de
uma mulher?
— Estava escuro, milorde, e a srta. Kate poderia ter voltado para...
— Vá buscar o que eu pedi. — Alec o interrompeu.
— Certamente, milorde — O mordomo resignou-se. Antes de partir, porém, não se
conteve: — Se não é a srta. Kate, de quem se trata?
— E o que pretendo descobrir assim que ela voltar a si — declarou Alec,
começando a subir a escada.
Um instante mais tarde, entrava no quarto de hóspedes. Ao colocar a jovem sobre
a cama, outra vez surpreendeu-se com a semelhança entre ela e Kate.
De repente, a moça gemeu e se movimentou. Erguendo o braço, levou a mão ao
olho ferido.
— Não o toque — ele instruiu com firmeza.
A garota abriu os olhos, assustada. Ao vê-lo, ergueu o corpo e fez menção de sair
da cama, porém Alec a segurou pelos braços. Ela começou a lutar, tentando se libertar,
mas ele a prendeu com firmeza.
— Acalme-se! Não tenha medo, não vou machucá-la.
— Solte-me ou vai se arrepender! — ela revidou, demonstrando o mesmo ímpeto
de Kate. — Se não me soltar, vou lhe dar uma lição que jamais esquecerá!
Não era a primeira vez que ele escutava tal ameaça vinda de uma garota.
— Eu disse para se acalmar, pois não corre perigo. Você invadiu minha casa e por
isso eu a golpeei, mas peço desculpas. Ninguém vai encostar mais a mão em você.
Promete ficar quieta?
A garota o observou, pensativa. Como ela havia parado de lutar, Alec a soltou e a
fitou em silêncio. Não queria atemorizá-la, contudo ela lhe devia explicações.
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— Quem é você e o que faz em minha casa?
A menina o encarou, mas nada disse.
— É melhor falar ou chamarei a polícia — Alec ameaçou, sentindo-se culpado ao
ver que ela o fitava com temor.
— Raposa disse que você não chamaria a polícia.
Então Kate estava, mesmo, por trás daquilo tudo, ele constatou, amargo.
— É mesmo? Pois se enganou. Minha tolerância para com os ladrões chegou ao
fim.
Kate provavelmente havia dito aos companheiros que ele era um alvo fácil, pois
jamais dera parte à polícia dos roubos que tinha sofrido, concluiu, zangado.
— Eu não ia roubar nada.
— Se não pretendia me roubar, por que invadiu minha casa e se esgueirou no
escuro?
— Raposa pediu para eu vir.
— Ah, claro... — Alec comentou com ironia. Entretanto, não estava preparado para
o que aconteceu a seguir: a moça começou a chorar.
— Por que Kate pediu para que viesse? — exigiu, não se permitindo comover pelas
lágrimas.
— Ela pediu para que eu devolvesse o vaso que havia levado, mas você me
assustou e eu terminei deixando que ele caísse no chão! — acusou a moça em tom
choroso.
Alec franziu o cenho. Por que Kate roubaria uma antiguidade e depois pediria a
alguém que a trouxesse de volta?
— Se houvesse tocado a campainha, isso não teria acontecido.
— Era tarde, e todos estavam dormindo... — justificou a pequena ladra.
— Por que não voltou pela manhã? Não imaginou o perigo que iria correr invadindo
minha casa na calada da noite? Eu podia ter atirado em você.
— Raposa disse que tinha de ser hoje. Ei... — A menina franziu a testa. — Ela
revelou seu verdadeiro nome para você?
Alec sentiu uma pontada no coração. Kate tinha revelado muito mais do que isso.
— Não respondeu a minha pergunta — contrapôs, frio.
— Eu já disse: ela queria que eu devolvesse o vaso.
— Ainda não explicou por que Kate pediu que você fizesse isso.
— Eu também gostaria de saber...
— Por que ela não veio devolvê-lo pessoalmente?
— Também não sei — a moça respondeu, parecendo frustrada. Então colocou os
pés para fora da cama. — Tenho de ir embora.
— Ainda não. Esqueceu-se de que está machucada? — disse Alec, notando que a
menina tinha um corte no lábio.
— Não vou morrer por causa disso.
— Quem é você, afinal?
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
A garota o observou como se refletisse se deveria ou não revelar a própria
identidade.
— Eu me chamo Falcão.
Falcão, Raposa, Alec pensou, aturdido. Nenhum deles tinha um nome comum?
— Qual sua relação com Kate?
A moça o fitou um longo momento, os olhos tão azuis quanto os de Kate tornando
a semelhança entre elas ainda mais evidente.
— Kate é minha irmã — ela revelou por fim.
Alec rumou para a janela do quarto de hóspedes, pensativo. Após fazer uma
compressa no olho inchado da menina, ele a havia convencido a permanecer até a
manhã seguinte, assim como fizera com Kate.
