sábado, 22 de dezembro de 2012 By: Fred

{clube-do-e-livro} 4 livros espíritas de Jacob Melo em anexo

Jacob M e l o




Reavaliando
verdades
distorcidas
0 que diz Allan Kardec
sobre o Magnetismo
Copyrigth© 2008 Jacob Melo



Idealização e Realização: Vida & Saber
Projeto Gráfico: Vida & Saber
Revisão: Luísa Vaz
Capa e Diagramação: Clemilton Barreto




Editora Vida & Saber
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Nova Descoberta. Natal/RN. 59056-700
Tel-Fax: (84) 3231.4410.
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Impressão e Acabamento




M528 Melo, Jacob
Reavaliando verdades distorcidas /
a
Jacob Melo. Fortaleza: Premius, 2008. 2 Ed.
200 p.

ISBN: 978-85-7564-416-4

1. Espiritismo e Magnetismo. 2. Kardec e
Magnetismo. I. Título.

C D U 133.9
Agradecimento



Kardec, pelo pouco que já enfrentei -- por estar
buscando apenas aprimorar o que nos deixaste -- e pelo
muito que ainda falta para que seja dada uma contribuição
mais efetiva em favor da humanidade, imagino, com muita
segurança, o que deves ter passado para nos entregar a
Doutrina Espírita em sua feição tão lúcida e definitiva
como é. Agradeço a ti pela oportunidade de trilhar parte
do caminho que percorreste, pois embora esteja longe de
possuir tua visão e perspicácia, andar pela mesma senda
que rumaste, orientado pela bússola que deixaste, torna-
me confiante quanto ao destino final dessa jornada, que
será coroada pelo mais sagrado prêmio, que é ter feito o
que deveria ser feito. Se falhei, procurarei me corrigir, mas
neste momento só me resta dizer: obrigado, meu mestre!
Palavra dos editores



Um dos aspectos mais importantes na vida do ser
humano é a nossa capacidade de comunicação. A possibilidade
de haver a transmissão de idéias entre nós é um dos fatores
primordiais para o fato de termos atingido tal nível de
desenvolvimento e de percebermos que ainda podemos
evoluir quase indefinidamente, quase infinitamente.
Quando o ser humano aprende a se comunicar e percebe
que é capaz de compreender e ser compreendido, estabelece-
se, nesse exato e preciso momento, um fato que jamais será
esquecido pela criatura que o vivência. Essa lembrança, como
muitas outras, não fica necessariamente registrada no consciente,
mas é no momento que essa comunicação se dá que nos damos
conta de que temos um poder extraordinário: o de influenciar e
o de ser influenciado pelas pessoas.
Dentre todas as partes da comunicação, a que sempre
me chama mais a atenção é a palavra. Entretanto, quando falo
da palavra não estou falando apenas da escrita ou da falada,
mas da idéia palavra, do que está por trás dela.
Palavra que atemoriza... Lúcifer. Palavra que
ilumina... Lúcifer.
Lúcifer, que vem do latim lux - luz e ferre - trazer,
carregar, significa, literalmente, o carregador de luz, ou, em
palavras mais adequadas, portador de luz. Entretanto, devido
a uma imensa utilização de forma negativa, com um sentido
pejorativo, utilizar essa palavra perto de determinadas pessoas
é o mesmo que estar "conjurando o demônio", literalmente.
Mas, pensando-se bem, a partir da primeira explicação acima,
não seria Lúcifer um bom nome para se dar a um animal de
estimação ou mesmo a um filho? Alguém se habilita? Creio
ser pouco provável. Por quê? Por causa do sentido que a
palavra tomou com base no seu uso e no seu emprego, ou
seja, na idéia que a palavra Lúcifer encerra.

"Uma coisa pode ser verdadeira ou falsa, conforme
o sentido que empresteis às palavras. As maiores
verdades estão sujeitas aparecer absurdos, uma vez
que se atenda apenas à forma, ou que se considere
como realidade a alegoria. Compreendei bem isto
e não o esqueçais nunca, pois que se presta a uma
aplicação geral." Allan Kardec

Este é um conselho mais que precioso deixado para
nós pelos Espíritos Superiores que responderam a Allan Kardec
na obra inicial da codificação espírita, "O Livro dos Espíritos".
Neste livro destemido e encorajador, Jacob Melo
mais uma vez consegue entregar ao leitor uma obra de
inestimável valor no campo em que ele se tornou mais
conhecido: Magnetismo e Passes. Esse valor não está
vinculado apenas ao preço que se pagou pela aquisição da
obra, mas principalmente pela impressionante coleção de
palavras unidas, jungidas e entretecidas de tal modo que o
sentido colocado a elas nos faz descortinar o que não mais
deveria ser um novo m u n d o para os Espíritas de longa data.
Utilizando-se de seu raciocínio sempre lúcido, de
uma análise primorosa e com um distanciamento da paixão que
o Espiritismo e o Magnetismo lhe despertam, Jacob nos traz
uma pesquisa profunda e detalhada em todos os livros, artigos
e periódicos que Allan Kardec escreveu e/ou fez parte integral
de suas edições sobre esse assunto. Essa busca investigativa é
comprometida apenas com o descortinamento da vinculação
que o codificador e os Espíritos Superiores da Codificação
fizeram entre essas duas ciências: Espiritismo e Magnetismo.
Nesse exame das obras, muitas portas e janelas
se nos vão abrindo, muita luz nos vem sendo dada como
quando, por exemplo, da "descoberta" que apesar de muitos
espíritas passistas e magnetizadores acreditarem nisso
piamente, os Espíritos nem sempre estão presentes e quando
estão não necessariamente são apenas bons espíritos que os
acompanham; também, por exemplo, quando ele nos mostra
o quanto a Fé está vinculada com a Vontade e o quão distante
está esta última da boa vontade tão falada nestes dias; ou ainda
quando ele nos mostra a ligação íntima e inseparável entre o
Magnetismo e o Espiritismo, como ciências.
Entretanto, o mais importante de tudo isso é que
ficamos sabendo de algo muito mais grandioso para nós que
temos vontade de nos modificar através do conhecimento da
Doutrina Espírita. Quer dizer, não é que ficamos sabendo, já
que disso já sabemos, mas Jacob nos faz ver isso de forma ainda
mais profunda e clara: nós ainda temos muito que aprender
e descobrir acerca da Doutrina Espírita. Percebemos, aqueles
que têm "ouvido para ouvir", o quanto ainda é necessário
estudar e praticar o que estudamos para bem cumprirmos o
nosso papel no mundo.
Q u e essa jornada através da comunicação entre Jacob
e vocês seja tão prazerosa quanto o foi para nós que já nos
deliciamos com as suas palavras e todas as reflexões geradas
por elas. Pois, de que realmente servem as palavras se não para
comunicar as boas idéias capazes de nos conscientizar e de nos
fazer mudar para poder, em seguida e concomitantemente,
mudar o mundo ao nosso redor?
Por enquanto, chega de nossas palavras e demos boas
vindas às abençoadas e iluminadas palavras de Jacob Melo que,
para os bons entendedores, nada mais é que um Lúcifer.

Q u e venha a luz!
Prefácio



Jacob Melo, autor desta importante obra, evidencia
que Allan Kardec defendia que o Espiritismo e o Magnetismo
"são duas partes de um mesmo todo, dois ramos de uma mesma
Ciência que se completam e se explicam um pelo outro".
Evidencia, também, que a união entre a Fé e a
Vontade é uma verdadeira força atrativa; aquele que não a
possui opõe à corrente fluídica uma força repulsiva, ou, pelo
menos, uma força de inércia, que paralisa a ação. Defende que
a vontade atua como uma força decisiva por meio da força de
vontade que potencializa o poder magnético e sua transfusão.
Aliada à força de vontade, a prece torna a vontade mais forte
e atua como ação magnética provocando a desagregação mais
rápida do fluido perispiritual, funcionando como o veículo
de fluidos espirituais mais poderosos que são como um
bálsamo salutar para as feridas da alma e do corpo.
Em "Obras Póstumas", Allan Kardec, no capítulo
sobre a Introdução ao Estudo da Fotografia e da Telegrafia
do Pensamento, diz que o fluido cósmico, conquanto
emane de uma fonte universal, individualiza-se, por assim
dizer, em cada ser e adquire propriedades características que
permitem distingui-lo de todos os outros. Cada pessoa tem
o seu fluido próprio, que o envolve e acompanha em todos
os movimentos, como a atmosfera acompanha cada planeta.
É muito variável a extensão da irradiação dessas atmosferas
individuais. Achando-se o Espírito em estado de absoluto
repouso, pode essa irradiação ficar circunscrita nos limites
de algumas pessoas, mas, atuando a vontade, pode alcançar
distâncias infinitas. A vontade dilata o fluido magnético,
do mesmo modo que o calor dilata os gases. Cada pessoa
é o centro de uma onda fluídica, cuja extensão se acha em
relação com a força de vontade, do mesmo modo que cada
ponto vibrante é o centro de uma onda sonora, cuja extensão
está na razão propulsora do fluido, como o choque é a causa
de vibração do ar e propulsora das ondas sonoras.
No decorrer da obra, o autor apresenta o estudo feito
por Kardec constante das obras da Codificação Espírita e da
Revista Espírita, demonstrando, assim, a ligação existente
entre o ensino dos Espíritos e o Magnetismo.
A Ciência do Magnestimo foi criada pelo alemão
Franz Anton Mesmer, nascido em Iznang, no dia 23/5/1734
e desencarnado em 5/3/1815, na cidade de Meesburg. Na
dissertação de doutorado "Dissertado Phisico-medica de
planetarum influsu", Mesmer, sob a influência de Newton e
talvez de Paracelso, ao tratar da influência dos planetas sobre
o corpo humano, usa pela primeira vez o conceito de fluido
universal, mais tarde utilizado pelos Espíritos que atuaram
no advento da Codificação do Espiritismo e por Allan
Kardec, dando o significado de matéria ou energia elementar
primitiva que dá origem a tudo que existe no Universo.
Mesmer utilizou a terapia do Magnetismo animal
ou fluido vital, em 1773, pela primeira vez numa paciente,
parenta de sua esposa e amiga da família Mozart, Srta.
Franziska Esterlina, de 29 anos, que se encontrava muito
debilitada fisicamente. Teve a sua tese da existência do
magnetismo animal rejeitada pela Academia de Ciências de
Paris, em 1784, pela Sociedade Real de Medicina. Para divulgar
a sua descoberta, Mesmer chegou a Paris, em fevereiro de
1778 e apresentou as suas descobertas para os sábios e os
médicos, sem sucesso. Apresentou, também, junto a todas as
Universidades que o rejeitaram, então publicou, em Paris, um
relato analítico da nova Ciência com o título "Memória sobre a
descoberta do Magnetismo Animal". Em 1781, publicou outro
estudo: Resumo histórico dos fatos relativos ao Magnetismo
Animal, que trata de uma descrição histórica da Ciência do
Magnetismo Animal. Em 1799, Mesmer publicou Memória
de F.A. Mesmer, doutor em medicina, sobre suas descobertas,
contendo o modelo teórico da terapia do magnetismo animal,
sonambulismo provocado e lucidez sonambúlica.
A partir de 1821, seis anos após sua desencarnação,
Mesmer foi reabilitado, com a realização de notórias
experiências de magnetismo animal por meio dos
magnetizadores Du Potet e Robouan, sob a direção dos
doutores Bertrand, Husson e Récmier, com a participação
de três dezenas de médicos. A mesma Academia de Medicina
de Paris que o rejeitou, reabriu o debate e expediu um
parecer favorável após cinco anos de pesquisas e numerosas
experimentações devidamente repetidas, como exige uma
experimentação científica.
Declarava Mesmer que "só a experiência vai dissipar
as nuvens e lançar luz sobre esta importante verdade: que a
Natureza oferece meios universais de cura e preservação do
homem".
Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo, professou
a Ciência do Magnetismo por 35 anos. O Espiritismo surgiu
a partir da publicação, em Paris - França, de "O Livro dos
Espíritos", no dia 18 de abril de 1857.
Jacob Melo, autor deste importante livro de
abordagens sobre o Magnetismo e o Espiritismo, é um
pesquisador e estudioso do Espiritismo, autor de mais de uma
dezena de livros publicados, entre eles o conhecidíssimo "O
Passe - seu estudo, suas técnicas e sua prática", "Cure-se e
Cure pelos Passes", "A cura da Depressão pelo Magnetismo"
e "Manual do Passista". O livro "O Passe", editado pela
Federação Espírita Brasileira, desde 1992 é um verdadeiro
best-seller, hoje mundialmente conhecido. Além de livros
de pesquisa e de estudo, Jacob publicou livros de contos,
crônicas, autoconhecimento e três C D s de músicas,
intitulados "A Maior História de Amor", "Vitórias esperam
por você" e "Deus em Tudo".
O autor dispensa qualquer apresentação de nossa
parte, pois ele é por si mesmo, pelo seu excelente trabalho
literário reconhecido escritor espírita, de longa data. Temos a
certeza de que este livro, como os demais, trará ótimos frutos
e contribuirá muito para a cultura espírita.
Felizes são os que semeiam livros a mancheias, dizia
Monteiro Lobato. É o caso do nosso estimado confrade e
amigo Jacob. Q u e Deus o abençoe!

Julia Nezu
São Paulo (SP), primavera de 2007
Sumário


Introdução 17

Abordagem 1
O Espiritismo e o Magnetismo,
como ciências, são praticamente uma só 21


Abordagem 2
Fé e vontade: elementos do mesmo ramo 41


Abordagem 3
Vontade difere de boa vontade 47


Abordagem 4
Preces e orações são formas de magnetismo 67


Abordagem 5
O fluido vital é vida 75


Abordagem 6
N e m sempre os Espíritos estão presentes 97


Abordagem 7
O espírito atuante é o do magnetizador 107
Abordagem 8
É cruel, mas nem sempre o Magnetismo funciona 115


Abordagem 9
Para ser lido, relido, revisto, repensado e recolocado 133

Imposição de mãos 133

Os bons Espíritos precisam 142

Magnetismo e relacionamento 145
Tratamentos diferenciados 148

O tratamento magnético 151

Kardec e o Magnetismo 153

N ã o instantaneidade do Magnetismo 155

Sonambulismo, Magnetismo, mediunidade

e Espiritismo; tudo j u n t o 155

O sonambulismo - este desconhecido 160

A dupla vista - esta desconhecida 171

Rápida vista sobre a obsessão 174

A subjugação pede entendimento 176

Correntes magnéticas 182

Pagamento ao magnetizador 183

Água magnetizada - seu poder 185

Conclusão 187
Introdução



Olá, tudo bem?
Que tal fazermos uma interessante leitura de algumas
partes de um conjunto de obras extremamente significativas?
Este convite se deve ao fato de muito se falar e se ouvir acerca
da necessidade de se ler, estudar e conhecer a obra de Allan
Kardec. Se isto é válido até para os detratores do Espiritismo,
a fim de que tenham base e não se limitem aos "ouvi dizer",
"acho que", "a bíblia disse ou deixou de dizer" ou ainda
"desde criança que eu aprendi isso", para todo e qualquer
espírita se torna providencial e, até certo ponto, obrigatório.
Bem sei que nem todo mundo tem tempo para ler tudo
o que gosta, quer ou precisa, mas para quem atua nalguma área
específica, seja do que for, é imperioso que conheça pelo menos
a base teórica dessa área, senão passará por situação desagradáveis,
sendo muitas delas incontornáveis, além de ter que experimentar,
nalgum momento futuro, uma dor de arrependimento muito
incomodativa e, quiçá, por demais embaraçosa.
Sendo o Espiritismo apresentado como uma
Doutrina que se fundamenta e oferece um claro tríplice
aspecto em sua estrutura -- a saber: científico, filosófico e
religioso ou moral --, quem queira penetrar-lhe a essência
não pode se limitar a apenas um desses ramos, pois mesmo se

17
sentindo bem acompanhado, caminhará de forma arrastada,
manquejante.
O conhecimento espírita, entretanto, por abranger
tão largos quão profundos ramos do conhecimento humano
-- abstração feita à essência do ser espiritual que está e estará
por ser desvendado --, seguramente não será absorvido
inteiramente no lapso de uma existência apenas. Se, por um
lado, isso pode parecer frustrante, por outro se apresenta
tremendamente instigante e convidativo, pois nos oferece
um horizonte ilimitado, numa ampla direção progressiva,
muito rica e promissora.
Não tendo, portanto, quem possua toda essa visão,
tão larga quanto alcança o Espiritismo em si, sempre fica em
aberto o espaço para as possibilidades de equívocos, enganos,
erros ou dúbia interpretação de alguns pontos. Correndo por
fora, surgem as deduções equivocadas, baseadas no achismo
ou assentadas no que disseram "certos guias", assim como
interesses subalternos -- desconfortavelmente, estes ainda
existem, mesmo nos meios religiosos --, com os quais se
pretende ocultar informações ou impor opiniões pessoais.
No que diz respeito ao Magnetismo, teoricamente
não era para haver tanto desencontro de opinião no meio
espírita. Isto porque Allan Kardec foi exemplarmente claro
nas suas colocações e proposições acerca do assunto. E, se
não bastasse, os Espíritos da Codificação reafirmaram e
ratificaram quase todas as suas opiniões, corrigindo muito
pouco do que ele disse e escreveu e jamais deixaram que
enganos de sua parte dessem brechas para interpretações
discrepantes ou que viessem a toldar o oceano de bênçãos
que o Espiritismo trouxe.




Viajando muito, como tenho viajado nestes últimos
vinte anos, conhecendo e convivendo com um sem-número

18
de pessoas e Casas espíritas, no Brasil e no exterior, talvez
já devesse ter-me acostumado com tantas palavras ditas, em
nome do Espiritismo, contra o magnetismo. Ao contrário
disso, cada vez mais me compenetro de que é preciso seja
feito um veemente resgate da opinião de Allan Kardec e dos
Espíritos da Codificação acerca desse assunto.
Sem qualquer sentido de superioridade de minha
parte, mas posicionando-me como alguém que, por fidelidade
a Allan Kardec, não se satisfaz com várias das opiniões
apresentadas -- muitas vezes em Congressos e livros, revistas
e artigos na internet, jornais e mensagens avulsas, palestras
e orientações -- desvinculadas dessa base primorosa que é
a Codificação e suas extensões -- como a Revista Espírita,
Obras Póstumas e O Que é o Espiritismo --, venho tratar,
neste livro, do que não pode mais ficar calado.
Embora tenha me sentido forçado a fazer algumas
transcrições relativamente longas neste livro -- isto porque
tenho em vista preservar o contexto e não apenas apresentar
trechos pelos quais o leitor não tivesse como deduzir, só por
este livro, em que bases foram escritos -- procurarei tratar
tudo de forma clara, direta, sintética, porém não restringente,
pois se tenho em mente que o seu tempo é precioso e que
o preço de livro está muito elevado, também sei que é
fundamental que contemos com uma boa base, lógica,
racional e bem fundamentada.




Comentando acerca da ligação das duas grandes
ciências, após a resposta dos Espíritos à questão de O Livro
dos Espíritos de número 555, Allan Kardec afirmou que
o Espiritismo e o magnetismo são uma única e só ciência.
Posso garantir que isto tem alto significado para todos os
que estudamos a abordagem científica do Espiritismo ou
operamos nela ou, ainda, mesmo para aqueles que não

19
pretendam entrar nessa área um tanto quanto particular desse
estudo, por qualquer que seja o motivo, mas que, a despeito
disso, movimentam-se no terreno, por suas práticas. É o que
vou destacar ao longo do livro.

Jacob Melo
Setembro de 2007

(*) Chamarei os capítulos deste livro de "abordagens",
pois é no que, de fato, eles se constituirão.




20
Abordagem 1
O Espiritismo e o Magnetismo, c o m o ciencias,
são p r a t i c a m e n t e u m a só




Tendo surgido primeiro, o magnetismo forneceu
vigorosa base para a fundamentação do Espiritismo,
especialmente em sua vertente científica. C o m o lidava
com o então chamado sonambulismo magnético, por ser
magneticamente induzido -- tratarei desse tema na abordagem
9 desta obra --, tão logo surgiram as primeiras manifestações
espíritas e, com elas, um novo tipo de manifestação
sonambúlica, totalmente natural, essa variante passou a
ser melhor analisada. Logo foi percebido se tratar de um
sonambulismo mediúnico, muitas vezes oriundo de indução
espiritual. Criteriosos estudos, então, averiguaram suas causas
e aplicabilidades, quando se percebeu que as semelhanças
entre esses fenômenos sonambúlicos traziam convergências
fundamentais para o entendimento enriquecido de um sem-
número de fenômenos mediúnicos e magnéticos até então
mal compreendidos. Entretanto, para quem, mesmo nos
dias atuais, tenha se detido na superficialidade da ciência
magnética, tal como se dá com todo aquele que, de forma


21
imperfeita, vê de longe e quer julgar como se estivesse perto,
crendo formar perfeito juízo, muito dificilmente perceberá
a extensão, a profundidade e a força da ligação entre o
magnetismo e o Espiritismo.
Contando com sua larga experiência de 35 anos de
aprofundados estudos teóricos, práticos e comparados da ação
e dos efeitos do magnetismo, Allan Kardec, o codificador do
Espiritismo, soube reconhecer a importância dessa unidade.
Antes de apresentar como ele expressou seu
entendimento acerca dessa ligação entre tão singulares
ciências, destaco o momento em que o senhor Allan Kardec
afirmou sua vinculação pessoal com o magnetismo:


"Em nossa opinião, a ciência magnética, ciência que nós
mesmos professamos há 35 anos, deveria ser inseparável
da compostura...". - In: Revista Espírita, edição junho-
1858, item "Variedades", no artigo-anotação, de próprio
punho, "Os banquetes magnéticos".



Aproveitando o parêntese, quem já tenha lido
quaisquer das biografias existentes sobre Allan Kardec,
sabe da seriedade com que ele sempre se portou na vida,
bem como do seu vínculo, respeitável e reconhecido,
com a moral, a ética e o saber. Nunca se colocou como
um estudante qualquer, senão como o mais interessado e
responsável dentre seus pares, sendo sempre além de um
mero espectador ou anotador de matérias, vivendo como
o próprio protagonista das graves experiências em tudo o
que aprendia, assim seguindo pela vida inteira. Não seria,
pois, com o magnetismo, em 35 anos de proficiência, que
ele claudicaria ou faria estudos precipitados e infelizes. Sua
palavra, portanto, especialmente quando se referindo ao
Magnetismo, sempre há de ser considerada como um "peso
pesado", da maior e da melhor qualidade, pois se algo havia,

22
desde o nascedouro do Espiritismo, sobre o qual ele detinha
grande sabedoria, era exatamente o magnetismo.
Pegando carona na mesma citação, adite-se uma
outra observação por ele apontada: a ciência magnética não deve
se afastar da compostura. Isto só reforça sua visão moral acerca
da aplicação dessa ciência.
Retornando ao ponto em que paramos, a questão 555
de O Livro do Espíritos merece uma análise bem detalhada, até
mesmo por conter vários aspectos que pedem destaque a fim
de obtermos um melhor aprofundamento do que pretendemos
assimilar das ligações entre as ciências magnética e espírita.


Que sentido se deve dar ao qualificativo de feiticeiro?
'Aqueles a quem chamais feiticeiros são pessoas que,
quando de boa-fé, gozam de certas faculdades, como
sejam a força magnética ou a dupla vista. Então, como
fazem coisas geralmente incompreensíveis, são tidas por
dotadas de um poder sobrenatural. Os vossos sábios não têm
passado muitas vezes por feiticeiros aos olhos dos ignorantes?"
O Espiritismo e o magnetismo nos dão a chave
de uma imensidade de fenômenos sobre os quais a
ignorância teceu um sem-número de fábulas, em que
os fatos se apresentam exagerados pela imaginação. O
conhecimento lúcido dessas duas ciências que, a bem
dizer, formam uma única, mostrando a realidade das
coisas e suas verdadeiras causas, constitui o melhor
preservativo contra as idéias supersticiosas, porque
revela o que é possível e o que é impossível, o que
está nas leis da Natureza e o que não passa de
ridícula crendice, (grifei).



Da resposta dada pelos Espíritos até os comentários
adicionais do senhor Kardec, algumas reflexões são bastante
pertinentes.


23
1- Allan Kardec e os Espíritos aceitam o termo
feiticeiros e atribuem a eles um certo poder, o qual, quando
exercido de boa-fé, possibilita faculdades além das
consideradas normais. Isto indica que devemos ter em
mente que ao refutarmos a idéia da existência de criaturas
com poderes diferenciados estaremos, formalmente,
contrariando esta concordância da Codificação com sua
existência. Por mais irrelevante que isso possa parecer, uma
atenção ao caso evitará que se diga, como é comum se dizer,
quase sempre de forma um tanto quanto debochada, que
ações vinculadas a magias negras ou similares, por exemplo,
não existem ou que seus efeitos não passam de sugestões
absorvidas por mentes frágeis.
2- Ainda na mesma afirmativa, por trás de um
"feiticeiro" fica destacado que existe uma força magnética
ou uma dupla vista. Este assunto também será comentado
na última abordagem deste livro. O u seja, para os Espíritos
codificadores o magnetismo é uma força real e presente,
mesmo quando considera apenas uma situação tão genérica
como a proposta pela pergunta de Kardec.
3- Eles, os feiticeiros, fazem coisas incompreensíveis;
é o que afirmam os Espíritos da Codificação. Não dizem eles,
com isso, que façam coisas impossíveis. E, para que não haja
dúvidas a respeito do que pretendem dizer, aditam, como
vimos, um exemplo prático envolvendo a atitude dos sábios
em relação aos ignorantes.
4- Tomemos agora os comentários do senhor Allan
Kardec. Além do exemplo dado na resposta dos Espíritos, ele
considerou uma outra vertente da questão: o miraculoso e o
exagerado que surgem das muitas deduções que o ignorante
faz. Implica dizer que o desconhecimento de algumas leis
precipita deduções; isto tanto vale para quem está iniciando
seus estudos como para quem, embora tendo estudado muito,
não perceba como aplicar seus conhecimentos. Portanto,
o termo ignorante tomado acima não se limita a quem não

24
tem estudo algum, mas se estende a quem não tem estudo
específico sobre o que está sob sua análise, assim como sobre
quem não sabe como aplicar o que sabe, ou julga conhecer.
5- O consórcio entre Espiritismo e Magnetismo,
por ele apresentado -- e também sendo ponto chave da
abordagem deste livro --, foi revestido de uma forma muito
enfática. Senão vejamos: "O conhecimento lúcido dessas duas
ciências que, a bem dizer, formam uma única...". Na verdade,
esta é uma afirmação muito vigorosa! Por ela, somos
arremetidos à lucidez, que nada mais é do que "clareza
de idéias e de expressão; acuidade para o que é relevante;
perspicácia, precisão", tudo conforme nos ensina o Houaiss.
E essa lucidez Kardec recomenda para termos em relação
não apenas ao Espiritismo, mas às duas ciências: Espiritismo
e magnetismo. Além de afirmar, categoricamente, que as
duas, "a bem dizer", são uma só ciência, afiança a necessidade
de termos lucidez sobre elas, o que, neste caso, significa
ter conhecimento e ciência de suas bases e estruturas, sua
essência e alcances. Como esta incisiva afirmação se encontra
na primeira obra espírita, O Livro dos Espíritos, surge em
mim uma inquietante pergunta: será que nós, os espíritas,
temos desenvolvido tamanha lucidez em cima dessas duas
ciências, Espiritismo e magnetismo, para podermos tratar do
mundo dos fluidos e da interação mundo espiritual-mundo
físico, tal como recomendado naquela obra basilar? E se não
o fazemos ainda, o que estamos esperando?
6- C o m sua colocação, Kardec deixou claro que só
mesmo o conhecimento lúcido dessas duas ciências dará
suporte para se enfrentar as idéias supersticiosas, o ridículo
das crendices e permitirá se conheça e distinga o que é possível
e o que não o é em a Natureza. Daí ficar em maus lençóis
quem queira destacar o Magnetismo do bojo do Espiritismo,
seja o Magnetismo ciência, seja ele em suas manifestações.
7- Nas reflexões naturais que surgiram seria de
se perguntar, especialmente a quem não acredita que o

25
magnetismo esteja no cerne do Espiritismo, o porquê de
Allan Kardec ter afirmado que essas duas ciências são uma
só. Para que não pairem dúvidas sobre se ele quis dizer isso
mesmo ou se apenas expressou mal seu ponto de vista, vou
fazer uma série relativamente longa de transcrições nas quais
ele reafirma seu ponto de vista e sua convicção sobre essa
verdade incontestável.
Antes de prosseguir, quero informar que os
destaques (grifos) em negrito que surgirão nas transcrições
são meus.

(15) ... Do mesmo modo que o magnetismo,
ele (o Espiritismo) nos revela uma lei, se não
desconhecida, pelo menos mal compreendida; ou,
mais acertadamente, de uma lei que se desconhecia,
embora se lhe conhecessem os efeitos, visto que estes sempre
se produziram em todos os tempos, tendo a ignorância
da lei gerado a superstição. Conhecida ela, desaparece
o maravilhoso e osfenômenos entram na ordem das coisas
naturais. Eis por que, fazendo que uma mesa se mova,
ou que os mortos escrevam, os espíritas não operam maior
milagre do que opera o médico que restitui à vida um
moribundo, ou o físico que faz cair o raio. Aquele que
pretendesse, por meio desta ciência, realizar milagres,
seria ou ignorante do assunto, ou embusteiro.
(16) Os fenômenos espíritas, assim como os
fenômenos magnéticos, antes que se lhes conhecesse
a causa, tiveram que passar por prodígios. Ora,
como os cépticos, os espíritos fortes, isto é, os que gozam
do privilégio exclusivo da razão e do bom-senso, não
admitem que uma coisa seja possível, desde que
não a compreendam, de todos os fatos considerados
prodigiosos fazem objeto de suas zombarias... - In:
O Livro dos Médiuns - Cap. II- "Do maravilhoso
e do sobrenatural", itens 15 e 16.




26
Muito embora nos itens acima não esteja tão
explícita a ligação íntima entre as ciências em questão, o
fato de Kardec sempre se referir a uma para esclarecer ou
confirmar a outra deixa evidente que ele não economizou no
uso dessa intercessão. Na verdade, não poderia ser de outra
forma, posto que esta é sua sugestão básica, que uma se apoie
na outra para, juntas, seguirem mais fortalecidas ainda.
Outrossim, Allan Kardec deu tanta importância
à primeira parte -- item 15 -- desta transcrição que ele a
repetiu, quase integralmente, em A Gênese, no seu Cap. XIII
- Caracteres dos milagres, item 13; em O Céu e o Inferno,
a
na sua 1 parte, Cap. X, item 10; e em sua Revista Espírita,
nas edições de outubro-1859, no artigo "Os milagres"
e na de setembro-1860, no artigo "O Maravilhoso e o
Sobrenatural".


Ora, que eram esses milagres, senão efeitos naturais,
cujas causas os homens de então desconheciam, mas
que, hoje, em grande parte se explicam e que pelo
estudo do Espiritismo e do Magnetismo se tornarão
completamente compreensíveis? -- In: O Evangelho
Segundo o Espiritismo - Cap. XIX - "A fé transporta
montanhas", mensagem A fé humana e a divina", item 12.



Seguramente, no Evangelho, quando Kardec faz as
referências à fé, fica muito evidente o poder do magnetismo
em ação. Praticamente em todos os momentos que ele fala da
fé recorre ao magnetismo para explicar os efeitos ou para dar
base ao bom entendimento dos fatos. Nessa passagem parece
só ter faltado mesmo a palavra lucidez, mas a imperiosidade
do verbo estudar, em relação às duas ciências em foco, se faz
porta-estandarte de quem queira entender todo o conjunto
que se segue na esteira da fé.


27
A par da medicação ordinária, elaborada pela Ciência,
o magnetismo nos dá a conhecer o poder da ação
fluídica e o Espiritismo nos revela outra força
poderosa na mediunidade curadora e a influência
da prece. -- In: O Evangelho Segundo o Espiritismo
- Cap. XXVIII- "Preces Espiritas", item 77.



No mesmo Evangelho, Kardec relaciona, de forma
não tão direta, mas igualmente sob vínculos muito fortes, a
presença do Magnetismo e do Espiritismo como luzes que
não permitem desconhecimento ou sobressaltos em relação
a um mundo de ocorrências, antes tidas como milagrosas ou
sobrenaturais.


Nada apresentam de surpreendentes estes fatos, desde
que se conheça o poder da dupla vista e a causa, muito
natural, dessa faculdade. Jesus a possuía em grau elevado
e pode dizer-se que ela constituía o seu estado normal,
conforme o atesta grande número de atos da sua vida, os
quais, hoje, têm a explicá-los os fenômenos magnéticos
e o Espiritismo. - In: A Gênese - Cap. XV - "Os
milagres do Evangelho", item 9.



Nesta anotação de Kardec, algo maior do que a
simples ligação entre Magnetismo e Espiritismo foi feito:
estas ciências, segundo ele, podem explicar o poderoso
magnetismo que envolvia toda ação de Jesus, quando ele,
com um singelo convite, convenceu Pedro, André, Tiago,
João e Mateus a segui-Lo. Destaquemos que referindo-
se a esse poder de Jesus, Kardec o coloca no campo da
dupla vista.


28
(...) Em diferentes outros centros do Sul, ouvi discutir
esta opinião, emitida por alguns magnetizadores, de que
muitos dos fenômenos, ditos espíritas, são simplesmente
efeitos de sonambulismo, e que o Espiritismo não faz
senão substituir o magnetismo, ou antes, vestir-se com
o seu nome. É, como vedes, um novo ataque dirigido contra
a mediunidade. Assim, segundo essas pessoas, tudo o que
os médiuns escrevem éo resultado das faculdades da a l m a
encarnada; é ela que, libertándo-se momentaneamente
pode ler no pensamento das pessoas presentes; é ela que
vê à distância e prevê os acontecimentos; é ela que, por
um fluido magnético-espiritual, agita, levanta, tomba
as mesas, percebe os sons, etc., tudo, em uma palavra
repousaria sobre a essência anímica sem a intervenção de
seres puramente espirituais.
Isso não é uma novidade que vos ensino, dir-me-eis
Com efeito, eu mesmo ouvi, há alguns anos, certo
magnetizadores sustentarem essa tese; mas hoje procura-
se implantar essas idéias que, a meu ver, são contrária,
à verdade. É sempre um erro cair nos extremos, e há
tanto exagero em tudo reportar ao sonambulismo
como haveria, da parte dos espíritas, em negar
as leis do magnetismo. Não se poderia roubar á
matéria as leis magnéticas, do mesmo modo que, ao
Espírito, as leis puramente espirituais. - In: Obra.
Póstumas, item 61 - "Dos homens duplos".


A necessidade da longa transcrição se deveu ao valor
dado a que o leitor saiba em que tom o mestre lionês levava
a consideração da distinção intrínseca entre magnetismo e
Espiritismo, sem, contudo, deixar evidente que as duas ciências
se complementam. O mais valioso a ser apontado, entretanto,
é o que ele consideraria fora de qualquer propósito, ou seja,
que haveria exagero "da parte dos espíritas, em negar as leis do
magnetismo". Estaremos concordantes com ele? Eu estou!



29
A possibilidade da maioria dos fatos que o
Evangelho cita como tendo sido realizados por
Jesus, está hoje completamente demonstrada pelo
Magnetismo e pelo Espiritismo, enquanto fenômenos
naturais. Uma vez que se produzem sob os nossos olhos,
seja espontaneamente, seja por provocação, não há nada
de anormal em que Jesus possuísse faculdades idênticas
às de nossos magnetizadores, curadores, sonâmbulos,
videntes, médiuns etc. - In: Obras Póstumas, item II
- A divindade do Cristo está provada pelos milagres?"


Eis outro eloqüente conjunto de afirmações do
codificador, tanto relacionando essas duas abençoadas ciências
como apontando Jesus como um magnetizador, um grande
magnetizador, além de outras faculdades por Ele possuídas e
comuns aos nossos irmãos encarnados. Ressalte-se que Jesus
possuía essas qualidades em potência e qualidades maiores,
as quais, reconheçamos, ainda estamos longe de conseguir.


Quando apareceram os primeiros fenômenos espíritas,
algumas pessoas pensaram que esta descoberta, se assim
a podemos chamar, iria desferir um golpe de morte no
magnetismo e que aconteceria como nas invenções: a
mais aperfeiçoada faz esquecer sua predecessora. Tal
erro não tardou a se dissipar e prontamente se reconheceu
o parentesco próximo das duas Ciências.
Com efeito, baseando-se ambas na existência e na
manifestação da alma, longe de se combaterem, podem
e devem se prestar mútuo apoio: elas se completam e
se explicam mutuamente. Entretanto, seus respectivos
adeptos discordam nalguns pontos: certos magnetistas ainda
não admitem a existência ou, pelo menos, a manifestação dos
Espíritos; pensam que podem tudo explicar só pela ação do
fluido magnético, opinião que nos limitamos a constatar,
reservando-nos para a discutir mais tarde.


30
Nós mesmos a partilhávamos (referindo-se à idéia do
parágrafo anterior) a princípio, mas, como tantos outros,
tivemos que nos renderá evidência dos fatos. Ao contrário,
os adeptos do Espiritismo são todos concordes com o
magnetismo, todos admitem sua ação e reconhecem
nos fenômenos sonambúlicos uma manifestação da
alma. Esta oposição, aliás, se enfraquece dia a dia, e é fácil
prever que não está longe o dia em que cessará qualquer
distinção. Tal divergência nada tem de surpreendente.
- In: Revista Espírita, edição março-1858, artigo
"Magnetismo e Espiritismo".



O artigo do qual esta citação foi extraída é ímpar.
Se observarmos bem a data de sua edição, março de 1858,
perceberemos que àquela altura ainda não fazia um ano
do lançamento de O Livro dos Espíritos, todavia Kardec
mantinha sua opinião bem formada a respeito deste assunto.
E olhe que no início ele pensava diferente, pois imaginava que
o Espiritismo iria destronar o Magnetismo. Rigorosamente,
toda esta citação, todo esse artigo deveriam ser esmiuçados,
trecho a trecho, palavra a palavra, pois apresentam reflexões
e conclusões enfáticas e irretorquíveis.
O parentesco próximo entre as duas ciências,
conforme ele disse, não tardou a ser percebido, motivo
pelo qual nem o magnetismo destruiu o Espiritismo nem
este engendrou complexidades para aquele. Apenas alguns
seguidores de um, o magnetismo, demoraram um pouco
mais para aproveitarem todo o reforço e embasamento
que o outro, o Espiritismo, lhes daria, tal como, mais tarde
-- entenda-se, nos dias atuais --, alguns espíritas tentariam
afastar o magnetismo da base doutrinária espírita.
Destaco, ainda, a expectativa que ele tinha acerca da
relação dos espíritas com o Magnetismo, lamentavelmente
ainda não alcançada. Sua ênfase: "os adeptos do Espiritismo
são todos concordes com o magnetismo, todos admitem sua ação

31
e reconhecem nos fenômenos sonambúlicos uma manifestação
da alma. Esta oposição, aliás, se enfraquece dia a dia, e éfácil prever
que não está longe o dia em que cessará qualquer distinção" deveria
pelo menos ecoar mais vivamente em todos nós, ainda que
fosse apenas por dever de gratidão a quem tanto fez em prol
dessas duas magnânimas ciências.

O magnetismo preparou o caminho do Espiritismo,
e os rápidos progressos desta última doutrina são
incontestavelmente devidos à vulgarização das idéias
sobre a primeira. Dos fenômenos magnéticos,
do sonambulismo e do êxtase às manifestações
espíritas há apenas um passo; sua conexão ê tal
que, por assim dizer, é impossível falar de um sem
falar do outro. Se tivermos que ficar fora da Ciência
do magnetismo, nosso quadro ficará incompleto
e poderemos ser comparados a um professor de
Física que se abstivesse de falar da luz. Contudo,
como o magnetismo já possui entre nós órgãos especiais
justamente acreditados, seria supérfluo insistirmos sobre
um assunto tratado com superioridade de talento e de
experiência. A ele (o magnetismo) não nos referiremos,
pois, senão acessoriamente, mas de maneira suficiente
para mostraras relações íntimas das duas Ciências que,
na verdade, não passam de uma. -- In: Revista Espírita,
edição março-1858, artigo "Magnetismo e Espiritismo".


Ainda naquele mesmo precioso artigo, Allan Kardec
apresenta a ligação do Espiritismo com o Magnetismo de
forma tão exuberante que uma dessas ciências estará sempre
incompleta sem a presença da outra. Afinal, "o magnetismo
preparou o caminho do Espiritismo, e os rápidos progressos desta
última doutrina são incontestavelmente devidos à vulgarização das
idéias sobre a primeira". De tal sorte que, por suas relações
íntimas, essas duas Ciências não passam de uma.


32
Fico, aqui, me perguntando: será que as pessoas
que não se fundamentam no magnetismo para suas práticas
magnéticas terão conhecimento deste artigo? Terão ao
menos como compor um raciocínio acerca do quanto estão
perdendo ou comprometendo suas ações fluídicas? Será que
poderão seguir dizendo que o magnetismo é "intromissão
indevida" no Espiritismo? Eu, particularmente, reveria
meus conceitos se soubesse que o codificador tinha escrito
isso, reforçado pelo fato de que, ao longo de sua existência
nesta encarnação, nunca negou ou diminuiu o valor dessas
afirmações assim como os Espíritos da Codificação não o
negaram ou o retificaram a respeito.
Quero destacar ainda o fato de ele enfatizar que
apenas trataria do magnetismo de forma tão-só acessória,
pois aquela ciência já tinha toda sua codificação e todos os
órgãos devidos para dela cuidar. Dá para imaginar o que não
teia escrito ele se tivesse realizado seu desejo de escrever uma
obra unindo as abordagens dessas duas ciências!


O Espiritismo liga-se ao Magnetismo por laços
íntimos (essas duas ciências são solidárias uma
com a outra); e todavia, quem o teria acreditado?
Ele encontra adversários obstinados mesmo entre certos
magnetizadores que eles não os contam entre os
espiritistas. Os Espíritas sempre preconizaram o
magnetismo, seja como meio curativo, seja como
causa primeira de uma multidão de coisas; eles
defendem sua causa e vêm prestar-lhe apoio contra
seus inimigos. Os fenômenos espíritas abriram os
olhos a muitas pessoas, que ao mesmo tempo se
juntaram ao Magnetismo. - In: Revista Espírita,
edição outubro-1858, artigo "Emprego oficial do
magnetismo animal-A doença do rei da Suécia".




33
Para quem achou que a citação anterior foi muito
forte ou que eu me excedi no meu comentário, esta deve ter
calado mais fundo ainda. Por ela, Allan Kardec novamente
realça os laços íntimos que ligam as duas ciências e vai um
pouco mais longe. Ele afirma que os Espíritos, com "E"
maiúsculo, sempre preconizaram o magnetismo e que o
Espiritismo levou muita gente ao magnetismo. Nada mais
eloqüente do que isso.

Se o magnetismo fosse uma utopia, há muito tempo
não estaria mais em evidência, ao passo que, como o
seu irmão, o Espiritismo, ele lança raízes por todos
os lados; lutai, pois, contra as idéias que invadem
o mundo inteiro: o alto e a base da escala social!
-In: Revista Espírita, edição outubro-1859, artigo "O
magnetismo reconhecido pelo poder judiciário".



Não vou ser repetitivo: Magnetismo e Espiritismo são
irmãos. Palavras de Kardec. No mais, a citação, por si só, basta!

Hoje, que as academias admitem, enfim, o
magnetismo e o sonambulismo, primos-irmãos do
Espiritismo, é necessário que seus partidários se animem
a assinar com todas as letras. -- In: Revista Espírita,
edição janeiro-1860, artigo "Carta do Sr. Jobard sobre
as qualidades do Espírito depois da morte".


Aqui, um grande amigo de Kardec, o Sr. Jobard,
preferiu dizer que as duas ciências são primos-irmãos, o
que em nada diminui o caráter de fortes vínculos a uni-las.
Todavia, para quem pergunte quem é o Sr. Jobard, ao final
da transcrição de sua carta na Revista Espírita acima citada,
Allan Kardec ratifica todos esses termos escritos por ele, o
que corresponde a um aval precioso.


34
Esses casos de possessão, igualmente, vão abrir ao
magnetismo horizontes totalmente novos e levá-lo
a dar grande passo adiante pelo estudo, até o presente
tão imperfeito, dos fluidos; com a ajuda desses novos
conhecimentos, e pela sua aliança íntima com o
Espiritismo, obterá as maiores coisas; infelizmente,
no magnetismo, como na medicina, haverá por
muito tempo ainda homens que crerão não terem
mais nada a aprender. - In: Revista Espírita, edição
janeiro-1864, artigo "Um caso de possessão. Senhorita
o
Julie", 2 artigo - Mensagem do Espírito Hahnemann,
psicografada pelo senhor Albert.


Creio que você, leitor, sabe quem foi Hahnemann;
exatamente, ele é o pai da homeopatia, ramo da Medicina que
tem um dos mais estreitos laços de união com o Magnetismo
e as terapias fluídicas. Allan Kardec também endossou todas
as palavras que ele escreveu nessa mensagem.
Mais uma coisa: será que sobre sua própria previsão,
acerca dos que crêem não terem mais o que aprender, Hahnemann
teria idéia de que a humanidade, um século e meio após, ainda
estaria desse mesmo jeito, desacreditando o Magnetismo,
mormente quando esteja deu provas e mais provas de ser uma
das grandes bênçãos da Divindade ao homem? Saberia ele que
uma enormidade de "autoridades" continua acreditando não
mais precisar estudar, pois já sabe tudo? É incrível como, nesse
terreno, temos progredido tão pouco!

Fazendo conhecer a magnetização espiritual,
que não se conhecia, abre um novo caminho ao
magnetismo, e lhe traz um novo e poderoso elemento
de cura. - In: Revista Espírita, edição agosto-1865,
artigo "O que o Espiritismo ensina".


a
Esta é só uma pequena parte, na 10 anotação de
Kardec nesse artigo-síntese, a qual expõe os propósitos do

35
Espiritismo em relação com o Magnetismo. Fica, também aí,
bastante visível o nível de relação entre as duas ciências.

O conhecimento da mediunidade curadora é uma
das conquistas que devemos ao Espiritismo; mas o
Espiritismo, que começa, não pode ainda haver dito
tudo; não pode, de um só golpe, nos mostrar todos os
fatos que ele abarca; cada dia deles desenvolve novos, de
onde decorrem novos princípios que vêm corroborar ou
completar aqueles que já se conheciam, mas é preciso o
tempo material para tudo; qualquer parte integrante
do Espiritismo é, por si mesma, toda uma ciência,
porque se liga ao magnetismo, e abarca não só as
doenças propriamente ditas, mas todas as variedades,
tão numerosas e tão complicadas de obsessões que,
elas mesmas, influem sobre o organismo. - In:
Revista Espírita, edição setembro-1865, artigo "Da
mediunidade curadora".


Desta vez, Allan Kardec cria um liame bastante
genérico, porém muito consistente, quando diz que o
Espiritismo, como ciência, se liga ao Magnetismo. Isto, só
para chamar bem sua atenção, foi escrito em setembro de
1865, portanto, mais de sete anos após o lançamento da
primeira obra espírita, o que mostra que sua visão acerca da
ligação entre as duas ciências em questão não só não mudou,
como foi se refinando.

"Nossos bons Espíritos, que se devotaram à
propagação do Espiritismo, tomaram também a
tarefa de vulgarizar o magnetismo. Em quase todas
as consultas, para os diversos casos de doenças, eles pedem
o concurso dos parentes: um pai, uma mãe, um irmão
ou uma irmã, um vizinho, um amigo, são requeridos
para fazer passes..." - In: Revista Espírita, edição
junho-1861, artigo "Grupo curador de Marmande
- Intervenção dos parentes nas curas".



36
Estas palavras não foram escritas por Kardec, mas
extraídas de uma carta, publicada na Revista Espírita, de
autoria do Sr. Dombre, sobre quem ele teceu excelentes
comentários, além de não ter refutado nem corrigido
quaisquer de suas palavras. Nelas, fica evidente que em
um grupo espírita muito sério, no qual muitos fenômenos
ocorriam com alta qualidade, os Espíritos guias trabalhavam
pela difusão do Espiritismo e do Magnetismo, sem qualquer
distinção entre essas ciências.

"Em definitivo, o que é o Espiritismo, ou antes, o
que é a mediunidade, esta faculdade incompreendida
até aqui, e cuja extensão considerável estabeleceu sobre
bases incontestáveis os princípios fundamentais da
nova revelação? É puramente e simplesmente uma
variedade da ação magnética exercida por um ou
por vários magnetizadores desencarnados, sobre um
sujeito humano agindo no estado de vigília ou no estado
extático, conscientemente ou inconscientemente".
"O que é, de outra parte, o magnetismo? uma variedade
do Espiritismo na qual os Espíritos encarnados agem
sobre outros Espíritos encarnados".
"Existe, enfim, uma terceira variedade do magnetismo
ou do Espiritismo, segundo se o tome por ponto de
partida da ação de encarnados sobre desencarnados, ou a de
Espíritos relativamente livres sobre Espíritos aprisionados
num corpo; essa terceira variedade, que tem por princípio
a ação dos encarnados sobre os Espíritos, se revela no
tratamento e na moralização dos Espíritos obsessores".
"O Espiritismo não é, pois, senão do magnetismo
espiritual, e o magnetismo não é outra coisa senão do
Espiritismo humano". - In: Revista Espírita, edição
junho-1867, artigo "O Magnetismo e o Espiritismo
comparados" - Ditado pelo espírito magnetizador E.
Quinemant epsicografado pelo médium sr. Desliens.




37
Essa transcrição foi um pouco mais longa, mas,
convenhamos, não haveria como reduzi-la. Trata-se de um
trecho de uma mensagem psicografada, de autoria de um
grande magnetizador contemporâneo de Kardec, sobre cuja
mensagem o codificador abre seus comentários com a seguinte
frase: "A justeza das apreciações e as profundezas do novo ponto de vista
que esta comunicação encerra, não escaparão a ninguém...". Acredito
ser desnecessário aditar comentários, entretanto sugiro sua
releitura a fim de ser bem absorvido o quanto estão implicados
o Espiritismo e o Magnetismo entre si.

Nos fatos concernentes ao Sr. Jacob, por assim dizer,
ele não fez menção do Espiritismo, ao passo que
toda atenção se concentrou sobre o magnetismo; isto
tinha sua razão de ser e sua utilidade. Se bem que o
concurso de Espíritos desencarnados nessas espécies de
fenômenos seja uma fato constatado, sua ação não é
aqui evidente, é porque disso fazemos abstração. Pouco
importa que os fatos sejam explicados com ou sem a
intervenção de Espíritos estranhos; o magnetismo e
o Espiritismo se dão as mãos; são duas partes
de um mesmo todo, dois ramos de uma mesma
ciência que se completam e se explicam um
pelo outro. Acreditar o magnetismo é abrir o
caminho ao Espiritismo, e reciprocamente. -
In: Revista Espírita, edição novembro-1867, artigo
"O zuavo Jacob" - 2° artigo.


Creio que, a essas alturas, você já deve estar se
perguntando se haveria mesmo necessidade de tanta:
transcrições. De certa forma posso até concordar que não
precisaria. Mas elas são tão fortes e concordantes entre si, que
preferi pecar mais pelo excesso do que pela omissão. Afinal
busco deixar bem evidenciado que Allan Kardec sabia que c
Espiritismo e o Magnetismo são duas partes de um m e s m o
u




38
todo, dois ramos de uma mesma ciência que se completam e
se explicam um pelo outro". A despeito disso, pode ser que
alguém, apesar de tão claros posicionamentos, ainda queira
contestar, pelo que prefiro dispor do máximo de citações
concordantes. Nos argumentos seguintes do livro procurarei
ser mais econômico nas transcrições, embora lembrando que
a linha base em que me firmo seja a de evitar espaços para
más interpretações ou se dizer que Allan Kardec não disse o
que disse ou quis dizer algo diferente.


O magnetismo e o Espiritismo são, com efeito, duas
ciências gêmeas, que se completam e se explicam uma
pela outra, e das quais aquela das duas que não quer se
imobilizar, não pode chegar a seu complemento sem se
apoiar sobre a sua congênere; isoladas uma da outra, elas se
detêm num impasse; elas são reciprocamente como a física e
a química, a anatomia e afisiologia. - In: Revista Espírita,
edição janeiro-1869, artigo "Estatística do Espiritismo".



O leitor bem observador terá notado que as
transcrições dispostas ao longo deste argumento seguiram
uma ordem cronológica, a começar pelas obras básicas
-- "O Livro dos Espíritos"; "O Livro dos Médiuns"; "O
Evangelho Segundo o Espiritismo"; "O Céu e O Inferno";
e "A Gênese"; --, seguindo-se de "Obras Póstumas" e
depois da "Revista Espírita". Fiz assim não por acaso.
Queria deixar bem evidenciado que a opinião de Allan
Kardec acerca da primeira abordagem foi coerente, persistente e
segura, até seus últimos dias nesta encarnação. O estudioso
espírita que, apesar de tanta evidência não se aperceber
dessa verdade, ficará embaraçado um dia, pois abrir mão
do Magnetismo, como um indispensável auxiliar da ciência
espírita, é diminuir esta, usurpando-lhe um dos braços, um
dos parentes mais próximos, seu próprio coração.

39
Abordagem 2
Fé e v o n t a d e : e l e m e n t o s
do mesmo ramo




A fé, abstração feita ao sentido de crença, tal como a
compreendemos sob a ótica espírita, relaciona-se com a vontade
de uma forma tão íntima e intrínseca que podemos dizer, sem
qualquer exagero ou desvio: uma não existe sem a outra. Fé e
vontade são, com total segurança, elementos primordiais de
uma mesma direção e sentido, de uma mesma virtude.
No Livro dos Médiuns -- capítulo 25, item 282,
a
12 questão --, quando trata das evocações, Allan Kardec
pergunta sobre as disposições especiais para as evocações, ao
que recebe por resposta que "com fé e com o desejo do bem
tem-se mais força" para realizar as evocações dos Espíritos
superiores. Fé e desejo; um formando par com o outro
para se obter bons resultados. Mas o que é o desejo senão a
própria vontade? No prosseguimento desse diálogo com os
a
Espíritos, a questão seguinte -- 13 -- é bastante objetiva:

Para as evocações, é preciso fé?
"A fé em Deus, sim; para o mais, a fé virá, se desejardes
o bem e tiverdes o propósito de instruir-vos."


41
Bastante enfática a resposta. O desejo trará a fé,
desde que exista o propósito da instrução -- ressalto que este
diálogo visava às questões pertinentes às evocações.
Mas é nos capítulos 11, 13 e 19 de "O Evangelho
Segundo o Espiritismo" que a palavra de Kardec e dos
Espíritos acerca da relação entre a fé e a vontade fica muito
mais eloqüente ainda. C o m o não pretendo fazer muitas
transcrições nesta abordagem, dos dois primeiros capítulos
indicados recomendo a leitura de pelo menos duas
mensagens: do capítulo 11a mensagem 13, e do capítulo 13
a de número 12.
Isto anotado, vamos nos deter em parte do que está
registrado no capítulo 19. Ali ele trata do poder da fé, tendo
como partida a seguinte passagem evangélica:

... Por que não pudemos nós outros expulsar esse
demônio? - Respondeu-lhes Jesus: Por causa da vossa
incredulidade. Pois em verdade vos digo, se tivésseis
a fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis
a esta montanha: Transporta-te daí para ali e ela se
transportaria, e nada vos seria impossível. -- In: Mateus,
XVII, 19 e 20.


Antes de trazer o comentário de Kardec sobre esta
passagem, que tal uma rápida reflexão? Você já procurou
saber qual o tamanho de um grão de mostarda? Em Mateus
13:31 (numa Bíblia católica) tem-se que o grão de mostarda
"... é realmente a menor de todas as sementes; mas, depois
de ter crescido, é a maior das hortaliças, e faz-se árvore, de
sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos".
N u m a Bíblia protestante pode-se ler: "A mostarda é a menor
das sementes, no entanto, quando plantada, cresce e torna-
se na maior das plantas dum jardim com ramos tão grandes
que os pássaros podem empoleirar-se neles ou abrigar-se na
sua sombra".

42
Ao contrário dessas afirmativas, o grão da mostarda
não é a menor das sementes nem a mostardeira a maior das
hortaliças nem, muito menos, atinge o tamanho de uma
árvore, nem mesmo nos tempos bíblicos. Apesar disso,
essa semente é muito pequena e, proporcionalmente, sua
árvore é enorme. Portanto, fazendo uso de uma imagem
forte pelo seu contraste, Jesus imprimiu grande enfoque
à força da fé. A exemplo da semente que, por vontade da
Natureza e aproveitando o inverno, rompe o solo e cresce
para ser árvore e produzir sementes em elevada quantidade,
aquele que, por vontade inabalável, deixa frutificar sua fé,
removerá todas as montanhas que se interpuserem entre
si e seus objetivos. Portanto, Jesus, proporcionando a fé a
um reduzido tamanho e gerando, por resposta, uma ação
eloqüente e exuberante, embute a força da vontade, com a
ajuda da qual tudo é possível.
Mas vejamos o que o senhor Allan Kardec escreveu
a propósito dessa passagem. No item 2 desse capítulo 19, ele
iniciou seus comentários assim:

No sentido próprio, é certo que a confiança nas suas
próprias forças torna o homem capaz de executar
coisas materiais, que não consegue fazer quem duvida
de si. Aqui, porém, unicamente no sentido moral se
devem entender essas palavras. (...) A fé robusta dá a
perseverança, a energia e os recursos que fazem com
que se vençam os obstáculos, assim nas pequenas coisas
como nas grandes. Da fé vacilante resultam a incerteza
e a hesitação de que se aproveitam os adversários que se
têm de combater; essa fé não procura os meios de vencer,
porque não acredita que possa vencer.


Parece estar bem evidenciado que a fé fornece elementos
fundamentais para qualquer ação que se pretenda desenvolver,
desde que ela seja robusta, pois a vacilante funciona em sentido
contrário, diminuindo a força e apontando para as derrotas.

43
Seguindo com o mesmo capítulo, no item seguinte
Allan Kardec faz novas e preciosas considerações.

Noutra acepção, entende-se como fé a confiança
que se tem na realização de uma coisa, a certeza de
atingir determinado fim. Ela dá uma espécie de lucidez
que permite se veja, em pensamento, a meta que se quer
alcançar e os meios de chegar lá, de sorte que aquele que a
possui caminha, por assim dizer, com absoluta segurança.
Tanto num como noutro caso, pode ela dar lugar a que se
executem grandes coisas.
A fé sincera e verdadeira é sempre calma; faculta a
paciência que sabe esperar, porque, tendo seu ponto de
apoio na inteligência e na compreensão das coisas,
tem a certeza de chegar ao objetivo visado. A fé vacilante
sente a sua própria fraqueza; quando a estimula o interesse,
torna-se furibunda e julga suprir, com a violência, a força
que lhe falece. A calma na luta é sempre um sinal de força
e de confiança; a violência, ao contrário, denota fraqueza
e dúvida de si mesmo.


A fé, tornando lúcido seu vivenciador, permite que
ele veja adiante, longe, profundo, enchendo-o de segurança
e certeza. Tudo isso porque a fé sincera e verdadeira encontra
apoio na inteligência e na compreensão das coisas.
Mas, onde terá sido que Allan Kardec tirou
tamanha certeza? Em que ramo ele se firmou para deduzir
tão lucidamente essa questão?
Ainda no mesmo capítulo, agora no item 5, ele nos
responde:

O poder da fé se demonstra, de modo direto e especial,
na ação magnética; por seu intermédio, o homem
atua sobre o fluido, agente universal, modifica-lhe
as qualidades e lhe dá uma impulsão por assim dizer
irresistível. Daí decorre que aquele que a um grande


44
poder fluídico normal junta ardente fé, pode, só pela
força da sua vontade dirigida para o bem, operar esses
singulares fenômenos de cura e outros, tidos antigamente
por prodígios, mas que não passam de efeito de uma lei
natural. Tal o motivo por que Jesus disse a seus apóstolos:
Se não o curastes, foi porque não tínheis fé.


Eis aí a união entre a fé e a vontade. Toda a segurança
de Kardec em tirar deduções tão firmes e lúcidas vem do fato de
que o poder da fé, esse poder divino que repousa no ser humano,
melhor se demonstra através do magnetismo. Ou seja, Kardec se
valeu, mais uma vez, dessa ciência para tratar e demonstrar algo
que sempre foi tocado de forma misteriosa, mística, distante...
Como a receber um aval da Espiritualidade, ainda
no mesmo capítulo 19, item 12, a mensagem "A fé humana
e a divina", de " U m Espírito protetor", não apenas reforçou
o aspecto da vontade na fé como ainda trouxe a união do
Espiritismo com o Magnetismo, questão tratada na primeira
abordagem deste livro.



No homem, a fé é o sentimento inato de seus destinos
futuros; é a consciência que ele tem das faculdades imensas
depositadas em gérmen no seu íntimo, a princípio em
estado latente, e que lhe cumpre fazer que desabrochem
e cresçam pela ação da sua vontade.
(...) o Cristo, que operou milagres materiais, mostrou,
por esses milagres mesmos, o que pode o homem, quando
tem fé, isto é, a vontade de querer e a certeza de
que essa vontade pode obter satisfação. Também
os apóstolos não operaram milagres, seguindo-lhe o
exemplo? Ora, que eram esses milagres, senão efeitos
naturais, cujas causas os homens de então desconheciam,
mas que, hoje, em grande parte se explicam e que pelo
estudo do Espiritismo e do Magnetismo se tornarão
completamente compreensíveis?



45
No primeiro parágrafo, o convite reflexivo acerca de
uma fé prenhe de vontade, indene, que propicia a consciência
de seus poderes íntimos a serem desabrochados e, com ela,
uma mobilização ativa e produtiva, tudo se resumindo na
questão colocada ao final do segundo parágrafo, onde as
duas grandes ciências esclarecerão a todos o que seriam,
em essência, os milagres, os verdadeiros milagres! Mas, me
pergunto, de que valeria esse saber, essa consciência, essa fé, se
não movermos nossa vontade em direção a esses objetivos?
No meu modo de ver, o assunto ficou tão evidente
que só me resta ir à Gênese para mais uma referência, com a
qual encerrarei as transcrições desta abordagem.

Razão, pois, tinha Jesus para dizer: "Tua fé te salvou."
Compreende-se que a fé a que ele se referia não é uma
virtude mística, qual a entendem, muitas pessoas, mas
uma verdadeira força atrativa, de sorte que aquele que
não a possui opõe à corrente fluídica uma força repulsiva,
ou, pelo menos, uma força de inércia, que paralisa a ação.
Assim sendo, também se compreende que, apresentando-
se ao curador dois doentes da mesma enfermidade,
possa um ser curado e outro não. É este um dos mais
importantes princípios da mediunidade curadora e
que explica certas anomalias aparentes, apontando-lhes
uma causa muito natural. --In: A Gênese - Cap. XV
item "Curas - Perda de sangue", título 11.



Não poderia ser outra a conclusão de Kardec. A
fé é o precioso elemento que possibilita as movimentações
fluídicas das curas. Não há, pois, como imaginar uma fé
sem vontade, tanto quando se movimenta para auxiliar,
interceder, aliviar e curar, como quando se dispõe a receber
ajuda e também se curar.



46
Abordagem 3
V o n t a d e difere de boa v o n t a d e




N e m sempre pensamos com o devido cuidado sobre
as palavras e expressões que pronunciamos ou escrevemos.
Muitas vezes temos delas um entendimento íntimo e,
baseado nele, as usamos na crença de que os que nos ouvem
entenderão nosso sentido. Quantos equívocos e situações
engraçadas ou embaraçosas surgem em cima disso!
Esta questão fica mais complicada ainda quando
nos deparamos com as traduções ou a necessidade de uma
convivência repentina numa outra cultura. Tanto tememos
como trememos nas bases, pois as gafes, os desconfortos e os
inconvenientes surgem de forma quase inevitável.
Particularmente, tenho pouca versatilidade no inglês,
mas, devido a repetidas viagens aos Estados Unidos, de vez
em quando preciso falar e me expressar naquele idioma e o
ridículo, vez por outra, causa espanto. Dou um exemplo. Fui
a um restaurante com um amigo e ele me indicou um prato
que eu não conhecia. Perguntou-me se eu gostava daquela
iguaria e eu, na maior convicção, disse que iria provar. Para

47
tanto, usei o verbo "to prove", o qual significa provar, só
que no sentido de demonstrar, evidenciar. O espanto dele
gerou o meu pavor: "o que eu disse de errado? -- pensei".
Na realidade, eu deveria ter usado o verbo "to taste", que é
aquele que indica experimentar. Depois de refeitos sorrimos
um pouco e pude degustar o saboroso petisco --· e não mais
esquecendo o aprendizado.
Até aí é compreensível, apesar das gafes. Agora,
quando usamos palavras ou expressões na certeza de
estarmos definindo, com segurança, o que temos na mente e
na emoção e, ao contrário disso, dizemos algo bem distante
ou mesmo que, em essência, não traduz o que de fato se
pretende, é uma lástima terrível.
Em nosso meio falamos muito de "boa vontade".
Achamos que esta expressão define uma "vontade boa"
quando, de fato, apenas exprime uma índole amena, acessível,
um gesto humilde, uma boa intenção.
Segundo o Houaiss, vontade pode ser:


1-faculdade que tem o ser humano de querer, de escolher,
de livremente praticar ou deixar de praticar certos atos
2- força interior que impulsiona o indivíduo a realizar
aquilo a que se propôs, a atingir seus fins ou desejos;
ânimo, determinação, firmeza
2.1- grande disposição em realizar algo por outrem;
empenho, interesse, zelo
3- capacidade de escolher, de decidir entre alternativas
possíveis; volição
4- sentimento de desejo ou aspiração motivado por um
apelo físico, fisiológico, psicológico ou moral; querer...



A boa vontade pode até inspirar algumas dessas
variantes da vontade, mas dificilmente, sozinha, conseguirá
ir muito longe.


48
Costumo dizer algo do tipo: num auditório não
lotado, nas cadeiras ocupadas estão sentadas as pessoas que
tiveram vontade de ir assistir ao evento; as vazias são as dos
que só ficaram na boa vontade.
Enquanto a vontade nos leva a decisões firmes,
superações, a ter aumentada a resistência, a perseverança,
a determinação e o tirocínio para bem estudar o que deve
ser feito e fazer, a boa vontade usualmente nos leva a uma
atitude acomodada, do tipo: se eu tiver tempo; se eu puder;
se não chover; se meu companheiro não me impedir; se eu
não adoecer; se tudo der certo...
A vontade diz sim ou não; a boa vontade fica no
talvez...
A vontade pergunta: quando? Onde?... e vai; a boa
vontade limita-se ao se...
A vontade afirma: conte comigo; a boa vontade é
não sei...
A vontade diz vou, não vou; a boa vontade sempre
tem um depende...
A vontade alegra-se por fazer; a boa vontade pede
muitas desculpas...
A vontade age e reage; a boa vontade raramente
interage...
A vontade movimenta o veículo; a boa vontade é só
motor de arranco...
A relação entre essas duas pode crescer indefini-
damente. Na verdade, não se trata de a boa vontade ser uma
coisa ruim; não, não é; apenas ela é pouco produtiva e gera
desistências nos primeiros entraves de qualquer luta ou busca.
Allan Kardec dedicou uma especial atenção à
vontade, a ela se referindo inumeráveis vezes. Tão grande foi
sua atenção, bem como o destaque que deu a essa verdadeira
alavanca, e tão raramente se referiu à boa vontade que não
deixa de haver, no mínimo, uma séria desatenção no uso da
segunda em substituição à primeira.

49
Q u e m de nós não ouviu, diversas vezes e por
diversas pessoas, frases enfatizadas do tipo: "basta ter boa
vontade e tudo será possível"? Em termos de passes e
magnetismo, então, isso chega a ser axiomático ou, quando
não, um corolário deduzido do que os "antigos" sempre
professaram e ensinaram.
Vejamos algumas colocações de Kardec acerca da
vontade. Lógico que, dentro da linha objetiva deste livro,
destacarei as relacionadas com o magnetismo.

A mesma materia elementar é suscetível de experimentar
todas as modificações e de adquirir todas as propriedades?
"Sim e é isso o que se deve entender, quando dizemos que
tudo está em tudo!" (1)
(...) (1) Este princípio explica o fenômeno conhecido
de todos os magnetizadores e que consiste em dar-se,
pela ação da vontade, a uma substancia qualquer, à
água, por exemplo, propriedades muito diversas: um
gosto determinado e até as qualidades ativas de outras
substâncias. Desde que não há mais de um elemento
primitivo e que as propriedades dos diferentes corpos
são apenas modificações desse elemento, o que se segue ê
que a mais inofensiva substância tem o mesmo princípio
que a mais deletéria. Assim, a água, que se compõe
de uma parte de oxigênio e de duas de hidrogênio, se
torna corrosiva, duplicándo-se a proporção do oxigênio.
Transformação análoga se pode produzir por meio
de ação magnética dirigida pela vontade. -- In: O
Livro dos Espíritos, questão 33.


A partir desta questão podemos fazer uma abertura
de leque para aproveitarmos ao máximo o que, a meu ver,
está bem visível, mas nem sempre tão perceptível para quem
lê os livros básicos de forma rápida.
Além de Kardec ter aposto um comentário adicional
à resposta dada pelos Espíritos e, em seguida, acrescido uma

50
subpergunta que atendia à proposta da questão anterior, ele pôs,
em nota de rodapé, a referência acima, para debulhar o princípio
"tudo está em tudo". De início, então, já aponta que a mudança
das propriedades de uma substância qualquer, como a água, por
exemplo, é fenômeno conhecido de todos os magnetizadores.
O que se destaca com vivacidade é que tal se dá "pela ação da
vontade". Tamanha é a ênfase com a qual ele pretendeu destacar
a ação da vontade que a colocou entre vírgulas. No seguimento,
fez uma comparação com um exemplo da química para que
não haja dúvidas quanto ao entendimento das mudanças das
propriedades das substâncias.
Nesse ponto, seria lícito se pensar assim: mas o que
ele falou se referia à ação magnética sobre uma substância
qualquer e não sobre os corpos orgânicos, os seres humanos.
Seguramente retornaremos a esse aspecto mais adiante.
Por hora pontuemos claramente o que ele nos
ofertou com sua conclusão: "Transformação análoga se pode
produzir por m e i o de ação magnética dirigida pela
vontade". Não há, aí, qualquer espaço para se inserir a boa
vontade no lugar da vontade ou se deduzir que o magnetismo
não seja a força atuante do processo de mudança dessas
propriedades a que ele aludiu. Ademais, uma ação dirigida
é uma ação que está sob comando, sob controle, e isso só se
dá com qualidade, se quem dirige sabe o que faz; para tanto,
por mais redundante que seja dizê-lo, é preciso que quem
dirija conheça os mecanismos dessa direção e se submeta a
seus princípios. Certamente todos sabemos que para dirigir
uma vontade em sentido magnético é preciso que se conheça
o magnetismo, assim como para se dirigir qualquer coisa é
preciso que se conheça seus mecanismos. Prossigamos.

Esta teoria nos fornece a solução de um fato bem
conhecido em magnetismo, mas inexplicado até hoje: o
da mudança das propriedades da água, por obra da
vontade. O Espírito atuante é o do magnetizador,

51
quase sempre assistido por outro Espírito. Ele opera
uma transmutação por meio do fluido magnético que,
como atrás dissemos, é a substância que mais se aproxima
da matéria cósmica, ou elemento universal. Ora, desde
que ele pode operar uma modificação nas propriedades da
água, pode também produzir um fenômeno análogo
com os fluidos do organismo, donde o efeito curativo
da ação magnética, convenientemente dirigida.
Sabe-se que papel capital desempenha a vontade em
todos os fenômenos do magnetismo. Porém, como se há
de explicar a ação material de tão sutil agente? A vontade
não é um ser, uma substância qualquer; não é, sequer,
uma propriedade da matéria mais etérea que exista. A
vontade é atributo essencial do Espírito, isto é, do ser
pensante. Com o auxílio dessa alavanca, ele atua
sobre a matéria elementar e, por uma ação consecutiva,
reage sobre seus compostos, cujas propriedades íntimas
vêm assim a ficar transformadas.
Tanto quanto do Espírito errante, a vontade é
igualmente atributo do Espírito encarnado; daí o poder
do magnetizador, poder que se sabe estar na razão
direta da força de vontade. Podendo o Espírito
encarnado atuar sobre a matéria elementar, pode do
mesmo modo mudar-lhe as propriedades, dentro de certos
limites. Assim se explica a faculdade de cura pelo
contacto e pela imposição das mãos, faculdade que
algumas pessoas possuem em grau mais ou menos
elevado. - In: O Livro dos Médiuns - Cap. VIII -
"Do laboratório do mundo invisível" -- Item 131.



Aí está o senhor Allan Kardec apresentando o
complemento da citação anterior e também expandindo-a, dando
à vontade todo o destaque que ela mereceu de suas observações.
Sobre as leis que vigoram no mundo espiritual, com
base nos fatos analisados ao longo do capítulo 8 de "O Livro dos
Médiuns", Kardec inicia ratificando que é a ação da vontade,
atuando através do magnetismo, que provoca as mudanças das

52
propriedades da água. E conclui o primeiro parágrafo com essa
pérola: "Ora, desde que ele pode operar uma modificação nas
propriedades da água, pode também produzir um fenômeno
análogo com os fluidos do organismo, donde o efeito curativo
da ação magnética, convenientemente dirigida". Ou seja:
ele já tinha explicado, desde "O Livro dos Espíritos", como
se processam as mudanças elementares na matéria inerte, de
onde ele tomou a água por referência básica. Agora extrapola
e confirma que o mesmo princípio, por analogia, também
produz modificações no fluido orgânico, assim surgindo
o efeito curativo da ação magnética. Só que não se trata de
uma ação magnética qualquer, senão uma ação magnética
convenientemente dirigida. Teria ele acrescido essas
palavras finais só para compor uma frase de melhor efeito? Se
sim, ele teria exagerado na dose; se não, qual a razão então? O
que ele, realmente, quis dizer com elas? Parece estar claro que
era exatamente isso que ele queria dizer: que o magnetismo
que atua, que repercute, que funciona mesmo, sempre pede
vontade e direção conveniente. A vontade é o desejo sincero,
firme e profundo de fazer; a direção é o foco, o objetivo, o cerne
do tratamento; o conveniente é o uso correto, equilibrado,
apropriado, o mais perfeito possível, dos conhecimentos da
ciência envolvida, portanto do magnetismo.
Dentro dessa análise é necessário se perceba
que, de início, Kardec não está falando de virtudes ou
simplicidade no agir; fala de fluido magnético, vontade e
direção conveniente. E quando, nos parágrafos seguintes,
disseca a vontade, faz reflexões muito graves, conectando-a
a "todos os fenômenos do magnetismo" e apresentando-a
como uma poderosa alavanca.
A propósito, lembra o leitor qual o papel da alavanca
tanto na física como na vida comum? Segundo a enciclopédia
Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki) "na física, a alavanca
é um objeto rígido que é usado com um ponto fixo apropriado
(fulcro) para multiplicar a força mecânica que pode ser

53
aplicada a um outro objeto (resistência)". De uma maneira
mais simples, a alavanca tem a função básica de exigir menor
esforço para se vencer a resistência ou a inércia de algo muito
pesado. Sua importância é tamanha que Arquimedes, antigo
cientista grego, é muito lembrado por sua frase: "Dê-me
um lugar para me firmar e um ponto de apoio para minha
alavanca que eu deslocarei a Terra". Pois bem, foi exatamente
à função de uma alavanca que Allan Kardec comparou a
vontade e concluiu que o poder do magnetizador está na
razão direta da força de vontade.
Ele, entretanto, não se limitou a essa referência.

... Algumas vezes basta mesmo que o médium
magnetize, com essa intenção, a mão e o braço
daquele que quer escrever. Não raro até limitando-
se o magnetizador a colocar a mão no ombro daquele,
temo-lo visto escrever prontamente sob essa influência.
Idêntico efeito pode também produzir-se sem
nenhum contacto, apenas por ato da vontade de
auxiliar. Concebe-se facilmente que a confiança
do magnetizador no seu poder, para produzir tal
resultado, há de aí desempenhar papel importante e que
um magnetizador incrédulo, fraca ação ou nenhuma
exercerá. - In: O Livro dos Médiuns - Cap. XVII
- "Da formação dos médiuns" - Item 206


Até mesmo para contribuir no desenvolvimento
de faculdades mediúnicas -- aqui ele trata das experiências
no campo da psicografia -- Allan Kardec sugere o apoio ou
a interferência de um magnetizador, seja pelo toque direto
sobre o membro em ação ou pela simples vontade de ajudar,
sem qualquer contacto. Entretanto, ele adiciona o aspecto
da autoconfiança do magnetizador, a qual exerce importante
papel no fenômeno. Significa dizer que uma vontade
vacilante, como acontece com a limitada "boa vontade",


54
pouco produzirá ou mesmo nenhuma ação exercerá. Isso
nos entristece muito, pois é tão comum vermos e sabermos
passistas que aplicam passes como uma mera obrigação, sem
qualquer ânimo ou confiança interior, abstração feita àqueles
que não têm a mínima noção do que, de como ou quando
fazer ou usar tal ou qual técnica.

São extremamente variados os efeitos da ação fluídica
sobre os doentes, de acordo com as circunstâncias. Algumas
vezes é lenta e reclama tratamento prolongado, como
no magnetismo ordinário; d'outras vezes é rápida, como
uma corrente elétrica. Há pessoas dotadas de tal poder,
que operam curas instantâneas nalguns doentes,
por meio apenas da imposição das mãos, ou, até,
exclusivamente por ato da vontade. Entre os dois pólos
extremos dessa faculdade, há infinitos matizes. Todas as
curas desse gênero são variedades do magnetismo
e só diferem pela intensidade e pela rapidez da ação. O
princípio é sempre o mesmo: o fluido, a desempenhar o
papel de agente terapêutico e cujo efeito se acha subordinado
à sua qualidade e a circunstâncias especiais. -- In: A Gênese
- Cap. XIV- "CURAS" - item 32.


A força da vontade é tamanha que até mesmo
sem uma ação fluídica propriamente dita, e em casos não
comuns, porém realizáveis, só sua existência pode chega-r
a provocar uma cura instantânea. Perdoe o trocadilho, mas
é imperioso que observemos a vontade com vontade e não
apenas com boa vontade.


O poder da fé se demonstra, de modo direto e especial,
na ação magnética; por seu intermédio, o homem atua
sobre o fluido, agente universal, modifica-lhe as
qualidades e lhe dá uma impulsão por assim dizer
irresistível. Daí decorre que aquele que a um grande
poder fluídico normal junta ardente fé, pode, só pela

55
força da sua vontade dirigida para o bem, operar
esses singulares fenômenos de cura e outros, tidos
antigamente por prodígios, mas que não passam de
efeito de uma lei natural. Tal o motivo por que fesus
disse a seus apóstolos: se não o curastes, foi porque não
tínheis fé. -- In: O Evangelho segundo o Espiritismo
- Cap. XIX - "A fé transporta montanhas", item 5.



Valendo-se agora da fé como potente coadjuvante do
magnetismo, Allan Kardec dá, por assim dizer, uma reforçada
em tudo o que já vimos, afirmando, enfático: "aquele que a um
grande poder fluídico normal junta ardente fé, pode, só pela
força da sua vontade dirigida para o bem, operar esses
singulares fenômenos de cura e outros, tidos antigamente por
prodígios..." e, praticamente criando embaraços para os que
preferem tratar as ocorrências menos comuns da vida como
sobrenaturais, acrescentou, não com menos ênfase, que tais
eventos "não passam de efeito de uma lei natural".


... O Cristo, que operou milagres materiais,
mostrou, por esses milagres mesmos, o que pode
o homem, quando tem fé, isto é, a vontade de
querer e a certeza de que essa vontade pode obter
satisfação... -- In: O Evangelho segundo o Espiritismo
- Cap. XIX- "A fé transporta montanhas" - Item 12,
"A fé humana e a divina".



Esta citação foi repetida só para lembrar que a fé, em si
mesma, é a vontade de querer... Não é interessante essa ligação
feita por um Espírito Protetor, referendada por Kardec? Fé e
vontade sempre consorciadas entre si. E a certeza da vontade
pode obter satisfação... Muito expressivo isso.
Mais interessante ainda foi a conclusão dessa
mensagem:

56
Se todos os encarnados se achassem bem persuadidos
da força que em si trazem, e se quisessem pôr a
vontade a serviço dessa força, seriam capazes de
realizar o que, até hoje, eles chamaram prodígios e
que, no entanto, não passa de um desenvolvimento
das faculdades humanas.


É isso: o que precisamos mesmo é colocar nossa
vontade a serviço da força, do poder que todos temos, pois
toda uma sorte de milagres e feitos fantásticos não passam de
um desenvolvimento das nossas faculdades -- será que você já
tinha pensado nisso? Já teria passado por sua cabeça que esses
poderes "maravilhosos", os quais costumam causar espanto
na maioria das pessoas, não passam do desenvolvimento de
nossas capacidades e que essa mesma maioria, se quisesse,
também poderia desenvolvê-los e produzir maravilhas de
bênçãos? Já pensou?

O Espiritismo torna compreensível a ação da prece,
explicando o modo de transmissão do pensamento,
quer no caso em que o ser a quem oramos acuda ao
nosso apelo, quer no em que apenas lhe chegue o nosso
pensamento. Para apreendermos o que ocorre em tal
circunstância, precisamos conceber mergulhados no
fluido universal, que ocupa o espaço, todos os seres,
encarnados e desencarnados, tal qual nos achamos,
neste mundo, dentro da atmosfera. Esse fluido
recebe da vontade uma impulsão; ele é o veículo do
pensamento, como o ar o é do som, com a diferença de
que as vibrações do ar são circunscritas, ao passo que as
do fluido universal se estendem ao infinito. Dirigido,
pois, o pensamento para um ser qualquer, na Terra ou no
espaço, de encarnado para desencarnado, ou vice-versa,
uma corrente fluídica se estabelece entre um e outro,
transmitindo de um ao outro o pensamento, como o ar
transmite o som.


57
A energia da corrente guarda proporção com a do
pensamento e da vontade... - In: O Evangelho segundo
o Espiritismo - Cap. XXVII - "Pedi e obtereis" - Item
10, "Transmissão do Pensamento".



Eis aí mais uma ligação do magnetismo com a
vontade, elemento que dá toda impulsão ao fluido universal
(ou cósmico), inclusive explicando, de forma muita clara,
como ocorre a ação da prece -- dentro de padrões fluídicos,
físicos, portanto. A corrente fluídica, ou magnética, existe
na proporção do pensamento e da vontade. Isto é muito
relevante, pois reforça, mesmo numa oração, o valor de uma
pessoa que quer, sabe, procura e usa sua força interior. Não
é por menos que pessoas de fracos desejos, inconsistentes
anseios, que só fazem o bem no limite da obrigação ou
simplesmente repetem gestos, sem exercerem uma vontade
firme e consciente, muito raramente obtêm maiores ou
melhores sucessos em seus trabalhos magnéticos, quiçá em
suas vidas comuns.

A ação magnética pela qual se dá a uma substância, a
água, por exemplo, propriedades especiais, tem relação
com a do Espírito que cria uma substância? - R.. O
magnetizador não desdobra absolutamente senão a
vontade; é um Espírito que o ajuda, que se encarrega
de preparar e de concentrar o remédio. - In: Revista
Espírita, edição agosto-1859, artigo "Oguia da senhora
Mally", questão 25, feita a São Luiz.


Embora trate de questão bastante específica, a
magnetização da água, São Luiz reforça o quanto a vontade
atua na ação magnética. Só para lembrar, São Luiz foi um dos
principais Espíritos da Codificação.


58
O fluido perispiritual do encarnado, portanto, é posto
em ação pelo Espírito; se, pela sua vontade, o Espírito
irradia, por assim dizer, seus raios sobre um outro
indivíduo, esses raios o penetram; daí a ação magnética
mais ou menos possante segundo a vontade, mais
ou menos benfazeja segundo esses raios sejam de
uma natureza mais ou menos boa, mais ou menos
vivificante; porque, pela sua ação, podem penetrar os
órgãos, e, em certos casos, restabelecer o estado normal.
Sabe-se qual é a influência das qualidades morais no
magnetizador. - In: Revista Espírita, edição dezembro-
1862, artigo "Estudo sobre os possessos de Morzine-As
causas da obsessão e os meios de combatê-la", escrito pelo
próprio Allan Kardec.



Na forma como estou tratando do assunto, nesta
citação surgiu um novo elemento para análise. A vontade, já
o sabemos, é fator determinante no processo magnético; ela
define a potência da ação magnética. O elemento novo aqui
é a qualidade da emissão. Esta interfere no maior ou menor
benefício alcançado pelo magnetismo. Como essa qualidade
relaciona-se muito diretamente com a moral, a harmonia e o
equilíbrio das emoções do magnetizador, esta é motivo mais do
que suficiente para se buscar, nos anseios das curas, por um bom
magnetizador, o qual não se limita a deter poderes excepcionais
nem a uma vontade vigorosa; é preciso que ele também seja
detentor de elevada moral, ética, retidão, equilíbrio.
A essas alturas, julgo que duas mensagens têm um
espaço indispensável neste conjunto de citações, tanto pelo
teor em si como pelos Espíritos que as transmitiram.

"A vontade, existindo no homem em diferentes graus
de desenvolvimento, serviu, em todas as épocas, seja
para curar, seja para aliviar. É lamentável ser obrigado
a constatar aue ela foi também a fonte de muitos males, mas

59
é uma das conseqüências do abuso que, freqüentemente,
o ser faz de seu livre arbítrio. A vontade desenvolve o
fluido, seja animal, seja espiritual, porque, o sabeis
todos agora, há vários gêneros de magnetismo, entre os
quais estão o magnetismo animal e o magnetismo
espiritual que pode, segundo a ocorrência, pedir
apoio ao primeiro. Um outro gênero de magnetismo,
muito mais poderoso ainda, é a prece que uma alma pura
e desinteressada dirige a Deus.
"A vontade foi, freqüentemente, mal compreendida;
em geral aquele que magnetiza não pensa senão em
desdobrar sua força fluídica, senão em derramar seu próprio
fluido sobre o paciente submetido a seus cuidados, sem se
ocupar-se há ou não uma Providência que nisso se interessa
tanto e mais do que ele; agindo só, não pode obter senão
o que sua única força pode produzir; ao passo que nossos
médiuns curadores começam por elevar sua alma a Deus,
e para reconhecer que, por eles mesmos, não podem nada;
fazem, por isso mesmo, um ato de humildade, deabnegação;
então, confessando-se muito fracos por si mesmos, Deus, em
sua solicitude, lhes envia poderosos recursos que não pode
obter o primeiro, uma vez que se julga suficiente para a
obra empreendida. Deus recompensa sempre a humildade
sincera elevando-a, ao passo que rebaixa o orgulho. Esse
recurso que envia, são os bons Espíritos que vêm penetrar
o médium de seu fluido benfazejo, que este transmite ao
enfermo. Também é por isso que o magnetismo empregado
pelos médiuns curadores é tão poderoso e produz essas curas
qualificadas de miraculosas e que são devidas simplesmente
à natureza do fluido derramado sobre o médium; ao passo
que o magnetizador comum se esgota, freqüentemente,
em vão, em fazer passes, o médium curador infiltra um
fluido regenerador pela única imposição das mãos, graças
ao concurso dos bons Espíritos; mas esse concurso não é
concedido senão à fé sincera e à pureza de intenção." - In:
Revista Espírita, edição janeiro-1864, artigo "Médiuns
Curadores", mensagem ditada por Mesmer, através do
médium Sr. Albert.



60
Se você observou esta citação com cuidado, até
o fim, deve ter-se espantado com o nome de seu autor. É
de causar espanto mesmo: foi Mesmer quem ditou estas
palavras. U m a síntese formidável, não é mesmo? C o m sua
autoridade, lastreada não apenas na sua própria grandeza,
como o mais respeitado de todos os magnetizadores modernos
e contemporâneos, como, agora, na condição de Espírito
errante, ele afirma ser a vontade que desenvolve o fluido
não só animal como também o espiritual e ainda aponta que
o magnetismo espiritual pode pedir ajuda ao magnetismo
animal. Notável, não? Melhor ainda: Allan Kardec não
levantou qualquer suspeita que indicasse discordar do teor
ou da identidade do autor.
A outra mensagem não é menos relevante:

"Uma palavra sobre os médiuns curadores, dos quais
vindes de falar; estão todos nas disposições mais louváveis;
têm a fé que ergue as montanhas, o desinteresse que
purifica os atos da vida, a humildade que os santifica. Que
perseverem na obra de beneficência que empreenderam;
que se recordem bem que aquele que pratica as leis sagradas
que o Espiritismo ensina, se aproxima constantemente
do Criador. Que, quando empregam sua faculdade,
a prece, que é a vontade mais forte, seja sempre seu
guia, seu ponto de apoio. O Cristo vos deu, em toda a
sua existência, a prova mais irrecusável da vontade mais
firme, mas era a vontade do bem e não a do orgulho.
Quando dizia às vezes: Eu quero, essa palavra estava
cheia de unção; seus apóstolos, que o cercavam, sentiam
seus corações se abrirem a essa santa palavra. A doçura
constante do Cristo, sua submissão à vontade de seu
Pai, sua perfeita abnegação, são os mais belos modelos
de vontade que se possa propor para exemplo." - In:
Revista Espírita, edição janeiro-1864, artigo "Médiuns
Curadores", mensagem ditada por Paulo, o apóstolo,
através do médium Sr. Albert.



61
Singular convite à purificação não apenas de nossos
dons, mas de nossa vontade, de nossa ação humana, feito
por ninguém menos que o grande Paulo de Tarso. Convite
a ser bem medido e pesado em nossa consciência, em nossa
vida. Q u e tal se fazer sempre uma prece ao iniciar um passe?
No mínimo, melhorará as condições gerais da ação. Graças a
Deus, a maioria já faz. Q u e façamos com alma e coração.
Como, aó longo do estudo do Magnetismo
segundo a ótica Espírita, é muito comum o entrelaçamento
entre a ação magnética e a mediunidade curadora, pode ser
que alguns conceitos sejam embaralhados e, certamente,
poderá gerar deduções equivocadas. Por isso mesmo, após
tantas considerações acerca da vontade, de sua força e de
seu poder, convém ponderar sobre dois destacados pontos
frisados por Kardec:


Os Espíritos vão para onde querem; nenhuma vontade
pode constrangê-los; eles se rendem à prece se é fervorosa,
sincera, mas jamais à injunção. Disso resulta que a
vontade não pode dar a mediunidade curadora,
e que ninguém pode ser médium curador de desejo
premeditado. Reconhece-se o médium curador pelos
resultados que obtém, e não pela sua pretensão de
sê-lo. -- In: Revista Espírita, edição setembro-1865,
artigo "Mediunidade Curadora", item 9.



Muito relevante isso: a vontade, como elemento
propulsor de ações fluídicas, está associada ao magnetismo e
não à mediunidade. Ela, só por si, no sentido humano, exerce
influência anímica e não espiritual.
Nesse sentido ele retomou o assunto no item 14 do
mesmo artigo:


62
A mediunidade curadora é uma aptidão, como todos
os gêneros de mediunidade, inerente ao indivíduo, mas
o resultado efetivo dessa aptidão é independente de
sua vontade. Ela se desenvolve, incontestavelmente,
pelo exercício, e sobretudo pela prática do bem e da
caridade; mas como ela não poderia ter a constância,
nem a pontualidade de um talento adquirido pelo
estudo, e do qual se é sempre senhor, não poderia tornar-
se uma profissão. Seria, pois, abusivamente que
uma pessoa se ostentasse diante do público como
médium curador. Estas reflexões não se aplicam
aos magnetizadores, porque a força está neles, e são
livres para dela dispor.



A distinção que o mestre lionês estabeleceu aí
entre mediunidade curadora e Magnetismo é muito valiosa,
notadamente na convergência do ponto comum: vontade.
As duas últimas frases são uma advertência deveras
importante a fim, de que não façamos confusão entre as
vertentes da cura. Não se abusar em se dizer ou se apresentar
como médium curador, o mesmo não se referindo ao
magnetizador. Para muitos, isso é, no mínimo, inquietante.
Prossigamos com Kardec:

Mas se a vontade é ineficaz quanto ao concurso dos
Espíritos, ela é onipotente para imprimir ao fluido,
espiritual ou humano, uma boa direção e uma
energia maior. No homem débil e distraído, a corrente
é débil, a emissão fraca; o fluido espiritual se detém nele,
mas sem proveito para ele; no homem de uma vontade
enérgica, a corrente produz o efeito de uma ducha.
Não é preciso confundir a vontade enérgica com a
teimosia, porque a teimosia é sempre uma conseqüência
do orgulho e do egoísmo, ao passo que o mais humilde
pode ter a vontade do devotamento.


63
A vontade é ainda onipotente para dar aos fluidos
as qualidades especiais apropriadas à natureza do
mal. Este ponto, que é capital, se prende a um princípio
ainda pouco conhecido, mas que está em estudo, o das
criações fluídicas e das modificações que o pensamento
pode fazer a matéria suportar. O pensamento, que provoca
uma emissão fluídica, pode operar certas transformações
moleculares e atômicas, como se vê isto se produzir sob a
influência da eletricidade, da luz ou do calor. - In: Revista
Espírita, edição setembro-1865, artigo "Mediunidade
Curadora", item 10.


Vontade onipotente; bela expressão!
Verdadeiramente ricas estas observações de Allan
Kardec. Com elas, não apenas ficam desmistificadas muitas
ocorrências tidas à conta de supernaturais bem como se destaca
a valência da vontade em todos os fenômenos magnéticos,
mesmo aqueles que têm suporte ou direção espiritual.
Em outubro de 1866, na sua Revista Espírita, ele
comentou alguns artigos que leu e transcreveu, especialmente
sobre o zuavo curador do Campo de Châlons:

... O conhecimento da lei da eletricidade reduziu esse
pretenso prodígio às proporções dos efeitos naturais. Assim
com uma multidão de outros fenômenos. Mas conhecem-
se todas as leis da Natureza? a propriedade de todos os
fluidos? Não se pode crer que um fluido desconhecido,
como o foi por muito tempo a eletricidade, seja a causa
de efeitos inexplicados produzisse sobre a economia
resultados impossíveis para a ciência, com a ajuda dos
meios limitados dos quais dispõe? Pois bem! ali está todo
o segredo das curas medíanímicas; ou melhor, não há
segredo, porque o Espiritismo não tem mistérios senão
para aqueles que não se dão ao trabalho de estudá-lo.
Essas curas têm muito simplesmente por princípio uma
ação fluídica dirigida pelo pensamento e a vontade,
em lugar de ser por um fio metálico. O todo é conhecer


64
as propriedades desse fluido, as condições nas quais
ele pode agir, e saber dirigi-lo. É preciso, além disso,
um instrumento humano suficientemente provido
desse fluido, e apto a lhe dar a energia suficiente.
Essa faculdade não é um privilégio de um
indivíduo; por isto mesmo que ela está na Natureza,
muitos a possuem, mas em graus muito diferentes, como
todo o mundo há de ver, mas mais ou menos longe. No
número daqueles que dela estão dotados, alguns agem
com conhecimento de causa, como do zuavo Jacob; outros
com seu desconhecimento, e sem se darem conta daquilo
que se passa neles; sabem que curam, eis tudo; perguntai-
lhes como, disto não sabem nada. Se são supersticiosos,
atribuirão seu poder a uma causa oculta, à virtude de
algum talismã ou amuleto que, em realidade, não
servem para nada. Ocorre assim com todos os médiuns
inconscientes e o número deles é grande. Muitas pessoas
têm em si mesmas a causa primeira de efeitos que os
espantam e que não se explicam. Entre os negadores mais
obstinados, mais de um é médium sem o saber.



