segunda-feira, 10 de outubro de 2011 By: Fred

<> livros-loureiro <> Lançamento Arcanjo Micael - Heresia - S. J. Parris


HERESIA

S. J. Parris

Arqueiro
2010


Prólogo

Mosteiro de San Domênico
Maggiore, Nápoles
1576

A PORTA EXTERNA FOI ESCANCARADA com um estrondo que
ecoou pelo corredor, e as tábuas do piso vibraram com a
marcha decidida de vários pés. Dentro do cubículo, eu me
empoleirava na beira de um banco de madeira, com o
cuidado de não me sentar muito perto do buraco que se abria
sobre a fossa abaixo. Com a súbita corrente de ar gerada pela
entrada dos homens, minha vela bruxuleou e criou sombras
oscilantes, que aumentavam e encolhiam nas paredes de
pedra. Allora, pensei, erguendo os olhos. Finalmente vieram
me pegar.
Os passos se detiveram do lado de fora e foram substituídos
pelo martelar furioso de um punho e pela voz rouca do
abade, forçada além de seu costumeiro tom tranquilo e
diplomático.
- Fra Giordano! Ordeno que saia neste instante, segurando
bem à mostra o que quer que tenha nas mãos!
Ouvi um risinho de zombaria de um dos monges que o
acompanhavam, imediatamente seguido por um severo
estalar de língua do abade, Fra Domênico Vita. Apesar do
momento, não pude deixar de sorrir. Frei Vita era um
homem que, no curso normal dos acontecimentos, dava a
impressão de que considerava todas as funções fisiológicas
bastante ofensivas. Ter que ir atrás de um de seus monges
num local tão deplorável, portanto, devia estar lhe causando
uma aflição nunca sentida antes.
- Um momento, padre, por favor - respondi, desamarrando o
hábito para dar a impressão de que estivera usando a latrina
para fazer minhas necessidades. Olhei para o livro em minha
mão. Por um instante, pensei em escondê-lo em algum lugar
sob a batina, mas isso seria inútil: eles me revistariam assim
que eu abrisse a porta.
- Nem mais um momento, irmão - disse frei Vita, deixando
uma serena ameaça se insinuar em sua voz. - O senhor
passou mais de duas horas na latrina esta noite. Creio que
isso é tempo suficiente.
- Foi alguma coisa que eu comi, padre - retruquei. Com
profunda tristeza, joguei o livro no buraco, simulando um
ruidoso acesso de tosse para encobrir o som provocado
quando ele caiu no depósito de dejetos mais abaixo. E era
uma edição tão boa!
Destranquei e abri a porta e vi o abade postado diante dela.
Suas feições pesadas quase vibravam por causa da raiva
reprimida, mais vívida ainda à luz das tochas carregadas
pelos quatro monges parados atrás dele, de olhos cravados
em mim, ao mesmo tempo estarrecidos e fascinados.
- Não se mexa, frei Giordano - disse Vita entre dentes,
sacudindo o dedo na frente do meu rosto, em advertência. -
É tarde demais para ocultações.
Entrou no cubículo, torcendo o nariz por causa do mau
cheiro, e levantou sua lamparina para verificar todos os
cantos, um após outro. Não encontrando nada, ele se virou
para os homens às suas costas:
- Revistem-no! - vociferou.
Meus confrades se entreolharam, consternados, e então Fra
Agostino de Montalcino, o malicioso frade toscano, deu um
passo à frente, com um sorriso desagradável no rosto. Ele
jamais gostou de mim, porém sua antipatia se transformou
em franca animosidade depois que eu o superei
publicamente numa discussão sobre a heresia ariana, alguns
meses antes. À partir de então, ele passou a murmurar que
eu negava a divindade de Cristo. Não restava dúvida de que
tinha sido ele quem pusera frei Vita no meu encalço.
- Com licença, Fra Giordano - resmungou ele com um
risinho, antes de começar a me apalpar de cima a baixo,
primeiro passando as mãos em volta da minha cintura e
depois deslizando-as pelas minhas coxas.
- Procure não se divertir demais - murmurei.
- Só estou obedecendo ao meu superior - retrucou ele.
Quando terminou, se levantou e fitou frei Vita com visível
desapontamento: - Não há nada escondido no hábito dele,
padre.
Frei Vita chegou mais perto e me fuzilou com os olhos por
um instante, sem dizer nada. Seu rosto estava tão perto do
meu que eu podia contar os pelos espetados do seu nariz e
sentir o cheiro acre de cebola em seu hálito.
- O pecado do primeiro homem foi o desejo do
conhecimento proibido - disse ele, pronunciando
cuidadosamente cada palavra e passando a língua úmida
pelos lábios. - Ele achou que podia se igualar a Deus. E esse
também é o seu pecado, frei Giordano Bruno. Você é um
dos jovens mais talentosos que já encontrei em todos esses
anos em San Domênico Maggiore, mas sua curiosidade e o
orgulho que tem da sua inteligência o impedem de usar seus
dons para a glória da Igreja. Está na hora de ser interrogado
pelo padre inquisidor.
- Não, padre, por favor... Eu não fiz nada! - protestei,
enquanto ele se virava para ir embora, mas nesse exato
momento Montalcino o chamou, atrás de mim.
- Frei Vita! Há uma coisa aqui que o senhor precisa ver!
Ele estava iluminando a fossa da latrina com a tocha, e uma
expressão maléfica de prazer tomou conta de seu rosto
magro.
Vita empalideceu, mas se inclinou para ver o que o toscano
havia descoberto. Visivelmente satisfeito, se virou para mim:
- Frei Giordano, volte para sua cela e não saia de lá até
receber novas instruções. Isto exige a atenção imediata do
padre inquisidor. Frei Montalcino, apanhe aquele livro.
Agora saberemos quais são as heresias e a magia negra que
nosso irmão estuda aqui com uma dedicação que nunca o vi
manifestar pelas Escrituras Sagradas.
Montalcino olhou do abade para mim, horrorizado. Eu tinha
passado tanto tempo na latrina que me acostumara com o
mau cheiro, mas a ideia de enfiar a mão na cloaca embaixo
da tábua me revirou o estômago. Abri um sorriso largo para
o frei.
- Eu, senhor abade? - perguntou ele, levantando a voz.
- Você, irmão, e trate de ser rápido - confirmou frei Vita,
fechando mais o manto ao redor do corpo para se proteger
da friagem noturna.
- Posso lhe poupar esse trabalho - retruquei. - São apenas os
Comentários de Erasmo, que nada têm de magia negra.
- Os livros de Erasmo estão no índice de Livros Proibidos da
Inquisição, como você bem sabe, irmão Giordano - disse
Vita em tom severo, tornando a me fitar com aqueles olhos
sem emoção. - Mas veremos por nós mesmos. Você nos tem
feito de tolos há muito tempo. Está na hora de testar a
pureza de sua fé. Fra Battista! - chamou, dirigindo-se a outro
dos monges que seguravam as tochas, que se curvou, atento.
- Mande um recado ao padre inquisidor.
Nesse momento, eu poderia ter ficado de joelhos e
implorado clemência, mas não haveria dignidade nessa
súplica, e frei Vita era um homem que gostava do caráter
ordeiro que existia no processo legal. Se ele decidira que eu
deveria enfrentar o padre inquisidor, talvez como exemplo
para meus confrades, não desistiria até o fim - e eu temia
saber o que isso significava. Cobri a cabeça com o capuz e saí
atrás do abade e de seus acompanhantes, parando apenas
para dar uma última espiada em Montalcino, que arregaçava
a manga do hábito e se preparava para pescar meu Erasmo
perdido.
- Olhando pelo lado positivo, irmão, você tem sorte -
comentei, com uma piscadela de despedida. - As minhas
fezes têm mesmo um cheiro mais doce que as dos outros.
Ele ergueu os olhos, a boca retorcida de amargura ou nojo:
- Vamos ver se você ainda terá senso de humor quando lhe
enfiarem um atiça- dor em brasa no rabo, Bruno - disse ele,
sem o menor vestígio de caridade cristã.
Do lado de fora, no claustro, o ar noturno de Nápoles estava
frio, e vi minha respiração formar nuvens à minha volta,
dando graças por estar longe dos confins da latrina. Por
todos os lados, as enormes paredes de pedra dos prédios do
mosteiro se erguiam ao meu redor, tragando o pátio em suas
sombras. A grande fachada da basílica se destacou à minha
esquerda, quando me dirigi com passos pesados para o
dormitório dos monges e ergui a cabeça para ver as estrelas
espalhadas no céu. Seguindo a teoria de Aristóteles, a Igreja
ensinava que as estrelas eram fixas, presas na oitava esfera
além da Terra, e que eram todas equidistantes e se
deslocavam juntas em órbita em torno de nosso planeta,
assim como o Sol e os sete planetas em suas respectivas
esferas. Por outro lado, havia aqueles que, como o polonês
Copérnico, ousavam imaginar o Universo diferente: o Sol no
centro e a Terra se movendo em sua própria órbita. Além
desse ponto ninguém tinha se aventurado, nem mesmo na
imaginação - exceto eu, Giordano Bruno. E essa teoria
secreta, mais ousada do que qualquer outra que alguém já
houvesse se atrevido a formular, era conhecida apenas por
mim: a de que o Universo não tinha um centro fixo, mas era
infinito, e que cada uma das estrelas que eu via brilhar nesse
momento no negro veludo do céu era seu próprio sol,
cercado por inúmeros mundos - nos quais, naquele exato
instante, seres iguais a mim talvez também estivessem
observando o firmamento e se perguntando se existiria algo
além dos limites de seu saber.
Um dia eu escreveria tudo isso num livro que seria a obra da
minha vida, um livro que causaria tantos calafrios na
cristandade quanto o De revolutionibus orbium coelestium,
de Copérnico, só que ainda mais intensos - uma obra que
poria fim a todas as certezas, não apenas as da Igreja Católica
Romana, mas as de toda a religião cristã. Só que ainda havia
muito mais coisas que eu precisava compreender, inúmeros
livros que ainda teria de ler, obras de astrologia e de magia
antiga, todos proibidos pela Ordem Dominicana e os quais eu
jamais conseguiria obter na biblioteca de San Domênico
Maggiore. Se fosse levado a julgamento pela Santa Inquisição
romana, eu sabia que todas essas informações me seriam
arrancadas com um ferro em brasa, no suplício do potro -
um instrumento de tortura em forma de cavalo - ou na roda,
até eu confessar minha hipótese ainda mal formulada, e
então seria condenado à fogueira por heresia. Eu tinha 28
anos e não queria morrer. Não me restava alternativa senão
fugir.
Passava pouco das completas, a última das sete horas
canónicas, e os frades de San Domênico se preparavam para
se recolher ao repouso noturno. Irrompendo na cela que
dividia com Fra Paolo de Rimini, arrastando a friagem da
noite em meu cabelo e no hábito, corri freneticamente pelo
cômodo minúsculo, juntando meus poucos pertences num
saco impermeável. Quando escancarei a porta, Paolo estava
deitado em contemplação em seu catre. Nesse momento,
ergueu o corpo, apoiado num dos cotovelos, e ficou
observando minha agitação, apreensivo. Tínhamos
ingressado juntos no mosteiro aos 15 anos, como noviços.
Agora, 13 anos depois, ele era o único em quem eu pensava
como um irmão no sentido verdadeiro.
- Eles mandaram chamar o padre inquisidor - expliquei,
fazendo uma pausa para respirar. - Não há tempo a perder.
- Você faltou às completas mais uma vez. Eu o avisei, Bruno
- disse Paolo, balançando a cabeça. - Se alguém passa tantas
horas na latrina, todas as noites, as pessoas desconfiam. Frei
Tomasso anda dizendo a todo mundo que você tem uma
doença terrível nos intestinos... Eu falei que Montalcino não
demoraria muito a descobrir o que você estava fazendo e
alertar o abade.
- Era só Erasmo, pelo amor de Deus! - retruquei, irritado. -
Tenho que ir embora hoje, Paolo, antes de ser interrogado.
Você viu minha capa?
O rosto de Paolo subitamente assumiu uma expressão grave.
- Bruno, você sabe que um dominicano não pode abandonar
a ordem, sob pena de excomunhão. Se você fugir, eles
entenderão isso como uma confissão e vão expedir um
mandado de prisão. Você será condenado como herege.
- E se eu ficar, serei condenado como herege. Doerá menos
se eu não estiver aqui.
- Mas para onde você vai? Como irá viver?
Meu amigo parecia angustiado. Interrompi minha busca e
pus uma das mãos em seu ombro.
- Viajarei à noite. Vou cantar e dançar ou mendigar pelo pão,
se for preciso, e quando estiver longe o bastante de Nápoles
darei aulas para ganhar a vida. Eu me tornei doutor em
teologia no ano passado, e há muitas universidades na Itália...
Procurei parecer animado, mas na verdade meu coração
palpitava e meus intestinos se remexiam. Era meio irônico
que justo nessa hora eu não pudesse chegar nem perto da
latrina.
- Você jamais estará seguro na Itália se a Inquisição o
considerar herege - disse Paolo, tristonho. - Eles não
descansarão enquanto não o levarem à fogueira.
- Nesse caso, preciso partir antes que tenham essa
oportunidade. Talvez eu vá para a França.
Eu me virei para procurar a capa. Então surgiu na minha
memória, clara como no dia em que fora originalmente vista,
a imagem de um homem sendo consumido pelo fogo, a
cabeça virada para trás em agonia, na vã tentativa de desviar
o rosto do calor das chamas que destruíam sua roupa com
voracidade. Nos anos seguintes, me lembrei muitas vezes
desse gesto humano e inútil - aquele movimento para
proteger o rosto do fogo, embora a cabeça estivesse amarrada
numa estaca - e, desde então, eu evitara o espetáculo de
outra morte na fogueira. Na época, eu tinha 12 anos e meu
pai, soldado por profissão e homem de fé ortodoxa e sincera,
me levara a Roma para assistir a uma execução pública, a fim
de me instruir e oferecer orientação moral. Conseguíramos
um lugar de onde se tinha boa visão no Campo dei Fiori,
mais para o fundo da multidão, que se acotovelava. Eu me
admirara ao ver quantas pessoas tinham se reunido para tirar
proveito do acontecimento, como se fosse um ataque de
cães contra ursos amarrados ou uma feira popular:
vendedores de panfletos, frades pedindo esmolas, homens e
mulheres vendendo pães, bolos ou peixe frito em bandejas
penduradas no pescoço. Eu também não havia esperado a
crueldade do povo, que insultou o prisioneiro, cuspiu e
jogou pedras nele enquanto era levado em silêncio até a
estaca, de cabeça baixa. Fiquei imaginando se o silêncio dele
seria de derrota ou dignidade, mas meu pai explicou que
tinham cravado um prego em sua língua, para que ele não
pudesse tentar converter os espectadores, repetindo na pira
suas heresias imundas.
O homem foi amarrado à estaca e feixes de gravetos foram
empilhados à sua volta, tantos que quase o ocultaram.
Quando uma tocha foi encostada na madeira, houve uma
crepitação intensa e os gravetos se acenderam de imediato,
inflamando-se com um brilho feroz. Meu pai balançou a
cabeça em sinal de aprovação. Às vezes, explicou, quando as
autoridades demonstravam clemência, usavam madeira ainda
verde na pira, de modo que o prisioneiro sufocava com a
fumaça antes de chegar a sofrer o aguilhão das chamas. No
entanto, para os piores tipos de hereges - bruxas, feiticeiros,
blasfemos, luteranos, benandanti -, faziam questão de que os
gravetos estivessem secos como as encostas do monte Cicala
no verão, para que o calor das chamas dilacerasse o
criminoso até ele gritar o nome de Deus em seu último
suspiro, com verdadeiro arrependimento.
Tive vontade de desviar os olhos quando as labaredas se
precipitaram para devorar o rosto do homem, mas meu pai
estava solidamente plantado junto a mim, com o olhar fixo,
como se observar a agonia do infeliz fosse uma parte
essencial do seu próprio dever para com Deus, e eu não
queria parecer menos másculo nem menos devoto que ele.
Ouvi os gritos horríveis que escaparam da boca retorcida do
condenado quando seus globos oculares saltaram. Ouvi o
chiado e os estalidos de sua pele ao encolher e se soltar, e os
da polpa sangrenta por baixo dela, ao se derreter nas chamas,
e senti o cheiro da carne carbonizada, que me trouxe uma
terrível lembrança do javali que era sempre assado sobre um
poço nas festas de rua em Nola. Aliás, os vivas e a alegria da
multidão, quando o herege enfim expirou, não poderiam ser
mais parecidos com os de um dia santo ou um feriado
público. No caminho de volta para casa, perguntei a meu pai
por que o homem precisara ter uma morte tão horrenda.
Será que ele tinha matado alguém? Meu pai respondeu que
ele era herege. Quando insisti para que me explicasse o que
isso significava, ele disse que o criminoso tinha desafiado a
autoridade do papa ao negar a existência do purgatório. E foi
assim que aprendi que, na Itália, as palavras e as ideias são
consideradas tão perigosas quanto as espadas e as flechas, e
que o filósofo ou o cientista precisa de tanta coragem quanto
o soldado para dizer o que pensa.
Em algum lugar do prédio do dormitório, ouvi uma porta
bater com violência.
- Eles estão vindo - cochichei freneticamente para Paolo. -
Onde diabo está o meu manto?
- Tome - disse ele, entregando-me o seu, e parou por um
instante para ajeitá- -lo sobre meus ombros. - E leve isto -
acrescentou, pondo em minha mão um pequeno punhal de
cabo de osso numa bainha de couro. Eu o fitei, surpreso. -
Foi presente de meu pai - murmurou ele. - Você precisará
mais disso do que eu, para onde quer que vá. E agora,
sbrigati. Ande logo.
A janela estreita de nossa cela só permitia que eu me
espremesse até chegar ao parapeito externo, passando uma
perna de cada vez. Estávamos no primeiro andar do prédio, e
era possível aterrissar no telhado da latrina coletiva dos
irmãos leigos, uns oito palmos abaixo, desde que eu
calculasse cuidadosamente a queda. Dali eu poderia deslizar
até o chão e, se conseguisse atravessar o jardim sem ser
visto, pular o muro externo do mosteiro e desaparecer nas
ruas de Nápoles, protegido pela escuridão.
Enfiei o punhal dentro do hábito, joguei o saco impermeável
por cima de um dos ombros e subi no parapeito, parando a
fim de olhar para fora. Pálida e inchada, uma lua quase cheia
pairava sobre a cidade, com nuvens esfumaçadas deslizando
à sua frente. No exterior havia apenas silêncio. Por um
instante, me senti suspenso entre duas vidas. Fazia 13 anos
que eu era monge. No entanto, quando levantasse a perna
esquerda e a passasse pela janela para enfim cair no telhado
abaixo, eu estaria renunciando a essa vida para sempre. Paolo
tinha razão: eu seria excomungado por abandonar minha
ordem, quaisquer que fossem as outras acusações contra
mim. Ele ergueu o rosto para me fitar, com uma expressão
cheia de tristeza, e me estendeu a mão. Eu me inclinei para
beijar os nós de seus dedos e nesse momento tornei a ouvir
o som de muitas passadas enfáticas trovejando pelo corredor.
- Dio sia con te - sussurrou Paolo, enquanto eu me
esgueirava pela janelinha e contorcia o corpo até ficar
pendurado pelas pontas dos dedos, rasgando o hábito ao
fazer isso. Em seguida, confiando em Deus e na sorte, me
soltei. Ao cair desajeitado sobre o telhado, ouvi o ruído da
janela se fechando e torci para que Paolo tivesse conseguido
fazer isso a tempo.
O luar foi uma bênção e uma maldição. Eu me mantive junto
às sombras da parede ao atravessar o jardim por trás dos
aposentos dos monges e, com a ajuda de trepadeiras
silvestres, consegui escalar e saltar o muro do lado oposto, a
fronteira do mosteiro, e lá me deixei cair no chão e rolar por
um pequeno declive até a rua. No mesmo instante, tive que
me atirar na sombra de uma porta e acreditar que a escuridão
poderia me esconder, porque um homem num cavalo negro
vinha galopando com urgência pela rua estreita, em direção
ao mosteiro, a capa ondulando às suas costas. Só então, ao
levantar a cabeça, com o sangue pulsando na garganta, e
reconhecer a aba redonda do seu chapéu, enquanto ele
desaparecia morro acima rumo ao portão principal, foi que
entendi que a figura que tinha acabado de passar era o padre
inquisidor local, convocado para me interrogar.
Naquela noite, quando não pude mais andar, dormi numa
vala nos arredores de Nápoles, já que a capa de Paolo era
uma proteção precária contra a noite gelada. No segundo dia,
consegui uma cama para pernoitar e meia broa, trabalhando
na estrebaria de uma estalagem de beira de estrada. Nessa
mesma noite, fui agredido por um homem durante o sono e
acordei enquanto ele me quebrava algumas costelas,
arrebentava meu nariz e roubava meu pão. Mas pelo menos
ele tinha usado os punhos e não uma faca, como logo
percebi ser comum entre os vagabundos e os viajantes que
frequentavam as estalagens e tabernas da estrada que leva a
Roma. No terceiro dia eu estava aprendendo a ser vigilante e
percorrera mais da metade do caminho até a cidade. Já sentia
saudade da rotina familiar da vida monástica, que por tanto
tempo havia regido meus dias, mas também me emocionava
com a ideia de liberdade. Eu não tinha mais senhor algum, a
não ser minha própria imaginação. Em Roma, estaria
entrando na cova do leão, mas gostava da ousadia dessa
aposta com a divina Providência: ou eu recomeçaria minha
vida como um homem livre, ou a Inquisição me encontraria
e me atiraria às chamas. Só que eu faria tudo o que estivesse
a meu alcance para garantir que a segunda hipótese não se
consumasse. Eu não temia morrer por minhas convicções,
contanto que já houvesse determinado por quais delas valia a
pena morrer.

Londres
Inglaterra
Maio de 1583

Capítulo 1

MONTANDO UM CAVALO que me fora emprestado pelo
embaixador francês na corte da rainha Elizabeth da
Inglaterra, atravessei a Ponte de Londres na manhã de 20 de
maio de 1583. O sol já estava forte, embora ainda não fosse
nem meio-dia. Diamantes de luz se dispersavam pela
superfície ondulada do Tâmisa e uma brisa cálida afastou
meu cabelo do rosto, trazendo o fedor de esgoto do rio. Meu
coração se encheu de expectativa quando cheguei à margem
sul e virei à direita, acompanhando o curso fluvial em
direção a Winchester House, onde eu me encontraria com a
comitiva real para embarcar em nossa viagem à renomada
Universidade de Oxford.
O palácio dos bispos de Winchester era feito de tijolos
vermelhos e se erguia em torno de um pátio no estilo inglês.
O telhado da construção, decorado por rebuscadas chaminés,
ficava acima do grande salão, com suas fileiras de janelas altas
que se abriam para o rio. Na frente delas, um gramado descia
até um grande cais e desembarcadouro, onde vi um
espetáculo pitoresco de pessoas apinhadas na relva. Sob o sol
da primavera, metade da sociedade londrina parecia ter ido
assistir ao desfile. Trechos de melodias eram levados pelo ar
enquanto os músicos ensaiavam. Junto aos degraus, criados
preparavam um grande barco, enfeitado com ricos
cortinados de seda e almofadas de tapeçaria vermelha e
dourada. Na proa havia assentos para oito remadores e na
popa um toldo perfeitamente bordado protegia os bancos.
Desci do cavalo e um criado veio segurá-lo para que eu me
dirigisse à casa. Fui observado com desconfiança ao passar
por diversos cavalheiros bem-vestidos. De repente, senti um
punho me acertar entre as espáduas, quase me derrubando
no chão.
- Giordano Bruno, seu safado! Ainda não o mandaram para a
fogueira?
Recuperando o equilíbrio, me virei e vi Philip Sidney - o
aristocrático militar-poeta que eu havia conhecido em Pádua
durante minha fuga pela Itália. Ele sorria de orelha a orelha,
com os braços abertos, as pernas afastadas e bem plantadas
no chão e o cabelo ainda exibindo aquele topete singular,
espetado na frente, como o de um garoto arrancado às
pressas da cama.
- Primeiro eles teriam que me pegar, Philip - respondi,
abrindo um largo sorriso.
- Para você é Sir Philip, seu ignorante. Fui sagrado cavaleiro
este ano.
- Mas que coisa excelente! Isso significa que vai adquirir boas
maneiras?
Ele jogou os braços em volta de mim e tornou a me dar
vigorosos tapas nas costas. Era curiosa a nossa amizade,
pensei, recobrando o fôlego e retribuindo o abraço. Nossas
origens não poderiam ser mais diferentes - Sidney tinha
nascido numa das famílias mais proeminentes da corte
inglesa, como nunca se cansava de me lembrar -, mas em
Pádua descobrimos de imediato nosso talento para fazer um
ao outro rir, o que era uma raridade bem-vinda naquele lugar
sério e sombrio. Mesmo agora, depois de seis anos, não senti
o menor constrangimento perto dele e implicamos
afetuosamente um com o outro, como já era nosso velho
costume.
- Venha, Bruno - disse ele, passando o braço sobre meus
ombros e me conduzindo pelo gramado em direção ao rio. -
Nossa, é muito bom revê-lo! Esta visita real a Oxford seria
insuportável sem a sua companhia. Já ouviu falar do príncipe
polonês?
Fiz que não com a cabeça e Sidney revirou os olhos.
- Bem, você não tardará a conhecê-lo, o palatino Albert
Laski, um dignitário polonês com dinheiro de mais e
responsabilidade de menos. É por essa razão que ele passa
seu tempo sendo uma tremenda amolação nas cortes da
Europa. Deveria seguir daqui para Paris, mas o rei Henrique
se recusou a deixá-lo entrar na França, por isso Sua
Majestade está encarregada de entretê-lo por mais algum
tempo. Daí este desfile pomposo, para afastá-lo da corte. -
Sidney acenou em direção à balsa, depois deu uma rápida
olhada em volta, para ter certeza de que ninguém nos ouvia.
- Não censuro o rei francês por lhe recusar a visita. Esse
polonês é intragável! Mesmo assim, é uma proeza e tanto!
Consigo pensar em uma ou duas tabernas em que sou
proibido de entrar, mas ser barrado num país inteiro requer
do sujeito um talento especial para se tornar indesejado.
Talento que o Laski tem de sobra, como você verá. Mesmo
assim, nós dois vamos nos divertir em Oxford: você vai
deslumbrar os palermas de lá com as suas ideias e eu
esperarei ansiosamente para me deleitar na sua glória e lhe
mostrar meus velhos lugares favoritos - disse ele, tornando a
me esmurrar calorosamente no braço. - Mas esse, você sabe,
não é nosso único objetivo - acrescentou, baixando a voz.
Paramos lado a lado para contemplar o rio, agitado por
pequenas embarcações, chalanas e barquinhos a vela que se
entrecruzavam nas águas reluzentes sob o sol primaveril, que
iluminava também as fachadas das belas construções de
tijolos e madeira ao longo da margem oposta - um panorama
glorioso, com a grande torre da Catedral de São Paulo
aparecendo acima dos telhados, bem ao norte. Enquanto
esperava Sidney se estender sobre o assunto, pensei em
como Londres era magnífica nessa época e em como eu era
afortunado por estar ali, em tal companhia.
- Tenho uma coisa para você, mandada pelo meu futuro
sogro, Sir Francis Walsingham - murmurou ele, ainda
fitando o rio. - Veja só o que me rendeu ser sagrado
cavaleiro, Bruno: um emprego como seu moleque de
recados - acrescentou, bem-humorado. Ele enrijeceu o
corpo e olhou em volta, protegendo os olhos com a mão ao
detê-los no ancoradouro em que estava nossa barca, antes de
pegar a sacola impermeável que carregava e tirar dela uma
bolsa de couro recheada. - Walsingham lhe mandou isto, um
adiantamento da sua remuneração. É possível que você
tenha algumas despesas no decorrer das suas investigações.
Sir Francis Walsingham. O principal ministro da rainha
Elizabeth, o homem por trás da minha improvável presença
nessa visita real a Oxford. Só ouvir seu nome já me dava
calafrios.
Nós nos afastamos um pouco mais da multidão, reunida ali
para se maravilhar com a decoração da barcaça, que ia sendo
enfeitada com flores para a nossa partida. Ao lado dela, um
grupo de músicos começara a tocar uma melodia dançante, e
ficamos observando o público circular lentamente ao seu
redor.
- Agora me diga, Bruno, você não está de olho em Oxford
apenas para debater Copérnico com uma porção de
acadêmicos tacanhos - comentou Sidney, em voz baixa. -
Assim que eu soube que você viera para a Inglaterra, tive
certeza de que devia estar à procura de algo importante.
Dei uma rápida olhada em volta para me certificar de que
ninguém nos ouvia.
- Vim procurar um livro, um exemplar que eu buscava havia
algum tempo e que agora creio ter sido trazido para a
Inglaterra.
- Eu sabia! - exclamou ele, segurando meu braço e me
puxando mais para perto. - E o que há nesse livro? Alguma
arte obscura para libertar a força do Universo? Você andava
mexendo com essas coisas em Pádua, se bem me lembro.
Não saberia dizer se ele continuava a zombar de mim, mas
resolvi confiar no tipo de amizade que tínhamos na Itália.
- O que você diria, Philip, se eu lhe contasse que o Universo
é infinito?
Ele fez uma cara de dúvida.
- Diria que isso ultrapassa até mesmo a heresia copernicana e
que você deve falar baixo.
- Bem, é nisso que eu acredito - afirmei, baixinho. -
Copérnico só contou metade da verdade. A imagem que
Aristóteles criou do cosmos, com as estrelas fixas e os seis
planetas orbitando a Terra, é pura mentira. Copérnico
substituiu a Terra pelo Sol como centro do Universo, porém
eu vou mais longe: digo que existem muitos sóis, muitos
centros, tantos quantas são as estrelas no céu. O Universo é
infinito e, sendo assim, por que não seria povoado por outras
Terras, outros mundos e seres como nós? Decidi que o
trabalho da minha vida será provar essa teoria.
- E como é possível provar isso?
- Eu verei o fenômeno com meus próprios olhos - respondi,
fitando o rio, sem me atrever a observar a reação dele. -
Penetrarei nos confins do Universo, para além das esferas.
- E como exatamente pretende fazer isso? Vai aprender a
voar? - perguntou Sidney, o ceticismo já presente em sua
voz. Eu não podia censurá-lo.
- Por meio do conhecimento secreto contido no livro
perdido do sábio egípcio Hermes Trimegisto, o primeiro a
compreender esses mistérios. Se eu conseguir encontrá-lo,
aprenderei os segredos necessários para me elevar até
atravessar as esferas e penetrar na mente divina.
- Penetrar na mente de Deus, Bruno?
- Não. Escute: desde a última vez que nos vimos, estudei a
fundo a antiga magia dos escritos herméticos e a cabala dos
hebreus e comecei a compreender coisas que você não
acreditaria serem possíveis - disse e hesitei por um instante.
- Se eu puder aprender a fazer a ascensão descrita por
Hermes, terei um vislumbre do que está além do cosmos
conhecido: o Universo sem fim e a alma universal, da qual
todos fazemos parte.
Pensei que Sidney fosse rir nessa hora, mas, ao contrário, ele
ficou pensativo.
- Isso me parece uma feitiçaria perigosa, Bruno. E o que você
provaria? Que Deus não existe?
- Que todos somos Deus - respondi, baixinho. - A divindade
está em todos nós e na substância do Universo. Com os
conhecimentos certos, podemos atrair aqui para baixo todos
os poderes do cosmos. Quando entendermos isso, pode-
remos nos igualar a Deus.
Sidney me encarou, incrédulo.
- Pelo sangue de Cristo, Bruno! Você não pode sair por aí se
proclamando igual a Deus. Podemos não ter a Inquisição
aqui, mas nenhuma Igreja cristã aceitará isso com
serenidade. Você irá direto para a fogueira!
- Porque a Igreja cristã é corrupta em todas as suas facções, e
é isso que eu quero divulgar. Ela não passa de uma sombra
precária, o enfraquecimento de uma antiga verdade, que
existia muito antes de Cristo andar pela Terra. Se todos
compreendessem isso, seria possível uma verdadeira reforma
da religião. Os homens poderiam se elevar acima das divisões
pelas quais tanto sangue já foi, e continua a ser, derramado e
entender sua união essencial.
O rosto de Sidney assumiu uma expressão grave.
- Ouvi meu antigo preceptor, o Dr. Dee, falar dessa maneira.
Mas você deve tomar cuidado, meu amigo. Ele recolheu
muitos desses manuscritos de magia antiga durante a
destruição das bibliotecas monásticas e por isso é chamado
de feiticeiro e coisas piores, não apenas pelo povo. Ele
nasceu na Inglaterra e, ainda por cima, é astrólogo pessoal da
rainha. Não vá arranjar fama de bruxo. Você já é suspeito por
ser estrangeiro e católico. - Sidney deu um passo atrás e me
olhou com curiosidade. - E então, esse livro... você acredita
que irá encontrá-lo em Oxford?
- Quando eu estava morando em Paris, soube que ele foi
tirado de Florença no fim do século passado. Se meu
orientador me disse a verdade, foi trazido por um
colecionador inglês para uma das grandes bibliotecas daqui,
onde permanece ignorado, porque ninguém que o tenha
manuseado compreendeu sua importância. Muitos ingleses
que viajavam pela Itália eram acadêmicos universitários que
deixavam seus livros como herança, então Oxford é um lugar
tão bom quanto qualquer outro para eu iniciar minha busca.
- Você deveria começar perguntando a John Dee - disse
Sidney. - Ele tem a maior biblioteca do país.
Fiz que não com a cabeça.
- Se o seu Dr. Dee possuísse esse livro, saberia o que tinha
nas mãos e encontraria algum meio de anunciar essa
revelação. A obra ainda está por ser descoberta, tenho
certeza.
- Então, está bem. Mas não se esqueça dos assuntos de
Walsingham em Oxford - disse Sidney, dando mais um tapa
em minhas costas. - E, pelo amor de Deus, não vá se
esquecer de mim, Bruno, para sair fuçando as bibliotecas.
Espero que possamos nos divertir enquanto estivermos aqui.
Já é bem ruim eu ter que bancar a babá daquele polonês
flatulento, o tal de Laski, e não está nos meus planos passar
todas as noites com um bando de velhos teólogos
bolorentos. Você e eu vamos farrear pela cidade e deixar as
mulheres de Oxford com as pernas bambas!
- Pensei que você estivesse para se casar com a filha de
Walsingham - comentei, erguendo uma das sobrancelhas e
fingindo estar horrorizado.
Sidney revirou os olhos.
- Quando a rainha se dignar de nos dar o seu consentimento.
Até lá, não me considero comprometido com os votos
matrimoniais. E você, Bruno? Tem compensado os seus anos
de claustro nas andanças pela Europa? - indagou, me dando
uma cotovelada nas costelas.
Sorri, esfregando o local em que ele me atingira.
- Houve uma mulher há três anos, em Toulouse. Morgana,
que era filha de um nobre huguenote. Eu dava aulas
particulares de metafísica ao irmão dela, mas quando o pai
não estava em casa ela me pedia que lêssemos juntos. Tinha
sede de saber, uma qualidade rara nas mulheres nascidas na
riqueza, pelo que constatei.
- E era bonita? - perguntou Sidney, com os olhos brilhando.
- Lindíssima - respondi, mordendo o lábio ao recordar os
olhos azuis de Morgana e seu jeito de tentar me fazer rir
quando me achava melancólico demais. - Eu a cortejei em
segredo, mas acho que sempre soube que seria apenas algo
temporário. O pai queria que ela se casasse com um
aristocrata huguenote, não com um católico italiano em fuga.
Mesmo quando me tornei professor de filosofia da
Universidade de Toulouse e finalmente tive recursos para
me sustentar, ele não permitiu que eu lhe fizesse a corte e
ameaçou usar toda a sua influência na cidade para destruir
meu nome.
- E o que aconteceu? - indagou Sidney, intrigado.
- Morgana me implorou que fugisse com ela - suspirei, -
Quase me convenceu, mas no fundo eu sabia que aquele não
seria o futuro que nenhum de nós desejava. Então, uma
noite fui embora para Paris, onde investi toda a minha
energia em escrever e em progredir na corte. Mas penso
muitas vezes na vida da qual abri mão e me pergunto onde
eu estaria agora... - Minha voz foi desaparecendo e tornei a
baixar os olhos, relembrando tudo o que tinha acontecido.
- Nesse caso, nós não o teríamos aqui, meu amigo. E depois,
a esta altura, ela provavelmente está casada com algum
duque velhote - disse ele, em tom efusivo.
- Estaria - concordei -, se não houvesse morrido. O pai dela
lhe arranjou um casamento com um de seus amigos, mas
Morgana sofreu um acidente pouco antes da cerimônia. O
irmão dela me escreveu contando que ela se afogou.
- Acha que ela cometeu suicídio? - perguntou Sidney, com
os olhos dramaticamente arregalados.
- Nunca saberei.
Então me calei e fiquei contemplando a água.
- Bem, sinto muito por isso - disse ele depois de alguns
segundos, dando-me um tapinha nas costas com aquele jeito
pragmático dos ingleses. - Mas ainda assim... as mulheres da
corte do rei Henrique devem ter lhe proporcionado muitas
distrações, não é?
Eu o fitei por um instante, perguntando a mim mesmo se os
nobres ingleses realmente eram tão insensíveis quanto
aparentavam ou se haviam desenvolvido esse estilo como
uma forma de evitar as emoções dolorosas.
- Ah, sim, as mulheres de lá eram belas, com certeza, e no
começo ficavam contentes em oferecer suas atenções, mas a
conversa delas, infelizmente, não me despertava nenhum
interesse - respondi, forçando um sorriso. - E elas me
acharam lamentavelmente carente de fortuna e títulos para
qualquer relacionamento sério.
- Bem, aí é que está, Bruno: você estará fadado a se
decepcionar se a única coisa que lhe interessar nas mulheres
for a conversa delas - disse Sidney, balançando a cabeça por
um instante, como se a ideia fosse absurda. - Siga meu
conselho: aguce sua inteligência na companhia dos homens
e só recorra às mulheres em busca das conveniências mais
amenas da vida - acrescentou, dando uma piscadela e um
sorriso.
- Agora - prosseguiu - tenho que verificar o andamento das
coisas, ou nunca partiremos daqui. Além disso, hoje vamos
jantar no palácio de Windsor, de modo que precisamos
viajar numa boa velocidade. Dizem que vem uma tem-
pestade por aí. A rainha não estará presente, é claro -
acrescentou, ao notar minhas sobrancelhas erguidas. -
Receio que a responsabilidade de entreter o príncipe seja
somente nossa, Bruno, até chegarmos a Oxford. Prepare-se e
reze para essa sua alma universal, pedindo-lhe forças.

- Não gosto de me gabar, mas meus amigos de fato me
consideram uma espécie de poeta, Sir Philip - disse o
palatino Laski em sua voz aguda, que dava sempre a
impressão de que ele estava se queixando de algo, quando
nosso barco se aproximou de Hampton Court. - Estive
pensando que, se nos cansarmos dos debates na universidade
- nesse ponto, ele me lançou um olhar incisivo -, o senhor e
eu poderíamos dedicar parte de nossa estada em Oxford à
leitura da poesia um do outro e à troca de conselhos, de um
autor de sonetos para outro. O que lhe parece?
- Nesse caso, devemos incluir Bruno em nossa conversa -
disse Sidney, dirigindo-me um rápido sorriso conspiratório -,
porque, além de seus livros eruditos, ele escreveu um drama
cômico em versos para o palco, não foi, Bruno? Como é
mesmo o nome?
- Il Candelaio - resmunguei e tornei a me virar para
contemplar a paisagem. Eu havia dedicado a peça a Morgana
e sempre a associava a lembranças dela.
- Nunca ouvi falar - disse o palatino, em tom desdenhoso.
Antes mesmo que nosso grupo chegasse a Richmond,
constatei que concordava plenamente com meu protetor, o
rei Henrique III da França: o palatino Laski era insuportável.
Gordo e de cara vermelha, achava-se muito mais importante
do que de fato era e tinha um grande amor pela própria voz.
Apesar da roupa refinada e dos modos afetados, ficou claro
que ele não tinha grande familiaridade com a sala de banho
e, sob o sol quente, exalava um horrível mau cheiro, que, de
perto e misturado aos vapores das águas marrons do Tâmisa,
estava me desviando do que deveria ser uma viagem
divertida.
Partimos do cais da Winchester House com uma grande
fanfarra de clarins.
Um barco repleto de músicos fora encarregado de seguir
junto do nosso, de modo que o interminável monólogo do
príncipe era acompanhado pelos trinados e chilreios dos
tocadores de flauta à nossa direita. Para piorar meu
desconforto, as flores com que a barcaça fora tão
generosamente enfeitada me faziam espirrar. Ao deslizarmos
em um ritmo majestoso pela cidade, afundei nas almofadas
de seda, tentando me concentrar no movimento
compassado dos remos, enquanto barcos menores abriam
caminho de ambos os lados e seus ocupantes, reconhecendo
a barcaça real, tiravam respeitosamente o chapéu e
observavam nossa passagem. Concentrando-me somente na
paisagem, eu quase havia conseguido reduzir a tagarelice do
palatino a um zumbido de fundo e me contentaria em
desfrutar o cenário verde e arborizado das margens, à
medida que a cidade ficava para trás, mas Sidney, decidido a
se divertir, atormentava o polonês e queria minha
colaboração.
- Veja, lá está o grandioso palácio de Hampton Court, que
um dia pertenceu ao cardeal Wolsey, o favorito do pai de
nossa rainha - disse ele, com um gesto majestoso para a
margem, ao nos aproximarmos das imponentes paredes de
tijolos vermelhos. - Não que ele tenha desfrutado do local
por muito tempo... Assim é o capricho dos príncipes. Mas a
rainha parece ter você em grande estima, Laski, a julgar
pelos cuidados que tomou com sua visita.
O palatino deu um sorriso afetado.
- Bem, não cabe a mim dizer isso, é claro - disse mas penso
ser de conhecimento da corte inglesa, a esta altura, que ao
palatino Laski é concedido o melhor da hospitalidade de Sua
Majestade.
- E, agora que ela não pretende aceitar o duque de Anjou, me
pergunto se nós, seus súditos, poderíamos começar a
especular sobre uma aliança com a Polônia - continuou
Sidney, maliciosamente.
O polonês uniu as pontas dos dedos gorduchos, como se
numa prece, e contraiu os lábios úmidos, os olhinhos de
leitão brilhando de presunçosa satisfação.
- Não compete a mim dizer essas coisas, mas ao longo de
minha estada na corte notei que a rainha de fato me
concedeu, digamos, certas atenções especiais. Naturalmente,
ela é recatada, mas creio que homens experientes como o
senhor e eu, Sir Philip, que não estivemos trancados num
claustro, sempre sabemos quando uma mulher nos olha com
desejo, não é?
Soltei um arquejo de incredulidade nessa hora e tive que
disfarçá-lo com um ataque de espirros. Os menestréis
concluíram outra canção popular, insuportavelmente alegre,
e passaram a uma melodia mais melancólica, o que me
permitiu resvalar para um silêncio introspectivo, enquanto
passávamos pelos campos e bosques e o rio se tornava mais
estreito e menos fétido. As nuvens se acumulavam no céu,
espelhadas na água à nossa frente, e o calor começou a se
adensar em minhas narinas. Sidney parecia estar certo a
respeito da tempestade que se aproximava.
- De qualquer modo, Sir Philip, tomei a liberdade de compor
um soneto para louvar a beleza da rainha - anunciou o
palatino, após algum tempo - e pergunto se poderia recitá-lo
para o senhor antes de oferecê-lo aos delicados ouvidos da
soberana. Eu acolheria de bom grado os conselhos de um
colega poeta.
- Seria muito melhor se você o submetesse a Bruno - disse
Sidney, com ar displicente, deslizando a mão pela água. - Os
compatriotas dele inventaram esse gênero. Não é mesmo,
Bruno?
Lancei a ele um olhar impiedoso e deixei meus pensamentos
vagarem para o horizonte, enquanto o palatino iniciava seu
monótono recital.

Se, durante aqueles dias em que eu mendigara de cidade em
cidade por toda a península italiana - trabalhando como
professor aqui e ali, quando conseguia, e me hospedando em
albergues e pensões baratas de beira de estrada, quando não
conseguia -, alguém tivesse dito que eu acabaria sendo
confidente de reis e cortesãos, essa pessoa seria considerada
louca. Mas não por mim: sempre acreditei em minha
capacidade não apenas de sobreviver, mas também de
progredir por meu próprio esforço. Eu valorizava mais a
inteligência do que os privilégios de berço, mais a mente
investigadora e a sede de saber do que a posição social ou o
cargo, e alimentava a implacável convicção de que os outros
acabariam vendo que eu estava certo. Essa atitude me dava a
disposição de superar obstáculos que desanimariam homens
mais resignados. E foi assim que, aos 35 anos, me elevei da
condição de professor itinerante e herege fugitivo à posição
mais importante com a qual um filósofo poderia sonhar: eu
era um dos favoritos na corte do rei Henrique III, em Paris,
seu mentor particular na arte de desenvolver a memória e
professor adjunto de filosofia no grandioso Collège de
Sorbonne. Mas a França também estava dividida por guerras
religiosas, assim como todos os lugares por onde eu havia
passado em meus sete anos de exílio de Nápoles, e a facção
católica em Paris, dominada pela família Guise, vinha
ganhando cada vez mais força contra os huguenotes, tanto
que corriam boatos de que a Inquisição estava a caminho
daquele país. Ao mesmo tempo, minha amizade com o rei e
a popularidade de minhas aulas haviam me atraído inimigos
entre os sábios doutores da Sorbonne, e começaram a
circular pelas vielas e a chegar aos ouvidos dos cortesãos
certos rumores maldosos de que meu singular sistema
mnemónico era uma forma de magia negra e de que eu o
usava para me comunicar com demônios. Entendi isso como
a deixa para continuar minha fuga, a exemplo do que já
fizera em Veneza, Pádua, Gênova, Lyon, Toulouse e
Genebra, em todas as ocasiões em que meu passado
ameaçara me alcançar. Como muitos fugitivos religiosos
antes de mim, fui buscar refúgio sob os céus mais tolerantes
da Londres elisabetana, em que o Santo Ofício não tinha
jurisdição e onde eu também esperava encontrar o livro
perdido do sumo sacerdote egípcio Hermes Trimegisto.

A barcaça régia atracou no fim da tarde em Windsor, onde
fomos recebidos por criados uniformizados e conduzidos à
nossas acomodações no castelo real, para jantar e fazer nosso
repouso noturno, antes de seguirmos para Oxford logo cedo
na manhã seguinte. Serviram-nos uma refeição discreta, em
parte, talvez, porque o céu havia escurecido muito quando
chegamos aos apartamentos de Estado, o que exigiu que as
velas fossem acesas desde cedo, e porque uma chuva forte
começou a cair. Ao terminarmos a refeição, a água deslizava
pelas janelas altas do salão de jantar como uma cascata
ininterrupta.
- Se o temporal continuar, amanhã não haverá barca -
observou Sidney, enquanto os criados retiravam os pratos. -
Teremos de fazer o restante do percurso pela estrada, se for
possível arranjar cavalos.
O palatino pareceu contrariado. Ficou claro que ele havia
gostado da indolência da barcaça.
- Não sou cavaleiro - queixou-se. - Precisaremos pelo menos
de uma carruagem. Ou talvez possamos esperar aqui até o
tempo melhorar - sugeriu, em tom mais animado,
recostando-se na cadeira e olhando com expressão cobiçosa
para o rico mobiliário do salão de jantar do palácio.
- Não temos tempo - retrucou Sidney. - O debate será depois
de amanhã e nosso orador precisa de tempo suficiente para
preparar seus argumentos incontestáveis, não é mesmo,
Bruno?
Desviei a atenção das janelas para lhe esboçar um sorriso.
- Na verdade, eu estava prestes a pedir licença, justamente
para essa finalidade.
Sidney fez uma expressão desolada:
- Ah... você não vai ficar um pouco mais e jogar cartas
conosco? - perguntou, com um toque alarmado na voz
diante da perspectiva de ser deixado sozinho com o palatino
pelo resto da noite.
- Receio ter que mergulhar nos livros esta noite - confirmei,
afastando a cadeira caso contrário, não será um debate digno
de ser ouvido.
- Assisti a poucos que foram - comentou o palatino. - Não
importa, Sir Philip, o senhor e eu teremos uma noite
esplêndida. Talvez possamos até ler um para o outro, não?
Pedirei mais vinho.
Quando passei por ele, Sidney me lançou o olhar suplicante
dos afogados, mas lhe dei apenas uma piscadela e fechei a
porta ao sair. Ali o diplomata profissional era ele, que fora
criado para lidar com pessoas daquele tipo. Um enorme
trovão ecoou enquanto eu subia uma escadaria com pinturas
suntuosas, a caminho de meu quarto.
Durante um bom tempo, não consultei meus papéis nem
tentei pôr as ideias em ordem. Apenas permaneci deitado na
cama, com a mente tão agitada quanto o céu turbulento, que
ganhara um sinistro matiz de verde, à medida que os raios e
trovões iam ficando mais próximos e mais frequentes. A
chuva martelava as vidraças e as telhas da cobertura, e me
intriguei com a sensação de inquietude que havia afastado
aos poucos minha agitação matinal de expectativa. Meu
futuro na Inglaterra, para não falar no futuro do meu
trabalho, dependeria imensamente do desfecho dessa viagem
a Oxford, mas eu estava tomado por um estranho mau
presságio. Em todos aqueles anos instáveis, sem fazer parte
de lugar algum, sem depender de nada além do meu instinto
de sobrevivência, eu aprendera a prestar atenção a minhas
alterações de ânimo. Nas ocasiões em que minha intuição
alertara para o perigo, em geral os acontecimentos haviam
provado que eu estava certo. Mas talvez fosse apenas o fato
de que, mais uma vez, eu me preparava para assumir uma
outra forma, para me transformar em mais alguém que eu
não era.

Fazia menos de uma semana que eu estava em Londres,
como hóspede do embaixador francês a pedido do meu
protetor, o rei Henrique - que, com relutância, concordara
com meu pedido de sair de Paris por prazo indefinido -,
quando recebi uma convocação de Sir Francis Walsingham,
o principal ministro de Estado da rainha Elizabeth. Não era o
tipo de convite que se pudesse declinar, porém a forma
como foi entregue não me deu qualquer pista de como um
estadista de tamanha importância soubera da minha chegada
nem do que ele iria querer de mim. No dia seguinte, me
dirigi à sua residência majestosa, na próspera Seething Lane,
perto da Torre de Londres e a leste do centro financeiro da
cidade. Ao chegar lá, fui conduzido por um mordomo de ar
irritado até um belo jardim, onde buxos plantados em
desenhos geométricos deram lugar a relvados mais silvestres.
Adiante deles havia um aglomerado de árvores frutíferas
baixas, em plena floração, formando uma abóbada magnífica
de branco e cor-de-rosa. Em meio a elas, contemplando seus
galhos retorcidos, notei uma figura alta, toda vestida de
preto.
A um aceno da cabeça do mordomo, caminhei em direção
ao homem sob as árvores, que se virara de frente para mim,
ou assim supus, já que o sol do fim da tarde se punha bem
atrás dele, recortando sua silhueta, uma forma esguia e negra
contra a luz dourada. Eu não tinha como avaliar sua
expressão, então parei a alguns passos de distância e fiz uma
grande reverência, de um modo que torci para que fosse
adequado.
- Giordano Bruno de Nola, a serviço de Vossa Excelência.
- Buona sera, Signor Bruno, e benvenuto, benvenuto - disse
ele num tom caloroso, avançando com a mão direita
estendida para apertar a minha, à maneira dos ingleses. Seu
italiano tinha apenas um leve toque dos tons entrecortados
de sua língua natal e, quando ele se aproximou, pude ver seu
rosto com clareza pela primeira vez. Era um rosto tristonho,
que se tornava ainda mais severo por causa do barrete preto
justo que ele usava sobre o cabelo já ralo. Calculei que teria
uns 50 anos. Seus olhos eram iluminados por uma
inteligência aguda, que parecia deixar claro, sem qualquer
palavra, que ele não suportava pessoas estúpidas. No entanto,
seu rosto também exibia os traços de um enorme cansaço -
ele parecia ser um homem que carregava um imenso fardo e
dormia pouco.
- Há duas semanas, Dr. Bruno, recebi uma carta de nosso
embaixador em Paris, me informando da sua chegada
iminente a Londres - começou ele, sem nenhum preâmbulo.
- O senhor é uma figura renomada na corte francesa. No
entanto, nosso embaixador diz que não pode recomendar
sua religião. O que lhe parece que ele quer dizer com isso?
- Talvez ele se refira ao fato de que um dia fiz parte de uma
ordem sacra, ou ao fato de que não faço mais - respondi, sem
me alterar.
- Ou talvez ele queira dizer algo totalmente diferente -
retrucou Walsingham, me fitando, cauteloso. - Mas logo
falaremos disso. Primeiro, me diga: o que sabe a meu
respeito, Filippo Bruno?
Nesse momento, virei a cabeça para encará-lo, apanhado no
contrapé, como ele devia ter pretendido que ocorresse. Eu
abandonara meu nome de batismo - Filippo - ao ingressar no
mosteiro de San Domênico Maggiore, assumindo meu nome
monástico de Giordano, embora eu o houvesse retomado
por um breve período enquanto estivera em fuga. Que
Walsingham se dirigisse a mim por ele, nesse momento, era
claramente um pequeno truque para me mostrar o alcance
de seus conhecimentos, e ficou evidente que ele gostara do
efeito obtido. Mas eu me recuperei e disse:
- Sei o bastante para perceber que só um tolo tentaria
esconder alguma coisa de um homem que nunca me viu,
mas me chama pelo nome que meus pais me deram, um
nome que não usei nos últimos 20 anos.
Walsingham sorriu:
- Nesse caso, sabe tudo o que importa neste momento. E sei
que o senhor não é tolo. Imprudente, talvez, mas não tolo.
Agora, devo lhe dizer tudo o que sei a seu respeito, Dr.
Giordano Bruno de Nola?
- Por favor... desde que eu tenha permissão de separar para
Vossa Excelência a verdade desonrosa do boato meramente
vulgar.
- Pois muito bem - disse ele, com um sorriso indulgente. - O
senhor nasceu em Nola, perto de Nápoles, filho de um
soldado, e ingressou no mosteiro de San Domênico
Maggiore com pouco mais de 12 anos. Abandonou a ordem
cerca de 13 anos depois e passou outros três fugindo pela
Itália, perseguido pela Inquisição por suspeita de heresia.
Mais tarde, lecionou em Genebra e na França, antes de atrair
a proteção do rei Henrique III, em Paris. O senhor ensina a
arte da memória, que muitos consideram uma espécie de
magia, e é um defensor apaixonado da teoria copernicana de
que a Terra gira em torno do Sol, apesar de essa ideia ter sido
declarada herética tanto por Roma quanto pelos luteranos.
Ele me olhou, em busca de confirmação, e assenti com a
cabeça, intrigado.
- Vossa Excelência tem um grande conhecimento.
Walsingham sorriu.
- Não há mistério nisso, Bruno. Quando se deteve por um
breve período em Pádua, você fez amizade com um cortesão
inglês chamado Philip Sidney, não foi? Bem, em breve ele se
casará com minha filha, Frances.
- Vossa Excelência não poderia ter encontrado genro mais
digno, tenho certeza. Anseio muito por revê-lo - afirmei e
falava sério.
Walsingham balançou a cabeça.
- A título de curiosidade... por que abandonou o mosteiro?
- Fui apanhado lendo Erasmo na latrina.
Ele me encarou por um instante, depois jogou a cabeça para
trás e soltou uma gargalhada, um som grave e sonoro, como
o que produziria um urso, se soubesse rir.
- E eu tinha outros livros relacionados no Index de obras
proibidas do Santo Ofício. Eles pretendiam que eu fosse
interrogado pelo padre inquisidor, mas fugi. É por isso que
fui excomungado.
Cruzei as mãos às costas, enquanto caminhávamos,
pensando em como parecia estranho eu estar revivendo
aqueles dias nesse verdejante jardim inglês.
Walsingham me olhou com uma expressão impenetrável e,
em seguida, sacudiu a cabeça, como se estivesse perplexo.
- Você me intriga bastante, Bruno. Fugiu da Itália perseguido
pela Inquisição romana, por ser suspeito de heresia, mas
também foi detido e julgado pelos calvinistas de Genebra por
suas crenças, não é verdade?
Inclinei a cabeça, assentindo parcialmente:
- O que aconteceu em Genebra foi um mal-entendido. A
mim pareceu que os calvinistas haviam apenas trocado um
conjunto de dogmas cegos por outro.
Ele tornou a me olhar com uma espécie de admiração e riu,
balançando a cabeça:
- Jamais conheci outro homem que houvesse conseguido se
fazer acusar de heresia pelo papa e pelos calvinistas. É um
feito singular, Dr. Bruno! E faz com que eu me pergunte...
qual é a sua religião?
Houve uma pausa cheia de expectativa durante a qual ele me
fitou com ar encorajador.
- Vossa Excelência sabe que não sou amigo de Roma. Posso
assegurar que sou fiel em tudo a Sua Majestade, e muito me
alegraria lhe oferecer qualquer serviço que me seja possível,
enquanto eu estiver sob a soberania dela.
- Sim, sim, Bruno, eu lhe agradeço, mas isso não responde a
minha pergunta. Eu perguntei qual é a sua religião. No fundo
do coração, você é papista ou protestante?
Hesitei.
- Vossa Excelência já assinalou que os dois lados me julgaram
falho.
- Está me dizendo que não é uma coisa nem outra? É ateu,
então?
- Antes de responder a isso, posso saber quais seriam as
consequências de minha resposta?
Nesse momento, ele sorriu:
- Isto não é um interrogatório, Bruno. Quero apenas
compreender a sua filosofia. Fale comigo com franqueza e eu
também serei franco com você. É por isso que estamos
caminhando aqui, entre as árvores, onde não poderão nos
ouvir.
- Nesse caso, asseguro a Vossa Excelência que não sou o que
comumente se pretende dizer com a palavra "ateu" -
declarei, na esperança de não estar condenando a mim
mesmo. - Na França e aqui, na embaixada daquele país,
chamo a mim mesmo de católico, porque é mais simples não
criar problemas. Na verdade, porém, não penso em mim
como católico nem protestante, termos que me parecem
restritos demais. Eu creio numa verdade maior.
Ele ergueu uma das sobrancelhas:
- Uma verdade maior do que a fé cristã?
- Uma verdade antiga, da qual a fé cristã é uma interpretação
posterior. Uma verdade que, se fosse adequadamente
compreendida em nossa era nebulosa, poderia esclarecer os
homens, em vez de perpetuar essas divisões sangrentas.
Um profundo silêncio caiu sobre nós. O sol já estava baixo e,
à sombra das árvores, o ar esfriava. Com a aproximação do
crepúsculo, o canto dos pássaros se tornou mais insistente e
Walsingham continuou a caminhar na grama, os ombros de
sua sobreveste preta salpicados de pétalas dos botões brancos
que caíam dos galhos, flutuando no ar.
- Hoje a fé e a política são uma coisa só - disse ele. - Talvez
sempre tenha sido assim, mas é algo que parece haver
atingido novos extremos em nosso século conturbado, não
acha? A religião de um homem me diz onde está sua
lealdade política, muito mais do que sua terra natal ou sua
língua. Neste reino há muitos ingleses destemidos que têm
mais amor a Roma do que você, Bruno, ou do que eles
nutrem por sua própria rainha. No fim, porém, a fé não é
meramente política. Acima de tudo, existe a questão da
consciência particular do homem e de como ele se colocará
diante de Deus. Fiz coisas em nome de Deus que terei de
justificar perante Ele no Juízo Final.
Walsingham se virou e me fitou com uma expressão de
tristeza. Quando voltou a falar, foi em voz baixa e sem
expressão:
- Observei, imóvel, enquanto o coração pulsante de um
homem era retirado de seu corpo vivo, por ordem minha.
Interroguei homens friamente, enquanto seus membros
eram arrancados de suas articulações durante uma sessão de
tortura, e só o barulho daquilo já basta para fazer o estômago
vir à boca. Eu mesmo cheguei até a girar as rodas quando os
segredos passíveis de brotar da boca de um homem, ao ter os
membros estirados, eram penosos demais para os ouvidos
dos torturadores profissionais. Vi o corpo humano, feito à
imagem e semelhança de Deus, ser forçado até os limites
derradeiros da dor. E impus todos esses horrores e outros
mais a meus semelhantes por acreditar que, assim, prevenia
um derramamento de sangue ainda maior.
Ele passou a mão pela testa e recomeçou a andar.
- Nossa nação é jovem na nova religião e, na França e na
Espanha, há muitos que, com o apoio de Roma, desejam
matar Sua Majestade e substituí-la por aquela cadela do
diabo, Maria da Escócia - disse e balançou a cabeça. - Não
sou um homem cruel, Bruno. Infligir sofrimento não me dá
prazer algum, ao contrário do que acontece com alguns de
meus carrascos - afirmou, estremecendo, e acreditei no que
dizia. - Tampouco sou a Inquisição. Não me imagino
responsável pela alma imortal do ser humano. Deixo isso a
cargo dos que foram ordenados para essa tarefa. Faço o que
faço simplesmente para garantir a segurança deste reino e da
rainha. E melhor estripar um padre diante da multidão, em
Tyburn, do que deixá-lo livre para converter 20 pessoas,
que, com o tempo, poderiam se juntar a outras e se rebelar
contra ela.
Curvei a cabeça, registrando sua fala. Ele não parecia esperar
um debate. Sob a árvore maior e mais antiga do pomar fora
construído um banco circular, encaixado ao redor do tronco.
Walsingham fez sinal para que eu me sentasse a seu lado.
- Você é um homem que conhece, em primeira mão, as
perseguições que Roma impõe a seus inimigos. Se Maria da
Escócia conseguisse chegar ao trono, as ruas da Inglaterra se
inundariam de sangue. Você me entende, Bruno? No
entanto, essas conspirações para alçá-la ao trono são como as
cabeças da Hidra: corta-se uma e surgem outras 10 em seu
lugar. Executamos aquele jesuíta insurgente, Edmund
Campion, em 1581, e agora há padres missionários zarpando
para a Inglaterra às dezenas, inspirados no seu exemplo de
martírio - disse ele, balançando a cabeça.
- Não invejo a tarefa de Vossa Excelência.
- Foi a tarefa que Deus me deu, e devo zelar pelos que me
ajudam nela - retrucou Walsingham, com simplicidade. - Me
diga, Bruno, o rei francês provê suas necessidades, afora suas
acomodações na embaixada?
- Ele me apóia mais com sua boa opinião do que com
dinheiro. Eu tinha esperança de complementar meu
pequeno ordenado lecionando um pouco. Por essa razão,
planejei visitar a famosa Universidade de Oxford, para ver se
lá eles teriam alguma forma de me aproveitar.
- Oxford? E mesmo? - disse ele, com um lampejo de interesse
nos olhos. - Ora, esse é um lugar atolado no lamaçal do
papismo. As autoridades universitárias fingem que estão
extirpando os que ainda praticam a antiga fé, mas, na
verdade, metade dos acadêmicos mais antigos é composta de
papistas secretos. O conde de Leicester, que é o presidente
da universidade, faz intermináveis visitas de inspeção e
ordena a instauração de inquéritos, mas todos fogem como
aranhas para baixo das pedras, tão logo o conde acende uma
luz sobre eles. E então, quando viramos as costas, eles
continuam a encher a cabeça dos rapazes da Inglaterra com
sua idolatria, justamente os rapazes que vão escolher o
direito e a Igreja, assim como a vida pública. Nada menos
que nossos futuros governo e clero sendo secretamente
orientados para Roma, bem embaixo de nosso nariz. Sua
Majestade está furiosa, e eu disse a Leicester que essa questão
precisa ser tratada com mais vigor.
Walsingham comprimiu os lábios, como se sugerisse que as
coisas não seriam tão frouxas se ele estivesse no comando.
- Aquele lugar se tornou um santuário para os que negociam
livros subversivos, e quase todos esses padres missionários
que saem dos seminários franceses são homens de Oxford,
você sabe - afirmou e, depois de um instante, moderou o
tom. - Sim, você deve ir a Oxford. Na verdade, terei prazer
em recomendá-lo, se quiser fazer uma visita. Há muitas
coisas interessantes que poderia ver.
Ele fez uma pausa, como se contemplasse uma ideia, e então
seus pensamentos pareceram se voltar rapidamente para
outra questão:
- Quando você me disse que gostaria de servir a Sua
Majestade do modo que ela julgasse conveniente utilizá-lo,
foi um oferecimento sincero?
- Eu não faria tal oferecimento de brincadeira, Excelência.
- Sua Majestade tem recursos no Tesouro para os que
quiserem se empregar sob minha autoridade, para ajudar a
protegê-la, e o reino dela, dos inimigos. E a rainha também
lhe mostraria sua gratidão por outros meios... Sei como o pa-
trocínio e as nomeações podem ser importantes para vocês,
escritores. Eis o que seria o maior serviço que você poderia
lhe prestar, Bruno. Morando na embaixada francesa, você há
de se inteirar de inúmeras conversas sigilosas, e qualquer
coisa que ouça a respeito de conspirações contra Sua
Majestade ou seu governo, qualquer coisa que diga respeito à
rainha escocesa e a seus conspiradores franceses - nesse
momento, Walsingham abriu inteiramente os braços -,
cartas que você possa vislumbrar, qualquer coisa que lhe
pareça ser de nosso interesse, por menor que seja, tudo isso
seria de grande valor para nós.
O ministro me olhou, levantando as sobrancelhas numa
indagação.
Hesitei.
- Fico lisonjeado por Vossa Excelência demonstrar tamanha
confiança...
- Você tem escrúpulos, é claro - interrompeu ele,
impaciente. - E eu pensaria mal de qualquer homem que não
os tivesse. Estou lhe pedindo que exiba uma imagem falsa a
seus anfitriões, e o homem honesto deve refletir antes de
assumir um papel desses. Mas lembre-se, Bruno, toda vez
que sentir o terrível conflito entre a consciência moral e o
dever, seu zelo deve sempre se voltar para o bem da maioria.
Os inocentes entre eles não terão nada a temer.
- Não é exatamente isso, Excelência.
- Então, o que é? - indagou ele, com ar intrigado. - Philip
Sidney me disse que você era tão inimigo de Roma que
ficaria feliz em se unir à luta contra os que gostariam de
trazer a Inquisição para estas paragens.
- Sou inimigo de Roma, Excelência, assim como me oponho
a todos os que pretendem dizer aos homens em que
acreditar, e que, mais tarde, os executam quando eles se
atrevem a questionar a mais ínfima parte disso.
Fiquei calado por um instante, enquanto ele me fitava, os
olhos estreitos.
- Aqui nós não castigamos os homens por suas convicções,
Bruno. Certa vez, Sua Majestade declarou com eloquência
que não desejava abrir janelas para a alma dos homens, e eu
também não desejo isso. Neste país, não é aquilo em que um
homem acredita que pode levá-lo à forca, e sim o que ele
possa fazer em nome de suas convicções.
- O que ele possa fazer ou o que se possa provar que ele fez?
- perguntei, em tom incisivo.
- Intenção é traição, Bruno - retrucou ele, impaciente. -
Propaganda é traição. Nos tempos atuais, até a distribuição de
livros proibidos é traição, porque quem age assim faz isso
com a intenção de converter aqueles em cujas mãos os livros
são colocados. E converter os súditos da rainha significa
exercer influência sobre a lealdade deles, deslocando-a da
soberana para o papa, de tal modo que, se uma força católica
viesse a nos invadir, eles ficariam do lado dos agressores.
Permanecemos em silêncio por um momento, e então ele
pôs uma das mãos em meu braço:
- Aqui na Inglaterra, Bruno, um homem de idéias
progressistas como você pode viver e escrever livremente,
sem medo de punições. Foi por isso, presumo, que você veio
para cá. Gostaria de ver a Inquisição voltar e ameaçar essa
liberdade?
- Não, Excelência, não gostaria.
- Nesse caso, concorda em servir a Sua Majestade dessa
maneira?
Fiz uma pausa e perguntei a mim mesmo de que modo
minha resposta alteraria o meu destino.
- Eu a servirei com o melhor da minha capacidade -
respondi.
Walsingham abriu um largo sorriso - captei o brilho de seus
dentes à luz do crepúsculo - e apertou minha mão entre as
suas, a pele seca e fina como papel.
- Fico extremamente feliz, Bruno. Sua Majestade
recompensará sua lealdade, quando ela for comprovada -
disse, seus olhos brilhando. Ao nosso redor, o jardim estava
quase na escuridão, embora algumas réstias de luz dourada
ainda roçassem as bordas das massas de nuvens violáceas por
trás das árvores, e o ar havia esfriado, enquanto as plantas
desprendiam doces fragrâncias na brisa noturna. - Venha,
vamos entrar. Que anfitrião terrível eu sou! Você nem
sequer tomou uma bebida!
Ele se levantou, com evidente rigidez na coluna e nos
quadris, e começou a caminhar pela grama.
Um criado acendera uma série de lanterninhas de ambos os
lados da trilha que cortava o jardim de desenhos formais, e
assim, ao nos aproximarmos da casa, nosso caminho foi
iluminado por duas fileiras de velas bruxuleantes. O efeito
era encantador e, ao respirar fundo a brisa noturna, tornei a
sentir uma sugestão de novas possibilidades, de um futuro
que eu poderia conquistar. Me pareceram muito distantes os
longos dias de viagem pelas montanhas do norte da Itália,
hospedado em albergues imundos de beira de estrada,
infestados de ratos, nos quais eu me obrigava a permanecer
acordado a noite inteira, com uma das mãos no punhal, por
medo de ser assassinado por causa das poucas moedas que
carregava. Eu estava ingressando no serviço secreto da
rainha da Inglaterra. Era mais uma das guinadas inesperadas
da minha vida, mas parte do grande mapa de minha estranha
jornada pelo mundo, pensei.
Walsingham parou por um momento, pouco antes das
lanternas, e se inclinou para mim:
- Vou providenciar para que você conheça meu assistente,
Thomas Phelippes - disse. - Ele organiza a logística: inventa
códigos, pontos de entrega de correspondência, essa parte
dos trabalhos. É o homem mais qualificado da Inglaterra para
decifrar códigos. Nem preciso dizer que você não deve
revelar uma palavra do nosso encontro a ninguém, exceto
Sidney - acrescentou, em voz baixa.
- Excelência, já fui padre um dia. Sei mentir tão bem quanto
qualquer um.
Ele sorriu.
- Confio nisso. Você não teria conseguido despistar a
Inquisição por tanto tempo sem ter algum talento para a
simulação.
E foi assim que me tornei parte do que depois vim a saber
ser uma vasta e complexa rede de informantes, que se
estendia das colônias do Novo Mundo, a oeste, até as terras
dos turcos, a leste, e todos regressávamos para Walsingham,
estendendo a ele nossas pequenas oferendas de
conhecimentos secretos, como a pomba que voltou para
Noé com o raminho de oliveira.

Uma trovoada repentina me arrancou das recordações e me
levou de volta ao quarto em que eu estava, sentado junto a
uma janela banhada de chuva, num palácio real, observando
um pátio iluminado pelos relâmpagos que iluminaram as
nuvens. Na Inglaterra, eu esperava levar uma vida sossegada
e escrever os livros que achava que abalariam os próprios
alicerces da Europa, mas eu era ambicioso e essa era a minha
maldição. Quando não se dispõe de recursos nem de posição
social, a ambição torna o indivíduo dependente da proteção
de homens mais poderosos - ou, nesse caso, mulheres. No
dia seguinte eu veria a majestosa cidade universitária de
Oxford, onde pretendia buscar duas pepitas de ouro: os
segredos que Walsingham queria dos católicos oxfordianos e
o livro que eu agora acreditava estar enterrado numa das
bibliotecas daquela instituição.

Capítulo 2

PARTIMOS PARA OXFORD AO RAIAR da manhã seguinte, em
cavalos que Sidney conseguira arranjar com o mordomo de
Windsor - belas montarias, com requintadas selas de veludo
carmesim e dourado, ornamentadas com acabamentos de
bronze que tilintavam alegremente ao cavalgarmos -, porém
sem dúvida éramos um grupo de feição mais grave do que
aquele que partira pelo rio na véspera, em meio à música e a
bandeirolas coloridas. A tempestade havia diminuído, mas a
chuva ainda caía, o calor evaporara do ar e o céu parecia
sucumbir sobre nós, cinzento e taciturno. Teria sido
impossível viajar pelo rio sem quase nos afogarmos. O
palatino estivera mais calado que o habitual durante o
desjejum e sentara-se pressionando as têmporas com os
dedos, emitindo um leve gemido de vez em quando - Sidney
me contou em segredo que isso era a punição por uma
noitada longa, regada a uma quantidade imensa de vinho do
Porto -, e o meu humor, assim, melhorou muito. Sidney
amanhecera alegre, pois seus lucros no carteado da véspera
tinham aumentado continuamente, em proporção direta à
embriaguez do palatino. No entanto, o mau tempo foi
minando nosso bom humor e passamos a primeira parte da
viagem em silêncio, rompido aqui e ali pelas observações
dele sobre as condições da estrada, ou pelos arrotos
insistentes do palatino.
De um lado e de outro, a densa paisagem verde permanecia
inalterada, enlameada sob a chuva, e o único som audível era
o baque surdo dos cascos no chão molhado. Sidney conduzia
seu cavalo ao lado do meu, à frente do grupo, e deixou o
palatino para trás, com a cabeça pendendo sobre o peito,
ladeado pelos dois criados pessoais que o serviam e cujas
montarias carregavam os enormes cestos com as roupas e os
ornamentos de Laski e Sidney. Eu levava apenas uma mala
de couro, com uns livros e um par de mudas de roupa, presa
a minha própria sela. Pelo meio da tarde, havíamos chegado
à floresta de Shotover, nos arredores de Oxford. A
manutenção da estrada era precária nos trechos em que ela
atravessava a floresta, e tivemos que diminuir o passo para
que os cavalos não tropeçassem nas poças e nos buracos.
- E então, Bruno - disse Sidney, mantendo a voz baixa,
quando estávamos fora do alcance dos ouvidos do palatino e
de seus criados me fale mais do seu livro, o que o trouxe de
Paris até aqui.
- Nos últimos 100 anos, muitos acreditaram que ele estava
perdido - respondi, baixinho -, porém nunca confiei nisso e
encontrei por toda a Europa livreiros e colecionadores que
narravam boatos e histórias parcialmente lembradas sobre
seu possível paradeiro. No entanto, só quando fui morar em
Paris é que descobri provas reais de que seria possível
encontrá-lo.
Contei a Sidney que em Paris, no círculo de expatriados
italianos que se reuniam na corte do rei Henrique, conheci
um cavalheiro florentino idoso, chamado Pietro, que se
gabava de ser sobrinho-bisneto do famoso livreiro e biógrafo
Vespasiano da Bisticci, que fazia livros para Cosimo de
Médici e era catalogador da biblioteca do Vaticano. Ao saber
do meu interesse por obras raras e esotéricas, Pietro me
contou uma história relatada por seu avô, sobrinho de
Vespasiano, que tinha sido aprendiz do tio no negócio de
manuscritos durante a década de 1460, nos últimos anos da
vida de Cosimo. Vespasiano auxiliara Cosimo na compilação
de sua magnífica biblioteca, fazendo mais de 200 livros
encomendados por ele e fornecendo textos clássicos aos
copistas. Dessa forma, o livreiro se tornara íntimo no círculo
dos Médici e, em particular, amigo de Marsilio Ficino, o
grande filósofo humanista e astrólogo que Cosimo nomeara
diretor de sua academia florentina, além de tradutor oficial
de Platão para os Médici. O avô de Pietro contou que, na
época em que era um jovem aprendiz, em certa manhã de
1493 - um ano antes de Cosimo morrer Ficino foi visitar
Vespasiano em sua loja, claramente agitado e agarrado a um
embrulho. Ficino já tinha começado a trabalhar nos
manuscritos platônicos quando recebeu do patrono a ordem
de abandoná-los e de voltar a atenção, com urgência, para os
escritos herméticos trazidos da Macedónia, três anos antes,
por um dos monges empregados por Cosimo para se
aventurarem além-mar à procura de livros da biblioteca de
Bizâncio. O que me resta especular é que talvez Cosimo
soubesse que estava morrendo e quisesse ler Hermes mais do
que Platão em seus últimos dias de vida. Seja como for, o que
soube é que Ficino, pálido e trêmulo, informou a Vespasiano
que tinha lido os 15 livros dos manuscritos herméticos e
sabia que não podia executar aquela tarefa. Traduziria os 14
primeiros para Cosimo, porém o último manuscrito, em suas
palavras, era por demais extraordinário, monumental, para
ser vertido para a língua de homens sedentos de poder, pois
revelava o maior segredo de Hermes Trimegisto - a sabedoria
perdida dos egípcios, um segredo que poderia destruir a
autoridade da Igreja cristã. Esse livro desvendaria o mistério
da mente divina: ensinaria os homens a se igualarem a Deus.
Ficino levara consigo para a loja esse manuscrito grego
devastador, cuidadosamente envolto num encerado. Lá,
entregara-o a Vespasiano, pedindo que o guardasse em
segurança até que os dois pudessem decidir o que fazer com
o livro. Enquanto isso, Ficino diria a Cosimo que o 15e livro
nunca fora trazido de Bizâncio com os manuscritos originais.
Os demais livros foram devidamente traduzidos. Após a
morte de Cosimo, no ano seguinte, Ficino e Vespasiano se
encontraram para discutir o destino do 15º livro. Vespasiano
viu nisso uma oportunidade de lucro e foi a favor de vendê-
lo a uma das ricas bibliotecas monásticas, onde estudiosos
experientes saberiam mantê-lo longe dos olhos de quem
pudesse interpretá-lo equivocadamente ou abusar dos
conhecimentos que ele continha. Ficino, por outro lado, que
começara a lamentar seus escrúpulos anteriores, perguntou
se afinal não seria melhor traduzir o livro, revelando todos
os seus segredos, em primeiro lugar, aos ilustres pensadores
da Academia de Florença, para melhor debater o impacto do
que era, de fato, a mais blasfema filosofia herética já
enunciada na Itália.
- E quem venceu? - perguntou Sidney, se esquecendo de
manter a voz baixa, com os olhos brilhando atrás do véu de
água da chuva que escorria de seu chapéu.
- Nenhum dos dois - respondi, curto e grosso. - Quando
foram buscar o manuscrito no arquivo, descobriram que o
livro fora vendido por engano, alguns meses antes, num lote
de outros manuscritos gregos encomendados por um
colecionador inglês.
- Quem? - indagou Sidney.
- Não sei. Nem Vespasiano soube - disse e baixei os olhos,
enquanto seguíamos num silêncio contemplativo.
Pietro contou que seu avô não soubera de outros detalhes,
apenas que um colecionador inglês, de passagem por
Florença, tinha levado o manuscrito, e que Vespasiano
jamais conseguiu encontrá-lo, apesar de o haver procurado
por meio de todos os seus contatos na Europa, até o fim de
sua longa vida. Eu dispunha de pouquíssimas informações.
Vários colecionadores ingleses viajaram pela Itália no século
passado, e não havia como saber se o homem que aciden-
talmente adquirira aquele livro o vendeu ou simplesmente o
deixou largado num canto de biblioteca, apanhando poeira,
sem se dar conta da sorte que lhe caíra nas mãos.
- Então, por que você acredita que ele está em Oxford? -
perguntou Sidney, depois de algum tempo.
- Por eliminação. Os colecionadores ingleses que viajavam
pela Europa no século passado deviam ser homens
instruídos, provavelmente ricos, e sei também que é
costume dos fidalgos ingleses deixarem livros de herança
para suas universidades, pois poucos podem arcar com o
custo de manter coleções privadas. Se o livro de Hermes
veio parar na Inglaterra, é bem possível que tenha sido
levado para Oxford ou Cambridge. Tudo o que posso fazer é
averiguar.
- E se você o encontrar...? - começou Sidney, mas foi
interrompido por seu cavalo, que de repente saiu de banda,
assustado, soltando um relincho agudo. Duas figuras tinham
surgido sem aviso prévio no meio da estrada. Paramos
bruscamente e por pouco o palatino e seus criados não se
chocaram conosco por trás. Então baixamos os olhos para
duas crianças esfarrapadas, uma menina de uns 10 anos e um
garoto menor, ambos descalços na lama. A face direita da
menina tinha uma mancha roxa. Ela estendeu a mãozinha,
com a palma para cima, e se dirigiu a Sidney com voz
suplicante, embora seu olhar fosse de pura insolência.
- Uma esmola, senhor, para dois pobres órfãos?
Sidney balançou a cabeça em silêncio, como que
entristecido com a situação do mundo, mas ao mesmo
tempo estendeu a mão para a bolsa presa ao cinto e já ia
tirando uma moeda para a menina quando um grito agudo
ecoou às nossas costas. Virei para trás bem a tempo de ver
um dos criados do palatino ser arrastado de seu cavalo por
um homem corpulento, que, com outros três, emergira em
silêncio das sombras das árvores de ambos os lados. O
palatino soltou um gritinho, mas recuperou o controle com
rapidez admirável, esporeou o cavalo para fazê-lo partir num
galope, passou entre Sidney e eu, nos acertando, e quase
atropelou as crianças, que se jogaram entre os arbustos
rasteiros bem a tempo de vê-lo desaparecer na curva da
estrada. Tirando do cinto o punhal que Paolo me dera, saltei
do cavalo e me atirei nas costas de um dos salteadores, que
balançava um grosso bordão de madeira diante do segundo
criado, para derrubá-lo da sela. Sidney demorou um instante
para reagir, depois apeou e desembainhou a espada, indo na
direção dos homens que tentavam cortar as correias que
prendiam os fardos aos cavalos.
O homem que eu havia atacado soltou um rugido e investiu
contra mim. Então agarrei seu braço e desviei o golpe, e com
isso o criado pôde instigar o cavalo a avançar e fugir do
perigo. Outro deles correu para mim com uma faca
rudimentar, que raspou em minha perna quando tentei
afastá-lo com um pontapé. Enfurecido, me agachei no chão
e o ataquei com o punhal. Um movimento captado pelo
canto do olho desviou minha atenção, e consegui girar o
corpo bem a tempo de ver o grandalhão levantar o porrete
para me acertar. Cravei a lâmina na parte carnuda inferior do
seu braço levantado e ele soltou um uivo de dor, deixando o
braço despencar, enquanto apertava o ferimento com a outra
mão. Aproveitei sua distração para cravar o punhal outra
vez, agora na mão que segurava o porrete, o qual caiu no
chão com um baque surdo. Eu me virei para enfrentar seu
amigo, que ainda apontava a faca enferrujada na minha
direção, porém não tão confiante. Gritando palavrões em
italiano, simulei uma investida contra ele, que, confuso,
escorregou num sulco da estrada e caiu, ainda erguendo a
faca para mim. Dei um forte pontapé na barriga do homem,
que gemia recurvando o corpo, depois montei em cima dele
e encostei o punhal em seu rosto.
- Largue a faca e trate de voltar para o lugar de onde veio,
antes que eu mude de ideia - ordenei num sibilo.
Sem dizer nada, ele se levantou aos tropeços, tornou a
escorregar, na pressa, e sumiu por entre as árvores, enquanto
um grito horripilante cortava o ar. Vi um dos homens com
quem Sidney lutava cair lentamente de joelhos, enquanto
meu amigo retirava a lâmina da lateral de seu tronco.
Horrorizado, o salteador que sobrara olhou por um
momento para o corpo do amigo, desabado na lama, e partiu
aos trancos e barrancos para os arbustos, tão depressa quanto
possível. Sidney limpou a espada no capim molhado à beira
da estrada e a embainhou, ofegante.
- Ele está morto?
Sidney deu uma olhada indiferente para trás.
- Ele vai sobreviver - respondeu, comprimindo os lábios. -
Mas vai pensar duas vezes antes de aplicar esse golpe
novamente. Esta estrada é conhecida pelos ataques de
bandidos, deveríamos ter vindo mais preparados. Você se
saiu bem, Bruno - acrescentou, me olhando com admiração.
- Nada mal para um homem de Deus.
- Não tenho certeza de que Deus ainda me considere assim.
Mas não passei três anos fugindo pela Itália sem aprender a
me defender - retruquei, limpando a lâmina de Paolo no
capim molhado, agradecendo em silêncio a meu velho
amigo por sua previdência. Não era a primeira vez que seu
punhal me salvava do perigo.
Sidney balançou a cabeça, pensativo.
- Agora me lembro... quando estávamos em Pádua, você
mencionou ter tido problemas por causa de uma briga em
Roma - comentou e me olhou com ar de expectativa, um
meio sorriso pairando nos lábios.
Não respondi de imediato, girando o punhal na mão
enquanto a chuva continuava a escorrer pelo meu pescoço,
penetrando pelo colarinho. Aquele tinha sido um dos
momentos mais sombrios do meu passado de fugitivo, que
eu preferia enterrar. Na Inglaterra, queria ser conhecido
como o eminente filósofo vindo da corte parisiense, não
como o homem que vivera na clandestinidade, perseguido
por toda a Itália por suspeita de heresia e assassinato.
- Em Roma, uma pessoa me delatou à Inquisição por
dinheiro. Mas eu já tinha fugido da cidade quando seu corpo
foi encontrado flutuando no Tibre - expliquei, baixinho.
Sidney deu um sorriso matreiro.
- E você o matou?
- Pelo que eu soube, o homem era um brigão notório. Eu sou
filósofo, Philip, não um assassino - respondi, embainhando o
punhal na cinta.
- Você não é um filósofo típico, Bruno, isso é certo. Bem,
descobrirei mais coisas sobre essa história depois. Agora,
acho que é melhor encontrarmos o polonês - disse, abafando
um suspiro.
O criado que eu salvara ainda estava montado, um pouco
adiante de nós, segurando com dificuldade as rédeas de
nossos dois cavalos, que batiam os cascos e bufavam,
revirando os olhos de susto. O outro criado levara uma
pancada feia na cabeça, na primeira investida dos salteadores,
e precisou de ajuda para subir de novo na sela, onde desabou
para a frente e se agarrou ao pescoço do animal, com o olhar
perdido. Por sorte, nós os havíamos afugentado antes que
eles cortassem as correias que amarravam os cestos aos
cavalos, mas um pendia precariamente da sela e teve de ser
reamarrado para que pudéssemos prosseguir. Achamos o
palatino encolhido embaixo de uma árvore, depois da
primeira curva. Sidney resmungou um pedido de desculpas
pela interrupção brutal, embora eu não conseguisse deixar de
pensar que era o polonês quem devia se desculpar pela
covardia.
Seguimos adiante, machucados e desgrenhados. Apesar de o
corte em minha coxa ser superficial, ardia quando o tecido
molhado de meus calções roçava nele. Fiquei mais
profundamente abalado pelo ataque do que deixei Sidney
perceber. Embora fosse verdade que minha agitada trajetória
de fugitivo havia me ensinado a manter o sangue-frio numa
luta, eu passara o ano anterior levando uma vida folgada na
corte do rei Henrique, e minhas reações me pareceram len-
tas e destreinadas. A água continuou a rolar implacavelmente
pelos meus olhos e pescoço e, mesmo ao chegarmos ao topo
do monte Shotover - que, segundo Sidney, deveria nos
proporcionar uma vista magnífica de Oxford a cortina de
chuva praticamente impedia a visão da cidade.
Descemos até a ponte que cruzava o rio junto ao Colégio
Santa Maria Madalena e vimos ali uma pequena aglomeração.
Ao nos aproximarmos, Sidney informou tratar-se de uma
delegação de dignitários da universidade e conselheiros
municipais, aguardando para nos recepcionar. Naquela
manhã um cavaleiro tinha partido de Windsor para avisar
aos que se preparavam para a visita do palatino que não
chegaríamos pelo rio. Porém eram tantos os trechos da
estrada que tinham ficado inundados que nosso avanço fora
lento, e o pobre grupo que iria nos receber parecia estar
esperando havia algum tempo, sob a chuva, que agora
pingava de seus chapéus de veludo e das mangas de suas
togas pretas e escarlate.
O reitor da universidade deu um passo à frente e se
apresentou, fazendo uma longa reverência e beijando
primeiro a mão repleta de anéis do palatino, depois a de
Sidney. Notei que seus olhos se arregalaram diante de nossa
aparência machucada e desgrenhada, mas ele teve a gentileza
de não mencionar o assunto. Explicou que os dois ficariam
hospedados no Christ Church College, o mais grandioso de
todos os colégios de Oxford, do qual a própria rainha se
encarregava especialmente. Sidney se formara lá, portanto
era natural que retornasse ao local. Eu seria alojado
separadamente. Nesse momento, um homem meio calvo, de
rosto redondo, deu um passo à frente e me estendeu a mão,
à maneira inglesa, enquanto tentava estoicamente ignorar a
água que escorria do alto de seu chapéu.
- Dr. Bruno, sou John Underhill, diretor do Colégio Lincoln.
O senhor é muito bem-vindo em Oxford. Espero que nos
conceda a honra de aceitar a hospitalidade de nossa escola.
- Será um prazer, fico muito agradecido.
- O senhor e eu seremos rivais no debate de amanhã à noite
no salão da Escola de Teologia, mas, até lá, espero que
possamos nos considerar amigos - disse ele, risonho, embora
o sorriso logo tenha morrido em seus lábios.
Então esse seria o meu adversário aristotélico. Tinha um ar
agitado e havia algo de frágil na sua manifestação de
hospitalidade, mas eu estava decidido a causar boa impressão
em Oxford, por isso abri um largo sorriso e apertei a mão que
ele me estendia.
- Também espero que sim, senhor diretor.
Entramos na cidade pelo portão leste, uma pequena abertura
nos muros altos que cercavam o corpo principal da cidade.
Ao passarmos sob suas ameias, um conjunto de músicos
começou a tocar, o som de seus instrumentos se erguendo
bravamente em meio ao barulho da chuva e do vento. O
palatino desfez a expressão carregada apenas o suficiente
para acenar sem entusiasmo, enquanto nosso grupo avançou
pela High Street, passando por fileiras de casinhas com
estrutura de madeira aparente, que foram dando lugar, ao
nos aproximarmos do centro, às fachadas de pedra amarelada
de uma ou outra das escolas superiores. Grupos de alunos de
todas as séries, vestidos com seus trajes formais e tiritando de
frio, se amontoavam sob os beirais das portas dos colégios
para nos cumprimentar, ladeados por doutores e membros
do Conselho Municipal. Por fim, paramos junto a uma rua
estreita que dobrava para o norte, onde fui informado de que
dali seguiria com o diretor. Depois de descer do cavalo e
deixá-lo aos cuidados de um jovem cavalariço, a fim de que o
animal fosse levado à estrebaria particular do diretor, fui até
Sidney, que estendeu a mão para apertar a minha.
- Vejo você amanhã, no seu momento de glória, Bruno -
disse ele, risonho. - Não deixe nada desviá-lo do rumo, mas
reserve um pensamento caridoso para mim no jantar - disse
ele e acenou com a cabeça na direção do palatino, que
reclamava em voz alta com um dos funcionários da
universidade sobre o estado avançado dos ferimentos que a
sela lhe causara.
Eu não lamentava que o palatino não fosse mais me fazer
companhia, embora estivesse desapontado por me separar de
Sidney. Nessa noite, porém, eu só queria me recolher cedo e
me preparar para o debate público, e sabia que não estaria
com grande disposição para o convívio social. Encerrado o
debate e tendo tido o melhor desempenho possível, eu
conseguiria relaxar e desfrutar a atmosfera agradável do
refeitório do colégio, bem como voltar a atenção para
minhas outras missões.
O diretor parou à entrada de uma ruela estreita, com a toga
encharcada, mas sorrindo de maneira determinada. Levantei
o capuz enquanto avançávamos por entre os prédios, até a
parede à nossa esquerda se elevar numa torre retangular
baixa, da mesma pedra cor de manteiga. O diretor abriu uma
porta estreita, da altura de um homem, recortada na madeira
maciça do portão arqueado e alto, e a segurou para que eu a
atravessasse, seguido pelo criado que levava minha mala.
- Receio que aqui eu deva pedir que me entregue seu punhal,
Dr. Bruno - disse ele, como se estivesse se desculpando,
baixando os olhos para a bainha na lateral da minha cinta. -
Uma das primeiras leis de Oxford é que nenhum homem
tem permissão para portar armas na área da universidade.
Devemos cuidar de nossos rapazes, assim como de sua
mente e sua alma. Não se preocupe, iremos guardá-lo em
segurança para o senhor - acrescentou, com uma risada sem
jeito, enquanto eu desatava o punhal com relutância e o
entregava.
Passei pelo diretor e cruzei um arco que levava, por baixo da
torre, a um pátio quadrangular bem cuidado. Presumi que o
prédio sobre contrafortes, imediatamente em frente à torre
do portão fortificado, era o refeitório do colégio, a julgar por
suas altas janelas maineladas e pela chaminé em forma de
lanternim no centro do telhado. Ali a hera crescia sobre a
construção em pedra, embora não nos prédios à minha
direita e à esquerda. Nos cantos de cada prédio do
quadrilátero um arco levava a uma passagem estreita. O
diretor apareceu a meu lado e tirou o chapéu empapado,
deslizando a mão pela calva brilhosa.
- Perdoe a minha aparência, Dr. Bruno. Esta súbita volta ao
inverno pegou todos de surpresa, justamente quando
pensávamos que o verão estava a caminho. Mas isso é o que
se deve esperar na Inglaterra, receio. O senhor certamente
sente saudade dos céus azuis da sua terra natal.
- Às vezes, mas devo dizer que o clima do norte da Europa
parece adequado ao meu temperamento - respondi.
- Ah. Então o senhor é de temperamento melancólico?
- Como todos nós, caro diretor, sou uma mescla de
elementos contraditórios. Partes iguais de terra e fogo,
melancolia e cólera. Penso que o calor e os céus azuis agitam
o sangue, não lhe parece? Acho mais fácil escrever quando
não sou tentado por outros interesses.
Underhill balançou a cabeça, com ar de dúvida. Tinha a
expressão de um homem cujo sangue não se agitava fazia
muitos anos.
- Tem razão, é difícil fazer os alunos estudarem nos meses de
verão. Bem, providenciei um quarto na ala sul, onde o
senhor ficará junto a minha residência - disse ele acenando
com a mão para as janelas salientes ao lado do refeitório. - E
bem em frente, do outro lado do pátio, o senhor encontrará
nossa belíssima biblioteca, a qual deve sentir-se à vontade
para utilizar quando quiser.
- Os senhores têm muitos livros? - indaguei, sacudindo a água
da capa.
- Alguns dos melhores de qualquer colégio - respondeu ele,
inflando-se de um orgulho que julguei perdoável, já que era
em nome de seus manuscritos. - São principalmente obras
de teologia escolástica, mas o decano Flemyng, sobrinho do
nosso fundador, deixou de herança uma coleção notável de
textos literários e clássicos, muitos dos quais havia copiado
de próprio punho. Ele estudou na Itália, como o senhor deve
saber, e trouxe muitos manuscritos dos quatro cantos da
Europa, no fim do século passado.
- E mesmo? Eu gostaria muito de ver sua coleção - comentei,
sentindo a pulsação acelerar. - O senhor sabe se o decano
Flemyng visitou Florença durante suas viagens? Por volta da
década de 1460?
O diretor fez um pequeno gesto pretensioso com os ombros
e respondeu:
- Decerto que sim: vários livros da nossa coleção trazem a
inscrição do grande livreiro florentino Vespasiano da
Basticci, que era fornecedor de Cosimo de Médici, como o
senhor certamente sabe. Esse período lhe interessa
particularmente?
Respirei fundo, procurando manter uma expressão neutra, e
cruzei as mãos para que o tremor delas não deixasse minha
empolgação transparecer.
- Sabe, todo estudioso italiano tem que ser fascinado pela
biblioteca de Cosimo... Naquela época, ele mandava
emissários viajarem por toda a Europa e pelo Império
Bizantino em busca de textos desconhecidos, a fim de
aumentar sua coleção. Certa vez conheci um descendente de
Vespasiano em Paris - acrescentei, em tom descontraído. -
Estou bastante interessado em saber quais desses raros
tesouros o decano Flemyng trouxe consigo para Oxford, se
possível.
Seria minha imaginação ou o diretor parecera levemente
constrangido?
- Bem, o senhor deve pedir ao professor Godwyn, nosso
bibliotecário, que lhe mostre a coleção. Tenho certeza de
que ele ficará encantado em compartilhar seus
conhecimentos. Mas, por ora, o senhor deve estar ansioso
por trocar de roupa e jantar. E, se quiser se barbear primeiro
- nesse instante, Underhill lançou um olhar crítico ao meu
cabelo e à minha barba há um barbeiro no colégio. O
porteiro lhe informará onde encontrá-lo. Em geral, os
docentes mais antigos e eu comemos no refeitório com os
estudantes, mas é um local barulhento e, na sua primeira
noite em Oxford, me pareceu que o senhor iria preferir algo
mais tranquilo. Assim, gostaria de convidá-lo a se reunir com
minha família e alguns membros seletos para jantar em meus
aposentos, que o senhor pode ver ali, ao lado do refeitório
adjacente à ala sul.
- Sua família? - indaguei, surpreso. - Então, o senhor não é
solteiro?
- Já não somos uma comunidade de clérigos aqui em Oxford,
Dr. Bruno - disse ele, com uma risada discreta. - Os padres
da Igreja Anglicana podem se casar... aliás, Sua Majestade
decididamente os incentiva a se unir por matrimônio, para
melhor se distinguirem dos adeptos da fé romana. E o
mesmo vale para os diretores de nossos colégios, embora eu
admita que ainda somos uma minoria muito pequena.
Desconfio de que esta não seja uma vida que atraia muitas
esposas, pois a sociedade universitária é um tanto limitada
para as senhoras, mas minha querida Margaret é uma mulher
rara e afirma ter sido bastante feliz aqui nos últimos seis
anos, exceto... - Underhill se interrompeu, e foi como se
uma nuvem cobrisse seu rosto, antes de recomeçar em tom
mais leve. - De acordo com as normas, ela não faz as
refeições conosco no refeitório, por isso sempre fica
encantada quando pode receber convidados em nossos
aposentos. Agora vou avisá-la de que o senhor chegou e
chamarei um criado para levá-lo a seu quarto. Dentro de
uma hora, faça a gentileza de ir até lá.... é só passar por
aquela arcada à direita, ao lado do refeitório, e o senhor verá
uma porta de madeira que dá para a passagem.
Tínhamos saído da proteção oferecida pelo arco do portão
fortificado para nos aventurarmos a atravessar o pátio
quadrangular na chuva, quando fomos interrompidos por um
chamado urgente:
- Diretor! Diretor Underhill... espere, eu lhe peço!
Do lado norte do pátio uma figura vinha correndo na nossa
direção, a beca preta esfarrapada balançando ao vento às suas
costas. Segurava um papel que agitava como se houvesse
uma emergência iminente. Notei que o rosto do diretor
ficou tenso de aborrecimento por um instante. O rapaz
parou diante de nós com um escorregão nas pedras
molhadas, e percebi que devia ter uns 20 anos e estava muito
malvestido, com a camisa e os calções remendados e os
sapatos gastos, furados no dedão. Ele nos olhou com uma
expressão de grande angústia e disse, ofegante:
- Diretor Underhill, é esse o seu prezado visitante que
chegou da corte? Eu lhe imploro, me dê permissão para falar
com ele.
- Thomas - retrucou o diretor, com ar extremamente irritado
-, esta não é a hora nem o lugar. Tenha a bondade de
demonstrar algum decoro perante nosso convidado.
Para minha surpresa, o rapaz se voltou para mim, prostrou-se
de joelhos ali mesmo, no chão molhado, e segurou a barra da
minha capa com uma das mãos, enquanto usava a outra para
enfiar o pedaço de papel na minha mão.
- Milorde, eu suplico ao senhor, tenha piedade de alguém a
quem Deus esqueceu. Dê esta carta a seu tio, eu lhe imploro,
e peça que perdoe meu pobre pai e permita que ele retorne,
por favor, milorde. Se o senhor tem alguma compaixão
cristã, me conceda essa graça e leve esta solicitação ao
conde. Diga a ele que Edmund Allen se arrepende de seus
pecados.
Havia um desvario em seus olhos, e sua visível aflição me
comoveu. Adivinhando seu equívoco, pus a mão
delicadamente em sua cabeça:
- Filho, muito me alegraria ajudá-lo, mas meu tio era pedreiro
em Nápoles. Não imagino que ele lhe fosse de grande
serventia. Venha - disse eu, segurando- -o pela mão e o
ajudando a se pôr de pé.
- Mas... - o rapaz se assustou com meu sotaque, seu rosto
enrubesceu violentamente e ele me olhou numa confusão
angustiante, ao se dar conta de seu erro. - Oh, queira me
desculpar, milorde. O senhor não é Sir Philip Sidney?
- Infelizmente, não, embora fique lisonjeado de que você
tenha nos confundido: ele é um palmo mais alto e uns seis
anos mais moço que eu. Mas é bem provável que eu esteja
com ele amanhã... Há algum recado que eu deva lhe
transmitir?
- Obrigado, Dr. Bruno, é muito gentil da sua parte, mas não
será necessário, isso não passa de uma intromissão
impertinente - interrompeu o diretor, de forma brusca.
Depois, se dirigiu ao rapaz, mal reprimindo a raiva. - Thomas
Allen, cuidado com seus modos. Não vou permitir que você
agrida os hóspedes do colégio. Será preciso discipliná-lo de
novo? Não se esqueça de como é frágil a sua situação aqui.
Volte aos estudos, Sr. Allen, ou então com certeza deve
haver alguma das suas tarefas de criado para executar. Não
torne a importunar o Dr. Bruno durante a estada dele.
Compreende o que eu digo?
O rapaz assentiu, com um ar infeliz, erguendo rapidamente
os olhos para ver se eu concordava com as duras palavras do
diretor. Procurei transmitir minha solidariedade pela
expressão de meu rosto.
- E cuide da sua roupa, rapaz - gritou o diretor quando ele se
afastava lentamente, derrotado. - Você envergonha o colégio
com essa sua aparência de mendigo.
O jovem se virou para trás, juntando as raspas de dignidade
que lhe restavam, e disse, com a cabeça erguida:
- Não posso comprar roupas novas, diretor Underhill, e o
senhor bem sabe por quê. Por isso não peça que eu me
desculpe pelo que não é culpa minha. - E desapareceu numa
das escadarias da ala oeste.
Underhill o fitou por um momento, talvez envergonhado de
sua própria severidade.
- Pobre rapaz - acabou comentando, enquanto balançava a
cabeça.
- Por que pobre? Quem é ele? - indaguei, curioso.
- Vamos até aquela escadaria. Não vai lhe fazer bem se o
senhor se encharcar outra vez - disse ele, fazendo sinal para
a arcada mais distante, na ala sul. Nós nos protegemos sob
sua sombra, fora da chuva. - É uma história triste. Aquele
menino sofreu muito para alguém tão jovem. Lamento que o
senhor tenha sido importunado por ele.
Balancei a cabeça. Estava intrigado com as palavras do rapaz.
- O nome dele é Thomas Allen. O pai, Dr. Edmund Allen,
era doutor em teologia aqui em Oxford e foi subdiretor do
colégio, no ano passado.
- Todos os professores têm permissão para morar com a
família? - perguntei, surpreso.
- Nem todos, apenas os diretores dos colégios. Ao se casar,
Edmund se mudou daqui e foi morar numa das igrejas de
Londres. Só regressou a Oxford após a morte da esposa, e
Thomas, ainda pequeno demais naquela época para se
matricular, foi morar com uma família na cidade. - Underhill
tornou a menear a cabeça, numa demonstração de tristeza
reverente. - Edmund Allen era um bom homem, nomeado
pelo próprio conde de Leicester, como eu mesmo fui, sabe?
- Os cargos diretivos não são concedidos mediante uma
eleição pelo corpo docente? - perguntei, fingindo inocência.
- Em circunstâncias normais, sim - respondeu ele, parecendo
meio envergonhado. - Mas havia muitos papistas ferrenhos
ocupando cargos elevados aqui, alguns nomeados pela
própria rainha Maria e ainda impenitentes. Assim, no intuito
de eliminá-los, o conde começou a nomear seus próprios
homens, a fim de assegurar fidelidade à Igreja Anglicana, até
que o cancro do papismo pudesse ser inteiramente
expurgado. Eu tinha sido capelão pessoal dele antes de
ocupar meu cargo aqui - acrescentou, com um sorriso, sem
conseguir resistir a uns passinhos envaidecidos de orgulho.
- E essa era uma escolha popular entre os membros mais
antigos da universidade?
- Não, já que o senhor pergunta. Mas todos temos que
depender de proteção, de um modo ou de outro - respondeu
ele, meio exasperado. - Edmund Allen também foi nomeado
pelo conde, por recomendação minha. Havíamos estudado
juntos aqui. Portanto, o senhor pode imaginar nossa aflição
quando se descobriu, no ano passado, que também ele vinha
praticando em segredo a antiga religião. Nem tão
secretamente, aliás, pois se descobriu que ele estava de posse
de livros proibidos e que, já fazia algum tempo, se
correspondia com os seminários católicos na França.
- E isso é crime?
- Se tivesse sido possível provar que ele estava ciente da
chegada sigilosa de padres missionários provenientes da
França, ou que havia ajudado nisso, o destino dele teria sido
o cadafalso. Mas não houve provas contra Allen a esse
respeito, apenas boatos, e não se conseguiu obter uma
confissão dele no interrogatório.
- Ele foi punido?
- O interrogatório foi rigoroso, mas a punição que ele
recebeu foi leve, dadas as circunstâncias - disse o diretor,
contraindo os lábios. - O conde ficou indignado, como o
senhor pode imaginar... Allen perdeu imediatamente o
direito de lecionar, mas o conde é clemente e lhe ofereceu
um salvo-conduto para deixar o país, sem possibilidade de
regresso, sob pena de prisão. Ele foi para a França e fixou
residência no Colégio Inglês, em Reims.
- Em Reims? Já ouvi falar. Foi fundado por um certo William
Allen, não foi?
- Sim, um primo dele. Eles são de uma das mais antigas
famílias católicas da região. Mas o filho de Edmund Allen,
Thomas, que o senhor teve a infelicidade de conhecer há
pouco, na época estava cursando o primeiro ano da
graduação aqui. Ele não acompanhou o pai no exílio, pois
quis concluir os estudos, embora muitos no colégio
achassem que devia ser expulso, pela desonra do pai.
- Seria muito severo castigar um filho pelas convicções do
pai. O rapaz as compartilha?
- Nunca se sabe. Todo aluno tem que prestar o juramento de
Supremacia, mediante o qual reconhece Sua Majestade como
a dirigente de todas as autoridades religiosas do reino, mas o
senhor sabe tão bem quanto eu que um homem é capaz de
assinar um papel e trazer algo diferente no coração. Thomas
foi duramente questionado a respeito de suas doutrinas. - O
diretor fez um aceno significativo com a cabeça.
- Ele foi torturado? - indaguei, estarrecido.
Underhill me encarou com horror.
- Santo Deus, não! O senhor acha que somos bárbaros, Dr.
Bruno? Foi um simples interrogatório, embora não tenha
sido nada agradável, admito. Ele foi severamente indagado
sobre questões teológicas que até um doutor em teologia
teria dificuldade de contestar, e suas respostas foram
minuciosamente examinadas sob todos os aspectos. Mas a
expulsão do seu pai fora tão notória que as autoridades do
colégio precisavam ser absolutamente escrupulosas com o
filho. Não podíamos ser acusados de fechar os olhos para um
papista conhecido em nosso meio.
- Presumo que ele tenha sido aprovado no teste, a julgar por
sua permanência aqui.
- Acabou se decidindo que ele poderia ficar, mas por conta
própria. Sua bolsa de estudos foi cancelada.
- A família tinha recursos?
Underhill fez que não com a cabeça.
- Não sobrou quase nada, depois que Edmund pagou as
multas por sua desobediência religiosa. O jovem Thomas tem
feito o que muitos estudantes pobres da universidade são
obrigados a fazer: custeia a moradia e a alimentação servindo
de criado para um dos plebeus ricos, os filhos da alta
burguesia e da pequena aristocracia que pagam para estudar
aqui. - A contração desdenhosa de seus lábios deu a
entender sua opinião sobre essas pessoas.
- Quer dizer que, num momento, esse Thomas era um aluno
bolsista, filho do subdiretor, e no seguinte passou a viver de
migalhas, como criado de seus colegas. É um duro revés para
qualquer homem, em especial alguém tão moço - comentei
em tom sincero.
- Assim é a vida - retrucou Underhill, com ar pomposo. -
Mas dizem que ele é um jovem inteligente e sempre bem-
humorado. Poderia se sair bem. Agora está como o senhor o
viu. Escreve petições infindáveis para que Leicester perdoe
seu pai e as empurra por baixo da porta da minha casa e do
meu gabinete particular. Eu já lhe disse que fiz tudo o que
podia no que se refere ao conde, mas ele se mostra cada vez
mais decidido. A coisa se tornou uma obsessão, e chego
quase a temer que ele perca a cabeça por isso. Realmente
sinto pena dele, Dr. Bruno. O senhor não deve me tomar
por um homem desalmado. Houve até uma época em que o
considerei um bom pretendente para minha própria filha. O
pai queria que ele fizesse carreira em direito e suas
perspectivas pareciam boas. Nossas famílias eram amigas e
Thomas certamente se mostrava muito enamorado de
Sophia.
Pensei com meus botões se ter uma filha em idade de casar,
naquele claustro de homens jovens, seria o motivo da
expressão meio atormentada que perturbava
permanentemente o rosto do diretor.
- Sua filha estava interessada?
Underhill torceu o nariz.
- Ah, ela sempre foi problemática nessa questão de
casamento. As moças têm ideias tolas sobre o amor... Eu não
devia tê-la deixado ler poesia com tanta liberdade.
- Então, ela é instruída?
Ele fez que sim, com um ar distraído, como se estivesse com
a cabeça em outro lugar.
- A diferença de idade entre meus filhos era muito pequena,
mal passava de um ano, e me pareceu injusto que o garoto
tivesse aulas e ela ficasse restrita às lições de costura. Além
disso, o pequeno John sempre teve dificuldade de manter a
cabeça nos livros. Achei que faria bem a ele ter que
competir com a irmã, porque Sophia sempre foi a mais
arguta dos dois, e meu filho detestava ser superado por ela.
Nesse ponto eu acertei. No entanto, parece que a estraguei
para o casamento... Não há nada que lhe agrade mais do que
ficar circulando pela biblioteca, debatendo com os
estudantes, sempre que tem oportunidade. Ela tem opiniões
arrojadas demais, o que está longe de ser de bom-tom numa
jovem e é um traço que nenhum cavalheiro quer numa
esposa. De modo que tudo aquilo não serviu para nada.
Nesse momento, Underhill virou o rosto e, com um grande
suspiro, fitou um ponto do outro lado do pátio.
- Por que para nada? Seu filho não continuou os estudos?
O rosto dele se crispou, como que tomado por uma súbita
dor física, e ele respondeu, com certo esforço:
- Meu pobre John morreu há uns quatro anos, que Deus o
tenha... numa queda de cavalo. Ele completaria 21 anos
neste verão. Tinha a mesma idade que Thomas Allen.
- Lamento muito por sua perda.
- Quanto a Sophia - apressou-se a continuar o diretor -, ela
gostava de Thomas e o considerava um amigo, mas,
ultimamente, não me pareceu apropriado eles se
relacionarem, dada a reputação da família do rapaz. As
perspectivas dele diminuíram muito, é claro.
- Mais uma perda para o rapaz, depois de tantas outras.
- Sim, é uma pena - concordou o diretor, sem grande
simpatia. - Mas vamos, não devemos ficar aqui trocando
mexericos como duas comadres. O criado irá conduzi-lo a
seu quarto, onde acredito que haverá um bom fogo aceso
para secar suas roupas. Santo Deus, esse vento esfriou. Mais
parece novembro do que maio. Espero vê-lo no jantar.
Ele apertou minha mão e me virei para seguir o criado pela
sombria escada de madeira que levava ao meu quarto.
- Dr. Bruno - chamou o diretor, quando eu estava quase fora
do seu campo visual. Eu me inclinei para trás e vi seu rosto
me olhando com ansiedade. - Por favor, por caridade, peço
que não faça nenhuma referência a Thomas Allen nem ao
que lhe contei do meu pobre John no jantar. Minha senhora
e minha filha ficam muito aflitas com esses dois assuntos.
- Não se preocupe com isso - respondi, intrigado com a ideia
de que dali a pouco iria conhecer essa filha cheia de
opiniões.
A perspectiva da companhia de uma jovem inteligente
tornou a ideia do jantar com o diretor consideravelmente
mais atraente do que me parecera até então.