Kate, lembrou-se com um suspiro. Sua vida devia ser mais difícil do que ele
imaginara. Vivendo nas ruas, sem ter o que comer nem onde morar, ela ainda precisava
cuidar da irmã menor. Mas ela era forte, pensou; ao contrário da irmã caçula.
Olhou a menina adormecida na cama com um aperto no peito. Momentos antes de
cair no sono, Falcão tinha dito que Kate estivera certa ao dizer que ele era gentil e
generoso... e que a irmã havia tido certeza de que ele as ajudaria.
Era nisso que Alec pensava agora: como poderia ajudá-las? Do que Kate
necessitava e onde estaria? Por que ela levara o colar e o vaso?
E, mais estranho ainda: por que pedira à irmã que esta trouxesse o vaso de volta?
Seria uma artimanha para reconquistar sua confiança e poder roubá-lo mais tarde ou Kate
se sentia culpada?
Por mais dúvidas que tivesse, uma coisa era certa: ela não o amava.
Mas isso não tinha importância, tentou se convencer. Afinal, ele era um solteiro
convicto e Kate, uma menina de rua. Sentia compaixão e queria ajudá-la, claro. Também
sentia-se atraído por ela fisicamente... mas nada além disso.
— Milorde? — Holmes chamou em voz baixa da porta. — Precisa de algo, senhor?
— Não, obrigado.
— A senhorita... — o mordomo recomeçou, hesitante. — Quem é ela, milorde?
— Irmã de Kate.
Holmes piscou, surpreso.
— Isso explica a semelhança física. Onde está a srta. Kate?
— Eu também gostaria de saber — murmurou Alec, tornando a fitar o escuro do
outro lado da janela.
Escondida atrás de um barril, Kate averiguava se havia movimento em torno do
armazém. Tudo parecia tranquilo; até demais. Os capangas de Drake não se
encontravam por perto e tudo indicava que o corpo sem vida do chefe do bando ainda não
fora descoberto. Ao menos isso contava a seu favor.
Kate suspirou. Zelava por Falcão desde quando se conhecia por gente e não seria
agora que deixaria de fazê-lo. Gêmeas não idênticas, ela era apenas minutos mais velha
do que a irmã. Mesmo assim, sempre se considerara responsável por sua integridade,
fazendo o melhor que podia já que nunca tinham contado os pais ou um lar.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Nenhuma delas gostava de roubar, mas a vida não as presenteara com
alternativas. Assim, tinham desenvolvido o talento para furtar, o que as impedira, assim
como a Rato e Doninha, de morrer de fome.
Por isso se sentia tão culpada agora: como pudera abandonar a irmã e os
companheiros? Por que se deixara encantar por Alec a ponto de se esquecer de quem
necessitava dela?
Não viera ao armazém apenas para inocentar Falcão, contudo. Também o fizera
para tentar reaver o colar, pois tencionava devolvê-lo a Alec. Era o mínimo que podia
fazer para consertar a montanha de erros que cometera nos últimos tempos. Depois
disso, iria embora de Londres com os companheiros.
A perspectiva de se afastar de Alec doía, mas ela aprenderia a suportar também
essa dor.
Ou não?
Talvez jamais o esquecesse, pensou, e, com certeza, jamais tornaria a encontrar
alguém como ele.
Respirando fundo, resolveu agir. Saiu com cautela do esconderijo e se esgueirou
em meio às sombras, sentindo o coração acelerar. Se fosse capturada, teria o mesmo
destino de Drake!
Com cuidado, abriu uma das portas laterais do edifício abandonado, então parou
para se certificar de que não ouvia ruídos ou percebia atividade lá dentro. Quando nada
aconteceu, prosseguiu.
Havia velas acesas, porém estas não bastavam para iluminar o espaço amplo e
cheio de tranqueiras. Era estranho que não houvesse ninguém.
Onde estariam os capangas de Drake?
Avançando, alcançou um espaço que parecia servir de depósito para os artigos
roubados, pois havia objetos de valor sobre uma mesa e uma prateleira: relógios com
correntes de ouro, talheres de prata, uma bengala com cabo de ouro, um broche de rubis
e outras coisas que ela não sabia identificar, mas que, na certa, custavam muito dinheiro.
Parecia a vitrine de uma loja de artigos finos!
Nada disso interessava, porém. Viera por um motivo específico e não perderia
tempo. Tinha de descobrir onde Drake estava. Após localizar o cadáver e recuperar o
Diamante Azul, ela atearia fogo no armazém. Caso algo desse errado e não conseguisse
fugir antes de executar o que tinha em mente, assumiria a responsabilidade pela morte de
Drake.
