sábado, 3 de setembro de 2011 By: Fred

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Fábio de Melo
Tempo: saudades e esquecimentos
O cotidiano como lugar de revelação

A vida é narração. É nela que o mistério de Deus se traduz por meio de personagens reais, fatos concretos, cheiros e sabores. O cotidiano é a pauta e teologia,
o espelho através do qual queremos ver nossa atuação.
Tempo: saudades e esquecimentos: a vida e seus desdobramentos mais significativos. Coisas pequenas, que aos olhos racionais podem parecer banais. D cotidiano
como lugar de revelação: retratos e confissões esmera por transpor a superficialidade dos dias, descobrindo a dor cotidiana, a ironia necessária e o êxtase de dizer
a cada instante: "Deus esteve aqui!".


Tempo: saudades e esquecimentos
O cotidiano como lugar de revelação

COLEÇÃO SABOR DE VIDA
• A criança e a flor nos dão lições de amor - Frei Anselmo Fracasso, ofm
• Abrindo caminhos - Parábolas e reflexões - Dom Itamar Vian e Frei Aldo Colombo
• Auto-estima - O toque mágico de uma vida feliz - Carlos Afonso Schmitt
• Auto motivação - Um jeito especial de superar os limites - Carlos Afonso
Schmitt
• Digestão emocional - Para situações que ainda estão atravessadas em sua garganta - Maria Salete e Wilma Ruggeri
• Histórias de vida - Parábolas para refletir - Dom Itamar Vian e Frei Aldo Colombo
• Que amor é esse? - Vivenciando a energia que move a vida - Maria da Piedade Medeiros Paiva
• Sou feliz porque papai e mamãe se amam - II Vol. Frei Anselmo Fracasso, ofm
• Tempo: saudades e esquecimentos - O cotidiano como lugar de revelação - Fábio de Melo, scj
• Você acredita, o inconsciente realiza - Carlos Afonso Schmitt (no prelo)

Fábio de Melo, scj

Tempo: saudades e esquecimentos
O cotidiano como lugar de revelação

Paulinas

Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Uvro, SP, Brasil)
Melo, Fábio de
Tempo : saudades e esquecimentos : o cotidiano como lugar de revelação / Fábio de Melo. - São Paulo l Paulinas, 2OO3. - (Coleção Sabor de vida).
ISBN 85-356-O989-X
1. Conduta da vida 2. Presença de Deus 3. Vida cristã. I. Titulo. II. Série.

O3-O736
CDD-231.7
índice para catálogo sistemático: 1. Deus : Presença na vida humana : Cristianismo 231.7 Direção geral: Flávia Reginatto
Editora responsável: Celina Helena Weschenfelder
Assistente de edição: Daniela Medeiros Gonçalves
Coordenação de revisão: Andreia Schweitzer
Copidesque: Luciana Miranda Penna
Revisão: Viviane Oshima e Patrizia Zagni
Direção de arte: Irma Cipriani
Gerente de produção: Felício Ca!eaaro Neto
Ilustrações: Cláudia Ramos
Editoração eletrânica: Cristina Nogueira da Silva
Foto da capa: (c)Popperfoto/lntercontinental Preá,


5ª edição - 2OO6

Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou
arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Direitos reservados.
Paulinas
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(c) Pia Sociedade Filhas de São Paulo, São Paulo, 2OO3

Uma multiplicidade de conceitos se explica em poucas linhas de uma história narrada.

Sumário
Apresentação 9
Tempo: saudades e esquecimentos 11
O porto 14
O presépio 15
O belo no trágico 18
Os mistérios das cores 22
O mistério dos sabores 26
Seria trágico, se não fosse cômico e saboroso 3O
Para além de toda definição 35
Entre um desfecho e uma saudade 38
Ausência 41
Lugar teológico 42
Mônica Salmaso 45
O eterno no tempo 47
A beleza é supérflua 49
Entre a vitrine e o sonho 52
Infância 57
Conhecimento vital 58
O eterno mora ao lado 62
Retrocesso 64
Naquele tempo 65
Relato de um sobrevivente 69
Que seja eterno 73
Transfiguração 76
Sentença final 79
Entre os olhos e o chão 8O
Terapia sem palavras 85
Silêncio 88
Uma carta sem segredos 89
O mistério dos significados 93
Corações são como palavras 98
artifícios 1OO
Organizar o luto 1O1
Esquecimentos 1O5
Gesto salvífico 1O8
Final de ano 112
Visita 116
Sobre o poder de pofetizar
Alquimia 12O
Sobre os prados Adélia 121
Ao guache de Andrade" 124
Que se cumpre aos poucos 226

Apresentação
O que Fábio me pedia era para almoçar na casa dele. Também, uma vez ou outra, depois da aula, pedia algum esclarecimento sobre o que eu tinha falado... Fábio
era então meu aluno. Um dia ele me pediu para apresentar o seu livro. Fábio era já meu amigo. E eu não soube dizer não.
Com a apresentação deste livro acabou ocorrendo o que já acontecia com os almoços ou com as perguntas após a aula, e que eu, ingenuamente, não percebia.
Não percebia que ele me pedia para fazer o que ele me dava. Foi só agora, lendo Tempo: saudades e esquecimento, que fui cair na conta desse jeito que o Fábio tem
de criar amizade ou de soprar inspiração. Jeito divino, pois Deus, como escrevia santo Agostinho que nós comentávamos nas aulas, "só pede o que dá".
Foi assim que, pedindo uma apresentação, o amigo me deu um presente. Mais uma vez ele estava pedindo o que ia me dar.
À guisa de apresentação, gostaria de avisar ao leitor que tenha nas mãos o mesmo livro onde achei o presente que Fábio queria que eu apresentasse.
Leitor amigo! Em suas mãos está um livro raro, incomum. Um livro onde você poderá aprender a arte (ou será uma alquimia?) de transformar o arquivo morto
das saudades e dos esquecimentos que a passagem do tempo vai deixando em nós, em memória e esperança; em presença viva do presente maior, daquele que "escreve em
seu livro os nossos dias" (Sl 139, 16).
É essa uma das artes da arte do Fábio, tornar vivo e vital o que parecia morto e irrecuperável. A arte da transfiguração do tempo é neste livro, que você
lerá como um romance, algo que se contagia por simples contato. A trama das histórias que aqui são contadas tem esse poder de refigurar, se não o passado, os olhos
que o vêem e o coração que o sente.
O autor tem esse dom criador que é a graça dos poetas e dos músicos. Quando eles interpretam o cotidiano, tornam-nos capazes de ver ou de ouvir "o mistério
geral que nos envolve e cria" (J. Guimarães Rosa); capazes de entrar no segredo, capazes de captar a revelação que estava escondida ou esquecida na saudade do perdido
ou nos cantos do cotidiano.
É por isso que este livro tem gosto de Evangelho, tem o sabor da Boa Notícia no exato momento em r que ela está sendo dada. Deve ser por isso que quando acabei
de ler as histórias que Fábio nos conta, ou quando parei de sonhar nos remansos que os seus poemas introduzem na fluência da escritura, flagrei-me pensando em Jesus.
Não fui eu que busquei a coincidência. Ela veio por si mesma.
E, penso agora, ela veio da semelhança ou da co-autoria que sinergisa a linguagem do Fábio e a Palavra de Jesus.
Sim, neste livro se comunicaram os idiomas e os ofícios de poeta e de padre. Assim, nós, seus leitores, ganhamos em dobro poesia e bênção.
Obrigado, Fábio!
Ulpiano Vázquez

Tempo: saudades e esquecimentos
Eu insisto em contar os dias. Não sei viver de outra forma. Por ser histórico, necessito de um calendário na parede e um relógio no braço que exerçam comandos
sobre mim. Hora de comer, hora de dormir, hora de ver Os Simpsons. Breve e longa história do tempo.
Tempo, lugar onde a vida se conjuga passando, ficando, futurando, eternizando as esquinas e promulgando leis. A paralisia amedronta. Quero mesmo é passar.
Quero provar estas águas e sua frieza. Descobrir a razão que moveu o coração de Deus para se intrometer na história humana como um de nós. O que ele queria
ver por aqui? O Sol visto de baixo? O mar visto de dentro ou o céu visto com a graça de quem nunca subiu até ele? Algum motivo move o desejo divino ou só o desejo
humano carece de estímulo?
O que quero cabe em minhas mãos. Nada mais poderia significar tanto neste momento como um copo de água fria. Na hora da sede, não existe riqueza maior. Nem
mesmo o ouro me interessa. Quero mesmo é a riqueza do líquido que não tem gosto. Maior desgosto não há do que ver passar a jarra sem conteúdo e o rumor entre os
donos da festa diante da dura realidade: a água acabou. Alguém, por gentileza, queira encher as talhas de vinho para que o profeta as transforme em água para nossa
sede! Modifique a lógica dos fatos! Afinal, Deus é justamente essa lógica contrária: lugar de revelação para aquele que em tudo surpreende.
A chegada de Deus no calendário humano foi marcada pela contradição. Não havia lugar para o Criador de todos os lugares depositar o seu Filho. O verbo se fez
carne e se conjugou entre nós. Armou acampamento entre nossas casas com o objetivo de saber o quanto é bom provar os sabores de sua criação. Pelos paladares do Filho,
o Pai pôde reconhecer com santa vaidade, livre de toda e qualquer hipocrisia e de modéstia, que tudo o que por ele fora criado é realmente muito bom. E Deus também
passou pelo tempo.
Tempo, argumento final de toda partida, recrutamento oficial de toda chegada. Grito meu nome, seguido da palavra "presente!". Forma de dizer: "Eu estou aqui,
eu existo!". Assim, na primeira escola eu ansiava pela superação do anonimato, desejoso de que toda aquela estranheza caísse por terra, para que enfim eu voltasse
a existir. A estranheza parece sufocar a existência. Reduzimo-nos à condição da vida vegetativa. Entre estranhos não se vive, vegeta-se. Faltava coragem para pedir
licença para ir ao banheiro. Mas que lugar é este em que é preciso permissão para urinar? Que condenação é esta que me obriga a esperar o recreio para matar a sede?
O que existe de educativo nessa história: reprimir a saída dos líquidos que já não nos servem e esperar pelo líquido que nos é necessário?
Tempo, épocas em que cumprimos leis que não compreendemos. Heteronímia, fase de um processo normativo que nos leva a declarar amor àquilo que não amamos e
a declarar fidelidade àquele que definitivamente não nos conquistou. Vida em germe se estruturando aos poucos, pronta para envelhecer.
Hoje já não há razão para a mágoa. Há somente para a dúvida. Quem quiser que duvide, mas, por favor, não perca a esperança, porque esperar é uma forma de crer
em segredo. É acreditar, sem o alarde do rito, que o Cristo não se opõe, mas apenas se dispõe silencioso à porta do nosso pecado, a esperar por nós.
Tudo mais é sede. Jarras em estado de abandono e talhas de vinho apodrecendo aos poucos, enquanto os convivas morrem à espera do milagre. O profeta não veio
para a festa. Não há quem possa transubstanciar os elementos para que a vida volte à alegria.
Vamos esperar o final da tarde. A salvação vem sempre no último trem. É mais fresco para viajar longas distâncias. Aproximemo-nos. Que ninguém fique de fora
dessa espera. Mesmo aqueles que dizem não crer, tenham a paciência de velar conosco. A espera será mais bela quanto maior for o número daqueles que esperarem juntos.

O Porto
A vida tem cores cinza
quando vista a partir das retinas do porto.
Navios em espera cumprem o destino
de sacramentar partidas e chegadas.
Homens, histórias e suas trouxas não decidiram ir.
Apenas deram o passo em direção às águas, que, silenciosas, espiaram sem interferir.
Mulheres e crianças derramaram lágrimas de adeus e boa sorte.
Tantos anos de comum-vivência terminando ali, e nenhuma palavra.
Apenas um aceno de mão.

O presépio
Esse desassossego é normal nessa idade. "Quéta o facho, menino." Frase que se vai tornando mais rara à medida que passa o tempo. Depois ela muda: "Você precisa
parar um pouco, trabalho demais não faz bem!"
O sinal de que tudo já está diferente é a jabuticabeira florida. Novembro e suas chuvas bravas anunciam que o terror das provas finais já está por perto. Chega
com as jabuticabas e depois se vai, como tudo na vida, deixando-nos resultados: as provas finais, reprovações, e as jabuticabas, licores e nódoas.
No entanto, existe uma permanência se escondendo. Uma coisa que se abriga na gruta do presépio, feita de saco de cimento, pintado com grude, pó de café e purpurina,
para ficar parecendo o dourado da pedra. O dourado dura no tempo. Eu mesmo me recordo daqueles papéis cuidadosamente guardados em cima do guarda-roupa, junto com
as imagens que compunham a noite do nascimento de Deus.
Lá em casa não tinha banalização do Natal, não. No que era próprio do Natal não se podia mexer durante o ano. A caixa das imagens só era aberta com a chegada
de dezembro. Fazia parte do ritual. E tinham de ser as mesmas imagens. Coisa nova não tinha vez. O bonito era ver a cor desbotada, os pequenos arranhões que revelavam
que ali existia memória. "Mamãe deixou este presépio para mim", revelava-nos, orgulhosa, nossa mãe. Todo ano era assim. E existia um encanto naquelas repetições,
formas criativas de se atualizar uma mesma fala, uma mesma revelação. Eu já sabia que aquele presépio pertencera à minha avó, mas era bom ouvir de novo.
O Menino Jesus era o meu preferido. Gostava dele e das ovelhas. Tinha uma delas com a boca voltada para o chão. Colocávamos um espelho entre as serragens para
parecer que estava bebendo água.
Certa vez, por ocasião de uma novena de Natal, deixei cair da manjedoura a pequena imagem do Menino Jesus. Quebrou a cabeça. Eu não podia acreditar. A cabeça
se descolou do corpo. Eu chorei tanto que parecia que o acidentado era eu. Uma dor profunda pungia o meu coração. Talvez por ter a sensação de ter quebrado mais
que uma imagem. Por ter retirado a sacralidade e o mistério que sempre envolvera aqueles objetos. O presépio, a fala da minha mãe, a tradição, a minha avó, a memória,
tudo estava agora sem cabeça.
Minha prima resolveu o problema. Restaurou o garotinho com cola Tenaz(r). Mas isso não me consolou. Sempre que eu o via, recordava-me do incidente. Embora
não parecesse, eu sabia que a sua cabeça havia sido decepada um dia. E eu era o agressor.
O Natal tinha suas cores próprias. Tinha também os seus sabores. Pernil com pão de queijo e guaraná. Mas tinha de esperar dar meia-noite. Eu ficava parado
ao redor da mesa, com os olhos fixos na travessa e no relógio. Quando chegava a hora, eu comia e depois ia dormir. Embora fosse motivado para isso, nunca consegui
deixar o meu sapatinho na janela com o intuito de que o Papai Noel deixasse ali um presentinho para mim. Tinha medo que roubassem o meu único par de sapatos. Ao
contrário, guardava-os bem, para que não houvesse nenhuma possibilidade de que alguém os levasse de mim. Quando se tem um único amor, o cuidado é dobrado!
O bom mesmo era tomar café com as sobras do Natal. Cafezinho quente com pão de queijo amanhecido e pernil. Mas tinha de estar gelado. Era tirar da geladeira
e comer. Esse era o único momento em que eu não me recordava de ter quebrado a cabeça do Menino Jesus. A alegria cura a culpa!