Capítulo 3

PARA O JANTAR, COLOQUEI uma camisa limpa e um conjunto
preto simples de sobreveste e calções e parei por um instante
para me examinar no espelho cheio de manchas que haviam
deixado sobre o console da lareira. Era verdade que meu
cabelo e a barba estavam compridos demais, e o mau tempo
os deixara mais rebeldes que de hábito, embora eu tivesse
decidido muito tempo antes, na corte parisiense, que não
tinha tempo nem vaidade para competir com os cavalheiros
da moda em matéria de vestuário. Mas, aos 35 anos, pensei,
eu ainda sabia me tornar apresentável. Meu reflexo me fitou
através de um par de olhos grandes e escuros, unidos pela
sombra. A luta que travamos na estrada me deixara um
arranhão numa das faces, mas talvez uma jovem confinada
num claustro universitário achasse aquilo intrigante. Eu sabia
que as mulheres julgavam minha aparência suficientemente
agradável, apesar de eu não ser um bom partido para um
relacionamento sério, por não possuir bens nem títulos,
apenas um nome de reputação um tanto duvidosa. Eu tinha
aproveitado ao máximo as oportunidades que surgiram para
mim em Paris, mas, desde a morte de Morgana, não
conhecera nenhuma mulher de igual inteligência e
espirituosidade, que me cativasse tanto o coração quanto o
olhar. A filha do diretor, porém, parecia intrigante, e devo
confessar que a perspectiva de conhecê-la instigara meu
interesse, mesmo sabendo que dificilmente eu poderia me
dar ao luxo de ter distrações em Oxford, diante de tantas
coisas em jogo e tão poucos dias.
Sorri para meu reflexo no espelho, passei as mãos no cabelo
e balancei a cabeça por um momento, pensando na minha
tolice, antes de descer a escada e seguir para a arcada da ala
leste, onde eu encontraria os aposentos do diretor. Ao entrar
em suas sombras, tive o olhar atraído por um vislumbre de
verde no extremo oposto da passagem, que corria por toda a
extensão do prédio. Seguindo-a até o fim, emergi, através de
um portão aberto de grades de ferro, num jardim todo
murado nos fundos do colégio, não muito cultivado, porém
mantido como um pomar de grama alta e espessa, com flores
silvestres sob as macieiras e bancos de madeira dispostos ao
longo da trilha circundada pelos muros. Com um tempo
melhor, aquele seria um local aprazível para os estudiosos se
sentarem e lerem, pensei, embora estivesse vazio naquele
momento, com a chuva batendo nas folhas. Retornei à
passagem, encontrei a porta que anunciava o nome do
diretor numa placa, endireitei a roupa e me preparei para
saborear pela primeira vez a hospitalidade oxfordiana.
A primeira coisa que notei, enquanto aguardava para ser
recebido, foi que a conversa animada que eu ouvia atrás da
porta tinha um tom ligeiramente alto demais, como quando
os homens de um grupo competem para superar uns aos
outros, querendo impressionar uma mulher. Um velho
criado de rosto esquelético abriu a porta e me levou
diretamente a uma bela sala de pé-direito alto, com grandes
janelas em arco em duas paredes opostas e as restantes
revestidas de madeira escura, repletas de quadros e
tapeçarias. Compreendi de imediato a origem da fanfarrice
barulhenta. No lado mais distante de uma mesa comprida,
iluminada por diversos candelabros, sentava-se uma jovem
de aproximadamente 19 anos, de vestido cinza-claro e
corpete bordado de corte reto, cujo cabelo longo e preto
estava solto. Assim como os demais convivas já sentados, ela
interrompeu a conversa e voltou sua atenção para mim
quando me aproximei, seus olhos me examinando de cima a
baixo com uma mescla de curiosidade e diversão. Então,
aquela era Sophia Underhill, e compreendi o desejo urgente
de seu pai de querer lhe arranjar um casamento. A moça
tinha um rosto felino marcante, de olhos castanho-claros
penetrantes, e sua presença no colégio devia ser uma
dolorosa fonte de distração para os rapazes que tentavam
concentrar a mente nos livros. O diretor se levantou de sua
cadeira à cabeceira da mesa, com agitada imponência, e
estendeu a mão para apertar a minha.
- Bem-vindo, Dr. Bruno, seja bem-vindo à minha mesa!
Queira sentar-se, por favor, para que eu o apresente a alguns
dos membros do corpo docente e à minha família.
Fez um gesto para a cadeira à sua esquerda, que percebi com
agrado ficar quase em frente à da sua filha. Fiz um aceno
polido com a cabeça na direção dela, cumprimentando-a,
antes de correr os olhos pelos demais convidados reunidos à
mesa. Éramos 10, todos homens em trajes acadêmicos, com
exceção da jovem e de uma mulher de meia-idade e
expressão cansada sentada na outra extremidade da mesa, de
frente para o diretor.
- Permita que eu lhe apresente minha esposa, Sra. Margaret
Underhill - começou ele, apontando para a mulher.
- Piacere di conoscerla - pronunciei, curvando a cabeça. A
mulher deu um sorriso débil. Apesar das palavras de seu
marido, ela não me pareceu particularmente encantada com
a perspectiva de entreter convidados.
- E minha filha, Sophia - prosseguiu o diretor, sem conseguir
evitar um toque de orgulho na voz. - Como pode perceber,
dei a ela o nome grego da sabedoria.
- Nesse caso, seus pretendentes poderão se chamar
verdadeiramente de "filósofos" - respondi, sorrindo para a
moça. - Os que amam Sophia.
Ouvi um suspiro fundo da mãe dela, à cabeceira da mesa, e
um risinho abafado dos homens presentes, mas a moça
retribuiu meu sorriso e enrubesceu com prazer, antes de
baixar os olhos. O diretor forçou um sorriso.
- Ah, sim, fui avisado de que os homens do seu país são
peritos na arte de lisonjear as damas - disse, tenso.
- Especialmente os monges - resmungou o senhor idoso
sentado à direita de Sophia, e todos os convidados riram.
- Ex-monge - retruquei, enfático, sustentando o olhar da
jovem. Dessa vez ela não desviou o rosto, e algo na
franqueza do seu olhar me lembrou Morgana tão vivamente
que tive de prender a respiração, apanhado desprevenido
pela semelhança.
- Devo protestar, em defesa dos meus compatriotas -
declarou o rapaz de cabelos pretos sentado logo à minha
esquerda, que de fato tinha nítida aparência italiana, embora
falasse sem o menor vestígio de sotaque. - Compatriotas do
meu pai, melhor dizendo. Não sei como adquirimos entre os
ingleses essa reputação de grandes sedutores. De minha
parte, com certeza, infelizmente não herdei nenhum talento
dessa natureza.
Ele mostrou as palmas das mãos, num gesto de derrota, e o
grupo tornou a rir. Desconfiei da falsa modéstia do rapaz
quanto a essa questão - ele fora abençoado com belos traços
e era óbvio que se vestia com esmero, com a barba e o
bigode meticulosamente aparados. Ele se virou para mim e
me estendeu a mão.
- John Florio, filho de Michelangelo Florio, da Toscana. É um
prazer conhecê- -lo, Dr. Bruno de Nola. Sua reputação é
bastante conhecida.
- Qual delas? - indaguei, provocando mais risadas.
- Mestre Florio é um estudioso e professor de línguas muito
respeitado, tal como o pai - disse o diretor e está trabalhando
na compilação de um livro de provérbios de diversos países.
Tenho certeza de que, mais tarde, não hesitará em nos
brindar com alguns.
- Na mulher, é e sempre foi chavão / Amar a cruz e
crucificar a paixão - disse Florio, gentilmente.
- Ele está dizendo a verdade - concordou Sophia, com falso
ar de desamparo, e Florio lhe abriu um largo sorriso.
- Obrigado - disse o diretor, o sorriso ficando cada vez mais
forçado. - Devo confessar, Dr. Bruno, que não sabia com que
facilidade o senhor conversaria em inglês e achei que se
sentiria mais à vontade tendo por perto um outro falante de
italiano.
- É muita gentileza sua - respondi. - Aprendi inglês com
viajantes e estudiosos ao longo dos anos, mas receio que não
seja refinado.
- Meu pai também fugiu da Itália por medo da Inquisição,
depois de se converter à Reforma - apressou-se a dizer
Florio, chegando mais perto. - Ele veio para Londres, acabou
indo parar na casa de lorde Burghley e, mais tarde, foi
professor particular de italiano de lady Jane e da princesa
Elizabeth.
- Não foi um exílio tão maldito, então - comentei.
- O exílio é sempre uma maldição - interrompeu o senhor ao
lado de Sophia, com veemência surpreendente. - É um
destino cruel para se infligir a qualquer homem, não
concorda, Roger? - Ele inclinou bem o corpo para fuzilar
com os olhos o homem sentado ao lado de Sophia, bem na
minha frente: um homem grande, de feições largas e 40 e
tantos anos de idade, tez corada e uma barba farta exibindo
os primeiros fios grisalhos. O indivíduo em questão desviou
os olhos, constrangido. - Particularmente aos amigos -
acrescentou o velho, e então um silêncio tenso caiu sobre o
grupo.
- Meu pai realmente teve muita sorte com seus protetores -
continuou Florio, às pressas, tentando disfarçar a interrupção
-, embora tenhamos sido novamente exilados, dessa vez da
Inglaterra, quando eu era apenas um bebê e Maria, a
Sanguinária subiu ao trono.
- Que Deus a tenha - interpôs o idoso, com reverência. Dessa
vez, o diretor resolveu intervir.
- Por favor, Dr. Bernard.
- Por favor o quê, diretor? - indagou o Dr. Bernard,
apontando para mim, a cabeleira branca e revolta aberta ao
redor da cabeça, como uma crista de ave. - Devo medir
minhas palavras diante desse monge renegado? Por quê? Ele
vai me denunciar ao conde de Leicester?
Nesse momento, o homem se virou para me olhar e
compreendi que, embora lhe restassem poucos dentes e ele
devesse ter pelo menos 70 anos, seus olhos remelentos ainda
enxergavam com perspicácia. Seu rosto parecia mais
encovado sob as sombras bruxuleantes da luz das velas. Era
um rosto de assustar criancinhas.
- Fui pessoalmente nomeado pela rainha Maria, já se vão 30
anos, quando os seguidores da nova religião foram quase
totalmente expurgados da universidade, e ainda estou aqui,
atravessando as tempestades, apesar de todos os meus amigos
haverem morrido ou terem sido privados de seus cargos, e
faz muito tempo que renunciei aos antigos costumes - disse
e riu, como que zombando de si mesmo. Em seguida
apontou para mim, com expressão subitamente grave. - Mas
creio que o senhor é de religião católica, não é, Dr. Bruno?
- Sou italiano - respondi sem me alterar -, criado na Igreja
Romana.
- Bem, receio que o senhor não encontre ninguém aqui para
rezar a missa romana em sua companhia. Não restaram
católicos em Oxford, oh, não. Aqui, nenhum homem se
apega à antiga religião - e balançou a cabeça com ar solene,
mas com a voz carregada de sarcasmo. - Aqui, nós assinamos
a Declaração de Fé para salvar a pele e prestamos juramento
à Igreja Anglicana, conforme nos ordenam, porque todos
somos súditos obedientes, não é mesmo, senhores?
Houve um murmúrio constrangido de assentimento e vi que
o diretor ia ficando agitado.
- William, estou lhe pedindo.
- Assim parecemos, todos nós. Mas em Oxford nenhum
homem é o que parece, Dr. Bruno, não se esqueça disso.
Nem mesmo o senhor, desconfio.
Ergui a cabeça e enfrentei o olhar do Dr. William Bernard.
Esse ancião irritadiço e lacônico dava a nítida e alarmante
impressão de ser capaz de adivinhar os pensamentos secretos
dos outros e estava mais perto da verdade do que me
agradava, de modo que apenas inclinei a cabeça e procurei
algo com que me distrair, enquanto seus olhos cinza-claro
continuavam a penetrar em meu rosto. Por sorte, nesse
momento chegaram os criados com o primeiro prato da
refeição - frango capão cozido com ameixas-de-damasco e
geleia de mocotó, tudo acompanhado por um bom vinho
tinto leve.
Enquanto os criados se atarefavam ao redor da mesa,
enchendo nossos pratos com as diferentes iguarias, me
inclinei para a frente, com a intenção de puxar conversa
com Sophia Underhill, porém, na mesma hora, o homem
barbudo na cadeira oposta à minha me dirigiu a palavra, e vi
Florio aproveitar a oportunidade para reivindicar a atenção
da jovem.
- Roger Mercer, doutor em teologia e subdiretor do colégio -
disse o barbudo, numa voz sonora de barítono, com um
sotaque que julguei provir das regiões ocidentais da
Inglaterra. Ele estendeu a mão por cima da mesa. — Ficamos
realmente contentes por conhecê-lo, Dr. Bruno, e é grande
a expectativa aqui por seu debate de amanhã à noite com o
diretor.
- Ora, ora, Roger - apressou-se a dizer Underhill -, não
devemos falar à mesa de nenhum assunto que diga respeito
ao debate. Meu estimado convidado e eu devemos guardar
nossos argumentos para o salão, não é, Dr. Bruno? Devemos
manter a pólvora seca, como se costuma dizer.
Assenti movendo a cabeça. Roger Mercer ergueu a mão em
sinal de protesto:
- Não tenha medo, diretor. Falei apenas como um prelúdio
ao anúncio da minha curiosidade de conhecer o Dr. Bruno,
desde que li seu livro As sombras das idéias, publicado em
Paris no ano passado.
- Aquele feiticeiro, o Cecco dAscoli, que foi levado à
fogueira por bruxaria, não mencionou um livro com esse
mesmo título, um livro de magia proibida, que ele atribuiu a
Salomão? - indagou o Dr. Bernard, que mais uma vez se in-
clinou sobre Sophia para fazer essa intervenção e cujo dedo
esticado e trêmulo quase encostou no rosto dela, embora
apontasse para mim. A jovem recuou a cadeira, para ser
gentil com ele, jogou o cabelo para trás, por cima de um dos
ombros, e continuou sua conversa com Florio, que exibia
um entusiasmo incontido. Por uma ou outra frase que pude
captar, ele parecia estar oferecendo à moça novos aforismos
rimados. Relutante, tornei a voltar minha atenção para
Bernard.
- O livro mencionado por Cecco nunca foi encontrado -
falei, elevando a voz para que o velho pudesse me ouvir com
clareza. - Me pareceu uma pena desperdiçar um bom título,
por isso o tomei emprestado. O meu tratado, porém, é sobre
a arte da memória, e é baseado nos sistemas mnemónicos
dos gregos, nada de necromancia, senhores - e ri, talvez com
certo exagero.
Roger Mercer me olhou, pensativo:
- No entanto, Dr. Bruno, seu sistema mnemónico serve-se de
imagens que parecem corresponder com exatidão às imagens
talismânicas descritas por Agrippa em De occulta
philosophia, que ele diz poderem ser invocadas nos rituais
de magia celeste, para atrair os poderes de anjos e demónios.
- Mas trata-se de imagens que correspondem aos signos do
zodíaco e às casas da lua, familiares a muitos sistemas
mnemónicos - retruquei, torcendo para não deixar
transparecer meu mal-estar. - Elas são populares porque se
baseiam em divisões numéricas regulares, o que ajuda na
rememoração. Mas, no fim das contas, são meras imagens.
- Para Agrippa, nada é uma mera imagem - retrucou Bernard.
- Todas são sinais que apontam para realidades ocultas, como
o título de seu livro deixa implícito, em especial as imagens
derivadas da antiga astrologia dos egípcios, como ele bem
sabia, pois estava citando o seu mestre, Hermes Trimegisto,
que foi condenado por Santo Agostinho por invocar
demónios!
A voz dele se elevou ao proferir a última palavra, e foi como
se uma mão gelada agarrasse a base da minha coluna
vertebral. Eu me preparei para responder, mas, antes que eu
pudesse falar, Sophia Underhill puxou a cadeira para mais
perto da mesa, me olhou diretamente e perguntou,
interrompendo Florio no meio de uma frase:
- Quem é Hermes Trimegisto?
Os convivas silenciaram e todos os olhos se voltaram para
mim.
- Li de passagem umas referências a esse nome em textos de
filosofia - continuou ela, com uma inocência na qual não
acreditei muito -, mas não encontrei nenhum dos livros dele
em nossa biblioteca e não tenho permissão para entrar nas
bibliotecas da universidade.
- Nem deveria, já que você não é estudante - repreendeu-a o
pai, correndo os olhos pela mesa, como que constrangido
pelo atrevimento da filha. - Permito que você se aprimore
lendo na nossa biblioteca particular, desde que se atenha, em
seus estudos, ao que é adequado à compreensão de uma
dama.
Intuí que ele dissera isso em prol do bem-estar do grupo.
Sophia pareceu prestes a protestar, mas engoliu as palavras
com uma expressão petulante. Sua mãe tornou a suspirar
bem alto.
- A senhorita não encontrará em Oxford nenhuma obra de
Hermes, o Três Vezes Grande, não agora - disse Bernard em
tom sonoro, balançando a cabeça. - Antigamente, nós as
tínhamos... antes do grande expurgo das bibliotecas, em
1569. Foram traduzidas do grego pelo florentino Ficino um
século atrás, a pedido de Cosimo de Médici, então
agonizante. O senhor leu a versão de Ficino, Dr. Bruno?
- Li a tradução de Ficino. Mas também li os manuscritos
gregos originais, embora a coleção estivesse incompleta. O
15º livro se perdeu. O senhor lê grego, Dr. Bernard?
Ele cravou em mim aqueles olhos brilhantes e acusadores.
- Sim, eu leio grego, meu rapaz, nem todos somos bárbaros
ao norte do Ti- bre. Mas o livro desaparecido é um mito,
nunca existiu - acrescentou depressa e prosseguiu, num tom
mais brando: - Também li Ficino quando era jovem, e
Agrippa. Naquela época não havia todo esse medo dos
autores antigos. Agora, porém, inúmeros livros ficaram
perdidos para nós, arrastados pelas marés da Reforma.
Séculos de saber transformados em cinzas...
Sua voz sumiu, como se ele tivesse viajado para as
profundezas da memória.
- Dr. Bernard - disse o diretor, de novo com um toque de
advertência na voz -, o senhor sabe muito bem que a Real
Comissão de 1569 foi enviada para procurar livros heréticos,
adquiridos nos velhos tempos monásticos, para que eles não
contaminassem a mente dos nossos jovens com suas ideias
espúrias, um perigo do qual nós, os membros mais antigos do
corpo docente, ainda devemos nos resguardar. Tenho
certeza de que o senhor não discordaria dessa proibição.
Bernard deu um risinho rouco:
- Livros proibidos a estudiosos? Mas, então, de que modo os
homens doutos apurariam o intelecto ou aprenderiam a
discernir entre verdade e heresia? E porventura aqueles que
proíbem não têm sagacidade para perceber que os livros
proibidos atraem os homens com maior intensidade do que a
mais lasciva das sedutoras? - Nesse momento, olhou de
soslaio para Sophia. - Ah, sim... e o livro proibido sempre dá
um jeito de atravessar as frestas e os buracos dos ratos, não
sabe disso, senhor diretor? Basta saber onde procurar -
concluiu. O velho deu uma risada, como se isso fosse uma
grande pilhéria, e notei que os seus colegas docentes se
remexeram nas cadeiras, incomodados.
- O que aconteceu com os livros que foram expurgados das
bibliotecas nessa ocasião? - indaguei, talvez com demasiada
premência, pois minha pergunta pareceu provocar em
Bernard uma hostilidade repentina. Seus olhos se estreitaram
e ele se empertigou na cadeira, rígido.
- Isso foi há muito tempo - respondeu em tom brusco. -
Foram queimados ou levados pelas autoridades, quem sabe?
Agora estou velho e já me esqueci daquela época.
Ele não chegou propriamente a enfrentar meu olhar e tive
certeza de que estava mentindo. Um homem que falara dos
livros com tamanha paixão certamente se lembraria de uma
fogueira pública feita com eles, mesmo que isso houvesse
ocorrido muitos anos antes. Mas, se os livros proibidos não
tinham sido queimados, deviam ter passado para as mãos de
alguém, e me perguntei se o velho saberia de quem.
- Dr. Bruno, o senhor ainda não respondeu à minha pergunta
- interrompeu Sophia, debruçando-se para dar um tapinha na
minha mão enquanto me encarava com seus olhos castanho-
dourados bem separados. A sugestão de um sorriso bailou em
seus lábios carnudos, como se ela também conhecesse uma
piada excelente e estivesse considerando nos deixar ouvi-la.
- Quem era ele?
Respirei fundo e retribuí seu olhar de expectativa com a
firmeza que me foi possível, ciente de que toda a mesa havia
se calado, à espera da minha resposta, e de que havia uma
grande probabilidade de que minhas palavras fossem
interpretadas como blasfêmia.
- Hermes Trimegisto, dito o Três Vezes Grande, foi um sumo
sacerdote egípcio da Antiguidade - comecei, revirando um
naco de pão entre os dedos. - Ele viveu depois da época de
Moisés, muito antes de Platão ou de Cristo. Alguns dizem
que ele era o deus egípcio Toth, divindade que representava
a sabedoria. Em todo caso, era um homem de discernimento
inusitado, que, através de uma profunda contemplação do
cosmos e da experimentação das propriedades do mundo
natural, reuniu os conhecimentos necessários para
desvendar os segredos escritos no livro da natureza e nos
céus. Ele afirmou ter penetrado na mente divina e a ter
compreendido. - Fiz uma pausa e concluí: - Dizia ser capaz
de se igualar a Deus.
Houve um arquejo coletivo ao redor da mesa. Aqueles
homens sabiam que esse era um terreno realmente perigoso,
por isso me apressei a acrescentar:
- Ele é chamado de primeiro filósofo e primeiro teólogo,
além de ter sido profeta. Lactâncio atribuiu a Trimegisto a
previsão do advento da religião cristã, nas próprias palavras
do Evangelho.
- E Santo Agostinho disse que ele havia recebido essa
previsão do Diabo - disse Roger Mercer, ansioso, ficando
com o rosto ainda mais vermelho quando um pedaço quase
inteiro de carne caiu de sua boca e se alojou em sua barba,
embora parecesse não ter notado. - Pois então, Hermes não
escreveu que os egípcios davam alma aos ídolos de seus
deuses, em ritos mágicos, invocando os poderes dos
demônios?
- Nunca acreditei na história dos demônios e das estátuas -
comentei, em tom leve. - Os homens sempre criaram
brinquedos mecânicos e autômatos e afirmaram tê-los
dotado do dom da vida, como a cabeça de bronze que per-
tenceu a Roger Bacon e que diziam fazer profecias. Mas isso
é mera invenção, combinada com uma grande habilidade
artesanal.
- Então Hermes Trimegisto não era mago? - perguntou
Sophia baixinho, ainda olhando para mim. Parecia
desapontada.
- Ele escreveu longamente a respeito das propriedades
ocultas das plantas e das pedras e sobre a disposição do
cosmos - respondi. - Há quem chame isso de alquimia ou
magia natural, ao passo que outros se referem a isso como in-
vestigação científica.
- Quando é feito com a finalidade de buscar forças proibidas,
é chamado de feitiçaria - interveio o diretor, num tom
severo.
- Mas ele descobriu algum truque mágico que funcionasse? -
insistiu a moça, ignorando o pai.
- Como assim, funcionasse? - perguntei.
- Digo, ele conseguiu usar essa magia natural para influenciar
o mundo, para modificar as ideias ou os atos das pessoas, por
exemplo, e escreveu sobre como fazê-lo?
Os olhos de Sophia brilharam de impaciência nesse
momento e ela se inclinou para mais perto.
- Receitas de feitiços, a senhorita quer dizer? - retruquei,
rindo. - Receio que não. A magia hermética, se quiser dar
esse nome, ensina os adeptos a penetrar nos mistérios do
Universo por meio da luz do intelecto. Trimegisto não pode
ensiná-la a fazer o seu amado se apaixonar por você nem a
mantê-lo fiel. Para isso, melhor seria consultar uma
benzedeira da aldeia.
Os que estavam em nossa ponta da mesa pareceram se
divertir, mas a jovem enrubesceu bastante e desconfiei de
que, sem querer, minha pilhéria havia se aproximado da
verdade. Assim, para disfarçar o embaraço dela, continuei,
depressa:
- Mas o alquimista alemão Heinrich Cornélius Agrippa fala
dessas coisas em seu tratado sobre as ciências ocultas, que o
Dr. Mercer mencionou há pouco. Ele escreve que, além das
imagens celestes usadas na magia, podemos criar nossas
próprias imagens, adequadas a nosso objetivo. Por exemplo,
ele diz que, para conseguir amor, podemos criar uma
imagem de pessoas se abraçando.
- Mas como...? - começou Sophia, no exato momento em
que o diretor tossiu alto e os criados entraram para retirar o
primeiro prato.
- Bem, foi uma discussão sumamente esclarecedora, Dr.
Bruno. Eu sabia que sua conversa e suas ideias incomuns
animariam nosso pequeno círculo do colégio - disse o
diretor, dando um tapinha em meu ombro, num gesto que
denotava sua falsidade. - Mas eu havia imaginado que todos
deveríamos trocar de lugar a cada prato, para que o senhor
pudesse se familiarizar com algumas das outras autoridades
importantes. Por mais que me agradasse dar continuidade ao
seu tema, é claro - acrescentou.
Com isso, ele se levantou da cadeira e se agitou ao redor da
mesa, reorganizando com zelo exagerado a disposição dos
convivas, de modo que me vi no extremo oposto, cercado
pelos três homens com quem ainda não havia conversado.
Os criados trouxeram travessas de prata em que fumegava
uma carne de aroma inebriante com guisado de legumes e,
no decorrer de toda essa atividade, a esposa do diretor, que
mal dissera uma palavra, aproveitou a oportunidade para
pedir licença, alegando uma dor de cabeça e se desculpando
profusamente por ser uma anfitriã tão ineficiente. Parecia
uma mulher melancólica e doentia, mas relembrei o que
Underhill me dissera sobre o filho do casal. Eu já tinha visto
sintomas semelhantes em mulheres que haviam perdido um
filho, não raro anos depois da morte, como se a própria
mente tivesse sido tomada por uma moléstia degenerativa da
qual não conseguisse se recuperar, e senti muita pena dessa
senhora. Era difícil acreditar que uma criatura tão tristonha
tivesse sido a genitora da mocinha animada na outra ponta
da mesa.
A segunda metade da refeição foi consideravelmente menos
interessante que a primeira, agora que eu fora afastado da
companhia de Sophia. Meus novos companheiros de jantar
se apresentaram. Em frente a mim estava Mestre Walter
Slythurst, o tesoureiro do colégio, um homem ossudo, de
lábios finos e da minha idade, com olhos estreitos e
desconfiados e um cabelo escorrido que lhe caía sobre o
rosto. A seu lado sentava-se o Dr. James Coverdale, um
gorducho de uns 40 anos, com uma farta cabeleira negra,
barba curta e bem aparada e ar presunçoso, que explicou ser
o inspetor, a autoridade responsável pela disciplina dos
alunos. À minha direita estava Mestre Richard Godwyn, o
bibliotecário, que parecia mais velho, talvez na faixa dos 50,
e cujas feições largas e caídas me fizeram lembrar um sabujo,
como se a pele fosse grande demais para o rosto, embora sua
expressão sombria houvesse se transformado quando ele
deixou um breve sorriso iluminá-la, ao apertar minha mão.
Todos foram bastante gentis, mas não pude evitar o desejo
de que houvessem permitido que eu continuasse minha
discussão com Sophia. Ficou claro que o teor da nossa
conversa havia irritado o pai da jovem, pois agora ela se
sentava junto ao diretor, no mesmo lado da mesa que eu, de
modo que eu não podia vê-la sem me debruçar
grosseiramente sobre meu vizinho, Godwyn, e chamar
atenção para mim mesmo.
- Vejo que o senhor precisou suportar a língua afiada de
William Bernard, Dr. Bruno - disse James Coverdale,
inclinando-se sobre a mesa.
- Ele parece decepcionado com o mundo que vê - observei,
me certificando de que Bernard se mudara para longe o
bastante para ficar fora do alcance de nossas vozes.
- É comum isso acontecer com os velhos - disse Godwyn,
com um aceno sombrio da cabeça. - Ele enfrentou inúmeras
mudanças em seus 70 anos, não deve ser fácil.
- Se ele continuar a dizer o que pensa entre os alunos com a
mesma franqueza com que conversa entre os colegas, não
vai demorar a seguir o caminho do amigo - comentou
Slythurst, num tom seco e abrupto, sugestivo de que tal
desfecho não lhe seria desagradável.
Não gosto de julgar os homens pela aparência e com tão
pouco contato, mas havia algo no tesoureiro que não
suscitava respeito. Ele cravara os olhos em mim desde o
instante em que eu me sentara, e senti que não era um olhar
amistoso.
- Amigo dele? - perguntei.
Coverdale deu um suspiro:
- E uma história triste, Dr. Bruno, e fonte de vergonha para o
colégio: o ex- -subdiretor, o Dr. Allen, foi privado do cargo
no ano passado, depois de se descobrir que havia... -
Coverdale hesitou, buscando uma expressão diplomática -
...cometido perjúrio ao prestar o Juramento de Supremacia.
Ao que parece, ele ainda era um devoto comungante da
Igreja Romana.
- É mesmo? E como foi descoberto?
- Foi denunciado por uma fonte anônima - respondeu o
inspetor, como se estivesse satisfeito com a intriga. - Mas,
quando revistaram seu quarto, constataram que ele possuía
uma grande quantidade de literatura papista proibida. E, é
claro, o subdiretor ocupa o segundo cargo mais alto do
colégio e assume a direção sempre que o diretor se ausenta,
então o senhor pode imaginar o escândalo. Vários de nós
aqui tivemos que depor contra ele no Tribunal da Reitoria.
- A universidade realiza suas próprias sessões judiciais para
fazer cumprir a disciplina - explicou Godwyn, em tom
lúgubre. - Porém, num assunto de tamanha importância, o
Conselho Real de Sua Majestade também se interessou. O
conde de Leicester, nosso presidente universitário, como o
senhor sabe, tem encarregado incansavelmente os dirigentes
dos colégios de se livrarem, eles mesmos, de qualquer
suspeita de papismo, e por isso foi preciso que o diretor
tomasse providências rápidas e rigorosas contra Allen.
- Anteriormente, o diretor Underhill tinha sido o próprio
capelão do conde de Leicester, como sem dúvida já deve ter
se gabado com o senhor - acrescentou Slythurst. - Ele não
poderia perdoar Allen e conservar o cargo.
- Mas Allen esperava receber perdão - interpôs Coverdale. -
E maior lealdade dos amigos. Nesse aspecto, ele se
decepcionou profundamente.
- Creio que o diretor cumpriu seu dever com um peso no
coração, James
- disse Godwyn, com um olhar significativo para Coverdale. -
Todos ficamos realmente tristes por ter que dar um
depoimento público sobre seus erros.
- Roger Mercer prestou seu depoimento com bastante
rapidez - disse Coverdale, com uma olhadela de raiva mal
disfarçada para o lugar da mesa em que Roger ria
alegremente com Florio. Vi Slythurst revirar os olhos, como
se já tivesse ouvido essa queixa muitas vezes. - E diziam que
ele era o amigo mais íntimo de Allen. Mesmo assim, recebeu
suas 30 moedas de prata, não foi?
- De prata? - indaguei.
- O depoimento dele foi crucial para a condenação de Allen,
e foi por isso que ele recebeu o cargo do amigo quando este
foi demitido - respondeu Coverdale em tom amargo.
- Talvez eu deva esclarecer ao Dr. Bruno que,
tradicionalmente, é o bedel que sucede o subdiretor, assim
como o subdiretor se torna diretor - explicou Godwyn. -
Sempre foi assim: há uma assembleia do corpo docente, é
claro, mas a votação, na verdade, é um selo formal de
aprovação à sucessão já estabelecida.
- Mas, como o diretor atual foi posto aqui pelo conde de
Leicester a fim de cumprir suas ordens - sibilou Coverdale,
encolhendo-se na cadeira para não ser ouvido -, ele
manifesta pouco apreço pela tradição e nomeia os que lhe
parecem mais maleáveis. E todos sabemos por que Leicester
forçou a eleição de Underhill - acrescentou.
- James - disse Slythurst, com um toque de advertência na
voz.
- Eu tinha entendido que fora para impor a conduta religiosa
apropriada - disse eu. - Para extirpar o cancro do papismo.
- Ah, essa é a razão oficial - disse Coverdale, com um aceno
desdenhoso da mão. - Mas o colégio possui grandes
propriedades senhoriais e lotes de lucrativas terras
cultiváveis no condado de Oxford, e muitos deles estão agora
arrendados a um custo muito vantajoso para amigos de
Leicester, não é mesmo, mestre tesoureiro?
- Você está sendo inconveniente, James - disse Slythurst, em
tom melífluo. - O Dr. Bruno é amigo do conde de Leicester.
- Na verdade, nunca o conheci - apressei-me a dizer. -
Apenas estou viajando com o sobrinho dele.
- Seja como for - prosseguiu Coverdale, animando-se com o
assunto -, o colégio perde lucros consideráveis e tem de
batalhar para equilibrar o orçamento, aceitando legiões
desses chamados plebeus aristocráticos, alunos pagantes que
não têm inclinação nem talento para ser eruditos e que
vagueiam pela cidade saindo com prostitutas, jogando e
desonrando a universidade.
- Esse não é um tema apropriado para a hora do jantar - disse
Slythurst, com a voz carregada de uma raiva fria, batendo
com a palma da mão no tampo da mesa, apenas com firmeza
suficiente para assinalar seu desagrado. - Não há nada de
impróprio em tais arrendamentos, mas o desembolso das
verbas do colégio não deve ser de interesse algum para o
nosso convidado, tenho certeza. Um pouco de discrição,
senhores, por favor.
Os professores baixaram os olhos, sem graça, e pairou um
silêncio incômodo.
- Dr. Coverdale - comecei, me virando para o bedel com um
sorriso diplomático o senhor estava falando do julgamento
de Edmund Allen. Por favor, continue.
Coverdale trocou com Slythurst um olhar que não pude
decifrar e, em seguida, cruzou as mãos.
- Eu estava apenas dizendo que o depoimento de Mercer
contra Allen teve grande peso no julgamento, até por ele ser
o confidente mais íntimo do réu. O diretor precisava da
cooperação de Mercer e, em troca, este recebeu o cargo de
Allen.
- Que deveria ter sido seu - sugeri.
Coverdale levou a mão gorducha ao peito e assumiu uma
expressão de modéstia pouco convincente, dizendo:
- Não é por meus méritos que digo que se cometeu uma
injustiça, Dr. Bruno, mas pela quebra da tradição. Esta
universidade se alicerça na tradição e, se os indivíduos
acharem que não são obrigados a respeitá-la porque seu
patrocínio pessoal tem mais peso, o tecido de nossa
comunidade irá se esgarçar.
- Edmund era amigo de muitos de nós - comentou Godwyn,
com ar pesaroso. Um clima sombrio tinha caído sobre nosso
grupo quando, mais uma vez, ouvi Sophia, Florio e Roger
irromperem numa gargalhada. - Ele também era querido
pelos alunos... foi uma grande pena não ter conseguido, no
fundo do coração, renunciar aos erros de suas antigas
crenças.
- O exílio parece ser uma punição severa para quem apenas
possui alguns livros - arrisquei, enquanto me servia de mais
carne e cebola.
- Ele teve sorte de sair da Inglaterra ainda levando as
entranhas dentro da barriga - disse Slythurst, em tom
desapaixonado. - Homens menos afortunados receberam
castigos mais rigorosos por menos. O senhor, em especial,
Dr. Bruno, deveria saber que a heterodoxia na religião é um
pecado gravíssimo, contra Deus e contra a ordem
estabelecida - e me lançou um olhar penetrante.
- Não foram só os livros - interrompeu Godwyn, num tom
confidencial. - Houve uma suspeita de que ele agia como
mensageiro do primo, William Allen, o do seminário inglês
de Reims. Ele foi levado para Londres e interrogado sob
torturas cruéis, mas não disse nada em momento algum e, no
fim, o mandaram para o exterior. Pobre Edmund - disse ele
pesaroso, balançando a cabeça e enxugando a taça.
- Hoje conheci o filho dele - comentei, cortando outro
pedaço de pão.
Coverdale revirou os olhos.
- Nesse caso, sinto pena do senhor. Decerto ele implorou
que levasse apelos à corte para que o pai fosse perdoado, não
foi? - perguntou. Sem esperar resposta, estalou a língua com
raiva. - Nunca deveriam ter deixado aquele menino
continuar aqui, depois da desonra do pai. Thomas Allen tem
convicções perigosas, escreva o que estou lhe dizendo.
Mesmo assim, não consegui convencer o diretor a agir
segundo a minha orientação... ele é brando demais com
aquele menino.
Não pude deixar de pensar que, se o tratamento dispensado a
Thomas Allen pelo diretor era uma prova de brandura, a vida
do rapaz devia ser mesmo muito difícil.
- Mais uma vez, cabe a mim dizer que não creio que nosso
ilustre convidado tenha vindo de tão longe até aqui para
ouvir nossas reclamações sobre assuntos do colégio -
interrompeu Slythurst, numa voz uniforme como o gelo.
Prendeu uma mecha solta de cabelo atrás da orelha e, num
sorriso que apenas exibia os dentes, se virou para mim: -
Conte um pouco sobre suas viagens pela Europa, Dr. Bruno.
Pelo que soube, o senhor lecionou em muitas das famosas
academias do continente. Que lhe parece Oxford em
comparação a elas?
Retribuindo o falso sorriso, passei o restante dessa etapa do
jantar e da seguinte falando dos meus anos de perambulação,
deixando de fora o que me pareceu político deixar e
lisonjeando sutilmente meus companheiros com o que eles
queriam ouvir - a saber, que nenhuma das universidades
europeias chegava aos pés da grande erudição e sabedoria
dos homens de Oxford.
- Por quanto tempo permanecerá em Oxford, Dr. Bruno? -
indagou Coverdale, recostando-se na cadeira e limpando a
boca com o guardanapo, enquanto os criados retiravam os
últimos pratos e taças.
- Creio que o palatino, em cujo grupo estou viajando,
pretende ficar uma semana.
- Nesse caso, espero que compareça ao ofício religioso
conosco, aqui no colégio. O diretor tem apresentado uma
série erudita de sermões sobre os Atos e monumentos, de
John Foxe. O senhor está familiarizado com esse texto?
- Com O livro dos mártires? Naturalmente - respondi,
suspeitando de que aquilo fosse algum tipo de teste. - Muitos
o consideram uma obra bastante inspiradora.
- Receio que o Dr. Bruno não esteja sendo sincero em sua
admiração - disse Slythurst, olhando de mim para os colegas.
- Até hoje não conheci um único católico que admirasse as
terríveis descrições de Foxe sobre o que foi feito com os
mártires protestantes.
- Ele também não dá diversos exemplos de mártires cristãos
dos primeiros séculos da religião, quando os cristãos
sofreram nas mãos de pagãos e infiéis, antes que
começássemos a perseguir uns aos outros? - rebati. - E
porventura esses não são mártires que todos os cristãos
podem honrar e cujos sofrimentos nos fazem lembrar um
tempo em que vivíamos unidos?
- Não foi essa a intenção de Foxe... - começou Slythurst, mas
Coverdale o interrompeu.
- Bem explicado, Bruno. Os fiéis de ambos os lados sofreram
por Cristo, e só Ele sabe quem estará à Seu lado no Juízo
Final.
- É a primeira vez que ouço você defender a tolerância,
James - disse Slythurst, estreitando ainda mais os olhos.
Coverdale ignorou a provocação.
- Ei, sirva mais vinho para nós aqui! - disse ele, chamando
um jovem criado.
Eu recusei outra taça, pois queria refletir sobre minhas
anotações para o debate antes de me deitar e precisava
manter a lucidez.
Quando o jantar terminou, estava completamente escuro lá
fora e todos os convivas se levantaram, despedindo-se com
muitos apertos de mãos e elogios ao diretor pela comida, a
qual, pelo que entendi, fora imensamente superior ao
cardápio usual servido no refeitório do colégio. Todos os
professores apertaram minha mão de forma calorosa,
repetindo as boas-vindas a Oxford e me desejando uma boa
noite de repouso, na expectativa do grande debate do dia
seguinte, aguardado com ansiedade. Richard Godwyn me
convidou a usar a biblioteca sempre que eu desejasse, pelo
que agradeci. Num italiano perfeito, John Florio expressou
sua grande esperança de que pudéssemos passar algum
tempo juntos antes que eu partisse, e até o Dr. Bernard se
levantou, meio sem equilíbrio, e apertou meus dedos entre
suas mãos ossudas.
- Amanhã à noite, feiticeiro - sibilou com um sorriso
desdentado -, você irá contradizer as devotas certezas deles,
e estarei lá na primeira fila para aplaudir. Não porque eu
apoie suas idéias heréticas, mas porque admiro os homens
destemidos. Restam muito poucos neste lugar.
Nesse instante, lançou um olhar penetrante para o diretor,
que fingiu não notar. Apenas Slythurst não se deu ao
trabalho de dar as boas-vindas. Só registrou minha presença
com um breve aceno, enquanto desaparecia pela porta, e,
mesmo assim, somente porque eu o flagrei me fitando com
aqueles olhos frios. Tornei a sentir sua antipatia por mim,
embora procurasse não vê-la como uma desconsideração
pessoal. Notei que ele também saiu sem desejar boa-noite
aos colegas e presumi que era um daqueles homens, bastante
numerosos entre os acadêmicos, que simplesmente não são
abençoados com a desenvoltura social.
Quando dei boa-noite a Sophia, ela estendeu a mão com ar
reservado e lhe dei um beijo respeitoso, sob o olhar atento
do pai, mas ele logo se distraiu com o Dr. Bernard, que fazia
um estardalhaço sobre onde teria deixado o casaco.
Enquanto o diretor lhe assegurava que ele não tinha chegado
com casaco algum, Sophia se inclinou para mim e pôs uma
das mãos no meu braço:
- Dr. Bruno, eu gostaria muito de continuar nossa conversa
anterior. Está lembrado? Sobre o livro de Agrippa? Quem
sabe, depois de encerrado o debate, o senhor tenha mais
tempo para conversar. É fácil me encontrar na biblioteca do
colégio - acrescentou. - Meu pai me deixa ir lá para ler de
manhã e no fim da tarde, quando a maioria dos alunos está
assistindo a aulas e debates.
- Para que a senhorita não lhes desvie a atenção dos livros? -
murmurei de volta. Ela corou e deu um sorriso de
cumplicidade.
- Mas o senhor irá? Há muitas coisas que eu gostaria de lhe
perguntar.
Ela me olhou com uma urgência surpreendente, mantendo a
mão no meu braço. Fiz um breve aceno com a cabeça
enquanto seu pai aparecia junto ao ombro dela e me lançava
um olhar inquisitivo. Apertei a mão dele, agradeci pelo
jantar e desejei boa-noite a todos.

Fiquei contente por emergir no frio da passagem. A chuva
tinha parado e o ar noturno exalava um aroma fresco e
convidativo, depois do calor abafado da residência do
diretor. Pensei em dar uma volta pelo pomar, para
desanuviar a cabeça e fazer a digestão antes de me recolher,
mas, quando cheguei ao fim da passagem, constatei que o
portão de ferro tinha sido fechado. Quando tentei a argola
instalada como maçaneta, descobri que estava firmemente
trancada.
- Dr. Bruno! - chamou uma voz atrás de mim. Ao me virar,
deparei com Roger Mercer, parado no outro extremo da
passagem, junto à porta do diretor. Ele deu alguns passos na
minha direção. - O senhor queria dar uma volta no bosque? -
perguntou, apontando para o portão fechado.
- Não é permitido?
- O bosque é para uso exclusivo dos docentes, e só nós e o
diretor temos as chaves. É mantido trancado à noite para
evitar que os estudantes venham a utilizá-lo para todo tipo
de encontros impróprios. Não há dúvida de que eles acham
locais alternativos, quando conseguem escapulir pelo portão
principal - acrescentou, com um sorriso indulgente.
- Eles não têm autorização para sair à noite? - perguntei. -
Isso me parece um confinamento rigoroso de homens no
auge da juventude.
- A ideia é lhes ensinar a autodisciplina. Mas a maioria
encontra modos de contornar as regras... eu mesmo fazia
isso, na idade deles - disse Mercer, com um risinho. -
Cobbett, o porteiro, é um velhote bondoso, que está aqui há
anos e se dispõe a olhar para o outro lado em troca de
algumas moedas, quando os rapazes voltam da cidade depois
que os portões foram trancados. Ele também gosta de beber,
então às vezes acho que se esquece, convenientemente, de
trancar o portão.
- O diretor não o repreende?
- O diretor é severo em algumas questões, mas em outras
demonstra uma compreensão sagaz da melhor maneira de
lidar com essa grande comunidade de rapazes. A vareta de
ferro nem sempre é a escolha mais sensata. Às vezes, a boa
liderança é uma questão de saber quando fechar os olhos.
Queiramos ou não, os rapazes irão a tabernas e bordéis e,
quanto maior a força empregada na proibição, maior o
atrativo.
- Como disse o Dr. Bernard sobre os livros proibidos - refleti.
Mercer me olhou de lado no momento em que chegamos,
pela outra extremidade da passagem, ao pátio aberto, onde o
relógio da ala norte anunciou que eram 21 horas.
- O senhor deve perdoar parte da severidade do Dr. Bernard
- disse ele, em tom de desculpa. - Ele teve de mudar de
religião três vezes, sob quatro soberanos diferentes.
Ordenou-se padre na juventude, antes que o pai da rainha
rompesse com Roma. Ultimamente, porém, tem tido cada
vez menos papas na língua, e começo a desconfiar de que
esteja sofrendo daquele mal dos idosos, em que, vez por
outra, o indivíduo se perde na memória e não sabe ao certo
com quem está falando.
- Ele me pareceu bastante lúcido, embora rancoroso.
- Sim - suspirou Mercer. - Ele tem raiva... do mundo, da
universidade, do que foi exigido dele, e também de si mesmo
pelo que fez. E o senhor deve estar intrigado com a raiva que
ele manifestou de mim - e tornou a me olhar de relance,
quase tímido.
- Ele falou com amargura sobre o exílio.
- Estava se referindo ao problema no ano passado com nosso
subdiretor, Edmund Allen, como presumo que o senhor
tenha ouvido. Bernard era muito chegado a ele, assim como
eu, mas fui obrigado a depor contra ele no Tribunal da
Reitoria, a respeito de determinados assuntos ligados a suas
práticas religiosas. Bernard considerou isso uma traição
imperdoável.
- E o senhor? - perguntei, em voz baixa.
Mercer deu um risinho amargurado.
- Ah, eu agi de acordo com meu dever e para salvar minha
pele, e agora tenho a beca de subdiretor e o quarto bem
mobiliado que ele ocupava na torre. Bernard tinha razão.
Traí um amigo. Mas não tive escolha, nem ele. Está vendo a
vida que levamos aqui, Bruno? - e apontou para as janelas do
alojamento do diretor, que ainda brilhavam com a luz âmbar
das velas. - E uma vida boa e confortável para um
acadêmico. De muitas maneiras, estamos protegidos do
mundo. E eu não sirvo para nenhum trabalho senão o
convívio com os livros e o saber. Falta a mim a ambição
mundana para me impelir adiante. Se eu não houvesse
condenado publicamente o meu amigo por sua perfídia na
religião, teria tido o mesmo destino que ele e perdido tudo.
E, naquele momento, não se sabia qual seria o destino dele.
O Conselho Real deixou a universidade conduzir o
julgamento, mas havia uma grande probabilidade de que a
questão fosse entregue a ele, e Edmund poderia se ver diante
de um castigo pior do que o exílio. - Mercer estremeceu e
prosseguiu. - Por isso, não me orgulho de meus atos, mas
William Bernard não tem o direito de me criticar. Quando
Sua Majestade subiu ao trono e pôs fim à breve reconciliação
entre Maria, a irmã dela, e Roma, houve um grande expurgo
na universidade: todos os docentes e diretores de colégios
nomeados por Maria foram destituídos de seus cargos,
exceto no caso dos que renunciaram à autoridade papal e
prestaram o Juramento de Supremacia. Bernard o prestou
bem depressa, e aquele juramento lhe rendeu 25 anos
sossegados neste lugar, enquanto seus amigos mais leais
foram dispersados aos quatro ventos.
- No entanto, no fim da vida, parece bastante claro a
qualquer um que o escute que o coração dele está voltando à
antiga religião - observei.
- Acho que, à medida que se aproxima da morte, ele está
ficando menos preocupado com o destino do corpo e mais
temeroso pela alma - disse Mercer.
- Talvez, se víssemos nossa morte tão de perto, todos nós
escolhêssemos um rumo diferente. Infelizmente, porém,
enquanto estamos respirando, nossos temores só dizem
respeito à nossa pobre carne fraca e à nossa posição
mundana.
- Talvez sim. Mas é o filho quem parece estar sofrendo mais -
comentei.
- Você conheceu Thomas? Pobre rapaz! É um estudante
muito aplicado, sabe? Pelo menos, era. - Mercer passou as
mãos pelo rosto, como se o lavasse, num gesto de
desamparo. - Eu o conheço desde que chegou a Oxford, aos
15 anos. Antes de partir para Reims, Edmund me encarregou
de cuidar de Thomas como um pai. Edmund compreendeu
por que tive de agir como agi... e me perdoou. Mas Thomas
se recusa a me perdoar por ter participado do julgamento de
seu pai. Tentei ajudá-lo... quer dizer, oferecer a ele de
presente as somas que estão a meu alcance, mas ele prefere
se humilhar, servindo de escravo para aquele exibido do
Norris, a aceitar um centavo. Quando nos cruzamos no
pátio, ele nem sequer dá sinal de registrar minha presença,
mas sinto o ódio arder dentro dele como uma fornalha.
- E duro. Mas ele é jovem, e as paixões dos jovens não raro
são tão breves quanto ferozes. Com o tempo, talvez ele o
perdoe.
Nesse momento, fiz uma reverência e fui andando em
direção a minha escada, ansioso por me dedicar ao trabalho
antes que ficasse muito tarde. Mercer deu um passo à frente
e segurou minha mão.
- Espero que tenhamos oportunidade de conversar mais, Dr.
Bruno - disse.
- Fico realmente feliz em conhecê-lo e espero não ter soado
carola demais em minha censura, hoje à noite, ao falarmos
de Agrippa e dos tratados herméticos.
- Ah, estou bastante acostumado com a reprovação -
declarei, descartando seu pedido de desculpas com um
sorriso.
- Você não me entendeu. O diretor é um homem devoto e,
como eu disse, sabe ser severo quando quer. Para aqueles
cuja posição depende da opinião favorável dele, é prudente
expressar à sua mesa ideias conciliáveis às dele. Mas faz
muito tempo que tenho enorme interesse por essas obras...
como estudioso, entenda bem, pois creio que é possível
estudar objetivamente as filosofias ocultas e, ainda assim,
continuar a ser um bom cristão. Não é mesmo, Bruno?
- Era o que Ficino pensava - respondi -, e espero que com
toda a razão, Dr. Mercer, caso contrário, estarei condenado.
- Por favor, me chame de Roger - disse ele, em tom
caloroso. - Bem, vou aguardar com interesse nossa próxima
conversa sobre essas questões.
Então, fez uma reverência e se afastou, atravessando o pátio.
Quando me virei para voltar a meu quarto, grossas gotas de
chuva recomeçavam a cair do céu carregado.
Capítulo 4

LI E REVISEI MINHAS NOTAS para o debate até meu candeeiro
se apagar e, depois disso, tive um sono irrequieto. O quarto
era frio e a chuva açoitava com força as vidraças enquanto a
madeira rangia. Foi por isso que, durante um breve cochilo,
ao ser perturbado por um enorme barulho, de início eu não
soube ao certo se havia amanhecido ou se era uma mera
alucinação de meus sonhos confusos. Aos poucos, porém, o
barulho se tornou mais insistente e, ao acordar e ver que
ainda não estava claro, percebi que a barulheira infernal do
outro lado das minhas janelas era o som enfurecido de um
cão latindo. Eu me enrolei melhor nas cobertas, maldizendo
o diretor ou quem quer que houvesse tido a ideia de manter
um animal tão feroz no terreno do colégio, e me encolhi na
cama, na esperança de recuperar o sono perturbado. E foi
então que um segundo som se juntou àquele coro bestial do
amanhecer - um som que jamais vou esquecer e que, vez
por outra, ainda escuto em meus sonhos. Era o grito
aterrorizante de um ser humano penando, num pavor
mortal, e ele se foi tornando mais alto e angustiado à medida
que os latidos do animal ficavam mais ferozes e cruéis.
Com o horror desse conjunto de sons dissipando aos poucos
os últimos fiapos do meu sono, percebi que alguém, não
muito longe das minhas janelas, temia pela própria vida.
Imaginei que se tratasse de um intruso, talvez surpreendido
por um cão de guarda, mas não consegui ignorá-lo, por isso
enfiei às pressas os calções e uma camisa e parti para
descobrir a fonte daquela consternação e ver se eu poderia
ajudar.
Emergi da escada dos meus aposentos no pátio
ensombrecido. As nuvens pesadas eram rompidas por veios
de luz pálida e, por ora, a chuva tinha diminuído, deixando
atrás de si uma neblina prateada que pairava espessa no ar
matutino, a tal ponto que mal consegui discernir o relógio na
ala norte, em frente, e precisei dar alguns passos para ver
seus ponteiros: quase cinco horas. O barulho pavoroso do
cão de caça continuou, e das outras escadas em volta do
pátio principal começaram a surgir figuras na névoa, à
medida que rapazes de ceroulas por baixo dos camisões de
dormir e com o cabelo despenteado foram se juntando em
grupos timidamente, murmurando entre si, sem saber se de-
viam ou não se aproximar. A barulheira vinha,
inequivocamente, da passagem da ala leste que levava à
residência do diretor e ao bosque, o tal jardim dos
professores que eu tentara explorar na noite anterior.
Reunindo coragem, corri por toda a extensão da passagem
até o portão de ferro, onde encontrei dois rapazes puxando
em vão a maçaneta e espreitando as profundezas enevoadas
do jardim. Ao ouvirem meus passos, eles se viraram, os
rostos pálidos.
- Há alguém lá dentro, senhor, com uma fera selvagem! -
exclamou o aluno mais alto. - Eu tinha acabado de me
levantar para lavar o rosto quando ouvi os gritos, mas daqui
não se consegue enxergar nada.
- Não temos a chave! - disse o outro, em tom aflito. - Apenas
os docentes têm, e o portão está trancado.
- Então, precisamos acordar um deles - retruquei, me
perguntando como o diretor, cujos aposentos deviam ter
janelas que davam para o jardim, podia estar dormindo em
meio àquele tumulto. - Vocês devem saber onde ficam os
quartos deles... Depressa, vão acordar alguém que possa abrir
o portão. Há alguma outra entrada?
- Duas, senhor - disse o estudante alto, enquanto seu amigo
saía correndo pela passagem em busca de ajuda. - Há outro
portão igual a este, que leva da arcada à outra extremidade do
refeitório, ao lado das cozinhas, e há uma porta no muro do
jardim que dá para a travessa Brasenose, mas todos ficam
trancados à noite.
- Bem, o homem que está lá dentro deve ter entrado de
algum modo - retruquei, nervoso, enquanto uma voz
sufocada soltava um grito inconfundível: "Me salve, Jesus!
Minha Mãe Santíssima, me salve!" Outro grito cortou o ar,
seguido por pedidos entrecortados de socorro, e depois se
ouviu um rosnado feroz e um som verdadeiramente
desumano, um gorgolejo asfixiado que pareceu durar vários
minutos. Uma pequena aglomeração de estudantes curiosos
e agitados já se formava atrás de nós quando ouvi a voz do
diretor, aos gritos:
- Me deixem passar, estou mandando!
Ele estava com o rosto inchado e sonolento, um casaco
jogado por cima do camisolão, e segurava um molho de
chaves. Ao me ver, se assustou:
- Oh, Dr. Bruno. O que é essa perturbação medonha? Quem
está lá dentro? O senhor consegue enxergar alguma coisa?
Tentei olhar das janelas, mas a neblina e as árvores impedem
a visão.
- Não estou vendo nada, mas parece que um animal selvagem
está destroçando alguém no jardim. Ele precisa de ajuda, e
rápido!
O diretor me olhou como se eu tivesse acabado de dizer que
um rebanho de bois tinha voado por cima do colégio, mas
em seguida se recompôs e deu um passo em direção ao
portão, as chaves na mão. No entanto, logo parou e se virou
de novo para mim, o rosto tenso de medo. Os rosnados e
latidos terríveis continuavam lá dentro, mas os sons
humanos haviam parado. Temi pelo pior.
- Mas... mas, nesse caso, seria loucura entrar sem uma arma,
se houver um cão selvagem à solta! - gaguejou o diretor. - É
preciso matá-lo... alguém tem que buscar o chefe da guarda
ou um bedel que possa trazer uma balestra. Um de vocês,
depressa! - gritou com rispidez para a multidão de rapazes
semi-vestidos que estavam no fim da passagem, olhando,
boquiabertos. - Vão buscar o chefe da guarda,
imediatamente! - e os alunos se entreolharam, antes que dois
saíssem correndo em direção ao pátio.
- Será que não podemos encontrar um pedaço de pau ou um
atiçador, alguma coisa? Temos de entrar, diretor. Receio que
já estejamos chegando tarde demais para o pobre infeliz que
está preso aí dentro - disse eu, estendendo a mão com
urgência para pegar as chaves.
O diretor olhou ao redor, em pânico:
- Mas... como pode haver um cachorro no jardim? -
perguntou, como se falasse sozinho, as sobrancelhas unidas
numa expressão perplexa.
- Não é um cão de guarda, para impedir a entrada de
intrusos? - indaguei, agora eu mesmo intrigado. - Não terá
sido um ladrão que escalou o muro, talvez?
- Mas não há nenhum cão de guarda - respondeu o diretor, a
voz tensa de pânico. - O porteiro tem uma cadela, mas é um
bicho velho e cego, que só tem três pernas e dorme na
guarita dele, junto ao portão principal. Ninguém mais no
colégio tem autorização para ter animais - explicou. Balançou
a cabeça, incapaz de compreender a prova dada por seus
próprios ouvidos. A fera no jardim continuava a fazer seu
ruído infernal.
- Abram caminho - disse uma voz calma atrás de nós, e o
bando de estudantes amontoados na passagem se afastou,
revelando um jovem alto, de cabelo louro até os ombros,
vestindo inadequadamente um belo conjunto de sobre-veste
e calções, tudo em seda preta, com uma fenda que deixava
aparecer o belo forro carmesim, ostentando um rufo
primoroso no lugar da gola, o que lhe dava a aparência exata
de estar a caminho de um baile ou teatro em Londres, e não
de ter levantado às pressas e em meio à confusão, como o
restante de nós. Numa das mãos ele carregava um arco
longo, do tipo usado pela nobreza nas caçadas, mais alto do
que ele e finamente entalhado com incrustações douradas e
arabescos em verde e escarlate. Na outra ele segurava uma
aljava de couro, decorada com o mesmo desenho de vinhas
encaracoladas e folhas de ouro.
- Gabriel Norris! - exclamou o diretor, olhando fixo para o
arco. - O que é isso...?
- O senhor precisa abrir o portão, diretor Underhill -
ordenou o rapaz -, não há tempo a perder: a vida de um
homem está em perigo!
Falou em tom comedido, apesar da urgência da situação,
como se ele, e não o diretor, fosse a autoridade. Meio
abestalhado, o diretor destrancou o portão e o rapaz o
atravessou, enquanto colocava uma flecha no arco. Eu o
segui, hesitante, e o diretor entrou atrás de mim, mantendo-
se junto ao muro.
A bruma densa pairava entre os galhos retorcidos das
macieiras e pregava peças em meus olhos com suas formas
mutantes. Pisando cauteloso pelas sombras azuladas, de
repente vislumbrei, no canto nordeste do lado oposto, o
movimento de um cão grande, de pernas compridas - pela
forma, algum tipo caçador de lobos, pensei, embora não
conseguisse enxergar com clareza. Permaneci perto do
muro, enquanto o tal de Gabriel, em sua roupa espalhafatosa,
avançou com passos firmes em direção ao animal, que
continuava a rosnar e sacudia entre os dentes um objeto
preto e mole a seus pés. Quando cheguei mais perto, a
neblina afinou e pude ver o animal claramente. Sua
mandíbula estava cheia de sangue e salpicada de retalhos de
carne dilacerada. Perdi toda a esperança e senti o estômago
revirar, pois compreendi que chegáramos tarde demais. O
rapaz se deteve alguns passos adiante. O cão, captando um
odor ou um som, parou de mutilar sua presa e levantou a
cabeça. Por um instante muito breve, seus rosnados cessa-
ram e ele fez um movimento em direção ao rapaz, que nesse
momento disparou a flecha. Apesar do ar denso, ele tinha
boa pontaria, e o animal se contorceu e arriou no chão
quando a ponta da flecha se cravou em seu pescoço.
Mal ele caiu, Gabriel largou o arco e ambos corremos para o
monte escuro imprensado na parede, ao lado do cadáver do
animal. Era o corpo de um homem, caído de bruços, com a
beca preta espalhada à sua volta, e a grama toda arrancada e
encharcada pelo sangue que escorrera ao redor do corpo.
Ajudei Gabriel a desvirar o homem e, com o susto, soltei um
grito repentino. Era Roger Mercer, com a cabeça curvada
num ângulo medonho, os olhos cravados no céu, a garganta
dilacerada - uma tira de pele pendendo solta, a carne viva se
projetando do ferimento. Instintivamente, estendi a mão
para estancar o sangue que ainda jorrava de seu pescoço e
seu peito, mas era tarde demais: os olhos estavam
vitrificados, fixados para sempre numa expressão de pavor.
Gabriel Norris pulou para trás, afastando-se do cadáver
ensanguentado, e examinou as próprias roupas, ansioso, para
ver se teria respingado algum sangue nelas, como se essa
fosse sua única preocupação. "Pavãozinho presunçoso",
pensei, enojado, e então me lembrei de onde ouvira seu
nome antes. Mercer tinha se referido a ele, na noite anterior,
exatamente nos mesmos termos. Incrédulo, me agachei
junto ao corpo, observando as mãos destroçadas - dois dedos
quase tinham sido mutilados a dentadas, na tentativa de luta
para afastar o cachorro -, os pedaços de carne arrancados das
pernas e dos tornozelos, nos pontos pelos quais o animal o
havia puxado para o chão, e a garganta terrivelmente
retalhada.
O diretor se aproximou de nós, cauteloso, tampando a boca
com um lenço.
- Ele está...?
- Chegamos tarde demais, que Deus o tenha - respondi, mais
pelo hábito que por devoção. Underhill se aproximou o
bastante para identificar o corpo mutilado do homem que,
na véspera, sentara-se à sua direita no jantar, e teve uma
ânsia de vômito imediata. O jovem chamado Gabriel parecia
ter se recuperado e cutucava o cadáver do cão com a ponta
do pé.
- Uma fera gigantesca - disse, quase com um toque de
orgulho, como se exibisse o animal como um troféu de caça.
Examinando mais de perto, me ocorreu a ideia de que caça
era realmente a imagem apropriada.
- Esse é um cão de caça - afirmei, me ajoelhando ao lado
dele. - E olhe aqui - continuei, apontando para onde as
costelas se projetavam dolorosamente sob o pelo cinzento e
duro feito arame. - Veja como ele está magro... parece que
andou passando fome. E olhe para essa perna... - Um anel de
carne viva circundava a parte superior da perna traseira
esquerda do cão, onde a pele fora brutalmente ralada por
algum tipo de corda ou corrente. O pelo em volta da ferida
havia sido arrancado e estava cheio de falhas, como se o
bicho tivesse tentado repetidamente arrancar seu grilhão
com os dentes. - Acho que ele foi acorrentado, está vendo?
Não é de admirar que tenha ficado tão enlouquecido.
- Mas o que ele estava fazendo no jardim? - perguntou o
rapaz, me olhando com ar de expectativa. - E por que o Dr.
Mercer estava aqui com um cachorro?
- Talvez estivesse levando seu cão para passear e, de repente,
o animal se voltou contra ele... Às vezes os cães são
imprevisíveis - sugeri, sem me convencer da hipótese que
eu mesmo levantara.
- Mas Roger não tinha cachorro - disse o diretor em tom
débil, enxugando a boca com o lenço. - Eu lhe disse:
ninguém do colégio, exceto o porteiro, está autorizado a ter
animais. Não... não, senhores, não há nada para ver aqui! -
exclamou ele de repente, quando viu os alunos entrando em
bando no jardim pelo portão estreito, ansiosos por ver o
espetáculo. - Voltem para seus quartos, todos vocês! Ofício
religioso às seis, como de praxe... Voltem para os quartos e
tratem de se aprontar, vamos!
Relutantes, os alunos deram meia-volta e seguiram
arrastando os pés para o portão, olhando para trás e
murmurando entre si, num tom animado. O diretor se virou
para o jovem que contemplava os cadáveres, ainda com a
aljava pendurada no ombro. Uma expressão de incredulidade
tomou seu rosto, como se só nessa hora ele estivesse vendo
o rapaz com clareza, pela primeira vez.
- Gabriel Norris! - exclamou, abanando freneticamente a
mão. - Que roupa é essa que você está usando, em nome de
Deus?
Norris baixou os olhos para seu vistoso conjunto de
sobreveste e calções, depois remexeu os pés, como que sem
graça.
- Acho que esta não é a hora, diretor Underhill - começou a
dizer, mas o outro o interrompeu.
- Você conhece perfeitamente o édito do conde de Leicester
sobre as normas de vestuário para os alunos! E eu tenho a
incumbência de fazer com que elas sejam cumpridas. Você
quer que sejamos ambos punidos pelo Tribunal da Reitoria,
depois de tudo o que aconteceu? - gritou. Seu rosto ficara da
cor de beterraba, a voz sufocada. Não pude deixar de
considerar aquela reação um exagero, dadas as
circunstâncias. - Nada de franzidos, nem sedas, nem velu-
dos, nem fendas na sobreveste nem nos calções! - prosseguiu
ele, elevando o tom a cada item. - E nada de armas! Você
desdenha de propósito de todas as normas estabelecidas a
respeito do vestuário! Isto aqui é uma comunidade de
estudiosos, Sr. Norris, não um baile da corte em que o
senhor possa pavonear a sua riqueza!
O rapaz torceu a boca e fez ar de mau humor. Mesmo nessa
atitude de petulância, vi que era bastante bonito e estava
claramente acostumado a fazer as coisas a seu modo.
- Esta comunidade de estudiosos não poderia renunciar à
minha fortuna, como bem sabe, diretor. E o senhor nos
cobra um preço exagerado. Sou obrigado a comer feito um
mendigo aqui, será que também devo me vestir como um
miserável?
O diretor, submisso, baixou a voz:
- Você deve se vestir como o conde de Leicester considera
apropriado para um homem de Oxford - disse. - Agora, por
favor, vá depressa trocar de roupa. Se você for denunciado,
ambos estaremos enrascados. Como vou explicar? -
interrompeu-se nesse instante, olhando com ar de
desamparo para os dois cadáveres. Percebi que suas mãos
tremiam muito e suspeitei de que o homem estava em
choque.
Gabriel Norris me olhou por um instante, como se relutasse
em deixar a cena de seu heroísmo, depois pensou melhor,
talvez, e, com certa pressa, apanhou o arco e fez meia-volta
para se retirar.
- Sr. Norris! - chamou-o Underhill.
O rapaz se virou com ar desafiador.
- Sim, senhor diretor?
- Um arco longo? Por que, em nome de Deus, você tem um
arco e flecha no colégio?
Norris deu de ombros.
- Meu pai o deixou para mim. É uma lembrança. Além disso,
caçar por esporte é permitido aos alunos pagantes que
tenham licença.
- Não é permitido ter arco e flecha nas dependências do
colégio - rebateu Underhill, em tom débil.
- Se eu não o tivesse no colégio, o senhor teria sido obrigado
a lutar com aquele cão com suas próprias mãos, senhor
diretor - retrucou Norris, em tom seco. - Mas não espero
que me agradeça.
- Ainda assim, Sr. Norris, insisto em que o leve para o cofre-
forte, na torre, onde poderá ser guardado. Peça ao professor
Slythurst ou ao Dr. Coverdale que o tranquem lá dentro para
você. Hoje, por favor! - acrescentou, enquanto Norris
desaparecia pelo portão aberto.
O diretor respirou fundo e, em seguida, suas pernas
pareceram ficar bambas. Eu lhe ofereci o braço e ele se
apoiou em mim, agradecido.
- Diretor Underhill - ponderei, apontando o corpo de Roger
-, um homem morreu num acidente pavoroso. Precisamos
tentar entender como é possível que isso tenha ocorrido. Se
é que de fato foi um acidente - acrescentei, porque, quanto
mais eu buscava uma explicação, mais inquieto as
circunstâncias me deixavam.
Nesse momento, Underhill tropeçou e quase caiu por cima
de mim, o rosto lívido.
- Santo Deus, você tem razão, Bruno! Os comentários vão se
espalhar como um incêndio incontrolável entre os
estudantes. Mas como é possível explicar isso? A não ser... -
Havia pavor em seu rosto e senti pena dele. Seu reino sereno
e ordeiro fora virado de pernas para o ar em poucos minutos.
- Bem, busquemos primeiro as causas mais prováveis - sugeri.
- Se não há cães no colégio, exceto a velha cadela do
porteiro, este aqui deve ter vindo do lado de fora, muito
provavelmente cruzando aquele portão.
- Sim, sim, é isso: uma fera perdida achou o caminho do
portão para entrar - disse ele, agarrando-se a minha sugestão,
agradecido.
Mercer fora derrubado e brutalmente atacado a poucos
passos do portão de madeira que dava para a travessa atrás do
colégio. No entanto, quando tentei a maçaneta, vi que a
fechadura estava firmemente trancada. O diretor
permaneceu imóvel, como que paralisado pelos corpos do
caçador e de sua presa. No muro dos fundos, ali perto, notei
um retalho de tecido preto espetado na borda de um tijolo.
Abaixo desse ponto, pegadas de botas e patas indicavam que
a grama fora pisoteada até virar lama, além de estar
generosamente encharcada do sangue de Mercer.
- Parece que ele tentou escalar o muro, pobre homem -
comentei, como se falasse sozinho. - Isso explicaria as pernas
destroçadas. Mas o muro tem o dobro da altura de um
homem... Por que ele simplesmente não correu para o
portão,
para fugir? A não ser que o cão estivesse entre o portão e ele,
o que significaria que teria vindo de fora. Mas, nesse caso,
como é que o portão está trancado?
Olhei de relance para Underhill, que continuava imóvel,
depois me apressei a experimentar o outro portão que dava
para o colégio, na passagem que corria entre o refeitório e as
cozinhas. Também estava trancado. Então, fiquei intrigado:
como o cão teria entrado no jardim? E, a propósito, como
Roger Mercer teria entrado?
Voltei para onde estavam os cadáveres.
- Será possível - arrisquei, à medida que a realidade do que eu
tinha visto foi começando a se consolidar na minha mente -
que alguém tenha deixado o cão entrar aqui de propósito?
Underhill se virou para me olhar, incrédulo.
- Para pregar uma peça, você quer dizer?
- Dificilmente seria para pregar uma peça. Quem soltou um
cão de caça semimorto de fome devia saber que ele seria
capaz de matar - respondi. Eu me ajoelhei ao lado do corpo
trucidado de Roger e apalpei os bolsos dele.
- Dr. Bruno! - exclamou o diretor. - O que está fazendo? O
pobre homem ainda está quente, por favor!
Roger Mercer estava totalmente vestido, apesar de ser tão
cedo. Num dos bolsos costurados em seus calções encontrei
o que estava procurando.
- Olhe - disse, levantando duas chaves de ferro presas numa
mesma argola, uma muito maior do que a outra. - Uma
destas é a chave do jardim?
Underhill tirou a argola da minha mão e examinou as chaves
contra a luz.
- Sim, a maior delas abriria qualquer dos três portões.
- Nesse caso, ele entrou sozinho e trancou o portão, ou
alguém trancou o portão pelo qual ele entrou, depois que o
viu dentro - ponderei. - De um modo ou de outro, ele foi
preso aqui com um cão selvagem.
- Mas ainda não sabemos como o cão entrou - disse
Underhill, sem compreender.
- Bem, sabemos que ele não pulou o muro nem entrou
sozinho e se trancou aqui - retruquei, encarando-o enquanto
falava, à espera de que ele compreendesse.
O diretor apertou meu braço, o rosto contorcido de pânico.
Senti cheiro de bile em seu hálito.
- O que está dizendo, Bruno? Que alguém deixou aquele
cachorro entrar e depois bloqueou todas as possibilidades de
fuga?
- Não vejo outra explicação - respondi, tornando a olhar para
os dentes pavorosos do animal, entre os quais a língua flácida
agora pendia, com filetes de saliva escorrendo pela
mandíbula. A flecha de Norris continuava em riste, cravada
em sua garganta. - Alguém que sabia que o Dr. Mercer viria
aqui nesse horário. Mas, com certeza, em momento algum
ele suspeitou de que poderia correr perigo, caso contrário,
teria vindo armado.
Então me lembrei do estranho comentário de Mercer na
noite anterior, a propósito de como todos viveríamos de
maneira diferente, se víssemos a morte se aproximar. Eu
havia descartado essa observação, mas estaria ele revelando
que temia pela própria vida? Foi só uma coincidência infeliz,
pensei. Além disso, ele tinha falado em tom confiante sobre
comparecer ao debate e conversar comigo depois. De
repente, senti uma tristeza terrível. Embora eu mal
conhecesse o homem, ele me parecera cordial e sincero e
fazia poucos minutos que eu o ouvira morrer. E pensar que
ele poderia ter sido salvo, se eu tivesse agido com mais rapi-
dez, se alguém tivesse uma chave, se Norris tivesse chegado
antes com seu arco e flecha. Um momento de indecisão
define o destino de um homem, pensei, e me dei conta de
que eu também estava tremendo.
- Será, talvez, que ele tinha o hábito regular de passear tão
cedo pelo jardim? - perguntei. - Digo, alguém poderia saber
que devia esperá-lo aqui?
- É comum os professores gostarem de ler no silêncio do
bosque - respondeu o diretor. - Mas, em geral, não nesse
horário, posso lhe garantir. É muito escuro. Os estudantes se
levantam às 5h30 para se aprontarem para o culto, às seis. O
ofício matinal é obrigatório. Raramente se encontra vivalma
do lado de fora no colégio antes disso, nem mesmo os
empregados da cozinha. Confesso que nunca andei no
jardim nesse horário, por isso não saberia dizer se algum de
meus colegas tem esse costume.
Tornei a me curvar sobre o corpo de Mercer, afastando as
roupas ensanguentadas e rasgadas, para ver se alguma coisa
na pessoa dele seria capaz de explicar sua presença no
bosque tão cedo, e então me lembrei da brincadeira que ele
fizera sobre a popularidade do jardim como local de
encontros amorosos. Será que ele fora esperar alguém que
nunca havia chegado, ou que chegara e trouxera a morte
consigo? Mercer não carregava nenhum livro, mas um
volume na parte interna de sua sobreveste sugeriu um bolso
oculto. Enfiei a mão e retirei dele uma bolsa gorda de couro,
com moedas tilintando.
- Se o propósito dele fosse uma caminhada calma e
contemplativa antes do alvorecer, com certeza ele não teria
precisado trazer isto - comentei, desatando a bolsa e
mostrando seu conteúdo ao diretor. As moedas inglesas não
significavam nada para mim, embora claramente houvesse
muitas delas, porém os olhos do diretor saltaram diante
daquela visão.
- Santo Deus, aí há pelo menos 10 libras! - exclamou. - Por
que ele carregaria uma soma dessas?
- Talvez esperasse encontrar alguém a quem devesse
dinheiro.
- E, sabendo que estaria aqui, soltaram um cachorro em cima
dele! - tornou a exclamar Underhill, de olhos arregalados. -
Vingança por uma dívida não quitada, deve ter sido isso.
Balancei a cabeça.
- Nesse caso, por que o dinheiro continuou no bolso dele? Se
alguém quisesse feri-lo, talvez por ele não ter pago uma
dívida, certamente teria feito questão de primeiro pegar o
dinheiro.
- Mas quem poderia querer ferir Roger? - perguntou
Underhill, em desespero.
- Eu não saberia dizer. Mas um cão selvagem não entra por
acaso num jardim fechado, passando por portões trancados. -
Sacudi a roupa, notando que fora manchada pelo sangue de
Mercer. - Agora que aconteceu essa coisa terrível, suponho
que o senhor queira cancelar o debate de logo mais, não é?
O rosto do diretor novamente se encheu de medo.
- Não! - protestou ele com veemência, me segurando pelos
ombros. - O debate precisa ser realizado. Não podemos
deixar que este incidente perturbe uma visita régia de
inspeção. O senhor é capaz de imaginar as consequências,
Dr. Bruno? Sobretudo se houvesse rumores de que isso foi -
olhou em volta, antes de sussurrar a palavra - proposital? O
colégio ficaria maculado e, junto com ele, a minha
reputação, e já tivemos tantos problemas por aqui
ultimamente que tenho mais receio da insatisfação de
Leicester do que saberia lhe dizer.
- Mas um homem foi brutalmente morto... talvez assassinado
- protestei. - Não podemos cuidar das nossas tarefas como se
nada houvesse acontecido.
- Shhhh! Pelo amor de Jesus Cristo, não repita essa palavra
terrível, assassinato, Bruno. - O diretor correu um olhar
desvairado pelo jardim e baixou a voz, embora ainda
estivéssemos sozinhos. - Faremos um anúncio de que isso foi
um trágico infortúnio. Diremos... - fez uma pausa breve,
para compor sua história - ...sim, diremos que alguém deixou
o portão do jardim aberto e que um cão vadio entrou e
atacou Roger, que se levantara cedo para rezar e meditar no
bosque.
- E vão acreditar nisso?
- Acreditarão, se eu disser que foi o que aconteceu... eu sou o
diretor nomeado pelo conde - respondeu Underhill,
deixando ressurgir uma pitada da sua pompa anterior. - E
depois, estava escuro e havia neblina, e ninguém enxergava
com clareza.
Então surgiu em seu rosto uma expressão dura, além do
desespero. Vi sua determinação de preservar o bom nome
do colégio a qualquer preço, e imaginei que essa mesma
inclemência devia tê-lo dominado durante o julgamento do
pobre Edmund Allen.
- Mas os portões trancados... - protestei.
- Só você e eu sabemos dos portões trancados, Bruno. Não
vejo nenhum propósito na menção deles neste momento, se
você não se importa.
- E o porteiro? Será que não vai se lembrar de ter verificado
os portões à noite?
O diretor deu uma risadinha seca.
- Vejo que você não conhece nosso porteiro. A lucidez e a
memória afiada não são os pontos fortes dele. Se eu disser
que um portão ficou aberto, ele certamente não poderá dizer
outra coisa. Sim, creio que esse é nosso curso de ação mais
seguro.
Ao ver meu olhar apreensivo, ele apertou meu ombro e
acrescentou, em tom mais brando:
- Se todas as suspeitas forem silenciadas, será mais fácil
investigar o que realmente aconteceu aqui nesta madrugada.
Mas, se houver uma grande comoção e Oxford inteira se
alvoroçar com boatos de que o Colégio Lincoln é um local
de assassinatos selvagens, o criminoso, se é que de fato existe
um, com certeza desaparecerá na confusão. Se quisermos
que a justiça seja feita, será melhor não alardearmos essa
tragédia. Eu ficaria extremamente grato por sua ajuda nesta
questão, Dr. Bruno.
Não soube ao certo se ele se referia à questão de encobrir a
verdade ou de desvendá-la, mas fiquei dolorosamente
perturbado com a idéia de que eu bem podia ter sido a última
pessoa a ver Mercer com vida, e de que quem quer que
houvesse planejado seu fim brutal estaria em liberdade
naquele momento, em algum lugar de Oxford, talvez
exultando por ter sido bem-sucedido. A fria rapidez do
diretor ao lidar com a questão também havia me chocado.
Sua reação humana à morte terrível do colega parecia ter
sido tragada pelo medo de perder o cargo.
O céu estava clareando e a névoa se dissipava, restando
apenas retalhos esfiapados entre as árvores. Os dois
cadáveres na grama orvalhada haviam adquirido uma nítida
solidez com a luz cinzenta. Underhill olhou para o céu,
ansioso.
- Santo Deus, deve estar quase na hora do ofício! Preciso ir lá
falar, para tranquilizar a comunidade. A história já deve estar
ganhando vulto - acrescentou, torcendo as mãos até os nós
dos dedos ficarem brancos, como se falasse sozinho. -
Primeiro tenho que mandar os criados da cozinha trazerem
um saco para aquela carcaça, que não pode ficar aqui.
Olhei para ele, estarrecido, até que o diretor notou minha
expressão.
- O cachorro, Bruno! Mas você está certo, é preciso mandar
buscar o oficial de inquirição, para que o corpo possa ser
removido. Ah, são tantas coisas por fazer! Tenho que pedir a
Roger... - Nesse momento, Underhill pôs as mãos na boca e
se virou para olhar o cadáver, como se só então
compreendesse a perda de seu substituto.
- Ah, meu Deus - murmurou Roger está morto!
- Isso mesmo - confirmei, observando-o assimilar a realidade
do fato.
- Mas, então, isso significa que terá de haver outra
assembleia, outra eleição para subdiretor, e não há tempo
para convocá-la. Só que, enquanto isso, preciso ter alguém
para ser meu substituto, e isso acarretará todas as habituais
ciumeiras e os ressentimentos mesquinhos, justamente
quando menos precisamos deles. Oh, como pode ter
acontecido uma coisa dessas?
Tentando conter seus temores crescentes, Underhill se virou
para mim com uma expressão compenetrada, as mãos se
agitando em desamparo junto ao corpo:
- Dr. Bruno, eu sei que isto é uma coisa terrível para se pedir
a um hóspede, mas será que o senhor ficaria com o corpo do
pobre Roger até que possam trazer o oficial de inquirição?
Preciso fazer o triste anúncio dos acontecimentos desta
manhã no serviço religioso, para acalmar as notícias sobre o
assunto, se isso for possível. Mantenha os alunos do lado de
fora. Não queremos que eles se aglomerem aqui dentro para
satisfazer uma curiosidade macabra, como se estivéssemos
instigando cães contra ursos.
- É claro que fico - respondi, torcendo para que minha vigília
não fosse demorada. Embora eu não seja supersticioso a
respeito dos mortos, a fixidez vazia dos olhos sem visão de
Roger Mercer parecia me acusar por eu não tê-lo ajudado.
"Nossos temores estão relacionados à nossa pobre carne
fraca", dissera ele na noite anterior. Agora, tinha encarado
esse temor em cheio. Eu ainda me lembrava da sua voz
entrecortada, implorando que Jesus e Maria o salvassem.
O diretor se afastou depressa pelo gramado, em direção ao
pátio, e fiquei sozinho com os corpos e o turbilhão de meus
pensamentos. Enquanto esperava que eles se acomodassem
em algum tipo de ordem, tornei a me debruçar sobre o
cadáver e levantei o que restava de sua beca dilacerada, para
cobrir seu rosto destruído. Os supersticiosos dizem que os
olhos da vítima de assassinato conservam a imagem do
assassino, mas, quando contemplei pela última vez o olhar
aterrorizado de Mercer, pensei: se essas tolices fossem
verdade, será que eu veria a imagem daquele cão enorme?
No entanto, a realidade dos portões trancados persistia,
insistente: o cão não era o verdadeiro assassino, apenas o
agente. Tornei a me afastar do corpo do professor e me
agachei para examinar o do cão. Era um bicho enorme, cuja
altura batia na cintura de um homem, com a cabeça estreita
e comprida. Notei mais uma vez como estava magro, embora
não parecesse ter sofrido outros maus-tratos exceto a fome.
Quem quer que tivesse soltado aquele cachorro ali devia ter
planejado tudo com cuidado, tornando o ataque ainda mais
letal ao deixar o animal desesperadamente faminto nos dias
anteriores, a julgar pelas aparências. E a bolsa pesada de
Roger - que o diretor tinha levado - sugeria que ele estivera
esperando se encontrar com alguém com quem realizaria
algum tipo de transação. Mas, se o dinheiro tinha estado no
centro de uma disputa na qual Roger se desentendera tanto
com alguém a ponto de quererem matá-lo, eu não conseguia
imaginar por que teriam deixado a bolsa. O dinheiro parecia
ter sido uma prioridade menor do que a morte de Mercer,
embora devesse ter sido fundamental para o encontro que
ele havia antecipado.
Tornei a examinar a disposição do jardim. No lado norte,
fazia fronteira parcialmente com a cozinha, embora eu não
visse nenhuma porta de ligação entre eles. Em três lados era
cercado por um muro de pelo menos 3,5 metros de altura e,
no quarto lado, seu limite era a ala leste do colégio, que
abrigava o refeitório e a residência do diretor. Presumi que
Mercer teria entrado no jardim por uma das passagens de
ambos os lados do refeitório, usando a própria chave. Será
que em seguida havia trancado o portão, para não ser
incomodado, ou alguém teria esperado que ele entrasse para
trancar o portão pelo lado do colégio, deixando-o fechado lá
dentro, sem saber? Teria sido essa a mesma pessoa que em
seguida abrira o portão da travessa, aquele pelo qual o
cachorro - presumivelmente de focinheira até o último
minuto - tinha sido solto, e depois o trancara com o animal
lá dentro? Mas teria levado uns bons minutos para alguém
correr do portão principal e contornar a lateral do prédio, e
qualquer pessoa que fizesse isso seria vista pelo porteiro,
supondo-se que ele estivesse acordado.
No pátio, um sino tocou um dobre desolado, convocando a
comunidade acadêmica para a capela, onde o diretor
divulgaria sua mensagem tranquilizadora e benevolente e
dissiparia as fantasias mais sinistras dos rapazes. Ao me
levantar, me perguntei com displicência se James Coverdale
finalmente realizaria sua ambição de se tornar subdiretor, e
uma idéia me atingiu como se fosse uma lâmina fria. O
diretor havia perguntado, de maneira retórica, quem iria
querer prejudicar Roger Mercer, e eu tinha dito que não
sabia. Mas, examinando a questão nesse momento, percebi
que até eu, um estranho que ainda não havia passado nem
um dia inteiro no colégio, já tinha encontrado duas pessoas
que pareciam odiá-lo. Será que não haveria mais? Talvez uma
delas tivesse tentado extorquir dinheiro de Roger e, em vez
disso, tenha resolvido matá-lo. Eu o achara um homem
bastante simpático, mas sua participação no julgamento do
infeliz Edmund Allen parecia ter despertado ressentimentos.
Quem saberia dizer quantos outros inimigos ele teria feito?
Mas esses ressentimentos deviam ter cozinhado em fogo
brando por muito tempo. Por que esperar pela semana de
uma visita régia de inspeção para cometer atos vingativos? A
não ser...
Enquanto pensava nessa nova pista, fui interrompido pela
visão de uma úgura que corria em minha direção por entre
as árvores, vinda dos lados do colégio. Dei um passo à frente,
na esperança de que fosse o oficial de inquirição chegando
para me liberar dos meus deveres, e me surpreendi ao
reconhecer Sophia Underhill, que usava um vestido azul de
tecido fino e um xale em volta dos ombros, o cabelo
balançando ao vento às suas costas. Ela se deteve a uma curta
distância, parecendo igualmente surpresa por me ver.
- Dr. Bruno! O que... o que está fazendo aqui?
- Eu estava esperando seu pai - respondi, dando mais um
passo para ela, na esperança de afastá-la dos cadáveres.
- Disseram que Gabriel Norris matou um intruso - comentou
a moça, o rosto afogueado pelo drama do momento. - Ele
ainda está aqui? - perguntou. Seus olhos brilharam de ansiosa
expectativa quando ela os correu pelo ambiente, num
ímpeto frenético, mas notei que torcia as mãos de agitação,
do mesmo modo que o pai.
- Não exatamente - respondi, quase sorrindo. A despeito dos
grandes esforços do diretor, a história parecia vir
aumentando ao ser contada. - A senhorita não falou com seu
pai?
- Ele está no ofício matinal na capela. Eu soube da notícia
por dois alunos que estavam correndo para lá, atrasados -
explicou Sophia, espiando, mais além de mim, as formas
caídas na grama espessa. - É claro que ouvimos o barulho das
nossas janelas, mas nunca imaginei... aquele ali é o corpo do
ladrão? - indagou. Parecia ansiosa para dar uma olhada, mas
me plantei com firmeza em seu caminho.
- Por favor, Srta. Underhill, a senhorita precisa se manter a
distância. Não é algo que você deva ver.
Ela inclinou a cabeça e me encarou, desafiadora.
- Já vi a morte antes, Dr. Bruno. Vi meu próprio irmão com o
pescoço quebrado. Não me trate como uma dessas damas
mimadas que nunca saíram da sala de visitas.
- Eu nem pensaria em fazer isso, mas a situação aqui é pior -
respondi, abrindo totalmente os braços, como se isso
pudesse encobrir a cena. - Bem, não é pior do que a morte
de um irmão, não foi isso que eu quis dizer... só quero dizer
que há muito sangue, não é algo que uma mulher deva ver.
Por favor, confie em mim, Srta. Underhill.
Ao ouvir isso, ela bufou e pôs as mãos nas cadeiras.
- Como é que os homens podem achar que as mulheres são
frágeis demais para ver sangue? Vocês se esquecem de que
sangramos todo mês? Parimos filhos em grandes poças de
sangue, e será que imaginam que tapamos os olhos ao fazer
isso, para que não ofenda nossos sentidos delicados? Eu lhe
asseguro, Dr. Bruno, que qualquer mulher é capaz de ver
sangue com mais coragem do que um soldado, embora os
homens pensem que devamos ser tratadas como cristais de
Murano. Não seja mais um dos que querem me tratar feito
um bibelô.
Fiquei surpreso com a ferocidade de sua argumentação e
admiti que ela estava certa. Ainda assim, eu fora encarregado
de proteger Mercer dos olhares curiosos, por isso tornei a
dar mais um passo, até parar bem na frente dela, a pouco
mais de um palmo de distância. Foi desconcertante constatar
que Sophia era quase da minha altura.
- Eu nem sonharia fazer isso. Mas, Srta. Underhill, peço que
não se aproxime mais... Esse corpo está terrivelmente
mutilado. Receio que seria angustiante, por mais forte que
você seja.
Sophia se manteve firme por mais um minuto, depois seu
senso instintivo de decoro a fez dar um passo atrás. A
expressão de desafio foi substituída por outra, de ansiosa
curiosidade.
- Mas o que aconteceu?
- Um homem foi brutalmente atacado por um cão selvagem.
Norris matou o cão, não o homem.
A jovem franziu o cenho.
- Um cão? No jardim? Espere... - balançou a cabeça,
alvoroçada, como se estivesse fazendo todas as perguntas na
ordem errada. - Que homem?
- Roger Mercer.
- Oh, não! Não! - repetiu, com uma das mãos cobrindo a
boca, a outra no peito. - Não!
Seus olhos correram de um lado para outro, desvairados, sem
pousar em lugar nenhum, e ela arriou devagar no chão, a saia
inflando-se à sua volta, a mão ainda pressionando a boca.
Não soube ao certo se ela estava prestes a chorar ou a
desmaiar, mas a cor desapareceu do seu rosto.
- Ah, meu Deus, não pode ser!
Eu me agachei a seu lado e pus uma das mãos em seu ombro.
- Sinto muito. A senhorita gostava dele?
Sophia me olhou com uma expressão fugaz de perplexidade,
depois assentiu enfaticamente com a cabeça.
- Sim, sim, é claro... isto aqui é a minha casa, e nos últimos
seis anos os professores mais antigos foram como membros
da minha família - disse ela, com a voz trêmula. - Não
consigo acreditar que uma coisa tão pavorosa possa ter
acontecido aqui, no colégio, e bem embaixo das nossas
janelas. Pobre Roger! - exclamou. Então olhou para a forma
amontoada na grama atrás de mim e estremeceu. - Se ao
menos... - interrompeu-se, tornando a comprimir a ponta do
polegar na boca.
- Se ao menos...? - instiguei-a.
Mas Sophia apenas balançou a cabeça e tornou a correr os
olhos em volta, agitada.
- E onde está o Sr. Norris?
- Seu pai mandou que ele trocasse de roupa. Ao que parece, o
traje dele era inadequado.
Nesse momento, ela deu um risinho meigo e indulgente, e
senti uma pontada inesperada e repentina de ciúme. Será que
ela gostava daquele jovem arqueiro todo embonecado?
- Mas um cachorro? - perguntou Sophia, intrigada, passando
as mãos pelo cabelo como se pensasse em voz alta,
novamente com a expressão conturbada.
- De onde ele veio?
- Devem ter deixado o portão da travessa aberto durante a
noite... parece que um cão vadio achou a entrada e estava tão
faminto que seria capaz de atacar qualquer coisa - respondi,
no tom mais sereno que pude.
Sophia estreitou os olhos.
- Não. Aquele portão nunca fica destrancado. Papai é
paranoico com a ideia de entrarem vagabundos e intrusos
durante a noite, ou de os alunos usarem o jardim para se
encontrarem com as criadas da cozinha. Ele o verifica todas
as noites, às 22 horas, antes de se recolher. Seria tão
impossível que esquecesse o portão quanto não se lembrar
de suas orações ou de seu trabalho. Não pode ser.
- Talvez ontem ele tenha deixado essa tarefa a cargo do
porteiro, já que teve de nos receber para jantar - sugeri,
pensando em como era absurdo o fato de eu defender aquela
mentira improvável, quando queria comparar as suspeitas
dela com as minhas. - Ouvi dizer que o porteiro é um
velhote beberrão indigno de confiança.
Sophia me olhou como se estivesse decepcionada comigo.
- Cobbett é velho, sim, e gosta de um trago de vez em
quando, mas está no colégio desde garoto e, se meu pai lhe
confiou essa tarefa, ele preferiria morrer a desapontar o
diretor. Ele pode ser apenas um criado para o senhor, Dr.
Bruno, mas é um velho bondoso e não merece que falem
dele com desprezo.
- Eu realmente sinto muito, Srta. Underhill - retruquei,
envergonhado. - Não era minha intenção...
- É melhor o senhor me chamar de Sophia. Toda vez que
ouço dizerem "Srta. Underhill", eu me sinto muito mais
velha.
- Sua mãe não ouviu a comoção esta madrugada?
- Não sei, ela está deitada - suspirou Sophia. - Ela passa a
maior parte do tempo na cama, é a sua principal ocupação.
- Imagino que ela carregue um grande fardo de tristeza desde
a morte do seu irmão - disse eu, com brandura.
- Todos carregamos um grande fardo de tristeza, Dr. Bruno -
rebateu Sophia, com os olhos faiscando. - Mas, se nos
escondêssemos sob as cobertas, fingindo que o sol já não se
levanta nem se põe, a família desmoronaria. O que o senhor
sabe sobre a morte do meu irmão, afinal?
- Seu pai me fez um relato resumido, ontem à noite. Deve ter
sido insuportável para você.
- Já seria insuportável perder um irmão de qualquer jeito -
disse ela, em tom mais brando. - Mas eu tive liberdades
incomuns enquanto John era vivo, porque ele falava em
meu nome, insistia em que eu fosse sua companheira em
todas as atividades que realizava e que fosse tratada como
ele. Sem meu irmão, sou obrigada a me portar como uma
dama e devo confessar que isso não me agrada nem um
pouco.
Sophia riu inesperadamente, o que foi um grande alívio para
mim, mas seu riso sumiu no silêncio e ela começou a
arrancar talos de grama, distraída.
- Imagino que seu debate de hoje seja adiado por causa disso,
não é? - perguntou ela, com um gesto vago para o relevo
formado pelo corpo de Mercer, como se haver ou não a
discussão não lhe interessasse muito.
- Não, de modo algum. Seu pai está decidido a não
decepcionar o convidado da realeza. Ele disse que
prosseguiremos conforme o planejado.
O rosto de Sophia tornou a demonstrar raiva - ao que
parecia, seu temperamento era tão mutável quanto o clima
do monte Vesúvio - e ela se pôs de pé, sacudindo o vestido
com batidas rápidas e furiosas.
- É claro que ele está. Não faz mal que alguém tenha
morrido, e de uma forma terrível: nada deve perturbar a vida
do colégio. Todos devemos fingir que não há nada fora de
ordem. - Os olhos de Sophia flamejavam de fúria. - Sabe, não
vi meu pai derramar uma única lágrima quando meu irmão
morreu, nem uma só. Quando lhe deram a notícia, ele
apenas balançou a cabeça, depois disse que estaria em seu
gabinete e não queria ser perturbado. Não saiu de lá durante
o resto daquele dia... que ele passou trabalhando -
completou, cuspindo a última palavra.
- Ouvi dizer - comentei, hesitante - que os ingleses acham
necessário portar essa máscara para esconder o que sentem,
talvez porque isso os assuste.
Ela fez um pequeno gesto de desdém com a cabeça:
- Minha mãe se esconde entre as cobertas; meu pai, no seu
gabinete. Juntos, tenho certeza de que os dois quase
conseguiram esquecer que um dia tiveram im filho. Que
bom seria se não tivessem o inconveniente da minha
presença rara lhes recordar disso.
- Tenho certeza de que não é isso... - comecei, mas Sophia
desviou o rosto e travou a boca numa linha tensa. - Qual é
esse trabalho em que seu pai se encerra? - indaguei, para
quebrar o silêncio.
- Ele está escrevendo uma edição comentada de Os atos e
monumentos destes tempos recentes e perigosos, do
professor Foxe - disse a jovem, com um toque ie desdém.
- Ah, sim, O livro dos mártires - disse eu, me lembrando de
que alguém no antar havia mencionado os sermões do
diretor a esse respeito. - Uma edição comentada é
necessária? Foxe, por si só, já é bastante prolixo, se bem me
lembro.
- Meu pai certamente acha que sim. Aliás, ele acha que isso é
mais urgente do jue qualquer outra tarefa no mundo...
exceto, talvez, as intermináveis reuniões dele com a diretoria
do colégio, que nada mais são do que uma desculpa para
intrigas e fofocas. - Ao dizer isso, Sophia arrancou,
impetuosa, um punhado de rolhas de um galho alto e virou a
cabeça para me olhar. - Presume-se que esses homens sejam
os mais brilhantes da Inglaterra, Dr. Bruno, mas vou lhe
contar, eles são piores do que lavadeiras, quando se trata do
prazer que extraem das conversas maldosas.
- Hum, já andei por um número suficiente de universidades
para saber disso tudo - comentei, sorrindo.
Ela pareceu prestes a dizer mais alguma coisa, porém nos
chegou um ruído da direção do pátio, de onde dois homens
corpulentos, de avental de cozinha, vieram se aproximando.
- É melhor eu ir embora - disse Sophia, dando mais uma
olhada de relance, com expressão temerosa, para o canto em
que jaziam os corpos. - Me desculpe por não poder
comparecer ao debate, Dr. Bruno. Não tenho permissão para
ir, mas gostaria de vê-lo superar meu pai na discussão.
Ergui uma das sobrancelhas, fingindo surpresa, e ela me deu
um sorriso tristonho.
- Sem dúvida o senhor vê isso como uma deslealdade minha.
Talvez seja... mas meu pai tem ideias muito fixas sobre o
mundo e a ordem que lhe foi predestinada, e sobre o lugar
de todos nessa ordem. Às vezes penso que ele só acredita
nessas coisas por ter sempre acreditado nelas, e porque é
menos complicado continuar pensando do mesmo jeito.
Sophia mordeu o nó do polegar, ansiosa, e prosseguiu:
- Eu gostaria muito de ver alguém abalar as certezas dele,
levá-lo a se questionar. Talvez, se conseguisse ao menos
admitir a possibilidade de haver um modo diferente de se
ordenar o Universo, ele viesse a descobrir que nem tudo
aqui tem que permanecer como sempre foi. É por isso que
eu quero que o senhor vença, Dr. Bruno - e, com estas
últimas palavras, ela chegou até a segurar minha camisa e a
sacudir de leve. Assenti com a cabeça, sorrindo.
- Quer dizer que, se fosse possível convencê-lo de que a
Terra gira em torno do Sol, talvez ele também pudesse ser
convencido de que uma filha é tão capaz de estudar quanto
um filho, e de que ela deveria ter permissão para escolher o
próprio marido, não é?
Sophia enrubesceu e retribuiu o sorriso.
- É mais ou menos isso. Parece que o senhor é tão brilhante
quanto dizem, Dr. Bruno.
- Por favor, me chame de Giordano - acrescentei.
Ela moveu os lábios em silêncio, depois balançou a cabeça.
- Não consigo pronunciar esse nome direito, minha língua
fica toda enrolada. Simplesmente terei que chamá-lo de
Bruno. Vença o debate por mim, Bruno. Você será o meu
herói nessa competição de cérebros - disse e olhou por cima
do meu ombro para a grama ensanguentada, então seu
sorriso se extinguiu depressa. - Pobre Dr. Mercer. Mal
consigo acreditar.
Lançou um olhar demorado para as elevações formadas pelos
cadáveres sob as árvores, com uma expressão indecifrável,
depois se virou e saiu correndo com passos leves pelo
gramado, em direção ao colégio, me lançando um último
olhar por cima do ombro, no instante em que o homem
corpulento que já chegara perto de mim levantou um saco
grande e disse:
- Bom, moço, cadê o tal cachorro que é pra enterrar?

Capítulo 5

LIBERADO DO MEU ÚLTIMO DEVER de assistência ao pobre
Roger Mercer pela chegada do oficial de inquirição, que veio
acompanhado pela figura igitada do Dr. James Coverdale -
este mal se dando o trabalho de disfarçar sua empáfia por ter
sido solicitado a exercer as funções do cargo de subdiretor,
n"aças à eliminação do antigo rival me senti grato por deixar
o bosque e atravessei depressa a passagem para o pátio
central. O ofício matutino havia terminado e grupos de
estudantes, com as becas infladas pela brisa, se reuniam aqui
e ali em discussões animadas, muitos visivelmente
empolgados por estarem tão rerto de tamanha calamidade,
embora levassem as mãos à boca e arregalassem os olhos,
horrorizados.
Eram apenas sete horas, mas eu tinha a sensação de haver
passado quase toda a noite em claro. Não havia nada que
desejasse mais do que voltar para meu quarto, trocar de
roupa e tentar recuperar um pouco do sono que me faltava,
antes de ordenar a cabeça em tempo hábil para o debate
vespertino - um evento que, a essa altura, perdera a graça
para mim. A camisa e os calções que eu vestia estavam
manchados do sangue de Mercer, fato que Coverdale se
mostrou satisfeito em assinalar quando me despedi dele e do
oficial de inquirição: é melhor achar uma roupa limpa, Dr.
Bruno", disse o subdiretor interino, com uma leviandade que
me parecera inoportuna, "ou vão pensar que o assassino é o
senhor!"
Presumi que ele havia ficado aborrecido por já me encontrar
no local e que tinha feito uma piada fútil para destruir
qualquer ilusão de utilidade que eu pudesse alimentar, mas,
quando relanceei os olhos pelo pátio e vi aquela cena de
consternação agitada, perguntei a mim mesmo por que ele
teria usado a palavra "assassino", ainda que de brincadeira, se
a informação oficial tinha sido a de que a morte de Mercer
fora um trágico acidente. Talvez eu estivesse atribuindo um
peso indevido a palavras irrefletidas. De qualquer modo, ele
tinha razão quanto a minha roupa, pensei, baixando os olhos
para os calções e segurando o tecido, para avaliar a extensão
das manchas. Ao fazer isso, senti um volume no bolso e me
dei conta de que ainda estava com as chaves que havia tirado
do corpo de Mercer. Certamente as tinha enfiado no bolso
sem pensar.
Girei a argola com as chaves na palma da mão. A
menorzinha, imaginei, devia abrir a porta do quarto de
Mercer, já que era do tamanho da chave de meu quarto de
hóspedes. Tornei a correr os olhos pelo pátio. Com livros nas
mãos, os estudantes começavam a se dispersar, uns em
direção à escada que conduzia ã biblioteca da ala norte,
outros rumo ao portão principal. Ninguém prestava atenção
em mim. Olhei para a chave de Roger. Será que seu quarto
daria alguma indicação da pessoa que ele havia esperado
encontrar no jardim, pensei comigo mesmo, e da razão pela
qual ele tinha levado tanto dinheiro? Eu poderia dar uma
rápida espiada agora, enquanto os alunos estavam ocupados,
e devolver as chaves ao diretor mais tarde, dizendo (sem
mentir) que as colocara no bolso por distração.
Roger Mercer havia mencionado que morava no quarto da
torre, acima da entrada principal. Levantei os olhos para os
arcos altos e perpendiculares das janelas do primeiro andar,
supondo que aquele deveria ser o lugar certo, e então, com
passadas confiantes, entrei na sombra da primeira escadaria
da ala oeste, que me pareceu levar à torre.
Ao chegar ao patamar do primeiro piso, me vi diante de uma
porta baixa de madeira na qual havia uma placa pintada com
os dizeres DR. R. MERCER, SUBDIRETOR. Dei uma olhada
fugaz para os dois lados e experimentei a chave na
fechadura. Ela girou com facilidade e entrei sem fazer
barulho no quarto de onde Mercer saíra apenas duas horas
antes, sem jamais imaginar que não regressaria. Por um
instante, julguei ouvir passadas leves se afastando depressa,
acima. Então me detive, imóvel, me esforçando para escutar,
mas não ouvi nenhuma porta se abrir nem fechar e, em
seguida, não houve outros sons.
Eu não tinha previsto a cena que testemunhei quando fechei
delicadamente a porta ao entrar. O quarto era um tumulto
só: livros, papéis e mapas haviam sido arrancados das
prateleiras e atirados em todas as direções, sem a menor
preocupação com o conteúdo, e roupas foram retiradas da
cómoda e espalhadas pelo chão. Um tapete grosso, que devia
ter coberto o assoalho, fora embolado e afastado para um
canto, e as marcas na poeira sugeriam que alguém havia
tentado levantar uma tábua do piso. Ou Roger havia saído
com uma pressa enorme, depois de revirar o quarto à
procura de algum objeto perdido, ou outra pessoa também
estava em busca de algo ligado à morte dele e chegara ali
antes de mim.
O quarto era comprido, com pé-direito alto, e ocupava toda a
extensão longitudinal da ala. Suas janelas estreitas de vitrais
davam, de um lado, para o pátio quadrangular, e, do outro,
para a rua fora do colégio. No lado que dava para a rua havia
uma lareira larga de tijolos e, em frente a ela, uma grande
escrivaninha de carvalho, com as pernas delicadamente
entalhadas. No extremo oposto, de frente para a entrada,
havia três degraus que levavam a uma outra porta, que estava
aberta. O suor fez as palmas de minhas mãos formigarem por
um instante, enquanto eu prendia a respiração e tentava
escutar qualquer som que não fosse o pulsar frenético do
meu sangue, me lembrando dos passos que tinha ouvido.
Talvez eles não tivessem vindo do andar de cima e ainda
houvesse alguém no quarto. Pisando macio como um gato,
agarrei com as duas mãos a primeira coisa que o cômodo me
ofereceu como arma - um atiçador da lareira -, cheio de
coragem, me retesando para me aproximar da porta aberta.
Eu a cruzei, levantando o objeto, mas o quartinho, bem no
interior da torre, não continha nada além de um catre
simples, um lavatório e um armário pesado de carvalho, com
painéis entalhados nas portas.
Esse pequeno quarto de dormir não fora poupado das
atenções de quem vasculhara o recinto: os lençóis tinham
sido arrancados da cama de qualquer jeito e uma moringa
fora derrubada do lavatório, partindo-se em pedaços e
deixando uma mancha úmida na forração de junco do piso.
Ao me aproximar, vi que até o colchão de palha fora rasgado
com uma faca, esparramando o estofo pela cama. Num canto
desse quarto quadrado havia uma portinha de madeira
encaixada na parede. Tentei girar a maçaneta, mas ela estava
firmemente trancada, apesar do som oco que ouvi ao bater
na madeira. Pelo eco e pela corrente de ar que assobiava por
entre as frestas, presumi que ali ficava a escada que levava ao
andar superior da torre. Segurando o atiçador, olhei atrás das
cortinas pesadas da janela e embaixo da cama, porém não
encontrei ninguém. Convencido de que estava sozinho,
voltei ao cômodo principal e tranquei a porta sem fazer
barulho, para poder examinar o cenário em paz.
Em meio àquele caos, por onde começar? O cômodo era
atulhado de móveis de tamanhos e formas variados, todos de
madeira de lei. Havia cadeiras derrubadas e um baú que fora
arrastado pelo chão e arrombado, revelando um esconderijo
repleto de livros. O evidente desespero do vasculhador
revelava, sem sombra de dúvida, que ele acreditava haver
algo de valor entre os bens de Mercer. A questão era se isso
já teria sido encontrado e, caso contrário, se eu o
reconheceria, caso o visse.
Então me virei para a bela escrivaninha, coberta de papéis e
penas espalhados. No frenesi, um pequeno astrolábio de
bronze tinha sido derrubado no chão. Eu me curvei para
apanhá-lo e o recoloquei em seu suporte, mas a régua havia
quebrado. Ao me abaixar, notei um objeto escuro e
espiralado sob a escrivaninha. Tinha uma forma incomum,
mas, quando estiquei o braço para pegá-lo e o trouxe para a
luz, vi que não passava de uma tira de casca de laranja, há
muito seca, e tornei a jogá-la no chão. Levantando algumas
folhas de cima, fiz um exame rápido dos papéis da
escrivaninha. Seria um trabalho cansativo fazer a triagem das
folhas empilhadas ali, à procura de alguma carta ou anotação
rabiscada que pudesse elucidar a morte do ex-ocupante do
quarto. Todas as gavetas da escrivaninha tinham sido abertas.
Enfiei a mão para examinar uma de cada vez, apalpando a
parte inferior em busca de travas que abrissem comparti-
mentos secretos, mas não achei nada. Levantei o conteúdo
das gavetas, largado ao deus-dará, mas já me sentia
intimidado pela tarefa - não fazia ideia do que esperava
encontrar.
Da gaveta superior esquerda retirei um belo estojo de couro
para correspondência e, por um instante, fiquei tenso de
esperança, ao pensar que talvez as cartas mais recentes de
Mercer ainda estivessem ali dentro e pudessem revelar com
quem ele se desentendera ultimamente, ou mostrar alguma
transação capaz de explicar sua presença no jardim. Liberei
um espaço na escrivaninha para o estojo e, quando o abri,
dele caiu um livro fino, encadernado em tecido. Eu o
apanhei, abri-o ao acaso e vi que se tratava de um almanaque
impresso em 1583, cujas páginas tinham divisões para os dias
da semana, com o mês marcado no alto de cada uma e
anotações sobre as previsões astrológicas relevantes. Com a
pulsação acelerada, folheei o livro às pressas até chegar à
página do dia em curso, me perguntando se haveria a mais
remota possibilidade de Mercer ter anotado com quem
planejava se encontrar nessa madrugada.
Enquanto examinava a página referente a 22 de maio, notei
uma curiosidade nesse calendário: todas as divisões eram
marcadas por duas datas, uma impressa em tinta preta, outra
anotada à mão em tinta vermelha. A data em vermelho
ficava 10 dias à frente da preta. No mesmo instante eu soube
o que significava aquilo, porque meu anfitrião, o embaixador
francês, trabalhava com tais calendários na embaixada: os
números em vermelho mostravam a data de acordo com o
novo calendário, introduzido em fevereiro do ano anterior
pelo papa Gregório, e que agora era obrigatório nas nações
católicas, por ordem da bula papal Inter gravíssimas. Ele não
fora adotado pela Inglaterra e por outros países protestantes
da Europa, num gesto contundente de desafio à autoridade
papal, mas muitas vezes eu ouvira o embaixador se queixar
de que isso tornava extremamente confusa a
correspondência entre os representantes dos diferentes
países, porque ninguém tinha muita certeza da data a que se
fazia referência. Em geral, ambas eram usadas, só por
garantia. Mas por que, pensei com meus botões, um
protestante inglês como Roger Mercer precisaria de um
calendário marcado com as datas gregorianas?
Encontrei a página que queria e me emocionei ao ver que,
em 22 de maio (l9 de junho), ele havia anotado a hora e o
local do meu debate, com sua letra inclinada e elegante: "G.
Bruno vs. Underhill, Esc. Teo., 5h." Em seguida, segurando o
livro mais de perto, notei outra marca na mesma data: no
canto superior esquerdo da divisão do dia havia uma letra
solitária, "J". Pisquei os olhos, incrédulo. Seria J a inicial da
pessoa com quem ele combinara se encontrar? Isso
certamente reduziria o número de suspeitos. Folheei as datas
recentes em busca de outras pistas. O dia anterior, 21 de
maio (31), tinha apenas a marca de um rjnbolo curioso, um
círculo com vários raios, como uma roda de carroça.
Folheando as páginas iniciais do livro, notei que esse
símbolo aparecia em outras, à intervalos regulares, mais ou
menos uma vez a cada 10 dias, embora nunca no mesmo dia
da semana. Talvez fosse um código, mas eu não tinha como
decifrá-lo. O J, pelo menos, parecia uma pista concreta.
No entanto, ao segurar o livro perto do nariz, notei outra
coisa: um vago cheiro de laranja. A princípio, achei que
vinha dos meus dedos, por eu ter pecado a casca no chão,
mas, ao aspirar o aroma, percebi que ele vinha do próprio
almanaque. Talvez isso não fosse incomum: se Roger Mercer
gostava de chupar laranjas, era provável que o sumo
respingasse nas páginas de seus livros. Ele não se mostrara
uma pessoa das mais cuidadosas ao comer, como pude notar
no jantar da véspera. Mas alguma coisa me perturbava o
juízo e, quando tornei a aspirar o livro, de repente me
xinguei por ser tão estúpido.
Nesse momento, a porta do armário rangeu, por conta da
dobradiça gasta, e por pouco não morri de susto.
Instintivamente, escondi o livro dentro da camisa, prendi-o
no cós dos calções e me virei, mas a porta parecia ter se
mexido sozinha. Eu a abri toda e, no começo, vi apenas
roupas amontoadas, parcialmente puxadas para fora pelo
vasculhador apressado. Depois discerni uma forma escura e
achatada, encostada no fundo do guarda-roupa e coberta por
uma manta velha. Ao jogá-la longe, meu gesto revelou um
bauzinho de madeira envolvido em tiras de ferro e trancado
por um cadeado robusto. Arrastei o objeto para a luz, mas ele
se inclinou e aterrissou com um baque sonoro, ao cair entre
a borda projetada do armário e o piso. Parei, com a
respiração bem presa na garganta, para ver se o barulho havia
alertado alguém da minha presença no quarto, mas tudo
permanecia em silêncio. Quando o baú caiu, eu tinha ouvido
o inconfundível tilintar metálico de moedas. Então aquele
era o cofre de Roger Mercer, seu tesouro, obviamente
repleto de ouro. Ele não se esforçara muito para escondê-lo,
mas, apesar disso, o objeto fora deixado intacto pela pessoa
que tinha devastado o aposento.
Isso combinava com a bolsa cheia de moedas que o professor
levava. Parecia claro que quem o matara não tinha interesse
em levar dinheiro. Mas por qual outro motivo um homem
mata, se não por dinheiro? Ou é por vingança, pensei, ou por
temer que a vítima lhe faça algum mal. Resolvi que teria de
visitar o porteiro, Cobbett, e ver o que ele saberia me dizer
sobre o sistema de portões e trancas do colégio. Obviamente,
a pessoa que virara aquele cômodo de pernas para o ar tinha
entrado com uma chave e tornado a trancar o quarto ao sair.
Enquanto estava agachado ao lado do baú, refletindo sobre a
questão das chaves, ouvi às minhas costas o clique
inconfundível da fechadura sendo suavemente aberta e meu
coração quase congelou no peito. Não houve tempo para que
eu me escondesse. Só pude olhar, indefeso, enquanto a porta
se abria, apenas o suficiente para que entrasse a figura
magricela de Walter Slythurst, o tesoureiro. Vi seus olhos
percorrerem lentamente o tumulto do quarto, incrédulos,
até acabarem pousando em mim. Houve até uma pequena
pausa, enquanto seu cérebro lutava para elaborar os dados
fornecidos por seus olhos de doninha, antes de ele soltar um
grito breve e me olhar espantado, como se eu fosse uma
aparição.
- Deus Todo-Poderoso! - exclamou. - O senhor! Mas que
diabo...?
Seria necessário um ato realmente excepcional de
imaginação para explicar por que eu me trancara no quarto
recém-revirado de um homem que acabara de morrer, e por
que agora segurava seu cofre no meu colo empapado de san-
gue. Respirei fundo e fingi despreocupação:
- Buongiorno, professor Slythurst.
O rosto dele, em todos os ângulos, parecia mais acostumado
ao ceticismo zombeteiro do que a ficar roxo de raiva, mas,
nesse momento, pareceu se estufar a tal ponto que o homem
mal conseguia se expressar em sua língua nativa.
- O quê...? - começou ele, antes que o ar que havia inspirado
escapasse num guincho sibilante, e tornou a inspirar para a
tentativa seguinte: - O que vem a ser isto?
- Estou ajudando o diretor - expliquei, exagerando meu
sotaque, o que, em ocasiões anteriores, eu havia descoberto
ser um disfarce útil para o comportamento aparentemente
excêntrico: as pessoas o atribuíam às esquisitices dos
estrangeiros. - Eu estava com ele hoje de manhã, fomos os
primeiros a chegar à cena daquela desgraça terrível. E as
roupas, o senhor sabe, ficaram inteiramente destruídas, por
isso vim procurar peças substitutas com que vestir o pobre
corpo do Dr. Mercer para seu descanso final.
Assumi uma expressão devota. Nunca havia contado uma
mentira tão pouco convincente. No lugar dele, não
acreditaria em mim nem por um segundo.
Slythurst estreitou os olhos até eles se tornarem meras
fendas sob suas sobrancelhas finas.
- Entendo. E o senhor teve dificuldade para encontrá-las? -
perguntou, abarcando ironicamente com um gesto largo a
destruição praticada no aposento.
Seu tom seria capaz de fazer murcharem as folhas primaveris
nas árvores. Retribuí seu olhar de desdém da maneira mais
serena que pude.
- O quarto está como o encontrei.
- Então, por que trancou a porta?
- Força do hábito - respondi, com um sorriso encabulado. - É
tolice, eu sei, mas vivi muitos anos na Itália temendo
constantemente pela minha vida. Nos lugares pelos quais
passei, nunca se deixava uma porta aberta. Até hoje, isso é
uma coisa que faço por puro instinto, sem me dar conta.
Ele pareceu considerar a probabilidade dessa afirmação por
um momento, depois cruzou os braços, como que para frisar
que desconfiava de mim.
- Onde conseguiu a chave?
- Peguei a cópia que estava com o Dr. Mercer. Quando o
oficial de inquirição chegou, vim até aqui para ver como
poderia ajudar.
- Hum - fez Slythurst. Deu um passo à frente e fez uma
avaliação superficial dos papéis espalhados pela escrivaninha.
- A propósito, estou aqui para fazer um inventário dos
pertences pessoais a serem entregues à família - acrescentou,
sem olhar para mim.
Ficou claro que estava mentindo, sobretudo se levássemos
em conta que, como um dos dirigentes do colégio, ele não
era obrigado a me explicar seus atos. Eu me levantei e me
postei de frente para ele, tomando o cuidado de não deixar o
livro escorregar por baixo da camisa. Slythurst se virou,
ainda de braços cruzados, e nos confrontamos, cada um
sabendo que o outro tinha uma intenção não verbalizada,
mas não se atrevendo a fazer um questionamento direto. Por
um instante me perguntei se estaríamos procurando a
mesma coisa, até me lembrar de que eu não sabia o que
buscava - apenas desejava encontrar algo que ajudasse a
explicar a presença de Mercer no jardim. Mas será que
Slythurst e a pessoa que tinha revirado o cômodo antes da
minha chegada estavam à procura do mesmo objeto?
Examinei com desagrado o rosto pálido e quase imberbe do
homem, enquanto ele me fuzilava com os olhos, com igual
desdém. Seria possível que fosse o vasculhador original do
quarto, atrapalhado em sua primeira tentativa e voltando
nesse momento para recomeçar de onde havia parado?
Duvidei disso. Eu reparara em sua expressão ao abrir a porta
e tinha certeza de que o caos o chocara tanto quanto a mim.
Portanto, mais de uma pessoa acreditava que havia algo
cobiçado escondido no quarto do morto.
- O que é isso? - Slythurst enfim quebrou o silêncio,
apontando para o baú a meus pés.
- Creio que é o cofre do Dr. Mercer.
- E o que o senhor estava fazendo com ele? - A pergunta
veio em palavras tão cortantes que Slythurst parecia tê-las
entalhado em vidro.
- Ele estava dentro do guarda-roupa. Achei que poderia
conter peças de vestuário e por isso o levantei, para dar uma
olhada.
Mais uma vez, ele me lançou um olhar feroz, como o que se
daria a um moleque de rua que tentasse roubar um pão na
feira livre.
- O senhor está coberto de sangue, Dr. Bruno - comentou
ele, de novo passando os olhos rapidamente pela
escrivaninha.
- Sim, tentei ajudar um homem que sangrou até a morte -
respondi calmamente.
- O senhor simplesmente não se cansa de ajudar, não é
mesmo? - perguntou Slythurst, encaminhando-se para a
porta do quartinho de dormir e me lançando um olhar ao
passar. - O senhor subiu a escada? - perguntou, com um
gesto brusco para a pequena porta interna.
- Essa porta está trancada.
- Trancada? - repetiu ele, com ar intrigado. - Curioso.
Foi até lá e testou a porta, como que para provar que não
queria aceitar minha palavra sobre coisa alguma. Houve
outro silêncio incômodo. Eu sabia que ele estava esperando
que eu me retirasse, mas relutei em abandonar o quarto, pela
eventualidade de que ainda fosse possível encontrar ali o que
ele e a outra pessoa que o vasculhara queriam. Mas não era
plausível que eu prolongasse minha presença, por isso fiz
uma reverência curta.
- Bem, vou deixá-lo com sua triste tarefa, professor Slythurst.
Ele apenas meneou a cabeça, mas, quando cheguei à porta,
chamou:
- Dr. Bruno, não está esquecendo uma coisa?
Por um momento, pensei que ele se referisse às chaves e
tivesse a expectativa de que eu as entregasse. Quando o
olhei, sem compreender, um sorriso de satisfação se abriu
em seu rosto.
- As roupas? Para vestir o corpo?
- E claro - retruquei. Voltei às pressas ao guarda-roupa e
peguei várias peças, sem me deter para examiná-las,
consciente de que minha mentira mal contada havia
desmoronado por completo.
- Tenho certeza de que o diretor vai ficar sumamente grato
pelo seu auxílio - disse Slythurst, satisfeito, segurando a porta
enquanto eu saía todo atrapalhado com as roupas
indesejadas. Quando passei, ele sibilou: - Vou ficar de olho
em você, Bruno.
Em troca, ofereci a ele meu sorriso mais cativante e passei.
No instante seguinte, ouvi o som da chave girando, macia,
na fechadura.