Cuidar da irmã sempre lhe dera ânimo para prosseguir, por mais difíceis que
fossem as circunstâncias. Falcão era frágil, e não teria conseguido se manter sozinha.
Como não sabia roubar, não acompanhava Kate nas incursões para furtar as coisas que
garantiam a vida da gangue.
Em silêncio, Kate seguiu adiante. Não havia sinal de vida, o que era estranho.
Embora tudo estivesse tranquilo, ela sabia que em algum lugar repousava o corpo de seu
inimigo.
Ao chegar a uma escada, sentiu o coração bater mais forte. Já vira muitas coisas
na vida, mas jamais um homem morto. Drake, que já era repugnante quando vivo, devia
estar pior agora.
Ao chegar ao último degrau, parou para confirmar que estava só. Certificando-se
de que tudo continuava quieto, prosseguiu. Havia diversas portas em cada lado do
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
corredor, porém o patife na certa vivia atrás da porta dupla, no final. A desvantagem era
que avançar para lá a colocaria distante da escada, a única rota de fuga caso fosse
descoberta.
Ao atingir a porta em questão, respirou fundo antes de abri-la com cuidado.
Quando pôde espiar lá dentro, não viu ninguém.
Onde estariam todos? E, mais importante, onde estaria o corpo de Drake?
As peças que decoravam o ambiente não combinavam entre si, mas muitas, com
certeza, eram caras. Uma cama enorme encontrava-se coberta com uma colcha
vermelha, e os lençóis estavam desarrumados, como se houvessem dormido ali recentemente.
O mau gosto predominava. Pinturas obscenas decoravam as paredes, e uma pele
de vaca servia como tapete. Havia também muitos espelhos, como se Drake apreciasse
observar a própria imagem...
Porém, não havia sinal do bandido. Como era possível? Afinal, um homem morto
não podia sair caminhando!
— Que surpresa agradável. — Soou uma voz sinistra. Virando-se, Kate não
acreditou no que via: Drake a fitava da porta e Eli, o braço direito do criminoso, estava em
pé a seu lado. Atrás deles, dois corpulentos capangas obstruíam a saída.
— Surpresa por me ver? — o canalha perguntou com um sorriso perverso. — Sinto
desapontá-la, mas estou vivo. Gostou do meu "ninho de amor"? — inquiriu, avançando
para dentro do quarto.
— Sua casa é tão horrenda quanto você — ela replicou, refazendo-se da surpresa.
— Não deveria falar assim com quem pode matá-la se quiser — alertou Drake,
parando à sua frente.
— Você era quem devia estar morto. Ele ampliou o sorriso.
— Como pode ver, estou mais vivo do que nunca. E jamais me senti tão bem,
especialmente agora que está aqui.
— Falcão disse que...
— Que havia me matado, eu sei. Falcão não passa de uma mocinha estúpida,
mas, desta vez, me prestou um favor.
Por Deus! Drake sabia que Falcão não era um rapaz! Intuindo o que ela pensava, o
vilão prosseguiu:
— Foi pena ter de amarrar as mãos da pobrezinha... Ela ficou com os pulsos
marcados. Mas seus seios estão intactos, a não ser pelas marcas dos meus beijos.
— Maldito! — Horror e fúria tomaram conta de Kate. — Se a tocou, vai pagar caro
por isso!
— Claro que a toquei. Mas não se preocupe, não tirei sua virgindade... Há homens
dispostos a me pagar muito dinheiro por isso.
— Seu... — Kate recomeçou, porém ele a interrompeu.
— Irmãs gêmeas, quem diria! Creio que eu não seja tão ruim, caso contrário Deus
não me presentearia com tal regalo... Não pensou que eu as deixaria escapar, não? Sem
dúvida me pagarão mais por duas virgens.
— Canalha — ela o insultou com desprezo, porém Drake a ignorou.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Não diga isso... Gosto de você, minha linda. E quando me deu o colar com o
diamante, vi que também gosta de mim.
— Tanto que gostaria que estivesse morto!
— Sua irmã também é bonita, mas muito fácil de enganar. — Ele a ignorou por
completo. — Ela contou que me apunhalou? O que ela não sabia era que este era um
punhal especial... — Tirou um punhal do bolso e, com um gesto dramático, ergueu a arma
à altura do coração e desferiu um golpe contra o próprio peito.
A faca, porém, não o feriu e, sorrindo, Drake exibiu a lâmina retrátil.
— Sabe que gostei de fazer uma cena de morte? Morri aos poucos, estrebuchando
no chão... Eu até podia fazer teatro, mas roubar é muito mais divertido.
Kate sentiu náuseas. Drake era capaz de tudo para enganar os outros.
— Se por acaso ainda não sabe, meu amor, eu gosto muito de descobrir as
fraquezas dos outros — ele prosseguiu, cínico.