De passagem: "o Espiritismo não tem mistérios
senão para aqueles que não se dão ao trabalho de estudá-lo".
Desta frase surge uma bela reflexão: por que será que para
tanta gente o Espiritismo aparenta ser tão misterioso?
Se, por um lado, a vontade não gera mediunidade,
seguramente ela favorece à ação fluídica. Fica restando o
campo do conhecimento dos fluidos e suas leis àquele que, de
fato, queira ser um curador, na melhor expressão da palavra.
Definitivamente, não devemos nos restringir a uma boa
vontade imobilizante, mas desenvolver uma vontade firme,
sem mesclas, robustecida pelo direcionamento ao bem, pois
só assim ela será frutífera e gerará curas mais próximas da
cura real.




65
Abordagem 4
P r e c e s e orações são f o r m a s
de magnetismo




Soa sempre muito estranho quando alguém diz
algo do tipo: "No meu Centro não existe magnetismo, pois
isso é coisa de pseudo-cientista". Quando Allan Kardec
destaca a prece, a oração, como uma atitude magnética,
seguramente expõe opiniões que trazem uma crítica muito
severa. Afinal, não é de bom alvitre se generalizar em cima
de comportamentos, muito menos quando não se tem bom
conhecimento sobre aquilo que se está generalizando.


a
8 Podem-se obter curas unicamente por meio da prece?
"Sim, desde que Deus o permita; pode dar-se, no
entanto, que o bem do doente esteja em sofrer por mais
tempo e então julgais que a vossa prece não foi ouvida".
a
9 Haverá para isso algumas fórmulas de prece mais
eficazes do que outras?
"Somente a superstição pode emprestar virtudes
quaisquer a certas palavras e somente Espíritos ignorantes
ou mentirosos podem alimentar semelhantes idéias,


67
prescrevendo fórmulas. Pode, entretanto, acontecer que,
em se tratando de pessoas pouco esclarecidas e incapazes
de compreender as coisas puramente espirituais, o uso
de determinada fórmula contribua para lhes infundir
confiança. Neste caso, porém, não é na fórmula que
está a eficácia, mas na fé, que aumenta por efeito da
idéia ligada ao uso da fórmula". - In: O Livro dos
Médiuns, Cap. XIV - "Dos Médiuns", item 176.



Nessas questões se destaca a forte ligação existente
entre a prece e a cura. O vínculo é direto, não consorciado a
fórmulas, senão à fé.
A propósito da primeira resposta, pode intrigar o
fato de ser colocado que a cura depende da "permissão de
Deus". O que deve passar despercebido para alguns é que a
permissão de Deus não se dá por um ato passional, direto,
desconectado de um contexto; essa permissão é o perfeito
enquadramento das Leis Naturais, vigentes tanto para o
mundo físico como para o espiritual. Portanto, além de não
derrogar as leis da matéria, todos os ditames e repercussões
da vida e da ação espiritual são considerados. É assim que se
dá a permissão Divina para tudo.

Com certeza não é só o Espiritismo que nos assegura
tão auspicioso resultado, nem ele tem a pretensão de ser
o meio exclusivo, a garantia única de salvação para as
almas. Força é confessar, porém, que pelos conhecimentos
que fornece, pelos sentimentos que inspira, como
pelas disposições em que coloca o Espírito, fazendo-
Ihe compreender a necessidade de melhorar-se, facilita
enormemente a salvação. Ele dá a mais, e a cada um,
os meios de auxiliar o desprendimento d'outros Espíritos
ao deixarem o invólucro material, abreviando-lhes a
Pela prece
perturbação pela evocação e pela prece.
sincera, que é uma magnetização espiritual,


68
provoca-se a desagregação mais rápida do
pela evocação conduzida com
fluido perispiritual;
sabedoria e prudência, com palavras de benevolência
e conforto, combate-se o entorpecimento do Espírito,
ajudando-o a reconhecer-se mais cedo e, se é sofredor,
incute-se-lhe o arrependimento - único meio de
abreviar seus sofrimentos. - In: O Céu e o Inferno,
a
2 parte - Cap. I, item 15.

Ressaltando que a ação fluídica apresentada nessa
colocação refere-se à ajuda no tratamento de problemas
perispirituais, no mundo espiritual, após um processo
desencarnatório, nela encontramos uma forte confirmação
da ação magnética provocada pela prece sincera, que, no dizer
do codificador, é uma magnetização espiritual. Mas ele ainda
acrescenta que uma evocação conduzida com sabedoria e
prudência pode ajudar ao sofredor espiritual, abreviando-lhe
os sofrimentos. Evocação, reparemos bem.

Por exercer a prece uma como ação magnética,
poder-se-ia supor que o seu efeito depende da força
fluídica. Assim, entretanto, não é. Exercendo sobre os
homens essa ação, os Espíritos, em sendo preciso, suprem
a insuficiência daquele que ora, ou agindo diretamente
em seu nome, ou dando-lhe momentaneamente uma
força excepcional, quando o julgam digno dessa graça,
ou que ela lhe pode ser proveitosa. - In: O Evangelho
Segundo o Espiritismo - Cap. XXVII- "Pedi e Obtereis"
-Item 14.


Nesta outra passagem, entretanto, observamos
que Kardec sinaliza o poder dos Espíritos em interferirem,
inclusive, no campo magnético humano, reforçando-o,
suprindo-o, ampliando-o. Não seria cem por cento correto,
portanto, dizer-se que uma prece apenas atua no campo do
magnetismo espiritual, no sentido fluídico da expressão. Sua

69
ação, como se deduz, vai muito além, é muito mais potente e
eficiente do que imaginamos.

... para curar pela ação fluídica, os fluidos mais
depurados são os mais saudáveis; uma vez que
esses fluidos benfazejos são o próprio dos Espíritos
superiores, é, pois, o concurso destes últimos que é
necessário obter; é por isso que a prece e a invocação
são necessárias. Mas para orar, e sobretudo orar com
fervor, é preciso a fé; para que a prece seja escutada, é
preciso que seja feita com humildade e ditada por um
sentimento real de benevolência e de caridade; ora,
não há de verdadeira caridade sem devotamento, e
não há de devotamento sem desinteresse; sem essas
condições, o magnetizador, privado da assistência dos
bons Espíritos, nisso está reduzido às suas próprias
forças, freqüentemente insuficientes, ao passo que
com seu concurso podem ser centuplicados em poder e
em eficácia... - In: Revista Espírita, edição janeiro-
janeiro 1864, artigo "Médiuns Curadores".

Com esta colocação, o mestre lionês explicita
uma outra configuração dos fluidos espirituais, destacando
sua pureza e, portanto, sua penetrabilidade. Mas, há de
se repetir, não se trata de uma prece de boca ou palavras
soltas e sim de sentimentos puros, apoiados numa vivência
harmoniosamente equilibrada, cheia de fé e com evocação de
Bons Espíritos.

... Todos os magnetizadores são mais ou menos
aptos a curar, desde que saibam conduzir-se
convenientemente, ao passo que nos médiuns curadores
a faculdade é espontânea e alguns até a possuem sem jamais
terem ouvido falar de magnetismo. A intervenção de
uma potência oculta, que é o que constitui a mediunidade,


70
se faz manifesta, em certas circunstâncias, sobretudo se
considerarmos que a maioria das pessoas que podem,
com razão, ser qualificadas de médiuns curadores recorre
à prece, que é uma verdadeira evocação. - In: O
Livro dos Médiuns - Cap. XIV - "Dos Médiuns" -
Item 175, "Mediunidade curadora".


A prece, como se vê, desempenha papel fundamental
nas terapias fluídicas, notadamente naquelas qualificadas
como mediunidade curadora. Além de subsidiar as
potencializações fluídicas decorrentes da ação de harmonia
que ela gera ou na qual é gerada, o caráter evocativo de
Espíritos superiores atrai a participação de entidades que
também contribuem, decisivamente, para o sucesso do
empreendimento magnético.
Permita-me destacar mais um ponto nessa citação:
os magnetizadores são mais ou menos aptos a curarem
dependendo de saberem se conduzir convenientemente.
Sei que estou repisando um mesmo assunto, mas é bom
que fiquemos muito firmes na convicção de que não há
como se operar eficientemente sem que haja uma condução
conveniente e esta, como já disse anteriormente, só se obtém
pela estudo, pelo exercício e pela prática perseverante.
Retomando para a linha dessa abordagem, a citação
seguinte confirma a parte material da questão, digamos assim.


Por que é que não vos sinto? - R. Porque os fluidos que
compõem o perispírito são muito etéreos, não bastante
material para vós; mas pela prece, pela vontade, pela
fé, em uma palavra, os fluidos podem se tornar mais
ponderáveis, mais materiais, e afetar mesmo o toque,
o que ocorre nas manifestações físicas e que é a conclusão
desse mistério. - In: Revista Espírita, edição maio-1861,
artigo "O doutor Glas", questão 18.



71
E há quem diga que o magnetismo está ausente do
Espiritismo! A oração sincera, evocando bons Espíritos, é prova
inconteste dessa ciência e seus elementos em nosso meio, ainda
mais quando da atuação da Espiritualidade no próprio mundo
fluídico, enriquecendo-o, depurando-o, enobrecendo-o, não
permite que se duvide dessa realidade. Senão, veja-se o que
vem a seguir, na palavra do próprio Kardec.

A prece não tem, pois, só o efeito de chamar, sobre
o paciente, um socorro estranho, mas o de exercer
uma ação magnética. O que não se poderia,
pois, pelo magnetismo secundado pela prece!
Infelizmente, certos magnetizadores fazem muito,
a exemplo de muitos médicos, abstração do elemento
espiritual; eles não vêem senão a ação mecânica e se
privam assim de um poderoso auxiliar. Esperamos
que os verdadeiros Espíritas verão mais tarde,
nesse fato, uma prova a mais do bem que poderão
fazer em semelhante circunstância. - In: Revista
Espírita, edição janeiro-1863, artigo "Estudo sobre
os possessos de Morzine -As causas da obsessão e os
meios de combatê-la" - Segundo artigo.

Aí está mais uma confirmação do poder transformador
-- magnético e fluídico -- da prece. À época, Kardec lamentava
o descrédito dos magnetizadores à prece; hoje, certamente,
ele estaria entristecido por perceber os espíritas, em grande
número, refratários aos conhecimentos proporcionados pelo
Magnetismo e até mesmo pelo pouco uso da oração sincera.
Lamentavelmente, hoje se ora muito sem maior profundidade
e de magnetismo pouco se estuda, menos se conhece e quase
nada se aplica. Quão decepcionante deve ser isso para ele!
Digo isso com tristeza, pois sinto em mim mesmo uma dor
imensa por perceber tão pouco caso a tão relevante ciência e
suas benéficas repercussões em nosso meio!

72
Seria de se perguntar sobre as razões da ligação da
prece com o magnetismo. Vejamos.

A prece é o veículo dos fluidos espirituais mais
poderosos, e que são como um bálsamo salutar para as
feridas da alma e do corpo. Ela atrai todos os seres
para Deus, e faz, de alguma sorte, a alma sair da espécie
de letargia em que ela é mergulhada quando esquece seus
deveres para com o Criador. Dita com fé, ela provoca
naqueles que a ouvem o desejo de imitar aqueles que
oram, porque o exemplo e a palavra levam também
fluidos magnéticos de uma força muito grande. -
In: Revista Espírita, edição fevereiro-1866, artigo "O
Naufrágio do Borysthène".


É isso mesmo: a prece é o veículo por excelência da
parte espiritual dos fluidos, ou seja, da parte mais sutil destes,
atingindo, positivamente, tanto as mazelas do corpo como
da alma. A prece é o magnetismo animal que se espiritualiza
ou, como também pode ser dito, é a espiritualidade se
materializando através do magnetismo. E tudo isso se dá
com vigor, força, poder, não há como duvidar.
As observações nesse sentido, ainda bem, não se
limitaram à referência acima. Eis outra.




73
Abordagem 5
0 fluido v i t a l é v i d a




De que natureza é o agente que se chama fluido
magnético?
"Fluido vital, eletricidade animalizada, que são
modificações do fluido universal." - In: O Livro dos
Espíritos, questão 427


Esse elemento, fluido magnético, é o tal que tem
como fonte a mesma de todas as matérias, diferenciado apenas
pela freqüência em que vibra e sendo referido pela sutileza
e por sua contextura diáfana, geralmente pouco perceptível
aos sentidos comuns do ser humano encarnado.
Ao que parece, entretanto, ele, por si só, é incapaz
de gerar a vida, embora, em si mesmo, seja vida, já que esta
não se manifesta sem sua participação.
Embora pareça redundante dizer que o fluido vital
é vida, ainda encontro companheiros com dificuldade de
aceitarem a idéia de forma tranqüila e imediata.
É verdade que a vida, em sua expressão mais
profunda e essencial, é a manifestação do princípio espiritual,
75
mas quando esta se dirige à matéria, ao princípio vital está
credenciado papel de relevo, sem o qual o espetáculo vital
não mantém a cena em plano aberto e real.
Como sempre, o escopo de Allan Kardec, dirigido
ao desvendar de muita matéria, inclusive a espiritual, levou-
o a tratar, de forma bastante lúcida, mais este assunto. De
início, antes mesmo da questão que abriu esta abordagem, eis
o que ele perguntou e recebeu como resposta dos Espíritos:


62. Qual a causa da anitnalização da matéria?
"Sua união com o princípio vital."
65. O princípio vital reside em alguns dos corpos que
conhecemos?
"Ele tem por fonte o fluido universal. É o que chamais
fluido magnético, ou fluido elétrico animalizado. É o
intermediário, o elo existente entre o Espírito e a
matéria." - In: O Livro dos Espíritos.



Vitalidade! Princípio vital e vida! Fluido vital! Por
outro caminho, volta a ficar evidenciada a relação entre
os fluidos, o magnetismo e a vida em si. Inarredável! Esta
é a palavra que define bem a ligação entre o magnetismo e
nossas vidas, entre ele e o Espiritismo igualmente. Não é nem
mesmo uma questão de ver quem sabe ou quem conhece,
mas de ver quem quer ver.
Abrindo um parêntese, a quem tiver dificuldade
para entender as nuances entre fluido vital e princípio vital
sugiro a leitura desse assunto em meu livro "O Passe", seu
estudo, suas técnicas, sua prática. Parêntese fechado.
Na questão 65, o elo entre o fluido vital e a vida em
si surge de forma bastante definitiva, o que nos impulsiona
para a confirmação de que viver é se ser magnético.



76
Os órgãos se impregnam, por assim dizer,
desse fluido vital e esse fluido dá a todas as
partes do organismo uma atividade que as põe
em comunicação entre si, nos casos de certas
lesões, e normaliza as funções momentaneamente
perturbadas. Mas, quando os elementos essenciais
ao funcionamento dos órgãos estão destruídos,
ou muito profundamente alterados, o fluido
vital se torna impotente para lhes transmitir
o movimento da vida, e o ser morre. - In: O
Livro dos Espíritos - parte do comentário de
Kardec à questão 70.



Nesta questão, Allan Kardec deixa mais evidente
ainda como para vivermos e estarmos encarnados é
imprescindível que o fluido vital esteja não só presente no
corpo, mas igualmente potente e em quantidade compatível
para a "movimentação" dos órgãos.


Por meio de cuidados dispensados a tempo, podem reatar-
se laços prestes a se desfazerem e restituirse à vida um ser
que definitivamente morreria se não fosse socorrido?
"Sem dúvida e todos os dias tendes a prova disso.
O magnetismo, em tais casos, constitui, muitas
vezes, poderoso meio de ação, porque restitui
ao corpo o fluido vital que lhe falta para manter
o funcionamento dos órgãos". - In: O Livro dos
Espíritos, questão 424.




77
De início ressalto que Allan Kardec sempre foi
muito zeloso com o uso da palavra, de forma que não
podemos esperar dele incrementos desnecessários, adjetivos
inapropriados ou supressões decorrentes de descuidos.
Ademais, os Espíritos da Codificação o advertiram quanto
ao uso das expressões, deixando enfático que é imperioso
convir o que é a forma e o que é o fundo. Senão, vejamos a
questão seguinte:


Que se deve pensar da expulsão dos demônios,
mencionada no Evangellio?
"Depende da interpretação que se llie dê. Se chamais
demônio ao mau Espírito que subjugue um indivíduo,
desde que se lhe destrua a influência, ele terá sido
verdadeiramente expulso. Se ao demônio atribuirdes a
causa de uma enfermidade, quando a houverdes curado
direis com acerto que expulsastes o demônio. Uma coisa
pode ser verdadeira ou falsa, conforme o sentido que
empresteis às palavras. As maiores verdades estão
sujeitas a parecer absurdos, uma vez que se atenda
apenas à forma, ou que se considere como realidade
a alegoria. Compreendei bem isto e não o esqueçais
nunca, pois que se presta a uma aplicação geral."
- In: O Livro dos Espíritos, questão 480.


Feita esta anotação, retornemos ao que comentava.
Quando, na interrogativa anterior, Kardec usou
o advérbio definitivamente, ele quis dar destaque, com total
ênfase, à situação proposta, ou seja, ele queria saber se a pessoa
desencarnaria mesmo se não fossem tomadas providências
nesse sentido. A resposta dos Espíritos traz de volta a questão
do magnetismo, o qual, nesse tipo de situação proposta,
costuma ser poderoso meio de ação, já que é dele que o
corpo moribundo recebe o tônus fluídico indispensável para
a manutenção e o funcionamento dos órgãos.


78
Se os Espíritos sugerem, também nessa resposta,
que o magnetismo é a "vara de toque" para se trabalhar casos
desse tipo é justo perguntar: será que eles, na formulação
de suas respostas, quando falavam em ação magnética
estavam considerando os magnetizadores da época, os quais
se preparavam, através de estudos e treinamentos sérios e
constantes, inclusive com responsabilidades bem definidas
perante os órgãos da sociedade, ou imaginavam que espíritas
do empós, assim como alguns práticos das fluidoterapias
ligados a outros métodos de cura, sempre apressados
em resolverem milagres, seriam os destinatários dessas
observações?
Não creio que os Espíritos da Codificação sugerissem
o uso do magnetismo -- nitidamente humano -- em casos tão
sérios e delicados aplicado por magnetizadores inexperientes
ou desconhecedores dos princípios que norteiam essa ciência.
Parece-me muito óbvio que a recomendação era destinada ao
bom magnetizador. Este, também é claro, pode -- e até deve
-- ser espírita, ser o nosso conhecido passista. Só que, para
tanto, precisa estar bem preparado para a tarefa, conhecendo,
lucidamente, as duas ciências e agindo com uma vontade
voltada ao bem, convenientemente dirigida.
No comentário que fez à questão de número 70 de "O
Livro dos Espíritos", Allan Kardec, ao final, anotou o seguinte:


Os corpos orgânicos são, assim, uma espécie de pilhas
ou aparelhos elétricos, nos quais a atividade do fluido
determina o fenômeno da vida. A cessação dessa
atividade causa a morte.
A quantidade de fluido vital não é absoluta em
todos os seres orgânicos. Varia segundo as espécies
e não é constante, quer em cada indivíduo, quer nos
indivíduos de uma espécie. Alguns há, que se acham, por
assim dizer saturados desse fluido, enquanto os outros
o possuem em quantidade apenas suficiente. Daí, para.

79
alguns, vida mais ativa, mais tenaz e, de certo modo,
superabundante.
A quantidade de fluido vital se esgota. Pode tornar-
se insuficiente para a conservação da vida, se
não for renovada pela absorção e assimilação das
substâncias que o contêm.
O fluido vital se transmite de um indivíduo a outro.
Aquele que o tiver em maior porção pode dá-lo a um que
o tenha de menos e em certos casos prolongar a vida
prestes a extinguir-se.



Confirma-se aqui que a vida se dá pela "atividade"
do fluido vital e não apenas por ele. Tal como há a necessidade
do fluido vital para que, em existindo, seja movimentado,
qual também é imperioso que algo ou alguém propicie esse
movimento, essa atividade. Nessa sutileza e considerando
o caso em análise, seguramente, surge a importância do
magnetizador. Além de ele ser necessário, sabendo como agir
deve também possuir fluido em saturação para fazer uso e
conseguir favorecer a fim de se dar o prolongamento da vida
em suas mãos.
Embora não tenha ficado explícito na transcrição,
parece estar mais do que evidente que o trabalho com fluidos
pede mais do que simplesmente possuí-los. Até porque o seu
uso implicará não apenas no receptor, mas poderá levar seu
doador à exaustão.
Aproveitando o ensejo, lembro que, como seria de
se imaginar, os fluidos de exteriorização e doação não são
constantes, em termos quantitativos -- e, pela prática, os
passistas magnéticos sabem que qualitativamente também --
nos magnetizadores. Isso convida à reflexão acerca do risco do
esgotamento fluídico -- tema esse que trato em meus livros
sobre passes e magnetismo sob o título de "fadiga fluídica".
Por fim, a possibilidade de transmissão desses
fluidos é real, desde que quem precise encontre quem o
disponha, queira e saiba transmiti-lo.

80
Completando este assunto sobre fadiga, vejamos
uma rápida referência com Kardec:

O fluido humano sendo menos ativo, exige uma
magnetização prolongada e um verdadeiro
tratamento, às vezes, muito longo; o magnetizador,
dispensando seu próprio fluido, se esgota e se fatiga,
porque é de seu próprio elemento vital que ele dá;
é porque deve, de tempos em tempos recuperar
suas forças. O fluido espiritual, mais poderoso em
razão de sua pureza, produz efeitos mais rápidos e,
freqüentemente, quase instantâneos. Esse fluido não
sendo o do magnetizador, disto resulta que a fadiga é
quase nula. - In: Revista Espírita, edição setembro-
1865, artigo "Da mediunidade curadora", item 5.


Aí está Kardec fazendo referência às perdas fluídicas
pelo magnetizador em ação, o que pede cuidado no uso e
repouso para a recuperação vital. Inclusive, só para destacar,
ele não descartou a possibilidade de fadiga fluídica em quem
só aplica magnetismo espiritual; é quase nula essa fadiga, mas
não é nula.


Estas palavras: conhecendo em si mesmo a virtude que
dele saíra, são significativas. Exprimem o movimento
fluídico que se operara de Jesus para a doente; ambos
experimentaram a ação que acabara de produzir-se. É de
notar-se que o efeito não foi provocado por nenhum ato
da vontade de Jesus; não houve magnetização, nem
imposição das mãos. Bastou a irradiação fluídica
normal para realizar a cura.
Mas, por que essa irradiação se dirigiu para aquela mulher
e não para outras pessoas, uma vez que Jesus não pensava
nela e tinha a cercá-lo a multidão?
É bem simples a razão. Considerado como matéria
terapêutica, o fluido tem que atingir a matéria

81
orgânica, afim de repará-la; pode então ser dirigido
sobre o mal pela vontade do curador ou atraído
pelo desejo ardente, pela confiança, numa palavra:
pela fé do doente. Com relação à corrente fluídica, o
primeiro age como uma bomba colcante e o segundo como
uma bomba aspirante. Algumas vezes, é necessária a
simultaneidade das duas ações; doutras, basta uma
só. O segundo caso foi o que ocorreu na circunstância de
que tratamos.
Razão, pois, tinha Jesus para dizer: «Tua fé te salvou.»
Compreende-se que a fé a que ele se referia não é uma
virtude mística, qual a entendem muitas pessoas, mas
uma verdadeira força atrativa, de sorte que aquele que
não a possui opõe à corrente fluídica uma força repulsiva,
ou, pelo menos, uma força de inércia, que paralisa a ação.
Assim sendo, também se compreende que, apresentando-
se ao curador dois doentes da mesma enfermidade,
possa um ser curado e outro não. É este um dos mais
importantes princípios da mediunidade curadora e
que explica certas anomalias aparentes, apontando-
Ihes uma causa muito natural. - In: A Gênese - Cap.
XV -- "Os milagres do Evangelho" -- item II.



Contrariando um pouco do que venho dizendo
em termos de necessidade de conhecimento do magnetismo
prático, temos aqui um vigoroso exemplo, no qual o
magnetizador sequer exprimiu sua vontade na direção do
movimento fluídico. O magnetizador foi Jesus e a paciente, a
mulher hemorroíssa. Eis o relato, conforme consta no Novo
Testamento:

- Ora, certa mulher, que havia doze anos padecia de
uma hemorragia e que tinha sofrido bastante às mãos de
muitos médicos, e despendido tudo quanto possuía sem
nada aproveitar, antes indo a pior, tendo ouvido falar
a respeito de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e

82
tocou-lhe o manto; porque dizia: Se tão-somente tocar-
lhe as vestes, ficaria curada. E imediatamente cessou a
sua hemorragia; e sentiu no corpo estar já curada do seu
mal. E logo Jesus, percebendo em si mesmo que saíra dele
uma virtude, virou-se no meio da multidão e perguntou:
Quem me tocou as vestes? Responderam-lhe os seus
discípulos: Vês que a multidão te aperta e perguntas:
Quem me tocou? Mas ele olhava em redor para ver a
que isto fizera. Então a mulher, atemorizada e trêmula,
cônscia do que nela se havia operado, veio e prostrou-se
diante dele e declarou-lhe toda a verdade. Disse-lhe ele:
Filha, a tua fé te salvou; vai-te em paz, e fica livre desse
teu mal. - In: Marcos, V, 25 a 34.



Naturalmente sabemos do grande poder fluídico
de Jesus e do padrão em que suas energias vibravam; parece
ser óbvio que sempre estiveram acima dos níveis que
conhecemos. Ainda assim, na mesma circunstância temporal
em que aquela mulher o tocou, uma multidão o fazia
igualmente, nem por isso conseguia absorver tal "virtude".
Fácil deduzir que um exerceu seu poder atrativo, no caso, a
mulher, conseguindo realizar a auto-magnetização, extraindo
para si a carga fluídica que necessitava para fazer romper
aquele circuito de perdas sangüíneas contínuas; os outros
careciam desse poder.
Destaco, além disso, outros pontos relevantes.
Kardec anotou: não houve magnetização, nem
imposição das mãos. Será que ele quis dizer isso mesmo? Se
sim, parece que há distinção entre os dois. Mais adiante, em
abordagem própria, tratarei desse assunto.
Adiante, ele volta a reunir a questão da vontade e da
fé nos processos de terapia magnética, afirmando que os fluidos,
necessitando atingir pontos orgânicos para a ocorrência da
cura, podem ser dirigidos sobre o mal pela vontade do curador,


83
ou atraídos pelo desejo ardente, pela confiança, numa palavra:
pela fé do doente. Ao que me permito questionar: e o que
seria um desejo ardente senão a própria vontade? Se bem que
esta, agora, é a vontade do paciente, não vejo como se dar o
magnetismo sem sua presença, como não imagino uma fé
sem esse querer e essa confiança arrebatadores.
Outra pontuação interessante é a que coloca o possível
e o realizável num campo lógico e ajustado. Para que o fluido
vital desempenhe sua função de cura, de vida, portanto, ele pede
a presença da fé inabalável. Quando existente nos envolvidos,
o potencial dos efeitos curativos se amplia, mas ficou evidente
que se o potencial de um for suficientemente forte e seguro,
o fenômeno ocorre de igual maneira. Todavia, querer que ele
se dê sem qualquer atratividade é uma extrapolação que só os
acomodados podem esperar. Se a Natureza não dá saltos e se
nada se obtém sem que seja desenvolvido esforço, não seria no
Magnetismo que essa regra estaria rompida. Portanto, quando se
recomenda aos pacientes que tenham fé não se estájogando com
conceitos meramente religiosos ou místicos, mas postulando-se
comportamento coerente com a própria ciência.
Dessa reflexão anterior surge uma outra paralela. Se
Jesus, enquanto magnetizador, podia curar mesmo sem ter, na
circunstância, a vontade a isso voltada, além do poder aspirante
da paciente em foco, também existia a potência fluídica
nele bem como a qualidade intrínseca para que o objetivo
fosse atingido. Bom, Jesus podia isso. E nós, poderíamos
também? Mesmo com a resposta sendo positiva, para que
isto ocorra pelo menos duas premissas precisam existir: que o
magnetizador possua o fluido magnético para exteriorização e
que este seja harmônico para o processo terapêutico. E como
se consegue isso? Aprimorando-o, desde a prática regular,
equilibrada, metódica e séria do magnetismo, assim como
na melhoria do padrão de freqüência em que se vive, ou
seja, no estado de elevação moral e justeza ética, de forma a
possuir uma consciência tranqüila, sem desequilíbrios. Esse

84
é o componente que melhor refina nossos fluidos e nos dota
de potenciais mais intensos de alcance curativos.
Por fim, Allan Kardec, sempre relacionando a
aplicação do magnetismo com a mediunidade curadora,
conclui que na base das explicações para que algumas curas
ocorram com certos pacientes enquanto que em outros não
se verifiquem na mesma intensidade, estão a fé e os potenciais
fluídicos. E quero chamar sua atenção para mais este detalhe:
embora incômodo, o argumento do merecimento, ou da
falta dele, não foi considerado nessa questão.

XIX. Por que é que nem toda gente pode produzir o
mesmo efeito e não têm todos os médiuns o mesmo poder?
"Isto depende da organização e da maior ou menor
facilidade com que se pode operar a combinação dos
fluidos. Influi também a maior ou menor simpatia
do médium para com os Espíritos que encontram
nele a força fluídica necessária. Dá-se com esta força
o que se verifica com a dos magnetizadores, que não é
igual em todos. A esse respeito, há mesmo pessoas que são
de todo refratárias; outras com as quais a combinação só
se opera por um esforço de vontade da parte delas; outras,
finalmente, com quem a combinação dos fluidos se efetua
tão natural e facilmente, que elas nem dão por isso e servem
de instrumento a seu mau grado, como atrás dissemos."
NOTA Estes fenômenos têm sem dúvida por
princípio o magnetismo, porém, não como geralmente
o entendem. A prova está na existência de poderosos
magnetizadores que não conseguiram fazer que uma
pequenina mesa se movesse e na de pessoas que não logram
magnetizar a ninguém, nem mesmo a uma criança, às
quais, no entanto, basta que ponham os dedos sobre uma
mesa pesada, para que esta se agite. Assim, desde que a força
mediúnica não guarda proporção com a força magnética,
é que outra causa existe. - In: O Livro dos Médiuns -
Cap. IV-- "Da teoria das manifestações físicas".



85
Mais uma vez, Kardec faz referência à organização
-- organismo, fisiologismo, corpo humano mesmo -- e às
possibilidades de combinações fluídicas, além da relação
entre os médiuns e os Espíritos, deixando de fora o item tão
referido por nós, os espíritas: o merecimento. Esta palavrinha
mágica, por sinal, é muito usada para preencher todos os
espaços que deveriam ser ocupados pelo conhecimento das
leis magnéticas. Pena que ela sirva tão bem para acobertar
justificativas injustificáveis.
Em seguida, ele relaciona a mediunidade com o
Magnetismo, muito embora ressalte, com total ênfase, que o
potencial magnético de um não o dota de poderes mediúnicos
e que nem todo médium possui igualmente grande poder
magnético. Apesar disso, o magnetismo é o princípio de
todos esses eventos.
Deduzo que qualquer leitor atento certamente
ficaria em dúvida com esse emaranhado -- quem ou o
quê vem de onde e sobre o que ou quem atinge e afeta --,
como, inclusive, nos primeiros passos do conhecimento
dessas ciências eu fiquei. O caso é: o que fazer para dele
sair? Simples; estudar e praticar. Posso até não ser o melhor
exemplo, mas é isso o que eu venho fazendo.


Qual a causa da insensibilidade física que se observa
em alguns convulsionarios, assim como em outros
indivíduos submetidos às mais atrozes torturas? "Em
alguns é, exclusivamente, efeito do magnetismo que
atua sobre o sistema nervoso, do mesmo modo que
certas substâncias. Em outros, a exaltação do pensamento
embota a sensibilidade. Dir-se-ia que nestes a vida se
retirou do corpo, para se concentrar toda no Espírito. Não
sabeis que, quando o Espírito está vivamente preocupado
com uma coisa, o corpo nada sente, nada vê e nada ouve?"
- In: O Livro dos Espíritos, questão 483.



86
Neste ponto temos uma colocação que eu considero
chave: "o magnetismo atua sobre o sistema nervoso".
Se, por um lado, esta informação nos presenteia com um
manancial de hipóteses e justificativas para um sem-número
de ocorrências tidas, outrora, como sobrenaturais, noutra
direção nos aponta para uma questão dolorosa, que surge
apenas no aprofundamento dessa constatação.
Primeiro devemos observar que as causas de
arrepios, tremores, abalos, choques e similares, enquanto
se está sob os efeitos de uma ação magnética -- seja como
doador ou receptor --, tem seu entendimento de forma
muito rápida quando se sabe da repercussão tão direta do
magnetismo sobre o sistema nervoso. Depois, sendo esse
sistema o meio no qual os fluidos se entretecem e estabilizam
por ocasião da absorção fluídica, os estados de alta tensão são
sempre desaconselháveis a quem pretenda ser atendido ou
a atender pelos mecanismos magnéticos. Também há de ser
considerado que com o magnetismo medrando no sistema
nervoso, não convém a alguém que o tenha em desalinho
ou desarmônico se propor à tarefa de magnetizar, pois lhe
faltará um padrão de equilíbrio para uma usinagem eficiente.
Por fim, com os fluidos magnéticos atingindo o sistema
nervoso de forma tão objetiva, sempre será de boa medida
termos muito cuidado no uso desse mecanismo de ajuda,
pois, embora cheios de boa intenção, podemos provocar
distúrbios no organismo do paciente, se não soubermos agir
de forma conveniente e segura.
A outra vertente do problema, a que incomoda
muito, é: com tantas doenças associadas ao sistema nervoso,
como Alzheimer, Parkinson, epilepsia, escleroses e AVCs,
por exemplo, seria de se esperar que elas recebessem do
Magnetismo uma terapia profunda e eficiente, de sorte
que a própria Medicina se apoiasse nesse meio terapêutico.
Todavia, tal não se dá. É, pois, de se questionar: estaria
correta a explicação dos Espíritos? Seria ela tão geral quanto
a entendo? Se sim, então teremos outras questões a resolver:

87
por que não conseguimos, ainda, obter, de forma constante
e repetida, resultados mais efetivos nas terapias dos males
do sistema nervoso? Por que não há um investimento nessa
direção? Por que até mesmo em mensagens espirituais
temos tão poucas referências a essa abordagem? Se a própria
humanidade já viveu, num passado recente, a década do
cérebro, qual a razão para nós, os espíritas e magnetizadores,
sermos tão tímidos nesse terreno tão carente de soluções
eficientes? Dentre as respostas prováveis e razoáveis, temos,
de partida, que os pacientes acometidos desses males não
procuram tanto essa terapia como se observa em outros tipos
de patologias; depois, os magnetizadores espíritas, lidando
com essa problemática, costumam fazer referências a questões
obsessivas, reencarnatórias ou de falta de merecimento
-- eis a palavrinha mágica aí -- em vez de estudarem e
aprofundarem seus conhecimentos e experiências; existe
também um certo receio de um imaginário conflito entre
a Medicina e o Magnetismo, como se essas fossem ciências
antagônicas inconciliáveis; a Espiritualidade talvez esteja
um tanto quanto silenciosa em torno do assunto esperando
o despertamento do homem para a realidade sutil de sua
própria natureza; e o pior: parece que não acreditamos em nós
mesmos, em nossos potenciais, do contrário nosso empenho,
nossa dedicação e nossos objetivos seriam mais ambiciosos,
pois caminhar nessa direção é buscar desenvolver um bem
tão grandioso para a humanidade que não dá mais para se
permanecer de braços cruzados.
Nas duas questões que antecedem a transcrita,
Allan Kardec tratou, mais detalhadamente, as convulsões e
os convulsionarios. Vejamo-las.


Desempenham os Espíritos algum papel nos
fenômenos que se dão com os indivíduos chamados
convulsionarios?


88
"Sim e muito importante, bem como o magnetismo,
que é a causa originária de tais fenômenos. O
charlatanismo, porém, os tem amiúde explorado e
exagerado, de sorte a lançá-los ao ridículo".
Como é que sucede estender-se subitamente a toda uma
população o estado anormal dos convulsionarios e dos
que sofrem de crises nervosas?
"Efeito de simpatia. As disposições morais se comunicam
mui facilmente, em certos casos. Não és tão alheio aos
efeitos magnéticos que não compreendas isto e a
parte que alguns Espíritos naturalmente tomam no fato,
por simpatia com os que os provocam."
Entre as singulares faculdades que se notam nos
convulsionarios, algumas facilmente se reconhecem, de
que numerosos exemplos oferecem o sonambulismo e o
magnetismo, tais como, além de outras, a insensibilidade
física, a leitura do pensamento, a transmissão das dores,
por simpatia, etc. Não há, pois, duvidar de que aqueles
em quem tais crises se manifestam estejam numa espécie
de sonambulismo despeño, provocado pela influência que
exercem uns sobre os outros. Eles são ao mesmo tempo
magnetizadores e magnetizados, inconscientemente.
- In: O Livro dos Espíritos, questões 481 e 482.


Na resposta à primeira pergunta, os Espíritos
ratificam que o magnetismo é a causa matriz do fenômeno
das convulsões e na segunda falam da "simpatia" como
deflagrador. Pergunto: a que tipo de simpatia eles se
referiam? Os Espíritos informam ser aquelas referentes às
semelhanças morais, as quais tendem a reunir os que se
encontram sob idênticos padrões. Portanto, não se tratava de
simpatia pessoal porque, a exemplo do sucedido no famoso
caso dos convulsionarios de Saint-Médard (ver O Livro
dos Médiuns, cap. II, item 11, e Revista Espírita, edições
de novembro e dezembro-1859; e maio, julho e setembro-
1860), os que entravam em crises convulsivas muitas vezes
sequer se tinham visto antes.

89
U m a outra dedução pode ser extraída da
"reprimenda" dada pelos Espíritos ao codificador, já que
ele era conhecedor do magnetismo; ele deveria saber que
a simpatia existente ou ausente se dava em relação aos
campos fluídicos interagindo uns com os outros. Ou seja,
os fluidos vitais de cada convulsionario se reconheciam e
se permutavam, transformando, literalmente, suas vidas,
ainda que momentaneamente, donde serem tidos como
magnetizadores e magnetizados a um só tempo.
Para não deixar inconclusa a questão da simpatia,
vejamos esta colocação de Kardec.


A força fluídica aplicada à ação recíproca dos
homens uns sobre os outros, quer dizer, no
magnetismo, pode depender: 1° da soma de fluido
que cada um possui; 2° da natureza intrínseca do
fluido de cada um, abstração feita da quantidade;
o
3 do grau de energia da força impulsora, talvez
mesmo dessas três causas reunidas. Na primeira
hipótese, aquele que tem mais fluido dá-lo-ia àquele que
o tem menos, mais do que dele receberia; haveria, nesse
caso, analogia perfeita com a permuta de calor que fazem
entre eles, dois corpos que se colocam em equilíbrio de
temperatura. Qualquer que seja a causa dessa diferença,
podemos nos dar conta do efeito que ela produz, supondo
três pessoas das quais nós representaremos a força por três
números: 10, 5 e 1. O 10 agirá sobre o 5 e sobre o 1,
mas, mais energicamente sobre o 1 do que sobre o 5; o 5
agirá sobre o 1, mas será impotente sobre o 10; enfim, o
1 não agirá nem sobre um, nem sobre o outro. Tal seria a
razão pela qual certas pessoas são sensíveis à ação de tal
magnetizador e insensíveis à ação de tal outro. Pode-
se ainda, até um ceño ponto, explicar esse fenômeno,
reportando-nos às considerações precedentes. Dissemos,
com efeito, que os fluidos individuais são simpáticos
ou antipáticos, uns em relação aos outros. Ora, não


90
poderia se dar que a ação recíproca de dois indivíduos
estivesse em razão da simpatia dos fluidos, quer dizer,
de sua tendência a se confundir, por uma espécie de
harmonia, como as ondas sonoras produzidas pelos
corpos vibrantes? É indubitável que essa harmonia
ou simpatia dos fluidos é uma condição, ainda
que não absolutamente indispensável, ao menos
muito preponderante, e que, quando há desacordo
ou simpatia, a ação não pode ser senão fraca, ou
mesmo nula. Esse sistema nos explica bem as condições
prévias da ação; mas não nos diz de que lado está a
força, e tudo admitindo, somos forçados a recorrer à nossa
primeira suposição.
De resto, que o fenômeno haja ocorrido por uma ou por
outra dessas causas, isso não tem nenhuma conseqüência;
o fato existe, é o essencial: os da luz se explicam,
igualmente, pela teoria da emissão e das ondulações; os
da eletricidade, pelos fluidos positivo e negativo, vítreo e
resinoso. - In: Obras Póstumas, "Introdução ao estudo
da fotografia e da telegrafia do pensamento".



Aqui, Allan Kardec apresenta raciocínio bastante
simples para explicar a interação magnética entre duas ou mais
pessoas, considerando o potencial fluídico delas. Em seguida
comenta acerca da simpatia, a qual é considerada como uma
condição preponderante nas envolvências fluídicas. Pelos
detalhamentos fica bem claro de que tipo de simpatia ele
tratava e, por dedução, confirma o que os Espíritos também
queriam dizer na transcrição anterior.


24. O fluido magnético emana do sistema nervoso
ou está espalhado na massa atmosférica? - R. Do sistema
nervoso; mas o sistema nervoso o aure na atmosfera,
foco principal. A atmosfera não o possui por si mesma,
ele vem de seres que povoam o Universo: não é o nada


91
que o produz, ao contrário, é a acumulação da vida e da
eletricidade que essa multidão de existências libera.
25. O fluido nervoso é um fluido próprio ou seria o
resultado de uma combinação de todos os outros fluidos
imponderáveis que penetram no corpo, tais como o calor,
a luz, a eletricidade? - R. Sim e não: não conheceis
bastante esses fenômenos para deles falar assim; vossas
palavras não exprimem o que quereis dizer.
26. De onde vem o adormecimento produzido pela ação
magnética? - R. A agitação produzida pela sobrecarga
de fluido que obstrui o magnetizado.
21. A força magnética, no magnetizador, depende
de sua constituição física? - R. Sim, mas sempre de seu
caráter: em uma palavra, dele mesmo.
28. Quais são as qualidades morais que, num sonâmbulo,
podem ajudar o desenvolvimento de suas faculdades? - R.
As boas: perguntastes o que pode ajudar.
29. Quais são os defeitos que mais o prejudicam? - R.
A má fé.
30. Quais são as qualidades mais essenciais no
magnetizador? - R. O coração; as boas intenções
sempre firmes; o desinteresse.
31. Quais são os defeitos que mais o prejudicam?
- R. Os maus pendores, ou antes, o desejo de
prejudicar. - In: Revista Espírita, edição março -1959,
artigo "Senhora Reynaud, sonâmbula".



Ao dispor as questões acima, Allan Kardec antes
destaca a seriedade do Espírito comunicante, tanto que
ele mesmo fez questão de dirigir algumas das perguntas
ao mesmo no intuito de complementar as informações
anteriormente obtidas por outro grupo. De tão concordante
com tudo, ele não aditou nenhum outro comentário que
servisse de retificação ou ajuste.
Como podemos observar, na primeira questão ele
trata da ligação entre o sistema nervoso e o magnetismo, mas

92
na seguinte evidencia que não se trata de uma percepção tão
linear como costumeiramente deduzimos. Levando para
a atmosfera, o campo no qual o sistema nervoso aure sua
energética fluídica, destaca que não se trata dos componentes
do ar em si e sim das emanações fluídicas vitais aí espalhadas
ou concentradas.
Da pergunta 26 podemos fazer uma outra importante
dedução. Está claro que os grandes concentrados fluídicos ou
magnéticos, atualmente mais conhecidos como congestões
fluídicas, são os responsáveis pelo adormecimento nas
ações magnéticas. Não seriam esses mesmos concentrados,
estacionados em locais e de forma imprópria, os responsáveis por
uma série sem fim de mal-estares, doenças ou anomalias com
as quais nos deparamos cotidianamente? E quando, operando
pelo magnetismo, provocamos esse mesmo tipo de concentrado
energético num paciente, não estaremos correndo o risco
de patrocinar estados mórbidos ou descompensados em seu
psiquismo, em sua estrutura orgânica, em sua vida? Com isso se
sobressai a necessidade de se conhecer as técnicas magnéticas.
Nas perguntas que se seguiram tivemos todo um
conjunto de respostas indicando a necessidade de uma boa
moral por parte do magnetizador que pretenda ser bom e
eficiente no seu labor, inclusive indicando as principais falhas
de caráter que comprometem sua ação magnética.

O princípio dos fenômenos psíquicos repousa, como
já vimos, nas propriedades do fluido perispiritual,
que constitui o agente magnético; nas manifestações
da vida espiritual durante a vida corpórea e depois
da morte; e, finalmente, no estado constitutivo dos
Espíritos e no papel que eles desempenham como
força ativa da Natureza. Conhecidos estes elementos e
comprovados os seus efeitos, tem-se, como conseqüência, de
admitir a possibilidade de certos fatos que eram rejeitados
enquanto se lhes atribuía uma origem sobrenatural. -- In: A
Gênese -- Cap. XV- Os milagres do Evangelho, item 1.


93
Eis aí uma generalização portentosa: os fenômenos
psíquicos repousam no campo fluídico chamado perispírito, o
qual é a expressão viva do magnetismo e da melhor realização
do fluido vital. Além disso, estende-se todo esse poder até o
reino do Espírito, tudo dentro dos limites da Natureza, tudo
de forma majestosa e eloqüente. -- Na última abordagem deste
livro voltarei a comentar sobre a ligação e a influência do
magnetismo, através do sonambulismo, no psicologia humana,
tudo dentro do que preconizou nosso mestre Allan Kardec.


O fluido é, pois, a própria vida; é o movimento, a
energia, a coragem, o progresso; é o bem e o mal.
É essa força que parece animar, por sua vez, pelo sopro
de sua vontade, seja a charrua benfazeja que fertiliza a
terra e faz de nós os alimentadores do gênero humano,
seja o fuzil maldito que a despovoa e nos transforma em
assassinos de nossos irmãos.


O fluido facilita entre o Espírito do inspirador e
do inspirado, as relações que, sem ele, seriam
impossíveis. - In: Revista Espírita, edição julho-
o
1869, 2 artigo "Extrato dos manuscritos de
um jovem médium bretão", "Os Alucinados, os
Inspirados, os fluídicos e os Sonâmbulos", item III,
"Fluídicos".


E aqui chegamos à conclusão dessa abordagem. A
opinião desse jovem médium bretão, devidamente anotada
por Allan Kardec em sua Revista Espírita, reforça o que foi
dito acima. Muito embora tenha aproveitado os diversos
ensejos de comentar pontos e notas que não estariam
inteiramente ligadas ao tema da abordagem desse item,
creio que ficou bem evidenciado que a vida e o fluido vital
estão em perfeita ressonância, de tal forma que é lícito se


94
dizer que um é o outro, que o movimento do fluido vital
corresponderá sempre ao movimento da vida. E por ele
facilitar as relações entre os 'mundos', de maneira que sem
ele fica inibida a comunicação, extrapolo e digo que o círculo
vital, literalmente, segue atuando vida afora.




95
Abordagem 6
N e m sempre os Espíritos
estão presentes




É verdadeiramente intrigante e instigante o
estudo do Magnetismo a partir das obras do senhor Allan
Kardec. Á medida que avançamos em sua leitura e vamos
nos infütrando, de forma percuciente e grave, percebemos
que muito se fala em seu nome e de sua Doutrina, mas nem
sempre se conhece, de verdade, o que ele disse, o que ele
perguntou, o que ele pesquisou, o que ele concluiu.
Acredito que, da mesma forma como aconteceu
comigo, quase todos os espíritas ouviram, repetidas vezes,
que "tudo depende dos Espíritos", especialmente quando se
faz referência aos passes. "São os Espíritos, e só Eles, que
sabem, fazem, manipulam e tudo determinam e realizam".
É o resumo das mais comuns informações ditas e repetidas
aos quatro cantos, a mancheias. E aos passistas e médiuns,
por conseqüência, de forma equivocada, bem se vê, sobra
apenas o exercício da "boa vontade", o que, como já vimos
na abordagem 3, também distorce o que ele falou e escreveu
acerca da virtude ativa por excelência, a vontade.

97
Para desespero de muitos que ainda acreditam e
divulgam essas informações, na ação magnética nem sempre
se conta com a presença espiritual.


Esta teoria nos fornece a solução de um fato bem
conhecido em magnetismo, mas inexplicado até hoje: o
da mudança das propriedades da água, por obra da
vontade. O Espírito atuante é o do magnetizador,
quase sempre assistido por outro Espírito. Ele opera
uma transmutação por meio do fluido magnético que,
como atrás dissemos, é a substância que mais se aproxima
da matéria cósmica, ou elemento universal. Ora, desde
que ele pode operar uma modificação nas propriedades
da água, pode também produzir um fenômeno análogo
com os fluidos do organismo, donde o efeito curativo da
ação magnética, convenientemente dirigida. - In:
O Livro dos Médiuns, cap. VIII - "Do laboratório do
mundo invisível" - item 131.



Que tal dissecarmos esta citação? Vamos lá!
Ao tempo do início da Codificação Espírita, a
questão da mudança das propriedades da água pela ação
magnética, embora o fenômeno fosse conhecido por todos
os magnetizadores, não tinha recebido uma explicação que
estabelecesse, claramente, o que de fato ocorria. O fator
determinante da mudança era e é um sutil e impalpável agente
chamado vontade. Para tanto, interpõe-se a necessidade de
um detentor dessa vontade, o qual não é nenhum Espírito
estranho ou distante, senão o próprio magnetizador. Na
ampla visão de Kardec, contudo, na realização do fenômeno
pode haver a necessidade de mais um elemento no processo,
por ele identificado como "um outro Espírito". Só que esse
elemento "quase sempre" assiste, ou seja, "quase sempre"


98
ampara, protege, reforça o "Espírito atuante", que é o próprio
magnetizador. Por que será que o codificador usou a expressão
"quase sempre" no lugar de sempre? Será que ele tinha dúvida
ou certeza de que nem todo fenômeno magnético conta,
verdadeiramente, com um acompanhamento espiritual
direto? -- Quero chamar sua atenção para o fato desta citação
constar de O Livro dos Médiuns e não de alguma obra
complementar. Não que as obras complementares percam
valor por isso, mas apenas para referendar que o dito está,
literalmente, na Codificação.
Continuando, Kardec explica que o magnetizador
opera uma transmutação nas propriedades da água fazendo
uso do fluido magnético, por força de sua vontade dirigida.
Até este ponto alguém poderia advogar que ele
apenas se referiu à ação fluídica sobre a água e não sobre os
seres humanos, mas ele não se fez esperar e logo aditou que,
analogamente, tal procedimento fluídico também se verifica
no organismo. Primeiramente a ação atinge a estrutura
fluídica deste para depois produzir a cura. Entretanto,
precisam ser bem enfocadas as palavras finais da transcrição:
"o efeito curativo da ação magnética, convenientemente
dirigida". Aí está um outro ponto crucial: o da ação pedir
uma direção conveniente. Como se conseguir isso? Como se
ter a segurança de que a ação é convenientemente dirigida?
Apenas acreditando na ação dos Espíritos protetores? Claro
que não. Afinal, o fluido magnético pertence mesmo ao
magnetizador, que é quem promove a transmutação referida.
Portanto, cabe a este o cuidado, o saber e a consciência do que
fazer e do como fazer. O magnetizador precisa, como já foi
dito e repetido, ter conhecimento lúcido das duas ciências:
magnetismo e espiritismo. Do contrário, fica difícil saber
como realizar o indicado por Kardec.


99
Têm algumas pessoas, verdadeiramente, o poder de
curar pelo simples contacto?
"A força magnética pode chegar até aí, quando
secundada pela pureza dos sentimentos e por um
ardente desejo de fazer o bem, porque então os bons
Espíritos lhe vêm em auxílio. Cumpre, porém,
desconfiar da maneira pela qual contam as coisas pessoas
muito crédulas e muito entusiastas, sempre dispostas a
considerar maravilhoso o que há de mais simples e mais
natural. Importa desconfiar também das narrativas
interesseiras, que costumam fazer os que exploram, em
seu proveito, a credulidade alheia." -- In: O Livro dos
Espíritos, questão 556.


Se no comentário anterior descobrimos que nem
sempre os Espíritos estão consorciados nas tarefas magnéticas,
na questão acima foi apresentada, pelos Espíritos Superiores,
as condições básicas para que os bons Espíritos venham em
auxílio aos trabalhos magnéticos:
- a pureza dos sentimentos e
- um ardente desejo de fazer o bem.
Ufa! Ainda bem que existem condições que nos
assegurem essas presenças. Mas... será que estamos tão bem
preparados? Será que estamos dispostos a essa preparação?
A pureza de sentimentos é algo amplo a tal ponto que não
exclui nenhuma virtude e um ardente desejo de fazer o bem
é a melhor expressão da vontade. Já atingimos tais virtudes?
Estaremos, ao menos, nos esforçando para vivenciá-las?
Antes de prosseguirmos, quero pontuar que logo
no início da mesma citação existem duas considerações
adicionais:
1- Kardec considerava o toque como uma prática
natural -- esta constatação deve estarrecer muita gente que
sempre proibiu tal técnica; e


100
2- A cura, em seu sentido bem apropriado, quando se dá
por um simples toque, não estabelece uma regra simples ou geral;
este fato retrata um ponto limite, que será visto mais adiante.

Que se deve pensar da crença no poder, que certas
pessoas teriam, de enfeitiçar?
'Algumas pessoas dispõem de grande força magnética,
de que podem fazer mau uso, se maus forem seus
próprios Espíritos, caso em que possível se torna serem
secundados por outros Espíritos maus. Não creias,
porém, num pretenso poder mágico, que só existe na
imaginação de criaturas supersticiosas, ignorantes das
verdadeiras leis da Natureza. Os fatos que citam, como
prova da existência desse poder, são fatos naturais, mal
observados e sobretudo mal compreendidos." - In: O
Livro dos Espíritos, questão 552.


Antes de entrar no foco desta abordagem, permita-
me fazer-lhe um convite: releia, atentamente, a pergunta
formulada por Kardec. Ei-la:

Que se deve pensar da crença no poder, que certas
pessoas teriam, de enfeitiçar?


Há quem diga que os Espíritos responderam a
Allan Kardec dentro do espírito do que ele cria e defendia.
Pergunto: você acha que ele acreditava ou duvidava do poder
de enfeitiçar? O entre vírgulas deixa claro de que ele, no
mínimo, duvidava desse poder. Interessante, não acha?
Mas vamos ao ponto que estamos tratando.
Nas primeiras referências desta abordagem,
consideramos a presença ou não dos bons Espíritos nas
manifestações magnéticas. Vimos que não nos é permitido,
em sã consciência, dizer que Eles sempre estão presentes.
Nesta referência agora é considerada a possibilidade
ou não da presença de Espíritos inferiores. E, mais uma vez,

101
os Espíritos da Codificação optaram pela forma condicional:
"possível se torna" a influência de Espíritos maus, ou
seja, é possível, o que não significa "acontece". Portanto,
contrariamente ao que é usualmente colocado, nem para o
bem, nem para o mal podemos afirmar, intempestivamente,
que sempre haverá a participação dos Espíritos nas ações
magnéticas. Daí a responsabilidade do magnetizador
aumentar consideravelmente, pois a ocorrência depende e
dependerá, de forma inarredável, dele, de seus atributos, de
seus conhecimentos, de sua condução e de sua moral.

a
I Podem considerar-se as pessoas dotadas de força
magnética como formando uma variedade de médiuns?
"Não há que duvidar".
a
2 Entretanto, o médium é um intermediário entre os
Espíritos e o homem; ora, o magnetizador, haurindo em
si mesmo a força de que se utiliza, não parece que seja
intermediário de nenhuma potência estranha.
"É um erro; a força magnética reside, sem dúvida, no
homem, mas é aumentada pela ação dos Espíritos
que ele chama em seu auxílio. Se magnetizas com o
propósito de curar, por exemplo, e invocas um bom
Espírito que se interessa por ti e pelo teu doente, ele
aumenta a tua força e a tua vontade, dirige o teu
fluido e lhe dá as qualidades necessárias".
a
3 Há, entretanto, bons magnetizadores que não crêem
nos Espíritos?
"Pensas então que os Espíritos só atuam nos que crêem
neles? Os que magnetizam para o bem são auxiliados
por bons Espíritos. Todo homem que nutre o desejo
do bem os chama, sem dar por isso, do mesmo modo
que, pelo desejo do mal e pelas más intenções, chama
os maus".
a
4 Agiria com maior eficácia aquele que, tendo a força
magnética, acreditasse na intervenção dos Espíritos?
"Faria coisas que consideraríeis milagre".


102
a
5 Há pessoas que verdadeiramente possuem o dom de
curar pelo simples contacto, sem o emprego dos passes
magnéticos?
"Certamente; não tens disso múltiplos exemplos?"
a
6 Nesse caso, há também ação magnética, ou apenas
influência dos Espíritos?
"Uma e outra coisa. Essas pessoas são verdadeiros
médiuns, pois que atuam sob a influência dos Espíritos;
isso, porém, não quer dizer que sejam quais médiuns
curadores, conforme o entendes".
a
I Pode transmitir-se esse poder?
"O poder, não; mas o conhecimento de que necessita,
para exercê-lo, quem o possua. Não falta quem não
suspeite sequer de que tem esse poder, se não acreditar que lhe
foi transmitido". - In: O Livro dos Médiuns - Cap. XIV
- "Dos Médiuns" - Item 116.



Esta série de perguntas feitas por Allan Kardec
aos Espíritos vai mais longe, mas estas aí são mais do que
suficientes para a abordagem que estamos fazendo. Irei analisar
as respostas de uma em uma.
Na primeira os Espíritos consideram que as pessoas
dotadas de uma força magnética são uma variedade de
médiuns, o que reforça o que já vimos analisando.
A segunda resposta novamente contrapõe as
suposições iniciais e pessoais do senhor Allan Kardec
mostrando a independência dos Espíritos nas abordagens.
Mas o que nos interessa mais diretamente é que os Espíritos
ratificam o essencial, dizendo, categoricamente, que "a força
magnética reside, sem dúvida, no homem, mas é aumentada pela
ação dos Espíritos que ele chama em seu auxílio". Nesse ponto
surge mais uma condicionante para a presença dos Espíritos:
o "chamado" em auxílio. E se o Espírito evocado é um bom
Espírito, que se interessa pelo magnetizador e pelo paciente,
sua presença é multiplicadora de poderes, compensando,


103
dentro de certos limites, até mesmo eventuais falhas na
direção conveniente das ações magnéticas.
Consecutivamente, Kardec quis saber dos
magnetizadores que não acreditam nos Espíritos. A resposta
dada é grandiosa: quando agimos bem intencionados e
nutrindo o bem verdadeiro somos auxiliados pelos bons
Espíritos, mesmo sem nos darmos conta disso. Idêntica
ocorrência se dá com os que magnetizam para o mal, atraindo
Espíritos afins.
Parece não restar dúvidas de que ter a força magnética
e crer na atuação espiritual é fator potencializador. Apenas uma
dúvida resta aí: o que seria esse crer na atuação dos Espíritos?
Seria apenas dizer-se espírita ou afirmar que acredita pelo
simples fato de temê-los? Certamente que não. Crer no
Mundo Espiritual é agir de forma consentânea com essa
crença, contribuindo para que a boa parceria se estabeleça.
Na questão seguinte, a quinta, volta o toque e
seu poder de cura. Notemos que Kardec faz uma distinção
entre o simples contacto e os passes magnéticos, com isso
ressaltando que ele considerava, na pergunta, o caráter
restritivo, limitado a uma única ação.
Da sexta pergunta Eles ressaltam que, embora
os magnetizadores, quando usam o toque curador, sejam
considerados atuando sob a influência dos Espíritos, não são
médiuns curadores conforme usualmente entendido. Isto
porque há claros sinais indicadores de onde vai a ação de um
e onde age a outra. Veremos isso mais adiante.
Por fim, o poder magnético, humano, portanto,
não pode ser transmitido, embora seja educável, passível de
ser ensinado. -- Mas... Onde anda quem queira aprender?

Médiuns curadores: os que têm o poder de curar
ou de aliviar o doente, pela só imposição das mãos,
ou pela prece.


104
"Esta faculdade não é essencialmente mediúnica;
possuem-na todos os verdadeiros crentes, sejam
médiuns ou não. As mais das vezes é apenas
uma exaltação do poder magnético, fortalecido,
se necessário, pelo concurso de bons Espíritos".
- In: O Livro dos Médiuns - Cap. XVI - "Dos
médiuns especiais" - Item 189.


Muito interessante notar a definição dada por
Kardec para os médiuns curadores; o poder deles pode ser
apresentado pela simples imposição das mãos ou até mesmo
pela prece, sem maiores manipulações magnéticas por si
mesmo. Contudo, a colocação pelos Espíritos amplia o tema
de forma surpreendente: os verdadeiros crentes, ou seja,
os que têm fé, vontade e poder magnético podem operar
essas mesmas maravilhas, médiuns ou não, quer dizer, sob a
influência dos Espíritos ou sem ela. Isso fica reforçado pela
condicional novamente interposta pelos Espíritos, qual seja,
"se necessário". Seguramente, casos existem em que não se
faz necessária a interferência deles.

Médiuns excitadores: pessoas que têm o poder de, por sua
influência, desenvolver nas outras a faculdade de escrever.
"Aí há antes um efeito magnético do que um caso
de mediunidade propriamente dita, porquanto nada
prova a intervenção de um Espírito. Como quer que
seja, pertence à categoria dos efeitos físicos". - In:
O Livro dos Médiuns -- Cap. XVI - "Dos médiuns
especiais" - Item 189.


Tratando dos excitadores, os Espíritos destacam que
em suas atuações ocorrem, sobremodo, efeitos magnéticos.
Interessante que nessa colocação Eles fazem a ligação entre
efeitos magnéticos e efeitos físicos. Apesar desse destaque,

105
alguns estudiosos teimam em dizer que o magnetismo não se
englobaria na categoria dos chamados fenômenos de efeitos
físicos. Necessário que repensem.

A ação magnética pode produzir-se de muitas maneiras:
1° pelo próprio fluido do magnetizador; é o magnetismo
propriamente dito, ou magnetismo humano, cuja ação
se acha adstrita à força e, sobretudo, à qualidade do fluido;
2° pelo fluido dos Espíritos, atuando diretamente e
sem intermediário sobre um encarnado, seja para o
curar ou acalmar um sofrimento, seja para provocar o
sono sonambúlico espontâneo, seja para exercer sobre o
indivíduo uma influência física ou moral qualquer. É o
magnetismo espiritual, cuja qualidade está na razão
direta das qualidades do Espírito;
o
3 pelos fluidos que os Espíritos derramam sobre
o magnetizador, que serve de veículo para esse
derramamento. É o magnetismo misto, semi-espiritual,
ou, se o preferirem, humano-espiritual. Combinado com o
fluido humano, o fluido espiritual lhe imprime qualidades
de que ele carece. Em tais circunstâncias, o concurso dos
Espíritos é amiúde espontâneo, porém, as mais das vezes,
provocado por um apelo do magnetizador. - In: A
Gênese - Cap. XIV- "Curas" - item 33.


Na abertura dessas três frentes de ação do
magnetismo, mesmo considerando que, em termos absolutos,
se trata de uma classificação didática, se se pode considerar o
magnetismo humano como sendo isento de uma influência
espiritual direta, esta classificação reforça o que definimos
nesta abordagem: nem sempre os Espíritos estão presentes na
ação magnética.




106
Abordagem 7
O espírito a t u a n t e é o
do magnetizador




De certa forma, esta abordagem é conseqüência ou
continuação da anterior. Considerando-se, como visto, que
haveria casos em que o magnetismo -- dito humano ou
animal -- não contaria com a participação espiritual, deduz-
se, diretamente, que o atuante seria o próprio magnetizador.
Ora, se para um caso como este, a lógica e a prática direcionam
todas as conclusões para tal, não seria demais fazer-se a
extrapolação de que o espírito atuante e possuidor dos fluidos
seja, de verdade, o operador. Apesar deste raciocínio e de tudo
o que já foi apontado e comentado na abordagem 6, vejamos
outras implicações que ratificam o tema desta.
Iniciarei repetindo, já pela terceira vez, uma mesma
citação:

O poder da fé se demonstra, de modo direto e especial,
na ação magnética; por seu intermédio, o homem atua
sobre o fluido, agente universal, modifica-lhe as
qualidades e lhe dá uma impulsão por assim dizer
irresistível. Daí decorre que aquele que a um grande

107
poder fluídico normal junta ardente fé, pode, só pela
força da sua vontade dirigida para o bem, operar
esses singulares fenômenos de cura e outros, tidos
antigamente por prodígios, mas que não passam de
efeito de uma lei natural. Tal o motivo por que Jesus
disse a seus apóstolos: se não o curastes, foi porque não
tínheis fé. - In: O Evangelho segundo o Espiritismo
- Cap. XLX- 'A fé transporta montanhas", item 5.



Aqui encontramos Allan Kardec definindo,
claramente, quem atua, onde atua e que resultados obtém de
sua ação, movida pela fé e pela vontade. Não há dúvidas: é o
homem. Mas tem mais.


A cura é obtida sem o emprego de nenhum medicamento,
portanto, ela é devida a uma influência oculta; e
tendo em vista que se trata de um resultado efetivo,
material, e que nada pode produzir alguma coisa,
é preciso que essa influência seja alguma coisa
de material; isso não pode, pois, ser senão um fluido
material, embora impalpável e invisível. O Sr. Jacob
não tocando o doente, não fazendo mesmo nenhum
passe magnético, o fluido não pode ter por motor e
propulsor senão a vontade; ora, a vontade não sendo
um atributo da matéria, não pode emanar senão do
espírito; é, pois, o fluido que age sem o impulso do
espírito. A maioria das doenças curadas por esse meio,
sendo daquelas contra as quais a ciência é impotente, há,
pois, agentes curativos mais poderosos do que aqueles da
medicina comum; esses fenômenos são, conseqüentemente,
a revelação de leis desconhecidas da ciência; em presença
de fatos patentes é mais prudente duvidar do que
negar. Tais são as conclusões às quais chega forçosamente
todo observador imparcial.
Qual é a natureza desse fluido? É da eletricidade
ou do magnetismo?

108
Provavelmente, há de um e de outro, e talvez alguma
coisa a mais; em todos os casos, deles é uma modificação,
uma vez que os efeitos são diferentes. A ação magnética é
evidente embora mais poderosa do que a do magnetismo
comum, do qual esses fatos são a confirmação, e ao
mesmo tempo a prova, de que não disse a sua última
palavra. - In: Revista Espírita, edição novembro-1867,
o
artigo "O zuavo Jacob" - 2 artigo.


1
Na análise do caso do Zuavo Jacob -- totalmente
descrito nas edições da Revista Espírita de outubro-1866,
julho-1867 e novembro-1867 --, Allan Kardec começa
ponderando em cima de raciocínio simples e direto: há ou
não há a cura? Houve ou não a movimentação ostensiva dos
fluidos? Se há a influência então existe um co-partícipe no
fenômeno e, pelo caso, há de ser algo material. De onde viria
isso? Não poderia ser de um Espírito, por ele não dispor
daquele elemento material, portanto...
Ademais, no mesmo artigo, Kardec traz à baila
uma bem urdida cadeia de elementos afins, entrelaçando-
os coerentemente, desde o magnetizador, seguindo pelo
m é d i u m de cura, da ação da vontade, da existência do
M u n d o Espiritual, das diferenças de potencial entre os
magnetizadores, dos fluidos curativos e sua natureza,
da ação magnética e arrematando com notável reflexão
acerca da prudência que se deve ter quando se envolverem
deduções e conclusões. Sem dúvida, um trecho que pede
uma boa leitura.




1 Zuavo, segundo o Houaiss: 1 - soldado argelino, originário de uma
tribo cabilda, pertencente a um corpo de infantaria ligeira da armada fran-
cesa, criado na Argélia em 1831 e caracterizado por um uniforme vistoso
e colorido; 2- soldado armado e uniformizado à semelhança dos zuavos.

109
... Algumas explicações farão facilmente compreender o
que se passa nesta circunstância. Sabe-se que o fluido
magnético comum pode dar, a certas substâncias,
propriedades particulares ativas; neste caso, age de
alguma sorte como agente químico, modificando o estado
molecular dos corpos; nada há, pois, de espantoso em que
possa mesmo modificar o estado de certos órgãos; mas
compreende-se, igualmente, que sua ação, mais ou
menos salutar, deve depender de sua qualidade; daí
as expressões de "bom ou mau fluido; fluido agradável ou
penoso." Na ação magnética propriamente dita é o
fluido pessoal do magnetizador que é transmitido e
esse fluido, que não é outro senão o perispírito, sabe-se que
participa sempre, mais ou menos, das qualidades
materiais do corpo, ao mesmo tempo que sofre a
influência moral do Espírito. É, pois, impossível que
o fluido próprio de um encarnado seja de uma pureza
absoluta, e é por isso que sua ação curativa é lenta, algumas
vezes nula, algumas vezes mesmo nociva, porque
pode transmitir ao enfermo princípios mórbidos.
De que um fluido seja bastante abundante e enérgico
para produzir efeitos instantâneos de sono, de catalepsia,
de atração ou de repulsão, não se segue, de nenhum modo,
que tenha qualidades necessárias para curar; é a força
que abate e não o bálsamo que abranda e repara;
assim ocorre com os Espíritos desencarnados de
uma ordem inferior, cujo fluido pode mesmo ser
malfazejo, o que os Espíritas têm, a cada instante, a
ocasião de constatar. Só nos Espíritos superiores o fluido
perispiritual está despojado de todas as impurezas da
matéria; de alguma sorte, ele é quintessenciado; sua
ação, por conseqüência, deve ser mais salutar e mais
pronta; é o fluido benfazejo por excelência. Uma vez
que não se pode encontrá-lo entre os encarnados, nem
entre os desencarnados vulgares, é preciso, pois, pedi-lo
aos Espíritos elevados, como se vai procurar nas regiões
longínquas os remédios que não se encontram na sua. O

110
médium curador emite pouco de seu próprio fluido;
ele sente a corrente do fluido estranho que o penetra
e ao qual serve de condutor; é com esse fluido que
magnetiza, e aí está o que caracteriza o magnetismo
espiritual e o distingue do magnetismo animal: um
vem do homem, o outro dos Espíritos. Como se vê, não
há aí nada de maravilhoso, mas um fenômeno resultante
de uma lei da Natureza que não se conhecia. (...) Entre
o magnetizador e o médium curador há, pois, esta
diferença capital, que o primeiro magnetiza com seu
próprio fluido e o segundo com o fluido depurado
dos Espíritos; de onde se segue que estes últimos dão
seu concurso àqueles que querem e quando querem; que
podem recusá-lo, e, por conseqüência, tirar a faculdade
àquele que dela abusasse ou a desviasse de seu objetivo
humanitário e caridoso para dela fazer um tráfico. -
Revista Espírita, edição janeiro-1864, artigo "Médiuns
curadores".



Primoroso! N e n h u m adjetivo define melhor
esse trecho escrito por Kardec. Quanta lucidez! Quanta
perspicácia! Quanta segurança!
Fico receoso até de comentá-lo a fim de não maculá-
lo. Mas precisarei, por dever de atender ao argumento que me
propus realizar, fazer ao menos rápidos destaques -- se é que
os inúmeros negritos feitos já não o são igualmente... Sendo
assim, vamos a eles.
Nesta parte: "Na ação magnética propriamente dita,
é o fluido pessoal do magnetizador que é transmitido, e esse
fluido que não é outro senão o perispírito, sabe-se que participa
sempre, mais ou menos, das qualidades materiais do corpo, ao
mesmo tempo que sofre a influência moral do Espírito" fica
ressaltado, com total nitidez, de que o atuante é mesmo o
magnetizador, com seus fluidos, potenciais e, inclusive, suas
características orgânicas e morais.


111
Mais adiante, ele constata uma realidade que, por
diversas razões -- direi algumas delas a seguir --, é muito
pouco considerada. Como o magnetismo depende "mesmo"
dos fluidos do magnetizador, "sua ação curativa é lenta, algumas
vezes nula, algumas vezes mesmo nociva, porque pode transmitir
ao enfermo princípios mórbidos". -- A propósito disso, é
comum se dizer que os passes não fazem mal. Ao contrário
desta afirmativa, podem fazer mal sim e isto se confirma
na constatação acima. O que leva alguns a afirmarem essa
temeridade é imprudência, desconhecimento das leis do
magnetismo, acomodação, falta de bom senso, não causar
espanto aos pacientes, não estudar as duas ciências com a
lucidez sugerida por Kardec, achar que sabem muito, que
sabem tudo, que os guias tudo resolvem... Espero que um
dia todo esse quadro se transforme, para melhor, aí então o
Magnetismo desempenhará, em plenitude, o papel que lhe
está reservado no grande cenário dos alívios e das curas das
dores, dos sofrimentos e das doenças dos seres.
No fim, destaque para a captação e transmissão dos
fluidos espirituais, com total definição e diferenciação entre
magnetizador e médium de cura.


O médium curador recebe o influxo fluídico do Espírito, ao
passo que o magnetizador haure tudo em si mesmo. Mas
os médiuns curadores, na estrita acepção da palavra, quer
dizer, aqueles cuja personalidade se apaga completamente
diante da ação espiritual, são extremamente raros...
- Revista Espírita, edição setembro-1865, do artigo "Da
mediunidade curadora", item 7.



Ao que me parece, atendendo ao que a presente
abordagem se propõe, esta afirmação é irretorquível,
inquestionável, precisa; por um lado afirma que o
magnetizador haure em si mesmo sua força fluídica e, no

112
outro lado, fala da condição pouco comum, rara mesmo, de
se contar com efetivos médiuns curadores.


... A força magnética é puramente orgânica; pode
ser, como a força muscular, dada a todo o mundo, mesmo
a homens perversos; mas só o homem de bem dela se
serve exclusivamente para o bem, sem dissimulação
de interesse pessoal, nem satisfação do orgulho ou da
vaidade; seu fluido depurado possui propriedades
benfazejas e reparadoras que não pode ter aquele do
homem vicioso ou interessado.
Todo efeito mediúnico, como foi dito, é o resultado da
combinação dos fluidos emitidos por um Espírito e
pelo médium: por essa união, esses fluidos adquirem
propriedades novas que não teriam separadamente, ou
pelo menos não teriam no mesmo grau. A prece, que
é uma verdadeira evocação, atrai os bons Espíritos
solícitos em virem secundar os esforços do homem bem
intencionado; seu fluido benfazejo se une facilmente ao
dele, ao passo que o fluido do homem vicioso se alia
com o dos maus Espíritos que o cercam.
O homem de bem que não tivesse a força fluídica não
poderia, pois, senão pouca coisa por si mesmo; ele não
pode senão chamar a assistência dos bons Espíritos, mas
a sua ação pessoal é quase nula; uma grande força
fluídica, aliada à maior soma possível de qualidades
morais, pode operar verdadeiros prodígios de curas.
- In: Obras Póstumas, item 52.



Conclusão desta abordagem: o magnetismo, como
energia, é força orgânica, humana, anímica, portanto
pedindo bom comportamento, orgânico e moral, para que
se realize em nível de alta potência e obtendo resultados de
qualidade. A oração, vigoroso coadjuvante, evocação atrativa
de Bons Espíritos, tudo potencializa e refina. C o m a alavanca


113
da vontade, juntando-se essa 'mistura' e pondo-a em ação
convenientemente dirigida, prodígios e milagres -- como
vulgarmente são tratados -- dominarão o universo das curas.




114
Abordagem 8
É cruel, m a s n e m sempre o
Magnetismo funciona




Como passista e estudante do Magnetismo
comecei relativamente cedo. Aos 15 anos de idade já aplicava
passes, ainda que de forma não regular, ou seja, só o fazia
quando alguma situação extraordinária pedia ou quando
alguém precisava e não tinha quem socorresse. Isto porque
na Instituição que freqüentava não era permitido jovens
adolescentes aplicarem passes -- o que tem sua razão de
ser, mas, à época, não havia quem explicasse ou discutisse
o assunto. E também comecei a ler, perguntar e pesquisar
o tema nesse mesmo período, pelo prosaico motivo de não
encontrar quem se dispusesse a me responder acerca de
minhas dúvidas -- inúmeras -- nem sequer usar ilustrações,
comparações ou alegorias que pelo menos dessem um sentido
lógico para algumas das regras vigentes.
O preço pago para percorrer esse caminho de
dúvidas sem respostas satisfatórias foi muito caro. Paguei
com muita insistência e leituras intermináveis e ainda tive


115
que comprar muitos livros, pois nas Casas que freqüentava
não havia biblioteca à altura -- ah! Como teria sido bom se
naquele tempo eu contasse com uma internet como a que
dispomos atualmente!
U m a segunda parte foi paga pela constante mania
de ouvir me pedirem para eu largar da obsessão de tudo
querer saber um porquê. Inclusive, sempre que me diziam
algo parecido eu sorria e, de forma hilária, pedia para que
orassem por mim, com fervor, pois assim eu ficaria livre dos
obsessores, aí incluídos os encarnados também.
Por fim, uma outra parte do preço foi paga por
alguns dos pacientes que, sem saberem, eram peças chaves
de meus experimentos.
Naquele tempo eu acreditava que a boa intenção
resolvia uma grande parte da prática e a boa vontade
complementava o serviço. Ao lado disso, sempre ouvi dizer
que os Espíritos são os que faziam tudo enquanto o passista
só precisava orar, impor as mãos e transmitir os fluidos
dos Amigos Espirituais -- posto que raramente alguém
mencionava que havia doação de fluidos humanos, sempre
tidos como impuros e impróprios. Tocar nas pessoas era um
sacrilégio e evocar um Espírito para ajudar nos passes era
considerado falta gravíssima.
Comecei a ficar preocupado ao notar que alguns
pacientes não ficavam bem após o passe, notadamente
quando alguns deles haviam recebido por meu intermédio
-- hoje eu entendo que esse tipo de problema era mais forte
e comum sob minhas mãos, pelo fato de eu possuir um
vigoroso potencial magnético. Certa vez, depois de observar
e analisar dois casos ocorridos no mesmo dia, sendo um
positivamente forte e o outro quase nulo, apesar de minha
intencionalidade por ocasião dessas aplicações ter sido a de
fazer o máximo e o melhor, resolvi que buscaria explicações


116
as quais me levassem a entender, o mais profundo possível, o
que tinha ocorrido de verdade, pois ali já não se sustentavam
mais os velhos e genéricos argumentos.
Li muito, estudei bastante, experimentei suficien-
temente e aprendi coisas lógicas e reais, mas, por incrível
que pareça, desconhecidas da maioria, muito embora quase
tudo estivesse, como sempre esteve, repousando tranqüilo
na obra kardequiana, bem como em quase todos os livros
clássicos sobre o magnetismo -- estranhamente, sem maiores
dissertações ou comentários em outras obras espíritas que
se proponham a tratar do tema, abstração feita ao livro
Magnetismo Espiritual, de Michaellus.
Muitos anos após sofri uma depressão profunda --
relato tudo, de forma pormenorizada, no meu livro "A cura da
depressão pelo Magnetismo". Quando dela me libertei tive que
rever uma enormidade de conceitos que eu aprendera, aceitava
e divulgava, pois a primeira e mais dolorosa dor que sofri
durante o tenebroso evento depressivo foi a constatação de que
os passes a mim doados pelos amigos, dedicados e estudiosos
companheiros de lutas e tarefas no campo do Magnetismo, só
me faziam me sentir pior e pior... Graças àquela odisséia foi
que descobri, a duras penas, que o Magnetismo não pode ser
aplicado, em casos como o da depressão, sem se ter uma boa
base de como funcionam muitas variáveis na equação dessa
doença terrível e de como o campo vital e o corpo do paciente
absorvem, ou não, os fluidos doados.
Por incrível que pareça, mesmo com todo esse
percurso transcorrido e contando o tempo em mais de oito
lustros, quando abordo essa realidade há quem ainda duvide
de que o Magnetismo, inconvenientemente aplicado, pode
ser danoso, perigoso e até fazer mal.
Em cima disso, analisemos com Kardec alguns
tópicos.


117
Interessam-se os Espíritos pelas nossas desgraças e pela
nossa prosperidade? Afligem-se os que nos querem bem
com os males que padecemos durante a vida?
"Os bons Espíritos fazem todo o bem que lhes é possível
e se sentem ditosos com as vossas alegrias. Afligem-se
com os vossos males, quando os não suportais com
resignação, porque nenhum benefício então tirais
deles, assemelhando-vos, em tais casos, ao doente que
rejeita a beberagem amarga que o há de curar." -- In: O
Livro dos Espíritos, questão 486.



O destaque para essa primeira citação é, digamos,
oblíquo: os Espíritos superiores, é de se notar, se afligem
com nossa não-resignação e não necessariamente com o
que sofremos. Resignação, tenhamos isso bem claro, guarda
relação com "extrair benefícios" e não com acomodação
pura e simples. Convenhamos: quem de nós não aprende,
de forma muito mais eloqüente e segura, com as dores da
vida? Indago isso porque há quem pense e até defenda a
idéia de que Deus jamais permitiria que uma pessoa bem
intencionada fosse "castigada" com alguma conseqüência
negativa enquanto estivesse produzindo para o bem.
Prossigamos...


Podem a bênção e a maldição atrair o bem e o mal para
aquele sobre quem são lançados?
"Deus não escuta a maldição injusta e culpado perante
Ele se torna o que a profere. Como temos os dois gênios
opostos, o bem e o mal, pode a maldição exercer
momentaneamente influência, mesmo sobre a
matéria. Tal influência, porém, só se verifica por vontade
de Deus como aumento de prova para aquele que é dela
objeto. Demais, o que é comum é serem amaldiçoados os
maus e abençoados os bons. Jamais a bênção e a maldição


118
podem desviar da senda da justiça a Providência, que
nunca fere o maldito, senão quando mau, e cuja proteção
não acoberta senão aquele que a merece". -- In: O Livro
dos Espíritos, questão 557.



Neste ponto, embora exista quem duvide, a assertiva
dos Espíritos dá conta de que a contaminação fluídica negativa
existe e chega, inclusive, a afetar a matéria. C o m o as chamadas
maldições são, magneticamente falando, emissões fluídicas,
daí deduzimos, sem qualquer sinuosidade, existirem-nas
prejudiciais.
A propósito, a célebre passagem em que Jesus teria
"amaldiçoado" a figueira estéril é exemplar:


Quando saíam de Betânia, ele teve fome; e, vendo ao longe
uma figueira, para ela encaminhou-se, a ver se acharia
alguma coisa; tendo-se, porém, aproximado, só achou
folhas, visto não ser tempo de figos. Então, disse Jesus à
figueira: Que ninguém coma de ti fruto algum, o que
seus discípulos ouviram. -- No dia seguinte, ao passarem
pela figueira, viram que secara até á raiz. - Pedro,
lembrando-se do que dissera Jesus, disse: Mestre, olha
como secou a figueira que tu amaldiçoaste, - Jesus,
tomando a palavra, lhes disse: Tende fé em Deus. - Digo-
vos, em verdade, que aquele que disser a esta montanha:
Tira-te daí e lança-te ao mar, mas sem hesitar no seu
coração, crente, ao contrário, firmemente, de que tudo o que
houver dito acontecerá, verá que, com efeito, acontece. (S.
MARCOS, cap. XI, vv. 12 a 14 e 20 a 23.)



Para explicar o fenômeno aos discípulos, Jesus
recorreu à fé, à certeza de se obter o que se pretenda.
Alguém, então, poderia perguntar: teria ele querido mesmo
fulminar aquela planta? Se sim ou se não, o que importa
é que o exemplo é forte o suficiente para demonstrar que

119
uma emissão fluídica dirigida de forma não conveniente pode
gerar algo desastroso, mesmo que essa carga energética tenha
partido do próprio Jesus, o nosso Mestre e Senhor.

Como se há visto, o fluido universal é o elemento
primitivo do corpo carnal e do perispírito,- os quais são
simples transformações dele. Pela identidade da sua
natureza, esse fluido, condensado no perispírito, pode
fornecer princípios reparadores ao corpo; o Espírito,
encarnado ou desencarnado, é o agente propulsor que
infiltra num corpo deteriorado uma parte da substância
do seu envoltório fluídico. A cura se opera mediante a
substituição de uma molécula malsã por uma molécula
sã. O poder curativo estará, pois, na razão direta
da pureza da substância inoculada; mas, depende
também da energia da vontade que, quanto maior
for, tanto mais abundante emissão fluídica
provocará e tanto maior força de penetração dará
ao fluido. Depende ainda das intenções daquele
que deseje realizar a cura, seja homem ou Espírito.
Os fluidos que emanam de uma fonte impura são
quais substâncias medicamentosas alteradas. - In:
A Gênese - Cap. XIV- Curas, item 31.


Se as curas dependem, de forma direta, da pureza do
fluido do magnetizador e se sua ação é proporcional à força de
vontade empregada, temos aí dois fatores que, em não sendo
considerados, podem, por si sós, isolada ou conjuntamente,
provocar resultados bem diferentes dos que naturalmente são
de se esperar numa ação magnética feliz. Conjugando-se a essa
hipótese a intencionalidade do doador, bem se percebe que
pode ocorrer de tudo. Longe de mim criar suposições de que os
pacientes estejam sujeitos a riscos elevados, até porque a grande
maioria dos passistas é formada por pessoas de boa índole,
sensíveis e que se propõem, de verdade, a fazer o bem. Todavia,
consideremos o final da transcrição: "Os fluidos que emanam

120
de uma fonte impura são quais substâncias medicamentosas
alteradas". Para não me alongar muito, pergunto: o que ocorre
ou o que pode ocorrer quando ingerimos medicamentos ou
mesmo alimentos alterados? Pois...


...O pensamento do encarnado atua sobre os fluidos
espirituais como o dos desencarnados, e se transmite
de Espírito a Espírito pelas mesmas vias e, conforme
seja bom ou mau, saneia ou vicia os fluidos
ambientes. Desde que estes se modificam pela projeção
dos pensamentos do Espírito, seu invólucro perispirítico,
que é parte constituinte do seu ser e que recebe de modo
direto e permanente a impressão de seus pensamentos, há
de, ainda mais, guardar a de suas qualidades boas
ou más. Os fluidos viciados pelos eflúvios dos maus
Espíritos podem depurar-se pelo afastamento destes, cujos
perispíritos, porém, serão sempre os mesmos, enquanto o
Espírito não se modificar por si próprio.
Sendo o perispírito dos encarnados de natureza
idêntica à dos fluidos espirituais, ele os assimila com
facilidade, como uma esponja se embebe de um líquido.
Esses fluidos exercem sobre o perispírito uma ação
tanto mais direta, quanto, por sua expansão e
sua irradiação, o perispírito com eles se confunde.
Atuando esses fluidos sobre o perispírito, este, a seu turno,
reage sobre o organismo material com que se acha em
contacto molecular. Se os eflúvios são de boa natureza,
o corpo ressente uma impressão salutar; se são maus,
a impressão é penosa. Se são permanentes e enérgicos,
os eflúvios maus podem ocasionar desordens
físicas; não é outra a causa de certas enfermidades. Os
meios onde superabundam os maus Espíritos são, pois,
impregnados de maus fluidos que o encarnado absorve
pelos poros perispiríticos, como absorve pelos poros do
corpo os miasmas pestilenciais. - In: A Gênese - Gap.
XIV- "Qualidade dos fluidos", item 18.



121
Nesta passagem, Allan Kardec relaciona leis e
modos como os fluidos são transmitidos e recebidos além
da forma como atuam. Ora, se os fluidos projetados levam
em si as características, boas ou más, dos doadores, no caso,
dos magnetizadores, significa dizer que as reações são e
serão diferenciadas. Por dedução direta, os fluidos maus ou
descompensados gerarão desordens, inclusive de grande
monta. Isto destrona uma outra hipótese muito aventada
como teoria, a de que "todos os passes são iguais" ou, em outra
versão, de que "não existem diferenças entre os passistas".
Mas é claro que essa hipótese não deveria existir sequer no
campo da idéia, muito menos alguém pensar que ela possa
vir a ser real. E observemos que Allan Kardec, nesta citação,
sequer considerou a posição de receptividade, refratariedade
ou indiferença do paciente.

...O magnetismo curará o rei Oscar? É uma
outra questão. Sem dúvida, ele tem operado curas
prodigiosas e inesperadas, mas tem os seus limites,
como tudo o que está na Natureza; e, aliás, é preciso ter
em conta esta circunstância que a ele não se recorre, em
geral, senão in extremis e em desespero de causa, quando,
freqüentemente, o mal fez progressos irremediáveis, ou
foi agravado por uma medicação contrária. Para que
ele triunfe de tais obstáculos, é preciso que seja bem
poderoso'. - In: Revista Espírita, edição outubro-1858,
artigo "Emprego oficial do magnetismo animal - A
doença do rei da Suécia".


Tratando de uma proposta de atendimento muito
séria, Kardec destaca que o Magnetismo tem seus limites,
como tudo na vida o tem igualmente. Não seria também por
isso e, em muitos casos, os limites do próprio magnetismo em
ação, seja pela condição do magnetizador, seja pelo paciente,
que ele se tornaria ineficiente ou até mesmo danoso?


122
Um jovem que não conhecia o magnetismo
senão de nome, e jamais o praticara, ignorando,
conseqüentemente, as medidas de prudência que a
experiência ensina, propôs, um dia, magnetizar o
sobrinho do dono do hotel no qual jantava; depois de
alguns passes o menino caiu em sonambulismo,
mas o magnetizador improvisado não soube como
fazer para tirá-lo desse estado, que se seguiu de crises
nervosas persistentes. Daí uma queixa na justiça feita
pelo tio contra o magnetizador. - In: Revista Espírita,
edição outubro-1859, artigo "O magnetismo reconhecido
pelo poder judiciário".


Exemplo eloqüente do quanto a inexperiência em
magnetismo pode produzir de nefasto ou danoso. No fato
parcialmente narrado, vimos uma ação magnética não só
levando o paciente a uma situação inesperada e difícil como,
pela não experiência do magnetizador, aquele ficou pior, já que
o jovem experimentador não soube como fazer para reverter
o processo. E pensar que uma quantidade muito grande de
passistas não busca nem realiza uma formação adequada!

"Uma noite em que assistia a uma dessas cenas, havia já
cinco horas que o filho R... estava numa grande agitação;
tentei acalmá-lo com alguns passes magnéticos, mas
logo se tornou furioso e transtornou o seu leito". (...)
Um Espírito relativamente superior pode exercer,
sobre um outro Espírito, uma ação magnética
e paralisar as suas faculdades? - R. Um bom
Espírito não pode alguma coisa sobre um outro senão
moralmente, mas não fisicamente. Para paralisar pelo
fluido magnético, é necessário agir sobre a matéria,
e o Espírito não é matéria semelhante a um corpo
humano. - In: Revista Espírita, edição janeiro-1862,
artigo "O Espírito batedor do Aube", questão 2.


123
Ao contrário do caso anterior, aqui o magnetizador
tinha experiência, todavia o resultado, conforme o próprio
relatou a Kardec, não foi feliz. São os cuidados especializados
que são requeridos, bem se deduz, nos casos das obsessões e
como, de ordinário, devem existir para uma infinidade dc outros
casos, dentre os quais destaco as doenças graves, a depressão, os
pacientes excessivamente debilitados, as crianças etc.
A explicação dada ao final, entretanto, repõe uma
outra questão bastante delicada. Digo assim porque, como já
disse alhures, novo parâmetro da verdade de alguns teóricos se
quebra: o de que os Espíritos podem tudo. Não é exatamente
isso o que se pode deduzir da frase: "Para paralisar pelo fluido
magnético, é necessário agir sobre a matéria, e o Espírito não é
matéria semelhante a um corpo humano".


Para a senhorita Julie, como em todos os casos análogos, o
magnetismo simples, embora enérgico que fosse, era,
pois, insuficiente; seria preciso agir simultaneamente
sobre o Espírito obsessor para domá-lo, e sobre o moral
do enfermo enfraquecido por todos esses abalos; o mal
físico não era senão consecutivo; era um efeito e não
a causa; seria preciso, pois, tratara causa antes do efeito;
destruído o mal moral, o mal físico deveria desaparecer
por si mesmo. Mas para isso era preciso se identificar
com a causa; estudar com o maior cuidado e em
todas suas nuanças o curso das idéias, para lhe
imprimir tal ou tal direção mais favorável, porque
os sintomas variam segundo o grau de inteligência
do sujeito, o caráter do Espírito e os motivos da
obsessão, motivos cuja origem remonta, quase sempre,
às existências anteriores.
O insucesso do magnetismo sobre a senhorita Julie
fez com que várias pessoas tentassem; no número
delas achava-se um jovem dotado de uma grande força
fluídica, mas a quem, infelizmente, faltava totalmente a
experiência, e, sobretudo, conhecimentos necessários em

124
semelhante caso. Atribuía-se um poder absoluto sobre os
Espíritos inferiores que, segundo ele, não podiam resistir
à sua vontade; essa pretensão, levada ao excesso e fundada
sobre sua força pessoal, e não sobre a assistência dos bons
Espíritos, devia lhe atrair mais de uma decepção. Só isso
teria devido bastar para mostrar, aos amigos da jovem,
que lhe faltava a primeira das qualidades requeridas para
lhe ser um socorro eficaz. Mas o que, acima de tudo, teria
devido esclarecê-los, é que ele professava, sobre os Espíritos
em geral, uma opinião completamente falsa. Segundo
ele, os Espíritos superiores são de uma natureza fluídica
muito etérea para poderem vir sobre a Terra comunicar-
se com os homens e assisti-los; isso não é possível senão
aos Espíritos inferiores em razão de sua natureza mais
grosseira. Essa opinião, que não é outra senão a da
doutrina da comunicação exclusiva dos demônios, tinha
um erro muito grave de sustentá-la diante do enfermo,
mesmo nos momentos de crise. Com esta maneira de
ver, devia não contar senão consigo mesmo, e não
podia invocar a única assistência que teria podido
secundá-lo, assistência da qual, é verdade, acreditava
não necessitar; a conseqüência mais lastimável
era para o enfermo que desencorajava, tirando-
Ihe a esperança da assistência dos bons Espíritos.
No estado de enfraquecimento em que estava seu
cérebro, uma tal crença, que dava toda presa ao
Espírito obsessor, podia se tornar fatal para a sua
razão, podia mesmo matá-la. Também repetia-lhe,
sem cessar, nos momentos de crise: "Louca... louca... ele
me tornará louca... inteiramente louca... não o sou ainda,
mas tornar-me-ei." Falando de seu magnetizador, ela
pintava perfeitamente sua ação dizendo: "Ele me dá a
força do corpo, mas não me dá a força do espírito."
Esta palavra era profundamente significativa, e, no
entanto, ninguém lhe atribuía importância. - In: Revista
Espírita, edição dezembro-1863, artigo "Um caso de
possessão. Senhorita Julie".