Ao regressar ao pátio, avistei Gabriel Norris, então vestido
com mais sobriedade - um traje preto e uma beca simples
que faziam sua beleza se destacar ainda mais. Estava na
entrada da escadaria da ala oeste, do outro lado da torre, e
parecia divertir um grupo de colegas estudantes com relatos
do seu heroísmo: uma das mãos se estendia, aberta, na altura
do peito, numa descrição bastante exagerada do tamanho do
cão, e não pude deixar de sorrir comigo mesmo diante da
fanfarronice do rapaz. Ele me avistou e se interrompeu no
meio de uma frase, olhando com certa desconfiança para o
monte de roupas de Mercer que eu carregava nos braços e
para a entrada de onde eu acabara de emergir.
- Ora, já começou a pilhagem, Dr. Bruno? - perguntou de lá,
um tanto jovial demais.
- Estou ajudando o diretor - respondi, repetindo minha
defesa, já que parecia impossível contradizê-la.
- Ah - disse ele. Norris balançou a cabeça e, deixando os
amigos, veio andando calmamente na minha direção. De
perto, notei que parecia mais velho do que os rapazes que
tinham ficado à sua espera. Eu diria que tinha uns 25 anos,
talvez mais. - Foi uma agitação e tanto a dessa madrugada,
não foi?
- Não sei se eu usaria essa palavra.
- Não... não, é claro - disse ele, assumindo uma expressão
solene. - Eu só quis dizer... A vida em Oxford costuma ser
muito monótona, e agora temos uma visita real de inspeção e
uma tragédia, tudo ao mesmo tempo. Mal sabemos de qual
delas falar primeiro.
- Você foi muito equilibrado hoje cedo. Creio que eu não
teria tido a mão tão firme, no calor do momento. Foi sorte
você ser um bom atirador.
Norris inclinou a cabeça, agradecendo o elogio.
- Meu pai me ensinou a caçar quando pequeno. Eu só
gostaria de ter sido rápido o bastante para salvar o Dr.
Mercer - disse, passando o dorso da mão na testa. Desconfiei
de que, por baixo de toda a sua ousadia, a experiência o havia
abalado profundamente.
- Você o conhecia bem? - perguntei.
- Ele era meu orientador, desde que o Dr. Allen foi demitido
no ano passado - respondeu Norris. Seu rosto assumiu uma
expressão estranha, como se ele lutasse para dominar uma
emoção. - Éramos próximos, acho. Eu o respeitava, pelo
menos.
- Aquele cachorro que o matou era um cão de caça, não?
- Era um lobeiro irlandês. São caçadores muito eficientes...
sempre atacam direto o pescoço para quebrá-lo, sabe? -
respondeu o rapaz, em tom mais animado, satisfeito por
exibir seus conhecimentos. Depois, franziu o cenho. - Mas,
em geral, também é um cachorro dócil, as pessoas o criam
como animal de estimação. Eles não têm um temperamento
tão imprevisível quanto, digamos, o de um mastim...
Raramente atacam, a não ser que tenham sido treinados para
isso.
- Mas ele parecia estar passando fome. Você não viu como
estava esquelético?
Norris balançou a cabeça devagar e disse:
- Devia estar perdido... Imagino que, se estivesse desesperado
por carne, ele atacaria a primeira criatura viva que achasse.
- Não é incomum haver um cão lobeiro perdido, vagando
pelas ruas de Oxford de madrugada?
Ele me olhou com ar curioso, como se achasse minhas
perguntas estranhas, mas deu de ombros:
- Há quem cace na floresta real de Shotover, a leste da
cidade. É possível alugar cães por intermédio do guarda
florestal para um dia de caçada. Alguns de nós, os alunos
pagantes, caçamos lá vez por outra, quando temos
permissão. Talvez um dos cães dessas pessoas tenha se
perdido e vagado até a cidade. - O tom de Norris sugeria que
ele havia perdido o interesse no assunto e o rapaz olhou em
volta para verificar se seu grupo de admiradores ainda o
esperava. - Bem, Dr. Bruno, tenho que buscar meus livros e
ir para a aula. Espero que a aventura de hoje cedo não
estrague sua estada em Oxford - disse, com uma breve
reverência, e começou a se dirigir à escada.
- Seu quarto é aí? - indaguei, gesticulando com o polegar.
- Isso mesmo - respondeu ele, displicente. - E um dos
melhores do colégio. Eu o divido com meu criado, Thomas.
- Nesse caso - comentei, dando uma olhada nas passagens do
outro lado do pátio que levavam de ambos os lados do
refeitório até o jardim, calculando a distância -, você deve
ter uma audição excepcional, para ter acordado com a
comoção que vinha do bosque, já que esses quartos são os
mais distantes de lá.
Norris me olhou por um momento com a expressão
carregada, depois se aproximou de mim, segurou um de
meus cotovelos e se inclinou, num sussurro confidencial:
- O senhor me pegou, Dr. Bruno. Confesso que eu não estava
deitado quando ouvi o barulho, mas, por favor, que essa
confidência fique entre nós.
Levantei uma das sobrancelhas. O rapaz me deu uma
cutucada cúmplice nas costelas, da qual eu deveria deduzir,
supostamente, alguma atividade masculina noturna. Nessa
posição muito próxima, ficou claro que não havia cheiro de
bebida em seu hálito, e um homem que houvesse passado a
noite inteira na farra não poderia ter a mão tão firme quanto
eu havia testemunhado no arco e flecha. Assim, imaginei
que ele devia ter dormido com uma mulher e sentia um
prazer secreto em compartilhar sua vitória. Pelo menos, isso
explicaria seu traje ridículo àquela hora da manhã, pensei.
- Eu passei a noite fora do colégio... o senhor entende o que
quero dizer, com certeza - acrescentou, piscando o olho e,
na volta, estava passando pela travessa St. Mildred, ao lado
do Colégio de Jesus, quando ouvi os latidos frenéticos do
cachorro e aqueles gritos pavorosos. Percebi que o som
vinha do bosque e corri para buscar meu arco. Depois corri
para o portão, onde encontrei todos vocês reunidos,
olhando.
A censura me incomodou, de modo que retruquei com
outra:
- Você não experimentou o portão da travessa Brasenose?
Poderia ter chegado mais depressa.
- Mas eu não tenho a chave daquele portão - disse ele,
intrigado. - Só quem a recebe são os docentes mais
graduados. Eu não tinha como saber que ele ficara aberto. Os
professores tratam aquele bosquezinho como se fosse
sagrado. Agi o mais depressa que pude, Dr. Bruno.
- Ao se aproximar, você viu alguém perto dos muros do
colégio? - indaguei, no tom mais leve que pude.
Norris inclinou a cabeça, pensativo.
- Agora que o senhor mencionou isso, houve um momento
em que pensei ter ouvido passos adiante, correndo, mas o
som se perdeu na barulheira que vinha do jardim. Com tudo
o que aconteceu depois, me esqueci totalmente disso. Por
que pergunta?
- Só queria saber se havia muitas pessoas circulando naquele
horário - respondi, me virando para ir embora. - Eu
realmente preciso levar essas coisas para o diretor.
Norris me olhou com ar curioso por um momento, antes de
me dar um tapinha no ombro.
- Estamos todos ansiosos pelo seu debate logo mais. Não dou
muita importância à teologia, de um modo ou de outro, mas
vou aplaudi-lo, se o senhor fizer o diretor parecer idiota. Se
bem que ele pode fazer isso por si só, com bastante
eficiência. - Sorriu e se virou, como se fosse embora, mas
olhou para trás e me fitou com uma expressão séria: -
Suponho que seremos chamados para depor, se houver um
inquérito. Sei que vou ter problemas por causa do arco e
flecha. Ninguém tem permissão para guardar armas nas
dependências da universidade. Talvez o senhor possa
mencionar que seria impossível dominar o cão sem a minha
intervenção, não é, Dr. Bruno?
- Decerto farei um relato verdadeiro dos acontecimentos, da
melhor maneira possível, se me pedirem - respondi,
retribuindo a mesura.
- Obrigado. Arrivederci, il mio dottore! - exclamou, virando-
se e andando depressa para o portão principal. Intrigado,
observei enquanto ele se afastava. Gabriel Norris podia ser
um pavão insuportável, mas seria um erro subestimar sua
perspicácia.

Fiquei parado no pátio, carregando as roupas de Roger
Mercer e pensando no que deveria fazer a seguir. O sol
estava encoberto por fileiras de nuvens azul-acinzentadas,
que se estendiam em ondas sobre os telhados como um
oceano invertido. Estremeci dentro da camisa fina. Slythurst
certamente contaria ao diretor que eu fora apanhado
revistando o quarto do morto e que chegara até a arrastar seu
baú de dinheiro do esconderijo em que se achava. Minha
única esperança de alegar inocência seria repetir aquela
mentira ridícula sobre tentar ajudar com a roupa. Baixei os
olhos para a trouxa em meus braços - peças de roupa que
ainda conservavam o cheiro almiscarado do corpo de seu
dono - e resolvi que devia levá-la ao diretor o mais depressa
possível, antes que Slythurst pudesse insinuar a ele algo
desagradável. Eu lhe diria que era um antigo costume de
Nola, minha terra natal, manifestar respeito pelos mortos.
Talvez achasse a explicação absurda, mas eu esperava que ele
não me considerasse ladrão. Também se perguntaria por que
eu tinha ficado com as chaves do morto. Eu deveria
devolvê-las quanto antes, embora preferisse ficar com elas,
para o caso de ter uma chance de examinar melhor o quarto
da torre. Mas, àquela altura, Slythurst com certeza teria
encontrado o que fora procurar, se a primeira pessoa a
vasculhar o quarto já não o tivesse achado.
Minha cabeça girava. Não havia nada que eu quisesse mais
do que voltar para a cama e me deitar, porém me virei
novamente para a entrada fortificada e encontrei uma porta
na parede da passagem, à direita do imenso portão de
madeira, com uma tabuleta informando que era ali a guarita
do porteiro.
Espiei pela porta. Um senhor gordo, de cabelo crespo e
grisalho, estava sentado ao lado de uma mesa de madeira, a
cabeça arriada no peito e a respiração pesada. Havia sinais de
cerveja em seu colete e, deitada a seus pés, uma cadela preta
de ar cansado, com o focinho todo salpicado de manchas
cinzentas. O animal levantou um pouco a cabeça ao ouvir
meus passos, me fitando com olhos baços, e voltou para sua
posição adormecida, como se aquele pequeno esforço fosse
tudo o que podia oferecer. Pigarreei e bati na porta ao
mesmo tempo. Confuso, o velho levantou a cabeça com
agitação e a saliva brilhou em sua barba grisalha.
- O senhor me perdoe, eu devo ter me desorientado por um
momento - resmungou ele.
- Sr. Cobbett? Meu nome é Giordano Bruno...
- Sim, senhor, eu o conheço. É nosso convidado de honra,
que veio duelar com o diretor hoje à noite. Eu me refiro ao
duelo de palavras, naturalmente, porque a espada
propriamente dita não é permitida no colégio. E que dia
terrível rara o senhor estar aqui, com essa desgraça que
tivemos hoje de manhã. Não se pode nem pensar nisso - e
balançou a cabeça com ar teatral, as bochechas s acudindo de
um lado para o outro.
- Sim, lamento profundamente - respondi, tirando as chaves
do bolso. - Estive lá no bosque ajudando o diretor. Ele pediu
que providenciasse a devolução nas chaves do Dr. Mercer
em segurança, e presumo que estivesse se referindo ao
senhor, não é?
O rosto do velho porteiro se iluminou de alívio à visão do
chaveiro.
- Ah, graças a Deus! Pelo menos temos um jogo de volta. Eu
estava começando a achar que as chaves têm pernas nestas
paragens.
- Vocês não têm cópias extras? - indaguei, fechando devagar
a porta atrás de mim.
- Temos, sim, senhor, mas o jogo extra desapareceu do meu
armário de chaves há uns dois dias, o que me pareceu
esquisito na ocasião, porque o Dr. Mercer nunca me pediu a
cópia, e eu raramente saio da guarita. Achei que talvez o
tesoureiro tivesse precisado dela para entrar no cofre-forte
num momento de pressa. É preciso passar pelo quarto do
subdiretor para ter acesso à torre, mas ele disse que também
não sabia de nada sobre as chaves - e Cobbett tornou a
balançar a cabeça. - Se o senhor quer saber, os professores
são piores do que os alunos, vivem largando as chaves no
lugar errado. Parecem não saber que chaves novas custam
dinheiro.
- O senhor tem cópias extras das chaves de todos os
aposentos do colégio?
- Com certeza, senhor, vou lhe mostrar - disse o velho.
Ele se levantou com esforço, a respiração ofegante, e se
arrastou até um armário de madeira pouco profundo,
montado na parede atrás da sua escrivaninha. Abriu
orgulhosamente as duas portas e revelou fileiras de chaves de
ferro de formatos e tamanhos variados, penduradas em
ganchos etiquetados com uma combinação de letras e
números.
- Como o senhor consegue saber qual é qual? - perguntei,
com ar inocente.
- Ah! - exclamou Cobbett, dando uma pancadinha na lateral
do nariz bulboso e vermelho. - Tenho um sistema para
impedir que elas caiam nas mãos erradas, o senhor entende?
Se eu pusesse etiquetas informando "Sala da Torre",
"Biblioteca" e assim por diante, seria muito fácil os garotos
entrarem aqui de fininho e as pegarem, quando eu estivesse
dormindo, ou fazendo minhas necessidades, ou sei lá o quê.
Por isso inventei um código. Ah, isso já tem anos. Se alguém
perde uma chave, é só me procurar que eu encontro a cópia,
mas eles não podem roubá-las para entrar onde não devem,
para pregar peças ou sabe-se lá o que mais.
- Quer dizer que o senhor tem um conjunto completo de
chaves de todas as portas e portões do colégio?
- Ora se tenho, sim, senhor... menos quando alguém as perde
- completou, em tom sombrio. - As únicas que não tenho
são as do cofre-forte. Lá só se pode chegar pelo quarto do
subdiretor, como eu disse, subindo a escada da torre, e só o
diretor e o tesoureiro têm a chave. Isso foi planejado desse
jeito para ninguém poder entrar no cofre-forte sem haver
pelo menos uma outra pessoa presente - acrescentou.
- E só o senhor tem as chaves dos outros aposentos?
- Não, senhor. O diretor também tem um conjunto completo
das chaves de todos os cômodos na casa dele, mas essas ele
não entrega a ninguém. Alunos e professores têm que vir me
procurar - disse o porteiro, então se arrastou de volta para a
cadeira e me olhou com curiosidade.
- O tesoureiro tem a chave do alojamento do subdiretor?
- O tesoureiro? - repetiu Cobbett, com ar surpreso. - Não,
senhor. Ele tem a chave dele do cofre, mas o subdiretor
precisa estar presente para deixá-lo subir na torre. Isso é para
prevenir furtos, o senhor entende.
- Mas e se o subdiretor estiver viajando e o tesoureiro
precisar ir ao cofre-forte?
- Bem, nesse caso, ele teria de me procurar, ou pedir ao
diretor que o deixasse entrar. Por que o senhor está tão
interessado nas chaves, afinal?
- Ah, eu só estava pensando em como seria possível um cão
vadio ter entrado no bosque - respondi, embora, a essa
altura, também me perguntasse como Slythurst havia obtido
uma chave dos aposentos de Roger Mercer. Teria ele, de
algum modo, dado um jeito de tirar o jogo extra do armário
de Cobbett? E, se isso tivesse acontecido, como a primeira
pessoa a revirar o quarto de Mercer teria entrado? Quem
tinha uma terceira chave, a não ser o diretor?
- Ah - disse o velho porteiro, esfregando a barba curta e
grossa do queixo. - Bem, quanto a isso... Acho que deve ter
sido culpa minha, meu senhor... Deve ter sido porque eu
não verifiquei direito o portão da travessa Brasenose ontem à
noite.
Seguiu-se um silêncio. Ficou claro que o velho sentia-se
constrangido por contar uma mentira que dava uma
impressão negativa da sua competência, e que ao fazer isso
obedecia a alguém, mas com relutância.
- Acho difícil acreditar nisso - retruquei, com um tom de
incentivo na voz, pois todos dizem que o senhor tem
servido ao colégio desde menino e nunca negligenciou seus
deveres.
Uma expressão de gratidão tomou o rosto do homem, e ele
fez sinal para que eu me aproximasse. Então me inclinei na
direção dele. Seu hálito tinha um ranço carregado de cerveja.
- Obrigado, senhor. Eu disse ao diretor: o senhor sabe que eu
vou dizer o que o senhor quiser, mas tomara que ninguém
nunca acredite que o velho Cobbett deixou uma frestinha
deste colégio por verificar nas suas rondas. As pessoas daqui
sabem que eu faço meu trabalho direito, senhor - afirmou.
Em seguida, estufou o grande peito redondo e foi tomado
por um acesso de tosse.
- Bem, espero que o senhor não seja punido pelo que não foi
culpa sua - disse a ele.
- Obrigado, senhor, é muita bondade sua.
- Me diga, Sr. Cobbett - acrescentei com ar displicente, já me
virando para sair -, se algum dia um homem quisesse ir à
cidade e voltar depois de o portão principal já estar trancado,
isso seria possível?
O rosto do porteiro se franziu num sorriso largo, com as
gengivas à mostra.
- Tudo é possível, Dr. Bruno - respondeu, com uma
piscadela. - Talvez o senhor tenha ouvido falar que às vezes
faço uns acordos com os estudantes para o trancamento dos
portões. Mas o senhor não precisaria de nenhum arranjo
desse tipo... Os professores e os hóspedes podem ter a chave
do portão principal.
- É mesmo? - indaguei, surpreso. - Então os professores
podem sair do colégio pelo portão principal e entrar na hora
que bem entenderem?
- Bom, não é algo que seja divulgado - disse Cobbett, com ar
cauteloso -, mas sim, eles podem. Só que não muitos,
entenda bem. Eles são sérios demais para ficar passeando
pela cidade. Os alunos é que querem sair, mas não têm essa
uberdade. Só que eu já fui moço e acho que faz mais mal do
que bem privar os rapazes de seus prazeres. Não, senhor,
nem só de pão e trabalho vive o homem.
Eu me curvei um pouco e espiei pela janelinha que dava para
a arcada da torre. Passaram dois alunos de beca preta, com as
sacolas de couro penduradas junto ao peito.
- Quer dizer que daqui o senhor vê todo mundo que entra e
sai à noite? - perguntei.
- Desde que eu esteja acordado - respondeu Cobbett, com
uma risada rouca que logo se transformou em mais um
acesso de tosse.
Havia mais coisas que eu gostaria de perguntar, mas percebi
que minhas perguntas o estavam deixando desconfiado, por
isso me virei para a porta.
- Obrigado pela ajuda, Cobbett. Tenho que ir andando.
- Dr. Bruno - chamou ele, quando abri a porta. Eu me virei
para trás. - Por favor, não repita o que eu disse sobre o
bosque, sim? Por mais que me doa, tenho que fazer o que o
diretor mandou e dizer que a culpa foi minha.
Garanti a ele que não mencionaria nossa conversa a
ninguém. Pude ver o alívio em seu rosto.
- Será um prazer conversar mais com o senhor sobre chaves
e fechaduras numa outra ocasião, se o senhor estiver
interessado - acrescentou ele, girando as chaves de Mercer
com displicência entre os dedos gorduchos. Depois, enfiou a
mão embaixo da mesa e pegou uma jarra de barro, que
balançou de forma significativa para mim. - Mas essa história
de ficar conversando dá sede. A conversa flui muito melhor
com uma coisinha para refrescar, se o senhor me entende.
Sorri.
- Verei que refresco posso arranjar para a próxima vez que
conversarmos, Cobbett. Estou ansioso por isso.
- Eu também, Dr. Bruno, eu também. Deixe a porta aberta,
por gentileza.
Ele abaixou a mão e afagou o pelo da cadela entre as orelhas.
Eu o ouvi dando um risinho consigo mesmo enquanto eu
saía da guarita e parava em frente ao majestoso portão
principal, pensativo.

Voltei para meu quarto, feliz por me livrar da camisa e dos
calções, já duros com o sangue de Roger Mercer, e por tirar
o livro preso no cós, onde seus cantos espetavam
incomodamente a minha barriga. Vestindo apenas ceroulas,
indiferente à friagem do quarto, peguei um estojo de isca e
pederneira que estava no console da lareira e acendi uma das
velas baratas de sebo que haviam sido deixadas no quarto. O
cômodo logo se encheu com uma fumaça acre, enquanto eu
pegava o almanaque de Mercer e o abria, dessa vez pela parte
de trás. Havia diversas páginas em branco encadernadas
junto à capa, e uma delas era estranhamente dura, com o
papel meio enrugado, como se tivesse sido molhado e depois
seco. Eu o cheirei bem de perto e percebi que o aroma de
laranja era muito forte. Com cuidado para não queimá-la,
aproximei a página da chama da vela e vi uma série de
marcas, em tom marrom-escuro, começarem lentamente a
se tornar visíveis. Subindo e descendo o papel perto da
chama, aos poucos ele revelou seu texto secreto: uma
sequência de letras e símbolos sem nenhum padrão lógico
que eu pudesse discernir. Abaixo havia uma série mais curta
dos mesmos símbolos, só que numa outra ordem: agrupados
em dois lotes de três símbolos diferentes, depois num grupo
de cinco. Era evidente que se tratava de um tipo de código,
embora eu pouco entendesse de criptografia e não fizesse
ideia de como começar a decifrá-lo. Imaginei se Sidney teria
uma ideia melhor, por já ter tido mais contato que eu com
esse tipo de trabalho, e assim, peguei um pedaço de papel e
uma pena e fiz uma cópia dos símbolos, exatamente como
figuravam na página, pensando em lhe entregar. No entanto,
quando copiei as três primeiras linhas, ficou claro que se
tratava de uma sequência de 24 símbolos e que ela se repetia
três vezes.
Parei. Havia 24 letras no alfabeto inglês, mas, com certeza,
nenhum código poderia ser tão óbvio assim, não é? Contudo,
achei que valia a pena tentar e escrevi o alfabeto na minha
cópia, abaixo da primeira sequência de 24 símbolos. Se fosse
um código básico de substituição, os grupos de letras mais
abaixo, de acordo com esse sistema, poderiam significar
alguma coisa. Copiei o primeiro grupo de três símbolos de
acordo com a substituição alfabética e, ao ver o resultado, o-
r-a, senti minha pulsação acelerar. Traduzi depressa as letras
restantes da frase curta e inspirei fundo. Eu tinha escrito as
palavras Ora pro nobis.
Dobrando a cópia com cuidado e escondendo-a embaixo do
travesseiro, deitei a cabeça, agradecido, tentando imaginar
por que Roger Mercer teria escrito aquelas palavras - o refrão
da Ladainha de Todos os Santos -, com tinta invisível, no
verso de seu almanaque. Mas eu precisava afastar esse
quebra-cabeça do pensamento. Havia assuntos mais urgentes
que exigiam minha atenção. Minha idéia era fechar os olhos
por apenas alguns minutos, antes de ordenar os pensamentos
e fazer com que eles se concentrassem no debate vespertino,
que supostamente iria coroar minha primeira visita a Oxford.
No entanto, fui subitamente despertado por batidas furiosas
na porta e me sentei na cama, ereto, confuso e sonolento.
- Abra, pelo amor de Deus! - gritou uma voz masculina e, por
um momento, senti um frio na barriga. Teria havido outra
morte violenta? A maçaneta da porta era chacoalhada
enquanto eu lutava para me livrar das cobertas e enfiar uma
camisa limpa. Quando finalmente a abri, com esforço, lá
estava Sidney, impaciente e com seu topete alto, vestido de
veludo verde da cabeça aos pés, com uma gola franzida que
fazia sua cabeça parecer pousada numa bandeja.
- Pelo amor de Cristo, Bruno, eu vim assim que soube! - disse
ele, passando por mim e entrando no quarto, já tirando as
luvas com ar profissional. - Eu mal havia tomado o desjejum
esta manhã e aí me vêm os criados dizer que todo o claustro
do Colégio Christ Church estava pegando fogo com a notícia
de que havia uma fera selvagem rondando o Colégio
Lincoln, arrastando homens inocentes para a morte! - Ele
me olhou de alto a baixo, arregalando os olhos de falso
pavor. - Bem, pelo menos você ainda está com todos os seus
membros, louvado seja Deus.
- Philip, um homem morreu na minha frente esta manhã -
retruquei, cansado.
- Eu sei, quero saber de tudo. Vamos, vista-se, homem. Vim
buscá-lo para almoçar.
- Que horas são? - perguntei, num pânico repentino. Era
claro que eu havia dormido muito mais do que pretendera e
meu estômago gritava de fome, mas eu ainda nem tinha
começado a me preparar para o debate das cinco horas.
- Mal passa de uma - disse Sidney, passeando pelo quarto,
pegando livros e os examinando com displicência, enquanto
eu revirava a roupa à procura de calções limpos e uma
sobreveste simples. - Um garoto do Christ Church disse que
um lobo tinha entrado no colégio, ideia que me pareceu
improvável. Você viu o que aconteceu?
- Amanhã vão dizer que foi um leão. Esses estudantes
parecem ávidos de incidentes por aqui e são capazes de
transformar qualquer assunto em lenda. Mas será um prazer
lhe contar tudo, porque há muitas coisas me perturbando e
tenho algo para lhe mostrar. Primeiro, vamos arranjar o que
comer - pedi. Peguei o almanaque embaixo do travesseiro e
o enfiei dentro da sobreveste, antes de fechar os botões, sob
o olhar curioso de Sidney.
O ar continuava úmido, embora o céu estivesse menos
carregado, ao cruzarmos o portão da torre e entrarmos na
travessa St. Mildred, virando depois para o sul e passando
pela torre alta da Igreja de Todos os Santos. Na High Street,
fizemos uma parada a fim de dar passagem a dois cavaleiros
montados, depois atravessamos por entre os montes de
esterco e palha que cobriam a rua lamacenta, muito
remexidos após toda aquela chuva. Fiquei contente por ter
calçado minhas botas de montaria. Jovens de becas pretas
curtas passaram em grupos apressados, conversando entre si.
Na esquina de uma ruela estreita, ladeada por casas baixas
com estrutura de madeira aparente, Sidney fez a curva e me
conduziu a um prédio de dois andares e telhados de
cumeeira alta, onde uma tabuleta pintada rangia acima da
porta, com os dizeres: HOSPEDARIA PECKWATER.
Ao passarmos sob o arco do portão, percebi que havia muito
movimento no pátio pavimentado com paralelepípedos.
Alguns homens conduziam cavalos a uma estrebaria nos
fundos, enquanto outros descarregavam barris aparente-
mente pesados de uma carroça alta. O prédio ocupava três
lados de um quadrilátero, com dois níveis de sacadas de cada
lado e vista para o pátio.
No interior, a taberna estava na penumbra e um fogo ardia
numa lareira de pedra, num dos cantos. Mesas e bancos
compridos e toscos estavam dispostos ao longo das paredes
do cômodo, muitos já ocupados por fregueses atarefados, que
falavam e comiam ao mesmo tempo. Uma janela de serviço
fora aberta na parede em frente à lareira, e uma mulher de
rosto vermelho e avental se deslocava, apressada, entre ela e
as mesas, carregando bandejas e canecos. De vez em
quando, ela fazia uma pausa para afastar do rosto uma mecha
de cabelo úmido com as costas da mão. Quando nos viu, sua
expressão aborrecida se transformou em deleite e ela se
aproximou correndo, enxugando as mãos no avental.
- Sir Philip! Que prazer! Soubemos que o senhor estava na
cidade - comentou, piscando para ele. - Dizem que houve
um grande cortejo em sua homenagem.
- Foi um cortejo muito encharcado, e não foi em
homenagem a mim, Lizzy - retrucou Sidney, tirando o
chapéu e fazendo uma reverência solene. - Permita que eu
lhe apresente meu querido amigo da Itália, Dr. Giordano
Bruno.
- Buongiorno, signorina - disse eu, imitando os modos
exageradamente corteses de Sidney.
- É um prazer, sem dúvida - disse a taberneira, com um
risinho que fez estremecer seu busto considerável.
- Pois então, Lizzy, nós gostaríamos de uma mesa sossegada,
um jarro de cerveja, quando você tiver um momento, seu
melhor empadão de carne de caça e um punhado de pão
fresco, por favor.
Ela deu um sorriso radiante.
- É melhor os senhores ficarem na mesa do canto, lá não
serão incomodados - disse e partiu, agitada, para a cozinha.
- Eu vinha aqui o tempo todo - Sidney explicou. - A taberna
fica perto do Christ Church e aqui sempre havia companhia
mais variada que no colégio, quando eu era estudante, se
você me entende. De qualquer modo, seremos bem tratados,
eles sabem que dou gorjetas generosas. Pois então, Bruno,
me conte sua história.
Ele se recostou e cruzou as mãos, com ar de quem espera se
distrair. Não pude deixar de sentir que estava tratando a
morte de um homem com muita leviandade, considerando-a
material para uma narrativa empolgante. Nesse aspecto, ele
me lembrou Gabriel Norris. Talvez seja uma característica
dos meninos ricos, pensei: ansiar por aventura numa vida
que se torna maçante pela ausência de preocupações
cotidianas. Eu estava para começar meu relato quando Lizzy
chegou, trazendo um jarro de cerveja, dois canecos e um
pão que Sidney cortou imediatamente, me entregando o
primeiro pedaço.
Com a boca meio cheia, contei a ele tudo o que havia
acontecido desde que eu fora acordado pelo ruído
apavorante do cão ao alvorecer. Quando cheguei à parte
sobre os portões trancados, a expressão condescendente de
Sidney desapareceu e ele inclinou o corpo para a frente,
ansioso, o olhar atento.
- Você suspeita de assassinato? - perguntou, quando a
taberneira voltou trazendo uma travessa de empadão
recheado de carne de caça.
Depois que ela se foi, falei da minha visita ao quarto de
Roger Mercer, de ser interrompido por Slythurst e de minha
conversa posterior com o velho porteiro. Quando terminei,
Sidney soltou um assobio por entre os dentes.
- Que experiência extraordinária! - comentou, balançando a
cabeça, incrédulo. - Quer dizer que você acha que alguém
soltou aquele cachorro em cima dele de propósito e depois
vasculhou o quarto do homem à procura de alguma coisa
valiosa?
- Esse é o mistério. Não pode ser algo valioso no sentido
usual, porque quem fez aquilo não se interessou pelas 10
libras que ele carregava nem pelo baú de ouro em seu
quarto. Mas é isso que não consigo entender: a pretexto de
um encontro, alguém o atraiu para o jardim, uma pessoa a
quem ele devia dinheiro. Então, por que o mataram e não
levaram o dinheiro?
- Talvez não fosse necessariamente uma dívida - disse
Sidney, de boca cheia. - Não poderia ter sido alguém
querendo vender algo?
Franzi o cenho.
- Mas o que ele estaria comprando naquele horário, no
bosque? Você acha que era algo relacionado a contrabando?
Sidney me olhou com ar divertido e um sorriso malicioso
pairando nos lábios:
- Pense bem, Bruno: o que um homem poderia querer
comprar, protegido pela escuridão?
Eu o fitei com uma expressão vazia, depois compreendi
aonde ele queria chegar.
- Você se refere a prostitutas? Mas, nesse caso, seria muito
mais simples, e mais agradável, ir a um prostíbulo na cidade -
retruquei, balançando a cabeça. - Mesmo que ele estivesse
mantendo relações com uma prostituta, alguém mais sabia
que o encontraria lá naquele horário, alguém que tinha uma
chave do bosque. E isso ainda não explica quem revistou o
quarto dele, ou por quê. O que quer que estivessem
procurando, devia ser algo valioso para quem buscava: o
lugar estava um caos, como se houvessem feito uma busca
com extrema urgência.
- Mas você disse que pelo menos duas pessoas queriam isso,
fosse o que fosse: o tesoureiro e o outro sujeito que entrou lá
antes de você - retrucou Sidney. Sua testa se enrugou por
um minuto, enquanto ele tomava um grande gole de cerveja.
- No entanto, há uma coisa estranha. Essa é uma forma
muito covarde de matar um homem, além de não se ter
certeza se o objetivo vai ser cumprido. Quando se quer um
homem morto, por que simplesmente não atravessá-lo com
uma espada, sobretudo quando se sabe onde encontrá-lo
sozinho e desarmado? Um cão é muito imprevisível.
- Você entende de caça - disse eu, servindo-me de outro
pedaço grande de empadão. - Um cão de caça como aquele
poderia ser treinado para atacar determinada pessoa, para
segui-la pelo faro?
Sidney considerou a idéia.
- Acho que sim... se ele pode ser treinado para farejar um
javali ou um lobo, por que não um homem? Se lhe dessem
uma peça de roupa dele, talvez. Os irlandeses costumavam
usar esses cães nas batalhas. Parece que eles eram capazes de
derrubar da montaria um cavaleiro de armadura. E você disse
que tinham deixado o animal com fome, de modo que seu
instinto estaria ainda mais aguçado - explicou e pôs os
cotovelos na mesa, apoiando o queixo nas mãos em concha.
- É como se o cão fizesse parte de algum tipo de encenação,
como se aquilo tivesse sido feito para criar um espetáculo. E
que jeito de morrer, trancafiado com um animal sedento de
sangue! Isso me faz pensar - prosseguiu, pondo mais um
naco de pão na boca - em como os romanos executaram os
primeiros santos, atirando-os numa arena com animais
selvagens. Tal como John Foxe o descreve naquele livro
macabro, O livro dos mártires.
Eu parei, com um pedaço de carne a meio caminho da boca,
e o olhei, pasmo.
- O que foi? - perguntou Sidney, parando de mastigar.
- O livro dos mártires, de Foxe. O diretor do Lincoln tem
grande interesse nele e vem fazendo sermões durante o
culto sobre o texto desse historiador.
Sidney carregou o sobrolho.
- Você acha que alguém queria se livrar desse Mercer e se
inspirou em Foxe para arranjar um método? - perguntou,
com uma expressão que traía seu ceticismo.
- Parece exagerado mesmo. Talvez eu esteja vendo coisas de
mais - comentei, passando as mãos no rosto. - Você tem
razão: provavelmente, foi só uma dívida não quitada, ou
problemas por causa de uma prostituta. Não admira que o
diretor queira encobrir o assunto, quando há uma visita real
de inspeção na cidade.
Sidney se calou por um momento. Depois bateu com a
palma da mão na mesa.
- Bruno, acho que você tem razão para estar desconfiado. O
cão foi solto no jardim por alguém que tinha uma chave, o
que sugere que foi um dos professores ou outra pessoa com
acesso às chaves do colégio. E pelo menos duas pessoas
queriam alguma coisa no quarto dele, mas não dinheiro.
Talvez algo que seria perigoso para elas. E se, recentemente,
todo mundo no colégio ouviu o diretor contar histórias das
mortes horripilantes dos santos, tiradas do livro de Foxe, é
possível que, de algum modo, a morte tenha sido encenada
como uma réplica proposital. A pergunta é: por quê? Você
não achou nada no quarto dele?
- Só isto. Dê uma olhada - respondi, pegando o almanaque
fininho. - O que você nota primeiro?
Sidney virou algumas páginas, depois levantou os olhos para
mim, com o rosto sério.
- O calendário gregoriano. Será que nosso homem era um
papista clandestino, afinal, como o seu amigo Allen?
- Foi o que me perguntei. Eu o ouvi clamar pela ajuda de
Maria antes de morrer.
- Até eu clamaria pela ajuda de Maria, se um cachorro
daquele tamanho estivesse cravando os dentes no meu rabo
- disse Sidney, sem rodeios, revirando o livro nas mãos. -
Isso não quer dizer nada. Mas este calendário... o sujeito só
precisaria dele se mantivesse correspondência com alguém
nos países católicos. Em especial se precisasse coordenar
movimentos. Edmund Allen foi para Reims, não foi? Ele não
era parente de William Allen, que fundou o Colégio Inglês
por lá?
- Dizem que era primo. Mercer ainda poderia estar em
contato com ele. E isso que você quer dizer?
Sidney olhou para os dois lados e baixou a voz.
- Lembre-se da razão de estarmos aqui, Bruno. Aqueles
seminários em Reims e Roma são a maior dor de cabeça de
Walsingham no momento. Eles recebem verbas enormes do
Vaticano e estão empenhados em formar dezenas de padres
para a missão inglesa, muitos deles ex-alunos de Oxford -
disse. Ele puxou a barba, formando uma ponta enquanto
pensava, e tornou a segurar o livro. - O que é esse
circulozinho aqui? - perguntou, apontando para o símbolo da
roda que marcava a anotação da véspera no calendário de
Mercer.
- Não sei. Ele aparece com frequência. Andei pensando se
poderia ser um código.
Ele o examinou mais de perto, depois balançou a cabeça:
- Eu o reconheço, mas não consigo saber de onde. Parece
um daqueles seus símbolos mágicos, Bruno.
Não me agradava dizer isso, mas essa ideia tinha me passado
pela cabeça: Roger Mercer me confessara, em sigilo, que se
interessava por magia. Mesmo assim, eu não reconhecia
aquele símbolo e isso me intrigava.
- Não é um símbolo astrológico, decerto - declarei. - Mas isso
não é o mais importante. Cheire o livro.
Sidney franziu o cenho, com ar indulgente, mas aproximou
o livro do rosto.
- Laranja?
- Sim. Olhe no final.
Ele folheou as páginas, depois levantou os olhos para mim,
balançando a cabeça com algo parecido com admiração.
- Bom trabalho, Bruno. É um truque antigo, a escrita
invisível com sumo de laranja. Você encontrou uma
mensagem secreta?
- Um código. Fiz uma cópia, tome - e empurrei meu pedaço
de papel para ele por cima da mesa. - Viu o que ele escreveu
na parte de baixo?
- Ora pro nobis. Ora, ora - disse ele, dobrando
cuidadosamente o papel e o devolvendo. - "Rogai por nós."
Poderia ser uma espécie de senha, ou um sinal secreto.
- Foi o que pensei. Devemos informar a Walsingham?
Sidney pensou por um instante e balançou a cabeça:
- Ainda não temos nada para dizer a ele, exceto que
suspeitamos de que um homem já morto tivesse filiações
católicas. Ele não nos agradeceria por desperdiçarmos seu
tempo, e não posso bancar a despesa de enviar um
mensageiro a Londres enquanto não tivermos informações
mais consistentes. Não, acho que você deve investigar isso
com a máxima discrição possível - continuou, fechando e
devolvendo o livro. - Sobretudo se você diz que o diretor
Underhill parece ansioso por abafar o assunto. Pode ser que
ele saiba mais do que está deixando transparecer. O simples
fato de ele ter sido nomeado por meu tio não significa que se
possa confiar nele. O conde já cometeu erros de julgamento
antes. - Sidney comprimiu os lábios numa linha fina e
concluiu: - E quem é esse J, você tem alguma idéia?
- Só conheci três homens cujos nomes começam por J: John
Florio, o anglo-italiano, James Coverdale, o bedel, e John
Underhill, o diretor. Mas talvez a letra não signifique um
nome. Talvez seja outro símbolo em código.
Ele concordou, desanimado.
- Talvez. Há muitas coisas em que pensar. Mas, por ora, meu
caro Bruno - contrapôs, com um sorriso repentino -, você só
deve pensar no debate de logo mais. Você tem que
deslumbrar toda a Oxford com a nova cosmologia e tirar esse
assunto da cabeça. Lizzy, me traga a conta! - chamou,
quando a taberneira olhou de relance na nossa direção. - E
quero levar uma garrafa grande da sua cerveja mais forte para
viagem - acrescentou, simpático, enquanto contava moedas
tiradas da bolsa. Quando a mulher foi buscar a encomenda,
ele se inclinou para mim e piscou: - Um presentinho para
você entregar ao seu novo amigo, o porteiro. Uma coisa eu
lhe digo sobre Oxford: os porteiros guardam mais segredos
do que qualquer pessoa na universidade. Faça amizade com
Cobbett e ele lhe abrirá as portas, literalmente. E agora,
Bruno - disse ainda, me dando um tapinha nas costas -, você
precisa ir debater essa pequena questão de se a Terra gira ou
não em torno do Sol.
Eu já ia me levantando para sair quando várias risadas e
conversas em voz alta irromperam atrás de nós, no
momento em que a porta da taberna se abriu e entrou um
grupo de quatro rapazes altos, todos com roupas caras -
coletes de camurça, sobrevestes de seda justas e calções
curtos, com uma fenda para exibir as pernas envoltas em
finas meias de seda - e golas alvas e engomadas sobre o
colarinho e uma pelerine curta de veludo pendurada num
dos ombros. Tinham o mesmo andar arrogante, e chegaram
falando alto e fazendo piadas grosseiras com a moça que
servia as mesas. Quando se viraram para nós, percebi que o
mais alto era Gabriel Norris. Ele me reconheceu e levantou
uma das mãos num cumprimento.
- Ah, Il gentil dottore! - exclamou, fazendo sinal aos amigos
para que todos se aproximassem da nossa mesa. - Venham,
rapazes, conhecer meu novo amigo, o renomado filósofo
italiano Dr. Giordano Bruno, e... - parou de repente, ao olhar
para Sidney pela primeira vez. Então fez uma longa e
elegante reverência, se virou para mim com ar de
expectativa e percebi que eu deveria fazer as apresentações.
- Este é o Sr. Gabriel Norris - anunciei, enquanto o rapaz
tornava a se curvar -, que com muita perícia despachou o
cão furioso no jardim, hoje de manhã. Este é meu amigo, Sir
Philip Sidney.
- Então é você o bravo caçador - comentou Sidney,
arqueando uma das sobrancelhas com ar divertido.
- Não posso pleitear grandes elogios por essa proeza, milorde:
o cão estava a poucos passos de mim. Prefiro desafios
maiores quando disparo o arco - retrucou Norris, com um
risinho auto-depreciativo. - Mas pode-se fazer uma boa
caçada na floresta de Shotover, Sir Philip, caso esteja
interessado em um pouco de esporte durante sua estada aqui.
- Aceitarei de bom grado a oportunidade, se o tempo
melhorar. Norris, você disse? Quem é seu pai?
- O cavalheiro George Norris, de Buckinghamshire -
respondeu o rapaz, com outra mesura. - Mas ele passou a
maior parte dos últimos anos de sua vida na França e em
Flandres.
Sidney pareceu consultar algum tipo de registro mental, para
ver se o nome significava alguma coisa, mas acabou
balançando educadamente a cabeça.
- Não o conheço. França, é mesmo? Ele era exilado?
- Oh, não, Sir Philip! - Norris voltou a rir. - Ele era mercador
de tecidos e artigos de luxo. Era um homem bastante
eficiente nos negócios - e deu uma piscada exagerada para
Sidney, esfregando os dedos e fazendo o sinal internacional
do dinheiro. Seus modos começaram a me irritar.
- Gostariam de ficar para tomar uma bebida conosco? -
prosseguiu o rapaz, ansioso, já enfiando a mão na bolsa em
busca de moedas. - Ei, garota, aqui! - chamou, com um gesto
imperioso na direção de Lizzy. - Meus amigos estão
planejando arrancar de mim uma parte deste dinheiro, em
algumas rodadas de trinta e um, mas ainda não fui derrotado
neste período letivo. O senhor aprecia jogos, Sir Philip? E o
senhor, Dr. Bruno?
Ergui as mãos, pedindo desculpas, mas vi a luz da aventura
faiscar nos olhos de Sidney, que esfregou as duas mãos e
deslizou pelo banco a fim de abrir espaço para Norris.
- Os filósofos são sabidamente um fiasco nos jogos de cartas -
disse Sidney, gesticulando para que eu mudasse de lugar e
desse espaço aos amigos do rapaz.
- É mais uma razão para o Dr. Bruno ficar e participar do
nosso jogo - disse Norris, abrindo um largo sorriso.
Ele enfiou a mão na sobreveste e dela retirou um baralho,
cujas cartas passou a embaralhar habilmente, com a
desenvoltura de quem praticava havia muito tempo. Com
uma pontada de incômodo, percebi por que ele estava me
irritando: não era tanto que eu me ressentisse da cordialidade
dos calorosos tapinhas nas costas dos cavalheiros ingleses da
classe alta, pois eu conseguia tolerá-la bastante bem em
Sidney, quando ele estava sozinho. Foi a facilidade com que
meu amigo se entendeu com aquele grupo vaidoso de
rapazes, no qual eu não podia me encaixar, e o medo de que,
em certos aspectos, Sidney preferisse a companhia deles à
minha. Mais uma vez, senti aquela fisgada peculiar de solidão
que só os exilados conhecem de verdade: a sensação de que
eu não fazia e nunca mais faria parte de grupo algum.
Norris bateu com o baralho na palma da mão e começou a
distribuir rapidamente três cartas a cada jogador, duas viradas
para baixo, uma para cima.
- Que tal cada um apostar um xelim, para começar? Se você
tem esperança de conservar alguma parte do seu dinheiro,
Tobie - comentou com o rapaz de cabelo preto, sentado na
frente dele -, é melhor começar a rezar para São Bernardino
de Siena, o padroeiro dos jogadores, porque hoje estou me
sentindo com sorte.
- Rezar para os santos, Gabe? - perguntou o rapaz chamado
Tobie, com um sorriso matreiro, apanhando e examinando
suas cartas. - Não deixe ninguém ouvi-lo incentivando isso,
senão vão pensar que você se converteu ao catolicismo.
Norris bufou.
- Estou falando de brincadeira, seu mentecapto. Os
cavalheiros nunca devem discutir teologia à mesa de
carteado. Mas não tenho razão, Dr. Bruno, ao afirmar que
dizem que o seu conterrâneo intercede a favor dos jogadores
que acreditam nesse tipo de tolice? - acrescentou, jogando
um punhado de moedas no centro da mesa.
- Na verdade, na Itália ele é mais famoso por seus discursos
contra os sodomitas - respondi, me levantando da mesa.
Norris desviou bruscamente os olhos da mão recebida e me
fitou com interesse.
- É mesmo?
- Ele lamentou que, no século passado, os italianos tivessem
ganhado fama em toda a Europa como a maior nação de
sodomitas.
- E vocês são? - perguntou ele, com um sorriso preso no
canto da boca.
- Somos a maior nação em tudo, meu caro - respondi,
retribuindo o meio sorriso.
- Bruno passou a maior parte da vida enclausurado em um
mosteiro - disse Sidney, inclinando-se para dar uma cutucada
nas costelas de Norris. - Ele deve saber.
O grupo caiu numa sonora gargalhada, enquanto Lizzy
deixava dois jarros grandes de cerveja em cima da mesa.
Resolvi que era hora de partir.
- Bem, vou deixá-los roubando uns aos outros com as
bênçãos de São Bernardino - declarei, tentando soar
descontraído. - Tenho assuntos mais urgentes a tratar.
- Bruno precisa reordenar o cosmos antes das cinco horas -
disse Sidney, embora olhasse atentamente para as cartas que
tinha na mão.
- Estamos todos muito ansiosos para ouvi-lo - acrescentou
Norris, ainda de cabeça baixa, examinando suas cartas, e em
seguida arriou um ás de ouros com uma grande exclamação
de triunfo e recolheu todas as moedas da mesa, enquanto os
outros explodiam numa salva de xingamentos. Nenhum
deles levantou a cabeça quando me retirei.

Capítulo 6

A ESCOLA DE TEOLOGIA ERA o PRÉDIO mais deslumbrante que
eu já vira em Oxford. Atrás de suas altas portas de madeira,
uma abóbada em leque magnífica, entalhada em pedra
amarelada, se arqueava sobre um salão de mobiliário simples,
talvez com pouco menos de 30 metros de comprimento. Era
banhado pela luz natural de 10 enormes janelas em arco, que
iam do piso ao teto por toda a extensão do aposento, de tal
modo que as paredes norte e sul pareciam quase
inteiramente de vidro. Essas janelas eram encimadas por um
rendilhado elegante e tinham vitrais decorados com imagens
de escudos coloridos e emblemas heráldicos de benfeitores e
dignitários da universidade, como era o costume. Dos arcos
de sustentação acima das janelas, as nervuras da abóbada se
abriam em leque em padrões simétricos por todo o teto,
antes de se juntarem novamente em pontas decoradas com
enfeites e pingentes delicadamente esculpidos com estátuas
embutidas, o que atraía constantemente o olhar para cima e
para o centro do teto. Havia um odor penetrante de cera
quente, que vinha das inúmeras velas, dos candeeiros e das
tochas que ardiam ao longo das paredes, e sua luz era bem-
vinda, a despeito das janelas majestosas, porque o céu estava
nublado e a luz diurna já desaparecia. Na extremidade
esquerda do salão fora erguido um palco, no qual foram
colocadas cadeiras de espaldar alto com almofadas de veludo
macias, destinadas às pessoas mais ilustres. O palatino
sentava-se no centro, com Sidney à esquerda e o reitor à
direita. Essas cadeiras eram cercadas pelas dos outros
dignitários da universidade, com suas togas em carmesim e
preto e os barretes de veludo dos catedráticos, distribuídos
de acordo com seu grau universitário. Abaixo do palco havia
uma arquibancada que ficava de frente para a porta direita do
salão, que era ocupada pelas figuras dos docentes mais
antigos. Em um dos enormes vãos do lado direito, notei dois
púlpitos de madeira entalhada dispostos frente a frente, nos
quais o diretor Underhill e eu assumiríamos nossas posições
para o debate.
Na outra extremidade, fileiras de bancos baixos tinham sido
dispostas para os alunos, que ainda entravam no salão,
empurrando e esbarrando uns nos outros para ocupar seus
lugares, em meio a um grande burburinho de conversas
animadas. Por um momento, quando subi os degraus para o
púlpito que seria minha plataforma durante a hora seguinte,
meu estômago se contraiu, mas, ao olhar as fileiras de rostos
cheios de expectativa, tornei a me animar com a velha
agitação da apresentação em público - minha primeira na
Inglaterra - e descobri que eu aguardava o debate como um
esportista deveria ansiar por uma boa competição.
Olhei de relance para o palco à minha esquerda e captei a
atenção de Sidney, que me deu uma piscadela de incentivo.
O palatino estava arriado na cadeira ao lado da dele, com as
pernas afastadas, palitando os dentes com a unha do polegar
e examinando o que quer que extraísse deles com mais
interesse do que parecia disposto a dedicar ao debate prestes
a começar. Notei Coverdale, Slythurst e Bernard sentados no
centro da segunda fila. Coverdale me deu apenas uma olhada
rápida, com perfeita compostura, enquanto Slythurst deixou
seu olhar frio deslizar sobre mim antes de desviá-lo
acintosamente. Bernard juntou as mãos ossudas, estalou os
dedos e me fez um breve aceno com a cabeça, que optei por
interpretar como um incentivo. O diretor Underhill subiu ao
pódio oposto e se debruçou sobre o atril, me fitando com
olhar combativo. O silêncio tomou conta da multidão
reunida. Pigarreei.

Pouco antes, às 16h45, um aluno fora enviado para me
escoltar do meu quarto à Escola de Teologia. Era um
estudante rechonchudo, de ar ponderado e cabelo preto, que
se apresentou como Lawrence Weston e explicou que o
diretor, que seguira na frente, o havia enviado para me
mostrar o caminho até o local do debate. Esse me pareceu
um gesto delicado, então acompanhei o jovem Weston em
direção ao portão fortificado. Ao nos aproximarmos, notei
dois criados que saíam da sala da torre carregando um baú
pesado. Atrás deles vinha um terceiro, com os braços
repletos de livros.
- Já estão retirando os pertences do Dr. Mercer? - perguntei a
Weston, tentando não revelar inquietação na voz. O rapaz
deu de ombros, como se não lhe coubesse questionar o
assunto.
Do lado de fora, na travessa St. Mildred, deparamos com
Cobbett, que estava parado vendo sua velha cadela urinar
junto ao muro do colégio.
- Boa tarde, Dr. Bruno! - exclamou ele em tom animado,
levantando um dos braços numa saudação. - Já vai debater
com o diretor?
- Buona sera, Cobbett - respondi com um gesto displicente
para o portão fortificado atrás de nós. - Vejo que estão
esvaziando a sala da torre.
Cobbett deu um risinho:
- Eles não perdem tempo nessas coisas, os quartos dos
veteranos são um grande prêmio por aqui. O Dr. Coverdale
quer se mudar para lá assim que possível.
- Então ele vai assumir o cargo de subdiretor?
- Ainda não é oficial, mas ele não vai parar por causa disso.
Ande logo, Bessie, já para casa.
A velha cadela tinha terminado suas necessidades e ia
mancando penosamente para o portão, enquanto Cobbett a
guiava com delicadeza.
- Ah, a propósito, Dr. Bruno, tenho mais um mistério para o
senhor - sorriu ele, mostrando as gengivas podres.
- O que é? - perguntei, me virando para voltar, ansioso por
informações.
- Aquela chave extra do quarto do Dr. Mercer, que eu disse
que tinha sido tirada da minha guarita. Bom, Mestre
Slythurst a trouxe hoje de manhã. Achou-a na escada
noroeste, bem do lado de fora da sala da torre, disse ele.
Quem a ievou deve tê-la deixado cair por lá na véspera, sem
notar... É escuro naquela escada, mesmo quando está
iluminada. Bom, pelo menos estou de novo com o ogo
completo, pronto para o nosso novo subdiretor.
- Na escada? Mas como é que o tesoureiro a encontrou lá? -
indaguei, pensando no motivo para Slythurst ter contado
essa mentira.
- Imagino que ele estivesse indo para o cofre-forte - disse
Cobbett. Ele arrastou os pés até o portão, o abriu e tornou a
se virar para mim. - Boa sorte no seu debate, senhor. E que
vença o melhor.
- Obrigado - retruquei, perturbado com essa nova
informação. Agora parecia quase certo que Slythurst havia
pegado a chave desaparecida e a usara para entrar no quarto
de Mercer. Se tivesse ido lá numa missão oficial, ele não teria
precisado inventar essa história para o porteiro.
- Senhor, nós... hã... precisamos mesmo apertar o passo, o
senhor é esperado às cinco horas - disse Weston, meio sem
jeito. Assenti com a cabeça e passei as mãos pelo cabelo,
como que para clarear as idéias. Não convinha ocupar o
cérebro com chaves e fechaduras na hora em que deveria
estar debatendo as leis do cosmos diante de toda a Oxford.
- Sim, desculpe, vamos mais depressa. Você mostra o
caminho - disse eu.
- Disseram que o senhor estava bem ali hoje de manhã,
quando Gabe Norris matou o cachorro. O senhor viu tudo?
Weston falou com uma empolgação infantil, olhando
ansioso para mim enquanto apontava a entrada da travessa
Brasenose, uma ruela estreita que corria paralelamente ao
lado norte do colégio. Ali o chão estava enlameado e, pelo
cheiro, parecia ser um lugar em que as pessoas costumavam
urinar. Respirei fundo e segui atrás dele.
- Estive lá, sim. Mas todos chegamos tarde demais, por isso
não consigo me perdoar. O jovem Norris tem uma pontaria
excelente. Se tivéssemos chegado uns minutinhos antes, o
pobre Dr. Mercer poderia ter tido uma chance.
Weston franziu os lábios.
- É, bem... gente como Gabe Norris não tem o que fazer para
matar o tempo, a não ser praticar esportes. Para ele, não tem
a menor importância nem mesmo se vai se diplomar...
Oxford é só mais uma diversão para esses tipos que andam se
pavoneando com suas roupas finas de Londres. Não é o que
acontece conosco, os alunos pobres que somos obrigados a
seguir carreira na Igreja, infelizmente - completou, com um
riso amargo.
- Imagino que você não goste dele, não é? - disse eu,
sorrindo.
Weston pareceu querer diminuir o impacto do que dissera.
- Ah, ele não é mau. Eu me ressinto dos alunos pagantes por
princípio: numa comunidade de estudiosos, o indivíduo
deveria sentir-se entre iguais, mas a presença desses
indivíduos reforça a ideia de posição social. E é irritante o
modo como a maioria deles não dá a menor importância aos
estudos. Mas Gabe Norris não é o pior. É até muito generoso
com sua fortuna e não é estúpido como outros são. O senhor
sabia que ele tem seu próprio cavalo? - perguntou depois de
uma pausa, balançando a cabeça com inveja. - Um cavalo
ruão, castrado, o animal mais lindo que já se viu. Ele o deixa
numa estrebaria fora dos muros da cidade, porque os
estudantes não podem ter montaria própria. Mas ele faz o
que quer, pois quem vai puni-lo?
- Ele parece mesmo muito seguro de si - concordei. -
Imagino que, com aquela aparência, também consiga mais
do que seria uma cota justa de mulheres.
Weston apenas virou a cabeça e me olhou de relance, com
um sorriso dissimulado no canto da boca.
- É, o senhor pode imaginar - disse ele, e sua ênfase peculiar,
somada ao sorriso matreiro, chamou minha atenção.
- Ah - retruquei, adivinhando sua intenção. - Você quer
dizer que as mulheres não são a principal área de interesse
do Sr. Norris?
- Não quero dizer nenhuma calúnia contra ele, senhor. Não
tenho idéia do que ele faz na vida privada, só estou
repetindo o que dizem.
- Pode-se dizer muita coisa por inveja - observei enquanto
caminhávamos. - Por que falam isso dele, você sabe?
Weston baixou os olhos, constrangido.
- Bem, para começar, ele não gosta de visitar as casas de
tolerância, senhor.
- Nem por isso se deve deduzir que ele seja sodomita -
retruquei. Porém não seria surpresa saber que isso era
verdade em relação a Norris, com seu estilo embonecado. Eu
me lembrei do olhar curioso que ele me dera ao me ouvir
mencionar os discursos de São Bernardino contra os
sodomitas. - E você deve tomar cuidado com esses boatos:
neste país, a sodomia é um crime punível com a forca, não
é?
- Sim, o senhor tem razão, é claro - disse Weston, num tom
de quem repreendia a si mesmo. - Mas é que todos já
notamos isso. Se uma moça bonita lança olhares feito um
bezerrinho para um sujeito, mas ele se mostra
completamente indiferente, ele não pode ter sangue de
homem, não acha?
As bochechas de Weston enrubesceram e, a julgar por seu
comentário, adivinhei que ele estava falando de coisas que
ocorriam em seu círculo mais próximo. Como só havia uma
moça que vivia perto dos jovens estudantes, não foi difícil
imaginar a quem ele se referia.
- Você está falando da filha do diretor? - indaguei. Aquilo
não devia ter me surpreendido. Por ser a única jovem no
colégio, por que ela não haveria de se tomar de amores pelo
mais bonito entre os estudantes ricos? Ainda assim, me senti
um tanto decepcionado com essa revelação, como se
houvesse imaginado que uma moça com a mente ágil de
Sophia não se deixaria cegar por qualidades tão superficiais. -
Ela lhe confidenciou isso?
- Oh, não, senhor... e eu já falei demais.
Weston tentou mudar de assunto, mas, nesse momento,
parei de repente, ao perceber que havíamos chegado ao fim
da travessa Brasenose e que o muro à nossa direita era o do
bosque do Colégio Lincoln. A grossa porta de madeira na
parede estava firmemente fechada. Devia ter sido por ali que
alguém soltara o cachorro no jardim.
- Espere um instante - pedi, me agachando para examinar a
lama em torno da soleira da porta. Não havia dúvida de que
ela fora revolvida, mas a passagem de pés pelo chão molhado
desde as horas da manhã havia eliminado qualquer vestígio
claro de pegadas, e xinguei a mim mesmo por não ter
pensado em procurar essas provas de imediato. Eu me
levantei e experimentei a maçaneta da porta. Estava
trancada. Já ia me afastando quando alguma coisa me
chamou a atenção entre os tufos de grama que cresciam
junto à soleira. Tornei a me agachar e puxei uma tira fina de
couro, rasgada numa das pontas - o tipo de tira que se usaria
como focinheira num cão. Eu não sabia que uso ela poderia
ter, mas, pelo sim, pelo não, guardei-a no bolso.
- Senhor, vamos nos atrasar - avisou Weston, com ar agitado,
mas eu notei que ele me observara com curiosidade no
momento em que pus a tira no bolso. - É logo no fim da
travessa, e estamos quase chegando.
Entramos numa praça larga, margeada pela Igreja de Santa
Maria, à direita, e, mal discerníveis à esquerda, acima do
muro do jardim do Colégio Exeter, as torres pontiagudas da
Escola de Teologia. Logo à frente, vi a massa da muralha da
cidade, cujas ameias denteadas se recortavam contra o céu.
Ao dobrarmos a esquina, deparamos com a fachada
espetacular da Escola de Teologia, que parei para admirar,
entortando o pescoço até ver as torres acima da grandiosa
janela em arco. Em geral, somente as construções
eclesiásticas eram projetadas com tamanho esplendor, mas
ali estava um edifício laico erguido como uma catedral e
consagrado à busca do conhecimento, muito semelhante à
grandiosa Igreja de San Domênico Maggiore, em Nápoles,
onde eu havia aprendido a arte do debate. Pensar que
minhas ideias se somariam aos ecos presentes sob aquelas
abóbadas magníficas chegava a ser quase opressivo, e eu
estava à beira de fazer um comentário a respeito disso ao
meu guia, quando senti um arrepio, provocado pela sensação
desconcertante de estar sendo observado. Eu me virei e vi,
encostado na pedra escurecida do muro da cidade, um
homem alto, de braços cruzados, que me encarava
abertamente. Vestia um velho gibão de couro e calções
surrados de tecido marrom, tinha enormes entradas no alto
da cabeça, que lhe deixavam nua a testa larga, embora o
cabelo fosse comprido atrás, e exibia no rosto as marcas
esburacadas da varíola. Teria talvez a minha idade, ou, quem
sabe, 50 anos, porém o traço mais marcante de sua aparência
era que ele não tinha orelhas. Marcas repulsivas de tecido
cicatricial envolviam os locais onde um dia elas teriam
estado, dando a entender que em algum momento ele fora
levado à justiça por um crime banal. O homem continuou a
me fitar com um olhar frio e impassível, no qual não pude
discernir maldade, e sim uma espécie de curiosidade
zombeteira. Imaginei se ele estaria olhando para mim em
particular, ou se era um batedor de carteiras, ou coisa
parecida, à espera de uma oportunidade nas aglomerações
que se formavam para o debate. Em minhas viagens pela Eu-
ropa, eu percebera que os ladrões baratos sempre pareciam
presumir que os homens cultos eram também
necessariamente ricos. Na minha experiência, essas duas
coisas raramente vinham juntas. Se era esse o caso, o
homem era atrevido - mais uma detenção por furto e ele
correria o risco de ir para a forca.
Numa outra ocasião, talvez eu questionasse seu olhar
insolente, mas não havia tempo a perder, por isso me virei
para o grandioso pórtico da Escola de Teologia e estava
prestes a subir os degraus quando vi o Dr. James Coverdale
descendo às pressas, abrindo caminho aos empurrões contra
a maré de rapazes de becas pretas que se aglomeravam para
entrar. Ele me avistou e se deteve, com uma expressão de
alívio no rosto. Pelo canto do olho, vi a figura de marrom
encostada à parede se mexer e dar um passo à frente.
Coverdale também o notou, então parou por um momento e
fitou o homem sem orelhas, que o encarou e pareceu acenar
com a cabeça. Ficou claro que os dois se reconheceram.
Coverdale o examinou por um instante, com a expressão
dividida entre a irritação e a apreensão, depois abriu um
sorriso para mim e me guiou gentilmente para a direita da
entrada, me afastando do olhar inquisitivo do homem.
- Obrigado, Weston, por ter trazido nosso convidado em
segurança. Pode ir se juntar a seus amigos lá dentro - disse
em tom afável a meu jovem guia, embora estivesse
ligeiramente empalidecido. O rapaz fez uma reverência para
mim antes de disparar escada acima e se unir à multidão.
- Dr. Bruno, eu gostaria de saber se poderíamos trocar uma
palavrinha rápida antes de entrarmos - murmurou
Coverdale. - Não se preocupe, temos tempo: nosso visitante
real ainda não chegou e os trabalhos não podem começar
sem ele.
Assenti com a cabeça. Seria típico do palatino não se dar o
trabalho de chegar pontualmente por minha causa. Adotei
um ar de atenção educada. Coverdale parecia constrangido
com o que precisava dizer.
- Haverá um inquérito sobre a morte do pobre Dr. Mercer, o
senhor entende, e os primeiros que chegaram ao local serão
solicitados a prestar depoimento - informou ele, segurando
meu cotovelo. Eu não saberia dizer se isso era para me
tranquilizar ou me ameaçar. - Pelo que sei, o senhor esteve
lá cedo, junto com o diretor e com o Sr. Norris.
- Sim, e terei prazer em relatar o que vi, embora espere que
isso seja antes de meu grupo ter que regressar a Londres -
retruquei, cheio de expectativa, pois estava certo de que
havia mais coisas por vir.
- É só que... ah... - nesse ponto, ele vacilou e deu um risinho
nervoso. - O diretor mencionou que o senhor acredita que o
portão do jardim que dá para a travessa Brasenose estivesse
trancado quando encontraram o pobre Roger.
- Sim, eu tentei abri-lo e ele estava trancado, assim como os
outros dois portões.
- Bem, quando eu soube disso, me ocorreu que,
naturalmente, o senhor não está familiarizado com nosso
colégio e por isso não saberia que o portão da travessa tem
uma maçaneta muito dura por dentro.
Levantei uma das sobrancelhas para indicar meu ceticismo.
- Sim - prosseguiu ele, sem me olhar nos olhos -, ela é
realmente muito difícil de girar e exige um jeito especial para
ser virada para a direita, assim. Só estou mencionando isso
porque, se o senhor viesse a sugerir no inquérito que o
portão tinha sido trancado... bem, o senhor pode perceber
que isso acrescentaria todo tipo de complicações a algo que,
na verdade, tem uma explicação muito simples e trágica. O
porteiro se esqueceu de trancar o portão, um cão vadio e
feroz entrou e o pobre Roger pagou pelo descuido de outra
pessoa. É realmente terrível... - Coverdale levou a mão ao
peito, o rosto bolachudo convertido numa máscara de
tristeza. - Mas toda essa conversa sobre portões trancados, eu
receio, poderia criar a suspeita de uma conspiração onde não
existe nenhuma.
Mal pude acreditar no que ouvia. Soltei meu braço da mão
dele e me aproximei para encará-lo. Ainda havia estudantes
se amontoando para subir a escada à nossa volta, por isso
baixei a voz:
- Dr. Coverdale, o portão estava trancado, não tenho a
menor dúvida disso. Eu mesmo tentei abri-lo. E ainda que
estivesse apenas fechado, não foi o cachorro que o fechou
depois de invadir o jardim.
- O vento poderia tê-lo batido - disse Coverdale, com ar
indiferente.
Por um momento, fiquei incrédulo. Será que ele realmente
imaginava que seria tão fácil me convencer a duvidar do que
vira com meus próprios olhos?
- Um portão de madeira pesada como aquele? Eu estava lá,
Dr. Coverdale, e examinei todas as possibilidades com o
diretor - protestei em voz baixa.
- O diretor teve tempo para refletir com juízo equilibrado
sobre os acontecimentos desta manhã - replicou Coverdale,
em tom tranquilo - e chegou à conclusão de que, em meio à
neblina e ao pânico, era difícil discernir alguma coisa com
clareza. Foi ele quem se lembrou de como a maçaneta pode
ficar dura por dentro e de como isso poderia confundir
quem não é daqui. Qualquer oficial de inquirição que
conduza um inquérito certamente levará em conta que não
se poderia esperar que o senhor soubesse se movimentar
pelo colégio. Menciono isso porque sua insistência no fato
de que existe um mistério só fará prolongar e complicar um
processo que, por si só, já será muito aflitivo para os amigos e
colegas do Dr. Mercer. Não se ganha nada acrescentando
fantasias e suspeitas espúrias a um trágico acidente.
Eu o olhei por um momento. Então eles tinham decidido
reescrever as circunstâncias da morte de Mercer, de um
modo que evitasse qualquer escândalo para o colégio - e
assim um assassino ficaria à solta. Estariam protegendo
alguém em particular, ou será que, para eles, era uma simples
questão coletiva de manter as aparências? Eu me perguntei
se o diretor cumpriria sua promessa de investigar o assunto
em caráter particular, mas duvidei muito - ele era o mais
ansioso de todos no que se referia à imagem pública da
instituição.
- Penso que devo relatar no inquérito o que acredito ter visto
esta manhã - afirmei. - Se eu houver cometido um erro, o
senhor tem razão, vou parecer um tolo, mas terei de correr
esse risco. Eu não dormiria tranquilo se soubesse que não
forneci todos os dados.
Coverdale estreitou os olhos, depois pareceu aceitar minha
declaração.
- Muito bem, Dr. Bruno, o senhor deve agir de acordo com a
sua consciência. Vamos entrar? - e fez sinal para os degraus
do pórtico da Escola de Teologia, onde a aglomeração
começara a se reduzir a quase nada. A maior parte da plateia
estava lá dentro. - Ah, mas há uma coisa muito curiosa -
acrescentou ele com ar despreocupado, olhando para trás, ao
subir o primeiro degrau. - O professor Slythurst me disse que
estava a caminho do cofre-forte, hoje pela manhã, quando
ouviu ruídos dentro do quarto do Dr. Mercer. E que, ao dar
uma espiada, deparou com o lugar todo revirado, e quem
haveria de estar lá, mexendo nos pertences de Mercer, senão
o nosso estimado convidado italiano? E tentando abrir o
cofre dele. O porteiro informou que o senhor devolveu um
molho de chaves que havia retirado do cadáver.
Eu maldisse minha estupidez de ter pegado no sono de
manhã. Tinha me esquecido de levar as roupas ao diretor, a
desculpa precária que eu inventara, e agora receava que
Slythurst houvesse encoberto seus próprios passos ao sugerir
que eu não passava de um ladrão qualquer. Notei que sua
versão havia omitido o detalhe de que ele tinha uma chave
do quarto de Mercer.
- Há uma explicação - comecei, mas Coverdale ergueu a mão
para me deter.
- Ah, eu não duvido, Dr. Bruno, não duvido. Mas é possível
que, para um oficial da Corte de Justiça, tal comportamento
parecesse extremamente estranho, para não dizer suspeito, e
aqui existe uma antipatia tão grande pelos estrangeiros entre
os moradores da cidade, o senhor entende, sobretudo os do
tipo papista - disse ele, fingindo um tom pesaroso -, que é
comum o discernimento ser encoberto pelo preconceito
cego. E, se o inquérito viesse a se tornar mais complicado do
que o necessário, são justamente esses os detalhes difíceis
que poderiam vir à tona.
Estávamos na soleira da Escola de Teologia. Ao olhar para
dentro rapidamente, vi que o auditório ficara lotado e que os
alunos procuravam lugares nos parapeitos das janelas e de pé
ao fundo. Coverdale me ofereceu um sorriso de expectativa,
depois de ter formulado sua ameaça direta. Observei seu
rosto por um momento e balancei a cabeça.
- Compreendo o que o senhor quer dizer, Dr. Coverdale, e
certamente vou pensar no assunto.
- Sábia decisão, meu caro - disse ele, em tom afável. - Estou
certo de que o senhor perceberá a sensatez disso. Vamos
entrando?
Parado no vão da porta, dei uma olhada para trás em direção
ao muro da cidade. O homem sem orelhas continuava lá, nos
observando com ar relaxado. Toquei o cotovelo de
Coverdale.
- Quem é aquele homem? - perguntei, apontando.
Coverdale olhou, piscou os olhos e balançou a cabeça.
- Ninguém importante - disse em tom brusco e segurou a
porta para que eu passasse.
Tentei tirar essa conversa da mente enquanto me preparava
para falar. Um grande silêncio tomou conta do salão,
rompido apenas pelo arrastar de pés, a tosse e o farfalhar de
becas na plateia. Pigarreei para limpar a voz e me inclinei
sobre o púlpito, dando início ao meu discurso:
- Eu, Giordano Bruno de Nola, doutor de uma teologia mais
sofisticada, professor de um saber mais puro e inocente,
conhecido nas melhores academias da Europa, filósofo
comprovado e honrado, desconhecido apenas entre bárbaros
e trapaceiros, despertador de espíritos adormecidos,
domador da ignorância presunçosa e obstinada, que em
todos os meus atos professo um amor geral à humanidade,
que não prefiro a companhia de bretão nem de italiano,
homem ou mulher, bispo ou rei, toga ou armadura, frade ou
leigo, mas apenas a daqueles cuja conversa é mais pacífica,
mais civilizada, mais fiel e mais valiosa, que não respeito a
cabeça ungida, a testa coroada, as mãos lavadas nem o pênis
circuncidado, mas sim o espírito e a cultura da mente que
podem ser lidos no rosto da pessoa verdadeira. Eu, que os
propagadores da ignorância e os hipócritas insignificantes
detestam, que os sóbrios e estudiosos amam, e que sou
aclamado pelas mais nobres mentes, apresento ao
excelentíssimo e ilustre reitor da Universidade de Oxford os
meus melhores cumprimentos.
Fiz uma reverência para o palco em que o reitor estava, na
expectativa do volume de aplausos que tal abertura
provocaria nas academias do continente europeu, e fiquei
perplexo quando enfim me dei conta de que o murmúrio
que chegava a meus ouvidos era o de um riso de zombaria.
Vi Sidney pelo canto do olho. Ele fez uma careta e um gesto
de corte na garganta, sinalizando que meu discurso tinha
sido exagerado. Não consegui entender por quê. Em Paris,
um debate dificilmente seria considerado digno desse nome
se a retórica não alcançasse níveis absurdos de
grandiosidade, mas parecia que nisso, como em tantas outras
coisas, os ingleses preferiam se esconder atrás de um estilo
simples e modesto. Pude então ouvi-los soltando risinhos
abafados - e me refiro aos professores, não aos alunos, se
bem que estes tinham começado a seguir o exemplo dos
mais velhos. Ouvi vários deles imitando meu sotaque, feito
garotos de escola. Do outro lado do salão, o diretor Underhill
se apoiava em seu pódio com um sorriso sugestivo de que
estava gostando do espetáculo e era evidente que pensava já
ter vencido. O palatino deu um bocejo alto e ostensivo.
- Rejeito em caráter absoluto - gritei, dando um murro no
púlpito e erguendo a mão para enfatizar o que dizia,
enquanto o riso minguava num silêncio assustado - a idéia de
que as estrelas sejam fixas na tapeçaria dos céus! Elas não são
mais fixas no Universo do que essa estrela, o Sol, nem o são
diferentemente, e a região da cauda da Ursa Maior merece
tão pouco ser chamada de Oitava Esfera quanto a região da
Terra, na qual vivemos. Quem tem saber suficiente irá reco-
nhecer que o movimento aparente do Universo deriva da
rotação da Terra, pois há muito menos razão para que o Sol e
todo o Universo de inúmeras estrelas girem em torno deste
globo do que, ao contrário, para que ele gire em relação ao
Universo. Que nossa razão não mais seja agrilhoada pela
oitava ou nona esferas imaginárias, pois existe apenas um
céu, imenso e infinito, com uma infinita capacidade de
abrigar inúmeros mundos semelhantes a este, arredondando-
lhes as órbitas tal como a Terra arredonda a dela.
Parei para respirar, mais satisfeito com essa salva de abertura,
e Underhill aproveitou a oportunidade para entrar na
disputa.
- É o que diz o senhor? - contrapôs, com o sorriso
pretensioso ainda nos lábios. - Pois me parece que, em vez
de o Sol ficar imóvel e a Terra girar em torno dele, é a sua
cabeça que gira e é o seu cérebro que não fica parado!
O diretor se virou para a plateia de docentes, em busca de
cumprimentos, e não se decepcionou. Irrompeu um coro de
gargalhadas e foram necessários alguns momentos para que
eu pudesse me fazer ouvir numa réplica.
O debate, lamento dizer, não foi um sucesso, e não vou
aborrecer o leitor com sua transcrição. Ele prosseguiu
basicamente da mesma forma: Underhill não enunciou nada
além dos velhos e batidos argumentos a favor de Aristóteles
- sem pedir maior prova científica do que o peso da
autoridade escolástica para situar a Terra no centro fixo do
Universo, como se as autoridades nunca houvessem errado,
e sugerindo, a certa altura, que Copérnico nunca pretendera
que sua teoria fosse interpretada literalmente, tendo-a
elaborado apenas como uma metáfora para auxiliar o cálculo
matemático. Todos esses argumentos eu já ouvira e refutara
muitas vezes, em melhor companhia do que aquela, porém
mal tive chance de fazê-lo nessa noite, visto que o interesse
principal de Underhill não parecia estar em convencer a
plateia por meio de sua habilidade no debate (a maioria dos
presentes já tinha a mesma opinião firme dele e nem sequer
teve a cortesia de ouvir meus argumentos), mas em me
ridicularizar e me expor com a máxima frequência possível à
zombaria de seus pares. Essa, ao que parece, é a ideia que
eles têm de diversão, e o público se portou com tão maus
modos que, na maior parte do tempo, conversou e teceu
comentários durante a fala de ambos os oradores. Eu havia
concluído parcialmente um argumento apaixonado, que
envolvia proposições matemáticas complexas, quando fui
interrompido por um ruído alarmante, que soou como o
rosnar grave de um cão. Muito sensibilizado para sons dessa
natureza desde os acontecimentos matinais, me assustei
visivelmente e me virei, apenas para descobrir que, na
verdade, era o palatino roncando alto. A essa altura, porém,
o fio da minha argumentação já estava muito esgarçado.
Momentos depois, fomos perturbados por uma grande e
confusa movimentação, quando um aluno foi pedindo
passagem pelas fileiras de professores sentados em busca da
atenção de um deles. Estava à procura do Dr. Coverdale,
que, aparentemente respondendo a um chamado, deixou
imediatamente o seu lugar no meio de uma fila,
desculpando-se em murmúrios teatrais com todos os que
estavam entre ele e a porta e foram obrigados a se levantar
para deixá-lo passar. Eu não esperaria que Coverdale
demonstrasse nenhum comedimento por minha causa, mas
fiquei surpreso ao vê-lo se portar com tão pouca gentileza
para com seu próprio diretor, a ponto de se retirar no meio
da disputa.
Avançamos arduamente para um fim que em nada se
assemelhou a uma conclusão. Expus meus cálculos
complexos para explicar o diâmetro relativo da Lua, da Terra
e do Sol, em termos que até um idiota seria capaz de
compreender, e, em resposta, Underhill só fez repetir os
velhos equívocos escolásticos comuns a todos os que
misturam ciência com teologia e creem que as Escrituras
Sagradas são a última palavra em matéria de investigação
científica. Ele também fez referências frequentes e incisivas
a minha condição de estrangeiro, deixando implícito que
isso necessariamente me conferia uma inteligência inferior,
e em mais de uma ocasião assinalou que Copérnico também
era estrangeiro, portanto não se poderia esperar que exibisse
o raciocínio robusto de um inglês - esquecendo-se,
aparentemente, de que tudo o que havia causado esse lamen-
tável arremedo de debate tinha sido o propósito de
homenagear o nobre compatriota de Copérnico ali presente.
Fiquei satisfeito de pôr fim àquilo. Fiz uma mesura tensa
diante de um punhado de aplausos insinceros e desci do
púlpito, me sentindo magoado e humilhado.
Mais tarde, quando o salão se esvaziou, nenhum dos
professores que se retiravam me olhou de frente. Permaneci
sentado, taciturno, junto a uma janela, pensando em esperar
que todos se fossem, para evitar novas chacotas - ou, pior
ainda, sua comiseração -, e então vi Sidney tentando descer
do tablado. Ele abriu caminho até onde eu estava,
balançando a cabeça:
- Esta noite senti vergonha da minha universidade, Bruno -
disse ele num ímpeto, com duas bolas vermelhas flamejando
de indignação nas bochechas.
- Underhill é um fujão: não discutiu uma única vez o tema
central dos seus argumentos! Acho isso vergonhoso! Foi uma
exibição de pura arrogância cega - reiterou, balançando a
cabeça e comprimindo os lábios, como se repreendesse a si
mesmo: - Nosso traço menos atraente como nação é essa
convicção da nossa superioridade.
- Tive muita sorte por incluir você e Walsingham entre meus
amigos - afirmei, balançando a cabeça. - Imaginei que todos
os ingleses fossem igualmente dotados de uma mentalidade
liberal e curiosidade a respeito do mundo. Vejo que me
enganei redondamente.
- Veja só - disse ele, com ar filosófico você não facilitou as
coisas, Bruno. O que foi aquele discurso de abertura?
- Ele me serviu em Paris.
- Não duvido. Mas não é exatamente esse o nosso modo de
fazer as coisas por aqui. Tendemos a não acolher bem os que
cantam louvores muito exagerados a si mesmos. Creio que
foi naquele momento que você perdeu sua plateia. E, da
próxima vez, talvez seja melhor deixar de fora os pênis
circuncidados, sim?
- Vou me lembrar disso - respondi, rígido -, mas duvido de
que haja uma próxima vez.
- Não tem sido uma grande visita para você até aqui, não é
mesmo, meu velho? - disse ele, com um tapa afetuoso em
meu ombro. - Primeiro, a companhia daquele polonês idiota;
depois, um homem é brutalmente assassinado diante da sua
janela; e agora, você sofre essa indignidade nas mãos de
imbecis que não conseguiriam nem mesmo começar a
compreender a sua visão. Sinto muito por isso, de verdade.
Mas agora talvez possamos nos concentrar em nossa
verdadeira tarefa - acrescentou, baixando a voz. - Seja como
for, fomos convidados para jantar no Colégio Christ Church,
portanto, esvaziemos as adegas deles, esqueçamos toda essa
história deprimente e vamos nos divertir! O que me diz?
Ergui os olhos para ele, grato por seu esforço, mas pensando
que sua companhia efusiva era a última coisa que eu queria
naquela noite.
- Obrigado, Philip, mas creio que eu não seria uma
companhia muito agradável à mesa hoje. Deixe que eu me
recolha com meu sofrimento hoje e prometo que amanhã
estarei pronto para qualquer aventura que você propuser.
Ele pareceu decepcionado, mas balançou a cabeça em sinal
de compreensão.
- Vou fazer você cumprir o que acabou de dizer. Aliás, o
palatino gostaria de caçar na floresta de Shotover, se essa
chuva der uma trégua, e eu, é claro, tenho de me curvar a
seus caprichos. Mas, se você não estiver no grupo, creio que
não vou aguentar.
- Vamos ver como me sinto. Por que você não leva seu novo
amigo, Gabriel Norris?
- Ah, eu o convidei, mas ele tem outro compromisso amanhã
- respondeu Sidney, descontraído, sem perceber a farpa em
meu tom. - Não que isso me entristeça: aquele mocinho
fanfarrão vai levar para casa metade do meu dinheiro. Por
favor, me lembre de nunca mais jogar cartas com ele.
- Bem, eu irei com você, se me sentir descansado - prometi.
Norris havia sugerido que o cão lobeiro poderia ter se
perdido na floresta de Shotover e ido parar no colégio. Eu
não era nenhum caçador, mas se fosse com eles teria a
oportunidade de verificar se havia alguma ligação entre a
floresta e o colégio. Sidney apertou minha mão, me deu
outro sonoro sopapo nas costas, entre as omoplatas - a
maneira inglesa de demonstrar amizade viril -, e me deixou
ir vagando sozinho pelo curto trajeto de volta ao colégio.
- Diofulmini questi inglesi! - exclamei ao dobrar a esquina da
travessa Brasenose, chutando enfurecido uma pedra que
achei no caminho. - Si comportano come cani di Strada...
não, são piores do que cães! Será que algum dia existiu uma
raça tão arrogante, tacanha e presunçosa quanto os homens
desta ilha infeliz? É tão impossível eles contemplarem novas
filosofias ou uma nova ciência quanto imaginarem comer
algo que tenha sabor! Deve ter sido a chuva interminável
que transformou o cérebro deles numa pasta. Zombar de um
homem não pela essência do que ele diz, mas por ele ter tido
a sorte de nascer fora destas terras deprimentes! E como se
atrevem a ter a pretensão de rir da minha pronúncia? De
onde, em nome de Deus, eles imaginam ter vindo a língua
latina? Asini pedanti!
Fui xingando livremente, em italiano, por todo o trajeto até
o portão fortificado do Colégio Lincoln, desabafando parte
da minha raiva. Felizmente não havia nenhum transeunte a
quem eu viesse a assustar.
Com o coração pesado, abri o portão principal e parei junto à
guarita do porteiro, para perguntar a Cobbett se ele poderia
me emprestar um lampião para meu quarto. O velho
funcionário estava cochilando suavemente na cadeira, com
um caneco de cerveja na mesa e a cadela descansando a
cabeça em seu joelho. Tossi e ele acordou, balbuciando e
limpando a roupa com as mãos.
- Oh, desculpe, Dr. Bruno, não o ouvi entrar. Eu estava
muito absorto nos meus pensamentos - disse ele. Deu uma
piscadela e eu exibi um sorriso.
- Boa noite, Cobbett. Eu poderia lhe pedir um lampião
emprestado?
- Sim, senhor, é claro - respondeu. Ele levantou o corpanzil
com esforço e arrastou os pés até um dos armários de
madeira que cobriam as paredes. - O senhor voltou cedo, se
me permite o comentário. Pensei que esta noite haveria uma
grande diversão para o visitante da nobreza no Christ
Church.
- Estou cansado - comentei, na esperança de evitar qualquer
pergunta sobre o debate.
Ele meneou a cabeça, com ar solidário.
- Não é de admirar, com toda aquela agitação da manhã.
Tomara que todos possamos dormir bem em nossas camas
esta noite, não é? Engraçado - observou, abrindo o lampião e
acendendo a vela interna com a sua -, o Dr. Coverdale
também voltou cedo esta noite. E estava com uma pressa
terrível. Eu o vi passar correndo ali pelo portão e disse a
mim mesmo: hoje eles devem ter encerrado os serviços com
uma rapidez incomum. Em geral, não se consegue fazê-los
parar nesses debates, depois que experimentam o gostinho
do som da própria voz, com todo o respeito, senhor. Mas aí,
como não apareceu mais ninguém, concluí que ele devia ter
tido algum problema pessoal - disse Cobbett, com um
risinho rouco.
- Creio que o Dr. Coverdale tinha assuntos mais importantes
para tratar do que ouvir meu pobre discurso - retruquei, sem
conseguir disfarçar o ressentimento na voz.
- Bem, espero que Deus dê ao senhor uma boa noite de sono
- disse Cobbett, me entregando o lampião, cuja chama
estremeceu com o movimento. - Imagino que o senhor deva
ficar conosco até o inquérito, não é? Logo, logo se sentirá
em casa aqui.
- Tenho certeza disso - respondi sem emoção, e então lhe
desejei boa-noite, percebendo o significado de suas palavras.
Perguntei a mim mesmo por quanto tempo eu seria detido
ali e se seria obrigado por lei a ficar para depor, mesmo que
Sidney e o palatino partissem na data marcada.
Em toda a volta do pequeno quadrilátero brilhava a luz
âmbar das velas, em janelas diversas, proporcionando um
fulgor amistoso, mas eu não conseguia me livrar do
sentimento de inquietação que me seguira desde Londres.
Alguma coisa cruel estava ocorrendo ali, e tive a terrível
intuição de que ainda não havia terminado. Ao olhar em
volta para as janelas vazias, me arrepiei com a sensação de
que alguém me observava.
Minha escada era silenciosa e tão escura que, sem o lampião
de Cobbett, eu teria precisado tatear às cegas. Eu não teria
visto nem mesmo o papel enfiado por baixo da minha porta,
se não houvesse pisado nele e ouvido um farfalhar
inesperado ao entrar no quarto. Eu me curvei para apanhá-lo
- uma única folha, cuidadosamente dobrada ao meio - e,
quando o abri, um outro pedaço de papel menor, não mais
largo que uma fita, esvoaçou no ar e caiu no chão. À luz
tênue do candeeiro, discerni uma série de círculos
concêntricos na folha maior. Intrigado e impaciente, tratei
de acender as velas dos castiçais nas paredes, para receber
deles mais luz a fim de examinar o estranho bilhete. Quando
consegui enxergá-lo com clareza, minha perplexidade só
aumentou: a essência do diagrama era bastante clara, mas
não seu significado. Aquele, inconfundivelmente, era um
desenho do Universo copernicano, feito por mãos
habilidosas, com os sete planetas descrevendo suas órbitas
em volta do Sol. Pelo menos foi o que me pareceu ser, de
início, mas depois vi que no centro, onde deveria estar a
imagem do Sol, havia uma representação de um pequeno
círculo com raios, exatamente o símbolo que eu encontrara
em vários pontos do almanaque de Roger Mercer.
Totalmente perplexo, fui buscar o segundo pedaço de papel,
que quase se perdera entre as tábuas do assoalho, e vi que
havia algo escrito nele. Quando examinei mais de perto,
ficou claro que tinha sido muito cuidadosamente recortado
de um livro, e a frase retirada com tanto critério me fez
soltar um arquejo alto:
Eu sou o trigo ou o grão de Cristo; serei moído por dentes de
animais ferozes, para que me descubram puro pão.

Capítulo 7

MINHAS BATIDAS NA PORTA da residência do diretor foram tão
frenéticas que o criado veio correndo abri-la, com uma
expressão de pavor e expectativa, como se temesse a notícia
de outra tragédia.
- Preciso falar imediatamente com o diretor - declarei,
ofegante, brandindo meus papéis em seu rosto.
- Ele está jantando no Christ Church, senhor, com os
professores mais antigos - disse o homem, que me olhou
com ar aflito, a mão tremendo de leve ao erguer a vela para
ver meu rosto, o que fez sombras correrem pelas paredes. -
Aconteceu alguma coisa?
É claro, eu havia esquecido que ainda era cedo. Underhill
estaria celebrando sua vitória dessa noite e talvez levasse
algumas horas para voltar.
- É um assunto de extrema urgência - expliquei, procurando
recobrar o fôlego. - Posso esperar, mas preciso falar com ele
esta noite.
O criado, um homem severo, talvez perto dos 60 anos, me
olhou com certa desconfiança.
- O senhor pode voltar mais tarde, pois não seria correto da
minha parte deixá-lo esperar na residência do diretor,
estando apenas as senhoras em casa.
- Não pretendo lhes fazer nenhum mal, quero apenas ter
certeza de que irei vê-lo.
- Quem é, Adam? - chamou lá de dentro a voz de Sophia,
que em seguida apareceu atrás do criado, sua forma esguia
iluminada pelas velas, com um livro na mão.
- É o cavalheiro estrangeiro, Srta. Sophia, que veio ver seu
pai. Eu disse a ele para voltar mais tarde.
- Bobagem, deixe que ele espere na sala aquecida, tenho
certeza de que meu pai não vai demorar. A sociabilidade não
é o forte dele - disse ela, sorrindo para mim por cima do
ombro do criado. - Boa noite, Dr. Bruno. Entre, por favor.
O criado nos olhou, consternado.
- Creio que seu pai não aprovaria, senhorita... - começou,
mas Sophia fez um aceno com a mão para interrompê-lo.
- O Dr. Bruno é hóspede do meu pai, Adam, e um filósofo
com a mais prestigiosa reputacao. lenho certeza de que meu
pai ficaria horrorizado se eu não lhe oferecesse a
hospitalidade adequada. Você teria a bondade de levar a capa
do Dr. Bruno e trazer um pouco de vinho?
Adam pareceu extremamente ofendido, mas acatou as
ordens, fazendo uma breve reverência para mim e ficando
de lado para me deixar entrar, com mais um olhar de
desagrado. A moça tornou a sorrir e fez sinal para que eu a
acompanhasse, passando pela sala de jantar de pé-direito alto
na qual havíamos nos reunido na noite anterior e cruzando
uma porta do outro lado. Ela usava um vestido verde simples
e seu cabelo preto lhe caía em ondas que balançavam na
cadência do andar, revelando a autoconfiança que vem da
beleza natural. Com uma grande melhora do meu estado de
ânimo ante a perspectiva de ter a companhia dela, eu a segui
para o interior de um cômodo com as paredes revestidas de
painéis escuros, aquecido por um fogo baixo na lareira e
dominado por uma enorme escrivaninha de carvalho
embaixo da janela, com pilhas altas de livros e papéis.
- Este é o gabinete de trabalho do meu pai. Você pode
esperá-lo aqui - disse Sophia, delicadamente, enquanto me
conduzia a uma das poltronas estofadas de tapeçaria que
ladeavam a lareira. Ela me observou por um momento e
perguntou: - Então, você não quis comemorar com os
professores no Christ Church esta noite, Bruno?
- Não estou em clima de festa. Receio ter que dizer que hoje
seu pai conquistou a plateia - respondi e em seguida me
acomodei na poltrona, me inclinando para mais perto das
chamas que se retorciam. - Nisso, pelo menos, ele pode se
considerar vencedor.
- Ele tratou com arrogância todas as suas colocações, sem se
dar ao trabalho de realmente ouvir? - perguntou Sophia,
sorrindo com amarga solidariedade. - Meu pai não tem
nenhuma habilidade nos debates, Bruno - continuou, sem
esperar minha resposta. - Tem apenas a convicção inabalável
de que está correto, mas é surpreendente a eficácia que isso
pode ter para refutar argumentos. Antigamente eu achava
que era um sinal de arrogância, mas, à medida que
amadureço, começo a desconfiar de que talvez seja medo.
Levantei uma das sobrancelhas, numa expressão inquisitiva,
pensando em como ela era perspicaz para uma mulher tão
jovem.
- A vida inteira ele foi muito dependente das graças de
homens poderosos, como o conde de Leicester, do mesmo
modo que os acadêmicos e os religiosos - prosseguiu a
jovem, com um toque de piedade na voz e sabe muito bem
como essas preferências podem ser caprichosas. Por isso,
vive num medo constante de perder o cargo... e houve
muita confusão na universidade nesses últimos anos, diversas
pessoas denunciadas por serem vistas em má companhia, por
lerem os livros errados, por tecerem um comentário casual
passível de ser maldosamente interpretado - suspirou. - A
queda do pobre Edmund Allen o abalou muito.
- Por quê? Ele também tem uma preferência secreta por
Roma?
- Oh, não! Santo Deus, não, ele é a última pessoa... - Sophia
balançou a cabeça de modo impetuoso, enfatizando o
absurdo dessa ideia. - Mas foi a visão de como os professores
se apressaram a cerrar fileiras contra Allen, contrariando
todos os laços de amizade, por medo de se tornarem
suspeitos por associação. Uma acusação não precisa ser
verdadeira para convencer, em tempos como estes, você
sabe. Meu pai anseia mais pela estabilidade do que por
qualquer outra coisa e acredita que a mudança é sempre para
pior. Ele não é mau, mas vive constantemente olhando para
trás, e isso o leva a defender suas certezas como uma mãe
ursa defende os filhotes. E por isso, eu acho, que ele parece
tão pomposo.
Sophia sorriu e se inclinou para atiçar o fogo. Houve uma
batida leve na porta e Adam, o criado, entrou com uma jarra
de vinho e duas taças, que depositou num pequeno banco de
madeira próximo ao fogo.
- Obrigada, Adam. Quer mandar buscar na cozinha um
pouco de pão e queijo e, se tiverem também, alguma torta
fria? Desconfio de que o nosso hóspede talvez esteja com
fome.
Com um meneio da cabeça, indiquei minha concordância
agradecida, só então me dando conta de que ao me recusar,
ofendido, a comparecer ao jantar no Christ Church, eu ficara
sem a ceia, e meu estômago estava começando a reclamar.
Adam se curvou, me lançou outro olhar de desaprovação e,
de maneira contundente, deixou a porta aberta ao sair.
Sophia se levantou para fechá-la, alisando o vestido. Servi
uma taça de vinho para cada um.
- Você esmurrou a porta de um modo que seria capaz de
despertar os mortos, Bruno - disse ela, tornando a se
acomodar na poltrona em frente, com os pés bem aninhados
embaixo do corpo, feito um gato e estava pálido como um
túmulo. Temi que estivesse trazendo a notícia de mais algum
horror.
- Não é nada tão terrível, eu lhe asseguro - retruquei,
bebendo um gole grande.
- Então, o que o traz aqui com tamanha urgência? Você
pensou em alguma réplica brilhante que se esqueceu de fazer
durante o debate e a trouxe aqui para que meu pai possa
ouvi-la, antes tarde do que nunca? - indagou ela, com um
sorriso travesso, apontando para o papel que eu ainda
segurava.
- Não... Isso só me ocorrerá durante a madrugada - respondi,
meio que brincando, e lhe entreguei o papel. - O que você
acha disso?
Sophia correu brevemente os olhos por ele e me olhou,
intrigada.
- Ora, isso é um mapa celestial, baseado na teoria de
Copérnico, não é?
Confirmei com a cabeça.
- Mas, por que trazer isso agora para meu pai ver, com tanta
pressa, depois de encerrado o debate?
- Não lhe parece haver nada estranho nele?
Sophia tornou a franzir o cenho para o papel, e então seus
olhos se arregalaram, apenas por um instante, antes de ela
erguer novamente a cabeça.
- É um modo estranho de representar o Sol - comentou, em
tom leve.
- Sim.
- Como uma roda. Mas é um desenho muito delicado -
acrescentou, me devolvendo o papel.
- É, sim, mas não posso reivindicar o mérito por isso. Não é
obra minha.
- Então... de quem é? - e a voz de Sophia vacilou
momentaneamente. - Onde você o arranjou?
- Deixaram para mim. Quem o deixou, não sei, mas é
possível que tenha um significado oculto. Pensei em pedir a
orientação do seu pai.
Um riso estranho brotou dela, como que de alívio:
- Você disparou para cá, esmurrando a porta como se o
mundo fosse acabar, só para mostrar isso a ele? Se quer a
minha opinião, Bruno, eu diria que alguém está fazendo uma
brincadeira com você, zombando de Copérnico. Meu pai
talvez não goste de desperdiçar o tempo dele com essas
bobagens suas.
- Talvez você tenha razão - comentei em tom neutro,
dobrando e alisando o papel entre as mãos. - De qualquer
modo, gostaria de esperar por ele, se puder.
Ela fez um leve meneio com a cabeça. Perguntei a mim
mesmo o que representaria a expressão que atravessara seu
rosto por um instante, um pouco antes, ao olhar para o
diagrama pela segunda vez. Reconhecimento? Medo? Parecia
improvável que ela soubesse alguma coisa sobre o significado
oculto do pequeno símbolo, mas, por outro lado, refleti, a
vida no colégio era tão próxima e compartilhada que talvez
não houvesse segredos ali. Se o símbolo havia significado
algo para Roger Mercer e para meu correspondente
anônimo, por que não seria conhecido por outros, entre eles
Sophia?
- Por favor, me diga - pedi, me recostando na poltrona e
apontando para as grandes arcas encostadas na parede -, seu
pai tem uma edição de Foxe?
Sophia revirou os olhos.
- Isso, meu caro Bruno, é como perguntar se o papa possui
um crucifixo. Meu pai tem exemplares de todas as três
edições publicadas pela Master Day, as duas últimas com 12
livros cada uma. Creio que há uma nova edição a ser
impressa este ano, e tenho certeza de que ele logo
acrescentará mais essa a sua coleção. Foxe é o que não nos
falta nesta casa. Que edição você estaria procurando, em
particular?
- Não sei - retruquei, fazendo uma pausa, e corri os olhos
pelos livros da escrivaninha, antes de tornar a fitá-la. - Eu
sou o trigo ou o grão de Cristo; serei moído por dentes de
animais ferozes, para que me descubram puro pão.
Ela me olhou com uma expressão educada de confusão.
- Como disse?
- Isso é de Foxe, a senhorita sabia?
- Ah. Uma citação. Na verdade, eu não teria como saber... o
estudioso dos mártires é meu pai, não eu. Para falar a
verdade, Bruno, só dei uma olhada rápida no livro de Mestre
Foxe e detestei o que encontrei lá. Que espécie de homem
dedica a vida a registrar listas intermináveis de torturas e
brutalidades infligidas a outros seres humanos? E com
tamanha profusão de detalhes? Tive a sensação de que ele
extraía um deleite absoluto de suas próprias descrições.
Algumas daquelas gravuras me causaram pesadelos - disse
ela, estremecendo e fazendo uma careta.
- Imagino que ele queria encorajar os fiéis e procurou as
imagens mais fortes para atingir esse propósito.
- Aquilo não passa de propaganda, sem outra finalidade senão
inspirar o ódio pelos católicos! - esbravejou Sophia, e fiquei
admirado com a veemência em sua voz. Captando meu olhar
de surpresa, ela enrubesceu e acrescentou, em tom mais
moderado: - Como se já não houvesse discórdia e divisão
suficientes entre os cristãos sem livros desse tipo para atiçar
as chamas do ódio.
Olhei a jovem com renovada curiosidade, enquanto, talvez
constrangida por sua explosão, ela voltava outra vez a
atenção para o fogo. Era tão inusitadamente franca e
imprevisível em suas opiniões que não me admirava seu pai
estar perdendo a esperança de lhe arranjar um bom
casamento. Tamanha independência de raciocínio ia de
encontro a tudo o que se esperava de uma esposa recatada.
No entanto, essa recusa impetuosa a permanecer no lugar
que lhe era apropriado era o que eu mais admirava nela. O
que Sophia quis dizer com esse último protesto, por
exemplo? Enquanto eu contemplava a ideia de pressioná-la
mais a respeito de Foxe, a porta voltou a se abrir e Adam,
com proposital lentidão, dispôs uma bandeja de pão e frios
ao lado da jarra de vinho.
- Creio que seu pai não gostaria que se comesse em seu
gabinete de trabalho - começou ele, com ar afetado, mas
Sophia já estava cortando o pão.
- Ele vive ceando aqui - disse. - Obrigada, Adam, é só isso
por hora.
Ele hesitou.
- Srta. Sophia, eu me pergunto se a senhora sua mãe...
- Minha mãe se deitou ontem à noite e não saiu da cama
desde então. Quando seus nervos vão mal, ela quer que a
deixemos em paz. Obrigada, Adam - repetiu. Seu sorriso foi
afável, mas havia dureza em sua voz.
O criado, claramente tomando a si mesmo por defensor da
honra de Sophia, pareceu prestes a encontrar alguma outra
objeção à continuidade da nossa presença conjunta no
estúdio do diretor, mas, após um momento de pausa, baixou
a cabeça e recuou, dessa vez fechando a porta ao sair, com
um clique suave.
- Sirva-se - ofereceu Sophia, indicando a bandeja. - Podemos
vasculhar os textos de Foxe depois, se você quiser.
Ocupei meu lugar na poltrona junto ao fogo e, sentindo-me
grato, cortei um bom naco do pão.
- Então, Bruno - começou a jovem, baixando a voz e se
inclinando para a frente de propósito, como se ela é que
houvesse me chamado -, você prometeu me ensinar mais
coisas do livro de magia de Cornélius Agrippa, e esta é uma
oportunidade inesperada para uma aula.
- Prometi, sim - respondi, com a boca cheia -, mas primeiro
você precisa me dizer por que tem esse desejo tão fervoroso
de conhecer feitiços e talismãs do amor. Esses livros são
proibidos aqui, e a simples posse desses conhecimentos é
considerada perigosa.
- Eu nunca disse que queria aprender feitiços de amor -
retrucou ela, fingindo altivez -, isso foi uma suposição sua. -
Mas o súbito rubor de suas faces desmentiu o protesto.
- Eu só estava querendo saber por que uma jovem bem-
nascida haveria de se ocupar da ideia de magia prática.
- Sou fascinada pela ideia de que uma pessoa possa dominar
forças que estão além da nossa compreensão e usá-las de
acordo com seus próprios objetivos. Não é o que todos
sentem? Sempre achei que a magia devia ser imensamente
poderosa. Quer dizer, ela deve funcionar, caso contrário, a
Igreja não ficaria tão aflita por mantê-la longe das mãos das
pessoas comuns.
Hesitei.
- Não há dúvida de que existem forças de grande poder no
Universo, mas fazê-las se manifestar exige um estudo longo
e profundo. A magia hermética sobre a qual Agrippa
escreveu não é uma questão de misturar um punhado de
ervas e murmurar encantamentos, como uma curandeira de
aldeia. Ela requer conhecimentos de astronomia,
matemática, música, metafísica, filosofia, óptica, geometria, e
daí por diante. Tornar-se perito nisso é trabalho para uma
vida inteira.
- Entendo - disse Sophia. Em seguida contraiu a boca e
cruzou as mãos nos
joelhos. - E você está querendo dizer que eu não tenho
inteligência para isso, já que sou apenas uma mulher?
- Não quero dizer nada parecido - protestei, erguendo uma
das mãos.
Com que rapidez ela se ofendia nesse campo! Então me
lembrei da raiva impotente que eu sentira na Escola de
Teologia, ante as insinuações reiteradas do seu pai de que a
minha nacionalidade era sinônimo de estupidez. Eu, pelo
menos, podia encontrar partes da Europa em que esse
preconceito não era corrente, mas, que eu soubesse, não
havia um só lugar na cristandade em que se tolerasse que
uma mulher como Sophia estudasse ou conversasse com
homens de igual para igual, por mais arguta que fosse a sua
mente ou por mais vastas as suas leituras. Somente numa
rainha essa inteligência era tolerada.
- Eu quis apenas dizer que dedicar a vida ao estudo da magia
hermética exige um sacrifício enorme, e eu não
recomendaria isso com leviandade. Para começar, seria
provável que isso a levasse a ser queimada na fogueira como
bruxa - expliquei.
Sophia pareceu considerar essa ponderação por um
momento, e então levantou a cabeça de repente para me
fitar, os olhos iluminados por uma angústia vívida.
- Então, não há como aprender magia alguma que possa
funcionar? - perguntou ela num ímpeto.
- Funcionar para quê? - indaguei, assustado com a força de
sua expressão. - Você parece ter algo muito específico em
mente, mas, se não disser o que é, não poderei orientá-la.
Ela virou outra vez o rosto para o fogo e passou algum tempo
sem falar. Cortei um pedaço de queijo e esperei para ver se
resolvia confiar em mim.
- Você nunca amou alguém que não pudesse retribuir o seu
amor?
- Não - respondi com franqueza. - Mas amei alguém que eu
não podia ter, então talvez entenda um pouco disso.
Ela balançou a cabeça, ainda olhando fixo para as chamas que
se entrelaçavam, depois a levantou e me fitou com aqueles
olhos castanho-dourados.
- Quem era ela?
- Uma nobre francesa, da época em que eu morava em
Toulouse. Ela também desdenhava os interesses das damas e
tinha sede de livros. Na verdade, era muito parecida com
você em espírito e beleza - acrescentei, gentilmente.
Sophia arriscou um sorriso tímido.
- Você queria se casar com ela?
Hesitei.
- Com certeza, queria continuar a amá-la. Queria poder
conversar com ela e abraçá-la. Mas nos casarmos, isso estava
muito longe de ser uma possibilidade. O pai pretendia
arranjar um casamento que conviesse às suas ambições, não
às dela. Eu não era essa pessoa.
- Como o meu pai - disse Sophia, novamente balançando a
cabeça, o cabelo caído em volta do rosto enquanto ela
apoiava o queixo na mão e continuava a me olhar
atentamente. - E vocês foram obrigados a se separar?
- O pai dela queria nos separar. Além disso, naquela época
Toulouse estava às voltas com um conflito religioso entre
católicos e protestantes huguenotes, e seria mais seguro eu ir
embora. Minha vida tem sido assim nos últimos anos. Tive
que me arranjar sozinho e me mudar tantas vezes que talvez
isso tenha me tornado impróprio para uma vida estável com
esposa e filhos.
- Isso é triste. Mas tenho certeza de que não lhe faltariam
admiradoras aqui, Bruno. Nenhum inglês tem olhos iguais
aos seus.
Fiquei tão surpreso com o elogio que não consegui pensar
numa resposta imediata. Sophia pareceu sem jeito e se
apressou a voltar novamente a atenção para o fogo.
- Você já viajou tanto! Não pode imaginar a inveja que
sinto... Deve ter tido inúmeras aventuras. Eu não saio de
Oxford há seis anos. Às vezes, fico muito inquieta - e atiçou
o fogo vigorosamente com medo de nunca ver nada do
mundo, a menos que eu faça alguma mudança drástica. Ah,
há momentos em que eu gostaria de picar em pedacinhos
esta vida que levo! Algum dia você já se sentiu assim? - Ela
me olhou com ar compenetrado, os olhos cheios de emoção.
- Certamente. Passei 13 anos da minha juventude num
mosteiro. Eu entendia mais de inquietação e desse desejo de
novos horizontes do que qualquer um. Mas tome cuidado
com o que deseja, Sophia. Também aprendi que a aventura
nem sempre é uma coisa que deva ser buscada por ela
mesma. Você só sabe o valor de um lar quando o perde -
acrescentei, calmamente.
- Meu pai disse que você viveu na corte do rei Henrique, em
Paris... Deve ter conhecido muitas damas lindas e elegantes
por lá, eu presumo.
- Havia rostos bonitos, com certeza, e muitos trajes lindos,
mas nunca encontrei muita beleza intelectual na corte.
- Mesmo assim, imagino que suas ideias tenham deslumbrado
todas elas - disse Sophia, os olhos refletindo as chamas que
estalavam.
- Não sei se minhas ideias despertavam grande interesse nas
damas da corte - comentei, com um sorriso pesaroso. -
Poucas mulheres de lá davam importância à leitura ou se
ocupavam com ideias. A maioria tinha uma compreensão
escassa até mesmo da política da sua cidade, e receio nunca
ter sabido fingir interesse por uma mulher cuja conversa se
limitasse a mexericos e modismos da corte. Sou
extremamente intolerante com a estupidez.
Nesse momento ela se enrijeceu, me fitando com
curiosidade:
- Então, é a capacidade de formar e expressar opiniões
próprias que você valoriza numa mulher?
- É claro, se elas forem bem fundamentadas. Caso contrário,
a mulher não passa de um ornamento, por mais encantador
que seja. Mais vale comprar um quadro, se o sujeito quer
apenas uma coisa bonita num canto da sala de estar. Além
disso, o valor dos quadros aumenta com a idade.
Sophia sorriu e balançou a cabeça.
- Você não é como a maioria dos ingleses, Bruno. Mas, afinal,
isso eu percebi na primeira vez que o vi. Meu pai me garante
que nenhum homem valoriza a mente poderosa numa
mulher e diz que, se eu quiser um marido, será melhor que
eu dê sorrisos bonitos e guarde minhas ideias para mim.
- Nesse caso, a compreensão que ele tem de seus
semelhantes masculinos é tão obstinadamente equivocada
quanto a sua cosmologia.
Sophia riu nesse momento, mas o riso não se refletiu em
seus olhos.
- E quanto ao seu namorado? - instiguei-a. - O que ele
valoriza?
Ela não respondeu e eu prossegui:
- Porque não consigo acreditar que uma jovem tão favorecida
pela natureza tenha necessidade de considerar as artes da
magia para conquistar a afeição de qualquer homem. Com
todo o respeito, só posso imaginar que o seu amado seja cego
ou idiota.
- Não há amado algum - disse ela em tom abrupto, cruzando
os braços e desviando enfaticamente o rosto de mim. - Não
zombe de mim, Bruno. Pensei que você fosse diferente.
- Por favor, me perdoe.
Servi outra taça de vinho e me recostei na poltrona,
abafando um sorriso. Se ela quiser confiar em mim, pensei,
fará isso quando lhe convier. Passamos algum tempo calados,
tendo por companhia apenas as faíscas das toras de lenha e o
ritmo embalador das chamas.
- Para responder à sua pergunta, Agrippa obteve seus
conhecimentos de magia prática num antigo manuscrito,
conhecido na Europa pelo nome de Picatrix - comecei, para
romper o silêncio, quando me pareceu que ela não falaria
mais nada. - O nome verdadeiro é Ghayat al-Hakim, A meta
dos sábios, e foi transcrito pelos árabes de Harran há cerca
de 400 anos. Na verdade, trata-se da tradução de uma obra
muito mais antiga, anterior à destruição do Egito, e que se
acredita ter sido inspirada pelo próprio Hermes Trimegisto -
esclareci. Fiz uma pausa para tomar um gole de vinho,
confiante em que agora havia reconquistado sua atenção. Ela
me fitava, extasiada, o queixo apoiado nas mãos. - Esse livro
é proibido pela Igreja Romana e nunca foi impresso, porque
seria perigoso demais fazer isso, mas foi traduzido para o
espanhol por ordem do rei Afonso, o Sábio e depois para o
latim, de modo que, durante alguns anos, houve um pe-
queno número de cópias manuscritas em circulação. Uma
delas foi importada em segredo para Paris pelo rei Henrique,
há 10 anos. Ele gosta de colecionar livros obscuros de temas
esotéricos, mas não sabe como usá-los depois que os possui.
- E você o leu? - perguntou ela num sussurro, inclinando-se
para mais perto, animada.
- Sua Majestade acabou permitindo que eu visse o
manuscrito, depois de eu jurar solenemente que não copiaria
nenhuma parte dele. Ao que parece, se esqueceu de que sou
um dos principais praticantes da arte da memória em toda a
Europa - comentei e me permiti um sorriso modesto, que
Sophia ignorou.
- E o que há nesse Picatrix? - indagou.
- É um manual de magia astral, um tratado sobre a arte de
atrair as forças que animam as estrelas e os planetas, por
meio de talismãs e imagens - respondi. Baixei a voz e dei
uma olhada em volta, para me certificar de que a porta estava
fechada. - Isso funciona com base no princípio de que toda a
infinita diversidade da matéria do Universo é interligada, faz
parte da Unidade animada pelo Divino, de tal modo que a
pessoa habilitada pelos conhecimentos necessários é capaz
de criar vínculos entre os elementos do mundo natural e as
forças celestes às quais eles correspondem.
Sophia franziu o cenho.
- Mas como funciona? - insistiu.
- Você está decidida a saber - respondi, sorrindo. - Bem, por
exemplo, suponhamos que você quisesse conquistar o amor
de outra pessoa. - Observei sua reação: suas faces
enrubesceram e os lábios estavam ligeiramente entreabertos
de expectativa, mas ela sustentou meu olhar com ar quase
desafiador. - Nesse caso, você precisaria captar a força do
planeta Vénus e, portanto, deveria saber quais plantas,
pedras e metais fazem parte da influência desse astro.
Também precisaria aprender quais são as imagens mais
poderosas de Vênus e gravá-las num talismã feito dos
materiais apropriados, no dia e na hora mais favoráveis à
influência astrológica de Vênus, com as invocações, os
nomes e os números corretos... Como vê, é imensamente
complexo.
- Você pode me ensinar? - murmurou ela.
- Sabe o que está me pedindo? - retruquei, baixando ainda
mais a voz. - Que eu lhe ensine o que muitos consideram
uma feitiçaria diabólica. Pode avaliar o risco? Além disso,
devo confessar que nunca tentei usar essa magia prática.
Meu interesse sempre foi o elemento sagrado, intelectual.
Mas, Sophia - e abri as mãos, como um defensor do bom
senso se o objeto da sua afeição não lhe corresponde, não
seria mais simples apenas voltar seu interesse para outro
lugar?
Ela estendeu a mão e a pôs sobre a minha por um instante,
com um sorriso triste bailando nos lábios.
- Sim, seria mais simples - concordou, em voz baixa. - Mas
nem sempre o coração dá ouvidos à razão, não é? Você deve
saber disso, Bruno.
Eu a fitei por um bom tempo, enquanto meu coração
balançava de forma inesperada, e me dei conta de que eu
corria o sério risco de me apegar a essa jovem reflexiva e
arrojada, de olhos fogosos. Eu não saberia dizer se ela sentia
atração por mim ou me via apenas como alguém que lhe
daria ouvidos e a levava a sério. No mesmo instante, senti
um ciúme repentino e insensato de que todo esse afeto
profundo dela pudesse ser desperdiçado num pavão como
Gabriel Norris.
Pensava comigo mesmo se devia questioná-la sobre esse
boato e de que maneira traria o assunto à baila, quando um
baque inconfundível se fez ouvir do outro lado da porta do
gabinete, como se alguém tivesse perdido o equilíbrio e
tropeçado no batente. Sophia retirou depressa a mão,
empurrou a poltrona para trás e se pôs de pé num salto,
lançando um olhar raivoso para a porta. Ao dar um passo em
direção a ela, porém, suas pernas fraquejaram subitamente e
ela soltou um gritinho, agarrando a poltrona para manter o
equilíbrio. Assustado, me levantei de um salto e estendi um
dos braços para ampará-la. A moça segurou meu ombro,
agradecida, e se apoiou em mim por um instante, com a
respiração pesada.
- Não está se sentindo bem? - perguntei, desnecessariamente,
já que o rosto dela ficara branco como um lençol.
- Eu... eu não sei o que aconteceu, me desculpe - disse
Sophia, hesitante. - Devo ter me levantado depressa demais
e de repente me senti muito zonza. Talvez esse vinho seja
mais forte do que eu pensava. Maldito velho bisbilhoteiro,
esse Adam... Eu devia ter adivinhado que ele ficaria
escutando pelo buraco da fechadura.
- Estávamos falando muito baixo, talvez ele não tenha ouvido
o tema da conversa - sussurrei, mesmo sem conseguir
aplacar o medo que me subiu pela espinha.
- Tenho certeza de que ele ouviu o bastante para contar ao
meu pai - resmungou ela entre os dentes cerrados.
Durante o que me pareceu um longo tempo, nenhum de nós
se mexeu. Sophia continuou a segurar o tecido da minha
sobreveste enquanto eu sustentava delicadamente seu braço
direito. Seu cabelo estava quase encostado em meu rosto e
tinha um aroma cálido de lenha queimada e camomila. Pude
ouvir o sangue latejando em meus ouvidos, mal me
atrevendo a respirar, até que ela finalmente levantou a
cabeça, com um grande suspiro.
- Queira me desculpar, Bruno, preciso me sentar - disse, em
tom humilde. Ainda estava muito pálida.
Eu a ajudei a voltar para a poltrona e, do corredor mais ao
longe, veio o som de uma porta batendo com firmeza e de
duas vozes masculinas conversando.
Sophia levantou a cabeça.
- Meu pai voltou. É melhor eu ir até lá e explicar sua
presença, antes que o Adam encha a cabeça dele de suspeitas
- disse. Então respirou fundo e tornou a se erguer, fazendo
uma pausa para se equilibrar.
- Você ainda está tonta? - perguntei, estendendo uma das
mãos. Ela passou por mim sem segurá-la e só virou para trás
ao chegar à porta.
- Ficarei bem. Boa noite, Bruno, e obrigada por ter ouvido
minhas tolices. Logo voltaremos a conversar.
Deu um sorriso e saiu de mansinho para o corredor,
fechando a porta atrás de si.
Peguei o mapa copernicano e voltei a examiná-lo. Sophia
vira algo naquele símbolo misterioso, eu tinha certeza, e
instintivamente dobrei o papel, guardando-o. Talvez fosse
mais sensato não alertar o pai dela, até conseguir conquistar a
confiança da jovem o bastante para arrancar dela o que
soubesse. Ouvi vozes se elevarem numa discussão acalorada
no corredor lá fora - as de Sophia e do diretor -, embora só
conseguisse discernir uma ou outra palavra: "impróprio" e
"papista", por parte dele, "absurdo" e "hospitalidade", por
parte dela. Em seguida, Sophia explodiu num tom de
exasperação furiosa:
- E como é que não devo me portar como a dona desta casa,
se o senhor nunca está presente e a verdadeira dona se
recusa a sair do quarto? Quem mais há de cuidar da família?
- Vá para o seu quarto, filha, e reflita sobre o seu lugar e o seu
dever. Ou prefere que eu a mande para a casa da sua tia, em
Kent? Ou talvez eu deva contratar outra governanta para
preencher suas horas de ócio e lhe ensinar a obediência
feminina adequada? - gaguejou o diretor, enquanto
escancarava a porta do gabinete e entrava, virando o rosto
roxo de fúria (e, suspeitei, do bom vinho do refeitório do
Christ Church) na minha direção. Imediatamente, sua
postura mudou. Ele cruzou as mãos e fez uma meia
reverência, sem chegar propriamente a me olhar nos olhos.
- Ah, Dr. Bruno, o senhor realmente me apanhou de
surpresa a esta hora - disse.
Todos os vestígios de sua superioridade anterior pareciam ter
desaparecido e ele não queria muito me encarar, o que me
deu certa satisfação. Uma coisa é ridicularizar um homem
diante de 500 pessoas que o indivíduo tem certeza de que
tomarão seu partido, e outra, bem diferente, é ficar a apenas
três passos dele. Underhill me pareceu na defensiva, talvez
temeroso de que eu estivesse ali para reabrir o debate.
- Eu lhe asseguro que esta noite... - começou.
- Diretor Underhill - interrompi, mal sabendo por onde
começar. - Preciso pedir sua orientação num assunto
totalmente diferente: a morte de Roger Mercer.
No mesmo instante, a cor desapareceu de seu rosto e seus
olhos ficaram atentos. Ele enxugou a testa com a manga.
- Sim. A conversa no Christ Church girou em torno de
poucas outras coisas, mas estou confiante de que eliminamos
todos os rumores maldosos - disse ele, assumindo um ar
pensativo. - Amanhã, talvez o culto matutino na capela deva
ser um ofício in memoriam, sobretudo se levarmos em conta
que o funeral terá de esperar até depois do inquérito, o qual,
pelo que fiquei sabendo no jantar, só poderá ser conduzido
dentro de alguns dias, já que o oficial de inquirição está
viajando. Suponho que o senhor poderá permanecer em
Oxford para depor, não é, Dr. Bruno?
Não respondi. Em vez disso, mostrei a ele o papel com a
citação recortada de um livro.
- O senhor reconhece isto?
Ele examinou de perto a letra miúda, depois levantou a
cabeça devagar, me fitando com uma expressão de medo e
incompreensão.
- O trigo de Cristo - disse, baixinho. - Inácio. O que é isto?
- Então é de Foxe?
Ele fez que sim com a cabeça lentamente.
- O martírio de Santo Inácio, ou melhor, do bispo Inácio de
Antioquia, como devemos chamá-lo, martirizado no reinado
do imperador Trajano. Foxe cita essas palavras como as
últimas que ele proferiu, ao ser lançado às feras - disse e me
devolveu o papel com uma expressão que quase poderia ser
de raiva, embora sua mão estivesse trêmula.
- Esse papel foi posto por baixo da minha porta enquanto eu
estava no debate. Parece que alguém quis chamar minha
atenção para a forma como o Dr. Mercer morreu.
- Recortando um livro? Quem faria uma coisa dessas? Receio
não acompanhar seu raciocínio, Dr. Bruno, de modo algum.
- Não é a primeira vez no dia de hoje - resmunguei, mas me
obriguei a ser cortês. - O senhor e eu vimos, hoje de manhã,
que Roger Mercer foi trancado naquele jardim com um cão
selvagem. Estive pensando, diretor Underhill, se a morte
dele teria sido premeditada por alguém que o atraiu para lá, a
pretexto de um encontro, e depois soltou a fera em cima
dele, numa espécie de paródia perversa do martírio. E me
parece que essa mensagem foi enviada a mim como um
indício claro de que alguém aqui sabe por que ele foi morto,
e talvez por quem.
Underhill fez gestos frenéticos para que eu baixasse a voz,
lançando olhares temerosos para a porta de seu gabinete.
Sem dúvida ficou chocado, mas se recompôs no momento
seguinte e deu um risinho engasgado, nervoso.
- Santo Deus, que imaginação febril vocês italianos têm,
Bruno! - Ele balançou a cabeça com ar de desdém. - Temo
que, na confusão e no horror da tragédia desta manhã, nos
tenhamos precipitado em tomar conclusões um tanto
histéricas. Não devemos permitir que nosso choque e nossa
tristeza naturais deem origem a fantasias implausíveis a partir
de um acidente terrível. Quanto a esse papel, me parece que
alguém está brincando com você, alimentando essas suas
fantasias desvairadas com a intenção de fazê-lo de tolo. E
melhor não lhe dar a satisfação de fisgar a isca.
Eu me virei para sair, tentando furiosamente aplacar meu
sangue em ebulição. Quando falei, foi com todo o
autocontrole que pude reunir, cravando as unhas nas palmas
das mãos com o esforço.
- Fui testemunha ocular, diretor Underhill. Examinei o
cadáver de Roger Mercer e o cenário de sua morte violenta
enquanto o senhor vomitava nos sapatos, como uma mulher.
Meu depoimento terá mais valor para qualquer inquérito do
que o seu.
Ao ouvir isso, ele se enfureceu e seu tom foi de franca
hostilidade:
- Ah, é o que você imagina? A palavra de um estrangeiro?
Um católico? Um homem tido como praticante de magia,
que acredita abertamente que a Terra gira em torno do Sol?
Respirei fundo e esperei que a ânsia de espancá-lo cessasse
antes de abrir a porta do gabinete para a sala de jantar.
- Obrigado pelo seu tempo, senhor diretor. Não vou mais
incomodá-lo com a minha presença.
- Mais uma coisa, Bruno. Não sei quais são os seus costumes
na Itália, mas na Inglaterra não se considera apropriado que
uma mulher solteira, de boa reputação, converse sozinha
com um homem, mesmo que se trate de um cavalheiro.
Portanto, eu o proíbo de ter qualquer outra conversa
particular com minha filha - e cruzou os braços, cheio de
pompa.
Parei junto à porta.
- Com todo o respeito, diretor, não tenha a pretensão de me
dar ordens, como se eu fosse um de seus estudantes. Mas, se
quiser, o senhor pode chamar uma governanta para me
ensinar a ser obediente. Talvez eu me beneficie disso -
acrescentei, com uma piscadela, e fechei a porta atrás de
mim, com o coração aos pulos de indignação.
Adam me entregou minha capa e me desejou boa-noite com
um risinho condescendente. Arranquei a roupa de sua mão
rapidamente, sem agradecer, e segui às pressas para a porta,
pensando que, se passasse mais um minuto entre aquelas
pessoas insuportáveis, seria bem possível que outro
assassinato fosse cometido naquele dia.