— E a sua maior fraqueza é a sua irmãzinha, não? Eu sabia que a tolinha iria
correr atrás de você pedindo ajuda, e que você não a desapontaria. Veio se certificar de
que eu estava morto?
— Vim para cuspir no seu cadáver! — ela exclamou sem se conter. — Como pude
ser tão tola? Mesmo que Falcão o tivesse atacado com um punhal de verdade, não
atravessaria a banha dessa sua barriga imensa!
Drake parou de sorrir.
— Está arriscando a própria sorte. Pensei que fosse mais esperta.
— O que quer de mim? — Kate indagou, cerrando os punhos com força.
— Muitas coisas, querida.
— Por que armou esta farsa?
— Para atrair você para cá. Como é uma garota difícil, eu tinha de mostrar quem
dá as cartas neste jogo. Vai fazer o que eu quero, e fará de bom grado para não arcar
com as consequências.
— Não farei nada para você — ela deu um passo para enfrentá-lo.
Imediatamente, os capangas também avançaram. O criminoso, contudo, fez um
gesto, dispensando-os.
— Ela vai baixar a crista quando sentir o ardor do chicote — garantiu, malévolo.
— Jamais me curvarei a você!
— Veremos. Mas, pensando bem... Não posso marcar sua carne antes de vendêla.
Os homens não gostam de mulheres machucadas. Quem sabe pagarão mais se eu
permitir que a provem antes de comprá-la? Posso cobrar pela diversão extra — finalizou,
pensativo.
Kate tentou não vomitar com as ameaças.
— O que quer de mim, afinal?
— Sabia que as raposas são consideradas um dos animais mais esquivos? São
muito difíceis de ser capturadas. Talvez por isso os nobres apreciem caçá-las. Esses
almofadinhas gostam de tudo o que é difícil obter. Você é uma menina valente, por isso
gosto de você... Aprecio as mulheres que me confrontam, pois elas me excitam.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
De repente, Drake se calou e a estudou como se algo lhe ocorresse. Franzindo a
testa, sondou Kate com o olhar.
— Algo me diz que o sangue azul já capturou esse troféu — disse, por fim.
— A única coisa que o conde conseguiu foi ser roubado.
— Estranho não ter chamado a polícia.
— Ele não age assim.
— Não age assim? — Drake repetiu, virando-se para fitar os capangas com um
sorriso. Depois, tornou a fitá-la. — Você rouba um colar com um diamante de valor
inestimável e ele não chama a polícia? Um homem esperto como o conde não faria isso
sem uma boa razão. Só pode significar duas coisas: você abriu as pernas para ele, ou o
homem se apaixonou por você.
Sem saber, Drake a atingira profundamente. Nada do que ele havia dito antes a
ferira tanto quanto seu último comentário.
Alec podia sentir pena dela ou se deixara intrigar por uma personagem que não
fazia parte de seu mundo. Mas jamais a amaria. O abismo que os separava era profundo
demais.
— Ele não me ama, pode ter certeza.
A dor em sua voz fez Drake suspirar, aborrecido.
— Se isso é verdade, terei de mudar meus planos. Mas há outras coisas que você
e Falcão podem fazer para mim.
— O que tem em mente?
— Podem me ajudar a limpar o sangue azul, por exemplo. Kate sentiu o sangue
abandonar o rosto.
— Alec é um homem importante e poderoso. Se machucá-lo, não conseguirá sair
ileso.
— O nome dele é "Alec"? Interessante...
Ela cerrou o maxilar, odiando a si mesma. Entretanto, não teve tempo de tentar
consertar a bobagem que havia feito, pois Drake a agarrou pela cintura e a puxou de
encontro a si.
— Não se esqueça de que também sou poderoso, gracinha. E perigoso, também.
Vou ganhar dinheiro com você e Falcão. O conde que você conquistou não é o único
sangue azul com o qual eu posso negociar. Vou usar seu talento para enfeitiçar
milionários. Não preciso aprisionar sua irmã, pois ela jamais iria embora... Não é forte
como você, e é incapaz de tomar decisões sozinha. Falcão é estúpida como uma galinha.
Bastava eu fazer cara feia para deixá-la morrendo de medo... Mesmo assim, serei mais
contundente se necessário.
— Fique longe dela, seu bastardo! — ameaçou Kate, tentando se libertar do
repugnante contato.
Drake, contudo, apertou-a ainda mais, tornando impossível escapar.
— O que vai fazer se eu decidir usar Falcão?
— Matarei você!
Ele soltou uma gargalhada.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Tem imaginação, querida, mas a fantasia não corresponde à realidade. —
Apertou-a com tanta força que a impediu de respirar. Quando a viu ficar vermelha, Drake
a soltou e se virou para Eli.