125
Este caso da senhorita Julie é um daqueles de se tirar
o chapéu, o capote, o fraque e tudo o mais. Primeiro porque
começa trazendo uma retratação do mestre Allan Kardec
acerca do que ele já tinha pronunciado, como opinião bem
definida, sobre não concordar com a expressão possessão,
mas tão-somente subjugação, tal como está em "O Livro dos
Médiuns", cap. XXIII, item 241 -- não transcrevi o início do
artigo referido porque ficaria muito extenso, mas recomendo
sua leitura integral na Revista Espírita. Ou seja: até nisso o
mestre lionês foi exemplar: revê seu posicionamento com
humildade e assume seus equívocos, propondo reforma sem
sofismas, sem qualquer receio.
Outro fato por demais relevante é que neste
caso não foi apenas um magnetizador ou um inexperiente
nessa ciência que, embora tendo tentado de tudo, não
conseguiu chegar ao objetivo da cura; ao contrário, foram
vários, inclusive um jovem, possuidor de grande potencial
magnético, mas que nem por isso obteve proveito. É bem
verdade que o mal não era apenas físico e sim um severo
problema espiritual, sendo este a causa, com a doença do
corpo formando uma conseqüência. A recomendação no
primeiro momento foi acerca da necessidade de estudar
o caso, aprofundar o conhecimento dos mecanismos
envolvidos, percebendo as nuanças a fim de dar o
conveniente tratamento.
Depois, uma anotação muito grave do codificador:
a inexperiência do magnetizador, doando fluidos impróprios,
poderia pôr em risco a própria vida da paciente. Muito grave
isso, não acha? -- Fica no ar, inclusive, esta questão: será que
só naquele caso houve isso ou não estaremos, nós mesmos,
incorrendo, cotidianamente, em idênticos erros e perigos?
Embora essa transcrição já tenha sido muito extensa,
o texto é tão rico que vou fazer-lhe mais uma extração.


126
Com o conhecimento da natureza dos fluidos, pode-
se facilmente se dar conta desse fenômeno. É evidente,
primeiro, que absorvendo o fluido para se dar a força em
detrimento da enferma, o Espírito queria convencer
o magnetizador da impossibilidade com respeito à
sua pretensão; se havia malícia de sua parte, era contra
o magnetizador, uma vez que se servia da própria arma
com a qual este último pretendia derrubá-lo; pode-se
dizer que lhe tirava o bastão das mãos. Era não menos
evidente que sua facilidade em se apropriar do fluido
do magnetizador denotava uma afinidade entre esse
fluido e o seu próprio, ao passo que os fluidos de uma
natureza contrária teriam se repelido, como a água e
o azeite. Só esse fato bastaria para demonstrar que havia
outras condições a preencher. É, pois, um erro dos mais
graves, e podemos dizer dos mais funestos, o de não
ver na ação magnética senão uma simples emissão
fluídica, sem ter em conta da qualidade íntima dos
fluidos. Na maioria dos casos, o sucesso repousa
inteiramente sobre essas qualidades, como na
terapêutica depende da qualidade do medicamento.
Não saberíamos muito chamar a atenção sobre este ponto
capital, demonstrado, ao mesmo tempo, pela lógica e pela
experiência. - In: Revista Espírita, edição dezembro-
1863, artigo "Um caso de possessão. Senhorita Julie".



Mais um rigoroso convite ao conhecimento dos
fluidos é o início desse trecho. E a partir dele me questiono:
será que se fôssemos alguns de nós, os passistas atuais, naquela
situação, teríamos sido mais felizes na terapia? Dessa colocação
decorre outra: teríamos conhecimento suficiente para não nos
levarmos pelo Espírito obsessor e perceberíamos que estávamos
fazendo doação imprópria de fluidos à paciente e que nesses
fluidos o obsessor se fortalecia? Complexo isso, não?



127
C o m o se não bastassem essas dúvidas, o que foi
anotado no prosseguimento é muito forte: "É, pois, um erro
dos mais graves, e podemos dizer dos mais funestos, o de não
ver na ação magnética senão uma simples emissão fluídica,
sem ter em conta da qualidade íntima dos fluidos". Nossa!!!
Fico espantado como ainda tem gente teimando em dizer
que basta ter boa vontade e o resto os Espíritos fazem, pois,
como afirmam, o passe nunca dá errado nem faz mal!
Urge buscarmos essa qualidade íntima dos fluidos
se quisermos mesmo ser bons e eficientes magnetizadores.


Um jovem cego há doze anos tinha sido recolhido por
um Espírita devotado, que havia empreendido curá-
lo pelo magnetismo, tendo os Espíritos dito que
a coisa era possível. Mas esse jovem, em lugar de se
mostrar reconhecido pelas bondades das quais era objeto,
e sem as quais teria se encontrado sem asilo e sem pão,
não teve senão a ingratidão e maus procedimentos, e deu
prova do pior mau caráter.
O Espírito de São Luís, consultado a seu respeito, respondeu:
"Esse jovem, como muitos outros, é punido por
onde pecou, e traz a pena de sua má conduta. Sua
enfermidade não é incurável e uma magnetização
espiritual praticada com zelo, devotamento e
perseverança, dela triunfaria certamente, com
ajuda de um tratamento médico destinado a corrigir
seu sangue viciado. Já haveria uma melhora sensível em
sua visão, que não está ainda inteiramente extinta, se
os maus fluidos, dos quais está cercado e saturado,
não opusessem um obstáculo à penetração dos bons
fluidos que são, de alguma forma, repelidos. No estado
em que se encontra, a ação magnética será impotente
enquanto não estiver, por sua vontade e sua melhoria,
desembaraçado desses fluidos perniciosos.
"É, pois, uma cura moral que é preciso obter,
antes de perseguir a cura física. Só um retorno sério


128
sobre si mesmo pode tornar eficazes os cuidados de seu
magnetizador, que os Espíritos se apressarão em
secundar; no caso contrário, ele deve esperar perder o
pouco de luz que lhe resta, e a novas e bem mais terríveis
provas que lhe será preciso suportar.
"Agi, pois, para com ele como o fazeis com respeito aos
maus Espíritos desencarnados que quereis conduzir
ao bem. Ele não está sob o golpe de uma obsessão, é
sua natureza que é má e que, além disto, se perverteu no
meio em que viveu; os maus Espíritos que o assediam não
são atraídos senão pela sua semelhança com o seu próprio;
à medida que se melhorar, eles se afastarão. Só então a
ação magnética terá toda a sua força. Dai-lhe conselhos;
explicai-lhe sua posição; que várias pessoas sinceras se unam
em pensamento para orarem a fim de atraírem sobre ele
influências salutares. Se disso se aproveita, não tardará a
experimentar os bons efeitos, porque nisso será recompensado
por uma melhora sensível em sua posição."
Esta instrução nos revela um fato importante, o do
obstáculo que o estado moral opõe, em certos casos,
à cura dos males físicos. In: Revista Espírita, edição
julho-1865, artigo "Cura moral dos encarnados".


O jovem cego em questão era mau; aí estava o
problema. Mas não só por ser mau, sobretudo porque seus
fluidos, seu campo fluídico, tornavam-no inacessível; por
fazê-lo impermeável aos fluidos salutares e refazentes, não
obtinha a cura desejada.
Temos a observar que antes do início dessa
magnetização, que visava à cura do jovem, ela foi referendada
pelos Espíritos, ainda assim, não deu resultado positivo. Em
seguida, o Espírito São Luiz afirmou que, no estado fluídico
em que o jovem se apresentava, era impossível uma ação
magnética efetiva, pois ele precisava, antes, obter uma cura
moral, precisaria ser levado a mudar seu comportamento
perante a vida e o próximo. Em outras palavras, precisaria


129
ser "doutrinado". A moral, ou a ausência dela, obstaculava
seriamente à obtenção de uma cura física.
Outro destaque: para a cura física o Espírito sugeriu
magnetismo e tratamento magnético, daí se ressaltando que
as ciências são parceiras e não rivais.


O fluido espiritual é tanto mais depurado e benfazejo
quanto o Espírito que o fornece é, ele mesmo, mais
puro e mais desligado da matéria. Concebe-se que o dos
Espíritos inferiores deve se aproximar do homem e pode
ter propriedades malfazejas, se o Espírito for impuro e
animado de más intenções.
Pela mesma razão, as qualidades do fluido humano
apresenta nuanças infinitas segundo as qualidades
físicas e morais do indivíduo é evidente que o fluido
saindo de um corpo mal são pode inocular princípios
mórbidos no magnetizado. As qualidades morais do
magnetizador, quer dizer, a pureza de intenção e de
sentimento, o desejo ardente e desinteressado de aliviar
seu semelhante, unido à saúde do corpo, dão ao fluido
um poder reparador que pode, em certos indivíduos, se
aproximar das qualidades do fluido espiritual.
Seria, pois, um erro considerar o magnetizador como
uma simples máquina na transmissão fluídica.
Nisto como em todas as coisas, o produto está em
razão do instrumento e do agente produtor. Por estes
motivos, haveria imprudência em se submeter à ação
magnética do primeiro desconhecido; abstração feita
dos conhecimentos práticos indispensáveis, o fluido
do magnetizador é como o leite de uma nutriz: salutar
ou insalubre. -- In: Revista Espírita, edição setembro-
1865, artigo "Da mediunidade curadora", item 4.


Temos aqui mais uma pérola dentro desse artigo
importantíssimo da Revista Espírita - Da mediunidade
curadora.

130
Além de tudo o que já observamos nesta abordagem
e ao longo do livro, referente à qualidade dos fluidos e de sua
origem, Kardec confirma que um fluido mal-são, provindo de
um magnetizador, pode macular o paciente. Isto se dá porque
o magnetismo aplicado, como já sabemos, é um efeito físico.
Logo, um passista, por exemplo, fumante, viciado ou ainda
contaminado por drogas, certas doenças ou comportamentos
orgânicos e corporais desarmônicos, seguramente será fonte
de graves riscos para os seus pacientes.
O magnetizador não é apenas uma máquina de
exteriorizar fluidos; ele precisa possuir potencial fluídico
compatível, saber como agir e acoplar a isso uma boa postura
moral, para qualificar melhor seus potenciais e suas ações.
Por tudo isso, Kardec fecha a transcrição de
forma primorosa -- e eu deixo com ele a palavra: "haveria
imprudência em se submeter à ação magnética do primeiro
desconhecido; abstração feita dos conhecimentos práticos
indispensáveis, o fluido do magnetizador é como o leite de uma
1
nutriz: salutar ou insalubre ".
Embora outros casos e citações pudessem ser
arrolados nessa abordagem, acredito que o principal já está
bem destacado. Cabe, agora, cada um refletir melhor sobre
os riscos que corre ou impõe a com quem se relaciona
magneticamente. Afinal, se nosso propósito é o de fazer ou
receber o bem, que ele seja bem feito e bem recebido, sempre.
Se assim não for, algo precisa ser urgentemente reparado.




131
Abordagem 9
P a r a s e r lido, r e l i d o , r e v i s t o ,
repensado e recolocado




Vários assuntos poderiam receber abordagens
específicas, mas optei por tratar a maioria nesta última,
deixando ao leitor mais interessando em aprofundar os temas,
o prazer de recorrer às obras de Kardec a fim de extrair-lhe
todo um universo, rico e esplendoroso, de considerações
as mais variadas, diretas e indiretas, referentes às abordagens
tratadas nesta obra, e tantas outras não menos importantes.

Imposição de mãos

Vou começar por um assunto que de há muito
deveria receber, de todo estudioso do passe ou do magnetismo
assim como de quem se sente autorizado a comentar sobre o
tema, melhor análise e não ser tão vulgar e equivocadamente
disseminado. É o caso das imposições de mãos.
Um dos discursos mais freqüentes, repetidos e
reproduzidos no meio espírita é o de que "o passe só pede
imposição de mãos"; "o passe espírita é o da imposição de

133
mãos"; ou "o passe é o que Jesus fazia: a imposição de mãos".
A insistência num desses refrãos é tamanha que existem
verdadeiros movimentos no sentido de se fazer dessa prática
o supra-sumo do Magnetismo no movimento espírita. O
argumento usado para tal é que essa técnica é a mais simples,
dispensando outros recursos -- como se o ser simples
fosse, necessariamente, ser fácil e eficiente a um só tempo.
Paradoxalmente, os mesmos que defendem essa argumentação
são enfáticos em dizer que os passistas espíritas precisam estudar
os fluidos, a mediunidade, as obras espíritas, o magnetismo,
fazer cursos preparatórios, educar a mediunidade, participar
de ESDE -- Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita --,
conhecer pelo menos o básico de anatomia e fisiologia, e por aí
vai. Pergunto: para que tanto estudo se na hora do passe o que
valerá mesmo será a "simples" imposição de mão(s)?
Vamos às considerações sobre alguns destaques que
extraí da obra de Kardec acerca disso.


Médiuns curadores: os que têm o poder de curar ou
de aliviar o doente, pela só imposição das mãos, ou
pela prece. - In: O Livro dos Médiuns - Cap. XVI
- "Dos médiuns especiais" - Item 189.


Anteriormente, já fiz referência a este item, mas
quero destacá-lo outra vez para abrir as abordagens deste item.
E quero abri-lo com uma pergunta: você crê mesmo que as
imposições de mãos que já viu, recebeu ou doou tiveram o
poder de curar ou aliviar conforme colocado nessa síntese de
Kardec? Se sim, seguramente você é um raro felizardo que
conhece um ou alguns médiuns curadores verdadeiros; se
não, surge outra indagação: então Kardec teria se equivocado?
Atentemos, antes de prosseguirmos, que aí o codificador está
tratando da mediunidade curadora em si e não do magnetismo
propriamente dito. Prossigamos com outras referências...

134
Estas palavras: conhecendo em si mesmo a virtude que
dele saíra, são significativas. Exprimem o movimento
fluídico que se operara de Jesus para a doente; ambos
experimentaram a ação que acabara de produzir-se. É de
notar-se que o efeito não foi provocado por nenhum ato
da vontade de Jesus; não houve magnetização, nem
imposição das mãos. Bastou a irradiação fluídica
normal para realizar a cura. - In: A Gênese - Cap.
XV- "Os milagres do Evangelho" - item 11.



Antes já chamei sua atenção para esta passagem, na
qual Allan Kardec fez uma distinção entre magnetização e
imposição de mãos. Por tudo o que já tratamos, a mim me
parece que seu destaque se deve ao fato de as imposições
estarem mais diretamente associadas à mediunidade curadora.
Por que afirmo isso? Porque sua associação à instantaneidade
das curas sempre foi direcionada à ação da mediunidade
curadora e não do magnetismo ordinário.
Aproveito para destacar que também fica claro, na
citação, que ele considerava a existência de um magnetismo
natural, espontâneo, que escapa dos indivíduos portadores
dele -- no caso em tela, Jesus. E sua ação também pode ser
muito rica e poderosa.

São extremamente variados os efeitos da ação fluídica
sobre os doentes, de acordo com as circunstâncias.
Algumas vezes é lenta e reclama tratamento
prolongado, como no magnetismo ordinário; d'outras
vezes é rápida, como uma corrente elétrica. Há pessoas
dotadas de tal poder, que operam curas instantâneas
nalguns doentes, por meio apenas da imposição das
mãos, ou, até, exclusivamente por ato da vontade.
Entre os dois pólos extremos dessa faculdade, há infinitos
matizes. Todas as curas desse gênero são variedades
do magnetismo e só diferem pela intensidade e pela

135
rapidez da ação. O princípio é sempre o mesmo: o
fluido, a desempenhar o papel de agente terapêutico
e cujo efeito se acha subordinado à sua qualidade e a
circunstâncias especiais. - In: A Gênese - Cap. XIV
- "Curas" - item 32.



Esta citação já foi apresentada na abordagem 3, mas
ela interessa ao escopo deste item igualmente...
C o m o mediunidade curadora, as imposições de
mãos se caracterizam pela rapidez e instantaneidade com que
transmitem os fluidos -- espirituais -- e como se verifica a
cura ou o alívio imediato do mal que esteja sendo tratado. Só
por essa premissa já se percebe que o passe dito "comum"
que é aplicado na Casa Espírita, com uso tão-somente da
imposição de mãos, está bem distante dessa mediunidade
curadora como também de uma prática do magnetismo
sabido e consciente.
A imposição de mãos é uma, apenas uma das técnicas
do magnetismo e não a única à disposição. Tampouco, em
momento algum da obra do senhor Allan Kardec encontramos
qualquer indicação que possa dar aval a essa injustificada
restrição -- a de que só as imposições de mãos são suficientes
--, sob a qual o Magnetismo ficaria literalmente manietado,
sem movimento, quase sem ação. Como bem sinalizado, a
imposição é uma das técnicas empregadas, mas o seu uso, de
forma muito eficiente e instantânea, é uma exceção da regra.
Infelizmente, tal não é o padrão comum dos magnetizadores
ou passistas.

É muito comum a faculdade de curar pela influência
fluídica e pode desenvolver-se por meio do exercício;
mas, a de curar instantaneamente, pela imposição
das mãos, essa é mais rara e o seu grau máximo se
deve considerar excepcional. No entanto, em épocas
diversas e no seio de quase todos os povos, surgiram


136
indivíduos que a possuíam em grau eminente. Nestes
últimos tempos, apareceram muitos exemplos notáveis,
cuja autenticidade não sofre contestação. Uma vez que
as curas desse gênero assentam num princípio natural e
que o poder de operá-las não constitui privilégio, o que
se segue é que elas não se operam fora da Natureza e que
só são miraculosas na aparência. - In: A Gênese - Gap.
XIV- "Curas"-item34.


Ratificando o que acabo de escrever no comentário
anterior, essa outra transcrição confirma que o verdadeiro
exercício da imposição de mãos, como mediunidade
curadora, deve ser muito rápido e eficiente, portanto,
não se dá de forma comum ou trivial, já que é rara sua
realização. Quanto maior for o grau de efetivação do efeito
das imposições, mais excepcional ainda será essa prática.
Isto distancia o pretendente ao aval do mestre Kardec para
a pretensa confirmação do uso exclusivo das imposições de
mãos como técnica única e sempre eficiente.


Este gênero de mediunidade (mediunidade curadora)
consiste na faculdade, que certas pessoas possuem, de
curar pelo simples toque, pela imposição das mãos,
o olhar, um gesto mesmo, sem a ajuda de nenhum
medicamento. Esta faculdade, incontestavelmente, tem
o seu princípio na força magnética; dela difere,
todavia, pela energia e pela instantaneidade da
ação, ao passo que as curas magnéticas exigem um
tratamento metódico mais ou menos longo. Todos
os magnetizadores estão quase aptos para curar se
sabem a isso se ligar convenientemente; eles têm a
ciência adquirida; nos médiuns curadores a faculdade é
espontânea e alguns a possuem sem jamais terem ouvido
falar do magnetismo.
A faculdade de curar pela imposição das mãos
tem, evidentemente, o seu princípio numa força


137
excepcional de expansão, mas é aumentada por
diversas causas, entre as quais é necessário colocar
em primeira linha: a pureza dos sentimentos, o
desinteresse, a benevolência, o ardente desejo de
aliviar, a prece fervorosa e a confiança em Deus,
em uma palavra, todas as qualidades morais. - In:
Obras Póstumas, item 52 - "Médiuns curadores".


Sei que vai parecer repetitivo, mas é melhor repetir
e despertar consciências do que calar e seguir cometendo
equívocos. O que difere a imposição de mãos, enquanto
mecanismo usado na mediunidade curadora, dos demais
métodos magnéticos é exatamente a instataneidade do
fenômeno. Por isso mesmo ela é tão rara. Mas, há de se
perguntar, qual a razão dessa raridade? Exatamente as
qualidades requeridas aos médiuns que querem exercê-la.
Estas estão sobejamente detalhadas acima.


... Deus recompensa sempre a humildade sincera elevando-
a, ao passo que rebaixa o orgulho. Esse recurso que
envia, são os bons Espíritos que vêm penetrar o médium
de seu fluido benfazejo, que este transmite ao enfermo.
Também é por isso que o magnetismo empregado
pelos médiuns curadores é tão poderoso e produz
essas curas qualificadas de miraculosas e que são devidas
simplesmente à natureza do fluido derramado sobre
o médium; ao passo que o magnetizador comum se
esgota, freqüentemente, em vão, em fazer passes, o
médium curador infiltra um fluido regenerador pela
única imposição das mãos, graças ao concurso dos
bons Espíritos; mas esse concurso não é concedido
senão à fé sincera e à pureza de intenção. - In:
Revista Espírita, edição Janeiro-1864, artigo "Médiuns
curadores" - Mensagem do Espírito Mesmer, pela
psicografia do médium Sr. Albert.



138
Mais uma confirmação do que venho repetindo:
o caráter especial do médium curador é que possibilita o
efetivo resultado numa imposição de mãos. O simples nisso
é o óbvio: desenvolvem-se as qualidades morais e a fé e não a
questão menor, que seria a do não-movimento.


7. O médium curador recebe o influxo fluídico do Espírito,
ao passo que o magnetizador haure tudo em si mesmo.
Mas os médiuns curadores, na estrita acepção da
palavra, quer dizer, aqueles cuja personalidade se
apaga completamente diante da ação espiritual,
são extremamente raros, porque esta faculdade,
elevada ao seu mais alto grau, requer um conjunto de
qualidades morais que raramente se encontra sobre
a Terra; somente eles podem obter, pela imposição
das mãos, essas curas instantâneas que nos parecem
prodigiosas; muito poucas pessoas podem pretender este
favor. O orgulho e o egoísmo sendo as principais fontes
das imperfeições humanas, disso resulta que aqueles que
se gabam de possuir esse dom, que vão por toda a parte
enaltecendo as curas maravilhosas que fizeram, ou que
dizem ter feito, que procuram a glória, a reputação ou o
proveito, estão nas piores condições para obtê-la, porque
esta faculdade é o privilégio exclusivo da modéstia, da
humildade, do devotamento e do desinteresse. Jesus dizia
àqueles que tinha curado: Ide dar graças a Deus e não o
digais a ninguém.
8. A mediunidade curadora pura sendo, pois, uma
exceção neste mundo, disso resulta que há quase sempre
ação simultânea do fluido espiritual e do fluido humano;
quer dizer, que os médiuns curadores são todos mais
ou menos magnetizadores, é por isso que agem
segundo os procedimentos magnéticos; a diferença está
na predominância de um ou de outro fluido e na maior
ou na menor rapidez da cura. Todo magnetizador pode
se tornar médium curador, se sabe se fazer assistir
pelos bons Espíritos; neste caso os Espíritos lhe vêm em

139
ajuda, derramando sobre ele seu próprio fluido que pode
decuplicar ou centuplicar a ação do fluido puramente
humano. - Revista Espírita, edição setembro-1865, do
artigo "Da mediunidade curadora", itens 7 e 8.


No item 7 está tudo magistralmente colocado; basta
ter olhos para ver e ali descobrir, de forma tão óbvia como
real, o que não dá para ser encoberto: o caráter excepcional da
instantaneidade das curas pela simples imposição, a raridade
desse tipo de médium curador e as qualidades morais
indispensáveis para que ele atue eficientemente.
No item 8, reafirmado que "A mediunidade curadora
pura sendo, pois, uma exceção neste mundo", chegamos à
realidade patente de que os médiuns curadores comuns,
convencionais, os nossos médiuns passistas, também fazem uso
de fluidos próprios, "por isso que agem segundo os procedimentos
magnéticos". Veja bem: procedimentos magnéticos, no plural,
e não no singular do "só imposição de mãos". Não vejo como
escapar à realidade de que para se ser passista não se deva fazer
uso do magnetismo e de seus procedimentos.
Ao final, o reforço de que a atuação dos Espíritos,
evocada e consentida, ampliará enormemente os potenciais
fluídicos do magnetizador é alentador e estimulante para que nos
esforcemos, sempre mais, por adquirir melhores condições de
atraí-los e tê-los em perfeita parceria e não ficarmos imaginando
que eles têm a obrigação de estar onde estivermos e, de quebra,
fazerem tudo, inclusive o que nos compete.


Se a mediunidade curadora pura é o privilégio
das almas de elite, a possibilidade de abrandar certos
sofrimentos, de curar mesmo, embora de maneira não
instantânea, certas doenças, é dada a todo o mundo,
sem que seja necessário ser magnetizador. O
conhecimento dos procedimentos magnéticos é útil
em casos complicados, mas não é indispensável.

140
Como é dado a todo o mundo chamar os bons Espíritos,
orar e querer o bem, freqüentemente, basta impor as
mãos sobre uma dor para acalmá-la; é o que pode fazer
todo indivíduo se nisso põe a fé, o fervor, a vontade e a
confiança em Deus. Há a se anotar que a maioria dos
médiuns curadores inconscientes, aqueles que não se
dão nenhuma conta de sua faculdade, e que se encontram,
às vezes, nas condições mais humildes, e entre pessoas
privadas de toda instrução, recomendam a prece, e ajudam
a si mesmos orando. Somente sua ignorância faz crer na
influência de tal ou tal fórmula; algumas vezes mesmo ali
misturam práticas evidentemente supersticiosas, das quais
é preciso dar o caso que elas merecem. - Revista Espírita,
edição setembro-1865, do artigo "Da mediunidade
curadora", item 12.


Muito interessante tudo isso. C o m o a mediunidade
curadora pura quase não é encontrada, a possibilidade de
aliviar ou mesmo fazer pequenas curas é por demais comum,
não precisando sequer que a pessoa seja magnetizadora. Isto
está muito claro e, creio, não há como discordar. Sendo
assim, "o conhecimento dos procedimentos magnéticos é
útil em casos complicados, mas não é indispensável", disse
Kardec. Tenho encontrado muito esta frase sendo repetida
e tomada como um atestado de dispensa de uso das técnicas
do magnetismo. Mas analisemos tudo com clareza: o texto
se refere à mediunidade curadora e não ao magnetismo
prático; depois aparece a ênfase de que nem sempre os casos
pedem um magnetizador, o que o dispensa; em seguida, o
complemento é crucial: os bons Espíritos vêm para resolver o
problema, constituindo-se, portanto, numa ação mediúnica e
não magnética, motivo pelo qual o conhecimento das técnicas
pode até vir a ser dispensado; nisso tudo, as imposições de
mãos não entram como técnica magnética e sim como prática
mediúnica ou como complemento de um passe espiritual. O
que não me parece lógico é que dessa citação se deduza que

141
só as imposições de mãos resolvem e substituem tudo o que
o Magnetismo ensina. E para que não sobrem dúvidas, ele se
refere aos médiuns curadores inconscientes, associando-os
à prece, mas se não lhes pede conhecimento nos processos
magnéticos, elucida que a fé, o fervor, a vontade e a confiança
em Deus são basilares nesses mecanismos de cura.
Espero que as referências indicadas sejam suficientes
para que se reveja postura acerca de tão evidente assunto.

Os bons Espíritos precisam


Para poder se fazer ouvir, é preciso que os Espíritos
ajam sobre instrumentos que estejam ao nível de sua
ressonância fuídica. Que pode fazer um bom músico
com um instrumento detestável? Nada. Ah! muitos,
senão a maioria dos médiuns são para nós instrumentos
bem imperfeitos. Compreendei que em tudo é preciso
semelhança, tanto nos fluidos espirituais quanto
nos fluidos materiais. Para que os Espíritos avançados
possam se vos manifestar, lhes são necessários médiuns
capazes de vibrarem uníssono com eles; do mesmo modo,
para as manifestações físicas, é preciso encarnados
possuidores dos fluidos materiais da mesma
natureza daqueles dos Espíritos errantes, tendo
ainda ação sobre a matéria.
(...) Os Espíritos instrutores que vos revelam
os segredos da Natureza, segredos pouco conhecidos,
ou ainda ignorados, têm necessidade de médiuns
compreendendo já certos efeitos magnéticos e tendo
bem estudado a mediunidade.
Compreendei isto... (...) Regra geral: quando quiserdes
um calculador, não vos dirijais a um dançarino. - In:
Revista Espírita, edição fevereiro-1865, mensagem do
dia 20 de janeiro de 1865, pela médium, senhorita M.
C. de Um Espírito Protetor.



142
Relevante estarmos cientes de que, mesmo para
os Espíritos, inclusive os superiores, são requeridos, além
de tudo o que já foi postulado em termos morais, uma
compatibilidade fluídica entre os seus fluidos e os do médium
ou magnetizador a fim de que a manifestação física ocorra.
Portanto, convém termos isso em conta quando quisermos
generalizar afirmativas que dão conta da presença e da atuação
do Mundo Espiritual, de forma tão contundente, em "todos"
os eventos magnéticos.
Afora essa pontuação feita no que foi ditado pelo
Espírito protetor na mensagem acima, a recomendação "têm
necessidade de médiuns compreendendo já certos efeitos magnéticos
e tendo bem estudado a mediunidade" é um excelente reforço a
tudo o que já sabemos quanto ao nosso dever de estudar e aplicar
o magnetismo com sapiência. Afinal, como a recomendação é
dirigida mais diretamente aos médiuns, a quem se costuma ceder
certa condescendência no campo do não-estudo, considerando-
se o chamado "dom natural"que muitos trazem, imagine-se
o que não se reportar aos magnetizadores, a quem nunca se
regateia a imperiosidade do estudo!

Magnetismo e relacionamento

Muito mais do que imaginamos, o magnetismo está
presente em quase tudo ao nosso derredor, inclusive no que
tange ao mundo emocional e mental.


Os encontros, que costumam dar-se, de algumas pessoas e
que comumente se atribuem ao acaso, não serão efeito de
uma certa relação de simpatia?
"Entre os seres pensantes há ligação que ainda não
conheceis. O magnetismo é o piloto desta ciência,
que mais tarde compreendereis melhor". - In: O
Livro dos Espíritos, questão 388.



143
Lendo esta questão, logo aparece uma dúvida: será
que o "mais tarde" a que os Espíritos se referiram é muito
mais tarde ainda? Minha dúvida é porque não me parece que
estejamos tão preocupados como deveríamos em estudar essa
ciência que, seguramente, está na base de todo relacionamento
humano. É! Temos muito material a desvendar ainda!

Suponhamos agora duas pessoas, perto uma da outra,
envolvida cada uma de sua atmosfera perispirítual - que
se nos permita ainda esse neologismo. Esses dois fluidos
vão se pôr em contato, penetrar um no outro; se
são de natureza antipática, se repelirão, e os dois
indivíduos sentirão uma espécie de mal-estar com
a aproximação um do outro, sem disso se darem
conta; sendo ao contrário movidos por um sentimento
bom e benevolente, levarão consigo um pensamento
benevolente que atrai. Tal é a causa pela qual duas
pessoas se compreendem e se adivinham sem se falarem.
Um certo não sei o quê diz freqüentemente que a pessoa
que se tem diante de si deve estar animada de tal ou tal
sentimento; ora, esse não sei quê é a expansão do
fluido perispirítual da pessoa em contato com o
nosso, espécie de fio elétrico condutor do pensamento...
- In: Revista Espírita, edição dezembro-1862, artigo
'As causas da obsessão e os meios de combatê-la".


Temos aí um detalhamento da recíproca influência
entre os campos energéticos dos humanos, o que serve de
adendo precioso à citação anterior. Sabendo-se, de antemão,
que o piloto disso tudo é o magnetismo, fácil concluir que o
magnetismo que cada ser exala leva consigo o clima mental,
moral, orgânico e do humor de seu possuidor, motivo pelo
qual nem sempre o ser humano consegue esconder suas
reais intenções, seu real proceder emocional e racional. Não
é sem razão que é tão corriqueira a expressão: "eu bem que
desconfiava...".

144
Tratamentos diferenciados

Q u e m use reflexões de bom senso deduz, com
facilidade, que as ações magnéticas, bem como as atinentes
à mediunidade curadora, não são iguais em si mesmas,
muito menos quando comparadas. Portanto, aquilo de se
dizer que os passes são iguais ou, o que é mais sério ainda,
que tanto faz passe magnético ou espiritual, não deveria ter
sido considerado por ninguém, a não ser como hipótese de
pesquisa. A despeito disso, de tanto se ouvir essas afirmações,
até parece que esta é a regra.


A ação é completamente diferente na obsessão e
a faculdade de curar não implica a de libertar os
obsedados. O fluido curador age, de certo modo,
materialmente sobre os órgãos afetados, ao passo que
na obsessão deve agir moralmente sobre o Espírito
obsessor; é preciso ter autoridade sobre ele, para o fazer largar
a presa. São, pois duas aptidões distintas, que nem
sempre se encontram na mesma pessoa. O concurso
do fluido curador torna-se necessário quando, o que é
bastante freqüente, a obsessão se complica com afecções
orgânicas. Pode, pois, haver médiuns curadores
impotentes para a obsessão, e reciprocamente.
(...) Há, pois, para o médium curador a necessidade
absoluta de se conciliar o concurso dos Espíritos
superiores, se quiser conservar e desenvolver
sua faculdade, senão, em vez de crescer ela declina e
desaparece pelo afastamento dos bons Espíritos. A
primeira condição para isto é trabalhar em sua
própria depuração, a fim de não alterar os fluidos
salutares que está encarregado de transmitir. Esta
condição não poderia ser executada sem o mais completo
desinteresse material e moral. O primeiro é o mais fácil; o
segundo é o mais raro, porque o orgulho e o egoísmo são os
sentimentos mais difíceis de extirpar e porque várias causas


145
contribuem para os superexcitar nos médiuns. Desde
que um deles se revela com faculdades transcendentes -
falamos aqui dos médiuns em geral, escreventes, videntes
e outros - é procurado, adulado e mais de um sucumbe a
essa tentação da vaidade. Em breve, esquecendo que sem
os Espíritos nada seria, considera-se como indispensável
e único intérprete da verdade; deprime os outros médiuns
e se julga acima de conselhos. O médium que assim se
acha está perdido, porque os Espíritos se encarregam
de lhe provar que podem ser dispensados, fazendo surgir
outros médiuns melhor assistidos. - In: Revista Espírita,
edição novembro-1866, artigo "Considerações sobre a
mediunidade curadora".



Quando Allan Kardec enfatiza que o tratamento
magnético dado ao paciente com problemas orgânicos é
diferente, em realização, ao prestado ao obsidiado, deixa claro
que há mais de um tipo de magnetismo, mais de um tipo
de ação, portanto, além de diferentes aptidões mediúnicas
e magnéticas, além das formas diferentes como os pacientes
absorvem ou se deixam penetrar pelos fluidos das terapias
magnéticas, existem características e sutilezas que pedem
análise cuidadosa e aplicação criteriosa. Difícil acreditar que
tenha quem acredite mesmo que não haja diferença!
No prosseguimento da transcrição surgem seguras
recomendações a todos os que queremos ser realizadores de
efetivas curas reais.


Faremos observar que a mediunidade curadora não
está ainda apresentada, ao nosso conhecimento,
com caracteres de generalidade e de universalidade,
mas, ao contrário, restrita como aplicação, quer
dizer, que o médium tem uma ação mais poderosa sobre
certos indivíduos do que sobre outros, e não cura todas
as doenças. Compreende-se que isso deva ser assim,


146
quando se conhece o papel capital que desempenham
as afinidades fluídicas em todos os fenômenos de
mediunidade. Algumas pessoas mesmo dela não gozam
senão acidentalmente e para um caso determinado.
Seria, pois, um erro crer que, porque se obteve uma
cura, mesmo difícil, podem-se obtê-las todas, pela razão
de que o fluido próprio de certos doentes ê refratário ao
fluido do médium; a cura é tanto mais fácil quanto
a assimilação dos fluidos se opera naturalmente.
Também se está surpreso de ver, algumas fezes, pessoas
frágeis e delicadas exercerem uma ação poderosa sobre
indivíduos fortes e robustos. É que, então, essas pessoas
são boas condutoras do fluido espiritual, ao passo que
os homens vigorosos podem ser muito maus condutores.
Eles não têm senão seu fluido pessoal, fluido humano,
que jamais tem a pureza e o poder reparador do fluido
depurado dos bons Espíritos.
(...) Lembraremos aqui que a mediunidade está
exclusivamente na ação fluídica mais ou menos
instantânea; que não é preciso confundi-la nem com
o magnetismo humano, nem com a faculdade que
certos médiuns têm de receber dos Espíritos a indicação
de remédios; estes últimos são simplesmente médiuns
médicos, como outros são médiuns poetas ou desenhistas.
- In: Revista Espírita, edição abril-1865, artigo "Poder
curativo do magnetismo espiritual", ditado pelo Espírito
do doutor Demeure.


Relembrando que o doutor Demeure foi grande
magnetizador e que, enquanto encarnado, permutou larga
correspondência com Kardec, aqui ele traz seu testemunho
acerca da mediunidade curadora, destacando a própria
inconsistência na ação do médium curador. Claramente
afirma o não universalismo do magnetismo, no terreno da
conquista de seus resultados nas curas assim como de um
mesmo médium ante certas doenças. Ora, se nem mesmo
em relação a idêntico problema um mesmo médium não tem

147
assegurado o poder de realizar idênticos resultados, como se
pode afirmar que todos os passes são iguais?

O tratamento magnético

Um outro ponto de destaque é o quesito: tratamento
propriamente dito. Isto porque nem sempre há um bom
esclarecimento às pessoas que buscam o apoio do passe --
magnetismo -- para a cura de suas mazelas físicas, psíquicas
e espirituais. Na maioria dos casos existe recomendação de
número de vezes e uma velada proibição ou restrição quanto
a se receber passes numa outra Casa, tudo sem maiores
explicações ou detalhes. Nalguns casos, até parece bula de
remédio indicando posologias e dosagens pré-estabelecidas,
mas, que critérios são usados nessas indicações? Estas
respostas devem ser dadas pelos dirigentes espíritas, pois
quem define regras é quem melhor habilitado está para
explicá-las. Contudo, da palavra de Allan Kardec dá para se
obter boa conclusão a respeito, pelo menos no que toca ao
entendimento do que é o tratamento em si, se é magnético
ou mediúnico.


Diremos apenas que este gênero de mediunidade
(curadora) consiste, principalmente, no dom que
possuem certas pessoas de curar pelo simples toque, pelo
olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de qualquer
medicação. Dir-se-á, sem dúvida, que isso mais não é
do que magnetismo. Evidentemente, o fluido magnético
desempenha aí importante papel; porém, quem examina
cuidadosamente o fenômeno sem dificuldade reconhece
que há mais alguma coisa. A magnetização ordinária
é um verdadeiro tratamento seguido, regular e
metódico... - In: O Livro dos Médiuns - Cap. XIV-
"Dos Médiuns" - Item 175, "Mediunidade curadora".



148
Enquanto na mediunidade curadora o processo
terapêutico costuma ser rápido e seus efeitos percebidos na
quase instantaneidade, os procedimentos magnéticos pedem
tempo e acompanhamento, pelo que a ação magnética se
configura como um verdadeiro tratamento: seguido, regular e
metódico. Sendo assim, não deve ser uma boa opção sair por
aí recebendo passe de qualquer maneira, em qualquer lugar e
sob condições variadas e inconsistentes entre si. Não por tal
ou qual Casa ser melhor, mais forte ou ter maiores poderes
sobre as causas do mal afugente, mas porque o tratamento
magnético pede padrão e regularidade, além de todos os outros
requisitos já tão explorados ao longo deste livro. Inclusive, este
é o mesmo motivo que leva às indicações para que o paciente
não falte ou se ausente do tratamento, sob pena de ver seus
efeitos desaparecerem como por encanto. Não se trata de
punição, castigo ou ameaça, mas constatação do fato fluídico.
Um outro ponto a ser observado é que no início
da citação acima o codificador faz referência a variantes de
procedimentos magnéticos, tais como o toque, o gesto -- e
aqui se incluem tanto a imposição de mãos como os passes com
movimento delas -- e o olhar. Convenhamos; caso houvesse
mesmo uma restrição, fosse de origem magnética, fosse de
orientação espiritual, no sentido de só se fazer imposição de
mãos, aí estaria mais uma primorosa oportunidade para que
Allan Kardec se manifestasse nesse sentido.


Estas palavras: conhecendo em si mesmo a virtude
que dele saíra, são significativas. Exprimem o
movimento fluídico que se operara de Jesus para a
doente; ambos experimentaram a ação que acabara de
produzir-se. É de notar-se que o efeito não foi provocado
por nenhum ato da vontade de Jesus; não houve
magnetização, nem imposição das mãos. Bastou a
irradiação fluídica normal para realizar a cura.


149
Mas, por que essa irradiação se dirigiu para aquela
mulher e não para outras pessoas, uma vez que Jesus não
pensava nela e tinha a cercá-lo a multidão?
É bem simples a razão. Considerado como matéria
terapêutica, o fluido tem que atingir a matéria
orgânica, a fim de repará-la; pode então ser dirigido
sobre o mal pela vontade do curador, ou atraído pelo
desejo ardente, pela confiança, numa palavra: pela fé do
doente. Com relação à corrente fluídica, o primeiro age
como uma bomba calcante e o segundo como uma bomba
aspirante. Algumas vezes, é necessária a simultaneidade
das duas ações; doutras, basta uma só. O segundo caso
foi o que ocorreu na circunstância de que tratamos. - In:
A Gênese - Cap. XV, item 11.


Este singular caso de Jesus curando ou favorecendo,
fluidicamente, para que a cura da mulher hemorroíssa se
desse, fornece, na palavra de Kardec, campos para raciocinios
bastante fecundos. Ali se destacam fatos como: os fluidos
podem ser pedidos, buscados, sugados, absorvidos, rejeitados,
nulos, eficientes... O magnetizador pode perceber a vazão ou o
fluir de suas próprias energias assim como o paciente registrar
toda pujança da captação fluídica, comprovada pela eficiente
cura... Ainda fica bem vivo o sentido da fé e seu poder...
Mas... apenas para aproveitar a citação, sobre as
imposições Allan Kardec faz um surpreendente destaque: "não
houve magnetização, nem imposição das mãos". Significa dizer
que magnetização e imposição de mãos também poderiam
ser vistos como eventos diferentes, distintos, ou, então, ele
estava deixando mais evidente a distinção entre o magnetismo
humano e o constante da mediunidade curadora.
N o tangente ao tratamento em si, "Considerado
como matéria terapêutica, o fluido tem que atingir a matéria
orgânica, a fim Vou me permitir fazer uma
de repará-la".
reflexão sobre os casos de depressão grave tratados pelo
magnetismo. Ora, como o fluido que irá promover o

150
benefício ao paciente precisa atingir a matéria orgânica,
torna-se imperioso que esse fluido atravesse ou perpasse o(s)
centro(s) de força que estiver(em) afetado(s). Ora, se esse(s)
está(ão) congestionado(s) a ponto de não permitir qualquer
acesso do fluido ao sistema orgânico, como poderia "um
passe qualquer" resolver essa problemática? E, por outro
lado, como não iria gerar agravamentos no paciente se as
deposições fluídicas fossem concentradoras e densas? São
questões que não podem passar despercebidas nem serem
desconsideradas ou mal consideradas. Apesar de Kardec não
ter-se detido, objetiva e diretamente, sobre essa doença, por
tudo o que estamos analisando fica mais do que evidente que
é preciso cuidado para tratar de situações delicadas como as
que se associam à depressão e outras problemáticas das quais
ainda temos poucas conclusões.

Kardec e o Magnetismo

No início deste livro comentei acerca do longo
tempo de experiência que o senhor Allan Kardec tinha de
conhecimento e prática magnética -- 35 anos. Para uns, isto
poderia ter sido coincidência; para outros, seu interesse em
ligar o Espiritismo ao Magnetismo deveria ser visto como uma
forma de, mesmo numa ciência iniciante, deter certo poder
intelectual, considerando seus conhecimento específicos
nessa área; alguns outros ainda interpretariam como sendo
obra dos Espíritos, os quais sabiam que, mais à frente, ele
precisaria desses conhecimentos... Ouçamo-lo.


Eu seguia, há algum tempo, as sessões que tinham lugar
na casa do Sr. Roustan, e ali começara a verificação de
meu trabalho que deveria, mais tarde, formar O
Livro dos Espíritos.
Numa sessão íntima, à qual não assistiam senão sete
ou oito pessoas, conversava-se sobre diferentes coisas,

151
relativas aos acontecimentos que poderiam provocar uma
transformação social, quando o médium, agarrando a
cesta, escreveu espontaneamente o que se segue:
"Quando o grande sino soar, vós o deixareis; somente
aliviareis o vosso semelhante; individualmente, o
magnetizareis, a fim de curá-lo. Depois, cada um
preparado no seu posto, porque será necessário de tudo,
uma vez que tudo será destruído, sobretudo por um
instante. Não haverá mais religião e dela será necessária
uma, mais verdadeira, grande, bela e digna do Criador...
Os seus primeiros fundamentos já estão colocados... Tu,
Rivail, a tua missão aí está. (Livre, a cesta retornou para
o meu lado, como o faria uma pessoa que quisesse me
designar com o dedo.) A ti, Sr... a espada que não fere,
mas que mata; contra tudo o que é serás tu que virás
primeiro. Ele, Rivail, virá em segundo: é o obreiro que
reconstrói o que foi demolido."
Nota. Esta foi a primeira revelação positiva sobre a
minha missão, e confesso que, quando vi a cesta se dirigir
bruscamente para mim, e me designar nominalmente,
não pude me defender de uma certa emoção. - In: Obras
Póstumas - "Primeira revelação de minha missão".



O primeiro destaque desta citação aponta para a
humildade dele em anotar tudo isso com toda simplicidade,
humildade e franqueza.
Em seguida, a revelação em si: "somente aliviareis o
vosso semelhante; individualmente, o magnetizareis, a fim de
curá-lo". Incrível! Ele, individualmente, ou seja, em pessoa,
iria magnetizar aquele que espera isso dele. Pode ser indivíduo
-- esta a ilação primeira e a mais direta --, mas igualmente
pode ser referência à família, ao povoado, à cidade, à região,
ao Estado, ao País, ao planeta...
Continuando, todos devem estar preparados, em seus
postos, pois haverá necessidade de tudo -- tanto individual
e material, quanto coletivo e psíquico, mental, espiritual

152
enfim. Todos devem estar preparados em tudo, para tudo;
todos serão convidados, pois haverá destruição, momentânea,
mas haverá. Uma destruição de coisas, de valores, de ritmos,
de acomodações, de movimentos non-gratos ao meio em
progressão... E, desde então, beleza, radiancia, luminosidade,
serenos movimentos de vida, progressos, regeneração!
E a quem foi confiado isso, direta e inequivocamente?
Ao senhor Allan Kardec.
A cesta se curvou, reverente, a ele; movendo-
a, só Deus pode discernir quantos grandes Espíritos se
acotovelavam para seus preciosos avais.
E, enquanto o tempo vai passando, não conseguimos,
AINDA, ser tão respeitosos, tão reverentes e tão aplicados
com ele e com sua codificação, como seria de se esperar!!!
Incrível! Allan Kardec era o magnetizador, o
pesquisador, o compilador, o organizador de uma doutrina
universal, mas a ele caberia magnetizar, individualmente, o
que precisava de cura. Mesmo com tal anotação, a ele lhe
negam hoje o inquebrantável vínculo, por ele evidenciado,
testemunhado e provado, de ligação entre o magnetismo e o
Espiritismo. Como é duro de se crer nisso! Como deve ser
pesado esse fardo!

N ã o instantaneidade do magnetismo

Muito comum a busca pelas curas. Todos a
querem. Só que o comodismo costuma ser a base de
sustentação dessa busca, seu alcance fica severamente
comprometido. Além do magnetizador necessitar de pré-
requisitos indispensáveis para sua consecução, os pacientes
também precisam deter campos de atração e de fixação dos
benefícios para que tudo ocorra -- a fé real é o maior agente
centrípeto desses campos.


153
Tendo chegado a Betsaida, trouxeram-lhe um cego e
lhe pediam que o tocasse. Tomando o cego pela mão,
ele o levou para fora do burgo, passou-lhe saliva
nos olhos e, havendo-lhe imposto as mãos, lhe
perguntou se via alguma coisa. - O homem, olhando,
disse: Vejo a andar homens que me parecem árvores. -
Jesus lhe colocou de novo as mãos sobre os olhos e
ele começou a ver melhor. Afinal, ficou tão perfeitamente
curado que via distintamente todas as coisas. - Ele o
mandou para casa, dizendo-lhe: Vai para tua casa; se
entrares no burgo, a ninguém digas o que se deu contigo.
(Marcos, VIII, vv. 22 a 26)
Aqui, é evidente o efeito magnético; a cura não foi
instantânea, porém gradual e conseqüente a uma ação
prolongada e reiterada, se bem que mais rápida do que
na magnetização ordinária. A primeira sensação que o
homem teve foi exatamente a que experimentam os cegos
ao recobrarem a vista. Por um efeito de ótica, os objetos
lhes parecem de tamanho exagerado. - In: A Gênese
- Cap. XV- Os milagres do Evangelho, itens 12 e 13.


Todo magnetizador ou passista sabe, por experiência
própria, que as curas só muito raramente se dão de forma
instantânea, mas, em tese, isso não seria de se esperar de
uma ação realizada por Jesus. Todavia, na narrativa feita pelo
evangelista Marcos --João, em 9, 6 faz o mesmo registro -- e
os comentários de Kardec em "A Gênese" são suficientemente
explícitos quanto ao fato.
Um detalhe interessante é que pedem para Jesus o
tocar; Ele o pega pela mão e o leva para fora do povoado e
só quando lhe passa saliva nos olhos é que ele reage à cura.
Quer dizer então que pegar na mão não seria um toque?
Ou o toque, em si, pede algo mais intencional, com mais
vontade, ou por outra, mais que um simples toque?
A despeito de outra imensidade de curas instantâneas
capitalizadas pelo poder magnético fabuloso que Jesus

154
detinha, quiçá mesmo para que ficasse exemplo de que a
ação magnética obedece a leis nem sempre bem percebidas
pelo ser humano foi que ele, no caso acima, permitiu que a
cura daquele cego fosse gradual e não instantânea. Isto nos
permite deduzir que, também para as curas, há um tempo
e um meio correto ou mais efetivo do que outro. Como
já afirmei alhures, são muitas, quase infinitas, as variáveis
convidadas a se equilibrarem em ações curadoras, tanto da
parte do agente quanto do atendido. Portanto, nada de nos
espantarmos nem com o imediatismo que envolve algumas
curas como a lentidão característica verificada na maioria.

Sonambulismo, Magnetismo, mediunidade e
Espiritismo; tudo j u n t o

Quanto mais estudo Kardec, quanto mais conheço
o Espiritismo, mais e melhor percebo a vida. Que bom que
ele, preparado, me antecedeu! Q u e bom!!!


A rapidez com a qual se propagaram, em todas as partes
do mundo, os fenômenos estranhos das manifestações
espíritas, é uma prova do interesse que causam. Simples
objeto de curiosidade, a princípio, não tardaram em
despertar a atenção dos homens sérios que entreviram,
desde o início, a influência inevitável que devem ter sobre
o estado moral da sociedade. As idéias novas que deles
surgem, se popularizam cada dia mais, e nada poderia
deter-lhes o progresso, pela razão muito simples de que
esses fenômenos estão ao alcance de todo mundo, ou quase
todo, e que nenhuma força humana pode impedi-los
de se produzirem. Se os abafam em algum ponto, eles
reaparecem em cem outros. Aqueles, pois, que poderiam,
nele, ver um inconveniente qualquer, serão constrangidos,
pela força das coisas, a sofrer-lhes as conseqüências, como
ocorreu com as indústrias novas que, na sua origem,


155
feriram interesses privados, e com as quais todo o mundo
acabou por se ajeitar, porque não se poderia fazer de outro
modo. O que não se fez e disse contra o magnetismo!
E, todavia, todos os raios que se lançaram contra ele, todas
as armas com as quais o atingiram, mesmo o ridículo,
se enfraqueceram diante da realidade e não serviram
senão para colocá-lo mais e mais em evidência. É que
o magnetismo é uma força natural, e que, diante das
forças da Natureza, o homem é um pigmeu semelhante
a esses cãezinhos que ladram, inutilmente, contra o que
os assusta. Há manifestações espíritas como a do
sonambulismo; se elas não se produzem à luz do dia,
publicamente, ninguém pode se opor á que tenham lugar
na intimidade, uma vez que cada família pode achar
um médium entre seus membros, desde a criança até o
velho, como pode achar um sonâmbulo. Quem, pois,
poderia impedir, a qualquer pessoa, de ser médium ou
sonâmbula? Aqueles que combatem a coisa, sem dúvida,
não refletiram nela. Ainda uma vez, quando uma
força é da Natureza, pode-se detê-la um instante:
aniquilá-la, jamais! Não se faz mais do que desviar-
lhe o curso. Ora, a força que se revela no fenômeno das
manifestações, qualquer que seja a sua causa, está na
Natureza, como a do magnetismo; não será aniquilada,
pois, como não se pode aniquilar a força elétrica. O que é
preciso fazer é observá-la, estudar-lhe todas as fases
para, delas, deduzir as leis que a regem. Se for um
erro, uma ilusão, o tempo lhefará justiça; se for a verdade,
a verdade é como o vapor: quanto mais se comprime,
maior é a sua força de expansão. - In: Revista Espírita,
edição janeiro-1858 - "Introdução".


Realmente, a transcrição foi longa. Poderia ter
recortado mais, aposto reticências, enfim, se quisesse teria
focado apenas no que pretendia, mas não resisti; não poderia
roubar de você o prazer que tive ao selecionar este trecho. --
Aproveito para confessar; foi muito difícil selecionar trechos,

156
reduzi-los, eleger o mais interessante em detrimento de
outros... Talvez esta tenha sido a parte mais dura que tive na
composição deste livro. É que os textos são tão bons e ricos
que dá pena não poder alongá-los mais do que o muito já
feito. Por isso mesmo, aceite minha sugestão: se ainda não
tiver lido a Revista Espírita, toda, todos os 12 volumes, não
perca mais tempo: leia-a! Será uma das mais ricas viagens
que você fará em toda sua vida!
Mas... Vamos ao trecho acima.
Kardec começa falando do Espiritismo e suas
dificuldades iniciais, apesar da rápida e eloqüente ampliação
de suas informações ao redor do mundo. Respalda-se, como
exemplo, no que aconteceu e com o que fizeram com o
Magnetismo no passado recente. Mas ele sabia que o Espiritismo,
como o Magnetismo, era e é uma força da Natureza, contra a
qual nada se sustentará. Presunção? Não! Convicção!
No passo seguinte, ele traz o sonambulismo como uma
extensão do Espiritismo, como o é igualmente a mediunidade.
Interessante notar que essa faculdade, o sonambulismo,
ele a dispõe de forma destacada da mediunidade. Por que
será? Exatamente porque o sonambulismo propriamente
dito é uma atitude ou efeito anímico e não mediúnico, já
que o sonâmbulo participa dos fenômenos com sua própria
essência, dispondo de uma visão mais ampla e clara, pois que
se encontra "desdobrado" de si mesmo e, nessa posição, tanto
percebe o físico aparente, o físico profundo como o fluídico e
várias porções do perispírito.
Por fim, a sábia sugestão: se há dúvidas ou
desconhecimento sobre uma força, o ideal a se fazer é
observá-la, estudá-la e aplicar-lhe os benefícios possíveis,
pois se está disposto na Natureza está disposto ao homem.
E que não se comprima tanto as verdades que estão
abertas para o ser humano, bastando apenas que ele se decida
por recebê-las, beneficiando-se perene e moralmente.


157
O chamado sonambulismo magnético tem alguma
relação com o sonambulismo natural?
"É a mesma coisa, com a só diferença de ser provocado."
- In: O Livro dos Espíritos, questão 426.



Vimos que Kardec, no item anterior, diferenciou
sonambulismo de mediunidade. Aqui ele buscou outra
diferença, a qual, na verdade, não existe além do fato de ser
uma natural e provocada a outra. Nota-se que quem provoca
o sonambulismo induzido é o magnetismo. Muito relevante
isso, apesar de óbvio.


Entre as singulares faculdades que se notam nos
convulsionarios, algumas facilmente se reconhecem, de
que numerosos exemplos oferecem o sonambulismo e o
magnetismo, tais como, além de outras, a insensibilidade
física, a leitura do pensamento, a transmissão das dores,
por simpatia, etc. Não há, pois, duvidar de que aqueles em
quem tais crises se manifestam estejam numa espécie de
sonambulismo desperto, provocado pela influência que
exercem uns sobre os outros. Eles são ao mesmo tempo
magnetizadores e magnetizados, inconscientemente.
- In: O Livro dos Espíritos, questão 482 - Obs. Idêntico
trecho se encontra na Revista Espírita, edição novembro-
1859, artigo "Os Convulsionarios de Saint-Médard".


Nesta oportunidade, novamente Kardec relaciona
sonambulismo e magnetismo, informando, inclusive, que
ambos provocam estados e sensações semelhantes. Tanto
que, no fenômeno dos convulsionarios, os submetidos ao
sonambulismo são magnetizadores e magnetizados ao mesmo
tempo. É que o magnetismo, atuando de forma ampla,
centrípeta e centrífugamente, envolve circunstantes como
envolve o próprio emitente dos fluidos, predispondo quem

158
por ele é envolvido a uma espécie de sonambulismo em
estado desperto, patenteando a existência de uma crise, onde o
evento deixa características bem visíveis, ora com semelhança
a sonambulismo natural, ora provocado, ora como se fosse um
transe mediúnico. Sem dúvida, exuberante fenômeno. É de se
perguntar: poderia haver uma situação tão consorciada entre
os vários elementos em análise quanto esta?


(...) Sim, é a alma que dá ao sonâmbulo as faculdades
maravilhosas das quais goza; a alma que, em
circunstâncias dadas, se manifesta se isolando em parte e
momentaneamente de seu envoltório corporal. Para quem
observou atentamente os fenômenos do sonambulismo
em toda a sua pureza, a existência da alma é um fato
patente e a idéia de que tudo se acaba em nós com a vida
animal é, para ele, uma insensatez demonstrada até à
evidência; também se pode dizer, com alguma razão, que
o magnetismo e o materialismo são incompatíveis; se
há alguns magnetizadores que parecem se afastar dessa
regra, e que professam doutrinas materialistas é que não
fizeram, sem dúvida, senão um estudo muito superficial
dos fenômenos físicos do magnetismo, e que não
procuraram seriamente a solução do problema da
visão a distância. Qualquer que ele seja, jamais vimos
um único sonâmbulo que não estivesse penetrado de um
profundo sentimento religioso, quaisquer que possam ser as
suas opiniões no estado de vigília. -- In: Obras Póstumas
-- "Causas e natureza da lucidez sonambúlica".


O intercâmbio entre todos esses fenômenos -
sonambulismo, magnetismo, mediunidade e Espiritismo - é
tal que sempre se pode colocá-los em um mesmo recipiente
sem que nada de danoso ou adulterado surgirá.
Pensando aqui com meus botões, paralelamente,
percebo hoje uma forte enfatização de uma prática chamada
apometria, como se isso fosse uma grande novidade ou se
159
constituísse num novo marco dentro do conhecimento e da
prática espírita. Sonambulismo! Eis a palavra mágica, eis a
definição do insigne codificador para o assunto. Só que não
lhe demos a atenção devida, concorrendo, assim, para que tal
prática fosse tão relegada às favas a ponto de surgirem novos
vanguardeiros de uma verdade que já é e já estava estabelecida
até mesmo bem antes do Espiritismo. E Allan Kardec tanto
falou no sonambulismo, tanto lhe descreveu a prática, a
exuberância, a realidade e os potenciais que se estendiam sob
seus mantos e nós apenas o deixamos passar, de mansinho,
discretamente, como se esse fenômeno fosse tão pequeno e
insignificante que não fizesse falta ao bojo doutrinário! Que
lástima! Q u e lástima!
Em sua reverência e, de certa forma, homenageando-
o, tratarei do sonambulismo de forma destacada, pois é mais
do que necessário que tal seja feito.

O sonambulismo - este desconhecido

Também foi para servir de reflexão acerca desse
desprezado assunto que decidi tratar dele, ainda que muito
sumariamente, só para ver se acordamos também nesse terreno.


172. Pode considerar-se o sonambulismo uma
variedade da faculdade mediúnica, ou, melhor, são
duas ordens de fenômenos que freqüentemente se
acham reunidos. O sonâmbulo age sob a influência
do seu próprio Espírito; é sua alma que, nos momentos
de emancipação, vê, ouve e percebe, fora dos limites dos
sentidos. O que ele externa tira-o de si mesmo; suas idéias
são, em geral, mais justas do que no estado normal, seus
conhecimentos mais dilatados, porque tem livre a alma.
Numa palavra, ele vive antecipadamente a vida dos
Espíritos. O médium, ao contrário, é instrumento
de uma inteligência estranha; é passivo e o que diz


160
não vem de si. Em resumo, o sonâmbulo exprime o
seu próprio pensamento, enquanto que o médium
exprime o de outrem. Mas, o Espírito que se comunica
com um médium comum também o pode fazer com um
sonâmbulo; dá-se mesmo que, muitas vezes, o estado
de emancipação da alma facilita essa comunicação.
Muitos sonâmbulos vêem perfeitamente os Espíritos
e os descrevem com tanta precisão, como os médiuns
videntes. Podem confabular com eles e transmitir-nos
seus pensamentos. O que dizem, fora do âmbito de seus
conhecimentos pessoais, lhes é com freqüência sugerido
por outros Espíritos. Aqui está um exemplo notável, em
que a dupla ação do Espírito do sonâmbulo e de outro
Espírito se revela e de modo inequívoco.
173. Um de nossos amigos tinha como sonâmbulo um
rapaz de 14 a 15 anos, de inteligência muito vulgar
e instrução extremamente escassa. Entretanto, no
estado de sonambulismo, deu provas de lucidez
extraordinária e de grande perspicácia. Excedia,
sobretudo, no tratamento das enfermidades e operou
grande número de curas consideradas impossíveis. Certo
dia, dando consulta a um doente, descreveu a enfermidade
com absoluta exatidão. Não basta, disseram-lhe, agora é
preciso que indiques o remédio. Não posso, respondeu,
meu anjo doutor não está aqui. Quem é esse anjo doutor
de quem falas? - O que dita os remédios. - Não és tu,
então, que vês os remédios? - Oh! não; estou a dizer que
é o meu anjo doutor quem mos dita.
Assim, nesse sonâmbulo, a ação de ver o mal era do
seu próprio Espírito que, para isso, não precisava de
assistência alguma; a indicação, porém, dos remédios
lhe era dada por outro. Não estando presente esse outro,
ele nada podia dizer.
Quando só, era apenas sonâmbulo; assistido por aquele a
quem chamava seu anjo doutor, era sonâmbulo-médium.
- In: O Livro dos Médiuns, cap. 6, item "Médiuns
sonambúlicos".



161
Volto a me perguntar: quem sabe a explicação
para o menosprezo ao sonambulismo não tenha surgido da
evidência de que tal faculdade é, acima de tudo, anímica? Isso
mesmo, pois o animismo, no meio espírita brasileiro, sofreu
uma grave distorção no entendimento geral em virtude de se
usar esse termo tanto para referir faculdades anímicas -- as
quais se optava por classificá-la, embora que corretamente,
apenas como de efeitos físicos, certamente para resguardá-la
do pejo associado ao animismo -- como, especialmente, para
se encobrir mistificações, ludíbrios ou até mesmo insegurança
de médiuns menos preparados. C o m uma faculdade tão
ligada ao próprio ser, perdia-se um pouco do místico que
traz o fenômeno mediúnico em si. Será mesmo que foi esse
o detonador do sonambulismo em nosso meio?
De passagem, recordo-me da pressão que foi feita no
meio espírita quando surgiu o estudo sobre a "saída do corpo",
batizada de projeciologia, por Waldo Vieira. Se tivesse sido
dado tal poder a quem se sentiu ofendido com tal pesquisa,
esse estudo teria sido banido da face da Terra. Mesmo não
me sentindo autorizado a tratar do tema projeciologia, por
nunca tê-lo estudado com a atenção devida, louvo que não
se tenha deixado perder essa valiosa vertente de pesquisa,
análise, estudo e conhecimento das faculdades humanas.
Retomando, de certa forma acredito que o mesmo
ou algo muito semelhante se deu com o magnetismo em nosso
seio, pois ele também se expressa como potência anímica
e isto parece incomodar sobremaneira aos que optam por
sempre desconfiar excessivamente do semelhante, embora
credite positividade a tudo o que vem do ambiente espiritual,
não importando se a origem é digna de crédito ou não.
Bem se percebe que acabo de fazer uma generalização
muito forte, mas assim o fiz na esperança de que repensemos
melhor o que temos feito com tanta coisa boa, vigorosa e
indispensável que está no alicerce kardequiano. Afinal, o
codificador tratou do sonambulismo com segurança e fartura,
ressaltando tanto seus aspectos anímico como mediúnicos.

162
Continuando com a mesma transcrição, vejamos
mais um pouco do assunto.


A lucidez sonambúlica é uma faculdade que se
radica no organismo e que independe, em absoluto,
da elevação, do adiantamento e mesmo do estado
moral do indivíduo. Pode, pois, um sonâmbulo ser
muito lúcido e ao mesmo tempo incapaz de resolver certas
questões, desde que seu Espírito seja pouco adiantado. O
que fala por si próprio pode, portanto, dizer coisas boas
ou más, exatas ou falsas, demonstrar mais ou menos
delicadeza e escrúpulo nos processos de que use, conforme
o grau de elevação, ou de inferioridade do seu próprio
Espírito. A assistência então de outro Espírito pode
suprir-lhe as deficiências. Mas, um sonâmbulo, tanto
como os médiuns, pode ser assistido por um Espírito
mentiroso, leviano, ou mesmo mau. Aí, sobretudo, é
que as qualidades morais exercem grande influência, para
atraírem os bons Espíritos. - In: O Livro dos Médiuns,
cap. 6, item 174, "Médiuns sonambúlicos".


O primeiro negrito que destaquei aponta para o
que, acredito, muitos temem: reconhecer que nem sempre os
fenômenos anímicos e/ou mediúnicos estão intrinsecamente
associados à moral, É verdade que dessa associação depende
a condução positiva e feliz dos fenômenos, mas esconder ou
desconhecer essa realidade não os transforma, assim como
não os diviniza nem os sataniza. Maturidade é necessária para
que tenhamos a tranqüilidade de tudo examinar com isenção
e objetividade, do contrário iremos surrupiando, de coisinha
em coisinha, quase tudo o que Kardec legou e estabeleceremos
um outro espiritismo, com "e" bem minúsculo, sem que se
guarde muita parecença com o verdadeiro Espiritismo.
Não devemos, a partir do medo de sermos enganados,
simplesmente rechaçarmos um fenômeno tão útil e eloqüente
quanto o sonambulismo. Nosso dever é o de estudá-lo.

163
"P. Quais são os efeitos do magnetismo?
"R. O magnetismo produz ordinariamente, diz-se,
dois efeitos principais: 1° um estado de sonambulismo
no qual o magnetizado, inteiramente privado do uso
dos seus sentidos, vê, ouve, fala e responde a todas as
perguntas que lhe são dirigidas; 2° uma inteligência e
um saber que não tem senão na crise; ele conhece seu
estado, os remédios convenientes às suas enfermidades, o
que fazem certas pessoas mesmo distantes.
(...) ... Qualquer que ela seja, isso não se encontra em
um livro sábio, dogmático, para uso único dos teólogos,
mas em um livro elementar, para uso de catecismo,
por conseqüência destinado à instrução religiosa das
massas; conseqüentemente não ê uma opinião pessoal,
é uma verdade consagrada e reconhecida de que o
magnetismo existe, e produz o sonambulismo, que o
sonâmbulo goza de faculdades especiais, que no número
dessas faculdades está a de ver sem o socorro dos olhos,
mesmo à distância, de ouvir sem o socorro dos ouvidos, de
possuir conhecimentos que não tem no estado normal, de
indicar os remédios que lhe são salutares... - In: Revista
Espírita, edição outubro-1858, artigo "O magnetismo e
o sonambulismo ensinados pela Igreja".


Ligados, interligados, consorciados... Magnetismo
e sonambulismo estão firmes em suas batalhas. Por que,
então, não utilizar este último nas experiências magnéticas?
O magnetismo gera o sonambulismo e, por este, abre canais
de percepção fenomenais. Repete-se, então, a pergunta:
por que, então, não usar o sonambulismo magnético
nas atividades magnéticas? Você saberia responder? -- É
complexo, dirão muitos. É verdade; é complexo, até
porque essa faculdade, de forma segura e harmônica, não
se encontra em qualquer pessoa. Portanto, pede procura,
estudo e educação. E desde quando deixar para lá algo que
seja complexo resolve alguma coisa?

164
Se o magnetismo e o Espiritismo são uma única e
só ciência, e se o sonambulismo está frutuosamente inserido
nesse contexto, fica no ar a sensação de que estamos devendo
mais essa ao codificador, ao Espiritismo... Inclusive, eu me
insiro nesse débito, pois também demorei muito a perceber
essa falha lamentável que temos cometido.


(...) Dissestes, em seguida, que a faculdade dos médiuns
difere pouco da dos sujeitos na mão do magnetizador,
dito de outro modo, do sonâmbulo; mas, admitamos
mesmo uma perfeita identidade; qual pode ser a causa
dessa admirável clarividência sonambúlica, clarividência
que não encontra obstáculo nem na matéria, nem na
distância; que se exerce sem o concu rso dos órgãos da visão ?
Não é a demonstração mais patente da existência e
da individualidade da alma, pivô da religião? Se
eu fora padre, e quisesse, num sermão, provar que há
em nós outra coisa além do corpo, demonstrá-lo-ia, de
modo irrecusável, pelos fenômenos do sonambulismo
natural ou artificial. Se a mediunidade não é senão
uma variedade do sonambulismo, seus efeitos não
são menos dignos de observação. Nela encontraria
uma prova a mais em favor de minha tese, e dela faria
uma nova arma contra o ateísmo e o materialismo. Todas
as nossas faculdades são obras de Deus; quanto maiores e
maravilhosas, mais atestam seu poder e sua bondade.
Para mim que, durante trinta e cinco anos, fiz
do sonambulismo um estudo especial, que nele fiz
um não menos aprofundado de todas as variedades de
médiuns, digo, como todos aqueles que não julgam pela
visão de uma única face, que o médium é dotado de uma
faculdade particular, que não permite confundi-lo
com o sonâmbulo... -In: Revista Espírita, ediçãomaio-
1859, artigo "Refutação de um artigo de O Universo".




165
Empolgante! Isso é empolgante! O Espiritismo já
completou, neste ano de 2007, 150 anos de existência, mas
ainda o temos novinho, inteiro, riquíssimo, bastando apenas
buscar a obra de Kardec para ver quanta virgindade segue
incólume por não termos sabido desfrutar-lhe as virtudes!
Kardec associa, de forma bivalente, o sonambulismo
à mediunidade, deixando claro que um se relaciona com a
outra, embora cada um siga rumo próprio, sendo ambos,
contudo, grandiosas bênçãos divinas.
E de tão perfeita que a ligação se dá entre esses
elementos -- sonambulismo, magnetismo e mediunidade
-- que Kardec registra o mesmo tempo de conhecimento
que tem de um como dos outros.


Por que, pois, encontrase, no mundo inteligente, tanta
resistência para admitir a intervenção dos Espíritos sobre
a matéria? Porque se encontram pessoas que crêem na
existência e na individualidade do Espírito e que lhes
recusam a possibilidade de se manifestarem, é porque
não se dão conta das faculdades físicas do Espírito que
se afigura imaterial de maneira absoluta. A experiência
demonstra, ao contrário, que, por sua natureza própria,
ele age diretamente sobre os fiuidos imponderáveis,
e, conseqüentemente, sobre os fluidos ponderáveis e
mesmo sobre os corpos tangíveis. Como procede um
magnetizador comum? Suponhamos que queira agir
sobre um braço, por exemplo: concentra sua ação sobre
esse membro e por um simples movimento de seus dedos,
executado à distância e em todos os sentidos, agindo
absolutamente como se o contato da mão fosse real, ele
dirige uma corrente fluídica sobre o ponto desejado. O
Espírito não age de outro modo; sua ação fluídica se
transmite de perispírito a perispírito, e deste para o
corpo material. O estado de sonambulismo facilita
consideravelmente essa ação, em conseqüência do
desligamento do perispírito, que se identifica melhor com


166
a natureza fluídica do Espírito, e sofre então a influência
espiritual elevada à sua maior força... -- In: Revista
Espírita, edição setembro-1865, artigo "Cura peta
magnetização espiritual".


Na proposição de Kardec, para explicar como um
Espírito pode atuar sobre a matéria, ele busca no exemplo da
ação magnética o apoio para sua explanação e complementa
justificando as razões pelas quais a atuação via sonambulismo
é mais eficiente e precisa.
Para que o leitor não pense que apenas estou gerando
reflexões para terceiros, também me surpreendo estudando
Kardec e, vez por outra, exclamo: "Nossa! Como não tinha
visto isso ainda!" Nesse campo da união do sonambulismo
com o magnetismo, de forma mais direta no terreno das
curas, só muito recentemente vim me dar conta do quanto
podemos avançar nas pesquisas e melhorar mais largamente
nos resultados e benefícios para os pacientes fazendo uso
dessa conjugação bendita. Portanto, cada vez mais descubro
que preciso seguir lendo e estudando, refletindo e aplicando,
aprendendo e progredindo, pois já faz tempo que Kardec se foi
para o Mundo Espiritual e ainda estou capengando por aqui.


O sonambulismo, que pode ser dividido em três categorias

1°- O sonâmbulo natural será muito raramente um
bom magnetizador. Ele não é acessível nem à inspiração
e nem ao fluido forçado e concentrado num só ponto pela
sua vontade. De outras vezes, seu estado apresenta uma
predisposição favorável a receber uma impulsão.
(...)
O sonâmbulo age sob a simples inspiração que dele
emana; ele está concentrado sobre um único objeto, é
porque, em todos os atos que realiza então, parece muito
superior a si mesmo. Sendo despertado, ele se perturba,
grita como no meio de um pesadelo e essa brusca transição
não ê sem perigo para ele.

167
Esse estado estranho não ataca nem cansa os órgãos. Esses
seres se portam muito bem, porque, enquanto agem, o ser físico
dorme, repousa enquanto que só a imaginação trabalha.
2° - No inspirado, pode-se dizer que há sempre uma
grande soma de repouso físico. Marcado de uma outra
individualidade, seu corpo não participa da ação que
realiza, e seu próprio Espírito de um certo modo dormita,
uma vez que se vem forçá-lo a assimilar os pensamentos
de um outro do qual perde, em seguida, até o mais leve
traço, à medida que desperta para a vida comum.
Nas naturezas dóceis (e todos os sonâmbulos não o
são), esse trabalho de concentração, de posse do ser,
se faz sem luta, é porque seus pensamentos lhes são
mais particularmente dados, precisamente porque não
interrompem o repouso naqueles a quem são trazidos.
As vezes, confundem-se os sonâmbulos com os inspirados,
porque há semelhança nos resultados.
( )
(···/

O magnetismo desperta no sonâmbulo, superexcita
e desenvolve um instinto que a Natureza deu a todos os
seres para sua cura, e que a civilização incompleta no meio
da qual nos debatemos, abafou-o em nós para substituí-lo
por falsos lampejos da ciência. Os inspirados não tem
de nenhum modo necessidade do socorro do fluido
magnético. Eles vivem pacificamente, não pensam em
nada. De repente uma palavra, obscura e indistinta
de início, é murmurada a seu ouvido; essa palavra os
penetra; tomam sentido, cresce, se amplia, torna-se um
pensamento; outras se agrupam ao seu redor, depois a
elaboração íntima tendo chegado à maturidade, uma
força irresistível os domestica, e, seja pela palavra, seja
pela escrita, é preciso que ponham para fora a verdade
que os obsidia.
(...)
Por si mesmo, o magnetismo não dá a inspiração:
quando muito a provoca, a torna mais fácil. O
fluido é como um ímã que atrai os mortos bem-amados
para aqueles que ficam. Liberta-se abundantemente
dos inspirados e vai despertar a atenção dos seres que


168
partiram primeiro e que lhe são similares. Estes, de
seu lado, depurados e esclarecidos por uma vida mais
completa e melhor, julgam melhor e conliecem melhor
aqueles que podem lhes servir de intermediários na ordem
de fatos que crêem úteis nos revelar. É assim que estes
seres mais avançados descobrem, freqüentemente, naquele
que adotam por seu eleito, disposições que ele mesmo
não conhecia. Eles o desenvolvem nesse sentido, apesar
dos obstáculos que lhes opõem os preconceitos do meio
social, ou as prevenções da família, sabendo bem que a
Natureza preparou o terreno para receber a semente que
querem espalhar.
(...)
O magnetismo, no que respeita à inspiração, nada
pode para esta criatura fatalmente desencaminhada.
Somente, como há desacordo entre as tendências que lhe
imprimem seus fluidos e as funções que os circunstantes o
condenaram a exercer, ele está descontente, infeliz; sofre,
e, deste ponto de vista, o magnetismo pode vir a acalmar,
por um momento, os pesares que sente em presença de
seu futuro frustrado. É, pois, muito errado que se o creia
geralmente no mundo que, por ser inspirado, é preciso
ser magnetizado. Ainda uma vez, o magnetismo não
dá a inspiração; ele faz circular o fluido e nos coloca em
equilíbrio, eis tudo. Além disto, é incontestável que ele
desenvolve o poder de concentração.
Os sonâmbulos do mais alto título, aqueles que derramam
ao seu redor luzes novas, são ao mesmo tempo inspirados;
somente não se deve crer que eles o são igualmente em
todas as horas.
3° - Os sonâmbulos são mais geralmente fluídicos
do que inspirados; então, concebe-se a oportunidade na
ação magnética. O toque, seja do magnetizador, seja
de uma coisa que lhe pertenceu, pode lhe dar esse poder
de concentração provocada e preliminarmente aumentada
pelos passes magnéticos. Unido à predisposição
sonambúlica, o magnetismo desenvolve a segunda
vista e produz resultados extraordinários, sobretudo
do ponto de vista das consultas médicas. O sonâmbulo é


169
de tal modo concentrado pelo desejo de curar a pessoa cujo
fluido está em relação com o seu, que lê no seu ser interior.
Acrescentando-se a esta disposição a de ser inspirado,
coisa extremamente rara, então é que se torna completo.
Ele vê o mal; e indicam-lhe o remédio!
(...)
Sendo o fluido o princípio de vida, a animação, nossa
alma tendo, graças a fluidos diferentes, atrações e,
conseqüentemente, destinos múltiplos e diversos, se,
pela ação magnética, desvia-se de sua espontaneidade
o poder de concentração sobre o pensamento que nos
deve ser transmitido, o Espírito não pode mais exercer
sua ação, conservar sobre nós sua mesma força, sua
vontade intacta para nos fazer escrever, ou ler em alta
voz, ao mundo de que tem necessidade, o que ele veio nos
trazer. Também os médicos que dirigem os sonâmbulos
devem evitar, tanto quanto possível, de magnetizá-los,
sob pena de substituir a verdadeira inspiração por uma
simples transmissão de seu próprio pensamento.
/ )
(···/

Para os sonâmbulos fluídicos, o emprego do magnetismo
é útil em exercendo sobre eles sua influência de
concentração. Somente há, nesse estado, mais ainda do
que em outro, uma força de atração ou de repulsão,
contra a qual jamais se deve lutar. Os mais ricamente
dotados são acessíveis a antipatias muito extremas para
que possam abafá-los. Eles a sentem como as inspiram.
Suas prescrições são então raramente boas. Mas dotados,
comumente, de uma grande força moral, ao mesmo tempo
que de uma excessiva benevolência, eles adquirem um
grande poder de moderação sobre sua pessoa, e se não lhes
é sempre permitido fazer o bem, pelo menos jamais farão
o mal. EUGÈNE BONNEMÈRE. - In: Revista,
edição fevereiro-1868, artigo "Extrato dos manuscritos de
um jovem médium bretão", subtítulo "os Sonâmbulos"


A transcrição foi tão longa e ela retrata tão bem o que
seja o sonambulismo, como existe e como se relaciona com
o magnetismo e a mediunidade em si que me dispensarei

170
comentar, deixando a você o prazer de exalar todo o perfume
dessas flores fluídicas de um consistente saber. Todavia,
quero destacar a muito interessante distinção feita entre o
sonâmbulo intuitivo do sonâmbulo fluídico. Ideal seria
quando, num mesmo sonâmbulo, fossem localizadas as
duas disposições: inspiração e magnetismo, posto que este
não gera aquela. Mas os fluídicos são aqueles que podem
ser qualificados, também, de magnetizadores, pois não se
limitam a ver e traduzir, mas igualmente a agir e manipular
campos energéticos, à feição dos magnetizadores ordinários.


A dupla vista - esta desconhecida

Nas abordagens que venho fazendo, não poderia
deixar de fora a dupla vista. Logo na primeira questão a seguir
já dá para saber o porquê.


O fenômeno a que se dá a designação de dupla vista tem
alguma relação com o sonho e o sonambulismo?
"Tudo isso é uma só coisa. O que se chama dupla vista
é ainda resultado da libertação do Espírito, sem que o
corpo seja adormecido. A dupla vista ou segunda vista
é a vista da alma." - In: O Livro dos Espíritos, questão
447 (grifos originais).



Sendo a dupla vista uma espécie de sinônimo ou
parente íntimo do sonambulismo, implica dizer que essa
faculdade muito tem a ver com o que vimos tratando. O
que me causa espanto, mais uma vez, é o fato dela, como
faculdade assim chamada, muito pouco freqüentar o
vocabulário e a prática espírita atual. Talvez a razão disso
esteja na colocação seguinte:


171
A dupla vista é suscetível de desenvolver-se pelo exercício?
"Sim, do trabalho sempre resulta o progresso e a dissipação
do véu que encobre as coisas."
a) - Esta faculdade tem qualquer ligação com a orga-
nização física?
"Incontestavelmente, o organismo influi para a sua
existência. Há organismos que lhe são refratários." -- In:
O Livro dos Espíritos, questões 450 e 450-a.



Anímica; eis a característica forte dessa potência
humana. Talvez seja por isso que, em vez de a abraçarmos
e a desenvolvermos pra valer, com ela nos assustemos e a
deixemos numa longa e interminável quarentena. Se for
isso mesmo o que acontece, meu Deus!, quanta ignorância
nossa, quanta perda injustificável, quanto prejuízo. -- Para
quem ache que eu esteja exagerando, pergunto: tem você
ouvido falar nessa faculdade no meio espírita? Tem sido
apresentado a espíritas que façam uso regular e conhecido
dessa faculdade? Sabe me dizer a razão disso? Allan Kardec
tem uma sugestão sábia para que resolvêssemos problemas
desse jaez, mas parece que nem sempre o ouvimos:

Os charlatães o exploram (o sonambulismo), dizem.
Razão de mais para que não lhes seja deixado nas
mãos. Quando a Ciência se houver apropriado
dele, muito menos crédito terão os charlatães junto
às massas populares. Enquanto isso não se verifica, como
o sonambulismo natural ou artificial é um fato, e como
contra fatos não há raciocínio possível, vai ele ganhando
terreno, apesar da má-vontade de alguns, no seio da
própria Ciência, onde penetra por uma imensidade
de portinhas, em vez de entrar pela porta larga.
Quando lá estiver totalmente, terão que lhe conceder direito
de cidade. - In: O Livro dos Espíritos, 455, "Resumo
teórico do sonambulismo, do êxtase e da dupla vista".


172
Brilhante sugestão: que estudemos a faculdade
para deter seu domínio e não a deixemos nas mãos dos
prestidigitadores, de seres que agem de má-fé. E que seja
bem anotado que tudo isso está na primeira e principal obra
espírita, "O Livro dos Espíritos". Portanto, é de se lamentar
que a ciência espírita siga deixando escapar tudo isso, fazendo
muito pouco uso de tão potentes instrumentos da alma.
Sei que corro o risco de ser apontado como um
escritor que não sabe se conter e resumir os trechos que
transcreve, mas é praticamente impossível não retornar à
citação desse resumo teórico escrito por Kardec.


Para o Espiritismo, o sonambulismo é mais do
que um fenômeno psicológico, é uma luz projetada
sobre a psicologia. É aí que se pode estudar a alma,
porque é onde esta se mostra a descoberto. Ora, um
dos fenômenos que a caracterizam é o da clarividência
independente dos órgãos ordinários da vista. Fundam-se
os que contestam este fato em que o sonâmbulo nem sempre
vê, e à vontade do experimentador, como com os olhos. Será
de admirar que difiram os efeitos, quando diferentes são
os meios? Será racional que se pretenda obter os mesmos
efeitos, quando há e quando não há o instrumento? A alma
tem suas propriedades, como os olhos têm as suas. Cumpre
julgá-las em si mesmas e não por analogia.
( \
(···/

Essa separação parcial da alma e do corpo constitui um
estado anormal, suscetível de duração mais ou menos
longa, porém não indefinida. Daí a fadiga que o corpo
experimenta após certo tempo, mormente quando aquela
se entrega a um trabalho ativo.
(...)
A emancipação da alma se verifica às vezes no estado de
vigília e produz o fenômeno conhecido pelo nome
de segunda vista ou dupla vista, que é a faculdade
graças à qual quem a possui vê, ouve e sente além


173
dos limites dos sentidos humanos. Percebe o que exista até
onde estende a alma a sua ação. Vê, por assim dizer, através
da vista ordinária, e como por uma espécie de miragem.
(...)
O sonambulismo natural e artificial, o êxtase e a
dupla vista são efeitos vários, ou de modalidades
diversas, de uma mesma causa. Esses fenômenos, como
os sonhos, estão na ordem da Natureza. - In: O Livro
dos Espíritos, 455, "Resumo teórico do sonambulismo,
do êxtase e da dupla vista".



Isto que o codificador define como importância
do sonambulismo para o Espiritismo é um chamado de
responsabilidade imenso, o qual deve ser bem refletido e
pensado. Esses fenômenos, sonambulismo e dupla vista, são
luzes projetadas sobre a psicologia, só que as lâmpadas precisam
estar acesas, ligadas, para fazerem incidir seus raios luminosos
e clarearem a realidade que se posiciona sob seus reflexos. E
quem pode acendê-los somos nós mesmos; basta querermos.


Rápida vista sobre a obsessão

São muitos e variados os artigos, referências, notas e
indicações de Kardec acerca das obsessões. Como não tenho
em mente tratar deste assunto, de forma pormenorizada, neste
livro, vou me limitar a uma única transcrição, embora no item
seguinte retome o tema em uma feição bastante específica.


A cura das obsessões graves requer muita paciência,
perseverança e devotamento. Exige também tato e
habilidade, a fim de encaminhar para o bem Espíritos
muitas vezes perversos, endurecidos e astuciosos, porquanto
há-os rebeldes ao extremo. Na maioria dos casos, temos


174
de nos guiar pelas circunstâncias. Qualquer que seja,
porém, o caráter do Espírito, nada se obtém, é isto um
fato incontestável pelo constrangimento ou pela ameaça.
Toda influência reside no ascendente moral. Outra
verdade igualmente comprovada pela experiência tanto
quanto pela lógica, é a completa ineficácia dos exorcismos,
fórmulas, palavras sacramentais, amuletos, talismãs,
práticas exteriores, ou quaisquer sinais materiais.
A obsessão muito prolongada pode ocasionar
desordens patológicas e reclama, por vezes,
tratamento simultâneo ou consecutivo, quer
magnético, quer médico, para restabelecer a saúde
do organismo. Destruída a causa, resta combater os
efeitos. -- In: O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap.
XXVIII, Preces Espíritas, observação do item 84.



Tratar de obsessão requer tato e habilidade, portanto,
conhecimento e moral. Ademais, as circunstâncias sempre
determinam procedimentos diversos, pelo que nem sempre
se consegue estabelecer padrões para os casos em tratamento.
Mas é no segundo parágrafo da transcrição que
quero sublinhar algo que parece vir escapando aos estudiosos
da desobsessão: a demora e a intensidade com que a obsessão
fica instalada numa pessoa pode gerar patologias que, como
tão rigidamente afirma Kardec, "por vezes reclama tratamento
simultâneo ou consecutivo, quer magnético, quer médico".
Aí está, explicitamente, mais um caso em que a necessidade
de magnetizadores espíritas, no bom sentido do termo, é
imperiosa, motivo pelo qual cabe aos dirigentes, médiuns,
doutrinadores e demais trabalhadores da área da mediunidade
promoverem atividades que despertem o surgimento
dessas pessoas. E que não dispensemos a necessidade dos
acompanhamentos médicos.



175
A subjugação pede entendimento .

"Panos para as mangas"! Eis um item no qual se
aplica a expressão popular! Este tem panos para mangas,
pernas, cós, viés, golas, babados...
Qual a Casa Espírita que não trata ou não aborda a
questão da desobsessão? Muito embora nem todas realizem
reuniões específicas para tratar da questão é quase impossível
que um Centro Espírita não saiba ou não comente a respeito.
Apesar de tão estreita ligação, será que somos, de
fato, fiéis à proposta de Kardec conforme grafada em "O
Livro dos Médiuns"?

A subjugação corporal tira muitas vezes ao obsediado
a energia necessária para dominar o mau Espírito.
Daí o tornar-se precisa a intervenção de um terceiro, que
atue, ou pelo magnetismo, ou pelo império da sua
vontade. Em falta do concurso do obsediado, essa terceira
pessoa deve tomar ascendente sobre o Espírito; porém, como
este ascendente só pode ser moral, só a um ser moralmente
superior ao Espírito é dado assumi-lo e seu poder será
tanto maior, quanto maior for a sua superioridade moral,
porque, então, se impõe àquele, que se vê forçado a inclinar-
se diante dele. Por isso é que Jesus tinha tão grande poder
para expulsar o a que naquela época se chamava demónio,
isto é, os maus Espíritos obsessores.
Aqui, não podemos oferecer mais do que conselhos
gerais, porquanto nenhum processo material existe,
como, sobretudo, nenhuma fórmula, nenhuma palavra
sacramental, com o poder de expelir os Espíritos obsessores.
Às vezes, o que falta ao obsediado é força fluídica
suficiente; nesse caso, a ação magnética de um
bom magnetizador lhe pode ser de grande proveito.
Contudo, é sempre conveniente procurar, por um
médium de confiança, os conselhos de um Espírito
superior, ou do anjo guardião. - In: O Livro dos
Médiuns - Cap. XXIII - Da obsessão - Item 251.


176
No tratamento de tão grave problema, a subjugação,
Allan Kardec praticamente resumiu tudo no texto acima.
Analisemos com calma o que ele escreveu.
Na primeira frase, ele prestigia o que acha ser o mais
poderoso agente presente na subjugação: a falta de uma 'energia'
no subjugado que lhe permitiria sair do jugo do obsessor. Claro
que pelo termo 'energia' podemos interpor que ele fazia alusão
à energia moral. Mas a frase seguinte define claramente ao que
ele se referia, pois a intervenção de um magnetizador ou de um
terceiro no evento, com sua força de vontade, é imperiosa. Por
incrível que pareça, esta conclusão parece ser incômoda, pois
a grande maioria, ou melhor, a quase totalidade das pessoas
que abordam o tema subjugação quer que a situação moral do
obsidiado seja colocada em primeiro lugar em vez da questão
fluídica. É claro que a moral, ou seja, a falta dela, gera graves
campos de desarmonia no ser, mas nem sempre seu alcance
e sua conseqüência são tão imediatos como vulgarmente
imaginamos. Analisemos o seguinte raciocínio: um indivíduo,
extremamente mau, assassino frio e confesso, que diz sentir
prazer em fazer o mal, muito raramente será encontrado sob
subjugação. Por quê?
Antes de concluir lembremos o que os Espíritos
disseram a Kardec na resposta da questão 552 de "O Livro
dos Espíritos":


'Algumas pessoas dispõem de grande força magnética,
de que podem fazer mau uso, se maus forem seus
próprios Espíritos, caso em que possível se torna
serem secundados por outros Espíritos maus..."



Ou seja, existem pessoas muito más, agindo
vigorosamente nas entranhas do mal, perpetrando tudo
de ruim em seu derredor e, ao contrário do esperado, não
sentem um friozinho de arrependimento na espinha, uma

177
tontura sequer devido a influências espirituais negativas.
Não que estas não ocorram, mas, de tão similares as
vibrações com seus próprios padrões energéticos não geram
sensações ruins ou de possessão. Seria de se perguntar qual a
razão de tamanha insensibilidade, já que o mal atrai fluidos
ruins? Além da similitude de padrões vibratórios, esses
seres encarnados, ainda maus e insensíveis, detêm vigorosos
campos vitais a encouraçá-los, formando uma espécie de
proteção contra certos envolvimentos psíquicos. Todavia,
quando o enfraquecimento de seus órgãos vitais se apodera de
suas vidas começa a surgir visões apavorantes, assombrações,
sensações de medo insofreáveis, alucinações... Estará, então,
estabelecido o padrão fluídico compatível com o domínio
exercido pelo(s) obsessor(es).
Disso fica fácil se perceber que Kardec, novamente,
está coberto de razão quando inicia sua análise dirigindo seu
foco para o problema fluídico e não para a questão moral,
muito embora esta surja de forma bastante segura em sua
argumentação. Temos que concordar que não é apenas o
pensamento ruim ou a maldade praticada que nos leva a uma
obsessão tão severa, mas sim uma conjugação de fatores, dentre
estes se destacando a energia vital em baixo nível da parte do
obsidiado. Daí Kardec ter indicado, de saída, a imperiosidade
da presença e da ação de um magnetizador ou de alguém
detentor de uma vontade firme para atuar fluidicamente sobre
o subjugado. Na seqüência, ele sugere que essa terceira pessoa
aja moralmente sobre o Espírito obsessor a fim de impor-se
sobre ele e afastá-lo do paciente, através de uma renovação de
padrão moral e não pelo simples expulsar.
Se bem que nem todos os casos sejam iguais, existem
outros padrões de terapia, mas o que o codificador deixou
muito claro foi o papel do magnetismo na ação terapêutica
das subjugações: "Às vezes, o que falta ao obsediado é força
fluídica suficiente; nesse caso, a ação magnética de um bom
magnetizador lhe pode ser de grande proveito". Um bom

178
magnetizador. O que estaria querendo Allan Kardec dizer
com isso? Por mais óbvio que seja, vale a pena expressar:
por bom magnetizador ele queria dizer bom magnetizador
mesmo! Um magnetizador com potencial fluídico, com
equilíbrio emocional e moral e conhecimento de técnicas de
magnetismo, para dar ao obsidiado o que ele necessita, esse
é um bom magnetizador. Só que, ao tempo de Kardec, esse
era um profissional e, como tal, cobrava para prestar seus
serviços. -- A propósito de pagamentos, no próximo item
desta abordagem tratarei do assunto.
Concluindo meus comentários acerca dessa
transcrição, atentemos para sua conclusão: "é sempre
conveniente procurar, por um médium de confiança, os
conselhos de um Espirito superior, ou do anjo guardião". Pois é
isso mesmo o que está escrito na obra: é sempre conveniente
contarmos com médiuns de confiança para, através de
suas faculdades, evocarmos Espíritos superiores ou o anjo
guardião do obsidiado a fim de contarmos com um apoio
seguro nessa terapia.
Mesmo sabendo que livros são, basicamente, fontes
de respostas, neste quero deixar, como venho fazendo, mais
uma pergunta: será que as reuniões que cuidam desse tipo
de terapia têm seguido pelo menos essa última instrução do
mestre Kardec?
Em outra obra Allan Kardec adita importantes
considerações sobre a terapia da subjugação que merece
ser vista aqui. Vou dividir a transcrição em duas partes para
facilitar a percepção de certos detalhes.

Mas ocorre, algumas vezes, que a subjugação aumenta
ao ponto de paralisar a vontade do obsidiado, e que não
se pode dele esperar nenhum concurso sério. É então,
sobretudo, que a intervenção de terceiros torna-se
necessária, seja pela prece, seja pela ação magnética;
mas a força dessa intervenção depende também do


179
ascendente moral que os intervenientes podem tomar
sobre os Espíritos; porque se não valem mais, a sua
ação é estéril. A ação magnética, nesse caso, tem o
efeito de penetrar o fluido do obsidiado de um fluido
melhor e de livrá-lo do Espírito mau; ao operar, o
magnetizador deve ter o duplo objetivo de opor uma
força moral a uma força moral e de produzir sobre
o sujeito uma espécie de reação química, para nos
servirmos de uma comparação material, expulsando
um fluido por um outro fluido. Por aí, não somente
ele opera um desligamento salutar, mas dá força aos
órgãos enfraquecidos por uma longa e, freqüentemente,
vigorosa opressão. Compreende-se, de resto, que a força
da ação fluídica está em razão, não só da energia
da vontade, mas sobretudo da qualidade do fluido
introduzido e, segundo o que dissemos, que essa
qualidade depende da instrução e das qualidades
morais do magnetizador; de onde se segue que um
magnetizador comum, que agiria maquinalmente
para magnetizar pura e simplesmente, produziria
pouco ou nenhum efeito; é preciso, de toda a
necessidade, um magnetizador espírita agindo com
conhecimento de causa, com a intenção de produzir,
não o sonambulismo ou uma cura orgânica, mas
os efeitos que acabamos de descrever. Além disso, é
evidente que uma ação magnética, dirigida nesse
sentido, não pode ser senão muito útil no caso de
obsessão comum, porque então, se o magnetizador
é secundado pela vontade do obsediado, o Espírito
é combatido por dois adversários ao invés de um.
- In: Obras póstumas, item 58.