O belo no trágico
E Deus me livre de ter de contar certas coisas! Conto só as coisas certas, as erradas eu deixo pra lá. Mas tem uma coisa feia que hoje eu quero contar.
Quando eu era criança, esteve na minha cidade a famosa Esquadrilha da Fumaça. O povo todo se reuniu pra ver os malabarismos milimetricamente calculados. Os
vôos rasos, as manobras arriscadas, radicais, tudo arrancava do povo ruidosos aplausos.
E eu ficava ali no meu cantinho, caladinho, igual a uns brócolis, observando. A coisa feia vem agora. Enquanto todos se admiravam com as manobras precisas,
eu, no fundo do meu coração, queria mesmo é que desse tudo errado e que todos aqueles aviões acabassem batendo uns nos outros e explodindo um por um. Ficava imaginando
que maravilha seria ver aquela bola imensa de fogo iluminando o céu.
É claro que o meu coração de criança ainda não era capaz de identificar a tragédia pelas duras conseqüências da morte. A tragédia, para mim, era um acontecimento
que quebraria a rotina das coisas. Ela arrancaria a vida do seu curso normal. Em nenhum momento eu pensava na vida dos pilotos que estavam conduzindo aqueles aviões.
Eu ainda não era capaz de pensar no valor da vida. O meu desejo ainda não estava emoldurado de nenhuma reflexão ética, moral. Eu só desejava ter o prazer de ver
aviões explodindo no ar. Desejava apenas ver o choque, a explosão e a nuvem de fumaça com todos aqueles destroços ardendo pelo ar. E nós ali embaixo, maravilhados
com o acontecimento, aplaudindo veementemente. O meu desejo não era ético, apenas estético.
Você deve estar pensando assim: "Meu Deus, que menino mau!". Ou então está tendo um ímpeto de honestidade e está assumindo para você mesmo: "Eu também já
desejei isso!"
Calma. Não há problema algum em ter contato com a maldade que está em nós. Faz parte do processo de aperfeiçoamento humano o olhar-se sem hipocrisias, sem
máscaras. É bom poder admitir que em algum momento da vida tivemos a oportunidade de tocar as realidades mais frias e calculistas do nosso coração. Quem sabe, assim,
possamos ser mais verdadeiros diante de nós mesmos!
O cinema é a prova de que ocultamos o fascínio que temos pela tragédia. Lá, a gente assume sem culpa e sem medo que a tragédia encanta. Encanta tanto que queremos
vê-la. E quanto maior, melhor!
Quem não se recorda das imensas filas nos cinemas para assistir a Titanic? Ou quem não se recorda das tragédias gregas, com sua alta carga de dramaticidade,
reproduzidas até hoje por meio do cinema, da televisão e do teatro?
Pois bem, quanto maior a tragédia, maior é o público. É que a tragédia consegue aglutinar elementos que proporcionam ao coração humano um processo de catarse,
de purificação. Ninguém chora pelo amor de Jack e Rose, afinal, eles nunca existiram, mas ao mesmo tempo eles estão ali, belamente representados na grande tela.
Existe neles um pouquinho de cada um de nós. É pelos nossos amores que choramos na verdade. Projetamos na cena as frustrações que estão em nós, mas que ainda não
foram identificadas.
No naufrágio do grande navio, ícone da tecnologia pretensiosa de uma época, de alguma forma, nós naufragamos também. E como é belo morrer assim! Morrer sem
morrer. Morrer admirando a própria morte, vê-la, narrá-la, respirá-la e se enterrar no imenso oceano gelado, junto de Jack, segurando os braços de Rose.
No ato da tragédia brota aquela criança esquecida, que em algum canto de nós se escondeu um dia. Aquela mesma que um dia desejou que a Esquadrilha da Fumaça
se espatifasse no ar, só para ter o prazer de ver as cores da tragédia.
Gostamos da tragédia. Não gostamos é da morte que nasce dela. Gostamos de vê-la, desde que não nos legue nenhuma perda. Vamos ao cinema porque sabemos que
aquela tragédia não é nossa. Ela, na realidade, não nos retirou nada, ao contrário, serve-nos como instrumento de purificação, visto que por ela somos capazes de
chorar os nossos excessos e nossas carências.
Há também aqueles que buscam a tragédia por terem uma vida comum demais, sem grandes acontecimentos. Gente que não se descobriu como personagem principal de
sua própria trama.
A vida é narração. A vida é drama. A vida é tragédia. Bonito é pensar que Deus quis assim. E que interferiu nela por meio desses elementos. O mistério da encarnação
nos revela isso. Quer drama mais belo, mais completo, mais original? Um Deus que se humaniza para experimentar a tragédia, o encanto do ser humano de se maravilhar
com a comédia, de se emocionar com a dor e de se reconhecer no trágico? No alto do calvário, o drama de Deus assume o seu ápice. Ali, o trágico se mostra com os
mesmos elementos do naufrágio, mas enriquecido por outros. Um amor que se finda, um amigo que parte e um silêncio que descortina a dura realidade humana: ele era
Deus, e nós o matamos.
Talvez a maior de todas as tragédias. A certeza de ter matado a realidade encarnada que mais soube entender e amar a aventura humana, com suas dores, com suas
alegrias e com suas tragédias tão encantadoras.

Os mistérios das cores
Esta cor tem dor nos poros que a sustentam. É notável a olho nu. Mas que olhos vestem roupas? Todos estão nus. O máximo que possuem são retinas cansadas.
Tudo mais é miopia já diagnosticada, corrigida a laser.
Meu amigo mesmo, já quase cego, chegou perto de mim sem óculos e quis observar detalhes. Achei aquilo meio esquisito. Custou-me a perceber que ele estava era
exibindo vaidoso a nova vista.
O vestido tem um azul meio doído. Cheira a saudade. Deve estar impregnado de lembranças e odores, sabores que marcaram o derradeiro abraço no alpendre da
sala. A vida se registra nas cores. Se "des-registra" também, vai com elas. O que descolore morre aos poucos. Chegará o dia em que será a cor que não há. A cor que
ficou, que sobrou do que era. O antes existente agora mudado, descolorido, virado outro. Muda tanto que vira outro. Para onde foi a cor que estava aqui? Quem percebeu
sua partida? Ninguém vê o descolorir. O que se vê é o descolorido, porque o que passa não fere os olhos. O que fere é o já passado. É o mesmo que descobrir o amor
amado no momento em que não mais se tem. O amante se foi.
As cores se vão. Os amores também. São eles que vão ou somos nós que ficamos? As estações não se movem. Nem os destinos. O que parte é o trem, que nos leva
em atitudes repartidas, distribuídas sem noções claras, porque não há clareza na metáfora que um bilhete de viagem pode representar.
Nada se vai sem a pretensão de voltar. Apenas causa revolta e faz pensar quem fica, aflito com ramalhete de gestos nas mãos. Duro é ficar, provar a solidão
da mesa, o vazio dos talheres que por distração foram colocados. Não há boca para preenchê-los, apenas olhos para enxergá-los. E depois dormir, dormir, dormir,
com o doce e colorido ressentimento, que em breve também iniciará o seu processo de descoloração.
A vida é dura. O que nos sustenta é a crença na ressurreição da carne, esta criativa forma que Deus tem de recolorir os nossos significados. O vermelho da
carne, o azul dos olhos e a elegância do branco dos ossos, tudo traz esse esquisito prazer de ser gente, de escrever poemas e de ir à padaria comprar pão francês.
Feito no Brasil, é claro.
Coisa esquisita esse negócio de nomes sem sentido. Molho inglês, mas feito pela dona Geralda, nascida e criada na Zona da Mata. Ela nem sabe onde fica a Inglaterra,
mas os sabores daí já visitaram as suas panelas. Molho inglês, tem paciência! Eu quero é chuchu batidinho com arroz que não terminou de secar. Tudo cheirando a
alho, cebola picadinha e mais nada. Só isso já basta. Se tiver um ovo frito na hora, melhor ainda, mas se não tiver, não tem problema. A eternidade já passou por
aqui.
Hoje eu não quero muita coisa. Estou cansado de querer. Cansa querer! Mas cansa mais ainda depois que se tem. Depois que se tem, a gente vira cachorro. Vive
para vigiar o que tem. Ando perto da Lagoa da Pampulha e vejo aqueles casarões. Os casarões não, o que vejo são os muros que dobram os quarteirões. Já imaginou que
inferno ter de cuidar daquilo tudo? Só de empregados precisa-se de uns vinte. Vinte é pouco, precisa-se é de vinte e um, porque um é para vigiar os vinte. Vigilância
total. Alarmes de última geração e sentimentos, os mais primários. Medo dos inimigos. Mas os inimigos não têm nome, nem cheiro. Só prestações vencidas. Não têm
medo do inferno, apenas do provérbio que diz: "Deus tarda, mas não falha".
As tardes são mais tristes que as manhãs. Os deprimidos sabem. Até o dia em que começam a caminhar depois das 5h. A vida ganha cores quando se anda à toa.
Ficar à toa sem culpa, sem mágoa e sem pressa de voltar ao ofício de ser triste. Tem gente que tem orgulho de ser triste. Acha lindo falar que está com estresse!
Tem prazer em dizer que só dorme "sob o poder de remédios!". E eu estou precisando de medicação é para acordar. Quem trabalha dorme. Minha mãe criou oito filhos,
sem contar os netos e os cachorros. Nunca pagou ninguém para limpar a nossa casa, nem lavar a nossa roupa. Em suma: não teve tempo para ter depressão. Lavar roupa
cansa os braços, libera serotonina. E quem está cansado quer dormir! Só. Mais nada. Não dá tempo nem para novela. O Tarcísio Meira, só no sonho!
Descia o asfalto e ia lavar roupa na laje, naquele tempo em que o rio era limpo. Eu ficava vendo aquela cena e me admirava. As cores das roupas misturadas
ao branco da espuma e as mulheres trabalhando e fazendo fofoca. Fofoca no bom sentido, é claro. Eram comentários que ajudavam a passar o tempo. De vez em quando,
terminado o assunto, vinham as músicas. E assim a vida seguia. Sem pressa, quase parada de tanto prazer!
Andar faz esquecer. Esquecer porque se lembra de outras coisas. Ando à tarde. Gosto de ver as cores se descolorindo, indo, sempre. Gosto daquele tom de melancolia
que toma conta da lagoa, onde os dejetos cumprem a triste missão de poluir a vida, enquanto nós, humanos, despoluímos a mente.
O jeito é voltar para casa. Pena que não existe mais fogão a lenha! Nem chuchu batidinho. Ávida emancipada, longe da mãe, tem o seu preço. O que se há de fazer.
Viver é descolorir, ou colorir, não sei. Tudo depende é da disposição de quem vive. O que sei é que Deus é cor, é azul, é eterno. E se ele gosta de futebol, sem
sombra de dúvida, deve torcer pelo Cruzeiro. Deus tem bom gosto, não poderia ser diferente!

O mistério dos sabores
Coisa mesquinha dizer do que Deus gosta. Mas eu me arrisco. Afinal, tudo o que falo sobre ele são meras aproximações imprecisas. Deus não está na definição.
Ele gosta é da dúvida. Por isso a fé não é certeza, mas é a dúvida que faz criativo aquele que crê: "Eu creio, Senhor, mas aumentai a minha fé." Existe outra forma
de se dizer a mesma coisa: "Eu duvido, Senhor, mas diminuía minha dúvida".
Eu não tenho medo de duvidar. Não gosto da fé sem dúvidas. Fé sem dúvida já é angelical e eu não quero ser anjo. Gosto é de ser humano. Gosto de ter caxumba,
fome, gripe e bicho-de-pé. Um anjo nunca vai conhecer o prazer daquela coceirinha que aquele parasita causa entre os dedos. E quando fica gordinho, melhor ainda.
Aí a gente vai com uma agulha não esterilizada e fura o bichinho. Aí coça mais uma semana. Depois a gente sai para pegar outro. Céu sem bicho-de-pé não tem graça.
A não ser que tenham anjos que fiquem fazendo cócegas nos pés da gente. Os humanos e seus encantos. Coisas que só nós podemos saber o quanto é bom. Assim como deixar
o relógio despertar no domingo, no mesmo horário dos dias de semana, só pra ter o prazer de sentir aquele mau humor momentâneo até recordar-se que, naquele dia,
não é preciso levantar. É tão bom quanto bicho-de-pé.
De carrapato eu não gosto. Nem os anjos gostariam. Imagine só uma praga de carrapatos entre os anjos. Poda geral de asas para conter o mal.
São belezas dos humanos. Coisas que nos enchem de graça e revelam uma graça maior, superior. Só quem já passou uma noite de nariz entupido pode dizer o que
será o inferno. O capeta deve ter cheiro de Vic Vaporub, porque noites mal dormidas têm esse cheiro.
O bom é respirar e coçar o pé. Fazer os dois juntos também é bom. Melhor ainda é só respirar enquanto alguém coça o pé da gente.
E tem gente que ainda duvida de Deus. Nunca deve ter provado o arroz doce da Ágda, o pão de queijo da Marina, nem o molho de pimenta da Neisa, pois se provar,
passa a acreditar. Deus se revela no sabor. É por isso que a cozinha é lugar de conversão. E a mesa também. Não é à toa que Jesus quis, antes de encerrar sua vida,
um jantar com os amigo. O sabor seria o selo de um compromisso, e a refeição, o lugar em que a presença seria atualizada. Saudade curada ao redor da mesa.
A eucaristia é um ritual de despedida. Uma despedida que se cumpre chegando, voltando, confundindo os verbos e se atualizando por meio de uma senha sagrada:
"Isto é o meu corpo, isto é o meu sangue". É nesta mesa, na qual a ausência é uma forma de presença, que nos assentamos para comer juntos o pão que nos devolve a
alegria e beber o vinho que nos ensina sofrer sem amarguras. Os sabores da terra se misturam aos do céu. Juntos somos a configuração de um quadro, de cujas cores
nem sequer sabemos os nomes. Mas nem por isso deixamos de admirá-las.
O mistério que nos envolve nos cala. A linguagem que prevalece é a que nos assegura o quanto é bom ser humano, pois só assim é que podemos experimentar a graça
de chamar a Deus de Pai. Forma de curar essa orfandade que insiste em prevalecer nas relações humanas.
Ontem mesmo senti vontade de ter pai de novo. Ouvir o bater do portão e o som tranqüilo de sua voz chamando pela minha mãe: "Ana!".
Era um jeito de chamar sem chamar, apenas uma forma de comunicar sua chegada. A discrição era sua marca mais expressiva. Chegava, sentava-se num, banquinho
que ficava na cozinha, e aí tecia o seu cigarro de palha. Depois, fumava sem culpa, apreciando o sabor do fumo de rolo, vindo da roça.
Homem simples, complexo e cuidadoso, nele prevalecia um tom de despedida que se cumpria aos poucos. Uma forma de se ausentar, mesmo estando ali, de maneira
tão concreta e real. O seu silêncio lhe garantia isso.
Tinha um tom de amargura no seu jeito de ver a vida, que o impedia de nutrir muitas esperanças. Era um homem sem futuro. Não sabia ocupar o coração com realidades
não materializadas. Apenas promulgava palavras que eram suas leis, sem o desejo de que elas repercutissem muito distante. Queria apenas o direito de trabalhar no
dia seguinte, de continuar erguendo outras casas para que a nossa não caísse. Não se esquecia de nós. Não sabia esquecer. Apenas sabia lembrar.
Era o homem dos sabores simples. Não conheceu a nobreza dos paladares, apenas dos gestos. Sabia como falar, sem dizer. Apenas olhava.
Guardo dele grandes saudades. Coisas que se davam no silêncio da mesa de nossa cozinha. Lugar dos sabores simples, mas essenciais. Sabores que atualizavam
a filiação, o amor, a cumplicidade e os silêncios que tanto comunicavam.
Era bom vê-lo misturar a farinha no prato de feijão. Fazia isso cumprindo um ritual. Só depois é que colocava o arroz, seguido das misturas. Depois, amassava
uma pimenta no canto do prato, fazia o sinal-da-cruz e iniciava a sua eucaristia cotidiana.
Uma felicidade imensa tomava conta de mim. Era bom estar ali. O fogão de lenha anunciava que a pressa não era necessária. Podia-se comer com cerimônia, ritual.
Nada ficaria frio antes que três horas se cumprissem. O fogo velava por nossa cumplicidade. Em silêncio, alimentavam-nos juntos. Misturávamo-nos uns aos outros,
de maneira que íamos nos configurando como membros de um mesmo corpo. Provávamos os mesmos sabores, mas os sentíamos de formas diferentes. O mesmo feijão, para uns
era dor, para outros, uma imensa alegria. Mas, acima de tudo isso, prevalecia uma certeza: "era bom ser gente, e era bom estar ali!".

Seria trágico, se não fosse cômico e saboroso
Cozinheiro é tudo igual. No momento em que vai servir o prato principal, faz sempre aquele comentário: "Nossa, gente, este prato eu faço muito bem, mas hoje
eu não sei como é que ficou!". Claro que sabe. Fez do mesmo jeito de sempre. Só está fazendo charme!
Aí vêm aquelas inúmeras desculpas que nós já conhecemos. "Já estou acostumada com a cozinha lá de casa... Não fiz com a farinha que faço sempre... Não comprei
a carne no mesmo açougue... O forno aqui da mamãe é muito diferente do meu...". Enfim, aquela série de articulações lingüísticas a que se recorre para arrancar
elogios do tipo: "Nossa, imagina, está uma delícia... O dia que ficar bom então, a gente morre de tanto comer! Como é que você faz esse molho?". E assim vai, refeição
afora.
Cá entre nós, cozinha é igual a salão de beleza. É lugar onde se cultiva vaidades. Todos nós sabemos disso, talvez não tenhamos é coragem de comentar, porque
quanto mais vaidosa a criatura que cozinha, maior é a nossa alegria.
Eu mesmo incentivo muito esse tipo de vaidade! Para ser bem sincero, eu busco esses vaidosos. Vou onde eles estão. E gosto de entrar nesse joguinho, tecendo
alguns daqueles comentários que eu mencionei.
Tem vaidade que consegue ser infértil, mas não é esse o caso. O que prevalece aqui é o velho jogo da sedução que os temperos são capazes de produzir.
Eu mesmo já vi muito casamento que deu certo graças aos dotes culinários da esposa. Sobretudo porque ela nunca ia se deitar com cheiro de alho nas pontas dos
dedos! É que a boa cozinheira conhece todas as artimanhas. Cozinha, mas continua bonita e cheirosa! Ninguém merece dormir com uma pessoa que parece ter caído de
um caminhão de cebolas!
É por isso que a vaidade da cozinha não pode ofuscar a vaidade do corpo. Vaidade não, o cuidado do corpo. Afinal, cuidado e higiene não são vaidades, mas necessidades
primárias.
Voltamos aos especialistas em cozinha. De todo<-os mais chatos são os churrasqueiras. Eu tenho um prazer imenso em comer churrasco, mas você já parou para
pensar o quanto a gente sofre nos churrascos, e de maneira especial com o churrasqueira? Geralmente a figurinha fica de camiseta, com uma toalhinha pendurada no
pescoço e uma latinha de cerveja por perto. Sempre que traz uma carne para os convivas, faz o comentário com tom quase agressivo: "Vocês não estão comendo nada.
O que é, a carne não está no ponto, não?".
Pronto, essa é a senha. Alguém terá de fazer imediatamente um elogio ao nosso personagem. Essa bravura toda não é nada mais, nada menos, que um cachorrinho
querendo afago. Depois do elogio, ele sorri, faz um breve comentário de como ele consegue assar aquela picanha e depois pede a uma das crianças que lhe sirva uma
cervejinha gelada, esbravejando: "O churrasqueiro está ficando seco!".
Mais tarde ele fará um comentário mais demorado a respeito da lingüiça, que geralmente é exclusiva. Falará de sua procedência, modo de preparo e baixo teor
de colesterol. E mais carne nos convidados!
Por fim, quando ninguém mais tiver condição de dar um passo, terão coragem de dizer ao churrasqueiro que não agüentam comer mais nada. Ele ficará bravo, insistirá
e acabará convencendo os presentes que consumam pelo menos o último pedaço de costela que ele preparou com tempero à base de alecrim.
Já sem forças, os convidados serão convocados a se dirigirem à sala da casa, onde o churrasqueiro pretende exibir a filmagem do seu casamento. Sem dizer palavra
alguma, as pessoas vão se amontoando aos poucos pelos sofás, carpetes e almofadas.
Quando ligam o vídeo, geralmente ele não funciona. Vira aquele bate-boca, aquela discussão. Estas são as frases que mais se escutam: "Bem, você virou aquele
pininho que tem de mudar aí atrás!", ou então: "Gente, chama o Juninho aí, porque é só ele que sabe lidar com estas coisas. Ele desliga tudo pra ligar o videogame
dele, e depois a gente não sabe como fazer! Eu já falei que tem que comprar uma televisão pro Júnior".
Finalmente chega o Juninho. Com ares de arrogância e mau humor, conecta o vídeo e sai da sala virando o seu boné, deixando a aba para trás.
Inicia-se o filme. É quase um filme de terror. Alguém da família ficará com o controle remoto na mão. Geralmente quem desempenha esse papel é uma das filhas
adolescentes mais recatadas, mais ligada às coisas da família. Já viu mais de trinta vezes a fita e sempre chora nos mesmos pontos. É muito emotiva!
À medida que o filme vai passando, o churrasqueira e sua esposa vão indentificando personagens, para que todos os convidados possam saber de quem se tratam.
"Volta um pouquinho a fita! Olha ali, a mamãe. Ai que saudade!".
E assim/todos, em estado de digestão, vão tentando manter os olhos abertos. Uma tarefa tão difícil quanto combater na Bósnia. Uma hora e meia depois, quando
o filme chega ao final, o silêncio é quase sepulcral. A mulher, dona da casa, ainda arrisca mais uma atividade lúdica: "Vocês querem ver as fotos de quando a gente
foi de férias para Guarapari?".
Antes de receber qualquer resposta, abre a estante e retira uma grande caixa de papelão. Sem forças para reações, as pessoas, atônitas, começam a receber uma
infinidade de pequenos álbuns. Todos com aquele escrito na capa: Fotoptica. As ampliações a que tiveram direito serão orgulhosamente mostradas em um álbum maior,
no qual estará escrito na capa de veludo: álbum de família.
A essa altura, os ponteiros do relógio já estarão anunciando quase 5 da tarde. E os prazeres da carne, servida no almoço, já terão sido esquecidos depois desse
ritual tenebroso a que todos foram submetidos.
Essa é a verdadeira comédia da vida gastronômica. O pior é que, quando nos convidam novamente, a gente volta. E aí começa tudo de novo. Só mudam o lugar e
os anfitriões. Mas é tudo do mesmo*-jeito. O churrasqueira com uma camiseta, uma toalha pendurada no pescoço, uma cervejinha gelada por perto e uma fita de vídeo
guardada em algum canto da estante, prontinha para ser colocada no vídeo que não funcionará, mas que será arrumado pelo Juninho da casa.
Traduzindo em linguagem teológica, poderíamos hereticamente dizer que o churrasco é o céu - um sabor maravilhoso -, o churrasqueira é o purgatório - faz bem,
mas causa dor - e a sessão de vídeo, seguida das fotos, é o próprio inferno manifestado na terra - visto que provoca desânimo, calor e mal-estar.