Capítulo 8

ACORDEI NA MANHÃ DE DOMINGO antes do alvorecer e fiquei
deitado na cama estreita de madeira, vendo os desenhos da
luz pálida se espalharem aos poucos pelo teto, ao entrarem
pela fresta das cortinas. Tivera um sono agitado, tenso de
raiva pela maneira como fora tratado por Underhill e seus
colegas. Durante as muitas horas de vigília, eu havia decidido
que era inútil permanecer em Oxford, independentemente
do inquérito ou da visita real. Pretendia buscar meu cavalo
na estrebaria do diretor à primeira luz da manhã e regressar a
Londres por qualquer meio possível. Tinha consciência de
haver descoberto pouca coisa de utilidade para Walsingham
até então, e ele decerto não apreciaria a explicação de que eu
partira num acesso de raiva por ter sido publicamente
humilhado. Mas estava tão claro que eu não era bem-vindo
ali que parecia improvável eu poder, em algum momento,
levar adiante o plano dele de conquistar a confiança dos
professores e com isso descobrir algo de útil. Dei um suspiro
e virei de lado, me enrolando bem no lençol para me
proteger da corrente de ar, e deixei meus pensamentos
vagarem até Sophia. Eu permanecera acordado na noite
anterior pensando só nela. A moça era uma razão
convincente para eu permanecer em Oxford - e igualmente
convincente para eu partir. Percebi que fazia algum tempo
desde a última vez que eu estivera tão próximo de uma
mulher como na noite anterior, quando ela quase desmaiou
em meus braços, e o desejo que me sacudiu naquele
momento me deixou profundamente desconcertado.
Perguntei a mim mesmo se ela também teria sentido isso.
Durante nossa conversa, houvera momentos em que seu
olhar franco sustentara o meu e em que Sophia parecera
querer que eu lesse alguma coisa nele, mas eu sabia que,
como hóspede de seu pai, devia tomar enorme cuidado com
minha maneira de me aproximar dela. Além disso, lembrei a
mim mesmo, ela não tinha falado com uma espécie de pesar
condoído de como seu pai passara a vida inteira dependendo
da proteção de homens poderosos, e porventura eu não me
achava na mesma situação? Eu não tinha recursos para me
casar, não possuía dinheiro nem bens, nada a oferecer a uma
mulher de posição elevada senão minha afeição, e sabia por
experiência própria que um pai atribui pouco valor a isso nos
pretendentes de sua filha. Portanto, eu não poderia cortejá-la
de maneira respeitável e, embora o contato fugaz da noite
anterior houvesse despertado intensamente meu desejo, eu
já sabia que gostava demais dela para pensar numa sedução
superficial. Eu queria revê-la urgentemente, mas não fazia
idéia do que esperava que pudesse acontecer entre nós.
Minha cabeça continuava relembrando a expressão do seu
rosto quando eu lhe mostrei o diagrama copernicano, aquele
brilho fugaz de reconhecimento em seus olhos diante do
símbolo da roda. O que Sophia sabia e como eu poderia
convencê-la a confiar em mim?
O coro do canto dos pássaros se tornou mais insistente.
Afastei o lençol e atravessei o quarto para abrir a cortina e
olhar o pátio do colégio enquanto a luz rosada do início da
manhã riscava o céu nas lacunas abertas entre as nuvens ir-
regulares. A chuva dera uma trégua temporária a Oxford,
embora não houvesse garantia de que a estrada para Londres
estaria transitável depois do mau tempo dos dois dias
anteriores. As pedras do calçamento do pátio reluziam sob a
chuva noturna e as poças refletiam retalhos do céu rosa
pálido. Da minha janela, não consegui discernir os ponteiros
do relógio, mas achei que podia me vestir, de qualquer
modo. Assim que o colégio despertasse e desse início a suas
atividades, eu poderia perguntar a Cobbett como proceder
para pegar meu cavalo. Imaginei se deveria me despedir
formalmente do diretor, alegando ter assuntos urgentes a
tratar, mas, nesse caso, talvez eu fosse informado de que
tinha a obrigação legal de permanecer para depor no
inquérito. O melhor seria partir primeiro e alegar ignorância
depois, pensei, e eu não queria dar a Underhill a satisfação de
ver que ele havia me enxotado. Talvez eu pudesse deixar um
recado para Sidney ao sair da cidade. Já ia me afastando da
janela quando um movimento súbito no pátio chamou
minha atenção: uma figura de capa preta, com o capuz
levantado, correu do canto sudoeste do quadrilátero e
desapareceu sob o arco da torre. No mesmo instante senti
meus músculos ficarem tensos. Não tinha conseguido
discernir quem era, mas, se me apressasse a seguir esse indi-
víduo, poderia descobrir quem se movimentava tão
furtivamente àquela hora. Peguei a camisa mas me detive,
repreendendo a mim mesmo. Eu já não tinha decidido que
as idas e vindas clandestinas daquele lugar, fossem quais
fossem, não eram da minha conta? Pretendia ir embora
naquele dia e, se houvesse um assassino no colégio, eles
simplesmente teriam que lidar com esse fato sozinhos.
Minhas tentativas de descobrir a verdade tinham sido
recebidas com desprezo e ameaças, e eu não queria ter mais
nada a ver com aquilo.
Enquanto eu vestia a camisa e os calções, um único sino
começou o dobre tristonho das matinas e, com o coração
desolado, lembrei que era domingo. Provavelmente, os
empregados teriam o dia de folga e seria improvável que eu
encontrasse alguém capaz de me ajudar a localizar o cavalo.
De qualquer modo, eu teria de devolvê-lo à estrebaria de
Windsor e não fazia idéia de como percorreria o trajeto de lá
até Londres sozinho, num domingo. À luz impiedosa da
manhã, meus planos de fuga começaram a parecer
despropositados e covardes. Lavei o rosto devagar com um
pouco da água do jarro que fora deixado na mesinha. Se eu
tinha de permanecer mais um dia ali, ao menos poderia
tentar aproveitá-lo e iria primeiro à capela. Eu não tinha o
menor desejo de assistir ao ofício religioso inglês. Embora
não encontrasse nenhum alimento espiritual na missa
católica, ao menos ela investia certo esforço em sua
teatralidade, e eu achava o livro de orações inglês tão insosso
quanto massa crua - mas seria uma oportunidade proveitosa
de observar toda a comunidade do colégio reunida num só
lugar. Se um deles me enviara aquela mensagem estranha na
noite anterior, como parecia provável, era possível que ele
se traísse por olhares ou gestos. Enquanto lavava o rosto,
pensei nele com irritação. Se o sujeito tinha uma informação
útil a transmitir, por que não era mais claro?
James Coverdale havia mencionado, no jantar da primeira
noite, que o diretor vinha pregando uma série de sermões
baseados no livro de Foxe. Se o assassinato de Roger Mercer
tinha sido uma paródia distorcida do martírio, como alguém
claramente queria que eu acreditasse, era possível que o
assassino houvesse buscado inspiração nos sermões do
diretor. Era até possível que estivesse na congregação nesta
manhã. Senti um calafrio, calcei as botas e, enquanto o sino
continuava seu dobre solene, corri a me juntar às figuras de
becas pretas que se dirigiam ao arco central da ala norte,
embaixo do relógio, que informava serem quase seis horas.
A capela ocupava a maior parte do primeiro andar da ala
norte, à direita do arco, e segui obedientemente, entre
alunos e professores, a fila que subia a escada obscura na qual
a única luz era oferecida por um lampião a vela que pendia
do patamar superior. Junto à porta, reparei numa pia de água
benta, seca desde longa data, e entramos num aposento
modesto, de paredes caiadas, traves de madeira no teto e
esteiras de junco espalhadas pelo piso. Um pequeno altar se
erguia no extremo oposto, de frente para a porta, com um
púlpito à sua direita. Velas ardiam de ambos os lados da
capela e no altar, e os homens se dispunham em fileiras de
bancos duros de carvalho, aparentemente projetados para
alcançar o máximo de desconforto, a fim de impedir
qualquer um de cochilar durante os sermões. As janelas em
arco, estreitas e de vidraças simples, inundavam a capelinha
com a luz da manhã, que cintilava nas paredes brancas e na
longa cabeleira preta de Sophia Underhill, sentada no banco
da frente, onde estaria sob o olhar vigilante do pai. O fato de
ele permitir que ela comparecesse aos ofícios religiosos com
o pessoal acadêmico me intrigou. Sua presença parecia
garantir que os rapazes teriam a atenção desviada de suas
orações fervorosas. Notei também que a mãe estava sentada
ao lado dela, os ombros finos recurvados sob a touca branca
que prendia seu cabelo. Em volta das duas, os docentes se
distribuíam nos bancos da frente, com os estudantes de
mestrado ou doutorado sentados nas fileiras imediatamente
seguintes e os alunos da graduação mais atrás. Parado à porta,
considerando onde me seria apropriado ocupar um lugar,
tive a oportunidade de ver como era pequena a comunidade
do colégio. Não devia haver mais de 30 homens, incluindo-
se os catedráticos. Convivendo em tamanha proximidade,
com certeza um deles teria conhecimento do que realmente
acontecera no bosque na manhã da véspera. Com um rápido
correr de olhos pelo salão inteiro, avistei Thomas Allen e
Lawrence Weston entre os alunos, embora não houvesse
sinal de Norris nem dos espalhafatosos amigos que ele levara
à taberna - e presumi que as matinas seriam mais uma das
normas do colégio cujo descumprimento eles podiam
comprar. William Bernard e Richard Godwyn sentavam-se
no primeiro banco, e notei John Florio no meio, murmu-
rando animadamente algo para seu vizinho. Esses eram os
únicos homens que eu conhecera pessoalmente, mas era
bem possível que meu correspondente misterioso fosse
alguém que ainda teria de se apresentar. Mas ele devia
pertencer ao colégio, para saber qual era o meu quarto. Eu
me virei para olhar novamente para os rapazes sentados nas
últimas filas, e os que estavam na minha linha de visão
retribuíram meu olhar com leve curiosidade. Aqueles
rapazes ingleses pareciam todos iguais: pálidos, subnutridos e
angustiados. Um deles sabia algo que queria me transmitir e
temia dizer isso com franqueza, mas qual seria?
Eu tivera a intenção de encontrar um lugar que me desse
uma perspectiva de todos os presentes, mas Godwyn, ao me
ver hesitar à porta, sorriu e indicou um lugar a seu lado, no
quarto banco. Dificilmente eu poderia recusar. Consciente
de todos os olhares voltados para mim, inclusive o de
Sophia, desci o curto corredor central e me sentei ao lado de
Godwyn, que me sussurrou as boas-vindas enquanto
curvávamos a cabeça para rezar. Não pude deixar de notar
que Walter Slythurst e James Coverdale estavam ausentes.
Uma vez sentados todos os homens, eles tornaram a se
levantar em uníssono quando o diretor percorreu a curta
distância da porta ao altar, seguido por quatro jovenzinhos
com a sobrepeliz branca dos meninos cantores.
Levantando a cabeça, meu olhar cruzou com o do diretor. Se
ele se surpreendeu ao me ver entre seus congregados, ou se
sentiu-se arrependido por suas palavras ríspidas da noite
anterior, seu rosto não deu o menor sinal. Em vez disso, ele
apenas curvou a cabeça e entoou o Pai-Nosso.
- Abre, Senhor, os meus lábios - começou.
E a congregação respondeu, obediente:
- E minha boca entoará teus louvores.
Eu não tinha familiaridade suficiente com a ordem das
respostas para segui-las com fluência e mantive a voz num
sussurro, para não chamar indevida atenção para os meus
erros. Godwyn se levantou para ler a primeira lição do
Evangelho de Mateus e, depois que tornou a se sentar, o
pequeno coro entoou uma versão a quatro vozes do Te
Deum laudamus em inglês, a qual foi admiravelmente doce,
a despeito de toda a sua simplicidade.
- Ontem, senhores - prosseguiu o diretor, com o olhar
resolutamente fixo acima das cabeças da congregação e
aparentemente excluindo sua mulher e filha dos
destinatários de seu discurso -, a morte súbita e violenta se
intrometeu da maneira mais terrível em nossa pequena
comunidade. Sei que o trágico ataque desferido contra nosso
querido amigo Roger Mercer, quando ele caminhava em
oração pelo bosque, abalou a todos em nosso âmago, e sei
também que, quando ocorre um acidente pavoroso como
esse, é muito fácil deixarmos nosso cérebro se aquecer com
o choque e nos entregarmos a toda sorte de especulações
desvairadas.
Nesse ponto, ele me lançou um olhar significativo, mas tão
rápido que passou quase despercebido. O Dr. Bernard estalou
os dedos ossudos e o ruído foi surpreendente na capela
silenciosa.
- Seria mais proveitoso - continuou o diretor, em voz alta
demais, como se discursasse para uma plateia muito maior -
que, em vez de boatos inúteis, permitíssemos que alguma
coisa boa brotasse dessa tragédia, concentrando o pensa-
mento na brevidade de nossa vida, em contraste com a
vastidão da eternidade, e que examinássemos nossa postura
diante de Deus. Fiquemos de luto pela morte de Roger,
como é correto e adequado, mas que ela sirva também de
aprendizado. E perguntemos a nós mesmos: será que
enfrentaríamos a morte com a certeza da nossa salvação, se
ela nos chegasse de maneira igualmente súbita?
- Ele quase parece estar esperando uma outra tragédia -
murmurei para Godwyn.
Underhill levantou os olhos e franziu o cenho com raiva,
atrás de sua estante, embora não pudesse ter ouvido minhas
palavras.
- Então, como temos feito nas últimas semanas, voltemos
para o relato de Mestre Foxe sobre as perseguições aos
primeiros fiéis, nossos antepassados na fé, nos tempos em
que a Igreja era pura. Não façamos isso para reverenciá-los
como santos, de maneira idólatra, como faz a Igreja Romana,
pois eles eram apenas homens e mulheres como nós, mas
para que possamos imitar a sua fé e compreender melhor a
longa e venerável história do sofrimento por Cristo e de se
manter a atitude firme, como fizeram os mártires da
Reforma neste nosso século conturbado. Ao examinarmos
hoje a história de Alban, o primeiro mártir inglês,
perguntemos a nós mesmos se confiamos verdadeiramente
em que a preservação da fé é o bem supremo. Pois vivemos
dias turbulentos, meus amigos - prosseguiu, erguendo
levemente a voz ao se debruçar sobre o púlpito para fitar
seus ouvintes com um olhar severo. - A nossa Igreja
Anglicana está sitiada por aqueles que gostariam de nos
arrastar de volta para Roma. Vocês, rapazes hoje sentados
diante de mim, são os futuros líderes da Igreja e do Estado e
não sabem como poderão ser convocados a lutar por essas
duas instituições nos anos que estão por vir. Será que se
mostrarão resolutos, mesmo diante da morte? Defenderão
nossa liberdade dos idólatras e tiranos que desejarem
arrancá-la de nós? Rezo para que assim seja.
Nos bancos atrás de mim ouviu-se um movimento coletivo,
o som de várias fileiras de rapazes se empertigando com
orgulho, em resposta a esse grito de convocação. Senti algo
inquietante no tom de Underhill: havia nele um fanatismo
mal contido, mas suas palavras me fizeram lembrar as de
Walsingham.
A homilia do diretor foi mais uma aula do que um sermão,
embora tenha sido um alívio constatar que seu talento para a
exposição detalhada de um texto era maior do que para o
debate de idéias. Entretanto, à medida que continuou a falar,
fiquei tão absorto em minhas próprias especulações que mal
notei quando ele proferiu a oração final e só fui retirado do
meu devaneio por uma cutucada de Godwyn, quando todos
os homens ao meu redor se levantaram. O diretor e seu coro
se retiraram, enfileirados, e a congregação arrastou os pés e
se espreguiçou, preparando-se para sair. Um rapazinho de
cabelo muito ruivo e rosto salpicado de sardas, que mal
parecia ter idade para ficar longe da mãe, começou a retirar e
arrumar os apetrechos do ofício religioso, fechando a grande
Bíblia da estante e apagando as velas à nossa volta. Ao
caminhar na minha direção, Sophia sorriu e pareceu prestes
a falar, mas sua mãe, notando o olhar trocado por nós,
segurou a filha com firmeza pelo cotovelo e a conduziu para
a porta. A moça olhou para trás uma vez e me pareceu haver
algo suplicante em sua expressão, mas talvez fosse
imaginação minha.
- Lamento tê-lo cutucado daquele jeito, Dr. Bruno -
murmurou Godwyn, quando o jovenzinho ruivo que
arrumava a capela se aproximou de nós e entregou ao
bibliotecário a última vela bruxuleante que restava -, mas
receei que o senhor estivesse enfrentando alguma
dificuldade para acompanhar nosso Livro de Orações
Habituais... A forma como nosso ofício é realizado deve lhe
parecer muito estranha.
- Nem tanto - retruquei, observando Sophia sumir de vista,
antes de me virar de novo para ele, com um sorriso. - Afinal,
vocês tomaram emprestada de nós uma grande parte dele.
Godwyn deu uma risada breve e polida.
- Mas, me diga, o senhor não achou que nosso coralzinho
canta bem? - me perguntou, animado, enquanto se
encaminhava para a porta, com a mão em concha para
proteger a vela quando a corrente de ar da escada a atingisse.
- Já ouvi coros com o dobro do tamanho se saírem pior nos
Salmos - respondi, com sinceridade.
- O arranjo é de Mestre Byrd, o compositor de Sua Majestade
- disse ele, parecendo satisfeito com o elogio.
- Ele próprio é católico, não?
Godwyn pareceu horrorizado.
- Bem... sim, é, mas não é por isso que o admiro - apressou-
se a dizer. - Se a rainha pode tolerar a religião dele em nome
de sua música, não vejo por que não devamos fazer o
mesmo.
- Sem dúvida. E, é claro, a sua leitura do Evangelho foi feita
com verdadeira expressão poética - acrescentei, em tom
devoto.
- Obrigado. Essa tarefa deveria caber ao subdiretor, mas o Dr.
Coverdale não apareceu hoje nas matinas e por isso o diretor
me pediu que o substituísse na última hora.
Em vez de acompanhar a aglomeração de estudantes que
descia a escada, Godwyn atravessou o patamar em direção a
uma porta baixa de madeira, em frente à entrada da capela,
ainda protegendo a vela com a mão em concha, e fez sinal
para que eu o seguisse.
- Lembro que o senhor manifestou interesse em nossa
biblioteca, Dr. Bruno. Gostaria de dar uma olhada nela, já
que está aqui? A menos que esteja impaciente para fazer o
desjejum, é claro - acrescentou. - Será que se incomoda de
segurar isto por um momento?
Ele me entregou a vela e tirou do cinto um molho de
chaves, escolhendo a maior.
- Eu ficaria encantado - respondi, acompanhando-o, embora
estivesse mais interessado em me informar sobre Coverdale.
- Quer dizer que o Dr. Coverdale viajou?
- Bem, se viajou, não avisou ninguém - disse Godwyn,
parecendo irritado ao girar a chave meio emperrada na
fechadura. Finalmente abriu a pesada porta, que gemeu
como se reclamasse por ser perturbada.
Eu me lembrei do menino que fora chamar Coverdale no
meio do debate, na noite anterior, e da informação de
Cobbett de que o professor tinha voltado ao colégio como
que numa pressa incomum. Por isso era curioso que o
porteiro não houvesse mencionado que ele saíra novamente
- a não ser que, de algum modo, Coverdale tivesse
escapulido durante a noite ou de manhãzinha. Fiquei
pensando se seu desaparecimento teria algo a ver com o
inquérito sobre a morte de Roger Mercer e com as ameaças
que ele próprio me fizera, a respeito do meu depoimento.
- Estranho. Notei que o tesoureiro, o professor Slythurst,
também estava ausente - acrescentei em tom descontraído.
Godwyn fez um gesto de descaso, fechando a porta atrás de
mim.
- É comum Slythurst se ausentar, isso faz parte dos seus
deveres. Ele tem que inspecionar regularmente as
propriedades do colégio, que estão espalhadas pelo interior,
algumas a vários dias de viagem. Creio que partiu para
Buckinghamshire hoje de manhã, porque tem uns negócios
a resolver por lá, mas esperamos que ele volte amanhã. Pois
muito bem, aqui estamos - anunciou, abrindo os braços para
abarcar seus domínios, num gesto expansivo, e me deu um
sorriso de incentivo, como se me convidasse a admirá-los
tanto quanto ele próprio.
A biblioteca ocupava o primeiro andar da ala norte, à
esquerda da escadaria central, bem em frente à capela, mas
tinha proporções ligeiramente menores. Tal como a capela,
tinha o assoalho coberto por esteiras de junco e traves de
madeira no teto, e sua disposição seguia o estilo do século
passado, com longas estantes de madeira diante das quais os
leitores ficavam de pé para estudar os grandes livros
manuscritos, presos por argolas de bronze a uma barra desse
mesmo metal que passava por baixo das mesas. Havia quatro
dessas estantes de cada lado da biblioteca, presas à parede
entre as janelas em arco. Nos dois extremos do cômodo
havia bancos de madeira encostados na parede e, ao fundo,
uma escrivaninha instalada sob a última janela que dava para
o pátio. Godwyn seguiu em direção a ela e, com cuidado, pôs
suas chaves ao lado de um tinteiro, antes de se virar para
mim para pegar de volta sua vela.
- Quais são os livros de interesse especial para o senhor, Dr.
Bruno? Ou será que devo apenas começar por lhe mostrar
nossos manuscritos mais valiosos? - perguntou, olhando para
trás, enquanto caminhava metodicamente por toda a
extensão do cômodo, acendendo velas nos suportes da ponta
de cada estante e nos nichos da parede entre as janelas.
- Essa certamente não é toda a sua coleção, é? - perguntei,
apontando para os livros acorrentados às mesas de leitura.
- Deus do céu, não! Esses são apenas os exemplares mais
antigos, que têm de ficar acorrentados, lamento dizer, por
medo de furtos, e são os que os estudantes usam com mais
frequência. São quase todos livros de teologia escolástica
extremamente valiosos, muitos deles parte da doação feita
por nosso benfeitor original.
- O decano Flemyng, que os trouxe de suas viagens pela Itália
- disse eu, pensativo, meneando a cabeça. - E onde o senhor
guarda os livros proibidos?
Godwyn empalideceu e me olhou fixo, uma ruga de
apreensão sulcando sua testa larga. O homem pareceu quase
amedrontado.
- Ora, não guardamos livros proibidos aqui, Dr. Bruno. O que
o senhor quer dizer?
- Ora, vamos, Mestre Godwyn - retruquei, abrindo as palmas
das mãos para mostrar que não pretendia ofendê-lo. - Todas
as bibliotecas universitárias que conheci guardam alguns
livros longe dos olhos inquisitivos dos alunos. Obras que
apenas os membros mais tarimbados são considerados
capazes de compreender.
O alívio de Godwyn foi visível.
- Ah, sim! É claro... temos alguns livros que só ficam
disponíveis para os professores assistentes e os catedráticos,
os quais eles podem pegar emprestados para ler em seus
quartos. Nós os guardamos nos baús deste cômodo aqui -
disse, indo até uma porta na parede atrás da escrivaninha e
abrindo-a, o que revelou uma pequena câmara anexa à
biblioteca. Embora o interior estivesse na penumbra, à luz
tênue da vela de Godwyn pude discernir diversos baús
grandes encostados nas paredes. - Por um momento, pensei
que o senhor estivesse fazendo referência aos livros
heréticos - acrescentou ele, com um sorriso constrangido.
- Não, não. Entendi que esses foram eliminados pelos
comissários da rainha há algum tempo.
Ele balançou a cabeça, meio tristonho.
- Houve um grande expurgo nas bibliotecas da universidade
em 1569. Tudo o que tinha sobrevivido aos expurgos
anteriores, no reinado do pai dela, e depois, nos do irmão e
da irmã, foi levado embora. Livros que, cá entre nós, Dr.
Bruno, não eram mais heréticos do que qualquer outro. Mas
a desconfiança em relação à universidade cresceu depois do
ressurgimento católico da época de Maria, a Sanguinária e
era preciso ver todos os colégios expulsarem tudo o que
fugisse à ortodoxia. A coleção daqui foi bastante esvaziada,
lamento dizer.
- A idéia de heresia certamente muda com frequência,
conforme quem esteja no poder - concordei. - Mas o que
houve com os livros que foram considerados perigosos?
Godwyn me lançou um olhar inexpressivo, como se nunca
houvesse considerado essa pergunta.
- Suponho que tenham sido queimados, mas, se foram, isso
não ocorreu em público. Duvido de que possam ter sido
vendidos abertamente, depois de entrarem na lista dos livros
proibidos. Eu era aluno da graduação nessa época, por isso
tive apenas uma vaga consciência da inspeção. Estava muito
ocupado queimando as pestanas por causa do grego e
tentando não pensar nas moças, mas eu me lembraria se
tivesse havido uma queima de livros. - Sorriu com ar
carinhoso para essa imagem mais jovem de si mesmo. - O
senhor teria de perguntar a William Bernard. Ele era
bibliotecário nessa época.
- É mesmo?
Essa era, de fato, uma informação valiosa, e achei curioso
que Bernard não a tivesse mencionado em nossa discussão
sobre livros à mesa do diretor, na minha primeira noite. Meu
coração se acelerou. Teria aquele velhote irascível entocado
em algum lugar uma reserva de livros julgados perigosos
demais para as mentes dos rapazes destinados a moldar o
futuro da Inglaterra? E haveria a mínima possibilidade de
que, entre os livros que adquirira de um certo livreiro
florentino, mais de 100 anos antes, o decano Flemyng
houvesse apanhado um manuscrito cujo valor não
reconheceu, mas cuja existência William Bernard parecera
estranhamente ansioso por negar?
Respirei fundo, procurando não deixar transparecer minha
agitação. Era quase improvável que o manuscrito que eu
buscava estivesse ali, mas não estava fora dos limites da
possibilidade. Se alguém saberia dizer se um livro grego não
catalogado tinha feito parte do legado original do decano,
esse homem era William Bernard. Ele trabalhava no colégio
havia mais tempo do que qualquer outra pessoa, lia grego e
saberia exatamente o que tinha nas mãos, caso deparasse
com esse livro. O desafio seria convencê-lo a confiar num
estranho. O velho era astuto como um rato e já desconfiava
de mim por minha visível desobediência a todas as religiões.
Godwyn tinha acabado de acender suas velas e se virou para
mim, entrelaçando as mãos como um anfitrião ansioso.
- Talvez o senhor queira ver nosso exemplar do De officiis de
Cícero, que o decano Flemyng copiou de próprio punho,
não? - arriscou, gesticulando para uma das estantes no outro
extremo. - Eu acendo as velas porque, apesar de ser
domingo, muitos gostam de passar o dia aqui, estudando
num ambiente tranquilo. Os alunos da graduação não podem
levar livros para seus quartos, entende?
- Por acaso o senhor tem um exemplar do livro de Mestre
Foxe na sua coleção de livros para emprestar? - indaguei, da
maneira mais displicente que pude.
- Atos e monumentos? - perguntou Godwyn, parecendo
surpreso. - Sim, eu tenho a edição de 1570, a segunda
impressão, embora o livro possa estar emprestado a alguém
no momento. U senhor queria vê-lo?
- Posso? Fiquei interessado em ler mais, depois do sermão do
diretor hoje de manhã.
- Fique à vontade para lê-lo - disse ele, com ar de dúvida -,
mas temo que não considere Foxe muito generoso com as
pessoas do seu credo. No entanto, tenho que pedir ao senhor
que o examine aqui na biblioteca. Só os professores têm
permissão para retirar livros, compreende? Desse modo,
temos alguma garantia, se eles voltarem em pior estado por
causa do desgaste.
- Os livros ou os professores? - perguntei.
Godwyn deu uma risada cortês e me conduziu a um dos
grandes baús de madeira na salinha dos fundos. Quando se
agachou para tirar uma pilha de livros, notei um baú menor,
enfurnado num canto e fechado com cadeado. Ele empilhou
cuidadosamente os livros no chão, depois tornou a enfiar a
mão no baú e me entregou um volume grosso, com uma
encadernação simples de tecido.
- Vi um exemplar na biblioteca, em Paris - comentei, virando
o livro nas mãos -, mas não o li detidamente. O sermão do
diretor abriu meu apetite. E a história de Inácio também está
entre as dos primeiros mártires?
- Sim, sem dúvida: entre as 10 primeiras perseguições dos
romanos - disse ele, inclinando de leve a cabeça, como se
estranhasse minha pergunta. - Todas no Livro I.
Nesse momento, a porta se abriu e todas as velas oscilaram
nas estantes, enquanto o rapazinho ruivo que havia
arrumado a capela inclinou a cabeça para dentro e tossiu,
nervoso.
- Mestre Godwyn? O diretor Underhill quer falar com o
senhor sobre um assunto particular, se tiver um instante.
Godwyn me lançou um olhar ansioso, depois tornou a virar
para o menino.
- O senhor não se importa se eu der uma saidinha por um
minuto, não é, Dr. Bruno? Tenho certeza de que posso
confiar que não furtará nenhum livro - disse, com um riso
acanhado.
Fiz um aceno com a mão, ansioso por examinar o Foxe.
- Seus livros estarão a salvo comigo, Mestre Godwyn.
- Posso pedir que espere até eu voltar, então? A biblioteca
não deve ficar aberta sem ninguém que tome conta dela, o
senhor entende - disse, com ar apreensivo. Garanti a ele que
guardaria o lugar com a minha vida e, com um olhar aflito
para trás, ele saiu, acompanhando o garoto ruivo.
Eu me acomodei diante da grande escrivaninha de Godwyn
e abri o volume de Foxe no Livro 1, mas, ao fazer isso, notei
que o bibliotecário havia deixado seu molho de chaves ali.
Então uma ideia me ocorreu. Com uma rápida olhada para a
porta fechada, peguei as chaves e encontrei entre elas uma
pequena, de ferro, do tamanho certo para abrir um cadeado.
Na sala dos fundos, me ajoelhei ao lado do baú trancado e a
enfiei na fechadura. Para minha surpresa, ela se abriu sem
dificuldade, revelando um amontoado de tecido preto. Ao
levantá-lo, vi que se tratava de uma beca acadêmica,
colocada ali para esconder os livros debaixo dela. Peguei o
primeiro da pilha. Tinha uma encadernação envelhecida de
couro de bezerro e parecia frágil ao toque, com os cantos
esfiapados, mas foi a página de rosto que me fez respirar
fundo e, instintivamente, olhar em volta a fim de me
certificar de que estava sozinho.
Era um exemplar das Dez razões, do jesuíta executado
Edmund Campion, e o carimbo da tipografia mostrava que
viera de Reims. Não havia dúvida de que esse tratado, a
inflexível defesa que Campion fizera da religião católica, era
proibido na Inglaterra e certamente em Oxford. Sob ele
encontrei outros textos e panfletos igualmente desagradáveis
para as autoridades inglesas, escritos por Robert Persons,
William Allen e outros autores católicos da Europa. Eu os
folheei por um momento, com a pulsação acelerada, até me
assustar com um ranger de madeira na biblioteca atrás de
mim e me lembrar de que Godwyn voltaria logo. Fiz uma
busca rápida no fundo do baú, mas não havia livros em
grego. Esses livros proibidos eram de uma outra natureza.
Em seguida, os recoloquei prontamente no lugar, cobri-os
com a beca, tranquei às pressas o baú e deixei as chaves onde
as encontrara, me sentando depressa à escrivaninha de
Godwyn, para o caso de ele voltar.
Concentrei a atenção no Foxe, folheando as páginas
rapidamente, à procura da história de Inácio. Não foi difícil:
logo ali, na página 46, encontrei o que tinha previsto - um
buraco no papel, do tamanho de duas linhas impressas, tão
meticulosamente cortado que deixara intacto o texto ao
redor. Faltava apenas o trecho que havia sido empurrado por
baixo da minha porta, retirado com uma precisão de corte
que só uma faca de encadernador ou outro instrumento
similar seria capaz de fornecer. Ou um corta-penas, pensei
de repente, ao avistar a pena e o tinteiro de Godwyn diante
de mim. Mas isso dificilmente reduziria a busca: qualquer
integrante do colégio devia possuir um deles.
O trinco clicou baixinho e Godwyn reapareceu, fechando a
porta ao entrar e balançando a cabeça consigo mesmo.
- Desculpe tê-lo abandonado, Dr. Bruno. O diretor Underhill
queria discutir qual dos livros do pobre Roger Mercer
deveria ser doado à coleção da biblioteca. O senhor
encontrou o que queria? - indagou, em tom afável.
- Receio que tenha havido ratos nos seus livros, Mestre
Godwyn - sussurrei, chamando-o para mais perto e abrindo
o livro saqueado na página 46, que mantive aberta diante do
seu rosto. Por um momento, ele olhou para mim e para o
exemplar sem compreender, até que um rubor de indignação
se espalhou por suas feições abatidas.
- Mas quem faria uma coisa dessas? - exclamou e depois
olhou para trás, como se alguém o tivesse entreouvido. -
Como o senhor sabia...?
- Achei as linhas que estão faltando ontem à noite,
empurradas por baixo da minha porta.
- Mas... por quê? - perguntou Godwyn, continuando a me
fitar como se temesse que eu houvesse perdido a razão.
- Olhe para a passagem - sussurrei.
Ele aproximou mais o livro do rosto e fez uma rápida leitura
da página. Quando tornou a olhar para mim, sua expressão
era de profundo choque.
- Inácio - murmurou. - "Sou o trigo de Cristo..." Não me
lembro das palavras exatas, mas é essa a parte que está
faltando, não é? Alguma coisa sobre os dentes das feras.
Fiz que sim. Ele tornou a olhar para o livro e soltou a
respiração devagar, como se tentasse controlar sua reação.
- Ah. O senhor acha que isso é uma referência à morte de
Roger?
- Sim, acho que é isso que a pessoa que me mandou essas
linhas, seja ela quem for, deseja que eu conclua.
Godwyn fechou o livro e franziu o cenho, de tal modo que
os vincos em sua testa formaram sulcos fundos.
- Por que o senhor, Dr. Bruno, sem querer ser grosseiro?
Hesitei mais uma vez, novamente inseguro de quanto
deveria revelar.
- Fui um dos primeiros a chegar ao bosque ontem de manhã,
depois que o Dr. Mercer foi atacado pelo cão - respondi.
Baixei ainda mais a voz, até ela mal ser audível. - Pelos
indícios do que vi, sugeri que a morte dele talvez não tivesse
sido um acidente.
Os olhos de Godwyn se arregalaram até as sobrancelhas
ameaçarem desaparecer.
- Mas... disseram que o portão estava destrancado... o cão
feroz entrou...
- Minha hipótese não foi muito bem aceita por seus colegas.
Mas parece que outra pessoa quer reforçar minha convicção
de que a morte dele foi premeditada - e apontei para o livro
em suas mãos. Godwyn examinou a capa, com a mesma
incredulidade que sentiria se ela tivesse falado em voz alta, e
tornou a fixar em mim seus olhos argutos.
- O senhor acha que alguém está tentando insinuar que
Roger foi martirizado?
- Não sei. Alguém certamente quer que eu note uma
semelhança entre a morte dele e a de Inácio, mas por que o
Dr. Mercer seria considerado um mártir?
Godwyn me olhou em silêncio por muito tempo, enquanto a
pergunta que eu tinha murmurado pairava no ar.
Balançou a cabeça com vigor:
- Não faço idéia.
- Quem teria acesso aos livros naquela sala dos fundos? -
indaguei.
- Bem, todos os professores têm a chave da biblioteca, mas se
espera que não peguem nenhum exemplar emprestado sem
antes falar comigo e assinar o livro de registro. Os estudantes
só podem usar a biblioteca quando estou presente para ficar
de olho neles, mas... bem, nem sempre sou tão escrupuloso
quanto poderia ser nesse aspecto - disse, com um ar
momentâneo de culpa. - Quando eu preciso dar um pulo lá
fora e há alguns alunos aqui, absortos em seu trabalho,
parece indelicado trancá-los do lado de fora, mesmo que seja
por pouco tempo. Não presumo que eles pudessem roubar
livros com facilidade, e eu confio que cuidariam da
biblioteca.
- Bem, parece que a sua confiança foi erroneamente
depositada em alguém.
O rosto de Godwyn se tornou obscuro, como se só nesse
momento ele compreendesse a gravidade do assalto a uma
propriedade da biblioteca.
- Mas eu fiquei aqui na biblioteca até umas 16h45, ontem à
tarde, quando tranquei tudo e saí para o debate, junto com
os alunos que estavam aqui.
- E o senhor não deixou a biblioteca sem ninguém a vigiando
antes desse horário?
- O senhor até parece um funcionário da Justiça, Dr. Bruno,
com todas essas perguntas - disse ele, forçando um sorriso,
mas com o olhar reservado. - Talvez eu tenha precisado usar
o toalete nesse período, realmente não me recordo, mas
tenho certeza de que não me ausentaria por tempo
suficiente para que alguém conseguisse fazer isto - e bateu na
capa do livro de Foxe com a palma da mão. - Foi feito com
muito cuidado, não creio que tenha sido o trabalho
apressado de alguém que passasse o tempo todo olhando para
trás.
- Não - concordei. - E ninguém poderia ter entrado enquanto
o senhor estava no debate?
- Bem, como eu disse, todos os professores têm uma chave,
mas também estavam no debate - afirmou, porém seus olhos
se desviaram dos meus quando ele enunciou essa frase.
Todos, menos James Coverdale, pensei. Só que eu mesmo já
o havia descartado, por ser a pessoa mais aflita para me
convencer a abandonar a teoria do assassinato.
- Ninguém mais tem a chave?
- Só o diretor. Oh... e, é claro... - nesse ponto ele hesitou e
assumiu uma expressão de constrangimento.
- Quem? - insisti.
- Às vezes a Srta. Sophia usa a chave do pai - respondeu
Godwyn, encostando o punho fechado na boca, como quem
fosse tossir. - Ela tem a fantasia de que pode ser uma
estudante tão boa quanto qualquer outro, e o pai faz as
vontades dela. Desconfio de que isso acontece por ele ter
perdido o filho... se bem, é claro, que isso é problema dele -
acrescentou e balançou a cabeça. - Entenda bem, se eu
tivesse uma filha, não daria a ela essa liberdade, porque a
mente das mulheres não foi feita para a aprendizagem.
Confesso que temo pela saúde dela. Mas tenho que dar
graças por ele só permitir que ela nos visite nos horários em
que é improvável que haja professores presentes. Se não
fosse assim, a moça deixaria todos babando atrás dela, feito
cães no cio, Dr. Bruno, e não quero a minha biblioteca
sendo usada para esse tipo de coisa. Pelo menos, tendo a
própria chave, ela pode vir quando os rapazes estão fora, nas
palestras para o público.
- Ela usa a biblioteca quando o senhor não está aqui para
fazer a supervisão?
- Ah, imagino que sim - disse Godwyn, como se o assunto
estivesse fora das suas mãos. - Se ela tem a permissão do pai,
dificilmente eu poderia contestar. E, depois, ela não vai
roubar os livros, não é?
Não, pensei, mas teria ela usado sua chave para obter acesso
na noite anterior, sabendo que o colégio inteiro estaria na
Escola de Teologia por mais de uma hora? Sophia não deixara
transparecer nenhum lampejo de reconhecimento quando
mencionei a citação na véspera, mas isso não era, por si só,
uma prova de desconhecimento. No entanto, por que diabo
ela me escreveria anonimamente e depois fingiria
ignorância, ao ter a possibilidade de discutir o assunto a sós
comigo? Estava claro que a pessoa que me escrevera fazia
questão de não ser identificada como a fonte da informação,
por mais escassa que esta fosse. Seria possível que Sophia
soubesse de algo sobre alguém do colégio, mas não pudesse
ser vista denunciando-o abertamente? Poderia esse alguém
ser seu pai?
- Obrigado, professor Godwyn - disse eu, levantando da sua
cadeira para me despedir.
- Ah, mas eu ainda não lhe mostrei nosso manuscrito
ilustrado das cartas de São Cipriano, que o decano Flemyng
também trouxe de Florença - começou ele, os olhos
brilhando de decepção.
Examinei seu rosto enquanto pedia desculpas por me retirar
e refleti que aqueles olhos grandes e melancólicos lhe davam
um ar de franqueza desconcertante. Mas eu não sabia se
Godwyn também era um homem que escondia segredos
pessoais e lembrei a mim mesmo que eu não devia confiar
no rosto que nenhum deles apresentasse a mim ou ao
mundo. Como me dissera William Bernard de maneira tão
enfática naquela primeira noite, nenhum homem de Oxford
era o que parecia.

Capítulo 9

TENTANDO ORDENAR MINHAS IDÉIAS, emergi no pátio
quadrangular, já então iluminado pelos primeiros lampejos
hesitantes de sol que eu tinha visto desde a saída de Londres.
Faixas de nuvens ainda pairavam lá em cima, porém a chuva
resoluta dos três dias anteriores parecia haver diminuído
temporariamente. O relógio acima do arco que dava para a
escadaria da capela e da biblioteca informou que mal passava
das 8h30. O colégio parecia ameaçadoramente quieto.
Parei e levantei os olhos para as janelas da residência do
diretor, me perguntando qual seria o quarto de Sophia e
como eu poderia encontrar um modo de revê-la hoje, a
despeito da proibição explícita do seu pai, e foi então que me
lembrei, praguejando de repente, que eu havia prometido
caçar com Sidney e o palatino Laski na floresta de Shotover.
Resolvi andar até o Colégio Christ Church e me desculpar
pessoalmente com Sidney. Sabia que ele ficaria zangado, mas
tinha toda a minha solidariedade por ficar preso ao polonês
de manhã à noite. No entanto, dificilmente eu seria
considerado um trunfo em qualquer grupo de caçadores,
mesmo que minha atenção não estivesse tão distraída pela
tentativa de capturar um assassino. Eu não tinha o menor
talento para os esportes da fidalguia e não tivera
oportunidade de aprendê-los quando era jovem, como
Sidney. Ele poderia fazer as indagações necessárias sobre
cães de caça quando estivesse lá. Ponderei que eu poderia ter
um progresso mais proveitoso permanecendo na cidade. As
duas pessoas cuja confiança eu mais queria ganhar eram
Thomas Allen e o Dr. William Bernard. Eu suspeitava de que
ambos teriam pelo menos algum conhecimento da rede
clandestina de católicos, a qual, por sua vez, talvez tivesse
uma ligação com a morte de Mercer, embora eu soubesse
muito bem que, se mantivessem contatos desse tipo, não
admitiriam isso com facilidade.
Relutantemente, voltei ao meu quarto, onde me lavei dos
pés à cabeça com água fria, já que os estudiosos de Oxford
não pareciam possuir nada tão civilizado quanto uma casa de
banho. Pensei que deveria consultar Cobbett sobre onde
encontrar o barbeiro do colégio a fim de aparar minha barba,
e também a lavadeira para lavar minhas camisas, pois parecia
que eu estava fadado a passar pelo menos mais três dias por
lá. Meu estômago roncou alto enquanto eu me vestia. A
fome começou a aparecer durante minhas abluções, então
tirei a bolsa de Walsingham da sacola de viagem,
pendurando-a no cinto e resolvendo me arriscar pelo centro
da cidade, para ver se conseguiria encontrar algum lugar que
me vendesse algo para comer naquele horário, num
domingo.
O pátio ainda estava deserto quando saí da minha escada, e
me pareceu imerso num silêncio nada natural.
Aparentemente, os estudantes levavam uma vida reservada
aos domingos. Eu já ia me dirigindo ao portão fortificado
quando Gabriel Norris emergiu de sua escada, na ala oeste,
carregando uma bolsa de couro jogada sobre um dos ombros.
Instintivamente, recuei um passo em direção às sombras,
querendo evitar novas especulações sobre o que poderia ou
não ser dito no inquérito. Norris estava todo de preto,
porém, mesmo a distância, ficava claro que sua sobreveste e
seus calções eram de cetim e de corte dispendiosos, e ele
usava nos ombros uma capa curta que reluzia com o brilho
do veludo. Deu uma rápida olhada no pátio, mas não pareceu
notar minha presença, ainda parcialmente escondida, e
seguiu num passo ligeiro para o portão. Havia algo em sua
pressa que me pareceu curioso. Recordei que ele havia
recusado um convite para caçar com Sidney nesse dia e me
perguntei que compromisso poderia ser mais atraente para
um rapaz do que esse. Assim, resolvi que talvez fosse
divertido segui-lo, já que eu tinha planejado ir à cidade, de
qualquer modo. Após as confissões que ele mesmo fizera
sobre suas expedições noturnas e o relato de Lawrence
Weston sobre os boatos a respeito de suas preferências, tive
certa esperança de flagrá-lo num encontro ilícito e provar a
veracidade da teoria de Weston. Depois, se surgisse o
momento adequado, eu poderia me valer de qualquer dessas
provas para dissuadir Sophia de se aproximar dele, de uma
vez por todas - se é que, na verdade, era ele o objeto
indiferente dos sentimentos da moça.
Deixei que Norris ganhasse certa distância, para que não
percebesse que eu o seguia. Depois de acenar para Cobbett
por sua janelinha, experimentei inclinar o corpo sobre o
portão principal e dar uma espiada na travessa St. Mildred,
onde vi o rapaz já mais adiante, andando a passos rápidos
para o norte, em direção ao Colégio de Jesus. Quase tive de
correr para acompanhar suas passadas largas, me mantendo
junto ao muro do Colégio Exeter ao passar por lá, mas não
tão perto que parecesse estar fazendo outra coisa além de
uma caminhada descontraída, se por acaso ele virasse para
trás e me visse.
A rua estava entupida de lama, depois da chuva dos últimos
dias, e Norris se desviava meticulosamente das piores valas e
poças, chegando a parar, a certa altura, para tirar um salpico
de terra de suas belas botas de couro, com um gesto de
irritação. No ponto em que a travessa St. Mildred cruzava a
travessa Sommer, ele virou à direita sem hesitação e, após
parar por um instante, eu o segui, permanecendo à sombra
da antiga muralha da cidade, que se erguia à minha esquerda,
sólida como uma fortaleza. Havia poucas pessoas na rua,
apenas um ou dois casais com suas melhores roupas, sem
dúvida a caminho de uma das muitas igrejas paroquiais da
cidade. Os sinos tocaram em algum lugar mais à frente,
anunciando um ofício religioso.
Meu alvo ia andando com determinação, como se tivesse um
compromisso, mas não havia nada suspeito em sua conduta,
nada a sugerir que seu destino fosse algo fora do comum ou
que ele preferisse não ser visto, e, pelo modo como andava,
não parecia que a bolsa que carregava fosse pesada, embora
fosse grande. Reprimi um calafrio ao passarmos pelo muro da
Escola de Teologia, à direita, e logo adiante, em frente à
entrada de uma rua cuja placa informava rua Catte, Norris
virou em direção a uma pequena porta falsa no muro da
cidade, ao lado de uma capelinha. Rondando as sombras das
casas do outro lado, comecei a me sentir meio tolo por
minha perseguição furtiva.
Fora dos muros da cidade se estendia uma avenida larga, com
poucas casas. As mais próximas da rua eram baixas e
decrépitas, cada qual cercada por grandes terrenos cobertos
de mato e pomares que se prolongavam até os fundos, mais
longe do que a vista alcançava. O solo era sulcado por rodas
de carroças e cascos de cavalos, e vi Norris atravessar a rua,
seguir para a direita e passar por uma fileira de moradias
miseráveis, em direção aos campos cultivados a céu aberto.
Ali era mais difícil encontrar onde me esconder, por isso
deixei que houvesse uma distância maior entre nós, me
mantendo o mais perto possível da sombra do muro da
cidade. Mesmo assim, se ele olhasse para trás, eu não conse-
guiria ocultar minha presença. Depois de talvez uns 10
minutos, Norris tornou a dobrar à esquerda, desceu por uma
estrada larga, flanqueada por pomares e campinas, e nesse
ponto quase fiz meia-volta, por ser obrigado a sair da prote-
ção do muro, mas minha curiosidade fora despertada. A
estrada praticamente não tinha construções. Mais adiante, a
única edificação visível era a torre atarracada de uma
igrejinha, que percebi ser muito antiga ao me aproximar.
Norris passou pela lateral da igreja e, depois dela, pelo muro
de pedra clara de uma imponente sede de fazenda, um solar
de três andares com janelas de empena no telhado e terreno
cercado por um muro alto, da mesma pedra amarelada. Da
esquina da igrejinha vi Norris se aproximar de um portão
instalado nesse muro, na lateral da casa. Depois de um
pequeno intervalo, ele foi admitido, embora eu não visse por
quem.
Assim, não tive alternativa senão fazer meia-volta e retornar
para a cidade, me censurando por uma caminhada perdida.
Confesso que eu teria ficado encantado se visse Norris se
encontrar com um jovem amante, mas não houve nenhuma
peripécia no trajeto feito por ele. Era presumível que um
rapaz rico tivesse conhecidos entre as famílias mais
importantes de Oxford, e a sede da fazenda parecia pertencer
a gente de grandes posses. Eu não havia descoberto nada que
tivesse a menor utilidade, e foi somente ao caminhar de
volta pelos campos, agora sem pressa e saboreando o aroma
de terra úmida e folhas novas que me chegava dos pomares,
que me lembrei do que Lawrence Weston dissera sobre o
fato de Norris guardar seu cavalo fora dos muros da cidade.
Sem dúvida, ele devia ter saído para uma cavalgada, e me
senti particularmente grato por não ter sido apanhado
espionando-o nem obrigado a dar explicações da minha
tolice.
Mas eu estava gostando do ar depois da chuva e da sensação
de liberdade proporcionada pela zona rural fora da cidade,
depois da intimidade opressiva do Colégio Lincoln, com
todas as suas intrigas e correntes subjacentes de maldade,
que de algum modo tinham levado à morte o pobre Roger
Mercer. Nem fazia questão de voltar tão cedo àquele
quadrilátero cercado por paredes, com todas aquelas janelas
que pareciam um sem-número de olhos hostis a observar
cada movimento meu, e por isso decidi retornar pelo
caminho mais longo, contornando o exterior dos grandes
muros da cidade, e ver o que mais eu poderia descobrir nos
arredores enquanto procurava uma estalagem que me
servisse algum prato quente.
Estava quase na altura da antiga Igreja de Santa Maria
Madalena - ao lado de uma construção meio torta que um dia
poderia ter sido uma taberna, mas agora se achava em
péssimas condições - quando uma súbita rajada de vento
varreu a rua, espalhando as últimas sobras de botões de flores
das árvores próximas. Eu me assustei com um rangido
violento vindo de cima e, ao erguer os olhos, vi uma velha
tabuleta pintada que balançava violentamente em suas
dobradiças enferrujadas, gemendo como se fosse se soltar a
qualquer momento. Foi nessa hora que dei um pulo para
trás, com uma exclamação de espanto, porque a tabuleta
acima da minha cabeça, mesmo com a tinta desbotada e tão
descascada que a imagem mal chegava a ser visível, retratava
uma roda raiada, idêntica ao símbolo no calendário de Roger
Mercer e no diagrama astronômico enfiado por baixo da
minha porta.
Eu não esperava nem mesmo que a porta funcionasse, de tão
abandonado que parecia o lugar, visto pela frente, mas,
quando girei a maçaneta, ela se abriu com um rangido e me
ofereceu um vislumbre de um cômodo de pé-direito baixo,
que cheirava a bolor e umidade e era mobiliado com um
punhado de mesas e bancos bambos. Uma friagem
penetrante pairava no ar. Na lareira em uma das paredes
havia um monte de cinzas frias, e os poucos fregueses
presentes conversavam em voz baixa, debruçados sobre os
canecos de cerveja, como se sentissem certa vergonha de ser
encontrados num lugar daqueles. Não era uma estalagem que
acolhesse de bom grado os transeuntes. Com o coração
disparado, fechei a porta com delicadeza ao entrar e ocupei
um assento a uma mesa num canto encardido, junto à janela
de serviço da cozinha, ciente de que minha chegada havia
despertado a atenção dos outros fregueses. Com uma
pontada de surpresa, reconheci, entre quatro homens que
me olhavam e cochichavam do outro lado da sala, o homem
de rosto bexiguento e sem orelhas que eu vira do lado de
fora da Escola de Teologia antes do debate - o homem que
eu tinha certeza de que James Coverdale havia reconhecido.
"Ninguém que tenha importância", dissera o professor. O
homem sem orelhas não resmungou junto aos
companheiros, apenas me fitou sem piscar, por cima da
cabeça deles, com aquele mesmo olhar frio e insolente,
como se me conhecesse. Encarei-o por um momento e virei
rapidamente para outro lado, ao notar que os olhos dele
eram tão impressionantes quanto seu rosto: de um azul tão
claro e translúcido que pareciam iluminados por dentro,
como a luz do sol brilhando através da água na baía de
Nápoles.
O olhar dele era tão desconcertante que baixei o meu,
preocupado em não provocar nenhum confronto, mas
estava claro que aquele não era um local em que um
estranho pudesse tomar uma bebida sossegado, sem que sua
presença despertasse uma reação muda, mas palpável.
Quando tornei a levantar a cabeça, vi que uma mulher
robusta de uns 40 anos, com um avental cheio de manchas,
se postara à minha frente, de braços cruzados. O cabelo de
mechas ralas e escorridas, meio grisalho, estava puxado para
trás, descobrindo o rosto de queixo quadrado, e seus olhos
castanhos eram céticos.
- O que vai querer, senhor?
- Um caneco de cerveja?
Ela fez um meneio com a cabeça, mas continuou parada ali,
me avaliando.
- O senhor não é conhecido. O que o traz à Roda da
Catherine?
- Eu estava com fome. Vi a sua tabuleta e pensei em entrar
para almoçar.
Os olhos dela se estreitaram mais:
- O senhor não é daqui destas paragens, eu acho.
- Nasci na Itália - respondi, encarando-a com toda a
franqueza possível.
Ela fez um beicinho e balançou a cabeça.
- Amigo do papa?
- Não pessoalmente - respondi, e por fim o rosto da mulher
se abrandou um pouco e ela quase sorriu.
- O senhor entendeu o que eu quis dizer.
- Minha resposta vai determinar se a senhora me trará ou não
a cerveja?
- Só gosto de garantir que entre o tipo certo de gente aqui,
meu senhor.
Corri os olhos pela taberna. Seria difícil imaginar uma
clientela menos recomendável. Aquilo me lembrou as
hospedarias de beira de estrada em que eu fora obrigado a
ficar durante minha fuga do San Domênico.
- Fui criado na Igreja Romana - declarei, sem me alterar. -
Não sei se isso faz de mim o tipo certo de pessoa, mas
garanto que não afeta as moedas na minha bolsa.
Ela pareceu ceder e se virou parcialmente, como se fosse
embora.
- Qual é o seu nome? - perguntou, pensando melhor.
- Filippo - respondi, surpreso com a facilidade com que o
nome me escapou. Ele me viera quase como um reflexo.
Talvez fosse a lembrança daqueles anos de fugitivo, quando
eu viajava usando meu nome de batismo, sabendo que
admitir minha identidade poderia ser fatal. Ali, naquela
taberna sombria, em meio a olhares de esguelha e
murmúrios, o instinto havia despertado a mesma necessi-
dade de cautela. - Filippo il Nolano.
A taberneira pareceu satisfeita. Meneou a cabeça, descruzou
os braços e fez um ligeiro movimento para baixo, que quase
poderia ser uma reverência.
- Joan Kenney, viúva, às suas ordens. O senhor vai querer
comer?
- O que vocês têm?
- Sopa - disse ela, em tom firme.
Àquela altura, já fazia tempo suficiente que eu estava na
Inglaterra para saber que sopa era um prato resultante da
mistura de aveia com o sumo que sobrava do cozimento da
carne, uma coisa que por direito deveria ser servida ao gado,
mas que os ingleses pareciam considerar um acréscimo
indispensável a qualquer mesa.
- Nenhuma carne? - perguntei, esperançoso. - É domingo.
- Temos sopa, senhor. É pegar ou largar.
Com relutância, eu disse que a tomaria.
- Humphrey! - chamou ela, e uma porta se abriu ao lado da
janela de serviço, deixando entrar um jovem de cabelo louro
e ondulado que segurava um pano de prato sujo. Embora
tivesse pelo menos 1,80m e, provavelmente, uns 20 e
poucos anos, primeiro ele olhou para a taberneira e depois
para mim, com a expressão assombrada e franca da criança
ansiosa por agradar, e imaginei que devia ser retardado.
- Vá buscar uma sopa e um caneco de cerveja para o seu
Nolano, o mais rápido que puder, e nem pense em
incomodá-lo com a sua conversa fiada - ordenou ela em tom
brusco, e Humphrey balançou furiosamente a cabeça, com
movimentos exagerados para cima e para baixo, como faria
uma criança, torcendo o pano nas mãos enquanto a olhava. -
Ele é galês - acrescentou a taberneira enigmaticamente,
como se isso explicasse muita coisa.
Enquanto o rapaz desaparecia na cozinha, a mulher
atravessou o salão e se curvou sobre uma mesa, cochichando
algo para o homem sem orelhas, que inclinou a cabeça e a
balançou com ar solene, sem tirar os olhos de mim.
Humphrey voltou prontamente com uma tigela contendo
uma pasta aguada, cinzenta e morna, que respingou por
metade da mesa, e um caneco de madeira com cerveja,
encimado por uma película de gordura, e ficou parado junto
à mesa, me oferecendo um sorriso nervoso.
- Obrigado - acabei dizendo, e, como ele não se foi, me
perguntei se deveria lhe dar uma gorjeta.
- O senhor é da Itália? - perguntou com voz cantante,
agachando-se para ficar no nível dos meus olhos e me
examinando com a cabeça inclinada.
- Isso mesmo - respondi, remexendo o conteúdo da tigela
com um pedaço de pão. Tanto a sopa quanto o pão já
pareciam ter congelado.
- Então fale alguma coisa em italiano - disse Humphrey,
como se me desafiasse a impressioná-lo, como faria uma
criança com um mágico de rua. Pensei por um momento.
- Non darei questo cibo nemmeno al mio cane - enunciei
com um sorriso afável, porém mantendo a voz baixa, por via
das dúvidas. Os olhos dele se iluminaram com tanta
admiração que pareceu que eu havia tirado uma moeda do
ar, e seu rosto largo se enrugou num sorriso.
- O que isso quer dizer?
- Ah... é difícil fazer uma tradução direta. Foi um elogio à sua
comida deliciosa.
Ele se inclinou, aproximando-se muito de mim, a tal ponto
que seu hálito fez cócegas no meu ouvido.
- Eu não sei italiano - murmurou -, mas sei falar latim.
- Meus parabéns - retruquei com indulgência, à espera de
uma série de absurdos, pois era impossível que um garoto
simplório que servia mesas pudesse realmente ter sido
educado em latim. Ele balançou a cabeça com força, o rosto
sério.
- Orapro nobis - sibilou no meu ouvido e em seguida recuou
para me olhar, na expectativa e cheio de si, aguardando
minha aprovação.
Senti meus olhos se arregalarem nesse momento e fiz força
para manter o rosto impassível. Um vago vislumbre de
compreensão começou a se espalhar pelas perguntas que
surgiam na minha mente.
- Muito bem, Humphrey! Você sabe mais alguma coisa? -
retruquei num sussurro. Ele abriu um sorriso e tornou a se
aproximar, mas, nesse momento, a voz estridente da
taberneira nos interrompeu.
- Humphrey Pritchard! Eu não lhe disse para deixar o pobre
senhor sossegado? Você não tem o que fazer? Ele não quer
escutar as suas bobagens. Deixe-o saborear sua refeição em
paz!
Com esse otimismo descabido, ela apareceu de repente junto
ao ombro de Humphrey, deu-lhe um tapa de leve na parte
de trás da cabeça e o empurrou para a cozinha. Embora o
rapaz tivesse o dobro do tamanho dela, seu rosto se contraiu
de culpa e ele saiu correndo, com o corpanzil encurvado de
fazer dó.
A taberneira enxugou as mãos no avental e forçou um
sorriso.
- Ele não estava dizendo nada, hã... ofensivo, eu espero -
disse, mas julguei captar um toque de apreensão em sua voz.
- De modo algum. Só perguntou se a comida estava boa.
Os olhos dela se estreitaram.
- E está?
- Hum. Obrigado.
A mulher me olhou por um instante, como se quisesse
acrescentar alguma coisa, depois acenou brevemente com a
cabeça e desapareceu na cozinha, onde ouvi o som de vozes
abafadas, a dela repreendendo o pobre Humphrey, a dele
elevada num protesto.
O almoço foi uma experiência incômoda. Empurrei o
mínimo que pude daquela pasta repulsiva por entre os
dentes semicerrados, consciente, o tempo todo, do olhar
impassível do homem sem orelhas e de seus parceiros.
Quase torci para que ao menos ele se aproximasse e me
confrontasse, quem sabe explicando por que me olhava com
tanto interesse e tanta familiaridade, mas ele permaneceu em
seu banco, só se mexendo ocasionalmente para se inclinar e
murmurar algo para os companheiros.
Mantive os olhos no prato, enquanto meu cérebro
relembrava fragmentos de conversa. Ora pro nobis. Rogai
por nós. Eram as palavras escritas em código no verso do
almanaque de Roger Mercer. Uma oração em favor de
alguém, um fragmento da Ave-Maria ou da Ladainha de
Todos os Santos, pois onde mais um homem sem instrução
como Humphrey aprenderia latim, a não ser durante a
missa? Portanto, o jovem Humphrey Pritchard teria
entreouvido ou participado de liturgias católicas. Será que
ouvira essas palavras por se associar a pessoas que conhecia
da taberna? Isso explicaria por que sua patroa fazia tanta
questão de impedir que ele falasse com estranhos. E por que
Roger teria escrito essa mesma frase em código? Era uma
senha, talvez, ou um sinal a ser reconhecido entre
conspiradores. Seria a Roda da Catherine uma espécie de
ponto de encontro ou refúgio de católicos clandestinos? Será
que era essa a orientação que meu enigmático
correspondente do Colégio Lincoln estava tentando me
passar?
Percebi que estivera encarando o homem sem orelhas
enquanto pensava nisso. Quase como se tivesse sido
despertado para a vida por meus pensamentos, nesse
momento ele se levantou, sacudiu a poeira da sobreveste e
chamou a taberneira para fechar a conta.
- Infelizmente, viúva Kenney, preciso deixá-la por ora.
Apesar de ser o dia sagrado do repouso, os negócios urgem,
como sempre - anunciou ele, e fiquei surpreso ao ouvir sua
fala instruída. Aquilo criou um contraste desconcertante
com sua aparência, que lhe dava o ar de um criminoso
comum. Mais uma vez, tive de me repreender por fazer
juízos precipitados acerca dos modos ou da aparência de um
homem. Esperei a porta se fechar atrás dele para sair
também. Se a viúva Kenney viu algo suspeito em minha
pressa de me retirar, não pude distinguir em sua expressão
habitual, e ela me deu um agradecimento desanimado
quando joguei algumas moedas na mesa e saí às pressas porta
afora, inclinando o pescoço nos dois sentidos da rua, na
esperança de ainda avistar o homem sem orelhas.
Tive sorte, pois ele quase havia chegado ao fim da rua, junto
à igreja. Novamente me mantendo à sombra das construções
à minha esquerda, eu disse a mim mesmo que essa
perseguição era muito mais digna de um agente de
Walsingham e percebi que a dramaticidade do momento e o
afluxo de adrenalina nas veias me davam satisfação.
O homem sem orelhas atravessou a rua larga e passou por
baixo do portão norte, junto à Igreja de São Miguel e à prisão
Bocado. Segui-o a uma distância segura pela travessa
Sommer, passando pela frente do Colégio Exeter e pela pa-
rede dos fundos da Escola de Teologia. Num dado momento,
tive a sensação de que alguém me seguia e me virei
abruptamente, mas havia apenas um punhado de pessoas na
rua, todas cuidando da própria vida, aparentemente sem
repararem em mim, por isso atribuí a sensação aos nervos
tensos e mantive o olhar fixo no homem sem orelhas.
Na esquina das escolas da universidade, ele dobrou à direita
na rua Catte, uma ruela estreita, onde as casas eram muito
próximas e os andares superiores com estrutura de madeira
se projetavam sobre a via, de modo que ela permanecia na
sombra, com o chão ainda molhado. Pelo grande número de
tabuletas pintadas penduradas nos prédios e rangendo
suavemente ao vento, ficou claro que essa era uma rua
comercial. Uma inspeção mais atenta revelou casas de
negócios voltadas para as necessidades de uma comunidade
acadêmica - tipografias, papelarias, fabricantes de becas e
trajes de gala e diversos livreiros e encadernadores -, todas
fechadas e com as venezianas cerradas.
O homem sem orelhas diminuiu o passo e fiz o mesmo, no
exato momento em que notei uma figura que caminhava na
nossa direção, vindo do lado oposto, de toga acadêmica preta
e barrete de veludo. Seu porte era rígido como o de um
ancião, e os passos eram hesitantes, como se fizesse esforço
em andar. O homem sem orelhas parou diante da fachada de
uma loja estreita, com janelas encardidas, e levantou a mão
num cumprimento. A figura de barrete respondeu com um
pequeno gesto de reconhecimento. Eu me escondi num vão
de porta justo quando ele chegou em frente à loja e tirou o
barrete, verificando a rua como quem ansiasse por não ser
visto. Então me dei conta de que se tratava do Dr. William
Bernard. Sem dizer palavra, o homem sem orelhas tirou do
cinto um molho de chaves e abriu a lojinha suja. Nesse
instante, me encolhi ainda mais para não ser visto, enquanto,
com uma última olhada nos dois sentidos da rua, ele segurou
a porta aberta para o Dr. Bernard e entrou atrás dele pelo
portal baixo. A porta se fechou e ouvi a fechadura ser
trancada. Não havia nenhuma tabuleta no alto da loja, mas,
quando saí do vão e cheguei o mais perto que me permiti
ousar, mesmo sendo improvável que da rua se pudesse
enxergar grande coisa através da camada espessa de sujeira
incrustada nas vidraças das janelas, vi pintadas acima da
porta, em letra miúda mas cuidadosamente grafada, as
palavras R. JENKES, ENCADERNADOR E PAPELEIRO.
Ao dar as costas para a loja, esbarrei em cheio num homem
alto, com o chapéu arriado sobre o rosto, e por pouco não o
fiz levar um tombo.
- Scusi - disse eu, instintivamente, e ele também resmungou
uma desculpa e se afastou às pressas rua acima. Vê-lo em
retirada me deixou curiosamente inquieto, e estranhei não
tê-lo notado antes na rua. Seria possível que ele tivesse saído
de uma das lojas? Parecia improvável, pois estavam todas
fechadas. Então me lembrei do instante antes de entrar na
rua Catte, quando eu tivera a sensação de estar sendo
seguido. O homem dobrou numa ruela lateral, sem olhar
para trás. Eu não vira praticamente nada do seu rosto, exceto
que tinha barba preta. Não consegui recordar se algum dos
companheiros do homem sem orelhas na Roda da Catherine
tinha barba preta, mas eu não os havia observado com aten-
ção e eles estavam sentados de costas para mim. Por que
teriam me seguido desde a taberna, a não ser pelo fato de
minha presença solitária no local ter despertado sua
desconfiança, ou por eu ter deixado tão óbvio que, por
minha vez, estava ansioso por seguir o homem sem orelhas?
Com a mente dando voltas, retornei pela rua Catte em
direção ao muro da cidade. Quem era aquele homem sem
orelhas, que tinha amizades entre os desclassificados da
taberna e os doutores do Colégio Lincoln? Se ele era o
próprio encadernador Jenkes, isso explicaria sua ligação com
os acadêmicos, mas era curioso que Bernard escolhesse um
domingo para fazer negócios com um papeleiro. Na verdade,
o velho doutor dera a forte impressão de estar torcendo para
não ser visto. E, se eu buscasse a explicação mais óbvia,
poderia deduzir que, se a Roda da Catherine era um
conhecido ponto de encontro de não conformistas, se
Bernard, como eu tinha visto, era simpatizante da antiga
religião, e se o homem que ligava as duas coisas era
negociante de livros, não seria bastante provável que eu
tivesse topado com uma ligação com o comércio clandestino
de livros proibidos na cidade, do qual Walsingham falara
com tanta fúria? Só que eu não tinha deparado com ele,
refleti. Alguém, de forma deliberada e enigmática, me
orientara para essa descoberta, alguém que também se
certificara de que eu a ligaria à morte de Roger Mercer, e eu
precisava descobrir a fonte dessas informações e saber o que
ela temia, caso se desse a conhecer.
Passei de novo pela Escola de Teologia e virei à esquerda na
travessa St. Mildred. A torre do portão fortificado do Colégio
Lincoln surgiu à minha esquerda, atarracada e pálida contra o
céu. Quando cruzei o portão principal e passei sob o arco da
torre, ouvi uma batida na janela da guarita do porteiro, olhei
em volta e vi Cobbett acenando para que eu entrasse.
- Um sujeito acabou de procurar pelo senhor, Dr. Bruno -
disse ele, ofegante, como se fosse o próprio portador da
mensagem urgente. - Um empregado do Christ Church,
querendo saber se o senhor vai caçar em Shotover hoje à
tarde.
Praguejei baixinho. Com toda a empolgação de ter
descoberto a Roda da Catherine, me esquecera por completo
da promessa que fiz a Sidney e de minha intenção de ir pedir
desculpas a ele pessoalmente. Por sorte, agora seria tarde
demais para eu ir ao encontro deles.
- Não posso - afirmei, em parte falando comigo mesmo. -
Creio que seria melhor eu ir deixar um recado para meu
amigo.
- Não - disse Cobbett, em tom solidário -, achei que o senhor
não parecia ser do tipo caçador. Meio baixinho para o arco
galês, se não se importa que eu diga isso.
Apenas assenti com a cabeça e me virei para ir embora.
Então, de repente me lembrei do conselho de Sidney sobre
os porteiros dos colégios e de todas as informações de que
dispunham, e da garrafa de cerveja que tínhamos comprado
para incentivar Cobbett a falar livremente e que continuava
no meu quarto.
- Você gostaria de uma bebida, Cobbett? - indaguei.
- Ora, é quase como se o senhor adivinhasse meus
pensamentos, Dr. Bruno - e ele exibiu seu sorriso inteligente
e desdentado. - Agora mesmo eu estava pensando que estou
quase morto de tão seco. Parece até feitiçaria o que você
falou.
- Não é feitiçaria, eu lhe garanto. Reconheço um homem
sedento quando o vejo. Espere aqui um minuto - disse eu,
sorrindo, e ele se recostou pesadamente na cadeira.
- Ah, não vou a lugar nenhum, não se preocupe. Posso até
ver se tenho um copo limpo. Não estamos acostumados com
visitas, não é, Bess? - comentou, coçando ternamente a
velha cadela atrás das orelhas. Ela fez um barulhinho
gorgolejante no fundo da garganta.
Quando voltei com a garrafa, Cobbett tirou a rolha, ansioso,
e serviu uma porção generosa em duas canecas de madeira
dispostas em sua mesa para a ocasião. Procurei não examinar
muito de perto o estado da caneca que ele me entregou, com
o rosto redondo enrugado num sorriso de satisfação,
enquanto fazia sinal para que eu puxasse um banquinho
baixo, enfurnado num canto do seu cubículo.
- Boa cerveja e boa companhia - comentou, depois de tomar
uma golada de sua caneca e girá-la na boca, antes de engolir
ruidosamente. - Pois então. Estou sentindo que o senhor
tem uma pergunta. Eu também adivinho pensamentos, o
senhor sabe - e deu uma piscadela.
Eu havia concluído que, com Cobbett, a melhor abordagem
seria ser franco como ele. O homem perceberia num
instante qualquer fingimento.
- Você já topou alguma vez com um encadernador da rua
Catte chamado Jenkes? - perguntei.
Cobbett jogou a cabeça para trás e soltou uma daquelas
gargalhadas que me faziam temer por sua saúde. Quando se
recuperou da chiadeira ofegante, fez uma expressão
incrédula e limpou a boca com o dorso da mão.
- Por Deus e todos os santos, Dr. Bruno, o que foi que
fizemos com o senhor? - disse ele, balançando a cabeça e
ainda rindo. - O senhor chega a Oxford na companhia dos
homens mais poderosos do país e, em questão de dias, está
se dando com o patife mais infame da cidade! Fique bem
longe de Rowland Jenkes, é só o que eu tenho a lhe dizer.
- Como assim, infame? Um mero encadernador?
- Ele não é mero coisa nenhuma, o Rowland Jenkes. É
papista e feiticeiro.
- É mesmo? - perguntei, me mostrando bastante interessado,
e Cobbett sabia reconhecer uma plateia voraz quando a via.
- O senhor nunca ouviu falar da Sessão Negra do Tribunal? -
perguntou ele, num tom solene.
Fiz que não com a cabeça.
Cobbett se inclinou para a frente, com todo o deleite de um
avô que prepara uma história para assustar crianças
pequenas.
- Pois bem, vejamos - começou, e então se seguiu uma pausa
longa e frustrante enquanto ele entornava o conteúdo de sua
caneca e servia-se generosamente de outra. - Seis anos atrás,
isso foi no verão de 1577, quando fez um calor maldito, o
Rowland Jenkes foi detido por sedição e trancafiado no
castelo de Oxford, onde eles mantêm os prisioneiros até se
realizarem as sessões do tribunal local.
- Que tipo de sedição?
- Já vamos chegar a isso, calma lá - resmungou Cobbett. -
Bem, nessa ocasião, tinham descoberto que ele andava
distribuindo livros sediciosos... O senhor sabe, livros
papistas, os que não têm autorização para serem impressos
aqui. Ele os importava ilegalmente da França e dos Países
Baixos. Dizem que ele tem sangue flamengo, mas pode ser
que seja apenas boato, e eu nunca presto atenção a boatos.
- Não - confirmei, meneando a cabeça com sinceridade.
- Não. Bem, ele foi preso por causa dos livros e apareceram
umas testemunhas para dizer que o tinham ouvido falar
palavras traiçoeiras contra a rainha. Mas foi durante o
julgamento que aconteceu essa história terrível. Ele foi le-
vado para a Casa das Sessões do Tribunal, do lado de fora do
muro do presídio, para ser julgado com todos os outros
prisioneiros perante o juiz do tribunal do condado e o
presidente do tribunal criminal. Naturalmente, ele foi
considerado culpado e, no momento exato em que sua
sentença era proferida, o tribunal se encheu do cheiro mais
podre que o senhor possa imaginar, a tal ponto que todos no
salão acharam que iam sufocar ou desmaiar.
Cobbett fez outra pausa para se refrescar e eu me peguei
balançando as pernas com impaciência na beirada do
banquinho.
- E depois?
- Bom, agora vai ser difícil o senhor acreditar, mas eu
conheço gente que viu isso com os próprios olhos, Dr.
Bruno - sussurrou o porteiro, arregalando os olhos. - Todos
os homens daquele júri morreram em poucos dias. Não só
eles, mas todos que estavam naquele tribunal, todos eles,
caíram duros antes que se passasse uma semana. O juiz do
condado, o presidente do tribunal, os advogados, todos eles.
No decorrer de um mês, 300 homens morreram em Oxford.
E então acabou tudo, tão depressa quanto havia começado.
Mas o importante é o seguinte: - Cobbett se inclinou ainda
mais, tanto que seu queixo quase mergulhou na cerveja. -
Nenhum dos prisioneiros que estavam na sessão desse dia no
tribunal morreu, nem nenhuma mulher ou criança. Ora, não
venha ninguém me dizer que isso foi uma peste natural.
- Então, foi uma praga?
- A praga de Rowland Jenkes - disse ele, em tom reverente. -
Enquanto estava detido, esperando a sessão do tribunal, foi
autorizado a sair com um carcereiro. Bem, contam que ele
visitou um boticário com uma lista de ingredientes. O
homem notou que eram todos muito venenosos e perguntou
por que Jenkes precisava daquilo. Ele respondeu que era por
causa dos ratos que andavam roendo seus livros na loja
enquanto estava encarcerado, entendeu? Enfim, ele
conseguiu esses ingredientes e há quem acredite que fez um
pavio coberto com essa poção nojenta e o acendeu no
instante em que foi condenado.
- Onde é que um prisioneiro condenado esconderia um
estojo de isca e pederneira no corpo, num tribunal? -
perguntei. - Não é mais provável que tenha sido uma febre
da cadeia, disseminada pelos presidiários?
Cobbett pareceu desapontado por eu não haver entrado no
espírito da lenda.
- Bom, disso eu não sei, não, senhor. Só o que sei é que a boa
gente cristã atravessa a rua quando vê Rowland Jenkes nesta
cidade, e se o senhor souber o que lhe convém, vai fazer a
mesma coisa.
- E os livros sediciosos? Ele continua nesse negócio?
- Quem vai saber o que ele faz, meu senhor?... Eu lhe disse,
agora todo mundo o deixa em paz. Acho que ele se mete em
vários tipos de falcatruas, mas que júri se atreveria a levá-lo a
julgamento agora?
Cobbett tornou a encher sua caneca e fingiu se oferecer para
me servir mais um pouco, mas ficou claramente satisfeito
com a minha recusa.
- Qual foi a sentença dele?
- Pendurado pelas orelhas no pelourinho - disse o porteiro,
com prazer. - E o senhor sabe o que ele fez?
Eu já tinha adivinhado, mas não quis privá-lo dessa parte da
história, por isso fiz que não com a cabeça e fingi um ar de
expectativa.
- Ficou lá uma hora, isso mesmo. Aí um conhecido lhe levou
uma faca e, com a maior calma do mundo, Jenkens cortou as
próprias orelhas, na frente de toda a população reunida, e
saiu andando, livre. Disseram que ele nem gritou. Ainda
deixou as orelhas penduradas no poste, se o senhor pode
imaginar.
Fiz uma careta de horror. Cobbett balançou a cabeça com ar
sábio.
- É esse o tipo de homem que Rowland Jenkes é. Não se
meta com gente dessa laia, Dr. Bruno.
- Que laia? Você se refere à estalagem Roda da Catherine?
Cobbett me olhou como se eu houvesse xingado sua família
inteira, bem na sua cara.
- Por Cristo ressuscitado! O que foi que o senhor andou
fazendo, Dr. Bruno? Falando sério, até a menção desse nome
vai causar encrencas para o senhor.
- O que você quer dizer? - perguntei, achando que bancar o
estrangeiro ignorante seria o mais conveniente para mim
nessa hora.
- Escute - começou Cobbett, baixando a voz para um
sussurro e fazendo sinal para eu chegar mais perto -, o
pessoal que vai à Roda da Catherine não vai lá pela comida
nem pela bebida, se o senhor me entende.
- Isso eu descobri por mim mesmo - comentei, enfático. -
Mas você sabe se algum dos professores ou alunos do
Lincoln iria lá, algum dia?
Cobbett apertou os olhos, sugou as bochechas flácidas e me
examinou por um momento, como se ponderasse quanto
deveria revelar a esse forasteiro engraçado e bisbilhoteiro.
Parecia prestes a responder quando a porta da guarita se
abriu de modo brusco e o diretor Underhill entrou, a toga
esvoaçando a seu redor. Houve um leve lampejo de surpresa
em seu rosto, à visão de seu hóspede tomando cerveja com o
porteiro, mas ele se recompôs depressa e sorriu.
- Boa tarde, Dr. Bruno - disse, com cautelosa polidez. -
Cobbett, eu gostaria de saber se por acaso você viu o Dr.
Coverdale hoje. Parece que ele não está em parte alguma,
porém não me deu nenhum aviso de que pretendia sair.
- Não, senhor, não vi nem sombra dele, desde ontem à noite
- respondeu Cobbett, passando a garrafa e as canecas para o
chão, embaixo da sua cadeira, tarde demais para escondê-las
da atenção do diretor.
Underhill inflou as narinas, irritado.
- Bem, no instante em que o vir passar por aquele portão,
tenha a bondade de dizer para ele ir direto à minha sala,
quero falar urgentemente com ele.
- Sim, senhor, farei isso - disse Cobbett, obediente.
- Será que posso dar uma palavrinha rápida com o senhor lá
fora, Dr. Bruno? - convidou Underhill, virando-se para mim
com olhar incisivo.
- Certamente - respondi. Levantei com certo esforço do
banquinho bambo, balancei a cabeça para Cobbett, que
retribuiu com uma grande piscadela, e acompanhei o diretor
até o arco da torre.
- Eu lhe agradeceria muito se não incentivasse os criados a
beberem durante o serviço. Aquele ali, em especial, não
precisa de ajuda - disse, contraindo os lábios. Abri a boca
para protestar, mas ele ergueu uma das mãos e me deteve. -
Espero que o senhor nos faça companhia hoje no jantar, no
refeitório, pois não? Estamos todos muito abatidos desde a
morte do pobre Roger, e sua presença certamente animaria a
mesa dos professores.
- Obrigado, será um prazer - respondi, no mesmo tom falso e
cortês.
- Ótimo. Jantamos às seis e meia, mas o senhor ouvirá o sino,
com certeza.
Antes que ele desaparecesse na passagem arqueada junto ao
refeitório que levava à sua residência, eu o chamei:
- Diretor Underhill, estive pensando... Saí para um passeio
hoje de manhã, depois da capela, para tomar um pouco de ar
e admirar melhor a sua bela cidade.
Ele cruzou as mãos e me olhou, desconfiado.
- Espero que tenha sido uma experiência agradável.
- Ah, sim. Mas saí dos muros da cidade e creio que fiquei
meio perdido. Atravessei o portão junto à capela da Virgem
e virei à direita, e, depois de uma curta distância, passando
por campos e pomares, a estrada me conduziu para a
esquerda e vi um belo solar, ao lado de uma igrejinha que me
pareceu muito antiga. Eu só estava imaginando que lugar
seria aquele.
O diretor pensou por um instante, depois pareceu julgar a
pergunta inocente o bastante para merecer uma resposta
direta.
- Junto à entrada do Smythgate? Creio que o senhor deve
estar se referindo à Igreja da Santa Cruz, que é realmente
bastante antiga. A casa deve ser o Solar Holywell, que é a
única residência de porte naquela direção. O poço sagrado,
em si, parece ser saxão. Foi um lugar de peregrinação no
passado, mas é óbvio que esse costume papista foi suspenso.
- Ah. Bem, obrigado por satisfazer uma curiosidade de
turista. Deve ser a sede da aristocracia rural local, imagino.
Underhill fez um muxoxo:
- Bem. Eles são uma espécie de aristocracia, suponho, mas
estão longe de ser bem-vistos na sociedade de Oxford. O
solar pertence à família Napper... O pai foi professor do
Colégio de Todos os Santos, em certa época, mas faleceu há
muito tempo, e o filho caçula, George, está na prisão da rua
Wood, em Cheapside.
- É mesmo? Por qual crime?
O diretor me lançou um olhar carrancudo, talvez
desconfiado do meu interesse.
- Por se recusar a ir à igreja, creio. Mas realmente não posso
ficar aqui mexericando como uma lavadeira, preciso me
preparar para as Vésperas na Igreja de Todos os Santos.
Já na passagem que levava a seus aposentos, ele se virou
novamente para mim:
- Ah, e... Dr. Bruno, estarei com o juiz Barnes na igreja, hoje
à tarde, de modo que amanhã talvez saibamos quando
esperar o inquérito sobre o acidente do pobre Dr. Mercer.
Rezemos para que seja logo - acrescentou, com um sorriso
quase imperceptível. - Eu não gostaria de retê-lo em Oxford
mais do que o necessário.
- Nem eu iria querer abusar de sua hospitalidade - retruquei,
com igual frieza. - E, por favor, queira transmitir meus
respeitos à Sra. Underhill e a sua filha.
- Decerto - disse ele, juntando momentaneamente as pontas
dos dedos, como se considerasse dizer mais alguma coisa a
esse respeito, mas se virou e desapareceu nas sombras da
passagem arqueada.

Capítulo 10

O SINO CHAMOU PARA o JANTAR com um dobre não menos
tristonho que o das matinas e me arrancou dos meus
pensamentos confusos, rabiscados nas anotações que agora
se espalhavam pela mesa do quarto. Depois do meu diálogo
com o diretor, eu fora até o Colégio Christ Church e
descobrira, com certo alívio, que de fato havia me
desencontrado do grupo de caça de Sidney. Depois de lhe
deixar um bilhete, pedindo desculpas e explicando que eu
tinha sido detido por outros assuntos urgentes, me recolhera
ao meu quarto, onde havia passado cerca de uma hora
deitado na cama, tentando fazer as novas peças se
encaixarem no quebra-cabeça. Se as palavras desprevenidas
de Humphrey Pritchard e a advertência enigmática de
Cobbett implicavam que a taberna Roda da Catherine era o
ponto central da confraria católica secreta de Oxford, a
conclusão óbvia devia ser que Roger Mercer sabia algo sobre
esse grupo - as datas assinaladas com a roda no almanaque
poderiam significar reuniões na taberna. Teria Mercer
planejado denunciá-los, tal como havia testemunhado contra
seu ex-amigo e colega Edmund Allen, o que significava que
tinha de ser silenciado? Se assim fosse, quem revistara o
quarto dele poderia estar à procura de provas que essas
pessoas sabiam que ele pretendia usar contra elas. Havia
também Richard Godwyn, o bibliotecário de modos gentis
que parecia estar envolvido no recebimento de livros
católicos contrabandeados. Mas será que isso o ligava a
Rowland Jenkes e, portanto, à taberna Roda da Catherine?
Mercer poderia tê-lo descoberto?
Decidido a observar alunos e professores mais atentamente
que um gavião durante o jantar, pus a sobreveste e já ia sair
quando batidas furiosas na porta quase me fizeram saltar da
minha própria pele. Com cautela, eu abri uma fresta e vi o
rosto aflito de Sophia Underhill, que lançava olhares
temerosos para trás.
- Me deixe entrar, Bruno, depressa, antes que alguém me
veja. Preciso falar com você! - sibilou ela, tornando a olhar
para a escada.
- É claro - respondi, abrindo a porta. Sophia a fechou
depressa, com as faces ruborizadas. Apreensivo, vi que sua
compostura habitual a abandonara. Sua boca tremia, embora
a moça lutasse muito para controlá-la, e seus olhos brilhavam
como se ela pudesse irromper em pranto a qualquer
momento.
- Bruno, me perdoe - começou Sophia, num tom que mal
passava de um sussurro. - Meu pai me proibiu de falar com
você, mas tenho que desobedecer. Não há mais ninguém a
quem eu possa contar.
Parou de falar, com a respiração em arquejos entrecortados,
como se estivesse correndo ou chorando.
- Me perdoe - repetiu e então pareceu tropeçar, como que à
beira de um desmaio, tal como na noite anterior. Dessa vez,
me aproximei a tempo de segurá-la e Sophia se apoiou em
meu ombro, agradecida, enquanto um soluço repentino fazia
estremecer toda a sua delicada caixa torácica. Eu a envolvi
nos braços e afaguei seu cabelo, enquanto ela tentava
controlar essa explosão emocional. Não fazia a mais remota
ideia do que Sophia fora me dizer, mas ela não me parecia
ser o tipo de mulher que se deixasse tomar por uma aflição
como aquela por razões frívolas. Só me restou supor que ela
queria relatar uma questão de certa gravidade.
Quando ela se recuperou o bastante para levantar a cabeça
do meu ombro, inclinou o tronco para trás e me encarou
com uma expressão de intensidade tão assustadora que tive a
sensação de que queria vasculhar as profundezas da minha
alma através dos meus olhos. E então, antes mesmo de ter
consciência de haver decidido me mexer, quase por instinto,
me inclinei e a beijei. Por um momento fugaz, senti que ela
correspondia, relaxando o corpo morno e amoldando-o ao
meu, em meus braços, com as palmas das mãos apoiadas no
meu peito. Mas, da mesma forma súbita, ela deu um pulo
para trás, me empurrou e me fitou, agora com um olhar de
horror confuso.
- Não... ah, não, eu não posso... você não entende - foi
dizendo num impulso enquanto agitava as mãos
desamparadas dos lados do corpo, como se sua aflição
houvesse aumentado centenas de vezes.
- Por favor, me desculpe... - comecei, mas ela balançou a
cabeça freneticamente.
- Não, sou eu que peço desculpas, Bruno... Eu nunca devia
ter... mas eu não sabia a quem mais recorrer - disse ela.
Torceu as mãos e me olhou com expressão suplicante. -
Acho que posso estar correndo perigo.
Meu sangue congelou. Estendi uma das mãos, hesitante, e
apontei para a cadeira da escrivaninha, empurrando
rapidamente o calendário de Roger Mercer e minhas
anotações sobre sua morte para baixo de um livro.
- Você precisa me contar tudo. Que tipo de perigo? Tem algo
a ver com o Dr. Mercer?
Sophia relutou, respirou fundou e pareceu prestes a falar,
mas eis que soaram outra vez batidas urgentes na porta. Ela
girou o corpo e olhou para trás, amedrontada, tapando a boca
com uma das mãos. Esperei, temendo que talvez o pai a
tivesse visto dirigindo-se para minha escada e a houvesse
seguido. Passado um instante, as batidas recomeçaram.
- Dr. Bruno? O senhor está aí?
Era a voz de um rapaz, não a do diretor. Mesmo assim, não
seria prudente que qualquer pessoa visse a moça no meu
quarto, e eu não podia propriamente fingir que não estava, já
que deveria sair nos minutos seguintes para jantar no
refeitório.
- Um momento, por favor, estou me vestindo - respondi,
conduzindo Sophia para trás de uma das cortinas da janela,
que iam até o chão. A situação era tão absurda que trouxe
um pálido sorriso a seus lábios. Apertei seu braço e, quando
ela estava suficientemente escondida, fui até a porta, a abri e
deparei com John Florio na soleira, o rosto atento de
curiosidade.
- Professor Florio! - exclamei, forçando uma expressão
animada na voz. - O que o traz aqui?
- Será que o atrapalhei, Dr. Bruno? - perguntou ele, espiando
à minha volta para inspecionar o que conseguia ver do
quarto. - Posso voltar outra hora, se o senhor tiver
companhia... Pensei ter ouvido vozes.
- É um hábito lamentável que eu tenho de falar sozinho, em
voz alta - retruquei. - É minha única maneira de ter certeza
de vencer um debate.
Ele deu uma risada calorosa e balançou a cabeça.
- Quanto a isso, nem de longe lhe proporcionaram uma luta
justa, Bruno, e aqueles dentre nós que não nos deixamos
cegar pelo preconceito sabemos disso. Vim ver se você vai
jantar na mesa dos professores hoje. Quase não tivemos mais
tempo para uma conversa, e eu gostaria de reivindicar a sua
companhia no jantar.
- Ah, sim, com certeza - respondi. Meus olhos correram para
a cortina e fiz um esforço para atraí-los de volta para Florio. -
Mas, se você não se importa... primeiro eu preciso usar o...
ah... o urinol, antes de sair.
- Oh... é claro. Posso esperá-lo lá embaixo.
Ao fechar a porta, ouvi os pés dele se arrastarem no patamar
por alguns segundos, antes de descerem. Quando tive
certeza de que ele havia chegado à base da escada, abri a
cortina e Sophia saiu de trás, com um sorriso no rosto.
- Tive medo de ficar presa aqui a noite inteira - sorriu.
- Eu poderia pensar em destinos piores - retruquei e lamentei
ter dito isso no instante em que ela reagiu com um sorriso
triste e envergonhado. - Sinto muito - me desculpei,
aturdido. - Achei que não faria bem algum à sua reputação
nem à minha você ser encontrada aqui. Mas, primeiro, você
precisa me falar desse perigo. Alguém a ameaçou? E por
você saber alguma coisa?
Os olhos dela se arregalaram, assustados.
- Sobre o quê? O que eu saberia?
- Eu só estava pensando... é que houve uma morte violenta
no colégio...
- Não tenho nada a ver com isso - rebateu ela, com uma
rispidez surpreendente. Em seguida, suspirou e afastou do
rosto uma mecha solta do cabelo. - É tudo muito
complicado, Bruno... Não posso lhe contar agora, se você
tem que sair correndo. Vou esperar para explicar numa outra
hora.
- Mas... - eu a segurei delicadamente pelos ombros e fixei
meus olhos nos dela - você tem medo de que alguém a
machuque?
Ela mordeu o lábio e revirou o corpo, desvencilhando-se.
- Lembra que eu disse que sonhava com uma grande
aventura que modificasse tudo? Você me falou para tomar
cuidado com os meus desejos. - Passou um instante calada. -
Como é que a gente sabe se pode confiar em alguém, Bruno?
Isto é, quando é preciso confiar a própria vida a essa
pessoa...?
- A resposta é que você não tem como saber, até a pessoa
provar quem é. Mas o que houve com você, Sophia? Em
quem você tem medo de confiar?
- Tudo isso é pura tolice - disse ela, entrelaçando os dedos e
me olhando de relance, como se estivesse sem graça. -
Desculpe, Bruno, eu não devia tê-lo incomodado.
- Não é incômodo algum... - retruquei e me interrompi,
virando bruscamente para trás, ao som de um estalido no
corredor, do lado de fora, mesmo não tendo ouvido passos
na escada.
- Vá indo - disse ela, me empurrando para a porta. - Vou sair
quando tiver certeza de que é seguro. Já estou acostumada a
andar furtivamente pela escola - acrescentou, forçando um
sorriso. - E, Bruno... sinto muito por... você sabe.
- Eu é que devo me desculpar. Não tive a intenção de forçá-
la... - comentei, então parei e esfreguei o polegar no lábio
inferior, todo sem jeito, sem saber ao certo o que seria
melhor dizer.
- Você não me forçou - murmurou ela, timidamente. - A
culpa é minha. Eu me senti atraída por você desde o
começo, mas agora não há nada que eu possa fazer a respeito
disso. Você não tem como entender, Bruno. Talvez eu tenha
uma chance de explicar tudo, mas agora é melhor você ir,
senão meu pai mandará outra pessoa vir buscá-lo.
Tornei a apertar delicadamente seus ombros, sem saber o
que mais fazer, e ela esticou o corpo e deu um beijo suave
em meu rosto.
- Tem certeza de que ficará bem? - perguntei, parando junto
à porta.
Ela fez que sim.
- Vou esperar uns minutos e sair de mansinho. A essa altura,
todos estarão no refeitório.
- Eu quis dizer... quanto ao perigo de que você falou.
Ela encostou um dos dedos na boca e balançou a cabeça,
fazendo sinal para que eu fosse embora. Lancei um último
olhar para ela e fechei a porta atrás de mim, silenciosamente
furioso com Florio por sua interrupção inoportuna.
Lá fora, o sino havia parado e o pátio quadrangular estava
deserto. Um murmúrio de conversa escapava pelas altas
janelas maineladas do grande refeitório, todas iluminadas
pelo brilho de muitas velas, enquanto eu acompanhava
Florio com relutância em direção à porta, pensando em
Sophia.