Na primeira parte do trecho, Kardec repõe o que já
analisamos acima, ou seja, a intervenção magnética e moral
sobre o Espírito obsessor. Só que aqui ele explica como se dá
o processo: dá-se a substituição de campos fluídicos, o que
reforça o que venho destacando ser privilegiado o aspecto
fluídico quando se pretende obter uma feliz desobsessão.
180
Prosseguindo, renova ele a necessidade de potencial
fluídico bem como da qualidade do fluido para se atingir uma
eficiente desobsessão, sendo que esta "qualidade depende da
instrução e das qualidades morais do magnetizador". Seja isso
bem observado: depende da instrução -- que significa dizer:
estudo, conhecimento, prática, domínio sobre as técnicas --
do magnetizador tanto quanto de suas qualidades morais.
Nesse momento, surge um personagem impor-
tantíssimo para tudo o que estou tentando gerar em termos
de assunção de responsabilidades: "é preciso, de toda a
necessidade, um magnetizador espírita agindo com conhecimento
de causa, com a intenção de produzir, não o sonambulismo
ou uma cura orgânica, mas os efeitos que acabamos de
descrever". Mais enfático, impossível! Magnetizador espírita
com conhecimento de causa; é isso o que estamos todos
buscando. Um magnetizador com conhecimento de causa
e que também considere o sonambulismo, mas que destine
seus poderes e saber para resolver tanto curas orgânicas como
obsessões, subjugações e muito mais até.
Prosseguindo...


(...) A prece, geralmente, é um meio poderoso para ajudar
na libertação dos obsidiados, mas não é uma prece de
palavras, dita com indiferença e como uma fórmula banal,
que pode ser eficaz em semelhante caso; é necessária uma
prece ardente que seja, ao mesmo tempo, uma espécie
de magnetização mental; pelo pensamento pode-se
levar, sobre o paciente, uma corrente fluídica salutar, cuja
força está em razão da intenção. A prece não tem, pois,
somente por efeito invocar um socorro estranho, mas
de exercer uma ação fluídica. O que uma pessoa não
pode fazer só, várias pessoas unidas pela intenção, numa
prece coletiva e reiterada, freqüentemente o podem, sendo
a potência da ação aumentada pelo número. -- In: Obras
póstumas, item 58.


181
Reforçando a prece como uma espécie de magnetização
mental e reavivando como ela deve ser interiorizada e externada,
indica que seu poder pode ser crescido pela união de pensamento
de várias pessoas, o que é uma forma de corrente magnética, o
que tratarei no item a seguir.

Correntes magnéticas

Acima, Kardec colocou a força do pensamento
coletivo, unido numa mesma intenção, através da prece,
concluindo que o aumento da força se dá pelo número de
participantes. Vejamos a questão numa outra abordagem dele.


Outro meio, que também pode contribuir fortemente
para desenvolver a faculdade, consiste em reunir-se
certo número de pessoas, todas animadas do mesmo
desejo e comungando na mesma intenção. Feito isso,
todas simultaneamente, guardando absoluto silêncio e
num recolhimento religioso, tentem escrever, apelando
cada um para o seu anjo de guarda, ou para qualquer
Espírito simpático. Ou, então, uma delas poderá dirigir,
sem designação especial e por todos os presentes, um
apelo aos bons Espíritos em geral, dizendo por exemplo:
Em nome de Deus Todo-Poderoso, pedimos aos bons
Espíritos que se dignem de comunicarse por intermédio
das pessoas aqui presentes. É raro que entre estas não
haja algumas que dêem prontos sinais de mediunidade
ou que até escrevam correntemente em pouco tempo.
Compreende-se o que em tal caso ocorre. Os que se reúnem
com um intento comum formam um todo coletivo, cuja
força e sensibilidade se encontram acrescidas por uma espécie
de influência magnética, que auxilia o desenvolvimento da
faculdade. Entre os Espíritos atraídos por esse concurso de
vontades estarão, provavelmente, alguns que descobrirão
nos assistentes o instrumento que lhes convenha. Se não
for este, será outro e eles se aproveitarão desse.


182
Este meio deve sobretudo ser empregado nos grupos
espíritas a que faltam médiuns ou que não os possuam
em número suficiente. - In: O Livro dos Médiuns, cap,
XVII, item 207, "Da formação dos médiuns".



Ainda que a corrente aqui referida seja para facilitar
o desenvolvimento das aptidões mediúnicas, essa "influência
magnética" também se faz presente nos outros casos em que
ela é requerida. O que deve ser bem frisado, entretanto, é o
aspecto dos comunicantes descobrirem "o instrumento que
lhes convenha". Se o caso fosse puramente magnético, poder-
se-ia dizer que os vários padrões magnéticos dos circunstantes
unidos pela corrente propiciarão maiores possibilidades de
combinações fluídicas mais apropriadas a cada caso, motivo
pelo qual muitas vezes a união de vários magnetizadores
unidos em torno de um atendimento magnético pode
proporcionar um mais eficiente e rápido tratamento. Não se
trata de apenas se juntar pessoas.

Pagamento ao magnetizador

No item "A subjugação pede entendimento" veio
à baila a questão do pagamento por ação magnética. Muita
gente encara isso como se fosse um sacrilégio, um absurdo,
algo apavorante. Antes de apresentar a opinião de Allan
Kardec, entretanto, quero dizer que, particularmente, não
coloco o passe espírita no mesmo nível de uma ação magnética
propriamente dita, no seu sentido profissional, pois sendo esta
realizada dentro da Casa Espírita ou em nome do Espiritismo,
não é coerente cobrar por sua aplicação. Isto se explica em cima
de práticas outras que vemos e sabemos serem realizadas nessas
Casas, tais como serviços médicos, dentários, psicológicos e
outros, e não se costuma fazer-se pagar igualmente, pois o
movimento espírita se caracteriza, dentre muitas faces, por


183
esta de prestar serviço assistencial, promocional e voluntário
gratuito aos necessitados que as buscam.
Isto posto, analisemos o que disse Kardec.


A mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada
santamente, religiosamente. Se há um gênero de
mediunidade que requeira essa condição de modo ainda
mais absoluto é a mediunidade curadora. O médico
dá o fruto de seus estudos, feitos, muita vez, à custa de
sacrifícios penosos. O magnetizador dá o seu próprio
fluido, por vezes até a sua saúde. Podem pôr-lhes
preço. O médium curador transmite o fluido salutar
dos bons Espíritos; não tem o direito de vendê-lo.
Jesus e os apóstolos, ainda que pobres, nada cobravam
pelas curas que operavam.
Procure, pois, aquele que carece do que viver, recursos
em qualquer parte, menos na mediunidade; não lhe
consagre, se assim for preciso, senão o tempo de que
materialmente possa dispor. Os Espíritos lhe levarão
em conta o devotamento e os sacrifícios, ao passo que
se afastam dos que esperam fazer deles uma escada por
onde subam. -- In: O Evangelho Segundo o Espiritismo
- Cap. XXVI - "Daigratuitamente" - item 10


Em primeiríssimo plano está o sentido de pureza
que precisa estar associado à mediunidade curadora; esta deve
ser santa, religiosa mesmo. Por extensão e pelos vínculos que
essa mediunidade tem com o magnetismo, não devemos
pensar diferente quando agirmos magneticamente.
Logo em seguida, o codificador expressa seu
entendimento acerca do magnetismo ser pago, justificando o
preço pelo fato de o magnetizador doar fluidos de si mesmo e não
de outros níveis, como é o caso da mediunidade curadora.
Com os pés no chão e a razão em harmonia com o
coração temos que convir que o codificador novamente está
corretíssimo, se bem que, como ressalvei na abertura deste

184
item, não seria o caso de se generalizar e, no contexto, se
colocar o passe espírita.
Finalizando, o cuidado com os limites e o bom
senso para se definir o quanto se pode e se deve dispor para
se pôr a serviço das atividades de cura é mais uma prova da
sensatez kardequiana que jamais deveria ser perdida de vista
e de prática. Q u e cada um dê dentro de seus próprios limites,
prestando-se ao bem responsavelmente.

Prece. (Para ser dita pelo médium curador.) -Meu Deus,
se te dignas servir-te de mim, indigno como sou, poderei
curar esta enfermidade, se assim o quiseres, porque em ti
deposito fé. Mas, sem ti, nada posso. Permite que os bons
Espíritos me cumulem de seus fluidos benéficos, a fim
de que eu os transmita a esse doente, e livra-me de toda
idéia de orgulho e de egoísmo que lhes pudesse alterar
a pureza. -- In: O Evangelho Segundo o Espiritismo
- Cap. XXVIII, item V, Preces pelos doentes e pelos
obsidiados, n° 80.


Esta prece, no mesmo Evangelho, sendo proferida
com o espírito que caracteriza o desinteresse egoístico, bem
coloca o médium de cura num ponto em que a cobrança
pelos feitos fica totalmente descartada, já que qualquer idéia
de orgulho e egoísmo alterariam a pureza requerida para os
feitos dessa mediunidade.

Água magnetizada - seu poder

Quase todas as vezes que Allan Kardec quis falar sobre
fatos comuns do magnetismo ele se referia à magnetização
da água. Ao longo das muitas transcrições deste livro o leitor
atento terá observado como isso foi comum. Portanto, não
repetirei essas transcrições, apenas acrescentarei dois breves
comentários a uma única transcrição.

185
Quanto ao meio empregado para a sua cura,
evidentemente aquela espécie de lama feita de saliva
e terra nenhuma virtude podia encerrar, a não ser
pela ação do fluido curativo de que fora impregnada.
É assim que as mais insignificantes substâncias, como a
água, por exemplo, podem adquirir qualidades poderosas
e efetivas, sob a ação do fluido espiritual ou magnético,
ao qual elas servem de veículo, ou, se quiserem, de
reservatório. - In: A Gênese - Gap. XV-- Os milagres
do Evangelho, item 25.


Explicando a ação curativa produzida por Jesus
utilizando a lama com saliva, a água é apresentada como
elemento simples que pode ser veículo do magnetismo ou
mesmo seu reservatório. Com isso, embora ele deixe em aberto
a possibilidade de uso de outras substâncias para desempenhar
o mesmo papel, é sempre à água que ele e os magnetizadores
clássicos fazem indicação como sendo o melhor de todos
os elementos para a magnetização. E se considerarmos a
colocação de a água ser um reservatório energético ou fluídico,
aí se confirma que tal prática, magnética por excelência, é
também espírita.
Finalizando este item, sugiro que seja lido o artigo
"A mediunidade no copo d'água", das edições de j u n h o e
agosto de 1868 da Revista Espírita de Allan Kardec. Não os
transcrevi porque foge ao propósito deste item e deste livro,
mas é muito interessante observar como o codificador era
totalmente aberto aos fenômenos, pois ele analisa e aprova
relatos de médiuns que vêem fatos e narra-os a partir de um
copo com água.




186
Conclusão


Agora, que chego ao fim da proposta deste livro,
fico pensando: 'Nossa! C o m o tem coisa, como tem matéria,
como tem assunto para se investigar na obra de Allan
Kardec! Será que não valeria alongá-lo?' Concluo que não,
pois muita gente boa já fez isso e muitas outras investigarão
com propriedade e garra tão grandes ou maiores do que as
empregadas por mim. Pelo menos, torço muito por isso.
Será que, chegando ao final deste resgate de alguns pontos
da obra kardequiana, você não terá ensejo para outras e novas
pesquisas e abordagens, trazendo para todos nós reflexões e
análises tão necessárias como ricas, inquietantes, instigadoras,
engrandecedoras? Espero que sim também.


... Os médiuns curadores são um dos mil meios
providenciais para alcançar esse objetivo de acelerar o
triunfo do Espiritismo. Compreende-se facilmente
que essa qualificação não pode ser dada aos médiuns
escreventes, que obtêm prescrições médicas de certos


187
Espíritos. Não encaramos a mediunidade curadora
senão do ponto de vista fenoménico, e como meio
de propagação, mas não como recurso habitual...
- Revista Espírita, edição janeiro-1864, conclusão do
artigo "Médiuns curadores".


A ponderação de Kardec na conclusão do artigo
acima é singular, pois ele põe a mediunidade curadora em uma
espécie de reclusão ou cuidado rigoroso, por motivo de ela não
ser recurso habitual. Paralelamente, ele deixou o magnetismo
prático fora dessa circunstância de eventualidade. Creio ser
viável interpor que ele espera do Magnetismo, notadamente
o misto, um crescimento e uma ocupação de lugar mais
privilegiado do que o reservado a esse tipo de mediunidade.
Seguramente, não lhe faltaram motivos para tanto, dentre os
quais se destacam: a impossibilidade de se contar sempre com
os Espíritos, a tempo e a hora; a dificuldade de se estabelecer
métodos e padrões, já que a mediunidade guarda algo de
muito pessoal; e que sendo a mediunidade um dom para o
qual o estudo nem sempre é primordial, fica difícil se passar
seus conhecimentos e seu domínio intrínseco.


(...) Pela natureza de seus efeitos, a mediunidade
curadora exige imperiosamente o concurso de Espíritos
depurados, que não poderiam ser substituídos por
Espíritos inferiores, ao passo que há efeitos mediúnicos
para cuja produção a elevação dos Espíritos não é uma
condição necessária e que, por esta razão, são obtidos mais
ou menos em qualquer circunstância. Certos Espíritos até
menos escrupulosos que outros quanto a estas condições
preferem os médiuns em quem encontram simpatia. Mas
pela obra se conhece o operário. - In: Revista Espírita,
edição de novembro-1866, artigo "Considerações sobre a
mediunidade curadora".

188
Eis aí mais um ponderado e eloqüente motivo para
que a mediunidade curadora não seja, em si mesma, uma
prática habitual e que, no dia-a-dia das atividades fluídicas e
assistenciais, não possa substituir o magnetismo -- ao menos
enquanto formos criaturas de curto progresso e baixa estatura
moral. Pela necessidade da presença e da atuação de Espíritos
depurados, ou seja, elevados, superiores, de escol, na atividade
da mediunidade curadora, não temos como assegurar a
existência, em grande número, de médiuns com requisitos
morais quais os imprescindíveis para uma perfeita prática.


Para evitar esses retornos, é preciso que o remédio espiritual
ataque o mal em sua base, como o fluido material o destrói
em seus defeitos; é preciso, em uma palavra, tratar ao
mesmo tempo o corpo e a alma. Para ser bom médium
curador é preciso que não só o corpo esteja apto a servir
de canal aos fluidos materiais reparadores, mas é preciso
ainda que o Espírito possua uma força moral que ele não
pode adquirir senão pela sua própria melhoria. Para ser
médium curador é preciso, pois, para isto se preparar,
não só pela prece, mas pela depuração de sua alma,
afim de tratar fisicamente o corpo por meios físicos,
e de influenciar a alma pela força moral.
Uma última reflexão. Aconselha-se-vos procurar de
preferência os pobres que não têm outros recursos do que a
caridade do hospital; eu não sou inteiramente desta opinião.
Jesus dizia que o médico tem por missão cuidar dos doentes
e não daqueles que estão saudáveis; lembrai-vos que em
caso de saúde moral, há doentes por toda a parte, e que o
dever do médico é de ir por toda a parte onde seu socorro
é necessário. Abade Príncipe de Holienlohe -- In: Revista
Espírita, edição outubro-1867, artigo "Conselhos sobre a
mediunidade curadora", mensagem 1 -Paris, 12 de março
de 1867, grupo Oesliens; Médium Sr. Desliens.




189
A par dessas instruções de como se ser bom médium
curador, posso dizer que praticamente aí encontramos toda
uma síntese do que foi coligido acerca dessa mediunidade e
de como aproveitar-lhe os méritos.


No começo de uma Ciência ainda tão nova é muito fácil
que cada um, olhando as coisas de seu ponto de vista, dela
forme uma idéia diferente. As Ciências mais positivas
tiveram sempre, e têm ainda, suas seitas, que sustentam
ardorosamente teorias contrárias. Os sábios criaram escola
contra escola, bandeira contra bandeira e, muitas vezes,
para sua dignidade, as polêmicas se tornaram irritantes e
agressivas para o amor próprio ofendido e ultrapassaram
os limites de uma sábia discussão. Esperemos que os
sectários do magnetismo e do Espiritismo, melhor
inspirados, não dêem ao mundo o escândalo de
discussões muito pouco edificantes e sempre fatais
à propagação da verdade, seja qual for o lado em que
ela esteja. Podemos ter nossa opinião, sustentá-la
e discuti-la: mas o meio de nos esclarecermos não
é nos estraçalhando, processo pouco digno de homens
sérios e que se torna ignóbil desde que entre em jugo o
interesse pessoal. - In: Revista Espírita, edição março-
1858, artigo "Magnetismo e Espiritismo".



Estaria Allan Kardec prevendo algo que aconteceria
entre seus próprios pares após sua partida para o mundo dos
Espíritos? Talvez estivesse ele vivendo um belo momento de
dupla vista, pois pedia que não nos estraçalhássemos, pois só
nos enriqueceríamos buscando a sabedoria, unindo o amor
com o conhecimento, a teoria com a prática, o Magnetismo
com o Espiritismo.
E ainda faço uma última questão: se Allan Kardec
achasse, de verdade, que no meio ou na Casa espírita não
há nem haveria espaço para o magnetismo e a ação dos

190
magnetizadores, teria ele gasto tanto esforço e tantos escritos
nessa direção?


De tudo isto, concluo que o magnetismo,
desenvolvido pelo Espiritismo, é a chave de abóbada
da saúde moral e material da humanidade futura.
- In: Revista Espírita, edição junho-1867, artigo "O
Magnetismo e o Espiritismo comparados" - Ditado
pelo magnetizador E. Quinemant e psicografado pelo
médium sr. Desliens.



Faço minhas estas palavras. Tenho dito!




191 O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA




O PASSE ESPÍRITA: A SUBLIME DOAÇÃO
"E disse Pedro: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho
isto te dou. Em nome de Jesus-Cristo, o Nazareno, levanta-te e an-
da". (Atos, 3:6)

À porta do templo, chamada Formosa, o apóstolo Pedro e o deficiente físico.
Entre ambos um momento de expectativa.
Da alma cansada e sofrida - que espera.
Da alma plena de fé e estuante de amor - que doa.
Não há indagações nem hesitações.
Apenas a sublime doação.
Eis aí o significado profundamente belo e sublimado do passe: a doação de alma para alma.

Nosso amigo, Jacob Luiz de Melo, apresenta, nestas páginas que se vai ler, todo o processo
dessa doação (em cuja passagem acima citada alcança a culminância) que denominamos, em nosso
meio espírita - passes.
As técnicas, a cura, os fluidos, o doador, o paciente, as diversas escolas, os efeitos, tudo, en-
fim, que é necessário para aprimoramento desse trabalho de verdadeira caridade, em nossas Casas
Espíritas.
Para tanto, Jacob Melo se empenhou em pesquisar, estudar e meditar o passe. E mais ainda:
apresenta a sua própria vivência, numa interação entre o conhecimento e a prática, especialmente
porque tem ele, desde cedo, uma constante familiaridade com o ambiente espírita.
Há muito, as nossas letras se ressentiam de uma obra deste porte, que abordasse o tema em su-
as angulações e peculiaridades; que atendesse à necessidade de cunho científico e àquelas da pratici-
dade; que avaliasse, numa análise sensata e clara o que está sendo feito nesse campo de atendimento
aos que chegam às instituições em busca de alívio e consolo. Para isso faz o autor uma leitura bas-
tante atualizada e lúcida do nosso Movimento Espírita no tocante a essa área de atividade, tirando i-
lações e apresentando sugestões que possibilitem uma reciclagem e mudanças para que os objetivos
superiores que norteiam essa tarefa sejam alcançados plenamente.
Vale ressaltar, de forma preponderante, que Jacob de Melo consegue transmitir tudo isto com
distinção e arte, encontrando sempre a palavra adequada, o conceito bem colocado, a crítica sóbria e
elevada que nos permitem entrever a sua própria nobreza íntima e o acendrado amor com que reves-
tiu todo este trabalho, desde a sua ideação até o ponto final.

"O que tenho isto te dou" - diz Pedro.
Jacob Luiz de Melo, guardadas as devidas proporções, também faz a sua doação.

Suely Caldas Schubert
Juiz de Fora (MG), outubro de 1991




JACOB MELO 2
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA




À GUISA DE EXPLICAÇÃO
"Aquele, porém, que a pratique (uma religião) por interesse e por ambição se
torna desprezível aos olhos de Deus e dos homens. A Deus não podem agradar os que
fingem humilhar-se diante dele tão somente para granjear o aplauso dos homens". Es-
1
pírito da Verdade

A despeito de quanto se tenha dito ou falado da validade ou não do passe na Casa Espírita, fa-
to insofismável é que sua importância ali tem sido, e será sempre, muito grande. É difícil imaginar-
mos uma Instituição Espírita sem possuir trabalhos de assistência espiritual através desse dispositivo
terapêutico. Seu uso é tão comum e suas técnicas, em geral, são tão simples que nos perguntamos
por que tanta confusão, por que tanto impasse quando se quer entender o passe ou abordar-lhe os
princípios?!
Nos ensina a lógica que, quando um assunto afeta a tantos e comporta exames, análises, com-
parações, comprovações e experiências, imediatamente surgem os pesquisadores e divulgadores sé-
rios - apesar dos "mistificadores" de todos os tempos --, fazendo brotar boas obras e importantes
referências, em número proporcional ao uso e ao interesse. Entretanto, estranha e contrariamente a
isso, o passe, mesmo com seu milenar conhecimento e sua eficácia ecumenicamente propalada, tem
sido muito pouco pesquisado, notadamente por quem mais lhe difunde o valor em nossas "bandas o-
cidentais": os espíritas.
Se recorrermos à bibliografia Espírita, que em inúmeras áreas é de uma fartura impresionante,
nos espantaremos com o reduzido número de obras que tratam do assunto, mormente se de forma
especializada. E se formos exigentes quanto à qualidade, como, inclusive, deveremos ser, tal número
não caberá na contagem dos dedos de uma única mão. É, deveras, de espantar tão estranho
comportamento pois, bem o sabemos, não apenas este assunto interessa muito (e a muitos), como
ainda não temos sobre ele uma abordagem mais consentânea com a universalidade dos ensinos
pertinentes - tal como se faz requerida e como bem sugeriu Allan Kardec, através de seu exemplo,
pelo comportamento pessoal dado ao trato da Codificação.
Mesmo sem precipitar julgamentos, o que se nos afigura como justificativa para esse compor-
tamento é uma certa e generalizada acomodação. Ao que vimos sentindo, todos queremos aprender,
fazer certo, entender, mas, situações como: "fulano disse que é assim que se aplica passe" ou "não
preciso estudar técnicas e teorias porque Jesus apenas impunha as mãos e curava", têm servido de
desculpas para um genérico "cruzar os braços", em vez de "pormos mãos à obra".
De outra maneira, como é comum se querer aprender a aplicar passe "rapidinho", quase sem-
pre se busca, apenas, "breves estudos", simplórios "manuais"... Nessa "pressa", costumamos assimi-
lar certas orientações equivocadas e, muitas vezes, nelas nos cristalizamos, adotando técnicas e pos-
turas nem sempre coerentes. Em conseqüência, com o passar do tempo, tentamos justificar nosso
procedimento com frases tipo: "já aplico passes há "tantos" anos e tenho obtido excelentes resulta-
dos", ou usamos da cômoda transferência de deveres: "deixo aos Espíritos a responsabilidade pois a
técnica é deles mesmos e eles podem usar meus fluidos como quiserem que não atrapalho".
Antes de prosseguirmos, analisemos as situações apresentadas já que, por serem muito co-
muns, justificam aproveitemos o ensejo.
1. "Foi fulano que me ensinou assim"; esta é a típica desculpa da pessoa que se sente (ou se
diz) sempre "indisposta" e que, portanto, "não tem tempo para estudar". Perguntamos: será que só
falta tempo mesmo para o estudo? E nosso propósito de servir ao próximo não merece de nós mes-
mos um pouco mais de esforço e dedicação? Será que nós gostaríamos de sermos atendidos, por e-

1
KARDEC, Allan. Da lei de adoração. In "O Livro dos Espíritos", Parte 3ª, cap.2, item Adoração exterior, questão
655.
JACOB MELO 3
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



xemplo, por um médico que nunca tem tempo para estudar? E será que a pessoa (ou a obra, Institui-
ção, curso, etc.) que nos ensinou, ensinou "tudo" mesmo e, se ensinou, o fez correto? Como saber
reconhecer sem estudar? Bem se vê que só o estudo pode fornecer a segurança devida e nos coloca
racionalmente ante nossos compromissos para com os irmãos que buscam nossa ajuda.
2. "Jesus só impunha as mãos e curava, portanto (...)"; aqui já não se trata de simples falta
de estudo, mas, de desconhecimento até d'O Novo Testamento. Ao longo do livro, teremos oportu-
nidade de apresentar várias situações envolvendo a ação fluídico-magnética do Cristo e veremos que
não era só por imposição de mãos que Ele agia. Fica, desde já, a recomendação de que façamos uma
leitura daquele livro, para conhecermos mais proximamente a figura de Jesus e seus exemplos morais
e práticos de como atuar nas curas.
3. "Já faz tanto tempo que aplico assim e dá bons resultados"; de fato, nada nos impede de
procedermos sempre de uma única maneira em nossas atividades e, ainda assim, nos sairmos bem;
contudo, isto jamais quererá dizer devamos limitar nosso aprendizado - no que quer que seja - a ape-
nas um método, a uma só ação, pois, nada há no mundo que seja ou deva ser tão restritamente espe-
cializado, Além do estudo e da pesquisa, nos compete, igualmente, um pouco de empenho e criativi-
dade (no bom sentido) a fim de favorecermos nosso progresso. Afinal, o que "hoje" é considerado
como resultado positivo não descarta a grande possibilidade de, em se melhorando o método ou as
técnicas, obtê-lo mais excelente ainda "amanhã".
4. "Como a técnica é dos Espíritos, deixo que me utilizem e não atrapalho"; com toda fran-
queza, os que assim agem tomam uma postura, no mínimo, ridícula. Se nós evoluímos tanto nos Pla-
nos Espirituais quanto na Terra, por que não começarmos nosso aprendizado aqui, para aprimorá-lo
quando lá estivermos? Por que não pensarmos, a despeito dos Espíritos serem os grandes detentores
das técnicas, que nossos conhecimentos e estudos contribuirão eficazmente nos processos de aten-
dimentos fluidoterápicos, pois, permitirão que o trabalho se realize de forma mais participativa? E a-
final, queremos ser médiuns passistas de fato ou simples marionetes nas mãos dos Espíritos? E os
Espíritos Superiores, por sua vez, estarão solicitando nossa participação como meros brinquedos li-
beradores de fluidos ou como companheiros efetivos nas atividades fraternas em favor das criaturas
necessitadas? Meditemos; meditemos bem, pois, assim como não nos cabe "atrapalhar" os trabalhos
dos Espíritos amigos, compete-nos o dever de darmos e fazermos o melhor de nós mesmos, sempre!
Retomando nossa idéia inicial, quando nos propusemos escrever esta obra, com surpresa des-
cobrimos que a bibliografia não Espírita sobre o assunto é muitas vezes mais volumosa e variada que
a nossa, o que, de certo modo, nos deixou levemente desapontados. Após "correr" as obras Espíritas
sobre o passe e as "clássicas do Magnetismo" que conseguimos consultar, partimos para aquelas ou-
tras, nas quais encontramos: fartas pesquisas, sérios aprofundamentos, hipóteses intrigantes e insti-
gantes, e muitas novidades. Infelizmente, porém, tudo de bom que lá se encontra quase sempre está
misturado com muitas bobagens, montes de coisas sem qualquer fundamento, algumas (poucas, gra-
ças a Deus) afrontas à moral, a Medicina e aos princípios éticos do bom senso, e tantos absurdos
destituídos de qualquer lógica ou respaldo.
Como resultado disso tudo, tivemos que nos "vestir" de "garimpeiros do passe" para conse-
guirmos extrair dali as "pérolas dos bons ensinamentos", procurando não confundi-las com as "argi-
las endurecidas e cristalizadas dos equívocos e despropósitos" tão virulentamente a elas agregadas.
Nessa "garimpagem", concluímos pelo que excedia em evidência: grandes descobertas, graves
estudos, profundas pesquisas e excelentes práticas podem e devem ser encetados nesta área pelos
espíritas, pois, sem dúvida alguma, somos "garimpeiros" privilegiados. Dispomos de uma "mina a
céu aberto" (a Doutrina Espirita), o que nos livra de qualquer escuridão; contamos com cinco "ma-
pas" (o Pentateuco Kardequiano) magnanimamente codificados; acompanham-nos "guias" (a Espiri-
tualidade Superior) com profundos conhecimentos do terreno e das tarefas; dispomos de "detalhes
técnicos" (as obras subsidiárias de Espíritos como André Luiz, Emmanuel e Manoel Philomeno de
Miranda) de riquíssima precisão; temos à mão informações "geológicas do solo" com perfis (as obras

JACOB MELO 4
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



clássicas e modernas do Magnetismo) já devidamente testados; não nos faltam "elementos" ("nossos"
pacientes) para trabalharmos em nossa mineração; possuímos "ferramentas" de primeira qualidade
(nossa boa vontade e a disposição de servir); e, como se não bastasse, o nosso senhor é o maior e o
melhor de todos os amos (Nosso Senhor Jesus-Cristo, em nome de Deus).
Foi refletindo assim que decidimos aprofundar um pouco mais o estudo sobre o passe, mesmo
porque, aquilo que apresentamos como crítica generalizada logo no início desta "explicação", antes
que em qualquer pessoa ou Instituição, ela foi aplicada sobre nós mesmos, com toda veemência e
honestidade possível. E por pensarmos que não seria justo fazermos todo um trabalho de pesquisa,
análise e estudo, no qual encontramos verdadeiras "jóias raras", e não dividirmos as benesses daí ad-
vindas (tal como exemplificou Allan Kardec quando acabou de compor aquele que seria a primeira
edição de "O Livro dos Espíritos"), aqui trazemos nossa modesta "garimpagem", no intuito de assim
contribuirmos para um enriquecimento, um conhecimento e um estudo mais acurado sobre o passe,
da parte de todos nós.
É preciso confessar, entretanto, que não garimpamos sozinhos; contamos com muitas ajudas,
de todos os níveis e de todos os "planos". Todas, sem exceção, foram valiosíssimas; mesmo aquelas
que, de momento, não conseguimos entender, fossem por estarem além de nossa capacidade de tiro-
cínio ou por extrapolarem os largos limites de nossa imperfeição.
Por isso mesmo, todos os méritos deste trabalho são dos Espíritos (encarnados e desencarna-
dos) que - na pessoa dos vários autores consultados, dos amigos que sempre vibraram por nós ou-
tros, dos familiares e companheiros que aturaram nossa "teimosia por escrever um livro", dos críticos
que escolhemos (e aqui queremos fazer uma ressalva especial para citar a estimada confreira Sarah
Jane, pois, devemos a ela uma gratidão enorme, pelo seu empenho e destemor, inteligência e serie-
dade, estudo e atenção, sem o que esta obra estaria incompleta e com limitações) e dos que se esco-
lheram, dos irmãos que apreciaram os rascunhos e os originais, orientando-nos, todos, com suas ju-
diciosas ponderações, daqueles que tenham tentado nos deter ou atrapalhar nossa manifesta intenção
de concluir tal trabalho, e dos que nos ajudaram direta e indiretamente, de forma reconhecida ou a-
nonimamente - só contribuíram para a ocorrência de tudo de bom que aqui se encontre.
Entretanto, queremos registrar, explicitamente, que é do autor, e só dele, de maneira indivisível
e absoluta, todo e qualquer ônus que pese por quaisquer equívocos, indelicadezas, desvios ou colo-
cações menos felizes que, porventura, sejam ou venham a ser localizadas nesta obra, pois, temos cer-
teza plena de que se tal se der terá sido por exclusiva pequenez deste menor dos menores irmãos de
Jesus, deste que se reconhece como um dos mais modestos dos discípulos de Kardec.
Jacob Luiz de Melo
Natal (RN), outubro de 1991.




JACOB MELO 5
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA




CAPÍTULO I - O PASSE - DEFINIÇÕES
"A mediunidade é coisa santa, que deve ser praticada santamente, religiosamente. Se há um gênero
de mediunidade que requeira essa condição de modo ainda mais absoluto é a mediunidade curadora" - (Al-
2
lan Kardec)

É fora de dúvida que nenhuma Ciência pode ser bem entendida quando não se busca, antes, o
conhecimento de sua base, de seus fundamentos. Sendo o Espiritismo, de fato e por definição, uma
Ciência e como tal estabelecida por seu insigne Codificador, compete-nos buscar-lhe os princípios
para não vagarmos em raciocínios periféricos quando nosso propósito é o do conhecimento coeren-
te.
Os conhecidos "fatos espíritas", hoje denominados "fenômenos mediúnicos", ao lado da apli-
cação analisada e estudada do Magnetismo, foram os propiciadores da parte cientifica da Doutrina
Espírita. Allan Kardec, entretanto, não se limitou a observá-los e estudá-los com profundidade; a
partir daí, ele compôs todo o arcabouço teórico e prático do Espiritismo. Desde então tornou-se in-
concebível estudar-se a mediunidade sem sedimentar alicerces nos registros kardequianos. Tal tenta-
tiva equivaleria a se querer edificar uma construção de grande porte sem antes certificar-se das con-
dições do solo nem cuidar da robustez de suas fundações. Afinal, sem base sólida e robusta não há
construção segura.
Decorrentemente, o presente estudo sobre o passe, o qual é uma das mais usuais derivações
práticas da mediunidade e do magnetismo na Casa Espírita, para ser coerente e consentâneo com a
Doutrina dos Espíritos, estará revestido de grande cuidado quanto a sua fundamentação doutrinária.
Não queremos fugir da figura evangélica que lembra ser prudente o homem que constrói sua casa
sobre a rocha para assim suportar a chuva que cair, os rios que transbordarem e os ventos que sobre
3
ela se abaterem . Daí iniciarmos por Allan Kardec e seu Pentateuco, símbolos maiores da sólida ro-
cha doutrinária do Espiritismo, e com ele seguirmos até o fim da obra.
Na síntese em epígrafe, é inequívoca a seriedade com que Kardec se postou ante a "mediuni-
dade curadora". Tanto assim que a ela se refere como uma "coisa santa", claramente ressaltando a
nobreza de caráter da qual deve se revestir todo aquele que se disponha a esse verdadeiro labor divi-
no, a fim de agir, em todos os momentos, "santamente, religiosamente". Mas, caráter nobre é forma-
tura adquirida nos modos e hábitos diários e não apenas em certos momentos, quase sempre vivenci-
ados na esporadicidade de fundo imediatista, interesseiro ou comodista.
Conscientes dessa posição, podemos analisar inicialmente alguns aspectos que dizem respeito
as definições e menções que adiante iremos apreciar. Isso porque não foi normalmente sob o nome
passe, mas, via de regra, como "dom de curar", "mediunidade curadora", "imposição de mãos", que
o Codificador se referiu ao assunto em estudo. Além disso, em diversas ocasiões tratou deste tema
nominando-o, genericamente, "magnetismo", ainda que nessas oportunidades não deixasse dúvidas
4
sobre que tipo de magnetismo se referia.
Na definição de mediunidade curadora dada por Kardec (é gênero de mediunidade que
"consiste, principalmente, no dom que possuem certas pessoas de curar pelo simples toque, pelo
5
olhar, mesmo por um gesto, sem o concurso de qualquer medicação" ), já se percebe a abrangência
com que ele tratou a matéria.
Uma outra verificação bastante comum é que, se formos analisar enciclopédias e dicionários,
notaremos que nem todas as referências existentes são em relação ao passe (no singular), que é a
2
KARDEC, Allan. Daí gratuitamente o que gratuitamente recebestes. In: "O Evangelho Segundo o Espiritismo",
cap. 26, item 10.
3
Mateus, VII, vv. 24 e 25.
4
Trataremos do assunto com mais detalhes no capítulo VIII - As Técnicas.
5
KARDEC, Allan. Médiuns curadores. In "O Livro dos Médiuns", cap. 14, item 175.
JACOB MELO 6
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



maneira usualmente empregada tanto no meio Espírita como na literatura espiritualista em geral,
mas, preferencialmente, aos passes (no plural).
Importa ainda considerar que o termo "passe" tem significados distintos. Inicialmente era o
passe apenas o nome dado ao gesto (ou ao conjunto destes) com fins de se movimentar "eflúvios".
Depois, entendido como atividade de cura, generalizou-se como a própria política da cura. No en-
tendimento Espírita, ora é evocado como um, ora como outro sentido. Apesar disso, na maneira co-
mo venha a se empregar o termo, passe tanto pode ser entendido como uma terapia espírita, como
uma parte do magnetismo, como uma técnica de cura ou ainda como o sentido genérico da "fluidote-
rapia".
Isto posto, vamos às definições, menções e equívocos que envolvem nosso assunto, advertindo
antecipadamente que limitaremos tais abordagens pois ao longo da obra surgirão muitas outras opor-
tunidades para novas citações, das mais variadas fontes.


1. DEFINIÇÕES E MENÇÕES ESPÍRITAS
1.1 - De Allan Kardec
"É muito comum a faculdade de curar pela influência fluídica e pode desenvolver-se por meio
do exercício; mas, a de curar instantaneamente, pela imposição das mãos, essa é mais rara e o seu
6
grau máximo se deve considerar excepcional" .
"A mediunidade curadora (...) é, por si só, toda uma ciência, porque se liga ao magnetismo, e
7
não só abarca as doenças propriamente ditas, mas todas as variedades (...) de obsessões" . E ainda
acrescenta: "(...) Aí nada queremos introduzir de pessoal e de hipotético, procedemos por via de ex-
periência e de observação".
"Pela prece sincera, que é uma magnetização espiritual, provoca-se a desagregação mais rápida
8
do fluido perispiritual" .
9
Diz ainda Kardec: "O médium curador transmite o fluido salutar dos bons Espíritos (...)" .
Quando, estudando os possíveis problemas que poderiam surgir entre a "mediunidade curado-
ra" e a lei, Kardec abriu indagações que, por si sós, ratificam o que dissemos acerca de ele usar os
termos do magnetismo para se referir ao passe: "As pessoas não diplomadas que tratam os doentes
pelo magnetismo; pela água magnetizada, que não é senão uma dissolução do fluido magnético; pela
imposição das mãos, que é uma magnetização instantânea e poderosa; pela prece, que é uma magne-
tização mental; com o concurso dos Espíritos, o que é ainda uma variedade de magnetização, são
10
passíveis da lei contra o exercício ilegal da medicina?" .
Mesmo fazendo uso dos termos mais comuns a época, fica evidente que o passe foi considera-
do e estudado por Kardec com as mesmas seriedade e gravidade que se tornaram sua marca regis-
trada na condução do árduo trabalho da Codificação Espírita.
Quando fazemos a ligação entre as terminologias empregadas hoje com as do "ontem recente",
pretendemos convir, sempre e mais uma vez, com Kardec quando, nos primórdios do Espiritismo, já
nos orientava sobre o proveito advindo com a Doutrina Espírita, a qual nos lança, de súbito, numa
ordem de coisas tão nova quão grande, que só pode ser obtido "Com utilidade por homens sérios,

6
KARDEC, Allan. Curas, In "A Gênese", cap.14, item 34.
7
Da Mediunidade curadora. "Revista Espírita", set. 1865.
8
KARDEC, Allan. O passamento. In "O Céu e o Inferno", 2ª Parte, cap. 1, item 15.
9
KARDEC, Allan. Daí gratuitamente o que gratuitamente recebestes. In "O Evangelho Segundo o Espiritismo", cap.
26, item 10.
10
A Lei e os médiuns. "Revista Espírita", jul. 1867, p. 203.
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perseverantes, livres de prevenções e animados de firme e sincera vontade de chegar a um resulta-
11
do" . Daí a necessidade de sermos sérios e graves ante os assuntos do Espiritismo, em especial
quando tratamos de temas pontilhados de personalismos, controvérsias e pouco estudo, como é o
caso do passe.

1.2 - Clássicas (Contemporâneos de Allan Kardec)
"(...) O magnetismo vem a ser a medicina dos humildes e dos crentes, (...) de quantos sabem
12
verdadeiramente amar" . Léon Denis.
Angel Aguarod assim se pronunciou: "Deixemos as drogas e os tóxicos para os hipnotizadores
e reservemos para os magnetizadores a medicina do espírito, pois na alma se concentra toda a sua
13
força e todo o seu poder" .
Albeít De Rochas já fazia menção ao termo "passes", assim como à imposição de mãos". Ob-
serve-se, por exemplo, como o erudito escritor e engenheiro português, Dr. Antonio Lobo Vilela, fa-
la sobre ele no seu livro "O Destino Humano": "O processo experimental de De Rochas (utilizado
para indução à regressão de memória) consiste no emprego de passes magnéticos longitudinais,
combinados, por vezes, com a imposição da mão direita sobre a cabeça do passivo". (Grifos origi-
14
nais) . Mas falar de De Rochas seria praticamente dispensável já que todos os estudiosos do magne-
tismo, sonambulismo e exteriorização da personalidade (desdobramento) não regateiam elogios e ci-
tações ao mesmo. Apesar disso, lembraríamos que após estudar a "transplantação" das doenças - que
se dava fazendo-se passar as doenças de uma pessoa para outra ou então para um animal - sugerida
por um certo abade Vallemonte, no livro, "Physique Occulte", escrito em 1693, e que ressurgiu em
fins do século passado, rebatizada por "traspasses" em plena Paris e implantada em alguns hospitais
dali, concluiu ele pela ineficácia de ambos os métodos e, então, preferiu se utilizar dos passes nas su-
15
as sessões de estudo sobre os "eflúvios" e a "exteriorização da sensibilidade" .
Para concluir este item, façamos um resumo histórico com Gabriel Delanne: "A ciência magné-
tica compreende certo número de divisões, conforme as diferentes categorias de fenômenos.
"(...) Os anais dos povos da antiguidade formigam em narrativas circunstanciadas, que mos-
tram o profundo conhecimento que do magnetismo tinham os antigos sacerdotes.
"Os magos da Caldéia, os brâmanes da Índia curavam pelo olhar (...). Ainda hoje, na Ásia, (...)
os faquires cultivam com êxito as práticas magnéticas (...).
"Os egípcios (...) empregavam, no alívio dos sofrimentos, os passes e a aposição de mãos, co-
mo os executamos ainda em nossos dias.
"(...) Amóbio, Celso e Jâmblico ensinam em seus escritos que existia entre os egípcios, em to-
das as épocas, pessoas dotadas da faculdade de curar por meio da aposição das mãos e de insufla-
ções (...)
"(...) Os romanos também tiveram templos onde se reconstituía a saúde por operações magné-
ticas. Conta Celso que Asclepíades de Pruse adormecia, magneticamente, as pessoas atacadas de fre-
nesi.
"(...) Quem obteve, porém, maior fama nessa matéria, foi Simão, "o mágico", que, soprando
nos epilépticos, destruía o mal de que estavam atacados.


11
KARDEC, Allan. Introdução. In "O Livro dos Espíritos", item 8.
12
DENIS, Léon. A força psíquica. Os fluidos. O magnetismo. In "No Invisível", 2ª Parte, cap. XV, p. 182.
13
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 7, p. 56.
14
FREIRE, Antonio J. Experiências do coronel A. Rochas D'Aiglum. In "Da Alma Humana", cap.5, p. 104.
15
ROCHAS, Albert de. Cura magnética das feridas e traspasse das doenças. In "Exteriorização da sensibilidade",
cap. 5, itens 1 e 2, pp. 115 a 121.
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"(...) Na Gália, os druidas e as druidesas possuíam em alto grau a faculdade de curar, como o
atestam muitos historiadores; sua medicina magnética tornou-se tão célebre que os vinham consultar
de todas as partes do mundo. (...) Na Idade Média, o magnetismo foi praticado, principalmente, pe-
los sábios.
"(...) Avincena, doutor famoso, que viveu de 980 a 1036, escreveu que a alma age não só so-
bre o corpo, senão ainda sobre corpos estranhos que pode influenciar, a distância.
"Arnaud de Villeneuve foi buscar nos autores árabes o conhecimento dos efeitos magnéticos
(...).
"(...) Van Helmont dizia: (...) O magnetismo só tem de novo o nome (...)
"(...) Em 1682, assinalaremos Greatrakes, na Inglaterra, que fez milagres, simplesmente com as
16
mãos (...)" , etc.

1.3 - Dos Espíritos
"O passe, como gênero de auxílio, invariavelmente aplicável sem qualquer contra-indicação, é
17
sempre valioso no tratamento devido aos enfermos de toda classe (...)" . André Luiz.
18
"(...) O passe é uma transfusão de energias psíquicas (...)" . Emmanuel.
"(...) Ensinos espíritas que recomendam a terapia fluídica, através da transmissão das energias
de que todos somos dotados, seja pela utilização do recurso do passe, seja pela magnetização da á-
gua, usando-se o contributo mental por processo de fixação telepática e transmissão de recursos o-
timistas, de energias salutares que refazem o metabolismo, contribuindo eficazmente para o restabe-
19
lecimento da saúde mental, e, por extensão, da psicofísica (...)" . Aristides Spinola.
"Penetrando nos fatores causais - o Espírito, seu pretérito, seu futuro - a fuidoterapia e o es-
20
clarecimento Espírita conscientizam, elucidam, emulam e seguram o homem da queda abissal (...)"
Carneiro de Campos.
21
"O passe é uma transfusão de energias, alterando o campo celular" . Andé Luiz.
E, para encerrar, uma citação do Espírito Bezerra de Menezes que, de passagem, nos "atuali-
za" o termo: "Visitando enfermos, socorrendo necessitados, aplicando passes, ou bioenergia, como
se modernizou o labor, enfim, a caridade é um esporte da alma, pouco utilizado pelos candidatos à
22
musculação moral e inteireza espiritual" . (Grifo original)

1.4 - Dos Espíritas
Para contribuir como elo de ligação entre as citações de Kardec com as atuais, vejamos, de iní-
cio, o que nos diz Antônio Luiz Sayão quando comenta sobre as curas feitas por Jesus:
"Para imaginarmos o poder dos fluidos magnéticos de que dispunha Jesus, o mais puro de to-
dos os Espíritos, e bem assim o poder que a sua vontade exercia sobre esses fluidos, regeneradores e
fortificantes, cuja natureza, bem como combinações, efeitos e propriedades Ele conhecia de modo


16
IMBASSAHY, Carlos. Histórico. In "O Espiritismo perante a Ciência", 2ª Parte, cap. 1, pp. 75 a 78.
17
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Passe e Oração. In "Mecanismos da Mediunidade", cap. 12, p.
148.
18
XAVIER, Francisco Cândido. In "O Consolador", cap. 5, p. 67.
19
FRANCO, Divaldo Pereira. Forças mentais. In "Terapêutica de Emergência", cap. 10, pp. 45 e 46.
20
FRANCO, Divaldo Pereira. Doenças e terapêutica. In "Sementes de Vida Eterna", cap. 8, p. 43.
21
XAVIER, Francisco Cândido. Serviço de passes. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 17, p. 169.
22
FRANCO, Divaldo Pereira. Expiação e reparação. In "Loucura e Obsessão", cap. 23, p. 297.
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absoluto, basta atentemos nos efeitos que produz o magnetismo humano e nos que conseguem os
23
médiuns curadores (...)" .
Do eminente Carlos Imbassahy tomaremos alguns parágrafos, cuja obra, a seguir referenciada,
merece ser lida por quem queira se aprofundar nos detalhes que envolvem "a mediunidade e a lei":
"Não seria para desprezar as curas do imperador Vespasiano, o qual dava passes e punha bons
os nervosos; as de Adriano, que curava os doentes com os dedos; as do rei Olavo, as de Eduardo, o
confessor, as de Felipe I, as do imperador Justiniano (...)
"O dom coube em partilha a todos, assim aos grandes como aos pequenos; vinha do palácio de
imperadores e reis até a choupana dos pobres. Levret, um jardineiro, celebrizou-se com esses predi-
cados.
"(...) Um dos maiores curadores espiritualistas da França, Charles Parlange, cujas espetaculares
curas, oficialmente registradas, eram conseguidas tão-somente pela prece, estivesse o doente junto
24
ou longe dele (...)" .
25
"O passe é, antes de tudo, uma transfusão de amor . Divaldo Pereira Franco.
26
"O passe é um ato de amor na sua expressão mais sublimada" . Suely Caldas Schubert.
Por fim, Herculano Pires nos sintetiza o seguinte: "O passe tornou-se popular por sua eficácia.
27
Mas é tão simples um passe que não se pode fazer mais do que dá-lo" .


2 - DEFINIÇÕES E MENÇÕES NÃO ESPÍRITAS
2.1 - Dos Dicionários e Enciclopédias
"PASSES. Movimentos com as mãos, feitos pelos médiuns passistas, nos indivíduos com de-
sequilíbrios psicossomáticos ou apenas desejosos de uma ação fluídica benéfica. (...) Os passes espí-
ritas são uma imitação dos passes hipnomagnéticos, com a única diferença de contarem com a assis-
28
tência, invocada e sabida, dos protetores espirituais" .
"PASSES (Pl. de passe) S. m. pl. Ato de passar as mãos repetidamente ante os olhos de uma
pessoa para magnetizá-la, ou sobre uma parte doente de uma pessoa para curá-la". Aurélio Buarque
29
Holanda Ferreira .
"PASSE, (...) ato de passar as mãos repetidas vezes por diante dos olhos de quem se quer
magnetizar ou sobre a parte doente da pessoa que se pretende curar pela força mediúnica". (Grifa-
30
mos) Francisco da S. Bueno . (Esta definição, por sinal, é a mesma encontrada no dicionário da A-
cademia Brasileira de Letras.)
"PASSE: ato de passar as mãos repetidas vezes por diante ou por cima de pessoa que se pre-
31
tende curar pela força mediúnica" . (Grifos nossos)


23
SAYÃO, Antônio Luiz. In "Elucidações Evangélicas", p. 129.
24
IMBASSAHY, Carlos. Curas mediúnicas. In "A Mediunidade e a Lei", pp. 46 e 61.
25
FRANCO. Divaldo Pereira. O passe - propriedades e efeitos. In "Diálogo com dirigentes e trabalhadores espíri-
tas", p. 61.
26
SCHUBERT, Suely Caldas. A importância da fluidoterapia In "Obsessão/Desobsessão", 2ª Parte, cap. 10, p. 116.
27
PIRES, J. Herculano. Mediunidade prática In "Mediunidade - Vida e Comunicação", cap. 14, p. 127.
28
PAULA. João Teixeira de. In "Dicionário Enciclopédico Espiritismo Metapsiquica Parapsicologia", Ilustrado, p.
192, Editora Bels S.A.
29
"Novo Dicionário da Lígua Portuguesa". Ed. Nova Fronteira.
30
"Dicionário Escolar da Língua Portuguesa". MEC - Fename.
31
"Enciclopédia Mirador Internacional". vol. II. "Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa", p. 1289.
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2.2 - Dos Magnetizadores Clássicos
Louis Alphonse Cahagnet, considerado por muitos como um dos precursores da Doutrina Es-
pírita, haja vista sua notável obra, os "Arcanos", além de inúmeras outras - 30 ao todo - sobre o
32
magnetismo , nos concede uma clara definição desta Ciência: "É uma propriedade da alma; o corpo
33
é a máquina por intermédio do qual ele se filtra" .
Deleuze faz ressaltar o ângulo mais religioso do magnetismo, quando nos assevera que "(...)
Sendo a faculdade de magnetizar, ou de fazer o bem aos seus semelhantes por influência de sua von-
tade, a mais bela e a mais preciosa que Deus deu ao homem, deve-se encarar o exercício do magne-
34
tismo como um ato religioso, que exige o maior recolhimento e a intenção mais pura (...)" .
Chardel, um dos pioneiros do magnetismo, em 1818 apresentou uma curiosa obra a considera-
ção da Academia de Berlim, na qual afirmava: "O magnetismo é uma transfusão de vida espirituali-
35
zada do organismo do operador para o do paciente" . (Grifamos)
Outras definições e menções, de Mesmer, de Du Potet, de Lafontaine, de Puységur e de tantos
outros magnetizadores não menos famosos, serão vistas ao longo da obra, pelo que nos permitimos
parar por aqui.

2.3 - Dos Magnetizadores Contemporâneos
"Aquele (magnetizador) que se propõe a exercer o tratamento deve ter equilíbrio, tranqüilidade
36
espiritual e total consciência da importância das manipulações levadas a efeito" . V. L. Saiunav - A
personalidade que assina esta expressão é um russo que desenvolveu suas experiências de cura de
uma forma autodidata, mas, apesar do pouco acesso as literaturas estrangeiras, podem verificar, a
posteriori, que suas conclusões são muito similares e, por vezes, melhores que as experiências do
mundo ocidental. Ele, inclusive, em seu livro, nos faz registros de autores cujas obras veio a conhe-
cer depois, e que merecem destaquemos: "Quem duvidar, hoje, da atuação do magnetismo, deve ser
chamado de ignorante e não de cético". (Schoppenhauer) - "O magnetismo animal é, portanto, a
mais poderosa de todas as forças físicas e químicas. (...) A cura magnética processa-se por meio de
37
passes magnéticos, pela aposição de mãos (...)" (Du Prell) .
Ainda na Rússia temos um dos seus mais famosos curadores: o Coronel Krivorotov, o qual foi
submetido a uma larga bateria de testes. Seu método de cura é o uso de passes a curta distância dos
38
pacientes. E ele afirma crer que "A energia vem de alguma fonte externa" . Isso sem falar na famosa
Djuna que, entre outros, diz ter curado com "suas mãos" o ex-homem-forte da União Soviética, Le-
onid Brejniev e resolvido até casos de aids, apesar de sua reconhecida excentricidade; além de Bar-
39
bara Ivanova que tem curado pessoas à distância, pelos mais variados meios, e que é reconhecida
como uma das maiores autoridades soviéticas sobre reencarnação.
Para encerrar a lista, vejamos o que nos reserva o renomado e respeitado George W. Meek: "O
curador não cura as doenças. Agindo de modo extraordinário, ele proporciona um ambiente no qual
40
a cura pode realizar-se" .

32
WANTUIL, Zeus e THIESEN, Francisco. In "Allan Kardec", cap. 9, pp. 92 a 100, v. 2.
33
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 3, p. 23.
34
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 7, p. 54.
35
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 1, p. 10.
36
SAIUNAV, V. L. In "O fio de Ariadne". cap. 2, p. 71.
37
SAIUNAV. V. L. In "O Fio de Ariadne", pp. 50 e 51.
38
OSTRANDER, Sheila e SCHROEDER, Lynn. In "Experiências Psíquicas AIém da Cortina de Ferro", cap. 18, p.
242.
39
Durante o ano de 1990 ela passou vários meses aqui no Brasil proferindo palestras, seminários e cursos e, na o-
portunidade, publicou a versão do seu livro "O Cálice Dourado", onde ersina suas técnicas de cura.
40
MEEK, George W. (Org.). In "As curas paranormais", 1ª Parte, cap. 2, p. 19.
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2.4 - De Outras Escolas Religiosas
De um pastor presbítero (Dudley Blades):
"A cura espiritual é a cura do Espírito pelo Espírito. (...) Normalmente começo a cura repou-
41
sando minhas mãos suavemente sobre a cabeça das pessoas (· · .)" .
De um padre católico (Frei Hugolino Back):
"Analisando, detidamente, os textos, dá-nos a impressão de que essas ordens proferidas por
Jesus vêm acompanhadas de gestos. E gestos de movimentos rápidos e enérgicos. Seriam formas de
passes?
"- Que são passes?
"- São gestos rápidos e enérgicos que são feitos pela pessoa-que-cura ao lado e ao longo do
42
corpo de pessoa-que-está-sendo-curada" . (Grifo original)
Uma prece católica de cura, apresentada pelo reverendo Robert DeGrandis, S. S. J.: "Jesus,
quando oramos pelos outros em Teu nome, nós te pedimos que uses nossas mãos para vires até nós
e tocares aqueles pelos quais oramos, como se nossas mãos fossem tuas. Deixa que Teu Espírito o-
pere, hoje, através de nós, especialmente quando oramos pelos membros de nossa família ou de nos-
sa comunidade. Obrigado, Jesus, pelo Teu amor curador que está fluindo neste momento através de
43
mim" .
Do budismo tibetano:
"Quando se compreendem os processos tântricos, torna-se claro que eles não são nenhum
"passe de mágica" religioso com o qual nos iludimos, a nós e aos outros. São a manipulação destra
de energias psicofísicas por seres que, mediante a prática do Dharma, em particular a meditação, a-
44
primoram suas capacidades mentais (...)" .


3 - CITAÇÕES BÍBLICAS
3.1 - No Antigo Testamento
"Então Eliseu lhe mandou um mensageiro, dizendo: Vai, lava-te sete vezes no Jordão, e a tua
carne será restaurada, e ficarás limpo.
"Naamã, porém, muito se indignou, e se foi, dizendo: Pensava eu que ele sairia a ter comigo,
por-se-ia de pé, invocaria o nome do SENHOR seu Deus, moveria a mão sobre o lugar da lepra, e
45
restauraria o leproso" . (Grifamos)
"E, estendendo-se três vezes sobre o menino, clamou ao SENHOR, e disse: Ó SENHOR meu
Deus, rogo-te que faças a alma deste menino tornar a entrar nele.
46
"O SENHOR atendeu à voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu" .



41
BLADES, Dudley. O que é a cura? In "A Energia Espiritual e seu Poder de Cura", cap. 6, p. 52.
42
BACK, Hugolino e GRISA, Pedro A. As técnicas de Jesus. In "A Cura pela Imposição das Mãos", p. 74.
43
DeGRANDIS, Robert. Os dez mandamentos da cura. In "Ministério de Cura para Leigos", cap. 2, p. 36.
44
CLIFFORD, Terry. A medicina tântrica. In "A Arte de Curer no Budismo Tibetano", cap. 5, p. 97.
45
II Reis, V, vv. 10 e 11.
46
I Reis, XVII, vv. 21 e 22.
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"Josué, filho de Num, estava cheio do espírito de sabedoria, porquanto Moisés havia posto so-
bre ele as suas mãos: assim os filhos de Israel lhe delam ouvidos, e fizeram como o SENHOR orde-
nara a Moisés.
"(...) E no tocante a todas as obras de sua poderosa mão, e aos grandes e terríveis feitos que
47
operou Moisés à vista de todo o Israel" .
Nestes três exemplos, que colocamos em ordem reversa à cronológica dos fatos, vimos como
o magnetismo era utilizado desde a mais antiga história, sob os métodos mais diversos, inclusive pela
imposição das mãos.

3.2 - No Novo Testamento
"E Jesus, estendendo a mão, tocou-lhe, dizendo: Quero, fica limpo! E imediatamente ele ficou
48
limpo de sua lepra" .
"Então Ananias foi e, entrando na casa, impôs sobre ele as mãos dizendo: Saulo, irmão, o SE-
NHOR me enviou, a saber, o próprio Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas, para que
49
recuperes a vista e fiques cheio do Espírito Santo" .
"A manifestação do Espírito é concedida a cada um, visando um fim proveitoso.
"Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo
Espírito, a palavra do conhecimento.
50
"A outro, no mesmo Espírito, fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar (...)" .
Encontramos igualmente, nestes exemplos, o passe já como prática habitual de cura ao tempo
de Jesus e de seus seguidores da primeira hora, quando as mãos aparecem como um dos mais co-
muns veículos de técnica de cura fluídica, além da origem do termo "dom de curar" pelo apóstolo
Paulo.


4. DEFINIÇÕES EQUIVOCADAS
Antes de iniciarmos nossa análise sobre alguns dos mais comuns equívocos que se cometem
quando se pretende comparar passes a outros métodos, gostaríamos de apresentar uma observação
de Kardec: "Magnetizador é o que pratica o magnetismo; magnetista é aquele que lhe adota os prin-
cípios. Pode-se, pois, ser magnetista sem ser magnetizador; mas não se pode ser magnetizador sem
51
ser magnetista" . Por extensão, infere-se que o passista tanto pode ser um magnetizador quanto um
simples magnetista; será ele magnetizador quando usar seus fluidos na magnetização e magnetista
quando adotar os princípios, as técnicas e os métodos do magnetismo. Mas só será passista espírita
quando suas técnicas forem consentâneas com a Doutrina Espírita e seu proceder moral se coadunar
com os princípios desta.
52
No mesmo artigo , Kardec nos afirma ainda que "O Magnetismo preparou o caminho do
Espiritismo (...)". E prossegue mais adiante: "Se tivermos que ficar fora da ciência do magnetismo,
nosso quadro (espiritismo) ficará incompleto (...). A ele nos referimos, pois, senão acessoriamente,
mas suficientemente para mostrar as relações intimas das duas ciências que, na verdade, não passam
de uma".
47
Deuteronômio, XXXIV, vv. 9 e 12.
48
Mateus, VIII, v. 3.
49
Atos, IX, v. 17.
50
I Coríntios, XII, vv. 7 a 9.
51
Magnetismo e Espiritismo. "Revista Espírita", mar. 1858, p. 94, nota de rodapé nr. (1).
52
Magnetismo e Espiritismo. "Revista Espírita", mar. 1858, p. 94, nota de rodapé nr. (1).
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O leitor há de convir conosco que esta citação é por demais importante. Entre outras, dela po-
demos tirar uma conclusão óbvia: pela maneira como foi considerado o magnetismo, a Ciência Espí-
rita não pode ficar sem o contributo daquela outra, sob o risco de termos o Espiritismo de forma in-
completa. Entretanto, ressalta das palavras de Kardec que se trata de uma mesma ciência pelo fato
de uma estar inserida na outra e não que sejam simetricamente iguais.
Analisemos agora os equívocos. Para ficar mais didático, tratá-los-emos em subitens, na forma
de perguntas e respostas, destacando os equívocos que pretendemos demonstrar.
1. Magnetismo e Espiritismo são a mesma coisa?
R - Já possuímos matéria suficiente para sustentarmos estar em equívoco aquele que afirmar
sejam o magnetismo e o Espiritismo a mesma coisa, pois, da última colocação kardequiana se depre-
ende que o primeiro, como ciência, participa da Ciência Espírita e não que esta esteja contida nos es-
treitos limites daquela outra. Não são a mesma coisa, afirmamos; nem por definição, nem por meios,
nem por objetivos; apenas o magnetismo, com suas técnicas e experiências, viabilizou, no meio cien-
tífico da época, o reconhecimento da existência de outras forças, energias, fluidos, que desaguaram,
via sonambulismo, nas provas da existência do Espírito.
Mas, para que não haja dúvidas, eis a primeira definição de Allan Kardec sobre o Espiritismo:
A doutrina espírita ou o Espiritismo tem por princípio as relações do mundo material com os Espíri-
tos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão os espíritas, ou, se quiserem, os
53
espiritistas" (grifos originais). Vemos que dessa definição não há como igualar tal Ciência - que é
54
também Filosofia e Religião - ao magnetismo, cujos seguidores são chamados de magnetizadores .
Há, entretanto, estreitas ligações entre as duas ciências. E quem faz uma notável ligação entre
o Espiritismo e o Magnetismo é o Espírito E. Quinemant que, quando encarnado, segundo suas pró-
prias palavras, ocupou-se com a prática do magnetismo material. Assim se expressa ele: "O Espiri-
tismo não é, pois, senão o magnetismo espiritual, e o magnetismo não é outra coisa senão o Espiri-
55
tismo humano. (...) O magnetismo é, pois, um grau inferior do Espiritismo (...)" .
2. E em relação ao passe propriamente dito, seriam ele e o magnetismo a mesma coisa?
R - A resposta continua negativa, pois, se para o magnetismo o passe é uma técnica de movi-
mentação de mãos, para o passe (espírita) o magnetismo é uma fonte de técnicas de transferências
fluídicas. Atentemos, todavia, para o que nos diz Allan Kardec: "O conhecimento dos processos
56
magnéticos é útil em casos complicados, mas não indispensável" ; isto nos sinaliza, inclusive, que
nem sempre o passe se recorre do magnetismo como técnica.
Em síntese, todo passista (espírita) é, no fundo, um magnetizador mas nem todo magnetizador
é um passista (espírita).
3. E a magnetização e o hipnotismo são iguais, são uma mesma ciência?
R - Trata-se de outro equívoco pensar-se assim. Embora não estejamos estudando o hipnotis-
mo, é da própria história dessa ciência que ela surgiu em decorrência das práticas magnéticas, como
uma experimentação, poderíamos dizer, especializada, de partes daquela. O hipnotismo, usando uma
linguagem bem coloquial, é "filho" direto do magnetismo como o é o "sonambulismo provocado" "O
próprio Braíd (chamado o pai do hipnotismo) reconheceu em sua Neurhypnologie que os procedi-
mentos hipnóticos não determinavam absolutamente todos os fenômenos produzidos pelos magneti-
57
zadores" , evidenciando, assim, o caráter de menor eficiência destes, em termos gerais, que daquele

53
KARDEC, Allan. Introdução. In "O Livro dos Espíritos", item 1.
54
Recomendamos sejam relidos os pontos principais do Espiritismo na Introdução de "O Livro dos Espíritos", todos
registrados no seu item 6, onde se patenteiam as diferenças entre as duas ciências.
55
O Magnetismo e o Espiritismo comparados. "Revista Espírita", jun. 1867, médium Sr. Desliens, pp. 190 a 192.
56
Da Mediunidade curadora "Revista Espírita". set. 1865. p. 254.
57
JAGOT, Paul-Clement. Atualmente. In "Iniciação a Arte de Curar pelo Magnetismo Humano", cap. 5, item 7, p.
53.
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O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



outro. Por ser derivação, confundi-los é o mesmo que se cambiar a obra pelo obreiro, o efeito pela
causa.
4. Já que o magnetismo é usado no passe, isso implicará que devamos usar também o hipno-
tismo nos nossos passes?
R - De forma alguma. O Espírito Emmanuel, introduzindo André Luiz no livro "Mecanismos
da Mediunidade", enfatiza que mesmo tendo aquele estudado o hipnotismo "Para fazer mais ampla-
mente compreendidos os múltiplos fenômenos da conjugação de ondas mentais, além de com isso
demonstrar que a força magnética é simples agente, sem ser a causa das ocorrências medianímicas,
nascidas, invariavelmente, de espírito para Espírito", não recomenda. "De modo algum, a prática do
58
hipnotismo em nossos templos Espíritas" .
Completemos nossa resposta com Michaelus: "Deixemos as drogas e os tóxicos para os hipno-
tizadores e reservemos para os magnetizadores a medicina do Espírito, pois na alma se concentra to-
59
da a sua força e todo o seu poder" .
5. Mas, algumas pessoas advogam que durante ou após o passe, certos pacientes se sentem
"diferentes", como no hipnotismo.
R - Sem entrar nos aspectos espiríticos da questão, vejamos o que nos diz o renomado Dr.
Jorge Andréa: "Não pretendemos negar que a hipnose determina, realmente, inibição de centros ner-
vosos, zonas e mesmo regiões" mas, esclarece ele, "isso é uma conseqüência natural do desenvolvi-
60
mento de mecanismo hipnótico" . Não é correto, portanto, que apressadamente se infira dos fatos
do hipnotismo, sua equivalência, por suas reações (diversas, por sinal), com os passes. Mero desco-
nhecimento de causa que não justifica o equívoco. Hermínio Correia de Miranda, quando liga o
magnetismo ao hipnotismo, nos esclarece com sua síntese peculiar: "Magnetismo, a nosso ver, é a
técnica do desdobramento provocado por meio de passes e/ou toques, enquanto a hipnose ficaria
61
adstrita aos métodos de sugestão (...)" .
6. É o passe uma invenção do Espiritismo?
R - Garantimos que, em princípio, o Espiritismo nunca "inventou" nada nem tampouco "criou"
coisas usualmente a ele atribuídas. Pelas definições e menções apresentadas neste capitulo, fica evi-
dente que o passe, suas técnicas e seu conhecimento remontam à mais longínqua antiguidade. A
Doutrina Espírita apenas estudou o magnetismo e suas aplicações, estuda e continuará estudando su-
as causas e efeitos, tendo chegado a grandes conclusões, notadamente no que diz respeito ao seu uso
para o bem dos Espíritos, tanto encarnados quanto desencarnados, dando-lhes emprego sério e útil, e
incentivando sua prática dentro dos princípios cristãos e nos limites da pureza doutrinaria espírita,
62
lembrando aos seus praticantes, como o fez o Cristo: "(...) De graça recebestes, de graça dai" .
7. É o passe magia? Por quê?
R - Não. Porque o passe não se utiliza de fetichismos, não é dogmático, não compactua com
Espíritos inferiores para obtenção de favores, quer materiais, quer espirituais, nem se compromete
com ritualismos. Não incita adoração a santos ou mitos nem requer pagamentos ou oferendas. Se
nos permitimos uma definição própria, o passe é um dos veículos de que se utilizam os Bons Espíri-
tos para atender aos necessitados, de acordo com a vontade de Deus, e não para atender aos ho-
mens, segundo nossos, quase sempre, pueris caprichos e mesquinhas imposições.



58
XAVIER, Francisco Cândido, VIEIRA. Waldo. Mediunidade. In "Mecanismos da Mediunidade", pp. 15 e 16.
59
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 7, p. 56.
60
58. ANDRÉA, Jorge. Fenômenos parapsicológicos. In "Nos Alicerces do Inconsciente". cap. 4. item 2 - Hipnose,
p. 116.
61
MIRANDA. Hermínio C. In "A Memória e o Tempo". cap. 4, p. 78, v. 1.
62
Mateus, X, v. 8.
JACOB MELO 15
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



8. Como o passe, muitas vezes, usa das técnicas do magnetismo e das colocações kardequia-
nas, entendemos que tanto há fluidificação espiritual como animal (do homem) e mista, isso quer
dizer que no passe tanto há mediunismo quanto animismo?
R - Estabeleçamos primeiro que animismo não é, necessariamente, sinônimo de mistificação;
animismo é a projeção ou a manifestação do Espírito do próprio médium por seu próprio corpo ou,
ainda, o uso das energias fluídicas de si por si mesmo. Por outro lado, mediunidade existe quando há
relação entre homem encarnado e Espírito desencarnado. Por isso podemos dizer, teoricamente, que
o passe só é anímico quando o mesmo é aplicado por um magnetizador, com uso exclusivo de suas
energias vitais, sem a interferência dos Espíritos (como se isso fosse possível). Mas, pelo que nos as-
severam os Espíritos, quando respondendo a Kardec, nos asseguram que eles influem em nossos atos
e pensamentos "Muito mais do que imaginais (...) a tal ponto que, de ordinário, são eles que vos di-
63
rigem" , forçoso é concluirmos que não há magnetismo puro (quer dizer, sem intervenção espiritu-
al), assim como também não há o animismo puro. A própria definição de passe vista anteriormente
no item "2.1 - Dos Dicionários e Enciclopédias", sob a referência número 27, já nos sugere isso. E,
se não bastasse, sigamos Allan Kardec mais uma vez, quando ele pergunta aos Espíritos:
"Há, entretanto. bons magnetizadores que não crêem nos Espíritos?
"Pensas então que os Espíritos só atuam nos que crêem neles? Os que magnetizam para o bem
são auxiliados por bons Espíritos. Todo homem que nutre o desejo do bem os chama, sem dar por
64
isso, do mesmo modo que, pelo desejo do mal e pelas más intenções chama os maus" .
9. Passistas e médiuns curadores são a mesma coisa?
R - Se bem possam, em determinadas situações, se confundirem, não são necessariamente a
mesma coisa pois o passista nem sempre é um médium curador no sentido maior do termo, enquanto
que todo curador, posto que sempre usa alguma técnica de passe, é passista, ressalvando-se, contu-
do, que aqui importa distinguir passista de passista Espírita.
Quando Allan Kardec definiu médiuns curadores, disse que esses são "Os que têm o poder de
curar ou de aliviar o doente, pela só imposição das mãos, ou pela prece.
"Essa faculdade não é essencialmente mediúnica: possuem-na todos os verdadeiros crentes, se-
jam médiuns ou não. As mais das vezes, é apenas uma exaltação do poder magnético, fortalecido, se
65
necessário, pelo concurso de bons Espíritos" .
Percebemos assim que, no primeiro parágrafo, ele parece se referir ao passista espírita, en-
quanto que no segundo se referencia ao magnetizador, ao médium curador. De uma forma ou de ou-
tra, não faz grande diferença essa conceituação pois o que mais importa é a ação do passe, e Espíri-
ta, de preferência.
10. Magnetismo e magnetoterapia são a mesma ciência?
R - Não, não o são. Enquanto que o magnetismo lida com os fluidos animais (humanos), a
magnetoterapia se utiliza dos ímãs ou materiais inorgânicos portadores de magnetismo. Enquanto a
primeira se baseia no homem como fonte, a segunda tem sua base nos metais; a primeira requer,
mesmo no magnetismo puro, um bom posicionamento de moral e equilíbrio do aplicador, enquanto a
segunda, nem sempre.
11. É o magnetismo humano (animal), o mesmo dos ímãs ou do resultante das correntes elé-
tricas?
R - Não. No magnetismo humano se percebe e se constata a existência de um componente a-
nímico que não participa das outras modalidades de magnetismo. Outrossim, no magnetismo dos í-
mãs e dos oriundos dos campos energizados por eletricidade, obtêm-se padrões e quantidades invari-
63
KARDEC, Allan. In "O Livro dos Espíritos", cap. 9, questão 459.
64
KARDEC, Allan. Dos médiuns. In "O Livro dos Médiuns", cap. 14, item 176, 3ª questão.
65
KARDEC, Allan. Dos médiuns especiais. In "O Livro dos Médiuns", cap. 16, item 189.
JACOB MELO 16
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



ável e fisicamente mensuráveis, abstração feita as variações previstas e determinadas; no magnetismo
humano os valores são extremamente flexíveis e variáveis não apenas por condições físico-químicas
e orgânicas mas igualmente por influências psíquicas e espirituais.
12. Existe diferença entre passes e imposição de mãos?
R - Em termos espíritas, passes tanto pode ser entendido como o conjunto de recursos de
transferências fluídicas levadas a efeito com fins fluidoterápicos, como uma das maneiras pela qual se
faz tais transferências. No primeiro caso, a imposição de mãos seria um dos recursos; no segundo,
uma das maneiras.
Assim sendo, de forma literal, passe e imposição de mãos não são a mesma coisa; em termos
66
de uso, contudo, tem-se a imposição de mãos como uma técnica de passe . Tanto que é comum se
falar de um querendo-se dar a entender o outro.
De outra forma, observemos a ponderação de nossa contemporânea Dalva Silva Souza, em ex-
celente artigo publicado em "Reformador": "A palavra (passe) é um deverbal de passar, verbo que,
67
sem dúvida, transmite a idéia de MOVIMENTO" . Por outro lado, "imposição de mãos" já deixa
bem induzido que se trata de atitude estática, sem movimento, posto que, derivado do verbo impor,
imposição, nesse sentido, quer dizer: ato de fixar, estabelecer.

Outras dúvidas e equívocos, por certo, existirão. Mas, se não temos a pretensão de esgotar o
assunto, nos resta a certeza de que ao longo desta obra, muitas questões serão resolvidas e vários
problemas ganharão solução. Por outro lado, se novas dúvidas surgirem, como resultado da reflexão,
do estudo, da análise e do raciocínio, é sinal de que teremos alcançado um bom "primeiro porto", do
qual, após o reabastecimento em novas pesquisas, partiremos buscando, juntos, novos e promissores
horizontes, tudo em nome do Evangelho.



CAPÍTULO II - OS OBJETIVOS
DO PASSE
"E insistentemente lhe suplica: Minha filhinha está à morte;
vem, impõe as mãos sobre ela, para que seja salva, e viverá. Jesus
68
foi com ele" .

Mesmo sendo o passe uma das circunstâncias mediúnicas mais comuns nas Instituições Espíri-
tas, precisamos reconhecer, tanto pelo estudo quanto pela vivência, quais seus verdadeiros objetivos
para, a pretexto de desconhecimento de causa, não virmos amanhã a desvirtuar-lhe os fins utilizan-
do-nos de meios antidoutrinários ou então, ainda que através dos meios mais corretos, desvalorize-
mos os fins, por impertinentes. Afinal, se fazer é uma obrigação, saber fazer é um dever; e fazê-lo
correto, no tempo, momento e lugar certo, é buscar a perfeição. Não sendo outro o motivo de nosso
estágio aqui na Terra senão o de buscarmos, pelos meios ao nosso alcance, o final feliz, que é a per-
feição, reconhecemo-nos numa posição que, pelo nível, ainda nos solicitará muito esforço, trabalho,
vidas, renúncias, estudos e sacrifícios, até atingirmos o grande desiderato.
Sendo o magnetismo um dos "meios" que utilizaremos seguidamente, tomá-lo-emos tendo em
vista a manutenção do estudo do passe dentro dos limites atinentes às causas e aos efeitos fluídicos
de cura e de alívio orgânico e psíquico, além de auxiliar nos tratamentos espirituais e desobsessivos.
66
Teceremos considerações no capítulo VI adiante.
67
SOUZA, Dalva Silva de. Considerações em torno do passe. In "Reformador", jan, 1986, p. 16.
68
Marcos, V, vv. 23 e 24.
JACOB MELO 17
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Evitaremos o aprofundamento que nos levaria ao estudo da exteriorização da sensibilidade e da mo-
69 70
tricidade , bem como aos efeitos hipnóticos, aos métodos de regressão de memória e às caracte-
rísticas atinentes ao sonambulismo. Afinal, o que vamos estudar mesmo é o passe e não necessaria-
mente o magnetismo, apesar de com isso não querermos dizer que desprezaremos suas bases e técni-
cas, experiências e conclusões; muito pelo contrário, não só as utilizaremos como servirão de fun-
damental importância na sedimentação do entendimento, na efetivação de sua prática e para a expla-
nação lógica de vários pontos comuns.
71
Comecemos, então, buscando a lucidez e a objetividade do Espírito André Luiz , o qual nos
72
faz meditar com grande proveito: "O passe não é unicamente transfusão de energias anímicas . É o
equilibrante ideal da mente, apoio eficaz de todos os tratamentos (...). Se usamos o antibiótico por
substância destinada a frustrar o desenvolvimento de microorganismos no campo físico, por que não
adotar o passe por agente capaz de impedir as alucinações depressivas, no campo da alma? (...) Se
atendemos à assepsia, no que se refere ao corpo, por que descurar dessa mesma assepsia no que tan-
ge ao espírito?".
Aí encontramos André Luiz estendendo definições, com isso favorecendo-nos uma abertura
para nosso estudo: o passe "é o equilibrante ideal da mente", funcionando como coadjuvante em to-
dos os tratamentos, não só físicos, mas igualmente da alma. Por isso mesmo, os objetivos do passe
ficam bem categorizados como elementos a serem alcançados em dois campos: materiais e espiritu-
73
ais, a se refletirem no paciente , no passista e na Casa Espírita.
Corroborando com isso, encontramos Martins Peralva quando, estudando a mediunidade neste
campo especifico, nos lembra: "O socorro, através de passes, aos que sofrem do corpo e da alma, é
74
instituição de alcance fraternal que remonta aos mais recuados tempos" .
Tendo este raciocínio como ponto de partida, componhamos uma análise um tanto quanto di-
dática, distinguindo os objetivos do passe em três grupos:
1 - Em relação ao paciente;
2 - Em relação ao médium; e
3 - Em relação à Casa Espírita.

1. EM RELAÇÃO AO PACIENTE
75
O passe Espírita objetiva o reequilíbrio orgânico (físico), psíquico , perispiritual e espiritual do
paciente. Chega-se fácil a esta conclusão pela observação de que:
- quando um paciente procura o passe, ele busca, com certeza, melhora para seu comporta-
mento orgânico, psíquico e/ou espiritual, o que já representa uma afirmativa desse objetivo;
- quando os médiuns sentem-se "doando energias" e, por vezes, se fatigam após as sessões de
passes, deixam claros indícios de que houve "transferências fluídicas" em benefício do paciente;
- na comprovação das melhoras ou curas dos pacientes, novamente se confirma a tese;


69
Assuntos bem estudados por Albert De Rochas em seus livros (clássicos) "Extériorisation de la Sensibilité" e
"L'Extériorisation de la Motricité". Apenas o primeiro tem versão brasileira.
70
Assunto igualmente estudado por De Rochas ("Les Viés Successives", também não versionado).
71
XAVIER. Francisco Cândido, VIEIRA, Waldo. O passe. In "Opinião espírita", cap. 55, pp. 180 e 181.
72
Compare-se com nosso comentário acerca do equivoco existente entre animismo e mediunismo no passe, destacado
no item 4 das "Definições equivocadas", questão 8, do capítulo anterior.
73
Convencionamos chamar de "paciente" a pessoa ou o Espírito que se submete(rá) ao tratamento fluídico.
74
PERALVA, Martins. Passes. In "Estudando a Mediunidade", cap. 26, p. 142.
75
Preferimos destacar a condição psíquica para deixar claro estarmos tratando de condições mentais diferentemente
de condições espirituais.
JACOB MELO 18
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



- no estudo dos mais variados tratados e obras sobre o assunto, não há quem discorde desse
objetivo;
- e tantas outras evidências existem que não sobra margem para tergiversações.
Não se deve, porém, confundir o objetivo do passe com o seu alcance. Erroneamente é co-
mum se deduzir do fato de alguém não ter sido curado num determinado tratamento fluidoterápico,
este deixa de ter sua objetividade definida. Tal raciocínio equivaleria a se condenar a Medicina to-
mando como base os casos que não tiveram solução possível, ou se acusar um médico pelo fato de
um paciente não responder a certos medicamentos. O passe, como os medicamentos, tem seus obje-
tivos bem definidos, ainda que, por circunstâncias a serem vistas mais adiante, nem sempre sejam al-
cançados satisfatoriamente. Isso, entretanto, não os descaracterizam.
76
Angel Aguarod nos lembra que "O magnetismo, em certos estados de origem psíquica ou es-
piritual, basta e, para certos indivíduos, é o melhor agente curativo. Tanto o magnetismo humano
como o espiritual" (grifamos). É bem verdade que esta citação não contemplou os problemas orgâ-
nicos em suas palavras mas isso não toma menos digna a nota. Entrementes, quando o autor se refe-
re ao "magnetismo humano e espiritual" deixa liminarmente claro que seu entendimento reconhece a
ação do magnetizador comum e daquele que atua com o auxílio dos Espíritos, sem igualmente deixar
de lado a ação fluídica apenas por parte dos Espíritos.
Não se trata de opinião isolada; o Espírito Emmanuel assim se pronuncia: "Se necessitas de
semelhante intervenção (do passe), recolhe-te à boa vontade, centraliza a tua expectativa nas fontes
celestes do suprimento divino, humilha-te, conservando a receptividade edificante, inflama o teu co-
ração na confiança positiva e, recordando que alguém vai arcar com o peso de tuas aflições, retifica
o teu caminho, considerando igualmente o sacrifício incessante de Jesus por nós todos, porque, de
conformidade com as letras sagradas, Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e levou as nossas
77
doenças" (grifos originais). Aqui encontramos toda uma definição de objetividade; um verdadeiro
manual de orientação a quem vai se beneficiar das benesses de um passe. É a parte moral e espiritual
do passe em destaque, convidando o paciente a humildade com boa vontade, a fé com a responsabi-
lidade de saber que alguém está agindo em seu favor, pelo que o respeito e a contrição são necessá-
rios.
Para reforçar que os objetivos alcançam a área das influências Espirituais, eis a palavra de Kar-
dec: "Às vezes, o que falta ao obsidiado é força fluídica suficiente; nesse caso, a ação magnética de
78
um bom magnetizador lhe pode ser de grande proveito" .
Fica definido, desta forma, que o primeiro objetivo do passe é, para a pessoa ou para o Espíri-
to que carece e procura esse notável "agente de cura", o socorro que lhe proporciona o reequilíbrio
orgânico, psíquico, perispiritual e espiritual.

2. EM RELAÇÃO AO MÉDIUM
Numa importante mensagem do Abade Príncipe de Hohenlohe (Espírito), intitulada "Conse-
lhos Sobre a Mediunidade Curadora", encontramos farto material para a definição dos objetivos ora
epigrafados: "Em geral os que buscam a faculdade curadora têm como único desejo o restabeleci-
mento da saúde material, de obter a sua liberdade de ação de tal órgão, impedido nas suas funções
por uma causa material qualquer. Mas, sabei-o bem, é o menor dos serviços que esta faculdade está
chamada a prestar, e só a conheceis em suas primícias e de maneira inteiramente rudimentar, se lhe
conferis este único papel (...) Não: a faculdade curadora tem missão mais nobre e mais extensa! (...)
Se pode dar aos corpos o vigor da saúde, também deve dar as almas toda a pureza de que são sus-
ceptíveis, e é somente neste caso que poderá ser chamada curativa, no sentido absoluto da palavra.
76
AGUAROD, Angel. O problema da saúde. In "Grandes e Pequenos Problemas", cap. 9, item III, pp. 208 e 209.
77
XAVIER, Francisco Cândido. O passe. In "Segue-me", p. 100.
78
KARDEC, Allan. Da obsessão. In "O Livro dos Médiuns", cap. 23, item 251.
JACOB MELO 19
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



"(...) O aparente efeito material, o sofrimento, tem quase constantemente uma causa mórbida
imaterial, residindo no estado moral do Espírito. Se, pois, o médium curador se ataca ao corpo, só se
ataca ao efeito, e a causa primeira do mal continuando, o efeito pode reproduzir-se, quer sob a forma
primordial, quer sob qualquer outra aparência.
"(...) É necessário que o remédio espiritual ataque o mal em sua base, como o fluido material o
79
destrói em seus efeitos; numa palavra, é preciso tratar, ao mesmo tempo, o corpo e a alma" . (Gri-
fos originais.)
Mediante tal ponderação que mais nos parece um verdadeiro corolário, percebemos que os ob-
jetivos do passe em relação ao médium têm estreita afinidade com os definidos aos pacientes. Porém,
podemos (e devemos) entender o serviço do passe como uma tarefa muito mais ampla que a limitada
a uma simples cura material. Se os pacientes, inadvertidamente, buscam tão-só as curas de suas ma-
zelas orgânicas ou a solução de seus mal-estares, compreendamos e auxilie-mo-los. Afinal, muitos
deles, e por que não dizer a maioria, quase sempre chegam ao tratamento fluidoterápico buscando
"essas coisas" já em última instância, visto que, alegam, "fulano foi quem me recomendou" (e dizem
isso fazendo feições de desdém). Entretanto nós, os médiuns Espíritas, jamais deveremos entender
nossa ação como sendo uma mera aventura no campo da matéria e dos fluidos, buscando soluções
fantásticas e miraculosas pois, parafraseando Allan Kardec, é preciso aplicar e usar o passe como
quem lida com uma "coisa santa", tratando-o e recebendo-o de "maneira religiosa, sagrada", a fim de
seus reais objetivos, de cura material e, sobretudo, psico-espiritual, serem atingidos em sua plenitu-
de, holisticamente.
Por outro lado, aqueles que não têm a visão Espírita e restringem os objetivos dos passes as
curas materiais podem, ainda assim, favorecerem um caminho válido para comprovações presentes e
futuras de seus benefícios, notadamente quando homens ditos de ciência se pronunciam a respeito
pois, a partir do conhecimento e da verificação dos alcances das terapias chamadas "alternativas", i-
nevitavelmente um dia se chegará à conclusão da origem e da profundidade de muitas delas, resul-
tando, por extensão, num entendimento e numa aceitação mais universal do passe espírita.
Para reforço, num documentário sobre os curadores gregorianos, uma médica de Moscou, Ga-
lina Shatalova, que pratica a imposição das mãos em muitos de seus pacientes, disse que "suas tenta-
tivas de transferir "energia biológica" freqüentemente pareciam ajudar mais o paciente que o trata-
mento ortodoxo envolvendo medicina e drogas". E completou: "A Organização Mundial da Saúde
(OMS) tem-se empenhado num objetivo ambicioso - universalizar o tratamento de saúde até perto
do final do século. Para atingir esse objetivo, a OMS tinha decidido utilizar os serviços de curadores
não ortodoxos". Então, "Halfdren Mahler (1977), como diretor geral da OMS, declarou que "o trei-
namento de auxiliares de saúde, parteiras tradicionais e curadores pode parecer desagradável a al-
guns fazedores de política, mas se a solução é correta no sentido de ajudar pessoas, nós deveríamos
80
ter a coragem de insistir que esta e a melhor política" .
É deveras alvissareira essa abertura pois, mesmo pelo caminho estreito da matéria, com certeza
aportaremos nas potencialidades do Espírito e, na conjugação das forças magnéticas orgânicas com
as espirituais, o homem sairá do círculo estreito em que se encontra e o objetivo do tratamento fluí-
dico (em nosso caso particular, do passe) alcançará uma dimensão mais consentânea consigo mesmo.
Continuando, lembramos Kardec quando nos informa que "A faculdade de curar pela imposi-
ção das mãos deriva evidentemente de uma força excepcional de expansão, mas diversas causas con-
correm para aumentá-la. entre as quais são de colocar-se, na primeira linha: a pureza dos sentimen-
tos, o desinteresse, a benevolência, o desejo ardente de proporcionar alívio, a prece fervorosa e a
81
confiança em Deus; numa palavra: todas as qualidades morais" . Ou seja: além de proporcionar a


79
KARDEC. Allan. In "Revista Espírita", out. 1867, I Parte.
80
KRIPPNER. Stanley. In "Possibilidades Humanas", cap. 9, p. 239.
81
KARDEC, Allan. Médiuns curadores. In "Obras Póstumas", 1ª Parte, cap. 6, item 52.
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O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



cura ou a melhora do paciente, deve o médium se esforçar por melhorar-se moralmente, no fito de
cumprir sua tarefa dignamente e de melhor favorecer aos objetivos do passe.
Como médiuns, devemos ser conscientes de que temos no passe uma oportunidade sagrada de
praticar a caridade sem mesclas, desde que imbuídos do verdadeiro Espírito cristão, sem falar na
bênção de podermos estar em companhia de bons Espíritos que, com carinho, diligência, amor, com-
preensão e humildade se utilizam de nossas ainda limitadas potencialidades energéticas em benefício
do próximo e de nós mesmos. Ademais, não olvidemos que somos, em maioria, iniciantes na jornada
da evolução, pelo que vale a advertência de Emmanuel nos recordando que "Seria audácia por parte
dos discípulos novos a expectativa de resultados tão sublimes quanto os obtidos por Jesus junto aos
paralíticos, perturbados e agonizantes. O Mestre sabe, enquanto nós outros estamos aprendendo a
conhecer. É necessário, contudo, não desprezar-lhe a lição, continuando, por nossa vez, a obra de
82
amor, através das mãos fraternas" .
Pelo fato de ser simples, não se deve doar o passe a esmo, nem, tampouco, a fim de "dar
aparências graves" aos mesmos, alimentar idéias errôneas que induzam ao misticismo ou que venham
a criar mistérios a seu respeito. Por isso mesmo nos convida André Luiz: "Espíritas e médiuns Espíri-
tas, cultivemos o passe, no veículo da oração, com o respeito que se deve a um dos mais legítimos
83
complementos da terapêutica usual" , induzindo-nos, assim, a responsabilidade que devemos ter
como médiuns passistas Espíritas.

3. EM RELAÇÃO À CASA ESPÍRITA
O "Movimento Espírita" brasileiro é, seguramente, o mais bem estruturado e o mais atuante de
todos os movimentos espíritas graças, não obstante parcas e isoladas opiniões em contrário, ao tra-
balho da Federação Espírita Brasileira (FEB) e, em especial, do Conselho Federativo Nacional
(CFN), órgão que congrega todas as unidades federativas espíritas do país além daquela. E dessas
duas células têm surgido os mais elaborados e profícuos trabalhos de orientação em todos os campos
onde atuam ou podem atuar as Instituições Espíritas, de uma forma permanente e atualizada, sem,
todavia, jamais descurar dos princípios básicos da Doutrina Espírita nem de sua pureza doutrinária.
Permita-nos o leitor fazer um breve parêntese: infelizmente existem Espíritas que se rotulam de
"modernos" e, da mesma maneira como encontraram este adjetivo para eles próprios, buscaram os
de "conservadores e retrógrados" como sinônimos para aqueles que cuidam da doutrina com zelo e
pureza doutrinária. Pelo fato de Kardec ter vivido no século passado, esses "modernos" chamam seu
Pentateuco de "clássico", ensejando se tratar de "artigo de prateleira de museu". Embora tenhamos
aprendido a respeitar as opiniões alheias, não podemos concordar nem aceitá-las todas. E essa é uma
das que discordamos; entendemos como pureza doutrinária a fidelidade que devemos ter ao Penta-
teuco Kardequiano e o respeito a sua linha isenta de rituais, cismas e dogmas, buscando a atualidade
das coisas mas não nos entusiasmando excessivamente pelas levas sucessivas de modismos que de
tempos a tempos assola nosso meio, quase sempre destituídas de qualquer fundamentação lógica ou
doutrinária. Afinal, atualizar-se não quer dizer desprezar ou menosprezar as bases; ao contrário, sig-
nifica justapor-lhe, à essência, os avanços comprovadamente coerentes e cabíveis. Nisso tudo esta-
mos integralmente com Ary Lex, quando diz: "No movimento Espírita costuma haver uma certa
condescendência para com as pequenas deturpações, condescendência essa rotulada como tolerância
cristã. Estão errados. Tolerância deve haver para as falhas das pessoas, que devem ser esclarecidas e
apoiadas, ajudando-as a saírem do ciclo erro-sofrimento. Tolerância com as pessoas, sim, mas coni-
vência com as deturpações, jamais". E conclui acertadamente mais adiante: "É urgente e fundamental
que todos aqueles que tiveram a ventura de entender o Espiritismo lutem, dia a dia, pela manutenção
da pureza doutrinária. Que não se omitam. (...) O que não se pode permitir é que, em nome do Espi-

82
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Caminho, Verdade e Vida", cap. 153, p. 322.
83
XAVIER, Francisco Cândido, VIEIRA, Waldo. O passe. In "Opinião Espírita", cap. 55, p. 131.
JACOB MELO 21
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



84
ritismo, se pratiquem atos totalmente condenados pela Doutrina" . (Grifos originais.) Fecha parên-
teses.
Hoje possuímos um documento de rara oportunidade, resultante de uma série de reuniões,
plenárias, encontros, estudos e análises sobre o "Movimento Espírita" brasileiro, promovidos pela
85
FEB e com a participação de todas as unidades federativas espíritas do Brasil , cuja conclusão
culminou em meados do ano de 1980 - o que evidencia a atualidade do documento. É ele impresso e
distribuído pela própria FEB e tem o nome de "Orientação ao Centro Espírita - 1980", ao qual, em
mais recentes edições, foram incorporados outros mais recentes trabalhos da lavra do mesmo CFN.
Nele buscaremos algumas palavras a fim de nortear os objetivos aqui previstos.
Na apresentação do documento, item 5, observamos: "Fraternidade, respeito ao semelhante,
desinteresse utilitarista, trabalho idealista na vivência do 'amai-vos uns aos outros', tolerância e sim-
plicidade de coração, humildade de Espírito, numa palavra, a prática das virtudes evangélicas, eis o
que distingue o trabalho Espírita e caracteriza a instituição fundada e sustentada sob a inspiração do
86
Espiritismo" . Pois bem, será dentro desses padrões que consideraremos a Casa Espírita para efeito
deste livro, mesmo porque, se ela assim não se caracterizar, por si só perderá sua qualificação pri-
mordial, ainda que ostente o nome "Espírita" em sua fachada.
87
No mesmo documento temos: "A liberdade, característica da Doutrina, reflete-se na atuação
do adepto. Mas é preciso não confundir livre iniciativa individual lastreada no conhecimento adquiri-
do, com licença para fazer o que bem se entenda. O conhecimento da verdade revelada e o entendi-
mento do Evangelho, em espírito, asseguram essa liberdade e lhe traçam os limites". Mesmo consi-
derando esta assertiva em seu caráter genérico, não podemos deixar de ver suas conseqüências em
referência aos trabalhos do passe. Esse, inclusive, é mais um dos motivos por que estamos substanci-
ando este livro no conhecimento já universalizado pelos Espíritos, tão bem balizado por Allan Kar-
dec e condignamente ratificado pelos Espíritos André Luiz, Emmanuel, Bezerra de Menezes, Manoel
Philomeno de Miranda e Alexandre, entre outros.
88
No capitulo V , o Centro Espírita tem necessidade de promover reunião(ões) de assistência
espiritual onde, entre outras providências, haja a "(...) aplicação de passe e fluidificação de água, ob-
jetivando a mobilização de recursos terapêuticos do plano espiritual as pessoas carentes deste auxí-
lio". Ou seja, tem a Casa Espírita, no cumprimento de suas finalidades, a necessidade de manter um
serviço de atendimento fluidoterápico, até mesmo para dar oportunidade aos médiuns a ela vincula-
dos de servirem ao Senhor através do próximo, ao tempo em que propicia alento, orientação, reequi-
líbrio e esperança aos que lhe buscam os benefícios.
Não queremos, todavia, inferir que o serviço do passe seja a atividade mais importante da Casa
Espírita. Não, não o é. Mas sua simplicidade aliada ao seu reconfortante alcance, principalmente
quando utilizado de forma concomitante a doutrinação e a elucidação evangélico-doutrinária, é de
tamanha envergadura que não se deveria deixar jamais de praticá-lo nas Instituições Espíritas. Afinal,
no Mundo Espiritual os Mentores que orientam essas mesmas instituições formam equipes especiali-
zadas para atendimento aos encamados. Senão ouçamos André Luiz: "Em todas as reuniões do gru-
po (...) vários são os serviços que se desdobram sob a responsabilidade dos companheiros desencar-
nados. (...) Um desses serviços era o de passes magnéticos, ministrados aos freqüentadores da casa.
(...) Todas as pessoas, vindas ao recinto, recebiam-lhes o toque salutar e, depois de atenderem aos
89
encarnados, ministravam socorro eficiente as entidades infelizes do nosso plano (...)" .