Para além de toda definição
A definição é sempre uma forma de aprisionamento. Definir é estabelecer uma cerca, impedindo que a realidade definida se mova em direção a outras. Isto é
uma cadeira e não pode ser uma mesa. Pronto, delimitamos o significado para acalmar nossa mente que é tão ávida por definir.
Gosto de pensar as coisas fora da sua definição, só para ter o prazer de ver como se comportam os definidores e obcecados. Hoje não vamos sentar nas cadeiras.
Vamos sentar no chão e as cadeiras serão nossas pequenas mesas. Aí, teremos a possibilidade de revisitar nossa infância, naquele tempo em que ainda não aprisionávamos
a realidade em nossas definições.
Acredito piamente que a razão positivista, que sempre se esmera em definir de maneira empírica e clara toda e qualquer realidade, não deve suportar as crianças,
nem a criatividade delas.
Elas, definitivamente, se opõem de forma radical ao saber positivo, delineado e preestabelecido, porque estão abertas à possibilidade de que uma cadeira não
seja apenas uma cadeira. Coisas de crianças, coisas de filósofos, que nós, adultos, não podemos mais entender.
Quem cresceu demais perdeu a filosofia, essa capacidade de ver as coisas e as realidades para além daquilo que mostram. Deixou de ser metafísico, sonhador
e se fixou no aprisionado mundo das definições claras e sem graça, onde nada tem o direito de ser mais do que aquilo que se mostra.
Para esses, o símbolo não fala por si mesmo, tem de ser explicado. Aí a densidade do símbolo já se foi, perdeu-se na explicação, foi racionalizada. O símbolo
não é para ser explicado, mas sim apreendido pelos cinco sentidos do existir humano e depois transportado à realidade a que ele aponta.
Ele é ponte que leva ao mundo das indefinições, onde Deus vive livre de todo e qualquer conceito que dele estabelecemos.
Deus é a surpresa, o inesperado que emerge do cotidiano e que desorganiza o mundo dos humanos com uma nova lógica, em que nem tudo pode ser matematicamente
compreendido. Deus está para além de todo o cálculo. Ele mora na curva, aonde os nossos olhos não chegam de forma retilínea.
Ele é a palavra que desconcerta no gesto de se encarnar para divinizar o humano. Talvez seja por isso que a linguagem simbólica seja a primordial forma de
descrever as realidades divinas. O que podemos conhecer de Deus nós o fazemos por analogia. A partir de elementos e conceitos temporais, esmeramo-nos em descrever
Deus e o mistério de sua grandeza. Esse conhecimento é imperfeito, mas, mesmo assim, indispensável. Não saberíamos não simbolizar, não saberíamos não acreditar
nem tampouco não teologizar. É nessa busca sincera de descobrir como se porta o coração de Deus que nos descobrimos humanos. Vendo o que ele possivelmente é, deparamo-nos
com aquilo que certamente ainda não somos, mas queremos ser.
Longe de ser uma postura antropológica negativa, essa perspectiva se abraça à certeza de que a santidade é um processo de aprimoramento do humano em relação
a Deus. Uma humanidade impregnada de Deus é uma humanidade em ponto de chegada, aprimorada, verdadeiramente humana.
Foi por entender assim que o filósofo Zubiri sabiamente concluiu que "Deus é uma forma infinita de ser homem, e que o homem é uma forma finita de ser Deus".
Aquilo, que a princípio nos separa, ao final de tudo nos congrega. Deus é especialista em humanos. E nós ainda estamos longe de tornar a recíproca verdadeira.

Entre um desfecho e uma saudade

Eram 9h15 da manhã, quando recebi a notícia: "Sua irmã está morta!".
Aquelas palavras soaram como uma agressão, como gesto de desfeita que contraria o corpo e suas funções, a ponto de imobilizar por inteiro uma estrutura humana
que até então sorria, andava e estava feliz.
A morte tem o poder de imobilizar os corpos. Imobiliza quem vai e imobiliza quem fica.
Tinha diante de mim uma distância a ser percorrida, mas o coração não desejava ir a lugar nenhum. Queria fixar-se nos acontecimentos que antecederam aquela
notícia. Queria prender-se na certezas de outrora, no tempo em que os olhos verdes ainda brilhavam e a voz ao telefone ainda revelava sonhos de viver e ser feliz.
A voz já não existe mais, ancorou-se nas ramagens distantes, lá onde a razão não prepondera e onde os conceitos não mais significam.
Restou-me a lembrança de sua última fala dias antes, ao telefone. Uma alegria sincera, um jeito que lhe era peculiar, desejando-me feliz aniversário, e dizendo
estar com muita saudade.
Nada disso, naquele momento, era real. Tampouco a morte, afinal, uma realidade dessas não cai de maneira definitiva sobre o coração. Ela se dá aos poucos,
minuto a minuto, de maneira que se torna obsessiva, redundante, excessiva. Abria os olhos e repetia: "não existe mais, se foi, acabou". Fechava os olhos e continuava
repetindo a mesma coisa.
Depois da longa espera, pude contemplar o seu corpo imóvel. Naquele momento, a notícia se concretizou diante dos meus olhos. As marcas do acidente estavam
ali, diante do meu silêncio e da minha total incapacidade de reverter os fatos. Era como se eu pudesse ouvir a sua voz desconcertada a me dizer: "Não pude resistir,
meu irmão, me perdoe por partir tão cedo e por não poder permanecer para ver você tornar-se padre!".
Para alguém que sempre foi tão viva, seja para sofrer ou para ser feliz, aquela imobilidade certamente seria desconcertante. Por isso não pude ouvir outra
coisa!
Os dias que se seguiram foram os piores já provados até o dia de hoje. Ver chegarem as suas malas e distribuídas as suas roupas era, para o meu coração, uma
aguda experiência de desprendimento e perda.
Vasculhei as suas coisas de mulher com o intuito de me consolar com seus resquícios, e encontrei detalhes de uma história que um dia você havia me confessado:
o seu amor proibido, nunca correspondido, a sua dor de solidão, o seu filho não nascido e sua apreensão com o futuro. Tudo isso estava sob o toque mágico do encerramento
e da finalização. O epílogo de sua existência havia chegado e a eternidade já estava lhe sorrindo, desejando boas-vindas!
Algum tempo já se passou. Para mim, é claro. Você já está fora do tempo e não mais vive as restrições que ele nos impõe. Depois que você se foi, muita coisa
mudou por aqui. O Konrado já é um homem crescido. Dá orgulho de ver. A Andresa já tem um casal de filhos lindos: João Vítor e Ana Clara, e a Cida criou juízo, finalmente!
Mas outras coisas continuam do mesmo jeito: a dona Ana, por exemplo, continua deixando queimar as panelas. Semana passada quase pôs fogo na cozinha.
E eu estou por aqui, experimentando a alegria, de ser padre. E às vezes, quando a saudade aperta, eu repito os mesmos versos que escrevi em minha agenda no
dia da sua morte, enquanto esperava no aeroporto de Londrina o vôo que me levaria até você:
"Leva o meu coração que eu fico com o seu. Eternamente. Até o dia em que a vida nos reabraçar."
Fique com Deus, minha irmã. Dê um beijo nele por mim!

Ausência
Esta falta que me causas
é como dor que não se localiza.
falta não sei onde e não sei o quanto.
Espaço não configurado,
não conceituai, imensurável.
O que sei de mim, pela força da saudade,
por vezes, me esqueço.
é como labirinto não sinalizado
por onde recolho pedaços, fragmentos de mim.
Levaste a senha da minha inteireza.
E desde esse momento
me assombro em tanta ausência
Consolo-me na observância silenciosa dos teus
segredos que em poucas frases nos legaste.
Há nelas uma fragilidade
se esvaindo pela cavidade do tempo
É impossível negar,
É teu ressuscitar sereno,
ampliando a tua ausência em mim.
Roubas o que sou e me tornas a sepultura
de onde sais. Sou o espaço da tua inabitação.
Sou a saudade que te evoca, traz de volta
e te concede uma criativa forma de continuar.

Lugar teológico
A arte é como a religião: alivia a existência. Ajuda a desvelar a beleza cotidiana que na curva dos acontecimentos se abriga e convida à redenção que dela
se desprende. O coração humano, quando a percebe, sente-se traduzido, revelado, e por isso acompanhado. A arte cessa a solidão. A religião também. Responde as perguntas
despertando novas. A pergunta nossa de cada dia é necessária como o pão, pois é na pergunta que o humano se aperfeiçoa, se liberta dos excessos e assim se santifica.
A arte é a insinuação do eterno nos traços da • temporalidade. É a passagem de Deus pelos jardins da história, deixando encalços onde ousamos colocar os nossos
pés. Quando saímos na janela para vê-lo passar, ele já se foi. Mas a sua ausência é também uma forma de ser, de estar e permanecer, por isso proclamou João da Cruz:
"O que conhecemos de Deus são as pegadas de sua ausência".
A arte é a amostragem daquilo que não é, mas que por hora se deixa apreender pelos nossos sentidos, a partir daquilo que é concreto e que pode ser.
A escultura revela algo mais que o material que a compõe. Nela existe uma ausência que evoca uma linguagem que não é conceituai, mas que comunica de maneira
bela e singular. É a via pelo qual o Sagrado se derrama e brinca de esconde-esconde.
Tenho me debruçado sobre a missão de estudar teologia, esse modo lúdico que Deus nos permitiu de conhecê-lo. Perscruto os diferentes enfoques, as mais diversas
abordagens sobre o Sagrado e seus segredos. Isso requer um rigor sistemático, que perco facilmente sempre que escuto a voz de Mônica Salmaso. Voz afinada e absolutamente
apaixonada pelo que canta, ela se assemelha a uma sarça que arde sem se consumir. Sua arte tem algo de epifânico e, por que não dizer, é também um lugar teológico,
onde Deus se exibe em sua grandeza, bom gosto e fino trato.
Essa voz me alivia, atualiza-me e me descansa. Nela eu purifico minha mágoa contida, minha indiferença religiosa e o meu cansaço existencial, fruto do existir
sem tréguas.
Grande é o poder das palavras. Elas entram no corpo e o despertam para o silêncio. O corpo se cala para ouvir. A música talvez seja isto, um anestésico que
possibilita ao corpo, ainda que por pouco tempo, a experiência única de ser espaço inabitado, caixa de ressonância. Quando a música penetra no corpo, ela o eleva
à sua condição primeira, lá onde a carne foi tecida de maneira silenciosa e materna. Em meio a água, canções e silêncio, a vida se ossificou generosa. No corpo,
a criação foi recriada. Deus criou de novo. É por isso que a teologia é uma forma de recriação. Assim como o corpo, também ela é gerida em meio a canções, pausas
e silêncios, realidades profundamente recriadoras.
Esta música que agora escuto tem o poder de paralisar os meus questionamentos. Não quero nada mais. Quero apenas o direito de ouvir esta narração emoldurada
por este quarteto de cordas. E assim eu me esqueço do que antes procurava para me perder no agora conquistado. Deus está aqui e me fala cantando com voz de mulher.
Deus está aqui e me fala com versos de Herivelton Martins, pela voz de Mônica Salmaso.

Mônica Salmaso
O Brasil é mesmo um país de muitos versos. Sopram sobre estas plagas infinitos acordes, ritmados por diferentes toques e amparados por eloqüentes vozes.
Nesse instante, prevalece em meu quarto uma atmosfera musical que me revela histórias de outros tempos, trazidos pela voz de Mônica Salmaso.
Mônica é diamante lapidado pelo fino martelo de Deus. Nela existe um tom de preciosidade, que a coloca num tempo que não é pretérito, não é futuro nem é presente.
Sua voz, elegantemente depositada sobre os acordes que sustentam o seu discurso, é um misto de terra e céu, lugar onde graves e agudos resolveram estabelecer
fraternidade. Nada fere, nada agride, nada dessoa, nada sobra.
Ela apenas segue o destino de abrir cavas na interioridade humana, a fim de que Deus, num gesto de ternura, venha a abrigar-se em nós.
Ela canta morrendo, no ato de viver cantando, e faz da vida a sua melodia. Cada nota que se desprende de sua boca parece ter um tom de despedida, alguma coisa
que clama, sofre e já deixa saudades no ato de chegar.
Nela eu descubro a densa reflexão escatológica do "já e ainda não". O já acontecido acontecendo aos poucos. Essa complexidade existencial que desordena a nossa
gramática e que desobedece às regras dos nossos verbos, dos nossos tempos.
Mônica está fora do tempo. De alguma forma já é eterna. Por isso ela me fala de Deus.
Recordo-me das sábias palavras de Jesus a respeito do sal. O sal dá sabor e Mônica é Salmaso. É mulher que tem tempero no nome. É palavra saborosa na mistura
de sabores da música popular brasileira.
Tempero raro, capaz de tocar as existências mais insossas e restituir-lhes o direito ao sorriso. Uma restituição serena, feita com a ajuda de nobres compositores,
gente que soube decifrar a complexidade da existência humana e a traduziu em histórias simples, descrições sensíveis que os nossos ouvido gostam de ouvir.
Talvez seja por isso que no meu confessionário, além das orações católicas, Mônica tem sido elemento terapêutico recomendado por mim às almas que já se desencantaram
pela vida.
Música, poesia e voz afinada são ingredientes que trazem em si o alto poder de curar a nossa pessoa daquelas dores que não se localizam.

O eterno no tempo
Recordo-me com saudade do jeito com que ajeitavas o teu prato sobre a mesa. Naquele gesto aparentemente despretensioso, revelavas o teu desejo de consertar
o mundo. Causava-me estranheza a tua quase obsessiva preocupação em nunca deixar suja sobre a pia a xícara do último café.
Coisas da tua conduta que falavam muito mais que as tuas palavras. Silêncios gestuais que hoje decifro e compreendo.
Havia nos teus gestos uma decisão existencial pela vida. E a tua forma equilibrada de ser religioso tornava-te um profundo conhecedor de teologia, apesar dos
teus poucos estudos.
Lavar a xícara depois do café era um desdobramento prático do teu ser cristão. A religião mexia na tua vida e no teu caráter. A tua experiência de Deus não
se resumia em saber que ele existia. Sem nenhuma fundamentação teórica, foste capaz de demonstrar o eterno no tempo.
Coisas que ainda hoje não consegui, apesar de ter estudado tanto!
É por isso que a tua lembrança neste dia de hoje me surpreende de maneira tão diferente. Chegaste com o mesmo silêncio com que costumavas chegar, e, quando
vi, já estavas comigo, lavando o copo que eu tinha acabado de usar.
Poderia muito bem ter deixado ali, afinal, não havia ninguém por perto e a minha displicência não seria notada.
Foi a lembrança do teu gesto que me fez repetir o mesmo. Recordei-me que um dia, sem que me dissesses uma só palavra, ensinaste-me que consertar o mundo consiste
em começar lavando os copos. E por um momento, ainda que fortuito, a eternidade se revelou inteira ao meu coração. Vivi o eterno no tempo. Descobri o sobrenatural
no absolutamente natural, e entre esponja, copos e sabão, tive uma bela e fecunda aula de teologia.
Enxuguei as mãos e retirei da minha carteira o ' teu retrato três por quatro que trago comigo. Olhei nos teus olhos e tive a sensação de que hoje o teu semblante
expressava mais felicidade do que de outras vezes que eu o havia contemplado. Hoje os teus olhos pareciam revelar uma certa vaidade, coisas de pai, que se orgulha
do filho por ter aprendido a lição.