— O diálogo é um trunfo eficaz, mas nem sempre — explicou para o capanga. —
Neste caso, por exemplo, receio não haver alternativa. Esta tigresa precisa ser domada —
declarou e, sem que ninguém esperasse, desfechou um murro violento no rosto de Kate,
fazendo-a cambalear e cair de joelhos à sua frente. — Finalmente assume a posição que
lhe condiz — prosseguiu com os olhos brilhando. — Se for esperta, vai se manter onde
está. Em breve receberemos a visita do príncipe que protege você.
Alarmada, Kate compreendeu que ele se referia a Alec.
— Do que está falando? Por que ele viria aqui?
— Para salvar sua amada, claro — ele replicou com um sorriso frio.
— E se ele não vier? — questionou Kate, sentindo o gosto de sangue na boca.
Drake a fitou com sarcasmo.
— Não tardará em descobrir.
O grito estridente soou pela casa inteira, fazendo Alec saltar da cama. Ele
adormecera após passar horas pensando em Kate e, ao mesmo tempo, culpando-se por
pensar nela.
As questões que o assaltavam ainda não tinham resposta. O que acontecera com
ela? Onde estava? Estaria bem?
Ao ouvir o segundo grito, saiu correndo. Quando abriu a porta e saiu para o
corredor, deu um encontrão tão forte em Holmes que fez o mordomo cair no chão.
— O que está acontecendo? — perguntou, enquanto estendia a mão para o criado,
aturdido.
— A menina está gritando.
Alec correu para o quarto de hóspedes, seguido por Holmes. Ao abrir a porta, não
viu nada, pois o aposento estava escuro. Então um vulto se aproximou correndo e,
inesperadamente, saltou em seu colo, agarrando-se a seu pescoço. O movimento violento
o desequilibrou, porém ele se manteve em pé.
Assustada, a irmã de Kate se agarrou a ele com tanta força que quase o impediu
de respirar. Sendo tão pequena e frágil, era incrível que tivesse tamanha força. Com
delicadeza, Alec a fez desapertar o abraço.
— Minha irmã, olhe! — gritou Falcão. Ele olhou ao redor, aturdido.
— Kate não está aqui.
— Você tem de impedi-los! — a moça choramingou, desesperada.
— Deus, o que aconteceu com Kate? — Alec urgiu. — Não posso fazer nada se
você não contar o que está acontecendo. — Ele se voltou para Holmes. — Traga uma
dose do remédio da sra. Dearborn — pediu, tentando outra vez afrouxar o sufocante
abraço de Falcão.
Quando o mordomo partiu, Alec conseguiu colocar a jovem no chão. Tomando a
mão da garota, levou-a a sentar-se na beirada do leito. Então se afastou para acender as
velas do castiçal sobre a cômoda.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Sente-se melhor?
— Não — Falcão respondeu num balbucio. — Acho que nunca mais vou me sentir
bem... — Erguendo a face, ela o fitou com um par de imensos olhos azuis, idênticos aos
da irmã. — Tem de salvar Kate. Ela precisa de ajuda.
Alec sentou-se ao lado dela de cenho franzido.
— Ela está com problemas?
Por um instante, Alec pensou que a garota fosse chorar. Entretanto, ela apenas
assentiu em silêncio.
— Como sabe? Kate esteve aqui e lhe contou?
— Não veio aqui, mas sei que está numa situação terrível — afirmou Falcão, e
então desviou o olhar. — Há um vínculo entre nós, uma conexão especial.
— O que quer dizer?
—Não acontece sempre, mas, às vezes, quando estamos separadas, conseguimos
sentir o que está acontecendo com a outra. E difícil explicar, mas é verdade. Nesta noite,
a sensação veio por meio dos meus sonhos. Acordei apavorada, como se correndo risco
de morrer, mas sei que é Kate quem corre perigo.
Alec não acreditava naquele tipo de coisa, no entanto, não negligenciou o que
Falcão dizia.
Holmes apareceu, trazendo o remédio da sra. Dearborn. Alec tomou o copo das
mãos do mordomo e o passou para Falcão.
— Beba isto. Vai lhe fazer bem.
A moça afastou o copo com a mão.
— Se você não ajudar Kate, eles vão matá-la — disse com uma certeza que fez o
sangue congelar nas veias de Alec.
— Onde ela está? — ele perguntou, tentando não se desesperar.
— Eu devia ter adivinhado o que ela pretendia fazer — Falcão recomeçou, a voz
entrecortada por soluços. — Eu não devia ter vindo! Fui covarde ao deixá-la sozinha...
Kate sempre tomou conta de mim e agora vai morrer por minha causa — afirmou,
escondendo o rosto entre as mãos.
— Onde ela está? — repetiu Alec, chacoalhando-a pelos ombros.