84
LEX, Ary. Dos fatos a filosofia. In "Pureza Doutrinária", cap. 7, pp. 96 e 98.
85
Particularmente tivemos a honra de participar, como assessor da FERN, das duas últimas plenárias que elabora-
ram o referido documento, na sede do CFN da FEB em Brasília-DF.
86
Conselho Federativo Nacional. In "Orientação ao Centro Espírita", 1980, p. 11.
87
Idem, p. 12.
88
Ibidem, p.23.
89
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 320.
JACOB MELO 22
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



No mesmo tom, anotemos o registro que Manoel Philomeno fez das palavras do Dr. Lustoza
(Espírito): "- Como existem Prontos-Socorros para os males físicos e assistência imediata para os a-
lienados mentais em crise, já é tempo que a caridade cristã, nas Instituições Espíritas, crie serviços de
urgência fluidoterápica e de consolação para quantos se debatem nos sofrimentos do mundo, e não
têm forças para esperar datas distantes ou dias exclusivos para o atendimento. Espíritas esclarecidos,
imbuídos do sentimento de caridade, poderiam unir-se neste mister, reservando algum tempo dispo-
nível e revezando-se num serviço de atendimento caridosamente programado, a fim de mais ampla-
90
mente auxiliar-se o próximo, diminuindo a margem de aflições no mundo". . Meditemos sobre isso!
Chamamos a atenção para o fato de que a Espiritualidade, antes mesmo do inicio das ativida-
des "materiais" da Casa, já está presente e atuante, pelo que nosso respeito e reto comportamento
devem ser uma constante, notadamente nos recintos da Instituição.
Cabe ao Centro Espírita não apenas utilizar-se de seus médiuns para os serviços do passe mas
igualmente renovar os conhecimentos dos mesmos através de estudos, simpósios e treinamentos,
buscando formar equipes conscientes e responsáveis e se eximindo da limitação tão perniciosa de se
ter apenas um médium dito "especial", ou, o que não é menos grave, contar com pessoas portadoras
apenas de boa vontade ao serviço mas sem nenhum interesse em estudar, aprender ou reciclar conhe-
cimentos, limitadas, quase sempre, às práticas do "já faz tanto tempo que ajo assim" ou "meu guia é
quem me guia e ele não falha nunca". Afinal, já sabemos que tempo de prática, considerado isolada-
mente, não confere respeitabilidade ao passe, assim como a tarefa, no campo da individualidade, é do
médium e não de guias que o isente de participação e responsabilidade. Conscientizemos nossos pas-
sistas de suas imensas e intransferíveis responsabilidades pois se em todas atividades de nossas vidas
somos nós, direta e insubstituivelmente, responsáveis por nossos atos, que se há de pensar daquela
vinculada a tão nobilitante tarefa!


CAPÍTULO IV - ASSUNTOS COMPLE-
MENTARES
"Todo fenômeno edifica, se recebido para enriquecer o campo da essência.
"Quanto a nós, porém, estejamos fiéis à instrução, desmaterializando o espírito, quanto possível, para que o
91
Espírito disponha a brilhar". (Emmanuel)
"O poder criador nunca se contradiz e, como todas as coisas, o Universo nasceu criança".(Galileu - Espíri-
92
to)

A fim de assimilarmos com mais segurança certas técnicas e procedimentos, bem como para
melhor compormos raciocínios um tanto quanto mais elaborados, um conhecimento básico de alguns
temas se faz imperioso. Ditos temas, por isso mesmo, servirão como verdadeiras ferramentas, de in-
dispensável "manuseio", para se obter explicações de várias questões tidas, muitas vezes, como axi-
omáticas quando, na realidade, são racionalmente demonstráveis.
Estes assuntos, por suas complexidades e extensões, não serão aprofundados senão nos limites
das necessidades pertinentes ao bom entendimento dos capítulos seguintes, pelo que nos dispensa-
93
remos de fazermos conjecturas e demonstrações eminentemente técnicas .



90
FRANCO, Divaldo Pereira. Socorros espirituais relevantes. In "Painéis da Obsessão", cap. 26, p. 215.
91
XAVIER, Francisco Cândido. Dever espírita. In "Seara dos Médiuns", p. 123.
92
KARDEC, Allan, A criação primária. In "A Gênese", cap. 6, item 15.
93
Estes três assuntos serão aproximamente merecedores de um estudo mais aprofundando em obra que estamos tra-
balhando, com o título provisório "Fluidos, Perispírito, Centros de Força e Kundalini; uma abordagem racio-
nal".
JACOB MELO 23
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Desse modo, elegemos três "assuntos complementares" para nossa análise: Fluidos, Perispírito
e Centros de Força, cuja seqüência está calcada na grande interdependência existente entre os mes-
mos.

1 - FLUIDOS
Fluido (lê-se fluido e não fluído) é um termo genérico empregado pata traduzir a característica
"das substâncias líquidas ou gasosas", ou de substância "que corre ou se expande à maneira de um
94
líquido ou gás; fluente ". Por isso, popularmente falando, designamo-lo como sendo a fase não sóli-
95
da da matéria, a qual pode se apresentar em quatro subfases : pastosa, líquida, gasosa e radiante,
tendo sido esta última apresentada à Ciência por um dos seus mais eminentes sábios, o inglês Sir
William Crookes.
O entendimento espírita atribuído ao termo fluido, tal como criteriosamente assimilado por Al-
lan Kardec, pelos Espíritos e por todos os espíritas, não se limita a tão restrita definição. Para nós,
fluido é tudo quanto importa à matéria, da mais grosseira a mais diáfana, variando em multiplicidade
infinita a fim de atender a todas as necessidades físicas, químicas e inclusive vitais daquela, bem co-
mo de sua intermediação entre os remos material e espiritual. É o fluido não apenas algo que se mo-
ve a exemplo dos líquidos ou gases, mas a essência mesma desses líquidos, gases e de todas as maté-
rias, inclusive aqueles ainda inapreensíveis por nossos instrumentos físicos ou mesmo psíquicos.
Léon Denis, assimilando as teorias dos Espíritos, explicitou que "A matéria, tornada invisível,
imponderável, se encontra sob formas cada vez mais sutis, que denominamos fluidos. À medida que
se rarefaz, adquire novas propriedades e uma capacidade de irradiação sempre crescente; toma-se
96
uma das formas de energia ". Com este conceito, remontando das conseqüências às causas, consor-
ciava ele seu entendimento às teorias einstenianas por surgirem, chamando fluido de "uma das for-
mas de energia", assim sinalizando o avanço profundo e além-moderno dos conceitos espíritas sobre
o fluido.
Na visão do Espírito André Luiz, temos o fluido definido segundo alguns critérios mais exten-
sivos: assim, o fluido, dessa ou daquela procedência, vem a ser "(...) Um corpo cujas moléculas ce-
dem invariavelmente à mínima pressão, movendo-se entre si, quando retidas por um agente de con-
97
tenção, ou separando-se, quando entregues a si mesmas ". "Mas no plano espiritual - continua ele
--, o homem desencarnado vai lidar, mais diretamente, com um fluido vivo e multiforme, estuante e
inestancável, (...) absorvido pela mente humana, em processo vitalista semelhante à respiração, pelo
qual a criatura assimila a força emanente do Criador, esparsa em todo o Cosmo, transubstanciando-
a, sob a própria responsabilidade, para influenciar na Criação, a partir de si mesma. - Esse fluido é
98
seu próprio pensamento contínuo, gerando potenciais energéticos (...) ".
Partindo-se dessas colocações, fica fácil perceber que o fluido merece uma análise não só pro-
funda como, inclusive, que leve em consideração o plano de observação. Por extensão, convimos
que nossos conhecimentos atuais são ainda muito limitados para penetrarmos na essência desta maté-
ria. A necessidade do entendimento da ''mecânica do pensamento'' (tema atualmente estudado por
Espíritos desencarnados possuidores de conhecimentos bem avançados e evoluídos) e da própria ab-
sorção do fluido vital pela matéria são indispensáveis para o bom conhecimento de como se processa
o domínio gerador do pensamento na criação de "potenciais energéticos" no "campo fluídico" espar-
so por todo o cosmo.

94
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. "Novo Dicionário da Língua Portuguesa", p. 791.
95
Atualmente a Ciência já considera até sete subfases para a matéria.
96
DENIS, Leon. A força psíquica. Os fluidos. O magnetismo. In "No Invisível", cap. 15, pp. 175 e 176.
97
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Alma e fluidos. In "Evolução em Dois Mundos", item Fluidos em
geral, cap. 13, p. 95.
98
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Alma e fluidos. In "Evolução em Dois Mundos", item Fluido vivo,
pp. 95 e 96.
JACOB MELO 24
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Disso decorre que muita coisa ainda ficaremos por entender, mas, se por um lado coisas exis-
tem completamente ininteligíveis para nós, outro numero satisfatoriamente razoável se nos oferece
como elemento elucidativo por suas evidências e comprovações.
No que tange ao nosso entendimento dos conceitos eminentemente espíritas em face dos con-
ceitos acadêmicos observamos que parte de nossas atuais dificuldades se devem às atribuições dadas
aos fluidos, tal como foi expandido e apreendido pela Codificação, sem considerar, por desconhecer,
as teorias da física moderna, a qual criou termos novos para definir teorias e hipóteses novas, sem fa-
lar no próprio advento da Parapsicologia, da Psicotrônica e da Psicobiofísica que, por seus parapsi-
99
cólogos e pesquisadores, abriram campo no seio acadêmico às pesquisas mais aprofundadas sobre
tal elemento. Afinal, quando Albert Einstein trouxe ao mundo suas revolucionárias teorias da relati-
vidade e dos campos unificados das forças, e Plank nos trazia à consideração as teorias quânticas, a
Codificação já estava para completar seu primeiro cinqüentenário. Apesar disso, a não ser no que diz
respeito a terminologias e nomenclaturas, tudo quanto ali está expresso condiz - e vai mais além -
com os mais avançados postulados e conceitos das Ciências Modernas.
Por isso, concordamos que o termo fluido, em sua acepção normal, já não traduz exatamente o
que ele representa no texto da Codificação. Do que assimilamos das modernas teorias físicas, os
conceitos de "campos energéticos" e "campos de força" são aqueles que melhor enquadram o senti-
do que os Espíritos e Kardec quiseram emprestar ao termo fluido (pelo menos no que se refere à sua
abrangência), pois por "campo" não se entenderia uma força unilateral, mas, uma dinâmica multidi-
recional. Exemplificando, seria como quando acendemos uma vela numa sala escura; a chama, que
tem seu foco restrito e localizado, ilumina uma zona que lhe é o "campo" peculiar, não se restringin-
do esse "campo" à labareda, mas à sua ação iluminativa ou, ainda, ao alcance calórico de suas irradi-
ações térmicas.
100
Nosso confrade Mauro Quintella escreveu interessante artigo onde expressa idêntico pensa-
mento: "Modernamente, com base nas teorias quânticas e relativistas (que, como dissemos acima,
eram desconhecidas ao tempo de Kardec), a idéia de uma substância a permear o espaço, está vol-
tando a ser reconsiderada. Se for apressado dizermos que essas novas idéias correspondem inteira-
mente ao conceito espírita, pelo menos temos certeza de que alguma relação guardam entre si, dada
a semelhança entre elas e o postulado kardequiano" (parêntese nosso).
O conceito de "campo", todavia, também não será perfeito se não buscarmos fazer uma distin-
ção entre causa e efeito; como, no exemplo da vela, entre a labareda (fonte; causa) e a luminosidade
ou o calor (campo; efeito); sem isso, conforme nos sugere André Luiz, "A proposição de Einstein
(...) não resolve o problema, porque a indagação quanto à matéria de base para o campo continua
desafiando o raciocínio, motivo pelo qual, escrevendo da esfera extrafísica (...), definiremos o meio
sutil em que o Universo se equilibra como sendo o Fluido Cósmico ou Hálito Divino, a força para
101
nós inabordável que sustenta a Criação " (grifos originais). É uma colocação muito pertinente, pois
ela pinça uma situação característica de "fonte" onde temos uma marcante conceituação de "campo",
ou vice-versa.
Pelo exposto, percebemos que para tratar da causa, do fluido universal (a elementaridade, a
"fonte" da qual a matéria se origina), o conceito de "campo" se torna insuficiente e ineficiente, mas,
para atendermos aos fluidos de uma forma geral, conseqüência portanto, onde se incluem os fluidos
cósmico e vital, "campo" é a teoria mais apropriada.


99
Entendemos por "parapsicólogos" os cientistas que estudam com seriedade os fenômenos paranormais, segundo
métodos científicos, e não pessoas que se advogam como tais mas não estudam com profundidade e seriedade o
assunto, apenas interpondo, empiricamente, suas observações eminentemente pessoais, destituídas de comprova-
ções.
100
Considerações sobre o fluido cósmico universal. Correio Fraterno do ABC, edição sem data.
101
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Fotônios e fluido cósmico. In "Mecanismos da Mediunidade", i-
tem "Campo" de Einstein, cap. 3. p. 39.
JACOB MELO 25
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA




1.1 - O Fluido universal
Kardec perguntou se há dois elementos gerais no Universo: matéria e Espírito, ao que os Espí-
ritos responderam: "Sim e acima de tudo Deus, o criador, o pai de todas as coisas. Deus, espírito e
matéria constituem o princípio de tudo o que existe, a trindade universal. Mas, ao elemento material
se tem que juntar o fluido universal, que desempenha o papel de intermediário entre o Espírito e a
matéria propriamente dita, por demais grosseira para que o Espírito possa exercer ação sobre ela.
Embora, de certo ponto de vista, seja lícito classificá-lo como elemento material, ele se distingue
deste por propriedades especiais. Se o fluido universal fosse positivamente matéria, razão não have-
ria para que também o Espírito não o fosse. Está colocado entre o Espírito e a matéria; é fluido, co-
mo a matéria é matéria, e suscetível, pelas suas inumeráveis combinações com esta e sob a ação do
Espírito, de produzir a infinita variedade das coisas de que apenas conheceis uma parte mínima. Esse
fluido Universal, ou primitivo, ou elementar, sendo o agente de que o Espírito se utiliza, é princípio
sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de divisão e nunca adquiriria as qualidades que a
gravidade lhe dá".
E perguntou mais: "Esse fluido será o que designamos pelo nome de eletricidade?".
"Dissemos que ele é suscetível de inúmeras combinações. O que chamais fluido elétrico, fluido
magnético, são modificações do fluido universal, que não é, propriamente falando, senão matéria
102
mais perfeita, mais sutil e que se pode considerar independente " (grifamos).
Encontramos aí o fluido universal projetado como se os conceitos de "campo" lhe fossem sufi-
cientes. A perspicácia de Kardec, entretanto, vislumbrou se tratar de algo maior, de uma "fonte" i-
103
nestancável, verdadeiro "vórtice gerador matriz", pelo que ele "entrevistou" o Espírito São Luiz ,
obtendo deste informações de que o fluido universal é o elemento universal, "o princípio elementar
de todas as coisas e que, para o encontrarmos na sua simplicidade absoluta, precisamos ascender aos
Espíritos puros". Fica assim registrado que, além de elemento, ele é o princípio, a causa, a "fonte", o
que difere conceitual e estruturalmente das conseqüências, o "campo".
Dessa forma confirmamos que o fluido universal não pode ser conhecido totalmente por Espí-
ritos de nosso nível, pois para apreendê-lo em sua intimidade precisaríamos ascender a Espíritos pu-
ros; nem poderemos atribuir-lhe, com segurança, os conceitos de "campo" tal como frisamos, sob
pena de restringi-lo em sua verdadeira e maior função; mas podemos assimilá-lo com suficiente segu-
rança, pela exploração e pesquisa do fluido cósmico, até o ponto que as Ciências, espírita e oficial,
forem abrindo horizontes para um melhor registro e um mais perfeito entendimento.
Apresentamos, entretanto, uma definição de fluido universal que acreditamos abarca suas mais
evidentes características: O FLUIDO UNIVERSAL, como elemento cosmogônico básico, verdadeira
prima-fonte, assomando a característica de matriz funcional do grande campo criador do universo
material, com seus universos macros e micros, visíveis e invisíveis, densos e tênues, criados e por
criarem-se, irrompe conceitualmente como a unidade criacionista das forças, a síntese das energias,
o plano e o antiplano da matéria.

1.2 - O Fluido Cósmico (ou a Grande Derivação do Fluido U-
niversal)
A primeira grande derivação do fluido universal é o fluido cósmico, o fluido que enche todos
os vazios, "o meio sutil em que o Universo se equilibra" e faz com que a matéria adquira "as quali-
dades que a gravidade lhe dá", um verdadeiro "campo energético" pleno de elementos transformá-
veis, adaptáveis, expansíveis, contráteis, manipuláveis enfim.

102
KARDEC, Allan. Espírito e matéria. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1ª, cap. 2.
103
KARDEC, Allan. "Da teoria das manifestações físicas. In "O Livro dos Médiuns", cap. 4.
JACOB MELO 26
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Anotemos as palavras do Espírito André Luiz a respeito: trata-se do "Plasma divino, hausto do
Criador ou força nervosa do Todo-Sábio. Nesse elemento primordial, vibram e vivem constelações e
104
sóis, mundos e seres, como peixes no oceano ". "Nessa substância original, ao influxo do próprio
Senhor Supremo, operam as Inteligências Divinas a Ele agregadas, em processo de comunhão in-
descritível, (...) extraindo desse hálito espiritual os celeiros da energia com que constroem os siste-
105
mas da Imensidade... ". "Em análogo alicerce, as Inteligências humanas (...) utilizam o mesmo
fluido cósmico, em permanente circulação no Universo (...) assimilando os corpúsculos da matéria
com a energia espiritual que lhes é própria, formando assim o veículo fisiopsicossomático em que se
exprimem ou cunhando as civilizações que abrangem no mundo a Humanidade Encarnada e a Hu-
manidade Desencarnada. Dentro das mesmas bases, plasmam também os lugares entenebrecidos pela
purgação infernal, (...) e que valem por aglutinações de duração breve (...) Na essência, toda a maté-
ria é energia tornada visível e toda a energia, originariamente, é força divina de que nos apropria-
106
mos para interpor os nossos propósitos aos propósitos da Criação..". . (Grifamos.)
Rapidamente percebemos que André Luiz se refere, sublinearmente, aos conceitos de "cam-
po", chamando o fluido cósmico ora de "substância original", ora de "força divina". Deduz-se, por
interpolação, que os conceitos de "fonte" não foram ali considerados.
Em "A Gênese" encontramos: "A matéria cósmica primitiva continha os elementos materiais,
fluídicos e vitais de todos os universos que estadeiam suas magnificências diante da eternidade. Ela é
a mãe fecunda de todas as coisas, a primeira avó e, sobretudo, a eterna geratriz. Absolutamente
não desapareceu essa substância donde provêm as esferas siderais; não morreu essa potência, pois
que ainda, incessantemente, dá à luz novas criações e incessantemente recebe, reconstituídos, os
107
princípios dos mundos que se apagam do livro eterno . (Grifamos.)
Percebamos como inicialmente foi inserido o termo "matéria cósmica primitiva" num sentido
de "campo" e não de "fonte"; considerado foi que ela "continha os elementos materiais, fluídicos e
vitais", e não que os gerou (atente-se que gerar é diferente de criar). No momento seguinte, quando
titulada de "mãe" e "avó" a um só tempo, ficou transparente o reconhecimento de se estar lidando
com dois conceitos distintos; enquanto que a "mãe fecunda" é data imagem de "campo energético",
com suas cargas disseminadas e disponíveis à "manipulação", a "primeira avó", a "eterna geratriz"
robustece a característica de "fonte primacial", literalmente "a mãe da mãe".
Observemos que eles retratam o quadro da "geração" do "campo cósmico" na imagem da "a-
vó", e o painel auto-renovável daquela matéria cósmica quando lembra que ela "recebe, reconstituí-
dos, os princípios dos mundos que se apagam do livro eterno", alusão direta ao "tudo se transfor-
ma", ao princípio da conservação de energia.
Disso tudo que temos analisado, acreditamos estar visível que fluido - mesmo o universal - não
é Espírito nem princípio espiritual pois, em sua natureza, o Espírito é "O princípio inteligente do U-
108
niverso" ; e inteligência é atributo que o fluido não possui, além do que "A inteligência e a matéria
são independentes, porquanto um corpo pode viver sem a inteligência. Mas a inteligência só por
meio dos órgãos materiais pode manifestar-se. Necessário é que o Espírito se una à matéria animali-
109
zada para intelectualizá-la" . Assim nos dizem os Espíritos da Codificação.
Raciocinando com Kardec, o estado de eterização do fluido é considerado como o estado pri-
mitivo, normal, enquanto que o de materialização resulta das transformações daquele, ao ponto de se
apresentar como matéria tangível nos seus múltiplos aspectos. O ponto intermediário é o da trans-
104
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Fluido cósmico. In 'Evolução em Dois Mundos", cap. I, p. 19.
105
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Co-criação em plano maior. In "Evolução em Dois Mundos",
cap. I, p. 19.
106
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Co-criacão em plano maior. In "Evolução em Dois Mundos",
cap. I, p. 23.
107
KARDEC, Allan. Uranografia geral. In "A Gênese", cap. 6, item 17.
108
KARDEC, Allan. Espírito e Matéria. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1ª, cap. 2, questão 23.
109
KARDEC, Allan. Inteligência e instinto. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1ª, cap. 4, questão 71.
JACOB MELO 27
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



formação do fluido em matéria tangível, sem que se verifique, todavia, transição brusca. A cada, um
tipo de fenômeno especial; ao segundo, os fenômenos do mundo visível; ao primeiro, do invisível.
Na eterização o fluido não é uniforme; suas modificações propiciam o surgimento de fluidos distintos
que, se para os homens são invisíveis, para os Espíritos é como se materiais fossem, possibilitando,
inclusive, a "manipulação" dos mesmos por Espíritos esclarecidos. Mas, aí remata ele: "Ainda não
conhecemos senão as fronteiras do mundo invisível; o porvir, sem dúvida, nos reserva o conhecimen-
110
to de novas leis, que nos permitirão compreender o que se nos conserva em mistério" . Sem dúvida
alguma as teorias quânticas e relativistas se encontram entre ditas leis.
Uma observação, contudo, merece registro: Kardec faz referencia ao que usualmente chama-
mos de fluido espiritual. Nos adverte ele, com justa razão, que não se trata de uma qualificação exa-
ta pois os fluidos são sempre materiais, entretanto, tal nomenclatura exprime e transmite a idéia de
estarmos nos referindo aos "fluidos utilizados pelos Espíritos", pelo que se torna pertinente o uso.
Não percamos tal observação para não cairmos em desentendimentos.

1.2.1 - O Princípio e o Fluido Vital
111
É o próprio São Luiz , respondendo a Kardec, quem nos orienta:
"22. Se bem compreendemos o que dissestes, o princípio vital reside no fluido universal; dele o
Espírito extrai o envoltório semimaterial que constitui o seu perispírito e é por meio desse fluido que
atua sobre a matéria inerte.
É isso mesmo?
"Sim; isto é, ele anima a matéria por uma espécie de vida fictícia; a matéria se anima pela vida
animal (...)".
Pelas colocações do sábio São Luiz, temos confirmado que a vida vem por ação do princípio
vital, o qual, por dedução direta, é um "campo". Sendo "princípio" definido como "qualquer das
causas naturais que concorrem pata que os corpos se movam, operem e vivam"112, vemos que o
princípio vital é o "toque mágico" propiciador da vida, o "interruptor" vital que faz a interligação de
um "campo" específico chamado "fluido vital" com elemento(s) proveniente(s) de outro "campo"
(Principio Espiritual). Isto é interessante seja notado pois podemos ter, como temos, fluidos vitais
dispersos, latentes, acumulados mesmo, nos grandes campos do fluido cósmico, sem que ali se dê a
vida propriamente dita; é que aí ainda estaria faltando a "combinação" ou "interação" desses dois
campos entre si a qual só se dá ante a propiciatura ativa do "princípio vital".
Eis Allan Kardec em "A Gênese"113 a respeito: "(...) Há na matéria orgânica um princípio espe-
cial, inapreensível e que ainda não pode ser definido: o princípio vital. Ativo no ser vivente, esse
princípio se acha extinto no ser morto (...)" (grifos originais). E mais adiante ele afirma: tal princípio
é "(...) Um estado especial, uma das modificações do fluido cósmico, pela qual este se torne princí-
pio de vida (...)".
A vida, portanto, como "efeito" decorrente de um agente (princípio vital) sobre a matéria (flui-
do cósmico), tem, por sustentação, a matéria e o princípio vital em estado de interação ativa, de
forma continua. Decorrente da mesma fonte original - pois "reside" no "fluido magnético animal",
que, por sua vez, não é outro senão o fluido vital - tem, contudo, a condição peculiar de veicular o
contato com o princípio espiritual.
Assim estabelecidos, tomemos o Espírito Emmanuel quando nos diz que a força denominada
princípio vital é a "(...) essência fundamental que regula a existência das células vivas, e no qual elas

110
KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 6.
111
TEORIA DAS Manifestações Físicas - II. "Revista Espírita", jun. 1858, p. 155.
112
AULETE, Caldas. "Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa", vol. 4, p. 4.078.
113
KARDEC, Allan. Gênese orgânica In "A Gênese", cap. 10, itens 16 e 17.
JACOB MELO 28
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



se banham constantemente, encontrando assim a sua necessária nutrição, força que se encontra es-
parsa por todos os escaninhos do universo orgânico, combinada às substâncias minerais, azotadas e
ternárias, operando os atos nutritivos de todas as moléculas. O principio vital é o agente entre o
corpo espiritual, fonte da energia e da vontade, e a matéria passiva, inerente às faculdades superi-
ores do Espírito, que o adapta segundo as forças cósmicas que constituem as leis físicas de cada
114
plano de existência, proporcionando essa adaptação às suas necessidades intrínsecas" (grifamos).
Acompanhemos agora a resposta dos Espíritos dada à seguinte questão:
"Que é feito da matéria e do princípio vital dos seres orgânicos, quando estes morrem?"
"A matéria inerte se decompõe e vai formar novos organismos. O princípio vital volta à massa
donde saiu"115. Interessante resposta; enquanto a matéria bruta se recomporá através de outros orga-
nismos, o princípio vital (matéria sutil) retornará à sua "massa" original (fluido cósmico). O fluido vi-
tal, quando o organismo vive, está ativado pelo princípio vital que dá àquele e a todas as suas partes
"uma atividade que as põe em comunicação entre si, nos casos de certas lesões, e normaliza as fun-
ções momentaneamente perturbadas. Mas, quando os elementos essenciais ao funcionamento dos
órgãos estão destruídos, ou muito profundamente alterados, o fluido vital se torna impotente pata
lhes transmitir o movimento da vida, e o ser morre.
"(...)A quantidade de fluido vital não é absoluta em todos os seres orgânicos. (...) Alguns há,
que se acham, por assim dizer, saturados desse fluido, enquanto outros o possuem em quantidade
apenas suficiente.
"A quantidade de fluido vital se esgota. Pode tornar-se insuficiente para a conservação da vida,
se não for renovada pela absorção e assimilação das substâncias que o contêm.
116
"O fluido vital se transmite de um indivíduo a outro" .
Por força do que vimos dizendo, falar de princípio vital requer abordemos um outro princípio:
o espiritual, a fim de que não façamos confusão entre as duas coisas. Para elucidar com segurança,
busquemos a Codificação:
"5 - São a mesma coisa o principio espiritual e o principio vital?
"(...) Ora, desde que a matéria tem uma vitalidade independente do Espírito e que o Espírito
tem uma vitalidade independente da matéria, (.,.) essa dupla vitalidade repousa em dois princípios di-
ferentes.
"6 - Terá o princípio espiritual sua fonte de origem no elemento cósmico universal? (...)
"Se fosse assim, o principio espiritual sofreria as vicissitudes da matéria; extinguir-se-ia pela
desagregação, como o princípio vital; (...)
"7 - Admitindo-se o ser espiritual e não podendo ele proceder da matéria, qual a sua origem?
(...)
"Aqui, falecem absolutamente os meios de investigação, como para tudo o que diz respeito à
117
origem das coisas (...)" (grifamos).
Com essas seguras respostas, os Espíritos nos informam que ainda não chegamos ao nec plus
ultra, ao nada mais além. No-los afirmam que muito haverá a ser desvendado, investigado, descober-
to, trabalhado. Norteiam nosso entendimento sob vários aspectos, inclusive dando-nos uma pista que

114
XAVIÊR, Francisco Cândido. O corpo espiritual. In "Emmanuel", cap. 24, item "Através dos escaninhos do uni-
verso orgânico", p. 132.
115
KARDEC, Allan. A vida e a morte. XAVIER, Francisco Cândido. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1ª, cap. 4,
questão 70.
116
KARDEC, Allan. A vida e a morte. XAVIER, Francisco Cândido. In "O Livro dos Espíritos", Parte 1ª, cap. 4,
questão 70.
117
KARDEC, Allan. Gênese espiritual. In "A Gênese", cap. 11, item Princípio espiritual.
JACOB MELO 29
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



nos favorece entendamos por que os materialistas se sentem com razão quando atribuem ávida uma
função meramente maquinal, material; mas não remontam à gênese.
Partindo daquelas explicações, onde o princípio vital tem um significado ímpar perante a vida,
mesmo sendo fruto do fluido cósmico e não do princípio espiritual, fica fácil entendermos "a vida".
Não poderíamos esperar que o Espírito agisse independente da matéria, quando ele nela se encontra
encarnado. Sendo a matéria (corpo) o meio de expressão do Espírito, terá aquela, forçosamente, que
fornecer as condições requeridas para que este se manifeste, qualquer que seja o nível em que isto se
dê. Daí, inclusive, vermos tão profundas e estreitas ligações das potencialidades orgânicas com as
manifestações do Espírito. Mas, apesar disso, não fica nenhuma dúvida quanto à dualidade do prin-
cípio criativo pois à essência espiritual a matéria não pode negar existência (...) nem explicar jamais!
E isso aprendemos, de forma veemente, desde o tempo do Cristo: "O que é nascido da carne, é car-
ne; e o que é nascido do Espírito, é espírito"118.
Disso tudo, portanto, fica destacado que a Inteligência, o Espírito propriamente dito, se origina
de outro princípio que não é o fluido universal mas sim o Princípio Espiritual (ou Princípio Inteligen-
te Universal).
Neste ponto, podemos fazer uma síntese: (FIGURA 1)
DEUS: Pai e criador; "inteligência suprema, causa primária de todas as coisas". Dentre essas
"todas as coisas" Ele criou:
O FLUIDO UNIVERSAL: "fonte" e princípio básico de todos os fluidos, o qual derivou (e
continua a gerar) um grande campo:

DEUS
Lei: 1 g-II: 1/8
g-II:24/25
criação
Lê: 38/80/81 g-VI:15
Le: 27 Le: 79/536.b Le: 27

Princípio Inteligente Universal (PIU) Princípio Material ou Fluido Universal
ou Princípio Espiritual (PE) (FU)
Le: 23 g-Xi: 1/2/6/7 Le: 22.a/27.a g-XIV:5

Princípio Inteligente (PI) Le: 86 Fluido Cósmico (FC)
Le: 606 (589/597/597.a) Le: 25 Le: 33/94 g-V:17 e XIV:2/3
Le: 71 Le: 64
Le:540
Le: 604.a Princípio Vital (PV) Fluido Vital (FV) Matéria e Ener-
(ativado) ........ gia (passivas)
Le: 607
Le: 64.a/65 g-XI:5 Le; 45/146.a Le: 29 a 33
Le: 607.a g-VI: 18 e X: 17
Le: 78
Le: 60
ESPÍRITO Le: 86 Materia/Energia passivas
Le: 25 + FV + PVs "inativos"
Le: 76/77/82/592 Le: 71 Le: 67.a/44/46 g-X: 18
Le: 135.a
Le: 136.a Materia/Energia passivas
Le: 196.a Le: 67 + FV + PVs "ativados"
g-XI: 13 VIDA
Le: 49/61/62/63/67/140
Figura 1
118
João, III, v. 6.
JACOB MELO 30
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Seqüência evolutiva resultante dos "elementos gerais do universo", conforme verificado em "O Livro dos Espíritos"
(LE) e "A Gênese" (G) de Allan Kardec.
No quadro Fluido Vital (FV), as "partículas" ali disseminadas são, simbolicamente, os PVs "inativos" ("interruptores"
vitais).
Para destacarmos a união dos dois princípios, fizemos ressaltar uma "partícula" de PV "inativo" a fim de melhor visu-
alizarmos a interação que resulta na vida (orgânica) em todos os reinos.
O FLUIDO CÓSMICO: primeira (e talvez única) e maior decorrência do fluido universal, o
qual, além de gerar todos os universos, macros e micros, tem dentro de si mesmo um outro campo:
O FLUIDO VITAL: que é o responsável, quando "combinado" com o fluido cósmico, ou com
outras de suas derivações, através do agente chamado PRINCÍPIO VITAL segundo padrões muito
especiais, pela vida.
Voltando a DEUS, na outra grande vertente da Criação, surge:
PRINCÍPIO INTELIGENTE (UNIVERSAL): "fonte" do "elemento espiritual" que virá a ser o
Espírito Imortal; o "acionador" do P. V.

1.3 - Conhecendo o Fluido
O fluido cósmico sofre, primordialmente no estado de eterização, inúmeras modificações, po-
dendo ou não deixar de ser etéreo, vindo a formar fluidos diferentes. Não obstante a mesma origem,
tais fluidos adquirem propriedades especiais. Assim como, num processo chamado alotrópico, a
combinação de dois átomos de oxigênio é o que chamamos de oxigênio simples, enquanto a combi-
nação de três desses átomos faz com que se obtenha o ozônio, assimilamos a possibilidade da auto-
combinação poder produzir um outro elemento de padrão diferente do original sem, contudo, destru-
ir-lhe ou negar-lhe a origem. O mesmo se dá, em formas e condições bem diversas e mais ricas, com
o fluido cósmico, que não apenas se combina de maneira alotrópica mas por uma infinidade de mei-
os, físicos, psíquicos e químicos, que nem sequer vislumbramos a quantidade nem, muito menos, o
modus operandi.
"Sabemos que o fluido universal, ou fluido cósmico etéreo, representa o estado mais simples
da matéria; sua sutileza é tal que escapa a toda análise. E, entretanto, desse fluido procedem,
mediante condensações graduais, todos os corpos sólidos e pesados que constituem a base da
matéria terrestre"119. "O mundo dos fluidos, mais que qualquer outro, está submetido às leis de a-
tração. Pela vontade, atraímos forças boas ou más, em harmonia com os nossos pensamentos e
sentimentos"120 . Conhecendo essas informações, podemos assegurar que "A vontade de aliviar, de
curar, comunica ao fluido magnético propriedades curativas. O remédio para nossos males está em
nós"121. "O magnetismo, considerado em seu aspecto geral, é a utilização, sob o nome de fluido, da
122
força psíquica por aqueles que abundantemente a possuem" . (Citações de Léon Denis.)
Disso ressalta a precisão com que o fluido interfere em nossas vidas. Sua condição de afinida-
de, seu atendimento pela vontade, sua harmonização com os pensamentos e sentimentos, fornecem
elementos básicos à nossa tarefa de cura, tanto quanto ao alcance como à necessidade de nos posi-
cionarmos moralmente equilibrados para melhor podermos usufruir de suas virtudes.

1.4 - Percepção - Assimilação
"Os elementos fluídicos do mundo espiritual escapam aos nossos instrumentos de análise e à
percepção dos nossos sentidos, feitos para perceberem a matéria tangível e não a matéria etérea. Al-

119
DENIS, Léon. In "No Invisível", cap. 20, p. 280.
120
DENIS, Léon. In "No Invisível", cap. 15, p. 184.
121
DENIS, Léon. In "No Invisível", cap. 15, p. 181.
122
DENIS, Léon. In "No Invisível", cap. 15, p. 180.
JACOB MELO 31
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



guns há, pertencentes a um meio diverso a tal ponto do nosso, que deles só podemos fazer idéia me-
diante comparações tão imperfeitas como aquelas mediante as quais um cego de nascença procura
fazer idéia da teoria das cores.
"Mas, entre tais fluidos, há os tão íntimamente ligados à vida corporal, que, de certa forma,
pertencem ao meio terreno. Em falta de comparação direta, seus efeitos podem observar-se, como se
observam os fluidos do ímã (..,)"123. (Kardec.)
Dessas palavras deduzimos que muito acerca de fluidos só poderemos alcançar através da per-
cepção sub-reptícia, quer tátil, quer intuitiva, ou então por dedução lógica e filosófica; entretanto, fa-
to é que eles existem e que sua teorização não se estriba apenas em matéria impalpável tal qual eles,
em sua maioria, o são. Seus efeitos são sentidos, percebidos, medidos alguns e evidenciados sempre,
seja pela pujança do fato, seja pela dedução do mesmo, pelo que nos compete o estudo sério e apro-
fundado.
124
O pensar metaboliza o fluido cósmico, plasmando as imagens geradas pela mente, sendo,
por isso mesmo, uma força criadora. O fluido vital não é mero produto mental, pois, se assim o fos-
se, as plantas e os animais não o possuiriam, posto que, não pensam.
Mas, isso não diz que esse fluido não seja afetado pelo impulso mental; é, e não é pouco! Pela
maleabilidade e impressionabilidade dos fluidos, nosso vetor moralidade exerce forte ponderação nos
destinos que lhes são decorrentes. Isto podemos confirmar numa colocação do Espírito Aulus quan-
do explanava sobre o sistema de defesa espiritual de um médium moralmente equilibrado: "Quanto
aos fluidos de natureza deletéria, não precisamos temê-los. Recuam instintivamente ante a luz espiri-
tual que os fustiga ou desintegra. (...). Os raios luminosos da mente orientada para o bem incidem
125
sobre as construções do mal, à feição de descargas elétricas" . Esta colocação, inclusive, responde
às duvidas muito comuns sobre o destino dos fluidos que são dispersados por ocasião dos passes.
Notemos que a moralidade elevada exerce verdadeira desintegração sobre os fluidos nocivos, não al-
cançando estes, portanto, aquele que se exercita nas práticas morais do Evangelho de Jesus, inclusive
através do passe.
Concluímos, portanto, que podemos perceber os fluidos através de nosso próprio referencial;
nosso ambiente mental definirá a camada fluídica que nos rodeia e que de nós emana, em favor ou
contra o próximo. Como o fluido se comporta segundo a lei de afinidade, fácil percebermos tanto o
ambiente fluídico que nos envolve como nos é favorecida sua assimilação, segundo idênticos crité-
rios.

1.5 - Propriedades Físicas
Retomando a "A Gênese", de Allan Kardec, ficamos sabendo que os Espíritos atuam sobre os
fluidos espirituais, que são os fluidos etéreos, não manipulando-os como os homens manipulam os
gases, mas empregando, sobremaneira, o pensamento e a vontade. Por estes, e aqui relembramos a
plasticidade dos fluidos etéreos, imprimem àqueles fluidos tal ou qual direção, aglomerando-os,
combinando-os, dispersando-os, organizando com eles conjuntos que constituem uma aparência,
uma forma, uma coloração determinadas; mudam-lhes as propriedades, como um químico muda a
dos gases e de outros corpos e substâncias, fazendo-os agirem e interagirem segundo certas leis.
Os fluidos não possuem qualidades "sui-generis"; as adquirem no meio onde se elaboram; mo-
dificam-se pelos eflúvios desse meio. Portanto, dizendo-se que tal fluido é bom ou mal, nos referi-
mos ao "produto final" e não a sua generalidade. O fluido cósmico é puro e suas derivações são pro-
duto das "manipulações", em níveis e padrões variados ao infinito. Os fluidos derivados são mais ou

123
KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 4.
124
Pensar (atributo do Espírito), como verbo, traduz ação. Pensamento, substantivo, produto do pensar. Neste senti-
do é que estamos usando os termos.
125
XAVIER, Francisco Cândido. Psicofonia sonambúlica. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 8, p. 49.
JACOB MELO 32
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



menos úteis, para tais ou quais casos, sendo excelentes para certos usos e sofríveis para outros. O
uso e a assimilação que se tenha dos fluidos é que também podem repercutir. Podemos ter um fluido
"fino", bastante rarefeito, proveniente de uma fonte "elevada", mas que, para determinado tratamen-
to, seria preferível um fluido mais material, mais denso, pelo que aquele se tornaria menos eficiente
que este. De outra forma, seríamos levados a crer que os fluidos teriam personalidades próprias; não
as tem, são fluidos, são matéria. Suas qualidades são produtos das "manipulações" mentais, psíqui-
cas, espirituais, ainda que com profundas repercussões físicas.
Do ponto de vista moral, os fluidos trarão impressos em si mesmos, pelas vibrações especiais
que se lhes agregam, o cunho dos sentimentos de ódio, inveja, ciúme, orgulho, egoísmo, violência,
hipocrisia, bondade, benevolência, amor, caridade, humildade, doçura, afeto e carinho, com que ve-
nham a ser laborados.
No caso do fluido magnético, conforme nos assevera Michaelus, sabemos que ele, "Por si só,
não apresenta nenhuma propriedade terapêutica, mas age principalmente como elemento de equilí-
brio. De sorte que o desequilíbrio (...) dos fluidos magnéticos que envolvem todos os órgãos do cor-
po humano acarreta a desordem nas funções desses órgãos e, daí, a caracterização do que chamamos
doença. Todas as vezes, portanto, que se rompe o equilíbrio, quer por excessiva condensação ou
concentração, quer por excessiva dispersão de fluidos, cumpre restabelecê-lo e, daí, a cura"126.
Com esta colocação Michaelus desmistifica o fluído, mesmo o magnético. Sua propriedade bá-
sica no fenômeno das curas é o do restabelecimento do equilíbrio fluídico, através da mudança fluídi-
ca que está a gerar o fator doença.

1.6 - Os Fluidos no Magnetismo
Vamos, sucintamente, registrar as observações feitas por Michaelus, a partir de diversos mag-
netizadores (Deleuze, Aubin Gauthier, Du Potet e Ed. Bertholet, entre outros), e que importam ao
magnetismo. Para não nos estendermos demasiadamente, aditaremos alguns breves comentários, co-
locando-os entre parênteses.
"1.- O fluido magnético, que se nos escapa continuamente, forma em torno do nosso corpo
uma atmosfera. Não sendo impulsionado pela nossa vontade, não age sensivelmente sobre os indiví-
duos que nos cercam (...) (Observemos como a vontade tem um valor preponderante nas chamadas
fluidificações ou influências fluídicas. Por outro lado, como toda regra tem exceção - diz a regra --,
casos há em que pela excessiva sensibilidade alguém pode sentir e registrar as emanações fluídicas de
uma outra pessoa, sem que seja necessariamente acionado o dispositivo da vontade do emissor; são
os sensitivos em ação.)
"2.- O fluido penetra todos os corpos animados e inanimados.
"3.- O fluido possui um odor, que varia segundo o estado de saúde física do indivíduo, dos
seus dotes morais e espirituais, e do seu grau de evolução e pureza. (...) O odor e a coloração do
fluido estão na razão direta do estado de evolução da alma ou do Espírito (...) (Portanto, nada de se
pensar que apenas as condições físicas interessam à economia fluídica do indivíduo.)
"4.- O fluido é visto pelos sonâmbulos como um vapor luminoso, mais ou menos brilhante (...)
(Regra geral mas não única.)
"Os meios onde superabundam os maus Espíritos são, pois, impregnados de maus fluidos (...)
"5.- O fluido magnético não é o fluido elétrico (...)
"6.- O fluido se propaga a grandes distâncias, o que depende, entretanto, da qualidade e da
força do magnetizador, e igualmente da maior ou menor sensibilidade magnética do paciente. (Por
"força do magnetizador" entenda-se "força fluídica" e não física.)
126
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 10, p. 80.
JACOB MELO 33
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



"7.- O fluido está também sujeito às leis de atração, repulsão e afinidade (...) (Isto explica mui-
tos problemas verificados nas aplicações de passes e nas fluidoterapias em geral.)
"8.- Precisamente porque o fluido varia de indivíduo a indivíduo, é de notar-se que certos
magnetizadores têm mais facilidade em curar determinadas moléstias do que outras. (...) Convém
não esquecer que, além do fluido propriamente humano, outros fluidos, dotados de diferentes pro-
priedades, que ainda não conhecemos, poderão intervir na ação magnética (...) (Parece que os mag-
netizadores queriam falar na ação dos Espíritos. Constatamos que certos médiuns não têm grande
força ou impulsão magnética de per si, mas, passam a produzir com fartura quando submetidos à as-
sistência Espiritual evocada e consentida, confirmando como a ação da parte dos Espíritos não só é
de grande proveito, mas, diríamos, indispensável.)
"9.- O estado atmosférico pode de certo modo aumentar ou diminuir a intensidade do fluido e,
portanto, a eficácia da magnetização (...) (Esta observação não faz muito sentido por dois motivos:
quando lidamos com fluidos espirituais, estes não se comportam exatamente como os magnéticos,
nem quando aplicados em sua forma mista; por outro lado, magnetizadores contemporâneos com-
provaram que tais estados atmosféricos não influem no magnetismo animal, como o evidencia a ação
da fluidoterapia a distância.)
"10.- A quantidade de fluido não é igual em todos os seres orgânicos, variando segundo as es-
pécies, e não é constante, quer em cada indivíduo, quer nos indivíduos de uma espécie (...)
"11.- São extremamente variados os efeitos da ação fluídica sobre os doentes, de acordo com
as circunstâncias. Algumas vezes é lenta e reclama tratamento prolongado; doutras vezes é rápida,
como uma corrente elétrica. (...) Os fluidos que emanam de uma fonte impura são quais substâncias
medicamentosas alteradas.
"12.- A ligação entre o fluido magnético e os corpos que o recebem é tão íntima que nenhuma
força física ou química pode destruí-lo. Os reativos químicos e o fogo nenhum efeito têm sobre ele
(...) (Mas o efeito da moralidade ou da falta dela são incontestáveis.)
"Donde se conclui que há muito pouca analogia entre os fluidos imponderáveis que os físicos
conhecem e o fluido magnético.
"13.- Por último, não é demais repetir que o magnetismo ensaia os seus primeiros passos e que
muito pouco sabemos sobre o seu principal veículo do fluido, e que só o estudo e a experimentação
poderão um dia descortinar o vasto e ilimitado caminho a percorrer"127. (Esta é a parte mais óbvia
disso tudo, mas, infelizmente, poucos têm dado a atenção que é devida a tão fascinante estudo.)
Ao final, queremos ressalvar que nem tudo o que é bom e certo para o Magnetismo, como Ci-
ência, o é igualmente para os passes, como prática espírita, pelo que vale termos em mente o cuidado
para não tomarmos a especificidade daquele pelo geral das Leis deste, ou a generalidade do Magne-
tismo pelas particularidades do passe Espírita.

2. PERISPÍRITO
"Envolvendo o gérmen de um fruto, há o perisperma; do mesmo modo, uma substância que,
por comparação, se pode chamar perispírito, serve de envoltório ao Espírito propriamente dito"
128
(Allan Kardec) .


2.1 - Definição


127
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 6, pp. 46 a 50.
128
KARDEC, Allan. Perispírito. In "O Livro dos Espíritos", Parte 2ª, cap. 1, questão 93.
JACOB MELO 34
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Por ter sido o termo criado pelo Espiritismo, ninguém melhor que Kardec para o definir: peris-
pírito "(...) É o traço de união entre a vida corpórea e a vida espiritual. É por seu intercâmbio que o
Espírito encarnado se acha em relação contínua com os desencarnados; é, em suma, por seu inter-
médio, que se operam no homem fenômenos especiais, cuja causa fundamental não se encontra na
matéria tangível e que, por essa razão, parecem sobrenaturais.
(...) O perispírito é o órgão sensitivo do Espírito, por meio do qual este percebe coisas espiri-
tuais que escapam aos sentidos corpóreos. (...) O Espírito vê, ouve e sente, por todo o seu ser, tudo
129
o que se encontra na esferaa de irradiação do seu fluido perispirítico" (grifos originais).
Deslindando as palavras de Kardec, Leon Denis nos diz que "O perispírito é, pois, um orga-
nismo fluídico; é a forma preexistente e sobrevivente do ser homano, sobre a qual se modela o envol-
130
tório carnal, como uma veste dupla, invisivel, constituída de matéria quintessenciada (...)"
Modernamente já existe uma busca de adaptação de termos para aplicar os conceitos espíritas
de perispirito aos conhecimentos da Ciência (ou vice-versa) mas, como ocorreu quando estudávamos
fluidos, ainda que a necessidade se faça sentida e mesmo reconhecendo que precisamos conhecer os
porquês atuais que envolvem a questão, não carece modifiquemos nossa nomenclatura pois ela defi-
ne para nós, com largueza, tudo aquilo que a Academia Parapsicológica chama de "corpo bioplásmi-
co" (Escola russa) ou "modelo organizador biológico" (Escola brasileira), mesmo porque o corpo
espiritual, como convencionou chamalo André Luiz131, é um corpo maior que esses dois, os quais es-
tão, diríamos, contidos nele. Este, inclusive, é o racioclnio que inferimos das palavras do eminente
Dr. Hernani Guimarães Andrade: "O corpo bioplásmico dos soviéticos é o constituinte fronteiriço,
material, fisiológico, capaz de sofrer a ação dos campos eletrodinâmicos do corpo espiritual. (...) Pe-
rispírito e corpo bioplásmico são, portanto, duas entidades distintas, embora conjugadas no processo
132
biológico enquanto dura a vida orgânica" . Afinal, sem querermos aqui debater tais pesquisas e re-
conhecendo a seriedade com que elas se revestem e os frutos já razoavelmente amadurecidos que
nos têm dado, a terminologia kardequiana nos soa mais agradável, mais familiar e mais abrangente.

2.2 - O Que É
"135. Há no homem alguma outra coisa além da alma e do corpo?
"Há o laço que liga a alma ao corpo.
"a) De que natureza é esse laço?
"Semimaterial, isto é, de natureza intermédia entre o Espírito e o corpo. É preciso que seja as-
sim para que os dois se possam comunicar um com o outro. Por meio desse laço é que o Espírito a-
tua sobre a matéria e reciprocamente"133.
Esse "laço" a que os Espíritos se reportam é o perispírito. Ele, também chamado por Kardec
de "corpo fluídico dos Espíritos", "é um dos mais importantes produtos do fluido cósmico; é uma
condensação desse fluido em torno de um foco de inteligência ou alma". E continua: "Já vimos que
também o corpo carnal tem seu principio de origem nesse mesmo fluido condensado e transformado
em matéria tangível. No perispírito, a transformação molecular se opera diferentemente, porquanto o
134
fluido conserva a sua imponderabilidade e suas características etéreas" .



129
KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 22.
130
DENIS, Léon. O perispírito ou corpo espiritual. In "Depois da Morte", cap. 21, pp. 174 e 175.
131
Vide introdução do livro "Evolução em Dois Mundos".
132
ANDRADE, Hernani Guimarães. Corpo Bioplásmico e Perispírito. In "Espírito, Perispírito e Alma", cap. 1, item
Corpo espiritual, p. 10.
133
KARDEC, Allan. A Alma. In "O Livro dos Espíritos", Parte 2ª.
134
KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 7.
JACOB MELO 35
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



135
No dizer de Jorge Andréa, ele é "um corpo sutil, extremamente poroso e plástico" mas, na
síntese de Léon Denis, descobrimos mais informações: "não é imutável; depura-se e enobrece-se com
a alma; segue-a através das suas inumeráveis encarnações; com ela sobe os degraus da escada hierár-
quica, torna-se cada vez mais diáfano e brilhante para, em algum dia, resplandecer com essa luz radi-
136
ante de que falam as Bíblias (antigas) e os testemunhos da História (...)" .
Tendo bebido parte de seus conhecimentos na mesma fonte, Gabriel Delanne assim se expres-
sa: "Alma e perispírito formam um todo indivisível, constituindo, no conjunto, as partes ativa e pas-
siva, as duas faces do princípio pensante. O invólucro é a parte material, a que tem por função reter
todos os estados de consciência, de sensibilidade ou de vontade; é o reservatório de todos os conhe-
cimentos, e, como nada se perde na natureza, sendo o invólucro indestrutível, a alma tem memória
integral quando se encontra no espaço.
"O perispírito é a idéia diretora, o plano imponderável da estrutura orgânica. É ele que arma-
zena, registra, conserva todas as percepções, todas as volições e idéias da alma. E não somente in-
crusta na substância todos os estados anímicos determinados pelo mundo exterior, como se constitui
a testemunha imutável, o detentor indefectivel dos mais fugidios pensamentos, dos sonhos apenas
entrenstos e formulados.
"É, enfim, o guardião fiel, o acervo imperecivel do nosso passado. Em sua substância in-
cormptível, fixaram-se as leis do nosso desenvolvimento. Tomando-o, por excelência. o conservador
137
de nossa personalidade, por isso que nele é que reside a memória" . Bem se percebe que esta visão
nada tem de periférica; vai ao âmago da questão e amplia os campos de entendimento sobre tão fas-
cinante "veículo"
Uma ressalva, contudo, merece ser considerada: existe uma linha de raciocínio que trata o pe-
rispírito como um "campo" restrito, uma unidade sem qualquer outra atribuição que não a de apenas
e tão-só ligar, literalmente, o Espírito ao corpo. Quem aprofunde seus estudos em Kardec, todavia,
verá que sua síntese perfeita não se contrapõe a uma visão mais ampla do perispírito. Buscando uma
analogia,é vulgar se afirmar que no cérebro estão arquivadas as informações conscientes e inconsci-
entes do homem. Com isso expressamos uma "meia verdade" que, a nível de estudos e pesquisas ci-
entíficas, é satisfatoriamente comprovada. Daí, entretanto, a se querer dizer que é o cérebro que pen-
sa, vai uma larga distância. Bem se vê que quem assim se reporta está tratando do órgão em sua fun-
ção intrínseca, pelo que se abstrai a evidência maior do ser pensante, o Espírito. De outra forma, o
perispírito, como o corpo, pertencem ao Espírito, e não este àqueles. Por isso, mesmo sendo o mais
certo se afirmar categoricamente que o Espírito é o único detentor de todas as potencialidades e ar-
quivos de sua individualidade espiritual, não estamos necessariamente errados quanda atribuímos ao
perispírito - e ao corpo - capacidades e funções que, em essência, são da Matriz, do "gérmen", do
Espírito, pois que são viabilizadas pelas funções destes. É nesse sentido que entendemos e concor-
damos com as atribuições essencialmente espirituais designadas ao corpo espiritual.
Exemplificando, tomemos algumas palavras do Espírito Emmanuel em seu livro "Dissertações
Mediúnicas", as quais atribuem certas funções ao perispírito,e que podem ser bem assimiladas den-
tro, da característica que frisamos:
"O ORGANISMO FLUÍDICO, caracterizado por seus elementos imutáveis, é o assimilador
das forças protoplásmicas, o mantenedor da aglutinação molecular que organiza as configurações tí-
picas de cada espécie, incorporando-se, átomo a átomo, à matéria do germe e dirigindo-a, segundo a
sua natureza particular".
"O CORPO ESPIRTUAL não retém somente a prerrogativa de constituir a fonte da misteriosa
força plástica da vida, a qual opera a oxidação orgânica; é também ele a sede das faculdades, dos

135
ANDRÉA, Jorge. Perispírito ou Psicossoma. In "Correlação Espírito Matéria", pp. 19 a 23.
136
DENIS, Leon. O perispírito ou corpo espiritual. In "Depois da Morte", cap. 21, p. 175.
137
DELANNE, Gabriel. A vida, resumo. In "Evolução Anímica", cap. 1, p. 55.
JACOB MELO 36
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sentimentos, da inteligência e, sobretudo, o santuário da memória, em que o ser encontra os elemen-
tos comprobatórios da sua identidade, através de todas as mutações e transformações da matéria".
"É ainda, pois, ao CORPO ESPIRITUAL que se deve a maravilha da memória, misteriosa
chapa fotográfica, onde tudo se grava, sem que os menores coloridos das imagens se confundam en-
tre si".
"É, pois, o CORPO ESPIRITUAL a alma fisiológica, assimilando a matéria ao seu molde, à
sua estrutura, afim de materializar-se no mundo palpável"138.
Fazendo rápidos comentários, vimos que:
1. O perispírito é mutável, posto que evolucionário e adaptável a cada orbe; portanto, quando
Emmanuel fala de "seus elementos imutáveis", refere-se ele aos caracteres adquiridos pelo Espírito
ao longo de sua evolução, e estabilizados na "forma fluídica" para efeito de plasmagem do corpo
psicofísico.
2. O perispírito provém do fluido cósmico, pelo que é material; por ser material, não pode pro-
duzir o pensamento, atributo do Espírito. Pode, todavia, arquivá-lo, assim como uma fita magnética
grava vozes, sons, imagens, dados, etc. Quando, portanto, Emmanuel lhe atribui capacidades de ar-
quivos e sede, com certeza se refere às características do Espírito se refletindo no perispírito, já que
este é o veiculador das atividades e potencialidades daquele outro; seria o perispírito uma espécie de
"videogravador" do Espírito.
3. Não há discordância entre o que Emmanuel e muitos outros dizem do perispírito, com o que
registrou Kardec na Codificação; quando Emmanuel se reporta ao corpo espiritual como "a alma fi-
siológica" do Espírito, deixa claro, seu entendimento funcional do perispírito.
As palavras do assistente Calderaro, na importante obra "No Mundo Maior", só fazem sentido
se observarmos as particularidades do perispírito segundo uma ótica mais rica e pormenorizada: "Es-
se organismo, constituído, embora, de elementos mais plásticos e sutis, ainda é ediflcio material de
retenção da consciência"139.

2.2.1 - Como Tem Sido Conhecido e Chamado
O Espírito Joanna de Ângelis nos apresenta um resumo histórico deste tema, de quem tomare-
mos nossas informações:
"Conhecido pelos estudiosos, desde a mais remota antiguidade, há sido identificado numa ga-
ma de rica nomenclatura, conforme as funções que lhe foram atribuídas. nos diversos períodos que
duravam as investigações.
"Desde as apreciáveis lições do Vedanta quando apareceu como Manu, maya e Kosha, era co-
nhecido no Budismo esotérico por Kama-rupa, enquanto no Hermetismo egípcio surgiu na qualida-
de de Kha, para avançar, na Cabala hebraica, como manifestação de Rouach. Chineses, gregos e la-
tinos tinham conhecimento da sua realidade, identificando-o seguramente. Pitágoras, mais afeiçoado
aos estudos metafísicos, nominava-o carne sutil da alma, e Aristóteles, na sua exegese do complexo
humano, considerava-o corpo sutil e etéreo. Os neoplatônicos, de Alexandria, dentre os quais Oríge-
nes, o pai da doutrina dos Princípios, identificava-o como aura; Tertuliano, o gigante inspirado da
Apologética. nele vai o corpo vital da alma, enquanto Proclo o caracterizava como veículo da alma,
definindo cada expressão os atributos de que o consideravam investido.
"Na cultura modema, Paracelso, no século XVI, detectou-o sob a designação de corpo astral,
refletindo as pesquisas realizadas no campo da Química e no estudo paralelo da Medicina com a Fi-
losofia, em que se notabilizou Leibniz, logo depois, substituindo os conceitos panteístas de Spinoza

138
JORGE, José. In "Antologia do Perispírito", p. 160.
139
XAVIER, Francisco Cândido. Mediunidade. In "No Mundo Maior", cap. 9, p. 128.
JACOB MELO 37
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pela teoria dos "átomos espirituais ou mônadas", surpreendeu-o, dando-lhe a denominação de corpo
fluídico.
"(...) Perfeitamente consentâneo aos últimos descobrimentos, nas experiências de detecção por
efluvioscopia e efluviografia, denominado corpo bioplásmico, o Apóstolo Paulo já o chamava corpo
espiritual, conforme escreveu aos coríntios (I epístola, 15:44), corpo corruptível. logo depois, na
mesma Epístola, v. 53, ou alma, na exortação aos companheiros da Tessalônica (I Epístola. 5:23),
sobrevivente à morte"140 (grifos originais).

2.2.2 - Sua Formação
"8. - Do meio onde se encontra é que o Espírito extrai o seu perispirita, isto é, esse envoltório
ele o forma dos fluidos ambientes. (...)
"9.- A natureza do envoltório fluídico está sempre em relação com o grau de adiantamento
moral do Espírito. Os Espíritos inferiores não podem mudar de envoltório a seu bel-prazer, pelo que
não podem passar, à vontade, de um mundo para outro (...).
"10.- A camada de fluidos espirituais que cerca a Terra se pode comparar às camadas inferio-
res da atmosfera, mais pesadas, mais compactas, menos puras, do que as camadas superiores. (...) Os
efeitos que esses fluidos produzem estarão na razão da soma das partes puras que eles encerram. (...)
"Os Espíritos chamados a viver naquele meio tiram deles seus perispiritos; porém, conforme
seja mais ou menos depurado o Espírito, seu perispírito se formará das partes mais puras ou das
mais grosseiras do fluido peculiar ao mundo onde ele encarna. O Espírito produz aí, sempre por
comparação e não por assimilação, o efeito de um reativo qufmico que atrai a si as meléculas que a
sua natureza pode assimilar.
"Resulta disso este fato capital: a constituição íntima do perispirito não é idêntica em todos os
Espíritos encarnados ou desencarnados que povoam a Terra ou o espaço que a circunda. O mesmo
já não se dá com o corpo carnal(...)
"Também resulta que: o envotório perispiritico de um Espírito se modifica com o progresso
moral que este realiza em cada encarnação, embora ele encarne no mesmo meio; que os Espíritos
Superiores, encarnados excepcionalmente. ern missão, num mundo inferior, têm perispírito menos
141
grosseiro do que o dos indígenas desse mundo" (grifos originais).
Estas conclusões de Kardec demonstram a profundidade com que se reveste o assunto. Vale
refletirmos nas extensões daí decorrentes.

2.3 - Três Particularidades
Dentro de um universo de particularidades que envolvem o perispírito, três merecem detenha-
mos um pouco nossa atenção.

2.3. 1 - O Cordão Fluídico
Toda literatura religiosa de todos os povos tem registros de um "cordão de prata" que liga o
Espírito ao corpo, normalmente só visivel em ocasião de desprendimentos ou desligamentos. O que
seria então esse cordão, seria uma outra coisa que não o perispírito?
A lógica e as evidências nos têm demonstrado que se trata de uma particularidade do perispíri-
to. O cordão fluídico funciona, para nos servirmos de uma comparação, como o cordão umbilical pa-
ra o feto. É um "laço" prendendo o corpo espiritual ao corpo físico, só que extremamente flexível e
140
FRANCO, Divaldo Pereira. Perispírito. In "Estudos Espíritas", cap. 4, pp. 40 e 41.
141
KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 7.
JACOB MELO 38
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expansível, o qual serve para manter o Espírito jungido ao corpo. Tanto que, dito cordão serve para
nos identificar no plano espiritual como encarnados quando para ali vamos em "desprendimento".
Esta, inclusive, é uma observação do próprio Kardec, que acrescenta: "Por meio dessa comunicação
entre o Espírito e o corpo, é que aquele recebe aviso, qualquer que seja a distância a que se ache do
segundo, da necessidade que este possa experimentar da sua presença, caso em que volta ao seu in-
vólucro com a rapidez do relâmpago. Daí resulta que o corpo não pode morrer durante a ausência
do Espírito e que não pode acontecer que este, ao regressar, encontre fechada a porta, conforme hão
dito alguns romancistas (...)"142
Kardec faz dois registros bem interessantes: "Meu Espírito se destaca um pouco de meu corpo,
mas é como um balão cativo, preso pelas cordas. Quando o balão recebe solavancos, produzidos pe-
lo vento, o poste onde está amarrado sente a comoção dos abalos, transmitidos pelas amarras. Meu
corpo representa o poste para o meu Espírito, com a diferença que experimenta sensações desconhe-
cidas do poste e que tais sensações fatigam bastante o cérebro". (Resposta dada por um Espírito en-
carnado evocado, sobre a questão do sofrimento do corpo. )
Depois ele relata que havia na Inglaterra "(...) um médium vidente, dotado de grande força
que, toda vez que se apresentava o Espírito de um vivo, notava um fio luminoso, partindo do peito,
através do espaço, não interrompido por qualquer obstáculo material, e que ia terminar no corpo; era
uma espécie de cordão umbilical, que unia as duas partes momentaneamente separadas do ser vivo.
Nunca o observou quando não havia vida corpórea. Era assim que reconhecia se o Espírito era de
um morto ou de um vivo"143.
No Antigo Testamento também temos evidências: "Lembra-te do teu Criador nos dias da tua
mocidade, antes que venham os maus dias (...)
"(...) Antes que se rompa o fio de prata. e se despedace o copo de ouro, e se quebre o cântaro,
junto à fonte, e se desfaça a toda junto ao poço,
"e o pó volte a terra, como o era (...)"144 (grifamos). Parece muito clara a referência ao cordão
fluídico.

2.3.2 - O Duplo Etérico
Quando o Dr. Jorge Andréa estuda o perispírito no seu "Forças Sexuais da Alma", considera
que "Não poderíamos deixar de aventar as possibilidades da existência de um campo energético a-
propriado. entre o perispírito e o corpo físico, o duplo etérico. Seria uma zona vibratória ocupando
posição de destaque em face dos fenômenos conhecidos de materialização. Acreditamos que o cam-
po energético dessa zona, em suas expansões com a do perispírito, se entreIalace nas irradiações do
campo físico e forneça excelente material na formulação dos fenômenos psicocinéticos e outros tan-
tos dessa esfera parapsicológica. Com isso, poderíamos explicar muitas das curas que os chamados
passes magnéticos podem propiciar, em autênticas transfusões de energias - expansões da aura hu-
145
mana" . Concordamos com sua hipótese, aditando que podemos considerar o duplo etérico como
uma extensão do perispírito e não necessariamente um agente destacado e independente daquele; se-
ria como que uma das "capas" do perispírito que, por suas funções de interligação do perispírito
propriamente dito com o corpo físico, retém uma maior quantidade fluídica de consistência ogano-
molecular (fisiológica) que psíquica. Entretanto, não queiramos inferir daí que ele seja mais corpo
que perispírito ou vice-versa; ele é um campo mais denso que o perispiritual por onde as energias es-
pirituais se "condensam" em direção ao corpo, e, de forma reversa, recebe os impulsos físicos, pro-
cessando uma reconversão para os sentidos psiquicos e direcionando-os aos arquivos perispiriticos,
mentais, inconscientes e espirituais.
142
KARDEC, Allan. Da bicorporeidade e da transfiguração. In "O Livro dos Médiuns", 2ª Parte, cap. 7, item 118.
143
LIGAÇÃO ENTRE espírito e corpo. "Revista Espírita", maio 1859, pp. 139 e 140.
144
Eclesiastes, 12, vv. 1, 6 e 7.
145
ANDREA, Jorge. Perispírito ou psicossoma. In "Forças Sexuais da Alma", cap. 1, pp. 36 e 37.
JACOB MELO 39
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Pela origem esotérica do termo e do fato de Kardec não ter tratado diretamente deste "cam-
po", surgem algumas opiniões refratánas à hipótese, mas, que ela é bem plausível e sinaliza com
grandes possibilidades de perquirição e demonstração, isto é inegável. Tanto que poderíamos inferir
que os Espíritos da Codificação a ele se referiam quando afirmaram: "Acompanha os que da Terra
partem, sobretudo os que alimentaram paixões bem acentuadas, uma espécie de atmosfera que os
envolve. consevando-lhes o que têm de mau, por não se achar o Espírito inteiramente desprendido
146 147
da matéria" (grifamos), e completam adiante : "Pelo simples fato de haver deixado o corpo, o
Espírito não se acha completamente desprendido da maténa e continua a pertencer ao mundo onde
acabou de viver (...)". Como se vê, não há aí uma referência direta ao perispírito, senão através de
uma de suas particularidades, com uma conotação muito própria. No nosso entender, o duplo etéri-
co.
A Teosofia atribui ao duplo eténco duas funções principais148: a de absorver o Prâna (fluido vi-
tal), enviando-o a todas as regiões do corpo físico, e a de servir de intermediário entre o corpo físico
e o corpo astral (perispírito?). Seria ainda nele, segundo essa Escola, que se encontraram localizados
os "centros de força"
Há quem considere o duplo etérico apenas como uma das expressões da aura. O Dr. Kilner nos
leva a crer que ele seja uma das partes desta, a mais interna, posto que ele subdivide a aura em três
149
partes: duplo etbéico, aura interna e aura externas , afirmando que o duplo etérico constitui-se de
uma camada escura, transparente e uniforme, rodeando o corpo físico, com espessura aproximada de
0,5 1,0 cm. Já a aura interna é a camada mais densa, com espessura de 10 a 15 cm, enquanto a aura
externa começa logo após a interna e estende-se até cerca de 20 a 25 cm a contar da superfície do
corpo. Estas medidas são padrões médios, podendo haver variações, sendo que as duas últimas ca-
madas podem ser fundidas e comporem um único "clarão".
Alguns também assinalam uma quarta camada áurica, a qual é igualmente externa e muito tê-
150
nue e difusa, conhecida como a Ultra Exterior .
Apesar dessas colocações, não iremos considerar o duplo etérico como uma simples emanação
áurica ou mero estado profundo daquele campo, mas um verdadeiro campo energético, ao qual a Li-
teratura Espírita tão bem conceituou, na palavra de Andé Luiz, na figura do "corpo vital"
Presentemente, não investigaremos as particularidades desse campo pois fugiriamos do propó-
sito do presente registro, porém, reconhecemos a necessidade de se aprofundar os conhecimentos
sobre tal assunto pois por seu intermédio não apenas elucidaríamos muitas das dúvidas que nos ab-
sorvem os questionamentos advindos da própria fluidoterapia, como do fenômeno vital e de certas
qUestões da "morte", tais como: como se dá, tecnicamente, o sofrimento dos suicidas, dos que mor-
rem pela eutanásia; por que pessoas acidentadas não padecem os mesmos sintomas dos suicidas; o
que e como Espíritos inferiores vampirizam nossas energias; o que se passa com os perispíritos dos
abortados; etc.

2.3.3 - A Aura
Comecemos com André Luiz: "(...) É claramente compreensível que todas as agregações celu-
lares emitam radiações e que essas radiações se articulem, através de sinergias funcionais, a se cons-
tituírem de recursos que podemos nomear por "tecidos de força", em torno dos corpos que as exte-
riorizam.


146
KARDEC, Allan. In "O Livro dos Espíritos", 2ª Parte, cap. 6, questão 229.
147
KARDEC, Allan. In "O Livro dos Espíritos", 2ª Parte, cap. 6, qu estão 232.
148
POWELL, Arthur E. Descrição geral. In "O Duplo Etérico", cap. 1, pp. 13 e 35.
149
POWELL, Arthur E. Descrição geral. A obra do Dr. Walter J. Kilner. In "O Duplo Etérico", cap. 21, p. 124.
150
Veja-se 'Espírito, Perispírito e Alma', cap. 3, "Perispírito e Alma da Individualidade", p. 66.
JACOB MELO 40
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"Todos os seres vivos, por isso, dos mais rudimentares aos mais complexos, se revestem de um
"halo energético" que Ihes corresponde a natureza.
"No homem, contudo, semelhante projeção surge profundamente enriquecida e modificada pe-
los fatores do pensamento contínuo que, em se ajustando às emanações do campo celular, lhe mode-
lam, em derredor da personalidade, o conhecido corpo vital ou duplo etéreo de algumas escolas espi-
ritualistas, duplicata mais ou menos radiante da criatura.
"(...) Aí temos, nessa conjugação de forças físico-químicas e mentais, a aura humana, peculiar
a cada indivíduo, interpenetrando-o, ao mesmo tempo que parece emergir dele, à maneira de campo
ovóide, não obstante a feição irregular em que se configura, valendo por espelho sensível em que to-
dos os estados da alma se estampam com sinais característicos e em que todas as idéias se evidenci-
am, plasmando telas vivas (...)
"Fotosfera psiquica, entretecida em elementos dinâmicos, atende a cromática variada, segundo
a onda mental que emitimos, retratando-nos todos os pensamentos em cores e imagens que nos res-
pondem aos objetivos e escolhas, enobrecedores ou deprimentes".
"(...) A aura é, portanto, a nossa plataforma onipresente em toda comunicação com as rotas
alheias, antecâmara do Espírito, em todas as nossas atividades de intercâmbio com a vida que nos
rodeia, através da qual somos vistos e examinados pelas Inteligências Superiores, sentidos e reco-
nhecidos pelos nossos afins, e temidos e hostilizados ou amados e auxiliados pelos irmãos que cami-
nham em posição inferior a nossa.
"Isso porque exteriorizamos (...) o reflexo de nós mesmos, nos contactos do pensamento a
pensamento, sem necessidade das palavras para as simpatias ou repulsões fundamentais"151. (Grifa-
mos)
Notemos alguns pontos:
1. André Luiz não classifica as emanações dos seres não humanos como "auras", mas, de "halo
energético", constituído por "tecidos de força", assim sinalizando-nos sensível diferença entre as ir-
radiações humanas das dos demais reinos terrenos.
2. No homem, portanto, além das irradiações celulares, vigem as decorrentes do pensamento,
da atividade mental contínua do ser, impondo variações tonais e estruturais as mesmas.
3. Por ser nossa irradiação emitida diretamente ao meio externo, por nossa aura comunicamos
ao mundo, material e espiritual, nossa faixa de vibração; não é ela, contudo, Espírito ou perispírito;
apenas emanação deste último, como ressonância do duplo etérico ou "corpo vital", com impregna-
ções morais do primeiro, e orgânicas do corpo.
4. Quando ela é detectada, mostramo-nos exatamente como e o que somos - física, psiquica e
moralmente --, e não o que queremos ser.
Em face da comunhão entre as projeções físicas e psíquicas registradas na aura, só poderíamos
esperar que sua variedade, em todos os sentidos, fosse demasiadamente grande. Para se ter uma idei-
a, nos registra Keith Sherwood que "O Conselho Britânico de Cores catalogou as cores da aura e
descobriu 1.400 tons de azul; 1.000 matizes de vermelho; mais de 1.400 tons de marrom; mais de 80
tons de verde; 55 laranja; 36 matizes de violeta; e mais 12 tons de branco", mostrando-nos, assim, a
que fascinante variedade de cores está submetida a aura. Continua Sherwood no mesmo texto: "É
aceito entre os pesquisadores que têm estudado a aura que ela tem uma forma mais ou menos oval e
segue o perfil do corpo humano, ainda que haja variações. Pessoas com maior vitalidade terão uma
aura mais forte e conseqüentemente ela se estenderá para o corpo físico. Assim, a composição da au-
ra varia de pessoa para pessoa. A textura, bem como a cor e o tamanho, parece indicar a disposição


151
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Mediunidade e corpo espiritual. In "Evolução em Dois Mundos",
cap. 17, itens Aura humana e Mediunidade inicial, pp. 129 e 130.
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de uma pessoa. A textura geralmente revela o caráter da pessoa, enquanto a forma e a cor demons-
tram sua saúde e condições emocionais"152 (Grifamos).
Mas, ao contrário do que possa parecer, a aura não é uma parafernália desorganizada; seu es-
tudo requer seriedade e profundidade pois, a partir dele, chegaremos a grandes conclusões, como as
que foram expressadas acima, ou outras, como as compiladas pelo Dr. Jorge Andréa: "Os tecidos
doentes mostram sempre uma aura turva, como no caso dos tumores degenerativos; o tecido sadio
está sempre Iímpido. Tem-se observado que nas pequenas modificações, manchas ou turvações, em
auras de indivíduos considerados sadios, com o tempo a doença se instala na zona física. Isto fez que
se pensasse que a maioria das doenças flsicas teria origem nas desestruturações dos campos perispiri-
tuais e, o que é mais importante, poderiam ser anotadas antes de sua instalação nas células da zona
material". O mesmo Jorge Andréa, do alto de suas conclusões, vaticina: "Dia haverá em que as bióp-
sias serão coisas do passado (...)153.
Concluindo, além de pesquisas puramente flsicas e laboratoriais, outros métodos de estudo da
aura são conhecidos, entre os quais destacamos o "tato-magnético" e a vidência mediúnica. Quanto
ao primeiro. veja-se detalhes adiante no capítulo VIII; no tocante à vidência, mesmo reconhecendo
sua importância nas pesquisas mediúnicas, fazemos uma ressalva, usando as palavras do Prof. Hercu-
lano Pires: "A leitura da aura é uma técnica de avaliação das condições espirituais das pessoas atra-
vés da vidência. Mas é ponto pacífico no Espiritismo que a vidência não oferece nenhuma condição
de segurança para servir de instrumento de pesquisa. (...) Não há, até o momento, nenhum meio ci-
entífico de se verificar objetivamente os graus de percepção mediúnica ou o grau de espiritualidade
de uma pessoa. Além disso, o vidente que examina a aura de alguém sofre as mesmas variações pro-
venientes da instabilidade psi-orgânica e emocionais"154 (grifos originais). Acrescentamos que, além
das observações com fins mediúnicos como foram abordadas, insere-se igual raciocínio sobre as re-
percussões da saúde orgânica e psíquica do vidente, no fenômeno.

2.4 - Propriedades do Perispírito
O perispírito, por sua tessitura, organização, flexibilidade e expansibilidade, fornece inúmeras
condições de ação ao Espírito, mesmo quando encarnado, condições essas que podemos chamar de
propriedades do perispírito, sem, com isso, desconhecermos que o propulsor de toda e qualquer a-
ção é o Espírito.
Para que essas propriedades se tornem evidentes, necessário se atenda às leis dos fluidos, no
que tange as suas condições de afinidade, quantidade necessária e qualidade dos fluidos, além de, em
alguns casos, o conhecimento e a elevação moral da parte do Espírito que "manuseia" tais fluidos.
Sinteticamente, teríamos:

2.4.1 - Aparições
Nos diz Allan Kardec: "Por sua natureza e em seu estado normal, o perispírito é invisível (...).
Pode ele sofrer modificações que o tornem perceptível à vista, quer por meio de uma espécie de
condensação, quer por meio de uma mudança na disposição de suas moléculas. Aparece-nos então
sob uma forma vaporosa.
"A condensação (...) pode ser tal que o perispírito adquira as propriedades de um corpo sólido
e tangível, conservando, porém, a possibilidade de retomar instantaneamente seu estado etéreo e in-
visivel (...)

152
SHERWOOD, Keith. A diagnose da cura e a aura. In "A arte da cura Espiritual", cap. 10, item As características
da aura, p. 114.
153
ANDRÉA, Jorge. Reflexões sobre o campo organizador da forma. In "Enfoques Científicos na Doutrina Espírita",
p.33.
154
PIRES, Herculano. Grau de mediunidade. In "Mediunidade (vida e comunicação)", cap. 13, p. 111.
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O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



"(...) Não basta que o Espírito queira mostrar-se; não basta tampouco que uma pessoa queira
vê-lo; é necessário que os dois fluidos possam combinar-se, que entre eles haja uma espécie de afini-
dade e também, porventura, que a emissão do fluido da pessoa seja suficientemente abundante para
operar a transformação do perispírito e, provavelmente, que se verifiquem ainda outras condições
que desconhecemos"155.

2.4.2 - Tangibilidade
Assevera Kardec: "Conforme o grau de condensação do fluido perispirítico (...) pode, mesmo,
chegar, até, à tangibilidade real, ao ponto de o observador se enganar com relação à natureza do ser
que tem diante de si"156.

2.4.3 - Transfiguração
"O perispírito das pessoas vivas goza das mesmas propriedades que o dos Espíritos. (...) O da-
quelas não se acha confinado no corpo: irradia e forma em torno deste uma espécie de atmosfera fuí-
dica. Ora, pode suceder que, em certos casos e dadas as mesmas circunstâncias, ele sofra uma trans-
formação (...): a forma real e material do corpo se desvanece sob aquela camada fluidica, se assim
nos podemos exprimir, e toma por momentos uma aparência inteiramente diversa, mesmo a de outra
pessoa ou a do Espírito que combina seus fluidos com os do indivíduo (...)
"O fenômeno da transfiguração pode operar-se com intensidades muito diferentes, conforme o
grau de depuração do perispírito, grau que sempre corresponde ao da elevação moral do Espírito.
Cinge-se às vezes a uma simples mudança no aspecto geral da fisionomia, enquanto que doutras ve-
zes dá ao perispírito uma aparência luminosa e esplêndida".157 (Allan Kardec)

2.4.4 - Bicorporeidade
Foi considerada por Kardec como uma variedade das manifestações visuais, pois que se assen-
ta sobre as mesmas propriedades do perispírito já que, "(...) Quer o homem esteja vivo, quer morto,
traz sempre o envoltório semimaterial que (...) pode tornar-se visível (...)"158.
"Isolado do corpo, o Espírito de um vivo pode, como o de um morto, mostrar-se com todas as
aparências da realidade. Demais (...), pode adquirir momentânea tangibilidade. Este fenômeno, co-
nhecido pelo nome de bicorporeidade, foi que deu azo às histórias de homens duplos (...)"159 (grifo
original).
Esta propriedade, asseveram os Espíritos da Codificação, requer elevação moral da parte do
Espírito que vai produzir tais modificações em seu perispírito.
Uma ressalva, porém, merece ser feita: não devemos confundir a bicorporeidade com a biloca-
ção pois enquanto a primeira precisa que a segunda se de, a recíproca não é verdadeira. Para ocorrer
a bicorporeidade, carece que o Espírito se desloque, se afaste de seu corpo físico e, onde se manifes-
te, necessário produza transformações em sua constituição molecular perispiritual a fim de se fazer
visto; já para ele se deslocar (bilocação), necessário se dê apenas a primeira parte do fenômeno pois
o Espírito pode se desprender sem, contudo, ser visto ou apreendido pelos sentidos comuns.




155
KARDEC. Allan. Das manifestações visuais. In "O Livro dos Médiuns". 2ª Parte. cap. 6, item 105.
156
KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 35, Aparições, - Transfigurações.
157
KARDEC. Allan. Manifestações dos Espíritos. In "Obras Póstumas", item 22.
158
KARDEC, Allan. Da bicorporeidade e da transfiguração. In "O Livro dos Médiuns", cap. 7.
159
KARDEC, Allan. Da bicorporeidade e da transfiguração. In "O Livro dos Médins", cap. 7, item 119.
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O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Outro cuidado é o de não se confundir bicorporeidade e bilocação com o dom da ubiqüidade,
o qual o Espírito não possui, visto que ele é uma unidade indivisível, apesar de poder irradiar em
160
múltiplas direções .

2.4.5 - Penetrabilidade
Corolário! Esta é a melhor definição para a condição de penetrabilidade atribuída ao perispíri-
to. Por isso mesmo, afirma Kardec: "Outra propriedade do perispírito inerente à sua natureza etérea
é a penetrabilidade. Matéria nenhuma lhe opõe obstáculo: ele as atravessa todas, como a luz atraves-
sa os corpos transparentes. Daí vem não haver tapagem capaz de obstar à entrada dos Espíritos
(...)"161.

2.4.6 - Emancipação
Afirmam os Espíritos que "Durante o sono, afrouxam-se os laços que o prendem ao corpo e,
não precisando este então da sua presença, ele se lança pelo espaço e entra em relação mais direta
com os outros Espíritos"162 (grifos originais). Mais enfaticamente, afirmam igualmente que "o sono
liberta a alma parcialmente do corpo. Quando dorme, o homem se acha por algum tempo no estado
em que fica permanentemente depois que morre"163 .

2.5 - Funções do Perispírito
André Luiz nos apresenta importantes informações acerca das funções do perispírito, iniciando
por dizer que este não e um reflexo do corpo físico, porque, na realidade, é o corpo físico que o re-
flete, tanto quanto ele próprio, o corpo espiritual, retrata em si o corpo mental que lhe preside a for-
mação.
"Do ponto de vista da constituição e função em que se caracteriza na esfera imediata ao traba-
lho do homem, após a morte, é o corpo espiritual o veículo físico por excelência, com sua estrutura
eletromagnética, algo modificado no que tange aos fenômenos genésicos e nutritivos, de acordo, po-
rém, com as aquisições da mente que o maneja". E conclui mais adiante:
"Claro está, portanto, que é ele santuário vivo em que a consciência imortal prossegue em ma-
nifestação incessante, além do supulcro, formação sutil, urdida em recursos dinâmicos, extremamen-
te porosa e plástica, em cuja tessitura as células, noutra faixa vibratória, em face do sistema de per-
muta visceralmente renovado, se distribuem mais ou menos à feição das partículas colóides, com a
respectiva carga elétrica, comportando-se no espaço segundo a sua condição específica, e apresen-
tando estados morfológicos conforme o campo mental a que se ajusta"164.
Enquanto com André Luiz nos voltamos ao perispírito sob um ângulo de visão espiritual, Allan
Kardec nos leva a uma preciosa análise, onde podemos perceber os melindres da ação do Espírito no
corpo versus perispírito, num verbo genérico, mas, profundamente singelo: "Tendo a matéria que ser
objeto do trabalho do Espírito para desenvolvimento de suas faculdades, era necessáirio que ele pu-
desse atuar sobre ela, pelo que veio habitá-la, como o lenhador habita a floresta. Tendo a matéria
que ser, ao mesmo tempo, objeto e instrumento do trabalho, Deus, em vez de unir o Espírito a pedra

160
Veja-se: Forma e ubiqüidade dos Espíritos. In "O Livro dos Espíritos", Parte 2ª , cap. 1, questão 92, p. 84 e cap.
2, questão 137, p. 105.
161
KARDEC, Allan. Forma e ubiqüidade dos Espíritos. In "O Livro dos Espíritos". Parte 2ª , item 106.
162
KARDEC, Allan. Da emancipação da alma. In "O Livro dos Espíritos", cap. 8, item O sono e os sonhos, questão
401.
163
KARDEC, Allan. Da emancipação da alma. In "O Livro dos Espíritos", cap. 8, item O sono e os sonhos, questão
402.
164
XAVIER. Francisco Cândido e VIEIRA. Waldo. Corpo espiritual In "Evolução em Dois Mundos", cap. 2, item R e-
trato do corpo espiritual, pp. 25 e 26.
JACOB MELO 44
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rígida, criou, para seu uso, corpos organizados, flexíveis, capazes de receber todas as impulsões da
sua vontade e de se prestarem a todos os seus movimentos". E prossegue:
"(...) Para ser mais exato, é preciso dizer que é o próprio Espírito que modela o seu envoltório
e o apropria às suas novas necessidades; aperfeiçoa-lhe e lhe desenvolve e completa o organismo, à
medida que experimenta a necessidade de manifestar novas faculdades; numa palavra, talha-o de a-
cordo com a sua inteligência.
"(...) Desde que um Espírito nasce para a vida espiritual, têm, por adiantar-se, que fazer uso de
suas faculdades, rudimentares a princípio. Por isso é que reveste um envoltório adequado ao seu es-
tado de infância intelectual (...)"165. Dito isso, numa conclusão definitiva ele ratifica:
"Pela sua essência espiritual, o Espírito é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter ação di-
reta sobre a matéria, sendo-lhe indispensável um intermediário, que é o envoltório fluídico, o qual, de
certo modo, faz parte integrante dele"166.
Concluindo, voltando a palavra de André Luiz, anotamos que é o corpo espiritual que "Preside
no campo físico a todas as atividades nervosas, resultantes da entrosagem de sinergias funcionais di-
versas"167 pois, do enunciado por Kardec, o Espírito administra a formação do perispírito, "apropri-
ando-o às suas novas necessidades", entre as quais inserimos: de arquivos das memórias; de modela-
dor da organização fisiobiológica; de forma reflexa dos arquivos pretéritos; etc.

2.5.1 - Registro das Formas
Por ser o perispírito um corpo fluídico, ao tempo em que é o mediador entre o Espírito e o
corpo, pode sofrer marcas, mutações, lesões mesmo, que só um trabalho igualmente fluídico pode
reparar, seja pela ação fluídico-magnética, seja pela mentalização equilibrada. Comprova-o o fato de
vermos, ouvirmos e sabermos de tantos Espíritos desencarnados que trazem profundas marcas, for-
tes deformações em seus perispíritos, como decorrência de desvios pretéritos, regeneráveis pela as-
similação moral de uma doutrinação cristã, conjugada à terapia do passe, e todo um processo de ar-
rependimento e reforma íntima que, no seguimento, se estabiliza via etapas reencarnatórias correti-
vas.
Quando se é Espírito Superior, já se tem poder de adaptar a forma perispiritual à vontade; caso
contrário, nossas forças mentais negativas, inferiores, intermitentes, nos impõem formas discrepan-
tes, mossas aparentemente inextinguíveis, que só o tempo, alimentado pela renovação interior e pela
reparação dos antigos débitos, poderá: patrocinar os reparos devidos quando, então, a força da flui-
doterapia se faz por demais vigorosa.
Se nosso corpo físico recebe impressões perispirituais para sua feição, abastecendo-se para es-
se mister, igualmente, nas fontes genéticas da hereditariedade, quando desabrocha no plano espiritual
"A forma individual em si obedece ao reflexo mental dominante (...)
"(...) Releva observar que, se o progresso mental não é positivamente acentuado, mantém a
personalidade desencarnada, nos planos inferiores, por tempo indefinível, a plástica que lhe era pró-
pria entre os homens. E, nos planos relativamente superiores, sofre processos de metamorfose, mais
lentos ou mais rápidos, conforme suas disposições íntimas (...)
"(...) O aspecto que as entidades desencarnadas assumem perante os médiuns humanos (...)
pode variar infinitamente.




165
KARDEC, Allan. Gênese Espiritual. In "A Gênese", cap. 11, itens 10 e 12.
166
KARDEC, Allan. Gênese Espiritual. In "A Gênese", item 17.
167
XAVIER. Francisco Cândido e VIEIRA. Mecanismos da mente. In "Evolução em Dois Mundos", cap. 16, item Im-
portância da encefalização, p. 124.
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"(...) É importante considerar, todavia, que os Espíritos desencarnados, mesmo os de classe in-
ferior, guardam a faculdade de exteriorizar os fluidos plasticizantes que Ihes são peculiares, espécie
168
de aglutininas mentais com que envolvem a mente mediúnica encarnada (...)" (André Luiz) .
Não há, portanto, como enganar, no mundo espiritual, sobre nosso verdadeiro mundo interior
pois, a exemplo da parábola do festim das bodas (Mateus, XXII, vv. 1 a 14), quando Iá chegarmos,
teremos que estar vestidos com a "túnica nupcial", sob pena de nos sujeitarmos à Lei de Justiça em
seu aspecto reparativo. Só que esta túnica, numa imagem mais diretamente relacionada ao perispíri-
to, sofre mutações oriundas das aglutinações mentais de nossa realidade intrinseca; se somos equili-
brados, nada há que comprometa sua "alvura"; entretanto, se nosso padrão é o da instabilidade mo-
ral, seu colorido será destoante.

2.5.2 - Na Reencarnação
Assim se expressa Allan Kardec: "Quando o Espírito tem de encarnar num corpo humano em
vias de formação, um laço fluídico, que mais não é do que uma expansão do seu perispírito, o liga ao
gérmen que o atrai por uma força irresistível, desde o momento da concepção. À medida que o gér-
men se desenvolve, o laço se encurta. Sob a influência do principio vito-material do gérmen, o pe-
rispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une, molécula a molécula, ao corpo em for-
mação, donde o poder dizer-se que o Espírito, por intermédio do seu perispírito, se enraíza, de certa
maneira, nesse gérmen, como uma planta na terra. Quando o gérmen chega ao seu pleno desenvol-
169
vimento, completa é a união; nasce então o ser para a vida exterior" . (Grifos originais)
A palavra do Dr. Jorge Andréa também é bem objetiva: "O perispírito, representando a capa
externa do Espírito, serviria de filtro e tela de suas manifestações. Apesar de apresentar intenso di-
namismo psíquico, superior ao da zona consciente ou zona física, dirige os campos celulares físicos
por influência do próprio Espírito donde é dependente".
"O perispírito é zona que sofre modificações intensas nos processos reencarnatórios, passando
por condições de miniaturização e mesmo perda de algumas energias, pois, ao se acercar do ovo pa-
ra impulsionar a sua morfogênese, estará elaborando uma nova estruturação que responderá por um
novo corpo físico. Se, no perispírito, estivessem sediados todos os arquivos do ser, é claro, que as
intensas transformações do mecanismo reencarnatório afetariam a estruturação de imortalidade. Des-
sa forma, as aptidões que são absorvidas nas experienciações que o ser passa diante das diversas eta-
pas reencarnatórias estariam nas zonas definitivas do Espírito e refletidas no perispírito, zona dimen-
sionalmente mais densa que a primeira e, por isso, mais apropriada às correlações com a matéria.
Destarte, a matéria recebe o que necessita do impulso espiritual pelas telas perispirituais; estas, em-
bora apresentando um campo avançado de trabalho, não são a sede das energias criativas da vida"170.
Com estas palavras de Jorge Andréa, o assunto abordado no item 2.2 acima é recolocado, dei-
xando claro o entendimento que se pode e se deve dar a certas atribuições do perispírito. Ressalta-
mos apenas que o Dr. Jorge Andréa, em sua hipótese de trabalho, faz considerações colocando o pe-
rispírito de forma destacada face outros componentes (capas) do perispírito propriamente dito, pelo
que recomendamos seja buscada a obra referenciada para um melhor entendimento de sua postura.