A beleza é supérflua
"O que quer dizer este quadro?"
Não quer dizer nada, porque, se pudesse dizer, não seria um quadro e sim um texto! Pergunta mais besta, meu Deus!
Tem gente que acha que tudo na vida tem de ter utilidade. Até a beleza. Mas a beleza não tem de ter utilidade nenhuma, aliás, a utilidade da beleza está em
ser supérflua. Ela é o que sobra sem poder faltar. É o elemento que preenche os mínimos espaços. Deixa grande, dilata e assombra com seu poder de encantamento.
Mas não é útil. É apenas necessária.
Quem disse que a música tem de ter utilidade? Tudo o que nasce para ser utilizado já nasce para morrer. É por isso que a beleza nasce para ser eterna Surpreende
o mundo das utilidades com sua capacidade de não servir para nada e, mesmo assim, ter valor.
Penso nas coisas belas. Vejo-as em suas estruturas silenciosas, a nos roubar reações.
O poema de Adélia Prado me faz chorar! Choro sem saber por quê. O texto não me disse nada, apenas me comunicou coisas que não são palavras. Assombrou-me com
seu poder de encanto e beldade, e depois se despediu de mim.
Apronto-me para virar a página. Virar pra quê? A vida pode acabar aqui nesta página, pois estou • completo. O poema me fez provar mil anos nesses poucos minutos
que precisei para fazer sua leitura.
E por isso quero a supressão da continuidade! Parem os trens, parem os ônibus, pare a vida, porque a beleza está aqui. Deixem que zarpem os que partem e que
ancorem os que chegam. Deixem que os navios concluam suas rotas, mas não me peçam para acenar bandeiras de boas-vindas a quem quer que seja.
O que quero é o direito de provar esta quietude que agora me envolve por inteiro. Quero é sorver até o fim esta quase convulsão de febre que por ora t paralisa
os meus sentidos no ato de aguçá-los.
É que a beleza tem o poder de paralisar mexendo, remoendo e provocando.
A música chegou. A pergunta besta também: "Pra que serve?". "Pra tocar na rádio", respondo a esmo. Chegou para animar velórios, comemorar datas, eleger políticos
e vender ocasiões. Chega! Não me perguntem mais nada. Fiquem com a utilidade, que eu fico com a beleza. Para mim, ela não precisa ser útil. Basta que seja bela.
Não preciso entender sua rebuscada construção harmônica. Basta que seja supérflua. Não precisa me dizer nada, basta que me cale.
"Pra que serve esta escultura?" "Pra enfeitar a sala, filhinho." Mentira. Ela não serve pra nada. Casualmente, por ser bela, resolvemos colocá-la aí, mas a
beleza não tem endereço. Continuaria sendo bela no banheiro. Vai para onde quer e se dá por acaso. A escultura não tem de enfeitar sala nenhuma. Ela apenas quer
ficar em qualquer canto, longe da responsabilidade de ter de corresponder às expectativas dos utilitaristas, porque para eles a beleza tem prazo de validade. Ela
passa e, logo depois, será substituída.
Gosto de observar a beleza das coisas esquecidas. Daquelas que não têm mais nenhuma utilidade, e que por isso estão livres para ser o que verdadeiramente são.
Gosto da despretensiosa forma com que vivem no esquecimento. Entulhadas, podem finalmente descansar em seu eterno poder de sedução e total inutilidade.
Nelas repousa uma história consumada, livre de toda e qualquer forma de aprisionamento, de definição e de interpretação. Estão esquecidas, distantes dos olhares
que lhes atribuíam utilidades. Não mais estão presas às equivocadas atribuições a que foram submetidas. Finalmente descansam em paz. Indisciplinadas, harmônicas,
sinfônicas, sem fônicas, irônicas e absolutamente supérfluas, assim como toda beleza!

Entre a vitrine e o sonho
Ser pobre é triste demais, gente!" Essa foi a frase que embalou a minha infância. Estava na boca de toda a vizinhança. Gente que lutava para manter a
dignidade e o armário da dispensa em dia.
Lá em casa, desde cedo era preciso trabalhar. Meu pai não dava moleza pra ninguém, e colocava nisso o imperativo ético para a sua paternidade. Ser pai é ser
duro, é não deixar filho fazer corpo mole. O pobre do Geraldo que o diga. Não foram poucas as vezes que ele fora surpreendido pelo velho, sentado no vaso sanitário,
dormindo e com escova de dentes na boca. Levantar cedo era tão difícil quanto ter de m doar um rim.
Mas esse era o seu jeito original de nos amar. A sua dureza era a expressão mais sincera do carinho, de pai, que no seu peito se escondia.
"Ser pobre é triste demais, gente!", também ele, dizia. "Trabalha de dia para comer à noite", insistia. "Mas pelo menos está todo mundo com saúde", intervinha
minha mãe, sempre pronta a começar novena, caso houvesse uma necessidade.
Naquele tempo, o meu coração sabia ser pobre. Era sem reclamar, porque no universo da carência a criatividade exerce o seu papel. O carrinho com o qual eu
brincava, embora fosse feio e sem rodas, era para o meu coração o Pégasus que morava na vitrine do Bazar Guri, o Gigante da Cidade.
Sempre que podia, colocava-me a observar minuciosamente os seus detalhes, para que depois, ao chegar em casa, eu pudesse ver o que faltava no meu velho carrinho
verde de plástico. O que faltava nele e estava no Pégasus a minha imaginação completava. Pronto. Tratava-se de uma substituição total. Estava resolvido. Eu só precisava
vê-lo de vez em quando, para que a feiúra do carrinho verde não ofuscasse a beleza do outro, que morava na vitrine e, ao mesmo tempo, dentro do meu coração.
Isso durou muito tempo. Eu parava diante dele e tinha vontade de tocá-lo. Colocava o dedinho na vitrine e aí me recordava de que era pobre. E que o Pégasus
tinha um nome difícil demais para ser o brinquedo de um filho de pedreiro O máximo que eu poderia era sonhar com ele. Sua cor, sua textura, seu controle remoto,
suas funções e o ronco do seu motor em funcionamento. Nada mais que isso.
Entre ele e mim existia uma relação de transcendência, meio sagrada, e por que não dizer religiosa. Ele era para mim o deus intocável, de nome impronunciável
e que jamais poderia adentrar as soleiras da minha pobre morada.
Ele era a configuração mais concreta do meu desejo. O lugar onde a minha alma de criança achava repouso.
Certo dia, cheguei diante da vitrine e ele não estava mais lá. Olhei do outro lado, e nada. Procurei um vendedor e perguntei por ele. "Foi vendido", respondeu
secamente. Naquele momento, o coração não teve dúvidas: sofreu. Saí rapidinho e não pude conter as lágrimas que, teimosas, já rolavam pelo rosto.
Procurei um lugar mais discreto e chorei pelo amigo que se foi. Aí me recordei da frase: "Ser pobre é triste demais, gente!". Repeti a frase a mim mesmo, levantei-me
e voltei para casa.
Nunca contei a ninguém que o Pégasus era o objeto do meu desejo. Eu sabia ser pobre e tinha consciência de não ter o direito de pedir a meu pai um brinquedo
que fora feito para um menino rico. Era um desejo silencioso.
Sabia que meu pai não poderia comprá-lo, e que pedi-lo seria uma forma de lhe causar sofrimento. Ele me via satisfeito com meu carrinho verde, mas nem imaginava
que na minha cabeça eu brincava era com o bonitão da vitrine.
Depois que o Pégasus se foi, eu nunca mais pude reencontrá-lo. Não sei quem o comprou, mas tenho certeza de que ele não recebeu nem metade do carinho que teria
recebido se fosse morar na minha casa. É claro que ele iria estranhar no início, mas depois logo se acostumaria conosco. Até os meus irmãos mais velhos iriam dar
muita atenção a ele. Pobre é muito mais atencioso que rico.
Até hoje eu ainda sinto saudades dele. Esse é um tipo de amor que o tempo não apaga. Foi platônico, sem toque, mas absolutamente verdadeiro, porque tudo o
que o coração deseja tende a se eternizar em nós.
O Pégasus foi uma história assim. Um grande caso de amor que o meu coração de pobre pôde viver. Sempre fui pobre, mas o coração, não. E sempre acreditei que
pobreza maior não é fruto da restrição material, mas sim da restrição à capacidade de sonhar.
Depois que ele se foi da vitrine, a sua imagem permaneceu mais viva do que nunca dentro de mim. É engraçado isso, mas a identificação com o objeto desejado
faz com que a gente o assimile como parte integrante de nós.
Ainda o trago dentro de mim. O brinquedo que mais amei nunca foi meu, mas nunca deixou de estar comigo. De alguma maneira, isso me faz mais gente. De alguma
maneira, isso me faz mais crente.
Quem um dia soube admirar um brinquedo na vitrine, mesmo sabendo que ele nunca poderia ser seu, teve uma experiência primária de Deus, a quem amamos sem possuir.
O encanto que ele causa e o fascínio que ele exerce possibilitam vê-lo e senti-lo na precariedade da minha vida. Eu sou o carrinho verde, e ele, o Pégasus
que eu tanto desejo. Ele me socorre na minha falta de rodas, na minha falta de estilo, de motor, de controle remoto e de beleza estética.
Nessa história, não prevalece a lógica que separa ricos e pobres, vitrines e meninos sonhadores. Ele não vai embora sem antes me dar o prazer de sua presença
e o aconchego de seus braços. Nem tampouco se afasta sem antes me permitir o prazer de ser meu brinquedo favorito, de se entreter comigo e me garantir que ser pobre
não é tão triste assim quanto penso. Ele o foi. Ele o sabe!


Infância
Ampara-me com teus olhos
para que eu revisite a graça
de ser criança de novo.
Olha-me com tua divina calma
para que eu esqueça
os desconcertos dos meus dias.
Que seja eterna esta tua materna forma
de pousar as mãos sobre os meus cabelos
e depois dizer repetidas vezes
as mesmas histórias.
Ensina-me tuas expressões raras,
suavemente Locadas
pela semântica dos anjos.
deposita tuas marcas
sobre a minha teologia adulta,
com o intuito de que ela volte
a balbuciar alegrias.
E depois, recolha-me no silêncio do teu ventre,
para que eu possa nascer de novo
e finalmente retornar à alegria
do amor sem palavras.

Conhecimento vital
O André Vital certa vez me disse que existem acontecimentos que não devem ser narrados. A descrição esvazia o significado do fato. E é verdade. Outro dia
mesmo eu caí na bobagem de descrever uma experiência intensamente vivida pelo meu coração a um amigo. Carreguei nas cores, gesticulei ao máximo, espremi, poetizei
e, quando terminei, ele me olhou e disse: "Legal".
O silêncio que se seguiu foi pavoroso. Estava eu ali, com o coração de fora, totalmente envolvido no acontecimento narrado, diante de um amigo mumificado que
só achou legal o que eu havia vivido.
Era como se a atitude dele desmentisse a minha' experiência e me alertasse: "Não foi tão linda assim!".
Aí a gente leva um tempo para voltar a acreditar que foi lindo sim, que valeu a pena e pronto.
É que existem coisas que não combinam com as palavras. Foram feitas para o silêncio, porque não podem ser tocadas na sua inteireza e completude. Qualquer descrição
será uma forma de empobrecimento. Quase uma banalização!
Mistérios humanos que não estão afeitos à positiva epistemologia que nos cerca e nos envolve. São porque são, e não precisam ser explicados. É como gostar
de azul e ter de dar satisfações por isso. Gosto porque gosto. Gosto de azul, porque azul não é amarelo. Chega!
Tenho ficado mais silencioso diante de alguns fatos. Eles me bastam. O máximo que faço é depois de algum tempo buscar uma associação histórica que os torne
útil a alguém. Aí eu conto sem me importar com a reação. Conto porque já absorvi o essencial e ele já se tornou intrínseco a mim. Não é mais um fato, feito mochila
que levo nos ombros, mas uma parte de mim, algo que incorporei na experiência de viver.
No momento em que conto, sempre utilizo metáforas e um certo exagero que me ajudam a descrever a situação, com o intuito de que possam captar a beleza vivida
e intensamente tocada por mim. O exagero não é mentira. É apenas a reta intenção de levar o outro a sentir algo semelhante.
Esse é o mistério que envolve a Escritura Sagrada. Todo exagero ali se justifica assim. Alguém querendo "palavrificar" o que por natureza não se "palavrifica".
Um mar que se abre, as muralhas que caem, tudo para exprimir o poder de Deus e as maravilhas que são próprias de sua bondade. Deus é sempre vítima da linguagem humana.
Ela expressa muito mais aquilo que ele não é do que aquilo que ele é.
A metáfora não ofusca a verdade, apenas a evidencia a partir de uma outra forma de linguagem, menos positiva, mais sensível e poética. O escritor sagrado não
mentiu, apenas tentou, como eu, descrever um acontecimento que o havia envolvido por inteiro e que o modificara existencialmente. Mentiroso não, apenas exagerado
e bem-intencionado!
Sua comunicação é uma maneira espalhafatosa de contar histórias e descrever os seus amores. Todo apaixonado tem direito legal ao exagero. É a forma encontrada
de expor o amor que nele não cabe, e sim extrapola, derrama, feito água que o leito do rio não comporta, mas expulsa, criando uma terceira margem.
Depois do rio, há sempre uma terceira margem que os olhos não podem ver. Guimarães Rosa tinha razão.
Quem sabe dessas coisas geralmente consegue contar histórias com sabor. Altera o fato sem, desvirtuá-lo, mas apenas o enriquece para torná-lo um prato saboroso.
A substância já está no fato e a maneira de contá-lo não o torna mais ou menos substancioso, mas o sabor sim, este depende daquele que o narra. É como preparar um
filé. Em qualquer situação, o filé é sempre filé, mas o tempero faz a diferença.
Tem gente que tem muito conhecimento, mas não sabe dar sabor ao que conhece. Vive amargurada no seu muito conhecer, impossibilitada de seduzir quem quer que
seja. O conhecimento aprisionou o coração. Outros, não, já possuem menos, mas são especialistas na arte de temperar o que sabem. Vivem rodeados, procurados e solicitados.
Fazem diferença no mundo!
Coisa boa é ouvir alguém que nos acrescenta. Gente que tocou a vida com os cinco sentidos e perscrutou os mistérios que o cotidiano oculta. Gente que descobriu
a arte de exagerar sem alterar a substância dos fatos. Conta histórias aos mumificados e aos poucos lhes vai retirando as faixas, promovendo ressurreição nas mais
ínfimas coisas.
Gente como o André Vital, homem que conhece muito e que tem a mestria de temperar o que sabe com a vitalidade que lhe é própria, o seu nome já mostra.
Ele também é especialista em Sagrada Escritura, mas, antes disso, especializou-se na arte de viver, de ser filho, de ser irmão e de ser amigo. É perito na
arte de existir.
E por isso entende tanto de Sagrada Escritura que só é sagrada porque é viva, local de revelação, onde Deus se mostra exageradamente apaixonado pelo humano
e por suas questões.
O André, o Vital de quem eu falei, quando ler o que eu disse a respeito dele, vai dizer que exagerei, que ele não é tudo isso. Mas não tem problema, ele pode
até pensar que é exagero. Mas eu sei que o exagero é uma forma de dizer o que o coração deseja, contudo não encontrou as palavras certas. Ele também se tornou vítima
da minha inteligência. Ele é muito mais que a descrição que dele faço.

O eterno mora ao lado
Vejo as palavras. Elas não me pertencem. São meros atributos que aos poetas se entregam. Nada além. Tudo mais é silêncio que se impõe sobre outros pequenos
silêncios. Sou solidão. Nada me acompanha, nada me ouve, nada me encanta, a não ser a certeza de me saber só.
Limito-me a nada desejar, deixando que flua o que agora digo, confiante de que tudo o que agora não fala um dia comunicará. E isso agora se cumpre. O papel
pousado em suas mãos revela um silêncio "palavrificado", feito expressão sincera, deste seu amigo, enamorado do céu.
Nada vejo. Apesar das múltiplas imagens que e me rodeiam, insisto em não perceber a superfície que se mostra. Estou cansado do óbvio que não exige esforço
e que sobre esta superfície repousa.
Prefiro não vê-la, não tocá-la, nem tampouco me envolver com ela.
Contento-me em retirar as palavras que sobre ela descansam silenciosas e organizá-las a esmo.
Tudo mais é ausência, questões existenciais que não deixam descansar o poeta que existe em mim.
Às vezes penso que as respostas virão, às vezes, não. Olho ao longe e o que vejo é o espelho do tempo, propostas a serem acolhidas, ou não. E por mais que
eu queira adaptar-me às estruturas da superfície, sei que não posso. Seria não viver, assumir posturas alheias, comuns aos mortais.
Mas sou mortal. Não quero ser, mas sou. E então me vejo no limiar entre realidade e fantasia, imortalidade e funeral, pessoas e cadáveres, e não sei por onde
ir. Mas sei que vou. Não saberia não ir. Não poderia ficar, contentar-me com o banquete em que todos se confraternizam.
Não suporto o rito que nos tempera de superficialidade. Eu quero é a eternidade. Sou daqui e não quero ser. Sou agora e quero ser depois.
Vejo que o conflito acompanhará os meus dias. E por onde quer que meus passos me conduzam, lá ele estará. Amadurecido, menos confuso, talvez.
Não sei além. Sei o pouco que posso, pois é no pouco que verdadeiramente possuo.
Mas nada pode ser possuído, afinal, o peso da vida consiste em possuir. Malas sempre prejudicam o prazer da viagem. Preciso aprender, saber, eu já sei.
Lembro-me de você, meu amigo. É boa a lembrança que tenho, mesmo sem possuir.
E então falo a você com a simplicidade de quem se sabe compreendido e acompanhado. No mistério da ausência, você está aqui, sentado ao meu lado, me ajudando
a superar a superfície.
Que reinem os poetas, que nasçam as canções, que se aprofundem os poços e que se encurtem as distâncias! O eterno mora ao lado. Alguém faça o favor de acordá-lo.