Depois da refeição, voltei ao quarto para pensar em como
encontraria uma oportunidade de tornar a falar com a moça.
O desabafo anterior dela me deixara imensamente
perturbado. Se, como eu suspeitava, ela sabia mais do que se
dispunha a compartilhar sobre as circunstâncias da morte de
Roger Mercer, era muito provável que corresse grave perigo,
sobretudo se o houvessem matado para silenciá-lo. Mas
quem seria essa pessoa misteriosa que pedia que ela lhe
confiasse a própria vida? E, depois, houvera aquele beijo.
Parei diante da lareira e fuzilei com os olhos o homem no
espelho, com seu queixo por barbear e o cabelo rebelde, e
franzi o cenho para ele em sinal de reprovação. Eu me
comportara como um bronco, disse a mim mesmo. A moça
me procurara num momento de aflição, por acreditar que eu
era capaz de ouvir, mas, em vez disso, eu me atirara em cima
dela feito um garanhão. Meu reflexo no espelho respondeu
com seus olhos grandes e negros, que pareciam arriscar um
argumento contrário: ela havia desejado o meu abraço, fora
receptiva ao meu beijo, no começo, antes que uma dor na
consciência ou uma preocupação com a honra a forçasse a
recuar abruptamente. Sophia sentira-se atraída por mim,
como tinha dito, mas se recusara a explicar sua súbita
mudança de ideia. Será que o obstáculo que eu não podia
compreender era sua afeição preexistente por outra pessoa?
Estaria isso ligado à seu medo? Maldito Florio, pensei com
amargura, apesar de ter apreciado o jeito amistoso do jovem
anglo-italiano e sua conversa descontraída, enquanto os ou-
tros professores pareciam mergulhados na introspecção e
tinham passado todo o jantar lançando olhares apreensivos
para a cadeira vazia de Mercer.
Eu ainda estava contemplando o espelho, mal-humorado,
quando a porta do quarto foi bruscamente aberta, sem a
menor cerimônia, e eu me virei num sobressalto e vi Sidney,
ocupando o vão da porta com sua grande estatura, com uma
pelerine verde curta pendurada num dos ombros e uma
garrafa de vinho na mão direita.
- Fugi do polonês, apenas por uma noite! - anunciou,
triunfante, batendo a porta ao entrar e arrancando a rolha da
garrafa com os dentes, enquanto vasculhava o quarto à
procura de recipientes em que beber. Não encontrando
nenhum, acabou por se sentar na cadeira ao lado da
escrivaninha, embaixo da janela, e bebeu um grande gole
direto do gargalo.
- É como se fôssemos estudantes de novo, Bruno - sorriu,
levantando a garrafa para mim numa imitação de brinde. -
Pois bem - disse e me apontou o dedo com severidade: -
Você me abandonou com Laski o dia inteiro, então é melhor
ter alguma novidade que valha a pena para mim, Bruno,
senão vou achar que foi falta de espírito esportivo de sua
parte. Que diabo você andou fazendo?
Ele me estendeu a garrafa e bebi, agradecido, antes de lhe
fazer um relato sucinto de tudo o que havia acontecido
desde a noite anterior. Mostrei a ele os papéis que tinha
encontrado embaixo da porta, depois falei da minha desco-
berta na biblioteca, de como eu fora parar inesperadamente
na taberna Roda da Catherine, da praga de Rowland Jenkes
narrada por Cobbett, das ameaças que Coverdale me fizera e
de seu desaparecimento posterior e, por fim, do medo de
Sophia de estar em perigo. Procurei transmitir essa última
informação num tom neutro, sem dizer nada sobre meu
interesse por ela nem sobre minha tentativa despropositada
de beijá-la, mas, ainda assim, um sorriso se espalhou pelo
rosto de Sidney e seus olhos ganharam aquele seu velho
brilho lascivo.
- É, Bruno, não admira que você tenha evitado minha
companhia, sua raposa sonsa - comentou ele, me dando um
tapa no ombro e se levantando para recuperar a garrafa. -
Então o diretor tem uma filha, hein? Eu não tive essa sorte
no Christ Church: tudo o que tenho para olhar são velhos
pelancudos e garotos cheios de espinhas. Você anda
praticando sua velha magia italiana com ela?
Sorri, mas desviei os olhos.
- O fato de ela achar que pode estar em perigo é minha única
preocupação - respondi, ignorando seu riso debochado. - Ela
não quis falar, mas desconfio de que pode ser algo ligado ao
assassinato de Roger Mercer. E se ele estiver ligado a esse
ninho de conspiradores católicos na Roda da Catherine...
- Nesse caso, você deve investigar a taberna na primeira
oportunidade - concluiu Sidney, me devolvendo a garrafa,
consideravelmente mais leve. - Esse é um trabalho que eu
não posso fazer, meu rosto é conhecido demais. Foi por isso
que Walsingham quis você, Bruno: você pode fingir que é
um deles. Conquiste sua confiança, infiltre-se entre eles.
Devo dizer que você tem pistas excelentes. Os livros, o
garoto repetindo feito papagaio a Ladainha de Todos os
Santos. Pode ser que eles se reúnam simplesmente para rezar
a missa, ou talvez estejam conspirando contra o governo,
com o apoio da França ou da Espanha. Descubra o que
puder.
Balancei a cabeça, embora a ideia de tentar tapear Jenkes e
seus parceiros mal-encarados na Roda da Catherine não fosse
uma coisa para se tratar com descaso.
- E agora - continuou Sidney, pondo-se de pé e esticando os
braços compridos acima da cabeça -, tenho uma notícia para
você. O guarda florestal de Shotover está mesmo dando por
falta de um cão de caça, um dos cinco lobeiros irlandeses
contratados para uma caçada há uma semana. O cavalheiro
em questão informou que o cachorro se assustara com um
barulho e fugira. Ao que parece, vasculharam a floresta à
procura dele, mas de nada adiantou.
- Ele lhe disse o nome do cavalheiro? - perguntei, ansioso.
- Certamente que sim - retrucou Sidney, encostando-se com
ar descontraído no console da lareira, orgulhoso de sua
informação. - Foi um certo Sr. William Napper, do Solar
Holywell, em Oxford. Mas qualquer caçador lhe dirá que um
lobeiro treinado não sairia em disparada desse jeito: eles são
mais disciplinados que a maioria dos soldados da rainha.
- Napper? - repeti, levantando a cabeça num sobressalto,
admirado. - Isso é estranho.
- Por quê?
- Aquele seu novo amigo, o Sr. Norris, acho que ele guarda o
cavalo na estrebaria do Solar Holywell. Eu o vi indo para lá
hoje de manhã.
Sidney inclinou a cabeça de lado para considerar essa
informação e, nesse momento, notei uma coisa que fez meu
coração ficar pesado feito uma pedra.
- E coincidência. A família é conhecida, é claro - afirmou
ele, voltando à janela para espiar o pátio -, mas William
Napper sempre foi o que chamamos de "papista de igreja":
ele anda na linha e frequenta os ofícios religiosos como um
bom cidadão, ainda que todos saibam que, no fundo, tem um
credo diferente. Foi o irmão caçula dele, George, que se
meteu em encrencas. Estudou em Reims e, no momento,
está detido na prisão da rua Wood, em Cheapside. E curioso
que o jovem Norris se relacione com eles. Acho que
devemos ficar de olho nele também - concluiu Sidney.
Então virou de frente para mim e perguntou: - Bruno, você
pelo menos está me ouvindo?
- Espere um minuto, Philip - pedi. Eu não era o mais
organizado dos homens, mas tinha certeza de não haver
deixado os livros e papéis da escrivaninha no estado de
desordem que observei naquele momento. Saindo depressa
da cama, levantei algumas folhas de papel para confirmar
minha suspeita e então comecei a examinar freneticamente
os papéis que restavam. Alguém tinha vasculhado minha
escrivaninha: o almanaque de Roger Mercer e todas as
teorias que eu rabiscara sobre sua morte tinham sumido.
- Sophia - murmurei, incrédulo.

Capítulo 11

O RITMO REGULAR DA CHUVA nas vidraças das janelas me
acordou cedo na manhã de segunda-feira, antes mesmo que
o sino da capela chamasse os homens do Colégio Lincoln
para as matinas. Uma espessa camada de nuvens voltara
durante a noite, o céu assumira a cor da ardósia e o pátio
quadrangular reluzia com as poças. Mais uma vez, eu tinha
preocupações de mais para dormir bem. Sidney e eu
ficáramos acordados até tarde, trocando teorias, mas só
tínhamos um emaranhado confuso de especulações e nada
conclusivo com que desembaraçar um fio do outro. Eu
precisava encontrar um modo de falar com Sophia Underhill
antes que fosse muito tarde. Ou ela teria tirado da minha
mesa o almanaque de Roger e minhas anotações ou alguém a
teria visto sair do meu quarto e arriscado entrar lá, supondo
que a porta estaria destrancada.
Ao jogar as pernas pela lateral da cama, captei um vislumbre
de algo branco embaixo dela, me agachei e apanhei um
pedaço de papel. Quando o virei, vi que a letra do outro lado
era minha: era a cópia que eu tinha feito do estranho código
no verso do almanaque de Roger e de meus esforços de
escrever algumas frases elementares com ele, tarefa a que me
dedicara na noite da antevéspera, antes de pegar no sono. O
papel devia ter corrido para baixo da cama e escapado à
atenção da pessoa - eu ainda relutava em crer que pudesse
ter sido Sophia - que levara todas as outras anotações da
minha escrivaninha enquanto eu estivera fora com Florio, na
noite anterior. Pelo menos eu ainda possuía uma cópia do
código, mas não chegara perto de rastrear nenhuma carta
que Roger Mercer pudesse ter escrito ou recebido usando
esse recurso. Agora eu tinha certeza de que a pessoa que
vasculhara o quarto dele antes de mim - e talvez Slythurst,
depois de mim - estava à procura justamente de tais cartas ou
documentos. O que eu ainda não sabia era se qualquer desses
vasculhadores os encontrara.
Sidney continuava com o fardo de entreter o palatino, mas
me prometera investigar a ligação de Gabriel Norris com a
família Napper e ver o que poderia descobrir sobre a caçada
de William Napper no dia em que o cachorro havia
desaparecido. Minha tarefa seria visitar a loja de Jenkes na
rua Catte, a pretexto de comprar uns livros, para ver o que
conseguiria descobrir sobre seus negócios ilícitos, e, em
seguida, me preparar para outra refeição na taberna Roda da
Catherine, na esperança de ter mais uma conversa com
Humphrey Pritchard. Confesso ter sentido uma pontada de
dor na consciência ao pensar em manipular a confiança de
um ajudante de taberneiro retardado, mas eu tinha um
trabalho a fazer e procurei me concentrar no futuro a longo
prazo, como me instruíra Walsingham. Ao contrário do meu
empregador, porém, eu não era um político nato, e a ideia de
sacrificar indivíduos em prol do nebuloso conceito do bem
maior não combinava muito comigo. Antes que pudesse
voltar minha atenção para qualquer dessas coisas, porém, eu
precisava encontrar um modo de falar com Sophia.
Eu havia decidido não comparecer às matinas - me pareceu
que uma demonstração de devoção durante minha visita era
suficiente - e, em vez disso, passar a primeira parte da manhã
tentando ler junto à janela, na esperança de ver a moça, se
ela atravessasse o quadrilátero numa de suas visitas regulares
à biblioteca do colégio. Eu sabia que o diretor nunca me
receberia, se eu pedisse para falar diretamente com sua filha,
por isso minha melhor chance era esperar para ver se ela se
arriscaria a sair quando todos os alunos estivessem nas
palestras abertas ao público - presumindo que seu pai ainda
lhe concedesse esse privilégio. Meu estômago gemia com a
falta do desjejum, mas não me atrevi a sair em busca de
comida, para não perder a chance de encontrar Sophia.
Faltava pouco para as nove quando a vi emergir da residência
do diretor. Meu coração deu um pulo involuntário e peguei
rapidamente minha capa para alcançá-la, mas ela não
atravessou o pátio em direção à biblioteca. Usava um traje
mais formal do que de costume - um vestido marfim de
mangas bordadas
prendeu o capuz da capa curta em volta do rosto, para se
proteger da chuva, e se encaminhou com passos resolutos
para o portão fortificado. Às pressas, tranquei a porta do
quarto, mesmo sem ter deixado ali nada de valor, e guardei o
papel dobrado com o código dentro da sobreveste. A bolsa
de Walsingham pesava, pendurada em meu cinto. Se eu
fosse assaltado na rua, perderia tudo, pensei, desanimado,
porém ao menos não importaria se o quarto fosse revistado
na minha ausência. Desci a escada num atropelo e disparei
para o outro lado, em direção ao arco da torre, escorregando
nas pedras molhadas, mas, ao chegar ao portão principal e
entrar na travessa St. Mildred, não havia sinal de Sophia num
lado nem no outro. Ela não poderia ter caminhado tão
depressa a ponto de sumir da rua, ponderei. Concluindo que
devia ter me enganado quanto a seu destino, retornei para o
colégio, fechando o portão atrás de mim, e então ouvi o
murmúrio de uma voz feminina que vinha da guarita do
porteiro.
Bati de leve, abri a porta e vi Sophia, com sua roupa fina,
agachada no chão úmido, com a cabeça da cadela idosa
aninhada no colo. Quando entrei, a moça ergueu os olhos e
me deu um sorriso polido, como se nos conhecêssemos ape-
nas de passagem, e tornou a voltar toda a sua atenção para o
revirar amoroso das orelhas da cadela. Um rosnado baixo de
satisfação emanou da garganta de Bess, que aninhou a cabeça
mais fundo nas saias da moça. Ah, que bom se eu fosse um
cachorro, pensei, e me repreendi no mesmo instante.
- Bom dia, Dr. Bruno - disse Cobbett, afável, do seu posto de
autoridade atrás da mesa. - Hoje o senhor está com um ar
apressado.
- Ah... não, eu... bom dia, Srta. Underhill - cumprimentei,
com uma discreta reverência.
Sophia olhou rapidamente para cima, porém, dessa vez,
tinha a expressão preocupada e não sorriu.
- Olá, Dr. Bruno. Acho que a coitadinha da Bess está ficando
cega, Cobbett - comentou, mal olhando para mim. Imaginei
que devia estar envergonhada do que acontecera na noite
anterior.
- É, parece que ela não vai durar muito - concordou o
porteiro, como se já tivesse se conformado com essa idéia. -
Sophia adora essa cadela - acrescentou. Pisquei os olhos,
surpreso diante da familiaridade com que ele, um criado, se
referia à filha do diretor na presença dela. A moça notou
minha expressão e riu.
- Está chocado porque Cobbett não me trata por "senhora",
Dr. Bruno? Quando cheguei ao Colégio Lincoln, eu tinha 13
anos e meu irmão, 14. Não havia ninguém da nossa idade.
Os professores do colégio não estavam habituados a ver
crianças por perto e deixaram muito claro que não
aprovavam nossa presença. Cobbett e a mulher dele foram as
únicas pessoas gentis conosco. Passávamos metade do tempo
aqui, conversando e brincando com a Bess, não é, Cobbett?
- É, e me distraindo do meu trabalho - disse o velho porteiro
em tom de reprimenda, com evidente afeição.
- Eu não sabia que você tinha uma esposa, Cobbett -
comentei.
- Não, senhor, não tenho mais. Faz uns cinco anos, o bom
Deus achou que era hora de levá-la. Ela foi a lavadeira do
colégio durante anos, e uma das melhores. Mas é assim que o
mundo gira. E, logo, logo, minha velha Bess também terá
partido.
Deu uma fungada vigorosa e virou o rosto para a janela.
- Não diga isso, Cobbett, ela vai ouvir - repreendeu Sophia,
fingindo tapar os ouvidos da cadela.
- A senhorita está muito bem-vestida hoje, Srta. Underhill -
arrisquei.
Ela fez uma careta.
- Minha mãe melhorou o bastante para desejar fazer uma
visita - disse, num tom que transmitia com exatidão o que
achava da ideia. - Vamos à casa de uma conhecida dela no
centro da cidade, uma mulher cuja filha, apesar de ser dois
anos mais nova que eu, ficou noiva recentemente e vai se
casar. Assim, eu e ela, sem dúvida, vamos nos entreter
tocando alaúde e virginal enquanto nossas mães irão
enaltecer as muitas bênçãos e virtudes do casamento, e todas
nos deleitaremos com o sucesso da moça. Como o senhor
deve imaginar, mal posso conter minha empolgação.
Ela disse tudo isso com o rosto perfeitamente impassível,
mas Cobbett interpretou mal o seu sarcasmo.
- Ora, Sophia, você não precisa sentir-se passada para trás.
Você sabe que pode arranjar o marido que quiser, se puser
isso na cabeça - disse ele. Sua intenção foi animá-la, mas não
me passou despercebida a sombra que cruzou o rosto da
jovem nesse momento, como se as palavras de Cobbett lhe
causassem um sofrimento secreto.
Só que não tive oportunidade para maiores especulações,
porque, nesse momento, ouviu-se um barulho estrondoso de
passos nas pedras do lado de fora, e a porta da guarita se
escancarou com tanta força que bateu na parede ao fundo e
chacoalhou tanto que temi que fosse se partir. Na soleira
apareceu Walter Slythurst, tremendo como vara verde, o
rosto mortalmente branco e os olhos esbugalhados, num
pavor tão grande que parecia haver alguém a ameaçá-lo com
uma faca nas costas. O homem estava completamente
encharcado e descabelado e usava uma capa grossa e botas de
montaria, tudo respingado de lama. Lembrei que ele havia
passado a noite fora e me perguntei se o teriam assaltado na
estrada.
- Vá chamar... - engasgou-se, e o esforço de falar fez as veias
de seu pescoço saltarem feito cordas nodosas sob a pele
macilenta. - Vá chamar o diretor. A sala do cofre... ele tem
que ver isso... aquele horror...
De repente, Slythurst se curvou e vomitou no piso de pedra,
agarrando-se à parede com uma das mãos para se manter de
pé.
Cobbett e eu trocamos um olhar rápido e, em seguida, o
velho porteiro começou a se erguer pesadamente da cadeira.
Dei um passo à frente, pois estava claro que a situação exigia
mais urgência do que ele podia oferecer.
- Vou chamar o diretor, mas o que devo dizer que
aconteceu? - indaguei.
Slythurst sacudiu freneticamente a cabeça, os lábios
formando uma linha branca de tão contraídos, como se
temesse outra ânsia de vômito. Fez um movimento com a
cabeça na direção de Sophia.
- Um crime monstruoso... do qual não posso falar diante de
uma dama. O diretor Underhill precisa ver...
O homem se interrompeu outra vez, com a respiração
entrecortada, enquanto os joelhos se curvavam sob o peso
do corpo, e começou a tremer loucamente, como se
estivéssemos no rigor do inverno. Eu já tinha visto esses
efeitos de choque agudo e sabia que era preciso acalmá-lo.
- Cobbett, coloque-o sentado e lhe dê uma bebida forte -
instruí o porteiro. - Vou procurar o diretor.
- Eu posso chamá-lo, se o senhor quiser, hoje ele está
trabalhando no gabinete particular - ofereceu-se Sophia,
levantando-se depressa. Ao ficar de pé, levou uma das mãos
à testa e tropeçou, exatamente como na véspera. Segurei seu
braço e ela se apoiou no meu ombro, agradecida, depois
retirou a mão depressa, ao trocarmos um breve olhar que
registrou o momento de intimidade que tivemos na noite
anterior. Ela se encostou na parede, mas seu rosto
empalidecera quase tanto quanto o de Slythurst. O cheiro
fétido de vômito foi aumentando no cômodo acanhado e,
talvez impelida por esse odor, Sophia tentou chegar à porta,
porém mal a tinha aberto parcialmente quando também se
curvou e vomitou no vão da entrada.
Cobbett revirou os olhos de leve, como se tudo aquilo
fizesse parte da sua função.
- O senhor também quer aproveitar, Dr. Bruno, antes que eu
vá buscar um balde d'água? - perguntou, cansado.
Na verdade, eu estava sentindo meu estômago revirar com o
mau cheiro e fiquei feliz por sair.
- Não se mexam, volto num instante com o diretor - falei, já
na porta.
- Ninguém deve se aproximar da torre - disse a voz rouca de
Slythurst, cujo tremor violento começava a diminuir.
Cobbett trouxera uma de suas garrafas de cerveja e servira
uma boa dose para o tesoureiro num de seus copos de
madeira.
Minhas batidas frenéticas na porta do diretor fizeram Adam,
o velho criado, correr para abri-la. Ao ver que era eu, seu
rosto se crispou numa expressão desdenhosa de franca
antipatia.
- Aqui outra vez, Dr. Bruno?
- Preciso ver o diretor com urgência - disse eu com esforço,
ignorando seu tom.
- O diretor Underhill não pode vê-lo esta manhã, está
extremamente ocupado. E as senhoras saíram - acrescentou,
insinuando com sua ênfase saber exatamente o que eu
queria.
- Pelo sangue de Cristo, homem, não está me ouvindo? O
assunto é urgente. Eu mesmo irei buscá-lo, se for preciso.
Passei por ele, empurrando-o com o ombro, cruzei a sala de
jantar e esmurrei a porta do gabinete.
- O que significa isso? - esbravejou o diretor, abrindo-a. - Dr.
Bruno?
- Ele entrou à força, senhor - choramingou Adam, abanando
as mãos inutilmente atrás de mim.
- O senhor precisa vir imediatamente. Mestre Slythurst
descobriu alguma coisa no cofre-forte. Disse que era um
crime monstruoso. Estava abalado demais com o que viu... e
me pediu que viesse buscá-lo com urgência.
Os olhos do diretor se arregalaram de medo e sua papada
tremeu.
- Um furto, o senhor quer dizer?
- Acho que não - respondi em tom sereno. - Um furto não
costuma fazer um adulto botar todo o desjejum para fora.
Creio que Slythurst viu alguma coisa mais... perturbadora,
para revirar seu estômago daquele jeito.
O diretor me olhou fixo.
- Não é mais um...?
- Não saberemos enquanto o senhor não for investigar.
Underhill meneou a cabeça, em silêncio, e fez um gesto para
que eu saísse na frente.
Ao chegarmos à ala oeste, Slythurst já aguardava junto à
porta da escada do subdiretor. Um pouco de cor parecia ter
voltado a suas faces, mas ele ainda não havia recuperado a
compostura.
- O senhor precisa se preparar, senhor diretor - recomendou,
com a voz ainda rouca. - Voltei esta manhã dos meus
negócios em Buckinghamshire. Parti à primeira luz do
alvorecer e mal tinha regressado ao colégio. Pensei em ir
direto ao cofre-forte guardar os rendimentos que trouxe de
nossas propriedades, antes de trocar de roupa. Bati para
chamar James, porém não houve resposta, e assim fui até
Cobbett buscar a chave extra do quarto. A porta interna que
dá para o cofre-forte estava trancada, como de hábito, mas,
quando a abri, deparei...
Seus olhos tornaram a se arregalar e ele balançou a cabeça,
trincando os dentes com força.
- Deparou com quê? - perguntou o diretor, como se não
quisesse ouvir a resposta.
Slythurst apenas sacudiu a cabeça e apontou para a escada. O
diretor se virou para mim, sem jeito.
- Dr. Bruno, quem sabe o senhor poderia...? O senhor já nos
mostrou que mantém a cabeça fria nessas situações.
Fiz que sim. No fundo, o diretor era um covarde que ficava à
vontade dando ordens em seu pequeno domínio livresco, no
qual os homens desferiam ataques contra os inimigos com a
retórica, mas era um peixe fora dagua quando a violência se
tornava real. Era evidente o seu temor do que estava prestes
a ver e, de repente, o italianinho engraçado já não era tão
risível e ele me queria ao seu lado. Slythurst me lançou um
olhar de esguelha pelos olhos estreitos. Apesar do choque,
parecia não ter esquecido sua antipatia por mim e preferiria
que eu não fosse incluído, mas não estava em condições de
discutir com o diretor.
A escada rangeu inesperadamente sob meus pés, fazendo o
diretor se sobressaltar. Embora fosse mal iluminada, pude
discernir marcas na soleira do quarto do Dr. Coverdale, ao
entrar pela porta que Slythurst deixara aberta. Com uma das
mãos estendidas para trás, verguei o corpo para olhar mais de
perto e vi que as manchas eram pegadas que saíam do quarto
da torre. Pus o dedo numa das marcas e, quando o tirei, ele
estava coberto por uma camada pegajosa, cor de ferrugem.
Ao cheirá-la, percebi que só podia ser sangue, embora não
fosse recente. Eu me virei para meus companheiros com
uma expressão sombria. Mais abaixo, o rosto redondo e
branco do diretor, pálido como a lua na escada escura, se
contraiu, mas fez sinal para que eu avançasse.
A portinha ao fundo da sala da torre também estava
parcialmente aberta. Ao cruzá-la, encontrei uma escada em
espiral que subia até o alto da torre, com largura suficiente
para um homem passar. Na metade da subida havia um
pequeno portal em arco, cuja porta de carvalho tacheada fora
deixada entreaberta por Slythurst, em sua fuga da visão que o
surpreendera. A essa altura, o cheiro de morte era
inconfundível e agrediu minhas narinas quando me
aproximei do limiar. O diretor soltou um breve grito de
susto, encolhendo-se atrás de mim. Respirei fundo, abri a
porta e entrei no cofre-forte do colégio. No mesmo instante,
me senti nauseado e soltei um grito diante do que vi,
enquanto a mão do diretor agarrava as costas da minha
sobreveste, em sua ânsia de enxergar pela passagem. Ali
estava, portanto, a resposta ao mistério do que havia
acontecido com o Dr. James Coverdale.
O cofre-forte parecia mais sufocante e claustrofóbico do que
o quarto do sub-diretor abaixo dele, embora muito disso
tivesse a ver com o cheiro. As dimensões das paredes eram
quase as mesmas, porém o teto de vigas de madeira era mais
baixo, e as duas janelas, uma de frente para o pátio
quadrangular, a outra para a travessa St. Mildred, eram
menores e mais estreitas, com um único arco perpendicular
que deixava a luz escassa desse dia nublado entrar. Ao longo
de cada parede havia diversos baús pesados de madeira, de
tamanhos variados, todos com emblemas heráldicos
pintados, envolvidos em tiras de ferro e trancados por
imensos cadeados. Eram os cofres que continham a receita
do colégio. À esquerda da janela que dava para o pátio estava
James Coverdale. Seus pulsos tinham sido atados um ao
outro e amarrados acima da cabeça a um suporte de ferro, do
tipo fixado na parede para sustentar velas. O homem estava
apenas com a veste interna, e sua cabeça pendia a ponto de
apoiar o queixo no peito, que estava empapado de sangue, já
então fosco e seco. Ele não parecia ter morrido nas últimas
horas. Porém, o mais extraordinário, a visão que me fizera
gritar de susto, era que ele tinha sido flechado numerosas
vezes à queima-roupa. Nove ou 10 flechas se projetavam de
vários pontos do seu tronco, dando-lhe a aparência de uma
almofada de alfinetes - ou de um ícone. Reconheci imedia-
tamente o que estava vendo. Aparentemente, o diretor
também, pois apertou minha manga com mais força, a ponto
de eu sentir o tremor da sua mão. Eu o olhei de soslaio
enquanto, horrorizado, ele fitava sem piscar o cadáver de um
segundo colega, em apenas dois dias. Seus lábios se moviam
depressa e, de início, supus que ele estivesse proferindo uma
oração silenciosa, até me dar conta de que o homem estava
tentando falar, mas não conseguia fazer com que a voz
obedecesse. Quando ele enfim pôde pronunciar a palavra, foi
a mesma que me viera instantaneamente à cabeça:
"Sebastião."
- Quem é Sebastião? - indagou Slythurst, impaciente. Ele
ainda se demorava atrás de nós na escada, com os olhos
desviados, como se relutasse em entrar no cômodo pela
segunda vez.
- São Sebastião - respondi em voz baixa.
O diretor meneou a cabeça, distraído, como que em transe.
- "Ordenaram que ele fosse apreendido e que fosse levado a
campo aberto, onde seus próprios soldados o alvejaram,
atravessando seu corpo com inúmeras flechas" - recitou
Underhill em voz rouca. Não tive dúvida de que as palavras
eram de Foxe. - E olhe - apontou, erguendo a mão trêmula.
Na parede ao lado da janela, irregularmente traçado com um
dedo embebido no sangue do morto, via-se o símbolo da
roda raiada.
- E ali está a arma - disse Slythurst com ar decidido, entrando
na sala e apontando para a parede abaixo da janela, onde um
belo arco longo inglês, entalhado e ornamentado com
arabescos em verde e escarlate, fora displicentemente
apoiado numa aljava vazia, de decoração similar, como se o
assassino o tivesse posto ali com calma e serenidade, uma
vez concluído seu trabalho.
- Mas esse é o arco de Gabriel Norris! - exclamou o diretor,
rouco e incrédulo. - Eu mandei que ele o deixasse trancado
aqui outro dia, depois que atirou no cachorro.
- Nesse caso, é ele o assassino - asseverou Slythurst, com um
aceno que pôs um ponto final em seu pronunciamento.
Dei uns dois passos em direção ao corpo e me agachei para
espiar o rosto.
- Essas flechas não o mataram - informei.
- Ah, não? O senhor acha que ele morreu de febre? -
ironizou Slythurst, que parecia haver recuperado seus velhos
modos com notável rapidez. Notei sua impaciência com a
minha presença no que ele considerava seus domínios.
- Cale-se, Walter - disse Underhill com rispidez, e pela
primeira vez me senti grato a ele. - Continue, Dr. Bruno.
- A garganta dele foi cortada - declarei, e, trincando os
dentes, segurei a cabeleira abundante de Coverdale e
levantei sua cabeça, para que o rosto aterrador ficasse visível.
O diretor soltou um pequeno guincho no lenço. Slythurst
estremeceu e virou de costas. Os olhos do morto estavam
semicerrados, havia um pano enfiado em sua boca, como se
fosse uma mordaça, e seu pescoço fora cortado de um lado a
outro. O ferimento se abriu quando levantei sua cabeça e,
pelas bordas pegajosas, vi que a incisão tinha sido um
trabalho malfeito, ainda que houvesse atingido seu objetivo.
O pescoço exibia marcas de talhos e arranhões dos cortes
interrompidos, como se o assassino tivesse feito várias tenta-
tivas de segurar a faca com firmeza e no lugar certo, o que
sugeria não se tratar de um criminoso experiente.
- Quem teria uma arma dessas? - indagou o diretor, trêmulo.
- Todos os homens da universidade são proibidos de portar
punhais no perímetro urbano...
- Pode ter sido uma navalha - interrompi, em tom grave. -
Ou um canivete, se fosse bem aliado.
- Mas, então, por que crivá-lo de flechas depois, feito um
javali? - perguntou Slythurst, atrevendo-se a dar um passinho
mais para perto - E o desenho: aquilo é uma mensagem?
- O diretor já lhe disse - respondi. - É para impressionar. É
uma paródia do martírio de São Sebastião, assim como a
morte de Roger Mercer pretendeu imitar o martírio de Santo
Inácio. Creio que essa o senhor não poderá descartar como
acidente, senhor diretor - acrescentei, me virando para
Underhill, que se sentara pesadamente num dos sólidos baús,
com o rosto entre as mãos.
- Que disparate! - exclamou Slythurst, já inteiramente
recomposto do susto inicial, ao que parecia. - Roger é
atacado por um cão e o senhor interpreta isso como a
imitação de um martírio? Que assassino chegaria a tais
extremos? Me parece, ao contrário, que o senhor está com o
cérebro febril, Dr. Bruno. Isto, eu lhe asseguro - disse,
apontando para o cadáver perfurado de James Coverdale,
pendurado no suporte de velas -, é claramente uma violência
medonha contra o pobre James, perpetrada por um louco,
mas esses métodos fantasiosos não irão nos ajudar a capturar
um intruso perigoso! Só posso imaginar que alguém tenha
tentado invadir o cofre-forte, James procurou detê-lo e esse
foi o resultado.
Slythurst fez uma pausa, arfante, com as mãos nos quadris,
como se me desafiasse a contestar sua hipótese.
- Um ladrão que parou para fazer desenhos com o sangue de
um homem agonizante? - retruquei, devolvendo seu olhar
insolente. - Nenhuma das portas foi forçada, e ninguém
mexeu nesses baús. O senhor mesmo disse que o cofre-forte
e a porta para a sala externa estavam trancados quando o
senhor voltou, hoje de manhã - lembrei a ele. - Quem teria
uma chave do cofre-forte?
- Nós três - respondeu Slythurst, apontando para o diretor e
o cadáver ensanguentado no canto do aposento. - Cada um
de nós tem uma chave para abrir a porta do cofre-forte, mas
todos os cofres principais daqui têm três cadeados, de modo
que o diretor, o tesoureiro e o subdiretor precisam estar
presentes ao mesmo tempo para abri-los. Nós os chamamos
de baús das três chaves. A maior parte das verbas do colégio
é guardada neles. Os baús que contêm livros contábeis e
documentos, esses eu posso abrir sozinho.
- É uma salvaguarda contra desfalques - acrescentou o
diretor.
- Então, o próprio Dr. Coverdale deve ter destrancado a porta
e deixado o assassino entrar - ponderei -, e o assassino pode
tê-la trancado depois, usando a chave do próprio Coverdale.
- O ladrão deve tê-lo obrigado a abri-la, ameaçando esfaqueá-
lo - especulou Slythurst.
- Mas isso seria inútil, se depois ele não pudesse abrir os
cofres sozinho - aleguei.
- O criminoso não teria como saber. Talvez tenha sido por
isso que James foi morto - disse Slythurst. - O ladrão se
enfureceu, por não acreditar que ele não pudesse abrir os
baús. Deve ter sido isso!
Slythurst parecia incrivelmente determinado a invalidar
minha teoria de que a morte de Coverdale estava ligada à de
Roger Mercer, pensei, e me perguntei se seria apenas por ele
não suportar admitir que eu tivesse razão em alguma coisa ou
porque lhe convinha criar pistas falsas. Afinal, ele era uma
das duas pessoas que tinham a chave do cofre-forte.
- Quando foi a última vez que um dos senhores esteve aqui? -
indaguei.
Slythurst lançou um olhar ansioso para o diretor, que parecia
perdido em seus pensamentos e fazia todos os esforços
possíveis para não olhar para o corpo.
- Com todo o respeito, Dr. Bruno, o senhor foi designado
para investigar esse crime a ponto de começar a nos
questionar, como se fosse o oficial do tribunal de justiça?
- Ora, lhe responda logo, Walter, ele está tentando nos ajudar
- disse o diretor, com ar cansado, para minha surpresa. - Eu
não venho aqui desde a terça-feira passada, quando tiramos
os valores e os papéis para o advogado do colégio. É isso
mesmo, Walter, foi na terça-feira?
- Aquela foi a última vez que estivemos todos juntos aqui -
confirmou Slythurst, me lançando um olhar de desagrado. -
A última vez que estive aqui foi na tarde de sábado, pouco
antes do debate, quando James me deixou entrar para buscar
os papéis de que eu precisava, relacionados com a
administração de nossas propriedades em Aylesbury, junto
com algum dinheiro para a viagem e para despesas diversas
quando eu chegasse. Fui para Buckinghamshire logo cedo,
na manhã de domingo, e não cheguei perto do cofre-forte
até voltar, agora há pouco, como o senhor testemunhou.
Pronto, estou livre de suspeitas?
- acrescentou, os olhos faiscando de sarcasmo.
- Não cabe a mim dizer - retruquei, encolhendo os ombros. -
A que horas o senhor apanhou os papéis na tarde de sábado?
- Pouco antes do debate, como eu lhe disse, portanto
suponho que tenha sido por volta das quatro e meia. Eu
queria deixar tudo em ordem para minha viagem no dia
seguinte, pois sabia que o jantar no Christ Church terminaria
tarde e não queria ter que incomodar James quando eu
voltasse - respondeu ele. Nesse momento, espiou de relance
o cadáver bizarro de Coverdale e baixou a cabeça.
Atravessei o cômodo, de volta ao corpo com suas flechas
protuberantes, e tornei a examiná-lo de vários ângulos,
pondo o dedo nas manchas de sangue na camisa, que haviam
deixado um resíduo espesso.
- É bem possível que esse cadáver tenha estado aqui desde a
noite de sábado - observei. - O sangue está seco e a rigidez
cadavérica que se instala depois da morte já passou. Ele está
começando a apodrecer. Se o tempo estivesse mais quente, a
putrefação estaria mais adiantada e não conseguiríamos
respirar nesta sala. Mas eu me lembrei de uma coisa: o Dr.
Coverdale foi chamado no início do debate. Um dos alunos
lhe transmitiu um recado urgente. Eu me pergunto se,
naquele momento, ele teria sido atraído para a morte.
- E, eu lembro que ele não compareceu ao jantar oferecido
ao palatino naquela noite - murmurou o diretor -, e aquilo
me pareceu estranho, porque ele estivera aguardando a
ocasião com muita expectativa. Ele gosta de impressionar os
homens de Estado. Gostava - corrigiu-se depressa,
balançando a cabeça. - Ai, meu Deus do céu!
Foi uma exclamação de sincera angústia, ainda que não, pelo
que intuí, de tristeza pelo colega. Em seguida, a voz de
Underhill se elevou num tom frenético:
- O senhor tem razão, Dr. Bruno, não poderemos guardar
segredo da forma como ele foi morto. Haverá uma
investigação completa, o oficial de inquirição e o oficial da
corte de justiça serão chamados... o colégio será arruinado! Já
estou pensando em vários benfeitores nossos que não vão
querer ter seus nomes associados a um lugar tão perverso.
Vão cancelar as verbas e doá-las a outras fundações menos
maculadas por atos violentos. Isso é realmente uma obra do
Diabo! Zombar dos mártires cristãos de maneira tão
monstruosa! - exclamou. Underhill enterrou o rosto nas
mãos e, por um momento, achei que estava soluçando, mas
apenas tentava controlar a respiração.
- Bem, isso é obra de alguém capaz de manejar um arco -
disse eu, num tom pragmático. - Mas creio que, a essa
distância, até eu seria capaz de atingir um alvo amarrado à
parede e já morto, de modo que não necessariamente
estamos à procura de alguém com grande habilidade no arco
e flecha. Quem quer que tenha sido, a pessoa planejou esse
assassinato com muito cuidado, para que o ligássemos ao
outro.
- Para que o senhor o ligasse - disse o diretor. - Foxe, os
falsos martírios, tudo isso é teoria sua, Dr. Bruno.
- Que me foi sugerida por um desconhecido - disse eu,
lembrando a ele.
- Sim, não percebe? Aquele papel que o senhor me mostrou,
recortado do Foxe. Isto aqui - disse, gesticulando
desordenadamente para o cadáver caído no canto - foi feito
para o senhor, sabendo que o senhor compreenderia a
referência. - Ao dizer isso, Underhill me olhou com ar
incrédulo, como se tivesse sido a minha teoria que levara
Coverdale a seu destino.
- Mas o assassino não tinha como saber que eu estaria aqui
neste exato momento, para testemunhar a descoberta -
protestei. - No entanto, parece realmente que ele quis se
certificar de que o senhor não deixaria a referência ao
martírio escapar, desta vez, nem se esqueceria de estabelecer
a ligação com a morte de Mercer.
- Então, é provável que seja a mesma pessoa? - indagou o
diretor, me fitando com um olhar cheio de angústia.
- Norris tem uma navalha, o senhor sabe - disse Slythurst, de
repente. - Ele se barbeia todos os dias, imaginem só!
Refleti, coçando a barba.
- Uma navalha e um arco galês. Alguém está empenhado em
fazer com que as provas apontem para Norris, isso me parece
claro.
- O senhor acha que não pode ter sido ele? - indagou
Underhill, ainda me olhando como uma criança ansiosa por
ser tranquilizada.
- Pelo pouco que conheço de Norris, não consigo acreditar
que ele cometesse um assassinato tão espalhafatoso e depois
esquecesse uma arma que aponta diretamente para ele. Além
disso, por que faria isso?
- James detestava os alunos plebeus pagantes, vivia
esbravejando contra eles. O senhor mesmo o ouviu, no
jantar do diretor - disse Slythurst.
- O que dificilmente seria motivo para que um deles o
matasse - retruquei.
- Por outro lado, alguém com um profundo ressentimento da
presença dos plebeus poderia pensar em matar dois coelhos
de uma cajadada só, como dizem vocês, ingleses: despachar
o Dr. Coverdale, por uma razão ainda desconhecida, e, ao
mesmo tempo, deixar indícios para incriminar Norris. Havia
marcas na escada, pegadas. Se tivéssemos mais luz, eu
poderia examiná-las, mas receio que agora a chuva já tenha
apagado o rastro lá fora.
- Walter, você poderia descer e pedir um lampião a Cobbett?
O Dr. Bruno tem razão: devemos examinar a sala
cuidadosamente, para não tirarmos conclusões precipitadas,
e está escuro demais. E uma bacia dagua - acrescentou. -
Precisamos lavar aquela marca da parede antes de chamar o
oficial de inquirição.
Os olhos de Slythurst se arregalaram:
- Aquela marca, senhor diretor, com certeza faz parte das
provas, não? Pode ter alguma importância... Não devemos
mexer...
- São essas as minhas instruções, Walter. Agora, por favor,
faça o que estou pedindo.
Slythurst olhou para mim e em seguida para Underhill, com
uma indignação momentânea por receber ordens como um
criado, mas, incapaz de pensar numa razão para
desobedecer, se virou e, no instante seguinte, ouvimos seus
passos ruidosos na escada.
- Dr. Bruno - disse o diretor Underhill, pondo-se de pé com
grande esforço e segurando meus pulsos. Toda a sua pompa
havia murchado e ele parecia amedrontado e velho.
Descobri que sentia pena do homem, pelo escândalo que
explodiria em consequência dessa segunda morte. - O
senhor percebeu isso, e eu não. Descartei a sua teoria sobre
Foxe, que me pareceu absurda, e foi conveniente para mim
evitar prejuízos para o colégio e me deixar guiar por outras
pessoas, principalmente por James, ao apresentar a morte de
Roger como um acidente. Mas agora devo pedir humildes
desculpas e reconhecer que o senhor estava certo: parece
que há um louco fazendo os docentes de alvo nessas ter-
ríveis caricaturas de martírio cristão. Talvez, se James e eu
não houvéssemos ridicularizado a sua ideia, ele não estivesse
morto.
- Se isto lhe serve de consolo, senhor diretor - retruquei,
com um tapinha gentil em sua mão -, acho que o Dr.
Coverdale já havia morrido quando o senhor ridicularizou a
minha teoria na noite de sábado. Mas repito: alguém no
Colégio Lincoln sabe quem fez isso. É muito provável que
ele seja um dos seus.
- O senhor tem a firme convicção de que é o mesmo
assassino? - indagou ele, ainda agarrado à minha manga.
- Parece que sim.
- Então, pode ser que haja mais vítimas, se ele não for
detido?
- Não sei, senhor diretor. Até sabermos por que esses dois
foram transformados em mártires, não podemos fazer
previsões sobre esse assassino nem saber o que ele espera
ganhar com toda essa ostentação.
- Dr. Bruno... - a voz de Underhill falhou e ele hesitou,
procurando respirar com regularidade. - Sei que o colégio
não pode ter esperança de esconder isso do mundo. Mas
esses assassinatos serão o fim do meu trabalho como diretor,
e talvez do colégio. Não somos tão ricos quanto algumas
instituições e, se não houver mais doações, os estudantes
abastados procurarão outro lugar. E não é só por mim que
receio, Dr. Bruno. Quais serão as perspectivas da minha
filha, se eu deixar de contar com a mercê de Leicester?
Hein? - e sacudiu meu braço com certa força, como se isso
pudesse arrancar uma resposta mais rápida.
- Sua filha tem qualidades próprias a favor dela, com ou sem a
proteção do conde.
Underhill balançou a cabeça.
- Não é assim que funciona a sociedade, como o senhor deve
saber. Entre as boas famílias de Oxford, Sophia é tida como
indomável. Só a minha reputação junto ao conde é que dá a
ela algum tipo de esperança. Sem isso, nenhum homem de
respeito a tomará por esposa. Ela não deveria estar num lugar
como este, já que a mãe se recusa a acompanhá-la, mas sou
um pai tolo e indulgente demais e não suporto a idéia de
mandá-la para longe. No entanto, cada dia que ela passa
neste colégio prejudica mais a sua reputação.
Ele respirou fundo e percebi que o choque trouxera à tona
todas as suas emoções. Cheguei quase a esperar que o
homem irrompesse em pranto, mas ele se recompôs e
prosseguiu:
- O conde de Leicester terá que saber desta notícia terrível, é
claro, mas as coisas correriam muito melhor para nós se ele
só a ouvisse quando também pudéssemos apresentar a ele
um assassino detido. Percebe?
- Nesse caso, o senhor deve torcer para que seu oficial de
inquirição e seu oficial da corte de justiça trabalhem depressa
- respondi, fingindo não adivinhar o que ele queria dizer.
- Aí é que está, eles não trabalham. E lhes falta sutileza para
compreender um crime dessa natureza. Tenho medo de que
se metam em questões da vida acadêmica que pareceriam
curiosas para todos, exceto os doutos como nós. Já o
senhor... - Underhill deixou sua implicação no ar, me
olhando com uma expressão de cautelosa esperança.
- Eu, senhor? - retruquei, levantando as sobrancelhas com
surpresa exagerada. - Um estrangeiro? Um católico? Um
homem tido como praticante de feitiçaria, que acredita
abertamente que a Terra gira em torno do Sol?
Underhill baixou os olhos e soltou meus braços.
- Peço perdão por minhas palavras precipitadas, Dr. Bruno. O
medo gera esses preconceitos, e somos uma nação temerosa,
nos últimos tempos. E agora, esse medo vem nos assediar até
neste santuário do saber...
Sua voz se extinguiu e ele lançou um olhar desamparado para
a janela do lado oposto, longe do cadáver de Coverdale.
- O senhor está pedindo minha ajuda para encontrar esse
assassino? - indaguei, em tom enérgico.
O diretor se virou para mim com uma vaga esperança nos
olhos miúdos e lacrimosos:
- Em circunstâncias normais, eu não me atreveria a abusar da
boa vontade de um hóspede, mas esse assassino parece
querer que o senhor se envolva. Aqueles papéis que o
senhor me mostrou... achei que alguém estava se divertindo
à sua custa, mas com isso - ele levantou a mão apontando
para trás, em direção ao corpo -, talvez o senhor possa
desmascará-lo antes que mais sangue seja derramado.
- Então, o senhor acredita que ele encontrará mais vítimas? -
perguntei, talvez com excesso de rispidez.
Underhill se virou para mim e piscou os olhos depressa,
balançando a cabeça:
- Eu só quis dizer... é que parece claro que estamos lidando
com um monstro endemoniado ou louco...
Nesse exato momento, houve um rangido e um baque surdo
atrás de nós. Pelo canto do olho, vislumbrei um movimento
repentino, girei o corpo feito um chicote e vi Coverdale
estrebuchar e mudar de posição. O diretor soltou um grito e
tornou a agarrar meu braço. Eu me peguei prendendo a
respiração e, por um momento medonho, senti um gélido
pavor perpassar meu corpo, ao perguntar a mim mesmo se
ele ainda não estaria morto e teria ficado pendurado ali,
numa agonia mortal, durante todo aquele tempo. Mas,
quando minha respiração voltou ao normal e dei um passo à
frente, hesitante, percebi que o nó da corda que o segurava
no suporte havia começado a se desfazer.
- Está tudo bem, diretor Underhill - acalmei-o gentilmente.
Pelo tremor violento de suas mãos, grudadas em meu braço,
percebi que ele estava passando por seu próprio choque e
que a cerveja forte de Cobbett também não lhe faria mal. -
Foi só a corda. Mas precisamos descer o corpo.
- Por que ele veio para cá só com a roupa de baixo? -
perguntou o diretor, baixinho, ainda sacudindo a cabeça,
enquanto eu o ajudava a se sentar novamente no baú maior.
- Bem, parece claro que ele foi forçado a subir. Talvez o
assassino o tenha surpreendido quando ele trocava de roupa
- sugeri, enquanto algo perto da janela chamou minha
atenção. Ao lado do arco, uma pilha de tecido preto fora
cuidadosamente dobrada e posta no chão. Fui até lá e a
levantei. Era uma toga acadêmica longa, de corte e debrum
indicativos do grau de doutor em teologia, e estava
endurecida pelo sangue seco, em especial na frente e nas
mangas.
- É a toga de James - disse Underhill, desviando o rosto.
- Acho que nosso assassino deve tê-la vestido por cima da
própria roupa ao cometer o crime - refleti. - Eu tinha me
perguntado como alguém poderia sair andando pela
faculdade com a roupa toda respingada de sangue, na
quantidade que esse assassinato deve ter produzido.
Passos na escada ecoaram e, um minuto depois, Slythurst
apareceu carregando um lampião. Ele me fuzilou com os
olhos por um instante e o entregou ao diretor, que ainda
tremia e torcia as mãos. Peguei o lampião antes que o diretor
pudesse deixá-lo cair e um breve sorriso bailou nos lábios
secos de Slythurst. O tesoureiro pareceu interpretar a inércia
de Underhill como um convite para assumir o controle da
situação.
- Em primeiro lugar, devemos mandar chamar o oficial de
inquirição para que o corpo seja retirado, a fim de que o
cofre-forte possa ser limpo e devolvido à sua função
adequada e o inquérito possa ser realizado, para que o pobre
James tenha um sepultamento cristão. E preciso notificar a
família. Creio que ele tem um irmão nas terras baixas de
Norfolk, não é, diretor?
Mesmo sem receber resposta, ele continuou, como se não
tivesse esperado ouvi-la:
- E creio que seria o mais adequado, ao anunciarmos a morte,
divulgar que ele foi agredido por um ladrão desconhecido,
que tentou invadir o cofre-forte. Não vamos querer que os
estudantes façam mais especulações inúteis - disse e me
lançou um olhar de advertência.
- Muito sensato, Walter - disse o diretor, voltando a atenção
para Slythurst com uma expressão distante e intrigada, como
se mal o reconhecesse. - Isso lhe dará mais algum tempo,
não é, Bruno? - indagou, virando-se para mim, com a mesma
expressão de vaga angústia.
Slythurst virou a cabeça rapidamente:
- Tempo para quê?
- O diretor Underhill pediu que eu examinasse as
circunstâncias das duas mortes a fim de descobrir alguma
ligação - respondi, retribuindo seu olhar raivoso com uma
expressão impassível.
O rosto de Slythurst empalideceu de fúria e seus lábios quase
desapareceram.
- Com todo o respeito, senhor diretor - gaguejou ele,
engasgado de indignação -, isso é prudente? O Dr. Bruno
pode ter a imaginação viva, mas dificilmente seria sensato
envolver um forasteiro - pronunciou a palavra com gélido
desdém - num assunto que afeta tão intimamente a vida do
colégio. O que poderá vir à tona... - parou e me encarou,
com um músculo pulsando no rosto, e mudou de tática. -
Além disso, ele irá embora em poucos dias.
- Ele já está envolvido, Walter - disse o diretor, pesaroso. - O
Dr. Bruno recebeu uma comunicação ligada à morte de
Roger Mercer, de alguém que parece saber alguma coisa...
talvez até conheça o próprio assassino.
- Com certeza, são estudantes pregando uma peça - rebateu
Slythurst, correndo os olhos do diretor para mim sem
disfarçar a raiva. - Eu gostaria de falar mais com o senhor
sobre isso, diretor, mas em particular.
Underhill meneou a cabeça, cansado:
- Nós conversaremos, Walter, mas, primeiro, há muito que
fazer e precisamos trabalhar juntos. Vá buscar a água, eu
mesmo limparei a parede. Não quero que fique nenhum
vestígio daquilo, e confio em que nenhum de vocês o
mencionará, certo? Talvez você possa encontrar um
mensageiro adequado para levar uma carta ao oficial de
inquirição - disse a Slythurst. - Irei agora para minha
biblioteca escrevê-la. Dr. Bruno, como o senhor gostaria de
proceder?
Desejei que o diretor não houvesse mencionado minha carta
misteriosa. Eu ainda não confiava em Slythurst. Tínhamos
apenas sua palavra de que ele havia buscado seus papéis no
cofre-forte na tarde de sábado, antes do debate. No entanto,
eu não sabia ao certo qual era o valor de sua palavra, depois
de suas mentiras propositais sobre a revista que ele fizera no
quarto de Roger Mercer. Se alguém tinha facilidade de
acesso ao quarto do subdiretor e ao cofre-forte da torre, era o
tesoureiro. O que quer que meu correspondente soubesse,
quanto menos pessoas tomassem conhecimento de que ele -
ou ela - tentara compartilhá-lo comigo, melhor. E agora, o
próprio assassino queria essa morte explicitamente ligada à
Roda da Catherine - e o diretor queria apagar esse elo com
água. Eu começava a ficar boquiaberto. O único dado
aparentemente claro era que a saída prematura de Coverdale
do debate constituía a chave do seu assassinato.
- Eu gostaria de encontrar o estudante que levou o recado ao
Dr. Coverdale durante o debate, para descobrir o que o fez
voltar com tanta urgência ao colégio.
Underhill balançou a cabeça:
- Vou interrogar algumas pessoas. Mas imploro a vocês dois
que não digam nada disso aos estudantes, até eu ter a
oportunidade de fazer um anúncio no jantar. Até lá, tentarei
descobrir um modo de explicar isso com o mínimo de
alarme possível.
- Antes disso, diretor Underhill - acrescentei -, creio que eu
deveria procurar Gabriel Norris. Se ele deixou o arco e as
flechas no cofre-forte, como o senhor havia ordenado,
precisamos saber quando, e se o Dr. Coverdale o deixou
entrar. E creio que o senhor deva ir para o seu gabinete,
tomar um copo grande da sua bebida mais forte e pôr as
ideias em ordem por um momento, antes de decidir o seu
próximo passo.
- Belo dia este em que o diretor de um colégio de Oxford é
orientado sobre como deve proceder por um papista italiano
- resmungou Slythurst, mas o diretor tossiu e fez um ar
constrangido e grato ao mesmo tempo.
Descemos a escada com muita cautela, eu à frente com o
lampião, parando para examinar os vestígios das pegadas
ensanguentadas ainda visíveis nos degraus de pedra. Elas
continuavam sutilmente visíveis no assoalho dos aposentos
de Coverdale, embaixo, mas, afora isso, a sala principal e o
quarto contíguo na torre estavam limpos e arrumados. Fui
até o outro lado e examinei a porta que dava para a escada do
pátio.
- A sala estava trancada hoje de manhã, quando o senhor
chegou? - tornei a perguntar a Slythurst.
Ele bufou de impaciência.
- Eu já lhe disse isso três vezes. Supus que James tivesse saído
e queria guardar as somas em dinheiro e os documentos que
trouxe de Aylesbury, por isso peguei emprestada a chave
extra de Cobbett e entrei. O que o senhor está tentando
insinuar, Dr. Bruno?
- Apenas que não há sinal de que a porta da escada para a
torre ou esta porta principal dos aposentos do Dr. Coverdale
tenham sido forçadas. Portanto, ele deve ter permitido
voluntariamente a entrada de seu assassino, ou então foi
morto por alguém que já possuía uma chave.
Slythurst me dirigiu um olhar tão venenoso nesse momento
que seria fácil acreditar que ele fosse capaz de um homicídio.
Eu me virei para Underhill, cujo rosto estava pintado pelas
sombras fantasmagóricas da luz bruxuleante do lampião.
- Será preciso lacrar a torre até que o cadáver seja retirado, de
qualquer modo - recomendei. - Se o senhor mandar que um
dos criados do colégio fique ao pé da escada, logo saberemos
se alguém tentou se aproximar. Pode ser que o assassino
tente voltar, talvez para procurar alguma coisa no quarto.
Mas eu mesmo gostaria de dar uma olhada, para ver se ele
deixou algum rastro.
- Sim, sim, parece sensato - concordou o diretor, com o rosto
tenso e ruborizado. - Preciso mandar chamar o oficial de
inquirição. Walter, agora você é o funcionário mais graduado
daqui, abaixo de mim, e precisarei da sua ajuda para decidir o
que dizer à comunidade acadêmica. Por gentileza, quer vir
comigo até minha residência? E diga a Cobbett que mande
um dos empregados da cozinha ficar junto à escada da torre.
Slythurst assentiu com a cabeça e disparou escada abaixo em
direção à guarita do porteiro. Underhill tornou a se virar para
mim e intuí alguma coisa não dita no olhar demorado que
me lançou:
- As flechas foram disparadas depois de ele morrer, o senhor
disse?
- É difícil saber, mas creio que o sangue jorrou
principalmente do ferimento na garganta. Se ele ainda não
estava morto, não demorou para morrer. Não creio que
tenha sentido o que aconteceu, se é isso que o senhor
pretende perguntar.
- Então, será que foi rápido? - indagou o diretor, quase
esperançoso.
Hesitei, mas resolvi que seria mais generoso não me deter
nos diversos
cortes que vira no pescoço de Coverdale. O oficial de
inquirição não tardaria a descobri-los.
- Foi uma morte terrível, não vou fingir que não. Mas já vi
outros homens com a garganta cortada... eles não costumam
se demorar neste mundo.
Underhill me olhou, com a cabeça inclinada de lado. A vela
do lampião estava apagando e o cômodo tornou a ficar
envolto em sombras, embora ainda fosse cedo. Me pareceu
que o cheiro de putrefação se intensificava, vindo da escada
da torre atrás de nós.
- O senhor tem levado uma vida estranha para um filósofo,
Dr. Bruno - disse ele, baixinho. - A que levamos aqui deve
lhe parecer serena e protegida. Eu achava que era, até esta
semana. Eu me escondi do mundo aqui, pensando que um
colégio de Oxford era uma espécie de santuário. Andei
fechando os olhos por muito tempo, e isso levará à minha
destruição e à da minha família.
- Diretor Underhill - disse eu, me inclinando para ele -, se
existe algo que o senhor sabe ou de que suspeita, qualquer
coisa que possa ter alguma relação com essas mortes, não
esconda. Para o que o senhor fechou os olhos?
Ele deu uma olhadela nervosa para a porta às suas costas,
com um movimento rápido de roedor, depois chegou mais
perto, o rosto redondo iluminado por baixo pelo lampião, e
disse:
- O seu amigo, Sir Philip...
- O que tem ele?
- Ele não deve ficar sabendo disso. O senhor me promete,
Dr. Bruno, que não falará com ele sobre o que está
acontecendo dentro destas paredes? Sir Philip é sobrinho de
Leicester e se sentiria obrigado a contar tudo a ele.
Nesse momento, ouvimos passos embaixo e Slythurst
reapareceu. Underhill balançou de leve a cabeça para mim,
me alertando a não dizer mais nada, em seguida olhou para o
tesoureiro, com ar apreensivo, e então se encaminhou para a
porta, chamando:
- Walter?
- Senhor diretor, me ocorreu - começou Slythurst, cruzando
as mãos com ar adulador - que, se o Dr. Bruno vai examinar
este cômodo, talvez seja melhor eu ajudá-lo. Dois pares de
olhos são melhores do que um, afinal.
- Muito bem. Mas eu necessito de você, Walter. Vá ao meu
alojamento depois, o mais depressa que puder.
Ele me lançou um último olhar suplicante, antes de fechar a
porta ao sair. Seus passos ecoaram na escada enquanto ele
descia para o pátio, pisando duro.
Slythurst inclinou a cabeça para trás e deu uma olhada
superficial na sala.
- E então, o que acha que vai encontrar aqui?
- Eu havia pensado, Mestre Slythurst, que o senhor teria uma
ideia melhor do que eu sobre o que um homem poderia
esperar encontrar neste aposento - respondi, polidamente.
Ele se virou para mim nesse momento, torcendo a boca num
desdém indisfarçável:
- E eu poderia muito bem perguntar o que você tirou deste
cômodo, Bruno, na última vez que nos encontramos aqui,
em meio aos pertences de um morto. Que lembrança você
levou naquele momento?
- Não levei nada - respondi em tom brando, mas assim
mesmo desviei o rosto e me encaminhei para a janela. A
chuva batia forte na vidraça, descendo em regatos pelo vidro
e embotando a paisagem.
- É mesmo? - perguntou ele, agora falando entre dentes, e
ouvi sua voz junto ao meu ombro. - Você pode ter enganado
o diretor, para que ele confiasse em você, Bruno, mas eu o
vejo tal como você é.
- E como sou? - indaguei, cruzando os braços como se não
me importasse de modo algum.
- Você é um daqueles homens que se julgam suficientemente
talentosos para viver apenas da sedução e da inteligência, e
não do trabalho árduo. Procura cair nas graças de homens de
posição elevada, no intuito de viver à sombra dourada dos
seus favores. Chega ostentando a sua fama e a sua proteção
por parte de homens da corte e de reis, mas isto aqui é a
Universidade de Oxford, meu senhor, e não nos
impressionamos com essas bagatelas. E você não obterá
cargo nenhum aqui, por mais que procure se envolver em
assuntos que não são da sua conta.
Ao terminar esse discurso, havia espuma nos cantos de sua
boca, e ele fez uma pausa para se recompor, os olhos ainda
inflamados por um ódio que me surpreendeu, tal a sua
intensidade.
- Você acha que estou fazendo manobras para fisgar um
cargo aqui? - repeti, incrédulo.
- Não vejo por que mais estaria tentando se tornar
indispensável para o diretor, intrometendo-se nessas mortes
- retrucou ele.
- Não, você não veria mesmo, porque não conseguiria se
imaginar fazendo esforço por nenhuma razão que não fosse
o seu benefício imediato - respondi. Descruzando os braços,
caminhei direto para ele, até ficar a meras polegadas do seu
rosto, desafiando-o a me olhar nos olhos. - Vou lhe dizer
uma coisa, Mestre Tesoureiro. Fui fugitivo em meu próprio
país durante três anos. Vi homens serem assassinados com a
displicência de garotos atirando pedras em passarinhos,
esfaqueados pelos sapatos que calçavam ou pelas poucas
moedas que tinham, e vi a lei desviar os olhos, porque era
trabalhoso demais levar alguém à justiça. Porque, para a lei,
os mortos valiam tão pouco quanto aqueles que os haviam
matado, e que provavelmente seriam mortos no dia seguinte,
por sua vez. E tenho a convicção de que nenhuma vida
humana vale tão pouco que, ao ser encerrada pela violência,
devamos dar de ombros para o crime e deixar um assassino
impune. É por isso que eu me envolvo, Mestre Slythurst:
isso se chama justiça.
A veemência da minha resposta foi pelo menos igual à dele,
mas, apesar de Slythurst ter dado um passo atrás, o olhar que
cravou em mim foi de um sarcasmo sutil, e fui eu o primeiro
a desviar os olhos, consciente de que todas as minhas
palavras altivas tinham sido em vão. Meu interesse em
descobrir esse assassino estava, acima de tudo, em provar
meu valor a Walsingham e ao conde de Leicester, porque
essa era minha primeira missão e haveria recompensas e
promoções se eu me saísse bem.
- Vamos voltar ao assunto em pauta - disse eu, bruscamente.
- Afinal, espera-se que prestemos contas um do outro.
Embora a sala estivesse mais arrumada do que na última vez
que eu estivera ali, fora deixada num estado de transição, e
senti uma pontada repentina de dor pela perda de James
Coverdale, que mal havia usufruído de um dia como
subdiretor, antes de ter um destino tão macabro quanto o
daquele que o precedera. Eu pouco havia encontrado do que
gostar nesse homem, mas fora pavorosa a morte que tinha
batido à porta dos cômodos que ele cobiçara durante tanto
tempo, quando mal desempacotara seus pertences. Slythurst
se ocupou prontamente dos maços de papel na escrivaninha
de Coverdale. Isso não me agradou, pois eu imaginava que
qualquer pista sobre o que acontecera com o morto na noite
de sábado provavelmente se encontraria entre seus
documentos, e já estava prestes a sugerir que dividíssemos o
trabalho de examinar a escrivaninha quando notei um borrão
de sangue no piso à frente da lareira.
Ao me agachar para olhar mais de perto, vi que um tijolo da
câmara de fogo, à direita da parte frontal da lareira, estava
ligeiramente desalinhado, projetando-se da parede como se
não estivesse preso no reboco. Consegui segurar suas laterais
apenas com as pontas dos dedos, mas não tive apoio
suficiente para retirá-lo do lugar e, quando meus dedos
escorregaram e ralei as articulações, soltei um gemido.
- O que você achou aí? - perguntou Slythurst. Ele levantou
depressa a cabeça, largou o livro que estava examinando e
correu para se agachar ao meu lado. Chupei o sangue dos
dedos ralados e tentei de novo. Com alguma paciência,
balancei delicadamente o tijolo de um lado para outro,
sentindo-o se soltar um pouco mais a cada vez que atritava
com os tijolos de ambos os lados.
- Vamos, homem! - resmungou Slythurst. - Quer que eu
tente?
- Está sob controle - disse eu, e em poucos minutos o tijolo
estava solto, revelando uma cavidade escura na lateral da
câmara de fogo. Enfiei a mão na abertura e vasculhei até
onde pude, mas senti apenas os tijolos no fundo do buraco. -
Nada - comentei, decepcionado, me apoiando nos
calcanhares.
- Saia da frente - grunhiu Slythurst, me empurrando
bruscamente de lado com o cotovelo. Seu braço magrela
pareceu desaparecer mais fundo no buraco, mas, embora ele
se mostrasse decidido a provar que eu estava errado, também
saiu de mãos vazias. - Que o diabo o carregue, aquele filho
de uma cadela! - xingou, massageando os nós dos dedos.
- Bem, quem veio aqui dessa vez sabia onde procurar -
comentei, amargo, com os joelhos estalando ao me levantar.
- E parece ter achado o que estava procurando.
- Ao diabo com isso! - vociferou Slythurst.
Parecia que ele tinha tomado a descoberta do esconderijo
vazio como uma ofensa pessoal. Perguntei a mim mesmo se
a cavidade na lareira teria contido o que ele andara
procurando depois da morte de Roger Mercer - não era um
espaço grande, mas poderia facilmente ocultar um maço de
cartas ou documentos - e se, consequentemente, sua raiva se
voltava contra ele próprio, por não o haver encontrado na
busca anterior. Dessa vez, porém, não havia sinal de uma
revista frenética dos pertences de Coverdale. Era evidente
que quem o matara tinha conhecimento do tijolo solto e fora
direto buscar o que estava escondido ali, depois de lavar das
mãos o sangue do subdiretor. Mas isso só podia significar que
a pessoa que tinha revistado a sala da torre antes da minha
chegada, na manhã de sábado, enquanto Roger ainda estava
sendo destroçado pelo cachorro no jardim, não sabia do
esconderijo e, portanto, não era a mesma pessoa que tinha
matado Coverdale. E, por essa avaliação, também não
poderia ter sido Slythurst, a menos que ele fosse um ator de
extraordinário talento. Afinal, ele era a única outra pessoa
que poderia legitimamente pedir uma chave do alojamento
do subdiretor, e ninguém saberia confirmar ou desmentir a
hora exata de sua partida para Buckinghamshire ou de seu
regresso.
Slythurst parecia impaciente para ir embora. Sem dúvida ele
chegara à conclusão de que não havia mais nada de útil para
se achar.
- Não vejo que outro objetivo possamos alcançar aqui -
resmungou, encaminhando-se para a porta e sacudindo as
chaves, como que num sinal de que o meu tempo se
esgotara. - O diretor precisa de mim e eu preciso trancar esta
sala, portanto, se você já terminou...
- Diga, Mestre Slythurst: o senhor acredita que o assassino
tenha achado o que o senhor mesmo tivera a esperança de
encontrar aqui, depois da morte de Roger Mercer?
O olhar que ele me lançou exprimia desprezo.
- Não sei do que você está falando. Não tirei uma chave do
bolso de um homem nos estertores da morte, como certas
pessoas - disse, com o rosto tão próximo do meu que pude
sentir o cheiro acre de seu hálito.
- Só estou perguntando porque, aparentemente, dois homens
morreram pelo que estava escondido naquele buraco, e
presumo que o senhor saiba o que era.
- Supõe-se que isso deveria ser um aviso suficiente para os
que são curiosos demais - retrucou ele, com um sorriso que
varou seu rosto magro feito um arame. - Tenho que ir ao
encontro do diretor. É melhor você tratar de descobrir o
dono da arma do crime. Parece um lugar útil para iniciar as
suas investigações, Dr. Bruno, já que você teve a gentileza de
oferecer os seus serviços ao colégio.
Ao passar por ele no vão da porta, com um último olhar de
desdém, me peguei desejando fervorosamente que ele se
revelasse o assassino, para que eu pudesse ter o enorme
prazer de ver aquele riso sarcástico arrancado de seu rosto
pálido, e no mesmo instante procurei me livrar desse
perigoso preconceito.
Ao pé da escada, um homem grande, corpulento e quase
sem pescoço bloqueava a arcada que levava ao pátio
quadrangular. Ele se assustou ao ouvir barulho às suas costas
e levou rapidamente a mão à cinta. Não pude deixar de sorrir
ao ver que ele carregava ali uma espécie de garfo de cozinha,
como arma improvisada. Então, era esse o guarda designado
para manter a torre lacrada.
- Calma, Dick - disse Slythurst, erguendo uma das mãos. O
homem baixou a cabeça com respeito e se pôs de lado, nos
deixando passar para a chuva que continuava a jorrar a
cântaros, espirrando nas poças que se espalhavam entre as
pedras do pátio. Cobri as orelhas com a sobreveste e já ia
entrando no dilúvio quando três estudantes saíram correndo
e rindo da escada ao lado, segurando as pastas de couro sobre
a cabeça para se protegerem do mau tempo. Reconheci um
deles como sendo Lawrence Weston, o garoto que me
acompanhara até o local do debate na tarde de sábado, e me
aproximei para falar com ele.
- Jovem Weston, será que posso solicitar sua ajuda? -
perguntei, em tom urgente. Ele pareceu meio assustado e
percebi que, na pressa, eu havia segurado com força a manga
de sua beca.
- Eu ajudarei, se puder, Dr. Bruno - respondeu ele, sem jeito,
pois ficou claro que meus modos lhe pareceram impróprios.
- Mas vamos sair da chuva - acrescentou, com um sinal para
voltarmos ao abrigo da escada da qual acabara de sair. Notei
que Slythurst observava nosso diálogo com desconfiança.
Quando o flagrei olhando, ele se enrolou prontamente em
sua capa e saiu a passos rápidos em direção aos aposentos do
diretor, do lado oposto.
- Um rapaz, um aluno - disse eu a Weston, quando
estávamos novamente abrigados -, entregou uma mensagem
ao Dr. Coverdale durante o debate de sábado à noitinha,
fazendo com que ele se retirasse assim que a leu. Você sabe
quem era ele?
- Como poderia saber, senhor? - respondeu ele, talvez
soando mais descortês do que pretendia, pois logo em
seguida disse: - Quer dizer, posso perguntar por aí, se for
importante.
- Obrigado - retruquei, me virando para ir embora. - Haverá
um xelim à sua espera se você o encontrar.
Weston pareceu momentaneamente impressionado e
balançou a cabeça antes de se juntar de novo a seus amigos.
E eu me preparei para cruzar o pátio correndo.

Capítulo 12

O QUARTO DE GABRIEL NORRIS ficava no andar térreo da ala
oeste, escondido atrás da escada, e uma placa pintada com
seu nome marcava a porta. Bati com força e tive a certeza de
ouvir movimento do lado de dentro, mas alguns segundos se
passaram e ninguém atendeu. Tornei a bater e chamei Norris
pelo nome. Houve um apressado arrastar de pés e a porta se
abriu, revelando Thomas Allen. Era óbvio que ele estava se
dedicando a alguma de suas tarefas de criado, pois as mangas
da camisa estavam arregaçadas até os cotovelos e ele
segurava um pedaço de pano sujo.
- Ah, Dr. Bruno! - exclamou, enrubescendo depressa,
enquanto embolava o pano nas mãos, com ar alvoroçado.
- Desculpe o incômodo, Thomas, vejo que você está
trabalhando. Eu vim à procura do Sr. Norris.
- Ele não está - disse o rapaz, ainda parecendo perturbado, e
deu uma olhada para trás, como se examinasse a veracidade
de sua própria afirmação. Pela porta aberta vislumbrei um
cômodo confortável, mobiliado como uma sala de estar, com
um banco de madeira de espaldar alto em frente à lareira.
Comparado à austeridade da maioria dos alojamentos dos
acadêmicos, o aposento proporcionava uma nítida sensação
de luxo. De um lado, as janelas se abriam para a travessa e do
outro, para o quadrilátero, e enchiam a sala de luz, mesmo
nesse dia sombrio. Embaixo da janela que dava para a parte
externa havia um baú pesado, cingido por aduelas de ferro e
trancado por um cadeado sólido.
- Ele está nas palestras públicas, suponho. Eu só estava
limpando seus sapatos - disse Thomas, com ar defensivo.
- Você não frequenta as palestras públicas?
- Não quando há trabalho a fazer - retrucou ele, com
rispidez. Fiquei surpreso com seus modos, mas, sabendo
quão sensível era a respeito de seu papel subalterno,
imaginei que não gostasse de ser visto executando suas
tarefas servis.
- Quer dizer que hoje os sapatos dele precisavam de uma
limpeza urgente? - indaguei, ao me ocorrer uma ideia.
Thomas deve ter captado alguma coisa no meu tom, porque
franziu o cenho e seus ombros pareceram ficar tensos.
- Eu limpo os sapatos dele todos os dias - disse ele, com um
toque de cautela na voz. - Por que o senhor queria ver
Gabriel?
- Queria perguntar quando ele levou o arco e as flechas para
o cofre-forte.
Thomas pareceu levemente surpreso ao ouvir a pergunta,
mas deu de ombros com displicência e limpou as mãos no
peito da camisa.
- Fui eu que os levei, no sábado de manhã. Gabriel estava
furioso. Disse que o diretor o mandara se desfazer do arco,
ainda por cima depois de ele ter lhe prestado um serviço, ao
acertar aquele cão raivoso.
- Quer dizer que você mesmo o levou lá?
Thomas piscou os olhos ao ouvir meu tom, depois balançou
a cabeça.
- Ia levá-lo, mas, quando estava atravessando o pátio, vi o Dr.
Coverdale e o Dr. Bernard parados junto à escada da capela.
Eles me detiveram e perguntaram o que eu estava fazendo
com aquela arma no colégio. Quando expliquei, o Dr.
Coverdale me disse que eu podia deixá-la do lado de fora da
sua porta, no patamar, que ele mesmo a guardaria em
segurança.
- O Dr. Bernard ouviu essa conversa?
- Ele estava parado bem ao lado do Dr. Coverdale, logo,
presumo que sim - disse Thomas, com ar intrigado.
- Alguém mais poderia ter ouvido?
- Não sei. Havia umas pessoas indo e vindo no pátio, mas não
me lembro de ninguém que tenha parado perto de nós. Qual
é o problema, Dr. Bruno, se me permite a pergunta? -
indagou ele, torcendo o pano sujo entre as mãos e exami-
nando o meu rosto atentamente.
- Ah, não é problema nenhum - respondi, descontraído, e
nós nos fitamos num silêncio constrangido por um
momento.
- Dr. Bruno - disse Thomas, chegando mais perto e baixando
a voz -, espero que isto não lhe pareça um atrevimento, mas
há uma coisa que eu gostaria de lhe falar com urgência. É um
assunto de certa importância e não sei em quem mais posso
confiar aqui.
Senti um arrepio na nuca. Seria possível que Thomas
soubesse alguma coisa do assassinato?
- Por favor, fale à vontade.
- Eu quis dizer... num lugar particular.
- Não estamos sozinhos aqui? - indaguei, correndo os olhos
pela sala vazia.
Ele balançou a cabeça e comprimiu os lábios numa linha
fina, retorcendo o
pano entre as mãos.
- Longe do colégio, senhor. Não quero que nos ouçam.
Hesitei. Eu realmente não tinha tempo a perder - minha
prioridade era encontrar o rapaz que tirara Coverdale do
debate -, mas a expressão sofrida de urgência no rosto de
Thomas me convenceu de que o que ele precisava desabafar
devia ser sério.
- Pois muito bem. Você já fez seu desjejum hoje? Talvez
possamos achar uma taberna em que nos seja possível comer
e conversar mais à vontade - sugeri, ao perceber que, com
toda a consternação do assassinato de Coverdale, eu não
tinha comido, e meu estômago roncava furiosamente.
A expressão dele relaxou.
- Senhor, receio que eu não tenha recursos para frequentar
tabernas.
- Mas eu tenho, e certamente você poderá fazer uma refeição
comigo, se eu o convidar, não é?
- Creio que ser visto comigo não faria nenhum bem à sua
reputação em Oxford, senhor - disse ele, com ar pesaroso.
- Para ser franco, Sr. Allen, no momento a minha reputação
em Oxford vale menos do que excremento de cavalo. Mas
eles que vão para o inferno! Vamos desfrutar de um bom
desjejum, se eu conseguir achá-lo, e depois arcar com as
consequências, e você poderá me dizer o que se passa em
sua cabeça.
- É muita gentileza sua, senhor - disse ele, cruzando a porta
atrás de mim e parando para trancá-la.
Ao nos aproximarmos da arcada da torre, espichei o pescoço
a fim de olhar para a janela deserta de James Coverdale,
embora ela fosse alta demais para se ver alguma coisa. A
chuva diminuíra um pouco e uns lampejos de luz surgiam
por trás das nuvens.
- Tudo bem com o senhor, Dr. Bruno? - perguntou Thomas,
acompanhando meu olhar, com o rosto anguloso
cortesmente solícito. - Hoje o senhor está parecendo
inquieto. Aconteceu alguma coisa?
Olhei para ele enquanto ordenava minhas ideias dispersas.
Thomas ainda não tivera notícia do assassinato de Coverdale,
mas, quando voltássemos, o colégio estaria em polvorosa
com os boatos e as especulações. Se ele tivesse alguma in-
formação valiosa, eu precisaria aproveitar esses poucos
momentos desavisados.
- Sim, sim, está tudo bem. Vamos.
Caminhamos em silêncio pela travessa St. Mildred em
direção à High Street. Embora Thomas fosse cerca de meio
palmo mais alto que eu, andava com a postura tão encurvada,
como que na esperança de não se fazer notar, que pa-
recíamos quase da mesma altura. Seu ar abatido de derrota
tornava impossível não sentir compaixão por ele. Como se
adivinhasse meus pensamentos, o rapaz virou o rosto para
mim por um instante, com as mãos inteiramente enfiadas
nas mangas da beca puída.
- É gentileza sua reservar um tempo para me ouvir, senhor.
Quer dizer, visto que estamos em posições diferentes.
- Se vamos falar de posições, Thomas, não nos esqueçamos
de que você é filho de um professor de Oxford e eu sou filho
de um soldado. Mas pouco me interessam essas distinções...
Ainda me atrevo a esperar pelo dia em que as pessoas serão
julgadas por seu caráter e suas realizações, não por seu
sobrenome paterno.
- É uma esperança ousada - concordou ele. - Mas, para a
maioria dos habitantes desta cidade, senhor, serei sempre o
filho de um herege exilado.
- Bem, eu sou um herege exilado, portanto, saio ganhando.
Nesse momento ele me fitou e sorriu de verdade, pela
primeira vez desde que eu o conhecera, antes de seu rosto
ficar sombrio novamente.
- Mesmo assim, o senhor é amigo de reis e nobres da corte -
relembrou.
- Bem, de certo modo, Thomas. Se você se refere ao rei
Henrique da França, ele gostava de se cercar de filósofos, o
que lisonjeava sua vaidade intelectual. Os reis não têm
amigos do mesmo modo que você ou eu temos.
- Não tenho amigo nenhum, senhor - retrucou em tom
modesto. Houve uma longa pausa em que tanto eu quanto
ele procuramos algo para dizer. - De qualquer modo, o
senhor é amigo de Sir Philip Sidney e isso já é alguma coisa.
- Sim, tenho a sorte de contar com Sidney como amigo. Era
por isso que você queria conversar comigo, para que eu
fizesse um pedido a ele a favor do seu pai?
Thomas se calou por um momento, depois parou de andar e
me fitou com expressão séria.
- Não é pelo meu pai, senhor. É por mim. Há uma coisa que
preciso lhe contar, se o senhor me prometer sua discrição.
Assenti, intrigado. No ponto em que a travessa St. Mildred
cruza com a High Street, paramos para olhar, à esquerda e à
direita, para as fileiras de casas desalinhadas, com suas
estruturas de madeira, e para as fachadas de pedra clara dos
prédios da universidade. Naquele horário, a rua estava quase
deserta e a chuva ainda espetava de leve a superfície da água
empoçada nos sulcos deixados pelas carroças.
- A Flor de Luce fica logo adiante, nessa rua - disse Thomas,
com um gesto para a esquerda -, mas é cara, senhor -
completou, puxando nervosamente a bainha da beca.
- Bem, não tem importância - retruquei, animado, levando a
mão ao cinto para sentir o peso tranqüilizador da bolsa de
Walsingham na palma da mão, enquanto começávamos a
andar na direção indicada por ele. - Mas não conheço as
tabernas de Oxford. Me diga, você sabe alguma coisa sobre
uma hospedaria chamada Roda da Catherine?
Lancei um olhar inocente a Thomas ao dizer isso. O medo
que cintilou em seu rosto foi inconfundível, mas ele assumiu
prontamente uma expressão neutra.
- Creio que é um tipo de lugar ruim, senhor. De qualquer
modo, nós, estudantes, não temos permissão para sair dos
muros da cidade. Receberíamos uma punição severa se
fôssemos apanhados.
- É mesmo? Ora, que estranho... Ontem eu dei um passeio e
tive a certeza de ver um rapaz de beca universitária passar
por um dos portões.
Thomas encolheu os ombros.
- Então, é provável que tenha sido um dos alunos plebeus
ricos - disse, num tom que não foi ressentido, apenas
resignado, como se ele houvesse aceitado, fazia muito
tempo, o fato de que os ricos viviam segundo leis diferentes
e de que era inútil esperar mudanças.
- Como o seu patrão, Gabriel Norris? - perguntei.
- Eu gostaria que o senhor não o chamasse de meu patrão.
Quer dizer, é isso que ele é, suponho, mas é humilhante ser
relembrado disso.
Thomas havia parado à porta de uma construção de dois
andares e paredes caiadas, de frente para a High Street e de
exterior obviamente bem cuidado e limpo. Dentro, a taberna
era igualmente impecável e alegre - tudo o que a Roda da
Catherine não era -, e um aroma saboroso e penetrante de
carne assada invadiu nossas narinas no instante em que
fechamos a porta ao entrar. Um taberneiro risonho, com
avental esticado sobre uma barriga tão vasta que ele parecia
prestes a dar à luz, correu ao nosso encontro e nos conduziu
a uma mesa, enquanto ia recitando uma lista tão variada de
pratos que eu já havia esquecido o primeiro quando ele
terminou. Acabamos pedindo queijo e pão de cevada,
acompanhados de um caneco de cerveja para cada um.
Thomas olhou ao redor com a mesma incredulidade e o
prazer que sentiria se de repente lhe dessem as chaves da
cidade.
- Bem, então, Thomas - indaguei com delicadeza -, o que
você quer me confidenciar?
Ele enfim levantou a cabeça e me olhou com uma expressão
cansada.
- Três noites atrás, no dia em que o abordei tão
vergonhosamente no pátio, na sua chegada, fiquei sabendo
de uma coisa sobre meu pai.
Parou de falar, com um suspiro carregado, no momento em
que um jovem que servia as mesas apareceu com os canecos
de cerveja e o pão. Pensei em Humphrey Pritchard e seus
fragmentos de latim e decidi que também precisava
descobrir um modo de voltar a falar com ele. Thomas
afundara o rosto no caneco de cerveja, como se não tomasse
uma bebida havia alguns dias. Esperei que o colocasse sobre
a mesa antes de continuar com minhas perguntas, da ma-
neira mais relaxada possível.
- Então você mantém contato com seu pai?
- Nós nos escrevemos, embora o senhor possa imaginar, é
claro, que todas as nossas cartas são verificadas, a pedido do
conde. Meu pai reside no Colégio Inglês de Reims, onde
todos os padres seminaristas são formados para a missão
inglesa, por isso qualquer correspondência que saia daquele
lugar é considerada de grande interesse. E, como existe a
suposição de que compartilho as opiniões do meu pai, eles
esperam que eu me traia numa de minhas cartas a ele. Eles
vigiam cada passo meu, observam todas as pessoas com
quem me encontro ou converso. É provável que me
interroguem sobre isto - disse, apontando para a mesa entre
nós - quando descobrirem.
- Quem são "eles"? - instiguei-o, com uma pausa para tomar
um gole do meu caneco. - Quem intercepta as suas cartas?
- O diretor. E o Dr. Coverdale. Ele queria que eu saísse do
colégio depois de exilarem meu pai. Argumentou com
veemência que permitir que eu ficasse aqui significaria que o
colégio tolerava papistas.
Seu tom era ressentido, mas observei seu rosto atentamente
e não detectei nenhum sinal de que ele soubesse que o
homem de quem estava falando acabara de ser morto.
- Mas você não é papista? - indaguei.
- Sou filho de um papista, por isso eles presumem que minha
lealdade à Inglaterra esteja comprometida. O diretor acabou
decidindo que eu poderia conservar minha vaga, mas
Coverdale argumentou que eu não deveria continuar a ser
mantido pelo colégio e, assim, perdi minha bolsa de estudos.
Não me iludo com a ideia de que o diretor tenha sentido
pena de mim. Suponho que ele deve ter achado que minha
correspondência com meu pai seria útil - disse ele e deu um
risinho amargo. - Deve ser uma decepção terrível para eles:
meu pai só me escreve sobre o tempo e a saúde dele, e eu
conto sobre meus estudos. Não ousamos dizer nada, além
disso. Ademais, corre o boato de que o conde de Leicester já
pôs um espião no colégio, tamanho é o medo que eles têm
da influência secreta dos papistas.
- Um espião? Será que isso é verdade? - perguntei, me
inclinando para ouvi-lo com mais atenção.
- Não sei, senhor. Mas, enfim, se ele tivesse alguma qualidade
como espião, eu não o reconheceria, não é?
- Quer dizer que você não compartilha o credo do seu pai?
Thomas enfrentou meu olhar com expressão serena, como
se me desafiasse a contradizê-lo.
- Não, senhor, não compartilho. Eu cuspo no papa e na Igreja
de Roma. Já jurei isso até ficar rouco, mas, mesmo assim,
continuo a ser suspeito, portanto, de que adianta?
Esperei um momento até ele terminar de mastigar,
observando-o com os cotovelos apoiados na mesa e o queixo
descansando sobre as mãos cruzadas.
- O que você soube a respeito do seu pai há três dias? Ele está
doente?
Thomas balançou a cabeça, de boca cheia.
- É pior do que isso - respondeu, num tom ressentido,
quando pôde voltar a falar. - Ele está... - Então se
interrompeu, com um pedaço de pão a meio caminho da
boca, e me olhou como se só nesse momento se desse conta
de quem eu era. Seus olhos ansiosos percorreram meu rosto,
atentos, enquanto ele calculava se eu era ou não digno de
confiança. - O senhor jura que não repetirá isso para
ninguém?
- Juro - respondi, balançando a cabeça com sinceridade e
sustentando seu olhar da maneira mais firme que pude.
Thomas pensou por um instante, ainda examinando meus
olhos, depois fez um leve aceno com a cabeça.
- Meu pai não voltará para a Inglaterra, nem agora nem
nunca, nem mesmo se a rainha em pessoa lhe escrevesse,
garantindo seu perdão.
- Mas por quê?
- Porque ele está feliz - disse Thomas, pronunciando esta
última palavra com indisfarçada raiva. - Está feliz, Dr. Bruno,
porque descobriu sua vocação. Às vezes acho que ele optou
por ser desmascarado no Lincoln para poder enfim confessar
sua fé abertamente. Agora, quando me escreve, ele tem que
ditar as cartas a um escriba. Sabe por quê?
Balancei de leve a cabeça e ele prosseguiu, sem esperar
minha resposta:
- Porque foi interrogado pelo Conselho Real. Mandaram
pendurá-lo pelas mãos, presas em luvas de metal, sem deixar
que os pés dele encostassem no chão, durante oito horas de
cada vez, até ele desmaiar. E mesmo assim meu pai não lhes
disse nada. Sua mão direita foi afetada. Mas acho que teria
morrido alegremente, nessa ocasião, acreditando ser um
mártir. Há três dias, soube que ele vai fazer os votos como
padre jesuíta - informou, num tom que quase pareceu de
ironia divertida. - A Igreja vai dominá-lo por completo e ele
se esquecerá de que um dia teve mulher e filho.
- Tenho certeza de que nenhum pai poderia fazer isso.
- O senhor não o conhece - discordou Thomas, contraindo a
boca numa linha severa. - Eu venho de uma antiga família
católica. Mas eu lhe pergunto: como pode uma religião que
fala de amor exortar os homens, ao mesmo tempo, a deixar
tão cruelmente de lado os laços naturais de amor e amizade?
A se martirizar pela promessa de um mundo invisível e
deixar suas famílias sofrendo! Não quero ter nada a ver com
nenhum Deus que exija esses sacrifícios.
Enquanto falava, Thomas havia picado o que restava de seu
pão em pedaços minúsculos, com os dedos agitados.
Estendeu a mão para cortar outro naco do pão e, ao fazer
isso, a manga puída da beca escorregou para o cotovelo e
revelou um curativo improvisado e sujo em volta do punho
e da parte inferior da mão direita, salpicado de manchas
meio marrons sobre as quais alguns pontos vermelhos mais
novos tinham desabrochado, mais recentemente.
- O que aconteceu com a sua mão? - perguntei.
Thomas puxou imediatamente a manga para baixo, cobrindo
o curativo, e esfregou o pulso, constrangido:
- Não foi nada.
- Não parece não ter sido nada. Suponho que tenha sangrado
muito. Eu posso dar uma olhada, se você quiser.
- O senhor é doutor em medicina também? - retrucou ele
com rispidez, puxando o braço às pressas, como que
receando que eu arrancasse o curativo sem sua permissão.
- Apenas em teologia - admiti -, mas aprendi um pouco da
arte de preparar unguentos quando era monge. Não teria
dificuldade em examiná-lo.
- Obrigado, mas não há necessidade. Foi só um acidente
bobo. Eu estava afiando a navalha de Gabriel para ele e
minha mão escorregou.
Thomas baixou os olhos e concentrou toda a atenção no pão,
como se o assunto estivesse encerrado. Senti que eu estava
tenso, mas procurei não dar sinal de ter achado suas palavras
significativas.
- Quer dizer que o seu amigo Sr. Norris não usa o barbeiro do
colégio? - indaguei em tom neutro.
O rapaz arriscou um sorriso.
- Ele o chama de "o bárbaro do colégio". Não, o Norris
prefere cuidar dessa tarefa sozinho.
- Quando foi que ele lhe pediu para afiar a navalha?
Thomas pensou um instante.
- Deve ter sido no sábado, porque ele queria se barbear antes
do debate.
- E ela esteve no lugar de costume, desde então?
- Eu... eu não sei, senhor. Não procurei. Por que não estaria?
Ele me olhou, o cenho franzido de curiosidade, e julguei
melhor não continuar a despertar suas suspeitas.
- Eu estava apenas pensando se o Sr. Norris costuma
emprestar a navalha aos amigos.
- Não, senhor, nunca. Ele é cuidadoso com seus pertences.
Muitos são valiosos, ou então vêm do pai dele.
Thomas não fez outras perguntas, mas continuou a me olhar
com curiosidade. Depois de passarmos alguns minutos em
silêncio, pus de lado meu pão e limpei os dedos.
- Mas essa notícia sobre o seu pai, você não a recebeu
diretamente dele, se as cartas que ele envia são
interceptadas. Com certeza ele não escreveria sobre seus
planos de fazer os votos sagrados.
- Não, ele tinha outro correspondente - disse Thomas, com a
boca cheia.
- Tinha?
Ele parou e seus olhos piscaram com ar culpado ao fitarem os
meus, quando percebeu seu lapso.
- Você se refere ao Dr. Mercer? - insisti. Se ele soubera da
notícia três dias antes, só poderia haver uma pessoa à qual se
referir no passado.
Thomas fez que sim.
- Eles continuaram a escrever um para o outro. Meu pai
sempre confiou em Roger Mercer, eles eram amigos muito
chegados.
- Mas Mercer o denunciou.
- Acho que não. Meu pai nunca soube de fato quem o
denunciou, mas tinha certeza de que não fora Mercer. Ele
apenas depôs contra meu pai no julgamento.
- O que com certeza bastaria para pôr fim a uma amizade.
Seu pai deve ter uma capacidade excepcional de perdoar.
Thomas baixou a faca e me fitou com impaciência:
- O senhor não compreende, não é? Isso é exatamente o que
eu estava dizendo sobre a religião: a causa é sempre mais
importante. As leis naturais da amizade têm de ser
sacrificadas. Meu pai não esperaria que Roger Mercer agisse
de outra maneira e também testemunharia contra Roger se
estivesse no lugar dele. Ambos tinham uma lealdade maior.
Se o depoimento de Roger tivesse sido em defesa dele,
provavelmente os dois seriam presos ou exilados e, nesse
caso, quem restaria para dar continuidade à luta?
Eu o encarei.
- Você quer dizer que Roger Mercer também era católico? -
sussurrei.
Thomas se curvou ainda mais sobre a mesa.
- Imagino que lhe contar agora não fará mal a ele, mas, por
favor, não repita isso para ninguém, eu imploro. Só
prejudicaria a família dele.
- Não, é claro que não. Mas, se Roger era católico - ponderei,
inclinando a cabeça para acompanhar as informações - e se o
seu pai lhe escrevia de Reims, será que ele teria confiado
detalhes sobre a missão inglesa? Será que Roger até mesmo
teria desempenhado algum papel?
- Não conheço o conteúdo das cartas deles, senhor - disse
Thomas, remexendo-se no assento incômodo. - O Dr.
Mercer só me dava as notícias que julgava poderem me
afetar diretamente.
- Mas a correspondência deles também não era interceptada
pelas autoridades do colégio? Elas não achavam suspeito
Mercer continuar a escrever para o homem que ajudara a
condenar?
- O Dr. Mercer não mandava as cartas pelo correio do
colégio, senhor - respondeu Thomas, já com a voz quase
inaudível. - Ele pagava para remetê-las particularmente, por
intermédio de uma pessoa da cidade que tinha meios de
transportar cartas para o exterior.
- Ah! Um livreiro, talvez?
- Talvez. Não perguntei... isso era assunto dele - disse
Thomas, sem se alterar, mas com o olhar evasivo. Em
seguida, de repente se inclinou tanto que ficou quase deitado
sobre a mesa e segurou minha manga: - Não sou responsável
pelo meu pai, senhor, nem por nenhuma comunicação que
ele possa ou não ter enviado, como venho tentando dizer a
todos no último ano. Só quero viver em paz, sair de Oxford e
estudar direito nas escolas da Corte de Justiça, em Londres,
mas temo que nunca me permitam fazer carreira como
advogado nem desposar uma moça de boa família enquanto
eu for visto como filho de Edmund Allen. Ainda mais depois
que ele entrar para a ordem dos jesuítas - acrescentou, com
uma dose extra de autocomiseração. - É que o Conselho Real
tem espiões até nos seminários e não tardará a tomar
conhecimento disso. A menos que alguma pessoa influente
se manifeste a meu favor.
Thomas me fitou com um olhar suplicante, que retribuí sem
ver, pois minha cabeça estava ocupada em outro lugar. Se
Edmund ia receber as ordens sagradas em Reims, devia estar
ligado de algum modo à missão na Inglaterra. Isso
certamente explicaria o fato de os aposentos de Mercer
terem sido revirados. Se as cartas de Allen para ele
continham algum assunto dessa natureza, poderiam
constituir uma prova suficiente para condenar qualquer
pessoa associada a elas. Mas isso ainda não explicava por que
Roger tinha sido assassinado. Teria ele ameaçado trair a
causa? Teria aborrecido alguém? Será que as cartas entre
Roger Mercer e Edmund Allen mencionavam nomes de
outras pessoas, dispostas a se proteger a qualquer preço? O
"J" do seu calendário, no dia em que foi assassinado, poderia
muito bem significar Jenkes, refleti. Qualquer um capaz de
decepar as próprias orelhas sem hesitação com certeza não
relutaria em eliminar um homem que ameaçasse seus
negócios - a não ser que eu estivesse me deixando levar pelas
lendas de Cobbett. Havia muitas perguntas, ao passo que
todas as respostas possíveis me deixavam frustrado de tão
obscuras. Arriei a cabeça sobre as mãos e fitei a mesa.
- O senhor está bem, Dr. Bruno?
- Eu me perguntava se Mercer foi morto por um católico -
murmurei, quase sem me dar conta de que havia pensado
em voz alta, e só quando já era tarde levantei os olhos e
deparei com Thomas a me fitar com uma expressão estranha.
- O Dr. Mercer foi morto por um cachorro - relembrou-me
ele.
- Ora, vamos, Thomas, você acredita nisso? Quantas vezes
viu cães ferozes atacarem homens nas ruas de Oxford, muito
menos num jardim trancado?
- Não sei, senhor - disse ele, evitando meu olhar. - Só sei o
que o diretor nos disse. Alguém deixou a porta aberta e o
cachorro entrou.
Thomas olhou ostensivamente para o caneco vazio, como
que na esperança de fazer surgir mais cerveja, se o
contemplasse com suficiente intensidade.
- Quer mais bebida, Thomas?
Ele avidamente fez que sim com a cabeça e chamei a moça
que nos servia, para que nos trouxesse mais dois canecos.
Depois que ela se foi, me inclinei sobre a mesa e esperei que
ele me olhasse.
- Era isso que você queria me confidenciar e não podia dizer
a mais ninguém, essa notícia sobre seu pai?
Thomas recomeçou a arranhar as tábuas da mesa.
- Naquele primeiro dia, quando pensei que o senhor fosse Sir
Philip - respondeu ele, em voz baixa -, o senhor foi gentil,
na hora em que o diretor Underhill tentou me envergonhar.
Pensei... talvez tenha sido bobagem, mas achei que, se o
senhor podia contar com a atenção de homens como Sir
Philip, talvez intercedesse por mim.
- O que você quer que eu diga?
Ele respirou fundo e soltou o ar devagar, olhando fixo para as
mãos.
- Eu quero sair de Oxford, senhor. Tenho medo. Quando
meu pai foi demitido do cargo, fui interrogado duas vezes
pelo Tribunal da Reitoria. Não queriam acreditar que eu não
tinha nenhum conhecimento da vida secreta dele e o
interrogatório foi duro. Não aceitaram uma palavra do que eu
disse, continuaram a me pressionar e a insistir nos mesmos
pontos, até eu perceber que estava caindo em contradição.
Notei que suas mãos tremiam e a respiração havia acelerado.
Obviamente, eram lembranças difíceis para o rapaz.
- Eles recorreram à força?
- Não, senhor. Mas argumentaram como advogados e
distorceram todas as respostas que eu dei, até elas parecerem
ter o sentido inverso. Fiquei tão confuso e amedrontado que
me peguei concordando com afirmações que sabia não
serem verdadeiras. É estranho como a pessoa disposta a
julgar alguém culpado
é capaz de fazê-lo acreditar na própria culpa, mesmo quando
ele sabe que é inocente. Tive medo de condenar a mim
mesmo por engano, senhor. Foi uma experiência horrorosa.
- Posso imaginar - comentei, comovido, recordando o medo
que me tomara as entranhas na ocasião em que o abade me
dissera que eu seria interrogado pela Inquisição, muitos anos
antes. - E você teme voltar a ser interrogado, se vier a
público que seu pai vai se tornar padre jesuíta?
Ele balançou a cabeça e depois me encarou.
- Se antes eles se recusaram a acreditar em mim, não será
muito pior quando souberem que meu pai faz parte da
missão jesuíta? E se me levarem a Londres para ser
interrogado? Ouvi histórias do que fazem por lá para
obterem as informações que querem. São capazes de levar a
pessoa a dizer qualquer coisa.
Eu me lembrei da conversa com Walsingham no jardim da
residência dele e, sem querer, estremeci. O rosto estreito e
pontudo de Thomas estava tenso de medo, e a tez, tão pálida
que um rendilhado de veias azuis saltava em suas têmporas,
como um delta de rio pintado num mapa. Não havia dúvida
de que esse era um medo real e vívido.
- As autoridades achariam que você sabe o bastante para que
valesse a pena interrogá-lo? - indaguei.
- Eu não sei nada, meu senhor! - protestou ele, com as
bochechas novamente inflamadas de emoção. - Mas não sou
corajoso... não sei o que seria capaz de dizer, se eles me
machucassem!
- Me diga a verdade, Thomas - retruquei em tom firme. -
Não posso ajudá-lo se não disser. Você tem medo de trair os
segredos do seu pai, e os segredos dos aliados dele, se for
ameaçado de tortura?
- Eu jamais quis ter esse conhecimento, senhor - murmurou
ele, com a voz embargada, piscando os olhos para prender o
choro. - Eu disse isso ao meu pai, mas ele queria que eu o
compartilhasse. Estava decidido a me levar para a Igreja
Romana, queria que eu fosse com ele para a França, para não
ter de escolher entre o filho e a religião. Acho que pensou
que, se me fizesse confidências sobre suas reuniões, eu
sentiria certa cumplicidade, certa lealdade para com seus
amigos. Em vez disso, estou aprisionado por todos esses
segredos que nunca pedi que me fossem revelados. Estou
sofrendo por causa de uma religião que nem é a minha! -
exclamou, batendo com o punho na mesa.
- Nunca pensou em revelar esses segredos voluntariamente?
- arrisquei. - Você deve saber que o conde de Leicester
certamente recompensaria qualquer pessoa que pudesse lhe
dar informações como as que você tem sobre a resistência
católica em Oxford.
Thomas me encarou como se demorasse um pouco para
decifrar o significado de minhas palavras.
- É claro que pensei nisso. O senhor já viu a execução de um
católico na Inglaterra, Dr. Bruno?
Admiti que não.
- Eu vi. Meu pai me levou a Londres para assistir à morte de
Edmund Campion e seus companheiros jesuítas, em
dezembro de 1581. Acho que ele queria que eu
compreendesse o que estava em jogo. - Thomas passou a
mão pela testa e fechou os olhos com força, como se isso
pudesse apagar as cenas que havia testemunhado. - Eles
foram retalhados feito porcos no matadouro, e seus
intestinos foram arrancados dos corpos ainda vivos,
enrolados num eixo para serem puxados bem devagar. Ainda
era possível ouvi-los clamando por Deus enquanto suas
entranhas eram erguidas no alto, para agradar a multidão, e
seus corações eram atirados no braseiro. Não suportei ver
aquilo, Dr. Bruno, mas olhei para o rosto do meu pai e ele
estava em êxtase, como se aquele fosse o espetáculo mais
glorioso a que já assistira. Eu, no entanto, não conseguiria
entregar ninguém àquele destino. Não quero o sangue de
mais ninguém nas minhas mãos, senhor, só quero que me
deixem em paz! - exclamou, elevando a voz num agudo
frenético e apertando o pulso enfaixado.
- Thomas - comecei, mas me interrompi quando a moça da
taberna chegou com novos canecos de cerveja. Depois que
ela os deixou na mesa, me inclinei na direção dele e baixei a
voz cuidadosamente: - Há outros católicos aqui em Oxford
que sabem que seu pai lhe falou deles? Quero dizer, pessoas
que sabem que você não compartilha sua religião e que
teriam medo de que as traísse, se fosse interrogado?
Ele desviou imediatamente os olhos.
- Você também tem medo de que essas pessoas tentem
silenciá-lo antes que você possa prejudicá-las, como fizeram
com Roger Mercer?
- Não posso dizer mais nada, Dr. Bruno - respondeu ele, com
a voz trêmula. - Juro que também não lhe convém ter esse
conhecimento. Eu só queria perguntar se o senhor
encontraria tempo para falar com Sir Philip a meu favor, a
fim de pedir a proteção dele e garantir que sou um
verdadeiro inglês, fiel à rainha e à Igreja Anglicana.
- Pensei que você tivesse deixado de acreditar em Deus -
comentei, com um sorriso.
- O que tem a Igreja a ver com Deus? - rebateu ele, quase
retribuindo o sorriso. Em algum lugar além das janelas, um
sino distante começou a badalar. Thomas deu um salto,
como se o tivessem espetado. - Dr. Bruno, espero que eu
não pareça ingrato, mas preciso voltar ao colégio. Gabriel
logo retornará das palestras e ainda tenho trabalho a fazer.
Ele me pareceu subitamente ansioso por encerrar a
conversa. Talvez não tivesse previsto tantas perguntas em
troca do favor que queria. Bebi o resto da minha cerveja e
paguei ao taberneiro, com uma pontada de culpa ao ver a in-
veja indisfarçada com que Thomas me observou tirar moedas
da gorda bolsa de Walsingham. Se ele soubesse que eu
recebera aquele dinheiro justamente das pessoas cuja
atenção temia, e exatamente com o propósito de desencavar
segredos como os guardados por seu pai, o respeito que ele
tinha por mim desapareceria como as brumas do passado.
Fora do denso calor da taberna, a chuva havia recomeçado e
um vento frio a fazia bater de lado em nossos rostos. Ao
caminharmos em silêncio pela High Street, à sombra dos
beirais gotejantes, Thomas apertou mais a beca em volta do
corpo, profundamente imerso em seus pensamentos,
enquanto eu tentava estabelecer uma ligação entre o que
acabara de saber e as mortes de Mercer e Coverdale. Quase
havíamos chegado à esquina da travessa St. Mildred quando
me lembrei de outra coisa que queria perguntar a ele:
- Você disse que não tem amigos aqui, Thomas. Nem mesmo
a Srta. Sophia Underhill? - indaguei, diminuindo o passo para
não chegarmos ao portão do colégio antes de ele ter
oportunidade de responder.
O rapaz me olhou com certa surpresa.
- Houve uma época, acho, em que eu a considerava minha
amiga. Mas creio que ela pensa que sou como suas bonecas:
algo que a divertiu na infância, mas que ela deixou para trás.
- Por causa da desonra do seu pai?
- Não - respondeu Thomas, desviando-se de uma poça que se
formara na rua sulcada pelas rodas, com a sola de um dos
sapatos se abrindo a cada passo que dava. - Ela perdeu o
interesse por mim muito antes disso. Quando minha mãe
morreu e meu pai decidiu voltar para Oxford, a pedido do
conde, fui alojado com uma família na cidade. O senhor sabe
que só o diretor pode morar com mulher e filhos no colégio,
pois se espera que os outros professores sejam solteiros. Mas
a família do diretor teve pena de mim, e era comum meu pai
e eu sermos convidados para jantar à sua mesa. O objetivo
era que eu fizesse companhia ao jovem John, o filho que
morreu, mas é claro que reparei em Sophia.
Ele deu um suspiro e pareceu se curvar ainda mais, como se
a lembrança daqueles tempos fosse um peso sobre seus
ombros.
- Depois, John morreu e o pai de Sophia resolveu encurtar a
rédea dela. Queria que a filha tivesse um grande casamento,
e a mãe deveria prepará-la para isso, apresentando-a à
sociedade. Só que a Sra. Underhill adoeceu dos nervos
depois da morte de John e Sophia ficou por conta própria,
sem outra companhia senão os homens do colégio. Houve
algumas governantas, mas elas nunca ficavam muito tempo -
acrescentou, com um riso tristonho. - Não as culpo. Eu não
gostaria de tentar ensinar alguma coisa a Sophia contra a
vontade dela.
Fiz que sim, relembrando a maneira como a jovem tinha
lidado com Adam, o criado cheio de censuras.
- Não mesmo. Mas creio que você ainda se importa com ela,
não?
O rapaz me olhou de relance, com a expressão subitamente
reservada.
- Que importância tem isso? Agora ela não me quer.
- Ela tem outra pessoa?
O rosto de Thomas assumiu um ar severo e algo semelhante
à raiva faiscou em seus olhos.
- O que quer que o senhor tenha ouvido é mentira! Ela é
amável por natureza, mas é fácil de enganar... - Parou de
repente, a voz carregada de emoção, e por um momento
pensei que fosse chorar, mas ele respirou fundo e se recom-
pôs. - Mas, se o senhor quer saber, sim: sempre vou me
importar com ela e faria qualquer coisa para protegê-la.
Qualquer coisa.
Percebendo a ferocidade dessas últimas palavras, parei de
repente e virei de frente para ele.
- Protegê-la de quê? Ela está em perigo?
Thomas deu um passo atrás, visivelmente desconcertado
com a intensidade da minha expressão.
- Eu não quis dizer... isto é, só quis dizer que, se Sophia
precisasse de alguma coisa, ela sabe que sempre poderia
contar comigo.
Eu o segurei pelo pulso e ele deu um grito. Eu havia me
esquecido de seu machucado. Então o soltei e agarrei sua
beca, me aproximando até ficar com o rosto a menos de um
palmo do dele.
- Thomas, se você está ciente de qualquer perigo que Sophia
possa correr, precisa me contar!
Seus olhos se estreitaram e vi seu queixo ficar tenso. Tornou
a dar um passo atrás, dessa vez com mais compostura, e sua
voz assumiu um novo distanciamento.
- Preciso, Dr. Bruno? O que o senhor lhe ofereceria: sua
própria proteção? Ou alguma outra coisa? E, quando o
senhor voltar com seu grupo para Londres, daqui a uns dois
dias, o que será dela?
- Só quis dizer que você tem o dever de comunicar qualquer
perigo às pessoas que possam ajudá-la - respondi, tentando
soar indiferente e soltando sua beca, mas sabia que era tarde
demais. Eu deixara transparecer minha afeição por Sophia e
assumira a condição de rival.
Thomas endireitou a beca, se virou e recomeçou a percorrer
a travessa St. Mildred, em direção ao portão fortificado do
Colégio Lincoln, com os braços cruzados sobre o tronco
magro.
- O senhor não faz ideia do que está falando - acabou
dizendo, os olhos voltados para a frente, como se não se
dirigisse a mim e apenas pensasse em voz alta. Depois,
baixou os olhos, com ar pesaroso, e apertou minha mão
entre as suas. - Obrigado por me ouvir, Dr. Bruno. E lamento
se falei algo inadequado em certos momentos. Ainda tenho
medo de dizer as coisas erradas. O senhor se lembrará do
meu pedido, se não for muito incômodo?
- Eu me lembrarei, Thomas. Estou contente por termos
conversado.
- Preciso sair de Oxford - disse ele, apertando minha mão
com urgência. - Se eu pudesse ir para Londres e começar
minha vida por lá... o senhor pode dizer isso a Sir Philip?
Uma recomendação dele facilitaria meu caminho, e eu
juraria lealdade a ele e ao conde pelo resto da vida.
- Farei o melhor que puder por você - prometi com
sinceridade, mesmo continuando a acreditar que ele não me
contara tudo o que sabia. - E cuide desse ferimento no seu
pulso.
Thomas fez uma ligeira mesura e cruzou às pressas o portão,
para cumprir seus deveres.

A chuva continuou a jorrar pelo pátio em intermináveis
diagonais, agora com um céu mais escuro do que quando eu
me aventurara a sair pela primeira vez. Olhei de relance para
a janelinha no alto da torre e tive um calafrio ao pensar no
corpo de Coverdale, empapado de sangue e ainda pendurado
no castiçal preso à parede, com as flechas se projetando
ironicamente do peito e do ventre. Certa vez, visitei a
basílica de San Sebastiano Fuori le Mura, em Roma, em cujas
catacumbas estão sepultados os restos mortais do santo. Na
ocasião, o grande ícone do lugar - com sua expressão de
agonia devota e as flechas se projetando do corpo, feito
espinhos num porco-espinho - me parecera exagerado e
irreal em seu tormento, como a pintura vulgar de uma cena
teatral, e me dei conta de ter tido a mesma reação ao ver o
cadáver de James Coverdale. O quadro macabro quase me
parecera uma brincadeira de mau gosto. Eu mal havia
conseguido acreditar que o homem estivesse morto, até ver
o grande ferimento em sua garganta. Quando tornei a
levantar a sobreveste para cobrir o rosto e atravessar o pátio
sob a chuva, de repente me lembrei de uma frase da citação
de Foxe feita pelo diretor: "Seus próprios soldados o
alvejaram." Sebastião, capitão da guarda pretoriana, tinha
sido executado por seus próprios homens, por ordem do im-
perador Diocleciano. Teria o assassino guardado na mente
esse detalhe? Será que Coverdale também fora morto por
alguém que supostamente estaria do seu lado? E qual lado
seria, nesse lugar de lealdades confusas?
Eu mal tinha pisado no pátio, depois de passar pelo portão,
quando vi o diretor emergir da arcada em frente, seguido de
perto por Slythurst. Os dois tinham o capuz da toga
levantado e puxado em volta do rosto e caminhavam
apressados na minha direção. Ao me avistar, Underhill fez
sinal para que eu fosse ao seu encontro com urgência. Sob a
proteção do portão fortificado, ele chegou mais perto, fora
do alcance dos ouvidos de um grupinho de estudantes que se
refugiava da chuva.
- Você viu minha filha hoje de manhã, não viu, Bruno, na
guarita do porteiro? - perguntou o diretor.
- Vi, ela estava esperando a mãe para sair - respondi, notando
seu tom urgente.
- Você a viu sair?
- Não. Mestre Slythurst chegou com aquela notícia terrível e
saí para buscar o senhor.
- Nesse caso, ela deve... - Underhill balançou a cabeça, com
uma expressão de vaga confusão. - Não faz mal. Sophia
sempre foi rebelde. Ela vai voltar.
- O que aconteceu? - perguntei.
- Quando minha mulher chegou ao portão, Sophia já não
estava lá - respondeu, correndo os olhos pelo pátio, como
que na esperança de vê-la aparecer a qualquer momento. -
Margaret achou que ela devia ter ido na frente para a casa de
sua conhecida e, assim, ela se dirigiu para lá, mas, ao chegar,
ninguém vira sinal de minha filha. Margaret está preocupada,
como costuma ficar, mas tendo a crer que Sophia tenha
resolvido sair para dar um passeio, sem dizer nada a
ninguém... Ela se queixa com frequência de ficar confinada
aqui. Acha que devia ter a liberdade de sair perambulando
pelas estradas e campos fora da cidade durante a maior parte
do dia, como costumava fazer com o irmão. Bem, naquela
época era diferente. Ela vai aprender a se portar da maneira
apropriada para uma jovem dama, mesmo que contra a sua
vontade.
Seu rosto ganhou uma expressão triste por um momento.
Em seguida, ele tornou a olhar em volta, aflito, como se
esperasse que os eventos do dia pudessem desaparecer por
conta própria.
- Ela certamente não escolheria um dia como este para dar
um passeio, não acha? - observei, apontando para o céu
inclemente e procurando manter a voz calma.
Na noite anterior, a própria Sophia me dissera acreditar que
corria perigo, e Thomas Allen tinha acabado de deixar
implícito algo semelhante. E agora ela havia desaparecido.
Torci intensamente para que o diretor tivesse razão, mas in-
tuí que ele contara essa história apenas para convencer a si
mesmo, porque não podia lidar com mais nenhuma
preocupação além do assassinato de Coverdale e de tudo o
que isso representava para o colégio.
- Sim, sim, tenho certeza de que ela voltará para o almoço,
quando menos esperarmos - disse Underhill, agitando uma
das mãos. - Agora, Mestre Slythurst levará minha carta ao
oficial de inquirição e preciso preparar o que vou dizer à
comunidade no refeitório. Está quase na hora.
Olhou para mim e deu um suspiro. Parecia ter envelhecido
10 anos em uma hora.
- Estarei no meu gabinete, Dr. Bruno. Conversaremos mais
tarde. Peço que o senhor esteja presente no refeitório ao
meio-dia, para o almoço, quando anunciarei a tragédia ao
colégio. Seria prudente o senhor saber exatamente o que vou
falar à comunidade acadêmica, para não dizer nada além
disso. Eu gostaria de limitar os boatos tanto quanto possível.
Fiz uma reverência, registrando sua observação.
- Também seria prudente, senhor diretor, não deixar
ninguém mais saber que o senhor pediu que eu investigasse
esse incidente - disse eu, em voz baixa. - Talvez haja pessoas
que prefeririam ocultar informações, se achassem que eu as
estou investigando em seu benefício.
- Entendo. Vá aonde quiser, Dr. Bruno, pois não
mencionarei seu envolvimento. Mas descubra quem fez
isso... essas coisas - corrigiu-se -, e qualquer recompensa que
o colégio possa lhe oferecer será sua, é só pedir. Desde que
eu ainda esteja no cargo para concedê-la - acrescentou,
desanimado, antes de me dar as costas e voltar para seus
aposentos.