2.5.3 - Na Desencarnação
Sigamos com Kardec, prolongando a citação (79) acima: "Por um efeito contrário, a união do
perispírito e da matéria carnal, que se efetuara sob a influência do princípio vital do gérmen, cessa,

168
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Mecanismos da mente. IN "Evolução em Dois Mundos", 2ª Parte,
caps. 4 e 5, pp. 176 a 179.
169
KARDEC, Allan. Gênese espiritual. In "A Gênese", cap. 11, itens 18 e 20.
170
ANDRÉA, Jorge. Reflexões sobre o campo organizador da forma. In "Enfoques Científicos na Doutrina Espírita,
pp. 32 e 33.
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desde que esse princípio deixa de atuar, em consequêncla da desorganização do corpo. Mantida que
era por uma força atuante, tal união se desfaz, logo que essa força deixa de atuar.
Então, o perispírito se desprende, molécula a molécula, conforme se uníra, e ao Espírito é res-
tituída à liberdade. Assim, não é a partida do Espírito que causa a morte do corpo; esta é que de-
termina a partida do Espírito ". (grifos originais)

2.5.4 - Na Evolução
Assim comentou o assistente Calderan, com André Luiz sobre o perispírito: "Estamos diante
do órgão perispiritual do ser humano, adeso à duplicata física, da mesma forma que algumas partes
do corpo camal têm estreito contacto com o indumento. Todo o campo nervoso da criatura constitui
a representação das potências perispiríticas, vagarosamente conquistadas pelo ser, através de milê-
nios e milênios. Em renascendo entre as formas perecíveis, nosso corpo sutil, que se caracteriza, em
nossa esfera menos densa, por extrema leveza e extraordinária plasticidade, submete-se, no plano da
Crosta, às leis de recapitulação, hereditariedade e desenvolvimento fisiológico, em conformidade
com o mérito ou demérito que trazemos e com a missão ou o aprendizado necessános"171.
Um pouco mais adiante, fazendo ligação entre o perispírito e o corpo, o mesmo Calderaro nos
informa: "Comparando (...) nossa situação com o estado menos Iúcido de nossos irmãos encarnados,
importa não nos esqueça que os nervos, o córtex motor e os lobos frontais (...) constituem apenas
regulares pontos de contacto entre a organização perispiritual e o aparelho físico, indispensáveis,
uma e outro, ao trabalho de enriquecimento e de crescimento do ser eterno. Em linguagem mais sim-
ples, são respiradouros dos impulsos, experiências e noções elevadas da personalidade real que não
se entingue no túmulo, e que não suportariam a carga de uma dupla vida. Em razão disto, e atenden-
do aos deveres impostos à consciência de vigília para os serviços de cada dia, desempenham função
amortecedora (...)"172.
Nisso tudo vemos a perfeita conjugação dos componentes trinos que somos. O perispírito,
como veiculo do Espírito, projetando-se sobre a matéria, propicia-Ihe vida, espiritualiza-a mesmo,
posto que, lhe imprime não apenas vitalidade, mas, lhe induz a um contacto direto com a "mente";
por sua vez, subtrai a essência da experiência, assim respostando ao mesmo agente que lhe solicita
estímulos por evoluir.
Allan Kardec nos lembra que "Sendo um dos elementos constitutivos do homem, o perispírito
desempenha importante papel em todos os fenômenos psicológicos e, até certo ponto, nos fenôme-
173
nos fisiológicos e patológicos" (grifamos).
Tanto é verdade que André Luiz reforça dizendo: "(...) em qualquer estudo acerca do corpo
espiritual, não podemos esquecer a função preponderante do automatismo e da herança na formação
da individualidade responsável, para compreendermos a inexequibilidade de qualquer separação entre
a Fisiologia e a Psicologia, porquanto ao longo da atração no mineral, da sensação no vegetal e do
instinto no animal, vemos a crisálida de consciência constituindo as suas faculdades de organização,
sensibilidade e inteligência, transformando, gradativamente, toda a atividade nervosa em vida psíqui-
174
ca" (Grifamos). Para assimilarmos melhor, continuemos com André Luiz: "De modo geral, porém,
a etiologia das moléstias perduráveis, que afligem o corpo físico e o dilaceram, guardam no corpo
espiritual as suas causas profundas (...)
"É assim que o remorso provoca distonias diversas em nossas forças recônditas, desarticulando
as sinergias do corpo espiritual, criando predisposições mórbidas para essa ou aquela enfermidade

171
XAVIER, Francisco Cândido. Estudando o cérebro. In "No Mundo Maior", cap. 4, pp. 54 e 55.
172
XAVIER, Francisco Cândido. Estudando o cérebro. In "No Mundo Maior", cap. 4, pp. 60 e 61.
173
KARDEC, Allan. Manifestações dos Espíritos. In "Obras Póstumas", item 12.
174
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Automatismo e corpo espiritual. In "Evolução em Dois Mundos",
cap. 4, item Automatismo e herança, p. 39.
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(...) Todavia, (...) detemos conosco os resíduos mentais da culpa, qual depósito de lodo no fundo de
calma piscina, e que, um dia, virão a tona de nossa existência, para a necessária expunção, à medida
175 176
que se nos acentue o devotamento à higiene mental" . E simplifica numa outra obra : "A doença,
como resultante de desequilibrio moral, sobrevive no perispírito, alimentada pelos pensamentos que a
geraram, quando esses pensamentos persistem depois da morte do corpo físico".
Sigamos um pouco mais com o Iúcido Espírito que é André Luiz: "Enquanto não se aprimore,
é certo que o Espírito padecerá, em seu instrumento de manifestação, a resultante dos próprios er-
ros. Esses desajustes, como é natural, não se limitam a comunidade das células físicas, quando em
disfunções múltiplas por força dos agentes mentais viciados e enfermiços; estendem-se, muito espe-
cialmente, à constituição do corpo espiritual, a refletir-se no cérebro ou gabinete complexo da alma,
aí ocasionando os diversos sintomas de perturbação do campo encefálico, acompanhados dos fenô-
menos psico-sensonais que produzem alucinações e doenças da mente. (...)
"Torturada por suas próprias ondas desorientadas, a reagirem, incessantes, sobre os centros e
mecanismos do corpo espiritual, cai a mente nas desarmonias e fixações conseqüentes e, porque o
veículo de células extrafísicas que a serve, depois da morte, é extremamente influenciável, ambienta
nas próprias forças os desequilíbrios que a senhoreiam, consolidando-se-lhe, desse modo, as inibi-
ções que, em futura existência, dominar-lhe-ão temporariamente a personalidade, sob a forma de fa-
tores mórbidos, condicionando as disfunções de certos recursos do cérebro físico, por tempo inde-
terminado"177 .
Atuando de forma direta ou indireta, impressionando ou sendo impressionado, agindo ou rea-
gindo, o perispírito, como ponte, ligação, intermediário, canal emissor/captador, aparelho transmis-
sor/receptor, e tantas coisas mais, transmuta-se no retrato não só da imagem de um corpo físico, mas
no do arquivo vivo do Espírito, no exato degrau de evolução em que este estagia, como encarnado
ou desencarnado, bruto ou angelizado, inconsciente ou Iúcido, aqui ou além. Por isso já nos asseve-
rava Léon Denis: "O invólucro fluídico do ser depura-se, ilumina-se ou obscurece-se, segundo a na-
tureza elevada ou grosseira dos pensamentos em si refletidos. Qualquer ato, qualquer pensamento
repercute e grava-se no perispírito. Daí as conseqüências inevitáveis para a situação da própria alma,
embora esta seja sempre senhora de modificar o seu estado pela ação continua que exerce sobre seu
178
invólucro" .
Reveste-se, portanto, de significativa importância o perispírito nos campos energéticos da evo-
lução por este se urdir não só de fluidos eminentemente físicos, densos, mas por igualmente se entre-
tecer com as emanações psicomentais do Espírito, seu detentor.

2.5.5 - No Passe
Podendo o Espírito, "(...) Pela ação de sua vontade, operar na matéria elementar uma trans-
formação íntima, que lhe confira determinadas propriedades", já que "Esta faculdade é inerente a na-
tureza do Espírito que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando necessário, e sem disso se
179
aperceber" e sabendo-se - conforme veremos no capitulo VIII - que "(...) Papel capital desempe-
nha a vontade em todos os fenômenos do magnetismo", "Assim se explica a faculdade de cura pelo
180
contacto e pela imposição das mãos" (Kardec), podemos inserir que, como o perispírito é o meio
de veiculação da vontade do Espírito, cabe a ele o papel transformador e reativo nos e dos fluidos,
especialmente quando movimentados nos trabalhos do passe. Daí a necessidade de o passista ser
175
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Predisposições mórbidas. In "Evolução em Dois Mundos", cap.
19, pp. 211 e 212.
176
XAVIER, Francisco Cândido. Ante o serviço. In "Nos Domínios da Mediunidde", cap. 4, p. 40.
177
XAVIER, Francisco Cândido. Obsessão. In "Mecanismos da Mediunidade", cap. 24, itens Pensamento e obsessão
e Perturbações morais, pp. 156 a 158.
178
DENIS, Léon. A vontade e os fluidos. In "Depois da Morte", cap. 32, p. 208.
179
KARDEC, Allan. Do laboratório do mundo invisível. In "O Livro dos Médiuns", cap. 8, item 129.
180
KARDEC, Allan. Do laboratório do mundo invisível. In "O Livro dos Médiuns", cap. 8, item 131.
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uma pessoa equilibrada, pois, sua vontade, por carecer de uma base firme, não pode, para fornecer
saúde e harmonia, calcar-se numa estrutura movediça de moral vacilante e tonicidade intermitente.
Ademais, "Se as paixões baixas e materiais perturbam, obscurecem o organismo fluídico, os pensa-
mentos generosos, em um sentido oposto, as ações nobres apuram e dilatam as moléculas perispiríti-
cas. Sabemos que as propriedades da matéria aumentam com seu grau de pureza"181, é o que nos
lembra Léon Denis.
O Espírito Anacleto, pelo registro de André Luiz, nos ensina que "Assim como o corpo físico
pode ingerir alimentos venenosos que intoxicam os tecidos, também o organismo perispiritual pode
absorver elementos de degradação que Ihe corroem os centros de força, com reflexos sobre as célu-
las materiais182, tudo isso provindo das atividades mentais negativas ou excessivamente presas aos
limites da matéria. Por esse motivo é que podemos fazer refrão com o Espírito Áulus quando nos diz
que estampamos "(...) no próprio corpo espiritual os sofrimentos de que (somos) portadores"183.
A ser verdade tudo isso - e de fato o é --, torna-se final e decisivo que o perispírito tem parti-
cipação impar nos fenômenos e nas manifestações mediúnicas e anímicas, sendo ele, portanto, o in-
termediário vital e indispensável da transmisão fluídica por ocasião do passe, da prece em favor dos
outros e de nós mesmos, do próprio magnetismo pessoal e do intercâmbio com o chamado "reino
dos mortos".
Concluindo nosso estudo, busquemos André Luiz mais uma vez para observarmos como se dá
o desprendimento do perispírito de um médium em serviço, através da ajuda do passe aplicado pelo
plano espiritual: "Aproximou-se dele o irmão Clementino e, a maneira do magnetizador comum, im-
pos-lhe as mãos aplicando-lhe passes de longo circuito.
"Castro como que adormeceu devagarinho, inteiriçando-se-lhe os membros.
"Do tórax emanava com abundância um vapor embranquiçado que, em se acumulando à feição
de uma nuvem, depressa se transformou, à esquerda do corpo denso, numa duplicata do médium, em
tamanho ligeiramente maior.
"Nosso amigo como que se revelava mais desenvolvido, apresentando todas as particulandades
de sua forma física, apreciavelmente dilatadas.
"(...) Enquanto o equipamento fisiológico descansava, imóvel, Castro, tateante e assombrado,
surgia, junto de nós, numa cópia estranha de si mesmo, porquanto, além de maior em sua configura-
ção exterior, apresentava-se azulada a direita e alaranjada a esquerda.
"Tentou movimentar-se, contudo, parecia sentir-se pesado e inquieto (...)
"Clementino renovou as operações magnéticas e Castro, desdobrado, recuou, como que se jus-
tapondo novamente ao corpo físico.
"Venfiquei, então, que desse contacto resultou singular diferença. O corpo carnal engolira, ins-
tintivamente, certas faixas de força que imprimiam manifesta irregularidade ao perispírito, absorven-
do-as de maneira incompreensível para mim.
"Desde esse instante, o companheiro, fora do vaso de matéria densa, guardou o porte que lhe
184
era característico" .
Das últimas palavras, ficam algumas questões que o leitor poderia, como sugestão, meditar a
respeito:
1. Que seriam "passes de longo circuito" que o irmão Clementino aplicou em Castro?

181
DENIS, Léon. A vontade e os fluidos. In "Depois da Morte", cap. 32, p. 210.
182
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 325.
183
XAVIER, Francisco Cândido. Ante o serviço. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 4, pp. 41 e 42.
184
XAVIER, Francisco Cândido. Desdobramento em serviço. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 11, pp. 97 e
98.
JACOB MELO 49
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2. Que vapor seria esse que saiu do corpo de Castro?
3. Por que Castro, se revelara maior, em perispírito, que seu corpo? Como e por que isso se
dá?
4. Que cordão vaporoso era aquele que ligava Castro ao corpo?
5. Por que teria havido necessidade de uma segunda aplicação de passe?
6. Que se pensar das cores azul e laranja; cada uma num lado distinto do corpo espiritual de
Castro?
7. Afinal, o que teria sido "engolido", do perispírito de Castro, por seu próprio corpo?
São questões que, se não puderem ser bem respondidas por enquanto, depois que tivermos
concluído o livro o leitor terá, com certeza grandes soluções. Portanto, vamos em frente!

2.6 - Uma Rápida Conclusão
O perispírito, este nosso companheiro de estrada ou, melhor dizendo, este nosso melhor indu-
mento, necessita ser bem conhecido; afinal, não se trata de uma mera vestimenta física ou de uma in-
sígnia para fazer registrar o "status" de seu possuidor. Muito mais que isso, é uma "máquina" multi-
uso, de poderes tão variados e para atendimento de finalidades tão diversas que desconhecê-lo é, no
minimo, desperdicio injustificável, mormente por quem quer extrair-lhe os melhores produtos. Assim
como um computador, que quase nada vale se não sabemos usá-lo, o perispírito perde muito de suas
potencialidades se lhe atribuímos apenas a importante, mas limitada, função de gerenciar as ativida-
des diretas e exclusivas de ligar o Espírito ao corpo. Assim como o computador não é, em si mesmo,
inteligente, o perispírito igualmente não o é por não ser Espírito; enquanto o computador guarda
funções e executa tarefas tão avançadas e de maneira tão eficiente, por resoluções que evidenciam a
inteligência do homem que o concebeu e o opera, o perispírito, por um automatismo divino, interpre-
ta o Espírito que lhe preside a existência. Assim como do computador não precisamos, necessaria-
mente, entender a sua estrutura mecânica, física, elétrica e eletrônica para podermos operá-lo com
proveito, mas, carecemos aprender a manuseá-lo, segundo sua concepção "filosófica" e fazer uso
dos dispositivos para tal destinados, semelhantemente podemos deduzir que o Espírito em essência,
nos é ainda inabordável, mas, é quase imperiosa a necessidade de conhecermos este indumento, suas
funções e sob que leis se rege para, dessa maneira, extrairmos de sua essência, todas as suas potenci-
alidades funcionais.
Quando inserimos o perispírito de forma destacada neste capítulo, foi porque ele é o melhor (e
talvez o único, por enquanto) meio de entendermos e alcançarmos o Espírito, já que, suas evidências
e seus registros deixados ao longo do tempo nos facilitam o entendimento. Por ele podemos avaliar
funcionamento, limites e regência de leis na elaboração do relacionamento que temos, cada um de
nós, com a matéria; e por ser fluidico, temos (e já o fizemos) como comprovar que sua estrutura
funcional obedece às leis dos fluidos e, portanto, dirigido pela ação psíquica do seu senhor, o Espíri-
to.
Fechemos esta parte deste capítulo com a palavra do Espírito Lamennais:
"O que uns chamam de perispírito não é senão o que outros chamam de envoltório material
fluídico. Direi (...) que esse fluido é a perfectibilidade dos sentidos, a extensão da vista e das idéias.
Falo aqui dos Espíritos elevados. Quanto aos Espíritos inferiores, os fuidos terrestres ainda Ihe são
de todo inerentes; logo, como vedes, matéria. Daí os sofrimentos da fome, do frio, etc., sofrimentos
que os Espíritos Superiores não podem experimentar, visto que os fuidos terrestres se acham depu-
rados em torno do pensamento, isto é, da alma. (...) O perispírito, para nós outros Espíritos errantes,
é o agente por meio do qual nos comunicamos convosco, quer indiretamente, pelo vosso corpo ou
pelo vosso perispírito, quer diretamente, pela vossa alma; donde, infinitas modalidades de médiuns e
de comunicações.
JACOB MELO 50
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



"Agora o ponto de vista científico, ou seja: a essência mesma do perispírito. Isto é outra ques-
tão. Compreendei primeiro, moralmente. Resta apenas uma discussão sobre a natureza dos fluidos,
coisa por ora inexplicável. A ciência ainda não sabe o bastante, porém Iá chegará, se quiser caminhar
com o Espiritismo. O perispírito pode variar e mudar ao infinito. A alma é o pensamento: não muda
de natureza. Não vades mais longe, por este lado; trata-se de um ponto que não pode ser explicado.
Supondes que, como vós, também eu não perquiro? Vós pesquisais o perispírito; nós outros, agora,
pesquisamos a alma. Esperai, pois"185 (grifo original).

3 - CENTROS DE FORÇA
Procuraremos fazer uma ligação entre os três "assuntos complementares", recorrendo às pala-
vras do Codificador: "Pela sua união íntima com o corpo, o perispírito desempenha preponderante
papel no organismo. Pela sua expansão, põe o Espírito encarnado em relação mais direta com os Es-
píritos livres e também com os Espíritos encarnados".
"O pensamento do encarnado atua sobre os fluidos espirituais, como o dos desencarnados, e se
transmite de Espírito a Espírito pelas mesmas vias e, conforme seja bom ou mau, saneia ou vicia os
fluidos ambientes".
"(...) Sendo o perispírito dos encarnados de natureza idêntica a dos fluidos espirituais, ele os
assimila com facilidade, como uma esponja se embebe de um Iíquido. Esses fuidos exercem sobre o
perispírito uma ação tanto, mais direta quanto, por sua expansão e sua irradiação, o perispírito com
eles se confunde".
"Atuando esses fuidos sobre o perispírito, este, a seu turno, reage sobre o organismo material
com que se acha em contacto molecular. Se os eflúvios são de boa natureza, o corpo ressente uma
impressão salutar; se forem maus, a impessão é penosa. Se são permanentes e enérgicos, os eflúvios
maus podem ocasionar desordens físicas; não é outra a causa de certas enfermidades.
"Os meios onde superabundam os maus Espíritos são, pois, impregnados de maus fluidos que
o encarnado absorve pelos poros perispiriticos, como absorve pelos poros do corpo os miasmas pes-
tilenciais"186 (grifamos).
Antes que detalhemos o assunto, indagamos: que seriam esses "poros perispirituais" a que se
referiu Kardec? E quando ele questionou os Espíritos se a alma seria exterior ou interior ao corpo,
que teriam quando os Espíritos realmente expressar com "A alma é o centro de todos os envoltórios,
como o gérmen em um núcleo (...)"187?

3.1 - Definições
Praticamente em toda e qualquer literatura que trate do assunto, nos depararemos com a liga-
ção entre as terminologias: Centros de Força (também chamados de Centros Vitais por André Luiz)
e chakras, sendo frisado que a palavra Chakra significa roda, em sânscrito.
Outra concordância comum é quanto a sua condição energética:
188
"(...) Podem ser encarados como vórtices de força" - Peter Rendel ;
"Os chakras, ou centros de força, são pontos de conexão ou enlace pelos quais flui a energia
de um a outro veículo ou corpo do homem" - Leadbeater189;

185
KARDEC, Allan. Dos sistemas. In "O Livro dos Médiuns", 1ª Parte, cap. 4.
186
KARDEC. Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 18.
187
KARDEC, Allan. Da encarnação dos Espíritos. In "O Liv ro dos Espíritos", Parte 2ª , cap. 2, item A alma, questão
141.
188
RENDEL, Peter. Introdução. In "Os Chakras", p. 11.
189
LEADBEATER, C. W. Centros de força. In "Os Chakras", cap. 1, item Os centros, p. 19.
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"Estes chakras funcionam como terminais, através dos quais a energia (prana) é transferida de
planos superiores para o corpo físico" - Keith Sherwood190;
"Centros de Força ou Rodas são acumuladores e distribuidores de força espiritual, situados no
191
corpo etéreo peIos quais transitam os fluidos energéticos (...)" - Edgard Armond ;
"Chakra é considerado como um intermediário de transferência de energia entre duas dimen-
sões vizinhas do ser, tanto como um centro proporciona a conversão de energia entre um corpo e
sua mente correspondente" - Hiroshi Motoyama192 ;
"CHAKRAS SÃO CENTROS PSIQUICOS que estão sempre ativos no corpo, não importa se
temos ou não consciência deles. A energia se move através dos chakras para produzir diferentes es-
tados psíquicos" - Harish Johari193 (Maiúsculas originais); e tantas e tantas outras.

3.1.1 - A Visão Espírita
Capturando as questões que propusemos há pouco, apesar de não podermos afirmar que por
"poros perispiriticos" tenha Kardec explicitado os centros de força, nem que por "envoltórios" tam-
pouco tenha se referido diretamente aos "corpos ou capas do espírito" tal como ensinados pelo eso-
terismo, não podemos esquecer que, pelo genérico com que muitos assuntos foram abordados, fica
aberta a possibilidade de tirarmos algumas ilações de suas palavras mesmo que elas não tragam o cu-
nho do explicito. Isto, contudo, não pode ser argumento para se importar ou se impor qualquer teo-
ria ou hipótese ao corpo doutrinário: vale para que busquemos raciocínos, informações e, inclusive,
crivemos coisas universalmente conhecidas e estudadas por doutrinas espiritualistas, pela ótica sem-
pre avançada e firme do Espiritismo.
Tendo partido de constatação como esta, foi que, alguns Espíritos da maior credibilidade e au-
tores com insuspeita isenção de ânimos e apurados sentidos críticos e analíticos, houveram por bem
trazer à Doutrina Espírita tão ricos e profícuos estudos. Por eles, constatamos que os Centros de
Força não constituem parte intrínseca da estrutura do Espírito, pois, são instrumentos desenvolvidos
no corpo espiritual com o fim de realizar as adequações devidas entre os aspectos exteriores e interi-
ores da realidade espiritual do ser imortal. Nosso confrade Jorge Andréa esclarece bem o assunto:
"Vários estudos têm mostrado a existência, no perispírito, de discos energéticos (chakras), como
verdadeiros controladores das correntes de energias, centrífugas (do Espírito para a matéria) ou cen-
trípetas (da matéria para o Espírito), que aí se instalam como manifestações da própria vida. Esses
discos energéticos comandariam, com as suas "superfunções", as diversas zonas nervosas e de modo
particular o sistema neurovegetativo, convidando, através dos genes e código genético, ao trabalho
ajustado e bem ordenado da arquitetura neuroendócrina"194.
"Como não desconhecem - diz o Espírito Clarêncio --, o nosso corpo de matéria rarefeita está
íntimamente regido por sete centros de força, que se conjugam nas ramificações dos plexos que, vi-
brando em sintonia uns com os outros, ao influxo do poder diretriz da mente, estabelecem, para nos-
so uso, um veículo de células elétricas, que podemos defìnir como sendo um campo eletromagnético,
195
no qual o pensamento vibra em circuito fechado" . E completa: "Nossa posição mental determina o
peso específico do nosso envoltório espiritual e, consequentemente, o "habitat" que Ihe compete.
Mero problema de padrão vibratório", acrescentando mais adiante: "TaI seja a viciação do pensa-
mento, tal será a desarmonia no centro de força, que reage em nosso corpo a essa ou àquela classe
196
de influxos mentais" (grifamos).

190
SHERWOOD, Keith. Os chakras. In "A Arte da Cura Espiritual", cap. 6, p. 65.
191
ARMOND, Edgard. Centros de força. In "Passes e Radiações, cap. 2, p. 46.
192
MOTOYAMA, Hiroshi. Introdução. In "Teoria dos Chakraas", item Os chakras e os nadis, p. 21.
193
JOHARI, Harish. Prefácio. In "Chakras", p. 9.
194
ANDRÉA, Jorge. Perispírito ou psicossoma, In "Forças Sexuais da Alma", cap. 1, p. 36.
195
XAVIER, Francisco Cândido. Conflitos da Alma. In "Entre a Terra e o Céu", cap. 20, p. 126.
196
XAVIER, Francisco Cândido. Conflitos da Alma. In "Entre a Terra e o Céu". cap. 20, p. 127.
JACOB MELO 52
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Para estabelecer, em definitivo, o assunto, segundo a ótica espírita, deixamos com Clarêncio e
André Luiz a palavra, na qual poderemos constatar o caráter sempre voltado para a moralidade com
que ela, a Doutrina, se posiciona: "- Cada "centro de força" - ponderou André Luiz - exigirá absolu-
ta harmonia, perante as Leis Divinas que nos regem, a fim de que possamos ascender no rumo do
Perfeito Equilíbrio (...)
"- Sim - confirmou Clarêncio --, nossos deslizes de ordem moral estabelecem a condensação
de fluidos inferiores de natureza gravitante, no campo eletromagnético de nossa organização, com-
pelindo-nos a natural cativeiro em derredor das vidas começantes às quais nos imantamos"197 (grifa-
mos).

3.1.2 - A Visão Esoterista

Mesmo reconhecendo que as energias espirituais e mentais são preponderantes na ação desses
centros de força, algumas escolas preferem se ater mais aos aspectos físicos ou, diríamos, mais mate-
riais da questão, criando, inclusive, imagens para expressá-los como centros anímicos, igrejas, Iótus,
estrelas, divindades, ou endereçando-os a prováveis correspondentes físicos, como os plexos, ou a
elementos como o azoto, o éter, o ar, o fogo, a água e a Terra.
De uma forma genérica, no esoterismo não encontramos uma uniformidade sobre quase nada
que diz respeito a tal assunto ou coligados, a começar pela definição do número de centros de força,
como é o caso do budismo tibetano:
"Os chakras ou plexos psíquicos (em tibetano: khor-lo, literalmente "roda") são os centros cir-
culares formados sobre a veia central pela inteterseção de muitas veias sutis e pela coleção de várias
essências.
"(...) No sistema tântrico tibetano há um máximo de seis chakras principais, em confronto com
os sete do sistema hindu. Só se usam, de hábito, cinco chakras na visualização interior tibetana e,
198
não raro, só se menciona três" . Por este exemplo se vê que a questão do número é bem imprecisa.
Portanto, não iremos nos fixar no caráter absoluto que alguns autores querem dar a suas hipóteses
mas apenas aventaremos alguns pontos para conformar com nossas necessidades de entendimento e
comparação.
O estudo dos chakras, assim como do perispírito, remonta a uma antiguidade muito distante.
Por ter sido transmitido quase sempre de forma iniciática e muito privada, esteve restrito durante mi-
lênios e limitados ao oriente. Entrementes, ao contrário do que imaginava quem acreditava estivesse
tal assunto, por assim tratado, isento de desvios e universalidade, ocorreu exatamente o contrário; o
assunto ganhou as ruas, muitos adaptaram entendimentos, alguns impuseram ilações próprias e hqje
é comum se encontrar, em quaIquer livraria, literatura sobre o assunto. Contudo, é desnorteante o
fato de não haver uma concordância entre os diversos autores sobre coisas, inclusive, consideradas
básicas. Assim nos pronunciamos, no intuito de alertar quem queira conhecer o assunto com maior
aprofundamento, quanto ao cuidado que deve ter quando estudar e interpretar as obras concernen-
tes. Particularmente, tivemos dúvidas e entendimentos muito contraditórios quando tentamos estudar
tal tema em sua vez primeira; e o fator causador foi exatamente essa falta de concordância. E como o
assunto, além de envolver algumas abordagens, por subjetivas demais, complexas, invariavelmente é
tratado de uma maneira muito mística e misteriosa, fica difícil um discernimento mais seguro enquan-
to não se tiver vasculhado um bom número de obras.
A visão esoterista dos chakras, portanto, não poderia, nem conviria, ser resumida neste espaço
pois se assim fizéssemos criaríamos um emaranhado de conjugações de termos e valores que só tra-

197
XAVIER, Francisco, Cândido. Conversação edificante. In "Entre a Terra e o Céu", cap. 21, pp. 131 a 133.
198
CLIFFORD, Terry. A medicina tântrica. In "A Arte de Curar no Budismo Tibetano", cap. 5, item Os chakras e a
esplendida visão interior, p. 104.

JACOB MELO 53
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ria mais problemas que soluções. Por isso, para quem queira proceder um aprofundamento na área,
recomendamos sejam buscadas muitas obras, lidas todas mas tendo-se em mente, sempre, a reco-
mendação paulina de que "leiamos tudo, retendo apenas o que for bom". Neste campo, mais que em
outros, todo cuidado é pouco!

3.2 - Sua Classificação
Busquemos a palavra do Esplrito Clarencio a respeito: "Analisando a fisiologia do perispírito,
classifiquemos os seus centros de força, aproveitando a lembrança das regiões mais importantes do
corpo terrestre. Temos, assim, por expressão máxima do veículo que nos serve presentemente, o
"centro coronário" que, na Terra, é considerado pela filosofia hindu como sendo o lótus de mil péta-
las, por ser o mais significativo em razão do seu alto potencial de radiações, de vez que nele assenta
a ligação com a mente, fulgurante sede da consciência. (...) Logo após, anotamos o "centro cere-
bral", contíguo ao "centro coronário" (...). Em seguida, temos o "centro laríngeo" (...). Logo após,
identificamos o "centro cardíaco" (...). Prosseguindo em nossas observações, assinalamos o "centro
esplênico" (...). Continuando, identificamos o "centro gástrico" (...) e, por fim temos o "centro gené-
sico".
"(...) Tudo é trabalho da mente no espaço e no tempo, a valer-se de milhares de formas, a fim
de purificar-se e santificar-se para a Glória Divina"199 (grifamos).

3.3 - Sua Localização
Uma coisa podemos ter como certa: os centros de força têm seus correspondentes (não con-
fundir com "suas ídentidades") no corpo orgânico; partindo daí podemos fazer uma localização geo-
gráfica, correspondendo-os aos plexos com que se relacionam, desde que, atentemos para o fato de
que os centros de força em si não se acham encerrados no corpo físico, mas no perispírito. pelo que
eles podem se encontrar, como são registrados pelos estudos da aura,externos ao corpo orgânico,
ainda que se afunilem em direção àquele. E quando dizemos "se afunilem", o dizemos de forma lite-
ral, pois, as informações existentes, sobre a forma dos centros de força, são concordes em todas as
Escolas, ou seja: são como funis que giram num determinado sentido, formando minifuracões, mini-
redemoinhos, com a "boca" desses funis direcionada ao espaço etérico (vide FIGURAS 2.A e 2.B).
Dessa forma teríamos:
Centro de Força Plexo Correspondente Localização
Coronário Coronário Alto da cabeça
Frontal Frontal (Carótico) Fronte (Lobo frontal)
Laríngeo Laríngeo (Faríngeo) Na garganta
Cardíaco Cardíaco Sobre o coração
Gástrico (Solar) Gástrico (Solar) Sobre o estômago
Esplênico Esplênico (Mesentérico) Sobre o baço
Genésio (Básico) Coccígeo (Hipogástrico) Baixo ventre

Como já vimos acima, o confrade Jorge Andéa preferiu chamar os chakras de "discos energéti-
cos", relacionando-os ao perispírito (psicossoma). Assim se expressa ele: "A zona mais externa do
psicossoma, onde se expressam os discos energéticos, é a mais rica de vibrações e colorido, variando
de um para outro disco, na dependência da importância fisiológica de que estão investidos". São
muitos; mas os príncipais e dignos de citação são em número de sete, e, pela localização, podemos
classificá-los em:

199
XAVIER, Francisco Cândido. Conflitos da Alma. In "Entre a Terra e o Céu", cap. 20, p.128.
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"a) epifisiário - no centro do crânio;
"b) frontal - ao nível do lobo frontal;
"c) laríngeo - na região cervical (pescoço);
"d) cardíaco - na região pericordial (coração);
"e) solar - na região epigástrica (correspondendo ao fígado);
"f) esplênico - na região esplênica (correspondendo ao baço); e
"g) hipogástrico ou genésico - na região hipogástrica (correspondendo á bexiga)200.

3.4 - Suas Funções
Um fator que nos faz ponderar acerca de uma necessidade, tão-só meridiana, de conhecermos
o assunto é a parcimônia com que os Espíritos sérios têm tocado no tema; enquanto alguns a eles se
referem in passant, mencionando-os por terem sido
acionados e não adiantando nada mais além, apenas
com André Luiz registramos uma infomação mais
direta, mais aberta, mais explícita.
Isto posto, iremos ver as funções desses sete
centros de força, com moderada reflexão, a fim de
que a precipitação não nos projete a emaranhados de
dúvidas, nem nos fixemos no comodismo de
desconhecer esses verdadeiros canais de assimilação
e projeção do perispírito. Afinal, concordemos ou
não, para que tenhamos um aprofundamento dos
conhecimentos que envolvem a fluidoterapia, faz-se
FIGURAS 2A e 2B indispensável consideremos, ainda que por hipótese
apenas, os centros de força.

3.4.1 - Do Centro Coronário
Assim se refere o Espírito Clarêncio: "(...) Nele assenta a ligação com a mente, fulgurante sede
da consciência. Esse centro recebe em primeiro lugar os estímulos do Espírito, comandando os de-
mais, vibrando todavia com eles em justo regime de interdependência. Considerando (...) os fenôme-
nos do corpo físico, e satisfazendo aos impositivos da simplicidade (...), dele emanam as energias de
sustentação do sistema nervoso e suas subdivisões, sendo o responsável pela alimentação das células
do pensamento e o provedor de todos os recursos eletromagnéticos indispensáveis à estabilidade or-
gânica. É, por isso, o grande assimilador das energias solares e dos raios da Espiritualidade Superior,
201
capazes de favorecer a sublimação da alma" .
202
André Luiz, que registrou as informações acima, diz mais em outra obra , quando relaciona
ditos centros de força com o perispírito, neste identificando "O centro coronário, instalado na região
central do cérebro, sede da mente, centro, que assimila os estímulos do Plano Supenor e orienta a
forma, o movimento, a estabilidade, o metabolismo orgânico e a vida consciencial da alma encarnada
ou desencamada, nas cintas de aprendizado que Ihe corresponde no abrigo planetario. O centro co-
ronário supervisiona, ainda, os outros centros vitais que Ihe obedecem ao impulso, procedente do
Espírito, assim como as peças secundárias de uma usina respondem ao comando da peça-motor de
que se serve o tirocínio do homem para concatená-las e dirigi-las". E acrescentou: "Temos particu-


200
ANDRÉA, Jorge. Psicossoma. In "Nos Alicerces do Inconsciente", cap. 2, p.69.
201
XAVIER, Francisco Cândido. Conflitos da Alma, In "Entre a Terra e o Céu", cap. 20, p.127.
202
XAVIER, Francisco Cândido. Corpo espiritual. In "Evolução em Dois Mundos", cap. 2, item Centros vitais, p.26.
JACOB MELO 55
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larmente no centro, coronário o ponto de interação entre as forças determinantes do Espírito e as
forças fisiopsicossomáticas organizadas.
"Dele parte, desse modo, a corrente de estímulos espirituais com ação difusível sobre a matéria
mental que o envolve, transmitindo aos demais centros da alma os reflexos vivos de nossos sentimen-
tos, idéias e ações, tanto quanto esses mesmos centros, interdependentes entre si, imprimem seme-
lhantes reflexos nos órgãos e demais implementos de nossa constituição particular, plasmando em
nós próprios os efeitos agradáveis ou desagradáveis de nossa influência e Conduta"203.

3.4.2 - Do Centro Cerebral
Continuemos com a palavra de Clarêncio204: "(...) Anotamos o "centro cerebral", contíguo ao
"centro coronário", que ordena as percepções de variada espécie, percepções essas que, na vestimen-
ta carnal, constituem a visão, a audição, o tato e a vasta rede de processos da inteligência que dizem
respeito à Palavra, à Cultura, à Arte, ao Saber. É no "centro cerebral" que possuímos o comando do
núcleo endócrino, referente aos poderes psíquicos".
205
André Luiz novamente acrescenta mais algum detalhe : "Desses centros secundários, entrela-
çados no psicossoma, e, consequentemente, no corpo físico, por redes plexiformes, destacamos o
centro cerebral contíguo ao coronário, com influência decisiva sobre os demais, governando o córti-
ce encefálico na sustentação dos sentidos, marcando a atividade das glândulas endócrinas e adminis-
trando o sistema nervoso, em toda a sua organização, coordenação, atividade e mecanismo, desde os
neurônios sensitivos até as células efetoras (...)".
Pela exposição das funções desses dois primeiros centros de força, onde a espiritualidade já
consigna ao primeiro o título de centro principal e, ao segundo, o de mais importante dos secundá-
rios, podemos, clara e linearmente, perceber a importância maior dos que estão acima sobre os que
lhe são subsequentes, na disposição "geográfica" do corpo humano. Isto é valioso ser registrado,
pois, estes dois centros de força têm excepcional importância não apenas na vida física, como na psí-
quica e na espiritual propriamente dita; registre-se, portanto, o valor que é dado à seqüência "alto
para baixo", "partes superiores a partes inferiores", "cabeça aos pés", etc. Esta sequência, a nivel de
grau de importância, não é privativa dos Espíritos nem dos espíritas; ela é comum a todas as filosofi-
as e escolas que estudam os chakras, apesar de várias delas, na hora da prática, esquecerem este
"pequeno detalhe". Precisaremos dessa observação mais adiante.

3.4.3 - Do Centro Laríngeo
206
Voltamos a pa]avra a Clarêncio : "Em seguida, temos o "centro laríngeo", que preside aos
fenômenos vocais, inclusive às atividades do timo, da tireóide e das paratireóides", "(...) controlando
notadamente a respiração e a fonação"207. André Luiz.

3.4.4 - Do Centro Cardíaco
Continuemos, respectivamente, com Clarêncio208 e André Luiz209: "Logo após, identificamos o
"centro cardíaco", que sustenta os serviços da emoção e do equilíbrio geral (...)", "(...) dirigindo a
emotividade e a circulação das forças de base".

203
XAVIER, Francisco Cândido. Corpo espiritual. In "Evolução em Dois Mundos", item Centro coronário, p. 27.
204
XAVIER, Francisco Cândido. Conflitos da Alma, In "Entre a Terra e o Céu", cap. 20, p.127.
205
XAVIER, Francisco Cândido. Corpo espiritual. In "Evolução em Dois Mundos", cap. 2, item Centros vitais, p.26.
206
XAVIER, Francisco Cândido. Conflitos da Alma, In "Entre a Terra e o Céu", cap. 20, p.127.
207
XAVIER, Francisco Cândido. Corpo espiritual. In "Evolução em Dois Mundos", cap. 2, item Centros vitais, p.26.
208
XAVIER, Francisco Cândido. Conflitos da Alma, In "Entre a Terra e o Céu", cap. 20, p.127.
209
XAVIER, Francisco Cândido. Corpo espiritual. In "Evolução em Dois Mundos", cap. 2, item Centros vitais, p.26.
JACOB MELO 56
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Jorge Andréa, se referindo ao "disco cardíaco", lembra ainda que ele "responderia pelas ener-
gias em todo o aparelho circulatório, dando orientação aos fenômenos da zona de "vitalização"210 .

3.4.5 - Do Centro Esplênico
Permita-nos o leitor continuemos com Clarêncio e André Luiz, na mesma seqüência e obras
como vimos fazendo: "(...) Assinalamos o "centro esplênico", que, no corpo denso, está sediado no
baço, regulando a distribuição e a circulação adequada dos recursos vitais em todos os escaninhos do
veículo de que nos Servimos", "(...) determinando todas as atividades em que se exprime o sistema
hemático, dentro das variações de meio e volume sanguíneo".

3.4.6 - Do Centro Gástrico
E vamos prosseguindo com a mesma dupla acima, na mesma ordem: "(...) Identificamos o
"centro gástrico", que se responsabiliza pela penetração de alimentos e fluidos em nossa organiza-
ção", e "pela digestão e absorção dos alimentos densos ou menos densos que, de qualquer modo, re-
presentam concentrados fluidicos penetrando-nos a organização".

3.4.7 - Do Centro Genésico
Concluamos com os mesmos Espíritos que nos orientaram nos seis centros anteriores, na
mesma sequência: "(...) Por fim, temos o "centro genésico", em que se localiza o santuário do sexo,
como templo modelador de formas e estímulos", por isso mesmo "(...) Guiando a modelagem de no-
vas formas entre os homens ou o estabelecimento de estímulos criadores, com vistas ao trabalho, à
associação e à realização entre as almas".

3.4.8 - Gerais
Já tivemos oportunidade de registrar que o Espírito André Luiz também titulou os centros de
força como "centros vitais"; eis, então, sua visao mais generalizada dos mesmos: "São os centros vi-
tais fulcros energéticos que, sob a direção automática da alma, imprimem às células a especialização
extrema, pela qual o homem possui no corpo denso, e detemos, no corpo espiritual em recursos e-
quivalentes, as células que produzem fosfato e carbonato de cálcio para a construção dos ossos, as
que se distendem para a recobertura do intestino, as que desempenham complexas funções químicas
no figado, as que se transformam em filtros do sangue na intimidade dos rins e outras tantas que se
ocupam do fabrico de substâncias indispensáveis à conservação e defesa da vida nas glândulas, nos
tecidos e nos órgãos que nos constituem o cosmo vivo de manifestação"211. Mas ele não parou por
aí: "(...) Os centros vitais (...) são também exteriorizáveis, quando a criatura se encontre no campo
da encarnação, fenômeno esse a que atendem habitualmente os médicos e enfermeiros desencarna-
dos, durante o sono vulgar, no auxílio a doentes físicos de todas as latitudes na Terra, plasmando re-
novações e transformações no comportamento celular, mediante intervenções no corpo espiritual,
segundo a lei do merecimento, recursos esses que se popularizarão na medicina terrestre do grande
futuro"212.
No prosseguimento, André Luiz nos fala desses centros no indivíduo que desencarna, os quais,
como resultante no perispírito, sofrem variações, "segundo o equilíbrio emotivo e o avanço cultural
daqueles que o governam (...), apresentando transformações fundamentais (...) principalmente no
centro gástrico, pela diferenciação dos alimentos de que se provê, e no centro genésico, quando há
210
ANDRÉA, Jorge. Psicossoma. In "Nos Alicerces do Inconsciente", cap. 2, p. 69.
211
XAVIER, Francisco Cândido. Corpo espiritual. In "Evolução em Dois Mundos", cap. 2, item Centros vitais e cé-
lulas, p. 28.
212
XAVIER, Francisco Cândido. Corpo espiritual. In "Evolução em Dois Mundos", item Exteriorização dos centros
vitais, p. 29.
JACOB MELO 57
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sublimação do amor, na comunhão das almas que se reúnem no matrimônio divino das próprias for-
ças, gerando novas fórmulas de aperfeiçoamento e progresso para o reino do Espírito"213.
Assim encontramos André Luiz, com sua visão espiritual, fazendo verdadeira precognição
quanto ao futuro da Ciência Médica, quando do encontro desta com as realidades do perispírito e
dos centros de força, não por extensão de um materialismo que se torna, a cada dia, mais filosófico e
metafísico, mas pela evidência irrefutável do impalpável - com sói acontece às ondas de uma emisso-
ra de rádio - que se tornará captável, não apenas pelos sentidos psíquicos e mediúnicos, porém pela
parafernália eletrônica que se avizinha do nosso cotidiano comum, de forma irreversível, avassalado-
ra. Neste campo específico, a obra "Teoria dos Chakras" de Hiroshi Motoyama já apresenta, ao final,
toda uma maquinaria eletrônica por ele utilizada para medir campos e pontos energéticos do corpo
humano e, segundo ele, astral também. Dito autor, hoje, é ovacionado por muitos cientistas de várias
partes do mundo pelo cunho muito sério que vem dando às suas pesquisas.

3.4.9 - Exemplos de Passes nos Centros de Força
Até mesmo para não tornar a leitura cansativa, faremos apenas dois registros de exemplos, on-
de fica bem evidenciada a ação dos passes por interveniência dos centros de força; ambos exemplos
serão extraídos de uma mesma obra espírita, posto que as palavras de André Luiz e Clarêncio, já
mencionadas, deixam claro que este assunto não é, necessariamente, doutrina estranha.
"O obsessor dominava-o, quase completamente, acoplando-se aos centros de forças com toda
a pujança do desejo irrefreável.
"(...) A única medida apaziguadora e oportuna será um ligeiro sono.
"Acercou-se do leito (...) e aplicou-lhe energias relaxadoras, que, adicionadas ao desgaste e-
mocional dos momentos vividos, passaram a um efeito quase imediato.
214
"Dirigidas aos centros cerebral e solar, acalmaram-lhe a mente e as emoções inferiores (...)"
(Manoel Philomeno de Miranda) (grifos originais).
"(...) Conseguiu, também, através da aplicação correta de bioenergia nos centros coronário e
215
cerebral, diluir as ideoplastias (...)" .
Uma outra fonte riquíssima de informações, mormente sobre os centros coronário e genésico,
se encontra na obra "No Mundo Maior" de André Luiz, onde o aprofundamento das questões do cé-
rebro e da mente são de uma riqueza indescritível. Deixamos ao leitor a sugestão dessa infatigável e
enriquecedora leitura.

3.5 - Desarmonia dos Centros de Força
Desde que podemos assimilar a ação dos centros de força até mesmo por força das ações or-
gânicas do corpo humano, de igual sorte podemos entender que sua desarmonia, sua disfunção, re-
percutirá diretamente nos veículos somático e perispiritual, pelo que importa tenhamo-los harmoni-
zados, equilibrados, em perfeito funcionamento.
Já observamos que nossa condução mental influi, direta e decisivamente, em nosso hálito fluí-
dico, e este, por sua vez, impressiona nosso ''corpo e espiritual "; se equilibrado e hârmonico, tran-
substância defeitos em "virtudes", mazelas físicas em saúde pela substituição osmótica ou indireta
das moIéculas desarmonizadas ou doentes por moléculas sãs; se em desequilibrio, transmite deficiên-

213
FRANCO, Divaldo Pereira. Nefasta planificação desarticuladora. In "Loucura e Obsessão", cap. 14, pp. 174 e
175.
214
FRANCO, Divaldo Pereira. Nefasta planificação desarticuladora. In "Loucura e Obsessão", cap. 14, pp. 174 e
175.
215
FRANCO, Divaldo Pereira. As consultas. In "Loucura e Obsessão", cap. 3, p. 35.
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cias, marcas e doenças, a maior ou menor prazo, com mais forte ou mais brando efeito, sob ação
temporal ou com reflexos crônicos.
De maneira direta, nosso agir e nosso pensar desequílibrados fazem surgir desarmonias nos
centros de força que, para se restabelecerem, carecem do restabelecimento do seu portador. E isso
não se dá pelo simples acionar de uma chave chamada "ativação dos centros de força" e sim pelo re-
equilíbrio do "campo" que gerou o "defeito". E, disso todos temos plena convicção, não será um
simples passe que resolverá, nem mesmo uma oração balbuciada pelo reflexo condicionado apenas
de se juntar palavras; são os passes e a prece veículos intercessórios, medicamentos reparativos
complementares, que, embora dos mais úteis e, diríamos, indispensáveis, não são a base real do ree-
quilíbrio e da rearmonização dos centros de força, a qual se estriba na reforma moral, pelo "carregar
a própria cruz", sem blasfêmias, sem alvoroços, sem temeridade.
Rearmonizar os centros de força, portanto, é reformar-se moralmente, agindo de maneira cristã
em todos os momentos da vida. Mas, como isso não é comum às nossas ampliadas comodidades, a
nós, falíveis espíritos devedores, nos cabe exercitar por possuí-las pelo perdão, pela fraternidade e
pela compreensão, ajudando, socorrendo e, sobretudo, orando por nosso próximo. Dessa forma vi-
braremos em ondas de mais elevado teor moral, fazendo valer nosso centro coronário como captador
das boas energias espirituais para distribuir o equilíbrio devido aos demais centros, assim espirituali-
zando nossa matéria, como nos propôs Emmanuel na nota que abriu nosso capítulo.

3.6 - A Kundalini
Apenas para não deixar de mencionar, registramos este item, posto que vários autores fazem
referência a tal tema, alguns chegando mesmo a sugerir o "despertar da kundalini" nas práticas Espí-
ritas. O nivel de desinformação e desencontro que envolve o assunto, entretanto, é tão grave que não
recomendamos esse "despertar".
Para se ter uma idéia, enquanto alguns afirmam que a kundalini provém do "centro da Terra",
outros dizem que ela se assenta e se origina "no centro básico" do homem, enquanto outros garan-
tem que ela é uma das energias vindas do sol. Por outro lado, em existindo essa força, essa energia é
excessivamente material, venha de onde vier, parta de onde partir, pois, pela maioria que a estuda e a
propaga, é ela classificada como violenta, materializante, bruta, ígnea e profundamente ligada à parte
mais triste da sexualidade. Isso, cremos, já bastaria para convirmos que não é de boa medida sua
busca, seu desenvolvimento, muito menos utilizá-la para "acionar, rodar ou ativar os centros de for-
ça"; pelo menos como alguns vêm ensinando.
Antes de tudo, temos uma visão Espírita, baseada no Evangelho de Jesus, que nos recomenda
valorizemos nossa elevação pela reforma moral, pelo esforço em corrigir os próprios defeitos, pela
prática do bem sem segundas intenções, além de buscarmos forças nos Planos Espirituais através da
prece sentida e sincera, pois, nosso progresso se dá pela ação efetiva do amor, trabalho e renúncia e
não por meros exercícios de concentração, meditação e reclusão. Por isso, não julgamos seja uma a-
titude de bom senso o querer fazer com que essa força seja a substituta das energias espirituais mais
elevadas no papel de rearmonização dos centros de força, nem mesmo das energias solares. Eis por
que não aceitamos como de boa medida o chamado "despertar da kundalini", que vem a se confun-
dir, em claro português, com um trânsito de energias densas e restringentes por nosso corpo, via
maior adensamento do duplo etérico, ativando, de baixo para cima, nossos centros de força.
Queremos ativar chakras? Busquemos o Evangelho. Queremos renovar energias? Cumpramos
o Evangelho. Queremos sublimar energias? Vivamos o Evangelho. Tudo o mais nos virá por acrés-
cimo da bondade de Deus!




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CAPÍTULO V - QUEM É QUEM
NO PASSE
"Nem todos os homens são sensíveis à ação magnética, e, entre os que o são, pode haver maior
ou menor receptividade, o que depende de diversas condições, umas que dizem respeito ao magneti-
zador e outras ao próprio magnetizado, além de circunstâncias ocasionais oriundas de diversos fato-
216
res". (Michaelus) .

Antes que iniciemos o estudo do "quem é quem" propriamente dito, analisemos três fatores de
alta relevância para o entendimento e a consecução do passe.

1. FÉ, MERECIMENTO E VONTADE
1.1- A Fé
"O poder da fé se demonstra, de modo direto e especial. na ação magnética; por seu intermé-
dio, o homem atua sobre o fluido, agente universal, modifica-lhe as qualidades e lhe dá uma impulsão
por assim dizer irresistível. Daí decorre que aquele que, a um grande poder fluídico normal, junta ar-
dente fé, pode, só pela força da sua vontade dirigida para o bem, operar esses singulares fenômenos
de cura e outros, tidos antigamente por prodígios, mas que não passam de efeito de uma lei natural.
Tal o motivo por que Jesus disse a seus apóstolos: "Se não o curastes, foi porque não tendes fé" (Al-
217
lan Kardec) . (Grifos nossos.)
Na verdade não há muito o que interpretar dessas palavras de Kardec; apenas ressaltamos a
ponte existente entre a fé e a ação fluídica por obra da "força da sua vontade". Desnecessário, por-
tanto, dizer que a ausência da fé, por parte do passista, é a anulação prática de seu "poder" e, no
paciente, é a falta do catalisador fundamental da cura. É, como disse Anna, rainha da Romênia,
218
quando prefaciou George Chapman: "Serão salvos os que tiverem fé" .
Na pena de Léon Denis, observamos uma notável síntese deste assunto: "a fé vivaz, a vontade,
a prece e a evocação dos poderes superiores amparam o operador e o sensitivo. Quando ambos se
219
acham unidos pelo pensamento e pelo coração, a ação curativa é mais intensa" (grifamos). Dis-
pensável qualquer outro comentário.
Colocando-nos na posição daquele que não crê, ou não o quer, diríamos: "até parece que ter fé
é uma coisa simples, fácil, que se pode conseguir sem maiores esforços"; mas, na realidade, não o é.
Considerando determinados padrões de relatividade, não podemos dizer que ter fé seja fácil ou difí-
cil, mas, sem dúvida, é adquirível. Afinal, conforme Kardec, "Entende-se como fé a confiança que se
tem na realização de uma coisa, a certeza de atingir determinado fim. Ela é uma espécie de lucidez
(...)". Entretanto, "Cumpre não confundir a fé com a presunção. A verdadeira fé se conjuga à humil-
220
dade" , ao que reforça as palavras de Chico Xavier. ensinando-nos como consegui-la: "A conquista
da fé, a nosso ver, se faz menos penosa, quando resolvemos ser fiéis, por nós mesmos, às disciplinas
221
decorrentes dos compromissos que assumimos" .
Fé, portanto, é ação. É a confiança operando. Ao contrário do que muitos imaginam, a fé não
é a passividade acomodada nem a expectação contemplativa; ela nos solicita raciocínio, razão, paci-
216
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 7, p. 58.
217
KARDEC, Allan. A fé transporta montanhas. In "O Evangelho segundo o Espiritismo", cap. 19, item 5.
218
CHAPMAN, George. Prefacio. In "Encontros Extraordinários", p. 1.
219
DENIS. Léon. A força psíquica. Os fluidos. O magnetismo. In "No Invisível", 2ª Parte, cap. 15, p. 181.
220
KARDEC, Allan. A fé transporta montanhas. In "O Evangelho segundo o Espiritismo", cap. 19, itens 3 e 4.
221
XAVIER, Francisco Cândido e ARANTES. Hércio Marcos C. Questões da atualidade. In "Encontro no Tempo",
cap. 3, pergunta 28, p. 30.
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ência, trabalho e humildade. Daí nos preocuparmos com os esclarecimentos que devem ser dados aos
pacientes e aos Espíritas em geral, a fim de, compreendendo a maneira como se dão as curas, possa-
mos usar a razão, que nos fará rejeitar os absurdos, com a paciência humilde do "Pai Nosso, (...) seja
feita a vossa vontade" - e não necessariamente "a nossa" -, confiantes de que nossas dores de hoje,
se bem suportadas, transformar-se-ão nas glórias de amanhã.
A fé, contudo, não é artigo apenas dos religiosos. Saiunav, como outros magnetizadores de
todos os tempos, lhe faz referência. Eis um exemplo: "Se o agente sabe como extrair de si o "bio-
campo", o "biochoque" (...), duvidar da capacidade de projetar do seu interior esse algo, ele nada
conseguirá.
"(...) É imprescindível a confiança inabalável em si próprio, nas próprias forças, na própria
vontade, na própria capacidade. De fato, só a fé é capaz de mover montanhas!"222 (Grifos originais.)
Enaltecendo a fé através do pensamento e da vontade firme na execução de uma ação, Michae-
lus reforça que "A vontade por si só não terá a virtude de tornar eficiente a ação magnética, se não
for acompanhada de um outro elemento - a confiança", lembrando, ainda, que "O elemento confian-
223
ça há de surgir necessária e logicamente da nossa fé e do auxílio que sempre recebemos do Alto" .
Até mesmo como um alento a quem esteja desesperado, por qualquer que seja o motivo, lem-
bramos as palavras de José, Espírito Protetor, quando, discorrendo sobre "A Fé: mãe da Esperança e
da Caridade", nos convida, esclarecendo: "Crede e esperai sem desfalecimento: os milagres são o-
bras da fé"224.
Portanto, para quem recebe e para quem doa o passe, a fé há de ser o luzeiro que descortinará
o horizonte promissor da cura: material, moral e espiritual.

1.2 - O Merecimento
Para se entender o merecimento em maior profundidade faz-se necessário recorrer-se à teoria
reencarnacionista. Como esse tema, por si só, comporta muitos volumes e não é nosso objetivo pre-
cípuo aqui pormenorizá-lo, limitar-nos-emos a um raciocínio de Kardec, simples e por demais objeti-
vo, o qual se não leva os descrentes a aceitar a reencarnação, pelo menos os induz a pensar e reco-
nhecer, logicamente, que sua possibilidade é mais racional e justa que sua negação pura e simples:
"(...) por virtude do axioma segundo o qual todo efeito tem uma causa, tais misérias (doenças incu-
ráveis ou de nascença, mortes prematuras, reveses da fortuna, pobreza extrema, etc.) são efeitos que
hão de ter uma causa e, desde que se admita um Deus justo, essa causa também há de ser justa. Ora,
ao efeito precedendo sempre a causa, se esta não se encontra na vida atual, há de ser anterior a essa
vida, isto é, há de estar numa existência precedente. (...) não podendo Deus punir alguém pelo mal
que não fez, se somos punidos, é que fizemos o mal; se esse mal não o fizemos na presente vida, tê-
lo-emos feito noutra. É uma alternativa a que ninguém pode fugir e em que a lógica decide de que
parte se acha a justiça de Deus"225. (Grifos originais; parênteses, síntese, do autor.)
Isto colocado, afiançamos que a questão do merecimento está diretamente vinculada aos débi-
tos do passado, tanto desta quanto de outras vidas, como aos esforços que vimos empreendendo pa-
ra nos melhorarmos física, psíquica, moral e espiritualmente.
Se na vida anterior sujeitamos nosso corpo a pesados e indevidos desgastes, não só o teremos
comprometido como igualmente nosso perispírito terá assimilado as conseqüências de tais mazelas.
Em decorrência, nosso órgão perispiritual transferirá ao novo corpo as deficiências localizadas, as
quais, dependendo da extensão e gravidade dos delitos, se demorarão para normalizar, ensejando-
nos o aprendizado da valorização das reais finalidades orgânicas.
222
SAIUNAV, V. L. In "O Fio de Ariadne", p. 29.
223
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 4, p. 34.
224
KARDEC, Allan. A fé transporta montanhas. In "O Evangelho segundo o Espiritismo", cap 19, iten 11.
225
KARDEC, Allan. In "Bem-aventurados os aflitos. In "O Evangelho segundo o Espiritismo", cap.5, item 6.
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Por outro lado, se temos problemas pulmonares devido ao fumo e queremos nos tratar, mas
não abandonamos o cigarro, por mais ingentes sejam os esforços fluídicos empregados para a cura,
tudo redundará em falhas ou ineficiência (recorde-se o caso anteriormente apresentado - item 1.2.3
deste - da assistência espiritual por apenas dez vezes). Num outro exemplo, se queremos tratar al-
gum problema, sobretudo se psíquico ou perispiritual (cármico), e não nos esforçamos por melhorar
nosso mundo mental, nosso padrão vibratório, nosso campo psíquico, dificilmente conseguiremos a-
tingir nosso desiderato. Situações tais, vulgarmente chamadas de "ausência de merecimento", são fa-
tores a se considerar no tratamento fluidoterápico.
Como a situação da falta de merecimento está vinculada diretamente à nossa inferioridade,
poucos são os que aceitam tal explicação com tranqüilidade, pois, mesmo sendo quem somos, acre-
ditamo-nos melhores do que na realidade o somos e, por isso mesmo, queremos "driblar" a
Espiritualidade fazendo rápidas e curtas boas ações, com isso imaginando adquirir a "senha" do
merecimento. Mas, se é verdade que Deus não está "lá em cima com um caderninho" anotando tudo
o que fazemos (os registros de nossos atos se dão em nossa própria consciência), é igualmente
verdadeiro que vibramos e emitimos ondas psíquicas em nosso derredor de acordo com nossa
realidade íntima e não com as aparências que procuramos apresentar. Afinal, o merecimento está
estabelecido em leis de justiça e amor, vinculado tanto ao presente quanto ao passado espiritual de
cada um. Como reforço, observemos algumas citações extraídas das obras de André Luiz onde
vemos a importância do merecimento nos tratamentos:
"Em todo lugar onde haja merecimento nos que sofrem e boa vontade nos que auxiliam, po-
demos ministrar o beneficio espiritual com relativa eficiência"226 (Alexandre).
"Ao toque da energia emanente do passe, com a supervisão dos benfeitores desencarnados, o
próprio enfermo, na pauta da confiança e do merecimento de que dá testemunho, emite ondas men-
tais características, assimilando os recursos vitais que recebe (...)"227 (André Luiz).
"No terreno das vantagens espirituais, é imprescindível que o candidato apresente uma certa
"tensão favorável". Essa tensão decorre da fé. Certo não nos reportamos ao fanatismo religioso ou à
cegueira da ignorância, mas sim à atitude de segurança íntima, com reverência e submissão, diante
228
das Leis Divinas (...)" (Áulus).
A propósito dessa "tensão", o grande apóstolo do magnetismo, H. Durville, ao seu "Tratado
Experimental de Magnetismo", nos coloca: "No indivíduo são e bem equilibrado, pode-se admitir
que a tensão magnética é normal. Em todos os casos, se essa tensão é aumentada, produz-se um
aumento da atividade orgânica; se, ao contrário, é diminuída, a atividade orgânica diminui e, em am-
bos os casos, o equilíbrio funcional se rompe. Não é sempre assim nos enfermos, porque é fácil com-
preender que, aumentando a tensão onde ela está diminuída e a diminuindo onde ela está muito con-
siderável, levam-na pouco a pouco ao seu estado normal, e o conjunto das funções orgânicas retoma
o equilíbrio que constitui a saúde, com a condição, todavia, de que os órgãos essenciais à vida não
sejam muito profundamente alterados.
"Tal princípio constitui a base de toda a terapêutica do magnetismo"229 (grifos originais).
Como bem podemos notar, nos dois casos a "tensão magnética" é considerada como fator de
doação e receptividade fluídica; assim sendo, reconhecendo-se que a fé exerce um poder determinan-
te em relação a tal tensão, não há que duvidar de sua necessidade nos tratamentos fluidoterápicos.
Num outro aspecto do merecimento, o médium Chico Xavier lembra, quando consultado sobre
a possibilidade de alguém receber uma cura mesmo sem fé, que "(...) os Espíritos aconselham um
226
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 168.
227
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Mecanismo do passe. In "Mecanismos da Mediunidade", cap. 22,
p. 147.
228
XAVIER, Francisco Cândido. Serviço de passes. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 17, p. 168.
229
LHOMME, José. A gradação das faculdades curadoras. In "O Livro do Médium Curador", cap. 4, item Princípio
de base, p. 46.
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Espírito de aceitação. Primeiramente, em qualquer caso da doença que possa ocorrer em nós, em
nosso mundo orgânico, o espírito de aceitação torna mais fácil para o médico deste mundo ou para
os benfeitores espirituais do outro atuarem em nosso favor. Agora, a nossa aflição ou a nossa inquie-
tação apenas perturbam os médicos neste mundo ou no outro, dificultando a cura. (...) Muitas vezes
temos conosco determinados tipos de moléstias, que nós mesmos pedimos, antes da nossa reencar-
nação, para que nossos impulsos negativos ou destrutivos sejam treinados. Muitas frustrações que
sofremos neste mundo são pedidas por nós mesmos, para que não venhamos a cair em falhas mais
graves do que aquelas em que já caímos em outras vidas"230 (grifamos).
Finalizando, lembramos que não existe tratamento impossível, mesmo porque esta palavra,
bem como milagre, não consta do dicionário Divino. Basta lembrar a máxima do Cristo de que "A fé
231
transporta montanhas" , o que nos dá a dimensão da fé e, conseqüentemente, do poder da Divinda-
de. Se alguns tratamentos não produzem os frutos que seriam almejados, é porque a lei de causa e
efeito é uma lei de justiça; ademais, com nossa cegueira espiritual, muitas vezes não queremos ver a
ação além dos limites estreitos do imediatismo material, não nos acorrendo que, mesmo sem a re-
composição orgânica, é comum, pela evangelização, alcançarmos verdadeiros prodígios no campo da
paciência, da renúncia, da compreensão, da prudência, da harmonia interior e da renovação de âni-
232
mos que, por si sós, nos projetam a condição dos que, parafraseando Jesus , "vêem pois que têm
olhos para ver".

1.3 - A Vontade
Apesar da fé e do merecimento serem importantes fatores (ditos subjetivos) em qualquer análi-
se séria sobre as chamadas "curas espirituais" nem todos escritores e pesquisadores não Espíritas le-
vam-nos em consideração. Já no tocante à vontade, encontramos unanimidade sobre seus efeito e
necessidade, em toda e qualquer Escola, ainda que algumas utilizem nomes diferentes para designar
tão importante agente.
Iniciemos seu estudo com Kardec: "Sabe-se que papel capital desempenha a vontade em todos
os fenômenos do magnetismo. Porém, como se há de explicar a ação material de tão sutil agente?
(...) A vontade é atributo essencial do Espírito (...). Com o auxílio dessa alavanca, ele atua sobre a
matéria elementar e, por uma ação consecutiva, reage sobre seus compostos, cujas propriedades ín-
timas vêm assim a ficar transformadas". E continua: "Tanto quanto do Espírito errante, a vontade é
igualmente atributo do Espírito encarnado; daí o poder do magnetizador, poder que se sabe estar na
razão direta da força de vontade. Podendo o Espírito encarnado atuar sobre a matéria elementar,
pode do mesmo modo mudar-lhe as propriedades, dentro de certos limites"233 (grifamos). E, na pa-
lavra dos Espíritos que lhe responderam, já vimos que "Se magnetizas com o propósito de curar (...)
e invocas um bom Espírito (...), ele aumenta a tua força e a tua vontade, dirige o teu fluido e lhe dá
234
as qualidades necessárias" (grifamos).
A clareza e a objetividade destas palavras são irreprocháveis. Tratam desde a origem, a sede da
vontade, até seu alcance, sua desenvoltura, ligando-lhe a intensidade aos sucessos magnéticos da cu-
ra. A vontade, não podendo ser confundida como uma técnica em si, é a propulsora da ação fluidote-
rápica por excelência, tanto a nível de emissão fluídica como de recepção.
Complementariamente, os Espíritos ainda nos garantem que ela pode ser aumentada por suas
235
influências e ajudas, indiretamente confirmando-nos que, de fato, somos por eles dirigidos .
Prosseguindo, busquemos uma informação originária de uma obra antiga:
230
SILVEIRA, Adelino da. Merecimento e aceitação. In "Chico, de Francisco", 2ª Parte, pp. 86 e 87.
231
Mateus, XVII, v. 20.
232
Mateus, XIII, v.9.
233
KARDEC, Allan. Do laboratório do mundo invisível. In "O Livro dos Médiuns", cap. 8, item 131.
234
KARDEC, Allan. Dos médiuns. In "O Livro dos Médiuns", cap. 14, item 176, questão 2ª.
235
Veja-se "O Livro dos Espíritos", questão 459, a ser comentada no capítulo VII.
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"Uma vontade decidida é o princípio indispensável de todas as operações magnéticas (...)"
(Autor anônimo hebreu)236.
Vejamos outras citações para exemplificar:
"(...) A força posta em atividade não irradia em todos os sentidos, mas se transmite na direção
que lhe assina a vontade" (Albert de Rochas)237.
"Emilie Coue, a maior metafísica da França, escreveu: "(...) Nossas ações vêm de nossa vonta-
de, e não de nossa imaginação"238 .
"A vontade ativa representa a decidida determinação de alcançar um objetivo definido. Esta
vontade e o magnetismo são inseparáveis" (V. Turnbull)239.
"(...) E mostraremos que não só a vontade existe realmente, como faculdade da alma, mas
também que exerce seu poder, durante a vida, fora do corpo terrestre e, a fortiori, além do perispíri-
to no espaço (...) Nós (...) sustentamos que a vontade é uma faculdade do Espírito; que ela existe
positivamente como potência; que sua ação se revela claramente na esfera do corpo e que pode
mesmo projetar a distância sua energia (...) Esse poder da alma sobre o corpo pode chegar até a ven-
cer a enfermidade. Muitas vezes, uma vontade enérgica consegue restabelecer a saúde (...)" (Gabriel
Delanne)240.
Voltemos a Kardec: "O Sr. Jacob, não tocando no doente, não fazendo mesmo nenhum passe
241
magnético, o fluido não pode ter por motor e propulsor senão a vontade" .
"Mas se a vontade for ineficaz quanto ao concurso dos Espíritos, é onipotente para imprimir
ao fluido, espiritual ou humano, uma boa direção e uma energia maior. No homem mole, distraído, a
corrente é mole, a emissão é fraca; o fluido espiritual pára nele, mas sem que o aproveite; no homem
de vontade enérgica, a corrente produz o efeito de uma ducha. Não se deve confundir vontade enér-
gica com teimosia, porque esta é sempre resultado do orgulho ou do egoísmo, ao passo que o mais
humilde pode ter a vontade do devotamento"242 (grifos originais).
Noutro momento, Kardec transcreve uma mensagem de Mesmer, Espírito:
"Existindo no homem a vontade em diferentes graus de desenvolvimento, em todas as épocas
tanto serviu para curar, quanto para aliviar. (...) A vontade tanto desenvolve o fluido animal quanto
o espiritual, porque, todos sabeis agora, há vários gêneros de magnetismo. e o magnetismo espiritual
243
que, conforme a ocorrência, pode pedir apoio ao primeiro" .
Observemos o que diz Paulo, apóstolo, em mensagem psicografada: "Uma palavra sobre os
médiuns curadores... Que, ao empregarem sua faculdade, a prece, que é a vontade mais forte, seja
sempre o seu guia, seu ponto de apoio. Em toda a sua existência, o Cristo vos deu a mais irrecusável
prova da vontade mais firme; mas era a vontade do bem e não a do orgulho. Quando, por vezes, di-
zia eu quero, a palavra estava cheia de unção (...)"244 (grifos originais). É de se admirar e reconhecer
toda pujança presente numa vontade pura; sedimentada no amor vivido e exemplificado, torna-se
uma vontade verdadeiramente divina. Eis o que o Cristo nos ensinou; eis o que Paulo nos lembra!
Léon Denis, com sua síntese, nos concede outra jóia de raciocínio:


236
MALIK, Malcom. El arte de magnetizar. In "El Art de Magnetizar al Alcance de Todos", pp. 85 e 86.
237
ROCHAS, Albert De. In "Exteriorização da Sensibilidade", Nota "L", p. 206.
238
SHERWOOD, Keith. A enfermidade mental. In "A Arte da Cura Espiritual", cap. 4, p.41.
239
TURNBULL, V. Lição 18. In "Curso de Magnetismo Pessoal", p. 85.
240
DELANNE, Gabriel. In "A Alma é Imortal", Quarta Parte, pp. 289 a 293.
241
O ZUAVO, Jacob. "Revista Espírita", nov. 1867, p. 346.
242
Da mediunidade curadora. "Revista Espírita", set. 1865, p. 253.
243
Médiuns curadores. "Revista Espírita", jan. 1864, p. 7.
244
Médiuns curadores, Ibidem. p. 8.
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245
"A vontade de aliviar, de curar, comunica ao fluido magnético propriedades curativas" . Ao
que André Luiz acrescenta: "Pelo passe magnético (...), notadamente naquele que se baseie no ma-
nancial da prece, a vontade fortalecida no bem pode soerguer a vontade enfraquecida de outrem para
que essa vontade novamente ajustada à confiança magnetize naturalmente os milhões de agentes mi-
croscópicos a seu serviço, a fim de que o Estado Orgânico, nessa ou naquela contingência, se re-
componha para o equilíbrio indispensável"246. E, sendo mais explícito ainda, ratifica dizendo: "Te-
mos, assim, as variadas províncias celulares sofrendo o impacto constante das radiações mentais, a
lhes absorverem os princípios de ação e reação desse ou daquele teor, pelos quais os processos da
saúde e da enfermidade, da harmonia e da desarmonia são associados e desassociados, conforme a
direção que lhes imprima a vontade"247, complementando que "O processo de socorro pelo passe é
tanto mais eficiente quanto mais intensa se faça a adesão daquele que lhe recolhe os benefícios, de
vez que a vontade do paciente, erguida ao limite máximo de aceitação, determina sobre si mesmo
mais elevados potenciais de cura.
"Nesse estado de ambientação, ao influxo dos passes recebidos, as oscilações mentais do en-
fermo se condensam, mecanicamente, na direção do trabalho restaurativo, passando a sugeri-lo às
entidades celulares do veículo em que se expressam, e os milhões de corpúsculos do organismo fisi-
opsicossomático tendem a obedecer, instintivamente, às ordens recebidas, sintonizando-se com os
propósitos do comando espiritual que os agrega"248.
Em outra oportunidade, este Espírito correlaciona a mente, o corpo, o perispírito e a vontade,
numa panorâmica de inexcedível profundidade: "Tomando (...) o sistema cerebral por gabinete admi-
nistrativo da mente, reconheceremos sempre que a conduta do corpo espiritual está submetida ao
249
governo da nossa vontade" . E não apenas isso; a "corrente de partículas mentais exterioriza-se de
cada Espírito com qualidade de indução mental, tanto maior quanto mais amplos se lhe evidenciem
as faculdades de concentração e o teor de persistência no rumo dos objetivos que demande.
"(...) No reino dos poderes mentais (...), a corrente mental é suscetível de reproduzir as suas
próprias peculiaridades em outra corrente mental que se lhe sintonize. (...) O fenômeno obedece à
conjugação de ondas, enquanto perdure a sustentação do fluxo energético.
"Compreendemos (...) que a matéria mental é o instrumento sutil da vontade, atuando nas for-
mações da matéria física, gerando as motivações de prazer ou desgosto, alegria ou dor, otimismo ou
desespero, que não se reduzem efetivamente a abstrações, por representarem turbilhões de força em
que a alma cria os seus próprios estados de mentação indutiva, atraindo para si mesma os agentes
(por enquanto, imponderáveis na Terra) de luz ou sombra, vitória ou derrota, infortúnio ou felicida-
de"250.
Quanto à ausência da vontade, partindo da premissa de que quem não confia no que faz não
tem boa vontade sobre o que quer: "A falta de confiança, diz Aubin Gauthier, faz o timorato; teme-
se o efeito magnético, em vez de o desejar; ele se apresenta, é recebido com inquietação; os efeitos
imprevistos enchem de pasmo o incrédulo, ou impelem a imprudências e exageros, que não se danam
251
em havendo diretrizes a reflexão, o critério e a experiência" .


245
DENIS, Léon. A força psíquica. Os fluidos. O magnetismo. In "No Invisível", 2ª parte, cap. 15, p. 181.
246
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Passe magnético. In "Evolução em Dois Mu ndos", 2ª Parte, cap.
15, p. 203.
247
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Mediunidade curativa. In "Mecanismos da Mediunidade", cap.
22, item Mente e psicossoma, p. 144.
248
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Mediunidade curativa. In "Mecanismos da Mediunidade", item
Vontade do paciente, p. 148.
249
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Mecanismos da mente. In "Evolução em Dois Mundos", cap. 16,
item Secção da medula, pp. 121 e 122.
250
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Matéria mental. In "Mecanismos da Mediunidade", cap. 4, item
Indução mental, pp. 43 e 44.
251
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 10, p. 85.
JACOB MELO 65
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Concluímos generalizando, por extensão de tudo o que vimos, que só seremos bons passistas
se, além dos caracteres anteriormente já analisados, possuirmos
uma vontade firme e ativa, a qual é construída com ação e vivência consciente, e não só com
palavras.

2. QUEM RECEBE
Basicamente, dois são os personagens que se interligam no mecanismo do passe: o receptor e
o doador. Por isso, o sucesso ou o insucesso de um tratamento fluidoterápico depende, diretamente,
do comportamento deles. Este é, sem dúvida, um raciocínio genérico, haja vista sabermos que vários
fatores influem no processo, os quais nem ao menos se limitam à esfera material. Esses outros fato-
res serão objeto de estudo em momento próprio. No momento, veremos quem recebe.
Sabemos que não apenas nós, os encarnados, recebemos os benefícios do passe. Quem tenha
participado de reunião de desobsessão ou mesmo procedido leitura criteriosa das obras da Codifica-
ção e suas subsidiárias, há de ter comprovado que os Espíritos desencarnados igualmente se benefi-
ciam desse balsamo divino, tanto diretamente dos Espíritos quanto com a ajuda dos encarnados.
Contudo, como nos dirigimos precipuamente aos encarnados, não consideraremos esta outra evidên-
cia neste item, pois a questão que ora nos diz respeito é mais atinente ao nosso plano físico e suas
conseqüências neste.
Como faremos nossas colocações de forma didática, ressaltamos que alguns tópicos serão ana-
lisados sem levar em consideração outras evidências; contudo, sempre as mencionaremos pois, de fa-
to, não serão desprezadas, senão destacadas para um melhor entendimento.
Ressalvas à parte, consideremos o paciente, que é nosso primeiro "quem", um desconhecido.
Não sabemos de onde veio, por que veio, que religião professa, se acredita ou não nos Espíritos,
nem que tipo de problemas tem. Mas, sabemos o essencial: ele é o nosso próximo! E, se ali está, é
porque, querendo ou não, acreditando ou sem acreditar, se dispôs a receber "algo" que, sem dúvida,
é para nós, os médiuns, os dirigentes e as Casas Espíritas, um bom caminho para a prática do amor
fraternal, desinteressado e cristão. Portanto. mãos à obra!
Primeiro, nos conscientizemos de que devemos dar ao paciente, além do passe, tudo o mais
que é da maior importância: evangelho, orientação, desmistificação do tratamento e desmistificação
dos ídolos, concitando-o à reforma interior e a compreensão dos fatos para, pelo conhecimento, não
ser levado a vícios e equívocos que, embora costumeiros, são injustificáveis.
Depois, não olvidemos que cabe a nós, os passistas, antes que ao paciente, o dever de saber o
que fazemos, como fazemos e por que fazemos o passe já que nem sempre aquele outro irá tomá-lo
sabendo exatamente o que fazer ou como fazê-lo. Não podemos cair na desculpa de atribuir respon-
sabilidades aos outros, relegando a nossa a escanteio. Afinal, assim como certos pacientes criam há-
bitos e vícios perniciosos por falta de orientação correta, o médium passista, pela falta de estudo,
bom senso, ponderação e assiduidade, pode não apenas adquirir manias ridículas e antidoutrinárias
como transmiti-las, inadvertida e perniciosamente, aos pacientes e companheiros desavisados.
Como homens, sabemos que a administração do patrimônio orgânico é tarefa pessoal e intrans-
ferível, estando não apenas sua manutenção sob nossa responsabilidade, mas, igualmente sua conser-
vação dentro dos padrões de equilíbrio que a própria Natureza nos indica. "Quando, porém, o ho-
mem espiritual dominar o homem físico, os elementos medicamentosos da Terra estarão transforma-
dos na excelência dos recursos psíquicos e essa grande oficina achar-se-á elevada a santuário de for-
252
ças e possibilidades espirituais junto das almas". Emmanuel .
Desde então, que evoluamos em moralidade e conhecimentos, pórticos de alcandoradas possi-
bilidades abrir-se-nos-ão, descortinando horizontes de harmonia e equilíbrio, num oceano de boas
252
XAVIER, Francisco Cândido. In "O Consolador", 1ª Parte, cap. 5, questão 97, p. 67.
JACOB MELO 66
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



energias, onde tão acessível nos será receber benesses espirituais quanto transferirmos tais bênçãos
aos mais carentes.
Retomando nossa linha de raciocínio inicial para seqüenciar o estudo, podemos destacar, entre
os que "recebem":
pacientes com problemas físicos;
pacientes com problemas espirituais; e
pacientes com ambos problemas.

2.1- Pacientes Com Problemas Físicos
Aqui iremos nos referir apenas a problemas orgânicos, desprezando qualquer fator que não se-
ja puramente físico. Portanto, estaremos afastando, momentaneamente, as decorrências de fatores
espirituais e morais. Subdividiremos este grupo de pacientes em três:

2.1.1 - Portadores de Doenças Contagiosas
Recomendação de André Luiz: "Interditar, sempre que necessário. a presença de enfermos
portadores de moléstias contagiosas nas sessões de assistência em grupo, situando-os em regime de
253
separação para o socorro previsto" pois "A fé não exclui a previdência" .
É evidente que a medida sugerida tem caráter puramente preventivo e jamais discriminatório
como há quem possa querer julgar. É lógico não devamos expor alguém que venha em busca de um
auxílio, ao contágio de um outro, mal, tal como não será cristão dispor o contagiante, que igualmen-
te busca ajuda, ao ridículo da execração de outrem. O bom senso nos indica que cuidados são neces-
sários e devidos. A prudência nos sugere discernimento e tato. A razão nos solicita não só agir, mas
reflexionar. Sejamos, pois, cristãos. Afinal, o portador de doença contagiosa já sofre uma espécie de
isolamento que, mesmo sendo natural e involuntário, não deixa de ser constrangedor. E se sua doen-
ça for de longo curso, seu estado de ânimo, face essa "solidão", pode estar bastante abatido. Não se-
jamos nós portanto, por imprudência, os agravantes desse estado. Ajamos com a razão, mas, sem es-
quecer que ela é má conselheira se desassociada do sentimento.
Até mesmo em nome da prudência e do bom senso, o passe recomendado a esta categoria de
doentes deve ser aplicado em caráter individual e reservado, com os cuidados cabíveis e recomendá-
veis para situações que tais.
Uma observação importante merece ser destacada: o passista não deve simplesmente negar a-
tendimento a pacientes dessa categoria por medo de contagio. Ao lado de certos cuidados que po-
dem e devem ser tomados, uma ponderação do Espírito Manoel Philomeno de Miranda vem a calhar:
"Médicos e enfermeiros, assistentes sociais e voluntários, religiosos dedicados que se entregam às ta-
refas mais sacrificiais em Sanatórios dos males de Hadsen, de Koch e de outras baciloses violentas
sem que o contato demorado com os pacientes lhes cause qualquer contágio, adquirem resistências
imunológicas, enquanto outros, que não convivem com portadores de inumeráveis moléstias, de um
para outro momento fazem-se vítimas das vigorosas doenças que lhes exterminam o corpo, em razão
de se encontrarem no mapa cármico de cada um as condições propiciatórias para que se lhes mani-
festem os males que merecem e de que necessitam em razão dos delitos praticados e que são atenua-
dos pela misericórdia do Senhor, já que o amor é mais poderoso do que a justiça, que por aquele se
faz comandada"254 (Grifamos a última frase.)

2.1.2 - Portadores de Doenças não Contagiosas

253
VIEIRA, Waldo. Perante o passe. In "Conduta Espírita", cap. 28, pp. 103 e 104.
254
FRANCO, Divaldo Pereira. Resgate necessário e urgente. In "Painéis da Obsessão", cap. 4, p. 36.
JACOB MELO 67
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Como o paciente aqui enquadrado não expõe outros a riscos de contágios, seu atendimento
poderá ser feito tanto de forma individualizada quanto em grupo, dependendo do tratamento e das
técnicas a serem usadas.
Por ser comum o paciente que busca o tratamento magnético estar passando por acompanha-
mento médico ou sob medicação indicada por facultativo, convém, nesses casos, manter ficha de a-
companhamento contendo informações sobre tipos de tratamento e medicações que esteja fazendo
uso 255.
A propósito, eis o que nos diz Suely Caldas Schubert: "Se o doente está fazendo uso de medi-
cação receitada por médico da Terra, esta não deverá ser suspensa. nem sob o pretexto de atrapalhar
o tratamento espiritual. Uma atitude dessas traz graves implicações, cujos resultados poderão com-
prometer seriamente aquele que a recomendou. Afinal, sabemos à saciedade que existem casos de
caráter misto, em que se conjugam o mal espiritual e o físico, exigindo por isso uma terapêutica i-
gualmente mista"256. (Grifos originais.)
Não desconhecemos que a clássica Escola de Mesmer recomendava fossem evitadas certas
substâncias no corpo orgânico para um melhor alcance do tratamento magnético. Mas, como disse-
mos no capitulo I, não nos propomos a tratar do magnetismo em exclusividade, mas, sim do passe,
fazendo mão das técnicas, experiências e conclusões daquele, porém, adaptando-as a nossa realida-
de. Ademais, posteriores estudos acerca do magnetismo não deram muita ênfase aquele aspecto res-
tringente, apesar de se comprovar, numa enormidade de casos, que a homeopatia age, quando con-
jugada ao magnetismo, mais proficuamente que a alopatia, mormente em casos de origem cármica.
Todavia, como o passe espírita atua, primordialmente, a nível de perispírito, não encontramos muita
argumentação a favor de que o medicamento humano interfira no paciente a ponto de inutilizar ou
anular o efeito magnético. Modemamente, inclusive, já há consenso quanto à necessidade de trata-
mentos concomitantes, haja vista o que nos t trazido das avançadas pesquisas verificadas no Leste
Europeu.
Contrariamente, temos inúmeras comprovações de que as atitudes mentais perniciosas e as vi-
brações e mentalizações negativas por parte do paciente são violentos veículos degeneradores do re-
equilíbrio fluídico adquirido através da fluidoterapia, onde, portanto, nossa redobrada atenção e cui-
dado são requeridos no intuito de instruir os pacientes a respeito.

2.1.3 - Portadores de Doenças Desconhecidas
Para pacientes com esta característica e que venham a tomar passes com acompanhamento
(controle por meio de fichas), devemos buscar informações via receituário da Casa Espírita bem co-
mo junto ao próprio paciente ou acompanhantes, seguindo-se com o tratamento que for recomenda-
do, ou, ainda, por outros meios confiáveis que são a intuição espiritual e o "tato-magnético"257.
Dispensado dizer que as observações apresentadas no item anterior são igualmente extensivas
a este grupo, assim como, informados da possibilidade de contágio, se interpolarão os cuidados re-
comendados na matéria do primeiro item (1.1.1) deste capítulo.

2.2 - Pacientes com Problemas Espirituais
Nesta oportunidade nos deteremos nos problemas eminentemente espirituais, abstraindo-nos,
portanto, das injunções orgânicas.


255
Vide apêndices I, II e III onde apresentamos modelos de ficha de acompanhamento usado no Grupo Espírita Allan
Kardec - GEAK, de Natal-RN.
256
SCHUBERT, Suely Caldas. Os recursos espíritas. In "Obsessão / Desobsessão", 2ª Parte. cap. 8, p. 112.
257
Vide detalhamento no cap. VIII - "As Técnicas".
JACOB MELO 68
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



É comum observarmos que parte dos pacientes englobados neste grupo sente uma certa "apro-
ximação ou influência" quando recebe o passe. O Espírito André Luiz, entrementes, nos recomenda
que devemos "Interromper as manifestações mediúnicas no horário de transmissões do passe curati-
vo"258 . Além de ser uma recomendação prudente, é de uma aplicação, diríamos, intransigentemente
necessária. Sem tal cuidado, muito dos melhores esforços fica seriamente comprometido, em especial
quando se trata de passes em cabines coletivas ou quando não está a dirigir os trabalhos pessoa de
elevada moral e conhecimento doutrinário seguro. Posteriormente trataremos desse assunto.
Neste grupo faremos igualmente três subdivisões:

2.2. 1 - De Origem Perispirítica (ou Cármica)
Como somos hoje o resultado da autoconstrução promovida nas experiências pretéritas, tra-
zemos para esta vida mazelas que encontram suas origens nos desequilíbrios que patrocinamos alhu-
res. Sendo nosso perispírito o agente arquivador dos reflexos desses desequilíbrios, é por seu inter-
médio que se verifica a transposição das chamadas injunções cármicas, fazendo refletir no corpo or-
gânico de hoje as conseqüências dos desvios perpetrados "ontem". É a lei de "causa e efeito". E-
xemplificamos: uma criatura que apresente problemas pulmonares "de nascença" pode ter sido uma
alma viciada em fumo em precedente existência; pessoas com sérios distúrbios intestinais, sem come-
terem excessos que favoreçam tal quadro hoje, por certo, encontrarão nas glutonarias do passado
justificativas bem lógicas para suas atuais patologias; indivíduos com dores de cabeça violentas e
permanentes, sem qualquer explicação clínica, encontram nas vidas anteriores as causas matrizes;
cânceres, aleijões, demências, lepras, asmas, epilepsias, deformidades congênitas e tantas outras situ-
ações que, diversas vezes, não encontram qualquer justificativa em causas presentes, indubitável se-
rão racionalmente explicadas como de origem cármica.
Pela natureza pretérita da doença, fácil se concluir nem sempre ser possível grandes conquis-
tas, inclusive com a fluidoterapia. Como a origem do mal está, neste caso, diretamente ligada a fato-
res morais do passado, é imprescindível uma reestruturação moral e vibratória do paciente. Sem isso,
pouco se pode esperar, salvo os casos em que o paciente já esteja em término de quitação do débito.
Nestes casos, como em especial todos os de origem espiritual, a responsabilidade dos médiuns
passistas aumenta, assim como devem aumentar a fé e o interesse do próprio paciente em se curar.
Mas nós, os médiuns. devemos "Criar em torno dos doentes uma atmosfera de positiva confiança, a-
través de preces, vibrações e palavras de carinho, fortaleza e bom ânimo"259 (André Luiz) para, dessa
forma, contribuirmos mais eficazmente no processo de reparação/recuperação do paciente.
Ademais, conforme nos lembra Manoel Philomeno: "Na terapia do passe (...) a disposição do
paciente exerce papel relevante para os resultados. A má vontade habitual (...) gera energia de alto
teor destrutivo que se irradia do interior da pessoa para o seu exterior, produzindo a anulação da
força (...)"260.
Como vimos, a efetiva participação do paciente é fundamental, não apenas nessas, como em
outras situações. Por outro lado, se noutros casos a participação do passista é muito importante, nes-
te é de inegável valor. Afinal, o perispírito do paciente carece de fluidos tanto do plano espiritual
quanto do material, sendo que estes últimos apenas são fornecidos pelos médiuns. Por serem os flui-
dos dos médiuns, em termos de vibração, de equivalência igual ao do paciente mas tecnicamente
harmoniosos, a renovação fluídica que se verificará pelo passe favorecerá o estabelecimento das
condições de cura ou, quando pouco, de manutenção da carga fluídica, então renovada.



258
VIEIRA. Waldo. Perante o passe. In "Conduta Espírita", cap. 28. p. 103.
259
VIEIRA. Waldo. Perante os doentes. In "Conduta Espírita", cap. 22. p. 84.
260
FRANCO. Divaldo Pereira. Reencontro feliz. In "Nas Fronteiras da Loucura", cap. 30, pp. 235 e 236.
JACOB MELO 69
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Daí, em tais casos, o comum à ver-se a ação fluídica superar a ação oriunda da farmacopéia e
dos tratamentos médico-hospitalares pois, via de regra, bom número desses casos só obtêm da medi-
cina tradicional resultados apenas satisfatórios e de forma intermitente.
Uma regra geral, todavia, se sobressai: este tipo de paciente quase sempre requer tratamento
de longo prazo; o que não quer dizer não haja curas quase instantâneas em pacientes tais. Isto por-
que nos encontramos em nível de provas e expiações e, muitas vezes, passamos por sofrimentos que
são a resposta do preceito evangélico: "Se a vossa mão ou o vosso pé vos é objeto de escândalo,
cortai-os e lançai-os longe de vós; melhor será para vós que entreis na vida tendo um só pé ou uma
só mão, do que terdes dois e serdes lançados no fogo eterno"261. Lembramos, todavia, que estes pa-
cientes têm de trabalhar seriamente em prol de suas reformas morais, sempre.
Quanto aos passes aqui aplicados, tanto podem ser individuais quanto coletivas, mas existem
casos mais graves em que o bom senso recomenda se opte pelos aplicados individualmente.

2.2.2 - De origem Obsessiva
Uma grande parte dos espíritas, quando encontra alguém com problemas obsessivos, recomen-
da-lhe participar de reunião de desobsessão (com frases tipo: "você precisa ir para a "mesa" desen-
volver"; "ou você dá "passividade" ou vai se dar mal"; ou ainda "lá no Centro tem um médium que
"tira" esse Espírito bem "ligeirinho" "). Antes que tudo, reunião de desobsessão não é reunião públi-
ca nem à sua parte prática devem comparecer os obsidiados, conforme recomendam os Espíritos e a
experiência o comprova; reunião de desobsessão é reunião privada, onde médiuns (que devem ser
equilibrados) se reúnem no intuito de auxiliarem os Espíritos sofredores, encarnados e desencarna-
dos, orando e vibrando em favor dos mesmos. O que pode e deve haver é uma parte doutrinária, pú-
blica, para levar o Evangelho aos pacientes obsidiados, lhes obsequiando o passe ao final.
"Desenvolver" a mediunidade, por sua vez, é educá-la, dirigi-la com sabedoria e consciência e
não colocar-se uma pessoa "numa mesa" para "incorporar" o obsessor. Ora, se alguém está pertur-
bado por obsessão, claro se encontra sob o jugo de Espíritos imperfeitos, dos quais não tem sabido
se desvencilhar. Como, então, propor a essa criatura a desenvoltura de suas possibilidades medianí-
micas se elas também estão sob domínio inferior? Correto será primeiro sanar o clima espiritual para
só depois fazer encaminhamento a educação mediúnica, sob pena de facilitar mais ainda o obsidiado
ao domínio daquele(s) de quem se está a querer fugir.
Lamentavelmente temos observado que nem sempre se dá a importância devida ao passe na te-
rapia desobsessiva; de ordinário verificamos que o passe só tem se revestido de seus reais valores
quando se trata de atendimento para cura ou alivio de dores e mal-estares físicos. De outra forma, o
que é mais lastimável, tem sido considerado como um mero complemento de reunião doutrinária ou
como, pasme-se, criação ritualística do Espiritismo (Doutrina que não tem nem se coaduna com ritu-
ais de quaisquer tipos ou natureza) para substituir o sentido atribuído à hóstia católica.
O passe, no tratamento desobsessivo, é de capital importância. Não apenas o passe coletivo, de
cabine, espiritual, como usualmente é chamado, mas, para vários casos, o passe onde o magnetismo
do médium, unido aos fluidos dos Espíritos, é aplicado de uma forma bem própria e racional; em
suma, o passe misto-magnético ou o misto-misto 262.
A doutrinação evangélica, conforme já dito anteriormente, é tão ou mais importante que o pas-
se, pois tem o papel indispensável de renovar as disposições íntimas do obsidiado e do obsessor, fa-
vorecendo, assim, o rompimento das ligações "mento-magnéticas" estabelecidas entre eles, por meio
da elevação do padrão vibratório de ambos. O passe, em tais casos, fornece fluidos para a renovação


261
Mateus, Cap. V, v. 29. In "O Evangelho segundo o Espiritismo", cap. 8, item 11, p. 159.
262
No capítulo VI ­ "Como - O Impasse do Passe", apresentamos nossas justificativas para as nomenclaturas que
temos utilizado na titulação dos tipos dos passes.
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do "clima" fluídico do obsidiado, predispondo-o a manutenção das bênçãos em si mesmo. É óbvio
que, a depender do caso, o tipo ou a técnica do passe poderá variar263.
Pacientes submetidos a processos de subjugação normalmente terão tratamento mais trabalho-
so e prolongado. Os passes para eles serão bem diversos, com predominância dos fluidos magnéti-
cos. Porém, como medida complementar, os nomes desses pacientes deverão estar inscritos nos li-
vros de preces das Instituições que fazem reuniões de desobsessão ou de atendimento espiritual a
distância, lembrando que, em todo caso, o verdadeiro livro de preces deve ser o coração do médium,
pleno de amor e de boas vibrações em favor não só do obsidiado como do obsessor.
Fator relevante é que os passes nos pacientes com problemas obsessivos atingem igualmente os
obsessores. E como eles são também saturados de bons fluidos, se renovam, se houver predisposição
para tal, ou se controlam, como se dominados por uma força estranha, ou, ainda, nalgumas situa-
ções, fogem espavoridos, largando "a presa" por momentos, os quais serão valiosíssimos se bem a-
proveitados pelos doutrinadores, passistas e pacientes264.
Corroborando, nos diz Antonio J. Freire: "O magnetismo, quando aplicado com proficiência e
bondade, pode prestar relevantes serviços a estes Espíritos sofredores; por vezes, ficam curados nu-
ma só sessão. As preces (...) são de magnífico efeito auxiliar, conjuntamente com as aplicações mag-
néticas a fim de expurgar o perispírito da parte etérica que ainda lhe esteja agregada, o que se conse-
gue com os passes magnéticos dispersantes"265.
Para facilitar o entendimento, voltamos a buscar a palavra do Espírito Manoel Philomeno, o
qual nos apresenta um precioso estudo sobre o tema: "Nos comportamentos obsessivos, as técnicas
de atendimento ao paciente, além de exigirem o conhecimento da enfermidade espiritual, impõem ao
atendente outros valores preciosos que noutras áreas da saúde mental não são vitais (...). São eles: a
conduta moral superior do terapeuta - o doutrinador encarregado da desobsessão -, bem como do
paciente, quando este não se encontre inconsciente do problema; a habilidade afetuosa de que se de-
ve revestir, jamais esquecendo do agente desencadeador do distúrbio, que é, igualmente, enfermo,
vítima desditosa, que procura tomar a justiça nas mãos; o contributo das suas forças mentais, dirigi-
das a ambos litigantes da pugna infeliz; a aplicação correta das energias e vibrações defluentes da o-
ração ungida de fé e amor; o preparo emocional para entender e amar tanto o hóspede estranho e in-
visível quanto o hospedeiro impertinente e desgastante no vaivém das recidivas e desmandos (...)
"A cura das obsessões, conforme ocorre no caso da loucura, é de difícil curso e nem sempre
rápida, estando a depender de múltiplos fatores, especialmente, da renovação, para melhor, do paci-
ente, que deve envidar esforços máximos para granjear a simpatia daquele que o persegue (...)"266.
A tarefa desobsessiva, portanto, não é eminentemente do passe, mas este entra como reforço
de primeira linha. Observemos a seguinte colocação de Bezerra de Menezes quando comentava so-
bre um processo desobsessivo com a atuação do plano espiritual: "Foi muito sábia a Mentora amiga,
propondo, em primeiro ato, a desobsessão, para depois serem aplicadas outras fluidoterapias ao lado
da medicamentosa e da psicoterapia que a Doutrina Espírita pode propiciar com excelentes resulta-
dos, a depender de fatores vários como do próprio paciente, quando possa optar pela ocupacional,
dedicando-se ao serviço de benemerência e de abnegação, em favor do próximo, através do qual
granjeará méritos que influirão na regularização de suas dívidas, pela diminuição dos seus débitos.
Não devemos, como é sabido, agasalhar idéias otimistas exageradas, quanto à recuperação da saúde
mental do nosso doente (...)"267.