— Ele capturou Kate. Foi o que vi no sonho... Machucou minha irmã e ela está
caída no chão. Meu Deus, por que vim embora e permiti que ela fosse até lá?
— Lá onde? Quem a capturou? — Alec indagou, exasperado.
— Drake.
— Quem é Drake?
— Ele está morto... Eu o matei.
— Se está morto, não pode ter capturado Kate!
— Não! Eu o vi em meu sonho. Drake capturou Kate e planeja matá-la!
Seguindo as direções indicadas por Falcão, Alec chegou ao armazém, mas dois
homenzarrões montavam guarda no que parecia a entrada principal.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Falcão havia dito que Drake morava no andar de cima. Se Kate ainda estivesse no
prédio, na certa estaria nos aposentos do bandido.
Cauteloso e escondido por trás das pilhas de madeira quebrada e lixo, Alec
observou o armazém. A construção parecia impenetrável.
Notou uma calha na parede lateral. Não tinha certeza de que esta pudesse
aguentar o seu peso, mas não tinha alternativa.
Com cuidado, abaixou o corpo e esgueirou-se até ela. Tirou a casaca e arregaçou
as mangas da camisa.
Por sorte, a calha era mais forte do que parecia, e ele a escalou sem grandes
problemas. Ao se aproximar da janela do andar superior, pegou o punhal que Holmes lhe
dera. Da altura em que estava, quebraria as pernas caso caísse, mas Kate era importante
demais para que se acovardasse...
Decidido, prendeu a faca entre os dentes e, após respirar fundo, projetou o corpo e
se agarrou ao parapeito da janela.
Fechou os olhos com um suspiro. Tomar consciência do quanto gostava de Kate
não ajudava em nada, pois ela não sentia o mesmo por ele.
Com esforço, Alec forçou os braços e ergueu o corpo até poder espiar lá dentro.
Por sorte não havia ninguém, pois ele não sabia quanto tempo mais conseguiria se
manter naquela situação.
Tomando cuidado para não fazer barulho, empurrou o vidro para cima e levantou
mais o corpo até poder rolar para dentro do cômodo. Colocando-se em pé, estudou os
arredores. De repente, ouviu um ruído do outro lado da cama imensa e, devagar, deu a
volta no leito.
Ao avistar Kate caída de bruços, sentiu o coração perder um compasso.
— Kate! — exclamou, caindo de joelhos a seu lado e virando-a de barriga para
cima com cuidado. Franziu a testa ao ver o rosto inchado, o olho roxo e um corte ainda
sangrando no lábio inferior. Ela não se encontrava totalmente inconsciente, pois, ao sentir
que era tocada, tentou se arrastar pelo chão, aflita. Alec a segurou pela face com carinho,
dizendo que não deveria ter medo e que ele viera salvá-la.
— Que cena mais tocante — uma voz fria falou atrás dele. Virando a cabeça, ele
deparou com o bandido gordo que
Falcão descrevera em detalhes e teve de se controlar para não saltar sobre o
homem e espancá-lo até a morte. Não importava que aquele infeliz pesasse duas vezes
mais do que ele. Tudo o que queria era apertar seu pescoço e esganá-lo. Mas, antes,
necessitava tirar Kate dali.
— Considere-se morto, bastardo — sibilou, transtornado. Drake soltou uma
gargalhada.
— Não seja imbecil — respondeu, quando por fim parou de rir. — Está sozinho e
não tem a menor chance contra mim e meus homens.
— Estou dizendo... — Sem se intimidar, Alec se pôs em pé. — Se for esperto, irá
embora.
— O conde está tão enganado quanto Raposa quando chegou aqui... — Drake se
voltou para Eli, seu braço direito, fingindo pesar, depois tornou a encará-lo. — Como pode
ver, não gosto que me digam o que devo fazer — falou, apontando Kate.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Vai passar a gostar quando eu colocar as mãos em você — Alec ameaçou por
entre os dentes.
— Ora, ora... Um homem inteligente não me ameaçaria assim. Eu poderia matá-lo
em legítima defesa, pois invadiu minha casa.
— Por que não tenta?
Drake fitou Alec dos pés a cabeça, parecendo perder a segurança um instante.
Entretanto, logo tornou a sorrir com sarcasmo.
— Os aristocratas são valentes da boca para fora, mas não sabem lutar. De
qualquer modo, não vou perder tempo discutindo. Você e Kate são meus prisioneiros
agora.
— Se quer resolver a questão corpo a corpo, seu canalha nojento, fique à vontade.
Estou ansioso por transformá-lo num saco de gordura!
— Alec?
Ao ouvir o chamado débil de Kate, Alec se virou para fitá-la. Ela havia aberto os
olhos, mas tinha dificuldade em focar a visão. Ele tornou a ajoelhar a seu lado.