Retrocesso
Assombra-me este poema mudo,
este prenúncio de palavra,
ancorado em meu porto.
feito pacote sem remetente,
implora-me adoção.
Insinua-se exalando um frescor de prosa,
meio rosa, meio dor.
Não me entusiasmo,
Apenas o observo em seu sabor de silêncio
e tento absorvê-lo a distância.
Temo que seja um poema feliz,
Este não o quero.
O poema feliz é o retrocesso da poesia.

Naquele tempo
Até que a morte nos separe." Essa era a promessa que os amantes se faziam no passado, naquele tempo em que o tempo era mais demorado e as mulheres ainda
tinham máquina de costura.
Pinturas, bordados e tricôs faziam parte do universo feminino, sem que isso representasse uma atividade de segunda grandeza. O feminismo ainda não havia retirado
das mulheres o direito de saberem tecer os seus próprios panos de prato, nem tampouco bordar as suas toalhas de mesa.
Hoje, quando elas querem isso, recorrem às raras especialistas em serviços manuais e pagam caro pela beleza. É que quando desejamos algo que esteja tocado
pela sensibilidade, que não tenha sido produzido em série, temos de desembolsar uma boa quantia por isso. Sensibilidade tem custado muito caro aos nossos bolsos.
Naquele tempo, as meninas usavam vestidos rodados, bordados e rendas. Não era crime contra o mundo da moda colocar laços de fita nos cabelos. A infância
podia ser evidenciada, mostrada e valorizada. As crianças não tinham a obrigação de se portarem como pequenos adultos, e não existiam sandálias com nome de artistas
substituindo os tradicionais sapatinhos brancos de lacinhos cor-de-rosa, que sempre eram guardados depois de não mais servirem aos pés. Depois da utilidade sempre
vem o significado!
As crianças não calçavam plásticos. A vida exigia matérias mais nobres e duradouras.
"Até que a morte nos separe." Naquele tempo era mais fácil dizer isso. Havia mais disposição para ver o tempo passar, menos pressa, porque as distâncias eram
maiores. Engraçado isso, mas quanto menor a distância, maior é a pressa e ansiedade de chegar. Talvez seja por isso que os casamentos eram mais duradouros. Existia
menos asfalto nas estradas e as mulheres ainda bordavam suas próprias toalhas.
Andavam-se distâncias enormes a pé e ainda não tínhamos necessidade de freqüentar academias. Comíamos carne de porco conservada na lata e o tal colesterol
era assunto que não entrava em nossas rodas de conversas. O colesterol também fragiliza a eternidade das relações humanas.
O mundo era mais definido e os papéis, mais delineados. Coisas de homem, coisas de mulher. Naquele tempo, não existia o "unissex" e até mesmo as cores tinham
a sua classificação de gênero.
As casas tinham alpendres, lugares onde o namoro começava, e tinham também quintais, lugares onde a infância se registrava em pedras e jabuticabeiras.
Naquele tempo, tínhamos de confeccionar nossos próprios sonhos. Ninguém sonhava por nós. Os brinquedos não vinham empacotados, mas despencavam de nossas criatividades
e se materializavam em buchas que viravam bois, em panos que viravam bonecas e em tijolos que riscavam no chão o formato de um garrafão, onde todos se tornavam prisioneiros.
Quem dera nossas crianças ainda continuassem aprisionadas no garrafão riscado no chão. O que hoje as ameaça não é mais uma prisão imaginária, moralmente respeitada
como regra compreendida de um jogo, delineada por um risco de tijolo no chão. As prisões de hoje entram pelos olhos e a regra é matar ou morrer. Já não existe espaço
para o inocente, para o ingênuo e para o meramente lúdico. A violência ofuscou a simplicidade do mundo infantil. Trocamos os boizinhos feitos de buchas por metralhadoras
de plástico, por videogames que excitam os olhos de nossas crianças e retiram delas o sono.
Naquele tempo, as crianças não tinham insônia, porque o cansaço das brincadeiras as levava cedo para a cama.
Naquele tempo, as pessoas podiam se entristecer sem o perigo de serem diagnosticadas como deprimidas. Era possível ficar triste sem culpa, sem ansiedade e
sem a pressa do medicamento que a fizesse alegre de novo. Depois da tristeza, sempre retornava a alegria. Não a alegria ansiosa, exageradamente eufórica, irreal,
mas a serena alegria, aquela que antes de ser externada já se esmerou em alimentar o coração e seus silêncios. A alegria que não corresponde às expectativas alheias,
mas que existe pelo simples prazer de ser e estar no coração que a carrega.
Com o processo de superficialização do mundo, tudo tende a se tornar mais exterior e, por isso, mais facilmente falseado. Tristezas também são mais exteriores,
sem razão concreta, fundamentada.
Naquele tempo, o coração humano suportava mais as adversidades e os conflitos. Não sei por quê, mas sei que era assim.
Talvez seja porque, naquele tempo, as rádios tocavam "Chão de estrelas" e outras preciosidades da criação humana, e hoje, não se tem mais tempo para as músicas
daquele tempo...
É que, naquele tempo, os compositores aliviavam a existência humana entretendo e fazendo pensar, e, por isso, os casamentos continuavam, as crianças eram crianças
e os tristes ainda eram criativos.
Naquele tempo, naquele tempo, lembra?

Relato de um sobrevivente
Esse pingo de chuva é um desacato ao sossego que quero. É quase uma afronta esse abrir e fechar de portas na casa ao lado. Parece que o mundo está em
obras. Menos eu, que também preciso de reformas, mas não agora. Quero apenas o direito de ficar aqui, ou então de chegar a algum lugar, mas sem ter de ir.
Quero cultivar esse pecado. Essa preguiça de não querer nem mesmo respirar.
Pode recriminar. Para você é fácil, pois não foi você quem passou duas noites em claro, agüentando ritual de velório! Aquele entre e sai, aquela conversinha
entre dentes e sucessivas crises de tosse.
O pobre do defunto, visivelmente indiferente, inicia em público o seu processo de desmaterialização. Em breve será pó. Enquanto isso, serve-se um cafezinho
que dona Leninha preparou orgulhosa e sozinha. "Tem chá de cidreira também", anuncia com ar de quem pensou em tudo, sem esquecer nenhum detalhe. Pequenas vaidades
que só se revelam quando a morte interrompe a vida.
"Que hora chega o Dioclécio?", indaga a Rosalva, com o dedo perto da boca no intuito de estabelecer cumplicidade.
"Acho que não chega a tempo", sentencia com voz de general reformado o tenente Oscar.
Todo morto, por mais pobre que seja, tem sempre um parente que mora em São Paulo e que quer chegar a tempo para acompanhar o sepultamento.
Faz parte do ritual esperar os ausentes. Só o morto não tem pressa. Para ele, tanto faz como tanto fez; se chega, se não chega. Nele nenhuma expectativa
sobrevive.
Alguém puxa um terço. Os mistérios são sempre dolorosos para quem não veio rezar. A reza interrompe a prosa, quebra a seqüência de piadas que secretamente
se contam e das quais discretamente se ri. Quando um riso escapa, varando a grande sala, dona Sãozinha estica o pescoço e se apressa: "Xiiiiiii!". Parece uma televisão
fora do ar.
O barulho anuncia que o riso não é a sintonia _ certa. Velório é lugar de choro. É espaço propício para se lamentar sem explicações. Eu mesmo já me utilizei
muito desse recurso para aliviar a alma, visto que não podemos chorar em público sem que alguém venha nos interrogar a razão do choro.
No velório não precisa explicar. O defunto está ali no meio. Ele é razão do choro! Ele é o ponto onde se confluem as mais diferentes dores.
Rosilda está ao lado do caixão e está chorando copiosamente. Até soluça a pobrezinha. Mas ela era conhecida do morto? Não, claro que não! Ela está chorando
é porque descobriu a traição do seu marido, o Zé Traíra. O defunto é apenas uma desculpa, um álibi que inibe as perguntas e dispensa as respostas. Ali ela está
justificada. Pode chorar à vontade, sem medo de se sentir humilhada pela dor que a punge.
Vira e mexe se escuta um suspiro mais profundo, acompanhado da frase: "Deus sabe o que faz!". "É verdade. Quem não sabe sou eu", concluo.
Ô compadre João, a comadre Maria expeliu a pedra?", indaga com ares de doutora dona Rosa, sentada muito próxima da garrafa de café. "Ainda não, comadre. Tá
tomando um chá de quebra-pedra. O dotôr falo que se num saí vai ter que opera."
Pouco a pouco, os presentes começam a falar de suas enfermidades e, em pouco tempo, a sala se torna um consultório coletivo.
Todas as doenças são mencionadas, menos as sexualmente transmissíveis, é claro.
Com isso, mais uma vez o defunto cai no esquecimento. E só voltará a ser lembrado quando chegar um daqueles parentes que mora em São Paulo.
Aí as caras voltam a se consternar e o que se segue é a interrupta repetição: "Meus sentimentos!".
O ambiente volta a ser silencioso. Todos os presentes se levantam e fazem questão de acompanhar as reações dos recém-chegados. É sempre importante saber quem
chorou, quem não. Se houve desmaio, quem estava mais abalado, afinal, tudo isso será matéria a ser comentada no dia seguinte nas rodas de amigos.
Depois de alguns minutos, dona Leninha interroga com voz emocionada: "Fizeram boa viagem? Como é que vocês ficaram sabendo? Vocês não sabem o susto que eu
levei quando a Rosilene entrou lá em casa gritando e me avisou".
Dona Leninha toma conta da conversa. Fez uma perguntinha só para ter espaço de contar como recebera a notícia do falecimento do vizinho. É claro que ela exagera
nas suas reações. Esse exagero é uma forma de se colocar mais íntima do que realmente era. Diante dos parentes de São Paulo é sempre bom deixar uma boa impressão.
Depois de cumpridos todos os protocolos, é hora de enterrar o morto. Ele é descido à sepultura enquanto os presentes, sem entenderem o significado do gesto,
jogam um pouquinho de terra sobre o caixão.
Ao final, todos voltam para casa mais mortos do que vivos. Não é à toa que eu não esteja suportando o bater de um prego na parede.
Velório é assim mesmo: enquanto o morto descansa em paz, eu acabo é me cansando mais.

Que seja eterno!
O rapaz falava-me com sinceridade. Acreditava que a mulher descrita por ele existia em algum canto da terra e que, um dia, ele a encontraria, para juntos
viverem felizes para sempre. Ela seria bonita, rica, inteligente, carinhosa, emancipada, atenciosa e estaria pronta para satisfazer os seus desejos. Não seria ciumenta,
porque o ciúme "desgasta a relação", dizia ele.
Ele me fez pensar nessas coisas que parecem contos de fadas, desejos que se posicionam na diagonal da existência humana e que por isso não entram no curso
natural dos acontecimentos. Não é horizonte, nem vértice. Sonhos que não se concretizam, porque na verdade não são sonhos, são meras ilusões.
Acredito que a gênese das frustrações humanas está justamente na inadequação entre a ilusão e o real. Está no ato de desejar o que não existe, o que não se
configura nem mesmo como possibilidade que possa ser construída aos poucos.
Incomoda-me essa desilusão amorosa que tem marcado os nossos dias. Não raras vezes, deparo-me com corações que se desprenderam de suas antigas seguranças,
de lugares que representavam o amparo de uma vida toda e do sonho de serem felizes para sempre. À medida que a vida começou a ser real, descobriram que não amavam
a realidade, e sim a ilusão. O amor deixou de ser eterno, porque a brutalidade da realidade desmoronou a ilusão. Passou-se a perceber o antes oculto, o pouco mostrado,
o omitido. Com isso, foram por terra as máscaras e os papéis. Sobraram os atores sem o auxílio das maquiagens e refletores, e, nesse momento, eles se olharam e
reconheceram: "Somos só isso, nada mais!". Eu ser só isso não lhe basta, eu sei. Perdoe-me por não corresponder à ilusão que tinha a meu respeito. Não era amor o
que sentíamos, porque é impossível amar aquilo que não se conhece.
Ao final de tudo, o perdão e a despedida. Procurarão outros lugares para acomodarem suas bagagens, outros portos para que possam ancorar suas expectativas,
palcos onde representarão o duro papel de amar o que não existe, cultivar o que não é real.
Encontros e despedidas. Um eterno e temporário chegar e partir, um constante sentir-se apaixonado que sempre se esvai com o final da tarde.
Há que se refazer os conceitos que temos acerca do amor e das paixões temporárias. Não é possível continuar sob a prisão que o mito do amor romântico nos impôs.
Esse modelo de amor, medieval e amórfico, não faz amadurecer o coração humano, ao contrário, ele o aprisiona na imaturidade relacional que exige que o outro seja
a satisfação dos seus anseios e desejos mais profundos. Esse modelo de amor, tão proclamado pelas produções hollywoodianas, que na verdade é a atualização dos contos
de fadas para os dias de hoje, não compreende o amor como instância aberta para as precariedades da existência humana, e, por isso, o condiciona a uma realidade
utópica e sem aplicação prática, concreta. Distancia o amor de tudo o que é precário, quando fora do precário, do falível e do imperfeito o ser humano deixa de
ser real e torna-se ilusório.
Uma pessoa só pode se sentir verdadeiramente amada depois de ter sido conhecida e acolhida, a partir daquilo que tem de melhor e também daquilo que tem de
pior. Só assim o coração descansa, porque já não precisa representar mais nada. Ele apenas é o que pode. Nada mais. Todo e qualquer aperfeiçoamento brotará desse
acolhimento que o coração amante lhe proporcionou.
É por isso que o amor de Deus é redentor. Nele não existem expectativas, mas prevalece a serena espera, própria de quem sabe amar.

Transfiguração
Poesia é transfiguração da alma. Por meio dela se restabelece o vínculo entre o adulto e a criança que existe em nós. Transfigura-se o adulto e revela-se a
criança. Nisso está a beleza. Adultos transfigurados, desprovidos de máscaras, iluminados em sua inocência primeira.
Feliz do homem crescido que se deixa mostrar pequeno. Dele o Criador fará sacramento, depositará em seus olhos infinitos sonhos e lhe dará asas para ir além
dos muros que a realidade lhe impõe.
E atrás dos transfigurados vamos nós. Queremos vê-los, ouvi-los e, nos seus sons, tons e palavras, depositar os cansaços que nos assombram. Sua arte nos descansa.
Tenho diante de mim uma palavra de Helena Kolody: "Meu nome, desenho a giz no muro do tempo. Choveu, sumiu". A temporalidade é a matéria-prima do seu lamento.
Um misto de dor e contentamento me invade de maneira descompassada. Mas essa invasão me acalma. O verso simples da mulher paranaense, solteira e sem filhos é capaz
de me levar a pensar a vida feito muro em que se escreve a giz.
O ato de passar não me assusta, apenas me contextualiza sem ilusões. E por isso posso repousar, pois não tenho o fardo da expectativa. Sou o que posso. E sendo
o que posso ser, transfiguro-me diante do muro em que meu nome está escrito. Não sou Helena, mas absorvo o seu poema, sua expressão léxica, existencial e admirável.
O seu escrito, por ora, torna-se meu. Aliena-se no sentir solitário que meu coração experimenta. Palavras que são minhas sem serem minhas, oráculos germinados
em outras bocas, frutos de outros campos, outras glebas, outros prados.
Na transfiguração poética de Helena, eu me reconheço. Toco-me e consolo-me. Um ato inocente, puro, expressão de cuidado e amor próprio.
É bonito pensar na palavra como medicamento para a vida humana. A sonoridade do verso como instrumento que alivia a mais pungente dor, no ato de a permitir
doer. Deixa de doer, doendo aos poucos. Não ilude, não anestesia, mas dói para curar.
Muitas vezes as palavras consolaram meu coração. Um poema de hora em hora é a prescrição medica que, por vezes, tenho o prazer de cumprir. Para os dias mais
difíceis, para os momentos mais sofridos, essa é a melhor receita.
Ungüento verbal umedecendo as ressequidas esquinas da existência humana. Palavras ardendo, feito sarça que queima sem se consumir.
O poema é revelação. Lugar teológico em que descubro os novos Moisés da história, novos profetas e novas transfigurações.
Teologia das realidades terrenas. Intuição que possibilita o piano de cauda ser também um lugar privilegiado para o encontro entre Deus e o humano. Lugar de
revelação. Palavra que se fez carne, elegantemente debruçada nas notas da canção.
Talvez seja por isso que naquela noite eu tenha vivido aquela emoção emudecedora. Diante de mim estava Helena Kolody, essa mesma Helena cujas palavras mencionei.
Parecia existir fora da mira do tempo. Embora envelhecida, era dotada de uma beleza pueril, de aspecto azulado. O azul é a cor da poesia.
Sua voz tinha um ritmo calmo, de quem já superou qualquer forma de pressa. "Não é o tempo que passa depressa, sou eu é que vou devagar."
Estava eternizada nas pequenas coisas, e por isso não corria mais.
Correr pra quê? Para apagar a luz, atender ao telefone, compensar o cheque, não perder a hora? Não é preciso ir a lugar nenhum. Por isso desejamos erguer
as tendas, para que permaneçamos juntos no lugar da transfiguração.
O poema é revelação. Revela escondendo, para não banalizar o mistério. Revela e transfigura, escreve e põe moldura no rosto que o percebeu. O poema é o retrato
do poeta. Emoldurado, três por quatro, não importa. Faz do tempo a sua porta, por onde entra quando quer.