263
Nos capitulo VI e VIII adiante, veremos os tipos e as técnicas do passe.
264
Veja-se, no capítulo VIII adiante, o tem "Choque Anímico".
265
FREIRE, Antônio J. Do corpo vital ou duplo etérico. In "Da Alma Humana", cap. 3, p. 50.
266
FRANCO, Divaldo Pereira. Introdução. In "Loucura e Obsessão", p. 14.
267
FRANCO. Divaldo Pereira. O drama de Carlos. In "Loucura e Obsessão". cap. 4, p. 52.
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O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA




2.2.3 - Decorrente de Desvios Morais
Como a ação fluídica tem na vontade seu motor e no pensamento seu veiculo, fica evidente
que pacientes com tais problemas tornam-se, via de regra, extremamente refratários a fluidoterapia
porquanto tal decorrência tem matriz nas desarmonias que são geradas na instabilidade moral do pa-
ciente, o que, por sua vez, não lhe favorece uma mentalização equilibrada e constante no bem.
Não queremos com isso dizer que estes pacientes sejam considerados incuráveis ou que não se
lhes deva prestar todo o auxílio possível; ao contrário, lembremo-nos de que "Somos devedores de
amor e respeito uns para com os outros e, quanto mais desventurados, de tanto mais auxílio necessi-
tamos. É indispensável receber nossos irmãos comprometidos com o mal, como enfermos que nos
reclamam carinho"268 (André Luiz).
Na espiritualidade, entretanto, existem limites. Observemos um caso exemplar tratado pelo Es-
pírito Anacleto e narrado por André Luiz: "Há pessoas que procuram o sofrimento, a perturbação, o
desequilíbrio, e à razoável que sejam punidas pelas conseqüências de seus próprios atos. Quando en-
contramos enfermos dessa condição, salvamo-los dos fluidos deletérios em que se envolvem por de-
liberação própria, por dez vezes consecutivas, a título de benemerência espiritual. Todavia, se as dez
oportunidades voam sem proveito para os interessados, temos instruções superiores para entregá-los
a sua própria obra, a fim de que aprendam consigo mesmos. Poderemos aliviá-los, mas nunca libertá-
269
los" (grifamos).
Pode parecer estranho que a Espiritualidade seja tão rígida para com aqueles que persistem no
erro, mas perguntamos: será que nós temos tanta paciência com aqueles que convivem conosco? Se-
rá que reprisaríamos a oportunidade por dez vezes consecutivas para quem insistisse em continuar
cometendo o mesmo erro? Veja-se bem; não se trata aqui do perdão, que deve ser dado "Não só sete
270
vezes mas setenta vezes sete vezes" , porém do atendimento repetido ao renitente, ao incorrigível,
que persiste em cometer as mesmas faltas, os mesmos delitos, de forma consciente.
Para este grupo de pacientes a recomendação do estudo metódico e sistemático da Doutrina,
aliada ao hábito de boas leituras, freqüência às reuniões evangélico-doutrinárias e a prática do bem,
com exercício da paciência, do perdão, da humildade e da resignação, é imperativo. Mas, bem o sa-
bemos, devido seu estado mental, dificilmente conseguirá ele iniciar-se por aí, sem auxílio. Para tan-
to, nossas preces e o passe são contributos valiosíssimos.
Como disseram os Espíritos a Allan Kardec: "Não basta que um doente diga ao seu médico:
dê-me saúde, quero passar bem. O médico nada pode, se o doente não faz o que é preciso"271. Assim
nosso paciente; ele deve ser alertado sobre suas responsabilidades no processo de cura, pois, a flui-
doterapia não pode ser vista como transferência ou omissão delas, mas, sim, benesses complementa-
res que são adquiridas e estabilizadas pela sua vivência.

2.3 - Paciente Com Ambos os Problemas
Agora, não isolaremos decorrências, pois, este item trata de casos mistos: físicos (orgânicos) e
psíquicos (espirituais).
Do ponto de vista material, a ação do passista é quase sempre muito restrita. Afinal, por mais
se tenha estudado e pesquisado, falecem-nos os meios por dominar a "manipulação fluídica", dom
por enquanto apenas acessível a Espiritualidade. Na realidade, quase sempre nos limitamos a forne-
cer os fluidos que nos são peculiares, dando-lhes a impulsão benéfica de acordo com nossa vontade
firme de fazer o bem. Ter consciência disso é importante, pois, além de nos fazer refletir sobre como
268
XAVIER. Francisco Cândido. Mandato Mediúnico. In "Nos Bastidores da Mediunidade", cap. 16, p. 150.
269
XAVIER. Francisco Cândido. Os passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 334.
270
Mateus, XVIII, v. 22.
271
KARDEC, Allan. Da obsessão. In "O Livro dos Médiuns", cap. 23, item 254, questão terceira.
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agir cotidianamente no bem, para podermos fornecer bons fluidos, impõe-nos a necessidade do estu-
do continuado a fim de melhor contribuirmos no processo fluidoterápico.
Através do estudo, sempre conjugado à intuição espiritual, podemos avaliar a maior valência
do problema do paciente para bem direcionar o tratamento. Caso prevaleça o aspecto físico, reco-
mendam-se os cuidados descritos para pacientes com estes problemas (item 2.1); do contrário, deve-
se observar os descritos no item seguinte (2.2). Contudo, o bom senso nos recomenda não fazermos
distinção tão marcante, notadamente porque os Espíritos serão os verdadeiros "operadores" e, quase
sempre, serão eles quem encaminharão todo o processo, abstração feita à responsabilidade dos mé-
diuns.
Neste grupo de pacientes teremos tratamentos conjugados, os quais só a análise caso a caso
poderá determinar o caminho a seguir. É sempre bom lembrar, todavia, que nada nem nenhum trata-
mento fluidoterápico pode ser tão técnico que descuide dos princípios básicos do amor cristão e da
fé em Deus.

3. QUEM DOA
"Na cura, nós somos o aparelho e, falando de forma simples, temos de estar sempre nos esfor-
çando para nos tornarmos melhores receptores. (...) O poder que traz a cura começa como um Espí-
rito puro, como uma energia pura, que tem de ser reconduzida, enfraquecida, transformada, tornada
mais grosseira, num certo sentido, antes que possa ser transmitida para "fulana", que veio para ser
272
curada (...)" (Dudley Blades). - Ao contrário do que se poderia imaginar, esta citação é de um
pastor presbítero inglês e não de algum autor Espírita. Inclusive, na obra ("A Energia Espiritual e
Seu Poder de Cura") ele comenta sobre reencarnação (é favorável), mundo espiritual, Espíritos, e
tem uma visão muito feliz sobre as bênçãos de Deus em relação a nós.
De suas palavras apreendemos a importância de nos melhorarmos como doadores, pois apesar
de mostrarmos repetidas vezes que o papel do médium no tratamento do passe é, dentro de certos
ângulos, mais de canal que necessariamente de gerência, "Apregoarmos que o resultado do passe in-
depende do médium que o aplica, além de ser um ponto de vista sem base doutrinária, será motivo
para que o médium se acomode, não encontrando ele por que se esforçar por melhorar-se. Ao con-
trário, que a Doutrina ensina é que ele deve adotar hábitos salutares, eliminando os vícios, vigiando
as emoções e sentimentos, aplicando-se ao estudo, à meditação e a prece, cultivando intenções no-
bres, enfim, trabalhando pelo seu aperfeiçoamento moral para que possa ser instrumento útil dos
companheiros espirituais no amparo as necessidades humanas"273 (Dalva Silva Souza). Por isso
mesmo. deve o magnetizador "(...) Contar com boa saúde, sua vontade deve ser firme; a fé na ciên-
cia que professa, absolutamente inquebrantável; sua conduta deve ser inobjetável, seus costumes
moderados e, ademais, ser um ser humano disposto sempre a sacrificar-se por seus semelhantes"274
(Malcolm Malik).
Dentro dessa seqüência, Paul-Clément Jagot nos afirma que "O essencial, para magnetizar de
uma maneira benéfica, é um equilíbrio moral, intelectual e físico satisfatório. Se o moral é ao mesmo
tempo firme e sensível, se o intelecto é lúcido e culto, se os mecanismos fisiológicos são robustos,
profusamente radioativos, os resultados serão máximos. Mas, repito, a retidão da intenção, seu ardor
275
e um estado de saúde normal bastam" , prosseguindo mais adiante: "A insônia, a intoxicação ali-
mentar, a insuficiência respiratória enfraquecem consideravelmente a tensão de exteriorização. A agi-
tação nervosa, as emoções vivas, as paixões obsessivas perturbam a emissividade, que então se torna


272
BLADES. Dudley. In "A Energia Espiritual e Seu Poder de Cura", cap. 2, p. 31.
273
OS EFEITOS do passe. "Reformador", ago, 1986, p. 254.
274
MALIK. Malcolm. Hipnotismo. In "El Arte de Magnetizar al Alcance de Todos", p. 23.
275
JAGOT, Paul-Clément. Introdução. In "Iniciação a Arte de Curar pelo Magnetismo Humano", cap 1, item 5, To-
da pessoa equilibrada pode magnetizar, p. 14.
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276
instável, espasmódica e perde suas propriedades equilibrantes" . Como vimos, no final ressurge a
tensão que, da parte do passista, implica a qualidade de sua participação no processo fluidoterápico.
Sem dúvida, o passista é peça-chave nos tratamentos fluídicos. E mesmo sendo aquele que a-
plica o passe um médium, todos o podem praticar já que as condições para se ser passista não requer
se tenha mediunidade ostensiva em qualquer de suas nuanças. Tal nos afirma Léon Denis: "Como o
Cristo e os apóstolos, como os santos, os profetas e os magos, todos nós podemos impor as mãos e
curar, se temos amor aos nossos semelhantes e o desejo ardente de os aliviar"277. Daí, contudo, não
se crer seja o passe um brinquedo que a todos é dado direito manusear de maneira irresponsável.
Como diz Roque Jacintho, "Ninguém recebe uma graça ou um acréscimo especial da Misericórdia
Divina para ser, aqui na Terra, um passista comum. E no mesmo sentido, ninguém, para essa ativida-
de normal, traz missão especialíssima"278. Conscientização das responsabilidades, portanto, à tarefa
inadiável.
O Espírito André Luiz em diálogo com o mentor Alexandre, examinando a participação dos
Espíritos nos processos da fluidoterapia, pergunta: "Esses trabalhadores apresentam requisitos espe-
ciais?" Ao que Alexandre responde:
"- Sim (...), na execução da tarefa que lhes está subordinada, não basta a boa vontade, como
acontece em outros setores de nossa atuação. Precisam revelar determinadas qualidades de ordem
superior e certos conhecimentos especializados. O Servidor do bem, mesmo desencarnado, não po-
de satisfazer em semelhante serviço, se ainda não conseguiu manter um padrão superior de elevação
mental contínua, condição indispensável à exteriorização das faculdades radiantes". Isto coloca com
liminar clareza a posição de conhecimentos e esforços dos Espíritos nesta tarefa que, na nossa ótica
puramente material, se nos parece tão simples, tão mecânica.
Para nos posicionar no outro ponto da questão (o do médium passista), André Luiz indaga:
"Os amigos encarnados, de modo geral, poderiam colaborar em semelhantes atividades de auxílio
magnético?" A resposta é primorosa:
"- Todos, com maior ou menor intensidade, poderão prestar concurso fraterno, nesse sentido,
porquanto, revelada a disposição fiel de cooperador a serviço do próximo, (...) as autoridades de
nosso meio designam entidades sábias e benevolentes que orientam, indiretamente, o neófito, utili-
zando-lhe a boa vontade e enriquecendo-lhe o próprio valor. São muito raros, porém, os compa-
nheiros que demonstram a vocação de servir espontaneamente. Muitos, não obstante bondosos e
sinceros nas suas convicções, aguardam a mediunidade curadora, como se ela fosse um acontecimen-
to miraculoso em suas vidas e não um serviço do bem, que pede do candidato o esforço laborioso
279
do começo" (grifamos).
Se, por um lado, temos de reconhecer a seriedade do trabalho dos passes, que nos requer estu-
dos, tanto da Doutrina quanto especializados, e esforço laborioso para o grande desiderato, podemos
estar tranqüilos quanto a nos vincularmos nas tarefas do passe, pois "Os orientadores da Espirituali-
dade procuram companheiros, não escravos. O médium digno da missão do auxílio não é um animal
subjugado à canga, mas sim um Irmão da Humanidade e um aspirante à Sabedoria. Deve trabalhar e
280
estudar por amor (...)" (Áulus). Portanto, "Todas as pessoas dignas e fervorosas, com o auxílio da
prece, podem conquistar a simpatia de veneráveis magnetizadores do Plano Espiritual, que passam,
assim, a mobilizá-las na extensão do bem. (...) É importante não esquecer essa verdade para deixar-



276
JAGOT Paul-Clément. Noções elementares. In "Iniciação a Arte de Curar pelo Magnetismo Humano", cap. 2, i-
tem 4. O magnetizador, p. 17.
277
DENIS, Léon. In "No Invisível", Parte 2, cap. 15, p. 182.
278
JACINTHO, Roque. Passistas. In "Passe e Passista", cap. 3, p. 19.
279
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, pp. 321 e 322.
280
XAVIER, Francisco Cândido. Mandato mediúnico. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 16, p. 156.
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281
mos bem claro que, onde surjam a humildade e o amor, o amparo divino é seguro e imediato"
(Áulus).
Analisando o papel do doador nas atividades do passe,iremos estudar separadamente os mé-
diuns e os Espíritos.

3. 1 - Os Médiuns
Com serenidade concluímos que no campo do passe há espaço para todos. Lembremo-nos, to-
davia, que "Ser médium é ser ajudante do Mundo Espiritual. E ser ajudante em determinado trabalho
é ser alguém que auxilia espontaneamente, descansando a cabeça dos responsáveis"282 (Emmanuel).
Aos médiuns, portanto, "O estudo da constituição humana lhes é naturalmente aconselhável,
tanto quanto ao aluno de enfermagem, embora não seja médico, se recomenda a aquisição de conhe-
cimentos do corpo em si. E do mesmo modo que esse aprendiz de rudimentos da Medicina precisa
atentar para a assepsia do seu quadro de trabalho, o médium passista necessitará vigilância no seu
campo de ação, porquanto de sua higiene espiritual resultará o reflexo benfazejo naqueles que se
proponha socorrer. Eis por que se lhe pede a sustentação de hábitos nobres e atividades limpas, com
a simplicidade e a humildade por alicerces (...)"283 (André Luiz).
Por outro lado, o receio de se ser visto pelos não espíritas como meros gesticuladores ou ma-
gos curandeiros não deverá encontrar respaldo em nossos sentidos, pois o que deveras conta é nossa
participação efetiva no socorro aos necessitados. Ademais, existe a visão espiritual da questão: "Os
passistas afiguravam-se-nos como duas pilhas humanas deitando raios de espécie múltipla, a lhes fluí-
rem das mãos, depois de lhes percorrerem a cabeça (...)"284 (André Luiz). E, a partir desta visão, não
podemos nos deter em raciocínios menores, sem, contudo, açularmos vaidades piegas ou fomentar-
mos a imaginação com a irrealidade de se possuir poderes miraculosos, daqueles que derrogariam as
leis Naturais. Somos passistas; somos trabalhadores da seara do Cristo. Isto é muito. Isto é tudo!

3.1.1 - Condições Físicas
À primeira vista, poderia parecer que apenas aqueles que têm bom condicionamento físico são
passíveis de aplicar passes. É fora de dúvida que uma saúde perfeita, um corpo sem doenças, favore-
cerá enormemente na função de uma boa doação fluídica. Mas, por tudo o que já vimos até aqui, é
fácil deduzir que isso não é tudo; afinal, são inumeráveis os casos de pessoas que são socorridas por
outras mais débeis e frágeis fisicamente, mas, nem por isso, os alcances são menos expressivos. Con-
tudo, não estamos com isso querendo menosprezar o valor do equilíbrio orgânico do médium passis-
ta, notadamente daquele que doa suas próprias energias: o passista magnético, o magnetizador pro-
priamente dito. O cuidado com sua saúde não só é importante como imprescindível.
Vejamos como pensa Michaelus: "Um corpo sem saúde não pode transmitir aquilo que não
possui; a sua irradiação seria fraca, ineficaz e mais nociva do que útil, para si e para o paciente.
"Deve-se, entretanto, distinguir entre uma pessoa incessantemente doente (...) da que é apenas
atingida de uma doença local, um mal de estomago, dos rins, etc., embora de caráter crônico"285.
(Este é, inclusive, o pensamento de Aubin Gauthier expresso em seu "Magnétisme et Somnambulis-
me".) O mesmo Michaelus, continuando o assunto, traduz a assertiva de Alfonse Bué (do seu "Mag-


281
XAVIER, Francisco Cândido. Serviço de passes. In "Missionários da Luz", cap. 17, p. 167.
282
XAVIER, Francisco Cândido. Ser Médium. In "Seara dos Médiuns", p. 138.
283
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Mediunidade curativa. In "Mecanismos da Mediunidade", cap.
22, item Médium passista, p. 146.
284
XAVIER, Francisco Cândido. Serviço de passes. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 17, p. 165.
285
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 7, pp. 51 e 52.
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nétisme Curatif') que deve ser bem ponderada: "Não se creia, entretanto, que o poder magnético ca-
minhe de par com a força muscular".
Apesar de parecer contraditório, a saúde é importante ser velada, mas, de igual modo, não é
tudo. Afinal, como o fluxo magnético provém não só do corpo senão essencialmente da alma, é des-
ta que devemos cuidar em primeiro lugar. Só que é indissociável o cuidar de uma sem o zelar da ou-
tra. Outrossim, o estado físico, por si só, não diz tudo o que precisa ser observado; já dissemos, a-
lhures, que a mentalização negativa destrói, desintegra, perturba nossas camadas fluídicas equilibra-
das e equilibrantes, donde fácil concluir que o físico não é sobrevalente ao estado mental.
Muitas vezes, não conseguimos evitar o acometimento de certas doenças em nós mesmos, vis-
to podermos ingerir algo deteriorado sem o percebermos e isso nos complicar a saúde, por exemplo.
Ou então, aquelas epidemias que de tempos a tempos aparecem e nos pegam "desprevenidos". Até aí
está relativamente justificado o problema verificado em nossa saúde, sem, com isso, termos com-
prometido nossa moral. Mas, existem outras situações que não nos exime das responsabilidades de-
correntes: "A fiscalização dos elementos destinados aos armazéns celulares é indispensável, por parte
do próprio interessado em atender as tarefas do bem. O excesso de alimentação produz odores féti-
dos, através dos poros, bem como das saídas dos pulmões e do estomago, prejudicando as faculda-
des radiantes, porquanto provoca dejeções anormais e desarmonias de vulto no aparelho gastrintesti-
nal, interessando a intimidade das células. O álcool e outras substâncias tóxicas operam distúrbios
nos centros nervosos, modificando certas funções psíquicas e anulando os melhores esforços na
286
transmissão de elementos regeneradores e salutares". (Grifos nossos.) Esta colocação do Espírito
Alexandre nos adverte para algumas das coisas que devemos ter cuidado, a fim de não comprome-
termos nosso corpo somático nem o trabalho de assistência via passes. Afinal, se no exemplo anteri-
or poderíamos ser catalogados, de certa forma, como vítimas das circunstâncias, agora somos os a-
gentes dos distúrbios, por não vigiarmos ou por agirmos em desacordo com os cuidados requeridos.
Corroborando com tudo o que foi visto, ampliaremos, aqui, os compromissos que temos com
nossa saúde. Um técnico em planejamento reencarnatório, no plano espiritual, assim se refere a um
grupo que prejudicou seus corpos: "Abusaram eles da magnífica saúde que possuíam. Saúde! Bem
inapreciável de que o homem desdenha, fingindo ignorar que se trata de um auxílio divino que a soli-
citude do Altíssimo concede as criaturas (...). Sem a mínima demonstração de respeito à autoridade
do Criador, aqueles nossos inditosos irmãos envenenaram os fardos preciosos com excessos de toda
a natureza!287 ". Desnecessário dizer que, se para a vida como um todo a falta de cuidados com a sa-
úde tem repercussões que tais, imaginemos o que ocorre a nível das disposições fluídicas em face da
urgência de determinados trabalhos fluídicos.
Por tudo isso, existe um coro uníssono e universal a respeito. Fred Wachsmann nos sintetiza
que, "De um modo geral, deve-se evitar tudo quanto importa no desgaste ou perda de energia: ex-
cessos sexuais, trabalhos demasiados, alimentação imprópria, hiperácida, hipercarnívora, energética,
bem como o álcool, a nicotina e os entorpecentes de toda espécie; deve-se, enfim, viver mais natu-
ralmente e adquirir melhores qualidades"288.
Carlos Imbassahy, por sua vez, nos adverte: "O Espiritismo (...) aconselha que preservemos o
nosso corpo dos elementos ou fatores que lhe diminuam a capacidade de resistência, e assim teremos
que nos alimentar, sóbria, mas suficientemente; não podemos perder a noite em prazeres inúteis ou
os dias em maus contubérnios e em vícios; não devemos entregar-nos à ociosidade; não usaremos
vestes impróprias ao clima; não procuraremos exagerar o recato até o ridículo; não sacrificaremos as
benesses da Natureza em nome de convenções ou de uma moral movediça, intermitente, errática, o-



286
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 323.
287
PEREIRA. Yvonne A. In "Memórias de um Suicida", 2ª Parte, cap. 6, pp. 361 e 362.
288
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 7, p. 54.
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riunda de mitos, das superstições ou da ignorância. É, enfim, nosso dever, promover a robustez, en-
treter a saúde, alimentar a existência por meio do exercício físico (...)"289.
Consideraremos, separadamente, as condições para as crianças e para os idosos290. A questão
do deficiente mental, abordaremos no item 3.1.3 adiante.

3.1.2 - Condições Morais
Eis o que o Codificador nos indica a respeito: "Se o médium,do ponto de vista da execução,
não passa de um instrumento, exerce, todavia, influência muito grande, sob o aspecto moral. (...) A
alma exerce sobre o Espírito livre uma espécie de atração, ou de repulsão, conforme o grau da seme-
lhança existente entre eles. (...) As qualidades que, de preferência, atraem os bons Espíritos são: a
bondade, a benevolência, a simplicidade do coração, o amor ao próximo, o desprendimento das coi-
sas materiais. Os defeitos que os afastam são: o orgulho, o egoísmo, a inveja, o ciúme, o ódio, a cu-
pidez, a sensualidade e todas as paixões que escravizam o homem a matéria"291. Além disso, a porta
que os espíritos imperfeitos "Exploram com mais habilidade é o orgulho, porque é a que a criatura
menos confessa a si mesma. O orgulho tem perdido muitos médiuns dotados das mais belas faculda-
292
des (...)" .


Na "Revista Espírita" de outubro de 1867 Kardec publicou uma mensagem do Abade Príncipe
de Hohenlohe muito interessante: "(...) Conforme o estado de vossa alma e as aptidões do vosso or-
ganismo, podeis, se Deus vo-lo permitir, tanto curar as dores físicas quanto os sofrimentos morais,
ou ambos. Duvidais de ser capaz de fazer uma ou outra coisa, porque conheceis as vossas imperfei-
ções. Mas Deus não pede a perfeição, a pureza absoluta dos homens da terra. A esse título, ninguém
entre vós seria digno de ser médium curador. Deus pede que vos melhoreis, que façais esforços
constantes para vos purificar e vos leva em conta a vossa boa vontade. (...) Melhorai-vos pela prece,
pelo amor do Senhor, de vossos irmãos e não duvideis que o Todo-Poderoso não vos dê as ocasiões
freqüentes de exercer vossa faculdade mediúnica. (...) Até lá orai, progredi pela caridade moral, pela
influência do exemplo (...)"293.
Noutra oportunidade o Codificador indagou ao Espírito Annonay, sonâmbula de uma "lucidez
notável", a qual ele conhecera quando encarnada:
"27 - O poder magnético do magnetizador depende de sua constituição física?
"- Sim; mas muito de seu caráter. Numa palavra: depende de si próprio.
"30. - Quais as qualidades mais essenciais para o magnetizador?
"- O coração; as boas intenções sempre firmes; o desinteresse.
"31. - Quais os defeitos que mais o prejudicam?
"- As más inclinações, ou melhor, o desejo de prejudicar"294 .
É Kardec quem comenta: "O fluido espiritual será tanto mais depurado e benfazejo quanto
mais o Espírito que o fornece for puro e desprendido da matéria. Compreende-se que o dos Espíritos
inferiores deva aproximar-se do homem e possa ter propriedades maléficas, se o Espírito for impuro
e animado de más intenções.


289
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 7, p. 55.
290
Vide capítulo X.
291
KARDEC, Allan. In "O Livro dos Médiuns", cap. 20, item 227.
292
KARDEC, Allan. In "O Livro dos Médiuns", cap. 20, item 228.
293
"Dissertações Espíritas", III, pp. 320 e 321.
294
SRA. REYNAUD. "Revista Espírita", mar, 1859, p. 80.
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"Pela mesma razão, as qualidades do fluido humano apresentam nuanças infinitas, conforme as
qualidades físicas e morais do individuo. É evidente que o fluido emanado de um corpo malsão pode
inocular princípios mórbidos ao magnetizado. As qualidades morais do magnetizador, isto é, a pure-
za de intenção e de sentimento, o desejo ardente e desinteressado de aliviar o seu semelhante, aliados
a saúde do corpo, dão ao fluido um poder reparador que pode, em certos indivíduos, aproximar-se
das qualidades do fluido espiritual"295. (Grifos originais.)
Reveste-se de fundamental importância o registro acima pelas conclusões que albergam. Entre
outros, Kardec nos confirma o valor da moral ante a qualidade dos fluidos, a qual pode transubstan-
ciar nossos fluidos animais em "quase" espirituais .
A essas alturas, lembramos uma citação que vimos alhures: "Há mediunidades extraordinárias,
mas poucos médiuns extraordinários"296. Sem dúvida,ela se presta a várias interpretações, mas, uma
delas vem a calhar ao nosso caso. Existem, deveras, mediunidades extraordinárias; quanto ao senti-
do, quanto ao alcance e quanto ao espetáculo. Mas, médiuns extraordinários, anônimos servidores
do Cristo, que fazem e cumprem seus deveres sem estardalhaços, sem personalismos, sem vaidades
ou outros sentimentos menos nobres, esses são poucos. Entretanto, não sejamos tão pessimistas; eles
existem. E nós, eu e você, poderemos ser um deles. Sabe de quem depende isso? De nós apenas. "-
Mas como?", pode ser perguntado. "- Com nosso esforço, pela melhora moral nossa". "- E os
Espíritos Superiores, esses nos ajudarão?" "- Sim, pois que já nos ajudam, mesmo sem nos
melhorarmos. Apenas não os percebemos porque nos sintonizamos em freqüências diferentes, por
opção própria". Eles estão sempre prontos. Infelizmente, nós é que quase nunca estamos a
disposição deles. Como dois só conseguem quando os dois querem, é necessário que queiramos, pois
os Espíritos Superiores o querem, com certeza (pelo que fica faltando só a nossa parte). Vale ser
lembrado, contudo, que querer é ter disposição, boa vontade e ação e não apenas dizer "quero", e
braços.
cruzarObservemos, agora, o que nos diz o Espírito Alexandre: "O servidor do bem, mesmo desen-
carnado, não pode satisfazer em semelhante serviço (do passe) se ainda não conseguiu manter um
padrão superior de elevação mental contínua, condição indispensável à exteriorização das faculdades
radiantes. O missionário do auxilio magnético, na Crosta ou aqui em nossa esfera, necessita ter
grande domínio sobre si mesmo, espontâneo equilíbrio de sentimentos, acendrado amor aos seme-
lhantes, alta compreensão da vida, fé vigorosa e profunda confiança no Poder Divino. (...) Na esfe-
ra carnal, a boa vontade sincera, em muitos casos, pode suprir essa ou aquela deficiência, o que se
justifica, em virtude da assistência prestada pelos benfeitores de nossos círculos de ação ao servidor
humano, ainda incompleto no terreno das qualidades desejáveis"297 (grifamos).
Todavia, não pensemos que isso só se aplica aos médiuns e aos Espíritas. A moral é chave fun-
damental para todos. Observe-se, por exemplo, o que nos diz George W. Meek298: "Os curandeiros
são quase invariavelmente generosos, amáveis, preocupando-se muito com seus pacientes". Ou seja,
mesmo aqueles que não são necessariamente vistos com os bons olhos da coletividade humana, in-
clusive uma grande parte Espírita, são portadores de virtudes enobrecedoras e, sem dúvida, isso é
fundamental para seus sucessos.
Feita esta constatação, sentimos como o posicionamento moral do médium é muito importante
para o sucesso de sua tarefa. Não esperamos, pois, que os pacientes sejam sempre "bonzinhos" e que
os Espíritos estejam sempre "na agulha" para agirem ao nosso "estalar de dedos", sem que sejamos
nós os primeiros a estar prontos, física e, sobretudo, moralmente para o trabalho. Não seria de se
imaginar diferente. A moral há de ter importância preponderante nos trabalhos fluídicos, já que o
meio onde os fluidos são processados é basicamente mental (para não dizer espiritual). A mente de-
termina a vibração fluídica a partir da vontade e esta libera os fluidos, tonificando-os pelos padrões
psíquicos do(s) emissor(es); estes fluidos serão tão melhormente consistentes e harmonizados quanto
295
Da mediunidade curadora. Revista Espírita", set. 1865, item 4, p. 252.
296
TOLEDO, Wenefledo de. In "Passes e Curas Espirituais", 2ª Parte, lição 6ª, p. 93.
297
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 321.
298
MEEK. George W. Observações. In "As Curas Paranormais", cap. 5, p. 61.
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maior equilíbrio tiver a moral do(s) doador(es). Assim, deixando de lado as condições do receptor
final (paciente), a emissão fluídica assume o cunho de pureza determinada pela moral em que vi-
bra(m) o(s) emissor(es).

3.1.3 - Condições Mentais (Psíquicas)
Não devemos forçar a prática mediúnica em pessoas débeis, pois a perda de fluidos pode lhes
ser danosa. Diríamos até que não se deve forçar, no sentido literal da palavra, qualquer prática me-
diúnica em qualquer criatura. Mas, seguindo com Kardec, desse exercício "Cumpre afastar, por to-
dos os meios possíveis, as que apresentem sintomas, ainda que mínimos, de excentricidade nas idéi-
as, ou de enfraquecimento das faculdades mentais, porquanto, nessas pessoas, há predisposição evi-
dente para a loucura, que se pode manifestar por efeito de qualquer sobreexcitação. (...) O que de
melhor se tem a fazer com todo indivíduo que mostre tendência a idéia fixa e dar outra diretriz as su-
as preocupações, a fim de lhe proporcionar repouso aos órgãos enfraquecidos"299.
De início, portanto, já concluímos com Allan Kardec que aquelas criaturas com limitações
mentais não são indicadas as tarefas mediúnicas. Entretanto, as implicações não se restringem a esse
aspecto. Voltando à última citação do Espírito Alexandre300, encontramo-lo, um pouco mais adiante,
agora sob outro ângulo: "Falaremos tão-só das conquistas mais simples e imediatas que deve fazer (o
médium), dentro de si mesmo. Antes de tudo, é necessário equilibrar o campo das emoções. Não é
possível fornecer energias construtivas a alguém (...) se fazemos sistemático desperdício das irradia-
ções vitais. Um sistema nervoso esgotado, oprimido, é um canal que não responde pelas interrupções
havidas. A mágoa excessiva, a paixão desvairada, a inquietude obsidente, constituem barreiras que
impedem a passagem das energias auxiliadoras"301.
Uma outra observação de impedimento as práticas da mediunidade nos é colocada pelo Espíri-
to André Luiz quando nos sugere "Interdizer a participação de portadores de mediunidade em dese-
quilíbrio nas tarefas sistematizadas de assistência mediúnica, ajudando-os discretamente no reajuste"
302
posto que "Um doente-médium não pode ser um médium-sadio" . Mais claro e objetivo é impossí-
vel.
Prossigamos com a literatura de André Luiz, agora na palavra do Espírito Albério: "(...) A
mente permanece na base de todos os fenômenos mediúnicos. (...) Nossa mente é, dessarte, um nú-
cleo de forças inteligentes, gerando plasma sutil que, a exteriorizar-se incessantemente de nós, ofere-
ce recursos de objetividade às figuras de nossa imaginação, sob o comando de nossos próprios de-
sígnios. (...) Em qualquer posição mediúnica, a inteligência receptiva está sujeita às possibilidades e a
coloração dos pensamentos em que vive, e a inteligência emissora jaz submetida aos limites e às in-
terpretações dos pensamentos que é capaz de produzir. (...) Em mediunidade, portanto, não pode-
mos olvidar o problema da sintonia"303. Eis aí, claramente estabelecido, por que a mente equilibrada
e, em conseqüência, nossa posição psíquica, é de vital importância para conseguirmos o fruto dese-
jado nas lides fluidoterápicas.
O cultivo de mente pura à nosso dever, já que ela é o filtro por onde passam as benesses que
favorecerão nosso próximo e, por conseguinte, a nós mesmos. Afinal, "A energia transmitida pelos
amigos espirituais circula primeiramente na cabeça dos médiuns"304. (Só para recordar, lembra o lei-
tor onde fica o Centro Coronário e qual a sua importância?)


299
KARDEC, Allan. Inconvenientes e perigos da mediunidade. In "O Livro dos Médiuns", cap. 18, item 222.
300
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 321.
301
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 323.
302
VIEIRA, Waldo. Do dirigente de reuniões doutrinárias. In "Conduta Espírita", cap. 3, p. 24.
303
XAVIER, Francisco Cândido. Estudando a mediunidade. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 1, pp. 15, 17 e
18.
304
XAVIER, Francisco Cândido. Serviço de passes. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 17, p. 165.
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Poderíamos ainda pensar nas condições psicológicas do médium ante o serviço do passe. Mui-
tas publicações têm surgido ultimamente enfatizando o poder da mente, com colocações, diríamos,
nem sempre bem ponderadas. Isto porque, na maioria delas, enfatiza-se o "querer é poder", mas, a-
tribuindo ao querer a simples repetitividade, até meio irracional, de palavras ou frases "chaves". Por
exemplo: "Diga para você, 'tantas' vezes por 'tanto' tempo, que você vai conseguir isso, ou que você
terá aquilo ou que você alcançará aquilo outro". E depois de você se convencer disso, garante que
terá alcançado ou estará por alcançar seu desejo. É, sem querer menosprezar as obras sérias que tra-
tam do assunto, um simplismo fabricado para atender à comodidade da "lei do menor esforço". Que-
rer estabelecer poderes através do simples condicionamento de palavras é, no mínimo, reduzir as ma-
ravilhosas potencialidades do ser humano a puro automatismo irracional.
Os médiuns hão de desenvolver condições íntimas de fé e confiança, que se adquirem com
muito labor. "O Evangelho segundo o Espiritismo" muito nos tem ensinado nesse sentido. E são es-
sas condições, adquiridas e vividas de forma inabalável, que nos favorecerão as condições psicológi-
cas do "eu quero, eu posso", posto que estabelecidas em vivência, em prática, em Espírito e verdade
e não por refração de palavras.
Nossa posição psicológica para a aplicação do passe deve ser tal qual a assertiva do Mestre Je-
sus: "Seja o vosso falar (e agir), sim, sim; não, não305. Sem espaço para vacilações, sem espaço para
descrença, sem espaço para o medo. A mente tem que estar repleta de pensamentos positivos e o co-
ração emitindo vibrações de um harmônico amor. Nosso desejo não será o de curar de qualquer ma-
neira mas o de favorecer o paciente, o irmão necessitado, com a "ajuda máxima que possamos dar",
mas, sob os alcances determinados pelo "seja feita a vontade de Deus", e não necessariamente a nos-
sa.
Podemos concluir com uma síntese de Keith Sherwood: "O curador busca duas direções: pri-
meiro Deus, concretizando a afinidade com o Todo, a fonte da cura e depois com seu paciente, tor-
306
nando-se o canal através do qual a energia fluirá" . Isto representa uma imagem ideal para o passis-
ta, posto que, buscar a Deus, Jesus já bem ensinou, através do "Amarás o teu próximo como a ti
307
mesmo" ; e se buscando-O amamos o semelhante, e vice-versa, alcançamos o ideal da Lei já que ali
se encontram "toda a lei e os profetas"308, inclusive a lei das curas.

3.2 - Os Espíritos
Será que já nos demos conta de que, para a realidade da existência do passista, se torna neces-
sária a presença de trabalhadores no plano espiritual nessa mesma área, para secundar (o mais certo
seria primar) os trabalhos?
Independentemente do atendimento dos Espíritos aos trabalhos específicos do passe, sabemos,
com o Espírito Alexandre, que "Há verdadeiras legiões de trabalhadores de nossa especialidade am-
parando as criaturas, que através de elevadas aspirações, procuram o caminho certo nas instituições
religiosas de todos os matizes"309. Inclusive, com esta afirmação, fica evidente que o trabalho da Es-
piritualidade Superior, no atendimento de nossas necessidades, não se vincula a qualquer ordem ou
orientação religiosa dessa ou daquela estirpe; simplesmente atende aos necessitados, na proporção
direta de sua fé, de seu merecimento e de sua vinculação com os planos elevados. Isto ratifica a pos-
tulação de Kardec no capítulo XV de "O Evangelho segundo o Espiritismo", quando, registrando
passagens do Cristo e de Paulo neste especial, corporifica o "Fora da caridade não há salvação".
Os Espíritos, temos certeza, são indispensáveis em nossas atividades fluidoterápicas e sua ação
é tão palpável que negá-los se nos apresenta como ignorância ou puro orgulho; ignorância da parte
305
Mateus, V, v. 37.
306
SHERWOOD. Keith. O perigo do medo. In "A Arte da Cura Espiritual", cap. 2, item Confiança e união, p. 36.
307
Mateus, XXII, v. 39.
308
Mateus, XXII, v. 40.
309
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 327.
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daquele que não sabe, não conhece, não experimentou; orgulho, naquele que sabe, conhece ou expe-
rimentou, mas se acredita insubstituível e fonte natural de todos os recursos que fluem por seu in-
termédio; pobre coitado carente de oração e cuidados para não se obsidiar em grau mais elevado.

3.2. 1 - Nos Passes
"- Mãos à obra! Distribuamos alguns passes de reconforto!
"(...) Recordei Narcisa (...) Pareceu-me, ainda, ouvir-lhe a voz fraterna e carinhosa - 'André,
meu amigo, nunca te negues, quanto possível, a auxiliar os que sofrem. Ao pé dos enfermos, não ol-
vides que o melhor remédio é a renovação da esperança; se encontrares os falidos e os derrotados da
sorte, fala-lhes do divino ensejo do futuro; se fores procurado, algum dia, pelos Espíritos desviados e
criminosos, não profiras palavras de maldição. Anima, eleva, educa, desperta, sem ferir os que ainda
dormem. Deus opera maravilhas por intermédio do trabalho de boa vontade!' (...)
"Aniceto designou-me um grupo de seis enfermos espirituais, acentuando:
"- Aplique seus recursos, André. (...)
"Aproximei-me duma senhora profundamente abatida (...), entendendo que não deveria socor-
rer utilizando apenas a firmeza e a energia, mas também a ternura e a compreensão. (...)
"Lembrando a influência divina de Jesus, iniciei o passe de alívio sobre os olhos da pobre mu-
310
lher, reparando que enorme placa de sombra lhe pesava na fronte" .
Pela exposição, não temos motivos para descrer da ação dos Espíritos, já que a larga maioria
dos experimentadores de todas as Escolas, de forma direta ou velada, também se reporta a essa ação,
quer por menção à intuição, quer por referência as sensações de "acompanhamentos".
Chico Xavier perguntou a André Luiz: "Quais os principais métodos usados na Espiritualidade
para o tratamento das lesões do corpo espiritual?" Eis a resposta: "- Na Espiritualidade, os servido-
res da Medicina penetram, com mais segurança, na história do enfermo para estudar, com o êxito
possível, os mecanismos da doença que lhe são particulares.
"Aí, os exames nos tecidos psicossomáticos com aparelhos de precisão (...) podem ser enri-
quecidos com a ficha cármica do paciente a qual determina quanto a reversibilidade ou irreversibili-
dade da moléstia, antes de nova reencarnação, motivo por que numerosos doentes são tratáveis, mas
somente curáveis mediante longas ou curtas internações no campo físico, a fim de que as causas
profundas do mal sejam extirpadas da mente pelo contacto direto com as lutas em que se configu-
raram.
"Crucial, portanto, é que o médico espiritual se utilize ainda, de certa maneira. da medicação
que vos é conhecida, no socorro aos desencarnados em sofrimento (...)
"Contudo é imperioso reconhecer que na Espiritualidade Superior o médico (...) se ergue com
(...) as qualidades morais que lhe confiram valor e ponderação, humildade e devotamento, visto que
a psicoterapia e o magnetismo, largamente usados no plano estrafísico, exigem dele grandeza de
caráter e pureza de coração"311 (grifamos).
A transcrição dispensa comentários.
Na espiritualidade, é de se notar, também se faz uso da "psicoterapia e do magnetismo", fican-
do, assim, definido que não se trata de Ciências eminentemente humanas, mas, sobretudo, Naturais.
Isso é bom ficar bem entendido pois Psicologia é o estudo da alma e Magnetismo à a Ciência do bem
em ação; e por assim serem entendidas, não podem, pura e simplesmente, ser afastadas das Casas
Espíritas. Devemos, isto sim, usar-lhe os benefícios, orientados pela lucidez kardequiana da Codifi-
310
XAVIER, Francisco Cândido. Assistência. In "Os Mensageiros", cap. 44, pp. 228 a 231.
311
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Predisposições mórbidas. In "Evolução em Dois Mundos", 2ª
Parte, cap. 19, pp. 215 e 216.
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cação Espírita, sem com isso estarmos apregoando devam as Instituições Espíritas ter ou vir a ser
clínicas de psicologia ou departamentos de magnetismo aplicado.

3.2.2 - Sua Ação de Maneira Direta no Paciente
Vejamos um caso registrado por Allan Kardec que fala por si:
"Tínhamos ocultado a morte do Sr. Demeure à Sra. G..., médium vidente e sonâmbula muito
lúcida, para poupar sua extrema sensibilidade. E o bom doutor (Demeure), percebendo nosso ponto
de vista, sem dúvida tinha evitado manifestar-se a ela. A 10 de fevereiro último, estávamos reunidos
a convite de nossos guias que, diziam eles, queriam aliviar a Sra. G... de uma entorse de que sofria
cruelmente desde a véspera. Não sabíamos mais que isto (...). Apenas caída em sonambulismo, a da-
ma soltou gritos lancinantes, mostrando o pé. Eis o que se passava:
"A Sra. G... via um Espírito curvado sobre sua perna, mas as suas feições ficavam ocultas; o-
perava fricções e massagens, fazendo de vez em quando uma fricção longitudinal sobre a parte do-
ente, absolutamente como teria feito um médico. A operação era tão dolorosa que a paciente por ve-
zes vociferava e fazia movimentos desordenados. Mas a crise não teve longa duração; ao cabo de
dez minutos todo o traço de entorse havia desaparecido; não mais inflamação, o pé tinha tomado sua
aparência normal; a Sra. G... estava curada.
"(· · · ) A cura referida acima é um exemplo da ação do magnetismo espiritual puro, sem
qualquer mistura do magnetismo humano"312 (grifamos).
Eis outro exemplo, agora como testemunho pessoal; há alguns anos sofríamos de um violento
processo alérgico nas fossas nasais, ao ponto de só dormirmos com aplicação local de remédios va-
soconstritores. Como sofremos de hipertensão, a situação ficou muito delicada. Certa noite, a hora
de dormir, pedimos aos Amigos Espirituais que, se possível, "procurassem um jeitinho" para resolver
o problema, pois já não conseguíamos dormir direito, em virtude da dificuldade de respiração. Dias
depois, enquanto trabalhávamos ao computador, repentinamente veio um mal-estar na narina mais
fortemente afetada e, num espirro, saiu uma carnosidade bastante volumosa dali, envolta de sangue
enegrecido. Ficamos espantados mas, por precaução, guardamos aquela "carne" num vidro com ál-
cool. Fato é que não nos lembrávamos mais da prece daquela noite e, após uns quatro ou cinco dias
deste último fato, percebemos que o nariz não mais ficava obstruído, pelo que voltamos a dormir di-
reito (...) Só então percebemos que tal se deu depois do desprendimento daquela "coisa". Procura-
mos, então, um médico amigo, contamos-lhe o fato, ele examinou o material e disse se tratar de um
"cartucho" (esse é o nome que conhecemos) que tinha sido "cirurgiado". Para nós, foram os Espíri-
tos que fizeram a cirurgia, se bem não saibamos como se deu o fenômeno na sua intimidade.
Não há dúvidas: isto é exemplo de intervenção espiritual!

4. POTENCIAL FLUÍDICO
Como quem doa tem que ter o que doar ou saber o que, e onde conseguir para doá-lo, faremos
alguns registros neste sentido.
Allan Kardec nos informa que "São extremamente variados os efeitos da ação fluídica sobre os
doentes, de acordo com as circunstâncias. Algumas vezes é lenta e reclama tratamento prolongado,
como no magnetismo ordinário; doutras vezes é rápida, como uma corrente elétrica. Há pessoas do-
tadas de tal poder, que operam curas instantâneas nalguns doentes, por meio apenas da imposição
das mãos, ou, até, exclusivamente por ato da vontade. Entre os dois pólos extremos dessa faculdade,
há infinitos matizes. Todas as curas desse gênero são variedades do magnetismo e só diferem pela in-


312
Poder curativo do magnetismo espiritual. In "Revista Espírita", abr. 1865, pp. 109 a 111.
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tensidade e pela rapidez da ação. O princípio é sempre o mesmo: o fluido, a desempenhar o papel de
agente terapêutico, e cujo efeito se acha subordinado à sua qualidade e a circunstâncias especiais"313 .
Observemos como o Codificador deixou bem diferenciado o magnetismo ordinário do
magnetismo que é levado a efeito pelo Espiritismo e, por conseguinte, nos passes. Como se infere,
tanto da teoria quanto da prática, o magnetismo ordinário é de aplicação bem mais demorada que o
espírita, mesmo em se tratando de um idêntico objetivo, um mesmo alcance. Todavia, para quem não
aceita ou não conhece o Espiritismo fica difícil entender o motivo disso tudo. Para nós, que
estudamos a Doutrina dos Espíritos, é fácil esse entendimento; nossa ação conta com a participação
consciente e aceita dos Espíritos e de seu instrumental,que chamaríamos de cósmico, fluido-
espirítico ou ainda fluídico-espiritual.
Allan Kardec nos concede outras observações: "(...) o médium (curador) tem uma ação mais
poderosa sobre certos indivíduos do que sobre outros, e não cura todas as doenças. Compreende-se
que assim deva ser, quando se conhece o papel capital que representam as afinidades fluídicas em
todos os fenômenos de mediunidade. Algumas pessoas mesmo só gozam acidentalmente e para um
determinado caso. Seria, pois, um erro crer que, por isso que se obteve uma cura, mesmo difícil, po-
dem ser obtidas todas, pela razão que o fluido próprio de certas doenças é refratário ao fluido do
médium; a cura é tanto mais difícil quanto a assimilação dos fluidos se opera naturalmente. Assim, é
surpreendente que algumas pessoas frágeis e delicadas exerçam uma ação poderosa sobre indivíduos
fortes e robustos. Então é que essas pessoas podem ser bons condutores do fluido espiritual, ao pas-
so que homens vigorosos podem ser maus condutores. Têm seu fluido pessoal, fluido humano, que
314
jamais tem a pureza e o poder reparador do fluido depurado dos bons Espíritos" (grifamos).
Acreditamos ser óbvio que um corpo são tem melhores recursos fluídicos, via de regra, que um
315
corpo débil, doente. Numa obra já mencionada , há registro das observações do comportamento
orgânico em médiuns, onde, pelas perdas de peso, alteração de pulso e pressão e consideráveis modi-
ficações nos níveis sanguíneos, fica evidente que é necessário um bom estado orgânico para que se
tenha um grande potencial fluídico. Mas a recíproca não é necessariamente verdadeira. O animismo
(perispiritual) pode fornecer tônus vital próprio que exceda os potenciais orgânicos, assim como as
condições nunca desprezíveis, advindas da atuação fluídica decorrente de uma vontade forte e da a-
ção dos Espíritos reforçam esses potenciais.

4.1- Afinidade x Potencial Fluídico
Na "Revista Espírita" de 1858, Kardec nos diz: "A emissão do fluido pode ser mais ou menos
abundante: daí os médiuns mais ou menos potentes.
E como não é permanente, explica a intermitência daquele poder. Enfim, se levarmos em conta
o grau de afinidade que pode existir entre o fluido do médium e o de tal ou qual Espírito, compreen-
316
der-se-á que sua ação se possa exercitar sobre uns e não sobre outros" .
Concluído que a potência fluídica está diretamente relacionada com a quantidade e a qualidade
da emissão fluídica por parte do médium, localizamos, com Kardec, outra dependência: a da afinida-
de. Tanto que ele diz: "A cura é devida às afinidades fluídicas, que se manifestam instantaneamente,
como um choque elétrico, e que não podem ser prejulgadas"317.
Isso tudo nos induz ao entendimento das muitas vezes em que um determinado tipo de trata-
mento funciona com um paciente e não com outro; ou com um, segundo uma extensão temporal
mais ou menos longa, que em outros. Por isso achamos precipitado acusarmos ineficiência em certos

313
KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item 32.
314
Poder curativo do magnetismo espiritual. In "Revista Espírita", abr. 1865, pp. 111 e 112.
315
KRIPPNER, Stanley (ph.D). Psicocinesia em Leningrado. In "Possibilidades Humanas", cap. 2.
316
Teoria das manifestações físicas - 2. In "Revista Espírita", jun. 1858, p. 156.
317
O ZUAVO Jacob - 2. In "Revista Espírita", nov. 1867, p. 345.
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médiuns ou deficiência nalguns pacientes; muitas vezes o médium com maior potencial não consegue
grandes coisas com determinado paciente, o qual vem a se curar com outro médium tido como "fra-
co", fluidicamente falando. É que além do potencial fluídico a afinidade é fundamental.
Para se entender como funciona essa afinidade, façamos uma analogia: uma emissora de rádio,
por mais forte que seja seu "sinal", não será receptada por um rádio que esteja sintonizado noutra
freqüência, ainda que de "sinal" mais fraco. É que, como nos passes, além da potência do "sinal", é
indispensável a sintonia (afinidade) na mesma freqüência. Por outro lado a afinidade a que nos refe-
rimos não deve ser confundida com a simpatia que temos pelas pessoas. A "afinidade fluídica" de-
pende da vibração do campo fluídico em uma mesma freqüência ou onde se instale uma freqüência
que comporte a outra. Isto quer dizer que até freqüências diferentes podem se combinar, desde que
dentro, de determinados padrões e limites.
Reconhecendo o empirismo em que este assunto ainda se encontra, fica a sugestão para que
busquemos investigar, pesquisar e aprofundar nossos conhecimentos na área para, de futuro, poder-
mos equacionar melhor nossos padrões de afinidade versus potenciais fluídicos.

4.2 - Moral x Potencial Fluídico
Quanto aos valores morais em função do potencial fluídico, já concluímos que seu engrande-
cimento é marcantemente necessário. Para não nos alongarmos desnecessariamente, vejamos a ana-
logia feita pelo Espírito Emmanuel: "(...) Em essência, os olhos de um analfabeto. de um preguiçoso,
de um malfeitor e de um missionário do bem não exibem qualquer diferença de histologia da retina
(...)
"Imaginemos fosse concedida, aos quatro, determinada máquina com vistas à produção de cer-
tos benefícios, acompanhada da respectiva carta de instruções para o necessário aproveitamento.
"O analfabeto teria, debalde, o aparelho, por desconhecer como deletrear o processo de utili-
zação.
"O preguiçoso conheceria o engenho, mas deixá-lo-ia na poeira da inércia.
"O malfeitor aproveitá-lo-ia para explorar os semelhantes ou perpetrar algum crime.
"O missionário do bem, contudo, guardá-lo-ia sob a sua responsabilidade, orientando-lhe o
funcionamento na utilidade geral.
"Força medianímica, desse modo, quanto acontece a capacidade visual, é dom que a vida ou-
torga a todos.
"O que difere, em cada pessoa, é o problema de rumo"318 .
Dispensando outros comentários, podemos concluir com Michaelus: "(...) Tanto maior será a
força do magnetizador quanto mais puro for o seu coração. Quanto mais o homem se elevar espiri-
tualmente, tanto maior será o poder de sua irradiação"319. Ou seja: façamos nossa parte; façamos o
melhor possível pois a Espiritualidade faz sua parte, sempre. E se "A cada um é dado segundo suas
obras", também prevalece o "Faze por ti que o Céu te ajudará" (Jesus).




318
XAVIER, Francisco Cândido. Força mediúnica ~n'Seara dos Médiuns", pp. 55 e 56.
319
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 4, p. 36.
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CAPÍTULO VI - COMO Æ O IMPASSE DO
PASSE
"E quem tiver feito seus estudos e experiências reconhecerá que a diversidade dos processos re-
sulta principalmente da própria natureza e das propriedades do fluido de cada magnetizador. Uma ob-
servação acurada nos levará à convicção de que o essencial é agir de acordo com os princípios, sem fi-
car preso aos métodos prescritos, mas adotando aquele que for, em cada caso, o mais consentâneo e e-
320
ficiente". (Michaelus)

Desde criança ouvimos que a Doutrina Espírita não tem mistérios, que tudo (ou quase tudo)
tem explicação, que o bom senso sempre prevalece e que nada é imposto, principalmente, se vem de
Espíritos Superiores. Mas na hora de se explicar o passe, "é um Deus nos acuda!". Tanto que é co-
mum pessoas e Instituições Espíritas recriminarem abertamente o "passe magnético" sem, entretanto,
darem para tal fato explicações convincentes.
Perquirindo e raciocinando a respeito, fomos percebendo que o grande problema a ser vencido
estava a nível de definição, pois as discussões que havia, via de regra, giravam em torno de palavras
e não dos fatos em si.
Procurando resolver esta situação, embora ousando um pouco e correndo o risco de sermos
mal interpretados, propomos uma forma de solucionar o que chamamos de "impasse do passe".

1. NECESSIDADE DE CARACTERIZAÇÃO DO
PASSE
É sabido que o passe não atende a uma única finalidade nem sua origem fluídica promana de
uma única fonte. Sabemos igualmente que muitas escolas orientais e esotéricas têm estudado as téc-
nicas do magnetismo sob as mais diversas denominações e com os mais variados objetivos. Percebe-
mos, por fim, que o passe na Casa Espírita está muito miscigenado, por vezes de uma forma um tan-
to quanto indevida; não que tal fato seja, em si, condenável pois, atendendo ao convite feito pelo "a-
321
póstolo dos gentios" , devemos analisar tudo, retendo o que é bom; apenas não devemos incorpo-
rar conceitos, práticas e rituais que sejam contraditórios entre si, que afrontem os princípios doutri-
nários do Espiritismo ou que não melhorem, não aprimorem ou apenas piorem aquilo que já está es-
tabelecido e reconhecido como correto e frutuoso.
A par disso, o personalismo. as práticas eminentemente individuais ou de grupos isolados da
realidade universal, além de certas informações não crivadas na razão e no bom senso, dadas por de-
terminados "guias" - os quais se melindram ao serem questionados, relegando o interesse na promo-
ção da universalidade de seus ensinos, como que a temê-lo -, muito têm contribuído para os desvios
e impasses com que nos deparamos na maioria das Casas Espíritas.
Decorrentemente, começaram a surgir nomes, técnicas e métodos os mais variados e exóticos
possíveis, sem falar nas concepções equivocadas atribuídas a nomenclaturas já bem definidas. Desse
embaralhamento restou a constatação límpida de que nós, os espíritas, já não nos entendemos quan-
do nos referimos ao passe, como se os termos que o envolvem formassem um verdadeiro dialeto e, o
que é pior, um dialeto muito pobre e conflitante.
O que fazer então para sair do "impasse do passe"? Sem dúvida que a resposta é estudar. Só
que estudar não é apenas ler um livro, ouvir uma palestra ou participar de um curso; é isso e muito
mais. É pesquisar, experimentar com equilíbrio e sob boa orientação, é buscar o sentido das coisas,
tudo ponderando com critério e bom senso. É bitolar-se pela Lei Natural.
320
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 9, p. 66.
321
I Tessalonicenses, V, v. 21.
JACOB MELO 85
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



Vamos estudar, então. E comecemos por Kardec:
"A ação magnética pode produzir-se de muitas maneiras:
"1º) pelo próprio fluido do magnetizador; é o magnetismo propriamente dito, ou magnetismo
humano, cuja ação se acha adstrita a força e, sobretudo, à qualidade do fluido;
"2º) pelo fluido dos Espíritos, atuando diretamente e sem intermediário sobre um encarnado,
seja para o curar ou acalmar um sofrimento, seja para provocar o sono sonambúlico espontâneo, seja
para exercer sobre o individuo uma influência física ou moral qualquer. É o magnetismo espiritual,
cuja qualidade está na razão direta das qualidades do Espírito;
"3º) pelos fluidos que os Espíritos derramam sobre o magnetizador, que serve de veículo para
esse derramamento. É o magnetismo misto, semi-espiritual, ou, se o preferirem, humano-espiritual.
Combinando com o fluido humano, o fluido espiritual lhe imprime qualidades que ele carece (...)"
322
(grifos do original) .
Percebe-se claramente que Kardec tomou por referencial apenas um aspecto da questão fluido-
terápica: a ação magnética em função da "fonte dos fluidos", ou seja, de sua origem. Isto quer dizer
que, traduzindo suas palavras para a terminologia do passe, ele falou, respectivamente, do passe
magnético, do passe espiritual e do passe misto; tudo, perdoem-nos a enfatização, apenas no que se
refere à fonte dos fluidos.
Racionalizando nossa realidade, sabemos que o passe também pode (e deve, e é) ser analisado
segundo, pelo menos, outros dois aspectos: em relação ao "alcance do fluido" e as "técnicas" usa-
das.
Retornemos ao raciocínio inicial: tornou-se por demais comum ouvir-se dizer que na Casa Es-
pírita não deve ser aplicado o passe magnético mas apenas o espiritual ou o mediúnico (...) Nesse
ponto perguntamos: e o que é o passe mediúnico? Será aquele que se aplica "incorporado"? Não
concordamos que seja dessa forma323, assim como discordamos se aplique passes com riqueza de
técnicas do magnetismo de forma pública e coletiva. Como se vê, dependendo da situação proposta
poderemos concordar ou discordar de determinadas práticas. Uma coisa, contudo, ressalta: precisa-
mos saber exatamente o que se quer dizer quando se fala de passe magnético, espiritual e/ou misto.
Eis por que precisamos urgentemente de uma caracterização do passe na Casa Espírita324.

2. TIPOS DE PASSE
"O conhecimento da mediunidade curadora é uma das conquistas que devemos ao Espiritismo;
mas o Espiritismo, que começa, ainda não pode ter dito tudo; não pode, de um só golpe, mostrar-
nos todos os fatos que abarca; diariamente os mostra novos, dos quais vêm corroborar ou completar
325
os já conhecidos, mas é necessário tempo material para tudo" . Com este pensamento, Kardec nos
adverte para a progressividade do tema. Ele, é fácil verificarmos, não se prendeu a análise isolada
dos outros fatores que envolvem a prática do magnetismo tal como didaticamente o faremos nesta
oportunidade; mas que ele sabia dessas considerações é inegável, pois em várias oportunidades estu-
dou e comentou, em sua "Revista Espírita", os aspectos do "alcance" do fluido e das "técnicas" do
passe, conforme teremos ocasião de observar ao longo das citações que faremos.
Busquemos então, sem mais delongas, o entendimento para o passe segundo as três situações
propostas.

322
KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item Curas, tópico 33.
323
No capítulo X, item 9 - "Incorporação Durante o Passe". trataremos detalhadamente deste aspecto.
324
No Congresso Internacional de Espiritismo de 1989, realizado em outubro daquele ano em Brasília-DF, tivemos a
honra de apresentar este assunto sob o título "Caracterização dos Passes Ministrados na Casa Espírita", cujo traba-
lho serviu de base para este capítulo.
325
Da Mediunidade Curadora. In "Revista Espírita", set. 1865, p. 250.
JACOB MELO 86
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA




2.1- O Passe Segundo a Fonte do Fluido
Conforme já observamos e deduzimos anteriormente, aqui teremos três tipos de passes, cuja
seqüência obedecerá àquela seguida por Kardec326: magnético, espiritual e misto.
a) O passe magnético aqui caracterizado é aquele cujo fluido utilizado emana basicamente327
do próprio passista (ou do médium, magnetizador, curador, curandeiro, etc.). Seria, isoladamente
considerado, o animismo de cura.
b) O passe espiritual é o que se verifica pela doação fluídica direta dos Espíritos ao paciente,
sem interferência de médiuns. Na prática dos encarnados, contudo, a presença do médium, nesse ca-
so, serve apenas como "canal" dos fluidos espirituais328.
A Literatura Espírita nos mostra exemplos registrando a ação do Plano Espiritual sobre o Físi-
co. Eis dois registros de André Luiz: "Aproximou-se dele o irmão Clementino e, a maneira do mag-
netizador comum, impôs-lhe as mãos aplicando-lhe passes de longo circuito"329; o Espírito Áulus,
numa tarefa de atendimento desobsessivo, "Aplicou passes de desobstrução a garganta da enferma
(encarnada) e, em breves instantes, o verdugo (obsessor desencarnado) começou a falar (...)"330.
Antes de passarmos ao próximo tipo, notemos que os Espíritos trabalham no Plano Espiritual,
"à maneira do magnetizador comum", isto é, "aplicando-lhe passes de longo circuito". O que será is-
so? Um outro fator a se considerar ainda é que este passe se dá igualmente de Espírito para Espírito.
c) O passe misto, que é predominante em nosso meio. conta com a participação fluídica tanto
dos Espíritos quanto dos médiuns. Este passe também recebe o nome de mediúnico por alguns Espí-
ritas, em virtude da presença espiritual manifesta no fenômeno por seu derramar fluídico, a qual por
vezes se dá de forma muito ostensiva, e indevida, através da psicofonia331 .

2.2 - O Passe Segundo o Alcance do Fluido
Até aqui este capítulo foi elaborado levando em consideração apenas o passe que tem por base
a fonte de onde "primordialmente" se origina o fluido. Apesar desse aspecto ser de importância basi-
lar, a característica que ora iremos analisar também se destaca por sua relevância. É pelo alcance do
fluido que buscaremos, posteriormente, as técnicas, para atender aos três tipos de pacientes que ca-
racterizamos no capítulo V, item 1 - "Quem recebe".
Uma dificuldade parece se interpor: como definir novos nomes para os passes, agora segundo
o alcance dos fluidos, sem com isso criarmos mais terminologias numa área onde o excesso de ter-
mos só tem gerado confusão e desencontro de idéias? Ou então, como aceitar uma mesma termino-
logia sem cair neste já complicado impasse? Bem se vê que urge uma solução. Iremos propô-la e a-
creditamos que será bem aceita e entendida com facilidade.
Mas, antes de fazermos nossa propositura, pedimos permissão para usarmos a mesma termino-
logia utilizada no item anterior para definir o passe, só que agora levaremos em conta apenas sua
ocorrência em relação ao "alcance do fluido". Assim sendo, teremos:


326
KARDEC, Allan. Os fluidos. In "A Gênese", cap. 14, item Curas, tópico 33.
327
Dizemos "basicamente" porque sabemos sempre haver participação dos fluidos espirituais, mesmo naquilo que se
convencionou chamar de "magnetismo puro".
328
Atente-se para o que referimos no capítulo IV, item 1.2, último parágrafo.
329
XAVIER, Francisco Cândido. Desdobramento em serviço. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 11, p. 97.
330
XAVIER, Francisco Cândido. Fascinação. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 23, p. 220.
331
Mais conhecido popularmente por "incorporação". Embora esta expressão não seja bem aceita por todos, ela é
usualmente empregada e assimilada no meio Espírita.

JACOB MELO 87
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



a) O passe magnético, neste enfoque, é aquele cujo alcance objetiva o atendimento de proble-
mas orgânicos, físicos e/ou perispirituais, aí se incluindo aqueles passes praticados pelos Espíritos di-
retamente em desencarnados com o fim de recuperar deficiências ou limitações "físicas" naqueles.
b) O passe espiritual aqui assume a feição daquele destinado ao atendimento de problemas de
ordem espiritual, principalmente dos cujas matrizes são os processos obsessivos ou decorrentes de
desvios morais. Para exemplificar, este passe é aplicado pelos médiuns nas reuniões de desobsessão,
assim como pelos Espíritos.
c) O passe misto, a exemplo do seu homônimo anterior, já nos sugere ser aquele onde o trata-
mento visa não uma mas todas as partes do ser, ou seja: corpo, perispírito e espírito. Obviamente os
fluidos aqui "manipulados" atuarão não apenas a nível perispiritual, mas atingirão as próprias células
do corpo e alcançarão igualmente a intimidade do Espírito, ainda que por via perispiritual.
Acreditamos que o leitor já terá percebido onde queremos chegar. Por esta nova caracteriza-
ção ficou patente que muitos de nossos desentendimentos se dão mais por questão de falta de defini-
ção do que propriamente por má vontade ou menor entendimento da parte de algum.
Mas ainda existe, como dissemos no início, uma outra "variável" para o nosso equacionamen-
to; é a questão da técnica.

2.3 - O Passe Segundo a Técnica
Pelos mesmos motivos explanados no item anterior, mais uma vez deixaremos de criar novos
termos e faremos uso dos três já utilizados nos itens acima. Não creia o leitor que isto é simples co-
modidade ou mera inovação; é que muitas pessoas, por exemplo, quando falam "passe magnético",
estão se referindo aos passes que usam as técnicas do magnetismo, sem se reportarem necessaria-
mente às características que já apresentamos. Tanto é que comumente ouvimos as pessoas dizerem
que preferem tomar passe com "fulano" porque ele dá um "passe magnético" (com movimentação de
mãos) enquanto "sicrano" só dá "passe espiritual", pois "nem sequer se mexe".
Vejamos, então, como fica nosso entendimento em face desta nova situação, atentando que
não iremos levantar as técnicas em si mesmas.
a) O passe magnético agora é entendido como o que é aplicado segundo as técnicas do magne-
tismo, não importando nem de onde venham os fluidos, nem para que fins se destinam, nem ainda
quem o aplique.
b) O passe espiritual, conforme seu entendimento nesta situação sugere, é aquele onde o pas-
sista utiliza, como técnica, apenas a prece, a irradiação (a distância) ou, no máximo, a imposição de
mãos, sem movimentos e sobre a cabeça ou fronte do paciente. Este seria aquele caso em que o mé-
dium passista não necessitaria ter tantos conhecimentos de técnicas pois sua ação seria essencialmen-
te mental.
c) O passe misto aqui é entendido como o que faz a utilização conjugada da prece com impo-
sição de mãos, seguido do uso de outras técnicas, ou então a aplicação de um passe com técnicas va-
riadas após uma radiação (que é um passe espiritual, segundo a técnica). Para reforço do entendi-
mento. diríamos que tal passe é aquele onde se utiliza a dispersão fluídica antes e/ou após a imposi-
ção de mãos, intercalada por técnicas outras.
Agora que definimos nossas três características típicas, vamos à proposição que visa solucio-
nar o problema do entendimento. Entrementes, caso não tenham sido percebidas as diferenças esta-
belecidas nos itens acima pormenorizados, sugerimos sua releitura antes de entrarmos no próximo
tópico.




JACOB MELO 88
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA




3. O FIM DO IMPASSE
Na matemática encontramos um cálculo chamado "combinação" que nos permite encontrar o
resultado da soma de vezes em que um número de coisas se combinam com outras, dentro dos pa-
drões estabelecidos pela propositura do problema. Como, nas situações apresentadas, temos três ca-
racterísticas de passes (em relação a origem do fluido, em relação a seu alcance e em relação a técni-
ca aplicada) onde cada um nos apresenta três tipos (magnético, espiritual e misto), se fizermos a
combinação desses três elementos três a três, teremos, por resultado, o número vinte e sete. Isto
quer dizer que, se para cada tipo de combinação rotulássemos um nome, teríamos que criar vinte e
sete nomes diferentes para atendê-las todas. Convenhamos, seria um embaraço sem fim, fazendo
com que nosso simplório passe se revestisse de uma falsa prosopopéia, além do agravante de atrapa-
lhar o raciocínio de pessoas humildes, no meio das quais, por sinal, se encontra o maior número dos
médiuns mais produtivos, prestativos, honestos e pontuais.
Como nos recorremos da matemática para chegarmos ao número acima, faremos mão de suas
teorias outra vez a fim de explicar nosso raciocínio. Aprendemos que, quando temos uma única e-
quação com tais variáveis, se torna indispensável fixemos valores a duas dessas variáveis para desco-
brirmos a outra incógnita.
Com isso queremos dizer que iremos fixar nomes para podermos simplificar nossa solução.
Paralelamente, buscaremos na gramática um recurso muito usado para, por meio de duas ou
mais palavras, se exprimir uma terceira significação; trata-se da "união gramatical", aquele tracinho
(-) que quando une guarda com chuva, por exemplo, faz com que desapareça o sentido de vigilante e
de aguaceiro para surgir o de protetor contra a chuva. Essa união gramatical, quando necessário, aos
permite usar um artifício bem interessante que é o de sincopar as palavras, ou seja, reduzi-las, supri-
mir-lhe certas letras sem, contudo, alterar-lhe o sentido. De posse dessas "ferramentas", vamos ao
que interessa.
Primeiro, vamos lidar com uniões gramaticais para definir nossa caracterização onde, portanto,
a união gramatical será nossa linha de equação. Para isso, fixemos nossa primeira variável ou seja:
todos os primeiros nomes das nossas uniões gramaticais. Que nomes serão esses? Serão exatamente
os nomes dados à nossa primeira característica de passe, isto é: os nomes dos passes segundo a fonte
do fluido; magnético, espiritual e misto. Antes de passarmos aos segundos nomes das uniões, a fim
de facilitar a composição que faremos a seguir, tomemo-los em suas formas sincopadas, quer dizer:
passe magneto (de magnético), passe espírito (de espiritual) e passe misto (este não convém cinco-
par).
Em seguida, fixemos, da mesma maneira, nossa segunda variável que são os nomes dos passes
caracterizados segundo o alcance do fluido. Aqui iremos empregá-los em suas formas naturais e não
mais de maneira sincopada. Para facilitar nosso entendimento, deixemos nossa terceira variável (pas-
ses segundo a técnica), provisoriamente, de lado.
Componhamos agora nossa união gramatical com as variáveis que já fixamos, combinando es-
sas variáveis duas a duas:
2º a origem 2º o alcance
passe magneto - magnético
passe magneto - espiritual
passe magneto - misto
passe Espírito - magnético
passe Espírito - espiritual
passe Espírito - misto
passe misto - magnético

JACOB MELO 89
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA




passe misto - espiritual
passe misto - misto
Antes de seguirmos, poderíamos fazer um certo "aperfeiçoamento" naquelas uniões gramati-
cais, mesmo não sendo isso tão importante. Se observarmos com atenção veremos que ali alguns
termos se repetem, soando como uma repetição meio esquisita. Por este motivo, e para quem ache
que assim ficará mais conveniente, poderemos substituir o segundo termo das uniões que se repetem
pelo algarismo "II" (em romanos). Com isso, três daquelas uniões seriam modificadas:
a) de "passe magneto-magnético" para "passe magneto-II" (ou "passe magnético");
b) de "passe Espírito-espiritual" para "passe Espírito-II" (ou "passe espiritual-II"); e
c) de "passe misto-misto" para "passe misto-II.
Que queremos dizer com isso? Exatamente o que o leitor já deve ter imaginado. Estamos u-
sando os mesmos nomes para dizer as mesmas coisas só que agora com tudo bem definido, pois em
nossa união gramatical o primeiro termo estará sempre se referindo à origem, a fonte básica do flui-
do, enquanto que o segundo estará definitivamente fazendo alusão ao destino, ao alcance do fluido.
Vejamos como ficaria nosso entendimento:
- quando falarmos em "passe magneto-espiritual", estaremos nos referindo, de forma clara, di-
reta e irretorquível, do passe magnético, segundo a origem do fluido (os quais são predominante-
mente do médium), com o fim de tratar problemas de fundo espiritual, que é o passe segundo o al-
cance do fluido;
- quando se disser: "passe misto-magnético" estar-se-á referindo ao passe misto segundo a ori-
gem do fluido (com fluidos tanto do passista quanto da espiritualidade), para tratamento de proble-
mas orgânicos e espirituais (pois este é o alcance pretendido do fluido);
- no caso do "passe misto-misto" (ou "misto-II"), isto exprimirá que o passe está sendo aplica-
do com fluidos oriundos dos dois Planos da vida, com o objetivo de atender a problemas materiais e
espirituais. E assim por diante...
Neste ponto fazemos uma sugestão: que tal você mesmo tentar denominar as outras seis varia-
ções que não esmiuçamos? Com isso você poderá checar seu entendimento acerca dessas caracteri-
zações.
Não! Não esquecemos a variável do passe segundo a técnica; apenas reservamos uma surpresa
a respeito: por incrível possa parecer não iremos incorporá-la de forma definitiva em nossa união
gramatical. Ocorre que as divergências maiores comumente envolvem as duas primeiras característi-
cas. Com isso evitaremos as uniões gramaticais triplas.
Mas, com justa razão, alguns leitores não aceitação este argumento, pois na abertura deste as-
sunto não só atiçamos a curiosidade como prometemos uma solução para os impasses. Ei-la, então.
Quando houver necessidade de se explicitar o tipo de passe segundo uma técnica, conjuntamente
com as outras características, apresentaremos as uniões gramaticais acima já definidas e acrescenta-
remos, explicitamente, o tipo de técnica que se vai usar. Com isso poderemos, inclusive, descer a
nominações específicas das técnicas, posto que estas têm vários nomes já bem estabelecidos e reco-
nhecidos universalmente. Assim, quando se quiser recomendar um passe "misto-magnético" com
uma técnica magnética, diremos, simplesmente: "passe misto-magnético" com técnica(s) tal(is), ex-
pondo a técnica a ser empregada (por exemplo: um "passe misto-magnético-longitudinal"). Tal pro-
cedimento será de grande valia para instruir iniciantes, para exposições acerca das técnicas ou quan-
do, nos trabalhos do passe, um instrutor funcionar sugerindo os procedimentos aos demais médiuns,
ou ainda para facilitar o encaminhamento nas orientações dos receituários da Casa Espírita.
De forma alguma estamos desconsiderando a técnica nesse modo de caracterizar o passe; co-
mo na maioria das vezes não é necessário ou não são conhecidas as técnicas, tal supressão é mais

JACOB MELO 90
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



benéfica que desrespeitosa. Ademais, estamos deixando em aberto, para quem queira, a liberdade de
explicitar mais ainda as técnicas ou, o que à outra opção, poder até fazer-se a união gramatical com
três elementos, seguindo os mesmos princípios já estabelecidos para os dois primeiros tipos. Dessa
maneira, agindo assim participamos da idéia do Codificador do Espiritismo quando, se posicionando
quanto às técnicas, disse: "Se a mediunidade curadora pura é privilégio das almas de escol, a possibi-
lidade de suavizar certos sofrimentos, mesmo de os curar, ainda que não instantaneamente, umas
tantas moléstias, a todos é dada, sem que haja necessidade de ser magnetizador. O conhecimento dos
332
processos magnéticos é útil em casos complicados, mas não indispensável" (grifamos).
Tomando as palavras de Kardec, faremos um parêntese aqui: se ele reconheceu que "o conhe-
cimento dos processos magnéticos é útil", como querer não se deva usar os recursos do magnetismo
nas Casas Espíritas? Ou será que nas Casas Espíritas ou nos serviços de atendimento pelos Espíritas
não surjam "casos complicados"? Ou será ainda que do fato de não ser "indispensável" se queira tor-
nar aquele conhecimento inútil, menosprezando-o?
Tomemos Kardec mais uma vez:
"1ª - "Podem considerar-se as pessoas dotadas de força magnética como formando uma varie-
dade de médiuns?
- "Não há que duvidar.
"2ª - Entretanto, o médium é um intermediário entre os Espíritos e o homem; ora, o magneti-
zador, haurindo em si mesmo a força de que se utiliza, não parece que seja intermediário de nenhuma
potência estranha.
"É um erro; a força magnética reside, sem dúvida, no homem, mas é aumentada pela ação dos
Espíritos que ele chama em seu auxílio. Se magnetizas com o propósito de curar, por exemplo,· e
invocas um bom Espírito que se interessa por ti e pelo teu doente, ele aumenta a tua força e a tua
vontade, dirige o teu fluido e lhe dá as qualidades necessárias.
"3ª Há, entretanto, bons magnetizadores que não crêem nos Espíritos?
"Pensas então que os Espíritos só atuam nos que crêem neles? Os que magnetizam para o bem
são auxiliados por bons Espíritos. Todo homem que nutre o desejo do bem os chama, sem dar por
isso (...)
"4ª Agiria com maior eficácia aquele que, tendo a força magnética, acreditasse na intervenção
dos Espíritos?
"Faria coisas que considerareis milagres"333.
Nos afirmando os Espíritos que os magnetizadores são médiuns, sentimos não há como criar
precisas demarcações limítrofes entre os domínios da mediunidade e do animismo, pois que os flui-
dos utilizados nos passes e, por extensão, nas manifestações anímicas, não são só dos Espíritos en-
carnados. Depois verificamos que, mesmo sem crer-se nos Espíritos, os magnetizadores (animistas,
portanto) são ajudados por eles, os quais agem por seu intermédio, ainda que a inconsciência ou não
perceptibilidade do fato se verifique. Isso nos faz recordar uma outra questão proposta por Kardec:
"Influem os Espíritos em nossos pensamentos?
"Muito mais do que imaginais. Influem a tal ponto que, de ordinário, são eles que vos diri-
gem"334 .
E quando Kardec nos acrescenta: "Todo magnetizador pode tornar-se médium curador, se
souber fazer-se assistir por bons Espíritos. Neste caso os Espíritos lhe vêm em ajuda, derramando

332
Da Mediunidade Curadora In "Revista Espírita", set. 1865, p. 254.
333
KARDEC, Allan. Dos médiuns. In "O Livro dos Médiuns", cap. 14, item 176.
334
KARDEC, Allan. Influência oculta dos Espíritos em nossos pensamentos e atos. In "O Livro dos Espíritos", Parte
2ª, cap. 9, questão 459.
JACOB MELO 91
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



sobre ele seu próprio fluido, que pode decuplicar ou centuplicar a ação do fluido puramente huma-
no"335 , ficamos extasiados ante o universo que se descortina em face de nossas possibilidades, hoje
raquíticas, mas com justas esperanças por um centuplicar misericordioso.
Com tudo isso para fechar este longo parêntese, não dá para entender não se deva aplicar o
passe magnético (em qualquer de suas três versões apresentadas) na Casa Espírita; é elementar uma
conclusão favorável pois se os Espíritos multiplicam nosso poder "humano", dentro dos limites da
Lei de amor e justiça, certamente que será para uma finalidade superior. O que não aconselhamos, e
isso queremos deixar bem frisado, é querer transformar-se o magnetismo em algo maior que a parti-
cipação da Espiritualidade em nossos trabalhos de passe, ou que se fique a imaginar que "nossas e-
nergias" sejam melhores ou mais efetivas que quaisquer outras beneficiadas pelos Mentores Espiritu-
ais. Afinal, são eles, com suas "energias e técnicas". que invariavelmente atuam, "manipulando" os
fluidos e nos favorecendo com suas "intuições" e benesses a fim de suprir nossas deficiências e limi-
tações.
Por tudo isso era necessário uma caracterização do passe a fim de possibilitar não caminhás-
semos indefinidamente nos trilhos do desentendimento por falta de simples definições.
Encerrando este assunto, nos daríamos por felizes se o leitor comparasse seus conceitos sobre
tipos de passes com esses que, mesmo não sendo exclusivamente nossos, vimos propor. Na verdade,
eles fazem luzir reflexões, as quais poderão propiciar a germinação de bons e proveitosos frutos nos
níveis de entendimento em meio àqueles Espíritos desprendidos que buscam meios de ajudar e pro-
gredir, servindo e amando.


CAPÍTULO VII - QUANDO E ONDE
336
"Fazei aos homens tudo o que quereis que eles vos façam, porque esta é a Lei e os profetas." (Jesus)

Falar das imensas necessidades, privações e provações que a humanidade terrena está constan-
temente a viver é redundante. Luz na Doutrina Espírita todo um manancial de informações, observa-
ções, teorias e comprovações, quer filosóficas, científicas ou inspiradas, a confirmar a destinação
presente de nosso orbe: "mundo de provas e expiações". Em conseqüência, nada mais natural que
tanta dor, tanto sofrimento, tantos desatinos, tantos erros... Por outro lado, atendendo as Leis de
Amor e Justiça, percebemos tantas bênçãos anônimas, tantas almas generosas, tantas oportunidades
de reparação e tantos e eloqüentes convites ao Evangelho...
Infelizmente, por conjugações visivelmente equivocadas, muito se tem usado o argumento de
que, sendo aqui mundo de provas e expiações, cada um tem que pagar seu quinhão sozinho, com is-
so se esquivando do exercício do amor fraternal... Que pena! Quão dignos de compaixão e esclare-
cimentos são os que assim pensam, agem ou ensinam! Bernardino, Espírito protetor, em Bordéus,
1863, já nos recomendava: "Não digais, pois, quando virdes atingido um dos vossos irmãos: "É a
justiça de Deus, importa que siga seu curso." Dizei antes: "Vejamos que meios o Pai misericordioso
me pôs ao alcance para suavizar o sofrimento do meu irmão. (...) Vejamos mesmo se Deus não me
pôs nas mãos os meios de fazer cesse esse sofrimento; se não me deu a mim, também como prova,
como expiação talvez, deter o mal e substituí-lo pela paz."(...) Resumindo: todos estais na Terra para
expiar; mas, todos, sem exceção, deveis esforçar-vos por abrandar a expiação dos vossos semelhan-
tes, de acordo com a lei de amor e caridade"337.
Exaramos daí que nos compete agirmos em favor do próximo, pois, se para ele suas dificulda-
des são "testes", para nós, os conscientes das Verdades Eternas ensinadas pelo Cristo, são oportuni-

335
Da Mediunidade Curadora In "Revista Espírita", set. 1865, p. 253.
336
Mateus, VII, v. 12.
337
KARDEC, Allan. Bem aventurados os aflitos. In "O Evangelho segundo o Espiritismo,"cap. 5. item 27.
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O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



dades de "quitação" pois, já nos asseverou Pedro: "Tende amor imenso uns para com os outros,
porque o amor cobre a multidão de pecados"338. Agindo assim estaremos contribuindo para o bem
não só da humanidade senão de nós mesmos; estaremos aprendendo a amar, pois amor não é título
que se compre ou se regateie, mas sim uma vivência profunda de largo conjunto de práticas, tais co-
mo a afabilidade, a doçura, a renúncia, a resignação, o perdão, o esquecimento das ofensas, a com-
preensão, a humildade, a benevolência, a caridade, a paciência...

1. QUANDO
Se devemos socorrer nossos irmãos, sejam eles quem forem, isso nos leva a meditar sobre a
oportunidade de fazê-lo. Deveremos, em qualquer caso, atender, socorrer um irmão necessitado?
Óbvio que sim. Mas, no caso do passe, devemos igualmente prestar este atendimento a qualquer ho-
ra e sob quaisquer condições? Meditemos um pouco antes de emitirmos alguma resposta. Na primei-
ra situação tínhamos uma questão extremamente genérica requisitando uma solução em igualdade de
condições, ou seja: genérica. Na segunda proposição encontramos um questionamento genérico re-
querendo uma ação fundamentalmente específica. Busquemos uma comparação para materializar o
entendimento: uma pessoa está acidentada na via pública; devemos socorrê-la? E, no mesmo caso,
deveremos, ali mesmo, cirurgiá-la, ainda que sejamos médico cirurgião? Parece estar claro que à
primeira pergunta a resposta será afirmativa enquanto que à segunda talvez não o seja. Por quê? Pelo
simples fato de situações especiais requererem atendimentos especiais. Assim, salvo situações quase
sempre incomuns, o passe pode ter aguardada sua aplicação por parte do paciente, o qual deverá ser
enquadrado ou se enquadrar às normas de atendimento desse serviço, tal como o acidentado do e-
xemplo que será ou deverá ser preparado para o atendimento devido, no momento e lugar próprios.
Para que não nos percamos num emaranhado de hipóteses e proposições, tornaremos o mais
didático possível nossa classificação sobre "quando" aplicar o passe.

1.1 - Em Relação ao Paciente
O orientador espiritual Anacleto, comentando sobre o passe em sua visão desde o Plano Espi-
ritual, nos lega uma advertência muito séria: "Nossa missão é de amparar os que erraram e não de
339
fortalecer os erros" . Comentemos: nessa oportunidade tinha sido socorrido um Espírito encarna-
do, através dos benefícios do passe, pela décima vez seguida, sem que ele se corrigisse de suas cons-
cientes e corrigíveis falhas. Que lição podemos tirar dai? Além da seriedade com que os Espíritos
tratam das atividades a eles atinentes, ressalta o fato de que situações existem em que a caridade não
C necessariamente prestar um atendimento ao necessitado, socorrendo-o com novos e novos supri-
mentos de energias pa~a um reerguimento físico ou psíquico imediato, mas ajudá-lo com esses re-
cursos, fazendo-o compreender a necessidade de sua participação efetiva, sem, contudo, se acumpli-
ciar com seus equívocos; aliviá-lo, porém não eximindo-o de suas responsabilidades, as quais são
pessoais e intransferíveis.
De forma bem genérica, podemos concluir, por força do bom senso e do amor cristão, que:

1.1.1 - Podemos Aplicar o Passe Quando
a) O paciente procura ou solicita tal serviço, se esforçando por consegui-lo. Nesse caso, deve-
rá ele se condicionar às normas de atendimento do passe da casa por ele buscada, dando, assim, de-
monstração de seu real interesse. Esta atitude, aparentemente anacrônica, irá auxiliá-lo profunda-



338
I Pedro, IV, v. 8.
339
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 374.
JACOB MELO 93
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



340
mente, pois Jesus já nos ensinou que "Buscai e achareis, batei e abrir-se-vos-á" , ensejando-nos as-
sim que a participação de cada um é devida e requerida.
A exceção, no que diz respeito à participação consciente do paciente, fica para os casos de
emergência como crises epilépticas, obsessivas, febres violentas ou situações similares;
b) O paciente se encontra hipnotizado ou em estado sonambúlico, quer por força material, a-
nímica, quer por força espiritual, quer de forma natural, quer provocada, e é necessário tirá-lo desse
estado;
c) Como recurso terapêutico total, complementar, reparatório ou preparatório.
Total: quando forem casos plenamente tratáveis por essa terapia;
Complementar: se o tratamento for conjugado, com a medicina dos homens ou com a medici-
na espiritual;
Reparatório: quando visa corrigir equívocos e/ou excessos decorrentes de terapias mal aplica-
das; e
Preparatório: como auxiliar de primeiro momento para tratamentos médicos, fluidoterápicos e
de ligamentos ou desligamentos nos processos reencarnatórios e/ou desencarnatórios;
d) O paciente se encontra sob influência obsessiva, pelo que, além da "evangelhoterapia", o
passe é altamente significativo; e
e) O paciente atende indicação tanto de consulta espiritual, através do receituário da casa Espí-
rita, quanto de recomendação que lhe tenha sido feita nesse sentido.
Omitimos a condição requerida para efeitos de pesquisas científicas por nosso trabalho não vi-
sar tal alcance, mas, com a ressalva, alertamos também para este "quando".
Entretanto, por ser recomendável poupemos esforços na aplicação de passes em determinadas
situações, cabe-nos o cuidado de examinarmos algumas situações criadas pelos pacientes que, mes-
mo sem querer nem dever fazer-se disso uma preocupação tamanha a ponto de inibir as boas ações,
nos indicam:

1.1.2 - Não e Conveniente Aplicar o Passe Quando
a) O paciente é refratário por decisão própria, provocando com isso apenas desgaste fluídico
para os médiuns. Tal paciente é, via de regra, mordaz, cínico, irrefletido, buscando antes um motivo
para chacotas a uma solução para seu(s) problema(s). Antes recomendemos-lhe muito Evangelho,
estudo metódico de obras sérias e boas orientações através do "diálogo fraterno", sem falar na inclu-
são de seu nome para as irradiações e desobsessões;
b) O paciente simplesmente não quer tomar o passe;
c) A procura do passe é simples curiosidade, comodidade ou teste para tentar se convencer
daquilo que, no fundo, não quer se convencer; e
d) O paciente se nega a seguir as orientações que lhe são dadas no sentido de, por exemplo,
assistir reuniões doutrinárias, evitar bebidas alcoólicas antes e depois do passe ou não ficar faltando
sistematicamente ao tratamento, etc.
Como se vê, tudo tem sua lógica, tudo se ajusta, pois do fato de o amor fraternal mandar nos
socorramos uns aos outros, de igual maneira orienta não abusemos dos valores alheios nem jogue-
mos "pérolas aos porcos". Bem servir é servir com utilidade e não necessariamente prestar serviço



340
Mateus. VII, v. 7.
JACOB MELO 94
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



inopinadamente. Afinal, como judiciosamente pondera André Luiz, "A caridade não dispensa a pru-
dência"341.

1.2 - Em Relação ao Médium
Se o paciente deve assumir certas obrigações, notadamente de ordem moral, para poder fazer-
se merecedor da assistência dos Bons Espíritos, o médium do passe, no cômputo de suas responsabi-
lidades, deverá estar submetido a um condicionamento de muito equilíbrio e retidão. O Espírito Ale-
xandre nos informa que "O missionário do auxilio magnético, na Crosta ou aqui em nossa esfera, ne-
cessita ter grande domínio de si mesmo, espontâneo equilíbrio de sentimentos, acendrado amor aos
semelhantes, alta compreensão da vida, fé vigorosa e profunda confiança no Poder Divino". E acres-
centa: "Na esfera da carne a boa vontade sincera, em muitos casos, pode suprir essa ou aquela defi-
ciência, o que se justifica, em virtude da assistência prestada pelos benfeitores de nossos círculos de
342
ação ao servidor humano, ainda incompleto no terreno das qualidades desejáveis" .
Se por um lado vemos reconhecida a importância da boa vontade para o bom desempenho des-
se ministério, não podemos inferir seja ela condição única. Precisamos adquirir todas as virtudes ali
descritas, pois são elas necessárias não apenas aos Espíritos mas igualmente aos médiuns passistas.
Para compormos os demais subtítulos deste item será necessário relembremos as três caracteri-
zações que acabamos de ver no capítulo anterior, ou seja: temos o passe conforme a origem do flui-
do; em relação ao alcance deste; e de acordo com as técnicas utilizadas. Neste capítulo levaremos em
consideração apenas a primeira característica, isto é: a origem do fluido (que seria o primeiro termo
de nossa união gramatical). Assim, podemos concluir:

1.2.1 -O Médium Pode Aplicar
1.2.1.1 - O Passe Espiritual

(Só para reforçar, este, por definição, é aquele cujos fluidos provêm fundamentalmente dos
Espíritos.)
a) Quando estiver moralmente equilibrado e se sentir em condições físicas para tal. A partir da-
í, vêm as outras condições;
b) Quando for solicitado, em casos sérios ou urgentes;
c) Quando estiver ou for indicado para tal tarefa; e
d) Quando em condições ambientais e fluídicas propícias.
Apesar de poucas, não se prenda ninguém a essas limitações. Afinal, se seguirmos as coloca-
ções feitas por Alexandre, não só estaremos sempre em condições de aplicar o passe como teremos
moral suficiente para equilibrar os ambientes onde iremos operar.

1.2.1.2 - Os Passes Magnético e Misto

(É evidente que aqui o significado destes passes é o daqueles cujos fluidos são preferencial-
mente dos próprios médiuns (magnéticos) ou de ambas as fontes (mistos).)
a) Quando preencher todos os requisitos do item 1.2.1.1 acima;
b) Quando dispuser de fluidos magnéticos próprios e suficientes para o trabalho;


341
VIEIRA, Waldo. Do dirigente de reuniões doutrinárias. In "Conduta Espírita", cap. 3, p. 25.
342
XAVIER, Francisco Cândido. Passes. In "Missionários da Luz", cap. 19, p. 321.
JACOB MELO 95
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



c) Quando conhecer, ao menos, a dispersão fluídica, a concentração de fluidos e a imposição
de mãos; tiver vontade firme e desinteressada e boa intuição e/ou "tato magnético"343; e
d) Não portar doenças infecto-contagiosas nem deficiências orgânicas que sejam transmissíveis
344
via fluido magnético .