— Estou aqui, Kate — disse com voz suave, tomando-lhe as mãos.
Ela tentou se levantar, porém soltou um gemido de dor.
— Não se mova.
— Que cena bonita — zombou Drake. — A esperta Raposa arrumou um defensor...
— Cale a boca, baleia! — Kate vociferou, levando a mão à boca ao sentir uma dor
lancinante no lábio.
— Vejo que a lição não foi suficiente para ensiná-la a se comportar. Tentaremos
um método diferente da próxima vez
— Drake garantiu. — Um método que apreciarei muito mais... Alec soltou um
grunhido e tentou avançar na direção do bandido, porém foi contido por Kate, que o
segurou pelo braço.
— Não, Alec! — ela implorou, sentando-se com dificuldade para encarar seu
agressor. — Farei o que você quiser se permitir que o conde vá embora, Drake.
O vilão apanhou um lenço no bolso e fingiu enxugar os olhos.
— O amor é mesmo lindo...
Alec quis reagir e mais uma vez foi agarrado.
— Pense bem, Drake — Kate prosseguiu. — Ele é um aristocrata, pertence à fina
flor da sociedade. Se o matar, a polícia não descansará até capturar você.
— Não seja tola. Não pretendo contar a ninguém que matei o conde, e meus
capangas também manterão a boca fechada, pois não são idiotas.
— Mas o mordomo, com certeza, sabe que o patrão veio até aqui. Por favor...
Permita que Alec vá embora e eu farei tudo o que você quiser.
— Não vou embora sem você, Kate! — Alec interveio, exasperado.
— Mas eu não quero ir com você — ela mentiu. — Só quero que vá embora e me
deixe em paz.
— Não.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
— Não seja imbecil — ela falou a despeito da dor que as palavras lhe provocavam.
— Será que não percebe? Está arriscando a própria a vida por nada.
— Não considero você "nada" e sabe disso — ele disse num tom tão baixo que ela
mal pôde ouvir.
Kate engoliu em seco. Depois de tudo o que ela havia feito, por que Alec estava
ali?
— Por favor, não me façam chorar de novo — Drake tornou a zombar com a mão
no coração. — Mas, pensando bem, não aprecio muito esse tipo de teatro... Eli, dê fim
nesse conde imbecil — instruiu, virando-se para o capanga.
— Maldito! — Kate gritou, reunindo todas as forças para investir contra o bandido.
Alec ainda tentou impedi-la, porém um dos capangas foi mais rápido e a empurrou,
fazendo-a bater contra a parede e desabar no chão.
Furioso, Alec se libertou e acertou um soco tão violento no queixo de Eli que o fez
voar longe.
No instante seguinte os dois homenzarrões restantes caíram sobre ele. Movendo-
se rapidamente, Alec acertou um deles entre as pernas, fazendo o bruto urrar de dor e
desabar no solo. Em seguida, atingiu o estômago do outro agressor com um murro,
deixando-o sem ar. Ao vê-lo curvado, deu-lhe uma chave de pescoço, golpe que
aprendera ao treinar artes marciais quando jovem.
Então se virou para Drake, ofegante. A única maneira de vencer um homem tão
grande seria derrubando-o no chão, pois ele teria dificuldade para tornar a se erguer.
Preparava-se para arremeter contra a barriga de Drake quando três outros
brutamontes irromperam porta adentro e o atacaram.
A luta foi feroz, e Alec se defendeu como um leão. Entretanto, lutava sozinho
contra homens enormes.
Quando tudo parecia perdido, um tiro soou. Um instante mais tarde, a visão de Alec
se turvou e ele não viu nem ouviu mais nada.
Dois anos mais tarde
— Minha mulher é impossível! — exclamou Anthony, surgindo no escritório como
sempre sem bater, seguido por Holmes.
Largando a caneta, Alec recostou as costas no espaldar da cadeira e cruzou as
mãos sobre os documentos em cima da mesa.
Sem se fazer de rogado, Anthony rumou para a garrafa de uísque e serviu-se de
uma dose. Sua esposa detestava que ele bebesse, e ele se rendera à sua vontade... Por
isso aproveitava os momentos em que estava só para "molhar a garganta".
Alec sorriu. Contra todas as expectativas, o casamento colocara o duque sob
rédeas curtas. Anthony continuava melodramático, porém não o incomodava mais com
sua atuação. Ao contrário, ele agora até achava graça no jeito do amigo.
Na verdade, o afeto que eleja nutria pelo duque de Glassboro se tornara mais forte.
Se não fosse por Anthony, ele e Kate jamais teriam se encontrado. E se eles não
houvessem se conhecido, ele, Alec, seguiria tendo uma vida vazia e sem-graça, devotada
apenas ao trabalho.