Sentença Final
Frutificou o vocábulo antes flor.
Agora geme em doçura
aquela que outrora fora fonte de silêncio.
Foram lutas incruentas
entre formas e significados.
(Palavras vencidas se acorreram
ao reino das prisioneiras,
empunhando um pedido de anistia.
Palavras vencedoras se acomodaram
vaidosas na pauta agora pronta.
O poeta se fez juiz.
Julgou comprimento, beleza léxica
e conduta moral.
E num gesto de autoridade rara,
pôs-se a evocar o sentido da mágoa
e o coração da fala.
Lavrou a sentença com olhar altivo
e em secas palavras anunciou a sentença final
o poema está pronto.

Entre os olhos e o chão
Hoje chorei. Como há muito não chorava. Não havia razões claras. Apenas chorei. Talvez por razões passadas, histórias ancoradas no porto do meu ser, aí
onde a dor não se ossificou, não se fez concreta, não mostrou a face, mas pairou soberana e silenciosa.
Talvez por razão nenhuma. Nem sempre a dor tem razão. Dói por doer, por não ser outra coisa, por ser dor apenas.
Tem certos dias que a dor nos toca, vem de dentro, de fora, do alto e de baixo, da palavra, da imagem e do gesto. Vem e se aloja em algum lugar do corpo. Mas
nem sempre a causa é física, observável. Dores que não têm remédio.
Gostaria de ter sido médico, além do que já sou, é claro. Conviver com a dor. Aliviá-la, contê-la e aprender a sofrer.
Convivo com outras dores, não detectáveis por meio de exames e radiografias. Exercito-me na tentativa de expurgá-las por meio das palavras. Falo, ouço e me
calo. A palavra é o referencial, é a chave que nos dá acesso às realidades mais sofridas e inomináveis da vida humana.
Ouço: "Não sei o que tenho, padre. Já não tenho vontade de viver. Sinto uma dor aqui dentro, mas não sei onde dói".Dor que não se localiza. É diante dela
que faço a experiência do limite. O outro lado se cala e espera que eu detecte o que dói, onde dói e por que dói. Ninguém procura um padre sem razão.
Sem ter o que dizer, mesmo assim me arrisco. Por vezes, imagino o gesto de Jesus a rabiscar o chão. Diante dele, o sofrimento de Madalena perante o escárnio
público. O Filho de Deus também se calou. Sofreu, pensou, antes de ditar receitas mágicas que exterminassem a dor daquela mulher. Mesmo sendo Deus, preferiu a via
humana. Foi na raiz da dor pelos recursos da palavra. "Alguém que não tenha pecado atire a primeira pedra." Fez pensar, retirou as faixas dos espectadores e expôs
a ferida de todos. A mulher sentiu-se verdadeiramente amparada por alguém, e, por isso, pôde assimilar a parte que lhe cabia: "Alguém te condenou?", perguntou. "Não,
Senhor", disse ela. "Pois vá e não peques mais." ' Longe de ser um discurso moralista, trata-se de um discurso humanitário. Ele identificou na mulher a gênese de
uma frustração existencial, a inadequação entre o seu significado e sua praxis.
Sua vida, seus gestos e sua postura eram afrontas à sua dignidade de mulher. Jesus sabia que nenhuma mulher poderia ser feliz no ato de prostituir-se. Prostituição
é o mesmo que declarar ao corpo a condição de ser espaço público, por onde todos passam, mas ninguém permanece. Tudo o que é de todos acaba sendo de ninguém!
Dor de não ter significado, de não ter sido descoberto.
Descobrem-se lençóis, mas não se encontram os corpos. Apenas se roçam, sem se entrelaçarem. Esbarram-se, mas não se tocam.
Coisa estranha essa. Esse constante olhar sem nunca enxergar. Esse constante esbarrar sem nunca encontrar. Esse constante chorar por sempre se saber só.
Por falta de um espectador atento, a dor não se localiza. Alguém que olhe, veja a mão machucada, o branco manchado e o cabelo despenteado. Alguém m que perceba
o que sozinho não podemos, pela dificuldade que temos de vermos a nós mesmos, fora da imagem já interpretada no espelho.
Talvez seja por isso que muitos dos que vêm a mim saem gratos mesmo quando me atrapalho nos conselhos. Às vezes não digo absolutamente nada de válido, e, mesmo
assim, ouço: "Padre, obrigado por ter me ajudado tanto!".
Ouvir. Foi só o que pude fazer. Olhei, tentei achar. Risquei o chão imaginário, encorajei, sem condenar. As pessoas já estão por demais condenadas. Não precisam
de juízes que as indiquem o inferno ou o paraíso. Precisam apenas de alguém que tenha disposição de saber quem elas são, de que dores sofrem, de que cores gostam
e que número calçam os pés.
Só depois disso o Evangelho é possível, palpável, concreto e existencial.
Mora longe de mim a pretensão de impor um modo de viver. Isso porque Jesus nunca foi modelo impositivo. O que o tornava atraente era sua capacidade de mover
o mundo por meio da proposta, da palavra. Se quiseres... se voltares... se amares...
Sabia convencer sem impor, porque conhecia com profundidade a lógica do coração humano. Só quem conhece a lógica pode compreender e acolher a incoerência,
o imperfeito, o precário e o ilógico.
Já ouvi muito na vida. Assim se explica o meu choro de hoje. Nada em mim se apaga, mas se sintetiza aos poucos, peio mistério de ser parte do tempo, de ser
histórico e cidadão.
Choro pelos que não significam muito, pelos que tocaram o fundo da solidão. Pelos que sofrem a dor não localizada, o incomodo não identificado e a tristeza
sem aparente razão.
Permaneço a riscar a terra, imitando o homem que me inspira o Deus que me santifica no processo de me tornar humano.
Gostaria de ter acesso àquilo que ele escreveu no chão. Aquele bilhete, aquela fórmula ainda secreta, desconhecida e com certeza profundamente reveladora.
O único bilhete escrito de próprio punho pelo Cristo. Palavras escritas na terra, motivadas pela condenação pública de uma prostituta.
Entre o olhar serenamente indignado e o chão empoeirado da Galileia - por ele contemplado -, pairou a opinião de Deus.
Naquele pequeno espaço entre chão e olhos, uma sarça de significados ardeu sem se consumir. Deus escreveu na terra, pelo toque dos seus dedos, uma sentença
de misericórdia.
Bendito seja o chão que se fez pauta para a poesia divina.

Terapia sem palavras
O bom terapeuta é aquele que ouve o que o paciente não diz. É que nem sempre queremos dizer o que precisamos e, por isso, necessitamos de alguém que nos
compreenda sem o auxílio das palavras.
Talvez seja essa a razão de os verdadeiros amantes não carecerem de palavras para se compreenderem. Basta que se olhem e a comunicação já acontece. É que os
olhos revelam coisas que as palavras não são capazes de revelar.
Por isso, a terapia deveria ser mais silêncio do que fala. Porque o que me revela é o que está oculto, é o que não passa pela linguagem conceituai e que, silenciosamente,
repousa em mim esperando por revelação.
Terapia é volta no tempo, é retorne ao lugar do silêncio e da palavra mal dita. É a oportunidade de recolher os cacos do vaso que despencou de nossas mãos.
O vaso caiu porque minhas mãos eram pequenas e não puderam segurá-lo. Hoje, elas estão mais crescidas, mais fortalecidas e assim posso reviver a situação, dando
a ela novo significado. É dessa forma que o vaso deixa de incomodar: pelo poder do retorno terapêutico.
Volto encorajado pelo olhar que me olha e me diz: "Pode ir, eu estou com você!".
Amar talvez seja isto: encontrar alguém que torne mais fácil o acesso a nós mesmos.
Jesus sabia disso. Sempre que encontrava alguém necessitado de respostas para a vida, cravava-lhe o poder dos seus olhos. E, no gesto de olhar, descobria o
que o outro precisava dizer, mas não encontrava as palavras. E de súbito, o outro se sentia amado, acolhido e encontrado. O olhar verdadeiro não esbarra, mas encontra,
e o verdadeiro encontro tem o poder de desvendar os segredos sem banalizar o mistério. Isso porque ninguém gosta de perder o mistério, mesmo quando conta os segredos.
E Jesus sabia disso, revelava sem banalizar.
Gostaria que os terapeutas nos olhassem assim. Não queremos ser a matéria dos seus estudos e pesquisas. Queremos apenas que nos ajudem a não precisar dizer
muitas coisas. Gostaria que eles fizessem menos perguntas e que nos olhassem por mais tempo nos olhos. Quem sabe assim a gente tomaria coragem para dizer muito
mais...
Também nisso Jesus era mestre. Olhava do jeito que cada um precisava ser olhado. Com firmeza, com ternura, com ira e com alegria. E como é bom ser olhado com
alegria! Nessa forma de olhar não existe recusa do que somos, ao contrário, é como se ouvíssemos uma voz a nos dizer: "Vem mais perto, pois é bom ter você aqui".
Aí o coração descansa na terna certeza de se saber amado.
Creio que tenha sido esse o sentimento que tomou conta daquela mulher que o Evangelho nos apresenta como a "samaritana". Embora Jesus conhecesse todas as suas
fragilidades, ele a olhou de um jeito absolutamente acolhedor. Tomou sua mão, e com ela visitou o passado. Olhou-a nos olhos mais uma vez, e disse que poderia ser
diferente a partir daquele momento. A terapia funcionou.
Tem dias que eu não quero dizer nada! Quero apenas o direito de ficar calado sem ter de explicar o porquê de estar assim. Faz bem ao coração humano o silêncio
da voz. É nesse momento que temos a oportunidade de visitar os mais recônditos lugares de nossa vida, aí onde moram os sentimentos que nunca viraram palavras e que,
de alguma forma, ainda exercem poder sobre nós.
Gosto mesmo é dos olhares que dispensar, palavras. Com eles eu fico mais tranqüilo. Perto deles eu preciso dizer menos, explicar pouco e sentir-me verdadeiramente
acompanhado.
Quando os olhares já dispensam as palavras é porque as perguntas e as respostas já foram suficientemente vividas e experimentadas ao seu tempo. Depois do questionamento
e da dúvida, há que se provar o descanso da fé. Quando cessam as palavras, nascem os olhares...

Silêncio
Distante do que quero está o que possuo.
Este mínimo esmiuçado
perambula diante do meu olhar aquietado.
Sou o descanso eterno nesta fração de tempo.
Meu querer é silencioso e não causa alarde.
apenas arde em processo de doer.
Sulca com dolorida força o interior da carne,
Mas não gera gritos.
apenas promulga palavras.

Uma carta sem segredos
Tenho diante de mim o pulsar sereno de convicções adquiridas. Pudera eu comunicá-las com a mesma serenidade com que pulsam.
Sinto-me no direito de poder dizer. Tens o direito de não levá-las a sério. Uma carta é sempre uma visita e por isso pode ser indesejada! Prefiro dizer na
presença, afinal esta nos indica se o momento é propício para se dizer o que se vai dizer! Vou correr o risco!
Acredito que viver o conflito consiste em ter nas mãos metade da mudança. Eu sei que mudança de comportamento não se quantifica, mas percebe-se pelo instaurar
sereno da paz em nós. É isso o que queremos, é isso o que buscamos.
O que importa é não fugir, e assumir o auto conhecimento como investimento necessário, afinal, tu serás o companheiro que terás de aturar a vida toda. O que
és, o que podes, o que não podes e o que deves serão a pauta na qual a vida se inscreverá. Os sonhos e as realidades deverão ser desvendados e, aos poucos, terás
de possuir a síntese das duas instâncias. Sonhar sempre, mas o sonho possível, aquele que se percebe brotar da realidade existencial pousada sobre as mãos.
O que tens hoje nas mãos? O que te é possível? Certamente é o que precisas para a luta que hoje tens de travar. Penso que a ansiedade que existe em ti tem
sua raiz no discurso da falta. Buscas o preenchimento de um mundo de ausências que se estabeleceu ao longo de tua vida. Por vezes são ausências rasas, facilmente
preenchidas. Uma canção basta, mas por vezes elas se configuram e assumem forma de abismo e, nesse momento, não há metáfora alguma que as possa preencher. Aí nasce
a saturação. Nada basta, nada explica, nada fala e nada é perfeito.
Acredito muito no que podes, mas também acredito no que não podes. Uma realidade não anula a outra; apenas traça o perfil de tua verdade, mostra o que és.
Sei o quanto te custa conviver com isso, afinal viveste muito tempo sob o peso da exigência e da " identificação. E por mais verdadeiro que seja o amor ? que
te dedicaram, no fundo, lá onde pulsa a tua solidão ôntica, esse amor nunca bastou. Daí nasce a falta, a ausência e a necessidade do discurso metafórico.
Metáfora é a suplantação da realidade. É o disfarce do real, mostrado sem revelar. É a luta para que o simples seja maquiado e não seja revelado em seu despojamento.
Não temas o despojamento. És muito, mesmo no pouco. O espírito de onipotência não nos faz melhores, apenas mais pesados. Ele nos conduz a um campo de possibilidades
e depois nos abandona! Identificas-te com o "menino abandonado" e por isso pedes o amor de domínio. Inconscientemente te entregas ao domínio dos afetos. Tens necessidade
do aconchego e da segurança de outra vontade.
Aqui mora o conflito do amor possessivo. Na verdade, as pessoas te amam como tu mesmo pedes para seres amado.
É por isso que na crise está a possibilidade de uma grande conquista. Terás primeiramente de proclamar tua liberdade, para que alguém te ame sem te aprisionar.
Essa proclamação não é grito que se aprende da noite para o dia, mas cedo ou tarde terá de começar. Não poderás fugir a vida toda. É uma questão de sobrevivência.
Aquilo de que foges hoje, amanhã terás de temer ainda mais. Quanto mais adiares a luta, tanto mais frágil te sentirás!
A comunhão que o coração de Deus nos inspira torna-nos participantes de outras histórias. Não estamos sós. Em algum lugar, um coração sofre semelhante angústia.
E busca e deseja o aprimoramento do modo de ser e estar no mundo.
Sei que queres o aprimoramento do teu ser. Primeiros passos já foram dados. Hoje tu és mais livre do que foste ontem, afinal o querer é a primeira configuração
do realizar. Ele é essência do ato de ser livre, e por meio dele nos inserimos na dinâmica da vida. Quem não alimenta o seu querer, mesmo que ainda respire, pode
se considerar morto.
Mais vivo do que nunca vou ficando por aqui. Desculpe-me ter invadido tua casa. Não sei se cheguei em boa hora!
Desconsidera tudo o que julgar desnecessário. Falar sozinho é sempre um risco, afinal as intervenções alteram e purificam os pontos de vista e as compreensões.
Tens agora em tuas mãos um discurso ou uma pregação - como diria um outro amigo meu -, mas eu te asseguro que é um prosear bem-intencionado, fruto de um coração
irmão, que no silêncio da prece luta contigo!