Capítulo 13

O sino que convocava o colégio para o almoço ao meio-dia
continuou a badalar muito depois de professores e alunos
terem entrado no grande refeitório, marcando o tempo por
sobre o burburinho de conversas urgentes e sussurradas que
deixavam transparecer a tensão no ar, crepitante e elétrica
como a que antecede a tempestade. Do lado de fora, a chuva
martelava as vidraças com tal força que tínhamos de elevar a
voz para "sermos ouvidos até pelos vizinhos mais próximos.
Fiquei desconcertado ao constatar que haviam reservado um
lugar para mim na mesa dos principais docentes. Sentado
entre Godwyn e Slythurst, que não fez o menor esforço para
disfarçar seu desagrado com minha presença entre seus
colegas, não pude evitar me lembrar de que o lugar ocupado
por mim certamente devia ter pertencido a um dos dois
homens mortos.
A mesa dos professores ficava sobre um tablado baixo que
me dava uma visão privilegiada do restante do refeitório. Era
um belo aposento, de paredes caiadas cobertas por tapeçarias
no estilo francês do século XV, peças certamente caras, se
bem que já um pouco desbotadas pelo tempo. O salão era
dominado pela lareira aberta que havia no centro do piso,
sob uma chaminé octogonal em forma de lanternim,
instalada no alto telhado de madeira e vigas enegrecidas pela
fuligem, para deixar escapar a fumaça. Em torno da lareira
havia uma tábua de madeira larga o bastante para diversas
pessoas se sentarem e se aquecerem. De cada lado dessa
estrutura ficava uma longa mesa abaixo das janelas, onde os
alunos da graduação e os docentes mais jovens lotavam os
bancos, lançando olhares frequentes para o tablado e
trocando cochichos sobre o rosto tenso do diretor e o
segundo lugar vazio na mesa dos professores.
Um rapazinho magrelo, de cabelo ruivo em desalinho e
vestindo uma beca vários números maior do que o dele, se
postou no púlpito situado ao lado da mesa dos professores e,
com voz surpreendentemente sonora para sua estrutura
franzina, se preparou para fazer a oração de graças. Eu o
reconheci como o garoto que vi na véspera limpando os
materiais necessários às matinas na capela. O dobre solene
do sino se calou no exato momento em que ele abriu a boca.
- Benignissime Pater, qui providentia tua regis - começou
ele, enquanto o diretor curvava respeitosamente a cabeça,
acompanhado pelos docentes mais antigos. Por sob as
pálpebras abaixadas, notei que a maioria dos alunos da
graduação continuava a observar a mesa dos professores com
uma mescla de curiosidade e apreensão. - Liberalitate pascis
et benedictione conservas omnia quae creaveris - entoou o
rapaz, e, um pouco mais aliviado, notei que Gabriel Norris
estava sentado à cabeceira de uma das mesas compridas,
junto a um grupo de rapazes em trajes cujo corte e qualidade
os distinguiam dos outros estudantes. Eu não tinha levado a
sério a sugestão de Slythurst de que os instrumentos do
assassinato apontavam Norris como o criminoso - ao
contrário, me parecia que o uso de seu arco indicava sua
inocência -, porém, agora, pelo menos, eu teria a chance de
falar com ele depois do almoço. Norris continuou a olhar
fixo para a frente, como se a atitude respeitosa de curvar a
cabeça em oração ficasse abaixo de sua dignidade, e então
me ocorreu que havia algo estranho em sua aparência,
embora eu não conseguisse precisar o quê. No lado oposto
dessa mesa avistei Thomas Allen, com a cabeça tão curvada
que o nariz quase encostava na mesa, e as mãos cruzadas
com tanta força à frente do rosto que os nós de seus dedos
estavam completamente brancos.
- Per Christum Dominum nostrum, Amen - concluiu o
garoto ruivo, e um murmúrio de "amém" se elevou das
mesas em resposta. O diretor se levantou pesadamente e um
silêncio desconfiado desceu sobre o refeitório.
- Senhores - começou Underhill, a voz sem a
grandiloqüência que ele costumava empregar. - Na vida de
todo cristão, há momentos em que Deus, em Sua divina e
infinita sabedoria, julga por bem testar nossa pobre fé com
situações difíceis e tristezas. O mesmo acontece com a vida
da nossa pequena comunidade cristã. Nesses últimos dias,
Ele escolheu nos mandar provações dolorosas a fim de
melhor ancorarmos nossa fé em Sua Providência. - Respirou
fundo e cruzou as mãos à frente, numa postura de
humildade. - É com tristeza que lhes informo, senhores, tão
pouco tempo depois do terrível acidente que tirou a vida de
nosso querido subdiretor, o Dr. Mercer, que uma segunda
tragédia ocorreu em nossa pobre sociedade. O Dr. James
Coverdale foi mortalmente ferido, ao que parece
defendendo o cofre-forte do colégio de ladrões violentos.
Underhill baixou a cabeça. Houve uma breve pausa antes
que um rufar de especulações murmuradas irrompesse no
silêncio. Em vez de tentar calá-lo, o diretor esperou que
passasse a primeira onda de choque e incredulidade e então
ergueu uma das mãos, que manteve levantada até o
murmúrio cessar.
- Alguma aposta sobre quem terá coragem de ser o próximo
subdiretor? - cochichou Norris para um amigo, alto o
bastante para que sua voz fosse transportada pelo ar e uma
onda de risadas tensas se espalhasse pelas mesas dos
estudantes. O diretor pigarreou com ar severo.
- Se alguém viu alguma coisa no fim de semana que possa ter
relação com esse ato horrendo, ou que possa levar à prisão
desses criminosos perversos, pode ir à minha residência me
informar - anunciou.
Norris se virou para o diretor e levantou a mão:
- Diretor Underhill, podemos saber quanto foi levado do
cofre-forte?
Os jovens bem-vestidos com quem ele se sentava fizeram
acenos urgentes com a cabeça, e eu me perguntei se os ricos
plebeus pagantes também guardariam ali seus valores
privados, trancados a sete chaves.
O diretor hesitou por um momento.
- Hum... bem... Pelo que sabemos, parece que nada foi
realmente levado. É possível que a briga com o Dr.
Coverdale tenha assustado os ladrões e eles tenham fugido.
- Então, foi um tipo estranho de roubo - observou Norris,
pesando cuidadosamente as palavras. - Tirar a vida de um
homem por nada.
- É verdade, é verdade - concordou o diretor, em tom
solene. - Uma perda terrível.
A refeição transcorreu praticamente em silêncio entre os
que sentávamos à mesa dos docentes, embora não faltassem
hipóteses febris transmitidas entre os homens mais jovens
sentados abaixo de nós. À minha direita, o professor
Godwyn manteve os olhos fixos no prato e quase não disse
nada, mas notei que, quando ergueu o caneco para beber,
sua mão tremia como a de quem sofre de paralisia. A minha
esquerda, Slythurst baixava a faca entre uma garfada e outra
para tecer comentários sobre a segurança precária que, a seu
ver, tinha levado à morte de seus colegas, como se não
soubesse muito bem que, em ambos os casos, o assassino
tivera acesso aos locais com uma chave.
- O colégio deveria ter um vigia adequado no portão - disse
em voz alta, enquanto mastigava um pedaço de pão. -
Cobbett está muito velho e bebe demais para ter qualquer
serventia... Ora, uma companhia inteira de milicianos arma-
dos poderia passar por sua janela sem que ele notasse.
Precisamos de um cão de guarda apropriado, treinado para
deter intrusos, não daquela vira-lata velha dele. E o portão
principal deveria ficar permanentemente trancado, de modo
que só entrassem os que tivessem chave.
- Walter, acredito que um cão feroz provavelmente não é o
que o colégio necessita neste momento - disse Godwyn,
com ar cansado, levantando a cabeça por um instante. - E
somos uma comunidade de estudiosos, não um presídio. Não
podemos trancar o mundo do lado de fora nem nossos
jovens aqui dentro. Além disso, pense na despesa de
fornecer chaves do portão principal a todos os estudantes -
completou. Então balançou a cabeça e pareceu se recolher
de novo a seus pensamentos.
- Mestre Slythurst, como tesoureiro, o senhor deve ser
frequentemente encarregado de mandar fazer novas chaves
para as diversas fechaduras do colégio - comentei em tom
afável, tentando cortar uma fatia de carne de cordeiro
cozida.
Slythurst me lançou um olhar de esguelha furioso, como que
para me informar que estava ciente do que eu queria
insinuar. No entanto, aos ouvidos dos outros docentes, disse
apenas:
- É verdade. É uma despesa considerável, pois as pessoas
vivem perdendo ou quebrando as chaves.
- E esse dever oneroso cabe sempre ao senhor, ou às vezes
encarrega outros da tarefa de visitar o serralheiro? -
prossegui, no mesmo tom inocente.
- É um dever que eu mesmo cumpro - respondeu ele, já com
a voz mais tensa. - No que diz respeito à segurança do
colégio, o cuidado nunca é demais.
- E às vezes, quem sabe, deve ser necessário fazer cópias
extras das chaves de algumas portas, para tê-las à mão em
caso de perdas futuras - sugeri, estendendo a mão para o
jarro de cerveja.
Slythurst empurrou a cadeira para trás e se levantou
abruptamente.
- Se há algo que o senhor pretende me perguntar, Dr. Bruno
- disse entre dentes -, tenha a bondade de falar com
franqueza. Porém ao menos demonstre o mínimo de
discrição, ou será que acredita que agora se tornou nosso
inquisidor?
O homem se virou para a esquerda, abarcando o diretor com
seu olhar furioso, depois passou raspando pelas costas da
minha cadeira e, sem olhar para trás, se retirou do refeitório
com ar majestosamente ofendido, a toga esvoaçando em sua
esteira. O burburinho nas mesas inferiores cessou enquanto
olhares intrigados acompanhavam o progresso de Slythurst
até a porta, até uma nova onda de conversas em voz baixa se
deslocar por entre elas.
- Que bicho o mordeu? - perguntou Richard Godwyn,
levantando os olhos do prato à partida brusca de Slythurst.
- Talvez ele esteja angustiado com a notícia trágica - sugeri.
Godwyn piscou os olhos.
- Quem sabe? Os homens são mais difíceis de interpretar do
que os livros. Talvez Walter esteja atormentado pelo
remorso.
- Remorso? - repeti, mantendo a concentração em meu
prato, para não deixar transparecer meu interesse.
- Ele e James se detestavam - confidenciou Godwyn em voz
baixa. - Portanto, agora que James teve uma morte tão
terrível, talvez Walter se arrependa do que disse e que
nunca poderá remediar.
- Por que eles se odiavam?
Godwyn deu um suspiro e balançou a cabeça, tristonho.
- Eu nunca soube. Tenho a impressão de que cada um sabia
de algo prejudicial sobre o outro e que, de algum modo, os
dois estavam ligados em segredo, a contragosto. Mas, é claro,
é sempre perigoso fazer esse tipo de pacto com o inimigo.
- Poderia ser alguma coisa ligada aos arrendamentos de
terras? - perguntei, recordando de repente a conversa
interrompida no jantar do diretor, na minha primeira noite,
quando Coverdale havia insinuado que o tesoureiro estava
envolvido nas negociações de Underhill com Leicester para
abrir mão de receitas valiosas. - Será que o Dr. Coverdale
sabia de algum esquema corrupto dessa natureza?
Godwyn apenas dirigiu a mim, lentamente, seus olhos
grandes e tristes.
- Imagino que seja possível. Sei que James julgava ter
motivos para desconfiar de Walter... o bastante para tentar
convencer o diretor de que ele não deveria continuar no
cargo.
- Coverdale tentou se livrar de Slythurst? - sussurrei, me
inclinando para o mais longe possível do diretor.
- Ele disse ao diretor que não achava Walter digno de
confiança. Só sei disso porque Underhill veio perguntar
minha opinião sobre ele. Eu disse nunca haver encontrado o
menor calor humano no homem, mas que não tinha razão
para crer que ele estivesse faltando com seus deveres.
- E era essa a suspeita de Coverdale, que o capital do colégio
não deveria ser confiado a Slythurst?
- Presumo que sim - respondeu Godwyn, com ar inocente. -
Não consigo imaginar o que mais poderia ser.
- Algo a ver com a religião dele, talvez?
Nesse momento, Godwyn pôs a mão no meu braço em sinal
de advertência.
- Há certas perguntas que é melhor calar, Dr. Bruno. Não
tenho razão para crer que Walter Slythurst seja outra coisa
senão leal à Igreja Anglicana. Mas, de qualquer modo, agora
ele está a salvo... os mortos levam consigo os seus segredos -
ponderou. Levantou a cabeça para a janela por um
momento, depois se virou para mim, pousou a faca e baixou
ainda mais a voz: - Mas essa história de ladrões no cofre-
forte... me deixa bastante inquieto.
- O senhor não acredita?
- Com qualquer outra pessoa, seria possível acreditar, mas
com James, sabe... Não quero falar mal de um colega
falecido, mas qualquer um que o tenha conhecido diria que
ele era o mais terrível dos covardes. Seria o último homem
na face da Terra a tomar para si a tarefa de enfrentar sozinho
ladrões armados. É por isso que a coisa parece muito...
estranha.
- Qual é sua explicação? - indaguei, inclinando mais a cabeça
na direção dele.
- Não sei - respondeu Godwyn, cauteloso. - Mas são dois
mortos entre nós, em apenas dois dias. É o bastante para
provocar medo.
Eu já ia indagar a quem ele se referia como "nós" quando
William Bernard se inclinou pela direita de Godwyn e
cravou em mim seus olhos lacrimosos.
- O senhor faz muitas perguntas, Dr. Bruno.
- Duas tragédias em dois dias, Dr. Bernard. Essas
coincidências provocam muitas perguntas, o senhor não
concorda?
- E óbvio. Deus está castigando o colégio por sua deslealdade
quanto à religião. Ele não aceita ser alvo de zombaria -
respondeu Bernard, num tom que não admitia
argumentação.
- O senhor quer dizer que o Dr. Coverdale precisava ser
punido?
Os olhos de Bernard se iluminaram de raiva.
- Não estou afirmando nada disso, feiticeiro. Apenas que
todos estamos sofrendo a ira divina por nossa desobediência.
Deus está derramando Seu julgamento sobre nós, e quem
sabe onde Sua justiça irá recair da próxima vez?
- Onde o senhor prevê que ela recaia, Dr. Bernard? -
indaguei, me aproximando dele.
- Chega de perguntas! - exclamou Bernard, batendo o punho
ossudo na mesa com tanta força que a cerveja entornou pela
borda de seu copo.
- William - disse Godwyn, em tom apaziguador, pondo a
mão sobre a de Bernard, que empurrou a mão dele com raiva
e se recolheu a um silêncio fervilhante de ódio.
Underhill se inclinou para a frente, à minha esquerda, a testa
franzida.
- A discrição é tudo, Bruno - disse ele. Seu olhar ansioso se
fixou na conversa animada dos mais jovens nas mesas
inferiores. - Fale com eles longe dos estudantes. Não vamos
oferecer aos alunos mais motivos para intrigas. O pior disso
tudo precisa ser contido pelo maior prazo possível.
Fez então um aceno com a mão para a direita e, mais uma
vez, o menino ruivo subiu ao púlpito para ler uma passagem
do grande exemplar da Bíblia dos Bispos preso à estante por
uma corrente de metal. A lição era de Ezequiel, porém a
declamação do garoto pouco fez para diminuir a conversa
entre os estudantes. Embora eu não pudesse discernir as
discussões individuais, pelo tom de voz e o brilho nos olhos
deles, ficou claro que uma segunda morte violenta provocara
mais agitação do que medo.
Terminada a refeição, enquanto os alunos começavam a sair
enfileirados, quebrei todas as regras de etiqueta, me levantei
de um salto e fui forçando a passagem para alcançar Gabriel
Norris, que estava dizendo a Thomas Allen para esperá-lo do
lado de fora. Norris havia acabado de cruzar a porta do
refeitório quando estiquei o braço e lhe dei um tapa entre as
omoplatas. Ele soltou um grito agudo de dor - muito
exagerado, pensei, já que eu só o havia atingido com a palma
da mão - e, quando se virou, percebi que trincava os dentes
com força, como que para reprimir outra exclamação. Pus a
mão em seu braço.
- Gabriel, me desculpe, não tive intenção de assustá-lo.
- Dr. Bruno! - disse ele, soltando o ar com uma calma
forçada, antes de desvencilhar o braço e alisar
meticulosamente a seda de sua manga, para o caso de eu ter
deixado nela alguma marca. - Imagino o que o senhor deve
estar pensando do nosso colégio... Ele está virando uma
verdadeira capela mortuária, não é? Pelo menos o senhor e
eu não podemos nos responsabilizar por não ter salvado essa
vida, certo? Tiraram o meu arco, então eu não poderia tornar
a bancar o herói. E que tempo! - acrescentou, com a mesma
entonação, como se a chuva e o assassinato de Coverdale
fossem exemplos similares de incômodos cotidianos. Foi
então que me dei conta do que lhe atribuía um ar diferente:
parecia estar deixando a barba crescer. Pelo menos, seu belo
rosto exibia os fios espetados de uns dois dias. Embora ele
fosse louro, a barba era mais escura e logo estaria espessa e
cheia.
- Está deixando a barba crescer, Sr. Norris? - observei.
- Bem, não é de propósito - retrucou ele, irritado, passando a
mão nos pelos que cresciam no queixo -, mas faz dois dias
que não consigo encontrar minha navalha e me recuso a
confiar novamente meu queixo ao barbeiro do colégio. Ele
tem a delicadeza de quem decepa membros no campo de
batalha, onde, aliás, creio que aprendeu seu ofício. Mas eu
deixei que ele me barbeasse uma vez e por pouco não saí
sem o nariz. O que me diz, Dr. Bruno: acha que a barba me
cairá bem? Ela fica muito bem no senhor, mas a sua tez é
morena...
- Que azar o seu ter perdido a navalha, Sr. Norris, logo depois
de mandar Thomas afiá-la - disse eu em tom sereno,
interrompendo sua conversa fiada. Imediatamente, senti que
ele ficou tenso a meu lado. Quando falou, a voz saiu mais
ríspida, como se houvesse abandonado seu ar afetado.
- Como é? Agora isso é crime? E o que o senhor tem a ver
com isso?
Deu um passo na minha direção, ficando com o rosto quase
colado ao meu, e havia uma ameaça contida em sua voz.
- Calma, Sr. Norris. Só estou indagando, a pedido do diretor,
quem teria armas no colégio.
- Navalha não é arma - rebateu ele com desdém, depois ficou
me olhando, até surgir em seu rosto um súbito lampejo de
compreensão. Ele soltou minha roupa, ainda me encarando,
mas agora como se olhasse para além de mim, como se uma
explicação que só ele era capaz de ver estivesse escrita na
parede acima do meu ombro. - O senhor quer dizer que
Coverdale foi morto com uma arma desse tipo?
Como não respondi, ele acenou com a cabeça, o rosto
subitamente severo.
- Entendo. E o senhor andou fazendo perguntas ao Thomas
sobre a minha navalha - disse ele, estreitando os olhos. -
Bem, nesse caso, preciso falar com ele. Você poderá me
encontrar no meu quarto mais tarde, Bruno. Agora não
tenho tempo a perder.
O rapaz me dispensou com um aceno breve da cabeça, antes
de baixá-la para cruzar o pátio sob a chuva. Eu já ia segui-lo
quando senti alguém segurando minha manga, então me
virei, impaciente, e deparei com Lawrence Weston atrás de
mim, com um brilho ansioso no olhar. A seu lado estava o
garoto ruivo que tinha lido o sermão no almoço.
- Eu disse que o encontraria para o senhor, Dr. Bruno, e
encontrei - disse Weston, em tom triunfante. - Foi o Ned, o
ledor da Bíblia - acrescentou, cutucando o garoto magrelo
com o cotovelo para ele dar um passo à frente. Olhei para os
dois sem entender.
- Foi ele o quê?
- O Ned - repetiu Weston, impaciente. - Foi ele que levou a
mensagem ao Dr. Coverdale durante o debate. O senhor me
prometeu um xelim - acrescentou, em tom de acusação,
como se eu estivesse tentando tapeá-lo.
- Prometi - retruquei, procurando a bolsa em meu cinto. O
rosto sardento de Ned ficou tenso de indignação.
- Por que deveria ganhar um xelim, Weston - protestou o
garoto ruivo -, se você não sabe nada da história?
- Você também receberá um xelim - disse eu, para acalmá-lo,
desejando ter aprendido mais sobre o valor dessas moedas
inglesas antes de começar a distribuí-las com tanta liberdade.
Fiquei com a sensação de haver estipulado um valor alto
demais. - Bem, e então? Quem lhe pediu que levasse o
recado ao Dr. Coverdale, na tarde de sábado, para tirá-lo
mais cedo do debate?
Percebi que, na minha expectativa, eu havia agarrado o
garoto pelos ombros e estava quase sacudindo-o. Ele me
fitou com uma expressão intrigada.
- Bem, foi ele, meu senhor. Quero dizer, o Dr. Coverdale.
- Como assim? Isso não faz sentido.
Ned deu de ombros.
- E só o que eu sei, senhor. Antes de sairmos do colégio, no
anoitecer de sábado, ele me imprensou num canto e me deu
uma moedinha de quatro pennies para que eu o chamasse na
metade do debate, a pretexto de lhe levar um recado
urgente. Ele não é tão generoso quanto o senhor, quero
dizer, não era.
- Ele disse por quê?
Ned fez que não com a cabeça.
- Só disse que tinha de voltar cedo para o colégio, mas
precisava de uma desculpa para sair.
- Ele não comentou se ia se encontrar com alguém?
O garoto se debateu com impaciência entre minhas mãos.
- Não, senhor, ele não disse mais nada. Peguei minha moeda
e fiz o que ele me pediu, e era só isso que eu sabia até agora
há pouco.
De repente, seus olhos se arregalaram com a dramaticidade
do acontecimento.
- O senhor acha que foi naquela hora que o pegaram, quando
ele voltou cedo para o colégio?
- Não viu se ele se encontrou com alguém fora da Escola de
Teologia, depois de você lhe dar o recado? Um homem sem
orelhas, talvez?
- Não, senhor, mas sei quem é o homem de quem está
falando - respondeu Ned, o rosto sardento se iluminando
como se ele tivesse respondido a uma pergunta difícil numa
prova. - Quem se encontrou com ele do lado de fora da
Escola de Teologia foi Mestre Godwyn, não o Dr. Coverdale.
- Godwyn? - repeti, sem compreender.
- Sim, eu o vi se encontrar com o homem a que o senhor se
refere, o livreiro Jenkes, do lado de fora da Escola de
Teologia, enquanto esperava para dar o falso recado ao Dr.
Coverdale. Mas depois eu segui o Dr. Coverdale por todo o
caminho de volta para o colégio. Pensei em aproveitar a
oportunidade para também sair mais cedo... sem querer
ofendê-lo, senhor - acrescentou, com um ar repentino de
culpa. Balancei rapidamente a cabeça.
- Não perdeu nada, eu lhe asseguro. Mas você viu Coverdale
ir direto para o quarto?
- Sim, senhor. Quer dizer, eu o vi entrar na escada.
- E não viu mais nada de incomum? Ninguém de fora no
colégio?
- Não, senhor. Só...
- O quê? - perguntei, elevando mais a voz, enquanto o
sacudia com urgência.
- Bem... meu quarto fica acima da biblioteca, já que eu tenho
deveres a cumprir lá e na capela. E assim que pago meus
estudos, senhor - explicou, meio sem jeito. - Bem, quando ia
subindo a escada para o meu quarto, ouvi vozes atrás da
porta.
- Da biblioteca? Vozes de quem?
- Não sei, mas ouvi um homem falando alto, como se
estivesse aborrecido.
Só que não consegui discernir as palavras. Passei de
mansinho pelo patamar, subindo para o sótão no maior
silêncio possível, mas eles devem ter ouvido meus passos na
escada, porque se calaram por um instante. Então, quando
ouvi a porta da biblioteca se fechar, alguns minutos depois,
tentei olhar da minha janela para o quadrilátero, para ver
quem era e poder dar a informação ao mestre Godwyn.
- Poderia ter sido o próprio mestre Godwyn, voltando mais
cedo? - perguntei.
- Não sei. Os dois estavam de capa e com o capuz levantado,
por isso não deu para eu saber.
Ned encolheu os ombros, como se aquilo não tivesse grande
interesse.
- Obrigado, Ned.
Decepcionado, soltei seus ombros e tornei a vasculhar a
bolsa à procura de outro xelim. Da próxima vez que
precisasse de informações, pensei, eu me lembraria de
oferecer uma moeda de quatro pennies. Ned agarrou o
xelim, satisfeito, e sorriu. Enquanto fechava o punho em
volta da moeda, vislumbrei Slythurst do outro lado do pátio,
saindo da escada que levava à biblioteca e à capela. Ele me
lançou um olhar de puro ódio e se apressou a atravessar o
temporal em direção à residência do diretor. Então, Godwyn
também saíra cedo do debate, para se encontrar com Jenkes.
Seria possível que tivessem voltado juntos para o colégio, à
procura de Coverdale? Ou será que tinham outros assuntos
na biblioteca, talvez envolvendo os livros ilegais?
As pessoas continuaram a se comprimir e se acotovelar à
nossa volta, espiando o pátio e tentando decidir se deviam
ou não esperar que a chuva diminuísse. Eu me preparei e
disparei pelo quadrilátero sob o aguaceiro, contornando a
aglomeração de alunos que se dispersava. Embaixo da arcada
da torre, um grupinho se reunira para observar com
interesse a chegada de três homens de capa comprida e
chapéu de três pontas, que sacudiam a água dos ombros. Um
deles segurava um bastão de aparência oficial e punho de
metal entalhado, e presumi que aqueles deviam ser os
oficiais da guarda e o oficial de inquirição, que haviam
chegado para buscar o corpo. O diretor Underhill se postava
ao lado deles, torcendo as mãos, agitado, enquanto Slythurst
procurava manter os estudantes a distância. Perguntei a mim
mesmo se o diretor falaria com o oficial de inquirição sobre
o martírio de São Sebastião ou se o deixaria tirar suas
conclusões sozinho.
- Dio buono, amico mio, que dia! - exclamou uma voz atrás
de mim. Eu me virei e vi John Florio, apertando a capa em
volta dos ombros, como quem se preparasse para enfrentar o
mau tempo. - Aposto que o senhor nunca viu chuva assim
em Nápoles, não é?
- Nem Noé viu uma chuva igual a esta - retruquei em tom
soturno, olhando de relance para o céu.
- O senhor vai sair? - perguntou ele, segurando meu braço e
me fitando com um olhar de curiosa expectativa, quando o
segui pelo portão e entrei na travessa St. Mildred. - Talvez
possamos caminhar juntos - continuou Florio, ansioso, sem
esperar resposta. - Estou indo à rua Catte, para indagar sobre
uns livros franceses que encomendei de um livreiro de lá.
Ficarei feliz por me afastar do colégio, nem que seja por uma
hora, apesar do mau tempo. Esse crime pavoroso deixou
todos nós muito abalados. Por que não vem comigo? Creio
que a loja dele interessaria ao senhor... O verdadeiro negócio
desse homem é a encadernação de livros, mas ele tem bons
contatos com tipógrafos da França e dos Países Baixos, e é
sempre possível encontrar livros importados interessantes,
textos obscuros que não se encontrariam em outros lugares,
se a pessoa conseguir tolerar o sujeito propriamente dito.
Saímos andando no mesmo ritmo pelas ruas imundas, Florio
fazendo especulações desvairadas em italiano sobre o ataque
a Coverdale, gesticulando muito ao falar, e eu assentindo
com a cabeça e murmurando minha concordância, nas
poucas pausas que ele fazia para respirar. Na esquina da rua
St. John com a Catte, de repente ouvi gritos e uma sucessão
de gargalhadas grosseiras que vinham do outro lado da rua.
Nós dois nos viramos e vimos um bando de garotos
aprendizes junto ao portão conhecido como Smythgate,
trocando empurrões e apontando em nossa direção,
radiantes e gritando insultos. Florio me puxou pelo cotovelo
para longe deles, enquanto os moleques gritavam:
- Saiam da Inglaterra, seus papistas filhos da puta!
- Ignore-os - murmurou Florio, apertando o passo quando
um dos meninos se abaixou para pegar e atirar uma pedra,
enquanto outro cuspia na nossa direção. Os garotos nos
seguiram por alguns passos, porém não tiveram coragem de
fazer mais do que gritar e acabaram se cansando de suas
provocações.
- Eles não têm grande amor pelos estrangeiros aqui -
comentei, ao nos protegermos, agradecidos, sob o abrigo
precário das sacadas do segundo andar das casas da rua Catte.
Florio me lançou um olhar pesaroso e disse:
- É um pretexto para criar confusão. Para os ignorantes, todos
os estrangeiros são católicos que querem trucidá-los em suas
camas. Convivo com isso o tempo todo, e eu nasci aqui.
Esqueça, amico mio. Olhe, estamos quase chegando.
- Como é o nome desse livreiro? - perguntei, embora já
adivinhasse.
- Rowland Jenkes - disse Florio, com uma espiada para trás, já
que não havia espaço para andarmos lado a lado e
continuarmos a contar com a escassa trégua da chuva
oferecida pelos beirais. - O senhor não demorará a ouvir falar
dele, tenho certeza. Ele é bastante insultado na cidade. É
chamado de feiticeiro, mas o senhor sabe como as pessoas
são fofoqueiras. A questão é que Jenkes encontra livros que
o indivíduo não conseguiria obter sem viajar à França, e isso
tem um valor especial para mim. Há quem se recuse a pôr os
pés na loja dele e espalhe boatos maldosos sobre qualquer
docente universitário que faça isso, mas procuro tapar os
ouvidos para essas coisas. Já tenho problemas suficientes por
aqui, como o senhor viu, na condição de inglese italianato.
Aqui estamos - concluiu, apontando para a loja baixa em que
eu vira William Bernard e Jenkes entrarem na véspera. Dessa
vez as persianas estavam abertas, mas as janelas não pareciam
menos obscuras e ameaçadoras.
Florio hesitou e, em seguida, pôs uma das mãos no meu
braço.
- Por favor, me perdoe, mas, antes de entrarmos, preciso lhe
perguntar, Dr. Bruno, se o senhor leu meu bilhete -
sussurrou, com os olhos brilhando de urgência e apreensão.
Eu o encarei, perplexo.
- Seu bilhete?
- Sim. Eu lhe deixei um bilhete. Não o recebeu?
- Bem... sim, mas não havia me dado conta de que tinha
vindo do senhor - respondi, ainda o fitando com
incredulidade.
Afinal, se a carta misteriosa tinha vindo de Florio, isso só
podia significar que ele dispunha de informações essenciais
sobre os assassinatos. Então, por que não disse o que sabia a
alguma autoridade? Nesse momento, me lembrei do que
Thomas Allen dissera sobre os rumores a respeito de um
espião do governo no colégio. Florio, com seu
conhecimento de línguas estrangeiras e seus contatos de
ascendência ilustre, seria exatamente o tipo de homem que
Walsingham poderia utilizar. Talvez, portanto, ele temesse
revelar seu disfarce e houvesse esperado até poder
estabelecer contato com Sidney e comigo. Continuei a
encará-lo, à espera de mais algum esclarecimento. Ele
pareceu ligeiramente perplexo.
- Ah. Pensei que estaria claro, por razões óbvias. Sinto muito
por qualquer confusão.
- Mas, Florio - disse eu, segurando-o pelo braço e puxando-o
para mais perto. A água das vigas de madeira acima de nós
descia em cascatas sobre o chão encharcado, e precisei
elevar a voz para me fazer ouvir -, por que você não foi falar
sobre isso comigo pessoalmente?
Ele baixou os olhos, como que envergonhado.
- E um assunto delicado, Dr. Bruno. Achei melhor abordá-lo
de maneira mais formal. Nessas coisas, é preciso respeitar a
etiqueta.
- Dane-se a etiqueta, Florio! Dois homens morreram, e pode
ser que haja outras mortes!
De início ele pareceu assustado, mas sua expressão logo se
transformou em pavor.
- Mas, Bruno... você acha que haverá mais mortes? O que o
leva a dizer isso?
- Não há meio de sabermos, até descobrirmos o que liga essas
duas vítimas e o que motiva o assassino, não concorda? E,
nesse ponto, creio que você tem algo a dizer que poderia
esclarecer o caso, certo?
Florio me olhou com um ar de profunda incompreensão,
mas, antes que pudesse responder, a porta a nosso lado se
abriu e Rowland Jenkes parou no portal de sua loja, nos
examinando com sua habitual expressão descontraída de
quem está se divertindo.
- Buongiorno, signori - disse ele, com o sotaque irônico e
culto que tanto destoava de seu rosto devastado, e ao mesmo
tempo fez uma breve mesura que me pareceu sarcástica. -
Isto não é tempo para se ficar parado do lado de fora, Mestre
Florio. Entre, por favor, e traga seu amigo.
Recuou e fez um gesto majestoso para nos conduzir loja
adentro. Florio me olhou por mais um instante, depois
desceu o capuz da capa encharcada e entrou.

Capítulo 14

O RECINTO EM QUE ENTRAMOS FORA construído abaixo do
nível da rua, de modo que precisamos descer três degraus de
pedra até o piso de lajes coberto por esteiras de junco que
absorveram prontamente a água da chuva que escorria de
nossa roupa. O teto baixo, com sua armação de vigas de
madeira escura, fazia a loja parecer reservada e íntima. Florio
e eu, ambos de baixa estatura, podíamos ficar eretos, mas
Jenkes tinha que curvar os ombros para não bater com a
cabeça, e essa postura lhe dava um ar ligeiramente
obsequioso, como se ele fizesse uma permanente meia
reverência. Havia pouca iluminação no aposento, pois as
janelas imundas, com suas vidraças em forma de losangos de
ambos os lados da porta, mal deixavam entrar a luz do dia
com o tempo nublado, embora um par de velas ardesse num
castiçal de parede atrás da bancada de mercadorias em frente
à porta. E eram de cera de boa qualidade, pois não exalavam
o cheiro fétido das velas de sebo de tipo barato que
iluminavam meu quarto no Lincoln. Na verdade, a loja
estreita tinha mais cheiro de lar que qualquer outro lugar em
que eu houvesse estado desde minha chegada a Oxford, pois
recendia a livros: um caloroso aroma de couro novo e papel,
com o toque mais bolorento do velino e da tinta, uma
mistura estonteante que me trouxe uma repentina pontada
de saudade do scriptorium do mosteiro de San Domênico
Maggiore, onde eu havia passado muitas horas da minha
juventude.
Estantes de madeira entalhada ocupavam os dois lados da
loja, exibindo a arte do encadernador: do piso ao teto, ambas
estavam repletas de volumes encadernados em couro
colorido e organizados por tamanho, expostos com a borda
frontal para fora, de modo que os fechos de metal reluziam
sob as chamas dar- dejantes das velas. Ao longo da bancada
junto à qual estava Jenkes, esfregando as mãos e olhando
para mim e para Florio com uma expressão de expectativa
voraz, havia exemplos de diferentes tipos e formatos de
encadernação, desde as antiquadas placas de madeira
revestidas de couro de bezerro, que impediam os
manuscritos de pergaminho de se enrugarem, até as
encadernações parisienses mais novas, de folha dupla de
papelão para livros mais leves de papel, que não precisavam
de grampos de metal e eram costurados com fios ou fitas de
couro. Tal como os livros da biblioteca do Lincoln, todos
ficavam presos a uma corrente de metal ligada a um eixo que
corria por baixo da bancada. Atrás desta, de frente para a
porta da rua, ficava uma outra porta que dava para uma sala
interna maior, cuja iluminação não era melhor do que a
primeira, e que, pelo pouco que eu podia ver de seu interior,
parecia ser a oficina. Pensei ter vislumbrado a sombra de
alguém se mexendo, saindo do nosso campo visual, e pre-
sumi que Jenkes devia ter aprendizes trabalhando.
- E esse é o signor Filippo Nolano, correto? - me
cumprimentou Jenkes, com um sorriso felino, estendendo a
mão surpreendentemente delicada, que apertei com certa
relutância, sentindo o olhar curioso de Florio na lateral do
meu rosto. - Eu me perguntava quando o veríamos aqui,
depois que o senhor me seguiu desde a Roda da Catherine,
no outro dia.
- Eu... isto é... - Fiquei sem saber ao certo como enfrentar
essa acusação, ainda mais com o olhar espantado de Florio
sobre mim.
Jenkes fez um aceno com a mão, como que para descartar
minha ofensa.
- Não importa. Mas, signor Nolano, não posso deixar de notar
que nosso amigo aqui, o signor Florio, parece surpreso por
eu me dirigir ao senhor dessa maneira. Talvez ele o conheça
por um nome diferente.
Levantou teatralmente uma das sobrancelhas e juntou as
pontas dos dedos. Ele tinha o hábito de falar quase sem
mover os lábios, dando a cada frase o tom de uma
confidência que não podia propriamente ser feita em voz
alta.
Eu o encarei, me sentindo em desvantagem. Não apenas me
encontrava em sua loja encharcado até os ossos, como podia
ver que ele havia tratado de obter informações a meu
respeito, justamente quando eu supunha seguir seus passos.
- Durante muitos anos, viajei por lugares em que não era
seguro fornecer meu próprio nome - expliquei, aprumando
os ombros e tentando me portar com dignidade. - Isso se
tornou um hábito quando me encontro entre estranhos,
nada mais.
Jenkes sorriu.
- Um homem seria capaz de ir a qualquer extremo para evitar
a Inquisição, disso eu tenho certeza, Dr. Bruno.
Fiz um aceno cuidadoso com a cabeça, tentando não deixar
transparecer minha surpresa. Florio continuou a franzir o
cenho, intrigado.
- Espero que o senhor já não pense em nós como estranhos.
Mas há locais, mesmo no nosso glorioso reino de liberdade,
em que um homem faz bem em atentar para o que diz. O
que o atraiu para a Roda da Catherine, posso saber?
Dei de ombros:
- Eu estava com fome. Vi a tabuleta e entrei, em busca de
comida quente.
Diante disso, Jenkes jogou a cabeça para trás e deu uma
gargalhada, revelando os dentes tortos.
- Não tardou a aprender sua lição por lá, eu presumo. Mas foi
maldade sua dizer ao jovem Humphrey que não daria aquela
comida nem mesmo a seu cachorro - disse ele. E parou de rir
da mesma forma abrupta que havia começado, deixando um
silêncio repentino pairando no ar.
- O senhor fala italiano?
- Falo sete línguas, Dr. Bruno, embora ninguém imagine isso
ao olhar para mim, não é? Não tenho o rosto de um erudito,
sei disso. Mas, afinal, o senhor sabe que não se pode julgar
um homem pela aparência. Suponho que o senhor seja mais
um que é mais do que parece. Sabe o que dizem de mim em
Oxford?
- Não - respondi, sem rodeios. Era visível que ele se
orgulhava de sua fama, e eu não tinha o menor desejo de
lisonjear ainda mais sua vaidade. Fiquei satisfeito ao perceber
que ele pareceu meio decepcionado.
- Eles me chamam de discípulo do Diabo, Bruno - informou-
me, com um meio,sorriso bailando nos lábios finos. -
Compõem canções folclóricas a meu respeito para assustar as
criancinhas. Dizem que matei 300 homens com uma só
maldição. O que me diz disso?
- Digo que a febre dos presídios se espalha rapidamente em
certas condições - respondi, sem me alterar.
- Tem razão, é claro. Mas, nesse caso, por que não fui
afetado?
- E evidente que o senhor tem a constituição de um touro -
declarei, olhando de relance para as espirais e os nós de pele
cicatricial em que um dia tinham estado suas orelhas. - O
senhor tem tão pouco de feiticeiro quanto eu, ou quanto o
Florio aqui.
- Tão pouco de feiticeiro quanto o senhor? - repetiu Jenkes,
me observando por um momento e depois explodindo em
outra de suas gargalhadas repentinas.
- Gosto do seu amigo, signor Florio, ele é um comediante e
tanto - disse, com ar indulgente. O pobre Florio parecia
muito constrangido com a corrente velada de antagonismo
entre mim e Jenkes e continuou, nervoso, a olhar
alternadamente para nós.
- O senhor está com o meu Montaigne, Sr. Jenkes? -
perguntou ele, em tom manso. - Espero que sim, pois saí
neste tempo traiçoeiro por causa dele.
- Traiçoeiro, de fato - concordou Jenkes, dando-me um
brevíssimo lampejo de seu enigmático sorriso. - Vieram dois
volumes em uma carga no fim da semana passada, meu caro
Florio, e, apesar deste mau tempo apocalíptico, a carroça
conseguiu chegar de Plymouth no sábado. Nunca
decepciono aqueles que depositam sua confiança nas minhas
habilidades. Se o senhor tiver um pouquinho de paciência,
irei buscá-los - disse. Fez outra breve reverência e,
mantendo a cabeça baixa, passou pela porta e entrou na
oficina atrás dele.
Florio se virou para mim.
- Preciso lhe pedir que jure manter sigilo, Bruno - sussurrou,
pondo uma das mãos em meu braço, com os olhos
arregalados e sério. Balancei a cabeça, arfante, achando que
ele ainda se referia ao assunto de seu bilhete, em meio ao
qual fôramos interrompidos. - Decidi me encarregar de uma
tarefa grandiosa e solene, que levará meu nome à
posteridade, junto com o do grande gênio humanista a que
sirvo... uma obra muito maior, posso dizer, do que jamais
seriam as minhas tolas coletâneas de provérbios - declarou e
agarrou minha manga com mais força, os olhos brilhando: -
Vou trazer os ensaios de Michel de Montaigne para os
leitores ingleses!
- Ele sabe disso?
Florio baixou os olhos, meio desanimado.
- Escrevi ao grande homem, propondo a ele meus humildes
serviços de tradutor, mas ainda não recebi sua autorização, é
verdade. Pedi ao Sr. Jenkes que me encomendasse as edições
francesas, a fim de enviar uma amostra a Monsieur
Montaigne, na esperança de conquistar sua aprovação. Mas,
como você com certeza pode imaginar, esse é um trabalho
de amor que, até estar concluído, consumirá tempo e custará
caro, e portanto agora você compreende por que tive de lhe
escrever como escrevi...
- Qualquer livro que desejar, vindo de qualquer país, basta
pedir a Rowland Jenkes e, se ele não conseguir encontrá-lo,
é porque a obra não existe - anunciou o encadernador,
surgindo das sombras como um artista no palco e segurando
em cada mão um livro fino, ambos encadernados em couro
de bezerro castanho-acinzentado e amarrados com cordões
de couro. Ele fixou em mim um olhar conspiratório: -
Qualquer livro, Dr. Bruno, pelo preço justo - e seus olhos
correram com expressão significativa para meu cinto, onde a
bolsa de Walsingham estava escondida embaixo da
sobreveste. Não dei nenhuma indicação de haver percebido
esse olhar, mas de repente me senti vulnerável. Ele já
parecia saber mais a meu respeito do que eu teria suposto, e
me perguntei se sua fonte seria Bernard.
Jenkes entregou os dois volumes a Florio, que aninhou cada
um na dobra de um braço e os contemplou com amor, como
se fossem gêmeos recém-nascidos.
- Então o senhor traz um bom número de livros dos Países
Baixos? - indaguei, com o ar mais casual que pude.
- Da França, dos Países Baixos... da Espanha e da Itália, às
vezes, quando há demanda. Há muitas pessoas em Oxford
que anseiam por certos materiais que só podem ser obtidos
no exterior. E, ocasionalmente, surge também a oportu-
nidade de fazer o comércio no sentido inverso - disse,
sempre me fitando com o mesmo olhar meio significativo,
meio zombeteiro, como se me avaliasse para um emprego. -
Mas presumo que você já tenha ouvido falar disso, Bruno.
Talvez isso explique por que me seguiu, não?
Não respondi. Florio havia começado a saltitar de um pé para
outro, agitado, com o rosto tenso de quem estivesse prestes a
irromper em pranto a qualquer momento.
- O que está havendo, meu caro Florio? - perguntou Jenkes.
- Eu... é só que eu não esperava dois volumes de uma só vez,
Sr. Jenkes, e receio não poder... isto é, talvez eu precise
deixar um deles sob os seus cuidados por um ou dois meses.
Eu peço que não o venda, pois terei o dinheiro mais adiante,
porém...
Jenkes descartou o pedido de desculpas.
- Não tenho espaço para livros que as pessoas não vêm
buscar, Florio. É melhor você levar os dois agora e me pagar
quando puder.
O rosto de Florio se iluminou com a surpresa, como o de
uma criança ao ganhar um doce.
- Obrigado, Sr. Jenkes. Garanto que não terá de esperar muito
por seu pagamento, em especial se certos assuntos tiverem o
desdobramento que espero.
Florio então me lançou um olhar esperançoso, como que
deixando implícito que eu compreendia o que queria dizer.
Mas estava enganado, pois continuei no escuro. Se isso era
uma referência à seu bilhete enigmático, porventura ele
queria dizer que esperava tirar proveito das mortes no
Lincoln? Só me restou lhe fitar com um olhar inexpressivo
como resposta, enquanto ele remexia no cinto em busca das
moedas que tinha levado.
- Bem, nesse caso, Bruno, nosso assunto está encerrado -
declarou, depois de fazer o pagamento e ter suas novas
aquisições cuidadosamente embrulhadas num oleado, para
protegê-las do mau tempo. - Vamos enfrentar a inundação
mais uma vez?
- Um momento, por favor - interveio Jenkes, quando me
virei para olhar as torrentes que continuavam a rolar pelas
vidraças como um dique rompido. O céu parecia ter ficado
ainda mais escuro. - Eu não gostaria de retê-lo aqui por
muito tempo, Mestre Florio, mas há algumas questões de
negócios que quero discutir com o Dr. Bruno, se ele puder
me dedicar alguns minutos.
Jenkes tornou a levantar uma das sobrancelhas, para
transmitir a idéia de que pretendia algo mais do que se
dispunha a dizer na presença de Florio, que hesitou por um
breve instante, depois pareceu se lembrar do generoso
crédito que o livreiro acabara de lhe conceder e resolveu
entender a insinuação.
- É claro... Preciso retornar ao colégio, de qualquer modo.
Dr. Bruno, se não nos afogarmos no trajeto de volta, vamos
conversar logo mais à noite?
Assenti com a cabeça. Florio segurou seu embrulho bem
junto ao peito, levantou o capuz da capa e, com uma última
olhada expressiva para mim, partiu para o temporal.
Deixado a sós na pequena loja com Jenkes, estremeci
involuntariamente quando a porta se fechou após Florio sair.
O ar frio me deixara enregelado na roupa molhada, mas não
tanto quanto o olhar intenso que o encadernador me dirigiu
nesse momento, à sombra bruxuleante das velas:
- Venha. O senhor pegará uma febre se ficar parado aí, e o
mundo dirá que eu o amaldiçoei - comentou, com um
sorriso seco, fazendo um gesto para que eu atravessasse a
porta atrás da bancada de livros. - Ali poderemos conversar à
vontade, Dr. Bruno, e o senhor poderá se aquecer. Vou
esquentar um pouco de vinho - acrescentou. Foi até a porta
da rua, tirou do cinto um molho de chaves e a trancou. Ao
me ver hesitar, se virou novamente, com uma das mãos no
batente da porta. - O senhor poderá me ver tomá-lo
primeiro, se preferir. Mas achei que não acreditava nos meus
poderes diabólicos.
O brilho vigilante de seus olhos foi momentaneamente
substituído pela ironia consigo mesmo. Apesar disso, retribuí
seu sorriso e o segui quando ele se abaixou para atravessar a
porta que levava ao cômodo dos fundos. Talvez eu devesse
ter ficado mais apreensivo, porém, embora não acreditasse
nos boatos supersticiosos sobre a Sessão Negra, eu via algo de
fascinante em Rowland Jenkes, tanto assim que me dispunha
a ficar trancado numa sala com ele, a sós, na esperança de
descobrir mais a seu respeito. Mas não estávamos sozinhos.
Quando cruzei o umbral, captei pelo canto do olho o
movimento de uma sombra. Ali, junto ao fogo que ardia
numa lareira na parede da esquerda, estava o Dr. William
Bernard, com os braços finos cruzados no peito.
- Esta é minha oficina. E o senhor já conhece o Dr. Bernard,
é claro - disse Jenkes, abarcando o cômodo com um gesto
largo e dando ao professor a mesma atenção que dava a uma
peça do mobiliário. Ao longo de três paredes havia bancadas
compridas, cobertas com cadernos de 24 folhas e
manuscritos em diferentes estados de conservação. Havia
pedaços de couro, pele de cordeiro e tecido estendidos,
junto com moldes já marcados para recortá-los. Alguns
livros estavam sendo ajustados a caixas de linho - capas
externas feitas para manter limpas as encadernações de
couro de cordeiro -, enquanto outros se achavam a meio
caminho de receber novos acabamentos e cantos de metal
adaptados para cobrir bordas esgarçadas ou danificadas.
Alguns dos manuscritos que me despertaram a atenção
pareciam extremamente antigos, sendo agora preservados e
reformados pela habilidade do encadernador, preparados
para continuar sua jornada pelo mundo para as gerações
vindouras. No canto oposto à lareira, dois grandes baús
envoltos em tiras de ferro se erguiam em ângulo, ambos com
cadeados maciços.
- Estou vendo que o senhor faz negócios com vários
docentes do Colégio Lincoln - comentei, cumprimentando
Bernard com um aceno da cabeça.
- Sou encadernador e papeleiro, Dr. Bruno. É claro que
negocio com os doutores da universidade. De que outro
modo ganharia a vida?
- Mestre Godwyn, o bibliotecário do Lincoln, também é
cliente seu?
- É claro - respondeu Jenkes em tom sereno, sem que seus
estranhos olhos translúcidos jamais deixassem de fitar os
meus. - Muitas vezes sou encarregado de reparar os livros da
coleção dele, quando é necessário.
- E James Coverdale?
Jenkes e Bernard se entreolharam.
- Ah, sim. Pobre Dr. Coverdale. Agora há pouco o William
estava me contando que ele foi vítima de uma agressão
violenta. Imagine essas coisas acontecerem em Oxford -
disse, levando uma das mãos ao peito e balançando a cabeça
com tristeza.
No entanto, algo em seus modos sugeria que ele estava
zombando de mim. Tive vontade de fazer mais perguntas
sobre sua ligação com Godwyn e Coverdale, mas o olhar de
gavião de Bernard me fez hesitar.
- Eis uma visão para deixá-lo com o coração sangrando, Dr.
Bruno - disse Jenkes, virando-se de lado e apanhando numa
das bancadas um livrinho que pôs em minhas mãos. Era um
pequeno Livro de Horas no estilo francês, do começo do
século, e claramente fora uma obra cara em certa época.
Com muito cuidado, folheei algumas páginas, que revelaram
iluminuras ricamente coloridas em tons de cobalto,
carmesim e dourado, as bordas de cada página de texto
decoradas com intricados desenhos de folhas, flores e
borboletas contra um fundo amarelo-claro.
- Veja - disse Jenkes, tirando o livro da minha mão e
abrindo-o numa página em que o texto e o desenho ao lado
tinham sido atacados por um instrumento cortante, talvez
uma faca ou uma pedra, na tentativa de apagá-los do velino.
A iluminura se conservara quase intacta, exibindo uma
imagem de São Thomas Becket de joelhos, sendo esfaqueado
no altar, apenas com o rosto apagado. A oração que a
acompanhava fora riscada a ponto de se transformar num
vestígio fantasmagórico. - É um crime, não lhe parece? -
perguntou Jenkes. - Foi o édito do rei Henrique, já se vão
quase 50 anos, mas é muito comum chegarem coisas assim
às minhas mãos, com todos os santos e indulgências
obedientemente cortados ou rabiscados. Se eu conseguir
restaurá-lo, este livro alcançará um belo preço na França. E
um bom trabalho artesanal francês, está vendo? Por Deus,
odeio ver um livro violado dessa maneira, por capricho de
um príncipe herege! Pai de outra bastarda herege.
Seus lábios se contraíram ao dizer isso, revelando os dentes
encardidos, mas seus dedos longos e brancos afagaram a
página como se a consolassem. Essa demonstração de afeto
pelos livros não contribuiu em nada para tornar Jenkes mais
atraente.
- E agora, o senhor vai me denunciar por estas palavras
sediciosas, Dr. Bruno? - perguntou ele com seu sorriso
discreto, sem que os olhos parassem de fitar os meus. - Já
não tenho orelhas para perder, como o senhor está vendo.
- Não denuncio homem algum por suas palavras - retruquei,
impassível, enfrentando seu olhar para lhe mostrar que não
tinha medo. - Vim a seu país para pensar, falar e escrever
com liberdade, e presumo que todos os cidadãos daqui
desejem o mesmo.
- Mas escrever com liberdade sobre o quê? - indagou
Bernard, desgrudando- -se da parede junto ao fogo,
descruzando os braços e me espiando com seus olhos sem
cor.
- Sobre o que eu escolher - respondi, me virando para ele. -
É isso que significa liberdade, não é?
Jenkes estava repondo cuidadosamente o pequeno Livro de
Horas na bancada, ao lado das faquinhas e dos utensílios de
que precisaria para restaurá-lo. Então, ao observar a maneira
ordeira, quase obsessiva, com que ele dispunha suas
ferramentas, me ocorreu que uma faca de encadernador
certamente seria afiada o bastante para cortar a garganta de
um homem.
- O senhor manda muitos livros para vender na Europa
continental? - indaguei, apontando o Livro de Horas e
tentando manter a voz descontraída. Nada escapava a
Jenkes. Ele ergueu os olhos depressa e trocou um olhar com
Bernard.
- Às vezes acontece de cair em minhas mãos livros que
poderiam levar um homem à prisão, ou coisa pior, neste país
- disse, correndo a ponta do polegar pelo lábio inferior. -
Depois, encontro um mercado pronto no além-mar. Na
verdade, porém, não faltam clientes em Oxfordshire e
Londres. Homens como o senhor, que não aceitam a
proibição de livros, que acreditam que Deus nos dotou de
razão e bom senso para ponderarmos sobre aquilo que
lemos, e que se dispõem a correr o risco, em nome do saber.
- Jenkes riu baixinho e tornou a levantar a cabeça e olhar
para Bernard. - Você tinha razão, William. O Dr. Bernard
me disse que o senhor tinha um interesse especial em livros
raros, sobretudo nos que se supõe estarem perdidos.
Bernard retomara sua postura junto ao fogo e permaneceu
imóvel, oferecendo meramente brevíssimos sorrisos com os
lábios contraídos. Ele, é claro, tinha sido o bibliotecário do
Colégio Lincoln durante o grande expurgo das bibliotecas de
Oxford, quando as autoridades haviam tentado banir todos os
textos hereges do alcance de jovens impressionáveis, tal
como fizera meu abade no San Domênico.
- Sinto que há algo que o senhor gostaria de perguntar, não é,
Dr. Bruno? - indagou Jenkes, inclinando a cabeça.
- Os livros banidos das bibliotecas do colégio passaram por
suas mãos?
- Muitos deles, sim - respondeu, com uma olhada rápida para
Bernard, e tornou a se encostar em sua bancada de trabalho,
cruzando as mãos. - Alguns bibliotecários mais zelosos
queimaram o material ofensivo, para agradar os inspetores,
mas os que tinham maior apreço pelo valor dos livros os
trouxeram para mim, para que eu os redistribuísse.
Olhei para Bernard, que continuava imóvel.
- E os livros retirados do Lincoln no grande expurgo...
aqueles volumes vieram para o senhor?
- Eu me lembro de todos os livros que passam pelas minhas
mãos, Dr. Bruno. O senhor parece cético, mas eu lhe garanto
que não me entrego à vanglória barata. Quando o senhor me
ouviu dizer ao signor Florio que eu seria capaz de conseguir
qualquer livro, pelo preço justo, isso também era verdade.
Seus olhos vorazes tornaram a correr para a bolsa presa ao
meu cinto e, dessa vez, minha mão se moveu
instintivamente para cobri-la, como se eu estivesse nu e
tampasse minhas partes pudendas.
- Então, me diga: há algum livro em particular que o senhor
tenha em mente? - perguntou ele.
Jenkes estava brincando comigo, e suas alusões repetidas ao
dinheiro que eu levava me fizeram sentir um incômodo
repentino. Eu maldisse a mim mesmo por não ter sido mais
discreto com a bolsa de Walsingham no colégio. Bem, eu já
deixara que ele me trancasse em sua loja, de modo que, se
sua intenção fosse me roubar, havia pouco que eu pudesse
fazer, exceto aguentar firme e lutar. Verifiquei a bancada a
meu lado, para ver com que rapidez eu conseguiria pegar
uma das facas, se precisasse. Como se adivinhasse meus
pensamentos, ele estendeu a mão, pegou com displicência
uma pequena lâmina de cabo de prata e com a ponta
começou a limpar as unhas.
- Aqui você não precisa ter medo de falar, Bruno - disse ele. -
Seja qual for o título, por mais perigoso que ele seja
considerado pelas autoridades civis ou pela Igreja, qualquer
Igreja, você não pode me chocar.
- Então, você não é partidário da ideia de heresia? -
perguntei, de olho na faca em sua mão.
- Ah, você está me entendendo mal - disse ele, dando um
passo tão súbito na minha direção que recuei
involuntariamente, alarmado com o lampejo de ameaça
naqueles estranhos olhos luminosos. - Sou partidário dela
sem questionamento. Existe a verdade absoluta, e tudo o
mais é heresia. Existe a Igreja verdadeira, alicerçada pelo
Filho de Deus sobre o apóstolo Pedro, e existe a abominação
blasfema, fundada por um fornicador gordo e aleijado que
não conseguia manter o pau dentro dos calções, e que agora
é governada por sua bastarda herege. Não creio que nenhum
livro deva ser negado ao homem que possui a sabedoria para
compreendê-lo, Bruno, mas isso não significa que eu esteja
confuso a respeito de onde a verdade se encontra. A questão
é: você está?
- Não compreendo o que o senhor quer dizer - respondi, mas
meus ombros ficaram tensos.
- Acho que compreende - retrucou ele, com a voz leve e
afável, mas os olhos continuavam frios como o aço e ele se
deslocou lentamente, posicionando-se entre mim e a porta
da loja. O suor pinicou em minhas axilas, apesar da friagem
das roupas molhadas. Olhei de relance para Bernard, que
continuava impenetrável junto ao fogo, como se não fizesse
parte da cena que se desenrolava diante dos seus olhos.
Envolto em sua longa toga preta, com o pescoço fino e a
pele flácida, ele parecia uma grande ave de rapina
aguardando para ver o que poderia recolher quando a poeira
baixasse.
- Eu só quero saber de que lado você está, Bruno - prosseguiu
Jenkes.
- Eu não estava ciente de que precisava escolher um lado -
respondi, virando de frente para ele. - Talvez essa idéia me
pareça simplista demais.
Mais uma vez, ele soltou sua gargalhada repentina como um
latido e o som reverberou nas paredes.
- E isso que você dirá ao anjo que anota todas as nossas ações,
no Dia do Juízo Final? Quando o Filho do Homem regressar,
para separar o joio do trigo, você irá declarar que não se
importou em ser uma coisa nem outra, que julgou essa
escolha simplista demais?
Num gesto abrupto, Jenkes atirou a faca longe e ela caiu com
estrépito entre a parafernália disposta na bancada. Ele
chegou mais perto, pondo delicadamente uma das mãos em
meu ombro. Eu me preparei, mas não me mexi.
- Você é um enigma, Dr. Bruno, sabia disso? - Seus olhos
límpidos percorreram meu rosto repetidas vezes, como se
com isso ele pudesse decifrar o quebra-cabeça. - Foi
excomungado, mas tem a proteção de um monarca católico.
Rejeita a autoridade suprema do papa e prega as teorias
hereges do polonês Copérnico, mas me dizem que, em
público, se declara católico. Qual é a sua religião, Bruno?
Eu o encarei:
- Sou filho da Igreja Romana, Sr. Jenkes. O senhor deve ser o
único homem de Oxford que duvida da minha religião. Os
seus concidadãos atravessam a rua para terem a oportunidade
de cuspir em mim.
- Você frequenta a missa e se confessa?
- Estou sendo julgado aqui? Você é meu inquisidor?
Ele meramente sustentou o olhar pétreo, embora sua boca se
contorcesse ligeiramente de desprezo. Dei um suspiro.
- Sim, eu vou à missa.
- Mas viaja na companhia de Sir Philip Sidney, cãozinho de
estimação da bastarda Elizabeth e agitador contrário à causa
católica.
- O mesmo faz o palatino Laski. Você também questiona a
religião dele?
- Laski é príncipe - disse Jenkes, com impaciência. - Você é
um monge fugido, um filósofo de aluguel... embora,
evidentemente, um filósofo bem-sucedido, dado o volume
de dinheiro que me dizem que anda exibindo pela cidade -
acrescentou, novamente correndo os olhos para minha
bolsa. - Como veio a cair na companhia de homens como
Sidney? Ele ou os amigos dele o procuraram?
- Eu o conheci em Pádua. Ele é escritor, como eu. Do que é
que você me acusa, Jenkes?
Eu estava ficando cansado dessa brincadeira. Somente a
possibilidade de que ele soubesse alguma coisa sobre os
livros do decano Flemyng e tivesse visto o tratado perdido
do manuscrito hermético grego, o livro que Ficino se
recusara a traduzir, me impedia de sair dali.
- Não o acuso de nada - retrucou ele, com um tapinha
tranqüilizador no meu ombro, mudando imediatamente os
seus modos. - Mas achei que você, mais do que qualquer
outra pessoa, entenderia que um homem precisa saber com
quem está falando, antes de falar com demasiada liberdade.
Meus amigos e eu não estamos acostumados a ver estranhos
na Roda da Catherine, particularmente não os que viajam
com uma comitiva real de inspeção e dão nomes falsos. Na-
turalmente, isso nos deixa curiosos. Portanto, vou lhe
perguntar mais uma vez: o que o levou lá?
Hesitei. Se eu conseguisse convencer Jenkes da minha
sinceridade, era possível que ele me abrisse o mundo secreto
dos católicos de Oxford, cujos contatos com os seminários da
Europa e cujo conhecimento da missão inglesa valeriam mais
do que ouro para Walsingham. Mas eu intuía que, se em
algum momento Jenkes suspeitasse de que eu o havia
enganado, ele me despacharia com muito menos criatividade
artística do que a demonstrada pelo assassino do Colégio
Lincoln.
- Me disseram que era um lugar a que se poderia ir para
conhecer... pessoas de mentalidade semelhante - respondi
em voz baixa.
Jenkes balançou a cabeça, com ar encorajador.
- Quem disse isso?
- Um contato.
- Em Londres ou em Oxford? Ou no exterior?
- Em Oxford - respondi, sem qualquer pausa.
- Qual o nome dele? Ou dela? - acrescentou, pensando
melhor.
- Prefiro não dizer.
- Nesse caso, como saberei que não está mentindo para mim,
Bruno? - indagou ele, com o rosto a tão poucas polegadas do
meu que todas as suas cicatrizes de varíola pareceram
ampliadas.
- Ele fez intimidade rapidamente com o jovem Allen, como
eu lhe disse. Os dois foram vistos juntos hoje de manhã na
Flor de Luce - intrometeu-se Bernard, do outro lado da sala.
Jenkes estreitou os olhos. Quase pude ver as ponderações
que ele fazia, enquanto pensava sobre essa notícia.
- Quer dizer que Thomas Allen andou lhe fazendo
confidências, é? Receio que ele possa lhe dar uma impressão
ruim do nosso grupinho, Bruno. Foi ele que o mandou para
nós?
Ao me dar conta de que Thomas poderia correr perigo, se
Jenkes acreditasse que ele andara me contando os segredos
de Edmund Allen, percebi que tinha de negar seu
envolvimento, mesmo sem fazer ideia do efeito que minhas
palavras seguintes teriam nos dois homens que me
observavam.
- Não foi Thomas quem sugeriu que eu visitasse a Roda da
Catherine. Foi Roger Mercer.
Jenkes franziu o cenho e soltou meu ombro. Pareceu
genuinamente apanhado desprevenido.
- Mercer?
- Eu realmente o vi numa conversa animada com Roger no
pátio, na noite anterior à morte dele - confirmou Bernard. -
Eu estava olhando pela minha janela.
- Como foi que a Roda da Catherine foi mencionada na
conversa de vocês? - perguntou Jenkes, apontando um dedo
comprido para o meu rosto.
Levantei uma das mãos e em seguida afastei delicadamente o
seu dedo, antes de responder:
- Perguntei se ele conhecia algum lugar em Oxford em que
eu pudesse assistir à missa.
- Apenas perguntou? E ele o mandou para a Roda da
Catherine, assim, simplesmente?
Jenkes pareceu não saber se ficava incrédulo ou furioso.
Torceu as mãos até estalar os nós dos dedos.
- Ele sugeriu que eu encontraria amigos lá, mas que deveria
ser discreto.
- Discreto! Como se ele soubesse o significado dessa palavra!
Ele sempre foi um idiota abominável. Sua língua solta
acabaria levando todos nós à morte. Imagine dizer isso a um
estranho, William, e um estranho em viagem com uma
comitiva real! Você consegue acreditar numa coisa dessas?
Jenkes enxugou a testa com o dorso da mão e disse ainda:
- Embora eu tenha lamentado saber da morte cruel dele, é
claro.
- Agora já não tem importância - comentou Bernard e
acrescentou em tom piedoso: - Que Deus tenha misericórdia
da sua alma.
Jenkes me lançou outro olhar severo e demorado, depois
pareceu concluir a meu favor.
- Pois muito bem, Dr. Bruno, esperamos provar que o pobre
Mercer tinha razão. O senhor se descobriu entre amigos.
Venha hoje, à meia-noite e meia. Use a porta dos fundos,
atravessando o quintal da hospedaria, em vez da porta da rua.
Humphrey estará lá. Diga a senha e ele o deixará entrar. Use
uma capa com capuz, mantenha o rosto coberto por ele e
tome cuidado para não ser seguido.
- Não haverá vigias no portão norte? A uma hora dessas, eles
certamente vão querer saber qual é o meu destino.
- Dê um trocado a eles e não darão a mínima para onde você
vai - retrucou Jenkes, tornando a baixar os olhos para o meu
cinto. - Mas tome cuidado com sua bolsa ao andar tão tarde
pela rua. Você tem alguma arma?
Respondi que não andava armado. Ele apanhou a faquinha
de cabo de prata na bancada e a entregou a mim.
- Leve isso consigo hoje à noite. É pequena, mas corta o
couro muito bem. Tenho certeza de que poderia causar
alguns estragos, se você fosse atacado. Pelo menos é melhor
do que uma bainha vazia.
- Obrigado, mas, seja como for, não precisarei da minha bolsa
nessa reunião, não é?
- Ah, mas o senhor deve levar a sua bolsa logo mais - disse
Jenkes, com expressão subitamente apreensiva. Ao ver meu
olhar desconfiado, se aproximou com um sorriso matreiro: -
E que não dou meus livros a troco de nada, Mestre Bruno,
nem mesmo a meus irmãos católicos.
Meu coração se acelerou:
- Livros?
- Você está interessado num livro, não está? Um livro grego,
trazido de Florença pelo decano Flemyng, há 100 anos,
doado à biblioteca do Colégio Lincoln e retirado por nosso
amigo Dr. Bernard, aqui, durante o expurgo da Comissão
Real de 1569. Não estou certo?
- Você tem esse livro? - sussurrei, mal me atrevendo a
respirar.
Ele respondeu com o mesmo sorriso lento e irritante.
- Não o tenho aqui. Mas já o tive nas mãos e posso levá-lo até
ele. Tenho certeza de que podemos chegar a um acordo
conveniente para ambos, Dr. Bruno. Certifique-se de levar a
sua bolsa.
- O senhor disse que o livro não existia - comentei, me
virando para Bernard com um toque de triunfo na voz.
- Eu disse isso por causa daqueles tolos reunidos à mesa do
diretor naquela noite - retrucou ele, com ar indiferente. -
Isso teria suscitado um excesso de perguntas. Underhill é um
fantoche do reitor e do Conselho Real. Ele não saberia o
valor de um livro como esse, mas eu não quis despertar suas
velhas angústias. Se dependesse da sua vontade, ele
expurgaria a biblioteca até não restar nada nos púlpitos além
da Bíblia dos Bispos e dos livros do Mestre Foxe - concluiu.
Por um momento, pensei que fosse cuspir no chão, tal a
intensidade do desprezo em sua voz ao pronunciar esse
nome, porém ele se conteve. Eu me perguntei o que Jenkes
teria querido dizer ao afirmar que a língua solta de Mercer
faria com que todos eles fossem mortos.
- Não devemos detê-lo por mais tempo, Dr. Bruno - disse
Jenkes, voltando para a loja e apanhando as chaves no cinto.
- O senhor deve querer se informar com seu amigo Florio. A
propósito, é desnecessário dizer que o senhor não
mencionará uma palavra desta nossa conversa a ninguém.
Sou a única pessoa capaz de lhe dizer em quem confiar nesta
cidade, no que concerne a questões de religião. Tenho
certeza de que o senhor compreende os perigos.
Fiz que sim com a cabeça enquanto ele destrancava a porta
da rua, e vi com certo alívio que a chuva finalmente
começara a amainar.
Eu me virei para ele, parado no vão da porta com os braços
cruzados e um ar de satisfação.
- E o livro?
- Eu lhe falarei do livro na próxima vez que nos
encontrarmos.
- O senhor se esqueceu de uma coisa - disse eu em voz baixa.
- A senha.
O rosto esburacado de Jenkes se contraiu num sorriso torto.
- Ora, o senhor já a ouviu, Dr. Bruno - murmurou, antes de
enunciaras palavras, apenas movimentando a boca: - Ora pro
nobis.

Capítulo 15

UM VENTO FRIO PERSEGUIU AS NUVENS escuras de chuva pelo
céu, fazendo-as vagar e revelando uma camada superior de
tom cinza-pérola, à medida que o aguaceiro foi diminuindo e
enfim cessou por completo. Percorri as ruelas enlameadas,
na volta ao Lincoln, já quase sem me dar conta da roupa
molhada que me irritava a pele, com a cabeça apanhada num
remoinho de ideias. Ao passar pelo arco da torre, ouvi o sino
dobrar seu chamado melancólico para as Vésperas, mas não
estava preparado para a visão que me recebeu quando emergi
no quadrilátero. Grupos de alunos e professores se acotovela-
vam em volta da entrada da escada que levava à biblioteca e
à capela, olhando fixo para as janelas, todos aparentemente
petrificados por alguma coisa. Um silêncio soturno pairava
sobre o pátio quadrangular, onde os homens reunidos apenas
trocavam sussurros e olhares fixos. A tensão provocada pelo
medo velado podia ser sentida no ar. Diminuí o passo e ia
me aproximando do primeiro grupo de estudantes, para
descobrir a razão daquela congregação sombria, quando
Richard Godwyn abriu caminho para me saudar, sem sorrir,
com o alívio estampado no rosto.
- Dr. Bruno, o diretor tem perguntado pelo senhor - disse,
em voz baixa. - Venha.
Segurando-me pelo cotovelo, ele me guiou pela aglomeração
de olhar vidrado até a entrada que conduzia à biblioteca e à
capela. Ao pé da escada se encontrava o corpulento
empregado da cozinha que mais cedo havia montado guarda
na escada do quarto de Coverdale. Ele nos olhou de relance
e fez um aceno brusco com a cabeça. Godwyn subiu à frente
para a capela e bateu de leve na porta com os nós dos dedos.
Slythurst a abriu e me fechou a carranca, mas se afastou de
lado, para me deixar passar. Reconheci no mesmo instante o
cheiro de sangue. O diretor Underhill se levantou de um dos
bancos mais próximos da porta e segurou meus pulsos com
as duas mãos, me fitando com desespero, seus olhos
vermelhos acima das faces encovadas.
- Deus está nos castigando, Bruno - murmurou, com a voz
embargada. - Está empilhando carvões em brasa sobre a
minha cabeça por meus pecados de omissão. Até mesmo
aqui, na nossa capela consagrada.
O diretor se colocou de lado, ainda segurando um de meus
pulsos com força, e vi a causa de sua aflição mais recente.
Aos pés do pequeno altar havia um corpo caído. Eu me
aproximei lentamente. Havia sangue respingado nas esteiras
de junco do piso e no tecido branco do altar e, mesmo do
outro lado da capela, pude ver que o corpo tinha uma
cabeleira ruiva.
- Nada foi tocado - disse o diretor, com a voz rouca. - Eu
queria que você visse. Cheguei à capela pouco antes das
cinco, para preparar as Vésperas, e encontrei... e sua voz
tremeu e ele desabou pesadamente num banco próximo.
Eu me ajoelhei junto ao corpo, trincando os dentes com
força. Ned, o jovem ledor da Bíblia, estava caído de costas,
de camisa e calções, os olhos protuberantes arregalados de
uma forma antinatural, projetados para o teto numa expres-
são fixa de pavor. Levei um momento para perceber por que
seu olhar era tão pavoroso: suas pálpebras tinham sido
cortadas. Eu me inclinei mais, prendendo a respiração,
incrédulo. Essa não era a única mutilação no rosto do
menino: um corte profundo e largo fora feito nas duas faces,
tão fundo que a lâmina parecia haver atravessado o rosto, e
sua boca estava inchada e ensanguentada, com densos filetes
de sangue recobrindo a penugem do queixo. O rapazola mal
chegara a ter idade bastante para se barbear.
- O altar - murmurou Underhill, apontando com a cabeça.
Levantei os olhos e recuei no mesmo instante. Havia um
naco carnudo e vermelho-escuro no centro do altar, de onde
o sangue gotejava, formando uma mancha horrenda no
tecido branco.
- Ah, meu Deus - murmurei, por saber do que se tratava.
Com cuidado, abaixei a mandíbula de Ned, abrindo sua boca
e revelando o coto de língua. O movimento fez brotar um
novo jato de sangue, que escorreu por seu queixo, e dei um
pulo instintivo para trás, mesmo sabendo que ele não
poderia estar vivo.
- Isso aconteceu há bem pouco tempo - observei, virando
para o diretor. Ele confirmou com um aceno da cabeça,
passando as mãos pelo rosto.
- Ned chegava todos os dias por volta das quatro horas, para
preparar a capela para as Vésperas, às cinco - explicou-me
Underhill, com a voz quase inaudível. - Essa é a principal
obrigação do ledor da Bíblia. Qualquer um saberia que podia
encontrá-lo aqui. A porta da capela não fica trancada.
Devem ter se escondido e esperado por ele. Pobre menino -
lamentou-se, balançando a cabeça. - Mas você viu o que
fizeram com ele, Bruno? - e levantou os olhos para mim,
com ar cheio de expectativa.
- Foxe outra vez?
Ele fez um breve aceno afirmativo:
- Creio que a intenção é que seja Romanus. Seu martírio
aparece no Livro Um de Foxe, logo depois da história de
Santo Albano, que contei ontem na capela. Os torturadores
de Romanus o mutilaram para que ele parasse de entoar
hinos, mas, quando retalharam seu rosto, ele agradeceu por
lhe haverem aberto muito mais bocas com que louvar a
Deus.
- Eles sempre tinham uma resposta pronta, esses santos -
comentei, desanimado.
- E então deceparam sua língua. E depois o estrangularam.
Underhill fez um barulho estranho, parecido com um
soluço, e cobriu a boca com a mão.
Afrouxei o tecido da camisa de Ned, amontoado em volta do
pescoço. Sua pele alva realmente tinha a marca de manchas
escuras, nos pontos em que os dedos o haviam estrangulado.
- Cortaram a língua dele para impedi-lo de falar - ponderei,
em parte falando sozinho. Poucas horas antes, Ned me
dissera o que tinha visto na tarde de sábado. Teria morrido
por isso? Procurei relembrar nosso encontro depois do
almoço, à saída do grande refeitório. Quem poderia ter
entreouvido nossa conversa? Lawrence Weston? Mas o
corredor estivera lotado de estudantes e professores que se
abrigavam da chuva. Qualquer um poderia ter me visto en-
tregar ao Ned o xelim que ele nem sequer chegara a gastar. A
ideia de que, sem querer, eu pudesse ter atraído essa
vingança contra o pobre menino me encheu de horror por
um momento, mas minhas considerações foram
interrompidas por uma tosse impaciente.
- Agora que o Dr. Bruno teve a bondade de nos dar seu
veredicto especializado - disse Slythurst, a voz gelada de
desdém talvez eu deva avisar o oficial de inquirição, não é,
senhor diretor? Quem fez isso não pode ter ido muito longe
em tão pouco tempo. Se eles derem o alerta agora e
iniciarem a perseguição...
- É muito provável que o assassino ainda esteja aqui no
colégio - disse eu, me voltando para o diretor. - Se estiver,
mal terá tido tempo de lavar o sangue das mãos... O senhor
precisa reunir toda a comunidade no refeitório agora mesmo.
Alguém deve ter visto alguma coisa.
O diretor assentiu com a cabeça e se virou para Slythurst:
- Walter, desça e reúna todos os alunos e professores, como
sugeriu o Dr. Bruno. Certifique-se de que todos estejam
presentes e compareçam como estiverem: bata em todas as
portas e arraste os homens de seus quartos, se tiver que fazê-
lo.
Slythurst me dirigiu um de seus olhares furiosos, mas se
virou e saiu da capela.
- O que o senhor fez depois de encontrar o corpo? -
perguntei.
- Eu... eu gritei, pedindo socorro... não conseguia pensar com
clareza - gaguejou. - Richard estava na biblioteca e veio
correndo. Depois, fiquei com o corpo e ele foi procurar
Walter.
- O senhor ficou o tempo todo na biblioteca? - perguntei, me
virando para Godwyn, que continuava parado junto à porta,
um tanto agitado.
- Bem, sim - disse ele, com ar meio defensivo. - Trabalhei lá
a tarde toda.
Eu o encarei, sem acreditar:
- E não ouviu nada? Enquanto um menino era assassinado do
outro lado do corredor?
- Tanto a porta da biblioteca como a da capela são de
carvalho maciço, Dr. Bruno - disse Godwyn, elevando a voz
em protesto. - Ouvi passos na escada, mais cedo, porém isso
não me pareceu anormal. Mas só ouvi uma voz quando o
diretor Underhill abriu a porta da capela e gritou.
Tornei a olhar para o corpo.
- Suponho que, se alguém esperasse aqui para surpreendê-lo,
poderia estrangulá-lo antes que ele tivesse muita chance de
lutar ou gritar.
Essa idéia me trouxe certo consolo, mas continuei a encarar
Godwyn com desconfiança. Será que ele sabia que Ned o
vira se encontrar com Jenkes do lado de fora da Escola de
Teologia?
- Então, ele estava morto antes que tudo isso...? - indagou o
diretor, com um gesto para o rosto mutilado do menino.
- Esperemos que sim - resmunguei, ficando de pé.
- Mas Ned - disse Godwyn, contemplando o cadáver
maltratado e franzindo o cenho, como se, de algum modo, a
cena não fizesse sentido -, por que ele? - repetiu. Balançou a
cabeça, como se isso pudesse livrá-lo da confusão. De
repente, me lembrei de algo que o menino me dissera em
nossa fatídica conversa.
- Ned também tinha responsabilidades na biblioteca, além da
capela? - indaguei.
Godwyn se virou e me lançou um olhar severo.
- Às vezes ele me ajudava em pequenas tarefas - disse, com
um olhar prevenido. - Coisas de arrumação e manutenção,
em geral. Ele não lidava com os livros. Por que pergunta?
- Mestre Godwyn, alguém esteve na biblioteca na tarde de
sábado, enquanto a maior parte do colégio assistia ao debate,
na tarde em que James Coverdale foi assassinado. Ned ouviu
essas pessoas, mas não soube dizer quem eram.
Godwyn mordeu a articulação do polegar e me olhou com
expressão ansiosa.
- Bem, como eu lhe disse, todos os professores têm suas
próprias chaves. Imagino que seja possível alguém ter
voltado mais cedo, porém não faço ideia. Ou então...
Lançou um olhar furtivo para o diretor e deixou a frase
morrer no ar. Lembrei o que ele me dissera sobre Sophia
usar a chave do pai para ter acesso à biblioteca. Ned me
contara ter ouvido uma voz masculina se elevar com raiva,
mas com quem esse homem teria falado? A compostura de
Godwyn ficou claramente afetada. Não pude deixar de me
perguntar se, no cumprimento de seus deveres na biblioteca,
Ned teria tropeçado no reservatório de livros católicos ilegais
de Godwyn.
- E o senhor? - perguntei, encarando-o. - Não viu ninguém,
quando voltou mais cedo?
- Eu? - indagou Godwyn, desviando a cabeça e exibindo uma
expressão de mágoa nos olhos grandes e abatidos. - Eu estava
no debate, Dr. Bruno - disse. Incomodado, mudou de
posição e cruzou os braços.
- Mas o senhor saiu mais cedo para se encontrar com alguém,
pelo que sei.
O diretor ergueu os olhos, uma leve surpresa substituindo
por um momento em seu rosto a expressão de desespero e
cansaço. Godwyn enrubesceu e não tentou insistir na
mentira:
- E verdade. Saí disfarçadamente no começo, por causa de
um assunto pessoal - explicou, com a voz tensa. - Não teve
nada a ver com o colégio. Mas só regressei pouco antes das
seis, quando encontrei a biblioteca trancada e vazia, tal como
eu a deixara. Essa é a verdade, juro por Deus.
Olhei para as mãos de Godwyn, que ele retorcia, abrindo e
fechando os dedos. Mãos grandes, manchadas de tinta na
ponta dos dedos, mas não sujas de sangue, ao que eu pudesse
ver. O diretor nos olhou, como se já não soubesse em que
acreditar.
- Esperem, o que é aquilo? - indaguei. Um montinho escuro
me chamara a atenção ao pé do altar. Eu me curvei para
examiná-lo e vi, mais de perto, que parecia ser uma pilha de
tecido preto dobrado. Ao levantá-la com cuidado por uma
ponta, entre o polegar e o indicador, vi que era uma beca de
estudante, esgarçada nas mangas e pegajosa de sangue fresco.
- De novo esse truque - comentei, levantando a beca para
que o diretor a visse. - Deve ser a beca do Ned. O assassino
veste a roupa das vítimas por cima da sua, para que não
tenha nenhum vestígio de sangue quando sair.
A porta se entreabriu com um rangido e nós três nos
sobressaltamos, nervosos com a proximidade do assassinato.
A cara de roedor de Slythurst apareceu na fresta.
- O colégio está reunido no refeitório, diretor, para quando o
senhor estiver pronto, mas creio que nem todos estão
presentes - disse e olhou para mim. - Não consigo encontrar
William Bernard. Gabriel Norris e Thomas Allen também
não parecem estar em seu quarto. E John Florio não foi visto
desde hoje à tarde.
O diretor balançou a cabeça e se levantou, pesadamente.
- Vá indo na frente, Walter, e você também, Richard. Nos
encontramos em alguns minutos. Depois de falar, vou impor
um toque de recolher. Todos deverão permanecer em seus
quartos esta noite, até termos tido a oportunidade de fazer
uma busca no colégio.
- Inclusive os hóspedes, presumo? - perguntou Slythurst.
- Todos - respondeu com firmeza o diretor. - Agora, eu
gostaria de ter uma palavra a sós com o Dr. Bruno.
Relutante, Slythurst acompanhou Godwyn porta afora.
Underhill se virou para mim, devagar, como se esse esforço
lhe custasse muito, e vi a completa desolação gravada nas
linhas de seu rosto.
- Minha filha ainda não voltou para casa, Bruno.
Havia um ar tão definitivo em seu tom que, por um
momento, também tive a sensação de que desabaria sob o
desespero dele, mas sacudi a cabeça.
- Ela talvez tenha ido à casa de uma amiga. Não há ninguém
em quem o senhor consiga pensar?
Ele passou as duas mãos pelo rosto, muito devagar, e ergueu
os olhos na direção dos meus.
- Sophia não tinha amigas, no sentido usual. Rejeitava a
companhia de outras jovens da sua idade. Se você me
perguntasse há alguns dias pelos amigos dela, eu diria que
minha filha não tem nenhum. Mas agora...
O diretor se interrompeu e tornou a se virar para a janela,
como se algo o atraísse pela vidraça.
- Agora o quê? O senhor descobriu alguma coisa?
- Estive cego, Bruno. Falhei com meus dois filhos, assim
como falhei com o colégio.
Embora eu não pudesse deixar de sentir que isso
provavelmente fosse verdade, a visão da aflição do homem
me fez atravessar a capela e pôr a mão em seu ombro:
- O senhor não pode se culpar por essas mortes. E Sophia
será encontrada sã e salva, o senhor vai ver... nem que eu
mesmo tenha de cavalgar a noite inteira para achá-la.
Eu não havia pretendido falar com tanta paixão. Underhill
me olhou com leve curiosidade, antes que a expressão de
sofrimento voltasse a seu rosto.
- É bondade sua dizer isso - comentou, com um tapinha na
mão que eu pusera em seu ombro, como se estivesse me
agradecendo pelo gesto. - Mas você está enganado. Quando
vi que ela não voltou hoje à tarde, fiz uma busca em seu
quarto. E encontrei isto, costurado no colchão.
Enfiou a mão na sobreveste e retirou um livrinho com a capa
de couro meio gasta, que me entregou. Folheei algumas
páginas e vi de imediato que era um pequeno Livro de
Horas, parecido com o que eu vira na oficina de Jenkes, de
idade e trabalho artesanal semelhantes, embora menor e
mais simples. As páginas se encontravam em bom estado e
não vi sinal de que nenhuma das imagens de santos ou das
indulgências tivesse sido desfigurada. Senti um peso no
coração. O fato de Sophia estar de posse de um livro tão
obviamente católico, sigilosamente escondido dos pais, só
podia ter um significado.
- Veja a folha de guarda - disse Underhill, fazendo sinal para
o livro com a cabeça.
Abri a capa. Na guarda havia uma dedicatória manuscrita,
com um verso da Bíblia: "Pois a sabedoria é mais preciosa
que os rubis, e a ela não se compara nada que possais
desejar." Abaixo disso, a inscrição dizia, numa letra
caprichada e cheia de floreios: "Orapro nobis. Do seu em
Cristo, J."
Underhill me olhou, cheio de expectativa.
- É um versículo dos Provérbios, não? - perguntei.
- Você não está vendo? - explodiu ele, impaciente. - Qual é a
palavra grega que significa sabedoria? Sophia! Um livro de
orações papista, com uma dedicatória escrita para ela. Eles a
converteram, bem embaixo do meu nariz, enquanto eu me
afundava no Foxe e lutava para manter a paz aqui, para o
Leicester! - e tornou a balançar a cabeça, olhando para o
chão.
- Diretor Underhill, quem a converteu? - perguntei com
rispidez. - Quem é esse J, o senhor sabe? Quem o senhor
está protegendo?
- Ninguém senão eu mesmo - disse ele, em tom desgostoso e
quase inaudível. - E minha família... ou assim pensei. Eu não
poderia acreditar que chegasse a isso.
O pensamento terrível que me veio à mente foi Jenkes.
Somente ele poderia ter posto as mãos num Livro de Horas
francês tão bonito, e praticamente revelara sua identidade
por meio da inicial. Senti minhas mãos apertarem o livro, ao
reler a dedicatória. O versículo bíblico era bastante inocente,
mas havia algo incomodamente lascivo no que ele insinuava,
se a palavra "sabedoria" fosse substituída pelo nome de
Sophia. A ideia de Jenkes, com seu rosto esburacado, cheio
de cicatrizes, e aquela cabeça sem orelhas, dando a ela um
presente tão pessoal e tão íntimo, que de fato deixava
implícita certa simpatia dela pela religião do homem, fez
meus dentes rangerem. Depois me ocorreu um outro
pensamento, que me congelou momentaneamente o
coração: e se fosse Jenkes o perigo de que ela havia falado? E
se Sophia houvesse se envolvido com ele de algum modo, e
o homem tivesse acabado por ameaçá-la? E será que alguma
dessas coisas tinha ligação com o cadáver mutilado que jazia
aos pés do altar? Minha mão deslizou para o cinto, onde eu
havia guardado a faquinha de cabo de prata que Jenkes me
dera. Nessa noite, decidi, eu arrancaria a verdade dele, nem
que isso significasse ele ter que enfrentar a própria arma.
Underhill me fitava com um olhar triste e cheio de
expectativa, como se aguardasse minhas instruções sobre
como agir.
- James Coverdale era católico? - perguntei, abruptamente.
Underhill apertou uma das mãos com a outra e fez que sim
com a cabeça.
- E o senhor sabia? Foi por isso que não pôde deixar lá o
símbolo da Roda da Catherine, à vista do oficial de
inquirição?
O diretor tentou conter um suspiro tão grande que quase
arrebentou suas costelas, e em seguida me olhou com uma
espécie de resignação:
- Sempre acreditei que, se um homem é capaz de sustentar
sua fé em particular, sem que ela afete sua política ou seu
trabalho, isso é um assunto entre ele e Deus. Creio que essa
não é uma visão adotada por muitos integrantes do Conselho
Real, mas me orgulho de considerá-la mais próxima dos
sentimentos de Sua Majestade. - Ele se inclinou na minha
direção e baixou a voz. - Mas as regras estão mudando. A
cada dia lorde Burghley introduz uma nova legislação a
respeito dos católicos, de modo que agora é crime reter
informações sobre papistas conhecidos. Um homem pode
perder seus bens ou acabar na cadeia, simplesmente por
deixar de informar às autoridades o que sabe sobre seus
vizinhos ou colegas, e todos vivem com medo dos amigos -
completou, estremecendo e cruzando as mãos.
- Então - fui dizendo devagar, enquanto tentava juntar as
peças do seu raciocínio -, o senhor não quer que se divulgue
a verdade sobre esses assassinatos por temer que alguém
esteja tomando por alvo os católicos conhecidos do Colégio
Lincoln e, se isso for descoberto, que Leicester venha a lhe
perguntar como é possível que tantos tenham permanecido
aqui, sem serem incomodados, sob a sua direção, não é? -
indaguei, sentindo se esvair rapidamente minha simpatia por
ele. - O senhor preferiu fazer o oficial da corte de justiça e o
oficial de inquirição irem atrás de histórias de ladrões e cães
vadios, deixando o verdadeiro assassino livre para atacar de
novo - sugeri, apontando para o corpo de Ned. - Quem sabe
não tem a secreta esperança de que ele termine o trabalho e
livre o Lincoln dos católicos obstinados, sem que o senhor
perca sua credibilidade?
- Santo Deus, não, Bruno! Como você pode pensar uma coisa
dessas? - exclamou ele, parecendo sinceramente
horrorizado. - Você não pode supor que eu desejaria a morte
de um homem! Por que pensa que não denunciei esses
católicos do colégio antes? É claro que sei quem eles são -
disse com um sibilo, baixando a voz -, e, em sua maioria, são
homens decentes, que fazem um bom trabalho aqui, que não
estão, ao que eu saiba, tramando derrubar Sua Majestade
nem o governo dela, e eu sabia a que os estaria entregando.
Só que, por não fazê-lo, corri o risco de perder tudo.
- E agora alguém os está liquidando, um por um, de acordo
com os martírios dos primórdios da Igreja descritos por Foxe
- disse eu, como que falando sozinho, enquanto atravessava
o cômodo em direção à lareira. - Mas quem? Alguém que se
opõe a eles ou um deles? E por que de maneira tão elaborada,
senão para atrair todos os olhares para o Colégio Lincoln e
para o castigo de seus católicos impenitentes? Se ao menos
pudéssemos compreender os motivos dele, tudo ficaria claro.
- Eu não quis dar crédito a sua teoria sobre Foxe, a princípio -
disse Underhill, baixinho, levantando a cabeça. - Não
conseguia acreditar que alguém pudesse contemplar algo tão
bárbaro e blasfemo, e também não queria reconhecer que
meus sermões sobre Foxe pudessem ter inspirado de algum
modo esses atos diabólicos. Mas você tem razão: não se pode
mais ignorar isso.
- E esse pobre menino? - indaguei, tornando a olhar para o
rosto desfigurado de Ned. - Também era um deles?
- Não que eu soubesse - gemeu Underhill, permitindo-se o
mais fugaz relance de olhos para o cadáver no chão. - Ele
não vinha de família ilustre, mas era um aluno
extremamente dedicado. Não consigo imaginar quem iria
querer feri-lo... é realmente uma maldade - disse, e seus
ombros se agitaram.
- Creio que Ned viu ou ouviu algo que não deveria - disse eu,
desolado. - O senhor informou aos guardas ou ao vigia que
Sophia desapareceu?
- Não - respondeu Underhill e tornou a baixar a cabeça. -
Ainda não escureceu... acho que eu tinha esperança de que
ela voltasse antes do jantar, ou, pelo menos, antes de
escurecer. Minha mulher está de cama... convencida, é
claro, de que Sophia morreu ou está morrendo em algum
lugar. Ela ainda não soube do Ned. Estou tentando adotar
uma visão mais racional, porém não é fácil.
O diretor respirou fundo e com firmeza, como que para
demonstrar a luta pelo domínio de seus sentimentos mais
fracos.
- Se ela não voltar até amanhã de manhã, farei tudo o que
estiver a meu alcance para ajudá-lo a encontrá-la, prometo -
disse eu, em tom solene.
O diretor pareceu prestes a responder, mas de repente ergui
a mão, pedindo silêncio. Do lado de fora, no corredor, eu
havia captado um ruído tão leve que talvez fosse apenas o
estalar de um caibro, mas, para meus nervos tensos, soou
como um passo numa tábua do assoalho. Esperamos vários
segundos, com a respiração presa na garganta, mas ouvimos
apenas o zumbir abafado de um inseto batendo na vidraça.
- Preciso ir ao refeitório comunicar esta última tragédia à
comunidade - disse Underhill, tirando de minhas mãos o
Livro de Horas e tornando a guardá-lo em sua sobreveste.
Ele me conduziu através da porta e se curvou para trancá-la,
ao sairmos. - Creio que agora não podemos deixar de chamar
os homens da guarda, já que o assassino realmente parece se
encontrar entre nós. Mas, se o senhor for interrogado, Dr.
Bruno, talvez seja prudente guardarmos a teoria sobre Foxe
para nós - acrescentou, num sussurro.
Balancei a cabeça e o observei descendo a escada, os ombros
recurvados sob um fardo do qual, eu desconfiava, ele jamais
se livraria.
Cobbett deixara aberta a porta de sua guarita e estava de
costas para ela, arrumando suas chaves no pequeno armário
da parede. O cômodo ainda tinha um cheiro forte de vômito.
O porteiro me olhou de relance por cima do ombro quando
entrei.
- Mais uma morte, estão dizendo - grunhiu. - E na própria
capela, dessa vez. Agora fui instruído a manter os portões
trancados. Era um bom menino aquele Ned, trabalhador que
só ele. Quem faria uma coisa dessas? Começo a pensar se isso
não é obra do Diabo, afinal, Dr. Bruno.
- Sophia Underhill - disse eu, fechando a porta atrás de mim
você a viu sair do colégio hoje de manhã, Cobbett?
- Sim - disse ele, em tom neutro, tornando a se virar para seu
armário de chaves. - Saiu de fininho no meio de toda a
comoção, assim que Mestre Slythurst voltou para a torre.
Quando a mãe dela desceu, uns minutos depois, eu lhe disse
que a Srta. Sophia pareceu ter ido andando na frente.
- E você não a viu voltar em momento algum?
- Não. Ela não voltou?
- Não foi vista o dia inteiro. Ela lhe disse aonde ia?
- Não. Mas não deve ter ido longe.
- Não neste tempo - concordei.
- Não no estado dela.
Arrastando penosamente os pés, Cobbett voltou para trás de
sua mesa e me olhou com ar de expectativa. Eu o encarei,
incrédulo, com a sensação de que o próprio tempo quase
havia paralisado.
- Que estado? Você quer dizer que ela está doente?
O homem levantou uma das sobrancelhas para indicar o que
achava da minha ingenuidade.
- Ora, vamos, Dr. Bruno, o senhor não passou tanto tempo
assim no claustro.
- Você quer dizer que ela...? Não - falei, balançando a cabeça.
Esse, com certeza, era um boato maldoso que o velho
porteiro tinha ouvido dos criados.
- Como pode ter certeza?
- Minha mulher teve 10, senhor, que Deus a tenha. Acha
que não sei reconhecer os sinais? Está com uns bons três
meses, eu diria, pobre moça.
Minha cabeça girou ante a magnitude dessa revelação. Se de
fato Sophia esperava um filho, o medo que me confidenciara
parecia ainda mais urgente. Mas, afinal, de quem ela sentia
medo: do próprio pai ou do pai da criança? Seria esse o
perigo que havia mencionado?
- Mas, quem...? Ela lhe confidenciou de quem era esse filho?
- indaguei, ouvindo o toque de pânico se elevar em minha
voz.
- Ela não me confidenciou nada, Dr. Bruno. Eu só uso os
olhos que Deus me deu, ao contrário da maioria por aqui. Vi
que ela se encontrou com alguém na biblioteca na tarde de
sábado, quando o colégio inteiro estava no debate. Pelo
menos eu a vi subir lá, e um sujeito a seguiu, não muito atrás.
- Mas quem?! - exclamei, exasperado.
Cobbett deu de ombros, com uma expressão pensativa.
- Ele estava de capa e com o capuz levantado. Podia ser
qualquer um. Sei que não o vi entrar pelo portão, logo, fosse
quem fosse, já devia estar no colégio.
Fiz uma pausa, prendendo o dorso do nariz entre o polegar e
o indicador, enquanto lutava para fazer essas últimas
informações se encaixarem. Então, Sophia tinha sido uma
das pessoas entreouvidas por Ned na biblioteca. Mas com
quem ela se encontrara lá, quando o colégio estava quase
vazio?
- O pai dela sabe? - perguntei a Cobbett.
- O senhor está brincando, não é? O pai dela mal notaria se
ela desse à luz bem diante do nariz dele, e a Sra. Underhill
não fica atrás. Se o senhor quer saber, a culpa é só deles, os
dois agindo como se o mundo tivesse acabado quando o
jovem John morreu, como se Sophia não lhes importasse. Na
verdade
- prosseguiu, inclinando-se para mais perto -, eu estava me
perguntando de que jeito a moça ia esconder isso do resto do
mundo, quando não conseguisse mais amarrar o espartilho, e
esse dia não está muito longe. Talvez seja por isso que ela
resolveu fugir agora.
- Eu não sabia que você tinha 10 filhos, Cobbett - comentei,
parando na porta e olhando para o velho com um respeito
renovado.
- Bem, agora já não tenho - disse ele, com ar filosófico. - O
bom Deus quis levar a maioria de volta. Sobraram duas filhas,
uma casada com um agricultor, lá para os lados de Abingdon,
e outra que é lavadeira.
- Sinto muito - retruquei, sem a menor necessidade.
- Não há o que lamentar, a vida é assim mesmo. Mas, enfim,
veja só, com toda esta tagarelice, quase esqueci que tenho
uma carta para o senhor.
Cobbett abriu uma gaveta da mesa e remexeu nela até tirar
um pedaço de papel dobrado, que me entregou.
Intrigado, virei o papel. Meu nome estava escrito numa letra
elegante e desconhecida, e abri prontamente a carta, redigida
num italiano impecável.
- Ele a deixou comigo hoje de manhã - disse Cobbett -, mas,
com todo aquele tumulto por causa do pobre Dr. Coverdale,
e agora com este último, esqueci por completo de entregá-la.
Peço desculpas.
Senti um aperto no peito ao correr os olhos pela carta. Num
estilo muito rebuscado, ela pedia minha ajuda para
recomendar seu autor ao embaixador francês, a fim de que
ele lhe prestasse serviços como professor de línguas parti-
cular de seus filhos, pois desejava se casar dentro em breve e
seu mísero cargo na universidade não lhe permitiria
sustentar uma esposa.
- Isso veio de Mestre Florio? - perguntei com um suspiro,
dando uma espiada no pé da página, onde a carta fora
assinada com uma única inicial, tão enfeitada e cheia de
arabescos que poderia ser qualquer coisa.
- É claro. Não diz aí?
Então, era essa a carta que ele havia mencionado de maneira
tão furtiva. Florio não era, portanto, o correspondente
misterioso que me pusera originalmente na pista da Roda da
Catherine. Aquilo era mais um beco sem saída, e eu não
chegara nem perto de encontrar a única pessoa do colégio
que tinha sabido da ligação com Foxe antes de qualquer um
de nós.
- Maldito seja - resmunguei, amassando a carta, mas sem
saber ao certo se estava maldizendo Florio, por sua
inocência, ou amaldiçoando o autor anônimo, por ter sido
tão enigmático. - Cobbett, posso lhe pedir um favor?
- Farei o que puder para atendê-lo, senhor.
- Preciso sair tarde do colégio, hoje à noite. Tenho um... há
uma coisa que preciso fazer. Você deixaria o portão aberto
para mim, digamos, quando faltar meia hora para a meia-
noite?
O velho porteiro franziu o cenho, consternado.
- Eu gostaria de ajudá-lo, senhor, mas o diretor deu
instruções rigorosas de que agora o portão permaneça
trancado, após as últimas mortes, e ninguém pode entrar
nem sair depois de escurecer. Não me atrevo a contrariar a
ordem dele: se houver outro ataque, vão me mandar
embora, por não ter cumprido o meu dever.
- Entendo - apressei-me a dizer. - Nesse caso, talvez eu possa
bater para chamá-lo, e você me deixaria sair e tornaria a
trancar o portão depois disso, quem sabe?
Cobbett pareceu em dúvida.
- Bem, isso eu poderia fazer, sim, senhor. Mas teria de ficar
acordado até a sua volta?
- Não sei quanto tempo vou demorar, mas eu poderia bater
na janela para você me deixar entrar de novo.
- Isso o senhor pode tentar, se quiser - disse ele, ainda sem
parecer convencido. - Mas tem que jurar que ninguém no
Lincoln ficará sabendo, senão eu estou no olho da rua.
- Eu juro. Vou sumir como um ladrão na madrugada -
prometi. Agradeci a ele e entrei no quadrilátero molhado,
ainda à sombra de um céu cinza-chumbo, com a cabeça
doendo em função das novas revelações.