1.2.2 - O Médium Não Deve Aplicar
a) Quando não se sentir confiante pois, "Imerso em vontade duvidosa, fica impossibilitado de
obter qualquer efeito curativo ou mesmo o mais insignificante alívio ao seu pobre paciente"345.
b) Quando estiver nutrindo sentimentos negativos e não conseguir superá-los;
c) Quando tiver vícios como o uso regular de alcoólicos, fumo, tóxicos, alimentar-se desregra-
damente ou usar de práticas que promovam desgastes físicos exaustivos e desnecessários, pois "Não
é possível fornecer forças construtivas a alguém (...) se fazemos sistemático desperdício das irradia-
ções vitais"346.
d) Quando estiver com o estomago muito cheio ou após ter se alimentado de maneira "pesa-
da";
e) Quando submetido a tratamento que prescreva medicamentos controlados (especialmente
aqueles que agem no sistema nervoso central);
f) Quando em idade avançada e com visível esgotamento fluídico ou portando deficiências or-
347
gânicas impeditivas ;
g) Quando se é criança ou muito jovem ainda (adolescente), notadamente se o passe for mag-
nético (dentro da conceituação aqui considerada)348;
h) Quando se encontrar estafado física e/ou mentalmente349: e
i) Observemos esta situação que foi proposta a Chico Xavier: "Como agir com as pessoas que
nos procuram nas horas impróprias? Devemos atender a todos a qualquer hora?
R - "(...) Todo trabalho para expressar-se em eficiência e segurança reclama disciplina.
Aprendamos a controlar os horários de ação espiritual, a fim de que a perturbação não venha
aparecer, em nossas tarefas, sob o nome de caridade. Peçamos a Jesus nos inspire e abençoe para
isso. A ordem preside o progresso e, por isto mesmo, não podemos perder a ordem de vista, sob
350
pena de desequilibrar, embora sem querer, o nosso próprio trabalho" .
A isto, acrescenta Divaldo Franco: "As conseqüências de um médium andar daqui para ali apli-
cando passes são muitos graves, porque ele não pode pretender estar armado de defesas para se a-
cautelar das influências que o aguardam em lugares onde a palavra superior não é ventilada, onde as
regras de moral não são preservadas, e onde o bom comportamento não é mantido"351.
Por fim, conforme nos observa Hermínio Miranda, "A primeira norma que poderíamos lembrar
é a de que (o passe) não deve ser aplicado a qualquer momento, indiscriminadamente, e por qualquer
motivo"352. Por isso, ao tempo em que não queremos apor limites aos passistas, procuramos fazer

343
No capítulo VIII - "As Técnicas", trataremos com detalhes de todas essas técnicas.
344
Vide capitulo X, item 7.5 - "O passista doente".
345
TOLEDO, Wenefledo. Introdução. In "Passes e Curas Espirituais", p. 37.
346
TOLEDO, Wenefledo. Médiuns passistas. In "Passes e Curas Espirituais", p. 32.
347
Vide adiante no capítulo X, o item 2, "O idoso".
348
Vide adiante no capitulo X, o item 1. "A Criança".
349
Vide diante no capitulo IX, o item 4.3, "A Fadiga".
350
SILVEIRA, Adelino da. Passes - Desobsessão - Disciplina. In "Chico, de Francisco", questão 8, p. 119.
351
FRANCO, Divaldo Pereira e TEIXEIRA, Raul J. Passes. In "Diretrizes de Segurança", cap. 7, questão 81, p. 70.
352
MIRANDA, Hermínio Correia de. O Passe. In "Diálogo com as Sombras", cap. 4, p. 249.
JACOB MELO 96
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



convergir à reflexão aqueles que têm por hábito a aplicação do passe a qualquer hora, em qualquer
lugar, sob qualquer pretexto, estando ou não em condições de fazê-lo.

1.3 - Em Relação à casa Espírita
Hermínio Miranda, em obra de valor irreprochável, a qual estuda a temática da desobsessão,
nos lembra que "O Espírito desencarnado, incorporado ao médium, torna-se facilmente acessível ao
353
passe magnético e, portanto, aberto aos benefícios que o passe proporciona" . Isto quer dizer que o
passe está intimamente associado aos trabalhos desobsessivos, por força mesmo de sua eficácia neste
terreno. Atentos, todavia, aos limites propostos para este capítulo, assimilamos que a incorporação
referida, para estar submetida a uma boa norma, devem se dar em reuniões para este fim destinadas.
Por isso mesmo, é importante que a casa Espírita esteja preparada para atender às tarefas da assis-
tência espiritual também neste setor. Afinal, ainda que a prática da desobsessão - no seu sentido ge-
nérico - não seja uma prática exclusivamente espírita, é, entretanto, a casa Espírita quem melhor exe-
cução e uso pode dar a tão valoroso socorro, a tão ímpar profilaxia espiritual . E como nesse mister
o passe irrompe com o instrumento de subido valor, não podemos nem devemos negligenciar-lhe a
atenção e prática devidas. Partindo-se daí, fica evidente que a casa Espírita deve promover reuniões
de assistência espiritual, com o passe a elas associado.
Há outras situações igualmente em que o passe também se reveste de uma importância muito
grande para a casa Espírita, pelo que:

1.3. 1 - Deve Ser Aplicado
a) Quando do atendimento aos necessitados nas reuniões de assistência social e espiritual da
casa Espírita;
b) Após as reuniões doutrinárias, àquelas pessoas que precisem ou queiram receber tal bênção;
c) Quando surja alguém muito necessitado dessa providência, em caráter de urgência, mesmo
que naquele momento não tenha reunião própria para tal serviço, mas que exista ao menos um pas-
sista de boa vontade ali presente;
d) Nas reuniões mediúnicas, não apenas para atender aos Espíritos comunicantes, mas como
auxílio aos médiuns. Dizemos "auxílio aos médiuns" para que não se ritualizem nem se imponha, por
norma, os passes nas reuniões mediúnicas da casa Espírita354; e
e) Em horários previamente estabelecidos para tal serviço.
Contrariamente, tal como se verificou nos itens anteriores, mesmo para a casa Espírita existem
casos em que necessitamos analisar a conveniência ou não de sua aplicação. Por isso mesmo, veja-
mos:

1.3.2 - Devemos Evitar
a) Quando antes não tiver sido feito nem uma prece ou pequena reflexão sobre página evangé-
lica (para que o passe se dê com equilíbrio e maior proveito é conveniente se harmonizem o ambien-
te, os passistas e os pacientes):
b) Concomitante às reuniões ou explanações evangélico-doutrinárias , evitando-se, com isso,
subtrair o paciente da evangelização que, conforme já percebemos, é igualmente fundamental. Exce-
ções ocorrem quando a casa dispõe de evangelização conjugada com o atendimento fluídico-
magnético para os pacientes:

353
MIRANDA, Hermínio Correia de. O passe. In "Diálogo com as Sombras", cap. 4, p. 247.
354
No capítulo X, item 11 ­ "Passes Antes e Depois", analisaremos este aspecto com mais detalhes.
JACOB MELO 97
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c) Em horários não determinados (de forma habitual), salvo em casos de emergência; atente-
mos, porém, para não fazermos da exceção a regra;
d) Quando for apenas para atender a pedidos fantasiosos ou comodismos que são, via de regra,
infundados e descaridosos; e
e) Quando não existir passista preparado para a tarefa. Vale lembrar, por oportuno, que a Ins-
tituição Espírita deve estar sempre atenta à formação moral, teórica e prática de seus médiuns, pre-
parando-os para as tarefas e alertando-os sobre os graves inconvenientes ocasionados por suas faltas
e ausências repentinas.

1.4 - Quando Não Convém
Além dos vários inconvenientes já alinhavados nos itens anteriores, deveríamos meditar sobre
mais alguns a fim de não faltarmos com a prudência e o bom senso tão recomendados por Kardec.
a) Em casos de obsessões violentas e subjugações, só aplicar o passe contando com o apoio
espiritual e material indispensável e suficiente ao bom desempenho dessa tarefa, notadamente quando
estivermos, por alguma circunstância, fora da casa Espírita;
b) Nos lares. Quando a prática do passe no nosso lar assumir característica de rotina ou quan-
do formos ali para atender comodismos ou "vergonhas" do paciente em ir ao Centro Espírita, verda-
deiramente não convém a prática:
c) Em hospitais, detenções, manicômios ou outros ambientes públicos, salvo em condições de
muita necessidade e atendendo aos seguintes requisitos:
1 - Possuir autorização tanto da casa em nome da qual se faça o atendimento (se for o caso)
quanto da Instituição visitada;
2 - Concordância e aceitação desse tratamento por parte do paciente e/ou de seu(s) responsá-
vel (eis), se for o caso;
3 - Estar-se em equipe de, pelo menos, dois membros;
4 - Poder antes fazer a leitura de uma mensagem, seguida de uma prece e voltando a fazer ou-
tra prece de agradecimento ao final. Vale lembrar que nestes casos, mais que em qualquer outro, é
necessário vigilância redobrada e equilíbrio inabalável não apenas no sentido de se manter em perfei-
ta sintonia com a Espiritualidade Superior mas de coibir gestos, bocejos, incorporações e toques que,
se em condições normais são injustificáveis, agora são literalmente impróprios; e
d) Quando o bom senso não recomendar e a prudência não o determinar.

2. ONDE
Se por um lado Jesus preconizou que "Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali
estarei no meio deles"355. Allan Kardec nos afirmou que "Uma reunião é um ser coletivo, cujas qua-
356
lidades e propriedades são a resultante das de seus membros" . Conjugando-se tais posições, ve-
mos que elas se completam, fazendo-nos concluir que o ambiente de uma reunião será bom se obser-
varmos que "As condições do meio serão tanto melhores, quanto mais homogeneidade houver para
o bem, mais sentimentos puros e elevados (...)" Kardec357.
É por todos - e em todos os tempos - conhecido que as vibrações emitidas pelas pessoas, quer
com palavras, atos e/ou pensamentos, impregnam os ambientes de um certo "clima psíquico", cor-

355
Mateus, XVIII, v. 20.
356
KARDEC, Allan. Das reuniões e das Sociedades Espíritas. In "O Livro dos Médiuns", cap. 29, item 331.
357
KARDEC, Allan. Da influência do meio. In "O Livro dos Médiuns", cap. 21, item 233.
JACOB MELO 98
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



respondente ao nível dessas emissões. Assim, em lugares onde se verifiquem reuniões serias e com
fins nobres, ter-se-á, sempre· um "clima" favorável aos trabalhos de passes. Tendo-se por base tal
raciocínio, analisemos:

2.1 - Lugares Mais Apropriados
"No templo espírita, os instrutores desencarnados conseguem localizar recursos avançados do
358
plano espiritual para o socorro a obsidiados e obsessores (...)" . Generalizando a partir desta afir-
mação do Espírito André Luiz e na certeza de que os fluidos nesses ambientes favorecem excelentes
condições para combinações fluídicas altamente ricas e profícuas em face das elevadas vibrações aí
reinantes, podemos afirmar categoricamente que a Instituição verdadeiramente Espírita é o lugar ide-
al para a aplicação do passe, em qualquer de suas modalidades, abstração feita às aplicações ocorri-
das em Regiões Espirituais Superiores.
Outrossim, na casa Espírita existem equipes espirituais atentas a tal mister, como se pode per-
ceber nesse registro de André Luiz onde Hilário pergunta a Conrado (no plano espiritual):
"- O amigo permanece freqüentemente aqui?
"- Sim, tomamos sob nossa responsabilidade os serviços assistenciais da instituição, em favor
dos doentes, duas noites por semana.
"- Dos enfermos tão-somente encarnados?
"- Não é bem assim. Atendemos aos necessitados de qualquer procedência.
"- Conta com muitos cooperadores?
"- Integramos um quadro de auxiliares, de acordo com a organização estabelecida pelos men-
tores da Esfera Superior.
"- Quer dizer que, numa casa como esta, há colaboradores espirituais devidamente fichados
(...)?
"- Perfeitamente. (...) O êxito do trabalho reclama experiência, horário, segurança e responsa-
bilidade do servidor fiel aos compromissos assumidos. A Lei não pode menosprezar as linhas da ló-
359
gica" (grifamos).
Somos levados a meditar na evidência da casa Espírita como o mais apropriado lugar para se
fazer a aplicação do passe e, de preferência, lá, em sua sala (cabine) própria (se houver).
Fora do Templo Espírita, entretanto, pode-se igualmente fazer aplicação do passe, mas, para
tanto, as condições precisam ser consideradas. Por extensão do que exemplificamos no início do ca-
pítulo, assim como os médicos eventualmente dispõem de "mini-hospitais ambulantes" para presta-
rem socorro aos pacientes fora dos hospitais ou consultórios, por atendimento de condições de ur-
gência ou de impossibilidade de transferência daqueles a ambientes mais apropriados, a casa Espírita
também poderá prover "equipes de atendimento de emergência" através de "plantões" de atendimen-
to com o objetivo de prestar, com equilíbrio, denodo e responsabilidade, este tipo de serviço.
Nesses lugares, ou seja, fora das Instituições Espíritas porém, "O magnetizador deverá, antes
de tudo, certificar-se do ambiente em que vai operar, de maneira que possa agir com calma, atenção,
recolhimento, sem receio de que possa ser perturbado. (...) Não deve permitir aglomeração de pes-
soas no recinto e aconselhar o maior silêncio. Todavia, é útil a presença de uma, duas ou três pesso-
as, preferentemente das que mais desejam a cura do paciente" (Michaelus)360 . Tais recintos devem


358
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Templo Espírita, In "Desobsessão", cap. 9, p. 47.
359
XAVIER, Francisco Cândido. Serviços de passes. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 17, p. 163.
360
MICHAELUS. In "Magnetismo Espiritual", cap. 9, p. 67.
JACOB MELO 99
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



ser reservados, tranqüilos, bem arejados ou calafetados (conforme o caso) e, durante a aplicação dos
passes, evitar-se trânsito, conversas ou poluições físicas e mentais.
Para aplicação do passe na casa do paciente, além das condições já mencionadas, não descurar
de alertar os envolvidos de que tal tarefa, naquele ambiente, é de cunho temporal e extraordinário,
devendo o(s) paciente(s) ser(em) encaminhado(s) à casa Espírita não só para buscar(em) o refrigério
do passe mas para se alimentar(em) com o "pão do Evangelho".

2.2 - Lugares Não Recomendados
Quase fazendo coro à última citação de Michaelus, André Luiz nos adverte para se "Proibir ru-
ídos quaisquer, baforadas de fumo, vapores alcoólicos, tanto quanto ajuntamento de gente ou a pre-
sença de pessoas irreverentes e sarcásticas nos recintos para assistência e tratamento espiritual", pois
361
"De ambiente poluído, nada de bom se pode esperar" .
Por esta situação proposta, podemos dizer que, para a aplicação do passe:

2.2. 1 - Não São Lugares Recomendados
a) Ambientes poluídos mental e fluidicamente, ou onde se verifique grande trânsito de pessoas
ou muitos ruídos;
b) Lugares públicos em geral, salvo se observadas as recomendações já anotadas;
c) O lar não é recomendado para se fazer tratamento fluídico, notadamente quando se trata de
problemas obsessivos. Nos lembra Suely Caldas Schubert, entrementes, que "Se houver imperiosa
necessidade de se socorrer o paciente em seu lar, por exemplo, através do passe, é imprescindível
que compareçam, no mínimo, dois integrantes da equipe. O médium passista nunca devera ir só, para
quaisquer atividades do seu setor, mormente em casos dessa natureza"362.
Anotamos ainda que, assim como existem lugares melhores e outros não recomendáveis, existe
uma outra situação a ser considerada.


2.3 - Quando o Lugar Não Importa
Voltamos a André Luiz para registrar nossa observação de "Dar atenção e carinho aos cora-
ções angustiados e sofredores, sem falar ou agir de modo a humilhá-los em suas posições e convic-
ções, buscando atender-lhes às necessidades físicas e morais dentro dos recursos ao nosso alcance",
pois "A melhoria eficaz das almas deita raízes na solidariedade perfeita"363 .
O Espírito Manoel Philomeno de Miranda, por sua vez, registrou uma nota de grande valor, di-
ta por Genézio Duarte:
"- O médico não teme o contágio do enfermo, porque sabe defender-se; o sábio não receia o
ignorante, porque pode esclarece-lo (...) Ora, o espírita, realmente consciente, que se não apóia em
mecanismos desculpistas, enfrenta vibrações de teor baixo, armado do escudo da caridade e protegi-
do pela superior inspiração que haure na prece, partindo para o serviço no lugar em que se faz ne-
cessário, onde dele precisam"364.
Estas duas citações nos resumem as situações que sintetizam este tópico: dentro do espírito de
"solidariedade perfeita", tenhamos em mente que as verdadeiras urgências muitas vezes superam
361
VIEIRA, Waldo. Perante o passe. In "Conduta Espírita", cap. 28, p. 103.
362
SCHUBERT, Suely Caldas. Os recursos espíritas. In "Obsessão / Desobsessão", cap. 8, p. 111.
363
VIEIRA, Waldo. Perante os doentes. In "Conduta Espírita", cap. 22, p. 85.
364
FRANCO, Divaldo Pereira. Apontamentos necessários. In "Nas Fronteiras da Loucura", cap. 17, p. 126.
JACOB MELO 100
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



quaisquer outras recomendações, tal como nos enseja o vigoroso exemplo da parábola do bom sama-
ritano365.

2.4 - Ambiente das cabines
Há quem diga que o passe não exige ambiente próprio. Não concordamos integralmente com
tal afirmação, pois do fato de ele poder ser aplicado em quase todos os lugares, não se pode concluir
não mereça um local para este fim destinado. Por analogia, do fato de podermos, dependendo das
circunstâncias, dormir em qualquer lugar, inclusive ao relento, isto não implica devamos ficar des-
providos de quartos e leitos.
366
Roque Jacintho sugere que "Nos Templos do Espiritismo-cristão , contudo, é bastante opor-
tuno destacar ou erigir um pequeno cômodo, isolado da visitação e da permanência alongada do pú-
367
blico" . Concordamos com esta afirmativa, desde que não se entenda por "cabine de passes" um
lugar onde as pessoas simplesmente entram, se aquietam e de lá saem, como se fosse uma espécie de
oratório. Acreditamos, inclusive, que foi este o enfoque dado pelo Roque Jacintho, mas, conforme
podemos observar, ele é sumamente feliz quando diz que "Por útil a câmara de passes, o passista não
deve, porém, a ela escravizar-se", assim como "Não deve, também, tomar-se de inconcebível puris-
mo, policiando ou proibindo a entrada de pacientes à câmara de passes, chegando a torná-la apenas o
seu oratório e reflexório particular (...)".
Concordes que estamos de que a casa Espírita precisa (e merece) de um lugar reservado para a
aplicação dos passes, não devemos limitar tal necessidade aos aspectos da construção física do ambi-
ente pois "Há uma tarefa especial, particularmente destinada aos espíritas, à margem das obrigações
que lhe são peculiares: a formação de ambiente adequado ao trabalho edificante dos Bons Espíritos.
(...) É forçoso recordar, sobretudo, que os alicerces de qualquer ambiente espiritual começam nas
368
forças do pensamento" (Emmanuel) . Portanto, além do espaço físico, cuidemos primordialmente
do "espaço mental".
Por isso afirmamos: deve sim! O Centro Espírita deve ter uma cabine de passes, mesmo que
seja apenas uma divisão por biombo, cortina, plástico ou o que seja; ainda que num espaço onde só
caiba um passista e um paciente, mesmo que em pé. É importante que tenha uma cabine. Fisicamente
ela deve ser clara, sem com isso querer se entenda atingida diretamente pelos raios solares ou subme-
tida a fortes refletores; seu ambiente deve ser calmo e arejado (em nosso clima quente) ou aquecido
(para climas frios), "podendo" (e não "devendo") ter uma luz vermelha que será acionada precipua-
mente para os trabalhos de passes com fluidos de origem magnéticos (já que, em tese, os passes espi-
rituais dispensam tal cuidado). E quando dizemos "luz vermelha" fazemos nossa sugestão apoiada
em confirmações experimentais - as quais existem desde os primeiros magnetizadores -, que indicam
seja tal espectro o que menos afeta certas características dos "fluidos das curas", ou seja: o fluido
magnético, o ectoplasma369.
Alguns magnetizadores antigos fazem reservas à umidade, a horários preferenciais, a condições
climáticas e outros fatores físico-químicos de menor importância. Tais enfoques, para o passe espíri-
ta, além de não resistirem a uma análise mais profunda, são destituídos de respaldo doutrinário. O-
corre que, ao tempo dos pioneiros do magnetismo, chegou-se a algumas conclusões levando-se em
consideração fatores que tais, mas ditas conclusões não só não se universalizaram como, por bom
número de vezes, tiveram suas eficiências negadas. Vale lembrar que referidos magnetizadores inclu-


365
Vide Lucas, cap. X, vv. 25 a 37.
366
Imaginamos que o autor quis fazer uso de uma enfatização, pois, coerentemente com Kardec, não conhecemos
Espiritismo sem ser cristão.
367
JACINTO, Roque. Passe e câmara. In "Passe e Passista", cap. X, p. 30.
368
XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA, Waldo. Ambiente espiritual. In "Estude e Viva", p. 200.
369
Maiores detalhes serão considerados no capítulo X, itens 14 e 15.
JACOB MELO 101
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



370
sive - e isso não é o nosso caso - não dispunham da companhia invocada e sabida dos Espíritos, o
que, sem dúvida. não eliminava suas presenças mas limitava muito suas participações, pois os Espíri-
tos Superiores não interferem nas disposições íntimas de ninguém, de modo a sobreporem-se ao li-
vre-arbítrio das pessoas. Em conseqüência, essa menor ação dos Espíritos serviu (e serve) para evi-
denciar que suas ausências ou não interferências mais diretas toldavam-lhes ou embaraçavam-lhes os
resultados, tomando as sessões de passes, por isso mesmo, longas, fastidiosas e, por vezes, inopina-
damente infrutuosas. Isso, a prática da fluidoterapia, de hoje, demonstra com fartura.
Na visão espiritual, entretanto, a cabine (ou sala de passes), quando mantida sob o influxo da
prece e das boas ações, tem outra dinâmica: "Atravessamos (diz André Luiz) a porta e fomos de-
frontados por ambiente balsâmico e luminoso.
"(...) Como compreender a atmosfera radiante em que nos banhamos? aventurou Hilário, curi-
oso.
"- Nesta sala - explicou Áulus, amigavelmente - se reúnem sublimadas emanações mentais da
maioria de quantos se valem do socorro magnético, tomados de amor e confiança. Aqui possuímos
uma espécie de altar interior, formado pelos pensamentos, preces e aspirações de quantos nos procu-
ram trazendo o melhor de si mesmos"371. Para que nossas cabines de passes tenham tais bálsamos e
luminosidades, basta seguirmos os esclarecimentos ora prestados pelo Espírito Áulus.

3. RECOMENDAÇÕES
Muito já foi dito mas não queremos nos furtar de relembrar alguns pontos, ao tempo em que
acrescentamos novos apontamentos.
I. Para o bom julgamento do "quando e onde" se aplicar ou não o passe, é imprescindível que
se use o bom senso e a razão. Entre o certo e o errado, existe a condição de "conveniência". É co-
mum o certo, por inconveniente, se tomar errado, como ocorre com o errado que, tomado conveni-
entemente, pode vir a ser considerado certo.
2. "Não penetreis, pois, nesse domínio sem a pureza de coração e a caridade. Nunca ponhais
em ação as forças magnéticas, sem lhes acrescentar o impulso da prece e um pensamento de amor
sincero por vossos semelhantes. Assim procedendo, estabelecereis a harmonia de vossos fluidos com
372
o dinamismo divino e tomareis sua ação mais profunda e eficaz" (Léon Denis) .
3. "Tendo Jesus partido dali, entrou na sinagoga deles.
"Achava-se ali um homem que tinha uma das mãos ressequida; e eles então, com o intuito de
acusá-lo, perguntaram a Jesus: É lícito curar no sábado?
"Ao que lhes respondeu: Qual dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, e, num sábado
esta cair numa cova, não fará todo o esforço, tirando-a dali?
"Ora, quanto mais vale um homem que uma ovelha? Logo, é lícito fazer bem, aos sábados"373.
O raciocínio é direto: podemos e devemos fazer o bem, a qualquer tempo, em qualquer tempo e em
qualquer dia. Afinal, o dia foi feito para o homem e não o homem para o dia. Faça-o quem tiver cari-
dade para fazê-lo. Mas jamais isso quererá dizer ou deverá ser interpretado como "faça-se o que se
quiser, quando, onde e como se quiser".
4. A despeito de podermos favorecer ajudas de grande valor aos pacientes, não nos é dado o
direito de fazer brotar neles comodismos, falsas esperanças ou disassociação da necessidade de re-


370
Vide primeira definição do item 2.1 - dos dicionários e enciclopédias, no capítulo I.
371
XAVIER, Francisco Cândido. Serviços de passes. In "Nos Domínios da Mediunidade", cap. 17, pp. 160 e 161.
372
DENIS, Léon. A força psíquica. Os fluidos. O magnetismo. In "No Invisível", 2ª parte, cap. 15, p. 184.
373
Mateus, XII, vv. 9 a 12.
JACOB MELO 102
O PASSE: SEU ESTUDO, SUAS TÉCNICAS, SUA PRÁTICA



forma íntima e do esforço próprio para sua própria recuperação. Nossa ação, para ser completa, de-
ve atender ao corpo e ao Espírito, sempre!
5. Ainda que o lugar não seja o mais recomendado; ainda que o paciente não seja dos mais co-
erentes; ainda que não nos sintamos em condições excepcionais, lembremo-nos de Jesus, confiemos
em seu amor misericordioso e procuremos fazer de nossa ação uma extensão de seu psiquismo divi-
no sobre o atendido, esforçando-nos para favorecer uma melhor harmonia no ambiente, uma melhor
compreensão e assimilação por parte do paciente e uma determinante decisão de corrigir os próprios
deslizes, orando, vigiando, vibrando equilibradamente e agindo bem.
6. Isentemo-nos do orgulho pois "Onde há verdadeira fraternidade, o orgulho é uma anomalia"
374
(Kardec) .




OBS. O LIVRO NÃO ESTÁ COMPLETO.
ESTÃO FALTANDO OS DOIS ÚLTIMOS CAPÍTULOS, QUE DÃO EXEM-
PLOS A RESPEITO DAS TÉCNICAS DO PASSE.
MAS COMO EXISTEM VÁRIOS LIVROS QUE ABORDAM O ASSUNTO,
POR IMPOSSIBILIDADE DE SE ENTENDER OS CAPÍTULOS 8 E 9, POR ES-
TAREM MUITO MAL ESCANEADOS, NOS LIMITAMOS À PARTE FOCALI-
ZADA NOS 7 PRIMEIROS CAPÍTULOS DO LIVRO.
MESMO SEM AS TÉCNICAS DOS PASSES, VALE A PENA LER PARA
ENTENDER OUTROS ASPECTOS IMPORTANTES DO PASSE ESPIRITA.




374
KARDEC, Allan. In "O Livro dos Espíritos", item 3.
JACOB MELO 103 JACOB MELO




CURE-SE E CURE PELOS
asses
Conhecendo e utilizando proveitosamente
nossos potenciais curativos
© JACOB MELO - 2007
I S B N : 85-7564-323-1


IDEALIZAÇÃO E REALIZAÇÃO
Jacob Melo
PROJETO GRÁFICO
José Duarte Teixeira de Castro, Jacob Melo &
Mackenzie Melo
REVISÃO
Leonor Pizzolla
EDITORAÇÃO ELETRÔNICA

Editora Vida & Saber
ILUSTRAÇÕES
Capa: Cláudio Gianfardoni
Miolo: Carlos E. Gonçalves Fernandes

REIMPRESSÃO E ACABAMENTO




Editora Vida & Saber
Caixa Postal, 813. Natal/RN - Brasü CEP. 59031-970
vidaesaber@interjato.com.br /'jlmelo@interjato.com.br
Fone/Fax: (84) 3231.4410
Agradecimentos 7
Prefácio - Aécio Pereira Chagas 9
Introdução 13
Cap. 1 - Dom de Curar 21
Cap. 2 - Magnetismo 33
Cap. 3 - Considerações sobre os fluidos 41
Cap. 4 - Qualidade dos fluidos 53
Cap. 5-0perispírito 65
Cap. 6 - Os centros vitais 73
Cap. 7 - Ação dos e nos centros vitais 93
Cap. 8 - Rearmonização dos centros vitais 101
Cap. 9 - 0 p a s s e 107
Cap. 10 - O passista 125
Cap. 11-0 paciente 129
Cap. 1 2 - As defesas do paciente 131
Cap. 13 - Dúvidas do paciente 137
Cap. 14 - As sensações do passe 149
Cap. 15 - Recomendações simplificadas para o paciente 155
Cap. 16 - Recomendações gerais para a Casa Espírita
passar ao paciente 163
Cap. 17 - Dúvidas do passista durante o passe 171
Cap. 18 - Necessidades do passista 191
Cap. 1 9 - 0 p a s s i s t a e a mediunidade 195
Cap. 20 - Restrições na aplicação 201
Cap. 2 1 - 0 ambiente do passe 213
Cap. 22 - Antipatia, simpatia e empatia fluídica 223
Cap. 23 - As correntes magnéticas 227
Cap. 24 - Usinagem fluídica 233
Cap. 25 - Congestão fluídica 237
Cap. 26 - Fadiga fluídica 241
Cap. 27 - Psi-sensibilidade 255
Cap. 2 8 - 0 tato-magnético 259
Cap. 29 - Os passes na Casa Espírita 267
Cap. 30 - Cola-psíquica 279
Cap. 31 - As regras do magnetismo 285
Cap. 32 - As técnicas mais usadas 299
Cap. 33 - Alguns exemplos práticos dos passes 323
Cap. 34 - Ação dos passes em regiões ou situações localizadas . . 3 3 1
Cap. 35 - Ação negativa dos fluidos 337
Cap. 36 - A duração do passe 345
Cap. 37 - Quantos passes aplicar 351
Cap. 38 - Diferenças de entendimento '. 355
Cap. 39 - Passe a distância -- irradiação 359
Cap. 40 - O passe em pessoas inconscientes 367
Cap. 4 1 - 0 passe e as problemáticas do sexo 371
Cap. 4 2 - 0 p a s s e e os vícios 383
Cap. 43 - O passe na desencarnação 391
Cap. 4 4 - 0 autopasse 397
Cap. 45 - A água fluidificada 401
Cap. 46 - Perguntas diversas 413
Cap. 47 - Formação do passista 423
Cap. 48 - Nossos cursos sobre passes 429
Cap. 49 - A simplicidade do passe 437
Cap. 50 - Tornando o passe mais abrangente 443
Cap. 51 - As cores 447
Cap. 52 - Terapias alternativas 451
Cap. 53 - Uma mensagem final 457
Agradecimentos




A Deus, a Jesus, a Kardec e a todos os mestres do
Magnetismo, inclusive aqueles anônimos, que têm
deixado no mundo rastros de luzes cintilantes por suas
conquistas e exemplos;
Aos amigos, encarnados e desencarnados, que sempre
me incentivam a continuar estudando e pesquisando este
tão rico quão fascinante tema;
Aos meus pais, onde minha mãe é a maior de todas
as incentivadoras dessas pesquisas e o meu velho papai,
já desencarnado, por me ter possibilitado não apenas
esta encarnação, mas por me ter favorecido com a ines-
quecível e impagável oportunidade de exercitar o passe,
dentre outras situações, em doenças terminais e no au-
xílio em processos desencarnatórios;
Aos muitos jornalistas, leitores, freqüentadores de
cursos e treinamentos, correspondentes, escritores, pales-
trantes, colegas e amigos que, com suas perguntas e co-
locações, têm permitido que este tema continue crescen-
do e crescendo, arrancando-me de qualquer idéia que
pudesse me induzir à acomodação ou ao sofrimento.
Destaco, entre eles, o Aécio, que não apenas apontou
falhas como sugeriu acréscimos e correções, sem as quais
o livro estaria capenga.
A todos, que meu "muito obrigado" seja recebido
repleto de eflúvios carinhosos. Tenham certeza, meu
abraço estará sempre cheio dos melhores fluidos que
possa doar ou transmitir. Sei que vocês merecem mais, e
se mais não dou é porque me falecem meios, mas o que
dou e dôo o faço com o melhor esforço de m i n h a
alma, com todo amor de meu coração.
Deus os abençoe hoje e sempre!
Prefácio
Aécio Pereira Chagas




prefácio de um livro é geralmente escrito por alguém
conhecido apresentando um desconhecido. Aqui é
o contrário: um desconhecido apresentando alguém bas-
tante conhecido. Por isso, não posso perder a oportuni-
dade de tecer alguns comentários sobre este livro de meu
amigo Jacob.
Não podemos nos esquecer que o objetivo do Espi-
ritismo é a melhoria moral do ser humano. Conseqüen-
temente, dos aspectos científico, filosófico e religioso da
Doutrina, o último é o mais importante. Entretanto,
não podemos nos esquecer também que o primeiro é
fundamental, é a base dos outros. Se ele não estiver bem
assentado, os outros balançam.
A Ciência é uma atividade que reflete a cultura de
seu tempo e de seu local e não é preciso salientar que em
nosso país a Ciência não tem ocupado um lugar de des-
taque. Assim também no Movimento Espírita, ou seja,
na expressão social e cultural do Espiritismo, muitas
características da cultura brasileira aí se refletem, como
por exemplo a pouca importância que se dá ao aspecto
científico da Doutrina. Apesar de tudo, há muitos e im-
portantes trabalhos de Ciência Espírita realizados no
Brasil, inclusive aqueles que não são assim rotulados pelas
mais diversas razões. Uma delas é que a maneira de es-
crever estes relatos não se parece com o estilo usual uti-
lizado nas ciências acadêmicas. Esquece-se que este estilo
é relativamente recente, tendo sua elaboração se iniciado
na segunda metade do século XIX, como uma reação à
Filosofia Natural, na época bastante influenciada pelo
romantismo. Será que antes disto não se fazia Ciência?
É claro que se fazia, daí a reação. Neste período, junta-
mente com este estilo "objetivo", começaram a proliferar
também as revistas científicas. A Revue Spirite -- Jour-
nal D'Etudes Psychologiques {Revista Espírita -- Jornal de
Estudos Psicológicos), fundada por Allan Kardec em 1858,
segue este modelo, porém nela não encontramos este
estilo "objetivo", desenvolvido para tratar da matéria fí-
sica. Na Revista Espírita tratava-se de seres humanos, uns
"vivos", outros "mortos". Não havia razão para se usar o
estilo das revistas científicas.
Alguns espíritas são também de opinião que o lado
científico do Espiritismo já está pronto, acabado. "É
necessário agora cuidar dos outros." Entretanto, é preciso
frisar que a Ciência tem uma característica progressiva,
ou seja, não pode parar de crescer, sob pena de fenecer.
Daí a necessidade constante de se estar sempre atuando
nesta área e, felizmente, há estes confrades que aí tra-
balham, não deixando "a peteca cair".
O trabalho de Jacob Melo, expresso em seus dois livros
anteriores (O Passe -- seu estudo, suas técnicas, sua prática,
edição FEB ( 1 9 9 7 ) e Manual do Passista, Editora
M n ê m i o Túlio (1998)) e neste aqui, estão entre estes
importantes trabalhos de Ciência Espírita realizados em
nosso país, que citamos acima.
Kardec, tendo como teoria o conceito de que os "vi-
vos" são constituídos pelo espírito, perispírito e corpo e
que os "mortos" não têm este último, a existência dos
fluidos e mais algumas regras metodológicas (causa e
efeito, critérios de aceitação das comunicações e t c ) ,
estudou os fenômenos mediúnicos, cujos resultados estão
em O Livro dos Médiuns, estabelecendo o que alguns
filósofos da ciência chamam de paradigma.
O que Jacob Melo fez (e faz) é seguir as pegadas de
Kardec, utilizando-se da mesma teoria -- agora mais
bem estabelecida e ampliada --, aplicando-a no estudo
do magnetismo humano, que se manifesta, enquanto
fenômeno, nos passes. Este Cure-se e cure pelos passes con-
tém o essencial de seus livros anteriores e muitas outras
observações, resultados, interpretações, correlações etc.
Além do mais, sua forma em perguntas e respostas (como
em O Livro dos Espíritos) é bastante didática e empática,
acrescida do fato que Jacob escreve com o cérebro e com
o coração.
O subtítulo do livro já diz muito sobre as intenções
do autor: Conhecendo e utilizando proveitosamente nossos
potenciais curativos, ou seja, conhecer as potencialidades
dos fluidos que temos e utilizar estes fluidos adequada-
mente para aliviar os sofrimentos do próximo. É possível
ajudar nosso semelhante, contando apenas com boa von-
tade? É claro que sim. Todavia, se além da boa vontade
tivermos conhecimento, nossa ajuda será muito mais
eficaz, proveitosa e maior. É a prática do que disse O
Espírito de Verdade: "Espíritas! Amai-vos, este o primeiro
mandamento; instruí-vos, este o segundo" {O Evangelho
Segundo o Espiritismo, Allan Kardec, cap. VI, § 5, Ed.
FEB).
As perguntas existentes no livro, segundo o autor,
foram feitas pelas pessoas com as quais ele teve contacto
pessoal ou através de correspondência, telefone etc. Al-
gumas dessas questões são aquelas dúvidas que temos
acanhamento em externar, outras são coisas óbvias, que
nunca havíamos pensado e que se nos perguntassem não
teríamos condição de responder. Isto contribui para que
leitor e autor se tornem mais familiares, mais íntimos,
fazendo com que a leitura do livro seja bastante agradável,
apesar das dificuldades inerentes ao próprio tema.
Algumas editoras, ao solicitarem a seus assessores a
opinião sobre u m a determinada obra para avaliarem as
possibilidades de sua publicação, costumam perguntar:
"Você compraria este livro?". Neste caso, sem qualquer
sombra de dúvida, eu responderia: "Sim".
Deixo aqui ao Jacob meu profundo agradecimento
pelo convite e oportunidade de "apresentá-lo" e pelo que
pude aprender em seus livros, principalmente neste.

Campinas, junho de 2 0 0 1 .
Introdução




êm de longínquas e recuadas épocas o uso e a
aplicação das chamadas "energias curativas" que, de
uma forma ou outra, todos trazemos em nos mesmos.
Mais apropriadamente conhecidas como magnetismo
espiritual -- posto que todos somos espíritos --, essas
"energias" ou esses "fluidos" estão à disposição da hu-
manidade para a autocura tanto quanto para o alívio, a
superação de problemas e situações, a mudança de estado,
enfim, a cura do próximo.
Fazendo um parêntese já no início, o termo "energia"
não é o melhor colocado para definir esses campos que,
na verdade, tanto estão ou "acontecem" na densidade da
matéria bruta quanto na sutileza dos campos psíquicos,
tanto são peculiares a locais e acontecimentos físicos
quanto são, em si mesmos, não-locais, não-temporais e
não-matéria. Sobre o termo fluido falarei mais detalha-
damente mais adiante. Antes de fechar o parêntese, para
um melhor entendimento de palavras como fluido, ener-
gia e magnetismo, chamo a atenção do leitor para buscar
o artigo "Polissemias no Espiritismo", de Aécio P. Chagas,
publicado na Revista Internacional de Espiritismo, de
setembro de 1996, em suas páginas 2 4 7 a 2 4 9 . Fecho o
parêntese.
O que intriga nessa realidade é que, apesar de sua
ancestralidade, nos demoramos sobremaneira, injustifi-
cadamente, para percebermos e aproveitarmos esse ine-
gável e portentoso potencial natural. Em nossa pueril
ignorância, chegamos mesmo a acreditar que apenas
alguns "escolhidos" sejam portadores dessa "energia", sem
nos darmos conta de que assim pensando estamos abrin-
do mão de um dos maiores bens, para usufruto pessoal e
coletivo, que a Misericórdia Divina nos legou. Se bem
que nem todos disponham de grandes ou variados poten-
ciais energéticos, comumente chamados fluídicos ou de
bioenergia, todos somos detentores de poderes muito
mais amplos do que sequer imaginamos, os quais, com
um pouco de conhecimento e prática, podem nos levar
à realização de verdadeiros "milagres".
Por outro lado, espíritos que somos -- até porque a
matéria não consegue, por si só, explicar nem justificar
a matéria --, não faz sentido nossa demora em perceber-
mos e aceitarmos a espiritualidade que existe em nós e
em nosso derredor. Por mais que nossos sentidos sejam
agredidos pelas conjunturas mais palpáveis do reino ma-
terial, são as coisas do espírito que definitivamente nos
movem e comovem. Senão, o que é uma saudade, uma
ânsia pelo desconhecido que "sabemos" estar para acon-
tecer -- e que comumente se confirma, a despeito da
descrença --, uma dor emocional profunda por um gesto
desagradável, um arrependimento, uma alegria injusti-
ficável, uma sensação de "presença" quando sabemos que
"não há ninguém por perto", um não-sei-o-quê de certeza
ante um estatístico universo de improbabilidades?...
De outra forma, o estarmos mergulhados na carne
deveria nos impulsionar a entendermos as atribuições
não apenas grosseiras desta, mas nos envolvermos tão
firmemente em suas sutilezas, em seus atributos e em
suas conseqüências sobre nossas próprias vidas -- todavia
parece nem sempre funcionar neste sentido. Afinal, há
repercussões constantes devido à ação dessas sutilezas
que não nos permitem seguir ignorando-as ou delas des-
denhando. Portanto, não é sem motivo que precisamos
descobrir o que provoca um arrepio estranho quando
nos acercamos de certas pessoas, o que seria um "que-
branto", o que viria a ser a expressão de um desejo im-
pulsionando forças positivas em favor de determinados
objetivos, o que de fato transmitimos ou percebemos
através de um olhar, da voz, dos gestos, do sopro, de
uma prece, do toque daquela ou naquela pessoa...
Tudo isso deve nos levar a refletirmos um pouco mais
demoradamente sobre os valores que temos dado aos
valores da vida. E não é fora de tempo. Como dissemos
no início, vem das mais remotas eras o registro dessas
sensações e evidências, mas, enquanto h u m a n i d a d e ,
muito pouco temos aproveitado disso tudo. Tanto que
vira e mexe somos surpreendidos com o surgimento de
grandes curadores, como se isso devesse ser a exceção da
regra e não o fato de sermos curadores vir a ser a regra.
O estudo do organismo e os conhecimentos que já
possuímos são mais do que indicadores de que trazemos
em nossa própria estrutura a realização de milhões e mi-
lhões de "milagres" a cada instante, provando que somos
muito mais poderosos e surpreendentes do que jamais
sonhamos ser. Veja-se, por exemplo, o milagre que é
dormirmos! Para onde vamos quando dormimos? O que
são os sonhos? E como é que retornamos desse estado?
Não é um milagre magistral o ato de acordarmos? E os
milagres que são: respirar, fazer bater o coração, circular
o sangue, o metabolismo geral, tudo isso sem sequer nos
darmos conta? E as muitas doenças que vencemos sem
ao menos termos percebido que elas nos espreitavam ou
atingiram? Quando somos considerados infectados, é
porque o número dos "invasores" do nosso organismo,
por regra, já superou a casas dos milhares, dos milhões,
pois do contrário nossas "defesas automáticas" (sistema
imunológico) dariam conta sozinhas de vencê-los sem
sequer percebermos o que houve -- e isso acontece dia-
riamente, inúmeras vezes, com todos os seres vivos, espe-
cialmente com os humanos. Na verdade, somos, cada
um de nós, mesmo e apesar de nossas limitações, provas
gritantes do grandiloqüente milagre da vida. E esse mi-
lagre é fundamental no sentido de provar que somos fon-
tes, verdadeiras usinas de curas, só que ainda mal apro-
veitadas.
Sem dúvida, já é hora de revertermos essa tolice que
é não aproveitarmos os magistrais milagres da vida em
favor da própria vida!
Somos livres para usarmos o termo que melhor nos
convier para definir o assunto, mas que todos temos o
"poder da cura" é inequívoco. Sendo isso verdade, fica a
dúvida: por que será que tão poucos conseguem efetiva-
mente contribuir, de forma direta e objetiva, para a cura
dos próprios males ou dos males alheios? Será que existem
regras ou caminhos para atingirmos esse objetivo ou tudo
não passa de misticismo e, portanto, os que não atribuem
valor ao místico ficam desprovidos desse poder? As
evidências já respondem que tanto existem trilhas quanto
todos, mesmo os descrentes, podem, alcançam e realizam
grandes e graves poderes curadores. Necessário apenas
que estejamos atentos à Natureza, a sábia mãe, sob cujas
"leis naturais" alcançamos cumes de sabedoria antes ini-
magináveis de serem escalados... e apliquemos, bem, o
que aprendermos.

* * *


Apesar de nem sempre ser tão simples para alguns,
será no espelho da Natureza que, neste trabalho, refle-
tiremos as sugestões e respostas que tratarão do assunto
em pauta. Por m í n i m a vivência que cada um tenha, é
fácil reconhecer que toda experiência é válida e que todo
exercício no bem sempre contribui para a melhoria dos
seres, mas aqueles que realmente querem se destacar em
q u a l i d a d e de realização, adiantando-se no tempo e
evitando os percalços tão comuns às práticas de toda
ordem, devem encontrar no conhecimento prévio da
teoria o início ideal para seus passos. Essa teoria não se
encontra toda neste livro -- até porque seria impossível
alguém conseguir apor em u m a única obra teoria tão
vasta quão pouco pesquisada a i n d a --, mas estarei
usando-a sob forma de respingos, de sorte que à medida
em que formos caminhando por essa estrada benfazeja,
que é o fascinante mundo dos fluidos, nos refrescaremos
do calor agitado do aprendizado experimental sob os
ventos da esperança renovada na certeza das grandes
vitórias que a prática demonstrará.

* * *
Mesmo já tendo editado dois livros sobre o assunto
passes -- nos quais abordo com relativa profundidade o
Magnetismo e os passes (o chamado dom-de-curar com
as mãos) --, tem sido extremamente comum as pessoas
me escreverem, telefonarem, passarem e-mails ou mesmo
me entrevistarem para colher mais e mais informações
acerca das várias situações que o passe envolve. A m i m
nunca me faltou disposição e prazer para atender a todos
com o máximo de boa vontade, mas por mais que nos
esforcemos sempre ficará alguém esperando uma resposta
mais direta para determinados questionamentos.
C o m este novo livro tento atender a grande parte
desses meus professores, que são os questionadores sin-
ceros -- até porque são suas dúvidas e seus questiona-
mentos que me têm levado ao descobrimento de novas
e surpreendentes explicações para este mundo transcen-
dental. Embora sabendo que a empreitada de escrevê-lo
seja grande, predisponho-me a realizá-la. Evitarei ao má-
ximo o excesso de erudição ou mesmo complicar aquilo
que possa ser definido de maneira mais simples -- mas,
reconhecendo minhas limitações e analisando, sob minha
ótica, o que considero indispensável, não abrirei mão
daquilo que acredito deva constar nestas anotações.
Acredito também que com este livro esteja contri-
buindo, de alguma forma, para o estudo do tema. Sendo
assim, convido todos leitores a refletirem sobre as palavras
de Allan Kardec quando, no artigo Magnetismo e Espi-
ritismo {Revista Espírita, março-1858, p. 9 5 ) , ponderou:
"Esperemos que os sectários do magnetismo e do Espi-
ritismo, melhor inspirados, não dêem ao mundo o escân-
dalo de discussões muito pouco edificantes e sempre fa-
tais à propagação da verdade, seja qual for o lado em
que ela esteja. Podemos ter nossa opinião, sustentá-la e
discuti-la; mas o meio de nos esclarecermos não é nos es-
traçalhando, processo pouco digno de homens sérios e
que se torna ignóbil desde que entre em jogo o interesse
pessoal".
Isto anotado, quero realizar este trabalho de uma ma-
neira encadeada e prática, favorecendo a que a assimilação
seja a mais direta possível. Nesse intento, estou usando
entrevistas que dei, cartas que recebi e respondi, novas
leituras e pesquisas, assuntos aventados esporadicamente
em seminários e treinamentos e sobretudo as principais
perguntas que são a m i m dirigidas, nas mais diversas
formas e oportunidades. Para amenizar o contexto, farei
uso de desenhos (cartoons), a fim de melhor exemplificar
algumas questões e dar maior fluência à matéria. Espero
firmemente que este caminho seja produtivo e venha a
ser trilhado sem maiores sobressaltos por todos que se
predispuserem a atravessá-lo comigo.
E caminhando pelas trilhas dos fluidos, do magne-
tismo, do espiritual, do amor e da boa vontade iremos
fazer ressurgir em nossas telas as paisagens inefáveis de
grande parte daquilo que nossos valorosos ancestrais
pintaram com suas experiências e conhecimentos... e que,
sob a forma de bênçãos, nos legaram à apreciação para
evidente proveito. Sendo assim, vamos lá?!

Jacob Melo, junho de 2 0 0 1 .
Dom de curar




erá que todos detemos mesmo o dom, o poder de curar?
Sim, mas é preciso que vejamos a questão com maior
amplitude. Na realidade, a correta utilização dos poten-
ciais que todos trazemos dentro de nossos organismos
-- físico, psíquico e espiritual -- e na relação de pro-
funda ressonância com o Todo, nos caracterizam como
grandes geradores de "milagres". Só que vários desses
"milagres", por cotidianos, passam despercebidos, até que
uma deficiência mais acentuada se faz presente, "rou-
bando-nos" a saúde, a tranqüilidade ou mesmo a razão.
A partir de então, ficamos "ligados" no problema e perce-
bemos que algo de errado está acontecendo -- apesar de
muito nos demorarmos no estágio da pura "negação",
evitando assumir os compromissos que aí estão inseridos.
Talvez por isso, raramente nos damos conta de que o
errado é gerado por u m a disposição ou disfunção inte-
rior, pessoal, e não por culpa externa, salvo as exceções
da regra. Para resolver a questão buscamos ajuda externa,
seja material, psíquica ou espiritual, o que é natural.
Ocorre que atualmente, com u m a maior abertura para a
visão holística, integral, do ser, somos convidados a re-
fletir acerca de nossos atos, pensamentos e ações e reações
ante a vida, ante aos acontecimentos nos quais interagi-
mos. Dessa forma, quando somos atendidos por pes-
soas ou profissionais responsáveis, recebemos convites
para revermos atitudes, reformularmos procedimentos,
reeducarmos hábitos e tendências, redirecionarmos nos-
sas emoções e anseios. Tudo isso por dois motivos: um
porque está bastante evidenciado que nem sempre a ajuda
externa isoladamente é tão eficiente como a que conta
com u m a contrapartida interior; e o outro porque se a
ajuda de fato resolver o problema, mas não houver um
trabalho real nas estruturas profundas do ser, o risco de
recidiva ou do problema irromper noutro lugar ou de
outra forma é muito grande, quase inevitável. Por aí já
dá para deduzir que os verdadeiros potenciais de cura
estão sempre em estado latente, muitos dentro de nós
mesmos e muitos na realidade que nos cerca, precisando
apenas que nos disponhamos a vencer a inércia para
dispô-los em nosso favor.
Para que sejamos pessoas sadias, "curadas", é neces-
sário que saibamos da existência desses potenciais e
acreditemos neles, direcionando mente e coração, emo-
ção e razão, força e astúcia no sentido do bem-estar que,
no exato sentido do termo, significa o bem geral -- que,
vale ressaltar, não combina com ficar bem à custa do
mal causado aos outros.
Todos detemos o dom de curar, ainda que por vezes
limitado a nos autocurarmos, o que, convenhamos, já é
um poder fabuloso, se plenamente realizado.

E o poder de cura em favor do outro?
Sem querer fugir da questão, o primeiro bem que
fazemos ao próximo é estarmos bem conosco mesmos,
pois assim não o sobrecarregaremos com nossas mazelas
e ainda o ajudaremos, tanto pela força do exemplo como
pela transferência de "energias" e fluidos positivos e pelas
vibrações de saúde que estaremos exalando.
Mas, indo ao cerne da colocação, se, conforme vimos
na questão anterior, detemos o poder de nos curarmos
em nós mesmos e em nosso derredor, se nos aprimorar-
mos no uso e na manipulação desses potenciais teremos
condições de exteriorizá-lo em benefício de outras cria-
turas. Os caminhos são os mais diversos: desde estudar-
mos e nos tornarmos facultativos (médicos, enfermeiros,
farmacêuticos, massagistas, agentes de saúde, etc.) até
virmos a ser curadores (no sentido de curar com magne-
tismo ou com o auxílio da espiritualidade), passistas. Em
tudo, a vontade e a disposição de servir com amor são
fundamentais.

Todas as pessoas podem realizar curas independente do
meio, do problema que deve resolver e do estado em que se
encontram?
Vejamos o assunto sob dois aspectos. As chamadas
curas espirituais, até por depender, fluidicamente falan-
do, muito pouco do curador -- já que os fluidos provêm
p r e d o m i n a n t e m e n t e do m u n d o espiritual e são os
Espíritos os verdadeiros detentores e manipuladores dos
mesmos --, oferece menos obstáculos materiais para a
sua realização, se bem que requeira u m a postura moral e
mental do aplicador muito mais harmônica e sintonizada
com a "fonte doadora" -- quanto mais equilíbrio moral
e maior vivência de autodoação maior possibilidade de
servir com qualidade. Já no campo das curas por passes
magnéticos -- aqueles em que os fluidos em manuseio
são predominantemente humanos --, são solicitados
alguns pré-requisitos para u m a boa e eficiente aplicação
de passes. Dessa forma, o meio, o problema e o estado
em que se encontra o passista poderá influenciar decisiva-
mente no resultado do passe, sem falar nos enormes
prejuízos que podem provocar o despreparo mental,
moral e de conhecimentos específicos.

Várias vezes ouvimos dizer que o passe magnético não
cura, pois para que a cura real se estabeleça é preciso que
vários fatores aconteçam, inclusive a fé do passista e o mere-
cimento do paciente. Apesar disso, pessoas sem aparente fé
e/ou merecimento alcançam curas fantásticas. E então, o
passe magnético cura ou não?
Primeiro precisaríamos definir o que é cura. Para uns,
cura é o restabelecimento ou a superação de um determi-
nado problema ou doença; para outros, é todo um con-
junto de ações e reações positivas, totalmente transfor-
madoras da vida. Para uns a cura é a força para suportar
o imutável; para outros nada vale se não for possível
mudar o que estabelecido está. Para uns é o literal: "pre-
ciso remover a montanha"; para outros, o racional, o
dedutivo: "preciso vencer a montanha" -- o primeiro
tenta transportá-la, lata a lata, até morrer cansado; o
outro, descobre-lhe os desvios, aprende a escalá-la, até
viver a satisfação da vitória.
Antes de prosseguirmos, sugiro aprendermos a definir
saúde e cura como situações naturais ou metas de vida e
não ficarmos a relacioná-las tão diretamente a doenças e
males. Não definamos a rosa por seus espinhos, o tigre
por sua mordida, o dia pela noite, o sono pelo pesadelo,
etc. Ainda que consideremos esses aspectos, melhor de-
finir as coisas por suas qualidades e virtudes; é mais coe-
rente e racional.
Feita a ressalva, respeitando aqueles que ainda assim
pretendem definir cura como a superação de determi-
nados problemas ou mesmo a mudança do estado de
doente para a posição de saudável, o passe magnético
pode cumprir perfeitamente essa proposta. São infinitos
os exemplos na área. Por outro lado, sabemos que toda e
qualquer cura (no caso, superação), da mais simples
doença ao mais profundo estado de abatimento, só po-
derá ser catalogada como cura real se houver um com-
promisso do curado com as transformações interiores,
que precisarão ser assumidas no sentido de aproveitar as
lições ensejadas pelas doenças, traumas, dores e sofrimen-
tos, bem como para inibir possíveis recidivas. Exemplifi-
cando: uma pessoa comete excessos e entra em ressaca.
Apavorada, busca o médico que lhe receita alguns remé-
dios e faz algumas recomendações, além de provê-la dos
elementos químicos necessários para seu refazimento
mais imediato. Se a lição tiver sido assimilada, não voltará
a cair no mesmo equívoco outras vezes; do contrário,
terá novas e repetidas ressacas, até chegar ao ponto do
comprometimento mais profundo de órgãos impor-
tantes, eliminando assim, de forma irresponsável e por
vezes muito dolorosa, parte de sua vida. Ou seja, o mé-
dico pode ajudá-lo a curar a ressaca, mas só ele pode
curar-se a si mesmo. No magnetismo, como em quais-
quer outros métodos curativos, para que a cura real seja
alcançada é imperiosa u m a mudança nos valores e cri-
térios íntimos do "curado", sempre voltada à melhoria
do sentido moral, equilibrado e harmonioso da vida.
Isso em relação a doenças físicas, mas em relação a pro-
blemas emocionais, psíquicos e obsessivos, como se dá a cura?
As observações são igualmente pertinentes, posso
dizer que são as mesmas: é necessário que o "doente"
tenha consciência de que nada se dá sem esforço. O me-
recimento não é um cartão de crédito de ficção que se
usa e não se paga; merecimento no campo das curas é o
resultado de fatores de disposição e ação, resguardo e
observância do que é devido, busca e esforço. Cabe ao
doente dar-se o valor que diz querer possuir, e isso só se
concretiza com o emprego do "faço isso por mim, porque
preciso, porque faço por merecer". Sem essa disposição,
por mais milagrosos que sejam os resultados imediatos,
eles terminarão por redundar funestos, pois que não terão
redimido o doente.
Se bem que aos debilitados psíquicos ou obsidiados
pareça-lhes faltar a força interior para as grandes decisões
e manutenção das mesmas, não será furtando-lhes os con-
vites à superação e ao esforço das vitórias que os torna-
remos mais resistentes e melhor curáveis. Quando não
há condições interiores conscientes para que o paciente
se ajude, a ajuda externa é mais do que solicitada; deve
ser mesmo a mais criteriosa, responsável e harmoniosa
possível. Só não podemos perder de vista que, ainda
quando a consciência parece dormir, a inconsciência --
ou a infraconsciência -- está desperta, absorvendo o que
lhe é passado. Nisso, realça nosso dever de chamar à
responsabilidade aquele que aparentemente não tem
forças para reagir.
N u m aparte, mesmo sem querer entrar no discurso e
no debate que envolve a questão consciente versus in-
consciente, é evidente que temos menosprezado sobre-
maneira esta segunda zona, sem nos darmos conta de
que vivemos muito mais sujeitos à sua ação do que ne-
cessariamente à decorrente da consciente. Logo, reconhe-
cendo este fato e considerando que, como espíritas,
somos sabedores do ser profundo, o Espírito, não temos
como minimizar os potenciais que, embora existam,
parecem estar guardados n u m lugar por m i m chamado
de "campo da inibição fortuita do ser". Muitos somos
os que tentamos, em vários momentos da vida e por
vários motivos, fugir da zona consciente, como que que-
rendo nos eximir das responsabilidades devidas. Para
tanto, saímos acusando ou culpando os equívocos e erros
que aconteceriam responsabilizados pelo inconsciente
-- assim tomado como sinônimo de acobertador das
irresponsabilidades. Bem se vê que por aí podem se
imiscuir obsessões e auto-obsessões. Daí porque a solução
de determinados problemas precisam contar com auxílios
externos, tanto como, de igual maneira, dos mais pro-
fundos também, ou seja, daqueles que convidam o pa-
ciente a mergulhar em seu mundo inconsciente, dali ex-
traindo elementos geradores da esperança e da força, da
fé e da coragem necessárias para a superação.

Numa outra vertente, há quem alegue que o magne-
tismo não passa de uma sugestão ou indução mental. O
que dizer nesse caso?
Não podemos duvidar nem menosprezar os efeitos
decorrentes das sugestões. Experiências com placebos não
nos permitiriam tal irresponsabilidade. Mas, a propósito,
o que é a moda senão uma ampla e repetida sugestão, for-
temente indutiva, quase sempre assimilada por uma maio-
ria?! O magnetismo não é fenômeno verificado por sim-
ples ato de se incutir na mente dos pacientes u m a idéia
ou u m a proposta de cura ou autocura, a qual geraria
alterações comportamentais ou orgânicas. O magnetismo
é u m a força em ação, com sua eficiência já amplamente
demonstrada na prática através dos milênios.
Paradoxalmente, nada é tão simples, nada é tão com-
plexo. Muitas são as pessoas que não se influenciam e
são "curadas", assim como outro tanto vai influenciada
e não se "cura", o que força sejam buscadas outras expli-
cações. Por outro lado, experiências em laboratórios de-
monstram a ação do magnetismo sobre plantas, sementes
e animais, os quais não têm como "conscientemente"
serem influenciados. Apesar das fortes implicações das
sugestões, aí incluídas as auto-sugestões, o volume de
experiências e comprovações dos efeitos do magnetismo,
em todos lugares e tempos, é tamanho que negar-lhes
valor seria como se querer dizer que criaturas não vivem
nem se movem sob a terra.
Pela pujança com que os fluidos magnéticos atuam,
não há como negar sua ação e sua evidência. Todavia,
ampliando o raciocínio geral, ainda que o magnetismo
fosse apenas sugestão e indução e se, como tal, conse-
guisse realizar os benefícios que realiza, já teríamos aí
motivos de sobra para estudar-lhe a essência e aproveitar-
lhe a eficiência e o seu poder. Não haveria nada de equi-
vocado em se aproveitar esse poder se o magnetismo
apenas dele se valesse.

O que é placebo?
Quando médicos, laboratórios e pesquisadores que-
rem testar a eficiência de determinados medicamentos e
tratamentos, utilizam, paralelamente ao que está sendo
testado, substâncias inócuas, sem efeito, mas com forma-
to e aparência semelhante ao medicamento ou método
verdadeiro, de forma que o paciente ou cobaia absorve
acreditando (ou não) tratar-se de substância eficiente e
que os efeitos corresponderão às expectativas (ou não).
Essas substâncias são chamadas de placebo. Fazendo-se
uso do placebo podemos, em princípio, analisar se o me-
dicamento faz efeito real ou se se trata de auto-sugestão
induzida. A esse tipo de experiência se convencionou
chamar de efeito placebo. A propósito, a homeopatia
também faz uso dos placebos, tendo sido a experiência
c o m p l a c e b o s c o n c e b i d a e i n v e n t a d a por S a m u e l
Hahnemann, o fundador da Medicina Homeopática.


Medicamento Placebo




Há experiências com placebos nos passes espíritas?
Na prática atual não tenho registro de experiências
que tais, mas para se alcançar a segurança científica que
queremos ver acontecer nas atividades espíritas, seria
conveniente sua ocorrência. Vale salientar que não é fácil,
para quem não tenha um pensamento e uma atitude de
pesquisa científica, decidir quem será a amostra falsa e a
amostra verdadeira, mas seria extremamente salutar ter-
se pesquisas na área com respaldo e cunho sério e cien-
tífico. U m a das possíveis idéias a ser posta em prática,
conforme sugeriu-me um amigo, seria o "experimento
no homem são", da Homeopatia.

Qual a opinião de Allan Kardec a respeito do dom de curar?
Permita-me u m a transcrição um tanto quanto longa,
mas ela se autojustifica.
"O poder de curar independe da vontade do médium:
é um fato adquirido pela experiência. O que depende
dele são as qualidades que podem tornar esse poder fru-
tuoso e durável. Essas qualidades são sobretudo o devo-
tamento, a abnegação e a humildade; o egoísmo, o orgu-
lho e a cupidez são pontos de parada, contra os quais se
quebra a mais bela faculdade.
"O verdadeiro m é d i u m curador, o que compreende
a santidade de sua missão, é movido pelo único desejo
do bem. Não vê no dom que possui senão um meio de
tornar-se útil aos seus semelhantes, e não um degrau
para elevar-se acima dos outros e pôr-se em evidência. É
humilde de coração, isto é, nele a humildade e a modéstia
são sinceras, reais, sem segunda intenção, e não em
palavras que desmentem, muitas vezes, os próprios atos.
A humildade por vezes é um manto, sob o qual se abriga
o orgulho, mas que não iludiria a ninguém. Nem procura
o brilho, nem o renome, nem o ruído de seu nome, nem
a satisfação de sua vaidade. Não há, em suas maneiras,
nem jactância, nem bazófia; não exibe as curas que rea-
liza, ao passo que o orgulhoso as enumera com compla-
cência, muitas vezes as amplia, e acaba por se persuadir
que fez tudo o que diz.
"Feliz pelo bem que faz, não o é menos pelo que
outros podem fazer; não se julgando o primeiro nem o
único capaz, não inveja nem deprime nenhum médium.
Os que possuem a mesma faculdade são para ele irmãos
que concorrem para o mesmo objetivo: ele diz que
quanto mais os houver, maior será o bem.
"Sua confiança em suas próprias forças não vai até a
presunção de se julgar infalível e, ainda menos, univer-
sal. Sabe que outros podem tanto ou mais que ele. Sua
fé é mais em Deus do que em si mesmo, pois sabe que
tudo pode por Ele, e nada sem Ele. Eis porque nada
promete senão sob a reserva da permissão de Deus.
"A influência material junta a influência moral, au-
xiliar poderosa, que dobra a sua força. Por sua palavra
benevolente, encoraja, levanta o moral, faz nascer a es-
perança e a confiança em Deus. Já é uma parte da cura,
porque é u m a consolação que dispõe a receber o eflúvio
benéfico ou, melhor dito, o pensamento benevolente já
é um eflúvio salutar. Sem a influência moral, o m é d i u m
tem por si apenas a ação fluídica, material e, de certo
modo, brutal, insuficiente em muitos casos.
"Enfim, para aquele que possui as qualidades de co-
ração, o doente é atraído por uma simpatia que predispõe
à assimilação dos fluidos, ao passo que o orgulho, a falta
de benevolência chocam e fazem experimentar um
sentimento de repulsa, que paralisa essa assimilação.
"Tal é o médium curador amado pelos bons Espíritos.
Tal é, também, a medida que pode servir para julgar o
valor intrínseco dos que se revelarem e a extensão dos
serviços que poderão prestar à causa do Espiritismo.
Desnecessário que só é entrado nestas condições e que
aquele que não reunisse todas as qualidades não possa
momentaneamente prestar serviços parciais que seria erro
repelir. O mal é para ele, porque quanto mais se afasta
do tipo, menos pode esperar ver sua faculdade desenvol-
ver-se e mais se aproxima do declínio. Os bons Espíritos
só se ligam aos que se mostram dignos de sua proteção,
e a queda do orgulhoso, mais cedo ou mais tarde, é a sua
punição. O desinteresse é incompleto sem o desinteresse
moral." (em: Considerações sobre a mediunidade curadora,
Allan Kardec -- Revista Espírita, novembro, 1866, p. 3 4 7 ) .

Em que o Espírito poderá influir em sua doença ou pró-
pria cura?
M a i s do que nunca, hoje se sabe que a maneira de
pensar e de reagir às circunstâncias da vida leva a criatura
a situações mais ou menos difíceis, mais ou menos felizes,
mais ou menos palatáveis. Quando nos aborrecemos, alte-
ramos completamente nossas funções orgânicas, assim co-
mo quando nos alegramos propiciamos circuitos dife-
renciados em todos nossos sistemas endócrinos. Não é à
toa que costumamos dizer que "a raiva ferveu meu san-
gue", "a ira tirou minha fome", "a alegria desopilou meu
fígado", "o prazer aliviou meu coração"... Verdades pro-
fundas. Nossa atitude mental determinando ações e rea-
ções orgânicas as mais diversas e repercussivas possível.
Ora, se a mente -- que outra não é senão o próprio Espí-
rito se expressando -- atua de forma tão vigorosa nos
sistemas autômatos e "autônomos" de nossa essência física,
o que se dizer de sua influência sobre nosso estado de
saúde?
Allan Kardec teve oportunidade de tecer rápida pon-
deração a respeito, quando, em sua Revista Espírita, de
março de 1869, p. 63, estudando o tema "A carne é fraca ,
sugere: "... dai coragem ao poltrão, e vereis cessarem os
efeitos fisiológicos do medo; dá-se o mesmo em outras
disposições".
Magnetismo




uando surgiu o. Magnetismo?
Paracelso (Philip Theophrastus Aureolus Bombastus
von Hohenheim -- 1 4 9 3 - 1 5 4 1 ) , notável alquimista e
médico suíço que se projetou na Idade M é d i a , foi um
dos grandes desbravadores do terreno do magnetismo,
tendo, por suas idéias renovadoras e "revolucionárias",
chegado a ser afastado do cargo de professor que ocupava
com destaque. Ele é apontado, inclusive, como o criador
da palavra magnetismo, quando comparou as forças
"viventes" ao ímã (magnete). Mas, modernamente, em
nossa cultura ocidental, Mesmer (Franz Anton, 1734-
1815), um médico alemão, é apresentado como o res-
ponsável pela codificação e demonstração prática do
magnetismo, por ele trazido como "Teoria do M a g n e -
tismo Animal". Todavia, desde os mais antigos registros
feitos pela Antropologia e Sociologia são acusados com-
portamentos humanos indicativos da utilização do mag-
netismo como método de cura e busca espiritual, como
fortalecimento dos potenciais orgânicos e fisiológicos e
também como técnica de conservação e embalsama-
mento de corpos. Registros bíblicos são fartos nesse sen-
tido, tanto quanto a maioria dos livros basilares de antigas
religiões orientais; assim o são também pesquisas antro-
pológicas que estudam comportamentos mortuários de
antigas civilizações. Portanto, não há u m a data ou um
período preciso que confirme a "implantação" do magne-
tismo no seio da humanidade, sendo, por isso mesmo e
por todas reflexões sérias a respeito, permitido se diga
que há magnetismo no mundo desde que o mundo é
mundo.

Há relações entre o Magnetismo e o Espiritismo?
Há, e não são poucas, especialmente no campo prático
dessas ciências. A propósito, Allan Kardec {Magnetismo
e Espiritismo, em Revista Espírita, março de 1858, p. 95)
teceu ponderações a respeito que valem a pena ser aqui
reproduzidas:
"O magnetismo preparou o caminho do Espiritismo,
e os rápidos progressos desta última doutrina são incon-
testavelmente devidos à vulgarização das idéias sobre a
primeira. Dos fenômenos magnéticos, do sonambulismo
e do êxtase às manifestações espíritas há apenas um passo;
sua conexão é tal que, por assim dizer, é impossível falar
de um sem falar do outro. Se tivermos que ficar fora da
Ciência do magnetismo, nosso quadro ficará incompleto
e poderemos ser comparados a um professor de Física
que se abstivesse de falar da luz.
" ( . . . ) A ele (o magnetismo) não nos referiremos, pois,
senão acessoriamente, mas de maneira suficiente para
mostrar as relações íntimas das duas Ciências que, na
verdade, não passam de uma." (grifei)
Bem se vê serem muito estreitas as relações entre essas
duas ciências.
A despeito disso tudo, quero aditar um comentário
paralelo. É digno ressaltarmos que na obra de Allan
Kardec vamos encontrar inúmeras vezes o termo magne-
tizador no sentido do que hodiernamente chamamos de
passista ou médium passista. Por outro lado, os Espíritos,
sempre que se referem ao fluido magnético, estão fazendo
referência aos fluidos vitais e espirituais e não aos cam-
pos magnéticos como a Física determina e denomina.

Poder-se-ia dizer, então, que todo magnetizador é tam-
bém espírita?
Não. Apenas a convergência dos princípios fluídicos
(energéticos) daquelas Ciências indica as estreitas ligações
verificadas em suas práticas. Muitos magnetizadores
sequer acreditam nos Espíritos e nem por isso deixam
de ser por eles observados e ajudados. Agora, ser magne-
tizador e crer, de forma ativa e positiva, nos Espíritos,
potencializa sobremaneira as práticas magnéticas, che-
gando à realização de verdadeiros milagres, tal como su-
geriram os Espíritos a Kardec (vide O Livro dos Médiuns,
cap. 14, item 176, questão 4ª).

Os magnetizadores clássicos eram pessoas moralmente
equilibradas?
Sim, abstração feita às exceções de toda regra. A des-
peito de muito se acusar Mesmer de exibicionismo e
comportamentos exóticos, os que com ele conviveram
sempre ressaltaram seu espírito de "homem caridoso e
bom".
Deleuze, considerado como o ressurgidor do magne-
tismo com sua obra História Crítica do Magnetismo, de
1813, assim enunciava como indispensáveis algumas das
condições morais do magnetizador: "Vontade ativa pelo
bem; crença firme em seu poder; e confiança inteira em
seu emprego".

Muito se alegou que não era o Magnetismo que curava
e sim a ilusão do paciente ou a indução sugestiva do magne-
tizador. O que dizer disso?
Pelo quanto, ao longo do tempo, o magnetismo foi
testado, contestado, ridicularizado e exposto a toda espé-
cie de julgamento, dos mais criteriosos aos mais vis, sobra-
ram lucros e louros para ele. De tão combatido e de nunca
verdadeiramente vencido, saiu-se o magnetismo como
o grande vitorioso. A cada dia que passa, mais e mais se
comprova a eficiência do magnetismo como força cura-
dora. Agora, se o magnetismo fosse apenas um provoca-
dor de ilusões ou simples indutor de sugestão ou auto-
sugestões, muito provavelmente não teria resistido às
inclemências de seus perseguidores e do próprio tempo.
Pela excelência de seus resultados, seu valor está mais do
que aprovado e sua aprovação mais do que aplaudida e me-
recida. Portanto, saudemos o magnetismo com o respeito
que ele tão bem fez e continua fazendo por merecer.

Do fato da relativa imponderabilidade dos fluidos
magnéticos fica difícil aceitarmos sua penetrabilidade e sua
ação em outros corpos, em seres como os humanos. O que
você poderia dizer a respeito?
Estamos cercados de imponderabilidade, literalmente
a nos reger, a nos direcionar, a nos influenciar profunda-
mente. Que se dizer de sentimentos, de campos energé-
ticos concebidos apenas pela teoria -- e por ela demons-
trados como existentes e inevitáveis? Que se dizer da
hoje irrefutável ação da prece e da fé? E tudo isso é de
uma imponderabilidade inquestionável. Foi-se o tempo
em que o que se via e o que se tocava eram determinantes
para se definir pela existência ou inexistência de alguma
coisa.
O magnetismo já provou a mancheias sua ação e a
penetrabilidade dos fluidos, a despeito dos contraditores
de todas as épocas.
Para simplificar, vamos a u m a colocação de Allan
Kardec {Revista Espírita, m a r ç o - 1 8 6 6 ) , mesmo quando,
à época, ele ainda não contava com os modernos con-
ceitos da teoria da relatividade:
"A maioria dos corpos simples são chamados pon-
deráveis, porque é possível achar o seu peso, e este está
na razão da soma de moléculas contidas n u m dado vo-
lume. Outros são ditos imponderáveis, porque para nós
não têm peso e, seja qual for a quantidade em que se
acumulem n u m outro corpo, não a u m e n t a m o peso
deste. Tais são: o calórico, a luz, a eletricidade, o fluido
magnético ou do ímã. (...) Posto que imponderáveis,
nem por isto esses fluidos deixam de ter um grande poder.
O calórico divide os corpos mais duros, os reduz a va-
por, dá aos líquidos evaporados u m a irresistível força de
expansão. O choque elétrico quebra árvores e pedras,
curva barras de ferro, funde os metais, atira longe enor-
mes massas. O magnetismo dá ao ferro um poder de
atração capaz de sustentar pesos consideráveis. A luz não
possui esse gênero de força, mas exerce uma ação química
sobre a maioria dos corpos, e sob sua influência operam-
se incessantemente composições e decomposições. Sem
a luz, os vegetais e os animais estiolam-se, os frutos não
têm sabor nem colorido.
"Todos os corpos da natureza (...) são formados dos
mesmos elementos, combinados de maneira a produzir
a infinita variedade dos diferentes corpos. Hoje, a Ciencia
vai mais longe. Suas investigações pouco a pouco a
conduzem à grande lei da unidade. Agora é geralmente
admitido que os corpos reputados simples não passam
de modificações, de transformações de um elemento
único, princípio universal designado sob os nomes de
éter, fluido cósmico ou fluido universal. De tal sorte que,
segundo o modo de agregação das moléculas desse fluido,
e sob a influência de circunstâncias particulares, adquire
propriedades especiais, que constituem os corpos simples.
Estes, combinados entre si em diversas proporções, for-
m a m , como dissemos, a inumerável variedade de corpos
compostos. Segundo esta opinião, o calórico, a luz, a ele-
tricidade e o magnetismo não passariam de modificações
do fluido primitivo universal. Assim, esse fluido que,
segundo toda probabilidade, é imponderável seria ao mesmo
tempo o princípio dos fluidos imponderáveis e dos corpos
ponderáveis, (grifei)
"A química nos faz penetrar na constituição íntima
dos corpos, mas, experimentalmente, não vai além dos
corpos considerados simples. Seus meios de análise são
impotentes para isolar o elemento primitivo e determinar
a sua essência. Ora, entre esse elemento em sua pureza
absoluta e o ponto onde pára as investigações da Ciência,
o intervalo é imenso. Raciocinando por analogia, chega-
se a esta conclusão que, entre esse dois pontos extremos,
esse fluido deve sofrer modificações que escapam aos
nossos instrumentos e aos nossos sentidos materiais. É
nesse campo novo, até aqui fechado à exploração, que
vamos tentar penetrar..."
Conforme se observa, Kardec estava bem atualizado
na Ciência de seu tempo. Quem diz que todas as formas
de matéria são modificações do fluido cósmico univer-
sal são os Espíritos. Um amigo me lembra que muitos
físicos estão empenhados em uma utopia que é a cha-
mada "unidade das forças", porém até agora não chega-
ram lá (apesar das afirmações falaciosas de alguns) e, ao
ver desse amigo, não chegarão lá, devido aos métodos
empregados (os métodos da Física Teórica).
Posteriormente a Kardec, verificou-se que os fluidos
tinham peso (Crookes) e é possível verificar isto sem
balança. Parece que tudo tem massa, até os neutrinos, o
problema é como medir.
Em suma, a questão da ponderabilidade é hoje sem
sentido.

Os magnetizadores precisam contar com os Espíritos?
Vou buscar Allan Kardec {Revista Espírita, j a n - 1 8 6 4 )
mais uma vez, em uma interessante reflexão que responde
à questão:
"... Para curar pela ação fluídica, os fluidos mais de-
purados são os mais saudáveis; desde que esses fluidos
benéficos são dos Espíritos superiores, então é o concur-
so deles que é preciso obter. Por isto, a prece e a invocação
são necessárias. Mas para orar e, sobretudo, orar com
fervor, é preciso fé. Para que a prece seja escutada, é pre-
ciso que seja feita com humildade e dilatada por um real
sentimento de benevolência e de caridade. Ora, não há
verdadeira caridade sem devotamente, nem devotamento
sem desinteresse. Sem estas condições o magnetizador,
privado da assistência dos bons Espíritos, fica reduzido
às suas próprias forças, por vezes insuficientes, ao passo
que com o concurso deles, elas podem ser centuplicadas
em poder e em eficácia." (grifos originais).
Considerações
s o b r e os fluidos




ual seria o primeiro passo para entendermos o magne-
tismo (humano)?
Estudá-lo, analisá-lo, experimentá-lo e praticá-lo. Para
tanto, em termos de teoria, o estudo dos fluidos é básico.

O que devemos entender por fluido?
A palavra fluido é u m a polissemia, ou seja, tem vários
significados. Diferente do conceito convencional dado
ao termo -- u m a das características das substâncias lí-
quidas ou gasosas ou u m a substância que corre ou se
expande à maneira de um líquido ou gás; fluente --,
para os estudiosos dos temas magnetismo, passes, curas,
mediunidade, animismo e terapias alternativas, fluido
"é tudo quanto importa à matéria, da mais grosseira à
mais diáfana, variando em multiplicidade infinita a fim
de atender a todas as necessidades físicas, químicas e in-
clusive vitais daquela, bem como de sua intermediação
entre os reinos material e espiritual. É o fluido não apenas
algo que se move a exemplo dos líquidos ou gases, mas a
essência mesma desses líquidos, gases e de todas as ma-
térias, inclusive aquelas ainda inapreensíveis por nossos
instrumentos físicos ou mesmo psíquicos", conforme
resumi em meu livro O Passe: seu estudo, suas técnicas,
sua prática.
Leon Denis, no seu No Invisível, cap. 15, sintetiza
dizendo que o fluido, à medida que se rarefaz, torna-se
u m a das formas de energia, adquirindo u m a capacidade
de irradiação sempre crescente. Por outro lado, o Espírito
André Luiz, conforme registrado em Evolução em dois
mundos, cap. Alma e fluidos, afirma que "... no plano
espiritual, o homem desencarnado vai lidar, mais direta-
mente, com um fluido vivo e multiforme, estuante e
inestancável, (...) absorvido pela mente humana, em
processo vitalista semelhante à respiração, pelo qual a
criatura assimila a força emanente do Criador, esparsa
em todo o Cosmo, transubstanciando-a, sob a própria
responsabilidade, para influenciar na Criação, a partir
de si mesma. Esse fluido é seu próprio pensamento con-
tínuo, gerando potenciais energéticos..."
Isto posto, me permito uma sugestão: aqueles que se
sentirem incomodados com o emprego do termo fluido
tal qual classicamente vimos fazendo, preferindo uma
adjetivação na qual fiquem melhor retratados os con-
ceitos de "campos" e/ou " q u a n t a energéticos" ou outros
porventura mais modernos, que disponham para todos
nós suas idéias, conceitos e explicações através de publi-
cações ou debates. Honestamente, todos agradecemos
antecipadamente e louvaremos as iniciativas neste senti-
do, pois não temos nada contra tal postura; pelo contrá-
rio, somos sempre favoráveis ao estudo e às pesquisas.
Todavia, reconheçamos: verdade maior do que a da ne-
cessidade de novas conceituações está o fato de que ainda
hoje nos entendemos perfeitamente bem quando falamos
dessa "energética" usando o termo fluido. Lamentavel-
mente, seja pelo rebuscado das teorias e terminologias
científicas a respeito do assunto, seja pelo pouco estudo
da maioria dos seguidores das escolas magnéticas, não
podemos dizer o mesmo quando interpomos outros de-
rivados para a expressão fluido, ainda que mais ricos, atua-
lizados e consentâneos. Daí, mesmo entendendo e acei-
tando a necessidade de u m a revisão de conceitos, man-
terei neste livro o termo fluido para designar esse campo
1
de energias que é movimentado nos e pelos passes.

Os fluidos são sempre sutis, rarefeitos?
Não. Também existem fluidos muito densos, de for-
ma que podemos afirmar, sem receio de errar, que toda
matéria existente é, de certa forma, fluido condensado.




1
C o m o acontece com o termo fluido, na Física o termo "magnetismo"
é usado num sentido muito diferente do usualmente encontrado nos textos
espíritas. Em Física, o magnetismo é o fenômeno de atração ou repulsão
de certas substâncias. A razão é que a matéria é composta de átomos, os
quais, por sua vez, são formados por partículas ainda menores na forma
de núcleos e elétrons. Os elétrons têm u m a estrutura interna característica
conhecida como "spin". Isso faz com que eles se comportem como micro-
magnetos, isto é, quando expostos à presença de "campos magnéticos"
eles se alinham na direção desses campos. Em alguns elementos (como o
ferro, por exemplo), os átomos estão arranjados de forma extremamente
organizada, assim como os spins dos seus elétrons. O efeito desses spins
alinhados é sentido na escala macroscópica como se todo o elemento tivesse
um "spin total" ou "macro spin" e a substância sofre atração ou repulsão
quando sob influência de campos magnéticos gerados por outras
substâncias. (Compilado de um artigo de Ademir Xavier no boletim do GEAE).
O m a c r o m a g n e t i s m o é decorrente t a m b é m de outros movimentos
eletrônicos ("órbitas") e do acoplamento spin-órbita.
Como são movimentados esses fluidos sutis?
Por ações físicas (magnetismo), por interações entre
dois ou mais campos fluídicos (reações fluídicas entre
pessoas ou dessas em relação ao meio), pela vontade di-
recionada e pela ação dos Espíritos.

São da mesma natureza os fluidos humanos e os espi-
rituais?
Deixarei a resposta com Allan Kardec (em Revista
Espírita, j a n - 1 8 6 4 ) :
"Na ação magnética, propriamente dita, é o fluido
pessoal do magnetizador que é transmitido, e esse fluido,
que não é senão o perispírito, sabe-se que participa sem-
pre, mais ou menos, das qualidades materiais do corpo,
ao mesmo tempo que sofre a influência moral do Es-
pírito. É, pois, impossível que o fluido próprio de um
encarnado seja de uma pureza absoluta, razão por que
sua ação curativa é lenta, por vezes nula, outras vezes
nociva, porque transmite ao doente princípios mórbidos.
Desde que um fluido seja bastante abundante e enérgico
para produzir efeitos instantâneos de sono, de catalepsia,
de atração ou de repulsão, absolutamente não se segue
que tenha as necessárias qualidades para curar; é a força
que derruba, mas não o bálsamo que suaviza e restaura.
Assim, há Espíritos desencarnados de ordem inferior,
cujo fluido pode ser mesmo muito maléfico, o que os
espíritas a cada passo têm ocasião de constatar. Só nos
Espíritos superiores o fluido perispiritual está despojado
de todas as impurezas da matéria. Está, de certo modo,
quintessenciado. Sua ação, por conseguinte, deve ser mais
salutar e mais pronta; é o fluido benfazejo por excelência.
E desde que não pode ser encontrado entre os encarna-
dos, nem entre os desencarnados vulgares, então é preciso
pedi-lo aos Espíritos elevados, como se vai procurar em
terra distantes os remédios que se não encontram na pró-
pria. O médium curador emite pouco de seu fluido; sente
a corrente do fluido estranho que o penetra e ao qual
serve de condutor; é com esse fluido que magnetiza, e aí
está o que caracteriza o magnetismo espiritual e o distin-
gue do magnetismo animal: um vem do homem, o outro,
dos Espíritos." (grifo original).

Allan Kardecfala muito acerca do fluido universal (FU).
O que seria esse fluido?
Em O Livro dos Espíritos, questão 2 7 , Allan Kardec
conversa com os Espíritos acerca da criação universal e
deles recebe a informação seguinte: "Deus, espírito e ma-
téria constituem o princípio de tudo o que existe, a trin-
dade universal. Mas ao elemento material se tem que jun-
tar o fluido universal, que desempenha o papel de interme-
diário entre o Espírito e a matéria propriamente dita
(...)· Esse fluido universal, ou primitivo, ou elementar,
sendo o agente de que o Espírito se utiliza, é o princípio
sem o qual a matéria estaria em perpétuo estado de di-
visão e nunca adquiriria as qualidades que a gravidade lhe
dá." (grifei). Dá para perceber a dupla função aí atribuída
ao fluido universal; primeiro como elemento intermediário
-- um campo, portanto --, depois como elemento
primitivo, elementar -- uma geratriz. Fazendo-se um
estudo comparado com o que está escrito em O Livro dos
Espíritos e em A Gênese, ambos de Allan Kardec, tal como
sugiro em O Passe, seu estudo, suas técnicas, sua prática,
percebemos que a matriz do conceito fluido universal é
de que este é, em primeira instância, a grande geratriz de
todos os campos nos quais serão estruturadas as mais
diversas matérias. No prosseguimento do estudo, teremos
por fluido universal outras acepções, já diretamente
relacionadas ao conceito de campo energético, o que de-
nota a dificuldade que teve a codificação de se expressar
ante a ausência dos atuais conceitos da Física moderna.


E o fluido cósmico?
Seguindo com o estudo sugerido em O Passe, encon-
traremos no fluido cósmico (FC) o campo dos fluidos
do cosmo, também em dois sentidos: do cosmo como
um todo e do cosmo como campo propiciador das com-
binações e interações geradoras das variedades da ma-
téria. Resumindo, o fluido universal é a geratriz e o fluido
cósmico o grande campo gerado -- o qual, por sua vez,
propiciará o surgimento das diversas variedades de
fluidos.
De onde provém, então, o espírito?
Exatamente da outra geratriz, chamada princípio in-
teligente universal (PIU). Ali "gera-se" o espírito, ele-
mento espiritual básico, o qual vai-se elaborando, ao
longo dos evos, por consórcio com a matéria, até atingir
a individualidade e a personalidade, a inteligência e a
angelitude.

São sempre vitais os fluidos, ou seja, existe vida orgânica
em todos os fluidos?
A resposta também é negativa. O que podemos dizer
é que em todos existe um estado latente de vitalidade,
passível de ser acionado. Nalguns essa latência é, por
assim dizer, abundante, enquanto noutros por demais
escassa, quase inexistindo.

Como é acionada a vitalidade dos fluidos?
Primeiro divi-
damos os fluidos
em três grupos: os
i n o r g â n i c o s , os
magnéticos --
aqui considerados
os vitais -- e os
espirituais.
Nos inorgâni-
cos, a presença de
vitalidade é quase
nula, pelo que fica-
mos praticamente
impedidos de mo-
vimentá-los, a não
ser por incorpora-
ção ou interposi-
ção de cargas vita-
listas oriundas de
outros campos.
Nos m a g n é -
ticos ou vitais en-
contramos uma
estrutura apro-
priada, na qual
podemos divisar
pelo menos duas
zonas distintas: o
fluido vital pro-
priamente dito e
o princípio vital.
É exatamente pe-
lo princípio vital
que conseguimos
acionar (movi-
mentar) os flui-
dos vitais (passivos), dotando-lhes de vitalidade (orgânica
inclusive). O mecanismo que faz a matéria ter vida é
exatamente o decorrente da ligação de um outro prin-
cípio, o inteligente ou espiritual (espírito), com o fluido
vital, pela "porta" do princípio vital.
Os fluidos espirituais são aqueles muito sutis, per-
tencentes ao meio etéreo e manipuláveis pelos Espíritos.
Apesar dessa denominação, na realidade não existe um
fluido literalmente espiritual, posto que todos os fluidos,
mesmo os mais sutis e rarefeitos, são matéria, pelo que
não p o d e r i a m ser espirituais de forma absoluta. A
expressão "fluidos espirituais" apenas designa o conjunto
de fluidos que são peculiares ao meio espiritual e para
"manipulação" pelos Espíritos desencarnados.
O que viria a ser o princípio vital?
Fazendo uma comparação, o princípio vital está para
o fluido vital tal qual está o interruptor para a energia
em um circuito elétrico. Embora haja o circuito e demais
aparatos para o uso da corrente elétrica, a mesma só estará
em circulação quando o interruptor for acionado fe-
chando o circuito. De semelhante forma, mesmo ha-
vendo fluido vital e princípio vital no grande campo
vital, a vida só acontece quando o "interruptor vital",
que é o princípio vital, é conectado ao elemento que
promove a circulação da vida. Na realidade, o princípio
vital é a zona ou o campo de mais alta freqüência do
fluido vital, assim disposto exatamente para permitir o
acesso e a ligação com o outro princípio (o espiritual),
que vibra numa freqüência muito elevada, e que é o real
responsável pela eclosão do fenômeno. Não é sem motivo
que para se entender o assunto com mais propriedade o
ideal é que se estude, ainda que superficialmente, as teo-
rias da evolução conforme orienta o Espiritismo.

Podemos dizer, então, que todas as criaturas são porta-
doras de fluido vital?
Exato, tanto de fluido vital quando de princípio vi-
tal, além de se encontrarem sobre a influência direta do
princípio inteligente (espírito). Mas no caso do ser hu-
mano é bom ressaltar que uns só dispõem de quantidades
de fluidos vitais suficientes para a própria manutenção,
outros conseguem usinar e exteriorizar (ejetar) fluidos
em benefício de terceiros e outros, por fim, estão carentes
de complementações fluídicas para um equilíbrio vital
mais consistente. É esse potencial e essa capacidade de
exteriorização que diferencia doadores de pacientes.


Essas explicações se aplicam às ligações nos outros reinos?
Exatamente. O princípio é sempre o mesmo.

Onde mais poderia ser vista essa ligação do princípio
vital?
Nos chamados fenômenos de efeitos físicos, como o
de transporte e o de materialização, por exemplo, existem
gritantes evidências desse mecanismo. Senão vejamos.
Para que um objeto seja deslocado sem estar submetido
à ação mecânica de algo material ou alguém, é necessário
que um m é d i u m de efeitos físicos libere fluidos vitais
para saturar o objeto e, combinando os fluidos e a vibra-
ção do Espírito comunicante com o fluido vital do
m é d i u m ali projetado, este será deslocado, podendo a
ação durar enquanto o m é d i u m continuar liberando
fluido vital saturado de princípio vital (que é por onde
o Espírito comunicante faz a "ligação" com o fluido
disponível). No momento em que o médium fornecedor
do fluido vital suspender essa doação ou quando o
princípio vital ali se esgotar, imediatamente cessa a ação
do Espírito sobre o objeto.
Qualidade dos
fluidos




qualidade dos fluidos depende da natureza orgânica
do passista?
Observemos este registro de Allan Kardec {Revista
Espírita, novembro 1864, p. 3 4 7 ) :
"Atuando o fluido como agente terapêutico, sua ação
varia conforme as propriedades que recebe das qualidades
do fluido pessoal do médium. Ora, devido ao tempera-
mento e à constituição deste último, o fluido está im-
pregnado de elementos diversos, que lhe dão proprie-
dades especiais. Pode ser, para nos servirmos de compa-
rações materiais, mais ou menos carregado de eletricidade
animal, de princípios ácidos ou alcalinos, ferruginosos,
sulfurosos, dissolventes, adstringentes, cáusticos, etc. Daí
resulta u m a ação diferente, conforme a natureza da de-
sordem orgânica. Esta ação pode ser, pois, enérgica,
muito poderosa em certos casos e nula em outros. É assim
que os médiuns curadores podem ter especialidades: este
curará as dores ou endireitará um membro, mas não dará
a vista a um cego, e reciprocamente. Só a experiência
pode dar a conhecer a especialidade e a extensão da aptidão.
Mas, em princípio, pode-se dizer que não há médiuns
curadores universais, por isso que não há homens perfeitos
na Terra, e cujo poder seja ilimitado." (Grifei)
Claro está, portanto, que não apenas as condições
orgânicas importam na qualidade dos fluidos, como
também os sentidos emocionais e espirituais.

Os fluidos sempre foram conhecidos como fluidos?
Não. Muitos foram os nomes a ele -- ou a seus de-
rivados -- atribuídos. Eis alguns:
Prana -- nome dado pelos hindus;
Lung -- pelos tibetanos;
Ka -- pelos egípcios;
Baraka -- pelos sufis;
M i n g o -- pelos africanos;
M a n a -- pelos polinésios;
Qi -- pelos chineses;
Ki -- pelos japoneses;
Pneuma -- pelos gregos clássicos;
Lil -- pelos maias; e ainda:
Força Ódica (ou Odile) -- expressão criada pelo
Barão Karl von Reichenbach ( 1 7 8 8 - 1 8 6 9 ) ;
Força Psíquica -- criada por Camille Flammarion
( 1 8 4 2 - 1 9 2 5 ) , e m b o r a por m u i t o s seja a t r i b u í d a a
W i l l i a m Crookes ( 1 8 3 2 - 1 9 0 3 ) ;
Força Ectêmica -- expressão do Dr. M a r e T h u r y
(1822-1905);
Energia Orgônica -- assim batizada pelo Dr. Wilhelm
Reich ( 1 8 9 7 - 1 9 5 7 ) ;
Eflúvios (Ódicos ou Magnéticos) -- nomes dados
por Albert D'Aiglun De Rochas ( 1 8 3 7 - 1 9 1 4 ) . . .
Como refinar