O mistério dos significados
Lá em Minas existem algumas expressões que soam como "deseducadas". Exemplo disso é a palavra "chouriço". Ela é usada como resposta àquelas perguntas
as quais não queremos responder. O outro nos pergunta: "O que é isso?". E rapidamente respondemos: "Chouriço". Pronto, mostramos que a pergunta não nos agradou.
Na verdade, dizer chouriço é uma forma velada de anunciar: "Não é da sua conta, sai pra lá seu bicudo, que eu não lhe devo satisfações!".
Portanto, além de ser lingüiça de sangue cozido, em Minas, a palavra "chouriço" também adquiriu um tom de afronta e revela a má criação daquele que a utiliza
como resposta.
Só que existem situações em que o chouriço é chouriço mesmo! E assim se deu com minha mãe. Quando criança, em virtude da difícil situação financeira de sua
família, minha avó fazia minha mãe sair pelas ruas da cidade com um balaio nos braços, vendendo os mais diversos produtos caseiros. O mais comum era o sabão de bola
feito de coalho.
Mas, num belo dia, o conteúdo do balaio era o tal chouriço feito pela minha avó. Foi aí que um senhor a abordou perguntando: "Que que cê tá vendendo aí menina?".
Minha mãe prontamente respondeu: "Chouriço!". "Mal-educada, sua mãe não te deu educação não?", retrucou o velho. Assustada, minha mãe respondeu medrosa: "É chouriço
mesmo, moço!". E, destampando o balaio, mostrou ao velho o seu conteúdo.
Coisas como essas me fazem pensar nos mistérios dos códigos da linguagem humana. Uma mesma palavra pode ter os mais diversos significados. Tudo depende do
lugar e da forma como é empregada.
Em Portugal, por exemplo, a palavra "bicha" também significa fila. Portanto, dizer que vai ter de enfrentar uma bicha para pagar uma conta no banco não significa
nenhum problema para os nossos irmãos lusitanos. Já aqui no Brasil, fica muito complicado dizer isso, afinal as cabeças maldosas já iriam imaginar coisas horríveis
daquele segurança que fica parado m na porta do banco!
Se chegar a Porto Alegre e disser numa padaria que você quer uma torrada, em poucos minutos lhe servirão aquilo que chamamos de misto-quente. Já em outros
lugares, se pedir uma torrada, você receberá uma fatia de pão com aspecto de cadáver. Torrada é um pão morto. Tenhamos coragem de reconhecer. Torrada é uma coisa
sem graça que só desce sob ameaça de cardiologistas, endocrino-logistas, e outros "istas" que temos por aí.
Misterioso mundo das palavras. Você já imaginou se alguém chegasse para você e gritasse, olhando nos seus olhos, a palavra "merda"? Pois é; certamente você
ficaria ofendidíssimo! Mas, no mundo do teatro, isso é o mesmo que dizer: "Boa sorte!".
Antes de começar o espetáculo, a equipe de produção e os atores se olham para dizer isso. Nos bastidores, a merda corre solta e tem cheiro bom!
Já imaginou se alguém da platéia, desavisado do significado desta expressão, escutasse o diretor dizendo isso ao ator principal? Certamente comentaria depois
com os amigos que nos bastidores do teatro o que prevalece é a hipocrisia. "Gente grossa!"
Outra coisa complicada é traduzir os sentimentos que experimentamos na vida. Fazer virar palavra a emoção sentida e o sentimento provado é um desafio e tanto!
É por isso que o emocionado tem sempre aquele aspecto de abobado, feito cachorro que caiu dd mudança.
Já assistiu àqueles concursos de Miss Brasil? Quando anunciam o nome da vencedora, ela imediatamente morde os lábios, curva ligeiramente o corpo para frente,
leva as mãos para cobrir o rosto e desata a chorar! Aí segue aquela tradicionalíssima cena. As amigas concorrentes, controlando os seus desejos de se juntarem para
espancar a vencedora, colocam-se a abraçá-la de maneira carinhosa! Enfurecidas, uníssonas e chorosas, juntas compõem um quadro psicopatológico que nenhum terapeuta
seria capaz de decifrar.
Ali, os significados dos sentimentos são os mais diversos. As perdedoras estão chorando porque estão solidárias com a vencedora, ou porque estão chateadíssimas?
Não sei. O que sei é que chouriço nem sempre é chouriço, torrada nem sempre é torrada, e bicha nem sempre é bicha. Tudo depende do contexto!
Também o sentimento humano é como as palavras. É que nem sempre a palavra pronunciada é coerente com o sentimento mais profundo que a motivou. Nisto está a
falsidade: usar a palavra fora do contexto do sentimento. Essa desarticulação gera a mentira, faz brotar a dúvida e a insegurança nas relações. É o mesmo que bater
na cara com o intuito de dizer que se ama.
Mais fácil seria revelar o amor por meie de beijo, porque assim cessaria a desarticulação das realidades. Mas o beijo de Judas não representou uma traição?
Pois é, mas o que se seguiu foi pior ainda: o suicídio por enforcamento significou o arrependimento. Muito mais nobre seria continuar vivendo para rearticular
a realidade passada, assim como fez o apóstolo Paulo, que deixou a condição de perseguidor para se tornar um grande amigo de Cristo. Mudar de vida é uma boa forma
de demonstrar arrependimento!
O bom mesmo é mergulhar no mistério dos significados, por meio da observância. Esse mergulho nos favorece mais perspicácia na arte de viver e compreender esse
tão complexo mundo dos humanos, que nem sempre dizem o que querem dizer, nem sempre escutam o que verdadeiramente ouviram, e nem sempre perguntam quando não entenderam
o que foi falado.
A propósito, você entendeu estas últimas frases? Pois é, eu também não. Prometo continuar tentando.
Na verdade, o que estou precisando mesmo é tirar "água do joelho", mas os dois banheiros do avião estão ocupados. Em um deles tem uma mocinha que entrou há
mais de meia hora. Deve estar passando um "fax"! E no outro, não dá para encarar a "bicha" enorme na porta!

Corações são como palavras
Assim como a palavra, o nosso desejo é significar. É próprio do coração humano o querer ser desvendado como expressão sonora de um cantar íntimo, abscôndito.
Cada coração é uma história a ser contada, conhecida e, se possível, amada.
Significar é se fazer valer existencialmente. É ser para além do anonimato silencioso, inexpressivo, alcançando a pauta na qual a história é escrita, acrescentando-se
no contexto sem perder a singularidade, mas ao mesmo tempo significando em comunhão.
Duas palavras, quando se encontram, não se esquecem de seus significados, afinal, elas são o que significam. Esquecer o que se é essencialmente consiste em
alienar em outras mãos o que de mais profundo se possui.
No encontro de duas palavras, os significados se abraçam na missão de juntos significarem. Uma palavra se enriquece no significado da outra. Juntas, elas superam
os limites de suas estruturas gráficas e de súbito crescem em suas essências.
É por isso que a palavra não foi feita para ser solitária. Sozinha, encerra em si mesma o significado genuíno que lhe é próprio, mas, acompanhada de outra,
se abre para a nobre missão de explicar os fatos, a vida, consolidando as coisas belas e exprimindo o que antes era silêncio no coração do poeta.
Antes solitária, era o som significando em si mesmo; agora não mais sozinha, pertence à melodia da frase, compõe o período, constrói literatura.
O milagre da construção poética, no qual cada palavra renuncia o direito de significar sozinha, abrindo-se à possibilidade de complementar-se e ser complemento,
é também semelhante ao milagre de amar e sentir-se amado.
O coração humano não foi feito para ser sozinho. Precisa ser povoado, preenchido por outras presenças. Sozinho significará pouco, mas, ao se abrir, multiplicará
o que por natureza lhe foi dado.
No encontro se dá o confronto, fonte de todo aperfeiçoamento e superação de limites.
É por isso que o nosso coração quer significar; anseia por se complementar em outros significados, tornar-se história, a qual um dia merecerá ser contada.

Artifícios
O ressonar sereno da palavra que repousa
é a afirmação precisa de que a vida segue viva.
Afoita, calada, pronta, inacabada,
não se permite amordaçar
pela ameaça do tempo.
Passa, deixa, leva, traz. Não importa!
Viver é conjugar o possível verbo,
que se insinua sem docilidade
e se apodera da contingência existencial
do infante poeta.
Piores e ausências são matérias cotidianas.
Alegria, por vezes.
Se vier mais freqüente, a poesia se vai...
" Melhor que se esconda por perto,
caso seja solicitada,
para que esteja à mão, sem estar.
Ela substitui a palavra, amordaça o verbo,
desaponta a caneta, tempera o poeta.
A sobriedade é raiz fecunda,
projeto válido para quem deseja o fundo
e não se contenta com a primeira fala.
A força contrária desenvolve heróis... A força da fala revigora o gesto.
Palavras são artifícios da alma.
Diz quem quer... fala quem pode.

Organizar o luto
A vida é mais que a conjugação do tempo presente. Todas as idades estão em mim. Sou um misto de infância e juventude que por ora se projeta para o novo tempo
que virá. Sigo vivendo, morrendo aos poucos, misteriosamente adentrando a eternidade.
Recordo-me de que minha professora de psicologia dizia que viver consiste em organizar o luto. Crescer, mudar de estação, deixar de ser o que é. Assumir uma
nova fase da vida requer mestria em sepultar e dizer adeus a nós mesmos.
Concordo com ela. E é fácil concordar. Basta lançar os olhos para dentro do meu coração e aí encontrarei um menininho trêmulo, desconfortavelmente sentado
numa cadeira de madeira e com os bracinhos depositados sobre uma carteira de sala de aula.
Era o primeiro dia. Tudo era estranho e absolutamente novo.
Sobre a carteira repousavam um lápis, uma borracha, uma régua, um lápis bicolor e um caderno de papel manilha, que minha mãe havia feito em sua velha máquina
de costura. Ele era a única referência afetiva que naquele momento poderia me acalmar. Olhá-lo era o mesmo que ter por perto o colo daquela que carinhosamente o
costurara.
As paredes da sala estavam emolduradas pelo alfabeto, segredos que a minha razão não sabia ainda decodificar, mas que mais tarde o meu coração aprenderia a
amar.
Ao pé da mesa, silenciosa e confidente, uma merendeira com formato de elefante resguardava um pão com molho e suco de groselha, que na hora do recreio seriam
degustados em meio a lágrimas, afinal eles estavam envoltos em uma atmosfera de maternidade, de cuidado e atenção.
Coisa triste é ter saudade de mãe! E esse era o luto a ser organizado. A infância havia terminado. Apesar da pouca idade, eu já tinha um horário a cumprir.
E tinha de cumpri-lo longe da minha mãe, sem a segurança da sua presença, distante dos meus brinquedos e do quintal da minha casa.
É assim que a vida vai se tornando aos poucos um quartinho de entulhos, onde vamos depositando nossas antigas saudades. Coisas passadas, mas, ao mesmo tempo,
absolutamente presentes, tão atuais.
Basta revirar esse baú de lembranças para que, de súbito, um universo de reminiscências adormecidas volte a nos despertar os sentidos.
Cheiro de infância, cheiro de pai, cheiro de mãe e o cheiro da primeira escola. Recordo-me dos cheiros e dos sabores que fizeram parte daquele tempo. Sopa
de ervilha era o pior de todos. Quando a Leninha, a servente do grupo, me entregava aquele prato de sopa de ervilha, o mundo perdia ainda mais a sua cor. Engraçado,
mas os primeiros meses de aula representaram para mim um tempo em que a vida parecia ter perdido a sua cor. Quem me ajudou a restituir as cores perdidas foi a minha
professora Rosângela, que, com sua dedicação amorosa, verdadeiramente me fez descobrir as cores ocultas nas equações matemáticas e nas páginas do velho livro É
tempo de aprender. Nome sugestivo esse. Chegado o tempo de aprender, com ele também chega o tempo de esquecer. Tempo, saudades e esquecimentos, categorias que delimitam
o real, mas que ampliam o sonho, dilatam o coração à medida que este ama e abriga saudades.
Organizar o luto talvez seja isso: recolher a vida depois de vivida. E como é belo recolher os amores e suas respectivas saudades. É uma forma de se afirmar
que a vida não foi em vão. Não foi uma experiência que passou pelos vãos dos dedos, mas registrou-se nas cordas do coração.
Passado tanto tempo, ainda trago em mim as marcas da primeira infância, daquele tempo marcado pelas recordações das primeiras descobertas e aprendizagens.
Em tudo aquilo existia uma silenciosa presença de Deus, apresentando-me o mundo e seus mistérios por meio de pessoas que seguravam minha mão no momento em que o
medo tomava conta de mim.
O primeiro dia de aula jamais poderá ser esquecido porque ele não foi experimentado na solidão. Tudo o que foi partilhado no silêncio da cumplicidade certamente
já se eternizou em algum lugar de nós.
É por isso que a experiência de ter mãe já é uma experiência antecipada da eternidade. Ela sempre foi a mão mais próxima. E por que não dizer, a primeira mão
que Deus nos ofereceu na experiência de sermos humanos.
A escola representou para mim a primeira ruptura com essa mão. Ficar distante dela era muito penoso ao meu coração de menino. Vivia o período da aula desejoso
de que o tempo voasse, para que enfim eu pudesse voltar à minha casa, o local dos meus sacramentos.
A ansiedade tinha o seu fim quando uma sirene anunciava o término da aula. Saía a passos largos e subia correndo a escadaria que me levava até a porta da escola.
Virava a esquina e já estava na rua da minha casa. Na garganta não existia outra palavra engatilhada, a não ser o grito santo: "Mãe!".
Ao vê-la, tudo se aquietava dentro de mim e a eternidade tinha cheiro de carne moída, refogada com batatas.

Esquecimentos
Muita coisa na vida é preciso aprender, incorporar como detalhe adquirido e assumi-lo como parte integrante de nossa vida. E à medida que vamos conhecendo,
vamos nos tornando maiores, dilatados, aptos a abarcar o mundo na sua complexidade de formas, cheiros e sabores.
É o mistério do novo se tornando cotidiano na experiência do ver e observar, tão próprio da condição humana.
Conhecer é uma forma criativa de recriar a vida. É uma maneira de interferir na estrutura estabelecida e propor o que pode ser diferente. É por isso que o
conhecimento se configura como forma de poder. Ele modifica porque pode, mas só modifica quando quer!
Eu me esforço por viver conhecendo, tomando contato com a novidade de cada dia, ainda que pequena, ainda que sutil. Hoje mesmo descobri que uma cigarra canta
até explodir e que essa é a tarefa existencial que lhe cabe. Não pode parar, não pode descansar, porque é no ato de cantar incessantemente que ela se descobre cigarra.
Morre cantando, absolutamente absorvida no mistério de ser o que é e de fazer o que pode. De alguma forma, ela aprendeu isso um dia.
Diante dessa nova informação, meu coração se inquietou. Conhecimento pouco, dispensável, masque por ora é a ciência de que preciso. Lições de cigarra a um
coração que também canta, mas que não canta até morrer e que nem sempre vive até viver.
Não são poucas as vezes em que me esforço para recordar o que um dia aprendi. Vasculho o baú da memória e não encontro o que procuro. Aí tenho a sensação de
que aquele conhecimento se alojou num quarto da memória pouco freqüentado e que, cansado de esperar pela minha visita, foi dormir um pouco. Conhecimento também dorme!
O meu esforço o acorda e ele vem sonolento ao meu encontro. Aí, quando o vejo, a satisfação toma conta dos meus olhos e a boca proclama: "É isso!". Ou então: "É
aquele! É ele!".
Foi assim que se deu certo dia comigo, quando encontrei uma pessoa que eu conhecia, mas que no momento eu não sabia quem era. Olhei aquele rosto e certifiquei-me
de que se tratava de alguém que um dia me fora próximo. Um rosto que, de alguma forma, se relacionava com algum momento da minha história.
O seu jeito de sorrir e de me chamar de Fabinho demonstrava certa intimidade que ele não perdera com o tempo. Eu perdi, mas ele não.
Sabia que o conhecia, mas não fui capaz de reconhecê-lo, de recordar seu nome e identificar quem era. Foi então que ele me ajudou. Falou de coisas que havíamos
vivido juntos na época da infância, e aí sim, tudo clareou. Estava diante de um grande amigo, companheiro que há anos eu não encontrava e que, de certa forma, havia
entrado nos quartos da minha memória. Quartos que, por não serem visitados, vão perdendo a sua luz. Mas, mesmo no escuro, a informação sobrevive.
É assim que funciona. "Re-conhecer" é conhecer de novo e de um jeito novo. É reencontrar depois de um tempo distante e identificar alguns detalhes que o tempo
não pôde modificar.
Reconheci aquilo que já conhecia e só o pude fazer porque saltaram aos meus olhos os detalhes que marcaram a minha experiência de ter um amigo, de ser um amigo,
de me lembrar e de esquecer.
Depois que ele foi embora, fui invadido por uma série de lembranças, sensações e sentimentos que me reportaram vinte anos na história. Por um bom momento voltei
a ser menino e descobri que o meu coração é hoje uma cidade tão povoada que já não tenho mais o controle de quem nela já entrou e de quem dela já saiu.
O meu amigo me ensinou isso. Ele apenas puxou o cordão da saudade e o armário se desarrumou de vez.
Naquele momento senti medo. Medo de desaprender muito, de conhecer demais e de esquecer fácil. Histórias como a da cigarra, amigos como o Rony e outras coisas
que por ora já não me recordo mais...

Gesto Salvífico
Quando os ponteiros do relógio anunciavam 11 horas, lá ia ela com uma marmita de almoço na sacola.
Passos cansados, mas decididos, levavam-na diariamente à delegacia da cidade. Eu mesmo a acompanhei algumas vezes naquele trajeto.
Tinha ela nos seus olhos um misto de ansiedade, saudade e desolação. Aquela hora do dia era para ela a continuação das dores do parto, pelas quais um dia trouxe
ao mundo o filho que agora era prisioneiro.
Levar-lhe um almoço de mãe era uma experiência de cuidado, afeto e concretização de um amor eterno, fora do tempo.
Ela ia falando sozinha, bem baixinho, eu me lembro. Falava coisas que não eram palavras. Balbuciava para ela mesma os segredos a que ninguém tinha acesso.
Coisas daquele coração de mãe e de mulher, que jamais poderão ser decifradas pelos códigos da linguagem humana.
Caminhava rápido. Não queria que o almoço chegasse frio. Recordo-me: era uma marmita de alumínio, envolvida por um pano de prato que tinha nas beiradas bordados
de crochê.
Ia com lágrimas nos olhos, que por vezes escorriam pelo rosto suado.
Quando chegava à portaria principal, ela falava com voz mansa ao carcereiro: "Trouxe o almoço do Geraldo!".
A voz revelava que o ponto alto da dor estava por vir. Sem dizer uma palavra, o carcereiro pegava a marmita, desconsiderando o carinho com que fora preparada,
retirava o pano de prato e, com um objeto que lhe estivesse mais próximo, revirava a comida para conferir se não existia nada escondido ali.
Ela acompanhava tudo de maneira silenciosa e submissa. Só depois dizia: "Tem nada não, moço. É só a comida mesmo!".
Virava as costas e voltava para casa com o choro de quem acabara de sepultar um filho. Descia as ladeiras da minha pequena cidade como quem descia aos infernos,
tamanha a dor que lhe comprimia o peito.
Voltava chorando e balbuciando coisas que só ela sabia o que significavam. Eu segurava sua mão, como o discípulo João certamente segurou a de Maria no momento
do calvário de seu filho.
O calvário estava ali de novo, atualizando-se em nós.
Hoje, passado algum tempo, fico pensando no significado daquela marmita de alumínio envolvida por um pano de prato. Tento imaginar cada personagem dessa história
real: a mãe, o filho preso e o carcereiro. Para cada um deles, a marmita tinha um significado diferente. Para o carcereiro, era a ameaça da segurança. Para o filho,
uma forma de continuar sendo gente, de ter mãe que lhe prepara um prato preferido e de tocar o cotidiano que um dia fora seu também. No seu coração, ele sabia que
aquele almoço, agora saboreado no interior de uma cela fria, era o mesmo que estava sobre o fogão de lenha da nossa casa. A marmita era o elo que nos unia. Era
um sacramento da nossa casa.
Para a mãe, aquela marmita era a concretização de um gesto salvífico, libertador. Uma forma de dizer que amava e que esperava sem cansaço. Era um recado substancioso,
uma forma de ser presença por meio do alimento. Coisas do coração da minha mãe que são muito semelhantes às do coração de Deus.
Deus nos salva no gesto de nos alimentar. O pão do céu nos liberta na terra. Torna-nos participantes do lar, a que verdadeiramente, por direito, pertencemos.
É uma forma de voltar para casa por meio da refeição. Elo sagrado, compromisso marcado ao redor da mesa.
Interessante perceber as semelhanças entre o coração de Deus e o coração da minha mãe. Nessa história, existe um encontro marcado: a hora do almoço. Hora santa
em que o filho se reconcilia com a liberdade perdida. Liberdade que se transmuda e se revela nos sabores do arroz, do feijão e das misturas. Coisas que entravam
escondidas e que o carcereiro nunca viu.
A minha mãe, ao levar o almoço, libertava o meu irmão aos poucos, porque o amor é ainda a força motora de toda libertação. Por isso o seu gesto era salvífico.
Em cada marmita existia um pedaço-chave que o meu irmão recolhia e guardava no mais íntimo do seu coração. A chave da cela. A chave que o retiraria das grades,
das drogas e que lhe devolveria o direito de contemplar o Sol claro, que sempre brilha na cidade das areias brancas.
Coisas que pulsam no silêncio do coração de quem se sabe amado por alguém. Coisas de mãe, coisas de mulher, coisas de Deus, coisas de filho.
É a história da salvação, figurada por ações humanas.