Capítulo 16

Uma friagem úmida pairava sobre o pátio quando o espiei da
saída da minha escada, faltando 20 para a meia-noite,
embora as nuvens pesadas que haviam trazido a chuva que
nos castigara durante o dia tivessem enfim se rompido,
permitindo um mero vislumbre da lua que iluminava as
pedras escorregadias. Eu me senti grato por essa luz pálida, já
que ela me permitira enxergar da janela o relógio da ala norte
- eu estivera andando no quarto de um lado para outro, num
estado de expectativa contida, desde o fim do jantar mas
agora também ansiava por não ser notado, ao tentar sair do
colégio sem que me observassem. Mantendo-me bem junto
às sombras, me esgueirei por toda a extensão da parede da ala
sul, depois da oeste, em direção à torre, rezando para que
Cobbett estivesse acordado. Por duas vezes me assustei com
um barulho, pensando ter ouvido alguma coisa se mexer na
esquina oposta e me encostando bem na pedra úmida, mas
acabei me convencendo de não ter ouvido nada, exceto as
travessuras noturnas de uma raposa ou uma coruja do lado de
fora dos muros, um barulho agora abafado pelo bater surdo
do sangue em meus ouvidos. Todas as janelas que davam
para o pátio estavam às escuras, a não ser por uma luz
bruxuleante no andar superior da casa do diretor. Se Sophia
ainda não voltara para casa, pensei, não era de admirar que o
pobre homem não conseguisse dormir. Ao passar pela ala
oeste, imaginei se Gabriel Norris e Thomas Allen teriam
voltado. Nenhum dos dois estivera presente no jantar e
parecia estranho ambos haverem desaparecido após a
descoberta do corpo de Ned. William Bernard também tinha
sumido - uma ausência ainda mais marcante pelo fato de
nenhum de seus colegas a haver mencionado à mesa dos
professores, apesar dos olhares frequentes para seu lugar
vazio.
Sob a arcada da torre, bati de leve na janelinha arqueada de
Cobbett. Fiquei satisfeito ao ver luz de vela ardendo no
interior e, para minha surpresa, a porta se abriu quase de
imediato. Pondo um dos dedos encardidos nos lábios, o
velho porteiro se arrastou com doloroso vagar até o portão,
carregando um pequeno lampião na mão direita e lançando
olhares temerosos para a penumbra do pátio enquanto
caminhava. Ele me entregou o lampião e vi seus dedos
artríticos fazerem uma hábil triagem no enorme molho de
chaves pendurado em seu cinto, escolhendo uma delas
praticamente sem emitir som. O portão rangeu ao se abrir,
produzindo um ruído que não poderia ser mais parecido
com o do tronco de uma árvore antiga se vergando sob a
tempestade, e ambos passamos um momento imóveis, até
nos convencermos de que não havia movimento nos prédios
às nossas costas.
Cobbett fez sinal para que eu levasse o lampião comigo.
- Bata na janela da rua quando voltar - lembrou-me ele, num
murmúrio rouco. - Não tenha medo, eu escuto. E tome
cuidado lá fora nas ruas, senhor. Mantenha a cabeça fria.
À luz da vela, seu rosto estava incomumente sério, por isso
lhe fiz um aceno com igual solenidade, ao cruzar o portão e
entrar no lamaçal da travessa St. Mildred. As dobradiças
tornaram a ranger alto quando Cobbett fechou o portão atrás
de mim e, no instante seguinte, ouvi sua chave girar na
fechadura com um ameaçador caráter final.
Eu mal havia passado pelos muros do Colégio de Jesus e
estava quase no ponto em que as travessas St. Mildred e
Sommer se cruzam quando me virei abruptamente, com a
mão na faca, já então convencido de ter ouvido o som
inconfundível de um pé pisando numa poça, em algum
ponto atrás de mim. Levantei o lampião, examinando
freneticamente as trevas da rua que acabara de percorrer,
mas o círculo de luz mal passava do comprimento do meu
braço e só fazia a escuridão parecer mais impenetrável.
Quase gritei para que quem quer que estivesse ali se
mostrasse, mas me contive no último instante, considerando
que era melhor não chamar mais atenção.
Prossegui com dificuldade pela rua lamacenta, me mantendo
junto ao sólido negrume do muro da cidade à minha direita,
acompanhando sua linha pela travessa Sommer em direção
ao portão norte. Veio de novo o chapinhar abafado de passos
atrás de mim, como os sons que minhas próprias botas
faziam nos sulcos transbordantes que a chuva do dia deixara
na rua. De novo girei o corpo de repente, dessa vez sacando
a faca, e sibilei um "quem está aí" em voz tão baixa que foi
quase inaudível. Dessa vez, tive certeza de haver detectado
algo nas sombras profundas, não propriamente um
movimento, mas um deslocamento de ar - a bruma fria se
rearranjando no espaço em que estivera um homem
segundos antes. Eu já não tinha dúvida de que havia alguém
me seguindo, mas a poucas jardas dali vi a massa
tranquilizadora da Igreja de São Miguel, encostada no muro
da cidade, e ao lado dela as luzes da torre de vigia acima do
portão. Respirei fundo e, repondo a faca no cinto, meti a
mão no bolso dos calções para pegar as moedas que já havia
separado para subornar os vigias, tendo achado melhor não
deixá-los verem a bolsa recheada que eu carregava.
Dois rapazes munidos de lanças e com um forte cheiro de
cerveja deram um passo à frente, com certo desânimo,
quando me aproximei do portão.
- Informe suas intenções - disse o mais alto, como se não
desse a mínima importância à resposta. Mordeu
ostensivamente a moeda que lhe dei, bem na minha frente,
enquanto eu lançava olhadelas ansiosas por cima do ombro,
em busca de algum sinal do meu perseguidor, mas sem
conseguir enxergar nada além das esferas de luz dos
lampiões. Quando meu suborno foi julgado autêntico, fui
conduzido pelo portão e me descobri sozinho fora dos
muros da cidade.
O quintal da hospedaria estava envolto em sombras e nele
pairava um silêncio abafado, que parecia tenso de
expectativa. Não vi luz em nenhuma das janelas e a única
iluminação provinha do pequeno lampião que eu carregava.
De algum lugar no denso negrume, à minha direita, veio o
relincho suave de um cavalo que deslocava o peso do corpo,
cochilando ali perto. Levantei a luz para ver para onde devia
ir.
- Apague isso, seu tonto. Quer atrair os vigias para nós? -
sibilou uma voz masculina em meu ouvido, o hálito quente
no meu rosto. Meu coração deu um salto e, no susto, quase
deixei cair o lampião, mas consegui enfiar a mão por dentro
do vidro e apagar a vela. A figura que havia falado passou por
mim e atravessou o quintal sem hesitação, a capa farfalhando
nas pernas com o andar. Uma réstia de luar atravessou as
nuvens e, sob seu brilho tênue, vi outras sombras se
materializarem, mais figuras que deslizavam em silêncio pelo
ar parado em direção aos fundos do prédio da hospedaria,
todas envoltas em capas e com os capuzes levantados. Por
um momento, aquela visão me fez lembrar de quando eu me
levantava de madrugada para as matinas no mosteiro de San
Domênico, pois as figuras encapuzadas não poderiam ser
mais parecidas com os monges entre os quais eu tinha
passado a juventude. Segui as formas que mal conseguia
discernir e cheguei a uma portinha, que se fechou no
instante em que a alcancei. A custo discerni a forma de uma
grade na altura da cabeça e, assim, me inclinei na direção
dela e sussurrei "Ora pro nobis". Por um instante, houve
apenas silêncio, mas em seguida se abriu uma fresta e das
sombras surgiu uma mão pálida que fez sinal para eu entrar.
Eu me esgueirei pela abertura para uma passagem estreita,
que, a julgar pelo cheiro de comida rançosa, parecia correr
em paralelo à cozinha da taberna. Por seu tamanho, calculei
que a pessoa que havia me deixado entrar era Humphrey
Pritchard, o ajudante que servia as mesas. Se ele me
reconheceu ou não, eu não saberia dizer. O rapaz me
conduziu pela passagem, que terminava numa escada de
aparência bamba que subia em curva para o andar seguinte.
Uma vela de sebo ardia baixo num castiçal de parede, a meio
caminho da subida, enchendo a escada estreita com sua
fumaça acre. Passos rangeram nos degraus atrás de mim e
então apressei a subida, emergindo num patamar de pé-
direito baixo, vigas no teto e piso desnivelado. Notei que as
janelinhas tinham sido cobertas por panos pretos, para
impedir que a luz das velas fosse visível do lado de fora.
Ainda sem saber ao certo aonde ir, segui o corredor até o
fim, onde havia uma porta baixa entreaberta. Ao empurrá-la
com hesitação, me vi numa salinha repleta de figuras
encapuzadas que esperavam de pé, com a cabeça baixa, todas
voltadas para um altar improvisado numa das extremidades,
onde três velas de cera ardiam em altos castiçais de prata,
diante de um crucifixo de madeira escura com uma figura
prateada do Cristo crucificado.
Das profundezas anônimas de nossos capuzes, os outros
congregantes e eu nos olhávamos furtivamente, embora, à
luz tênue das velas, todos os rostos que vislumbrei exibissem
os mesmos efeitos de máscara das chamas dançantes, com as
feições alongadas e os olhos submersos em poças de sombra.
E então, subitamente, uma figura alta do outro lado da sala se
virou para mim. A luz caiu por um momento em seu rosto,
seus olhos encontraram os meus e, num sobressalto,
reconheci Mestre Richard Godwyn, o bibliotecário do
Colégio Lincoln. Pude notar a surpresa e o medo em seu
rosto, um instante antes de ele baixar os olhos para o chão e
cruzar as mãos à frente do corpo, em posição de prece. Em
seguida comecei a pensar em quantos dos outros, se eu
pudesse vê-los com clareza, se revelariam homens que eu já
conhecia, se esgueirando pela cidade adormecida sob a
proteção das trevas para viver sua vida secreta e proibida.
Não pude deixar de admirar a coragem deles, embora já não
compartilhasse sua fé. Afinal, eu também não havia arriscado
a vida, um dia, desafiando as convicções que as autoridades
me recomendaram? Em certo sentido, não continuava a
fazer isso? Naquele momento, relanceando os olhos pela
pequena congregação de 14 almas, me dei conta da
assombrosa gravidade da minha tarefa ali. Eu era o lobo em
pele de cordeiro, aquele que usava o mesmo uniforme e
proferiria as mesmas respostas, mas sob o braço direito sentia
o peso da bolsa de Sir Francis Walsingham - um dinheiro
que eu carregava para trair aqueles devotos destemidos e
levá-los à prisão, ou talvez à morte. Muito bem que
Walsingham falasse em termos abstratos sobre a ameaça ao
reino, mas será que aquela pequena missa poderia realmente
ser considerada traição? Achei difícil acreditar que alguma
das pessoas comuns ali reunidas durante a noite, para
celebrar um rito que lhes era negado sob pena de morte,
estivesse tramando em segredo assassinar a rainha ou passar
informações às forças francesas. Seria sua simples fé razão
suficiente para entregá-las à versão de justiça do Conselho
Real, pensei, e porventura eu conseguiria justificar isso
perante minha consciência? Eu me lembrei do medo
palpável que Thomas Allen manifestara dos métodos de
interrogatório dos ministros da rainha, usados contra os
acusados de traição. De repente, me senti terrivelmente
exposto, como se minha intenção traiçoeira pudesse ser
visível às pessoas à minha volta. Nesse momento, a mão de
alguém se fechou com força em meu pulso, então ergui o
olhar e me descobri fitando os luminosos olhos azuis de
Rowland Jenkes. Ele me lançou um olhar penetrante, depois
acenou uma vez com a cabeça, no que me pareceu ser uma
afirmação, um quase sorriso bailou em seus lábios e ele
soltou meu braço, se virando com ar cheio de expectativa
para a porta pela qual havíamos entrado.
Desceu sobre nós uma quietude, um respirar audível quando
a porta começou a se abrir, e senti naquela salinha, como
não me acontecera em muitos anos, um leve arrepio na
espinha, diante da antiga magia da missa. As pessoas entre as
quais eu me encontrava, disfarçado, acreditavam
sinceramente estar na presença de um mistério sagrado. Sua
crença nisso era uma fé pura que eu esquecera fazia muito
tempo, e era isso, pensei, que um homem como
Walsingham não tinha condições de compreender. Era a fé
nesse milagre que as chamaria de volta, vez após outra, a
despeito das ameaças de morte e de castigo, para manterem
desafiadoramente viva aquela chama, e a sinceridade de sua
fé foi quase humilhante.
O padre que havia entrado usava um traje branco
semelhante a uma alva, que descia até os pés, só que com um
capuz que estava levantado, encobrindo seu rosto. Em torno
do pescoço ele portava uma estola verde. De olhos baixos,
percorreu com solene dignidade os poucos passos que o
separavam do altar, o porte ereto, erguendo à sua frente o
cálice coberto por um véu. Ao chegar ao altar, se curvou
profundamente e, pela maneira como fez isso, vi que não se
tratava de um homem jovem e que aquele gesto era difícil de
ser executado do ponto de vista físico. No entanto, não pude
me impedir um arquejo quando ele se empertigou e baixou o
capuz: o padre celebrante era o Dr. William Bernard.
Ele depôs o cálice com um gesto reverente do lado esquerdo
do altar, tirou de cima uma bolsinha de veludo verde e, entre
o polegar e o indicador, retirou dela o corporal delicado,
desdobrando e depositando esse quadrado de linho branco
no centro do altar. Em seguida, pousou cuidadosamente
sobre ele o cálice coberto. O sacristão que o acompanhava
remexeu os pés, nervoso. Não podia ter mais de 19 anos -
um estudante, imaginei - e não conseguia deixar de lançar
rápidos olhares nervosos à sua volta, parado com a cabeça
descoberta ao lado de Bernard, tão à mostra em meio a todo
aquele grupo encapuzado como se estivesse nu.
De frente para o altar, Bernard fez o sinal da cruz, levando a
mão direita à testa, ao peito e aos ombros, primeiro o
esquerdo, depois o direito.
- In nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amem.
O ar na salinha pareceu carregado, todos nós postados ali
como que no fio de uma navalha, os nervos tensos pelo
perigo envolvido no rito realizado diante de nós e do qual
todos participávamos - até eu, que só observava, mas que
também estava envolvido. Cada ruído súbito e desconhecido
- o pio de uma coruja, o ranger das tábuas antigas da
hospedaria - provocava tensão na congregação, uma onda
invisível de medo que nos capturava e nos detinha por um
momento, antes do silêncio suave da respiração que se
soltava com cuidado.
- Introibo ad altare Dei - enunciou Bernard, com serena
autoridade na voz.
Veio uma súbita lufada de vento pelas persianas de madeira,
inflando os panos pretos das janelas e fazendo as velas
bruxulearem loucamente. O jovem sacristão girou a cabeça,
em pânico, como se alguém pudesse ter entrado, mas
Bernard, solene e imperturbável, prosseguiu com a
cerimônia que celebrava, como se cada palavra e cada gesto
estivessem entranhados em sua própria natureza.
Não havia música e as respostas da congregação eram
abafadas, mal sussurradas, como se pudesse haver alguém
escutando à porta. Todos nos ajoelhamos ao mesmo tempo, à
medida que a missa avançava, conforme seu ritmo prescrito,
e tornei a me lembrar, com uma pontada de saudade, de
como aqueles gestos e palavras haviam estruturado minha
própria vida durante tantos anos. Agora, quando eu repetia
as frases, era como se elas já não tivessem vida. Bernard tirou
a hóstia de uma pequena píxide de latão e, depois de elevá-la
e beber do cálice, se virou de frente para a congregação.
- Ecce Agnus Dei, ecce qui tollit peccata mundi - entoou, e,
quando levantei a cabeça, deparei com seus olhos lacrimosos
diretamente cravados em mim. Fiquei com a respiração
presa na garganta. Naquele momento, ele me pareceu ter
desmascarado meu disfarce e enxergado diretamente os
próprios segredos da minha alma. Para o caso de eu haver
interpretado mal aquele olhar, Jenkes, a meu lado, pôs a mão
no meu braço em sinal de advertência. Compreendi o que
ele queria dizer: apesar de eu ter sido aceito entre os fiéis
nessa noite, Jenkes e Bernard não haviam se esquecido de
que eu fora excomungado. Não deveria nem pensar em
receber a hóstia com os demais. Porém eles não precisavam
temer: eu não comungava desde que deixara o mosteiro, por
algum vestígio de respeito ou superstição, ou ambos. Mas,
enquanto a pequena congregação se apressava a avançar,
prostrando-se de joelhos, com a boca avidamente escan-
carada, feito filhotes de pássaros, me encolhi junto à parede,
com medo de que minha não participação me destacasse
claramente como um espião. Afinal, essa era a essência do
rito, e a abstinência despertaria suspeitas de imediato. Mas
talvez Jenkes os tivesse alertado de antemão, porque,
embora meu retraimento atraísse alguns olhares curiosos,
eles foram fugazes, e logo tornei a me misturar ao grupo,
murmurando "Deo gratias" ante o "Benedicamus Domino"
de Bernard.
Encerrada a missa, o clima de expectativa carregada pareceu
se dissolver e a congregação se mostrou irrequieta e ansiosa
por se retirar. Permaneci junto à porta enquanto eles
começavam a sair, enfileirados, e olhei o mais de perto que
pude para os rostos encapuzados que passavam por mim,
baixando os olhos quando alguém retribuía meu olhar. Os
dedos longos de Jenkes se fecharam em torno do meu pulso,
fazendo sinal para que eu ficasse enquanto os outros saíam.
Um dos últimos a sair, uma figura baixa, com as mãos
enfiadas sob a capa numa postura de monge, parou e me
fitou. Nesse momento, as velas tornaram a bruxulear e deixei
escapar um arquejo quando a onda repentina de luz me
mostrou o seu rosto: Adam, o criado do diretor, me encarou,
refletindo minha própria expressão de incredulidade.
Hesitou por um instante, como se não soubesse ao certo se
devia falar, mas Jenkes lhe lançou um olhar severo e ele se
apressou a sair pela porta com os demais.
Por fim, fiquei a sós com Jenkes, que retirou o capuz, e com
a figura alta e sólida de Humphrey Pritchard, que começou a
se ocupar arrumando a sala e guardando os ornamentos da
cerimônia. Deixou as velas do altar, que agora ardiam mais
baixas e com uma luz tênue. Jenkes me olhou com ar
avaliador.
- Então, aos negócios - disse, baixinho. - Por favor, tire a sua
capa. Agora o senhor está entre amigos. Trouxe sua bolsa,
Dr. Bruno?
Baixei o capuz e sustentei seu olhar com firmeza.
- Trouxe o livro, Sr. Jenkes?
Seu rosto marcado se abriu lentamente num sorriso.
- O livro. Primeiro me diga quanto está disposto a pagar por
esse manuscrito.
- Primeiro eu precisaria vê-lo - respondi, impassível. -
Quanto quer por ele?
- Essa é uma pergunta difícil, Bruno. É que o valor de um
objeto, qualquer que seja, depende inteiramente do desejo
que o outro tem dele, não é? Esse livro, por exemplo. Só
conheci um outro homem que o queria tanto quanto você
parece desejá-lo, e estava disposto a me pagar muito. Mais,
talvez, do que você carrega na sua bolsa polpuda - e olhou
para minha sobreveste com um brilho voraz nos olhos.
- Quem? - perguntei, sentindo um medo gélido tomar meu
estômago. - Você não o vendeu, não é?
Nesse momento, a porta se abriu. Eu me assustei, mas era
apenas William Bernard, já sem seus paramentos,
novamente vestindo sua toga acadêmica surrada e uma capa
fina, com as mãos cruzadas nas costas.
- Eu estava acabando de falar com o Dr. Bruno sobre o
homem que queria comprar o manuscrito grego da coleção
do decano Flemyng... aquele que você salvou do expurgo de
1569 - informou Jenkes. Bernard balançou lentamente a
cabeça.
- Descobri o manuscrito enfurnado num velho baú quando
me tornei bibliotecário do Lincoln - explicou Bernard. - Meu
predecessor não fora capaz de lê-lo ou não soubera do que se
tratava, mas eu o reconheci imediatamente e compreendi
que, nas mãos certas, poderia ser de extremo valor... e
bastante perigoso.
- E por isso o furtou? - indaguei.
Bernard franziu o cenho.
- Não fiz nada disso. O colégio fazia um inventário anual da
coleção da biblioteca, então qualquer desaparecimento seria
notado. Mas o Senhor provê para aqueles que conservam a
fé. Em 1569, os inspetores do rei fizeram um expurgo das
bibliotecas dos colégios, como o senhor sabe, e, em razão de
sua pressa de retirar os itens ofensivos, foi fácil surrupiar
alguns manuscritos indesejados. Eu já dissera a Rowland que
havia encontrado os escritos perdidos de Hermes
Trimegisto, o livro que Ficino se recusara a traduzir, por não
querer ser responsável pelas consequências disso para a
cristandade. Mas não sei ao certo se ele acreditou em mim,
até que pude colocar o livro em suas mãos.
Jenkes ergueu uma das mãos, como que para se eximir de
culpa.
- Assim que li o livro, não tive dúvida de que era autêntico.
Tratava-se do livro que Cosimo de Médici pagara uma
fortuna para mandar tirar das ruínas de Bizâncio, mas que
nunca chegou a ler. Eu sabia da existência de um homem
que me pagaria o que eu pedisse para ter esse livro em sua
biblioteca.
- Talvez você o conheça - interpôs Bernard, com ar
malicioso -, porque ele foi preceptor do seu grande amigo
Philip Sidney. Eu me refiro ao feiticeiro John Dee, astrólogo
de Elizabeth, a bastarda herege.
- Nesse caso - olhei de um para o outro, sentindo minhas
esperanças desmoronarem enquanto falava o livro está com
John Dee? Você o vendeu a ele?
- Não e sim - respondeu Jenkes, dando um passo à frente
com as palmas das mãos estendidas para cima, a fim de
demonstrar seu desamparo nesse assunto. - Eu vendi o livro
a ele por uma soma enorme. Havíamos trocado cartas e Dee
viajou até Oxford para efetuar a transação pessoalmente. Mas
houve uma intervenção infausta... da Providência ou de
algum outro poder.
- Como assim? - perguntei, já impaciente e cansado desse
jogo de gato e rato.
Pelo canto do olho vi Humphrey Pritchard encostado na
parede, junto à janela coberta de preto, catando nos dentes
pedacinhos da hóstia da comunhão. Com um sentimento de
apreensão, me perguntei por que ele ainda estava ali, nos
observando com uma curiosidade neutra, e por que Jenkes e
Bernard não se opunham à sua presença.
- Na estrada, quando regressava a Londres, Dee foi atacado
por salteadores e brutalmente agredido. Teve sorte de
escapar com vida, mas todos os seus bens foram roubados,
inclusive o manuscrito que levava.
Jenkes fez esse relato com perfeita despreocupação. Ao
mesmo tempo, fez um sinal quase imperceptível com os
dedos e Humphrey se afastou da janela, aproximando-se de
nós.
- E isso foi obra sua? - perguntei, me virando a fim de manter
Humphrey no meu campo visual. - Você mandou recuperar
o manuscrito?
- Eu? - indagou Jenkes, fingindo-se ofendido. - Você me
acha capaz de transações tão suspeitas, Bruno? Eu lhe
asseguro, não sou outra coisa senão honesto em minhas
transações comerciais, e também não sou tolo a ponto de
transformar em inimigo alguém tão próximo dos favoritos da
rainha.
Ele me fitou de modo estranho ao dizer isso e trocou olhares
com Bernard, prosseguindo:
- Não. Parece que o Dr. Dee não era a única pessoa
interessada no assunto e disposta a obter o manuscrito a
qualquer preço.
- Então, onde ele está agora? - perguntei, me virando de
repente para Jenkes. - Se você não o tem, por que essa farsa
de pedir que eu trouxesse minha bolsa?
Já ao falar, porém, a compreensão do que estava para
acontecer se espalhou por minhas veias como água gelada.
Girei o corpo para Humphrey, mas não fui rápido o bastante
e ele prendeu meus dois braços às minhas costas, antes que
eu pudesse me esquivar. No mesmo instante, ao que parece,
Jenkes investiu contra mim e arrancou do meu cinto a faca
de cabo de prata. Pressionando a ponta dela na base da
minha garganta, meteu a mão por dentro da minha
sobreveste, primeiro de um lado, depois do outro, até achar a
bolsa de Walsingham. Trazendo-a à luz, ele a jogou com
displicência para o alto e tornou a pegá-la com a mão livre,
calculando seu conteúdo. Bernard simplesmente
permaneceu imóvel, observando, com os braços ainda
escondidos nas costas e o rosto impassível.
- Se gritar, eu retalho seu bucho feito um porco, antes que o
som acabe de sair da sua garganta - escarneceu Jenkes,
comprimindo mais a faca.
- Então, era tudo mentira? - perguntei, com os dentes
cerrados, enquanto me debatia em vão contra o férreo
abraço de Humphrey Pritchard. - Aquela história sobre o
livro?
- Ah, não - respondeu Jenkes, com ar quase magoado. - A
história é verdadeira em todos os detalhes, Bruno. O livro foi
roubado de John Dee por alguém que devia saber que ele o
estaria carregando, mas quem o atacou não estava a meu
serviço, e creio que Dee nunca descobriu para onde o
volume foi levado nem por quê. Isso já não é preocupação
minha. Não, não menti para você, Dr. Bruno. Mas creio que
você não pode dizer o mesmo.
- Não sei aonde você quer chegar - retruquei, com o pânico
crescendo em minha voz, à medida que a ponta da faca
espetava minha pele. - No que você acha que eu menti?
- Onde você arranjou esse dinheiro? - sibilou Jenkes,
levantando e sacudindo a bolsa, sem mais nenhum vestígio
de sua polidez bajuladora. - Como é que um escritor exilado
e itinerante chega a Oxford com uma bolsa cheia dessa
maneira, isso é o que eu me pergunto. Quem está lhe
pagando?
- Recebo um ordenado do rei Henrique da França -
retruquei, ainda tentando soltar os braços. Humphrey apenas
os puxou com mais força para trás e percebi que, se lutasse,
tudo o que conseguiria seria deslocar meus ombros. Parei de
me mexer e tombei para a frente, ainda enfrentando o olhar
de Jenkes. - Eu viajo sob o amparo dele, qualquer um lhe
dirá isso.
- Você está viajando com Sir Philip Sidney, que tem a
proteção do tio, Robert Dudley, conde de Leicester, amante
da prostituta Elizabeth. E o único interesse de Dudley, assim
como de todo o Conselho Real, é livrar Oxford dos que
continuam leais ao papa, os quais você foi encarregado de
desencavar para ele feito um porco caçando trufas. Não é
verdade? - perguntou, se aproximando ainda mais de mim e
levantando um dos cotovelos, o que me obrigou a forçar a
cabeça para trás o máximo que pude, para impedir que a faca
me furasse a garganta.
- Não sei de nada sobre os interesses do conde, nunca pus os
olhos nele! - retruquei em voz rouca, sentindo uma dor
aguda descer pelo lado do pescoço por causa do esforço.
- Você disfarça bem, Bruno. Eu já esperava por isso. Um
homem que consegue fugir da Inquisição por sete anos só
pode ser excepcional. Mas a mim você não engana. Você é
cismático e herege e almeja prosperar e se vingar da Igreja
Católica, traindo aqueles que conservam a religião que você
desdenhou.
- Você não tem razão para pensar assim - protestei, já então
sinceramente alarmado com a luz feroz nos olhos de Jenkes.
- Com base em que está me acusando?
- Com base em quê? - repetiu ele. Em seguida, deu uma
risada curta e seca e recuou um passo, relaxando o braço,
mas sem baixar a faca do meu pescoço. - Como assim? Afora
sua intimidade com Sidney e o dinheiro que você usa para
subornar seus informantes? Pois então me explique seu
interesse nas mortes do Colégio Lincoln. Em benefício de
quem você se interessa com tanta diligência em descobrir o
assassino?
- Que informantes? - questionei. Tornei a pender para a
frente, sem querer, e senti um puxão doloroso no ombro,
quando Humphrey torceu meus braços para trás com mais
força ainda. - A explicação da morte do Dr. Mercer não me
convenceu, só isso. Achei que outras pessoas poderiam
correr perigo, se o assassino não fosse encontrado. O que se
confirmou, aliás - acrescentei, enfático.
- Que caridade comovente! - disse Jenkes, quase sem abrir a
boca. - Bem, nesse caso, vamos experimentar outra
pergunta: por que você convidou Thomas Allen para uma
refeição?
Meu rosto deve ter deixado transparecer minha surpresa,
porque ele deu um leve sorriso e inclinou a cabeça:
- Você nunca reparou, Bruno, como os cegos são capazes de
desenvolver uma audição canina, para compensar a perda da
visão? Pois, do mesmo modo, eu, que não tenho orelhas,
compenso minha perda tendo muitos olhos, que enxergam
em todos os cantos - disse e deu uma risada seca ao fazê-lo,
como se houvesse ensaiado sua fala antes e a achasse
agradável. Quando não demonstrei minha apreciação, ele
tornou a investir contra mim, forçando mais a ponta da faca.
- O que você perguntou a Allen? O que ele lhe disse?
- Ele não me disse nada importante - respondi, ofegante,
tentando torcer o pescoço para longe da ponta da lâmina. -
Falou dos estudos, de suas preocupações com as garotas...
apenas as banalidades que se passam na cabeça de um rapaz.
- Não torne a mentir para mim, Bruno - disse Jenkes entre
dentes, com voz calma e fria. - Você procurou, de propósito,
justamente o homem de Oxford que quer ver a destruição de
todos nós - acrescentou. Em seguida, deslocou depressa a
faca para um lado e houve uma pausa antes que uma dor
violenta me subisse pelo pescoço e ele segurasse a faca no
nível dos meus olhos, com a lâmina manchada de vermelho.
- Olhe só como você treme ao ver seu próprio sangue. É só
um arranhãozinho - falou, com indiferença. - Você já fez
pior do que isso ao se barbear. Mas olhe como sangra, até
por um corte tão pequeno. Imagine como seu sangue vai
manchar o chão quando eu cortar seu pescoço de um lado a
outro.
Fechei os olhos, a cabeça em rodopios frenéticos, enquanto
procurava pensar em formas de tentar fugir. Nenhuma me
veio à mente de maneira óbvia.
- Se Thomas Allen quer destruir o seu grupo, por que não
haveria de denunciar o que sabe?
- Ah! - exclamou Jenkes, me examinando por um momento.
- Vejo que há muita coisa que você ainda não sabe, Bruno.
Não é tão simples assim. Ele não pode fazer isso
pessoalmente. Mas não posso permitir que você passe
adiante o que ele lhe disse sobre nós.
- Então, se pretende me matar - retruquei, mantendo a voz
tão firme quanto pude ao menos me diga por que matou
aqueles homens no Lincoln. Satisfaça essa minha
curiosidade.
Seu rosto assumiu uma expressão sombria e ele olhou para
Bernard, como que em busca de aprovação.
- Que estranho último pedido, Bruno! É um pedido que não
posso atender, porque não matei Mercer nem Coverdale,
tampouco o menino, e não sei ao certo quem fez isso. Estou
tão curioso para descobrir a resposta quanto você.
- Então, por que quer impedir que alguém a descubra? Eles
vinham à missa aqui, não vinham? Coverdale e Mercer
faziam parte do seu grupo. Não se importa com o fato de
terem sido assassinados de maneira violenta, nem de todos
vocês estarem correndo perigo? - indaguei, correndo os
olhos de um para o outro, confuso, agora com o corte no
pescoço ardendo violentamente.
- A morte deles levantou muitas perguntas - disse Bernard,
no mesmo tom claro e solene com que havia celebrado a
missa. - Os homens de Oxford saberiam que convém deixar
essas perguntas sem resposta, mas você não é um homem de
Oxford, e sua insistência em desencavar a verdade acabaria
por nos expor a todos. Lamento dizer que a curiosidade foi
sua ruína.
Ele pareceu sinceramente pesaroso ao dizer isso. Por um
instante, senti a sala rodar. Meu coração parecia ter parado
de bater e perdi toda a sensação nos braços e nas pernas ao
perceber, sem sombra de dúvida, que eles pretendiam
mesmo me matar e que era bem possível eu não conseguir
me livrar por meio de conversa. Ao mesmo tempo, senti um
espasmo intestinal, mas enrijeci todos os músculos e
consegui controlá-lo. Pelo menos não passaria por essa
vergonha.
- Mas, então - arquejei, lutando para recobrar a respiração
entrecortada esse assassino é inimigo de vocês! É ele que está
trazendo essas perguntas à tona! Ele rabiscou o símbolo da
Roda da Catherine na parede, com o sangue de Coverdale...
é como se quisesse apontar o dedo para você e o seu grupo, e
é a sua gente que ele está matando! Logo, se eu tentar achá-
lo, com certeza isso só trará benefícios a vocês, não é?
Os dois trocaram um olhar penetrante à menção do símbolo.
O rosto de Bernard endureceu numa raiva eloquente e
Jenkes pareceu desconcertado pela primeira vez desde que
se voltara contra mim.
- Repita isso - sibilou, forçando a faca na carne viva do corte
que tinha feito, de tal modo que gani de dor e mordi o lábio
inferior para me impedir de gritar. Bernard deu um passo à
frente e balançou a cabeça de modo quase imperceptível e
Jenkes afastou um pouquinho a faca. - Na parede, você disse?
Quantas pessoas viram isso?
- Além de mim, só o diretor Underhill e o tesoureiro,
Slythurst - respondi, quase num sussurro. - O diretor
mandou retirá-la antes que o oficial de inquirição chegasse.
- Ótimo - comentou Bernard, meneando a cabeça quase que
para si mesmo. - Bem, então, Rowland, vamos terminar logo
com isso e ir embora, senão correremos o risco de sermos
vistos.
- Não, esperem! - gritei o mais baixo que pude. - Posso ajudar
vocês a encontrá-lo, se me deixarem voltar para o colégio e
continuar minha busca. Ora, vamos, estamos do mesmo
lado.
Jenkes deu uma risada abrupta e retrucou:
- Não estamos do mesmo lado, Bruno. Não percebe? Você
acha que está caçando esse assassino, mas ele o está usando o
tempo todo para nos trair. Quer conduzi-lo a nós, fazê-lo
ligar essas mortes a nós e investigar os segredos da nossa
rede, para que você possa levar esse conhecimento para
Sidney e seus amigos de Londres, achando que a conclusão
foi sua.
- Você fala como se soubesse quem ele é - disse eu, intuindo
que, se conseguisse mantê-lo falando, talvez isso o fizesse
mudar de idéia. Mas Jenkes parecia estar cansado de falar.
Fez um sinal para Bernard, que finalmente tirou as mãos das
costas e revelou um pedaço de corda fina.
- Você viu e ouviu muitas coisas, Bruno - disse Jenkes sem
rodeios, a faca ainda vibrando na minha garganta, enquanto
Bernard desaparecia às minhas costas e meus pulsos eram
bruscamente unidos e atados. - Mas vou descobrir o que
Thomas Allen lhe disse e se você passou isso adiante, antes
de despachá-lo para o Diabo. Você pode me contar por bem
ou por mal, fica à seu critério.
- Por que não pergunta a Thomas Allen?
- Porque ele não está aqui. Mas não se preocupe, também
acho improvável que ele veja o sol nascer amanhã.
- Você também vai matá-lo?
- Eu não, Bruno - respondeu Jenkes e balançou a cabeça com
um sorriso enigmático. - Eu não. Não toquei no rapaz por
causa do pai dele, que se manteve fiel a nós, mesmo sob
torturas terríveis. Mas Thomas não devia ter conversado
com você. Outras pessoas, no entanto, talvez não sejam tão
escrupulosas.
- Sou convidado da comitiva real - falei com veemência, já
então me agarrando a qualquer fio de esperança. - O meu
assassinato seria um escândalo e traria o corregedor direto
para cá.
Jenkes balançou a cabeça devagar.
- Você subestima muito a minha inteligência, Bruno. Chega a
ser quase um insulto. Até um integrante de uma comitiva
real pode ter vontade de visitar um bordel na calada da noite.
Afinal, não é mais do que qualquer um esperaria de um
estrangeiro papista. E, sem conhecer as ruas duvidosas dessa
parte da cidade, ele pode facilmente se tornar vítima de
ladrões violentos, ainda mais se sair carregando uma bolsa
tão recheada assim. Será um constrangimento para a
comitiva real, sem dúvida, mas eles irão se dissociar
prontamente de você. O que acha, William? - perguntou,
levantando a cabeça para Bernard, que amarrava meus braços
enquanto Humphrey os segurava. - Devemos deixar o corpo
dele ser encontrado em frente a um dos prostíbulos dos
rapazinhos ou isso seria muita humilhação?
Bernard não respondeu, então Jenkes apenas deu de ombros
e continuou:
- Estarei de volta antes dos primeiros raios de sol, quando
tiver tomado as providências. Vou deixá-lo aos cuidados de
Humphrey enquanto você considera o que vai me dizer da
sua conversa com Thomas Allen.
- Vocês me matariam para se proteger? - perguntei, tentando
agitar os braços, enquanto Humphrey me baixava com
surpreendente delicadeza no chão e Bernard dava a volta
para amarrar meus tornozelos com outro pedaço de corda.
Jenkes me examinou com ar severo.
- Para proteger a religião, Bruno - acabou respondendo,
cheio de censura na voz. - Tudo o que faço é proteger e
preservar nossa religião perseguida, portanto, aos olhos de
Deus, isso não é pecado.
- E o sexto mandamento? - insisti, com a voz engasgada e
incomumente aguda. - Não matarás?
- Eu começo pelos dois primeiros mandamentos. Não terás
outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagens
esculpidas - foi a resposta. Jenkes estreitou os olhos e pôs o
rosto tão perto do meu que quase pude contar os poros
enegrecidos do seu nariz. - Este país, o meu país, Bruno, pois
nasci e continuo a ser inglês, o meu país idólatra violou esses
mandamentos. A bastarda herege, nascida da prostituta Ana
Bolena, se instalou como rival do próprio Santo Padre, e as
almas de seu povo correm um perigo mortal. Combater essa
heresia é uma guerra santa, não assassinato. Mas, para lhe
mostrar que não sou nenhum bárbaro, Bruno, o padre
William ouvirá sua confissão antes de você morrer, se você
optar por se reconciliar com a Santa Madre Igreja.
- Não me confessarei a vocês - retruquei entre dentes.
Jenkes não pareceu se ofender.
- Não importa, isso é entre a sua consciência e o seu Deus -
disse, dando de ombros, e desenrolou do pescoço um
cachecol de linho sujo. Segurando meu nariz com força,
apertou-o entre os dedos até eu ser obrigado a abrir a boca
para respirar. Mal o fiz, ele enfiou o cachecol na minha boca
até eu ficar com a mandíbula dolorosamente escancarada e
sentindo o tecido me asfixiar, sem conseguir emitir um
único som. Por um horrível momento de pânico, pensei que
ele pretendia me sufocar e comecei a me debater
violentamente, porém ele soltou meu nariz e me deu um
olhar demorado de antipatia.
- É melhor você revistar o quarto dele no colégio - disse
bruscamente a Bernard, que assentiu com a cabeça.
Mais uma vez, Jenkes vasculhou a parte interna da minha
sobrecasaca e encontrou a chave presa no meu cinto. Ele a
arrancou prontamente e a jogou para Bernard. Nessa hora,
de pouco consolo isso me serviu, porém pelo menos eu
estava com a cópia do código do almanaque do Mercer
enfiada por dentro da camisa, e não havia nada no quarto do
Lincoln que pudesse me ligar a Walsingham. Eu maldisse
minha estupidez de não ter mandado um aviso para Sidney
sobre meus planos. Apenas Cobbett sabia que eu tinha saído,
mas não faria ideia de onde procurar por mim, nem sequer
de que eu estava em perigo, até meu corpo ser encontrado
na manhã seguinte, caído num beco em frente a um bordel.
Estremeci e a dor no meu queixo foi piorando, à medida que
eu lutava para engolir minha própria saliva sem me asfixiar
com o cachecol.
Jenkes me lançou um último olhar analítico, se curvou para
verificar se os laços que me atavam estavam bem apertados e
fez sinal para Bernard.
- Eu o verei dentro em pouco, Bruno. Pense com cuidado no
que quer me dizer. Esta minha cara lhe parecerá um rosto de
anjo comparada à sua aparência, se eu tiver que forçá-lo a
falar. Espero que isso não seja necessário.
Bernard baixou os olhos para mim, com o rosto enrugado
frio como aço, mas toldado pelo pesar. Em seguida, levantou
o capuz por cima das orelhas e se retirou da sala, me
deixando sozinho com Humphrey Pritchard.

Capítulo 17

UMA QUIETUDE TENSA DESCEU sobre a sala. De algum lugar no
térreo veio o som de uma porta fechando. As velas do altar
tinham queimado quase inteiramente, plumas altas de
fumaça negra subiam de seus cotos e as chamas se
alongavam e bruxuleavam, fazendo a sombra de Humphrey
pairar imensa sobre a parede atrás dele. O rapaz não fez
nenhum gesto no sentido de substituir as velas. Na verdade,
parecia constrangido com sua nova responsabilidade e arriou
pesadamente o corpo, sentando-se no chão abaixo da janela,
encostado na parede. Nesse local, ficou aguardando, de
forma desconfortável, me vigiando com uma expressão
carrancuda numa mescla de apreensão e pedido de
desculpas. O único som audível era a minha respiração
acelerada e curta pelo nariz, em minha luta para mantê-la
regular e não entrar em pânico com a massa de tecido que
entupia minha boca. Vi que Humphrey tinha uma faca na
cintura, para a qual seus dedos corriam a intervalos curtos,
embora eu tivesse certeza de que, apesar de todo o seu
tamanhão, o rapaz era de boa índole e só com relutância
havia assumido seu papel de braço armado de Jenkes. Eu me
perguntei se ele teria coragem de usar a faca contra mim
caso eu tentasse fugir e concluí que, provavelmente, teria. O
medo que sentia de Jenkes superaria sua compaixão natural.
Um vento forte chacoalhou as persianas. Humphrey se
assustou, virou a cabeça de repente e depois, sem jeito, riu
de seu próprio nervosismo. Eu lhe fazia súplicas com os
olhos, tentando apelar para seu melhor lado antes de Jenkes
voltar, embora com pouca esperança de que ele se apiedasse.
Humphrey tinha mais razão do que ninguém para saber o
que Jenkes fazia com os que punham a causa em perigo.
Meus ombros começavam a doer, dada a posição nada
natural em que meus braços estavam. Tentei mexer os
pulsos, mas as cordas estavam apertadas demais para que eu
tentasse me soltar e me causariam cortes profundos se eu
fizesse isso. Tornei a pensar nos rostos que eu havia
reconhecido na missa. Havia Richard Godwyn, que
distribuía os livros clandestinos de Jenkes, e o velho criado
de olhar arguto do diretor Underhill, Adam, ambos
associados à Roda da Catherine e ao Colégio Lincoln.
Qualquer um dos dois teria razões para silenciar os docentes
que haviam morrido, nem que fosse para se proteger. A
Adam, em particular, como eu havia pensado antes, não
faltariam oportunidades de surrupiar chaves da casa do
diretor - mas, se eles frequentavam fielmente a missa ali, eu
não via razão para que pudessem querer chamar atenção para
o grupo da Roda da Catherine. Fechei os olhos e inclinei a
cabeça para trás, encostando-a na parede. Eu tinha que me
concentrar em descobrir um modo de fugir. Todas aquelas
especulações de nada serviriam se minha garganta fosse
cortada numa viela antes do amanhecer. Essa ideia me
trouxe uma nova convulsão de medo, à medida que
começava a compreender plenamente a realidade da minha
situação. Eu já temera pela vida em ocasiões anteriores, mas
nunca me sentira tão impotente para lutar por ela.
Estiquei o pescoço, na tentativa de diminuir a dor na
mandíbula, e com isso fiz o corte na base dele se abrir e
arder terrivelmente. A dor me fez prender a respiração no
mesmo instante e sugar um pedaço do tecido, que se alojou
na minha garganta. Semi-asfixiado, joguei a cabeça de um
lado para outro, tentando desalojá-lo, e fui emitindo
pequenos ruídos estrangulados, enquanto sentia meus olhos
saltarem de forma alarmante. Foi só quando tombei de lado
com um baque surdo e comecei a me contorcer no chão que
Humphrey, percebendo o que acontecia, pulou para o meu
lado e começou a puxar a mordaça da minha boca. Quando
enfim a tirou por completo, desabei em seu ombro, com o
corpo mole, arquejante e com os olhos lacrimejantes.
- Vou deixar desse jeito agora, Dr. Bruno, mas é melhor o
senhor não gritar por socorro, senão vou ser obrigado a lhe
bater - sussurrou Humphrey, com ar compungido, ajeitando-
me encostado na parede como se eu fosse um boneco e me
observando com apreensão.
- Ele pretende mesmo me matar? - perguntei, com a voz
rouca, quando enfim consegui falar.
Humphrey me olhou com ar de dúvida e uma expressão
sofrida no rosto grande e bonachão, como se estivesse preso
entre a compaixão e o dever.
- Ele diz que o senhor vai fazer o conde de Leicester e todos
os soldados da rainha virem atrás da gente - murmurou,
arregalando os olhos -, e todos seremos levados para a Torre
e torturados, até as mulheres. Até a viúva Kenney, e isso eu
não vou deixar o senhor fazer - acrescentou, subitamente
decidido.
- Quer dizer que você gosta da viúva Kenney? - perguntei,
baixinho.
Humphrey balançou a cabeça enfaticamente:
- Ela me botou dentro de casa quando eu vim pra Oxford -
explicou, compenetrado, com sua voz cantarolante. - Foi há
seis anos. Eu não tinha um tostão. Agora tenho casa e um
bom emprego, e é como se tivesse uma família.
- Com certeza, você é de grande valor para ela. Sua família
era católica? - perguntei, em meio a uma tosse dolorosa.
Ele balançou a cabeça, de novo com o mesmo movimento
exagerado que faria uma criança, com a boca firmemente
fechada, e então disse:
- A viúva Kenney e o Sr. Jenkes me ensinaram tudo o que eu
sei da religião verdadeira. É por isso que eu sei que a gente
tem que lutar pra ela ser salva dos hereges.
- Você disse "as mulheres" - comentei, depois de algum
tempo. - São muitas as mulheres que vêm a essas reuniões?
Humphrey me olhou, hesitante.
- Ora, vamos. Estarei morto daqui a poucas horas,
Humphrey. Que mal pode haver em você passar o tempo
conversando um pouco comigo? Estará me fazendo uma
gentileza.
Isso pareceu convencê-lo, porque ele chegou para mais
perto e adotou um tom conspiratório.
- Algumas mulheres são da cidade. Mas não são aristocratas,
não. Essas vão assistir à missa num daqueles solares do
interior, junto com as pessoas do seu tipo, principalmente.
Menos uma.
Uma espécie de ternura se espalhou por seu rosto e intuí que
estava perto do meu alvo.
- Sophia?
Ele piscou os olhos, surpreso:
- O senhor conhece a Sophia?
Quando fiz que sim, ele ficou radiante.
- Agora ela não vem tantas vezes, mas sempre sei quando é
ela, mesmo embaixo do capuz. Ela anda feito uma espécie
de... que nem uma árvore na brisa, sabe o que eu quero
dizer? Feito os salgueiros na beira do rio.
- Eu sei. E me diga, a Sophia tem amigos nesse grupo daqui?
Eu digo, amigos a quem ela pudesse recorrer, se estivesse em
dificuldade?
- Por que ela estaria em dificuldade, senhor? - perguntou ele,
com ar inocente, e achei quase tocante que ainda me
chamasse de "senhor", apesar de eu estar com as mãos e os
pés atados e de ele estar me vigiando com uma faca. Quando
não respondi, Humphrey apenas franziu o cenho e balançou
a cabeça. - Não conheço os amigos dela. O único a quem ela
era chegada era o padre Jerome, mas, afinal, todo mundo
adora o padre Jerome. Foi ele que trouxe a Sophia aqui da
primeira vez.
- Quem é o padre Jerome? - perguntei, empertigando o
corpo, com o interesse aguçado. - Pensei que o padre
William Bernard fosse o sacerdote aqui, não é?
- Ah, não - disse Humphrey, orgulhoso do seu
conhecimento superior. – O padre William quase nunca reza
a missa desde que o padre Jerome chegou, só quando o padre
Jerome tem que ficar fora da cidade. Ele vai muito ao Castelo
Hazeley, o senhor sabe, lá em Great Hazeley, na estrada para
Londres, onde as famílias católicas da nobreza vão à missa.
Acho que ele foi lá hoje.
Minha cabeça trabalhava incessantemente, mas procurei
manter o rosto e a voz serenos, para não deixar transparecer
meus pensamentos.
- Esse padre Jerome é de Oxford?
De novo, o balançar exagerado da cabeça.
- Ele veio do colégio da França - disse o rapaz e pareceu
abalado. - Mas isso é um grande segredo que eu não devia ter
contado. Eu lhe peço, não diga pro Sr. Jenkes que eu falei,
sim?
- É claro que não. E como é ele, o padre Jerome?
O rosto de Humphrey ganhou um ar sonhador.
- É como... é como eu imagino que seria Nosso Senhor Jesus
Cristo, se a gente o conhecesse. Ele faz a pessoa se sentir,
não sei explicar... como se ele achasse que ela é a pessoa
mais especial que ele já viu, sabe o que eu quero dizer?
Apesar de eu não entender uma porção de coisas da missa...
nunca estudei nos livros, sabe?... adoro ouvir quando é ele
que reza. Gosto mais do que quando vem o padre William -
acrescentou, franzindo o rosto num muxoxo. - Quando o
padre Jerome fala, parece música - e deu um suspiro feliz
enquanto uma das mãos brincava com a faca em sua cinta.
- Ele é jovem? - indaguei, inclinando o corpo para a frente e
ficando de joelhos, para aliviar a rigidez das pernas. O
movimento tirou Humphrey de seu devaneio num
sobressalto. Ele espichou o tronco depressa, mas, ao ter
certeza de que eu não estava tentando fazer nada, tornou a
relaxar, encostado na parede.
- O padre Jerome tem cara de anjo - disse, com ar reverente.
- Já vi uma imagem de anjo - acrescentou, supostamente
para eu não achar que a comparação era infundada.
- Cara de anjo - repeti devagar, tentando ficar o mais imóvel
que podia. Tinha descoberto que a corda que me atava os
tornozelos não estava tão apertada quanto a dos pulsos.
Sentado nos calcanhares, consegui introduzir um dedo
lentamente no nó que a prendia. Se conseguisse fazer
Humphrey continuar falando, talvez ele não notasse meus
movimentos furtivos. - Então, me fale do Castelo Hazeley -
pedi, em tom descontraído. - Parece um lugar majestoso.
- Ah, eu nunca o vi, mas acho que deve ser muito bonito. O
dono, Sir Francis Tolling, está na Prisão Bridewell, em
Londres, por frequentar missas particulares, e a mulher dele
usa a casa para abrigar os necessitados, é só isso que eu sei.
- Você se refere a padres missionários?
- Qualquer um que trabalhe nas vinhas do Senhor na
Inglaterra e que precise de um lugar seguro, longe dos olhos
de todos - disse ele e remexeu nervosamente o corpo. - Um
membro da nossa congregação, o Sr. Nicholas Owen, é
mestre carpinteiro. Hoje ele veio aqui, na verdade, mas o
senhor não o reconheceria, pois ele estava de capuz. Mas ele
é empregado por todas as grandes mansões dos fiéis, dizem,
para construir cômodos secretos - explicou. Chegou mais
perto, olhando com cuidado de um lado para outro, e baixou
ainda mais a voz. - Nos sótãos, nas chaminés, nos esgotos,
nas escadarias, até dentro das paredes, para os obreiros de
Deus poderem se esconder dos inspetores - disse, esfregando
as mãos, com um sorriso radiante. - Mas eu também não
devia ter dito isso... o senhor não vai contar pro Jenkes, vai?
O senhor está passando bem?
- O quê? Ah, sim, não é nada. Meu ombro está doendo um
pouco, só isso.
Percebi que eu vinha crispando o rosto e trincando os
dentes, concentrado em tentar soltar uma ponta do nó com
um único dedo. Ele estava tão perto de se soltar que não
convinha Humphrey desconfiar de mim nesse momento. O
rapaz balançou a cabeça, com ar solidário, e deu uma
olhadela furtiva para a porta.
- Fico pensando se eu podia afrouxar um pouco as suas
cordas - disse, correndo de novo os olhos para a porta, como
se Jenkes pudesse irromper por ela a qualquer momento. -
Não tudo, quer dizer, só pro senhor não sentir dor. Afinal, o
senhor não ia mesmo conseguir chegar muito longe,
pequeno do jeito que é, e eu com a faca e tudo, não é?
Humphrey riu, embora eu detectasse nele um toque de
nervosismo, e acompanhei animadamente a sua risada, ante
a hipótese absurda de que eu pudesse dominá-lo. Na
verdade, eu não fazia ideia de como poderia agir, mesmo que
conseguisse soltar as pernas. Sem usar os braços, não poderia
fazer nada, e, mesmo com eles, não apostava muito em
minhas chances numa luta com Humphrey, com ou sem
faca. Enquanto ele deliberava se devia ou não afrouxar mi-
nhas cordas e eu prosseguia em minha tentativa pelas costas,
da melhor maneira possível, ouviu-se o rangido
inconfundível de um passo no corredor do lado de fora e
ambos ficamos gelados. Minha garganta se contraiu. Eu não
esperava que Jenkes voltasse tão depressa, e meu plano de
fuga se desfez antes mesmo de chegar a se formar por
completo. Respirei fundo, tanto quanto me foi possível, com
o coração na boca. Então se acabou, pensei. Na Itália, no San
Domênico Maggiore, eu havia provocado uma sentença de
morte por causa de um livro. Agora, depois de fugir dela por
todos esses anos, eu voltava a enfrentar a morte, tudo por
causa da minha tola avidez por outro livro. Bem, pensei, eu
tentaria lutar por todos os meios que pudesse e, se tivesse
que morrer, ao menos não morreria como um covarde
diante do olhar zombeteiro de Rowland Jenkes.
Humphrey recuperou o controle enquanto os passos se
aproximavam, pegou o cachecol de linho de Jenkes e tornou
a enfiá-lo na minha boca, embora mais frouxo do que antes,
no momento em que senti a ponta da corda se soltar e o nó
nos meus tornozelos se afrouxar sutilmente, sob o remexer
dos meus dedos. Os passos se detiveram do lado de fora da
porta e houve uma batida hesitante, seguida por uma voz de
mulher:
- Humphrey, é você?
O rapaz relaxou, visivelmente aliviado, e se levantou num
atropelo para abrir a porta. A viúva Kenney se encontrava do
lado de fora, de camisola, segurando uma vela e com um xale
de lã nos ombros. Olhou primeiro para Humphrey, depois
para mim, em meu estado lastimável, jogado num canto do
piso feito uma trouxa, e soltou um suspiro exasperado.
- Esse Jenkes - disse, ainda me olhando com um pequeno
muxoxo de reprovação, como se o homem fosse um gato
travesso e eu, um rato morto que ele tivesse largado no seu
assoalho limpo. - O que foi que ele o mandou fazer desta
vez, Humphrey?
O rapaz baixou a cabeça e a viúva Kenney fez sinal para que
ele cruzasse a porta.
- Deixe eu conversar com você um minuto - disse ela. A
mulher me observou brevemente, como se avaliasse o
perigo de me deixar sem vigilância, e pareceu concluir que
eu era inofensivo. - Eu disse a ele que não quero sangue
derramado na minha hospedaria - dirigiu-se ao rapaz,
irritada, enquanto o conduzia para o corredor e você devia
saber disso, Humphrey Pritchard.
Não captei o protesto dele, mas o murmúrio do diálogo
urgente entre os dois era audível atrás da porta fechada.
Eu tinha que agir depressa. Sem precisar esconder meus
movimentos de Humphrey, puxei a ponta solta do nó que
atava meus tornozelos e ele se desfez na minha mão. Sacudi
as pernas para me livrar da corda o mais rápido que pude, fiz
um esforço doloroso para ficar de pé e manquei pela sala até
o altar improvisado, onde as velas tinham queimado quase
até o pavio. De costas para o altar, procurei posicionar o nó
que prendia a corda em meus pulsos em cima da chama,
torcendo para que ela o queimasse até ele arrebentar, mas a
corda era mais forte do que parecia e a chama era fraca.
Mesmo sentindo o cheiro de queimado quando ela começou
a chamuscar, duvidei de que o nó se rompesse antes que
Humphrey voltasse e me apanhasse. Lá fora, no corredor, as
vozes se elevaram numa discussão acalorada. Como não
podia ver o que estava fazendo, fui queimando as mãos na
chama e, dessa vez, dei graças pelo pano em minha boca,
que abafou meus gritos. Meu maior medo era derrubar a vela
e pôr fogo na roupa. Escapar da fogueira da Inquisição e me
queimar acidentalmente seria o cúmulo da ironia, pensei, e
fui torcendo a corda para um lado e para outro, acima da
chama, tentando arquear os braços para o mais longe
possível do corpo. De repente, a corda estalou e senti uma
violenta onda de calor na mão direita. O nó tinha pegado
fogo e dei um grito no pedaço de pano enquanto a chama
torrava minha mão e a manga da sobreveste. Mas o nó se
afrouxara o bastante para eu soltar as mãos. As voltas
incandescentes da corda caíram no chão e eu pisei nelas
furiosamente, apertando a mão queimada junto ao peito e
sentindo o cheiro de carne chamuscada. As vozes fora da
porta silenciaram de repente e compreendi que eu só teria
uma chance de passar pelos dois. Ignorando a dor da pele
esticada e cheia de bolhas, agarrei um pesado castiçal de
prata do altar, apaguei a vela e o levantei bem alto, no exato
momento em que Humphrey escancarou a porta e parou por
um instante brevíssimo, boquiaberto diante da visão que
teve.
Sua hesitação durou o tempo exato: antes que ele pudesse
levantar os braços, bati com a base compacta do castiçal na
sua têmpora. Minha mira foi boa. Houve um estalo
nauseante e ele tombou para trás, com o sangue esguichando
do corte e manchando o cabelo louro. O corpanzil se
contorceu no chão e Humphrey pareceu completamente
apagado. Apavorada, a viúva levantou as mãos e sacudiu
violentamente a cabeça, a boca se mexendo num protesto
silencioso e aterrorizado. Tornei a levantar o castiçal, o que a
fez se encolher num canto, arranquei a faca da cinta do
rapaz, joguei o castiçal aos pés da viúva, com um último
olhar de advertência, e disparei porta afora para o corredor.
Enquanto descia a escada torta e atravessava o quintal da
hospedaria, na expectativa de avistar Jenkes a qualquer
momento, mantive a faca apontada à minha frente, para o
caso de ele aparecer. Ao mesmo tempo, dava espiadas para
trás, para ver se Humphrey teria voltado a si e saído no meu
encalço. Mas a sorte finalmente pareceu ficar do meu lado,
pois cruzei os portões do quintal da hospedaria para a rua
sem ver vivalma. O céu continuava escuro, riscado por
nesgas de luar entre as nuvens; descansei por um instante,
encostando no muro de uma casa para recobrar o fôlego e só
então percebendo que, na correria frenética, não havia
tirado o pano que me amordaçava. Eu o puxei da boca e,
prendendo uma ponta entre os dentes, o enrolei com
cuidado na mão queimada. A dor me deixou zonzo por um
momento, e tive medo de que minhas pernas vergassem sob
meu peso. Depois que a euforia temporária por minha fuga
passou, me dei conta, com uma sensação deprimente, de que
minha bolsa fora roubada e eu não tinha como passar pelos
vigias do portão norte. Pior ainda, pensei: e se eles conhe-
cessem bem Jenkes e tivessem sido instruídos por ele a ficar
de olho em mim? Nessa cidade, era impossível saber quem
era amigo.
A torre quadrada da Igreja de São Miguel, no portão norte, se
ergueu sobre as ameias dos muros da cidade, sua silhueta
bem marcada. Fui me esgueirando sob os beirais das casas até
ser obrigado a abandonar minha proteção e atravessar
correndo a rua larga que corria paralela ao muro. Olhei
desesperado para um lado e outro enquanto disparava,
imaginando ver Jenkes a qualquer momento, porém a rua
estava calma e deserta. Parei no portão, mas não consegui
pensar em nenhum outro meio de reentrar na cidade. O
muro era alto e íngreme demais para ser escalado e, nesse
horário, todos os portões também teriam vigias. Minha única
alternativa era esperar as primeiras luzes do alvorecer,
quando os portões seriam abertos para os comerciantes - mas
era provável que Jenkes ou Humphrey já tivessem me
alcançado a essa hora ou tentar persuadir os guardas de que
eu já lhes pagara, para que me deixassem entrar. Bati com a
palma da mão boa na portinha recortada nos grandes portões
de carvalho, mas não obtive resposta. Bati com mais força e
chamei e, por fim, um rosto sonolento apareceu atrás da
pequena grade de ferro. Finalmente ouvi o arrastar de um
trinco e a portinha se abriu.
Murmurei um agradecimento, tornando a olhar em volta à
procura de sinais de movimento nas ruas escuras, e, tão logo
fiquei fora da visão do guarda, apertei o passo e corri o
pequeno trecho até a travessa St. Mildred, segurando firme o
cabo da faca de Humphrey. Nunca tinha ficado tão contente
por ver a torre do Colégio Lincoln surgir diante de mim. Bati
de leve na janela estreita do aposento de Cobbett. Após uma
pausa, bati de novo.
- Cobbett! - sibilei, o mais alto que me atrevi. - Sou eu,
Bruno. Abra o portão!
Apenas o silêncio me recebeu. Suspendi o corpo no
parapeito, dei uma espiada para dentro e vi o velho porteiro
refestelado em sua cadeira, o queixo encostado no peito e a
boca aberta, com um filete de baba pendurado no lábio
inferior.
- Cobbett! - tornei a chamar, batendo com mais força na
janela, mas ele não se mexeu. Praguejando baixo, dei um
passo atrás e examinei as paredes do colégio. Todas as janelas
estavam às escuras e me perguntei se eu ousaria acordar mais
alguém, se falasse mais alto. Eu não queria ficar na rua, do
lado de fora do colégio, pois esse seria um dos primeiros
lugares em que Jenkes iria me procurar. Então, quando as
nuvens se moveram e um fino raio perolado de luar
apareceu, me lembrei de outra possibilidade e torci para meu
palpite estar certo. A janela mais distante da ala oeste era a
do quarto de Norris. Embora parecesse fechada, consegui
enfiar os dedos da mão boa no caixilho e descobri que ela de
fato fora deixada destrancada. Tanto quanto eu podia
enxergar na escuridão, a travessa parecia deserta em ambas as
direções. Quando suspendi o corpo e me impeli de lado pela
abertura estreita, me encolhendo de dor ao arranhar a mão
queimada no caixilho, rezei para que nenhum dos ocupantes
do quarto tivesse voltado durante a noite.
Entrei aos trancos pela janela e caí de qualquer jeito na
grande arca de madeira abaixo dela. Passei um instante
imóvel, procurando ouvir sons de respiração ou outro
movimento vindos do quarto contíguo, porém o silêncio era
o de um cômodo vazio. O vago luar que entrava pela janela
do lado do quadrilátero delineou os contornos dos móveis. O
assoalho parecia coberto de destroços e, depois de alguns
tropeços e tateios pelas superfícies de cômodas e mesas,
consegui localizar um estojo de isca e pederneira que fora
deixado numa mesa ornamental sob a janela. Eu o risquei,
acendi um coto de vela na escrivaninha, olhei em volta e vi
um aposento caótico, tal como estivera o quarto de Roger
Mercer na manhã de seu assassinato. Roupas tinham sido
atiradas do armário, havia livros e papéis espalhados e todas
as gavetas da bela escrivaninha de Norris tinham sido abertas
e esvaziadas. Arriei no banco de espaldar alto diante da
lareira fria, cujas almofadas estavam todas espalhadas à sua
frente, e tentei respirar com calma, pela primeira vez no que
pareciam ser horas, enquanto ordenava minhas ideias. Eu
sentia uma dor insistente nos ombros, minha mão queimada
latejava e o corte do pescoço ardia, apesar de não ser
profundo, mas, agora que estava fora do perigo imediato,
percebi que conseguia pensar com mais nitidez e clareza.
Não que o perigo houvesse passado, é claro. Jenkes já tinha
decidido que eu sabia coisas demais para ser deixado em paz
e, assim que descobrisse minha fuga, era quase certo que
tentaria me encontrar antes que eu pudesse falar com
alguém. Para o caso de ele conseguir isso, eu precisava
contar a Sidney tudo o que sabia quanto antes. Pela minha
conversa com Humphrey, uma teoria sobre os assassinatos
começara a ganhar forma num canto da minha mente, ainda
imprecisa, como figuras vistas na neblina. Se meu palpite
estivesse certo, eu achava que sabia onde poderia encontrar
as respostas. E, se eu fosse acreditar no que Jenkes dissera, eu
teria de chegar lá antes do alvorecer, antes que Thomas
Allen fosse silenciado para sempre.
Mas primeiro eu precisava mandar um recado a Sidney, para
que ao menos ele soubesse onde eu tinha ido e quais eram as
suspeitas que haviam me levado lá. Minha esperança era de
que ele pudesse ir atrás de mim, caso eu não regressasse -
embora eu soubesse que, a essa altura, talvez fosse tarde
demais.
Sem perder mais tempo, comecei a vasculhar a confusão de
papéis e livros na escrivaninha de Norris, à procura de uma
pena com que registrar minhas ideias para Sidney, o mais
rápido que pudesse, antes de partir na minha busca, mas não
consegui encontrar tinta. Dentro da primeira gaveta aberta
descobri uma barra de lacre de cera vermelho e várias folhas
de papel de excelente qualidade. A vela que eu tinha
acendido já tinha queimado quase toda e, numa rápida
olhada pelo cômodo para ver se havia outra à mão, meu
olhar pousou na arca abaixo da janela. O sólido cadeado que
a havia trancado estava aberto, indicando que a peça fora
claramente forçada. Segurando a vela quase extinta, levantei
a tampa pesada, mas o baú parecia conter apenas camisetas
de linho. Sem desanimar, vasculhei as camadas de roupa até
meus dedos arranharem a base de madeira da arca e
investigarem seus quatro cantos, sem encontrar nada.
Praguejei em voz baixa. Tudo o que houvesse ali de valor
parecia já ter sido levado. Aproximei a vela e tirei todo o
conteúdo, espalhando-o pelo chão, até poder levar a vela às
profundezas do baú e confirmar que ele estava realmente
vazio.
- Merda! - exclamei. Já ia fechando a tampa quando notei um
cantinho de madeira recortado na base do baú, que mal tinha
largura suficiente para nele se introduzir uma unha. Abaixei
a vela, tirei da cinta a faca de Humphrey, me debrucei no
baú e consegui inserir a ponta da lâmina na abertura e puxar
para cima, com o coração aos saltos. Houve um clique suave
e senti a madeira se soltar. Fiz pressão para baixo e o fundo
falso se elevou facilmente. Enfiei a mão no compartimento
oculto sob ele e meus dedos roçaram num maço de papéis,
antes de se fecharem num objeto duro que espetou minha
pele, me fazendo tirar a mão depressa, por medo de que
fosse uma armadilha. Tornando a introduzida, dessa vez com
mais cuidado, puxei o objeto contundente para a luz tênue e
assobiei baixinho ao ver o que estava segurando.
Era um chicote de cabo curto, talvez com uns 40 ou 50
cordões presos na ponta, cada um com cerca de meia jarda
de comprimento e cheio de nós apertados. Por cada um
desses muitos nós passava um pedaço curto de arame, en-
tortado sob a forma de um gancho, e muitos desses ganchos
tinham vestígios de sangue pisado e carne dilacerada.
Estremeci ante a crueldade do instrumento, ao mesmo
tempo que tive a impressão de que a venda caía de meus
olhos e as suspeitas que antes haviam flutuado numa densa
neblina emergissem, de repente, com clareza quase total.
Tornei a pôr a mão no compartimento secreto e puxei a
pilha de papéis que havia tateado antes. Vi que era um maço
de cartas cheias de orelhas, sujas e presas com uma fita
esgarçada. O papel no alto da pilha trazia a marca incon-
fundível de um polegar ensanguentado. Uma olhada para a
tinta desbotada da carta de cima confirmou que aquilo fora
escrito numa combinação de símbolos e números, mas não
precisei decifrá-los para saber que se tratava das cartas em
razão das quais o quarto de Roger Mercer e de James
Coverdale tinha sido revistado. Amarrado com o maço de
cartas havia outro documento, este num velino mais antigo e
lacrado com cera. O lacre ainda estava intacto e, à luz pálida,
seu timbre era indistinto. Tive apenas um momento de
hesitação antes de rompê-lo e desenrolar o documento,
segurando-o perto do coto de vela. A chama estava tão fraca
que mal iluminava a letra rebuscada e cheia de arabescos,
mas a primeira linha bastou para me deixar com a respiração
presa na garganta.
"Pio Bispo, servo dos servos de Deus. Para perpétua
memória. Aquele que reina nas alturas...", começava, e quase
deixei cair o documento, de tanto que minhas mãos
tremiam. Compreendi de imediato o que estava segurando.
Aquele talvez fosse o texto mais condenatório que um inglês
podia possuir: uma cópia da bula papal Regnans in Excelsis,
expedida pelo papa Pio V cerca de 13 anos antes, declarando
herege a rainha Elizabeth da Inglaterra e contendo sua
sentença de excomunhão da Igreja Católica. O texto
terminava proibindo os súditos da rainha de a reconhecerem
ou lhe prestarem obediência como monarca. Com essas
palavras, Pio V havia praticamente conclamado a que ela
fosse derrubada do trono. Essa era a bula papal que alguns
católicos mais extremados dos seminários europeus viam
como uma licença para assassinar a rainha, em nome de
Deus. A simples entrada de uma cópia desse documento no
país constituía alta traição e resultaria na condenação à
morte daquele que o portasse. Soltei a respiração devagar,
depois fiquei gelado, quando pensei ouvir o som de pés se
arrastando do lado de fora da janela. Será que eu havia caído
em outra armadilha? A pessoa que tinha vasculhado esses
cômodos, sem sombra de dúvida, estivera à procura desses
papéis, assim como os havia procurado no quarto de Mercer,
mas não descobrira o compartimento secreto do baú. Talvez
ainda estivesse vigiando o quarto e houvesse visto minha
vela. Prendi a respiração e captei outro movimento nítido do
lado de fora. Logo depois, um grito agudo, sobrenatural,
cortou o ar, seguido por mais outro, um som que não poderia
ser mais parecido com o grito de um bebê cheio de dor, e
tornei a desabar no chão, tremendo e rindo de meu próprio
nervosismo: era apenas um par de raposas brigando na
travessa.
Mas esse distúrbio me fez recobrar o bom senso e me
lembrou de que não havia tempo a perder. Embrulhei o
maço de cartas numa das camisas de linho do baú, onde
também achei uma capa de viagem que prendi às pressas em
volta dos ombros, já que a minha tinha ficado na Roda da
Catherine. Depois de vasculhar o cômodo mais um pouco,
localizei um tinteiro embaixo dos fragmentos espalhados na
escrivaninha de Norris e rabisquei um bilhete apressado para
Sidney, explicando onde tinham sido encontrados aqueles
itens e aonde eu estava indo. Feito isso, enfiei a mão dentro
da camisa, tirei a folha de papel com a cópia do código do
almanaque de Mercer, dobrei-a dentro do bilhete para
Sidney e o lacrei da melhor forma que pude, com a cera
encontrada na gaveta, embora não tivesse um anel com que
imprimir minha marca. Depois, peguei o embrulho, apaguei
a vela quase extinta, abri o trinco da porta que dava para a
escada e constatei que estava trancada a chave. Quem tinha
revirado o quarto, na ausência de Norris e Allen, devia ter
saído com a própria chave, a menos que também houvesse
pulado a janela. Novamente praguejando, lutei para abrir a
janela acima da escrivaninha, que dava para o pátio
quadrangular do colégio. Subi com esforço no parapeito,
agora atrapalhado pela mão enfaixada e pelo embrulho que
procurava segurar firme embaixo do outro braço, e passei
por ela com cuidado. Infelizmente, prendi a capa no trinco
no último minuto e despenquei de lado, com um baque
surdo e um grito abafado.
Fiquei deitado, quieto, por um momento, na esperança de
que meus movimentos não tivessem sido ouvidos, e ergui os
olhos para o céu marmóreo sobre os telhados, que já passava
do veludo negro para o azul-escuro por trás das réstias de
nuvens. Se o céu estava clareando, eu precisava resolver esse
assunto e sair correndo da cidade antes do nascer do sol.
Estava escuro demais para discernir os ponteiros do relógio.
O quadrilátero continuava envolto na calma das horas
mortas. Nada se movia. Em algum lugar ao longe, a raposa
tornou a gritar, e eu já ia me levantando quando vi o
lampião. Ele se aproximou em ritmo acelerado, vindo dos
prédios em frente, segurado por uma figura encapuzada que
parou, erguendo-se acima de mim, e baixou a luz até o nível
do meu rosto.
- Ora, ora, Dr. Bruno. Servindo-se de novo? Isso está se
tornando um hábito e tanto. Qual será a sua explicação desta
vez, eu me pergunto? Mal posso esperar para descobrir.
Não pude ver o rosto de Walter Slythurst, mas seu risinho
maléfico ficou evidente em cada palavra gelada.

Capítulo 18

SLYTHURST TENTOU ME IEVANTAR bruscamente pelo braço,
mas me esquivei com uma contorção e dobrei o corpo em
cima do embrulho, para que ele não tentasse arrancá-lo de
mim.
- Desta vez você vai se explicar, Bruno - disse o homem,
substituindo pela raiva o frio sarcasmo habitual, enquanto eu
me debatia em suas mãos e ele procurava apanhar o
embrulho. Era muita coincidência ele estar acordado e
vestido àquela hora da noite. Devia ter estado vigiando o
quarto do Norris. - O que você tirou daquele quarto? Eu
tenho que ver. Exijo que me entregue isso - ordenou. Havia
uma urgência febril em sua voz e vi um sobressalto genuíno
em seus olhos, ao fitarem o embrulho na minha mão. Seria
possível que ele soubesse da importância do que eu
carregava?
- Exija o que quiser - arquejei, desferindo um golpe com a
mão enfaixada mas não posso lhe dar isto.
- Sou um membro sênior deste colégio - balbuciou Slythurst,
tentando manter a dignidade - e você tem que reconhecer
minha autoridade aqui. Se tirou alguma coisa de valor do
quarto de um aluno, ela deve ser mostrada ao diretor.
O pânico tornava sua voz estridente. Ele tentou pegar o
embrulho mais uma vez e de novo eu o tirei do seu alcance.
Vi que ele estava determinado a pegá-lo, e eu sabia que o
material não devia cair nas mãos do diretor. Slythurst e
Underhill, pensei, seriam bem capazes de destruir qualquer
prova que julgassem poder dificultar as coisas para o colégio,
e minha descoberta no quarto de Norris seria o fim de
Underhill, caso fosse divulgada. Slythurst me observou por
um momento, a boca travada numa linha raivosa, pôs o
lampião no chão e avançou para mim com as mãos livres.
Era surpreendentemente forte para um homem magro e por
pouco não me derrubou ao se atirar sobre o pacote, mas dei
um chute para trás, cobrindo o embrulho com os dois
braços, e meu pé acertou a barriga dele com força. Sem
fôlego, o homem se vergou e, antes que pudesse se preparar
para o ataque seguinte, lhe desferi um soco com a mão di-
reita enfaixada, acertando-o no queixo e fazendo uma fisgada
de dor subir por meu braço. Slythurst tropeçou para trás,
mas se recuperou de forma inesperada e se atirou nas minhas
pernas, me derrubando no chão. Ouvi minhas costas es-
talarem quando bati nas pedras e tentei empurrar o pacote
para baixo do corpo, mas Slythurst tinha a vantagem do peso
e logo montou em cima de mim, me prendendo no chão.
Ao tentar pegar os papéis, quase grudou o rosto no meu.
Tive medo de que os rasgasse, na ânsia de arrancá-los de
mim, e uma súbita onda de raiva redobrou meus esforços
para protegê-los.
- Me entregue esses papéis, Bruno. Você está se
intrometendo em assuntos que não compreende - sibilou ele
entre dentes. Estava tão próximo que cheguei a sentir seu
hálito acre em minhas narinas.
- Você nem sabe o que tenho aqui - contestei, quase
cuspindo, com os papéis grudados no peito.
- O que quer que você tenha retirado do quarto de um
estudante é propriedade do colégio, na ausência do aluno -
murmurou ele, ainda pomposo, enquanto arranhava minhas
mãos.
- Por que você quer isso com tanta urgência? - retruquei. - E
porque não conseguiu achar, quando você mesmo revirou o
quarto de cima a baixo? Você sempre se serve das chaves
quando Cobbett está dormindo?
- A questão, Bruno - disse ele, com as narinas se inflando -, é
como você sabia o que procurar e onde encontrar. Só pode
ser por fazer parte da conspiração papista. Mas quem
esperaria outra coisa de um italiano? O diretor é um idiota
crédulo, mas eu sempre soube qual era o seu jogo.
- É você que não entende nada - resmunguei de volta,
curvando as costas para tentar desequilibrá-lo -, mas não sou
papista e quem importa sabe disso.
- Você vai me entregar esses papéis, Bruno - arfou Slythurst,
deslocando o peso de tal modo que se curvou todo sobre
mim, o nariz quase encostado no meu -, senão eu vou
acordar o colégio inteiro. Com três de nossos membros
mortos recentemente, você será trancafiado na prisão do
castelo antes que tenha a chance de inventar sua próxima
história implausível.
Então, Slythurst se opunha aos papistas, pensei enquanto seu
joelho afundava em meu peito. Nesse caso, por que fazia
tanta questão de encobrir as provas dos assassinatos? O que
queria com esses papéis que eu lutava para manter fora do
seu alcance, a ponto de ter vasculhado primeiro o quarto de
Mercer e agora o de Norris, à procura deles? Qualquer que
fosse seu objetivo, eu sabia que ninguém deveria receber
aqueles papéis senão Walsingham, e que eu precisava
entregá- -los a Sidney pessoalmente. Ao sentir o embrulho
começando a escorregar da minha mão machucada, reuni
todas as reservas de força que me restavam. Trinquei os
dentes, ergui o corpo o máximo que pude, com o rosto tão
perto do de Slythurst que parecia prestes a beijá-lo, depois
recuei um pouco a cabeça e a impeli com toda a força para
cima, de tal modo que minha testa o acertou em cheio no
nariz, com um estalo violento. Ele soltou um uivo e agarrou
o nariz com as duas mãos, então aproveitei a oportunidade
para desequilibrá-lo e rolar para longe. Uma dor surda
zumbiu em minha cabeça e minha visão ficou turva, mas ele
parecia ter levado a pior: quando afastou a mão, vi que seu
nariz sangrava bastante. Acima da minha cabeça, uma outra
luz se aproximou, balançando, acompanhada por um lento
arrastar de passos.
- Mas, pelo amor de Deus... - começou Cobbett,
suspendendo o lampião e parando, com uma careta de
assombro, ao ver Slythurst e eu nos atracando feito bêbados
no meio do quadrilátero. Notei que na outra mão ele
carregava um porrete pesado. - Dr. Bruno? Santo Deus, o
senhor está com um aspecto horroroso. Como foi que
entrou?
- É uma longa história, Cobbett - respondi, me levantando
aos trambolhões. - Preciso da sua ajuda.
- Pegue-o, Cobbett! - gritou Slythurst, as palavras abafadas
pelas mãos que ainda seguravam seu nariz quebrado. - Ele
roubou propriedade alheia. Como membro deste colégio,
ordeno que você o prenda!
Cobbett olhou de Slythurst para mim com certa
preocupação. Eu o segurei pela manga e o puxei para longe,
fora do alcance dos ouvidos do tesoureiro.
- Você tem que acreditar em mim, Cobbett, este é um
assunto da mais extrema urgência. Acho que sei onde
encontrar o assassino, e pode ser que outras pessoas morram
esta noite, se eu não agir - declarei. Ao ver que ele
continuava inseguro, acrescentei num sussurro: - Sophia está
em perigo. Tenho que sair neste instante. Diga, onde posso
encontrar meu cavalo? Pelo que sei, ele está na estrebaria do
diretor.
- Cobbett, não abra o portão! Esse homem não deve sair do
colégio com esse embrulho, está me entendendo? - gritou
Slythurst, já então parecendo desesperado.
Ele se levantou, cambaleando, tornou a se lançar contra
mim, meio sem equilíbrio, e, apesar de eu ainda estar tonto
pelo impacto do último golpe, me precipitei contra ele,
mostrando os dentes.
- Ne vuoi di piu? Fatti sotto - rosnei, sacando a faca de
cozinha que havia tirado de Humphrey Pritchard e
apontando-o para ele: - Pois então, venha, se você quer
mais.
Slythurst podia não ter entendido as minhas palavras, mas
não teve como confundir o significado da faca. Deu um
passo atrás, me encarou com ar de desafio por um
brevíssimo instante, levantou a cabeça e gritou "Assassino!"
com toda a força de seus pulmões. Dos dois lados do
quadrilátero, algumas janelas se abriram rangendo e figuras
indistintas se debruçaram no parapeito, alarmadas com o
tumulto.
- Tenho que ir neste instante - sussurrei para Cobbett, ainda
segurando a faca apontada para Slythurst, que obviamente
havia concluído que sua melhor alternativa era acordar o
colégio inteiro e fazer outras pessoas me prenderem.
- Ele vai mandar os vigias irem atrás do senhor - murmurou
Cobbett, enquanto Slythurst soltava seu grito de "Assassino!"
outra vez. - O senhor terá de cavalgar depressa, se quiser ter
a esperança de sair da cidade. A estrebaria do diretor fica
quase aqui em frente, na travessa Cheney. Venha. - E o
velho porteiro me conduziu ao portão principal, movendo-
se tão rápido como eu nunca o vira fazer.
- Preciso levar estes papéis para o Christ Church - cochichei,
enquanto ele abria o portão. Slythurst nos observava, mas
desta vez não fez nenhum movimento em direção a nós,
parecendo ter resolvido esperar pelos reforços. - Qual é o
melhor caminho?
Cobbett balançou a cabeça:
- Se o senhor for ao Christ Church agora, eles vão prendê-lo
antes que consiga sair da cidade - murmurou, quase
inaudível. - Me dê os papéis. Eu mando um mensageiro da
minha confiança.
Olhei de relance para Slythurst, que agora chamava alguém
debruçado numa janela do primeiro andar. Cobbett se
posicionou de um modo que suas costas largas bloquearam a
visão que Slythurst tinha de mim e fez sinal para que eu lhe
entregasse os papéis.
- Eles precisam chegar às mãos de Sir Philip Sidney sem
demora - sussurrei. - Ninguém mais pode vê-los. Homens já
morreram por esses papéis, Cobbett. Você jura que o seu
mensageiro é de confiança?
- Juro pela minha vida - disse ele. - Agora, pelo amor de
Deus, vá andando, Bruno, e que Deus o proteja. Traga Sophia
de volta.
O som de outros passos ecoou nas pedras. Cobbett abriu só
uma fresta da portinha e eu lhe passei depressa o pacote
embrulhado na camisa de Norris, o qual desapareceu
prontamente no interior de seu velho casacão.
- Mestre Godwyn voltou? - murmurei, enquanto me
esgueirava pelo limiar. Cobbett franziu o cenho.
- Não vi ninguém sair do colégio esta noite, exceto o senhor.
O portão ficou trancado o tempo todo.
- Então, ele deve ter saído por outro caminho, talvez pelo
bosque.
Portanto, Godwyn podia ainda estar fora, e eu fazia uma boa
ideia de onde seria possível encontrá-lo.
Cobbett meneou a cabeça, depois me empurrou com
urgência para a travessa, e ouvi o trinco se fechar
rapidamente às minhas costas.

Mal me atrevi a olhar para trás enquanto corria à máxima
velocidade possível para a travessa Cheney, uma rua estreita
que margeava o Colégio de Jesus, quase em frente. Por sorte,
os prédios eram escassos e não foi difícil achar a estrebaria,
mesmo no escuro, graças ao cheiro e aos ruídos suaves dos
cavalos adormecidos. Bati com urgência no portão, temendo
que a qualquer momento Slythurst e um bando de homens
do Lincoln chegassem para me deter por furto, enquanto,
vindo da outra direção, eu ainda esperava por Jenkes ou um
dos homens mandados por ele, todos determinados a me
matar. Passado um momento, um cavalariço com o cabelo
despenteado e uma vela na mão abriu uma fresta do portão,
com os olhos sonolentos, mas assustados.
- Senhor? - murmurou, mas eu o empurrei com um gesto
rude e entrei no pátio da estrebaria.
- Preciso do meu cavalo, filho, neste instante. Aquele que foi
trazido na última sexta-feira, o cinzento. Sou o Dr. Bruno, da
comitiva real.
Os olhos do garoto se arregalaram ainda mais e ele mordeu o
lábio.
- Não posso deixar ninguém sair com os cavalos quando
mestre Clayton não está, meu senhor. E o cavalo é muito
bom.
- É, sim. Veio direto das cavalariças da própria rainha. Mas
juro que não o estou roubando. Agora, vá buscá-lo, sim?
- Eu vou levar uma surra, senhor - disse o menino, com ar de
pedinte.
Eu não podia culpá-lo por sua cautela. Sem falar no horário,
eu não poderia estar menos parecido com um visitante de
uma comitiva real, com o rosto machucado e o pescoço
sangrando. Detestei ter que apelar para isso, porém, mais
uma vez, tirei a faca do cinto e o deixei ter um breve
vislumbre dela. O pobre garoto olhou em volta, como se
pudesse surgir alguém em seu socorro.
- Por favor - acrescentei, em tom mais gentil, como se isso
pudesse melhorar a situação.
Ele hesitou por um instante, depois pareceu decidir que a
perspectiva da surra era sua melhor opção.
- Vou demorar uns minutos para selar o cavalo.
- Então, não o sele. Ponha só os arreios, mas depressa, por
favor. Não tenho tempo a perder.
Tornei a girar o corpo para a porta, pensando ter ouvido
passos, mas era apenas a movimentação dos cascos dos
cavalos em suas baias. No entanto, o rapazinho pôde
perceber meu medo. Ele meneou a cabeça, em silêncio, e se
retirou depressa para pôr o cabresto no animal. Agitado, eu
alternava o peso do corpo de uma perna para a outra e
mordia o lábio, de olho no portão do pátio, sem me pre-
ocupar com as dores na mão, nos ombros, no pescoço e,
agora, nas costas e na cabeça, depois da briga com Slythurst.
A única coisa que importava era eu não ser apanhado. Torci
para ter feito a coisa certa ao confiar em Cobbett, mas eu
sabia que ele tinha razão. Mesmo que eu fosse pessoalmente
ao Christ Church, não conseguiria falar com Sidney àquela
hora da noite e só poderia deixar meu precioso embrulho
com o porteiro de lá, e além do mais Slythurst teria avisado
ao chefe da guarda e aos vigias que um ladrão havia escapado
do Lincoln, e assim eu jamais atravessaria os portões da
cidade. Só me restava rezar para que Slythurst não inter-
ceptasse os papéis antes que o mensageiro de Cobbett
conseguisse despachá-los.
O menino reapareceu, ansioso, puxando meu cavalo por seus
rebuscados arreios de veludo, cujos adornos de metal
tilintavam alto no ar parado. O cavalo parecia meio lerdo e
não exatamente satisfeito por ter sido incomodado no es-
curo. Eu o levei até uma pedra de montar, no meio do pátio,
e me esforcei para subir em seu dorso. Ele executou uma
dancinha de surpresa e bufou em sinal de protesto, mas
peguei com firmeza as rédeas e o animal obedeceu. O garoto
segurou o portão aberto e eu bati com os calcanhares nos
flancos do cavalo e o fiz girar, virando-o para a esquerda, na
direção oposta à do Colégio Lincoln.
Em sua outra extremidade, a travessa Cheney dava para a rua
Norte, e a vaga claridade que aos poucos ia manchando a
linha do horizonte à minha esquerda me guiou para o leste.
A essa altura, eu via o bastante apenas para discernir as
barracas cobertas do Cornmarket, mais adiante, e instiguei o
cavalo a seguir a trote, embora ele parecesse relutar em
acelerar o passo, já que o chão lamacento estava escorregadio
sob seus cascos. No cruzamento da Carfax, eu o virei para a
esquerda na High Street e logo depois vi o portão leste, por
onde entráramos na cidade em meio a grande pompa, fazia
apenas cinco dias, com sua torre de proteção da estrada para
Londres. A luz de um lampião piscou no talude da torre e
compreendi que tudo dependeria de eu passar pelos vigias de
lá sem ser detido. A essa hora, Slythurst já teria acordado os
criados do colégio, e quem quer que tivesse sido mandado
para me perseguir não podia estar muito atrás.
Quando parei o cavalo, um homem com uma libré municipal
e uma lança em punho avançou, saindo do portão:
- Quem vem lá? - perguntou em tom brusco, me apontando a
lança e dando um passo à frente. O cavalo relinchou,
assustado.
- Mensageiro real - respondi, arfante. - Levo uma mensagem
urgente de Sir Philip Sidney.
- Um xelim para passar antes do amanhecer.
- Não tenho um xelim. Tenho ordens para levar sem demora
uma mensagem ao Conselho Real, em Londres - respondi,
me empertigando no cavalo, na esperança de que uma
postura de autoridade desviasse a atenção dele da minha
aparência. - E, se essa mensagem não chegar, o conde de
Leicester vai mandar pregar os seus testículos nesse portão, a
título de advertência, eu posso jurar.
Olhei outra vez para trás, certo de ouvir um barulho que
vinha de um ponto mais distante da High Street. O vigia
relutou por um momento, depois começou a destrancar e
abrir trabalhosamente o sólido portão de madeira, enquanto
eu segurava com força as rédeas do cavalo, que sentia minha
impaciência e tensão e começava a ficar inquieto.
Quando cruzei o limite da cidade, ouvi às minhas costas um
grito nítido de "Ei! Parem aquele cavaleiro!"
Dei com os calcanhares nos flancos do cavalo e o pus a meio
galope. Embora o chão ainda estivesse mole sob seus cascos,
pelo menos a estrada era mais larga, já que consistia na
principal via para Londres, e a escuridão começava a dimi-
nuir um pouco, enquanto as estrelas empalideciam com a luz
do alvorecer que bordejava o horizonte leste, para onde eu
cavalgava. O vento levantou a crina do cavalo quando ele
disparou pelos sulcos das rodas de carroças e por cima dos
buracos, assim como fez arderem meus olhos e meu nariz
quando me curvei sobre o pescoço do animal, procurando
me manter em seu dorso sem sela e olhando para trás de vez
em quando, para ver se alguém me seguia. O cavalo era
veloz e logo parecemos ter coberto uma distância suficiente
para tornar extremamente difícil alguém nos alcançar. Agora
que podia respirar de novo, tive tempo para duvidar da
sensatez do meu plano. Tinha parecido óbvio, em minha
conversa com Humphrey, que eu encontraria no Castelo
Hazeley as peças do quebra-cabeça que estavam faltando,
mas agora que eu estava fora da cidade, sem uma ideia clara
de como encontrar o local, perguntei a mim mesmo se eu
havia apenas arriscado um palpite que não daria em nada
enquanto o drama se desenrolava até o fim num rumo
inteiramente diferente.
Cavalguei talvez por meia hora, com o céu cada vez mais
claro e o canto dos pássaros mais insistente, enquanto uma
névoa úmida se erguia das cercas vivas, obscurecendo os
campos distantes. O cheiro de terra molhada invadiu minhas
narinas. Não havia sinal de nenhum povoado e comecei a
temer que houvesse cometido um erro terrível. Além de
talvez não achar Thomas e Sophia antes de ser tarde demais,
agora eu também não teria como retroceder. Se Jenkes ou
Slythurst houvessem me seguido desde a cidade e me
alcançassem nessa estrada deserta, não haveria ninguém para
vir em meu auxílio.
Quando dobramos uma curva da estrada entre as sebes, com
o ritmo já então reduzido a um trote regular, o cavalo quase
tropeçou num rebanho de ovelhas que era conduzido em
direção a Oxford por um velho com um cajado torto.
- Por favor, o senhor sabe me dizer onde posso encontrar o
Castelo Hazeley? Estou no caminho certo? - gritei.
O pastor me olhou com desconfiança.
- O que disse?
Respirei fundo e repeti a pergunta, no inglês mais claro que
pude pronunciar.
Ele apontou para trás, para a direção de onde tinha vindo.
- Mais ou menos a uns 800 metros. O senhor verá dois
carvalhos grandes à esquerda e uma trilha para carroças entre
eles. É só segui-la até a casa senhorial. O que o senhor vai
fazer lá? - indagou o homem, me olhando com curiosidade.
- Assuntos oficiais - disse eu, já que essa resposta me fora útil
antes.
- Lá são todos papistas, o senhor sabe - resmungou ele,
enquanto meu cavalo abria caminho por entre as ovelhas. Eu
lhe agradeci o aviso e, tão logo nos livramos do rebanho,
aticei o animal para fazê-lo acelerar o passo. Agora minhas
costas e pernas doíam como nunca e as rédeas ralavam
minha mão queimada, mas eu me animei ao saber que a casa
ficava perto. Talvez lá eu encontrasse as respostas que
buscava.

Capítulo 19

A TRILHA DAS CARROÇAS DESCIA uma encosta suave e depois
se alargava numa longa alameda para carruagens, que
conduzia à entrada da enorme casa palaciana. Do alto da
colina, por entre a bruma fina que pairava sobre as árvores
mergulhadas nas sombras da luz cinzenta, vislumbrei
chaminés altas de tijolos vermelhos, torreões, merlões e
ameias. A casa era cercada por floresta de três lados e uma
encosta íngreme e densamente arborizada se erguia atrás
dela. Protegido pelas árvores, seria possível eu chegar muito
perto do castelo em si, mas obter acesso a ele era outra
história. É que, agora, eu só poderia ir para a frente.
Contrariando a vontade do cavalo, aos poucos o tirei da
trilha das carroças e o levei para a mata, onde apeei numa
clareira e prendi os arreios num galho baixo, para que ao
menos o animal pudesse baixar a cabeça até o capim no
chão. Depois de lhe dar um tapinha sonoro e garantir que eu
voltaria logo, me afastei de mansinho, no maior silêncio
possível, descendo a encosta em direção às terras do Castelo
Hazeley.
Na margem da floresta, onde ela se abria num gramado, me
agachei à sombra das árvores e olhei para a construção em
frente. Ali a névoa estava mais fina e tive uma visão clara da
mansão senhorial à meia-luz. Era evidente que ela fora
construída para resistir a ataques, embora suas fortificações
parecessem constituir parte do seu estilo, mais elegantes do
que ameaçadoras. Fora erigida numa formação quadrada em
volta de um pátio central, tendo a entrada guardada por um
magnífico portão fortificado, com duas torres octogonais de
pelo menos 30 metros de altura - o dobro da altura dos
muros - encimadas por ameias. Nem mesmo todas aquelas
fortificações esplendidamente decorativas tinham salvado
seu proprietário da prisão, pensei. Se a receita da Coroa
andava escassa, confiscar as casas e as terras das famílias
católicas que resistiam aos éditos religiosos devia ser uma
fonte fácil de lucro. Caso padres missionários fossem
encontrados dentro daquelas paredes, toda essa propriedade
seria tomada e sua bela mansão seria dada àquele entre os
favoritos da rainha que se revelasse mais merecedor, no dia
em questão - fortunas eram confiscadas e divididas entre
outros cuja lealdade precisava ser comprada, a pretexto de
defesa da religião. Senti um calafrio e apertei mais a capa em
volta do corpo. Eu sabia que estava arriscando a vida ali, e
quem se beneficiaria, se eu estivesse certo? Eu?
Walsingham? Algum outro cortesão cuja ascensão dependia
da queda das pessoas dentro daqueles belos muros? Mas eu já
estava convencido de que Sophia se encontrava lá dentro e
de que as pessoas em cujo auxílio ela confiava eram
exatamente aquelas que mais lhe fariam mal.
Veio uma friagem com o alvorecer e percebi que minhas
pernas ainda tremiam, depois da cavalgada em pelo. Eu me
levantei com jeito, estiquei os membros doloridos e tornei a
me agachar, junto ao tronco grosso de um velho carvalho. A
fachada da mansão senhorial era adornada por balcões de
entalhe rebuscado, embora todas as janelas dos lados que eu
podia ver estivessem envoltas na escuridão. Eu não teria
como passar por aquele portão fortificado. Um castelo desse
tamanho contaria com vários criados, mesmo que seu dono
estivesse na prisão, e sua fachada era muito visível. Minha
melhor alternativa, concluí, seria ir bordejando a floresta e
me encaminhar para os fundos, onde eu talvez encontrasse
uma poterna ou uma entrada de criados que fosse mais fácil
de invadir. Apalpei a velha faca de cozinha de Humphrey na
cintura, considerando que o melhor meio de convencer os
criados a responder a minhas perguntas seria usando a arma
de maneira sensata.
Ainda muito recurvado, comecei a avançar pé ante pé pela
orla das árvores, observando atentamente o castelo, em
busca de qualquer sinal de movimento ou de luz nas janelas,
e de repente ouvi um graveto se partir atrás de mim. Eu me
virei, sacando a faca, mas não vi nenhum movimento nas
profundezas da mata, cujos troncos e vegetação rasteira
continuavam envoltos em uma bruma azulada. Minha
respiração se acelerou, formando nuvenzinhas em volta do
meu rosto à medida que eu ia andando de lado, tentando
manter a cabeça virada na direção da qual viera o barulho. A
necessidade de me deslocar da maneira mais silenciosa
possível me pareceu menos urgente que a de andar depressa.
Eu me esforcei para ouvir outros sons além do estalar de
gravetos e folhas sob meus pés, mas, apesar de não escutar
nada, tive a nítida sensação de não estar sozinho na floresta.
Nesse momento, captei o ruído suave de cascos de cavalo
comprimindo o cascalho e parei à sombra de um carvalho
grosso para espiar. Abaixo de mim, uma carroça pequena e
de laterais altas, puxada por um pônei encurvado, avançava
pela alameda das carruagens na direção do portão fortificado,
tendo à frente um homem debruçado sobre as rédeas. Eu vi
quando ela contornou um dos lados da casa e, de repente,
uma figura encapuzada se afastou da proteção das árvores e
disparou pelo gramado em declive em direção à carroça, já
então prestes a desaparecer nos fundos da casa. Corri o mais
rápido que pude por entre as árvores, tentando ficar de olho
nos dois, sem me preocupar se eu seria visto. Ao chegar à
carroça, a figura de capa se atirou sobre o desavisado
cocheiro, arrancou-o de seu banco e se atracou com ele,
derrubando-o no chão. O pônei, que dava a impressão de
que teria de se esforçar para chegar ao fim da alameda das
carruagens, mal notou o que acontecia, deixando pender a
cabeça. Disparei na direção deles, as pernas ainda bambas, e
os alcancei no exato momento em que o homem da capa,
cuja mão tapava a boca do outro e que se ajoelhara sobre um
dos braços da vítima, sacava uma lâmina.
Eu me atirei sobre ele, derrubando-o de lado e agarrando a
mão que segurava a faca. Com um grito enfurecido, a figura
encapuzada se virou para mim e, com uma pontada de susto,
vi que era Thomas Allen. Seu rosto também se congelou
numa expressão de assombro.
- O senhor? - disse. - Mas...
O cocheiro caído tentou se soltar. Devia estar na casa dos 50,
tinha o rosto bolachudo e se mostrava claramente
apavorado, sacudindo a cabeça, choramingando e me
implorando socorro com os olhos esbugalhados.
- Quem é esse? - perguntei a Thomas num tom urgente. -
Por que você voou em cima dele com uma faca?
O rapaz me lançou um olhar carrancudo. Olhei de relance
para sua mão, cujo pulso eu ainda apertava com força, e vi
que não era uma faca que ele segurava, afinal, mas uma
navalha aberta.
- Ele veio buscar Sophia - respondeu Thomas, trincando os
dentes. - Foi encarregado de ajudá-la a fugir. Mas ela não
deve ir com ele: é uma armadilha.
- Então, ela está aqui? - indaguei, olhando do rapaz para o
cocheiro e sentindo uma grande onda de alívio mesclado
com medo. Se eu havia acertado esse palpite, o perigo não
tinha acabado.
O cocheiro acenou com a cabeça, olhando alternadamente
para nós com uma expressão aterrorizada.
- Espere, eu conheço esse homem - disse Thomas, tornando
a firmar a navalha e olhando mais de perto para o cocheiro
apavorado. - Ele trabalha para a família Napper. Não
podemos deixá-lo voltar, porque ele dará o alarme.
O homem gaguejou, confuso, e balançou a cabeça com mais
violência. Saquei da cinta a velha faca de cozinha de
Humphrey Pritchard e a segurei junto ao rosto dele.
- Seus serviços já não são necessários aqui, amigo. Vá para
casa e diga que foi atacado por salteadores de estrada. Já! -
ordenei, dando-lhe um empurrão, pois ele continuava caído
no chão, paralisado de pavor. Foi o tranco de que o homem
precisava para se recompor e se levantar, desorientado,
correndo para as árvores e lançando olhadelas nervosas para
trás enquanto fugia. Thomas se virou para mim, com os
olhos faiscando.
- Você não devia ter feito isso, Bruno. Agora ele vai voltar
para Oxford e vão mandar mais homens atrás de nós.
- Calma, Thomas. Ele levará pelo menos uma hora para voltar
a pé para a cidade, e já há homens mais do que suficientes
atrás de mim. Por favor, me diga o que está acontecendo.
O rapaz respirou fundo, meneou a cabeça, se pôs de pé e
levantou a cabeça do pônei manso:
- Vim salvar Sophia - disse ele, seu rosto ossudo tenso de
determinação.
Vi um brilho estranho e febril em seus olhos, e suas mãos se
moviam incessantemente numa agitação nervosa.
- De quem?
- Daqueles cuja segurança ela ameaça.
- Por causa do filho que está esperando?
Ele girou a cabeça subitamente e me encarou:
- Então o senhor sabia disso? Como veio parar aqui, Dr.
Bruno?
- Um palpite - respondi, com ar resoluto. - Creio que você
também pode estar em perigo, Thomas.
Ele deu um risinho amargo.
- Eu já não lhe disse isso?
- Eu me refiro a um perigo imediato. Esta noite.
Ele abriu a boca para responder, mas, nesse momento, abriu-
se uma porta nos fundos da casa e uma voz indagou,
baixinho:
- Quem está aí?
- Levante o capuz e guarde a arma - sibilou Thomas, ele
mesmo cobrindo a cabeça com a capa. - Não fale, se for
possível, até estarmos lá dentro.
Não vi alternativa senão seguir suas ordens enquanto ele
apanhava as rédeas do pônei e puxava a carroça para o que
parecia ser uma entrada de serviço. A porta estava
entreaberta e um homem alto e recurvado, de cabeleira rala,
nos inspecionou pela fresta com olhar desconfiado.
- Vim buscar um passageiro que irá para o litoral, a pedido de
Lady Eleanor - disse Thomas em voz baixa, mantendo o
capuz levantado. Houve uma longa pausa, como se cada um
esperasse o outro falar.
- Diga a senha - pediu o homem atrás da porta, com uma
tosse sem jeito.
- Ah. Orapro nobis - disse Thomas e mordeu o lábio.
- Eu não sabia que eram dois - comentou o criado, ainda nos
olhando com suspeita. - Bem, nesse caso... entrem.
Abriu a porta mais um pouco e nos deixou entrar num
corredor estreito.
- Esperem aqui, vou dizer à Lady Eleanor que vocês
chegaram.
O homem se virou abruptamente e se afastou pelo corredor,
levando a vela consigo e nos deixando na penumbra. Olhei
para Thomas, que mudava de posição o tempo todo e não
olhava para mim. Eu me perguntei em que estaríamos nos
metendo e apalpei a presença tranquilizadora da faca de
Humphrey embaixo da capa.
Pouco depois, o criado alto voltou, ainda com a expressão
reservada, como se não estivesse convencido do que
Thomas lhe dissera.
- Venham por aqui - chamou ele em tom seco, apontando
para o corredor à frente. - Eles querem ver vocês um
instante, para examinar os planos de viagem.
Imaginei que a tal Lady Eleanor soubera que havia dois
homens presentes e desconfiara. Dei uma olhada inquieta
para Thomas. Uma vez naquele labirinto de corredores,
estaríamos presos na armadilha. O criado, segurando a vela
no alto, nos conduziu pela passagem de pedra e por um
lance estreito de escada, até um corredor muito mais
grandioso, revestido de painéis de madeira, onde o assoalho
era coberto por esteiras perfumadas de junco e a luz do
início da manhã se infiltrava pelas janelas baixas. Andamos
tanto que presumi que o corredor devia percorrer toda a
extensão da casa, e de fato ele acabou fazendo uma curva
fechada para a direita e chegamos a um pequeno lance de
escada, que terminava numa imponente porta de madeira. O
homem bateu e, depois de um murmúrio baixo vindo de
dentro, abriu a porta e fez sinal para entrarmos.
Eu me vi num aposento de pé-direito alto, que se estendia de
uma à outra torre do portão fortificado. Junto a uma janela
estava uma mulher de uns 40 anos, alta e elegante, num
vestido de cetim vermelho-escuro de corpete rebordado e
saia ampla, o cabelo preso num coque. Atrás dela havia uma
porta fechada, na parede da torre octogonal da direita,
enquanto a porta correspondente da torre esquerda revelava
uma escada em espiral para cima. Com os sapatos estalando
no piso sólido de tijolos, o criado atravessou o aposento e
cochichou alguma coisa no ouvido da mulher, que fez um
breve aceno e inclinou a cabeça junto dele, para nos fitar
com uma expressão de calma impenetrável.
- Vocês vieram da parte de William Napper? - perguntou,
baixinho. Thomas assentiu com ar confiante, embora eu
estivesse parado suficientemente perto para sentir seu braço
tremendo por baixo da capa.
- Onde está Simon? - indagou ela, desviando seu olhar
penetrante de Thomas para mim.
- Ele ficou doente, senhora - respondeu Thomas, quase sem
abrir a boca.
- Então, feche a porta atrás de vocês - disse ela, com um
passo à frente. - Queremos garantir que vocês entendam
bem as instruções. Barton, você fica - acrescentou, com um
sinal para o criado recurvado, que tratou de se posicionar
estrategicamente entre nós.
- Sim, milady - murmurou ele.
Olhei em volta, consciente de que Lady Eleanor nos
observava atentamente.
- Eu ficaria grata, amigos, se os senhores baixassem os
capuzes dentro de casa - disse, em voz baixa. - Sei que todos
devemos ter cautela ao nos mostrarmos, mas nesta casa
podemos confiar uns nos outros. Sophia! - chamou, virando-
se um pouco para trás.
A portinha da torre oriental se abriu e Sophia Underhill
entrou no recinto, no mesmo instante em que Thomas me
olhou de relance e baixou seu capuz com um floreio. Sophia
soltou um grito curto e olhou do rapaz para mim, levando as
mãos à boca. Relutante, baixei o capuz e o rosto dela se
contraiu, assumindo uma estranha expressão de
incredulidade.
- Bruno? - sussurrou ela, deixando transparecer nos olhos sua
completa confusão. - Como é que você veio parar aqui? E
Thomas? - acrescentou, apontando o rapaz com a cabeça.
Notei que a dama alta dera um passo à frente, fazendo um
sinal para que Barton se pusesse a seu lado, e mantinha o
rosto sereno, mas claramente atento à tensão do momento.
Antes que eu pudesse responder a Sophia, a moça se voltou
para Thomas, com uma expressão suplicante:
- Thomas, eu sei o que você pensa, mas está enganado. Se
tem algum carinho por mim, você me deixará ir embora. Por
favor - acrescentou, com a voz levemente embargada, ao ver
a expressão implacável no rosto dele.
- Quem são essas pessoas, Sophia? - indagou a mulher mais
velha, com um toque de rispidez. - Você as conhece? Estão
aqui para prejudicá-la?
Thomas se virou para ela e, antes de falar, fez uma
reverência breve e falsa.
- Lady Tolling, viemos apenas buscar Sophia e devolvê-la em
segurança a seus familiares, que estão dolorosamente aflitos
com a ausência dela. Se ela for conosco agora, calmamente,
não diremos nada mais sobre este assunto.
- Os mesmos familiares que ameaçaram a vida dela, por causa
da sua religião? - retrucou a mulher, sem se alterar,
examinando Thomas com um olhar da cabeça aos pés. - Não
somos tão fáceis de enganar, meu jovem.
- Mas receio que tenha sido enganada, Lady Tolling - disse
ele com impecável finura e um brilho perigoso no olhar. -
Receio que a Srta. Underhill não lhe tenha dito toda a
verdade a respeito de seu urgente desejo de deixar a
Inglaterra.
- Não, Thomas! - exclamou Sophia, cambaleando em direção
a ele com a mão estendida. - Você não sabe o que está
fazendo! Não nos atrapalhe, isso não lhe fará bem algum.
Você não conseguirá o que quer e tudo estará perdido.
O criado deu um passo em direção ao rapaz, que o olhou de
relance por um momento, se virou novamente para Sophia e
deu uma risada, com a cabeça jogada para trás, emitindo um
som selvagem, desvairado, que ecoou pelas vigas de madeira
do teto:
- Sophia, Sophia! - disse, repreendendo-a como se falasse
com uma criança travessa. - Que mentiras você andou
contando a essa boa gente? Será que convenceu Lady Tolling
a ajudá-la a fugir para ingressar num convento francês por-
que sua família a perseguiria por causa da sua conversão?
A garota empalideceu. Seu rosto assumiu uma expressão
rígida e vi um medo real em seus olhos. Ela lançou um olhar
aflito para a mulher e vi suas pernas tremerem ligeiramente,
fazendo-a tropeçar. Eu instintivamente me aproximei para
ajudá-la, mas Barton logo se colocou entre nós, me fuzilando
com os olhos, e percebi então que ele levava na cinta um
instrumento que parecia um atiçador.
- Venha conosco - disse Thomas, em tom mais brando. - Isso
não vai acabar como você espera, Sophia, no fundo você
sabe que não vai. Ele pretende matá-la.
Sophia balançou furiosamente a cabeça, cerrando os lábios.
- Você é cego e teimoso, Thomas, e sempre foi assim! -
exclamou ela, dando um passo em direção ao rapaz. -
Sempre agiu de maneira impetuosa, sempre convencido de
estar com a razão! Mas desta vez você está terrivelmente
enganado, como já tentei lhe dizer.
Lady Tolling cruzou os braços com impaciência e seu olhar
correu de Sophia para Thomas, porém a voz se manteve
firme.
- O que é isso? Quem são esses homens, Sophia? Quem
pretende matá-la?
- Ele está delirando, milady, está com a mente perturbada,
não sabe o que diz - apressou-se a dizer Sophia, com a
garganta embargada de emoção.
Thomas se virou para a mulher com um olhar desafiador,
visivelmente sem se intimidar com a posição social dela,
abandonando por completo os modos acovardados que eu
vira em Oxford.
- O seu padre visitante - disse, enunciando as palavras com
exatidão -, Jerome Gilbert.
Se Lady Tolling ficou perturbada com a acusação de estar
abrigando um padre, ou de que esse mesmo indivíduo estaria
decidido a cometer um assassinato, não deu qualquer sinal
disso, a não ser por um ligeiro tremor da boca.
- Bem, nesse caso, perguntemos a ele - retrucou, com a voz
calma de sempre. Cruzou o aposento num farfalhar de cetim
e entrou na pequena antecâmara à direita, de onde Sophia
saíra. Depois de se ouvir um breve diálogo lá dentro, ela
voltou imediatamente, seguida pelo rapaz que eu havia
conhecido como Gabriel Norris.
Como de costume, ele usava uma sobreveste bem talhada e
sombrios calções pretos, de tecido evidentemente caro, e
botas de couro de boa qualidade e fivela de prata, o cabelo
louro penteado para trás, deixando o rosto à mostra. Bonito e
seguro, tinha a exata aparência do filho de um fidalgo rural.
Ninguém que passasse por ele na cidade ou na universidade
pensaria que ele era um missionário secreto. Ele olhou de
Thomas para Sophia e para mim, com olhar firme e
cuidadoso, e balançou lentamente a cabeça.
- Pois muito bem - disse, estendendo as mãos com as palmas
voltadas para cima. - Digamos o que precisa ser dito. Lady
Eleanor, com todo o respeito, eu lhe pediria que nos deixasse
a sós. Há assuntos que precisam ser resolvidos entre velhos
amigos, antes que qualquer um de nós possa ir adiante.
Lady Tolling não pareceu disposta a abrir mão do controle de
nenhuma situação a se desenrolar sob o seu teto.
- A sua segurança me preocupa, padre - murmurou, lançando
um olhar para mim e para Thomas. - Esses homens não
foram revistados.
- Eu os conheço - disse Norris, com ar tranqüilizador. - Tudo
correrá bem.
Quando a porta se fechou atrás dela e do criado, Norris - ou
Jerome, como imaginei que deveria passar a chamá-lo - se
virou e me fitou com seus olhos verdes e límpidos.
- Dr. Bruno - disse, com uma ruga intrigada vincando o
espaço entre as sobrancelhas. - Eu havia pensado...
- Havia pensado que Rowland Jenkes tinha me matado esta
noite? - perguntei.
- Bem, sim. Embora não fique inteiramente surpreso com o
fato de o senhor ter se livrado dele... Eu tinha dito a Jenkes
que não deveria subestimá-lo. Afinal, o senhor é o homem
que escapou da Inquisição - observou, enquanto a boca se
curvava na leve sugestão de um sorriso, mostrando os dentes
alvos. - O senhor e Thomas formaram sua própria Liga Anti-
católica?
Fez uma breve pausa para rir de sua própria piada. Tinha um
ar curiosamente descontraído e desenvolto, dadas as
circunstâncias, e, agora que não estava interpretando o papel
de jovem pomposo e exibicionista, falava num tom mais
maduro e comedido. Quando tornou a se virar, para me fitar
diretamente nos olhos, me lembrei das palavras de
Humphrey Pritchard: o padre Jerome fazia a pessoa sentir-se
como se fosse a única que tinha importância no mundo.
- Bem, agora que o senhor conhece a verdade - prosseguiu,
baixinho -, veio me prender?
- Vim por acreditar que Sophia estava em perigo - respondi,
procurando retribuir seu olhar com firmeza, embora
houvesse algo desconcertante na intensidade dele. Decidi
que eu não seria o primeiro a desviar os olhos.
- Por minha causa? - indagou, como se a ideia fosse absurda. -
Por que eu iria querer fazer mal a ela, que foi tão
recentemente recebida por meu ministério, na única Igreja
verdadeira e universal?
- Seu ministério? É assim que o chama? - explodiu Thomas.
- Porque ela está carregando o seu filho - disse eu,
simplesmente.
- Isso é calúnia! - rebateu Jerome, com uma súbita centelha
de ódio nos olhos e dando um passo na minha direção.
- Thomas lhe disse isso? - perguntou Sophia, o rosto em
brasa. - Você sabia que tudo o que ele fala é mentira?
- Ninguém me disse nada - retruquei, dessa vez mentindo, eu
mesmo, para poupar Cobbett. - Posso ter sido monge, mas
cresci numa pequena aldeia e sei reconhecer essas coisas.
Sophia não disse nada e pressionou a boca com uma das
mãos. Thomas deu um risinho irônico e Jerome sugou as
bochechas e pareceu refletir.
- Creio que você há de compreender melhor do que
ninguém, Bruno - disse Jerome com ar sério, finalmente -,
até que ponto um homem pode sentir-se aprisionado pelas
restrições de sua ordem. Sim, eu pequei, mas não cometeria
um pecado maior para encobrir o primeiro. Sophia será
levada em segurança para Rouen, onde cuidarão dela até o
momento em que eu possa ir a seu encontro.
Por um instante, os olhos de Jerome se voltaram para Sophia
enquanto ele falava. A jovem o fitou, agradecida, mas havia
algo evasivo na expressão do padre, que me convenceu de
que ele estava mentindo para agradá-la.
- Também sei por experiência, padre, que as ordens religiosas
não liberam os seus com toda essa facilidade. Especialmente
os jesuítas.
Jerome assentiu, como se ficasse relutantemente
impressionado.
- Muito bem, Bruno, você fez todo o seu dever de casa. É
verdade, me ordenei jesuíta em Roma e entrei para a missão
inglesa por meio do seminário de Reims. O pai de Thomas
me trouxe para Oxford. O papel dele era coordenar a
chegada dos padres a Oxfordshire, encontrar esconderijos
seguros para nós, cuidar de nossas provisões e disfarces. Foi
o papel assumido por Roger Mercer depois que Edmund foi
exilado. Mas você já sabe disso, presumo.
- Só recentemente comecei a compreender as ligações -
admiti. - O seu disfarce foi muito bom.
- Disfarce - repetiu Thomas, cuspindo a palavra com um
olhar frio. - Não foi disfarce algum. Ele se portou como o
que sempre foi: um filho de família rica que sempre esperou
que os outros dançassem conforme sua música. Para ele,
entrar para a ordem jesuíta foi apenas mais uma forma de
aventura. O disfarce, como você o chamou, era uma parte
tão natural que acabou sendo muito fácil ele se esquecer da
sua missão.
Thomas lançou um olhar incisivo e furioso para Sophia.
Jerome tivera ao menos a gentileza de parecer acanhado.
- E cair em tentação - emendei, com ar pensativo, olhando
de Jerome para Sophia e me lembrando do Livro de Horas
que o diretor Underhill encontrara costurado no colchão
dela, com sua dedicatória sugestiva e íntima.
"J". Não fora Jenkes, então, mas Jerome. Portanto, também
devia ter sido ele que Roger Mercer esperara encontrar no
bosque na manhã de sábado, ao deparar, em vez disso, com
sua morte violenta.
- Mas Roger Mercer descobriu o que você fez - declarei,
enfrentando o olhar impassível do jesuíta, enquanto sentia
um súbito aperto no peito, ao pensar que estava a poucos
passos do assassino. - E eu que pensei que ele tinha sido
morto por causa daqueles papéis.
Os olhos de Jerome se arregalaram no mesmo instante e ele
se aproximou, todo o seu divertido ar de complacência tendo
desaparecido.
- Como é que você sabe dos papéis? - indagou, parecendo
genuinamente abalado pela primeira vez desde que
chegáramos.
- Eu os vi - respondi, conseguindo soar mais calmo do que
me sentia.
- Onde?
- No baú do seu quarto. Onde você os escondeu.
- Do meu... - começou. Girou o corpo e encarou Thomas,
com ar incrédulo. - Mas você disse...
- Roger Mercer flagrou os dois no bosque, certa noite -
interrompeu Thomas, com um toque de despeito na voz.
Notei que sua mão direita estava enfiada dentro da capa. -
Sophia costumava roubar a chave no gabinete do pai, à noite.
Mercer ficou horrorizado, como você pode imaginar. Ele foi
ao nosso quarto no dia seguinte, explodindo de ódio.
Lembrou ao padre Jerome quantos católicos em Oxford
estavam arriscando a vida por causa dele, e disse que não
receberia mais o sacramento de um padre que estava
vivendo em pecado mortal. Disse também que não poderia
permitir que as outras pessoas do seu círculo, sem saber o
que estava acontecendo, continuassem a receber. Avisou
que não tinha alternativa senão denunciar Jerome ao
superior dos jesuítas.
- Ouvi dizer que os jesuítas têm um modo implacável de lidar
com quem atrapalha a sua missão - comentei, dando um
passo atrás, mas Jerome voltara seus olhos verdes para
Thomas. - Eles são tão dispostos a matar por sua fé quanto a
morrer por ela... como você já demonstrou.
- Como eu demonstrei? - enfatizou Jerome, me olhando de
novo por um instante e soltando uma gargalhada ríspida de
incredulidade. - Entendo... você avaliou os indícios, Bruno,
e concluiu que eu devo ser o assassino do Lincoln, pois sou
quem mais tem o que proteger. Estou certo?
- Roger Mercer ameaçou denunciar a sua violação do voto de
castidade - respondi, me agarrando a fatos que tinham
parecido absolutamente evidentes no minuto anterior, mas
que já ameaçavam me escapar. - Você quis silenciá-lo.
- Não nego que quisesse isso. Mencionei a Jenkes que alguém
tinha passado informações negativas a meu respeito a Roger
e que as dúvidas dele ameaçavam minha segurança. Eu
esperava que Jenkes tivesse uma conversa discreta com ele, à
sua maneira. Mas cometi um erro - acrescentou, com uma
pausa para afastar o cabelo liso do rosto. - Bruno, talvez você
conheça a história do santo Thomas Becket, nosso maior
arcebispo de Canterbury. Dizem que o rei Henrique II, num
momento de frustração, exclamou na presença dos seus
nobres: "Quem me livrará desse padre turbulento?" Sua
intenção foi apenas fazer uma pergunta retórica, mas os
nobres optaram por entendê-la como uma ordem... e, então,
para horror do rei, Becket foi atravessado por uma espada
quando fazia suas orações. Foi esse o meu erro. Resmunguei
alguma coisa parecida a respeito do pobre Roger Mercer, e o
meu fiel criado aqui - disse, lançando a Thomas um olhar tão
carregado de desdém quanto sua voz - optou por interpretá-
la à sua própria maneira.
- Não o ouvi fazer nenhuma objeção, padre - rebateu
Thomas, baixinho. - Você ficou satisfeito por contar com a
minha ajuda naquele momento.
Jerome deu de ombros, sem o menor pudor.
- Não nego que a ideia de me poupar, e também de poupar
Sophia, da desonra com que Roger Mercer nos havia
ameaçado, foi atraente - comentou e tornou a se virar para
mim. - Mas, já que você parece ter se nomeado investigador
e juiz neste caso, Bruno, convém examinar melhor as suas
provas. Thomas é um candidato tão bom quanto eu... pelo
menos, parece que já o enganou. Ele pode ter esse jeito
precipitado e nervoso feito um coelho, mas é astuto como o
próprio Diabo.
Thomas apenas retribuiu seu olhar, o rosto impenetrável.
- Ele propôs inventar uma solução para nosso problema -
continuou Jerome. - Foram essas as suas palavras. Aceitei a
oferta e disse que não queria saber de mais nada, até que
tudo estivesse resolvido. Por isso, não fiz idéia de que ele ha-
via convencido os Napper a ajudá-lo a roubar um cachorro.
Eu estava voltando da missa naquela madrugada quando ouvi
a comoção no bosque e fui correndo buscar meu arco. Só
então fiquei sabendo do que Thomas havia feito - e Jerome
torceu a boca com repugnância.
- Mas por quê? - perguntei, me virando para Thomas,
enquanto tentava rever todas as conclusões às quais julgava
ter chegado. - O que o fez matar um homem daquela
maneira, quando você nem podia ter certeza do resultado?
- Mártires - cuspiu Thomas, como se a própria palavra o
enojasse - Isso tinha virado a obsessão deles. Todos queriam
ser mártires por sua religião, ou assim diziam, pelo menos.
Era a glória suprema - acrescentou. Sua voz foi se elevando
num tom maníaco e ele sacudiu furiosamente a cabeça: - Até
o meu pai parece estar procurando uma coroa de mártir. Que
espécie de religião é essa, Dr. Bruno, que faz os homens se
apaixonarem mais pela morte do que pela vida? Onde é que
fica o amor? Onde está a bondade humana?
Eu poderia ter assinalado que um homem disposto a soltar
um cão de caça faminto sobre o amigo mais íntimo de seu
pai talvez não estivesse na melhor posição para falar da
bondade humana, mas fiquei em silêncio. Thomas apontou
para a garota:
- Ter o amor de uma mulher como Sophia, a perspectiva de
uma nova vida no ventre dela...
- Thomas! - exclamou Sophia, avançando um passo, mas
Jerome estendeu a mão para detê-la.
- Mas essa... criatura - explodiu Thomas, apontando o dedo
para Jerome - joga tudo fora, guarda todo o seu desejo para a
lâmina do carrasco! - O dedo que ele apontava tremia de
paixão reprimida. - Pois então, eles que experimentem o
martírio, pensei, para ver se gostam. O diretor tinha acabado
de fazer um sermão sobre a morte de Santo Inácio. Os
dentes das feras selvagens. Pareceu um modo tão bom
quanto outro qualquer de mandar Roger ao encontro do seu
Deus - disse, dando uma risada estranha e aguda que
enregelou meu sangue. - Depois da dor que meu pai sofreu
por causa dele, era o mínimo que ele merecia.
Essa explosão foi seguida por um silêncio desconcertante,
enquanto o eco de suas palavras se extinguia. Sophia, Jerome
e eu ficamos olhando para Thomas por um momento, num
horror extasiado.
- E, com todos os integrantes do colégio sob observação cada
vez mais rigorosa, tive medo de que meu disfarce viesse a
correr riscos. E foi essa a sua intenção o tempo todo, não foi,
meu amigo? - acrescentou Jerome baixinho, levantando a
cabeça para fitar Thomas, que apenas continuou a retribuir
seu olhar fixo, sem pestanejar. Observei os dois, ainda
sentindo todos os meus nervos tensos como uma corda de
arco. Não soube dizer se Thomas era mais perturbador
quando pulsava com sua energia maníaca ou quando ficava
nessa estranha nova imobilidade, como um felino
aguardando o momento de atacar.
- Então, você foi ao quarto de Mercer pegar aqueles papéis
antes que Thomas pusesse as mãos neles? - indaguei,
voltando-me para Jerome, que fez um movimento curto e
impaciente com a cabeça.
- Eu não fazia ideia de que Thomas soubesse deles. Depois
que Mercer ameaçou me denunciar, compreendi que eu
sempre ficaria vulnerável enquanto não recuperassse aquelas
cartas, toda a correspondência de Edmund Allen com Reims
sobre a minha missão, além da bula papal Regnans in
Excelsis. Porém eu mal tivera tempo de revistar o quarto
dele quando vi você pela janela, atravessando o pátio em
direção à escada da torre. Tive de me esconder no telhado da
torre antes de você entrar. Foi então que compreendi a sua
verdadeira atividade no colégio - concluiu, com um aceno da
cabeça e plantando as mãos nos quadris.
- Eu não tinha nenhuma atividade - retruquei, o coração
disparado no peito - a não ser o interesse em descobrir como
um homem podia ter tido uma morte tão pavorosa... um
interesse que nenhum dos colegas dele parecia partilhar. Eu
só queria encontrar uma pista sobre quem era a pessoa com
quem ele planejara se encontrar e entender por que ele
havia carregado uma bolsa cheia.
Jerome baixou os olhos, exibindo uma expressão de culpa
pela primeira vez.
- Thomas só me pediu para atrair Mercer para o bosque
naquela madrugada. Eu tinha dito ao professor que, dadas as
circunstâncias, achava que eu devia retornar à França. Pedi a
ele que me encontrasse para me devolver parte do dinheiro
que estava guardando para mim, em nome da missão, para
que eu pudesse viajar.
- Mas e Coverdale? - perguntei, olhando de Jerome para
Thomas. - Ele também descobriu sobre Sophia?
- É melhor você perguntar a Thomas sobre Coverdale -
respondeu Jerome, com ar resoluto.
- Aquela víbora - sussurrou Thomas. Após seu longo silêncio,
sua voz baixa me causou um sobressalto. - Coverdale fez um
requerimento ao diretor para que eu fosse afastado do
colégio. Tinha medo de que eu soubesse demais e achou que
eu os trairia, por vingança. O diretor, pelo menos, teve
alguma compaixão e me deixou ficar, mas foi por culpa de
Coverdale que perdi minha bolsa de estudos e tive que
depender da caridade dele - disse, apontando a cabeça para
Jerome. - Bem, James Coverdale aprendeu o que é vingança.
Sempre foi um covarde: gritou feito uma garotinha quando
lhe mostrei a navalha e se urinou todo.
- Quer dizer que você resolveu também fazer dele um
mártir, por desprezar a religião do homem?
Thomas sorriu, me olhando pelo canto do olho como uma
criança apanhada numa travessura.
- Quando Jerome me mandou levar o arco e as flechas para o
cofre-forte, tive a idéia do São Sebastião. Achei que, se as
mortes parecessem ter um padrão, isso os assustaria ainda
mais. Perguntei ao Dr. Coverdale se poderia ter uma con-
versa particular com ele, e ele me disse que daria um jeito de
sair mais cedo do debate. Ele estava com medo de que eu
tivesse ido lá para barganhar, mas nunca imaginou o que
aconteceria em seguida - disse, abraçando a si mesmo com
força e balançando de leve o corpo, a boca arreganhada
numa risada silenciosa. - Eu também precisava daquelas
cartas. Aquele quarto tinha sido do meu pai, se lembra? Eu
sabia que, se conseguisse pôr as cartas nas mãos certas, ele
estaria acabado - e tornou a apontar para Jerome, com um
floreio.
- Mas não entendo. Se você queria denunciar Jerome, por
que não foi simplesmente contar ao diretor o que sabia,
muito antes disso? - perguntei. - Você poderia ter poupado
duas vidas inocentes.
Thomas me lançou um olhar sarcástico:
- E perder a minha? Eu o considerava um homem
inteligente, Dr. Bruno. Eu era dependente dele, não
percebe? Não podia fazer nada enquanto não tivesse a
certeza de conseguir um outro lugar, por algum meio. E
talvez você não conheça as leis da nossa terra. Ajudar,
acolher ou sustentar um jesuíta é crime passível de punição
com a morte. Viver como criado desse aí, aceitar seu
dinheiro, manter seu disfarce: o que seria isso, se não ajudá-
lo? E, se a lei não me matasse, aquele filho de uma cadela do
Jenkes me mataria primeiro, caso eu traísse Gabriel. Gabriel,
veja só! Ele escolheu até um nome de arcanjo... não é
arrogância?
- Um rosto de anjo - murmurei, fazendo eco às palavras de
Humphrey Pritchard. - Mas, se uma outra pessoa o
descobrisse, você não poderia ser acusado. Bastava apontá-
los na direção certa, com as suas citações e os seus
diagramas... - deixei as palavras pairando no ar. Thomas
apenas me olhou, rangendo inconscientemente os dentes. -
E o pobre Ned? Ele também traiu seu pai? - indaguei.
- Ned? - exclamou Sophia. Ela, que até então estivera
ouvindo as confissões de Thomas com uma expressão de
horror crescente, de repente estendeu a mão e agarrou o
braço de Jerome. - O pequeno Ned Lacy, o ledor da Bíblia?
Ele não está morto também, está?
Fiz um aceno sombrio com a cabeça, observando Thomas.
Sophia levou as mãos ao rosto.
- Ele me viu com Sophia na biblioteca, quando todos estavam
no debate, antes de eu ir ao quarto de Coverdale - contou
Thomas, dando de ombros. - Eu estava tentando convencê-
la a não fugir com Jerome - acrescentou. Franziu o cenho
por um instante e esfregou os olhos. - Depois, vi você dar
dinheiro a Ned e fiquei sem saber o que fazer. Se ele não
tivesse voltado cedo naquele dia, não teria morrido. A culpa
foi dele mesmo.
- E você não pôde resistir a também fazer parecer que ele
havia sido martirizado, não foi? - perguntei, sentindo minha
repugnância aumentar enquanto observava sua visível frieza.
Thomas abriu um sorriso lentamente:
- Foi um jeito de punir o diretor. Você não disse sempre,
Sophia, que seu pai gostava mais do livro do Foxe que da
própria família? Eu jurei que o faria detestar aquele livro. Por
você - acrescentou. - Foi tudo por você. Um dia você verá
isso.
- Chega! - gritou Sophia, a voz carregada de emoção. - Chega
de falar, vocês todos. Já é quase dia claro e, a esta altura, com
certeza devem ter mandado os guardas me procurarem.
Temos de ir embora, Jerome. O que passou, passou, e terá
sido tudo em vão se não fugirmos enquanto é possível - disse
ela e puxou com urgência a manga do padre.
Thomas voltou à vida de repente, como se houvessem
acendido uma fogueira embaixo dele.
- Você não vai partir para a morte, Sophia - disse, arfando.
Firmou os pés no chão e a fitou com um olhar enfurecido, a
mão trêmula ainda apontando para Jerome. - Acha que ele
vai levá-la para a França em segurança? Cinco anos de
treinamento e a maior parte da herança que recebeu ele deu
a essa missão. Você acredita mesmo que ele vai abrir mão de
tudo por sua causa? Não, ele anseia pela glória do martírio,
como todos os demais. Pretende fazê-la sofrer um acidente
no mar.
- Sua mente está confusa, Thomas - começou Jerome, dando
um passo na direção dele, com a mão estendida num gesto
apaziguador. O rapaz se afastou num salto.
- Mas não vou deixar que isso aconteça! - gritou, num tom
agudo e abafado. - E se você não escutar o meu aviso...
Não terminou de verbalizar a ameaça. Em vez disso, tirou a
navalha de baixo da capa e, no mesmo movimento, se atirou
sobre Jerome. Saquei da cinta a faca de Humphrey, mas o
jesuíta fora muito bem treinado. Antes que eu conseguisse
me mexer, ele empurrou Sophia para trás de si e desferiu um
pontapé no braço estendido de Thomas. O rapaz perdeu
momentaneamente o equilíbrio, embora não soltasse a
navalha, mas seu escorregão deu a Jerome a oportunidade de
se abaixar e tirar uma faca da lateral da bota. Os dois se
deslocaram cautelosamente em círculos, olhos fixos um no
outro, armas desembainhadas, enquanto Sophia abafava um
grito e eu fiquei pairando, inútil, à margem desse duelo, pen-
sando em como poderia intervir. Mas não tive chance. Nesse
instante, a porta se abriu num rompante e Barton entrou
correndo, segurando o atiçador no alto. Thomas se virou
com um olhar febril e, mais rápido que um raio, golpeou lou-
camente o braço do criado com a navalha, antes que ele
pudesse atacar. Barton soltou um uivo e largou o atiçador,
segurando o braço ferido, e Thomas, aparentemente
enlouquecido, saltou sobre ele e lhe golpeou repetidas vezes
o pescoço com a navalha. Eu me atirei sobre Thomas,
agarrando-o por trás e puxando seu braço, mas ele era
surpreendentemente forte para um rapazinho tão magro e
sua fúria parecia ter lhe conferido uma força sobrenatural.
Ele tentou me repelir, não consegui refreá-lo, e os últimos
gemidos guturais de Barton foram abafados pelos gritos de
Sophia. O sangue do homem jorrou da ferida aberta sobre o
piso de tijolos e seu último suspiro se desfez no ar enquanto
ele agarrava a capa de Thomas, desabando no chão em
seguida.
Soltei Thomas e me virei, esperando deparar com Sophia
numa crise histérica diante da cena testemunhada, mas vi
que, na confusão, Jerome a tinha segurado por trás e agora a
prendia com um dos braços, enlaçando-a pelo tronco feito
um gancho, e apontava sua faca para a carne macia e branca
do pescoço dela:
- Largue a navalha, Thomas - disse, devagar e com clareza,
novamente com a voz calma de um diretor de escola se
dirigindo a uma sala cheia de meninos travessos. Thomas
apenas o encarou, boquiaberto, com o rosto, os braços e as
mãos salpicados do sangue de Barton. Depois deu um passo à
frente e Jerome agitou a faca mais perto do pescoço de
Sophia. Ela sufocou um grito e fechou bem os olhos,
balançando a cabeça com movimentos minúsculos.
- Solte-a - ordenei, tentando me equiparar ao tom de serena
autoridade do padre.
- Soltá-la? Senão você fará o que, Bruno? - retrucou ele, ainda
com a faca inclinada para o pescoço de Sophia e me
encarando como se eu fosse uma distração cansativa. - Você
trouxe reforços?
- Ninguém sabe que estou aqui - respondi, sem saber se dizia
a verdade. Se o mensageiro de Cobbett tivesse conseguido
entregar o embrulho de papéis a Sidney, será que ele reuniria
alguns homens e iria me procurar no Castelo Hazeley?
Quanto tempo levaria para chegar, se viesse? Mas a
probabilidade de que Slythurst tivesse deixado algum
mensageiro sair do colégio sem ser detido era ínfima.
Como se adivinhasse meu pensamento, Jerome sacudiu a
cabeça, impaciente:
- Bem, não faz mal. Eles chegarão tarde demais. De uma vez
por todas, larguem as armas no chão, ou sua vinda aqui terá
sido inútil - disse, levantando o cotovelo do braço que
segurava a arma, como que para cravá-la. Thomas me deu
uma olhada rápida e deixou a navalha cair no chão à sua
frente, onde ela chacoalhou no silêncio até parar. Eu me
voltei para Sophia, que tinha aberto os olhos e me fitava com
uma expressão mesclada de desespero, medo e increduli-
dade, e também deixei cair minha faca.
Jerome balançou a cabeça.
- Ótimo. Agora, vocês ficarão quietinhos aqui, antes que mais
alguém se machuque.
Foi guiando Sophia em direção à porta que levava à escada da
torre da direita, com a faca ainda encostada no pescoço dela.
Ele a forçou rudemente a avançar e, ao passar pela porta, deu
um chute para fechá-la. Quando ela já ia fechando, Thomas
soltou um grito de ódio e disparou para lá.
- Você não vai conseguir! - gritou, com a respiração arfante,
correndo para alcançá-los. Para minha surpresa, Jerome
estava forçando Sophia a subir a escada, em vez de descê-la,
e, quando Thomas se aproximou, lhe desferiu um pontapé e
o acertou no queixo, fazendo-o cair em cima de mim, com a
boca sangrando.
Sem desanimar, o rapaz se levantou e se atirou na escada
estreita, procurando agarrar os pés de Jerome, que tentava
revidar com chutes. Eu os segui logo atrás, parando apenas
para apanhar minha faca no chão. Em algum ponto mais
acima, em ecos vindos da espiral de pedra, de repente
ouvimos Sophia gritar, como que em meio a uma dor aguda,
e bati por baixo no tornozelo de Thomas.
- Ele ainda está com uma faca nas costas dela - sibilei. - Pelo
amor de Deus, não faça nada precipitado.
A subida era implacável. Em dado momento, julguei ouvir
Sophia exclamar "Eu não posso" e Jerome responder "Confie
em mim", mas as vozes foram abafadas pelos ecos. Minhas
pernas machucadas começaram a tremer ao subirmos cada
vez mais, passando por janelinhas em forma de cruz que
ofereciam vistas dos jardins do castelo e da floresta. Jerome
continuou a forçar Sophia a subir e nós os seguimos, até que
senti uma lufada de ar frio no rosto e compreendi que ele
nos conduzia às próprias ameias da torre. Senti um leve bolo
no estômago ao tentar imaginar o que ele teria em mente e
se nós quatro sairíamos dali vivos.
Saí por um vão baixo de porta, atrás de Thomas, numa
plataforma de uns 3,5 metros de largura, cercada por oito
paredes, recortadas por ameias que batiam na altura do peito
de um homem. Para além delas pude ver a entrada para
carruagens e a trilha de carroças pela qual eu me aproximara
do castelo, os bosques que margeavam o caminho,
espalhando-se lá embaixo por uma ampla extensão como um
dossel verde e, mais adiante, a silhueta das longínquas
montanhas azuladas, ainda envoltas nas brumas das primeiras
luzes do alvorecer. Ali no alto, mais de 30 metros acima do
chão, o vento assoviava em meus ouvidos e cortava o teto da
torre. No lado oposto, mais uma vez Jerome segurava Sophia
à ponta da faca, o cabelo liso açoitando o próprio rosto. Ele
fez sinal para Thomas com os olhos.
- Pois então, venha, Thomas. Você quer salvá-la?
Thomas hesitou por um instante e vi seu corpo enrijecer
enquanto ele ganhava coragem, talvez tentando avaliar a
rapidez com que conseguiria se mexer, comparado a Jerome.
Sophia gemeu baixinho, os olhos vagando desorientados
entre Thomas, eu e o homem cujos braços a envolviam
nesse momento, não pela primeira vez, mas com intenções
muito diferentes. Pelo pavor e confusão de sua expressão,
percebi que ela não sabia se Jerome estava agindo a sério ou
fazendo uma encenação para levar Thomas a cair numa
armadilha. Estendi a mão para conter o estudante, mas, nesse
momento, ele se decidiu e tornou a se lançar contra o ex-
patrão, curvando-se para jogar todo o peso do corpo contra a
cintura de Jerome. Empurrando Sophia para o chão num
gesto rude, o padre tentou acertar Thomas com sua faca, mas
o rapaz se esquivou para o lado no momento crucial e
agarrou o braço que Jerome levantara. Por um momento, os
braços erguidos dos dois homens desenharam um arco,
travados e tremendo com a intensidade dos esforços, a faca
soltando centelhas prateadas ao ser revirada no ar. Então,
num movimento súbito, Thomas acertou uma forte joelhada
na virilha de Jerome. O padre soltou um grito e dobrou o
corpo, perdendo momentaneamente a tensão no braço.
Nessa fração de segundo, Thomas lhe deu uma mordida com
força no pulso, fazendo-o largar a faca. Antes que pudesse
apanhá-la, entretanto, Jerome o agarrou pelo cabelo,
empurrou sua cabeça para trás e lhe desferiu um soco no
rosto. Thomas tentou revidar, o sangue escorrendo pelo
nariz, mas o padre tornou a lhe acertar um murro forte,
dessa vez no queixo, e Thomas cambaleou para trás,
perigosamente próximo do parapeito.
Sophia se esquivara para a proteção da parede. Eu me agachei
a seu lado e fiz sinal para a escada, mas ela fez que não com a
cabeça, os olhos vidrados de medo e ainda cravados na luta
de vida ou morte diante de nós. Devagar, para não chamar
atenção, estendi a mão até alcançar a faca caída de Jerome,
sempre com os olhos voltados para os homens em combate.
Thomas, já então muito machucado e sangrando, reuniu um
último assomo de energia e estendeu a mão para agarrar
Jerome pelo pescoço. O padre, com o rosto crispado de ódio,
soltou o cabelo do rapaz e pôs as duas mãos em seu pescoço.
Os dois oscilaram nessa dança estranhamente íntima,
acertando o passo e fazendo força para avançar, ora um, ora
outro, ambos arfando e sufocando entre dentes cerrados, até
parecer que os dois exalariam o último suspiro no mesmo
instante, tão ferozes e decididos eram seus rostos vermelhos.
Então, Jerome, que era mais pesado e mais forte, conseguiu
forçar Thomas a recuar alguns passos até uma ameia entre os
mourões. O rapaz sentiu a parede nas costas e pareceu
apertar com mais força o pescoço do padre, que jogou para a
frente todo o peso do corpo, empurrando Thomas até deixá-
lo vergado para trás no vão da parede. Por um segundo achei
que os dois despencariam juntos para a morte, mas eis que,
subitamente, Sophia se ergueu de um salto, tirou a faca de
Jerome da minha mão, antes que eu me desse conta do seu
ato, e disparou na direção dos dois. Ela cravou a faca, uma só
vez, na mão direita de Thomas, ainda firmemente cerrada
em torno do pescoço de Jerome.
O rapaz deu um grito e afrouxou involuntariamente a mão.
No mesmo instante, Jerome também soltou o pescoço dele
e, escorando-se no parapeito de tijolos, lhe deu um forte
empurrão no peito. Com um grito angustiante, o rapaz agitou
os braços por um momento, as mãos tentando furiosamente
agarrar o vazio, tombou para trás e desapareceu de vista,
enquanto seu terrível grito derradeiro ecoava cada vez mais
fraco e ele despencava sete andares até o chão. O impacto foi
tão surdo que mal o ouvimos do telhado. Tive vontade de
me debruçar para ver, mas mantive distância do parapeito,
por medo de dar as costas a Jerome. Sophia desabou nos
braços dele, soluçando e tremendo violentamente. Com
delicadeza, ele retirou a faca da mão da jovem e apoiou o
queixo no alto da cabeça dela, respirando com força, em
golfadas arfantes. Olhou para mim, com o rosto esvaziado de
fúria e exibindo apenas um profundo cansaço. Esfregou o
pescoço e o virou de um lado para outro, como que para
diminuir a dor.
- Tinha que acontecer, mais cedo ou mais tarde - comentou,
em voz rouca e quase inaudível. - Thomas acabaria sendo
descoberto e me arrastaria junto com ele para o abismo.
- Nós o matamos - soluçou Sophia, levantando o rosto
banhado em lágrimas do ombro de Jerome. - Ai, meu Deus,
nós o matamos! Pobre Thomas... houve uma época em que
ele foi meu único amigo. Será que algum dia Deus nos per-
doará pelo sangue dele? - exclamou, erguendo os olhos para
o céu, agora cortado por faixas azuis, enquanto as nuvens
mais feias de chuva se afastavam para a linha do horizonte.
- Ele matou dois homens, Sophia - disse o padre, ainda com a
voz rouca e esfregando o pescoço. - Queria me matar.
Lembre que estamos travando uma guerra santa. Matar os
que se opõem ao reino de Deus não é assassinato.
- É isso que ensinam a vocês em Reims? - perguntei, me
recuperando e andando na direção da escada. Agora que
Jerome voltara a pegar sua faca, percebi quão vulnerável eu
estava. Eu não queria ter o mesmo destino que Thomas, mas
estava claro que não poderia contar com Sophia para agir
contra Jerome, e não vislumbrei nenhuma probabilidade de
ele me deixar sair livre dali.
- E quanto a Sophia? - acrescentei. - Seria assassinato mandar
matá-la antes de ela chegar à França? Será que ela está
atrapalhando o reino de Deus?
Jerome deu uma risada repentina, estremecendo quando o
esforço machucou sua garganta sensível.
- O senhor mesmo viu como a mente daquele rapaz estava
perturbada, Dr. Bruno. Depois de sujar as mãos num
homicídio, ele passou a acreditar que o restante do mundo
também era movido por intenções assassinas. Ficou
delirando até o fim.
O padre deu um passo em direção a mim, mas, antes que eu
conseguisse chegar à escada, dei de cara com um corpo. Ao
me virar, vi que a abertura da porta estava bloqueada por
dois criados corpulentos, vestindo o uniforme da família.
Um deles, um homem grande, um bom palmo mais alto que
eu, agarrou meu braço e o torceu nas minhas costas,
provocando ferroadas de dor lancinante em meu ombro.
Dessa vez, não ofereci resistência. Vi que não poderia fugir
dessa situação lutando. A menos que o jesuíta se dispusesse a
demonstrar clemência, eu parecia ter pouquíssima
esperança.