— Minha mulher vai me deixar louco! — Anthony praticamente gritou.
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Era o preço que os homens pagavam ao se apaixonar perdidamente, Alec refletiu
com um sorriso. Na verdade, não se surpreendera quando a irmã de Kate havia
conquistado o coração de seu melhor amigo.
O "Falcão", assim como Kate, também tinha um nome de gente: Emily. Ela não
planejara conquistar Anthony, porém o duque não resistira aos seus encantos e doçura.
— Anthony! — A voz de Emily soou da porta. Segundos depois, ela entrava no
escritório. Já não trajava roupas de menino e agora se vestia como a duquesa na qual se
transformara.
O duque pousou o copo sobre a mesa rapidamente, contudo Emily não se deixou
enganar. Pôs as mãos nos quadris e encarou o marido. Grávida de oito meses, tinha o
rosto bem mais corado e saudável.
— Anthony — ela repetiu em tom de censura.
— Eu não estava bebendo — ele mentiu, mesmo sabendo que não conseguiria
ludibriá-la.
Um sorriso ameaçou curvar os lábios de Emily e Alec cofiou o queixo, disfarçando
seu divertimento. Aqueles dois se amavam de verdade.
Esquecendo-se da bebida, Anthony se aproximou e a beijou na ponta do nariz com
um ar arrependido. No instante seguinte, os dois partiam abraçados.
— Papai! Papai!
Alec se levantou para receber a menininha de pouco mais de um ano de idade
quando esta irrompeu escritório adentro e a girou nos braços, rindo. Tal como a mãe,
Grace era linda como um anjo.
— Grace! — Kate chamou, entrando no escritório.
Ao ver a esposa, Alec agradeceu a Deus mais uma vez. Eles haviam sofrido, cada
um a seu modo, mas, por fim, a vida os presenteara com a felicidade. Quem imaginaria
que justamente Holmes fosse salvá-los das mãos de Drake e seus capangas?
Preocupado, o mordomo o seguira quando ele partira para o armazém naquela
noite fatídica e, sabendo que a situação poderia ganhar contornos violentos, armara-se
com uma pistola. Ao chegar ao edifício em ruínas, tinha visto alguns brutamontes entrar
correndo e, sem hesitar, ele os seguira. Ao chegar ao segundo andar, avistara a porta
aberta e Alec lutando com os homens.
Viu quando Drake sacou uma pistola do bolso para matar Alec e não pensou duas
vezes: disparou um tiro certeiro no coração do bandido. Ao ver o líder tombar, os
capangas fugiram correndo, na certa temendo a aproximação da polícia.
A vida não tardara a voltar ao normal. Muita coisa tinha se transformado, claro, a
começar pelo fato de que Kate e ele haviam se casado um mês depois.
Ao ver que Alec a fitava com emoção, Kate sorriu. Jamais imaginara que algum dia
fosse ser tão feliz. Realizada como mulher, amava o marido que lhe dera não apenas
carinho e respeito, mas um lar. Já não vivia nas ruas e tinha uma filha linda, pensou,
ainda aturdida.
Convidando-a a se aproximar, Alec manteve Grace no colo e a enlaçou pela
cintura. Kate mergulhou o rosto no pescoço forte do marido com um suspiro, pensando
que, ao contrário dela, sua filha cresceria com conforto e na certeza de ser amada.
Deus realmente a abençoara. Após dezoito anos de provação, ele a presenteara
com o maior tesouro que existia: o amor.
Melanie George -A Ladra e o Conde (Julia Historicos 1573)
Por isso, dali para a frente, ela seria uma fonte infindável de carinho para a família
e para todos os que a rodeavam.
Até mesmo para Holmes, que aprendera a aceitá-la e agora se orgulhava da dona
da casa.
A Ladra e o Conde - Melanie George
http://www.ziddu.com/download/16242098/MelanieGeorge-ALadraeoConde.doc.htmlUma mulher como poucas...
Kate estava acostumada ao lado mais cruel da vida. Criada num orfanato, ela sobreviveu como batedora de carteiras nas ruas de Londres. Por isso, quando seu mundo colidiu com o dos ricos numa tentativa frustrada de assalto, ela se preparou para nada menos que a prisão. Em vez disso, porém, viu-se alvo da bondade e gentileza de um homem muito rico... e descobriu-se desejando seu coração...
Quando Alec Breckridge decidiu ajudar aquela encantadora menina de rua, não imaginava que se sentiria tão atraído, e muito menos que fosse ele quem teria de conquistar a confiança dela. Agora, à medida que um perigoso segredo ameaça separá-lo de Kate, ele arriscará qualquer coisa para provar seu amor à mulher que roubou seu coração... Uma mulher como poucas...
Boa leitura
Abraços.
M. Loureiro
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Henry Miller
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