Final de ano
Na vida, temos de enfrentar muitas coisas tristes. Uma delas são as festas de final de ano. Amigo oculto então, nada pior! Aquelas falas decoradas, aqueles
elogios feitos por obrigação, tudo contribui para que o ambiente se torne pesado e enfadonho.
Geralmente esse evento é próprio da noite de Natal. É quase uma obrigação a ser cumprida. Amigo oculto no trabalho, no grupo de amigos, na faculdade, na escola,
na academia, no curso de inglês, no cursinho, na família e em outras repartições sociais que por ora omitimos.
Na família, a revelação acontece antes da ceia. Terminada a troca de presentes, todos os convivas se % dirigem ao redor da mesa, onde, solitário e assado,
um peru encerra de maneira drástica e cruel a sua atividade sobre a terra.
Alguém sob forte impulso emotivo faz uma longa declaração que serve como oração, desabafo, cobrança, previsão do novo ano e também como ensaio para uma carreira
política. Acredito que os políticos descobrem que o são na noite de Natal. Nesse momento eles fazem o teste, afinal, há sempre um espaço para um discursinho. E o
pobre do peru é quem paga o mico de ter de agüentar tudo isso calado e emoldurado por rodelas de pêssegos, que até então eram para ser servidas como sobremesa, mas
que na última hora viraram salada. Final de ano tudo pode. Até o doce vira salgado!
Quando termina o primeiro discurso, alguém sempre se lembra de valorizar a presença de alguma pessoa idosa. Esse também é um momento bastante valorizado. Todos
se voltam para o homenageado e tecem comentários tais como: "É verdade, nessa idade e tão forte ainda! Envelheceu com dignidade! Nem parece ter a idade que tem!".
O homenageado se enche de graça e também dá o seu recado com voz emocionada: "Vocês não sabem o que eu já passei na vida!". E diante da ameaça de ter de ouvir
o relato de uma vida toda, alguém interfere veementemente:" Mas hoje é dia de alegria, mamãe! Alguém poderia puxar um canto?".
Geralmente, alguém se dispõe a entoar: "Noite feliz., noite feliz!".
É que sempre tem um membro da família metido a cantor, e esse é o seu momento.
Algumas vozes sobressaem desafinadas; o cantor olha torto, mas em vão. É que os desafinados cantam com olhos fechados e por isso não percebem a repreensão.
Alguém no meio do caminho erra a letra e insiste em continuar, misturando a segunda estrofe com a terceira, até que outra pessoa lhe dá um cutucão para que pare
de atrapalhar. A essa altura, o cantor já está visivelmente exaltado e isso certamente definirá os primeiros quinze minutos do jantar. Ele só vai falar disso!
Terminada a canção, a comida será servida. Normalmente tem um porco assado inteiro, com uma maçã na boca e rodeado de farofa. É aí que o peru se sente mais
aliviado, afinal, o valentão suíno acabou o curso de sua vida deitadinho numa bandeja e mordendo uma maçã argentina, que geralmente é paraguaia.
Alguém organizará as crianças, orientando-as que a mesa é lugar para os adultos. Contrariadas, algumas delas farão um certo barulho de protesto e outras se
recusarão a comer, mas logo se ajeitarão todas num mesmo lugar, onde qualquer forma de comunicação verbal se tornará impraticável, em virtude da poluição sonora
que elas provocarão.
A ceia dura em torno de duas a três horas, mas parece que dura trinta. Ao final, todos estão acabados, completamente exauridos de suas forças, apesar de bem
alimentados. Alguém tem de tomar a iniciativa para ir embora, mas o que perpassa na cabeça de todos é que fica chato sair muito cedo, afinal, é Natal, noite de confraternização,
e a família está toda reunida. É pensando assim que todo mundo finge que não está com sono!
Mas a mousse de maracujá chegará como um tiro de misericórdia, que detonará com todos. Depois dela, todos se rendem.
A essa altura, a dona da casa já não pode equilibrar-se sozinha sobre o salto. Já estará escorada em alguma parede, pedindo arrimo. A pobrezinha parece que
levou uma surra! O marido que escapou já está na horizontal, caladinho para que ninguém perceba que ele arriou. Sempre tem um engraçadinho que entra falando alto
no quarto e puxando o lençol!
Terminado o combate, todos vão tomando coragem de uma decisão mais sensata: "É hora de ir embora!". Precisam de uma boa noite de sono.
As crianças aos poucos vão sendo removidas, totalmente desacordadas, e a frase que mais se escuta nessa hora é: "Alguém viu minha bolsa?". Uma interrogação
quase exclamativa e sem vigor, mas que já denota um certo mau humor por parte daquela que formula a pergunta.
Por fim, restará sobre a mesa a cabeça do porco, uma infinidade de pratos, copos e talheres sujos e um molho de chaves esquecido, que dentro de quinze minutos
se reencontrará com o seu proprietário, que, furioso, voltará para buscá-lo, enquanto a família adormecida o espera no carro.
Mas o balanço final é sempre positivo. O duro é que a família que sediou a festa vai ter de comer o que sobrou até acabar. E isso geralmente dura uma semana!
Mas não tem problema, no ano novo a família se reúne novamente para arrematar o que sobrou.

Visita
Deus esteve aqui.
Chegou quando o Sol ainda dormia
e me confidenciou algumas mudanças
na ordem da minha vida.
Sua beleza era tão intensa
que resolvi não discordar.
Sua voz suave fora tão convincente
que preferi ouvir sem interrompê-lo.
Depois, sentou-se à mesa da minha cozinha,
bebeu uma xícara de café,
elogiou o sabor e se foi,
quando eu ainda observava
o seu jeito de sorrir pra mim.

Sobre o poder de poetizar
O poeta tem o poder de restituir o coração humano de suas perdas.
Suas palavras caem diante dos meus olhos, penetram no meu entendimento e com elas me identifico.
Olho sua confissão e tenho consciência de que não fui eu quem disse, mas é como se fosse. Palavras que não foram ditas por mim, mas que são minhas, ditas por
outra boca.
Olho para elas e reconheço o meu sentir solitário, nunca antes partilhado e agora tão exposto ali, contado para todo mundo.
Quem levou a ele notícias minhas? Quem lhe revelou os meus segredos? Quem lhe falou de mim com tanta propriedade?
É que o poeta tem livre acesso ao sentimento do mundo. Entra quando quer e sai quando lhe convém. Transita entre nós, mas não pode ficar. Apenas passa, porque
não foi feito para o definitivo. Sua poesia o leva e não o permite estabelecer morada. Por isso é tão difícil acorrentá-lo. Ele fica sem estar, ele vai sem ir, ele
vem sem vir e fala sem dizer.
Apropria-se de outras existências e delas faz a matéria de sua poesia, o grão de seu verbo e a raiz dos seus pronomes. Somos o seu experimento, sua fala ainda
em estado de repouso. Somos seus livros ainda não escritos, seus discursos ainda não pronunciados, seus amores ainda não provados.
Olha-nos e disseca-nos. Depois nos descreve, nos revela e nos emociona. Com seu poder de palavra nos confunde e com seu poder de silêncio nos clareia e desperta.
Fica nas esquinas lendo as palavras dos corpos que passam, identificando a linguagem não conceituai dos olhares solitários e das bocas emudecidas. Possui os
códigos que dão acesso aos interiores inabitados da alma humana, onde a dor é apenas dor e a alegria é apenas alegria.
Sulca com propriedade os mais recônditos e obscuros espaços do olhar alheio. No exercício de sua arte milenar, retira da matéria bruta da vida o diamante até
então desconhecido. O poeta revela o óbvio com nuances de cores pouco tocadas. Sabe ver no muro o poema que há séculos estava ali, mas que ninguém havia visto antes.
Passa pelos mesmos lugares, anda pelas mesmas ruas, prova os mesmos odores, os mesmos sabores que os homens comuns, mas o faz de um jeito único e singular.
Anda nos mesmos bondes e trens, mas não volta para casa sem o registro de cada despedida, que, comovido, presenciou nas estações. O poeta tem o seu coração
ancorado no desassossego. Não sabe parar, não sabe não querer sofrer.
Anda pelas ruas da cidade recolhendo as falas não ditas, recolhendo as saudades não sofridas e depois volta para casa para chorar as dores que não são suas
e rir os risos que não são seus.
Esse ladrão existencial só descansa depois de dar à luz as palavras que compõem o poema. Poema que descreve de forma minuciosa as dores de um rosto que ele
nem sequer sabe o nome.

Alquimia
Amor amado, que no vão da caixa
te resguardas.
Como é belo contemplar-te assim,
tão cheio de poeira e esquecimento.
Resguardado em linhas de cartas,
és configurado de confissões e de palavras antigas,'
frutos afoitos que já estão quietos,
apodrecendo de tanta maturidade!
Já não possuis a ansiedade de tua mocidade.
O que tens é esta atmosfera de segredo
que se revela aos poucos.
Cada palavra que se levanta
deste papel empoeirado
é um osso que se junta aos outros
para recompor o corpo que já se foi do tempo.
O amor não morre, vira palavra.

Sobre os prados de Adélia
Adentro a letra leve de Adélia. Prado que parece montanha, onde as palavras se escondem preguiçosas e, ao mesmo tempo, tão cheias de viço.
Ouço seus poemas. Sua voz se faz intermediária entre suas palavras e o meu coração. Diferente de ler um poeta é ouvir um poeta. Na declamação existe uma sonoridade
que cura, acrescenta, complementa e fortalece a palavra escrita. A voz dá o tom de que a palavra necessita para verdadeiramente dizer e comunicar. É como se ela
assumisse a missão de ser Goel, advogada, defensora.
Desde muito cedo aprendi a amar os poetas, recebê-los em minha casa e tomar com eles um chá. Sempre foram grandes amigos, embora nunca tenha me encontrado
pessoalmente com eles. Mas eles estão aqui, no meu quarto, elegantemente posicionados na minha estante. Fernando Pessoa, Drummond de Andrade, Rubem Alves, Cecília
Meireles, Helena Kolody, Mário Quintana, Adélia Prado... e tantos outros que por ora me visitam e deixam comigo os manuscritos de suas almas.
Nos últimos tempos, minha maior companheira tem sido Adélia. Mulher fina, de natureza simples, ela tem se mostrado aos meus olhos como uma poderosa fonte de
conhecimento e de sensibilidade. Nela eu recolho o que me falta e descubro uma intuição religiosa que me ajuda a quebrar a densidade dos grandes teólogos, que obrigatoriamente
tenho de conhecer.
Adélia é leve e por isso a levo sempre. Nela, o cotidiano é teológico sem ser amargura. E sua experiência religiosa é delicada, estética. Deus é bonito e sedutor
na sua tradução. Suas palavras assim o revelam.
O seu cotidiano é a matéria-prima do seu poema. Ela entretém os meus dias com uma alegria não eufórica, mas contida e natural. Alegria que não dispersa nem
ilude, mas tempera na medida certa. Adélia tem sabor. E mesmo sendo eu um homem casto, sei que posso confessar que tenho por ela um amor esponsal, respeitoso e
fraterno.
Quando chego em casa, cansado da missão de existir, ela sempre tem uma palavra que alivia a minha existência e o meu cansaço.
Nas histórias de suas tias, comadres, amigas e vizinhas, ela me leva a conhecer o Sagrado e suas processões divinas. Coisas que Deus preferiu confiar aos poetas
e de preferência às mulheres. Processões são mais bem compreendidas pelos corações que puderam viver a experiência de gerar alguém.
Adélia é realidade geradora. É gente que tocou a vida com os cinco sentidos. É gente que não economizou o ato de viver e que, por isso, entende tanto de teologia.
A verdadeira teologia se dá no exagero da experiência.
Ela descobriu que Deus mora fora da definição fria e racional e que ele habita "na terceira margem do rio", como um dia declarou Guimarães Rosa.
Mas Adélia não tem pretensões de mudar o mundo. Quer apenas continuar no direito de ser cotidiana e de recolher, pelas ruas de Dívinópolis, o material poético
para a sua arte.
A mim, basta saber que ela existe e que misteriosamente tem visitado a minha casa.

123

Ao "gauche" de Andrade
Nem tem nome na boca se resume,
mas se amplia na consumação
de um mistério imenso,
colorido de azul, cor de poesia,
cheirando a golpe, calúnia, inspiração.
O sorriso nascido do medo, colorido
de cores tão frias,
em teu rosto se vestiu de timidez
- verso cantado pelas retinas dos teus olhos,
puramente inocentes, tão providos
de malícia e náusea.
Mas não terias em tuas mãos
a poesia rebuscada
se não sulcasses afoito, ou com calma, não sei,
o cotidiano do povo, os agoras e os porquês.
Foi preciso morrer e não te escondeste.
Foi preciso chorar, não sei dizer.
A condição poética se apodera e ensina,
educa quem não se cansa.
Sm tua fala a indagação reside, evoca,
proclama o sentido profuso de palavras
confusas, tão bem elaboradas.
Há quem chora sobre tua resposta.
Há quem cante sobre tuas perguntas.
Ademais estamos calados,
num gesto estreito e de significado profundo,
oculto, abscôndito,
próprio de quem não se cansa
de admirar tua sepultura
e nela descobrir o teu último poema
- o derradeiro comunicado.
Não sei se aceitaste morrer na morte.
Algo me diz que foste esquerdo até o fim,
e que afio seguiste o conselho do anjo torto,
desses que vivem na sombra, e que disse:
Vai Carlos, vai ser gauche na vida!"

Que se cumpre aos poucos
Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Feito tarde que se despede da luz, assim, num processo de anoitecer, morrendo tarde, nascendo noite,
vida mudando de roupa, cobrindo-se de crepúsculo e estrelas.
Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Forma serena de morrer vivendo, confundindo os verbos e seus tempos, assim, feito poema que se sacramenta
na pele antes de se tornar palavra, alquimia que só os sofridos podem realizar.
Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Simetria tecida com sabor de prosa, amorosa conjugação do tempo, em que o menino se consola de suas
saudades, numa eterna e terna teia de palavras.
Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Amor amado que no calado coração adormeceu, virou ventura de ser silêncio em meio ao pó, feito criado
que ao lado da cama espera chegar o dia em que deixará de ser mudo.
Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Adornado encalço que em meio a flores denuncia o crime, passagem noturna de um poeta errante, embriagado
de palavras tontas, turvas rotas do sentimento humano.
Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Esse existir sentido, cotidiano, sem feriados, acomodando-se em calendários, em que a história resolveu
ser números, antes de ser passado.
Desprende-se de mim esse gesto que se cumpre aos poucos. Esse poema de adeus que a Deus pertence, essa reunião de palavras que ao céu reclama, essa agonia
literária que descreve o gozo do poeta de ser gesto e palavra ao mesmo tempo.
Desprende-se de mim esse verbo que se cumpre aos poucos. Esse gesto que realizo aos poucos, de chegar o meu poema ao fim.

Fábio de Melo é padre da Congregação do Sagrado Coração de Jesus. É licenciado em Filosofia e Teologia, pós-graduado em Educação e atualmente é mestrando em Teologia
sistemática pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus (CES), em Belo Horizonte (MG), onde reside. Há alguns anos vem se dedicando ao trabalho de evangelização
pela arte. Cantor e compositor, autor de grandes sucessos da música religiosa, Fábio tem se mostrado um tradutor dos sentimentos humanos à luz da revelação de Deus
na história.

"Deus está na surpresa e no inesperado.
Quando menos imaginamos,
sua presença se irrompe
nos lugares cotidianos mais inusitados.
Hoje mesmo pude vê-lo
no quintal da minha casa. Chegou de mansinho,
colheu algumas jabuticabas,
deu comida aos passarinhos
e depois se foi, rindo e pulando
sobre as margaridas para não machuca-las.
Deus é igual a um menino:
alegra-se com pouca coisa!"

É com esta forma simples de ver a vida, que Fábio de Melo nos convida a lançar os olhos sobre o cotidiano, e nele descobrir a surpreendente presença de Deus.
Com sua narração fortemente marcada pela poesia, ele nos conta histórias de todos nós.
Histórias que nos fazem rir, chorar, pensar e depois, como ele, extasiados dizer: "Deus esteve aqui!".

Paulinas


Repassando:
1 arquivo anexado:

TEMPO, SAUDADES E ESQUECIMENTOS - FÁBIO DE MELO.txt





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