Capítulo 20

VOU LHE PERGUNTAR DE NOVO, Bruno: quem mais sabe que
você está aqui?
Jerome andava em círculos à minha volta, com um olhar de
paciência infinita.
- Ninguém - respondi, com os dentes cerrados.
- Onde estão os papéis que você tirou do meu quarto, os que
Thomas deixou para você encontrar?
Balancei a cabeça.
- Eu os escondi no meu quarto. Ninguém mais sabe que estão
lá.
O padre fez uma expressão carrancuda.
- Ele está mentindo - disse, depois de uma pausa, dirigindo-se
aos criados. - Escutem, não temos muito tempo. Você - fez
sinal para o segundo homem -, vá avisar Lady Eleanor que
espere uma visita dos rastreadores em breve, e peça que ela
mande um cavaleiro veloz a Rowland Jenkes, na rua Catte,
em Oxford. Traga-o aqui o mais depressa possível. Preciso
me assegurar de que Sophia partirá em segurança. O pai já
deve ter colocado seus homens atrás dela neste momento.
Em seguida, preciso retornar a Oxford. Esse homem - e me
apontou com a cabeça - deve ser mantido vivo até Jenkes
chegar. Ele está viajando com a comitiva real, e não deve
haver nada na sua morte que possa ser relacionado a nós,
nenhum de nós. Deve parecer um assalto praticado por
salteadores de estrada, ou algo assim. Mas primeiro Jenkes
precisa falar com ele. Ele ficará contente por reencontrá-lo,
não é, Dr. Bruno?
- Sophia, ele pretende matá-la! - explodi, quando Jerome fez
sinal para que os criados me levassem à força escada abaixo. -
Você pode até acreditar que ele se importa - gritei, em
desespero -, mas você escutou com seus próprios ouvidos:
ele acredita ter a autorização do próprio Deus para eliminar
qualquer um que atrapalhe seus planos! Não vá com ele,
você jamais verá a França. Volte para sua família. Eles
compreenderão, tenho certeza!
O criado deu outro puxão no meu braço, como advertência,
e foi me arrastando de volta na direção da escada.
- Não posso, Bruno! - disse Sophia, com a voz hesitante,
enquanto o criado me empurrava pela porta da escada. -
Agora, nunca mais poderei voltar. Afora a criança, eu me
converti a Roma. Acabaria sendo torturada em alguma prisão
imunda, para delatar meus amigos. O bebê provavelmente
morreria e, se isso acontecesse, eu iria querer morrer.
- Isso não vai acontecer - gritei para o alto da escada, minha
voz ecoando mais acima, enquanto o criado me empurrava
pela nuca. - Eu a ajudaria, tenho amigos...
- Você, Bruno? - perguntou a voz zombeteira de Jerome pela
escada. - Ah, sim, você tem amigos influentes, não duvido.
Mas eles não estão aqui e você não conseguirá falar com eles,
não importa o que já tenha dito.
Quando chegamos ao andar em que a escada se abria para o
enorme salão do portão fortificado, o homem que me
segurava me arrastou para fora e esperou o padre aparecer.
Sophia vinha atrás, com o vestido amarfanhado e o rosto
pálido e cheio de manchas. O breve olhar que me lançou era
tenso de aflição.
- Ele tem que ser amarrado - disse Jerome num tom seco.
Apontou a faca para mim e acrescentou: - Vá buscar corda e
um pedaço de pano para amordaçá-lo. Pode deixá-lo aqui
comigo. Se ele tentar fugir, não irá muito longe.
O criado resmungou e soltou meu braço, embora eu mal
conseguisse desdobrá-lo, por causa da dor. Quando o
homem desapareceu pela porta, Jerome se aproximou,
segurando a faca.
- Venha, Bruno, quero lhe mostrar uma coisa - disse, quase
sorrindo. - Por favor, não torne a situação ainda mais difícil,
tentando fugir agora. Eu teria de machucá-lo e não quero
fazer isso.
Fez sinal para que eu me aproximasse da porta do outro lado,
na torre leste, onde ele e Sophia tinham estado escondidos
ao chegarmos.
Em vez de escada, essa porta levava a um aposento
iluminado por janelas altas em cada uma das seis paredes
externas. Além da porta que conduzia ao imenso salão, havia
mais uma na outra parede interna, ainda mais estreita, que
dava para um pequeno cômodo de pé-direito baixo,
embutido no ponto em que a torre se ligava à ala direita do
castelo. Imaginei que, em alguma época, aquilo deve ter sido
um guarda-roupa ou um lavatório. Agora estava inteiramente
vazio, com suas paredes de tijolos antigos iluminadas por
duas velas em castiçais pendurados e o piso de azulejos. Na
parede do fundo desse cômodo minúsculo havia um nicho,
da altura aproximada de uma porta e de um tamanho que su-
geria ter abrigado um pequeno altar, em outros tempos.
Apoiando-se na parede interna do nicho, Jerome pisou com
força o azulejo mais interno do piso, depois deu um passo
atrás, enquanto um alçapão escondido sob os azulejos se
elevou sem fazer barulho, com o peso perfeitamente apoiado
num eixo de madeira. A tampa era feita de dois sólidos
blocos de carvalho, pregados um no outro, talvez com pouco
mais de 30 centímetros de espessura. Quando estava no
lugar, sua cobertura de azulejos a tornava invisível e,
batendo na superfície, nenhum rastreador ouviria qualquer
som oco vindo de dentro.
- Bem-vindo ao meu lar longe de casa - disse Jerome,
apontando com a faca.
- Pouquíssimos criados sabem da existência deste
esconderijo. Ele foi escavado na própria estrutura do castelo
e foi feito para não ser detectável por nenhum dos lados.
Você verá que é surpreendentemente confortável.
- Obra de mestre Owen? - indaguei.
Jerome me olhou de soslaio:
- Muito bem. Vejo que você aprendeu muitas coisas, Bruno.
A pergunta é: quanto terá passado adiante?
- Não entendo o que você quer dizer - retruquei.
Impaciente, Jerome deu um breve estalo com a língua, mas,
antes que pudesse falar, ouvimos o eco de passos apressados
na escada e o criado corpulento reapareceu com um pedaço
de corda. Meu estômago deu um nó.
- Amarre as mãos dele para a frente - ordenou Jerome,
encostando a faca em meu rosto. - Aperte firme. Este aqui é
capaz de escapulir por um buraquinho de camundongo.
Tudo correrá melhor para você se não resistir, Bruno.
Não demonstrei resistência. Depois dos acontecimentos
daquela noite, já não me restavam forças para resistir. Meu
ombro esquerdo estava tão dilacerado pelos golpes anteriores
do sujeito que mal parecia fazer parte de mim. Estiquei os
braços e, quando meus pulsos foram amarrados pela segunda
vez, a posição me pareceu quase familiar.
- Ande logo, me entregue a corda e saia. Vá ajudar a família a
ocultar qualquer sinal da nossa presença e a se preparar para
os caçadores de padres - disse Jerome ao criado, gesticulando
para apressá-lo. - Eu cuido disso aqui. Sophia, vá falar com
Lady Eleanor. Diga a ela que precisamos que nossos cavalos
sejam aprontados. Vou com você até Abingdon. Tenho
contatos lá que poderão acom- panhá-la até o barco. Você -
disse, virando-se para mim e me cutucando com força entre
as omoplatas para a abertura no nicho vá ali para dentro.
Sophia hesitou, como se não quisesse me deixar à mercê
dele:
- Jerome, não o machuque. Ele foi bondoso comigo.
- Tenho certeza disso - retrucou o padre, o rosto impassível.
Eu me sentei torto na borda da abertura no piso, sem
conseguir me equilibrar por não poder usar as mãos, e fitei
pela última vez o rosto de Sophia, branco feito um lençol,
antes de tatear da melhor maneira que pude, com as mãos
atadas, para me segurar nas ranhuras entalhadas no lintel
acima do porão. Desajeitado, deslizei o corpo para baixo do
piso. Jerome me deu um empurrão que me fez cair
pesadamente sobre o ombro machucado no piso de tijolos da
câmara abaixo. Ele tirou uma das velas da parede e contorceu
o corpo para entrar atrás de mim, ágil como um gato,
protegendo a chama com a mão direita. Trazia uma corda
enrolada no ombro e um pedaço de pano.
À luz trêmula da chama da vela, vi que tínhamos descido
numa cavidade surpreendentemente espaçosa, que parecia
embutida no ângulo em que a parede da ala leste do castelo
se juntava com a torre oriental do portão fortificado. Tinha
altura suficiente para um homem de pé, um banco de
madeira instalado num canto no extremo oposto e, embaixo
dele, um pequeno baú de carvalho envolto em tiras de ferro.
Com certa dificuldade, apoiei as costas na parede e fiz força
para ficar de pé. Jerome pôs a vela no chão e apontou para o
banco. Manquei até lá para me sentar, dando graças pelo
breve repouso, mas já sentindo minha angústia aumentar por
ficar encerrado num espaço tão minúsculo. Minha respiração
foi ficando mais acelerada e mais curta, e tive certeza de que,
se o padre fechasse o alçapão e me deixasse ali sozinho, eu
esqueceria por completo como respirar normalmente. Ele
me fitou com uma expressão que torci para ser de piedade
enquanto corria a corda entre as mãos, como que para
decidir a forma de proceder.
- Você não gosta daqui - observou, notando minhas narinas
se dilatarem e se contraírem enquanto eu tentava manter a
calma. - Também não gosto de ser encerrado aqui, mas tive
que dominar isso. Uma vez, quando houve uma busca na
casa, passei quatro horas aqui - contou e estremeceu ao se
lembrar.
- Imagino que, quando a alternativa é ser estripado, a pessoa
aprenda a suportar.
Jerome confirmou a veracidade do que eu dizia com um
sorriso amarelo, depois se agachou à minha frente, me
encarando com ar sério.
- O que você fez com as cartas, Bruno? Preciso saber. Com
quem mais falou sobre elas?
- Eu já lhe disse: as cartas estão no meu quarto. Quanto a
você, só descobri a sua identidade ontem à noite, e não
estive com ninguém desde então.
- E eu digo que você está mentindo - rebateu ele, se
levantando, impaciente.
- Bem, não faz mal. Jenkes arrancará a verdade de você. Ele é
tão competente quanto alguns homens da rainha nessa arte
macabra da tortura. Você sabia que ele foi mercenário, na
juventude? Não há muita coisa que ele não saiba sobre dor...
sobre infligi-la e suportá-la - completou, com um olhar
significativo para mim, e virou para o outro lado. - Algumas
pessoas tiveram de morrer para que meu segredo ficasse
protegido, Bruno. Se você pôs mais alguém no meu encalço,
meus amigos e eu precisamos ao menos saber onde ficar de
olho.
- Três homens foram mortos embaixo do meu nariz em
Oxford - retruquei.
- Meu único interesse era descobrir o que havia acontecido.
Não vim para cá à procura de padres vivendo na
clandestinidade.
- Não? - disse ele, me lançando um olhar demorado. A vela
iluminou por baixo as maçãs altas do seu rosto, tornando-o
parecido com uma máscara entalhada, cujos contornos se
alteravam à luz dançante da chama. - A Igreja Católica
ameaçou a sua vida. Você não quer se vingar? Não terá
vendido o seu ódio à causa protestante, para trabalhar contra
a Igreja que o perseguiu?
- Não - respondi, simplesmente. - Não odeio ninguém. Só
quero que me deixem em paz para compreender os mistérios
do Universo à minha maneira.
- Deus já nos exibiu os mistérios do Universo, ou tantos
quantos permite que o homem compreenda. Você acha que
seu jeito é melhor?
- Melhor do que essas guerras de dogmas que têm levado as
pessoas a incendiar e retalhar umas às outras por toda a
Europa, durante 50 anos? Sim, acho.
- Então, no que é que você acredita?
Olhei para ele.
- Acredito que, no fim, até os demônios serão perdoados.
- Ah. Tolerância - disse Jerome, pronunciando a palavra
como se tivesse acabado de comer algo podre. - Conciliação.
Sim, há muita gente nos seminários disposta a defender a
mesma ideia, sem compreender que essa tolerância é o
mesmo que dizer que não existe certo ou errado, nem
verdade ou heresia. Felizmente, a minha ordem se opõe
ferrenhamente a todo esse enfraquecimento da religião.
Você sabia, Bruno, que quanto mais violenta é a perseguição
infligida aos católicos e aos padres na Inglaterra, mais nosso
rebanho prospera? A sua tolerância destruiria em 20 dias o
que 20 anos de sofrimento só fizeram fortalecer.
- E assim prossegue o sagrado derramamento de sangue.
Homens e mulheres se atirando de cabeça nos braços do
carrasco. Isso é martírio ou suicídio?
Jerome apenas mostrou um sorriso gentil.
- Sabe como chamamos a Inglaterra na missão? - perguntou,
com uma pausa para enfatizar o que queria dizer. -
"Antecâmara da morte." Nunca tive a menor dúvida de
como isso acabará para mim, mas primeiro há uma lavoura
de almas a ser colhida. Talvez a sua entre elas, Bruno.
Ele meteu a mão na camisa e tirou uma corrente de prata
com uma chave pequena, se ajoelhou a meus pés e estendeu
as mãos por baixo do banco, a fim de puxar o baú de
madeira. Abrindo o cadeado, retirou dois pequenos frascos
com os santos óleos e se acocorou, apoiado nos calcanhares,
olhando atentamente para mim.
- Preciso deixar uma coisa clara - disse, levantando um dos
frascos para que eu pudesse vê-lo. - Você vai morrer.
Independentemente do que tenha ou não dito, tudo o que
você viu nesta última noite o transforma num perigo para a
obra do Senhor aqui. Mas eu não o deixaria sem consolo nos
seus momentos finais, Bruno - acrescentou e me estendeu a
mão. - Confesse, arrependa-se da sua heresia, reconcilie-se
com a Igreja na sua hora final, e eu, como jesuíta, poderei
lhe dar o sacramento da absolvição.
Percebi a sinceridade em seu rosto e, a despeito de mim
mesmo, ri.
- Você, padre Jerome, você me absolveria? Você, que gera
um filho e se dispõe a matar a mãe dele e mais dois homens,
para proteger a santidade da sua reputação, você tem a
pretensão de absolver a mim? Minha heresia consistiu em ler
meia dúzia de livros de astronomia e filosofia. Se você tiver
razão, e se Deus pesar nossos pecados na balança no dia do
Juízo Final, de quem você acha que serão os pecados com
um peso maior?
Jerome baixou os olhos por um momento antes de tornar a
enfrentar os meus com uma expressão de desafio:
- Quando Lúcifer tentou Cristo no deserto, porventura O
tentou com mulheres, com os pecados da carne? Não.
Tentou-O com o pecado do orgulho. Desafiou Cristo a
provar que era igual a Deus. Eu pequei, mas os meus foram
pecados da carne, que a carne expia com duras penitências.
Já você, na arrogância do seu intelecto, tem a pretensão de
refazer a estrutura do Universo, de arrancar a Terra do
centro da criação divina, onde a Palavra de Deus e todos os
ensinamentos dos Santos Padres a colocaram! É você o
verdadeiro herdeiro dos anjos rebelados, Bruno.
- Prefiro essa linhagem à de Caim - retruquei. - Mesmo que
eu quisesse me reconciliar com a Igreja, não receberia minha
absolvição de um homem como você.
- Como quiser - disse ele, dando de ombros e guardando os
santos óleos no baú. Depois de trancá-lo, tornou a pôr a
chave dentro da camisa e se levantou para me olhar, com as
mãos nos quadris. - É estranho que eu o admire, Bruno.
Sinto uma curiosa afinidade por você. Em outras épocas, eu
teria gostado muito da oportunidade de travarmos um
debate. Minha formação é voltada, acima de tudo, para a
discussão erudita, e você seria um adversário digno.
Ele deu um sorriso tristonho e continuou:
- Creio que você e eu somos parecidos, embora estejamos em
lados diferentes do grande divisor. A despeito de todo o seu
discurso sobre a tolerância, você é tão pouco disposto a fazer
concessões quanto eu. Assim como eu, suportou agruras
terríveis por causa das suas convicções e caminha para a
morte com uma atitude de desafio, tal como eu farei, quando
chegar o momento. Não posso deixar de respeitá-lo por isso.
Gostaria que você tivesse sido um dos nossos.
- Nesse caso, dentro do espírito de afinidade, vou lhe pedir
uma coisa, padre, no lugar da minha absolvição - apressei-me
a dizer. Ele me olhou com ar intrigado e eu prossegui: -
Deixe Sophia voltar para casa. Não leve adiante o que você
planejou. Salve ao menos uma vida inocente.
Jerome deu um suspiro, com um imenso tremor que pareceu
sacudir todo o seu corpo.
- Você não compreendeu, não é, Bruno? Ela não tem casa.
Agora não há nada para ela em Oxford. Sophia será
desprezada pela família por ter se convertido à antiga religião
e rejeitada pelos católicos como uma mulher decaída.
- Ela é católica e desonrada por sua causa - retruquei entre
dentes, lutando para ficar de pé, embora houvesse pouco que
pudesse fazer além de gesticular com as mãos atadas. - É
correto ela morrer, para que você possa se livrar? Os pecados
dela são os seus pecados, padre.
- Você acha que não sei disso?
De repente, ele segurou meus pulsos e pôs o rosto junto ao
meu, e vi pela primeira vez o turbilhão de emoções por
baixo da calma profissional.
- Você não parece sentir muito remorso - comentei.
- Remorso? - repetiu Jerome. Ele me olhou fixo e soltou
minhas mãos, dando uma estranha risada de desespero. - Ah,
eu posso lhe mostrar o remorso, Bruno - disse e começou a
desamarrar a sobreveste. Tornei a me sentar no banco,
vendo-o abrir a bela camisa de seda e revelar um cilício de
pelo de animal, áspero e preto. Ele o desatou no pescoço e o
baixou com cuidado pelos ombros, encolhendo-se, sem
emitir um único som.
- Aqui está o meu remorso - disse e virou de costas para
mim.
Olhei por um momento para suas costas largas e nuas, para a
massa confusa de carne dilacerada e ensanguentada. Alguns
ferimentos ainda estavam em carne viva e deles brotava
líquido, nos pontos em que os ganchos de metal do chicote
haviam arrancado grandes nacos de pele, enquanto outros
iam cicatrizando sobre feridas mais antigas. Em minhas
viagens pela Itália, eu vira penitentes muitas vezes, porém
tornei a me assombrar com a ideia de que um ser vivo
pudesse infligir tamanha crueldade contra o próprio corpo
em nome da expiação dos pecados. Respirei fundo e desviei
os olhos, mas ele fez meia-volta para me encarar mais uma
vez. Algo se rompera em Jerome, cujos olhos brilhavam de
fúria e de lágrimas.
- Basta isso de remorso para você? Acha que não a amei?
Você sabe quão dilacerada ficou minha alma por eu ter de
escolher entre os votos que fiz e o que senti por ela?
- Se você a ama, não a sacrifique - disse eu, baixinho.
- Pelo amor de Deus, Bruno, não vou sacrificá-la! - exclamou
o padre, passando as mãos pelo cabelo. - Ela estará a salvo na
França.
- Acho que você está mentindo.
Jerome respirou fundo, controlando as emoções turbulentas,
depois fixou em mim um olhar severo.
- Nesse caso, estamos quites.
Tornou a vestir o cilício, trincando os dentes com força ao
senti-lo em contato com a pele destroçada, depois abotoou a
camisa e encolheu os ombros para vestir a sobrecasaca,
sempre me observando. Por fim, se curvou para apanhar no
chão o pedaço de corda com o qual amarrou meus
tornozelos, não de forma dolorosa, mas com firmeza.
- Adeus, Bruno - disse, levantando-se e me olhando com ar
tristonho, antes de apagar das faces com um gesto brusco
qualquer vestígio das lágrimas. - Lamento sinceramente que
termine assim. Rezo para que Deus entre em sua alma nestes
momentos finais.
Pegou o pedaço de pano que trouxera e se aproximou para
amarrá-lo sobre a minha boca.
- O alçapão não abre por dentro - avisou. - E as paredes são
tão grossas que ninguém o ouvirá gritar, mas, pelo sim, pelo
não...
- Jerome, espere - pedi, erguendo as mãos quando ele
levantou o pano.
- Sim? - disse ele, de olhos arregalados, numa ânsia quase
comovente, talvez na esperança de que eu tivesse mudado
de ideia sobre mostrar meu arrependimento.
- Deixe a vela comigo - murmurei, ouvindo o tremor na
minha voz.
Ele acenou com a cabeça uma vez, prendeu bem o pano em
minha boca, virou as costas e voltou para a abertura que
levava ao pequeno guarda-roupa. Vi suas belas botas de
couro desaparecerem no quadrado de luz do dia, antes que a
tampa se encaixasse no lugar com pouco mais de um clique,
e fui deixado a sós, emparedado no muro do castelo, sem
poder me mexer nem falar, com a sensação de ter sido
enterrado vivo.
A última lembrança que tenho é de haver pensado que seria
um alívio ver qualquer pessoa, até mesmo Jenkes, enquanto
lutava contra a sensação de que meu peito estava inchando a
ponto de explodir - com a respiração presa sob a caixa
torácica assim como eu próprio estava preso naquele
esconderijo de padres. A pouca visão que a vela me oferecia
foi se embotando e oscilando, ao mesmo tempo que perdi
toda a sensação nas mãos e nos pés, e um aturdimento
estranho e bem-vindo, quase como se eu estivesse embaixo
d agua, me transportou pela luz bruxuleante para a escuridão.

Capítulo 21

RECOBREI ABRUPTAMENTE OS SENTIDOS ao bater de lado com
força no piso de tijolos. Fazia muito tempo que a vela se
apagara, mas um vago quadrado de luz entrava pelo alçapão
aberto. Pisquei os olhos com força, mas só consegui
discernir sombras contra a escuridão. Um par de braços
fortes me levantou de qualquer jeito até a abertura, onde
outras mãos me seguraram pelas axilas e me suspenderam
para o guarda-roupa. Zonzo e semiconsciente, apertei os
olhos e tentei abri-los, esperando dar com o olhar triunfante
de Rowland Jenkes, mas o homem que me puxara do
esconderijo usava uma espécie de uniforme militar que não
reconheci. Ele me empurrou de um jeito rude pela escada
até o vasto salão, agora vivamente iluminado pelo sol a pino.
Tropecei e caí de joelhos aos pés de um homem baixo,
louro, com cara de raposa, barba pontuda, bem aparada, e
bigode largo, que usava uma sobreveste verde. Ele coçou a
barba, me olhou com satisfação por um instante e balançou a
cabeça. Em seguida desembainhou a adaga e a encostou no
meu rosto. Tentei afastar a cabeça, gritando em vão na
mordaça de pano, mas o soldado enfiou habilmente a ponta
da adaga por trás do tecido e o cortou, tirando os pedaços da
minha boca.
- E ele, senhor - disse outra voz. Levantei os olhos e vi o
guarda que me dera passagem no portão leste de Oxford,
ainda vestindo seu uniforme de sentinela.
- Pois bem - disse o sujeito com cara de raposa -, onde está o
seu cúmplice?
Olhei para ele sem entender.
- Responda, seu cão papista! - disse ele, me acertando um
tremendo pontapé no estômago.
- Não compreendo - comentei ofegante, usando o pouco
fôlego que tinha recuperado.
- O que foi que disse? - perguntou o homem com cara de
raposa, dando um passo à frente subitamente interessado, se
agachando e nivelando o rosto com o meu. - Fale de novo
no inglês da rainha, seu merda asqueroso.
- Não tenho nenhum cúmplice - consegui murmurar.
- Que sotaque é esse?
- Sou italiano. Mas eu...
- Era o que eu pensava. Enviado pelos jesuítas de Roma, sem
dúvida. Bem, agora nós descobrimos seu esconderijo, padre.
Parece que nem todos os criados de Lady Tolling são tão
leais quanto ela esperaria. Você sabe quem eu sou?
- Não, mas eu não sou jesuíta... - comecei, porém o homem
ergueu a mão e me deu uma sonora bofetada no rosto.
- Silêncio! Você terá bastante tempo para fazer sua defesa
depois, quando tiver dito onde podemos encontrar seu
amigo. Sou mestre John Newell, o rastreador de Oxfordshire.
Diga seu nome e não nos faça perder tempo com um dos
seus codinomes. Nós lhe arrancaremos a verdade, mais cedo
ou mais tarde.
Apesar de meu rosto estar ardendo, fui inundado por uma
onda de alívio. O homem era execrável, mas, naquele
momento, eu seria capaz de atirar os braços em volta dele e
beijá-lo. Sua presença ali, com homens armados, só podia
significar que minha mensagem tinha chegado a Sidney e
que ele havia alertado as autoridades - embora, a julgar pelas
palavras do rastreador, eles houvessem chegado tarde demais
para impedir que Jerome e Sophia se fossem.
- Sou o Dr. Giordano Bruno, de Nola - declarei, tentando
erguer o corpo e recuperar a dignidade. - Sou hóspede da
Universidade de Oxford, em viagem com a comitiva real.
- Você está mentindo - disse o homem, friamente. - Você é
um dos padres de Lady Tolling. Mas onde está o outro? O
criado que nós convencemos a falar disse que havia um
inglês alto e louro. Onde ele se escondeu?
- Ele foi, fugiu - respondi, na pressa, atropelando as palavras.
- Ele está viajando com uma jovem, Sophia Underhill, a
caminho do litoral. Os dois vão embarcar num navio para a
França e ela será assassinada. Andem depressa, vocês
precisam detê-los!
O caça-padres deu uma risada desagradável:
- Não é preciso muito para fazê-lo soltar o verbo, hein,
jesuíta? - disse ele, zombando de mim. - Você vai ser
brincadeira de criança para os meus homens. É essa a
lealdade que os papistas têm uns com os outros, para vocês
verem - acrescentou, levantando os olhos, e os homens
parados em volta deram risadas bajuladoras.
- Não sou jesuíta - insisti. - Onde está Sidney? Ele lhe dirá
quem eu sou... me deixe falar com Sidney.
- Quem é Sidney? - indagou o rastreador.
- Sir Philip Sidney, sobrinho do conde de Leicester -
respondi, sentindo minha confiança vacilar. - Não foi ele
que o mandou para cá, seguindo instruções minhas? Ele não
está com vocês?
- Sir Philip Sidney? - repetiu o rastreador, parecendo achar a
ideia imensamente divertida. - Ora, viva! E devemos esperar
que Sua Majestade em pessoa chegue a qualquer momento,
para intervir por você? Não, meu amigo romanista, não fui
chamado por Sir Philip Sidney nem por ninguém tão
majestoso, mas por Mestre Walter Slythurst, do Colégio
Lincoln, que tinha razão para crer que um papista notório e
assassino estava fugindo da cidade de Oxford em direção a
Great Hazeley, muito provavelmente em busca de proteção.
- Ah, meu Deus, Slythurst! - resmunguei, afundando o rosto
nas mãos ainda atadas. - Ele entendeu tudo errado, o senhor
precisa acreditar em mim! Não sou assassino nem papista.
Moro com o embaixador francês em Londres, pelo amor de
Deus! Eu estava tentando salvar Sophia quando o verdadeiro
padre me jogou naquele esconderijo.
- Ele está amarrado, senhor - assinalou, meio nervoso, o
jovem soldado que me arrastara para fora do esconderijo.
- Como é? - rebateu Newell, irritado, se virando para ele.
- Ele estava com os pés e as mãos atados lá dentro, e
amordaçado - respondeu o rapaz, já com a voz hesitante. -
Só que... por que ele faria uma coisa dessas a si mesmo?
- Eles têm toda sorte de artifícios com que você jamais
sonharia - disse Newell, comprimindo os lábios. E se virou
para mim novamente: - Você pode apresentar sua defesa na
sessão do Tribunal, quando chegar o momento. Uma
temporada na cadeia Castle deve clarear suas idéias.
Enquanto isso, pode ir me dizendo o que sabe sobre Sophia
Underhill. O pai dela alertou a guarda ontem, dizendo que
ela fora sequestrada. Foram os papistas que fizeram isso?
- Eles estão a caminho da costa – arquejei, mas primeiro iam
a Abingdon. Cada minuto que vocês perdem aqui dá mais
vantagem a ele. O senhor precisa mandar seus homens atrás
deles na estrada.
- Não venha me dizer como comandar meus homens, seu
patife - berrou no meu rosto. Então fez sinal para o soldado:
- Prenda este homem pelo assassinato de dois respeitados
docentes e um estudante do Colégio Lincoln, e por suspeita
de atirar um rapaz da torre do portão fortificado.
Quando abri a boca para protestar, ele acrescentou:
- E por suspeita de haver entrado neste país com a intenção
traiçoeira de seduzir os súditos da rainha para a Igreja de
Roma, e por se intrometer em assuntos de Estado.
- Não! Eu lhe imploro, mande chamar Sir Philip Sidney no
Colégio Christ Church. Ele lhe dirá que sou inocente! -
gritei, enquanto o jovem soldado desamarrava meus
tornozelos, me segurava pelo cotovelo e me punha de pé.
- Ah, sim, e por furtar um cavalo - acrescentou Newell, com
um prazer maldoso. - Encontramos um animal de alta
qualidade, usando arreios com as cores da realeza, amarrado
na floresta junto à trilha das carroças.
- O cavalo é meu, foi emprestado a mim pela estrebaria real
de Windsor.
- É mesmo? - ironizou ele, torcendo os bigodes num
divertimento cruel.
- Eu me pergunto se Sua Majestade também lhe terá
emprestado sua melhor carruagem. Chega dessa tolice.
Ele se retirou pela enorme câmara acima do portão
fortificado. Já na escada da torre oeste, parou e se virou:
- Sir Philip Sidney que vá pagar sua soltura da prisão Castle,
se for realmente seu amigo - disse, como se isso pouco lhe
importasse, e se dirigiu ao soldado:
- Leve este homem para o pátio. Ele será conduzido de volta
a Oxford conosco. Mande que alguns de seus homens
fiquem aqui para separar os criados entre os que estão e os
que não estão dispostos a falar.
O soldado assentiu com a cabeça e me empurrou para a
escada em espiral. Enquanto eu me esforçava para manter o
equilíbrio na escada estreita, dessa vez descendo para o
pátio, tentei observar minha situação pelo lado mais otimista.
Ela parecia sombria, mas, com certeza, Sidney ou o diretor
Underhill poderiam ser chamados para afiançar minha
honradez. Então me lembrei do embrulho com as cartas e da
advertência de Bernard, quando cheguei a Oxford, sobre
nenhum homem ser o que parecia. Eu havia confiado em
Cobbett, mas e se ele fosse mais um simpatizante dos
católicos? Se o porteiro tivesse destruído o maço de cartas
trocadas entre Edmund Allen e Jerome Gilbert, não haveria
provas concretas para condenar o padre, apenas minha
palavra contra a dele. Aos olhos de muitos, minha
nacionalidade e antiga religião bastariam para me condenar,
como me haviam relembrado várias vezes desde minha
chegada a Oxford. E porventura Underhill não acharia
conveniente deixar que eu arcasse com a culpa, em vez de
reconhecer a presença de um jesuíta bem embaixo do seu
nariz, durante mais de um ano? Àquela altura, Sidney era
minha única esperança, mas, se não tivesse recebido meu
recado, não faria ideia de onde me encontrar, o que
provavelmente só aconteceria muito depois de eu ser atirado
numa cadeia fétida. Olhando pelo lado positivo, disse eu a
mim mesmo, enquanto era empurrado feito uma trouxa pelo
arco do portão fortificado para a luminosidade ofuscante do
pátio, se Jenkes houvesse chegado a mim antes do
rastreador, com certeza, a essa hora, eu estaria caído numa
vala à beira da estrada, com a garganta cortada, de modo que
ainda havia esperança.
O sol estava alto, eventualmente coberto por nuvens
desgarradas. No pátio, pequenos grupos de criados se
juntavam, nervosos, murmurando entre si e observando os
acontecimentos, cada grupo vigiado por dois ou mais
homens armados. Corri os olhos em volta, reconhecendo o
homem corpulento que me fizera descer da torre, mas ele
desviou o rosto depressa e eu me perguntei se teria sido ele
que apontara o esconderijo ao rastreador, para começo de
conversa. Se algum dos criados sabia que o caçador de padres
estava com o homem errado, não se dispunha a falar. Era
presumível que todos fossem leais a padre Jerome e ficassem
satisfeitos por me ver preso no lugar dele.
Fui colocado diante de uma pedra de montar e me ajudaram
a subir num cavalo pardo, ainda com as mãos atadas à frente
do corpo. A falta de sono e alimento e os vários ferimentos
sofridos durante a noite começavam a me afetar duramente.
Minha cabeça parecia carregada de chumbo e eu mal
conseguia manter o corpo ereto. John Newell notou como
eu me inclinava para a frente e me golpeou com o cabo da
espada na barriga.
- Devo mandar fazer uma placa para pendurar no seu
pescoço, seu filho de uma cadela italiana? - perguntou,
estreitando os olhos para mim à luz do sol. - Com os dizeres
"Jesuíta Sedicioso", como a usada por Edmund Campion no
cortejo na sua volta a Londres? Trate de fazê-lo sentar
direito! - exclamou para o soldado que segurava as rédeas do
cavalo. - Senão ele vai cair antes de alcançarmos o fim da
alameda das carruagens e jamais o faremos chegar a Oxford.
- Pode ser que ele precise beber alguma coisa para ficar
acordado, senhor. Ele está parecendo meio sedento -
arriscou-se a dizer o soldado, para quem acenei com a
cabeça, agradecido. Estava claro que o rapaz tinha mais
compaixão do que a maioria.
- Beber alguma coisa? - repetiu Newell, olhando para o
homem como se ele tivesse acabado de sugerir que me
oferecessem músicos e cortesãs. - Entendo... Será que devo
mandar trazer o que houver de melhor nas adegas de
Hazeley para nosso querido convidado? E o que mais?
Devemos mandar assar um ganso para ele? Cuide das suas
tarefas, soldado, e não venha me dizer o que fazer.
O soldado baixou os olhos, humilhado, atrevendo-se a me
lançar um rápido olhar de desculpas. Movi os lábios
ressecados num "obrigado" mudo, dirigido a ele, quando
Newell virou de costas para montar seu cavalo. O rastreador
tinha acabado de fazer o animal dar meia-volta, para
conduzir o cortejo que aparentemente me levaria em desfile
triunfal de volta a Oxford, quando o silêncio foi rompido por
um tropel frenético de cascos. Ao erguer os olhos, vi ao
longe, no alto da alameda das carruagens, dois cavaleiros que
conduziam um grupo de uns 30 homens armados, com
uniformes diferentes daqueles já reunidos no pátio. Confesso
ter ficado atônito com o fato de eles julgarem precisar de
tantos reforços para dominar dois padres, mas então vi o
rastreador do condado se virar para o comandante do seu
grupo de homens com ar de consternação. Ficou claro que
ele não esperava por isso.
Só quando o cavaleiro principal fez sua montaria galopar até
Newell, puxando as rédeas de um modo que fez o animal
relinchar e espalhar as pedras, foi que compreendi
plenamente o que estava acontecendo, e meu coração deu
um salto.
- O que foi, em nome de Cristo, que você fez com meu
amigo, seu ignorante? - gritou Sidney, pulando do cavalo e
correndo até mim com a espada desembainhada. - Juro por
Deus que vou açoitar com minhas próprias mãos o homem
que fez isso! Desamarre-o, soldado - berrou para o homem
que segurava meu cavalo e que, no mesmo instante, tratou
de obedecer. Achei que Newell fosse se opor, mas, ao olhá-
lo de relance, vi que ele fitava o outro cavaleiro, o compa-
nheiro de Sidney, com uma mescla de ressentimento e
respeito.
- Senhor xerife - resmungou Newell, tirando o chapéu -,
capturei um jesuíta perigoso, proveniente da Itália,
determinado a disseminar o cancro do papismo e a
corromper os leais súditos de Sua Majestade.
- Receio que não tenha feito isso, Sr. Newell - contrapôs
calmamente o homem que era a autoridade suprema do
condado. Usava um chapéu largo com uma pluma e sua
barba começava a ficar grisalha. Na sobreveste carmesim se
destacava um brasão bordado. Ele tinha olhos bondosos e
um porte que impunha respeito. - Esse homem é um filósofo
renomado e amigo de Sir Philip Sidney. O senhor deixou o
verdadeiro padre escapar.
- Senhor xerife... - disse Newell com a voz esganiçada, mas o
outro fez um aceno com a mão.
- Não importa. Meus homens já foram atrás dele, graças a Sir
Philip e ao nosso amigo italiano aqui. O verdadeiro padre
não irá longe.
Sidney estendeu os braços e me ajudou a descer do cavalo.
Esfreguei os pulsos um no outro, quase sem conseguir mexer
as mãos. Ele pôs um de meus braços sobre seu ombro e me
levou até seu companheiro, sustentando meu peso com o
braço em minha cintura.
- Sir Henry Livesey, xerife de Oxfordshire - anunciou, com
um gesto para o homem a cavalo permita-me apresentar o
Dr. Giordano Bruno, de Nola... infelizmente, não em suas
melhores condições.
Tentei fazer uma reverência, ainda pendurado no pescoço de
Sidney, e o homem montado sorriu.
- Eu... eu tinha motivos para crer que Lady Tolling estava
abrigando um padre jesuíta - gaguejou Newell, às pressas,
com um olhar ansioso para seus superiores. - Eu o encontrei
num buraco de padres... e ele é italiano - acrescentou, com
ar defensivo.
- O Santo Ofício odeia este homem quase tanto quanto odeia
Sua Majestade
- informou Sidney, com um olhar fulminante para Newell. -
Não é verdade, Bruno? - e me deu um tapa afetuoso no
ombro machucado, o que me fez gritar de dor. - Desculpe! -
disse ele, esfregando o local com o mesmo vigor, mas de um
modo que supus ter a intenção de me consolar. - Por Cristo
ressuscitado, Bruno, você está um caco! Precisamos mandar
alguém examinar isso - concluiu, me conduzindo a seu
cavalo, me suspendendo na sela e subindo ele mesmo à
minha frente, para segurar as rédeas.
- Deixarei meus homens aqui para ajudá-lo, Newell -
ordenou o xerife, descendo de sua montaria e fazendo sinal
para que o comandante de sua tropa se aproximasse. - Quero
que todos os criados sejam interrogados. Eu mesmo falarei
com Lady Tolling. Tenha a bondade de me levar até ela. Sir
Philip - acrescentou, virando-se para nós com uma breve
reverência cinco de meus homens vão acompanhar o senhor
e o Dr. Bruno no retorno a Oxford. Lamento muitíssimo -
disse ainda, dirigindo-se a mim - que o senhor tenha sido tão
maltratado nas mãos do rastreador do condado. Queira
aceitar minhas desculpas e esteja certo de que ele será
punido.
Newell empalideceu. Mal consegui erguer o corpo e oferecer
mais que um aceno de cabeça, em agradecimento à Sir
Henry. Sidney virou o cavalo e eu me segurei firme em suas
costas, enquanto subíamos a alameda das carruagens,
seguidos a uma distância discreta por cinco cavaleiros
armados do xerife.
- Você se portou bem, Bruno - comentou Sidney em voz
baixa, virando-se para mim. - Arriscou sua vida para
identificar e encontrar um assassino e um padre, sem se
revelar. O mérito pelas detenções caberá ao xerife, mas
Walsingham será informado de que elas se deveram à sua
tenacidade.
- Eu tinha perdido a esperança de revê-lo - resmunguei para
suas costas, enquanto ele instigava o cavalo a um trote ligeiro
e eu sentia uma onda repentina de exaustão me invadir. -
Achei que meu recado não tinha chegado até você.
- Um ajudante de cozinha do Lincoln levou seu embrulho
uma hora antes do alvorecer - retrucou ele - e parece ter
esmurrado o portão do Christ Church como se fossem os
portões do inferno. Ele disse ao porteiro que era urgente e
lutou com unhas e dentes para falar comigo, segundo me
informaram, mas o encarregado se recusou a acordar o
decano antes do amanhecer, e o decano não permitiu que eu
fosse acordado antes do ofício matutino. Aqueles dois idio-
tas! Foi por isso que demorei. O garoto, justiça seja feita, não
se afastou de seu embrulho por um único momento, a não
ser para colocá-lo nas minhas mãos, por mais que o decano
tentasse persuadi-lo. Assim que vi o que havia dentro,
compreendi que você corria sério perigo e fiz o decano
acordar o xerife. Não tínhamos ideia de que os homens do
rastreador chegariam antes de nós.
- Slythurst os mandou atrás de mim - expliquei, sem
conseguir eliminar o ressentimento da voz. - Ele estava
decidido a apanhar aquelas cartas.
- Eu diria que ele deve ser um informante inferior tentando
provar o seu valor. Walsingham manda espalhá-los por toda
a universidade, embora não costume informar seus homens
da existência uns dos outros. Acha que isso os mantém em
estado de alerta.
- Onde estão as cartas agora? - perguntei, mantendo a voz
baixa.
- Seguindo em segurança para Londres, nas mãos do
mensageiro de maior confiança do decano. Lá elas serão
decodificadas e usadas como provas no julgamento. Mas,
pelo pouco que pude ler, serão suficientes para que Jerome
Gilbert seja enforcado como traidor.
Sidney fez uma pausa, tirou o cavalo da trilha das carroças e
voltou para a estrada que levava à cidade.
- É provável que o procurador geral use isso em nosso
benefício, acrescentando quatro acusações de homicídio.
Será um lembrete útil para o povo sobre a desumanidade dos
jesuítas.
- Mas foi Thomas Allen quem matou os três homens do
Lincoln - protestei. - Ele confessou.
- Bem, ele não pode confessar agora, não é? E essa versão
teria muito menos impacto popular do que se a culpa fosse
atribuída ao padre católico - disse Sidney. - Jerome Gilbert.
Ele é o filho mais novo de uma rica família de Suffolk. Foi o
irmão dele, George, quem financiou toda a missão de
Edmund Campion. Ele fugiu para a França quando Campion
foi executado e Jerome deve ter ido junto - acrescentou
Sidney, balançando a cabeça com raiva. - Eles deviam ter
sido vigiados mais de perto.
- Você acha que vão capturá-lo?
- O xerife já deu o alarme contra eles em todas as estradas
que saem de Oxford. Eles não irão longe.
- E Sophia? - murmurei, ansioso.
- Será detida com ele - disse Sidney, sem a menor
preocupação. - O resto dependerá dela. Se professar
fidelidade ao padre, é provável que seja levada a
interrogatório.
- Torturada? - indaguei, erguendo mais o corpo e me
aproximando do ouvido do meu amigo. - Mas ela está
esperando um filho.
Senti que ele não se importou, dando de ombros.
- Nesse caso, ela pode alegar a gravidez, se a família quiser
comprar sua libertação da cadeia até a criança nascer. Isso
lhe dará tempo para decidir se a lealdade a Gilbert sobrevive
à execução dele. O padre será levado para Londres, para ser
persuadido a contar o que mais souber. Onde você
encontrou as cartas, afinal? - perguntou ele, inclinando-se
com displicência para mim.
Hesitei, sabendo estar prestes a arriscar minha credibilidade
no trabalho que realizava para Walsingham, caso Sophia
insistisse em dizer a verdade. Mas a ideia de ela sofrer
torturas como as que ele havia detalhado me fez sentir que
eu não tinha escolha.
- Foi Sophia que me entregou - respondi, ouvindo o som oco
de falsidade na minha voz. Eu me perguntei se Sidney
também o teria notado, porque senti seus ombros
enrijecerem sob minhas mãos.
- Sophia? É mesmo? Quer dizer que ela traiu o padre,
voluntariamente?
- É. Descobriu que ele planejava fazê-la sofrer um acidente
na travessia para a França. E pediu minha ajuda.
Por alguns segundos, o único som audível foi o chapinhar
dos cascos dos cavalos no chão lamacento, acompanhado
pelo tilintar dos cavaleiros armados às nossas costas. Sidney
pareceu ponderar. Passado um momento, inclinou a cabeça
na minha direção:
- É essa a verdade, Bruno?
- Com certeza.
- Então, com esse ato, ela bem pode ter salvado a própria
pele. Mas a situação se mostrará muito constrangedora se a
história dela diferir da sua. Isso é algo em que talvez lhe
convenha pensar, antes de repeti-la para qualquer outra
pessoa.
Sidney deixou a frase no ar, mas o toque de advertência não
me passou despercebido.
- O que acontecerá com Lady Tolling? - perguntei, ansioso
por mudar de assunto antes que ele pudesse me pressionar
mais.
- As propriedades dela serão confiscadas. Ela e os católicos de
sua casa serão detidos. Se estiver disposta a dar informações,
talvez a vida dela seja poupada.
Pensei na mulher alta e elegante que nos recebera com tanta
calma na grandiosa câmara de sua torre fortificada - um
aposento que agora não mais pertenceria a seus herdeiros,
por minha causa. Entre as seis pessoas que tinham estado
presentes naquele cômodo, talvez eu fosse a única a
sobreviver, depois de Lady Tolling, Jerome e Sophia serem
presos e julgados. Só me restava a esperança de que Sophia
tivesse o bom senso, após a prisão de Jerome, de não tentar
provar sua devoção seguindo-o no martírio, porque, nesse
caso, na tentativa de salvá-la, eu a teria levado a uma morte
ainda pior, e Sidney e Walsingham ficariam sabendo que era
muito fácil eu ser levado à compaixão, que minha fidelidade
tendia a ser comprometida por meu coração.
- E quanto a nós? - perguntei, quando a estrada foi ficando
mais firme e Sidney esporeou o cavalo para levá-lo a meio
galope, o que me fez escorregar de banda e me agarrar
aflitivamente aos ombros dele para recobrar o equilíbrio.
- Voltaremos a Londres pelo rio, depois que você tiver
repousado. O palatino está cansado de Oxford, mas eu o
convenci a ficar mais um dia, pelo luxo de regressar de
barco. Depois que Gilbert for preso, não haverá necessidade
de você depor no interrogatório sobre a morte de Roger
Mercer, amanhã. É melhor você manter a discrição: quanto
menos for publicamente associado às situações da descoberta
e detenção de Gilbert, melhor para seu disfarce. Mas fique
tranquilo, meu amigo, você será bem recompensado -
acrescentou, como se essa devesse ser minha grande
preocupação.
Bem recompensado, pensei, avistando as casas dos arredores
de Oxford ao longe. Escapara com vida por um triz, mas
outros não teriam a mesma sorte. Além disso, antes de
chegar a Londres teria que resolver quanto contaria a
Walsingham do que eu sabia. Eu continuava a acreditar que
Jerome Gilbert tinha a intenção de eliminar Sophia como um
obstáculo à sua missão, apesar de suas negativas violentas e
da confiança obstinada que a jovem depositava nele, mas
achava difícil crer que ele representasse um perigo para o
Estado inglês, assim como não acreditava que Lady Eleanor
Tolling, com sua assistência assídua aos padres missionários,
fosse uma traidora de seu país. E, embora eu não lamentasse
ver Jenkes na cadeia, será que também entregaria Humphrey
Pritchard aos torturadores, com sua natureza bonachona e
seu raciocínio lento, ou o circunspecto Mestre Richard
Godwyn? Walsingham tinha me avisado que esse tipo de
escolha fazia parte do trabalho e eu precisava recompensar
sua confiança em mim, se quisesse ter alguma esperança de
obter a proteção da rainha. Jogar politicamente com a vida
alheia era parte do caminho para a promoção social, mas
essa, como eu estava começando a compreender, era a
verdadeira heresia. Agora, a única recompensa que eu
desejava era ver Sophia aproveitar a oportunidade de fuga
que minha mentira lhe ofereceria, em vez de considerar o
martírio um substituto do amor.

Capítulo 22

No DIA SEGUINTE, fui acordado pelo barulho da porta do meu
quarto se fechando, depois que Sidney, usando uma
sobreveste de veludo cor de ameixa, calções curtos e meias
de seda brancas, entrou sem bater, atravessou o cômodo
com um sorriso largo e abriu as cortinas com um floreio,
deixando entrar em plena força o sol primaveril do meio-dia.
Após muito insistir, eu o acompanhei na volta ao Colégio
Christ Church, onde agora estava alojado num quarto
revestido de painéis de carvalho, adjacente ao dele, muito
mais luxuoso do que o aposento com que eu me acostumara
no Lincoln. Ali eu tinha uma cama macia, cobertores de lã,
água fresca para minha higiene pessoal e um jarro de cerveja
fraca junto à cama, embora mal tivesse aproveitado a oportu-
nidade de apreciar esse relativo conforto, pois não fizera
nada além de dormir desde nossa volta do Castelo Hazeley,
na véspera.
- E como você está nesta bela tarde, meu amigo aventureiro?
- perguntou Sidney, servindo-se de um copo de cerveja.
Notei que agora usava abertamente uma espada ornamental
na cinta, apesar da proibição absoluta de armas na uni-
versidade. Obviamente, decidira que as circunstâncias
justificavam a quebra de protocolo.
Fiz força para me sentar na cama, sentindo uma pontada
lancinante no ombro ao apoiar o peso do corpo no braço.
- Já é de tarde? Este ombro ainda dói, mas estou me sentindo
descansado, eu acho.
- E deve mesmo, já que dormiu quase um dia inteiro. Você
perdeu tudo o que aconteceu.
- O que houve? - indaguei, aflito, de novo sentindo a pontada
ao tentar me erguer sobre o braço machucado.
- Jerome e Sophia foram capturados logo depois que o
encontramos, ontem, numa casa em Abingdon - disse ele,
tirando uma laranja do bolso e começando a descascá-la com
o polegar -, e Jenkes fugiu. Sua loja foi revistada ontem à
noite, mas não se encontrou nada incriminador, se é que
você consegue acreditar. O aprendiz dele foi levado para
interrogatório, mas só diz que o patrão teve de viajar a
negócios. Aquela víbora nos escapuliu por entre os dedos
desta vez, mas pelo menos não voltará a perturbá-lo em
Oxford.
Ele arrancou uma tira enroscada da casca da laranja e a
deixou cair na mesinha ao lado da minha cama. O perfume
trouxe de volta uma lembrança nítida daquela primeira
manhã no quarto de Roger Mercer, da casca embaixo da es-
crivaninha e do vago aroma nas páginas do almanaque. Teria
sido melhor se eu houvesse deixado aquele livro em paz, se
nunca tivesse sentido o cheiro da fruta em sua capa?
- Sophia e Jerome... onde estão? - indaguei.
- O padre Jerome está a caminho de Londres para um
interrogatório incômodo - respondeu Sidney, parecendo
mais interessado em separar delicadamente um gomo de sua
laranja e estendê-lo a mim. Sua indiferença me causou mal-
estar. - Sophia - prosseguiu ele, pondo um pedaço da fruta na
boca - está sob a supervisão do pai, no momento. Parece que
a soltaram sob fiança - disse, me lançando um olhar
demorado, com uma das sobrancelhas levantada, no que
julguei ser uma cumplicidade reprovadora, antes de lamber
deliberadamente os dedos e se virar para a janela. - Enfim,
vim lhe dizer que há pouco chegou um mensageiro à guarita
do porteiro, enviado pelo diretor Underhill, convidando-o a
visitá-lo em sua residência antes de partir de Oxford.
- Irei imediatamente - disse eu, me levantando da cama com
cuidado, ansioso por falar com Sophia, nem que fosse para
ter certeza de que ela resolvera confirmar minha história
sobre as cartas. O fato de ter sido entregue à custódia do pai
me levava a crer que ela não havia insistido muito em sua
lealdade a Jerome, mas era possível que tivesse
simplesmente alegado sua gravidez. Ela com certeza me
odiara com todas as suas forças, pensei, ao vê-lo levado
embora pelos rastreadores, algemado. Mais do que qualquer
outra coisa, eu queria uma oportunidade de lhe pedir perdão,
de convencê-la de que eu tinha agido para seu próprio bem.
Era muito provável que ela não acreditasse em mim, mas eu
não queria sair de Oxford sem dizer essas coisas.
- Eu vou com você - declarou Sidney, enquanto eu enfiava
os calções e vestia a camisa, com tanta pressa que abotoei
errado e tive de recomeçar. - Jenkes pode não estar à solta,
mas tem amigos que podem muito bem ter sido instruídos a
se certificarem de que você não retorne a Londres para falar.
Até irmos embora, amanhã, você não andará
desacompanhado nem desarmado.
Parei a meio caminho de calçar uma das botas.
- Mas eu gostaria de conversar com o diretor sozinho.
- Não se preocupe, não vou interferir nas suas amáveis
despedidas. Vou ficar jogando conversa fora com o porteiro
enquanto espero.
- Cobbett! - exclamei, me lembrando de que, não fosse sua
corajosa insubordinação para me ajudar, Sidney nunca teria
recebido meu recado e, com certeza, eu estaria morto ou
preso, dependendo de qual dos meus perseguidores me
alcançasse primeiro. Eu me virei para Sidney, em tom de
quem se desculpa: - Receio ter que lhe pedir que me adiante
parte da recompensa prometida por Walsingham. Jenkes
roubou minha bolsa e eu gostaria de agradecer a Cobbett. Foi
ele que mandou o mensageiro e fez você me resgatar, o que
de certa forma pode até ter prejudicado ele próprio.
- Bem, nesse caso, veremos o que a adega do colégio pode
oferecer a um homem de coração tão valente - disse Sidney
com um sorriso, abrindo a porta para mim. - Nunca pensei
que diria isto, Bruno, mas desta vez não vou lamentar deixar
estas torres para trás.
- Nem eu - concordei sinceramente, recordando, com uma
terrível fisgada de melancolia, que um dia sonhara fazer meu
nome em Oxford.

Ao chegarmos ao portão fortificado do Lincoln, carregando
uma garrafa de vinho espanhol que Sidney havia comprado
do adegueiro do Christ Church, não havia sinal do porteiro
na pequena cabine sob a arcada. No lugar dele estava um
homem de rosto fino e cabelo castanho escorrido, que nos
olhou com suspeita, depois baixou os olhos, ao se dar conta
da qualidade das roupas de Sidney.
- Onde está Cobbett? - perguntei, em tom mais brusco do
que o necessário.
O homem deu de ombros, visivelmente insatisfeito com
meu tom:
- Só sei que ele foi suspenso da função. Dizem que vão
aposentá-lo. Quem o senhor veio ver?
- O diretor Underhill. Sou o Dr. Bruno. Ele está à minha
espera.
Sidney me deu um tapinha no ombro, com gentileza
incomum.
- Acho que vou tomar uma bebida na Hospedaria Mitra, na
esquina da High Street. Quando tiver terminado, me
encontre lá. E nem pense em ir mais longe sem mim -
acrescentou, com um olhar de advertência.
O novo porteiro fechou a carranca para mim e fez sinal para
que eu entrasse no pátio.
- O senhor o encontrará na residência dele - disse num
resmungo, dando uma olhada para a garrafa de vinho.
Firmei a garrafa embaixo do braço e comecei a atravessar o
pátio quadrangular. No meio dele me virei para olhar, com
um arrepio, para a janela do aposento da torre e a porta do
que tinha sido o quarto de Gabriel Norris e Thomas Allen.
Adam, o velho criado do diretor, abriu a porta à minha
batida e quase caiu de costas ao me ver, substituindo a
habitual carranca mal-humorada por uma expressão de
franco pavor, os olhos arregalados. Fechou a porta às suas
costas, para que sua voz não fosse ouvida, e saiu para a
passagem.
- Eu posso lhe pagar, senhor - sussurrou, agarrando minha
sobreveste. - Tenho dinheiro que economizei para a velhice.
Não é nenhuma fortuna, mas poderá ser útil para o senhor.
Sabe, foi puro azar o senhor me ver naquela noite, porque
não vou quase nunca àquele lugar, fui só para agradar a um
amigo. Mas, se o senhor tiver que fazer um relatório ou dar
uma lista de nomes, eu lhe imploro que leve todo o dinheiro
que eu tiver no cofre, para que o meu nome não apareça...
- Fique tranquilo, Adam - murmurei de volta, tirando suas
mãos trêmulas da minha roupa e me sentindo estranhamente
insultado. - Seu dinheiro não tem nenhuma serventia para
mim e ninguém me pediu nomes. Mas, se você quer
professar uma religião proibida, ao menos tenha a coragem
de ser fiel a ela. Caso contrário, de que adianta?
Ele me deu um sorriso amarelo de gratidão e abriu a porta
para mim:
- Meu patrão está lá dentro - murmurou, baixando a cabeça.
O diretor estava parado diante da janela que se abria para o
bosque, com as mãos cruzadas nas costas, no amplo salão de
recepção em que tínhamos jantado tão amigavelmente na
minha primeira noite em Oxford. Corri os olhos pela mesa
de jantar vazia, me lembrando de onde Roger Mercer e
James Coverdale haviam se sentado naquela noite e
recordando a risada grave e gutural do subdiretor. Talvez
Underhill também estivesse rememorando, ao contemplar o
jardim em que Mercer havia tido uma morte terrível, poucas
horas depois. Adam fechou a porta atrás de mim com um
clique e se retirou discretamente pela porta para a sala
interna. O diretor não se afastou da janela. Ao falar, per-
maneceu de costas para mim, com a voz monocórdia e
afetada:
- Minha filha quer falar com o senhor na sala ao lado, Dr.
Bruno.
Esperei, porém ele não falou mais nada, e segui o caminho
percorrido por Adam, cruzando a porta para a sala particular
do diretor, onde Sophia e eu um dia conversáramos sobre
magia, no que parecia ter sido outra época, muito tempo
antes.
Agora ela se postava sozinha junto à lareira, com as mãos
apoiadas no espaldar alto de uma das cadeiras de madeira.
Seu cabelo comprido e preto estava recatadamente preso na
nuca, embora algumas mechas encaracoladas tivessem
escapado e caíssem em volta do rosto da moça. Ainda não
havia nada em seu corpo esguio, num vestido cinza-escuro
de corpete liso, que anunciasse seu estado, a não ser, talvez,
o busto mais farto. O rosto, no entanto, parecia afinado, mais
descarnado e ressequido, e os olhos estavam inchados de
cansaço e lágrimas.
- O rastreador nos alcançou numa casa em Abingdon - disse,
sem nenhum preâmbulo, e, embora seu rosto parecesse
frágil, a voz foi límpida e forte como sempre. - Perguntaram
a Jerome quem ele era. Ele respondeu que era um fidalgo e
um cristão. Então, arrancaram sua camisa e viram o cilício. -
Sophia hesitou por um momento, engoliu em seco, respirou
fundo e continuou, sem olhar para mim, novamente com a
voz firme: - Eles o prenderam como traidor, o acorrentaram
e o levaram. Implorei que me levassem com ele, mas fui
trazida de volta a Oxford.
- Eles algemaram você? - perguntei, horrorizado.
- Não. Foram de uma gentileza surpreendente. Mas, por
outro lado, não lhes opus resistência. De lá, fui levada à
prisão Castle - disse, finalmente levantando a cabeça e me
olhando nos olhos, com ar quase desafiador. Depois,
balançou a cabeça e pareceu desabar. - Você não pode
imaginar o que é aquilo, Bruno, se não tiver visto. Ou
cheirado. Ninguém manteria animais naquelas condições.
Eles têm uma sala baixa para as pobres mulheres, com uma
palha imunda no chão, que fede a urina e fezes, e paredes
tão úmidas que nelas crescem fungos, e o frio penetra fundo
nos ossos. Acho que vou sentir aquele frio pelo resto da
vida.
- Eles a puseram nesse lugar? Mas você não avisou da...? -
hesitei e apontei para minha barriga. Ela deu uma risadinha
amarga.
- Sim, eu disse a eles, apesar do prejuízo que isso traria à
minha honra. Jerome me aconselhou a não falar nada, se
fosse presa, exceto meu nome. Mas achei que desse modo
eles poderiam me tratar com mais gentileza. Mas parece que
foi tudo feito para me amedrontar. Fui deixada naquele
buraco por duas horas, entre as loucas e as miseráveis, que se
amontoaram ao meu redor, puxando minha roupa e meu
cabelo, mulheres cobertas de piolhos e chagas, e com aquele
fedor de carne podre e dejetos humanos à minha volta...
A voz dela finalmente ficou embargada e dei um passo em
sua direção, instintivamente, querendo passar o braço por
suas costas, mas ela se empertigou no mesmo instante e me
fuzilou com os olhos. Então, com um sobressalto de culpa,
compreendi que não havia consolo que eu pudesse lhe
oferecer: eu era o inimigo.
- E depois, o que aconteceu? - perguntei, tentando disfarçar
minha manifestação inoportuna de carinho.
- Meu pai chegou - disse ela, sacudindo o cabelo para trás. -
Tinham mandado chamá-lo. Ao que parece, ele fora
informado de que eu tinha sido detida na companhia de um
jesuíta notório, mas também de que eu entregara em segredo
às autoridades alguns documentos condenatórios, o que
sugeria minha lealdade às forças da lei de Sua Majestade,
afinal. Sendo assim, e dada a delicadeza do meu estado -
nesse ponto, ela deu um tapinha na barriga, com um sorriso
sarcástico -, ele estava autorizado a pagar a fiança para que eu
fosse libertada.
- Então... você não os contradisse?
- Presumi que tivesse sido você quem contara a eles a
história das cartas - disse Sophia, baixinho, mas seu tom não
transparecia gratidão nem raiva.
- Você me deu uma oportunidade de escapar, mesmo no
último minuto. E o xerife me fez uma gentileza, acho, ao
insistir que primeiro eu fosse jogada na prisão. Se eu não
tivesse visto aquilo, talvez houvesse teimado em insistir na
verdade, por amor a Jerome. Mas duas horas naquela fossa...
- Ela se interrompeu e estremeceu, levando distraidamente a
mão à barriga, num gesto protetor. - Tive medo, mesmo
naquele breve período, de pegar a febre dos presídios... o ar
era muito úmido, cheio de venenos. E temi pela criança -
acrescentou, falando tão baixo que mal pude discernir as
palavras. - Se o pai dela tem que morrer, pelo menos ela
deve ter uma chance de viver.
- Fico contente - disse eu, em tom emocionado.
- Tenho certeza disso. Não seria bom seus patrões
descobrirem que você mentiu para salvar uma prostituta
católica, não é? Você desempenhou muito bem o seu papel,
Bruno, nunca suspeitei de você. Mas, por outro lado, você
nunca desconfiou de mim, não é? Portanto, talvez não seja
tão inteligente quanto acredita.
- Não espero que você me agradeça - murmurei. - Você tem
todos os motivos para me odiar. Mas só agi assim por me
importar com você. Ele mandaria matá-la, Sophia, na
travessia para a França, eu sei disso.
- Você só diz isso porque foi o que o Thomas enfiou na sua
cabeça. Jerome nunca me machucaria. Ele me ama.
Um soluço obstruiu sua garganta e ela desviou o rosto para
engoli-lo, decidida a não me deixar ver a fraqueza das
lágrimas.
- Ele amava mais a sua missão - retruquei. - Bem, é uma sorte
as nossas teorias contrárias nunca terem sido postas à prova e
você ainda estar viva.
- Sorte? Ah, sim, eu realmente tenho muita sorte - disse ela,
a voz tensa de ressentimento. - Serei banida da minha
família, o homem que eu amo morrerá em meio a dores
atrozes, sem que eu jamais torne a vê-lo, o filho que carrego
no ventre será arrancado de mim antes que eu possa ao
menos lhe dar um nome e, depois disso, serei interrogada
pelas autoridades. Se elas acharem por bem não me
encarcerar, serei mandada para morar com minha tia, talvez
a tempo de me casar com um lavrador ou um taberneiro
analfabeto, se for possível encontrar algum que feche os
olhos para meus pecados. E quem é o autor de toda essa
sorte? Ora, é você, Bruno.
Por um momento, pude ver a raiva arder em seus lindos
olhos cor de âmbar, mas Sophia estava arrasada demais para
sustentar esse sentimento e o brilho feroz logo se desfez.
- Talvez, ao segurar seu filho nos braços, nem que seja por
um momento, você me odeie menos - disse eu, olhando-a
fixo. Ela afastou do rosto uma mecha de cabelo que se soltara
e enfrentou meu olhar.
- Não o odeio, Bruno - disse, cansada. - Odeio o mundo.
Odeio Deus. Odeio a religião e sua maneira de fazer os
homens acreditarem que só eles estão certos.
- Você está parecendo Thomas Allen - comentei, me
arrependendo no mesmo instante, pois a frase soou leviana.
Para minha surpresa, no entanto, ela deu um leve sorriso.
- E nós vimos aonde isso pode levar. Coitado, pobre Thomas.
Não, a vida é curta demais para o ódio.
- Então, a sua religião não sobreviverá ao interrogatório?
Sophia quase soltou uma gargalhada, o rosto
momentaneamente iluminado.
- A minha religião, como você a chama, nunca foi mais que
uma forma de agradar a Jerome. Eu teria cultuado a lua e o
sol e sacrificado um galo ao Diabo à meia-noite, se isso o
fizesse ter mais amor por mim.
- Eu me lembro bem... você pediu minha orientação sobre
isso, certa vez. Mas eu lhe recomendaria que não dissesse
isso, ao ser interrogada.
- Não, Bruno - disse ela, balançando a cabeça. - Não tema por
mim quanto a isso. Quando vi aquela prisão hoje, eu soube,
sem sombra de dúvida, que nunca suportaria passar anos
num lugar daqueles por amor ao papa. Por Jerome, sim, mas
ele não estaria aqui para recebê-lo, não é? E a criança precisa
sobreviver. E tudo o que importa agora.
Sophia se calou e, durante muito tempo, baixou os olhos para
suas mãos cruzadas. Não ousei me mexer. Ela acabou
enfiando uma das mãos num bolso costurado no vestido e
dele tirou um pedaço de papel dobrado. Atravessando a sala
em direção a mim, segurou minha mão direita enfaixada e
nela pôs o papel, retendo minha mão entre as suas por um
instante, enquanto fitava meus olhos atentamente. Apesar de
tudo, meu coração deu urn pulo ingênuo e fui tomado pelo
desejo de envolvê-la em meus braços. A crueldade do
destino que ela descrevera tornou a me lembrar Morgana,
dolorosamente. Eu havia sentenciado uma jovem inteligente
e bela a ser esmagada sob as rodas do decoro, e a injustiça
disso me causou um aperto no coração. Eu ainda me agarrava
à convicção de que salvara a vida de Sophia, mas viveria
eternamente com uma pontinha de dúvida: e se Jerome
Gilbert houvesse realmente pretendido mandá-la para um
lugar seguro na França? Eu jamais teria plena certeza, nem
ela. Essa dúvida nos unia e me trouxe um sentimento
opressivo de responsabilidade por ela. Se houvesse algo que
eu pudesse fazer para ajudá-la agora, decidi que não a
desapontaria de novo.
- Escreva para mim - cochichou ela, com uma espiada
nervosa para a porta, com medo de que o pai a entreouvisse.
- Por favor, me conte como ele morreu, o que disse na forca.
É só isso que quero. Esse é o endereço da minha tia em
Kent. Serei levada para lá amanhã e acho que nunca mais
retornarei a Oxford.
- Seu pai certamente não a baniria para sempre, não é?
Sophia balançou a cabeça, comprimindo os lábios.
- Você não conhece meu pai. Se você puder fazer só isso...
Deixou a frase morrer e apertou de leve minha mão. Tentei
não estremecer.
- Eu escreverei.
- Obrigada, Bruno - disse ela. Seus grandes olhos vasculharam
os meus, como se buscassem alguma coisa. - Ah, se você
tivesse vindo a Oxford há dois anos, como tudo poderia ter
sido diferente! Talvez nós... Mas não adianta falar do que
poderia ter sido. Agora é tarde demais para mim.
Sophia se inclinou e me beijou de leve no rosto, com tanta
suavidade que foi como se eu tivesse imaginado o roçar de
seus lábios na minha pele. Apertou minha mão mais uma
vez e a soltou.
Quando eu me virava para a porta, com o coração tão pesado
que me sentia curvar sob o peso dele, Sophia murmurou:
"Me escreva!" Olhei para trás e a vi imitar o gesto de
escrever na palma da mão, o rosto esticado na brava
tentativa de um sorriso. Fiz que sim com a cabeça e lhe dei
as costas pela última vez.
Ao fechar a porta, na saída, encontrei o diretor parado no
mesmo lugar, com a silhueta recortada contra a janela, mas
ele se virara de frente para a sala e mantinha os braços
cruzados e os olhos pequenos e brilhantes fixados em mim.
- Então, Dr. Bruno, tenho que lhe agradecer por livrar o
colégio de um assassino brutal e um jesuíta sedicioso - disse
ele.
Seu tom continuava estranhamente sem emoção, como se
toda a capacidade de sentimento houvesse se esvaído dele.
Eu não soube dizer se o homem estava ou não satisfeito, e a
ambiguidade de suas palavras me fez refletir.
- O senhor sabia, senhor diretor, que os dois não eram a
mesma pessoa?
- Sei que Gabriel Norris, em quem não posso pensar de outra
maneira, será acusado dos assassinatos de Roger Mercer,
James Coverdale, Ned Lacy e Thomas Allen, e de intenção
traiçoeira contra a pessoa de Sua Majestade. Também soube
que outras acusações serão feitas contra ele, talvez de menor
interesse para o Conselho Real, mas, ainda assim, de
considerável significado para minha família.
Então, ele inspirou profundamente, com um tremor imenso,
que pareceu capaz de destroçar sua própria alma. Por um
breve instante, seus olhos se cruzaram com os meus e vi
neles um fardo de tristeza que compreendi que iria oprimi-lo
pelo resto de sua vida. Também compreendi, nesse
momento, que Sophia dissera a verdade: havia em Underhill
um grau de frieza que lhe permitiria apagá-la de sua vida para
sempre, se isso fosse necessário. Em seu olhar vi a tristeza de
um homem que havia perdido os dois filhos. Tive vontade
de interceder junto a ele, de defender Sophia, mas resolvi
calar. Minha interferência nos assuntos do colégio, e
sobretudo nos dessa família, talvez já tivesse sido suficiente.
- Creio que não tornaremos a vê-lo em Oxford, Dr. Bruno -
disse ele em tom rígido, estendendo a mão para que eu a
apertasse enquanto se encaminhava para a porta principal, as
tábuas rangendo sob seus pés no silêncio. - Diante dos
acontecimentos recentes, lamento não ter confiado no
senhor mais cedo, mas, aqui em Oxford, não estamos
acostumados a ver os estrangeiros como... bem, o senhor
entende minha posição.
Estendeu a mão com mais insistência e eu me aproximei para
apertá-la. Ele a segurou entre as suas e me fitou com um
olhar suplicante. Enquanto nos olhávamos, pensei que
Sophia tivera sorte por ter herdado todos os traços da mãe.
Ou talvez não fosse tão afortunada assim: se ela fosse menos
bela, talvez estivesse numa situação muito diferente agora.
- Entre os meus muitos pesares, Dr. Bruno - disse Underhill,
parecendo desabar um pouco enquanto apertava minha mão
com força -, eu desejaria ter sido um anfitrião mais gentil e
um amigo para o senhor. Se soubesse de suas ligações... Mas
são muitos os motivos pelos quais tenho que me repreender,
como o senhor pode imaginar. Se o senhor tiver a
oportunidade, poderia dizer ao conde de Leicester que tudo
o que fiz foi sempre na tentativa de servi-lo e de servir à
universidade da melhor maneira possível? Isso não é pedir
muito, não é mesmo? Espero receber uma comunicação dele
a respeito desses acontecimentos, e não tenho nenhuma
certeza de como ele receberá as notícias - acrescentou. Seus
olhos se arregalaram de medo enquanto ele sacudia meu
braço com insistência, sem nem sequer se dar conta de que
fazia isso.
- Eu o ajudaria, se pudesse, mas creio que o senhor se
equivoca a respeito da minha intimidade com o conde:
nunca na minha vida cheguei a conhecê-lo - declarei. Ao
perceber sua decepção, me apressei a acrescentar: - Mas
estou certo de que, se conversar sobre isso com Sir Philip,
ele não desconhecerá sua lealdade.
O diretor fez um aceno solene com a cabeça e soltou minha
mão.
- Obrigado. É mais do que eu mereço. O senhor foi um
adversário digníssimo no salão de debates, Dr. Bruno. Eu
gostaria apenas que pudéssemos ter outra oportunidade.
Você tem a memória curta, pensei, ao lhe dar um sorriso
polido. Fui superior a você tanto no conteúdo como na
conduta, mas você se contentou em me ridicularizar diante
de toda a congregação da universidade. Essa humilhação,
entretanto, me pareceu uma banalidade nesse momento.
- Em contrapartida, há um favor que devo lhe pedir - disse
eu, ao nos aproximarmos da porta. Ele me fitou com leve
surpresa. - Soube que Cobbett foi suspenso de suas funções.
- Exatamente - confirmou o diretor. - Mestre Slythurst fez
uma queixa gravíssima de que ele desrespeitou
propositalmente as ordens de entregar documentos
confidenciais e deixou escapar do colégio um ladrão que, de
outro modo, poderia ter sido detido.
Eu o encarei, incrédulo:
- Mas o senhor certamente sabe, diretor, que o ladrão que ele
descreveu era eu, não sabe? E, se Cobbett não tivesse
desobedecido a Slythurst, para levar uma mensagem urgente
a Sir Philip, eu estaria morto agora, e sua filha também.
- Ainda assim - retrucou Underhill, na mesma voz
monocórdia, fingindo se concentrar num fiapo de linha solto
em sua toga -, Mestre Slythurst é um docente sênior deste
colégio e, como empregado, o dever de Cobbett era
obedecer às ordens dele, não às de um visitante que fora
apanhado retirando objetos do quarto de um aluno. Por essa
negligência no cumprimento de seus deveres, ele foi punido.
- Aqueles papéis, nas mãos de Sir Philip, salvaram a vida de
sua filha - disse eu, baixando a voz. - Nas mãos de Slythurst,
talvez não conseguissem isso a tempo. Cobbett agiu de
acordo com sua consciência e deveria ser premiado por isso.
Underhill parou de mexer no fiapo da toga e fixou um olhar
direto em mim.
- Essa é a sua opinião - retrucou, enunciando cada palavra
com cuidado e precisão.
Não pude acreditar no que ouvia.
- Os atos dele impediram que Sophia fosse assassinada -
repeti mais devagar, para o caso de ele não haver
compreendido da primeira vez. - E também o seu neto -
acrescentei de propósito, já que minha frase não parecera
despertar nenhuma reação. - Não lhe parece que isso merece
ser recompensado?
Por um instante, Underhill não respondeu, continuando a
me encarar como que com pena.
- Nunca lhe ocorreu que talvez eu preferisse recompensar o
homem que poupasse minha família de tudo isso?
Levei uma fração de segundo para compreender o que ele
estava dizendo. Quando entendi, mal pude acreditar.
- O senhor preferiria que eu não tivesse interferido? -
indaguei, balançando a cabeça, incrédulo. - O senhor
entende que ele pretendia matá-la? Jerome Gilbert, Gabriel
Norris, como quer que o senhor queira chamá-lo? Sua
intenção era fazer com que ela se afogasse na viagem para a
França, para se poupar a humilhação de ser desmascarado.
Passado algum tempo, o senhor e sua esposa receberiam uma
carta informando que Sophia tinha fugido para ingressar
numa ordem religiosa, e não ficariam sabendo de mais nada.
- E não lhe parece que a mãe dela acharia isso mais fácil de
suportar? - retrucou ele. Deu um passo na minha direção e vi
que toda a sua pose estava prestes a desmoronar. Suas mãos
tremiam violentamente e ele as apertou até os nós dos dedos
ficarem brancos. - Ao menos poderíamos chegar à nossa
velhice benignamente enganados. Em vez disso, minha filha
foi presa na companhia de um missionário jesuíta e trazida
de volta a Oxford escoltada pelos homens do xerife. Tive que
ir pessoalmente à prisão Castle pagar pela libertação dela, e lá
a encontrei na companhia de ladras e prostitutas. Depois,
tive de trazê-la de volta ao colégio à vista de toda a cidade, e
precisei suportar a zombaria e os cochichos ao passarmos,
assim como minha mulher terá de suportá-los, se algum dia
se arriscar a sair do quarto outra vez, o que eu duvido. Eu
seria um tolo se não achasse que os boatos já estão correndo
a pleno vapor. De agora em diante, serei conhecido como o
pai de uma prostituta jesuíta, avô de um bastardo papista.
Minha reputação na universidade está acabada, e acho que os
nervos da mãe dela não vão aguentar esse novo golpe.
Eu o fitei com desprezo.
- Teria sido melhor que ela fosse assassinada, em silêncio,
para que a sua reputação sobrevivesse imaculada? - perguntei
entre dentes.
- Não há dúvida de que o senhor me considera um monstro
por dizer isso - retrucou ele, sem sinal de se desculpar. - Mas
o senhor não tem filhos, então não sabe como é a dor de
perdê-los. De qualquer modo, minha filha morreu para mim,
Bruno. Teria sido melhor que ela houvesse se perdido no
mar e que sua mãe fosse poupada dessa vergonha. Sim, é o
que eu penso. Melhor para Sophia também. Ela não terá vida
que se preze depois disso.
- E o senhor preferiria continuar abrigando um jesuíta no
colégio e levando uma boa vida com as anuidades dele, se
isso significasse uma vida fácil? Ou será que sempre soube da
verdade sobre Norris?
- Não, isso é mentira! - exclamou Underhill, dando um salto
à frente. - Eu não fazia a menor ideia quanto a Norris. Talvez
isso, por si só, seja uma falha grave, mas eu jamais toleraria
conscientemente a presença de um missionário ativo no
colégio. Essa sugestão é absurda. Eu lhe imploro, não repita
isso a seu amigo Sir Philip. Norris pagava para frequentar o
colégio e não recebia maior nem menor liberdade do que os
outros alunos pagantes.
- Norris foi recomendado para uma vaga aqui por Edmund
Allen, um homem que o senhor já sabia ser católico, às
escondidas. E Norris nunca foi aos ofícios religiosos... isso
não lhe pareceu suspeito?
- Os filhos dos cavalheiros não estão habituados a acordar
cedo. Um dos privilégios deles é que não se espera que
façam isso.
- Qualquer dispensa pode ser comprada aqui - comentei,
olhando-o com desdém. - Isso me lembra muito Roma.
Porém o senhor também sabia dos outros, não é?
Underhill deu um suspiro.
- Eu sabia de William Bernard. Mas todos sabiam, em
Oxford... Não era segredo que ele era fiel aos antigos
costumes, apesar de ter prestado o Juramento de Supremacia.
Mas ele era um velho irascível e foi considerado inofensivo.
Ele fugiu, aliás, mas creio que não haverá uma grande caçada
para encontrá-lo. Pôr um velho de cabelos brancos como
aquele na cadeia, ou fazê-lo subir num cadafalso, não cai
bem diante do povo, e o Conselho Real sabe disso. E quanto
aos outros... De Roger Mercer eu sabia, mas ele era um bom
homem. Coverdale foi uma surpresa. Existem outros...
suponho que, quando me interrogarem sobre Norris, serei
obrigado a revelar o nome deles.
- Acho que isso não será necessário - disse eu, ainda aturdido
por suas palavras frias a respeito de Sophia. - Os nomes dos
piores criminosos já são conhecidos.
Ele me observou quando estendi a mão para a maçaneta.
- O senhor tem compaixão de mais, Dr. Bruno, para se
envolver nessa história. Sei que mentiu para poupar minha
filha de um julgamento público. Assim como eu poderia ter
denunciado os católicos daqui aos rastreadores, todo o bando
deles, anos atrás, mas achei que poderíamos ir convivendo.
Agora vejo que é preciso ser implacável, embora isso não
faça parte do caráter de homens como nós. O senhor é igual
a mim nesse aspecto - acrescentou, com um toque de
presunção.
- Não, senhor - protestei, baixinho, enquanto ele segurava a
porta aberta para eu passar. - Não sou nada parecido com o
senhor. Se eu tivesse uma filha, creio que não desejaria a
morte dela em lugar da minha desonra.
Underhill abriu a boca para protestar, mas eu o cortei.
- Ela não é prostituta. É uma mulher de coragem, que merece
o seu cuidado e a sua proteção, não o seu desprezo.
Eu o deixei em pé no vão da porta, ainda de boca aberta e
mudo feito um peixe, antes de atravessar com passos
determinados o pátio quadrangular do Colégio Lincoln pela
última vez. No portão fortificado, me virei para uma der-
radeira olhada e vi a silhueta de Sophia, na janela do
primeiro andar da residência do diretor, com a figura
distorcida pelo vidro bisotado, uma das mãos erguida num
adeus.

Epílogo

Londres
Julho de 1583

Sob um céu que os primeiros raios da manhã mal haviam
tocado, em meio a uma garoa fina que formava brumas no
meu cabelo e na crina do cavalo, cavalguei para o oeste pela
rua Fleet, saindo da residência do embaixador no Palácio de
Salisbury e me afastando do centro comercial de Londres,
enrolado numa capa para me proteger da umidade e com o
peito apertado, como se argolas de ferro o envolvessem. Eu
não faria essa viagem por escolha própria, mas recebera um
recado de Walsingham avisando que ele contava com a
minha presença e achei melhor não discutir. Vi que o vapor
das narinas do cavalo subia em nuvens no ar matutino
quando virei o animal para o norte no grandioso
monumento de Charing Cross, seguindo para a estrada que
ligava Londres ao campo aberto a noroeste. Ali a via ganhou
mais movimento: pequenos grupos de pessoas a pé seguiam
na mesma direção, conversando animadamente e dividindo
a bebida levada em cantis de couro, enquanto vendedores de
tortas se deslocavam depressa ao lado deles, oferecendo seus
produtos à multidão, todos se preparando para o espetáculo.
Mais perto do nosso destino, havia pessoas ladeando as ruas e
crianças montadas no ombro dos pais, para assistir à
passagem da procissão.
No local chamado Tyburn, uma plataforma de madeira fora
erguida à altura da cabeça de um homem, para assegurar que
toda a multidão tivesse uma visão clara. Sobre esse palanque
havia sido montada a mesa do carrasco - um gigantesco talho
de açougueiro, coberto por facas e instrumentos variados -, e
a seu lado se acendera um fogo para aquecer a água de um
grande caldeirão. Quem estava nas primeiras filas da
multidão chegou mais perto, esticando as mãos para o calor
das chamas. Apesar de ser julho, a umidade deixara uma
friagem no ar matutino e, enquanto esperavam, os
espectadores batiam os pés e esfregavam as mãos. Ao lado do
palanque fora erguida uma forca de madeira, sob a qual se
encontrava uma carroça vazia. Virei o cavalo e contornei a
parte de trás da aglomeração. Do lado oposto, mais perto da
forca, vi alguns nobres montados, mantendo distância da
multidão acotovelada, e imaginei que encontraria Sidney
entre eles. Enquanto eu guiava o cavalo para dar a volta,
servidores municipais munidos de lanças passaram pelo
aglomerado e abriram caminho em frente ao cadafalso.
Encontrei Sidney com um grupo de jovens cortesãos
montados, perto da forca. Embora seus companheiros
parecessem animados e conversassem em voz alta, ele
segurava o cavalo com rédea curta, fazendo-o bater com os
cascos no mesmo lugar, impaciente, e inspecionava a
multidão com a boca contraída numa linha severa. Ao me
avistar, me cumprimentou com um aceno da cabeça, sem
sorrir.
- Vamos chegar mais para o lado, Bruno - disse ele em voz
baixa. - Não estou entre os que preferem tratar isso como se
fosse uma feira.
- Eu preferiria nem estar aqui - admiti enquanto nos
posicionávamos um pouco mais longe do grupo de rapazes.
- Walsingham fez questão de que você comparecesse. Ele
acha importante que sua equipe compreenda plenamente
todas as facetas do trabalho. Quem trava guerras não é
poupado da visão do sangue, e tampouco nós, os que brin-
camos de soldados. Nossa luta é real e suas consequências
são sangrentas. - Ele se virou para mim e me encarou com
uma expressão grave. - Essa execução é uma vitória sua,
Bruno. Walsingham está muito satisfeito com você.
- Vitória minha - repeti baixinho, quando um grande clamor
se ergueu da multidão e todos ficaram na ponta dos pés para
observar a chegada.
Já estava quase totalmente claro quando dois cavalos negros
surgiram no intervalo entre o cadafalso e a primeira fila de
espectadores, e um grupo de mulheres avançou para jogar
em seu trajeto lírios e rosas, as flores do martírio, enquanto
os servidores cutucavam com as lanças quem chegava muito
perto e ameaçava impedir a aproximação dos animais. Como
que por consenso, a multidão recuou solenemente, o
burburinho das conversas cessou e foi possível ouvir os
cascos dos cavalos batendo baixo na terra, enquanto a
armação de madeira que eles puxavam ia cavando sulcos no
chão úmido. Fiquei em pé sobre os estribos e me inclinei
para a frente, sentindo um bolo no estômago diante daquela
visão.
Jerome Gilbert estava atado à armação com os pés para cima,
os braços cruzados sobre o peito e a cabeça quase no nível
do chão, o que explicava os salpicos de lama em seu rosto e
cabelo. Quando a armação chegou à forca, dois homens se
adiantaram para desamarrá-lo e o corpo escorregou para o
chão como uma boneca de pano. Eles o seguraram pelas
axilas e o ergueram para a carroça. Ele fora despido até a
camisa de baixo e as meias. Nesse momento, ao ser
levantado ante o murmúrio da multidão tomada pela
expectativa, enfiou a mão na camisa e puxou um lenço para
limpar do rosto a pior parte da lama. Estremeci ao ver que
seu olho esquerdo estava tão machucado e inchado que o
padre não conseguia abri-lo, mas ele examinou
freneticamente a multidão com o olho bom e jogou o lenço
para o alto, que foi apanhado com agilidade por um homem
grisalho de rosto lúgubre, perto das primeiras filas.
- Fique de olho naquele sujeito - sussurrou Sidney. - É muito
provável que seja outro jesuíta, ou um simpatizante que veio
oferecer consolo na última hora. Jerome o escolheu para que
ele pegasse o lenço.
- Devemos segui-lo? - perguntei, ansioso. Sidney fez que não
com a cabeça.
- Walsingham deve ter homens na multidão para seguir
todos os que tentarem pegar relíquias da roupa dele e fazer
coisas similares.
Sidney parou de repente. Dois homens suspenderam Jerome
enquanto o carrasco subia na carroça e amarrava o laço em
seu pescoço, antes de prendê-lo na trave e confirmar que
estava firme. Percebi que os homens permaneciam dos dois
lados dele porque o padre não conseguia se manter de pé e
cerrei os dentes. Ele parecia ter sido tão violentamente
torturado no ecúleo que suas pernas já não sustentavam mais
o peso do corpo.
- O que fizeram com as mãos dele? - murmurei para Sidney,
indicando a massa de sangue coagulado quando o condenado
levantou debilmente uma das mãos para tentar afastar do
rosto o cabelo emaranhado.
- Arrancaram as unhas - disse Sidney, com a voz tensa, e não
consegui decifrar nada sob sua compostura externa.
Um homem corpulento, vestido com as cores da Coroa,
subiu no cadafalso e desenrolou um pergaminho.
- Jerome Gilbert, jesuíta - declamou, com uma voz límpida
que se fez ouvir por toda a multidão silenciosa -, você foi
condenado por quatro acusações de assassinato e pela
sedução de pessoas para afastá-las da fidelidade à rainha, por
tramar com outros em Reims e em Roma para assassinar a
rainha e por participar de planos de uma invasão estrangeira.
O que tem a dizer?
Com enorme esforço, o laço ainda frouxo no pescoço,
Jerome reuniu o pouco de força que restava em seu corpo
destroçado, ergueu a cabeça e respondeu, com voz
surpreendentemente forte:
- Sou culpado apenas de tentar levar almas perdidas de volta
ao seu Criador. Rezo a Deus para que perdoe todos os que
contribuíram para minha morte. Deus salve a rainha.
Nesse momento, seu olho tornou a percorrer a massa e se
fixou em mim. Por um instante, nos encaramos e ele
acrescentou, a voz solene se estendendo sobre a clareira:
- Um dia vocês estarão onde eu estou.
- Silêncio! - gritou o agente da Coroa, interpretando aquilo
como uma ameaça aos protestantes ingleses, mas fui tomado
por um terrível calafrio. Não pude escapar da enregelante
impressão de que Jerome havia falado diretamente comigo.
Relembrei suas palavras no esconderijo do Castelo Hazeley:
"Você e eu somos parecidos... você caminha para a morte
com uma atitude de desafio, tal como eu farei, quando
chegar o momento." Tivera razão ao menos sobre ele
próprio, pensei. Embora seu belo rosto tivesse sido destruído
pelos torturadores e ele não conseguisse se manter de pé
sem ajuda, nesses instantes finais Jerome foi
magnificamente, ferozmente desafiador.
O agente o fitou com antipatia enquanto a massa reunida
prendia a respiração.
- Como traidor condenado, a sua sentença é clara. Você será
enforcado e baixado da forca ainda vivo. Suas partes
pudendas serão decepadas, pois você é imprestável para
deixar qualquer descendência. Suas entranhas serão retiradas
e queimadas à sua vista. Sua cabeça, que arquitetou a
maldade, será decepada e seu corpo será dividido em quatro
partes, a serem descartadas como Sua Majestade escolher.
Que Deus tenha piedade da sua alma.
Jerome jogou a cabeça para trás, de tal modo que a chuva de
verão, que agora caía sem parar, encheu seus olhos e sua
boca, no momento em que ele gritou aos céus:
- In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum!
Então os cavalos foram açoitados e a carroça se afastou, e ele
ficou se contorcendo.
Mal estava consciente quando lhe cortaram a corda e os dois
homens truculentos o arrastaram pelos degraus do cadafalso.
Ao menos isso pareceu misericordioso, pensei, até que o
carrasco lhe atirou um balde de água fria no rosto, fazendo-o
se engasgar e voltar à vida, balbuciando e se debatendo num
delírio ao ser levantado para a mesa do carrasco, onde
tiraram sua roupa. Como previra Sidney, algumas pessoas na
multidão se lançaram à frente para tentar pegar um pedaço
da roupa do mártir, e os homens com as lanças se
aproximaram à força para empurrá-las para longe do
cadafalso.
Como muitos outros homens na multidão, tive que desviar o
rosto quando o carrasco ergueu sua faca para decepar os
órgãos genitais de Jerome, mas o uivo que cortou o ar me
trouxe lágrimas aos olhos, e o crepitar de sua carne cortada e
lançada no caldeirão me revirou o estômago. Naquele
momento, porém, diante do que talvez fosse o espetáculo
mais aterrorizante a que eu já assistira na vida, pensei em
Sophia. "Imprestável para deixar qualquer descendência..."
No entanto, em algum lugar de Kent, um filho dele crescia
para vir à luz, um filho que jamais saberia a verdade sobre o
pai, mas levaria sua beleza para o futuro.
Tornei a me perguntar, pela milésima vez desde que
regressara de Oxford, se eu havia acertado ao dar ouvidos às
acusações desvairadas de Thomas Allen. Teria Jerome
realmente mandado matar Sophia ou será que os dois
poderiam estar vivos e em paz nesse momento, na França, se
eu não houvesse interferido?
- Ele teria mandado matar você, Bruno, lembre-se disso -
disse Sidney em meu ouvido, como se tivesse adivinhado
meus pensamentos. - Mas era um excelente jogador de cartas
- acrescentou, quase inaudível, e percebi que, por baixo do
seu porte de soldado profissional, ele também fora
profundamente afetado por essa morte. Fiz um aceno
sombrio e, ao levantar a cabeça nesse momento, avistei
Walsingham, montado num cavalo negro do outro lado da
multidão, observando com expressão sombria a carnificina
no cadafalso. Quando o carrasco cravou a faca no esterno de
Jerome para lhe rasgar o peito e os gritos agonizantes do
padre ecoaram no céu branco e indiferente, Walsingham se
virou e captou meu olhar, por sobre as cabeças das pessoas
imóveis, num silêncio terrível e ameaçador. Ele balançou a
cabeça uma vez, como que em sinal de aprovação, depois
tornou a voltar a atenção para o cadafalso, onde a cabeça de
Jerome era levantada, sem outro som senão o murmúrio
suave do vento nas folhas e o tamborilar persistente da
chuva cálida.

- Tome outra bebida, Bruno, você parece estar precisando -
disse Walsingham ao estender a mão para me servir uma taça
de vinho, mas minha garganta se fechou quando a aproximei
do rosto. Eu não conseguia parar de sentir o cheiro de
sangue e carne queimada e, embora a mulher de
Walsingham tivesse nos oferecido comida, percebi que seria
incapaz de ingerir o que quer que fosse.
Estávamos reunidos em seu gabinete particular, na casa de
campo que ele possuía em Barn Elms, alguns quilômetros a
oeste de Londres. O céu continuava nublado e a sala, abafada
e sombria, com seu revestimento de madeira escura e as
janelas estreitas. Sidney estava de pé, contemplando o
jardim, com as mãos cruzadas nas costas. Desde a execução
ele se mantivera incomumente reservado. Havíamos
cavalgado para Mortlake em silêncio quase absoluto, cada um
imerso em seus pensamentos. Agora, Walsingham sentava-
se de frente para mim, com o queixo apoiado nas mãos, me
observando atentamente.
- Você agiu bem, Bruno - disse, por fim, esticando as pernas
à frente do corpo. - A rainha foi informada da sua ação para
impedir o avanço de mais um pretenso assassino. E possível
que, em algum momento futuro, ela considere apropriado
expressar a sua gratidão em pessoa.
- Seria uma honra para mim - disse eu, passando a língua
pelos lábios secos.
- Há alguma coisa que o perturba - observou Walsingham,
em tom gentil. Dei uma olhada para Sidney, mas ele
continuava de costas. - Aqui você pode falar com franqueza,
Bruno - encorajou-me Walsingham diante do meu silêncio.
- O senhor realmente acreditou que ele fosse culpado de
tramar o assassinato da rainha? - perguntei.
Walsingham me olhou por um longo tempo, com um
grande peso nos olhos, sem dizer palavra, e me lembrei de
como havia falado, no nosso primeiro encontro, sobre o
fardo de sua responsabilidade para com o reino.
- Não, não acreditei - acabou dizendo.
Vi Sidney virar a cabeça de repente e se acomodar no
assento junto à janela, observando com interesse.
- A cópia da bula papal Regnans in Excelsis era antiga, não
creio que Jerome Gilbert a houvesse trazido com ele. Além
disso, os missionários não portam nada que possa
comprometê-los, por ordem do superior da ordem jesuíta.
Ele não teria sido tão descuidado. Talvez ela pertencesse a
Edmund Allen, ou a um dos outros docentes. Agora isso já
não vem ao caso.
- E o senhor sabe que ele não assassinou os dois professores
católicos e o menino, no Colégio Lincoln?
- Também sei disso.
- Então - ergui os olhos para ele, buscando uma confirmação
-, ele foi executado por crimes que não cometeu.
- O governo de Sua Majestade não persegue ninguém
unicamente por sua religião - disse Walsingham, com um
toque de impaciência. - Essa é a orientação oficial, e é
importante que o povo seja relembrado dela com frequência,
senão só faremos produzir mais mártires. Se as pessoas
acreditarem que esses jesuítas se dispõem a assassinar em
nome da religião, isso ajudará imensamente nossa causa.
- Portanto, é tudo propaganda - comentei, cansado.
- Esta é, principalmente, uma guerra de lealdades. Devemos
convencer as pessoas de que é melhor elas serem fiéis a nós,
por qualquer meio que possamos imaginar. Você viu a
reação delas hoje, não viu? Em geral, quando uma cabeça é
decepada, ouve-se da multidão um grande grito de "Traidor!
Traidor!", porque ela se deleita com isso. Mas, com Jerome
Gilbert, as pessoas assistiram em completo silêncio, e isso
deve ser um sério motivo de preocupação para o Conselho
Real. Significa que a massa não aprovou o que foi feito hoje,
considerou bárbaro demais. Se houver mais uma dessas, ela
se voltará contra nós - acrescentou, balançando a cabeça. -
Em inúmeras ocasiões sugeri que os condenados
permanecessem na forca até morrerem, mas fui vencido aos
gritos. Talvez agora o Conselho crie juízo.
- É uma forma brutal de morrer - concordei.
Walsingham me interpelou, o rosto agitado:
- Pior do que as fogueiras ou os massacres infligidos aos
protestantes? De qualquer modo, você me contou que o viu
matar o rapaz, Thomas Allen, a sangue-frio, e disse ter
certeza de que ele também pretendia matar a moça, apesar
de ela estar grávida. E Philip me disse que ele teria matado
você. Portanto, ele não era um homem inocente, Bruno.
Não tenha pena dele por isso.
- Não - admiti, baixando os olhos.
- Aquilo é uma coisa difícil de se ver - disse Walsingham, em
tom mais brando, pondo a mão brevemente em meu braço. -
Sem dúvida, você me considera um bárbaro por ter insistido
em que você assistisse à execução. Mas eu lhe avisei que
ficar a serviço de Sua Majestade não seria um caminho fácil
de trilhar. Eu precisava que você visse isso por si só.
- Ele morreu bem - interpôs Sidney, abruptamente, como se
houvesse passado esse tempo todo pensando no assunto. -
Com dignidade.
- Também se portou com bravura na Torre - concordou
Walsingham, com um toque de respeito na voz. - Em Reims
eles o treinaram bem para suportar a dor. Não obtivemos
dele um único nome, apesar das longas horas de trabalho.
Estremeci ao relembrar os dedos ensanguentados de Jerome
e procurei não pensar em que outros "trabalhos" teriam sido
feitos nele.
- O que acontecerá com Sophia? - indaguei, hesitante,
bebendo um gole da minha taça.
- A filha de Underhill? Terminado o resguardo, quando ela
houver recuperado as forças, será interrogada.
Ao ver minha expressão, ele acrescentou:
- Acredito que ela falará de bom grado, assim como fez ao
entregar aquelas cartas. Mas talvez ela tenha outros nomes
que possamos acrescentar aos fornecidos por você e por
Walter Slythurst.
Então, ele me fitou com um olhar intenso e baixei os olhos
para o chão. Fiquei pensando se Sidney teria lhe falado de
como eu protegera Sophia com as cartas, ou se ele sabia que
eu havia omitido alguns nomes ao lhe apresentar o relatório
após meu retorno de Oxford. Talvez ele obtivesse esses
mesmos nomes - Richard Godwyn, Humphrey Pritchard, a
viúva Kenney - de Slythurst ou de Underhill, quando os
questionasse, mas eu tinha minhas dúvidas.
- Ora, por favor, aquele Slythurst é um inútil - disse Sidney,
em tom mordaz, levantando-se de onde estivera sentado e
atravessando a sala para servir-se de uma taça de vinho. - Ele
não enxergou o padre que estava bem embaixo do seu nariz
e ainda tentou entregar Bruno aos rastrea